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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A JOIA OCULTA / V. C. Andrews
A JOIA OCULTA / V. C. Andrews

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A JOIA OCULTA

 

O pesadelo começa sempre da mesma maneira. Primeiro, ouço-o entoar a canção de embalar. Traz-me ao seu colo e percorremos solo pantanoso, onde a erva é tão alta que nem ele nem eu conseguimos ver os seus pés, apenas a ponta das botas altas. Ele leva um chapéu de palha cuja aba lhe faz sombra sobre os olhos e o nariz, eu tenho o meu boné rosa e branco posto.

Atrás de nós, os monstros de metal prosseguem o seu matraquear monótono. Fazem lembrar abelhas gigantescas a sugar o néctar negro da terra. Quando me volto para as olhar, erguem a cabeça e cumprimentam-me, voltando-se de novo para o alto. Sinto-me assustada e sei que ele tem essa noção, pois aperta-me com mais força e canta mais alto.

É então que deparamos com um bando de pássaros devoradores de arroz. Erguem-se do meio da erva alta com leveza e graciosidade; no entanto, movem-se com tanta rapidez e aproximam-se de tal maneira que sinto a aragem provocada pelo adejar das suas asas. Ele ri-se. É um riso que, de tão suave e tranquilo, desliza sobre mim como água fresca. À nossa frente, o casarão recorta-se contra o horizonte. É tão grande que parece ter engolido o céu e ser capaz de tapar o Sol. Vejo a minha mãe descer as escadas, vinda do seu estúdio de pintura. Ao avistar-nos, diz-nos adeus, o que o faz rir novamente. A minha mãe começa a dirigir-se para nós, primeiro em passo rápido, depois a correr. Vai-se tornando cada vez mais nova, até... se transformar em mim!

Estou diante de um espelho, a mirar-me. Fico tão admirada com o azul dos meus olhos, o louro-claro dos meus cabelos e o tom de pérola acetinado da minha pele que sorrio e estendo a mão para tocar no meu reflexo no espelho, mas, mal o faço, caio para trás. A queda parece eternizar-se até eu ouvir o som de água esparramada, o que me faz abrir os olhos e deparar com um cardume de peixes-voadores. Ao debandarem, deixam à vista as raízes retorcidas de um cipreste tombado. Fazem lembrar os dedos rugosos de um gigante adormecido. Assusto-me e volto-me, dando então de caras com ele.

Tem os olhos esbugalhados e a boca aberta de tão surpreendido por se encontrar ali. Eu tento gritar mas, ao fazê-lo, a água entra-me na boca e engasgo-me.

É nessa altura que acordo.

Quando era pequena, sempre que isto me acontecia, o meu pai ou a minha mãe, ou os dois, apareciam imediatamente ao pé da minha cama, no entanto, há anos que conseguia recuperar o controlo da respiração e ganhar coragem para deitar a cabeça na almofada, no meio da escuridão, tentando voltar a dormir.

Nessa noite, a minha mãe deve ter-se antecipado ao pesadelo porque, instantes depois da minha agitação, aparecia à entrada do meu quarto.

Estás bem, Pearl? Perguntou.

Estou, mãe.

Foi o mesmo pesadelo de sempre?

Foi, mas já passou, mãe assegurei-lhe.

Tens a certeza, querida?

Por que razão estaria tão preocupada?, perguntei a mim mesma. Seria por eu continuar a ter o mesmo pesadelo?

Quando é que isto acabará, mãe? Continuarei sempre a ter este pesadelo?

Não sei, querida. Espero que não. Olhou na direcção do umbral da porta. Se quiseres trago outra vela sussurrou.

Não é preciso, mãe, obrigada.

Em tempos, o meu pesadelo desesperara-a de tal maneira que experimentara um dos velhos remédios vudu que aprendera com Nina Jackson, a cozinheira do meu avô Dumas, despertando a ira do meu pai.

Ficarei bem, está descansada respondi.

A minha mãe afasta-me umas farripas de cabelos da testa e beija-me.

Que se passa aqui? perguntou o meu pai da entrada do quarto, em voz pretensamente severa.

Apenas conversa de mulheres, Beau.

Às três da madrugada troçou ele.

É um direito feminino.

Fazem é com que um homem se desespere, isso sim murmurou, voltando para a cama.

Rimo-nos. Em certos aspectos parecemos mais duas irmãs do que mãe e filha. A minha mãe, que acabou de fazer trinta e seis anos, tem um ar muito jovem, apesar de todos afiançarem que dois gémeos desgastam uma mulher muito mais depressa.

Dorme bem, querida. Sonha com o dia que te espera amanhã, com a tua festa maravilhosa. Sonha com a ida para a faculdade e a oportunidade que vais ter de concretizar todos os teus desejos.

Podes ficar descansada, mãe respondo.

Logo a seguir pego-lhe nas mãos quando vai a levantar-se e digo:

Mãe.

O que é, Pearl querida?

Contar-me-ás mais coisas? É possível que, se eu souber de mais aspectos, este pesadelo deixe de me atormentar, não?

A minha mãe acena, relutantemente, com a cabeça. Continuei:

Sei que achas que me será muito penoso saber e não queres que nada me faça sofrer, mas tenho de saber tudo, não achas, mãe?      

Sim, acho, admite. Realmente é verdade. Suspira tão profundamente que receio que o seu coração rebente.

Já sou suficientemente crescida para compreender, mãe. Podes ter a certeza assegurei-lhe.

Sei que és, querida. Um dia falaremos, prometo. Dá-me uma palmada na mão.

Vejo-a afastar-se, agora com os ombros ligeiramente descaídos. Detesto entristecê-la nem que seja por um instante, no entanto, sinto-me atraída para o passado obscuro como uma falena para a chama de uma vela.

Espero, melhor dizendo, rezo para que, ao contrário da falena, eu não acabe por arder e ser destruída.

 

O FUTURO ADIVINHA-SE RADIOSO.

Acordo ao som de gritos que soam mesmo em frente da minha janela. Os trabalhadores que o meu pai contratara para preparar a nossa casa e os jardins para a minha festa de finalista de liceu tinham chegado e estavam a tomar conhecimento das tarefas que competiam a cada um. Nessa noite chovera e eu sentia no ar o cheiro húmido e adocicado do bambu verde, das gardénias e das camélias em flor. Esfreguei os olhos para espantar o sono, sentei-me na cama e reparei que o sol começara a afastar as poucas nuvens que restavam e fazia incidir raios dourados sobre a piscina e o campo de ténis. Era como se alguém houvesse estendido um manto de jóias preciosas. Os nossos jardins tremeluziam e os ladrilhos espanhóis cor de malva brilhavam. Poderia haver começo mais bonito para um dos dias mais importantes da minha vida? Em segundos, todo o emaranhado de confusão, sombras tenebrosas e receios de infância se desvaneceram totalmente.

Tinha dezassete anos e estava prestes a receber o meu diploma de liceu. Além disso, era a oradora oficial do evento! Suspirei fundo e depois passeei o olhar pelo meu quarto. Há muito que a minha mãe voltara a decorá-lo tal como ele era nos tempos em que chegara a Nova Orleães. Eu dormia na enorme cama de casal em pinho escuro, cujo dossel era de uma magnífica seda cor de marfim debruada por um bordado. As minhas almofadas eram tão volumosas e fofas que eu tinha a impressão de me afundar sempre que pousava a cabeça nelas. A coberta da cama, assim como as fronhas das almofadas e o lençol de cima, eram feitos da mais branca e macia musselina. Na parede, à cabeceira da cama, pendia um quadro retratando uma bela jovem num jardim, a alimentar um papagaio, enquanto um engraçado cachorrinho preto e branco lhe puxava pela barra da saia comprida.

Ladeando a minha cama estavam duas mesinhas-de-cabeceira sobre cujo tampo se viam candeeiros em forma de sino e, para além da cómoda e do guarda-fatos a condizer, o meu quarto tinha ainda um toucador com um enorme espelho oval, cuja moldura, em marfim, exibia rosas vermelhas e amarelas pintadas à mão. A minha mãe e eu tínhamos o costume de nos sentar, ao lado uma da outra, em frente dele enquanto arranjávamos o cabelo, nos maquilhávamos ou durante as nossas conversas de raparigas, como gostava de lhes chamar. Dali em diante, dissera, passariam a ser conversas de mulheres. Não tardaria, no entanto, que elas se fossem tornando cada vez mais raras, visto eu estar de partida para a faculdade. Sentira-me sempre ansiosa por crescer e chegar àquele dia; porém, agora que tal acontecera, não conseguia controlar uma certa nostalgia.

"É a despedida dos meus dias de Huckleberry Finn", pensei. O adeus a levantar-me tarde aos fins-de-semana, a não ter de me preocupar com o dia seguinte, a desperdiçar o tempo e a estudar a correr na véspera de algum teste, a ficar sentada no jardim durante horas, sonhando pela tarde fora. O relógio, com um girar dos seus ponteiros, lançar-me-ia, a mim e aos meus colegas, para o mundo real, o mundo do trabalho e do estudo aprofundado que uma universidade exigia, onde só teríamos a vigiar-nos a nossa própria consciência.

Ao afastar os olhos do espelho, passei-os de relance pela porta e reparei que se encontrava entreaberta. Uma investigação mais cuidada mostrou-me o meu irmão Jean, apoiado sobre as mãos e os joelhos, a espreitar, tendo mesmo atrás de si Pierre, o meu outro irmão, a fazer o mesmo. Os dois rostos idênticos, com os olhos azul-celeste sob os caracóis louros, mostravam-se curiosos e expectantes. Não sei o que contavam que eu fizesse ao levantar-me no dia da minha despedida do liceu, mas o certo é que estavam à espera que eu dissesse ou fizesse alguma coisa com que pudessem implicar comigo mais tarde.

Jean! Pierre! O que é que vocês estão aí a fazer? exclamei.

Os dois levantaram-se atabalhoadamente e correram de volta ao seu quarto, soltando risadinhas e guinchos. Ocupavam o quarto que, em tempos, pertencera ao nosso tio-avô Jean, irmão do pai da minha mãe. Ouvi-os bater com a porta e, por instantes, o silêncio reinou.

Durante a maior parte do tempo, os dois gémeos faziam lembrar dois cachorros a bisbilhotar e a meter-se onde não eram chamados, o que, normalmente, lhes trazia algumas complicações, e o meu pai, apesar da nítida relutância, era obrigado a discipliná-los. Adorava aqueles seus dois filhos, orgulhava-se deles e antevia um futuro brilhante para ambos.

Os dois rapazes dividiam entre si as parecenças com o nosso pai. Jean possuía a sua destreza atlética, o seu amor pelos desportos, assim como pela caça e pela pesca. Pierre herdara o seu espírito curioso, a sua sensibilidade e o amor pelas artes, porém, nenhum ficava a dever o que quer que fosse ao outro. Pelo contrário, os meus irmãos gémeos eram como as duas metades da mesma laranja, formando um híbrido chamado Jean-Pierre.

O que um não podia fazer, o outro fazia por ele, e o que um não pensava, o outro pensava por ele. Já eram os Dois Mosqueteiros e não precisavam de um terceiro.

O que mais espantava todos, até os mais cépticos, era o facto de ambos terem tido as mesmas doenças infantis em simultâneo. Se um se constipava, era sabido que o outro o seguiria minutos depois, e eu posso jurar que, sempre que Jean batia com a cabeça ou se magoava nos joelhos, Pierre fazia uma careta de dor, e vice-versa.

Gostavam de comer as mesmas coisas e quase sempre na mesma quantidade, embora Jean, que estava a crescer a um ritmo mais acelerado, começasse a alimentar-se com maior fartura.

Que se passa aqui? ouvi a minha mãe perguntar. Ficou à escuta por momentos e depois apareceu à porta do meu quarto.

Bom dia, minha querida Pearl! Conseguiste voltar a adormecer?

Consegui, sim, mãe.

Os teus irmãos acordaram-te? perguntou, de cenho franzido.

Não queria denunciá-los, porém, a minha mãe não precisava do meu testemunho.

Podes crer que agora fizeram-me lembrar dois ratos-almiscarados a meter-se debaixo dos pés de toda a gente. Não sei que fazer com eles. Juram a inocência um do outro com o ar mais doce e cândido deste mundo.

Abanou a cabeça com ar reprovador, mas eu sabia como gostava que os dois fossem tão chegados. A situação fora muito diferente entre ela e a sua irmã gémea. Sempre que falava de Gisselle, não deixava de soltar um profundo suspiro de mágoa, incapaz de se conformar por não ter feito com que a gémea se tornasse na irmã que devia ter sido.

Seja como for eu já estava a levantar-me, mãe, há imenso que fazer e quero dar uma ajuda.

Eu sei disse a minha mãe, com lágrimas a ensombrar-lhe os olhos.

Para nós duas, talvez mais para a minha mãe, aquele era mais um dia simultaneamente alegre e triste. Se ela pudesse ter-me conservado menina para sempre, não teria hesitado, afirmara.

A vida passa a correr alertara-me. Para quê acelerá-la ainda mais?

A minha mãe sempre dissera que não queria que eu perdesse um dia que fosse da minha infância. Afirmava que, no que lhe dizia respeito, a dela fora passada completamente em branco. Atribuíra a culpa do seu crescimento acelerado à vida dura que levara.

Quero ter a certeza de que não lutas nem sofres como eu dizia-me muitas vezes. Se isso representa ficares cheia de mimo, pois que seja!

Eu, porém, sabia que ela não poderia manter-me eternamente na meninice, não que eu tivesse razões de queixa. Apesar de ter adorado crescer naquele lugar, já ansiava por sair dali e ir conhecer mundo.

Tenho a impressão de que hoje estou mais entusiasmada que tu observou, com os olhos brilhantes.

Apresentava um aspecto radioso, apesar da hora matutina. A minha mãe nunca fora pessoa para usar muita maquilhagem nem andar toda aperaltada como as mães de algumas das minhas amigas. Era raro ir ao cabeleireiro e não saltava de estilo para estilo, embora tivesse sempre uma aparência requintada e elegante. Isso talvez pelo facto de ser uma dessas pessoas especiais que determinam o estilo. As outras mulheres mostravam-se sempre interessadas no que ela escolhia para usar, em que cores e segundo que moda. Era uma artista altamente conceituada em Nova Orleães e a sua comparência nas galerias de arte ou nas exposições nunca deixava de ser notada, fotografada e referida nas colunas sociais.

A minha mãe raramente cortava o abundante cabelo ruivo, de onde lhe vinha o nome. Usava-o comprido e, quando o deixava solto, fazia-lhe caracóis ou enrolava-o num coque. Dizia-me que é na simplicidade que está o segredo da elegância.

Sabes, Pearl, as mulheres que se cobrem de jóias caras e colocam quilos de maquilhagem talvez chamem a atenção, mas raramente são elegantes alertava-me. Um par de brincos, um colar, são acessórios que devem ser usados para realçar, não para oprimir, o mesmo se passando em relação à maquilhagem. Sei que as raparigas da tua idade adoram servir-se do eye liner com abundância, mas olha que o truque está em realçar o que é positivo, não tapar.

Não faço ideia do que em mim é positivo respondera-lhe eu, fazendo-a rir.

Em seguida fixara os olhos verde-esmeralda em mim e abanara a cabeça.

Se Deus tivesse vindo ter comigo quando fiquei grávida e me dissesse para pintar o rosto que desejava que a minha filha tivesse, dificilmente poderia ter feito melhor ou pensado em alguém mais bonito do que tu, Pearl.

"Alem disso, tens uma bela figura, o tipo de corpo que fará a maioria das mulheres morrer de inveja. Não quero que a tua beleza te suba à cabeça, prefiro que sejas modesta e te sintas grata, mas também que não te tornes insegura como eu já fui. Quando isso acontece, as pessoas tendem a aproveitar-se advertiu-me, compondo uma expressão sombria, sinal de que se recordara de um dos acontecimentos mais tristes ou feios da sua vida.

Claro que eu e os meus irmãos não ignorávamos que a nossa mãe nascera e fora criada no Hayou. Só quando ela completara dezasseis anos é que seu pai, cujo nome passara para o meu irmão Pierre, soubera da sua existência, pois imaginara que a irmã gémea, Gisselle, fosse a única criança nascida do seu romance com Gabriel Landry. Nessa altura encontrava-se casado, mas Daphne, a mulher, aceitara Gisselle e fizera-a passar por sua própria filha. quando o meu bisavô Dumas a comprara à família Landry e a levara para Nova Orleães mal nascera. O aparecimento inesperado da minha mãe à sua porta, depois de completar os dezasseis anos, por pouco não desmascarara o enorme logro, porém, a família congeminara a desculpa de que a menina fora roubada logo depois de nascer, sendo devolvida graças a um rebate de consciência do casal cajun que a levara.

De tempos a tempos, a minha mãe descrevia as dificuldades que tivera de enfrentar ao viver na companhia de uma irmã gémea e de uma madrasta que a hostilizavam, no entanto, não lhe agradava nada falar mal dos mortos. Fora criada pela avó Catherinne, uma mulher cajun que exercia os seus dotes de traiteur combinando métodos religiosos, médicos e supersticiosos para tratar dos enfermos e dos feridos. Acreditava nos espíritos. Contou-me que a sua avó Catherinne e Nina Jackson, a velha cozinheira, praticante de vudu, da família Dumas, a haviam avisado de que, se ela perturbasse os mortos com aquelas histórias, eles poderiam assombrar-nos a todos.

A minha mãe não fez força para que eu acreditasse naquelas teorias, desejava apenas que respeitasse as pessoas que tinham essa crença e não me metesse por tais caminhos.

Às vezes o meu pai repreendia-a.

A Pearl é uma mulher de ciência dizia-lhe ele. Quer ser médica, não é verdade? Então não a enchas com essas tretas.

Todavia, quando se tratava de manter os meus irmãos gémeos na linha, o meu pai não se coibia de tentar assustá-los com as histórias da minha mãe.

Olhem que, se não acabam com essas correrias escada acima e escada abaixo, acordam o fantasma da vossa tia má, que virá assombrar-vos quando estiverem a dormir ameaçava-os ele.

A minha mãe dirigia-lhe um olhar disfarçado de reprimenda e ele contornava a questão queixando-se de que um homem já não podia ter sossego na sua própria casa.

Preferia que a mãe e o pai não tivessem resolvido oferecer-me uma festa tão grandiosa disse eu, saindo da cama para me ir lavar e arranjar para o trabalho que me esperava.

O meu pai contratara uma das mais famosas orquestras de jazz de Nova Orleães para tocar no pátio. Encomendara os doces ao chefe de cozinha de um dos restaurantes mais conceituados e contratara criados de ambos os sexos. Chegara mesmo a encomendar a filmagem do acontecimento a uma empresa especializada. Por ali se via o que ele não faria quando se tratasse da minha festa de casamento.

No entanto, também não me imaginava a casar. Não me via a ter a minha própria casa e a criar os meus próprios filhos. As responsabilidades eram enormes, mas aquilo que, de facto, não me passava pela cabeça era apaixonar-me de tal maneira por alguém com quem desejasse passar o resto da vida, vê-lo todas as manhãs à mesa do pequeno-almoço e à noite à do jantar, ir para todo o lado na sua companhia e ser sempre bonita e desejável para que ele só quisesse estar comigo. Já tivera namorados, evidentemente. Naquele momento andava com Claude Avery; porém, não conseguia encarar o resto da minha vida ao seu lado, mesmo sendo um dos rapazes mais bonitos da escola, alto, com cabelos escuros e olhos azul-prateados. Claude afirmara-me muitas vezes que me amava, ficando à espera que lhe dissesse o mesmo, mas eu não conseguia murmurar algo mais do que: "Eu também gosto muito de ti, Claude."

Eu achava que o amor devia ser, certamente, algo diferente, qualquer coisa muito especial. Devia haver muitos mistérios no mundo, numerosos problemas por resolver, mas nenhum parecia tão difícil como a resposta à pergunta: "O que é o amor?" As minhas amigas detestavam que eu as desafiasse a esmiuçar e descrever as suas relações de afecto pelos rapazes por quem se apaixonavam, estando sempre a acusar-me de ser demasiado curiosa e analisar as coisas com olhar microscópico.

"Porque fazes sempre tantas perguntas?", queixavam-se elas, sobretudo a minha amiga Catherime Didion. Éramos as duas tão diferentes uma da outra que custava a acreditar que fôssemos tão chegadas, no entanto, se calhar eram mesmo essas diferenças que nos atraíam. Poderia dizer-se que o que nos mantinha interessadas uma na outra tinha a ver com a curiosidade. Nenhuma de nós compreendia inteiramente a maneira de ser da outra.

A festa não é assim tão grande retorquiu a minha mãe. Alem disso estamos muito orgulhosos contigo e queremos que toda a gente o saiba.

Posso ver o meu retrato agora de manhã, mãe? Perguntei.

A minha mãe pintara o meu retrato com o vestido que eu iria usar na entrega do diploma do liceu. Era sua intenção exibi-lo, pela primeira vez, naquela noite, na festa, mas eu ainda não vira o trabalho terminado.

Não, terás de esperar. Mostrar um retrato antes de estar pronto dá azar. Ainda tenho uns retoques a fazer hoje respondeu-me, sem que eu protestasse, pois a minha mãe acreditava em espíritos bons e maus, a que ela chamava gins-gins, e nunca queria desafiar o destino. Nunca se separara da moedinha-talismã que Nina Jackson lhe oferecera anos antes. Usava-a presa a um fio, em redor do tornozelo direito.

Agora é melhor ir falar com aqueles teus irmãos para me certificar de que não fazem disparates cá em casa.

Depois ajudas-me a escolher os adereços e a arranjar o cabelo, mãe?

Claro, minha querida respondeu-me ela no preciso momento em que o meu telefone começava a tocar. Não passes a manhã na má-lingua com a Catherine advertiu-me ainda, antes de sair para ir ter com os gémeos.

Podes ficar descansada prometi.

Ao atender, verifiquei que não era Catherine, mas sim Claude.

Acordei-te?

Não, respondi.

Bem, o nosso dia chegou. anunciou Claude. Também ele era finalista e iria receber o seu diploma na festa, no entanto, eu sabia que não era a isso que se referia. Claude e eu já namorávamos há cerca de um ano. Tinhamo-nos beijado e acariciado e, em certa ocasião, chegáramos mesmo a estar quase nus ao lado um do outro na casa de Ormand Lelock, onde os pais o haviam deixado sozinho durante dois dias. Já por duas vezes fôramos quase até ao fim, mas eu resistira sempre. Disse a Claude que, para mim, teria de ser uma ocasião muito especial e ele lembrara-se de deixarmos o evento para a noite da entrega do diploma. Eu não concordara, mas também não dissera que não, e sabia que Claude tomara a resposta como um "sim".

Na primeira vez em que acontecera, eu detivera-o dizendo que me encontrava numa altura do mês em que poderia engravidar. Ficou furibundo e ouviu-me, contrariado, explicar-lhe o ciclo de ovulação da mulher.

Começa quando um dos óvulos se liberta, principiei.

Eu saio contigo refilou, e dou comigo numa aula de Ciências Naturais, a receber uma lição sobre reprodução humana. Tu pensas demasiado. Aliás, não fazes outra coisa!

Teria ele razão, perguntei a mim mesma. Quando me tocava com as mãos em certas zonas mais íntimas, eu estremecia, mas não conseguia deixar de analisar e pensar no porquê de o meu coração palpitar. Pensava na adrenalina e na razão da minha pele ficar quente. As ilustrações dos livros de estudo passavam-me diante dos olhos e Claude queixava-se que me sentia demasiado distante e desinteressada.

Na vez seguinte em que ficámos a sós, mostrou-me, orgulhoso, os métodos preventivos de que se munira. Eu não quisera ferir os seus sentimentos, mas dissera-lhe que não estava preparada.

Preparada! exclamara Claude. Como é que sabes se estás preparada? E não me venhas com explicações científicas.

Qual era a minha explicação? Divertíamo-nos muito um com o outro e todos os nossos amigos presumiam que havia amor entre nós. Os restantes estudantes do liceu consideravam-nos o par ideal, mas nós, no entanto, sabíamos que não éramos perfeitos. Eu achava que devia haver algo mais, algo mais a acontecer entre um homem e uma mulher.

Observava os meus pais juntos nas festas ou nos jantares e via o modo como se sintonizavam um com o outro, liam o rosto um do outro, cientes do que sentiam, mesmo numa sala cheia de gente. Entre os seus olhos circulava uma electricidade, uma necessidade e um amor um pelo outro que me fazia sentir segura. Se calhar eu é que pretendia demasiado da vida, mas o certo é que desejava um amor como o deles e isso eu sabia que não teria com Claude.

Não sabia como dizer ao meu namorado que não o considerava o eleito do meu coração e por pouco não chegara a aceitar as suas investidas, quanto mais não fosse para lhe fazer a vontade e satisfazer a curiosidade científica que eu tinha em relação ao sexo. No entanto, resistira até aquela noite, a noite que Claude planeava como sendo aquela em que faríamos amor.

Está tudo combinado disse. Os pais do Leste Anderson partem para Natchez logo a seguir à entrega dos diplomas, portanto ficamos com a casa toda para nós.

Não posso abandonar a minha própria festa, Claude.

Não logo de seguida, mas sim mais tarde. Tenho a certeza de que os teus pais compreenderão. Também já foram novos, interpôs Claude.

Tinha uma maneira estranha de olhar para as raparigas, mirando-as dos pés à cabeça, o que as deixava profundamente inibidas. Quando Claude o fazia, a maioria delas ria-se e sentia-se lisonjeada. No decorrer das ultimas semanas, desconfiara que Claude andava a encontrar-se com outra pessoa, talvez Diane Ratner, cujo olhar não nos largava um momento no corredor, ao ponto de me fazer arrepiar os pêlos da nuca.

A minha mãe nunca teve uma festa como esta quando era da minha idade retorqui com brandura.

Ainda assim, compreenderá, tenho a certeza. Tu queres ir, não queres? apressou-se a perguntar. Ao ver que eu não respondia imediatamente, insistiu na pergunta, com um tom de desespero na voz. Queres, não é?

Quero, respondi.

Então, está combinado. até logo. Ainda tenho muito que fazer antes da cerimónia, mas irei buscar-te.

Está bem, concordei.

Amo-te, acrescentou ele, desligando antes de me dar tempo a responder.

Fiquei sentada no mesmo sítio durante algum tempo, sentindo o coração a pulsar. Iria finalmente entregar-me naquela noite? Deveria fazê-lo? Talvez andasse a arranjar desculpas apenas por medo.

A minha mãe e eu já tínhamos tido as nossas conversas, porém, ela jamais respondera com clareza às perguntas que lhe apresentara. Em vez disso, dissera-me que ninguém o podia fazer.

Somente tu é que poderás encontrar a resposta para essas dúvidas, Pearl. És a única pessoa que saberá quando e com quem. viverás esse momento. Se fizeres dele algo de especial, assim será. As mulheres que encaram o sexo com vulgaridade, normalmente recebem o mesmo tratamento Percebeste?

Eu percebia mais ou menos. Sabia o fundamental, o lado científico da questão, mas não a magia pois era assim que eu achava que o amor devia ser, algo mágico.

Ao descer, deparei com a casa virada de pernas para o ar. Pessoas corriam de um lado para o outro seguindo as instruções da minha mãe para mudar isto e dar um jeito naquilo. Vasos com flores estavam a ser colocados em todos os cantos. As criadas limpavam todo e qualquer indício de pó. Cada uma das janelas era lavada e não havia móvel que não fosse polido. O zunido dos aspiradores enchia o ar. A minha mãe ia orientando a decoração da nossa sala de baile, de cujo tecto pendia já um cartaz resplandecente onde se lia PARABÉNS, assim como balões multicolores, serpentinas e fitas douradas. A orquestra de jazz chegara para verificar a acústica e montar os seus instrumentos.

Bom dia, Pearl cumprimentou o meu pai, vindo do pátio. Como está a minha jovem médica interna?

Beijou-me na testa e deu-me um abraço rápido. Nunca nenhuma das minhas decisões o satisfizera mais do que a de ir para Medicina. Era algo que, em tempos, ele também desejara para si mesmo.

Não cheguei a acabar o curso, confessara-me um dia.

Porque não foi até ao fim, pai? perguntara-lhe eu. Por instantes dera a impressão de não tencionar responder-me, apertando os lábios e ficando com uma expressão sombria.

As circunstâncias impeliram-me para caminhos diferentes, acabara por responder com ar enigmático. Não era esse o meu destino, Mas acrescentara apressadamente, isso talvez porque era o que te estava reservado a ti.

Que circunstâncias teriam sido essas, perguntei a mim mesma. Como poderia algo que se desejava tão intensamente não se concretizar por influências externas? O meu pai era tão bem sucedido nos negócios que custava imaginá-lo incapaz de concretizar um desejo muito grande. No entanto, ao tentar obter mais algumas respostas, reparei que se fechava e mostrava incomodado.

Simplesmente não estava escrito acrescentara ele, dando o assunto por encerrado.

Como vi que a questão era demasiado penosa para que ele se lhe referisse, resolvi não insistir, o que, no entanto, não significava que eu desistira de a esclarecer. Questões do passado continuavam a pairar invisivelmente na casa e prendiam-se aos retratos da família, onde se podiam detectar as voltas estranhas e misteriosas que a vida dos meus pais dera antes e logo depois de eu nascer. Era como se tivéssemos segredos enterrados nalgum baú velho e empoeirado do sótão, que um dia talvez não muito distante eu abriria, tal como Pandora, libertando conhecimentos dos quais depressa me arrependeria.

Lamento, mas esta manhã só tens os teus irmãos por companhia ao pequeno-almoço informou-me o meu pai. Eu já comi e a tua mãe também, pois temos imenso que fazer.

Teria preferido que o pai e a mãe não me tivessem organizado uma festa tão grande.

Por que razão? Nem outra coisa me passaria pela cabeça. Se queres saber, até nem é suficientemente grande. Estou sempre a lembrar-me de pessoas que devia ter convidado.

A lista de convidados já tem um quilómetro de extensão! O meu pai riu-se.

Pois olha que juntando as pessoas ligadas aos meus negócios com as que a tua mãe tem no campo da arte, já para não falar dos teus professores e amigos, é uma sorte que só tenha um quilómetro.

Ainda por cima o meu retrato será mostrado a todas essas pessoas... Vou ficar embaraçadíssima.

Não penses nele como o teu retrato, Pearl, mas sim como uma obra de arte da tua mãe, aconselhou-me.

Concordei com um aceno de cabeça. O meu pai tinha sempre razão. Teria dado, sem dúvida, um médico esplêndido.

Vou comer rapidamente e depois irei dar-vos uma ajuda, pai.

Que disparate. Descontraia-se, jovem senhora. Tens uma longa noite pela frente. Só quando começar é que darás por ela. Além disso, tens o teu discurso para te preocupar.

Depois ajudas-me a praticar?

Claro, princesa. Seremos o teu primeiro público. Mas agora tenho de ir ver o que se passa com o nosso estacionamento. Contratei um arrumador.

A sério?

Não queres que os nossos convidados andem por aí às voltas em busca de um sítio para estacionar, pois não? Certifica-te de que os teus irmãos tomam o pequeno-almoço e não incomodam ninguém, está bem? pediu, beijando-me antes de se dirigir, apressadamente, para a entrada da casa.

Jean e Pierre estavam sentados à mesa, ambos com um ar tão composto e inocente que desconfiei logo de alguma maroteira. As madeixas louras de Jean caíam-lhe para a testa e para os olhos, e tinha, como de costume, a camisa mal abotoada. A aparência de Pierre era impecável, mas exibia um trejeito quase imperceptível nos lábios, e Jean fitava-me com os olhos azuis a brilhar. Inspeccionei o assento da minha cadeira em busca de mel que lá pudessem ter posto.

Bom dia, Pearl cumprimentou Pierre. Que tal te sentes por ires receber o teu diploma?

Muito nervosa respondi, sentando-me e reparando que os dois ficaram a olhar fixamente para mim. Vocês fizeram algum disparate?

Sacudiram as cabeças ao mesmo tempo, mas eu não acreditei. Examinei a mesa, o chão à volta da minha cadeira, assim como o saleiro e o pimenteiro. Uma vez tinham trocado o conteúdo de um pelo de outro e, numa outra ocasião, haviam deitado açúcar dentro do saleiro.

Enfiaram as respectivas colheres dentro da papa de cereais e começaram a comer, sempre de olhos fixos em mim. Olhei para o tecto, não fosse haver alguma aranha de plástico pendurada por cima da minha cabeça.

Que foi que vocês os dois armaram? perguntei.

Nada respondeu Jean, demasiado depressa.

Juro que se hoje pregarem alguma partida, mando-vos fechar na cave.

Eu sei como sair de uma sala fechada à chave gabou-se Jean. Consigo abrir qualquer fechadura. Não é verdade, Pierre?

Não é difícil, sobretudo com as nossas fechaduras antigas declarou Pierre com ar pedante.

Tinha o hábito de franzir os olhos e premir o lábio inferior sobre o superior sempre que dava uma opinião séria.

Eu também consigo arrancar as dobradiças das portas afiançou Jean.

Está bem, acabem com isso. Estava a brincar disse. Jean mostrou-se desiludido.

Bom dia, menina cumprimentou Aubrey, o nosso mordomo, trazendo-me um copo de sumo de laranja acabado de fazer.

Aubrey já trabalhava para a família há muitos anos. Era sempre um inglês correctíssimo. Careca, restava-lhe apenas uma pequena faixa de cabelos grisalhos por cima de cada orelha. Os óculos, de lentes grossas, escorregavam-lhe constantemente pela cana do nariz ossudo e franzia os olhos castanhos sempre que olhava para nós.

Bom dia, Aubrey. Esta manhã quero apenas café e um croissant com geleia. Parece que tenho borboletas a esvoaçar dentro do estômago.

Hum murmurou Jean. Antes eram lagartas.

Ela só está a querer dizer que se sente nervosa.

É porque tens de fazer um discurso?

Sim, principalmente por isso retorqui eu.

É sobre o quê? quis saber Pierre.

É sobre a gratidão que devemos sentir por tudo aquilo que temos, pelo que os nossos pais e os nossos professores fizeram por nós e como essa gratidão se deve traduzir em trabalho árduo para que não se desperdicem oportunidades nem talentos, expliquei.

Coisa chata comentou Jean.

Não, não é nada chato corrigiu-o Pierre.

Não gosto de ficar sentado a ouvir discursos. Aposto como alguém ainda te atira uma cuspidela ameaçou Jean.

Espero bem que não sejas tu, Jean Andreas. Há muito que fazer aqui o dia todo. Não atrapalhes nem aborreças a mãe e o pai.

Hoje à noite podemos ficar a pé até todos se irem embora declarou Pierre.

E a mãe deixa-nos convidar alguns dos nossos amigos acrescentou Jean. Vamos lançar foguetes para celebrar.

Nem te atrevas ameacei eu. Pierre?

Ele não os tem.

O Charlie Littlefield tem! Jean!

Eu não deixo prometeu Pierre.

Dito isto, lançou um olhar de reprovação a Jean, que encolheu os ombros. Durante aquele último ano, os ombros deste tinham-se tornado mais largos e salientes. Era rijo e forte, tendo-se já metido em meia dúzia de brigas na escola; no entanto, eu viera a saber que três delas tinham sido para defender Pierre de colegas que troçaram dele por causa da sua poesia. Todos os seus amigos sabiam que quando alguém se metia com Pierre era o mesmo que estar a fazê-lo com Jean, e que quem troçava de Pierre tinha de aguentar com as consequências da parte de Jean.

Os nossos pais tinham sido chamados ao reitor por causa das brigas de Jean; no entanto, eu via bem como o pai se orgulhava com o facto de os dois irmãos serem tão protectores em relação um ao outro. A minha mãe barafustava com ele por não os repreender com severidade suficiente.

O mundo é um lugar duro e difícil respondia o meu Pai, portanto eles também precisam de se defender.

Os crocodilos e os aligatores também são duros e difíceis, mas nem por isso as pessoas deixam de fazer malas e carteiras da pele deles retorquia a minha mãe.

Fosse qual fosse o tema da discussão, a minha mãe arranjava sempre maneira de recorrer às suas raizes cajuns para reforçar os seus pontos de vista com analogias.

Terminado o pequeno-almoço, voltei para o meu quarto a fim de dar uns últimos retoques no meu discurso, e Catherine telefonou-me.

Já tomaste alguma decisão relativamente à noite de hoje? perguntou.

Vai-me ser muito difícil sair da festa, pois os meus pais estão a esforçar-se imenso por mim, respondi com ar contristado.

Passado um bocado nem sequer darão pela tua falta garantiu Catherine. Sabes como os adultos reagem quando dão festas para os filhos. Na verdade, o que querem é divertir-se com os seus amigos.

Isso não se aplica aos meus pais contrapus eu.

Tens de ir à casa do Lester insistiu a minha amiga. Andamos a planear isto há meses, Pearl! O Claude está a contar com isso. Sei como se sente ansioso por esse momento. Disse ao Lester, que me contou para eu to transmitir.

Irei à festa, mas não sei se ficarei durante o resto da noite disse-lhe.

Os teus pais contam que passes a noite fora. É como se fosse Carnaval. Não sejas desmancha-prazeres, sobretudo esta noite advertiu. Sei o que te preocupa acrescentou.

Catherine era a única pessoa no mundo que se encontrava a par da verdadeira situação entre mim e Claude.

Não consigo, sussurrei.

Não percebo essa tua angústia. Sabes quantas vezes eu já o fiz, e nem por isso morri, não é? disse Catherine, rindo.

Catherine...

Chegou a tua grande noite. Bem a mereces insistiu a minha amiga. Vamos divertir-nos imenso. Prometi ao Lester certificar-me de que não faltas.

Veremos, respondi, sem querer ainda comprometer-me.

Pearl Andreas, juro que hás-de tornar-te mulher nem que sejas arrastada aos gritos e a espernear, declarou Catherine, rindo.

Seria verdadeiramente aquilo que nos tornava mulheres? Sabia que era essa a opinião de muitas das minhas amigas na escola. Algumas faziam alarde das suas façanhas sexuais. pavoneavam-se com ar de superioridade, era como se tivessem ido à Lua e voltado, sabendo muito mais acerca da vida do que nós. A promiscuidade dera-lhes uma aura de sofisticação, tornando-as grandes conhecedoras da vida, sobretudo dos homens. Catherine também assumia essa atitude e era frequente mostrar_se condescendente.

És um cérebro dizia-me muitas vezes, mas da vida não percebes nada Por enquanto.

Teria razão?

Aquela noite viria a oferecer-me algo mais para alem do meu diploma de finalista?

Foi difícil voltar ao meu discurso depois da conversa com Catherine, mas acabei por conseguir. Depois do almoço, os meus pais e os gémeos instalaram-se no gabinete do meu pai a ouvirem-me ler o discurso. Jean e Pierre sentaram-se no chão, em frente do sofá. Jean não parava quieto, mas Pierre não desviava os olhos de mim e escutava atentamente.

Quando cheguei ao fim, todos bateram palmas. Os meus pais pareciam tão felizes que, por pouco, não comecei a chorar. A cerimónia de entrega de diplomas estava marcada para as três da tarde, de modo que subi ao piso de cima para acabar de arranjar o cabelo. A minha mãe veio atrás de mim.

Estou tão nervosa, mãe, confessei-lhe, sentindo o coração a bater já fortemente.

Hás-de sair-te bem, querida.

Uma coisa é dizer o meu discurso à vossa frente, outra é fazê-lo diante de centenas de pessoas. Acho que não me saírá nem uma palavra.

Antes de começares, olha para mim, sugeriu-me. As palavras começarão a sair-te. Lanço-te o olhar da avó Catherine, prometeu.

Quem me dera tê-la conhecido, observei, com um suspiro

Eu também gostaria que tal tivesse acontecido disse a minha mãe. Reparei então no olhar distante que o seu reflexo no espelho mostrava.

Mãe, prometeste que hoje me farias umas revelações sobre o passado.

Vi-a anuir e endireitar os ombros, como se se preparasse para enfrentar uma grande provação.

Que desejas saber, Pearl?

Nunca chegaste a explicar-me por que motivo casaste com o Paul, o teu meio-irmão apressei-me a dizer, baixando os olhos. Poucas pessoas sabiam que Paul Tate era meio-irmão da minha mãe.

Sim, de facto, casei. Contei-te que nós as duas estávamos sozinhas, vivíamos no Hayou e o Paul quis proteger-nos e cuidar de nós. Construiu Cypress Woods só por minha causa.

As recordações que eu tinha de Cypress Woods eram muito vagas.

Depois da morte de Paul e da desagradável acção judicial que se seguira pela minha tutela, nunca mais lá voltáramos.

O amor que ele tinha por ti era maior do que o de um irmão pela irmã? Perguntei timidamente. Vê-los juntos já parecia pecaminoso.

Era, e isso foi uma tragédia à qual não conseguimos escapar.

Mas por que razão casaste com ele se estavas apaixonada pelo meu pai e eu já tinha nascido?

Todos pensavam que eras filha do Paul respondeu a minha mãe. Sorriu. Para dizer a verdade, alguns dos amigos da avó Catherine estavam zangados por ele ainda não ter casado comigo. Acho que deixei que alimentassem essa ideia só para não me julgarem com demasiada severidade.

Por teres engravidado do papá e voltares para o Hayou"!

Sim.

Porque não ficaste simplesmente em Nova Orleães?

O meu pai morrera e a minha vida na companhia da Daphne e da Gisselle era um martírio. Assim que o Beau foi mandado para a Europa, fugi. Se queres mesmo saber, a Daphne queria que eu abortasse.

A sério?

É verdade. Não estarias agora aqui.

A simples ideia fez-me suster a respiração.

 

Portanto, regressei ao Hayou, onde o Paul tomou conta de nós. Chegou mesmo a ajudar-me a trazer-te a este mundo. Quando eu soube que o teu pai ficara noivo de alguém na Europa, concordei em casar com o Paul.

Mas o pai estava ou não estava noivo?

Foi um desses contratos por conveniência que se fazem, mas ele rompeu com a rapariga e regressou a Nova Orleães. A minha irmã andara a encontrar-se com ele. Arranjava sempre maneira de ter o que queria, e o teu pai foi apenas mais um troféu desejado por ela, respondeu a minha mãe, não sem um laivo de amargura na voz.

O pai casou com a Gisselle por ela se parecer imenso contigo, não foi?

Tratava-se de algo que conseguira arrancar ao meu pai quando ele resolvera responder à avalancha de perguntas que eu lhe apresentara.

Foi, respondeu a minha mãe.

Mas ninguém era feliz, pois não?

Não, embora o Paul se esforçasse para que nada nos faltasse. Eu dedicava todo o meu tempo à minha arte e a ti. Mas, enfim, quando a minha irmã Gisselle adoeceu e entrou em coma...

Tu tomaste o lugar dela. Eu conhecia aquela história. Que aconteceu depois!

Ela morreu e houve um julgamento terrível depois do falecimento do Paul no pântano. A Gladys Tate clamava por vingança. Mas isso já tu sabes praticamente, Pearl.

Sim, mas, mãe...

O que é, querida?

Ergui o olhar e pousei-o sobre o seu rosto carinhoso.

Porque foi que engravidaste do pai se não eras casada com ele? perguntei.

A minha mãe era tão ponderada que me admirava não ter tido cuidado com o que poderia acontecer na altura. Precisava de lhe fazer aquela pergunta, apesar de saber que era muito íntima. Sabia que a maioria das minhas amigas, entre elas Catherine, nunca tinha aquele tipo de conversas com a mãe.

Estávamos tão apaixonados que não pensámos. O que não serve de desculpa acrescentou rapidamente.

E o que acontece quando algumas mulheres ficam grávidas antes de se casarem? Estão demasiado apaixonadas para tomarem precauções?

Não. Algumas simplesmente enveredam pelo caminho do sexo e perdem o controlo. Podes ser a rapariga mais inteligente da escola, ler muito, ter as notas mais altas, mas quando as tuas hormonas entram em funcionamento... Bem, só te peço que tenhas cuidado, recomendou-me.

Não me parece justo, observei.

O quê?

Que os homens não enfrentem os mesmos riscos. A minha mãe riu-se.

Ora aí está mais uma razão para que não permitas que algum jovem te leve a fazer aquilo que não desejas. Se eles soubessem o que é dar à luz, talvez não fossem tão levianos em relação a esse assunto.

Deviam sentir as mesmas dores de parto, declarei.

E enjoarem de manhã e andarem agoniados e com dores de costas acrescentou a minha mãe.

E sentirem vontade de comer picles e sanduíches de manteiga de amendoim.

E depois terem as contracções. Desatámos a rir e depois abraçámo-nos.

O meu pai, que vinha a subir as escadas, ouviu o barulho que fazíamos e bateu à porta.

Que será que faz rir assim estas duas mulheres? perguntou.

Homens grávidos, respondeu a minha mãe.

O quê? Voltámos a rir.

As mulheres não são apenas do sexo oposto declarou o meu pai. Pertencem a uma espécie completamente diferente.

Aquilo ainda nos fez rir mais.

Depois de ter o meu cabelo como queria, peguei no vestido que usaria após a entrega dos diplomas. Em seguida, abri a caixa que continha o meu chapéu e a capa e soltei um grito.

Que foi, Pearl? perguntou a minha mãe, sobressaltada.

O meu chapéu de formatura desapareceu, mãe.

O quê? Não pode ser exclamou a minha mãe, olhando ela mesma para dentro da caixa, antes de me fitar. Foram os teus irmãos declarou, levantando-se e saindo do quarto.

Fui atrás dela, vestida com o fato que usaria na cerimónia, e descemos as escadas. Chamou pelos meus irmãos, que se aproximaram a correr, vindo pelo corredor, Pierre atrás de Jean.

Foram vocês que tiraram o chapéu à vossa irmã? perguntou, de mãos nas ancas.

Pierre olhou para Jean com ar culpado, e este sacudiu a cabeça.

Jean, não estarás a mentir?

O que está a acontecer? quis saber o meu pai, que viera rapidamente atrás de nós.

O chapéu da Pearl desapareceu e desconfio que estes dois malandrins sabem do seu paradeiro respondeu a minha mãe, sem desviar os olhos dos gémeos. Pierre apressou-se a desviar o olhar.

Rapazes! admoestou o meu pai severamente.

Ainda agora vi um chapéu na estátua do Adónis do jardim confessou Jean.

O quê?

Os meus pais entreolharam-se e depois corremos todos para o jardim.

Lá estava o meu chapéu sobre a estátua. As pessoas tinham passado constantemente por ali o dia todo, mas ninguém reparara nele ou fizera o menor comentário. O meu pai ainda esboçou um pequeno sorriso, que logo se transformou numa expressão severa ao reparar no rosto da minha mãe. Foi buscar o chapéu, que me restituiu, e a seguir voltou-se para os gémeos, os quais pareciam aterrorizados.

Como é possível que tenham pregado uma partida destas à vossa irmã! indignou-se. Sabem muito bem como ela está nervosa.

A ideia foi só minha acusou-se Pierre.

Não, foi minha, minha insistiu Jean.

O meu pai olhou para a estátua e em seguida para os dois.

Cá por mim, o Jean ajudou o Pierre a subir para colocar o chapéu na cabeça da estátua. Estou certo ou estou errado, rapazes?

Pierre disse que sim com a cabeça.

Acho que hoje à noite vocês vão direitinhos para a cama e não põem os pés na festa.

Oh, não! exclamou Jean. Só queríamos arreliar a Pearl. Tencionávamos dizer-lhe onde estava.

Ainda 'assim...

Deixe estar, pai pedi. Daqui em diante irão portar-se impecavelmente, não é verdade, maninhos! perguntei.

Os dois acenaram vigorosamente que sim com as cabeças, gratos pelo meu perdão.

Bem, se a vossa irmã é capaz de vos perdoar, estão com sorte. Têm a obrigação de se esforçar para que esta noite seja a mais feliz da sua vida intimou-os o meu pai.

Prometemos, garantiu Pierre.

Isso, prometemos reforçou Jean.

Vão-se vestir e não se sujem ordenou o meu pai. Os gémeos viraram-se e voltaram apressadamente para dentro de casa.

Os meus pais olharam um para o outro e em seguida para a estátua, e começámos os três a rir.

O sucedido pareceu quebrar o gelo que se formara à minha volta e eu já não tinha tanto medo do que estava para vir.

No entanto, talvez devesse ter tido. Provavelmente era melhor recear sempre um pouco o futuro, para estar prevenida, quem sabe se não era por isso que a minha mãe se tornara tão supersticiosa.

Algo me dizia que teria a certeza mais cedo do que alguma vez imaginara.

 

TEM APENAS PENSAMENTOS POSITIVOS.

Antes de partir para a escola a fim de me preparar para a cerimónia de formatura, a minha mãe veio ao meu quarto ajudar-me a escolher o vestido que usaria na minha festa. Enquanto arranjávamos o meu cabelo, falou-me um pouco dos seus tempos de escola no Hayou e da sua própria festa de fim de liceu. No último ano, a minha mãe e Gisselle tinham andado num colégio particular em Baton Rouge. No entanto, a experiência fora negativa, segundo a minha mãe. De bom só recordava as suas aulas de pintura e o facto de ter conhecido Louis Clairborne, um músico famoso que de vez em quando dava recitais em Nova Orleães e ia sempre jantar a nossa casa quando estava na cidade. Cada vez que esse amigo da minha mãe aparecia lá em casa, trazia sempre uma lembrança das suas andanças pela Europa para mim e para os gémeos. Eu tinha bonecas e caixas de música de França e da Holanda.

Bem, mãe disse eu, depois de Aubrey me vir avisar de que Claude chegara para me levar para os preparativos da cerimónia, lá vou eu.

Não consegui terminar a frase sem um pequeno gemido.

Não estejas assim tão preocupada aconselhou-me a minha mãe, abraçando-me.

Quando eu ia a afastar-me, chamou-me.

Espera.

Ao virar-me, vi-a sentada na cadeira do seu toucador, inclinando-se depois para desprender a moedinha da sorte em ouro que usava em volta do tornozelo.

Tencionava dar-te isto antes de partires para a faculdade no final do Verão, mas quero que fiques com ela desde já. Pearl.

Oh, não, mãe, é o teu amuleto da sorte. Não posso aceitar.

Claro que podes. Passo-a para ti.

Mas assim ficarás sem ela adverti-a.

Chegou a altura de ficares com ela. Pearl, faz-me a vontade implorou. É muito importante para mim.

Sei o que este talismã especial significa para ti, mãe insisti eu, sacudindo a cabeça mas aproximando-me para o aceitar.

Senta-te para eu ta apertar à volta do tornozelo, disse-me.

Assim fiz.

Pronto, declarou a minha mãe, dando-me uma palmadinha no joelho. Sei que consideras isto um disparate mas olha que, seja qual for a magia que tem exercido sobre mim, também o fará sobre ti.

Não me parece nenhum disparate, mãe. O problema está em ti. Deixarás de o usar.

Já desfrutei de muito mais magia do que qualquer um merece. Repara na família maravilhosa que criei e no sucesso que a minha arte tem tido. Agora só quero assistir à concretização dos teus anseios e dos dos teus irmãos.

Obrigada, mãe.

Peço-te que, por enquanto, não fales disto ao teu pai alertou-me, olhando de relance para o umbral da porta. Ele acha que dou demasiada importância a crenças antigas e ralhará comigo por querer impor-tas.

Nem a minha mãe nem eu tínhamos guardado segredos importantes do meu pai; no entanto, ocultávamos-lhe uma série de questões.

Depois contar-lhe-emos, acrescentou.

Como queiras, mãe.

Voltámos a abraçar-nos e a seguir fui-me embora. Claude estava à minha espera em frente da casa, junto do seu carro, passeando impacientemente de um lado para o outro.

Viva, cumprimentei-o, descendo as escadas a correr. Claude aproximou-se de mim e beijou-me. Nos últimos tempos andava sempre a enfiar a língua na minha boca. Dessa vez não ° fez mas, em contrapartida, apertou-me contra si com tanta força e durante tanto tempo que fui obrigada a empurrá-lo para me afastar.

Por favor, Claude. Estamos mesmo em frente da minha casa!

. Encolheu os ombros, não ligando a menor importância à rePrimenda.

Bem, chegou o dia. A nossa saída da prisão declarou. Foi esse o significado que o liceu teve para ti, Claude?

Ei, de agora em diante já não teremos os adultos a vigiar-nos constantemente. Para mim, isso representa uma libertação, e esta noite... Sorriu. Esta noite chegará a nossa vez. não é?

Tentou beijar-me de novo.

Acho que sim respondi, aproximando-me do carro e afastando-me assim dele.

A exuberância de Claude amedrontava-me ligeiramente. Parecia um jovem disposto a não permitir portas fechadas no seu caminho.

Não estejas tão triste disse. Abriu-me a porta do carro e eu apressei-me a entrar. Só estarão uns quantos na festa do Lester observou, depois de se instalar ao meu lado. Os chatos não foram convidados. Além disso, poderemos beber algo mais do que cerveja acrescentou, piscando-me o olho.

Mais do que cerveja? Que queres dizer com isso?

Sabes perfeitamente respondeu, repetindo a piscadela de olho.

Eu sei o que não quero ver-te fazer... e tu sabes o que eu não farei acrescentei com firmeza.

Já não era a primeira vez que tínhamos aquela discussão.

Tem calma. Só se acaba o liceu uma vez, declarou.

Premi os lábios e engoli as palavras que, sem dúvida, provocariam uma discussão. De momento tinha assuntos mais importantes a preocuparem-me, nomeadamente o meu discurso.

Quando chegámos, reinava a maior excitação no liceu. Fui para o balneário, onde Catherine e mais algumas amigas nossas se encontravam, para uma última troca de impressões. As raparigas emprestavam a laca umas às outras, perfumavam-se com água-de-colónia, maquilhavam-se e muitas fumavam. Diane ofereceu-me um cigarro e eu, como de costume, recusei.

É verdade, a nossa futura médica não quer poluir os pulmões troçou, fazendo rir as outras jovens.

É isso mesmo, Diane. A verdade é que o simples facto de estar aqui a engolir o fumo dos vossos cigarros já é perigoso. Foi provado.

As raparigas que me rodeavam ficaram acabrunhadas por momentos.

Que estupidez. O que é que achas, estás convencida de que viverás eternamente? retorquiu Diane.

As suas amigas sorriram.

Não, mas sei o que é ter cancro do pulmão. Não é nada agradável, respondi asperamente.

Escutem-me só a Menina Ajuizada. Que grande chata. Espero que o teu discurso não seja tão deprimente. É suposto tratar-se de uma ocasião alegre.

Estavam todas a olhar para mim.

De deprimente não tem nada declarei, na defensiva. Com licença Preciso de ir aos lavabos.

Entrei na cabina seguida pelas suas risadas. De súbito ouvi-as calarem-se e começarem a ir porta fora. Quando saí, vi que não ficara ninguém. Confusa mas contente por não ter de me envolver de novo numa discussão, também saí. Só depois de enfiar a minha túnica de formatura e colocar o chapéu é que me dei conta de que devia ter deixado o meu discurso nos lavabos. Em pânico, voltei para trás a correr; porém, nem sinais dele.

Completamente louca, corri pelo corredor, interrogando todas as raparigas que estavam na bicha, porém nenhuma delas me soube esclarecer.

Que se passa? perguntou-me Claude.

O meu discurso desapareceu. Alguém o levou enquanto estive nos lavabos, contei-lhe.

Não me digas! Que tencionas fazer?

Não sei.

Voltei-me para Catherine. Parecia estar com vontade de me dizer algo, mas tinha demasiado receio. Desesperada, dei meia volta. O Dr Stegman, o professor responsável pelo desfile, estava a mandar-me para o meu lugar.

Não consigo encontrar o meu discurso! disse-lhe. Tinha-o comigo quando fui aos lavabos, mas desapareceu.

Santo Deus, exclamou ele, indo chamar o Dr. Foster, o reitor.

Procuraste bem, Pearl? Vai lá dar mais uma vista de olhos, sugeriu. Atrasarei o desfile por mais alguns minutos.

Olhei fixamente para Catherine.

Tem de estar lá insistiu ela.

Veio-me à ideia um pensamento horrível. Voltei aos lavabos e abri a porta do cubículo ao lado daquele onde eu estivera. Lá estava o meu discurso, a flutuar na água da sanita.

Oh, não! gritei, metendo a mão na água para o tirar. Muitas das palavras já estavam apagadas. Limpei o papel o melhor possível com uma toalha e a seguir fui colocar-me à cabeça da fila.

Encontraste-o? perguntou o Dr. Foster. Mostrei-lhe as folhas encharcadas.

Como foi que isso aconteceu?

Boa pergunta retorqui em voz bem audível, para que todas as minhas colegas ouvissem. Como foi que isto aconteceu?

O meu coração batia com tanta força que achei que iria fazer figura de parva diante de todas as famílias e convidados presentes. Nem sei como é que as minhas pernas conseguiram levar-me pelo corredor e pela porta, mas o certo é que aconteceu.

Na verdade nem tive tempo para me preocupar comigo mesma. Marchámos até ao palco que fora montado no exterior para a cerimónia e instalámo-nos nos nossos lugares. Tentei não olhar para o público. Havia muito barulho, risos, conversas, choro de bebés, ralhetes a crianças pequenas para que se aquietassem, a maior confusão. De qualquer maneira, ninguém iria escutar o meu discurso, pensei. Para quê preocupar-me?

