Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A JANGADA / Júlio Verne
A JANGADA / Júlio Verne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A JANGADA  

 

 

                                     Um capitão-do-mato

         O homem que segurava o documento, cujo último parágrafo era formado por essa estranha mistura de letras, ficou pensativo por alguns instantes depois de relê-lo atentamente.

         O documento possuía uma centena dessas linhas, que não eram nem mesmo divididas por palavras. Parecia ter sido escrito há muitos anos e, na folha de papel grosso coberta pelos hieróglifos, o tempo já depositara sua pátina amarelada.

          Porém, de acordo com que regra as letras haviam sido reunidas? Aquele homem era o único que poderia dizê-lo. Na verdade, as linguagens cifradas são como as fechaduras dos cofres-fortes modernos: elas são protegidas da mesma maneira. Há bilhões de combinações possíveis e toda a vida de um calculador não seria suficiente para enumerá-las. Precisamos da "senha" para abrir um cofre de segurança; precisamos da "cifra" para ler um criptograma desse tipo. Por isso, é o que veremos, o documento resistira às tentativas mais engenhosas de decifrá-lo e nas circunstancias da mais alta gravidade.

         O homem que acabara de reler o documento não passava de um simples capitão-do-mato.

         No Brasil, recebiam a denominação de "capitães-do-mato" os agentes empregados na busca dos negros fugitivos. Essa instituição data de 1722. Naquela época, as idéias antiescravagistas só existiam no espírito de alguns filantropos. Foi preciso que se passasse mais de um século para que os povos civilizados aceitassem e adotassem essas idéias. No entanto, é o que parece, isso é um direito, o primeiro dos direitos naturais do homem- que e ser livre, dono de si mesmo e, todavia, milhares de anos transcorreram antes que surgisse em algumas nações o generoso pensamento de ousar proclamá-lo.

         Em 1852 — ano em que se passa esta história — ainda havia escravos no Brasil e, conseqüentemente, capitães-do-mato para caçá-los. Algumas razões de economia política retardaram o momento da emancipação geral; mas o negro já tinha o direito de comprar sua alforria e os filhos que dele nasciam já nasciam livres. Contudo, não estava longe o dia em que esse magnífico país, no qual poderiam caber três quartos da Europa, não teria um único escravo entre seus dez milhões de habitantes.

         Na realidade, a função de capitão-do-mato estava destinada a desaparecer num período muito próximo e, na época desta história, os ganhos conseguidos com a captura dos fugitivos haviam diminuído sensivelmente. Ora, se durante o longo período em que os lucros dessa profissão eram bem compensadores, os capitães-do-mato constituíam um mundo de aventureiros, mais comumente formado de escravos libertos   e desertores que mereciam pouca estima, é natural que, naquele momento, os caçadores de escravos pertencessem à escória da sociedade e, muito provavelmente, o homem do documento não denegria a pouco recomendável milícia dos capitães-do-mato.

         Esse Torres — assim ele se chamava — não era um mestiço, nem um índio, nem um negro, como a maioria dos seus companheiros: era um branco de origem brasileira, que recebera um pouco mais de instrução do que o necessário para a sua situação presente. Efetivamente, devemos vê-lo apenas como um desses desclassificados, igual a tantos outros encontrados nas longínquas regiões do Novo Mundo, e se, numa época em que a lei brasileira ainda excluía os mulatos e outros mestiços de alguns empregos, essa exclusão o atingira, não havia sido por causa da sua origem e sim devido à indignidade pessoal.

         Aliás, Torres já não estava no Brasil. Recentemente atravessara a fronteira e havia alguns dias percorria as florestas do Peru, por onde avançava o curso do Alto Amazonas.

         Torres era um homem de uns trinta anos, físico bem constituído, sobre o qual a fadiga de uma vida um tanto problemática não parecia ter efeito, graças a um temperamento excepcional e a uma saúde de ferro. 1

         De estatura média, ombros largos, traços regulares, andar firme, rosto bronzeado pelo clima ardente dos trópicos, usava uma espessa barba preta. Os olhos, perdidos sob uma grossa sobrancelha, lançavam esse olhar vivo, mas seco, das naturezas impudentes. Mesmo na época em que o clima ainda não o havia bronzeado, seu rosto, em vez de enrubescer facilmente, devia antes se contrair sob a influência das paixões condenáveis.

         Torres trajava-se de acordo com a moda rudimentar dos caçadores. Suas roupas davam mostras de um uso prolongado: na cabeça, usava um chapéu de couro de abas largas, colocado de través; da cintura para baixo, uma calça de lã grossa que se perdia no cano das pesadas botas, a parte mais resistente do vestuário; por cima de tudo, um "poncho" desbotado, amarelado, não deixava ver como era o casaco nem o que restava do colete que lhe cobriam o peito.

          Mas se Torres era um capitão-do-mato, evidentemente já não exercia essa profissão, pelo menos nas condições atuais. Isso se via nos insuficientes meios de defesa e ataque para a perseguição dos negros. Nenhuma arma de fogo: nem espingarda nem revólver. Na cintura, apenas um desses objetos que parecem mais um sabre do que uma faca de caça e que e chamado de "machete". Além disso, Torres estava munido de uma "enxada", usada particularmente na caça aos tatus e às cutias, que abundam nas florestas do Alto Amazonas, onde, geralmente, não há muito o que se temer dos animais selvagens.

         Em todo o caso, naquele dia, 4 de maio de 1852, o aventureiro devia estar totalmente absorvido na leitura do documento diante de seus olhos ou, então, acostumado a perambular pelos bosques da América do Sul, mostrava-se indiferente aos esplendores das florestas. De fato, nada poderia distraí-lo da sua ocupação: nem o berro prolongado dos macacos gritadores que, acertadamente, o senhor Saint-Hilaire comparou ao ruído da machadada do lenhador descendo sobre os galhos das árvores; nem o seco tilintar dos anéis do crótalo, serpente pouco agressiva, é verdade, mas altamente venenosa; nem a voz aguda do sapo-de-chifre, que leva o prêmio de feiúra na classe dos répteis; nem mesmo o coaxar ao mesmo tempo sonoro e grave da rã que muge, que, se não consegue ultrapassar o boi em Corpulência, iguala-o na intensidade dos mugidos.

         Torres não ouvia nada de todos esses alaridos, que formam a complexa voz das florestas do Novo Mundo. Deitado ao pé de uma árvore magnífica, nem ao menos admirava a alta ramagem do "pau-ferro", de casca escura, cheio de bagos, duro como o metal, o qual substitui na arma e nos objetos do índio selvagem. Não! Abstraído nos seus pensamentos, o capitão-do-mato virava e revirava entre os dedos o singular documento. Com a cifra, cujo segredo possuía, dava a cada letra o verdadeiro sentido; lia, dominava o sentido das linhas incompreensíveis para qualquer outro que não ele e, então, abria um sorriso maldoso.

         Depois, ele se deixou levar num murmúrio a meia-voz de algumas frases que ninguém poderia ouvir nesse lugar deserto da floresta peruana e que, aliás, ninguém compreenderia:

          — Sim — ele disse —, eis uma centena de linhas nitidamente escritas, que têm para alguém, que eu sei quem é, uma importância da qual nem desconfia! Esse alguém é rico! É uma questão de vida ou morte para ele e, em qualquer lugar, isso custa caro!

         E, olhando o documento com avidez:

         — Apenas um conto de réis para cada palavra da última frase, é uma boa quantia! Essa frase tem seu preço! Ela resume todo o documento! Dá os verdadeiros nomes às verdadeiras pessoas! Porém, antes que alguém tente compreendê-la, deveria começar por determinar o número de palavras que contém e, mesmo assim, o verdadeiro sentido ainda lhe escaparia!

         Dito isso, Torres começou a contar mentalmente.

         — Há cinqüenta e sete palavras — gritou —, o que soma cinqüenta e sete contos! Só com isso é possível viver no Brasil, na América, em qualquer lugar que se queira, e viver sem fazer nada! E o que seria, então, se todas as palavras do documento me fossem pagas a esse preço!

         — Seriam centenas de contos de réis! Ah! Mil diabos! Tenho aqui uma fortuna para receber ou serei o último dos idiotas!

         Parecia que as mãos de Torres, apalpando a enorme soma, já se fechavam sobre os pacotes de ouro.

         Bruscamente, seu pensamento tomou um novo curso.

         — Finalmente — ele gritou — atingi meu objetivo e não lamento o cansaço da viagem que me levou das margens do Atlântico ao curso do Alto Amazonas! Esse homem poderia ter deixado a América, poderia estar além dos mares e, aí, como eu poderia chegar até ele? Mas não! Ele está aqui, e, se eu subir no topo de uma dessas árvores, poderei ver o telhado da casa onde mora com toda a família!

         Em seguida, pegou o papel e agitou-o, febril:

         — Ainda hoje — disse — estarei diante dele! Ainda hoje saberá que sua honra e sua vida estão contidas nestas linhas! E quando quiser conhecer a cifra para poder lê-las, bom, terá de pagar por ela! Pagará, se eu quiser, com toda a sua fortuna, como também pagará com seu sangue! Ah! Mil diabos! O digno companheiro de milícia que me deu este documento precioso, que me deu o segredo, que me disse on de eu encontraria seu ex-colega e o nome sob o qual ele se esconde há tantos anos, esse digno companheiro nem suspeitava que fazia a minha fortuna!

         Torres olhou uma última vez para o papel amarelado e, depois de dobrá-lo com cuidado, guardou-o num estojo de cobre, que também lhe servia de porta-moedas.

         Na verdade, se toda a fortuna de Torres estava nesse estojo, do tamanho de um porta-charutos, em nenhum país do mundo ele passaria por rico. Ali havia um pouco de cada uma das moedas dos países vizinhos: dois condores de ouro dos Estados Unidos da Colômbia, cada um deles valendo em torno de dez pesos, bolívares venezuelanos que davam uma soma igual, soles peruanos que somavam o dobro, alguns escudos chilenos e outras moedas de baixo valor. Mas tudo isso não dava uma soma muito alta e, ainda por cima, Torres ficaria muito embaraçado para dizer onde e como a conseguira.

         A única certeza é que, alguns meses antes, depois de abandonar bruscamente o trabalho de capitão-do-mato que exercia na província do Pará, Torres havia subido a bacia amazônica e atravessara a fronteira para entrar em território peruano.

         Além do mais, para esse aventureiro, não seria preciso muito para viver. Quais as despesas necessárias? Nada para moradia, nada para roupas. A floresta dava-lhe o alimento que ele preparava sem gastos, à moda dos caçadores do mato. Bastavam-lhe alguns réis para o tabaco que comprava nas missões ou nos povoados, outro tanto para a aguardente do cantil. Com pouco, podia ir longe.

         Depois de acondicionar o papel no estojo de metal, cuja tampa fechava hermeticamente, em vez de guardá-lo de volta no bolso da japona coberta pelo poncho, achou melhor, por excesso de precaução, depositá-lo ao seu lado, no vão da raiz de uma árvore, em cujo pé estava deitado.

         Uma imprudência que lhe custaria caro!

         Fazia muito calor. O tempo estava carregado. Se a igreja da aldeia mais próxima possuísse um relógio, teria soado as duas horas da tarde e, com o vento que transporta o som, Torres teria escutado, porque não estava a mais de duas milhas de distância.

         Mas, sem dúvida, a hora era-lhe indiferente. Habituado a guiar-se pela altura, mais ou menos calculada, do sol no horizonte, um aventureiro não saberia dar exatidão militar aos diferentes atos da vida. Ele almoça e janta quando lhe apraz ou quando pode. Dorme onde e quando é tomado pelo sono. Se nem sempre a mesa está posta, a cama está sempre feita ao pé de uma árvore, na maciez de uma moita em plena floresta. Torres não era muito exigente em questões de conforto. A propósito, havia andado uma grande parte da manhã, acabara de comer um pouco e, agora, sentia que precisava dormir. Duas ou três horas de repouso iriam deixá-lo em condições de retomar a caminhada. Então, deitou-se na relva o mais confortavelmente que pôde, esperando o sono chegar.

         No entanto, Torres não era dessas pessoas que dormem sem se preparar para essa operação com algumas preliminares. Ele tinha o hábito de, em primeiro lugar, tomar alguns goles de uma bebida forte, depois, fumava um cachimbo. A aguardente superexcita o cérebro e a fumaça do tabaco mistura-se à fumaça dos sonhos. Ao menos essa era a opinião dele.

         Torres começou, então, por levar aos lábios o cantil, que trazia ao seu lado. Ele continha uma bebida conhecida geralmente pelo nome de "chica" no Peru e, mais particularmente, pelo de "caisuma" no Alto Amazonas. Ela e produzida com uma rápida destilação da raiz de mandioca doce, provocando-se sua fermentação, e à qual o capitão-do-mato, um homem de paladar meio embotado, achava que devia acrescentar uma boa dose de tafiá.

         Depois de tomar alguns goles dessa bebida, Torres agitou o cantil e constatou, não sem pesar, que estava quase vazio.

         — A ser renovado! — disse, simplesmente.

         Em seguida, tirando um cachimbo curto feito de raiz, ele o encheu com o tabaco acre e inferior do Brasil, cujas folhas pertenciam à petúnia, levada para a França por Nicot, a quem devemos a vulgarização da mais produtiva e mais divulgada das solanáceas.

         O tabaco não tinha nada em comum com o scaferlati de alta qualidade produzido nas manufaturas francesas, mas Torres não era mais exigente nesse ponto do que em outros. Ele atritou o fuzil na pedra, pôs fogo num pouco dessa substância viscosa conhecida pelo nome de "isca de formiga", secretada por alguns himenópteros, e acendeu o cachimbo.

         Na segunda aspiração, seus olhos se fecharam, o cachimbo escapou-lhe dos dedos e adormeceu, ou melhor, caiu numa espécie de torpor que não era um sono de verdade.

          

                                     Assaltante e assaltado

          Torres dormia havia mais ou menos meia hora, quando um ruído se fez ouvir sob as árvores. Era um ruído de passos sorrateiros, como se alguém andasse descalço, tomando certas precauções para não ser ouvido. Ficar de sobreaviso contra qualquer aproximação suspeita teria sido o primeiro cuidado do aventureiro, se estivesse de olhos abertos naquele momento. Mas o barulho não fora suficiente para acordá-lo, e quem se aproximava pôde chegar perto dele, a dez passos da árvore, sem ser percebido.

         Não era um homem, era um "guariba".

         De todos os macacos de cauda preênsil encontrados nas florestas do Alto Amazonas, sagüis de formas graciosas, sajum de chifre, monos de pêlo cinza, micos que parecem usar uma máscara no rosto careteiro, o guariba é, incontestavelmente, o mais original. Sociável, menos selvagem, no que difere muito do "mucura", bravio e fétido, ele tende a se associar e, em geral, anda em grupos. Sua presença é assinalada de longe, por um concerto de vozes monótonas, que se parecem com as orações salmodiadas do clero. Porém, mesmo que a natureza não o tenha feito agressivo, não se pode atacá-lo sem precauções. De qualquer forma, como vamos  ver, um viajante adormecido não deixa de ficar exposto, quando um guariba o surpreende nessa situação, sem poder defender-se.

         Esse macaco, que também é conhecido no Brasil pelo nome de "barbado", é bem grande. A agilidade e o vigor dos seus membros fazem dele um animal robusto, apto tanto a lutar no chão quanto a saltar de galho em galho, no topo das gigantescas árvores das florestas.

         Mas o tal macaco avançava devagar, com prudência. Lançava olhares à direita e à esquerda, agitando rapidamente a cauda. Com esses representantes da raça dos símios, a natureza, que não se contentou em dar-lhes quatro mãos — tornando-os quadrúmanos —, mostrou-se mais generosa e, na verdade, eles têm cinco mãos, pois a extremidade de seu apêndice caudal possui uma perfeita capacidade de preensão.

         O guariba aproximou-se sem fazer barulho, segurando um sólido pedaço de pau que, manejado por seu braço forte, podia tornar-se uma arma temível. Ele devia ter percebido o homem deitado ao pé da árvore havia alguns minutos, mas a imobilidade do dorminhoco, sem dúvida, incitou-o a vê-lo mais de perto. Então, avançou, não sem alguma hesitação, e parou, enfim, a três passos do homem.

 

                                       Torres acendeu o cachimbo.

         O rosto barbudo esboçou uma careta que mostrava os dentes afiados, brancos como o marfim, e o bastão foi agitado de uma maneira pouco tranqüilizadora para o capitão-do-mato.

         Com certeza, a visão de Torres não inspirava ao guariba idéias amigáveis. Será que ele tinha razões particulares para não gostar da amostra da raça humana que o acaso lhe entregava sem defesa? Talvez! Sabemos que alguns animais guardam na memória os maus-tratos recebidos, e era possível que esse tivesse alguma raiva de reserva contra o caçador.

         Na verdade, sobretudo para os índios, o macaco era uma caça à qual se dava muito valor e, independentemente da espécie, eles o perseguiam com a determinação de um Nemrod, não somente pelo prazer de caçar, mas, também, pelo prazer de comê-lo.

         Seja como for, se o guariba não parecia disposto a, dessa vez, inverter os papéis, se não chegava ao ponto de esquecer que a natureza fizera dele um simples herbívoro que pensava em devorar o capitão-do-mato, ele parecia, ao menos, decidido a destruir um de seus inimigos naturais.

            Por isso, depois de olhá-lo por alguns instantes, o guariba começou a rodear a árvore. Andava lentamente, prendendo a respiração, aproximando-se mais e mais. Sua atitude era ameaçadora, sua cara, feroz. Não havia nada mais fácil do que matar, com um Só golpe, esse homem imóvel e, naquele momento, é certo que a vida de Torres estava por um fio.

         O guariba parou uma segunda vez bem perto da árvore, postou-se de lado de modo a ficar por cima da cabeça do homem adormecido e levantou o pedaço de pau para atingi-lo.

         Porem, se Torres havia sido imprudente ao depositar ao seu lado, no vão de uma raiz, o estojo com o documento e sua fortuna, essa imprudência salvou-lhe a vida.

         Um raio de sol, esgueirando-se por entre os galhos, atingiu o estojo e o metal polido        brilhou como um espelho. O macaco, com a frivolidade característica da espécie, imediatamente distraiu-se. Seu pensamento — se é que um animal pode ter pensamentos — tomou, na mesma hora, um outro rumo. Ele se abaixou, catou o estojo, recuou alguns passos e, levantando-o na altura dos olhos, olhou-o, não sem surpresa, fazendo-o cintilar. Provavelmente ficou ainda mais confuso ao ouvir ressoar as moedas de ouro contidas no estojo. A música en- cantou-o. Era como um chocalho nas mãos de uma criança. Em segui- da, levou-o à boca e seus dentes arranharam o metal, mas não tentaram cortá-lo.

         Sem dúvida, o guariba devia acreditar que encontrara um novo tipo de fruta, uma espécie enorme de amêndoa brilhante, com um caroço que se movia livremente na casca. Mas logo percebeu o engano e, mesmo assim não achou que essa fosse uma razão para livrar-se do estojo. Ao contrário, apertou-o mais na mão esquerda e largou o pedaço de pau que, ao cair, quebrou um galho seco.

         Torres acordou com o barulho e, com a presteza das pessoas sempre alertas que passam do sono para o estado de vigília sem transição, ficou imediatamente de pé.

         No mesmo instante, percebeu que tinha um problema. — Um guariba! — gritou.

 

                                Torres recomeçou a perseguição.

          Por isso, depois de olhá-lo por alguns instantes, o guariba começou a rodear a árvore. Andava lentamente, prendendo a respiração, aproximando-se mais e mais. Sua atitude era ameaçadora, sua cara, feroz. Não havia nada mais fácil do que matar, com um só golpe, esse homem imóvel e, naquele momento, é certo que a vida de Torres estava por um fio.

         O guariba parou uma segunda vez bem perto da árvore, postou-se de lado de modo a ficar por cima da cabeça do homem adormecido e levantou o pedaço de pau para atingi-lo.

         Porém, se Torres havia sido imprudente ao depositar ao seu lado, no vão de uma raiz, o estojo com o documento e sua fortuna, essa imprudência salvou-lhe a vida.

         Um raio de sol, esgueirando-se por entre os galhos, atingiu o estojo e o metal polido brilhou como um espelho. O macaco, com a frivolidade característica da espécie, imediatamente distraiu-se. Seu pensamento — se é que um animal pode ter pensamentos — tomou, na mesma hora, um outro rumo. Ele se abaixou, catou o estojo, recuou alguns passos e, levantando-o na altura dos olhos, olhou-o, não sem surpresa, fazendo-o cintilar. Provavelmente ficou ainda mais confuso ao ouvir ressoar as moedas de ouro contidas no estojo. A música encantou-o. Era como um chocalho nas mãos de uma criança. Em seguida, levou-o à boca e seus dentes arranharam o metal, mas não tentaram cortá-lo.

         Sem dúvida, o guariba devia acreditar que encontrara um novo tipo de fruta, uma espécie enorme de amêndoa brilhante, com um caroço que se movia livremente na casca. Mas logo percebeu o engano e, mesmo assim, não achou que essa fosse uma razão para livrar-se do estojo. Ao contrário, apertou-o mais na mão esquerda e largou o pedaço de pau que, ao cair, quebrou um galho seco.

         Torres acordou com o barulho e, com a presteza das pessoas sempre alertas que passam do sono para o estado de vigília sem transição, ficou imediatamente de pé.

         No mesmo instante, percebeu que tinha um problema.

         — Um guariba! — gritou.

         E pegando a machete que estava perto dele, pôs-se na defensiva.

         O macaco, assustado, recuou de imediato e, menos valente diante de um homem acordado do que de um homem adormecido, deu uma rápida cambalhota e esgueirou-se por entre as árvores.

         — Já não é sem tempo! — gritou Torres. — O patife ia me matar sem a menor cerimônia!

         De repente, entre as mãos do macaco que parará a uns vinte passos e o olhava fazendo caretas como se quisesse desafiá-lo, ele percebeu o precioso estojo.

         — Tratante! — gritou de novo. — Ele não me matou, mas fez pior! Roubou-me!

         O pensamento de que o estojo continha o seu dinheiro não foi o que o preocupou de início. Mas o que o fez pular foi a lembrança de que o estojo guardava o documento, cuja perda, irreparável, arrastaria com ela todas as suas esperanças.

         — Mil diabos! — gritou.

         E, dessa vez, custasse o que custasse, querendo pegar seu estojo de volta, Torres lançou-se atrás do guariba.

         Ele sabia muito bem que apanhar o ágil animal não seria fácil. No chão, ele fugiria muito rápido; nos galhos, Torres não o alcançaria. Só um tiro de fuzil com uma boa pontaria conseguiria pará-lo na corrida ou no trajeto aéreo; mas Torres não possuía nenhuma arma de fogo. O sabre e a enxada poderiam vencer o guariba, desde que conseguisse golpeá-lo.

         Logo ficou evidente que o macaco só poderia ser pego de surpresa. Daí a necessidade de Torres usar de artimanhas com o malicioso animal. Parar, esconder-se atrás de algum tronco de árvore, desaparecer embaixo de uma moita, incitar o guariba a parar, ou a voltar atrás, não havia outra coisa a tentar. E foi o que Torres fez, começando a perseguição nessas condições; porém, quando o capitão-do-mato desaparecia, o macaco esperava pacientemente que reaparecesse e, com essa manobra, Torres se cansava, sem resultado.

         — Guariba danado! — berrou em seguida. — Eu nunca vou conseguir e, desse jeito, ele vai levar-me de volta à fronteira brasileira! Se ao menos deixasse cair o estojo! Mas, não! O tinido das moedas de ouro o diverte! Ah! Ladrão! Se eu conseguir pegá-lo!...

         Torres recomeçou a perseguição e o macaco continuou escapulindo com mais rapidez!

         Passou-se uma hora nessas condições, sem nenhum resultado. Era natural que Torres insistisse. Como, sem o documento, conseguiria fazer dinheiro?

        A raiva tomou conta de Torres. Ele blasfemava, batia com o pé no chão, ameaçava o guariba. O impertinente animal respondia com um belo deboche que o deixava fora de si.

         E, então, Torres voltava a persegui-lo. Corria até perder o fôlego, embaraçando-se na relva alta, nos arbustos espinhosos, nos cipós entrelaçados, pelos quais o guariba passava como se fosse um saltador de obstáculos. Às vezes, grossas raízes ocultas sob a relva surgiam no seu caminho. Ele tropeçava e levantava-se novamente. Por fim, surpreendeu-se a gritar:

         — Acudam! Acudam! Ladrão! — como se alguém pudesse ouvi-lo.

         Em pouco tempo, no fim das forças, sem conseguir respirar, foi obrigado a parar.

         — Mil diabos! — disse. — Quando eu perseguia os negros fugitivos dentro do matagal, eles me davam menos trabalho! Mas vou pegar esse maldito macaco; vou sim! Vou atrás dele enquanto as pernas me agüentarem, e aí veremos!...

         O guariba ficara imóvel ao ver que o aventureiro deixara de persegui-lo. Também descansava, embora estivesse longe do estado de esgotamento que impedia Torres de fazer qualquer movimento.

         O animal permaneceu assim por uns dez minutos, roendo duas ou três raízes que acabara de arrancar à flor da terra e, de tempos em tempos, fazia tilintar o estojo na orelha.

         Exasperado, Torres jogava-lhe pedras, que o atingiam, mas sem lhe causar grandes danos, devido à distância.

         Era preciso tomar uma atitude. Por um lado, continuar a perseguir o macaco com tão pouca probabilidade de pegá-lo seria insensato; por outro, aceitar como definitiva essa objeção do acaso a todos os seus planos, ser não só vencido, mas frustrado e enganado por um animal idiota, era desesperador.

         No entanto, Torres tinha de reconhecer que quando a noite chegasse, o assaltante desapareceria facilmente e ele, o assaltado, ficaria atrapalhado até para encontrar o caminho de volta na espessa floresta. Na verdade, a perseguição levara-o a várias milhas das margens do rio, e ele já teria dificuldade para voltar.

         Torres hesitou, tratou de recapitular os pensamentos com sangue-frio e, depois de soltar uma última imprecação, já ia desistir totalmente da idéia de recuperar a posse do estojo, quando, contra sua própria vontade, pensou de novo no documento, em todo o futuro que projetara contando com o dinheiro, e disse a si mesmo que precisava fazer um último esforço.

         Então, levantou-se.

         O guariba também levantou-se.

         Ele deu alguns passos à frente.

         O macaco fez o mesmo para trás; porém, agora, em vez de se afundar na floresta, parou ao pé de um enorme fícus — árvore cujos exemplares variados são muito numerosos em toda a bacia do Alto Amazonas.

         Segurar no tronco com as quatro mãos, trepar com a agilidade de um acrobata, como faz o macaco, pendurar-se com a cauda preênsil nos primeiros galhos horizontais, quarenta pés acima do solo, depois içar-se ao topo da árvore até o ponto em que os últimos ramos se dobram com seu peso, foi apenas uma brincadeira para o ágil guariba e levou alguns poucos minutos.

         Ali, muito bem instalado, ele continuou a refeição interrompida colhendo os frutos que estavam ao alcance da sua mão. É fato que Torres também sentia necessidade de beber e de comer, mas era impossível! Seu embornal estava murcho, seu cantil, vazio!

         Entretanto, em vez de voltar, Torres caminhou na direção da árvore, embora a situação do macaco fosse ainda mais desfavorável para ele. Nem adiantava Torres pensar em trepar nos galhos do fícus, pois o ladrão logo trocaria essa árvore por outra.

         E o inalcançável estojo continuava a ressoar no seu ouvido!

 

Eram brasileiros.

          Por isso, na sua fúria, na sua loucura, Torres insultava o guariba. Dizer a série de palavras injuriosas com que gratificou o macaco seria impossível. Chegou a chamá-lo, não Só de mestiço, o que já era uma grave injúria na boca de um brasileiro de raça branca, como também de "curiboca", isto é, mestiço de branco com índio! Ora, de todos os insultos que um homem podia dirigir a outro, não havia nenhum mais cruel nessa latitude equatorial.

         Contudo, o macaco, que não passava de um quadrúmano, estava pouco ligando para o que teria revoltado um representante da espécie humana.

         Torres recomeçou a atirar-lhe pedras, pedaços de raízes, tudo o que pudesse servir de projétil. Será que esperava ferir gravemente o macaco? Não! Ele não sabia o que estava fazendo. Para dizer a verdade, a raiva pela sua impotência tirava-lhe todo o raciocínio. Talvez esperasse pelo momento em que, num movimento do guariba ao passar de um galho para o outro, o estojo lhe caísse das mãos, e até mesmo que, para pagar na mesma moeda ao agressor, ele se atrevesse a jogá-lo na sua cabeça! Mas, não! O macaco fazia questão de continuar com o estojo, e mesmo segurando-o com uma das mãos, ainda lhe restavam três para movimentar-se.

         Torres, desesperado, ia abandonar definitivamente a partida e voltar para o Amazonas, quando um ruído de vozes se fez ouvir. Sim, um ruído de vozes humanas!

         Alguém falava a uns vinte passos do lugar onde o capitão-do-mato estava parado.

         O primeiro cuidado de Torres foi esconder-se num espesso arbusto. Como homem prudente que era, não queria mostrar-se sem saber, ao menos, quem iria encontrar.

         Com o coração palpitando, muito intrigado, ouvidos bem abertos, ficou esperando, quando, de repente, ecoou a detonação de uma arma de fogo.

         Seguiu-se um grito e o macaco, mortalmente atingido, caiu pesadamente ao solo, ainda segurando o estojo de Torres.

         — Com os diabos! — ele gritou. — Eis uma bala que veio a calhar!

         E, então, sem se preocupar em ser visto, saiu do arbusto no momento em que dois rapazes surgiam embaixo das árvores.

         Eram brasileiros, vestidos como caçadores, botas de couro, um leve chapéu de fibras de palmeira, um casaco, ou melhor, um jaquetão apertado por um cinto, mais cômodo do que o poncho nacional. Pelos seus traços, pelo tom de pele, podia-se reconhecer facilmente que eram de sangue português.

         Ambos estavam armados com longos fuzis de fabricação espanhola, que lembram um pouco as armas árabes, fuzis de longo alcance, de mira certeira, e que os assíduos freqüentadores das florestas do Alto Amazonas manejavam com êxito.

         O que acabara de acontecer era uma prova disso. A uma distância oblíqua de mais de oitenta passos, o quadrúmano havia sido atingido por uma bala bem na cabeça.

         Além disso, os dois rapazes levavam na cintura uma espécie de punhal, que tem o nome de "foca" no Brasil, e que os caçadores não hesitam em usar para atacar uma onça e outras feras que, embora não sejam muito temíveis, são bem numerosas nessas florestas.

         Evidentemente, Torres não tinha nada a temer desse encontro e continuou a correr na direção do corpo do macaco.

         E os rapazes, que avançavam na mesma direção e tinham um caminho menor a percorrer, com apenas alguns passos encontraram-se diante de Torres.

         Este já havia recuperado a presença de espírito.

         — Muito obrigado, senhores! — disse-lhes alegremente, levantando a aba do chapéu. — Ao matar o perverso animal, prestaram-me um grande serviço!

         Os caçadores olharam-se, não compreendendo por que recebiam os agradecimentos.

         Torres, em algumas palavras, deixou-os a par da situação.

         — Pensam ter matado um simples macaco — disse-lhes —, mas, na realidade, mataram um ladrão!

         — Se lhe fomos úteis — respondeu o mais moço dos dois —, foi, certamente, sem saber; mas não deixamos de ficar muito felizes por termos ajudado em alguma coisa.

          E, dando alguns passos para trás, inclinou-se sobre o guariba; em seguida, não sem esforço, retirou o estojo da mão ainda crispada.

         — Aqui está — disse ele —, sem dúvida, é isto que lhe pertence, senhor.

         — É isso mesmo — respondeu Torres, que pegou rapidamente o estojo e não pôde conter um suspiro de alívio.

         — A quem devo agradecer, senhores — disse —, pelo serviço que me foi prestado?

         Ao meu amigo, Manoel, médico-cirurgião assistente do exército brasileiro — respondeu o rapaz.

         — Se fui eu quem matou o macaco — observou Manoel —, ele me foi mostrado por você, meu caro Benito.

         — Nesse caso, senhores — replicou Torres —, é aos dois que devo o favor, tanto ao senhor Manoel quanto ao senhor... ?

         — Benito Garral — respondeu Manoel.

         O capitão-do-mato precisou de um grande autocontrole para não estremecer ao ouvir esse nome, principalmente quando o rapaz acrescentou cortesmente:

         — A fazenda do meu pai, Joam Garral, está apenas a três milhas2 daqui. Se for do seu agrado, senhor...

         — Torres — respondeu o aventureiro.

         — Se for do seu agrado ir até lá, senhor Torres, será hospitaleiramente recebido.

         — Não sei se posso — respondeu Torres, que, surpreso com o encontro totalmente inesperado, não conseguia tomar uma decisão. — Na verdade, temo não poder aceitar a sua oferta!... O incidente que acabei de relatar fez-me perder tempo!... Preciso voltar imediatamente para o Amazonas... pois que pretendo descer até o Pará...

         — Bom, senhor Torres — retomou Benito —, é provável que nos vejamos de novo durante o seu trajeto porque, antes de um mês, meu pai, com toda a nossa família, tomará o mesmo caminho que o senhor.

         — Ah! — disse Torres com vivacidade. — Seu pai pensa em atravessar a fronteira brasileira?...

         — Sim, para uma viagem de alguns meses — respondeu Benito. — Pelo menos é essa a decisão que esperamos que tome. Não é, Manoel?

         Manoel fez um sinal afirmativo com a cabeça.

         —      Bem, senhores — respondeu Torres —, é possível, de fato, que nos encontremos pelo caminho. Mas não posso, apesar de lamentá-lo, aceitar sua oferta, no momento. Todavia, sou duplamente agradecido.

         Dito isso, Torres saudou os rapazes, que lhe devolveram a saudação e retomaram o caminho da fazenda.

         Quanto a Torres, ficou olhando-os afastarem-se. Em seguida, quando os perdeu de vista:

         — Ah, ele vai atravessar a fronteira! — disse em voz baixa. — Então, que a atravesse, pois ficará, mais ainda, à minha mercê! Boa viagem, Joam Garral!

         E, pronunciadas essas palavras, o capitão-do-mato, dirigindo-se para o sul de modo a voltar para a margem esquerda do rio pelo caminho mais curto, desapareceu na espessa floresta.

          

                                           A família Garral 

         O povoado de Iquitos está localizado próximo à margem esquerda do Amazonas, mais ou menos no meridiano 74, na parte do rio que ainda recebe o nome de Maranon, e cujo leito separa o Peru da República do Equador, cinqüenta e cinco léguas a oeste da fronteira brasileira.

         Iquitos foi fundada por missionários, como todas as outras aglomerações de choupanas, vilas e povoados que encontramos na bacia do Amazonas. Até o décimo sétimo ano deste século, os índios Iquitos, que, por algum tempo, formaram a única população do lugar, foram retornando para o interior da província, bem longe do rio. Porém, um dia, as fontes de suas terras secaram devido a uma erupção vulcânica, e eles precisaram mudar-se para a margem esquerda do Maranon. A raça não demorou a ser alterada em conseqüência das alianças contraídas com os índios ribeirinhos, ticunas e omáguas, e Iquitos passou a ter uma população mesclada, à qual convém acrescentar alguns espanhóis e duas ou três famílias de mestiços.

        Umas quarenta choupanas, cujo telhado de palha as tornava dignas apenas do nome de palhoças, era todo o povoado, aliás, pitorescamente agrupado numa esplanada que dominava, a uns sessenta pés de altura, as margens do rio. Uma escada de troncos transversais levava até a parte de cima, mas por ficar totalmente oculta aos olhos do viajante, este não a subia, pois lhe faltava o distanciamento para enxergá-la. Uma vez no alto, a pessoa se deparava com uma cerca, pouco defensiva, de arbustos variados e plantas arborescentes amarradas com cordões de liana, que ultrapassavam aqui e acolá os topos das bananeiras e das palmeiras da espécie mais elegante.

         Naquela época — e, sem dúvida, a moda demoraria muito tempo para mudar-lhes a primitiva vestimenta — os índios de Iquitos andavam quase nus. Apenas os espanhóis e os mestiços, que desdenhavam seus conterrâneos indígenas, andavam vestidos com uma simples camisa, uma calça leve de 3algodão e um chapéu de palha na cabeça. Todos viviam miseravelmente nesse povoado, aliás, não tinham muita convivência uns com os outros e, se por acaso se reuniam, era somente quando o sino da missão os chamava para a choupana deteriorada que servia de igreja.

 

                                  Iquitos.

           Porém, se a vida era quase rudimentar, não Só no povoado de Iquitos como na maioria das vilas do Alto Amazonas, antes de se percorrer uma légua, descendo o rio, havia uma rica propriedade onde podiam ser encontrados todos os elementos para uma vida confortável.

         Era a fazenda de Joam Garral, para onde se dirigiram os dois rapazes depois do encontro com o capitão-do-mato.

         Ali, num cotovelo do rio, na confluência com o rio Nanay, de quinhentos pés de largura, muitos anos antes havia sido assentada a "fazenda", para usar a expressão do país, as terras regidas a meias, agora em plena prosperidade. Ao norte, a margem direita do Nanay passava por uma pequena milha, e numa igual distância, a leste, a fazenda beirava o grande rio. A oeste, pequenos cursos d'água, afluentes do Nanay, e algumas lagoas de medíocre extensão, separavam-na dos campos e das campinas, reservados para o pasto dos animais.

         Ali, Joam Garral, em 1826 — vinte e seis anos antes da época em que começa essa história — havia sido acolhido pelo proprietário da fazenda.

         O português, que se chamava Magalhães, tinha como única atividade explorar as florestas do país, e sua propriedade recentemente fundada não ocupava, então, mais do que meia milha da margem do rio.

         Nesse lugar, Magalhães, hospitaleiro como todos os portugueses das antigas famílias, vivia com a filha Yaquita que, depois da morte da mãe, assumira a direção da casa. Magalhães era um bom trabalhador, resistente ao cansaço, mas a instrução lhe fazia falta. Embora se mostrasse apto a dirigir os poucos escravos que possuía e uma dúzia de índios cujos serviços alugava, mostrava-se menos capaz para as diversas operações do seu comércio externo. Por isso, por falta de conhecimento, a propriedade de Iquitos não prosperava e as transações comerciais do negociante português eram um pouco confusas.

         Foi nessas circunstâncias que Joam Garral, então com vinte e dois anos, encontrou-se, um dia, diante de Magalhães. Ele conseguira chegar à região, mas no fim das forças e dos recursos. Magalhães encontrara-o semimorto, de fome e de cansaço, na floresta vizinha. Tinha um bom coração, o português. Não perguntou ao desconhecido de onde ele vinha, e sim do que precisava. A fisionomia nobre e altiva de Joam Garral, apesar do esgotamento, sensibilizara-o. Ajudou-o a ficar de pé e, inicialmente, ofereceu-lhe por alguns dias uma hospitalidade que duraria a vida inteira.

         Essa foi a situação que introduziu Joam Garral na fazenda de Iquitos.

         Brasileiro de nascença, Joam Garral não tinha família, nem fortuna. Os sofrimentos, disse ele, forçaram-no a exilar-se, abandonando qualquer idéia de regresso. Pediu permissão ao seu anfitrião para não explicar as adversidades passadas — adversidades tão graves quanto imerecidas. O que buscava, o que queria, era uma vida nova, uma vida de trabalho. Havia saído sem destino certo, pensando em fixar-se em alguma fazenda do interior. Era instruído, inteligente. Suas maneiras tinham aquele não sei o quê, anunciando um homem sincero, de alma pura e retilínea. Completamente cativado, Magalhães ofereceu-lhe ficar na fazenda, onde estava em condições de proporcionar o que faltava ao digno fazendeiro.

         Joam Garral aceitou sem hesitar. Sua intenção inicial era fazer parte de um "seringal", da exploração de borracha, onde um bom empregado ganhava, na época, cinco ou seis piastras por dia e havia a possibilidade de se tornar patrão, por menos que a sorte o favorecesse; porém, Magalhães o fez ver que, embora o pagamento fosse alto, Só se   encontrava trabalho nos seringais por ocasião da coleta, ou seja, somente durante alguns meses por ano, o que não podia constituir uma posição estável, tal como o rapaz devia querer.

         O português tinha razão. Joam Garral compreendeu e aceitou resolutamente o serviço da fazenda, decidido a consagrar-lhe todas as suas forças.

         Magalhães não se arrependeu da boa ação. Os negócios foram recuperados. O comércio de madeira que, pelo Amazonas, estendia-se até o Pará, com o impulso de Joam Garral não demorou a se expandir consideravelmente. A fazenda começou a crescer na mesma proporção e foi ampliada na margem esquerda do rio até a desembocadura do Nanay. Da casa fizeram uma admirável morada, com mais um andar e cercada de varanda, meio escondida sob belas árvores como mimosas, sicômoros, figueiras, bauhínias e paulínias, cujo tronco desaparecia sob uma rede de passifloras, de bromélias com flores escarlates e lianas caprichosas.

         Ao longe, atrás dos arbustos gigantes, sob os maciços de plantas arborescentes, ocultava-se o conjunto de construções onde moravam os empregados da fazenda, onde ficavam as dependências comuns, as cabanas dos negros, as malocas dos índios.

         Portanto, da margem do rio, guarnecida de juncos e de plantas aquáticas, Só se via a casa envolvida pela floresta.

         Uma vasta campina laboriosamente arroteada, e que acompanhava as lagoas, oferecia excelentes pastagens. Ali, os animais abundavam. Era uma nova fonte de altas rendas nas ricas terras onde um rebanho duplicava em quatro anos, dando dez por cento de lucro apenas com a venda da carne e das peles dos animais, abatidos para o próprio consumo dos criadores. Alguns "sítios" ou plantações de mandioca e de café foram assentados em partes da floresta onde as árvores haviam sido cortadas. Campos de cana-de-açúcar logo exigiram a construção de um moinho para esmagamento das hastes sacaríferas destinadas à fabricação do melaço, do tafiá e do rum. Em resumo, dez anos depois da chegada de Joam Garral à fazenda de Iquitos, o lugar tornara-se uma das mais ricas propriedades do Alto Amazonas. Graças à boa direção dada pelo jovem administrador aos trabalhos internos e aos negócios externos, a prosperidade aumentava dia a dia.

         O português não esperou muito tempo para demonstrar seu reconhecimento a Joam Garral. Para recompensá-lo de acordo com o que merecia, primeiro incluiu-o nos lucros da sua exploração; depois, quatro anos após a sua chegada, o português fez de Joam Garral um sócio com direitos iguais aos dele e as divisões passaram a ser feitas em partes iguais entre os dois.

         Mas ele pensava em dar mais ainda. Yaquita, sua filha, também soubera reconhecer no rapaz silencioso, delicado com os outros, duro consigo mesmo, verdadeiras qualidades de coração e de alma. Ela o amava; contudo, mesmo que por seu lado Joam não fosse insensível aos méritos e à beleza dessa moça tão corajosa, às vezes altiva, às vezes reservada, não parecia pensar em pedi-la em casamento.

         Um grave incidente apressou a solução.

         Um dia, ao orientar o corte de árvores, Magalhães foi mortalmente ferido na queda de uma delas. Levado de volta para a fazenda, quase sem movimento e sentindo que corria perigo de vida, fez se erguer Yaquita, que chorava ao seu lado, tomou-lhe a mão e colocou-a na de Joam Garral, fazendo-o jurar que a tomaria como esposa.

         — Você refez a minha fortuna — disse ele — e só morrerei tranqüilo se, com essa união, eu sentir o futuro da minha filha assegurado!

       — Posso ser um empregado devotado, um irmão, um protetor, sem ser esposo — respondeu, inicialmente Joam Garral. — Eu lhe devo tudo, Magalhães, nunca esquecerei disso e o preço que quer pagar por meus esforços ultrapassa o mérito!

         O velho insistiu. A morte não lhe permitia esperar, exigiu uma promessa, que lhe foi feita.

         Yaquita tinha vinte e dois anos na ocasião, Joam, vinte e seis. Ambos se amavam e casaram-se algumas horas antes da morte de Magalhães, que ainda teve forças para abençoar a união.

 

                                       O velho exigiu uma promessa.

         Foi em conseqüência dessas circunstâncias que, em 1830, Joam Garral tornou-se o novo fazendeiro de Iquitos, para extrema satisfação de todos aqueles que faziam parte do pessoal da fazenda.

            A prosperidade do lugar só poderia aumentar com as duas almas reunidas num único coração.

         Um ano depois do casamento, Yaquita deu um filho ao marido, e dois anos depois, uma filha. Benito e Minha, como netos do velho português, deviam ser dignos do avô, como filhos, dignos de Joam e Yaquita.

        

                Da margem Só se via a casa envolvida pela floresta.

         A menina tornou-se encantadora. Nunca saiu da fazenda. Criada naquele ambiente puro e saudável, no meio da bela natureza das regiões tropicais, a educação dada pela mãe, a instrução recebida do pai eram-lhe suficientes. O que teria para aprender a mais num convento de Manaus ou de Belém? Onde encontraria melhores exemplos de todas as virtudes pessoais? Sua mente e seu coração poderiam ser mais delicadamente formados longe da casa paterna? Se o destino não lhe reservasse suceder à mãe na administração da fazenda, ela estaria à altura de qualquer situação vindoura.

         Quanto a Benito, a coisa foi diferente. O pai quis, com razão, que recebesse uma educação tão sólida e tão completa como a que se dava nas grandes cidades do Brasil. O rico fazendeiro já não precisava negar nada ao filho. Benito possuía boas inclinações, mente aberta, viva inteligência, coração com qualidades iguais às do espírito. Com doze anos de idade foi enviado ao Pará, em Belém, e ali, sob a orientação de excelentes professores, encontrou os elementos de uma educação que, mais tarde, fariam dele um homem ímpar. Nada nas letras, nem nas ciências, nem nas artes, o deixava indiferente. Ele estudava como se a fortuna do pai não lhe permitisse ficar ocioso. Não era daqueles que acham que a riqueza dispensa o trabalho, e sim desses espíritos valorosos, determinados e íntegros, que acreditam que ninguém deve fugir dessa obrigação natural, se quiser ser digno de ser chamado de homem.

         Nos primeiros anos da estada em Belém, Benito conheceu Manoel Valdez. Esse rapaz, filho de um negociante do Pará, fazia seus estudos na mesma instituição que Benito. A semelhança de caracteres, de gostos, não tardou a uni-los numa estreita amizade e eles se tornaram companheiros inseparáveis.

         Manoel, nascido em 1832, era um ano mais velho do que Benito. Não tinha ninguém além da mãe, que vivia da modesta fortuna deixada pelo marido. Por isso, assim que terminou os primeiros estudos, Manoel seguiu o curso de medicina. Era apaixonado por essa nobre profissão e tinha intenção de entrar para o serviço militar, que o atraía.

         No momento em que o encontramos com o amigo Benito, Manoel Valdez já havia obtido a primeira graduação e viera usufruir alguns meses de licença na fazenda, onde costumava passar as férias. O rapaz, de boa aparência, fisionomia marcante, uma certa altivez natural que lhe caía bem, era um filho a mais que Joam e Yaquita tinham na casa. Mas se a qualidade de filho fazia dele um irmão de Benito, esse título lhe pareceu insuficiente em relação a Minha e, em breve, deveria ligar-se à jovem por um laço mais estreito do que aquele que une um irmão a uma irmã.

         No ano de 1852 — do qual quatro meses já haviam passado do início dessa história — Joam Garrai estava com quarenta e oito anos. Sob um clima devastador que consome rapidamente as pessoas, ele conseguira resistir, pela sua sobriedade, gostos austeros, vida honrada, toda dedicada ao trabalho, onde outros eram vencidos antes da hora. O cabelo, que usava curto, e a barba, que lhe cobria todo o rosto, já estavam grisalhos e davam-lhe o aspecto de um homem puritano. A honestidade proverbial dos negociantes e fazendeiros brasileiros estava desenhada na sua fisionomia, e a retidão era a característica que mais se destacava. Embora de temperamento calmo, percebia-se nele um fogo interior que a vontade sabia dominar. A limpidez do olhar indicava uma força vivaz, para a qual nunca apelava em vão, quando se tratava de um esforço pessoal.

         E, no entanto, nesse homem calmo, de sangue forte, que parecia ter sucesso em tudo na vida, notava-se um fundo de tristeza, que nem a ternura de Yaquita conseguira vencer.

         Por que esse homem justo, respeitado por todos, com todas as condições que garantem a felicidade, não era radiosamente expansivo? Por que só parecia feliz pelos outros, não por si mesmo? Devia-se atribuir esse estado de espírito a alguma dor secreta? Isso era motivo de constante preocupação para a sua mulher.

         Yaquita tinha então quarenta e quatro anos. Nesse país tropical, onde suas semelhantes já eram velhas aos trinta, ela também soubera resistir às debilitantes influências climáticas. Seus traços, um pouco envelhecidos, mas ainda bonitos, conservavam a altiva determinação do tipo português, no qual a nobreza do rosto se une naturalmente à dignidade da alma.

         Benito e Minha respondiam com uma afeição sem limites e a qualquer hora ao amor que os pais tinham por eles.

         Benito, então com vinte e um anos, vivo, corajoso, simpático, muito expansivo, contrastava nesse aspecto com o amigo Manoel, mais sério, mais pensativo. Era uma grande alegria para Benito, depois de todo um ano passado em Belém, tão longe da fazenda, regressar com o jovem amigo para a casa paterna; rever o pai, a mãe, a irmã; voltar, como caçador determinado que era, para as magníficas florestas do Alto Amazonas, da qual, por muitos anos ainda, o homem não conheceria todos os segredos.

         Minha, na época, estava com vinte anos. Era uma moça encantadora, morena com grandes olhos azuis, desses olhos que são a abertura da alma. De estatura média, bem-feita de corpo, uma graça exultante, ela lembrava o belo tipo físico de Yaquita. Um pouco mais séria do que o irmão, boa, caridosa, afável, era amada por todos. Sobre esse aspecto, podia-se interrogar sem receio os mais humildes servos da fazenda. Porém, não se devia perguntar ao amigo do irmão, Manoel Valdez, "o que achava dela"! Ele estava muito envolvido na questão e não responderia sem alguma parcialidade.

         O desenho da família Garral não ficaria completo e faltariam alguns traços, se não se falasse dos numerosos empregados da fazenda.

         No primeiro escalão, convém citar uma velha negra de sessenta anos, Cybele, livre por vontade do patrão, escrava pela afeição que sentia por ele e pela família, e que havia sido ama-de-leite de Yaquita. Ela era da família. Tratava com intimidade a filha e a mãe. Essa boa criatura passara toda a vida nesses campos, no meio dessas florestas, na margem do rio que demarcava o horizonte da fazenda. Viera para Iquitos ainda criança, na época em que ainda se fazia o tráfico de negros, nunca saíra desse povoado, ali se casara e, viúva muito cedo, tendo perdido o único filho, ficara a serviço dos Magalhães. Do Amazonas, Só conhecia o trecho que corria diante de seus olhos.

         Benito e Minha respondiam com uma afeição sem limites e a qualquer hora ao amor que os pais tinham por eles.

         Benito, então com vinte e um anos, vivo, corajoso, simpático, muito expansivo, contrastava nesse aspecto com o amigo Manoel, mais sério, mais pensativo. Era uma grande alegria para Benito, depois de todo um ano passado em Belém, tão longe da fazenda, regressar com o jovem amigo para a casa paterna; rever o pai, a mãe, a irmã; voltar, como caçador determinado que era, para as magníficas florestas do Alto Amazonas, da qual, por muitos anos ainda, o homem não conheceria todos os segredos.

         Minha, na época, estava com vinte anos. Era uma moça encantadora, morena com grandes olhos azuis, desses olhos que são a abertura da alma. De estatura média, bem-feita de corpo, uma graça exultante, ela lembrava o belo tipo físico de Yaquita. Um pouco mais séria do que o irmão, boa, caridosa, afável, era amada por todos. Sobre esse aspecto, podia-se interrogar sem receio os mais humildes servos da fazenda. Porém, não se devia perguntar ao amigo do irmão, Manoel Valdez, "o que achava dela"! Ele estava muito envolvido na questão e não responderia sem alguma parcialidade.

         O desenho da família Garral não ficaria completo e faltariam alguns traços, se não se falasse dos numerosos empregados da fazenda.

         No primeiro escalão, convém citar uma velha negra de sessenta anos, Cybele, livre por vontade do patrão, escrava pela afeição que sentia por ele e pela família, e que havia sido ama-de-leite de Yaquita. Ela era da família. Tratava com intimidade a filha e a mãe. Essa boa criatura passara toda a vida nesses campos, no meio dessas florestas, na margem do rio que demarcava o horizonte da fazenda. Viera para Iquitos ainda criança, na época em que ainda se fazia o tráfico de negros, nunca saíra desse povoado, ali se casara e, viúva muito cedo, tendo perdido o único filho, ficara a serviço dos Magalhães. Do Amazonas, Só conhecia o trecho que corria diante de seus olhos.

         Com ela, e mais especialmente ligada ao serviço de Minha, havia uma bonita e risonha mulata, da mesma idade da moça, e que lhe era totalmente devotada. Chamava-se Lina. Era uma dessas gentis criaturas, um pouco caprichosas, às quais permitimos uma grande familiaridade, mas que, em compensação, adoram as patroas. Cheia de vida, irrequieta, carinhosa, meiga, tudo lhe era permitido na casa.

        

                                     Minha, na época estava com vinte anos.

            Quanto aos outros serviçais, eles podiam ser divididos em dois tipos: os índios, em número de cem, que recebiam pagamento pelo trabalho na fazenda, e os negros, que somavam o dobro, e ainda não eram livres, mas cujos filhos não nasciam mais escravos. Joam Garral precedera nessa conduta ao governo brasileiro. Nesse país, aliás, mais do que em qualquer outro, os negros trazidos de Benguela, do Congo, da Costa do Ouro, sempre foram tratados com clemência e não seria ali, na fazenda de Iquitos, que se deveriam buscar os tristes exemplos de crueldade, tão freqüentes nas plantações estrangeiras.

        

                                                Hesitações 

         Manoel amava a irmã do amigo Benito, e a jovem correspondia à afeição. Ambos puderam fazer uma avaliação: eram verdadeiramente dignos um do outro.

         Quando teve certeza dos sentimentos que experimentava por Minha, Manoel abriu-se, primeiro, com Benito.

         — Amigo Manoel — respondeu imediatamente o rapaz entusiasmado —, está certo em querer desposar minha irmã! Deixe-me agir! Vou começar falando com minha mãe, e creio poder prometer-lhe que o consentimento dela não se fará esperar!

         Meia hora depois, estava feito. Benito não precisara contar nada à mãe: a boa Yaquita lera, antes deles, o coração dos dois jovens.

         Dez minutos depois, Benito estava diante de Minha. Temos de admitir que, com ela também, não precisou usar da sua eloqüência. Às primeiras palavras, a gentil criança apoiou a cabeça no ombro do irmão e esta confissão, "Como estou contente!", escapou do seu coração!

         A resposta praticamente precedeu à pergunta: ela era clara. Benito não perguntou mais nada.

         Quanto ao consentimento de Joam Garral, não podia haver dúvidas. Mas se Yaquita e os filhos não lhe falaram imediatamente sobre o projeto da união, foi porque com o assunto do casamento queriam tratar ao mesmo tempo de uma questão que poderia ser mais difícil de resolver: o lugar onde seria celebrado.

         Na verdade, onde seria realizado? Na modesta palhoça do povoado que servia de igreja? Por que não? Já que, ali, Joam e Yaquita haviam recebido a bênção nupcial do padre Passanha, que, então, era o vigário da paróquia de Iquitos. Naquela época, como atualmente, no Brasil, o ato civil era associado ao ato religioso, e os registros da missão eram suficientes para comprovar a regularidade de uma situação que nenhum oficial do registro civil havia sido encarregado de regularizar.

         Provavelmente, o desejo de Joam Garral seria que o casamento fosse realizado no povoado de Iquitos, numa grande cerimônia, com a presença de todo o pessoal da fazenda; porém, se esse era o seu pensamento, ia sofrer um vigoroso ataque a esse respeito.

         — Manoel — disse a jovem ao noivo —, se eu fosse consultada, não seria aqui e sim no Pará que nos casaríamos. A senhora Valdez está doente, não pode vir a Iquitos e eu não gostaria de tornar-me sua filha sem que ela me conhecesse, e sem conhecê-la. Minha mãe pensa como eu a respeito disso tudo. Portanto, vamos convencer meu pai a levar-nos a Belém, para perto daquela cuja casa em breve será a minha! Concorda conosco?

         À pergunta, Manoel respondeu apertando a mão de Minha. Era, para ele também, o mais caro desejo que a mãe assistisse à cerimônia do casamento. Benito aprovara o projeto sem reservas e Só faltava a decisão de Joam Garral.

         E, naquele dia, os dois jovens foram caçar na floresta para deixar Yaquita a sós com o marido.

        À tarde, estavam ambos na grande sala da casa.

         Joam Garral, que acabara de voltar para casa, estava recostado no divã de bambu finamente trançado, quando Yaquita, um pouco emocionada, veio colocar-se ao seu lado.

         Anunciar a Joam quais eram os sentimentos de Manoel por sua filha não era o que a preocupava. A felicidade de Minha Só podia estar garantida com esse casamento e Joam ficaria feliz em abrir os braços para o novo filho, cujas qualidades sérias conhecia e apreciava. Mas convencer o marido a sair da fazenda, Yaquita sentia que ia ser uma questão difícil.

         Na verdade, desde que Joam Garral, ainda jovem, chegara à região, nunca se ausentara, nem mesmo um único dia. Apesar de a visão do Amazonas, com suas águas suavemente levadas para o leste, ser um convite para que se acompanhasse o seu curso, apesar de Joam enviar todos os anos um comboio de madeira a Manaus, a Belém, ao litoral do Pará, apesar de ter visto Benito partir todos os anos depois das férias, para voltar aos estudos, parece que nunca lhe veio à cabeça o pensamento de acompanhá-lo.

         Os produtos da fazenda, os da floresta, bem como os da campina, o fazendeiro despachava-os sem sair de lá. Podia-se dizer que não queria ultrapassar, nem com o pensamento, nem com o olhar, o horizonte que delimitava o Éden onde se concentrava a sua vida.

         Conseqüentemente, se havia vinte e cinco anos que Joam Garral não atravessava a fronteira brasileira, a mulher e a filha também nunca haviam posto os pés em solo brasileiro. E, no entanto, não lhes faltava o desejo de conhecer um pouco desse belo país, do qual Benito lhes falava sempre! Duas ou três vezes Yaquita sondara o marido em relação a isso. Mas ela vira que a idéia de deixar a fazenda, mesmo que fosse por algumas semanas, redobrava a tristeza de sua fronte. Seus olhos enevoavam-se e, num tom de suave reprovação:

         — Por que deixar nossa casa? Não somos felizes aqui? — ele respondia.

         E Yaquita não ousava insistir diante desse homem, cuja bondade manifesta, cuja inalterável ternura a tornavam tão feliz.

         Dessa vez, no entanto, havia uma séria razão como argumento. O casamento de Minha era uma ocasião muito natural para levar a filha a Belém, onde iria morar com o marido.

         Lá, como ela veria, iria aprender a gostar da mãe de Manoel Valdez. Como Joam Garral poderia hesitar diante de um desejo tão legítimo? Como, por outro lado, não compreenderia o desejo dela de também conhecer aquela que ia ser a segunda mãe da sua criança, e como ele não sentiria o mesmo?

         Yaquita pegara a mão do marido, e com a voz carinhosa que fora toda a música da vida do rude trabalhador, disse:

         — Joam, quero falar-lhe de um projeto cuja realização desejamos ardentemente, e que também o deixará tão feliz quanto nós estamos, nossos filhos e eu.

         — Do que se trata, Yaquita? — perguntou Joam.

         — Manoel ama nossa filha e é amado por ela, e nessa união encontrarão a felicidade...

         Às primeiras palavras de Yaquita, Joam Garral levantou-se, sem poder controlar o brusco movimento. Em seguida, abaixou os olhos, parecendo querer evitar o olhar da mulher.

         — O que você tem, Joam? — ela perguntou.

         — Minha?... Casar-se?... — Joam murmurou.

         — Meu querido — retomou Yaquita, com o coração apertado —, tem alguma objeção a esse casamento? Você não percebeu, há muito tempo, os sentimentos de Manoel por nossa filha?

         — Percebi!... E há mais de um ano!...

         Em seguida, Joam voltou a sentar-se, sem completar o pensamento. Usando da sua força de vontade, conseguira dominar-se. A inexplicável sensação que tivera dissipara-se. Pouco a pouco, seus olhos voltaram a procurar os de Yaquita e ele ficou pensativo, olhando para ela.

         Yaquita tomou-lhe a mão.

        — Meu Joam — disse —, será que me enganei? Você não havia pensado que esse casamento se realizaria um dia e que ele traria para nossa filha todas as condições de felicidade?

         — Sim... — respondeu Joam — todas!... Certamente!... Entretanto, Yaquita, esse casamento... Esse casamento que está na cabeça de todos... Quando será celebrado?... Em breve?

         — Será feito na época que você escolher, Joam.

         — E será realizado aqui... Em Iquitos?

         Essa pergunta levaria Yaquita a tratar da segunda questão que lhe atormentava o coração. Entretanto, ela não o fez sem uma hesitação bem compreensível.

         — Joam — disse ela, depois de um instante de silêncio —, escute-me bem! A respeito da celebração desse casamento, tenho uma proposta a fazer que você deve aprovar, é o que espero. Duas ou três vezes, em vinte anos, propus que nos levasse, a minha filha e a mim, até as províncias do Baixo Amazonas e do Pará, que nunca visitamos. As obrigações com a fazenda, os trabalhos que reclamavam sua presença aqui não permitiram que satisfizesse nosso desejo. Ausentar-se, mesmo que por alguns dias, poderia prejudicar seus negócios. Mas eles prosperaram além de tudo o que sonhamos e, se a hora do repouso ainda não chegou, você poderia, ao menos, afastar-se por algumas semanas do trabalho!

         Joam Garral não respondeu; mas Yaquita sentiu a mão dele estremecer na sua, como se sofresse o choque de uma sensação dolorosa. Entretanto, um meio sorriso desenhou-se nos lábios do marido: era como um convite mudo para a mulher terminar o que tinha a dizer.

         — Joam — ela retomou —, essa é uma ocasião que não se apresentará mais em toda a nossa vida. Minha vai casar-se longe, ela vai deixar-nos! É a primeira tristeza que nossa filha causará, e meu coração fica apertado quando penso nessa separação tão próxima! É claro, eu ficaria feliz em poder acompanhá-la a Belém! Aliás, não lhe parece conveniente conhecermos a mãe do marido, aquela que vai substituir-me ao lado de Minha, aquela a quem vamos confiá-la? E devo acrescentar que Minha não deseja causar à senhora Valdez a tristeza de casar-se longe. Na época da nossa união, meu Joam, se sua mãe fosse viva, você não gostaria que pudesse assistir ao nosso casamento?

         Com as últimas palavras de Yaquita, Joam Garral fez um movimento involuntário.

         — Meu querido — voltou a falar Yaquita —, com Minha, com nossos dois filhos, Benito e Manoel, com você, ah, como eu gostaria de ver o nosso Brasil, de descer esse belo rio até o litoral, até as últimas províncias atravessadas por ele! Sinto que lá a separação seria menos cruel! De volta, em pensamento, eu poderia ver minha filha na casa onde é esperada pela segunda mãe! Eu não a buscarei no desconhecido! Acreditarei estar menos afastada dos atos da vida dela!

         Dessa vez, Joam estava com os olhos fixos na mulher e olhou-a longamente, sem nada responder ainda.

         — O que se passava com ele? Por que essa hesitação em satisfazer um pedido tão justo, em dizer o "sim" que daria um imenso prazer a toda a família? A obrigação com os negócios não era uma razão suficiente! Algumas semanas de ausência não os comprometeria em nada! Seu administrador, na verdade, poderia, sem prejuízo algum, substituí-lo na fazenda! E, mesmo assim, ele ainda hesitava!

         Yaquita segurou a mão do marido nas suas, e apertou-a mais ternamente.

         — Meu Joam — disse ela —, não é a um capricho que lhe peço para ceder. Não! Refleti muito tempo na proposta que acabei de fazer, e se você consentir será a realização do mais caro dos meus desejos. Nossos filhos sabem do pedido que lhe faço nesse momento. Minha, Benito e Manoel pedem a você que lhes dê a felicidade de nós dois os acompanharmos! E há mais, gostaríamos de celebrar o casamento em Belém e não em Iquitos. Seria bom para a nossa filha, para a adaptação dela, para a situação que deverá assumir em Belém, que chegasse com a família, pois parecerá menos estranha na cidade onde deverá passar a maior parte da sua vida!

         Joam Garral apoiou-se nos cotovelos. Por um instante escondeu o rosto nas mãos, como um homem que sente necessidade de recolher-se antes de responder. Evidentemente, havia nele uma hesitação contra a qual queria reagir, e até mesmo uma perturbação, que a mulher sentia, mas não podia explicar. Uma luta secreta ocorria sob a fronte pensativa. Yaquita, preocupada, chegou ao ponto de censurar a si mesma por haver tocado no assunto. De qualquer modo, acataria o que Joam decidisse. Se a viagem lhe custasse muito, ela faria calar os seus desejos; nunca mais falaria em deixar a fazenda; nunca perguntaria a razão dessa recusa inexplicável.

