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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A IMPRUDENTE / Amanda Quick
A IMPRUDENTE / Amanda Quick

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A IMPRUDENTE

 

De um castelo de conto de fadas em ruínas a um vertiginoso baile de mascaras, acontecerá a encantadora história de um cavalheiro, uma corajosa donzela, oculta atrás de um véu e um amor tão doce quanto ardente.

Aos dezesseis anos, Phoebe imaginava que Gabriel Banner era um valente cavalheiro, um herói de nobre coração nascido para salvar damas em apuros. Por isso, oito anos mais tarde, quando precisou de ajuda para uma investigação, pensou que ninguém seria mais adequado que ele para a tarefa.

Mas em um encontro à sós, Phoebe se encontra diante de um homem perigosamente desejável que em nada se parece com o herói de seus sonhos, e um beijo abrasador sela seu destino para sempre… 

 

A luz da lua destacava completamente sua presença.

Envolvido naquela luz prateada que iluminava o prado, Gabriel Banner, conde de Wylde, tinha um aspecto tão misterioso e perigoso como se fosse uma lenda que voltasse à vida.

Phoebe Layton parou a égua que montava junto às árvores e conteve a respiração, quando Wylde, trotando sua montaria, aproximou-se dela. Segurando bem forte as rédeas, Phoebe tentou fazer com que suas mãos parassem de tremer. Este não era o momento para ficar nervosa. Ela era uma senhora com uma Missão.

Necessitava dos serviços de um cavalheiro e não estava em condições de ficar escolhendo muito; na realidade, Wylde era o único candidato que ela sabia que possuía as qualidades necessárias, mas, primeiro, devia convencê-lo para que aceitasse o que propunha.

Durante semanas, trabalhou nesse projeto; até esta noite, o solitário conde ignorou de forma contínua as cartas cheias de intriga que deliberadamente lhe enviava. Em meio ao desespero, recorreu a outras táticas e, em um último esforço para tentar fazer com que saísse de sua toca, fez uma armadilha para ele, utilizando um anzol tentador demais, que sabia que não poderia resistir.

O fato de que Gabriel, nesta noite, estivesse nesta solitária paragem de Sussex significava que, por fim, conseguira provocá-lo o suficiente para se encontrar com ela.

Wylde não sabia quem era ela. Em suas cartas, tinha assinado só como a Dama do Véu, Phoebe sentiu remorso por essa pequena mentira, mas fora uma mentira necessária. Se Wylde soubesse antes sua verdadeira identidade, o mais provável era que se negaria a ajudá-la. Devia convencê-lo para que aceitasse aquela Missão antes que ela fosse obrigada a revelar sua identidade. Phoebe estava certa de que, quando ele compreendesse tudo, entenderia também as razões para ela ter mantido em segredo tudo aquilo.

Não, Wylde não a conhecia, mas Phoebe o conhecia bem.

Não o tinha visto nos últimos oito anos. Aos dezesseis, o tinha imaginado como uma lenda viva, como um nobre e valente cavaleiro tirado de um romance medieval. Ante seus jovens olhos, a única coisa que tinha faltado àquele homem era a brilhante armadura e sua espada.

Embora Phoebe recordasse com clareza a última vez que o tinha visto, sabia que Gabriel não tinha lembrança alguma daquele momento. Estava muito ocupado planejando a fuga com a irmã de Phoebe, Meredith.

À medida que ele se aproximava, Phoebe se sentia embargada pela curiosidade. Infelizmente, a combinação do véu que lhe cobria o rosto com a luz pálida da lua, fazia com que fosse impossível ver com certeza o quanto este homem mudara com os anos.

Seu primeiro pensamento foi que parecia maior do que ela podia se lembrar. Mais alto. Mais esbelto. De alguma forma, mais forte. Os ombros robustos estavam marcados debaixo do casaco com capa, que vestia. As calças justas de montar ressaltavam as linhas fortes e musculosas de seus quadris. A aba curva do chapéu jogava sobre os traços de Wylde uma sombra proibida e impenetrável.

Em um momento de dúvida, Phoebe se perguntou se não seria o homem errado. Talvez estivesse a ponto de se encontrar com um verdadeiro bandido, com um salteador de estradas ou algo pior. Mexeu-se intranquila em sua montaria, se fracassasse esta noite, sua pobre e assediada família não teria dúvidas em se sentir justificada a mandar gravar uma lápide com algo pouco apropriado a seu respeito. A frase “PAGOU FINALMENTE O PREÇO DE SUA IMPRUDÊNCIA”, ficaria perfeita. No que diz respeito ao seu clã protetor, Phoebe tinha passado sua vida inteira saindo de um enredo para entrar em outro. Desta vez, era possível que tenha se excedido muito.

— Suponho que você é a misteriosa Dama do Véu? — perguntou Gabriel com tom frio. O alívio invadiu seu coração, as dúvidas de Phoebe quanto à identidade do homem se desfizeram imediatamente; não tinha como confundir aquele tom de voz escuro, decidido, mesmo que ela não o tivesse ouvido há oito anos. O que a assustou foi a breve emoção e expectativa que atravessou seu corpo. Franziu o cenho diante daquela estranha reação.

— Boa noite, meu senhor — o saudou.

Gabriel parou seu cavalo negro a poucos centímetros de distância.

— Recebi sua última carta, senhora. Achei muito irritante, tal como as anteriores.

Phoebe engoliu a saliva com dificuldade quando se deu conta que ele não estava de muito bom humor.

— Esperava atrair seu interesse, senhor.

— Estou vendo.

O coração de Phoebe bateu mais depressa invadido pela tristeza. Uma forte tristeza pela mentira dita, então perguntou a si mesma se havia cometido algum engano tático de grande importância em seu trato com Wylde. Era mesmo melhor que tivesse o cuidado de ir com um véu nesta noite, pensou. Certamente não queria que ele soubesse quem era, se esse assunto não terminasse como ela esperava.

— De todas as formas, fico satisfeita que você tenha decidido aceitar meu convite.

— A curiosidade é uma das minhas debilidades. — Gabriel sorriu levemente à luz da lua, mas a curva de sua boca não mostrou calidez alguma, nem tampouco seu sombrio olhar revelou algo. — Há dois meses você se transformou em um espinho cravado em minhas costelas, senhora. Espero que tenha plena consciência do fato.

— Peço desculpas — disse Phoebe com ansiedade — Mas a verdade é que estava muito desesperada, meu senhor. É um homem muito difícil de encontrar. Não respondeu às minhas primeiras cartas e, como não participa dos acontecimentos sociais, não pude pensar em outra forma de atrair sua atenção.

— Assim então, decidiu me provocar de forma deliberada, até o ponto de chegar a me agitar de tal maneira que aceitasse vê-la?

Phoebe respirou profundamente.

— Digamos que foi algo assim.

— Em geral, muitos consideram perigoso me incomodar, minha misteriosa Dama do Véu.

Ela não duvidou nem por um minuto, mas agora já era muito tarde para voltar atrás. Chegara muito longe para parar os acontecimentos desta noite. Ela era uma mulher em meio a uma Missão e devia ter o coração frio.

— E é verdade, meu senhor? — Phoebe tratou de manter um tom entre divertido e distante — A razão é que você não me deixou nenhuma alternativa. Sem dúvida, estou certa de que, uma vez que ouça o que tenho a dizer, se sentirá bem por ter finalmente decidido me encontrar, e sei que perdoará minha pequena mentira.

— Se me chamou para se vangloriar de seu último triunfo, devo advertir que não gosto de perder.

— Triunfo? — Ela piscou debaixo do véu e depois se deu conta de que ele estava falando sobre o chamariz que tinha utilizado para atraí-lo nesta noite — Oh, sim, o livro. Venha comigo agora, meu senhor; você está tão ansioso como eu para ver o manuscrito. É óbvio que não pôde resistir a meu convite para vê-lo, mesmo que eu seja a nova proprietária.

Gabriel acariciou o pescoço de seu cavalo com uma mão enluvada.

— Parece que compartilhamos um interesse comum pelos manuscritos medievais.

— É verdade. Vejo que o incomoda que tenha sido eu a localizar “O cavaleiro e a feiticeira”, além de descobrir que estava à venda — disse Phoebe — Mas, sem dúvida, é suficientemente generoso para dar crédito à inteligência de minhas investigações. Depois de tudo, o manuscrito se encontrava aqui, em Sussex, virtualmente debaixo de seu próprio nariz.

Gabriel fez uma inclinação de cabeça em reconhecimento às suas habilidades.

— Parece ter bastante sorte nesse aspecto. Nas últimas semanas, é o terceiro manuscrito desta natureza que você encontra antes de mim. Permita-me perguntar a razão pela qual simplesmente não tomou posse dele e o levou da mesma forma que fez com os outros?

— Porque, como expliquei em minhas cartas, desejava conversar com você, senhor — Phoebe pensou e depois admitiu com rapidez — E porque, para ser honesta, decidi que seria sábio de minha parte, esta noite, ter alguém que me acompanhasse.

— Ah.

— Cheguei à conclusão que o senhor Nash é um homem muito estranho mesmo se tratando de um colecionador de livros — continuou dizendo Phoebe — As condições que estabeleceu a respeito da hora na qual ele me entregaria o manuscrito me fizeram sentir de algum jeito insegura. Eu não gosto de fazer negócios a meia-noite.

— Parece que Nash é mais que simplesmente um excêntrico — assentiu Gabriel, pensativo.

— Diz que vive de noite, quase como os morcegos. Em suas cartas, explica que em sua casa vive com um esquema que é contrário ao do resto do mundo. Dorme enquanto os outros estão acordados e trabalha quando outros dormem. É muito estranho, não lhe parece?

— Sem dúvida nenhuma encaixaria perfeitamente bem no mundo das pessoas bem educadas — disse Gabriel secamente. — A maioria dos ricos passa a noite acordada e dorme durante o dia. Entretanto, é possível que você tenha razão em tomar precauções para não se encontrar com ele a sós, à meia-noite.

Phoebe sorriu.

— Fico feliz que esteja de acordo com meu plano para que alguém me acompanhe.

— Estou de acordo, mas confesso que me sinto surpreso por seu interesse — disse Gabriel com a precisão de um espadachim que atinge o alvo com sua espada — Até onde posso ver, você não demonstrou muita inclinação a tomar precauções nem em ser prudente.

Phoebe sentiu que corava ante esta demonstração de sarcasmo.

— Quando alguém está investigando algo, deve ser ousado, meu senhor.

— Você está considerando isto uma investigação?

— Sim, meu senhor, assim é.

— Estou vendo. Falando de investigações, devo lhe dizer que estou aqui esta noite, por causa de uma pequena missão. Por minha conta.

Um calafrio de temor atravessou o corpo de Phoebe.

— Sim, meu senhor? Do que se trata?

— Não é somente a promessa de ver o manuscrito antes que você tome posse dele que me trouxe aqui, minha Dama do véu.

— Verdade, meu senhor? — Talvez seu esquema havia de fato funcionado, pensou Phoebe. Possivelmente ela realmente tenha atraído seu interesse, como desejava fazer — Você está interessado no que tenho a dizer?

— Não, particularmente. Mas, sim, tenho interesse em conhecer meu novo competidor. Acredito que é importante conhecer nossos inimigos. — Gabriel a observou com frieza — Eu não sei quem você é, senhora, mas até agora me fez dançar do seu jeito. Já tive o suficiente com seus joguinhos.

Um novo sentido de intranquilidade caiu sobre o reanimado espírito de Phoebe. Ainda havia um longo caminho para a concretização de sua meta.

— Espero que voltemos a nos encontrar no futuro. Como você já disse, temos o mesmo interesse em colecionar os mesmos livros e manuscritos.

O couro dos arreios que Gabriel montava, rangeu ligeiramente quando este incitou seu cavalo a se aproximar mais alguns passos.

— Está desfrutando muito de suas últimas vitórias, minha Dama do Véu?

— Muitíssimo. — Ela sorriu apesar de seu nervosismo — Estou extremamente satisfeita com minhas últimas aquisições. Representam uma excelente contribuição à minha biblioteca.

— É claro que sim. — houve uma leve pausa — Não considera que é um pouco imprudente me convidar esta noite para ser testemunha de sua aventura?

Era muito mais imprudente do que ele imaginava, pensou Phoebe.

— O certo é, meu senhor, que você é uma das poucas pessoas em toda a Inglaterra capaz de apreciar meu recente descobrimento.

— É verdade que o aprecio, muitíssimo, para ser sincero. E é aí onde está o perigo.

Os dedos de Phoebe tremeram um pouco enquanto sustentava as rédeas.

— Perigo?

— O que aconteceria se eu tomar pela força o manuscrito, uma vez que você o retirar das mãos do senhor Nash? — perguntou Gabriel com suavidade mortal.

Perante a ameaça, Phoebe ficou rígida. Ela não tinha considerado essa possibilidade, depois de tudo, Wylde era um aristocrata.

— Não seja ridículo. O senhor é um cavalheiro e não faria uma coisa dessas.

— As misteriosas senhoras com véu sobre seus rostos, que planejam enganar cavalheiros como eu, a respeito de objetos que estes desejam com grande esforço, não deveriam surpreender-se muito se esses chamados cavalheiros se tornarem um tanto impacientes. — A voz de Gabriel se endureceu — Se o manuscrito de Nash, realmente for uma verdadeira lenda do século quatorze da Távola Redonda, tal como ele declara que é, eu o desejo, senhora. Diga o seu preço.

Podia sentir a tensão como faíscas no ar. A coragem de Phoebe decaiu por um momento. Foi tudo o que pôde fazer para evitar virar a sua égua e a todo galope retornar à segurança de sua casa de campo em Amesbury, onde ficava. Perguntou-se se os cavalheiros tinham sido tão malditamente difíceis na Idade Média.

— Duvido de que possa chegar a pagar meu preço, senhor — disse em um sussurro.

— Diga e veremos.

Phoebe molhou com a língua os lábios ressecados.

— O caso é que eu não tenho intenções de vendê-lo.

— Está certa disso? — Gabriel obrigou o cavalo a se aproximar um passo mais. O imponente animal levantou a cabeça e soprou com força, aproximando-se da égua de Phoebe.

— Muito certa — disse com rapidez. Fez uma pausa para marcar sua resposta — Entretanto, poderia considerar dar-lhe o manuscrito.

— Dar-me o manuscrito?! — Estava claro que esta afirmação tomou Gabriel de surpresa — De que raios você está falando?

— Depois explicarei, senhor. — Phoebe lutava para conseguir acalmar seu cavalo. — Posso lembrá-lo que é quase meia-noite? Devo estar na casa do senhor Nash dentro de poucos minutos. Virá comigo ou não?

— Estou mais que decidido a cumprir com meus deveres esta noite como seu acompanhante — disse sombrio — Já é muito tarde para se desfazer de mim.

— Sim, bem, então continuamos com nosso negócio? — Phoebe fez um sinal a sua égua para que andasse pelo atalho iluminado pela lua — A casa do senhor Nash deve estar a curta distância daqui, segundo as indicações que recebi em sua última carta.

— Não desejo que você o faça esperar. — Gabriel girou seu cavalo para segui-la.

O ágil corcel começou a caminhar junto à égua que Phoebe montava. Ela se perguntou se sua égua se sentia tão nervosa como ela. Gabriel e o cavalo se mostravam enormes e ameaçadores à luz da lua.

— Agora que nos conhecemos, minha Dama do Véu, tenho algumas perguntas a fazer — disse Gabriel.

Phoebe deu a ele um olhar de soslaio.

— Como ignorou minhas cartas durante os últimos dois meses, me surpreende ouvir você dizer isso. Até agora tinha a impressão de que não sou uma pessoa de grande interesse para você.

— Você sabe muito bem que agora estou interessado. Diga-me, tem intenções de ir atrás de cada novo livro medieval que eu deseje?

— É provável. Como vê, parece que compartilhamos gostos iguais neste tema.

— Isto poderia se tornar muito caro para ambos. Uma vez que, se divulgasse que existem dois compradores rivais para cada velho livro que sai à luz, os preços subiriam muito alto e rapidamente.

— Sim, imagino que seria assim — disse Phoebe com estudado descuido — Mas eu posso confrontá-lo. Recebo uma renda muito generosa.

Gabriel a olhou especulativamente de soslaio.

— Seu marido não se importa que tenha gostos tão caros?

— Não sou casada, senhor. Nem estou ansiosa para conseguir um. Pelo que pude observar, os maridos limitam as aventuras de uma mulher.

— Admito que existem poucos maridos que suportariam o tipo de tolice em que você está envolvida essa noite — murmurou Gabriel — Nenhum homem em seu perfeito julgamento permitiria que sua mulher andasse por aí, só, no campo ou em qualquer outro lugar, a estas horas.

Neil teria permitido a ela fazer qualquer coisa, pensou Phoebe ofegante. Mas ele morreu, e ela estava investigando para tentar descobrir seu assassino. Deixou de um lado as lembranças e buscou reprimir a leve onda de culpa que sempre sentia quando pensava em Neil Baxter.

Se não fosse por ela, Neil jamais partiria para os Mares do Sul em busca de fortuna. E, se ele não tivesse ido, não teria sido assassinado por um pirata.

— Não estou sozinha, senhor — relembrou Phoebe a Gabriel. Tentou com desespero manter um tom calmo — Tenho um cavalheiro que me acompanha. Sinto-me bem segura.

— Por acaso está se referindo a mim?

— É obvio.

— Então deveria saber que os cavalheiros estão acostumados a ser muito bem recompensados pelas tarefas que realizam — disse Gabriel. — Nos tempos medievais, a dama conferia seus favores ao campeão. Diga-me, senhora, tem intenções de me recompensar pelos serviços prestados esta noite de uma maneira similar?

Os olhos de Phoebe se abriram atrás do véu. Estava surpresa com o comentário dele. Com certeza, ele não queria dizer que ela deveria recompensá-lo com favores de natureza íntima. Mesmo que ele tenha se transformado em um ermitão e já não sentisse obrigação de cumprir com as regras da sociedade educada, não podia acreditar que a natureza primária de Gabriel tivesse mudado até esse ponto.

O nobre cavalheiro, que, há vários anos se arriscou para salvar sua irmã de um casamento arranjado, era no fundo um galante senhor. Na realidade, frente aos olhos de uma jovem de dezesseis anos, ele foi tão corajoso que poderia até mesmo se sentar na Távola Redonda. Certamente, não faria propostas evidentemente não cavalheirescas a uma dama. Ou ele não era assim?

Devo ter compreendido mal, talvez estivesse brincando com ela.

— Lembre-me de lhe dar uma parte da minha cinta ou alguma quinquilharia como presente por seus esforços desta noite, meu senhor — disse Phoebe. Não podia dizer se seu tom soava apropriadamente sofisticado ou não. Tinha quase vinte e cinco anos, mas isso não significava que possuísse muita experiência com cavalheiros mal educados. Como filha caçula do do Conde de Clarington, Phoebe sempre foi protegida. Às vezes, até onde interessava.

— Acredito que uma parte da sua cinta não será suficiente como pagamento — murmurou Gabriel.

Phoebe perdeu a paciência.

— Bom, provavelmente será tudo o que vai conseguir, então deixe de me provocar, meu senhor. — sentiu-se aliviada quando viu uma janela iluminada a pouca distância — Essa deve ser a casa do senhor Nash.

Estudou a desmantelada casinha que aparecia no meio da paisagem banhada pela lua. Mesmo à noite, podia ver que necessitava de alguns reparos; havia, em todo lugar, um ar de generalizado descuido, um portão quebrado guardava a entrada para o atalho do jardim coberto de mato; a luz que se via no interior da casa mostrava claramente a vidraça quebrada da janela. O telhado precisava ser reparado.

— Parece que Nash não vai particularmente bem no negócio dos manuscritos. Tenho a impressão, por suas cartas, que possui uma grande biblioteca, mas se mostra resistente a se desfazer de qualquer obra literária. — Phoebe parou sua égua — Vendeu-me “O cavalheiro e a feiticeira” só porque tinha muita necessidade em obter recursos para comprar um livro que ele considera mais importante que este frívolo romance medieval.

— Então o que pode ser mais importante que um frívolo romance? — A boca de Gabriel se inclinou levemente quando levantou as mãos e segurou Phoebe pela roupa.

Ela ficou boquiaberta quando ele a levantou sem esforço algum para ajudá-la a desmontar. Não a deixou imediatamente no chão, mas, sim, continuou segurando-a diante dele, com a pontas das botas dela a poucos centímetros do chão. Era a primeira vez que a tocava, a primeira vez que ela estava tão perto dele. Phoebe se sentiu impressionada com sua própria reação. Simplesmente ficou sem fôlego.

Com surpresa, percebeu que ele cheirava bem. Seu perfume era indecifrável, uma mistura de couro e lã, e isso dava a ela a total compreensão de sua masculinidade. Soube, de repente, que jamais o esqueceria.

Por alguma razão, a força daquelas mãos a fizeram perder a calma. Teve consciência então de como ela era pequena e frágil comparada a ele. Não era sua imaginação; aquele homem era mais alto e forte do que ela podia se lembrar.

Oito anos atrás, Phoebe admirava aquele que era o salvador de sua irmã, com a admiração idealista e inocente de uma jovem.

Esta noite, se sentiu fascinada ao descobrir que ela poderia também se sentir muito atraída por ele, da mesma forma que qualquer mulher se sente atraída por qualquer homem. Jamais sentiu algo assim por nenhum homem, nem mesmo por Neil. Jamais tinha existido com ele, esta sensação imediata e devastadora que sentia agora.

Talvez fosse só sua imaginação, pensou para si. A luz da lua e toda essa tensão. Sua família sempre a advertiu para que dominasse sua mente imaginativa.

Gabriel por fim a deixou no chão. Confundida pelo efeito embriagador que ele tinha sobre ela, Phoebe esqueceu de se firmar sobre a perna direita antes de por seu peso sobre a esquerda, então cambaleou e se segurou no braço de Gabriel para não cair.

As sobrancelhas de Gabriel arquearam em sinal de assombro.

— Coloco você nervosa, minha senhora?

— Não, é claro que não. — Phoebe soltou seu braço e rapidamente alisou a saia de seu traje de montar. Começou a caminhar com decisão para o portão quebrado da entrada. Não tinha como ocultar dele a leve claudicação que tinha ao andar. Há muito tempo que tinha se acostumado a ela, mas os outros sempre notavam.

— Torceu o tornozelo quando a deixei no chão? — Agora havia uma preocupação genuína na voz de Gabriel — Peço que me desculpe, senhora. Por favor, me permita ajudá-la.

— Não há nada errado com meu tornozelo — disse Phoebe com impaciência — Minha perna esquerda simplesmente é mais débil, isso é tudo. São as consequências de um velho acidente que sofri quando viajava em uma carruagem que se acidentou.

— Compreendo — disse Gabriel. Parecia pensativo.

Phoebe se perguntou se a clara incapacidade de sua perna esquerda o incomodava. Certamente isso tinha afastado outros homens no passado, pois eram poucos os que convidavam para dançar, uma mulher que não fosse perfeita e que precisasse de apoio. Normalmente ela não se preocupava com tais reações.

Estava acostumada. Mas se deu conta que a machucava pensar que Gabriel pudesse ser um desses homens incapazes de tolerar as imperfeições em uma mulher.

— Se pareço um pouco nervosa — disse Phoebe, resmungona — é porque não o conheço bem, senhor.

— Não estou tão certo disso — disse Gabriel com um tom divertido na voz — Está a ponto de me roubar o terceiro manuscrito. Certamente parece que você me conhece muito bem.

— Eu não estou o roubando em nada, meu senhor. — Phoebe tocou a aba de seu pequeno chapéu e baixou a segunda capa de seu véu escuro, dentro da casa, um véu só talvez não fosse suficiente para esconder seu rosto — Considero que somos rivais, não inimigos.

— Quando a isso, creio que exista pouca diferença. E que fique claro, senhora. É possível que dessa vez tenha levado sua sorte muito longe com o trabalho desta noite.

Phoebe parou bruscamente.

— Não se queixe, Wylde. Estou certa que você terá outras oportunidades para ganhar neste jogo.

— Sem dúvida. — Os olhos de Gabriel estavam fixos no rosto perfeitamente coberto de Phoebe quando soaram passos do outro lado da porta — Dou-lhe minha palavra de que, no futuro, lhe oferecerei mais desafios do que os que tive até agora.

— Estou muito satisfeita com o que espero que seja este encontro — disse Phoebe enquanto ouvia o ferrolho de dentro da casa se abrir. Brigar com Wylde era como apresentar uma parte de carne crua diante de um tigre. Para ser mais clara, era um negócio perigoso, mas devia mantê-lo na intriga, recordou-se. Se ele perdesse o interesse, simplesmente poderia desaparecer em plena noite e uma vez mais, ela só poderia sentir remorso pela atual falta de cavalheiros. A seleção era limitada.

— Se até aqui está satisfeita com o desafio — disse Gabriel — é só porque está ganhando. Mas isso está a ponto de mudar.

A porta da casa de Nash se abriu, e uma robusta governanta de meia idade, vestida com um sujo uniforme de touca e avental, apareceu a cabeça pela abertura da porta.

— Quem são vocês? — perguntou a mulher com um tom de voz exigente e suspeito.

— Faça o favor de anunciar a seu senhor que a pessoa a quem ele recentemente vendeu um manuscrito medieval veio para buscá-lo — disse Phoebe. Deu um olhada no vestíbulo que aparecia atrás da mulher. Estantes que iam do chão ao teto cobriam as paredes, cada prateleira estava lotada de livros encadernados de couro. No chão, mais livros estavam empilhados.

— Então vendeu mais um, né? — O governanta assentiu com óbvia satisfação — Bom, agora sim, isso é uma bênção. Já atrasou novamente meu salário e me deve muito, sim, senhor! Dessa vez, vou cuidar para que ele pague o que me deve antes de saldar suas contas com os fornecedores. Nos últimos três meses, não ficou nada para mim quando chegou a minha vez.

— Nash vendeu algum livro de sua coleção para poder pagar suas últimas contas? — perguntou Gabriel enquanto entrava no diminuto vestíbulo seguindo Phoebe. O pesado casaco que vestia roçava com elegância a parte superior de suas botas perfeitamente polidas.

— Egan finalmente conseguiu convencê-lo a vender; até parecia que estavam arrancando um dente do senhor Nash. — O governanta suspirou enquanto fechava a porta — O senhor não suporta se separar de nenhum desses livros velhos que tem. É tudo o que importa para ele neste mundo.

— Quem é Egan? — perguntou Phoebe.

— O filho do senhor. De vez em quando vem nos visitar para ver como estão as coisas, graças a Deus, ou do contrário aqui não teria nada de nada. — O governanta mostrou o caminho pelo vestíbulo — Não sei o que teria acontecido se Egan não tivesse convencido o senhor Nash a vender um ou dois desses velhos e sujos livros; morrer de fome, é o mais provável.

Phoebe olhou com dissimulação a Gabriel, que estava examinando o escuro vestíbulo lotado de livros. Retirou o chapéu. Ela o estudava com um novo e enaltecido conhecimento que ele tinha despertado algo em seu ser. À tênue luz das velas, seu cabelo era tão negro como a noite, tal como ela recordava. Nas têmporas, tinha um leve toque de cinza. Mas agora estava com trinta e quatro anos, pensou consigo mesma. E os cabelos brancos deram a ele um estranho fascínio.

No passado, há oito anos, o tinha considerado um pouco mais velho. Agora parecia ter a idade adequada. As mãos enluvadas de Phoebe se crisparam sobre a dobra de seu conjunto de montar de cor violeta. A sensação de expectativa que crescia em seu interior não tinha nada a ver com o pensamento de retirar o manuscrito, ou com a sua tentativa de convencer Gabriel para que a ajudasse na investigação destinada a descobrir ao assassino de Neil.

Tudo tinha a ver com ele mesmo, Gabriel.

Santo Deus, isto estava se tornando perigoso de verdade, pensou Phoebe. Este tipo de complicação emocional era a última coisa ela necessitava nesse momento. Devia manter sua cabeça limpa e se lembrar que Gabriel não tinha razão alguma para sentir algum tipo de afeto por qualquer dos membros de sua família.

Gabriel inclinou a cabeça enquanto lia as lombadas dos livros que se apinhavam sem ordem na prateleira mais próxima. Phoebe observou a linha marcada de sua mandíbula e o ângulo arrogante das maçãs do rosto. Por alguma razão, se sentiu admirada ao descobrir que aquele rosto ainda possuía o aspecto de um sequestrador.

O estômago se retorceu por causa de seus nervos. Não esperava que a passagem daqueles oito anos suavizasse esses traços de ferocidade. Entretanto, era inquietante ver que estes se tornaram mais rudes e inflexíveis do que nunca.

Como se pudesse ler sua mente, Gabriel, de repente, virou a cabeça para ela. Olhou-a diretamente nos olhos, imobilizando-a com seus ferozes olhos verdes. Por um momento de terrível tensão, Phoebe teve a impressão que ele via através do pesado véu. Ela se esquecera daqueles olhos.

Quando era jovem, a ponto de se converter em uma mulher, não compreendia o impacto daquele intenso olhar de cor verde. É obvio, só experimentara umas breves olhadas. Aquelas ocasiões foram quando Gabriel visitava a casa que seu pai tinha na cidade, junto com todos os outros filhos dos ricos, a fim de cortejar sua adorável irmã, Meredith.

O único homem daquele grupo que interessou a Phoebe foi Gabriel. Desde o começo, sentiu curiosidade, já que lia com avidez os livros e poemas que dava a sua irmã. Gabriel tinha cortejado Meredith mais com lendas do rei Artur que com flores. Meredith não estava interessada nas antigas histórias de cavalheiros, mas Phoebe as tinha devorado.

Cada vez que Gabriel vinha visitar Meredith, Phoebe fazia o propósito de observar tanto quanto fosse possível de seu esconderijo na parte superior das escadas. Em sua inocência, acreditava que os olhares que lançava a Meredith eram deliciosamente românticos.

Agora se dava conta de que a palavra romântica era muito suave e frívola para descrever o fulgurante olhar de Gabriel. Não era de estranhar que sua irmã o achasse terrivelmente atraente. Naqueles dias, apesar de sua ardilosa inteligência, Meredith era uma criatura tímida e gentil.

Pela primeira vez desde que tinha começado a imprudente tentativa de convencer Gabriel a ajudá-la, Phoebe se sentiu momentaneamente ultrapassada pelo desafio. Ele tinha razão. Não era um homem com quem uma mulher inteligente pudesse brincar. Talvez, depois de tudo, seu plano não ia mesmo funcionar. Elevou uma prece silenciosa agradecendo que ainda estivesse escondida na segurança de um véu.

— Aconteceu algo? — perguntou brandamente Gabriel. Com os olhos percorreu o brilhante conjunto de montar cor violeta. Parecia divertido.

— Não. Nada. — Phoebe levantou o queixo quando se separou dele para seguir a governanta. Será que a tonalidade violeta de seu traje fosse de um tom um pouco vivo demais? Tinha plena consciência que seus gostos não eram apreciados por muitos. Sua mãe e irmã sempre estavam lhe dando lições a respeito de seu gosto, que elas chamavam cores gritantes.

A governanta os fez passar para uma pequena sala que estava ainda mais lotada que o vestíbulo. As estantes tomavam todo o espaço disponível que apresentavam as paredes. Cada uma estava cheia até o limite de sua capacidade. No chão, os livros se empilhavam até a altura da cintura, formando um labirinto de túneis. A cada lado da lareira, estavam pesados baús com suas tampas abertas que mostravam uma quantidade ainda maior de livros e papéis.

Um grosso senhor vestido com calças muito justas e uma jaqueta descolorida sentava-se à mesa coberta com mais livros. Estava absorvido sobre um antigo exemplar. A luz de um candelabro iluminava sua calva cabeça e grosas costeletas cinza. Falou, sem levantar o olhar da página que tinha diante dele.

— O que acontece, senhora Stiles? Disse-lhe que não devia me incomodar até que tivesse terminado de traduzir este texto.

— A senhora chegou para buscar o manuscrito, senhor. — A senhora Stiles não pareceu perturbada pelos maneiras rudes de seu senhor — Veio com um amigo. Preparo o chá?

— O que é isto? Há duas pessoas? — Nash jogou a pena e ficou em pé num instante. Voltou-se para a porta e fulminou os visitantes com um olhar iluminado através dos óculos de marco prateado.

— Boa noite, senhor Nash — disse Phoebe com amabilidade, enquanto dava um passo para frente.

O olhar de recriminação de Nash foi atraído para a perna esquerda de Phoebe. Entretanto, conteve-se de fazer algum comentário sobre sua claudicação. Seu já aceso rosto se tornou mais vermelho quando olhou Gabriel.

— Aqui estamos agora. Só vendo um dos manuscritos esta noite. Como é que vêm duas pessoas?

— Não se preocupe, senhor Nash — disse Phoebe com um tom tranquilizador — Este cavalheiro me acompanha simplesmente porque eu não gostava da idéia de vir sozinha a esta hora.

— Por que não? — Nash olhou com ferocidade a Gabriel — Nesta paragem não lhe acontecerá nada mal. Nunca acontece nada nesta parte de Sussex.

— Sim, bom, não estou tão familiarizada com a situação do lugar como você — murmurou Phoebe — Se você recordar, eu sou de Londres.

— Sobre o chá... — começou com firmeza a senhora Stiles.

— Não me importa nada o maldito chá — grunhiu Nash — Não vão ficar muito tempo. Desapareça, senhora Stiles. Tenho assuntos a resolver.

— Sim, senhor. — A senhora Stiles desapareceu.

O olhar de Gabriel era especulativo enquanto estudava a sala repleta de livros.

— Devo felicitá-lo pela grande biblioteca que você possui, Nash.

— Obrigado, senhor. — O olhar de Nash seguiu o de Gabriel. Havia orgulho naqueles olhos — Eu diria que me sinto agradado por isso, para expressá-lo melhor.

— Por acaso não terá um singular exemplar da Morte d`Arthur, de Malory?

— Que exemplar? — perguntou com desconfiança Nash.

— Uma edição de 1634. Em um estado bastante ruim. Está encadernado em couro marroquino. Na primeira folha há uma inscrição que começa com a frase: “Para meu filho.”

Nash franziu o cenho.

— Não. A que tenho é uma edição anterior. Está em excelente estado.

— Entendo. — Gabriel o olhou — Então será melhor se continuarmos com o nosso.

— Certamente. — Nash abriu uma gaveta da mesa — Suponho que desejarão ver o manuscrito antes de levar, não estou certo?

— Se não se importar. — Phoebe deu um rápido olhar a Gabriel.

Levantou um pesado livro de uma mesa que estava perto, mas voltou a pôr em seu lugar imediatamente quando viu Nash tirar uma caixa de madeira da gaveta da mesa.

Nash abriu a tampa da caixa e com reverência tirou o volume que havia em seu interior. O dourado da beirada do papel pergaminho brilhou à luz das velas. Os verdes olhos de Gabriel se acenderam.

Phoebe quase sorriu apesar de seus novos temores. Ela sabia exatamente como ele se sentia. Uma corrente familiar de emoção a atravessou quando Nash colocou o manuscrito sobre a mesa e com cuidado abriu as grosas tampas de couro, para deixar à vista a primeira página.

— OH, Meu Deus — sussurrou Phoebe. Todas suas preocupações imediatas a respeito da conveniência de pedir ajuda a Gabriel em sua investigação se diluíram quando olhou a magnificência daquele manuscrito.

Aproximou-se mais para poder observar melhor as quatro miniaturas situadas uma ao lado da outra na metade superior da página. Um intrincado de folhas de hera rodeava as antigas ilustrações. Até a distância, estas brilhavam como se tratasse de jóias estranhas.

— É uma beleza, nem mais nem menos — disse Nash com orgulho de colecionador — Eu o comprei faz um ano de um livreiro de Londres. Ele o conseguiu de um francês que escapou a Inglaterra por causa da Revolução. Entristece-me só em pensar em todas essas maravilhosas coleções de livros que devem ter sido vedadas ou destruídas na Europa nos últimos anos.

— Sim — disse Gabriel tranquilo — A guerra não é boa nem para os livros nem para ninguém. — Caminhou para a mesa e ficou ali de pé olhando com veemência o manuscrito ilustrado — Demônios. É nem mais nem menos que formoso.

— Maravilhosas. — Phoebe estudava as brilhantes miniaturas — Absolutamente fantásticas. — Olhou Nash — Permite-me examiná-lo mais de perto?

Nash duvidou e depois encolheu de ombros com óbvia reticência.

— Você pagou por ele. É seu. Faça o que quiser.

— Obrigada. — Phoebe sentiu a presença de Gabriel olhando atrás dela, quando procurou no bolso de sua saia um lenço de renda limpo. A ansiedade controlada e intensa dele a divertia, já que era muito similar a suas próprias emoções daquele momento.

Ela e Gabriel eram uma só pessoa nesta particular paixão, refletiu. Só outro colecionador de livros apreciaria um momento como esse.

Com o lenço passou as páginas de pergaminho. “O cavalheiro e a feiticeira” era um manuscrito ricamente decorado. Obviamente, fora realizado por ordem de um rico aristocrata francês da Idade Média, que apreciava tanto a arte do ilustrador como também a história que o escritor tinha encarnado naquelas folhas.

Phoebe parou para estudar um pouco daquele francês antigo, notando o trabalho delicioso das letras. Quando chegou à última página, por um momento se concentrou na tradução do registro.

— Aqui finalizo o conto ”O cavalheiro e a feiticeira” — leu em voz alta — Eu, Felipe de Blois, só disse a verdade. Este livro foi escrito para minha senhora e pertence a ela. Se alguém o tirar de seu lugar, o roubar, que seja maldito, perseguido por ladrões e assassinos. Seja pendurado. Seja condenado aos fogos do inferno.

— Eu diria que cobre tudo — disse Gabriel — Não há nada como uma boa maldição que provenha de um escrito antigo para que alguém pense duas vezes antes de converter-se em uma espécie de ladrão de livros.

— Não se pode culpar aos escritores por tentar de tudo, a fim de evitar o roubo destas maravilhosas obras de arte. — Phoebe fechou o livro com cuidado. Levantou seu olhar para o senhor Nash e sorriu — Estou muito satisfeita com minha compra, senhor.

— Isto é só um dos livros de aventuras sobre a Távola Redonda — murmurou Nash — Uma tola história escrita para alguma malcriada dama da corte. É obvio que não é tão importante como o exemplar de História Escolástica que consegui ao mesmo tempo deste. Entretanto, é muito bonito, não lhe parece?

— É maravilhosamente formoso. — Phoebe com cuidado voltou a colocar o manuscrito em sua caixa — Terei supremo cuidado com ele, senhor Nash.

— Bom, será melhor que o leve agora. — Nash apartou os olhos da caixa que continha o manuscrito — Tenho trabalho a fazer esta noite.

— Compreendo. — Phoebe tomou pesada caixa.

— Eu levo. — Gabriel tomou com habilidade a caixa do manuscrito das mãos de Phoebe — É um pouco pesado para que você a leve, concorda?

— Posso muito bem levá-la sozinha, obrigada.

— Entretanto, me sentirei muito feliz de levá-lo para você. — Gabriel sorriu de forma enigmática — Você me comprometeu esta noite para acompanhá-la, se recorda. É um privilégio para mim estar a seu serviço. Partimos agora?

— Sim, sim, vão já — grunhiu Nash. Sentou-se em sua mesa e pegou a pena — A senhora Stiles os acompanhará até a porta.

Incapaz de pensar em alguma alternativa, Phoebe se viu obrigada a caminhar diante de Gabriel e sair ao vestíbulo da biblioteca. Não gostava do olhar cheio de brincadeira que viu em seus olhos.

Certamente que não tentaria em realidade tomar o manuscrito pela força, assegurou-se a si mesma. Nem por um minuto podia pensar que seu galante cavalheiro tenha se transformado em um verdadeiro vilão, pensou.

A senhora Stiles os esperava na porta de entrada. Olhou a caixa que Gabriel tinha entre as mãos.

— Bom, um livro a menos para empoeirar. É obvio que o senhor sairá e comprará dez mais para substituí-lo. Terei sorte se conseguir que me pague o salário atrasado.

— Desejo sorte, senhora Stiles — disse Gabriel. Pegou o braço de Phoebe e a guiou para sair pelo escuro caminho.

— Uma vez que tenha montado meu cavalo, posso cuidar do manuscrito — disse rapidamente Phoebe.

— Não confia em mim para que o leve?

— Não é questão de confiança. — Rechaçou a ideia de deixar que ele a pusesse mais ansiosa do que estava — Depois de tudo, sei que é um cavalheiro.

— Assim me disse isso até agora. — Deixou a caixa sobre uma pedra, tomou Phoebe pela cintura e a ajudou a montar. Deteve as mãos em sua cintura enquanto olhava o seu rosto coberto pelo véu — Parece que sabe muito sobre mim.

— Verdade. — Ela se deu conta que estava segurando pelos ombros. Com rapidez, separou os dedos e tomou as rédeas nas mãos.

— Quanto sabe, senhora? — Gabriel a deixou para pegar as rédeas de seu cavalo. Deu um leve salto sobre a sela e procedeu a assegurar a caixa do manuscrito debaixo dos pesadas dobras de seu casaco.

Tinha chegado o momento de falar. Phoebe escolheu com cuidado as palavras quando começaram a voltar pelo caminho. Ela fez o solitário cavalheiro abandonar seu esconderijo, mas ainda não conseguiu seu objetivo. Desejava que ele se sentisse suficientemente intrigado e cheio de curiosidade para comprometer-se na investigação, antes que lhe revelasse sua identidade.

— Sei que muito recentemente voltou a Inglaterra depois de uma extensa temporada no estrangeiro — disse com cautela.

— De uma extensa temporada no estrangeiro — repetiu Gabriel — Essa é certamente uma maneira de dizer. Estive fora do país durante oito malditos anos. Que mais sabe de mim?

Não gostou daquele novo tom de sua voz.

— Bom, soube que tomou posse de seu título de uma forma um tanto inesperada.

— Muito inesperada. Se meu tio e seus filhos não se perdessem no mar há um ano, eu jamais teria herdado o condado. Algo mais, minha Dama do Véu?

— Sei que você tem grande interesse em histórias de cavalheiros e lendas.

— É óbvio. — Gabriel a olhou. Os olhos verdes se viam sem cor à luz da lua, mas era inconfundível o desafio que havia neles — Algo mais?

Phoebe controlou seus nervos. Decidiu que devia utilizar armas mais poderosas.

— Sei coisas que membros do mundo elegante matariam para descobrir. Sei que você é o autor anônimo da “Missão”.

O efeito daquele anúncio foi imediato. A raiva controlada de Gabriel podia apalpar-se. Entrecerrou os olhos levemente.

— Maldição. É óbvio que você esteve bem ocupada. Como soube isso?

— OH, tenho minhas fontes — tratou de dizer com ligeireza. Quase esteve a ponto de lhe contar toda a verdade. Nem sua própria família conhecia o segredo mais profundo e misterioso de sua vida.

Com rudeza, Gabriel soltou as rédeas de seu corcel. Estendeu uma mão e com ela tomou a de Phoebe.

— Perguntei como soube. Exijo uma resposta, senhora.

Um tremor percorreu o corpo de Phoebe. Gabriel a segurava com força pela mão, seu rosto estava rígido nas sombras da noite. Sabia o que ele queria dizer com aquilo. Exigia uma resposta.

— É um delito tão grande? — perguntou sem fôlego — Todos se perguntam a identidade do autor do livro mais popular da temporada.

— Meu editor disse a você quem era? Maldição, senhora, você subornou Lacey?

— Não, juro que não. — Não podia revelar que fora ela a misteriosa financiadora que resgatou da quebra a livraria e editorial de Josiah Lacey. Pôde fazer com o dinheiro economizado da generosa renda trimestral que recebia de seu pai e dos ganhos que obteve ao vender alguns de seus apreciados livros a outros colecionadores. Ninguém conhecia a verdade, e Phoebe sabia que devia continuar sendo assim. Sua família se sentiria horrorizada de saber que ela estava, com toda intenção e propósito útil, nos negócios.

O acordo que fez com Lacey funcionou muito bem em sua maior parte. Phoebe selecionou quais manuscritos desejava publicar e Lacey se encarregou da impressão deles. Entre os dois, e com a ajuda de um jovem advogado e um par de empregados, a Livraria Lacey estava em pleno florescimento. O primeiro grande êxito foi A Missão, que Phoebe tinha insistido em publicar no preciso instante em que terminou de ler o rascunho do livro.

— Deve ter enchido as mãos de Lacey com prata — disse Gabriel — Mas não acredito que esse velho bêbado seja tão tolo. Ele não me delataria neste assunto. Não é tão estúpido para arriscar as lucros futuros que tem intenções de fazer com meu próximo livro.

Phoebe desceu o olhar para aqueles dedos embainhados em couro que apertavam sua mão. Talvez isto tinha sido tudo um grande erro, pensou frenética. Gabriel não estava se comportando como um cavalheiro dos velhos tempos. Sentia a mão que segurava a sua com tanta força e tão inclemente como uma luva de aço.

— Não foi por culpa dele. Não deve culpar ao senhor Lacey.

— Como você descobriu que eu era o autor da Missão?

Phoebe vacilou em busca de uma resposta razoável.

— Tenho meu advogado, que é quem investiga para mim. — Tentou sem êxito se soltar daquela mão — É muito inteligente. — Aquilo era verdade, refletiu. O senhor Peak era extremamente inteligente, um jovem muito serviçal que estava ansioso de abrir caminho no mundo. Tão ansioso, em realidade, que desejava fazer negócios com a filha caçula do Conde de Clarington, sem se incomodar em notificar ao pai desta.

— Seu advogado. — Com um juramento duro, Gabriel lhe soltou a mão — Estou me fartando deste jogo, senhora. Já disse que não tenho paciência com enganos e mentiras. Quem é você?

Phoebe umedeceu o lábio inferior.

— Não posso dizer, senhor. Ainda não. É muito cedo. Mais ainda, se meu plano fracassar de tudo, como estou começando a compreender, então eu não arriscaria mais minha reputação do que já tenho feito. Estou certa que você compreenderá.

— De que plano me fala? Devo escutar seu plano e me comprometer antes de conhecer sua verdadeira identidade? Que classe de idiota você acha que sou?

— Eu não acredito que seja nenhum idiota. Simplesmente alguém difícil — replicou Phoebe — Prefiro que não conheça minha identidade até que aceite me ajudar. Uma vez que tenha jurado que o fará, terei a liberdade de confiar em você. Estou certa que saberá apreciar meu desejo de que isto seja um segredo.

— De que demônios se trata tudo isto? — Gabriel quase tinha esgotado sua paciência — Do que se trata todo este estúpido plano?

Phoebe se armou de valor e lançou à declaração.

— Estou comprometida em uma investigação séria e importante, senhor.

— Está atrás de outro manuscrito? — perguntou com ironia.

— Não. Não é uma investigação para conseguir um manuscrito. É uma investigação para fazer justiça. Suas referências me dão razão para acreditar que seus serviços seriam muito importantes para mim.

— Justiça? Meu Deus, que tolice é esta? Acreditava que ficara bem claro que não tinha interesse em nenhum outro joguinho.

— Não é um jogo — explicou desesperada — Tento encontrar um assassino.

— Um assassino. — Produziu-se um breve silêncio de assombro em Gabriel — Diabos e centelhas. Encontro-me aqui em meio à noite com uma mulher que está louca.

— Eu não estou louca. Por favor, me escute. É tudo o que lhe peço. Passei dois meses tentando lhe chamar a atenção. Agora que finalmente saiu de sua cova, pelo menos poderá me escutar.

— Eu não vivo em nenhuma maldita cova. — Parecia ofendido.

— No que me diz respeito, isso bem poderia ser verdade. Pelo que eu pude averiguar, você vive enclausurado em um castelo, como uma espécie de troglodita, a maior parte do tempo. Nega-se a receber qualquer pessoa e nem tem nada que fazer na sociedade.

— Isto é um exagero — murmurou Gabriel — Eu vejo quem quero. Acontece que eu gosto de minha intimidade e não me atrai nada o mundo elegante. Entretanto, repugna-me a razão pela que eu deva explicar meus costumes a você.

— Por favor, senhor, necessito de sua ajuda para fazer justiça a alguém que uma vez esteve muito perto de mim.

— Como perto?

Phoebe tragou saliva.

— Bom, para ser mais precisa, ele desejava se casar comigo. Minha família estava contra ele porque não tinha fortuna.

— Não é uma situação fora do comum — observou Gabriel com tristeza.

— Sei. Meu amigo partiu para os Mares do Sul para fazer sua fortuna a fim de poder retornar para pedir minha mão. Mas jamais retornou. Finalmente soube que fora assassinado por um pirata.

— Caramba! Quer que a ajude a rastrear um maldito pirata? Tenho algo que dizer. Seria uma tarefa impossível. Passei a maior parte dos últimos oito anos nos Mares do Sul e posso lhe assegurar que essa parte do mundo tem mais de uma cota de assassinatos.

— Não me entende — disse Phoebe — Tenho razões para acreditar que o assassino retornou para a Inglaterra. Pelo menos, alguém que talvez conhece o assassino retornou.

— Bom Deus. Como chegou a essa conclusão?

— Antes que ele partisse em busca de fortuna, dei a ele um de meus manuscritos favoritos como lembrança. Sei que ele jamais o teria vendido nem dado. Era tudo o que possuía de mim e que permitia me recordar.

Gabriel ficou calado.

— Um manuscrito?

— Um bom exemplar de ”A dama da torre”. Conhece-o?

— Maldição.

— Claro que o conhece. — Exclamou agora emocionada Phoebe.

— Sabia que existiam uns poucos exemplares — admitiu Gabriel — Era a sua em francês, inglês ou italiano?

— Francês. Belamente ilustrado. Inclusive melhor que “O cavalheiro e a feiticeira”. A verdade é, meu senhor, que ouvi rumores que o livro está de volta à Inglaterra. Aparentemente agora está na biblioteca pessoal de alguém.

Gabriel a olhava com veemência.

— Onde soube isso?

— Por um vendedor de livros de Bond Street. Ele soube de um de seus melhores clientes, que, por sua vez, soube de um pequeno colecionador de Yorkshire.

— O que a faz acreditar que se trata de seu exemplar?

— O livreiro me disse que é a versão francesa do conto e que o registro do final dá como nome do escritor a William de Anjou. Meu exemplar era uma criação dele. Senhor, eu devo saber onde está esse manuscrito.

— Você acredita que se encontrar o livro encontrará ao homem que assassinou a seu amante? — perguntou Gabriel com suavidade.

— Sim. — Phoebe se ruborizou furiosamente ao ouvir que se referia a Neil como seu amante. Mas este não era momento de explicar que ela não tinha sido amante de Neil, mas, sim, ele foi o pretendente mais virtuoso e devoto. O amor daquele homem era puro e nobre. Sempre manteve a distância de um cavalheiro, só pedindo servir a sua dama à maneira de um verdadeiro cavalheiro dos velhos tempos.

O fato que ela jamais tivesse sentido por Neil mais que um quente afeto era uma das razões pelas quais seu ser estava embargado pela culpa de sua morte. Se o amasse de verdade, desafiaria sua família para casar-se com ele. Mas ela não tinha amado Neil, e Phoebe não podia deixar de lado a ideia de um casamento que não se apoiasse no verdadeiro amor.

— Como se chamava o homem que significou tanto para você?

— Neil Baxter.

Gabriel ficou quieto, sem mover-se, durante uns segundos.

— Talvez o dono atual do livro simplesmente o tenha comprado em algum lugar — sugeriu com frieza Gabriel — Possivelmente ele não sabe nada do destino de seu amante.

Phoebe negou com esforço com a cabeça.

— Não, não acredito que esse seja o caso. Neil me escreveu em várias ocasiões depois de abandonar a Inglaterra. Em uma de suas cartas, mencionou um pirata que saqueava os navios das ilhas. Dizia que não era um tipo normal de vilão, mas um cavalheiro inglês que tinha decidido dedicar à pirataria, transformando-se no açoite dos Mares do Sul.

— Não seria o primeiro em fazê-lo — assinalou secamente Gabriel.

— Meu senhor, acredito que um vilão assim teria tomado como aventura “A dama da torre”, depois de matar Neil.

— E agora que existe o rumor que o livro está aqui na Inglaterra, você acredita e supõe que este cavalheiro pirata também retornou?

— Acredito que é muito provável. Possivelmente tenha retornado com suficiente coragem para poder apresentar-se no mundo elegante. Talvez inclusive pertença ao grupo de novos ricos. Pense, senhor, quem saberia que ele foi um pirata? Todos acreditariam que simplesmente fez sua fortuna nos Mares do Sul tal como outros fizeram e que agora retornou a seu país.

— Sua imaginação me deixa sem fôlego, senhora.

Phoebe apertou os dentes.

— E me parece, senhor, que lhe falta. A ideia que eu tenho é bastante plausível. Entretanto, até se fosse assim, como você sugere, que o dono atual do livro não seja o pirata, mas talvez poderia muito bem conhecer a identidade do mesmo. Devo encontrá-lo.

O ruído de algo grande que rangia entre os matagais que estavam junto ao atalho interrompeu o resto das apressadas explicações de Phoebe.

— Que demônios é isto? — Gabriel tranquilizou a seu cavalo quando um cavaleiro saiu dentre as árvores do caminho.

— Detenham-se e rendam-se — rugiu o recém— chegado que tinha o rosto coberto com uma máscara. A capa negra que o cobria girou a seu redor. A luz da lua fez brilhar a pistola que empunhava.

— Demônios — disse Gabriel com fadiga — Sabia que deveria haver ficado na a cama esta noite.

Imediatamente Gabriel se deu conta que a Dama do Véu não compreendia o que acontecia naquele instante. Depois aparentemente viu o reflexo do carregador da pistola que o bandido tinha na mão.

— Que raios você pretende fazer, senhor? — perguntou a Dama do Véu com tom imperioso, como se estivesse se dirigindo a um servente torpe.

Gabriel fez uma rápida careta deixando ver seus dentes. Esta mulher possuía coragem mais que suficiente para ser digna de um respeitável cavalheiro. Ele não conhecia muitas mulheres que enfrentaram um salteador de estrada com tão fulminante desprezo. Mas então era de advertir que ele também não conhecia nenhuma mulher que se parecesse no mínimo a esta irritante Dama do Véu.

— O dinheiro ou a vida. — O bandido fez alarde com o revólver movendo de trás para frente, entre Gabriel e sua companheira — Rápido, agora mesmo. Seria simples matar vocês de um disparo e terminar com o problema.

— Só trago comigo umas moedas — anunciou a Dama do Véu — E não tenho nenhuma jóia.

— Levo o que tenham. — O bandido olhou a Gabriel por cima da máscara que tinha — Suponho que você terá uma pistola consigo. Tire o casaco e jogue-o no chão.

— Com gosto. — Gabriel encolheu os ombros e começou a desabotoar sua capa.

Imediatamente, a Dama do Véu se sentiu alarmada.

— Não, não tire o casaco, meu senhor. Morrerá de frio se o fizer. — voltou-se para o ladrão — Por favor, senhor, rogo. Não obrigue meu amigo tirar o casaco. Sofre dos pulmões. O médico lhe disse que não pode sair sem casaco.

Gabriel olhou à dama com olhos divertidos.

— Que amável de sua parte pensar em minha saúde em um momento de tanta tensão como este, senhora!

— Os pulmões vão estar muito pior se eu os atravessar com uma bala — disse com uma careta o bandido — Vamos, apure-se, agora mesmo.

— Espere. Não deve tirar o casaco, meu senhor — disse a dama com desespero.

Mas era muito tarde. Gabriel já havia tirado o sobretudo. A caixa que continha o manuscrito ficou à vista, debaixo de seu braço.

— Mas olhem, o que temos aqui? — O bandido fez que o cavalo se aproximasse mais ao cavalo de Gabriel — Isso parece interessante.

— É só uma caixa velha — disse a dama com tom indiferente — Nada de valor. Não é assim, senhor?

— De verdade, não é mais que uma velha caixa — assentiu Gabriel.

— Levarei isso. — O bandido estendeu a mão — Dê-me.

— Não se atreva a dar-lhe, Wylde — ordenou-lhe a dama — Ouviu?

— Sim, ouço. — Gabriel lhe estendeu com cautela a caixa. Jogou umas moedas sobre ela.

Visivelmente furiosa, a Dama do Véu se voltou como uma tromba para enfrentar o bandido.

— Não a toque. Exijo que me devolva imediatamente. Essa caixa me pertence.

— Bom, agora, não posso fazer isso — disse o bandido.

— Detenha-o, Wylde — ordenou a Dama do Véu — Jamais o perdoarei se o deixar levar a caixa.

— Tenho pena de você por ter de suportar tudo o que fala esta mulher — disse o bandido a Gabriel, com tom pormenorizado.

— Alguém se acostuma a tudo — disse Gabriel.

— Se você o disser. Bom, muito obrigado e boa noite a ambos. Foi um prazer fazer negócios com vocês.

O mascarado girou o cavalo, bateu os calcanhares, e o animal saiu a galope pelo atalho.

A Dama do Véu observou como desaparecia o bandido. Depois, se voltou para Gabriel. Preparou-se para receber o ataque. Era óbvio que ela não estava satisfeita com seu rendimento como cavalheiro.

— Não posso acreditar isto, senhor — disse-lhe furiosa — Como pôde lhe dar meu manuscrito sem sequer fazer um mínimo intento de defendê-lo?

Gabriel lhe jogou um olhar muito significativo enquanto desmontava para recolher seu casaco, que tinha ficado no chão.

— Teria preferido que me furasse meus já debilitados pulmões?

— É obvio que não. Mas certamente que poderia havê-lo vencido. Você é um cavalheiro. Deve saber de pistolas e todas essas coisas. Ele não era a não ser um tosco ladrão de caminhos.

— Os ladrões toscos de caminhos são capazes de apertar o gatilho de pistola com tanta facilidade como qualquer cavalheiro que se preparou no Manton. — Gabriel voltou a montar seu cavalo e tomou as rédeas.

A Dama do Véu protestou frustrada.

Gabriel acreditou havê-la escutado amaldiçoar entre dentes.

— Como pôde deixar que o levasse dessa forma? — perguntou-lhe — Eu o trouxe comigo para que me protegesse. Supunha-se que devia me escoltar esta noite.

— Parece-me que cumpri com meu dever. Está sã e salva.

— Mas ele levou meu manuscrito.

— Exatamente. Seu manuscrito. Não o meu. — Gabriel obrigou ao cavalo a adiantar-se pelo atalho — Faz muito que aprendi a não arriscar o pescoço por algo que não me pertence. Não existe nenhum benefício.

— Como se atreve, senhor? Você não é o homem que eu acreditava que era.

— Quem supunha que era? — gritou-lhe Gabriel por cima do ombro.

A dama obrigou a égua que montava a que seguisse ao cavalo de Gabriel.

— Pensava que o homem que escreveu A Missão seria pelo menos tão nobre e valente como o herói do livro — gritou-lhe.

— Então você é uma parva. Os cavalheiros são para a novelas. Tenho que admitir que se vende bem, mas é inútil no mundo real.

— Estou mais do que desiludida com você, meu senhor — anunciou-lhe com acento altissonante ao tempo que a égua que montava cavalgava junto ao cavalo dele — Aparentemente tudo o que eu acreditava sobre você não é nada mais que uma ilusão. Você arruinou tudo. Tudo.

Ele a olhou.

— O que esperava de mim, minha Dama do Véu?

— Eu esperava que lutasse. Eu esperava que você defendesse esse manuscrito. Não esperava que se rendesse com tanta facilidade. Como pôde ser tão covarde?

— Quantos desejos tem você de recuperar esse manuscrito, senhora?

— Muitíssimos. Paguei bastante por ele. Mas isso é o que menos me preocupa. O que em realidade preciso é um cavalheiro de verdade.

— Muito bem, vou recuperar esse manuscrito para você. Quando o trouxer, direi-lhe se aceito ou não o trabalho que me propõe.