A nossa cerimónia decorria num belo dia de sol, em que a brisa suave que soprava fazia adejar a bandeira e as madeixas de cabelo nos nossos ombros. O céu, azul-turquesa, exibia faixas de nuvens enfunadas.

À distância, ouvia-se o apito dos barcos a vapor que se preparavam para levar turistas pelo Mississipi acima.

Depois de o nosso reitor proceder às apresentações e fazer uma pequena introdução, fui chamada ao palanque. Levantei-me, sentindo as pernas a tremer. Fechei os olhos, respirei fundo, voltei a abri-los e obedeci. As minhas colegas estavam completamente mudas, curiosas sobre o que eu iria fazer. Percorri a multidão com o olhar, até encontrar a minha mãe, que me fitava confiantemente. e nesse momento as palavras começaram a sair. Não precisei de olhar para o papel, pois tinha o discurso imprimido na memória.

Para minha surpresa, fizera-se o maior silêncio. Ergui a cabeça, respirei profundamente e comecei. Agradeci ao reitor e, a seguir, dirigindo-me ao corpo docente, aos pais, familiares e amigos, comecei a fazer, com uma voz que se foi progressivamente fortalecendo, o discurso que andara a preparar nos últimos dias. O espantoso é que, depois de começar, as palavras fluíram. De vez em quando fixava o olhar nos rostos entre a multidão e reparava que as pessoas estavam realmente a ouvir. Muitas exibiam sorrisos simpáticos e apreciativos. Os gémeos não desviavam o olhar de mim, ambos com a boca ligeiramente aberta, sem sequer se mexerem.

Quando cheguei ao fim, os aplausos ressoaram nos meus ouvidos e, ao olhar para os meus pais, vi-lhes a felicidade estampada no rosto. Até Jean e Pierre se mostravam impressionados.

Pararam de bater palmas exactamente no mesmo instante e, ao desviar o olhar para Claude, reparei que sorria orgulhosamente e acotovelava os colegas para que sentissem inveja. Diane Ratner e as amigas pareciam arrasadas, no entanto, Catherrine apressou-se a vir dar-me um abraço.

- Foi formidável. Tinha a certeza de que eras capaz, com ou sem papeis E cheguei mesmo a ouvir tudo do principio ao fim, embora não percebesse algumas partes.

Obrigada, agradeci-lhe secamente.

Não queria que pensasse que me conformara com a sua débil demonstração de amizade. Desiludira-me.

Sentei-me, enquanto o reitor e o director do conselho pedagógico subiam ao palanque para proceder à entrega dos diplomas a cada um de nós. Quando me levantei para ir receber o meu, o público saudou-me com nova revoada de aplausos. O meu pai tirava fotografias e os gémeos acenavam e gritavam de contentamento.

Bom trabalho, minha jovem, saudou-me o reitor. Felicidades.

Agradeci-lhe e sorri, mais uma vez, para a máquina fotográfica do meu pai.

Terminada a cerimónia, muitos vieram cumprimentar-me pelo meu discurso. Todos os meus professores se aproximaram, tal como algumas colegas e respectivos pais, para me desejar boa sorte. Fiquei contente por a minha tia Jeanne irmã de Paul, o meio-irmão da minha mãe estar presente e também desejar saudar-me.

A tia Jeanne era o único membro da família Tate que mantinha alguma ligação connosco. Era ligeiramente mais alta do que a minha mãe e tinha cabelo castanho-escuro e olhos amendoados. A minha mãe dizia que a tia Jeanne parecia-se mais com a mãe, Gladys, do que com o pai, Octavious, pois fora desta que herdara a pele morena, assim como o queixo espetado e o nariz quase perfeito. Eu gostava dela porque nos tratava sempre muito bem, mostrando um carinho especial por mim.

Adorei o teu discurso, Pearl querida, declarou a tia Jeanne, abraçando-me.

Foi formidável acrescentou o tio James, acenando com a cabeça. Apertou a mão ao meu pai. Tens muito de que te orgulhar, Beau.

Os meus pais irradiavam tamanha felicidade que senti arrepios percorrerem-me a espinha.

Que tal vai a família, Jeanne? perguntou a minha mãe, com expressão momentaneamente sombria.

A mãe, além de artrite, também está com gota. O pai, esse mantém-se sempre na mesma. Só pensa no trabalho. A tia Jeanne sorriu. Sabes, o filho mais novo da minha irmã Toby fez dezasseis anos. Em breve iremos ter mais um finalista de liceu na família.

A tia Jeanne e o tio James nunca tinham tido filhos, eu não sabia muito bem porquê. Se a minha mãe conhecia a razão, nunca ma revelara.

Vens até nossa casa, não é, Jeanne? perguntou-lhe a minha mãe.

Claro. Não perderíamos a festa por nada deste mundo, respondeu. Sabias que eu viria cá, sussurrou-lhe, suficientemente alto para que eu ouvisse.

Reparei na maneira como mergulhavam o olhar uma na outra e senti que palavras não proferidas passavam entre si, palavras que eu sabia dizerem respeito a Paul, o meio-irmão da minha mãe, o homem que povoava o estranho pesadelo que me atormentava constantemente.

O Paul teria ficado muito orgulhoso com ela acrescentou Jeanne.

Os olhos da minha mãe encheram-se de lágrimas e vi-a acenar afirmativamente com a cabeça. Voltaram a abraçar-se.

A minha mãe virou-se e procurou os gémeos, que se divertiam a serpentear pelo meio da multidão, arreliando algumas das minhas amigas. Dessa vez fiquei satisfeita com o seu comportamento. A minha mãe chamou-os, pois chegara a altura de voltarem para casa e finalizarem os preparativos para a festa; rodeou-me com um braço e dirigimo-nos todos para a limosina.

Estou muito orgulhosa de ti, disse-me.

Preferi não lhe falar da partida que as minhas falsas amigas me tinham pregado nos lavabos.

Estava tão nervosa. Não se notou?

Nem um pouco. Já te tinha dito que, uma vez começando, as palavras iriam sair-te espontaneamente da boca.

Na limosina, os gémeos troçaram de mim pelo modo como revirara os olhos ao dizer certas frases, mas a minha mãe ralhou-lhes e eles acalmaram um pouco. Eu já não sentia o estômago às voltas. Naquele momento o que estava era completamente esfomeada. Passara o dia todo demasiado nervosa para me alimentar convenientemente.

Quando chegámos, alguns dos convidados já lá se encontravam e a orquestra começara a tocar. O ambiente era festivo. Corri ao piso de cima para envergar o meu vestido de noite e arranjar o cabelo. Quando desci as escadas, os restantes convidados tinham começado a chegar, trazendo presentes pela ocasião. Um dos cantos da sala de estar fora destinado para os reunir e os gémeos não tiravam os olhos da pilha, ansiosos por rasgar os embrulhos e satisfazer a sua curiosidade. A minha mãe advertiu-os de que ficassem longe, de modo que resolveram sair dali para ir brincar com os amigos.

Um exército de empregados começou a servir aperitivos quentes e frios, acompanhados por taças de champanhe. Os sócios do meu pai reuniram-se na sala de baile e a minha mãe recebeu alguns dos nomes mais ilustres da comunidade artística, assim como outros pintores e donos de galerias. A multidão, incluía o jet set das colunas sociais.

O meu retrato permaneceu tapado em cima de um cavalete, perto do enorme bolo de andares onde se liam as palavras "Felicidades, Pearl", escritas a vermelho. Tanto o bolo como o retrato estavam sob o foco de um holofote. O meu pai queria, depois de todos os convidados chegarem, tornar a primeira exibição do retrato um momento especial. Claude chegou um pouco mais tarde, acompanhado por Lester Anderson e alguns outros amigos e eu percebi imediatamente qual fora a razão da demora. Pela maneira como cambaleavam e riam, vi que já tinham tomado algumas bebidas alcoólicas e, quando Claude veio beijar-me, senti o cheiro a conhaque no seu hálito.

O ponche está puxado? perguntou-me.

Claro que não respondi.

Claude piscou o olho a Lester, um rapaz alto e magro que andava sempre com ar de quem acabara de cometer alguma maldade. Lester idolatrava Claude e far-lhe-ia qualquer vontade.

Queres que trate disso? perguntou-me Lester, entreabrindo o casaco e mostrando-me a pequena garrafa de rum que trazia num dos bolsos interiores.

Lester Anderson, não te atrevas! adverti-o.

Os rapazes riram. Claude rodeou-me a cintura com os braços e tentou beijar-me.

Claude, pára. Os amigos do meu pai estão a olhar para nós.

Vamos um bocado para dentro do gabinete segredou-me. Ainda não te cumprimentei como deve ser.

Não. Peço-te que tenhas paciência respondi-lhe. Apesar de contrariado, afastou-se e portou-se bem. Pouco depois, o meu pai pediu à orquestra que parasse de tocar por momentos e subiu para o centro da plataforma para anunciar que iria mostrar o meu retrato.

Esta noite temos um presente especial para a Pearl, principiou. Na verdade, trata-se de um trabalho feito pela minha mulher, mas uma das razões que me levaram a casar com ela foi saber que era talentosa e poderia fazer coisas deste género.

Todos riram. Olhei de relance para a tia Jeanne, que parecia trocar olhares cúmplices com a minha mãe. O meu pai pegou numa das pontas do pano que cobria o meu retrato e o meu coração começou a bater fortemente. Era um momento de ansiedade quase tão grande como quando me levantara para fazer o discurso de finalistas.

Pearl chamou o meu pai.

Eu subi para junto dele no meio dos aplausos dos convidados. A minha mãe colocou-se ao lado do meu pai e este inclinou-se para o retrato e, ao som de um pequeno acorde de pompa e circunstância da orquestra, puxou lentamente o pano e revelou um quadro que me fez suster a respiração. A minha mãe não pintara apenas um retrato meu com a fatiota da finalista. Por trás da minha figura estava uma outra, essa mostrando-me vestida de médica, de estetoscópio ao pescoço.

Um murmúrio de admiração percorreu a multidão antes de esta começar a aplaudir entusiasticamente, ao mesmo tempo que alguns dos presentes se aproximavam da minha mãe para lhe apertar a mão e dar os parabéns.

Parecem gémeas, exclamou Pierre.

Assim como nós somos dois, tu também tens outra igual, guinchou Jean.

Todos riram.

É lindo, mãe comentei eu, abraçando-a. Espero estar à altura dele.

Acho bem que o consigas disse-me;u pai, beijando-me também.

A partir dali, a festa decorreu com grande animação. Os músicos passearam pela casa, como se fosse de facto, Carnaval. A comida foi trazida e disposta sobre as mesas. Havia travessas com peru e carne assada, camarões recheados em molho de ostra, camarões à Mornay, caranguejos recheados e também lagosta estufada. Todos se mostravam impressiionados com os pratos requintadamente apresentados e, quando trouxeram os doces em carrinhos de mesa, soltaram exclamações de deleite diante da tarte de pêssego, do bolo de nozes e banana, dos crepes, da tarte de noz-pecã, do creme de laranja caramelizado e da mousse de chocolate com rum. O meu bolo de festa também foi cortado em fatias, que depois se distribuiriam.

A ementa rica e variada contribuiu para acentuar, ainda mais, o ambiente festivo. Havia pessoas a dançar em todo o lado, até no corredor. Eu circulava o mais que podia, falando com alguns dos amigos dos meus pais. De repente, ao deter-me no salão de baile para recuperar um pouco de fôlego, senti alguém atrás de mim.

É uma boa altura para nos pormos a andar daqui para fora. segredou-me Claude, pousando as mãos nas minhas ancas.

Ainda não posso, Claude disse-lhe, afastando-me.

Porque não? Estiveste aqui para o grande acontecimento, a exibição do teu retrato. Já comemos o suficiente. Fez uma pausa, fixando os olhos azuis no meu rosto com ar desconfiado. Não disseste aos teus pais que ias a outra festa? Aguardou um instante e depois acrescentou rapidamente. Não disseste, pois não?

Tencionava fazê-lo mas eles andavam tão entusiasmados com a minha festa que não tive coragem. Dá-me um pouco mais de tempo, implorei.

Claude fez má cara e, relutante, voltou para junto dos amigos que, cumprindo a ameaça, tinham "baptizado" o ponche de que se serviram. Naquele momento partilhavam-no com Catherine, Mane Rose e Diane Ratner. Esta andara sempre atrás de Claude. Reparei que se aproveitava do facto de eu ter de fazer sala com os amigos dos meus pais. Enfiara o braço no de Claude e segredava-lhe constantemente ao ouvido. Dissesse o que dissesse, saltava à vista que o divertia, apesar de ele estar sempre a olhar para mim. Não me foi difícil perceber que, à medida que o tempo passava, ia ficando cada vez mais furioso, o que lhe fazia luzir os olhos azul-prateados como seixos em água fria.

Ia a falar novamente com ele quando a tia Jeanne me bateu no ombro.

Então, que tencionas fazer este Verão? perguntou-me.

Irei para o hospital trabalhar como enfermeira. O pai achou que seria uma óptima experiência para mim.

Portanto, essa tua intenção de seres médica é mesmo séria, não? inquiriu com um sorriso.

- Sim, muito séria.

A tia Jeanne acenou com a cabeça.

Talvez estivesse escrito, observou, levando-me a recordar a bisavó Catherine.

"Conheceu a minha bisavó Catherine, tia Jeanne?

Ouvi falar nela. Era uma traiteur muito famosa. Quem me dera que ainda fosse viva, para ajudar a minha mãe. Ela tem andado a tratar-se com uma outra, mas esta mulher não parece ter os poderes curativos da tua bisavó. Não te mete impressão estar ao pé de pessoas doentes, ver enfermidades e sangue?

Não, respondi. Sempre que ajudo alguém que está doente, sinto-me bem.

A tia Jeanne sorriu.

Nesse caso, talvez o dom da Catherine tenha passado para ti. Fitou-me com um olhar maravilhado e acenou com a cabeça. Boa sorte, minha querida. Um dia destes vai visitar-nos ao Hayou.

Assim farei respondi, engolindo em seco.

Os meus pais nunca me tinham proibido de o fazer; no entanto, a relutância que eles mesmos mostravam em lá voltar, como que fazia daquele lugar um tabu.

Estou quase a ter de me ir embora, mas antes disso gostava que ficasses com isto.

Entregou-me uma caixinha que não estava embrulhada como se fosse um presente.

Obrigada agradeci, um tanto surpreendida por a minha tia não a ter embrulhado e colocado junto dos outros presentes.

Vá, abre, incitou-me.

Olhei para o outro lado da sala e vi a minha mãe a olhar para nós com expressão receosa, o que me fez tremer os dedos. Por fim, abri a caixinha e deparei com um medalhão de prata.

Tem uma fotografia dentro explicou a tia Jeanne.

Carreguei no fecho e abri o medalhão. Continha uma fotografia de Paul comigo ao colo, em criança, com o mesmo chapéu de palhinha na cabeça. Fiquei sem conseguir falar durante um momento. Era exactamente a maneira como sempre o visualizara no início do pesadelo que tinha constantemente.

Achei que gostarias de ficar com ele disse-me a minha tia.

Claro, obrigada.

Tens alguma lembrança dele? perguntou-me.

Muito vaga, respondi.

Ele gostava muito de ti e tu dele, disse-me a tia Jeanne melancolicamente. Em seguida soltou um suspiro fundo e cobriu as minhas mãos com as suas, fechando assim o medalhão entre elas. Mas não é altura para tristezas. Guarda-o num lugar seguro e olha para ele de vez em quando, pediu.

Voltei a agradecer-lhe, vendo-a depois afastar-se para se despedir dos meus pais.

A minha mãe aproximou-se imediatamente.

Vi a tua tia dar-te qualquer coisa, disse. Mostrei-lhe o medalhão, o que lhe provocou um sobressalto.

Eu sabia que estava relacionado com o Paul.

É verdade que os restantes membros da família Tate nos odeiam? perguntei.

Digamos que não constamos na sua lista de preferências replicou a minha mãe. Olhou de novo, fixamente, para a fotografia. Era um homem muito bonito, não era?

É verdade. Devolveu-me o medalhão.

Foi simpático da parte dela ter-te oferecido isso, assim como é compreensível que não queira ver o Paul esquecido. Guarda esse medalhão entre os teus objectos mais queridos.

Assim farei, mãe.

Depois de me sorrir brandamente, voltou para junto dos seus convidados.

Pouco depois, Catherine acercou-se, conversava eu com Dominique, a dona de uma galeria de arte que andava a tentar convencer a minha mãe a deixá-la expor o meu retrato na sua montra.

O Claude está muito aborrecido. Queremos todos ir embora, Pearl. O Lester e os outros já seguiram para casa dele. Vens ou não?

Mordi o lábio inferior. Uma parte de mim desejava ir, outra, não. Vi o meu pai rir noutro lado da sala. Os gémeos estavam a encher-se, juntamente com os amigos, de bolo de morango. Achei que já poderia retirar-me discretamente.

Vou falar com a minha mãe, disse.

Óptimo. Direi ao Claude, declarou Catherine.

A minha mãe raramente perdia o que se passava à sua volta. Ia conversando com as suas amigas do mundo das artes e, ao mesmo tempo, estava de olho em mim. Ao ver dirigir-me na sua direcção, veio ter comigo.

Que foi, querida? perguntou-me. Queres ir a algum lado com os teus amigos?

Acho que sim respondi.

Olhou para Claude, Catherine e os outros, antes de se voltar de novo para mim.

Se não estás com muita vontade de ir, por alguma razão é, Pearl, declarou com a segurança de uma médium. Que se passa, querida? Vai ser uma festa desregrada?

" É possível, confessei.

A minha mãe esboçou um sinal de entendimento.

Sabes o que é crescer, observou, abanando a cabeça como alguém que chega finalmente a uma conclusão. É ter a noção de quando se deve dizer "não". Nada mais que isso, creio, acrescentou. Quem decide és tu. Tens todo o direito de sair, se quiseres. A noite pertence-te, Pearl. O teu pai compreenderá.

Abraçámo-nos e eu fui para junto dos meus amigos. Claude ergueu as sobrancelhas e sorriu. Eu ia a fazer um sinal de assentimento, mas parei. Ocorreu-me que, assim que saísse dali e fosse com Claude até à casa de Lester, dizer "não" seria mais difícil do que chegar ao fim do curso de Medicina.

Já podes vir? perguntou Claude ansiosamente.

Que tal nós os dois ficarmos por aqui, Claude? sugeri. Poderemos ter muita privacidade.

Aqui? Estás a falar a sério? Há criados por todos os cantos... Anão ser que nos esgueiremos até ao teu quarto propôs, com olhos lascivos.

Claude, não gosto de ser pressionada, observei.

Pressionada? Namoramos há quase um ano, o que, hoje em dia, é quase como estarmos casados, protestou.

Comecei a rir mas ele continuou, cada vez mais furioso.

Não sabes o que representa para mim ter de mentir a todos os meus amigos, fazendo de conta que somos realmente amantes. Todos eles têm namoradas que não receiam fazer amor.

Queres dizer que tens inventado histórias a nosso respeito? perguntei.

Evidentemente. Queres que faça figura de idiota?

É nisso que te transformarás se não dormirmos juntos, um idiota? O que é feito da consideração por mim e pelos meus sentimentos?

O que mais desejo disse Claude, aproximando-se mais de mim é cuidar dos teus sentimentos. Anda, vamos ter com os outros.

Prefiro ficar aqui, Claude declarei, depois de suspirar fundo.

Claude sacudiu a cabeça.

Tu nunca hás-de fazer amor comigo, pois não?

 

Senti o coração a bater fortemente pelo facto de aquele episódio tão infeliz e desagradável estar a passar-se logo naquela noite.

Então? insistiu ele. Como é que vai ser? Desprendi a corrente que usava ao pescoço com o anel de

Claude enfiado e entreguei-lho.

Admirado, agarrou rudemente nele.

O que eu devia era ter dado ouvidos aos meus amigos, que bem me diziam que tu só tens cérebro, mais nada. Se calhar depois de cada um dos nossos encontros foste para casa e escreveste um relatório, não?

Claro que não retorqui.

Sinto pena de ti continuou Claude, abanando a cabeça. Estás sempre a dissecar as pessoas. O que te aconteceu? Tiraste a temperatura e concluíste que esta noite era a tua ovulação? perguntou ainda, contorcendo os lábios num esgar sarcástico.

As suas palavras eram como dardos dirigidos ao meu coração. As lágrimas teimavam em sair; porém, jamais me permitiria chorar à frente dele.

Vens, Claude? perguntou Diane Ratner, arqueando os ombros sugestivamente.

Podes crer que sim respondeu-lhe Claude, sorrindo. A seguir rodeou-lhe a cintura com um braço e apertou-a fortemente contra si. A rapariga soltou uma risadinha de prazer e lançou-me um olhar de satisfação. Quase podia ouvi-la a dizer com jactância: "Podes muito bem ser a melhor da classe e até podes ser dona desta casa enorme e desta festa sumptuosa, mas quem fica com o teu namorado sou eu."

Satisfeita? perguntou-me Claude.

Sim. Se isso é o que consideras o mais importante, nesse caso estou satisfeita. Tomei a decisão certa respondi.

O sorriso dele desvaneceu-se rapidamente.

Volta para o meio dos teus livros, disse-me com risPidez.

E que sejam bem insípidos acrescentou Diane.

As risadas ficaram a pairar no ar enquanto se juntavam aos outros e depois se dirigiam para a porta da frente. Catherine veio ter apressadamente comigo.

Que estás a fazer?

- O mais sensato respondi. Ao ver que sacudia a cabeça e olhava para os colegas, acrescentei: Vai com eles, não te preocupes comigo. Estou bem.

- Era suposto esta ser a noite da tua libertação lamentou Catherine.

Todos nós temos maneiras diferentes de nos libertarmos, acho. Porque permitiste que elas destruíssem o meu discurso? Pensava que éramos amigas.

Foi só uma brincadeira. Eu tinha a certeza de que não te faria falta respondeu Catherine, evitando o meu olhar.

Os amigos protegem-se uns aos outros, mas se calhar para isso é preciso ter uma certa maturidade, acrescentei secamente.

Dessa vez olhou para mim, furibunda.

Já não sei o que pensar de ti, Pearl. Talvez sejas demasiado convencida para conviveres connosco. Estou desiludida acrescentou, virando-se e correndo atrás dos outros.

Vi-os sair de casa e, por um momento, toda a música, todas as conversas e risos se desvaneceram. Só ouvia as palavras furiosas de Claude e as de desilusão de Catherine.

Mordi o lábio inferior e reprimi os soluços que ameaçavam escapar-me. Apesar de ter comido, sentia um vazio no estômago. Seria eu demasiado presunçosa, excessivamente intelectual. Olhei de novo para a minha festa. Todos estavam a divertir-se e o meu pai parecia extremamente feliz e satisfeito. A minha mãe conversava com umas amigas da galeria. Todos os meus colegas já se tinham retirado. Porque estaria eu, numa noite que imaginara tão maravilhosa, a sentir-me tão deprimida? Saí apressadamente por uma porta lateral e percorri, em passos lentos, o pátio, em direcção à piscina e ao jardim, deixando para trás o som alegre das risadas, da música e das conversas.

Cruzei os braços e, de cabeça baixa, caminhei lentamente. De repente, os gémeos e dois amigos seus saltaram do meio das sebes para a minha frente, gritando ao mesmo tempo: "Buu!"

Ponham-se a andar daqui para fora! gritei-lhes asperamente.

Pierre ficou de boca aberta, mas Jean continuou a rir-se.

Estávamos só a brincar, Pearl justificou-se Pierre.

Agora não estou com paciência para vos aturar. Deixem-me em paz! gritei-lhes de novo.

Desculpa, Pearl pediu Pierre. Agarrou no braço de Jean. Anda, vamos ver se arranjamos gelado.

O que se passa com ela? perguntou Jean, confuso.

Anda ordenou Pierre.

Embora Jean fosse mais forte, obedeceu ao irmão, e os quatro desandaram rapidamente de volta a casa, deixando-me sozinha com as minhas angústias.

No alto, o céu que estivera praticamente límpido e cheio de estrelas começava a enevoar-se progressivamente. Era como se as nuvens estivessem a ser atraídas de um horizonte para o outro como duas cortinas escuras gigantescas, destinadas a bloquear o céu e também a felicidade que eu sentira naquele dia. Instalei-me numa cadeira comprida e fiquei a ouvir os sons da cidade que chegavam até às paredes da nossa casa.

Há algum problema, Pearl? ouvi alguém perguntar pouco depois. Levantei a cabeça e vi a minha mãe ao meu lado, no meio da penumbra.

Não, não há.

Colocou-se sob o pálido fulgor das luzes que iluminavam o pátio.

Conheço-te bem, querida, e tu sabes que quando estás triste dou logo por isso declarou.

Nada mais verdadeiro. Às vezes havia uma ligação tão grande entre nós que o meu pai abanava a cabeça de incredulidade.

Trouxe-te dentro de mim continuou. Estivemos demasiado unidas para que não nos apercebamos dos sentimentos mais íntimos uma da outra. O que aconteceu?

Encolhi os ombros.

Eu disse que não e foram-se todos embora. Acham que eu sou uma presunçosa e não passo de um cérebro.

Ah, compreendo. Sentou-se ao meu lado, na escuridão crescente, com o rosto oculto na sombra, o que não impediu que os seus olhos captassem um pouco de luz e luzissem de ternura e compreensão. Sei que, para ti, é penoso afastar os amigos, mas tens de fazer aquilo que o teu coração manda. Depois de um silêncio, prosseguiu: Em tempos, já lá vão muitos anos, disse que não e acho que foi por isso que salvei a minha vida.

A sério? O que aconteceu?

A minha irmã e um namorado apareceram de carro e convidaram-me a acompanhá-los. Tinham andado a fumar charros e eu vi que estavam nas nuvens, rindo tresloucadamente. Também eles acharam que eu era uma desmancha-prazeres e lembro-me de ficar a pensar se não haveria algo de errado em mim, quem sabe se era demasiado adulta para a minha idade.

Foi nessa noite que ocorreu o acidente que deixou a Gisselle aleijada?

Sim, e matou o rapaz. Não quero com isto dizer que aconteçam sempre coisas terríveis, mas tens de seguir o teu instinto e acreditar em ti mesma.

Estar com o Claude tinha, de vez em quando, a sua graça. É o rapaz mais popular do liceu, mas os meus sentimentos por ele não são suficientemente profundos. A verdade é que ainda não senti nada de muito intenso por nenhum rapaz, mãe. Não é esquisito? Serei demasiado fria e analítica?

Claro que não respondeu a minha mãe, rindo. Porque hás-de envolver-te seriamente com alguém, se ainda és tão nova?

Aconteceu contigo, declarei de imediato, arrependendo-me logo a seguir.

No meu caso não foi bem assim, Pearl. Tive um tipo de vida completamente diferente. Já te falei nisso. A minha infância foi curta. Quem me dera ter tido mais tempo para ser jovem e despreocupada.

Mas apaixonaste-te pelo pai assim que o conheceste, não é verdade?

Acho que sim.

Apesar da escuridão, consegui ver o pequeno sorriso que esboçou.

Foi além, naquela cabana do jardim, que demos o nosso primeiro beijo, um beijo que mudou a minha vida. Mas isso não quer dizer que tenha de ser assim com todos, sobretudo contigo continuou rapidamente. Vais ter uma carreira e irás dedicar-te a questões mais importantes do que a maioria das tuas amigas.

E isso é bom? perguntei a mim mesma em voz alta. Não me escapará assim algo de especial?

Não creio, querida. Estou convencida de que estás destinada a coisas superiores e que, quando te apaixonares por alguém e esse sentimento for recíproco, essa relação será muito mais intensa do que possas imaginar agora.

Quase tenho vontade de ir à Marie Laveau, do French Quarter, pedir-lhe que me dê uma poção de amor disse, fazendo rir a minha mãe.

Quem foi que te falou nisso? Não me digas que fui eu acrescentou rapidamente.

Não, fui eu que li algures. Nunca fizeste nada do género, pois não?

Não, mas de vez em quando acendia uma vela ou a Nina Jackson fazia-o por mim, mantendo assim afastados os espíritos maus que pensava estarem a assombrar-me. Imagino que aches um disparate. Se calhar até é.

Não faço ideia, mãe. Quem sabe se eu não me sentiria mais feliz, se fosse menos... científica e séria observei. As minhas amigas de certeza que gostariam mais de mim.

Que disparate! Não deixes de ser quem és só para agradar aos outros aconselhou-me a minha mãe

Ei, chamou o meu pai da entrada da porta que deitava para o pátio. Estás aí fora, Ruby?

Estou sim, Beau

Alguns amigos estão de saída e querem despedir-se de ti

Já vou.

há algum problema? perguntou o meu pai ao ver que eu estava junto da minha mãe.

Não.

Parou por momentos, céptico.

Têm a certeza?

Estou bem, pai, disse-lhe. Já entramos. Levantei-me e a minha mãe pôs um braço à minha volta

Estás bem de verdade? assegurou, apertando-me contra ela. Tenho orgulho em ti não só porque foste a melhor da classe e fizeste um discurso maravilhoso, mas também porque és sensível e sensata. Não sabes como é bom ter uma filha na qual se pode confiar totalmente.

Obrigada, mãe.

Beijei-a na face e senti o cheiro do seu cabelo e do perfume que usava, o que me tornou mais leve. Eu era uma pessoa cheia de sorte e decidi não permitir que, fosse o que fosse, ensombrasse aquele dia e aquela noite inesquecíveis.

Depois de os convidados se retirarem, os gémeos choramingaram, implorando-me que abrisse os presentes. A minha mãe ainda quis mandá-los para a cama, porém, o meu pai disse que era uma noite especial e podiam ficar a pé até um pouco mais tarde. Fomos, portanto, para a sala de estar, onde eu desembru lhei alguns dos presentes.

Havia roupas para eu usar na faculdade e alguns livros de especialidade caros. O Dr Poitier e a mulher tinham-me oferecido a ultima edição da Anatomia, de Gray.

Os gémeos depressa se fartaram dos meus presentes. Recostaram-se no sofá enorme, um de encontro ao outro, Pierre com o braço por cima dos ombros do irmão. Este esforçava-se para não fechar as pálpebras e deixar-se vencer pelo sono. A certa altura, o meu pai abanou-os e mandou-os para a cama. Como não lhes restavam forças para resistir, lá foram, trôpegos. Ele levou-os até ao andar de cima e a minha mãe foi atrás para se certificar de que ficavam bem.

O primeiro a voltar foi o meu pai. Feliz, princesa? perguntou-me.

Claro, pai.

No meu tempo, foi o dia mais feliz da minha vida, contou-me.

Não foi, não, pai.

Que dizes?

O dia mais feliz da tua vida foi aquele em que conheceste a mãe.

O meu pai riu-se.

Isso foi diferente.

Mas foi o teu dia mais feliz, não foi?

Na altura não me dei conta, mas o certo é que foi. Encontrei-a pela primeira vez mesmo em frente desta casa, e pensei que fosse a irmã dela mascarada.

Quando é que um homem sabe quando está apaixonado, pai? Será que ouve o toque de sinos na sua cabeça?

Sinos? Sorriu. Não me lembro de sinos, só de todas as manhãs, ao acordar, o meu primeiro pensamento ir para a tua mãe. Fitou-me. Problemas com o Claude?

Acenei que sim com a cabeça.

A resposta é simples, Pearl, és demasiado madura para ele.

Se calhar sou demasiado madura para todos os rapazes da minha idade.

é possível.

Isso significa que só serei feliz com um homem muito mais velho?

Não, respondeu o meu pai, rindo. Não, necessariamente E não tragas aqui a casa alguém que tenha idade para ser teu pai, advertiu-me.

Depois de um abraço, subimos ao andar de cima. Ao chegarmos à porta do meu quarto, deu-me um beijo na testa.

Boa noite, princesa, disse-me.

Boa noite, pai.

Quando estava a abrir os presentes lá em baixo disse-me, pareceu-me ver algo em volta do teu tornozelo. É o que eu penso? Ao ver-me acenar afirmativamente com a ca beça, acrescentou. Bem, dizem que, quando se acredita em algo com muita convicção, isso não deixará de acontecer. Estarei certo?

Deu-me mais um beijo e eu entrei no meu quarto. A minha mãe também veio dar-me as boas-noites. Contei-lhe que o meu pai vira a moedinha.

Agora vai passar a vida a meter-se comigo, disse-me. Mas não me importo. Vi a minha avó fazer coisas que desafiavam a razão e a lógica.

tens?

- Ainda tens muito para me contar sobre o passado, não?

Pois tenho admitiu tristemente.

Mas a partir de agora irás fazê-lo, não é verdade? O que há de bom e de mau. Prometes?

Esta noite pensa apenas nas coisas boas, querida. Temos muito tempo para falar nas más.

Beijou-me, ficou a olhar para mim durante um bocado com o seu sorriso angélico nos lábios e depois saiu.

A noite fazia chegar música até mim: cornetas, saxofones, trombones e baterias. Nova Orleães era uma cidade que detestava dormir. Era como se receasse que, se adormecesse, os espíritos e os fantasmas que pairavam no outro lado do riso, da música e das canções pudessem ficar livres para deambular pelas ruas e invadir os nossos sonhos.

Em casa de Lester, era provável que Claude estivesse a dar a Diane os beijos que era suposto destinarem-se a mim.

Os meus beijos estavam em suspenso, à espera do meu amante misterioso. Mas talvez isso também não passasse de um sonho. Se calhar eu nunca viria a saber o que era o amor. Talvez uma daquelas maldições deixadas à entrada da nossa porta se destinasse a mim.

Peguei no medalhão oferecido pela minha tia Jeanne, que colocara em cima da mesinha-de-cabeceira, e abri-o, ficando a olhar para a fotografia que me mostrava em criança, ao colo do tio Paul. O amor também podia significar sofrimento, pensei.

Chegara ao fim do liceu como a melhor aluna da classe; no entanto, achava que pouco sabia. Fechei o medalhão, apaguei a luz e fechei os olhos.

Finalmente adormeci ao som dos aplausos que recebera ao chegar ao fim do meu discurso, dizendo: "O dia de hoje representa um começo e o começo significa o início."

Seria o princípio da minha felicidade e do êxito ou o início da solidão e do erro?

Não olhes para baixo dissera-me a minha mãe um dia. Faz de conta que caminhas sobre uma corda bamba; portanto, não baixes os olhos, mantém-nos fixos em frente. Tens de confiar mais em ti mesma, Pearl.

Era o que tentaria fazer.

 

UM MUNDO DE NOVIDADES E EXPECTATIVAS

O primeiro dia oficial de Verão nasceu excepcionalmente quente. A temperatura subiu tão alto e a humidade foi tão intensa que pareceu-me ver gotinhas a formarem-se no ar, mesmo à minha frente. Só precisava de percorrer alguns quarteirões para apanhar o eléctrico que me levaria até ao Hospital Broadmoor General, onde passaria a trabalhar, mas, quando entrei na viatura, levava a roupa encharcada e sentia o cabelo colado à testa e à cabeça. As pessoas iam todas com um ar prostrado devido ao calor e à humidade, sentadas nos seus lugares com olhos mortiços e rostos fatigados, ansiosas por chegar aos seus locais de trabalho com ar condicionado. Até a ramagem frondosa dos carvalhos, habitualmente altaneira e régia, tinha um ar caído e exangue, com as folhas a pender tristemente. Os pássaros, que habitualmente esvoaçavam por ali cheios de vivacidade, pareciam embalsamados e presos aos ramos na sua tentativa de poupar energia.

No entanto, apesar do tempo que fazia, eu mal podia conter a minha animação. Embora soubesse que pouco mais deveria esperar além de ajudar as enfermeiras e executar pequenas tarefas a mando destas, ainda assim estava ansiosa por lidar de perto com o pessoal médico e ver e ouvir falar do tratamento dos doentes. Na verdade, pela primeira vez na minha vida, faria parte desse mundo misterioso onde médicos e enfermeiras determinariam, com sabedoria, conhecimentos e talento, os tratamentos que curariam pessoas e salvariam vidas. Não me era muito difícil compreender por que razão os parentes cajuns da minha mãe acreditavam no poder curativo dos traiteurs. Embora a medicina fosse uma ciência, na cabeça da maioria das pessoas eles eram magos. Escutavam e olhavam para dentro de nós para descobrir onde os nossos corpos estavam avariados e que inimigos minúsculos nos tinham invadido para nos prejudicar.

O Broadmoor General fora construido sobre um outeiro verdejante. Na frente do edifício erguiam-se dois plátanos altos e frondosos, enquanto baixas de cenouras-brav as se estendiam ladeando o caminho de acesso. Os jardins estavam repletos de azáleas, rosas amarelas e vermelhas, assim como hibiscos. O jardim-da-wrgima estendia-se ao longo do rés-do-chão e as glicínias cor de púrpura espreitavam pela cerca de ferro. Ao longe, `à direita, havia um pequeno lago, de águas cor de chá escuro.

O edifício original resumira-se a uma mansão confiscada pelo Exército Confederado durante a guerra civil e depois convertida em hospital de urgências. Com o decorrer dos anos, as instalações foram ampliadas e modernizadas, mas não eram as maiores da cidade. Apesar de tudo, o meu pai achara que eu lucraria mais em trabalhar num hospital pequeno, pois conseguiria estabelecer uma ligação mais pessoal. O eléctrico parou a um quarteirão de distância e eu dirigi-me rapidamente para a entrada da frente. O vestíbulo, comparado com o dos hospitais modernos da cidade, podia considerar-se pequeno. Os velhos candelabros tinham sido substituídos por luzes fluorescentes compridas e de aspecto anti-séptico, e as paredes, em tom creme, haviam sido pintadas de fresco. O chão de mosaicos acabara de ser esfregado e um pequeno letreiro avisava que era escorregadio. Parei no balcão da recepção a perguntar onde ficava o gabinete do pessoal. Uma senhora idosa, de uniforme cor-de-rosa, indicou-me o pequeno corredor à direita e disse-me que era na primeira porta à esquerda.

Deparei com uma mulher alta e de cabelos escuros, que fechava ruidosamente gavetas de arquivo enquanto mantinha os olhos numa fotocopiadora em funcionamento. Ao voltar-se para ver quem entrara no gabinete, reparei que tinha uma pequena mancha de tinta azul no queixo. No mínimo com um metro e oitenta de altura, possuía umas feições vincadas e ossudas. Notavam-se as clavículas salientes sob a blusa azul-escura. e tinha os braços compridos e as mãos esguias.

O seu sorriso resumiu-se a um quase imperceptível esgar dos lábios, que formavam uma linha vermelho-parda a rasgar-lhe o rosto. Franziu o nariz fino e abriu muito os olhos castanhos baços, cujas pálpebras tinham estado quase completamente descidas. Respirou penosamente, como quem precisa de inalar ar suficiente antes de conseguir fazer sair sons vocais.

Sim' disse em tom imterrogativo, sem disfarçar o aborrecimento que sentia por ser incomodada.

Procuro Mistress Morgan, declarei.

Está a falar com ela.

Bonjour Chamo-me Pearl Andreas e venho apresentar-me ao trabalho informei. Mister Marbella, o administrador do hospital, disse para me dirigir aqui mal chegasse.

Tem de preencher esses papéis informou a mulher, apontando para uma pequena mesa estreita à minha direita, sobre a qual se viam resmas de impressos.

Isto tudo? perguntei, admirada.

Comece a partir da direita e preencha uma folha de cada um dos três montes. Não se esqueça de pôr o seu número da Segurança Social. Só com ele é que poderei enviar a sua inscrição para o departamento financeiro para eles poderem emitir o seu salário. E veja se o escreve correctamente.

Com certeza.

Assim que der isso por terminado, vá ao segundo andar ter com Mistress Winthrop. É a enfermeira-chefe deste turno. Pode ir pelas escadas que ficam ao fundo do vestíbulo e depois voltar à direita. Ela fornecer-lhe-á o uniforme e explicar-lhe-á o que tem a fazer.

Sim, senhora.

O uniforme não passa a ser propriedade sua elucidou. Pertence ao hospital. Pode levá-lo para casa se quiser, mas tem de se responsabilizar por mantê-lo limpo e em bom estado. Será retirado um depósito de dez dólares ao salário da sua primeira semana.

Inclinou-se sobre a secretária e olhou para os meus pés.

Hoje ainda pode andar com esses ténis, mas a partir de amanhã terá de usar sapatos brancos com sola de borracha. Estão à venda na Casa de Equipamento Médico, na Canal Street. São por sua conta.

Compreendo, retorqui.

A mulher voltou a suspirar fundo. Dessa vez deu a impressão de que o seu corpo simplesmente desfalecia dentro da blusa e da saia, cuja bainha quase rasava o chão quando se punha de pé.

É o seu primeiro emprego? perguntou.

Bem, de facto...

Explicar-lhe-ei tudo sobre seguros, retenção na fonte, assistência médica e medicamentosa... depois de preencher os impressos informou, sacudindo a cabeça a seguir. Tenho a minha assistente outra vez doente. Normalmente é ela quem trata das entradas de pessoal. Trabalha num hospital e anda constantemente doente acrescentou. Eu, há doze anos que não falho um dia, mas hoje em dia as pessoas já não encaram o trabalho da mesma maneira. A gente nova é muito negligente quando se trata de responsabilidades.

- Comigo não é assim - esclareci. - Para dizer a verdade, sinto-me até entusiasmadíssima por vir trabalhar aqui este Verão. Vou tirar medicina, sabe.

-A sério? - Mordeu o interior da bochecha e inclinou a cabeça. - Pois eu nunca consultei nenhuma médica e se calhar nunca o farei. - Endireitou a cabeça bruscamente e indicou a secretária, como se alguém lhe tivesse dado um beliscão a lembrá-la de que estava no trabalho. Apontou para as pilhas de questionários com o longo indicador da mão direita. - Quanto mais depressa os preencher, mais cedo começará a ganhar. Todos os dias tem de vir picar o ponto além - indicou a parede em frente. - No final do dia terei o seu cartão de ponto preparado. Quanto ao dia de hoje, tomarei nota da altura em que começar a trabalhar a sério. Não espere que lhe contem o tempo que vai passar a preencher os papéis.

- Claro que não - retorqui, dirigindo-me para os ditos. Assim que acabei de os preencher a todos, entreguei-os à funcionária, que desatou a matraquear informações sobre a forma como eu iria receber o meu salário, explicando tudo com tamanha rapidez que mal tive tempo para ouvir, muito menos para compreender.

Por fim inclinou-se para mim, franziu os lábios por instantes e declarou:

- Faça o seu trabalho, não meta o nariz no que não lhe diz respeito e tudo correrá bem.

- Obrigada - agradeci.

A mulher voltou a recostar-se e indicou a porta. Apressei-me a sair e a subir as escadas até ao segundo andar. o posto das enfermeiras ficava quase no meio do corredor. Uma delas, com cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho encaracolado e olhos azuis amistosos, voltou-se para mim quando me aproximei. A seu lado estava uma rapariga negra, baixa, magra e com uns olhos pretos enormes.

- Procuro Mistress Winthrop - disse. - Chamo-me Pearl Andreas.

- Ah, sim, minha querida. Sou Mistress Winthrop. Temos estado à sua espera. A Sophie irá consigo à rouparia para lhe arranjar um uniforme - disse, indicando a jovem negra esguia, que parecia não ter mais de dezasseis anos, usava o cabelo muito curto e tinha uma minúscula cicatriz à esquerda do maxilar inferior.

Deu rapidamente a volta do balcão. -Por aqui - disse.

Olhou para mim sem disfarçar, percorrendo-me dos pés à cabeça. Quando nos afastámos o suficiente do balcão para que não nos ouvissem, perguntou-me:

Por que razão quer ser auxiliar de enfermagem? Tem todo o ar de ser rica.

Quero trabalhar num hospital durante as férias de Verão porque espero tirar medicina respondi-lhe. Pretendo ganhar o máximo de experiência que puder.

Quer ser médica? Durante quanto tempo precisa de estudar para se diplomar? inquiriu, com modos mais amigáveis do que anteriormente.

São cerca de sete anos na faculdade de medicina e depois faz-se o internato num hospital. Quando puder praticar a minha profissão sozinha já estarei à beira dos trinta.

Temos connosco um desses.

Um desses quê?

Um interno. É o doutor Weller. Mas ainda não é médico a sério. Ainda lhe faltam alguns anos.

Pois é, são precisos muitos anos de trabalho árduo. Espero conseguir observei.

A jovem voltou a fitar-me com expressão duvidosa.

Tem a certeza de que quer ser médica?

Claro que tenho.

Nunca encontrei nenhuma médica por estas bandas.

Bem, quem sabe se eu não serei a primeira disse, sorrindo.

Sophie fitou-me por instantes com ar pensativo e depois franziu os olhos cepticamente.

Já colocou uma arrastadeira em alguém?

Não.

Já limpou vomitado?

Uma vez, quando um dos meus irmãos teve uma indisposição de estômago, repliquei.

Sophie inclinou-se para mim.

Já viu sangue, montes de sangue? perguntou.

Já vi sangue assegurei-lhe.

E tripas?

Já dissequei animais e conheço o interior do corpo humano expliquei.

Sophie recuou, chocada.

Onde é que isso aconteceu?

No laboratório do liceu. Não passou pelo mesmo?

Só estudei até ao nono ano contou-me, e não tínhamos laboratório. Mas já limpei o de cá; portanto, já vi sangue e tripas e já senti o cheiro de tudo isso. É preciso ter um estômago de ferro. Eu tenho. Já nada me faz vomitar acrescentou orgulhosamente.

Ainda bem repliquei. Se andasse sempre enjoada, ser-lhe-ia muito difícil vir trabalhar para aqui diariamente.

Sophie acenou com a cabeça.

A outra rapariga, a que veio para cá quarta-feira passada, ficou branca que nem cal e esteve meia hora a vomitar na casa de banho, antes de Mistress Wimthrop a mandar para casa. Ainda bem que apareceu, pois tenho andado com o dobro do trabalho desde que ela se foi embora.

Prometo não vomitar, declarei.

Sophie mostrou-se satisfeita e conduziu-me à rouparia. Havia grande variedade de uniformes que, no entanto, me ficavam muito grandes ou demasiado pequenos. O que assentou melhor foi um que me apertava de tal maneira que não pude abotoar os dois primeiros botões da blusa.

O que é isso em volta do seu tornozelo? É uma moedinha, não? perguntou Sophie.

É, sim é um amuleto de boa sorte. Por instantes, fitou-me com desconfiança.

Quem foi que lhe deu isso?

A minha mãe, que por sua vez a recebeu de alguém especial há muito tempo.

A minha mãe diz que as pessoas que usam uma moedinha à volta do tornozelo praticam vudu.

A moeda é um talismã de boa sorte, um gris-gris, se é isso que quer saber, mas eu não pratico vudu.

E a sua mãe?

Também não, respondi, embora a rapariga continuasse a fitar-me atentamente.

Que idade tem? perguntou Sophie.

Dezassete. Farei dezoito daqui a dois meses. E a Sophie?

Quer a verdade ou o que as pessoas aqui dizem?

A verdade.

Em Agosto faço catorze, mas eles pensam que vou a caminho dos dezassete. Não conte a ninguém, advertiu.

Esteja descansada.

Vamos ter com Mistress Wimthrop.

É o melhor uniforme que consegue encontrar para ela? perguntou-lhe a enfermeira imediatamente.

Os outros são muito mais pequenos ou bem maiores, Mistress Wimthrop, explicou Sophie. Experimentámos todos.

Acho que este é o que assenta melhor, confirmei.

Bem, pedirei a Mister Marbella para mandar vir mais uniformes. Agora que já aqui está, Pearl, dividiremos o piso entre si e a Sophie. A Pearl fica com os quartos que vão do duzentos ao duzentos e cinco e a Sophie encarregar-se-á dos restantes. Consultou o relógio. Está na hora de levar sumo aos doentes e encher os seus recipientes de água. A Sophie mostra-lhe onde estão as coisas.

Sophie conduziu-me até à cozinha, onde encontrámos outra enfermeira, esta muito mais nova, a conversar com um médico interno. Estava sentado de costas voltadas para nós e ela encostara-se ao balcão. Quando entrámos, riam.

Com licença disse Sophie, fazendo uma pequena vénia. Temos de começar a preparar os sumos.

A enfermeira esboçou um sorriso afectado e afastou-se do balcão. Li na sua chapa de identificação que se chamava Mrs. Crandle. Tinha cabelo castanho-claro, cortado pela nuca. olhos cor de avelã e uma boca firme, cujos cantos estavam descaídos em sinal de aborrecimento. Não era feia, mas tinha um nariz demasiado afilado e comprido. O interno deu meia volta na cadeira e sorriu alegremente ao ver-me.

Ora bem, quem temos nós aqui? perguntou.

É a nova auxiliar de enfermagem explicou Sophie. Chama-se Pearl.

Então, viva saudou o médico. Eu sou o doutor Weller. A minha mãe sempre achou que, com um apelido assim, eu não podia deixar de ir para médico. Percebeu, não? Ponho as pessoas bem.

Riu-se. Mrs. Crandle, porém, fez uma careta, como se já não conseguisse ouvir a piada mais uma vez.

Viva, retribuí o cumprimento.

O médico ergueu-se a toda a altura do seu metro e oitenta e estendeu-me a mão. Abriu mais o sorriso, mostrando-me duas fiadas de dentes alvos e perfeitos. Ao apertar-lhe a mão, os seus olhos brilharam maliciosamente. Rodeou-ma imediatamente com a sua. Possuía a pele tão branca como a minha e, como o cabelo era muito escuro, parecia um pouco pálido de mais. O queixo saliente exibia uma covinha no meio e na bochecha da direita também se notava mais outra, que aparecia e desaparecia com os movimentos.

Já era tempo de enfeitar esta casa observou, sorrindo de orelha a orelha e lançando um olhar a Mrs. Crandle, que ergueu os olhos para o tecto.

Era só o que nos faltava ripostou ela, mais um motivo para o distrair do seu trabalho.

Não lhe ligue. Eu nunca me distraio de nada em que esteja empenhado asseverou, de olhos fixos em mim. Fez deslizar o olhar por mim e voltou ao ponto de partida, aparentemente satisfeito com o resultado da inspecção. E o uniforme? É aenfermeira mais sensual que já vi acrescentou

Foi o que me assentou melhor, mas principiei, sentindo o calor subir-me ao rosto, que ficou profundamente ruborizado.

Ei, eu não disse que não lhe assentava bem declarou, rindo-se. Ainda não me largara a mão.

Temos de ir levar o sumo aos doentes lembrei eu.

Claro.

Esboçou novo sorriso divertido e largou-me a mão.

Ela também vai ser médica, informou Sophie.

A sério?

É verdade, respondi.

Médica, não enfermeira?

Olhei para Mrs Crandle, que me virara ostensivamente as costas ao ouvir a pergunta.

Considero que as enfermeiras são igualmente importantes observei, mas estou interessada em praticar medicina fora do hospital.

Ah, sim? Muito ambicioso. Ele franziu o sobrolho, cavando sulcos na testa. Em voz mais profunda, perguntou: Que notas teve no liceu?

Fui a melhor da classe. Ergueu as sobrancelhas.

Estou impressionado. É melhor termos cuidado com o nosso linguajar, Mistress Crandle. gracejou.

Eu diria que o doutor tem é de ter cuidado com todo o seu alfabeto, observou a enfermeira. Tenho de ir colocar um soro. Não tem nada para fazer, doutor?

Claro que tenho respondeu o médico. Bem, desejo-lhe boa sorte, Pearl. Por favor, não hesite em fazer as perguntas que desejar propôs, seguindo, relutantemente, Mrs Crandle.

Está sempre na brincadeira observou Sophie. Mistress Crandle diz que há doentes dele que um dia ainda morrem de tanto rir. Isso das pessoas poderem morrer a rir é verdade?

Não creio, respondi.

A jovem não pareceu muito convencida mas anuiu com a cabeça e depois mostrou-me onde os materiais se encontravam. Carreguei o meu carrinho e dei início à minha ronda.

No primeiro quarto, encontrei duas idosas, uma delas ligada a um monitor cardíaco. No segundo, estava um homem com uma perna fracturada e, no terceiro, uma mulher de trinta e tal anos a fazer exames devido a um problema gástrico. Chamava-se Sheila e estava nitidamente muito nervosa e preocupada.

Tenho de jejuar durante um dia disse-me. Amanhã de manhã faço mais um exame.

Qual é o problema que tem no estômago? perguntei-lhe.

Sempre que como, fico com dores terríveis aqui à direita esclareceu, apontando.

Andam a fazer exames à sua vesícula?

Andam. Como é que sabe? Aconteceu-lhe o mesmo? inquiriu a mulher, esperançosamente.

Não, apenas sei que esse é o órgão que fica nesse sítio e será aí que sentirá dores se ele não estiver a funcionar devidamente. Mas não é obrigatório que seja essa a razão acrescentei logo de seguida.

Eu sei observou a mulher cheia de pesar. Poderá ser outra coisa qualquer, inclusivamente algo muito mais sério.

Não fique preocupada, espere pelos resultados dos exames, aconselhei-a. Na maioria dos casos, é mais imaginação do que outra coisa.

Fora o que ouvira o nosso médico dizer à minha mãe numa ocasião em que Pierre e Jean tinham contraído uma tosse avassaladora. Sheila sorriu e eu arranjei-lhe a cama, tornando-a mais confortável.

Quando ia a dirigir-me ao segundo quarto, vi o Dr. Weller à porta, com um pequeno sorriso nos lábios. Afastou-se para o corredor para que eu passasse, juntamente com o carrinho dos sumos.

Escutei o que disse. Inclinou-se para mim.

Se Mistress Winthrop a ouve dar orientações médicas aos doentes, manda-a imediatamente para casa.

Eu não dei...

Levou-a a crer que o problema pudesse estar na vesícula. Isso não se faz, observou, agitando o indicador. Depois desatou a rir. Na verdade, acrescentou, encostando-se à parede, de braços cruzados, foi muito inteligente da sua parte passar as férias de Verão a trabalhar aqui no hospital. Bastar-lhe-á andar por aí a escutar o que se diz para aprender bastante.

Foi o que pensei, admiti.

Sabe, eu próprio ando sempre a estudar e a aprender. Estou a fazer o internato sob a supervisão do doutor Bardot, que me põe constantemente à prova. Sorriu. Aposto em como pode ajudar-me acrescentou com ar pensativo.

Eu? Como?

Apoiando-me nos estudos. Está a ver, fazendo-me perguntas, vendo se sei determinadas matérias. Tem uma agenda social muito preenchida?

- Agenda social?

Também pica o ponto com o namorado?

Ah Não, já não, respondi.

- Óptimo. Nesse caso talvez possa dedicar-me algum tempo. Garanto-lhe que também aprenderá muito acrescentou. E não me refiro a questões do foro médico. Poderei ensinar-lhe a compreender o que deve esperar, a preparar as suas candidaturas e entrevistas. Neste país está a tornar-se cada vez mais difícil entrar para uma boa escola de medicina. Andam por aí muitos alunos brilhantes a competir pelos mesmos lugares, advertiu.

Reflecti por momentos. Fora para aprender tudo aquilo que me propusera trabalhar ali.

Está bem concordei. Estuda durante os intervalos?

Oh, não. Fá-lo-emos depois do trabalho. Vivo perto. Aluguei um apartamento pequeno, para os lados da Universidade de Tulane. Foi lá que tirei o meu curso. Está a pensar ir para essa?

Estou, sim respondi.

Óptimo. Irei pô-la ao corrente de todos os pormenores ligados ao mundo da medicina. Em que turno trabalha amanhã? É o mesmo de hoje?

É, sim.

Eu fico livre mais ou menos na mesma altura. Podemos começar imediatamente., isto, se concordar, claro propôs.

Hesitei. A perspectiva de trabalhar com um médico interno agradava-me, mas porque me teria ele escolhido com tanta rapidez?

Não preferia trabalhar com alguém que já andasse em medicina? Perguntei.

Esses só querem estudar aquilo de que precisam. Voltou a sorrir. Hei, eu não lhe mordo e, mesmo que o fizesse, tratava-lhe da fenda, acrescentou, rindo. Mas se acha que não se sentirá à vontade ou...

Não, está tudo bem.

Óptimo. E não se preocupe com o regresso a casa, pois eu me encarregarei de a levar Se quiser, até lhe farei o jantar. Nada de sofisticado, claro. Ainda não tenho salário de médico. A verdade é que, e mais vale que fique desde já a saber, os internos são escravos médicos Mas todos nós temos de aguentar O que for preciso para lá chegar. Até logo.

Piscou-me o olho e afastou-se.

Fiquei sem saber se não teria concordado demasiado depressa em ajudá-lo. Ele já era interno, eu provavelmente não entenderia metade das perguntas. O mais certo era eu desperdiçar o tempo dele e o meu, pensei, mas enfim, isso já ele devia saber, o que não o impedira de querer que o ajudasse.

Não estamos exactamente no sítio mais próprio para sonhar acordada, ouvi alguém dizer.

Voltei-me e vi Mrs Crandle parada à entrada do quarto seguinte, o que me competia.

Oh, desculpe disse, apressando-me.

Sophie, quando me falara das dificuldades que podíamos enfrentar como auxiliares, não exagerara. No quarto 205, um idoso sujara a cama e eu tive de limpar tudo. Devo ter engolido em falso uma centena de vezes e sustido a respiração durante uma hora, até terminar. Mrs Crandle obrigou-me a limpar também a base da cama e a esfregar o chão em volta da mesma.