         Passaram-se alguns minutos. Joam Garral levantou-se. Foi até a porta, sem se voltar. Parecia lançar um último olhar sobre a bela natureza, sobre esse recanto do mundo onde conseguira encerrar toda a felicidade de sua vida, nos últimos vinte anos.

         Em seguida, voltou a passos lentos na direção da mulher. Sua fisionomia assumira outra expressão, a de um homem que meditara sobre uma decisão suprema, e cujas dúvidas haviam terminado.

          Joam Garral levantou-se.

         — Você tem razão! — disse com voz firme a Yaquita. — Essa viagem é necessária! Quando quer partir?

 

         — Ah! Joam, meu Joam! — exclamou Yaquita, entregue à alegria — Obrigada por mim!... Obrigada por eles!

         E lágrimas enternecidas vieram-lhe aos olhos, enquanto o marido a apertava ao peito.

         Nesse momento, vozes alegres foram ouvidas do lado de fora, na porta da casa.

         Logo depois, Manoel e Benito apareceram na soleira, quase ao mesmo tempo que Minha, que acabava de sair do quarto.

        — O pai de vocês consentiu, meus filhos! — gritou Yaquita. — Iremos todos a Belém!

         Joam Garral, com a fisionomia séria, sem pronunciar uma única palavra, recebeu o carinho do filho e os beijos da filha.

         — E em que data, meu pai — perguntou Benito —, quer que o casamento seja celebrado?

         — A data?... — respondeu Joam... A data?... Vamos ver!... Vamos marcá-la em Belém!

         — Como estou contente! Como estou contente! — repetia Minha, como no dia em que soubera do pedido de Manoel. — Vamos ver o Amazonas, em toda a sua glória, em todo o seu percurso através das províncias brasileiras! Ah, pai, obrigada!

         E a jovem entusiasmada, cuja imaginação já começava a voar, dirigiu-se ao irmão e a Manoel:

         — Vamos à biblioteca! — disse ela. — Vamos pegar todos os livros, todos os mapas que possam ajudar-nos a conhecer esta magnífica bacia! Não vamos viajar às cegas! Quero ver tudo e saber tudo sobre o rei dos rios da terra!

 

                           Os dois sentados na margem.

         — O Amazonas — O maior rio do mundo! — disse Benito no dia seguinte a Manoel Valdez.

         Naquele momento, os dois, sentados na margem, no limite meridional da fazenda, olhavam passar lentamente as moléculas líquidas que, partindo da enorme cadeia dos Andes, iam perder-se a oitocentas léguas dali no oceano Atlântico.

         — E é o rio que lança ao mar o maior volume de água! — respondeu Manoel.

         — Um volume tão grande — acrescentou Benito — que, a uma grande distância da sua foz, a água do mar ainda não é salgada e a oitenta léguas da costa ainda leva os navios à deriva!

         — Um rio com um curso longo que se estende por mais de trinta graus de latitude!

         — E numa bacia que, do sul ao norte, não tem menos do que vinte e cinco graus!

         — Uma bacia! — exclamou Benito. — Mas, o que é uma bacia senão a vasta planície através da qual corre o Amazonas, essa savana que se estende a perder de vista, sem uma colina para manter sua declividade, sem uma montanha para delimitar seu horizonte!

         —E por toda a extensão — continuou Manoel —, como os mil tentáculos de um polvo gigantesco, duzentos afluentes, vindos do norte e do sul, eles próprios alimentados por subafluentes sem conta, e perto dos quais os grandes rios da Europa não passam de simples riachos!

         —E um curso onde quinhentas e sessentas ilhas, sem contar as ilhotas, fixas ou à deriva, formam uma espécie de arquipélago e, sozinhas, fazem a riqueza de um reino!

         —E nas laterais, canais, lagunas, lagoas e lagos, como não encontramos em toda a Suíça, na Lombardia, na Escócia e no Canadá juntos!

         —Um rio que, engrossado por mil rios tributários, não joga no oceano Atlântico menos do que duzentos e cinqüenta milhões de metros cúbicos de água por hora!

         —Um rio cujo curso serve de fronteira para duas repúblicas e atravessa, majestosamente, o maior reino da América do Sul, como se, na verdade, fosse o próprio oceano Pacífico que, por um canal, se lançasse por inteiro no Atlântico!

         —E que foz! Um braço de mar no qual uma ilha, Marajó, tem um perímetro de mais de quinhentas léguas!

         —E o oceano Só consegue repelir suas águas, ao levantar, numa luta fenomenal, uma corrente violenta, uma "pororoca", perto da qual os refluxos, as ressacas e os macaréus dos outros rios não passam de pequenas marolas levantadas pela brisa!

        Um rio que três nomes mal conseguem designar e em cujo estuário os navios de alta tonelagem podem subir até cinco mil quilômetros sem sacrificar nada da carga!

         Um rio que, por si Só, ou por seus afluentes e subafluentes, abre uma via comercial e fluvial por todo o norte da América, passando  de Magdalena a Ortequaza, de Ortequaza a Caqueta, de Caqueta a Putumayo, de Putumayo ao Amazonas! Quatro mil milhas de rotas fluviais, que precisariam apenas de alguns canais para que a rede navegável fosse completa!

         — Enfim, o mais admirável e o mais amplo sistema hidrográfico do mundo!

         Os dois jovens falavam do incomparável rio com uma espécie de paixão! Eles eram filhos desse Amazonas, cujos afluentes, dignos dele, formavam caminhos "que andavam" através da Bolívia, do Peru, do Equador, de Nova Granada, da Venezuela e das quatro Guianas, inglesa, francesa, holandesa e brasileira!

         Quantos povos, quantas raças cujas origens se perdem em tempos longínquos! É claro, isso também acontece com os grandes rios do globo! Suas verdadeiras nascentes ainda não foram definidas pelas investigações. Vários países reclamam a honra de lhes dar origem! O Amazonas não poderia escapar dessa lei. O Peru, o Equador e a Colômbia disputaram por muito tempo a gloriosa paternidade.

         Entretanto, agora, parece que não há mais dúvidas de que o Amazonas nasce no Peru, no distrito de Huaraco, zona territorial submetida à autoridade de Tarma, e que sua origem é no lago Lauricocha, situado, aproximadamente, entre onze e doze graus de latitude sul.

         Aos que insistem em dizer que ele nasce na Bolívia, caindo pelas montanhas do Titicaca, caberia a obrigação de provar que o verdadeiro Amazonas é o Ucaiali, que se forma na junção do Paro e do Apurimac; mas, doravante, essa opinião deve ser rejeitada.

         Ao sair do lago Lauricocha, o rio nascente vai na direção nordeste num percurso de quinhentas e sessenta milhas, e Só se dirige, decididamente, para o leste depois de receber um importante afluente, o Pante. Ele se chama Maranon nos territórios colombiano e peruano, até a fronteira brasileira, ou melhor, Maranhão, porque Maranon é apenas o nome português afrancesado. Da fronteira do Brasil até Manaus, onde o magnífico rio Negro nele se perde, o nome muda para Solimaés ou Solimões, por causa do nome da tribo solimao, da qual ainda podemos encontrar alguns remanescentes nas províncias ribeirinhas. E, por fim, de Manaus até o mar, ele passa a ser o Amasenas ou rio das Amazonas, nome dado pelos espanhóis, descendentes do aventureiro Orellana, cujos relatos, duvidosos mas entusiasmados, nos fizeram pensar que existia uma tribo de mulheres guerreiras instalada no rio Nhamunda, um dos afluentes médios do grande rio.

         Desde o seu início já se pode prever que o Amazonas se transformará num magnífico curso d'água. Sem barragens nem obstáculos de qualquer tipo desde a nascente até o lugar em que seu curso, um pouco estreitado, corre entre duas diferentes, pitorescas e pequenas cadeias de montanhas. As quedas-d'água Só começam a interromper a corrente no ponto em que ele vira para o leste, enquanto atravessa a cadeia intermediária dos Andes. Ali existem alguns saltos, sem os quais ele certamente seria navegável desde a foz até a nascente. De qualquer modo, como observou Humboldt, ele é livre em cinco sextos do percurso.

         E, desde o começo, não faltam afluentes, eles próprios alimentados por um grande número de subafluentes. Temos o Chincipé, que vem do nordeste, à esquerda. À direita, o Chachapuyas, que vem do sudeste. À esquerda, o Marona e o Pastuea, e o Guallaga, à direita, que nele se perde, próximo à missão da Laguna. Pela esquerda ainda chegam o Chambyra e o Tigre, vindos do nordeste; pela direita, o Huallaga, que aí se lança a duas mil e oitocentas milhas do Atlântico e cujo curso os barcos ainda podem subir por mais de duzentas milhas para penetrar até o coração do Peru. Finalmente, à direita, perto da missão de San-Joachim-d'Omaguas, depois de passear majestosamente suas águas pelos pampas de Sacramento, surge o magnífico Ucaiali, no local onde termina a bacia superior do Amazonas, grande artéria engrossada por numerosos cursos d'água, derramados pelo lago Chucuito, no nordeste de Arica.

         Esses são os principais afluentes acima do povoado de Iquitos. Descendo, os tributários são tão grandes, que os leitos dos rios europeus certamente seriam estreitos para contê-los. E, desses afluentes, Joam Garral e sua família iam conhecer a desembocadura durante a descida do Amazonas.

         Às belezas desse rio sem rival, que rega o mais belo país do globo, mantendo-se quase constantemente alguns graus abaixo da linha 57   equatorial, convém acrescentar uma qualidade que nem o Nilo, nem o Mississipi, nem o Livingstone, antigo Congo-Zaire-Loualaba, possuem. É que, aparte o que possam dizer os viajantes evidentemente mal informados, o Amazonas corre através de toda uma parte salubre da América meridional. Sua bacia é constantemente varrida por ventos generosos do oeste. Não é um vale encaixado em altas montanhas que contém o seu curso, e sim uma grande planície que mede trezentos e cinqüenta léguas de norte a sul, intumescida apenas por algumas colinas e percorrida livremente pelas correntes atmosféricas.

         O professor Agassiz protesta, com razão, contra a pretensa insalubridade do clima de um país, sem dúvida, destinado a tornar-se o centro mais ativo de produção comercial. Segundo ele, "sente-se todo o tempo uma brisa leve e agradável que produz evaporação, graças à qual a temperatura cai e o solo não é indefinidamente aquecido. A constância dessa brisa refrescante torna o clima do rio das Amazonas agradável e até mesmo um dos mais deliciosos".

         O abade Durand, ex-missionário no Brasil, também constatou que, se a temperatura nunca fica abaixo de vinte e cinco graus centígrados, ela nunca sobe acima de trinta e três graus — o que dá uma média anual de vinte e oito graus a vinte e nove graus, com um desvio de oito graus, apenas.

         Depois de tais constatações, podemos afirmar que a bacia do Amazonas não tem nada dos calores tórridos das regiões da Ásia e da África atravessadas pelos mesmos paralelos.

         A vasta planície que lhe serve de vale é inteiramente varrida por generosas brisas enviadas do oceano Atlântico.

         Por isso, as províncias às quais o rio deu o nome têm um direito incontestável de se considerar as mais salubres de um país que já é um dos mais belos da terra.

         E que ninguém pense que o sistema hidrográfico do Amazonas não é conhecido!

         No século XVI, Orellana, tenente de um dos irmãos Pizarro, desceu o rio Negro, desembocou no grande rio em 1540, aventurou-se sem guia através dessas regiões e, após dezoito meses de navegação, da qual fez um maravilhoso relato, atingiu a sua foz.

          Em 1636 e 1637, o português Pedro Texeira subiu o Amazonas até o Napo, com uma flotilha de quarenta e sete pirogas.

         Em 1743, La Condamine, depois de medir o arco do meridiano ao Equador, separou-se dos companheiros, Bouguer e Godin des Odonais, seguiu pelo Chincipé, descendo-o até a confluência com o Maranon, atingiu a desembocadura do Napo em 31 de julho, a tempo de observar a emersão do primeiro satélite de Júpiter — o que permitiu a esse "Humboldt do século xvIII" estabelecer a longitude e a latitude exata desse ponto —, visitou os povoados das duas margens e, em 6 de setembro, chegou diante do forte do Pará. A longa viagem teve resultados consideráveis: não só o curso do Amazonas foi estabelecido de forma científica, mas também parecia quase certo que ele se comunicava com o Orenoco.

         Cinqüenta e cinco anos depois, Humboldt e Bonpland completaram o precioso trabalho de La Condamine levantando o mapa do Maranon até o rio Napo.

         É claro, depois dessa época, não mais cessaram as visitas ao próprio Amazonas e a todos os seus principais afluentes.

         Em 1827, Lister-Maw; em 1834 e 1835, o inglês Smyth; em 1844, o tenente francês que comandava o Boulonnaise; o brasileiro Valdez em 1840; o francês Paul Marcoy de 1848 a 1860; o por demais fantasioso pintor Briard em 1859; o professor Agassiz de 1865 a 1866; em 1867, o engenheiro brasileiro Franz Keller-Linzenger; e, finalmente, em 1879, o doutor Crevaux; todos eles exploraram o curso do rio, subiram por vários de seus afluentes e verificaram a navegabilidade dos principais tributários.

         Contudo, o fato mais considerável, honra seja feita ao governo brasileiro, foi o seguinte:

        No dia 31 de julho de 1857, depois de inúmeras contestações de fronteira entre a França e o Brasil sobre o limite da Guiana, o curso do Amazonas, declarado livre, foi aberto a todas as bandeiras e, para pôr a prática no nível da teoria, o Brasil assinou um tratado com os países limítrofes para a exploração de todas as vias fluviais da bacia do Amazonas.

         Então, as linhas de barcos a vapor, confortavelmente instalados, em correspondência direta com Liverpool, passaram a servir o rio, da foz até Manaus; outros subiam até Iquitos; outros, enfim, pelo Tapajós, pelo Madeira, pelo rio Negro e pelo Purus, penetravam até o interior do Peru e da Bolívia.

         É fácil imaginar o avanço que terá, um dia, o comércio em toda essa imensa e rica bacia, sem rival no mundo.

         Todavia, para essa medalha do futuro existe o reverso. O progresso Só se faz em detrimento das raças indígenas.

         Sim, no Alto Amazonas, muitas raças de índios já desapareceram, entre outras os curicicurus e os solimaos. No Putumayo, embora ainda possam ser encontrados alguns yuris, os yahuas abandonaram-no para refugiar-se em afluentes longínquos, e os maoos, já em pequeno número, deixaram as margens para andar sem rumo pelas florestas do Japurá!

         Sim, o rio dos Tocantins está quase despovoado e há apenas umas poucas famílias de índios nômades na desembocadura do Juruá. O Teffé está praticamente abandonado, e restam apenas alguns vestígios da grande nação umaua, próximo à nascente do Japurá. O Coari foi abandonado. Existem poucos índios muras nas margens do Purus. Dos antigos manaos só restam famílias nômades. À beira do rio Negro, Só podem ser citados mestiços de portugueses e índios, onde já foram contadas até vinte e quatro nações indígenas diferentes.

         É a lei do progresso. Os índios desaparecerão. Diante da raça anglo-saxã, australianos e tasmanianos desapareceram. Diante dos conquistadores do Extremo Oeste extinguiram-se os índios da América do Norte. Algum dia, provavelmente, os árabes serão dizimados diante da colonização francesa.

         Mas precisamos voltar à data de 1852. Os meios de comunicação, tão ampliados agora, ainda não existiam e a viagem de Joam Garral não exigiria menos do que quatro meses, sobretudo nas condições em que ia ser feita.

        Daí, essa reflexão de Benito, enquanto os dois amigos olhavam as águas do rio correr lentamente a seus pés:

         —Amigo Manoel, uma vez que logo depois de nossa chegada a Belém será o momento de nossa separação, ela vai parecer-lhe bem curta!

        —Sim, Benito — respondeu Manoel —, mas também muito comprida, pois Minha Só será minha mulher no fim da viagem!

    

                                 Toda uma floresta derrubada 

         A família de Joam Garral estava feliz. O magnífico trajeto pelo Amazonas seria realizado em condições bem agradáveis. Não Só o fazendeiro e a família partiriam para uma viagem de alguns meses, mas, como veremos, seriam acompanhados de uma parte dos empregados da fazenda.

         Sem dúvida, ao ver todo o mundo feliz a sua volta, Joam Garral esqueceu-se das preocupações que pareciam perturbar a sua vida. A partir daquele dia, a decisão tendo sido firmemente tomada, passou a ser um outro homem, e quando precisou cuidar dos preparativos da viagem, retomou a atividade de outrora. Foi uma grande satisfação para a família vê-lo em ação. O ser moral reagiu contra o ser físico e Joam Garral voltou a ser o que era nos primeiros anos, vigoroso e sólido. Ele voltou a ser o homem que sempre vivera ao ar livre, na vivificante atmosfera das florestas, dos campos, das águas correntes.

         Além do mais, as poucas semanas que precederiam a partida iam ser bem cheias.

         Como foi dito anteriormente, nessa época, as águas do Amazonas ainda não eram sulcadas pelos inúmeros barcos a vapor, que as companhias já pensavam em lançar no rio e nos seus principais afluentes. O transporte fluvial Só era feito por particulares, por conta deles e, no mais das vezes, as embarcações Só eram usadas a serviço das fazendas ribeirinhas.

 

                       Embarcações do Amazonas.

         Essas embarcações eram as “ubás", uma espécie de piroga feita de um tronco cavado a fogo e com o machado, pontudas e leves na frente, pesadas e arredondadas atrás, podendo levar de um a doze remadores e carregar até três ou quatro toneladas de mercadorias; as"égaritéias", grosseiramente construídas, largamente fabricadas, com uma parte coberta no meio por um teto de folhagens, que deixava livre uma coxia na lateral da embarcação, onde se posicionavam os remadores; as "jangadas", impulsionadas por uma vela triangular e que comportavam uma cabana de palha, que servia de casa flutuante para o índio e sua família.

         Essas três espécies de embarcações constituíam a pequena flotilha do Amazonas e ofereciam um transporte não mais do que medíocre para pessoas e itens comerciais.

         Havia outras que eram maiores, as "vigilingas", que tinham capacidade para oito a dez toneladas, com três mastros equipados de velas vermelhas, e impelidas, em tempos de calmaria, por quatro longos e pesados remos, para lutar contra a corrente; as "cobertas', que tinham capacidade para vinte toneladas, uma espécie de junco com uma tolda atrás, uma cabine interna, dois mastros com velas quadradas e desiguais, e que compensavam um vento insuficiente ou um vento contrário com o uso de dez longos remos, que os índios manejavam do alto do castelo de proa.

         Mas esses diversos meios de transporte não convinham a Joam Garral. Quando resolveu descer o Amazonas, ele pensou em aproveitar a viagem para transportar um enorme comboio de mercadorias que precisava entregar no Pará. No que se referia à entrega, pouco importava se a descida do rio fosse realizada num prazo curto ou não. E foi essa decisão que ele tomou — uma decisão que contou com todos os sufrágios, salvo, talvez, o de Manoel. Sem dúvida, o rapaz preferiria um rápido barco a vapor, e com razão.

         Todavia, por mais rudimentar, por mais primitivo que fosse o meio de transporte imaginado por Joam Garral, ele permitiria embarcar um grande número de criados e se deixar levar pela corrente do rio em excepcionais condições de conforto e segurança.

         Na verdade, seria como se uma parte da fazenda de Iquitos se soltasse da margem e descesse o Amazonas, com tudo o que faz parte de uma família de fazendeiros, patrões e criados, suas casas, suas malocas, suas cabanas.

         A fazenda de Iquitos tinha em suas terras algumas das magníficas florestas que são, pode-se dizer, inesgotáveis nessa parte central da América do Sul.

         Joam Garral entendia perfeitamente do corte desses bosques, ricos das espécies mais preciosas e mais variadas, próprias para a carpintaria, para a marcenaria, para o mastreamento e para a construção, e com elas tirava, anualmente, lucros consideráveis.

         Na verdade, o rio não estava lá para transportar os produtos da floresta amazônica com mais segurança e mais economia do que uma via férrea? Por isso, todos os anos, Joam Garral, ao derrubar algumas centenas de árvores da sua reserva, organizava uma dessas imensas jangadas com grande quantidade de madeira, transportadas pelo rio, carregadas de pranchões, de vigas e de troncos apenas desbastados, que eram levadas ao Pará, conduzidas por hábeis pilotos que conheciam bem a profundidade do rio e a direção das correntes.

         Naquele ano, Joam Garral agiria da mesma maneira que nos anos precedentes. Contudo, depois de preparado o carregamento de madeira, pensava em deixar para Benito todos os detalhes da grande negociação comercial. Mas ele não tinha tempo a perder. Na verdade, o começo de junho era a época favorável para a partida, pois as águas, elevadas pelas cheias da parte alta do rio, começavam a baixar, pouco a pouco, até o mês de outubro.

         Os primeiros trabalhos deviam ser iniciados sem demora, porque o comboio de madeira tomaria proporções inusitadas. Dessa vez, abateriam meia milha quadrada da floresta situada na confluência do Nanay com o Amazonas, ou seja, todo um ângulo da parte ribeirinha da fazenda, e fariam uma enorme embarcação — igual a essas jangadas do rio, à qual se dariam as dimensões de uma ilhota.

         Ora, nessa jangada, mais segura do que qualquer outra embarcação da região, mais ampla do que cem égaritéias ou vigilingas engatadas umas nas outras, Joam Garral tinha a intenção de embarcar com a família, os criados e a carga.

         — Excelente idéia! — exclamou Minha, batendo palmas, ao saber do projeto do pai.

         — Isso mesmo! — respondeu Yaquita. — E, nessas condições, chegaremos a Belém sem correr perigo e descansados!

         — E, durante as paradas, poderemos caçar nas florestas das margens — acrescentou Benito.

         — Talvez seja um pouco demorado! — observou Manoel. — Não seria mais conveniente escolher um modo de locomoção mais rápido para descer o Amazonas?

         Evidentemente, seria demorada; mas a reclamação calculada do jovem médico não foi aceita por ninguém.

         Então, Joam Garral mandou chamar um índio que era o principal administrador da fazenda.

         — Dentro de um mês — ele disse — a jangada deve estar terminada e pronta para navegar.

         — Hoje mesmo, senhor Garral, começaremos os trabalhos — respondeu o administrador.

         Foi uma dura tarefa. Eles eram uma centena de índios e de negros que, durante a primeira quinzena do mês de maio, conseguiram um verdadeiro prodígio. Talvez algumas pessoas conscienciosas, pouco habituadas a esses grandes massacres de árvores, lamentassem ao ver esses gigantes, com muitos séculos de vida, caírem em duas ou três horas sob o machado dos lenhadores; mas havia tantas e tantas nas margens, subindo o rio, nas ilhas, e descendo até os limites mais longínquos do horizonte das duas margens, que a derrubada dessa meia milha de floresta não deixaria nem mesmo um vazio perceptível. 6

         O administrador e seus homens, depois de receberem as instruções de Joam Garral, começaram por limpar o solo dos cipós, dos arbustos, das relvas, das plantas arborescentes que o obstruíam. Antes de pegar a serra e o machado, eles se armaram com uma foice, uma ferramenta indispensável para qualquer um que quisesse embrenhar-se na floresta amazônica: ela é feita de uma lâmina grande, meio curva, comprida e chata, medindo de dois a três pés, solidamente encaixada no cabo, e que os índios manejavam com notável habilidade. Em poucas horas, com a ajuda das foices, eles roçaram o solo, eliminaram a vegetação mais baixa e abriram grandes clareiras até o fundo da mata.

         E assim foi feito. O solo foi limpo pelos lenhadores da fazenda. Os velhos troncos despiram suas vestimentas de cipós, de cactos, de samambaias, de musgos e de bromélias. Suas cascas ficaram nuas, e eles aguardavam a vez de serem esfolados vivos.

         Em seguida, todo o bando de trabalhadores, diante dos quais fugiram várias legiões de macacos que não eram mais ágeis do que eles, subiu nas árvores, nos ramos superiores, serrando os fortes galhos bifurcados, desprendendo a ramagem que devia ser queimada no local. Em pouco tempo, Só restaram da floresta condenada longos estipes envelhecidos, sem a coroa no topo, e, junto com o ar, o sol penetrou aos borbotões até o solo úmido que, talvez, nunca houvesse acariciado.

         Não havia uma única dessas árvores que não pudesse ser usada em obras resistentes, vigamento ou marcenaria pesada. Ali cresciam, como colunas de marfim pintadas de marrom, algumas cerieiras, de cento e vinte pés de altura e quatro de largura na base, que forneciam uma madeira resistente; castanheiras com alburnos resistentes que produziam nozes tricornes;"muricis" procurados para a construção, "barrigudos" medindo duas toesas na intumescência que se acentuava alguns pés acima do chão, árvores de casca arruivada e brilhante, cheias de tubérculos cinza, cujas pontas em forma de fuso suportam um guarda-sol horizontal; bombacáceas de tronco branco, liso e reto, de altura grandiosa. Perto desses exemplares magníficos da flora amazonense também surgiam "quatibos", cuja abóbada cor-de-rosa dominava as árvores vizinhas, e que dão frutos semelhantes a pequenos vasos com fileiras de castanhas neles dispostas, e cuja madeira, de um violeta claro, era especialmente apreciada nas construções navais. Havia ainda paus-ferro, e especialmente a “ibirirataí", com uma polpa quase preta, tão cheia de granulações, que os índios fabricavam com ela suas machadinhas de combate; os "jacarandás", mais preciosos do que o acaju; as "coesalpinas", cuja espécie Só pode ser encontrada nas antigas florestas que Sobreviveram ao ataque dos lenhadores; as "sapucaias", com a altura de cinqüenta pés, e com arcos naturais que, saindo a três metros da base, vão encontrar-se a trinta pés, enrolando-se em torno do tronco como roscas de uma coluna torcida, e cujo topo se abre num ramalhete de artifícios vegetais, que as plantas parasitas colorem de amarelo, de roxo e de um branco cor de neve.

         Três semanas depois do início dos trabalhos, das árvores que cobriam o ângulo formado pelo encontro do Nanay com o Amazonas não restava mais nenhuma de pé. A derrubada havia sido completa. Joam Garral nem precisava preocupar-se com a recuperação de uma floresta que vinte ou trinta anos bastariam para refazer. Nenhuma baliza de árvore nova ou velha havia sido poupada para estabelecer a marca de um corte futuro, nenhuma dessas árvores de canto que marcam o limite do desflorestamento; foi uma "derrubada total", todos os troncos foram cortados rentes ao chão, aguardando o dia em que apareceriam as raízes, nas quais a primavera seguinte estenderia os ramos verdejantes.

         Não, essa milha quadrada, banhada pelas águas do rio e seu afluente, estava destinada a ser arroteada, lavrada, plantada, semeada e, no ano seguinte, campos de mandiocas, de cafeeiros, de inhames, de canasde-açúcar, de ararutas, de milhos, de amendoins cobririam o solo, até então sombreados pelas ricas plantas da floresta.

       A última semana de maio ainda não havia chegado, e os troncos, separados de acordo com sua natureza e grau de flutuabilidade, já haviam sido arrumados simetricamente na margem do Amazonas. Era ali que se construiria a imensa jangada que, com as diversas habitações necessárias para o alojamento das equipes de manobra, seria uma verdadeira aldeia flutuante. Depois, na hora marcada, as águas do rio, aumentadas pela cheia, viriam levantá-la e arrastá-la por centenas de léguas até o litoral do Atlântico.

        Durante todo o tempo, Joam Garral dedicou-se inteiramente aos trabalhos. Dirigiu-os pessoalmente, primeiro no local do corte, depois na beira do rio, numa grande área formada de cascalhos, onde foram dispostas as peças da jangada.

         Yaquita e Cybele cuidavam dos preparativos para a partida, se bem que a velha negra não compreendesse porque queriam sair de onde estavam tão bem.

         —Você verá coisas que nunca viu! — repetia sem cessar Yaquita.

         —Será que valem tanto quanto as que estamos habituadas a ver? — respondia invariavelmente Cybele.

         Enquanto isso, Minha e sua criada favorita pensavam exclusivamente no que lhes dizia respeito. Para elas não se tratava de uma simples viagem: era uma partida definitiva, eram mil detalhes da mudança para um outro país, onde a jovem mulata continuaria a viver perto da moça à qual estava ternamente ligada. Minha estava meio triste, mas a alegre Lina não se preocupava por abandonar Iquitos. Com Minha Valdez, ela seria o que era com Minha Garral. Para apagar aquele sorriso seria preciso separá-la da patroa, o que nem havia sido cogitado.

 

                    Todo o bando de trabalhadores subiu nas arvores.

         Benito ajudava ativamente o pai nos trabalhos realizados. Assim, aprendia a profissão de fazendeiro, que talvez fosse a sua algum dia, como iria aprender a de negociante, ao descer o rio.

         Quanto a Manoel, ele se dividia tanto quanto possível entre a casa, onde Yaquita e a filha não perdiam nem um minuto, e o teatro da derrubada de árvores, onde Benito queria levá-lo mais do que Ele gostaria ir. Mas, no fim das contas, a divisão não foi nada igual, o que é bem compreensível.

       O sol penetrou aos borbotões até o solo úmido.

    

                                   Seguindo um cipó 

         Enquanto isso, num domingo, 26 de maio, os rapazes resolveram procurar alguma distração. O tempo estava magnífico, o ar, impregnado de brisas frescas vindas da cordilheira, o que suavizava a temperatura. Tudo convidava a uma excursão pelo campo.

         Benito e Manoel, então, convidaram a jovem para acompanhá-los através dos grandes bosques que debruavam a margem direita do Amazonas, do lado oposto da fazenda.

         Era uma forma de despedir-se dos encantadores arredores de Iquitos. Os dois rapazes iam caçar, mas iriam como caçadores que não largam as companheiras para correr atrás da caça, e quanto a isso podiam confiar em Manoel — e as duas jovens, já que Lina não se separava da patroa, iriam simplesmente passear, numa excursão de duas ou três léguas, o que não era de assustar.

         Nem Joam Garral, nem Yaquita tinham tempo para se juntar a eles. Por um lado, a obra da jangada não estava terminada, e a construção não podia sofrer o menor atraso. Por outro, Yaquita e Cybele, apesar de auxiliadas por todo o pessoal feminino da fazenda, não tinham nem um minuto a perder.

         Minha aceitou o oferecimento com grande prazer. Então, naquele dia, por volta de onze horas, depois do almoço, os dois rapazes e as duas moças foram para a margem, no ângulo formado pela confluência dos dois cursos d'água. Um dos negros os acompanhava. Todos embarcaram numa das ubás destinadas ao serviço da fazenda e, depois de passarem entre as ilhas Iquitos e Parianta, atingiram a margem direita do Amazonas.

         A embarcação acostou junto a um berço de magníficas samambaias arborescentes, coroadas, a trinta pés de altura, por uma espécie de auréola feita de delicados galhos de veludo verde com folhas enfeitadas por uma fina renda vegetal.

         — E agora, Manoel — disse a jovem —, cabe a mim fazer-lhe as honras da floresta, pois você não passa de um estrangeiro nessas regiões do Alto Amazonas! — Aqui estamos em casa, e vai deixar-me cumprir os deveres de dona de casa!

         —Querida Minha — respondeu o rapaz —, não será menos dona de casa na nossa cidade de Belém do que na fazenda de Iquitos e, tanto lá quanto aqui...

         — Ora essa! Manoel e você, minha irmã — exclamou Benito —, não vieram aqui para trocar ternas intenções, imagino!... Esqueçam por algumas horas que estão noivos!...

         —Nem por uma hora, nem por um instante! — replicou Manoel.

         —E se Minha ordenar?

         —Minha não vai ordenar!

         —Quem sabe? — disse Lina, rindo.

         —Lina tem razão! — respondeu Minha, estendendo a mão para Manoel. — Vamos tentar esquecer!... Esquecer!... Meu irmão exige!... Está tudo acabado, tudo! Enquanto durar o passeio, não estamos noivos! Eu não sou a irmã de Benito! Você não é o amigo dele!...

         —Essa é boa! — exclamou Benito.

         —Bravo! Bravo! Somos todos estranhos aqui! — replicou a jovem mulata, batendo palmas.

         —Estranhos que se vêem pela primeira vez — acrescentou à jovem —, que se encontram, se cumprimentam...

         —   Senhorita... — disse Manoel, inclinando-se diante de Minha.

         —Com quem tenho a honra de falar, senhor? — perguntou a jovem com a maior seriedade.

         —Com Manoel Valdez, que ficaria feliz se seu irmão quisesse apresentá-lo...

        —Ah! Ao diabo com esse modo de agir! — exclamou Benito. — Má idéia a que eu tive!... Sejam noivos, meus caros! Sejam o quanto quiserem! Sejam sempre!

         —Sempre! — disse Minha, a quem a palavra escapou tão naturalmente que as risadas de Lina redobraram.

         Um olhar reconhecido de Manoel recompensou a jovem pela imprudência da sua língua.

         — Se andássemos, falaríamos menos! Em marcha! — reclamou Benito, para tirar a irmã do embaraço.

         Porém, Minha não estava com pressa.

         — Um instante, irmão — disse ela. — Você viu! Eu ia obedecer! Você queria obrigar Manoel e a mim a esquecermos um do outro para não estragar o seu passeio! Pois bem, agora é a minha vez de pedir-lhe um sacrifício para não estragar o meu! Você, se quiser fazer-me o favor, ou mesmo se não quiser, vai prometer-me, Benito, pessoalmente, que vai esquecer...

 

               A embarcação acostou junto a um berço de magníficas samambaias.

         —Esquecer?...

         —Esquecer que é caçador, senhor meu irmão!

         —O quê? Você me proíbe?

         —Proíbo-o de atirar em todos esses pássaros encantadores, nos papagaios, nos periquitos, nos caciques, nesses cucos que voam tão felizes pela floresta! Mesma proibição para a caça pequena, pois não teremos o que fazer com ela hoje! Se alguma onça, jaguar ou qualquer outra espécie desse tipo de animal aproximar-se demais de nós, pode ser!

         —Mas... — objetou Benito.

         —Senão, pego o braço de Manoel e vamos embora, nós nos perderemos e será obrigado a procurar-nos.

         —Hein? Você bem que gostaria que eu me recusasse a obedecer! — exclamou Benito, olhando para o amigo Manoel.

         — É o que eu quero! — respondeu o rapaz.

         —É claro que não! — falou Benito. — Eu não me recuso! Obedecerei só para contrariá-lo. A caminho!

         E eis que os quatro, seguidos do negro, se embrenharam por baixo das belas árvores, cujas espessas folhagens impediam os raios de sol de atingir o chão.

         Não havia nada mais maravilhoso do que essa parte da margem direita do Amazonas. Ali, numa pitoresca confusão, cresciam tantas árvores diferentes que, num quarto de légua quadrada, seria possível contar até cem variedades dessas maravilhas vegetais. Além do mais, um silvícola perceberia facilmente que nunca um lenhador passeara por ali com seu machado ou sua acha. Mesmo depois de muitos séculos da derrubada, a ferida ainda seria visível. As novas árvores, até com cem anos de vida, não teriam esse aspecto dos primeiros dias, sobretudo porque a singularidade das espécies da liana e de outras plantas parasitas estaria modificada. Esse é um sintoma curioso que não deixaria nenhum índio se enganar.

         O alegre bando embrenhou-se por entre a alta vegetação, pelo meio das moitas, por baixo das árvores menores, conversando e rindo. Na frente, manejando a foice, o negro abria caminho quando um dos arbustos era muito espesso, pondo em fuga milhares de passarinhos.

         Minha tivera razão ao interceder por todo o pequeno mundo alado que esvoaçava sobre as altas folhagens. Ali havia os mais belos representantes da ornitologia tropical. Os papagaios verdes e os periquitos gritadores pareciam ser uma conseqüência natural das gigantescas espécies. Os colibris, com todas as suas variedades, os barbas-azuis, os rubis-topázios, os "tesouras", de rabo longo em forma de tesoura, pareciam flores soltas que o vento levava de um galho para outro. Os melros de plumagem alaranjada debruada de marrom, os papa-figos, dourados nas extremidades das penas, e os "sabiás" pretos como corvos reuniam-se num concerto de trinados ensurdecedores. O grande bico do tucano destruía os cachos dourados dos “guiriris". Os pica-paus, ou picanços do Brasil, sacudiam suas cabecinhas salpicadas de pontos púrpuras. Um encantamento para os olhos.

          Porém, todo esse mundo se calava, se escondia quando, no topo das árvores, rangia a ventoinha enferrujada da “alma-de-gato", um tipo de falcão fulvo-claro. Embora planasse orgulhosamente, estendendo as longas penas brancas do rabo, escondia-se covardemente quando, mais acima, aparecia o "gavião", uma grande águia de cabeça branca, terror de toda a nação alada das florestas.

         Minha fazia Manoel admirar essas maravilhas que, nas províncias mais civilizadas do leste, ele não encontraria nessa simplicidade primitiva. Manoel escutava a jovem mais com os olhos do que com os ouvidos. Aliás, os gritos, os cantos dos milhões de passarinhos eram às vezes tão penetrantes, que ele não conseguia ouvi-la. Apenas a gargalhada de Lina tinha acuidade suficiente para dominar com sua nota de alegria os cacarejos, os pios, os ululos, os trinados e os arrulhos de todos os tipos.

         Após uma hora, não tinham atravessado mais do que uma pequena milha. Ao se afastarem da margem, as árvores tomavam um outro aspecto. A vida animal já não se manifestava no chão e sim a sessenta ou oitenta pés de altura, com a passagem de bandos de macacos que seguiam uns aos outros nos altos galhos. Aqui e ali, alguns cones de raios de sol penetravam até a vegetação mais baixa. Na verdade, nas florestas tropicais, a luz não parece ser um agente indispensável para a existência da vegetação. O ar é suficiente para o desenvolvimento dos vegetais, grandes ou pequenos, árvores ou plantas, e todo o calor de que precisam para a expansão da seiva, não extraem da atmosfera ambiente e sim do próprio solo, onde ele está armazenado como se fosse um enorme aquecedor.

         E, em cima das bromélias, das serpentinas, das orquídeas, dos cactos, enfim, de todas as parasitas que formavam uma pequena floresta embaixo da floresta maior, eram muitos os insetos maravilhosos que se queria colher, como se fossem verdadeiras flores: nestores de asas azuis, feitas de um brilho cintilante; borboletas "leilus" com reflexos dourados, zebradas de listras verdes; falenas agripinas com dez polegadas de comprimento e asas semelhantes a folhas; abelhas "maribundas", parecendo esmeraldas vivas engastadas numa armadura de ouro; depois, legiões de coleópteros lampírios ou pyrophorus, vaga-lumes com um corpete de bronze e élitros verdes, cujos olhos projetavam uma luz amarelada e que, quando vinha a noite, iluminavam a floresta com suas cintilações multicores!

         —Quantas maravilhas! — repetia entusiasmada a jovem.

         — Você está em casa, Minha, ou pelo menos foi o que disse — exclamou Benito —, e olhe Só como fala das suas riquezas!

         —Pode caçoar, irmãozinho! — respondeu Minha. — Tenho o direito de elogiar coisas tão bonitas, não é, Manoel? Elas foram feitas pela mão de Deus e pertencem a todo o mundo!

         —Deixe Benito rir à vontade! — disse Manoel. — Ele disfarça, mas tem suas horas de poeta e admira tanto quanto nós todas essas belezas naturais! Só que, quando carrega um fuzil embaixo do braço, adeus poesia!

         —Seja poeta, irmão! — respondeu a jovem.

         —Eu sou poeta! — replicou Benito. — Oh, natureza encantadora.

         Entretanto, convenhamos que, ao proibir ao irmão o uso do fuzil de caçador, Minha impusera-lhe uma verdadeira privação. A caça não faltava na floresta e ele teve sérias razões para lamentar alguns bons tiros.

         Nas partes menos arborizadas, onde se abriam grandes clareiras, apareceram alguns casais de avestruz, da espécie dos "naudus", medindo de quatro a cinco pés. Eles andavam acompanhados das inseparáveis "seriemas", uma espécie de peru, mas infinitamente melhor, do ponto de vista comestível, que as grandes voadoras que as acompanhavam.

         —Olha o quanto me custa a maldita promessa! — reclamou Benito, que, com um gesto da irmã, pôs embaixo do braço o fuzil que instintivamente levara ao ombro.

         —É preciso respeitar as seriemas — respondeu Manoel —, porque são grandes destruidoras de serpentes.

         —Do mesmo modo que devemos respeitar as serpentes — replicou Benito — porque comem os insetos nocivos, e estes porque vivem dos pulgões, ainda mais nocivos! Desse jeito, é preciso respeitar tudo!

         Mas o instinto do jovem caçador ia ser posto a uma dura prova. A caça estava ficando abundante na floresta. Veados rápidos e elegantes cabritos escapuliam por baixo da vegetação e, certamente, uma bala bem assestada teria interrompido a fuga. Depois, aqui e ali, apareciam perus de penas café-com-leite, pecaris, uma espécie de porco selvagem, muito apreciado pelos amantes de veação, agutis, similares aos coelhos e às lebres na América meridional, tatus com a carapaça escamosa desenhada em mosaicos, que pertencem à ordem dos desdentados.

         E, na verdade, Benito mostrava mais do que virtude, um verdadeiro heroísmo, quando percebia algum tapir, daqueles chamados de "antas" no Brasil, esses diminutos elefantes, já quase desaparecidos das margens do Alto Amazonas e de seus afluentes, paquidermes tão procurados pelos caçadores devido a sua raridade, muito apreciados pelos gourmets por sua carne, superior à do boi e, sobretudo, pela protuberância na nuca, que é um belo petisco!

         Sim, o fuzil queimava os dedos do rapaz; porém, fiel ao juramento, ele o deixava em repouso.

         — Ah! Porém — e ele preveniu a irmã — o tiro partiria, ainda que ele não quisesse, se ficasse ao alcance de um "tamanduá-açu", uma espécie de grande formicívoro, muito curioso, e que pode ser considerado como um tiro de mestre nos anais cinegéticos.

         Mas, felizmente, o grande formicívoro não apareceu, e nem as panteras, os leopardos, os jaguares, os guepardos, os pumas, indiferentemente designados por onças na América do Sul, e que não devemos deixar que se aproximem demais.

         —Afinal — disse Benito, que parou por um instante —, passear é muito bom, mas passear sem um objetivo...

         —Sem objetivo! — protestou a moça. — Mas nosso objetivo é ver, é admirar, é visitar pela última vez essas florestas da América Central, que não encontraremos no Pará, é dar-lhes um último adeus!

         —      Ah! Tenho uma idéia.

         Foi Lina quem falou.

         —Uma idéia de Lina Só pode ser uma idéia louca! — respondeu Benito, meneando a cabeça.

         —Meu irmão — disse a jovem —, não é certo zombar de Lina, quando precisamente ela tenta dar ao nosso passeio o objetivo que você lamenta que não tenha!

 

                                            Alguns casais de avestruz.

         — Ainda mais, senhor Benito, porque tenho certeza de que minha idéia vai agradá-lo — respondeu a jovem mulata.

         — Qual é a sua idéia? — perguntou Minha.

         —Está vendo essa liana?

         E Lina mostrou uma dessas lianas da espécie dos "cipós", enrolada numa gigantesca mimosa sensitiva, cujas folhas, leves como plumas, se fechavam ao menor ruído.

         —E daí? — disse Benito.

         —Proponho — continuou Lina — seguirmos essa liana até a sua extremidade!...

         —É uma boa idéia, é um objetivo, de fato! — disse Benito. — Seguir esse cipó quaisquer que sejam os obstáculos, os arbustos, as árvores, os rochedos, os riachos, as torrentes, não ser impedido por nada, passar de qualquer jeito...

         —Decididamente você tinha razão, irmão! — disse Minha, rindo. — Lina é meio louca!

         Ora, vamos! — respondeu o irmão. — Você está dizendo que Lina é louca, para não dizer que Benito é louco, pois eu aprovo!

         —Na realidade, sejamos loucos, se isso os agrada! — respondeu Minha. — Vamos seguir o cipó!

         —Vocês não têm medo... — observou Manoel.

         —Mais objeções! — retrucou Benito. — Ah! Manoel, você não falaria assim e já estaria a caminho se Minha o esperasse na outra ponta.

         —Vou calar-me — respondeu Manoel. — Não falo mais nada, só obedeço! Vamos seguir o cipó!

         E eles saíram, felizes como crianças em férias!

         Esse filamento vegetal poderia levá-los longe se teimassem em segui-lo até a ponta, como um fio de Ariadne — com a diferença de que o fio da herdeira de Minos ajudava a sair do labirinto e o cipó Só podia arrastá-los mais para o fundo da floresta.

         Na verdade, era uma liana da família das salsas, um desses cipós conhecidos pelo nome de "japecanga" vermelha, cujo comprimento chega a medir várias léguas. Mas, no final das contas, a honra não estava em jogo.

         O cipó passava de árvore em árvore, sem interrupção da continuidade, ora enrolado nos troncos, ora enlaçando os galhos, aqui saltando de um dragoeiro para uma palissandra, ali, de um gigantesco castanheiro, o "bertholletia excelsa', para uma dessas palmeiras da qual se faz um tipo de vinho, essas "bacabas" cujos galhos foram, com exatidão, comparados por Agassiz a longas varas de coral salpicadas de verde. Em seguida, as “tucumãs", os fícus, caprichosamente contornados como oliveiras centenárias e que se podem contar não menos do que quarenta variedades no Brasil; as espécies de euforbiáceas que produzem a borracha; as "gualtes", belas palmeiras de tronco liso, fino, elegante; os cacaueiros que crescem espontaneamente nas margens do Amazonas e dos afluentes; melastomas variados, uns de flores cor-de-rosa, outros enfeitados de panículas de bagas esbranquiçadas.

         Mas quantas paradas, quantos gritos de decepção quando o alegre bando pensava ter perdido o fio condutor! Era preciso encontrá-lo, desembaraçá-lo do pelotão das plantas parasitas.

         —Ali! Ali! — dizia Lina. — Estou vendo!

         —Está enganada — respondia Minha. — Não é ele, é um cipó de outra espécie!

         —Não! Lina tem razão — dizia Benito.

         —Não! Lina está errada — respondia com naturalidade Manoel.

         Daí surgiam sérias discussões, muito demoradas, nas quais ninguém queria ceder.

         Então, o negro de um lado, Benito do outro, trepavam nas árvores, subindo nos galhos envolvidos pelo cipó, para restabelecer a verdadeira direção.

         Ora, com certeza isso não era nada fácil, no emaranhamento de tufos entre os quais serpenteava o cipó, no meio das bromélias "karatas", armadas de espinhos agudos, das orquídeas de flores cor-de-rosa e labelos violetas, tão grandes como uma luva, os "oncídios" mais embaraçados do que uma meada de lã entre as patas de um gatinho!

         E depois, quando o cipó descia até o chão, que dificuldade para recuperá-lo nos maciços de licopódios, de helicônias com grandes folhas, de caliandras com borlas cor-de-rosa, de ripsálides que o envolviam como a armadura de um fio de bobina elétrica, entre os nós das grandes ipoméias brancas, sob as hastes carnudas das baunilhas, no meio de todas as passifloras, vergônteas, videiras selvagens e sarmentos!

         Quando encontravam o cipó, quantos gritos de alegria, e recomeçavam o passeio, interrompido por alguns instantes!

         Havia uma hora que os rapazes e as moças caminhavam e nada indicava que estivessem perto de atingir o célebre objetivo. Sacudiam vigorosamente o cipó, mas ele não cedia, e os passarinhos saíam voando às centenas, os macacos pulavam de árvore em árvore, como se quisessem mostrar o caminho.

         Um arbusto barrava o caminho? A foice fazia uma abertura e todo o bando passava por ela. Ou então, podia ser uma alta rocha, atapetada de relva, onde o cipó evoluía como uma cobra. Eles subiam e passavam pela rocha.

         Uma clareira abriu-se. Ali, naquele espaço mais livre, necessário como a luz, estava a árvore dos trópicos por excelência, aquela que, segundo a observação de Humboldt, "havia acompanhado o homem desde a infância da civilização", a grande nutriz do habitante das zonas tórridas, a bananeira, aparecia isolada. A longa grinalda de cipó, enrolada nos seu altos galhos, prendia-se de uma extremidade a outra da clareira e introduzia-se novamente na floresta.

         —Vamos parar, finalmente? — perguntou Manoel.

         —Não, mil vezes não! — gritou Benito. — Não antes de atingir o fim do cipó!

         —Todavia — observou Minha — já é tempo de se pensar em voltar!

         —Oh, querida patroa, mais um pouco, mais um pouco! — manifestou-se Lina.

         —Até o fim, até o fim! — acrescentou Benito.

         E atormentou-os para entrar mais para o fundo da floresta que, mais desafogada, permitia-lhes avançar mais depressa.

         Além do mais, o cipó enviesava-se para o norte e tendia a voltar na direção do rio. Portanto, havia menos inconvenientes em segui-lo, pois os jovens se aproximavam da margem direita, que seria fácil de subir depois.

         Um quarto de hora mais tarde, no fundo de um barranco, diante de um pequeno afluente do Amazonas, todos precisaram parar. Uma ponte de lianas, feita de "bejucos" ligados entre si por uma rede de ramagens, atravessava o riacho. O cipó, que se dividia em dois filamentos, servia de corrimão e passava assim para a outra margem.

         Benito, sempre na frente, já avançara pelo tabuleiro vacilante da passarela de vegetação.

         Manoel quis segurar a jovem.

         —Fique, fique, Minha! — declarou ele. — Benito irá mais longe, se quiser, mas nós vamos esperá-lo aqui!

         —Não! Venha, venha querida patroa, venha! — disse Lina. — Não tenha medo! O cipó está ficando mais fino. Estamos com uma boa vantagem e vamos descobrir sua extremidade!

         E, sem hesitar, a jovem mulata aventurou-se corajosamente atrás de Benito.

         —São umas crianças! — respondeu Minha. — Venha, meu querido Manoel! Precisamos segui-los!

         E todos atravessaram a ponte, que oscilava acima da ravina como um balanço, mergulhando novamente sob a abóbada das grandes árvores.

         Não haviam andado nem dez minutos, seguindo o interminável cipó na direção do rio, quando todos pararam e, dessa vez, com razão.

         —Será que, finalmente, chegamos ao fim do cipó? — perguntou a jovem.

        —Não — respondeu Benito —, mas será bom avançarmos com prudência. Olhe!...

         E Benito mostrou o cipó que, perdido entre os galhos de um alto fícus, era agitado por violentos sacolejos.

         —Quem será que está fazendo isso? — perguntou Manoel.

         —Talvez algum animal, do qual nós devemos aproximar com prudência!

                          

                         A jovem mulata aventurou-se corajosamente.

         Benito, carregando o fuzil, fez sinal para que não interferissem, e deu dez passos à frente.

         Manoel, as duas moças e o negro ficaram imóveis no lugar.

         De repente, Benito deu um grito, e viram-no correr para uma árvore. Todos se precipitaram para o mesmo lado.

         Um espetáculo inesperado e que não era de agradar aos olhos!

         Um homem, pendurado pelo pescoço, debatia-se na ponta de um cipó leve como uma corda, no qual fizera um nó corrediço, e os sacolejos eram provocados pelos bruscos movimentos que o agitavam nas últimas convulsões da agonia.

         Benito jogou-se sobre o infeliz e, com um golpe da faca de caça, cortou o cipó.

         O enforcado escorregou para o chão. Manoel inclinou-se sobre ele para ajudá-lo e trazê-lo de volta à vida, se não fosse tarde demais.

         —Pobre homem! — murmurou Minha.

         —Senhor Manoel, senhor Manoel — gritou Lina —, ele ainda respira! O coração está batendo! É preciso salvá-lo!

         —Essa é a minha intenção — respondeu Manoel —, e acho que chegamos na hora certa!

         O enforcado era um homem de uns trinta anos, branco, bem mal vestido, muito magro, e que parecia haver sofrido muito.

         Aos seus pés estavam um cantil vazio jogado no chão e um bilboquê de madeira de palmeira, ao qual a bola, feita com a cabeça de uma tartaruga, estava presa por um fio.

         —Enforcar-se, enforcar-se — repetia Lina —, e tão moço! O que será que o levou a isso?

         Mas os cuidados de Manoel logo trouxeram o pobre-diabo de volta à vida, ele abriu os olhos e soltou um "hum!" tão forte, tão inesperado, que Lina, assustada, respondeu ao grito dele com outro.

         —Quem é o senhor, amigo? — perguntou Benito.

         —Um ex-enforcado, pelo que vejo!

         —E seu nome?...

         —Espere, preciso lembrar — disse ele, passando a mão na testa! — Ah, eu me chamo Fragoso, para servi-lo, se eu ainda for capaz, para penteá-lo, barbeá-lo, prepará-lo segundo as regras da minha arte! Sou um barbeiro ou, melhor dizendo, o mais desesperado dos Fígaros!...

         —E como pôde pensar em... ?

         —E o que queria, caro senhor! — Fragoso respondeu sorrindo. — Foi um momento de desespero, do qual eu me arrependeria, se houvesse arrependimentos no outro mundo! Oitocentas léguas do país para atravessar e nenhuma pataca no bolso, não é nada reconfortante! Evidentemente, perdi a coragem!

         O tal Fragoso tinha, em suma, uma cara boa e agradável. À medida que se refazia, via-se que devia ter um caráter alegre. Ele era um dos barbeiros nômades que corriam as margens do Alto Amazonas, indo de povoado em povoado, pondo os recursos da sua profissão a serviço dos negros, das negras, dos índios e das índias, que muito o apreciavam.

         O pobre Fígaro, muito abandonado, muito miserável, sem comer havia quarenta e oito horas, desorientado nessa floresta, perdera a cabeça por alguns instantes... e o resto já se sabe.

         —Meu amigo — disse-lhe Benito —, o senhor vai voltar conosco para a fazenda de Iquitos.

         —Como? Mas com prazer! — respondeu Fragoso — Tirou-me da forca, eu lhe pertenço! Não devia ter-me soltado!

         —Viu, querida patroa, fizemos bem em continuar o passeio! — disse Lina.

         —Também acho! — respondeu a jovem.

         —Seja o que for — disse Benito —, nunca pensei que acabaríamos encontrando um homem na ponta do nosso cipó!

         —Principalmente um barbeiro numa situação embaraçosa, a fim de se enforcar! — respondeu Fragoso.

       O pobre-diabo, de volta à vida, foi posto a par do que acontecera. Ele agradeceu calorosamente a Lina pela boa idéia de seguir o cipó, e todos retomaram o caminho da fazenda, onde Fragoso foi acolhido de modo a não ter mais vontade, nem necessidade, de repetir a triste obra!

 

         Os cuidados de Manoel logo trouxeram o pobre-diabo de volta à vida.

         Meia milha quadrada de floresta havia sido abatida. Agora, cabia aos carpinteiros o trabalho de transformar em jangada as árvores de muitos séculos que jaziam no cascalho.

         Tarefa fácil, na verdade! Sob a direção de Joam Garral, os índios agregados à fazenda mostrariam sua incomparável habilidade. Indubitavelmente, tanto numa obra de alvenaria, quanto numa construção naval, os índios eram operários surpreendentes. Com um machado e uma serra apenas, trabalhavam madeiras tão duras que a lâmina acabava se quebrando. Mesmo assim, os troncos a serem aparelhados, os estipes a serem transformados em vigotas, as pranchas finas e grossas a serem cortadas sem o auxílio da serra elétrica era um trabalho feito por mãos destras, pacientes, dotadas de uma prodigiosa e natural habilidade.

         Os cadáveres das árvores não seriam imediatamente lançados no leito do Amazonas. Joam Garral procedia de um modo diferente. Por isso, o amontoado de troncos foi simetricamente arrumado na área plana que ele mandara rebaixar e forrar de cascalhos, na confluência do Nanay com o grande rio. Era ali que a jangada seria construída; era dali que o Amazonas a faria flutuar quando chegasse o momento de conduzi-la ao destino.

         Uma palavra explicativa sobre a situação geográfica desse imenso curso d'água, único no mundo, e a propósito de um singular fenômeno constatado pelos moradores das zonas ribeirinhas.

         Os dois rios, provavelmente mais extensos do que a artéria brasileira, o Nilo e o Missouri-Mississipi, correm, um deles, do sul para o norte no continente africano, e o outro, do norte para o sul através da América setentrional. Portanto, atravessam territórios de latitudes variadas e, conseqüentemente, sofrem a ação de climas bem diferentes.

         O Amazonas, pelo menos depois que se volta inteiramente para o leste na fronteira do Equador e do Peru, está inteiramente situado entre o quarto e o segundo paralelo sul. Por isso, a imensa bacia sofre a influência das mesmas condições climáticas em toda a extensão do percurso.

       São duas estações distintas, durante as quais as chuvas ocorrem com um intervalo de seis meses. No norte do Brasil, o período chuvoso começa em setembro. No sul, começa em março. Por conseguinte, as águas dos afluentes da direita e da esquerda atingem seu maior volume de seis em seis meses. O resultado dessa alternância é que o Amazonas, após atingir o seu nível máximo em junho, decresce gradativamente até outubro.

         Joam Garral sabia disso por experiência, e pretendia aproveitar esse fenômeno para pôr a jangada na água, depois de construí-la comodamente à margem do rio. De fato, a altura máxima do Amazonas, acima do nível médio, podia chegar a quarenta pés e a mínima podia baixar até trinta. Essa variação facilitava o trabalho do fazendeiro.

         A construção começou sem demora. Na enorme margem de cascalho os troncos foram colocados de acordo com a grossura e o grau de flutuabilidade que era preciso levar em conta. No meio dessas madeiras pesadas e duras, havia algumas cuja densidade específica era quase igual à densidade da água.

         A primeira camada não devia ser feita de troncos justapostos. Havia um pequeno intervalo entre esses troncos, unidos por vigotas atravessadas, responsáveis pela solidez da embarcação. Cabos de "piaçaba" uniam os troncos com tanta firmeza quanto um cabo de cânhamo. Esse material, que é feito dos pecíolos de uma certa palmeira, muito abundante nas margens do rio, era usado em todo o país. A piaçaba flutua, é resistente à imersão e sua fabricação é barata. Essas são as razões que fizeram dela um artigo precioso, já comercializado no Velho Mundo.

         Em cima dessas duas fileiras de troncos e de vigotas foram colocados pranchões e tábuas que formariam o piso da jangada, trinta polegadas acima da linha de flutuação. Desses pranchões e tábuas havia uma quantidade considerável, o que é fácil de estimar corretamente se levarmos em conta que a jangada de madeira media mil pés de comprimento por sessenta de largura, ou seja, uma superfície de sessenta mil pés quadrados. Na realidade, toda uma floresta seria levada pela corrente do Amazonas.

         Esse trabalho de construção foi realizado sob a direção de Joam Garral. Mas, depois de terminado, quando chegou o momento da divisão do espaço, a questão foi discutida por todos e até o valente Fragoso foi convidado a participar.

         Apenas algumas palavras para explicar a nova situação do rapaz na fazenda.

         O barbeiro nunca havia sido tão feliz como era agora, depois de ser recolhido pela hospitaleira família. Joam Garral ofereceu-se para levá-lo ao Pará, aonde Fragoso se dirigia quando o cipó "o prendera pelo pescoço e o detivera bruscamente!", como ele dizia. Fragoso havia aceitado e agradecera de todo o coração. E, desde então, para mostrar reconhecimento, procurava ser útil de mil maneiras. Aliás, era um rapaz muito inteligente, uma pessoa de quem se podia dizer que "possuía duas mãos direitas", ou seja, podia fazer de tudo, e fazer de tudo bem feito. Tão alegre quanto Lina, sempre cantando, sempre com uma resposta alegre, não demorou muito para que todos gostassem dele.

         Porém, Fragoso achava que sua dívida maior era para com a jovem mulata.

         Foi uma idéia fabulosa, senhorita Lina — ele repetia sem parar — a de brincar de "cipó condutor"! Ah! É mesmo um jogo ótimo, se bem que nem sempre se encontre um coitado de um barbeiro na ponta!

         —Foi por acaso, senhor Fragoso — respondia Lina, rindo — e eu lhe asseguro que não me deve nada!

         —Como, nada! Eu lhe devo a vida, e rogo que seja prolongada por mais uns cem anos para que minha gratidão dure mais tempo! Sabe,  eu não tinha inclinação para enforcar-me! Se tentei, foi por necessidade! Depois de pesar tudo muito bem, preferi isso a morrer de fome e servir de alimento para os animais selvagens, antes de estar totalmente morto! Por isso, essa liana é um elo entre nós e nem adianta dizer...

 

                A construção começou sem demora.

         Em geral, a conversa continuava num tom alegre. No fundo, Fragoso estava muito grato à jovem mulata pela iniciativa do seu salvamento, e Lina não ficava insensível às declarações do corajoso rapaz, tão espontâneo, tão sincero, de cara alegre, exatamente como ela. A amizade deles não deixava de provocar alguns divertidos "Ah! Ah!" por parte de Benito, da velha Cybele e de muitos outros da casa.

         Assim, voltando à jangada, depois da discussão ficou decidido que suas instalações seriam as mais completas e confortáveis possíveis, pois a viagem duraria vários meses. Faziam parte da família Garral o pai, a mãe, a jovem Minha, Benito, Manoel e mais as empregadas, Cybele e Lina, que deviam ocupar um alojamento à parte. A essa pequena multidão, acrescentavam-se quarenta índios, quarenta negros, Fragoso e o piloto, a quem seria entregue a direção da jangada.

         Tantos empregados eram apenas suficientes para o serviço de bordo. Na verdade, navegariam no meio de remoinhos, por entre centenas de ilhas e ilhotas que atrapalhariam a passagem. Embora a corrente do Amazonas servisse de motor, ela não fixava a direção. Por isso, esses cento e sessenta braços eram necessários para manobrar os croques, destinados a manter a enorme jangada numa mesma distância das duas margens.

         Primeiro, trataram de construir a casa do patrão, no fundo da jangada. Ela foi construída de modo a ter cinco quartos e uma ampla sala de jantar. Um dos quartos seria de Joam Garral e da mulher, outro de Lina e Cybele, próximo das patroas, e um terceiro para Benito e Manoel. Minha disporia de um quarto a mais, que não seria dos menos confortáveis.

         Esse alojamento principal foi cuidadosamente feito de tábuas imbricadas, bem impregnadas de resina fervente, o que as tornava impermeáveis e perfeitamente vedadas. Janelas laterais e frontais deixavam os aposentos alegremente iluminados. Na frente, abria-se a porta de entrada que dava acesso à sala comum. Uma pequena varanda, que protegia a parte da frente contra a ação direta dos raios solares, estava apoiada em delicados bambus. Toda a obra foi pintada com uma tinta ocre recém-preparada que refletia o calor em vez de absorvê-lo, o que garantia à parte interna uma temperatura agradável.

         Porém, quando a "grande obra" ficou pronta, de acordo com os planos de Joam Garral, Minha resolveu dar sua opinião.

         —Pai — disse ela —, agora que, com seus cuidados, já temos um abrigo, você vai permitir que decoremos a casa de acordo com a nossa imaginação. A parte externa é sua, mas o interior é nosso. Minha mãe e eu queremos que dê a impressão de que a casa da fazenda está viajando conosco, assim você pensará que não saiu de Iquitos!

         —Faça como quiser, Minha — respondeu Joam Garral, com seu triste e quase habitual sorriso.

         —Vai ficar encantadora!

         —Confio no seu bom gosto, querida filha!

         —Isso vai mostrar nossa dignidade, pai! — respondeu Minha. — É preciso mostrar dignidade a esse belo país que vamos atravessar, esse país que é nosso, e para onde você vai voltar depois de tantos anos de ausência!

         —Tem razão, Minha! Tem razão — respondeu Joam Garral. — É como se voltássemos do exílio... de um exílio voluntário! Faça o melhor que puder, minha filha! Aprovo, antecipadamente, tudo o que fizer!

         À jovem e à Lina, às quais se juntaram Manoel de um lado e Fragoso do outro, cabia o trabalho de decorar o interior do alojamento. Com um pouco de imaginação e de sensibilidade artística, conseguiriam fazer muitas coisas.

         No interior, os móveis mais bonitos da fazenda encontraram um lugar adequado. Só haveria o inconveniente, depois da chegada ao Pará, de mandá-los de volta por alguma egaritéia do Amazonas: mesas, cadeiras de bambus, sofás de cana, aparadores de madeira esculpida, tudo o que constitui o agradável mobiliário de uma residência da zona tropical foi arrumado com gosto na casa flutuante. Visivelmente, além da colaboração dos dois jovens, eram mãos de mulheres que dirigiam toda essa arrumação. E que ninguém pense que as tábuas ficaram nuas! Não! As paredes desapareciam por baixo de encantadores revestimentos. Eram tapeçarias feitas de maravilhosas cascas de árvores, os "tuturis", que se realçavam em grossas pregas como os brocados e os adamascados dos mais leves e mais ricos tecidos dos móveis modernos. No piso dos quartos, peles de jaguar extraordinariamente tigradas, espessas peles de macacos ofereciam aos pés os pêlos aveludados. Algumas cortinas leves de seda arruivada, produzida pela “sumaúma", pendiam das janelas. Quanto às camas, elas foram envolvidas pelos mosquiteiros, com travesseiros, colchões e almofadas cheios da elástica e fresca substância que dá o bômbax, na alta bacia do Amazonas.

         Espalhados por todo o lado, nos aparadores, nos consoles, esses belos enfeites trazidos do Rio de Janeiro ou de Belém, e ainda mais preciosos para a jovem porque foram dados por Manoel. Não há nada mais agradável aos olhos do que esses bibelôs, dados por uma mão amiga, que falam sem nada dizer!