— O que? — Ela se mostrou simplesmente aniquilada. Ao mesmo tempo, Gabriel teve a sensação de que suas esperanças se viam renovadas.

— Quer você dizer que considerará aceitar a tarefa de me ajudar a encontrar ao pirata que tem o exemplar da dama da torre?

— Pensarei com supremo cuidado e interesse. Mas devo lhe advertir, minha Dama do Véu, que se aceitar esta empresa e tenho êxito, terá que pagar um preço.

Essa notícia pareceu assombrá-la.

— Um preço? O que acontece — disse ela, com tom mal humorado — é que tinha intenções de dar a você esse livro que você deu ao bandido. Era como uma espécie de lembrança desta Missão. Se tivéssemos êxito, quero dizer.

— Temo-me que o preço será muitíssimo mais alto que isso, senhora.

— Você espera que eu lhe pague pela ajuda que me possa dar para fazer justiça com um vilão? — perguntou exigente.

— Por que não? Quando um envia a alguém a investigar, resulta justo que seja recompensado.

— Deveria sentir vergonha de si mesmo — espetou — Isto é uma questão de justiça e honra. Não é como se lhe estivesse pedindo que me ajudasse a encontrar um tesouro ou um baú de jóias.

— A justiça e a honra são bens que se podem comprar e vender com tanta facilidade como jóias ou ouro. Não vejo razão de eu não receber um pagamento por isto.

Ela conteve a respiração.

— Você é muito cínico, senhor.

— Sou muito prático, senhora.

— Estou vendo. Muito bem. Se você prefere fazer negócios como um comerciante comum em lugar de um cavalheiro valente, que seja. — Levantou o queixo com orgulho — Qual é o preço por seus serviços?

— Como não sei ainda os problemas que terei nessa Missão, não posso fixar um preço de antemão. Deve esperar até que termine o trabalho — disse Gabriel.

Depois de ter passado semanas de crescente fascinação por esta surpreendente mulher, ele agora por fim se sentia plenamente satisfeito. Finalmente, tinha conseguido dar xeque em sua rainha. Aquilo era uma vantagem, pensou. Era evidente que ela necessitava de sua ajuda, a julgar pelo que sabia dela até o momento.

— Não vai me dizer o preço? Isso é ridículo. O que acontecerá se quando terminar e me der seu preço eu não puder pagar? — disse.

— Não tema. Poderá pagar o preço. A questão é: você terá ou não honra suficiente para pagar. Posso confiar em sua palavra, senhora, ou seguirá com seus pequenos jogos?

Enfureceu-se.

— Como atreve a questionar minha honra, Wylde?

— Você não duvidou em questionar a minha há alguns minutos, chegou tão longe ao ponto de me chamar de covarde.

— Isso é diferente — disse com desdém.

— Você acha? Há homens que matam por insultos menores que esse. Mas estou preparado para dizer “o passado, no passado fica”.

— Que decente de sua parte — disse ela com voz entrecortada.

— Fechamos o trato, minha Dama do Véu?

— Sim — disse ela imediatamente — Mas primeiro você deve recuperar “O cavalheiro e a feiticeira”. Para ser justa, duvido muito que consiga.

— Agradeço a confiança que você deposita em minha perícia de cavalheiro.

— Agora esse bandido já está a quilômetros de distância com meu manuscrito. — Fez uma pausa — Minha mãe, acabo de me lembrar de algo.

— Do que se trata?

— Lembra a maldição que havia no final do livro?

— O que tem isso? — perguntou Gabriel.

— Bom, se me lembro bem, começava com a sentença que quem quer que levasse o livro estaria a mercê de ladrões e assassinos. Certamente que ficamos a mercê de um ladrão, meu senhor.

— Que felizmente não era um assassino, graças ao meu controle da situação.

— Quer dizer graças a sua inépcia — disse com aborrecimento.

— O que for senhora. A seu devido tempo, você e eu devemos selar nosso pacto. — Gabriel parou o cavalo e estendeu a mão.

A Dama do Véu duvidou e logo, com má vontade, estendeu a sua enluvada.

— De verdade pensa em aceitar a Missão que encomendo?

— Fique tranquila que não vou pensar em outra coisa até que volte a vê-la.

— Obrigado, meu senhor — disse com dureza — Se verdadeiramente fala a sério, não pode imaginar o quanto isso significa para mim.

— Talvez deva demonstrar até onde chega sua gratidão. — Os dedos de Gabriel se fecharam sobre os seus.

Em lugar de estreitar a mão de forma convencional, ele fez uso deste contato para atraí-la para si, antes que Phoebe se desse conta de suas intenções, ele levantou o véu do chapéu, deixando à mostra os traços cheios de assombro de seu rosto ante o pálido brilho da lua.

Phoebe abriu a boca surpreendida e depois ficou muda pelo impacto.

Gabriel esquadrinhou o rosto descoberto de sua doce torturadora com a furiosa curiosidade que o tinha queimado durante semanas. A necessidade de conhecer sua identidade se transformou em uma força tão poderosa como podia ser qualquer desejo físico, que vinha crescendo de forma constante desde que abriu a primeira carta.

Com só um olhar para elegante letra não teve necessidade de ver a misteriosa assinatura, a Dama do Véu, para reconhecer que estava na presença de uma mulher. De uma dama imprudente, impulsiva em todo este assunto. Razão pela qual ele tomou seu tempo, permitindo que fosse ela que desse todos os movimentos iniciais.

Gabriel se orgulhava do férreo controle do qual era perito, ao tê-lo exercido sobre suas próprias paixões nos oito anos passados. Aprendeu a lição pelo caminho mais difícil, mas tinha aprendido bem. Já não era o homem inocente, idealista que fora em sua juventude.

Entretanto, necessitou de todo seu controle para conter-se durante os últimos dois meses. Parecia que a Dama do Véu tentava deliberadamente torná-lo louco e esteve a ponto de obtê-lo, ficou obcecado com o desejo de descobrir sua identidade.

Estudava as tentadoras cartas que recebeu dela com a intensidade com que sempre estudava qualquer prezado manuscrito da Idade Média. A única certeza que vislumbrou sobre a Dama do Véu, era que ela tinha tanto conhecimento da história popular sobre cavalaria como ele.

A ardilosa habilidade para predizer seu gosto sobre livros quase convenceu Gabriel que ele devia tê-la conhecido em algum momento do passado.

Mas, esta noite, quando a olhou à luz da lua, deu-se conta que era uma estranha. Era uma mulher de mistério, tão misteriosa como estranhas e exóticas eram as pérolas negras que se encontravam nas lagunas secretas dos Mares do Sul.

Sua pele era da cor da nata à luz prateada da noite. Tinha os olhos cravados em seu rosto, os lábios tenros e plenos se entreabriam pela surpresa. Wylde descobriu o indício de uma nariz atrevido e aristocrático, maçãs do rosto fino e olhos enormes e cheios de assombro. Desejou naquele momento ver a cor desses olhos.

Era uma mulher impactante, não simplesmente bonita. As linhas fortes do nariz e do queixo a salvavam de pertencer ao tipo de beleza débil e passiva que Gabriel associava com mulheres fracas e submissas. Deu-se conta de que gostava da sensação que causava. Era pequena, ágil e cheia de energia feminina.

Na casa de Nash, conseguiu ver a cor de seu cabelo. Recolhido elegantemente embaixo do chapéu com véu, naquele conjunto escuro parecia ser castanho, tão intenso que parecia quase negro. À luz das velas, revelava profundos reflexos avermelhados. Gabriel experimentou a necessidade imperiosa de ver aquelas mechas soltas sobre os ombros.

Quase não podia acreditar que finalmente havia posto suas mãos sobre a Dama do Véu. Enquanto a observava, todas as fortes emoções que ela despertou em seu ser se cristalizaram em um desejo intenso. Desejava-a.

E quando a raiva começou a substituir o assombro de seu rosto, Gabriel inclinou a cabeça e tomou sua boca.

A princípio não pediu resposta. O beijo foi duro e exigente, em retribuição a todos os problemas que ela causara. Depois, os lábios dela estremeceram, e ele sentiu o tremor do medo que percorria todo seu corpo.

Gabriel duvidou um instante, desconcertado pela reação de pânico ante seu beijo. Não era uma menina. A jovem parecia ter perto de vinte anos e, deliberadamente, o desafiou. Mais, ainda, aparentemente foi um dos amores de Neil Baxter. Baxter era um professor de sedução. Inclusive Honora Ralston, a noiva de Gabriel nos Mares do Sul, sucumbiu à luxúria e mentiras de Baxter.

Mas, fosse como fosse, era óbvio que a misteriosa Dama do Véu não era a conquista certa que ele pensou de início. Ela o convidou a beijá-la, mas parecia completamente desconcertada pela resposta que conseguia.

A curiosidade de Gabriel, que já tomava conta, deu rédea solta aos últimos vestígios de seu autocontrole; de repente, sentiu necessidade de saber se podia ter uma resposta daquela mulher.

Suavizou a pressão de seu beijo, percorrendo com a ponta de sua língua o lábio inferior dela, urgindo-a a que a abrisse. Desejava degustar aquela boca mais do que havia desejado em muito tempo.

Soube imediatamente que o medo feminino se dissolvia sob uma onda de desejo. A Dama do Véu produziu contra sua boca um murmúrio doce e suave de dor. Gabriel absorveu o gemido tremente como se fosse um homem faminto a quem era oferecido alimento. Imediatamente sentiu que desejava mais.

Uma profunda satisfação o acendeu quando sentiu o inegável tremor que a sacudia. Ela estava tremendo. Agora posou a mão que tinha livre no ombro dele, segurando com força a lã grossa do casaco. Ele sentiu que se inclinava para frente, como se desejasse estar mais perto.

O indício de paixão da Dama do Véu o fez estremecer de desejo. Todo seu corpo tremia com a urgente necessidade de possuí-la. Decididamente fazia muito tempo que não estava com uma mulher. Apertou seus braços ao redor do corpo dela.

— Meu senhor? — Ela falou com tom cheio de assombro.

— Faz frio — murmurou Gabriel com voz rouca contra o pescoço dela — Mas prometo que, quando se deitar no chão comigo, logo sentirá calor. Usarei meu casaco para fazer uma cama para nós, minha formosa Dama do Véu.

Como por magia, o feitiço se rompeu. A Dama do Véu estremeceu como se a tivessem queimado, de repente, o empurrou, tentando se soltar de seu abraço.

Gabriel lutou contra seu desejo de possuí-la e ganhou; a contra gosto, a liberou. Com uma exclamação surda, ela se sentou, tomou o véu com os dedos trêmulos e o baixou com rapidez para cobrir o rosto. Gabriel ouvia sua respiração ainda excitada e saber que os nervos e paixões daquela mulher estavam alterados lhe deu alguma satisfação.

— Não tinha nenhum direito a fazer isso, senhor — sussurrou em um tom quase inaudível — Essa não é absolutamente a atitude de um cavalheiro. Como pôde ser tão pouco galante? Pensei que fosse um homem de honra.

Gabriel sorriu.

— Parece-me que você tirou conclusões muito estranhas de meu sentido do cavalheirismo apoiando-se na leitura da Missão. Suponho que demonstram que os críticos tinham razão. Deveria acautelar-se às damas jovens de ler esta classe de contos. Sua natureza emocional se deixa influenciar facilmente.

— Lixo. Deliberadamente está tratando de me provocar. — Agora ela recuperava com rapidez a força. Esta não era uma mulher que pudesse vencer-se com facilidade.

— Você esteve me provocando de forma deliberada nas últimas semanas — recordou — Já disse que estou muito irritado com você, senhora.

— Você não compreende — gritou ela — Tentava atrair seu interesse, não zangá-lo. Pensei que desfrutaria desta aventura. Era o tipo de mistério que o herói de seu livro teria enfrentado.

— O herói da Missão é muito mais jovem que eu — disse Gabriel — Decididamente, ele ainda tem uma cota de insano idealismo e inocência juvenil.

— Bom, eu gosto desse jeito — disse a Dama do Véu — É muito mais agradável que você, não há dúvida disso. Oh, não importa. Tudo está errado. Arrependo-me de ter embarcado em toda esta estúpida aventura. Que desastre que foi. Uma perda completa e total de tempo. Nem tenho “O cavalheiro e a feiticeira” como recompensa por todos meus esforços.

— Na próxima vez que eu a veja — disse Gabriel com suavidade — devolverei seu manuscrito e darei minha resposta em relação à Missão especial.

A Dama do Véu obrigou seu cavalo a se afastar do de Gabriel.

— Você não sabe quem sou. Não poderá me encontrar.

— Eu a encontrarei. — Ele sabia mesmo quando pronunciava aquelas palavras que estava fazendo uma promessa tanto para si mesmo como para ela. A aventura daquela noite não serviu de nada para satisfazer sua curiosidade sobre a Dama do Véu. Em realidade, só alimentou seu apetite. Jamais conhecera uma mulher como ela e, agora, sabia que não se sentiria satisfeito até que a houvesse possuído.

— Foi você quem começou com este assunto, senhora, mas tenha a certeza de que serei eu quem o terminará.

— Estou convencida de que já terminou — disse ela com tom sombrio — Devo tornar a dizer que você se tornou para mim uma grande desilusão, meu senhor.

— Sinto-me, é obvio, assombrado de ouvir isso.

— Não é divertido, maldito seja. — A Dama do Véu lutou para acalmar seu cavalo. O animal reagia nervoso ante as emoções na voz do cavaleiro — Não sei por que comecei com isto.

— Nem eu tampouco — disse Gabriel — Por que não tenta me explicar isso.

— Então eu pensava que você era outro tipo de homem — disse com tom acusador — Acreditei que era um verdadeiro cavalheiro que compreendia coisas como este tipo de missões. Talvez relembre que, quando lhe escrevi a primeira vez, mencionei a possibilidade de um negócio importante. Mas você não mostrou interesse algum para responder às minhas primeiras petições.

— Quase surpreendente, tendo em conta que tudo o que havia em meu poder era um par de misteriosas cartas de uma mulher desconhecida que me perguntava se eu desejava ser seu cavalheiro de armadura brilhante. Quando não dei atenção àquilo, encontrei-me em duelo com a dama por todo romance medieval que desejasse. Toda essa experiência foi irritante ao extremo.

— Eu disse que possuía um mistério que você desejaria resolver.

— Conseguiu seu objetivo, senhora. Mas o mistério ainda não está completamente resolvido, mesmo que tenha visto seu rosto. Não sei sequer seu nome.

— E jamais saberá — assegurou — Termino agora toda esta tolice. Continuarei sozinha com a investigação. Descobri que não preciso nem desejo sua ajuda, depois de tudo. Boa noite, meu senhor. Peço perdão por tê-lo feito sair à meia-noite por causa de uma tarefa tão tola.

A Dama do Véu fez um brusco sinal a seu cavalo. Este deu um salto para frente e saiu a todo galope pelo atalho iluminado pela lua.

Gabriel esperou um momento antes de segui-la a um passo mais tranquilo. Ainda podia ouvir os cascos da égua galopando à distância, mas não fez nenhum esforço para alcançá-la. Não desejava fazê-lo, mas seguiu o rastro até que ela esteve a salvo em sua casa. Teve no momento uma leve noção do lugar para onde se dirigia.

Poucos minutos depois, virou em uma curva e viu que sua intuição era correta. Sentou-se observando das sombras, enquanto a Dama do Véu e seu cavalo entravam no caminho da sólida casa de campo que pertencia a lorde e lady Amesbury.

Pelo número de carruagens que havia no atalho, era certo que os Amesbury estavam dando uma de suas famosas festas de fim de semana. A música e as luzes saíam pelas janelas abertas da grande residência. Lady Amesbury nunca convidava para estes acontecimentos menos de cem pessoas.

Era óbvio que a Dama do Véu escapou sem ser vista do baile para ter sua aventura de meia-noite. E, no meio daquela multidão, seria fácil de fazer, pensou Gabriel. A maioria dos convidados deviam estar bêbados a esta hora. Ninguém notaria sua ausência.

Estava claro que não era simples conhecer a entidade da Dama do Véu, averiguando quem estava presente no baile dessa noite, deu-se conta Gabriel. A lista de convidados incluiria uma quantidade de gente importante do grupo de nobres e a maioria dos moradores do lugar.

Gabriel não estava irritado. Havia outras formas de saber o nome da dama. Mas primeiro ele devia se encarregar de um pequeno assunto, como recuperar “O cavalheiro e a feiticeira”. Virou seu cavalo e a trote voltou pelo atalho.

           

Vinte minutos mais tarde, parou seu cavalo no arvoredo que estava perto da casa de Nash. Não se surpreendeu de ver ainda luz na janela da casa.

Prendeu o animal em um ramo e cruzou o bosque até um pequeno celeiro que havia nos fundo da casa. Quando abriu a porta, um cavalo relinchou brandamente na escuridão. Viu o vago contorno da cabeça do equino que se voltava para ele.

— Tranquilo moço. — Gabriel deixou a porta aberta, de modo que um raio de luz de lua iluminava o interior do celeiro. Caminhou até a cavalariça. O cavalo, soprou levemente e tirou a cabeça pelo portão.

— Teve uma noite movimentada, amigo — Gabriel tirou a luva e acariciou o pescoço e os quartos dianteiros do animal — Ainda está acalorado pela última vez que galopou. Que tal se sente ao ser o potro de um ladrão de estradas? Imagino que muita emoção e trabalho.

Gabriel deu no pescoço do animal uma última palmada e depois saiu do celeiro. Enquanto caminhava para a porta traseira da casa, tirou a pistola do bolso de seu casaco.

Surpreendeu-se levemente ao encontrar a porta destrancada. Era evidente que o bandido tinha pressa quando retornou de seu negócio na estrada. Gabriel abriu a porta e entrou na cozinha.

A senhora Stiles estava esfregando os pratos. Virou-se assustada quando ouviu o ruído da porta. Os olhos se abriram ao reconhecê-lo e depois abriu a boca para deixar escapar um grito

— Psh, psh. Nenhuma palavra, se me fizer o favor, senhora Stiles. — Gabriel não se incomodou em apontar a pistola para ela. Com tranquilidade a manteve a um lado. — Só desejo ter umas palavras com seu amo. Não é necessário que se incomode com o chá. Não vou ficar muito tempo.

Os lábios da senhora Stiles se abriram para dizer:

— Sabia que nada bom sairia deste louco plano. Eu avisei.

— Sim. Bom, agora direi eu mesmo. Veremos se meu conselho produz uma impressão mais convincente.

A senhora ofereceu um olhar suplicante.

— Não fará que prendam o amo, não, senhor? Ele só fez isso pela necessidade de dinheiro e não poder suportar se separar desses livros. Se o enviarem a prisão, não sei o que farei. É difícil conseguir trabalho por estes lados. O senhor Nash nem sempre me paga, mas há suficiente para comer e me permite levar mantimentos a minha família.

— Não se preocupe, senhora Stiles. Não tenho intenção alguma de tirar seu trabalho. Nash ainda está na sala?

— Sim, senhor. — A senhora Stiles retorceu as mãos nas dobras do avental — Está certo que não planeja mandar prendê-lo?

— Certamente que não. Compreendo o dilema do senhor Nash e entendo. Entretanto, não posso permitir que saia com a sua desta vez. A senhora está muito irritada.

A senhora Stiles suspirou.

— Não posso ver a razão pela qual tanta gente, arma tanta barulho por esses velhos manuscritos. Não são outra coisa senão lixo, se pedir minha opinião. Uma perda de tempo ler e colecionar essas coisas sujas.

— O desejo de colecionar livros antigos é difícil de explicar — admitiu Gabriel — Suspeito que é uma espécie de enfermidade.

— É uma desgraça que não haja remédio.

— Talvez. Pelo contrário, não é uma enfermidade muito má.

Convencido que a governanta se manteria fosse do assunto, Gabriel fez um amável gesto com a cabeça e começou a caminhar pelo corredor. A porta da sala estava fechada, mas podia ouvir vozes do interior da sala. A primeira voz que ouviu foi a de um jovem que gritava irado.

— Maldição, fiz como planejamos. Como fizemos da última vez. Como ia saber que ela traria esse sujeito? De todos os modos o que nos importa? Não me deu nenhum trabalho.

— Deveria ter retrocedido quando viu que havia um homem com ela — grunhiu Nash em resposta.

— Já disse, sequer esboçou resistência. — Havia um quê de desprezo — Deu-me a maldita caixa com uma amabilidade que ninguém pode imaginar. Foi a dama que me preocupou. Juro isso, se tivesse uma pistola, teria acabado com ela. Deixe de se preocupar. Temos o manuscrito e o dinheiro que a senhora pagou por ele.

— Não posso evitar me preocupar — replicou Nash — Eu não gostei dos ares desse cavalheiro que a acompanhava. Havia algo nele que me punha nervoso. Olhos estranhos. Verdes como esmeraldas, sim, como esmeraldas, e igualmente frios. Havia um olhar perigoso nesses olhos. Nunca vi um homem com uns olhos como esses.

— Acalme-se, homem. Repito isso, ele não foi problema.

Gabriel abriu a porta sem fazer ruído. Nash estava sentado em sua mesa, com a cabeça entre as mãos. Um jovem robusto de traços pesados andava a grandes pernadas e zangado pelo pequeno espaço que deixavam os corredores forrados por livros. Uma imponente capa de cor negra jazia sobre uma das cadeiras.

— Temo que depois de tudo vou converter-me em um problema — disse Gabriel com delicadeza. Manteve a pistola a um flanco do corpo, visível mas não abertamente ameaçador.

Os dois homens voltaram seus rostos para ele. A expressão do jovem não foi outra que de horror. O senhor Nash, depois de um leve sobressalto, olhou sombriamente resignado seu destino.

O jovem se recuperou com rapidez.

— Diga-me agora o que quer dizer isto de entrar em nossa casa sem permissão? Isto é usurpar a propriedade privada. Farei que o levem perante um magistrado por isso.

Gabriel o olhou sem muito interesse.

— Você deve ser Egan. O filho serviçal que verifica que tudo funcione por aqui.

— Como sabe isso?

— Não importa. — Gabriel olhou Nash — Então você planeja estes jogos em particular?

— Esta foi a segunda vez. — Nash suspirou cansado — Foi muito bem a primeira.

— De modo que decidiu tentar novamente.

— Tive que fazer. — Nash fez um gesto com a mão — Fiquei sem dinheiro, como vê. E há um livreiro que conheço que me oferece um esplêndido exemplar de Guido delle Colonne, Historia troiana. O que podia fazer? Estava desesperado.

— Estou vendo o problema — disse Gabriel — E entendo o bastante. Naturalmente você não desejava se separar de um exemplar de sua própria coleção para financiar uma nova aquisição, se pudesse evitá-lo.

Os olhos de Nash piscaram.

— Sabia quando o vi com a senhora que teria problemas.

— Um pouco — concedeu Gabriel — Mas se servir de consolo, causou mais problemas a mim que a você. Na realidade, cheguei à conclusão que esta senhora não é outra coisa que um problema.

— Uma fedelha, diria eu — murmurou Egan — Preocupou-me a forma como incitava para que você me oferecesse resistência.

— Preocupou-me também. — Gabriel olhou a caixa que estava sobre o escritório de Nash — Felicito-os por seu plano, cavalheiros. Infelizmente, desta vez, escolheram a vítima equivocada. Na realidade, devo insistir que o manuscrito que esta senhora comprou deve ser devolvido. Ela está desolada pela perda. Com toda certeza, vocês podem compreender.

— Suponho que você vai chamar às autoridades? — disse Nash.

— Não vejo a razão de chegar a esse extremo. — Gabriel caminhou para diante e tomou a caixa. Deixou que a pistola se visse bem — Irei sentir-me satisfeito que consiga o que desejo.

— Bom, aí o tem — murmurou Nash — Parta agora mesmo.

— Há outra coisa — murmurou Gabriel.

Nash grunhiu zangado.

— Se deseja o dinheiro da senhora, é muito tarde. Ela me pagou adiantado, e eu já enviei o pedido ao livreiro que lhe falei.

— Pode guardar seu dinheiro — assegurou Gabriel — O que eu desejo é o nome e o endereço da senhora.

— O que? — Egan o olhou fixo — Não a conhece? Mas você estava com ela.

— Temo que ela representa algo parecido a um mistério. Eu só a acompanhava para protegê-la. Não me disse seu nome nem me deu seu endereço.

— Maldito demônio. — Egan se mostrou assombrado.

Nash franziu o cenho.

— Não posso ajudar. Não sei como se chama.

Gabriel o olhou com veemência.

— Ela manteve correspondência com você em relação à compra do manuscrito. E lhe enviou um ordem para pagá-lo. Deve saber de quem se trata.

Nash negou com a cabeça.

— Toda a correspondência se fez através de um advogado. Ele depositou os recursos em meu banco. Jamais negociei diretamente com a senhora até que ela apareceu aqui esta noite.

— Certo — Gabriel sorriu — Então o nome do advogado está bem.

Nash mostrou indiferença. Depois, abriu uma das gavetas do escritório e tirou uma carta.

— Este é sua última mensagem. Dizia que a esperasse aqui esta noite. O nome do advogado é Peak.

Gabriel olhou o endereço de Londres.

— Isto servirá. Agradeço, senhor. E agora devem me perdoar. Tenho muito trabalho a fazer.

— Trabalho? — Egan se mostrou mais alarmado que de início — Que trabalho? Chamará as autoridades depois de tudo?

— Não, tenho uma tarefa muito mais difícil. — Gabriel guardou a carta no bolso enquanto caminhava para a porta — Eu, goste ou não, parece-me que estou envolvido com ela.

 

Cinco dias mais tarde, Gabriel estava sozinho na sala da torre onde estava acostumado escrever. O ombro direito doía, mas isso não era estranho quando se sentava e escrevia durante períodos muito longos. As velhas feridas às vezes também reagiam ao clima úmido e a tensão dos longos períodos que passava escrevendo.

O importante era que as palavras fluíam livres aquela manhã. Seu segundo romance, que tinha como título “Uma aventura imprudente”, estava tomando forma. A pena se movia pelo papel com facilidade enquanto mandava seu novo herói para combater o malvado vilão. Em jogo, estava uma magnífica herança e o amor de uma formosa donzela.

Nas histórias que Gabriel escrevia, a donzela sempre ia ao nobre que era muito inocente para lutar por ela.

Gabriel era consciente que na vida real as coisas não eram dessa maneira, o homem que acreditava nas promessas de uma bela donzela era um idiota.

Ele aprendeu há muito tempo que o dinheiro, um título e a posição social eram valores muito mais importantes que um coração nobre e uma natureza honrada, para um homem que desejasse interessar uma dama formosa ou até mesmo não formosa. A formosa Meredith Layton, filha do brilhante e poderoso conde de Clarington, lhe ensinou aquilo. Ele jamais se esqueceu da lição.

O conde castigou Gabriel com crueldade pelo crime de tentar salvar Meredith de um casamento arranjado com o marquês de Trowbridge. Poucos dias depois do frustrado plano de resgate, Clarington pôs mãos à obra para destruir as finanças de Gabriel.

Os homens que Gabriel convencera que o apoiassem em uma pequena empresa naval, embora potencialmente produtiva, negaram os acordos depois que Clarington falasse com eles. Eles exigiram que Gabriel devolvesse o dinheiro imediatamente. Ao mesmo tempo, o empréstimo que Gabriel obteve para financiar a compra de algumas propriedades em Londres venceu muito rápido, e Clarington aconselhou o investidor a se retirar do negócio.

O efeito combinado foi desastroso. Gabriel se viu forçado a vender quase tudo que possuía, incluindo seus amado livros, a fim de poder pagar as dívidas. No final, ficou quase sem dinheiro para comprar uma passagem a bordo de um navio que tinha destino aos Mares do Sul.

Ao ver que não existia futuro para ele na Inglaterra, Gabriel zarpou rumo às ilhas, onde um homem podia ter novos sonhos.

Agora, saboreava o sombrio conhecimento de passar os últimos oito anos livre de valores tão desnecessários como o nobre coração e a natureza fidalga. Prometeu a si mesmo não voltar jamais estar a mercê de suas próprias emoções, suou sangue para formar uma fortuna no comércio de pérolas dos Mares do Sul, e obteve um extraordinário êxito. A empresa quase acabou com sua vida em mais de uma ocasião, mas pôde sobreviver e florescer.

Enquanto estava nas ilhas, se encontrou com norte-americanos de natureza agressiva e ambiciosa, cujos navios agora comercializavam em todos os rincões do planeta. Com a ajuda daqueles contatos, construiu seu próprio império naval. Suas embarcações agora faziam o serviço regular das rotas comerciais entre a Inglaterra e América.

Durante o tempo que esteve nos Mares do Sul, as lições de realidade continuaram para ele; aprendeu que a ilusão era a regra, não a exceção, no mundo real. As pessoas poucas vezes eram o que parecia ser, e poucos homens honravam o código de conduta que tinha governado os cavalheiros de ficção da corte do rei Artur.

O mundo real, descobriu Gabriel, era um lugar onde os assassinos se disfarçavam de cavalheiros e as damas traíam aqueles homens aos quais elas tinham jurado amar.

A sobrevivência entre tais perigos requeria ter gelo nas veias e expectativas realistas da natureza humana, só um idiota podia confiar nos outros. E um homem inteligente não cometia o engano de depositar nem sua confiança nem sua honra, nem seu coração nas mãos de uma mulher. O homem que possuísse intenções de sobreviver no mundo real devia ser cauteloso.

Entretanto, isso não significava que não pudesse desfrutar dos prazeres que o mundo oferecia. Entretanto ele mantivera à margem da questão tanto seu coração quanto suas emoções, raciocinava Gabriel, e agora poderia permitir uma inofensiva frivolidade como uma mulher tão intrigante como a Dama do Véu.

Podia inclusive se permitir ter uma esposa.

Na realidade, uma esposa era uma necessidade.

Gabriel franziu o cenho ante esta idéia. Era certo que, qualquer dia destes, ele deveria se casar, não só porque era seu dever para com o título, mas, sim, porque se cansou daquela solidão imposta em que vivia. Precisava de uma mulher que lhe desse herdeiros e calor na cama. Desejava alguém com quem falar pelas noites.

Mas não via razão pela qual não pudesse ter uma esposa com a mesma cabeça fria e com a mesma distância indiferente que ele utilizaria com uma amante.

A visão da Dama do Véu como amante e esposa se incorporou ao cérebro de Gabriel e se apoderou de todos seus pensamentos. Deixou a pena sobre o papel e olhou sem ver pela janela da torre.

A Dama do Véu sua esposa? A boca de Gabriel se torceu com ironia inclusive quando sentiu o estremecimento na virilha. Era uma ideia amalucada; não podia nem mesmo considerar a ideia de transformar uma das amantes de Baxter na condessa de Wylde. Esperava-se que um homem da posição de Gabriel se casasse com uma mulher de reputação irrepreensível, uma virgem.

Mas as virgens, sabia Gabriel, não eram mais valiosas na cama que as damas com experiência. Desta forma, a virgindade não seria o critério principal que ele iria utilizar quando se aproximasse o momento de escolher uma esposa. Havia outros valores mais importantes a procurar em uma mulher.

Tampouco a Dama do Véu satisfazia aqueles critérios.

Gabriel tinha decidido há muito tempo que, quando finalmente escolhesse uma esposa, cuidaria de selecionar uma mulher obediente, uma que respeitasse a autoridade de seu marido.

Uma dama criada para honrar o direito do marido de ser o amo de sua própria casa seria mais maleável que uma petulante independente e imprudente como a Dama do Véu. Uma mulher educada com as noções adequadas dos deveres femininos seria mais fácil de proteger dos riscos e tentações do mundo.

Inclusive se chegasse a encontrar aquela pérola entre as mulheres, uma noiva maleável e obediente, Gabriel sabia que sempre deveria ter cautela. Poderia gostar dela, mas certamente jamais cometeria o engano de confiar nela totalmente.

Quando se tratava de mulheres, chegou à conclusão que era melhor acautelar que curar, um grama de prevenção valia mais que um quilo de arrependimento.

Entretanto, a questão de escolher uma esposa era ainda tema para o futuro. Gabriel voltou a pensar na Dama do Véu, averiguar onde poderia localizá-la era sua prioridade.

Infelizmente para encontrá-la deveria se apresentar em sociedade. Gabriel amaldiçoou essa imagem. Não se importava com o mundo da sociedade elegante, não se incomodou com ela desde que voltara à Inglaterra a vários meses.

Mas a Dama do Véu obviamente se movia nos melhores círculos dos ricaços da sociedade. Se a ideia era ir à caça dela, ele também deveria entrar no mundo da alta sociedade.

Gabriel se permitiu um leve sorriso enquanto visualizava a expressão no rosto da Dama do Véu quando se desse conta de que ele a seguiu até o coração da sociedade elegante. A sorte estava a ponto de ser lançada.

Ficou de pé e se estirou para dissipar a rigidez de seus músculos, distraidamente esfregou o ombro com a mão esquerda, trabalhava desde o amanhecer, e, agora, eram quase onze. Precisava dar uma longa caminhada pelos escarpados.

Seu olhar foi até a caixa do manuscrito que recuperou das mãos de Nash. A visão dele sobre uma mesa que estava perto, entre uma pilha de papéis e livros, o fez sobressaltar de emoção. Logo, teria o prazer de devolver “O cavalheiro e a feiticeira” a sua proprietária.

E depois lhe diria que aceitaria levar adiante a investigação; não tinha interesse algum de ajudá-la a descobrir o assassino de Baxter, mas definitivamente desejava possuir esta senhora. Com liberdade, admitiu para si mesmo que aquela conduta imprudente e ousada o intrigava e fascinava de uma vez, inclusive mesmo que condenasse ambas. Talvez fosse seu destino de amante de antigas lendas responder a uma mulher cuja conduta ousada falava de uma coragem que era tão estranha como perigosa nas mulheres. Um trovador poderia criar uma lenda muito interessante apoiada na Dama do Véu.

Qualquer que fosse a razão de seu impulsivo desejo por ela, estava claro que a única forma de ter esta mulher era fingir interesse por seu amalucado plano; estava destinado a ser uma tarefa interessante, para não dizer algo pior.

Depois de tudo, ele já sabia quem possuía o manuscrito da “Dama da torre” que ela procurava. O truque era evitar que o descobrisse enquanto ele desfrutava com ela na cama.

Gabriel parou junto a uma fila de prateleiras cheias de livros que continham alguns dos exemplares mais interessantes de sua coleção. Abriu as portas de cristais, procurou no interior e pegou um volume encadernado em um rico couro acolchoado.

Levou o livro surpreendentemente pesado até a mesa e o colocou ali com cuidado e abriu a diminuta fechadura que fechava as grossas tampas que guardavam as douradas páginas de pergaminho. Abriu o livro com cuidado e foi até a última página.

Por um momento, ficou olhando pensativo o epílogo, que estava escrito em francês antigo:

“Aqui finaliza o conto “A dama da torre”. Eu, Guillermo de Anjou, tenho escrito só a verdade. Que caia uma maldição sobre aquele que roube este livro. Que seja devorado pelas ondas do oceano. Que seja consumido pelas chamas do fogo. Que viva a noite eterna do inferno.”

Gabriel fechou “A dama da torre” com supremo cuidado e o guardou na biblioteca. O jogo que tentava com sua Dama do Véu não carecia de riscos, perguntava-se como ela poderia ter pensado alguma vez estar apaixonada por Neil Baxter.

Ainda devia se importar bastante com aquele bastardo, refletiu Gabriel com raiva, isso era desafortunado, Baxter não era digno do amor de uma mulher com tal espírito.

Mas Baxter tinha sua fama com as mulheres, e Gabriel sofreu na própria carne.

Decidiu que seu primeiro objetivo seria fazer com que a Dama do Véu se esquecesse de seu amante Baxter. Gabriel olhou para o desafio a frente.

Saiu da pequena sala da torre e desceu a estreita escada em caracol. Os saltos de suas botas soaram ao contato com a velha pedra.

Teve consciência das frias salas vazias que estavam no terceiro piso enquanto caminhava pelos corredores. Era quase impossível manter este lugar chamado Névoa do Diabo, com o aquecimento adequado. Quando construíram o castelo, a comodidade de seus habitantes não fora prioridade, não cabia dúvida que Gabriel tinha uma monstruosidade nas mãos e que para mobiliá-la levaria anos.

Consolava-o, pelo menos, o fato de saber que havia quantidade suficiente de salas para seus livros. Também existia espaço para albergar a magnífica biblioteca de seu pai, que Gabriel estava em processo de voltar a formar. E o castelo por certo proporcionava um cenário adequado para a crescente coleção de armaduras medievais.

Entretanto, só o diabo sabia a razão que ele sucumbira ao capricho que o fez comprar esta decadente pilha de pedras, aqui na costa de Sussex. O lugar era enorme, e ele não possuía ninguém que o acompanhasse, salvo os integrantes da servidão.

Estar sozinho não era novidade na vida de Gabriel. Passou a maior parte de sua existência assim. Seu pai foi um brilhante professor universitário que, depois da morte da mãe de Gabriel, dedicou-se exclusivamente aos tesouros de sua biblioteca, sendo suficientemente amável a sua maneira, mas deixou poucas dúvidas de que preferia seus livros à tarefa de criar um filho órfão de mãe.

Deixado à sua própria sorte e aos cuidados dos serventes, Gabriel aprendeu desde cedo a criar seu próprio mundo particular, fazia isso desde que tinha cinco anos, enchendo-o com personagens das lendas do rei Artur. Quando literalmente devorou todos os contos que pôde encontrar, os quais contavam as glórias dos antigos cavalheiros, começou a escrever os próprios.

Não tinha guardado nenhum de seus escritos juvenis. Quando abandonou a Inglaterra, aqueles desapareceram junto com o resto de suas posses terrestres. Mas há dois anos, quando decidiu empreender a séria tarefa de escrever um romance de verdade, acordou daqueles longínquos esforços para ser escritor.

Os cavalheiros da Távola Redonda eram uma boa companhia para um jovem. Por desgraça, não puderam lhe ensinar as lições duras e realistas da vida, e se viu forçado a aprender por si só.

Gabriel adquiriu aquele castelo, Névoa do Diabo, pouco depois de retornar a Inglaterra. Algo na magnificência das torres, minaretes e muralhas o seduzira. Quando olhou pelas estreitas janelas, quase pôde ver os cavalheiros em plena batalha, embelezados com suas armaduras, montados em enormes cavalos de guerra que transpassavam os sólidos portões.

O castelo não era a obra arquitetônica de um homem rico, como tantas outras grandiosas casas; construído no século XIII, uma vez fora castelo de trabalho, cujo senhor aparentemente tinha um gosto especial por passadiços e portas secretas que fossem acionadas por mecanismos escondidos. Depois de tomar posse, Gabriel passou semanas explorando as catacumbas que havia debaixo do castelo, o projeto deu-lhe muita inspiração para seu último livro.

Gabriel desceu outro lance de escadas de pedras e caminhou a grandes passos pelo vasto corredor. Rollins, o mordomo, apareceu em uma das portas laterais.

— Meu senhor, chegou o correio. — A bandeja que Rollins lhe ofereceu com séria formalidade continha só uma carta. Névoa do Diabo não recebia grande quantidade de correspondência. A maioria das cartas que chegaram ultimamente eram da Dama do Véu.

Gabriel fez uma pausa debaixo de um escudo de batalha do século XIII, particularmente extraordinário, que pendurava do teto do corredor.

— Obrigado, Rollins. Lê-la-ei quando for passear.

— Muito bem, senhor. — Rollins se voltou e desapareceu entre as duas filas de armaduras perfeitamente abrilhantadas. No extremo do corredor, abriu umas enormes portas. O lema esculpido na pedra que aparecia sobre as portas não estava aí quando Gabriel comprou o castelo. Solicitou que o esculpissem pouco depois de se mudar. Agora se sentia satisfeito por isso. Era algo sucinto e que ia direto ao ponto.

AUDEO. Que em latim quer dizer “Atrevo-me.”

Não era o lema tradicional dos condes de Wylde. Na realidade, não existia um lema tradicional dos Wylde. Gabriel o inventou para ele e seus herdeiros, agora que o título chegara a seu lado da família, tinha toda a intenção de mantê-lo ali.

Ocorreu que, dissesse o que dissesse sobre a Dama do Véu, o lema de Wylde lhe assentava muito bem.

Gabriel examinou a carta que recebeu enquanto atravessava a entrada. Um brilho de emoção o percorreu, era de seu advogado de Londres, com sorte teria a informação que estava aguardando.

O mundo dos advogados era pequeno e o dinheiro falava forte sobre ele, quase como o fazia em todas as partes do mundo. Gabriel estava certo que seu homem conheceria Peak, o advogado que dirigia os assuntos da Dama do Véu. Não poderia haver muitas mulheres em Londres que colecionavam livros antigos.

Abriu a carta enquanto descia os degraus de pedra e saía ao frio sol do mês de abril. O nome que saltou literalmente da folha escrita com toda perfeição o fez parar de repente. Ficou olhando-o enquanto a ira se apoderava dele.

Lady Phoebe Layton, filha caçula do conde de Clarington.

— Maldição das maldições. — Gabriel não podia acreditar no que liam seus olhos, a raiva o embargava. Sua misteriosa, ideal, fascinante Dama do Véu não era outra que a jovem menor de Clarington.

Gabriel apertou o papel em sua mão.

A filha menor. Não a que tinha lhe rogado que a salvasse de um casamento arranjado há oito anos. Não a que quase o levou à morte em um duelo com o irmão. A outra. A que não conheceu, já que naquele momento estava ainda no colégio.

Ela não devia ter mais que dezesseis anos quando Clarington destruiu a fortuna de Gabriel e o obrigou a abandonar a Inglaterra. Seria quase uma menina quando Gabriel se viu obrigado a vender a biblioteca de seu pai, o único legado que tinha dele, para sobreviver.

Por volta de oito anos. A Dama do Véu não teria mais que vinte e quatro, quando muito. Sim, tudo tinha sentido.

— Maldito demônio — resmungou Gabriel. Cruzou a pernadas o grande pátio e logo saiu pelos portões de pedra. Outra jovem Clarington. Como se já não tivesse o suficiente das mulheres Clarington para durar toda uma vida.

Era uma grande ousadia de sua parte jogar dessa maneira com ele, pensou. Supunha essa mulher que podia seguir os passos de sua irmã? Acreditava ela que poderia facilmente divertir-se com ele?

— Maldição.

Gabriel passeou pelos escarpados e ficou olhando o mar que se revolvia a seus pés. O desejo que se acendeu pela Dama do Véu estava mais vivo que nunca. Iria possuí-la, sim, prometeu. Sim, definitivamente seria sua mulher. Mas em seus próprios termos.

Como se atrevia ela a provar seus vícios com ele depois do que sua família fez? Perguntou-se. Era, na realidade, imprudente ou arrogante? A frustração e a fúria que havia sentido naqueles oito anos rugia e voltava para a vida, como se tudo acontecesse ontem.

Mas não acontecera no dia anterior, pensou com tristeza. Ele não era o mesmo tolo idealista que era até então. O pai de lady Phoebe não poderia protegê-la desta vez da forma que protegera a sua outra filha há oito anos.

A Dama do Véu era mais vulnerável do que ela imaginava. E também era sua família.

A riqueza que Gabriel trouxe consigo dos Mares do Sul era mais que um bom sócio para a fortuna dos Clarington. E esta riqueza estava agora coroada por um título de igual importância que o dos Clarington. Com esse tipo de fortuna e posição social tinha o poder. O grande poder.

É obvio, recordou de repente Gabriel, que a Dama do Véu não tinha nem ideia de como ele era rico agora. Ninguém o conhecia, nem sabia nada sobre sua vida. Era um ser anônimo na sociedade elegante, tal como era para os leitores de seu livro.

Lady Phoebe Layton desejava sua ajuda na investigação. A mão de Gabriel se fechou em um punho. Muito bem, ela a teria, e o preço que teria que pagar por seus serviços seria de verdade muito alto.

Usaria-a para castigar Clarington por tudo o que fez a ele há oito anos.

           

A marquesa de Trowbridge colocou um delicado bordado na prega de um pequeno vestido de musselina.

— Não é necessário que seja tão fria com lorde Kilbourne, Phoebe. Estou certa que ele logo a pedirá em casamento, talvez agora possa animá-lo sem temer que alguém pense que é uma atrevida.

Phoebe se serviu outra taça de chá e fez uma careta de desgosto, sua irmã não notou. Meredith estava muito ocupada concentrada na flor que estava bordando no diminuto vestido de sua filha.

Não era a primeira vez que ocorria a Phoebe que qualquer pessoa que olhasse Meredith veria um paradigma de esposa e mãe. Mas pouca gente, fora do círculo íntimo da família, tinha consciência do surpreendente talento para os assuntos financeiros e comerciais que ela trazia debaixo daquela superfície assustadoramente perfeita, além de ser uma devota esposa e mãe, era assessora de seu marido em muitos dos assuntos financeiros da família.

A inclinação para tais assuntos era moeda comum na família de Phoebe. Seu pai, o conde, era matemático e amava aplicar seus princípios, tanto nos investimentos como em seus experimentos científicos; seu irmão, Anthony, visconde do Oaksley, herdou a capacidade de seu pai, agora estava à frente do império dos Clarington, liberando o conde para que este pudesse concentrar-se em seus experimentos.

A mãe de Phoebe, Luta, lady Clarington, era também perita em números, mas, à diferença dos outros, preferia aplicar seu talento nas mesas de jogo de seus amigos e a maior parte do tempo ganhava. Em certas ocasiões, entretanto, não era assim. Em qualquer dos casos, tomava o cuidado de não informar a seu marido a respeito de suas atividades. Clarington se sentiria surpreso ao inteirar-se da inclinação viciosa que sua mulher tinha pelos jogos de azar.

Phoebe, a caçula da família, era a única que não mostrava capacidade no campo da matemática ou investimentos; desde muito cedo foi evidente a todos, inclusive a ela mesma, que não herdara os talentos da família.

Outros a amavam com paixão, mas não sabiam muito bem o que fazer com ela. Era diferente, e aquela diferença com frequência surpreendia a todos, salvo sua mãe, que em geral parecia não preocupar-se com o comportamento de Phoebe.

Phoebe era o desafio da família. Outros chegavam a conclusões apoiadas na lógica, Phoebe utilizava a intuição. Lia livros e romances quando os outros estudavam os resumos da bolsa de valores no The Gentleman’s Magazine; era imprudente onde os outros eram cautelosos; era entusiasta onde os outros eram desinteressados ou não davam sua aprovação. E era, é obvio, a caçula da família.

O resultado era uma atitude super protetora para a jovem, de parte de toda a família, salvo sua mãe. Todos passavam grande parte do tempo preocupando-se com sua conduta impulsiva. A atitude se intensificou depois do acidente que sofreu, com o resultado de uma ferida séria em uma de suas pernas.

Este acidente ocorreu pelo intento imprudente de Phoebe de salvar um cachorrinho de ser esmagado por um veículo, mas foi Phoebe e não o cachorrinho, que terminou debaixo das rodas da carruagem.

Os médicos informaram a Clarington da seriedade do acidente, pelo qual sua filha caçula não voltaria a caminhar. A família ficou devastada pela dor, todos sofreram e se preocuparam ao extremo, todos tentaram manter confinada a pequena Phoebe, de oito anos, no quarto de um doente.

Phoebe, sendo Phoebe, resistiu a aqueles esforços de convertê-la em uma inválida, desafiou os médicos, acostumando-se em segredo a voltar a caminhar. Até esse dia, ainda recordava a dor dos primeiros passos cambaleantes, só sua determinação de não ficar prostrada em uma cama toda sua vida fizeram possível esse esforço. Sua família, infelizmente, nunca se recuperou da impressão daquele acidente. Para eles, foi só um incidente, entre outros mais memoráveis, na série de feitos que provavam que era necessário proteger Phoebe de seu comportamento imprudente.

— Não desejo que Kilbourne me proponha casamento — disse Phoebe. Levantou os pés calçados com pantufas e os apoiou em uma pequena banqueta, enquanto distraída massageava a perna esquerda, que doía um pouco pelo passeio a cavalo que deu aquela manhã.

— Tolices. É obvio que deseja que proponha casamento. — Meredith deu outro ponto. Era dois anos mais velha que Phoebe e as duas eram opostas tanto na aparência como em temperamento, tal como o dia e a noite. Loira, de olhos azuis e tão frágil como uma peça de porcelana, Meredith foi uma vez uma criatura muito tímida e retraída que estremecia até mesmo perante a ideia do abraço íntimo que encontraria no leito matrimonial.

Anos antes, quando estava a ponto de debutar na sociedade, Meredith contou com muita seriedade a Phoebe que desejava fazer os votos sagrados, a fim de escapar às demandas de um marido. Phoebe pensava que ingressar em uma ordem religiosa poderia ser bastante interessante, sempre que vivesse em uma abadia antiga e habitada por espíritos. A concepção de ter um encontro com fantasmas era certamente atraente.

Também foi muito bom que Meredith não seguisse suas inclinações religiosas, pensou Phoebe. O casamento foi bom para ela. Hoje Meredith era uma mulher feliz e contente, que revelava adoração por seu marido, o marquês de Trowbridge , e o amor de seus três preciosos e sadios filhos.

— Falo sério, Meredith. Não desejo me casar com Kilbourne.

Meredith levantou a vista, com os olhos cristalinos de cor azul cheias de surpresa.

— Meu Deus! Que raios me diz? É quarto descendente em linha direta. E a fortuna de Kilbourne é pelo menos tão grande como a de Trowbridge, e é certamente igual a de papai. Mamãe está muito entusiasmada com as possibilidades.

— Sei. — Phoebe sorveu o chá e olhou triste a magnífica tapeçaria com motivo de caça que pendurava na parede. — Seria um triunfo para ela se Kilbourne fizesse a oferta, teria outro genro rico que lhe servisse de credor privado quando a sorte não a acompanhasse nas mesas de jogo.

— Bom, ambas sabemos que não pode pedir ao papai que cubra suas dívidas de honra. Ele jamais aprovaria esses jogos, e você e eu não podemos continuar ajudando-a. Nossas mensalidades não são o suficientemente para cobrir muitas de suas perdas. — Meredith suspirou — Sinceramente desejaria que não estivesse tão apaixonada pelas cartas.

— Em geral.

— Sim, mas não sempre.

— Inclusive os jogadores mais experientes têm um pouco de má sorte de vez em quando. — Phoebe mostrava mais compressão com o entusiasmo de sua mãe pelo jogo que Meredith. Por sua própria experiência no mundo dos livros estranhos, Phoebe compreendia o que deveria representar na vida o ser amaldiçoado por caras paixões.

Meredith mordeu o lábio.

— Temo que Trowbridge se mostrou um pouco impaciente a última vez que pedi que a ajudasse a pagar as dívidas.

Phoebe sorriu com tristeza.

— Portanto, chegamos à conclusão do desejo fervente de mamãe de me casar com Kilbourne. Pobre homem. Não tem a mínima noção do que está a ponto de levar. Talvez devesse lhe falar da debilidade de mamãe pelo jogo antes que faça sua oferta de casamento.

— Nem se atreva.

Phoebe suspirou.

— Esperava que mamãe e papai tivessem deixado de lado essa ideia de me casar. Já estou um pouco velha.

— Tolices. Vinte e quatro não é tão velha assim.

— Seja honesta, Meredith. Estou perto de completar vinte e cinco, e as duas sabemos que a única razão pela que ainda atraio alguma oferta ocasional é que a minha idade se deve inteiramente ao tamanho de minha herança.

— Bom, não pode acusar lorde Kilbourne de estar interessado em você somente devido a sua fortuna. Ele possui propriedades que vão desde Hampshire até Cornwall. Não precisa casar-se para ter dinheiro.

— Ah, sim. Então, por que está interessado em mim quando pode fazer sua colheita entre as novas belezas disponíveis para esta temporada? — perguntou Phoebe.

Imaginou Kilbourne, estudando a imagem com atenção, em um esforço para decidir a razão pela qual ela não se sentia particularmente atraída por ele.

Kilbourne era alto e distinto, de frios olhos cinzas e cabelo castanho claro. Devia admitir que era atraente, de uma forma distante e digna, dado seu status social entre a classe alta, ele representava um partido que qualquer mãe ambiciosa saborearia com deleite. Era também um autêntico chato.

— Talvez tenha desenvolvido uma espécie de ternura por você, Phoebe.

— Não posso ver a razão disso. Acho que não temos nada em comum.

— É obvio que têm. — Meredith escolheu outros fios e começou a bordar uma folha da flor que já estava fazendo — ambos pertencem a boas famílias, se movem nos melhores círculos e dispõem de fortunas respeitáveis. O que é mais, ele tem também uma idade adequada à tua.

Phoebe arqueou uma sobrancelha.

— Tem quarenta e um.

— Como já disse, uma idade adequada. Você necessita de alguém mais velho e que seja mais estável emocionalmente, Phoebe. Alguém que possa lhe oferecer um guia com maturidade. Sabe muito bem que houve muitos momentos nos quais todos estivemos desesperados com sua natureza impulsiva. Um destes dias, se meterá em maiores problemas que possa dirigir.

— Até agora sobrevivi muito bem.

Meredith elevou um olhar cheia de súplica para o céu.

— Pela sorte e a graça do Todo poderoso.

— Não é tão mau como pinta, Meredith. De qualquer forma, acredito que estou maturando muito bem sozinha. Só pensa, dentro de poucos anos, eu também terei quarenta e um. Se puder me manter o suficiente, serei da idade de Kilbourne agora e não necessitarei de sua ajuda.

Meredith não prestou atenção ao pequeno intento de brincadeira que fazia Phoebe.

— O casamento seria bom para você, Phoebe. Um destes dias, deve assentar cabeça. Juro que não posso compreender como pode se contentar com a vida que leva. Sempre andando daqui para lá, procurando esses tolos livros velhos.

— Diga-me com sinceridade, Meredith, não acha Kilbourne um pouco frio? Sempre que falo com ele e o olho diretamente nos olhos, tenho a impressão que não existe substância atrás deles. Nenhuma emoção cálida, se compreende o que quero dizer. Não acredito que depois de tudo sinta algo muito forte por mim.

— Que coisas mais estranhas diz! — Meredith franziu o cenho com delicadeza — Não acho que seja frio. O que acontece é que se trata de um cavalheiro muito refinado. Demonstra que encontra muito agradável essa qualidade. Seu problema é que tem lido muito esses livros que coleciona.

Phoebe sorriu com tristeza.

— Acredita que é assim?

— Sim. Todas essas tolices sobre fidalgos e cavalheiros andantes que enfrentam dragões para ganhar o amor de suas damas não pode ser nada bom para seu cérebro.

— Talvez não seja. Mas é divertido.

— Não é nada divertido — declarou Meredith, — seu gosto pelas velhas lendas não só ativou sua imaginação, mas também lhe deu uma visão não realista do casamento.

— Não acredito que seja falta de realismo desejar um casamento que se apóie no amor verdadeiro — disse Phoebe, tranqüila.

— Bom, é. O amor vem depois do casamento. Se não, olhe para mim e para Trowbridge.

— Sim, já sei — assentiu Phoebe — Mas eu não desejo correr esse risco. Desejo estar certa de que me caso por amor e que posso retribuir esse amor, antes de me comprometer a algo tão terrivelmente permanente como é um casamento.

Meredith lhe deu um olhar carregado de exasperação.

— Não deseja correr o risco? Isso é bastante cômico vindo de você. Não conheço outra mulher que corra mais riscos que você.

— Eu recuso um casamento que me oferece um risco — disse Phoebe.

— Casar-se com Kilbourne não é um risco.

— Meredith?

— Sim? — Meredith deu outro ponto com precisão deliciosa.

— Alguma vez pensa nessa noite em que fugiu com Gabriel Banner?

Meredith se sobressaltou.

— Oh Deus. Furei um dedo. Pode me dar seu lenço, por favor? Rápido. Não quero que o vestido se manche de sangue.

Phoebe deixou sua taça de chá e ficou de pé e entregou o lenço de linho a sua irmã.

— Está bem?

— Sim, sim, estou bem. O que dizia? — Meredith deixou a um lado o bordado e envolveu o dedo com o lenço.

— Perguntei se alguma vez pensa em Gabriel Banner. Ele agora é conde de Wylde.

— Fiquei sabendo que voltou para a Inglaterra. — Meredith tomou sua taça e sorveu um pouco de chá — E para responder sua pergunta, tento sempre não pensar jamais nos desoladores momentos daquela noite. Que idiota fui!

— Desejei que Gabriel resgatasse você do casamento com Trowbridge. — Phoebe voltou a se sentar e colocou seus pés no tamborete. As saias de seu vestido de musselina verde lima brilhante se levantaram por cima dos tornozelos — Recordo tudo muito bem.

— Deveria — disse com tom cortante Meredith — Não só animou a tal tolice, mas também me ajudou a atar os lençóis que utilizei para descer pela janela de meu quarto.

— Foi tão emocionante. Quando Gabriel chegou a galope no meio da noite, pensei que era a coisa mais romântica que já tinha visto.

— Foi um desastre — murmurou Meredith — Graças a Deus que Anthony descobriu o que tinha acontecido e veio atrás de nós imediatamente. Juro, jamais me senti tão feliz de ver nosso querido irmão em toda minha vida, como naquela noite, embora estivesse furioso. Então, quando chegamos aos subúrbios de Londres eu, é obvio, recuperei a razão, mas Gabriel ainda tentava me salvar de Trowbridge .

— Mesmo quando você já tinha mudado de ideia?

Meredith negou com a cabeça.

— Deveria ter conhecido Gabriel para compreender como era difícil fazer mudar o curso de ação que já escolheu. Quando lhe pedi que desse a volta com a carruagem e me levasse para casa, ele pensou que eu me rendia por temor. Suponho que não posso culpá-lo por essa conclusão. Era uma menina tímida naqueles dias. Ainda não posso acreditar na realidade no que consenti fazer, escapar com ele em primeiro lugar.

— Você estava muito assustada com a idéia de se casar com Trowbridge.

Meredith sorriu ante as lembranças.

— Tola de mim. Trowbridge é o melhor homem que uma mulher poderia esperar ter. O problema era que eu na realidade não o conhecia nesse aspecto. Céus, só tinha dançado com ele em uma ou duas ocasiões e estava assustada.

— De modo que pediu a Gabriel que te salvasse?

— Sim. — Meredith franziu o nariz — Infelizmente sua noção de me salvar era algo diferente da que eu tinha. Gabriel me contou depois, quando estávamos a caminho, que tinha intenções de se casar comigo em Gretna Green. Naturalmente me senti horrorizada. Não me dei conta de que esse era seu plano.

— O que pensou que desejava fazer quando ele aceitou ajudar?

— Temo que não pensei muito nisso. Quase só pensava em escapar, e Gabriel era o tipo de homem a quem por instinto se pede ajuda em uma aventura. Deu-me a impressão de que podia cuidar de tais assuntos.

— Já vejo. — Gabriel havia aparentemente trocado com os anos, pensou com tristeza Phoebe. Ele certamente não dirigiu bem esse assunto com o ladrão de Sussex. Entretanto, devia admitir que sua aventura com ele tinha resultado da mais emocionante.

— Logo me dei conta que, ao aceitar fugir com Gabriel, saltava da frigideira para o fogo — concluiu Meredith.

— Não se arrepende de ter retornado para casa aquela noite? — perguntou Phoebe com cautela.

Meredith olhou a elegante sala mobiliada com profunda satisfação.

— Agradeço a Deus cada manhã pela sorte que tive ao escapar das mãos de Wylde. Não estou totalmente certa de que papai e Anthony tivessem razão quando disseram que ele só estava atrás de minha fortuna, mas estou convencida que para mim seria um marido desastroso.

— Por quê? — Perguntou Phoebe, incapaz de fechar a boca.

Meredith a olhou com velada surpresa.