Sophie e eu tivemos de descer à lavandaria para trazer roupa lavada. Esvaziei meia dúzia de arrastadeiras e limpei casas de banho. Achava que o meu primeiro dia no hospital passara sem problemas de maior e que já vira o tipo de trabalho que me esperava quando, pouco depois de o meu turno terminar, Mrs Conti, a idosa do quarto 200, teve um ataque cardíaco. Mrs. Crandle declarou o estado de emergência e o Dr Weller veio a correr da outra ponta do corredor. Trouxeram um carrinho com um desfibrilhador Da secção de cardiologia, do terceiro piso veio um outro médico. Apesar dos seus esforços laboriosos, o coração da velha senhora parara de vez.

Mrs. Brennen, a sua companheira de quarto, chorava histericamente e teve de receber um sedativo. Pairava uma sombra de luto no rosto de todos. Eu encontrara Mrs Conti a dormitar quando lhe levara o sumo e mal abrira os olhos na altura em que voltara para lhe mudar a água do copo e ver se precisava de mais alguma coisa. Observara e escutara o seu monitor cardíaco e Mrs. Brennen informara-me de que Mrs Conti passara dez dias na unidade de cuidados cardíacos antes de ser trazida para o segundo piso.

Porque não continuou ela lá em cima? perguntei, baixinho, ao Dr. Weller quando este saiu do quarto, suspensos os esforços de ressuscitação.

Mandaram-na para baixo há dois dias porque ela apresentava uma grande melhoria e precisavam do quarto para outro doente. Encolheu os ombros. Nem sempre é possível prever uma situação destas acrescentou, esboçando logo a seguir um sorriso desafiador. Ainda quer ser médica?

Olhei para o quarto onde a falecida ainda se encontrava. A família ainda não tomara conhecimento mas eu estava certa de que chorariam a sua morte e sentiriam a sua falta. Ao imaginar os filhos e os netos entristecidos, senti uma sensação de raiva dar-me volta `às entranhas. Se eu tivesse sido a médica daquela mulher, não a teriam tirado da unidade de cardiologia

Mais que nunca, repliquei.

O médico inclinou a cabeça para trás e riu.

Parece-me que a sua vocação é mesmo a valer. Algo me diz que encontrei a assistente de estudo certa. Olhou para trás, na direcção do quarto, e suspirou. Tenho de ir tratar da papelada informou. É uma das tarefas do médico que também não tardará a detestar.

Provavelmente era ingenuidade minha, mas o certo é que não podia conceber nenhuma actividade relacionada com a prática da medicina capaz de vir a detestar.

Não fizera grande coisa mas, quando o meu turno chegou ao fim, senti-me exausta. Dever-se-ia, sobretudo, à tensão do primeiro dia de trabalho e ao facto de ter visto alguém morrer. Voltei a vestir a minha roupa e saí para o corredor na companhia de Sophie. Entramos no gabinete de Mrs Morgan para picar o ponto.

Que tal se saiu? perguntou-me ela, olhando para Sophie.

Ela saiu-se bem, muito bem mesmo respondeu a minha colega rapidamente. Não chegou a vomitar.

Mrs Morgan sorriu.

Bom, é uma vitória. Aqui tem o seu cartão de ponto. Pique-o à entrada e à saída de cada turno e não se esqueça de comprar uns sapatos brancos, lembrou-me.

Sin, senhora.

Sophie e eu saímos do hospital. A humidade mantinha-se mas o Sol descera o suficiente para baixar a temperatura.

A minha mãe diz que eu tenho muita sorte em trabalhar num hospital com ar condicionado observou Sophie, enquanto seguíamos pelo passeio.

O que é que ela faz?

Trabalha numa lavandaria.

E o teu pai?

__ Trabalha no Quarter. É cozinheiro. Ainda tenho duas irmãs na escola e um irmão que está na tropa. E tu?

Eu tenho dois irmãos gémeos, com doze anos. Onde vives, Sophie?

No outro lado do Quarter. Apanho o eléctrico na Canal Street.

Esperámos pelo eléctrico juntas.

Há quanto tempo trabalhas no hospital? perguntei-lhe.

Há pouco mais de um ano.

Não gostarias de voltar a estudar? Ainda tens muita coisa para aprender disse-lhe.

A jovem baixou rapidamente os olhos.

Não posso declarou. Preciso de trabalhar.

Porquê? O teu pai não ganha bem como cozinheiro? Eu sabia que os cozinheiros do Quarter gozavam de muito prestígio.

Sophie encolheu os ombros.

Se calhar ganha disse, mas não temos a certeza.

O quê? Porque não?

Ele não vive connosco confidenciou-me a jovem, na altura em que o eléctrico dava a volta à esquina.

Apressou-se a subir, eu sentei-me a seu lado e ficámos as duas a olhar pela janela, enquanto a viatura seguia pela rua fora.

Ele já nem sequer aparece lá em casa continuou Sophie. Limita-se a mandar-nos algum dinheiro de tempos a tempos. Se quero vê-lo, tenho de ir até ao restaurante, mas nem nessas ocasiões ele dispõe de muito tempo para conversar comigo.

Lamento, proferi.

Quando o transporte chegou à minha paragem, levantei-me, e Sophie mostrou-se muito impressionada.

Vives no Garden District?

Vivo.

Eu nunca passei por esse sítio, nem sequer a pé confidenciou-me.

Talvez um dia possas vir jantar comigo sugeri.

A sério? O sorriso que esboçara desvaneceu-se. Normalmente tenho de ir para casa ajudar a minha mãe.

Se calhar consegues dar um jeito alvitrei. até amanhã. Obrigada por me ajudares a começar.

Até amanhã respondeu.

Quando cheguei a casa, todos quiseram saber como decorrera o meu primeiro dia de trabalho. Quando descrevi algumas das tarefas de limpeza que tivera de fazer, os gémeos esboçaram uma careta, mas, quando lhes falei da morte de Mrs. Conti os olhos luziram-lhes de interesse.

Viste uma mulher morta? perguntou Pierre.

Vi.

Tocaste nela?

Não.

Cheirava mal?

- Acho melhor mudarmos de assunto até acabarmos de jantar sugeriu o meu pai. Não achas, Pearl!?

Claro que sim, pai.

Continuei a conversa, falando-lhes de Sophie, porém, os gémeos só estavam interessados na falecida Mrs Conti. Quando referi o Dr Weller ao meu pai, este endireitou-se e olhou para a minha mãe.

Mal acabou de te conhecer e já quer fazer-te o jantar? perguntou, admirado.

Acho que deve ser por só irmos estudar depois do trabalho. Porquê?

O meu pai pareceu atrapalhado.

Certamente deve ter ficado impressionado com a Pearl e com o facto de ela mostrar tanto interesse pela medicina balbuciou a minha mãe.

O meu pai reflectiu por um momento e depois descontraiu-se.

És capaz de ter razão, Ruby. Normalmente tens, no que se refere às pessoas. A tua mãe vai fazer mais uma exposição daqui a quinze dias acrescentou orgulhosamente. O teu retrato fará parte dela.

Que maravilha, mãe.

Conversámos sobre o trabalho artístico da minha mãe e, depois de uma sobremesa de leite-creme, o meu pai levou-me a comprar uns sapatos brancos de sola macia, enquanto a minha mãe seguia para o seu estúdio.

Bem, principiou o meu pai, dentro do carro, agora que já tomaste contacto com a realidade, que achas?

Acho que desejo ser médica ainda mais que antes, pai. Ele acenou com a cabeça.

O que foi que, na verdade, te fez desistir, pai? perguntei-lhe uma vez mais.

Sabia que a família tinha dinheiro para ele tirar o curso de medicina e que ele obtivera notas para tal.

A minha família andava preocupada comigo, sobretudo depois de a tua mãe engravidar E eu não me sentia nada bem por abandonar a Ruby. Durante algum tempo, tornei-me autodestrutivo. Bebi muito enquanto estive na Europa e desperdicei tempo e talento. Depois...

Fez uma pausa e eu reparei que se deixava dominar por determinada recordação.

E depois soube que a Ruby casara com o Paul. Enchi-me de pena de mim próprio, faltei às aulas e desperdicei tempo. Até que, certa manhã, bateram à minha porta. Quando a abri, deparei com a tua tia Gisselle. Por instantes pensei que fosse a Ruby, tão parecidas eram de rosto. Deixei-me guiar pela imaginação e a tua tia Gisselle encorajou as minhas ilusões. O resto já tu sabes: a Gisselle e eu casámos, eu regressei e empreguei-me nas empresas Dumas.

"É por isso que tenho tanto gosto em que sigas a carreira que eu desperdicei disse ele, voltando-se para mim com os olhos marejados de lágrimas. Tenho a certeza de que serás uma médica esplêndida, Pearl.

Farei por isso, pai retorqui com o coração a doer-me e tentando conter as lágrimas. Podes crer que sim.

Quando chegámos a casa, os gémeos imploraram-me que lhes contasse mais pormenores acerca da morte de Mrs. Conti e do que eu sentira diante de um cadáver. Por fim, fui buscar alguns dos meus livros de anatomia e deixei-os a ver as gravuras. Ficaram fascinados com o que tinham dentro do corpo, mas Jean mostrou-se igualmente perturbado.

Ainda bem que temos a pele a cobrir tudo observou. Assim não temos de olhar para o que está por baixo.

Pierre riu, mas eu fechei os livros e dei-lhes uma aula sobre as maravilhas do corpo humano.

O corpo humano é uma das criações mais perfeitas do Universo expliquei.

Se é assim tão perfeito, porque é que adoecemos? quis saber Jean.

É perfeito, mas não invulnerável respondi. O gémeo fez uma careta de incompreensão.

Ela quer dizer que não pode impedir que os micróbios entrem pelo teu nariz e boca dentro explicou Pierre. A não ser que andes por aí com uma mola no nariz e uma tira de fita adesiva na boca. Mesmo assim podiam entrar-te pelos ouvidos. Não é, Pearl?

Nesse caso também tapamos as orelhas.

Depois não podes ouvir contrariou Jean.

Então andamos sempre doentes concluiu Pierre tristemente.

É por isso que precisamos de médicos, não é, Pearl? perguntou Pierre.

Sorri.

É, sim, Pierre.

Os médicos não puderam impedir que Mistress Conti morresse? perguntou Jean.

-Ela era idosa. O seu corpo já estava cansado... Estava gasta, como as nossas bicicletas explicou Pierre. Jean concordou com um aceno de cabeça e, de repente, sorriu, esfuziante.

Teremos uma médica a viver connosco e a impedir que adoeçamos constantemente. Será a Pearl.

Ri-me.

Ainda falta muito, Jean.

Além do mais, não morará connosco. Ficará mais crescida, casará e terá filhos seus. explicou Pierre.

O sorriso de Jean desvaneceu-se.

Apesar disso, prometo que cuidarei de vocês os dois declarei, o que devolveu a animação ao rosto de Jean. Agora vão para cima e preparem-se para ir para a cama. Todos, sobretudo aqueles que a cada dia que passa crescem mais um bocadinho, precisam de descansar.

Mas...

Caso contrário, os órgãos que têm dentro do corpo engelharão, ameaçou Pierre.

Jean esbugalhou os olhos e voltou-se para mim.

Não, não é verdade sosseguei-o. Bom, vão andando. Puseram-se de pé num pulo.

Boa noite, Pearl disse Pierre.

Boa noite, Pearl repetiu Jean, sorrindo maliciosamente. Espero que não tenhas nenhum pesadelo com Mistress Conti.

Pierre empurrou-o para fora da sala e os dois correram escadas acima, rindo.

Pouco depois, eu seguia o seu exemplo. Acabara de me meter debaixo dos cobertores quando o telefone tocou. Era Catherrine. Já não falávamos desde a noite da entrega dos diplomas aos finalistas. Senti frieza na sua voz. Já não havia a afabilidade e o entusiasmo que em tempos pautara a nossa amizade.

Começaste a trabalhar no hospital? perguntou-me.

Hoje mesmo.

Como é que foi? inquiriu com pouco ou nenhum interesse.

Estou convencida de que aprenderei muito respondi. Um médico interno pediu-me que o ajudasse nos estudos.

Ah, sim? Como é que ele é?

Não é o que estás a imaginar. Só precisa de alguém que o ajude a manter-se a par de todas as inovações. Na verdade, um interno ainda é um estudante. E para mim também é uma grande oportunidade.

Ainda bem. Passado um momento, acrescentou: Ainda estão todos furiosos contigo por não teres ido a casa do Lester. Acham que não passas de uma snobe.

Não pretendo concorrer a nenhum cargo político declarei secamente.

Não devias esquecer-te de quem são os teus verdadeiros amigos disse Catherine, apesar de seres a rapariga mais inteligente do liceu.

Nunca me esqueci deles mas, como já te disse, os amigos verdadeiros protegem-se e olham uns pelos outros.

Às vezes estamos na berlinda, Pearl. Não achaste a tua reacção exagerada?

Não.

Catherine ficou calada durante algum tempo e depois decidiu atacar em força.

O Claude divertiu-se imenso com a Diane. Foram para um dos quartos das visitas e só de lá saíram de manhã. Agora namoram a valer.

Nesse caso talvez tenha sido o destino comentei. Catherine suspirou de frustração.

Juro que és a pessoa mais difícil de fazer amizades que eu conheço concluiu.

Por instantes, fiquei sem saber o que lhe dizer. Teria ela razão? As questões que interessavam à maioria das raparigas da minha idade pareciam carecer de importância para mim. Seria uma maldição ou uma bênção?

Seja como for, vou passar as férias de Verão fora. Não te verei durante três semanas. Imagino que pouco te importes com isso.

Eu disse que fiquei desiludida com o que aconteceu e com o que tu disseste, Catherine, mas espero que compreendas o meu ponto de vista e que continuemos a ser amigas.

E eu espero que o nadador de serviço à praia que conheci o ano passado ainda lá esteja. Achou que eu era demasiado nova para ele, mas pode ser que este ano mude de ideias.

Que idade tinha?

Vinte e três. Já sei, consideras que é demasiado velho para mim disse rapidamente.

Não, não creio que seja demasiado velho para ti.

A sério? Eu também acho que não. Baixou o tom de voz. Mas os meus pais não vão ficar nada satisfeitos. Que pensariam os teus?

Não sei respondi, mas creio que, se gostássemos verdadeiramente um do outro, não se aborreceriam.

A tua mãe é muito compreensiva. Bem, se calhar mando-te um postal.

Ficarei contente, Catherine.

Não te enganes a dar os comprimidos aos doentes recomendou-me.

Não estou autorizada a dar medicamentos. Sou uma simples auxiliar.

Bem, então não te enganes no auxílio que deres insistiu Catherine, rindo-se. Olha, desculpa o que se passou. Se calhar até tiveste razão. Talvez as raparigas tenham ido longe de mais e eu devesse ter-te avisado logo, mas não queria que depois também ficassem a embirrar comigo.

Também?

Sabes do que estou a falar. Seja como for, já disse que lamento.

Está bem. Obrigada. Diverte-te.

Podes crer garantiu Catherine, desligando.

Deixei-me ficar sentada durante algum tempo, a pensar. Algures na minha cabeça ouvi a voz de uma menina a tentar confortar-me, a esforçar-se para me impedir de ser tão séria. Era uma voz, no entanto, que começava a desvanecer-se e já mal se ouvia.

Quer eu gostasse ou não, já estava completamente lançada no caminho da vida adulta. Não me restava qualquer alternativa senão encarar a situação com calma e desfrutar o mais possível dela.

Depois da conversa com Catherine não tardei a adormecer, mas cheguei a ter um pesadelo com Mrs. Conti. Vi-a abrir os olhos quando voltei ao seu quarto, uns olhos vítreos e leitosos. Depois pensei no Dr. Weller e no seu sorriso malicioso. "Ainda quer ser médica?", desafiara-me.

"Mais que nunca."

Murmurei, a dormir:

Mais que nunca.

 

LIÇÕES DE VIDA

Já que vamos ser colegas de estudo sugeriu o Dr Weller no dia seguinte, ao sairmos do hospital, mais vale que me trate por Jack. Fora daquela casa, doutor Weller é demasiado formal.

Indicou o hospital com a cabeça.

Jack?

Exactamente! É o meu nome. Bom, na verdade chamo-me Jackson Marcus Weller, razão pela qual opto sempre pelo diminutivo. Recebi o mesmo nome do meu bisavô materno Mas realmente prefiro que me tratem por Jack, sobretudo as pessoas que admiro e espero que venham a admirar-me a mim, esclareceu.

Depois, para me fazer voltar para a direita, pousou uma das mãos na minha cintura.

O meu apartamento fica a poucos quarteirões daqui, elucidou-me. Não se importa de ir a pé, pois não?

Claro que não.

Deixou a mão na minha cintura durante mais algum tempo premindo os dedos com autoridade.

Eu tenho carro, mas raramente o utilizo. Guiar na cidade é uma grande maçada. Prefiro muito mais andar a pé ou servir-me dos transportes públicos.

Quando começamos a andar, retirou a mão.

Cresceu em Nova Orleães? Perguntei.

Cresci? Sorriu e depois desatou a rir. A maioria dos meus parentes e amigos pensa que eu ainda não sou sufi cientemente crescido. Acham que, como vou ser médico, tenho de parecer, agir e sentir como um velho. Quem confia num médico jovem nos tempos que vão correndo? A juventude é um trunfo em quase todas as outras profissões, mas na medicina... Fez uma pausa e voltou-se para mim. Se quer saber, o meu ex-companheiro de quarto chega mesmo a pintar o cabelo de grisalho. Já viu semelhante disparate?

Sacudi a cabeça.

Fitou-me por um instante e compôs uma expressão mais suave, ficando com ar de comiseração.

. Para dizer a verdade, tenho pena de si. Para uma mulher é duplamente difícil tornar-se médica. Tem de ser duas vezes mais competente. Mas acrescentou, piscando-me o olho, no seu caso parece-me que tem garra para isso. Agora, prosseguiu, erguendo uma das mãos com a palma virada para mim, peço-lhe que não me conte nada sobre si. Prefiro adivinhar.

Continuámos em frente, em passada mais lenta. A humidade não era tanta como no dia anterior. O Sol baixara o suficiente para dar ao céu, a leste, um tom de azul mais escuro, o que fazia com que as nuvens enfunadas parecessem brancas como o leite.

Para sul, um aeroplano arrastava uma faixa publicitando um espectáculo especial de jazz, com jantar, No French Quarter. O eléctrico passou em frente das palmeiras, atrás de nós, tilintando. Os pássaros pipilavam ruidosamente. Calculei que estivessem cheios de novidades sobre, por exemplo, os grãos que haviam armazenado durante a impressionante vaga de calor e humidade. Agora que se sentiam mais frescos e capazes de tagarelar, não paravam calados um segundo.

Os candeeiros da rua começavam a faiscar, embora ainda não estivesse suficientemente escuro para acenderem em pleno. A descida da humidade parecia ter libertado o perfume das camélias, bananeiras e magnólias que cresciam ao longo e por trás das cercas pontiagudas das casas em frente das quais passávamos e que, em Nova Orleães, eram conhecidas por banquettes. A maioria tinha cerca de meio metro de altura e destinavam-se, sobretudo, a evitar que a água entrasse nas casas. Mais à frente vi três estudantes do curso de Verão de Tulane às risadinhas, caminhando a par de um descapotável onde dois raPazes tentavam chamar-lhes a atenção.

A Pearl não é filha única nem mimada, isso de certeza, principiou Jack Weller.

Tenho dois irmãos gémeos, com doze anos.

Ah, sim?

Mas sou mimada, admiti.

Claro, Todas as mulheres mimadas concordam em trabalhar por uma ninharia e estão dispostas a limpar a porcaria de Doentes observou ele. Fitou-me de novo, insistentemente. Não é mimada.

Sou mimada mas voluntariosa, repliquei. Jack riu-se.

Gosto disso. É de uma família tradicional, não é verdade?

Sou, mas adivinhou mesmo ou andou a informar-se junto da Sophie?

Jack voltou a rir-se.

É uma rapariga esperta. Muito bem, confesso que fiz algumas perguntas à Sophie. É já aqui indicou, agarrando-me na mão para me fazer enveredar por uma transversal, em direcção a um prédio de apartamentos com um toldo que descaía no meio. As paredes de estuque acinzentado estavam em mau estado e com fendas, e a porta de entrada precisava urgentemente de ser pintada ou envernizada.

Acho melhor prepará-la disse Jack quando nos aproximámos da entrada. O meu apartamento só tem uma divisão. Uma pessoa que viva no Garden District não o achará grande coisa.

Sou mimada, mas não snobe.

O sorriso de Jack alargou-se e abriu a porta. Passámos por uma pequena entrada que dava para um pequeno vestíbulo de paredes claras e mascarradas. O chão de ladrilhos castanho-escuros exibia falhas aqui e ali. A única peça de mobiliário existente resumia-se a uma mesinha que mal se mantinha direita e por cima da qual se via um espelho oval numa insípida moldura branca. No ar pairava o cheiro a gumbo de camarão.

Vamos mais depressa pelas escadas do que pelo elevador

informou Jack, indicando onde as mesmas ficavam. Subimos três pisos, ouvindo ranger, a cada passo, a madeira gasta dos degraus. Ao menos desfrutamos de uma pequena vista, acrescentou, metendo a chave na fechadura.

Estava preparada para encontrar um apartamento pequeno e um mobiliário modesto, mas não para semelhante desarrumação. A porta dava acesso directo à divisão que servia, simultaneamente, de sala de estar e de quarto. O sofá, à direita, encontrava-se atravancado de livros e papéis, o mesmo acontecendo ao chão. Também havia uma chávena de café, ainda com um pouco do líquido, e a seu lado via-se um prato com restos de massa ressequida. O parapeito da janela apresentava uma camada espessa de pó e o tapete exibia várias zonas já no fio.

Esta manhã deixei-me dormir e já não tive tempo para arrumar o que ficou de ontem à noite, explicou ele. Tirando isso, é um lugar confortável.

"Confortável?", pensei. Ali dentro uma pessoa depressa sentiria claustrofobia. Nós, lá em casa, tínhamos armários maiores do que o apartamento inteiro de Jack. A área da sala de estar dispunha só de uma janela, e a divisão, em si, mal tinha espaço para conter o sofá, a cama, a mesinha e as duas cadeiras. Um umbral aberto deixava ver uma cozinha minúscula onde os pratos se empilhavam no lava-louça, e o pequeno caixote do lixo, de tão cheio, transbordava, vendo-se uma caixa de piza no cimo de tudo, meio a escorregar para o lado.

Jack atarefou-se de um lado para o outro, libertando da tralha o sofá, as cadeiras e a mesinha.

Dê-me só um minuto pediu.

Levou a louça para a cozinha e depois voltou apressadamente para dar um jeito à cama.

Solteiros observou com um encolher de ombros indiferente. É assim que vivemos, mas imagino que ainda não conheça nenhum.

Ao ver que eu não respondia, parou e olhou para mim.

Conhece ou não?

Como? Ah, não.

Não conseguia desviar a atenção da grande desordem que reinava no apartamento. Eu achava que um médico não podia deixar de se preocupar com a higiene.

Não me ensinaram a ser desleixado, se é nisso que está a pensar comentou Jack, adivinhando-me os pensamentos. Espere até iniciar o seu internato. Verá o pouco tempo que lhe sobra para tratar das suas coisas. Ao contrário de si, venho de um meio modesto. O meu pai trabalhava nos poços de petróleo, em Beaumont, mas, como passava a vida a ser dispensado, eu pensava que ele era rico para só precisar de trabalhar alguns meses por ano. Não sei se sabe, mas um curso de medicina sai muito caro.

Como é que conseguiu lá chegar? perguntei, sentindo-me culpada por ter feito um juízo precipitado sobre ele.

Graças a uma herança que me foi deixada por uma avó. Quando ma deixou, tinha algum valor. No entanto, a inflação levou-lhe uma boa parte e o custo do curso subiu, o que me obrigou a pedir dinheiro emprestado. Estou com dívidas até aqui, disse, erguendo a mão uns centímetros acima da cabeça. - Andar em medicina sem preocupações financeiras é uma Maravilha, mas claro que não basta ter dinheiro para ser médico. O problema só está...

Suspendeu as suas limpezas e fitou-me, sacudindo a cabeça com lentidão.

Aonde? perguntei, preocupada.

No facto de a Pearl ser demasiado atraente.

Como?

Parece um desperdício acrescentou. O que devia era ser esposa de um médico, andar coberta de jóias e casacos de peles, e ocupar-se de festas de sociedade e de caridade -declarou, rindo logo a seguir. Estou só a brincar. O que não invalida o facto de as médicas que eu já conheci poderem assustar os próprios micróbios. Ajeitou a coberta, de um tecido azul liso, que fazia conjunto com duas almofadas iguais. Deseja tomar alguma coisa? Tenho sumo de laranja, água tónica e cerveja, Disse.

Olhei para a cozinha com repulsa. Parecia contaminada. Jack sorriu.

Prometo que, primeiro, lavo a louça, disse.

Pode ser sumo de laranja.

Óptimo. Sente-se onde quiser. Na cama, se preferir acrescentou, indo buscar o meu sumo.

Instalei-me no sofá e comecei a passar uma vista de olhos pelos livros de medicina.

Ainda é muito cedo, mas já pensou na especialidade que quer seguir? perguntou-me Jack da cozinha.

Estava a pensar em pediatria.

Boa, concordou, voltando da cozinha com dois copos de sumo de laranja, um para mim, outro para ele. É o mais indicado para as mulheres. As mães sentem-se mais à vontade quando lidam com uma médica.

Não estava a pensar nesse aspecto observei com uma certa secura na voz. As mulheres também têm capacidade para se tornar boas cirurgiãs, cardiologistas...

Está certo, está certo. Desculpe. Não sou nenhum machista chauvinista. Apenas tenho espírito prático disse, entregando-me o copo de sumo. Sentou-se no sofá, ao meu lado. Já tem fome?

Já tivera; no entanto, a visão do apartamento dera-me volta ao estômago e fizera-me desaparecer o apetite.

Ainda não, respondi.

Pensei em estudar um pouco com ele e depois dar uma desculpa e voltar para casa, onde iria aos restos apetitosos de Mill.

Por acaso sou óptimo cozinheiro... Toda aquela combinação química... afirmou, sorrindo.

Fitou-me demoradamente e, em seguida, o seu olhar desceu com suavidade por mim, movendo-se como dedos invisíveis sobre o meu rosto, pescoço e seios.

Aposto que uma rapariga assim tão bonita já teve montes de namorados, não?

Não.

Não? Pensei que hoje em dia as raparigas eram mais promíscuas, coleccionando troféus masculinos como nós, rapazes, costumávamos fazer quando andávamos no liceu, observou.

Sempre tive assuntos mais importantes em que pensar, embora tenha tido um namorado a sério durante algum tempo.

O que aconteceu? Não quero ser intrometido, tenho apenas curiosidade sobre os jovens de hoje, disse.

Digamos apenas que eu não estava tão empenhada na nossa relação como ele imaginava.

Oh... oh... Creio saber ao que ele se referia. Foi o seu primeiro namorado a sério? perguntou com um sorriso malicioso.

Foi, mas, como disse, não durou assim tanto tempo.

Compreendo. Acenou com a cabeça, esfregando o queixo com o polegar e o indicador da mão direita.

Fez-me sentir como se fosse um médico de romance que eu fora consultar sobre problemas amorosos.

Que vamos estudar esta noite? perguntei, vagamente incomodada por um exame tão intenso e minucioso.

Humm... Reflectiu por um momento e depois tirou um livro de debaixo do sofá. Conheço apenas o tópico. Hoje apareceu na consulta uma mulher jovem que sofria de disparreunia. Imagino que não saiba do que se trata disse, tamborilando com os dedos sobre o livro.

Sacudi a cabeça em sinal negativo.

Também se utiliza o termo vaginismo, afectuosamente conhecido por doença da lua-de-mel esclareceu, sorrindo ainda mais. As pistas chegam?

Senti-me empalidecer.

Ora, ora. Uma pessoa que quer ser médica tem de estar à vontade com todos os aspectos da anatomia humana. A nossa doente, continuou, recostando-se, era uma rapariga de dezanove anos que casara há pouco tempo. Já entende o que o termo dispareunia significa, não é verdade?

Creio que sim, respondi.

Sentia o coração a bater rapidamente; no entanto, tinha a impressão de que os meus pulmões tinham parado.

^ Coito doloroso ou difícil recitou. Não devia ter relutância em discutir qualquer aspecto do corpo humano repetiu. Ou qualquer das suas funções normais.

- Não tenho insisti. Fiquei muito tensa e endireitei-me com brusquidão.

Óptimo. A dispareunia pode ser tema de piadas de beco e de bar, mas para nós, médicos, é apenas mais um problema para resolver, outra forma de sofrimento que devemos minorar declarou com a convicção e a autoridade de alguém pertencente ao corpo docente da medicina há muitos anos. Compreende essa questão, não é verdade?

Claro que sim.

Teria preferido, no meu íntimo, que o tema escolhido fosse outro; porém, não tencionava dar-lhe a perceber o quanto ele me perturbava. Certamente estaria à espera dessa reacção da minha parte, dizendo-me então que ali estava mais um exemplo da razão pela qual era tão difícil uma mulher enveredar pelos caminhos da medicina.

Nesse caso, prossigamos. Inclinou-se para a frente. A paciente, depois de o doutor Bardot a ter examinado fez-me uma confidência. Disse que se sentia mais à vontade com alguém mais novo. Contou-me, pois, que fora violada aos doze anos de idade.

Violada! Que horror!

É verdade, e o facto deixou-a profundamente marcada em termos psicológicos. Passou-me o livro e levantou-se. Começou a andar de um lado para o outro, como se fosse um professor de Medicina a dar uma aula. Foi importante ficar a par deste facto porque a dispareunia pode ser provocada por espasmos psicossomáticos. Agradeço que abra na página oitocentos e dezanove, no canto superior direito.

Apressei-me a obedecer e a seguir levantei os olhos para ele.

Jack fez uma pausa e fechou os olhos, fazendo uma careta de profundo esforço de memória.

Quando a dispareunia não advém de causas locais, quando os sintomas locais são disfarçados por reacções nervosas, deduz-se que o doente desenvolveu um mecanismo de defesa psicológico.

Abriu os olhos e fitou-me na expectativa. Li as primeiras linhas.

Está certo, disse.

Óptimo. Continuemos. Essa defesa pode ser direccionada contra o sexo e as relações sexuais em geral. São várias as possibilidades: egoísmo excessivo, ignorância da anatomia e da fisiologia dos órgãos reprodutores, receio da gravidez, aversão ao parceiro, possivelmente a uma relação amorosa anterior ou algo descoberto após o casamento. Se bem me lembro, aí diz que a halitose pode constituir a base dessa aversão, não é?

O quê?

Mau hálito esclareceu Jack. Sabe como é, está-se na cama com uma pessoa, ela volta-se para si e...

Oh! Li e olhei para ele. Sim, é o que diz aqui.

Portanto, se quiser ler entre as linhas, antes de uma pessoa casar com outra, deve familiarizar-se com ela. O futuro casal deve proceder a determinadas experiências em conjunto, não acha?

Não me parece que essa deva ser, necessariamente, a conclusão a tirar, observei sem hesitar.

Jack riu-se.

Bem, sirvamo-nos do seu caso como exemplo sugeriu, sentando-se no sofá, ao meu lado. Lendo entre as linhas relativamente ao que me contou acerca do seu namorado e de si, presumo que os dois nunca fizeram amor. Certo?

Não quero discutir a minha vida privada, declarei.

Se quer ser uma boa médica, tem de ser puramente objectiva, mesmo quando se tratar de si própria. É por isso que eu digo que há pessoas que não estão psicologicamente preparadas para seguir medicina. Podem ser inteligentes... os melhores alunos da classe... mas se não conseguem ultrapassar as lacunas psicológicas...

Eu consigo saltar as lacunas psicológicas afirmei secamente.

Óptimo. Então não devia sentir inibição em falar de si mesma. É humana, não é verdade? Todas as suas reacções também são experimentadas pelas outras pessoas, pessoas que queira examinar e tratar. Quando um homem a toca, o seu corpo reagirá da mesma maneira que o de outras mulheres em situação igual. Está a perceber?

Estou, mas...

Portanto, continuemos. É muito melhor estudar estes problemas na realidade do que recitando apenas o que vem escrito nos livros. É bem possível que sofra de frigidez.

O quê?

É o termo médico que designa a incapacidade que a mulher tem em retirar um prazer normal da relação sexual. Está aí nesse mesmo livro, no canto inferior direito. Indicou a passagem com a ponta do indicador da mão direita.

Li exactamente o que ele acabara de dizer. Em seguida, sacudi a cabeça.

O meu problema não é esse. Aliás, nem sequer tenho algum problema. Simplesmente não me senti...

Não passemos ao diagnóstico antes do tempo alertou Jack, erguendo uma das mãos. Está bem? É possível que tenha de consultar um psiquiatra.

O que diz?

Ia começar a rir mas Jack abanou a cabeça com ar sério.

Uma das coisas mais importantes que aprenderá durante a sua preparação é reconhecer quando é que os problemas de seu paciente não podem ser resolvidos por si, requerendo atenção de um especialista. É frequente os médicos meterem-se, a eles e aos seus doentes, em problemas quando não conseguem discernir esta realidade. Está a compreender o que quero dizer? Não quero ir demasiado depressa.

Eu acompanho-o. Só não vejo como poderei ajudá-lo falando de mim e no motivo pelo qual rompi com o meu namorado.

Ah, mas pode, já que se trata de uma situação com a qual eu devo estar familiarizado. Como já disse, acabou de nos aparecer um caso destes hoje e tenho a certeza de que a primeira coisa que o doutor Bardot vai fazer amanhã de manhã é pôr à prova os meus conhecimentos nesta matéria. Portanto, continuou, recostando-se, de braços cruzados, nunca dormiu com o seu namorado. Correcto?

Exactamente.

Já alguma vez foi para a cama com alguém?

Corei ainda mais intensamente, o que me irritou imenso.

Faço a pergunta na qualidade de médico, não de colunista de mexericos acrescentou Jack.

Claro que não.

Pois então! exclamou Jack, esboçando um sorrisinho desagradavelmente arrogante. Não tenho dúvidas de que oportunidades não lhe devem ter faltado. Então, o que foi que a impediu de o fazer?

Não ando por aí com uns e outros, e o sexo pelo sexo não me interessa. Para mim tem de fazer parte de algo maior, algo...

Algo quê? perguntou ele.

Mágico. Amor. E não se ria adverti-o com severidade.

Não me rirei, mas talvez a Pearl esteja a racionalizar, inventar desculpas para esconder os seus receios mais profun dos, a sua frigidez...

Eu não sou frígida insisti, quase saltando do sofá na tentativa de me fazer crer.

Não lhe acontece ficar tensa quando um homem lhe toca? perguntou Jack.

Fiquei sem resposta, olhando para ele.

Fica, não é verdade?

- Não, Claro que não. declarei firmemente

Vejo-a protestar com demasiada veemência, observou ele, com um sorriso malicioso.

Às vezes consegue ser desesperante, exclamei.

Não foi minha intenção. Olhe, eu sou médico e a Pearl deseja lá chegar. Não existe nada na sua fisiologia que eu não conheça e, pelo que já sei de si, creio poder afirmar com segurança que a Pearl está muito pouco informada. Apesar disso, ter algum conhecimento pode tornar-se perigoso.

O que é que isso quer dizer?

Se calhar, como é muito inteligente, está demasiado consciente de tudo o que se passa, daí que afaste a magia que afirma desejar tanto. Quem sabe se não está condenada a nunca vir a conhecê-la? É possível que, ao pensar no coração humano, só veja á sua frente aurículas e ventrículos.

Senti um aperto na garganta e as lágrimas prestes a rebentar.

Estarei a desencadear uma emoção? É que, assim sendo, a minha análise ao seu problema está a ser correcta.

Já disse que não tenho nenhum problema insisti, embora com menos firmeza que anteriormente.

Jack estendeu a mão para pegar na minha, mas eu fiz menção de recuar.

Descontraia-se disse ele. Não irei magoá-la. Fazia-me sentir como uma menina que vai ao médico. Permiti que me segurasse na mão. Os seus dedos começaram a afagar a parte de cima dos meus.

Façamos isto juntos, sugeriu ele, aproximando-se mais de mim no sofá. Aposto em como se recorda perfeitamente da primeira vez em que beijou um rapaz, não é verdade?

De facto, Freddy Maimero e eu fôramos uma vez ao cinema e ele dera-me um beijo de boas-noites. Tinha então doze anos. Não passara de uma ligeira pressão sobre os meus lábios, no entanto, eu sentira um arrepio de excitação percorrer-me a espinha e subira para o meu quarto a correr, a fim de me ir ver ao espelho. Tinha a cara vermelhissima e o coração batia-me com tanta força que tive a impressão de que me abriria o peito ao meio. Sempre pensara que o meu primeiro beijo seria prolongado e romântico como os que via no cinema mas, depois daquela experiência, não acreditava que conseguisse sobreviver a um desses intermináveis beijos lascivos.

Fale-me sobre esse acontecimento pediu Jack Weller. Estava a escassos centímetros de mim com os olhos a brilhar de interesse.

Não foi nada de especial, apenas um simples beijo.

Portanto, sentiu-se segura nesse tipo de ambiente, depois de ter passado por essa experiência simples e inócua, mas sozinha com um jovem, num sítio onde as luzes estejam veladas e haja música a tocar baixinho... quando a mão dele tocar no seu ombro. Pousou a mão no meu ombro, o que me fez enco lher. Descontraia-se, sei exactamente o que estou a fazer.

A seguir, os seus dedos tocaram no meu pescoço, deslizando depois até à zona das minhas clavículas, cujo contorno acompanhou.

Imagino que saiba o que são zonas erógenas, sussurrou ele.

Não estudei a actividade sexual em particular, repliquei.

Jack sorriu e assentiu com a cabeça.

Não deve ter medo do seu próprio corpo e da maneira como ele reage. Estas sensações são naturais.

Pela última vez, eu não tenho medo.

Na verdade, foi uma sorte conhecermo-nos. Espero poder ajudá-la a ultrapassar este problema, para que fique com" certeza de que pode ter uma vida sexual normal. Quando vocês se casam, é muito importante continuou, desabotoando os botões da minha blusa enquanto falava. Relaxe-se. Feche os olhos e recoste-se um pouco. Tem uma pele maravilhosamente sadia.

O meu coração martelava-me no peito. Os dedos dele enfiaram-se pela minha blusa dentro e seguiram o formato do sou tien até ao meio dos meus seios, ao mesmo tempo que se incli nava para me beijar o pescoço.

A sua pulsação acelera, trazendo o sangue até à superfi cie. É como uma batida na porta. Não deve ter medo de atender, Pearl. Vá.

Espere, pedi; porém as suas mãos deslizaram-me pé los braços até chegarem às minhas costas onde, com uma mestria de cirurgião, me desapertou o soutien e mo retirou.

Sim, murmurou, aproximando os lábios do meu ma milo exposto. Pearl... continuou, projectando pequenos arrepios electrizantes pela minha espinha, enquanto, com uma das mãos, tentava acariciar-me a coxa. Irá correr tudo bem. Tudo se passará como deve ser. Tente descontrair-se.

Sentia a cabeça à roda. Jack movera-se com tal rapidez e delicadeza que, mal acreditando no que estava a acontecer, não tardei a dar comigo meio despida. O meu coração batia violen tamente. Para dizer a verdade, sentia-me esquisita, como se estivesse a trair alguém. Fiz menção de resistir, de afastá-lo para longe de mim. Jack parou de me beijar e fitou-me nos olhos. Estávamos a poucos centímetros um do outro.

Com base nos estudos que já fizemos, pode ver como a primeira vez é importante. Fico contente em saber que ainda é virgem. Se a primeira vez é desajeitada e rude, pode deixar uma pessoa marcada e provocar-lhe dispareunia, danos psicológicos que afectarão a sua vida para sempre.

"Comigo, no entanto, tudo se passará com suavidade e perfeição. Só quero ajudá-la... continuou, voltando a passear com os dedos pela minha roupa sem deixar de falar, abrindo-me o fecho de correr e erguendo-me suavemente o corpo para a saia deslizar pelas minhas pernas abaixo. O seu corpo está a preparar-se. Está pronta.

Senti-me submergir por uma onda de debilidade que, à medida que os lábios dele continuavam a deslizar-me pelo pescoço e pelas faces, iam minando a minha resistência. À certa altura meteu a ponta dos dedos sob a tira elástica das minhas cuecas.

Por fim, aquela parte de mim que ficara dominada pela sua abordagem determinada e sabedora recuperou o controlo. Ouvi-me a questionar-me sobre o que estava a acontecer. A realidade faiscou como um relâmpago através das nuvens que tinham ensombrado o meu raciocínio, fazendo-me erguer as pernas e premir os joelhos contra o abdómen dele, afastando-o e gritando ao mesmo tempo:

Não! Pare!

Jack desequilibrou-se e caiu do sofá.

Puxei rapidamente a saia para cima, corri o fecho e abotoei a blusa. Depois passei por cima dele e levantei-me. Ainda no chão, a olhar para mim, Jack parecia tão ridículo que a minha determinação ganhou novo alento.

O doutor não me pediu para vir aqui ajudá-lo a estudar? - declarei, furiosa.

Claro que pedi. Endireitou-se. Apenas pensei que, Já que estávamos a falar no assunto...

- Me seduziria, terminei.

Ora, deixe-se disso. Não seja melodramática. Limitei-me a reparar que tinha um problema.

Não tenho qualquer problema declarei, afastando-me ainda mais dele.

Jack sentou-se de novo no sofá, sorrindo-me.

Penso que tem.

Quantas raparigas trouxe até aqui servindo-se da mesma desculpa esfarrapada? perguntei em tom acusador. O doutor é que tem problemas.

Tem a certeza? Tem? Durante instantes desejou o que estava a acontecer, até se deixar dominar pela sua frigidez. Se ao menos me desse uma oportunidade insistiu, estendendo a mão para mim.

Recuei de novo.

Não me toque! gritei, agarrando na maçaneta da porta.

Jack baixou a mão e sorriu.

Está bem, está bem. Não precisa de se ir embora. Se não deseja a minha ajuda, não insistirei. Um doente tem de querer que o médico o ajude.

Eu não sou uma doente e... você não é um médico. gritei, abrindo a porta de rompante.

Se mudar de ideias, estarei aqui disse, atrás de mim. Atirei com a porta e desci as escadas a correr, com as lágrimas a correrem-me pela cara. Atravessei o vestíbulo e saí in tempestivamente do prédio, quase deitando uma idosa ao chão. Pedi desculpa e afastei-me com toda a rapidez, deitando quase a correr para apanhar o eléctrico que ia a passar. Ainda sentia o sorriso e as risadas de Jack Weller atrás de mim. Só quando es tava quase a chegar a casa é que senti as batidas do meu coração abrandarem. Limpei as lágrimas, respirei fundo e apeei-me do eléctrico.

Quando entrei em casa, encostei-me à porta de entrada, es perando recuperar toda a compostura; no entanto, algo dentro de mim se quebrara irremediavelmente. Um médico... um médico bastante jovem tentara enganar-me. Um membro da profissão que eu idolatrava desiludira-me e enojara-me. Como podia alguém estudar para ser médico e depois ter um comportamento como o de Jack Weller? Como poderia ele preocupar-se com os outros, com os seus sentimentos, a sua dor, o seu sofrimento?

Nesse momento, a minha mãe saiu da sala de estar e ficou surpreendida por me ver parada ali à porta.

Pearl? Não te ouvi entrar. Onde está o Aubrey? perguntou, olhando em volta.

Entrei muito depressa afirmei, esboçando um sorriso.

Contava que chegasses a casa muito mais tarde disse -me, acercando-se.

Pois, mas não resultou.

Queres dizer que acabaram por não jantar? perguntou-me.

Os seus olhos, aquelas lanternas cajuns, como o meu pai costumava chamar-lhes, examinaram o meu rosto, retirando conclusões. Tive de desviar o olhar.

Ainda não tenho grande fome. Comerei alguma coisa mais tarde disse, lançando-lhe mais um sorriso breve antes de me dirigir para as escadas.

Pearl?

Sim, mãe?

Olhou de relance para trás, o que me fez perceber que o meu pai estava na sala de estar, embora não tivesse ouvido a nossa conversa, caso contrário já teria aparecido.

Houve algum problema. Que foi, querida?

Os lábios tremeram-me. As lágrimas fizeram-me arder as pálpebras, antes de deslizarem pela minha cara. Sacudi a cabeça e subi as escadas a correr. Entrei no meu quarto e atirei-me para cima da cama, reprimindo os soluços.

Momentos depois, a minha mãe entrou. Fechou a porta silenciosamente e eu voltei-me para ela.

Que aconteceu? perguntou-me com firmeza.

Ora, mãe, não foi nada de especial.

Ele não te convidou para o seu apartamento para estudarem, como disse, adivinhou ela, com um aceno de entendimento.

Pois não. Ainda começámos, mas ele escolhera o tema como parte do seu elaborado plano para...

Para quê? O que foi que ele fez?

Eu não permiti que ele fizesse nada, mãe.

Mon Dieu exclamou a minha mãe, pousando a mão sobre o coração. Se o teu pai descobre, desfaz aquele homem.

É melhor não lhe dizermos nada, mãe. Nada se passou. Sou capaz de me proteger. Na verdade, foi o que fiz. Ele não voltará a incomodar-me.

Que fez ele? quis saber a minha mãe, vindo sentar-se na beira da minha cama.

Endireitei-me e fiquei a remexer nas pregas da minha saia.

Começou por me contar que tinha uma jovem doente com dificuldade em fazer amor. Chamou-lhe doença da lua-de-mel e disse que descobrira que o problema dela era psicológico. Depois começou a fazer-me uma série de perguntas pessoais, fingindo que só tentava conhecer melhor o problema.

Continua, incitou a minha mãe.

Afirmou que eu era frígida por ser demasiado inteligente e não conseguir retirar prazer do sexo. Disse que queria ajudar-me a ter a certeza de que eu não padecia da doença da lua-de-mel.

Mon Dieu repetiu a minha mãe. Esse homem devia comparecer diante de uma comissão de inquérito.

Eu disse que não com a cabeça.

Não quero ser obrigada a contar esta história a mais ninguém, mãe. Por favor!

Está bem, querida. Não te preocupes. Claro que nunca mais deverás falar com ele. Se ele se atrever a dirigir-te a palavra...

Não voltará a incomodar-me afiancei.

Lamento que tenhas passado por uma experiência tão horrível, Pearl.

Não será a última vez, mãe declarei, cheia de certeza. A minha mãe fitou-me por momentos.

Não, é bem possível que não. Fazes muito bem em estar consciente disso, Pearl.

Alguma vez passaste pelo mesmo?

Passei, claro. O meu avô tentou vender-me a um homem. Chegou a acorrentar-me a uma cama, para que eu não fugisse antes de o indivíduo chegar.

Que horror. Como é que o teu avô foi capaz de semelhante acto?

Era um alcoólatra. Teria vendido a própria alma para comprar uísque. Agrandmère Catherine não tinha dúvidas sobre isso.

O que te aconteceu, mãe?

Consegui fugir e foi nessa altura que vim para Nova Orleães e conheci o teu pai. Por isso, já vês, cada nuvem escura tem o seu lado luminoso observou, sorrindo.

Eu retribuí o sorriso, mas depois apertei os lábios e baixei novamente o olhar.

O que mais te aconteceu, Pearl?

Não aconteceu mais nada. Apenas...

O quê, querida?

Foi o que ele disse, mãe. Não sei se não haverá alguma verdade nisso. As minhas amigas do liceu pensam o mesmo, assim como os meus ex-namorados. Oh, mãe, e se é verdade? E se eu nunca conseguir descontrair-me na companhia de um rapaz? Assim nunca ninguém se apaixonará por mim lamentei-me.

Não creio que seja verdade. Além disso, tenho a certeza de que não és obrigada a dormir com o primeiro homem que te fizer essa proposta, só para saberes se és frígida ou não. possivelmente todas as manobras servem de desculpa para tentar levar uma jovem à certa, mas ele... utilizar a sua autoridade de médico... é deplorável. Não tens nenhum problema, querida assegurou-me, rodeando-me com um braço. Eu também não andei por aí a dormir com quem queria levar-me para a cama.

Com quantos dormiste, mãe? perguntei, arrependendo-me logo a seguir. Apesar de nos darmos como irmãs, era uma pergunta demasiado íntima para lhe fazer.

A minha mãe fitou-me durante algum tempo e depois sorriu.

Só dormi com o teu pai. Nenhum outro homem me interessou redarguiu. Talvez isso pareça uma estupidez aos jovens de hoje, mas...

A mim não parece nada estúpido, mãe.

Quando encontrares a pessoa certa, algo de precioso e bom acontecerá e tu irás sentir-te em segurança na sua companhia. Nessa altura não hesitarás em consumar o teu amor. Não sou uma dessas especialistas que escrevem sobre o amor nos jornais, mas sei o que aconteceu comigo e tenho a certeza de que contigo se passará o mesmo. Tens demasiada consideração por ti própria e valorizas suficientemente as tuas emoções para te entregares de qualquer maneira. Isso é bom e não faz de ti nenhuma menina melindrosa ou frígida. Torna-te prudente.

Sorriu e riu-se para si própria.

O que foi?

Lembro-me de uma vez, era eu pequena, ver duas cotovias a lutar bravamente entre si, e ter perguntado à minha grandmère Catherine por que razão o faziam. Ela respondeu-me que era a dança do acasalamento. A fêmea fazia de conta que não estava interessada, o que, explicou a minha avó, tornava o macho ainda mais ansioso e garantia à fêmea que não ficaria desiludida. "Ela só quer que ele saiba que ela é difícil de conquistar", explicou-me.

Ambas rimos.

Tiveste imensa sorte em ser criada no Hayou. Quem me dera que me tivesse acontecido o mesmo observei.

Oh, não foi fácil. Trabalhávamos arduamente para satisfazer as nossas necessidades básicas, mas as manhãs e as noites...

Ainda sentes saudades desses tempos, não é, mãe?

Sinto, de vez em quando.

Porque não voltas lá? Que tal irmos todos visitar Cypress Woods? perguntei, entusiasmada.

Não creio que seja boa ideia, querida. Pelo menos por enquanto, respondeu a minha mãe levantando-se, nitidamente desagradada com a sugestão. Sentes-te melhor?

Sim, mãe.

Tens fome?

Alguma.

Então vamos lá abaixo. Faremos de conta que acabaste de chegar e arranjaremos qualquer coisa para comeres. O teu pai irá querer inteirar-se de todos os pormenores sobre o teu dia no hospital.

Eu sei. Foi uma pena ele não se ter tornado médico.

A vida está cheia de surpresas, umas boas, outras más. O segredo está em manter a canoa no seu curso replicou ela.

Nunca andei de canoa. Porque não havemos de ir ao Hayou, implorei.

Um dia iremos respondeu-me, mas era a mesma resposta que eu já ouvira centenas de vezes. Aquela já não deixava transparecer a mesma sinceridade, tendo, sim, uma ressonância mais sombria, profunda e misteriosa, que me deixava insegura, como que tentando encontrar o caminho no meio da escuridão, premindo o rosto contra a noite, esperançosamente à espera da primeira estrela.

O passado, o nosso passado, fazia lembrar o labirinto de canais que se entreteciam através do Hayou, alguns conduzindo ao exterior, outros seguindo sempre até parte incerta. O risco de empreender a viagem requereria coragem, mas eu estava certa de que, um dia, iria fazê-la. Um dia eu regressaria e descobriria as respostas que tinham ficado por dar às perguntas.

Quando me afastasse da margem e iniciasse a jornada, apenas esperava, e com que ansiedade, levar ao meu lado alguém precioso e querido.

 

CHEGAREI A CONHECER O AMOR?

Embora tivesse assegurado à minha mãe que não teria dificuldade em trabalhar no hospital perto de Jack Weller, no dia seguinte, ao apear-me do táxi e ao entrar no edifício, não pude deixar de sentir o coração pesado e uma sensação opressiva no peito. O céu apresentava-se muito escuro e não tardaria a chover. Para dizer a verdade, a humidade suspensa no ar era tanta que tive a impressão de ver goticulas a formar-se mesmo em frente dos meus olhos. Sophie já chegara, viera mais cedo para aproveitar uma boleia que a deixara a poucos quarteirões de distância, poupando assim o dinheiro do táxi. Felizmente, Jack Weller só entraria de serviço a meio do meu turno, o que me permitiu passar, pelo menos, as primeiras horas sem o enfrentar.

porém, quando Sophie e eu voltámos do almoço, vi-o no corredor, a conversar com uma das enfermeiras. Olhou para as duas e sorriu como se nada se tivesse passado entre nós. Eu não dissera uma palavra do sucedido á minha colega, de modo que esta pensou que Jack estava apenas a ser o mesmo brincalhão de sempre. Segui directamente para o vestiário. Sheila Delacrois, a jovem que eu calculara que sofresse de problemas de vesícula, piorara e tivera de ser levada para o andar de cima a fim de ser operada. Depois seguiria para a sala de recuperação e já não regressaria ao nosso andar, assim, eu precisava de mudar a cama até ali ocupada por ela, preparando-a para um novo doente.

Estava toda atarefada a empilhar as almofadas e os lençóis quando ouvi a porta fechar-se suavemente nas minhas costas. Virei-me para trás e vi que Jack entrara, ficando de costas contra a porta e com as mãos apoiadas na maçaneta.

Abra a porta, ordenei.

Só preciso de falar consigo a sós por um instante, replicou ele.

Não temos nada para falar. Faça o favor de abrir a porta insisti.

Olhe, quero pedir-lhe desculpa. É provável que tenha passado das marcas, que me haja precipitado. Como é muito inteligente, imaginei que fosse mais sofisticada. Foi um erro, reconheço. Quero apenas dizer-lhe que não será vantajoso para nenhum de nós falar do que se passou a terceiros.

Não precisa de se preocupar. Não direi a ninguém. No entanto, contei à minha mãe, acrescentei.

À sua mãe? admirou-se, erguendo muito as sobrancelhas.

Exactamente. Não lhe costumo esconder o que quer que seja. Somos muito chegadas.

O que foi que ela disse?

Não quer que o meu pai saiba, pois acha que ele viria aqui dar cabo de si, respondi com secura.

Jack Weller engoliu em seco e acenou afirmativamente com a cabeça.

Não percebo que tipo de médico o senhor irá ser acrescentei, com as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos.

Ei, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando estou de serviço, sou um verdadeiro profissional.

Se não for sensível em relação aos sentimentos das pessoas, pouco importa o profissionalismo que exibir, retorqui..

Esboçou um sorriso forçado e sacudiu a cabeça.

Já não é a primeira vez que encontro raparigas como a Pearl. De facto conheci muitas do seu tipo durante o meu curso. É demasiado racional para o seu próprio bem, é uma sabichona que não admite os próprios sentimentos. Se ontem se tivesse despojado do seu pretensiosismo, teria passado um bocado agradável.

Aguento muito bem as desilusões observei secamente. As lágrimas como que se me evaporaram e o corpo parou de me tremer. Num instante senti-me invadir por uma raiva fria, os meus olhos mostraram a fúria que sentia, fazendo desaparecer o sorrisinho arrogante de Jack Weller. Encolheu os ombros.

Faça como entender. Abriu a porta.

O meu coração batia furiosamente e cerrara os punhos. Ele deteve-se no umbral, verificando primeiro se não havia ninguém suficientemente perto para ouvir o que dizia.

Sinto pena do pobre palerma que fizer amor consigo pela primeira vez. Provavelmente terá a impressão de estar a proceder a um exame médico acrescentou, antes de sair e fechar a porta.

As lágrimas que tinham estado contidas por trás das minhas pálpebras libertaram-se. Quantos homens mais me acusariam do mesmo? Quando encontraria alguém com quem desejasse mostrar-me verdadeiramente terna e afectuosa? Seria eu demasiado fria, impessoal e analítica para o meu próprio bem? Todos os namorados que tinha afastavam-se mais cedo ou mais tarde, e alguém que eu imaginava sofisticado e conhecedor acabava de rir e acusar do mesmo crime, se é que se podia considerar como tal.

Pensei que, por mais que a minha mãe me reconfortasse, por muitos livros que lesse sobre a matéria ou mesmo que conversasse com outras raparigas, ficaria sempre com aquelas dúvidas sobre mim mesma. A magia do amor e o mistério da paixão estar-me-iam vedados? A visão de raios X que Claude me acusara de ter seria uma bênção ou uma maldição?

"Porque será", perguntara-me ele uma vez, depois de tentar que fizéssemos amor e eu me retraíra, "que ao olhares para mim vês um baço, dois rins e dois pulmões, em vez da minha pessoa?"

Claro que lhe respondera que se enganava mas, quando nos beijámos e ele premiu o seu corpo contra o meu, não pude deixar de reparar como a sua respiração se acelerava, ele ficava imediatamente erecto e a sua pele se humedecia, verificando como a excitação sexual activava o sistema nervoso. Imaginei-me uma espécie de monstro cerebral.

Os gémeos tentavam assustar-me trazendo-me minhocas e besouros, mas quase sempre ficavam desiludidos perante a minha calma. Só para os contentar, chegava a fazer de conta que tinha o mesmo choque que a maioria das raparigas da minha idade sofreria se visse bicharocos enormes a rastejarem-lhes pela pele ou um mosquito enorme em cima do boião de creme; porém, eu não tinha problema nenhum em pegar neles e pô-los de lado.