         Em alguns dias o interior foi totalmente decorado e parecia a própria casa da fazenda. Era ideal até para uma residência fixa, debaixo de um belo buquê de árvores, à beira de uma água corrente. Ao descer por entre as margens do grande rio, ela não desmereceria em nada os sítios pitorescos que desfilariam ao seu lado.

         É preciso acrescentar que essa moradia encantava os olhos tanto do lado de fora quanto do lado de dentro.

         No exterior os jovens haviam competido no gosto e na imaginação.

         A casa estava literalmente coberta de folhagens, desde a base até os mais altos arabescos do telhado. Era uma mistura de orquídeas, bromélias, trepadeiras, todas em flor, que colhiam o alimento em caixas cheias de boa terra vegetal, enfiadas sob maciços de folhas verdes. Os troncos de uma mimosa ou de um fícus não poderiam estar enfeitados de uma forma mais "tropicalmente" pomposa! Quantos ramos volúveis, quantas rubiales vermelhas, quantos pâmpanos amarelo-ouro, quantos cachos multicores, quantos sarmentos enroscados não só nos modilhões que sustentavam a ponta da cumeeira, mas também nos arcos do telhado e nos someiros das portas! Para conseguir tudo isso, bastou pegar a mãos-cheias nas florestas vizinhas à fazenda. Um gigantesco cipó unia todos esses parasitas; ele dava várias voltas na casa, prendia-se em todas as arestas, enguirlandava-se em todas as saliências, bifurcava-se, formava tufos, espalhava para todos os lados suas excêntricas radículas, não deixava ver nada da casa, que parecia afundada num enorme arbusto florido.

         Como toque de delicadeza, cujo autor se reconheceria facilmente, a extremidade do cipó desabrochava na janela da jovem mulata. Parecia um buquê de flores sempre frescas que esse longo braço lhe entregava através da persiana.

         Em resumo, tudo era encantador. Se Yaquita, sua filha e Lina estivessem satisfeitas, nem adiantava opinar.

         — Se vocês quiserem — disse Benito — plantaremos árvores na jangada!

         —Oh! Árvores! — falou Minha.

         —Por que não? — respondeu Manoel. — Se forem transplantadas com terra boa para essa sólida plataforma, tenho certeza de que crescerão, ainda mais porque não há que temer uma mudança de clima, já que o Amazonas corre invariavelmente no mesmo paralelo.

        —Aliás — respondeu Benito —, as águas não carregam diariamente as ilhotas de vegetação arrancadas das margens das ilhas e do rio? Elas não passam com suas árvores, seus bosques, seus arbustos, seus rochedos, suas campinas e, a oitocentas léguas daqui, se perdem no Atlântico? Por que nossa jangada não pode transformar-se num jardim flutuante?

         —Quer uma floresta, senhorita Lina? — perguntou Fragoso, que estava pronto para qualquer coisa.

         —Quero! Uma floresta! — exclamou a jovem mulata. — Uma floresta com pássaros, macacos...

         —Cobras, onças-pintadas... — replicou Benito.

         —Índios, tribos nômades... — disse Manoel.

         —E até antropófagos!

         —Mas aonde vai, Fragoso? — falou Minha, ao ver o ágil barbeiro subir pela margem.

         —Buscar a floresta! — respondeu Fragoso.

         — Que bobagem, meu amigo — respondeu Minha, sorrindo. — Manoel deu-me um buquê e estou contente com ele! Se bem que — ela acrescentou mostrando a casa oculta pelas flores —, se bem que escondeu nossa casa no buquê de noivado!

— Buscar a floresta! — respondeu Fragoso.

 

                                A tarde do dia 5 de junho 

         Enquanto a casa principal estava sendo construída, Joam Garral também cuidou da construção das "dependências de serviço", que compreendiam a cozinha e as despensas, nas quais ficariam armazenados todos os tipos de provisão.

         Em primeiro lugar, havia um grande estoque de mandiocas, que são raízes de um arbusto que tem de seis a dez pés de altura, e que é o principal alimento dos habitantes das regiões intertropicais. Essa raiz, parecida com um grande rabanete escuro, dá em tufos, igual à batata. Nas regiões africanas ela não é tóxica, porém, na América do Sul, contém um suco dos mais venenosos, que se extrai antecipadamente por pressão. Depois disso, a raiz é transformada numa farinha, que se prepara de diversos modos, inclusive em forma de tapioca, de acordo com o gosto dos índios.

         Por isso, a bordo da jangada, havia um verdadeiro silo desse produto tão útil, reservado para a alimentação de todos.

         Além de todo um rebanho de carneiros alimentados num estábulo especial e abatidos antecipadamente, as conservas de carne consistiam numa boa quantidade de presuntos da região, de excelente qualidade; também contavam com o fuzil dos rapazes e de alguns índios, bons caçadores, para os quais haveria muita caça — e eles as matariam — nas ilhas ou nas florestas à beira do Amazonas.

         Além do mais, o rio forneceria alimento para o consumo diário: camarões, que se poderia chamar de lagostins; "tambaquis", o melhor peixe de toda a bacia, de gosto mais requintado do que o salmão, ao qual já foi comparado; "pirarucus", de escamas vermelhas, grandes como os esturjões e que, salgados, são despachados em grandes quantidades para todo o Brasil; "candirus", perigosos de pegar, mas bons de comer; "piranhas", ou peixes-diabos, rajadas de faixas vermelhas e com trinta polegadas de comprimento; tartarugas grandes e pequenas, encontradas aos milhares e que fazem parte da alimentação dos índios; sem faltar nenhum deles, todos esses produtos do rio estariam presentes na mesa dos patrões e dos empregados.

         Em breve, se possível, a caça e a pesca seriam praticadas regularmente.

         Quanto às bebidas, havia uma boa provisão de tudo o que o país produzia de melhor: "caisuma" ou "machacha" do Alto e do Baixo Amazonas, líquido agradável, de sabor acidulado, que se destila fervendo a raiz da mandioca-doce; "beiju" do Brasil, uma espécie de aguardente nacional; "chicha" do Peru, esse "mazato" de Ucaiali, extraído dos frutos fervidos, espremidos e fermentados da bananeira; "guaraná", uma espécie de pasta feita com a semente da “Paulínia", que, pela cor, parece um verdadeiro tablete de chocolate e, transformada num pó fino, é adicionada à água, resultando numa excelente bebida.

         E isso não é tudo. Nessa região há uma espécie de vinho violeta escuro que é extraído do suco das palmeiras "açaís", cujo gosto forte e aromático é apreciado pelos brasileiros. Também havia a bordo um número respeitável de frascos7 de vinho que, sem dúvida, estariam vazios quando chegassem ao Pará.

         E, além disso, a adega especial da jangada era digna de Benito, que elegera a si mesmo como organizador-chefe. Algumas centenas de garrafas de Xerez, de Setúbal, de Porto lembravam os nomes caros aos primeiros conquistadores da América do Sul. E o jovem sommelier também guardara na adega alguns garrafões empalhados8cheios do excelente tafiá, que é uma aguardente de cana-de-açúcar com o gosto um pouco mais acentuado do que o beiju nacional.

         Quanto ao tabaco, não era essa planta de qualidade inferior com a qual os índios da bacia amazônica se contentavam. Ele vinha em linha direta de Villa-Bella da Imperatriz, isto é, da região onde se recolhe o tabaco mais apreciado da América Central.

         Então, na parte de trás da jangada ficava o alojamento principal com seus anexos, a cozinha, a despensa, a adega, que era a parte reservada para a família Garral e os empregados pessoais.

         Na parte central, ao longo da embarcação, foram montadas as barracas destinadas ao alojamento dos índios e dos negros. Os empregados deviam usufruir das mesmas condições que na fazenda de Iquitos, e ficar num lugar onde pudessem fazer as manobras, sob a orientação do piloto.

         Para alojar todos os empregados seria preciso um grande número de habitações, e a jangada daria a impressão de um pequeno povoado à deriva. Na verdade, ela teria mais casas e mais habitantes do que muitas aldeias do Alto Amazonas.

         Para os índios, Joam Garral reservara verdadeiras malocas, uma espécie de cabana sem paredes, cujo telhado de folhagens era apoiado em delicados espeques. O ar circulava livremente por dentro dessas construções abertas e balançava as redes penduradas do lado de dentro. Nelas, os índios, entre os quais havia três ou quatro famílias completas, com mulheres e crianças, ficariam alojados como se estivessem em terra firme.

         Os negros encontraram no comboio flutuante as cabanas habituais. Elas eram diferentes dos carbetos porque eram hermeticamente fechadas nos quatro lados, e Só um dava acesso ao interior. Os índios, acostumados a viver ao ar livre, em plena liberdade, não se habituariam a ficar aprisionados numa cabana, mais conveniente para os negros.

         Por fim, na frente, erguiam-se verdadeiros armazéns que guardavam as cargas que Joam Garral transportaria para Belém, junto com os produtos das florestas.

         Nesses amplos depósitos, sob a direção de Benito, a rica mercadoria estava tão organizada que parecia ter sido cuidadosamente arrumada no porão de um navio.

         Em primeiro lugar, as mil arrobas 9 de borracha eram a parte mais preciosa da carga, pois a libra desse produto valia de três a quatro francos. A jangada levava também cinqüenta quintais de salsaparrilha, essa esmilacácea que constituía um ramo importante do comércio de exportação em toda a bacia amazônica, e que foi ficando cada vez mais rara nas margens do rio porque os índios eram pouco cuidadosos e não respeitavam os caules quando a colhiam. Favas-da-índia, conhecidas no Brasil pelo nome de "cumarus", e que serviam para fazer certos óleos essenciais, sassafrás, das quais se extraía um bálsamo importante contra as feridas, fardos de plantas tintoriais, caixas de diversas gomas e uma certa quantidade de madeira preciosa completavam a carga de venda lucrativa e fácil nas províncias do Pará.

         Talvez cause uma certa surpresa o fato de os índios e os negros embarcados terem sido limitados aos exigidos para a manobra da jangada. Não teria sido mais sensato levar um número maior de empregados, prevendo um possível ataque das tribos ribeirinhas do Amazonas?

         Inútil. Não se tinha nada a temer dos índios da América Central; longe ia o tempo em que era preciso precaver-se contra essas agressões. Os índios que habitavam as margens pertenciam a tribos pacíficas, e os mais ferozes já se haviam retirado com a chegada da civilização, que foi se espalhando ao longo do rio e de seus afluentes. Os negros evadidos, os que haviam escapado das colônias penitenciárias do Brasil, da Inglaterra, da Holanda e da França, eram os únicos a quem se devia temer. Mas esses fugitivos eram em pequeno número e perambulavam em grupos isolados pelas florestas e cerrados, e a jangada estava equipada para repelir qualquer ataque desses seres errantes da mata.

         Além do mais, havia vários postos, cidades, povoados, e um grande número de missões no Amazonas. Não era um deserto que o imenso curso d'água atravessava, e sim uma bacia que se colonizava dia a dia. Portanto, esse tipo de perigo não se devia levar em conta. Nenhuma agressão estava prevista.

        Para terminar a descrição da jangada, Só falta falar de duas ou três construções de natureza bem diferente, que lhe davam um aspecto bem pitoresco.

         Na frente, erguia-se o assento do piloto. Na frente, e não atrás, onde habitualmente é o lugar do timoneiro. Nesse tipo de navegação, não se faz uso do leme. Longos remos não teriam nenhuma ação sobre uma embarcação desse comprimento, mesmo que fossem manobrados por cem braços vigorosos. Era lateralmente, por meio de longos croques ou escoras, apoiados no fundo do leito do rio, que se mantinha a jangada na corrente, ou que se corrigia sua direção quando ela se afastava. Esse era o meio usado para se aproximar das margens, quando se queria fazer uma parada por um motivo qualquer. Três ou quatro ubás e duas pirogas com suas aparelhagens estavam a bordo e permitiam uma comunicação fácil com as margens. O papel do piloto se resumia a reconhecer as passagens do rio, os desvios da corrente, os remoinhos que se deviam evitar, as enseadas ou angras que apresentavam uma ancoragem favorável, e, para isso, seu lugar era e devia ser na frente.

         Se o piloto era o orientador material dessa imensa máquina — não se pode usar, com acerto, essa expressão? —, um outro personagem ia ser o orientador espiritual: o padre Passanha, encarregado da missão de Iquitos.

         Uma família tão religiosa quanto a família de Joam Garral aproveitou prontamente a ocasião de levar consigo o velho padre venerado.

         O padre Passanha, então com setenta anos, era um homem de bem, cheio de fervor evangélico, uma pessoa caridosa e boa e, nessas regiões onde os representantes da religião nem sempre davam o exemplo da virtude, ele era o maior exemplo dos grandes missionários, que tanto fizeram pela civilização no meio das regiões mais selvagens do mundo.

 

                        Na frente, erguia-se o assento do piloto.

         Havia cinqüenta anos, o padre Passanha vivia em Iquitos, na missão onde era o chefe. Merecidamente, era amado por todos. A família Garral o tinha em grande estima. Ele havia casado a filha do fazendeiro Magalhães com o jovem comissionado abrigado na fazenda. Vira nascer os filhos do casal, ele os batizara e instruíra e esperava também dar-lhes a bênção nupcial.

         A idade do padre Passanha já não lhe permitia exercer seu laborioso ministério. A hora da aposentadoria já soara para ele. Havia sido substituído em Iquitos por um missionário mais jovem e resolvera voltar ao Pará, para ali acabar os seus dias, num desses conventos reservados aos velhos servos de Deus.

         Que ocasião melhor poderia ser oferecida do que descer o rio com essa família, que era como se fosse a sua? Eles lhe haviam proposto, e ele aceitara, participar da viagem e, quando chegassem a Belém, casaria o jovem casal, Minha e Manoel.

         Mesmo que durante a viagem o padre Passanha devesse sentar-se à mesa da família, Joam Garral quis construir para ele uma habitação à parte e Deus sabe o cuidado que Yaquita e a filha tiveram para torná-la confortável! Certamente, o bom e velho padre nunca ficara tão bem alojado no seu modesto presbitério.

         Todavia, o presbitério não era suficiente para o padre Passanha. Ele precisava também de uma capela.

         A capela foi construída no centro da jangada, encimada por um pequeno campanário.

         Era bem pequena, sem dúvida, e não caberia todo o pessoal que estava a bordo; mas era ricamente ornamentada e, se Joam Garral teria sua própria casa nesse comboio flutuante, o padre Passanha também não lamentaria sua pobre igreja de Iquitos.

         Essa era, então, a maravilhosa aparelhagem que ia descer o curso do Amazonas. Ela estava lá, em cima do cascalho, esperando que o rio viesse carregá-la. De acordo com os cálculos e com as observações da cheia, isso não ia demorar.

         Tudo estava pronto para a data de 5 de junho.

         O piloto, que chegara na véspera, era um homem de cinqüenta   anos, muito entendido das coisas da sua profissão, mas que gostava de beber um pouco. Mesmo assim, Joam Garral tinha muita consideração por ele e, por várias vezes, contratara-o para levar comboios de madeira para Belém, sem nunca se ter arrependido.

         Aliás, é preciso acrescentar que Araújo — esse era o seu nome — via muito melhor quando alguns copos do rústico tafiá, extraído do suco da cana-de-açúcar, clareavam-lhe a visão. Por isso, nunca navegava sem um certo garrafão cheio dessa bebida, à qual fazia uma corte assídua.

         A cheia do rio já se manifestava sensivelmente havia diversos dias. De minuto em minuto o nível da água subia e, durante as quarenta e oito horas que precederam o nível máximo, as águas subiram o suficiente para cobrir a área de cascalho da fazenda, mas ainda não o bastante para levar a jangada.

         Se bem que o movimento da água fosse garantido, que não houvesse a possibilidade de erro sobre a altura que a cheia deveria atingir acima do nível mais baixo, a hora psicológica não deixava de dar alguma emoção a todos os envolvidos na viagem. Na verdade, se por uma causa inexplicável as águas do Amazonas não subissem o bastante para ocasionar a flutuação da jangada, todo esse enorme trabalho teria de ser refeito. E como a diminuição da cheia aconteceria rapidamente, muitos meses teriam de passar para condições idênticas serem encontradas.

         Portanto, no dia 5 de junho, perto do fim da tarde, os futuros passageiros da jangada se reuniram numa plataforma que ficava uns cem pés acima do cascalho e todos aguardaram a hora com uma espécie de ansiedade bem compreensível.

         Lá estavam Yaquita, sua filha, Manoel Valdez, o padre Passanha, Benito, Lina, Fragoso, Cybele e alguns dos empregados índios e negros da fazenda.

         Fragoso não conseguia ficar parado; ele ia e vinha, descia até a margem, subia na plataforma, anotava os pontos de referência e soltava hurras quando a água os atingia.

         — Ela vai flutuar, ela vai flutuar — gritava —, a jangada que vai nos levar a Belém! Ela vai flutuar quando todas as cataratas do céu se abrirem para encher o Amazonas!

          Joam Garral estava na jangada com o piloto e uma numerosa equipe. A ele cabia tomar todas as medidas necessárias no momento da operação. Além do mais, a jangada estava bem amarrada à margem por grossos cabos e não poderia ser arrastada pela corrente quando viesse a flutuar.

         Toda uma tribo de cento e cinqüenta a duzentos índios dos arredores de Iquitos e mais a população do povoado vieram assistir ao interessante espetáculo.

         Todos olhavam, o silêncio era quase completo na multidão impressionada.

         Por volta das cinco horas da tarde, a água havia atingido um nível superior ao da véspera — mais de um pé — e o cascalho já desaparecia por inteiro sob o lençol de água.

         Um certo ruído propagou-se pelas tábuas da enorme armação, mas ainda faltavam algumas polegadas para que ela fosse inteiramente erguida e se soltasse do fundo.

         Durante uma hora, os ruídos foram aumentando. Todos os pranchões estalavam. Um trabalho estava sendo feito, e ele arrancava os troncos, aos poucos, do seu leito de areia.

         Por volta das seis e meia, gritos de alegria eclodiram. Finalmente, a jangada flutuava e a corrente a levava para o meio do rio; mas chamada de volta pelas amarras, ela veio tranqüilamente se colocar perto da margem, no instante em que o padre Passanha a benzia, como teria benzido uma embarcação de mar, que tem o seu destino nas mãos de Deus!

      

                           De Iquitos a Pevas 

         No dia seguinte, 6 de junho, Joam Garral e a família despediram-se do administrador e dos empregados, índios e negros, que ficariam na fazenda. Às seis horas da manhã, a jangada recebeu todos os seus passageiros — seria mais justo chamá-los de habitantes — e cada um tomou posse da sua cabine, ou, melhor dizendo, da sua casa.

         O momento de partir havia chegado. O piloto Araújo tomou seu lugar na frente, e as pessoas da equipe, armadas com seus longos craques, se mantiveram nos postos de manobra.

         Joam Garral, ajudado por Benito e Manoel, fiscalizava a operação da partida.

         Ao comando do piloto, os cabos foram desamarrados, os craques se apoiaram na margem para desatracar a jangada, a corrente não demorou a pegá-la e, beirando a margem esquerda do rio, ela deixou para trás, na margem direita, as ilhas Iquitos e Parianta.

         A viagem havia começado. Onde acabaria? No Pará, em Belém, a oitocentas léguas desse pequeno povoado peruano, se nada modificasse o itinerário escolhido! Como ela acabaria? Isso era um segredo do futuro.

         O tempo estava magnífico. Um belo "pampeiro" temperava o calor do sol. Era um desses ventos de junho e julho, que vêm da cordilheira, a algumas centenas de léguas dali, depois de deslizar pela imensa planície de Sacramento. Se a jangada fosse equipada com mastros e velas teria sentido os efeitos da brisa e sua velocidade teria sido acelerada; mas com as sinuosidades do rio, os bruscos remoinhos que obrigariam a navegar com o maior cuidado possível, precisava-se renunciar aos benefícios de um motor como esse.

         Numa bacia tão plana quanto a do Amazonas, que, para dizer a verdade, não passa de uma planície sem fim, o declive do leito do rio mal pode ser percebido. Foi calculado que, entre Tabatinga, na fronteira brasileira, e a nascente desse grande curso d'água, a diferença de nível não ultrapassaria um decímetro por légua. Não existe nenhuma artéria fluvial no mundo cuja inclinação seja tão pouco pronunciada.

         A conseqüência disso é que a velocidade da corrente do Amazonas, em média, não deve ser estimada em mais de duas léguas a cada vinte e quatro horas, e, algumas vezes, essa estimativa é ainda menor na época da seca. Entretanto, no período da cheia, ela já chegou a aumentar para trinta e até quarenta quilômetros no mesmo período. 10

         Felizmente, essas seriam as condições em que a jangada navegaria; mas como era muito pesada, ela não poderia andar com a mesma rapidez da corrente que se deslocava mais rápido do que ela. E se levarmos em conta os atrasos ocasionados pelos cotovelos do rio, pelas inúmeras ilhas que precisariam ser contornadas, pelos baixios que deveriam ser evitados, pelas horas de parada que, necessariamente, seriam perdidas, pelas noites muito escuras que não permitiriam viajar em segurança, a estimativa não poderia ser de mais de vinte e cinco quilômetros de caminho percorrido, a cada vinte e quatro horas.

         Aliás, a superfície do rio não era totalmente livre. Árvores ainda verdes, restos de vegetação e ilhotas de plantas constantemente arrancadas das margens formavam uma flotilha de destroços que a corrente carregava e que constituíam obstáculos para uma rápida navegação.

         A desembocadura do Nanay logo foi ultrapassada e se perdeu atrás de uma ponta da margem esquerda, com seu tapete de gramíneas arruivadas, queimadas pelo sol, que formavam um tórrido primeiro plano das verdejantes florestas do horizonte.

 

                 A jangada não demorou a se firmar na corrente.

         A jangada não demorou a se firmar na corrente entre as inúmeras e pitorescas ilhas, das quais contamos uma dúzia de Iquitos até Pucalppa.

         Araújo, que não se esquecia de clarear a visão e a memória servindo-se do garrafão, manobrou habilmente no meio desse arquipélago. Quando ele dava a ordem, cinqüenta croques se levantavam simultaneamente de cada lado da jangada e caíam na água com um movimento automático. Era curioso de se ver.

       Enquanto isso, Yaquita, ajudada por Lina e Cybele, acabava de pôr tudo em ordem, e a cozinheira índia cuidava do preparo do almoço.

         Os dois jovens e Minha passeavam na companhia do padre Passanha e, de tempos em tempos, a jovem parava para regar as plantas dispostas ao pé da casa.

         —E então, padre — disse Benito —, conhece uma maneira mais agradável de se viajar?

         — Não, meu querido filho — respondeu o padre Passanha. — Na verdade, isso é viajar com a própria casa!

         —E sem nenhum cansaço — acrescentou Manoel. — Poderíamos viajar assim centenas de milhas!

         —Por isso — disse Minha — o senhor não vai se arrepender de viajar em nossa companhia. Não lhe parece que embarcamos numa ilha, e que essa ilha, separada do leito do rio, com suas campinas, suas árvores, vai tranqüilamente à deriva? Só que...

         —Só quê?... — repetiu o padre Passanha.

         —Essa ilha, padre, fomos nós que fizemos com nossas próprias mãos, ela nos pertence, e é a minha preferida entre todas as ilhas do Amazonas! Tenho o direito de me orgulhar dela!

         —Tem, querida filha — respondeu o padre Passanha —, e eu a absolvo do sentimento de orgulho. Aliás, não me permitiria repreendê-la diante de Manoel!

         —Ao contrário! — respondeu alegremente a jovem. — É preciso ensinar Manoel a me censurar quando eu merecer! Ele é indulgente demais com a minha pessoa, que tem lá os seus defeitos.

         —Então, minha querida Minha — disse Manoel —, vou aproveitar a permissão para lembrá-la...

         —De quê?

         —De que freqüentou muito a biblioteca da fazenda e que havia prometido tornar-me muito sábio em tudo o que se refere ao seu Alto Amazonas. Nós não o conhecemos bem no Pará, e eis que a jangada passa por várias ilhas sem que pense em me dizer o nome delas.

         —E quem poderia fazê-lo? — exclamou a jovem.

         —Sim! Quem poderia? — repetiu Benito depois dela. — Quem poderia guardar as centenas de nomes no idioma "tupi" com que são qualificadas todas essas ilhas? É impossível identificá-las! Os americanos foram mais práticos com suas ilhas do Mississipi, elas são numeradas...

         —Como são numeradas as avenidas e as ruas das cidades deles! — respondeu Manoel. — Francamente, eu não gosto muito desse sistema de numerar. Isso não mexe com a imaginação, ilha sessenta e quatro, ilha sessenta e cinco, igual à sexta rua da terceira avenida! Não compartilha minha opinião, querida Minha?

         —Sim, Manoel, independentemente do que possa pensar o meu irmão — respondeu a jovem. — Mas, embora não conheçamos os nomes, as ilhas do nosso grande rio são realmente belas! Veja-as passarem sob a sombra de gigantescas palmeiras com suas folhas pendentes! E esse cinturão de junco que as cerca, no meio dos quais uma estreita piroga mal conseguiria abrir passagem! E essas rizóforas, cujas raízes fantásticas vêm arquear-se nas margens como patas de monstruosos caranguejos. Sim, essas ilhas são bonitas, mas por mais bonitas que sejam, não podem deslocar-se como a nossa!

         —A pequena Minha está bem entusiasmada hoje! — observou o padre Passanha.

         —Ah, Padre! — exclamou a jovem. — Estou tão feliz por sentir todo o mundo feliz a minha volta!

         Nesse momento, ouviu-se a voz de Yaquita, que chamava Minha para dentro da casa.

         A jovem foi embora, correndo e sorrindo.

         — Manoel, terá uma amável companheira — disse o padre Passanha ao rapaz. — É toda a alegria da família que vai embora com o senhor, meu amigo.

          — Querida irmãzinha! — disse Benito. — Vamos sentir muito a falta dela, e o padre tem razão! Na verdade, se você não se casasse com ela, Manoel!... Ainda é tempo! Ela ficaria conosco!

         —Ela ficará com vocês, Benito — respondeu Manoel. — Acredite em mim, o futuro, tenho esse pressentimento, reunirá todos nós!

         O primeiro dia correu bem. Almoçar, jantar, sesta, passeios, tudo acontecia como se Joam Garral e a família ainda estivessem na confortável fazenda de Iquitos.

         Nessas vinte e quatro horas, as desembocaduras dos rios Bacali, Chochio, Pucalppa, à esquerda do rio, e as dos rios Itinicari, Maniti, Moyoc, Tuyuca e as ilhas com o mesmo nome, à direita, foram transpostas sem incidentes. À noite, iluminada pela lua, permitiu economizar uma parada e a longa jangada deslizou tranqüilamente pela superfície do Amazonas.

         No dia seguinte, 7 de junho, a jangada passou pelas margens do povoado de Pucalppa, também chamado de Novo-Oran. O antigo Oran, situado quinze léguas abaixo, na mesma margem esquerda do rio, está agora abandonado. A população de Novo-Oran era composta de índios que pertenciam às tribos mayorunas e orejones. Não havia nada mais pitoresco do que esse povoado com suas margens que pareciam pintadas com sanguina, a igreja inacabada, as palhoças com altas palmeiras que sombreavam os colmos e duas ou três ubás meio encalhadas nos barrancos.

         Durante todo o dia 7 de junho, a jangada continuou a seguir a margem esquerda do rio, passando por alguns afluentes desconhecidos, sem importância. Por um instante, ela correu o risco de ficar presa na ponta de cima da ilha Sinicuro; mas o piloto, bem servido pela equipe, conseguiu evitar o perigo e se manteve na direção da corrente.

         No fim da tarde, chegaram ao lado de uma ilha mais extensa, chamada Ilha Napo, com o mesmo nome do rio que, nesse lugar, corre para o noroeste, e mistura suas águas com as do Amazonas por uma foz que tem por volta de oitocentos metros de largura, depois de haver banhado os territórios dos índios cotos da tribo dos orejones.

         Foi nessa manhã de 7 de junho que a jangada chegou na altura da pequena ilha Mango, que obriga o Napo a se dividir em dois braços antes de desaguar no Amazonas.

         Alguns anos depois, um viajante francês, Paul Marcoy, identificou a cor das águas desse afluente, que ele comparou com muita propriedade à nuança de absinto da opala verde. Ao mesmo tempo, ele retificou algumas medidas indicadas por La Condamine. Mas, naquela época, a desembocadura do Napo estava sensivelmente aumentada pela cheia e era com uma certa rapidez que seu curso, que se origina na encosta oriental do Cotopaxi, vinha se misturar, borbulhando, às águas amareladas do Amazonas.

         Alguns índios perambulavam na desembocadura desse curso d'água. Eles eram robustos, de estatura elevada, cabelos soltos, a narina transpassada por uma argola de palmeira, o lóbulo da orelha esticado até o ombro pelo peso de rodelas feitas de madeira preciosa. Estavam acompanhados de algumas mulheres. Nenhum deles manifestou a intenção de subir a bordo.

        

               Alguns índios perambulavam na desembocadura desse curso d'água.

         Dizem que esses indígenas eram antropófagos; mas dizem isso de tantas tribos ribeirinhas que, se o fato fosse verdade, teríamos testemunhos dos hábitos de canibalismo que, até hoje, não foram encontrados.

         Algumas horas mais tarde, o povoado de Bela-Vista, assentado numa margem mais baixa, mostrou seu buquê de belas árvores, que dominavam algumas choupanas cobertas de palha, sobre as quais as bananeiras de altura média deixavam cair suas largas folhas, como a água de uma vasilha cheia demais.

         Depois, o piloto, a fim de seguir uma corrente melhor que deveria afastá-lo dos barrancos, dirigiu o comboio para a margem direita do rio, da qual ele ainda não se havia aproximado. A manobra não foi feita sem uma certa dificuldade, que, felizmente, foi vencida depois de alguns abraços dados no garrafão.

         Isso permitiu, de passagem, ver as numerosas lagoas de águas escuras, semeadas ao longo do curso do Amazonas e que, em geral, não têm nenhuma comunicação com o rio. Uma delas, que tem o nome de lagoa de Oran, de tamanho medíocre, recebia as águas por uma larga passagem. No meio do leito do rio, perfilavam-se várias ilhas e duas ou três ilhotas, curiosamente agrupadas e, na margem oposta, Benito distinguiu o lugar da antiga Oran, da qual não se viam mais do que vestígios indistintos.

         Durante dois dias, de acordo com as exigências da corrente, a jangada ia ora para a margem direita, ora para a margem esquerda, sem que o seu madeiramento tocasse algo suspeito.

         Os passageiros já estavam acostumados à nova vida. Joam Garral, que deixara para o filho o cuidado de tudo o que se referia ao lado comercial da expedição, ficava quase todo o tempo no quarto, meditando e escrevendo. Sobre o que escrevia, ele não dizia nada, nem mesmo a Yaquita e, no entanto, isso já adquiria o tamanho de uma verdadeira memória.

         Benito, de olho em tudo, conversava com o piloto e revezava na direção. Yaquita, a filha e Manoel formavam quase sempre um grupo à parte, ou se entretinham com projetos sobre o futuro ou passeavam como se estivessem no jardim da fazenda. Era verdadeiramente a mesma vida. Só não era para Benito, que ainda não tivera oportunidade de se entregar ao prazer da caça. Embora sentisse falta das florestas de Iquitos, com suas feras, cutias, queixadas e capivaras, havia os pássaros que voavam em bandos nas margens e nem mesmo temiam pousar na jangada. Quando podiam figurar na mesa como caça, Benito atirava neles e sua irmã não se opunha, pois era para o interesse de todos; mas, quando se tratava da garça-real cinza ou amarela, do íbis rosa ou branco, que freqüentavam as margens, eram poupados por consideração a Minha. Só uma única espécie de mergulhão, se bem que absolutamente não comestível, não era atraente aos olhos do jovem negociante: era o "caiarara', tão hábil para mergulhar quanto para nadar ou voar, um pássaro com um grito desagradável, mas cuja penugem é muito valorizada nos vários mercados da bacia amazônica.

         Finalmente, depois de passar pelo povoado de Omáguas e pela desembocadura do Ambiacu, a jangada chegou a Pevas, na tarde do dia 11 de junho, e foi amarrada à margem.

         Como ainda restavam algumas horas antes do anoitecer, Benito desembarcou, levando com ele o sempre pronto Fragoso, e os dois caçadores foram percorrer a cerrada floresta nos arredores do pequeno povoado. Uma cutia e uma capivara, sem falar de uma dúzia de perdizes, vieram enriquecer a cozinha depois dessa feliz excursão.

          Em Pevas, com uma população de duzentos e sessenta habitantes, talvez Benito pudesse fazer algumas trocas com os irmãos leigos da missão, que também eram negociantes de atacado; mas eles haviam expedido recentemente alguns fardos de salsaparrilha e um bom número de arrobas de borracha para o Baixo Amazonas, e o depósito deles estava vazio.

         A jangada partiu ao amanhecer e entrou pelo pequeno arquipélago formado pelas ilhas Iatio e Cochiquinas, depois de passar, à direita, pelo povoado que tem o mesmo nome. Várias desembocaduras de pequenos afluentes sem nome foram notadas na margem direita do rio, através dos intervalos que separam as ilhas.

         Alguns indígenas de cabeça raspada, tatuados nas faces e na testa, usando argolas de metal nas asas nasais e embaixo do lábio inferior, apareceram por alguns instantes nas margens. Estavam armados de flechas e zarabatanas, mas não as usaram e nem mesmo tentaram entrar em comunicação com a jangada.

 

                     Eles pegaram uma grande variedade de peixes excelentes.

                     De Pevas à fronteira 

         Durante os dias que se seguiram, a navegação não apresentou nenhum incidente. As noites eram tão bonitas que a longa jangada se deixou levar pela corrente, sem fazer nenhuma parada. As duas margens pitorescas do rio pareciam locomover-se lateralmente, como esses cenários de teatro que vão de um bastidor ao outro. Por uma espécie de ilusão de óptica que acontece inconscientemente com os olhos, parecia que a jangada estava imóvel entre duas bordas que se moviam.

         Benito não pôde caçar nas margens pois não fizeram nenhuma parada; mas a caça foi vantajosamente substituída pelos produtos da pesca.

       Na verdade, eles pegaram uma grande variedade de peixes excelentes, "pacus", "surubis", "gamitanas", de uma carne deliciosa, e algumas grandes raias, chamadas de “duridaris", de barriga rosa e costas pretas, armadas com um ferrão venenoso. Também recolheram, aos milhares, esses "candirus", uma espécie de pequenos siluros, sendo alguns microscópicos, que fizeram uma alfineteira das panturrilhas do banhista que imprudentemente se aventurou nas paragens deles.

         Vários outros animais aquáticos, freqüentadores das ricas águas do Amazonas, acompanhavam a jangada por várias horas.

         Havia os gigantes "pirarucus", com dez a doze pés de comprimento, cobertos por grandes escamas com a beirada escarlate, mas cuja carne Só era apreciada pelos índios. Também nem tentavam pescar os graciosos golfinhos que vinham brincar às centenas, batiam com o rabo nas vigotas da jangada, jogavam-se na frente e atrás da embarcação, animando as águas do rio com reflexos coloridos e com jatos d'água, que a luz refratada mudava em vários arco-íris.11

         No dia 16 de junho, depois de navegar próximo às margens devido aos baixios que, felizmente, conseguiram evitar, a jangada chegou perto da grande ilha de San-Pablo e no dia seguinte, à noite, parou no povoado de Moromoros, situado na margem esquerda do Amazonas. Vinte e quatro horas depois, passou pelas desembocaduras do Atacoari e do Cocha e, em seguida, pelo "furo", ou canal que se comunicava com o lago de Caballo-Cocha, na margem direita, e fez escala na altura da missão de Cocha.

         Essa era a região dos índios marahuas, de longos cabelos soltos, que tinham em volta da boca uma espécie de leque de espinhos de palmeiras, com seis polegadas de comprimento, que os deixava com um aspecto felino, e isso — segundo a observação de Paul Marcoy — com a intenção de se parecerem com o tigre, do qual eles admiravam, acima de tudo, a audácia, a força e a astúcia. Algumas mulheres estavam com esses marahuas, e fumavam charutos, segurando-os entre os dentes, acesos. Todos eles, assim como o rei das florestas amazônicas, andavam quase nus.

         A missão de Cocha era, na época, dirigida por um monge franciscano, que quis visitar o padre Passanha.

         Joam Garral acolheu muito bem o religioso e até convidou-o a sentar-se à mesa da família.

         Exatamente naquele dia, havia um jantar que exaltava a cozinha índia.

         Um caldo tradicional com ervas aromáticas, um empadão que, na maioria das vezes, substituía o pão no Brasil e que era composto de farinha de mandioca bem impregnada de caldo de carne e de uma massa de tomate, galinha com arroz nadando num molho picante de vinagre e "malagueta", um prato de verduras apimentadas e bolo frio salpicado de canela; tudo isso tentava um pobre monge, reduzido ao trivial da paróquia. Portanto, insistiram para que ele ficasse. Yaquita e a filha fizeram tudo o que puderam com esse propósito. Mas, naquela mesma noite, o franciscano devia visitar um índio doente em Cocha. Ele agradeceu à hospitaleira família e partiu, não sem levar alguns presentes que deveriam ser bem recebidos pelos neófitos da missão.

         Durante dois dias, o piloto Araújo teve muito trabalho. O leito do rio se alargava pouco a pouco; mas as ilhas eram mais numerosas e a corrente, atrapalhada por esses obstáculos, também aumentava. Era preciso tomar grandes precauções para passar entre as ilhas Caballo-Cocha, Tarapote, Cacao, fazer paradas freqüentes e, por várias vezes, os homens foram obrigados a desembaraçar a jangada, que ameaçava encalhar. Todo o mundo foi obrigado a pôr mãos à manobra, e foi nessas condições bem difíceis que, no dia 20 de junho, à tarde, eles conheceram Nuestra-Senora-de-Loreto.

         Loreto era a última cidade peruana situada na margem esquerda do rio, antes de se chegar à fronteira do Brasil. Ela não passava de um simples povoado, composto de umas vintes casas, agrupadas numa ribanceira ligeiramente acidentada, cujas elevações eram de uma terra de ocre e argila.

         Essa missão havia sido fundada em 1770 por missionários jesuítas. Os índios ticunas, que habitavam esses territórios ao norte do rio, eram indígenas de pele avermelhada, cabelos grossos, com desenhos zebrados no rosto, como a laca de uma mesa chinesa; tanto os homens quanto as mulheres se vestiam com pequenas faixas de algodão que lhes circundavam o peito e a cintura. Eles não eram, então, mais do que duzentos, nas bordas do Atacoari, um resto ínfimo de uma nação que, outrora, havia sido poderosa sob o comando de grandes chefes.

         Em Loreto também viviam alguns soldados peruanos e dois ou três negociantes portugueses que comerciavam algodão, peixe salgado e salsaparrilha.

         Benito desembarcou para, se possível, comprar alguns fardos dessa esmilacácea, que era muito solicitada nos mercados do Amazonas. Joam Garral, sempre muito ocupado com um trabalho que absorvia todo   o seu tempo, não pôs o pé em terra. Yaquita e a filha também ficaram a bordo da jangada com Manoel. Isso porque os mosquitos de Loreto tinham uma bem-feita reputação para afastar os visitantes, que não queriam dar um pouco do próprio sangue para esses temíveis dípteros.

         Justamente, Manoel acabava de dizer algumas palavras sobre esses insetos, que não davam a menor vontade de enfrentar suas picadas.

         —Dizem — ele acrescentou — que as nove espécies que infestam o Amazonas marcaram encontro no povoado de Loreto. Eu acredito nisso e não quero tirar a prova. Lá, querida Minha, poderia escolher entre o mosquito cinza, o peludo, o de pata branca, o anão, o tocador de fanfarra, o pequeno pífaro, o urtiquis, o arlequim, o negro grande, o ruivo dos bosques, ou provavelmente todos a escolheriam como alvo e voltaria para cá irreconhecível! Eu acho, na verdade, que esses dípteros sanguinários guardam melhor a fronteira brasileira do que esses pobres diabos dos soldados, pálidos e magros, que vemos na margem!

         —Mas se tudo serve para alguma coisa na natureza — perguntou a jovem —, para que servem os mosquitos?

         —Para fazer a felicidade dos entomologistas — respondeu Manoel —, e eu ficaria confuso para lhe dar uma explicação melhor!

         O que Manoel disse sobre os mosquitos de Loreto não era mais do que a verdade. A conseqüência foi que, terminadas as compras, quando Benito voltou a bordo, tinha o rosto e as mãos tatuados por um milhão de pontos vermelhos, sem falar nos bichos-de-pé que, apesar do couro dos sapatos, se haviam introduzidos sob seus dedos.

         —Vamos partir, vamos partir, agora mesmo! — gritou Benito. — Ou as malditas legiões de insetos vão invadir-nos e a jangada ficará inabitável!

         —E nós os importaríamos para o Pará — retrucou Manoel —, que já tem o suficiente para o seu próprio consumo.

         —Então, para não passar a noite nessas margens, a jangada, desamarrada, retomou a corrente.

         A partir de Loreto, o Amazonas se inclinava um pouco para sudoeste, entre as ilhas Arava, Cuyari e Urucutea. A jangada deslizava nas águas escuras do Cajuru, misturadas com as águas brancas do Amazonas. Depois de transpor esse afluente da margem esquerda, no fim da tarde de 23 de junho, ela ia à deriva, tranqüilamente, ladeando a grande ilha de Jahuma.

         O pôr do sol no horizonte, sem nenhuma nuvem, anunciava uma dessas belas noites dos trópicos, que as zonas temperadas não conhecem. Uma ligeira brisa refrescava a atmosfera. A lua logo ia se levantar no fundo do céu cheio de constelações, e substituir por algumas horas o crepúsculo ausente das baixas latitudes. E nesse período ainda obscuro, as estrelas brilhavam com uma pureza incomparável. A imensa planície da bacia parecia prolongar-se até o infinito como um mar e, na extremidade dessa linha, que mede mais de duzentos mil bilhões de léguas, apareciam, ao norte, o diamante único da estrela polar e, ao sul, os quatro brilhantes do Cruzeiro do Sul.

         As árvores da margem esquerda e da ilha Jahuma, meio embaçadas, destacavam-se em recortes negros. Só se podia identificar as indecisas silhuetas, os troncos, ou melhor, as colunas das copaíbas que se abriam em guarda-chuvas, os grupos de "sandis", da qual se extrai um leite espesso e açucarado que, dizem, dá a embriaguez do vinho, os "vinháticos" com a altura de oitenta pés, cuja copa tremelicava com a passagem de leves correntes de ar. "Que bela homília são as florestas do Amazonas!", poderíamos dizer. Sim! E podíamos acrescentar: "Que hino maravilhoso são as noites dos trópicos!".

         Os pássaros soltavam suas últimas notas da noite: "bem-te-vis" que penduram seus ninhos nos juncos das margens; "nhambus", uma espécie de perdiz, cujo canto é composto de quatro notas num acorde perfeito e que repetiam os imitadores da raça dos voadores; "camixis", de melopéia tão lamurienta; Martins-pescadores, cujo grito responde, como um sinal, aos últimos gritos dos seus congêneres; "canindés", com clarins sonoros; e araras vermelhas que dobravam as asas nas folhagens dos "jequitibás", das quais a noite extinguia as esplêndidas cores.

        Na jangada todos os empregados estavam nos seus postos, numa atitude de repouso. Sozinho, o piloto, de pé, na frente, deixava ver sua alta estatura, apenas delineada nas primeiras sombras. A tripulação de guarda, com o longo croque no ombro, lembrava um acampamento de   cavaleiros tártaros. A bandeira brasileira pendia na ponta do mastro, na frente da jangada, e a brisa já não tinha força para levantar-lhe a estamenha.

         Às oito horas, as três primeiras badaladas do ângelus evolaram-se do sino da pequena capela. As três badaladas do segundo e do terceiro verseto soaram na sua vez e a ave-maria terminou com a série de toques mais rápidos do pequeno sino.

         Toda a família, depois desse dia do mês de junho, ficou sentada na varanda, para respirar o ar mais fresco do lado de fora. Todas as noites transcorriam desse modo e enquanto Joam Garral, sempre silencioso, se contentava em escutar, os jovens conversavam alegremente até a hora de dormir.

         —Ah, nosso lindo rio, nosso magnífico Amazonas! — exclamou a jovem, cujo entusiasmo por esse grande curso de água sul-americano não diminuía nunca.

         —Incomparável, na verdade — respondeu Manoel —, e eu percebo todas as suas sublimes belezas! Agora, estamos descendo o rio, como Orellana, como La Condamine fizeram, há séculos, e não surpreende que tenham feito tão maravilhosas descrições!

         —Um pouco fabulosas! — replicou Benito.

         —Meu irmão — recomeçou gravemente a jovem —, não fale mal do nosso Amazonas!

         —Não estou falando mal, Só por lembrar que ele tem suas lendas, irmãzinha!

         —Sim, é verdade, ele tem lendas, e maravilhosas! — respondeu Minha.

         —Que lendas? — perguntou Manoel. — Devo confessar que elas ainda não chegaram ao Pará, ou pelo menos da minha parte, eu não as conheço!

         —Mas então, o que lhes ensinam nos colégios de Belém? — respondeu a jovem, rindo.

         —Estou começando a perceber que não nos ensinam nada! — falou Manoel.

          —Como, senhor! — retomou Minha com uma voz séria, mas levando na brincadeira. — Ignora, entre outras fábulas, que um enorme réptil, chamado de Minhocão, às vezes, vem visitar o Amazonas, e que as águas aumentam ou diminuem conforme essa serpente mergulha ou sai do rio, tão gigantesca ela é?

         —E já viram alguma vez esse Minhocão fenomenal? — perguntou Manoel.

         —Felizmente, não! — respondeu Lina.

         —Que pena! — Fragoso achou que devia acrescentar.

         —E a "Mãe d'Água, retomou a jovem — essa maravilhosa e temível mulher, cujo olhar fascina e arrasta para o fundo do rio os imprudentes que a contemplam?

         —Oh! Quanto à Mãe d'Água, ela existe! — exclamou a ingênua Lina. — Dizem até que ela, ainda por cima, passeia nas margens, e desaparece, como uma ondina, quando alguém se aproxima!

         —Muito bem, Lina — respondeu Benito —, a primeira vez que você a vir, venha avisar-me.

         —Para que ela o pegue e o leve para o fundo do rio? Nunca, senhor Benito!

         —É nisso que ela acredita! — exclamou Minha.

         —Há muita gente que acredita no tronco de Manaus! — disse, então, Fragoso, sempre pronto a intervir a favor de Lina.

         —O tronco de Manaus? — perguntou Manoel. — O que é esse tronco de Manaus?

         —Senhor Manoel — respondeu Fragoso com uma seriedade cômica —, parece que há, ou melhor, que houve, antigamente, um tronco de "turumã" que todos os anos, na mesma época, descia o rio Negro, detinha-se alguns dias em Manaus e ia em direção ao Pará, fazendo uma parada em todos os portos, onde os índios o ornamentavam, devotadamente, com bandeirinhas. Quando chegava a Belém, ele parava, dava meia-volta, subia o Amazonas, depois o rio Negro, e retornava para a floresta de onde misteriosamente partira. Um dia, quiseram levá-lo para terra, mas o rio, encolerizado, se encheu e tiveram de desistir de pegá-lo. Um outro dia, o capitão de um navio arpoou o tronco e tentou rebocá-lo... Mais uma vez, o rio enfurecido arrebentou a corda, e o tronco escapou miraculosamente!

         —E o que aconteceu com ele? — perguntou a jovem mulata.

         —Parece que na última viagem, senhorita Lina — respondeu Fragoso —, em vez de subir o rio Negro, ele errou o caminho e seguiu pelo Amazonas. Depois disso, ninguém mais o viu!

         —Oh! Se pudéssemos encontrá-lo! — exclamou Lina.

         —Se nós o encontrarmos — disse Benito —, poremos você em cima do tronco, Lina; ele vai levá-la para a floresta misteriosa e você passará a ser uma náiade lendária.

         —Por que não? — respondeu a jovem tresloucada.

         —São muitas lendas — disse, então, Manoel — e confesso que o rio de vocês é digno delas. Mas há também algumas histórias muito interessantes. Eu conheço uma e, se não temesse entristecê-los, porque ela é verdadeiramente lamentável, eu a contaria.

         —Oh! Conte, senhor Manoel — exclamou Lina. — Gosto tanto de histórias que fazem chorar.

         —Você chora, Lina? — disse Benito.

         —Choro sim, senhor Benito, mas eu choro rindo!

         —Vamos, conte logo, Manoel.

         —É a história de uma francesa, cujas desgraças ilustraram essas margens, no século XVIII.

         —Continue — falou Minha.

         —Vou começar — retomou Manoel. — Em 1741, por ocasião da experiência de dois cientistas franceses, Bourguer e La Condamine, que foram enviados para medir um grau da Terra abaixo do Equador, a eles se juntou um astrônomo muito famoso, chamado Godin des Odonais.

         "Então, Godin des Odonais partiu, mas não foi sozinho para o Novo Mundo: levou consigo a jovem esposa, os filhos, o sogro e o cunhado.

         "Todos os viajantes chegaram a Quito saudáveis. E foi ali que começou uma série de desgraças para a senhora Odonais, porque em poucos meses ela perdeu vários de seus filhos.

        

          "Quando Godin des Odonais terminou seu trabalho, por volta do fim do ano de 1759, ele teve de sair de Quito e ir para Caiena. Assim que chegou à cidade, quis mandar vir a família; mas como a guerra havia sido declarada, foi obrigado a solicitar ao governo português uma autorização que desse passagem livre para a senhora Odonais e os outros familiares.

         "E dá para acreditar? Muitos anos se passaram sem que a autorização fosse concedida.

         "Em 1765, Godin des Odonais, desesperado com esses atrasos, resolveu subir o Amazonas para buscar a mulher em Quito; mas quando ia partir, uma súbita doença impediu-o e não pôde executar o projeto.

         "Entretanto, os pedidos não haviam sido inúteis e a senhora Odonais soube, finalmente, que o rei de Portugal lhe concedia autorização e mandara preparar uma embarcação para que pudesse descer o rio e ir ao encontro do marido. Ao mesmo tempo, uma escolta recebera ordens de esperá-la nas missões do Alto Amazonas.

         "A senhora Odonais era uma mulher de grande coragem, como verão. Por isso, não hesitou e, apesar dos perigos de uma viagem como essa através do continente, ela partiu.”

         —Era o dever dela, de esposa, Manoel — disse Yaquita. — E eu teria agido da mesma forma.

         —A senhora Odonais — retomou Manoel — foi até Rio Bamba, ao sul de Quito, levando com ela o irmão, os filhos e um médico francês. Eles precisavam chegar às missões da fronteira brasileira, onde deviam encontrar a embarcação e a escolta.

         "No início, a viagem foi feliz; ela passava pelos afluentes do Amazonas, que se desciam de canoa. Entretanto, as dificuldades foram crescendo pouco a pouco, devido aos perigos e ao cansaço, num país dizimado pela varíola. Dos poucos guias que vieram oferecer seus serviços, a maioria desapareceu alguns dias depois e, um deles, o último que havia permanecido fiel aos viajantes, afogou-se ao socorrer o médico francês.

         "A canoa, meio quebrada pelas rochas e pelos troncos à deriva, já não servia mais. Precisaram, então, desembarcar e, ali, na beira de uma impenetrável floresta, foram obrigados a construir umas cabanas de folhagens. O médico se ofereceu para ir na frente com um negro que nunca deixara a senhora Odonais. Os dois partiram. Eles foram esperados por vários dias... em vão! Nunca mais voltaram.

         "Os víveres estavam acabando. Os que haviam ficado tentaram, inutilmente, descer o Bobonasa numa jangada. Tiveram de voltar para a floresta e seguir a pé, no meio da vegetação cerrada, quase impraticável.

         "Era demais para essas pobres pessoas! Elas foram morrendo uma a uma, apesar dos cuidados da valente francesa. Passados alguns dias, filhos, parentes, empregados, todos estavam mortos!”

         — Oh, que mulher infeliz! — disse Lina.

         —A senhora Odonais ficou sozinha — continuou Manoel. — Ela ainda estava a mil léguas do oceano que precisava atingir. Já não era a mãe que continuava a andar na direção do rio!... A mãe havia perdido os filhos, enterrara-os com as próprias mãos! Era a mulher que queria rever o marido.

         "Ela andou dia e noite e, finalmente, encontrou o curso do Bobonasa. Ali, foi recolhida por índios generosos que a conduziram às missões onde a escolta a esperava.

         "Mas a senhora Odonais chegava Só, deixando atrás de si um caminho semeado de túmulos.

         "A esposa de Odonais chegou a Loreto, onde estávamos há alguns dias. Desse povoado peruano, ela desceu o Amazonas, como nós nesse momento e, enfim, reencontrou o marido, depois de dezenove anos de separação!”

         —Pobre mulher! — disse Minha.

         —Pobre mãe, principalmente! — retrucou Yaquita.

         Nesse momento, o piloto Araújo apareceu na parte de trás da jangada e disse:

         —Joam Garral, estamos diante da ilha da Ronda. Vamos passar a fronteira!

         —A fronteira! — respondeu Joam.

         E, levantando-se, foi até a borda da jangada e olhou longamente para a ilhota da Ronda, onde se quebrava a corrente do rio. Em seguida, pôs a mão na testa, como se quisesse expulsar uma lembrança.

         — A fronteira! — murmurou, abaixando a cabeça num movimento involuntário.

         Contudo, um minuto depois, a cabeça estava erguida, e seu rosto era o de um homem resolvido a cumprir o dever até o fim.

        

          Fragoso em ação 

          "Braza', ou brasa, é uma palavra que encontramos na língua espanhola desde o século XII. Ela serviu para formar a palavra” brazil", para designar certas madeiras que fornecem uma tinta vermelha. Daí vem o nome de Brasil dado à vasta extensão da América do Sul que é atravessada pela linha equinocial, e onde essa madeira era freqüentemente encontrada. Ela foi, aliás, e numa boa hora, objeto de um grande comércio com os normandos. Embora seja denominada "ibirapitanga" no lugar em que é produzida, foi o nome de "brazil" que ficou, e que passou a ser o nome do país, que parece uma imensa brasa, inflamado pelos raios do sol tropical.

         Os portugueses foram os primeiros a ocupá-lo. No início do século XVI, Álvares Cabral tomou posse dessa terra. Embora, mais tarde, a França e a Holanda se tenham estabelecido numa parte do país, ele continuou sendo dos portugueses com todas as qualidades que distinguem esse pequeno povo valente. Considerado um dos maiores países da América meridional, teve no seu comando o rei artista e inteligente dom Pedro.

         "Que direito você tem na tribo?", perguntou Montaigne a um índio que encontrou no Havre.

         "O direito de ser o primeiro a ir para a guerra!", respondeu simplesmente o índio.

         A guerra, é sabido, foi por muito tempo o mais infalível e o mais rápido veículo da civilização. Por isso, os brasileiros fizeram o que fazia esse índio: lutaram, defenderam sua conquista, ampliaram-na, e era na primeira fila que os víamos marchar na estrada da civilização.

         Em 1824, seis anos depois da fundação do império luso-brasileiro, o Brasil proclamou sua independência pela voz de dom Juan, que os exércitos franceses haviam expulsado de Portugal.

         Faltava acertar a questão das fronteiras entre o novo império e o Peru, seu vizinho.

         A coisa não era fácil.

         De um lado o Brasil queria estender suas terras até o rio Napo, a oeste, do outro, o Peru pretendia ampliar as suas até o lago Ega, isto é, mais oito graus a oeste.

         Porém, nesse meio tempo, o Brasil precisou intervir para impedir um levante dos índios do Amazonas, a favor das missões hispano-brasileiras. O melhor meio encontrado para impedir esse tipo de tratado foi fortificar a ilha da Ronda, um pouco acima de Tabatinga, e ali estabelecer um posto.

         Foi uma solução e, desde essa época, a fronteira dos dois países passa pelo meio da ilha.

         Acima, o rio é peruano e se chama Maranon, como foi dito.

         Abaixo, ele é brasileiro e tem o nome de rio das Amazonas.

         No dia 25 de junho, à noite, a jangada parou diante de Tabatinga, a primeira cidade brasileira, situada na margem esquerda, na nascente do rio que lhe dá o nome, e que depende da paróquia de San-Pablo, estabelecida mais abaixo, na margem direita.

         Joam Garral resolveu passar ali trinta e seis horas, para dar um descanso aos empregados. Portanto, a partida Só ocorreria no dia 27, pela manhã.

         Dessa vez, Yaquita e os filhos, talvez menos ameaçados do que em Iquitos de servir de comida aos mosquitos indígenas, manifestaram a intenção de descer em terra e visitar a aldeia.

         A população de Tabatinga era estimada em quatrocentos habitantes, quase todos índios, incluindo, sem dúvida, os nômades que iam de um lado para o outro e não se fixavam à beira do Amazonas, nem dos seus pequenos afluentes.

         O posto da ilha da Ronda estava abandonado havia alguns anos e fora transportado para Tabatinga. Podia-se dizer que se tratava de uma cidade de guarnição; porém, a guarnição era composta apenas de nove soldados, quase todos índios, e de um sargento que era o verdadeiro comandante do lugar.

         Uma ribanceira, de uns trinta pés de altura, na qual foram cortados os degraus de uma pequena escada não muito sólida, formava nesse lugar a cortina da esplanada onde estava o pequeno forte. A residência do comandante era composta de duas choupanas dispostas num ângulo reto, e os soldados ocupavam uma construção oblonga, erguida a cem passos dali, ao pé de uma grande árvore.

         Esse conjunto de cabanas seria perfeitamente parecido com todos os povoados e vilarejos disseminados pelas margens do rio, se um mastro com uma bandeira, enfeitada com as cores brasileiras, não se elevasse em cima de uma guarita, sempre privada da sentinela, e se quatro pedreiros de bronze não estivessem ali para atirar, se necessário, em todas as embarcações que avançassem sem ordem.

         Quanto ao povoado propriamente dito, estava situado mais abaixo, além do planalto. Um caminho, que não passava de uma ravina, sombreado de fícus e de miritis, levava até ele, em poucos minutos. Sobre uma escarpa de pedra argilosa, meio rachada, erguiam-se uma dúzia de casas cobertas de folhas de palmeira "boiaçu", dispostas em torno de uma praça central.

         Tudo isso não era muito interessante, mas os arredores de Tabatinga eram encantadores, sobretudo na desembocadura do Javari, larga o suficiente para conter o arquipélago das ilhas Aramasa. Nesse lugar, estavam agrupadas belas árvores e, entre elas, um grande número de palmeiras, cujas fibras flexíveis, empregadas na fabricação de redes de dormir e redes de pesca, faziam parte de um certo comércio. Em resumo, esse lugar era um dos mais pitorescos do Alto Amazonas.

         Aliás, Tabatinga estava destinada a se tornar, em pouco tempo, um ponto de parada muito importante e, sem dúvida, a ter um rápido   desenvolvimento. Ali deveriam parar os vapores brasileiros que subiam o rio, e os vapores peruanos que o desciam. Ali seria feita a mudança de carga e de passageiros. Para uma aldeia inglesa ou americana, nem precisaria tanto para se tornar, em alguns anos, o centro de um movimento comercial dos mais consideráveis.

         O rio era muito bonito nessa parte do seu curso. Evidentemente, o efeito das marés não era sentido em Tabatinga, situada a mais de cem léguas do Atlântico. Mas era diferente com a "pororoca", essa espécie de macaréu que, durante três dias, nos grandes fluxos de sizígia, aumenta as águas do Amazonas e as empurra com uma velocidade de dezessete quilômetros por hora. Diziam, realmente, que esse maremoto se propagava até a fronteira brasileira.

         No dia seguinte, 26 de junho, antes do almoço, a família Garral preparou-se para desembarcar e visitar a cidade.

         Embora Joam, Benito e Manoel já houvessem posto os pés em mais de uma cidade do império brasileiro, isso não havia acontecido com Yaquita e a filha. Seria, então, para elas, uma tomada de posse.

         Imagina-se o valor que Yaquita e Minha deviam dar a essa visita.

         Se, por um lado, Fragoso, na qualidade de barbeiro nômade, já havia corrido as diversas províncias da América Central, tanto Lina como sua patroa ainda não haviam pisado em solo brasileiro.

         Porém, antes de deixar a jangada, Fragoso foi ao encontro de Joam Garral e teve uma conversa com ele, que segue abaixo:

         —Senhor Garral — disse ele —, desde o dia em que o senhor me recebeu na fazenda de Iquitos, me alojou, vestiu, alimentou, numa palavra, me acolheu tão hospitaleiramente, eu lhe devo...

         —Não me deve absolutamente nada, meu amigo — respondeu Joam Garral. — Portanto, não insista...

         —Oh! Tranqüilize-se — exclamou Fragoso —, não estou à altura de saldar minha dívida com o senhor! E digo mais, o senhor me trouxe para bordo e possibilitou que eu descesse o rio. E eis que estamos aqui, no Brasil, que, segundo todas as probabilidades, nunca mais veria. Se não fosse o cipó...

         —É para Lina, somente à Lina, que deve transferir seu reconhecimento — disse Joam Garral.

         —Eu sei — respondeu Fragoso — e nunca esquecerei o que devo a ela, não mais do que ao senhor.

         —Está parecendo, Fragoso — voltou a falar Joam — que veio dizer adeus! Sua intenção é ficar em Tabatinga?

         —De jeito nenhum, senhor Garral, pois o senhor me permitiu acompanhá-lo até Belém, onde poderei, ao menos é o que espero, retomar minha antiga profissão.

         —Bom, então, se essa é a sua intenção, o que veio pedir, meu amigo?

        —Vim perguntar se o senhor vê algum inconveniente em eu exercer, no caminho, essa profissão. Minha mão não pode enferrujar e, além do mais, alguns punhados de réis não fariam mal ao fundo do meu bolso, sobretudo se eu ganhá-los. Sabe, senhor Garral, um barbeiro que é, ao mesmo tempo, um pouco cabeleireiro, e não ouso dizer um pouco médico por respeito ao senhor Manoel, sempre acha alguns clientes nessas aldeias do Alto Amazonas.

         —Principalmente entre os brasileiros — respondeu Joam Garral —, porque entre os indígenas...

         —Desculpe-me — respondeu Fragoso —, principalmente entre os indígenas! Ah! Não há barba para fazer, pois a natureza se mostrou muito avara desse ornamento para com eles, mas há sempre um cabelo para arrumar de acordo com a última moda! Os selvagens gostam disso, sejam eles homens ou mulheres. Se eu me instalar na praça de Tabatinga, com o meu bilboquê na mão — é o bilboquê que os atrai inicialmente, e eu jogo muito bem —, antes de dez minutos um círculo de índios e índias estará formado a minha volta. Eles disputam meus favores! Se eu ficar um mês aqui, toda a tribo dos ticunas será penteada pelas minhas mãos. Não tardarão a saber que o "ferro que frisa" — é assim que me chamam — está de volta entre os muros de Tabatinga! Já passei aqui por duas vezes e minhas tesouras e pentes fizeram maravilhas! Ah, mas não se deve voltar constantemente à mesma freguesia. As senhoras índias não arrumam o cabelo todos os dias como as mulheres elegantes   das cidades brasileiras! Não! Depois de penteadas, isso fica por um ano e, durante um ano, elas tomam todo o cuidado para não estragar a obra que eu fiz, com algum talento, modéstia à parte! Acontece que faz um ano que estive em Tabatinga. Portanto, vou encontrar todos os meus monumentos em ruínas e, se o senhor não se incomodar, senhor Garral, eu queria tornar-me, uma segunda vez, digno da reputação que adquiri nessa região. Antes de tudo é uma questão de dinheiro e não de amor-próprio, pode acreditar.

         —Vá, então, meu amigo — respondeu Joam Garral, sorrindo —, mas vá depressa! Não devemos ficar mais do que um dia em Tabatinga e partiremos amanhã pela manhã.

         —Não vou perder um minuto — disse Fragoso. — Só o tempo de pegar os utensílios da minha profissão e desembarco!

         —Vá, Fragoso! — retomou Joam Garral. — Que chova dinheiro no seu bolso!

         —É o que espero, e é uma chuva benfazeja que nunca caiu em excesso sobre o seu servo!

         Dito isso, Fragoso saiu rapidamente.

         Alguns minutos depois, a família, exceto Joam Garral, estava em terra. A jangada pudera aproximar-se o suficiente da margem para que o desembarque se fizesse sem dificuldade. Uma escada em mau estado, cortada no barranco, permitiu que os visitantes chegassem ao alto do platô.

         Yaquita e os seus foram recebidos pelo comandante do forte, um pobre-diabo que, no entanto, conhecia as leis da hospitalidade e convidou-os para almoçar na sua casa. Aqui e acolá iam e vinham alguns soldados do posto, enquanto, na entrada da caserna, surgiam suas mulheres, de sangue ticuna, com algumas crianças, produtos bastante medianos dessa mistura de raças.

         Em vez de aceitar o almoço do sargento, Yaquita fez o contrário convidou-o e à mulher para partilhar de sua refeição a bordo da jangada.

         O comandante não se fez de rogado e o encontro foi marcado para as onze horas.

         Enquanto isso, Yaquita, a filha e a jovem mulata, acompanhadas de Manoel, foram passear pelos arredores do posto, deixando para Benito acertar com o comandante o pagamento pelo direito de passagem, porque esse sargento era chefe da alfândega e chefe militar, ao mesmo tempo.

         Depois de fazer isso, como de hábito, Benito sairia para caçar nas matas vizinhas. Dessa vez, Manoel se recusou a acompanhá-lo.