— Não estou muito certa, para ser honesta. Tudo o que sei é que me atemorizava. Não demonstrava ter ideia alguma da conduta de um cavalheiro. Aterrorizou-me durante aquela horrorosa viagem para o norte. Aos poucos quilômetros, desgostou-me por completo. Eu estava desesperada em lágrimas.

— Já vejo. — Phoebe recordou o breve momento que ela tinha passado em braços de Gabriel. Embora naquele momento estava zangada, não havia sentido o mínimo desgosto pela ameaça que representava seu abraço.

Em realidade, considerando toda a situação, o beijo de Gabriel devia considerá-lo como o momento de maior emoção de toda sua vida. Phoebe permaneceu sem dormir até o amanhecer, pensando naquele fogoso abraço sensual. As lembranças ainda a perseguiam.

— Acha que agora que voltou para a Inglaterra e possui um título começará a frequentar os ambientes sociais? — perguntou com suavidade Phoebe.

— Rogo que não o faça. — Meredith se estremeceu — Durante os últimos oito anos temi sua volta. Só a ideia é suficiente para me acalorar.

— Por quê? Agora está a salvo com Trowbridge.

Meredith a olhou nos olhos.

— Trowbridge não sabe nada do que quase aconteceu há oito anos e deve continuar tudo assim.

— Já me dou conta — disse Phoebe impaciente — Ninguém fora da família sabe nada disso. Papai sossegou todo o assunto muito bem. Então porque teme perante só a ideia da volta de Wylde?

— Porque eu o acho capaz de humilhar a todos nós por trazer à luz o que aconteceu aquela noite — sussurrou Meredith — Agora que ele tem título, logo chamaria a atenção dos ricos, se ele começasse a frequentar a sociedade.

— Compreendo o ponto — murmurou Phoebe. Meredith tinha razão. Como conde, inclusive como conde sem fortuna, Gabriel não passaria inadvertido em sociedade. Se decidia fazer correr intrigas sobre a esposa do marquês de Trowbridge, haveria muita gente que o escutaria.

— Não poderia tolerar que incomodasse a Trowbridge pelo que eu fiz há oito anos — disse Meredith, tensa — Pelo menos estou certa que se sentiria profundamente ferido se soubesse que eu tentei escapar para evitar o casamento com ele. Papai ficaria furioso ante o escândalo público. Anthony poderia ter novamente a ideia de arriscar o pescoço em outro duelo.

— Não acredito que seria tão mau — disse Phoebe — Certamente Wylde não andaria com fofocas. Depois de tudo, é um cavalheiro. — mordeu o lábio, ao lembrar-se em silêncio para si que ela já não podia estar certa disso. A pura verdade era que Gabriel mudou durante os últimos oito anos. As ilusões que tinha dele receberam um duro golpe na outra noite em Sussex.

— Wylde não é nenhum cavalheiro. Entretanto, devemos ver o lado bom. — Meredith pegou seu bordado — Duvido muito que tente entrar em sociedade. Nunca gostou muito e não possui dinheiro para fazê-lo agora.

— Sua situação financeira talvez tenha mudado. — Phoebe franziu o cenho, pensativa. Ela sabia muito bem que os ganhos que ele recebia pela Missão não seriam suficientes para lhe permitir frequentar a sociedade. Mas todo aquele tempo que tinha passado nos Mares do Sul. E Gabriel tinha um inegável ar de confiança.

— Todos sabem que não existe fortuna alguma que acompanhe o título que herdou — disse Meredith com tom áspero — Não, acredito que estamos razoavelmente a salvo.

Phoebe pensou na expressão de Gabriel, quando ele a soltou e, a contra gosto, a separou de seu abraço depois de beijá-la. A salvo não era a expressão que lhe vinha à mente.

Muito em seu interior, temia que ele cumprisse sua promessa de encontrá-la, lhe devolver o manuscrito e aceitar a investigação. Mas, por igual motivo, temia que talvez não o fizesse.

Meredith a olhou com acuidade.

— Hoje está de um humor estranho, Phoebe. Deve-se a que está pensando em como confrontar o oferecimento de Kilbourne?

— Já decidi. Caso me fizer um.

Meredith suspirou.

— Com certeza, depois de todo este tempo não abrigará esperanças que Neil Baxter retorne milagrosamente a Inglaterra com uma fortuna e a tome em seus braços.

— Sei muito bem que Neil morreu há um ano.

— Sim, sei, mas não conseguiu aceitar, não é assim?

— É obvio que sim. Mas sei que sua morte estará em minha consciência o resto de minha vida — admitiu Phoebe.

Os olhos de Meredith se abriram alarmados.

— Não deve dizer isso. Não tem nada a ver com essa morte.

— Ambas sabemos que, se não tivesse sido por mim, Neil jamais partiria para os Mares do Sul em busca de fortuna. E, se não tivesse ido às ilhas, não o matariam.

— Meu Deus — sussurrou Meredith — Tinha esperança de que enterrasse seu tolo sentido da responsabilidade. Neil escolheu seu próprio destino. Não deve continuar se culpando.

Phoebe sorriu com pesar.

— Mais fácil é dizer que fazer, Meredith. Acredito que o fato de que o considerasse um amigo, não um potencial marido, é o que faz com que tudo seja muito difícil. Ele jamais aceitou que tudo o que eu desejava dele fosse só amizade.

— Lembro como se chamava ele mesmo seu Lancelot e como proclamava que se pôs a seu inteiro serviço. — Havia uma forte desaprovação na voz de Meredith — Era atraente. Posso aceitar isso. Mas, a não ser por sua aparência, não sei o que viu nele.

— Dançava comigo.

Meredith a olhou sobressaltada.

— Dançava com você? O que quer dizer com isso?

Phoebe sorriu com tristeza.

— Ambas sabemos que poucos homens já me pediram para dançar. Temem que seja um par tão torpe por causa de minha perna.

— Eles não desejam que passe um mau momento na pista de dança — disse Meredith com firmeza — Não lhe pedem para dançar por pura consideração de cavalheiros.

— Frescuras. Eles não desejam ser humilhados ao serem vistos com um dama torpe. — Phoebe sorriu recordando — Mas Neil não se importava com nada o que podia mostrar na pista de dança. Fazia-me dançar a valsa, Meredith. Em realidade, dançava a valsa comigo. E não se importava que eu cometesse alguma estupidez. No que a mim me concerne, ele de verdade era meu verdadeiro Lancelot.

A única forma em que encontraria paz de consciência, sabia Phoebe, seria só encontrando o assassino de Neil. Devia muito. Assim, então, talvez poderia deixar o passado em paz.

— Phoebe, com respeito ao que sente por Kilbourne, rogo-te que esta noite te vista com uma cor mais tênue. Não existe razão alguma para incomodá-lo com um de seus vestidos extravagantes.

— Tinha pensado em pôr meu novo vestido de seda cor verde pálido e laranja — disse Phoebe pensativa.

— Era o que eu temia — disse Meredith.

— Por acaso, meu senhor, você leu A Missão? — Phoebe levantou o olhar para Kilbourne enquanto ele a conduzia com tranquilidade para o salão de baile, onde acabavam de comer o Buffet frio. De puro aborrecimento, Phoebe tinha comido três lagostas e também sorvete.

— Deus, não. — Kilbourne sorriu com um de seus sorrisos mais condescendentes. Estava tão distinto como sempre, com seu traje de noite de imaculado corte — Esses contos não são de meu gosto, lady Phoebe. Não acha que você já é um pouco grande para tais leituras?

— Sim, e neste preciso instante sou maior ainda.

— Perdão?

Phoebe sorriu rapidamente.

— Nada. Já sabe, todos têm lido esse livro. Inclusive Byron e o regente. — Principalmente porque ela fez que Lacey lhes enviasse exemplares, pensou Phoebe com astúcia. Tomou o atrevimento de fazê-lo, mas teve sorte. Tanto Byron como o regente tinham lido A Missão e disseram a seus amigos que desfrutaram com sua leitura. Quando correu a voz, o livro foi catapultado às alturas do êxito.

Kilbourne devia ser uma das poucas pessoas em Londres que não leu o livro de Gabriel.

Sempre que ela imaginava o casamento com o pomposo Kilbourne, vislumbrava uma vida de irritantes conversas tal como a que mantinham naquele momento. O casamento entre eles dois jamais funcionaria. Só desejava que não fizesse o oferecimento; dessa forma, ela não estaria obrigada a recusá-lo. Que tormenta de um grão de areia criaria a situação. Toda sua família estaria aniquilada.

— Devo dizer que estou surpreso pela popularidade de uma novela tão ridícula. — Kilbourne examinou o salão de baile repleto de gente — Qualquer um deveria pensar que a sociedade tem coisas mais edificantes que fazer com seu tempo que ler tais tolices.

— Com certeza, não se poderá queixar do tom cuidadoso que usa na Missão. É uma história de aventuras que está inspirada nas concepções dos cavalheiros medievais. Versa sobre a honra, a nobreza e a coragem. E devo lhe dizer que o tema do amor o dirige de uma maneira muito inspirada.

— Nos temas do amor, imagino que nossos ancestrais foram tão práticos como nós — disse Kilbourne — O dinheiro, a família e a propriedade são fatores importantes nas alianças matrimoniais. Sempre foram. E, quanto à honra e a nobreza, bom, suspeito que tais ideias foram grandemente menos refinadas na Idade Média que em nosso tempo.

— Talvez tenha razão. Mas me parece que o importante é a ideia da fidalguia. Talvez jamais tenha existido a perfeição, mas isso não significa que esta não deve ser estimulada.

— Tudo é um monte de besteiras só adequada para a mente de jovens e meninos. Agora, lady Phoebe, talvez possamos mudar de assunto. Pergunto-me se poderia falar com você no jardim. — Os dedos de Kilbourne fizeram pressão no braço de Phoebe — Há um assunto importante que desejo falar com você.

Phoebe conteve o gemido que esteve a ponto de proferir. A última coisa que desejava era uma conversa íntima, no jardim, com Kilbourne.

— Em algum outro momento se não se importar, meu senhor. Acredito que ali está meu irmão. Há algo importante que devo lhe dizer. Por favor, peço que me desculpe.

A mandíbula de Kilbourne se esticou.

— Muito bem. Acompanharei até onde está seu irmão.

— Obrigada.

Como único herdeiro varão de Clarington, Anthony tinha o título de visconde do Oaksley e estava em linha direta ao título de seu pai. Estava com trinta e dois anos e uma figura forte e atlética. Além de seu talento natural para matemática e os negócios, herdou de seu pai o cabelo loiro e a forte compleição óssea.

Anthony também herdou a fria segurança aristocrática que provinha de saber que descendia de várias gerações de homens ricos, de bom berço e grande poder.

Phoebe gostava de muito seu irmão, mas não podia negar que Anthony podia ser quase tão autocrático e super protetor como o mesmo Clarington. Tolerava ambos os aspectos com bom humor, em sua maior parte, mas havia ocasiões nas que as atitudes abertamente super protetoras para ela era mais do que podia tolerar.

— Por fim, Phoebe. Perguntava-me onde estava. Boa noite, Kilbourne. — Anthony o saudou com um movimento gentil de cabeça.

— Oaksley. — Kilbourne inclinou a cabeça com amabilidade — Sua irmã diz que tem uma mensagem para você.

— Do que se trata, Phoebe? — Anthony pegou uma taça de champanha, quando um criado com uma sobrecasaca se aproximou com a bandeja.

Phoebe pensou rapidamente, procurando algum comentário que parecesse razoável.

— Quero saber se planeja ir na quinta-feira ao baile de máscaras dos Brantley. Mamãe e papai não irão, e tampouco Meredith.

— E você necessita de um acompanhante? — Anthony sorriu — Sei como você gosta dos bailes de máscaras. Muito bem. Virei buscá-la às nove da noite. Entretanto, não poderei ficar. Tenho outros planos para essa noite. Mas não se preocupe, farei acertos com os Mortonstones para que a tragam em sua carruagem. Você irá, Kilbourne?

— Não tinha em meus planos — admitiu Kilbourne — Não me interessam os bailes de máscaras. Se me perguntar, todo esse movimento de máscara e capa me resulta muito irritante.

Ninguém perguntou, pensou Phoebe ressentidamente.

— Mas, se lady Phoebe tiver planos de ir — continuou com tom condescendente — eu, é obvio, farei uma exceção.

— Não há necessidade que se incomode por minha culpa, meu senhor — disse Phoebe com presteza.

— Será um prazer — Kilbourne inclinou a cabeça — depois de tudo, nós os cavalheiros devem consentir nos caprichos de nossas damas. Não é assim, Oaksley?

— Depende do capricho — disse Anthony. Começou a sorrir a Phoebe e depois seu olhar pousou na escada que descia o salão de baile, do balcão. Seu sorriso desvaneceu imediatamente. — Bom, que me matem. — Seus olhos azuis se tornaram como gelo. — Então os rumores eram verdade. Wylde está na cidade.

Phoebe ficou petrificada. Os olhos voaram para a escada atapetada de vermelho. Gabriel estava ali.

Quase não podia respirar. Com certeza não a reconheceria. Não era possível que tivesse, naquela noite em Sussex, uma visão clara de seu rosto à luz da lua. Não tinha como descobrir seu nome.

Entretanto, estava ali. Justo aqui no mesmo baile que ela. Devia ser coincidência. Ao mesmo tempo sabia, no mais profundo de seu coração que não podia ser coincidência.

Phoebe o observou com sobressaltada fascinação enquanto descia as escadas para a multidão. Havia uma arrogância perigosa em toda sua pessoa. O estômago de Phoebe rangeu pela emoção. Talvez não devesse ter comido tanta lagosta, pensou.

Gabriel estava vestido todo de negro, com uma gravata brilhante de cor branca sobre uma camisa vincada que fazia contraste. A cor branca lhe sentava bem. Realçava a fúria de seus traços aquilinos e a graça felina de seus movimentos. Os cabelos cor do ébano brilhavam sob as luzes do candelabro.

Naquele momento, Gabriel percorreu com o olhar o salão de baile repleto de elegantes pessoas e capturou o olhar dela.

Sabia quem era ela.

A emoção a transpassou. A única razão pela qual Gabriel poderia estar aqui esta noite era porque decidiu aceitar a missão que tinha encomendado.

Havia encontrado seu cavalheiro.

Existiam alguns problemas potenciais para ter certeza. A julgar por sua recente experiência com ele, viu-se obrigada a chegar à conclusão que a armadura de Gabriel necessitava muito brilho, por não falar de suas maneiras e atitudes.

Mas, ante o alívio de vê-lo, Phoebe não tinha intenções de amargurar-se por detalhes tão corriqueiros. Os cavalheiros não abundavam nestes dias. Ela trabalharia com o que tinha disponível.

— Olhem — disse Anthony com tom de protesto — Qualquer um poderia pensar que possui o título do berço e não que o conseguiu por um golpe de sorte.

— Certamente parece cômodo em sua nova posição social — assentiu Kilbourne. Era claro que não estava interessado pelo recém chegado — O que sabem dele?

— Não muito — disse Anthony conciso. Deu a Phoebe um olhar de advertência — Surpreende-me vê-lo aqui, isso é tudo. Não pensei que tivesse o atrevimento de apresentar-se em sociedade.

— Recentemente conseguiu um título respeitável — observou Kilbourne dando de ombros — Isso o faz avaliável para certas anfitriãs.

Anthony entrecerrou os olhos.

— Existe só uma razão pela que possa estar rondando nos salões de baile da temporada. Está à caça de uma debutante com fortuna.

Apesar das voltas de seu estômago, Phoebe ofereceu a seu irmão um olhar carregado de ódio.

— Não pode ter essa certeza. Pelo que sei, ninguém o conhece muito bem.

A boca de Anthony se endureceu. Era óbvio que desejava continuar falando, mas era quase impossível na presença de Kilbourne. O que aconteceu há oito anos era um escuro segredo de família.

— Lady Phoebe disse uma coisa certa — disse Kilbourne — Ninguém sabe muito sobre Wylde. Sei que esteve fora do país durante muitos anos.

— Dizem que sim — murmurou Anthony — Maldição. Acredito que vem para cá.

Phoebe fechou os olhos por um instante e se abanou com rapidez com seu leque chinês. Pela primeira vez em sua vida, sentia que a cabeça lhe dava voltas. Ele a encontrou. Como um cavalheiro ousado e valente saído de uma lenda medieval, saiu em sua busca e a encontrou.

Deveria voltar a valorizar sua capacidade como cavalheiro, disse a si mesma Phoebe com felicidade. Talvez ele fosse melhor neste tipo de assunto do que ela pensou durante os fatos acontecidos em Sussex, depois de tudo, pôde localizá-la em Londres com poucas pistas.

— Se me perdoarem, acredito que irei falar com os Carstais — disse Kilbourne. Fez uma reverência por cima da mão enluvada de Phoebe — Estarei esperando com impaciência nosso encontro de quinta-feira à noite, querida. Que tipo de máscara usará?

— Algo medieval, não duvide. — disse Anthony com tom antipático.

Kilbourne sorriu cortês quando liberou a mão de Phoebe.

— Não duvido. — Se virou e saiu perdendo-se entre os convidados.

— Maldito. Sempre foi descarado como o diabo — disse Anthony entre dentes.

— Eu não chamaria de descaramento precisamente — murmurou Phoebe quando viu que Kilbourne desaparecia. — Mas tem tendência de ser um pouco pomposo, não acha? Estremeço só de pensar como seria me sentar com ele à mesa do café da manhã todas as manhãs do que me resta de vida.

— Não seja idiota. Kilbourne é um tipo decente. Falava de Wylde.

— Oh!

— Diabos, verdadeiramente vem para cá. Tente manter a calma. Eu cuidarei dele, Phoebe. Vá e procure Meredith. Se ela souber que ele está aqui, se sentirá terrivelmente ansiosa.

— Não vejo o porquê de tanto alvoroço — disse Phoebe — E de qualquer forma é muito tarde para me tirar do meio. Virtualmente está sobre nós.

— Não tenho intenções de apresentar você a ele. — Disse Anthony sombrio.

Gabriel parou diante de Phoebe e seu irmão. Sem prestar atenção a Anthony, olhou a sua presa com um claro desafio refletido em seus brilhantes olhos verdes.

— Boa noite, lady Phoebe. Certamente é um prazer voltar a vê-la.

Isso era suficiente como apresentação de seu velho inimigo, pensou Phoebe. Devia dar crédito a Gabriel. Sabia como apresentar-se de forma atrevida.

— Boa noite, meu senhor — disse ela. Pela extremidade do olho, viu a tormenta que se formava no rosto de seu irmão. Sorriu radiante.

— Anthony, acredito que esqueci de mencionar que este cavalheiro e eu já fomos apresentados.

— Eu gostaria de saber quando e onde — Anthony olhou Gabriel com olhos carregados de frieza.

— Foi na casa de campo dos Amesbury, não foi assim, meu senhor? — Phoebe olhou diretamente nos olhos brilhantes de Gabriel — Lembra que passei uma semana naquela casa, Anthony.

— Assim foi — disse Anthony com tom áspero — Tem razão. É obvio que esqueceu de mencionar que conheceu Wylde ali.

— Havia muita gente — murmurou Phoebe. E deu-se conta que a expressão de Gabriel refletia um regozijo selvagem. Estava se divertindo. Devia separá-lo de Anthony antes que houvesse um derramamento de sangue.

— Gostaria de dançar comigo, meu senhor?

— Phoebe. — Anthony estava verdadeiramente escandalizado apesar da tensa situação. Uma dama não pede a um cavalheiro que a tire para dançar sob nenhuma circunstância.

— Não se preocupe, Oaksley. — Gabriel tomou o braço de Phoebe — Sua irmã e eu nos conhecemos muito bem na casa dos Amesbury. Talvez seja porque passei os últimos oito anos em exílio, afastado da sociedade elegante, ou talvez seja por minha forma de ser. Qualquer que seja a razão, não me incomoda o que alguns homens poderiam considerar conduta imprópria em uma mulher.

— Como você insinua que minha irmã tem uma conduta imprópria? — Gabriel conduziu Phoebe à pista de dança antes que Anthony pudesse encontrar uma forma civilizada de detê-lo.

Phoebe quase riu em voz alta ao ver o rosto de seu irmão. Pouco depois, ouviu os compassos de uma valsa e se tranquilizou rapidamente. Olhou ansiosa a Gabriel, perguntando-se como ele se sentiria por ser visto com ela na pista de dança. Perguntou-se se a ele teria ocorrido que ela poderia envergonhá-lo.

— Talvez deveríamos nos conformar com uma conversa tranquila, meu senhor — sugeriu Phoebe, sentindo-se um pouco culpada por havê-lo mais ou menos forçado a esta situação.

— Em algum momento teremos uma conversa tranquila — lhe prometeu Gabriel — Mas primeiro tenho a intenção de dançar com você.

— Mas, meu senhor...

Ele a olhou compreendendo a situação.

— Não se preocupe, Phoebe. Pode confiar em que a sustentarei se você perder o equilíbrio.

Uma gloriosa sensação de alívio e alegria alagou seu interior, quando se deu conta que Gabriel não se importava em nada os movimentos torpes dela ao dançar.

Gabriel a balançou em um giro sem fim. Phoebe perderia o passo se ele não a sustentasse firmemente em seus braços. Tanto foi assim que seus sapatos de baile quase não tocavam o chão. A saia de seu vestido de seda verde e laranja se alargava ao vôo.

As luzes reluzentes dos candelabros davam voltas sobre a cabeça de Gabriel enquanto este girava em redor. Phoebe viu uma mistura de cores que se formavam ao redor dela. Deu-se conta levemente de que eram os vestidos das dama que se fundiam como se fosse um arco íris.

A emoção a embargava. Não podia recordar um sentimento como este em toda sua vida.

Inclusive Neil jamais dançou com ela assim. Seu pretendente sempre tomava cuidado de ir em um passo lento, medido, que ela pudesse sempre seguir. Mas não existia nada seguro na forma como Gabriel dançava. Entretanto, ele parecia sentir o momento em que ela ia perder o equilíbrio dela. Quando sua perna doente a abandonava, ele a segurava e continuava dançando. Phoebe sentia que voava.

Quando a música alcançou seu ponto máximo, estava sem fôlego. A única firmeza que ela tinha para se sustentar neste mundo de caos era Gabriel. Em lugar de descansar os dedos de suas mãos no ombro dele, ela estava virtualmente presa. O abraço firme dele a fazia se sentir segura nos giros mais perigosos.

Quase não teve consciência de quando a música parou, mas, sim, seus sentidos continuaram girando e continuava agarrada a Gabriel enquanto ele a conduzia para longe da pista de dança.

— Meu senhor, foi verdadeiramente maravilhoso — disse sem fôlego.

— Foi só o começo — disse ele com delicadeza.

Um momento mais tarde, Phoebe teve consciência do frio ar noturno em seu rosto. Deu-se conta que ele a tinha conduzido para uma fila de portas que se alinhavam com a saída do salão de baile.

Sem dizer uma palavra, tomou-a pela mão e a conduziu para fora.

— Agora teremos uma tranquila conversa, lady Phoebe. — Dito isto a conduziu para as profundas sombras do jardim.

Phoebe estava ainda sem fôlego, mas sabia que já não era devido à emoção do baile. Quase não podia acreditar que Gabriel a tivesse encontrado.

— Devo dizer que estou mais do que impressionada por sua habilidade, meu senhor. — Phoebe o olhou — Como descobriu minha identidade? Juro que não dei a você nenhuma pista.

Ele parou na sombra de uma sebe e se voltou para olhá-la cara a cara.

— Encontrei-a utilizando a mesma técnica que você usou para descobrir que eu era o autor da Missão. Contatei com um advogado.

Phoebe sentiu que ficava vermelha de vergonha. Foi mais desafortunado que ela se visse obrigada a não guiá-lo bem nesse ponto, refletiu. Mas, na realidade, não teve escolha. Simplesmente não podia lhe dizer a verdade.

— Foi muito inteligente de sua parte.

— Foi necessário — disse ele — Há um negócio entre nós que está sem terminar. Se não me engano, estava com bastante pressa em me abandonar a outra noite, se lembra.

Phoebe examinou as sérias dobras de sua gravata.

— Peço que me perdoe, meu senhor. Estava um pouco zangada naquele momento. A aventura não terminou como eu tinha planejado.

— Deixou isso muito claro. Aparentemente nem a aventura nem minha atuação, que não esteve à altura de suas expectativas.

— Bom, para ser franca, não.

— Talvez você tivesse expectativas muito altas — sugeriu Gabriel.

— Talvez. — Ela desejou poder ver seus olhos e a expressão de seu rosto. A voz não lhe oferecia pista alguma sobre seu humor, mas sentia uma sombria tensão em sua pessoa. Era como se estivesse se preparando para uma batalha.

— Novamente, talvez deva dizer que não. Posso lhe perguntar por que teve tanto trabalho de me encontrar?

— Pensei que você já teria adivinhado a resposta a isso. Tenho algo para lhe devolver.

Phoebe conteve a respiração.

— Encontrou “O cavalheiro e a feiticeira”?

— Disse a você que o recuperaria.

— Sim, sei, mas jamais sonhei que conseguiria.

— Sua grande confiança na minha capacidade é verdadeiramente inspiradora.

Phoebe não prestou atenção ao sarcasmo do comentário.

— Meu senhor, isto é tão emocionante. Como encontrou o ladrão? Como o obrigou a devolver o manuscrito? — Phoebe piscou quando uma ideia apareceu em sua mente — Não foi obrigado a matá-lo, não é?

— Não. O senhor Nash e seu filho foram de grande ajuda.

A boca de Phoebe se abriu.

— O senhor Nash? Foi ele um dos que roubaram o manuscrito?

— Parece que não podia suportar se separar dele. Ao mesmo tempo, necessitava com desespero do dinheiro. De modo que ele e seu filho bolaram um plano pelo qual pudessem ficar tanto com o manuscrito quanto com o dinheiro. O sempre serviçal Egan foi quem fez o papel do ladrão de estradas.

— Minha mãe! — Phoebe franziu o cenho — Realmente, foi um plano muito inteligente, e certamente posso compreender o dilema do senhor Nash. Deve ter sido muito difícil para ele vender o manuscrito. Como descobriu a verdade?

— Pensei que era uma estranha coincidência sermos roubados dez minutos depois de deixar a casa de Nash. O bandido mostrou pouco interesse em nosso dinheiro, mas se entusiasmou muito com o conteúdo da caixa onde estava o manuscrito.

— Sim. — Os olhos de Phoebe aumentaram — Você sabia quem era o bandido quando apareceu?

— Tive minhas suspeitas.

— Foi muito inteligente de sua parte. — Phoebe estava sobressaltada — Não é de estranhar que não resistisse naquele momento. Sabia exatamente aonde ir procurar o manuscrito mais tarde. Meu senhor, retiro todos os comentários horrendos que fiz sobre você.

— Sinto-me aliviado de saber que não me considera um completo fracasso como cavalheiro.

Phoebe se deu conta que tinha ferido seu orgulho. Tocou-o no braço com um gesto leve, mas ansioso de desculpas.

— Asseguro que em realidade nunca pensei que você fosse um completo fracasso.

— Acredito que me chamou de covarde.

— Sim, bom, naquele momento meu humor estava um pouco alterado. Espero que seja indulgente.

— Por que não? — O tom de Gabriel era áspero — Suponho que as damas que enviam cavalheiros para uma empreitada de valor têm o privilégio de ser exigentes.

Phoebe sorriu.

— E suponho que os cavalheiros aos quais lhes pede que arrisquem sua pele têm o direito a ser temperamentais.

— Pelo menos, estamos de acordo em um ponto — Gabriel se aproximou um passo e tomou o queixo de Phoebe com sua mão enluvada e seus fortes quadris roçaram contra o vestido de seda dela.

Phoebe estremeceu. Aquele contato reavivou imediatamente tudo o que ela sentiu aquela noite no caminho quando ele a abraçou. Jamais teve tanta consciência da presença de um homem em toda sua vida e, de repente, se deu conta de que havia muito perigo neste tipo de poder masculino. Entretanto, era também incrivelmente sedutor. Respirou profundamente e buscou recuperar a compostura.

— Meu senhor — disse ela — Devo perguntar se vindo aqui esta noite está decidido a me ajudar na investigação.

— Acredito que sabe a resposta para isso.

Phoebe o olhou com emoção crescente.

— Então a resposta é afirmativa? Irá me ajudar a encontrar o pirata assassino que roubou “A dama da torre”?

A boca de Gabriel se curvou levemente em uma careta.

— Tenha a certeza, lady Phoebe, você conhecerá a identidade do dono de seu livro antes que termine a temporada.

— Sabia. — Cheia de alegria, abraçou Gabriel pelo pescoço — Sabia que você não resistiria a uma empreitada tão ousada. Não sei como agradecer-lhe meu senhor. — ficou nas pontas dos pés e com os lábios lhe roçou a bochecha. Depois, retrocedeu rapidamente. Sentiu que o calor invadia seu rosto quando se deu conta do que tinha feito.

Gabriel entrecerrou os olhos e tocou a bochecha onde Phoebe tinha beijado.

— Isto basta para começarmos. Mas devo adverti-la que, nestes dias, quando eu aceito este tipo de negócio, asseguro-me de que me recompensem bem por meus esforços.

— Compreendo. Você me disse que haveria honorários por seus serviços. — Phoebe endireitou os ombros — Estou disposta a pagá-los.

— De verdade está?

— Se estiver dentro de minhas possibilidades — se corrigiu rapidamente Phoebe.

— Certamente que estará dentro de suas possibilidades.

Phoebe procurou algo naquele rosto indecifrável.

— Quais são seus honorários, senhor?

— Ainda estou calculando.

— Já vejo. — Phoebe não soube como compreender isso. Clareou a voz com cautela — Eu nunca fui muito boa com os números e essas coisas.

— Eu sou bom nisso, mas muito bom mesmo — assegurou com gentileza.

— Oh. Bom, então, deve me dizer o mais rápido possível que quantidade fixou. Enquanto isso, darei algumas instruções.

Gabriel a olhou

— Instruções?

— Sim, é obvio. Esta investigação é uma questão muito séria e devemos proceder com cautela e, sobretudo, com discrição. — Phoebe retrocedeu outro passo e começou a passear diante dele. Concentrou-se em seus pensamentos. — Primeiro, devemos mantê-lo absolutamente secreto.

— Secreto. — Gabriel considerou um momento — Por quê?

— Não seja ingênuo. O segredo é necessário, ou nos arriscaremos a mostrar nosso plano de ir atrás da pista do assassino.

— Ah

Phoebe levantou uma mão, marcando nos dedos suas palavras.

— O segredo é o primeiro. Ninguém deve saber que estamos trabalhando juntos nesta investigação. — então levantou outro dedo — O segundo é que deve me manter informada de seus progressos.

Gabriel arqueou as sobrancelhas.

— Deseja que a informe regularmente?

— Sim. Dessa forma, eu poderei guiar e coordenar nosso trabalho. Irei me assegurar de que você esteja cobrindo todos os caminhos óbvios nas averiguações.

— Você confia em mim para percorrer sozinho todos esses caminhos? — perguntou Gabriel.

— Não, é obvio que não. Você esteve afastado da sociedade durante oito anos, meu senhor. Há muitas coisas que não sabe. Eu poderei lhe dar informações valiosas a respeito de certos colecionadores e vendedores de livros. E, por sua vez, você poderá levar a prática essa informação enquanto investigue.

— Phoebe, eu aceito fazer essa investigação, mas será melhor que compreenda desde o começo que eu não sou nenhum detetive privado da Rua Bow que está a mercê de seus caprichos.

Ela parou e lhe ofereceu um sorriso tranquilizador.

— Sou muito consciente que não é um detetive, meu senhor. Este assunto está mais à frente do alcance de um simples detetive. Você é um cavalheiro. Meu cavalheiro. Em um sentido muito real você trabalha para mim, meu senhor. Compreende isso, não é assim?

— Estou começando a ter uma noção de como você imagina que funciona essa sociedade. Mas não acredito que você tenha um conceito adequado de quais são as funções de um cavalheiro.

Phoebe o olhou com surpresa.

— O que quer dizer, meu senhor?

— Os cavalheiros se caracterizam por levar a cabo seus negócios à sua maneira. — Gabriel tirou lentamente as luvas. Seus olhos brilhavam nas sombras quando se inclinou para ela — Não me interprete mal. Eles são felizes de servir a suas senhoras, mas fazem assim quando vêem que é correto.

Ela se mostrou perplexa.

— Seja como for, você descobrirá que minha ajuda será necessária, meu senhor. Não só posso lhe passar informação, como também posso lhe assegurar os convites que necessitará.

— Bom, não posso discutir sobre isso — concedeu Gabriel — Com seus contatos, pode fazer com que me convidem a algumas festas e bailes aos que você também irá.

— Precisamente — e ofereceu um sorriso de aprovação — E também descobrirá que posso lhe ser útil em outros aspectos também. Como vê, meu senhor, devemos trabalhar em equipe. Não quero ser pedante no tema, mas o certo é que a investigação para encontrar o livro foi minha ideia, portanto, tem sentido que eu esteja no comando.

Gabriel tomou seu rosto entre as mãos já sem luvas.

— Algo me diz que a razão não tem muito a ver com todo o assunto. — Inclinou o rosto sobre o de Phoebe.

Os olhos de Phoebe se abriram.

— Meu senhor, o que vai fazer?

— Vou beijá-la.

— Não estou do todo certa que seja sensato. — Phoebe teve consciência que seu pulso se acelerava. Uma visão do último beijo ardente que ele lhe dera apareceu em sua cabeça — Imagino que os cavalheiros devam admirar a suas senhoras a distância.

— É aí onde se equivoca. — A boca de Gabriel roçou a sua com uma lentidão tentadora — Os cavalheiros faziam tudo quanto estivesse em seu poder para estar o mais perto possível de suas senhoras.

— De todos os modos, talvez seria melhor se nós...

O resto do protesto entrecortado de Phoebe se perdeu quando a boca de Gabriel caiu sobre a sua. Ela segurou nos ombros de Gabriel, sacudida pela intensidade de um sentimento que a embargava.

A primeira vez que a beijou, estava usando luvas. Esta noite a inesperada aspereza das palmas de suas mãos contra sua pele a assombraram, não eram as mãos de um cavalheiro, pensou ela. Meu Deus, estas são as mãos de um guerreiro.

Gabriel, com rapidez, aprofundou o beijo, sua boca mais feroz e exigente. Phoebe sentiu que respondia com uma repentina urgência que a tomou de surpresa. Lançou um suave gemido, o leque caiu das mãos quando moveu os braços para rodear o pescoço de Gabriel.

Agora se sentia ainda mais sobressaltada e sem fôlego do que esteve durante o baile. Gabriel a consumia e, ao mesmo tempo, fazia crescer um apetite devastador em seu interior. Aqueles lábios se moveram sobre os dela, em busca de uma resposta de acordo com o que ele sentia. Phoebe duvidou, insegura sobre como dirigir a sensualidade ainda desconhecida e completamente devastadora que se acendia em seu interior.

Depois sentiu que o polegar áspero de Gabriel pousava no canto de sua boca e se deu conta que ele a obrigava a abrir os lábios. Sem compreendê-lo, obedeceu-o. Em um instante, estava dentro de sua boca, gemendo descontroladamente quando sentiu a suavidade dela.

Phoebe já foi beijada antes por alguns atrevidos ocasionais. Esses beijos, com frequência roubados nos jardins, fora dos lotados salões de baile como o dessa noite, foram rápidos e em geral sem importância. Não a fizeram sentir nada mais que o desejo de voltar ao salão de baile. Neil Baxter também a beijou uma ou duas vezes, mas jamais como isto. Os beijos de Neil foram rápidos e amáveis, e Phoebe jamais desejou mais do que lhe oferecia.

Com Gabriel, ela sabia que estava experimentando a paixão. É o que se falavam nas lendas, disse a si mesmo exultante. Isto era o que ela sempre esperou sentir com o homem adequado.

Era terrivelmente perigoso.

A mão áspera de Gabriel moveu levemente por seu ombro nu, com um dedo sob o barra da diminuta manga do vestido, começou a deslizá-la por seu braço.

Phoebe saiu do impacto do beijo, sua mente ainda girava em torvelinho. Molhou os lábios com a ponta da língua, tentando encontrar a voz.

— Meu senhor, de verdade, não acredito...

De repente, se produziu um movimento na escuridão atrás de Gabriel. Phoebe ficou gelada quando ouviu a voz de Anthony que cortava o negrume da noite.

— Retire suas condenadas mãos de minha irmã, Wylde — disse Anthony — Como se atreve a tocá-la?

O sorriso de Gabriel era frio à luz da lua, quando se voltou para enfrentar Anthony.

— Parece-me que protagonizamos esta cena antes, Oaksley.

— E terminará da mesma maneira que a última vez. — Anthony parou a uns passos de distância. Tinha as mãos crispadas pela fúria.

— Não acredito — disse Gabriel com tom muito gentil — As coisas são um pouco diferentes desta vez.

Phoebe estava horrorizada.

— Parem. Ambos. Anthony, Gabriel e eu somos amigos. Não permitirei que o insulte.

— Não seja tola, Phoebe. — Anthony não a olhava — Ele está planejando usar você de algum jeito. Pode estar certa disso. Conheço-o bem para garantir que procura dinheiro ou vingança. Provavelmente ambas as coisas.

A voz de Meredith soou cheia de ansiedade da escuridão.

— Anthony? Encontrou-os? — Um segundo depois apareceu atrás de uma fila de arranjos florais. Quando viu Gabriel parou, com uma expressão de terror em seu adorável rosto — Meu Deus. Então é verdade. Retornou.

Gabriel a olhou.

— Pensou que não voltaria?

— Roguei para que fosse assim — disse Meredith em um sussurro quebrado.

A raiva de Phoebe crescia minuto a minuto.

— Isto é um grande mal-entendido. Anthony, Meredith, insisto em que sejam amáveis com Gabriel.

Meredith a olhou.

— Anthony tem razão, Phoebe. Wylde está aqui por uma razão. Deseja vingança.

— Não acredito — declarou Phoebe. Desafiante, se aproximou de Gabriel. Olhou-o, franzindo o cenho — Não discutirão o que aconteceu há oito anos, não é assim?

— Nenhum deles deveria se alarmar por isso — disse Gabriel. Parecia divertido — Não tenho intenções de falar sobre história antiga. — Seus olhos brilharam ao olhar o rosto de Meredith — Em especial de uma história antiga tão aborrecida.

Meredith ficou sem fala.

Anthony deu um passo para frente com gesto ameaçador.

— Está insultando minha irmã, senhor?

— Dificilmente. — Gabriel sorriu com indulgência — Tão somente comentava a virtude impressionante de lady Trowbridge. Tema que posso falar com certa autoridade.

Phoebe reprovou seus irmãos. Anthony parecia frustrado e furioso. Meredith estava em silêncio, como uma figura etérea e trágica, com as mãos na garganta.

Já teve o suficiente. Parou diante de Gabriel, separando-o dos outros dois.

— Não quero ouvir falar mais desta tolice. Ouviram-me? Não tolerarei. O que passou, passou.

— Fica fora disto, Phoebe. — Anthony a olhou com ódio — Você já causou problemas suficientes.

Phoebe levantou o queixo.

— Gabriel me deu sua palavra que não falará sobre o que aconteceu há oito anos e isso é tudo. De agora em diante, o tratarão como a qualquer membro respeitável desta família.

— Ao diabo se farei isso — rugiu Anthony.

— Santo Deus, isto é um desastre — sussurrou Meredith.

Gabriel sorriu.

— Não se preocupe, lady Phoebe. — calçou as luvas — Não deve me proteger de sua família. Asseguro-lhe que, desta vez, posso me proteger sozinho.

Com uma amável inclinação de cabeça, que só dirigiu a ela, voltou e desapareceu entre as sombras do jardim.

Topázio.

Gabriel sorriu com um curioso sentimento de satisfação quando abriu o jornal. Por fim, obteve a resposta do que se converteu em uma insistente duvida nos últimos dias. Os olhos de Phoebe tinham a quente cor dourada do topázio. O recordava os peixes brilhantes das lagunas que se formavam nos Mares do Sul. Phoebe era uma criatura de cores brilhantes e tonalidades resplandecentes. Na outra noite, os candelabros derrubaram sua luz sobre o cabelo escuro, fazendo com que o fogo avermelhado ali enterrado se acendesse. O vestido de cores vívidas fazia recordar um amanhecer nas ilhas. E, quando a teve entre seus braços na pista de dança, teve plena consciência da sensual emoção que ardia em seu interior.

Desejava-a mais que nunca. O fato de que ela fosse filha de Clarington não podia alterar aquele sentimento. Mas tampouco afetava a situação, assegurou para si. Ele poderia ter tanto à mulher como a vingança contra aquela família.

Gabriel fez um esforço para se concentrar na leitura do jornal. O clube estava tranquilo aquela manhã. A maioria desses estabelecimentos em geral eram tranquilos a essa hora. A maior parte de seus membros ainda dormia sob os efeitos da noite anterior e da prodigiosa quantidade de álcool. Passaram-se oito anos desde a última vez que esteve ali, mas pouco tinha mudado. Essa falta de mudanças era o sinal de um bom clube.

Seu olhar percorreu as notas para produções de teatros, acontecimentos hípicos e casas para alugar. Se deteve brevemente ao ler a lista de convidados que participaram do baile da noite anterior e mentalmente os memorizou.

Precisava aprender, o mais breve possível, a forma de penetrar no intrincado e às vezes perigoso matagal desta sociedade elegante. Não era a mesma maneira de aprender a cruzar as traiçoeiras águas dos Mares do Sul. Piratas, tubarões e recifes escondidos abundavam por aqueles lugares.

Phoebe tinha razão em uma coisa. A posição social dela abria de forma instantânea muitas portas. Para levar a cabo seu objetivo de vingança, precisaria se mover nos mesmos níveis da classe alta, entre os quais se encontrava lorde Clarington e sua família.

Uma vez que transpassasse aquelas exclusivas portas, refletiu Gabriel, seu título e fortuna lhe assegurariam uma posição invulnerável da qual levaria adiante seu assalto ao clã Clarington.

— Wylde. Então meu filho tinha razão. Retornou.

Gabriel desceu lentamente o jornal, lutando para reprimir uma onda de feroz satisfação. Clarington estava ali. A batalha tinha começado.

Olhou-o com amável resignação, como se fosse a tarefa mais aborrecida do mundo. Encontrava-se, enfim, frente a frente com seu antigo inimigo.

— Tenha um bom dia, meu senhor. Muito amável de sua parte me dar as boas vindas à cidade.

— Vejo que continua tão insolente como sempre. — Clarington se sentou em frente de Gabriel.

— Não desejava incomodá-lo.

Gabriel examinou com curiosidade seu velho inimigo. Como o clube, o conde de Clarington tinha mudado pouco nos últimos oito anos. Embora tinha pelo menos sessenta anos e alguns quilogramas a mais acumulados no ventre, ainda luzia o ar de pomposa arrogância que Gabriel recordava tão bem.

Clarington nasceu e foi educado para o título de nobreza. Absorveu cinco gerações de história e posição social enquanto ainda estava no berço e estava decidido a que toda sua família seguisse seus passos. Gabriel sabia que a meta primitiva de Clarington era cuidar para que nada sujasse seu título.

O conde era um homem fisicamente imponente. Era alto, quase tão alto como Gabriel. Seu nariz em forma de gancho dominava o rosto que refletia uma inquebrável determinação e orgulho. Os penetrantes olhos azuis estavam cheios da aguda inteligência que caracterizava toda a família. Também se encheram de um desgosto sem fim quando olharam a Gabriel.

— O que digo é que suponho que não tem feito nada para melhorar enquanto esteve fora do país — disse Clarington.

— E por que iria querer melhorar? Muito mais fácil é escapar com uma herdeira.

— De modo que se trata desse o jogo. — Clarington pareceu tristemente satisfeito ao ver que se confirmavam seus mais temidos medos — Anthony disse o mesmo. A outra noite o viu virtualmente arrastar para o jardim a minha filha menor.

— Não foi precisamente arrastá-la. — Gabriel sorriu levemente — Pelo que me lembro, ela foi com muito gosto.

— Você, senhor, aproveitou-se da natureza, de alguma forma, impulsiva de minha filha.

— De alguma forma impulsiva? Não estou certo que se poderia caracterizar Phoebe como simplesmente impulsiva. Eu diria que ela possui talento para a imprudência mais pura.

O olhar de Clarington se tornou glacial, e seus bigodes se retorceram.

— Agora aqui estamos, Wylde. Não creia que vou ficar tranquilo e deixar que você escape com minha Phoebe. Não se sairá com a sua, da mesma forma como aconteceu quando tentou fugir com minha filha maior.

— Talvez não deseje fugir com Phoebe. Depois de tudo, se me casar com ela, estarei a seu lado para sempre, não é assim? Não desejo ofendê-lo, senhor, mas minha impressão sobre sua filha caçula até aqui é que ela não seria para mim uma esposa obediente e dócil.

Clarington respondeu com fúria.

— Como se atreve a fazer um comentário pessoal dessa natureza!

— Em realidade — continuou pensativo Gabriel — Acredito que estaria certo em afirmar que lady Phoebe seria definitivamente pouco para qualquer homem. Não, não tenho a certeza se eu tomaria o trabalho de me casar com ela. Mas quem sabe como opinarei sobre o tema quando tiver a oportunidade de considerá-lo com maior cuidado?

— Maldito seja, Wylde. Em que planos anda?

— Estou certo que compreenderá quando lhe disse que não tenho intenções de discutir meus planos para o futuro com você.

— Por Deus que tem algum plano mesquinho entre as mãos! — As sobrancelhas de Clarington se arqueavam e voltavam a cair pela força de sua irritação — Advirto-lhe que não ponha suas mãos em cima de minha Phoebe nem sobre sua herança.

— Por que é tão hostil, Clarington? Deve admitir que desta vez sou um melhor partido.

— Ora. Frescuras. Talvez possua um título, mas não tem um tostão que o acompanhe, não é assim? Sei de fato que não existe fortuna nem propriedade com o título dos Wylde. Já averiguei.

— Muito visionário de sua parte, Clarington. Mas então devo convir que sempre foi um homem prudente. Deve ter adivinhado que voltaria a me ver um dias destes.

Pela extremidade do olho, Gabriel viu o filho do conde que entrava no clube naquele momento. Anthony examinou a sala sem gente, localizou seu pai e Gabriel e se apressou a aproximar-se. Parecia tão zangado como a outra noite.

— Vejo que o encontrou, senhor. — Anthony se deixou cair em uma poltrona junto a seu pai — Teve oportunidade de lhe perguntar o que tem entre as mãos com respeito a Phoebe?

— Sei muito bem o que tem entre as mãos. — Os olhos de Clarington lançavam brilhos de ira — Pensa que pode escapar com ela como tentou fazer com Meredith. Pensa que dessa forma porá as mãos em sua herança.

Anthony olhou com ódio a Gabriel.

— Deixe-a, Wylde. Vá procurar outra inocente. Sempre haverá uma ou mais herdeiras soltas na sociedade cujo pai negociará dinheiro por um título.

— Terei isso em conta — disse Gabriel com gentileza. Tomou o jornal e começou a ler.

— Maldição, homem, é só dinheiro que deseja esta vez? — trovejou Clarington com suavidade — Espera que o compre? Trata-se disso?

— Bom, essa é uma ideia interessante — Gabriel não desviou a vista do jornal que estava lendo.

— Se é disso que se trata, então você é ainda mais desprezível que pensava — disse Clarington — A última vez, pelo menos, foi muito orgulhoso para aceitar dinheiro para afastar-se de uma de minhas filhas.

— Um homem aprende a ser prático nos Mares do Sul.

— Ah. Verdadeiramente prático. De verdade, caiu ainda mais baixo, Wylde. É uma desonra para seu título. Bom, não vai ser a primeira vez que pago a um caçador de fortunas para que se afaste de Phoebe. Ela certamente parece atrair aos caçador de fortunas da pior índole. Quanto quer?

Gabriel levantou o olhar, sentindo-se intrigado imediatamente.

— A quem mais se viu obrigado a comprar, Clarington?

Anthony franziu o cenho.

— Acredito que é suficiente com respeito ao tema. É uma questão de família e não interessa a você.

Clarington endireitou os ombros.

— Meu filho tem razão. Não tenho intenções de discutir tais assuntos com você, senhor.

— Por acaso não se trata de Neil Baxter? — perguntou Gabriel com delicadeza.

A expressão furiosa de Clarington foi toda a resposta que Gabriel necessitava. Anthony amaldiçoou entre dentes e tomou uma garrafa de porto que estava perto.

— Já disse que não tenho intenções de falar de assuntos pessoais com você — repetiu Clarington com voz gelada — Diga seu preço, homem.

— Não há necessidade de dizê-lo. — Gabriel deixou o jornal, ficou de pé e pegou um pacote que tinha colocado sobre uma mesinha ao lado de seu assento — Saiba com certeza, Clarington, que você não possui dinheiro suficiente para me comprar desta vez. Agora, se me perdoarem. Tenho um encontro.

— Espere, Wylde. — Anthony apoiou sua taça e ficou de pé — Faço-lhe uma advertência. Se você insultar a minha irmã, irei desafiá-lo a um duelo, tal como fiz a última vez.

Gabriel fez uma pausa.

— Ah, mas desta vez o resultado poderia ser muito diferente, Oaksley. Parece-me que já não sou tão indulgente como uma vez fui.

Anthony ficou vermelho da raiva. Gabriel sabia que o outro homem recordava o encontro daquele amanhecer, há oito anos. Esse foi o primeiro duelo do visconde, mas tinha sido o terceiro de Gabriel.

Impulsionado como estava aqueles dias por seu sentido inocente da fidalguia, Gabriel já estivera envolvido em dois duelos anteriores. Em ambas as ocasiões, defendia a honra de uma dama.

Ganhou ambos os duelos sem ter que matar o adversário, mas começava a se perguntar quanto duraria sua sorte. Também se perguntava se por uma mulher valia a pena o risco. Nenhuma das damas em questão pareceram apreciar seus esforços. Aquela fria e cinza manhã de outubro, há oito anos, Gabriel chegou à conclusão de que já tivera duelos suficientes por uma mulher.

Anthony estava muito resolvido, mas também extremamente nervoso, se virou antes da hora aquela manhã. O visconde disparou com violência e foi por pura casualidade, não por boa pontaria, que a bala acertasse o ombro de Gabriel, e ambos os homens sabiam, Oaksley também sabia que a única razão pela que hoje estava vivo era por que Gabriel não tinha disparado depois de receber a bala. O sangue que empapava a camisa branca e a expressão de horror nos olhos de Anthony convenceram Gabriel que três duelos eram mais que suficientes.

Como amostra de desgosto, apontou a pistola para o céu e a descarregou. A honra foi satisfeita, e Gabriel tomou uma decisão. Ele jamais permitiria que seu antiquado sentido da fidalguia guiasse suas ações. Nenhuma mulher valia essa tipo de tolice.

Agora sorria com frieza a Anthony, observando as lembranças nos olhos de visconde. Satisfeito, Gabriel se virou e saiu sem dirigir para trás o olhar.

Atrás dele, pôde sentir Clarington e a seu filho vê-lo afastar-se cheios de impotência.

Sentia-se bem. Chegou à conclusão que a vingança era uma sensação extremamente prazerosa.

 

Lydia, lady Clarington, deixou a taça de chá que tinha na mão e olhou Phoebe através de um par de óculos com cordões de ouro. Ela só os usava na intimidade da elegante residência de Clarington e quando jogava cartas na casa de uma das matronas da sociedade, morreria antes de se permitir ser vista com eles em público.

Lady Clarington, nos dias de sua juventude, foi declarada um diamante de primeira qualidade. Seu cabelo dourado, agora prateado, e sua figura de formas arredondadas se tornou um tanto gordinha com os anos, mas era ainda uma mulher muito atraente.

Phoebe em privado pensava que sua mãe ficava encantadoramente maternal e meigamente inocente quando usava os óculos. Lorde Clarington aparentemente sofria de uma ilusão similar e foi assim durante os trinta e seis anos de casamento. O conde jamais manteve em segredo o afeto que sentia por sua esposa. Até onde Phoebe poderia dizer, seu pai ainda não tinha a mínima consciência da profunda paixão que sua esposa sentia pelas cartas.

O que lorde Clarington sabia era que a moderna condessa só gostava de jogar algumas mãos de whist na casa de suas amigas. As impressionantes quantidades que algumas vezes ganhava e a proporção de suas perdas eram um tema sobre o que estava completamente alheio.

— Suponho — disse Lydia com o insaciável otimismo dos jogadores inveterados — que Wylde não teve o bom tino de juntar uma fortuna enquanto esteve nos Mares do Sul.

— Não pelo que eu sei, mamãe — disse Phoebe com tom jovial — Não deve se enganar a respeito. É de esperar que não seja mais rico agora do que era quando abandonou a Inglaterra faz oito anos.

— Que pena. Sempre gostei de Wylde. Havia algo perigosamente atraente em sua pessoa. É obvio, não para chegar a fazer o que fez com Meredith. Ele a assustou até a morte. E, é obvio, do meu ponto de vista, ele seria um genro completamente inútil.

— Sem fortuna. Sim, sei mamãe. Seus requisitos para um genro sempre foram muitos simples e diretos.

— Alguém deve ser prático em tais temas. Do que serve ter um genro sem um penique?

Phoebe escondeu um sorriso quando recordou o êxito do livro de Gabriel.

— Talvez Wylde não seja completamente pobre. Acredito que ele possui uma pequena renda de certos investimentos que tem feito recentemente.

— Ora. — Lady Clarington desprezou a idéia de tal bagatela — Uma renda pequena não serve. Você deve se casar com um homem de fortuna respeitável, Phoebe. Inclusive, se eu desejasse fazer uma exceção, seu pai é mais insistente no tema. Deve formar uma aliança adequada. Deve ao nome da família.

— Bom, não tem absolutamente nenhum sentido estar falando das intenções que Wylde tem com respeito a mim, mamãe. Posso dizer agora mesmo que ele não está interessado em casar-se.

Lydia a olhou com atenção.

— Está certa disso?

— Muito certa. É certo que nos conhecemos na casa dos Amesbury e que descobrimos que tínhamos interesses em comum, mas somos só amigos. Nada mais.

— Temo então que ficaremos com Kilbourne — murmurou Lydia — Poderia ser pior. Um título e uma fortuna adoráveis.

Phoebe decidiu aproveitar a oportunidade para tirar de sua mãe a imagem da aliança proposta.

— Lamento dizer, mamãe, que acho Kilbourne não só é pomposo mas também um presunçoso total.

— O que significa isso? Seu pai também é pomposo e bem capaz de dar lições a qualquer presunçoso da sociedade. Mas vai muito bem com ele.

— Sim, sei — disse Phoebe com paciência — Mas papai tem sentimentos. Ele ama a você e a seus três filhos.

— Bom, é obvio que sim. Não teria me casado com ele se não tivesse uma sensibilidade tão tenra.

Phoebe tomou a taça de chá.

— Kilbourne, temo, não é capaz de tais sensibilidades, mamãe. Duvido, por exemplo, que aprovasse pagar as dívidas de honra de sua sogra.

Lydia se sentiu alarmada imediatamente.

— Crê que evitaria a ideia de me fazer um empréstimo ocasional?

— Temo que sim

— Santo Deus. Não me tinha dado conta de que era tão presunçoso.

— É algo que devemos definitivamente ter em conta, mamãe

— Tem razão. — Lydia franziu os lábios — Pelo contrário, seu pai, sim, o aprova, e não terá que negar que é um bom candidato. Não existe dúvida alguma de que é o melhor que podemos esperar, agora que já tem quase vinte e cinco anos.

— Dou-me conta disso, mamãe. Mas não posso sentir nenhum entusiasmo em me casar com Kilbourne.

— Bom, certamente seu pai sim pode. — Disse Lydia radiante — E existe a possibilidade de que com o tempo Kilbourne se abrande com o tema dos empréstimos. Você pode conseguir, Phoebe. Convença-o que necessita uma mesada importante para manter as aparências.

— E depois faço empréstimos dessa mesada importante a você? — Suspirou Phoebe — Duvido que seja assim tão simples, mamãe.

— De todos os modos não devemos perder as esperanças. Você aprenderá a dirigir Kilbourne. É muito hábil para isso, Phoebe.

Phoebe franziu o nariz com tristeza.

— Obrigado, mamãe .Wylde disse o mesmo a outra noite.

— Bom, não há dúvida que você sempre foi muito obstinada e controladora, e essa tendência definitivamente aumentou com os anos. As mulheres naturalmente são assim, mas geralmente elas já estão bem casadas quando tais tendências começam a mostrar.

— Temo então que já é demasiado tarde — anunciou Phoebe, enquanto ficava de pé — Minha tendência ao controle já é bastante clara para qualquer um que queira ver. Agora, por favor, peço que me desculpe.

— Aonde vai?

Phoebe caminhou para a porta.

— À livraria Hammond. O senhor Hammond me enviou uma mensagem dizendo que tinha uns livros muito interessantes para me mostrar.

Lydia deixou escapar uma pequena exclamação.

— Você e seus livros. Não compreendo o interesse que tem por esses velhos volumes que coleciona.

— Suspeito que minha paixão por eles não é muito diferente da sua pelas cartas, mamãe.

— O tema das cartas — disse Lydia — é que sempre esperamos com desejo a próxima rodada ganhadora. Com os livros, todo dinheiro se joga pela janela.

Phoebe sorriu

— Isso depende do ponto de vista com que alguém olhe, mamãe.

 

A mensagem não era do senhor Hammond, e sim de Gabriel. Pedia que se encontrasse com ele na livraria. Phoebe recebeu a nota pela manhã cedo e lhe enviou imediatamente como resposta que estaria ali às onze.

Quando faltavam cinco minutos para a hora, desceu de sua carruagem na rua Oxford. Deixou a sua criada sentada em um banco ao sol, fora da loja, e, com ansiedade, atravessou as portas.

Gabriel já estava ali. Não a viu entrar, porque estava ocupado examinando um velho livro encadernado em couro que o senhor Hammond tinha colocado com reverência sobre o mostrador diante dele.

Phoebe parou um instante, ao ver apanhada sua atenção pela forma em que os raios do sol, que se filtravam pelas altas janelas, faziam brilhar o negro cabelo de Gabriel. Estava vestido de negro, com uma jaqueta que marcava os ombros e seu ventre plano. As calças de montar e as botas reluzentes ressaltavam os contornos de suas pernas.

Por alguma razão, Phoebe se sentiu obrigada a passar uma quantidade de tempo fora do normal escolhendo o traje que vestia aquela manhã. Ficou na dúvida entre dois ou três vestidos de uma forma que não era nada habitual nela. Agora, estava contente de ter escolhido um vestido novo de musselina de cor amarela com casaco de cor fúcsia. Seu chapéu era confeccionado com franzidos e flores de cor fúcsia e amarelo.

Como se houvesse sentido sua presença, Gabriel levantou a vista e a viu. Um lento sorriso começou a desenhar em sua boca, quando examinou o traje de cores tão vívidas. Os olhos dele pareciam muito verdes à luz da manhã. Phoebe conteve a respiração e reconheceu para si que ele era a razão que passou tanto tempo frente ao espelho naquela manhã. Esperava ver exatamente aquele olhar de aprovação nos olhos de Gabriel.

Entretanto, ante a consciência daquilo, tentou controlar suas emoções. Gabriel demonstrou, pelo que se lembrava do passado, inclinação pelas loiras de olhos azuis, a quem favorecia as cores claras em seus trajes.

— Bom dia, lady Phoebe. — Gabriel cruzou o salão para saudá-la — Parece muito brilhante e alegre esta manhã.

— Obrigado, lorde Wylde. — Phoebe olhou a seu redor rapidamente e decidiu que ninguém podia ouvir a conversa — Recebi sua mensagem.

— Posso vê-lo. Pensei que estaria bastante ansiosa em recuperar “O cavalheiro e a feiticeira”.

— Está com você?