Pierre e Jean chegaram, um dia, a queixar-se à nossa mãe sobre a questão.

- A Pearl não tem medo de pegar numa rã ou num escaravelho preto gigante!

A minha mãe sorrira e respondera-lhes que, se calhar, eu herdara o grande amor que a minha avó tinha pelos animais. Embora nunca tivesse conhecido a mãe, contou-nos que a sua avó, a grandmère Catherine, costumava descrever a filha, Gabriel, como alguém que se sentia completamente à vontade com os aligatores e crocodilos e em quem todas as criaturas confiavam. As aves pousavam no seu ombro e comiam na palma da sua mão.

-A Pearl saiu a ela - explicou.

Contudo, seria assim ou era eu que possuía uma mente de tal modo analítica que me faltavam qualidades femininas? Poderia eu interessar-me pela ciência e isso não me impedir de ser uma pessoa afável e calorosa?

Limpei as lágrimas e respirei fundo. Em seguida retomei o meu trabalho e concentrei-me nas tarefas de que fora incumbida. Entre mim e Jack Weller ergueu-se uma muralha de profissionalismo. Ele nunca mais tentou conversar comigo e, se eu entrava numa sala em que estivesse, limitava-se a olhar para mim de relance e a voltar ao que porventura estivesse a fazer.

Havia outros médicos, mais velhos e com maior experiência profissional, com os quais eu, ocasionalmente, falava. Mal se apercebiam das minhas ambições, ansiavam por conversar comigo e dar-me orientações. Se eu entrava num quarto para substituir a água do copo de um doente ou para lhe levar sumo ou chá e torradas, e deparava com um médico a falar com um doente da outra cama, deixava-me ficar a ouvir, inteirando-me do diagnóstico e do tratamento.

À noite relatava ao meu pai estes factos. Ele escutava-me com os olhos a brilhar de interesse e os seus lábios suavizavam-se num pequeno sorriso. Se a minha mãe também estivesse presente, recostar-se-ia a transbordar de orgulho, trocando olhares secretos com o meu pai.

Pierre e Jean só se mostravam interessados nos pormenores sangrentos, perguntando-me constantemente se vira mais alguma pessoa morta, se houvera muito sangue e ossos partidos naquele dia, e por aí fora. A maioria dos meus dias era passada no meio da maior rotina e sem emergências verdadeiras, o que, aos olhos deles, era um tédio. Claro que desfrutavam o melhor possível do seu Verão - nadavam na nossa piscina, para onde também convidavam os amigos, jogavam basebol e coleccionavam insectos, que conservavam em frascos. Eu dizia-lhes que não pensassem que a vida deles seria sempre assim, que o tempo voava e um dia, quando menos esperassem, teriam de deitar mãos ao trabalho e esforçarem-se muito para ser bem sucedidos nalguma coisa. Jean não queria dar ouvidos ao meu conselho, mas Pierre escutava-me com muita ponderação.

A exposição da minha mãe ficou pronta no princípio de Julho. Decorreria numa das novas galerias do French Quarter, A impressionante lista de convidados para a abertura incluía membros do governo, médicos e advogados, homens de negócios importantes e alguns artistas. Nesse dia, os gémeos detestaram ter de se vestir adequadamente e de se manter limpos.

A minha mãe fez questão em que vestissem fatos azul-escuros e gravatas de seda iguais. Comprou-lhes uns reluzentes sapatos novos e o nosso pai levou-os ao barbeiro. Estavam todos elegantes, ainda que pouco à vontade, dentro das suas roupas novas, ficando proibidos de fazer algo que lhes sujasse as mãos e a cara ou manchasse os fatos.

Jean não parava de puxar pelo colarinho, queixando-se de que estava quase a morrer sufocado.

É uma estupidez uma pessoa ter de se vestir assim resmungou para Pearl. Vocês têm de se preocupar com o pó em cima dos móveis ou em não tocar nalguma coisa que possa manchar-vos os vestidos, e os rapazes são obrigados a usar estas gravatas idiotas.

Estás tão elegante, Jean! Estão os dois e fazem-no pela nossa mãe. Sabem como este dia é importante para ela expliquei-lhes.

Jean concordou, relutante; no entanto, minutos mais tarde, provocou Pierre pisando-lhe propositadamente os sapatos e despenteando-o, deitando depois a correr pela casa fora. O pai teve de os chamar à parte e dar-lhes um severo sermão, após o que se mantiveram sentados a um canto, de mãos juntas em cima dos joelhos, amuados.

Durante algum tempo, a música e a animação que reinava na galeria mantiveram-nos entretidos. O nosso pai dera-lhes instruções sobre o modo como deviam comportar-se na galeria. No entanto, assim que chegámos, ele e a minha mãe viram-se completamente rodeados de amigos, convidados e órgãos de comunicação social, de modo que os gémeos escapuliram-se de junto de mim e iniciaram as suas explorações. De vez em quando vislumbrava-os a sair e a entrar em aglomerados de pessoas, empanturrando-se de aperitivos quentes e chegando mesmo a beberricar um pouco de vinho. Consegui encurralá-los várias vezes, obrigando-os a sentarem-se e a ficarem sossegados, porém, momentos depois desapareciam.

A julgar pelos comentários que me chegavam aos ouvidos, a exposição da minha mãe estava a ser bem recebida. Durante a sessão de abertura, vários quadros foram vendidos. Seguir-se-ia uma recepção no Antoine, um dos mais antigos e famosos restaurantes franceses do French Quarter. A festa decorreu num salão privado conhecido por "Masmorra" e, na realidade, utilizado como tal durante a permanência espanhola em Nova Orleães. O empregado que me serviu e depois se deixou ficar ao meu lado uns instantes tinha muito orgulho no restaurante e no facto de, também ele, se chamar Antoine.

Aqui tem umas ostras à Rockefeller, um dos nossos pratos mais conhecidos declarou, ao pousar-me o acepipe na frente. Não sei se sabe mas o nome não se deve ao facto de terem sido inventadas para John D. Rockefeller. Receberam-no devido à riqueza do seu molho e como, na altura, Mister Rockefeller era o homem mais rico da América...

Ah, compreendo disse eu, sorrindo.

Reparei que fazia sinal a um criado que, na mesa ao lado, servia vinho caro como se de água se tratasse.

As nossas adegas vinícolas contêm mais de vinte e cinco mil garrafas, datando o vinho mais antigo de mil oitocentos e oitenta e quatro. Até dispomos de um brande de mil oitocentos e onze.

Tentei parecer suficientemente impressionada, o que o incentivou a prosseguir com as suas explicações e a gabar-se de cada prato que servia.

A princesa Margarida disse que o nosso soufflé de caranguejo era um poema.

O restaurante não poupou esforços para impressionar os meus pais e os nossos convidados. Serviram-nos galinha à Rochambeau, lagostins à Cardinale, batatas à moda de Brabante e o famoso creme de espinafres de Antoine. Indiferentes a todas estas iguarias, os gémeos passaram directamente para a sobremesa.

Ainda estávamos a jantar quando trouxeram e leram em voz alta a primeira crítica publicada, tão favorável era. Todos aplaudiram a minha mãe, que se levantou e agradeceu aos presentes. A seguir, ela e o pai beijaram-se.

Sempre que se beijavam, eu tinha a impressão de que o faziam pela primeira vez. Os seus rostos deixavam sempre transparecer êxtase e os seus olhos brilhavam com o fulgor de quem descobria algo. Pensei para comigo que se calhar eu jamais desfrutaria de tanto amor e felicidade. A minha mãe, como que adivinhando os meus pensamentos, fitou-me e sorriu-me, dizendo com o olhar: "Não te preocupes, Pearl. Estou certa de que algures também tens alguém como o pai à tua espera."

Como eu desejava ter a mesma certeza!

Precisamente quando a animação atingia o seu auge e as pessoas vinham à nossa mesa felicitar a minha mãe, quando a música ressoava e a magnífica refeição era servida, vi-a deixar de sorrir repentinamente e voltar-se para a porta. O seu rosto esvaiu-se, ficando pálido de preocupação. Também olhei na mesma direcção e vi uma mulher alta, magra e morena, envergando uma túnica vermelha. O chefe de mesa foi atendê-la e eu vi-a fazer sinal em direcção à minha mãe. Não a deixou entrar mas, perante a sua insistência, trouxe um bilhete seu à minha mãe. Reparei que o lia e que o seu rosto empalidecia ainda mais. Inclinou-se e segredou algo no ouvido do meu pai, que ficou visivelmente perturbado.

Levantei-me de imediato e fui ter com ela.

O que se passa, mãe?

Oh, Pearl querida, este bilhete é sobre a Nina Jackson, a cozinheira do meu pai.

O que se passa com ela? perguntei, olhando para fora e vendo que a mulher misteriosa, no entanto, já desaparecera.

Está a morrer e pediu para me ver. Preciso de ir ter com ela imediatamente, mas o teu pai acha que não devo abandonar a festa.

É a tua festa, mãe. Como poderás ir? Será que ela está assim tão próxima da morte?

Não faço ideia, querida.

Não poderás ir depois?

É o que o teu pai quer que eu faça. Daqui a meia hora passamos às fotografias. O presidente da Câmara deve cá vir.

Nesse caso, tens mesmo de ficar, mãe. Assim que puderes sair, eu irei contigo.

Obrigada, querida agradeceu-me, apertando as minhas mãos entre as suas. Apesar de tudo sinto que devia levantar-me e ir. Santo Deus.

Pareceu-me que a minha mãe estava suficientemente perturbada para arranjar uma desculpa e retirar-se, mas nessa altura chegou o presidente da Câmara de Nova Orleães. Todos bateram palmas e gerou-se uma grande excitação, enquanto ele se aproximava da minha mãe para a felicitar. Voltei para junto dos gémeos e aguardei, ciente da perturbação que ia no seu íntimo.

Por fim, cerca de uma hora depois, a minha mãe disse ao meu pai que achava que já não podia esperar mais tempo. As pessoas começavam a retirar-se. Pediu ao meu pai que levasse os gémeos para casa. Estes, tal como eu, tinham ficado ali à espera do que resolveriam.

A Pearl vai comigo. Apanharemos um táxi disse-lhe a minha mãe.

O meu pai parecia incomodado.

A ideia de vocês as duas andarem por aí à noite não me agrada observou.

Correrá tudo bem, Beau. Sairemos do táxi para dentro de casa e depois faremos o sentido inverso explicou.

Não sei de que servirá a tua ida lá murmurou o meu pai.

Ela foi-me muito querida em tempos e ficámos amigas mesmo depois da sua saída da casa dos Dumas, Beau. Houve uma altura em que a Nina Jackson era, praticamente, a única pessoa que cuidava de mim.

O meu pai anuiu e desviou o olhar. Imaginei que a minha mãe se referia ao tempo em que ele fora para a Europa.

Que hei-de dizer a todas estas pessoas? perguntou ele em voz baixa.

Diz-lhes a verdade, Beau, que uma amiga querida encontra-se à beira da morte e eu fui ter com ela, respondeu.

Está bem, está bem. Tem cuidado, sim? Beijou-a na face. Cuida da tua mãe e certifica-te de que ela não faz nenhuma tolice recomendou-me.

Está descansado, pai prometi.

Vamos, querida disse-me a minha mãe.

Nós também queremos ir pediu Jean em tom lamuriento.

Vocês vão é comigo para casa ripostou-lhes o meu pai. De certeza que, depois de comerem tanto chocolate e leite-creme, precisarão de uns sais de frutos. Não saiam da minha vista.

Os dois olharam para mim cheios de pena por não irem connosco.

Portem-se bem recomendei-lhes, fazendo sinal a Pierre, que sabia como controlar Jean. Fez-me uma careta de desconsolo, mas acompanhou Jean até umas cadeiras, onde se sentaram obedientemente, à espera do pai.

Entretanto, a minha mãe pedira que lhe arranjassem um táxi.

Vamos depressa, querida disse-me. Saímos apressadamente.

Para onde? perguntou o motorista. A minha mãe deu-lhe a morada.

Tem a certeza de que quer ir a este sítio? A esta hora da noite não é a zona mais segura da cidade comentou.

Sabemos muito bem onde vamos. Agradeço que nos leve até lá o mais depressa possível retorquiu a minha mãe con secura.

A sua ansiedade tornava-a excepcionalmente firme e autoritária. Nenhum dos meus conhecidos falava com os empregados com a mesma delicadeza com que a minha mãe normalmente fazia.

Durante o percurso pelo Vieux Carré, em direcção à zona mais pobre da cidade, a minha mãe contou-me que, certa vez, Nina Jackson levara-a a consultar uma feiticeira vudu, para que esta lhe arranjasse um amuleto ou ensinasse algum ritual que impedisse sua irmã, Gisselle, de ser cruel para com ela. Relatou que atirara uma fita, pertencente à irmã, para dentro de uma caixa que continha uma cobra.

Pouco tempo depois, a Gisselle teve o acidente de carro disse com tristeza. Senti-me sempre culpada.

Oh, mãe, certamente não acreditas que esse ritual tenha tido alguma coisa a ver com o desastre! Contaste que o namorado dela estivera a beber e a fumar erva e guiara sem o menor cuidado...

Ainda assim... A cerimónia vudu deve tê-la colocado ao alcance do perigo. Mais tarde, voltei à feiticeira vudu com a Nina, e ela fez-me tirar a fita de dentro da caixa com a cobra, mas não me garantiu o fim da maldição. Disse-me que, uma vez lançada a minha raiva ao vento, este tomava conta dela e o mais certo era eu não poder recuperá-la.

Mas, mãe...

Sabes, contei à Gisselle.

E ela que disse?

Serviu-se simplesmente dessa informação para fazer chantagem comigo e obrigar-me a ser sua escrava, mas eu mereci. Nunca devia ter permitido que a raiva tomasse conta de mim. Só a Nina é que se encontrava a par, mais ninguém. Estava sempre a acender velas para manter o mal longe de mim, e a dar-me amuletos da sorte como a moedinha que tu usas disse a minha mãe, sorrindo.

Demos a volta a uma esquina e começámos a descer uma estrada comprida e escura. As casas assemelhavam-se a cabanas. Apesar da hora, vi crianças pequenas ainda a brincar na varanda da frente das casas e nos pátios sujos e miseráveis. Ao longo dos passeios, avistavam-se automóveis avariados e as ruas estavam imundas, com as sarjetas atafulhadas de latas, garrafas e jornais.

Parámos em frente de um casebre que parecia ligeiramente em melhor estado que os outros. O pátio e o passeio apresentavam-se limpos, mas vi penas e ossos pendurados no umbral da porta da entrada.

Espere aqui por nós recomendou a minha mãe ao motorista.

Olhe que não fico aqui muito tempo advertiu-a ele.

Tomei nota do seu nome e da sua matrícula, retorquiu-lhe ela. Acho bem que aqui esteja quando eu e a minha filha sairmos daquela casa.

O homem soltou um resmungo à laia de resposta, mas preparou-se para esperar. A minha mãe respirou fundo e a seguir pegou-me na mão. Aproximámo-nos da soleira e batemos à porta. Um instante depois, uma negra baixinha espreitou a ver quem era. Tinha o cabelo grisalho a pender-lhe até meio das costas, vestia o que parecia ser uma serapilheira e calçava uns ténis velhos, sem atacadores. Penduradas nos lóbulos das orelhas estavam duas pequenas lagartixas vivas. Ambas se agarravam estoicamente, para não caírem.

Viemos ver a Nina disse-lhe a minha mãe.

A Nina não está cá respondeu a pequena mulher. A minha mãe olhou de relance para o bilhete que recebera.

Disseram-me que viesse a esta morada pois a Nina Jackson estava nesta casa, muito doente e à beira da morte.

Isso pode ser verdade, mas a Nina foi-se embora. Zumbi levou-a há cerca de uma hora. Está no paraíso.

Oh, não. Chegámos demasiado tarde gemeu a minha mãe.

Apertei-lhe a mão e ela endireitou os ombros.

Mesmo assim quero vê-la insistiu.

A mulher desviou-se para nos deixar passar. Do fundo da casa chegava até nós um aroma adocicado. A velha fez sinal para a esquerda e ouvimos o ressoar monótono de um tambor. Lentamente, eu e a minha mãe aproximámo-nos da entrada do aposento contíguo.

Era um quarto pequeno, com as persianas corridas. A cama ocupava a maior parte do espaço e à sua volta ardia cerca de uma centena de velas. Sentada, muito quieta, mesmo ao lado do caixão, encontrava-se uma outra mulher negra, não muito diferente da que nos abrira a porta. No outro lado, em frente, via-se um velho com uma barba luminosamente branca, a bater num tambor feito de tiras de madeira de cipreste apertadas em arco e encimadas por uma pele de carneiro. Quando entrámos, não olhou para nós nem moveu a cabeça um milímetro que fosse, enquanto a idosa se voltava para nós e os seus olhos grandes e tristes se iluminavam, indiciando algum reconhecimento.

É a Ruby da Nina, não é? perguntou.

Sim, sou respondeu a minha mãe. A senhora é a irmã da Nina, não é verdade?

A mulher disse que sim com a cabeça e olhou para o corpo de Nina Jackson, cujo rosto parecia de cera, lembrando uma máscara. Eu ainda não reparara, pois ficara ofuscada com o brilho das velas, mas aos pés da cama estavam dois gatos, um preto e outro branco, ambos mortos e embalsamados. Do alto da cabeceira do leito pendia uma boneca preta com um vestido vivamente colorido e um colar feito de vértebras de serpente e com um dente de aligator, encastoado em prata, a servir de pendente.

A minha irmã não pôde esperar mais disse a mulher.

Lamento murmurou a minha mãe, indo colocar-se perto da cama. Eu mantive-me ao seu lado. Pobre Nina.

A Nina agora está rica disse a irmã sem hesitar. Está com zumbi.

É verdade concordou a minha mãe, sorrindo. Respirou fundo antes de tocar na mão de Nina. Fechou os olhos e rezou silenciosamente, olhando em seguida para a irmã de Nina. Posso ajudar nalguma coisa?

Não, madame. A Nina chamou-a porque queria fazer alguma coisa por si. Zumbi, antes de a levar, disse-lhe alguma coisa. Antes de partir, ela disse: vão chamar Madame Andreas. Tragam-na aqui. Tenho de lhe contar o que zumbi me disse. Mas a senhora não veio e ela não pôde esperar mais, compreende?

A minha mãe deixou escapar um pequeno grito e eu peguei-lhe na mão.

Ela disse o que era?

Era coisa que a Nina só podia contar a si. Só me disse que a fosse chamar depressa e depois perguntou-me se já cá estava e eu respondi que não. Passado um bocado, repetiu a pergunta e a resposta foi a mesma. Ouvi-a então fazer uma reza. Deu o último suspiro e, quando olhei mais de perto, reparei que morrera com uma pequena lágrima no olho. Não é bom sinal.

"Agora vá e reze, madame. Vá e reze pela voz da Nina. Talvez seja melhor ir ao cemitério quando for meia-noite. Leve um gato preto. Talvez a Nina fale do além através da boca dele.

O tambor aumentou de intensidade.

Mãe, vamos embora sussurrei, sentindo um arrepio na espinha. A minha mãe parecia transfigurada, com os olhos muito abertos e fixos de medo. Temos o táxi à espera acrescentei.

Vi-a suspirar fundo de novo e em seguida abrir a bolsa, de onde tirou algum dinheiro.

Por favor, aceitem esta contribuição para as despesas que forem necessárias para o funeral da Nina, pediu.

A irmã de Nina pegou nas notas, enquanto a minha mãe olhava uma última vez para a falecida, antes de se retirar.

É melhor irem ao cemitério á meia-noite, ouvimos a irmã de Nina dizer atrás de nós.

A minha mãe permaneceu em silêncio durante quase todo o trajecto para casa. Ficou a olhar pela janela até chegarmos. Depois virou-se para mim e murmurou:

Devia ter ido imediatamente. Estava com um pressentimento. Não era situação que pudesse esperar.

Mas, mãe, como poderias fazê-lo com toda aquela gente ali para te ver?

Nada disso tinha a mesma importância. Tenho a certeza de que a Nina não me teria mandado chamar se não fosse grave, insistiu, sacudindo a cabeça.

Mãe, tu certamente não acreditas em nada daquilo. Não te passa pela cabeça que a Nina tenha ido para a terra dos mortos e depois volte para te dizer qualquer coisa, pois não?

A minha mãe não respondeu.

Mãe?

Recordo-me de uma vez ter ido com a grandmere Catherime esconjurar um espírito mau, daqueles que aparecem a ron dar quando morre uma criança que não foi baptizada, contou.

Chamaram-na para que o afastasse, a fim de não trazer azar à família.

Como é que ela o fazia?

Deitava uma gota de água benta em todos os recipientes, em todas as cisternas, tudo o que pudesse conter água. Dávamos a volta á casa e ela ia aspergindo a água benta...

O que foi? inquiri, ao vê-la hesitar

Senti-o. Senti o espírito sussurrou-me. ela Passou perto de mim, tocou-me no rosto e desapareceu na noite.

Engoli em seco, mal podendo acreditar no que ouvia.

Respeito a crença de todos declarou a minha mãe e não contesto os feitiços, os gris gris ou os rituais. Não quero acreditar na maioria deles, mas ás vezes, ás vezes não consigo. Fico com o estômago às voltas.

Abracei-a, pois tremia.

Oh, mãe, tudo isso não passa de velhas superstições um pouco tolas. São inventadas pelas pessoas. Não podes acreditar que irá acontecer algum mal só por não teres chegado a tempo de falar com a Nina.

Espero que não disse a minha mãe abanando a cabeça. Espero que não.

Quando chegámos a casa, o meu pai e os rapazes já ali se encontravam. Mandara-os deitar mas, um quarto de hora mais tarde, os dois queixaram-se de dores de barriga. O que não me surpreende minimamente, tendo em consideração tudo o que engoliram hoje à noite. Fez uma pausa e fitou a minha mãe insistentemente. Há algum problema? A Nina morreu?

Sim, Beau, quando cheguei já estava morta.

Lamento disse ele. Essa Nina era uma pessoa muito curiosa. Lembro-me da maneira como lidava com a Gisselle. Era a única pessoa capaz de a fazer obedecer a alguma coisa. Estou convencido de que tinha um pouco de medo da Nina, apesar de troçar dela e do seu vudu.

A irmã da Nina disse-me que ela tinha qualquer coisa importante para me dizer, Beau.

O meu pai olhou para a mulher.

Sobre o quê?

Algo de que tivera conhecimento no outro mundo, deixou escapar a minha mãe.

A princípio o meu pai limitou-se a ficar a olhar, a seguir abriu a boca de espanto.

Não estás a querer dizer-me que acreditas que a Nina voltou do meio dos mortos para te dizer alguma coisa, não? Ao ver que a minha mãe acenava afirmativamente com a cabeça, acrescentou: Mon Dieu, Ruby! Uma mulher com a tua inteligência e...

Não tem nada a ver com a inteligência, Beau.

O meu pai já não disse mais nada. Não era a primeira vez que ele e a minha mãe tinham aquela discussão e ele sabia como ela era inabalável nas suas velhas crenças.

Estou cansado disse. Vou-me deitar. Acrescentou, voltando-se para trás a meio das escadas, o Bertrand, da galeria, telefonou a dizer que setenta por cento do teu trabalho foi vendido, o que é um recorde para uma estreia. Parabéns.

Dito isto, continuou a subir. A minha mãe suspirou.

Que noite. Devia sentir-me feliz. No entanto, aprendi há muito que, por trás de cada raio de sol, se esconde uma sombra. Acho que só nos resta encontrar o melhor equilíbrio possível entre os dois. Sorriu-me. Obrigada por estares ao meu lado e seres o meu conforto.

Abraçámo-nos.

Acho melhor subir e ver como os rapazes estão. Se calhar ainda terei de recorrer a uma das receitas de ervas da grandmère Catherine, observou.

Quando os rapazes a viram, compuseram um ar implorativo.

Não vale a pena estar a ralhar com eles esta noite declarou, ao sair do quarto. Estão ambos demasiado esverdeados para ouvir uma palavra.

A minha mãe desceu para lhes ir preparar uma velha e conhecida mezinha, e eu fui-me deitar. Mal acabara de fechar os olhos, veio-me à memória a visão da centena de velas e ouvi o som do tambor. Mais tarde tive um pesadelo horrível, em que Nina se erguia no seu leito de morte e se voltava para mim. Abriu os olhos, que eram amarelos. De debaixo das pálpebras escorria-lhe, em vez de lágrimas, cera de velas que depois se solidificava sobre as faces. Quando abriu a boca para falar, ouvi apenas a voz da minha mãe a gritar: "Não!" Acordei, sobressaltada. Ia a levantar-me para beber água quando ouvi passos no corredor, assim como o som de alguém a soluçar. Esperei um pouco e depois espreitei. A minha mãe descia as escadas. Vi-a sair por uma porta que dava para o pátio sob o efeito, ao que me pareceu, de um ataque de sonambulismo.

Vesti o meu roupão e fui atrás dela. A princípio não a vi, depois vislumbrei a sua silhueta no meio das sombras do jardim.

Mãe sussurrei, que estás aqui fora a fazer?

Ela não me ouviu, portanto acerquei-me um pouco mais e insisti.

Oh, Pearl replicou ela com uma voz acabrunhada de tristeza, estava a contar que a Nina me falasse no meio da escuridão. Não digas ao pai que eu vim aqui para fora, implorou.

Peguei-lhe na mão e senti que tinha a pele pegajosa e fria.

É melhor voltares para a cama, mãe, e deixares de te preocupar.

Não posso. Está para acontecer qualquer coisa derivada da má sorte que acções por mim cometidas no passado atraíram à nossa casa. Tenho a certeza de que a Nina queria avisar-me.

Isso é um disparate, mãe, e tu bem o sabes. As coisas só acontecem por razões lógicas e naturais.

A minha mãe suspirou profundamente.

Tenho dúvidas, murmurou. Não sei.

Pois bem, eu tenho a certeza declarei com firmeza. Agora, vem deitar-te, se não, conto ao pai.

Começou a caminhar em direcção a casa, do meu lado. quando, de repente, se deteve e me agarrou desesperadamente na mão.

Ouviste aquilo? perguntou em voz baixa. Esforcei-me por escutar mas não me chegou nenhum som fora do normal.

Ouvir o quê, mãe?

O som de alguém a chorar, É o mesmo de há bocado.

Não eras tu? perguntei. Abriu muito os olhos.

Então, também tu ouviste! exclamou de imediato.

Pára com isso, mãe. Estás a assustar-me.

Ficámos de ouvido á escuta durante mais algum tempo.

Não ouço nada, declarei.

A minha mãe sacudiu a cabeça e voltámos as duas para casa. Fomos para os respectivos quartos mas já era manhãzinha quando adormeci.

Na manhã seguinte, a minha mãe não desceu para tomar o pequeno-almoço antes de eu seguir para o trabalho. O meu pai disse-me que passara uma noite agitada e estava a dormir profundamente. De facto, apesar da esplêndida recepção que as suas obras tinham recebido, manteve-se melancólica durante alguns dias. Quando voltei do hospital, encontrei, como de costume, os gémeos á porta, a queixarem-se.

A mãe está a começar a ouvir mal, concluiu Pierre. Jean fez que sim com a cabeça, preocupado.

Devia ir a um médico dos ouvidos.

Talvez tu possas fazer-lhe um exame, Pearl alvitrou Jean.

Porque dizem que ela está a perder o ouvido? perguntei, sorridente.

Se lhe perguntamos alguma coisa, temos de repetir a pergunta duas ou três vezes explicou Pierre.

Às vezes temos de gritar acrescentou Jean.

Ela tem andado um pouco distraída ultimamente, expliquei-lhes. Não tem nada a ver com a audição. Basta que tenham um pouco de paciência.

Abanaram a cabeça cepticamente e voltaram Ás suas brincadeiras. O ambiente de ansiedade que se abatera sobre a nossa casa deprimia-os. Tinham perdido o entusiasmo pelas suas partidas. Também o meu pai começou a ficar preocupado com a minha mãe, que deixara de trabalhar, não visitava os amigos nem os recebia, estando, igualmente, a alimentar-se mal até que uma noite, ao jantar, achou que encontrara a solução.

Na próxima semana, a Pearl tem a segunda e a terça-feira livres e eu tenho direito a um feriado. Que tal irmos passar esse fim-de-semana ao chateou. Ruby? A mudança de cenário irá fazer-te bem. Tu podes arranjar ideias novas para o teu trabalho e eu e os rapazes iremos á pesca.

Isso! gritou Jean, entusiasmado.

Não sei, respondeu a minha mãe.

O meu pai olhou para mim em busca de apoio.

Adoraria mudar de cenário, mãe, e além disso já não vamos até lá há bastante tempo disse eu. Também poderei aproveitar para fazer algumas leituras de preparação para a faculdade.

Fitou-me e anuiu.

É capaz de não ser má ideia, concordou.

Os rapazes ficaram delirantes e o arranjo das malas e o planeamento trouxeram alguma animação ao que, caso contrário, teriam sido momentos de desalento. A minha mãe, apesar da sua relutância inicial, também se entusiasmou com os preparativos. Na manhã seguinte, ninguém precisou de acordar os meus irmãos. Já estavam vestidos e prontos quando os meus pais e eu descemos para tomar o pequeno-almoço. Quando, porém, a minha mãe foi inspeccionar-lhes a bagagem, descobriu que tinham incluído fisgas, bolas de basebol, camuflados, berlindes e canivetes.

Terão muito com que se entreter lá disse-lhes ela. Não precisam de levar toda esta tralha.

O meu pai meteu as coisas no carro logo a seguir ao pequeno-almoço. Penso que estava ainda mais entusiasmado do que os gémeos com aquelas miniférias. Estes, como de costume, não se calaram um instante durante toda a viagem, fazendo perguntas a torto e a direito sobre o que viam. Que estavam as pessoas a vender na berma da estrada? Como é que faziam aquelas cestas e chapéus de palhinha? Porque tinham construído as cabanas em cima de estacas? A minha mãe ficou com pouco tempo para os seus pensamentos sombrios; até mesmo o meu pai, que normalmente impunha um certo travão aos gémeos, limitou-se a sorrir, piscar-me o olho e deixá-los tagarelar o caminho todo.

Estava um belo dia de Verão. Levar a minha mãe para o mundo rural parecia ser a panaceia que o meu pai e eu desejávamos. A visão do seu adorado musgo a cair de velhos ciprestes, as reluzentes varas-de-ouro, os salgueiros e choupos e, aqui e ali, pequenos lagos cobertos de lírios e jacintos, enchiam-na de prazer e devolviam aos seus olhos e faces o anterior brilho. Os gémeos adoravam pôr à prova os seus conhecimentos sobre aves, e ela identificava, de bom grado, alguma garça de bico grande ou um cardeal escarlate. Ouviram-na descrever, fascinados, a maneira como um pássaro-carniceiro guardava a sua comida no meio de espinhos, de modo a poder comer a carne curada durante o Inverno. Tudo o que dizia respeito à Natureza fascinava-os. Concluí que tinham sido mesmo eles a herdar, na verdade, o amor da nossa avó pela vida selvagem.

Espero que cheguemos a ver cobras, crocodilos e aligatores declarou Jean quando estávamos quase a chegar ao que fora a casa de campo da família Dumas.

Não tentes encontrá-los advertiu-o a minha mãe. Nada de andarem por aí a fazer explorações por vossa conta. Quero-vos perto de casa, excepto quando forem acompanhados pelo vosso pai, entendido?

Relutantes, prometeram.

Lá está ela! exclamou o meu pai ao avistarmos a casa depois de uma curva.

O edifício ao qual o meu avô Dumas costumava referir-se como o seu rancho não passava, na realidade, de um castelo em ponto pequeno. Possuía um telhado muito inclinado, com espirais, pináculos, pequenas torres, espigões e duas chaminés de formato bizarro. A extremidade metálica ao longo das arestas do telhado era ricamente trabalhada. As janelas e o umbral da porta eram em forma de arco. À esquerda erguiam-se duas pequenas habitações para os criados e os caseiros. À direita, a uma certa distância, ficavam os estábulos com os cavalos de corrida e um celeiro. A propriedade estendia-se por campos dispersos, com zonas arborizadas e um riacho a cortá-los no extremo norte.

À semelhança dos castelos da zona rural francesa, também aquele possuía belos jardins e no relvado da frente erguiam-se dois mirantes, assim como bancos, cadeiras e fontes em pedra. Quando chegámos, os caseiros andavam a aparar arbustos e a arrancar ervas daninhas.

Podemos ir já andar a cavalo, pai? perguntou Jean, entusiasmado.

Antes disso iremos instalar-nos, desfazer as malas e organizar-nos. Depois veremos qual é o programa das festividades, respondeu.

Os gémeos contiveram a sua excitação crescente mas, ao regalarem a vista pelos nossos campos maravilhosos, os pequenos lagos, os prados e a corrente de água que desaparecia, ziguezagueante, na profundeza dos bosques, ficaram com ar de quem estava prestes a rebentar a qualquer instante. Mal o pai Parou o carro, desataram a correr, mas ele chamou-os imediatamente com um grito.

Vocês dois, ajudem aqui a descarregar e levem a vossa bagagem para o quarto que vos pertence. Vá. Já têm idade para Ser auto-suficientes, declarou.

Voltaram para junto do carro e pegaram nos seus pertences, Jean colocando orgulhosamente a sua mala ao ombro e ajudando Pierre a descarregar a sua.

A minha mãe deteve-se, por instantes, a olhar em volta. Depois ergueu o olhar para uma das janelas de cima. Uma qualquer recordação ensombrou-lhe o semblante. O meu pai reparou na sua perturbação e aproximou-se rapidamente.

Ruby, por favor, gozemos estes dias com alegria e deixemos o passado enterrado, implorou.

A minha mãe anuiu, soltando um suspiro profundo, e dirigiu-se para a porta da frente.

Com excepção de alguns quadros da minha mãe, os meus pais pouco tinham feito para mudar a decoração. O château dispunha de um pequeno vestíbulo ornamentado com reposteiros e enormes quadros retratando paisagens. O mobiliário era um misto de moderno e das mesmas peças rústicas francesas que tínhamos na nossa casa de Nova Orleães.

Depois de nos instalarmos todos, o meu pai levou os gémeos à pesca e a minha mãe e eu fomos para o jardim, onde me pus a ler e a minha mãe montou o seu cavalete. Embora pouco conversássemos, tentávamos alhear-nos da presença uma da outra. Tanto a leitura como a pintura requeria concentração e isolamento. A minha mãe depressa se perdeu no seu projecto e eu no meu livro. Sem que, praticamente, déssemos por isso, não tardou que a tarde mergulhasse na penumbra e nós fôssemos obrigadas a entrar para nos prepararmos para o jantar.

O meu pai e os gémeos regressaram com o fruto da sua pescaria. Os rapazes vinham de tal maneira excitados com as trutas e outros espécimes da vida selvagem que não se calaram um minuto sobre o assunto durante toda a refeição. Ninguém mais teve oportunidade de proferir uma palavra; no entanto, o entusiasmo deles era contagiante. Sentimo-nos todos rejuvenescidos, especialmente a minha mãe. Encarreguei-me de ir deitar os gémeos, deixando os meus pais sozinhos para se deliciarem com a noite quente e estrelada do Hayou. Os gémeos só acederam em dormir, relutantes, depois de o nosso pai lhes prometer que, na manhã seguinte, iriam andar a cavalo.

Eu também gostava de montar; portanto, no dia seguinte a minha mãe retomou as suas pinturas e eu, o meu pai e os gémeos fomos passear a cavalo durante quase duas horas. Depois do almoço, o meu pai subiu ao seu quarto para dormir a sesta e a minha mãe e eu voltámos para o jardim, onde ela continuou a pintar e eu retomei as minhas leituras de estudo.

Perto do fim da tarde, uma onda de nuvens escuras aproximou-se, vinda de leste. A brisa ganhou velocidade e força, de modo que a minha mãe achou melhor voltarmos para casa. O vento agitava os nossos cabelos, as minhas páginas e a tela e o cavalete da minha mãe. Tentámos controlar os nossos materiais, no meio de risadas. Quando estávamos a guardar os pincéis, as bisnagas de tinta, a tela e o cavalete, ela fez subitamente uma pausa, o sorriso a morrer-lhe nos lábios e uma expressão confusa no rosto.

O que foi isto? perguntou.

Isto o quê, mãe? quis saber.

Não ouviste? Parecia alguém a gritar.

Voltou-se lentamente. O meu pai acabara de sair de casa e aproximara-se de nós quando, também eu, ouvi os gritos.

Pierre, sussurrei ao ver o meu irmão aproximar-se, cambaleante, esforçando-se por abrir caminho por entre a erva alta. Caiu uma vez e a minha mãe gritou. O meu pai deitou a correr para o filho.

Pearl, gemeu a minha mãe.

Não deve ser nada de especial, mãe tranquilizei-a, dirigindo-me para Pierre.

Onde estaria Jean?, perguntei a mim mesma. Ao ver Pierre gritar o nome de Jean e apontar para a área pantanosa que deixara para trás, senti o coração gelar.

Foi mordido por uma cobra!

As suas palavras foram trazidas até nós pelo vento e chegaram aos ouvidos da minha mãe, que viera atrás de mim. Levou as mãos ao rosto e gritou para as nuvens de tempestade que se aproximavam.

Nina!

Voltei para trás para a abraçar, mas já não fui a tempo de a amparar.

O trovão pareceu vir de dentro dos nossos corações.

 

A MALDIÇÃO CONCRETIZA-SE

A mocassina-aquática é uma víbora grande e venenosa, de cor verde-acastanhada. As gentes do Sul chamam-lhe, frequentemente, boca-de-algodão. Enrosca-se nos ramos mais baixos dos salgueiros e, quando está dentro de água, pode parecer-se como um ramo partido a flutuar.

Jean entrara na água de um pequeno lago para chegar a uma tartaruga que dormia no meio das folhas dos lírios. Pierre alertara-o para que não o fizesse, mas Jean estava fascinado. Eu sabia que, quando aquele meu irmão se fixava nalguma coisa, era como se ficasse hipnotizado. Desligava-se de tudo o que o rodeava e concentrava-se exclusivamente no que queria fazer, ver ou tocar. Pierre ficara na beira do lago a gritar-lhe, mas ele não lhe dera qualquer atenção.

Quando se aproximou da cobra, esta atacou.

Pensei que fosse um ramo, pai, gemeu Pierre.

Era uma frase que ficaria a entoar mentalmente durante muito tempo: "Pensei que fosse um ramo."

Jean flutuava de rosto para baixo quando o meu pai se lançou à água para chegar junto dele. Levantou-o e ergueu-o acima da sua cabeça. Eu, que acabara de chegar à clareira, vi-o correr para fora de água como se esta fervesse à sua volta. Para mim não há nada mais assustador do que o som e a visão de um homem adulto a gritar. Não é suposto os pais chorarem. Ao mesmo tempo não havia, para mim, visão mais arrasadora e aterrorizante que a do meu pai petrificado perante a perspectiva de perder o seu filho, meu irmão. Dava a impressão de ter ficado sem o menor sentido de orientação, estava completamente fora de si.

Encheu o rosto do filho de beijos que eu sabia ele rezar para que fossem mágicos; no entanto, os pontos que tinham cosido as pálpebras de Jean pareciam inamovíveis, e a sua linda carinha, um rosto sempre cheio de animação, assim como aqueles olhos azuis, que passeavam por uma sala ou um lugar em permanente busca de algo interessante, já tinham começado a empalidecer como um nenúfar a murchar.

O meu pai voltou-se para mim com um olhar de desespero que jamais esquecerei.

Acerquei-me dele a correr.

Ele não está a respirar! exclamou.

Ajudei-o a colocar Jean em cima de uma faixa de relva macia.

Faz com que ele fique bem, Pearl, por favor, implorou.

Jean fora mordido no pulso esquerdo. Ao vê-lo muito inchado, percebi que se tratara de uma víbora adulta e que a dose de veneno fora considerável. O choque da mordedura e o seu efeito no sistema nervoso deviam tê-lo feito entrar em pânico. Tudo indicava que caíra na água mas, em vez de se dirigir para a margem, afundara-se. Sentira, sem dúvida, uma dor violenta no pulso e o coração a bater violentamente.

No curso de primeiros socorros que tirara nos bombeiros o ano anterior, eu aprendera que, quando uma pessoa entra em pânico à tona de água, os seus movimentos descontrolados impedem-na de manter o corpo a flutuar. Se se afunda e começa a engolir água, no início o músculo da traqueia contrai-se automaticamente e impede a entrada da água nos pulmões, indo esta para o estômago através do esófago. No entanto, o reflexo da laringe impede a respiração, o que conduz, rapidamente, à perda de consciência, mesmo que não tenha havido nenhuma injecção de veneno de víbora letal. Terá sido, certamente, o que aconteceu a Jean.

Os lábios do meu irmão tinham-se tornado azulados e, como não lhe sentia pulsações nem no coração nem no pulso, comecei imediatamente a fazer-lhe uma reanimação cardiopulmonar, jamais imaginando, quando aprendera aquela técnica no ano anterior, que viria a praticá-la a sério no meu próprio irmão. Recordava as instruções, mandando calar o meu pai e as suas lamúrias e os incentivos de Pierre para que Jean se pusesse bom. Em vez disso, ouvi as palavras do meu instrutor a dizer-me que a média de compressões devia ser de oitenta por minuto, insuflando-lhe ar pela boca de quinze em quinze minutos. Passados apenas dois minutos, que tinham parecido horas, ergui os olhos para o meu pai.

Temos de o levar para o hospital.

Ele anuiu e pegou em Jean. Pierre e eu atravessámos o arvoredo e depois o relvado, atrás dele. A minha mãe estava sentada num banco, o rosto esvaído e branco, as lágrimas a correr e lábios trémulos.

Temos de ir a correr para o hospital gritou-lhe o meu pai, dirigindo-se para o carro. A minha mãe sacudiu violentamente a cabeça, como que para afastar mosquitos. Dei a mão a Pierre e ambos a ajudámos a levantar-se.

Metemo-nos todos no carro. A minha mãe e eu ficámos no banco de trás, com Jean. Ela manteve a cabeça do filho sobre os joelhos, afagando-lhe continuamente o cabelo, agora com as lágrimas a caírem também sobre o rosto dele.

A viagem não me ficou gravada na memória. O meu pai guiava aceleradamente, buzinando para afastar tudo e todos os que apareciam no nosso caminho. Entrámos na área de acesso das urgências e parámos. O meu pai pegou novamente em Jean com os dois braços e a minha mãe levantou-se com lentidão, para ir atrás dele. Perdera já toda a esperança. Era uma concha de si mesma, deixando-se levar por nós.

Jean recebeu a assistência de uma equipa de médicos e enfermeiras. Eu fiquei sentada ao lado da minha mãe na sala de espera, agarrando-lhe na mão inerte. Pierre, ao meu lado, encontrava-se em estado de estupefacção, fortemente agarrado à minha outra mão, como que esperando que eu pudesse arrancá-lo do meio da tragédia que se desenrolava à nossa volta.

A minha mãe, que estivera sentada a olhar para a parede sem expressão, disse repentinamente:

Se ao menos eu tivesse saído da festa... se tivesse ido falar com a Nina antes de ela morrer.

Pára com isso, mãe. A Nina nada tem a ver com o que aconteceu.

Abanou a cabeça e suspirou tão profundamente que eu tive a impressão de ouvir o seu peito estalar. Continuou a olhar em frente com expressão vazia, à espera.

Vi, mentalmente, o que eles estariam a fazer a Jean: injectavam-lhe um antídoto para o veneno; aplicavam-lhe um desfibrilhador; aspiravam-lhe a água dos pulmões. O meu pai assistia a tudo, rezando, qual homem transformado em pedra.

O tempo deixara de ter significado, daí que eu tivesse perdido a noção das horas passadas até o meu pai sair, seguido por algum pessoal médico. Não eram necessárias palavras. Os seus rostos diziam tudo.

Pierre, que se chegara mais para mim, rodeando-me a cintura com os braços, apertou-me ainda mais desesperadamente. A parte que, em mim, se mantinha analítica e inacreditavelmente desprendida em termos emocionais perguntou a si mesma em que determinada altura da infância é que nos apercebemos da finalidade da morte. Dizem-nos que as pessoas que morrem vão-se embora, para sempre, até um lugar mais bonito, o que atenua a nossa confusão e sofrimento, pois imaginamos que serão ainda mais felizes. Isso ajuda-nos a pô-los de parte, a esquecer, a voltar para os que ainda estão connosco.

Mais tarde, numa qualquer idade frágil, percebemos, de repente, que a morte é mais do que um simples bilhete de comboio ou de avião, e compreendemos a natureza temporal da nossa própria existência. Um dia, algures, não sabemos como, também nós iniciaremos essa jornada inexorável. No entanto, nada é mais injusto e injustificável do que a partida extemporânea e forçada de uma criança.

Talvez Jean se tivesse tornado médico ou advogado, ou então um grande atleta ou um homem de negócios bem sucedido. Teria formado a sua própria família e teria tido filhos seus. Ainda estava na idade das indefinições. Era uma criança cheia de curiosidade e de vivacidade, a transbordar de um desejo de viver cada momento, de provar todas as bolachas, beber todas as laranjadas, dar todas as gargalhadas, correr até o coração quase lhe rebentar, subir às árvores e ter um cão aos pés ou um gato ao colo. Ele era o nosso Huckleberry Finn, mais à vontade dentro de umas calças de ganga coçadas do que de fato e gravata, jamais perturbado pelas madeixas de cabelo que lhe caíam para a testa, ansioso por enfiar o dedo na tarte ou na cobertura do bolo.

E agora... desaparecera.

Perdemo-lo, informou o meu pai, deixando desmoronar a fachada de impassibilidade com uma torrente de lágrimas.

A minha mãe ergueu os olhos para o tecto e soltou um grito, antes de desfalecer nos braços do meu pai. Eu fiquei tão abalada com a sua reacção que nem sequer reparei que Pierre caíra para trás. Quando, porém, olhei para ele, senti uma segunda facada no coração. Apercebi-me de que mergulhara num estado catatónico, de olhos muito abertos.

A nossa tragédia ainda estava no começo.

Ver Pierre sem Jean a seu lado era como ver alguém a quem haviam amputado um membro. Parecia sempre que lhe faltava qualquer coisa; portanto, era compreensível que caisse num estado de choque, talvez ainda mais profundo e intenso do que aquele por que a minha mãe estava a passar. Os médicos examinaram-no, esperançados de que saísse dele pouco tempo depois. Aconselharam-nos a levá-lo para casa e a tê-lo sob vigilância constante. O meu pai transportara um filho em braços para o hospital e teve de trazer o outro da mesma maneira. Voltámos para o château como se já fôssemos na procissão do funeral de Jean. A minha mãe ia encostada ao banco, com a cabeça apoiada a uma das paredes laterais do carro. Eu sentara-me com um braço em torno de Pierre, sussurrando-lhe palavras de conforto ao ouvido. O meu pai comportava-se mecanicamente, executando todos os movimentos que se esperavam dele. Levou Pierre para casa, enquanto eu ajudava a minha mãe. Deitou o meu irmão na cama, decidindo não ficar ali mais tempo. Mandou os criados fazer as nossas malas rapidamente e telefonou ao nosso médico de família a pedir-lhe que esperasse por nós na nossa casa de Nova Orleães. A seguir tomou as providências necessárias para que o corpo de Jean fosse transferido para uma agência funerária. Eu encontrava-me a seu lado, pronta a ajudá-lo em qualquer coisa; no entanto, ele pediu-me que me concentrasse em Pierre, que ainda não saíra do seu estado de semi-inconsciência. Quando chegou a altura de partirmos, teve de ser levado para o carro, onde permaneceu encostado a mim, inerte, durante toda a viagem até Nova Orleães. A minha mãe ia desfalecida no banco da frente, com os olhos fechados para afastar a realidade.

Nada se espalha mais depressa do que as más notícias. Ainda não estávamos em casa há uma hora quando os telefones começaram a tocar. O meu pai tivera de ligar para a Europa a fim de avisar os avós Andreas, que, como de costume, tinham ido passar o Verão à Europa, do que acontecera. A minha avó disse que o avô estava demasiado doente para apanhar o avião a tempo de assistir ao funeral. Sofrera um ataque cardíaco no ano anterior.

O médico dera um sedativo à minha mãe. Examinou Pierre e foi de opinião que em breve sairia do seu estado de choque. Seguindo as suas indicações, tentei fazer com que ele comesse e bebesse alguma coisa; porém, o meu irmão recusava-se a abrir a boca. Comecei a recear que tanto os médicos do hospital como o nosso médico de família tivessem subestimado o seu trauma emocional.

A atmosfera sombria que invadira a nossa casa antes de partirmos para o campo não se comparava, minimamente, com o que viera a seguir. A morte instalara-se em cada canto escuro, movendo-se, altiva e livremente, pelos corredores, atenuando cada luz, desvanecendo cada cor, fazendo fenecer cada flor e pintando as nossas janelas de cinzento, ao ponto de, por muito ensolarado que o dia estivesse, para nos dar sempre a impressão de estar a chover. As pessoas só falavam em sussurros e caminhavam na ponta dos pés para não serem ouvidas. Os empregados entravam e saíam silenciosamente das divisões para executar as suas tarefas, reunindo-se depois na cozinha ou na copa para se consolarem uns aos outros. O tiquetaque dos relógios começou a soar como trovões.

Mais para o fim da tarde, o meu pai reuniu toda a sua força interior para ir para o gabinete receber as condolências das pessoas e finalizar os procedimentos para o funeral de Jean. Tinha um ar empalidecido e grisalho sob a luz difusa, qual homem que tivesse envelhecido décadas em minutos. De manhã cedo, depois de um dos seus sócios se retirar, entrei no seu gabinete. Recostado na cadeira da secretária, olhava para a parede em frente com ar ausente. Não pareceu dar por mim.

Pai, chamei.

Voltou-se para mim como que num sonho. As lágrimas brilhavam nos seus olhos escuros.

O que é, Pearl?

É sobre o Pierre, pai. Ele não apresenta melhoras. Não come nada desde... desde o hospital. Nem sequer tomou um gole de água.

Culpa-se a si mesmo afirmou o meu pai, abanando a cabeça. A seguir bateu no peito com os punhos fechados com tal violência que eu estremeci. Mas eu é que tenho a culpa.

Corri para o seu lado e pousei a minha mão no seu ombro.

Claro que não, pai. Ninguém pode ser responsabilizado.

Eu é que propus que fôssemos para lá. Eu é que insisti... gemeu com voz quase inaudível.

Pai, tu sabes que, mais tarde ou mais cedo, iríamos lá. Não podes culpar-te. Foi um acidente horrível.

Acidente, repetiu o meu pai com amargura. O seu queixo tremeu. Eu avisei-os para que não fossem para longe e que tomassem cuidado, não foi?

Claro que foi, pai. Deixa de te culpar. A mãe está lá em cima toda torcida de remorsos, e o Pierre entrou numa espécie de coma pela mesma razão. O Jean simplesmente não devia ter entrado na água.

Não passava de um menino, ainda era uma criança protestou o meu pai. Era meu dever tomar conta dele, vigiá-lo, protegê-lo. Fracassei. Fracassei miseravelmente.

Fechou os olhos. Parecia querer conservá-los para sempre assim.

Pai, estou muito receosa em relação ao Pierre. Temos de fazer algo. Telefona ao médico e pede-lhe que volte cá.

O meu pai abriu os olhos lentamente e olhou para mim como se as minhas palavras estivessem a penetrar no seu cérebro muito lentamente.

Achas que é grave?

Não tarda a ficar desidratado. Acho que tem mesmo um pouco de febre.

Oh, não! Ainda fico sem os dois exclamou, levantando-se e abanando a cabeça, pensativo. É melhor prestar-lhe alguma atenção em vez de deixar-me engolir na minha própria tragédia.

Dito isto, saiu do gabinete e subiu até ao quarto de Pierre, comigo no seu encalço.

Pierre não movera um músculo desde que eu estivera ao pé dele. Tinha os olhos abertos, mas tão vazios que era como se eu pudesse ver através deles, pelo longo corredor, até ao negrume da sua mente fechada. O meu pai sentou-se na beira da cama, ao seu lado, e pegou-lhe na mão.

Pierre, tens de fazer um esforço para sair desse estado e ajudar-nos a nós, assim como a mãe. Precisas de comer e beber alguma coisa. A culpa não foi tua. Tentaste impedir que o Jean se metesse na água. Vá, Pierre implorou o meu pai.

O menino nem sequer pestanejou.

Vá, Pierre insistiu o meu pai, tocando-lhe no rosto. Vá filho, por favor.

Os olhos de Pierre continuaram imóveis. De repente, fez uma careta, como se estivesse em grande sofrimento. A seguir soltou um som gutural horrível, que me assustou a mim e ao meu pai, o qual recuou, surpreendido, e levantou-se.

Qual é o problema que ele tem? Porque está a reagir assim?

Penso que está a reviver a tragédia, calculei.

Pierre, pára com isso. Pára com isso ordenou o meu pai.

Sacudiu o filho pelos ombros. A expressão de Pierre não se alterou mas deixou de fazer aquele som terrível. O meu pai soltou-o e virou-se para mim.

É como dizes, Pearl, mais vale chamar o médico.

Vai, pai, eu fico com ele disse. O meu pai saiu do quarto.

Sentei-me na beira da cama e peguei na mão de Pierre, afagando-a meigamente.

Pobre Pierre murmurei. Foi uma tragédia assistires a uma cena tão horrível, mas o certo é que não tens de te sentir culpado. Não tiveste a menor responsabilidade no sucedido.

Ergui os olhos para o seu rosto e vi uma pequena lágrima despontar-lhe ao canto do olho e depois ziguezaguear, lentamente, pela face abaixo, até chegar ao queixo. Espantosamente, a reacção ficou-se por ali: uma única lágrima. Era como se tivesse chorado todas as outras por dentro e já não restassem mais para mostrar. Inclinei-me e limpei aquela lágrima solitária.

Não queres experimentar beber um pouco de água, Pierre? Por favor. Por mim. Imploro-te, supliquei.

Os lábios do meu irmão não se mexeram e os seus olhos continuaram frios e rígidos como fragmentos de turquesa. Suspirei e continuei a falar-lhe ternamente, sem lhe largar a mão, até o esforço me deixar exausta. Nessa altura, ouvi a porta abrir-se e a minha mãe deteve-se à entrada, com o rosto marcado pelo sulco deixado pelas suas próprias lágrimas, a pele cor de cera. Estava em camisa de dormir mas não trazia chinelos calçados.

O que é que ele tem? perguntou com uma voz despojada de emoção.

Parecia uma pessoa que fora hipnotizada e falava como que sob um feitiço. Todavia, parecia ter finalmente compreendido que Pierre não estava nada bem.

Não quer comer nem beber nada, a sua expressão não mudou minimamente desde que voltámos, e também não se mexeu. Está em estado catatónico, mãe. Eu disse ao pai para chamar o médico.

Mon Dieu exclamou. O que foi que eu fiz?

Mãe, por favor. Culpares-te não trará nenhum bem a ninguém. Olha o que fez ao Pierre. Voltei-me de novo para ele. Tenho a certeza de que está cheio de remorsos.

Meu menino balbuciou a minha mãe, aproximando-se para o abraçar.

Sentou-se na beira da cama e envolveu-o nos braços; Pierre fazia lembrar uma boneca de trapos, com a cabeça a balançar, os olhos imóveis, os membros sem vida. Embalou-o e tentou confortá-lo, mas ele não reagiu. Ao aperceber-se do facto, voltou a deitá-lo sobre a almofada com uma expressão de choque e medo no rosto.

O que poderemos fazer, Pearl? perguntou-me a chorar.

O médico deve estar a chegar, mãe, mas eu acho que o Pierre precisará de ir para o hospital. Irão pô-lo a soro até voltar a si.

Voltar? perguntou-me. Voltar de onde?

Do santuário em que se refugiou, onde o que aconteceu não é uma realidade.

Quanto tempo poderá esta situação manter-se? perguntou, olhando para o filho.

Tive medo de lhe dizer o que sabia. Lera sobre pessoas que, devido a algum trauma emocional, haviam permanecido em estado catatónico durante anos. Algumas não tinham chegado a emergir dele, outras, quando tal aconteceu, vinham completamente diferentes pois haviam regredido até à infância.

Ele não tardará a voltar a si, mãe, mas precisa de estar sob intensa vigilância médica, repliquei.

Claro, tens razão. Fez-me uma festa na face com muita ternura e sorriu. És a minha filha mais velha. A partir de agora vou depender muito de ti, Pearl. Sei que não é justo, pois devias estar livre para desfrutar destes anos e não suportares o peso de tantas agruras e azares. Contava que levasses uma vida diferente da que eu tive. Esperava...

Calou-se, com os lábios a tremer.

Não te preocupes que eu estou bem, mãe. Olhou de novo para Pierre.

Os gémeos eram muito chegados. Em pequenos, quando um deles chorava, o outro fazia o mesmo logo a seguir e, quando um acordava, era certo e sabido que aconteceria logo o mesmo ao outro. Se bem te lembras, o Jean começou a andar antes do Pierre.

Lembro, sim, mãe.