         E, por seu lado, Fragoso, que havia descido da jangada em vez de subir para o posto, dirigiu-se ao povoado, seguindo pela ravina que se abria à direita, no nível da margem. Ele contava mais, e com razão, com a clientela indígena de Tabatinga do que com a da guarnição. Sem dúvida, para as mulheres dos soldados não haveria nada melhor do que se entregar às suas hábeis mãos; mas os maridos não pensavam em despender alguns réis para satisfazer as fantasias das suas coquetes caras-metades.

         Entre os indígenas seria diferente. Maridos e mulheres, o barbeiro sabia disso, iriam recebê-lo bem.

         Então, subindo pelo caminho sombreado de fícus, eis que Fragoso chega ao centro de Tabatinga.

         Assim que chegou, o famoso cabeleireiro foi notado, reconhecido, cercado.

         Fragoso não tinha bumbo, nem tambor, nem cornetim para atrair os clientes, nem um carro com cobres brilhantes, faróis resplandecentes, painéis cobertos de vidros, nem um guarda-sol gigantesco, nada que pudesse provocar o interesse do público, como se faziam nas feiras da época. Não! Porém, Fragoso tinha o seu bilboquê, e como esse bilboquê era jogado em suas mãos! Com que destreza ele recebia a cabeça de tartaruga, que servia de bola, na ponta afilada do cabo! Com que graça fazia a bola descrever essa curva difícil, da qual, provavelmente, os matemáticos ainda não haviam calculado o valor, embora já houvessem determinado a famosa curva "do cão que segue o dono!".

         Todos os indígenas estavam lá, homens, mulheres, velhos, crianças, com suas vestimentas um pouco primitivas, olhando com todos os olhos, escutando com todos os ouvidos. O amável malabarista, metade em português, metade na língua ticuna, derramava sobre eles sua lengalenga habitual num tom dos mais alegres.

         O que ele lhes dizia era o que dizem todos os charlatães que põem seus serviços à disposição do público, sejam eles Fígaros espanhóis ou cabeleireiros franceses. No fundo, a mesma autoconfiança, os mesmos conhecimentos das fraquezas humanas, o mesmo gênero de brincadeiras repetidas, a mesma simpática habilidade, o mesmo assombro, a mesma curiosidade, a mesma credulidade dos basbaques do mundo civilizado.

 

                   Fragoso tinha o seu bilboquê.

         A conseqüência foi que, dez minutos mais tarde, o público estava entusiasmado e se apertava próximo a Fragoso, instalado numa "loja" da praça, que servia de taberna.

         A loja pertencia a um brasileiro domiciliado em Tabatinga. Nesse lugar, por alguns vinténs, que são os soles do país e valem vinte réis, os índios podiam comprar bebidas fabricadas ali mesmo, especialmente o açaí. Trata-se de uma bebida meio sólida, meio líquida, feita dos frutos de uma palmeira, tomada numa "cuia", ou meia cabaça, a qual, em geral, se usa na bacia do Amazonas.

         E então, homens e mulheres — eles com menos pressa do que elas — sentaram-se no escabelo do barbeiro. Provavelmente, a tesoura de Fragoso não ia ter muito uso, pois não se tratava de cortar as opulentas cabeleiras, quase todas extraordinárias pela fineza e qualidade; mas que emprego ele ia fazer do pente e dos ferros, que esquentavam no canto, num braseiro!

         E o artista encorajava as pessoas!

         — Vejam, vejam — ele dizia — como isso permanecerá, meus amigos, se vocês não dormirem em cima! Até por um ano, e essa é a nova moda de Belém e do Rio de Janeiro! As damas de honra da rainha não são penteadas com tanta habilidade, e notem que eu não economizo na pomada!

         —Não! Ele não economizava! É verdade que não passava de um pouco de gordura, à qual misturava o sumo de algumas flores, mas emplastrava como cimento.

         Por isso, seria possível dar o nome de edifícios capilares aos monumentos construídos pelas mãos de Fragoso, que comportavam todo tipo de arquitetura. Anéis, cachos, caracóis, tranças enroladas no alto da cabeça, tranças soltas, encrespamentos, enrolados, encaracolados, papelotes, todos tinham o seu lugar. Nada falso, por exemplo, nada de fitas em  volta da cabeça, nem coques, nada postiço. Os cabelos dos indígenas não eram como árvores pequenas enfraquecidas pelos cortes, afinadas pelas quedas, e sim florestas em toda a sua virgindade nativa! Entretanto, ele não deixava de acrescentar algumas flores naturais, duas ou três longas espinhas de peixe, finos enfeites de ossos ou de cobre, que lhe traziam as elegantes do lugar. Com certeza, as mulheres requintadas do Diretório*12 teriam invejado o arranjo desses penteados de grande imaginação, de três e quatro andares, e o grande Léonard, em pessoa, ter-se-ia inclinado diante do rival de além-mar!

 

         —E então, os vinténs, os punhados de réis — única moeda pela qual os indígenas do Amazonas trocavam suas mercadorias — choveram no bolso de Fragoso, que os guardava com evidente satisfação. Mas, certamente, a noite chegaria antes que pudesse satisfazer à demanda de uma clientela incessantemente renovada. Não era Só a população de Tabatinga que se espremia na porta da loja. A notícia da chegada de Fragoso não demorara a se espalhar. Os índios vinham de todos os lados: ticunas da margem esquerda do rio, mayorunas da margem direita, assim como os que moravam à beira do Cajuru, além dos que residiam nas aldeias do Javari.

         Por isso, uma longa fila de impacientes se delineava na praça central. Os felizardos e felizardas que saíam das mãos de Fragoso iam orgulhosamente de uma casa à outra, como crianças grandes que eram, se pavoneando e sem ousar se mexer demais.

         O que ocorreu foi que o meio-dia chegou e o ocupado cabeleireiro não teve tempo de voltar a bordo para almoçar, e teve de se contentar com um pouco de açaí, farinha de mandioca e dois ovos de tartaruga, que engoliu rapidamente, entre duas enroladas com o ferro.

         E era também uma boa colheita para o taberneiro, porque todas essas operações não se realizavam sem uma grande consumação de bebidas da adega da loja. Na verdade, era um grande evento para a cidade de Tabatinga a passagem do célebre Fragoso, cabeleireiro extraordinário e habitual das tribos do Alto Amazonas!

 

                          Uma longa fila de impacientes.

         Às cinco horas da tarde, Fragoso ainda estava lá, não agüentando mais e se perguntando se seria obrigado a passar a noite no local para satisfazer a multidão que ainda esperava.

         Nesse momento, um forasteiro chegou na praça e, ao ver a reunião de indígenas, encaminhou-se para a taberna.

         Por alguns minutos, o estranho observou Fragoso atentamente, com uma certa circunspecção. Sem dúvida, o exame o deixou satisfeito, porque ele entrou na loja.

         Era um homem de uns trinta e cinco anos, mais ou menos. Usava um traje elegante de viagem, que valorizava a sua pessoa. Mas a grande barba negra, que havia muito tempo não era aparada com tesoura, e o cabelo, um pouco comprido, reclamavam imperiosamente o bom trabalho de um cabeleireiro.

         — Boa tarde, amigo, boa tarde! — ele disse, batendo ligeira mente no ombro de Fragoso.

         Fragoso voltou-se quando ouviu as palavras pronunciadas em puro brasileiro, e não no idioma misturado dos índios.

         — Um compatriota? — perguntou, sem parar de torcer um cacho rebelde da cabeça de uma mayoruna.

         — Sim — respondeu o forasteiro —, um compatriota que precisa dos seus serviços.

         —Como não! Num instante — disse Fragoso. — Assim que terminar a senhora!

         —E isso foi feito com duas enroladas do ferro quente.

         Embora não tivesse direito ao lugar vago, o recém-chegado se sentou no escabelo, sem que isso provocasse alguma reclamação da parte dos indígenas, que teriam a vez atrasada.

         Fragoso trocou os ferros de enrolar pela tesoura de cabeleireiro e, segundo o hábito dos colegas de profissão:

         —O que deseja, senhor? — perguntou.

         —Cortar a barba e o cabelo — respondeu o estranho.

         —Como queira! — disse Fragoso, introduzindo o pente na espessa cabeleira do cliente.

         E imediatamente a tesoura começou o seu trabalho.

         —O senhor vem de longe? — perguntou Fragoso, que não conseguia trabalhar sem uma grande abundância de palavras.

         —Venho dos arredores de Iquitos.

         —Veja Só, como eu! — exclamou Fragoso. — Desci o Amazonas de Iquitos a Tabatinga! E posso perguntar seu nome?

         —Sem nenhum inconveniente — respondeu o forasteiro. — Eu me chamo Torres.

         Quando o cabelo do cliente já estava cortado "na última moda", Fragoso começou a cortar a barba, mas, nesse instante, como o olhava diretamente no rosto, parou, retomou o trabalho e, enfim:

         —Ei, senhor Torres — disse —, será que...? Acho que o conheço!... Será que já não nos encontramos em algum lugar?

         —Acho que não! — respondeu Torres, animado.

         —Então, estou enganado! — disse Fragoso. E se preparou para terminar o trabalho.

         Pouco depois, Torres retomou a conversa, que a pergunta de Fragoso havia interrompido:

         —Como veio de Iquitos? — perguntou.

         —De Iquitos para Tabatinga?

         — Sim.

         —A bordo de uma jangada, na qual me trouxe como passageiro um digno fazendeiro que desce o Amazonas com toda a família.

         —Ah! Verdade, amigo? É uma sorte, se o fazendeiro quisesse levar-me...

         —Também tem a intenção de descer o rio?

         —Exatamente.

         —Até o Pará?

        —Não, Só até Manaus, onde tenho negócios.

         —Bom, meu anfitrião é um homem que gosta de ajudar, e acho que lhe prestará esse serviço de boa vontade.

         —Acha?

         —Diria até que tenho certeza.

         —E como se chama o fazendeiro? — perguntou Torres displicentemente.

         —Joam Garral — respondeu Fragoso.

         Nesse momento, murmurou para si mesmo: "Tenho certeza de que já vi esse homem em algum lugar!".

         Torres não era homem de deixar terminar uma conversa que parecia interessá-lo, e dessa vez com mais razão.

         —Então — disse ele —, acha que Joam Garral consentiria em levar-me como passageiro?

         —Repito que não tenho dúvidas — respondeu Fragoso. — O que ele faz para um pobre-diabo como eu, não recusará a fazer pelo senhor, um compatriota!

         —Está sozinho a bordo da jangada?

         —Não — replicou Fragoso. — Acabei de dizer que viaja com toda a família, uma família de pessoas ótimas, e está acompanhado de uma equipe de índios e de negros, que fazem parte dos empregados da fazenda.

         —É rico esse fazendeiro?

         —É sim, muito rico — respondeu Fragoso —, muito rico. Só as madeiras flutuantes que formam a jangada e a carga que ela transporta constituem uma fortuna!

         — Então Joam Garral passou pela fronteira brasileira com toda a família? — retomou Torres.

         —Sim — respondeu Fragoso —, a mulher, o filho, a filha e o noivo da senhorita Minha.

         —Ah! Ele tem uma filha? — disse Torres.

         —Uma filha encantadora.

         —E vai casar- se?...

         —Vai, com um rapaz formidável — respondeu Fragoso —, um médico militar da guarnição de Belém, que se casará com ela assim que chegarmos ao fim da viagem.

         —Bom! — disse Torres, sorrindo. — Então é o que podemos chamar de uma viagem de noivado!

         —Uma viagem de noivado, de prazer e de negócios! — respondeu Fragoso. — A senhora Yaquita e a filha nunca haviam posto os pés em território brasileiro, e quanto a Joam Garral, é a primeira vez que atravessa a fronteira, desde que entrou na fazenda do velho Magalhães.

         —Suponho também — perguntou Torres — que a família esteja acompanhada de alguns empregados?

         —Certamente — retorquiu Fragoso —, da velha Cybele, há cinqüenta anos na fazenda, e uma bonita mulata, senhorita Lina, que é mais uma companheira do que uma criada da jovem patroa. Ah! Que natureza gentil! Que coração e que olhos! E tem idéias próprias sobre todas as coisas, sobretudo sobre cipós...

         Ao entrar por esse caminho, sem dúvida Fragoso não conseguiria parar, e Lina seria objeto de declarações entusiastas se Torres não tivesse saído do escabelo para dar lugar a um outro cliente.

         —Quanto lhe devo? — perguntou ao barbeiro.

         —Nada — respondeu Fragoso. — Entre compatriotas que se encontram na fronteira não há nada disso!

         —Entretanto — retorquiu Torres —, eu queria...

         —Bom, resolveremos mais tarde, a bordo da jangada.

         —Mas — retrucou Torres — não sei se terei coragem de pedir a Joam Garral que permita...

          —Não hesite! — exclamou Fragoso. — Se preferir, falarei com ele, que ficará feliz em poder ser-lhe útil nessas circunstâncias.

        Nesse momento, Manoel e Benito, que vieram à cidade depois do jantar, apareceram na porta da loja, desejosos de ver Fragoso no exercício da sua profissão.

         Torres voltou-se para eles:

         —Ei, os dois rapazes que conheço, ou melhor, que reconheço! — exclamou.

         —O senhor os conhece? — perguntou Fragoso, um tanto surpreso.

         —Sim, sem dúvida! Há um mês, na floresta de Iquitos, tiraram-me de um grande embaraço!

         —Mas são exatamente Benito Garral e Manoel Valdez.

        —Eu sei! Eles me disseram seus nomes, mas não esperava encontrá-los aqui!

         Torres foi em direção aos dois jovens, que o olhavam sem reconhecê-lo:

         —Não se lembram de mim, senhores? — perguntou.

         —Espere — respondeu Benito. — Senhor Torres, se a memória não me falha, não foi o senhor que, na floresta de Iquitos, teve alguma dificuldade com um guariba?...

         —Eu mesmo, senhores! — confirmou Torres. — Há seis semanas que continuo a descer o Amazonas e passei a fronteira ao mesmo tempo que vocês!

         —Encantado em revê-lo — disse Benito. — Mas esqueceu de que eu o convidei para ir até a fazenda do meu pai?

         —Não esqueci! — respondeu Torres.

         —E teria feito bem em aceitar minha oferta, senhor! Poderia aguardar nossa partida descansando e, depois, descer conosco até a fronteira! Quantos dias de marcha seriam poupados!

         —É verdade — anuiu Torres.

         —Nosso compatriota não vai parar na fronteira — disse, então, Fragoso. — Ele vai até Manaus.

         —Bom — propôs Benito —, se quiser ir a bordo da jangada, será bem recebido, e tenho certeza de que meu pai irá considerar um dever levá-lo como passageiro.

         — Com prazer! — respondeu Torres. — E permita que lhe agradeça antecipadamente!

         Manoel não tomou parte da conversa. Deixou que o amável Benito fizesse as gentilezas e ficou observando Torres atentamente, de quem não conseguia lembrar-se. Havia, realmente, uma falta absoluta de sinceridade na expressão desse homem, cujo olhar se desviava todo o tempo, como se temesse olhar de frente; mas Manoel guardou essa impressão para si mesmo, pois não queria prejudicar um compatriota a quem se devia agradar.

         — Senhores — disse Torres —, se quiserem, estou pronto para segui-los até o porto.

         — Venha! — respondeu Benito.

         Um quarto de hora depois, Torres estava a bordo da jangada. Benito apresentou-o a Joam Garral, explicando as circunstâncias em que se haviam conhecido, e pedindo que Torres fosse como passageiro até Manaus.

         — Fico feliz, senhor, de poder prestar-lhe esse serviço — respondeu Joam Garral.

         — Eu lhe agradeço — retorquiu Torres, que no momento de estender a mão ao anfitrião, pareceu fazê-lo contra a vontade.

         — Partimos amanhã ao raiar do dia — acrescentou Joam Garral. — Já pode, portanto, instalar-se a bordo...

         — Oh! A instalação não será demorada! — respondeu Torres. — É Só a minha pessoa e nada mais.

       — A casa é sua — completou Joam Garral.

         —Na mesma noite, Torres tomava posse de uma cabine próxima à do barbeiro.

         Somente às oito horas, Fragoso, de volta à jangada, relatava à jovem mulata os seus feitos, e repetia-lhe, não sem um pouco de amor-próprio, que a fama do ilustre Fragoso havia aumentado ainda mais na bacia do Alto Amazonas.

        

                      Descendo ainda 

         No dia seguinte de manhã, 27 de junho, assim que clareou o dia, as amarras foram soltas e a jangada continuou a derivar na corrente do rio.

         Uma pessoa a mais estava a bordo. Na realidade, de onde vinha esse Torres? Não se sabia ao certo. Aonde ia? A Manaus, ele havia dito. Além do mais, Torres procurou não deixar transparecer nada da sua vida passada, nem da profissão que ainda exercia fazia dois meses, e ninguém podia imaginar que a jangada havia dado asilo a um ex-capitão-do-mato. Joam Garral não queria estragar com perguntas muito insistentes o favor que lhe prestaria.

         Ao deixá-lo subir a bordo, o fazendeiro havia obedecido a um sentimento de humanidade. No meio do vasto deserto amazônico, sobretudo naquela época em que os barcos a vapor ainda não singravam as águas do rio, era muito difícil encontrar meios de transporte seguros e rápidos. As embarcações não prestavam um serviço regular e, quase todo o tempo, o viajante era obrigado a caminhar através das florestas. Assim Torres fizera e assim continuaria a fazer e, para ele, havia sido uma sorte inesperada ser aceito como passageiro a bordo da jangada.

         Depois que Benito contou em que condições havia encontrado Torres, a apresentação estava feita, e ele podia considerar-se um passageiro a bordo de um transatlântico, que era livre para participar da vida em comum, se lhe conviesse, e livre para se manter afastado, se fosse anti-social.

         Era visível, pelo menos nos primeiros dias, que Torres não procurava entrar na intimidade da família Garral. Ele se mantinha reservado, respondendo quando lhe dirigiam a palavra, mas não fazia perguntas.

         Se, excepcionalmente, parecia mais expansivo com alguém, esse alguém era Fragoso. Não devia ao alegre companheiro a idéia de ser levado como passageiro na jangada? Às vezes, perguntava sobre a situação da família Garral em Iquitos, sobre os sentimentos da jovem para com Manoel Valdez, e mesmo assim com uma certa discrição. Na maior parte do tempo, quando não passeava sozinho na frente da jangada, ficava na cabine.

         Os almoços e jantares, ele partilhava com Joam Garral e a família, mas participava muito pouco da conversa, e se retirava assim que a refeição terminava.

         De manhã, a jangada passou pelo pitoresco grupo de ilhas situadas no amplo estuário do Javari. Esse importante afluente do Amazonas mostrava, na direção do sudoeste, um curso que, da nascente até a desembocadura, não parecia obstruído por nenhuma ilha, nem por nenhuma corredeira. A desembocadura media por volta de três mil pés de largura, e abria-se a algumas milhas do local ocupado anteriormente pela cidade de mesmo nome, cuja posse espanhóis e portugueses disputaram por muito tempo.

         Até o dia 30 de junho de manhã não houve nada especial a assinalar na viagem. Às vezes encontravam algumas embarcações que deslizavam ao longo das margens, presas umas às outras, de tal modo que um único índio bastava para conduzi-las. "Navegar de bobina", assim diziam as pessoas do país para designar esse tipo de navegação, ou seja, navegar com confiança.

         Logo foram transpostos a ilha Araria, o arquipélago das ilhas Calderon, a ilha de Capiatu e muitas outras, cujos nomes ainda não haviam chegado ao conhecimento dos geógrafos. No dia 30 de junho, o piloto assinalou à direita do rio a pequena aldeia Jurupari-Tapera, onde fizeram uma parada de duas ou três horas.

 

                              Os jovens fizeram uma captura.

         Manoel e Benito foram caçar nas redondezas e trouxeram alguns animais de penas, que foram bem recebidos na cozinha. Ao mesmo tempo, os dois jovens fizeram a captura de um animal a que um naturalista teria dado mais importância do que a cozinheira da jangada.

         Era um quadrúpede de cor escura, que se assemelhava um pouco a um grande terra-nova.

         —Um tamanduá-bandeira! — gritou Benito, jogando-o no convés da jangada.

         —É um espécime magnífico que não desprestigiaria a coleção de um museu! — completou Manoel.

         —Foi difícil pegar esse curioso animal? — perguntou Minha.

         —Mas claro, irmãzinha — respondeu Benito —, e você não estava lá para pedir misericórdia. Ah! Esses cães são difíceis de morrer, e foram necessárias mais de três balas no flanco para fazer dormir este aqui!

         O tamanduá era magnífico, com um longo rabo, cheio de pêlos acinzentados; o focinho em ponta que ele mergulha nos formigueiros, cujo principal alimento são os insetos; as patas compridas e magras, armadas de unhas pontudas, que medem cinco polegadas e que podem fechar-se como os dedos da mão. Mas que mão a do tamanduá! Quando segura alguma coisa, é preciso cortá-la para fazê-la soltar. Foi sobre esse fato que o viajante Emile Carrey se referiu quando disse que "até o tigre morre nesse abraço".

         No dia 2 de julho, pela manhã, a jangada chegou perto de San-Pablo-d'Olivença, depois de deslizar no meio de várias ilhas que, em qualquer estação, são cobertas de verde e sombreadas por árvores magníficas, cujos nomes principais eram Jurupari, Rita, Maracanatena e Cururu-Sapo. Por muitas vezes também, ela havia passado ao lado de aberturas de igarapés ou de pequenos afluentes de águas escuras.

         A coloração dessas águas é um fenômeno muito curioso, e é própria de alguns afluentes do Amazonas, independentemente da sua importância.

         Manoel fez com que notassem como essa nuança era de uma cor carregada, pois era possível distingui-la nitidamente na superfície das águas esbranquiçadas do rio.

          Tentaram explicar essa coloração de diversas maneiras — ele disse — e não creio que os estudiosos o tenham feito de maneira satisfatória.

         —As águas são realmente pretas com um magnífico reflexo dourado — respondeu a jovem, mostrando um pequeno lençol d'água castanho-dourado que chegava à jangada.

         —São — respondeu Manoel —, e Humboldt já havia observado, como a senhorita, querida Minha, esse reflexo tão curioso. Porém, se olhar mais atentamente, verá que é a cor sépia que domina em toda a coloração.

         —Bom! — exclamou Benito. — Mais um fenômeno sobre o qual os estudiosos não estão de acordo!

         —Talvez possamos perguntar aos caimões, aos golfinhos e aos peixes-boi sobre esse assunto — observou Fragoso —, porque, certamente, eles têm uma preferência por essas águas para brincar.

         — Em todo o caso, são excelentes para beber

         —É verdade que elas atraem mais especialmente esses animais — acrescentou Manoel. — Mas por quê? Ficaríamos atrapalhados para dizer! Na verdade, essa coloração se deve à quantidade que essas águas contêm em dissolução de hidrogênio carbonado, ou então, porque correm em leitos de turfa, por entre camadas de hulha e de antracito; ou será que não devemos atribuir à enorme quantidade de minúsculas plantas que carregam? Não há nenhuma certeza em relação ao assunto.14 Em todo o caso, são excelentes para beber, de um frescor invejável neste clima, sem nenhum amargor e totalmente inócuas. Tome um pouco dessa água, cara Minha, beba, não há inconveniente.

         A água era límpida e fresca, de fato. Ela poderia substituir, com vantagens, as águas que vão às mesas, na Europa.

         Já foi dito que na data de 2 de julho, de manhã, a jangada havia chegado a San-Pablo-d'Olivença, onde são fabricados, aos milhares, longos terços, cujas contas são feitas da casca do "coco de piaçaba". Eles são objeto de um comércio muito concorrido. Pode parecer estranho que os antigos donos do país, os tupinambás, os tupiniquins, tenham chegado a ter como principal atividade objetos do culto católico. Mas, afinal, por que não? Esses índios não eram como os índios de outrora. Em vez de se vestirem com o traje nacional, um cocar de penas de arara, arco e zarabatana, não adotaram as roupas sul-americanas, calça branca e poncho de algodão tecido pelas mulheres, que se tornaram hábeis em confeccioná-los?

         San-Pablo-d’Olivença, cidade bem importante, não tinha menos de dois mil habitantes, vindos de todas as tribos vizinhas. Na ocasião, capital do Alto Amazonas, ela começou como uma simples missão, fundada por frades carmelitas portugueses, por volta de 1692, que foram sucedidos pelos jesuítas.

         Inicialmente, essa era a região dos omáguas, cujo nome significa "cabeças chatas". Esse nome teve origem no bárbaro costume das mães indígenas de apertar entre duas pequenas tábuas a cabeça dos recém-nascidos, de modo a ficarem com um crânio oblongo, que estava muito na moda. Mas como todas as modas, essa também mudou; as cabeças passaram a ter a forma natural, e não se encontra mais nenhum vestígio de deformação na cabeça desses fabricantes de terços.

         Toda a família, exceto Joam Garral, desembarcou. Torres também preferiu ficar a bordo, e não manifestou nenhuma vontade de visitar San-Pablo-d’Olivença que, no entanto, não parecia conhecer.

         Decididamente, se esse aventureiro era taciturno, é preciso reconhecer que também não era curioso.

         Benito conseguiu fazer trocas com facilidade, de modo a completar a carga da jangada. A família e ele foram muito bem recebidos pelas principais autoridades da cidade, o comandante em serviço e o chefe da alfândega, cujas funções não lhes impediam de se entregarem ao comércio. Até confiaram diversos produtos da região, destinados a serem vendidos para eles pelo jovem negociante, tanto em Manaus como em Belém.

         A cidade era formada de umas sessenta casas, dispostas num platô que, nesse lugar, terminava numa ribanceira do rio. Algumas das choupanas eram cobertas de telhas, o que era muito raro nessas regiões; mas, em contrapartida, a modesta igreja, dedicada a São Pedro e São Paulo, era protegida por um telhado de palha, que ficaria mais conveniente no estábulo de Belém do que numa obra dedicada ao culto, num dos países mais católicos do mundo.

         O comandante, o tenente e o chefe de polícia aceitaram jantar a mesa da família e foram recebidos por Joam Garral, com a deferência devida aos cargos que ocupavam.

         Durante o jantar, Torres não se mostrou mais falante do que de costume. Contou algumas de suas excursões pelo interior do Brasil, como um homem que parecia conhecer o país.

         Ao falar de suas viagens, Torres não deixou de perguntar ao comandante se ele conhecia Manaus, se o seu colega estaria lá naquela época, se o juiz de direito, o primeiro magistrado da província, tinha o hábito de se ausentar nessa época da estação quente. Parecia que ao fazer essa série de perguntas, Torres olhava para Joam Garral de uma forma dissimulada. Isso ficou tão evidente que Benito notou, não sem alguma surpresa, que o pai escutava atentamente as perguntas um tanto estranhas feitas por Torres.

         O comandante de San-Pablo-d'Olivença garantiu ao aventureiro que as autoridades não estavam ausentes de Manaus nessa época, e até encarregou Joam Garral de lhes apresentar seus cumprimentos. Segundo as probabilidades, a jangada chegaria a essa cidade em sete semanas, o mais tardar, entre 20 e 25 de agosto.

       Os visitantes do fazendeiro despediram-se da família Garral à noite e, no dia seguinte pela manhã, 3 de julho, a jangada recomeçou a descer o curso do rio.

         Ao meio-dia, deixaram, à esquerda, a desembocadura do Yacurupa. Esse afluente, para falar a verdade, não passava de um canal, pois jogava suas águas no Iça, que é, ele sim, um afluente esquerdo do Amazonas. Um fenômeno estranho é que, em certos lugares, o próprio rio alimenta seus afluentes.

         Por volta das três horas da tarde, a jangada transpôs a desembocadura do Jandiatuba, que traz do sudoeste suas magníficas águas negras e as joga na grande artéria por uma boca de quatrocentos metros, depois de banhar os territórios dos índios culinos.

          Passaram ao lado de inúmeras ilhas como Pimaticaira, Catirua, Chico e Motachina; algumas habitadas e outras desertas, mas todas cobertas de uma suntuosa vegetação, formando uma espécie de guirlanda verde, ininterrupta, de uma ponta a outra do Amazonas.

          

                               Descendo sempre 

         Era o dia 5 de julho. A atmosfera, pesada desde a véspera, prometia tempestades bem próximas. Grandes morcegos de cor arruivada davam vôos rasantes na corrente do Amazonas, com um longo bater de asas. Entre eles, distinguiam-se os "cachorros voadores", de um marrom escuro e barrigas claras, pelos quais Minha e, principalmente, a jovem mulata sentiam uma repulsa instintiva.

         De fato, eram os horríveis vampiros que chupavam o sangue dos animais e atacavam até mesmo o homem que, imprudentemente, dormisse nos campos.

         Oh! Que animais feios! — exclamou Lina, tapando os olhos. — Eles me causam horror!

         —E, além do mais, são perigosos — acrescentou a jovem. — Não é verdade, Manoel?

         —Muito perigosos, de fato — respondeu o rapaz. — Esses vampiros têm um instinto particular, que os leva a chupar o sangue nos lugares onde ele corre mais facilmente, principalmente atrás da orelha. Durante a operação, continuam a bater as asas e, assim, provocam um agradável frescor, o que torna o sono de quem dorme ainda mais profundo. Há casos de pessoas submetidas inconscientemente a uma hemorragia de várias horas, que nunca mais acordaram!

         —Não continue a contar essas histórias, Manoel — disse Yaquita —, senão Minha e Lina não conseguirão dormir à noite!

         —Não há perigo — respondeu Manoel. — Se for preciso velaremos seu sono!

         —Silêncio! — disse Benito.

         —O que houve? — perguntou Manoel.

         —Não estão ouvindo um ruído diferente deste lado? — retomou Benito, mostrando a margem direita.

         —De fato — respondeu Yaquita.

         —De onde vem esse barulho? — perguntou a jovem. — Parecem cascalhos rolando nas praias das ilhas!

         —Ora, já sei o que é — respondeu Benito. — Amanhã, ao alvorecer, haverá um banquete para aqueles que gostam de ovos de tartaruga e das pequenas tartarugas bem frescas!

         Não havia possibilidade de engano. O ruído era produzido por vários quelônios de todos os tamanhos que a operação da postura levava às ilhas.

         Na areia das margens, esses anfíbios escolhiam o lugar mais conveniente para depositar os ovos. A postura, que começava ao pôr do sol, terminava ao amanhecer.

         Naquele momento, a tartaruga-chefe já havia saído do leito do rio para escolher o local mais favorável. As outras, reunidas aos milhares, ocupavam-se em cavar com as patas anteriores uma vala de seiscentos pés de comprimento, doze de largura e seis de profundidade; depois de enterrar os ovos, Só lhes faltava cobri-los com uma camada de areia, que amassavam com as carapaças para comprimi-la.

         A operação de postura era um grande negócio para os índios ribeirinhos do Amazonas e afluentes. Eles ficavam de tocaia, esperando a chegada dos quelônios, procediam à extração dos ovos ao som dos tambores, e da coleta, que era dividida em três partes, uma ficava para os vigias, outra, para os índios e a terceira, para o governo, representado pelos capitães da praia que, ao mesmo tempo que a polícia, faziam o recebimento dos seus direitos. A certas margens, que o declínio das águas deixa a descoberto e que têm o privilégio de atrair um grande número de tartarugas, foi dado o nome de "praias reais". Quando a coleta terminava era uma festa para os índios, que se entregavam aos jogos, à dança e às libações — e um banquete para os caimões do rio, que faziam uma comilança dos restos desses anfíbios.

         Tanto as tartarugas quanto os seus ovos eram, portanto, objeto de um grande comércio em toda a bacia do Amazonas. Alguns quelônios eram "virados", isto é, postos de costas quando voltavam da postura, e mantidos vivos em cercados, como os viveiros de peixes, ou eram amarrados a estacas por uma corda bem longa para que pudessem ir e vir para a terra e para a água. Desse modo, era possível ter sempre a carne fresca desses animais.

         Com as tartaruguinhas que acabavam de sair da casca, o procedimento era diferente. Não havia necessidade de colocá-las em viveiros, nem de amarrá-las. O casco ainda era mole, a carne extremamente macia, e eram comidas inteiras, como as ostras, depois de cozidas. Desse jeito, eram consumidas em quantidades consideráveis.

         Entretanto, não era costume geral nas províncias do Amazonas e do Pará preparar ovos de quelônios. A fabricação da "manteiga de tartaruga", que podia ser comparada aos melhores produtos da Normandia e da Bretanha, não consumia menos do que duzentos e cinqüenta a trezentos milhões de ovos por ano. Mas as tartarugas eram incontáveis nos cursos de água da bacia, e eram quantidades incalculáveis de ovos que elas punham na areia das praias.

         Entretanto, devido ao consumo que delas faziam não apenas os índios, mas também as aves pernaltas da região costeira, os urubus voadores, os caimões do rio, o número de tartarugas diminuiu muito e cada pequeno exemplar passou a custar uma pataca brasileira.

         No dia seguinte, ao alvorecer, Benito, Fragoso e alguns índios pegaram uma das pirogas e foram à praia de uma das grandes ilhas que haviam margeado à noite. Não era preciso que a jangada parasse. Eles a alcançariam.

         Na praia, viam-se pequenas tumefações que indicavam o local onde, naquela noite, cada postura havia sido depositada na vala, contando de cento e sessenta a cento e noventa ovos. Estas, nem se pensava extrair. Porém, uma postura anterior havia sido feita dois meses antes, os ovos já haviam eclodido sob a ação do calor armazenado na areia e alguns milhares de tartaruguinhas já corriam pela praia.

         Os caçadores fizeram uma boa caça. Eles encheram a piroga desses interessantes anfíbios, que chegaram a tempo de serem preparados para a hora do almoço. O achado foi dividido entre os passageiros e os empregados da jangada e se sobrasse para o jantar não seria muito.

         No dia 7 de julho de manhã, estavam diante de San-José-de-Matura, uma aldeia situada próximo a um pequeno rio com uma vegetação alta, em cujas margens, a lenda dizia, viveram os índios de rabo.

         No dia 8 de julho, de manhã cedo, avistaram o povoado de San Antonio, duas ou três casinhas perdidas entre as árvores e, em seguida, a desembocadura do Iça ou Putumayo, que media novecentos metros de largura.

       O Putumayo é um dos mais importantes afluentes do Amazonas. Nesse lugar, no século XVI, missões inglesas e fundadas por espanhóis foram destruídas pelos portugueses, e delas não sobrara nenhum vestígio. O que ainda se podiam encontrar eram os representantes das diversas tribos de índios, facilmente reconhecíveis pela diversidade das tatuagens.

         O Iça é um curso d'água enviado para leste pelas montanhas de Pasto, a nordeste de Quito, através de belas florestas de cacaueiros selvagens. Navegável por uma extensão de cento e quarenta léguas pelos barcos a vapor que não tinham mais de seis pés de calado, ele seria algum dia uma das principais vias fluviais no oeste da América.

         O mau tempo chegou. Não era feito de chuvas contínuas; mas freqüentes tempestades já perturbavam a atmosfera. Esses meteoros não atrapalhavam a marcha da jangada, que não se expunha muito ao vento; seu comprimento tornava-a até insensível ao marulho do Amazonas; porém, durante os torrenciais aguaceiros, a família Garral precisava manter-se dentro da casa. Era preciso preencher as horas de ócio. Então, eles conversavam, trocavam impressões e as línguas não tinham descanso.

         Foi nessa situação que Torres começou, aos poucos, a participar mais ativamente da conversa. As particularidades das suas diversas viagens por todo o norte do Brasil forneciam-lhe vários temas de conversa. Certamente, esse homem vira muitas coisas; mas suas observações eram as de um cético e, na maioria das vezes, chocavam as pessoas boas que o ouviam. É preciso dizer que ele se mostrava mais dedicado a Minha. Contudo, embora sua freqüente presença desagradasse a Manoel, ela não era tão marcante para que o rapaz achasse necessário intervir. Aliás, a jovem sentia por Torres uma instintiva repulsa, que não procurava ocultar.

         No dia 9 de julho, a desembocadura do Tocantins apareceu na margem esquerda do rio, formando um estuário de quatrocentos pés, pelo qual o afluente derramava suas águas escuras, vindas do oeste-noroeste, depois de irrigar os territórios dos índios cacenas.

         Nesse lugar, o curso do Amazonas tinha um aspecto verdadeiramente grandioso, mas seu leito era mais do que nunca obstruído por ilhas e ilhotas. Era preciso toda a destreza do piloto para dirigir através desse arquipélago, indo de uma margem para outra, evitando os baixios, fugindo dos remoinhos, mantendo sua imperturbável direção.

         Talvez ele pudesse ter seguido pelo Ahuaty-Paraná, uma espécie de canal natural, que saía do rio um pouco abaixo da desembocadura do Tocantins e permitia voltar para o curso d'água principal cento e vinte milhas mais à frente, pelo rio Japurá; contudo, embora a parte mais larga desse "furo" medisse cento e cinqüenta pés, a mais estreita tinha apenas sessenta e a jangada teria dificuldade para passar.

         Em suma, depois de atingir, no dia 13 de julho, a ilha Capuro, depois de passar pela boca do Jutahy que, vindo do leste-sudoeste, jogava suas águas escuras por uma abertura de mil e quinhentos pés, depois de admirar legiões de belos macacos de cor branca amarelada, cara vermelho cinabre, insaciáveis apreciadores das nozes produzidas pelas palmeiras às quais o rio deve o nome, os viajantes chegaram, no dia 18 de julho, à pequena cidade de Fonteboa.

         Nesse lugar, a jangada fez uma parada de doze horas, para dar um descanso à tripulação.

 

                          Os arpões foram arremessados.

          Fonteboa, como a maioria das aldeias-missões do Amazonas, não escapou ao capricho da lei que as fazia mudar, por um longo período, de um lugar para outro. No entanto, era provável que essa vila houvesse deixado a vida nômade e se transformado, definitivamente, em sedentária. Melhor ainda, porque era encantador vê-la com umas trinta casas, cobertas de folhagens e a igreja dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe, Virgem Negra do México. Fonteboa possuía mil habitantes, abastecidos pelos índios das duas margens que criavam animais nas opulentas campinas dos arredores. A ocupação desses índios não se limitava à criação: eram, também, intrépidos caçadores ou, se preferirmos, intrépidos pescadores de peixes-boi.

         Por isso, na mesma noite da chegada, os jovens puderam assistir a uma interessante expedição desse tipo.

         Dois desses cetáceos herbívoros haviam sido percebidos nas águas escuras do rio Cayaratu, que deságua em Fonteboa. Viam-se seis pontos marrons moverem-se na superfície. Eram os dois focinhos pontudos e as quatro nadadeiras dos peixes-boi.

         À primeira vista, pescadores pouco experientes poderiam tomar esses pontos móveis por destroços à deriva, mas os índios de Fonteboa não se enganavam. Aliás, logo os sopros ruidosos indicaram que animais com orifícios respiratórios expulsavam com força o ar que se tornara impróprio às suas necessidades de respiração.

         Duas ubás, cada uma com três pescadores, saíram da margem e se aproximaram dos peixes-boi, que imediatamente fugiram. Primeiro, o pontos negros traçaram uma longa esteira na superfície da água, depois desaparecerem ao mesmo tempo.

         Os pescadores continuaram a avançar prudentemente. Um deles, armado com um arpão bem primitivo — um grande prego na ponta de um bastão — mantinha-se de pé na piroga, enquanto os outros dois remavam sem barulho. Eles aguardavam que os peixes-boi ficassem ao seu alcance quando sentissem necessidade de respirar. Dez minutos no máximo, e os animais certamente reapareceriam num círculo mais ou menos restrito.

         De fato, decorrido esse tempo, os pontos negros emergiram a  pouca distância, e dois jatos de ar, misturado com vapor, foram ruidosamente lançados.

         As ubás aproximaram-se; os arpões foram arremessados ao mesmo tempo; um deles não acertou o alvo, mas o outro atingiu um dos cetáceos na altura da vértebra caudal.

         Isso bastou para atordoar o animal, que não conseguiu defender-se ao ser atingido pelo ferro do arpão. A corda trouxe-o aos poucos para perto da ubá e ele foi rebocado até a margem, ao pé do povoado.

         Não passava de um peixe-boi de tamanho pequeno, porque media apenas três pés de comprimento. Os pobres cetáceos foram tão perseguidos que se tornaram raros nas águas do Amazonas e dos seus afluentes, e como mal tinham tempo de crescer, os gigantes da espécie não ultrapassavam sete pés. O que são eles se comparados aos peixes-boi de doze e de quinze pés que ainda abundam nos rios e lagos da África?

         Mas seria bem difícil impedir essa destruição. Na verdade, a carne do peixe-boi é excelente, até mesmo superior à do porco, e o óleo fornecido pela sua gordura, com três polegadas de espessura, um produto de grande valor. Essa carne, quando defumada, conservava-se por muito tempo e fornecia um alimento saudável. Se a isso acrescentarmos que o animal era relativamente fácil de ser capturado, ninguém se surpreenderia de que a tendência da espécie fosse ser totalmente destruída.

         Hoje, um peixe-boi adulto, que "rendia" dois potes de óleo pesando cento e oitenta libras, não dá mais do que quatro arrobas espanholas, equivalente a um quintal.

         No dia 19 de julho, ao raiar do sol, a jangada saiu de Fonteboa e deixou-se levar por entre as duas margens do rio absolutamente desertas, ao longo das ilhas sombreadas de florestas de cacaueiros que causam grande impressão. O céu ainda estava carregado de grossos cúmulos eletrizados, que faziam pressentir novas tempestades.

         O rio Juruá, vindo do sudeste, destacou-se na margem esquerda. Subindo por ele, uma embarcação poderia chegar ao Peru sem encontrar nenhum obstáculo intransponível, percorrendo suas águas claras alimentadas por um grande número de subafluentes.

         — Talvez fosse conveniente — disse Manoel — procurar nesses territórios as descendentes das mulheres guerreiras que tanto maravilharam Orellana. Mas é preciso dizer que, a exemplo das antepassadas, elas não formam uma tribo à parte. São, simplesmente, mulheres que acompanham os maridos na luta, e que, entre os juruás, têm reputação de uma grande valentia, A jangada continuou a descer; porém, que Dédalo o Amazonas apresentava! O rio Japurá, cuja desembocadura abria-se oitenta milhas a frente, e que é dos seus grandes afluentes, corria quase paralelamente ao rio.

         Entre eles havia canais, igarapés, lagunas, lagos temporários, uma rede inextricável que tornava bem difícil a hidrografia dessa região.

         Contudo, embora não tivesse um mapa para guiar-se, a experiência de Araújo deixava-o totalmente seguro e era maravilhoso vê-lo virar-se nesse caos sem nunca se afastar do grande rio.

         Em suma, ele se saiu tão bem que em 25 de julho, à tarde, depois de passar pelo povoado de Parani-Tapera, a jangada pôde ancorar na entrada do lago de Ega ou Teffé, no qual era inútil entrar, pois seria preciso sair dele para pegar o Amazonas.

         Mas a cidade de Ega era bem importante. Merecia que se fizesse uma parada para visitá-la. Ficou então combinado que a jangada permaneceria ali até 27 de julho, e que, no dia seguinte, 28, a grande piroga transportaria toda a família para Ega.

         Isso daria um descanso, bem merecido, à laboriosa tripulação do comboio.

         A noite foi passada na amarração, perto de uma margem elevada, sem que nada perturbasse sua tranqüilidade. Alguns relâmpagos tropicais inflamaram o horizonte, mas eles vinham de uma tempestade ao longe, que não chegou à entrada do lago.

    

                                           Ega 

         No dia 28 de julho, às seis horas da manhã, Yaquita, Minha, Lina e os dois jovens se preparavam para deixar a jangada.

         Joam Garral, que não havia manifestado a intenção de desembarcar, decidiu dessa vez, por insistência da mulher e da filha, abandonar o absorvente trabalho cotidiano e acompanhá-las na excursão.

         Torres não se mostrou interessado em visitar Ega, para grande satisfação de Manoel, que tomara aversão por esse homem e só aguardava a ocasião para demonstrá-la.

         Quanto a Fragoso, não podia ter, para ir a Ega, os mesmos interesses financeiros que o haviam levado a Tabatinga, vilarejo de pouca importância ao lado dessa pequena cidade.

         Isso porque, ao contrário, Ega é uma sede administrativa de mil e quinhentos habitantes, onde residem todas as autoridades que a administração de uma cidade de tamanho considerável exige — considerável para o país —, ou seja, comandante militar, chefe de polícia, juiz de paz, juiz de direito, professor primário e milícia sob as ordens de oficiais de todas as patentes.

         Ora, quando uma cidade é habitada por tantos funcionários, com   suas mulheres e filhos, supõe-se que não haja falta de barbeiros-cabeleireiros. Era isso o que ocorria ali e Fragoso não ganharia o seu dinheiro.

        Sem dúvida, o amável rapaz, embora não tivesse negócios em Ega, contava, no entanto, fazer parte do grupo, uma vez que Lina acompanhava a jovem patroa; porém, quando iam deixar a jangada, ele se resignou em ficar, a pedido de Lina. 15

         —Senhor Fragoso? — disse ela, depois de afastá-lo do grupo.

         —Sim, senhorita Lina — respondeu Fragoso.

         —Não creio que seu amigo Torre tenha a intenção de nos acompanhar a Ega.

         —De fato, ele deve ficar a bordo, senhorita Lina, mas ficaria agradecido de não chamá-lo de meu amigo!

         —No entanto, o senhor lhe deu a idéia de pedir que fosse nosso passageiro, antes que manifestasse qualquer intenção.

         —Sim, naquele dia, se posso dizer o que penso, creio ter feito uma asneira!

        —Bom, se posso dizer o que penso, esse homem não me agrada nem um pouco, senhor Fragoso.

         —A mim também não, senhorita Lina, e continuo com a sensação de que já o vi em algum lugar. Mas a vaga lembrança que me deixou Só é exata num ponto: é que a impressão estava longe de ser boa.

         —Em que lugar, em que época, poderia ter encontrado esse Torres? Não pode lembrar-se? Talvez fosse bom saber quem ele é e, sobretudo, quem ele foi!

         —Não... Eu tento... Foi há muito tempo? Em que país, em que circunstâncias?... E não consigo.

         —Senhor Fragoso?

         —Sim, senhorita Lina?

         —Devia ficar a bordo, para vigiar Torres na nossa ausência!

         —O quê? — exclamou Fragoso. — Não acompanhá-la a Ega e ficar todo um dia sem vê-la?

         —Eu lhe peço!

         —É uma ordem?...

         —É uma súplica.

         —Eu ficarei.

         —Senhor Fragoso?

         —Sim, senhorita Lina.

         —Eu lhe agradeço.

         —Agradeça-me dando um bom aperto de mão — respondeu Fragoso. — Aí valeria a pena!

         Lina estendeu a mão ao bom rapaz, que a reteve por alguns minutos, olhando o rosto encantador da jovem. Eis porque Fragoso não entrou na piroga, e ficou, sem deixar transparecer, vigiando Torres. Será que esse homem percebia os sentimentos de repulsa que inspirava a todos? Talvez; mas sem dúvida, tinha razões para não levá-los em conta.

         Uma distância de quatro léguas separava o ancoradouro da cidade de Ega. Oito léguas, ida e volta, numa piroga com seis pessoas, mais dois negros como remadores, era um trajeto que levava algumas horas, sem falar do cansaço provocado pela alta temperatura, embora o céu estivesse coberto por algumas nuvens.

         Felizmente, soprava uma deliciosa brisa de nordeste e, se ela continuasse a vir desse lado, a navegação no lago Teffé seria facilitada. Possibilitaria ir a Ega e voltar rapidamente, em linha reta.

         A vela latina foi, então, içada no mastro da piroga. Benito tomou o leme e saíram, depois de um gesto de Lina para recomendar a Fragoso que fosse um bom vigia.

         Bastava seguir o litoral sul do lago para chegar a Ega. Duas horas depois, a piroga chegava ao porto dessa antiga missão, fundada, outrora, por carmelitas, que se transformou numa cidade em 1759, e que o general Gama fez passar definitivamente para o domínio brasileiro.

         Os passageiros desembarcaram na margem plana de cascalho, perto de onde ficavam não Só as embarcações da região, mas também algumas das pequenas goletas que faziam a cabotagem no litoral do Atlântico.

         Para as duas jovens foi um deslumbramento quando entraram em Ega.

         —Ah! A cidade grande! — exclamou Minha.

         —Quantas casas! Quanta gente! — replicou Lina, cujos olhos se abriam ainda mais para ver melhor.

         — É mesmo — respondeu Benito, rindo —, mais de mil e quinhentos habitantes, pelo menos duzentas casas, algumas com mais um andar, e duas ou três ruas, ruas verdadeiras, que as separam!

         —Querido Manoel — disse Minha —, defenda-nos do meu irmão! Ele está rindo de nós, porque já visitou as mais belas cidades da província do Amazonas e do Pará!

         —Bom, ele estará zombando também da mãe — acrescentou Yaquita —, porque confesso que nunca vi nada parecido!

         —Então, tomem cuidado, minha mãe e minha irmã — replicou Benito —, porque entrarão em êxtase quando estiverem em Manaus e vão desmaiar quando chegarem a Belém!

         —Não tema nada disso! — respondeu, sorrindo, Manoel. — As damas serão preparadas aos poucos para essas grandes surpresas, ao visitarem as primeiras cidades do Alto Amazonas.

         —Como? O senhor também, Manoel? — disse Minha. — Fala como meu irmão? Está zombando?...

         —Não, Minha! Eu juro...

         —Vamos deixar esses senhores rindo — completou Lina — e olhar bem, cara patroa, porque isso é muito bonito!

         Muito bonito! Uma aglomeração de casas, construídas de barro ou pintadas com cal, a maioria coberta de palha ou com folhas de palmeiras, algumas, é verdade, construídas com pedras ou madeira, com varandas, portas, janelas pintadas de um verde natural, no meio de um pequeno pomar, com laranjeiras em flor. E havia duas ou três construções públicas, uma caserna e uma igreja dedicada a Santa Terezinha, que parecia uma catedral perto da modesta capela de Iquitos.

         Depois, virando-se na direção do lago, via-se um belo panorama cercado por uma moldura de coqueiros e de açaís, que terminava nas águas vizinhas do líquido lençol e, mais além, a três léguas, no extremo oposto, a pitoresca aldeia de Nogueira mostrava suas casinhas perdidas no tufo de velhas oliveiras da margem de cascalhos.

         Contudo, para as duas jovens, havia um outro motivo de encantamento — aliás, um encantamento bem feminino: as roupas das elegantes de Ega não eram os trajes ainda primitivos de indígenas do belo sexo, omaas, ou muras, convertidas, mas a moda da verdadeira brasileira! Sim, as mulheres, as filhas dos funcionários públicos ou dos principais negociantes da cidade usavam pretensiosamente toaletes parisienses, relativamente ultrapassadas, e isso a quinhentas léguas do Pará, que também está a milhares de milhas de Paris.

         —Mas veja, olhe Só patroa, estas belas senhoras nos seus belos trajes!

         —Lina vai enlouquecer! — exclamou Benito.

         —Estas toaletes, se fossem adequadas — respondeu Minha —, talvez não fossem tão ridículas!

         —Querida Minha — disse Manoel —, com o seu simples vestido de algodão e o chapéu de palha, acredite, está mais bem vestida do que todas estas brasileiras, com toucados na cabeça, saias drapeadas e babados, que são de outro país e de outra raça.

         —Se eu lhe agrado assim — respondeu a jovem —, não tenho nada a invejar de ninguém!

         No entanto, estavam ali para ver. Passearam pelas ruas, que tinham mais tendas do que lojas; andaram sem destino pela praça, lugar de encontro dos elegantes e das elegantes, que sufocavam nos trajes europeus; almoçaram num hotel — que era apenas um albergue — cuja cozinha era sensivelmente pior do que o excelente trivial da jangada.

         Depois do jantar, no qual Só figurou tartaruga preparada de diversas maneiras, a família Garral foi, uma última vez, admirar a beira do lago, que o sol poente dourava com seus raios; em seguida, voltou para a piroga, um pouco desiludida talvez com as magnificências de uma cidade que apenas uma hora fora suficiente para visitar e, também, um pouco cansada do passeio pelas ruas quentes, que não se podia comparar aos caminhos sombreados de Iquitos. E isso ocorreu até com a curiosa Lina, cujo entusiasmo havia diminuído um pouco.

         Todos tomaram seus lugares na piroga. O vento se mantinha a nordeste e refrescava o fim de tarde. A vela foi içada. Fizeram de volta a mesma trajetória da manhã, no lago alimentado pelo rio Teffé, de águas negras que, de acordo com os índios, para o sudoeste, era navegável no tempo equivalente a quarenta dias de marcha. Às oito horas da noite, a piroga já estava próxima ao ancoradouro e encostava na jangada. Assim que pôde, Lina chamou Fragoso à parte:

         —Viu alguma coisa de suspeita, senhor Fragoso? — perguntou.

         —Nada, senhorita Lina — respondeu Fragoso. Nada, senhorita Lina — respondeu Fragoso. — Torres não saiu da cabine, onde leu e escreveu.

         —Ele não entrou na casa, na sala de jantar, como eu temia?

         —Não, todo o tempo que ficou fora da cabine, passeou na parte da frente da jangada.

         —O que fazia?

         —Parecia consultar atentamente um velho papel que tinha na mão e resmungava umas palavras incompreensíveis.

         —Tudo isso não pode ser tão inofensivo quanto imagina, senhor Fragoso! Essas leituras, essas escritas, esses velhos papéis devem ter algum interesse! Esse leitor e escritor não é nenhum professor, nem um homem da lei!

 

                    Nessa ilha surgiu um bando de índios.

         —A senhorita tem toda a razão!

         —Vamos continuar vigiando, senhor Fragoso.

         —Vamos, sempre, senhorita Lina — respondeu Fragoso.

         No dia seguinte, 29 de julho, assim que amanheceu o dia, Benito deu ao piloto o sinal para partir.

         Pelo meio das duas ilhas que emergiam da baía de Arenapo, a desembocadura do Japurá, com seis mil e seiscentos pés de largura, ficou logo visível. Esse grande afluente desaguava por oito bocas no Amazonas, como se desembocasse num oceano ou num golfo. Mas suas águas vinham de longe e eram as montanhas da república do Equador que as enviava, num curso que Só era obstruído por quedas d'água a trezentas léguas do seu afluente.

         Levaram o dia inteiro para descer até a ilha de Yapura e, depois, com o rio menos obstruído, a navegação ficou mais fácil. A corrente, mais lenta, permitia evitar mais facilmente as ilhotas, e não houve nenhum choque, nem encalhe.

         No dia seguinte, a jangada passou ao lado de amplas margens de cascalho e areia grossa, formadas de altas dunas muito acidentadas, que serviam de barragem a pastos enormes, nos quais se poderia criar e alimentar o gado de toda a Europa. Essas margens eram consideradas como as que tinham um maior número de tartarugas, na bacia do Alto Amazonas.

         No dia 30 de julho, no fim da tarde, a jangada foi solidamente amarrada à ilha de Catua para passar a noite, que ameaçava ser muito escura.

         Nessa ilha, enquanto o sol ainda estava no horizonte, surgiu um bando de índios muras, remanescentes da antiga e poderosa tribo que, outrora, entre o Teffé e o Madeira, havia ocupado mais de cem léguas à beira do rio.

         Esses índios, que iam e vinham, observaram o comboio flutuante, agora imóvel. Eles eram uma centena, armados de zarabatanas confeccionadas com um junco característico daquelas paragens e reforçada exteriormente por uma cápsula feita da haste de uma palmeira anã, da qual se tirava o miolo.

         Joam Garral deixou por um instante o trabalho que tomava todo o seu tempo para recomendar que vigiassem bem e não provocassem os índios. Na verdade, a partida não seria igual. Os muras tinham uma notável destreza para lançar, com as zarabatanas, a uma distância de trezentos passos, flechas que provocam feridas incuráveis.

         Essas flechas, tiradas da folha de uma palmeira "coucourite", com penas de algodão e nove a dez polegadas de comprimento, pontudas como uma agulha, eram envenenadas com "curare".

       O curare ou "wourah", uma substância que "mata tudo o que é baixo", como diziam os índios, era preparado com o suco de uma espécie de euforbiácea e o suco de uma strychnos bulbosa, sem contar a pasta de formigas venenosas e as presas de serpentes, também venenosas, que nela eram misturadas.

         — É mesmo um veneno terrível — disse Manoel. — Ele ataca diretamente o sistema nervoso relacionado aos movimentos voluntários. Mas o coração não é atingido e não pára de bater até a extinção das funções vitais. E, entretanto, contra esse envenenamento, que começa com o entorpecimento dos membros, não se conhece um antídoto!

         Felizmente, os muras não fizeram demonstrações hostis, embora tivessem pelos brancos um ódio pronunciado. Eles não tinham mais, é verdade, o valor dos seus ancestrais!

         Ao cair da noite, uma flauta de cinco orifícios, atrás das árvores da ilha, fez soar alguns cantos num arranjo em tom menor. Outra flauta respondeu. Essa troca de frases musicais durou dois ou três minutos, e os muras desapareceram.

         Fragoso, num momento de bom humor, tentou responder-lhes com uma canção ao seu modo; mas Lina estava presente, bem a propósito, para meter a mão na boca do cantor e impedi-lo de demonstrar seus pequenos talentos, que ele prodigalizava com a maior boa vontade.

         No dia 2 de agosto, às três horas da tarde, a jangada chegou, a vinte léguas dali, à entrada do lagoa Apoara, que alimenta com suas águas negras o rio do mesmo nome, e dois dias depois, por volta das cinco horas, ela parou na entrada do lago Coari.

         Esse lago, dentre os que se comunicam com o Amazonas, era um dos maiores e servia de reservatório para diferentes rios. Cinco ou seis afluentes se lançavam no lago, aí eram armazenados, se misturavam e, por uma passagem, desaguavam na artéria principal.

         Depois de ver a alta vila de Tahua-Miri, montada sobre pilotis, como pernas de pau, para escapar das inundações causadas pelas cheias que, em geral, invadiam as margens baixas, a jangada foi amarrada para ali passar a noite.

         A parada foi feita diante do povoado de Coary, uma dúzia de casas bem deterioradas, construídas no meio de um espesso ajuntamento de laranjeiras e cabaçais. Nada mais mutável do que o aspecto dessa vila, porque de acordo com a elevação ou o rebaixamento das águas, o lago apresentava uma vasta extensão líquida, ou se reduzia a um estreito canal, que não tinha a profundidade necessária nem para se comunicar com o Amazonas.

         No dia seguinte de manhã, 5 de agosto, partiram ao amanhecer, passaram diante do canal de Yucura, que pertence ao embaralhado sistema de lagos e passagens do rio Zapura, e, no dia 6 de agosto pela manhã, chegaram à entrada do lago Miana.

         Nenhum novo incidente ocorreu na vida a bordo, que transcorria com uma regularidade quase metódica.

         Fragoso, sempre estimulado por Lina, vigiava Torres todo o tempo. Por várias vezes, Fragoso tentou fazê-lo falar sobre a vida passada; mas o aventureiro se esquivava de qualquer conversa sobre o assunto e acabou mantendo uma certa reserva com o barbeiro.

         Seu relacionamento com a família Garral continuava o mesmo. Embora falasse pouco com Joam Garral, dirigia-se, com naturalidade, a Yaquita e à filha, parecendo não notar a evidente frieza que o acolhia. Aliás, as duas diziam que, depois da chegada a Manaus, Torres iria deixá-los e nunca mais ouviriam falar dele. Yaquita seguia os conselhos do padre Passanha, que a estimulava a ter paciência; mas o bom padre tinha um pouco mais de dificuldade com Manoel, seriamente disposto a pôr o intruso, tão desastradamente embarcado na jangada, no seu devido lugar.

         O único fato que ocorreu nessa noite foi o seguinte:

         Uma piroga que descia o rio encostou na jangada depois do convite que lhe foi feito por Joam Garral.

         —Vai a Manaus? — ele perguntou ao índio que subia na jangada e dirigia a piroga.

         —Vou — respondeu o índio.

         —Vai chegar lá...

         —Em oito dias.

         —Então, chegará bem antes de nós. Pode encarregar-se de entregar uma carta num certo endereço?

         —Naturalmente.

         —   Pegue então essa carta, meu amigo, e leve-a a Manaus.

         O índio pegou a carta que Joam Garral lhe apresentava, e um punhado de réis foi o preço da encomenda que se comprometeu a entregar.

         Nenhum dos membros da família, na ocasião recolhidos dentro de casa, tomou conhecimento do fato. Apenas Torres o presenciou. Ele chegou até a ouvir algumas das palavras trocadas entre Joam Garral e o índio e, pela sua fisionomia agora sombria, era fácil ver que o envio dessa carta não deixava de surpreendê-lo.

    

                                      Um ataque 

         No entanto, embora não dissesse nada para não provocar nenhuma cena violenta a bordo, no dia seguinte Manoel pensou em conversar com Benito sobre Torres.

         — Benito — disse ele, depois de levá-lo para a frente da jangada — preciso falar com você.

         —Normalmente muito sorridente, Benito parou olhando Manoel e seu rosto anuviou-se.

         —Sei o porquê — replicou. — Trata-se de Torres?

         —Sim, Benito!

         —Bom, eu também quero falar com você sobre ele, Manoel.

        —Você notou como se faz presente ao lado de Minha! — disse Manoel, empalidecendo.

         —Ah! Será que não é um sentimento de ciúme que o põe contra um homem como esse? — disse Benito, vivaz.

         —Não, de jeito nenhum! — respondeu Manoel. — Deus me livre de fazer uma tal injúria à jovem que será minha mulher! Não, Benito! Ela tem horror ao aventureiro! Não tem nada a ver com isso, contudo, fico repugnado ao ver esse homem se impor continuamente, pela sua presença, pela sua insistência, a sua mãe e sua irmã, e procurar entrar na intimidade da sua família, que já é a minha!

         —Manoel — respondeu seriamente Benito —, partilho da sua repulsa por essa pessoa duvidosa, e se eu ouvisse somente meus sentimentos, já haveria expulsado Torres da jangada! Mas não ousei!

         —Você não ousou? — replicou Manoel, pegando a mão do amigo. — Você não ousou!...

         —Ouça, Manoel — retomou Benito. — Você observou bem Torres, não é? Notou a solicitude dele para com a minha irmã! Nada mais verdadeiro! Porém, enquanto você via isso, não percebeu que esse homem inquietante não tira os olhos do meu pai, tanto de perto quanto de longe, e que ele parece ter algum pensamento odioso preconcebido, ao olhá-lo com essa obstinação inexplicável!

         —O que está dizendo, Benito? Você tem razões para pensar que Torres não gosta de Joam Garral?

         —Nenhuma... Não penso nada! — respondeu Benito. — É apenas um pressentimento! Mas observe bem Torres, estude com cuidado sua fisionomia e verá o sorriso maldoso quando seu olhar alcança meu pai!

         —Bom — retrucou Manoel —, se é assim, Benito, uma razão a mais para expulsá-lo!

         —Razão a mais... Ou razão a menos... — respondeu o rapaz. — Manoel... tenho medo... de quê?... Não sei... Mas obrigar meu pai a pôr Torres para fora... Pode ser uma imprudência! Eu repito... Tenho medo, sem que nenhum fato positivo permita explicar a mim mesmo esse medo!

         Benito teve uma espécie de estremecimento de raiva, enquanto falava.

         —Então — disse Manoel —, você acha que é preciso esperar?

         —Acho... esperar antes de tomar uma atitude, mas, sobretudo, ficarmos atentos!

         —Afinal — voltou a falar Manoel —, dentro de uns vinte dias chegaremos a Manaus. É lá que Torres vai ficar. É lá que nos deixará e ficaremos livres dessa presença para sempre! Até lá, olho nele!

         —Você me entende, Manoel — respondeu Benito.

         —Eu o entendo, meu amigo, meu irmão! — replicou Manoel.

          — Embora não concorde, embora não partilhe do seu medo! Que vínculo poderia existir entre seu pai e o aventureiro? Evidentemente, seu pai nunca o viu!

         —Não digo que meu pai conheça Torres — falou Benito. — Mas sim!... A mim me parece que Torres conhece o meu pai!... O que fazia esse homem nos arredores da fazenda, quando o encontramos na floresta de Iquitos? Por que, na ocasião, recusou a hospitalidade que lhe oferecemos, para dar um jeito de, quase obrigatoriamente, ser nosso companheiro de viagem? Chegamos a Tabatinga e parecia que ele nos esperava! O acaso é o único responsável por todos esses encontros ou seria o resultado de um plano preconcebido? Diante do olhar fugidio e ao mesmo tempo obstinado de Torres, tudo isso me vem à mente!... Não sei... Estou perdido no meio dessas coisas inexplicáveis! Ah! Por que tive a idéia de oferecer para ele embarcar na jangada!

         —Acalme-se, Benito, eu lhe peço!

         —Manoel — exclamou Benito, que parecia não se conter —, acha que se o caso fosse Só comigo, eu hesitaria em pôr para fora da jangada esse homem que Só nos inspira repulsa e antipatia? Mas, de fato, se se trata do meu pai, tenho medo de que, ao seguir minhas impressões, eu piore tudo! Alguma coisa me diz que, com esse homem tortuoso, pode ser perigoso agir antes que um fato nos tenha dado esse direito... O direito e o dever!... Em suma, na jangada, nós o temos à mão e se nós dois montarmos uma boa guarda ao lado do meu pai, acabaremos forçando, qualquer que seja o jogo dele, a se desmascarar, a se trair! Portanto, vamos esperar mais um pouco!

         A chegada de Torres na parte da frente da jangada interrompeu a conversa dos dois rapazes. Torres olhou-os de soslaio, mas não lhes dirigiu a palavra.