— É obvio. — Gabriel a conduziu para o mostrador, onde um pacote com forma de livro, envolto em papel madeira, estava junto ao exemplar que estava examinando — Prova de minhas habilidades como cavalheiro andante.

— Wylde, é maravilhoso. — Phoebe tomou o pacote — Não posso lhe dizer como estou impressionada. Sei que será de grande ajuda em minha investigação.

— Farei tudo que posso. — Gabriel indicou o livro aberto que estava sobre o mostrador e levantou um tanto a voz— . Talvez esteja interessada nisto, lady Phoebe. Um exemplar muito fino da história de Roma a princípios do século XVI. O senhor Hammond diz que recentemente o comprou de um colecionador de Northumberl

Phoebe se deu conta imediatamente que Gabriel tentava proporcionar uma desculpa razoável para que ambos continuassem falando. Ninguém na livraria acharia estranho que ambos estivessem estudando um interessante livro antigo. Obedientemente inclinou a cabeça para estudar o livro mais de perto.

— Muito bonito — declarou Phoebe em voz alta, quando viu o senhor Hammond pela extremidade do olho — Italiano, posso ver. Não latim. Excelentes ilustrações.

— Pensei que gostaria. — Gabriel passou uma página e leu em silêncio um momento.

Phoebe voltou a olhar com dissimulação a seu redor e se inclinou mais sobre o livro com o pretexto de ler por cima de seu ombro.

— Wylde, minha família está um pouco irritada com tudo isto.

— Já me dei conta. — Gabriel passou outra página e franziu o cenho, pensativo, enquanto estudava.

— Eles não sabem nada de minha investigação, de modo que naturalmente supõem que você e eu temos algum tipo de amizade.

— Algo mais que uma amizade, lady Phoebe. Temem que estejamos mantendo uma relação mais íntima. — Gabriel virou outra página do livro.

Phoebe se ruborizou e voltou a jogar um olhar ao estabelecimento. O senhor Hammmond estava ocupado com outra pessoa.

— Sim, bom, não posso lhes explicar a verdade. Jamais aprovariam que fizesse tal investigação. Mas desejo tranquilizá-lo quanto a que não deve se preocupar com o interesse deles.

— Entendo. Exatamente como irá assegurar a eles que nós somos simples conhecidos?

— Não se preocupe. Dirigirei papai e os outros. Tenho muitíssima experiência neste tipo de coisas.

— Obcecada — disse Gabriel entre dentes.

— Perdão, não escutei.

Gabriel mostrou uma palavra na página que estava lendo.

— Acredito que em italiano obcecado se diz assim.

— Oh. — Phoebe examinou a palavra — Não, não acredito. Estou certa que essa palavra se traduz como mula.

— Ah. É obvio. É meu engano. O que é que estava dizendo? — Perguntou Gabriel com amabilidade.

— Não deve permitir que as suspeitas de minha família interfiram em suas investigações.

— Eu farei tudo o que possa para estar por cima de opiniões tão baixas, senhora.

Phoebe sorriu com aprovação.

— Excelente. Algumas pessoas podem se sentir bastante ofendidas pelo comentários ditatoriais de meu pai.

— Não é assim?

— Ele, à sua maneira, é muito bom.

— Não, não sei.

Phoebe mordeu os lábios.

— Suponho que, pelo que aconteceu há oito anos, você não pode ter uma impressão muito agradável dele.

— Não, não tenho.

— Bom, como já disse, não deve prestar nenhuma atenção nele. Agora, vamos ao nosso assunto. Tenho uns convites muito bons assegurados para você. A primeira é para o baile de máscaras de Brantley, na quinta-feira.

— Devo entender que estou obrigado a ir?

Phoebe protestou.

— É um assunto importante. Poderei apresentar-lhe muita gente, e, assim, poderá começar a fazer suas averiguações.

Gabriel inclinou a cabeça.

— Muito bem, minha senhora. Seus desejos são ordens.

— Esse é o espírito disto. No momento, você tem algo para me informar?

Gabriel bateu os dedos no mostrador.

— Deixe-me pensar. Até aqui, pude assegurar uma casa para a temporada. Devo dizer que não foi uma tarefa fácil. Também contratei pessoal. Fiz uma visita a Weston para comprar roupa nova e ao Hoby para as botas. Acredito que isso o cobre o que tenho feito até agora.

Phoebe o olhou com rancor.

— Não estava falando desse tipo de atividades.

— Senhora, devo cuidar desses detalhes antes de poder me apresentar em sociedade. Dá conta disso, não?

Phoebe mordeu o lábio.

— Tem razão. Não tinha pensado no assunto. Mas agora que me informou isso, devo lhe fazer uma pergunta pessoal.

Gabriel lhe deu um olhar de soslaio.

— Quanto pessoal?

— Por favor, não se ofenda. — Phoebe se arriscou a dar outra olhada no lugar, antes de inclinar-se mais perto — Tem suficiente dinheiro para cobrir seus gastos?

Gabriel deixou de virar as páginas.

— Essa certamente é uma pergunta muito pessoal.

Phoebe sentiu que seu rosto corava de remorso. Gabriel era um homem muito orgulhoso. Ela não tinha desejado humilhá-lo. Entretanto, devia ser firme nisto.

— Por favor, não se envergonhe, meu senhor. Sou bem consciente que estou pedindo a você que entre em círculos muito exclusivos da sociedade e também sei que para isso se necessita dinheiro. Como sou eu quem pediu sua ajuda nesta missão, acredito que é justo cobrir alguns gastos.

— Tenho os ganhos que recebi da publicação de meu livro — recordou-lhe.

Phoebe fez um gesto de desinteresse.

— Sei que os ganhos que um escritor principiante recebe por seu trabalho não dá para financiar uma temporada em Londres.

Gabriel manteve o olhar fixo no velho exemplar que tinha diante dele.

— Acredito que posso cuidar das minhas finanças sem sua ajuda, senhora. Pelo menos, pelo tempo que levará para completar esta investigação.

— Esta certo?

— Muito certo. Cuidarei de mim. — Gabriel apoiou um cotovelo contra o mostrador e se virou para estudar Phoebe com um intenso olhar — É minha vez de fazer uma pergunta pessoal; senhora, com que intensidade você amava Neil Baxter?

Phoebe o olhou assombrada. Depois, afastou os olhos dos de Gabriel.

— Disse-lhe que Neil e eu fomos amigos.

— Quanto amigos?

— Não vejo que importância tem isso agora.

— Importa muito .

— Por quê? — perguntou ela agressiva — Que diferença há? Neil esta morto. O único que importa agora é encontrar o assassino.

— Todas as semanas têm assassinos que não são castigados.

— Com este não será assim. — A mão de Phoebe se apertou sobre o mostrador — Devo encontrá-lo.

— Por quê? — perguntou com gentileza Gabriel — Por que amava tanto Baxter que não poderá descansar até que se faça justiça?

— Não — admitiu com tristeza — Devo encontrá-lo porque por minha culpa o mataram.

Gabriel a olhou claramente surpreso.

— Sua culpa? Por que em nome de Deus diz isso? Esse homem morreu nos Mares do Sul, a milhares de quilômetros da Inglaterra.

— Não compreende? — Phoebe o olhou com angústia — Se não fosse por mim, Neil jamais teria partido para os Mares do Sul. Foi ali em busca de fortuna para poder retornar e pedir minha mão. Eu tenho a culpa do que aconteceu.

— Cristo! — murmurou Gabriel — Essa idéia carece de toda prudência.

— Não é assim — disse Phoebe, lutando por baixar a voz.

— É uma conclusão sem sentido, idiota e totalmente irracional.

Phoebe sentiu que lhe perfurava o estômago. Procurou o rosto cheio de fúria de Gabriel.

— Pensei que você, precisamente você, compreendia esta missão de honra.

— É uma tolice.

Phoebe tomou ar.

— Significa então que depois de tudo você não me ajudará?

— Por Deus, não — disse Gabriel entre dentes — Eu irei ajudá-la a encontrar o dono da ”A dama da torre”. O que você deseja acreditar sobre o homem depois que o tenha localizado é assunto dele.

— O homem é um pirata assassino. Com certeza você desejará me ajudar a levá-lo perante a justiça.

— Não particularmente. — Gabriel fechou o livro que estava examinando — Já lhe disse naquela noite em Sussex que não me interessam mais os idealismos.

— Mas você aceitou levar adiante esta empreitada — afirmou Phoebe.

— Intriga-me. Em ocasiões, me divirto com essas adivinhações. Mas não suponha que tenho intenções de ajudá-la a castigar o homem que matou seu amante.

Phoebe desejava continuar discutindo, mas naquele momento uma jovem vestida à última moda e acompanhada por uma criada entrou na livraria. Foi diretamente ao mostrador e esperou impaciente que o senhor Hammond aparecesse logo para atendê-la.

— Desejo comprar um exemplar de "A Missão" — anunciou a dama com tom imperioso — Todos meus amigos já leram, de modo que suponho que eu também devo fazê-lo.

— Acredito que deverá ir à livraria Lacey — murmurou o senhor Hammond.

— Que irritante. — A jovem se virou para Phoebe e Gabriel, enquanto o senhor Hammond desaparecia no balcão. Ela olhou Gabriel com uns olhos emoldurados em largas pestanas — Você o leu, senhor?

Gabriel esclareceu voz. Sentiu-se terrivelmente incômodo.

— Ah, sim. Sim, já li.

— O que opina dele? — perguntou com ansiedade a dama — É de verdade tão inteligente como diz todo mundo?

— Bom... — Gabriel olhou indefeso Phoebe.

Phoebe se deu conta que era a primeira vez que ela via Gabriel ruborizar. Em realidade, se pôs arroxeado. Sorriu à jovem e, com frieza, se encarregou da situação.

— Estou certa que desfrutará da leitura da Missão — disse Phoebe — Em minha opinião, representa uma classe de novela completamente nova. Está cheia de aventuras e incidentes com cavalheiros e não se apóia em elementos sobrenaturais para obter efeito.

— Entendo. — A jovem se mostrava insegura.

— O tom é muito afetado — continuou com fluidez Phoebe — O livro apanha o mais elevado da sensibilidade. Um tratamento muito inspirador do tema do amor. Gostará especialmente do herói. É inclusive mais emocionante que os heróis da senhora Radcliffe.

A jovem se mostrou radiante.

— Mais emocionante que os personagens da senhora Radcliffe?

— Sim, certamente. Asseguro-lhe que não se sentirá defraudada. — Phoebe sorriu e fez uma pausa de um segundo antes de adicionar um toque final — Como sabe, Byron tem lido "A Missão". Ele recomendou o livro a todos seus amigos.

A jovem abriu os olhos.

— Vou agora mesmo à livraria Lacey.

Phoebe sorriu com satisfação. Outra venda para Lacey. Se não tivesse estado em um lugar público, teria esfregado as mãos pela sorte que a embargava.

Talvez não tenha herdado os talentos da família pela matemática e os negócios, mas sabia escolher livros de êxito entre uma pilha de manuscritos.

Era muito triste que sua família não apreciasse sua peculiar versão do talento familiar.

 

Representa um tipo de romance completamente novo.... Não se apóia em elementos sobrenaturais para obter efeito... Tratamento muito inspirador do tema do amor.

As palavras de Phoebe ainda soavam na cabeça de Gabriel, naquela tarde, quando entrou na livraria Lacey. Eram palavras que lhe soavam familiares. Eram em realidade, quase as mesmas palavras que Lacey utilizou em sua carta onde lhe dizia que desejava publicar "A Missão". Gabriel leu várias vezes essa carta, guardando em sua memória aquelas frases cheias de aprovação.

Desde que deixou Phoebe na livraria de Hammond naquela manhã, uma suspeita começou a crescer em sua mente. A princípio lhe pareceu muito extravagante para ser verdade, mas, quanto mais pensava, mais se dava conta de que tudo tinha sentido.

Se sua suspeita fosse correta, certamente que explicava como Phoebe sabia tantas coisas dele desde o começo. Também significava que não existiam limites na ousadia de Phoebe.

O homem que estava atrás do mostrador o observou.

— No que posso servi-lo, senhor?

— Onde está Lacey? — Perguntou Gabriel com tom cortante. Viu Lacey só uma vez, pouco depois do começo de sua associação. Naquela ocasião, Gabriel deixou claro a Lacey que respeitasse seu desejo de permanecer no anonimato.

O empregado piscou e, depois, tossiu discretamente.

— Temo que o senhor Lacey esteja muito ocupado, meu senhor.

— Quer dizer que está bêbado como uma Cuba?

— É obvio que não, senhor. Está trabalhando.

Gabriel ouviu um ruído na sala que estava diretamente nos fundos da livraria.

— Não se preocupe, eu mesmo o encontrarei.

Deu a volta ao mostrador, empurrou a porta e entrou na sala onde Lacey mantinha a imprensa.

O aroma de tinta e azeite flutuava pesadamente no ar. A maciça imprensa de ferro estava em silêncio. Lacey, um homem robusto e calvo de rosto festivo e costeletas muito crescidas, estava em um canto, examinando um punhado de papéis. Tinha posto um avental de couro sobre as roupas sujas de tinta. Uma garrafa de genebra aparecia por um dos bolsos do avental.

— Lacey, há algo que desejo falar com você — disse Gabriel, fechando a porta.

— Do que se trata? — Lacey voltou a cabeça e olhou zangado a Gabriel com seus pequenos olhos — Oh, é você, meu senhor. Agora vejamos, se veio para se queixar por não lhe pagar o suficiente por seu último livro, está perdendo seu tempo. Disse-lhe que meu sócio pôs o tema nas mãos de um advogado. Eu já não me preocupo nada pelo tema do dinheiro.

Gabriel sorriu com frieza.

— Não é o dinheiro que me preocupa, Lacey.

— Bom, isso é um alívio — Lacey se endireitou e tomou a garrafa que aparecia pelo bolso do avental. Protestou ante Gabriel enquanto tomava um bom gole de genebra — Não me acreditaria quanto os autores ficam difíceis quando se trata de dinheiro.

— O que me interessa é o nome de seu sócio.

Lacey engasgou. Tragou nervoso e depois começou a tossir com força.

— Temo que não posso dizer-lhe meu senhor. Anônimo. Igual a você.

— Quero o nome, Lacey.

— Bom, veja bem, o que lhe dá direito a se meter no meu negócio?

— Se não me der o nome de seu sócio, farei com que meu novo livro, que já está quase pronto, seja publicado por outro editor.

Lacey o olhou cheio de horror.

— Você não faria isso, meu senhor. Depois do que temos feito?

— Não desejo levar "Uma aventura imprudente" a outro lugar, mas se você me obrigar, farei.

Lacey se sentou em uma cadeira de madeira.

— É um homem difícil, meu senhor.

— Sou um homem cauteloso, Lacey. Eu gosto de saber quem dirige meus negócios.

Lacey o olhou com olhos entrecerrados e limpou o nariz com o reverso da manchada manga de sua camisa.

— Você não dirá a ela que eu disse a você? Ela, na realidade, insistiu muito que seu nome se mantivesse em segredo. Sua família não aprovaria que se visse envolta em negócios.

— Confie em mim — disse Gabriel sombrio — Sei guardar um segredo.

 

Na quinta-feira, pela manhã, Gabriel estava sentado em sua mesa e escrevia as últimas cenas de “Uma aventura imprudente”. Estava muito satisfeito com a história. Em poucos dias, a enviaria ao editor.

Depois, esperaria a carta de aceitação ou rechaço. Seria interessante ver o que a "sócia" de Lacey diria sobre o manuscrito.

A contra gosto, Gabriel levantou os olhos do trabalho quando seu novo mordomo, Shelton, abriu a porta.

— Há duas senhoras que desejam vê-lo, senhor. — Shelton não se mostrava como se aprovasse às visitantes — Não quiseram me dar seus nomes.

— Faça com que entrem, Shelton. — Gabriel deixou sua pena e ficou de pé.

Sorriu para si mesmo. A única mulher que ele sabia que era suficientemente valente para visitar um homem era Phoebe. Ela, sem dúvida, desejava lhe dar mais ordens, instruções e sugestões. Perguntou-se quem a acompanharia. Sua criada, sem dúvida.

Teve plena consciência da emoção que sentia, a mesma que sentiu na quinta-feira quando se encontrou com ela na livraria de Hammond. Esse era um sentimento sensual. Teve a repentina visão de si fazendo amor com Phoebe, justo aqui em sua biblioteca. Talvez poderia ser possível, concluiu.

Se a bobinha era suficientemente estúpida para arriscar sua reputação ao vir aqui hoje, certamente ele não teria remorso de pôr em maior risco a dita reputação.

Depois de tudo, era embusteira desde que nasceu. Desde o começo, esteve entrelaçando ilusões.

Naquele momento, a porta voltou a abrir, e duas damas elegantemente vestidas e com grossos véus sobre seus rostos apareceram na entrada. Gabriel experimentou uma punhalada de desgosto. Embora não pudesse ver seus rostos, soube imediatamente que nenhuma delas era Phoebe.

Agora, ele reconhecia Phoebe em qualquer parte, com ou sem véu. Não era simplesmente pela leve claudicação que a caracterizava. Havia algo na forma em que ela mantinha a cabeça, algo na forma de seus vestidos coloridos e de cintura alta que marcava seus seios e os contornos de seus quadris, que ele sempre reconheceria.

Jogou um olhar significativo ao sofá de veludo verde que estava perto da lareira. Isso bastou quanto a seus prometedores planos de passar a seguinte hora seduzindo a sua atrevida dama.

— Bom dia, senhoras. — Gabriel arqueou uma sobrancelha quando suas visitantes se sentaram em frente de sua mesa — Posso ver que sua família têm grande inclinação pelo uso de véus. Talvez todas as mulheres Clarington, antes disto, reconheceram alguma vocação religiosa.

— Não seja ridículo, Wylde. — Lady Clarington levantou o véu com seus dedos enluvados e o firmou na parte superior de um chapeuzinho de cor azul — Não tenho mais interesse na vida religiosa que vocês dois.

Meredith levantou também seu véu e o colocou na parte superior de um chapéu adornado com flores. Olhou Gabriel com seus olhos azuis cheios de recriminação.

— Sempre teve um estranho senso de humor, Wylde.

— Obrigado, lady Trowbridge. — Gabriel inclinou a cabeça — Sempre pensei que um pouco de senso de humor era melhor que nada.

Meredith piscou insegura.

— Eu jamais o compreendi.

— Não, já me dou conta disso. — Gabriel se sentou e entrelaçou as mãos sobre a mesa — Seguiremos trocando divertidas graças a menos que vocês duas, senhoras, sejam tão amáveis de me explicar a razão desta visita.

— Deveria pensar que a razão de nossa visita é muito óbvia— disse Lydia com um suspiro.

— É obvio que estamos aqui por causa de Phoebe — insistiu Meredith.

Meredith deu a sua mãe um olhar de recriminação e depois voltou sua atenção a Gabriel.

— Viemos lhe suplicar, Wylde. Estamos aqui para nos pôr a sua mercê e lhe rogar que não arruíne a vida de Phoebe.

— Caso essa seja sua intenção, é obvio — murmurou Lydia. Olhou com interesse a seu redor, forçando a vista de forma inconsciente — Suponho que você não pôde fazer fortuna nos Mares do Sul? Equivoco-me?

Gabriel a olhou deliberadamente com ternura.

— Por que me pergunta isso, lady Clarington?

— Faria as coisas muitíssimo mais simples — disse Lydia — Desta forma, poderia se casar com Phoebe, e ninguém moveria uma pestana. Nós não estaríamos passando por toda esta tolice

— Mamãe, por favor, trate de compreender o que está acontecendo — disse Meredith cheia de tensão — O senhor não ama Phoebe. Ele planeja utilizá-la.

— Duvido que isso funcione — disse Lydia cortante — É muito difícil utilizar Phoebe a menos que ela deseje. É muito forte para esse tipo de coisas.

A mandíbula de Meredith estava rígida. Entrelaçou suas mãos sobre a saia e olhou Gabriel.

— Senhor, sei que começou esta amizade com Phoebe para poder usá-la e nos castigar a todos. Rogo-lhe que considere que ela não tem nada a ver com o que aconteceu há oito anos. Naquele momento ela era simplesmente uma menina.

— Aquela noite, me disse que foi ela que teve a ideia de como atar os lençóis para que você pudesse descer pela janela — Gabriel não pôde resistir a dizer aquilo.

As lágrimas encheram os adoráveis olhos de Meredith.

— Não acredito que vá castigá-la por isso. Ela não compreendia. Pensou que era uma grande aventura. Lia aqueles livros que você me deu, e tinha a ideia infantil que você representava uma versão moderna de um cavalheiro da Távola Redonda. Céus, acredito que o via como o rei Artur.

Lydia se mostrou de repente alerta.

— Sabe, acredito que talvez tenha descoberto algo, Meredith. Olhando aquilo, sim, acredito que foi quando Phoebe começou a desenvolver um lamentável entusiasmo pelas lendas medievais. Sim, agora tudo tem sentido. — Olhou Gabriel franzindo o cenho — É tudo por sua culpa, Wylde.

Gabriel a olhou com acuidade.

— Minha culpa?

— Sim, é obvio. — Lydia olhou pensativa — Você foi quem a iniciou em toda essa tolice. No que me concerne, você já estragou sua vida.

— Agora, esperem um minuto. — Ocorreu a Gabriel que ele estava perdendo o controle da situação — Eu não fiz nada para arruinar a vida de Phoebe. Ainda não, sob nenhum conceito.

Os olhos de Meredith se abriram pela impressão recebida destas últimas palavras.

— Sim, fez — disse Lydia, ignorando a ameaça implícita — Ela não se casou por sua causa. Culpo você de sua atual situação de solteirona.

— A mim? — Gabriel olhou a Lydia, tentando seguir sua enlouquecida lógica — Não pode me culpar por ela não ter conseguido se casar até agora.

— Sim, posso fazê-lo. Quando se trata de pretendentes, o interesse que ela tem por essas tolices da Idade Média a faz muito peculiar. Nenhum dos candidatos poderia ser igual aos cavalheiros dessas tolas histórias que sempre está lendo.

— Espere um momento — começou a dizer Gabriel.

— Mais ainda — continuou Lydia — sempre está queixando que nenhum de seus pretendentes tem interesse por todo este tema medieval. É obvio, todos menos esse horroroso Neil Baxter. Tenho razão, Meredith?

— Correto, mamãe — Meredith consentiu sombria — Mas não acredito que seja isso que desejamos falar com o cavalheiro. Existem problemas mais imediatos.

— Meu Deus — franziu o cenho Lydia — Não posso imaginar nada mais imediato que casar Phoebe com um marido adequado. — Olhou Gabriel de forma conspiratória — Apesar do dano que fez, ainda temos grandes esperança em fazer que Kilbourne se atreva.

— É verdade? — Gabriel achou que a informação era irritante. Phoebe não tinha mencionado que Kilbourne estava a ponto de fazer uma oferta matrimonial. Descobriu que não gostava nada disso.

Meredith olhou sua mãe para que se calasse.

— Mamãe, se Wylde arruinar Phoebe, jamais poderemos fazer com que se case com quem quer que seja; Kilbourne, então, nem pensar.

— Oh, carinho. — Lydia olhou Gabriel — Realmente você não está planejando arruinar minha filha, verdade?

Meredith tomou um lenço de sua manga e enxugou os olhos.

— É obvio que sim, mamãe. É disto que se trata. É sua vingança. — Levantou a vista para Gabriel, com o olhos brilhantes de lágrimas — Rogo, meu senhor, não o faça.

— Por que não deveria fazê-lo? — perguntou amável Gabriel.

— Pelo que tivemos — chorou Meredith.

— Pelo que me lembro, não tivemos muito. — Gabriel examinou os formosos olhos cheios de lágrimas e se perguntou o que tinha visto ele em Meredith. Refletiu brevemente na curta fuga que tinha ocorrido há oito anos e enviou uma prece de gratidão ao santo que tinha cuidado dos jovens inocentes.

— Por favor, meu senhor. Pense em Phoebe.

— É difícil não pensar — admitiu Gabriel — É uma mulher muito interessante.

— E muito inocente — acrescentou Meredith rapidamente.

Gabriel encolheu os ombros.

— Se você diz.

Meredith o olhou com raiva contida.

— Quer dizer o contrário, senhor?

— Não. — Gabriel pensou em Neil Baxter, perguntando-se, pela primeira vez, quanto se preocupou Phoebe com este homem — Phoebe e eu jamais falamos deste tema em detalhe.

— Devo esperar que não — disse Lydia com firmeza — Minha filha talvez seja um pouco excêntrica, senhor, mas é uma dama perfeitamente respeitável. Sua reputação é irrepreensível.

— Excêntrica? Eu diria que é mais que um pouco excêntrica — replicou Gabriel.

Lydia encolheu os ombros com elegância.

— Muito bem. Ela tem interesses um pouco fora do comum, cuja culpa é sua. Mas estou certa que o homem adequado pode contê-la.

— Se eu fosse responsável por ela, não seriam seus interesses fora do comum que me preocupariam — disse Gabriel.

— Oh, está bem. Admito que é um pouco obcecada em alguns assuntos — concedeu Lydia — Talvez muito voluntariosa. E que, certamente, tem uma atitude independente que alguns podem encontrar objetável, mas não há nada de importância nisso.

— Senhor. — Gabriel se deu conta que a família de Phoebe não tinha ideia de quão intrépida era. Perguntava-se o que diria lady Clarington se lhe informasse que sua filha caçula teve uma reunião com homens à meia-noite e que planejava uma investigação para encontrar assassinos.

Meredith ofereceu a Gabriel um olhar de misericórdia.

— Senhor, dá-nos sua palavra que não continuará mantendo esta amizade com minha irmã? Ambos sabemos que não é sincero nesta relação.

— Está certa disso? — perguntou Gabriel.

Meredith assoou o nariz em seu lencinho.

— Não sou tola, senhor. E tampouco nenhum membro de minha família é. Todos sabemos que tem em mente a sede de vingança. Rogo-lhe de joelhos que reconsidere isto. Phoebe não merece sofrer pelo que aconteceu há tanto tempo.

— Talvez não, mas cada um deve trabalhar com o que está disponível — disse Gabriel.

Às dez daquela noite, Gabriel apoiava um de seus ombros contra a parede do magnífico salão de baile dos Brantley, enquanto bebia de sua taça de champanha. Estava vestido com uma simples máscara negra e uma capa também negra sobre seu traje de festa. Muitos dos convidados, entretanto, estavam vestidos com máscaras muito complicadas.

Fazia alguns minutos que localizara Phoebe, pouco depois de ter chegado. Pelo que sabia de seus interesse e gostos nas cores, não foi difícil encontrá-la entre a multidão.

Usava uma coroa medieval alta e larga e uma meia máscara dourada. Seu cabelo brilhante e escuro estava penteado para cima dentro de uma rede para cabelo que brilhava pelos fios dourados. O vestido de cor turquesa brilhante e ouro era também medieval em estilo. As sapatilhas de cetim douradas brilhavam quando se movia entre as pessoas, de braço dado a um homem que estava vestido de arlequim.

Gabriel reconheceu seu companheiro imediatamente. A máscara de cor marrom que fazia jogo com sua capa não fazia muito para esconder o cabelo loiro de Kilbourne ou a expressão dolorosamente amável de seu rosto.

Sorriu a si mesmo. Obviamente Phoebe estava tendo um bom momento, mas aparentemente Kilbourne quase não suportava a máscara.

Os olhos de Gabriel se entrecerrarão quando observou Kilbourne, que tentava aproximar mais Phoebe a seu lado. A visão dos dedos de Phoebe descansando no braço do conde o incomodaram. Recordou o que lady Clarington disse sobre o projeto de que Kilbourne fizesse uma oferta de casamento.

Deixou a taça de champanha e cruzou o salão até onde Kilbourne e Phoebe estavam parados conversando.

Phoebe levantou o olhar quando se aproximou. Gabriel viu que os olhos de cor topázio brilharam ao reconhecê-lo atrás de sua máscara dourada. Na suave curva dos lábios se desenhou um cálido sorriso.

— Boa noite, lorde Wylde — disse Phoebe — Conhece Kilbourne?

— Vimo-nos. — Kilbourne assentiu com a cabeça de forma brusca — Acredito que em alguns clubes.

— Boa noite, Kilbourne — disse Gabriel. Voltou-se para Phoebe — Pergunto-me se poderia ter a honra de dançar com você lady Phoebe.

— Olhe, senhor — começou a dizer Kilbourne — Lady Phoebe não se sente muito cômoda na pista de dança.

— Frescuras — declarou Phoebe — Eu adoraria dançar. — Sorriu jocosa a Kilbourne — Talvez o veja mais tarde, senhor.

A irritação de Kilbourne era óbvia quando inclinou com correção a cabeça sobre a mão dela.

— Esperarei ansioso outra oportunidade de conversar com você, lady Phoebe. Tal como lhe dizia a um momento, eu gostaria de falar com você em privado mais tarde, esta mesma noite.

— Já veremos — disse Phoebe sem comprometer-se, enquanto aceitava o braço de Gabriel.

Gabriel sentiu uma onda de satisfação ao conseguir separar Phoebe de Kilbourne. Ele a tomou em seus braços com os primeiros acordes de uma valsa, detectou uma momentânea fraqueza dela e a firmou imediatamente. Era uma tarefa fácil, já que Phoebe pesava menos que uma pluma.

Phoebe o olhou feliz.

— Estou feliz de vê-lo aqui, meu senhor. Tem alguma notícia para minha investigação?

A mão de Gabriel apertou a sua.

— Não pensa em outra coisa que em sua investigação, Phoebe?

— No que outra coisa quer que pense?

— O que tem a iminente oferta de casamento de Kilbourne? Devo pensar que esse será um tema de interesse para você.

Phoebe piscou atrás de sua máscara.

— O que você sabe das intenções de Kilbourne?

— Sua mãe me informou hoje que ela tem esperanças que ele se declare.

— Meu Deus! Minha mãe foi vê-lo?

— E sua irmã.

Phoebe mordeu nervosa o lábio inferior.

— Espero que você não tenha se incomodado por algo que pudessem lhe dizer, senhor. Asseguro-lhe que cuidarei da minha família. Não deve deixar que o intimidem.

— Acredite, Phoebe, não me sinto intimidado por sua família. Mas me interesso em saber se estiver a ponto de se casar.

Phoebe fez uma careta.

— Não estou nada a ponto de me casar, meu senhor. Posso lhe assegurar que, se Kilbourne me propuser casamento, com amabilidade o rechaçarei.

— Por quê? — perguntou exigente Gabriel. Deu-se conta de repente que devia averiguar tudo o que pudesse da relação de Phoebe com Kilbourne.

Phoebe olhou para cima com gesto de impaciência.

— Se tivesse tratado com Kilbourne durante algum tempo, poderia ver que seria um marido abominável.

Gabriel protestou.

— É marquês, e, pelo que sei, com enorme fortuna.

— Esse homem é um presunçoso. Acredite, reconheço essa espécie e não tenho intenções de me casar com um desses. Não posso me imaginar atada a uma criatura pomposa e presunçosa durante o resto de minha vida. Seria como estar no inferno.

— Em outras palavras — disse Gabriel — Você teme que ele não lhe permita continuar com sua conduta imprudente, não é assim? Nada mais de encontros à meia-noite com estranhos nem mais investigações.

— Kilbourne não pararia nisso. É muito restrito, um homem que não aprova nada. Tenta agora esconder, porque está me fazendo a corte, mas eu sei que, se me casar, ele tentará até escolher meus amigos e me ditar os modelos de meus vestidos. Já não teria nenhum tipo de liberdade.

— E você valoriza a liberdade?

— Muitíssimo. Mamãe me assegurou que é possível que uma mulher inteligente dirija a um homem como Kilbourne, mas eu não corro riscos. — Phoebe sorriu — Sabe, meu senhor, que Kilbourne nem aprova a leitura de livros como o que você escreveu? Acredito que em realidade tentaria proibir que os lesse.

Algo no interior de Gabriel se comoveu. Sorriu lentamente.

— Nesse caso, devo estar de acordo com você. Kilbourne seria um marido abominável.

Phoebe riu com deleite, e seus olhos brilharam atrás de sua máscara dourada. Os fios brilhantes da rede do cabelo piscavam à luz dos candelabros. Gabriel desceu a vista para observá-la e se perguntou por um instante se em seus braços tinha a uma mulher de verdade ou a uma feiticeira.

Temeu estar meio enfeitiçado. O desejo pulsava em suas veias. Por instinto, apertou seu abraço. Era evidente que ela não podia se casar com Kilbourne.

— Meu senhor? — Phoebe inclinou a cabeça levemente, estudando seu rosto mascarado — Disse algo errado?

— Saiamos ao jardim para tomar ar fresco — murmurou Gabriel.

Phoebe não resistiu quando ele a conduziu até as portas. Perdeu o equilíbrio quando saíram.

— Não tão depressa, meu senhor — segurou seu braço para não cair.

— Eu a sustento — disse em voz baixa. Aproximou-a mais do seu corpo. E a guardarei para mim, acrescentou em silencio para si. Pelo menos, até que termine meu negócio com sua família.

— O jardim dos Brantley é magnífico — disse Phoebe, começando a conversar enquanto caminhavam por um atalho de cascalho — Alguma vez o viu?

— Não. — Gabriel respirou profundamente o frio ar noturno. Tentou aquietar a necessidade sensual que fazia que seu interior se comovesse.

— É muito grande. Há um laranjal, um labirinto e uma fonte com peixes. — Phoebe olhou nas sombras — É obvio que não se pode ver muito dele esta noite, mas o visitei durante o dia e é impressionante.

— Phoebe?

— Sim, meu senhor?

— Não tenho vontades de falar de jardins.

— Sabia — disse Phoebe com jocoso entusiasmo — Trouxe-me aqui para falar da investigação, não é assim? Conte-me, senhor, o que averiguou? Está perto de nosso objetivo?

— Isso depende de seu ponto de vista. — Gabriel a afastou das luzes da casa, entrando nas sombras do vasto jardim — Acredito que posso dizer com um pouco de certeza que o êxito da missão é provável.

— Excelente. — Phoebe levantou a vista — O que averiguou? Alguns de seus contatos com livreiros lhe proporcionou informações? Averiguou algo nos clubes?

— Há um ou dois caminhos de investigação que tenho intenções de seguir. — Gabriel se deu conta que agora já estavam fora da vista da mansão. Diminuiu o passo.

Estavam rodeados por grandes sebes recortadas com formas de fantasia. A luz da lua revelava figuras com gigantes acertos com a forma de animais mitológicos. O atalho de cascalho seguia em um bosque, cheio de estranhos animais alados e dragões rugentes.

— Agrada-me saber isso, meu senhor. — Phoebe duvidou, olhando as plantas que os rodeavam — Este jardim é verdadeiramente espetacular, mas me dá medo de noite, a você não? — aproximou-se de Gabriel — Durante o dia é muito divertido, mas na escuridão, a imaginação se apodera de mim.

— Sua imaginação é mais ativa do que a da maioria das pessoas — disse Gabriel.

— Você é o menos indicado para falar assim, senhor. É você quem faz livros com histórias muito sugestivas.

— Livros que Kilbourne tentaria proibir que lesse se fosse seu marido. — Gabriel a fez parar na sombra de um enorme Pegasus verde.

Phoebe sorriu caprichosamente.

— Acabo de explicar que não existe a mínima possibilidade que Kilbourne seja alguma vez meu marido. Por que insiste no tema, meu senhor?

— Claro que sei — Gabriel sentiu que dava rédea solta a seu apetite. A mulher o tinha seguido sem obrigação para a escuridão da noite. Não tinha sentido do decoro. Era imprudente e ousada, além de tratar-se da filha de Clarington.

Merecia o que lhe acontecia.

Com raiva, Gabriel a tomou em seus braços e a beijou.

O suave protesto de surpresa de Phoebe foi sossegado rapidamente. Não opôs resistência ao abraço. Em lugar disso, com acanhamento se aproximou mais.

Gabriel sentiu que os braços dela se abatiam lentamente em volto de seu pescoço, e um sentimento de triunfo o embargou. Ela o desejava. Tomou com uma mão pela nuca e de forma deliberada fez que seu beijo fosse mais profundo. Inclinou a cabeça para beijá-la na garganta. Um estremecimento foi a resposta de Phoebe.

— Gabriel. — A voz de Phoebe estava carregada de uma emoção feminina que o cativava.

Os dedos dela se entrelaçavam no cabelo dele, tocando com uma inegável urgência. Gabriel sentiu que seu sexo, já inflamado de paixão, começava a pulsar.

— Você gosta disto? — Perguntou Gabriel, com os lábios sobre a pele quente da garganta de Phoebe — Diga que você gosta.

— Oh, sim. — Phoebe conteve a respiração quando os dentes dele se fecharam delicadamente sobre o lóbulo de sua orelha.

— Diga quanto você gosta — insistiu. Sentia-se bêbado com a resposta dela. Phoebe tremia, e aquela reação o fazia estremecer com sua própria necessidade.

— Eu gosto muito. Jamais me tinha sentido tão bem, Gabriel.

Gabriel a conduziu mais para as sombras das misteriosas sebes. Seu único pensamento agora era encontrar a maior intimidade possível. Não podia esperar para descobrir os tesouros daquele corpo.

Ouviu um leve mas agudo suspirou de surpresa quando desceu a manga do vestido, Phoebe escondeu a cabeça no ombro dele, apertando-se contra seu corpo quando a luz da lua banhou um de seus seios nus.

Gabriel desceu o olhar e pensou que jamais tinha visto nada mais adorável em sua vida.

— Phoebe! É perfeita.

— Oh, Gabriel. — Ela tinha o rosto escondido em seu ombro.

— Perfeita. — Tomou com suas mãos aquele seio doce, com forma de maçã, e com o polegar começou a lhe esfregar o mamilo. Este se inflamou imediatamente.

Gabriel inclinou a cabeça e levou aquela fruta firme à boca. A reação de Phoebe foi imediata. Deu um grito suave e se apertou ainda mais a ele, como se este devesse evitar que se afogasse.

Foi Gabriel quem pensou que estava se afogando. Estava perdido na calidez e suavidade do corpo de Phoebe. Seu aroma embriagava a cabeça, aumentando todos seus sentidos. Desejava conhecer seu sabor, a sensação de seu corpo jazendo nu a seu lado. Desejava senti-la tremer em seu clímax.

Jamais desejou tanto uma mulher da forma como agora desejava Phoebe.

Nas garras de uma paixão que se recusava a negar, Gabriel empurrou Phoebe para a escuridão do exótico cenário do jardim. Parou, tirou sua capa e a estendeu sobre a grama.

Phoebe tremia, mas não protestou quando ele a fez deitar-se sobre a capa, para logo estender-se a seu lado. Tocou-lhe o rosto. A máscara dele, como a sua, só escondia os olhos. Os dedos dela estavam dolorosamente delicados em sua bochecha.

— Gabriel, acredito que devo estar sonhando.

— Também eu. Sonharemos isto juntos. — Baixou a cabeça e delicadamente tomou com os dentes o mamilo.

Phoebe se arqueou, gemendo brandamente. Gabriel acariciou seu corpo, descobrindo as curvas dos quadris e coxas.

Encontrou a barra de seu vestido turquesa e dourado, e o levantou lentamente. Com a palma da mão percorreu toda a perna, sobre as meias, mais à frente, das ligas que se ajustavam em cima dos joelhos. Depois explorou mais à frente, deixando que seus dedos se deslizassem pela cálida pele da parte interna da coxa. Sentiu o calor dela até quase fazê-lo enlouquecer.

Phoebe deixou escapar um suspiro leve e calado quando ele fechou sua mão sobre o sexo quente e úmido.

— Gabriel.

— Cale-se, amor. — Beijou-lhe a garganta e depois novamente o seio — Deixe-me tocar você. Sinto-a molhada. Posso sentir seu mel entre meus dedos.

— Oh, Meu deus — sussurrou. Os olhos dela estavam bem abertos à luz da lua, e seus lábios gemiam pelo êxtase.

Gabriel levantou a cabeça para observar seu rosto mascarado, enquanto lentamente, com cuidado, abria as suaves e inflamadas dobras que guardavam seus segredos. Viu-a tocar o canto dos lábios com a ponta da língua. Phoebe segurou nervosa seus ombros.

Quando com suavidade introduziu um dedo no interior do sexo de Phoebe, o que ficava de seu controle estava quase perdido. Sentia-a tão tensa. Tão quente. Tão preparada para entregar-se a ele.

Phoebe ficou congelada, com a boca aberta, os olhos em chamas.

— Gabriel?

Gabriel teve a certeza então que jamais fizera amor com outro homem. Sentiu uma emoção gloriosa ante este descobrimento. O que fosse que sentisse por Neil Baxter, jamais tinha permitido lhe fazer amor. De repente, sentiu uma feroz necessidade de protegê-la, inclusive quando a empurrava a sua própria paixão.

— Acalme-se, amor. Terei muito cuidado. — Gabriel selou aquela promessa solene com uma chuva de pequenos beijos nos seios — Não a machucarei. Irá me desejar tanto como eu desejo você.

Com suavidade moveu o dedo dentro dela, fazendo-o sair lentamente desta apertada passagem. Phoebe reagiu com um sobressalto, mas não se separou dele. Gabriel voltou a introduzir lentamente o dedo. Depois tocou o pequeno monte de carne sensível que estava escondido dentro de uma suave mata de pêlo. Phoebe se ergueu e gritou, mas aquele grito ficou sossegado contra a jaqueta de Gabriel, que voltou a acariciá-la.

— Gabriel, eu não... não posso pensar...

— Não é momento de pensar. É hora de sentir. Digo como eu me sinto por você? Sinto-a doce. Tão doce, tão suave e tão entregue. Meu Deus, é como tocar fogo líquido.

— Eu, Oh, Gabriel, isto é tão estranho...

Gabriel sentiu que o corpo de Phoebe começava pouco a pouco a ficar em tensão, de forma exigente, ao redor de seu dedo. Continuou acariciando-a, extasiado pela resposta que dava. Quando ela começou a levantar o corpo, fazendo pressão contra a mão dele, em silêncio pedindo mais, Gabriel sentiu como se, em suas mãos, tivesse um tesouro incalculável.

Agora a respiração de Phoebe estava acelerada. Gabriel sentia como seu corpo inexperiente lutava por uma liberação que ainda não conhecia. Desejava gritar sua própria satisfação ao mesmo vento. Depois desta noite, ela o olharia como jamais tinha feito antes.

Depois desta noite, ela não sonharia com Neil Baxter.

Gabriel ouviu um suave ranger no atalho de cascalho, como se alguém se aproximasse, justo um instante antes que Phoebe estalasse em chamas em seus braços. Reagiu por instinto, consciente que Phoebe não ouviu nada. Estava profundamente perdida nas redes do feitiço apaixonado que ele teceu para ela. Era muito tarde para devolvê-la ao mundo real.

Fez a única coisa que podia fazer. Esmagou a boca de Phoebe com a sua justo quando ela tremia e se convulsionava em seus braços. Quase não pôde tragar aquele grito de liberação.

Depois, com prontidão, abraçou-a e envolveu em sua capa negra, sustentando-a com firmeza enquanto ela ainda estremecia levemente.

Houve um momento em que gritou em silêncio e depois ficou em total quietude.

O ruído de pegadas no cascalho no outro lado da sebe. Phoebe ficou tensa nos braços de Gabriel. Ele se deu conta que deve ter ouvido algo, pois bruscamente ficou quieta e agarrada contra seu corpo.

— Lady Phoebe — A voz de Kilbourne clamava em voz alta seu nome em meio da escuridão — Está aí?

Gabriel sentiu a reação de sobressalto em Phoebe. Inclinou sua cabeça e sussurrou em voz muito baixa que se calasse.

Ela assentiu de forma frenética para indicar que compreendia.

Os passos de Kilbourne se aproximaram mais. Gabriel continuou sustentando Phoebe apertada contra seu corpo. Olhou a seu redor e se deu conta que estavam rodeados de verdes paredes formadas por cercos altos. Com um pouco de sorte, Kilbourne não chegaria até ali.

O som dos passos se aproximou mais. Gabriel conteve a respiração, desejoso de que Kilbourne continuasse andando.

Do outro lado do cerco, ouviu um surdo juramento. Depois, os passos de Kilbourne retrocederam aumentando a distância. Gabriel relaxou quando se precaveu que o homem retornava à casa.

Esperou um momento mais até que esteve certo que o marquês estava longe. Depois retirou Phoebe dentre as dobras da enorme capa negra.

Sentou-se com um aspecto de encantador desalinho. O penteado tão elaborado que usava desarrumou e uma mecha de cabelos tinha escapado da rede para cabelo, dourada que o sustentava. A máscara deslizou sobre o nariz.

— Que graça, estivemos perto de ser descobertos — murmurou Phoebe, enquanto tentava arrumar o cabelo — Estremeço só de pensar no que aconteceria se Kilbourne nos visse.

Gabriel, com o corpo ainda pulsando de desejo e a tensão de batalha que inspirou esta aparição de Kilbourne, sentiu-se inexplicavelmente irritado por este comentário.

— É um pouquinho tarde para preocupar-se com sua reputação, senhora.

Phoebe fez uma pausa, com as mãos descansando na coroa que tentava ajustar.

— Suponho que tem razão. Salvamo-nos por muito pouco. Mas pense, se Kilbourne nos visse em uma situação tão comprometedora, você manhã deveria anunciar nosso compromisso.

Gabriel ficou de pé e a obrigou a fazer o mesmo.

— A ideia de anunciar nosso compromisso a assusta tanto, senhora?

— Certamente que sim. — Ela o olhou enquanto endireitava a máscara.

— É porque sua família se sentiria ultrajada?

— A reação de minha família não é o tema. Tenho vinte e quatro anos e faço o que me agrada. Na maior parte das coisas. O que acontece, Gabriel, é que eu não estou desesperada para me casar, embora agora vejo que existem alguns benefícios que antes eu não compreendia de tudo.

— Maldição.

— Mas se tivesse que me casar — continuou inflexível — desejaria que fosse por amor, não porque me encontraram me deitando com um homem no jardim dos Brantley.

A raiva de Gabriel se incrementou dez vezes mais. Deu um passo para frente e de forma deliberada a olhou implacável.

— Foi muito mais que uma questão de se deitar comigo no jardim, senhora. E posso perguntar, o que a faz pensar que eu me sentiria obrigado a anunciar nossa intenção de nos casar se tivéssemos sido descobertos?

— Oh, faria algo honroso, Gabriel. Está em sua natureza.

— Senhora, sua fé em mim está muito mal entendida. De uma vez por todas, direi que eu não sou o cavalheiro de seus sonhos. Eu não sou o rei Artur.

Phoebe esboçou um sorriso. Ficou nas pontas dos pés e com a boca roçou a de Gabriel.

— Sua armadura talvez esteja um pouco enferrujada, mas, debaixo dela, acredito que ainda é o mesmo homem de oito anos atrás. Não me ajudaria em minha investigação se não fosse assim.

— Maldição. Phoebe...

— Sei que há oito anos estava apaixonado por minha irmã, e sei que eu não sou nada parecida com ela, de modo que não é muito provável que você alguma vez me ame.

— Phoebe, você não sabe do que fala — disse Gabriel.

— Sim, sei. Sempre sei do que falo. Agora, como eu não desejo me casar com um homem que não me ame e como tenho plena consciência que um homem de sua natureza não desejaria se casar sem amor tampouco, não devemos ter mais aventuras como a que acabamos de ter esta noite.

Gabriel a olhava fixamente, completamente sobressaltado.

— Espera que eu esteja de acordo com isso?

— Não me interprete mal, meu senhor — disse rapidamente — Tudo foi muito agradável.

— Agradável.

— Bom, talvez inclusive mais que agradável. Mas estou certa que você pode compreender o perigo que isto implica. Com toda certeza, não desejará ficar preso a mim o resto de sua vida por uma passageira indiscrição.

— Acredito que não é esta a mesma mulher que conheci em um caminho de Sussex um dia à meia-noite.

— Sim, bom, sou. Sei que você me acha imprudente, mas não sou idiota.

— Surpreende-me bastante que sua mãe tenha sido sensata nesse ponto — disse Gabriel — Queixou-se que você é muito peculiar, quanto ao tema de seus pretendentes. Não deseja se casar com um homem como Kilbourne que tentaria dirigi-la...

— Intimidar-me seria mais preciso. E não, certamente não desejo me casar com um homem como ele. — Phoebe teve um leve calafrio.

Gabriel a fulminou com o olhar.

— E não deseja se casar com nenhum homem que não se ajoelhe e lhe jure seu incondicional amor...

— É obvio que não.

— Sua mãe acredita que você está procurando um maldito cavalheiro recém tirado de uma lenda.

Ela sorriu radiante.

— Por que deveria me conformar com menos?

— Você, senhora, é muito seletiva para ser uma mulher avançada em anos. Deus, por que estou aqui parado falando com você de casamento?

— Não sei. Por que, meu senhor, está me falando disso?

— Não importa. Falaremos deste tema em outro momento. Tenha a plena certeza que cedo ou tarde ambos repetiremos a experiência que acabamos de ter aqui e continuaremos negociando o tema. — Gabriel a segurou pela mão e começou a retroceder o caminho dos estreitos atalhos.

— Não existe na realidade nada do que falar, Gabriel. Temo que devo ser firme quanto a isto. Não devemos correr riscos no futuro.

— Certamente temos muito mais a falar. Muitíssimo mais. Se pensa que vou ficar de braços cruzados, está louca. — Olhou de mau humor quando se deu conta que tinha chegado ao fim do caminho e começava outro — . Que diabos acontece?

— OH, Meu deus. — Phoebe olhou a seu redor descobrindo as imponentes paredes verdes — Acredito que nos perdemos no labirinto de lorde Brantley. É muito orgulhoso dele. Ninguém jamais pôde encontrar a saída sozinho. Só Brantley conhece a rota secreta.

Gabriel deu um murro à vegetação com total desgosto.

— Cristo. Isto é tudo o que faltava.

— Não vejo problema, Gabriel. — Phoebe sorriu com confiança à luz da lua — Acredito que o herói de seu livro ficou preso em um labirinto na página trezentos e quatro.

— Assim é. Que demônios tem isso a ver?

— Se não me engano, ele encontrou a saída depois de um raciocínio muito inteligente — disse Phoebe — Eu tenho total fé que você nos tirará daqui com o mesmo procedimento. Entretanto, será melhor que se apresse. Devemos retornar ao baile, antes que alguém, além de Kilbourne, note minha ausência.

 

Naquela mesma noite, mais tarde, Gabriel subiu a grandes passadas as escadas da casa que tinha alugado para a temporada. Não estava, como se pode dizer, de muito bom humor. Na realidade, sentia-se com um humor muito estranho.

O fato que Phoebe estivesse agora mais convencida que nunca de que ele era um herói só servia para sentir um estranho e profundo sentimento de tristeza.

E se tinha conseguido encontrar a saída do ridículo labirinto de Brantley? Não tinha sido tão difícil. Simplesmente havia firmado uma mão sobre uma das paredes e não a levantou até que ele e Phoebe voltaram para a entrada do labirinto.

Era a mesma técnica que o herói da Missão utilizou. Gabriel leu em um antigo manuscrito medieval o conselho para resolver o enigma de um labirinto. Jamais esperava aplicar esta informação na vida real.

Em segredo, se sentiu feliz e bastante surpreso que o método funcionasse.

Phoebe, é obvio, estava certa que ele teria êxito.

— Viu? Sabia que conseguiria, Wylde. Esta tipo de coisas são ninharias diárias para um homem como você.

Gabriel esteve tentado a colocá-la sobre seus joelhos. A alegre hipótese que ele era como o herói de seu livro estava começando a cansá-lo.

— Retorne à cama, Shelton — disse ao sonolento mordomo quando este abriu a porta principal — Vou trabalhar um pouco.

— Sim, meu senhor. — Shelton, obediente, desapareceu pela porta que estava atrás da escada, no mesmo silêncio em que tinha aparecido.

Gabriel entrou na biblioteca, jogou a capa negra sobre uma cadeira e acendeu o abajur da mesa. Serviu-se de uma taça de conhaque de uma garrafa de cristal que havia em uma mesa, ao lado da lareira. Aquele fogo líquido acalmou a frustração que o embargava. Seu olhar caiu sobre as dobras da capa que tinha usado mais cedo aquela noite.

A ardente lembrança de Phoebe à luz da lua enquanto ardia em seus braços voltou a lhe estalar na cabeça.

O assunto não estava funcionando como ele tinha planejado.

Não era que seu esquema em busca de vingança estivesse do todo mal. A questão era que ele estava começando a cometer sérios enganos. Que demônios acontecia com ele?, perguntou-se.

Parecia tão simples quando deixou sua casa aquela noite. Ele perseguiria e seduziria Phoebe e, no processo, humilharia e ultrajaria Clarington. No final, quando a imprudente pequena rameira caísse bem na armadilha de sua cama, Clarington tragaria o orgulho e rogaria que Gabriel se casasse com ela.

Gabriel planejou olhar Clarington diretamente nos olhos e declinar a oferta de tomar em casamento a sua arruinada filha. Só então Clarington saberia que Gabriel não era um caçador de fortunas, e que não existia nada que o obrigasse a casar-se.

Quanto a Phoebe, ela merecia tudo isso. Era uma revoltosa ingovernável, uma mulher impulsiva e teimosa que aprenderia por meios difíceis e muitos riscos, que estava jogando um jogo muito perigoso.

Gabriel sossegava sua consciência dizendo a si mesmo que Phoebe não era uma colegial inocente recém saída da escola. Tinha vinte e quatro anos e não se assustava de marcar encontros com estranhos à meia noite em escuros caminhos.

Certamente ele não tinha intenções de alardear a respeito de sua conquista uma vez que a façanha se concluísse. Não tinha intenções de jogar por terra a reputação da mulher na sociedade. Seu único objetivo era pisotear o entristecedor orgulho do conde de Clarington.

Um tipo de vingança simples e direta.

Gabriel olhou fixamente a capa negra e recordou a sensação de ter Phoebe em seus braços enquanto ela respondia a seu contato. Tão doce, tão apaixonada. Ao provocar seu primeiro clímax, ele se sentiu o cavalheiro conquistador que ela acreditava que era. Quando ouviu que Kilbourne se aproximava do labirinto, seu primeiro instinto foi protegê-la.

Tomou outro gole de conhaque e pensou no brilho de admiração que viu acender-se nos olhos de Phoebe quando ele encontrou a volta à entrada do labirinto. Sacudiu a cabeça ao pensar na inquebrável confiança dela em que a ajudaria a encontrar o assassino de Neil Baxter.

Tudo estava começando a se tornar endemoniadamente complicado.

Demônios, talvez devesse se casar com este pequeno pedaço de confusão e terminar com tudo.

Aquela ideia o sacudiu até o centro de seu ser.

— Maldição. — Com certeza, ele não enfraqueceria nesse ponto do caminho. Não tinha sentido. Podia ter tudo: a dama e a vingança.

Pensou nos olhos zombadores de Phoebe e em sua inocente imprudência.

Foi até a janela e com cautela se permitiu considerar na imagem descabelada de transformar Phoebe em sua condessa.

Isso significaria que ele abandonaria a vingança contra sua família.

Certo, poderia atormentá-los durante um tempo mais prolongado, mas, cedo ou tarde, eles saberiam que não era um caça-fortunas. Talvez jamais chegariam a gostar dele, mas não poderiam desaprovar a relação. Depois de tudo, ele era tudo o que procuravam em um marido para Phoebe.

Significaria que deveria encontrar a forma de domar uma esposa ousada e aventureira que, sem dúvida, o faria dançar e dançar o resto de seus dias.

Gabriel se deu conta que sorria para sua própria imagem no vidro da janela.

Maldição. Poderia ser pior. Ela, certamente, viveria à altura do recém criado lema dos Wylde: "Atrevo-me". Possuía coragem. Seria uma boa mãe para seus filhos.

Mais ainda, Phoebe era a única mulher que conhecia que talvez desfrutasse viver no castelo. Qualquer senhora respeitável da alta sociedade provavelmente rechaçaria pôr um pé no antigo e ventilado castelo. Sim, poderia ser pior.

A consciência que, neste ponto, ele estava abandonando sua vingança o fez cambalear. Deveria considerar muito o tema antes de tomar uma decisão.

Gabriel voltou e foi até sua mesa, deixou a taça e se aproximou do abajur. Duvidou quando desceu o olhar para a mesa, alguma coisa estava errada. Uma das gavetas estava parcialmente aberta, como se alguém com muita pressa se esquecesse de fechá-la por completo.

Tinha deixado as gavetas fechadas com chave.

Alguém revirou seu escritório.

O escritor que havia nele quase entrou em pânico. Abriu por completo a gaveta que continha “Uma aventura imprudente” e com rapidez verificou os números das páginas. Lentamente se sentou na poltrona e com profundo alívio proferiu um juramento quando se deu conta que não faltava nenhuma.

Depois, o sentido comum se apoderou dele. Gabriel voltou a ficar em pé e com calma revisou o conteúdo de sua pequena biblioteca. Depois de uma cuidadosa inspeção, ficou claro que vários livros tinham sido mexidos nas prateleiras, mas não parecia faltar nada. Olhou pela sala, observando os móveis e se perguntou a razão pela qual o intruso não levou os candelabros de prata ou a formosa urna de basalto. Qualquer um poderia pagar ao ladrão um bom preço.

Sua biblioteca foi muito bem revistada, mas não roubaram nada. Gabriel sabia que se sentiria mais tranquilo se algo de valor desaparecesse. Esta situação fez arrepiar sua pele. Era hora de fazer algumas perguntas.

Pela manhã interrogaria todo o pessoal. Se ficasse convencido que nenhum dos criados estava envolvido, daria instruções a Shelton para que tomasse precauções para que este tipo de coisas não voltasse a acontecer.

 

Três dias depois do baile de máscaras dos Brantley, Phoebe e Meredith estavam sentadas na sala da casa dos Clarington, quando Lydia entrou triunfante.

— É rico, é rico. E Kilbourne está acossado pelas dívidas. Podem acreditar? Precisamente Kilbourne. Quem diria? — Lydia estava cheia de emoção — Esperem até que seu pai saiba disto.

Phoebe olhou a sua mãe, sobressaltada.

— Podemos saber do que está falando, mamãe?

— Kilbourne e Wylde. — Lydia se desfez de seu chapéu francês à última moda e o jogou de lado, sentou-se no sofá amarelo com ares de Cleópatra, como se estivesse em um trono — Que alguém me sirva uma taça de chá.

— Sim, mamãe. — Meredith tomou o bule de Worcester de cor verde e branca.

— Melhor ainda — disse Lydia com presteza — Veja se tem um pouco de xerez na garrafa, Phoebe. Necessito como remédio. Isto foi uma impressão monumental.

Meredith olhou a sua mãe com gentil desaprovação, enquanto Phoebe ficava de pé e ia procurar o licor.

— Acalme-se, mamãe. Está muito excitada.

— Eu também diria isso. — Lydia tirou bruscamente a taça de xerez da mão de Phoebe e a tomou de um gole — E com boa razão; esperem até ouvir os detalhes.

Phoebe arqueou as sobrancelhas quando voltou a se sentar.

— Onde soube, mamãe?

— Esta tarde, na reunião de cartas que organizou lady Birkenshaw. Nellie estava tão emocionada que se esqueceu de prestar atenção às cartas que tinha na mão e perdeu trezentas libras para mim antes que inclusive se desse conta do que acontecia. — Lydia fez uma pausa e tomou ar — Mas, depois de ouvir as notícias eu também me vi obrigada a deixar de jogar. Simplesmente não podia me concentrar.

— Que notícias, mamãe? — perguntou Meredith com firmeza — O que significa que Kilbourne está acossado pelas dívidas?

— Enterrado, terminado, financeiramente quebrado. O homem virtualmente não tem recursos. — Lydia tomou outro gole — É obvio, nada que se saiba, pois conseguiu esconder muito bem durante toda a temporada, mas lorde Birkenshaw soube nesta mesma manhã quando seu advogado o aconselhou para não se associar com Kilbourne.