Apesar disso, como o Pierre gatinhava, ele também fazia o mesmo. Um nunca queria deixar o outro muito para trás. Agora...

Fechou os olhos. Rodeei-a com um braço e chorámos juntas, confortando-nos uma à outra durante alguns momentos. Por fim o médico chegou e o meu pai levou-o a ver Pierre. Deixámo-nos ficar um pouco mais para trás, vendo-o examinar o meu irmão e verificar como as suas pupilas dilatavam sob a acção da luz, controlando-lhe a pulsação e auscultando-lhe o coração e os pulmões.

Devíamos levá-lo para o hospital, monsieur disse ao meu pai. Também gostaria de o colocar sob os cuidados de um psiquiatra.

O meu pai engoliu em seco. A minha mãe começou a chorar baixinho.

Tomarei as providências necessárias disse o médico. Se me dá licença, farei uns telefonemas.

Venha até ao meu gabinete sugeriu o meu pai.

Eu preparo-o para ir, ofereci-me imediatamente.

Ele irá ficar tão assustado gemeu a minha mãe.

Vesti o roupão a Pierre e calcei-lhe os chinelos, separando alguns objectos que sabia irem fazer-lhe falta, objectos que rezei para que lhe viessem a fazer, de facto, falta muito em breve. A minha mãe foi vestir-se e, pouco depois, o meu pai voltou a transportar o pobre Pierre para o carro e fomos todos levá-lo ao hospital.

Quando lhe vestiram uma das camisas de dormir do hospital e o deitaram numa cama, pareceu muito mais pequeno; ao enfiarem-lhe na veia uma agulha ligada ao tubo intravenoso, os meus pais pareceram tomar consciência subitamente da gravidade do seu estado. O meu pai abraçou a minha mãe e, juntos, com ar consternado, ficaram a ver o médico e a enfermeira cuidarem dele.

Como as enfermeiras me conheciam, mostraram-se mais preocupadas e solidárias. A psiquiatra chamada era uma tal Dra. LeFevre. Com cerca de sessenta anos, tinha o cabelo acastanhado a ficar grisalho. Eu já ouvira falar dela mas poucas vezes a vira e nunca lhe falara. Primeiro interrogou o meu pai para se inteirar das circunstâncias e a seguir foi examinar Pierre. Veio falar comigo e com os meus pais ao corredor. Era uma mulher de voz branda; no entanto expressava-se com nítida autoridade e confiança.

O vosso filho sofre de um distúrbio nervoso pós-traumático, principiou. Depois da experiência que me descreveram, é bastante compreensível. Não difere muito do que alguns soldados veteranos sentem. Na nossa profissão, é frequente referirmo-nos a este problema como anestesia emocional. A pessoa, para deixar de sofrer, como que se desliga a si própria.

Quanto tempo...

Penso que conseguiremos arrancá-lo deste estado em breve. No entanto, alerto-os desde já de que ele irá necessitar, possivelmente durante algum tempo, de uma terapia intensiva. Algo como o que aconteceu poderia deixá-lo num grave estado de depressão e ansiedade. Correríamos o risco de vir a descobrir que sofre de enxaquecas crónicas, tem grande dificuldade de concentração... Claro que precisamos de esperar para ver. Entretanto, faremos com que receba o tratamento adequado.

Voltou-se para mim.

Porque será que tenho a impressão de que já a vi?

Trabalho aqui, respondi-lhe. Sou auxiliar de enfermagem.

Ah, é verdade. Ouvi falar muito bem de si. Bem, amanhã voltarei a examinar o Pierre. Telefone-me ao fim da tarde.

Obrigada, doutora agradeceu o meu pai.

A minha mãe quis ficar junto de Pierre durante mais um pouco. Algumas das minhas amigas que eu fizera quando fora trabalhar para o hospital vieram apresentar-me as suas condolências assim que souberam do sucedido. Jack Weller não estava de serviço, o que foi um alívio para mim, pois assim não teria de me confrontar com ele naquele momento emocional terrível. A minha mãe deixou-se ficar sentada numa cadeira, a olhar para o filho. A certa altura, porém, o meu pai obrigou-a a levantar-se e a ir para casa. Esperavam-nos dias difíceis. Ele sabia que ela precisava sobretudo de repousar.

Estarei aqui com ele o máximo de tempo que puder, mãe, prometi.

Ela sorriu-me, olhou de novo para o rosto patético de Pierre, ainda paralisado numa expressão vazia, e depois permitiu que o marido a levasse para o carro.

Naquela noite, a casa esteve demasiado silenciosa. Eu dormi em períodos curtos, acordando de rompante e pondo-me à escuta, esperançada em ouvir os meus irmãos a pregarem alguma partida, verificando depois que tudo não passara de um sonho. Porém, nada mais ouvia além do tiquetaque do meu relógio e do som profundo do relógio de pé do andar de baixo. Este ecoava pelos corredores, contando o tempo que faltava para o funeral de Jean. Enterrei o rosto na almofada para abafar as lágrimas, mas sempre que fechava os olhos via o rosto de Jean, traquinas, feliz, cheio de vida e promessas.

Quando o dia raiou eu, incapaz de dormir, levantei-me, vesti-me e desci, indo descobrir que o meu pai não fora à cama. Com a cabeça pousada em cima da secretária, dormia de pura exaustão. À sua direita estava uma fotografia recente dos gémeos e, à sua esquerda, uma garrafa quase vazia de uísque. Não tive coragem de o acordar. Limitei-me a sair silenciosamente e a fechar a porta. Depois fui preparar o pequeno-almoço para a minha mãe e dar início àquela que eu sabia que iria ser a pior semana da nossa vida.

Foi tanta gente ao funeral de Jean que a multidão não coube na igreja, tendo de ficar à porta, nos degraus e no passeio. Algumas das minhas colegas de liceu apareceram, porém não vi Claude. Sabia que Catherine fora de férias com a família e só saberia do que sucedera a Jean quando voltasse. A minha mãe, sob a acção de alguns sedativos, movia-se como que num sonho, tendo gravado no rosto um sorriso rígido que de vez em quando parecia angélico mas que me mostrava nitidamente a dor profunda que a enchia da cabeça aos pés. Naquela altura já todos estavam a par do estado de Pierre e de como o mesmo contribuía ainda mais para acentuar a nossa tragédia. Ele continuava ligado ao soro e catatónico.

Terminado o serviço religioso, a procissão seguiu para o cemitério. Recordei as perguntas que Jean e Pierre me tinham feito sobre os túmulos aquilo a que, em Nova Orleães, designamos de tumbas construídas acima do solo devido ao nível do lençol de água. O que, em tempos, fora um local cheio de mistério e curiosidade para Jean seria, a partir dali, a sua última morada e lugar de repouso.

Os meus pais agarravam-se fortemente um ao outro. Era quase sempre o meu pai a amparar a minha mãe, cujas pernas se moviam como se pertencessem a uma marioneta. Eu permanecia o máximo de tempo que podia junto dela, pronta a segurá-la eu mesma se desfalecesse. Ao chegarmos ao sítio da campa, abraçámo-nos os três. Não creio que nenhum de nós tenha ouvido, verdadeiramente, as palavras do padre. Só nos dávamos conta do ritmo mórbido da sua voz a recitar as orações. Salpicou o caixão de Jean com água benta e finalizou a cerimónia dizendo: "Ámen."

Mal desviei os olhos do rosto dos meus pais o dia todo, daí que não me tenha apercebido do céu azul. Para mim não passava de um dia fortemente enevoado, onde só soprava uma ligeira brisa.

Quando voltávamos para a limusina avistei Sophie, debaixo de uma árvore. Limpava as lágrimas dos olhos com o pulso miúdo; porém, o facto de estar ali encheu-me de coragem e ajudou-me a voltar para casa.

A minha mãe foi imediatamente deitar-se, enquanto o meu pai ficou sentado no sofá da sala, a falar com as pessoas e a beberricar uísque de uma garrafa de vidro. Assim que tive oportunidade liguei para o hospital, na esperança de Pierre já ter começado a recuperar. Precisávamos urgentemente de uma boa notícia; no entanto, o estado dele mantinha-se inalterado.

Resolvi ir para junto dele, certa de que um dia inteiro sem nenhuma de nós ao seu lado devia ser insuportável, apesar de termos ido ao funeral de Jean. Segredei as minhas intenções ao meu pai, que se limitou a acenar que sim com a cabeça. A dor deixava-o entorpecido e alheio ao que se passava à sua volta.

Ao chegar ao hospital, encontrei a Dra. LeFevre no corredor. Acabara de examinar Pierre.

Vou mudar o Pierre para a unidade de cuidados psiquiátricos anunciou. A sua recuperação irá levar mais tempo do que imaginei. O trauma emocional foi profundo. Presumo que ele e o Jean fossem muito chegados.

Inseparáveis, retorqui, e muito protectores um em relação ao outro.

Bem, sei que a sua família está a passar por uma fase muito difícil. No entanto, sugiro que lhe dispensem o máximo de tempo que puderem. O simples facto de ouvir a vossa voz e sentir a vossa presença ao seu lado ajudá-lo-á a ficar mais reconfortado e tornará a sua recuperação mais rápida.

O modo como desviou o olhar do meu não me agradou.

Acha que ele chegará a melhorar? Ou seja, ficará bom?

Veremos respondeu a médica em tom pouco seguro, afastando-se em seguida.

Coloquei a minha cadeira o mais perto possível da cama de Pierre e sentei-me, agarrada à sua mão livre. Ele olhava em frente, pestanejando, com os lábios ligeiramente entreabertos. Afaguei-lhe a mão e falei-lhe suavemente.

Tens de te pôr bom, Pierre. O pai e a mãe necessitam desesperadamente que melhores. Eu sinto a tua falta. O Jean não gostaria nada que ficasses assim. Teria desejado que estivesses bom para ajudar os pais. Por favor, faz um esforço, Pierre.

Fiquei ali sentada, à espera, observando. Com excepção do movimento reflexo das pálpebras, ele fazia lembrar uma estátua feita de pele humana e ossos. Os seus olhos e ouvidos tinham servido de veículo para lhe levar informações horrendas e chocantes, pelo que decidira fechá-los, recusando-se a interiorizar mais pormenores. Algures, dentro de si mesmo, estava a salvo, brincava com Jean, podia ouvir a sua voz e vê-lo. Recusava-se a escutar a minha, pois isso estilhaçaria a ilusão como se fosse de louça e os fragmentos continuariam a cortar-lhe o coração.

Antes de eu entrar de serviço, Sophie apareceu e eu agradeci-lhe a sua presença no funeral. Prometeu-me espreitar Pierre sempre que pudesse e também falar com ele. Contei-lhe que em breve o levariam para a unidade de psiquiatria.

Não tem importância, também poderei ir lá acima... prometeu.

Abraçámo-nos e ela foi trabalhar. Eu permaneci junto de Pierre o máximo de tempo que pude, conversando com ele. suplicando-lhe, reconfortando-o, incentivando-o a que regressasse para junto de nós. Por fim, já exausta, voltei para casa.

Todos quantos ali tinham ido oferecer-nos as suas condolências já se haviam retirado. A casa estava mortalmente silenciosa. Aubrey disse-me que o meu pai se retirara para o seu gabinete, onde o encontrei sentado no seu sofá de couro, misericordiosamente adormecido. Tapei-o com um cobertor e depois subi para ver a minha mãe.

A princípio imaginei-a a dormir também, mas depois vi-a virar lentamente a cabeça para mim e abrir os olhos como alguém que se erguera de um caixão. Estendeu-me uma mão e eu corri para junto dela. Abraçámo-nos e, em seguida, sentei-me a seu lado, na beira da cama.

Onde está o teu pai? perguntou-me.

No seu gabinete, a dormir.

Foste ver o Pierre?

Acenei afirmativamente com a cabeça.

A médica disse-me que o vai transferir para a unidade de psiquiatria, de modo a receber o tipo de tratamento de que precisa, contei-lhe.

Quer dizer que melhorou?

Ainda não, mãe, mas há-de acontecer.

A minha mãe sacudiu a cabeça e desviou o olhar.

Não penses que os teus pecados se apagam. Confessas-te, fazes penitência, contas ser perdoada, porém eles são indeléveis. Ficam a pairar como parasitas, à espera de uma oportunidade para se alimentarem da tua boa sorte.

Tens de fazer um esforço para acabar com esse comportamento, mãe.

Ouve-me, Pearl disse-me ela, apertando ainda mais a minha mão. Tu és mais inteligente do que eu era na tua idade. Não cometerás os mesmos erros nem te deixarás dominar pelas tuas fraquezas. Não padeces das mesmas que eu tinha. E isso é bom porque assim não só não te magoas a ti própria como também poupas aqueles que te estimam.

Mãe...

Espera. O que poderá uma alma livre e inocente como a do Jean ter feito para merecer semelhante castigo? Não foi ele que o atraiu. Não vês que o peso dos meus pecados é que caiu sobre ele, fazendo-o sofrer?

"A Nina sabia murmurou. A Nina sabia. Suspirei tão profunda e audivelmente que ela se virou para mim.

Há muito tempo atrás, cometi um grande erro, mas não me refiro ao facto de ter engravidado de ti. Tu és demasiado bonita e maravilhosa para que algo de mal se relacione contigo. No entanto, depois de nasceres, ficámos sozinhas no Hayou.

Já mo contaste, mãe. Não precisas de explicar.

- Quero explicar, preciso de explicar. Não concordei em casar com o teu tio Paul só porque o teu pai andava pela Europa a levar uma bela vida de homem rico.

- Mas tu pensaste que ele ficara noivo e já não haveria Possibilidade de virem a casar, lembrei-lhe.

Sim, sim, mas o Paul era meu meio-irmão. É verdade, só viemos a descobrir esse pormenor já éramos ambos adolescentes e depois de o Paul se ter apaixonado por mim, mas nada disso serve de desculpa.

Desculpa para o quê, mãe? Olha como vivíamos quando voltaste para o Hayou. Porque não haverias de concordar em viver em Cypress Woods? Disseste que, apesar de tudo, todos pensavam que eu era sua filha.

Sim, é verdade, mas ele também pouco fez para os dissuadir dessa ideia.

Porque me repetes toda essa história?

Porque não soube resistir-lhe e deixei que me convencesse a casar com ele. Chegámos mesmo a ser abençoados por um padre.

Mas tinhas-me contado que não fora mais do que um casamento de conveniência, que tu e o Paul não passavam de amigos.

Nem sempre, confessou a minha mãe. Houve uma altura em que fizemos de conta que éramos outras pessoas e... pequei.

"Não fiz penitência, não pedi perdão. Fiz de conta que não acontecera. No entanto, o pecado passou a fazer parte da minha própria sombra e seguiu-me sempre, a partir do tempo em que vivi no Hayou. Essa sombra foi, a pouco e pouco, assenhoreando-se desta casa e desta família, até clamar pelo meu filho Jean.

Oh, mãe, não, exclamei.

Abanei a cabeça, magoada com aquela notícia, mas, apesar de tudo, não podia acreditar que Deus punisse Jean pelo pecado da mãe.

A minha mãe fechou os olhos.

Estou exausta, mas não durmo. Só vejo o rosto do Jean. o meu filho, na minha frente, o Beau a fugir dos pântanos com ele nos braços. E quando olho para trás, deparo com essa sombra a sorrir triunfantemente para mim.

Abriu os olhos e agarrou-me na mão.

O Jean ainda está aqui, ainda não saiu de junto de nós. desta casa. Quero que vás ao sítio da Nina e fales com a irmã dela. Conta-lhe o que aconteceu e pede-lhe que traga os amuletos aqui.

Mãe, estás a dizer disparates. Além disso o pai nunca nos deixaria trazer amuletos para dentro desta casa.

Tens de o fazer, Pearl disse-me, com os olhos muito abertos. Prometes?

Apercebi-me de que só descansaria se eu lhe desse a minha palavra.

Está bem, mãe, prometo.

Ainda bem disse, largando-me a mão e fechando novamente os olhos. Agora já posso dormir.

Fiquei ali sentada durante algum tempo, até a sua respiração se tornar lenta e compassada. Depois levantei-me, silenciosamente, e saí do quarto a pensar na pesada carga de culpa que a minha mãe mantivera enterrada nas profundezas da sua memória. Não tinha dúvidas de que a acabrunhara; no entanto, fora capaz de fazer de conta que nunca acontecera. Admiti que se tivesse sentido só e receosa. Todos quantos amara a tinham abandonado, com excepção de Paul. Eu jamais poderia culpá-la por algo malévolo. Jamais.

Durante os dias que se seguiram, a minha mãe comportou-se como uma inválida, nunca saindo do seu quarto, levantando-se apenas para tomar banho e mudar de camisa de dormir. O meu pai e eu íamos frequentemente à ala de psiquiatria visitar Pierre. O meu pai pouco trabalhava e, ao cair da tarde, normalmente enfiava-se no seu gabinete e punha-se a beber uísque para depois adormecer com mais facilidade.

Uma tarde, cerca de quatro dias depois, fui a primeira a chegar ao hospital. Comecei a conversar com Pierre da forma habitual: primeiro relembrava o que ia acontecendo lá por casa, as pessoas que telefonavam, os amigos de Jean e Pierre que perguntavam por ele. Ia falando e afagando-lhe a mão ao mesmo tempo, dando-lhe beijinhos no rosto e dizendo-lhe que a nossa mãe estava com muitas saudades dele. Depois a auxiliar de enfermagem trouxe sumo e eu, como de costume, esforcei-me para que Pierre engolisse algum.

Tinha a impressão de que os meus esforços seriam em vão, como acontecera até ali, quando, de repente, os seus lábios se abriram e os dentes se descerraram. Entusiasmada, comecei a dar-lhe um bocadinho de sumo. O menino, ao sentir o gosto da fruta na boca, engoliu-o e aceitou mais um pouco.

Isso mesmo, Pierre! Que maravilha! Assim não tardarás a largar o soro.

Corri a contar à enfermeira que, por sua vez, chamou a Dra. Le Fevre. Quando o meu pai chegou, Pierre bebera a maior Parte do sumo. Ainda não falava nem se mexia; no entanto, já Se registara aquela pequena modificação.

O meu pai ficou encantado.

Temos de contar à Ruby assim que chegarmos a casa. Talvez ela agora já se levante para vir vê-lo.

Voltámos apressadamente para casa. Por fim, as sombras escuras que pairavam sobre nós haviam sido atravessadas pela luz. Quando encostámos ao passeio, vi uma mulher esguia e negra a sair de casa. Vestia uma saia vermelha até aos pés, sandálias e uma blusa imaculadamente branca. As suas pulseiras eram feitas de ossos de animais e os brincos faziam lembrar olhos de gato encastoados em prata. Olhou na nossa direcção, porém não se deteve. Reparei que tinha uma cicatriz a atravessar-lhe a face direita, formando um triângulo na ponta de cima, mesmo por baixo da maçã de rosto muito saliente.

Que diabo é aquilo? murmurou o meu pai.

A mulher desapareceu, depois de sair pelo nosso portão. Corremos para dentro e subimos ao piso de cima. A minha mãe não estava no quarto; no entanto, via-se uma lata com enxofre a arder em cima de cada uma das mesinhas-de-cabeceira. O cheiro sulfúreo empestava o ar.

Que raio... principiou o meu pai, cheirando o ar. Onde é que ela está? Que faz?

Não lhe grites, pai adverti. Ela...

Eu sei o que ela está a fazer. Sei exactamente o que está a fazer! exclamou, saindo porta fora.

Segui-o até ao andar térreo. A minha mãe não estava na sala de estar nem no gabinete ou na cozinha. Por fim encontrámo-la no seu estúdio. Sentada diante do cavalete, desenhava; porém, de cada lado via-se uma vela azul a arder.

Ruby chamou o meu pai, levando-a a voltar-se para ele.

Olá, Beau.

Que estava aquela mulher a fazer aqui? Porque puseste aquela porcaria a arder no nosso quarto? E que estão estas duas velas a fazer aqui?

Tive de preparar alguns gris-gris para combater a adversidade, Beau. Não te zangues. Voltei a sentir-me segura. Também retomarei o meu trabalho.

Sorriu para mim mas achei o gesto estranho; era como se viesse de uma pessoa enfeitiçada. Tal como o meu pai, senti curiosidade em saber o que aquela especialista em vudu fizera.

Não posso acreditar numa coisa destas indignou-se o meu pai. Empestar o nosso quarto...

Sacudiu a cabeça e, de repente, lembrou-se do motivo que nos levara a voltar apressadamente para casa.

Ah, é verdade, temos boas notícias. A Pearl conseguiu que o Pierre bebesse um pouco de sumo.

A minha mãe limitou-se a olhar para ele com o mesmo sorriso parado nos lábios.

Ouviste o que eu disse, Ruby? O Pierre bebeu um pouco de sumo. É possível que lhe retirem o soro em breve. há luz ao fundo do túnel acrescentou, nitidamente aborrecido com a indiferença da mulher.

Claro que há, Beau, disse ela, por fim. Eu já sabia. Isso foi consequência do ritual que aquela mulher vudu aqui realizou. Não compreendes? A Nina vai ajudar-nos do alem. Ergueu os olhos para o alto. Vai ajudar-nos.

Mon Dieu exclamou o meu pai. Não posso acreditar no que estou a ouvir. Não queres que te leve já a ver o Pierre?

Por enquanto, não, Beau. Ainda não estou pronta. Em breve

Desisto, declarou o meu pai erguendo as mãos. Fala tu com ela, Pearl. Talvez consigas fazê-la recuperar o bom senso para que vá visitar o filho sem agir como uma lunática.

Dito isto, saiu do estúdio.

O Beau foi sempre muito incrédulo, observou a minha mãe. Mas há-de mudar.

Retomou o seu trabalho.

Mãe, disse eu, aproximando-me dela, agora não podes enterrar-te nestes rituais e feitiços. Tens de ir comigo ver o Pierre.

Ainda não, disse. Faltam alguns passos. Caso contrário, só lhe trarei o azar. Ele entenderá. Farei por isso. Tu vês que eu tenho razão, não é, querida?

Abstive-me de responder. Olhei para o desenho que a minha mãe estava a fazer. Representava Jean a flutuar no pântano.

Mãe.

Ela prosseguiu o seu trabalho como se eu não estivesse ali. Instantes depois, fiz menção de me afastar mas ela reparou e reteve-me com a mão

É preciso que faças algo comigo, Pearl. Terá de ser esta noite. Só não poderás é dizer ao teu pai. Tenho a certeza de que tentará impedir que vamos, pois não é capaz de compreender.

-O que é, mãe?

Temos de estar no cemitério á meia-noite. A mãe Lea levará um gato preto consigo. Talvez consigamos falar com a Nina e saber que outras medidas deveremos tomar.

Ai isso, não, mãe, está completamente fora de questão.

Tem de ser insistiu, com uma expressão selvática no olhar, ao mesmo tempo que quase me enterrava os dedos na pele.

Está bem, mãe, está bem.

Descontraiu-se.

Promete que nada dirás ao pai.

Prometo, disse.

Naquele momento senti-me como que a fazer um pacto com o demónio.

Sorriu-me e voltou ao seu desenho.

Observei-a por momentos e depois retirei-me. Encontrei o meu pai sentado no sofá do seu gabinete, a beber do seu cálice de uísque.

Já viste como a tua mãe está? perguntou-me imediatamente.

Está a sofrer uma depressão nervosa muito especial, pai. Temos de ser compreensivos com ela e deixá-la à vontade durante algum tempo, até recuperar o equilíbrio.

Uma expressão dolorosa faiscou-lhe nos olhos.

Convenci-me de que ela correria para o hospital comigo. Em vez disso, anda por aí a queimar velas, a fazer desenhos esquisitos e a falar de rituais e gris-gris. Já só me resta um amigo declarou, erguendo o cálice.

Isso não é melhor do que aquilo que a mãe está a fazer, pai. Tens de parar de beber, adverti.

Eu sei reconheceu o meu pai. Dentro de pouco tempo. Bem, tenho de ir tratar de uns negócios. Passaremos pelo Pierre depois do jantar. Talvez a Ruby saia daquele estado e venha connosco.

Não quis desencorajá-lo, mas não acreditava que a minha mãe fosse.

Veremos, respondi.

Claro que a minha mãe não iria connosco ao hospital.

As enfermeiras informaram-nos de que Pierre comera um pouco de ovo escalfado e bebera algum leite. Continuava sem falar e agia como se não escutasse o que se dizia; no entanto, ficámos todos esperançados. Foi o suficiente para que a disposição do meu pai melhorasse. Tornou-se mais conversador e enérgico.

Amanhã tens de ir connosco, Ruby disse à mulher ao chegar a casa, onde a encontrou na sala de estar a ler e a ouvir música.

Está bem, Beau concordou, lançando-me um olhar conspirativo. Irei.

Óptimo, óptimo replicou o meu pai, olhando para mim. Calculei, a julgar pela expressão do seu rosto, que pensava que as coisas tinham finalmente começado a compor-se. -" Vou-me deitar.

Eu já vou, Beau disse-lhe a minha mãe.

O Pierre fez bons progressos, mãe, mas agora precisa de te ver e ouvir, contei-lhe.

Eu sei, querida. E assim continuará desde que mantenhas a tua promessa.

Mãe...

Baterei à porta do teu quarto às onze e meia. Quero-te pronta, disse.

Fiquei a olhar para ela durante uns momentos. Que ia eu fazer? Depois baixei os olhos para o livro que lhe via entre as mãos.

Segurava-o virado ao contrário, servindo-se dele unicamente para poder reflectir nos seus pensamentos insanos.

Mãe, ir a cemitérios à meia-noite é demasiado perigoso. O pai ficará zangadíssimo com nós duas, sobretudo comigo. Por favor, implorei.

A minha mãe fitou-me fixamente.

Muito bem, Pearl disse, se não queres ir, não vás, não faz mal.

Mas tu também não vais, não é, mãe? Não é? insisti.

Não irei respondeu por fim, mas eu não acreditei nela. Esforcei-me por ficar acordada e assim poder ouvir os passos dela, caso os meus receios se concretizassem.

 

PARA ALEM DO TÚMULO

Apesar do meu desejo imperioso e veemente em me manter acordada, mal conseguia fazê-lo. Tentei ler; porém, os meus olhos fugiam da página e a minha cabeça pendia cada vez mais. Achei que seria mais fácil ficar imóvel no meio da escuridão; mas, mal apaguei a luz e pousei a cabeça na almofada, as minhas pálpebras cerraram-se. Só dei por mim quando acordei, sobressaltada, e olhei para o relógio, dando-me conta de que já faltava quase um quarto para a meia-noite. Se a minha mãe batera à porta do meu quarto ou já saíra, não a ouvira. Não conseguia imaginá-la a ir sozinha ao cemitério àquela hora. Certa de que iria dar com ela ainda na cama, levantei-me, vesti o roupão e calcei as pantufas, atravessando o corredor em direcção ao quarto dos meus pais na ponta dos pés.

A porta encontrava-se ligeiramente entreaberta. Empurrei-a suavemente e espreitei. A luz ambarina de um quarto crescente delineava a silhueta da cómoda, candeeiros, cadeiras e toucador. Podia ver a cabeça do meu pai pousada na almofada; porém, não vi a da minha mãe. Durante um longo momento, o pânico manteve-me os pés pregados ao chão. Devia estar na casa de banho, disse de mim para mim. Esperei e escutei, mas não havia indícios dela nem o menor som. Bati suavemente à porta e esperei que o meu pai acordasse, mas não se mexeu.

Resolvi entrar e chamei-o em voz alta:

Pai!

Tive, como única resposta, um ronco pesado e sonoro. Acerquei-me dele e toquei-lhe no ombro. Não queria acordá-lo abruptamente e assustá-lo. Poderia pensar que nos tinham chamado para irmos ao hospital por causa de Pierre. No entanto, continuou a dormir.

Pai.

Abanei-o. Resmungou e voltou-se para cima, ainda de olhos fechados.

Detectei o acentuado cheiro a uisque e vi a pesada garrafa de vidro, quase vazia, em cima da mesinha-de-cabeceira. Ao sacudi-lo de novo, dessa vez com mais força, o meu pai roncou, as pálpebras estremeceram mas os olhos mal se abriram

Ahaaaa, deixou escapar.

Pai, acorda. Onde está a mãe?

Ahaaa, repetiu ele, fechando os olhos e virando-se para o outro lado.

Frustrada mas preocupadissima com a minha mãe, saí do quarto e desci as escadas a correr. Espreitei em todos os quartos, que estavam ás escuras, e depois fui até à cozinha, esperando encontrá-la a aquecer um pouco de leite. No entanto, deparei apenas com a luz acesa e dela nem sinais em parte alguma.

Reflecti um pouco e depois corri até ao seu estúdio. Embora tivesse a luz apagada, como imaginei que estava ali sentada, acendi-a. Sustive a respiração e o meu coração quase parou. Não estava, no entanto, o seu quadro mais recente despertou-me a atenção. Acerquei-me um pouco mais e vi que lhe acrescentara mais alguns pormenores.

Era um esboço do rosto de Jean num corpo de fantasma, saindo do pântano a flutuar, no entanto, a água que se estendia por baixo fazia lembrar vagamente a figura de um homem com os olhos esbugalhados. Examinei o desenho e depois recuei, soltando uma exclamação. Era o rosto que eu tantas vezes via no meu pesadelo habitual, o rosto de Paul Tate, que constava ter-se atirado à água de desgosto por a minha mãe o ter deixado para ir viver com o meu pai. Era um rosto que, pelos vistos, também a perseguia.

Apaguei a luz e atravessei apressadamente a casa, em direcção à garagem, onde o meu pior receio se confirmou. o carro da minha mãe desaparecera. Fora ter com a mulher vudu ao cemitério onde Nina Jackson estava enterrada. No andar de cima, o meu pai dormia, imerso numa letargia alcoolizada. Que poderia eu fazer?

Vesti-me rapidamente e fui até ao cemitério no carro do meu pai. O fulgor da Lua fazia com que os túmulos emitissem um brilho cor de cera e as sombras ao seu redor se acentuassem, criando longos corredores de escuridão que envolviam inexoravelmente a maioria das construções, permitindo ver apenas os seus topos. O negrume fazia lembrar um mar de tinta.

Hesitei, mas depois, lentamente, dei a volta com o carro ao cemitério. A princípio nada vi e esperei que a minha mãe tivesse ido a qualquer outro lugar menos arrepiante. Contudo, ao finalizar a volta, deparei com o automóvel dela, vazio, estacionado na outra entrada.

As batidas do meu coração começaram a acelerar. Parei atrás da viatura e tirei uma lanterna do porta-luvas. A seguir desliguei o motor e apaguei as luzes, permitindo que o rio de tinta também me envolvesse. Fui invadida por uma onda de ansiedade que me fez sentir a pulsação nos ossos. Os dedos tremiam-me ao baixar o puxador para depois me apear. Por um instante tive a impressão de que, sob os meus pés, o solo se transformara em areia movediça. Cada passada em direcção ao cemitério exigiu grande esforço.

Acendi a lanterna e fiz incidir o feixe no carreiro que se estendia à minha frente, não me atrevendo a olhar para a direita ou para a esquerda. Mantive a atenção fixa no feixe luminoso e caminhei em frente, esperando encontrar a minha mãe rapidamente e levá-la dali para fora.

De repente ouvi um miado agudo de gato que me pregou um susto de morte, deixando-me o estômago aos saltos. Senti o sangue fugir-me para os pés. Parei e passei o feixe de luz por cima das tumbas, abrindo caminho por entre as figuras de pedra, as palavras gravadas e os rostos esculpidos dos mortos. Soou um segundo miado dilacerante, seguido de uma rosnadela, e depois reinou o mais absoluto silêncio.

Mãe! gritei para a noite, esperando que me respondesse. Ouvi apenas as batidas do meu próprio coração nos ouvidos. Mãe, onde estás?

O silêncio foi dilacerado por uma gargalhada estridente. Como não me parecia da minha mãe, recuei uns passos. Ao ouvir sussurrar audivelmente à minha direita, voltei-me nessa direcção.

Mãe, sou eu! Onde estás?

O sussurro desapareceu. Aguardei e a seguir enveredei por outro corredor. Pouco depois, a feiticeira vudu que eu e o meu pai víramos sair da nossa casa na véspera passou em frente de mim. Trazia um gato preto nos braços. Não olhou na minha direcção. Caminhou pelo meio da escuridão como se tivesse lanternas no lugar dos olhos e desapareceu com a mesma rapidez com que aparecera. Um momento depois a minha mãe saía do meio das trevas, trazendo uma vela branca segura entre as mãos e caminhando com a lentidão de um sonâmbulo. O fulgor da vela conferia aos seus olhos o aspecto de poças de luz acinzentada e fazia as suas faces reluzir.

Mãe, gritei, correndo para ela.

Pearl, está tudo bem disse em voz branda sem, porém, olhar para mim nem parar. Os seus olhos fixavam-se mais no que recordava do que no que via, continuando a caminhar.

Era como se achasse que também era uma aparição. Peguei-lhe na mão e ela virou-se para mim, ainda com a luz da vela a reflectir-se nos seus olhos.

A Nina falou-me. Agora sei o que tenho de fazer.

Mãe, pára com isso. Estás a assustar-me.

Sacudi-a com força e a vela que tinha nas mãos caiu e apagou-se mal tocou no chão.

Oh, não! exclamou, olhando para trás, para a escuridão. Depressa, Pearl, temos de sair do cemitério.

Agarrou-me desesperadamente na mão e puxou-me para a frente. Corremos pelos corredores escuros, até chegarmos à estrada. Aí parámos, recuperando o fôlego.

Porque fizeste isto, mãe? Que ideia foi essa de vires cá sozinha?

Não tinha outra saída, Pearl. Agora voltemos para casa. Está tudo bem. Não precisavas de vir à minha procura.

Prometeste que não vinhas aqui. Adormeci e, quando fui à tua procura, vi que tinhas saído e levado o carro. Tentei acordar o pai mas ele dormia profundamente... continuei, ansiosa por me manter a falar e escutar o som da minha própria voz.

Um fiapo de nuvem deslizara para a frente da Lua, atenuando a pouca luz que havia à nossa volta. O silêncio reinante naquele cemitério às escuras era aterrador.

Não te preocupes insistiu a minha mãe. Tudo irá correr bem.

És capaz de voltar para casa a guiar, mãe?

Claro que sou. Vamos. Pearl, não vale a pena contares ao pai onde estivemos.

Sim, mas voltemos para casa, mãe. Depressa.

Ela meteu-se no seu carro e eu no meu. Guiou com lentidão mas cuidadosamente, e enveredámos pelo caminho de acesso à garagem ao mesmo tempo. Depois de arrumarmos os automóveis, entrámos em casa e fomos para cima.

Que foi que fizeste lá com aquela mulher, mãe? perguntei-lhe ao chegar à porta do meu quarto.

- Fiz o que tinha de fazer para falar com a Nina.

Falaste com ela?

Fiquei atónita por a minha mãe ser capaz de acreditar em Semelhante coisa.

. Sim, falei, e depois ela respondeu-me através do gato.

Sei o que devo fazer.

E o que é, mãe? O que foi que ela te disse para fazeres?

Não posso contar a ninguém, Pearl querida. Só te digo, adoro-te a ti, ao teu pai e ao teu irmão mais do que à minha própria vida.

Mãe, que vais fazer? Estou assustada.

Agora já não há motivo nenhum para isso, respondeu com um sorriso. Depois abraçou-me. Minha doce Pearl. disse, afastando-me farripas de cabelo da testa. Merecias melhor sorte do que nascer sob auspícios tão tenebrosos. Mas em breve o Sol voltará a brilhar para nós, prometo-te.

Mãe, imploro-te, tens de me contar o que achas que deves fazer. Por favor. Não direi ao pai.

Correrá tudo bem. Tens de ter fé, Pearl. Sei que só acreditas na ciência, mas também deves ter fé em algo que está para além dos microscópios e também das leis da Natureza. Tens de crer naquilo que não vês, pois algo está por trás da escuridão, à espera, observando. Acredita e não tenhas medo.

Dito isto, fechou os olhos.

Mãe...

Estou cansada. Amanhã falamos, está bem? Agora deixa-me enfiar na cama sem acordar o teu pai. Vai descansar, querida, vai.

Fiz um esforço enorme para não lhe fazer mais perguntas ao vê-la seguir para o seu quarto. Deu a impressão de que atravessava o umbral a flutuar e desapareceu.

Eu tinha o coração muito acelerado e senti dificuldade em respirar e não ser submergida por tudo o que estava a acontecer com tanta rapidez. Detestava a ideia de trair a minha mãe, mas estava convencida de que não podia deixar de pôr o meu pai ao corrente do que se passara naquela noite e do que ela dissera. Urgia que se interessasse mais pelo que a mulher pensava e fazia e deixasse de andar tão irritado com a questão.

Passei uma noite agitada, sempre a mexer-me e às voltas. acordando e adormecendo profundamente. Apesar de exausta, foi com agrado que recebi o primeiro beijo matinal do sol no meu rosto. Levantei-me rapidamente para me poder lavar, vestir e ouvir vozes felizes e sentir o cheiro das flores a desabrochar na manhã. A recordação do que se passara na véspera à noite era tão vaga que me pareceu ter sonhado com tudo aquilo. Porém, quando olhei para os meus ténis, reparei que tinham sinais de terra do cemitério e senti um arrepio percorrer-me a espinha.

Para minha surpresa, vi que o meu pai se levantara mais cedo e já fora para o escritório. A minha mãe ainda não descera do quarto. Esperei um pouco por ela e depois resolvi subir para ir ver como estava, encontrando-a profundamente adormecida. Pobrezinha, pensei, tão atormentada... Fechei a porta suavemente e voltei à sala de jantar para tomar o pequeno-almoço. A minha mãe ainda continuava a dormir quando voltei ao seu quarto pela segunda vez. Nessa ocasião, porém, entrei e fiquei ao seu lado, vendo o seu peito subir e descer ao ritmo lento da respiração. Quando estava prestes a vir-me embora, ela soltou um murmúrio, abriu os olhos e soergueu-se.

Bom dia, mãe, cumprimentei-a.

Passeou o olhar pelo quarto, como se se tivesse esquecido do sítio onde estava. Antes de me retribuir a saudação, esfregou a testa vigorosamente, como que para afastar os restos do sonho. A seguir respirou fundo e passou a mão pelos cabelos, afastando-os para trás.

Bom dia, querida. Que horas são? Oh, não... exclamou a olhar para o relógio da sua mesa-de-cabeceira. Espero que o teu pai não esteja à minha espera para tomar o pequeno-almoço.

Não, levantou-se mais cedo e já foi para o trabalho.

Trabalho? Reflectiu um pouco. Óptimo. É disso que ele precisa... manter-se ocupado. Tu também, querida. Quero que retomes as tuas tarefas no hospital.

Ainda é cedo, mãe. Prefiro dedicar o máximo de tempo possível ao Pierre.

Não te preocupes com o Pierre, ele irá ficar bom, retorquiu convictamente e esboçando o mesmo meio sorriso que lhe ficara desde o funeral de Jean.

Voltei para junto da sua cabeceira.

O que querias dizer ontem à noite quando me afirmaste que sabias exactamente o que era preciso fazer, mãe? Que tencionas fazer? O que foi que te disse aquela mulher vudu?

Oh, foram apenas uns cânticos e rituais inofensivos, Pearl. Não precisas de ficar preocupada. Deixa-me cultivar estas minhas velhas crenças. Não prejudicam ninguém e, quem sabe... Como sempre te disse, nunca se deve menosprezar a fé de ninguém. O seu meio sorriso desapareceu e ficou com um ar apreensivo. Não falaste da noite passada ao teu pai, pois não, Pearl?

Não, mãe. Quando desci para o pequeno-almoço já ele se tinha ido embora.

Óptimo. Por favor nem uma palavra a ele, querida. Já lhe bastam as outras coisas para andar fragilizado. Mais um empurrãozinho e poderá ir-se abaixo. Não queres que isso aconteça, pois não?

Mas, mãe, olha que ir a cemitérios à noite...

Prometo não voltar lá. Está bem? Vem cá, querida pediu, estendendo-me os braços. Nós duas fomos sempre muito ligadas, não é? Confiámos sempre inteiramente uma na outra.

É verdade, mãe.

Então continua a confiar em mim, Pearl. Por favor implorou com olhar doce e carinhoso.

Está bem, mãe, desde que não voltes lá.

Não voltarei. Olhou em volta. Bem, é melhor levantar-me e comer alguma coisa. Esta manhã tenho fome.

Hoje vais comigo ao hospital, mãe?

Vou, respondeu-me. Antes disso só preciso de tratar de uns assuntos. Que tal ires andando, que eu depois vou ter contigo?

Quando? quis saber.

Depois de almoço. De acordo?

Talvez fosse melhor esperar por ti e irmos juntas sugeri, não acreditando nela.

Vejamos, Pearl. O que foi que ainda agora te pedi? Que confiasses em mim, não é verdade? Ficarei bem. Além disso, quando eu lá chegar já o Pierre terá começado a recuperar de verdade. Verás.

Saiu da cama e foi para a casa de banho. Eu ainda fiquei um pouco por ali, sem saber se devia, ou não, telefonar ao meu pai e pedir-lhe que viesse o mais depressa possível para casa.

Depois achei que a minha mãe tinha razão, pois também o pai não andava nada bem do seu sistema nervoso. Calhara-me a mim ser o pilar de sustentação daquela casa, quer o quisesse ou não. De qualquer modo estava a fazer-se tarde e eu não queria que Pierre passasse tão grande parte do dia sem um de nós presente.

No entanto, quando cheguei, soube que o meu pai já o visitara. Levara-lhe os seus livros de quadradinhos e chocolates preferidos; tudo ficara em cima da mesa, porém, no mesmo sítio onde os deixara. Pierre estava confortavelmente recostado na sua cama, de mãos juntas sobre o colo, os olhos fixos na parede em frente e as pálpebras a agitarem-se pensativamente. Quando o beijei na bochecha, reparei que os lábios lhe tremiam ao de leve. Sentei-me ao seu lado e peguei-lhe na mão esquerda.

A mãe vem cá visitar-te hoje, Pierre. Seria bom falares com ela. Anda muito ansiosa por ouvir a tua voz.

O pestanejar manteve-se no mesmo ritmo e os olhos não se desviaram. Olhei para a mão que tinha entre as minhas. Estava aberta e tinha a palma fria.

Todos nos culpamos, Pierre, mas nenhum de nós teve culpa murmurei.

Olhei para cima e vi os seus olhos, depois o seu rosto, virarem-se para mim. Os lábios contraíram-se-lhe no esforço de abrir a boca e a seguir reparei que aproximava a língua dos dentes. No tremendo esforço para mover o rosto e proferir algum som inteligível, abriu muito os olhos. Eu aguardei, sustendo a respiração.

Foi então que os seus lábios se moveram para cima e para baixo, seguindo-se um estalido.

Calma, Pierre, calma. Queres dizer alguma coisa? Estou mesmo aqui.

Voltei a beijá-lo na face. Moveu os lábios mais depressa e um som começou a formar-se na garganta. Proferiu então a primeira palavra desde a tragédia de Jean.

Eu...

Sim, Pierre disse, sentindo-me à beira das lágrimas. Sim, querido.

Eu... pé... pen... pensei... Aproximei mais o ouvido dos seus lábios.

Pensei que era um ramo disse Pierre, fechando os olhos a seguir.

Oh, Pierre. Abracei-o. Nós sabemos, nós sabemos, querido. Ninguém te culpa. Ninguém disse, embalando-o para a frente e para trás entre os meus braços.

Quando, porém, o soltei e me recostei, voltara a olhar fixamente para a parede, de lábios inertes e com as pálpebras a pestanejar do mesmo modo.

Que tal estamos hoje? ouvi alguém perguntar. Ao virar-me, vi que era a Dra. LeFevre.

Ele falou comigo! exclamei. Foi muito baixinho, mas disse uma frase.

Isso é uma maravilha. A sua recuperação já começou a sério. Aconselho que o levem para casa. Precisará de alguns cuidados de enfermagem; no entanto, já não está a soro e já se alimenta de sólidos e líquidos. O resto é apenas uma questão de tempo, amor e carinho. Depois veremos que tipo de terapia deverá fazer.

Oh, Pierre, ouviste a doutora? Vais para casa. Não é uma maravilha?

O menino não reagiu nem mudou de expressão ou moveu os lábios.

A Dra. LeFevre mediu-lhe a tensão arterial e começou a falar com ele.

A tua família quer que vás para casa, Pierre. Precisam de que te ponhas bom e voltes a ser o que eras. Mas eles não podem fazer tudo por ti. Portanto, também tens de o querer. Precisas de fazer aquilo de que falámos, está bem? perguntou-lhe, dando-lhe uma palmadinha afectuosa na mão.

Pierre não deu a impressão de ouvi-la ou vê-la. A médica sorriu e piscou-me o olho.

Será preciso algum tempo acrescentou. Tempo e paciência.

Vou telefonar ao meu pai a perguntar-lhe o que quer que façamos.

Muito bem. Posso recomendar algumas enfermeiras. Ele que ligue para o meu gabinete daqui a cerca de uma hora acrescentou. Depois fez uma pausa e levou-me para uma certa distância da cama. Como vai a sua mãe? Tenho visto o seu pai aqui, mas ela não.

Até agora não tem passado nada bem. Também está cheia de remorsos respondi.

É natural. Mas tem melhorado?

Parece-me que sim.

Se se ocupar do Pierre, ocupará a mente e porá fim ao seu sentimento de culpa. Não terá tempo para lamentações assegurou-me a Dra. LeFevre. E a Pearl deve retomar o seu trabalho. Sentem a sua falta por aqui.

Sorri e agradeci-lhe, apressando-me a sair para o corredor a fim de telefonar ao meu pai. Encontrei-o excitadíssimo.

Já telefonaste à tua mãe?

Ainda não. Pensei em ligar primeiro para ti, para ires tratando das coisas.

Óptimo. Muito bem, vou começar imediatamente. Liga tu à tua mãe. Quando me levantei dormia tão profundamente que nem lhe falei observou.

Eu sei. Estive quase a dizer-lhe porquê, mas lembrei-me de que a minha mãe ficaria muito desgostosa se eu quebrasse a promessa feita. Vou ligar já para ela.

Telefonei para casa e Aubrey atendeu.

Preciso de falar imediatamente com a minha mãe, Aubrey disse, apressadamente.

A senhora já saiu informou.

Olhei de relance para o meu relógio. Ela dissera-me que só iria ao hospital depois do almoço.

Disse aonde ia?

Não, menina. Despediu-se de todos e saiu.

Despediu-se? Que quer dizer?

Fez questão em ver todos os empregados antes de sair respondeu, nitidamente confundido com o comportamento da minha mãe.

O meu coração começou a bater mais depressa. Aonde teria ido? Que estaria a fazer? Disse a mim mesma que fizera mal em deixá-la sozinha e cheia de promessas.

Reparou se recebeu alguma chamada esta manhã, ou se teve visitas?

Que eu tenha dado por isso, não, menina.

Quando saiu levou alguma coisa consigo?

Aubrey hesitou. Eu sabia que ele não gostava de transmitir informações que dessem a impressão de estar a espiar as pessoas da casa.

Não esteja preocupado, Aubrey. A minha mãe tem andado perturbada desde o falecimento do Jean e não está em si. Preciso de saber o que se passa.

Ficou em silêncio por um momento.

Só sei do sucedido disse a custo, porque a Margaret estava confusa e comentou comigo, menina.

Sabe do quê, Aubrey?

A senhora andou à procura de uma coisa qualquer na cómoda do Jean. Tirou todas as gavetas para fora e despejou o conteúdo no chão. Depois pegou na fotografia dos gémeos que o senhor Andreas tinha pendurada por cima da secretária e...

Fez uma pausa.

E o quê, Aubrey?

Cortou a metade que tinha o seu irmão Jean e deixou a outra. Depois saiu de casa só com uma mala pequena.

Depreendi, pelo tom das suas palavras, que havia algo mais.

Que aconteceu mais, Aubrey? perguntei, quase entrechocando os dentes de ansiedade.

A senhora não levou o carro, menina. Foi simplesmente a pé.

Não foi ninguém buscá-la, não chamou um táxi, nada?

Que eu visse, não, menina.

Viu-a afastar-se de casa a pé.

Vi, sim, menina. Não olhou uma única vez para trás. Deseja dar alguma ordem?

Não, Aubrey, por agora, nada respondi, com os olhos a marejarem-se de lágrimas. Daqui a pouco estarei em casa.

Despedi-me, pousei o auscultador no gancho e deixei-me ficar no mesmo sítio, sentindo um torpor enregelante subir-me pelas pernas. Onde teria ido a minha mãe? Que ritual bizarro tencionaria executar agora? Arrepiei-me e cruzei os braços sobre o peito.

Viva, Pearl cumprimentou-me Sophie, que se aproximara. Passei pelo quarto do teu irmão e a enfermeira disse-me que ainda estavas aqui. Já soube da novidade maravilhosa. A médica vai dar-lhe alta, não é?

Vai, sim retorqui, tentando sorrir. Sophie só precisou de me olhar nos olhos.

O que se passa? perguntou. Porque não te sentes feliz com o facto?

Oh, Sophie, o problema não está no meu irmão, mas sim na minha mãe, respondi, desatando a chorar e deixando-me envolver pelos seus braços reconfortantes.

Assim que me acalmei, tentei telefonar para o meu pai; porém, já não o apanhei no escritório. Fui directamente para casa. esperançada de que a minha mãe tivesse voltado; no entanto. Aubrey abanou a cabeça com ar pesaroso e olhar condoído quando lhe perguntei. Mandara a empregada preparar o quarto de Jean e arrumar a sua roupa. As gavetas da cómoda continuavam no meio do chão, embora já tudo tivesse sido arrumado dentro delas; não consegui descobrir nenhuma pista relativamente ao que a minha mãe levara, o que tencionava fazer ou para onde fora. Ao ver a fotografia dos gémeos, senti o coração enregelar-se. Arrancara Jean de junto de Pierre tal como a morte fizera e, apesar de eu saber que as fotografias não podiam mudar de expressão, pareceu-me ver grande melancolia no olhar de Pierre.

Desci até ao estúdio da minha mãe e olhei para o estranho quadro que estivera a pintar. Já fora completado. A mim pareceu-me ver a alma de Jean a fugir do corpo do tio Paul, que flutuava. Ao olhar mais de perto, reparei que desenhara o corpo deste assemelhando-o ao de uma serpente. Mais ao fundo do canal, quase oculto pelo musgo pendente, via-se um rosto pequenino parecido com o da minha mãe. Aquela cena saíra, sem dúvida, de um dos seus pesadelos horrendos, pensei. Tapei o quadro e voltei à sala de estar. Aubrey veio informar-me de que o meu pai chegara e subira imediatamente, pensando que eu me encontrava no meu quarto. Apressei-me a ir ter com ele.

Onde está a Ruby? perguntou, saindo do seu quarto.

Oh, pai, então o Aubrey não te contou?

Contou o quê?

A mãe foi-se embora. Tirou umas coisas de uma das gavetas da cómoda de roupa do Jean, rasgou a parte dele na fotografia dos gémeos do teu gabinete e saiu com uma mala pequena.

Aonde é que ela foi?

Não faço ideia gemi, sentando-me num banquinho que estava no corredor.

O que dizes, Pearl? O que se passa?

Não tive oportunidade de te contar porque já cá não estavas quando desci para o pequeno-almoço esta manhã, mas a mãe ontem à noite saiu de casa enquanto dormias. Foi até ao túmulo da Nina Jackson, onde se encontrou com a tal mulher vudu. Queria que eu a acompanhasse mas eu recusei e fi-la prometer que desistia da ideia. Mas acabou por ir. Fui à sua procura e encontrei-a lá.

Tudo isto se passou ontem à noite? exclamou, incrédulo. Porque é que eu não...

Tentei acordar-te, pai disse, em tom queixoso.

O meu pai ficou a olhar fixamente para mim durante uns segundos, depois sacudiu a cabeça.

Tenho a certeza de que tentaste. Ultimamente parece que não sirvo para nada.

Ela obrigou-me a prometer que não te falava no assunto, mas eu tencionava fazê-lo, apesar disso declarei, limpando uma lágrima furtiva. Apenas esperei de mais. Quando cheguei ao hospital, vi os progressos do Pierre, falei com a médica e esqueci-me por completo. Devia ter-te contado quando te telefonei.

Deixa estar, Pearl disse-me o meu pai. A culpa não é tua. Era minha obrigação ter dado pela saída dela ontem à noite, em vez de me ter embebedado e adormecido que nem uma pedra. Isto não tem sido fácil para nenhum de nós. Sei que ela tem agido de maneira estranha, com aquelas malfadadas crenças sobrenaturais murmurou. Devia ter-lhe prestado mais atenção. Onde imaginas que esteja?

Engoli em seco e reflecti.

Talvez em casa da irmã da Nina Jackson. Foi onde tudo começou.

Certo. Lembras-te da morada?

Lembro.

Muito bem. nesse caso é melhor irmos até lá à sua procura.

Anuí e respirei fundo.

E como está o Pierre? perguntei.

Já arranjei enfermeira. Estará aqui por volta das cinco da tarde. Depois de localizarmos a tua mãe, iremos buscar o Pierre. Vamos.

Vou levar qualquer coisa para o Pierre vestir disse. Assim fiz e a seguir descemos as escadas a correr.

No caminho para casa da irmã de Nina Jackson, contei-lhe o ritual feito pela minha mãe na noite anterior e o facto de tê-la ouvido afirmar repetidamente que já sabia o que fazer.

Afirmou que a Nina falara com ela através do gato preto

Essa gente devia ser presa e posta daqui para fora queixou-se o meu pai Só causam problemas mas enfim, a tua mãe foi criada a acreditar em curandeiros, espíritos maus, casas protegidas com velas e estátuas de santos. Depois prosseguiu, abanando a cabeça. Estamos na era da televisão interactiva e essa gente ainda não saiu do século quinze.

"Reparem-me neste lugar murmurou quando chegámos

Quem, no seu juízo perfeito, se prestaria a entrar ali, com todas aquelas penas penduradas, ossos a tilintar, pó nos degraus para manter o diabo á distância. Estaremos no século vinte? exclamou o meu pai, com o rosto escarlate de raiva e frustração.

Pousei a minha mão no seu ombro e ele respirou fundo acalmando-se.

Vamos buscar a tua mãe e levá-la para casa decidiu com voz fatigada.

Aproximámo-nos da porta da frente e batemos. O Roll-Royce do meu pai chamara a atenção de alguns vizinhos, que haviam saído de suas casas para ver. O meu pai voltou a bater, desta vez com mais vigor.

A irmã de Nina Jackson apareceu à porta, envergando uma bata esfarrapada. Descalça, tinha o cabelo a pingar. O meu pai ficou de boca aberta.

Desculpe incomodarmos, mas talvez se lembre de mim. Sou.

É a menina da Ruby. Veio cá ver a Nina.

Precisamente, retorqui.

A minha mulher está aí? perguntou o meu pai sem mais delongas.

A mulher sacudiu a cabeça.

Tem a certeza?

Não está cá ninguém. Estive a proteger-me do mau -olhado. Tomei um banho de alho, salva, tomilho, água de gerânios, manjericão, salsa e cinco cêntimos de salitre, explicou orgulhosamente. Depois imclinou-se para mim. Anda por aí gente, desde que a Nina morreu, a querer amaldiçoar-me os passos Mas eu... declarou, empertigando-se, eu não lhes dou oportunidade para isso.

Viu a minha mulher? insistiu o meu pai, cheio de impaciência.

A irmã de Nina negou com a cabeça.

Ela foi-se embora? Perguntou.

Foi, e nós andamos muito preocupados com a sua ausência comentei eu.

A irmã de Nina reflectiu um pouco.

Se ela fugiu, é melhor queimarem algumas das suas roupas com gasolina e cócó de galinha.

Oh, por amor de Deus gemeu o meu pai, saiamos daqui.

Ontem à noite ela foi ao cemitério para falar com a Nina apressei-me a dizer. Por que razão se iria embora hoje?

Ah, isso é diferente. Deve carregar alguma espécie de maldição e a Nina disse-lhe como havia de fazer.

Mas para onde iria ela? perguntei.

Para onde quer que imagine que a maldição começou, respondeu a irmã de Nina sem hesitar. Tem de encontrar o homem mau e atirar-lhe com a porta na cara. Seria esse o conselho da Nina.

Satisfeita? perguntou-me o meu pai. Ficámos na mesma. Vamos, querida.

Esperem disse a irmã de Nina. Não mexam os pés.

Entrou em casa, de onde voltou rapidamente, enfiando-me algo nas mãos.

O que é isto? perguntei. Fazia lembrar um berlinde encastoado em prata.

É o olho de um gato morto à meia-noite. Quando se perder na escuridão, ele será o seu guia e mostrar-lhe-á a luz, explicou.

É um olho a sério? perguntei, fazendo menção de abrir a mão, gesto que ela susteve fechando-me novamente os dedos sobre o objecto.

Não tenha medo. Vá. Encontre a sua mãe.

Engoli em seco e enfiei o objecto no meu bolso. A seguir agradeci-lhe, e o meu pai e eu voltámos para o carro.

Esta viagem foi em vão ou estou enganado? perguntou-me, arrancando.

Mas onde estará ela, pai?

Não faço ideia, mas tenho a certeza de que não tardará a voltar para casa. E quando vir que o Pierre já lá está, terá mais com que se entreter para perder tempo com toda essa estupidez, respondeu-me.