         Benito não se enganara ao dizer que os olhos do aventureiro ficavam pregados na pessoa de Joam Garral, todas as vezes em que não se sentia observado.

         Não! Ele não estava errado ao dizer que a fisionomia de Torres ficava sinistra ao olhar o seu pai!

         Que misterioso vínculo entre esses dois homens, um deles a nobreza em pessoa, poderia ligar — sem o saber, era evidente — um ao outro?

         Diante da situação, seria difícil que Torres, agora vigiado pelos dois rapazes e, ao mesmo tempo, por Fragoso e Lina, pudesse fazer algum movimento sem ser imediatamente reprimido. Talvez ele soubesse. Em todo o caso, nada demonstrava e não mudara em nada a maneira de ser.

         Satisfeitos com a conversa que tiveram, Manoel e Benito prometeram, um ao outro, manter Torres sob vigia, sem fazer nada para chamar a atenção.

         Nos dias seguintes, a jangada passou pela entrada dos furos Câmara, Aru, Yuripari, da margem direita, cujas águas, em vez de caírem no Amazonas, iam para o sul, alimentar o rio Purus e, por ele, voltavam ao rio. No dia 10 de agosto, às cinco horas da tarde, foi feita uma escala na ilha dos Cocos.

         Lá havia a fazenda de um seringueiro. Esse é o nome do produtor de borracha, decorrente da "seringueira", árvore cujo nome científico é "siphonia elástica'.

         Diziam que, por negligência ou exploração inadequada, o número dessas árvores diminuía na bacia Amazônica; mas as florestas de seringueiras ainda eram consideráveis à beira do Madeira, do Purus e de outros afluentes do rio.

         Uns vinte índios coletavam e manipulavam a borracha, operação que era feita principalmente nos meses de maio, junho e julho.

         Depois de verificar se as árvores estavam em boas condições para a coleta, bem preparadas pela cheia do rio que inundara os troncos numa altura que chegava em torno de quatro pés, os índios começavam o trabalho.

         Nas incisões feitas no alburno das seringueiras, eles prendiam pequenos potes embaixo dos cortes, que vinte e quatro horas eram suficientes para encher com uma substância leitosa, que também podia ser recolhida com um bambu oco e um recipiente ao pé da árvore.

         Depois de coletada a substância, para impedir o isolamento de suas partículas resinosas, os índios submetiam-na a uma fumigação sobre um fogo feito com madeira de palmeira açaí. Ao espalhar essa substância leitosa sobre uma pá de madeira que era agitada na fumaça, produzia-se, instantaneamente, sua coagulação; ela mudava para uma cor cinza amarelada e se solidificava. As camadas que se formavam sucessivamente eram, então, tiradas da pá e expostas ao sol para endurecerem mais e tomavam a cor marrom que se conhece. Depois disso, a fabricação estava terminada.

         Aproveitando a excelente ocasião, Benito comprou dos índios toda a borracha armazenada nas cabanas erguidas sobre pilotis. O preço que ele lhes pagou foi suficientemente lucrativo e os índios se mostraram muito satisfeitos.

         Quatro dias depois, 14 de agosto, a jangada passou na boca do Purus.

         Esse ainda é um dos grandes afluentes à direita do Amazonas e parece oferecer mais de quinhentas léguas de curso navegável, mesmo para grandes embarcações. Ele desaparece para sudoeste e mede quase quatro mil pés na desembocadura. Depois de correr embaixo da sombra de fícus, tahuaris, palmeiras "nipas", cecrópias, é, realmente, por cinco braços que deságua no Amazonas.16 Nesse lugar, o piloto conseguia manobrar com mais facilidade. O curso do rio era menos obstruído por ilhas e, além disso, a largura, de uma margem a outra, podia ser estimada em duas léguas, no mínimo.

         E, também, a corrente levava a jangada com tanta regularidade que, no dia 18 de agosto, ela parava diante do povoado de Pesquero, para ali passar a noite.

         O sol já estava bem baixo no horizonte e, com a rapidez especial das baixas latitudes, ia desaparecer quase perpendicularmente, como um enorme bólido. A noite sucederia ao dia, quase sem crepúsculo, como as noites nos teatros, que se consegue imitar abaixando bruscamente a ribalta.

         Joam Garral e a mulher, Lina e a velha Cybele estavam na frente da casa.

         Depois de ficar rodeando Joam Garral, como se quisesse falar-lhe em particular, constrangido pela chegada do padre Passanha que viera desejar boa-noite à família, Torres entrara finalmente na cabine.

         Os índios e os negros, estendidos ao longo da beirada, se mantinham nos postos de manobra. Araújo, sentado na frente, estudava a corrente, cujo fio se alongava numa linha retilínea.

         Manoel e Benito, de olho vivo, mas conversando e fumando com um ar indiferente, passeavam pela parte central da jangada, aguardando a hora de dormir.

         De repente, Manoel segurou Benito, detendo-o e disse:

         —Que odor diferente! Será que estou enganado? Não está sentindo? ... Parece mesmo...

        —Parece almíscar começando a decompor-se! — respondeu Benito. — Deve haver caimões adormecidos na margem vizinha!

         —Bom, a natureza agiu sabiamente ao permitir que eles se traíssem desse modo!

         —Sim — disse Benito —, isso é uma sorte, porque são animais que se devem temer.

         Na maioria das vezes, ao cair da noite, esses sáurios gostavam de deitar-se na areia das margens, onde se instalavam mais comodamente para passar a noite. Ali, encolhidos num buraco no qual entravam de costas, dormiam de boca aberta e com o maxilar superior aberto na vertical, a não ser que esperassem ou espreitassem alguma presa. Precipitar-se para pegar a presa, seja nadando sob as águas usando a cauda como único motor, seja correndo nas margens de areia e cascalho com uma rapidez que o homem não conseguia igualar, não passava de uma brincadeira para esses anfíbios.

         Era ali, nas vastas margens, que os caimões nasciam, viviam e morriam, não sem dar exemplos de uma extraordinária longevidade. Os mais velhos, centenários, podiam ser reconhecidos não Só pelo musgo esverdeado e as proeminências que recobriam suas carapaças, como também pela ferocidade natural que aumentava com a idade. Como disse Benito, esses animais podiam ser terríveis e convinha montar guarda contra seus ataques.

         De repente, gritos foram ouvidos da parte da frente:

         —Caimões! Caimões!

         Manoel e Benito se voltaram para olhar. Três grandes sáurios, com quinze a vinte pés de comprimento, haviam conseguido subir na plataforma da jangada.

         —Aos fuzis! Aos fuzis! — gritou Benito, fazendo sinais aos índios e aos negros para chegar para trás.

         —Para casa! — respondeu Manoel. — É mais rápido!

         De fato, como não se podia lutar contra eles, o melhor era, primeiro, procurar abrigo.

         Isso foi feito num minuto. A família Garral se refugiou dentro de casa, onde os dois rapazes se juntaram a ela. Os índios e o negros havia voltado para suas malocas e cabanas.

         A porta da casa já ia ser fechada:

         —E Minha? — perguntou Manoel.

         —Não está aqui! — respondeu Lina, que acabava de voltar do quarto da patroa.

         —Meu Deus! Onde ela está? — gritou a mãe. E todos gritaram ao mesmo tempo:

         —Minha! Minha! Nenhuma resposta.

         —Será que está na frente da jangada? — disse Benito.

         —Minha! — gritou Manoel.

         Os dois rapazes, Fragoso e Joam Garral, sem pensar no perigo, saíram da casa, armados de fuzis.

        Mal puseram os pés do lado de fora, dois caimões, dando meia-volta, correram em direção a eles.

         Uma bala de chumbo grosso na cabeça, perto do olho, atirada por Benito, interceptou um dos monstros, que, mortalmente ferido, se debateu em violentas convulsões e caiu de lado.

         Mas o segundo já estava lá, correndo para frente, e não havia mais jeito de impedi-lo.

         O enorme caimão correu na direção de Joam Garral e, depois de derrubá-lo com um movimento do rabo, vinha para cima dele, com os maxilares abertos.

 

                     Fragoso não conseguiu evitar o choque do caimão.

         Nesse momento, saindo da cabine com um machado na mão, Torres deu um golpe tão feliz, que a lâmina entrou no maxilar do caimão e aí ficou enfiada, sem que ele conseguisse se livrar dela. Sem poder enxergar por causa do sangue, o animal se jogou para o lado e, voluntariamente ou não, caiu e desapareceu no rio.

         —Minha! Minha! — continuou gritando Manoel, desatinado, chegando à frente da jangada.

         Subitamente, a jovem apareceu. Ela se refugiara na cabana de Araújo; mas a cabana havia sido derrubada com o possante ataque do terceiro caimão e Minha fugia para trás, perseguida pelo monstro, que não estava nem a seis pés de distância.

         Minha caiu.

         Uma segunda bala, atirada por Benito, não conseguiu parar o caimão! Apenas bateu na couraça do animal e algumas escamas voaram estilhaçadas, sem penetrá-lo.

         Manoel atirou-se na direção da jovem para levantá-la, carregá-la, arrancá-la da morte!... Um golpe com a cauda, lançado pelo animal, derrubou-o.

         Minha, desmaiada, estava perdida e a boca do caimão já se abria para triturá-la!...

         Foi então que Fragoso, pulando sobre o animal, enfiou-lhe uma faca no fundo na garganta, com o risco de ter o braço cortado pelos dois maxilares, no caso de se fecharem bruscamente.

         Fragoso pôde retirar o braço a tempo; mas não conseguiu evitar o choque do caimão e foi arrastado para o rio, cujas águas ficaram vermelhas por um longo tempo.

         —Fragoso! Fragoso! — gritava Lina, ajoelhando-se na beira da jangada.

         Um minuto depois, Fragoso reapareceu à superfície do Amazonas... Estava são e salvo.

         Pondo a sua vida em perigo, ele salvara a jovem que já voltara a si, e como de todas as mãos que lhe estendiam Manoel, Yaquita, Minha e Lina, Fragoso não sabia qual delas pegar, acabou segurando a da jovem mulata.

          No entanto, se Fragoso havia salvado Minha, era certamente à intervenção de Torres que Joam Garral devia a sua salvação.

         Portanto, não era a vida do fazendeiro que queria o aventureiro. Diante desse fato evidente, era preciso admiti-lo.

         Manoel mostrou isso a Benito, em voz baixa.

         —É verdade! — respondeu Benito, embaraçado. — Você tem razão e, nesse sentido, é uma preocupação a menos! No entanto, Manoel, minhas suspeitas ainda permanecem! É possível ser o pior inimigo de um homem sem querer a morte dele!

         Nesse meio tempo, Joam Garral se havia aproximado de Torres.

        —Obrigado, Torres — ele disse estendendo a mão.

         O aventureiro deu alguns passos para trás, sem responder.

         —Torres — retomou Joam Garral —, lamento que esteja chegando ao fim de sua viagem e que devamos separar-nos em alguns dias! Eu lhe devo...

         —Joam Garral — respondeu Torres —, não me deve nada! Sua vida me é a mais preciosa de todas! E, se permitir... Eu pensei bem... Em vez de parar em Manaus, descerei em Belém. Pode levar-me até lá?

         Joam Garral respondeu com um sinal afirmativo.

         Ao ouvir o pedido, num movimento espontâneo, Benito ia intervir; porém Manoel impediu-o, e o rapaz se conteve, não sem um enorme esforço.

          

                           O jantar da chegada 

         No dia seguinte, depois de uma noite que servira para acalmar tantas emoções, desatracaram da praia dos caimões e continuaram a viagem. Antes de cinco dias, se nada atrapalhasse o seu curso, a jangada deveria chegar ao porto de Manaus.

         A jovem estava totalmente refeita do susto; seus olhos e seu sorriso agradeciam, ao mesmo tempo, a todos aqueles que haviam arriscado a vida por ela.

         Lina estava muito reconhecida ao corajoso Fragoso, como se fosse ela que houvesse sido salva!

         —Eu lhe retribuirei mais cedo ou mais tarde, senhor Fragoso — ela disse, sorrindo.

         —E como, senhorita Lina?

         —Oh! O senhor sabe muito bem!

         —Então, se eu sei, que seja mais cedo e não mais tarde! — respondeu o amável rapaz.

         E, a partir daquele dia, ficou estabelecido que a encantadora Lina estava noiva de Fragoso, que o casamento deles seria realizado ao mesmo tempo que o de Minha e Manoel, e que o novo casal ficaria em Belém, perto dos recém casados.

          —Está tudo bem — repetia Fragoso, todo o tempo —, mas nunca pensei que o Pará ficasse tão longe!

         Quanto a Manoel e Benito, eles tiveram uma longa conversa sobre o que havia ocorrido. Estava fora de cogitação conseguir que Joam Garral expulsasse quem o havia salvado.

         "Sua vida me é a mais preciosa de todas", dissera Torres.

         Benito ouvira e guardara essa resposta, hiperbólica e, ao mesmo tempo enigmática, que havia escapado do aventureiro.

         Por enquanto, os dois jovens não podiam fazer nada. Mais do que nunca, tinham de esperar — esperar não quatro ou cinco dias, mas sete ou oito semanas ainda, isto é, todo o tempo que a jangada levaria para descer até Belém.

         —Em tudo isso há um mistério que não consigo compreender! — disse Benito.

         —Sim, mas podemos ficar tranqüilos num ponto — respondeu Manoel. — Está claro, Benito, que Torres não pretende tirar a vida do seu pai. De resto, continuaremos vigilantes!

         Aliás, parecia que a partir daquele dia Torres se mostrava mais reservado. Ele não procurou, de forma alguma, se impor à família e foi menos assíduo ao lado de Minha. Portanto, houve uma pausa nessa situação, da qual todos, exceto, talvez, Joam Garral, sentiam a gravidade.

         Na noite do mesmo dia, deixaram para trás, à direita do rio, a ilha Baroso, formada por um furo com esse nome, e o lago Manaoari, alimentado por uma série confusa de pequenos afluentes.

         A noite passou sem incidentes, mas Joam Garral recomendara que vigiassem com muita atenção.

         No dia seguinte, 20 de agosto, o piloto, que fazia questão de acompanhar de perto a margem direita por causa dos imprevistos remoinhos da esquerda, resolveu passar entre a margem e as ilhas.

        Além da margem, a região era semeada de lagos grandes e pequenos, como o Calderon, o Huarandeina e alguns outros menores, de águas escuras. Esse sistema hidrográfico marcava a aproximação do rio Negro, o mais importante de todos os afluentes do Amazonas. Na realidade, o grande rio ainda era denominado Solimões; porém, depois da desembocadura do rio Negro, ele tomava o nome que o tornou o mais famoso de todos os cursos d'água do mundo.

         Nesse dia, a jangada teve de navegar em condições bem singulares.

         O braço de rio, seguido pelo piloto, entre a ilha Calderon e a terra, era muito estreito, embora parecesse bem largo. Isso se devia ao fato de uma grande parte da ilha, pouco acima do nível médio, ainda estar coberta pelas águas da cheia.

       De cada lado, se amontoavam florestas de árvores gigantes, cujos topos ficavam cinqüenta pés acima do solo e, ao se unirem de uma margem à outra, formavam uma imensa abóbada.

         À esquerda, nada mais pitoresco do que a floresta inundada, que parecia plantada no meio de um lago. O tronco das árvores saía de uma água tranqüila e pura, na qual os entrelaçamentos dos galhos se refletiam com incomparável nitidez. Se fossem colocados sobre um imenso espelho, como essas plantas em miniatura de alguns centros de mesa, não teriam um reflexo mais perfeito. Com a altura duplicada, terminados tanto em cima como embaixo por um vasto guarda-sol de vegetação, eles como que formavam dois hemisférios, e a jangada parecia seguir por dentro de um dos grandes círculos.

         De fato, havia sido necessário deixar a jangada aventurar-se sob esses arcos nos quais se quebrava a grácil corrente do rio. Impossível recuar. Conseqüentemente, era-se obrigado a manobrar com extrema precisão, para se evitar as colisões à direita e à esquerda.

         Foi aí que se mostrou toda a habilidade do piloto Araújo, que, aliás, foi perfeitamente secundado por sua equipe. As árvores da floresta forneciam sólidos pontos de apoio para os longos croques e a direção foi mantida. A menor colisão, que poderia fazer a jangada ficar de través, teria provocado a destruição completa da enorme estrutura e causado a perda, se não do pessoal, ao menos da carga que ela transportava.

         —Na verdade, é muito bonito — disse Minha —, e seria muito agradável viajar sempre assim, nessas águas calmas, protegidos dos raios de sol!

         —Seria agradável e ao mesmo tempo perigoso, querida Minha — respondeu Manoel. — Numa piroga, não haveria nada a temer se navegássemos assim; mas para uma grande jangada, é melhor o curso livre e desimpedido de um rio.

         —Antes de duas horas, teremos atravessado toda a floresta — disse o piloto.

         —Então, vamos olhar bem! — exclamou Lina. — Todas essas coisas belas passam tão depressa! Ah, cara patroa, veja os bandos de macacos que brincam nos altos galhos das árvores e os pássaros que se olham na água límpida!

         —E as flores que se entreabrem na superfície — respondeu Minha — e que a corrente embala como uma brisa!

         —E os longos cipós, caprichosamente estendidos de uma árvore a outra — acrescentou a jovem mulata.

         —E nenhum Fragoso na ponta! — disse o noivo de Lina. — No entanto, foi uma bela flor que a senhorita colheu na floresta de Iquitos!

         —Vejam só, uma flor única no mundo! — respondeu Lina, zombando. — Ah, patroa, olhe essas plantas magníficas!

         E Lina mostrava as ninféias de folhas colossais, cujas flores produziam botões tão grandes como as nozes-da-índia. Em seguida, no lugar em que se desenhavam as margens imersas, havia feixes de junco "mucumucu' de folhas largas, cujas hastes elásticas afastavam-se para dar passagem a uma piroga e se fechavam atrás dela. A região era uma tentação para os caçadores, porque um mundo de pássaros aquáticos voejava entre os altos tufos agitados pela corrente.

         Íbis pousados, numa atitude epigráfica, em algum tronco velho meio emborcado, garças-cinzentas, imóveis num único pé, sérios flamingos que, de longe, pareciam sombrinhas rosas abertas na folhagem e muitos outros fenicopterídeos de todas as cores animavam esse pântano temporário.

         Mas à flor da água, também deslizavam enormes e rápidas cobras e, talvez, alguns desses temíveis gimnotos, cujas repetidas descargas elétricas, uma após outra, paralisavam um homem ou o animal mais robusto e acabavam por matá-lo.

         Era preciso tomar cuidado com eles e, talvez, mais ainda, com as serpentes "sucurijus", que, enroscadas no estipe de alguma árvore,  se desenrolam, se esticam, pegam a presa e espremem-na com seus anéis, que, de tão potentes, podem esmagar um boi. Não foram encontrados, na floresta amazônica, esses répteis com trinta a trinta e cinco pés de comprimento? E, segundo M. Carrey, existem alguns cujo comprimento atinge quarenta e sete pés e que são tão grossos quanto uma barrica!

         Na verdade, uma dessas sucurijus lançadas na jangada seria tão aterrorizante quanto um caimão!

         Felizmente, os passageiros não precisaram lutar contra gimnotos, nem contra serpentes, e a passagem através da floresta inundada, que durou por volta de duas horas, terminou sem incidentes.

        Três dias se passaram. Aproximavam-se de Manaus. Mais vinte e quatro horas e a jangada estaria da desembocadura do rio Negro, diante da capital da província do Amazonas.

        

                       Passagem pela floresta inundada.

         Efetivamente, no dia 23 de agosto, às cinco horas da tarde, ela chegou à ponta setentrional da ilha Muras, na margem direita do rio. Bastava atravessá-lo obliquamente, numa distância de algumas milhas, para chegar ao porto.

         Contudo, o piloto não quis, e com razão, arriscar-se naquele dia, com a noite se aproximando. As três milhas que faltavam percorrer exigiriam três horas de navegação e, para cortar o curso do rio, o mais importante era poder ver claramente. 17

         Naquela noite, o jantar, que deveria ser o último dessa primeira parte da viagem, foi servido com uma certa cerimônia. Vencida a metade do curso do Amazonas nessas condições, valia a pena que se fizesse um jantar festivo. Ficou combinado que beberiam "à saúde do rio Amazonas" alguns copos do generoso licor destilado pelas vertentes do Porto ou de Setúbal.

         Além disso, seria o jantar de noivado de Fragoso e da encantadora Lina. O de Manoel e de Minha havia sido realizado na fazenda de Iquitos, algumas semanas antes. Depois do jovem patrão e da jovem patroa, era a vez do fiel casal ao qual estavam presos por laços de gratidão!

         Por isso, no meio dessa honesta família, Lina, que continuaria a serviço da sua patroa, e Fragoso, que começaria a trabalhar para Manoel Valdez, sentaram-se à mesa comum, no lugar de honra que lhes fora reservado.

         Naturalmente, Torres participava do jantar, digno da despensa e da cozinha da jangada.

         O aventureiro, sentado em frente a Joam Garral, sempre taciturno, ouvia o que se dizia mais do que tomava parte da conversa. Benito, sem deixar transparecer, o observava atentamente. O olhar de Torres, constantemente fixado em seu pai, tinha um brilho estranho. Parecia o olhar de um animal selvagem, procurando hipnotizar a presa antes de atacá-la.

         Manoel conversava quase todo o tempo com Minha. Nos intervalos, seus olhos também se dirigiam a Torres; mas, em suma, ele achava que se essa situação não terminasse em Manaus, certamente terminaria em Belém.

         O jantar foi bem alegre. Lina animou-o com o seu bom humor, Fragoso com suas réplicas joviais. O padre Passanha olhava feliz esse pequeno mundo que tanto prezava, e os dois jovens casais que, em breve, sua mão benzeria nas águas do Pará.

         —Coma bastante, padre — disse Benito, que acabou se envolvendo na conversa em geral —, faça jus a essa refeição de noivado! Precisará de forças para celebrar tantos matrimônios ao mesmo tempo!

         —Sim! Minha querida criança — respondeu o padre Passanha —, encontre uma bela e honrada jovem que se prenda a você, e verá se não consigo casar os dois também!

         —Bem respondido, padre! — exclamou Manoel. — Vamos beber ao casamento tão próximo de Benito!

         —Encontraremos uma jovem e bela noiva em Belém — disse Minha — e ele deverá fazer como todo o mundo.

         —Ao casamento de Benito! — disse Fragoso, que gostaria que o mundo inteiro casasse ao mesmo tempo que ele.

         —Eles têm razão, meu filho — expôs Yaquita. — Eu também vou beber ao seu casamento, que você possa ser feliz como o serão Minha e Manoel, e como eu fui ao lado de seu pai!

         —Como continuará sendo, é o que esperamos — disse, então,  Torres, bebendo um copo de Porto, sem se justificar com ninguém. — Todos aqui temos a felicidade nas mãos!

        Não seria possível dizer o porquê, mas esses votos, vindos do aventureiro, causaram uma impressão desagradável.

         Manoel sentiu isso e quis reagir contra esse sentimento:

         —Vejamos, padre, enquanto estamos aqui, será que não há mais alguns casais para casar na jangada?

         —Acho que não — respondeu o padre Passanha — a menos que Torres... o senhor não é casado, é?

         —Não, sou e sempre fui solteiro!

         Benito e Manoel pensaram ver que, ao falar assim, o olhar de Torres buscara o da jovem.

         —E quem impedirá que se case? — retomou o padre Passanha. — Em Belém, poderá encontrar uma mulher que tenha uma idade semelhante à sua, e talvez seja possível se fixar na cidade. Seria melhor do que essa vida errante da qual, até agora, não tirou muita vantagem.

         —Tem razão, padre — respondeu Torres. — Não digo que não! Aliás, o exemplo é contagioso. Ao ver todos esses jovens noivos, dá vontade de casar! Mas sou totalmente estranho em Belém e, a não ser por circunstâncias especiais, isso pode tornar mais difícil que me estabeleça na cidade.

         —De onde é? — perguntou Fragoso, que continuava com a impressão de já haver encontrado Torres em algum lugar.

         —Da província de Minas Gerais.

         —E nasceu?...

         —Na própria capital do arraial diamantinense, em Tijuco.

         Quem olhasse para Joam Garral naquele momento, ficaria horrorizado com a fixidez do seu olhar, que cruzava com o de Torres.

          

                                    História antiga

          E a conversa continuou com Fragoso, que quase imediatamente a retomou nos seguintes termos:

         —O quê? O senhor é de Tijuco, da capital do distrito dos diamantes?

         —Sou — respondeu Torres. — Será que também é originário dessa província?

         —Não! Sou das províncias do litoral do Atlântico, do norte do Brasil — respondeu Fragoso.

         —Não conhece a região dos diamantes, senhor Manoel? — perguntou Torres.

         Um sinal negativo do rapaz foi a única resposta.

         —E o senhor Benito — continuou Torres dirigindo-se ao jovem Garral que, evidentemente, queria envolver na conversa —, nunca teve a curiosidade de visitar o arraial diamantinense?

         —Nunca — respondeu secamente Benito.

         —Ah! Eu gostaria de ver essa região — exclamou Fragoso, que inconscientemente fazia o jogo de Torres. — Acho que acabaria encontrando algum diamante de grande valor!

         —E o que teria feito com esse diamante de grande valor, Fragoso? — indagou Lina.

         —Eu o teria vendido!

         —Nesse caso, agora seria rico?

         —Muito rico!

         —Bom, se você fosse rico há três meses, nunca teria tido a idéia de... do cipó?

         —E se eu não a houvesse tido — exclamou Fragoso —, não haveria uma encantadora mulherzinha que... Vamos, decididamente, Deus sabe o que faz!

         —É isso mesmo, Fragoso — interveio Minha —, pois o está casando com minha pequena Lina! Diamante por diamante, não saiu perdendo na troca!

         —Mas como, senhorita Minha — admirou-se galantemente Fragoso —, eu saí ganhando!

         Sem dúvida, Torres não queria mudar de assunto, porque retomou a palavra:

         —Na verdade — disse ele —, em Tijuco apareceram fortunas repentinas, que devem ter virado muitas cabeças! Não ouviram falar do famoso diamante do Abaeté, cujo valor foi estimado em mais de dois milhões de contos de réis?18 Bom, foram as minas do Brasil que o produziram e essa pedra pesava uma onça! Foram três condenados — sim, três condenados ao exílio perpétuo — que o encontraram, por acaso, no rio Abaeté, a noventa léguas do Serro do Frio.

         —De repente, ficaram ricos? — perguntou Fragoso.

         —Não! — respondeu Torres. — O diamante foi entregue ao governador geral das minas. Tendo sido reconhecido o valor da pedra, o rei João VI de Portugal mandou furá-la e a usava no pescoço nas grandes cerimônias. Quanto aos condenados, eles obtiveram o perdão, mas foi tudo. Pessoas mais hábeis teriam conseguido uma boa renda com ele.

         —O senhor, sem dúvida — disse secamente Benito.

         —Sim... eu!... Por que não? — respondeu Torres. — Nunca visitou o distrito diamantinense? — ele acrescentou, dirigindo-se, dessa vez, a Joam Garral.

         —Nunca — respondeu Joam, olhando para Torres.

         —Isso é lamentável — continuou este —, deveria algum dia fazer essa viagem. É muito interessante, eu garanto! O distrito dos diamantes é um enclave no vasto império do Brasil, algo como um parque de doze léguas de circunferência, e que, pela natureza do solo, a vegetação, os terrenos arenosos limitados por um círculo de altas montanhas, é bem diferente da província circunvizinha. Mas como eu disse, é o lugar mais rico do mundo, pois, de 1807 a 1817, a produção anual foi em torno de dezoito mil quilates.19 Ah! Quantos golpes eram dados, não Só pelos garimpeiros que procuravam pedras preciosas até no cume das montanhas, como também pelos contrabandistas que as repassavam de forma fraudulenta! Agora, a exploração está mais difícil, e os dois mil negros empregados no trabalho das minas pelo governo são obrigados a desviar os cursos d'água para deles extrair a areia diamantina. Antigamente, era mais cômodo!

        

 

                                   Eles se defenderam corajosamente.

         —É verdade — opinou Fragoso —, os bons tempos já passaram!

         —O que continuou fácil é conseguir o diamante à maneira dos malfeitores, quero dizer, pelo roubo. E vejam só, por volta de 1826 — eu tinha oito anos na época — ocorreu em Tijuco um drama terrível, que mostra como os criminosos não recuam diante de nada, quando querem ganhar uma fortuna com um golpe audacioso! Mas, sem dúvida, isso não os interessa...

         —Ao contrário, Torres, continue — respondeu Joam Garral, com uma voz estranhamente calma.

         —Que seja — continuou Torres. — Dessa vez, tratava-se de roubar diamantes, e um punhado dessas belas pedras equivalia a um milhão, algumas vezes a dois!

         E Torres, cujo rosto exprimia os mais vis sentimentos de cupidez, fez, quase inconscientemente, o gesto de abrir e fechar a mão.

         — Eis o que se passou — ele retomou. — Em Tijuco, era costume expedir numa única vez os diamantes recolhidos durante o ano. Eles eram divididos em dois lotes, de acordo com o tamanho, depois de separados por doze crivos com buracos diferentes. Esses lotes eram colocados em sacos fechados e enviados para o Rio de Janeiro. Porém, como valiam vários milhões, podem imaginar que eram bem acompanhados. Um empregado, escolhido pelo intendente, quatro soldados a cavalo do regimento da província e dez homens a pé formavam o comboio. Primeiro iam para Vila Rica, onde o general comandante punha a sua chancela nos sacos, e o comboio retomava o caminho para o Rio de Janeiro. Devo acrescentar que, por precaução, a partida era sempre mantida em segredo. Acontece que em 1826 um jovem empregado chamado Dacosta, de vinte e dois a vinte e três anos, no máximo, que havia alguns anos trabalhado em Tijuco nos escritórios do governador geral, combinou esse golpe. Ele se entendeu com um grupo de contrabandistas e contou-lhes o dia da partida do comboio. Os malfeitores, numerosos e bem armados, tomaram certas providências. Depois de Vila Rica, na noite de 22 de janeiro, o bando atacou repentinamente os soldados que escoltavam os diamantes. Eles se defenderam corajosamente; porém, foram massacrados, exceto um que, embora gravemente ferido, conseguiu escapar e relatou a notícia do terrível atentado. O empregado que os acompanhava não havia sido poupado, assim como os guardas da escolta. Morto sob os golpes dos malfeitores deve ter sido arrastado e, sem dúvida, jogado de algum precipício, porque o seu corpo nunca foi encontrado.

         —E esse tal Dacosta? — perguntou Joam Garral.

         —Muito bem, o resultado do crime não foi bom para ele. Por diversas circunstâncias, as suspeitas não tardaram a recair sobre ele, acusado de chefiar o golpe. Ele alegou inocência, em vão. Graças ao cargo que ocupava tinha a possibilidade de saber o dia em que a partida do comboio seria efetuada. Era o único que poderia prevenir o bando de malfeitores. Foi acusado, preso, julgado e condenado à morte. Acontece que uma condenação desse tipo era executada nas vinte e quatro horas seguintes.

         —O infeliz foi executado? — perguntou Fragoso.

         —Não — respondeu Torres. — Ele havia sido encarcerado na prisão de Vila Rica e, durante a noite, apenas algumas horas antes da execução, agindo sozinho, ou ajudado pelos cúmplices, conseguiu escapar.

         —Depois nunca mais se ouviu falar desse homem? — perguntou Joam Garral.

         —Nunca mais! — respondeu Torres. — Deve ter deixado o Brasil e agora, sem dúvida, leva uma vida feliz em algum país longínquo, com o produto do roubo que conseguiu realizar.

         —Ao contrário, ele pode ter levado uma vida miserável! — retrucou Joam Garral.

         —E possa Deus ter feito com que sentisse remorso pelo crime! — acrescentou o padre Passanha.

         Nesse momento, os convivas se levantaram da mesa e, terminado o jantar, todos saíram para respirar o ar puro do fim da tarde. O sol já descia no horizonte, mas ainda faltava uma hora para que a noite chegasse.

         —Essas histórias não são nada alegres — julgou Fragoso — e nosso jantar de noivado havia começado melhor!

         —Mas a culpa é sua, senhor Fragoso — retrucou Lina.

         —Como, minha culpa?

         —É! Foi o senhor quem continuou a falar desse distrito e dos diamantes, e não podíamos fazer nada!

         —Culpa minha, é verdade! — respondeu Fragoso. — Mas eu não imaginava que acabaria desse jeito!

         —O senhor é o primeiro culpado!

        —E o primeiro a ser punido, senhorita Lina, pois não a ouvi rir durante a sobremesa!

         Toda a família se dirigiu, então, para a frente da jangada. Manoel e Benito andavam lado a lado sem falar. Yaquita e a filha os seguiam, também em silêncio, e todos sentiam uma inexplicável sensação de tristeza, como se pressentissem um grave acontecimento.

         Caminhando de cabeça baixa, Joam Garral parecia profundamente imerso nas suas reflexões, quando Torres, que se mantinha ao lado dele, pôs a mão no seu ombro:

         —Joam Garral — ele disse —, poderíamos conversar por uns quinze minutos?

         Joam Garral olhou para Torres.

        —Aqui? — perguntou.

         —Não! Em particular!

         —Então venha.

         Os dois voltaram para a casa, entraram, e a porta foi fechada atrás deles.

         Seria difícil descrever o que todos sentiram, quando Joam Garral e Torres saíram. O que poderia haver em comum entre o aventureiro e o honesto fazendeiro de Iquitos? Parecia que uma grande desgraça pairava sobre aquela família, mas ninguém ousava se perguntar.

         —Manoel — disse Benito, pegando o braço do amigo e puxando-o —, o que quer que aconteça, esse homem desembarcará em Manaus!

         —Sim!... É preciso!... — respondeu Manoel.

         —E se por causa dele... Sim! Por causa dele, ocorrer alguma desgraça com o meu pai... Eu o matarei!

    

                              Entre os dois homens 

         Depois de alguns minutos sozinhos no quarto onde ninguém podia ouvi-los, nem vê-los, Joam Garral e Torres se olhavam, sem pronunciar uma única palavra. Então, o aventureiro hesitava falar? Será que havia percebido que Joam Garral Só responderia com um silêncio desdenhoso às perguntas que lhe seriam feitas?

         Sim, sem dúvida! Por isso, Torres não perguntou. No início da conversa foi afirmativo, assumindo o papel de acusador.

         —Joam — ele disse —, seu sobrenome não é Garral, e sim Dacosta.

         Ao ouvir o nome criminoso que Torres lhe dava, Joam Garral não pôde impedir um ligeiro estremecimento, mas não respondeu.

         —O senhor é Joam Dacosta — recomeçou Torres —, empregado, há vinte e três anos, nos escritórios do governador-geral de Tijuco, e foi o condenado naquele caso de roubo e assassinato!

         Nenhuma resposta de Joam Garral, cuja estranha calma surpreendeu o aventureiro. Será que estaria enganado ao acusar o seu anfitrião? Não! Pois Joam Garral não reagia diante das terríveis acusações. Sem dúvida, perguntava-se onde Torres queria chegar.

         —Joam Dacosta — ele continuou —, vou repetir, o senhor foi perseguido no caso dos diamantes, foi culpado pelo crime e condenado à morte, e escapou da prisão de Vila Rica algumas horas antes da execução! Vai responder?

         Um longo silêncio seguiu-se à pergunta direta que Torres acabara de fazer. Joam Garral, sempre calmo, sentara-se. Com o braço apoiado numa pequena mesa, olhava fixamente para o acusador, de cabeça erguida.

         —Vai responder? — repetiu Torres.

         —Que resposta espera que eu dê? — disse simplesmente Joam Garral.

         —Uma resposta — replicou Torres lentamente — que me impeça de procurar o chefe de polícia de Manaus e dizer-lhe: lá está um homem cuja identidade será fácil de estabelecer, que será reconhecido mesmo depois de vinte e três anos de ausência e esse homem é o instigador do roubo de diamantes de Tijuco, é o cúmplice dos assassinos dos soldados da escolta, é o condenado que fugiu ao suplício, ele é Joam Garral, cujo nome verdadeiro é Joam Dacosta.

         —Então — disse Joam Garral — não terei nada a temer, Torres, se eu der a resposta que está esperando?

         —Nada, porque, nesse caso, nem o senhor, nem eu, temos interesse em falar desse caso.

         —Nem o senhor, nem eu? — respondeu Joam Garral. — Então não é com dinheiro que devo comprar o seu silêncio?

         —Não, qualquer que seja a soma que me oferecer!

         —O que quer então?

         —Joam Garral — respondeu Torres —, eis a minha proposta. Não se apresse em respondê-la com uma recusa formal, e lembre-se de que está em meu poder.

        —Qual é a proposta? — perguntou Joam Garral.

         Torres refletiu por um minuto. A atitude do culpado, cuja vida estava em suas mãos, surpreendia-o. Ele esperava por um violento debate, por súplicas, por lágrimas... Na sua frente estava um homem culpado dos piores crimes, e esse homem não contestava. Por fim, ele cruzou os braços:

         —O senhor tem uma filha — disse. — Essa filha me agrada e quero casar-me com ela.

         Sem dúvida, Joam Garral esperava tudo da parte de um homem como aquele, e o pedido não o fez perder a calma.

         —Então — ele disse — o honorável Torres quer entrar para a família de um assassino e de um ladrão?

         —Sou o único juiz do que me convém fazer — respondeu Torres. — Quero ser o genro de Joam Garral e o serei.

         —No entanto, Torres, não ignora que minha filha vai casar-se com Manoel Valdez.

         —O senhor conseguirá justificar-se diante de Manoel Valdez.

         —E se minha filha se recusar?

         —O senhor lhe contará tudo e, eu a conheço, ela consentirá — respondeu Torres, sem nenhum pudor.

         —Tudo?

         —Tudo, se for preciso. Entre os próprios sentimentos, a honra da família e a vida de seu pai, ela não hesitará.

         —O senhor é um grande miserável, senhor Torres! — disse tranqüilamente Joam Garral, cujo sangue-frio não o abandonava.

         —Um miserável e um assassino foram feitos para se entender!

         Ao ouvir essas palavras, Joam Garral levantou-se e foi em direção ao aventureiro, que olhou bem nos olhos:

         —Torres — ele disse —, se pede para entrar na família de Joam Dacosta, é que sabe que Joam Dacosta é inocente do crime pelo qual foi condenado!

         —É verdade!

         —E digo mais — voltou a falar Joam Garral —, tem a prova de sua inocência, e essa inocência, deixará para proclamá-la no dia em que se casar com a sua filha!

         —Vamos ser francos, Joam Garral — respondeu Torres abaixando a voz — e quando ouvir o que tenho a dizer, veremos se ousará me recusar sua filha!

         —Pode falar, Torres.

         —Muito bem, sim — disse o aventureiro reprimindo as palavras, como se lamentasse deixá-las escapar pelos lábios —, sim, o senhor é inocente! Eu sei porque conheci o verdadeiro culpado e sou capaz de provar a sua inocência!

         —E o miserável que cometeu o crime?...

         —Está morto.

         —Morto! — exclamou Joam Garral, que essa palavra fez empalidecer, contra a sua vontade, como se lhe houvessem tirado toda a possibilidade de se reabilitar.

         —Morto — respondeu Torres. — Mas esse homem, que conheci muito tempo depois do crime, e sem saber que era um criminoso, havia escrito, com a própria mão, o relato do caso dos diamantes, para lembrar-se dos menores detalhes. Sentindo que o fim se aproximava, foi tomado de remorsos. Ele sabia onde Joam Dacosta se havia refugiado, com que nome o inocente refizera a vida. Sabia que era rico, numa família feliz, mas também sabia que lhe devia faltar a felicidade! Bom, essa felicidade, ele quis devolvê-la com a honra a que ele tinha direito!... Mas a morte estava chegando... e ele me encarregou, a mim, seu companheiro, de fazer o que não teria tempo!... Entregou-me as provas da inocência de Dacosta, para que eu fizesse chegar às suas mãos, e morreu.

         —O nome desse homem! — exclamou Joam Garral, com um tom de voz que não conseguiu controlar.

         —Saberá quando eu for da sua família!

         —E o que foi escrito?...

         Joam Garral estava a ponto de se atirar sobre Torres, para revistá-lo, para lhe arrancar a prova da sua inocência.

         —Esse escrito está em lugar seguro — respondeu Torres — e Só o terá depois que sua filha se tornar minha esposa. Agora, ainda recusa?

         —Sim — respondeu Joam Garral. — Mas em troca desse escrito, a metade da minha fortuna é sua!

         —A metade da sua fortuna! — exclamou Torres. — Aceito, desde que venha com Minha no casamento!

         — E é assim que respeita a vontade de um moribundo, de um criminoso atingido pelo remorso, e que o encarregou de reparar, enquanto estava consciente, o mal que havia feito!

       — Tome cuidado — disse Torres.

         —É assim.

         —Volto a dizer, Torres — enfatizou Joam Garral — o senhor é um grande miserável!

         —Que seja.

         —E como não sou um criminoso, não podemos entender-nos!

         —Então, se recusa?...

         —Eu me recuso!

         —O senhor sai perdendo, Joam Garral. Tudo o acusa na instrução que foi feita! Foi condenado à morte e, como sabe, nas condenações por crimes desse tipo, o governo não tem o direito de comutar a pena. Denunciado, será preso! Preso, será executado... E eu vou denunciá-lo!

         Por mais senhor de si que fosse, Joam Garral não conseguia mais se controlar. Ele ia atirar-se sobre Torres...

         Um gesto do trapaceiro fez sua raiva desaparecer.

         —Tome cuidado — disse Torres. — Sua mulher não sabe que é mulher de Joam Dacosta, seus filhos não sabem que são filhos de Joam Dacosta, e vai fazer com que fiquem sabendo!

         Joam Garral parou. Ele recuperou o autocontrole e suas feições demonstraram a calma habitual.

         —Essa discussão já durou demais — disse ele, caminhando para a porta —, e sei o que me resta a fazer!

         —Tome cuidado, Joam Garral — disse Torres mais uma vez, que não conseguia acreditar que seu ignóbil procedimento de chantagem fosse falhar.

         Joam Garral não respondeu. Empurrou a porta que se abria para a varanda, fez sinal a Torres para que o seguisse e os dois foram para o centro da jangada, onde a família estava reunida.

         Benito, Manoel, todos, tomados de profunda ansiedade, se levantaram. Eles podiam ver que a atitude de Torres ainda era ameaçadora e que o fogo da raiva brilhava nos seus olhos.

         Num extraordinário contraste, Joam Garral mostrava-se senhor de si, quase sorridente.

         Ambos pararam diante de Yaquita e dos outros familiares. Ninguém ousava dirigir-lhes a palavra.

         —Pela última vez, Joam Garral — disse Torres —, quero uma resposta!

         —Eis a minha resposta.

         E se dirigiu à mulher:

         —Yaquita — disse —, circunstâncias especiais me obrigam a mudar o que havíamos decidido anteriormente sobre o casamento de Minha e de Manoel.

         —Finalmente! — exclamou Torres.

         Joam Garral, sem responder, lançou sobre o aventureiro um olhar com o mais profundo desprezo.

       Porém, com essas palavras, Manoel sentiu que seu coração havia disparado. A jovem levantara-se, pálida, como se procurasse um apoio na mãe. Yaquita abriu os braços para protegê-la, para defendê-la!

         —Meu pai! — disse Benito em voz alta, que se colocara entre Joam Garral e Torres. — O que quer dizer?

         —Quero dizer — respondeu Joam Garral elevando a voz — que esperar a chegada ao Pará para casar Minha e Manoel, é esperar demais! O casamento será realizado aqui mesmo, amanhã, na jangada, aos cuidados do padre Passanha, se, depois de uma conversa que vou ter com Manoel, convier a ele, como a mim, não adiar mais!

         —Ah! Meu pai, meu pai!... — exclamou o rapaz.

         —Espere para me chamar assim, Manoel — respondeu Joam Garral, com um tom de indizível sofrimento.

         —Nesse momento, Torres, que havia cruzado os braços, lançou sobre a família um olhar de inigualável insolência.

         —Então, essa é sua última palavra — disse ele, estendendo a mão para Joam Garral.

         —Não, não é minha última palavra.

         —Qual é então?

         —É essa, Torres. Quem manda aqui sou eu! O senhor vai, de boa vontade ou de má vontade, deixar a jangada agora!

         —Sim, agora — disse Benito —, ou vou jogá-lo na água!

         Torres deu de ombros.

         —Nada de ameaças — disse —, elas são inúteis! A mim convém desembarcar e sem demora. Mas vai lembrar-se de mim, Joam Garral! Não ficaremos muito tempo sem nos ver!

         —Se depender de mim — respondeu Joam Garral —, nós nos veremos talvez mais cedo do que o senhor gostaria! Amanhã irei ver o juiz de direito Ribeiro, primeiro magistrado da província, a quem avisei da minha chegada a Manaus. Se tiver coragem, vá encontrar-me!

         —O juiz Ribeiro!... — respondeu Torres, evidentemente confuso.

         —O juiz Ribeiro — respondeu Joam Garral.

         Mostrando a piroga para Torres, com um gesto de extremo desprezo, Joam Garral encarregou quatro de seus empregados de deixá-lo, sem demora, no ponto mais próximo da ilha.

         O miserável, enfim, desapareceu.

         A família, ainda trêmula, respeitou o silêncio do chefe. Mas Fragoso, não percebendo totalmente a gravidade da situação e levado pela sua habitual desenvoltura, aproximou-se de Joam Garral.

         Se o casamento da senhorita Minha e do senhor Manoel for realizado amanhã, na jangada...

         —O seu será realizado ao mesmo tempo, meu amigo — respondeu amavelmente Joam Garral.

         E fazendo um sinal para Manoel, retirou-se para o quarto com ele.

         A conversa de Joam Garral e de Manoel já durava mais de meia hora, o que parecia um século para a família, quando a porta do quarto, finalmente, foi aberta.

         Manoel saiu sozinho.

         Uma nobre resolução brilhava no seu olhar.

         Indo até Yaquita, disse, "Minha mãe!", e a Minha, disse, "Minha mulher", a Benito, disse, "Meu irmão", e se virando para Lina e Fragoso, disse a todos,"Até amanhã!".

         Estava a par de tudo o que ocorrera entre Joam Garral e Torres. Sabia que, contando com o apoio do juiz Ribeiro depois de uma correspondência que mantinha com ele havia mais de um ano, sem contar para a família, Joam Garral, enfim, conseguira esclarecê-lo e convencê-lo da sua inocência. Ele sabia que Joam Garral fizera essa viagem com o único objetivo de conseguir uma revisão do odioso processo de que havia sido vítima, e para não deixar cair sobre o genro e a filha o peso da terrível situação que tivera, por muito tempo, de aceitar para si mesmo!

         Sim, Manoel sabia de tudo isso, mas também sabia que Joam Garral, ou melhor, Joam Dacosta, era inocente e que sua infelicidade acabava de o tornar ainda mais querido e respeitado!

         O que não sabia era que a prova material da inocência do fazendeiro existia, e que essa prova estava nas mãos de Torres. Joam Garral quisera reservar para o juiz o uso dessa prova, que deveria inocentá-lo, se é que o aventureiro dizia a verdade.

         Manoel limitou-se a anunciar que ia ao quarto do padre Passanha, para pedir-lhe que preparasse tudo para os dois casamentos.

         No dia seguinte, 4 de agosto, apenas uma hora antes da cerimônia ser realizada, uma grande piroga, que saíra da margem esquerda do rio, encostou na jangada.

         Uma dúzia de remadores a trouxera, rapidamente, de Manaus, e, com alguns guardas, conduzia o chefe de polícia, que se deu a conhecer e subiu a bordo.

         Nesse momento, Joam Garral e a família, já vestidos para a festa, saíam da casa.

        —Joam Garral? — perguntou o chefe de polícia.

         —Sou eu — respondeu Joam Garral.

         —Joam Garral — voltou a dizer o chefe de polícia — o senhor também foi Joam Dacosta! Esses dois nomes foram usados por um mesmo homem! O senhor está preso.

       Ao ouvir essas palavras, Yaquita e Minha, atônitas, ficaram paradas, sem conseguir sair do lugar.

         —Meu pai, um assassino! — exclamou Benito, que ia dirigir-se a Joam Garral.

         Com um gesto, o pai lhe impôs silêncio.

         —Quero sua permissão apenas para uma pergunta — disse Joam Garral, com voz firme, dirigindo-se ao chefe de polícia. — O mandado em virtude do qual estou sendo preso foi enviado pelo juiz de direito de Manaus, pelo juiz Ribeiro?

         —Não — respondeu o chefe de polícia —, ele me foi entregue, com a ordem de executá-lo imediatamente, pelo substituto. O juiz Ribeiro, atacado de apoplexia ontem à tarde, morreu essa noite mesmo, às duas horas, sem voltar a si.

         —Morto! — falou Joam Garral, por instantes aterrado com a notícia — Morto... morto!

         Porém, erguendo a cabeça, dirigiu-se à mulher e aos filhos:

         —O juiz Ribeiro — disse — era o único a saber que eu era inocente, meus queridos! A morte desse juiz talvez me seja fatal, mas não é uma razão para eu ficar desesperado!

         E virando-se para Manoel:

         —Com a graça de Deus — ele disse — agora veremos se a verdade pode descer do céu sobre a terra!

         O chefe de polícia fez um sinal aos guardas, que avançaram para pegar Joam Garral.

         —Mas fale, meu pai! — gritou Benito, louco de desespero. — Diga uma palavra, e nós terminaremos, nem que seja pela força, com esse horrível equívoco de que o senhor é vítima!

         —Não há nenhum equívoco, meu filho — respondeu Joam Garral. — Joam Dacosta e Joam Garral são a mesma pessoa. Eu sou, na verdade, Joam Dacosta! Sou o homem honesto que um erro judiciário condenou injustamente à morte, há vinte e três anos, no lugar do verdadeiro culpado. A minha completa inocência, meus filhos, de uma vez por todas, eu juro diante de Deus, pela vida de vocês e da sua mãe!

         —Qualquer comunicação com a sua família é proibida — disse então o chefe de polícia. — O senhor é meu prisioneiro, Joam Garral, e executarei o mandado rigorosamente.

         Joam Garral conteve com um gesto os filhos e os empregados consternados:

         —Que seja feita a justiça dos homens — disse —, enquanto se espera a justiça de Deus!

         E, de cabeça erguida, embarcou na piroga.

         Na verdade, parecia que, de todos os presentes, Joam Garral havia sido o único a não ser atingido pelo terrível raio, que tão inopinadamente caíra sobre a sua cabeça.

        

                                                           MANAUS 

 

         A cidade de Manaus está situada exatamente a 3°8 '4" de latitude austral e 67°27' de longitude a oeste do meridiano de Paris. Quatrocentas e vinte léguas quilométricas a separam de Belém, e somente dez quilômetros da foz do rio Negro.

         Manaus não foi construída à beira do rio Amazonas. Na margem esquerda do rio Negro — o mais importante, o maior dos afluentes da grande artéria brasileira — havia sido erguida a capital da província, que dominava toda a campina circunvizinha ao pitoresco conjunto de casas particulares e edifícios públicos.

         O rio Negro, descoberto em 1645 pelo espanhol Favella, tem a sua nascente na encosta das montanhas situadas a noroeste, entre o Brasil e Nova Granada, no coração da província de Popayan, e se comunica com o Orenoco, isto é, com as Guianas, por dois afluentes, o Pimichim e o Cassiquiário.

         Depois de um magnífico curso de mil e setecentos quilômetros, o rio Negro derrama, por uma foz de mil e cem toesas, suas águas escuras no Amazonas, mas sem que elas se misturem por uma distância de várias milhas, tão forte e ativo é esse escoadouro. Nesse lugar, as pontas das duas margens se abrem formando uma ampla baía, com a    profundidade de quinze léguas, que se estende até as ilhas Anavilhanas.

         Ali, numa estreita chanfradura, se agitava o porto de Manaus. Era onde se dava o encontro de inúmeras embarcações, algumas paradas no meio do rio aguardando um vento favorável, outras sendo reparadas nos numerosos igarapés ou canais que sulcavam a cidade de uma forma surpreendente, dando-lhe um aspecto meio holandês.

         Com a escala dos barcos a vapor que não tardaria a se estabelecer próximo à junção dos dois rios, o comércio de Manaus deveria crescer sensivelmente. De fato, madeira para construção e marcenaria, cacau, borracha, café, salsaparrilha, cana-de-açúcar, índigo, noz-moscada, peixe salgado, manteiga de tartaruga, todos esses objetos tinham vários cursos d'água para transportá-los em todas as direções: o rio Negro ao norte e a oeste, o Madeira ao sul e a oeste e, finalmente, o Amazonas, que se desdobra até o litoral do Atlântico. A situação dessa cidade era, portanto, privilegiada em relação a todas as outras, o que contribuía muito para a sua prosperidade.

         Manaus chamava-se, antigamente, Moura, depois foi chamada de Barra de Rio Negro. De 1757 a 1804, a cidade apenas fez parte da capitania que tinha o nome do grande afluente cuja foz era por ela ocupada. Porém, em 1826, ao ser transformada na capital da extensa província do Amazonas, tirou seu novo nome de uma tribo de índios que outrora havia habitado os territórios centrais da América.

         Por várias vezes, viajantes mal informados confundiram essa cidade com a famosa Manoa, uma espécie de cidade fantástica, erguida, segundo diziam, perto do lendário lago de Parima, que era apenas o Branco superior, ou seja, um simples afluente do rio Negro. Lá ficava o império de El Dorado, em que todas as manhãs, se podemos acreditar nas fábulas do país, o soberano era coberto de ouro em pó, tão abundante era esse precioso metal, que se podia catá-lo com uma pá nessas terras privilegiadas. Mas, feitas as verificações, as pretensões diminuíram, pois toda essa pretendida riqueza aurífera foi reduzida à presença de inúmeros minerais micáceos sem valor, que haviam enganado os olhares ávidos dos garimpeiros.

            Em suma, Manaus não tinha nada dos fabulosos esplendores da mitológica capital de El Dorado. Não passava de uma cidade de uns cinco mil habitantes, dos quais pelo menos três mil eram empregados do governo. Conseqüentemente, havia um certo número de prédios públicos para uso desses funcionários: a câmara legislativa, o palácio da presidência, a tesouraria geral, os correios e a aduana, sem contar um colégio fundado em 1848 e um hospital inaugurado em 1851. Se acrescentarmos um cemitério, que ocupava a vertente oriental da colina onde, em 1669, havia sido erguida uma fortaleza, agora em ruínas, contra os piratas do Amazonas, saberemos como avaliar a importância dos estabelecimentos públicos da cidade.

         Quanto às construções religiosas, seria difícil nomear mais de duas: a pequena igreja da Conceição e a capela de Nossa Senhora dos Remédios, construída quase em campo raso, numa pequena elevação que dominava Manaus.

         O que é muito pouco para uma cidade de origem espanhola. A esses dois monumentos convém acrescentar ainda um convento de carmelitas, incendiado em 1850, do qual Só restaram ruínas.

         A população de Manaus não passava do número indicado acima e, além dos funcionários, empregados do governo e soldados, era composta sobretudo de negociantes portugueses e de índios que pertenciam às diversas tribos do rio Negro.

         Três ruas principais, bem irregulares, eram as responsáveis pela comunicação da cidade; tinham nomes significativos para o país e que davam bem sua cor: a rua Deus Pai, a rua Deus Filho e a rua Deus Espírito Santo. Além delas, na direção do poente, estendia-se uma magnífica avenida de laranjeiras centenárias, religiosamente respeitada pelos arquitetos, que fizeram a nova cidade sem destruir a antiga.

         Em torno das ruas principais entrecruzava-se uma rede de ruelas não pavimentadas, cortadas sucessivamente por quatro canais transpostos por passarelas de madeira. Em alguns lugares, os igarapés passeavam suas águas escuras em grandes terrenos baldios, cobertos de mato e de flores de cores cintilantes: eram jardins naturais, sombreados de árvores magníficas, entre as quais dominava a "sumaumeira", uma árvore   gigantesca, revestida de uma casca branca, e cujo enorme domo se arredondava como um guarda-sol, acima de uma ramagem nodosa.

         Quanto às diversas casas particulares, devia-se procurá-las entre algumas centenas de moradias bem rudimentares, algumas cobertas de telhas, outras de folhas de palmeira justapostas, com as saliências de seus mirantes e as sacadas das boticas que, na maioria, pertenciam a negociantes portugueses.

         E que tipo de pessoas se via sair na hora do passeio, tanto dos prédios públicos como das casas particulares?

         Homens de aspecto distinto, com sobrecasaca preta, chapéu de seda, sapatos de verniz, luvas de cores suaves, diamantes no nó da gravata; mulheres com toaletes volumosas e espalhafatosas, vestidos com falbalás, chapéus na última moda; finalmente, os índios, que também se europeizavam e acabavam com tudo o que poderia permanecer da cor local, nessa parte média da bacia dos Amazonas.

         Assim era Manaus, que foi preciso dar a conhecer ao leitor, embora superficialmente, para entender a história. Ali, a viagem da jangada, tão tragicamente interrompida, acabava de ser suspensa no meio do longo percurso que deveria realizar; ali, em pouco tempo, ocorreriam as peripécias desse misterioso caso.

          

                                               OS PRIMEIROS MOMENTOS 

 

         A piroga que levava Joam Garral, ou melhor, Joam Dacosta — convém lhe restituir esse nome —, nem bem havia desaparecido quando Benito dirigiu-se a Manoel.

         —O que sabe você? — perguntou.

         —Sei que seu pai é inocente! Sim! Inocente! — repetiu Manoel. — E que uma condenação capital lhe foi aplicada, há vinte e três anos, por um crime que não cometeu!

         —Ele lhe contou tudo, Manoel?

         —Tudo, Benito! — respondeu o rapaz. — O honesto fazendeiro não queria que nada do seu passado fosse omitido para aquele que ia se tornar seu segundo filho, ao se casar com a sua filha!

         —E a prova da sua inocência, meu pai pode, enfim, mostrá-la abertamente?

         —Essa prova, Benito, está nos vinte e três anos de uma vida honorável e honrada, na atitude de Joam Dacosta que disse à justiça: "Estou aqui! Não quero mais essa vida falsa! Não quero mais me esconder sob um nome que não é meu nome verdadeiro! Vocês condenaram um inocente! Reabilitem-no!”

         —E meu pai... Enquanto ele falava... você não duvidou nem por um instante? — indagou Benito.

         —Nem por um instante, irmão! — respondeu Manoel.

         As mãos dos dois rapazes se confundiram num mesmo e cordial aperto.

         Em seguida, Benito dirigiu-se ao padre Passanha:

         —Padre — ele disse —, leve minha mãe e minha irmã para os seus quartos! Não as deixe durante todo o dia! Ninguém aqui duvida da inocência de meu pai, ninguém... O senhor sabe! Amanhã, minha mãe e eu iremos procurar o chefe de polícia. Não nos recusarão uma autorização para entrar na prisão. Não! Seria cruel demais! Vamos ver meu pai e decidiremos que atitude tomar para conseguir obter sua reabilitação!

         Yaquita estava praticamente inerte; mas essa mulher valente, a princípio arrasada por esse súbito golpe, logo se recuperaria. Yaquita Dacosta seria o que havia sido Yaquita Garral. Ela não duvidava da inocência do marido. Nem lhe vinha ao pensamento que Joam Dacosta poderia ser censurado por desposá-la com um nome que não era o seu. Ela só pensava na vida de felicidade que lhe havia dado esse homem honesto, injustamente acusado! Sim! No dia seguinte estaria na porta da prisão e não sairia de lá enquanto não a encontrasse aberta!

         O padre Passanha levou-a com a filha, que não conseguia conter as lágrimas, e os três se fecharam na casa.

         Os dois rapazes ficaram sozinhos.

         —E agora — disse Benito — é preciso que eu saiba tudo o que meu pai lhe disse, Manoel.

         —Não tenho nada a lhe esconder, Benito.

         —O que Torres veio fazer a bordo da jangada?

         —Vender a Dacosta o segredo do seu passado.

         —Então, quando encontramos Torres nas florestas de Iquitos, ele já nutria a intenção de entrar em contato com meu pai?

         —Não há dúvida — respondeu Manoel. — O miserável dirigia-se para a fazenda com a idéia de fazer uma ignóbil operação de chantagem, preparada de longa data.

         —E quando nós lhe dissemos — continuou Benito — que meu pai e toda a família se preparavam para passar a fronteira, mudou subitamente o plano de conduta?...

          —Sim, Benito, porque uma vez em território brasileiro, Joam Dacosta ficaria mais à mercê dele do que além, na fronteira peruana. Foi por isso que encontramos Torres em Tabatinga, onde aguardava, ou espreitava, a nossa chegada.

         —E eu que ofereci para que embarcasse na jangada! — exclamou Benito, com um movimento de desespero.

         —Irmão — disse Manoel —, não se recrimine por nada! Torres teria se juntado a nós, mais cedo ou mais tarde! Ele não é homem de desistir de uma pista como essa! Se nos deixasse escapar em Tabatinga, nós o encontraríamos em Manaus!

         —É, Manoel. Tem razão! Mas agora não tratemos mais do passado... vamos tratar do presente!... Nada de recriminações inúteis! Vejamos!...

         E ao falar assim, Benito passava a mão na testa, procurando relembrar todos os detalhes do triste caso.

         —Vejamos — ele indagou —, como Torres ficou sabendo que meu pai havia sido condenado, há vinte e três anos, por esse abominável crime de Tijuco?

         —Não sei — respondeu Manoel — e tudo me leva a crer que seu pai também ignora.

         —Mas Torres tinha conhecimento do sobrenome Garral, sob o qual se escondia Joam Dacosta?

         —Evidentemente.

         —E ele sabia que era no Peru, em Iquitos, que, depois de tantos anos, meu pai se havia refugiado?

         —Sabia — respondeu Manoel. — Mas como ficou sabendo, não posso compreender!

         —Uma última pergunta — disse Benito. — Que proposta Torres fez ao meu pai na curta conversa que precedeu a sua expulsão?

         —Ele ameaçou denunciar Joam Garral como sendo Joam Dacosta, se ele se recusasse a comprar o seu silêncio.

         —E qual o preço?...

         —O preço da mão da sua filha! — respondeu Manoel, sem hesitar, mas branco de raiva.

         —Como esse miserável pôde ousar?... — falou Benito em voz alta.

         —A esse infame pedido, Benito, você já viu qual a resposta do seu pai!

         —Sim, Manoel, sim!... A reposta de um homem honesto indignado! Ele expulsou Torres! Mas a expulsão não foi suficiente! Não! Não foi suficiente! Foi com a denúncia de Torres que vieram prender meu pai, não é verdade?

         —É! Com a denúncia dele!

         —Bom — exclamou Benito, cujo braço ameaçador se dirigiu para a margem esquerda do rio — preciso encontrar Torres! Preciso saber como ficou de posse do segredo!... Ele tem de me dizer se tomou conhecimento do caso pelo verdadeiro autor do crime! Ele vai falar!... Ou, se se recusar a falar... Sei o que me resta a fazer!

         —O que resta a fazer... Tanto a mim quanto a você! — acrescentou mais friamente Manoel, mas não menos resolutamente.

         —Não... Manoel... Não! Só a mim.

         —Somos irmãos, Benito — respondeu Manoel —, essa vingança cabe a nós dois!

         Benito não replicou. Sobre esse assunto, evidentemente, sua resolução já havia sido irrevogavelmente tomada.

         Nesse momento, o piloto Araújo, que observara a situação do rio, aproximou-se dos dois rapazes.

         —Já decidiram — perguntou — se a jangada vai ficar ancorada na ilha Muras ou irá até o porto de Manaus?

         Era uma questão que devia ser resolvida antes do anoitecer, e devia ser cuidadosamente examinada.

         Na verdade, a notícia da prisão de Joam Dacosta já se devia ter espalhado pela cidade. Que ela fosse capaz de despertar a curiosidade da população de Manaus, não havia dúvida. Mas será que não provocaria mais do que curiosidade em relação ao condenado, em relação ao principal autor do crime de Tijuco, que naquela época tivera tanta repercussão? Será que não deveriam temer um movimento popular a propósito desse atentado, que nem mesmo havia sido expiado? Diante dessa hipótese, não seria melhor deixar a jangada amarrada perto da ilha Muras, na margem direita do rio, a algumas milhas de Manaus?

         Os prós e os contras da questão foram pesados.

         —Não! — gritou Benito. — Ficar aqui poderia parecer que abandonamos meu pai e duvidamos da sua inocência! Pareceria que tememos envolver-nos na causa dele. Precisamos ir para Manaus e sem demora!

         —Tem razão, Benito — respondeu Manoel. — Vamos!

         Araújo, aprovando com um sinal de cabeça, tomou as medidas necessárias para deixar a ilha. A manobra pedia algum cuidado. Teriam de pegar obliquamente a corrente do Amazonas, engrossada pela do Negro, e se dirigir para a foz desse afluente, que se abria doze milhas abaixo, na margem esquerda.

         As amarras foram soltas da ilha. A jangada, de volta ao leito do rio, começou a se desviar em diagonal. Araújo, aproveitando habilmente os desvios da corrente pelas pontas das margens, conseguiu lançar a imensa embarcação na direção desejada, sendo ajudado pelos imensos croques da sua equipe.

         Duas horas depois, a jangada estava na outra margem do Amazonas, um pouco acima da foz do rio Negro, e a corrente encarregou-se de conduzi-la para a margem inferior da extensa baía aberta na margem esquerda do afluente.

         Finalmente, às cinco horas da tarde, a jangada estava fortemente amarrada ao longo dessa margem, não no porto de Manaus, que ela não poderia atingir sem ter de navegar contra uma corrente bem rápida, mesmo que fosse por uma pequena milha a montante.