— Claro que sim! — exclamou Phoebe — Essa é a razão pela qual Kilbourne está atrás de mim esta temporada. Anda à caça de uma herdeira. Eu sabia que existia uma razão para ele, de repente, me considerar adequada para ser sua marquesa.

— Deus. — Meredith se mostrou desconcertada — Kilbourne tentava estender suas garras sobre Phoebe antes que qualquer um descobrisse a verdade sobre suas finanças.

— Precisamente. — Lydia deixou sua taça — Esperem até que seu pai saiba disto. Ficará furioso. Kilbourne estava atrás da fortuna de Phoebe.

— E eu pensava que seria uma influência sensata, estável e amadurecida para Phoebe — disse Meredith com remorso — Que lástima.

Phoebe olhou sua mãe e sua irmã.

— Não tem sentido lamentar por tudo isto. Sempre deixei bem claro que eu não tinha interesse em aceitar nenhuma oferta que viesse de Kilbourne.

— É marquês — recordou Meredith.

— É um presunçoso — disse Phoebe.

Lydia levantou a mão.

— Chega. Está terminado. Estivemos perto do perigo e agora chegamos ao final. A boa notícia é que agora podemos considerar uma oferta da parte de Wylde.

Phoebe e Meredith a olharam fixamente.

— Mamãe, o que está dizendo? — perguntou Meredith com tom exigente.

Lydia sorriu com lambida satisfação.

— Minhas queridas, Wylde nada em dinheiro.

Meredith ficou sem fôlego.

— O que?

— É verdade. — Lydia sorriu a Phoebe com o sorriso conspirador — Tão rico como seu pai. Sempre pensei que o moço faria algo lá nos Mares do Sul.

Phoebe tragou saliva.

— Não acredito.

— Oh, é toda a verdade. Nellie está certa disso. O advogado que aconselhou a seu marido que não fizesse negócios com Kilbourne também sugeriu que considerasse em troca fazer investimentos nos navios de Wylde.

— Navios? — disse Meredith com os olhos bem abertos.

— Navios — repetiu Lydia — No plural. Em mais de um navio. Nos muitíssimos navios que realizam um comércio muito lucrativo com a América. Wylde foi muito discreto sobre o estado de suas finanças, mas, cedo ou tarde, se conhecerá a dimensão de sua fortuna. Suas empresas comerciais são muito importantes para as ocultar por muito tempo.

— Meu Deus — respirou Meredith — Por que Wylde foi tão misterioso? E por que incomodou papai ao fingir que está interessado em Phoebe?

Lydia franziu o cenho.

— Não acredito que finja estar interessado em Phoebe. Acredito que é bastante sério. Quanto a incomodar seu papai, espero que seja só porque Wylde esteja demonstrando um pouco de rancor pelo que seu pai fez há oito anos.

Phoebe estava horrorizada pela má interpretação dos fatos que fazia sua mãe.

— Mamãe, devo esclarecer que Wylde e eu somos só amigos. Não falamos nada de casamento. Não deve se enganar.

— Não vê? — Meredith se serviu de outra taça de chá — Sabia. As intenções de Wylde não são definitivamente honradas.

Phoebe se voltou para sua irmã.

— Meredith, não deve falar assim. Wylde é um homem muito honrado.

— Se esse for o caso, por que está rondando ao seu redor e não mostra nenhum sinal que vá oferecer algo? — replicou Meredith.

— Porque somos amigos — disse Phoebe, ficando desesperada. Ela não podia explicar o assunto da investigação para encontrar ao assassino de Neil — Temos interesses em comum. Asseguro que isto é tudo o que existe entre nós.

Meredith negou tristemente com a cabeça.

— Sinto tanto, Phoebe. Mas deve ser realista. Existe só uma razão pela qual Wylde está a seu lado. Planeja arruinar você para poder vingar-se de todos nós.

Phoebe ficou de pé de um salto.

— Está enganada. Não escutarei mais tolices. Wylde e eu não temos planos de nos casar. Tenho plena consciência que não sou seu tipo. Mas somos amigos e temos intenções de continuar sendo, isso é tudo.

Phoebe saiu da sala e subiu correndo as escadas até a intimidade de seu quarto. Fechou a porta e se sentou em uma cadeira que estava perto da janela.

De modo que depois de tudo Gabriel era rico. O que significa isso?

O fato que Gabriel fosse rico não a surpreendia nada. Gabriel era um desses homens surpreendentemente competentes que davam a impressão que poderiam fazer qualquer coisa que se propusesse a fazer. Se ele tinha o propósito de fazer uma fortuna nos Mares do Sul, então não era de surpreender-se que o obtivesse.

Sua riqueza ou a falta dela jamais foram importantes para Phoebe. Ela se apaixonou por ele por outras razões.

Amor.

Sim, amor. Phoebe fechou os olhos e segurou os braços da cadeira. Talvez deveria admitir para si. Ela se apaixonou por Gabriel na noite em que se conheceram naquela estrada de Sussex iluminada pela lua.

Desde a primeira vez que a beijou.

Talvez inclusive antes. Phoebe se perguntou com tristeza se apaixonou-se por ele quando leu o primeiro manuscrito e se deu conta que o autor era o homem que personificava o ideal de cavalheiro de sua juventude.

Dera instruções a Lacey para que imediatamente o comunicasse que eles publicariam A Missão. E ditou cada frase da carta. “...uma tipo de romance completamente novo. Tratamento muito inspirador do tema do amor..."

Pouco tempo depois, começou a sonhar com ele. Quando se deu conta de que necessitava de um cavalheiro que a ajudasse a encontrar o assassino de Neil, Gabriel foi a escolha óbvia.

Não havia dúvida disso. Gabriel enchia seus pensamentos durante semanas, e ela começou a precaver-se que ele a perseguiria o resto de sua vida.

Que matagal de coisas era tudo isto. Havia uma mãe escada abaixo que ria entre dentes ante a ideia que Phoebe se casasse com Wylde, e Meredith estava aterrorizada com a noção de que Gabriel planejasse arruinar Phoebe para assim vingar-se de toda a família. Anthony e seu pai, sem dúvida, temiam algo igualmente perigoso. Fosse por uma ou outra coisa, eles começariam a pressionar a Gabriel para que fizesse uma oferta de casamento.

Phoebe se queixou em voz baixa e deixou cair a cabeça entre suas mãos. Ninguém a escutava quando tentava explicar que Wylde era simplesmente um amigo. E eles não o compreenderiam nem aprovariam se explicasse que só a ajudava em uma investigação para encontrar um assassino.

Quanto mais fosse vista em companhia de Wylde, mais a família chegaria à conclusão que Gabriel pensava em vingar-se ou tinha intenções de fazer uma oferta de casamento.

O desastre se abatia sobre sua cabeça. Quanto tempo continuaria neste estado de coisas?, perguntou-se.

Uma batida na porta de seu quarto a fez sair do caos de seus pensamentos.

— Entre.

Uma das criadas entrou na sala e fez uma leve reverência.

— Tenho uma mensagem para você, senhora. — Estendeu uma nota dobrada — Um moço a trouxe faz uns minutos às cozinhas.

— Uma mensagem? — Surpreendida, Phoebe ficou de pé — Deixe-me ver.

Tomou a nota e com preocupação examinou o conteúdo.

Senhora: me permita me apresentar. Meu nome é A. Rilkins. Sou livreiro, e meu negócio se encontra em Willard Lane. Acaba de chegar a minhas mãos um manuscrito medieval muito estranho. As ilustrações são muito boas, e a história versa sobre um cavalheiro da Távola Redonda. Disseram-me que você está interessada nesse tipo de livros. Terei este exemplar até as quatro da tarde de hoje; depois dessa hora deverei notificar a outras pessoas que possam estar interessadas também.

Dele,

  1. Rilkins

— Minha mãe — respirou acelerada Phoebe — Outra história da Távola Redonda saiu à luz. Que emocionante. — Olhou sua criada — Desejo que um dos lacaios despache uma nota.

— Sim, senhora.

Phoebe foi até sua mesa, tomou a pena e com rapidez escreveu uma mensagem para Gabriel. Ele se interessaria no achado do senhor Rilkins tanto como ela e, sem dúvida, desejaria ir à livraria para examiná-lo juntos. Ambos determinariam o preço.

Phoebe dobrou a nota e a deu à criada.

— Aqui tem, a enviem imediatamente. Depois diga a Betsy que suba e que um dos lacaios peça a Morris que me traga uma carruagem. Devo sair esta tarde.

— Sim, senhora. — A criada voltou a fazer uma reverência e saiu depressa.

Phoebe ficou de pé de um salto e abriu o guarda-roupa, se encontraria com Gabriel, de modo que desejava estar muito bem vestida. Pensou se deveria por um vestido de tecido de algodão de cor amarela ouro ou o novo vestido de rua cor azul.

Resolveu vestir o de musselina.

Phoebe e sua criada partiram em uma hora para a livraria de A. Rilkins. Ambas se sentiram um pouco assombradas quando se deram conta que a rota que tomavam era para o rio.

Betsy olhou pela janela e franziu em cenho com ansiedade.

— Esta não é a parte boa da cidade, senhora.

— Não, não é. — Phoebe tomou a carteira e tirou dali a nota do Rilkins — Willard Lane. Jamais soube desta rua, e você?

— Não, mas o chofer parece saber onde é.

— Pergunte para estar certa.

Betsy, obediente, levantou a porta do teto da carruagem e gritou ao chofer:

— Está certo que este é o caminho para Willard Lane?

— Sim, Willard Lane está junto ao porto. Por quê? A senhora mudou de ideia? Posso voltar.

Betsy olhou Phoebe.

— Está bem, senhora? Deseja retornar?

— Não, é obvio que não — disse Phoebe. Ela tinha estado em piores lugares que este quando ia em busca de manuscritos. Por exemplo, aquele solitário caminho de Sussex à meia-noite — Não posso perder esta oportunidade porque o senhor Rilkins não tem um estabelecimento em um lugar melhor que este. Devemos seguir adiante.

Willard Lane na verdade era uma passagem tão estreita que não era mais que um beco sem saída. A rica carruagem dos Clarington não podia passar por ali. O chofer parou os cavalos a uma distância prudente e o lacaio saltou do boléia para acompanhar Phoebe e a criada à livraria de A. Rilkins.

Phoebe levantou o olhar para ler a quase ilegível placa que estava sobre a entrada da loja quando passou a porta. Era óbvio que o senhor Rilkins não era um livreiro cujo negócio fosse brilhante. O lugar era miserável ao extremo. As janelas tinham tanto pó que sequer se podia ver o interior escuro.

Um aroma rançoso e murcho a recebeu quando entrou no lugar. Por um momento, não distinguiu os detalhes em meio daquela escuridão. Depois, uma figura se moveu atrás do mostrador.

Um homem pequeno e enxuto com cara de rato saiu de um canto. Olhou com dificuldade através dos óculos e inclinou a cabeça.

— Bem vinda a meu humilde negócio, minha senhora. Suponho que você é uma das pessoas que veio ver o velho manuscrito, né?

Phoebe sorriu.

— Sim, isso mesmo — Olhou com rapidez ao redor do diminuto lugar. Estava quase vazio. Não havia mais clientes e só podia ver uns sujos exemplares nas prateleiras. Não havia sinais de Gabriel — Não chegou ninguém para vê-lo?

— Ninguém mais. — disse Rilkins com voz cansada — Ofereço o privilégio de examiná-lo antes de notificar a qualquer um de meus outros clientes.

Phoebe se deu conta que Rilkins provavelmente calculou que podia obter dela mais dinheiro que dos outros clientes regulares.

— Agradeço que tenha me notificado seu descobrimento, senhor Rilkins. Posso perguntar como soube que eu coleciono livros da Idade Média?

— As notícias voam entre nós os livreiros, senhora. As notícias voam.

— Estou vendo. Bom, então, posso vê-lo? Estou ansiosa para vê-lo.

— Por aqui, senhora, por aqui. Está na sala dos fundos. Não desejava me arriscar a colocar algo tão valioso na parte dianteira do estabelecimento. Não tenho aqui o melhor da vizinhança, como pode ver.

— Compreendo. — Phoebe olhou nervosa para frente, e Betsy a seguiu.

O senhor Rilkins parou na porta que estava atrás do mostrador.

— Seus criados deverão esperar aqui, se não se importar. Não há espaço para todos nós aqui atrás.

Phoebe olhou a Betsy e ao lacaio.

— Já venho — assegurou-lhes

Betsy assentiu.

— Esperaremos aqui fora, senhora.

— Está bem.

O senhor Rilkins abriu a porta para entrar no que parecia um diminuto e escuro quarto. Phoebe passou procurando com o olhar o manuscrito.

— Não posso lhe dizer como agradeço isto, senhor Rilkins.

— É um prazer para mim.— Rilkins fechou a porta.

A escuridão desceu imediatamente. Havia muita sujeira na clarabóia que bloqueava a pouca luz que podia filtrar-se do beco.

— Acenderei uma vela — disse Rilkins.

Phoebe o ouviu procurar algo atrás dela. Ouviu também outro som. O ruído de botas contra o chão de madeira a fez sentir um calafrio em todo o corpo.

— Há alguém mais aqui?— perguntou. Girou com rapidez. Muita rapidez. Tropeçou com a perna esquerda e perdeu o equilíbrio, agarrou-se à borda da mesa.

O braço de um homem se fechou sobre seu pescoço. A palma de uma mão robusta, asquerosa, a golpeou na boca, interrompendo o grito antes que tivesse começado.

Aterrorizada, Phoebe tentou lutar. Pegou sua carteira e o golpeou nas pernas. Ouviu um grunhido zangado de parte de seu atacante. Animada, voltou a dar patadas. O golpeou de novo com a ponta de sua bota de cano longo

— Maldição. A pequena rameira se defende — disse entre dentes o homem — Pegue-a pelos pés, Ned. Não temos mais tempo.

Phoebe chutou novamente, mas, desta vez, outro homem saiu dentre as sombras. Com os punhos a segurou pelos tornozelos fortemente. Phoebe foi levantada do chão pelos dois atacantes.

— Rápido, se apresse. Estão esperando a senhora. — O senhor Rilkins se apressou a correr pela sala e abriu outra porta. Esta estava no final do escuro beco. Olhou para fora e depois fez um gesto com a cabeça aos dois homens que sustentavam Phoebe.

— Ninguém à vista. Nos encontraremos à noite para arrumar o planejado.

— Estaremos ali, Rilkins — grunhiu um dos vilões — Só se assegure de trazer o dinheiro.

— Trarei. O senhor nos pagará muito bem por este trabalho.

Phoebe grunhia furiosa e lutava para libertar-se. Foi inútil.

Rilkins a tampou com uma suja manta e a colocou em um carro que saiu pelo pestilento beco, como se fosse um montão de lixo que tiravam da livraria.

 

Gabriel estava descansando no clube quando Clarington se aproximou com aspecto terrivelmente carrancudo. Anthony estava com ele.

— Olhe isto, Wylde, este seu jogo chegou muito longe — ladrou Clarington. Sentou-se bruscamente.— O que é verdade nisto que você nada em dinheiro?

Gabriel o olhou com um sorriso irônico.

— Estou surpreso, Clarington. Falar de dinheiro é muito vulgar, não parece?

Anthony o olhou com ódio.

— Maldição, homem, o que aconteceu? É verdade que trouxe uma fortuna dos Mares do Sul?

Gabriel encolheu os ombros.

— Não morrerei de fome.

— Então para que veio? — exigiu Clarington — Você não procura dinheiro e não tem feito uma oferta a Phoebe e aparentemente não tem planos de fugir com ela. Então o que é que quer?

Anthony o olhou com suspeita.

— Pensou em outra forma de se vingar, não é mesmo? Não é dinheiro o que deseja. Planeja seduzir a minha irmã. É assim que se vingará de todos nós. Maldito. Não tem vergonha?

— Pouca — admitiu Gabriel — Os altos valores morais são um luxo. Alguém se volta eminentemente prático de repente quando se vê na situação em que eu me encontrei há oito anos.

— Acusa-nos na realidade por proteger minha irmã de um caça-fortunas como você era então? — Anthony o olhou incrédulo — Como raios teria se sentido se Meredith fosse sua irmã?

As grossas sobrancelhas de Clarington se juntaram. Seu rosto estava avermelhado.

— Sim, por Deus, como teria se sentido aquela vez se Meredith fosse sua filha? Algum dia, talvez, tenha uma filha. Eu gostaria de ver até onde chegaria para a proteger dos caça-fortunas.

Uma tosse discreta interrompeu Gabriel antes que pudesse responder.

— Bem. Perdão, senhores. Tenho uma mensagem para lorde Wylde. Disseram-me que era importante — disse o porteiro do clube.

Gabriel olhou a seu redor e viu a nota sobre a bandeja que o porteiro oferecia. Tomou.

— Quem trouxe isto, Bailey?

— Um moço. Disse que seu mordomo a mandou para você.

Gabriel a abriu e leu o conteúdo.

Senhor: Quando ler isto estarei a caminho da livraria de A. Rilkins em Willard Lane para examinar um manuscrito que pode interessar a ambos. Se tiver interesse em ir, poderemos nos ver ali. Mas, advirto, quando chegar o momento de adquiri-lo, eu sou a que tem a prioridade.

                   Seu amiga, P.

— Meu Deus. — Gabriel ficou de pé — Alguém sabe onde fica Willard Lane?

— Acredito que no porto — disse Anthony, ainda zangado.

— Temia — disse Gabriel. Conhecia todos os livreiros importantes de Londres e jamais tinha ouvido falar de um tal A. Rilkins. Era de acreditar que Phoebe podia ir a essa parte da cidade em busca de um manuscrito.

— Sente-se, Wylde. Estamos falando. — Ordenou Clarington.

— Temo que continuaremos com esta fascinante conversa em outro momento — disse Gabriel — Devo atender um probleminha urgente que surgiu.

Com passos largos, passou ao lado de Clarington e Anthony sem olhar para trás. Era hora que ele tomasse as rédeas desta jovem teimosa com quem tinha intenções de se casar.

  

O chofer da carruagem de aluguel conhecia a localização de Willard Lane. Gabriel prometeu uma gorda gorjeta se chegasse ali em pouco tempo. O homem se alegrou de poder ajudá-lo.

Gabriel se sentou, com os braços cruzados, a mandíbula rígida, e pensou no que diria Phoebe. Quanto mais se aproximava de Willard Lane, mais zangado se sentia. Viu os sombrios botequins e cafés cheios de operários portuários e de marinheiros.

Esta era a parte perigosa da cidade. Phoebe deveria ter mais sentido e não vir sozinha até aqui. Mas o sentido comum não era uma das qualidades fortes em Phoebe, recordou para si. Ela obviamente foi mal criada pela família. Permitiram fazer sempre o que desejasse.

Uma vez que fosse sua esposa, ele poria ponto final nesta conduta imprudente. Não haveria mais escapadas por sua conta em busca de velhos livros. Se desejasse correr riscos, deveria correr com ele.

O chofer parou em uma rua estreita. Gabriel desceu.

— Perdão, meu senhor. É o mais perto que posso chegar — Explicou o chofer quanto tomou o dinheiro de Gabriel — As passagens não são mais largas que becos nesta parte da cidade. Muito estreito para uma carruagem. Deve ir até ali caminhando.

— Muito bem. Espere aqui. Retornarei logo.

O chofer assentiu satisfeito e procurou a garrafa que tinha debaixo da caixa.

Gabriel viu a carruagem dos Clarington quando virou à esquina. Pintado de cor castanha e adornada com negro era impossível confundir-se. Aliviado de vê-lo, começou a cruzar a estreita rua.

Estava a meio caminho quando notou outra carruagem estacionada na entrada do beco próximo. Era um veículo pequeno, elegante e conduzido por dois ágeis cavalos cinzas. Estava tão desconjurado neste bairro como o carro dos Clarington. Gabriel olhou com maior cuidado e notou que o brasão na porta da carruagem estava oculto deliberadamente com um tecido negro e que as cortinas estavam fechadas. Seguiu para ele.

Naquele momento ouviu uma comoção no beco. Garras frias como gelo se apoderaram de seu coração. Sentira mais de uma vez esta sensação quando estava nos Mares do Sul. Aprendera a não ignorá-la.

Gabriel começou a correr. Suas botas batiam contra o chão, à medida que se aproximava do beco.

Quando chegou à estreita entrada, uns insultos apagados e um grito surdo o receberam. Dois homens rudes lutavam com um vulto em movimento que estava envolto em uma manta.

Imediatamente, Gabriel compreendeu o que acontecia ali e se lançou para eles.

Os dois homens estavam tão ocupados tentando dominar aquele vulto que tanto se mexia que não se deram conta da presença de Gabriel. Pegou o primeiro pelo ombro, o girou bruscamente e lhe deu um murro diretamente no rosto corado e suado.

O homem deu um grito, deixou cair um extremo da carga que levava e caiu contra a parede do beco.

— Que demônios é isso? — O outro olhou um instante e depois ele, também, deixou cair o pacote. A figura envolta no trapo cinza caiu na suja pavimentação da rua.

O outro homem tirou de sua bota uma faca. Sorriu com maldade.

— Vêem aqui agora, maldito. Ensinarei a não se colocar em assuntos privados.

Apontou com a arma a Gabriel que deu um passo para um lado rapidamente. Gabriel se virou de lado quando o homem investiu e tentou apunhalá-lo com força, aumentando a tensão do assaltante. O homem perdeu o equilíbrio e caiu. As botas escorregaram na pavimentação molhada. Ficou de pé procurando seu companheiro, que tentava se levantar. Os dois homens caíram. A faca saiu rodando.

Gabriel tirou de sua própria bota a faca que levava ali durante quase oito anos. Adquiriu o costume durante os primeiro meses que esteve nas ilhas. Os velhos costumes são difíceis de deixar. Avançou e com a ponta da faca tocou a garganta do segundo homem.

— Vamos, homem, não se emocione. — o homem sorriu suplicante e o efeito de alguma forma foi pior por causa de uma boca que mostrava um buraco escuro e deixava à vista uma fila de dentes podres — Se quiser ela, é toda sua. Íamos obter um bom preço pela fêmea desse tio que está nessa carruagem de brinquedo. Não acha que podemos ficar à mão se repartirmos a recompensa?

— Saiam daqui — disse Gabriel brandamente.

— Sim, homem, já vamos. Estamos a caminho. — Os dois vilões olharam a faca e a forma profissional como Gabriel a sustentava. Depois começaram a se retirar para a entrada do beco.

— Não fizemos nada errado — disse o primeiro homem — Como diz meu amigo, é toda sua.

Gabriel colocou a faca na bota e se dirigiu para o vulto que estava jogado no chão. Não se surpreendeu muito ao ver a saia amarela de musselina. Agachou-se e soltou Phoebe das dobras da manta.

— Está bem? — Examinou-a rápido da cabeça aos pés, enquanto a ajudava a ficar de pé. Ela se encontrava desarrumada, mas não machucada.

— Sim, estou bem. Oh, Gabriel, me salvou — Phoebe se lançou em seus braços.

Gabriel ouviu o som das rodas de uma carruagem fora da entrada do beco, justo quando seus braços começavam a abraçar Phoebe.

— Demônios. — Deixou Phoebe e correu para a frente do beco

— Gabriel? O que aconteceu? — Phoebe se apressou a ir atrás dele.

Gabriel não a esperou. Viu a carruagem com o escudo escondido. O chofer ia açular com o látego os cavalos para sair a todo galope.

— Pare — gritou Gabriel com a voz autoritária que uma vez tinha usado para dar ordens nos Mares do Sul. O chofer duvidou, voltando a cabeça para ver de quem provinha a ordem.

Mas, quando o homem se deu conta que Gabriel o perseguia, já era muito tarde. Gabriel tinha alcançado a porta da carruagem. Custou a abri-la, entrou e tomou com uma mão o braço do passageiro. Então, lutou com o assombrado cavalheiro para que descesse à rua.

Phoebe, apertando a bolsa e o chapéu, seu passo lento por causa de sua perna doente, parou. Kilbourne.

Kilbourne não a olhou. Soltou-se do contato de Gabriel com um movimento de desdém e a olhou furioso com fria soberba.

— Suponho que terá alguma explicação para esta conduta injustificada, Wylde?

— É obvio. — Gabriel manteve uma voz mortalmente gentil de tal modo que Phoebe, que estava quieta a certa distância, não o ouvisse — E me sentirei feliz de me bater em duelo de pistolas à madrugada. Meus padrinhos o visitarão esta noite.

A compostura de Kilbourne desapareceu rapidamente. Seu rosto estava manchado pela raiva.

— O que pensa que está fazendo?

— Salvou-me que você me raptasse — disse Phoebe furiosa quando chegou ao lado de Gabriel. Ela estava ofegando pela recente luta e ainda frenética tentava ajustar o chapéu — Sei do que se trata tudo isto.

— Phoebe, é melhor que retorne a sua carruagem — ordenou tranquilo Gabriel.

Phoebe não lhe prestou atenção; com os olhos brilhantes pela raiva enquanto olhava com ódio Kilbourne, disse:

— Minha mãe me contou esta manhã que logo toda a cidade saberá que você está arruinado, senhor. Sabia que meu pai já não teria desejo de aceitar uma proposta de casamento se soubesse que você não tem um penique, não é certo?

— Phoebe — disse grave Gabriel

— Então você me enganou para me trazer até aqui com falsos pretextos e tentou me raptar — continuou Phoebe triunfante — Bom, não se saiu com a sua, não lhe parece, senhor? Sabia que Wilde me salvaria. Ele é muito bom nestas coisas.

Gabriel a tomou pelos ombros e a fez olhá-lo.

— Não quero ouvir outra palavra de sua boca, senhora. Retorne a sua carruagem e vá diretamente a sua casa. Falaremos disto mais tarde. Entendeu?

Ela piscou.

— Bom, sim, é obvio. Você foi muito claro, meu senhor, mas primeiro tenho algumas coisas a dizer a lorde Kilbourne.

Por um momento, pensou que ela ia seguir protestando. Gabriel se preparou para a batalha. Então, Phoebe se mostrou indiferente e enrugou o nariz demonstrando desgosto.

— Oh, está bem. — Ofereceu a Kilbourne outro de seus odiosos olhares — Você se arrependerá disto, meu senhor. — Girou e partiu a passo vivo, com o dourado vestido que contrastava com o cinza da paisagem.

Gabriel esperou até que ela já não pudesse ouvi-lo. Depois inclinou a cabeça com zombadora formalidade.

— Até nossa entrevista ao amanhecer, Kilbourne, Estarei esperando com gosto. — voltou-se e olhou para o chofer da carruagem de aluguel.

— Maldito seja, Wylde, volte aqui — gritou Kilbourne — Como se atreve a me desafiar?

Gabriel não se voltou para olhá-lo.

Quando chegou ao carro, deu instruções ao condutor.

— Siga essa carruagem até que chegue à parte boa da cidade. Depois retorne à rua St. James.

— Sim, meu senhor. — O chofer voltou colocou em seu lugar a garrafa e tomou as rédeas

Trinta minutos mais tarde, Gabriel retornou depressa ao clube e descobriu, para sua grande satisfação, que Anthony e Clarington ainda estavam ali. Ambos estavam concentrados nos exemplares do The Teme e The Morning Post.

Sentou-se em uma poltrona em frente aos dois homens e esperou que estes baixassem os jornais.

— Vejo que voltou. — Disse Anthony — Por que diabos saiu com tanta pressa?

— Saí — disse Gabriel sem emoção — para resgatar sua irmã de ser raptada por Kilbourne.

Anthony o olhou fixamente. Clarington deixou o exemplar do The Teme em uma mesa vizinha.

— De que raios está falando, senhor? Explique-se.

— A mensagem que recebi faz um momento me informava que Phoebe ia ver um manuscrito que tinha sido indicado por um tal A. Rilkins. Quando eu cheguei à livraria desse fulano, Phoebe estava a ponto de ser tirada de um beco por dois criminosos.

Anthony se sobressaltou.

— Espera um momento. Não esperará que nós acreditemos nisso?

A boca de Clarington estava aberta.

— Bom Deus. É uma brincadeira, Wylde?

— Asseguro que não é nenhuma brincadeira. — Gabriel entrecerrou os olhos — Kilbourne aparentemente não tem um xelim. Logo, saberão por toda a cidade. Obviamente, ele se deu conta que seria descoberto o segredo e não tinha mais tempo para cortejar Phoebe, de modo que tentou raptá-la.

— Bom Deus — voltou a dizer Clarington. Parecia profundamente comovido — Ela veria pelo chão sua reputação se ele tivesse êxito no rapto. Eu me seria obrigado a consentir no casamento.

Os três homens se olhavam fixamente.

— Phoebe, está bem? — Os olhos de Anthony estavam carregado de preocupação.

— Ela está a caminho de sua casa, sem dano algum e com sua reputação ainda intacta. — Gabriel tomou a garrafa de vinho que estava na mesa ao lado de sua poltrona — Embora devo me perguntar por quanto tempo. Ao passo que vai, o desastre é inevitável.

— Maldição — resmungou Clarington — Não permitirei que fale assim de minha filha.

— Dado que salvei seu bonito pescoço, falarei dela como me agradar. — Gabriel tomou um gole de vinho — Permitam-me dizer, senhores, que considero toda esta confusão inteiramente culpa de vocês.

— Culpa nossa? — irritou-se Clarington.

— Sua em particular — disse Gabriel — Como pai, permitiu que ela seja uma imprudente. Esta mulher é uma ameaça para si mesma. Mantém correspondência com estranhos e marca encontros para conhecê-los à meia-noite em remotos caminhos fora da cidade. Lança-se a percorrer as piores partes de Londres, sempre que lhe dá vontade…

— Permita-me — interrompeu Clarington.

Gabriel o ignorou e prosseguiu.

— É muito independente em suas ideias e sempre brinca com o perigo. Um destes dias é seguro que encontrará.

— Olhe aqui — disse Clarington — Estamos falando de minha filha. O que é isto que mantém correspondência com homens desconhecidos que os cita a meia-noite?

— Como demônios você acredita que a conheci? — perguntou Gabriel.

Anthony o olhava fixo, assombrado.

— Diz que ela mantém correspondência com você? E que concretizou também um encontro com você?

— Correto — disse Gabriel — E foi pura sorte que fosse comigo com quem ficou em Sussex. O que teria acontecido se fosse outro?

Clarington ficou tenso.

— O que você está sugerindo, senhor?

— Sugiro que nenhum de vocês é capaz de controlar Phoebe, muito menos de a proteger de seus próprios impulsos. — Gabriel tomou outro gole de vinho — Portanto, eu me encarregarei desta tarefa. Obviamente, não existe outra opção.

— Você. — Clarington o olhou fulminante apontando com seu nariz farpado.

— Eu. — Gabriel deixou a taça vazia sobre a mesa — Amanhã pela tarde, os visitarei, às três, para falar do assunto. Desejo que isto fique acordado imediatamente.

— Um momento, por favor. — Anthony levantou uma mão — Está dizendo que tem intenções de propor casamento a Phoebe?

Gabriel o olhou.

— Preferiria esperar que Kilbourne ou algum outro caça-fortunas tentasse raptá-la outra vez?

— Não seja ridículo. É obvio que não desejamos que a raptem. — Clarington suspirou com pesar — Mas é muito difícil proteger Phoebe. Tem mais espírito que juízo. Não escuta os conselhos sensatos que lhe damos. Pensa que pode dirigir o mundo com os próprios. Sempre foi assim, inclusive quando era menina.

— É certo — disse triste Anthony — Sempre estava explorando algo e metendo-se em problemas. Quando mais tentávamos contê-la, mais aventureira ficava. — Olhou Clarington — Recorda o dia do acidente?

— Jamais esquecerei enquanto viver — declarou Clarington — Pensei que a tínhamos perdido. Saiu correndo para salvar um maldito cachorrinho que cruzou a frente de uma carruagem. O cachorrinho pôde cruzar a rua; Phoebe, não.

Anthony meneou a cabeça.

— Era típico de Phoebe. Foi imprudente toda sua vida. Mas, dessa vez, os resultados foram quase trágicos. Os médicos nos disseram que não voltaria a caminhar.

— E disseram a Phoebe? — perguntou secamente Gabriel.

Clarington assentiu.

— Claro que disseram. Disseram-lhe que deveria tomar cuidado de não fazer esforços; que ficaria inválida para o resto de sua vida; que devia levar uma vida tranquila.

Gabriel sorriu.

— Mas Phoebe, sendo Phoebe, não quis escutá-los, suponho eu.

Anthony o olhou.

— Um dia, três meses depois do acidente, entrei em seu quarto e a encontrei de pé, agarrada às colunas da cama. Depois disso, não houve forma de detê-la.

— De todos os modos — disse Gabriel sombrio — Deveriam ter mais cuidado e protegê-la. O diabo os leve, Oaksley. Dão-se conta que quase a raptam para obrigá-la a se casar e por a mão em sua fortuna? Sua vida ficaria destroçada se o ardil tivesse funcionado.

Anthony arqueou as sobrancelhas.

— Agora você sabe o que sentimos.

Gabriel o olhou fixamente.

— É suficiente para que um homem deseje cometer um assassinato. — Clarington se sentia realmente comovido pelas notícias daquilo que poderia ser um desastre — Deus sabe que é um sentimento terrível descobrir que alguém fracassou em proteger a sua própria filha.

Gabriel não pôde pensar em nada para dizer. Impactou-o dar-se conta de que a raiva e o medo que experimentava naquele momento eram sem dúvida as emoções que Clarington e seu filho tinham sentido há oito anos, na noite que ele tentou escapar com Meredith.

Pela primeira vez, olhava a situação do ponto de vista deles. Reconheceu com triste honestidade que ele provavelmente tivesse reagido da mesma forma se estivesse em seu lugar. Clarington e sua família não tinham como saber que Gabriel não estava atrás da herança de Meredith. Para eles, ele era tão mal como Kilbourne agora.

— Compreendo o que diz, Clarington — disse finalmente Gabriel.

Os olhos de Clarington se encontraram com os de Gabriel. Compreensão e uma curiosa expressão, que poderia ter sido de aprovação, brilharam por um momento no penetrante olhar do conde.

— Acredito que por fim você compreende meus sentimentos daquela vez, senhor. — Clarington assentiu, como se estivesse satisfeito — Também começo a acreditar que você sente um afeto verdadeiro por minha filha.

— Devo confessar que meu afeto por ela está de algum jeito atenuado por um medo terrível que, um dia, ela me deixe louco — disse Gabriel.

— Destino esse que quase não consigo escapar eu mesmo. — Clarington sorriu — Com gosto repasso a você a responsabilidade de cuidar de minha filha, senhor. Desejo a melhor das sortes.

— Obrigado. — Gabriel olhou Anthony — Preciso de padrinhos para um duelo.

Anthony o examinou por um momento em silêncio.

— Desafiou Kilbourne?

— Sim.

— Eu sou irmão de Phoebe. É minha responsabilidade cuidar isto.

Gabriel sorriu com ironia.

— Já cumpriu seu dever com uma irmã. Eu cuidarei desta.

Anthony duvidou.

— Não tenho certeza de permitir levá-lo a cabo.

— Como futuro marido de sua irmã, digo que é meu direito — disse Gabriel.

— Muito bem, eu serei um de seus padrinhos — disse Anthony — Posso conseguir o outro. Mas deve tomar cuidado. Se Kilbourne morrer, deverá abandonar a Inglaterra e, conhecendo Phoebe, ela provavelmente insistiria em ir contigo.

— Não tenho desejos de voltar a abandonar a Inglaterra — disse Gabriel — Kilboune sobreviverá. Apenas.

Anthony o olhou com atenção. Depois sua boca se torceu com dor.

— Igual a mim?

— Não — disse Gabriel — Não assim. Só tenho intenções de colocar uma bala. Recordará no futuro que não deve raptar jovens senhoritas.

 

Três horas mais tarde, Anthony retornou ao clube para informar Gabriel a respeito dos acertos para o duelo.

— Não tem sorte — assegurou Anthony — Kilbourne abandonou a cidade.

— Maldição. — Gabriel estampou seu punho sobre o braço da poltrona demonstrando sua frustração — Tem certeza?

— Seu mordomo disse que partiu para o norte e que ninguém sabe quando retornará. Certamente não será muito rápido. Os criados têm instruções para fechar a casa de Kilbourne. Diz o boato pela cidade que não tem um xelim. Perdeu tudo em uma série de maus investimentos.

— Maldição.

— Talvez seja o melhor. — Anthony se sentou em uma das poltronas — Tudo terminou. Não haverá duelo, e Kilbourne está fora do caminho. Eu, de minha parte, sinto-me agradecido.

— Eu não.

— Acredite, tem mais sorte do que possa se dar conta. — Anthony sorriu irônico. — Se Phoebe alguma vez descobrisse que tinha intenções de bater em duelo por sua honra, ela ficaria furiosa. Não acredito que possa controlar Phoebe quando ela está muito zangada. Não é agradável.

Gabriel o olhou, consciente que ele e Anthony estavam formando um vínculo apoiado na mútua preocupação por Phoebe.

— Obrigado por aceitar ser um de meus padrinhos. Só lamento que não possa ter a oportunidade de cumprir com seu dever.

Anthony inclinou a cabeça.

— Como disse, tudo acabou. Kilbourne foi muito humilhado. Que tudo continue assim.

— Suponho que serei obrigado a aceitar. — Gabriel ficou em silêncio um momento — Agora sei o que sentiu há oito anos, Oaksley.

— Sim. Dei-me conta disso. Mas lhe digo algo, Wylde. Eu gosto de Trowbridge e Meredith está bastante feliz com ele. Mas devo admitir que, se eu soubesse então o que agora sei de você, não o açoitaria aquela noite. Confiaria qualquer uma de minhas irmãs a seu cuidado.

Gabriel arqueou as sobrancelhas.

— Por que soube que não sou pobre?

— Não — disse Anthony — Minhas razões não têm nada a ver com sua situação financeira.

Fez-se um silêncio entre os dois. Depois Gabriel sorriu.

— Permita-me dizer que estou muito agradecido que tenha ido atrás de Meredith e de mim aquela noite. Esse casamento teria sido um erro. É Phoebe quem desejo.

— Está certo disso?

— Muito certo.

 

Às três da tarde do dia seguinte, Phoebe estava sentada intranquila em seu quarto, enquanto esperava que a chamassem à biblioteca. A casa tinha ficado tão silenciosa desde os acontecimentos do dia anterior que qualquer um poderia pensar que houvera uma morte na família.

Phoebe sabia muito bem o que estava acontecendo. Sua mãe disse mais cedo naquele dia que Gabriel faria uma proposta de casamento e que Clarington a aceitaria. Estava claro que as objeções que a família tinha com respeito a Gabriel desapareceram.

Sentia-se agradecida por isso, mas não conseguia resolver suas próprias emoções em conflito. Uma parte dela se regozijava perante a ideia de se casar com o homem que amava. Ela desejava aproveitar a oportunidade. Desejava-o como jamais desejou ninguém em sua vida.

Mas outra parte dela estava nervosa ao extremo. Não havia sinais ainda claros que Gabriel a amasse. Ela tinha muito medo que estivesse fazendo esta oferta de casamento por puro desejo de protegê-la do tipo de acidente que ocorrera no dia anterior.

Era altamente provável que Gabriel se casasse com ela por um mal interpretado sentido de honra.

Era verdade que ele sentia um certo afeto por ela, estava certa. Deu mostras de se sentir atraído por ela fisicamente. E também tinham interesses em comum.

Mas não falou de amor.

Phoebe olhou o relógio. Era quase três e meia. Que diabos falavam por quase meia hora? Perguntou-se.

Ficou de pé e começou a andar pela sala. Era ridículo. Uma mulher possuía direitos a estar presente quando falavam de seu futuro.

Este assunto de ficar docilmente encerrada em seu quarto enquanto os homens resolviam algo tão importante como um casamento era uma ofensa extrema. Os homens não compreendiam bem estas coisas.

Eles não compreendiam, por exemplo, que ela não desejava se casar pelas noções que Gabriel tinha sobre honra.

Prometeu a si mesma, há muito tempo, que só se casaria por amor, o tipo de amor que guiava os cavalheiros e damas das lendas da Idade Média. E não se conformaria com menos.

Às quinze para as quatro Phoebe decidiu que já fez, suficientemente, o papel de filha obediente.

Saiu decidida de seu quarto e desceu as escadas até a biblioteca.

A porta da biblioteca estava fechada.

O mordomo estava parado diante desta. Quando viu Phoebe, sua expressão se tornou preocupada, mas mostrou determinação.

— Por favor, me deixe passar — disse ao mordomo — Desejo ver meu pai.

O mordomo disse com coragem.

— Perdoe, senhora, mas seu pai me deu instruções explícitas que não desejava que o incomodassem enquanto estivesse reunido com Lorde Wylde.

— Psh, Phoebe. — Lydia apareceu a cabeça pela porta da sala, e nervosa fez gestos a Phoebe para lhe chamar a atenção — Não se estresse aí. Os homens gostam de resolver este tipo de coisas sozinhos. Isso os faz sentir como se eles tivessem a seu cargo toda a responsabilidade

Meredith, atrás de sua mãe, franziu o cenho olhando Phoebe.

— Espere que a chamem, Phoebe. Papai se zangará muito se o interromper.

— Eu já estou zangada. — Phoebe se adiantou um passo.

O mordomo duvidou. Foi toda a oportunidade que Phoebe necessitava. Abriu a porta e entrou na biblioteca.

Gabriel e seu pai estavam sentados perto da chaminé. Ambos tinham uma taça de conhaque. Os dois homens levantaram o olhar com expressão ameaçadora quando ela entrou.

— Pode esperar fora, minha querida. Eu a chamarei dentro de alguns minutos — disse Clarington com firmeza.

— Estou cansada de esperar. — Phoebe parou e olhou Gabriel. Não podia deduzir nada por sua expressão — Desejo saber o que está acontecendo.

— Wilde está fazendo uma oferta de casamento — disse Clarington — Estamos discutindo os detalhes. Não deve se preocupar.

— Significa que você aceitou essa oferta em meu lugar? — exigiu Phoebe.

— Sim. — Clarington tomou um gole da taça.

Phoebe olhou Gabriel, interrogativamente. Este arqueou uma sobrancelha em resposta. O olhar dela voltou para seu pai.

— Papai, desejo falar com Gabriel antes que façam qualquer anúncio.

— Pode falar com ele quando tivermos terminado de resolver certas questões.

— Mas, papai…

— Nos deixe sozinhos, Phoebe — ordenou Gabriel tranquilo — Falaremos mais tarde.

— Quero falar agora. — Apertou os punhos com força — É do meu futuro que aqui se fala. Tenho algumas ideias sobre o assunto. Se os dois acreditam que vão resolver todos os detalhes como se eu fosse um pacote e esperam que aceite sem nenhum comentário, estão muito enganados.

Clarington a olhou.

— Muito bem, querida, qual é sua principal objeção a tudo isto?

Phoebe respirou profundamente, abriu os apertados punhos e secou as palmas úmidas das mãos na saia de seu vestido.

— Sempre disse que só me casarei por amor. Para deixar claro, papai, Wylde jamais me falou em amor. Não me casarei até que eu esteja certa que existe verdadeiro amor entre nós dois. Não me casarei só porque o sentido de honra de Wylde exige.

— Phoebe — disse cansado Clarington — Você se comporta como uma colegial romântica. Wylde tem razão, depois do que aconteceu ontem, você já não pode continuar se comportando de forma tão impulsiva.

— Você disse isso? — Phoebe olhou com ódio para Gabriel.

— Sim, ele disse, e eu estou de acordo com ele — declarou Clarington — Ele diz que deseja cuidar de você, e devo dizer que estou agradecido de poder passar para ele essa responsabilidade.

Phoebe se sentia ultrajada.

— O que acontece se eu não desejo ser controlada por um marido?

— Não conheço melhor forma para que assente na vida e corrija sua conduta excêntrica que se casar — replicou Clarington — É hora que se case, jovenzinha. Pelo amor de Deus, tem quase vinte e cinco anos. O fato que seja uma herdeira a coloca em uma posição muito arriscada. Só pense no que aconteceu ontem.

— Papai. O que aconteceu ontem não foi por minha culpa.

— É obvio que sim. Em sua maior parte foi — disse Clarington zangado — Quem sabe quantos outros da índole de Kilbourne estão rondando por aqui? Wylde tem razão quando diz que cedo ou tarde seus impulsos a farão cair em uma séria situação. Eu desejo te ver estabelecida a salvo sob a direção e amparo de um marido.

Uma sensação de desespero embargou Phoebe.

— Papai. Por favor. Devo ter tempo para pensar nisto. Wylde e eu devemos conversar.

Gabriel dirigiu um frio olhar por cima da borda de sua taça.

— No que diz respeito a mim, não há nada a discutir no momento. Sobe e vá para seu quarto. Eu a chamarei logo.

Phoebe ficou sem palavras. Que o homem que considerava um cavalheiro galante a enviasse a seu quarto, precisamente o homem que em segredo imaginava como seu companheiro da alma, o homem que ela amava. Isso era demais.

— Meu senhor — sussurrou — você não é melhor que Kilbourne.

Fez-se um curto e doloroso silêncio.

— Phoebe! — gritou seu pai — Desculpe-se imediatamente. Wylde não é um caça-fortunas.

Phoebe passou as costas de sua mão pelos olhos, que já tinha úmidos pelas lágrimas.

— Não quis dizer que fosse. Mas certamente é tão presunçoso como Kilbourne. — Deu a Gabriel um último olhar de angústia — Eu pensei que fosse meu amigo. Eu acreditei que compreendia o que eu sentia sobre amor e casamento.

Antes que qualquer um dos dois homens pudesse responder, deu a volta e saiu da sala.

No corredor, passou correndo junto aos rostos preocupados de sua mãe e irmã. Tomou a saia de seu vestido e subiu às pressas as escadas. Quando chegou à intimidade de seu quarto, jogou-se sobre a cama e sucumbiu às lágrimas.

Quinze minutos mais tarde, a tormenta passou, deixando em seu lugar uma calma que não era natural. Secou os olhos, lavou o rosto e se sentou para esperar.

Vinte minutos depois, quando finalmente foi convocada à biblioteca, mostrou-se composta e séria. Desceu tranquila as escadas, esperou amável que o mordomo abrisse a porta e depois entrou.

Seu pai estava sentado ainda em sua poltrona. Parecia que tinha começado com outra taça de conhaque. Gabriel estava de pé perto da chaminé, com um braço descansando sobre o suporte. Olhou-a com intensidade quando ela entrou séria à sala.

— Chamou, papai? — perguntou Phoebe com grande educação.

Clarington a olhou suspeito.

— Tudo está decidido, querida. Você e Wylde se casarão quando terminar a temporada.

O estômago de Phoebe se contraiu, mas pôde manter uma expressão serena.

— Entendo. Bom, então, se isso for tudo, retornarei a meu quarto. Não me sinto muito bem.

Gabriel juntou as sobrancelhas negras com gesto de preocupação.

— Phoebe, sente-se bem?

— Acredito que me dói um pouco a cabeça, meu senhor. — voltou-se e saiu da sala.

 

Na manhã seguinte, pouco depois que saísse o sol, Phoebe pôs seu vestido de viagem e jogou duas malas grandes pela janela de seu quarto. Depois, jogou uma corda feita com lençóis atados.

Desceu ao jardim, recolheu a bagagem e se dirigiu para a porta principal.

Misturou- se com vendedores ambulantes e carros de leiteiros no trânsito do amanhecer de Londres. A essa hora, as ruas estavam lotadas de gente do campo com seus carros cheios de produtos para o mercado. Ninguém prestou atenção nela.

Às sete em ponto, Phoebe abordou a diligência que a levaria ao coração de Sussex. Apertada entre uma mulher gordinha, que tinha um turbante cinza, e um fedorento fazendeiro que tomava tragos de genebra diretamente de uma garrafa, teve tempo para refletir sobre seu destino.

Gabriel teve que fazer uso de todo controle que possuía para conter a raiva que o ameaçava consumir. Não podia acreditar que Phoebe fugisse dele desta maneira.

Clarington e sua família estavam sentados envoltos em um funeral silencioso, com os olhos seguiam a Gabriel enquanto este andava pela sala.

Eram quase dez da manhã. Ninguém se preocupou com Phoebe até quase uma hora, quando sua criada levo o chá à sala. Gabriel recebeu uma misteriosa chamada pouco depois. Quando chegou à casa dos Clarington, encontrou a todo o clã reunido na sala para deliberar sobre a notícia.

— Olhemos do lado positivo — sugeriu Lydia — Até onde nós sabemos, ela foi sozinha. Parece que não existe outro homem no assunto.

— Até onde sabemos — disse Anthony, de mau humor.

Gabriel lhe deu um olhar furioso. A última coisa que desejava esta manhã era pensar na possibilidade de Phoebe fugir com outro homem. As coisas já estavam mal o suficiente desse modo.

— Acham que está a caminho de Sussex?

— Deixou uma nota — disse Meredith — Diz que passará um tempo com uma tia que vive lá.

— Poderia ser um ardil inteligente — sugeriu Lydia — Talvez deseje que pensemos que foi em uma direção, enquanto que a verdade é que vai em outra.

— Não. — Meredith se manteve muito quieta. Os olhos não deixaram nem por um minuto de olhar a Gabriel — Ela sabia que nos preocuparíamos, de modo que nos disse aonde ia com a esperança que não ficássemos preocupados.

— Que não nos preocupasse? — Clarington ficou vermelho — Que não nos preocupasse? A malcriada parte ao amanhecer sem dizer uma palavra e não deseja que nos preocupemos? No nome de Deus, que espera que façamos?

Lydia colocou uma mão sobre o braço de seu marido.

— Acalme-se, querido. Tudo ficará bem. Phoebe é muito capaz de se cuidar sozinha.

— Oh, é verdade? — Clarington deu a sua esposa um olhar carregado de recriminação — E me diga, como cuidará de sua reputação depois que se conheçam as notícias deste incidente? Por favor, me diga como. Não culparia Wylde se cancelar o casamento.

Meredith ficou boquiaberta.

— Papai, não deve dizer isso.

— Por que não? — murmurou Anthony — Que homem em seu são julgamento deseja uma esposa que cause esta tipo de problemas

— Phoebe está assustada. — Meredith ficou de pé de um salto e enfrentou Gabriel e os outros — Não compreendem? Ela foge porque a estão empurrando para um casamento sem seu consentimento.

Clarington protestou.

— Ela gosta de Wylde. Pelo menos, é o que eu pensava. Que demônios acontece com essa criatura? Não tem juízo para nada.

Meredith levantou o queixo.

— Direi qual é o problema. Phoebe descobriu que todo seu futuro estava sendo estabelecido por você e Wylde, papai. Sentiu-se como um cavalo que se vende ao melhor pagador.

A mandíbula de Gabriel ficou tensa.

— Tolices — disse Clarington.

— É verdade — disse Meredith — Sei muito bem como se sentiu porque eu me senti precisamente assim há oito anos. A diferença entre Phoebe e eu é que eu pedi a alguém que me ajudasse a fugir. Phoebe, sendo Phoebe, fugiu sozinha.

— Por que demônios ia querer fugir? — exigiu Anthony — Papai tem razão. Ela gosta de Wylde.

Meredith golpeou o chão com o pé, cheia de exasperação.

— É verdade isso? E quais são os sentimentos de Wylde para ela?

Gabriel franziu em cenho.

— Phoebe sabe o que eu sinto por ela.

— É mesmo? — Meredith ficou diante dele — Declarou seu amor, então, senhor? Disse que a ama?

— Pelo amor de Deus, Meredith — murmurou Gabriel — Isto não lhe interessa.

— Sim, sim. Então não disse. Por favor, senhor, a ama?

Gabriel de repente teve a plena consciência que outros o estavam olhando com expectativa.

— Phoebe e eu nos compreendemos mutuamente.

— Duvido — disse Meredith — Tão certo que vocês tem o mesmo mútuo entendimento que Trowbridge e eu tínhamos há oito anos. O que se pode dizer, nada.

Gabriel se enfureceu.

— Isso não é verdade.

Meredith entrecerrou os olhos de uma maneira que não era própria dela.

— Você bem admitiu que não declarou seu amor a Phoebe. O que esperava que fizesse quando se encontrou à beira de um casamento?

— Ela não é uma inocente — disse Gabriel entre dentes — Não tinha direito a escapar desta maneira.

Meredith levantou a sobrancelha com gesto desdenhoso.

— Se me perguntar, virtualmente ela se viu forçada a ir. Não tinha razão alguma para pensar que você se comportaria de maneira diferente se ficasse e com docilidade aceitasse os planos que você e papai fizeram para ela. Phoebe é muito cabeça-dura.

— Muito teimosa — disse Gabriel.

— Deveria falar com ela primeiro sobre o casamento — disse Meredith — Deveria falar a ela de seus sentimentos.

Lydia suspirou.

— De alguma forma, não acredito que nada de bom saia desta estranha ideia de que os homens e as mulheres deveriam falar sobre temas tão íntimos. Todos sabem que os homens não são muito bons para estas coisas. Sentem-se frustrados e irritados quando tentam levar a cabo essas conversas tão complicadas. Deve haver algo com seus cérebros, não há dúvida disso.

— Não há dúvida, senhora. — Gabriel tinha ouvido o suficiente. Dirigiu-se a toda família — Muito bem, então, como parece que perderam a minha prometida no mesmo dia em que deve aparecer em todos os jornais o anúncio de nosso casamento, devo me pôr a caminho.

Anthony ficou de pé.

— O que tenta fazer?

— O que acredita? Ir atrás dela, é obvio. Ela não escapará tão facilmente. — Gabriel se encaminhou para a porta.

— Espere.

— Irei com você — disse Anthony.

— Não, não irá. Tenho uma licença especial. Phoebe e eu resolveremos sozinhos este assunto.

— Você se casará com ela? — Meredith o olhou alarmada — Wylde, espere um momento. Há algo que devo lhe dizer.

— O que? — Gabriel já estava na porta. Fervia de impaciência.

Meredith o olhou suplicante.

— Será amável com ela quando a encontrar, por favor? Por favor, tente compreender seus sentimentos. Sei que parece um pouco impulsiva, mas a verdade é que é uma criatura de sentimentos muito delicados. Necessita de que a compreenda.

— Necessita de mão dura — disse Gabriel. Dito isto saiu.

 

Mas as últimas palavras de Meredith o perseguiram enquanto se apressava a abandonar a cidade. Recordou o olhar de Phoebe no dia anterior quando Clarington finalmente a chamou à biblioteca para que se inteirasse de seu futuro. Ela se mostrava muito distante e tranquila.

Gabriel se deu conta agora que a conduta de Phoebe não foi natural. Deveria suspeitar que tudo não estava bem. Mas jamais pensou que escaparia dele para evitar o casamento.

“Você não é diferente de Kilbourne.”

Fugiu dele. Aquele conhecimento cortava seu coração como se fosse uma faca. Deu-se conta de que imaginou por alguma razão que sua alegre e temerária Phoebe jamais o deixaria.

Havia cometido um terrível engano. Phoebe reconheceu isso antes que a diligência tivesse percorrido vinte e cinco quilômetros.

Que idiota era. Fugir do homem que amava.

O que importava se Gabriel ainda não a amava? Ela tinha o resto da temporada para inventar um plano que o ensinaria a amá-la. Seria sua nova meta.

O estalo violento e repentino do carro e os assombrados gritos dos passageiros interromperam seus ansiosos pensamentos.

— Quebrou uma roda, Por Deus — anunciou o homem da garrafa de genebra — Isso nos atrasará um bom momento.

Isso pouco importava a Phoebe, a roda quebrada era nada menos que um ato de Deus. Ela jamais se sentiu tão agradecida de ter um acidente dessa natureza.

O veículo decomposto pôde chegar até uma estalagem próxima. Phoebe desceu junto com os outros passageiros, recolheu sua bagagem e se dispôs a entrar.

Abriu passo entre a multidão que se amontoava diante do hospedeiro e pediu uma passagem para a diligência que ia para Londres.

— Não há assentos disponíveis, senhora — disse a esposa do hospedeiro sem nenhuma amostra de simpatia — Ontem venderam todas as passagens. Posso lhe dar uma para a diligência de amanhã às dez.

— Mas devo retornar a Londres esta noite — disse Phoebe.

— Deverá esperar até manhã. — A mulher a olhou com dúvidas — Tenho um quarto para que possa passar a noite.

— Não, muito obrigado. Não passarei a noite aqui. — Phoebe começou a entender a verdadeira dimensão do desastre. Sua reputação se veria pelo chão se alguém descobrisse que se viu obrigada a passar a noite só na estalagem.

Baixou o véu para cobrir bem o rosto e coxeando entrou na sala de jantar para comer algo. Devia pensar e não poderia se estivesse morta de fome.

Teve consciência que era objeto de olhares curiosos quando se sentou a uma mesa. As mulheres que viajavam sozinhas eram sempre vulneráveis a este tipo de coisas. Seria pior uma vez que caísse a noite.

Pensou se informariam a Gabriel que ela havia fugido. Aquela ideia a fez cair em um humor sombrio. Se ele descobrisse que abandonou a cidade, poderia simplesmente lavar as mãos e desfazer-se dela.

Devia retornar antes que descobrisse que ela não estava. Que impulso idiota foi este. Talvez poderia pedir ajuda de alguma família que viajasse a Londres em um carro privado. Caso tal família decidisse parar nesta estalagem. Mas isso significaria revelar sua identidade. Ela não se atrevia a fazer isso.

O sentimento de desespero crescia rapidamente. Devia encontrar uma saída para este problema. Examinou os outros fregueses do botequim, perguntando-se se eles poderiam lhe proporcionar alguma ajuda. Com certeza, algum estava caminho de Londres. Poderia comprar a passagem pelo dobro ou o triplo de seu preço.

Nesse momento uma estranha sensação percorreu seu corpo. Olhou rapidamente a sua redor e sobressaltada viu que Gabriel entrava em grandes pernadas no salão.

Gabriel estava aqui.

Uma onda de alívio a embargou. Vinha atrás dela. Junto desse pensamento veio a consciência que jamais o vira com um ar tão perigoso. Seu rosto estava tão ameaçador como uma águia, e os olhos eram duas pedras de gelo de cor verde. Ficou parado sem mover-se por um instante e examinou a lotada sala.

O estômago de Phoebe se retorceu. Este não era nenhum galã, amante perseguindo a sua amada com a esperança de convencê-la para que retornasse com ele. Gabriel definitivamente não parecia estar de humor para declarar amor nem devoção eterna.

Por um momento, Phoebe ficou sentada como se estivesse petrificada, apanhada entre o impulso de jogar-se em seus braços e um desejo igualmente forte de escapar. Nesse segundo de indecisão, os olhos de Gabriel caíram certeiramente sobre o rosto velado dela.

Pareceu reconhecê-la imediatamente. Talvez pela vívida cor violeta de seu vestido de viagem. Caminhou diretamente para ela, com as botas manchadas de lama. Que soavam fortemente no chão de madeira. Várias cabeças se voltaram curiosas a seu passo. Gabriel não olhou nem a um lado nem ao outro. Seu olhar jamais deixou Phoebe.

Quando chegou à mesa, ela quase não se atrevia a respirar.

— Decepcionou-me Phoebe — disse Gabriel sem fazer nenhuma reverência — Não é próprio de você fugir dos problemas. Em geral, fica e luta.

Isso foi demais.

Phoebe ficou de pé de um salto enquanto a raiva brilhava em seus olhos.

— Eu não estava escapando. Em realidade, estava esperando tomar a próxima diligência de volta a Londres.

As sobrancelhas de Gabriel se arquearam.

— Sério?

— Sim. Pode perguntar a dona da estalagem, se não acredita. Ela dirá que tentei comprar uma passagem.

— Tentou?

— Não é culpa minha que não houvesse assentos disponíveis para a próxima diligência — disse Phoebe — Estava planejando comprar de alguém o bilhete.