Esperava que tivesse razão; no entanto, não estava assim tão certa.

Fomos directamente para o hospital, de onde traríamos Pierre para casa. Se este tinha alguma noção de que estava a ser levado para casa, não o demonstrava. Sentado com a mesma rigidez de sempre, olhava fixamente em frente. No entanto, segundo a enfermeira, comera um pouco melhor e naquele momento chupava sumo por uma palhinha.

Que maravilha, exclamou o meu pai. Voltou-se para Pierre. Ei, rapaz, pronto para voltar para casa?

Pierre pestanejou mas não respondeu. O meu pai passou-lhe a mão pelo cabelo, como tinha o hábito de fazer, e depois ajudou-me a vesti-lo e a mudá-lo para a cadeira de rodas. A enfermeira deixou-me empurrá-la para fora do quarto, seguindo depois pelo corredor enquanto o meu pai ficava a assinar uns papeis. Alguns instantes depois tentou pô-lo de pé, porém, o filho não se aguentou nas pernas débeis, pelo que foi obrigado a carregá-lo até ao carro e instalá-lo no banco de trás. Sentei-me ao seu lado e seguimos para casa.

Vais gostar de voltar para o teu próprio quarto afirmei ao meu irmão, e trocar a comida do hospital pelos petiscos da Milly.

E também poderás sair para o ar livre acrescentou o meu pai. Todos os teus amigos têm telefonado a saber de ti. Pierre apesar de não nos responder, moveu os olhos de um lado para o outro, e eu tive a certeza de que se admirava de não ver a mãe ali.

A mãe está ansiosa por te ver, Pierre tranquilizei-o eu. Saiu para te comprar umas coisas.

O meu pai manteve-se calado.

Quando chegámos a casa, Aubrey veio ajudar e aproveitou para indicar Mrs Hockmgheimer, a enfermeira, uma mulher de cinquenta anos, baixa e robusta, com o cabelo castanho-claro liso impecavelmente cortado por uma altura do queixo. Era senhora de uns agradáveis olhos verdes e de um sorriso suave e gentil que me deixou imediatamente à vontade. Terminadas as apresentações, a minha primeira pergunta foi para Aubrey.

A minha mãe já voltou?

Aubrey olhou de relance para o meu pai e disse que não com a cabeça.

Telefonou?

Não, menina.

Levemos o Pierre para o seu quarto disse o meu pai furioso. Depois nos preocuparemos com a tua mãe.

Levou Pierre para dentro de casa e depois subiu com ele ao andar de cima, seguido por Mrs Hockmgheimer. Esta vestiu o pijama ao menino e instalou-o confortavelmente na sua cama.

preparara-lhe já uma bebida fresca. Pierre devia ter-se sentido à vontade com ela pois aceitou o copo com a palhinha que ela lhe deu e começou a beber. Os seus olhos continuavam a desviar-se de nós para a porta, à espera de que a minha mãe entrasse. O meu pai e eu entreolhámo-nos e depois ele fez-me sinal para que saísse.

Eu informei-a de que o Pierre já estava melhor lembrou-me. Por que razão não foi ao hospital hoje de manhã, em vez de andar por aí a cirandar com esse mulherio ligado ao vudu? Acho melhor começar a fazer uns telefonemas a saber se alguma amiga ou conhecida a viu hoje declarou, antes de ir para o seu gabinete.

Mais tarde veio dizer-me que ninguém a vira nem soubera dela.

É como se tivesse desaparecido da face da terra acrescentou, agora mais preocupado que furioso.

O dia chegava ao fim e o crepúsculo já começara a escurecer as sombras do nosso jardim, enquanto os candeeiros da rua se iam acendendo.

Que havemos de fazer, pai? Achas bem telefonar à Polícia?

E dizer-lhes o quê? Que a minha mulher anda por aí metida em rituais vudu? Ela é uma adulta, Pearl. Não lhes posso pedir que a procurem.

Mas não está a pensar com clareza, pai. Se calhar anda por aí a vaguear, confusa.

O meu pai espraiou o olhar para lá da janela. A noite caíra sobre tudo o que nos cercava.

Talvez ela não demore a cair em si e a voltar, ou então, pelo menos, a telefonar a dizer-nos onde está respondeu-me. Olhou para mim com desespero e abriu os braços. Não sei o que mais fazer, querida. Temos um rapazinho lá em cima a precisar desesperadamente da mãe, e ela nem sequer sabe que ele saiu do hospital e voltou para casa.

Talvez ela lá vá, pai alvitrei, esperançosa. A partir daí, apressar-se-á a voltar para casa.

Talvez, mas é óbvio que, por enquanto, ainda lá não foi. Pegou na sua garrafa de uísque.

Pai, por favor não bebas demasiado esta noite. Vi-o hesitar e, logo a seguir, concordar.

Tens razão. É melhor que me mantenha alerta. Quem sabe o que poderá acontecer a seguir? disse voltando a pôr-me o coração aos saltos e as pernas geladas e rígidas.

Passou-se mais uma hora. Mrs Hockmgheimer tentou alimentar Pierre, que se mostrou relutante em abrir a boca. Eu sabia porquê. Queria a sua mãe. Mantive-me longe do quarto dele, sem saber que mentira lhe contar.

O meu pai e eu pouco comemos também, tal era a falta de apetite. Conversámos e esperámos, pousando os olhos ora na porta, ora no relógio. Cada batida do relógio de pé era como um soco no estômago. Depois de jantar, subimos para ver Pierre. Mrs Hockmgheimer também devia admirar-se com o facto de a minha mãe não aparecer, mas era demasiado educada para perguntar. Manteve-se fora do quarto enquanto o meu pai e eu tentámos falar com Pierre sobre vários assuntos. De vez em quando, ele olhava para a porta até que, a certa altura, uma única lágrima lhe escorreu por baixo da pálpebra direita e os seus lábios começaram a tremer:

Ma mamã, balbuciou.

Mon Dieu exclamou o meu pai, levantando-se de rompante. Já não suporto mais isto.

Saiu intempestivamente do quarto e desceu as escadas. Virei-me para Pierre e peguei-lhe na mão.

A mamã ficou demasiado perturbada e confusa com o que aconteceu, Pierre. Está a tentar encontrar as respostas mas gosta muito de ti e quer fazer seja o que for para te aju dar a melhorar ainda mais depressa. Voltará para casa assim que puder. Verás garanti-lhe, dando-lhe, a seguir, um beijo na face

Ma mamã, repetiu Pierre. Fechou os olhos.

Mrs Hockmgheimer voltou ao quarto e, ao reparar na preocupação que o meu rosto deixava transparecer, examinou o meu irmão.

Está apenas exausto, observou. Nas condições em que se encontra, tirá-lo do hospital e trazê-lo para aqui representou um grande esforço.

Concordei e levantei-me, enquanto a enfermeira ajeitava a almofada a Pierre, que parecia ter adormecido. Naquele caso pensei, era uma bênção.

Desci ao piso de baixo e encontrei o meu pai a andar de um lado para o outro no seu gabinete, a beber directamente da garrafa de vidro com uisque. Murmurava de si para si:

Com que direito é que ela faz uma coisa destas? Porque não pensa no Pierre, já para não falar em mim, E na Pearl. Temos uma família a zelar, um rapazinho que está doente. Como pôde fazer uma coisa destas?

Pai, não...

Parou e olhou para mim, pestanejando de fúria. De repente inclinou a cabeça como se acabasse de ouvir algo vedado a qualquer outra pessoa.

Oh, Pearl exclamou num sussurro enrouquecido.

O que foi, pai?

Não creio...

Em quê, pai? Em que é que não crês?

Não creio que ela volte declarou.

 

CHEGA UMA CARTA.

Sentei-me ao pé da janela da frente, à espera, procurando constantemente sinais da minha mãe na rua. As palavras do meu pai tinham-me alvoraçado o estômago e acelerado o coração, que bombeava aceleradamente o sangue através das veias. O relógio de pé continuou a assinalar solenemente a passagem das horas. Aubrey apagou as luzes, e o trânsito no exterior quase desaparecera. A minha mãe continuava a não dar sinais de vida. O meu pai ainda fez mais alguns telefonemas, todos eles em vão. De vez em quando vinha até à entrada da sala e trocávamos olhares de desânimo.

Foste ver o Pierre? perguntou-me ele depois de suspirar prolongada e profundamente.

Fui. Está a dormir. Mal comeu.

O meu pai acenou que sim com a cabeça, olhou para o seu relógio de pulso e voltou para o seu gabinete onde, eu sabia, estava a beber para se entorpecer.

Por fim, eram nove e meia, vi uma figura atravessar a rua e aproximar-se do nosso portão. Ao ficar visível sob a luz vi, no entanto, que não era a minha mãe. Tratava-se de uma rapariga negra muito alta e magra, envergando uma saia preta comprida e uma camisola cinzenta. Ao ver que vinha bater à porta, levantei-me cheia de expectativa, mas Aubrey atendeu antes de mim. Penso que se sentia tão nervoso como eu em relação ao desaparecimento da minha mãe. Quanto ao meu pai, ou não ouvira a campainha ou já estava demasiado perturbado para se inteirar de quem era.

Sim? perguntou Aubrey.

Tenho uma carta para entregar, senhor replicou a rapariga, com sotaque francês. Pediram-me que a entregasse pessoalmente a Mademoiselle Pearl ou a Monsieur Andreas acrescentou com firmeza.

Pode dar-ma, fá-la-ei chegar a uma dessas pessoas disse Aubrey, estendendo a mão.

Desculpe, senhor, mas tenho de a entregar pessoalmente insistiu a jovem.

Aubrey estava prestes a responder quando eu me acerquei.

Deixe estar, Aubrey, eu atendo. Sou a Pearl Andreas. Faça favor de dizer.

A rapariga analisou-me durante algum tempo e depois anuiu. Parecia não ter mais de catorze ou quinze anos, mas tinha um ar tão confiante e decidido que sugeria ter mais idade. Possuía uma pele muito lisa e luzidia, uns olhos negros enormes que captaram a luz da entrada e brilhavam como ónix polido.

Pediram-me que lhe entregasse isto disse, passando-me uma carta.

Peguei imediatamente no sobrescrito. Não trazia o nome do destinatário nem o do remetente.

Quem foi que a mandou?

Vem tudo explicado na carta informou a rapariga. Não sorriu; porém, mergulhou o seu olhar no meu com tal intensidade que tive a impressão de que devassava a minha própria alma. Depois presenteou-me com um pequeno sorriso de lábios fechados, virou-se e seguiu o seu caminho. Vi que acelerava o passo sobre as lajes do pátio, desaparecendo no meio da escuridão de onde tão repentinamente emergira.

Aubrey ficou à espera ao meu lado, com uma expressão de grande preocupação.

Está tudo bem, Aubrey tranquilizei-o. Fechou a porta e voltou para a sua área.

Reparei melhor no sobrescrito e vi que tinha uma espécie de pó avermelhado na orla. Abri-o rapidamente, verificando que a carta era endereçada ao meu pai e a mim e que a letra era da minha mãe.

O meu coração parou e depois recomeçou a bater violentamente. Sem ler as primeiras palavras, abri a porta da frente e desci os degraus a correr. Atravessei as lajes e desemboquei na rua precisamente na altura em que a rapariga negra dava a volta à esquina mais afastada. Caminhava muito depressa.

Espere! gritei; porém, ela não me ouviu. Corri pela rua, no seu encalço. Ao virar a esquina, vi-a dirigir-se para o eléctrico.

Espere! voltei a gritar, descia o eléctrico pelos carris da estação. Por favor, mademoiselle, espere!

Corri o mais depressa que pude. A jovem virou-se e olhou para mim ao subir para o eléctrico, mas não se deteve. Entrou, e a porta do veículo fechou-se quando eu ia a chegar junto dele. Vi a rapariga sentar-se num banco de trás, ao lado de uma janela aberta. Olhou para mim. Agitei a carta e corri ao lado do eléctrico.

Onde é que ela está? É a minha mãe! Onde está? gritei.

A rapariga fitou-me do lado de lá da janela, mas não disse uma palavra.

Por favor! implorei, já com o eléctrico a afastar-se. De repente, a jovem atirou-me algo pela janela, algo que saltitou sobre a relva, à minha frente, precisamente na altura em que o eléctrico virava a esquina e desaparecia. Parei para retomar o fôlego. O meu coração pulsava doidamente no meu peito, batendo com tanta força que eu tinha a impressão de que as minhas costelas iriam rebentar. Arquejante, avancei, tentando ver onde o objecto caíra. Fosse o que fosse, estava dentro de um pequeno saquinho de pano. Peguei nele e puxei o cordel, fazendo uma pausa para olhar na direcção do eléctrico. Que teria aquilo a ver com a minha mãe?

Senti um volume duro no interior do saquinho e tirei-o, cuidadosamente. Mal pousei os olhos nele, soltei um grito e deixei-o cair. Era a cabeça de uma serpente. Tive a impressão de que o coração me saltava para fora do peito e me subia à garganta. Fiquei escarlate e, por momentos, era como se tivesse entrado num forno. As pessoas que passavam abrandavam o passo, olhando para mim. Tenho a certeza de que parecia enlouquecida e histérica, arquejando, chorando, sacudindo a cabeça. Por fim recuperei algum controlo, voltei-me e corri para casa.

Mal entrei, atravessei apressadamente o corredor, em direcção ao gabinete do meu pai. Este encontrava-se sentado à sua secretária, a olhar para um retrato de si mesmo ao lado da minha mãe, que esta pintara de uma fotografia. Tinha a garrafa de uísque na mão direita.

Pai! A mãe mandou-nos uma carta! declarei.

Ele voltou-se com lentidão. Tinha o rosto sulcado de lágrimas, que limpou rapidamente com as costas da mão.

De que carta falas?

Uma rapariga veio aqui entregá-la à porta. Tentei correr atrás dela para lhe fazer perguntas, mas subiu para o eléctrico antes de conseguir detê-la. Quando lhe gritei que me dissesse onde a minha mãe estava, atirou-me uma coisa horrorosa pela janela.

Horrorosa? O que era?

Era um saquinho com uma cabeça de serpente dentro respondi, chorando.

Uma cabeça de serpente? Que primitivo!

E há pó vermelho no sobrescrito acrescentei, erguendo-o para que visse.

Pó vermelho, mais uma arte vudu observou o meu pai com uma expressão de desagrado. Onde é que ela está? Que diz a carta?

Não sei, ainda não a li.

Bem, então fá-lo ordenou, chegando-se para a frente na sua poltrona.

Virei-me para o candeeiro mais próximo e abri a carta.

Meu adorado marido Beau e minha adorada filha Pearl.

Quando receberem esta carta já estarei muito longe. Digo-vos isto para que não andem a correr a cidade de alto a baixo para tentarem levar-me para casa. Foi por isso que esperei até agora para vos escrever.

Sei que não acreditam com a mesma veemência que eu nos poderes do desconhecido, o que não admira visto os dois não terem crescido num mundo regido por estas crenças. Sou neta de uma verdadeira traiteur e, como tal, possuo uma certa capacidade de visão. Agora sei-o, mais que nunca.

Ontem à noite falei com a falecida. A voz da Nina era límpida e o seu espírito estava em mim. Lamentou não ter podido falar-me antes da tragédia. Acha que poderia tê-la evitado.

Vejam-me só o estado de espírito com que ela está! comentou o meu pai. Essa gente envenenou os pensamentos da minha Ruby, aproveitou-se dela quando estava de luto, debilitada e vulnerável. Meto-os a todos na cadeia declarou, enraivecido.

Há mais, pai disse eu, erguendo o papel com os dedos trémulos.

Continua pediu, baixando a cabeça num gesto de derrota.

Embora não pudesse impedir o que aconteceu ao Jean, tenho poderes para evitar que entre mais azar na nossa vida, magoando aqueles que eu amo. A Nina deu-me instruções específicas para arrancar a camada de maldade espalhada sobre o nosso lar e a nossa vida, maldade nascida dos meus pecados.

Estas instruções requerem que eu saia de casa, provavelmente para sempre. Penso que dependerá do Destino. Não quis partir com tanta brusquidão, mas sabia que, se falasse disto a algum de vós, tentariam impedir-me.

Já pudemos ver o que estes rituais podem fazer por nós. Desde que eu me mantenha no caminho que me foi destinado, o Pierre continuará a melhorar.

Rogo a ambos que não tentem seguir-me ou deter-me. No entanto, quero que os dois tenham a certeza do muito que vos amo e de quão difícil isto está a ser para mim.

Confio em ti, Pearl, para que sejas a força que eu não consegui ser. Fica junto do teu pai e do teu irmão e ajuda-os.

Beau, meu querido, tenta perdoar-me e acreditar no que te digo. Se tiver a tua confiança, enfrentarei os dias vindouros com mais força, assim como a batalha que se avizinha. Sentirei a tua fé em mim.

Não poderei ver-vos, falar-vos ou escrever-vos até completar a minha missão. Só o faço porque vos amo a todos mais do que a mim mesma. O meu sofrimento não será em vão se com ele eu comprar felicidade e saúde para a minha família.

Gosto muito de vocês.

Ruby.

Baixei as mãos e olhei para o meu pai. Lágrimas quentes corriam-me livremente pelas faces, pingando do meu queixo.

O meu pai ficou a olhar em frente durante alguns instantes e depois recostou-se.

Pois bem disse, por fim, aí está. Precisamente o que eu já temia e suspeitava. Quem sabe para onde ela terá ido ou o que estará a fazer?

Temos de a encontrar, pai, e trazê-la para casa.

Encontrá-la repetiu ele iradamente. Aquela gente fecha-se em volta dos seus como amêijoas. Não falarão connosco, não nos dirão absolutamente nada.

Pegou na garrafa de uísque quase vazia e serviu-se de nova dose.

Talvez caia em si e nos telefone murmurou.

Pai, temos de chamar a Polícia. Toda esta tristeza e tragédia deu-lhe volta à cabeça. Eles entenderão e ajudar-nos-ão declarei.

O meu pai sacudiu a cabeça.

Pura perda de tempo.

Não, não é insisti. Não suporto a ideia de a saber sob a influência dessa gente. Se não os chamares, eu o farei.

Que tencionas dizer-lhes? Que a tua mãe foi-se embora para ir praticar rituais vudu sabe-se lá aonde? perguntou com ar desdenhoso.

Exactamente.

Não te levarão a sério, Pearl. Têm problemas muito mais urgentes para resolver nesta cidade.

Vale a pena tentar, pai. Tomou um grande gole de uísque.

Pai! Não podes ficar aí sentado dia e noite a embebedares-te até adormeceres gritei.

Ela foi-se embora, fugiu, regressou ao seu passado bizarro, e o meu filho morreu proferiu. O meu menino desapareceu. O meu outro está catatónico. O que foi que eu fiz para merecer isto?

Deixa de lamentar-te a ti próprio, pai. A mãe precisa de nós.

O meu pai encostou o queixo ao peito. Senti a raiva a tomar conta de mim. O que acontecera aos meus pais fora terrível, sem dúvida, ninguém devia passar por semelhante tragédia; porém, se o meu pai não encontrasse uma reserva de força da qual retirar nova energia e determinação, os acontecimentos terríveis não se ficariam por ali. A minha mãe pedira-me para ser forte. Se para isso era preciso raiar a crueldade, paciência, pensei.

É assim que enfrentas todas as crises por que passas, pai? Deixando-te ficar no meio delas? escarneci. Foi por isso que fugiste para a Europa, deixando a mãe grávida de mim?

Ergueu a cabeça bruscamente, franzindo as sobrancelhas como se as minhas palavras fossem minúsculas facas.

Não, eu...

Tu deixaste-a sozinha, a enfrentar a raiva e a desconsideração. Ela reuniu as suas forças e regressou ao Hayou e conseguiu aguentar-se a ela e a mim, enquanto tu frequentavas restaurantes caros e festas de arromba na Europa. Agora quando ela volta a precisar de ti, ficas aí a emborcar uísque e lamuriares-te com o que te aconteceu.

Por favor, Pearl, eu não fui nem sou assim, defendeu-se.

Então, recompõe-te e procuremos a mãe. Telefona à Polícia, exigi friamente, falando com grande determinação.

O meu pai anuiu, ficando sóbrio de imediato.

Está bem concordou. Talvez tenhas razão. Começaremos pela Polícia.

Endireitei os ombros e limpei as lágrimas com as costas da mão.

Vou ver como o Pierre está. É principalmente por ele que temos de encontrar a mãe e trazê-la para casa.

O meu pai mordeu o lábio inferior e acenou com a cabeça.

Dei meia volta, saí do gabinete e subi as escadas sem mais delongas, para que ele não reparasse no quão penoso era, para mim, tratá-lo com tamanha dureza. Ao chegar ao patamar, tive de parar um pouco para recuperar o fôlego e abrandar o ritmo cardíaco.

No quarto de Pierre, Mrs Hockingheimer dormitava na sua poltrona. Ao ouvir-me, abriu imediatamente os olhos.

Como vai ele? perguntei em voz baixa.

O rosto do meu irmão estava em repouso, porém, tinha os lábios retorcidos, certamente em reacção a algum pesadelo, pensei.

Tem sido um sono agitado informou-me a enfermeira. Não consegui que comesse mais, mas bebeu um pouco de água. Senti-o um pouco quente, embora não lhe tenha encontrado febre.

Muito bem disse eu tristemente.

Mademoiselle, chamou-me, quando eu ia a sair Ele murmurou algo.

Que foi?

Chamou pela mãe. Posso perguntar onde ela está? Mrs Hockingheimer não estava a ser bisbilhoteira. Qualquer pessoa teria o direito de se admirar pelo facto de a mãe de Pierre não se encontrar ao seu lado, pensei.

A nossa mãe ficou muito perturbada com toda a tragédia por que passámos. Considera-se responsável e desapareceu. Temos de ligar para a Polícia e...

os meus lábios começaram a tremer incontrolavelmente. Era como se o meu rosto se tivesse rebelado. Não conseguia pronunciar as palavras, que me ficavam atravessadas na garganta.

Mrs Hockingheimer viu o que estava a acontecer e levantou-se imediatamente para se aproximar de mim.

Pobre menina, não quis perturbá-la disse, abraçando-me.

Ninguém a viu. O meu pai e eu estamos quase loucos. Vamos telefonar para a Polícia sem demora.

Lamento muito. Vá, vá incentivou, dando-me palmadinhas suaves na mão. Tem de se manter forte. Não se preocupe com o Pierre. Vigiá-lo-ei permanentemente.

Fico-lhe grata. Mistress Hockingheimer agradeci, respirando fundo.

Mrs Hockingheimer limpou-me as lágrimas que teimavam em não me sair das faces e sorriu.

É uma mulher forte. Arranjará maneira de socorrer a sua mãe asseverou-me.

Voltei a agradecer-lhe e desci para receber a Polícia, juntamente com o meu pai.

Apareceram-nos à porta um detective e dois agentes de patrulha. O primeiro disse ser o tenente Ribocheaux. Era alto como o meu pai, mas de ombros muito mais largos e maxilar quadrado. Fazia lembrar um ex-jogador de futebol. Os agentes ficaram à entrada do gabinete, ouvindo o meu pai relatar ao detective o desenrolar dos terríveis acontecimentos. Mostrou-lhe a carta da minha mãe e depois coube-me a mim relatar-lhe a visita por esta feita ao cemitério. Eu ainda não falara dos pormenores ao meu pai, que ficou com uma expressão muito assustada ao ouvir-me referir o guincho, o gato preto, o facto de a minha mãe andar com uma vela na mão e os sussurros.

Já tinham visto essa rapariga negra que trouxe a carta? perguntou o tenente Ribocheaux. Também se encontrava no cemitério ou na tal casa aonde a sua mãe foi ver a falecida?

Não, senhor.

E quando correu atrás dela, diz que ela lhe atirou uma cabeça de serpente pela janela do eléctrico?

É verdade. Larguei-a imediatamente. É provável que ainda esteja no mesmo sítio. Posso mostrar-lha.

Imagino que seja uma daquelas lembranças que os turistas compram nas lojas de vudu do French Quarter, observou o detective.

Ainda assim, não seria capaz de a trazer para casa.

Compreendo, afirmou ele. sorrindo Virou-se para os polícias uniformizados. Ted e Billy, vão lá dar uma olhada. Talvez ainda lá esteja, e assim sendo poderá fornecer-nos alguma pista.

Depreendi, pelo ar que fizeram, que só concordavam em realizar aquela tarefa por deferência para comigo. Indiquei-lhes o sítio exacto onde deveria ter ficado, e eles partiram.

O tenente Ribocheaux voltou-se para o meu pai.

Monsieur Andreas, a sua esposa estava sob cuidados médicos?

Não no sentido que penso estar a referir-se replicou o meu pai, mas o nosso médico de família prescrevera-lhe sedativos.

O tenente Ribocheaux puxou do seu bloco de notas.

Imagino que já tenha telefonado a todos os seus amigos, a pessoas que ela poderia ter ido ver, não?

Todas aquelas de que conseguimos lembrar-nos respondeu o meu pai. Ninguém sabia dela nem a vira.

Parentes?

Presentemente não temos nenhuns em Nova Orleães. Os meus pais encontram-se na Europa, a passar o Verão.

Bem, onde moram os vossos familiares mais chegados?

A família da minha mulher é do Hayou, nos arredores de Houma, mas ela não iria ter com eles declarou o meu pai.

As relações não são muito cordiais.

Com excepção da tia Jeanne, lembrei-lhe.

Sim, mas não me parece que a tua mãe fosse ter com ela

observou o meu pai.

Muito bem disse o tenente Ribocheaux. Dêem-me a morada dessa casa dos Jackson.

Assim fiz e o detective guardou-a imediatamente.

Iremos fazer-lhes uma visita prometeu. Entretanto, agradeço que me disponibilizem uma fotografia recente de Madame Andreas. Também gostaria de falar com o mordomo, para obter uma descrição do que levava vestido quando a viram pela última vez.

O meu pai fez-me sinal e eu fui chamar Aubrey. Este mostrou relutância em fornecer ao detective pormenores bizarros relacionados com o comportamento da minha mãe; porém, eu incentivei-o a ser o mais preciso possível. O tenente Ribocheaux tomou mais apontamentos.

Os agentes regressaram. Tinham encontrado a cabeça de serpente mas, tal como o tenente Ribocheaux previra, nada tinha que a diferenciasse.

Tal como eu já desconfiava, não difere das que se podem comprar no estabelecimento da Marie Laveau. Alguém andou a brincar consigo.

Se isso é verdade, foi uma grande crueldade repliquei.

Depois de os polícias se retirarem, sentei-me com o meu pai no gabinete.

Não acredito muito que a encontrem, Pearl. Mandarão um carro-patrulha dar uma volta por aí, é certo, mas só se a tua mãe lhes aparecer mesmo à frente... Conheço essa gente ligada ao vudu. Convencem-se de que estão a fazer algo de espiritual e de bom. Não quererão que a tua mãe seja encontrada e trazida de volta. Isso poderia quebrar não sei que magia.

Talvez também devêssemos ir a casa da irmã da Nina sugeri, e não arrancar pé de lá até nos dizer a verdade.

Não nos servirá de nada. Ao menos a Polícia sempre dispõe de alguma autoridade. Que tal ires-te deitar, querida? Não faz sentido estarmos aqui os dois a pé e preocupados a noite toda. Além disso, preciso que estejas forte e cheia de saúde para os dias que se aproximam.

Não vais ficar aqui em baixo a noite toda, pois não, pai? perguntei, olhando para a garrafa de uísque.

O meu pai viu onde eu fixara o olhar.

Não bebo mais prometeu. Tenho de estar alerta, para o caso de sermos precisos.

Levantei-me e aproximei-me dele. Abraçámo-nos e ele manteve-me apertada contra si mais tempo que o habitual, antes de me soltar e voltar a recostar-se.

Boa noite, pai.

Boa noite, princesa. Obrigado por me fazeres recuperar a razão disse-me, sorrindo. Há bocado, tive mesmo a impressão de que estava a olhar para a tua mãe quando tinha a tua idade.

Dei-lhe mais um beijo e afastei-me. Ao chegar à porta, virei-me. O meu pai voltara de novo a poltrona para a direcção anterior e continuava a olhar fixamente para o retrato da minha mãe, interrogando-se, certamente, sobre se alguma vez voltariam a viver tempos tão felizes e maravilhosos como aqueles em que o retrato fora pintado.

Quando fui espreitar Pierre, tanto ele como Mrs. Hockingheimer dormiam profundamente, pelo que fechei a porta suavemente e segui para o meu quarto. Quando ia a meter-me na cama, Sophie telefonou. Contei-lhe o que acontecera, até à altura em que a rapariga negra atirara a cabeça de serpente pela janela do eléctrico.

Não percebo muito de vudu disse-me Sophie, mas a minha avó é uma perita. Se quiseres, pergunto-lhe.

Reflecti na questão. Começava a concordar com o meu pai, ou seja, quanto mais gente envolvêssemos no sucedido, mais baralhados e confusos ficávamos. Até ali, aquilo só servira para me encher a cabeça de maus pensamentos e de me dar pesadelos.

Não, obrigada, é melhor não.

Se quiseres posso ir aí ter contigo e ajudar-te a procurar propôs.

Agradeço-te, mas eu própria nem saberia por onde começar. Esperaremos pelo que a Polícia diz amanhã.

Talvez ela volte para casa esta noite.

Oxalá.

Rezarei por ti e pela tua família disse a jovem.

"Que ironia", pensei. Ainda há poucas semanas, Sophie ficara a olhar, da janela do eléctrico, para o Garden District com ar de inveja, enquanto eu lhe dizia adeus antes de me dirigir para casa. Tinha a certeza de que teria dado qualquer coisa para trocar de lugar comigo. Agora eu é que era objecto da sua compaixão e simpatia. "O dinheiro proporciona conforto às pessoas mas não as torna felizes", pensei.

Obrigada, Sophie.

As lágrimas vieram-me aos olhos só de pensar que nenhuma das minhas amigas de liceu, da chamada alta burguesia, telefonara ou aparecera, enquanto a mais recente delas, a mais pobre de todas, se preocupava o suficiente para disponibilizar o seu tempo livre para me ajudar.

Depois de desligar, juntei as mãos debaixo do queixo e também disse uma oração. Rezei pela minha mãe, por Pierre, pelo meu pai e para ter força suficiente para os ajudar a todos. Depois tentei dormir. Fiquei às voltas na cama durante horas, até adormecer, mas o meu sono foi inquieto e continuamente interrompido. Era frequente eu acordar com um sobressalto, esforçando-me intensamente por ouvir alguma porta a abrir-se ou um telefone a tocar. Ansiava por escutar a voz da minha mãe no corredor ou pelas escadas acima; no entanto, só me chegava o silêncio mortal da morgue em que a nossa casa se transformara.

Pela manhã, o meu pai tinha um ar desgrenhado e mal dormido. Ficara, sem dúvida, quase toda a noite a pé. Fora no sofá do seu gabinete que dormira o pouco que conseguira. Fiz com que comesse um pequeno-almoço substancial e depois convenci-o a ir tomar um banho. Mrs. Hockingheimer levantara e lavara Pierre. Fê-lo comer parte do seu pequeno-almoço, mas ele mostrava o mesmo olhar vazio, a mesma expectativa quando eu entrei. Falei-lhe durante algum tempo. Os seus lábios tremeram e depois formaram a palavra "mãe". Controlei a sensação dolorosa no coração e contive as lágrimas.

Convenci o meu pai a telefonar ao tenente Ribocheaux a fim de saber se havia novidades; porém, estava tudo na mesma. O meu pai desligou o telefone e fitou-me com a exaustão e a frustração estampadas no rosto.

Eu bem te disse que não nos serviria de nada chamar a Polícia disse. Eles não encaram essa questão do vudu a sério e, quando um adulto desaparece, não ficam muito preocupados. Claro que prometem procurá-lo.

Não suporto ficar aqui parada à espera, pai. Temos de fazer qualquer coisa.

O quê, querida? Percorrer a cidade?

Não acredito que ela ainda esteja por cá observei. Acho que devíamos ir ao Hayou.

O meu pai riu-se.

Servir-nos-ia de muito, tu e eu, dois citadinos a tentar encontrar alguém no meio dos pântanos. Se a esperança de o fazermos aqui, onde conhecemos o território, é escassa, imagina o que poderíamos conseguir indo até lá? Eu nem sequer saberia por onde começar.

Reflecti por um momento, recordando as histórias que a minha mãe contava, e depois olhei para o meu pai com renovado entusiasmo e esperança.

Começaremos pela cabana, disse.

Cabana?

A velha cabana para onde voltou quando engravidou de mim. Ela acredita em espíritos. Portanto, de certeza imagina que o da sua grandmère Catherine ainda lá está, ou até mesmo o da mãe dela, a minha avó.

Deixa-me ver o quadro que ela pintou, lembrou-se o meu pai.

Fomos até ao estúdio, onde ele ficou a olhar para o quadro durante algum tempo, com ar pensativo.

Em que estás a pensar, pai?

O que foi que aquela velha doida, a irmã da Nina, nos disse...? Que a Ruby fora para onde quer que a maldição começara. Na cabeça dela isso poderia perfeitamente ser o Hayou. Sobretudo quando olho para este quadro. Vou telefonar à Jeanne.

Voltou ao seu gabinete para o fazer. Eu segui-o e fiquei à porta à espera, enquanto ele falava com a irmã do tio Paul.

A tia Jeanne não tivera conhecimento da morte de Jean. Essa notícia já foi suficiente para a desmoralizar. A seguir o meu pai falou-lhe do desaparecimento da minha mãe. Aguardei, esperançosamente, ao lado do meu pai; no entanto, pude depreender, pela conversa, que não vira nem soubera da minha mãe, nem ela nem nenhum conhecido seu.

O meu pai pousou o auscultador e abanou a cabeça.

Bem, pelo menos sabemos que para o Hayou ainda não foi concluiu, recostando-se.

Ainda assim devíamos ir lá, pai.

Não sei.

É melhor do que ficarmos aqui sentados a olhar um para o outro sem esperança. Peço-te. Vamos até lá e procuremos. Pode ter acabado de chegar ou então estar nalgum sítio de que os Tate não saibam. Eles não foram ver à velha cabana.

O meu pai ficou pensativo.

Está bem aquiesceu. É capaz de valer a pena e tu realmente tens razão. Estarmos para aqui de braços cruzados, à espera de que o telefone toque, está a dar cabo de nós.

Vou lá acima avisar Mistress Hockingheimer e o Pierre do que tencionamos fazer, para que não estranhem a nossa ausência, disse.

Boa ideia. Vou buscar os mapas que tenho do Hayou. Há muito que não vou até àquelas paragens.

O facto de termos uma estratégia e algo de concreto para fazer trouxe esperança aos nossos corações e renovou-nos a energia. Apressei-me a ir ao piso de cima para mudar de roupa e a seguir fui ver Pierre.

Ia mesmo agora ter consigo e com Monsieur Andreas disse-me Mrs. Hockingheimer mal me viu. Não gosto da maneira como o Pierre está sempre a adormecer; além disso, agora até a água se recusa a beber.

Oh, Pierre disse eu, sentando-me na beira da cama e pegando-lhe na mão. Ele não desviou o olhar da parede. Não podes continuar a fazer isto a ti próprio. Tens de recuperar as forças e ficar bom. Precisamos de ti para ajudar a mãe. O pai e eu vamos buscá-la para vir para casa e ficar junto de ti, mas tens de comer e beber para teres força quando ela voltar. Peço-te por tudo, implorei. Por favor, faz um esforço.

Pierre começou a pestanejar mais rapidamente e respirou fundo. Passei-lhe a mão pelo cabelo.

Prometes fazer isso, Pierre? Prometes?

O rapazinho não respondeu, mas pareceu-me notar mais animação e vivacidade nos seus olhos.

Estaremos fora a maior parte do dia, Mistress Hockingheimer, mas daqui a algumas horas telefonaremos para cá.

Pedirei à médica que passe por aqui esta tarde prometeu a enfermeira.

Óptimo.

Boa sorte, minha querida.

Obrigada.

Olhei para Pierre, que movia os lábios, e sentei-me de novo ao seu lado, aproximando o ouvido da sua boca.

A mãe... a mãe foi buscar o Jean, sussurrou. Aquelas palavras enregelaram-me o coração. Por instantes, não fui capaz de falar ou engolir.

Oh, Pierre querido, gemi.

Abracei-o, beijei-o e embalei-o entre os meus braços. Depois limpei as lágrimas e saí apressadamente do quarto, esperando, de todo o coração, encontrar a minha mãe e trazê-la para casa, onde era o seu lugar.

 

O MEU MUNDO "CAJUN"

Quando o meu pai e eu saímos da cidade, em direcção a Terrebonne Parish e Houma, a cidade de origem da minha mãe, senti-me dominar por um torpor paralisante. Já lá não ia desde criança. Os problemas que tivéramos com os pais do tio Paul, desde o famoso julgamento para determinar a quem caberia a custódia da minha pessoa, tinham erguido uma barreira quase intransponível em torno daquela zona do Hayou. A produção do poço de petróleo que o tio Paul deixara em meu nome proporcionara-me um rendimento considerável; porém, eu nunca vira o referido poço, pois ficava em Cypress Woods e nem o meu pai nem a minha mãe haviam jamais reunido coragem suficiente para lá voltar. Pelo menos até àquela altura.

A disputa sobre a propriedade impedira todos de a usufruir, embora o meu pai tivesse jurado jamais lá regressar e, ao que parecia, a minha mãe ter recordações muito tristes que seriam revividas naquelas salas enormes. O que era verdade para eles também o era, aparentemente, para Octavious e Gladys Tate, pois estes nada tinham feito relativamente à mansão. A tia Jeanne dissera que a mãe dela desejara conservá-la como um monumento à memória do tio Paul.

A minha mãe podia ter voltado para a cabana onde ela e a sua grandmère Catherine tinham vivido e onde eu nascera mas, tanto quanto eu sabia, já tinham decorrido muitos anos desde a ultima visita. Quando lhe perguntava porquê, respondia que nenhuma das amigas da grandmère Catherine era viva; portanto, não havia pessoas que gostasse de rever.

Sempre que me falava do seu passado e me contava histórias, eu ficava fascinada. Havia muitos aspectos, relacionados com os seus antecedentes, que eu considerava interessantes mas que, no entanto, eram nitidamente penosos para ela. Teria gostado de saber o quanto lhe custara empreender aquela jornada naquela altura, se é que a fizera. Mesmo obedecendo ao conselho dado por alguém que falava do lado de lá do túmulo, devia ter-lhe sido extremamente difícil.

Durante a primeira parte da viagem, nem o meu pai nem eu falámos muito. Imagino que fôssemos os dois perdidos nos nossos pensamentos e nos nossos receios. O dia revelara-se particularmente frio e nebulado. Na sua maioria, as nuvens eram longas, largas e enfunadas e, quando alguma passava em frente do Sol, as sombras adensavam-se e espraiavam-se sobre a auto-estrada e os campos à nossa volta. Os restaurantes de beira de estrada, assim como os postos de venda de frutas e legumes foram escasseando cada vez mais. Começaram a aparecer garçotas e pelicanos castanhos ao longo das margens dos canais e de vez em quando via-se um velho barco camaroeiro a enferrujar e a apodrecer no meio dos arbustos rasteiros.

Não tardou que as casas erguidas sobre toros de madeira começassem a aparecer com mais frequência, algumas com crianças a brincar nos pátios, outras com mulheres cajuns sentadas nos seus alpendres a conversar enquanto descascavam ervilhas para dentro de potes de ferro forjado ou entreteciam cestos de tiras de madeira de carvalho e chapéus de palmito, para vender aos turistas. Ao ouvirem-nos passar, levantavam a cabeça. Mesmo à nossa frente, três pescadores, de barbas longas e emaranhadas, emergiram de um pântano, de canas de pesca ao ombro.

De repente, dei em pensar como o mundo de onde a minha mãe viera era diferente daquele em que naquele momento vivíamos. Como devia ter sido assustador deixar, em idade tão jovem, aquele mundo por sua própria iniciativa e entrar num outro, de gente rica e sofisticada. Devia ter sido o mesmo que ir para outro país. Porém, não tivera outra hipótese. Na esperança de ser salva, fugira do seu avô alcoólatra.

Agora voltara a esse mundo cajun, igualmente na esperança de ser salva, e nós íamos a correr para ali, esperando poder salvá-la. A vida parecia decorrer em círculos. Respirei fundo e virei-me para o meu pai, que me sorria de maneira estranha.

Porque sorris dessa maneira, pai? perguntei.

Estava a pensar que a tua mãe tem muita confiança em ti. Transformaste-te numa mulher forte e espantosa comentou. Outras raparigas da tua idade provavelmente ficariam em casa a lamuriar-se, mas tu não. Se calhar herdaste essa genica do lado cajun da tua mãe.

E quanto à tua família, pai?

A minha família? Ora, toda ela se estragou de tanta abundância e eu também não me saí melhor por ter nascido em berço de ouro. Teria sido bem melhor se fosse cajun.

Quando é que estiveste aqui pela última vez, pai?

Penso que foi durante o julgamento pela tua custódia. Antes disso, quando a tua mãe vivia em Cypress Woods, dei um passeio até cá. Era um lugar lindo. Sentia muitos ciúmes admitiu. E estava apavorado.

Apavorado? Porquê?

Achava que a tua mãe possuía tudo o que alguma vez poderia desejar, que jamais a conquistaria de volta. Além do lugar maravilhoso em que vivia, tinha um estúdio magnífico e um homem que a idolatrava. E que tinha eu? A Gisselle, que não fazia outra coisa senão queixar-se.

Riu-se.

Qual é a graça?

Certa vez eu e a Gisselle fomos até Cypress Woods e o tio Paul levou-nos a todos a dar uma volta pelos pântanos. Depois disso, a Gisselle teve pesadelos durante semanas.

Porquê?

Por causa dos aligatores e dos insectos. A Ruby e a Gisselle eram gémeas, claro, mas eram diferentes como a noite do dia, respondeu.

Não deve ter sido fácil para a minha mãe fazer-se passar pela Gisselle, já que eram tão diferentes, observei.

Era uma parte da história da minha família que sempre me intrigara: a minha mãe assumir a identidade de Gisselle depois de esta adoecer com uma encefalite e a troca se efectuar.

Nem imaginas quanto! Eram como o Doutor Jekyll e Mister Hyde. A Ruby tinha de falar e agir como a Gisselle. Eu contratara empregados novos para, ao menos enquanto estava junto da criadagem, ser ela mesma. A Gisselle era sempre desagradável para com aqueles que considerava abaixo de si, e a Ruby teve de os tratar com a mesma frieza. Sei que a tua mãe ficou aliviada por poder voltar a ser ela mesma quando o ardil foi desmascarado.

"Agora vejamos disse, estudando a estrada que se estendia em frente. Sei que devemos estar a chegar a uma curva.

Abrandou e parou para consultar o mapa.

Entráramos já no meio da zona do Hayou. A vegetação era muito densa em ambos os lados da estrada e eu via as canas por entre os arbustos e as tábuas. Ao baixar o vidro da minha janela, chegou-me o canto das cigarras e das rãs-arborícolas no pântano.

A princípio não reparei mas, ao passear o olhar pelos arredores, vi aparecer uma cabana por trás de um amontoado de salgueiros-chorões. A velha habitação de madeira encontrava-se oculta por bananeiras. O pátio, ou o que restava dele, estava atravancado de peças de automóveis e máquinas. Ao lado da casa, perto da margem, via-se uma piroga meio submersa. Que teria acontecido às pessoas que viviam ali, perguntei a mim mesma. Teriam sido parentes meus? Teria ali existido alguma rapariga da minha idade, tão curiosa sobre a minha vida em Nova Orleães como eu sobre a dela ali?

Muito bem, agora já me lembro afirmou o meu pai. Descemos a estrada à esquerda e mais adiante virámos outra vez à esquerda. A cabana fica a cerca de quilómetro e meio da estrada. Pronta?

Sim, pai.

Tinha os meus dedos cruzados.

Seguimos em frente. Uma abertura no meio da vegetação permitiu-me ver um homem jovem a remar numa piroga. Deslizou até uma enorme ilha feita de nenúfares de folhas largas e flutuantes, de onde uma dezena de grandes rãs saltaram, caindo à volta dele e fazendo a água soar como bolhas a rebentar. Só lhe vi o rosto de relance; no entanto, pareceu-me digno de uma estátua, queimado pelo sol e esboçando um sorriso de profundo prazer.

Voltámos pela segunda vez à esquerda e o meu pai anunciou:

Cá estamos!

O meu coração começou a bater mais depressa. Encontraríamos a minha mãe sentada na varanda, a deambular pela cabana ou instalada dentro desta? Esperava que ficasse surpreendida, mas contente, por irmos ter com ela. Parámos e o meu pai desligou o motor. Durante um momento prolongado, limitámo-nos a ficar ali sentados, a olhar para aquela espécie de casa.

Eu não ia preparada para o que via. Imagino que tivesse formado uma ideia romântica da cabana na minha cabeça durante anos. A maioria das minhas recordações eram vagas, mas sempre que a recordava, visualizava uma linda casinha no topo de paus, com um prado verdejante e lindamente florido a rodeá-la. Via-a acabada de pintar e com o telhado de metal a brilhar ao sol do meio-dia. Nas minhas memórias, o canal corria mesmo por trás da casa. Os pelicanos e as garças pairavam por ali, as bremas e as carpas saltavam para apanhar insectos e as cabeças dos aligatores assomavam, enquanto nos miravam com olhos curiosos.

Em vez disso, deparámos com o pátio da frente cheio de mato, onde até as ervas daninhas estavam a morrer de tão abafadas. A varanda inclinava-se para a direita e a cabana para a esquerda. Algumas das tábuas tinham-se desprendido e todas as janelas apresentavam os vidros partidos, provavelmente devido à rapaziada, que se entretivera a atirar-lhes pedras.

Apesar de tudo, as minhas recordações de infância vieram à superfície. Tive um vislumbre da varanda onde me deixava embalar numa cadeira de balouço enquanto, da sala de estar, chegava até mim música de rádio. A banca de beira de estrada onde a minha mãe vendera os seus chapéus entretecidos, cestos, geleias e compotas jazia, aos pedaços, no meio da erva alta.

Não parece que nos últimos tempos tenha vindo aqui alguém comentou o meu pai.

É melhor darmos uma vista de olhos, pai sugeri. Ele anuiu, apertou-me a mão, e abriu a porta.

Tem cuidado recomendou-me quando o segui.

No entanto, ao chegarmos ao carreiro da frente, quase indistinto, parámos. Dava a impressão de que alguém caminhara por ali recentemente. O meu pai e eu entreolhámo-nos e depois acelerámos o passo em direcção à varanda. A pequena escada rangeu e os degraus vergaram sob o nosso peso, assim como as tábuas do chão. O meu pai entreabriu a porta da frente. As velhas dobradiças enferrujadas chiaram e ela oscilou.

Quando íamos a entrar, algo se refugiou rapidamente no interior, fazendo-me dar um salto e um grito.

Deve ser um guaxinim sussurrou-me o meu pai.

O meu coração batia tanto que tive a impressão de que o fôlego me faltava. No ar pairava um cheiro desagradável e havia montes de teias de aranha no tecto e nas paredes; porém, a velha mobília ainda ali estava. O meu pai e eu parámos e olhámos para a sala de estar, onde nos encontrávamos. Depois baixei os olhos para o chão e chamei a atenção do meu pai puxando-lhe pela manga da camisa.

Pai, alguém esteve aqui há pouco tempo. Estás a ver as pegadas no chão?

Assentiu e acocorou-se para as examinar de mais perto.

São pequenas, como as da tua mãe. Prosseguimos a nossa investigação casa dentro. A cozinha estava um caos. O que restava do fogão enferrujara completamente. A porta da geleira antiquada fora arrancada por alguém que se pusera a balouçar em cima dela. As gavetas estavam no meio do chão, algumas delas todas partidas e viam-se mesmo buracos abertos no soalho. O meu pai olhou para a escada interior com preocupação.

É melhor ficares aqui aconselhou. Não sei até que ponto será segura.

Começou a subi-la. Os degraus estalaram mas ela aguentou-se. Fiquei em baixo, enquanto ele passava revista aos quartos e à sala do tear. Deixou-se ficar lá em cima durante algum tempo.

A cabana parecia-me minúscula. Custava-me imaginar que a minha mãe e eu ali tivéssemos vivido em tempos. Então agora, assim em tão mau estado, revelava-se acabrunhante. O vento fazia as paredes ranger e por baixo das tábuas do soalho corriam pequenas criaturas Sobre o tampo de madeira, toda lascada, da mesa de cozinha, viam-se manchas que pareciam de sangue seco. Visualizei o meu bisavô, embriagado e enfurecido. Apesar da humidade e do calor intensos, a lembrança provocou-me calafrios. Cruzei os braços bem contra mim e olhei para o cimo da escada. há algum tempo que não sentia nenhum movimento.

Pai!

Não me respondeu.

Pai? insisti, um pouco mais ansiosamente. Instantes depois vi-o descer as escadas. lentamente Trazia nas mãos a fotografia de Jean que a minha mãe rasgara, retirando-o a ele mais a Pierre de cena. Parecia que lhe tinham entornado por cima pingos de cera.

Tinhas razão disse-me, ela esteve aqui. Entusiasmados pela descoberta, procurámos mais sinais da presença da minha mãe no local, no entanto, não deparámos com mais nenhum, tão-pouco qualquer indício que nos desse a menor pista. A maior parte da terra que rodeava a propriedade tinha mato em abundância e o meu pai achou que não vínhamos propriamente vestidos para andar pelo meio de terrenos pantanosos.

É demasiado perigoso. De qualquer modo ela não poderia ter ido por ali, declarou.

Então aonde é que iremos procurá-la?

Só conheço mais um lugar, ou seja, Cypress Woods respondeu-me, soltando um suspiro profundo. Ela está a empreender uma jornada de regresso ao passado, uma jornada que, espero, nós não tenhamos de fazer.

Voltámos para o carro e o meu pai ficou sentado por momentos.

Antes de mais nada, daremos um pulo Á cidade e compraremos algo para comer, sugeriu. Não fica longe, mas Cypress Woods é no lado oposto. Só daqui a algumas horas é que voltaremos a ter oportunidade para comer e beber alguma coisa.

Está bem, pai concordei.

Não tinha fome nem sede. Quando déramos a volta pela cabana e pelo terreno circundante, ficáramos cheios de calor e transpirados. Tinhamos a roupa colada à pele, tal era a humidade.

Algumas das outras cabanas que vimos ao longo do caminho para a cidade também pareciam desertas; no entanto, alguém cuidava delas e os campos mostravam-se limpos. Detivemo-nos no parque de estacionamento do primeiro restaurante que encontrámos. Anunciava lagostins "à discrição". Como era Verão, viam-se alguns turistas pela zona. Quando entrámos, quase todos os fregueses ergueram os olhos dos seus fartos pratos de lagostins. Embora não parecessem hostis, analisaram-nos com ar desconfiado. Uma mulher de longos cabelos pretos e olhos escuros suspendeu o que estava a fazer e esticou o pescoço como um pássaro, desviando-se do homem em frente do qual estava sentada, para olhar para nós. Sorri-lhe, ao que ela correspondeu com um aceno de cabeça.

Um grupo de homens, todos vestidos com calças de ganga e T-shirts e os braços manchados de óleo de máquinas, levantou-se de uma mesa à nossa direita e dirigiu-se para a saída, rindo. Todos eles calçavam botas altas. Olharam-nos de relance e o mais jovem dirigiu-me um sorriso afável e suave, fixando os olhos escuros em mim por um momento. Saudou-nos tocando ao de leve na aba do chapéu e hesitou, como que prestes a dizer algo.

Anda daí, Jack. Não é água para o teu bico observou um dos mais velhos.

O rapaz, embaraçado, apressou-se a sair pela porta, no meio da risota dos colegas.

Sentámo-nos, e uma rapariga de avental vermelho e com o cabelo atado em nós grossos veio saber o que desejávamos comer. O meu pai escolheu gumbo de frango e marisco, enquanto eu optava pela jambalaya.

Vi um cartaz a anunciar um fais-do-do, sábado à noite, com a participação do Swamp Trio, um conjunto de música cajun.

O que é isto do fais-do-do? inquiri.

É um baile acompanhado de comes e bebes informou a rapariga, de mão na anca e postura displicente. Nunca estiVeram nestas paragens?

Não.

De onde são?

. De Nova Orleães respondeu o meu pai com um sorriso.

Ah! Pois bem, deviam ir à festa disse. Podem dançar o two-step. Inclinou-se para mim e acrescentou, olhando para a porta. Conheço alguns rapazes que gostariam de a ver por lá.

Não tencionamos ficar apressei-me a esclarecer.

O meu pai riu-se. Mandou vir uma caneca de cerveja para si e um chá gelado para mim.

Então? perguntou-me ele a certa altura. O que pensas do mundo da tua mãe, até aqui? Pelos vistos de pouco te recordas.

É interessante retorqui-lhe discretamente. Mas completamente diferente.

O meu pai concordou com um aceno de cabeça e sorriu com a recordação.

Quando vi a tua mãe pela primeira vez, pensei que se tratasse da Gisselle. Foi durante o Carnaval e estávamos todos mascarados. Encontrei-a em frente da casa, convencido de que a Gisselle ia de mendiga. Devia ter calculado que ela jamais escolheria semelhante fatiota, nem mesmo para uma festa. Continuei a insistir que era a Gisselle porque nem sequer sabia que ela tinha uma irmã gémea. Só depois de a tua mãe protestar muito é que reparei que se tratava de outra pessoa e olhei-a com mais atenção. Era muito fresca, natural e, embora tímida, nunca ficava sem dizer o que pensava. Às vezes prosseguiu, depois de uma pausa prolongada, pergunto a mim mesmo se ela não teria ficado bem melhor se não tivesse saído aqui do seu mundo.

Mas... e o avô dela e o horror que ele ia fazer vendendo-a como esposa a um homem? lembrei-lhe.

Sim, é verdade. Cada lugar tem os seus problemas, de facto.

Pai, não achas que devíamos telefonar ou ir ver a tia Jeanne?

Talvez depois de irmos até Cypress Woods respondeu-me. Não estou com muita vontade de ver a Gladys Tate.

Porque é que a mãe da tia Jeanne nos detesta, pai? É só por ter perdido a acção em tribunal?

Não. A Gladys culpa a tua mãe pelo que aconteceu ao seu filho Paul. Apesar de saber que não eras filha do Paul, depois da morte dele, abriu aquela guerra pela tua custódia. Fê-lo por vingança. Nunca quis que o filho ficasse com a tua mãe, evidentemente, e segundo o que a Ruby me contou, penso que nunca vos tratou muito bem depois de se mudarem para Cypress Woods.

A tia Jeanne disse-me que a mãe tem andado muito aflita com a artrite e pouco sai.

Pois é, o destino dá muitas voltas e acaba por castigar quem merece observou o meu pai. É melhor evitarmo-la.

Grande parte do passado da minha mãe fora sombrio e infeliz. Percebia porque recorrera a rituais vudu e a amuletos de boa sorte e porque acreditava ser perseguida por maus-olhados. Pobre mãe, pensei, em que tormento vivia.

A comida estava deliciosa mas nem o meu pai nem eu tínhamos o apetite com que contáramos. Naquele momento só pensávamos na minha mãe. Eu tinha esperança de encontrá-la em breve.

O telhado da mansão que o meu tio Paul baptizara de Cypress Woods erguia-se acima de plátanos e ciprestes, tornando-se cada vez mais alta, aos nossos olhos, à medida que nos aproximávamos, vindos da auto-estrada interminável. Os terrenos circundantes, em tempos encantadores, estavam agora cheios de mato, os canteiros de flores atravancados de ervas daninhas, as fontes secas e cheias de lixo aqui e ali, e até as ervas tinham chegado às varandas por entre as frinchas das tábuas, invadindo tudo.

À direita ficavam os canais e os pântanos. Uma piroga, amarrada ao embarcadouro, balouçava ao sabor da ondulação. Na proa estava uma garça grande pousada, de peito inflado, como se exigisse a posse da embarcação. Vimos, a ocidente, os poços de petróleo com as suas torres, o que me trouxe imediatamente à lembrança visões fugidias do meu pesadelo habitual. Para mim, era um mau augúrio. Inclinei-me para a frente e toquei na moedinha de boa sorte que a minha mãe me dera.

Estás bem? perguntou o meu pai, sabedor de que os poços de petróleo apareciam sempre no meu pesadelo.

Estou, respondi, depois de respirar fundo. Virei-me para a casa. Fazia lembrar um templo grego. Na varanda de cima estendia-se um corrimão de ferro com o desenho de diamantes. Em ambos os lados da casa, tinham sido construídas alas destinadas a contrabalançar os elementos predominantes do edifício principal.

Dá a impressão de que não vem cá ninguém há muito tempo disse o meu pai, desanimado.

Saímos do carro e começámos a subir as escadas. Passámos por entre as duas colunas, e o meu pai tentou abrir a porta da frente. Não estava fechada mas foi preciso muita força para a empurrar, tão emperrada se encontrava. Detivemo-nos no átrio forrado a telhas em estilo espanhol. o vestíbulo fora concebido para deslumbrar quem entrasse na mansão, pois não só era amplo e comprido como também tinha o tecto alto, onde os nossos passos e as nossas vozes ecoavam.