         A embarcação repousava, então, nas águas escuras do rio Negro, perto de uma ribanceira, coberta de cecrópias com botões castanho-dourados e estaqueadas com esses juncos de hastes duras, conhecidos pelo nome de "froxas", dos quais os índios faziam armas ofensivas.

         Alguns citadinos passeavam pela margem. Não havia dúvida de que eram levados pela curiosidade até o local onde a jangada estava ancorada. A notícia da prisão de Joam Dacosta não demorara a espalhar-se; mas a curiosidade dos manauenses não chegava à indiscrição e eles se mantinham reservados.

 

                          Yaquita saía de casa.

         A intenção de Benito era descer à terra naquela mesma tarde. Manoel o dissuadiu.

         —Espere até amanhã — ele disse. — A noite vai chegar e não devemos sair da jangada.

         —Que seja! Até amanhã — respondeu Benito.

         Nesse momento, Yaquita, seguida da filha e do padre Passanha, saía da casa. Minha ainda estava em lágrimas, mas o rosto da mãe estava seco, toda ela se mostrava enérgica e resoluta. Sentia-se que a mulher estava preparada para tudo, não só para cumprir o seu dever, mas para fazer valer os seus direitos.

         Yaquita foi lentamente na direção de Manoel:

         —Manoel — ela disse —, ouça o que vou lhe dizer, porque é assim que me ordena a consciência.

         —Sou todo ouvidos! — respondeu Manoel.

         Yaquita virou-se para olhá-lo bem de frente.

         —Ontem — ela retomou —, depois da conversa que teve com Joam Dacosta, meu marido, o senhor veio até mim e disse: minha mãe! Pegou a mão de Minha e disse: minha mulher! Já sabia de tudo e o passado de Joam Dacosta lhe havia sido revelado.

         —Sim — respondeu Manoel — e que Deus me castigue se, da minha parte, houve alguma hesitação!...

         —Que seja, Manoel — voltou a falar Yaquita —, mas naquele momento Joam Dacosta ainda não havia sido preso. Agora a situação mudou. Por mais inocente que seja, meu marido está nas mãos da justiça; seu passado foi revelado publicamente; Minha é filha de um condenado à pena capital...

         —Minha Dacosta ou Minha Garral, pouco importa! — exclamou Manoel, que não pôde se conter por mais tempo.

         —Manoel! — murmurou a jovem.

         E, certamente, ela teria caído, se os braços de Lina não estivessem lá para sustentá-la.

         —Minha mãe, se não quiser matá-la — disse Manoel —, trate-me por filho!

         —Meu filho! Minha criança!

            Foi tudo o que Yaquita conseguiu responder, pois as lágrimas, que até então reprimira com dificuldade, jorraram de seus olhos.

         Todos entraram na casa. Mas nem uma hora de sono tornaria essa longa noite mais curta para a honesta família que passava por tão cruéis provações!

          

                                                          VOLTANDO AO PASSADO 

 

         Havia sido uma fatalidade a morte do juiz Ribeiro, com quem Joam Dacosta tinha certeza de poder contar totalmente!

         Antes de ser juiz de direito em Manaus, isto é, primeiro magistrado da província, Ribeiro conhecera Joam Dacosta na época em que o jovem funcionário fora processado pelo crime do arraial diamantinense. Ribeiro era, então, advogado em Vila Rica. Ele se encarregou de defender o acusado no Tribunal Criminal. Dedicou-se à causa, empenhando-se intensamente. Do exame dos documentos do processo, dos detalhes do inquérito, ele adquiriu não apenas uma simples convicção profissional, mas a certeza de que seu cliente estava sendo incriminado sem razão porque não tivera nenhuma participação no assassinato dos soldados da escolta e no roubo dos diamantes, de que a instrução estava totalmente errada, em resumo, de que Joam Dacosta era inocente.

         Porém, independentemente do seu talento e do seu zelo, o advogado Ribeiro não conseguiu fazer com que a sua convicção entrasse na mente do júri. Para quem poderia desviar a presunção do crime? Se não havia sido Joam Dacosta, que tinha todas as condições requeridas para informar os malfeitores da partida secreta do comboio, quem poderia ser? O funcionário que acompanhava a escolta havia morrido com a maioria dos soldados, e as suspeitas não podiam recair sobre ele. Tudo concorria para fazer de Joam Dacosta o único e verdadeiro autor do crime.

         Ribeiro defendeu-o com extremo ardor! Ele foi de uma dedicação total!... Mas não conseguiu salvá-lo. O veredicto do júri havia sido afirmativo em todas as perguntas. Joam Dacosta, condenado por assassinato com a agravação de premeditação, não obteve o benefício de circunstâncias atenuantes e ouviu a sua condenação à morte.

         Nenhuma esperança poderia ter o acusado. Nenhuma comutação da pena era possível, pois tratava-se de um crime que tinha relação com o arraial diamantinense. O condenado estava perdido... Porém, durante a noite que precedeu a execução, quando o patíbulo já estava montado, Joam Dacosta conseguiu fugir da prisão de Vila Rica... O resto, já sabemos.

         Vinte anos depois, o advogado Ribeiro foi nomeado juiz de direito em Manaus. Do fundo do seu retiro, o fazendeiro de Iquitos soube dessa mudança e viu aí uma circunstância que poderia levar à 20revisão do seu processo, com alguma possibilidade de êxito. Sabia que as antigas convicções do advogado a seu respeito deviam continuar intactas na mente do juiz. Ele resolveu que tentaria de tudo para conseguir a reabilitação. Sem a nomeação de Ribeiro para a função de magistrado supremo na província do Amazonas, talvez houvesse hesitado, porque não havia nenhuma nova prova material da sua inocência a ser incluída. Mesmo que esse homem honesto sofresse terrivelmente por ser obrigado a se esconder num exílio em Iquitos, talvez esperasse o tempo apagar a lembrança desse caso terrível, mas uma circunstância o fez agir sem demora.

         Na verdade, bem antes que Yaquita lhe falasse, Joam Dacosta já havia percebido que Manoel amava a sua filha. A união do jovem médico militar e da jovem lhe convinha em todos os aspectos. Era evidente que um pedido de casamento seria feito mais cedo ou mais tarde e Joam não quis ser pego desprevenido.

         Mas, então, o pensamento de que precisaria casar a filha com um nome que não lhe pertencia, que Manoel Valdez, ao pensar que entrava na família Garral, entraria na família Dacosta, cujo chefe não passava de um fugitivo, ainda sob o impacto de uma condenação capital, era-lhe intolerável. Não! Esse casamento não seria feito nas condições em que o seu próprio casamento fora realizado! Não! Jamais!

         Lembramos do que se passou na época. Quatro anos depois que o jovem empregado, já sócio de Magalhães, chegou à fazenda de Iquitos, o velho português foi levado de volta para a fazenda mortalmente ferido. Só lhe restavam alguns dias de vida. Ele ficou apavorado com a idéia de que sua filha ficaria sozinha, sem apoio; sabendo que Joam e Yaquita se amavam, quis que a união se realizasse sem demora.

         A princípio, Joam recusou. Ele se ofereceu para ser o protetor, o servo de Yaquita, sem se tornar seu marido... A insistência de um Magalhães moribundo foi tanta que lhe resistir passou a ser impossível. Yaquita pôs a sua mão na mão de Joam e Joam não a retirou.

         Sim! Foi um erro grave! Sim! Joam Dacosta deveria ter contado tudo ou fugido para sempre dessa casa na qual havia sido tão hospitaleiramente recebido, dessa fazenda cuja prosperidade ele conseguira! Sim! Seria melhor ter contado tudo do que dar à filha de seu benfeitor um nome que não era seu, o nome de um condenado à morte por crime de assassinato, por mais inocente que fosse diante de Deus!

         Mas a situação pedia urgência, o velho fazendeiro ia morrer e ele estendeu as mãos para os jovens! Joam Dacosta ficou calado, o casamento foi realizado e toda a vida do jovem fazendeiro foi consagrada à felicidade daquela que se tornara sua mulher.

         — No dia em que eu confessar tudo — repetia Joam —, Yaquita irá perdoar-me. Ela não duvidará de mim um só momento! Mas se precisei enganá-la, não enganarei o homem honesto que quer entrar para a família ao desposar Minha! Não! Seria melhor entregar-me e acabar com essa vida!

         Certamente, cem vezes Joam Dacosta pensara em dizer à mulher o que havia sido seu passado! Sim! A confissão estava nos seus lábios, sobretudo quando ela pedia que a levasse ao Brasil, que a levasse e à filha para descer o belo rio Amazonas! Ele já conhecia Yaquita o suficiente para ter certeza de que não sentiria diminuir a afeição que sentia por ele!... A coragem lhe faltou!

         Quem não o compreenderia, diante de toda essa felicidade da família a seu redor, que era obra sua e que poderia ser destruída, sem possibilidade de volta?

         Essa foi a sua vida por longos anos, essa foi a origem sempre renascente de seus terríveis sofrimentos cujo segredo guardava, essa foi, enfim, a vida desse homem, que não tinha uma única má ação a esconder, mas que a suprema injustiça obrigava a se esconder!

         Finalmente, no dia em que não pôde mais duvidar do amor de Manoel por Minha, no dia em que calculou que não passaria um ano sem que fosse necessário dar o seu consentimento para o matrimônio, ele já não hesitou e resolveu agir rapidamente.

         Uma carta sua, dirigida ao juiz Ribeiro, informou ao magistrado o segredo da vida de Joam Dacosta, o nome sob o qual ele se escondia, o lugar em que vivia com a família e, ao mesmo tempo, a intenção formal de se entregar à justiça do seu país e de requerer a revisão de um processo que significaria a reabilitação ou a execução do iníquo julgamento realizado em Vila Rica.

        Que sentimentos brotaram no coração do honesto magistrado? É fácil adivinhar. Não era ao advogado que o acusado se dirigia, era ao juiz supremo da província que um condenado apelava. Joam Dacosta se entregava inteiramente a ele e nem mesmo lhe pedia segredo.

         O juiz Ribeiro, a princípio chocado com a revelação inesperada, logo se recuperou e pesou escrupulosamente os deveres que a situação lhe impunha. A ele cabia o trabalho de perseguir os criminosos e eis que um criminoso deixava tudo em suas mãos. É verdade que havia defendido esse criminoso; não duvidava de que ele havia sido injustamente condenado; ficara imensamente feliz ao vê-lo fugir do suplício final; se fosse necessário, teria provocado, teria facilitado a evasão!... Porém, o que o advogado teria feito naquela época, o magistrado poderia fazer agora?

         — Bom, sim! — disse a si mesmo o juiz. — Minha consciência ordena que eu não abandone esse homem justo! A atitude que está tendo agora é uma nova prova da sua não-culpabilidade, uma prova moral, já que ele não tem outras, mas que, talvez, seja a mais convincente de todas! Não! Não irei abandoná-lo!

         A partir daquele dia, uma correspondência secreta foi estabelecida entre o magistrado e Joam Dacosta. Primeiramente, Ribeiro aconselhou ao cliente que não se comprometesse com um ato imprudente. Ele queria retomar o caso, rever o processo, revisar a informação. Precisava saber se nada de novo ocorrera no arraial diamantinense que tivesse relação com essa causa tão séria. Será que algum cúmplice dos contrabandistas que haviam atacado o comboio não havia sido preso depois do atentado? Confissões, meias confissões não haviam sido feitas? Joam Dacosta havia sido preso e sempre alegara inocência! Porém, isso não era suficiente e o juiz Ribeiro queria encontrar nos próprios fundamentos do caso a quem cabia, realmente, a culpa.

         Joam Dacosta devia, portanto, ser prudente. Ele prometeu que seria. Mas foi um enorme consolo para todas as suas provações encontrar em seu antigo advogado, que se tornara juiz supremo, a total convicção de que não era culpado. Sim! Joam Dacosta, apesar da condenação, era uma vítima, um mártir, um homem honesto a quem a sociedade devia uma notória reparação! E quando o magistrado tomou conhecimento do passado do fazendeiro de Iquitos desde a condenação, da situação atual da sua família, de toda essa vida de dedicação, de trabalho, consagrada, sem descanso, a garantir a felicidade de todos, ele ficou não apenas mais convencido, como também mais emocionado, e jurou a si mesmo que faria tudo para conseguir a reabilitação do condenado de Tijuco.

         Durante seis meses houve uma troca de correspondência entre os dois homens.

         Um dia, finalmente, sob a pressão das circunstâncias, Joam Dacosta escreveu ao juiz Ribeiro: "Dentro de dois meses estarei ao seu lado, à disposição do primeiro magistrado da província!". "Pois que venha!", respondeu Ribeiro.

         A jangada estava pronta para descer o rio, Joam Dacosta embarcou com toda a família, mulher, filhos, empregados. Sabemos que durante a viagem, para grande espanto da mulher e dos filhos, raramente ele desembarcava. Na maioria das vezes ficava fechado no quarto, escrevendo, trabalhando, não nos seus negócios, e sim, sem nada dizer, numa espécie de memória que chamou de: "História da minha vida", e que deveria ser usada na revisão do processo.

         Oito dias antes da nova detenção, devido à denúncia de Torres, que iria antecipar e talvez destruir seus projetos, ele confiou a um índio do Amazonas uma carta na qual prevenia o juiz Ribeiro da sua chegada iminente.

 

                             O juiz Jarriquez.

         A carta partiu, foi entregue ao destinatário e o magistrado Só aguardava Joam Dacosta para iniciar esse caso grave que tinha a esperança de encerrar com sucesso.

         Na noite que precedeu a chegada da jangada a Manaus, o juiz Ribeiro sofreu um ataque de apoplexia. Porém, a denúncia de Torres, cuja chantagem fracassara diante da nobre indignação da vítima, surtira efeito. Joam Dacosta havia sido preso diante da família, e seu velho advogado não estaria lá para defendê-lo!

        Sim! Realmente, era um golpe terrível! De qualquer forma, a sorte estava lançada; não havia como voltar atrás.

         Joam Dacosta resolveu enfrentar a desgraça que o atingia tão inopinadamente. Não era apenas a sua honra que estava em jogo, era a honra de toda a sua família.

        

                                                                     PROVAS MORAIS 

 

         O mandado de prisão contra Joam Dacosta, conhecido como Joam Garral, havia sido expedido pelo suplente do juiz Ribeiro, que deveria exercer as funções desse magistrado na província do Amazonas até a nomeação de um sucessor.

         O suplente se chamava Vicente Jarriquez. Era um homenzinho extremamente rabugento, que quarenta anos de exercício da profissão e de processos criminais não haviam contribuído para tornar mais benévolo para com os acusados. Ele havia instruído tantos casos desse tipo, julgado e condenado tantos malfeitores, que a inocência de um réu, independente de quem fosse, lhe parecia a priori inadmissível. Certamente não julgava contra a sua consciência que, profundamente endurecida, não se deixava abalar facilmente pelos incidentes de um interrogatório ou pelos argumentos da defesa. Como muitos presidentes de tribunais criminais, ele reagia, habitualmente, contra a indulgência do júri, e quando, depois de passar pelo crivo da inquirição, da informação e da instrução, um acusado comparecia diante dele, todas as presunções eram, aos seus olhos, de que o acusado fosse dez vezes culpado.

            No entanto, Jarriquez não era absolutamente um homem mau. Nervoso, irrequieto, loquaz, hábil, sutil, era interessante de se observar, com uma cabeça grande sobre um corpo pequeno, cabelo desgrenhado, que não era piorado pelo barrete dos tempos antigos, olhos pequenos e penetrantes com um olhar de surpreendente acuidade, nariz proeminente, com o qual certamente ele gesticularia se tivesse uma pequena mobilidade, orelhas de abano para ouvir melhor tudo o que se dizia, mesmo que estivesse fora do alcance de um aparelho auditivo normal, os dedos tamborilando todo o tempo sobre a mesa do tribunal, como se fosse um pianista se exercitando num piano mudo, um busto comprido demais para as pernas muito curtas e os pés que cruzava e descruzava todo o tempo, quando tronava na cadeira de magistrado.

         Na vida particular, d juiz Jarriquez, celibatário inveterado, só deixava os livros de direito criminal pela boa mesa que não desdenhava, pelo uíste de que gostava muito, pelo xadrez no qual era especialmente competente e, sobretudo, pelos jogos de quebra-cabeças chineses, pelos enigmas, charadas, rébus, anagramas, logogrifos e outros mais, dos quais, como alguns magistrados europeus — verdadeiras esfinges por gosto e por profissão —, fazia seu passatempo principal.

         Ele era uma pessoa original, como se vê, e também se vê o quanto Joam Dacosta perdia com a morte do juiz Ribeiro, pois sua causa iria cair nas mãos desse pouco indulgente magistrado.

         Nesse caso, aliás, a missão de Jarriquez seria muito simplificada. Ele não teria de fazer o trabalho de inquiridor, nem o de instrutor, nem dirigir as argüições, nem incitar a um veredicto e aplicar os artigos do Código Penal, nem, enfim, pronunciar uma condenação. Infelizmente para o fazendeiro de Iquitos, essas formalidades não eram necessárias. Joam Dacosta havia sido preso, julgado e condenado, vinte e três anos antes, pelo crime de Tijuco, a prescrição ainda não alcançara a sua condenação, nenhum pedido de comutação da pena poderia ser introduzido, nenhuma apelação de indulto poderia ser acolhida. Em resumo, bastava estabelecer sua identidade e, com a ordem de execução que chegaria do Rio de Janeiro, a justiça não teria mais nada a fazer, a não ser seguir o seu curso.

          Porém, sem dúvida, Joam Dacosta alegaria inocência, diria ter sido condenado injustamente. O dever do magistrado, qualquer que fosse sua opinião a esse respeito, seria ouvi-lo. Toda a questão seria saber que provas o condenado daria das suas asserções. E se ele não pudesse entregá-las ao comparecer diante dos primeiros juízes, seria capaz de dá-las agora?

         Aí estaria todo o interesse do interrogatório.

         Entretanto, é preciso confessar que o fato de um homem feliz e contumaz, em segurança no exterior, deixar tudo, espontaneamente, para enfrentar a justiça que o passado lhe ensinara a temer, era um caso diferente, raro, que devia despertar o interesse até de um magistrado indiferente às peripécias de um debate judicial. Seria, da parte do condenado de Tijuco, cansado da vida, uma ousada tolice ou o arroubo de uma consciência que queria a qualquer preço vencer uma iniqüidade? Convenhamos, o problema era estranho.

         No dia seguinte da prisão de Joam Dacosta, o juiz Jarriquez foi à prisão da rua Deus Filho, onde o prisioneiro estava encarcerado.

         A prisão era um antigo convento de missionários, construído à beira de um dos principais igarapés da cidade. Aos voluntariamente enclausurados de outrora haviam sucedido, nesse prédio pouco apropriado para a sua nova destinação, os prisioneiros de agora, mesmo contra a vontade. O quarto ocupado por Joam Dacosta não era uma dessas celas tristes do sistema penitenciário moderno. Era um antigo quarto de monge, com janela, sem clarabóia, mas com grades, que se abria para um terreno baldio, com um banco num dos cantos, uma espécie de catre no outro, alguns utensílios grosseiros e nada mais.

         Foi desse quarto que, no dia 25 de agosto, Joam Dacosta foi retirado por volta das onze horas da manhã e levado ao gabinete de interrogatórios, preparado na antiga sala comum do convento.

         O juiz Jarriquez estava lá, atrás da mesa, empoleirado na sua cadeira alta, com as costas voltadas para a janela, para que sua pessoa ficasse na sombra, enquanto a do prisioneiro ficaria em plena luz. O escrivão estava sentado na ponta da mesa, com a pena atrás da orelha e a indiferença que caracteriza as pessoas da justiça, pronto para anotar perguntas e respostas.

          Joam Dacosta foi introduzido no gabinete e, a um sinal do magistrado, os guardas que o haviam trazido se retiraram.

         O juiz Jarriquez olhou longamente para o acusado. Este se havia inclinado diante dele e, em seguida, mantinha uma atitude conveniente, nem impudente, nem humilde, aguardando com dignidade que as perguntas lhe fossem feitas para respondê-las.

         —Seu nome? — disse o juiz Jarriquez.

         —Joam Dacosta.

         —Sua idade?

         —Cinqüenta e dois anos.

         —O senhor mora?...

         —No Peru, no povoado de Iquitos.

         —Que sobrenome usa?

         —O sobrenome Garral, que é o da minha mãe.

         —E porque usa esse sobrenome?

         —Por que, durante vinte e três anos, quis escapar da perseguição da justiça brasileira.

         As respostas eram tão precisas, pareciam indicar tão bem que Joam Dacosta estava resolvido a confessar tudo sobre o seu passado e o seu presente, que o juiz Jarriquez, pouco acostumado com esse procedimento, tomou uma atitude ainda mais desafiadora do que de hábito.

         —E por que — ele continuou — a justiça brasileira o perseguia?

         —Porque fui condenado à pena capital, em 1826, no caso dos diamantes de Tijuco.

         —Confessa, então, que é Joam Dacosta?

         —Eu sou Joam Dacosta.

         Todas essas perguntas haviam sido respondidas com muita calma, da forma mais simples do mundo. Por isso, os olhos pequenos do juiz Jarriquez, dissimulados sob as pálpebras, pareciam dizer: "Eis um caso que vai caminhar sozinho!".

         Só que era chegado o momento em que seria feita a invariável pergunta que levaria à invariável resposta dos acusados de qualquer categoria, protestando a sua inocência.

          Os dedos do juiz Jarriquez começaram a dedilhar um rápido trilo na mesa.

         —      Joam Dacosta — ele perguntou —, o que faz em Iquitos?

         —Sou fazendeiro e me ocupo em dirigir um considerável estabelecimento agrícola.

         —Ele é próspero?

         —Muito próspero.

         —E quando deixou a fazenda?

         —Há umas dezenove semanas.

         —Por quê?

         —Para isso, senhor — respondeu Joam Dacosta —, aleguei um pretexto, mas na realidade havia um bom motivo.

         —Qual foi o pretexto?

         O trabalho de levar ao Pará, pelo rio, um comboio de madeira e uma carga de diversos produtos da Amazônia.

         —Ah! — fez o juiz. — E qual foi o verdadeiro motivo da sua viagem?

         Ao fazer essa pergunta, ele disse a si mesmo: "Finalmente, vamos entrar na trilha das negações e das mentiras!".

         —O verdadeiro motivo — respondeu com voz firme Joam Dacosta — foi a resolução que havia tomado de me entregar à justiça do meu país!

         —Entregar-se! — gritou o juiz, levantando-se da cadeira. — Entregar-se... espontaneamente?...

         —Espontaneamente!

         —E por quê?

         —Porque eu já estava cansado, estava farto dessa vida de mentiras, da obrigação de viver com um falso nome; da impossibilidade de poder devolver à minha mulher e aos meus filhos o que lhes pertencia, enfim, senhor, porque...

         —Porquê?...

       —Sou inocente!

         “Era isso o que eu esperava!”, disse a si mesmo o juiz Jarriquez. Enquanto seus dedos batucavam uma marcha mais acentuada, ele fez um sinal com a cabeça para Joam Dacosta, que significava claramente: "Vamos! Conte a sua história! Eu já conheço, mas não quero impedi-lo de narrá-la do seu jeito!".

         Joam Dacosta, que não se deixou enganar por essa pouco encorajador disposição de espírito do magistrado, fingiu não percebê-la. E, então, contou a história inteira da sua vida, falando sobriamente, sem perder a calma que se havia imposto, sem omitir nenhuma das circunstâncias que haviam precedido ou seguido a sua condenação. Ele não insistiu absolutamente na vida honrada e honorável que levara desde a fuga, nem sobre os deveres de chefe de família, de marido e de pai, que tão dignamente cumprira. Só enfatizou uma circunstância — a que o levara a Manaus para demandar a revisão do processo e conseguir a sua reabilitação, e isso sem que nada o obrigasse.

         O juiz Jarriquez, com uma natural prevenção contra qualquer acusado, não o interrompeu. Ele se limitava a fechar e abrir sucessivamente os olhos, como um homem que ouve a mesma história pela centésima vez; e quando Joam Dacosta pôs sobre a mesa a memória que havia escrito, não fez nenhum movimento para pegá-la.

         —Terminou? — disse ele.

         —Sim, senhor.

         —E persiste em afirmar que Só deixou Iquitos para pedir a revisão do julgamento?

         —Não tenho outro motivo.

         —E quem prova isso? Quem prova que sem a denúncia que levou à sua prisão, o senhor teria se entregado?

         —Em primeiro lugar, essas memórias — respondeu Joam Dacosta.

         —Essas memórias estavam com o senhor e nada atesta que se não tivesse sido preso, teria feito delas o uso que está alegando.

         Há, senhor, ao menos um documento que já não está comigo e cuja autenticidade não pode ser posta em dúvida.

         —Qual?

         —A carta que escrevi ao seu antecessor, o juiz Ribeiro, carta que o prevenia da minha chegada.

         —Ah! O senhor havia escrito?...

         —Sim, e essa carta, que deve ter chegado ao endereço dele, não deve demorar a lhe ser entregue!

         —Realmente? — falou o juiz Jarriquez, com um tom um pouco incrédulo. — O senhor havia escrito ao juiz Ribeiro?...

         —Antes de ser juiz de direito desta província — respondeu Joam Dacosta —, o juiz Ribeiro havia sido advogado em Vila Rica. Ele me defendeu no processo criminal de Tijuco. Não duvidava da justiça da minha causa. Fez tudo para me salvar. Vinte anos depois, quando se tornou o chefe da justiça de Manaus, eu lhe contei quem era, onde estava e o que queria fazer. Sua convicção em relação a mim não havia mudado, e foi a seu conselho que deixei a fazenda para vir, pessoalmente, demandar minha reabilitação. Mas ele foi inopinadamente atingido pela morte e, talvez, eu esteja perdido, senhor, se no juiz Jarriquez não encontrar o juiz Ribeiro!

         O magistrado, diretamente interpelado, esteve a ponto de reagir, a despeito do hábito da magistratura criminal; mas conseguiu se conter e limitou-se a murmurar essas palavras:

         —Confiante demais, na verdade, confiante demais!

         Evidentemente, o juiz Jarriquez já estava calejado e nada mais conseguia surpreendê-lo.

         Nesse momento, um guarda entrou no gabinete e entregou uma carta lacrada, com o endereço do magistrado.

         Ele rompeu o lacre e tirou uma carta do envelope. Abriu-a e leu-a, não sem uma certa contração da sobrancelha, e disse:

         —Não tenho nenhum motivo, Joam Dacosta, para esconder que essa é a carta de que havia falado, dirigida pelo senhor ao juiz Ribeiro, e que me foi entregue. Não há, portanto, nenhuma razão para duvidar do que havia dito quanto a isso.

         —Não Só quanto a isso — respondeu Joam Dacosta — como também quanto a todas as circunstâncias da minha vida que acabei de lhe contar e de que não se pode duvidar!

         —Muito bem, Joam Dacosta — respondeu energicamente o juiz Jarriquez —, o senhor alega inocência, mas todos os acusados fazem a mesma coisa! No fim das contas, só apresenta presunções morais! Tem alguma prova material?

         — Talvez, senhor — respondeu Joam Dacosta.

         Diante dessas palavras, o juiz Jarriquez levantou-se da cadeira. Foi mais forte do que ele, e foi preciso dar duas ou três voltas na sala para se acalmar.

    

                                                                      PROVAS MATERIAIS

        

         Quando o magistrado voltou ao lugar, como um homem que acreditava estar totalmente senhor de si, ele se jogou na cadeira, com a cabeça para cima, olhos voltados para o teto, e num tom de perfeita indiferença, sem nem mesmo olhar para o acusado, disse:

         — Fale.

         Joam Dacosta ficou em silêncio por um minuto, como se hesitasse entrar nesse assunto, e respondeu nos seguintes termos:

         — Até aqui, senhor, só lhe dei da minha inocência presunções morais, baseadas na dignidade, na decência, na honestidade da minha vida inteira. Achei que essas provas eram bastante dignas de serem entregues à justiça...

         O juiz Jarriquez não pôde reprimir um movimento de ombros, indicando que essa não era a sua opinião.

         — Já que não são suficientes, eis as provas materiais que, talvez, eu tenha condições de fornecer — voltou a falar Joam Dacosta. — Eu digo "talvez", porque ainda não sei qual o crédito que devemos dar a elas. Por esse motivo, senhor, não falei sobre isso com minha mulher, nem com meus filhos, pois não queria lhes dar uma esperança que poderia ser decepcionante.

         —De fato — respondeu o juiz Jarriquez.

         —Tudo me leva a crer, senhor, que minha prisão, na véspera da chegada da jangada a Manaus, tenha sido motivada por uma denúncia dirigida ao chefe de polícia.

         —Não está enganado, Joam Dacosta, mas devo lhe dizer que foi uma denúncia anônima.

         —Pouco importa, pois sei que Só pode ter vindo de um miserável chamado Torres.

         —E com que direito — perguntou o juiz Jarriquez — o senhor trata assim esse... Denunciante?

         —É um miserável, sim, senhor! — respondeu enfaticamente Joam Dacosta. — Esse homem, que acolhi hospitaleiramente, Só veio até mim para propor que eu comprasse o silêncio dele, para me oferecer um pacto odioso, que nunca lamentarei ter recusado, quaisquer que sejam as conseqüências da sua denúncia!

         "Sempre o mesmo sistema, pensou o juiz Jarriquez: acusar os outros para se eximir da culpa!”

         Mas ele não deixou de escutar com extrema atenção o relato que lhe fez Joam Dacosta das suas relações com o aventureiro, até o momento em que Torres lhe disse que conhecia o verdadeiro autor do atentado de Tijuco e que estava apto a revelar seu nome.

        E qual o nome do culpado? — perguntou o juiz Jarriquez, abalado na sua indiferença.

         —Não sei — respondeu Joam Dacosta. — Torres não me disse.

         —O culpado está vivo?

         —Ele morreu.

         Os dedos do juiz Jarriquez tamborilavam mais rapidamente e ele não pôde deixar de dizer:

         — O homem que pode entregar a prova da inocência de um acusado sempre está morto!

         — Embora o verdadeiro culpado esteja morto, senhor — respondeu Joam Dacosta —, Torres, pelo menos, está vivo, e dessa prova inteiramente escrita pelo autor do crime, afirmou ter a posse! E quis vendê-la!

          —Ora, Joam Dacosta — afirmou o juiz Jarriquez —, não seria nada caro pagá-la com toda a sua fortuna!

         —Se Torres Só houvesse pedido a minha fortuna, eu a teria entregue, e ninguém da família teria protestado. Sim, o senhor tem razão, nunca se paga caro o resgate da própria honra! Mas o miserável, sabendo que eu estava a sua mercê, exigiu mais do que minha fortuna!

         —O quê?

         —A mão da minha filha deveria ser o preço desse pacto! Eu não aceitei, ele me denunciou e eis por que estou agora diante do senhor!

         —E se Torres não o houvesse denunciado — perguntou o juiz Jarriquez —, se Torres não houvesse ido ao seu encontro, o que teria feito ao saber, na chegada, da morte do juiz Ribeiro? O senhor teria se entregado à justiça?...

         —Sem nenhuma hesitação, senhor — respondeu Joam Dacosta, com voz firme —, pois, repito, não tinha outro objetivo ao sair de Iquitos para vir a Manaus.

         Essas palavras foram ditas com tal entonação de verdade, que o juiz Jarriquez sentiu uma espécie de emoção penetrar naquele recesso do coração onde as convicções se formam; mas Só que ele não se deu conta.

         E não é de surpreender. Magistrado, procedendo a um interrogatório, não sabia nada do que sabemos, nós que acompanhamos Torres desde o começo dessa história. Não podemos ter dúvidas de que Torres tinha em suas mãos a prova material da inocência de Joam Dacosta. Temos certeza de que o documento existe, que contém essa atestação, e talvez sejamos levados a pensar que o juiz Jarriquez dava mostras de uma impiedosa incredulidade. Mas devemos pensar o seguinte: a situação do juiz Jarriquez era diferente; ele estava acostumado com esses invariáveis protestos dos indiciados que a justiça lhe enviava; Joam Dacosta invocava um documento que não havia conseguido; não sabia nem mesmo se realmente existia e, no fim das contas, o juiz estava diante de um homem cuja culpa tinha para ele a força de causa julgada.

         Entretanto, quis, por curiosidade talvez, deixar que Joam Dacosta fosse até o fim da sua defesa.

         — Então — ele disse — toda sua esperança repousa agora na declaração que lhe fez esse Torres?

         —Sim, senhor — respondeu Joam Dacosta —, já que toda a minha vida não serve como defesa!

         —Onde acha que Torres está agora?

         —Acho que deve estar em Manaus.

         —E espera que fale, que consinta em lhe entregar de boa vontade esse documento, cujo preço o senhor se recusou a pagar?

         —É o que espero, senhor — respondeu Joam Dacosta. — Agora a situação de Torres é outra. Ele me denunciou e, conseqüente mente, não pode mais ter esperança alguma de retomar a negociação nas condições em que desejava concluí-la. Mas esse documento ainda pode valer uma fortuna para ele e, se eu for libertado, ou condenado, ela pode escapar-lhe para sempre. Ora, já que seu interesse é vender-me esse documento, sem que isso possa prejudicá-lo de forma alguma, penso que agirá de acordo com o próprio interesse.

         O raciocínio de Joam Dacosta não admitia réplica. O juiz Jarriquez percebeu bem. E só fez a única objeção possível:

         —Que seja — disse. — O interesse de Torres é, sem dúvida, vender-lhe esse documento... Se é que ele existe!

         —Se não existir, senhor — retrucou Joam Dacosta com uma voz penetrante —, Só poderei contar com a justiça dos homens, enquanto aguardo a justiça de Deus!

         Com essas palavras o juiz Jarriquez se levantou e, então, disse num tom menos indiferente:

         —Joam Dacosta, ao interrogá-lo aqui, ao deixar que contasse as particularidades da sua vida e alegasse inocência, fui mais longe do que pedia o meu mandado. Uma informação já foi feita sobre esse caso e o senhor compareceu diante do júri de Vila Rica, cujo veredicto foi dado por unanimidade de votos, sem circunstâncias atenuantes. O senhor foi condenado por instigação e cumplicidade no assassinato dos soldados e no roubo dos diamantes de Tijuco, a pena capital foi pronunciada e Só devido à evasão o senhor escapou do suplício. Mas, quer tenha vindo entregar-se ou não à justiça, depois de vinte e três anos, foi preso novamente. Pela última vez, reconhece que é Joam Dacosta, o condenado no caso do arraial diamantinense?

         —Eu sou Joam Dacosta.

         —Está pronto para assinar essa declaração?

         —Estou.

         E com uma mão que não tremia, Joam Dacosta assinou seu nome embaixo da narração circunstanciada e do relatório que o juiz mandara o escrivão redigir.

         —O relatório, dirigido ao Ministério da Justiça, vai para o Rio de Janeiro — disse o magistrado. — Só depois de muitos dias receberemos a ordem para executar o julgamento que o condena. Se, então, como diz, esse Torres possui a prova da sua inocência, por sua própria conta, com a sua família, faça de tudo para que a entregue em tempo hábil!

         —Quando chegar a ordem, nenhum sursis será mais possível e a justiça seguirá o seu curso!

         Joam Dacosta se inclinou.

         —Tenho permissão para ver minha mulher e meus filhos? — perguntou.

         —Hoje mesmo, se quiser — respondeu o juiz Jarriquez. — O senhor não está incomunicável e eles serão levados para vê-lo assim que se apresentarem.

         O magistrado tocou a sineta. Os guardas entraram no gabinete e levaram Joam Dacosta.

        O juiz Jarriquez olhou-o partir, sacudindo a cabeça.

         —É! O caso é realmente mais estranho do que pensei! — ele murmurou.

        

                                                                         O ÚLTIMO GOLPE

 

         Enquanto Joam Dacosta passava pelo interrogatório, Yaquita, por um pedido feito por Manoel, ficou sabendo que os filhos e ela seriam admitidos para ver o prisioneiro, no mesmo dia, por volta das quatro horas da tarde.

         Desde a véspera, Yaquita não saíra do quarto. Minha e Lina haviam ficado ao lado dela, aguardando o momento em que teria permissão para ver o marido. Fosse ela Yaquita Garral ou Yaquita Dacosta, ele continuaria a encontrar a mulher devotada, a valente companheira de toda a vida.

         Naquele dia, em torno das onze horas, Benito foi ao encontro de Manoel e Fragoso, que conversavam na dianteira da jangada.

         —Manoel — ele disse —, tenho um trabalho a lhe pedir.

         —Qual?

         —Para o senhor também, senhor Fragoso.

         —Estou às ordens, senhor Benito — respondeu o barbeiro.

         —De que se trata? — perguntou Manoel, observando o amigo, cuja atitude era a de um homem que tomou uma resolução inabalável.

         —Continuam acreditando na inocência de meu pai, não é? — disse Benito.

         —Ah! — exclamou Fragoso. — Seria mais fácil acreditar que fui eu que cometi o crime!

         —Muito bem, hoje mesmo vamos executar um projeto que idealizei ontem.

         —Encontrar Torres? — perguntou Manoel.

         —Sim, e saber dele como descobriu a condenação de meu pai! Em tudo isso há coisas inexplicáveis! Será que já o conhecia? Não posso compreender como, pois meu pai não saía de Iquitos havia vinte anos e o miserável tem apenas trinta! Mas o dia não vai terminar antes que eu saiba isso, ou pobre do Torres!

         A resolução de Benito não admitia nenhuma discussão. Por isso, nem Manoel, nem Fragoso pensaram em fazê-lo desistir do projeto.

         —Peço, portanto — continuou Benito —, que os dois me acompanhem. Vamos partir neste instante. Não devemos esperar que Torres saia de Manaus. Ele já não pode mais vender o seu silêncio, e essa hipótese pode lhe ocorrer. Vamos!

         Os três desembarcaram na margem do rio Negro e se dirigiram para a cidade.

       Manaus não era tão grande que não pudesse ser revistada em algumas horas. Se fosse preciso iriam de casa em casa para procurar Torres; mas seria melhor falarem primeiro com os donos dos albergues e das tabernas, onde o aventureiro poderia ter-se refugiado. Sem dúvida, o ex-capitão-do-mato não daria seu nome e talvez tivesse razões pessoais para evitar qualquer contato com a justiça. No entanto, se não houvesse saído de Manaus, ele não escaparia da busca dos rapazes. Em todo o caso, estava fora de cogitação dirigir-se à polícia, porque era bem provável — e foi, efetivamente, como sabemos — que a denúncia houvesse sido anônima.

         Durante uma hora, Benito, Manoel e Fragoso percorreram as ruas principais da cidade, interrogando os comerciantes nas lojas, os taberneiros nos seus botequins e os próprios transeuntes, sem que ninguém pudesse identificar o indivíduo cujas características eles descreviam com extrema precisão.

         Será que Torres havia saído de Manaus? Deveriam perder as esperanças de achá-lo?

         Manoel tentava, em vão, acalmar Benito, que estava exaltado. Custasse o que custasse, ele acharia Torres!

         O acaso iria ajudá-los e foi Fragoso que encontrou a verdadeira pista.

         Num albergue da rua Deus Espírito Santo, ao descrever as características do aventureiro, responderam-lhe que o indivíduo em questão havia ido, na véspera, até a taberna.

         —Ele dormiu no albergue? — perguntou Fragoso.

         —Dormiu — respondeu o dono do albergue.

       —Está aqui, agora?

         —Não, ele saiu.

         —Mas pagou a conta como um homem que se dispõe a ir embora?

         —De jeito nenhum. Ele saiu do quarto depois de uma hora e, sem duvida, voltará para o jantar.

         —Sabe que caminho tomou ao sair?

         —Ele foi visto se dirigindo ao Amazonas, descendo para a cidade baixa, e é provável que seja encontrado por Já.

         Fragoso não precisou perguntar mais. Alguns minutos depois, ele se encontrava com os dois rapazes e dizia:

         —Achei a pista de Torres.

         —Ele está lá! — exclamou Benito.

         Não, acabou de sair e viram-no se dirigir para o Amazonas, passando pelo campo.

         —Vamos! — disse Benito.

         Seria preciso descer em direção ao rio, e o caminho mais curto seria pegar a margem esquerda do rio Negro até a foz.

         Benito e os companheiros logo deixaram para trás as últimas casas da cidade e seguiram pela margem, mas fizeram um desvio para não passar diante da jangada.

         A planície estava deserta àquela hora. O Olhar podia alcançar ao Jorge, através da campina, onde as terras cultivadas haviam substituído as florestas de outrora.

         Benito não falava: não conseguiria pronunciar uma única palavra. Manoel e Fragoso respeitavam esse silêncio. Iam assim os três, per-   correndo a distância entre a margem do rio Negro e a margem do Amazonas. Três quartos de hora depois de saírem de Manaus ainda não haviam percebido nada.

         Uma ou duas vezes, encontraram os índios que trabalhavam na terra; Manoel interrogou-os e um deles, finalmente, lhe disse que um homem, parecido com o que descrevia, havia acabado de passar e se dirigira para o ângulo formado pela confluência dos dois cursos d'água.

         Sem mais perguntas, Benito, inconscientemente, começou a andar rápido e os dois companheiros tiveram de se apressar para não se distanciarem demais.

         A margem esquerda do Amazonas aparecia a menos de um quarto de milha. Uma espécie de escarpa se desenhava, ocultando uma parte do horizonte e limitando o alcance da vista num raio de algumas centenas de passos.

         Benito, acelerando a corrida, logo desapareceu atrás de uma das elevações de areia.

         — Mais rápido! Mais rápido! — disse Manoel a Fragoso. — Não podemos deixá-lo sozinho um único instante!

         Os dois correram nessa direção e, de repente, ouviram um grito.

         Será que Benito havia visto Torres? Será que este o havia visto? Benito e Torres já estavam juntos?

         Manoel e Fragoso, que estavam cinqüenta passos atrás, depois de passarem rapidamente por uma das pontas da margem viram dois homens parados frente a frente.

         Eram Benito e Torres.

         Num minuto, Manoel e Fragoso estavam ao lado deles.

         Acreditavam que, exaltado como estava, Benito não conseguiria controlar-se quando estivesse na presença do aventureiro.

         Não foi isso o que ocorreu.

         Assim que o rapaz se viu diante de Torres, quando teve certeza de que ele não poderia escapar, sua atitude mudou completamente, ficou mais aliviado, recuperou o sangue-frio, voltou a ser senhor de si.

         Os dois homens se olhavam havia alguns minutos sem pronunciar uma só palavra.

         Torres foi o primeiro a romper o silêncio, e com seu habitual tom atrevido, disse:

         —Ah! Senhor Benito Garral?

         —Não! Benito Dacosta — respondeu o rapaz.

         —De fato — continuou Torres —, senhor Benito Dacosta, acompanhado do senhor Manoel Valdez e do meu amigo Fragoso!

         Diante dessa qualificação ultrajante que lhe dava o aventureiro, Fragoso, resolvido a se vingar, ia avançar para cima dele quando Benito, sempre impassível, o reteve:

         —O que há com o senhor, meu rapaz? — exclamou Torres, recuando alguns passos. — Ei! Acredito que seria melhor eu ficar de sobreaviso!

         E, enquanto falava, tirou do poncho uma machete, essa arma ofensiva ou defensiva — como queira — que um brasileiro nunca abandona. Em seguida, meio curvado, esperou, sem recuar.

         —Eu vim procurá-lo, Torres — disse, então, Benito, que não havia se mexido diante da atitude provocadora.

         —Procurar-me? — respondeu o aventureiro. — Não sou difícil de encontrar! E por que estava me procurando?

         —Para ouvir da sua boca o que demonstra saber do passado do meu pai!

         —É mesmo?

         —É! Espero que me diga como o reconheceu, por que estava rondando nossa fazenda na floresta de Iquitos, por que esperava em Tabatinga...

         —Bom, parece que não há nada mais claro! — respondeu Torres caçoando. — Eu o esperava para embarcar na sua jangada e embarquei com a intenção de fazer uma proposta muito simples... Que provavelmente ele errou ao rejeitar!

         A essas palavras Manoel não conseguiu se conter. Com o rosto pálido, o olhar em fogo, avançou para cima de Torres.

         Benito, querendo usar todos os meios de conciliação, interpôs-se entre o aventureiro e ele.

         —Controle-se, Manoel — ele disse. — Eu estou controlado!

          Em seguida, voltando ao assunto:

         —Na verdade, Torres, sei quais foram as razões que o fizeram embarcar na jangada. Possuidor de um segredo que, sem dúvida, lhe foi entregue, quis fazer chantagem! Mas não é disso que se trata agora.

         —E do que se trata?

         —Quero saber como reconheceu Joam Dacosta no fazendeiro de Iquitos!

         —Como pude reconhecê-lo — retrucou Torres — é assunto meu, isso não preciso contar-lhe. O importante é que não me enganei, quando vi nele o verdadeiro autor do crime de Tijuco!

         —Não me diga!... — gritou Benito, que começava a perder o controle.

         —Não vou dizer nada! — respondeu Torres. — Ah! Joam Dacosta rejeitou minhas propostas! Ele se recusou a me admitir na família! Bom, agora que o segredo já é conhecido, que está preso, sou eu quem se recusará a entrar na família, na família de um ladrão, de um assassino, de um condenado que o patíbulo aguarda!

         —Miserável! — exclamou Benito, que, por sua vez, tirou uma machete do cinto e se pôs na ofensiva.

         Manoel e Fragoso, num movimento idêntico, também se armaram rapidamente.

         —Três contra um! — disse Torres.

         —Não! Um contra um! — respondeu Benito.

         —Não diga! Eu já estava imaginando um assassinato por parte do filho de um assassino!

         —Torres! — gritou Benito. — Defenda-se, ou vou matá-lo como a um cão enraivecido!

         —Enraivecido, que seja! — respondeu Torres. — Mas eu mordo, Benito Dacosta, e cuidado com as mordidas!

         Em seguida, trazendo para perto a machete, ele se pôs em guarda, preparado para se atirar sobre o adversário. Benito recuou alguns passos.

         —Senhor Torres — ele disse recuperando o sangue-frio que perdera por alguns instantes —, o senhor foi hóspede de meu pai, o senhor o ameaçou, o traiu, o denunciou, acusou um inocente e, com a ajuda de Deus, vou matá-lo!

         Um sorriso insolente foi esboçado nos lábios de Torres. Talvez o miserável pensasse, nesse momento, como impedir a luta entre Benito e ele, e podia fazê-lo, de fato. Torres havia compreendido que Joam Dacosta nada dissera do documento que continha a prova material da sua inocência.

         Ora, ao revelar a Benito que ele, Torres, possuía essa prova, conseguiria desarmá-lo no mesmo instante. Porém, não somente queria esperar o último minuto, sem dúvida para conseguir um melhor preço pelo documento, como a lembrança das palavras insultantes do rapaz, o ódio que sentia por toda a família, fizeram-no esquecer seus interesses.

         Além do mais, muito acostumado ao manejo da machete, da qual tivera muitas ocasiões para se servir, o aventureiro era robusto, ligeiro e hábil. Portanto, contra um adversário de apenas vinte anos, que não podia ter a sua força nem a sua destreza, tinha maiores chances de vencer.

         Num último esforço, Manoel insistiu para lutar no lugar de Benito.

         —Não, Manoel — respondeu friamente o rapaz —, cabe a mim, e só a mim, vingar o meu pai e, como tudo aqui deve ser dentro das regras, você será minha testemunha!

         —Benito!...

         Quanto ao senhor Fragoso, recusaria se pedisse para servir de testemunha para esse homem?

         —Que seja — respondeu Fragoso —, embora não haja nenhuma honra nisso! Se fosse eu, sem tantas cerimônias — acrescentou —, iria matá-lo como um animal selvagem!

         O lugar onde o combate seria realizado era uma margem plana, que media uns quarenta passos de largura e que ficava uns quinze pés acima do Amazonas. Ela era cortada na vertical, portanto, muito escarpada. Embaixo dela, o rio corria lentamente, banhando os feixes de junco que guarneciam a sua base.

       Portanto, havia pouco espaço nessa margem, no sentido da largura e, dos dois adversários, o que fraquejasse primeiro teria atrás de si um abismo.

         Ao sinal dado por Manoel, Torres e Benito caminharam na direção um do outro.

         Benito estava totalmente controlado. Defensor de uma santa causa, seu sangue-frio prevalecia, e muito, sobre o de Torres, cuja consciência, por mais insensível, por mais implacável que fosse, devia, nesse momento, atrapalhar a sua visão.

         Quando os dois ficaram próximos, o primeiro golpe foi dado por Benito. Torres evitou-o. Os dois adversários recuaram; mas quase imediatamente, avançaram um para cima do outro, e se agarraram com a mão esquerda pelo ombro... Não mais se soltaram.

         Torres, mais forte, deu um golpe lateral com a machete, que Benito não conseguiu evitar totalmente. Seu lado direito foi atingido e o tecido do poncho ficou vermelho de sangue. Mas ele respondeu energicamente e feriu Torres ligeiramente na mão.

         Diversos golpes foram trocados sem que nenhum fosse decisivo. O olhar de Benito, sempre em silêncio, mergulhava nos olhos de Torres como um lâmina que penetra até o coração. Visivelmente, o miserável começava a fraquejar. Ele recuou então um pouco, empurrado pelo implacável justiceiro que estava mais decidido a tirar a vida do denunciante do seu pai do que defender a sua. Acertá-lo era tudo o que Benito queria, enquanto o outro, agora, Só procurava aparar os golpes.

         Não demorou muito e Torres se viu acuado na beirada da margem, num lugar onde, ligeiramente escavada, ela se projetava sobre o rio. Ele compreendeu que corria perigo, quis retomar a ofensiva e recuperar o terreno perdido... Seu atordoamento aumentava, o olhar lívido se apagava sob as pálpebras... Finalmente, teve de se curvar sob o braço que o ameaçava.

         — Morra! — gritou Benito.

         O golpe foi dado no meio do peito, mas a ponta da machete acertou um objeto duro, oculto sob o poncho de Torres.

         Benito voltou a atacar. Torres, cuja resposta não chegou a atingir o adversário, sentiu-se perdido. Ele foi obrigado a recuar mais. Queria gritar... Gritar que a vida de Joam Dacosta estava presa à sua!... Mas não teve tempo.

         Um segundo golpe da machete penetrou, dessa vez, até o coração do aventureiro. Ele foi para trás e, como de repente lhe faltasse o chão, caiu da margem. Uma última vez suas mãos se agarraram convulsivamente num tufo de junco, mas não conseguiram segurá-lo... E ele desapareceu nas águas do rio.

         Benito estava apoiado no ombro de Manoel; Fragoso lhe apertava as mãos. Ele não quis perder tempo para deixar os companheiros tratarem da sua ferida, que era superficial.

         —Para a jangada — disse —, para a jangada!

         Manoel e Fragoso, dominados por profunda emoção, seguiram-no sem dizer uma palavra.

         Um quarto de hora depois, os três chegavam perto da margem onde a jangada estava amarrada. Benito e Manoel precipitaram-se para o quarto de Yaquita e de Minha, e puseram as duas a par do que havia acabado de acontecer.

         —Meu filho! Meu irmão!

         Os gritos saíram ao mesmo tempo.

         —Para a prisão! — disse Benito.

         —Sim!... Vamos!... Vamos! — falou Yaquita.

         Benito, seguido de Manoel, conduziu a mãe. Os três desembarcaram, se dirigiram para Manaus e, meia hora depois, chegavam à prisão da cidade.

         De acordo com a ordem dada previamente pelo juiz Jarriquez, foram imediatamente introduzidos e conduzidos ao quarto ocupado pelo prisioneiro.

       A porta foi aberta.

         Joam Dacosta viu entrar a mulher, o filho e Manoel.

         —Ah! Joam, meu Joam! — exclamou Yaquita.

         —Yaquita! Minha mulher! Meus filhos! — respondeu o prisioneiro, que lhes abriu os braços e apertou-os ao peito.

         —Meu Joam inocente!

         —Inocente e vingado! — exclamou Benito.

         —Vingado? O que quer dizer?

         —Torres está morto, meu pai, e morto por mim!

         —Morto!... Torres!... Morto!... — falou em voz alta Joam Dacosta. — Ah! Meu filho!... Você causou a minha desgraça!

        

                                                                           RESOLUÇÕES 

 

         Algumas horas mais tarde, toda a família, já de volta à jangada, estava reunida na sala comum. Todos estavam lá — menos o homem íntegro que havia sido atingido por mais um golpe!

         Benito, arrasado, acusava-se de haver causado a desgraça do pai. Sem as súplicas de Yaquita, da irmã, do padre Passanha e de Manoel, talvez o infeliz rapaz tivesse cometido, nos primeiros momentos de seu desespero, algum ato extremo. Mas ninguém o perdeu de vista nem o deixou sozinho. No entanto, que nobre conduta havia sido a sua! Não fora uma vingança legítima contra o denunciante do seu pai?

         Ah! Por que Joam Dacosta não havia dito tudo antes de deixar a jangada! Por que quis reservar para o juiz essa prova da sua não-culpabilidade? Por que, na sua conversa com Manoel, depois da expulsão de Torres, ele se calou sobre esse documento que o aventureiro dizia ter em mãos? E, no fim das contas, que crédito se devia dar ao que Torres lhe havia dito? Poderia ter certeza de que esse documento estivesse na posse do miserável?

         De qualquer modo, agora a família sabia de tudo e da própria boca de Joam Dacosta. Sabia que, segundo Torres, a prova da inocência do condenado de Tijuco existia realmente; que esse documento havia sido escrito pela própria mão do autor do crime; que esse criminoso, tomado de remorsos na hora da morte, entregara-o ao companheiro Torres e que este, em vez de executar a vontade do moribundo, fizera da entrega desse documento um meio de chantagem!... Mas a família também sabia que Torres havia morrido no duelo, que seu corpo fora engolido pelas águas do Amazonas e que morrera sem dizer o nome do verdadeiro culpado!

         A não ser por um milagre, agora, Joam Dacosta podia ser considerado irremissivelmente perdido. De um lado, a morte do juiz Ribeiro, do outro, a morte de Torres, era um golpe duplo do qual ele não conseguiria se reerguer!

         Convém dizer aqui que a opinião pública de Manaus, injustamente exaltada como sempre, estava contra o prisioneiro. A prisão tão inesperada de Joam Dacosta fazia voltar à memória o horrível atentado de Tijuco, esquecido havia vinte e três anos. O processo do jovem funcionário das minas do arraial diamantinense, sua condenação à pena capital, sua evasão, algumas horas antes do suplício, tudo foi relembrado, explorado, comentado. Um artigo publicado em O Diário d'o Grand Pará, o jornal de maior penetração nessa região, depois de relatar todas as circunstâncias do crime, era manifestamente hostil ao prisioneiro. Por que se acreditaria na inocência de Joam Dacosta, quando se ignorava tudo que os membros da família sabiam — tudo que Só eles sabiam?

        Por isso, a população de Manaus não demorou a ficar encolerizada. A turba de índios e negros, com fúria cega, começou a afluir ao local da prisão, soltando gritos de morte. Nesse país das duas Américas, das quais uma vê, mais constantemente, serem aplicadas as odiosas execuções da lei de Lynch, a multidão se deixou levar por seus instintos cruéis, e temia-se que numa ocasião como essa quisesse fazer justiça com as próprias mãos!

         Que noite triste para os passageiros da jangada! Patrões e empregados haviam sido atingidos por esse golpe! Todo o pessoal da jangada não era membro de uma mesma família? Todos, aliás, quiseram velar pela segurança de Yaquita e de seus familiares. Na margem do rio Negro, havia um incessante ir e vir de índios, evidentemente exaltados com a prisão de Joam Dacosta, e quem iria saber a que excessos poderiam se deixar levar essas pessoas meio bárbaras!

         No entanto, a noite passou sem nenhuma manifestação contra a jangada.

         No dia seguinte, 26 de agosto, ao nascer do sol, Manoel e Fragoso, que não haviam deixado Benito nem por um minuto durante essa noite de angústia, tentaram arrancá-lo do desespero. Eles o chamaram à parte e fizeram-no compreender que não havia tempo a perder, que era preciso tomar uma decisão e agir.

         —Benito — disse Manoel —, recupere seu autocontrole, volte a ser um homem, volte a ser um filho!

         —Meu pai — exclamou Benito —, eu o matei!

         —Não — respondeu Manoel —, e com a ajuda dos céus, é possível que nem tudo esteja perdido!

         —Ouça-nos, senhor Benito — disse Fragoso.

         O rapaz, passando a mão nos olhos, fez um enorme esforço.

         —Benito — continuou Manoel —, Torres nunca disse nada que nos pudesse pôr na pista do seu passado. Portanto, não podemos saber quem é o autor do crime de Tijuco, nem em que condições ele o cometeu. Procurar desse lado seria perda de tempo!

         —E o tempo urge! — acrescentou Fragoso.

         —Além disso — disse Manoel —, mesmo que conseguíssemos descobrir quem foi esse companheiro de Torres, ele está morto e não poderia dar testemunho da inocência de Joam Dacosta. Mas não deixa de haver uma certeza de que a prova da inocência existe, não há motivo para duvidar da existência de um documento, pois Torres fez dele um objeto de negociação. Ele mesmo disse isso. Esse documento é uma confissão que o acusado escreveu inteiramente de próprio punho, no qual relata o atentado nos mínimos detalhes e que reabilita nosso pai! Sim! Cem vezes, sim! Esse documento existe!

         No entanto, Torres não existe mais — exclamou Benito — e o documento desapareceu com esse miserável!

          —    Calma e não se desespere ainda! — falou Manoel. — Você se 1embra em que condições conhecemos Torres? Foi no meio da floresta de Iquitos. Ele perseguia um macaco que lhe havia roubado um estojo de metal, que ele queria muito, e a perseguição já durava duas horas quando o macaco morreu com as nossas balas. Bom, você acha que foi por algumas moedas de ouro guardadas nesse estojo que Torres fazia tanta questão de reavê-lo, e não se lembra da extraordinária satisfação que deixou transparecer quando lhe entregou o estojo arrancado das mãos do macaco?

         —Lembro!....Lembro! — respondeu Benito. — O estojo que segurei e que lhe devolvi!... É provável que o documento estivesse lá dentro!

         —É mais do que provável! É quase certo!... — disse Manoel.

         —E digo mais — acrescentou Fragoso —, porque isso me vem agora à memória. Durante a visita que vocês fizeram a Ega, eu fiquei a bordo, a conselho de Lina, para vigiar Torres, e o vi... sim... eu o vi ler e reler um velho papel todo amarelado... murmurando palavras que não consegui compreender!

         —Era o documento! — exclamou Benito, que se prendia a essa esperança. — O único que lhe restava! Mas será que não pôs esse documento num lugar seguro?

         —Não — respondeu Manoel —, não!... Era muito precioso para que Torres pensasse em se separar dele! Devia trazê-lo sempre consigo e, sem dúvida, nesse estojo!... 21

         —Espere... espere... Manoel — gritou Benito. — Eu me lembro! Sim! Eu me lembro!... Durante o duelo, o primeiro golpe que dei em Torres bem no peito, a machete bateu num objeto duro embaixo do poncho... Como uma placa de metal...

         —Era o estojo! — exclamou Fragoso.

        —Sim! — respondeu Manoel. — Sem sombra de dúvida! Esse estojo estava num bolso da sua japona.

         —Mas e o cadáver de Torres?...

         —Vamos achá-lo!

         —Mas o papel! A água deve tê-lo molhado, talvez destruído, tornando-o indecifrável!

         —Como — retrucou Manoel —, se esse estojo de metal era hermeticamente fechado?

         —Manoel — disse Benito, que não queria deixar de lado essa esperança —, você tem razão! É preciso achar o cadáver de Torres! Se for necessário, revistaremos toda essa parte do rio, mas vamos achá-lo!

         O piloto Araújo foi imediatamente chamado e posto a par do que iam fazer.

         —Bom — respondeu Araújo. — Conheço os remoinhos e as correntes do rio Negro e do Amazonas e é possível conseguir encontrar o cadáver de Torres. Vamos pegar as duas pirogas, os dois ubás, uma dúzia dos nossos índios e embarcar.

         O padre Passanha saía do quarto de Yaquita. Benito foi até ele e contou, em algumas palavras, o que iam tentar para conseguir a posse do documento.

         —Não diga nada ainda à minha mãe, nem à minha irmã! — acrescentou. — Essa última esperança, se for decepcionante, vai matá-las!

         —Vá, minha criança, vá — falou o padre Passanha —, e que Deus o ajude nas buscas!

         Cinco minutos depois, as quatro embarcações foram desatracadas da jangada; em seguida, depois de descerem o rio Negro, elas chegaram perto da margem do Amazonas, no mesmo lugar em que Torres mortalmente atingido, havia desaparecido nas águas do rio.

        

                                                                         PRIMEIRA BUSCA 

 

         As buscas deveriam começar sem demora, e por duas razões bem sérias: A primeira — questão de vida ou morte — era que a prova da inocência de Joam Dacosta precisava ser exibida antes que chegasse alguma ordem do Rio de Janeiro. Na verdade, depois de estabelecida a identidade do condenado, essa ordem Só poderia ser uma ordem de execução.

         A segunda, era que o corpo de Torres devia ficar na água o mínimo tempo possível, para que encontrassem intacto o estojo e o que ele poderia conter.

         Nesse caso, Araújo deu provas não Só de zelo e inteligência, como também de um perfeito conhecimento do rio, na confluência com o rio Negro.

         —Se Torres — disse ele aos rapazes — foi levado imediatamente pela corrente, será preciso dragar o rio numa longa distância, porque esperar que o corpo reapareça na superfície por efeito da decomposição demandaria vários dias.

         —Não podemos esperar — respondeu Manoel —, precisamos resolver isso ainda hoje!

         — Se, ao contrário — continuou o piloto —, o corpo ficou preso na vegetação e nos juncos, embaixo da margem, antes de uma hora nós o teremos achado.

         —Então, mãos à obra! — afirmou Benito.

         Não havia outra maneira de trabalhar. As embarcações se aproximaram da margem, e os índios, munidos de longos croques, começaram a sondar todas as partes do rio, verticalmente àquela margem cujo platô servira de lugar para o combate.

         Aliás, o local podia ser facilmente reconhecível. Um rastro de sangue manchava o talude na sua parte gredosa, que descia perpendicularmente até a superfície do rio. Ali, inúmeras gotículas espalhadas em cima do junco indicavam o lugar em que o cadáver havia desaparecido.

         Uma ponta da margem, que se desenhava a uns cinqüenta pés a jusante, mantinha a água imóvel, numa espécie de remanso, como uma grande bacia. Nenhuma corrente passava pela margem e, normalmente, o junco se mantinha numa rigidez absoluta. Portanto, podia-se esperar que o corpo de Torres não houvesse sido arrastado para o meio da água. Aliás, se por acaso o leito do rio acusasse um declive suficiente, no máximo ele poderia ter descido a algumas toesas do talude, mas ali também não se sentia nem um fio de corrente.

         As ubás e as pirogas, dividindo a tarefa, limitaram, então, o campo das buscas ao perímetro extremo do remanso, e da circunferência até o centro, os longos croques da equipe não deixaram nenhum ponto inexplorado.

         Porém, nenhuma das sondagens encontrou o corpo do aventureiro, nem na confusão dos juncos, nem no fundo do leito, cuja inclinação foi cuidadosamente esquadrinhada.

         Duas horas depois do início do trabalho, tiveram de reconhecer que o corpo, tendo sem dúvida se chocado com o talude, devia ter caído obliquamente, e rolado para fora dos limites do remanso, onde a ação da corrente já se fazia sentir.

         —Mas não é motivo para se desesperar — disse Manoel —, me nos ainda para desistir da busca!

          —Será preciso — perguntou Benito — revistar o rio em toda a sua largura e em todo o seu comprimento?

         —Em toda a sua largura, talvez — respondeu Araújo. — Em todo o seu comprimento, não!... Felizmente!

         —E por quê? — perguntou Manoel.

         Porque o Amazonas, uma milha abaixo da confluência com o rio Negro, forma um cotovelo muito pronunciado, ao mesmo tempo em que o fundo do seu leito sobe bruscamente. Portanto, ali existe uma espécie de barragem natural, bem conhecida pelos marinheiros, com o nome de barragem de Frias, que Só os objetos que flutuam na superfície podem atravessar. Porém, se se tratam de objetos que a corrente leva um pouco mais no fundo, eles não conseguem ultrapassar o talude dessa depressão!

         Essa era convenha, uma feliz circunstância, se Araújo não estivesse enganado. Contudo, em suma, era preciso acreditar nesse velho conhecedor do Amazonas. Havia trinta anos ele exercia a profissão de piloto e a passagem da barragem de Frias, onde a corrente se acentuava por causa do seu estreitamento, muitas vezes lhe causara problemas. A estreiteza do canal, a altura do fundo tornavam essa passagem muito difícil, e mais de uma jangada já passara por grandes dificuldades nesse lugar.

         Portanto, Araújo tinha razão ao dizer que, se o corpo de Torres, pelo seu peso específico, ainda estivesse no fundo arenoso do leito, não poderia ser levado para além da barragem. É verdade que, mais tarde, quando, em conseqüência da expansão dos gases, ele subisse à superfície, ninguém duvidava que seguiria o fio da corrente e se perderia irremediavelmente a jusante, depois da passagem. Mas esse efeito puramente físico Só se produziria depois de alguns dias.

         Não encontrariam um homem mais hábil e que conhecesse melhor essas paragens do que o piloto Araújo. Portanto, se ele afirmava que o corpo de Torres não podia ser arrastado para além do estreito canal, numa distância de uma milha ou duas, vasculhando toda essa porção do no, necessariamente haveriam de encontrá-lo.