— Já vejo. — A voz de Gabriel se tornou mais cálida. Os olhos perderam o brilho duro — Bom, não importa se houver ou não vaga. Você já não necessita.

Ela o olhou interrogante.

— Por que não?

— Não usará transporte público. — Gabriel a segurou pelo braço.

— Irá me levar de volta a Londres?

— Não, senhora. Eu a levarei para minha casa comigo.

— Casa? — Os olhos se abriram bem grandes atrás do véu — Quer dizer a sua casa?

— Sim. — Os olhos se suavizaram quase imperceptivelmente — Posso conseguir uma licença especial para que nos casemos, Phoebe. E faremos isso imediatamente. Assim que cheguemos ao castelo será minha esposa.

— Oh, Deus — sussurrou — Não estou certa de que seja muito sensato, meu senhor.

— Acha que pode manter em segredo o que aconteceu hoje?

Phoebe o olhou de canto de olho enquanto ele a conduzia entre a multidão.

— Estive pensando nisto, meu senhor. Acredito que se tivermos cautela poderíamos voltar em segredo à cidade.

— Phoebe, me permita dizer que você não sabe o significado da palavra cautela. Nem que exista nenhuma razão para retardar o casamento com a esperança que me convença a não me casar com você. Nos jornais desta manhã se publicou a notícia. Não há forma de escapar agora. Encarregaremo-nos deste assunto imediatamente.

Phoebe se sobressaltou.

— Está certo que deseja se casar comigo, Wylde?

— Sim.

Ela recorreu a toda coragem que tinha.

— Porque me ama?

Gabriel se mostrou incômodo e olhou o lotado salão.

— Pelo amor de Deus, senhora, este não é momento nem lugar apropriados para falar deste tema. Espere aqui enquanto procuro os cavalos e sua bagagem. Suponho que tem bagagem?

Phoebe suspirou.

— Sim, meu senhor. Tenho bagagem.

 

O resto do dia transcorreu em uma espécie de irrealidade. Por momentos, Phoebe se convenceu de que estava sonhando. Em outros, encontrou-se cheia de um estranha e esperançada emoção.

Pouco tempo depois, se transformou na esposa de Gabriel, em uma cerimônia rápida que carecia de qualquer detalhe romântico. Uma vez que Gabriel mostrou a licença especial, o prefeito do lugar só se interessou pelos honorários.

Um silêncio estranho, incômodo se fez depois quando Gabriel a fez subir em sua carruagem. Sentou-se a seu lado e tomou as rédeas. Phoebe se recordava todo o tempo que era o dia de seu casamento e que acabava de casar com o homem que amava, mas não podia se convencer disso.

O sentido de irrealidade foi mais opressivo quando se fez noite. A névoa se levantava desde o mar, cobrindo toda a paisagem de Sussex de cor cinza. Phoebe estremeceu, consciente do frio que penetrava em seu pesado vestido de viagem.

Tentava romper o duro silêncio que se instalou entre ela e Gabriel, quando divisou o contorno enorme de um velho castelo que se levantava em meio da névoa. À estranha luz da noite, talvez poderia ser uma ilusão, um castelo encantado saído de um conto medieval.

Phoebe se ergueu no assento mostrando um repentino interesse.

— Minha mãe! Gabriel, o que é isso?

— Isso é Névoa do Diabo.

— Sua casa? — Ela se virou encantada — Vive em um castelo?

Foi a primeira vez que sorriu desde que saíram da estalagem.

— Pressentia que ia gostar.

Phoebe sentiu reviver seu espírito como as flores ao sol.

— Isto é maravilhoso. Não tinha ideia de que vivia em um lugar tão maravilhoso. Embora, agora que penso, assenta bem em você.

— A você também, Phoebe.

— Sim — esteve de acordo totalmente emocionada — Sempre desejei viver em um castelo.

 

Uma hora depois, Phoebe ainda fervia de entusiasmo quando se sentou para jantar com Gabriel. Ele escondeu um sorriso de satisfação enquanto a estudava. Sua flamejante esposa parecia muito a gosto neste salão cavernoso.

Sua esposa. Uma furiosa emoção encheu Gabriel quando a olhou. Logo seria dele.

 

Os ombros suaves e levemente arredondados de Phoebe, o contorno volumoso de seus seios se viam tão pálidos à luz da lua como o brilho das velas. Os reflexos avermelhados de seu cabelo escuro brilhavam.

Viu o leve rubor de suas bochechas e soube que estava pensando na noite de núpcias que tinha pela frente.

Sentiu uma repentina urgência de tomá-la nos braços e levá-la à cama. Logo, prometeu-se. Muito em breve ela seria completamente dele.

— Adoro Névoa do Diabo, meu senhor — disse Phoebe enquanto o mordomo lhe servia vinho — Não posso esperar para vê-lo pela manhã.

— Mostrarei depois do café da manhã — prometeu Gabriel — Veremos tudo, incluindo as catacumbas que há debaixo.

— Catacumbas? — Phoebe estava sem dúvida fascinada.

— Alguma vez certamente existiram depósitos de alimento e calabouços — explicou Gabriel — Mas eu as chamo catacumbas porque é o que me recorda o lugar. A única regra é que jamais deve ir sozinha.

— Por que não?

— É perigoso — explicou Gabriel — Está cheio de passadiços e portas que só se podem abrir e fechar com mecanismos secretos.

Os olhos de Phoebe se abriram de par em par.

— Que emocionante, não posso esperar para explorar o lugar.

— Imediatamente depois do café da manhã, querida. — O café da manhã seria muito tarde amanhã, prometeu para si. Não tinha intenção alguma de levantar-se cedo tendo Phoebe na cama.

— Onde encontrou essa maravilhosa armadura que está no corredor? — perguntou Phoebe enquanto aceitava uma porção de bolo de cordeiro — Juro que é a coleção mais maravilhosa que já vi.

— Aqui e lá.

— E o lema que está esculpido em cima da porta. “Audeo”. O lema tradicional dos condes de Wylde?

— É agora — disse Gabriel.

Phoebe o olhou com atenção.

— Quer dizer que você o criou?

— Sim.

— Devo dizer que serve perfeitamente a você, meu senhor.

— Acredito que também se assenta bem a você, minha senhora — disse Gabriel deliberadamente.

Phoebe o olhou zangada.

— De verdade acha isso?

— Sim.

— É muito adulador de sua parte, meu senhor. — Ela fez uma careta — Mas tinha a impressão que não estava muito satisfeito com meu atrevimento de hoje pela manhã. Pensei que você não gostaria nada de todo este assunto. Bom, agora tudo isso ficou atrás, não é verdade?

Gabriel, com um leve movimento de cabeça dispensou o mordomo e o lacaio. Quando a porta se fechou, reclinou-se em sua cadeira e tomou a taça de vinho.

— Sobre esse assunto, Phoebe — disse tranquilo.

— Sim, meu senhor? — Ela se mostrou de repente preocupada com seu bolo de cordeiro.

Gabriel duvidou, recordando os pensamentos que o tinham atormentado enquanto ia atrás de Phoebe.

— Você já sabe que não sou tão mau com Kilbourne.

O garfo de Phoebe ficou a meio caminho de sua boca. Lentamente o baixou.

— Foi muito grosseiro de minha parte. É obvio que não é mau como Kilbourne. Jamais me teria casado com você se pensasse que é tão desagradável como ele.

— Talvez a obrigaria a se casar com ele se tivesse êxito em seu terrível plano de sequestro. — Gabriel ouviu a ironia de suas próprias palavras, mas não pôde evitar fazê-la desaparecer de sua voz. Cada vez que pensava no intento de Kilbourne de raptar Phoebe, sentia frio por dentro.

— Eu não me casaria com Kilbourne, tendo ele me raptado ou não — disse Phoebe com um leve calafrio — Teria preferido viver o resto de minha vida encerrada em desgraça.

— Sua família insistiria em que se casasse com ele.

— Talvez, mas eu jamais o aceitaria.

Gabriel entrecerrou os olhos.

— Tentou evitar se casar comigo, mas não teve êxito.

Phoebe se ruborizou e baixou o olhar.

— A verdade é que não me empenhei muito, meu senhor.

Os dedos de Gabriel apertaram a taça de vinho.

— Você fugiu de mim, Phoebe.

— Só porque desejava ter algum tempo para pensar. Eu não gostei da forma com que todos pareciam estar tomando decisões por mim. Mas, quando a roda do carro quebrou, eu sabia que havia cometido um erro.

— O que a convenceu para pensar assim?

Phoebe brincou com a comida que havia em seu prato. Depois levantou a vista e seus olhos se encontraram com os de Gabriel.

— Dei- me conta de que não era contra a ideia de me casar com você.

— Por que não?

— Acredito que você já sabe a resposta para isso, meu senhor.

Gabriel sorriu malicioso.

— Deixe-me adivinhar. Casou-se comigo para poder ter acesso ao conteúdo de minha biblioteca?

Os olhos de Phoebe se iluminaram divertidos.

— Não de tudo por isso, meu senhor, embora agora que mencionou isso devo admitir que sua biblioteca é um de seus mais interessantes atributos.

Gabriel afastou o prato e cruzou os braços sobre a mesa.

— Casou-se comigo porque deseja experimentar mais do que sentiu aquela noite no labirinto dos Brantley?

Phoebe ficou cor de rosa.

— Como já disse aquela vez, foi muito agradável, meu senhor, mas não me casaria somente pelo propósito de repetir essa experiência.

— Então, por que se casou comigo?

Phoebe bebeu um grande gole de vinho. Deixou a taça com um leve toque de desafio.

— Porque eu gosto muito de você, meu senhor. Tal como você bem sabe.

— Então você gosta de mim?

— Sim. — Brincou com o garfo.

— Você gosta mais de mim que de Neil Baxter?

Phoebe franziu o cenho.

— É obvio. Neil era muito amável comigo e estava interessado na literatura da Idade Média. Mas a verdade é que não o amava. Ele nunca foi mais que um amigo, no que a mim concernia. Essa é uma das razões pelas que me sinto tão culpada sobre seu destino. Depois de tudo, abandonou a Inglaterra porque estava decidido a encontrar uma forma de ganhar minha mão.

— Phoebe, seu pai pagou a Baxter uma boa soma de dinheiro para que abandonasse a Inglaterra — Gabriel disse firme — Essa é a razão pela qual Baxter partiu para os Mares do Sul. Seu interesse por você foi parte de um plano para obter dinheiro de sua família.

Phoebe não se moveu. Seus olhos estavam bem abertos pelo desconcerto que a embargava.

— Não acredito.

— Então pergunte a seu pai. — Gabriel tomou um gole de vinho — Clarington foi quem me contou toda a verdade. Ele tentou me comprar dessa vez e, por acaso, mencionou a técnica que tinha utilizado com Baxter.

— Meu pai jamais me contou nada de pagar a Neil para que abandonasse a Inglaterra.

— Seu pai, sem dúvida, tentava proteger seus sentimentos — disse Gabriel de mau humor — Ele provavelmente sabia que se sentiria ferida se descobrisse que Baxter jamais teve boas intenções para com você. É obvio, o pobre Clarington não sabe que você estava investigando para encontrar o homem que você acha que assassinou Baxter. Se seu pai soubesse, talvez teria dito toda a verdade.

Os olhos de Phoebe estavam cheios de uma profunda emoção.

— Tem certeza disso?

— Absolutamente. Baxter a usou para tirar dinheiro da sua família. Esse era seu único interesse em você. Merece tudo o que aconteceu a ele nos Mares do Sul.

— Mas todo um ano me senti terrivelmente mal porque eu acreditei que ele foi ali para fazer fortuna para poder continuar me cortejando. Ele se chamava a si mesmo meu cavaleiro e proclamava que desejava me servir para sempre. Eu sempre seria sua “dama da torre”.

— Não é necessário que se sinta culpada pelo Baxter — disse Gabriel — Esqueça-o.

— Encontrar o assassino foi minha meta durante muitos meses.

— Esquece a maldita investigação.

— Sinto-me como se tivesse vivendo uma ilusão — sussurrou Phoebe — Se o que diz é verdade, perdi muito tempo. Tantas energias. Tantas emoções.

— Esquece-o, Phoebe.

Os dedos de Phoebe tremiam quando dobrou o guardanapo e o colocou com cuidado sobre a mesa.

— Um engano assim faz com que alguém questione seu próprio julgamento.

Gabriel mostrou indiferença.

— Todos cometemos enganos quando se trata de assuntos dessa natureza. Diabos, inclusive eu cometi um engano há oito anos quando tentei escapar com sua irmã.

— Sim, fez, não é certo? E agora eu me arrisquei muito ao me casar com você.

Não se importou com a estranha expressão dos olhos de Phoebe.

— Phoebe, só disse a verdade para que esqueça essa tola investigação. Não me imagino casado com uma mulher que está perseguindo um assassino. É muito inconveniente.

— Então. — Olhou-o — Você sabia a verdade sobre Neil quase desde o começo?

Ele duvidou.

— Seu pai me disse isso pouco depois de chegar a Londres.

— Entretanto me fez acreditar que estava me ajudando na investigação. Quanto tempo continuaria me enganando ao dizer que suas intenções eram honradas, senhor?

— Minhas intenções eram honradas. Ao final. — Muito tarde, Gabriel se deu conta da armadilha que ele mesmo tinha criado — Phoebe, posso explicar tudo.

— Não acredito que haja nada que explicar, senhor. Você mentiu. Disse que estava ajudando em minha investigação para encontrar o assassino de Neil. Mas jamais existiram tais intenções de me ajudar a encontrar o pirata que o assassinou, não é assim?

Gabriel caiu na armadilha. Dificilmente poderia explicar a ideia de vingança que, por pouco tempo, ocupo seus pensamentos. Essa notícia só faria que se zangasse mais.

— Eu não menti.

— Sim, me diga, por que se casou comigo? — exigiu, com os olhos furiosos.

— Porque acredito que nos damos bem juntos. — Gabriel tentou usar um tom razoável e tranquilizador — Uma vez que se concentre e controle seus imprudentes impulsos.

— Imprudentes impulsos? Quer dizer o imprudente impulso que me fez me casar hoje com você? — Phoebe começou a caminhar junto à beira da mesa — Asseguro, meu senhor, que aprendi a lição. Não me renderei a nenhum outro impulso imprudente.

Gabriel se deu conta que ela estava a ponto de se retirar da sala de jantar.

— Phoebe, volte aqui. Estou falando com você.

— Talvez deva terminar a conversa sozinho. Duvido que eu tenha algo sensato com que contribuir, você parece ter todas as respostas.

— Maldição, Phoebe, já disse que volte.

— Não desejo voltar, meu senhor.

— Sou seu marido — recordou Gabriel com tristeza — E esta é nossa noite de núpcias. Se tiver terminado com o jantar, pode subir, dentro de um momento me encontrarei com você.

Ela mantinha a mão no trinco da porta. Os olhos brilhavam de ira quando voltou a olhar por cima do ombro.

— Perdoe-me, meu senhor, não tenho humor para ter mais ilusões esta noite.

Gabriel apertou os dentes quando ela fechou a porta de um golpe. O silêncio caiu sobre o lugar.

Phoebe não se atreveria a fechar com chave a porta esta noite, pensou ele. Era sua esposa.

Mas inclusive quando tentou ter ânimo, Gabriel soube que Phoebe era muito capaz de negar que ele exercesse seus direitos maritais.

Diabos, esta mulher era capaz de tudo.

Uma hora mais tarde, descobriu que não fechou com chave a porta do quarto. Entretanto, não estava ali.

Gabriel revisou todo o castelo, procurando-a. Finalmente, se deu conta de que se retirou à sala da torre que ele utilizava como estúdio. Fechou-se com chave ali.

Gabriel golpeou a porta.

— Phoebe, que raios acha que faz?

— Passarei a noite aqui, Gabriel — lhe respondeu — Desejo pensar. Devo resolver tudo isto sozinha.

Gabriel recordou o exemplar da “A dama da torre” que estava em uma das prateleiras. Se ela o encontrasse, provavelmente jamais voltaria a falar com ele.

Jamais o compreenderia. Acreditaria no pior.

E, neste caso, o pior era a simples verdade. Ele foi responsável pela morte de Neil Baxter.

Gabriel ficou petrificado quando pensou no desastre que se abatia sobre suas cabeças. Isso foi quando descobriu que ele também era capaz de tudo.

Phoebe acendeu o fogo que estava preparando na lareira. Depois, ficou de pé e examinou a pequena sala de paredes de pedra à luz das chamas. Soube imediatamente que este devia ser o estúdio de Gabriel.

Sentiu-se como se fosse uma usurpadora, mas, ao mesmo tempo, irresistivelmente intrigada de saber que esta sala estava relacionada com Gabriel de forma íntima. Se até podia sentir seu coração e sua alma neste lugar.

Por acidente, se encontrou com o quarto da torre quando se dispôs a procurar refúgio. Havia trazido consigo travesseiro e manta, já que tinha todas as intenções de passar a noite aqui. Em sua mente, não existiam dúvidas que Gabriel tentaria fazer cumprir seus direitos maritais aquela mesma noite. Era, depois de tudo, um homem muito sensual. Também um homem que não deixava de lado um desafio, e ela virtualmente o provocou.

Sempre era um erro provocar um cavalheiro.

Talvez se tivesse lhe explicado o que sentia, poderia evitar o confronto, pensou Phoebe. Mas agora já era muito tarde. O dano estava feito. Além disso, ela não estava com humor algum para dar nenhum tipo de explicação. Sentia-se muito ferida e zangada.

Quando pensou nos meses que passara com sentimentos de culpa por causa de Neil Baxter, sentiu desejos de gritar. Mentiu? Era difícil de acreditar. Com certeza, havia uma explicação.

Quando pensou em como Gabriel jogou com ela, lhe fazendo acreditar que ia ajudar na investigação, desejou chorar. Gabriel definitivamente mentiu. Isso era o que mais doía.

É obvio, se fosse honesta consigo mesma, admitiria que ocultou dele um ou dois assuntos importantes no começo. Aquilo não significava que tinha a intenção de enganá-lo. Aconteceu simplesmente que se deram uma série de circunstâncias desafortunadas sobre as quais ela possuía pouco controle.

Até onde podia pensar, Gabriel não tinha desculpa. Mas, talvez, ele não visse desse ponto de vista.

Era muito para pensar, acima de tudo o que aconteceu no dia de hoje. Necessitava tempo para refletir. Tempo para decidir o que faria depois. De algum jeito, devia encontrar a forma de fazer com que este casamento funcionasse.

Sentou-se à mesa de Gabriel. E se deu conta que aqui era onde ele escrevia. Sentiu-se estranhamente perto dele ao estar naquela sala iluminada pelo fogo que ardia na lareira. Tomou as penas. Gabriel as utilizava para criar suas histórias. Aquilo a fez sentir extasiada.

Um ruído de algo que raspava a janela no exterior a fez sair em um sobressalto de seu sonho. Assombrada, Phoebe deixou cair as penas e ficou de pé, levou a mão à garganta quando voltou a ouvir o ruído.

Deu-se conta de que não era o ramo de uma árvore contra a pedra. Esta sala estava em um terceiro andar e não se via árvores por aquela janela.

O ruído de algo que deslizava, que raspava a parede voltou a ouvir. Phoebe tragou saliva sentindo intranquilidade. Não acreditava em fantasmas, recordou a si mesmo. Mas este era um castelo muito antigo e certamente ali existia em um tempo violência e derramamento de sangue.

Produziu-se um leve golpe quando uma forma escura aterrissou sobre o estreito parapeito da janela. Uma mão golpeou fortemente contra o vidro. Phoebe retrocedeu até a porta, tentando nervosa abrir com a chave. Tinha a boca aberta, preparada para proferir um grito.

A janela da torre se abriu de um golpe, e Gabriel deu um salto para o interior. Uma corda larga e grossa aparecia atrás dele. Phoebe se deu conta que estava presa no telhado. Olhou-o boquiaberta pelo assombro e o iminente sentimento de horror.

— Boa noite, minha senhora esposa. — Os olhos de Gabriel brilhavam à luz das chamas, quando com frieza tirou as luvas. Nem tinha a respiração agitada. Estava sem sua jaqueta e gravata. A camisa branca, toda manchada de pó e as botas danificadas — Suponho que não deveria me surpreender saber que o que você gosta de fazer em sua noite de núpcias, raia o ridículo.

Por fim, Phoebe pôde encontrar a voz para falar.

— Gabriel. É um autêntico idiota. Meu Deus, poderia ter se matado.

Correu passando a seu lado e passou a cabeça pela janela. A pesada corda pendurava do alto do telhado, por cima de sua cabeça. Dali ao chão da planta baixa havia muitos metros. Phoebe fechou os olhos quando umas imagens terríveis apareceram em sua mente. Era fácil visualizar o corpo de Gabriel, tudo quebrado e destroçado, contra a piso do pátio inferior.

— Sinto-me agradado de ver que o fogo está aceso. — Gabriel estendeu as mãos diante das chamas para esquentar-se — Esta noite faz muito frio aí fora.

Phoebe tirou a cabeça e se virou bruscamente:

— Saltou do telhado.

Gabriel mostrou indiferença.

— Era a única forma. A porta desta sala parece estar fechada com chave. Um acidente, sem dúvida.

Phoebe perdeu a paciência.

— Arriscou o pescoço só para fazer valer seus direitos maritais? — gritou.

Os olhos de Gabriel percorreram o corpo com clara expressão de posse.

— Não podia pensar em nada melhor.

— Está louco? — Phoebe teve desejos de lhe atirar alguma coisa — É o mais estúpido, desatinado e sem sentido que se pode fazer. Não posso acreditar. Não tem juízo?

— Vindo de você, essa é uma acusação muito estranha.

— Isto não é engraçado. Poderia ter se matado.

Gabriel encolheu os ombros.

— Não é pior que subir pelo mastro de um navio.

— Santo Deus. Esta cena foi tirada do livro ”A dama da torre”. — Phoebe avançou no espaço que os separava e parou diante de Gabriel — Não deve fazer novamente nada como o que acaba de fazer, ouve-me?

O olhos de Gabriel ardiam. Tomou o rosto de Phoebe entre suas mãos.

— Não farei se você não fugir de novo de mim.

— Gabriel, me assustou muitíssimo. Cada vez que fecho os olhos, vejo seu corpo desfeito sobre a pavimentação ali embaixo. Não deve correr riscos tão estúpidos.

Ele interrompeu o protesto com um beijo rápido e forte.

— Prometa-me que não fugirá novamente de mim

Phoebe estendeu os dedos de sua mão sobre o peito dele e procurou o rosto de duros traços.

— Prometo. Jure que jamais fará algo tão tremendamente imprudente?

Os polegares da mão de Gabriel percorreram os maçãs do rosto de Phoebe.

— Então se importa muito?

O lábio inferir dela tremeu.

— Sabe que sim.

— Então não tornará a escapar e a se fechar para se separar de mim. Porque, se fizer, a seguirei, até se isso significar baixar com uma corda pelo muro do castelo.

— Mas, Gabriel…

— Até se isso significa baixar ao inferno — jurou Gabriel.

Phoebe sentiu que se derretia em seu interior.

— Oh, Gabriel…

— Vem aqui, minha dama da torre. — Gabriel a aproximou mais a seu corpo robusto. Deslizou a palma de sua mão pelas costas, pousando-a sobre suas nádegas e pressionando para o centro de suas musculosas coxas.

Quando Phoebe emitiu um leve suspiro, Gabriel cobriu com sua boca a dela e, com aquele beijo apaixonado, a acendeu dos pés a cabeça. O calor a embargou inteira, mesclava-se aquilo com uma sensação de desejo tão forte que os olhos se encheram de lágrimas. Fechou-os, abraçada a ele, e se rendeu àquele calor.

— Assim é como devemos estar nós, amor — disse Gabriel com respiração entrecortada — Soube desde o primeiro momento em que te vi.

— É verdade? — Phoebe quase já não podia permanecer de pé, pendurava-se literalmente nele, tocando com os lábios o rígido, o contorno de sua mandíbula. Voltou a cabeça e lhe beijou a mão — Tinha medo de ter esperanças que você sentisse por mim um pouco parecido ao que eu sinto por você.

Gabriel sorriu contra sua bochecha.

— E precisamente se pode saber o que é que sente por mim?

Phoebe se estremeceu.

— Amo você.

— Ah, minha doce Phoebe. — Com paixão, a abraçou mais, fazendo-a se deitar sobre a manta que ela tinha estendido no tapete diante da lareira.

Phoebe sentiu que a sala dava voltas. Depois, se encontrou estendida de costas com o vestido subido até os joelhos. Foi consciente que Gabriel se estendia a seu lado. Uma perna dele se interpôs entre as suas, obrigando-a as abrir, ficando assim deitada no chão. Quando abriu os olhos, encontrou-o olhando-a com veemência.

— Gabriel, pensei muito em tudo isto.

— Sim? — Com a boca roçou atentamente os lábios dela, como se procurasse resposta.

— Agrada-me ouvir isso. — Gabriel deu um ardente beijo no ombro — Porque definitivamente devo dizer que eu adoro te tocar.

— Sim — disse Phoebe rapidamente — não posso evitar pensar que talvez seria melhor se esperássemos um tempo antes de consumar nosso casamento.

— Tinha a impressão que não estava zangada comigo. — Mordiscou-lhe o lóbulo da orelha.

— Não estou — confessou ela. Como poderia estar zangada quando ele a estava fazendo arder daquela forma? — Mas há muitas coisas que devemos esclarecer entre nós. Temas como aqueles que estivemos falando durante o jantar. Gabriel, ainda não nos conhecemos.

— Acredito que concordamos que não escapará de mim.

— Não fugirei — assegurou com rapidez — Viveremos como marido e mulher. Simplesmente digo que talvez deveríamos nos conhecer melhor antes de realmente viver nosso casamento em plenitude. Se te der conta do que quero dizer.

Gabriel voltou a tomar a cabeça entre as mãos. Phoebe o olhou diretamente nos olhos. As chamas da lareira ressaltavam os contornos de sua cara de águia e acentuavam o mistério de seus olhos.

— Diga novamente que me ama. Phoebe.

— Amo você — sussurrou

Ele sorriu lentamente.

— E estamos casados. Não há necessidade de esperar.

Phoebe se armou de valor.

— Mas eu não estou precisamente muito segura que você sinta o mesmo por mim, Gabriel. Esta manhã fugi porque temia que você me proporia casamento por um mal entendido sentido de honra.

Gabriel voltou a lhe mordiscar o lóbulo da orelha o suficiente para que ela se sobressaltasse.

— Acredite, senhora, não foi o sentido de honra que me levou a pedir sua mão.

— Está absolutamente certo? — persistiu ela — Já que, de verdade, não desejo que se sinta obrigado a se casar comigo.

Ele a olhou aos olhos.

— Desejo você mais que tudo que possa existir sobre a face da Terra.

Phoebe leu aquele desejo em seus olhos.

— Gabriel. Fala a verdade?

— Demonstrarei a você o quanto há de verdade nisto. — Gabriel apertou sua boca contra a dela. Com a língua a obrigou a abrir os lábios, convidando Phoebe a sentir o que ele sentia.

Com um brilho de intuição feminina, Phoebe se deu conta que aquela era a forma em que Gabriel expressava seus sentimentos. Ele a amava. Não poderia fazer amor com ela desta forma se seus sentimentos não coincidissem com os dela.

Gabriel encontrou as dobras do vestido e com leves e ligeiros movimentos foi abrindo. Um momento depois, Phoebe sentiu o calor do fogo sobre sua pele nua, quando se viu sem seu vestido e sem a roupa intima. A palma da mão de Gabriel se movia sobre seus seios.

A sensação daqueles fortes dedos contra seus mamilos a assombrou, os olhos se abriram impressionados quando se deu conta que estava virtualmente nua, salvo pelas meias que ficavam postas.

— Está tudo bem, amor. É adorável. — A mão de Gabriel se movia sobre ela, provando-a, acariciando-a, explorando-a — Meu Deus, é formosa. — Inclinou a cabeça e deu uma série de beijos em seus seios.

Phoebe arqueou o corpo contra o dele, a vergonha logo desapareceu ante o impacto da urgente necessidade que detectava nele.

A mão de Gabriel se fechou sobre seu quadril e depois se moveu ao longo da perna por toda a coxa, não tirou as ligas. Phoebe se sentia estranha de ter só postas as meias.

Virou o rosto para o ombro de Gabriel e deslizou seus dedos carregados de curiosidade pela abertura de sua camisa. Tocou o encaracolado pêlo que ali encontrou e se sentiu extasiada. Por impulso, tocou com a ponta da língua a pele de Gabriel. Este respirou profundamente.

— Tem um sabor muito rico — sussurrou.

Gabriel deixou escapar uma risada suave e rouca que se dissolveu em um rouco gemido. Tomou com suas mãos as nádegas de Phoebe e as acariciou com suavidade.

— Desejei fazer isto durante semanas.

Phoebe sentiu a dureza de seu membro ereto pressionando contra o tecido das ajustadas calças de montar. A prova do desejo dele a encheu de um sentimento de poder feminino. Estava apanhada em uma ilusão dourada e brilhante. Mas isto não era um sonho, recordou a si mesma. Isto era real.

— Desejei você durante semanas.

Os dedos dele se deslizaram para o triângulo de pêlo que estava no ápice dos quadris, procurando as dobras polpudas e úmidas de seu sexo. Phoebe gritou brandamente, quando a explorou com um de seus dedos.

— Sim — disse agitado Gabriel — Sim, meu amor. — Retirou a mão dentre suas pernas. Separou-se um tanto dela e com impaciência tirou a camisa.

Phoebe o olhava com os olhos entrecerrados enquanto ele tirava as botas. Depois ficou de pé para tirar as calças.

Observava aquele corpo todo excitado. Jamais viu um homem naquelas condições. A boca se ressecou, e os olhos procuraram com desespero os dele.

Gabriel se ajoelhou junto a ela e a fez sentar-se. Manteve-a apertado contra seu peito.

— Não tenha medo de mim, Phoebe. Aconteça o que acontecer, nunca tenha medo de mim.

Ela abraçou à sua cintura e o apertou forte.

— Não tenho medo de você.

— Confia em mim?

— Sim, sempre. Para sempre.

— Sou feliz. — Beijou-a na nuca e depois a estendeu novamente sobre o tapete.

— É só que não esperava que fosse tão…

— Tão o que? — perguntou-lhe, lhe mordiscando o pescoço à altura da garganta.

— Que tivesse proporções tão extraordinárias — disse por fim com acanhamento.

Gabriel riu. Phoebe sentiu que ruborizava.

— Esta noite nós dois vamos escrever uma linda história, amor. Uma que seja digna da poesia medieval.

A boca dele era como uma droga quente contra a pele de Phoebe. Adormecia-a, esmiuçava-a e logo a estimulava a lhe dar resposta. As mãos lhe percorriam o corpo, exportavam-na com assombrosa intimidade. Mesmo que ele a pressionasse contra o chão duro, Phoebe se deleitava com aquele peso que estava sobre ela.

De forma experimental, acariciou os contornos daquelas fortes costas, logo afundou os dedos nos firmes músculos dos quadris. Ele era forte, pensou; entretanto, estremecia cada vez que o tocava, inclusive com as pontas dos dedos.

Phoebe descobriu que não podia abranger a resposta dele. Não importava onde o tocasse, ele reagia como se tivesse aceso fogo em seu interior. O sexo de Gabriel pulsava violento contra o seu entre as perna.

— Não posso esperar mais. — A voz de Gabriel soou rouca pela paixão — Abra-se, minha doce esposa. Preciso entrar em você ou ficarei louco.

Ela abriu suas trementes pernas. Ele se firmou entre aquelas coxas que se partiam e se acomodou acima até que seu membro fez pressão contra ela. Phoebe moveu inquieta a cabeça sobre o tapete quando se deu conta de quão grande era.

— Gabriel?

— Abrace-me, com força, com as pernas, Phoebe. — Colocou as mãos debaixo dos joelhos dela e as levantou, depois guiou aquelas pernas até que se colocaram na posição adequada — Sim, assim. Agora coloque as mãos sobre meus ombros, segure-se bem, Phoebe. Tanto como seja possível.

Ela segurou aqueles ombros fortes e escorregadios pelo suor. Jamais se sentiu tão vulnerável. Mas o amava, recordou para si, e desejava até a dor desta união tanto quanto ele. Eram uma só pessoa nesta paixão, tal como lera nas velhas lendas medievais.

— Isso. — Gabriel a beijou na garganta e a penetrou com maior força — Eu a sinto fechada, mas também muito molhada. Não sei como será esta primeira vez, mas deve confiar em mim. Tudo vai sair bem.

— Está tudo bem, Gabriel. — Ela se levantou por um momento para ele — Desejo você.

— Depois disto jamais terei o suficiente. — Ele se inclinou, abriu-a com os dedos e se moveu lentamente em sua vagina.

Phoebe conteve a respiração, insegura do que devia esperar, mas com a necessidade de tê-lo dentro de si. Ela devia possuí-lo. Por instinto, apertou as pernas que o abraçavam.

— Phoebe, espera, não desejo machucar você.

O rosto de Gabriel era uma máscara de contenção auto-imposta. Mas, quando Phoebe levantou os quadris uma vez mais, algo pareceu ceder em seu interior.

— Sim. Oh, sim. — Penetrou-a com um só impulso.

A dor e a surpresa atingiram Phoebe, de repente, se sentiu muito invadida, muito fechada, muito apanhada debaixo do peso de Gabriel. Ele estava em seu interior.

Não podia dizer se havia alguma dor. Não sabia o que sentia, a sensação literalmente era indecifrável. Emitiu uma suave exclamação e se agarrou aos ombros de Gabriel.

Este voltou a estremecer.

— Segue adiante. Crave em mim suas pequenas garras, Deus sabe que me afundei profundamente em seu corpo para não voltar jamais a me recuperar.

Phoebe tragou saliva rápido.

— Acredito que isto é mais que suficiente — disse com voz fraca — Talvez deveríamos parar agora.

— Não posso parar agora embora a terra se abrisse debaixo de mim e me tragasse vivo. — Gabriel se levantou saindo um pouco dela e depois empurrou lentamente, sem deter-se, voltando a penetrá-la — Isto é maravilhoso, meu amor. Nunca foi tão maravilhoso.

Phoebe mantinha abraçadas suas pernas ao corpo de Gabriel. O feitiço sensual no que tinha estado envolvida há só um momento se quebrou. Sentia-se incômoda, mas não com uma dor verdadeira. Era uma sensação muito estranha ter Gabriel em seu interior desta maneira. Obviamente, ele sentia prazer, e ela o amava muito para negar a satisfação que procurava.

— Abrace-me. — A voz de Gabriel era rouca — Abrace-me, Phoebe. Necessito de você.

Ela ajustou os braços ao redor de seu corpo, agarrando-se a ele, oferecendo-se, até que, de repente ele, emitiu um grito surdo e ficou absolutamente rígido sobre ela. Os músculos de suas costas e as nádegas eram como aço sob sua pele ao mover-se dentro dela.

Depois desabou ao longo de todo seu corpo.

Durante um longo momento, Phoebe ficou estendida sem se mover e em silêncio debaixo de Gabriel, sentindo como ele recuperava a respiração. Lentamente, acariciou suas costas e sentiu a umidade de sua pele. Era como um semental depois de uma dura carreira, pensou. Ele era seu semental.

Depois de uns momentos, Gabriel grunhiu e se separou dela sem desejar realmente sair. Girou para um lado, colocou um braço cobrindo seus olhos e a fez aproximar dele.

— A próxima vez será melhor para você, Phoebe. Prometo isso.

— Não foi mau esta vez — disse ela com honestidade — Um pouco estranho, mas não mau.

Ele riu débil.

— Da próxima vez, gritará de prazer. Prometo isso. Farei que isto seja uma façanha e não descansarei até que a tenha satisfeito completamente.

Phoebe sorriu e o abraçou.

— Jamais faria algo tão impróprio a uma dama como gritar.

— Espera e verá. — Retirou o braço que cobria os olhos e entrelaçou os dedos no cabelo de Phoebe — O fogo em seu cabelo arde tanto como no resto de seu corpo. É uma criatura surpreendente, senhora esposa.

— Sou?

— Definitivamente. — E voltou a fechar os olhos — Descansaremos uns minutos e depois nos vestiremos e desceremos para ir a minha antecâmara.

— Eu gosto de ficar aqui — disse Phoebe.

Gabriel não abriu os olhos.

— Não tenho intenções de passar o resto de minha noite de núpcias no chão de meu estúdio.

Entretanto, em segundos adormeceu, tomando com o braço o corpo de Phoebe.

Phoebe ficou olhando-o um longo momento, vagamente consciente de um montão de novas impressões. Sentia uma espécie de ardor entre as pernas e o aroma adocicado da sexualidade de Gabriel que tinha ficado sobre sua pele, sentia-se pegajosa, quente e um pouco inquieta.

Então, isto era estar casada. Decidiu que não entendia. Gostava da cálida intimidade do ato, mesmo que o ato mesmo de fazer amor não fosse algo para emocionar-se tanto. As carícias preliminares foram, sem dúvida alguma, agradáveis, mas a verdadeira alegria de tudo residia em saber que Gabriel era agora dela.

Estava casada com o homem que amava, e ele a amava também, mesmo que tivesse problemas para expressar. Muitas mulheres, sabia, não tinham tanta sorte. Para a maioria das pessoas, o casamento era uma questão prática em altares da propriedade, a posição social e a herança.

Era uma das estranhas e afortunadas mulheres no mundo que se casaram por amor. E pensar que quase estragou tudo esta manhã ao fugir. Talvez Gabriel tivesse razão ao considerá-la imprudente.

Phoebe se estirou com cuidado, consciente de que ficava rígida. O braço de Gabriel deslizou sobre seu peito. Não despertou. Obviamente estava exausto. Foi para ele um dia difícil, por dizê-lo de algum jeito.

Sentou-se lentamente e olhou a seu redor. Ela estava muito acordada e estranhamente alerta. O último a fazer agora era dormir. O conteúdo da biblioteca de Gabriel lhe chamava a atenção.

Ficou de pé com cautela e vestiu o fino roupão de cor branca que havia trazido consigo. Depois, se dirigiu a uma das estantes.

Examinou uma fila de volumes encadernados em couro que estavam atrás de um vidro. Quando se lembrou que era esta uma pequena porção de sua magnífica coleção, meneou a cabeça com assombro. Um dos prazeres de estar casada com Gabriel, pensou ardilosa, era que ela agora tinha acesso a sua biblioteca.

Ficou nas pontas dos pés para ler os lombos da seguinte fila de livros. A respiração escapou de seus pulmões com força quando o olhar pousou sobre um volume que lhe resultou familiar. Olhou-o fixamente, incapaz de acreditar no que seus olhos viam. Mas ali estava, inscrito em dourado: “A dama da torre”.

Era o exemplar que lhe pertencerá. Estava quase certa disso.

Aniquilada, Phoebe olhou Gabriel por cima do ombro. Ele não se moveu, mas matinha, agora, os olhos bem abertos. Observava-a com uma expressão indecifrável à luz cintilante das chamas da lareira.

— Disse que terminaria a investigação — disse com tranquilidade — Prometi encontrar o exemplar “A dama da torre” antes do fim da temporada.

Phoebe se virou lentamente para olhá-lo.

— Encontrou mas não me disse? Gabriel, não compreendo. — Ela se sobressaltou quando a óbvia verdade ficou clara — Espera. Seria meu presente de casamento, não é assim?

— Phoebe, me escute.

Mas Phoebe estava certa que sabia o que tinha acontecido.

— Que maravilhosa surpresa. Sinto ter descoberto, mas não tema. Estou maravilhada. Onde a conseguiu? Quem era o dono?

Ele se sentou lentamente, indiferente a sua nudez. O reflexo do fogo dançava sobre seus largos ombros, tornando sua pele da cor do ouro. O olhos verdes esmeralda estavam cheios de sombras carregadas de preocupação.

— Phoebe, eu sou o dono do livro.

Phoebe tragou saliva insegura.

— O que é que quer dizer? Como o conseguiu?

— Retirei do camarote de Baxter depois de ter abordado seu navio. — A voz de Gabriel curiosamente carecia de inflexão — Baxter escolheu o mar em lugar da forca. Atirou-se pela amurada e desapareceu, presume-se que se afogou.

— Você abordou seu navio? — Phoebe descobriu que seus joelhos de repente se afrouxavam. Deixou-se cair lentamente sobre o assento da janela e entrelaçou as mãos fortemente em seu regaço — Meu deus, Gabriel, me diz que foi um pirata dos Mares do Sul? Nego-me a acreditar.

— Estou agradecido por isso. Já que não fui pirata. Só um comerciante que tentava de fato ganhar vida com o comércio das pérolas. Foi Baxter que se dedicou à pirataria quando chegou às ilhas.

— Impossível — disse rapidamente Phoebe — Jamais faria uma coisa assim.

— Não importa se acredita ou não. É a verdade. Aparentemente ele achou que era mais fácil e eficiente que entrar nos negócios navais. Converteu-se em um estorvo para minha companhia e para outras. Alguém devia desfazer-se dele.

— Um estorvo — repetiu Phoebe, com a mente dando voltas.

A expressão de Gabriele era sombria.

— Para chegar a ter um navio próprio, abordou duas de minhas empresas, assassinando muitos homem nesse processo; roubou grande quantidade de mercadorias, incluindo um baú muito valioso composto de pérolas negras, ouro e diamantes. Depois daquele incidente, decidi buscá-lo antes que fizesse mais dano.

Phoebe o olhou assombrada.

— Meu Deus! Isto é incrível. Não posso acreditar que estivesse tão equivocada com respeito a Neil.

— Por que ele representou o papel de cavaleiro enquanto idealizava um plano para chantagear seu pai? Baxter era um inteligente bastardo. Você não foi a única mulher que conseguiu enganar.

O rosto de Phoebe se avermelhou.

— Faz com que pareça uma tola.

A expressão de Gabriel se suavizou.

— Você não é tola, amor, mas é muito inocente. As mulheres são vulneráveis perante homens como Baxter. Desejam acreditar nas ilusões que ele criou.

As mãos de Phoebe se apertaram em seu regaço.

— Fala como se tivesse conhecido a outras mulheres que acreditassem que ele era um cavaleiro.

— De certo modo, sim. Nas ilhas, Baxter se arrumou para se fazer passar por um próspero homem da indústria naval. Mesclou-se livremente com aqueles de nós que estávamos no negócio, recolhendo informação que depois utilizava para fazer armadilhas a nossos navios. — O olhar de Gabriel se endureceu — Ele espreitava às mulheres, procurando detalhes sobre as cargas e as rotas.

— Às mulheres?

— Esposas, filhas e… — Gabriel duvidou um instante — outras. Seduzia-as, e elas lhe informavam o que queria saber.

— Compreendo. — Phoebe ficou por um momento em silêncio, procurando a lógica da situação — Você tinha meu livro durante todo este tempo. Você era o objeto de minha investigação.

— Por assim dizer, sim.

Phoebe o olhou

— Por que não me disse isso?

— Por muitas razões. A principal era sua ideia de que o dono do livro seria um assassino.

Ela sorriu trêmula.

— Entendo. Estava com medo de admitir que era o dono do livro por medo que pensasse o pior de você.

— Maldição. — Gabriel fechou os olhos — Não era por medo de admitir, mas, sim, porque tinha outros planos.

— Que outros planos?

— Estou farto desta tolice — disse sombrio Gabriel — Agora vamos deixar tudo claro. Comecemos desde o começo. Depois que conheci você naquela estrada em Sussex, decidi que a desejava para mim. O livro era a chave para conseguir.

O olhos de Phoebe se abriram com assombro.

— Quer dizer que sabia que desejava se casar comigo desde o começo? Gabriel, isso é tão romântico. De verdade, deveria ter dito isso.

Gabriel ficou de pé e com a palma de sua mão golpeou o suporte da chaminé.

— Maldição, mulher, por que insiste em me ver como um heróico cavalheiro cheio de honradas intenções? — Voltou a cabeça para olhá-la com irritação — Disse que a desejava. Para dizê-lo mais claro, o casamento não passou por minha cabeça. Não no começo de nossa relação. Queria você na minha cama. Essa é a verdade.

— Oh — Ela não soube o que dizer. Pelo menos a desejava, pensou — De modo que aceitou me ajudar em minha investigação como uma forma de me conhecer melhor?

— Como uma forma de levar você para a cama, maldição

Ela sorriu esperançada.

— Bom, suas intenções talvez não foram, estritamente falando, inteiramente honradas a princípio.

— Pode estar seguro de que assim é.

— Mas mudou rápido; isso é o importante. Suas intenções se fizeram honradas quando me conheceu.

— Maldição. Não quer ver a verdade nem quando a tem debaixo de seu nariz. — Gabriel pegou as calças e a vestiu com movimentos rápidos — Minhas intenções não melhoraram depois de descobrir que era a filha de Clarington. De alguma forma, pioraram.

— Pioraram?

Fez um gesto de desgosto.

— Phoebe, quando me inteirei de sua verdadeira identidade, busquei você com o propósito de usá-la como vingança contra sua família. Ia seduzi-la para humilhar seu pai. Isso, compreende agora?

Ela conteve as lágrimas e sorriu com coragem.

— Talvez a vingança fosse sua meta inicial, mas não pôs em prática seu plano, não é assim? Em lugar disso, casou-se comigo.

Ele a olhou com as mãos nos quadris.

— Assim é.

— O que significa que sua natureza inerentemente nobre foi a que o guiou em suas ações — concluiu Phoebe.

— Maldição. Se isso for o que deseja acreditar, quem sou eu para contradizer?

— Casou-se comigo pelo sentido natural de honra. — Phoebe sustentou com seus dentes trementes o lábio inferior — Mas você não me ama, não é assim, meu senhor?

Os olhos dele brilharam.

— Não me acuse de ter feito você interpretar mal este tema. Isso é algo que não me pode culpar. Eu jamais declarei meu amor. Disse que a desejava e essa é a verdade. Toda a verdade.

— Casou-se comigo para me salvar de um escândalo.

— Asseguro a você que não sou tão nobre para isso — protestou — Todos os meus impulsos de cavalheiros se esfumaram há oito anos. A vida dos Mares do Sul não fez nada para revivê-los. Não sou nenhum campeão heróico do amor nem da justiça.

— Então por que se casou comigo? — gritou Phoebe.

— Casei-me com você porque acredito que será uma boa condessa — respondeu com irritação — Sua linhagem é impecável. Mais importante, sua conduta imprudente, irritante, fala de coragem e ousadia. Essas são as qualidades que quero para meus filhos. Mais ainda, acho você muito mais interessante que qualquer outra senhora que conheci ou que tenha memória. E a desejo.

— Mas não me ama.

— Jamais disse que amava.

— Não, mas eu tinha esperanças que pudesse aprender a me amar — explicou Phoebe — Essa é a razão pelo que cometi o maior erro de toda minha vida.

Gabriel a olhou com olhos incrédulos.

— Acredita que ter se casado comigo é o maior erro de sua vida?

— Sim.

Gabriel se aproximou ameaçador.

— Sim. E, em retribuição, espero que você seja uma esposa adequada, por Deus.

Phoebe inclinou a cabeça para um lado, estudando-o com veemência.

— O que é que faz ante seus olhos uma esposa adequada?

Com os dedos tomou seu queixo. Seu olhar estava carregado de raiva contida.

— O que acredito é que está me provocando, senhora. De todas formas, direi precisamente o que eu desejo de você. Desejo respeito e obediência, que se espera que uma esposa adequada demonstre a seu senhor.

— Eu o respeito, Gabriel. Mas a obediência jamais foi meu forte.

— Bom, pode muito bem aprender a tê-la.

— Pelo amor de Deus, Gabriel, não deve me olhar tão ameaçador. Ambos sabemos que não me golpeará para me submeter.

— Crê que não?

Ela sorriu e se soltou de sua mão.

— Sua conduta naturalmente honrada evita portanto o uso da violência contra uma mulher.

— Por seu bem — disse ele — sugiro que deixe de tentar se convencer de que eu possuo uma natureza honrada.

— Só desejo que não me tire minha ilusão. — dirigiu-se até a biblioteca e abriu as portas de cristal.

— Que diabos quer dizer com isso? — exigiu Gabriel.

— Já disse que Neil Baxter, o único homem que me declarou seu amor com um coração puro e nobre, mentiu. — Phoebe tomou “A dama da torre” da prateleira — Estou casada com um homem que, em seu lugar, diz que não me ama para nada, destino este que sempre tentei evitar. Considerando tudo isto, meu senhor, esta não foi a noite de núpcias de meus sonhos.

— Phoebe…

— Boa noite, meu senhor. — disse abraçada ao grosso volume.

— Phoebe, desejo te falar.

— Sobre o que? Sobre a natureza honrada? Acredite, agora estou bem familiarizada com ela. Não tenho necessidade de maiores instruções a respeito.

Abriu a porta, antes fechada com chave, e começou a descer a escada em caracol. Os degraus de pedra estavam muito frios sob seus pés descalços.

Por que demônios não manteve a boca fechada? Gabriel deixou a um lado a pena e parou de escrever, ficou de pé e se dirigiu à janela. Estava chovendo. A corda que utilizou continuava pendurada do telhado e golpeava ociosa o vidro da janela.

Sim, a noite anterior deveria ter mantido a boca fechada, quando despertou e viu que Phoebe olhava o exemplar da “A dama da torre” que estava na biblioteca.

Tinha razão ao lhe dizer a verdade de como conseguira o livro e sobre Neil Baxter, mas jamais deveria ter contado o resto.

Doeu a consciência quando recordou a curta lição sobre respeito e obediência. Ao recordar a sua esposa tais coisas na noite de núpcias, não foi provavelmente a melhor forma de convencê-la de que seu casamento foi brilhante.

Se ela desejava acreditar que ele se apaixonou desde o começo e que suas intenções eram honradas quem era ele para lhe tirar aquela ideia? Por que sentiu a necessidade de destroçar a ilusão que ela tinha dele? Perguntou-se.

Gabriel esteve preocupado por aquele tema todo o dia e, inclusive, não estava de todo seguro da resposta.

Sentiu-se furioso quando Phoebe fugiu aquela manhã. Sentiu-se até mais zangado quando ela se fechou no quarto da torre na noite anterior. E aquela raiva também foi acompanhada pelo medo. Não podia negar. Estava com medo que visse “A dama da torre” antes de poder lhe explicar tudo.

Não desejava que pensasse que ele era de coração nobre e de natureza honrada, mas tampouco desejava que acreditasse que era um assassino.

Simplesmente desejava que, entre os dois, existisse honestidade, disse Gabriel para si.

Sua mandíbula ficou tensa quando se separou da janela. Para melhor ou pior, ela agora conhecia a verdade. Certamente, existia desde a noite anterior plena sinceridade entre os dois.

Phoebe se casou com um homem cujas intenções iniciais foram levá-la a à cama e que, depois, decidiu usá-la como elemento de vingança. Ao final, se casou com ela por sua linhagem, coragem e pelo fato de que seria uma companhia interessante.

Se isso não era suficiente para destroçar as ilusões mas apreciadas de uma mulher, nada mas o faria. Gabriel se remoeu de dor. Deveria ter mantido a boca fechada. As coisas seriam muito mais simples.

Mas talvez fosse melhor desta maneira, depois de tudo, orgulhou-se de sua compreensão pragmática e realista da vida. Já não era o jovem sentimental, crédulo e romântico de antigamente. Era um homem que se dirigia no mundo tal qual era este.

Era importante que Phoebe compreendesse que não podia continuar arrastando-o para suas aventuras como se fosse um cão mulherengo. Ele fez o papel de cavalheiro o suficiente. Ela era sua esposa e devia conhecer a verdadeira natureza de seu marido.

Gabriel voltou para sua mesa e tomou a pena. Entreteve-se uns minutos preparando a ponta desta. Depois, se sentou e começou a reler as passagens de “Uma aventura imprudente”.

Uma hora depois, rodeado de várias folhas de papel, Gabriel desistiu do esforço. Desceu para ver Phoebe.

Finalmente a encontrou na biblioteca.

Abriu a porta sem fazer ruído e a examinou por um momento, enquanto em seu interior aumentava a tensão ao recordar os acontecimentos da noite de núpcias.

Phoebe estava com as pernas cruzadas sobre uma poltrona perto da janela, os pés calçados com sapatilhas debaixo de um vestido cor cabaça. O sol que se filtrava pelas estreitas janelas formava um halo ao redor de seu cabelo castanho. Em sua garganta, luzia um adorno trançado.

Gabriel sentiu remorso. Ela provavelmente chorou toda a noite.

— Phoebe? — disse com suavidade.

— Sim, meu Senhor — não levantou o olhar do livro que tinha sobre o regaço.

— Vim ver o que fazia

— Estou lendo. — Ela continuou sem levantar o olhar. Parecia completamente absorta no que estava estudando.

— Estou vendo — Gabriel fechou a porta e foi para onde se encontrava sentada. Deteve-se frente a lareira e ficou olhando aquela cabeça inclinada sobre o livro, deu-se conta que não sabia o que ia dizer. Procurou com desespero as palavras certas — Sobre o que aconteceu ontem de noite...

— Sim?

Sua óbvia falta de interesse no tema o voltou a deixar sem palavras. Pausou profundamente...

— Peço desculpas se foi menos do que poderia ter esperado de uma noite de núpcias.

— Não deve se culpar, meu senhor — disse ela, com a cabeça inundada no livro — Estou certa de que fez tudo o que podia.

Seu tom condescendente o pegou de surpresa.

— Se, bom, isso é certo. Phoebe, somos agora marido e mulher. É importante que exista uma total honestidade entre os dois.

— Compreendo. — Phoebe virou a página de seu livro — não tenho planos de me queixar, já que de verdade você tentou com esforço fazer com que a experiência fosse agradável. Mas, como você deseja tanto que sejamos honestos, também quero falar claramente.

Ele franziu o cenho

— Sim?

— É obvio. Para ser franca, meu senhor, foi tudo diferente, diria eu.

— Sim, já sei, minha querida, mas é que devido a sua imaginação, tinha algumas ideias muito fantasiosas da vida matrimonial.

— Suponho que sim — Phoebe virou outra página e examinou uma ilustração — Mas isso foi em parte sua culpa. Depois do que aconteceu aquela noite no labirinto dos Brantley, temo que imaginei que eu experimentaria as mesmas sensações interessantes quando nós levássemos a cabo o ato sexual. Tinha muitos desejos, e, sem dúvida, minhas expectativas eram muito elevadas.

Gabriel sentiu que ficava vermelho quando se deu conta que ela falava de suas relações, não da conversa que tinha seguido.

— Phoebe, pelo amor de Deus, não estou falando disso.

— Não, meu senhor? — Ela por fim levantou o olhar com gesto interrogativo — Desculpe-me. De que falávamos?

Teve desejos de sacudi-la.

— Falo da conversa que tivemos depois que encontrou “A dama da torre”.

— Oh, isso.

— Sim, isso. Maldição, mulher, no que se refere a fazer amor, não deve temer nada a respeito. Disse a você que a próxima vez seria muito melhor.

Phoebe fez uma careta com os lábios.

— Talvez.

— Não há um “talvez”

— Então, talvez não

Gabriel fechou os olhos.

— Talvez deva levá-la para o quarto agora e mostrar isso.

— Não, obrigado.

— Por que não? — A mão de Gabriel ficou tensa sobre o suporte da chaminé. Era isso, ou se encontrava tentando a enforcá-la com suas próprias mãos — Por que é no meio da tarde? Não me diga que minha imprudente dama do véu de repente se tornou puritana. Casei-me com uma pequena puritana?

— Não é isso. — Ela voltou sua atenção ao livro — É simplesmente que não acredito que a experiência será melhor até que possa estar certa de que você me ama de verdade. Portanto, decidi que não acontecerão mais desses incidentes até que você aprenda a me amar.

Gabriel segurou com ferocidade o suporte da lareira com tanta força que foi um milagre que o mármore não se quebrasse. Olhou fixamente aquela cabeça angélica que estava inclinada sobre a leitura.

— Você, pequeno demônio. De modo que este agora é um jogo, não?

— Garanto, meu senhor, que eu não estou jogando nenhum jogo.

— Pensa que pode continuar me dirigindo da mesma forma que antes de nosso casamento? Eu já não sou seu cavalheiro pessoal, senhora. Sou seu marido.

— Cheguei a conclusão de que os cavalheiros são muito mais divertidos que os maridos.

Não devia perder os estribos, disse Gabriel para si. Não devia perder o controle. Se ele era quem devia ganhar nesta batalha doméstica, deveria manter-se frio debaixo do mesmo fogo.

— Talvez tenha razão, minha senhora — disse Gabriel sem emoção — Não tenho dúvidas de que uma mulher teimosa e sensível como você encontraria um obediente cavalheiro muito mais divertido que um marido. Mas é um marido que tem agora.

— Preferiria manter a relação só teoricamente.

— Maldição! Ficou louca? Não há possibilidade alguma que assim seja. Não permitirei que me dirija a sua vontade.

— Eu não estou tentando dirigir você — Phoebe finalmente levantou o olhar — Mas estou decidida a que aprenda a me amar antes que voltemos a fazer amor.

— Dá-se conta que há homens que bateriam em suas esposas por coisas menores? — Perguntou Gabriel com amabilidade.

— Já passamos por isso, Gabriel. Você não me bateria.

— Há outras maneiras de exercer os direitos maritais. Eu encontrei uma ontem à noite não acha?

Ela suspirou.

— Estava sob uma forte impressão. Quando você correu aquele terrível risco ao se pendurar do telhado, pensei que estava oferecendo me uma prova de amor. No futuro, não me enganará tão facilmente. Não precisa voltar a arriscar o pescoço dessa maneira.

— É mesmo — Gabriel inclinou a cabeça com gelada correção. Decidiu que dois podem jogar este jogo — Muito bem, então, senhora. Deixou sua posição muito clara. Pode ter a certeza que não a obrigarei.

— Não pensei que faria.

Gabriel voltou a recuperar a compostura.

— Quando achar que esta pronta para reassumir seus deveres de esposa, por favor, faça-me saber. Enquanto isso, será tratada em minha casa como uma convidada. — Seguiu para a porta.

— Gabriel, espera, eu não queria que me considerasse como uma hóspede nesta casa.

Ele parou um instante, cuidadoso de que não se visse sua satisfação.

— Perdão? Pensei que era tipo de relação que desejava.

— Não, é obvio que não é — Phoebe ficou consternada — Desejo que nos conheçamos melhor. Sinto que você pode aprender a me amar se eu oferecer uma oportunidade. Desejo que vivamos como marido e mulher salvo no quarto. É pedir muito?

— Sim, Phoebe, é. Como disse, me faça saber quando estiver pronta para voltar a ser minha esposa. Enquanto isso, se considere uma convidada.

Gabriel saiu ao corredor sem lhe oferecer sequer um olhar e caminhou entre as filas de armaduras rumo à escada. Fosse como fosse, estava disposto a escrever alguma coisa esta noite. Estava decidido que o dia não fosse uma perda total.

 

Três dias depois, Phoebe voltou a se fechar na magnífica biblioteca de Gabriel e se aconchegou em sua poltrona favorita. Olhou pela janela e reconheceu que se encontrava em sério perigo de perder a sobriamente amável guerra que mantinha com seu marido. Em realidade, ela não sabia quanto tempo mais poderia suportá-la. A vontade de Gabriel estava resultando mais que um desafiou para si própria. Talvez, no começo, estava destinada a perder simplesmente porque ela era mais vulnerável que ele, depois de tudo, amava-o com todo o coração, e ele sabia disso. Deu-se conta com tristeza que o conhecimento daquilo outorgava a ela uma vantagem. Gabriel era suficientemente inteligente para raciocinar que, se só esperasse, as defesas dela cairiam.