Sobre as nossas cabeças pendiam os candelabros, outrora deslumbrantes, agora com os pendentes de vidro baços como pedras. A mobília fora tapada, e há anos que ninguém ali limpava nada ou arejava. Em cada canto viam-se enormes teias de aranha a pairar como se fossem velas. Os espelhos possuíam uma camada espessa de pó a cobri-los e por todo o lado se viam dejectos de roedores. No interior, depois de uma tarde com o sol a cozinhar aquela atmosfera húmida, reinava um cheiro a envelhecido e a mofo.

À nossa frente ficava a escada em caracol, duas vezes mais larga e elaborada do que a da casa dos Dumas. Percorremos lentamente o corredor, espreitando por cada umbral. Todas as divisões da mansão eram espaçosas; no entanto, os reposteiros tinham um ar pesado devido à antiguidade e à sujidade.

- Já me tinha esquecido do tamanho desta casa - comentou o meu pai num sussurro. - Está cá alguém? - chamou. A sua voz reverberou e morreu algures ao fundo da casa, provavelmente na cozinha. Aguardámos um momento e depoiso meu pai sugeriu que subíssemos ao andar de cima.

Encontrámos pássaros no quarto que pertencera a Paul, Tinham entrado por uma janela aberta e feito ninho no alto da cabeceira da cama. Quando entrámos, esvoaçaram loucamente, temendo pelos seus ovos. Espreitámos no quarto ao lado, aquele que fora, supostamente, o da minha mãe; no entanto, também não encontrámos vestígios da sua presença recente ou da de qualquer outra pessoa. o meu pai e eu passámos também em revista os restantes quartos, detendo-nos no das crianças onde, mais uma vez, não detectámos sinais da minha mãe.

- Recordas-te deste quarto? - perguntou-me.

- Não muito bem, mas lembro-me de que havia uma caixinha de música em cima de uma cómoda, com uma bailarina às voltinhas. A mãe e o tio Paul costumavam pô-la a trabalhar enquanto eu me enfiava debaixo dos lençóis.

- Não tenho presente nenhum objecto como esse. Deve ter sido deixado aqui. - Olhou em volta e depois acrescentou: Só nos falta procurar em mais um lugar.

Eu sabia aonde ele queria ir. Fomos até à escada dos fundos e subimos até ao enorme sótão que servira de estúdio à minha mãe, com as suas vigas estruturais em madeira de cipreste talhada à mão. As janelas amplas deitavam para os campos e canais; porém, nenhuma para o lado dos poços de petróleo. Apesar de todo o tempo decorrido e da sujidade acumulada, as enormes clarabóias proporcionavam iluminação e tornavam o espaço claro e arejado.

Eu sabia que o meu pai depositara todas as suas esperanças naquela divisão. Tivera quase a certeza de que encontraríamos a minha mãe alojada ali; todavia, mais uma vez não deparámos com o menor vestígio dela ou de qualquer outra pessoa. Alguns dos seus cavaletes estavam montados, mas dava a impressão de ali se encontrarem há anos.

-Onde é que a mãe poderá estar, pai? - perguntei, em tom lamuriento.

Ele sacudiu a cabeça. Passeou os olhos pelo estúdio e franziu os olhos. De repente, esboçou um pequeno sorriso.

O que é, pai? Porque sorris?

-Parece que ainda foi ontem - retorquiu. O quê?

-Que a Gissele e eu viemos visitar a tua mãe. A Ruby trouxe-me aqui acima. Apercebemo-nos do muito que ainda nos amávamos e planeámos encontrar-nos em Nova Orleães.

- Se calhar ela voltou para Nova Orleães, pai. Talvez só pretendesse regressar à cabana para ali deixar a fotografia do Jean - alvitrei.

o meu pai anuiu, com esperança renovada.

- É possível. Iremos à procura de um telefone e ligaremos para a tia Jeanne. É a única coisa que penso valer a pena fazer aqui.

Saímos e descemos as escadas juntos. Ao fundo destas tínhamos dois homens à nossa espera. Reconheci um deles como sendo o jovem que me olhara com tanta intensidade no restaurante, o outro era muito mais velho, corpulento, com olhos escuros e bochechas infladas e vermelhas. A ponta do queixo também era da mesma cor. Envergava fato-macaco e suspensórios. Ambos usavam capacetes brancos; no entanto, o mais novo atirara-o para trás da nuca, fazendo-o pender para a esquerda, à maneira dos cowboys.

-Quem diabo são vocês? - perguntou o mais velho.

- Eu sou o Beau Andreas e esta é a Pearl, minha filha respondeu o meu pai imediatamente.

- Pearl! - exclamou o mais jovem. - É o número vinte e dois.

- Como?

- Ele refere-se ao poço de petróleo número vinte e dois. A menina é a proprietária? - perguntou-me. - Pearl Andreas?

Precisamente, respondi.

O jovem assobiou e ficou a olhar para mim. Era um pouco mais alto que o colega e usava o cabelo suficientemente comprido para tapar as orelhas e a nuca. Naquele momento via-se-lhe um brilho malicioso nos olhos escuros e um pequeno sorriso cerrado nos lábios. Apesar de ser encorpado, de ombros largos e braços musculosos, havia uma brandura no seu rosto, uma suavidade nas suas feições que me punha à vontade.

- Bem, esta casa pertence à família Tate disse o homem mais velho. Ninguém me avisou de que viria cá gente hoje. Não quisemos assustar-vos, mas o certo é que lhes fazemos o favor de dar uma olhada nisto.

Compreendo disse o meu pai. Pensámos que a minha mulher pudesse ter vindo para aqui.

- A sua mulher? exclamou o homem mais velho, olhando para o mais novo, que encolheu os ombros. Só vimos vocês os dois. Não é verdade, Jack?

Ninguém confirmou o mais jovem.

Precisamos de um telefone declarou o meu pai. Onde poderemos encontrar um perto?

Pode vir até ao atrelado e utilizar o nosso. Eu chamo-me Bart. Sou o capataz.

Estendeu a mão, que o meu pai apertou.

- Este aqui é o Jack Clovis. É quem toma conta do número vinte e dois.

O meu pai também lhe apertou a mão, mas o jovem voltou-se para mim.

Ainda bem que conheço finalmente a dona observou Jack, dirigindo-me um aceno de cabeça. Viva.

Estendeu-me a mão, que eu apertei rapidamente.

Viva, retribuí.

Apertámos a mão um ao outro. Senti a minha mão minúscula perder-se no meio daqueles dedos fortes e da palma grossa.

O poço continua a produzir muito bem informou Jack.

Nem sequer sei qual é.

A sério? admirou-se Jack, voltando-se para Bart.

Para que precisa ela de saber qual deles é? Basta-lhe estar informada do sítio onde põem o dinheiro.

Quando Jack voltou a fitar-me, pareceu-me ler desilusão nos seus olhos.

Gostaria de saber apressei-me a dizer. Jack sorriu efusivamente.

Terei muito gosto em lho mostrar ofereceu-se.

Olhei para o meu pai, que parecia surpreendido com o meu súbito interesse. A seguir fitei novamente Jack Clovis e sorri.

Não quero incomodar ninguém declarei.

Não será incómodo nenhum apressou-se Jack a garantir.

Bart riu.

Há meses que o Jack anda à espera que apareça alguém para falar do seu poço.

O poço pertence a Miss Andreas rectificou Jack.

Não a julgar pela maneira como te gabas dele retorquiu Bart.

Jack, apesar de muito moreno, corou visivelmente.

Adoraria vê-lo afirmei. Jack endireitou os ombros.

É para já, miss, declarou.

Depois irei lá buscar-te disse-me o meu pai.

Saiu da casa na companhia de Bart e eu fui com Jack, que me apontou as plataformas.

O seu é o quarto a contar da esquerda informou-me. Percebe alguma coisa de petróleo?

Apenas que vem dentro de latas respondi, fazendo-o rir tão alto que receei que partisse uma costela.

Não vem em nenhuma lata, miss.

Trate-me por Pearl.

Está bem, Pearl. O petróleo começa por ser crude e está a grande profundidade no solo. Leva vários milhões de anos a formar-se disse num tom quase místico e profundo. Sabe de que é feito, não é verdade?

Disse que não com a cabeça. Parecia que, enquanto eu estivesse disposta a ouvir falar de petróleo, Jack Clovis estaria disposto a informar-me acerca dele.

De residuos de plantas e de animais que ficaram enterrados debaixo de rochas sedimentares. Por aí já vê observou, sorrindo, quanto tempo não tem ainda de passar até ir para dentro da lata.

Todos aqueles poços têm petróleo? perguntei.

Todos aqueles que vê além são chamados poços em desenvolvimento porque estamos num campo petrolífero conhecido prosseguiu Jack. Ainda assim, alguns secaram. Chamamos-lhes "espanadores". Ali tem um disse, apontando para um que estava imóvel. Depois de bombearmos o petróleo continuou, metemo-lo dentro de um tanque de metal chamado separador, onde é reduzido aos três elementos que o compõem: petróleo, gás natural e água. Depois é guardado naqueles tanques, antes de ser despachado por navio, para as refinarias, onde o transformam no produto que compra.

Há quanto tempo está neste trabalho? perguntei.

Desde os doze anos. Vive em Nova Orleães, não é verdade?

Exacto.

Ouvimos falar de si e da sua família, mas ninguém sabia ao certo aventou, desviando o olhar rapidamente.

Ouviram falar o quê? quis saber.

Que a Pearl em tempos viveu aqui com uma mulher que não era sua mãe e com Mister Tate, que não era seu pai, e que agora vivia numa mansão abastada, não sei aonde, em que não fazia nenhum e vivia só do seu dinheiro, replicou.

Em primeiro lugar principiei, aquela mulher era a minha mãe.

Ah. Bem, aqui passam a vida a inventar coisas.

Em segundo lugar, nós não nos limitamos a viver do nosso dinheiro. Essa imagem nada tem a ver connosco elucidei friamente.

Não quis ofender. A Pearl perguntou, eu respondi observou ele com ligeireza.

O meu pai trabalha arduamente, a minha mãe é pintora e eu estou prestes a entrar para a faculdade de Medicina.

Vai para médica? Caramba! assobiou. Bem, aqui tem o seu poço disse, enquanto eu me limitava a olhar. Tem a certeza de que não sabia mesmo onde ficava?

Vivi naquela casa era eu muito pequena expliquei, indicando a mansão com a cabeça. Além disso, toda esta maquinaria me metia medo. Pareciam-se demasiado com monstros mecânicos. Se alguém me levava para perto deles, punha-me a gritar.

Jack anuiu com expressão séria e pensativa.

Não me custa imaginar que uma criança olhe para estas coisas e pense que são assim... uma espécie de criaturas más. Para mim, estão vivas, disse.

Como se fossem abelhas a sugar o solo, não?

Não exactamente disse Jack, rindo. Era essa a ideia que tinha?

Uma delas, em pesadelos.

Oh, lamento. Na verdade é um trabalho muito interessante e sinto-me sempre fascinado pela ideia de que estamos a furar até ao fundo da terra para trazermos para a superfície algo que se formou há tanto tempo, ainda antes de os seres humanos existirem.

Vi que o seu fascínio era sincero.

Claro que acrescentou Jack, baixando a voz, com os meus colegas, não falo do trabalho assim.

Sorri.

Apresenta algum perigo? perguntei-lhe.

Se houver uma explosão, não queira estar perto de um poço.

Explosão?

Se uma bolsa de ar de alta pressão se introduz no poço, hum! disse ele, abrindo os braços.

Oh exclamei, retrocedendo.

Não tenha medo. O seu poço é experiente e verdadeiro, e tão doce como... como o ar que a Pearl tem confessou.

Foi a minha vez de corar.

Agora vejamos continuou Jack, por que razão andava à procura da sua mãe na casa velha? Tanto quanto sei, já ninguém a utiliza.

Pensámos que ela tivesse vindo para cá respondi, com o queixo trémulo.

Há algum problema? perguntou. Não quero mostrar-me intrometido, mas se puder ajudar nalguma coisa... Sei que parece uma tolice, mas, depois de olhar pelo seu poço durante todo este tempo, tenho a impressão de que já a conheço.

Limpei as lágrimas que tinham insistido em sair dos meus olhos com a palma da mão e respirei fundo.

Um dos meus irmãos gémeos foi mordido por uma serpente venenosa e morreu. A minha mãe ainda continua muito perturbada disse. Fugiu.

Lamento. É terrível. Mas porque viria para aqui?

Cresceu no Hayou e, como já disse, viveu, em tempos, na mansão. Não sei o que procura ou o que espera fazer, mas sabemos que está algures por aqui. Anda muito confusa. Poderia ter ido para qualquer lado. Estamos muito preocupados com ela.

Não a vimos, mas ficarei atento.

Abri a minha bolsa e tirei da carteira uma fotografia da minha mãe comigo, que lhe entreguei.

É ela, disse-lhe.

Linda senhora. A Pearl é muito parecida com ela.

Se a vir, é capaz de me telefonar?

Claro. Dê-me o seu número de telefone.

Tirou um lápis do bolso e assentou o meu número de telefone na palma da mão.

Depois copio-o para um bocado de papel garantiu-me,sorrindo. Ou então nunca mais lavo a mão e ele fica aqui para sempre. Sorriu suavemente.

Ei, Jack chamou um dos operários. O que andas a fazer? Agora acompanhas visitas particulares?

A seguir à pergunta soltou uma gargalhada, e Jack olhou para ele, furioso.

Não devia estar a desviá-lo do seu trabalho desculpei-me eu, recuando e voltando-me para a casa.

Oh, nada disso. Não tem a menor importância. Estou na minha hora de descanso. Estes tipos são uns brincalhões, mas grupo melhor não há. É malta muito solidária e unida.

Iniciámos o caminho de volta.

O seu pai ainda trabalha? perguntei a Jack.

Não, reformou-se mas continua a viver no Hayou. Passa o tempo na sua piroga, a pescar. Só fui a Nova Orleães duas vezes contou-me. Uma vez, tinha então doze anos, a outra, quando fiz vinte e um, há cinco anos atrás. Toda a minha família foi: eu, os meus pais e as minhas duas irmãs. Não há dúvida de que a vida da cidade é diferente. Há muita confusão e é preciso esticar o pescoço para ver o Sol e as estrelas.

Ri-me.

Onde nós vivemos não é assim tão mau.

Moram numa casa tão grande como esta?

Não, mas também é espaçosa admiti.

O meu pai diz que as pessoas que vivem nas cidades gostam de casas grandes porque preferem estar quase todo o tempo dentro delas, em vez de andarem nas ruas, que são sujas.

Ri-me de novo.

Temos belos jardins. A zona chama-se Garden District e não se leva propriamente uma vida de cidade.

Ainda bem, mas eu continuaria a sentir a falta dos céus abertos, dos animais, de toda esta natureza afirmou Jack.

Isto aqui é lindo reconheci. Sei que a minha mãe sentia sempre muitas saudades.

Jack deteve-se e colocou a mão a fazer de pala sobre os olhos, protegendo-os do sol.

Parece que o seu pai está a acenar-lhe disse, apontando.

Olhei na direcção indicada e vi o meu pai no atrelado. Parecia perturbado. Talvez tivesse tido alguma notícia da minha mãe, pensei, apressando-me a chegar junto dele.

A Jeanne nunca mais soube dela comunicou-me. Não podemos ficar aqui e continuar à procura dela. Telefonei para casa.

E...?

- O Pierre piorou. A médica quer voltar a transferi-lo imediatamente para o hospital.

Oh, pai.

Abraçámo-nos. Reparei que Jack se deixava ficar ligeiramente afastado, de capacete na mão, a observar-nos.

Lamento muito que esteja com esses problemas disse-me quando me fui despedir dele.

O meu outro irmão suportou muito mal a perda do seu gémeo. Está em estado catatónico e não come nem bebe.

E como se isso não bastasse, está com esse problema com a sua mãe. Quem me dera poder fazer mais.

Esteja atento e veja se ela aparece sussurrei.

Prometo assegurou-me. Adeus.

Entrei para o carro, onde o meu pai já se encontrava. Ele deixou-se ficar imóvel por momentos, a olhar para a mansão.

A Jeanne tem razão. Faz lembrar uma tumba gigantesca murmurou. Deviam arranjá-la ou deitá-la abaixo declarou, irado.

Em seguida, ligou o motor e arrancou. Ao afastarmo-nos pela auto-estrada, olhei para trás e vi Jack Clovis parado no mesmo lugar, a ver-nos partir.

Ao longe, para a esquerda, o meu poço de petróleo bombeava como se possuísse coração próprio. Pela primeira vez, pensei nos poços de petróleo sem os considerar parecidos com monstros. Talvez dali em diante o meu pesadelo acabasse.

Estaria algum outro à espera para tomar o seu lugar?

 

UMA VELA AO VENTO

O meu pai levou todo o caminho de volta a Nova Orleães a murmurar de si para si, vogando no meio da esperança. Às vezes mais parecia que rezava.

Talvez ela tenha voltado. Se calhar veio aqui para colocar aquela fotografia na cabana... Um dos seus rituais, não é? Quero dizer, nunca se sabe se não passámos por ela quando íamos a caminho de Houma. É possível. E se ela chegou a casa antes de nós e se inteirou do estado do filho, pode ter ido com ele para o hospital. Há essa possibilidade, o que terá ajudado o garoto a sair do seu transe, não é verdade?

Sim, pai, respondi, mal ele fez uma pausa para respirar.

Conduzia tão depressa que o meu coração matraqueava como um comboio. Parecia fixar-se nos seus pensamentos, não na estrada que se estendia pela frente, o que me deixava preocupada.

Ninguém a viu por aqui, de modo que, tanto quanto sabemos, ela só foi até à cabana. E também já lá não estava quando chegámos. Certo? Onde teria ido? Certamente não aos Tate. Só lhe restava voltar para casa. Sim, é isso, está em casa. Libertou-se desta loucura mesmo a tempo. Agora poderemos ajudar o Pierre, não é, Pearl?

Claro que sim, pai. Não achas que estamos a ir um pouco depressa de mais?

Que dizes? Olhou para mim e depois para o conta-quilómetros. Oh, não tinha reparado. Espreitou pelo retrovisor. Tivemos sorte em não apanhar uma multa.

Queres que eu guie, pai?

Não, estou óptimo. Prestarei mais atenção. Baixou os ombros e descontraiu-se. Deixarem aquela mansão magnífica a apodrecer no meio dos pântanos é um horror, não achas? Terrível. Lembraste-te de muita coisa?

Não, respondi.

A minha mãe dissera-me certa vez que o meu pai gostaria de que eu me esquecesse de que, em tempos, vivera ali. Guardava muito poucas fotografias nossas tiradas em Cypress Woods e mesmo essas encontravam-se no fundo das gavetas.

Bem, os poços de petróleo continuam a funcionar, tornando os Tate cada vez mais ricos. Antes disso, já eram abastados. Infelizmente, o dinheiro não discrimina acrescentou com amargura. Não consigo imaginar como estará a Gladys Tate. Mas aqueles poços de petróleo são uma maravilha, não achas? Consta que estão sempre a jorrar.

Ele foi muito simpático, observei.

Ele, quem? Ah, sim concordou o meu pai, sorrindo. Que tal achaste o teu poço? A Gladys Tate deve ter-se roído toda por não conseguir impedir que recebesses o teu rendimento.

Pareceu-me igual aos outros. No entanto, o Jack explicou-me muitos aspectos relacionados com ele.

O meu pai sorriu.

Estava a engraxar a patroa, não? Não o posso culpar, sobretudo quando a patroa é bonita como tu.

Ele não estava a engraxar-me, pai, foi apenas delicado e elucidativo insurgi-me.

Virei rapidamente a cara, não fosse o meu pai reparar que corara.

Os bonitos olhos de Jack faiscaram diante de mim, assim como o seu sorriso suave. Nunca conhecera nenhum jovem que irradiasse tão grande sensação de força e, no entanto, mostrasse tanta sensibilidade e compreensão. Sentira-me segura e confortável ao seu lado. Trabalhava com as mãos e os músculos; porém, o seu amor pelo trabalho possuía algo de poético.

Tens de ter cuidado com as pessoas que conheces, Pearl, advertiu-me o meu pai, compondo uma expressão séria. Assim que algum homem tomar conhecimento da tua riqueza, o seu interesse aumentará, mas o problema é que esse poderá não ser o tipo de sentimento que desejas despertar. Compreendes o que estou a tentar dizer? Sei que não sou tão eficaz nisto como a tua mãe.

Compreendo, pai.

Estou convencido que sim. Não me dás preocupações, de facto, não dás.

Voltou a calar-se e a certa altura retomou o seu solilóquio.

Ela tem de estar em casa. Nesta altura já deve ter caído em si. Adora demasiado a família para continuar afastada.

À medida que nos aproximávamos de Nova Orleães, as nuvens iam fechando os espaços de azul entre elas, até restar apenas uma luminosa camada cinzenta por cima das nossas cabeças, íamos a atravessar a ponte quando as primeiras gotas caíram no pára-brisas. O vento também ganhara velocidade. As pessoas perdiam os guarda-chuvas e corriam por todo o lado à procura de abrigo. A chuvada principiou ainda não chegáramos ao Garden District e tornou-se tão pesada que os limpa-vidros não conseguiam manter a visibilidade.

Raios partam isto! queixou-se o meu pai.

Viu-se obrigado a encostar durante algum tempo. A chuva caía a rodos por cima de nós, martelando contra o tejadilho e as janelas.

No entanto, não era mais do que uma das habituais chuvadas rápidas de Verão, e o meu pai não tardou a retomar o caminho para casa. Quando chegámos à nossa entrada, o sol já furara o fino véu de nuvens passageiras e fazia incidir raios de esperança sobre as nossas camélias e magnólias. Os passeios de seixos rolados brilhavam. Era como se a Mãe Natureza tivesse lavado a tristeza que manchara as nossas paredes e jardins.

O meu pai quase saltou para fora do carro ainda este mal parara. Não consegui acompanhar a sua velocidade. Galgou os degraus dois a dois, até chegar à porta da frente. Aubrey estava no corredor a falar com uma das criadas e voltou-se, surpreendido, ao ver o meu pai irromper casa dentro. Apressei-me a chegar junto dele.

Monsieur Andreas cumprimentou Aubrey, aproximando-se.

A minha mulher já voltou? perguntou o meu pai sem demora.

Não, momsieur, respondeu, sacudindo a cabeça com ar acabrunhado, olhando primeiro para mim e depois para a empregada, que retomou o trabalho afanosamente.

Telefonou? Alguém lhe falou do Pierre? perguntou o meu pai, abanando a cabeça afirmativamente, à espera de um sim. Aubrey, no entanto, voltou a desiludi-lo.

Tanto quanto sei, não, monsieur.

Onde está Mistress Hockingheimer? indagou o meu pai, olhando para o cimo da escada.

Foi para o hospital com o menino Pierre, monsieur. A ambulância levou-os aos dois.

Ambulância? repetiu o meu pai, soltando um pequeno gemido.

A seguir, voltou-se para mim. Ao ver aqueles olhos tristes e patéticos que deixavam transparecer o seu sofrimento, senti-me mirrar por dentro.

Onde está ela? Onde poderá ter ido? gritou, voltando-se de novo para o mordomo.

Aubrey ficou a olhar, sem saber ao certo o que devia dizer ou fazer.

Pai, chamei, puxando-lhe pela manga do casaco. Pai.

O que é? Ah, sim, É melhor irmos directamente para o hospital. Se tiver noticias de Madame Andreas ligue para mim. Telefone-me imediatamente.

Com certeza, monsieur.

Saímos porta fora e descemos os degraus.

Talvez ela já tenha ligado para a médica e ido directamente para o hospital alvitrou, exprimindo o seu desejo em voz alta.

O meu silêncio trouxe-o de volta à realidade.

Não tardou que chegássemos ao parque de estacionamento do hospital. Quando o meu pai perguntou para onde Pierre fora levado, a voluntária de serviço à recepção foi demasiado lenta na sua resposta. O meu pai pressionou-a.

Sim, sim disse a senhora ao encontrar, finalmente, a ficha de Pierre. Acabou de dar entrada. Encontra-se na UCI.

Nos cuidados intensivos? admirou-se o meu pai, fazendo uma careta.

Provavelmente é só por precaução, pai, tranquilizei-o, como se rezasse uma oração.

O meu pai respirou fundo e corremos os dois para o elevador. Quando chegámos à sala de espera dos cuidados intensivos, Mrs. Hockingheimer apressou-se a vir cumprimentar-nos.

Oh, monsieur, exclamou, ainda bem que chegaram. O meu pai susteve a respiração, mal podendo conter as palavras.

O que se passa? O que aconteceu ao Pierre, Mistress Hockingheimer? perguntei ansiosamente.

Mergulhou num coma mais profundo. A psiquiatra está preocupada, diz que o Pierre sofreu uma recaida grave.

Recaída? repetiu o meu pai. Voltou ao estado em que estava?

Ainda está pior do que antes respondeu a enfermeira, começando a chorar.

O rosto do meu pai ficou cinzento. Eu senti o meu coração parar e recomeçar a bater. O pânico pregou-me os pés ao chão. Sentia as pernas tão inertes que não acreditei ser capaz de as mover.

Onde está a doutora LeFevre? perguntou o meu pai.

Lá dentro, junto do Pierre respondeu Mrs. Hockingheimer. Há bocado veio cá fora e acabou de entrar acompanhada por outro médico. Um urologista.

Tentei engolir mas não fui capaz. Os ombros do meu pai descaíram. Embora me sentisse verdadeiramente mal, arranjei coragem para falar.

Vamos ter com a médica, pai.

Dirigimo-nos os dois para a UCI, aterrorizados com o que nos esperava. Ainda não chegáramos quando a porta se abriu e a Dra. LeFevre apareceu. Olhou para nós com um olhar repleto de confusão e descrença.

O que aconteceu ao meu filho? perguntou o meu pai em voz ténue.

Tenho um especialista a examiná-lo, Monsieur Andreas. Está com insuficiência renal.

O que quer isso dizer? perguntou o meu pai, olhando primeiro para mim.

Eu sabia que ele compreendera; porém, estava tão nervoso e exaltado que não conseguia pensar.

São os rins, pai, disse-lhe.

Os rins dele não estão a filtrar as impurezas, monsieur. Pararam de funcionar.

Porquê? Como é que uma coisa dessas pode acontecer?

Já assisti a este processo em doentes que passaram por um coma prolongado, muito mais grave do que o do Pierre. mas relativamente ao seu estado, que pensávamos estar a melhorar, deu uma volta súbita para pior e ele mergulhou ainda mais profundamente dentro de si mesmo. Em termos psicológicos, monsieur acrescentou, depois de uma pausa prolongada, o seu filho está a tentar voltar para junto do irmão gémeo.

Voltar... Mas... o Jean está morto balbuciou o meu pai em voz baixa.

Eu sei, monsieur. E o Pierre também o sabe.

Nesse caso ele está a...

A querer morrer confirmou a médica.

As suas palavras soaram como trovões sobre nós. O meu pai ficou a olhar para ela, incapaz de acreditar no que ouvira.

Mas como é que uma pessoa... Certamente isso não é possível, pois não, doutora? perguntou o meu pai.

A mente é muito mais poderosa do que possamos crer, monsieur. As pessoas desenvolvem doenças psicossomáticas. Algumas não conseguem ver, apesar de não terem nenhum problema fisiológico nos olhos, outras ficam incapacitadas de andar, embora tenham as pernas sãs.

Fez uma pausa e olhou para trás de nós.

Desculpe, Monsieur Andreas, mas onde está a sua esposa? A mãe do menino?

O meu pai sacudiu a cabeça, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.

A minha mãe fugiu, doutora respondi eu. Abandonou a nossa casa e enviou-nos uma carta. Culpa-se pelo que aconteceu. Pensámos que regressara ao Hayou e fomos à sua procura. Encontrámos indícios de que esteve lá. No entanto, não a encontrámos e, assim que soubemos do que acontecera ao Pierre, regressámos imediatamente.

Compreendo. Bem, não posso saber ao certo, mas penso que o menino acha que a mãe o responsabiliza pela morte do irmão. Que se culpa a si mesmo já eu sei, mas agora que a mãe desapareceu quando ele precisa dela... Bem, as coisas ficam muito mais complicadas como pode ver, monsieur.

Sim, sim, estou a perceber. Que poderemos fazer?

Antes de mais nada, vejamos que tipo de tratamento o doutor Lasky recomenda respondeu a médica, na altura em que um indivíduo baixo e careca saía da UCI.

Vinha de fato e gravata e parecia-me mais um banqueiro do que um médico. Possuía feições miúdas e olhinhos pequenos e redondos como contas.

Estes são o pai e a irmã do rapaz, doutor apresentou a Dra. LeFevre. É o doutor Lasky.

Prazer em conhecê-lo, monsieur. Receio que o seu filho esteja muito doente disse o médico sem mais preâmbulos. Produziu menos de cinquenta mililitros de urina nas últimas vinte e quatro horas, segundo a vossa enfermeira. Trata-se de um problema de anúria, o que origina um acumular excessivo de toxinas no organismo. Como já expliquei à doutora LeFevre, o menino sofre de grave insuficiência renal, habitualmente derivada de um traumatismo sério ou de alguma outra doença subjacente. Depois de me dar a conhecer os problemas psicológicos, concordo em absoluto com o seu diagnóstico.

Que poderemos fazer? perguntou o meu pai rapidamente.

Bem, enquanto a causa subjacente não é resolvida, preocupemo-nos com o tratamento físico. Receitei um diurético, mas, se não houver uma alteração rápida, devemos ter de recorrer à diálise. Esperemos para ver. Talvez isto resolva.

Podemos vê-lo? perguntei.

- Com certeza respondeu o médico.

Ele irá ficar bom? perguntou o meu pai.

A maioria das pessoas que sofre de insuficiência renal aguda acaba por recuperar totalmente. No entanto, este caso difere dos habituais devido às implicações psicológicas, monsieur. Receio não poder fazer uma previsão exacta.

E isso significa o quê? inquiriu o meu pai.

Se ele continuar a não reagir e não produzir e excretar urina, será submetido a diálise. Mas se a sua mente é capaz de desactivar um órgão...

Com certeza acabará por sair do coma... balbuciou o meu pai à Dra. LeFevre, que não lhe respondeu. Há-de sair dele. Não achas, Pearl?

Claro que sim, pai, respondi, tão sufocada que mal consegui pronunciar as palavras. Vamos vê-lo.

Isso mesmo concordou o meu pai, dirigindo-se para a UCI comigo, recusando-se a enfrentar as possibilidades lúgubres que os dois médicos tinham descrito. Todavia, a Dra. LeFevre agarrou-lhe no pulso e fê-lo parar.

Se a sua esposa regressasse o mais depressa possível, ajudaria, monsieur, disse-lhe.

O meu pai anuiu. Quando voltou a aproximar-se de mim, parecia ter envelhecido vinte anos num minuto. Entrámos na UCI e dirigimo-nos para Pierre. O soro gotejava-lhe lentamente para dentro da veia. Tinha os olhos fechados, a pele cor de cera e os lábios tão pálidos que quase pareciam brancos. Reparei que o seu peito mal se movia sob o lençol puxado até ao queixo.

O meu pai reprimiu um gemido e pegou na mão do filho.

Ei, rapaz disse, já voltámos. Estamos junto de ti. Pierre. A Pearl está aqui ao meu lado. Vá, Pierre, abre os olhos e olha para nós.

Esfregou suavemente a mão ao filho, mas este parecia uma muralha inamovível e insensível; nem sequer piscou os olhos.

Porque é que isto está a acontecer connosco? gemeu o meu pai, atirando a cabeça para trás. Talvez a Ruby tenha razão e se trate de alguma espécie de maldição que caiu sobre nós. Um horror atrás de outro, levando-nos à submissão, destruindo-nos por nos atrevermos a ser felizes.

Não deves pensar assim, pai. Não podes perder a esperança. Quanto mais não seja, pelo Pierre. Ele precisa que sejamos fortes.

O meu pai concordou, embora sem convicção. Olhou para Pierre, vendo o elevar ténue que a respiração imprimia ao seu peito e depois baixou a cabeça, suspirando. Por fim ergueu os olhos acabrunhados, que uma sombra de melancolia escurecia ainda mais.

- Vou tomar um café, - disse. Daqui a pouco estarei de volta. Queres alguma coisa?

Não, obrigada, pai. Vai.

Levantou-se e saiu, com os ombros descaídos como se o ar por cima dele pesasse toneladas. Voltei-me para Pierre e peguei-lhe na mão.

Pierre, principiei. Precisamos muitíssimo de ti. A mãe acha que é culpada pelo que aconteceu e fugiu, e só voltará se tu começares a melhorar. Por favor, ajuda-nos implorei. Luta contra essa vontade de ficares a dormir para sempre. Volta para nós, para a mãe. Pensa no estado em que ela ficará com esta situação. Por favor, Pierre, repeti, com as lágrimas a correr.

Sentia o coração pesado como chumbo. Fiquei ali sentada, agarrada à mão dele, chorando.

Se ao menos a nossa mãe entrasse por aquela porta agora, pensei. Porque não lhe diriam os espíritos que lhe segredavam ao ouvido que era imperioso voltar? A não ser, evidentemente, que fossem espíritos maus.

O grito de dor que uma outra paciente, no outro lado da sala, soltou trouxe-me violentamente à realidade. Não fazia ideia de há quanto tempo ali estava sentada, a rezar e a divagar.

Desculpe, minha querida, mas temos de limitar ao máximo as visitas nos cuidados intensivos disse-me uma enfermeira que se aproximara. Se quiser, daqui a uma hora pode voltar cá com o seu pai.

Assenti com a cabeça e olhei de novo para Pierre. Quando estava prestes a levantar-me e a largar-lhe a mão, senti que o seu indicador se movia. Foi como um choque eléctrico pelo braço acima.

Ele mexeu-se! exclamei.

Como? perguntou a enfermeira, olhando para Pierre, cujos olhos continuavam fechados.

O dedo. Mexeu-o ainda eu não lhe tinha largado a mão.

Talvez seja apenas um reflexo nervoso alvitrou a enfermeira.

Não, não, ele está a querer comunicar, a querer voltar. Por favor, deixe-me ficar.

Mas...

Por favor, só mais um pouco. Preciso de continuar a falar com ele!

Tenho de lhe pedir que baixe a voz murmurou a enfermeira. Estão aqui outros doentes, todos em estado crítico.

Desculpe.

As regras das visitas aqui mandam que estas não ultrapassem os cinco, dez minutos de hora a hora para os familiares chegados repetiu com monótono autoritarismo.

Vá chamar a médica pedi, voltando-me para ela. Não tenho a menor dúvida de que senti o dedo do meu irmão a mexer e não foi nenhum reflexo nervoso.

Mas...

Vá chamá-la! insisti.

A mulher reparou na determinação do meu olhar e mordeu o lábio inferior, furiosa. Deu meia volta e voltou para o balcão das enfermeiras. Sentei-me e recomecei imediatamente a falar com Pierre.

Tenho a certeza de que podes voltar para junto de nós. Pierre. Sei que não queres ficar neste hospital horrível e junto desta gente antipática mais do que o necessário. Escuta. Nós precisamos de ti. Quero que acordes, para a mãe poder voltar para casa. Se abrires os olhos, prometo-te que, assim que sairmos daqui, tentarei encontrá-la. Peço-te que me faças a vontade, Pierre. O Jean também quer que tu ajudes a mãe, tenho a certeza.

Levantei-me e inclinei-me sobre a cama para lhe afastar as madeixas da testa, como a nossa mãe costumava fazer. Depois aproximei os lábios do seu ouvido e cantarolei-lhe, baixinho, a velha canção de embalar cajun que a nossa mãe tantas vezes cantara a ele e a Jean quando eram pequenos. Ainda não terminara quando ouvi passos atrás de mim.

Mademoiselle,

Voltei-me e deparei com o Dr. Lasky.

Terá de obedecer às regras do hospital. Sei que trabalhou cá como auxiliar de enfermagem, portanto devia saber como é importante que nós todos...

O Pierre moveu um dedo, doutor. Eu senti. Se puder ficar mais um pouco junto dele...

Temos de deixar que as enfermeiras façam o seu trabalho e...

Senti os dedos de Pierre mexerem de novo e soltei uma exclamação. Quando me virei para ele, as suas pálpebras tremularam.

Pierre, chamei. Mostra-lhes. Mostra-lhes. Pestanejou com mais força e, como olhos que tivessem estado fechados há séculos, abriu-os lentamente.

Vá chamar a doutora LeFevre ordenou o médico à enfermeira, que se afastou apressadamente.

Continuei a afagar a mão a Pierre, incentivando-o.

Anda, Pierre. Isso mesmo. Tenta. Volta para nós. O menino manteve os olhos abertos.

É muito bom sinal murmurou o Dr. Lasky atrás de mim.

Olá, Pierre cumprimentou. Sentes-te melhor? Queres voltar depressa para casa, não é?

Pierre virou, lentamente, a cabeça para ele. Vi os seus lábios moverem-se e aproximei o meu ouvido deles. Expeliu ar suficiente para se fazer ouvir num sussurro.

Vai buscar a mãe pediu. Trá-la para casa.

Oh, sim, Pierre. Podes ter a certeza. Abracei-o. Ele falou comigo, doutor!

Excelente declarou o Dr. Lasky, virando-se para receber a Dra. LeFevre, que se precipitava na nossa direcção. Afastei-me, enquanto os dois examinavam Pierre, e depois resolvi sair para ir buscar o meu pai. Encontrei-o na cafetaria, inclinado sobre uma chávena de café. Ao dar-lhe a nova, os olhos voltaram a brilhar-lhe e a pele recuperou um pouco mais de cor. Apressámo-nos a voltar para junto de Pierre.

Mais tarde, já cá fora, no corredor, tendo o meu pai e o Dr. Lasky ao meu lado, a Dra. LeFevre pediu-me que repetisse o que dissera e fizera para obter aquela reacção de Pierre. Foi acenando com a cabeça, enquanto escutava.

Tem de conseguir que a sua mãe volte para casa rapidamente disse-me. Se assim não for, ele poderá ter nova recaída e receio que, em cada vez que isso acontecer, mergulhe mais fundo dentro dele mesmo, até se tornar impossível recuperá-lo. Compreende?

Sem dúvida respondi, olhando para o meu pai, que se limitava a acenar com a cabeça, com uma expressão aterrorizada no olhar.

Tudo indica que, graças à acção do diurético, pelo menos afastámos o perigo de paragem renal imediata explicou o Dr. Lasky. No entanto, o que já aconteceu pode repetir-se.

Nenhum dos médicos queria dar-nos falsas esperanças. As suas palavras, embora realistas, eram aguçadas como dardos.

O meu pai e eu voltámos para junto de Pierre a fim de lhe assegurarmos que iríamos à procura da mãe e a traríamos para o ver o mais depressa possível. Ele escutou e depois fechou os olhos. Naquele momento estava apenas a dormir. O grande esforço que fizera para sair de dentro do túmulo que a sua mente estava a erguer em torno dele deixara-o exausto. Ficou a descansar confortavelmente.

E se a Ruby não voltar, Pearl? E se nunca mais regressar? perguntou o meu pai a caminho de casa, no carro.

Ela voltará. Não pode deixar de o fazer.

Porquê? Não tem conhecimento do que se está a passar. Não a encontramos, é-nos impossível fazer-lhe chegar algum recado. Sacudiu a cabeça. Pobre Pierre, se ela não voltar.

Vamos reflectir sobre o que havemos de fazer, pai. Daremos com ela garanti, apesar de, na altura, não ter a menor ideia dos passos a dar.

As palavras dos médicos pairavam no ar como nuvens negras e ameaçadoras, prontas a desencadear uma tempestade sobre nós. Pierre continuava à beira do esquecimento eterno e nós não sabíamos o que fazer.

Quando chegámos a casa, a minha mãe não só não estava como também não havia nenhum telefonema dela ou de alguém do Hayou. O meu pai ligou à tia Jeanne e explicou a situação. Ela prometeu mandar o máximo de pessoas que pudesse procurá-la e fazer uma série de telefonemas a pessoas da área. Disse que também contactaria com a polícia local.

Se não recebermos nenhuma notícia esta noite ou amanhã, devíamos ir outra vez à procura dela, pai, sugeri.

Ir à procura aonde? Fomos à cabana e a Cypress Woods. Não tenho ideia de onde mais ela possa estar. Aquela parte da sua vida é como se fosse uma fantasia para mim. Tanto quanto sei poderá haver lugares e pessoas que ela nunca mencionou ou que, se o fez, já me esqueci. Sabes que todas as amigas da avó já morreram. Que poderemos fazer...? Andar pelas estradas secundárias, procurar nos pântanos?

Seria melhor do que ficarmos aqui sentados sem fazer nada, não achas?

Não sei, Pearl. Sacudiu a cabeça. Não sei. E se no caminho para lá nos perdemos numa estrada qualquer e ela telefonar para aqui? Não, só nos resta esperar.

Nem o meu pai nem eu estávamos com muito apetite para o jantar; no entanto, sentámo-nos à mesa a petiscar qualquer coisa. Todos os empregados andavam calados e com expressão preocupada. Na casa reinava uma atmosfera fúnebre. Ninguém fechava uma porta com força, todos atravessavam os corredores na ponta dos pés e falavam em sussurros. Não se ouvia música, rádio, televisão, apenas o tiquetaque constante do relógio de pé. seguido do seu toque surdo e reverberante a anunciar a passagem do tempo, o fluir dos minutos sem a menor notícia da minha mãe. Quando eu e o meu pai nos entreolhávamos, tínhamos o mesmo pensamento, para o qual nem eram precisas palavras: Pierre continuava à espera no hospital, à beira do precipício que o engoliria e agrilhoaria para sempre à inconsciência, ao que se seguiria, inevitavelmente, a morte. Eu tinha a certeza de que o menino via na morte uma porta, do outro lado da qual Jean o aguardava.

Nem o meu pai nem eu sabíamos o que fazer ou dizer quando voltássemos para junto da criança. Pierre abriria os olhos esperançosamente, à espera de ver a mãe ao nosso lado, para a seguir os fechar, quem sabe se para sempre. Sentíamos ambos um medo terrível de nos arriscarmos; no entanto, era doloroso abstermo-nos de o visitar. Quanto mais tempo ficássemos longe, maior seria o seu cepticismo.

O meu pai passou parte da noite no seu gabinete, a falar com amigos, a receber conselhos. Ninguém sugeriu algo de diferente do que já tínhamos feito, assim como ninguém era capaz de compreender por que razão a minha mãe fugira. Também era certo, no entanto, que muito poucos conheciam os seus antecedentes e as razões que a tinham levado a acreditar que fora ela a culpada pelos nossos males.

Quis ficar acordada o mais tempo possível, não fosse o telefone tocar e a minha mãe dar notícias, e também para fazer companhia ao meu pai; porém, quando pousei a cabeça no sofá e fechei os olhos, o sono aprisionou-me tão de repente que mais parecia que eu mergulhara numa espécie de coma.

Só voltei à realidade quando o relógio de pé anunciou as três da manhã. Sentei-me lentamente, esfreguei os olhos e escutei. A casa estava mortalmente silenciosa. As luzes dos corredores haviam sido apagadas. Fiquei admirada por o meu pai não me ter ido acordar para me mandar para a cama.

Afastei os últimos vestígios de sono dos olhos e levantei-me para ir ver como o meu pai estava. Deixara o candeeiro da sua secretária aceso, mas ele não estava. Reparei que bebera um pouco, pois a garrafa de uísque ficara aberta e via-se um copo parcialmente cheio. Pensando que fora para a cama, subi as escadas. Sentia as pernas pesadíssimas, cada passo era um esforço. Ao chegar ao andar de cima, vi a porta do quarto do meu pai entreaberta e resolvi ir dar uma espreitadela.

A cama encontrava-se vazia, o candeeiro da mesinha-de-cabeceira aceso. A porta da casa de banho estava aberta; no entanto, não havia luz dentro desta.

Pai! chamei calmamente. Estás aí?

Fiquei à escuta mas nada ouvi.

Fui ver se se encontrava nos outros quartos e, como não era o caso, desci de novo ao piso térreo. Os carros continuavam no seu lugar e na cozinha não se via ninguém. Atravessei a casa e fui ao estúdio da minha mãe. Como as luzes estavam apagadas, assustei-me, receando que o meu pai tivesse adormecido ou desmaiado no chão, ao lado da cama. Mas quando ia a voltar para trás, senti um cheiro a uísque e detive-me, perscrutando no meio da escuridão que enchia o estúdio. Assim que os meus olhos se adaptaram à ausência de luz, vi a sua silhueta desenhada no sofá. Aproximei-me, lentamente, dele.

O meu pai encontrava-se deitado num sofá, tendo apenas uma pequena toalha em volta da cintura. Parecia profundamente adormecido. Que estaria ele a fazer? Porque se fora deitar ali despido? Ainda pensei em acordá-lo, mas depois resolvi deixá-lo descansar. Quando ia a sair, ouvi-o chamar pela minha mãe.

Ruby, continua murmurou. Aproximei-me mais para ouvir.

Não pares prosseguiu, tu és uma profissional. Não devias ter dificuldade em me desenhar. Quero que o faças. Continua desafiou, rindo em seguida. Pronta? Arrancou a toalha dos quadris e atirou-a para as costas do sofá. Desenha com paixão, minha querida. Desenha.

Pasmada, fiquei parada no mesmo sítio, incapaz de me mover. Sabia que, se ele percebesse que no meio da escuridão estava eu e não a minha mãe, ficaria terrivelmente embaraçado. Um momento depois, pousou de novo a cabeça sobre o sofá e murmurou algo que não ouvi. Acalmou e eu saí silenciosamente do estúdio, fechando a porta com cuidado e deixando o meu pai a rememorar um momento de intimidade que tivera com a minha mãe.

Perturbada mas exausta, regressei ao meu quarto, pousei a cabeça em cima da almofada e adormeci logo a seguir, grata por não ser capaz de pensar mais.

Acordei sobressaltada. Debaixo da minha janela, um pombo selvagem entoava o seu canto triste e agoirento. O céu apresentava-se muito cinzento, impedindo a passagem dos sempre bem-vindos raios de sol quente e deixando o mundo envolto numa triste película de penumbra lúgubre. A chuva estava iminente. Olhei para o relógio e vi que dormira quase até às nove da manhã. Ao lembrar-me do que acontecera na noite anterior, levantei-me rapidamente, lavei-me e vesti-me. Ao descer, encontrei o meu pai já levantado e no seu gabinete, ao telefone. Falava com a polícia de Houma. Detive-me à entrada, escutando.

Portanto, foram até à cabana e passaram minuciosamente revista aos arredores? perguntou, olhando para mim com ar desanimado. Compreendo. Sim. Ficamos muito gratos. Tem o número e, se houver algum gasto, faça favor... Quero dizer, se for preciso fazerem algum trabalho extra e não puderem custeá-lo... claro. Obrigado, muito obrigado.

Pousou o auscultador e recostou-se. Tinha o cabelo desgrenhado, o rosto por barbear e acinzentado e vestia a mesma roupa amarrotada da véspera. Calculei que, depois de acordar no estúdio, se tivesse vestido e ido para o gabinete

Nada diss.e Nem sequer uma pegada. Se calhar foi engolida por um dos aligatores que vivem por trás da cabana.

Não digas semelhante coisa, pai'

O que queres tu que eu diga?

Telefonaste para o hospital?

Ainda não. Suspirou profundamente. O que havemos de fazer, Pearl!''

Ela voltará para casa ou ligará para nós. afirmei. Estou convencida disso, insisti, ao ver que o meu pai não reagia. Tomaste o pequeno-almoço?

Só café. Não tenho vontade de comer. Mas vai tu, Toma alguma coisa. Não vale a pena estarmos os dois a sofrer desta maneira, disse. Daqui a vinte minutos ligo para a Jeanne. Vão ficar todos aborrecidos por irmos incomodá-los.

Claro que não vão. Irão compreender.

Será bom, pois eu já não compreendo nada observou com azedume.

Lá estava ele, a afundar-se de novo na autocompaixão. Como a paciência já estava a faltar-me, fui tomar o pequeno-almoço. Depois achei que devíamos ir visitar Pierre.

Eu não posso, disse o meu pai. Não sou capaz de olhar para ele e continuar a prometer-lhe algo que não faço ideia se acontecerá.

Mas não podemos deixar de ir, pai. A nossa presença é, para já, tudo o que lhe resta. Temos de ir, insisti. Vem daí.

Ficou com uma expressão mais alerta.

Está bem, aquiesceu.

Depois de instruir Aubrey pormenorizadamente sobre a maneira de nos contactar no caso de alguém telefonar a dar alguma informação, guiou relutantemente o automóvel até ao hospital. Encontrámos a Dra. LeFebre no corredor, mesmo em frente da UCI.

Ainda não teve notícias da sua esposa, monsieur^ Perguntou a médica ao ver que éramos, mais uma vez, só nós dois.

Receio bem que não respondeu o meu pai.

Como está o Pierre, doutora? perguntei.

Ora consciente, ora inconsciente. Sempre que emerge vem cheio de esperança em deparar com a mãe à sua cabeceira e, como não a vê, volta a mergulhar no seu sono profundo. Não tem ideia aonde ela possa estar? perguntou a médica.

Imagino vagamente... O problema é que não há indícios dela em lado nenhum queixou-se o meu pai.

A Dra. LeFevre não disfarçou o seu aborrecimento, o que só serviu para que o meu pai se sentisse ainda pior.

Estamos a fazer os possíveis por encontrá-la, doutora disse eu. Temos a Polícia e os amigos à procura.

Muito bem disse a médica. Faremos o que pudermos acrescentou, dando a entender claramente que não bastaria.

Durante todo o tempo em que eu e o meu pai estivemos junto de Pierre, este não acordou. Nem sequer moveu os dedos quando lhe peguei na mão. Estava à espera de escutar a voz da mãe, não a nossa. A visão e o silêncio do filho pôs o meu pai fora de si. Não conseguiu permanecer no quarto por mais tempo e saiu para o corredor, onde o encontrei a andar de um lado para o outro.

Vamos para casa decidiu. Talvez alguém tenha telefonado.

Ninguém o fizera. O dia pareceu nunca mais terminar. Cada hora caía como mais uma pedra pesada nos nossos corações. O meu pai comeu qualquer coisa ao almoço mas, ao cair da tarde, começou a beber. Quando a noite chegou, mergulhara já no seu estupor confortável, enquanto eu ficava à espera do toque do telefone ou da campainha da porta. Porém, não houve novidades.

Foi então que, quando eram quase nove da noite, o telefone tocou e Aubrey veio à sala de estar informar-me de que um tal Mr. Clovis queria falar comigo.

Clovis? admirei-me, inicialmente sem conseguir lembrar-me de quem era.

Disse que se chama Jack Clovis, mademoiselle.

Oh, o Jack exclamei, correndo para o telefone.

Desculpe ligar tão tarde principiou ele.

Não tem importância, Jack. O que se passa?

Não sei se tem algum significado, mas, quando estava de saída dos campos esta noite, vi luz numa das janelas da casa grande. Sabia que não podia ser o reflexo de uma estrela ou da Lua porque esta noite estamos com o céu todo coberto por estas bandas explicou. A mim pareceu-me uma vela.

Foi ver?

Fui, por causa do que me contou sobre a sua mãe. Fui até lá e levei uma lanterna. Fiquei de ouvido à escuta, mas não ouvi ninguém. No entanto, tenho a certeza de que era uma luz de vela. Não a vi quando cheguei à casa, não a vejo agora mas alguém andou a passear lá dentro esta noite. Juro por tudo o que há de mais sagrado.

Reflecti por momentos. Era uma viagem de cerca de duas horas, mas aquela era a primeira vez que surgia um sinal de esperança.

Estaremos aí daqui a duas horas afirmei.

A sério? Não sei se será boa ideia, Pearl. Não encontrei nada. Não posso afiançar que tenha visto uma mulher. Detesto obrigá-la a vir de carro até aqui a meio da noite.

É por uma boa razão, Jack. Vamos mesmo. Mas não vale a pena ficar a pé.

Oh, não há problema. Vou-me estender um pouco no escritório do atrelado. Se adormecer, bata à porta. Caramba, espero mesmo que não venha cá em vão.

Não se preocupe com isso assegurei-lhe.

Assim que desliguei, fui ter com o meu pai. Para meu desgosto, encontrei-o estendido em cima do sofá do gabinete, com um dos braços a pender para o chão, agarrado ao gargalo da garrafa de uísque.

Pai! chamei-o, correndo para ele e sacudindo-o. Resmungou, abriu os olhos e depois voltou a fechá-los.

Pai, o Jack telefonou de Cypress Woods. Alguém esteve dentro da casa com uma vela. Temos de ir lá. Pode ser a mãe.

Voltei a sacudi-lo. Dessa vez largou a garrafa, que caiu no chão, derramando o seu conteúdo sobre o tapete e salpicando-me os pés.

Pai!

O que... Ruby?

Ora, pai, não! exclamei.

Fiquei a olhar para ele durante algum tempo e, ao aperceber-me de que seria incapaz de conduzir e, fosse como fosse, dormiria todo o caminho, acerquei-me da secretária. Peguei numa caneta e escrevi rapidamente um bilhete a explicar o que Jack dissera e aonde eu ia. Depois, para ter a certeza de que ele ° leria, prendi-o à sua camisa e deixei-o onde estava, completamente embriagado, no seu gabinete.

Eu nunca guiara durante uma viagem tão longa como aquela iria ser e, além disso, de noite. Ainda me lembrei de chamar alguém para ir comigo. Pensei em Catherine, mas recordei-me de que se encontrava de férias. Quanto a Claude ou algum dos seus amigos, estava fora de questão. Fosse como fosse, ninguém quereria ir até ao Hayou àquela hora da noite, pensei, portanto, teria de o fazer sozinha e sem demora.

Quando, finalmente, me sentei em frente do volante e meti a chave na ignição, pensei em algumas daquelas estradas escuras e senti as pernas e os dedos a tremer. Respirei fundo, verifiquei se tinha gasolina suficiente e depois arranquei, virando lentamente rumo às ruas citadinas, deixando o meu pai em casa.

Algures, na noite, a minha mãe aguardava. Pelo menos eu rezava para que assim fosse. Sempre que dúvidas me invadiam, lembrava-me de Pierre e do seu olhar implorante:

Vai buscar a mãe pedira-me. Ela que volte para casa.

Era para isso que acelerava em direcção à auto-estrada, noite adentro.

 

O BEIJO

Mal haviam passado dez minutos depois de sair da cidade, o céu que se vislumbrava pesado e aterrador cumpriu a sua ameaça. A chuva caiu, açoitada por um vento furioso que fazia com que as gotas grossas rebentassem, como ovos, contra o pára-brisas do carro. Os limpa-vidros rangiam com o esforço de manterem o vidro limpo. As luzes dos automóveis que vinham no sentido contrário tornavam-se indistintas. Dava a impressão de que se estava sob a acção de uma monção. Eu, com a pulsação muito acelerada, sustinha a respiração a cada curva.

De repente senti o carro derrapar e entrei em pânico, travando com demasiada força, o que fez o veículo resvalar de um lado para o outro. Soltei um grito quando o carro embateu numa árvore e a parte traseira do meu lado direito se soltou, deixando-me a berma à vista e as rodas da frente metidas numa vala. Os condutores que passavam, céleres, buzinavam como que enfurecidos, temendo que eu voltasse de novo para a estrada, metendo-me no seu caminho.

No entanto, eu nada mais conseguia fazer senão chorar, com as mãos enregeladas presas ao volante. Não conseguia mover um músculo. O meu coração pulsava freneticamente no peito, batendo-me contra as costelas. As lágrimas escorriam-me Pela cara, pingando do meu queixo.

Os limpa-vidros continuavam a trabalhar, apesar de o motor ter parado. Engoli sofregamente o ar, esforçando-me por acalmar. A chuva fazia lembrar o tamborilar de dedos gigantescos no tejadilho. Ouviram-se mais buzinas e, a certa altura, um par de potentes faróis aproximou-se, incidindo sobre mim... Era um camião enorme e eu tive a nítida impressão de que ia chocar contra o meu carro; no entanto, o condutor fê-lo parar a meia dúzia de metros. Vi-o apear-se e correr para me abrir a Porta.

Era um homem magro, envergando uma camisola branca gasta e umas calças de ganga. Usava um bigode escuro bem aparado e tinha cabelo castanho fino.

Está bem? perguntou-me.

Acho que sim respondi, limpando as lágrimas.

Ficou com as traseiras do automóvel enfiadas na auto-estrada e pode crer que ainda lhe batem. Já tentou recuar e endireitar-se?

Não, senhor.

O homem estava a ficar ensopado pela chuva, mas parecia não se importar com o facto.

Bem, então vá, tente ligar o motor aconselhou. Girei a chave. O motor ligou várias vezes, porém não pegava.

Se calhar teremos de chamar um reboque murmurou o homem.

Oh, não! Preciso de estar em Houma esta noite! O indivíduo reflectiu por um momento.

Deixe-me experimentar sugeriu.

Eu passei para o banco do lado e ele sentou-se ao volante

Deve estar afogado. Manteve o pé sobre o acelerador e ligou a ignição. O motor estremeceu violentamente por várias vezes, e de repente pegou. Vejamos se conseguimos sair desta vala disse o homem, metendo a marcha-atrás e acelerando a seguir. O carro ergueu-se e voltou a baixar por várias vezes. Ele sacudiu a cabeça. Não sei. Se insistirmos podemos dar cabo de alguma coisa.