         Além do mais, nenhuma ilha, nenhuma ilhota rasgava o curso do Amazonas nesse lugar. Conseqüentemente, quando as bases das duas margens do rio fossem examinadas até a barragem, seria no próprio leito, com quinhentos pés de largura, que se deveria proceder às mais minuciosas investigações.

         E foi assim que trabalharam. Seguindo pela direita e pela esquerda do Amazonas, as embarcações acompanharam as duas margens. O junco e a vegetação foram vasculhados com golpes de croque. Nas menores saliências do rio, nas quais um corpo poderia ficar preso, nem um único ponto escapou à busca de Araújo e dos índios.

         Porém, todo esse trabalho não produziu nenhum resultado e a metade do dia já havia transcorrido sem que o corpo desaparecido pudesse ser trazido à superfície do rio.

         Uma hora de repouso foi concedida aos índios. Nesse meio-tempo eles comeram alguma coisa e, em seguida, voltaram ao trabalho.

         Dessa vez, as quatro embarcações, dirigidas respectivamente pelo piloto, por Benito, por Fragoso e por Manoel, dividiram em quatro zonas o espaço compreendido entre a foz do rio Negro e a barragem de Frias. Iriam explorar o leito do rio. Acontece que em certos locais o uso dos croques não parecia suficiente para vasculhar o fundo. Por isso, uma espécie de draga, ou melhor, de rastelo, feito de pedra e de sucata dentro de uma grossa rede, foi instalado a bordo e, enquanto as embarcações eram empurradas perpendicularmente às margens, eram imergidos esses redenhos que deviam raspar o fundo do rio em todos os sentidos.

         Nesse trabalho difícil foi que Benito e os companheiros se empenharam até o fim da tarde. As ubás e as pirogas, manobradas a remo, andaram pela superfície de todo esse trecho do rio terminado a jusante pela barragem de Frias.     Houve momentos de emoção nesse período de trabalho, quando os rastelos, presos a algum objeto no fundo, opunham resistência. Eles eram içados, mas em vez do corpo tão ansiosamente procurado, Só traziam à tona algumas pedras grandes ou feixes de vegetação que arrancavam da camada de areia.

         No entanto, ninguém pensava em abandonar a exploração começada. Todos esqueciam de si mesmos por essa obra de salvamento. Benito, Manoel e Araújo não precisavam incitar os índios, nem encorajá-los. Esses bravos homens sabiam que trabalhavam pela fazenda de Iquitos, para o homem que amavam, para o chefe dessa grande família, que compreendia em pé de igualdade patrões e empregados!

         Sim! Se fosse preciso, sem pensar no cansaço, passariam a noite a sondar o fundo do rio. O valor de cada minuto perdido, todos eles sabiam muito bem.

         Porém, um pouco antes de o sol desaparecer, achando inútil continuar a operação de busca na escuridão, Araújo deu o sinal para que as embarcações se reunissem, voltando para a confluência do rio Negro, a fim de voltar à jangada.

         O trabalho, por mais minucioso e inteligentemente que tenha sido conduzido, não teve sucesso!

         Manoel e Fragoso, ao voltar, não ousavam falar do fracasso diante de Benito. Temiam que o desânimo o levasse a cometer algum ato de desespero!

         Mas nem a coragem, nem o sangue-frio haviam abandonado o rapaz. Ele estava decidido a ir até o fim nessa suprema luta para salvar a honra e a vida do pai, e foi ele quem interpelou os companheiros dizendo:

         —Amanhã recomeçaremos em melhores condições, se for possível!

         —Sim — disse Manoel —, tem razão Benito. Há mais trabalho a fazer! Não podemos ter a pretensão de haver explorado totalmente essa bacia, por baixo das ribanceiras e em toda a extensão do fundo!

         —Não! Não podemos ter essa pretensão — afirmou Araújo — e mantenho o que disse. O corpo de Torres está lá, está lá porque não pode ter sido arrastado, porque não poderia passar pela barragem de Frias, porque são necessários vários dias para que suba à superfície e seja levado rio abaixo! Sim, ele está ali, e que nunca mais um garrafão de tafiá se aproxime dos meus lábios se eu não o encontrar!

         Essa afirmação, na boca do piloto, tinha um grande valor, e era capaz de dar esperanças.

         Entretanto, como não se contentava com palavras e preferia ver as coisas tais como elas eram, Benito achou que devia dizer:

         —Sim, Araújo, o corpo de Torres ainda está nessa bacia e nós o acharemos se...

         — Se? — interrompeu o piloto.

         —Se ele não se tornou uma presa para os caimões!

         Manoel e Fragoso aguardavam, não sem emoção, a resposta que Araújo daria.

         O piloto ficou calado por alguns instantes. Percebia-se que queria refletir antes de responder.

         —Senhor Benito — disse finalmente —, não tenho o hábito de falar irrefletidamente. Também tive o mesmo pensamento que o senhor, mas escute bem. Durante essas dez horas de busca que acabaram de passar, percebeu um único caimão nas águas do rio?

         —Nenhum — respondeu Fragoso.

         —Se não os viu — continuou o piloto — é porque não existem por aqui, e se não estão aqui, é porque esses animais não têm nenhum interesse em se aventurar nas águas claras, quando, a um quarto de milha, estão as grandes extensões de águas escuras que eles preferem! Quando a jangada foi atacada por alguns desses animais, foi porque naquele lugar não havia nenhum afluente do Amazonas onde pudessem se refugiar. Aqui, é diferente. Vá ao rio Negro e lá encontrará vintenas de caimões! Se o corpo de Torres houvesse caído nesse afluente, provavelmente não haveria nenhuma esperança de achá-lo! Mas foi no Amazonas que ele se perdeu e o Amazonas vai devolvê-lo!

         Aliviado, Benito pegou a mão do piloto, apertou-a e contentou-se em dizer:

         —Até amanhã, amigos!

         Dez minutos depois, todos estavam a bordo da jangada.

         Durante o dia, Yaquita havia passado algumas horas ao lado do marido. Antes de desembarcar, quando não viu o piloto, nem Manoel, nem Benito, nem as embarcações, compreendeu o tipo de busca que iam fazer. No entanto, não quis contar nada a Joam Dacosta, esperando que, no dia seguinte, pudesse revelar-lhe o êxito da investigação.

         Porém, assim que Benito pôs os pés na jangada, percebeu que a busca havia fracassado.

         Mesmo assim, dirigiu-se a ele.

         —Nada? — indagou.

         — Nada — respondeu Benito —, mas amanhã será o nosso dia!

         Todos os membros da família se retiraram para o quarto e não se falou sobre o que havia ocorrido.

         Manoel queria obrigar Benito a deitar, para que tivesse, ao menos, uma ou duas horas de descanso.

         — De que adiantaria? — perguntou Benito. — Acha que eu conseguiria dormir?

          

                                                                            SEGUNDA BUSCA 

 

         No dia seguinte, 27 de agosto, antes do nascer do sol, Benito puxou Manoel de lado e disse:

         A busca que fizemos ontem foi em vão. Se começarmos hoje nas mesmas condições, provavelmente não seremos mais felizes!

         —Entretanto, é preciso recomeçar — afirmou Manoel.

         —Sim — continuou Benito —, mas no caso de o corpo de Torres não ser encontrado, pode dizer-me qual o tempo necessário para que venha à tona?

         —Se Torres houvesse caído vivo na água — respondeu Manoel — e não em conseqüência de uma morte violenta, seriam necessários de cinco a seis dias. Mas como Só desapareceu depois de haver sido mortalmente ferido, talvez dois ou três dias sejam suficientes para que reapareça.

         A resposta de Manoel, que estava absolutamente certa, pede uma explicação.

         Todo ser humano que cai na água pode flutuar, desde que possa ser estabelecido um equilíbrio entre a densidade do corpo e a da camada líquida. Estamos nos referindo, obviamente, a uma pessoa que não saiba nadar. Nessas condições, se ela se deixar afundar por inteiro, mantendo só a boca e o nariz fora da água, flutuará. Mas, em geral, não é isso o que ocorre. O primeiro movimento de um homem que está se afogando é procurar manter a maior parte do corpo fora da água; ele estica a cabeça e levanta os braços, e essas partes do corpo, não estando mais sustentadas pelo líquido, não perdem a quantidade de peso que perderiam se estivessem completamente submersas. Daí decorre um excesso de peso e, finalmente, uma imersão completa. Efetivamente, a água entra, pela boca, nos pulmões, e o arrasta para o fundo.

         Ao contrário, se um homem que cai na água já está morto, as condições são diferentes e mais favoráveis para a flutuação, pois ele não é capaz de fazer os movimentos de que falamos acima e, se afundar, como o líquido não penetrou com tanta abundância nos pulmões, uma vez que não tentou respirar, reaparece na superfície mais rapidamente.

         Portanto, Manoel tinha razão ao estabelecer uma diferença entre o caso de um homem ainda vivo e o caso de um homem já morto que cai na água. No primeiro caso, a volta à superfície é necessariamente mais demorada do que no segundo.

         O reaparecimento de um corpo, depois de uma imersão mais ou menos prolongada, é determinado unicamente pelos gases que, gerados pela decomposição, levam à distensão dos tecidos celulares; o volume torna-se maior sem que haja aumento de peso e, então, menos pesado do que água que ele desloca, o corpo volta a subir, adquirindo as condições requeridas para a flutuabilidade.

         —Assim — continuou Manoel —, embora as circunstâncias sejam favoráveis, pois Torres já não estava vivo quando caiu no rio, a não ser que a decomposição seja modificada por condições que não podemos prever, ele não deve reaparecer antes de três dias!

         —Nós não temos três dias! — disse Benito. — Não podemos esperar, você sabe! Portanto, temos de fazer novas buscas, mas de maneira diferente.

         —O que pretende fazer? — perguntou Manoel.

         —Mergulhar no fundo do rio — respondeu Benito. — Procurar com os meus olhos, buscar com as minhas mãos...

         — Mergulhar cem vezes, mil vezes! — exclamou Manoel. — Que seja! Penso, como você, que hoje precisamos agir de um modo mais direto, e não cegamente, com dragas e croques, que Só trabalham tateando no escuro! Também acho que não podemos esperar três dias! Mas mergulhar, subir, voltar a descer, Só vai permitir curtos períodos de exploração. Não! É pouco, seria inútil, e correríamos o risco de fracassar uma segunda vez!

         —Tem algum outro jeito para propor, Manoel? — indagou Benito, que devorava o amigo com o olhar.

         —Ouça. Uma circunstância, por assim dizer providencial, pode nos ajudar.

         —Fale, vamos! Fale!

         —Ontem, quando atravessamos Manaus, notei que faziam um trabalho de restauração de um cais, na margem do rio Negro. Acontece que esses trabalhos submarinos eram feitos com um escafandro. Vamos pedir emprestado, alugar, comprar por qualquer preço esse equipamento e será possível recomeçar a busca em condições mais favoráveis!

         —Avise Araújo, Fragoso, nossos homens e vamos! — respondeu imediatamente Benito.

         O piloto e o barbeiro foram postos a par das decisões tomadas, conforme o projeto de Manoel. Ficou combinado que os dois iriam com os índios e com as quatro embarcações para a bacia de Frias e lá ficariam aguardando os dois rapazes.

         Manoel e Benito desembarcaram sem perda de tempo, e foram ao cais de Manaus. Eles ofereceram uma soma tão alta para o empreiteiro dos trabalhos do cais, que este se apressou a pôr o equipamento à sua disposição pelo dia inteiro.

         —Querem um dos meus homens paira ajudá-los? — perguntou.

         —O seu contramestre e alguns colegas para operar a bomba de ar — respondeu Manoel.

         —Mas quem usará o escafandro?

         —Eu — respondeu Benito.

         —Benito, você? — exclamou Manoel.

         —É o que eu quero!

          Seria inútil insistir.

         Uma hora depois, levando a bomba e todos os equipamentos necessários ao trabalho, a jangada se deslocou próximo à barragem, onde os aguardavam as embarcações.

         Sabemos no que consiste o aparelho de escafandro, que permite descer debaixo d'água e ali ficar por algum tempo, sem que o funcionamento dos pulmões seja prejudicado. O mergulhador veste uma roupa impermeável de borracha, que no pé é terminada com uma sola de chumbo, para garantir uma posição vertical no meio líquido. Na gola da roupa, na altura do pescoço, há um colar de cobre, no qual é aparafusado um globo de metal, cuja parede anterior é feita de vidro. Nesse globo fica a cabeça do mergulhador, que pode movimentar-se à vontade. A esse globo são presos dois tubos: um deles é usado para a saída do ar expirado, impróprio para os pulmões; o outro fica em comunicação com uma bomba manobrada na jangada, que envia o ar renovado necessário à respiração. Quando o mergulhador trabalhar no mesmo lugar, a jangada permanece imóvel acima dele; quando o mergulhador precisa movimentar-se no fundo do leito, a jangada segue os seus movimentos, ou ele segue os da jangada, conforme o que é combinado entre ele e a equipe.

         Esses escafandros, muito aperfeiçoados, oferecem menos perigo do que antigamente. O homem, mergulhado num meio líquido, se acostuma facilmente com o excesso de pressão que tem de suportar. Se, no caso, uma eventualidade desagradável se podia temer, era o encontro com algum caimão nas profundezas do rio. Porém, como havia observado Araújo, nenhum desses anfíbios havia sido visto na véspera e sabemos que eles preferiam as águas escuras dos afluentes do Amazonas. Aliás, em caso de um perigo qualquer, o mergulhador tem sempre à mão o cordão de uma sineta colocada na jangada e, ao menor tinido, é possível içá-lo rapidamente para a superfície.

         Benito, sempre muito calmo, pois que, depois de tomar a resolução, ia pô-la em prática, vestiu o escafandro; a cabeça desapareceu na esfera metálica; ele pegou um chuço de ferro, próprio para esquadrinhar a vegetação ou os detritos acumulados no leito do rio e, a um sinal seu, desceram-no para o fundo.

         Os homens da jangada, habituados a esse trabalho, logo começaram a acionar a bomba de ar, enquanto quatro índios, sob as ordens de Araújo, começaram a empurrá-la lentamente, com os longos croques, na direção combinada.

         As duas pirogas, conduzidas, uma por Fragoso, outra por Manoel e mais dois remadores, escoltavam a jangada e se mantinham prontas para, rapidamente, navegar mais para frente ou mais para trás, se Benito, ao encontrar finalmente o corpo de Torres, o trouxesse para a superfície do Amazonas.

        

                                                                    UM TIRO DE CANHÃO 

 

         Benito submergiu, então, no extenso lençol d'água que ainda ocultava o cadáver do aventureiro. Ah! Se ele tivesse o poder de desviar, de evaporar, de esgotar as águas do grande rio, se pudesse secar a bacia de Frias, desde a barragem à jusante até a confluência com o rio Negro, sem dúvida o estojo escondido na roupa de Torres já estaria em suas mãos! A inocência de seu pai já teria sido reconhecida! Joam Dacosta estaria livre, teria recomeçado com a família a descida do rio, e quantas terríveis provações teriam sido evitadas!

         Benito pisara no fundo do rio. As solas pesadas faziam estalar o cascalho do leito. Ele havia descido por volta de dez a quinze pés, verticalmente à margem, que era muito escarpada, no lugar exato em que Torres havia desaparecido.

         Ali se amontoava uma rede inextricável de juncos, de junças e de plantas aquáticas e, certamente, na busca da véspera nenhum dos croques conseguira penetrar nesse entrelaçamento. Portanto, seria possível que o corpo, preso nesses arbustos submarinos, estivesse no mesmo ponto em que havia caído.

         Nesse lugar, graças ao remanso produzido pelo alongamento de uma das pontas da margem, a corrente era absolutamente nula. Portanto, Benito Só obedecia aos movimentos da jangada, que os croques dos índios deslocavam acima da sua cabeça.

         A luz penetrava até o fundo das águas claras, nas quais um sol magnífico que brilhava num céu sem nuvens dardejava quase normalmente seus raios. Em condições habituais de visibilidade sob uma camada líquida, a profundidade de vinte pés é suficiente para que a visão fique extremamente limitada; mas, ali, a água parecia impregnada pelo fluido luminoso e Benito podia descer ainda mais, sem que a escuridão lhe ocultasse o fundo do rio.

         O rapaz seguiu lentamente a margem escarpada. Seu bastão esquadrinhava a vegetação e os detritos acumulados na base. "Bandos" de peixes, se assim podemos dizer, fugiam como bandos de pássaros de um espesso arbusto. Pareciam milhares de pedaços de um espelho quebrado que se agitavam na água. Ao mesmo tempo, algumas centenas de crustáceos corriam pela areia amarelada, semelhantes a grandes formigas expulsas do formigueiro.

         No entanto, embora Benito não deixasse nenhum ponto do rio inexplorado, o objeto da sua busca ainda não havia aparecido. Ele notou, então, que o declive do leito era bem pronunciado e concluiu que o corpo de Torres poderia ter rolado para além do remanso, para o meio do rio. Se assim fosse, talvez ainda estivesse lá, pois a corrente não podia atingi-lo numa profundidade já bem grande e que devia aumentar sensivelmente.

         Benito resolveu que investigaria desse lado, assim que acabasse de sondar a confusa vegetação. Por isso, continuou a avançar nessa direção, seguido pela jangada durante um quarto de hora, conforme havia sido antecipadamente combinado.

         Passado um quarto de hora, Benito ainda não encontrara nada. Ele sentiu necessidade de subir à superfície, para recuperar as condições fisiológicas e recobrar as forças. Em alguns lugares em que a profundidade do rio era mais acentuada ele precisara descer a mais ou menos trinta pés. Portanto, suportara uma pressão quase equivalente à de uma atmosfera — causa de cansaço físico e de perturbações mentais para quem não está acostumado a esse tipo de exercício.

         Benito puxou, então, o cordão da sineta, e os homens da jangada começaram a içá-lo; mas eles o faziam bem devagar, levando um minuto para subir dois ou três pés, para que não se produzissem nos órgãos internos os funestos efeitos da descompressão.

         Assim que o rapaz pôs os pés na jangada e a esfera metálica do escafandro foi retirada, ele respirou profundamente e sentou-se para descansar um pouco.

         As pirogas se aproximaram imediatamente. Manoel, Fragoso e Araújo estavam ali, ao lado dele, aguardando que pudesse falar.

         —E então? — perguntou Manoel.

         —Nada, ainda! ... Nada!

         —Não percebeu nenhum vestígio?

         —Nenhum.

         —Quer que eu faça as buscas agora?

         —Não, Manoel — respondeu Benito. — Eu já comecei... Sei aonde quero ir... Deixe comigo!

         Benito explicou, então, ao piloto que sua intenção era percorrer a parte inferior da margem até a barragem de Frias, onde a elevação do solo poderia prender o corpo de Torres, sobretudo se o corpo, suspenso numa altura intermediária, houvesse sofrido, por menos que fosse, a ação da corrente; mas, antes, queria afastar-se lateralmente à margem escarpada e explorar com cuidado essa espécie de depressão, formada pelo declive do leito, cujo fundo, evidentemente os croques não puderam alcançar.

         Araújo aprovou o projeto e se dispôs a tomar as medidas adequadas.

         Manoel achou que devia dar alguns conselhos a Benito.

         —Já que você quer continuar a busca desse lado — ele disse — a jangada vai virar nessa direção, mas seja prudente, Benito. É mais fundo do que já foi até agora, talvez cinqüenta ou sessenta pés e, nesse caso, você suportará uma pressão de duas atmosferas. Então, aventure-se com extrema lentidão, ou a lucidez poderá abandoná-lo. Você não saberá onde está, nem o que foi fazer lá. Se sentir uma pressão na cabeça, como se ela estivesse num torno, se os ouvidos zumbirem continuamente, não hesite em dar o sinal e nós o traremos para a superfície. Depois você recomeçará se for preciso, no entanto, ao menos, estará mais acostumado a se movimentar nas camadas profundas do rio.

         Benito prometeu a Manoel que levaria em conta suas recomendações, que ele compreendia serem importantes. Ficara, sobretudo, abalado com o fato de que a lucidez pudesse faltar-lhe no momento em que talvez fosse mais necessária.

         Benito apertou a mão de Manoel; a esfera do escafandro foi novamente aparafusada no seu pescoço, em seguida a bomba recomeçou a funcionar, e o mergulhador logo desapareceu debaixo d'água.

         A jangada afastou-se uns quarenta pés da margem esquerda; porém, à medida que avançava para o meio do rio, a corrente poderia levá-la mais rápido do que era preciso, por isso as ubás foram amarradas a ela e os remadores a seguraram contra a deriva, de modo a que se deslocasse com extrema lentidão.

         Benito foi descido muito devagar e voltou a pisar em solo firme. Quando as pesadas solas alcançaram a areia do fundo, podia-se julgar, pelo comprimento da corda de sirgagem, que ele estava numa profundidade de sessenta e cinco a setenta pés. Havia, portanto, um buraco considerável, bem abaixo do nível normal.

         O meio líquido estava mais escuro, mas a limpidez dessas águas transparentes ainda deixava penetrar bastante luz para que Benito pudesse distinguir o suficiente os objetos esparsos no fundo do rio e caminhar com alguma segurança. Aliás, a areia, semeada de mica, parecia formar uma espécie de refletor, e seria possível contar os grãos que cintilavam como uma poeira luminosa.

         Benito andava, olhava, sondava as menores cavidades com seu chuço. Ele continuava a afundar lentamente. A corda era arriada conforme a necessidade, e como os tubos usados para a aspiração e para a expiração do ar não haviam ficado esticados em excesso, as condições de funcionamento da bomba eram boas.

         Então, Benito se afastou, de modo a atingir o meio do leito do Amazonas, onde estava a depressão mais profunda.

         Às vezes, uma forte escuridão se adensava a sua volta e ele não conseguia ver mais nada, mesmo num raio muito restrito. Tratava-se de um fenômeno puramente passageiro: ao se deslocar acima da sua cabeça, a jangada interceptava completamente os raios de sol e o dia virava noite. Porém, um minuto depois, a grande sombra se dissipava e o reflexo da areia voltava a se destacar.

         Benito continuou descendo. Ele o sentia, sobretudo, pelo aumento da pressão que a massa líquida impunha ao seu corpo. A respiração já não era tão fácil, a retratilidade dos seus órgãos não era feita como ele queria, com tanta facilidade quanto num meio atmosférico convenientemente equilibrado. Nessas condições, encontrava-se sob a ação de efeitos fisiológicos aos quais não estava acostumado. O zumbido nos ouvidos se acentuava; mas como seu pensamento ainda estava lúcido, como sentia que o raciocínio era perfeitamente nítido no cérebro — até um pouco além do natural —, não quis dar o sinal para o içamento e continuou a descer mais fundo.

         Em certo momento, na penumbra em que estava, uma massa confusa atraiu sua atenção. Parecia a forma de um corpo preso num feixe de plantas aquáticas.

         Uma viva emoção tomou conta dele. Benito avançou nessa direção. Com o bastão, mexeu na massa disforme.

         Era o cadáver de um enorme caimão, já reduzido a esqueleto, e que a corrente do rio Negro havia arrastado até o leito do Amazonas.

         Benito recuou e, a despeito das asserções do piloto, achou que algum caimão vivo bem que poderia se aventurar nas camadas profundas da bacia de Frias!...

         Entretanto, repeliu essa idéia e continuou a andar, de modo a atingir o fundo da depressão.

         Devia estar numa profundidade de noventa a cem pés e, conseqüentemente, submetido a uma pressão de três atmosferas. Se, então, a cavidade se acentuasse ainda mais, ele seria obrigado a interromper a busca.

         A experiência já demonstrou, efetivamente, que profundidades próximas a cento e vinte ou cento e trinta pés são o limite extremo, perigoso de ser ultrapassado numa excursão submarina: não Só o organismo humano deixa de funcionar de maneira conveniente sob tais pressões, como os aparelhos não fornecem o ar respirável com a necessária regularidade.

         Entretanto, Benito estava resolvido a continuar enquanto a força moral e a energia física não lhe faltassem. Por um inexplicável pressentimento, sentia-se atraído por esse abismo; achava que o corpo devia ter rolado até o fundo da cavidade, e que talvez, se estivesse carregado de objetos pesados, como um cinto com dinheiro, ouro ou armas, Torres pudesse se manter em grandes profundidades.

         De repente, numa sombra da depressão, percebeu um cadáver! Sim! Um cadáver, ainda vestido, esticado como se fosse um homem adormecido, braços dobrados sob a cabeça.

         Seria Torres? Na escuridão, bem opaca, tinha dificuldade para reconhecê-lo; mas era realmente um corpo humano que jazia ali, a menos de dez passos, absolutamente imóvel!

         Subitamente, uma sacudidela, tão violenta quanto inesperada, fez vibrar todo o seu corpo! Um látego comprido lhe envolvia o corpo e, apesar da roupa grossa de escafandro, sentiu uma chicotada mais forte!

         — Um gimnotídeo — disse a si mesmo.

         Foi a única palavra que saiu dos seus lábios.

         E, de fato, um "puraquê", nome que os brasileiros dão ao gimnotídeo ou cobra-elétrica, havia se jogado sobre ele.

         Ninguém ignora o que são essas espécies de enguias de pele escura e pegajosa, que têm ao longo das costas e da cauda um dispositivo que, composto de lâminas unidas por pequenas lamelas verticais, é acionado por nervos de grande potência. Esse dispositivo, dotado de singulares propriedades elétricas, pode produzir choques terríveis. Alguns desses gimnotídeos têm apenas o tamanho de uma cobra, outros medem até dez pés de comprimento; outros, ainda mais raros, ultrapassam quinze a vinte pés com uma largura de oito a dez polegadas.

         Os gimnotídeos eram bem numerosos, tanto no Amazonas quanto nos seus afluentes, e uma dessas "bobinas" vivas, com uns dez pés de comprimento, depois de se esticar como um arco, havia se jogado em cima do mergulhador.

          Benito compreendeu o quanto devia recear o ataque desse temível animal. A roupa não era suficiente para protegê-lo. As descargas do gimnotídeo, a princípio mais fracas, se tornaram cada vez mais violentas e assim seria até o momento em que, esgotado pelo consumo do fluido, ele ficaria reduzido à impotência.

         Não podendo resistir a esses choques, Benito ficou caído na areia. Os membros, aos poucos, ficavam paralisados devido às efluências elétricas do gimnotídeo, que se colava lentamente no seu corpo e o enlaçava com suas sinuosidades. Já não conseguia levantar os braços. O bastão caiu da sua mão e não teve forças para pegar o cordão da sineta e dar o aviso.

         Benito sentiu-se perdido. Nem Manoel, nem seus companheiros podiam imaginar que horrível combate era travado embaixo deles, entre um temível puraquê e o infeliz mergulhador, que se debatia com dificuldade, sem poder defender-se.

         E isso, bem no momento em que um corpo — o corpo de Torres, sem dúvida — acabava de ser descoberto!

         Num supremo instinto de conservação, Benito quis gritar!... Sua voz morria na caixa metálica que não deixava escapar nenhum som!

         Nesse momento, o puraquê redobrou os ataques; lançava descargas que faziam Benito estremecer na areia, como os pedaços de uma minhoca cortada, e seus músculos se retorciam sob a chicotada do animal.

         Benito sentiu que a lucidez o abandonava completamente. A visão escurecia aos poucos, os membros endureciam!...

         Porém, antes de perder a faculdade de ver e a faculdade de raciocinar, um fenômeno inesperado, inexplicável, estranho, ocorreu na sua frente.

         Uma detonação surda se propagou pelo lençol líquido. Parecia um trovão, cujo ribombar corria pelas camadas submarinas, agitadas pelas sacudidelas do gimnotídeo. Benito se sentiu envolvido por uma espécie de estrondoso barulho, que ecoava até as profundezas do rio.

         E, de repente, um grito supremo lhe escapou!... Uma assustadora visão espectral aparecia diante de seus olhos.

         O corpo do afogado, até então estendido no fundo do rio, acabara de se levantar!... As ondulações da água mexiam seus braços, como se fossem agitados por uma vida estranha!... Sobressaltos convulsivos tornavam o movimento do cadáver apavorante!

         Era mesmo o cadáver de Torres! Um raio de sol havia penetrado pela massa líquida até o corpo e Benito reconheceu o rosto intumescido e esverdeado do miserável, morto por suas mãos, cujo último suspiro havia sido abafado pela água!

         E, enquanto Benito não podia fazer um único movimento com os membros paralisados, enquanto os pesados sapatos o seguravam como se estivesse pregado no leito de areia, o cadáver se ergueu, mexeu a cabeça e o corpo de alto a baixo e, desprendendo-se do buraco no qual ficara preso na confusão de plantas aquáticas, subiu em linha reta, numa visão assustadora, até os altos lençóis de água do Amazonas!

        

                                                            O QUE HAVIA NO ESTOJO 

        

         O que havia ocorrido? Um fenômeno puramente físico, cuja explicação é a seguinte:

         A canhoneira do governo, Santa-Ana, que se dirigia a Manaus, subindo o curso do Amazonas, acabava de atravessar a passagem de Frias. Um pouco antes de chegar à desembocadura do rio Negro, ela havia içado suas cores e saudado com um tiro de canhão o pavilhão brasileiro. Com essa detonação, um efeito de vibração foi produzido na superfície da água que, se propagando até o fundo do rio, ergueu o corpo de Torres, já mais leve por um começo de decomposição, que facilitava a distensão do sistema celular. O corpo do afogado subiu naturalmente à superfície do Amazonas.

         Esse fenômeno, bem conhecido, explicava o reaparecimento do cadáver, e, convenhamos, foi uma coincidência feliz a chegada do Santa-Ana ao cenário das buscas.

         A um grito de Manoel, repetido pelos companheiros, uma das pirogas se dirigiu imediatamente para o corpo, enquanto o mergulhador era trazido de volta para a jangada.

         Porém, foi indescritível a emoção de Manoel quando Benito, içado até a plataforma, foi deitado num estado de total inércia, sem que, nele, a vida se manifestasse por um único movimento aparente.

         Seria um segundo cadáver que as águas do Amazonas devolviam?

         A roupa de escafandro foi retirada do mergulhador o mais rapidamente possível.

         Benito havia perdido completamente a consciência com as violentas descargas do gimnotídeo.

         Manoel, desatinado, chamou-o, insuflando-lhe a própria respiração, tentando sentir os batimentos do coração.

         —Ele bate! Ele bate! — gritou.

         Sim! O coração de Benito ainda batia e, em alguns minutos, os cuidados de Manoel o trouxeram de volta à vida.

         —O corpo! O corpo!

         Essas foram as primeiras palavras, as únicas a saírem da boca de Benito.

         —Está aqui! — respondeu Fragoso, mostrando a piroga que chegava perto da jangada com o cadáver de Torres.

         —Mas você, Benito, o que aconteceu? — perguntou Manoel. — Foi falta de ar?...

         —Não! — disse Benito. — Um puraquê se jogou em cima de mim!... E esse barulho?... E essa detonação?...

         —Um tiro de canhão! — respondeu Manoel. — Foi um tiro de canhão que trouxe o cadáver para a superfície do rio!

         Nesse momento, a piroga havia acabado de encostar na jangada. O corpo de Torres, recolhido pelos índios, estava no fundo da embarcação. O tempo que passara na água ainda não o havia desfigurado. Era fácil reconhecê-lo. Em relação a isso não havia nenhuma dúvida possível.

         Fragoso, ajoelhado na piroga, já começara a rasgar as roupas do afogado, que eram transformadas em trapos.

         Nesse momento, o braço direito de Torres, posto a descoberto, atraiu a atenção de Fragoso. Nesse braço, aparecia distintamente a cicatriz de uma antiga ferida, que devia ter sido feita por uma facada.

         —Essa cicatriz! — exclamou Fragoso. — Mas... é isso mesmo! ... Agora eu me lembro...

         —O quê? — perguntou Manoel.

         —Uma briga!... Foi! Uma briga que testemunhei na província do Madeira... há três anos! Como pude esquecer?... Esse Torres pertencia, então, à milícia dos capitães-do-mato. Ah! Eu sabia que já o havia visto, esse miserável!

         —Pouco importa, agora — disse Benito. — O estojo! O estojo! ... Ainda está com ele?

         E Benito foi rasgar o que restava das roupas do cadáver para revistá-las...

         Manoel impediu-o.

         —Um instante, Benito — disse ele.

         Em seguida, virando-se para os homens da jangada que não faziam parte dos empregados da família e cujo testemunho não poderia levantar suspeitas mais tarde, ele disse:

         —Prestem atenção, meus amigos, em tudo o que fazemos aqui, para que possam repetir diante dos magistrados como as coisas se pas saram.

         Os homens se aproximaram da piroga.

         Fragoso desenrolou o cinto que apertava o corpo de Torres sob o poncho rasgado e, tateando o bolso da japona, exclamou:

         —O estojo!

         Um grito de alegria escapou da boca de Benito. Ele foi pegar o estojo para abri-lo, para verificar o que continha...

         —Não — disse mais uma vez Manoel, que não perdia o sangue-frio. — Não pode ficar nenhuma dúvida na mente dos magistrados! Convém que testemunhas não envolvidas possam afirmar que o estojo estava mesmo no corpo de Torres!

         —Tem razão — afirmou Benito.

         —Meu amigo — continuou Manoel dirigindo-se ao contramestre da jangada —, reviste o senhor mesmo o bolso da japona.

         O contramestre obedeceu. Retirou um estojo de metal, cuja tampa estava hermeticamente aparafusada e que não parecia haver sofrido a ação da água.

         —O papel... O papel ainda está dentro dele? — perguntou Benito, que não conseguia se conter.

         —Cabe ao magistrado abrir o estojo — afirmou Manoel. — Cabe a ele verificar se há aí algum documento!

         —Sim... Sim... Você continua com a razão, Manoel! — disse Benito. — Para Manaus, meus amigos, para Manaus!

       Benito, Manoel, Fragoso e o contramestre, que segurava o estojo, embarcaram imediatamente numa das pirogas, e já começavam a se afastar, quando Fragoso disse:

         —E o corpo de Torres?

         A piroga parou.

         Na verdade, os índios já haviam jogado o cadáver do aventureiro de volta na água, e ele derivava na superfície do rio.

         —Torres não passava de um miserável — disse Benito. — Se lealmente arrisquei minha vida contra a dele, Deus o matou pelas minhas mãos, mas seu corpo não deve ficar sem sepultura!

         Foi dada uma ordem para que a segunda piroga fosse buscar o cadáver de Torres, e o transportasse para a margem onde seria enterrado.

         Porém, naquele momento, um bando de aves de rapina, que planava acima do rio, precipitou-se sobre o corpo que boiava. Eram urubus, uma espécie de pequenos abutres, de pescoço pelado, longas patas, pretos como os corvos, e que são de uma voracidade sem igual. O corpo retalhado pelos bicos deixou escapar os gases que o inchavam; com o aumento da densidade, ele foi afundando lentamente e, pela última vez, o que restava de Torres desapareceu sob as águas do Amazonas.

         Dez minutos depois, a piroga, rapidamente conduzida, chegava ao porto de Manaus. Benito e os companheiros desembarcaram e se lançaram pelas ruas da cidade.

         Em poucos minutos chegaram à casa do juiz Jarriquez e pediram a um dos empregados que perguntasse ao juiz se poderia fazer o favor de recebê-los imediatamente.

         O magistrado deu ordem para que fossem introduzidos no seu gabinete.

         Então, Manoel narrou tudo o que havia ocorrido, desde o momento em que Torres fora mortalmente atingido por Benito, num encontro leal, até o momento em que o estojo havia sido encontrado no cadáver e que o contramestre o tirara do bolso da japona.

         Embora esse relato corroborasse tudo o que lhe havia dito Joam Dacosta a respeito de Torres e da proposta que este lhe fizera, o juiz Jarriquez não pôde conter um sorriso de incredulidade.

         —Eis o estojo, senhor — disse Manoel. — Nem por um minuto ele ficou em nossas mãos e o homem que o entrega é o mesmo que o encontrou no corpo de Torres!

         O magistrado pegou o estojo, examinou-o com cuidado, virando-o e revirando-o como teria feito com um objeto precioso. Em seguida, agitou-o, e algumas moedas que estavam no interior produziram um som metálico.

         Será que o estojo não continha o documento tão procurado, o papel escrito pelo verdadeiro autor do crime e que Torres quisera vender por um preço indigno a Joam Dacosta? Será que a prova material da inocência do condenado estava irremediavelmente perdida?

 É fácil adivinhar a violenta emoção que havia tomado conta dos espectadores da cena. Benito mal conseguia proferir uma palavra, sentindo que o coração ia estourar.

         —Abra, senhor, abra esse estojo! — ele exclamou com a voz entrecortada.

       O juiz Jarriquez começou a desatarraxar a tampa; depois, quando a tampa foi retirada, virou o estojo, de onde saíram, rolando sobre a mesa, algumas moedas de ouro.

         —Mas, e o papel? ... O papel?... — exclamou mais uma vez Benito, que se segurava na mesa para não cair.

         O magistrado introduziu os dedos no estojo e dele retirou, não sem alguma dificuldade, um papel amarelado, dobrado cuidadosamente, e que a água parecia haver respeitado.

         —O documento! É o documento! — exclamou Fragoso. — É! É esse mesmo o papel que vi nas mãos de Torres!

         O juiz Jarriquez desdobrou o papel, deu uma olhada, depois virou-o de maneira a poder olhar frente e verso, cobertos com uma letra grosseira.

         —Um documento, de fato — ele disse. — Não há o que duvidar. É mesmo um documento!

         —Sim — replicou Benito —, e esse documento, é o que atesta a inocência do meu pai!

         —Não sei — retrucou o juiz Jarriquez —, e temo que seja difícil de saber!

         —Por quê?... — exclamou Benito, que ficou pálido como um morto.

         —Porque esse documento está escrito numa linguagem criptografada — respondeu o juiz Jarriquez —, e dessa linguagem...

         —E então?

         —Nós não temos a chave!

        

                                                                             O DOCUMENTO 

 

         De fato, era uma circunstância muito séria, que nem Joam Dacosta, nem os seus familiares previam. Na verdade — aqueles que não se esqueceram da primeira cena dessa história sabem disso — o documento estava escrito numa forma indecifrável, tirada de um dos inúmeros sistemas usados na criptologia.

         Mas qual?

         Para descobri-lo, toda a engenhosidade de que pode dar provas um cérebro humano precisaria ser empregada.

         Antes de se despedir de Benito e dos companheiros, o juiz Jarriquez mandou fazer uma cópia exata do documento, cujo original ele queria guardar, e entregou a cópia, devidamente cotejada com o original, aos dois rapazes, para que pudessem entregá-la ao prisioneiro.

         Em seguida, marcado um encontro para o dia seguinte, eles se retiraram e, não querendo atrasar nem um minuto para ver Joam Dacosta, foram imediatamente à prisão.

         Lá, numa rápida conversa que tiveram com o prisioneiro, contaram tudo o que havia ocorrido.

         Joam Dacosta pegou o documento e examinou-o atentamente. Em seguida, sacudindo a cabeça, entregou-o de volta ao filho.

          —Talvez — disse ele — nesse papel esteja a prova que eu nunca consegui! Mas se essa prova foge das minhas mãos, se toda a honestidade da minha vida passada não advoga a meu favor, não tenho mais nada a esperar da justiça dos homens e meu destino está nas mãos de Deus!

         Todos sabiam muito bem! Se o documento permanecesse indecifrável, a situação do condenado seria das piores!

         —Nós descobriremos, meu pai! — exclamou Benito. — Não há nenhum documento dessa espécie que resista a um exame! Tenha confiança... Sim, confiança! O Céu, miraculosamente, por assim dizer, entregou-nos esse documento que nos absolve e, depois de guiar nossas mãos para encontrá-lo, não se recusará a guiar nossa mente para lê-lo!

         Joam Dacosta apertou a mão de Benito e de Manoel; e os dois rapazes, muito emocionados, se retiraram para voltar diretamente para a jangada, onde Yaquita os aguardava.

         Lá chegando, Yaquita foi imediatamente posta a par dos incidentes que haviam ocorrido desde a véspera, o reaparecimento do corpo de Torres, a descoberta do documento e a estranha forma na qual o verdadeiro culpado do atentado, companheiro do aventureiro, acreditara ter de escrevê-lo — sem dúvida para que não o comprometesse, caso caísse em mãos estranhas.

         Naturalmente, Lina também foi instruída sobre a inesperada complicação e sobre a descoberta que Fragoso havia feito, de que Torres era um ex-capitão-do-mato, pertencente à milícia que operava no entorno da foz do Madeira.

         —Mas em que circunstâncias o senhor o encontrou? — perguntou a jovem mulata.

         —Durante uma das minhas peregrinações pela província do Amazonas — respondeu Fragoso —, quando eu ia de povoado em povoado para exercer minha profissão.

       —E a cicatriz?...

         —Eis o que aconteceu: um dia, eu chegava à missão de Aranas, no momento em que Torres, que eu nunca vira, brigava com um dos seus companheiros, desse mundo vilão, e a dita briga terminou com uma facada, que atravessou o braço do capitão-do-mato. Acontece que, na falta de um médico, fui encarregado de fazer o curativo, e foi assim que o conheci.

         —No fim das contas — replicou a jovem — de nada adianta saber quem foi Torres! Não foi ele o autor do crime e isso não vai fazer as coisas caminharem!

         —Não, sem dúvida — respondeu Fragoso —, mas acabaremos lendo esse documento, diabos! E a inocência de Joam Dacosta eclodirá aos olhos de todos!

         Era isso também o que esperavam Yaquita, Benito, Manoel e Minha. Então, os três, fechados na sala comum da casa, passaram longas horas tentando decifrar a biografia resumida.

         —Se essa era a esperança deles — é importante insistir nesse ponto —, também era, no mínimo, a do juiz Jarriquez.

         Depois de redigir o relatório que, em conseqüência do interrogatório, estabelecia a identidade de Joam Dacosta, o magistrado o despachara para a chancelaria e pensara que, no que lhe dizia respeito, o caso estava encerrado. Mas não seria assim.

         Na verdade, há que se dizer, desde a descoberta do documento, o juiz Jarriquez havia sido transportado para a sua especialidade. O pesquisador de combinações numéricas, aquele que resolvia problemas recreativos, o decifrador de charadas, de rébus, de logogrifos e outros mais, estavam, evidentemente, no seu verdadeiro elemento.

         Ora, ao pensar que talvez esse documento encerrasse a justificação de Joam Dacosta, ele sentiu despertar todos os seus instintos de analista! E eis que tinha diante de si um criptograma! Por isso, só pensava em encontrar o sentido desse documento. Quem o conhecia não tinha dúvidas de que ele trabalharia nisso, totalmente absorvido.

         Depois da partida dos rapazes, o juiz Jarriquez instalou-se no seu gabinete. A porta, que ninguém podia atravessar, garantia algumas horas de perfeita solidão. Os óculos estavam no nariz, a tabaqueira na mesa. Ele tomou uma posição confortável, a fim de desenvolver melhor as finezas e sagacidades do cérebro, pegou o documento e ficou absorvido numa meditação que logo deveria materializar-se sob a forma de monólogo. O digno magistrado era um desses homens bem francos, que pensam mais naturalmente em voz alta do que em voz baixa.

         —Vamos proceder com método — disse a si mesmo. — Sem método, não há lógica. Sem lógica, não há possibilidade de sucesso.

         Em seguida, pegando o documento, leu-o de ponta a ponta sem nada compreender.

         O documento incluía uma centena de linhas, divididas em seis parágrafos.

         —Hum! — fez o juiz Jarriquez, depois de refletir. — Querer entender cada parágrafo, um depois do outro, será perder inutilmente um tempo precioso. É preciso escolher uma única alínea, e escolher aquela que deve despertar maior interesse. Ora, qual delas tem essas condições, a não ser a última, em que deve estar necessariamente resumido o relato de todo o caso? Os nomes próprios podem me indicar o caminho, entre outros o de Joam Dacosta, e se ele está em alguma parte desse documento, não pode, evidentemente, faltar no último parágrafo.

         O raciocínio do magistrado era lógico. Certamente tinha razão em querer, primeiro, usar todos os recursos da sua mente de criptólogo no último parágrafo.

         Eis o parágrafo — porque é necessário pô-lo novamente diante do leitor, para mostrar como um analista usou suas faculdades para descobrir a verdade:

 

           Szgxedhhkxpdzxqxervrxgpgsvfnbpeqvjthhrcytdxvksbxs              

           gqytrpgcipvuygjtfsovfxdqretneslqhppixkipqeqqnuhh        

           hynoxihftjvhhlfohmuqifpmoqnurghpzpvizksuhivgntqer    

           gopdqgchpvyckskyxxcrfqyhetogiqcipdqrtzfvsygapp      

           mvgxbziohaofmrpfslsgcfepmqkyuuefcterhluzslyrfnbpe    

           qvnohrvgwhevunorspgaorqhtjbosuvjhd.

 

         Primeiramente, o juiz Jarriquez observou que as linhas do documento não eram divididas nem por palavras, nem por frases e que não havia pontuação. Essa circunstância Só podia tornar a leitura bem mais difícil.

          —Entretanto, vejamos — disse a si mesmo —, se algumas letras reunidas podem formar palavras... Entendo como palavras aquelas cujo número de consoantes em relação às vogais permite que sejam pronunciadas!... Para começar, vejo a palavra luz... Mais além a palavra uno... Nossa!... vuyg... Não seria uma cidade africana à beira do Tanganica? O que tem uma cidade a ver com tudo isso?... Mais além, a palavra pi. Será que é grego? Depois, vem pix... nur... nes...cip... sygap... evunor... zio... E, também, no... if... Bom! Aí são duas palavras em inglês!... Depois, nuh... oxi... Ora! Mais a palavra kyx...depois, a palavra eto!...

         O juiz Jarriquez deixou cair o documento e se pôs a refletir por alguns instantes.

         —Todas as palavras que distingui nessa leitura, feita sumariamente, são estranhas! — disse a si mesmo. — Na verdade nada indica a proveniência delas! Algumas parecem grego, outras têm aspecto de holandesas, estas aqui, um jeito de inglês, aquelas lá não parecem nada — sem contar que há uma série de consoantes que escapam a qualquer pronúncia humana! Decididamente não será fácil estabelecer a chave desse criptograma!

         Os dedos do magistrado começaram a batucar na mesa uma espécie de toque de alvorada, como se quisesse acordar suas faculdades adormecidas.

        —Primeiro — disse —, vamos ver quantas letras há nesse parágrafo.

         Ele contou, com o lápis na mão.

         —Duzentas e setenta e seis! — disse. — Bom, agora preciso determinar em que proporção as diversas letras estão unidas, umas em relação às outras.

         Essa conta foi um pouco mais difícil de fazer. O juiz Jarriquez havia pegado o documento; depois, com o lápis em mãos, anotou sucessivamente cada letra de acordo com a ordem alfabética. Um quarto de hora depois, havia obtido o seguinte quadro:

 

         —Ah! Ah! — fez o juiz Jarriquez. — Uma primeira observação me chama a atenção: é que neste parágrafo, todas as letras do alfabeto foram usadas! É bem estranho! Efetivamente, se pegarmos ao acaso, num livro, as linhas necessárias para conter duzentas e setenta e seis letras, é muito raro que todas as letras do alfabeto estejam aí presentes!

         Enfim, pode ser um simples efeito do acaso.

         Em seguida, passando para outra ordem de idéias:

         —      A questão mais importante é ver se as vogais têm uma pro porção normal em relação às consoantes.

         O magistrado pegou o lápis, deduziu as vogais e obteve o seguinte cálculo:

 

                                    a = 3 vezes 

                                   e = 13 

                                    i = 10 

                                   0 = 12 

                                   U = 10 

                                   Total  48 vogais 

 

         —Então — ele disse —, feita a subtração, há nesta alínea quarenta e oito vogais, contra duzentos e vinte e sete consoantes! Bom, mas é a proporção normal, isto é, quase em torno de um quinto, como no alfabeto, em que contamos seis vogais em vinte e cinco letras. Então, é possível que esse documento tenha sido escrito na língua do nosso país, mas que o significado de cada letra tenha sido mudado. Ora, se ele foi modificado com regularidade, se um b é sempre representado por um l, por exemplo, um o por um v, um g por um k, um u por um r etc, quero perder meu lugar de juiz em Manaus se não conseguir ler este documento! E o que tenho a fazer a não ser proceder de acordo com o método desse grande gênio analítico chamado Edgar Poe?

         O juiz Jarriquez fazia alusão ao conto do famoso romancista americano, que é uma obra-prima. Quem não leu o "Escaravelho de ouro"?

         Nessa história, um criptograma, composto ao mesmo tempo por números, letras, sinais algébricos, asteriscos e ponto-e-vírgulas, é submetido a um verdadeiro método matemático e é decifrado em condições extraordinárias, que os admiradores dessa mente singular não podem ter esquecido.

         É verdade que da leitura do documento americano Só dependia a descoberta de um tesouro, enquanto no caso presente se tratava da vida e da honra de um homem! Havia, portanto, um interesse muito maior em adivinhar a cifra.

         O magistrado, que havia lido e relido muitas vezes o "Escaravelho de ouro", conhecia bem o processo de análise minuciosamente empregado por Edgar Poe e resolveu usá-lo nessa ocasião. Ao usá-lo, ele estava certo, como havia dito, que se o valor ou o significado de cada letra fosse constante, conseguiria, num tempo mais ou menos longo, ler o documento relacionado a Joam Dacosta.

         —O que fez Edgar Poe? — ele repetia para si mesmo. — Antes de tudo, começou procurando qual era o signo, aqui Só há letras, diga mos então, a letra, que é reproduzida mais vezes no criptograma. Ora, eu vejo que é a letra h, pois ela é encontrada vinte e duas vezes. Só essa enorme proporção basta para dar a entender que a priori o h não significa h, e sim, ao contrário, o h deve representar a letra que encontramos mais freqüentemente na nossa língua, pois é de se supor que o documento tenha sido escrito em português. Em inglês, em francês, seria e, sem dúvida; em italiano seria i ou a; em português é a ou o. Portanto, vamos admitir, salvo modificações posteriores, que o h signifique a ou o. Feito isso, o juiz Jarriquez procurou qual era a letra que, depois do h, figurava um maior número de vezes no documento. Então, ele foi levado a formar o seguinte quadro:

 

                              h = 22 vezes 

                             p = 20”

                             q = 18"

                           Pg = 3"

                             gc = 3' 

 

         — Então, a letra a é encontrada somente três vezes — exclamou o magistrado —, ela que devia ser encontrada mais constantemente! Ah! Isso prova largamente que o seu significado foi mudado! Agora, depois do a ou do o, quais são as letras que figuram mais freqüentemente na nossa língua? Vamos procurar.

         E o juiz Jarriquez, com uma sagacidade verdadeiramente notável, que mostrava ter ele uma mente observadora, lançou-se nessa nova pesquisa. Nisso, ele Só fazia imitar o romancista americano que, por simples indução ou comparação, como grande analista que era, pôde reconstituir um alfabeto correspondente aos sinais do criptograma e, em seguida, conseguir ler correntemente o documento.

         Assim fez o magistrado, e podemos afirmar que não se mostrou inferior ao ilustre mestre. De tanto "trabalhar" com logogrifos, palavras quadradas, palavras retangulares e outros enigmas, que repousam numa disposição arbitrária das letras, e de estar habituado, seja de cabeça, seja por escrito, a encontrar a solução, ele já era um perito em charadas.

         Nessa ocasião, não teve dificuldade para estabelecer a ordem na qual as letras se reproduziam mais vezes, primeiro as vogais, depois as consoantes. Três horas depois de começado o trabalho, tinha debaixo dos olhos um alfabeto que, se o seu procedimento estivesse certo, deveria dar o verdadeiro significado das letras usadas no documento.

         Só precisava aplicar sucessivamente as letras desse alfabeto às da carta.

         Porém, antes de aplicá-las, o juiz Jarriquez ficou um pouco emocionado. Estava tomado por esse gozo intelectual — bem maior do que se pensa — do homem que, depois de várias horas de trabalho obstinado, verá aparecer o sentido tão impacientemente procurado de um logogrifo.

         —Vamos tentar — ele disse. — Na verdade, ficaria muito surpreso se não conseguisse dominar a palavra-chave do enigma!

         O juiz Jarriquez retirou os óculos, limpou as lentes, embaçadas pelo vapor dos olhos, e colocou-os de volta no nariz; depois, curvou-se novamente sobre a mesa.

         Com o seu alfabeto especial numa mão e o documento na outra, começou a escrever, embaixo da primeira linha do parágrafo, as letras verdadeiras que, segundo ele, deviam corresponder exatamente a cada letra criptografada.

         Depois da primeira linha, ele fez o mesmo com a segunda, depois com a terceira, depois com a quarta e, assim, chegou ao fim da alínea.

         Incrível! Ele nem mesmo quis ver, enquanto escrevia, se essa reunião de letras formava palavras compreensíveis. Não! Durante esse primeiro trabalho, sua mente se recusara a fazer qualquer verificação desse tipo. O que ele queria, era dar a si mesmo o prazer de ler de uma Só vez e de um Só fôlego.

         Ficou pronto:

         —Vamos ler! — exclamou.

         E leu.

         — Que cacofonia, meu Deus! As linhas que havia formado com as letras do seu alfabeto não tinham mais sentido do que as do documento! Era uma outra série de letras, e Só. Não formavam nenhuma palavra, não tinham nenhum valor! Em resumo, era igualmente hieroglífica!

         —Com todos os diabos! — exclamou o juiz Jarriquez.

 

                                              QUANDO O PROBLEMA É A CIFRA 

 

         Eram sete horas da noite. O juiz Jarriquez, ainda absorvido nesse trabalho de quebra-cabeças — sem ter conseguido nenhum avanço — havia esquecido completamente da hora da refeição e da hora do repouso, quando bateram na porta do seu gabinete.

        Já não era sem tempo. Uma hora a mais e toda a substância cerebral do exasperado magistrado certamente teria derretido com o intenso calor que se desprendia da sua cabeça!

         À ordem para entrar, dada com uma voz impaciente, a porta se abriu e Manoel se apresentou.

         O jovem médico havia deixado os amigos à bordo da jangada, às voltas com o indecifrável documento, e viera visitar o juiz Jarriquez. Queria saber se o juiz havia sido mais feliz na pesquisa. Viera perguntar se, finalmente, havia descoberto o sistema no qual se baseava o criptograma.

         O magistrado não ficou aborrecido ao ver Manoel chegar. Estava naquele grau de superexcitação do cérebro que a solidão exaspera. Alguém com quem falar, era tudo de que precisava, sobretudo se o interlocutor se mostrasse tão desejoso quanto ele de descobrir o mistério. Manoel era, portanto, o seu homem.

         —Senhor — disse Manoel ao entrar —, uma primeira pergunta. Teve mais sucesso do que nós?...

         —Sente-se, primeiro! — exclamou o juiz Jarriquez, que se levantou e começou a percorrer a gabinete a passos largos. — Sente-se! Se ficássemos os dois de pé, o senhor andaria num sentido, eu no outro, e o gabinete seria muito pequeno para nós!

         Manoel sentou-se e repetiu a pergunta.

         —Não!... Não fui mais feliz! — respondeu o magistrado. — Não sei nada além sobre ele. Nada posso lhe dizer, a não ser que tenho uma certeza!

         —Qual, senhor?

         —Que o documento é baseado não em signos convencionais, mas no que chamamos de "cifra" em criptologia ou, melhor dizendo, num número!

         —Bom, senhor — respondeu Manoel —, não se pode ler um documento desse tipo?

         —Sim — disse o juiz Jarriquez —, sim, quando uma letra é invariavelmente representada pela mesma letra, quando um a, por exemplo, é sempre um p, quando um p é sempre um x... Senão.. .não!

         —E nesse documento?

         —Nesse documento, o valor da letra muda de acordo com a cifra, tomada arbitrariamente, que o comanda! Assim, um b, que foi representado por um k, poderá ser mais tarde um z, mais tarde um m, ou um n, ou um f, ou outra letra completamente diferente!

         —E nesse caso?

         —Nesse caso, lamento dizer que o criptograma é absolutamente indecifrável!

         —Indecifrável! — exclamou Manoel. — Não, senhor, acabaremos encontrando a chave desse documento do qual depende a vida de um homem!

         Manoel levantou-se, tomado de uma agitação que não podia controlar. A resposta que acabara de receber era tão desesperadora que se recusava a aceitá-la como definitiva.

         Entretanto, a um gesto do magistrado, ele voltou a sentar-se e perguntou com uma voz mais calma:

         —Em primeiro lugar, senhor, o que o faz pensar que o código desse documento é uma cifra, ou, como o senhor mesmo disse, um número?

         —Ouça, meu rapaz — respondeu o juiz Jarriquez —, e será obrigado a se render às evidências!

         O magistrado pegou o documento e o pôs diante dos olhos de Manoel, ao lado do trabalho que havia feito.

         —Eu comecei — ele disse — por tratar o documento como devia ser feito, ou seja, logicamente, não deixando nada ao acaso, o que quer dizer que, pela aplicação de um alfabeto baseado na proporcionalidade das letras mais usuais da nossa língua, procurei conseguir lê-lo de acordo com os preceitos do nosso imortal analista Edgar Poe!... Bom, o que o fez ter sucesso, fracassou comigo!...

         —Fracassou! — exclamou Manoel.

         —Sim, rapaz, e eu deveria ter percebido logo que o sucesso, tentado dessa maneira, não seria possível! Na verdade, uma outra pessoa mais treinada do que eu não se teria enganado!...

         —Meu Deus! — disse Manoel. — Eu queria compreender e não posso...

         —Pegue o documento — continuou o juiz Jarriquez —, Só se preocupe em observar a disposição das letras, e releia-o por inteiro.

         Manoel obedeceu.

         —O senhor não vê nada estranho na união de certas letras? — perguntou o magistrado.

         —Não vejo nada — respondeu Manoel, depois de percorrer com os olhos, pela centésima vez, as linhas do documento.

         —Bom, limite-se a estudar o último parágrafo. Esse, o senhor compreende, deve ser o resumo de toda a carta. Não vê nada de anormal?

         —Nada.

         —No entanto, há um detalhe que prova da maneira mais absoluta que o documento é submetido à lei de um número.

         —E qual é?... — perguntou Manoel.

         —É, ou melhor, são dois h que vemos justapostos em três lugares diferentes!

         O que o juiz dizia era verdade e era capaz de chamar a atenção. De um lado, a sétima e a oitava, a trigésima quinta e a trigésima sexta letras da alínea, do outro, a nonagésima sexta e a nonagésima sétima letras eram h colocados consecutivamente. Essa era a particularidade que não havia chamado a atenção do magistrado logo de início.

         —E o que isso prova?... — perguntou Manoel, sem adivinhar que dedução devia tirar dessa reunião.

         —Isso prova simplesmente, rapaz, que o documento está baseado no código de um número! Isso demonstra a priori que cada letra é modificada em virtude do algarismo desse número e de acordo com o lugar que ocupa!

         —E por quê? 22

         —Porque em nenhuma linguagem há palavras que comportem a duplicidade da letra h.

         Manoel percebeu o argumento, refletiu sobre ele e, em resumo, não achou nada para responder.

         —E se eu houvesse observado isso antes — continuou o magistrado — teria poupado a mim mesmo bastante trabalho e um começo de enxaqueca que está pegando desde o sincipúcio até o occipúcio!

         —Mas, afinal, senhor — perguntou Manoel, que sentia se esvair a pouca esperança a que ainda tentava se prender —, o que entende por cifra?

         —É melhor dizer um número!

         —Um número, como queira.

         —Eis um exemplo que o fará compreender melhor do que qualquer explicação!

         —O juiz Jarriquez sentou-se à mesa, pegou uma folha de papel, um lápis e disse:

         —Senhor Manoel, vamos escolher uma frase, ao acaso, a primeira que vier à cabeça, essa, por exemplo:

         —Nosso juiz Jarriquez é dotado de uma mente engenhosa.

         — Vou escrever essa frase de modo a espaçar as letras e obter essa linha:

         Nossojuizjarriquezédotadodeumamenteengenhosa

         Feito isso, o magistrado — a quem, sem dúvida, essa frase parecia conter uma dessas proposições que não se pode contestar — olhou Manoel bem de frente, dizendo:

         — Suponhamos, agora, que eu pegue um numero ao acaso, para dar a essa sucessão natural de palavras uma forma criptográfica. Suponhamos também que esse número seja composto de três algarismos e que esses algarismos sejam 4,2 e 3. Eu disponho o dito número 423 embaixo da linha acima, repetindo-o quantas vezes for necessário até chegar ao fim da frase, e de modo a que cada algarismo fique debaixo de cada letra. Eis o que resulta:

Nossojuizjarriquezédotadodeumamenteengenhosa                                     4234234234234234234234234234234234234234234234 

         —Bom senhor Manoel, ao substituir cada letra pela letra que ela ocupa em ordem alfabética descendente segundo o valor do número, obtenho o seguinte:

 

                             n menos 4 igual a r

                             o - 2 = q

                             s - 3 = v 

                             s - 4 = x 

                             o - 2 = q 

                              j - 3 = m 

                               i - 2 = k 

                               z - 3 = c   e assim por diante.

        

         "Se, pelo valor dos algarismos que compõem o número em questão, eu chegar ao fim do alfabeto sem ter letras suficientes para deduzir, eu volto para o começo. É o que acontece com a última letra do meu sobrenome, o z, abaixo do qual foi colocado o algarismo 3. Ora, como depois do z o alfabeto não tem mais letras, eu recomeço a contar, retomando do a, e nesse caso:

 

                             z menos 3 igual a c.

 

         "Dito isso, quando levo até o fim o sistema criptográfico, comandado pelo número 423 — que foi escolhido arbitrariamente, não se esqueça! — a frase que o senhor viu é substituída por:

         rqvxq mzkc ncuvktzgc i frycgs fh zod qgqyg hrihrjrxc: 

         "Ora, rapaz, examine bem essa frase, ela não tem exatamente o aspecto das frases do documento em questão? Bom, e o que resulta disso? É que se o significado da letra é dado pelo algarismo que o acaso colocou embaixo dela, a letra criptográfica que corresponde à verdadeira não pode ser sempre a mesma. Assim, nessa frase, o primeiro e está representado por um g, mas o segundo, por um i, o terceiro, por um h, o quarto, por um g; um m corresponde ao primeiro; e um n, ao segundo; quanto aos dois r do meu sobrenome, um deles é representado por um u, o segundo, por um v; a vogai da palavra que inicia a frase vira um q, e o primeiro o da palavra dotado passa a ser um r, sendo que o segundo é representado por um s. O senhor está vendo que se não conhecêssemos o número 423, nunca conseguiríamos ler essas linhas e que, como desconhecemos o número que serviu de código para o documento, ele continuará indecifrável!”

         Ao ouvir o magistrado raciocinar com uma lógica tão rigorosa, inicialmente Manoel ficou abatido; mas erguendo a cabeça, disse:

         —Não, não senhor! Não vou perder a esperança de descobrir esse número!

         —Talvez fosse possível — respondeu o juiz Jarriquez — se as linhas do documento fossem divididas em palavras!

         —Por quê?

         —Eis o meu raciocínio, rapaz. Podemos afirmar com toda a segurança, que o último parágrafo do documento deve resumir tudo o que foi escrito nos parágrafos anteriores. Portanto, tenho certeza de que o nome de Joam Dacosta está ali. Bom, se as linhas fossem divididas por palavras, fazendo uma tentativa em todas — eu digo as palavras compostas de sete letras como o sobrenome Dacosta — não seria impossível reconstituir o número que é a chave do documento.

         —Queira explicar-me como proceder, senhor — pediu Manoel, que via talvez luzir uma última esperança.

         —Nada mais simples — respondeu o juiz Jarriquez. — Vamos pegar, por exemplo, uma das palavras da frase que escrevi; meu nome, se quiser. Ele é representado no criptograma por essa estranha sucessão de letras: ncuvktzgc. Bom, se dispusermos essas letras numa coluna vertical, em seguida colocarmos em frente às letras do meu nome, e subirmos na ordem alfabética, terei a seguinte fórmula:

 

                               Entre n e j contamos 4 letras.

                               c - a 2   

                                u - r 3

                               v - r 4

                               k - i 2

                               t - q 3

                               z - u   4    

                              g - e 2 

                               c - z 3

 

         — Ora, como é composta a coluna dos algarismos encontrados nessa simples operação? O senhor pode ver! Os algarismos 423423423 etc, ou seja, o número 423, várias vezes repetido.

         —É! Isso mesmo! — respondeu Manoel.

         —O senhor compreende então que, por esse método, subindo na ordem alfabética da falsa letra para a letra verdadeira, em vez de descer da verdadeira para a falsa, pude reconstituir facilmente o número e o número procurado é, de fato, 423, que foi escolhido como chave do meu criptograma!

         — Bom, senhor! — exclamou Manoel —, se assim for, e se o nome Dacosta estiver neste último parágrafo, ao pegar sucessivamente cada letra destas linhas, como a primeira das sete letras que compõem esse nome, poderemos chegar...

         — Isso seria possível, de fato — respondeu o juiz Jarriquez, mas há uma condição!

         — Qual?

         — Que o primeiro algarismo do número caia exatamente na primeira letra da palavra Dacosta, e há de concordar comigo que não há a menor probabilidade!

         — É verdade! — respondeu Manoel que, diante da improbabilidade, sentia a última chance escapar.

         — Será preciso, portanto, basear-se apenas no acaso — continuou o juiz Jarriquez, sacudindo a cabeça —, e o acaso não deve intervir em pesquisas desse gênero!

         — Mas, enfim — disse Manoel —, o acaso não poderia nos dar esse número?