O pior era que, até onde Phoebe podia ver, ela não estava fazendo nenhum progresso em ensinar Gabriel a amá-la. Não era que a ignorasse, refletiu. Era que insistia em tratá-la com uma amabilidade irritante que quase a levava à beira das lágrimas. Já não discutia com ela, nem lhe dava lições, nem se queixava de sua falta de obediência. Tratava-a como a uma convidada, tal como ele disse que faria, e isso era suficiente para fazer que Phoebe se remoesse de frustração.

No dia anterior, em um intento de procurar um terreno em comum, Phoebe tentou falar sobre um livro que tinha encontrado na biblioteca. Durante o jantar, tirou o tema.

— O exemplar do Malory, Morte d´Arthur, é absolutamente magnífico — explicou, enquanto dava umas dentadas no coelho cozido com molho de cebolas.

— Obrigado — disse Gabriel e espetou com o garfo uma parte de batata cozida.

Phoebe voltou a tentá-lo.

— Lembra que, na noite que visitamos senhor Nash, você perguntou se tinha um livro de Malory. Havia uma dedicatória na primeira página; por que desejava aquele exemplar em particular quando tem um tão bom?

— O exemplar pelo qual pergunte a Nash era um que me tinha dado meu pai quando eu estava com 10 anos — disse Gabriel — Quando abandonei a Inglaterra, me vi obrigado a vendê-lo.

Phoebe ficou assombrada

— Teve de vender um livro que seu pai lhe deu?

Gabriel a olhou nos olhos com frieza

— Vi-me obrigado vender todos os livros que tinha herdado dele, assim como também toda minha biblioteca. Necessitava de dinheiro para financiar minha viagem aos Mares do Sul, a fim de poder estabelecer meu negócio nas ilhas.

— Entendi.

— Um homem que tenha intenções de sobreviver não pode confrontar ser sentimental ao extremo.

— Que terrível deve ser ter que vender coisas que significavam tanto para você.

Gabriel se mostrou indiferente

— Tudo foi parte da lição que aprendi naquele momento. A bala que seu irmão alojou em meu ombro e a forma que seu pai me fez quebrar em meus investimentos concluíram a instrução. Jamais tornei a permitir que minhas emoções me governem a cabeça.

Phoebe suspirou quando recordou depois a conversa. Ensinar a Gabriel a amá-la seria uma tarefa mais difícil do que ela imaginou a princípio. Olhou pela janela da biblioteca a névoa cinza de fora e se perguntou se havia alguma esperança de convencer a Gabriel a confiar novamente em suas emoções. Depois de um momento, ficou de pé e foi se sentar na mesa de Gabriel. Era hora de enviar uma nota ao senhor Lacey. Sem dúvida, lhe perguntaria que acontecia. Se deixasse Lacey sozinho, muito em breve levaria uma pequena e florescente empresa editorial ao esquecimento. O homem só estava interessado em sua garrafa de genebra e na habilidade para fazer funcionar sua adorada imprensa.

Lacey podia, às vezes, ser difícil, mas Phoebe soube no momento em que o conheceu que era o sócio perfeito para ela. Em troca de sua ajuda financeira e experiência editorial, sentiu-se agradecido de guardar o segredo daquela sociedade. Havia outras imprensas editoriais às que pôde se aproximar quando decidiu entrar no negócio. A maioria possuía mais elevadas pretensões literárias que Lacey. Mas Phoebe teve medo que a maior parte destas empresas não resistissem às intrigas. Ao fazer negócio com a filha caçula do conde de Clarington, era simplesmente uma notícia muito agradável para esconder. Lacey, por outra parte, odiava gastar seu precioso tempo falando, menos até correndo daqui para lá com intrigas.

Um golpe na porta interrompeu seus pensamentos. Fechou a gaveta da mesa e levantou a vista quando entrou uma faxineira que ela não reconheceu. Um novo membro do pessoal de serviço, pensou Phoebe. A mulher era surpreendentemente bonita, de cabelos loiros e figura sensual, mas parecia um tanto maior para ser criada.

— Quem é você? — Pergunto curiosa Phoebe

A criada piscou como se não esperasse uma pergunta dessa natureza.

— Meu nome é Alice, senhora. Enviaram-me para lhe dar uma mensagem.

— Que mensagem, Alice?

— O senhor quer lhe mostrar uma parte interessante do castelo, senhora. Diz que se reunirá com você abaixo nas catacumbas. Eu lhe mostrarei o caminho.

— Wylde a enviou a mim? — Phoebe ficou de pé de um salto — Irei imediatamente.

— Por aqui, senhora, necessitaremos de velas. Esta muito escuro ali embaixo. E também muito suja, deseja trocar primeiro de roupa?

— Não — disse Phoebe com presteza — Não desejo fazer esperar ao senhor

Gabriel a chamava. Phoebe estava exultante de felicidade. Ia lhe mostrar os misteriosos corredores do castelo. À sua maneira, buscava romper o gelo que se ergueu entre os dois. Alice a conduziu pela escura escada de pedra que estava na parte traseira do enorme salão de jantar. Ao pé dos empoeirados degraus, tomou a chave de um gancho que havia na parede e abriu a pesada porta de madeira. Um aroma rançoso e murmúrio se levantou da escuridão. Phoebe fez uma careta e tirou um lenço do bolso.

— Bom Deus — murmurou Phoebe, quando tampou o nariz — Quando foi última vez que limparam os passadiços?

Alice acendeu um fósforo para acender as velas que as duas sustentavam. A débil luz piscou sobre as cinzas paredes de pedra.

— O senhor disse que não fazia sentido limpar as catacumbas.

— Bom, suponho que tem razão — Phoebe voltou a guardar o lenço no bolso e olhou ansiosa a seu redor — Meu Deus, que fascinante!

Estavam paradas em um túnel estreito e sem janelas que parecia correr por todo o castelo. À débil luz da vela, Phoebe viu escuras aberturas nas paredes do túnel que marcavam entradas e passadiços. O ar fétido e pesado se mesclava com o aroma penetrante do mar.

— Na cozinha dizem que, nos velhos tempos, o senhor do castelo utilizava estes quartos como calabouços — Alice olhou para frente, movendo-se temerosa pela passagem subterrânea. Parecia nervosa enquanto conduzia Phoebe através de uma enorme abertura negra — Dizem que, se a gente entrar em alguma destas horríveis celas, pode-se até encontrar os ossos de alguns dos pobres despojos que estavam presos ali.

Phoebe estremeceu e com a palma da mão cuidou que não se apagasse a vela. Isto tinha uma atmosfera muito mais interessante do que ela imaginou.

— Onde tem planejado nos encontrar o senhor?

— Disse que a levasse ao final do passadiço e que lhe mostraria o resto. Não me importo de dizer que ficarei feliz de voltar para cima.

— Isto é surpreendente — Phoebe levantou a vela para olhar os escuros corredores que conduziam para escuros lugares do túnel principal. Um punhado do que pareciam ser paus cor marfim brilhavam nas sombras de uma pequena cela. Tragou a saliva e disse a si mesma que aqueles não podiam ser ossos — Só pensemos nas histórias que este castelo foi testemunha.

— Perdão, senhora, mas não acredito que a história, ou o que quer que seja, seja algo agradável de escutar. Já chegamos

Phoebe olhou para frente nas sombras e não viu nada salvo outro passadiço de pedra. Acreditou ouvir o distante rugir do mar que ricocheteava na pedra.

— Onde esta Wylde?

— Não sei exatamente, senhora — Alice a olhou fixamente com uma expressão estranha nos olhos. Retrocedeu um passo. A vela que sustentava na mão piscava de forma inconfundível — Disse que a trouxesse para este lugar e que ele nos encontraria aqui. Fiz o que me disse. Agora desejo voltar acima.

— Vá correndo, então — disse Phoebe, impaciente de ter sua própria aventura — Eu posso esperar sozinha ao senhor — Avanço um passo na escuridão sustentando em alto a vela — Wylde? Esta aí, meu senhor?

O repentino e terrível chiado de metal sobre pedra que se produziu atrás de si fez com que Phoebe quase deixasse cair a vela. O chiado foi seguido de um golpe seco. O gesto de um grito se formou nos lábios de Phoebe, quando se voltou bruscamente. Viu com horror que uma sólida porta de ferro agora flanqueava o passadiço do chão até o teto. Ela estava apanhada ao outro lado. Phoebe se deu conta de que a porta devia estar escondida na parede. Algo pôs em ação o mecanismo que a fechava. Correu para frente e golpeio a grosa porta de metal.

— Alice. Alice pode me ouvir?

Não houve resposta. Phoebe escutou um débil ruído de passos que se afastavam ao longe, mas não estava certa. Aspirou ar para acalmar-se. Alice sem dúvida ia procurar ajuda. Phoebe examinou as paredes de pedra, procurando alguma pista que pusesse em evidência o mecanismo secreto que podia abrir a porta. Não viu nada. Andou uns passos na escuridão do passadiço de pedra. O rugido distante do mar era mais forte agora.

— Wylde? Está aí? Se esta aí, por favor, me responda imediatamente. Não quero gracinhas, senhor. Sei que o ofendi, mas juro que não mereço ser atormentada desta forma.

Sua voz ecoou nos corredores de pedra. Não houve resposta. Phoebe voltou a olhar a porta de ferro. Com certeza, Alice não levaria muito tempo a encontrar por ajuda. Quinze minutos depois, não havia sinais de resgate. Phoebe olhou a vela e viu que estava queimando rápido. Quando se apagasse, ficaria imersa na mais profunda escuridão. E ocorreu que havia uma única coisa que podia fazer para ajudar-se sozinha. Devia explorar o que restava do passadiço com a esperança de encontrar uma saída. Certamente o comprido túnel teria alguma outra porta que a conduzia à parte principal do castelo.

Phoebe nervosa começou a caminhar pelo corredor. Não havia entradas abertas nas paredes de pedra. Aquilo parecia estranho. Consciente de que a vela estava ardendo de forma precária, acelerou o passo. O aroma do mar se fez mais penetrante, e Phoebe sentiu que o ar não era tão rançoso agora. Seu espírito se alegrou. Encontraria como sair das catacumbas. Um momento mas tarde ouviu o suave golpe da água. Animada dobrou uma curva do passadiço e se encontrou em uma sala cavernosa. Um fino raio de luz brilhava a distância. Phoebe levantou a vela e olhou a seu redor. Estava parada em uma ponte de pedra que parecia ser muito pequena. A água do mar banhava a pedra. Um dos anéis de ferro oxidado que estavam incrustados na ponte faziam evidente que esta caverna fora utilizada uma vez para amarrar botes. Encontrou o passadiço secreto para escapar do castelo. Sem dúvida, foi desenhado pelo dono original para ser usado durante um sítio. O diminuto raio de luz no fim da caverna era a saída. O único problema era que já não existia um bote para escapar que estivesse preso no ancoradouro. Uma grande massa de águas negras se interpunha entre Phoebe e o dia.

A vela piscou. Phoebe a olhou. Viu que só restavam uns minutos de luz. Logo estaria apanhada em uma tumba escura. Olhou por cima do ombro. Não havia ruído atrás. Devia supor que seus resgatadores não podiam abrir a pesada porta de ferro. E ocorreu que talvez a construíram para selar para sempre aquele passadiço. Se o senhor do castelo e sua família tentassem escapar por essa rota, desejariam estar seguros de que ninguém os seguia. A vela vaiou e piscou. Phoebe estava decidida. Não podia suportar esperar aqui na escuridão com a esperança que fossem resgatá-la. Deveria nadar para a saída. Phoebe colocou a vela no beira do ancoradouro, depois desatou as cintas do vestido e tirou a camisa. Só com a roupa íntima, sentou-se e deslizou as pernas com cautela nas escuras e frias águas. Por um instante, o terror se apropriou dela quando seus pés desapareceram nas profundidades. Não tinha forma de saber quais criaturas viviam debaixo daquela superfície. Precisava de mais coragem do que possuía para jogar-se na água. O último brilho da vela foi a inspiração definitiva. Quando a débil luz desapareceu, o único pensamento de Phoebe foi ir em direção da luz do dia que a esperava adiante. Mergulhou, nadando com força a princípio, guiada pelo raio de luz.

Horrorizou-se de ver quão rápido diminuía sua força nas águas frias. Quando estava na metade do caminho para alcançar seu objetivo, já ofegava e rezava para manter as forças. Sua debilitada perna esquerda se cansava rapidamente. Alcançar a entrada da caverna parecia levar uma eternidade. Era como se a água deliberadamente tentasse fazê-la desaparecer da superfície. Phoebe começou a nadar em forma mecânica, como se fosse um brinquedo de corda. Enchia os pulmões de ar com cada braçada e usava o temor às invisíveis profundidades para impulsionar as pernas.

Quando os dedos se chocaram contra uma rocha, quase desmaiou de alívio. Ofegando se agarrou com desespero à rocha e olhou ansiosa a luz do sol com a esperança de encontrar uma praia próxima. Foi então que se deu conta que havia só completado uma parte da viagem. A entrada escondida da caverna estava a vários metros da costa. Ninguém a veria dos escarpados se ficasse onde estava. Os gritos de auxílio não seriam ouvidos lá em cima pelo rugir das ondas. Deveria nadar até a praia rochosa. Phoebe se segurou um momento mais à rocha, dizendo a si mesma que pelo menos agora estava no sol, não ficaria mais gelada. E só teria que nadar uma curta distância. Se não estivesse tão exausta. Se só pudesse descansar um pouco mais. Mas não se animou a duvidar mais tempo. A água parecia tornar-se mais fria apesar do sol que envolvia seu corpo. Só lhe restava orar para manter as poucas forças que tinha para nadar o resto do caminho.

— Gabriel — sussurrou quando se lançou para a costa — onde raios se encontra quando preciso de você?

— Onde está demônios? — rugiu Gabriel

Rollins, o mordomo, estremeceu, mas não chegou a desmaiar.

— Lamento informar, senhor, que não sei onde se encontra lady Wylde neste momento. Imaginei que estava na biblioteca, tal como é seu costume a esta hora.

— E todas as horas também — murmurou Gabriel. Ultimamente Phoebe parecia estar a cada minuto livre escondendo-se na maldita biblioteca — Reúna imediatamente a todo o pessoal

— Sim, senhor

Em poucos minutos, o pessoal se reuniu no vestíbulo principal. Ninguém sabia onde estava Phoebe. Todos estavam de acordo que ela estava escondida na biblioteca. A última vez que a viram, não fazia mais que duas horas antes. Gabriel lutou para aplacar a intranquilidade e o medo que começava a sentir. Nada a impedia se dava rédeas soltas às emoções, recordou-se a si mesmo.

— Quero que cada milímetro do castelo e dos arredores sejam revistados agora mesmo. Rollins, você comanda o pessoal. Eu me encarregarei dos escarpados. Nos encontraremos aqui em uma hora.

— Sim senhor — disse inseguro Rollings — Perdoe-me, senhor, mas acredita que aconteceu algo ruim?

— Provavelmente saiu para passear e se perdeu — disse Gabriel sem acreditar nada em suas próprias palavras — Não conhece os arredores. Comecem a procurá-la imediatamente.

Gabriel se dirigiu à posta fechada e desceu os degraus. Ameaçado por uma terrível intranquilidade, caminhou a grandes passos pelo pátio e saiu pelos portões do castelo. Phoebe prometeu que não fugiria novamente. Gabriel chegou aos escarpados e ficou ali de pé olhando para as rochas que se estendiam abaixo e ao montão de madeira que se juntavam na estreita franja da praia. Com certeza, se ela foi passear, ficaria ali acima nos escarpados. Jamais desceria até a água. Mas Phoebe era imprevisível.

Também era capaz de correr grandes riscos. Até tremia ao recordar como e onde a conheceu. À meia noite, em meio de um caminho solitário, pelo amor de Deus. Aquela mulher era uma ameaça contra ela mesma. Quando a encontrasse, ia ser com rédea curta. Estava farto de tanta tolice. Farto de todo este medo que o fez estremecer até a alma. Obrigou-se a ficar calmo e lembrar-se da cor do vestido que Phoebe colocou aquela manhã. Era de uma tonalidade amarelo forte. Com uma camisa igual. Com aquele traje a via brilhante e cheia de alegria. Não se parecia em nada com uma mulher que planejasse fugir. Gabriel começou a caminhar pelo beira do escarpado. Não se permitiria acreditar que ela fugiu até que esgotassem todas as possibilidades. Franziu o cenho quando conseguiu ver uma parte de algo branco sobre as rochas banhadas pelas ondas. Por um momento, pensou que era o reflexo do sol sobre a espuma do mar. Depois o emplastro branco se moveu, equilibrando-se sobre as rochas. Umas pernas e braços pálidos e um matagal de cabelos castanhos molhados se estendiam sobre a pedra. Phoebe. O estomago de Gabriel gelou. Por um instante, se perguntou se sairia a nadar. Depois, se deu conta que lutava por sua vida no torvelinho de águas.

— Phoebe. Fique firme. Estou indo — gritou, descendo pelo atalho do escarpado, sem prestar atenção às pedras e às areias movediças que ali havia. Deu um salto nos últimos metros, aterrissou na praia e mergulhou nas águas.

— Phoebe. Pelo amor de Deus

O matagal de cabelos empapados se moveram quando caminhou na água para ela. Phoebe moveu a cabeça com a bochecha apoiada sobre a pedra. Estava agarrada à rocha com meio corpo na água. Os olhos estavam entreabertos e sorria com um total abandono como se estivesse exausta.

— Sabia que no final viria, Gabriel.

— Maldição o que esta fazendo aqui? — Gabriel a levantou das pedras e a tomou nos braços. A roupa íntima molhada era quase transparente. Podia ver os mamilos como duas flores, com tanta claridade como se estivesse totalmente nua — Onde está sua roupa? Que demônios aconteceu?

— Fui encontrar você — Sua voz era terrivelmente fraca. Ela balançava em seus braços como uma boneca de pano. Os olhos se fecharam.

— Phoebe, abre os olhos — A voz de Gabriel estava carregada de terror — Abre os olhos agora mesmo e me olhe.

Obediente abriu os olhos.

— Para que? Agora estou a salvo. Não é verdade?

— Sim — sussurrou ele enquanto a levava costa acima da pequena praia — Agora está a salvo

Phoebe não fugia dele.

 

Uma hora mas tarde, Phoebe estava deitada sobre um pilha de travesseiros em sua cama. Sob a supervisão de Gabriel, deu-lhe um banho quente, além de incontáveis taças de chá quente. Ele não ficou satisfeito até que viu a cor em seus lábios e bochechas.

Quando começou a resistir a tomar mais chá e se queixou dos cuidados que tinham a seu redor, Gabriel se deu conta que estava bem. Despediu-se da última das criadas a que atendia com uma ordem cortante.

Quase a perdeu. O peso daquele terrível feito lhe carcomia as vísceras, pondo-o nervoso e de mau humor. Quase perdeu Phoebe. Obrigou-se a conter aquelas emoções que estavam em plena ebulição. Foi quase uma tarefa impossível. Utilizou uma cortina de raiva para conter tudo o que sentia, incluído o medo.

— Agora, minha senhora esposa — disse quando a porta se fechou atrás da criada que se retirava — talvez possa fazer o favor de me explicar, por fim, o que hoje aconteceu. O que é essa tolice de que estava me procurando?

Phoebe conteve um leve bocejo.

— Alice me disse que você estava me esperando.

— Quem é Alice?

— Uma das criadas

— Que criada?

Phoebe o olhou com os olhos que se fechavam de cansaço e sono.

— Bom, na realidade não sei. Pensei que conhecia todo o pessoal, mas este lugar é tão grande e há tantos nomes e rostos que aprender.

— Descreva-me ela. — disse isso bruscamente Gabriel

— Tem cabelos loiros e um rosto bonito. Lembro-me de ter pensado que parecia um pouco velha para ser uma criada. Poderia-se pensar que pelo menos agora seria donzela.

Gabriel estava muito inquieto

— O que disse esta Alice?

— Que você queria se encontrar comigo abaixo, na parte baixa do castelo. Ela me disse que nos esperaria ali para me mostrar as catacumbas — Phoebe fez uma pausa — Senti-me muito emocionada.

— Ela a levou ali embaixo? Mostrou o caminho?

Phoebe assentiu.

— Mas não o encontramos. Alice estava ficando nervosa, de modo que a mandei que retornasse e continuei sozinha pelo passadiço. Depois, ocorreu este horrendo acidente.

— Que acidente?

— Uma porta de ferro maciço saiu da parede e me encerrou no passadiço. Fiquei presa do outro lado. Não se ouviam ruídos de resgate, e supus que ninguém poderia conseguir abrir aquela porta. De modo que procurei outra saída.

— E encontrou o embarcadouro secreto? — perguntou Gabriel incrédulo — Maldição! Nadou toda a caverna e voltou para a praia?

— Em realidade, não vi outra alternativa naquele momento.

A mandíbula de Gabriel ficou tensa.

— Onde raios aprendeu a nadar?

Phoebe sorriu levemente

— Uma vez, quando era muito pequena, saltei em um lago que estava no campo. Estava fazendo muito calor, e eu desejava me refrescar como Anthony e seus amigos. Anthony teve que me tirar da água. Mama disse que seria melhor que me ensinasse a nadar, já que não sabia quando meteria na cabeça a ideia de voltar a saltar no lago.

— Graças a Deus pela sensatez de sua mãe — murmurou Gabriel

— Recorda isso quando ela lhe pedir um empréstimo para cobrir o que perde no jogo — disse Phoebe secamente

— O que é isso de perder dinheiro no jogo?

— Não te disso isso? — Phoebe voltou a bocejar — Mama gosta muito de jogar cartas. Sempre vê seus genros como seus potenciais banqueiros.

— Bom Deus!

— Eu teria o advertido sobre a paixão de mama pelo jogo antes de me propor casamento, se você tivesse a delicadeza de me consultar antes que a meu pai.

Gabriel sorriu levemente.

— De modo que é tudo minha culpa se termino cobrindo as perdas de sua mãe?

— Sim, meu senhor, é — Phoebe ficou pensativa por um momento — Acredito que seria melhor se não mencionasse este desafortunado incidente a minha família. Só os alarmaria, e me parece que eu já faço mal suficiente.

— Não direi nada, se você desejar.

Ela sorriu aliviada.

— Obrigado, Posso ir dormir agora?

— Sim, Phoebe. Pode ir dormir — Gabriel ficou de pé e foi aos pés da cama.

— Tem uma expressão estranha no rosto, Gabriel. O que vai fazer enquanto eu durmo?

— Encontrar Alice.

Phoebe fechou os olhos e se aconchegou nos travesseiros.

— O que fará quando a encontrar?

— Pelo menos, a despedirei sem lhe dar nenhuma referência para outro trabalho — disse Gabriel.

Phoebe abriu os olhos.

— Isso seria muito cruel, senhor. É improvável que encontre outro trabalho na sua idade sem ter uma referência de trabalhos anteriores que seja apropriada.

— Pode se considerar afortunada se não chamar à polícia e apresentar queixa perante a justiça. No que a mim me concerne, quase esteve a ponto de matar você.

Phoebe elevou a vista e o olhou fixamente.

— Esta dizendo que você não a enviou esta tarde para que me buscasse, meu senhor?

— Não, Phoebe — disse com delicadeza Gabriel — Não mandei.

— Compreendo — se mostrou melancólica — Eu temia isso. Tinha a esperança que me tivesse mandado chamar. Pensei que significava...

Ele franziu o cenho

— O que pensou que significava?

— Que você desejava quebrar o silêncio que se levantou como uma parede entre nós dois.

— Não fui eu que interpôs uma parede entre nós dois, Phoebe. Você fez. Está em você quebrar esse silêncio — Foi até um dos lados da cama e ajustou a manta sobre seus ombros — Descanse, querida. Mandarei que tragam o jantar.

— Gabriel?

— Sim, Phoebe?

— Obrigada por me salvar — Phoebe sorriu com tristeza — Sabia que o faria.

— Você se salvou sozinha, Phoebe — disse. O cru daquela realidade o acompanharia o resto de sua vida. Quase a tinha perdido — Se ficasse no passadiço, talvez se passasse muito tempo antes de eu pensar em ir procurar ali abaixo. Tenho ordens estritas de que ninguém desça às catacumbas a menos que eu os acompanhe. A porta esta sempre fechada com chave.

Olhou-o com olhos interrogantes

— Então por que Alice me levaria ali embaixo?

— Excelente pergunta, querida. Não descansarei até que descubra o motivo.

Gabriel saiu da sala e fechou a porta devagar. Fora no corredor, chamou a criada de Phoebe.

— Fique aqui enquanto dorme — deu instruções — Não desejo que fique sozinha nem por um momento.

— Sim, meu senhor. Está bem a senhora?

— Estará bem. Mas não saia de seu lado até que eu retorne.

— Sim, senhor.

Gabriel desceu às pressas as escadas. Encontrou Rollings rondando pelo vestíbulo principal.

— A senhora está bem? — Perguntou ansioso.

— Sim. Que Alice, a criada, venha imediatamente.

Rollings o olhou com insegurança.

— Alice?

— Uma loira, bonita. Também um pouco mais velha para seu posto.

— Não acredito que tenhamos uma Alice no pessoal, meu senhor. Mas o comprovarei com a senhora Crimpton.

— Faça-o. Estarei esperando ao pé das escadas que conduzem às catacumbas.

— Sim, meu senhor

Gabriel tomou a vela da biblioteca e foi até o final do corredor principal. Desceu as escadas em caracol e parou quando viu que a pesada porta do fundo estava fechada com chave. Dez minutos mais tarde, Rollings retornou. Seu rosto estava muito sério.

— Não há nenhuma criada que se chame Alice, senhor.

Gabriel sentiu que outro arrepiou lhe percorria o corpo.

— Havia hoje uma mulher nesta casa que disse chamar-se Alice e que trabalhava aqui.

— Lamento dizer, senhor, que não a conheço. Posso perguntar por que a esta procurando?

— Não importa. Vou descer às catacumbas — Gabriel tomou a chave do gancho da parede.

— Talvez deveria acompanhá-lo, senhor

— Não, Rollings. Prefiro que fique aqui e fique alerta.

Rollings se ergueu.

— Sim, meu senhor.

Gabriel abriu a pesada porta e entrou na escuridão do passadiço. A luz da vela iluminou dois pares de pisadas no pó que cobria o chão. Definitivamente alguém acompanhou Phoebe no túnel. Alguém que disse chamar-se Alice.

Seguindo as pisadas, caminhou pelo corredor a grandes passos. Quando viu a porta de ferro que bloqueava o passo, apertou os dentes. A ideia de Phoebe ali apanhada ao outro lado e obrigada a arriscar sua vida avivou a raiva que sentia.

Controlou-se com todas suas forças e tirou a faca que sempre levava na bota. Parecia que necessitava dela continuamente desde que conheceu Phoebe.

Introduziu a ponta da arma entre as duas pedras da parede e ativou a alavanca secreta que ali estava. Um momento, depois o painel secreto se abriu deixando a descoberto o mecanismo que ativava a porta. Esta se abria e fechava fazendo pressão sobre certas pedras do passadiço. Gabriel examinou o antigo mecanismo de polias. As rodas e cadeias estavam todas em perfeito estado. Ele mesmo passou horas ali embaixo reparando a maquinaria até que descobriu o segredo da porta.

Teve uma grande satisfação ao fazer funcionar o mecanismo. Dali obteve a inspiração para introduzir algo parecido no argumento de “Uma aventura imprudente”. Era uma pena que sua misteriosa editora não tivesse oportunidade de ler seu último manuscrito. Ela, talvez, reconheceria o mecanismo e recordaria o segredo.

Pessoalmente, tomou um grande trabalho assegurar-se de que todos os membros do pessoal soubessem como abrir e fechar a porta. Embora desse ordens estritas de que ninguém devia explorar sem ele os passadiços, tinha suficiente conhecimento da natureza humana para saber que nem todos poderiam cumprir com suas instruções. Por isso, não desejava que ninguém ficasse apanhado ali abaixo do outro lado da pesada porta.

Todos no castelo sabiam como funcionava a porta, salvo Phoebe. A misteriosa Alice deve ter aprendido o segredo de algum lacaio ou moço de quadra. Mas por que desejaria aterrorizar Phoebe? Gabriel se perguntou aquilo enquanto levantava a porta. Não fazia sentido. O portão de ferro chiou e gemeu quando lentamente se deslizou à sua posição no interior da parede. Gabriel caminhou pelo resto do passadiço até que chegou ao embarcadouro secreto.

Quando viu o enrugado vestido cor amarela de Phoebe e o resto da vela que estava ao lado se sentiu cheio de uma raiva impotente e imensa. Olhou as águas negras que golpeavam contra as pedras e pensou em Phoebe atirando-se a elas. Sabia que muitos homens de coragem ficariam paralisados de medo perante tal situação. Sua imprudente senhora teve a coragem de um valente cavaleiro.

E ele quase a perdeu.

 

A água a tragava, tentando levá-la para as profundidades. Que caia uma maldição sobre aquele que roube este livro. Que seja devorado pelas ondas do oceano. Phoebe nadou com mais força, esperneando frenética em um esforço desesperado por evitar a escuridão que se abatia sob seu corpo e as profundidades negras que desejavam devorá-la. Estava rodeada de uma noite infinita.

Sua única esperança era o raio de luz que estava adiante. Devia alcançá-lo. Mas a água a apanhava, imobilizava-a, tentando engoli-la.

Justo quando pensava que não poderia dar outra braçada, a mão de um homem a alcançou na escuridão. Estava a ponto de agarrar-se a ela quando viu a mão de outro homem que também tentava segurá-la. Os dois lhe prometiam segurança. Mas um deles mentia.

Phoebe sabia que devia escolher. Se ela escolhesse mal, morreria.

Despertou pelo eco de seu próprio grito.

— Phoebe. Acorda. Abre os olhos. — A voz de Gabriel soou áspera em tom de ordem. As mãos dele apertavam seus ombros. Sacudiu-a levemente — É um sonho. Pelo amor de Deus, mulher, acorda. É uma ordem. Ouve-me?

Phoebe emergiu das últimas imagens daquele pesadelo. Então se deu conta que estava na cama. A luz da lua entrava pela janela. Gabriel, vestido com uma bata de seda negra, estava sentado a seu lado. O rosto estava branco à pálida luz da sala.

Olhou-o sem falar durante um segundo e depois, sem dizer uma palavra, se aconchegou em seus braços.

— Maldição — os braços de Gabriel se apertaram contra seu corpo — Deu-me um grande susto. Por favor, não volte a fazê-lo. Esse grito foi suficiente para despertar um morto.

— Estava sonhando.

— Sei.

— Estava na caverna, tentando nadar para a luz. Por alguma razão, uma parte da maldição da “A dama da torre” me passou pela cabeça. Tudo se mesclava no sonho.

Ele levantou seu rosto para poder olhar seus olhos.

— Qual é a maldição?

— Não se lembra? — Ela rapidamente conteve as lágrimas de medo e alívio que se formaram em seus olhos — Ao final da “A dama da torre”, está a maldição que pelo comum escreve todo autor. O afogar-se nas ondas do oceano é parte dela.

— Já recordo. Phoebe, foi só um sonho.

— Sim, mas parecia muito real.

— Tendo em conta o que aconteceu hoje, não duvido que seja assim. Quer que envie alguém para que passe a noite aqui?

— Não, estarei bem. — Sempre e quando me abraçar desta maneira, adicionou em silencio Phoebe. Apertou-se contra ele, tentando absorver a força de Gabriel.

Havia algo incrivelmente tranquilizador naquele tamanho e poder. Ela recordou como ele a tinha resgatado da rocha e a segurado para a tirar do mar. Os últimos temores do sonho desapareciam em alguma parte de seu inconsciente.

— Phoebe?

— Sim, Gabriel?

— Acha que pode dormir agora? — A voz de Gabriel soava tensa.

— Não sei — disse ela com honestidade.

— É muito tarde. Quase duas da madrugada.

— Sim.

— Phoebe...

Ela se abraçou à cintura dele e escondeu o rosto em seu ombro.

— Por favor, fica comigo…

A repentina tensão que se produziu nele foi evidente.

— Não acredito que seja uma boa ideia, Phoebe.

— Sei que está zangado comigo. Mas, de verdade, não desejo ficar sozinha.

A mão de Gabriel enredou em seus cabelos.

— Eu não estou zangado com você.

— Sim, sim está, e não posso culpá-lo. Não fui uma boa esposa até agora, não é certo?

Gabriel a beijou brandamente nos cabelos.

— Até agora foi uma esposa muito pouco convencional, posso assegurar isso.

Phoebe respirou profundamente e se abraçou mais a ele.

— Fui muito irracional em tudo isto. Agora me dou conta. Gabriel, estou pronta para ser uma esposa para você em todo o sentido da palavra.

Gabriel não respondeu de momento.

— Porque tem medo de ficar sozinha esta noite? — perguntou finalmente.

Phoebe se sentiu muito vulnerável.

— Certamente que não. — Levantou tão repentinamente a cabeça que se chocou com o queixo de Gabriel. Não deu importância ao surdo gemido que este proferiu — Como ousa dizer que o convidaria a exercer seus direitos maritais simplesmente porque tenho medo de ficar sozinha? Pode se retirar agora mesmo, meu senhor.

— Não acredito que consiga sair — Disse Gabriel enquanto massageava a mandíbula — Se tentar me levantar, provavelmente desmaiarei. Juro que estou aniquilado do golpe que me deu. Por acaso, não tomou lições de boxe?

Phoebe ficou alarmada. Tocou levemente a mandíbula.

— Realmente o machuquei?

— Irei me recuperar. — Tomou-a em seus braços, deitando-a sobre os travesseiros. Em seus lábios, se desenhou um sorriso malvado com sensual promessa, enquanto se deitava sobre ela — E, com um pouco de sorte, o farei a tempo para lhe ensinar uma lição importante.

Phoebe sorriu trêmula.

— Que lição, meu senhor?

— Aquela que diz que uma esposa pode desfrutar exercendo seus direitos da mesma forma que o marido.

Phoebe se abraçou a seu pescoço.

— Então prestarei muita atenção, meu senhor.

— Não se preocupe. Se não entender desta vez os conceitos básicos, seguiremos praticando até que o faça.

Gabriel se apoderou de sua boca, com um beijo lento, suave que avivou os sentidos de Phoebe. Respondeu com um abandono completo, faminta da profunda intimidade que desejava voltar a compartilhar com Gabriel. Não importava se ele ainda não a amava, disse para si. Ia lhe oferecer uma parte de si mesmo quando a tomava em seus braços. Ela podia trabalhar com isso, construir sobre aquilo até que uma diminuta chama estalasse em verdadeiro amor. Aquela ideia a fez abraçá-lo com força.

Gabriel sorriu contra sua bochecha.

— Não tão rápido, meu amor. Desta vez, faremos bem feito.

— Não compreendo. Não temos feito bem?

— Só em parte — Abriu a camisola, deixando descoberto seus seios — Esta vez será perfeito.

Phoebe suspirou quando sentiu que a língua de Gabriel tocava seus mamilos. Por instinto o segurou pelos cabelos.

— Você gosta disto, Phoebe?

— Sim.

— Deve me dizer o que é precisamente que você gosta em cada ponto que eu toque.

Phoebe se umedeceu quando ele sugou com suavidade. Uma tensão deliciosa começou a crescer em seu interior.

— Isto... isto é muito bonito.

— Estou de acordo. — levantou-se levemente para separar-se e tirou a bata. Seu corpo forte, musculoso, brilhava à luz da lua.

Phoebe acariciou os poderosos ombros, consciente de seu próprio sentido de deleite.

— É tão belo, meu senhor.

— Não, amor, não sou. Mas, se você tem essa ilusão, quem sou eu para a contradizer? — Gabriel se deitou sobre ela, tirando toda a camisola, e beijando os seios e o ventre — Você, entretanto, é definitivamente formosa.

— Então me assegurarei de a beijar com frequência. — Gabriel a obrigou a abrir as pernas e se acomodou entre elas. Phoebe tremeu quando sentiu a boca dele entre suas pernas.

— Gabriel, espera, o que faz?

— Recorda que deve me dizer o que sente. — Com isso beijou entre o pêlo que cobria os segredos de seu sexo. Phoebe se contraiu pela emoção.

— Gabriel, para. — Tomou pelos cabelos — O que acha que está fazendo?

— Você não gosta? — Tocou com a língua a parte sensível de carne.

Phoebe gritou.

— Por Deus, não. Para, já. — Puxou mais forte seus cabelos.

— Ai! Primeiro um golpe na mandíbula e agora me puxa os cabelos. Fazer amor com você é realmente um desafio, meu amor.

— Disse que pararia se dissesse que eu não gostava — disse ela sem fôlego.

— Não, não é assim. Disse que devia dizer o que você gostava.

— Bom, pois eu não gosto disto. É muito... — Phoebe se interrompeu quando sentiu a língua no centro de sua vagina. Outro suave gemido saiu do centro de seu ser. Incapaz de resistir, arqueou-se contra ele, procurando maior prazer naquela incrível sensação — Oh, meu Deus, Gabriel!

— Diga, amor. — Ele continuou sem deter-se nesse assalto a todos seus segredos. Começou a lhe acariciar com o dedo a passagem da vagina enquanto que com a língua lambia a carne já inflamada.

— Gabriel, basta, não posso...

— Diga-me que você gosta. — Ele sugou com suavidade tomando-a com os dentes.

Phoebe já quase não podia respirar.

— Não posso suportá-lo.

— Sim pode. É uma aventureira. — Introduziu outro dedo e a acariciou com ternura.

Phoebe se retorceu debaixo dele enquanto aqueles beijos incontroláveis a devastavam. Já não podia protestar. Tudo o que restou a fazer foi render-se à onda de paixão.

— Diga-me que você gosta disto, Phoebe.

— Gabriel, não posso... não posso... Sim. Sim, eu gosto. Muito. Me deixa louca. — Ela puxou mais a ele, desta vez sustentando-o mais contra si, enquanto levantava o corpo para receber mais daqueles apaixonados beijos. Sentiu que os dedos dele uma vez mais se introduziam em sua vagina, e também depois, quando seu corpo alcançava pouco a pouco o ponto crítico.

— Gabriel.

— Sim — sussurrou ele — Agora. Segue assim. Renda-se. Eu estou aqui.

Voltou beijá-la, e Phoebe se partiu em milhares de pedaços.

Quase não teve consciência do gemido de triunfo que proferiu Gabriel. Sentiu que a penetrava. Assombrou-se ao sentir em sua boca seu sabor em seus lábios. E, depois, sentiu seu membro potente que a penetrava em seu corpo convulsionado.

Mesmo que se ajustasse àquela invasão de seu ser, as leves sensações de excitação pareceram intensificar-se. Phoebe se agarrou fortemente a Gabriel, tal como fez aquela tarde nas rochas. Agora estava segura.

Quando Gabriel despertou, a luz cinzenta do amanhecer se refletia desde o mar e penetrava pela janela. Por instinto, apertou o braço que rodeava o corpo de Phoebe, assegurando-se de que ela ainda estivesse segura junto a ele.

Phoebe se encontrava exatamente onde devia estar. A suave e doce curva de suas nádegas se acomodava contra seus quadris, e um de seus pequenos pés, tão bem formados descansava sobre sua perna. Os dedos dele tomavam brandamente um de seus seios.

Gabriel saboreou o simples e novo prazer de despertar pela manhã com sua esposa entre seus braços. A sensação desconhecida de intimidade era profundamente agradável.

Por fim era dele, pensou. No meio da noite, conseguiu a rendição que tanto desejava. A resposta dela foi completa e desinibida. Salvo por um pequeno detalhe, deu-se conta Gabriel, ele finalmente tinha tudo o que desejava.

O pequeno detalhe sem importância era que não disse que o amava. Inclusive no fragor da paixão, quando estremeceu inconsciente em seus braços e gritou seu nome, não pronunciou aquelas palavras. Não era que se importasse, assegurou para si. Depois de tudo, confessou seu amor de mil maneiras diferentes aquela mesma noite. Recordou como o havia tocado, com acanhamento a princípio, e depois com crescente confiança. Tinha-o acariciado como se estivesse aprendendo as formas de seu corpo. Sentiu que se excitava novamente com aquela lembrança.

— Gabriel?

— Sim? — voltou-se e desceu a manta até que os seios bicudos de Phoebe ficaram contra seu corpo.

Phoebe estremeceu impaciente e pegou a manta.

— Tenho frio.

— Eu a manterei quente. — Beijou um seio e então o outro.

Ela o olhou com os olhos bem abertos.

— Isto é muito estranho, não lhe parece?

— O que? — Estava só interessado no sabor de seus mamilos.

— Despertar pela manhã com alguém na cama.

Gabriel levantou a cabeça.

— É seu marido quem está na cama, senhora, não simplesmente alguém.

— Sim, sei, mas de todos os modos, parece-me estranho. Não é desagradável, simplesmente estranho.

— Logo se acostumará a esta sensação — assegurou Gabriel.

— Talvez — concordou ela, com tom ainda não convencido.

— Confie em mim. Logo se acostumará. — ficou de costas e a fez deitar-se em cima. Seu membro totalmente ereto se apertava contra as coxas de Phoebe.

— Por Deus, Gabriel. — As sobrancelhas de Phoebe se juntaram em claro gesto de desaprovação quando viu que ele tinha tal ereção — Sempre desperta deste modo?

— Sempre está tão tagarela pelas manhãs? — Pegou uma perna e a fez acomodar-se sobre seus quadris de modo que ficou montada sobre ele.

— Não sei. Como diz, não estou acostumada a despertar com alguém a meu lado... Gabriel, o que faz? — Phoebe ficou sem fôlego quando ele começou a lhe acariciar o sexo com os dedos.

Ele sentiu sua umidade fluir quase imediatamente. Sorriu.

— Estou aprendendo a controlar a minha pequena esposa controladora. Deve admitir que sou um excelente estudante.

Guiou-se para aquela úmida entrada, a tomou pelos quadris e a fez sentar-se com força.

— Gabriel.

— Estou muito bem aqui, meu amor.

 

Um bom tempo depois, Gabriel a contra gosto retirou as mantas e ficou de pé.

— Ainda é muito cedo — observou Phoebe com tom sonolento — Aonde vai, meu senhor?

— Vou me vestir. — inclinou-se e lhe deu uma suave palmada nas nádegas — E você também. Partiremos para Londres depois do café da manhã.

— Londres? — Phoebe se sentou de repente — Por que vamos a Londres? Só estivemos aqui uns dias.

— Tenho negócios a resolver na cidade, Phoebe. Talvez recorde que nosso casamento aconteceu de uma maneira não muito planejada.

— Sim, sei, mas não há necessidade de retornar tão cedo.

— Tive que deixar alguns assuntos importantes para poder ir buscar você, minha senhora. — Tomou a bata — Não posso seguir deixando-os de lado.

— O que pode ser tão importante para partir tão depressa? Eu gosto de estar aqui.

Gabriel sorriu com prazer.

— Estou contente que você goste de seu novo lar. Mas devo insistir para que vamos hoje.

Phoebe levantou o queixo.

— Meu senhor, acredito que deveríamos discutir mais durante o café da manhã antes de tomar uma decisão.

Gabriel arqueou uma sobrancelha.

— Phoebe, agora é minha esposa. Minha esposa. Isso significa que se guiará por minhas decisões em assuntos como este. Partimos para Londres dentro de duas horas.

— Ao demônio com isso. — Phoebe saiu torpemente da cama e tomou sua bata para cobrir-se — Gabriel, devo adverti-lo que, se deseja desfrutar de um casamento tranquilo, deverá aprender a falar comigo antes de tomar decisões. Eu tenho vinte e quatro anos, não sou uma adolescente a que lhe possa ordenar segundo seu capricho.

Gabriel se voltou da porta que unia as duas antecâmaras, apoiou um ombro contra o marco e cruzou os braços.

— Partiremos para Londres dentro de duas horas. Se não estiver vestida e com as malas prontas, a colocarei no carro tal como está. Fica claro?

A suave curva da boca de Phoebe se esticou em silêncio e fechou os olhos.

— Não serei arrastada pelo campo só porque deseja muito.

— Quer apostar?

Phoebe, em resposta, jogou fogo pelos olhos, e depois pensou. Gabriel gemeu de dor em seu interior quando viu que ela se dava conta da situação. Conhecia as desvantagens de ter por esposa a uma mulher inteligente e teimosa.

— Espere um minuto — disse Phoebe lentamente — Faz isto pelo que aconteceu ontem? Não é assim?

Gabriel exalou com ar cansado. Já não fazia sentido convencê-la de que isto era algo arbitrário.

— Acredito que é o melhor, Phoebe. Desejo que saia do castelo por um tempo.

Phoebe correu a seu lado com expressão ansiosa no rosto.

— Mas Gabriel, isto foi só um acidente.

— Foi?

Phoebe negou com a cabeça, divertida.

— Que mais pôde ser?

— Não estou seguro. Tudo o que sei é que esta misteriosa Alice deliberadamente cometeu um grave engano. Você poderia ter morrido. Falarei com o juiz local antes de ir e lhe contarei o que aconteceu. Ele talvez saiba muito bem quem é Alice. Mas, até que a encontrem, desejo que esteja bem longe daqui.

Phoebe franziu o cenho pensativa.

— Talvez a pobre esteja louca.

— Então deve estar encerrada em um manicômio. Não desejo que fique solta pelos arredores. — Disse Gabriel. — Duas horas, Phoebe.

Gabriel se ergueu e entrou em sua antecâmara. Impressionou ver a si mesmo dando explicações a alguém. Nos Mares do Sul, o único que precisava era dar e fazer cumprir ordens. Ele era muito capaz de fazer isso.

Ter uma esposa que questionasse cada ordem razoável seria algo muito exaustivo.

 

Meredith se sobressaltou quando viu o tecido de seda de cor escarlate.

— Phoebe, esta é a cor mais desafortunada que já vi. Por favor, rogo isso, não faça nenhum vestido com ele.

— Está certa que você não gosta? Acho que é muito atraente. — Phoebe tocou a brilhante seda, cativada por aquela cor.

— É totalmente imprudente.

— Bom, se estiver tão certa.

— Estou totalmente certa que seria berrante se fizesse um vestido com isso.

Phoebe suspirou sem vontades e olhou ao vendedor.

— Suponho que deverei escolher outra cor. Talvez algo violeta ou amarelo?

— Claro, senhora. — Trouxe outra peça de tecido — Tenho um maravilhoso cetim cor violeta e uma seda italiana de cor amarela.

Meredith encolheu os ombros.

— Phoebe, desejaria de verdade que comprasse uma musselina, de cor azul pálida ou o cetim rosado.

— Prefiro as cores brilhantes. Você sabe.

— Sei, mas agora é uma condessa.

— Que diferença há? — perguntou Phoebe surpreendida.

— Pelo bem de seu marido, deve começar a prestar atenção na moda. Prova aquela musselina rosada com raias brancas — sugeriu Meredith — Os tons bolo estão na última moda.

— Eu não gosto das cores bolo. Jamais gostei.

Meredith suspirou.

— Só tento ajudar, Phoebe. Por que é sempre tão teimosa?

— Talvez porque as pessoas sempre tentaram me guiar toda minha vida. — Phoebe assinalou com um dedo um veludo de cor violeta brilhante — Este é bastante interessante.

— Para um baile? Não pode falar a sério — exclamou Meredith.

— Estava pensando em usá-lo como disfarce. — Phoebe Colocou um tecido de seda amarela sobre o veludo violeta para estudar o efeito — Decidi organizar para o verão uma baile de máscaras no castelo.

— Maravilhoso. Agora que é a condessa de Wylde deve começar a fazer festas. Mas do que se trata este baile de máscaras?

Phoebe sorriu.

— Quero que o tema da festa seja um torneio medieval.

— Um torneio? Quer dizer com homens vestidos com armaduras e montados a cavalo? — Meredith se mostrou francamente alarmada.

— O castelo é um lugar perfeito para tal acontecimento. Cuidaremos para que ninguém se machuque. Teremos um concurso de arqueiros e um grande baile. Contratarei atores que farão o papel de bufões e trovadores. Todos, é obvio, estarão vestidos de acordo com a época.

— Phoebe, esta será uma festa um tanto difícil — disse Meredith com cautela — Jamais organizou mais que um pequeno baile. Está certa que deseja levar adiante um projeto dessa envergadura?

— Será muito divertido. Acredito que Wylde adorará.

Meredith a olhou atentamente.

— Perdoe-me por perguntar, mas não falou com Wylde ainda?

— Não. — Riu Phoebe — Mas estou certa que estará de acordo. É o tipo de acontecimento que o atrai.

— Está certa disso?

— Muito certa.

Vinte minutos mais tarde, Phoebe e Meredith abandonaram a loja. O lacaio que as acompanhava levava duas peças de fino tecido, uma violeta e outra amarela. Phoebe estava satisfeita com as compras. Meredith parecia resignada ao inevitável.

— Devemos passar pela livraria de Lacey, já que estamos perto — disse Phoebe a Meredith — Só fica a umas poucas ruas daqui.

— Muito bem. — Meredith ficou calada por um momento enquanto iam a caminho da livraria. Depois se aproximou um pouco mais. — Phoebe, há algo que desejo perguntar.

— Sim? — Phoebe estava impaciente para chegar à livraria.

Gabriel mencionou, por acaso, no café da manhã que enviara o novo manuscrito ao editor naquela mesma manhã.

Phoebe quase esteve a ponto de confessar a Gabriel que ela era a editora. Com cautela, mediu o terreno ao sugerir que ela deveria ser primeira em ler o manuscrito.

— É obvio que não — disse Gabriel — Tenho uma política muito firme a respeito. Ninguém lê os manuscritos salvo eu e meu editor. — Depois sorriu com descarada condescendência — Além disso, o que você sabe para julgar novelas modernas? Você tem experiência em obras mais antigas, senhora.

Phoebe se sentiu tão irritada que esqueceu a culpa que sentia por não ter contado a ele suas secretas atividades de editora de seus livros. Meredith duvidou.

— Phoebe, querida, é feliz em seu casamento?

Phoebe a olhou com surpresa. Os adoráveis olhos de Meredith estavam cheios de ansiedade.

— Pelo amor de Deus, Meredith. O que a faz perguntar isso?

— Sei que a obrigaram a entrar nesta aliança. Sei que você desejava tempo para que Wylde a conhecesse. — Meredith ruborizou — O que acontece é que todos estavam muito irritados no dia em que você fugiu.

— Sério?

— Sim. Todos estávamos desesperados, menos Wylde. Ele estava furioso. Temi que quando a encontrasse estivesse muito zangado. Não estava certa do que faria, se entende o que quero dizer.

— Não, Meredith, não sei o que quer dizer. O que é que tenta insinuar?

Meredith se ruborizou ainda mais.

— Por minha experiência com Wylde há oito anos, sei que tem seu temperamento. Phoebe, temi que ele não fosse amável ou paciente contigo.

Phoebe franziu o cenho.

— Ele não me bateu, se for isso que a preocupa.

— Não, exatamente. — Meredith olhou rápido a seu redor e aparentemente viu que o lacaio não podia as ouvir — O que estou tentando dizer é que sei que, provavelmente, ele não foi, estritamente falando, um cavalheiro na cama. Sempre foi muito temperamental, e temi que, se estivesse zangado, não teria em conta sua sensibilidade de mulher.

Phoebe a olhou assombrada.

— Meu Deus, Meredith! Se for pelo rendimento de Wylde como amante, fica tranquila. É uma das poucas coisas que ele sabe fazer bem.

Na livraria de Lacey, Phoebe disse a sua irmã que desejava ver um livro que reservaram para ela. Nem o empregado nem Meredith se surpreenderam. Phoebe, com frequência, tinha livros reservados no estabelecimento de Lacey.

— Ficarei aqui enquanto você dedica a seus velhos livros — disse Meredith — Mas tenha pressa, Phoebe. Quero ainda ir ver umas luvas.

— Não demorarei.

Lacey, com um trapo engordurado nas mãos, estava trabalhando em uma das imprensas com a atenção digna de um amante.

Olhou de soslaio quando Phoebe entrou na área das prensas.

— Está aqui, senhor Lacey?

— Ali sobre a mesa. Chegou perto de uma hora.

Lacey tomou a garrafa de genebra do bolso de seu avental e bebeu um gole. Limpou a boca com a manga e a examinou interrogante.

— Faremos uma boa soma com isto, não é mesmo?

— Com certeza, senhor Lacey. Vê-lo-ei mais tarde.

Phoebe tomou o pacote da mesa e saiu da sala. Meredith olhou o pacote e proferiu uma exclamação de chateio.

— Pelo que vejo decidiu comprar outro livro.

— Este é único — assegurou Phoebe.

 

Três noites mais tarde, em um importante baile organizado por amigos antigos do conde e a condessa de Clarington, Phoebe se encontrou com sua mãe.

Lydia a olhou com seus típicos olhos míopes.

— Por fim a vejo, minha querida. Estive procurando você. Onde está seu marido?

— Wylde disse que chegaria mais tarde. Sabe que não gosta muito de bailes.

— Sim, sei. — Lydia sorriu condescendentemente — Falando de Wylde, suponho que é muito cedo para lhe pedir um empréstimo para cobrir algumas de minhas últimas perdas de jogo? Ontem tive uma péssima mão no chá de lady Rantley. É obvio que logo me recuperarei, mas, enquanto isso, estou curta de recursos para cobrir esta pequena dívida de honra.

— Peça a Wylde o que desejar, mamãe. Mas não me peça que o faça.

— Em realidade, Phoebe, não acredito que seja apropriado que eu me dirija diretamente a ele.

— Não vejo por que não. Como é que perdeu tanto na casa de lady Rantley? Pensei que, em geral, ganhava quando jogava nessa casa.

— E assim é — disse Lydia, não sem um toque de orgulho — Mas ontem as intrigas eram muito suculentas, e me concentrei mais nelas que nas cartas. Isso sempre resulta ser um engano.

— De que intrigas se tratava?

Lydia se aproximou mais.

— Parece que lorde Prudstone foi visto com frequência em um bordel de moda conhecido como o Inferno de Veludo. Sua esposa descobriu essas visitas e está furiosa. Corre a voz de que talvez ela tome represálias.

— E assim deveria ser — declarou Phoebe — O que é o Inferno de Veludo? Jamais ouvi falar dele.

— Acredito que não — murmurou Lydia — Mas agora que é uma mulher casada, é hora de que aprenda algo sobre o mundo. Diz-se que o Inferno de Veludo é um dos bordéis mais exclusivos de Londres. A ele concorrem só os cavalheiros da mais alta aristocracia.

— Se alguma vez souber que Wylde põe um pé em um lugar assim, eu o matarei.

Lydia estava para lhe responder, mas parou, de repente, com a boca aberta pela impressão.

— Meu Deus! Phoebe, olhe atrás de você. Rápido. Não tenho postos os óculos, mas há algo que me resulta muito familiar nesse cavalheiro.

— Que cavalheiro, mamãe? — Phoebe jogou um olhar por cima do ombro. A presença de um homem de cabelos dourados e olhos cor avelã que se dirigia para ela foi como se lhe tivessem dado um murro no estômago — Meu Deus. É Neil.

— Temia isso. — Lydia fez uma careta de desgosto — Supunha que estava morto. Seu pai tinha razão. Baxter não tem consideração por outros.

Phoebe não a escutava. Ainda presa da impressão recebida, avançou um passo. Quase não podia falar.

— Neil?

— Boa noite, minha formosa lady Phoebe. — Neill tomou a mão enluvada e se inclinou com séria galanteria. Seu sorriso era francamente deplorável — Compreendo que agora deve ser lady Wylde.

— Neil, está vivo. Todos acreditávamos que estava morto.

— Asseguro-lhe, Phoebe, que não sou um fantasma.

— Meu Deus, não posso acreditar nisto. — Phoebe se sentia ainda muito surpreendida para pensar com claridade. Olhava-o fixamente, impressionada de ver as mudanças físicas que se produziram em sua pessoa. O Neil que ela tinha conhecido há três anos era um homem muito mais elegante. Agora tinha os olhos carregados de amargura, e as linhas que rodeavam sua boca eram novas. Além disso, estava mais forte.

Havia em sua pessoa uma rudeza indefinível que ela não recordava do passado.

— Quer dançar comigo, minha senhora? Passou muito tempo desde que tive o prazer de ter a minha adorada Phoebe tão perto.

Sem esperar resposta, Neil a tomou pela mão e a conduziu ao salão de baile. Phoebe se entregou a seus braços quando os acordes de uma lenta e suave valsa soaram na sala. Dançou de forma mecânica, com a mente enredada em mil perguntas.

— Neil, isto é incrível. Não posso lhe dizer como estou feliz de ver que está vivo e bem. Deve me contar o que aconteceu. — Ela recordava o que Gabriel tinha contado sobre as atividades de Neil nos Mares do Sul — Correram rumores horrendos.

— Sim? Não tenho dúvidas que se correram por boca de seu marido. Quando ele se inteirar que não pôde me assassinar, provavelmente inventará alguns contos mais infames.

A boca de Phoebe ficou seca.

— Está me dizendo que Wylde mentiu? Que você não era um pirata?

— Eu? Um pirata? Como pode acreditar em uma coisa semelhante de seu verdadeiro cavaleiro. — O olhar de Neil se tornou sério — Temo por você, meu amor.

— Eu não sou seu amor, Neil. Jamais fui. — Phoebe duvido — Por que teme por mim?

— Minha queridíssima Phoebe, se casou com um dos mais sangrentos piratas que jamais sulcaram os Mares do Sul. Esse homem foi a escória das rotas comerciais. Ele capturou minha pequena embarcação e roubou uma arca com ouro. Depois, ofereceu a cada homem que estava a bordo escolher entre a morte de espada ou o mar. Eu escolhi o mar.

— Não. Não posso acreditar nisso. Neil, deve estar equivocado.

— Eu estava ali. Quase morro. Acredite, minha querida, é a verdade. Cada palavra disto é verdade.

— O que foi o que aconteceu? Como se salvou?

— Estive à deriva durante dias sobre uma parte de madeira antes de chegar até a praia de uma ilha. Quase enlouqueço pela sede e a fome que sofri naquele sol abrasador. Só a lembrança de seu doce rosto me manteve com vida.

— Céus.

A boca de Neil se contraiu. Seus olhos de cor avelã brilharam pela raiva:

— Demorou meses até poder abandonar aquela maldita ilha. E, quando finalmente consegui chegar a um porto, não tinha dinheiro. Quando Wylde afundou meu navio, fiquei arruinado. Tudo o que tinha estava investido nele. Levei todo este tempo para juntar os recursos suficientes para retornar a Inglaterra.

Phoebe o olhou perplexa.

— Neil, não sei o que dizer nem o que acreditar. Nada disto tem sentido. Disseram-me que meu pai pagou a você para que abandonasse a Inglaterra.

— Ambos sabemos que seu pai não sentia simpatia alguma pela nossa crescente amizade — recordou com delicadeza Neil.

— Sim, mas pagou para que se mantivera afastado de mim? Isso é o que desejo saber.

Neil sorriu triste.

— Um benfeitor anônimo me pagou a passagem aos Mares do Sul. Jamais soube seu nome. Suponho que foi um velho amigo que veio em minha ajuda. Alguém que soube que precisava fazer fortuna, de modo que pudesse ser digno de você. Naturalmente, eu aproveitei a oportunidade.

Phoebe se sentiu enjoada e não por causa daquela peça de música que dançava. Tentou com todas suas forças pensar nas consequências do que estava ouvindo.

— Não compreendo nada disto, Neil.

— Não, minha querida, já sou consciente disso. Mas eu, sim, compreendo tudo muito bem. Wylde retornou a Inglaterra com oito anos de saques e pôde estabelecer-se como um respeitável membro da sociedade.

— Wylde não foi pirata — insistiu Phoebe — Conheço-o bem agora para acreditar.

— Não tão bem como eu — disse brandamente Neil — Ele me tirou à única mulher com a que uma vez desejei me casar.

— Sinto muito, Neil, mas você sabe que eu jamais teria me casado com você. Disse isso a muitos anos.

— Poderia convencê-la para que me amasse. Não tema. Não estou zangado com você. Este casamento com Wylde não é sua culpa. Fizeram-na acreditar que morri.