         —Esse número — exclamou o magistrado —, esse número! Mas de quantos algarismos ele é composto? De dois, de três, de quatro, de nove, de dez? Esse número é formado de algarismos diferentes ou de algarismos várias vezes repetidos? Sabe muito bem, rapaz, que com os dez algarismos, se usarmos todos, sem nenhuma repetição, podemos formar três milhões, duzentos e sessenta e oito mil e cem números diferentes, e que se vários algarismos fossem repetidos, esses milhões de combinações aumentariam ainda mais? E sabia que se usar apenas um minuto, dos quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos que compõem o ano, para tentar cada um desses números, seriam necessários mais de seis anos, e que levaria mais de três séculos, se cada operação exigisse uma hora? Não! O senhor está querendo o impossível!

         — O impossível, senhor — respondeu Manoel —, é que um justo seja condenado, é que Joam Dacosta perca a vida e a honra, quando o senhor tem nas mãos a prova material da inocência dele! Isso é que é impossível!

         —Ah, meu rapaz! — exclamou o juiz Jarriquez —, quem lhe diz, no final das contas, que esse Torres não mentiu, que tinha realmente nas mãos um documento escrito pelo autor do crime, que esse papel é o documento, e que ele tem relação com Joam Dacosta?

         —Quem me diz!... — repetiu Manoel.

         E cobriu o rosto com as mãos.

         Na verdade, nada provava com absoluta certeza que o documento tinha relação com o caso do arraial diamantinense. Nada dizia que tinha algum sentido, e que não havia sido criado pelo próprio Torres, bem mais capaz de querer vender um papel falso do que um verdadeiro!

         —Pouco importa, senhor Manoel — voltou a falar o juiz Jarriquez, levantando-se —, pouco importa! Qualquer que seja o caso ao qual este documento esteja relacionado, não vou desistir de descobrir a cifra! Afinal, isso equivale a um logogrifo ou a um rébus!

         Depois dessas palavras, Manoel se levantou, saudou o magistrado e voltou para a jangada, mais desesperado na volta do que estava na ida.

          

                                                              HAJA O QUE HOUVER!

 

         Entretanto, uma reviravolta completa ocorreu na opinião pública a respeito do condenado Joam Dacosta. À fúria, sucedeu a comiseração. A população não ia mais à prisão de Manaus para dar gritos de morte contra o prisioneiro. Pelo contrário! Os mais implacáveis ao acusá-lo de ser o autor principal do crime de Tijuco agora proclamavam que não era o culpado e reclamavam a sua imediata libertação: assim caminham as multidões — de um exagero ao outro.

         Essa reviravolta era compreensível.

         Os acontecimentos dos dois últimos dias, o duelo entre Benito e Torres, a busca do cadáver que reapareceu em circunstâncias tão extraordinárias, a descoberta do documento, a "indecifrabilidade", se assim podemos dizer, das linhas nele contidas, a certeza que se tinha, ou que se queria ter, de que a carta encerrava a prova material da não-culpabilidade de Joam Dacosta, uma vez que vinha do verdadeiro culpado, tudo isso havia contribuído para operar a mudança na opinião pública. O que se desejava, o que se pedia impacientemente quarenta e oito horas antes, agora se receava: a chegada das instruções que seriam expedidas do Rio de Janeiro.

         No entanto, elas não tardariam.

         Na verdade, Joam Dacosta havia sido preso no dia 24 de agosto e interrogado no dia seguinte. O relatório do juiz fora expedido no dia 26. Estávamos no dia 28. Em três ou quatro dias, no máximo, o ministro tomaria uma decisão em relação ao condenado, e era mais do que certo que "a justiça seguiria o seu curso"!

         É! Todos tinham certeza de que assim seria! E, no entanto, que a prova da inocência de Joam Dacosta estivesse nesse documento, ninguém duvidava, nem a sua família, nem toda a volúvel população de Manaus, que seguia com paixão as fases desse caso dramático.

         Porém, de fora, aos olhos de observadores desinteressados ou indiferentes que não estivessem sob a pressão dos acontecimentos, que valor poderia ter esse documento, e como afirmar que se referia ao atentado do arraial diamantinense? Que ele existia, era incontestável. Fora encontrado no cadáver de Torres. Nada mais certo. Podia-se até garantir, ao compará-lo com a carta de Torres que denunciava Joam Dacosta, que o documento não havia sido escrito pelo aventureiro. No entanto, como dissera o juiz Jarriquez, por que esse miserável não poderia tê-lo mandado fazer objetivando uma chantagem? E podia ser isso mesmo, ainda mais porque Torres só pretendia entregá-lo após o casamento com a filha de Joam Dacosta, isto é, quando não fosse mais possível voltar atrás depois de o fato consumado.

         Todas essas teses podiam ser sustentadas de ambas as partes, e compreendemos por que esse caso devia despertar as maiores paixões. De qualquer forma, certamente, a situação de Joam Dacosta era das mais arriscadas. Enquanto o documento não fosse decifrado era como se não existisse, e se o seu segredo criptográfico não fosse miraculosamente descoberto ou revelado antes de três dias, antes de três dias o castigo supremo atingiria irreparavelmente o condenado de Tijuco.

         Bem, esse milagre, um homem pretendia realizar! Esse homem era o juiz Jarriquez, e agora ele trabalhava mais no interesse de Joam Dacosta do que pela satisfação de seus talentos analíticos. Sim! Uma reviravolta ocorrera na sua cabeça. Esse homem que abandonara voluntariamente seu retiro em Iquitos, que viera, com o risco da própria vida, pedir a reabilitação à justiça brasileira, era um enigma que valia por muitos outros! Por isso, o magistrado não deixaria de lado o documento enquanto não descobrisse a cifra. E ele se empenhava! Não comia e não dormia mais. Passava todo o tempo combinando números, tentando forjar uma chave para abrir essa fechadura!

         No fim do primeiro dia, essa idéia já virará uma obsessão na mente do juiz Jarriquez. Uma fúria, mal contida, fervia nele, permanentemente. Os empregados, pretos ou brancos, não ousavam lhe falar. Felizmente, era solteiro, senão uma senhora Jarriquez passaria algumas horas desagradáveis. Nunca um problema deixara esse homem original tão apaixonado, e estava decidido a continuar procurando a solução, enquanto sua cabeça não explodisse como uma caldeira quente demais por causa da tensão dos vapores.

         Agora, o digno magistrado estava totalmente convencido de que a chave do documento era um número, composto de dois ou mais algarismos, mas que todas as deduções pareciam ineficazes para descobrir esse número, No entanto, foi isso que fez o juiz Jarriquez com verdadeiro furor, e foi nesse trabalho sobre-humano que, durante o dia 28 de agosto inteiro, ele aplicou toda a sua capacidade.

         Procurar esse número ao acaso era, ele havia dito, querer perder-se em milhões de combinações que absorveriam mais do que toda uma vida de um calculador de primeira ordem. Porém, se absolutamente não se podia contar com o acaso, seria possível usar o raciocínio? Não, sem dúvida, e foi a "raciocinar até a irracionalidade" que o juiz Jarriquez se entregou inteiramente, depois de buscar, em vão, o descanso em algumas horas de sono.

         Se alguém conseguisse chegar até ele naquele momento, após enfrentar as defesas formais que deviam proteger sua solidão, tê-lo-ia encontrado, como na véspera, no gabinete de trabalho, diante da mesa, os olhos no documento com seus milhares de letras embaralhadas que pareciam esvoaçar em torno da sua cabeça.

         — Ah! — exclamou. — Por que esse miserável que o escreveu, quem quer que seja, não separou as palavras deste parágrafo? Poderia... tentaria... Mas não! E no entanto, se este documento trata realmente do caso de assassinato e de roubo, não é possível que certas palavras não estejam aqui, palavras como arraial diamantes, Tijuco, Dacosta e outras, que eu saiba! E se eu as dispusesse diante de suas equivalentes criptológicas, poderia reconstituir o número! Mas nada! Nem uma única separação! Uma palavra, apenas uma!... Uma palavra de duzentas e setenta e seis letras!... Ah! Que seja duzentas e setenta e seis vezes maldito o patife que desgraçadamente complicou este sistema! Só por isso, merecia a forca duzentas e setenta e seis vezes!

         Um soco violento, dado no documento, acentuou esse desejo pouco caridoso.

         — Mas, enfim — continuou o magistrado —, se não posso procurar uma dessas palavras em todo o corpo do documento, será que não poderia, ao menos, tentar descobri-la no começo ou no fim de cada parágrafo? Talvez haja uma possibilidade que não deve ser desprezada.

         E deixando-se levar por essa dedução, o juiz Jarriquez tentou ver sucessivamente se as letras que começavam ou terminavam as diversas alíneas do documento poderiam corresponder às que formavam a palavra mais importante, aquela que, necessariamente, deveria estar em algum lugar — a palavra Dacosta.

         Em vão.

         Efetivamente, para falar Só do último parágrafo e das sete letras que o começavam, a fórmula foi a seguinte:

 

                       S = D

                       z = a

                       g = c

                       x = o

                       e = s

                       d = t

                        h = a 

 

         Ora, desde a primeira letra, o juiz Jarriquez foi interrompido nos seus cálculos, pois a distância entre s e d na ordem alfabética era não de um algarismo, mas dois, ou seja, quinze, e, nesse tipo de criptograma, uma letra evidentemente Só pode ser modificada por um algarismo.

         A mesma coisa ocorreu com as sete últimas letras do parágrafo osuvjhd, cuja série começava por o, que de forma alguma podia representar o d de Dacosta, pois eram separados por onze letras.

         Portanto, esse nome não estava ali.

         A mesma observação foi feita para as palavras arraial e Tijuco, que foram sucessivamente testadas e cuja formação também não correspondia à série das letras criptográficas.

         Depois desse trabalho, com a cabeça cansada, o juiz Jarriquez se levantou, percorreu o gabinete a passos largos, tomou ar na janela, soltou uma espécie de rugido, cujo ruído provocou uma revoada de colibris que chilreavam nas folhagens de uma mimosa, e voltou ao documento.

         Tornou a pegá-lo, virou-o e revirou-o.

         —Patife! Tratante! — resmungou o juiz Jarriquez. — Ele vai acabar me deixando louco! Mas, alto lá! Calma! Não vamos perder o controle! Este não é o momento!

         Em seguida, depois de refrescar a cabeça com uma ablução de água fria, disse:

         —Vamos tentar outra coisa e, já que não consegui deduzir o número da disposição destas malditas letras, vejamos que número o autor deste documento pode haver escolhido, admitindo que ele seja, também, o autor do crime de Tijuco!

         Era outro método de dedução ao qual o magistrado ia entregar-se, e talvez tivesse razão, porque esse método não deixava de ter uma certa lógica.

         —Primeiro — disse ele —, vamos tentar o milhar! Por que esse malfeitor não escolheria o milhar do ano em que Joam Dacosta nasceu, esse inocente que deixava ser condenado no seu lugar — nem que fosse para não esquecer um número tão importante para ele? Ora, Joam Dacosta nasceu em 1804. Vejamos o que acontece se pegarmos 1804 co mo número criptológico!

         E o juiz Jarriquez, escrevendo as primeiras letras do parágrafo, pondo em cima o número 1804, que ele repetiu três vezes, obteve essa nova fórmula:

 

                          1804 1804 1804

                         szgx edhh kxpd 

 

         Em seguida, subindo na ordem alfabética tanto quanto comportava o valor do algarismo, obteve a série seguinte:

         Rqgs d.hd jop.

         O que não significava nada! E ainda lhe faltavam duas letras que precisara substituir por um ponto, porque os algarismos oito e quatro, que comandavam as duas letras d, não tinham letras correspondentes ao subir na série alfabética.

         —Ainda não é este! — exclamou o juiz Jarriquez. — Vamos tentar um outro número!

         E ele se perguntou se, em vez desse milhar, o autor do documento não teria escolhido o milhar do ano no qual o crime fora cometido. Ora, havia sido em 1826. Portanto, procedendo como fizera acima, ele obteve a fórmula:

        

                            1826 1826 1826

                           szgx edhh   kxpd 

 

         O que deu:

 

                           rqeq d.fb jon.

 

         Uma mesma série sem significado, que não apresentava nenhum sentido, várias letras faltando, como na fórmula precedente e por razões semelhantes.

         —Maldito número! — exclamou o magistrado. — Também preciso desistir deste. Vamos a outro! Esse patife teria escolhido o número de contos de réis que representava o produto do roubo?

         —Ora, o valor dos diamantes roubados havia sido estimado em oitocentos e trinta e quatro contos. A fórmula foi estabelecida:

 

                           834 834 834 834

                           szg xed hhk xpd 

 

         O que deu um resultado tão pouco satisfatório quanto os outros:

 

                             kvc ob..eg om.

 

         —Ao diabo o documento e quem o imaginou! — exclamou o juiz Jarriquez jogando o papel, que voou até o outro lado do gabinete. — Até um santo perderia a paciência e seria amaldiçoado!

         Porém, passado o momento de raiva, o magistrado, que não queria passar vergonha, voltou a pegar o documento. O que fizera com as primeiras letras dos diversos parágrafos, voltou a fazer com as últimas — inutilmente. Em seguida, tudo o que lhe fornecia a imaginação superexcitada, ele tentava. Sucessivamente foram tentados os números que representavam a idade de Joam Dacosta, que o autor do crime devia conhecer bem, a data da prisão, a data da condenação pronunciada pelo tribunal de Vila Rica, a data fixada para a execução etc. etc, até mesmo o número de vítimas do atentado de Tijuco!

         Nada! Ainda nada!

         O juiz Jarriquez estava num estado de exasperação tal, que se podia realmente temer pelo equilíbrio das suas faculdades mentais. Ele se agitava, se debatia, lutava como se enfrentasse um adversário no corpo-a-corpo! Depois, disse de repente:

         —Ao acaso, e que Deus me ajude, já que a lógica é ineficaz!

         Ele pegou o cordão de uma campainha pendurado ao lado da sua mesa de trabalho. A campainha ressoou violentamente, e o magistrado foi até a porta e abriu-a:

         —Bobo! — ele gritou.

         Alguns minutos se passaram.

         Bobo, um negro alforriado que era o empregado preferido do juiz Jarriquez, não aparecia. Era evidente que Bobo não ousava entrar no gabinete do patrão.

         Novo toque da campainha! Novo chamado a Bobo que, no próprio interesse, achava melhor se fazer de surdo num momento como esse!

         Finalmente, no terceiro toque, a campainha desmontou e o cordão se rompeu. Dessa vez, Bobo apareceu.

         —O que deseja de mim, meu patrão? — perguntou Bobo, se mantendo prudentemente no limiar da porta.

         —Entre, sem dizer uma única palavra! — respondeu o magistrado, cujo olhar inflamado fez o negro tremer.

         Bobo avançou.

         —Bobo — disse o juiz Jarriquez —, preste bastante atenção no pedido que vou fazer e responda imediatamente, sem demorar para pensar, senão eu...

         —Bobo, embaraçado, com os olhos fixos, a boca aberta, juntou os pés na posição de soldado sem armas e esperou.

         —Você entendeu? — perguntou o patrão.

         —Entendi.

         —Atenção! Diga, sem pensar, o primeiro número que lhe vier à cabeça!

         —Setenta e seis mil, duzentos e vinte e três — respondeu Bobo, de uma só vez.

         Sem dúvida, Bobo havia pensado que agradaria o patrão, respondendo com um número bem alto.

         O juiz Jarriquez correu até a sua mesa e, com o lápis na mão, montara a fórmula com o número indicado por Bobo — que era apenas um intérprete do acaso, nessas circunstâncias.

         Podemos compreender que seria totalmente impossível que o número setenta e seis mil, duzentos e vinte e três fosse exatamente aquele que servia de chave para o documento.

         O único resultado que conseguiu foi levar aos lábios do juiz Jarriquez uma blasfêmia tão forte que Bobo se apressou a escapulir o mais rápido possível.

        

                                                                  ÚLTIMOS ESFORÇOS 

 

         Entretanto, o magistrado não era o único a se consumir em esforços estéreis. Benito, Manoel e Minha se haviam reunido num trabalho comum para tentar arrancar do documento o segredo do qual dependia a vida e a honra do seu pai. Do seu lado, Fragoso, ajudado por Lina, não quisera ficar para trás; mas com toda a engenhosidade não tiveram sucesso e o número ainda não havia sido descoberto.

         —Encontre, vamos, Fragoso! — repetia sem parar a jovem mulata. — Encontre!

         —Eu vou encontrar! — respondia Fragoso.

         Mas não encontrava!

         No entanto, é preciso dizer que Fragoso pensara em executar um projeto do qual não queria falar nem mesmo com Lina, projeto esse que passara pela sua cabeça também obcecada: ir em busca da milícia à qual pertencera o ex-capitão-do-mato e descobrir quem poderia ter sido o autor do documento cifrado, que havia confessado ser o culpado do atentado de Tijuco. Ora, a parte do Amazonas na qual atuava essa milícia, o lugar onde Fragoso a encontrara alguns anos antes, a circunscrição a que ela pertencia, não ficava muito longe de Manaus. Bastava descer o rio umas cinqüenta milhas, em direção à foz do Madeira, afluente da margem direita, e lá, sem dúvida, encontraria os chefes dos "capitães-do-mato", que tivera Torres entre seus companheiros. Em dois dias, três dias no máximo, Fragoso poderia encontrar os ex-colegas do aventureiro.

         — Sim, sem dúvida eu posso fazer isso — repetia a si mesmo —, mas e depois? Qual será o resultado do meu procedimento, admitindo que tenha sucesso? Quando tivermos certeza de que um dos companheiros de Torres morreu recentemente, isso provará que ele é o autor do crime? Isso pode demonstrar que entregou a Torres um documento no qual confessava o crime e inocentava Joam Dacosta? Isso daria, finalmente, a chave do documento? Não! Só dois homens conheciam a cifra! O culpado é Torres! E ambos os homens estão mortos!

         Assim raciocinava Fragoso. Era evidente que sua atitude não levaria a nada. Mas, no entanto, esse pensamento era mais forte do que ele. Uma força irresistível incitava-o a partir, embora nem mesmo estivesse seguro de encontrar a milícia do Madeira! Na verdade, ela podia estar a serviço em alguma outra parte da província e, então, para encontrá-la, Fragoso precisaria de mais tempo do que poderia dispor! E para quê? Qual resultado conseguiria?

         A verdade é que, no dia seguinte, 29 de agosto, antes do alvorecer, sem prevenir ninguém, Fragoso saiu furtivamente da jangada, foi a Manaus e embarcou numa das muitas igaritéias que desciam diariamente o Amazonas.

         Quando não foi visto a bordo, quando não apareceu durante o dia inteiro, todos ficaram surpresos. Ninguém, nem mesmo a jovem mulata, podia explicar a ausência do empregado tão dedicado numa circunstância tão séria!

         Alguns chegaram até a se perguntar, não sem alguma razão, se o pobre rapaz, desesperado por haver contribuído pessoalmente para levar Torres para a jangada quando o encontrou na fronteira, não haveria cometido algum ato extremo!

         Contudo, se Fragoso podia recriminar a si mesmo, o que dizer de Benito? Uma primeira vez, em Iquitos, ele havia convidado Torres para visitar a fazenda. Uma segunda vez, em Tabatinga, o havia levado a   bordo da jangada como passageiro. Uma terceira vez, ao provocá-lo e matá-lo, destruíra a única testemunha cujo depoimento poderia ser usado a favor do condenado!

         E agora Benito se acusava de tudo, da prisão do pai, das terríveis eventualidades que viriam como conseqüência!

         Efetivamente, se Torres ainda estivesse vivo, Benito não podia pensar que, de um modo ou de outro, por comiseração ou por interesse, o aventureiro acabaria entregando o documento? Por causa de dinheiro, Torres, que nada poderia comprometer, não se teria decidido a falar? A prova tão procurada não teria sido posta diante dos olhos dos magistrados? Sim! Sem dúvida!... E o único homem que poderia dar esse testemunho havia sido morto pelas mãos de Benito!

         Eis o que o infeliz rapaz repetia para a mãe, para Manoel, para si mesmo! Essas eram as cruéis responsabilidades cujo ônus a própria consciência lhe impunha!

         Contudo, ao lado do marido, perto de quem ela passava as horas que lhe haviam sido permitidas, e do filho, presa de um desespero que causava tremores por ser fundamentado, a corajosa Yaquita não perdia a coragem.

         Nela podia ser encontrada a corajosa filha de Magalhães, a digna companheira do fazendeiro de Iquitos.

         Aliás, a atitude de Joam Dacosta era um apoio para a mulher nessa provação. Esse homem bom, um puritano rígido, um austero trabalhador, que toda a vida havia lutado, ainda não mostrara nenhum momento de fraqueza.

         O golpe mais terrível que o atingira, sem abatê-lo, fora a morte do juiz Ribeiro, na mente de quem a sua inocência não deixava margem a dúvidas. Não havia sido com a ajuda do ex-defensor que tivera a esperança de lutar pela reabilitação? Em todo esse caso, ele encarava a intervenção de Torres como secundária. E, além do mais, não sabia da existência do documento quando se decidira a deixar Iquitos para se entregar à justiça do seu país. A única bagagem que trazia eram provas morais. Uma prova material inopinadamente introduzida durante o caso, antes ou depois da sua prisão, certamente não era para ser desprezada; mas se,  como conseqüência de circunstâncias lamentáveis, essa prova desaparecera, sua situação continuava a ser a mesma de quando havia atravessado a fronteira do Brasil, a de um homem que dissera: "Eis o meu passado, eis o meu presente, eis toda a minha vida honesta de trabalho e de devotamento que lhes entrego! Vocês fizeram um primeiro julgamento iníquo! Depois de vinte e três anos de exílio, venho entregar-me! Eis-me aqui! Julguem-me!".

         A morte de Torres, a impossibilidade de ler o documento encontrado com ele, não haviam produzido em Joam Garral uma impressão tão forte quanto nos filhos, nos amigos e nos empregados, em todos aqueles que se interessavam por ele.

         — Tenho fé na minha inocência — repetia para Yaquita —, como tenho fé em Deus! Se achar que a minha vida ainda é útil para a minha família e que é necessário um milagre para salvá-la, ele o fará, senão, morrerei! Só ele será meu juiz!

         Entretanto, a emoção aumentava na cidade de Manaus com o passar do tempo. O caso era comentado com uma exaltação sem igual. No meio desse arrebatamento da opinião pública, que tudo o que é misterioso provoca, o documento era o único assunto das conversas. Ninguém, no fim desse quarto dia, duvidava que nele estivesse a justificação do condenado.

         Aliás, é preciso dizer que todos procuraram decifrar o incompreensível conteúdo. O Diário d'o Grand Pará o reproduzira em fac-símile. Exemplares com a cópia do manuscrito haviam sido enviados em grande número, por insistência de Manoel, que não queria desprezar nada que pudesse trazer a compreensão desse mistério, até mesmo o acaso, esse "nome de guerra que, alguém havia dito, algumas vezes a Providência assume.

         Além disso, uma recompensa que atingia o montante de cem contos havia sido prometida a quem descobrisse a cifra, procurada em vão, que permitisse ler o documento. Essa quantia era uma fortuna. Por isso, pessoas de todas as classes esqueciam-se de beber, de comer e de dormir, empenhados no ininteligível criptograma.

         Até aquele momento, no entanto, tudo havia sido inútil, e é provável que o mais engenhoso dos analistas do mundo também perdesse suas horas de sono em vão.

          O público havia sido avisado que todas as soluções deveriam ser enviadas sem demora ao juiz Jarriquez, em sua casa na rua Deus Filho; mas, no dia 29 de agosto, à noite, nada havia chegado e nada deveria chegar, sem dúvida!

        Na verdade, de todos aqueles que se entregavam ao estudo desse quebra-cabeça, o juiz Jarriquez era um dos que mais lamentava. Como conseqüência de uma natural associação de idéias, ele também partilhava da opinião de que o documento estava relacionado com o caso de Tijuco, que havia sido escrito pelo próprio culpado e que inocentava Joam Dacosta. Por isso, estava determinado a encontrar a chave. Não era mais Só a arte pela arte que o guiava, era o sentimento de justiça, de piedade para com um homem atingido por uma injusta condenação. Se for verdade que se gasta uma certa quantidade de fósforo orgânico no trabalho do cérebro humano, não saberíamos dizer quantas miligramas o magistrado havia gasto para aquecer as redes do seu "sensorium" e, no fim das contas, não encontrar nada, nada!

         Entretanto, o juiz Jarriquez não pensava em abandonar o trabalho. Embora Só contasse com o acaso, precisava, queria que esse acaso viesse ajudá-lo! Tentava provocá-lo por todos os meios possíveis e impossíveis! Produzira-se nele um frenesi, uma raiva, e o que é pior, uma raiva impotente!

         A quantidade de números diferentes que havia tentado na última parte do dia — números sempre escolhidos arbitrariamente — não se poderia imaginar! Ah! Se tivesse tempo, não hesitaria em se lançar aos milhões de combinações que os dez signos da numeração podiam formar! Teria consagrado toda a sua vida, com o risco de ficar louco antes de terminar o ano! Louco! E será que já não o estava?

         Ele pensou, então, que o documento talvez devesse ser lido do avesso. Por isso, virou-o e, expondo-o à luz, continuou a tentar.

         Nada! Os números já imaginados e que tentava dessa nova forma não deram nenhum resultado!

         Talvez devesse ver o documento ao contrário e refazê-lo da última letra para a primeira — o que o autor poderia ter feito para tornar a leitura ainda mais difícil!

          Nada! A nova combinação só forneceu uma série de letras totalmente enigmáticas!

         Às oito horas da noite, o juiz Jarriquez, com a cabeça entre as mãos, alquebrado, esgotado intelectual e fisicamente, não tinha mais forças para se mexer, para falar, para pensar, para associar uma idéia à outra!

         De repente, ouviu um ruído do lado de fora. Quase imediatamente, apesar das ordens formais, a porta do gabinete foi aberta bruscamente.

         Benito e Manoel estavam diante dele, Benito assustador de se ver, era apoiado por Manoel, porque o desafortunado rapaz não tinha mais forças para se sustentar.

         O magistrado levantou-se rapidamente.

         —O que aconteceu, senhores, o que desejam? — perguntou.

         —A cifra!... A cifra!... — disse Benito, enlouquecido de dor. — A cifra do documento!

         —Então já a conhecem? — exclamou o juiz Jarriquez.

         —Não — replicou Manoel. — E o senhor?...

         —Nada!... Nada!...

         —Nada! — protestou Benito.

         E, no paroxismo do desespero, tirando uma arma da cintura, quis atirar no próprio peito.

         O magistrado e Manoel correram para cima dele e conseguiram, não sem dificuldade, desarmá-lo.

         —Senhor Benito — disse o juiz Jarriquez, com uma voz que procurou manter serena —, uma vez que seu pai não pode mais escapar à expiação de um crime que não cometeu, o senhor tem mais o que fazer do que se matar!

         —O quê? — exclamou Benito.

         —Tem de tentar salvar-lhe a vida!

         —E como?...

         —Cabe ao senhor adivinhar — respondeu o magistrado —, não sou eu que vou lhe dizer!

        

                                                                DECISÕES TOMADAS 

 

        No dia seguinte, 30 de agosto, Benito e Manoel tiveram uma conversa. Haviam entendido a idéia que o juiz não quis formular diante deles. Agora, procuravam um meio de preparar a evasão do condenado, ameaçado do derradeiro suplício.

         Só havia uma coisa a fazer.

         Na verdade, era mais do que certo que, para as autoridades do Rio de Janeiro, o documento indecifrado não teria nenhum valor, seria letra morta, o primeiro julgamento que havia declarado Joam Dacosta culpado do atentado de Tijuco não seria mudado e, inevitavelmente, a ordem de execução chegaria, pois, nesse tipo de caso, nenhuma comutação de pena era possível.

         Portanto, mais uma vez, Joam Dacosta não devia hesitar em se livrar, pela fuga, da prisão que o punia injustamente.

         Entre os dois rapazes ficou combinado que o segredo do que iam fazer seria totalmente guardado; nem Yaquita, nem Minha seriam postas a par da tentativa. Isso poderia lhes dar uma esperança que, talvez, não se realizasse! Podia ser que, em conseqüência de circunstâncias imprevistas, a tentativa de evasão fracassasse miseravelmente!

          A presença de Fragoso, sem dúvida, teria sido preciosa nessa ocasião. O moço, prudente e devotado, seria útil para ajudar os dois rapazes; mas Fragoso não havia aparecido. Interrogada a respeito, Lina não pudera dizer onde estava, nem por que havia deixado a jangada, sem nem mesmo avisá-la.

         E, com certeza, se Fragoso pudesse prever que as coisas chegariam a esse ponto, não teria abandonado a família Dacosta para tentar uma ação que não parecia produzir qualquer resultado efetivo. Sim! Teria sido melhor ajudar na evasão do condenado do que sair atrás dos antigos companheiros de Torres!

         Mas Fragoso não estava lá e, fatalmente, não poderiam contar com a sua ajuda.

         Benito e Manoel, ao alvorecer, deixaram a jangada e se dirigiram para Manaus. Chegaram rapidamente à cidade e se embrenharam pelas estreitas ruas, ainda desertas àquela hora. Em poucos minutos, ambos estavam diante da prisão e percorriam em todos os sentidos o terreno abandonado, no qual se erguia o antigo convento, que servia de casa de detenção.

         Convinha estudar cuidadosamente a disposição do lugar.

         Num dos lados do prédio abria-se, vinte e cinco pés acima do chão, a janela da cela na qual Joam Dacosta estava encarcerado. A janela era protegida por uma grade de ferro em mau estado, que seria fácil soltar ou serrar, se fosse possível subir até lá. As pedras da parede mal emparelhadas, deslocadas em muitos lugares, ofereciam inúmeras saliências que garantiriam ao pé um apoio sólido, se houvesse a possibilidade de subir por meio de uma corda. Essa corda, se habilmente lançada, talvez passasse por uma das barras da grade, solta do alvéolo, e que formava um gancho do lado de fora. Feito isso, tirando uma ou duas barras de modo a dar passagem a um homem, Benito e Manoel só teriam de introduzir-se na cela do prisioneiro, e a evasão ocorreria, sem maiores dificuldades, pela corda presa à armação de ferro. À noite, que o estado do céu prometia deixar muito escura, nenhuma das manobras seria percebida, e Joam Dacosta, antes do amanhecer, já estaria em segurança.

         Durante uma hora, Manoel e Benito, andando de um lado para o outro para não chamar a atenção, fizeram um levantamento com extrema precisão, tanto da situação da janela e da disposição da armação quanto do melhor lugar para lançar a corda.

         —Então estamos combinados — disse Manoel. — Mas será que Joam Dacosta não deveria ser avisado?

         —Não, Manoel, não vamos contar a ele mais do que contamos à minha mãe sobre o segredo de uma tentativa que pode fracassar!

         — Nós conseguiremos, Benito! — respondeu Manoel. — Entretanto, precisamos prever tudo e, no caso de chamarmos a atenção do chefe dos guardas da prisão, no momento da fuga...

         —Teremos todo o ouro necessário para comprar esse homem! — respondeu Benito.

         —Está bem — respondeu Manoel. — Porém, uma vez fora da prisão, nosso pai não poderá ficar escondido na cidade, nem na jangada. Onde deverá procurar refúgio?

         Essa era a segunda questão a ser resolvida, questão muito séria, e a decisão foi a seguinte:

         A cem passos da prisão, o terreno baldio era atravessado por um desses canais que jogam suas águas no rio Negro, mais abaixo da cidade. Esse canal oferecia, portanto, uma via fácil para se chegar até o rio, desde que uma piroga estivesse esperando pelo fugitivo. Do pé da muralha até o canal haveria apenas cem passos a serem percorridos.

         Benito e Manoel decidiram, então, que uma das pirogas da jangada desatracaria por volta das oito horas da noite, conduzida pelo piloto Araújo e dois robustos remadores. Ela subiria o rio Negro, entraria pelo canal, deslizaria através do terreno baldio e ali, escondida pela alta vegetação das margens, se manteria por toda a noite à disposição do prisioneiro.

         No entanto, depois de embarcar, onde convinha a Joam Dacosta procurar refúgio?

         Esse foi o assunto da última decisão tomada pelos dois rapazes, depois de os prós e contras serem minuciosamente pesados.

         Voltar a Iquitos seria seguir uma rota difícil, cheia de perigos. E, de qualquer modo, seria muito longa, tanto se o fugitivo fosse pelo campo como se subisse ou descesse o curso do Amazonas. Nem o cavalo,  nem a piroga poderiam pô-lo rapidamente fora do alcance. Além do mais, a fazenda já não lhe ofereceria um esconderijo seguro. Ao voltar para lá, não seria o fazendeiro Joam Garral, seria o condenado Joam Dacosta, sempre sob a ameaça de uma extradição, e não poderia nem pensar em retomar a vida de antigamente.

         Fugir pelo rio Negro até o norte da província, ou mesmo sair das terras brasileiras, exigia mais tempo do que dispunha Joam Dacosta, e seu primeiro cuidado devia ser escapar das perseguições imediatas.

         Descer o Amazonas? Os postos, os povoados e as cidades abundavam nas duas margens do rio. As características do condenado seriam enviadas a todos os chefes de polícia. Ele correria, então, o risco de ser preso muito antes de atingir o litoral do Atlântico. E se o atingisse, onde e como se esconder, enquanto esperava a ocasião de embarcar e pôr todo um mar entre si e a justiça?

         Examinados os diversos projetos, Benito e Manoel reconheceram que nenhum deles era exeqüível. Apenas um oferecia alguma possibilidade de salvação.

         Era o seguinte: ao sair da prisão, embarcar numa piroga, seguir o canal até o rio Negro, descer esse afluente sob a direção do piloto, atingir a confluência dos dois cursos d'água, depois se deixar levar pela corrente do Amazonas, acompanhando a margem direita por umas sessenta milhas, navegando à noite, parando de dia, e chegar, assim, à foz do Madeira.

         Esse afluente, que desce da vertente da cordilheira, engrossado por uma centena de subafluentes, era uma verdadeira via fluvial, aberta até o coração da Bolívia. Uma piroga poderia nele se aventurar sem deixar nenhum vestígio da sua passagem e se refugiar em alguma localidade, aldeia ou vila situada do outro lado da fronteira brasileira.

         Lá, Joam Dacosta ficaria relativamente em segurança; lá, ele poderia, por vários meses, se fosse preciso, aguardar uma ocasião para alcançar o litoral do Pacífico e embarcar num navio que partisse de um dos portos da costa. Se esse navio o levasse a uma das nações da América do Norte, estaria a salvo. Em seguida, veria a conveniência de vender todos os seus bens, se exilar definitivamente e procurar além-mar, no    Velho Mundo, um último retiro para ali acabar a vida, tão cruelmente e tão injustamente abalada.

         Para onde fosse, a família o seguiria sem hesitar, sem lamentos, e, em sua família, seria preciso incluir Manoel, ligado a ele por laços indissolúveis. Esse era um assunto que nem precisava ser discutido.

         —Vamos — disse Benito. — É preciso que tudo esteja pronto antes do anoitecer e não temos um minuto a perder.

         Os dois rapazes voltaram a bordo seguindo a margem do canal até o rio Negro. Eles se asseguraram de que a passagem para a piroga estaria completamente livre, que nenhum obstáculo, nenhuma represa ou navio no conserto poderia pará-la. Depois, descendo a margem esquerda do afluente, evitando as ruas agora já ocupadas da cidade, chegaram ao ancoradouro da jangada.

         A primeira preocupação de Benito foi ver a mãe. Sentia-se bem controlado para não deixar transparecer as inquietações que o devoravam. Queria acalmá-la, dizer que a esperança não estava perdida, que o mistério do documento seria esclarecido, que, de qualquer forma, a opinião pública estava a favor de Joam Dacosta e que, diante do movimento feito em seu benefício, a justiça concederia todo o tempo necessário para que a prova material da sua inocência fosse, enfim, preparada.

         —Sim, mãe! Sim! — ele acrescentou. — Sem dúvida, antes que o dia de amanhã acabe, não teremos mais nada a temer por nosso pai!

         —Deus o ouça, meu filho! — respondeu Yaquita, cujo olhar era tão indagador que Benito mal conseguiu sustentá-lo.

         Por sua vez, em comum acordo, Manoel tentara acalmar Minha, repetindo-lhe que o juiz Jarriquez, convencido da não-culpabilidade de Joam Dacosta, tentaria salvá-lo por todos os meios que estivessem ao seu alcance.

         —Quero acreditar em você, Manoel! — havia respondido a jovem, que não pudera conter as lágrimas.

         E Manoel saiu bruscamente de perto de Minha. As lágrimas também encheriam seus olhos e iriam contrariar as palavras de esperança que acabara de dizer!

         Além do mais, era chegada a hora de fazer a visita cotidiana ao prisioneiro e Yaquita, acompanhada da filha, se dirigiu rapidamente para Manaus.

         Durante uma hora, os dois rapazes conversaram com o piloto Araújo. Eles lhe contaram, com todos os detalhes, o plano que haviam combinado e também o consultaram tanto sobre a fuga projetada quanto sobre as medidas que deveriam tomar em seguida, para garantir a segurança do fugitivo.

         Araújo aprovou tudo. Assim que desceu a noite, sem provocar nenhuma desconfiança, ele se encarregou de levar a piroga através do canal, cujo traçado conhecia perfeitamente, até o local onde deveria esperar a chegada de Joam Dacosta. Voltar, em seguida, para a foz do rio não oferecia nenhuma dificuldade, e a piroga passaria despercebida no meio dos destroços que desciam constantemente o seu curso.

         Sobre o problema de seguir o Amazonas até a confluência com o Madeira, Araújo também não levantou nenhuma objeção. Achava que era a melhor coisa a ser feita. Conhecia o curso do Madeira por uma distância de mais de cem milhas. No meio dessas províncias pouco freqüentadas, se, por mais impossível que fosse, as perseguições se voltassem nessa direção, poderiam frustrá-la facilmente, mesmo que tivessem de entrar até o centro da Bolívia e, se Joam Dacosta persistisse em querer exilar-se, seu embarque seria feito com menos perigo no litoral do Pacífico do que do Atlântico.

         A aprovação de Araújo serviu para tranqüilizar os dois rapazes. Eles confiavam no bom senso prático do piloto, e com razão. Quanto à dedicação desse homem leal, nesse aspecto, não tinham nenhuma dúvida. Certamente ele era capaz de arriscar a liberdade ou a própria vida para salvar o fazendeiro de Iquitos.

         Araújo cuidou, imediatamente, mas no maior segredo, dos preparativos que lhe cabiam nessa tentativa de fuga. Uma grande soma de ouro lhe foi entregue por Benito, para prevenir alguma eventualidade durante a viagem no Madeira. Em seguida, ele mandou preparar a piroga, anunciando sua intenção de ir à procura de Fragoso, que não havia aparecido, o que deixava todos os companheiros preocupados com a sua sorte.

         Depois, ele mesmo pôs na embarcação provisões para vários dias e, além disso, as cordas e as ferramentas que os dois rapazes iriam buscar, quando ela chegasse na extremidade do canal, na hora e no lugar combinados.

         Os preparativos não chamaram a atenção do pessoal da jangada. Os dois robustos negros que o piloto escolheu para remar não ficaram sabendo da tentativa de fuga. No entanto, podia se contar totalmente com eles. Quando soubessem da operação de salvamento de que iriam participar, quando Joam Dacosta, finalmente livre, fosse entregue aos seus cuidados, Araújo sabia bem que eram pessoas que arriscariam tudo, mesmo com o risco da própria vida, para salvar a vida do patrão.

         À tarde, estava tudo pronto para a partida. Só precisavam esperar que anoitecesse.

         Porém, antes de agir, Manoel quis ver uma última vez o juiz Jarriquez. Talvez o magistrado tivesse algo de novo a lhe dizer sobre o documento.

         Benito preferiu ficar na jangada, para esperar a volta da mãe e da irmã.

         Manoel foi sozinho à casa do juiz Jarriquez e foi recebido imediatamente.

         O magistrado, no gabinete de onde não saía mais, continuava superexcitado. O documento, amassado pelos seus dedos impacientes, ainda estava lá, em cima da mesa, embaixo dos seus olhos.

         — Senhor — disse Manoel, cuja voz tremia ao formular a pergunta — recebeu do Rio de Janeiro?...

         Não... — respondeu o juiz Jarriquez —, a ordem não chegou. .. Mas de uma hora para a outra pode chegar!...

         —E o documento?

         —Nada! — exclamou o juiz Jarriquez. — Tudo o que a minha imaginação pôde sugerir... Eu tentei... E nada!

         —Nada?

         Entretanto, vi claramente uma palavra nesse documento... Só uma!..

         —E essa palavra? — perguntou Manoel. — Senhor... Que palavra é essa?

         Fugir!

         Sem responder, Manoel apertou a mão que o juiz Jarriquez lhe estendia e voltou à jangada para aguardar o momento de agir.

            

        

                                A última noite 

         A visita de Yaquita, acompanhada da filha, transcorreu como sempre nessas poucas horas que os dois esposos passavam juntos todos os dias. Na presença dessas duas pessoas tão ternamente amadas, o coração de Joam Dacosta quase se descontrolava. Mas o marido, o pai, se continha. Era ele quem reanimava as duas pobres mulheres, que lhes dava um pouco de esperança, da qual, no entanto, lhe restava tão pouco. As duas chegavam com a intenção de animar o moral do prisioneiro. Infelizmente, mais do que ele, precisavam ser amparadas; mas, ao vê-lo tão firme, de cabeça erguida no meio de tantas provações, elas recuperavam a esperança.

         Naquele dia também, Joam lhes dissera palavras de encorajamento. Essa indomável energia, ele buscava não Só no sentimento da sua inocência, mas também na fé desse Deus que havia posto uma parte da sua justiça nos corações dos homens. Não! Joam Dacosta não podia ser punido pelo crime de Tijuco!

         Além do mais, ele quase nunca falava sobre o documento. Fosse apócrifo ou não, fosse escrito por Torres ou pelo real autor do atentado, incluísse ou não a justificativa tão esperada, Joam Dacosta não pretendia apoiar-se nessa duvidosa hipótese. Não! Ele via a si mesmo como o melhor argumento da sua causa, e era a toda uma vida de trabalho e de honestidade que ele queria confiar a missão de defendê-lo!

         Naquela tarde, mãe e filha, animadas por essas palavras fortes que as penetraram até o mais fundo do ser, se retiraram mais confiantes do que jamais haviam estado desde a prisão. O prisioneiro mais uma vez as abraçara com dupla ternura. Parecia ter o pressentimento de que o desenlace do caso estava próximo.

         Depois que ficara sozinho, Joam Dacosta permanecera imóvel por um longo tempo. Os braços apoiados numa mesa pequena sustentavam sua cabeça.

         O que se passava com ele? Teria adquirido a convicção de que a justiça humana, depois de falhar uma primeira vez, pronunciaria, enfim, sua absolvição? 23

         Sim! Ele ainda tinha esperança! Com o relatório do juiz Jarriquez que estabelecia sua identidade, ele sabia que suas memórias justificativas, que escrevera com tanta convicção, deviam estar no Rio de Janeiro, nas mãos do chefe supremo da justiça.

         Sabemos que essas memórias eram a história da sua vida desde que entrara para o escritório do arraial diamantino até o momento em que a jangada havia parado nas portas de Manaus.

        

         Na mente de Joam Dacosta repassava toda a sua vida. Ele revivia o passado, desde a época em que, órfão, havia chegado em Tijuco. Lá, por mérito próprio, subira na hierarquia do escritório do governador-geral, onde fora admitido ainda muito jovem. O futuro lhe sorria, deveria chegar a um alto cargo!... Depois, de repente, a catástrofe: o roubo do comboio de diamantes, o massacre dos soldados da escolta, as suspeitas que recaíam sobre ele como sendo o único funcionário que poderia ter divulgado o segredo da partida, a prisão, o comparecimento diante do júri, a condenação apesar dos esforços do advogado, as últimas horas na cela dos condenados à morte na prisão de Vila Rica, a evasão realizada em condições que denotavam uma coragem sobre-humana, a fuga através das províncias do norte, a chegada à fronteira peruana e a acolhida que dera ao fugitivo, sem nenhum recurso e morrendo de fome, o afável fazendeiro Magalhães!

          O prisioneiro recordava todos esses acontecimentos que haviam tão brutalmente destruído sua vida! E, então, abstraído nos seus pensamentos, perdido nas lembranças, não ouviu um ruído diferente na parede externa do velho convento, nem as sacudidelas de uma corda presa nas barras da janela, nem o rangido do aço que mordia o ferro, que teriam chamado a atenção de um homem menos absorto.

         Não, Joam Dacosta continuava a viver os anos da sua juventude, desde a chegada à província peruana. Ele revia a si mesmo na fazenda, como empregado, depois como sócio do velho português, trabalhando para a prosperidade da fazenda de Iquitos.

         Ah, por que, desde o começo, não havia dito tudo ao benfeitor? Ele nunca teria duvidado. Era o único erro que tinha a se recriminar! Por que não confessara de onde vinha, nem quem era — sobretudo quando Magalhães pusera a sua mão na mão da filha, que nunca teria desejado ver nele o autor desse pavoroso crime?

       Nesse momento, o ruído do lado de fora foi forte o suficiente para chamar a atenção do prisioneiro.

         Joam Dacosta levantou a cabeça por alguns instantes. Os olhos se dirigiram para a janela, mas com esse olhar vago que parece inconsciente e, logo depois, voltou a apoiar a fronte nas mãos. Seu pensamento voltava a Iquitos.

         Lá, o velho fazendeiro estava morrendo. Antes de morrer, queria que o futuro da filha estivesse garantido, que seu sócio fosse o único dono da fazenda, que se tornara tão próspera sob a sua direção. Joam Dacosta devia falar?... Talvez!... Mas não teve coragem! Ele relembrou o feliz passado ao lado de Yaquita, o nascimento dos filhos, toda a felicidade dessa vida apenas perturbada pela lembrança de Tijuco e o remorso de não haver confessado o terrível segredo!

         A seqüência dos fatos se reproduzia no cérebro de Joam Dacosta com nitidez e vivacidade surpreendentes.

         Ele repassava, agora, o momento em que o casamento da sua filha Minha com Manoel ia ser decidido! Poderia deixar essa união ser realizada sob um nome falso, sem dar a conhecer ao rapaz os mistérios da sua vida? Não! Por isso decidiu, seguindo a orientação do juiz Ribeiro, pedir a revisão do processo, promover a reabilitação que lhe era devida. Ele partira com toda a família e, então, houve a intervenção de Torres, a odiosa oferta proposta pelo miserável, a recusa indignada do pai em entregar a filha para salvar a honra e a própria vida, em seguida a denúncia, depois a prisão!...

         Nesse momento, a janela, violentamente empurrada pelo lado de fora, se abriu bruscamente.

         Joam Dacosta levantou-se; as recordações do passado se esvaneceram como uma sombra.

         Benito havia pulado para dentro do quarto, estava diante do pai e, um minuto depois, Manoel atravessava a abertura, agora sem as barras, e aparecia ao lado dele.

         Joam Dacosta ia soltar um grito de surpresa; Benito não lhe deu tempo.

         —Meu pai — disse ele —, a grade da janela foi arrancada!... Há uma corda pendurada até o chão!... Uma piroga aguarda no canal, a cem passos daqui!... Araújo está lá e irá levá-la para longe de Manaus, para a outra margem do Amazonas, onde a sua pista não poderá ser encontrada!... Meu pai, é preciso fugir imediatamente!... O próprio juiz nos deu esse conselho!

         —É preciso! — acrescentou Manoel.

         —Fugir?... Eu?... Fugir pela segunda vez?... Fugir de novo?...

         E, com os braços cruzados, cabeça erguida, Joam Dacosta recuou lentamente até o fundo do quarto.

         —Jamais! — disse ele, com uma voz tão firme que Benito e Manoel ficaram desconcertados.

         Os dois rapazes não esperavam por essa resistência. Nunca poderiam imaginar que os obstáculos à fuga viriam do próprio prisioneiro.

         Benito caminhou na direção do pai e, olhando-o de frente, tomou-lhe as duas mãos, não para arrastá-lo, mas para que o ouvisse e se deixasse convencer.

         —Jamais, o senhor disse, meu pai?

         —Jamais.

         —Meu pai — disse, então, Manoel —, também tenho o direito de chamar-lhe assim; meu pai, escute! Se nós lhe dizemos que é preciso fugir sem perder um só minuto, é porque, se ficar, será culpado diante dos outros, diante de si mesmo!

         —Ficar — continuou Benito — é esperar a morte, meu pai! A ordem de execução pode chegar de um momento para o outro! Se acre dita que a justiça dos homens voltará atrás num julgamento iníquo, se pensa que a justiça reabilitará aquele a quem condenou há vinte anos, está enganado! Não há mais esperanças! É preciso fugir!... Fuja!

         Num movimento irreprimível, Benito havia agarrado o pai e o arrastava para a janela.

         Joam Dacosta se soltou das mãos do filho e recuou pela segunda vez.

         — Fugir — ele respondeu com a voz de um homem cuja resolução era inabalável — é desonrar-me e desonrá-los, junto comigo! Seria uma confissão de culpa! Pois se eu vim livremente me pôr à disposição dos juízes do meu país, devo aguardar sua decisão, qualquer que seja, e eu esperarei!

         —Mas as presunções nas quais o senhor se apóia não são suficientes — retomou Manoel — e, até agora, não temos a prova material da sua inocência! Se repetimos que é preciso fugir, é porque o próprio juiz Jarriquez nos disse! É a sua única chance de escapar da morte!

         —Então, morrerei! — respondeu Joam Dacosta calmamente. — Morrerei protestando contra o julgamento que me condena! Da primeira vez, algumas horas antes da execução, eu fugi! Sim! Eu era jovem então, tinha toda uma vida pela frente para combater a injustiça dos homens! Mas escapar agora, recomeçar essa vida miserável de culpado que se esconde sob um nome falso, que se esforça para despistar a polícia; voltar a essa vida de ansiedade que levei por vinte e três anos, obrigando-os a partilhá-la comigo; esperar todos os dias por uma denúncia que chegaria mais cedo ou mais tarde e por um pedido de extradição que me alcançaria num país estrangeiro! Isso seria viver? Não! Jamais!

         —Meu pai — voltou a falar Benito, que estava a ponto de perder a cabeça diante dessa obstinação —, o senhor tem de fugir! Eu quero!...

         E agarrando Joam Dacosta procurou, pela força, arrastá-lo para a janela.

         —Não!... Não!...

         —Quer deixar-me louco!

         —Meu filho — exclamou Joam Dacosta —, solte-me!... Já fugi uma vez da prisão de Vila Rica, e acreditaram que eu escapava de uma condenação merecida! Sim! Devem ter acreditado nisso! Bem, pela honra do nome que usam, não o farei de novo!

         Benito caiu de joelhos diante do pai! Estendeu-lhe as mãos... Suplicou...

         —Mas a ordem, meu pai — repetia —, essa ordem pode chegar hoje... daqui a pouco... e virá com a sentença de morte!

         —A ordem pode chegar, mas minha decisão não mudará! Não, meu filho! Um Joam Dacosta culpado poderia fugir! Um Joam Dacosta inocente não fugirá!

         A cena que se seguiu a essas palavras foi pungente. Benito lutava contra o pai. Manoel, desatinado, mantinha-se perto da janela, preparado para arrebatar o prisioneiro, quando a porta da cela se abriu.

         No limiar apareceu o chefe de polícia, acompanhado do chefe dos guardas da prisão e de alguns soldados.

         O chefe percebeu que uma tentativa de evasão havia sido realizada, mas também compreendeu, pela atitude do prisioneiro, que havia sido ele que não quisera fugir! O chefe de polícia não disse nada. A mais profunda piedade se estampou no seu rosto. Será que ele, como o juiz Jarriquez, queria que Joam Dacosta escapasse da prisão?

         Tarde demais!

         O chefe de polícia, segurando um papel, dirigiu-se ao prisioneiro.

         —Antes de tudo — disse Joam Dacosta —, deixe-me dizer, senhor, que a fuga Só dependia da minha decisão, mas eu não quis!

         O chefe de polícia abaixou por uns instantes a cabeça; depois, tentando, em vão, manter a voz firme, disse:

         —Joam Dacosta, a ordem do chefe supremo da justiça chegou do Rio de Janeiro.

          —Ah! Meu Pai! — gritaram Manoel e Benito.

         —Essa ordem — perguntou Joam Dacosta, que havia cruzado os braços sobre o peito —, essa ordem traz a execução da sentença?

         —Sim!

         —E será?...

         —Amanhã!

         Benito atirou-se em cima do pai. Ainda queria levá-lo para fora da cela... Foi preciso que os soldados arrancassem o prisioneiro, tirando-o dessa última tentativa.

         Depois, a um sinal do chefe de polícia, Benito e Manoel foram levados para fora. Era preciso dar um fim a essa cena lamentável, que já havia durado demais.

         —Senhor — disse então o condenado —, amanhã de manhã, antes da hora da execução, posso passar alguns momentos com o padre Passanha, a quem peço o favor de mandar avisar?

         —Ele será avisado.

         —Terei permissão para ver minha família, beijar pela última vez minha mulher e meus filhos?

         —Poderá vê-los.

         —Eu lhe agradeço, senhor — respondeu Joam Dacosta. — E, agora, mande vigiar a janela! Não quero ser arrastado daqui contra a minha vontade!

         Dito isso, depois de se inclinar, o chefe de polícia se retirou com o guarda e os soldados.

         O condenado, que agora Só tinha algumas horas de vida, ficou sozinho.

        

                                                                       FRAGOSO 

 

         Então, a ordem havia chegado e, como o juiz Jarriquez previra, era uma ordem de execução imediata da sentença pronunciada contra Joam Dacosta. Nenhuma prova fora introduzida. A justiça devia seguir o seu curso.

         No dia seguinte, 31 de agosto, às nove horas da manhã, o condenado morreria na forca.

         No Brasil, em geral, a pena de morte era comutada, a menos que se tratasse de aplicá-la aos negros; mas, dessa vez, ela ia atingir um branco.

         Essas eram as disposições penais em relação aos crimes do arraial diamantinense, para os quais, no interesse público, a lei não quis admitir nenhum pedido de indulto.

         Portanto, nada podia salvar Joam Dacosta. Ele ia perder não apenas a vida, mas também a honra.

         Acontece que, nesse 31 de agosto, de manhã, um homem a cavalo corria na direção de Manaus, a toda velocidade, e a corrida havia sido tão rápida que a meia milha da cidade o corajoso animal caiu, incapaz de seguir adiante.

         O cavaleiro nem tentou levantar a montaria. Evidentemente, havia exigido, e conseguido, mais do que podia dar e, apesar do estado de esgotamento em que também estava, o homem se precipitou na direção da cidade.

         Esse homem vinha das províncias do leste, acompanhando a margem esquerda do rio. Todas as suas economias haviam sido empregadas na compra do cavalo que, bem mais rápido do que uma piroga obrigada a subir a corrente do Amazonas, o trouxera a Manaus.

         Era Fragoso.

         Então, o corajoso rapaz tivera sucesso na operação sobre a qual não havia falado com ninguém? Encontrara a milícia a que pertencera Torres? Descobrira o segredo que ainda poderia salvar Joam Dacosta?

         Ele não sabia muito bem; mas, em todo o caso, estava com extrema pressa em comunicar ao juiz Jarriquez o que ficara sabendo nessa breve excursão.

         O que aconteceu foi o seguinte:

         Fragoso não havia se enganado ao reconhecer Torres como um dos capitães da milícia que atuava nas províncias ribeirinhas do Madeira.

         Então ele partiu e, ao chegar na foz desse afluente, soube que o chefe desses "capitães-do-mato" estava nas redondezas.

         Sem perder um minuto, Fragoso se pôs a procurá-lo e, não sem dificuldade, conseguiu encontrá-lo.

         Às perguntas que Fragoso lhe fez, o chefe da milícia não hesitou em responder. Aliás, a propósito da simples pergunta que lhe foi feita, não tinha nenhum interesse em ficar calado.

         E, de fato, as três únicas questões que Fragoso lhe fez foram as seguintes:

         —O capitão-do-mato, Torres, não pertencia a sua milícia há alguns meses?

         —Sim.

         —Nessa época, não tinha ele como amigo íntimo um dos companheiros que morreu recentemente?

         —É verdade.

         —E esse homem, como se chamava?

         —Ortega.

         Isso foi tudo o que Fragoso ficou sabendo. Essas informações   eram capazes de modificar a situação de Joam Dacosta? Na verdade, supostamente não.

         Fragoso sabia disso e resolveu insistir com o chefe da milícia para saber se conhecia esse Ortega, se podia dizer de onde vinha e dar algumas informações sobre seu passado. Isso não deixava de ser muito importante, pois esse Ortega, segundo Torres, era o verdadeiro autor do crime de Tijuco.

         Porém, infelizmente, o chefe da milícia não pôde dar nenhuma informação a esse respeito.

         A única certeza era que esse Ortega havia muitos anos pertencia à milícia; que uma estreita camaradagem ligava Torres a ele, que eram vistos sempre juntos e que Torres estava a seu lado quando deu o último suspiro.

         Era tudo o que sabia sobre esse sujeito o chefe da milícia, e não pôde dizer mais nada.

         Fragoso precisou se contentar com esses detalhes insignificantes e resolveu voltar imediatamente.

         Porém, se o devotado rapaz não levava a prova de que Ortega fosse o autor do crime de Tijuco, da atitude que havia tomado obtivera, ao menos, o seguinte resultado: Torres havia dito a verdade ao afirmar que um de seus companheiros da milícia morrera e que o assistira nos últimos momentos.

         Quanto à hipótese de que Ortega lhe havia entregue o documento em questão, agora ela passava a ser admissível. Também era muito provável que o documento tivesse relação com o atentado, que o autor fosse, realmente, Ortega, e que encerrasse a confissão da sua culpa, acompanhada de circunstâncias que não permitiriam pô-la em dúvida.

         Assim, se o documento pudesse ser lido, se a chave fosse encontrada, se a cifra na qual se baseava o sistema fosse conhecida, ninguém duvidava que, finalmente, a verdade apareceria!

         Mas, a cifra, Fragoso não a sabia! Algumas presunções a mais, a quase certeza de que o aventureiro não inventara nada, certas circunstâncias pareciam mostrar que o segredo desse caso estava no documento, era tudo o que o corajoso rapaz trazia da visita ao chefe da milícia a que Torres pertencera.

            No entanto, por menos que fosse, ele tinha pressa em contar tudo ao juiz Jarriquez. Sabia que não podia perder nem uma hora, e eis porque naquela manhã, por volta das oito horas, havia chegado, moído de cansaço, a meia milha de Manaus.

         Fragoso percorreu em alguns minutos a distância que o separava da cidade. Uma espécie de pressentimento irresistível empurrava-o para a frente, e quase chegou a acreditar que a salvação de Joam Dacosta estava em suas mãos.

         De repente Fragoso parou, como se, de uma forma implacável, seus pés houvessem criado raízes.

         Ele estava na entrada da pequena praça, para onde se abria uma das portas da cidade.

         Ali, no meio de uma multidão já compacta, uns vinte pés acima, estava o mourão da forca, de onde pendia uma corda.

       Fragoso sentiu as últimas forças o abandonarem. Ele caiu. Seus olhos se fecharam involuntariamente. Não queria ver, e as palavras escaparam de seus lábios:

         —Tarde demais! Tarde demais!

         Porém, num esforço sobre-humano, ele se levantou. Não! Não era tarde demais! O corpo de Joam Dacosta não balançava na ponta da corda!

         —O juiz Jarriquez! O juiz Jarriquez! — gritou Fragoso.

         E, ofegante, alucinado, correu para a porta da cidade, subiu a rua principal de Manaus e caiu, semimorto, na porta da casa do magistrado.

         A porta estava fechada. Fragoso ainda teve forças para bater nessa porta.

         Um dos empregados do magistrado abriu. O patrão não queria receber ninguém.

         Apesar da proibição, Fragoso empurrou o homem que lhe impedia de entrar na casa e, de um pulo, correu para o gabinete do juiz.

         —Estou voltando da província onde Torres exercia seu trabalho de capitão-do-mato! — exclamou. — Senhor, Torres disse a verdade! Suspenda... suspenda a execução!

         —Encontrou a milícia?

         Encontrei!

         —E tem a cifra do documento?...

         Fragoso não respondeu.

         —Então, vá embora! Vá embora! — gritou o juiz Jarriquez, que, num verdadeiro acesso de raiva, pegou o documento para destruí-lo.

         Fragoso tomou-o de suas mãos e o impediu.

         —A verdade está aqui! — disse.

         —Eu sei — respondeu o juiz Jarriquez. — Mas de que adianta uma verdade que não pode ser mostrada?

         —Ela vai aparecer!... É preciso!... É preciso!

         —Mais uma vez, o senhor tem a cifra?

         —Não! — respondeu Fragoso — Mas repito, Torres não mentiu! ... Um de seus companheiros a quem era estreitamente ligado morreu, há alguns meses, e não resta dúvida de que esse homem lhe entregou o documento que ele veio vender a Joam Dacosta!

         —Não! — respondeu o juiz Jarriquez. — Não!... Não há dúvidas. .. para nós, mas não parece tão evidente para aqueles que dispõem da vida do condenado!... Vá embora!

         Expulso, Fragoso não queria sair do lugar. Ele se arrastava aos pés do magistrado.

         —Joam Dacosta é inocente! — exclamou. — Não pode deixá-lo morrer! Não foi ele quem cometeu o crime de Tijuco! Foi o companheiro de Torres, o autor do documento! Foi Ortega!

         Ao ouvir esse nome, o juiz Jarriquez teve um sobressalto. Em seguida, quando uma espécie de calma sucedeu à tempestade desencadeada na sua mente, tirou o documento da mão crispada, estendeu-o sobre a mesa, sentou-se e passou a mão nos olhos:

         —Esse nome!... — ele disse. — Ortega!... Vamos tentar!

         E procedeu com esse novo nome, trazido por Fragoso, da mesma forma que havia procedido com os outros nomes próprios, inutilmente tentados por ele. Depois de arrumá-lo em cima das seis primeiras letras do parágrafo, obteve a seguinte fórmula:

         Ortega Szgxed

          —Nada! — disse. — Não deu em nada!

         De fato, o g colocado embaixo do t não podia ser expresso por um algarismo, pois na ordem alfabética, essa letra ocupa uma posição anterior à da letra t.

         Só o 5, o z, o d dispostos embaixo do o, do r e do a podiam receber os algarismos quatro, dois, três.

         Quanto ao x, colocado na antepenúltima letra, como o intervalo que o separa do e é de dezoito letras, fica impossível exprimi-lo por um único algarismo. Portanto, ele não correspondia ao e.

         Nesse momento, gritos aterradores ergueram-se na rua, gritos de desespero.

         Fragoso precipitou-se para uma das janelas e abriu-a antes que o magistrado pudesse impedi-lo.

         A multidão obstruía a rua. Havia chegado a hora em que o condenado sairia da prisão e um refluxo da multidão ia na direção da praça onde a forca havia sido erguida.

         O juiz Jarriquez, assustador de se ver, tão fixo era o seu olhar, devorava as linhas do documento.

         —As últimas letras! — ele murmurou. — Vamos tentar de novo as últimas letras!

         Era a derradeira esperança.

         E, então, com um tremor na mão que quase o impedia de escrever, dispôs o nome de Ortega em cima das seis últimas letras do parágrafo, como havia feito com as seis primeiras.

         Um primeiro grito escapou-lhe. Ele viu, para começar, que as seis últimas letras eram inferiores, na ordem alfabética, às que compunham o nome de Ortega, e que, conseqüentemente, poderiam ser cifradas e receber um número.

         E, efetivamente, quando reduziu a fórmula, subindo da letra inferior do documento para a letra superior da palavra, obteve:

 

                            Ortega 432513 Suvjhd

                           O número assim composto era 432513.

 

         Mas seria esse número o que havia presidido a formação do documento? Não seria tão falso quanto os que haviam sido anteriormente tentados?

         Nesse instante, os gritos foram redobrados, gritos de piedade que traíam a emoção simpática de toda a multidão. Alguns minutos mais era tudo o que restava de vida para o condenado!

         Fragoso, enlouquecido de dor, saiu correndo do gabinete! Queria ver pela última vez o seu benfeitor que ia morrer!... Queria jogar-se diante do fúnebre cortejo, pará-lo, e gritar: "Não matem esse homem justo! Não o matem!

         O juiz Jarriquez já havia posto o número obtido em cima das primeiras letras do parágrafo, repetindo-o tantas vezes quanto necessário, como se segue:

 

                           4325134325134325134325134

                          szgxedhhkxpdzxqxervrxgpgs 

        

         Depois, reconstituindo as verdadeira letras, ao subir da ordem alfabética, leu:

         O verdadeiro autor do roubo do...

         Um uivo de alegria lhe escapou! O número 432513 era o número procurado! O nome Ortega lhe permitira reconstituí-lo! Enfim, tinha a chave do documento, que, incontestavelmente ia demonstrar a inocência de Joam Dacosta e, sem ler mais nada, correu para fora do gabinete, depois para a rua, gritando:

         — Parem! Parem!

        Romper a multidão que se abriu diante dele, correr para a prisão que o condenado deixava naquele momento, enquanto a mulher e os filhos se agarravam a ele com a violência do desespero, não foi mais do uma questão de minutos para o juiz Jarriquez.

        Ao chegar diante de Joam Dacosta, ele não conseguia mais falar, a sua mão agitava o documento e, enfim, as palavras lhe escaparam dos lábios.

         —Inocente! Inocente!

    

                                                                   O CRIME DE TIJUCO 

 

         C