— Sim. — Parecia não haver sentido o informar que, inclusive se ela acreditasse que estava vivo, não o esperaria.

Jamais teve intenções de casar-se com ele e sempre o deixou bem claro. Queria Neil como um amigo, não como amante nem como marido.

— Como bom pirata que é, Wylde me tirou tudo o que para mim tem valor. Meu navio, a mulher que amo e a lembrança que valorizo por cima de tudo.

Os olhos de Phoebe se abriram quando uma terrível premonição a alertou.

— Lembrança?

— Ele me tirou o livro que você me deu de presente, minha querida. Eu o vi me roubar isso no dia em que abordou meu navio. Tomou todas as coisas de valor que havia em meu camarote e ali se encontrava “A dama da torre”. Quase me matou quando tentei evitar que me roubasse isso. A perda desse livro me entristeceu mais do que posso explicar com palavras. Era tudo o que tinha de você.

O irritante sentimento de culpa que estava invadindo Phoebe começou a crescer.

— Neil, estou tão confusa.

— Compreendo, meu amor. Alimentaram seu espírito com um montão de mentiras muito elaboradas, e não sabe em que acreditar. Tudo o que te peço é que recorde que uma vez fomos um para o outro.

Um pensamento terrível golpeou Phoebe.

— O que fará agora, Neil? Tentará enviar Wylde ao cárcere? Porque se for assim, devo dizer...

— Não, Phoebe, não farei nenhum esforço para ver que Wylde tenha o destino que se merece, pela simples razão de que eu não posso provar nada. Tudo isto aconteceu a milhares de quilômetros de distância. Ele e eu somos os únicos que conhecemos a verdade. Seria minha palavra contra a dele. E ele agora é um conde. Mais ainda, é rico como o mesmo demônio, e eu quase não tenho um xelim. Em quem você acha que acreditaria a Justiça?

— Já vejo. — Phoebe suspirou aliviada. Aquele era um problema pelo que não teria que preocupar-se no momento.

— Phoebe?

— Sim, Neil?

— Sei que está apanhada neste casamento.

— Não estou exatamente apanhada — murmurou ela.

— Uma esposa está a mercê do marido. E eu tenho lástima da mulher que esteja a mercê de Wylde. Tenho muito afeto por você e continuarei a amando pelo resto de meus dias. Desejo que saiba isso.

Phoebe tragou saliva.

— É muito amável de sua parte, Neil, mas não deve sofrer por mim. Em realidade, deve seguir adiante com sua vida.

Neil sorriu.

— Sobreviverei, minha querida Phoebe, da mesma forma que fiz naqueles dias no mar. Entretanto, me alegraria enormemente se pudesse ter o livro que me deu de presente quando fui da Inglaterra.

— Deseja “A dama da torre”?

— É tudo o que alguma vez tive de você, Phoebe. Suponho que Wylde o trouxe com ele com o resto que ele arrebanhou nos mares do sul?

— Bom, sim. — expressou Phoebe de mau humor — Bom, ele o trouxe com ele quando retornou com sua fortuna dos Mares do Sul.

— O livro me pertence, meu amor. Está com você me devolver ou ficar com ele, se restar um pouco de lástima ou afeto por seu cavaleiro, peço que me permita ter “A dama da torre”. Não posso explicar tudo o que significa para mim.

O pânico se apoderou de Phoebe.

— Neil, é muito galante de sua parte querer ter “A dama da torre”, mas, de verdade, não acredito estar em posição de lhe dar ele.

— Compreendo. Deve ter cautela com Wylde. É um homem perigoso em extremo. Será melhor que não conte a seu marido que desejo recuperar meu presente. Não se sabe o que poderia chegar a fazer. Ele me odeia.

Phoebe franziu o cenho.

— Prefiro que não faça comentários pessoais sobre meu marido. Não desejo escutá-los.

— É obvio que não. Uma esposa deve procurar acreditar no melhor de seu marido. É seu dever.

— Não é isso precisamente. — Phoebe se sentiu irritada pela só menção de um dever de esposa — É só que não posso me convencer que Wylde seja um pirata.

— Não acreditará que eu fui? — perguntou com delicadeza Neil.

— Bom, não — admitiu ela — É muito difícil imaginar você como um sanguinário pirata.

Neil inclinou a cabeça.

— Pelo menos, obrigado por isso.

Phoebe se deu conta da presença de Gabriel no salão de baile antes de chegar a vê-lo. Um sentimento profundo de alívio a invadiu. Mas, quando se voltou e viu que vinha direto para ela, trocou de parecer.

Teve o horrível sentimento que algo horroroso ia ocorrer. Gabriel parecia uma águia à espreita. Os olhos verdes eram como as conchas vazias de qualquer ave de rapina. A roupa negra que vestia realçava as linhas duras do rosto e a qualidade predadora de seu corpo. O olhar estava cravado em Phoebe e Neil enquanto se aproximava.

Quando chegou até eles, tomou a mão de Phoebe que estava sobre o ombro de Neil e a deixou a um lado. Sua voz soou mortalmente suave quando enfrentou Neil.

— De modo que, depois de tudo, Baxter, sobreviveu no mar.

— Tal como pode ver — Neil fez uma leve reverência com tom zombador.

— Escute meu conselho — disse Gabriel — Se deseja continuar vivo, mantenha-se afastado de minha mulher.

— Parece-me que o que aconteça depende de Phoebe — disse Neil — Sua posição é muito similar a da lendária Genevieve, não te parece? Acredito que eu sou Lancelot e você é Artur, Wylde. E todos sabemos o que aconteceu no conto. A dama traiu a seu senhor e se entregou a seu amante.

Phoebe se sentiu ofendida em grau supremo pela implicação de que ela enganaria Gabriel.

— Basta de tolices, os dois. Não tolerarei.

Nem Gabriel nem Neil prestaram atenção.

— A diferença de Artur, eu estou preparado para proteger a minha senhora — disse Gabriel tranquilo — Artur cometeu um engano ao confiar em Lancelot. Eu não cometerei esse engano, já que tenho a vantagem de saber que é um mentiroso, um assassino e um ladrão.

Os olhos de Neil brilhavam de fúria.

— Phoebe se dará conta muito em breve da verdade. Seu coração é puro. Inclusive você, Wylde, não poderá corrompê-lo.

Virou-se e se afastou.

Phoebe se deu conta que estava contendo a respiração. Quando Gabriel a arrastou para fora do salão de baile, sua perna esquerda perdeu o equilíbrio. Ele a sustentou imediatamente para que não caísse.

— Está bem? — perguntou com tom autoritário.

— Sim, mas apreciaria que não me arrastasse pelo salão desta forma, Wylde. As pessoas estão começando a olhar.

— Que nos olhem.

Phoebe suspirou. Gabriel estaria impossível depois disto.

— Aonde vamos?

— Para casa.

— Está bem — disse Phoebe — Está claro que esta noite estragou tudo.

 

Como diabos tinha sobrevivido Baxter? perguntava-se Gabriel. Tinha que morrer.

Observou com atenção Phoebe enquanto a carruagem se deslocava pelas concorridas ruas. Não tinha ideia alguma do que ela estaria pensando. Ao dar-se conta de que não sabia como reagia ante o fato que Baxter estivesse vivo, isto o alarmava como nada o fez até agora.

Era como se Gabriel sempre lutasse contra o fantasma de Baxter desde o primeiro momento em que a viu. Sempre estava presente, à espreita atrás deles. Já era muito ruim ter de suportar as lembranças que Phoebe possuía dele. Agora, Gabriel se encontrava com ele em carne e osso. Por que o bastardo não morreu?

Os dedos de Gabriel apertaram tensos o punho da bengala. Estava impaciente para levar Phoebe rápido para casa, mas não com rapidez suficiente. O caminho estava bloqueado por elegantes carros de portas laqueadas e simpáticas caleças de todos os modelos. Era quase meia-noite, e os ricos estavam em ação, dirigindo-se de um baile a outro, em um frenesi que não teria fim até o amanhecer.

Seria muito mais rápido ir caminhando para casa, mas Phoebe calçava um par de sapatilhas de cetim, que em minutos ficariam em fiapos contra o pavimento. E, além disso, ainda havia o problema dos assaltantes na cidade. As ruas não eram seguras, recordou-se Gabriel.

E tampouco eram os salões de baile.

Dentre as duas coisas, decidiu Gabriel, ele preferia correr riscos na rua.

Supunha que Baxter estava morto.

Gabriel olhou a expressão inexpugnável de Phoebe.

— O que te disse?

— Não muito — Disse Phoebe lentamente. Olhava pela janela enquanto falava — Para ser sincera, achei difícil compreender o que dizia, foi uma impressão terrível só vê-lo ali. Não podia acreditar.

— Phoebe, me diga exatamente o que lhe disse.

Phoebe virou a cabeça e encontrou os olhos de seu marido.

— Confessou-me que ele não era pirata.

Gabriel olhou as mãos e viu que seu punho apertava a bengala. Obrigou-se a relaxar os dedos.

— Claro que sim. Que pessoa admitiria tal vilania?

— Que mais?

Phoebe mordeu o lábio inferior. Gabriel estava começando a conhecer bem aquela expressão. Significava que estava pensando, em seu interior se sentiu gritar. Phoebe sempre era muito perigosa quando pensava, para seu próprio bem era muito inteligente e tinha uma imaginação que rivalizava com a sua.

— Diz — murmurou Phoebe. — Que você era a escória dos navios legais das ilhas, não ele.

Gabriel sabia que isto aconteceria, mas a premonição não diminuía em nada a fúria.

— Maldito delinquente. Que o devore o inferno. É um mentiroso e um assassino. É obvio que você não acredita nisso.

— Não, é obvio que não. — Phoebe desviou o olhar. Voltou a concentrar-se nas escuras e lotadas ruas.

O estômago de Gabriel se contraiu. Não era próprio de Phoebe evitar o olhar; estendeu a mão e segurou a dela.

— Phoebe, me olhe.

Phoebe o olhou com olhos claramente perturbados.

— Sim, meu senhor?

— Não acreditou, não é assim? — Inclusive enquanto dizia aquelas palavras, Gabriel sabia que soavam mais como uma ordem que como uma pergunta.

— Não, meu senhor. — Ela desceu o olhar para sua mão, que desaparecia no punho de Gabriel. — Gabriel, está me machucando.

Gabriel se deu conta de que esmagava os dedos dela. Soltou-lhe a mão sem vontades; devia manter a calma e o controle, não podia se permitir emoções que nublassem seu julgamento e influíssem em suas ações. Havia muito em jogo. Obrigou-se a recostar-se no respaldo do assento e esperou mostrar uma expressão indiferente no rosto.

— Perdoe-me, querida. A volta de Baxter ao mundo dos vivos resultou ser desconcertante para nós dois. Esse homem sempre foi um inconveniente.

— Gabriel, devo lhe fazer uma pergunta.

— Sim?

— Existe alguma possibilidade, por mais remonta que seja, de que tenha se enganado com respeito ao trabalho de Neil nas ilhas?

Maldito delinquente. No período de uma valsa, conseguiu muito. Claro, era certo que Baxter sempre tinha êxito com as mulheres.

— Não — disse Gabriel, desejoso que acreditasse. — Baxter foi um maldito pirata. Não há dúvida disso.

— Eu tinha, de algum jeito, esperanças que fosse um terrível mal entendido.

— Se tivesse visto os cadáveres que Baxter deixava atrás de si quando terminava seu trabalho, não sugeriria que isto fosse um mal entendido.

Phoebe se mostrou impressionada.

— Cadáveres?

— Lamento que tenha me obrigado a ser desagradavelmente franco sobre isto. Se não desejar ouvir mais detalhes, deve aceitar o que contei sobre Baxter. Baxter era um assassino. Acha que homens assim fazem seu trabalho de forma galante?

— Bom, não, é obvio que não, mas…

— Em um pirata, não existe nada de romântico, nada. É um trabalho sanguinário.

— Compreendo.

Mas Gabriel pôde advertir que ainda havia dúvidas em seu olhar. Obviamente, não podia imaginar seu precioso Neil Baxter como um monstro.

— Phoebe, preste atenção, porque não desejo ter que repetir isto. Deve se manter afastada de Baxter. Entende-me?

— Já ouvi, meu senhor.

— Não deve ter nada que fazer com ele.

— Fala muito claro, senhor.

— É um mentiroso consumado. E me odeia. É muito possível que tente usar você de alguma forma para se vingar de mim. Já ouviu que disse que ele é Lancelot, e eu Artur.

Os olhos de Phoebe se encheram de raiva.

— Eu não sou Genevieve, meu senhor. Não o enganaria com outro homem, seja qual for a circunstância. — Sua expressão se suavizou. — Pode confiar em mim, Gabriel.

— Sempre comprovei que é melhor não colocar à prova coisas tão delicadas como a confiança. Você não deve se aproximar de Baxter; não voltará a dançar com ele; não falará com ele; não o reconhecerá sob nenhuma forma. Fica claro?

Os olhos de Phoebe ficaram velados pelas pestanas.

— Minha família uma vez tentou me dar ordens similares com respeito a você, Gabriel.

Gabriel arqueou as sobrancelhas.

— E você não as obedeceu. Já me dei conta muito bem desse fato. Mas você me obedecerá nisto. É minha esposa.

— Posso ser sua esposa, mas desejo que me trate como uma igual. Qualquer um pode lhe dizer que eu não respondo bem às ordens.

— Às minhas ordens, sim, responderá, Phoebe. Ou o que terei que pagar pelas consequências será catastrófico.

 

Dirigiu mal a situação.

Gabriel, uma e outra vez, examinou a conversa que manteve com Phoebe, depois de despedir seu valete. Serviu-se uma taça de conhaque e começou a andar pela sala.

A crua realidade era que não podia pensar em outra forma de poder dirigir aquele assunto. Vira a incerteza naqueles olhos, Baxter pôs dúvidas naquele cérebro.

Sabia que a todo custo devia manter Phoebe afastada de Neil Baxter. A única forma de fazer isso era a proibindo de ter ou fazer qualquer coisa com o homem que uma vez ela pensou que era seu verdadeiro Lancelot. Infelizmente Phoebe não acatava bem as ordens.

O sexo de Gabriel pulsou com uma repentina urgência de possuí-la, sentia-se consumido pela imperiosa necessidade de penetrá-la. Quando ela se entregasse por completo na cama, teria plena certeza de seu amor. Nos momentos de paixão desenfreada, quando ele estava no interior daquele corpo, sabia que lhe pertencia.

Gabriel deixou de andar pela sala, apoiou a taça. Foi até a porta que conectava os dois quartos e a abriu.

O quarto de Phoebe estava sumido na escuridão. Avançou para a cama com dossel e franziu o cenho quando se deu conta que ela se movia intranquila nos travesseiros. Estava dormindo, mas emitia leves gemidos de protesto. Gabriel sentiu o medo que crescia nela e se deu conta que estava novamente em outro de seus pesadelos.

— Phoebe, acorda. — Gabriel se sentou na beirada da cama, a segurou pelos ombros, e a sacudiu brandamente. — Abra os olhos, amor. Está sonhando novamente.

Os olhos de Phoebe se abriram. Ficou boquiaberta e se firmou erguida com os cotovelos apoiados sobre a cama. Por um instante, os olhos estavam selvagens em meio das sombras. Depois, lentamente, concentraram-se dele.

— Gabriel?

— Está a salvo, Phoebe. Eu estou aqui. Teve outro de seus pesadelos.

— Sim. — Ela meneou a cabeça, como tentasse limpa a mente — É o mesmo que tive no castelo depois de nadar na caverna. Era um lugar escuro e dois homens queriam me alcançar e cada um dizia que podia me salvar, mas eu sabia que alguém mentia e devia escolher.

Gabriel a abraçou.

— É só um sonho, Phoebe.

— Sei.

— Eu a ajudarei a esquecer, como fiz da outra vez. — Ele a acomodou novamente sobre os travesseiros. Depois ficou de pé.

Ela não protestou quando Gabriel tirou a bata e a deixou cair com descuido no chão. Os olhos dela eram solenes e observadores, quando se concentrou na parte de seu corpo que estava profundamente excitada. Mas não resistiu quando ele tirou as mantas e se deitou a seu lado.

— Vem aqui, amor. — Gabriel a abraçou, ansioso para despertar o desejo que sempre crescia tão facilmente entre os dois. Precisava saber que responderia esta noite como sempre.

Gabriel sentiu uma profunda sensação de alívio quando viu que Phoebe o abraçava. Tocou-lhe os seios suaves e inchados, desejoso que alcançassem o mesmo clímax, desejoso que ela se sentisse tão excitada como ele.

Foi inútil. A urgente necessidade de possuí-la ultrapassou as intenções de Gabriel. Sua vontade ruiu sob a tormenta que impulsionava a necessidade que explodia em seu interior. Devia saber que ela ainda era dele.

— Phoebe, não posso esperar.

— Sim, sei. Está bem.

Gabriel estava em chamas. O sangue rugia em suas veias quando abriu as pernas de Phoebe e se situou entre suas coxas de seda. Utilizou uma mão para entrar nela e depois com uma exclamação rouca, muda, penetrou-a.

Phoebe respirou profundamente quando seu corpo por instinto se apertou ao dele. Gabriel a olhou e viu que tinha os olhos fechados. Desejava que o olhasse, mas não podia encontrar as palavras para pedir-lhe, nem tampouco havia tempo para as buscar. Tudo o que agora interessava era saciar esta assustadora necessidade que violentava seu corpo.

Começou a mover-se rápido, entrando uma e outra vez no cálido corpo de Phoebe. Ela o recebeu, envolvendo-o, fazendo-o parte dela. Gabriel tocou aquele casulo pequeno e sensível de carne delicada.

— Gabriel.

O grito suave o colocou sobre brasas. Cada músculo de seu corpo se esticou à beira da culminação. Arqueou-se, apertou os dentes e depois acabou de forma sem fim dentro dela.

Ela aceitou tudo o que lhe dava, mantendo-o abraçado. Gabriel sentiu as leves convulsões que a percorriam e depois se sentiu perdido.

Ficou acordado durante um longo tempo. Olhou as sombras que os rodeavam e pôs em sua mente a tarefa de imaginar qual era a melhor maneira de proteger Phoebe de Baxter.

Phoebe chegou à casa de seus pais às onze em ponto da manhã seguinte. Conhecia bem os hábitos de seu pai. Estava certa de que o encontraria trabalhando em seu último invento matemático.

Estava exatamente onde pensava que estaria. Quando a acompanharam a seu estúdio, encontrou-o trabalhando em um dispositivo mecânico.

— Bom dia, papai. — Phoebe desatou as tiras do chapéu. — Como vai sua máquina de calcular?

— Muito bem, por certo. — Clarington levantou o olhar para sua filha — Imaginei uma forma de utilizar cartões perfurados que subministrem instruções para os distintos cálculos.

— Cartões perfurados?

— Muito similares às que usam as máquinas de fiar Jacquard para determinar o desenho da malha.

— Que ótimo. — Phoebe se aproximou e lhe deu um grande abraço — Isso é muito interessante, papai. Mas já sabe que eu nunca fui muito boa com as somas e os cálculos.

— É provável que isso esteja certo. — disse rindo Clarington. — Já temos suficiente em uma só família. Pergunto-me se Wylde achará que esta máquina pode chegar a ser útil em sua empresa.

— Não me surpreenderia, papai. Quero falar com você. — Phoebe se sentou. — Tenho que te fazer uma pergunta muito importante.

Clarington ficou preocupado.

— Se for sobre a vida de casados e os deveres de uma esposa, terá que perguntar a sua mãe. Não é meu campo, se entende o que quero dizer.

Phoebe fez um gesto de impaciência.

— Estou me adaptando muito bem à vida de casada. Não é disso que quero falar.

Clarington se tranquilizou.

— Bom, então, o que é que deseja me perguntar?

Phoebe se inclinou para diante com decisão.

— Papai, Neil Baxter foi embora da Inglaterra há três anos porque você lhe deu dinheiro; você o comprou por que não desejava que ele se casasse comigo?

As grossas sobrancelhas de Clarington se juntaram em um claro gesto de irritação.

— Mas quem diabos lhe disse isso?

— Wylde.

— Claro. — suspirou Clarington. — Suponho que teve uma boa razão.

— Esse não é o ponto, papai. Exijo que me diga a verdade.

— Por quê? — perguntou Clarington, com olhar inteligente. — Por que Baxter voltou para a Inglaterra?

— Em parte. E em parte porque me senti culpada durante muito tempo depois que fui informada de sua morte. Disse a mim mesma que, se ele não tivesse partido para fazer fortuna a fim de poder pedir minha mão em casamento, não o teriam matado.

Clarington a olhou cheio de assombro.

— Deus. Que tolice. Meu único remorso é que esse maldito bastardo não teve a decência de continuar morto. — murmurou Clarington. — Mas esse Baxter voltou para complicar as coisas.

— Papai, devo saber se é verdade que você deu dinheiro a ele para se afastar de mim.

Clarington se moveu incômodo e golpeou com um martelo uma roda de metal.

— Perdoe-me, minha querida, mas é verdade. — Olhou-a com emoção. Mas isso não tem importância agora. Já está casada e a salvo com Wylde, e assim são as coisas, vê?

— Por que não me disse? — exigiu Phoebe.

— Que chantageei Baxter para que abandonasse o país? Porque não queria que você soubesse.

— Por que não? — perguntou Phoebe, tensa.

— Porque pensei que a machucaria. — respondeu Clarington. — Não é muito agradável para uma jovenzinha romântica saber que ele só estava brincando com seus sentimentos para chantagear ao pai. Sempre foi sentimental, Phoebe. Via Baxter como um jovem sir Galahad, ou alguma dessas tolices.

— Lancelot. — disse Phoebe com delicadeza. — Sempre pensei nele como Lancelot.

Clarington franziu o cenho.

— Perdão?

— Não importa. — Phoebe estava sentada muito rígida em sua cadeira, com os ombros muito direitos. — Devia ter me dito a verdade, papai.

— Não queria que se zangasse.

— Bom, não teria sido muito agradável saber a verdade, posso assegurar. — disse Phoebe. — Mas, pelo menos, não teria passado todo um ano me sentindo culpada.

— Como ia saber que se sentia culpada? Jamais mencionou esse fato.

Phoebe repicou com seus dedos enluvados na beira do assento. Franziu o cenho, pensando no que Neil havia dito a noite anterior.

— Pagou-lhe de forma direta?

— Deus, não. — Clarington se mostrou ofendido. — Um cavalheiro não suja as mãos com esse tipo de coisas. Um advogado cuidou de tudo.

— Neil diz que não sabe quem pagou sua passagem aos Mares do Sul. Disseram-lhe que um benfeitor misterioso arrumou o assunto.

O mau humor de Clarington se escureceu.

— Tolices. Sabe perfeitamente bem quem pagou a passagem e muito mais que isso também. Fez um trato. Concordamos em pagar ao ordinário o suficiente para que se sentisse bem, com a condição que abandonasse a Inglaterra.

Phoebe suspirou.

— É difícil saber exatamente em quem acreditar.

Clarington se viu confrontado.

— Está me dizendo que não estou dizendo a verdade?

— Não, papai, é claro que não. — Phoebe sorriu suplicante — Não acredito que minta para mim. Mas não posso evitar me perguntar se as distintas pessoas envolvidas neste jogo talvez tenham interpretado de maneiras diferentes.

— Maldição, Phoebe, não há nada para interpretar mal. Quando meu advogado ofereceu ao Baxter uma pequena fortuna para que abandonasse o país, ele tomou com ambas as mãos. Isso foi tudo o que aconteceu.

— Talvez. — Phoebe duvidou incerta. — Talvez não. Desejaria saber em que acreditar.

As sobrancelhas de Clarington se juntaram.

— Por Deus, deve acreditar em seu pai e em seu marido. Deve nos acreditar.

Phoebe sorriu com tristeza.

— Sabe o que acontece, papai? O problema está em que todos passam muito tempo e gastam muitas energias em tentar me proteger. Dão-me só partes da verdade, não toda a verdade.

— Por minha experiência, posso dizer que você nem sempre dirige bem toda a verdade.

— Papai, como pode dizer isso?

— É verdade, Phoebe. Sempre olha as coisas de uma ótica diferente, se souber a que me refiro.

— Não, papai, não sei a que se refere.

— Nem sempre se dirige com a realidade, minha querida, e isso é um fato. Desde menina, sempre foi diferente. Nunca foi como o restante de nós. Jamais soube o que queria, deve conhecer a verdade. Sempre em busca de aventuras, sempre se colocando em problemas.

— Papai, isso não é verdade.

— Tenho Deus por testemunha que é a mais pura verdade. — Os olhos de Clarington se mostraram sombrios. — Nunca soube bem o que fazer com você. Sempre aterrorizado que um dia se colocasse em uma catástrofe pior, não importava como tentasse a proteger de sua própria natureza imprudente. Não pode culpar um pai por desejar proteger sua filha.

— Eu não o culpo, papai. Mas, às vezes, me senti afogada por todos. Todos sempre foram tão inteligentes.

— Inteligentes, é? Isso é uma boa brincadeira. Nós quase não pudemos com você. — Clarington a olhou com irritação. — Direi a você uma coisa, Phoebe. Apesar de como a quero, estou muito satisfeito que agora esteja sob a responsabilidade de Wylde. É sua vez de tentar levar as rédeas, e ele recebeu a tarefa com beneplácito. É um alívio poder deixar de me preocupar com você.

Phoebe desceu o olhar e se concentrou na bolsinha que tinha sobre a saia. Por alguma razão, os olhos queimavam por estar cheios de lágrimas. Piscou para as afastar.

— Sinto ser um problema para você em todos estes anos, papai.

Clarington grunhiu e aproximou-se dela.

— Valeu a pena, Phoebe. — Abraçou-a com torpe afeto. — A sua mãe gosta de dizer que você evitou que fôssemos uns aborrecidos e talvez tenha razão. A vida a seu lado foi sempre interessante. Posso assegurar isso.

— Obrigada, papai. Sempre é bom saber que alguém cumpre uma função útil. — Phoebe secou as lágrimas e sorriu.

— Bom, minha menina, não vai chorar ou algo assim, não é certo? Não sou nada bom com as mulheres que choram.

— Não, papai. Não vou chorar.

— Bem. — Clarington se sentiu visivelmente aliviado. — O Senhor sabe que nem sempre foi fácil, e talvez eu tenha cometido alguns enganos em todo este tempo. Mas juro que só fiz o que pensei que devia fazer para que não sofresse.

— Compreendo, papai.

— Excelente — disse Clarington. Tocou-a no ombro. — Excelente. Bom, então. Isso é tudo, não? Não há ofensas, minha querida, mas estou feliz que seja agora problema de Wylde.

— E ele é meu problema. — Phoebe atou as tiras de seu chapéu. — Devo ir, papai. Obrigado por me dizer o que sabe da situação de Neil.

Clarington ficou alarmado.

— Ouça isto, eu disse toda a verdade, não só uma parte.

— Adeus, papai. — Phoebe parou um momento na porta. — Oh, a tudo isto, estou planejando uma formosa festa no castelo para o fim da temporada. Desejo que você, mamãe e outros conheçam meu novo lar.

— Certamente que estaremos ali. — assegurou Clarington. Logo duvidou. — Phoebe, não porá Wylde em problemas desnecessários, não? Ele é um bom homem, mas não sei até onde chegará sua paciência se você fizer sua vida difícil. Está acostumado a dar ordens e que o obedeçam, dê tempo para que se acostume a você.

— Não se preocupe, papai. Nem sonharia em dar problemas desnecessários a Wylde. — Só a quantidade absolutamente necessária, adicionou para si.

 

Phoebe ainda pensava na conversa que manteve com seu pai aquele dia, quando desceu de sua carruagem em frente da livraria de Green. George, o lacaio que a acompanhava em seu dia de compras, manteve a porta aberta para que ela e sua criada descessem do carro.

Phoebe deu um olhada à rua quando desceu do veículo. Um homem pequeno com chapéu verde a olhava com interesse. Quando viu que ela o olhava, desviou os olhos e simulou estudar o conteúdo da cristaleira.

— Betsy, conhece esse homem? — perguntou Phoebe quando começavam a subir os degraus da livraria.

Betsy olhou ao homem e meneou a cabeça.

— Não, senhora. Acontece algo errado?

— Não sei. — disse Phoebe. — Mas estou quase certa que o vi antes, quando saí da chapelaria. Tive a sensação que me observava.

Betsy franziu o cenho.

— Digo a George que o enxote?

Phoebe olhou pensativa ao homem.

— Não, vamos esperar e ver se ainda estará aqui quando sairmos da livraria.

Phoebe subiu as escadas e entrou na loja. Esqueceu-se completamente da presença do misterioso homem, quando o senhor Green se aproximou para saudá-la. O velho livreiro lhe sorriu com satisfação.

— Bem vinda, bem-vinda, lady Wylde. Estou feliz que tenha vindo tão rápido. Tal como lhe dizia em minha nota, tenho o livro que me pediu.

— É o exemplar que lhe pedi?

— Estou certo disso. Pode examiná-lo agora mesmo.

— Onde o encontrou? perguntou Phoebe.

— Através de um contato em Yorkshire. Espere aqui e o trarei.

O senhor Green desapareceu na saleta dos fundos e voltou um momento depois com o velho livro encadernado em couro marroquino de cor vermelha. Phoebe abriu o livro com cuidado e leu a dedicatória na primeira página.

Para meu filho Gabriel, pela passagem de seu décimo aniversário, com a esperança que tenha uma vida honrada, seguindo o código de um cavalheiro. John Edward Banner.

 

— Sim — disse Phoebe quando com reverência fechou “Morte d’Arthur”, de Malory — Este é o exemplar que procurava. Não sabe quanto o agradeço, senhor Green.

— É um prazer — assegurou Green. — Estou ansioso para fazer negócios com você no futuro.

O homem do chapéu verde estava ainda na rua quando Phoebe e sua criada saíram.

— Ainda está aqui, senhora. — disse em um murmúrio Betsy, em todo conspiratório. — Está parado diante da loja de cristais.

Phoebe olhou a rua.

— Sim, aí está. Pergunto-me do que se trata isto. É algo misterioso.

Os olhos de Betsy se abriram com surpresa.

— Talvez nos siga até em casa e nos assassine em nossas camas, senhora.

— Talvez seja assim. — disse Phoebe. — Isto tem todo o jeito de uma situação perigosa. — voltou-se para o lacaio. — George, diga ao chofer que acredito que um ladrão está nós seguindo. Devemos procurar despistá-lo no meio do trânsito.

George a olhou fixamente.

— Um ladrão, senhora?

— Sim. Depressa. Devemos nos pôr a caminho. Quero ter certeza que não possa nos perseguir.

— As ruas estão congestionadas, senhora. — indicou George quando a ajudou a subir ao carro. — Pode nos seguir com facilidade.

— Não se formos inteligentes. — Phoebe pensou rápido enquanto se sentava. — Diga ao chofer que vire à esquerda na próxima rua e depois à direita, para voltar logo e virar à esquerda. Deve continuar assim até que estejamos certos que não há sinais do homem do chapéu verde.

— Sim, senhora. Com aspecto sério, George fechou a porta da carruagem e subiu ao assento de acompanhante do chofer.

Um momento depois a carruagem avançava a passo vivo. Phoebe sorriu a Betsy com satisfação quando o veículo esquivou e dobrou à esquerda.

— Isto deveria solucionar o problema. Seja quem for, esse homem não esperava que virássemos nesta rua.

Betsy olhou pela janela.

— Não, senhora, certamente não. Só espero que não seja tão rápido para nos seguir.

— Logo nos perderemos de vista. — predisse Phoebe. — Wylde sem dúvida se sentirá muito impressionado por nosso brilhante controle de uma situação tão perigosa.

— Você a perdeu? — Gabriel olhou perplexo ao homem da boina verde. — O que isso que quer dizer com que a perdeu? Stinton, estou-lhe pagando para que a siga.

— Já sei, sua senhoria. — Stinton se ergueu e dirigiu a Gabriel um olhar valente. — E estou fazendo o melhor que posso. Mas você não me disse que a senhora tinha o costume de correr em todas direções. Com perdão, mas é um pouco imprevisível.

— A senhora é uma mulher impulsiva. — disse Gabriel entre dentes. — E essa é precisamente a razão pela que o contratei para que cuide dela. Você foi recomendado especialmente na rua Bow. Asseguraram-me que poderia confiar em suas mãos a segurança de minha mulher, e, agora, me diz que não pôde nem seguir seu rastro em uma simples saída de compras.

— Bom, sem ânimo de ofender, meu senhor, mas não foi exatamente uma simples saída de compras. — disse Stinton. — Tenho o orgulho de dizer que a segui muito bem no Arcade e que pude também quase pisar em seus pés na rua Oxford, embora devia percorrer tudo de um lugar a outro. O último estabelecimento foi uma livraria. Foi quando ela saiu e começou a correr em ziguezague como uma raposa açoitada por uma matilha de cães.

Gabriel teve que fazer uso de cada milímetro de força de vontade para controlar seu humor.

— Não volte a referir jamais a lady Wylde como uma raposa, Stinton.

— Tem razão, sua senhoria. Mas devo lhe dizer que jamais vi nenhuma senhora mover-se tão rápido. Rápida como qualquer trombadinha que tenha açoitado até as desmanteladas casas dos campos do Spital.

Gabriel se sentia cada vez mais intranquilo.

— Tem certeza que não a viu com ninguém?

— Só a criada, o lacaio e o chofer.

— E quando desapareceu, estava ela em seu carro?

— Sim, senhor.

— Não havia sinais de ninguém mais que a seguisse?

— Não, sua senhoria. Só eu. E, para ser franco, se eu não pude segui-la, tampouco outro poderia ter feito.

— Maldição. — A imaginação de Gabriel já tinha começado a conjeturar centenas de diferentes calamidades que poderiam ter caído sobre Phoebe. Recordou que ela não estava sozinha. Três criados a acompanhavam. Entretanto, em tudo o que podia pensar era no fato de Neil Baxter andar por aí solto, sem dúvida planejando vingar-se. Lancelot contra Artur.

Stinton clareou a voz.

— Com seu perdão, sua senhoria, mas deseja que continue seguindo à senhora?

— Não estou muito certo a respeito. — Gabriel estava aborrecido. — Não se você não pode lhe seguir o rastro.

— Bom, senhor, quanto a isso, a próxima vez me manterei mais perto. Agora que sei seus truques e tudo isso, não me surpreenderá da mesma forma que fez hoje.

— Minha esposa não faz truques. — disse Gabriel sombrio. — Ela é só muito impulsiva.

Stinton tossiu com discrição.

— Sim, senhor. Se você diz, senhor. Parece-me um pouco enganosa, entretanto, meu senhor, se me perdoar a expressão.

— Não o perdôo. Em realidade, não posso aceitá-lo. Stinton, se você tem intenções de seguir em seu posto, será melhor que deixe de insultar a minha esposa.

Um tumulto no vestíbulo interrompeu Gabriel antes que pudesse aproximar-se e retorcer o pescoço a Stinton. Quando ouviu a voz de Phoebe, uma onda de alívio percorreu todo seu ser.

A porta da biblioteca se abriu de par em par, e Phoebe entrou correndo, com as tiras do chapéu ao vento. Levava um pacote nas mãos. As saias de musselina de seu brilhante vestido verde limão se elevavam sobre os delicados tornozelos. O rosto brilhava com grande emoção.

— Gabriel, tivemos a mais excitante das aventuras. Só espere que conte. Acredito que um ladrão esteve muito perto de nos seguir até em casa. Talvez até poderia ser um assassino. Mas destruí seus planos de forma brilhante, devo admitir.

Gabriel ficou de pé.

— Acalme-se, querida.

— Mas, Gabriel, tudo foi tão estranho. Havia um homem com um chapéu verde. — Phoebe parou de repente quando viu o Stinton. Abriu bem os olhos. — Deus, é ele! O homem que nos seguia.

— Não fiz um trabalho muito bom. — disse Stinton. Sorriu com aprovação, deixando ver vários espaços vazios entre seus dentes amarelados. — Devo dizer que a senhora pôde escapulir com uma habilidade que geralmente descubro em muitos delinquentes.

— Obrigada. — Phoebe o olhou com intensa curiosidade nos olhos.

Gabriel amaldiçoou e se voltou para Stinton.

— Por favor, tenha a amabilidade de não fazer comparações entre minha esposa e os delinquentes.

— Sim, senhor. — disse Stinton com simpatia. — Não quis ofender à senhora. Você é muito inteligente, senhora, claro que é.

Phoebe ofereceu um sorriso de complacência.

— Sim, fui, não é mesmo?

— Quase a alcanço depois do primeiro giro, mas não tive nenhuma oportunidade quando seu chofer virou pela segunda vez.

— Planejei com supremo cuidado — assegurou Phoebe.

— Como disse, foi trabalho de um verdadeiro profissional. — disse Stinton.

Phoebe sorriu com calidez.

— Devo admitir que tive um pouco de sorte; depois de virar a terceira vez, nos encontramos em território desconhecido. Não sei onde teríamos terminado se o chofer não conhecesse as ruas.

— Já. — interrompeu Gabriel. — É suficiente. — Olhou Stinton. — Você pode retirar-se.

— Sim, meu senhor. — Stinton girou o chapéu em suas mãos. — E vai necessitar de mim no futuro?

— Suponho que não fica outra alternativa melhor. Deus nos ajude, já que me disseram que você era o melhor. Amanhã se apresentará aqui quando lady Wylde sair.

Stinton sorriu.

— Obrigado, sua senhoria. — colocou o chapéu e caminhou para a porta com passo festivo.

Gabriel esperou que ele e Phoebe ficassem sozinhos antes de indicar a cadeira que estava frente a sua mesa.

— Sente-se, senhora.

Phoebe piscou.

— Gabriel, o que acontece…?

— Sente-se.

Phoebe se sentou. Colocou o pacote sobre sua saia.

— Quem era esse homem, Gabriel? Que fazia hoje me seguindo?

— Chama-se Stinton. — Gabriel se sentou e cruzou as mãos sobre a mesa. Iria se manter tranquilo e racional, embora aquilo o chegasse a matar. Não perderia os estribos. — Eu o contratei para que a siga quando sair.

— O contratou para me seguir? — Os lábios de Phoebe se abriram da surpresa. — E não me disse nada?

— Não, senhora. Não via razão alguma para te alarmar.

— Por que não deveria me ter alarmado? Gabriel, o que está acontecendo?

Gabriel a examinou um momento, perguntando-se quanto devia lhe dizer. O problema era que ela agora conhecia a presença de Stinton. Não havia outro remédio que explicar o resto. Incomodaria até que o fizesse.

— Contratei-o para me assegurar que não tenha problemas com Baxter.

Phoebe o olhou aniquilada em silêncio. As mãos se apertaram sobre o pacote que sustentava sobre a saia.

— Com Neil? disse com uma voz que soava um pouco estrangulada.

— Acredito que é muito possível que Baxter tente contatar com você quando eu não esteja perto.

— Não compreendo, meu senhor.

Gabriel sentiu que estava perdendo a paciência.

— Não posso deixar de ver a razão de que isto seja óbvio, Phoebe. Baxter é um perigo para você porque me odeia. Já lhe disse isso. Só estou tomando medidas de precaução para me assegurar que ele não se aproxime de você.

— Tem medo de que eu acredite no que ele me diga, não é verdade? — O olhar de Phoebe de repente se tornou ardiloso. — Não confia em que eu creia na versão que você me deu sobre o que aconteceu nas ilhas.

— Não vou correr nenhum risco. — Gabriel ficou de repente de pé e foi até a mesa servir uma taça de conhaque. — Conheço Baxter muito bem. É um mentiroso consumado.

— Mas isso não quer dizer que eu creia em suas mentiras.

— Por que não? — Gabriel tomou um gole e de um golpe apoiou a taça sobre a mesa. — Uma vez já fez.

Phoebe ficou de pé, abraçando o pacote contra seu peito.

— Isso não é justo. Eu, então, era muito mais jovem. Não tinha a experiência do mundo que tenho agora.

Gabriel se aproximou ameaçador e se postou diante dela.

— Experiência do mundo? Crê que tem suficiente experiência do mundo para dirigir homens como Neil Baxter? É uma imprudente, inocente e impulsiva tola. Acredite em mim quando digo que você não é páreo para os Baxter deste mundo.

— Não fale assim, Gabriel.

— Falarei da forma que desejo.

— Não. Não quero que contrate homens que me sigam sem que eu saiba. É muito desagradável e não tolerarei. Se deseja que alguém cuide de mim, então deve falar sobre o assunto comigo antes.

— Parece certo isso?

Phoebe elevou com orgulho o queixo.

— Sim, é. Eu decidirei se desejo que alguém me siga. Mas devo dizer, já que você é o único que se preocupa com que Neil fale comigo, que não vejo razão de necessitar de Stinton.

— Então é ainda mais inocente do que pensava.

— Maldito seja, Gabriel. Sou perfeitamente capaz de cuidar de Neil.

Gabriel avançou um passo e com uma mão segurou o queixo de Phoebe.

— Você não sabe do que fala, senhora. Não conhece seu Lancelot de cabelos loiros como eu.

O rosto dela ruborizou.

— Ele não é meu Lancelot!

— Uma vez foi.

— Isso foi há três anos! — exclamou Phoebe. — Tudo mudou agora. Gabriel, deve acreditar, não corro perigo que Neil Baxter me seduza. Deve confiar em mim.

Gabriel viu o olhar desesperado e sentiu que sua resolução vacilava.

— Não é questão de confiança. É questão de cuidado.

— Isso não é verdade. É questão de confiança. Gabriel, tenho certeza que você ainda não me ama. Se não confiar em mim, então tampouco existe nada entre os dois.

Nada entre os dois. A raiva e a angústia se apoderaram dele, cravando-se em suas vísceras, lhe destroçando a alma. Gabriel lutou para manter o controle.

— Pelo contrário, senhora. Temos muito entre nós dois.

— Diga-me o que. — o desafiou.

— O casamento. — lhe disse com frieza. — Você é minha esposa. Fará o que digo e aceitará as precauções que eu considero prudentes. Isso é tudo o que se refere a este tema. Portanto, não deve tentar despistar Stinton.

Phoebe o olhou com fúria nos olhos.

— E se o faço?

— Se o fizer, não poderá sair de novo. Prenderei você em casa.

Phoebe o olhou embargada de uma profunda impressão. Havia raiva e algo mais em seus olhos. Gabriel pensou que a outra emoção poderia ser muito bem pena. Por um momento, ficou ali parada, abraçada a aquele pacote que carregava.

— Então, é verdade. — disse por fim, com a voz carregada de uma profunda tristeza. — Entre nós nem existe a confiança nem o respeito. Não temos nada.

— Maldição, Phoebe.

— Aqui está. É para você. — Entregou o pacote. Depois se virou e saiu da biblioteca.

— Phoebe, volte.

Phoebe não se voltou. Saiu sem dizer uma palavra.

Gabriel ficou olhando a porta fechada um momento. Depois, retornou a sua mesa e se sentou cansado na poltrona.

Tinha consciência de uma estranha sensação de insensibilidade em algum lugar de seu ser. Olhou o pacote que tinha diante de si e, depois, mecanicamente foi abrindo.

Quando terminou de rasgar o papel, ficou olhando o livro que era conhecido. Pareceu que era o primeiro presente que Phoebe lhe dava. Não, pensou, isso não era verdade. O primeiro presente foi ela mesma. Este era o segundo presente que o fazia.

Até a data não tinha lhe dado nada de importância.

 

À meia-noite, Phoebe ainda estava acordada. Vestida com uma bata, estava sentada em uma poltrona perto da janela e olhava a escuridão da noite. Antes, a abriu para que entrasse ar fresco. Isso a ajudava a pensar.

Fazia horas que pensava.

Ficou na sala todo o tempo e cada vez se sentia mais inquieta. Rapidamente chegou à conclusão que não servia nada entristecer-se. Aparentemente, não possuía temperamento para isso.

Imediatamente depois da cena da biblioteca, chorou bastante, mas, depois disso, se sentiu aborrecida. Quando se negou a ir jantar, quase esperava que Gabriel batesse à sua porta para lhe ordenar descer. Em lugar disso, seu marido enviou chá e torradas a sua sala. Como consequência, Phoebe agora tinha muito apetite.

Soube que Gabriel jantara em seu clube, mas fazia escassos minutos que retornou. Sabia que estava em sua sala. Ouviu-o se despedir de seu valete. Phoebe olhou ofegante a porta fechada que conectava os dois quartos. Sua intuição dizia que ele não a abriria esta noite. O orgulho daquele homem não permitiria.

Phoebe considerou seu próprio orgulho com supremo cuidado. Durante o dia, pareceu-lhe um grande obstáculo, mas agora não via tão importante.

Gabriel demonstrava ser um marido muito irritante, mas existiam circunstâncias que o mitigavam. À sua maneira, tentava protegê-la. As razões que ela tinha para não apreciar aquele amparo que lhe oferecia o enfureciam terrivelmente.

Era óbvio que ambos tinham muito a aprender.

Phoebe ficou em pé lentamente e foi até a porta. Colocou uma orelha contra o painel de madeira e escutou com cuidado. Não ouviu nada do outro lado. Gabriel provavelmente estaria na cama. Jamais lhe ocorreria pedir desculpas. Era incrivelmente teimoso nesse tipo de coisas.

Phoebe conteve a respiração, armou-se de valor e com cautela abriu a porta. Olhou ao redor e viu Gabriel sentado em uma poltrona. Estava vestido com sua bata e matinha um livro aberto em seu colo. Lia à luz da vela que estava aceso sobre um pequena mesa, a um lado da sala.

Gabriel levantou o olhar enquanto Phoebe caminhava lentamente para ele. Ao ver o rosto escurecido marcado de uma escura e preocupada intensidade, sentiu que um calafrio lhe percorria o corpo. Phoebe cruzou de braços e deslizou as mãos nas mangas de sua bata; parou uns passos dele e com suavidade esclareceu sua voz.

— Boa noite, meu senhor. — disse amável.

— Boa noite, senhora. Pensei que estava dormindo.

— Sim, bom, não podia dormir.

— Estou vendo. — Um raio de satisfação cruzou seus olhos — Veio se desculpar por sua impaciência e pelas horas de mau humor?

— Não, é claro que não. Tenho todo direito de estar de mau humor e de ser impaciente. — aproximou-se outro passo e olhou o livro que tinha nas mãos. O coração se quebrou quando viu de qual livro se tratava — Vejo que está lendo “Morte d’Arthur”, de Malory.

— Sim. Estou muito agradecido de voltar ao tê-lo comigo. — Gabriel esboçou um leve sorriso. — Não acredito que tenha agradecido isso como corresponde.

— Não é necessário. — sentiu-se adulada que tivesse gostado do presente. — Estou contente por tê-lo encontrado.

Os olhos de Gabriel não titubearam.

— Tenha a certeza de que saberei recompensar o favor.

— Estamos quites. — disse ela. — Depois de tudo, de alguma forma foi por você que eu tenho “A dama da torre”, não?

— Poderia se ver desse ponto de vista. — Gabriel continuou olhando-a com intensidade. — Por que não podia dormir?

Phoebe sentiu que se ruborizava ante aquele olhar ardente. Agradeceu estar na parte escura da sala.

— Estava pensando.

— É certo isso? Foi interessante o exercício?

— Não tem por que ser tão sarcástico, meu senhor. Falo sério. Pensei em nosso casamento.

O olhar de Gabriel era inexpugnável.

— Talvez se perguntando se não foi um erro? É um pouco tarde para esse lamento, senhora.

— Difícil futuro? Sim, conheço-o, obrigado. Isso é do que queria falar.

Gabriel duvidou como se aquela não fosse a resposta que tinha estado esperando.

— Então de que desejas falar?

— Do futuro, meu senhor.

— O que há sobre o futuro?

— Sei que não acredita nas emoções do amor, Gabriel.

— Não conheci ninguém a quem tal emoção não tenha causado mais que problemas.

Phoebe, de repente, achou que a tensão era intolerável. Para rompê-la, começou a mover-se, sem rumo algum por toda a sala. Parou diante da lareira e olhou o formoso relógio que estava sobre o suporte.

— Sim, bom, o certo, Gabriel, é que eu não tenho medo de tais emoções.

A boca dele torceu com gesto irônico.

— Sou consciente disso.

— Pensei nas diferenças que existem entre nós dois com respeito a esse assunto. — persistiu ela. — A princípio cheguei à conclusão que sua falta de vontade para acreditar no amor provinha do fato de minha irmã ter mudado de ideia depois de fugir com você. Sei que deve ter se sentido mal.

— Recuperei-me logo daquele golpe. — disse com frieza Gabriel. — A recuperação financeira e a ferida de bala que seu irmão deixou em meu ombro de alguma forma demoraram muito a se recuperar. Entretanto devo admitir que o incidente me ensinou uma lição sobre os perigos de permitir ser dominados pelas emoções.

— Mas esse não foi o único incidente que lhe ensinou a lição, não é mesmo? — perguntou com delicadeza Phoebe.

— Do que está falando agora?

Phoebe se aproximou da penteadeira e ficou ali parada olhando as nécessaires masculinas que se amontoavam. Tomou uma pequena caixa laqueada que estava esculpida em prata.

— Acredito que você aprendeu essa lição nos primeiros anos de sua vida. Você e eu fomos educados em diferentes circunstâncias, não é assim, Gabriel?

— Acredito que é uma boa hipótese. — disse ele. — Seu pai tem um título que se remonta a gerações, além de uma enorme fortuna. O dinheiro e o poder fazem uma grande diferença.

— Não é a isso que me refiro. Refiro-me ao fato que minha família está muito unida. É verdade que fui tratada como um bebê durante toda minha vida. Minha família sempre me protegeu em excesso e, de algum jeito, não me compreendem. Mas sempre me amaram. E eu sempre soube. Você não teve essa vantagem.

Gabriel ficou rígido.

— Que trata de me dizer, Phoebe?

Ela se voltou para olhá-lo.

— Sua mãe morreu quando era pequeno. Só teve seu pai, e ele, acredito, preferiu a companhia dos livros. Não foi assim?

— Meu pai foi um estudioso. — Gabriel fechou o livro que tinha sobre seu colo. — Era natural que se dedicasse a seus livros.

— Não acredito que isso fosse tão natural. — lhe replicou Phoebe. — Acredito que deveria ter se dedicado a você. Ou, pelo menos, deveria brindar a você o mesmo grau de atenção que a seus livros.

— Phoebe, esta é uma discussão sem sentido. Você não tem ideia do que está falando. Acredito que o melhor é que vá dormir.

— Não me rechace, Gabriel. — Phoebe colocou em seu lugar a caixa que tinha nas mãos. Cruzou a sala para onde Gabriel estava sentado e parou diretamente diante dele. — Por favor.

Gabriel sorriu irônico.

— Não a rechaço. Mando você à cama. Não há necessidade de dramatizar a situação, minha querida.

— Estive pensando nisto toda a noite e estou convencida de que a razão pela que sente tanto medo do amor é porque você não confia nele. E a razão que não confia nele é porque muitas pessoas às que você amava o abandonaram.

— Phoebe, isto é uma solene tolice.

— Não, me escute. Tem sentido e explica muito a razão. — ajoelhou-se a seu lado e pôs a mão sobre sua coxa. — Sua mãe o amava, mas morreu. Seu pai supunha que o amava, mas o ignorava. Pensou que minha irmã o amava porque desejava fugir com você, mas ela só procurava escapar de um problema. Não é de surpreender que se sentisse abandonado.

As sobrancelhas de Gabriel se arquearam.

— É nisto que esteve pensando toda a noite?

— Sim.

— Lamento dizer que esbanjou seu tempo, querida. Faria melhor em descer para jantar. Não tenho dúvidas de que a estas alturas estará morta de fome.

Phoebe o olhou fixamente.

— É um homem incrivelmente teimoso.

— Se com isso quer dizer que não vou sofrer por essa lógica feminina, então, sim, acredito que sou.

Phoebe se sentiu embargada pela raiva. De um salto ficou de pé.

— Sabe o que acredito? Acredito que, além de teimoso, é também um covarde.

— Esta não é a primeira vez que me chama de covarde. — disse com suavidade Gabriel. — É afortunada que não me ofenda muito frequentemente. Alguns homens poderiam sentir-se irritados por tal comentário. Em especial, vindo de uma esposa.

— Você acha? Bom, então me deixe te dizer algo, Gabriel. É afortunado que eu seja tão teimosa como você. Inclusive acredito muito firmemente que você me ama. Acredito que tem medo de admitir e sei que a razão é porque é um covarde.

— É óbvio que tem direito a ter sua opinião.

— Maldição, Gabriel. — Phoebe golpeou o chão com um pé em gesto de frustração. — Às vezes é impossível. — voltou-se e rápida caminhou para sua sala.

A salvo, do outro lado, deu uma portada e começou a andar pelo quarto. Maldito homem. Ele a enlouqueceria com aquela atitude de recusar a render-se ante suas emoções. Ela sabia que Gabriel não era imune às emoções, negava-se a acreditar que se equivocara com ele.

A noção de ter se enganado com Gabriel em todos estes anos era muito desconcertante só de imaginar. Estava casada com aquele homem. Seu futuro inexoravelmente estava ligado a ele. Devia encontrar a forma de despertar o cavalheiro nobre e idealista que ela sabia que existia debaixo daquela superfície de cinismo.

Enfurecer-se com ele ou chamá-lo covarde à cara não era talvez uma forma prometedora de levar a cabo a tarefa.

Um objeto entrou voando pela janela aberta sem fazer ruído. Phoebe não se deu conta que algo tinha sido jogado a seu quarto da rua, até que ouviu um ruído surdo sobre a cama.

Assombrada, virou-se e ficou olhando as sombras da sala. O que quer que fosse, parou à beira do colchão. Por um momento, não viu nada. Com sinceridade, esperava que não fosse um morcego.

Imediatamente, se produziu um som suave e afogado. Sem advertência alguma, umas chamas alaranjadas se levantaram no lugar. Estas ardiam de forma silenciosa quando começaram a avançar vorazmente sobre o renda que bordeava a colcha.

Em poucos minutos, o fogo envolvia a cama inteira.

Phoebe se livrou da paralisia que tomou conta dela e correu pela sala e tomou uma jarra que estava ao lado da bacia.

— Gabriel. — gritou enquanto jogava água às chamas.

A porta se abriu de repente.

— Que demônios…? — Gabriel viu o que acontecia — Cristo. Toma a jarra de minha sala e depois acorda o pessoal. Rápido, Phoebe.

Phoebe correu a sua antecâmara, tomou a jarra e voltou correndo. Gabriel já tirava o cobertor da cama. Estava apagando as chamas as envolvendo naquele tecido grosso.

Phoebe entregou a jarra de água e saiu correndo para despertar o pessoal.

O dano foi mínimo. A fúria de Gabriel não.

Uma hora depois que o fogo foi controlado e o pessoal retornasse a seus quartos, ele ainda se sentia cheio de raiva pelo que poderia ser um desastre. Com uma taça de conhaque na mão, estava comodamente sentado em uma poltrona enquanto Phoebe o olhava preocupada. Ela estava sentada sobre sua cama, com os pés escondidos debaixo da bata. Tinha uma expressão pensativa no rosto enquanto bebia o que lhe serviu.

Esta vez também quase a perdeu. Aquela realidade fazia a alma de Gabriel se sobressaltar de medo.

Tudo o que pôde pensar naquele momento foi que esteve perto de uma catástrofe. Se Phoebe estivesse dormindo, talvez ele não despertasse a tempo para salvá-la. Talvez não cheirasse a fumaça de seu próprio quarto até que fosse muito tarde.

Graças a Deus que ela estava acordada.

— Não a deixarei longe de minha vista novamente. — disse Gabriel, contendo a respiração. Com isto bebeu o que ficava de sua taça.

— O que foi isso, Gabriel? — Phoebe o olhou.

— Deve ser a criada louca que a levou às catacumbas do castelo.

— Alice?

Gabriel girou a taça entre suas mãos.

— Essa louca deve ter nos seguido a Londres. Por alguma razão deseja atemorizá-la. Talvez fazer algum dano. Não tem sentido.

— A loucura nenhuma vez tem sentido. Se tivesse, não a chamaríamos loucura.

— Mas por que concentrou toda sua loucura em você? Nem conhece essa mulher.

— A pessoa que jogou o fogo pela janela talvez seja Alice. — disse Phoebe lentamente. — Poderia ser outro. Talvez alguma banda de delinquentes que anda pela cidade, procurando problemas. Você sabe como é quando o povo está entusiasmado. Jogam pedras pelas janelas, incendeiam e fazem todo tipo de desmandos.

— Pelo amor de Deus, Phoebe, não havia nenhum grupo de delinquentes debaixo de sua janela. Nem ouvimos nada.

— Isso é verdade. — admitiu ela. — Reflexivamente mordeu o lábio inferior. Estive pensando em algo.

— No que? — Gabriel ficou de pé e começou a caminhar impaciente para a janela. Examinou a rua com a esperança de ver alguém ou algo que pudesse dar uma pista.

— Este assunto do fogo desta noite.

— O que há?

— Bom… — disse lentamente Phoebe. — Tem uma assombrosa semelhança com o incidente do qual eu escapei das catacumbas nadando através da caverna.

Gabriel olhou de mau humor por cima do ombro.

— De que forma?

— Não vê? É outra das maldições que se encontram no final da ”A dama da torre”.

— Maldição. Isso é impossível. Não desejo fazer prevalecer algo sobrenatural sobre todo o resto. Maldição, Phoebe, eu sequer utilizo elementos sobrenaturais em meus livros.

— Sim, sei. Mas lembra o que diz o registro? — Phoebe saltou da cama e desapareceu em sua sala. Um momento depois retornou com “A dama da torre”.

— Phoebe, isto é ridículo.

— Escute isso. Phoebe voltou a se acomodar sobre a cama e abriu o velho livro na última página. “Que caia uma maldição sobre aquele que roube este livro. Que seja devorado pelas ondas do oceano. Que seja consumido pelas chamas do fogo. Que viva a noite eterna do inferno.”

— Que o diabo o leve, Phoebe. Isso é uma tolice. — Gabriel fez uma pausa. — A menos, é obvio, que Alice conheça a maldição e em sua loucura esteja tentando fazê-la realidade.

— Como poderia conhecê-la?

Phoebe fechou o livro com cuidado.

— “A dama da torre” esteve em meu poder quando eu retornei a Inglaterra. É possível que alguém de meu pessoal tomou a liberdade de revisar o conteúdo de minha biblioteca. Ele ou ela talvez poderiam ter falado com Alice.

As sobrancelhas de Phoebe se juntaram.

— Até se assim fosse, a maldição está escrita em francês antigo. Que possibilidades existem que um membro da servidão pudesse lê-lo?

— Boa pergunta. — Gabriel examinou novamente a rua escura. — E quem raios é Alice?

— Não sei, Gabriel. Já quebrei a cabeça e estou absolutamente certa que não a conheço.

— Não trabalhava na casa de seus pais?

— Não.

— Deve fazer uma conexão.

— Gabriel?

— Sim? — Ele não se voltou; sua mente girava com conjecturas e possibilidades. Uma conexão. Devia existir uma relação entre o livro, Alice e os incidentes.

— Duvidei em mencionar isto porque sei que sua opinião sobre Neil está muito condicionada, mas…

Um calafrio percorreu o corpo de Gabriel. Voltou-se bruscamente e avançou para a cama.

— O que tem a ver Baxter com tudo isto?

— Nada. — Phoebe se ergueu alarmada quando chegou até a cama. — Pelo menos, não acredito que tenha nada a ver. Não, estou certa de que não.

— Mas?

Phoebe tragou saliva.

— Mas ele me disse aquela noite em que dançamos juntos que desejava ter “A dama da torre”. Disse que por direito era dele e que, como representava tudo o que alguma vez teve de mim, pelo menos, eu deveria entregar o livro a ele

— Deus amaldiçoe sua m