Tenho de ir a Houma, senhor. É uma questão de vida ou morte.

Não é sempre? murmurou ele, olhando para mim. Tem a certeza de que já tem idade para guiar?

Oh, claro que sim. Tenho a minha carta mesmo aqui disse, procurando na minha bolsa.

Deixe estar. Não sou da Polícia. Os seus pais sabem que saiu com este tempo?

Estou a tentar ir ter com a minha mãe expliquei-lhe. O homem assentiu com um gesto de cabeça.

Está bem. Verei se encontro uma solução. Tenho uma corrente no camião. Dê-me uns minutos para a prender ao seu carro e depois verei se consigo tirá-lo desta vala.

Obrigada, senhor. Muito obrigada. Sorriu-me e abanou a cabeça.

Mulheres a conduzir murmurou, antes de sair.

Eu fiquei à espera. A chuva não abrandava minimamente. Vi-o trabalhar, aparentemente alheio à água que lhe caía em cima. Não me restavam dúvidas de que estava ensopado até à medula. Por fim, bateu-me no vidro da janela.

Agarre bem no volante. Se eu conseguir içar e tirar o carro daí, vire-o para a direita para ficar direito, está bem? Percebeu?

Sim, senhor. Obrigada.

Ainda é cedo para me agradecer observou. Voltou a correr para o seu camião. Eu aguardei, até que ouvi a corrente retesar-se e senti o carro mover-se devagar. Assim que ficou levantado, fiz como ele me dissera e, momentos depois, estava livre. O meu coração batia agora de alegria, em vez de medo.

Muito bem disse o sujeito, aproximando-se de novo da minha janela, já está. Se tenciona continuar a conduzir no meio desta tempestade, mais vale que o faça devagar, está bem?

Com certeza, senhor. Como poderei retribuir-lhe o favor?

Mande-me um cartão de agradecimento brincou o homem, afastando-se apressadamente.

Mas, senhor...

Esperei. Ele subiu para o seu camião e arrancou, buzinando ao afastar-se. Nem cheguei a saber como se chamava.

Minutos depois, voltei para a auto-estrada, conduzindo com cuidado exagerado até a chuva abrandar. Foi diminuindo até parar, tão subitamente como começara. Arrisquei-me a acelerar, sentindo mais confiança à medida que deixava mais quilómetros para trás e o piso ia ficando cada vez mais seco. Ainda assim, conduzir numa auto-estrada ao lado de camiões enormes, de carros que passavam, céleres, e tão poucas casas iluminadas, não me deixava nada tranquila. Se me acontecesse alguma coisa, a minha mãe nunca saberia e Pierre jamais se recuperaria, pensei. O meu pai ficaria sozinho e também acabaria por morrer, de certeza. A simples ideia de semelhante tragédia encheume os olhos de lágrimas pungentes.

Cerca de meia hora mais tarde, reparei que as nuvens tinham rompido e as estrelas ficavam visíveis, tremeluzindo de Promessas. O facto animou-me e fez-me sentir ainda mais segura. O horrível acidente que ocorrera no início da minha viagem ficou reduzido a uma recordação. No entanto, ao aproximar-me de Houma, apercebi-me de que já não sabia qual era a estrada secundária que o meu pai tomara para chegarmos a Cypress wods. Reduzi a velocidade e estudei as estradas, que agora pareciam todas iguais. Desesperada, resolvi parar na primeira cabana que encontrasse com luzes acesas. A viagem, que era suposto ter levado duas horas a fazer, já ia quase em três. Avistei uma casa à minha direita, pelo que abrandei e enveredei pelo trilho de acesso.

Mal me apeei, dois esquilos cinzentos subiram aceleradamente por um cipreste próximo, sobressaltando-me com o seu movimento súbito. Ficaram a olhar para mim de um ramo por cima da minha cabeça, cheios de curiosidade. Ri-me para eles e subi o caminho de cascalho que ia dar à varanda da casa.

Era um edifício de madeira nua, com venezianas cor de laranja desbotadas nas janelas. Algumas tinham estores, outras não. O pátio estava atravancado de automóveis usados, máquinas de lavar e pirogas danificadas. A varanda tinha colunas quadradas que mal suportavam o telhado de chapa e o primeiro degrau da escada partira-se. Não escolhera o melhor local para pedir indicações, mas não sabia bem a que distância ficaria o seguinte e não podia dar-me ao luxo de me perder mais do que já estava. Assim, continuei a aproximar-me.

Do interior vinha o som de música zydeco e vi, através de uma abertura na persiana metálica desengonçada, um homem a tocar gaita-de-beiços, outro um instrumento com uma superfície ondulada, semelhante a uma tábua da roupa, e um terceiro, um violino. Ouviu-se o som de uma mulher a rir, seguido de alguém a gritar: "Laissez lês bons temps rouler" à memória dos bons tempos. Seguiram-se mais gritos e gargalhadas e o som de alguém a dançar no chão de tábuas. Àquela distância eu conseguia sentir o cheiro a gumbo de marisco. Hesitei em interromper a festa mas, ao voltar-me para trás, deparei com as cercanias às escuras, as árvores com musgo fantasmagoricamente pendente, os pirilampos a brilhar em intermitência na noite e a ausência absoluta de trânsito ou vivalma, pelo que achei que não me restava alternativa. Subi os degraus e bati à porta, a princípio suavemente de mais para me ouvirem, depois com força suficiente.

Alguém riu. A música parou. Voltei a bater. Momentos depois apareceu à porta um homem vestindo apenas uns calções interiores. Tinha uma fina e densa tira de pêlos a descer-lhe pelo meio do peito, este salpicado, aqui e ali, por sardas amareladas. Descalço, tinha os dedos dos pés grossos e compridos como se fossem das mãos. Do meio do cabelo desgrenhado saíam madeixas que lhe chegavam à ponta do nariz. Dava a impressão de não se barbear há dias e de nunca ter aparado o cabelo na nuca, que se encaracolava sobre as clavículas. Ficou a olhar para mim.

- Está aí alguém, Thomas? perguntou uma mulher.

- Está respondeu o homem.

De repente apareceram duas meninas atrás dele, ambas com vestidos feitos de serapilheira e com um cabelo que parecia jamais ter conhecido tesoura, pois chegava-lhes abaixo dos ombros. Fitaram-me com os olhos muito abertos de curiosidade. Aproximou-se um outro homem, este mais baixo, que sorriu abertamente e, a seguir, uma mulher alta e robusta, que enfiou os braços roliços por entre quem estava à sua frente, abrindo passagem. O rosto bochechudo tinha queixo duplo e uns olhos grandes e escuros.

Ora essa, pra onde é que vocês dois 'tão a olhar. É só uma moça. Deseja alguma coisa, menina?

Perdi-me e gostaria que me dessem algumas indicações, minha senhora.

Perdida, hein? Olha pró que temos aqui, Jimbo disse, empurrando o homem mais baixo para que um outro, de cabeleira branca e hirsuta, pudesse juntar-se ao grupo embasbacado. Era o que tocava o instrumento da tábua. Esta diz que anda perdida.

Pra onde é que vai? perguntou o sujeito que usava a barba grisalha por fazer no queixo e um pequeno bigode.

Ando à procura de um lugar chamado Cypress Woods respondi.

Cypress Woods! exclamou o primeiro homem, revelando, a sorrir, uma série de buracos no meio dos dentes.

É da família dos Tate? perguntou Jimbo.

Não, senhor.

Pois, mas Cypress Woods é dos Tate observou o indivíduo, fitando-me com ar desconfiado.

A mulher concordou. Ao grupo vieram juntar-se mais dois homens, uma mulher, três raparigas mais velhas, à volta dos dezasseis anos, e um rapazito ligeiramente mais novo.

Veio atrás de algum daqueles tipos que trabalham nos poços de petróleo? perguntou a mulher em tom reprovador. Dobrou os braços sobre o peito e endireitou os ombros.

Não é bem isso respondi.

Não é bem isso? Que quer isso dizer? Não é bem isso?

Não vim cá para me encontrar com nenhum homem acrescentei, mas alguém que trabalha nesses poços tem a informação de que preciso.

Ai é?

A mulher não disfarçou o facto de não acreditar em mim. Porque seria assim tão importante para eles conhecerem todos os pormenores antes de me darem as indicações de que eu precisava?

Os Tate não moram lá, se é que quer falar com eles informou Jimbo.

Não é com os Tate que quero falar. Escutem continuei, soltando um suspiro de impaciência, eu já ali vivi. Percebera que, se não lhes satisfizesse mais um pouco a curiosidade, era bem provável que não me prestassem nenhuma informação. Mas não sou da família dos Tate.

Viveu ali? Olhou para a mulher. Não me diga? Também ela estreitou os olhos.

É parenta da velha traiteur, quis saber.

É demasiado nova para ser neta da Catherine Landry. comentou Jimbo, sacudindo a cabeça.

É bisneta dela?

Sou, sim senhora respondi.

Caramba, diabos me levem! É... realmente ela dá ares aos Landry, não achas, Jimbo?

Lá isso dá. Aquilo era gente de bom parecer. O Buster vai adorar saber disto. Há anos que não fala noutra coisa.

Podem dizer-me que caminho devo tomar para chegar a Cypress Woods? perguntei, já sem disfarçar a minha impaciência.

Claro. Desce uma centena de metros por ali e depois volta à esquerda, 'tá a ver? Depois vai pela estrada até chegar à primeira bifurcação, onde vira à esquerda e segue em frente. Irá ter a Cypress Woods. Percebeu?

Percebi, sim, senhor. Obrigada.

O Buster nem vai acreditar numa coisa destas observou a mulher. É parecida com a mãe dela, não acham?

O Buster não vai acreditar concordou Jimbo, acenando com a cabeça.

Ficaram todos a olhar para mim com os olhos muito abertos, fazendo-me sentir como um fantasma.

Obrigada agradeci, voltando apressadamente para o carro.

Ao olhar para trás, vi que continuavam no mesmo sítio, fitando-me de boca aberta. Esperava que as indicações dadas estivessem certas. Guiei devagar. Aquelas estradas secundárias eram ainda mais escuras do que a via que me levara até perto de Houma. Os ciprestes erguiam-se, altos e densos, com as suas ramadas retorcidas e curvadas sobre mim. A luz reflectida pelos faróis do meu carro fazia com que algumas se parecessem com esqueletos. Uma criatura peluda atravessou velozmente a estrada e, quando eu ia a dar a última curva, uma coruja fez um voo rasante à minha frente, deixando-me estupefacta com o tamanho das suas asas abertas. Sentindo o coração aos pulos, enveredei finalmente pelo caminho que conduzia a Cypress Woods e aos poços de petróleo. Já se haviam passado mais de três horas e meia desde que falara com Jack Clovis. Duvidei de que ainda estivesse por ali.

À medida que me ia aproximando, a mansão foi-se erguendo no meio da noite. As suas janelas estavam negras, mas algumas faziam lembrar espelhos reflectindo o movimento de árvores e arbustos. O edifício fazia transbordar o seu vazio para o silêncio circundante. Somente o vento agitava as persianas soltas e roçava nelas as pontas das ervas altas que cresciam a esmo ao longo das suas paredes. Sem o sol a brilhar à sua volta, parecia ainda mais abandonada e esquecida. Naquele momento era uma casa habitada apenas pelas sombras. Quando as nuvens passavam em frente das estrelas, essas sombras deslocavam-se e contorciam-se por trás das janelas e sobre a varanda.

Eu sentia um vazio dentro de mim ao olhar para a enorme mansão outrora repleta de música e risos, boa comida e bons amigos, um lugar de alegria e de vida, onde a minha mãe criara, fazia muito tempo, magníficas obras de arte. Agora não passava de uma tumba gigantesca sem nenhum corpo a habitá-la, com os seus ecos absorvidos pelo vasto espaço.

De repente, todos os meus temores da infância se abateram sobre mim. Tive medo de virar a cabeça e olhar para o poço de petróleo. O meu coração começou a bater desordenadamente. Algo luminoso no meio da escuridão expandi a-se sobre os terrenos que se estendiam entre a casa e os pântanos, em vagas ora focadas, ora desfocadas. Talvez fosse apenas um reflexo, mas para mim, naquele momento, parecia o concretizar dos meus pesadelos. Dava a impressão de se aproximar cada vez mais de mim, flutuando. Fiquei transida de medo.

Não! gritei, sacudindo a cabeça.

Acelerei pela vereda acima e virei à esquerda, na direcção do atrelado que fazia de escritório. Havia uma luz minúscula acesa na porta e reparei que o interior estava fracamente iluminado. Parei rapidamente e apeei-me, apavorada. Não fazia o menor frio, quando muito o ar húmido e quente ter-me-ia feito transpirar, no entanto, o que eu sentia era um frio na espinha que me enregelava o coração. Apressei-me a subir as escadas e bati à porta. Não obtive resposta.

Desalentada, pensei que Jack desistira de esperar por mim e

eu me encontrava ali completamente sozinha. Algo coaxou na erva, à minha direita, e ouvi correr celeremente ao longo da areia. Quando voltei a olhar para a casa, pareceu-me ver um véu fino a flutuar, vindo da varanda de cima. Fosse o que fosse, desapareceu em instantes. Voltei a bater, com mais força, mas ninguém respondeu. Experimentei a maçaneta da porta e descobri que esta estava destrancada.

Entrei no atrelado. Havia uma secretária à minha direita, coberta de fotocópias e outros papéis, um telefone e uma fotocopiadora. Ao fundo daquela divisão ficava uma pequena cozinha. À esquerda era o espaço da recepção e aí, estendido em cima de um sofá, com os pés apoiados sobre um dos bancos, estava Jack Clovis, profundamente adormecido. Fechei a porta do atrelado e fiquei parada por instantes, embaraçada e sem saber o que fazer. Felizmente, ele acabou por sentir a minha presença. As suas pálpebras estremeceram e descerraram-se. Assim que me viu, sentou-se precipitadamente e empurrou o cabelo para trás com a mão.

Oh, desculpe disse-me, esfregando os olhos vigorosamente. Devo ter adormecido.

Eu é que lhe devo pedir desculpa retorqui eu. Levei imenso tempo a cá chegar, mas tive um acidente mesmo à saída de Nova Orleães e depois andei algum tempo perdida.

Acidente? Está bem? exclamou Jack, levantando-se e abotoando a camisa.

Sim, estou bem. Derrapei na estrada e fui parar a uma vala, mas o condutor de um camião socorreu-me.

Oh! Bom. Fitou-me. O seu pai não veio?

Não respondi. Vim sozinha.

Sozinha? Oh... admirou-se, optando então por não fazer mais perguntas.

Viu alguma coisa desde que falámos? perguntei-lhe sem mais delongas.

Não. Também fiquei de vigia à casa durante cerca de uma hora. Não apareceram carros. Nem sei mesmo como é que alguém chegaria aqui, excepto...

Excepto o quê? quis saber.

Excepto se viesse pelos canais, claro. Estava demasiado escuro para descer até lá abaixo e verificar. Deseja beber alguma coisa? Água fresca, sumo? ofereceu, dirigindo-se para a minúscula cozinha.

Não, estou bem assim. Gostaria de ir imediatamente até à casa e inspeccionar o sítio onde disse que viu a luz.

Com certeza. Vou buscar duas lanternas prontificou-se Jack, aproximando-se de um armário. Não foi minha intenção fazer com que viesse até cá tão tarde. Amanhã teria provavelmente tido o mesmo efeito. O seu pai está a par da sua vinda?

Ainda não, mas deixei-lhe um bilhete. Não há problema. Jack anuiu, expressando, no entanto, um certo cepticismo.

É muitíssimo importante que eu encontre a minha mãe o mais depressa possível. O meu irmão precisa desesperadamente dela.

Jack ficou a olhar para mim por um instante e a sua expressão suavizou-se.

Compreendo. Muito bem... sendo assim, vamos. Abriu-me a porta e saímos. Mais vale irmos de carro até à casa declarou, indicando-me o carro.

Entrámos nele e eu fui a conduzir, descrevendo os problemas que a chuva me levantara no início da viagem.

Por aqui não choveu muito contou-me Jack. Estas tempestades de Verão costumam ser assim. Umas vezes são violentas, outras não.

Apeámo-nos e subimos os degraus que levavam até à casa. Jack acendeu a lanterna e eu fiz o mesmo. Depois entrámos na mansão. Eu rezava a todos os santos para que a minha mãe ali estivesse. Se a encontrasse, levá-la-ia directamente para o hospital. Poderíamos estar à cabeceira de Pierre dali a algumas horas.

A pouca iluminação que as nossas lanternas forneciam alongava as sombras e fazia com que os quartos e os corredores parecessem ainda mais fundos do que eram. A mobília envolta em lençóis fazia lembrar espíritos aguardando impacientemente pela sua reanimação, e as silhuetas criadas pelos nossos focos luminosos deslizavam pelas paredes e pelos tectos como fantasmas reunidos à nossa volta. Os nossos passos faziam ranger o soalho e os nossos sapatos ecoavam sobre as lajes, um pequeno som amplificado no vazio.

A luz vinha lá de cima disse Jack. Tenha cuidado. Subiu a enorme escadaria na frente. Os degraus rangeram

sob os nossos pés. Há muito tempo que não eram utilizados regularmente. Senti os pêlos da nuca arrepiarem-se, como se alguém me tivesse seguido. Parei e dei meia volta. À medida que íamos avançando, as brumas que os nossos feixes de luz iam afastando voltavam a cerrar-se nas nossas costas. Resolvi ficar o mais próxima possível de Jack. Ao chegarmos ao patamar, ele fez-me sinal para a direita e entrámos no que eu sabia ser o quarto do tio Paul.

Posso estar enganado disse-me, mas tenho quase a certeza absoluta de que a luz vinha daqui. Contei as janelas a partir da esquina da casa. Se havia alguém neste quarto, essa pessoa estaria mais ou menos aqui. Acercou-se da janela. A luz ainda ficou acesa algum tempo, antes de começar a diminuir. Imagino que essa pessoa se tenha metido pela casa dentro, afastando-se da janela. Chamei várias vezes, mas não obtive resposta. Como já disse, podia ser um vagabundo ou um ladrão.

Não há aqui muita coisa para os ladrões levarem, pois não? perguntei.

Bem, há mobiliário, obras de arte, bricabraque, utensílios de cozinha... Claro, há aqui muita coisa aproveitável, sobretudo para alguns desses piratas dos pântanos. Não temos crimes urbanos, mas existe por aí gente miserável a deambular pelos canais e a assaltar a casa dos outros. Este lugar fica tão fora de mão que não é muito fácil saqueá-lo; no entanto, gente desesperada é capaz de tudo.

Os feixes luminosos das lanternas eram como velas. Enquanto estávamos ali a falar, envolviam os nossos rostos num fulgor.

Porque haveria a sua mãe de aqui vir a meio da noite? perguntou Jack. Salta à vista que a Pearl contava com isso, caso contrário, não teria cá vindo nesta altura. Mas não quero ser indiscreto apressou-se a acrescentar.

Sacudi a cabeça e mordi os lábios. Se a minha mãe estivesse naquela casa, certamente ouvir-nos-ia, embora eu já não pudesse ter a certeza de que nos daria a conhecer a sua presença. Não fazia a menor ideia do seu estado de espírito naquela altura.

Já lhe falei da morte do meu irmão e do estado em que a minha mãe ficou, mas não lhe disse que ela se considerou responsável pela tragédia. Foi a uma praticante de vudu e mandaram-na submeter-se a determinados rituais. A seguir partiu para executar não sabemos que acções misteriosas. Enviou-nos uma carta a dizer que só dali a muito tempo é que voltaria para casa. se é que isso chegaria a acontecer. Desconfiámos de que regressara ao Hayou e encontrámos uma coisa que deixou na cabana onde ela e a minha avó viveram durante a sua infância.

Quer então dizer que a sua mãe morou nesta casa depois de se casar com o Paul Tate observou Jack.

É verdade.

É por isso que acha que ela voltará cá para realizar algum ritual vudu, não?

Ela voltará aonde quer que pense que tenha feito algo que terá dado origem a lançarem-nos uma maldição. Tenho a certeza de que se trata de algum ritual que tenha a ver com o afastamento dos maus espíritos expliquei-lhe.

- Presumo que não acredite em nada disso disse ele.

Pois não.

Jack acenou, pensativamente, com a cabeça.

- Lamento muito que esteja com todos esses problemas.

A situação está a piorar. O meu irmão, aquele que entrou em coma, tem estado muito mal. A psiquiatra que anda a tratá-lo está convencida de que ele acha que a minha mãe o culpa pela morte do meu outro irmão, pois não vai visitá-lo. Perdeu a vontade de viver concluí com tristeza.

É terrível.

Por aí já vê até que ponto é importante que eu encontre a minha mãe e a faça voltar para casa.

Sim, de facto é importante. Desculpe não me ter esforçado mais para descobrir quem aqui esteve. Quer passar revista ao resto da casa?

É melhor respondi. Jack pegou-me na mão.

Devemos ter cuidado. Esta casa está abandonada há muito tempo; nunca se sabe o que poderemos encontrar.

Não hesitei em lhe dar a mão, em que ele agarrou firmemente. Sentir a sua força era reconfortante. Começámos pelo piso de cima, entrando em todas as divisões, espreitando dentro de armários e casas de banho, não descurando qualquer espaço possível. Chamei pela minha mãe, implorei-lhe que me respondesse se estivesse naquela casa.

O Pierre precisa de ti desesperadamente, mãe. Se estiveres aqui, por favor, fala connosco. Por favor!

Só se ouviu o eco da minha voz, seguido de silêncio. Voltámos ao que fora o quarto da minha mãe. A cama não tinha lençóis mas ainda lá estavam o colchão e as almofadas. Varremos com o feixe das lanternas o chão e as paredes, espreitámos mesmo para debaixo da cama, mas não encontrámos ninguém nem vestígios de alguém ali ter estado recentemente.

Talvez a luz da vela não tenha passado de imaginação minha observou Jack tristemente, e assim fi-la vir até cá com falsas esperanças. Às vezes os pântanos pregam partidas aos nossos sentidos. Já viu algum lampejo de gás de pântano?

Não.

Incendeia-se e rola sobre a superfície da água, fazendo lembrar bolas de fogo explicou Jack. Acontece com tanta rapidez que uma pessoa fica sem saber ao certo se não foi só imaginação sua.

Pareceu-me ver algo do género quando me aproximei da casa de carro. Realmente poucas recordações conservo do Hayou. Era muito pequena quando me fui embora. Acho fascinante.

- Eu não tenho vontade de viver em qualquer outro sítio declarou Jack. - Não quero parecer indelicado mas, como sabe, não fui talhado para a vida urbana.

Sorri pela primeira vez em horas, embora não estivesse segura de ele poder ver-me no meio da escuridão.

- Bem - proferiu Jack um momento depois -, convido-a a voltar para o atrelado comigo. Prepararei algo fresco para bebermos. Também tenho melão no frigorífico - acrescentou. A não ser que esteja demasiado cansada.

A excitação e o nervosismo tinham sido tão intensos que nem reparara no adiantado da hora nem na fadiga que sentia. Como havíamos parado um pouco, começara a sentir as pernas pesadas e a fadiga a invadir-me progressivamente.

-Estou bem - disse. Só um pouco cansada.

- Que tenciona fazer? perguntou Jack. - Certamente não pretende voltar para trás ainda esta noite, pois não?

- oh, não. Ficarei aqui - respondi, olhando em volta.

- Aqui? Quer dizer, nesta casa?

- Exacto. Se a minha mãe esteve aqui, é possível que vol" te, e, se está escondida, acabará por aparecer. Não sei que outra coisa possa fazer.

- Mas esta casa está desabitada. Não tem parentes com quem possa ficar? Quero dizer, nesta altura devem viver aqui toda a espécie de criaturas, incluindo aranhas, cobras e...

-Não diga mais nada! - implorei. - Está a assustar-me e eu preciso de ficar aqui.

- Desculpe - pediu Jack, ao ver a minha determinação. Se tem a certeza de que é o que deseja fazer...

- É.

-Muito bem. Voltemos para o atrelado. Arranjarei alguma comida e uns cobertores para nós - propôs ele.

- Nós?

- Bem, com certeza não acha que a deixarei ficar aqui sozinha, pois não? Não conseguiria pregar olho ali no atrelado, preocupado consigo aqui - observou ele. - Quero dizer, aquela vela pode ter sido utilizada por algum vagabundo.

-Não precisa de ficar aqui. Eu estarei bem - afiancei, mas sentindo, no entanto, as pernas e os joelhos trémulos.

- Já lhe disse que tomo conta do seu poço de petróleo, farei o mesmo consigo - declarou com firmeza.

Sorri na escuridão, grata pela sua generosidade e cuidados.

-Obrigada - disse-lhe.

-Não tem que agradecer. Vamos buscar aquilo de que precisamos - sugeriu.

Saímos de casa. o melão frio era refrescante. Depois de comer um pouco, servi-me da casa de banho enquanto Jack arranjava cobertores e um candeeiro de petróleo. Em seguida voltámos a casa.

- Onde é que deseja acampar - perguntou ele depois de entrarmos, olhando para a escuridão.

- Lá em cima - respondi. - No antigo quarto da minha mãe.

o fulgor do candeeiro de petróleo lançava manchas de luz mortiça nas paredes enquanto subíamos as escadas. As nossas sombras alongavam-se atrás de nós pelos degraus abaixo e pela zona de entrada. Jack reparou onde eu fixara a atenção e ríu-se. Ergueu o candeeiro, fazendo com que as sombras mudassem de feitio e tamanho.

- Somos gigantescos - observou. - Assustaremos os fantasmas que se acoitarem pelos cantos desta casa.

Acredita em fantasmas, Jack? - perguntei-lhe.

- Claro. Já os tenho visto.

- Pare com isso - pedi-lhe.

-Não, estou a falar a sério. - Fez uma pausa no patamar e virou-se para mim. - No pântano, à noite, a pairar sobre a água. Fantasmas de índios, calculo.

- Talvez seja apenas o tal gás dos pântanos de que me falou - refutei.

-Não acredita em coisas espirituais?

- Acredito em Deus, mas não em duendes, fantasmas e espíritos vudu. Sou uma mulher da ciência - retorqui. - Tenho a certeza de que há uma explicação e uma razão lógicas para tudo. Talvez ainda não a conheçamos, mas há.

- Está bem - aquiesceu Jack, esboçando um pequeno sorriso complacente.

-Acha que mudarei de opinião?

-Não sei. Só sei que vi - respondeu confiantemente, prosseguindo em direcção ao quarto.

Quando entrámos, a chama brilhante do petróleo fez com que o quarto parecesse maior. Jack ia a pousar o candeeiro em cima da mesinha-de-cabeceira quando eu detectei algo sobre a cama.

- Espere! - exclamei. - Aproxime mais o candeeiro da cama.

Ele assim fez. Ficámos ambos a olhar para o que estava entre as almofadas.

Que diabo é aquilo? perguntou Jack. Não estava aqui há bocado, pois não?

Não, -respondi, estendendo lentamente a mão para o objecto. É um mojo, disse.

O quê?

O osso de uma perna de gato preto que foi morto exactamente à meia-noite. É um poderoso gris-gris expliquei-lhe. Não me restam dúvidas de que a minha mãe se encontra por aqui! Ou não reparámos naquilo quando aqui estivemos ou ela veio cá na altura em que fomos até ao atrelado.

Ao voltar-me para trás, vi Jack parado no mesmo sítio, de boca aberta.

Uma perna de gato preto?

Foi a velha cozinheira da minha mãe que lha deu. A mesma pessoa que morreu e depois ressuscitou para alertar a minha mãe, o que não chegou a acontecer porque ela estava na festa de inauguração da sua exposição de pintura. Essa é uma das razões que a levam a culpabilizar-se pela morte do Jean expliquei.

Jack fitou-me como se me achasse louca.

Essa tal mulher morreu e ressuscitou?

Para ser franca, não acredito em nada disso observei. Como já lhe disse, a minha mãe está a passar por uma espécie de depressão.

Jack assentiu com ar pensativo e em seguida olhou em volta.

Tem a certeza de que quer ficar aqui? voltou a perguntar, agora com um ligeiro tremor na voz.

Absoluta. A minha mãe pode voltar.

E se ela foi fazer alguma coisa esquisita noutro lugar qualquer? perguntou.

A única maneira de saber é ficar aqui e aguardar respondi, mais determinada que nunca.

Jack sentiu que nada me demoveria e deixou de tentar convencer-me a não ficar.

Muito bem. Não se importa de dormir em cima daquele colchão? Está um pouco poeirento, mas se lhe puser este cobertor em cima e mais este sobre a almofada...

Estarei óptima afirmei. Obrigada.

Eu arranjarei um sítio para mim além disse Jack, indicando a poltrona com a cabeça.

Preparou-me a cama e a seguir foi arranjar o seu canto, colocando o candeeiro de petróleo entre nós dois.

Está confortável? quis saber, depois de se estender.

Estou, obrigada respondi. Realmente está a ser muito simpático ao ajudar-me desta maneira.

Não tem que agradecer.

Que idade têm as suas duas irmãs? perguntei Naquele momento, depois de estar deitada no antigo quarto da minha mãe e de a escuridão se ter cerrado à nossa volta. Sentia necessidade de continuar a falar. Alem disso estava interessada em conhecer melhor a vida de Jack.

A Daisy tem vinte e dois, e a Suzanne, vinte e nove. Esta casou e tem dois filhos, um rapaz de três anos e uma rapariga de quatro. O marido tem uma fábrica de conservas.

O que faz a Daisy?

Acabou a faculdade em Baton Rouge e está noiva. Casa-se daqui a dois meses, com um tipo que vive em Praine. A família dele negoceia em mobiliário. Conheceram-se na faculdade.

E o Jack? Andou na faculdade?

Eu? Não. respondeu. Mal acabei o liceu fui logo ter com o meu pai aos poços de petróleo.

Contou-me que aos doze anos já trabalhava.

É verdade, mas nessa altura ainda não podia receber salário. Como é que se lembrou de que eu disse isso?

Lembrei-me, simplesmente retorqui, grata por ele não poder ver-me a corar.

Não, foi no trabalho que fiz a minha aprendizagem, continuou Jack. No entanto, também há muito Dispomos de muito tempo livre.

Quais as leituras que mais aprecia?

Sobretudo as que falam da Natureza. Os outros tipos chamam-me Emstem porque ando sempre com o nariz enfiado nos livros. Acho maravilhoso a Pearl querer ir para Medicina. Eu, claro está, nunca fui a nenhum médico, apenas a uma trai teur

Era o que a minha bisavô era.

Eu sei. Ganhou muita fama por estes lados. Também tem magia nas suas mãos? Ah, já me esquecia de que não acredita em nada que não tenha lógica,

Riu-se.

Às vezes as pessoas melhoram só de acreditarem piamente em alguém. É lógico, disse eu.

Jack ficou calado por instantes.

Imagino que A Pearl seja muito inteligente, não É?

Tenho boas notas.

A que ponto são boas?

Ao ponto de ser a melhor da minha turma respondi.

Não me diga! A sério? Bem me pareceu reflectiu Jack. Tem ar de inteligente, mas eu não sabia ao certo.

Porque não? perguntei, rindo.

Bem respondeu em voz lenta, as únicas raparigas que conheci eram...

Eram o quê?

Não eram feias, mas de bonitas tinham muito pouco retorquiu.

Gerou-se um prolongado momento de silêncio entre ambos, sem que nenhum de nós soubesse muito bem o que dizer. A certa altura quebrei o silêncio.

Isso é uma tolice, Jack. A aparência nada tem a ver com a capacidade mental.

Tem razão reconheceu ele. Só digo disparates. Deve ser do cansaço.

Devia dormir concordei. Boa noite, Jack. E obrigada por tudo.

Boa noite retribuiu ele. Quer que apague o candeeiro?

É melhor deixá-lo aceso.

Jack ficou calado, mas depois observou:

Não tem lógica.

Não pude deixar de me rir.

O Jack é muito boa pessoa. Estou contente por estar a tomar conta do meu poço.

Obrigado agradeceu ele. Pearl?

Sim?

Que fez ao osso de gato?

Ainda está aqui, na cama respondi. Foi onde a minha mãe o quis.

Jack ficou calado. O vento abriu caminho através das fendas da casa, entrando e saindo dos quartos que ficavam no piso de baixo, por vezes, em som sibilante. As paredes rangiam e, algures, uma persiana solta batia monotonamente contra um caixilho de janela. Pareceu-me ouvir o som de asas a esvoaçar e calculei que morcegos se tivessem refugiado no meio das vigas; sabia, porém, que não eram perigosos.

Fora uma noite longa e repleta de emoções. Naquele momento, ali deitada, tinha a impressão de que o meu corpo se afundaria no colchão. Tentei permanecer acordada para ouvir passos ou o som da voz da minha mãe, mas não tardei a adormecer.

Mergulhei em sonhos povoados com o rosto das pessoas que encontrara no Hayou. Imaginei que os indivíduos que encontrara na cabana e me tinham ensinado o caminho, estavam ali fora, em frente da casa. Depois de me seguirem até Cypress Woods, murmuravam entre si, no meio das sombras. Foram-se aproximando até entrarem na casa. Vinham todos a subir as escadas, liderados pela mulher de braços roliços, com as crianças todas atrás. Vi que entravam no quarto e senti-as à minha volta. Tinham uns olhos enormes e os seus rostos eram inconsistentes, umas vezes ovais, outras, redondos.

Foi então que senti uma mão pousar-me no rosto. Era demasiado real para ser um sonho; no entanto, não consegui abrir os olhos. Gemi e lutei contra os elos invisíveis que me prendiam. Tentei abrir a boca mas tinha o maxilar preso. A minha língua sufocava-me e fiz imensa força para abrir a boca. Finalmente os meus lábios separaram-se e gritei.

Jack correu imediatamente para o meu lado. Sentei-me e rodeei-o com os braços.

O que aconteceu? Houve algum problema, Pearl? perguntou, abraçando-me fortemente, enquanto eu prendia os braços em torno dos seus ombros fortes e seguros.

Não diga nada e abrace-me implorei. Abrace-me.

Está tudo bem sossegou-me ele, acariciando-me ternamente os cabelos, primeiro com a mão, depois com os lábios. Está em segurança. Está tudo bem.

Tentei engolir. O meu coração batia tão fortemente que tinha a certeza de que Jack também o sentia no seu peito.

Pobre menina disse ele. Maldita pouca sorte. Maldita.

Aproximou os lábios da minha testa. Eu fechei os olhos, deleitando-me com a ternura do seu toque. Continuou a beijar-me, fazendo deslizar os lábios pelos meus olhos fechados, até chegar aos meus lábios. Beijámo-nos longa mas suavemente. Foi então que ele se afastou.

Desculpe, não era minha intenção...

Não tem importância assegurei-lhe eu, suspirando quando ele afrouxou o abraço. Voltei a recostar-me.

O que aconteceu? perguntou-me.

Senti uma mão na cara.

Deve ter sido apenas um sonho. Eu também estava a ter um pesadelo acrescentou, pegando-me na mão. Já está melhor?

Já, obrigado.

Não quero que pense que estava a aproveitar-me de si ou algo do género. Eu...

Gostei que me beijasse, Jack.

Gostou?

Sim. Foi muito reconfortante.

Óptimo declarou ele. Bem... será melhor tentarmos dormir mais um pouco, não?

Desculpe. Sei que tem de se levantar cedo para ir trabalhar.

Não há problema observou Jack. Fitou-me durante mais algum tempo, antes de fazer menção de se levantar, mas depois hesitou, virou-se de novo para mim e inclinou-se para me dar mais um beijo. É só para ter a certeza sussurrou.

Vi o pequeno sorriso que esboçou e senti um calor intenso percorrer-me o peito, em direcção ao meu coração.

Foi com verdadeira pena que o vi pôr-se de pé e voltar para a poltrona. Ouvi-o acomodar-se e virei-me para olhar para ele. Durante um momento, limitámo-nos a ficar a olhar um para o outro através da luz fraca do candeeiro de petróleo.

Boa noite disse-me Jack.

Boa noite.

Virei-me para o outro lado e reflecti um pouco antes de me aperceber da razão de toda aquela ansiedade que sentia. Apalpei a cama e procurei com a mão.

Jack ouviu-me mexer.

O que há, Pearl? perguntou.

Jack disse eu. Foi o nojo.

O que tem?

Desapareceu.

 

O ÓDIO é LENTO COMO O VENENO

Se a minha mãe esteve naquela casa durante a noite, pela manhã partira ou escondera-se muito bem. Jack e eu passámos revista ao estúdio, à cozinha e até às despensas, com maior cuidado que da primeira vez; porém, não havia sinal dela nem tão-pouco respondeu aos meus apelos contínuos para que aparecesse.

Ela simplesmente não está aqui concluiu Jack. Deve ter ido para qualquer outro lugar durante a noite. Tem alguma ideia do sítio onde poderá estar agora?

Só conheço a minha tia Jeanne e o meu tio James. A minha mãe simpatiza com a tia Jeanne. Mantiveram contacto durante todos estes anos.

Então se calhar foi para junto dela. Podemos telefonar-lhe sugeriu Jack.

Será melhor lá ir pessoalmente contrapus eu. Mas antes disso quero telefonar ao meu pai.

Além de também precisar de tomar o pequeno-almoço. Está de barriga vazia.

Vou até à cidade e...

Não vai, não! Temos o atrelado à disposição insistiu Jack.

Quando chegámos ao atrelado, a maioria dos trabalhadores dos poços já ali estava. Quando nos apeámos do meu carro, as cabeças viraram-se na nossa direcção e os olhos esbugalharam-se.

Arranjaste uma ajudante nova, Jack? gritou alguém, enquanto os outros riam.

Não lhes ligue aconselhou-me Jack em voz baixa, Mantendo os olhos em frente e a cabeça erguida.

Quando entrámos no atrelado, Bart LaCroix, o capataz, que Se encontrava sentado na pequena mesa de cozinha a tomar café e a comer uma rosca, olhou para nós. Ao seu lado estava outro operário, mais ou menos da mesma idade, apenas mais alto e com uma farta cabeleira castanho-escura e encaracolada.

O que se passa? perguntou Bart, admirado por me ver.

Mademoiselle Andreas voltou para continuar a procurar a mãe explicou Jack. Tudo indica que esteve aqui durante esta noite.

Não me digas! Durante a noite? Isto não é lugar onde se ande a deambular durante a noite.

Ninguém andou a deambular corrigiu Jack.

Bart soltou um resmungo, tomou um gole de café e meteu o resto da rosca na boca de uma só vez.

O Billy diz que estamos a ter um problema com a bomba do trinta e três. Passa por lá e dá uma olhadela, está bem?

Certo. Que tal um café, Pearl? ofereceu.

Obrigada agradeci.

O homem mais alto levantou-se e aproximou uma cadeira da mesa, para eu me sentar. Agradeci-lhe.

O seu pai também cá está? perguntou Bart.

Não, não está.

Bart ergueu as sobrancelhas e olhou para o colega, que ficara de pé, à espera de ser apresentado.

Oh, Lefty, esta aqui é Mademoiselle Pearl Andreas, do vinte e dois.

Vinte e dois? exclamou Lefty, impressionado. Sentei-me.

Que tal uma rosca? ofereceu Bart. São frescas, trouxe-as de caminho para aqui. Temos uma padaria bastante boa por estas bandas. Aposto que ainda são melhores que as do vosso Café du Monde.

Obrigada agradeci, provando uma. Sorri e acenei afirmativamente com a cabeça. São realmente melhores confirmei.

Bem, então lancemos mãos ao trabalho, Lefty. Vamos olear a bomba disse, olhando para Jack, que fazia de conta não estar a ouvir, servindo-se do denso e negro café cajun. Bart e Lefty colocaram os capacetes e saíram do atrelado.

Quer natas no café? perguntou-me Jack, indicando a minha chávena com a cabeça.

Se fizer favor. Não foi minha intenção causar-lhe o menor embaraço junto dos seus colegas disse.

Nem sequer pense nisso declarou Jack firmemente. A maioria deles sente só inveja. Se quiser, preparo-lhe uns ovos.

Para já, isto chega disse. A rosca é realmente uma delícia.

E o que me diz a um sumo de laranja ou uns cereais? Acho que tenho para aqui uns flocos de milho.

Isto chega, Jack, a sério. Sente-se e tome o seu café. Não quero atrasá-lo ainda mais para o seu trabalho.

Jack sorriu e sentou-se.

O café é bastante forte, eu sei. Os homens gostam dele assim. O Bart diz que o ajuda a concentrar-se. Já trabalhou com o meu pai explicou. Pode parecer abrutalhado mas é uma doçura de pessoa. Acha que tem de tomar conta de mim.

É agradável ter alguém que se preocupe connosco observei, o que me fez recordar o que tinha para fazer. Preciso de ligar ao meu pai.

Esteja à vontade. Sirva-se daquele telefone além indicou Jack.

Aubrey atendeu logo ao primeiro toque, o que me fez sentir imediatamente um arrepio pela espinha acima. Era como se estivesse à espera do meu telefonema mesmo junto do aparelho.

Monsieur Andreas está a dormir, mademoiselle disse em voz baixa, nitidamente sem querer que os outros empregados escutassem a conversa. Teve um pequeno acidente ontem à noite.

Que tipo de acidente, Aubrey? O que aconteceu? Teria o meu pai vindo atrás de mim e estampado o carro com a chuva torrencial que caíra?

Não sei a que horas foi para cima ontem à noite, mas o certo é que sentiu uma tontura e caiu nas escadas. Partiu uma perna logo abaixo do joelho. É uma fractura pequena, mas o médico teve de lhe pôr gesso e dar um analgésico. É por isso que está a dormir, mademoiselle.

Eu sabia que Aubrey estava a ser delicado ao dizer que o meu pai sentira uma tontura. O mais certo era ter-se levantado da sua poltrona do gabinete e subido as escadas ainda muito embriagado.

Ele sabe onde estou?

Sabe, sim, mademoiselle. Encontrou o bilhete que lhe deixou. Ainda o tinha consigo quando deu a queda nas escadas. Eu ouvi o barulho e fui encontrá-lo ali. Chamámos imediatamente o médico, que foi de opinião que monsieur ficasse em casa. Tomei a liberdade de chamar Mistress Hockingheimer Para cuidar dele. Aguardo a sua chegada a qualquer momento.

Fez muito bem, Aubrey. Quando o meu pai acordar agradeço que lhe diga que telefonei e que voltarei a fazê-lo mais para o fim do dia de hoje. Diga-lhe... diga-lhe que a minha mãe ainda está por aqui e que eu espero encontrá-la em breve. Depois voltaremos as duas para casa.

Muito bem, mademoiselle.

Adeus, Aubrey despedi-me, pousando o auscultador com lentidão.

Mais problemas? perguntou Jack. Contei-lhe e ele sacudiu a cabeça.

Não há dúvida de que lhe caíram muitas dificuldades em cima, Pearl. Tem a certeza de que quer continuar por cá?

É imperioso que encontre a minha mãe declarei, lembrando-me então de que precisava de ligar para o hospital a saber de Pierre.

A enfermeira de atendimento das UCI foi sucinta. O meu irmão continuava a intercalar os seus períodos de sono comatoso com estados de alerta. Da última vez dormira oito horas seguidas. Depois estivera apenas meia hora acordado. Os médicos ainda não o tinham ido ver naquela manhã. A enfermeira aconselhou-me a ligar de novo à tarde.

Voltei a sentar-me, com o rosto crispado de preocupação.

Posso fazer mais alguma coisa por si? perguntou-me Jack depois de eu lhe contar o que me haviam dito no hospital.

Não. É melhor voltar para o seu trabalho. Vou visitar a minha tia Jeanne e depois volto.

Indiquei a Jack onde a minha tia morava e ele ensinou-me a lá chegar, com a ajuda de um pequeno mapa que desenhei num guardanapo. Por fim, deu-me o número de telefone do atrelado.

Se tiver alguma dificuldade ou precisar de alguma coisa, ligue para aqui pediu.

Obrigada, Jack.

Está com ar de quem precisa de um abraço observou, passando à acção antes que eu pudesse protestar, não que não estivesse com vontade de o receber.

Apertou-me contra si e eu pousei a cabeça no seu ombro.

As coisas irão melhorar garantiu-me. Verá. E por razões objectivas e lógicas acrescentou com um sorriso.

As suas palavras trouxeram aos meus lábios o sorriso de que estes tão desesperadamente necessitavam. Depois saí, para ir ter com a minha tia Jeanne.

As indicações de Jack revelaram-se perfeitamente claras. Cheguei a casa da minha tia cerca de meia hora mais tarde. James, seu marido, era um advogado de sucesso; no entanto, a família dela, os Tate, era uma das mais abastadas do Hayou. A casa onde morava, embora não tão ampla como Cypress Woods, impressionava.

Entrei na propriedade através de uma avenida ladeada de enormes carvalhos e ciprestes, cujas ramadas mais altas e frondosas formavam como que um dossel e onde sombras longas e refrescantes protegiam o caminho, dando-me a impressão de que atravessava um túnel que conduzia a outro mundo. A casa estava rodeada por acres e acres de campos e jardins. À minha esquerda via-se um lago, cuja água se encontrava coberta por uma ilha de folhas de nenúfares. A casa em si era formada por uma estrutura térrea e comprida, com uma varanda que se estendia por toda a frente e um dos lados. A comunicação entre o interior e a varanda era feita através de portas altas envidraçadas.

Estacionei o carro e apeei-me com lentidão. Das traseiras chegou até mim o zunir de segadeiras e vi um jardineiro a podar flores num jardim ao fundo, à direita. Os canteiros estavam cheios de hibiscos e hortênsias cor-de-rosa e azuis em flor. No meio do jardim erguia-se uma fonte de três andares. Esquilos cinzentos corriam à volta do jardineiro, alguns tão próximos que ele poderia fazer-lhes uma festa se estendesse a mão. Ergueu o olhar para mim; porém, retomou de imediato o seu trabalho, como se estivesse a ser vigiado por alguém invisível.

O céu da manhã apresentava-se sulcado por nuvens longas e finas que faziam lembrar névoa a pairar sobre o fundo azul-claro; no entanto, reparei em cúmulos de trovoada para os lados do golfo, deduzindo que chovia em Nova Orleães. Ao aproximar-me, dois cardeais esvoaçaram pela varanda e a seguir pousaram para olhar para mim. Não havia dúvida de que a casa da tia Jeanne estava situada num local idílico, mágico e tranquilo, pensei. Subi rapidamente os degraus e fiz-me anunciar servindo-me do batente de cobre. Instantes depois, apareceu um mordomo.

Desejo ver Mistress Pitot disse-lhe.

Quem devo anunciar, mademoiselle! perguntou-me. Muito mais novo que Aubrey, devia ter entre trinta e cinco e quarenta anos e o cabelo era castanho-claro e os olhos cor de avelã. Esguio, era senhor de um nariz pontudo, e os lábios, que formavam uma linha fina, encontravam-se naquele momento tensos, aguardando a minha resposta.

Pearl Andreas informei.

O mordomo dirigiu-me um aceno de cabeça e afastou-se para me deixar entrar. Depois de ele fechar a porta atrás de mim, parei, expectante.

Um momento, s'il vous plaít disse.

Olhei em torno, apreciando o vestíbulo. A casa era bem iluminada, com janelas por todo o lado, que deixavam o sol entrar a rodos. O soalho era feito com uma madeira de cipreste magnífica e as paredes estavam pintadas em tom de casca de ovo e decoradas com pinturas campestres e cenas de pescadores no canal. Mesmo à minha frente, erguia-se um relógio de pé alto em carvalho mesclado e, ao lado, uma ventoinha de marfim com figuras femininas, em trajes de baile, pintadas nas pás douradas. Momentos depois aparecia a tia Jeanne, de roupão rosa-vivo e chinelos japoneses, atravessando apressadamente o corredor na minha direcção, com uma expressão de alegria no rosto. O longo cabelo castanho-escuro caía-lhe pelos ombros, solto.

Pearl! Que surpresa maravilhosa! Estendeu-me as mãos e atraiu-me contra o seu peito, num abraço carinhoso. O teu pai está contigo?

Não, tia Jeanne respondi. Fez uma careta de preocupação.

A tua mãe continua desaparecida?

Respondi que sim com um aceno e ela sacudiu a cabeça, suspirando.

Que horror para vocês! Como se já não bastasse tudo o que aconteceu. Como vai o Pierre?

Não está nada bem. Na verdade, piorou bastante. É por isso que me encontro aqui. Tenho de encontrar a minha mãe. O meu irmão precisa dela. Esperava que tivesse notícias suas.

Lamento muito mas nem uma palavra, uma sílaba. Nenhuma das pessoas a quem perguntei por ela a viu ou sabe dela. Mas certamente acabará por aparecer acrescentou. Anda disse, pegando-me na mão, a minha mãe e eu ainda estamos a tomar o pequeno-almoço. Tens fome?

Não, respondi.

Não esperava ver Mrs. Tate. As pernas começaram a tremer-me e o coração acelerou.

Que tal te parece a nossa casa?

É bonita e muito tranquila respondi.

É verdade. Adoro partilhá-la com pessoas que me são queridas. Tens de ficar aqui esta noite. Promete pediu.

- Não posso respondi. No entanto, aceitarei o convite para outra noite qualquer apressei-me a acrescentar ao ver que o sorriso dela se desvanecia.

- Bom, se prometes, permito que não fiques esta noite. Vem conhecer a minha mãe.

Puxou-me consigo e eu olhei para a primeira divisão, uma agradável sala de estar em tons de azul-porcelana.

Grande parte do mobiliário é constituído por antiguidades explicou a tia Jeanne. O James adora comprar e restaurar peças. É o seu passatempo. Entusiasma-se mais diante de um achado valioso do que com os seus casos jurídicos. Já reparaste naquele sofá? perguntou, apontando. Está forrado com o material de uma colcha feita à mão e a cadeira ao lado é de mil e oitocentos. O James tem no seu gabinete uma autêntica secretária crioula francesa de plantação feita de pau-rosa e nogueira. Além disso encheu as paredes de facas, espadas e elmos que datam da ocupação espanhola da Luisiana. Oh exclamou, parando para me dar mais um abraço, estou tão contente por teres vindo finalmente aqui! Apesar das circunstâncias terríveis.

Obrigada, tia Jeanne agradeci, sustendo a respiração quando entrámos na sala de jantar.

Mrs. Tate estava de costas para nós. Sentada à mesa numa cadeira de rodas, mastigava lentamente um pedacinho de torrada. A tia Jeanne fez-me dar a volta até ficar de frente para ela, para que não tivesse de virar a cabeça.

Olha quem está aqui, mãe.

A artrite fizera com que a cabeça de Gladys Tate parecesse enterrada no meio dos ombros. Tinha o cabelo grisalho curto tão ralo que se lhe viam zonas de couro cabeludo. O rosto estava cheio de rugas, sobretudo na testa, queixo e em volta dos olhos escuros aguados. O roupão rosa e azul tornava-a ainda mais murcha e franzina. Pendia-lhe dos ombros delgados, rodeando-a. Os meus olhos foram imediatamente atraídos para as suas mãos. Tinha os dedos inchados nas articulações e curvos como garras. A nítida atenção de que as suas unhas eram alvo Parecia bizarra assim como o resto da sua maquilhagem. Tinha a cara demasiado empoada e o bâton era excessivo, o que lhe dava um ar apalhaçado. Tudo para disfarçar a sua palidez doentia, reflecti.

Não sorriu. Mergulhou o olhar inexpressivo no meu e a seguir os seus lábios finos tremeram, esboçando um sorriso sardónico. Pousou a torrada no prato, tomou um gole de café e abanou a cabeça.

É ela, é? inquiriu, por fim.

Não é linda, mãe?

Gladys Tate lançou um olhar reprovador à tia Jeanne e depois voltou a olhar para mim, mirando-me tão minuciosamente que me senti um espécime sob a lente de um microscópio.

Tem um rosto agradável admitiu. Mostra mais parecenças com o pai do que com o lado dos Landry. O que é uma bênção para ti acrescentou, acenando-me com a cabeça.

A minha mãe é considerada uma das mulheres mais bonitas e talentosas de Nova Orleães declarei, fixando nela o mesmo olhar atento com que me brindava. Ficarei muito orgulhosa e grata por me compararem a ela seja em que aspecto for.

Ora, disse, levando a torrada à boca.

Reparei que não conseguia fechar suficientemente os dedos para a manter segura. Mastigava com lentidão e via-se que engolia com esforço. No caso dela, a idade parecia mais uma doença do que uma fase natural.

Pearl, fazes o favor de te sentar e de comer alguma coisa insistiu a tia Jeanne.

Fiz-lhe a vontade e uma criada serviu-me imediatamente uma chávena de café.

Tens aqui compota caseira ofereceu a tia Jeanne, indicando o recipiente que ocupava o centro da mesa.

Os pãezinhos ao lado tinham um aspecto delicioso. Agradeci-lhe e peguei num, barrando-o com um pouco do doce que retirei com a faca da manteiga. A minha tia pediu-me então que lhe falasse mais de Pierre e eu descrevi-lhe o seu estado.

Mrs. Tate não perdia pitada do que eu dizia ou fazia.

Que idade tens agora? perguntou num tom áspero, nitidamente desinteressada da nossa tragédia.

Quase dezoito, minha senhora.

Acabou agora o liceu, lembra-se, mãe? Foi a melhor aluna e vai para a universidade tirar Medicina.

Mrs. Tate sorriu afectadamente, aprofundando as rugas.

Era suposto o teu pai também se tornar médico disse, acrescentando rapidamente: Não fiques admirada por eu estar tão bem informada sobre os teus pais. Não sei se sabes mas por pouco não foste criada aqui. Era o que devia ter acontecido.

Vejamos, a mãe prometeu nunca mais tocar nesse assunto.

A idosa olhou para a filha com os olhos gélidos e acinzentados a lançar chispas demoníacas.

Prometi, mas de que servem as promessas? Será que as pessoas as mantêm? As promessas mais não são do que mentiras elaboradas declarou.

Devia ter tido um ataque pouco grave recentemente, pensei, ao reparar que o canto esquerdo da boca lhe tremia, enquanto o outro se conservava imóvel. Também o olho do mesmo lado estava um pouco mais fechado.

Não sei qual é a sua opinião, Mistress Tate declarei, mas o certo é que hei-de ser médica.

A idosa pareceu, por momentos, impressionada. Depois mordiscou a sua torrada.

Sabes continuou, o meu filho Paul teria sido um bom pai para ti. Claro que eu não queria que isso lhe acontecesse, mas ela enfeitiçou-o.

Mãe!

Cavara-se uma linha esbranquiçada em torno dos lábios tensos e odientos de Mrs. Tate.

Não me contraries. De feitiços percebo eu declarou. Há aqui pessoas que pensam que a tua bisavó era uma curandeira, uma traiteur, como lhe chamam, mas eu sei a verdade. Era uma bruxa. Contei ao Paul. Implorei-lhe que se mantivesse afastado da cabana, daquela casa demoníaca, mas ele estava deslumbrado, condenado.

Se a mãe tenciona continuar a falar desse assunto, terei de levar a Pearl para comer noutro lado. Ela não tem culpa do passado.

Então de quem é a culpa? Minha? Olha para mim disse, erguendo as mãos em forma de garra. Vê o que aquela mulher me fez. Amaldiçoou-me. E porquê? Por ter tentado salvar o meu filho. O meu filho gemeu.

Desculpa pediu-me a tia Jeanne.

Não se preocupe. O sofrimento distorce o raciocínio das pessoas afirmei. Lamento que sofra de artrite, Mistress Tate, mas olhe que o facto não se deve a nenhuma maldição. Calculo que o seu médico lhe tenha diagnosticado artrite reumatóide observei. Está a tomar algum medicamento anti-inflamatório?

Medicamentos, ora! Tenho armários cheios de medicamentos que não me fazem nada murmurou.

Talvez fosse boa ideia ir a Nova Orleães consultar um especialista.

Já fui a especialistas, nenhum deles vale um chavo. Já te disse, é uma maldição. Não há medicina que me valha.

Isso não pode ser, Mistress Tate. Acho que...

Achas o quê? Estás a ouvi-la, Jeanne, ela acha. Que arrogância. Por acaso já és médica?

Não, mas...

Nesse caso não tens de te pronunciar ripostou a velha. Jeanne, dá-me um dos meus comprimidos. Esses ao menos impedem-me de sofrer.

Está bem, mãe respondeu a tia Jeanne, olhando para mim e levantando-se.

Mal saiu da sala, Mrs. Tate pareceu sofrer um assomo de energia. Inclinou-se para mim com olhinhos cheios de vivacidade.

Fala-me da tua mãe. Rápido.

Expliquei de novo o que acontecera a Jean e a razão que levara a minha mãe a voltar ao Hayou.

A história pareceu deliciá-la. Sorriu e recostou-se.

É verdade... proferiu. Ela é responsável e as coisas não ficarão por aí até ela...

Até ela o quê?

Morrer afogada, tal como o meu filho declarou amargamente.

Pareceu-me ver o seu rosto murchar e deformar-se sob a força do ódio que sentia. Ver semelhante transformação encheu-me de ira; a minha espinha foi percorrida por um arrepio. Olhei-a nos olhos, com igual amargura.

O que está a dizer é horrível. A senhora não só está doente do corpo como também da mente. O meu pai tinha razão. Os seus valores estão completamente distorcidos e o seu ódio fez de si essa... essa criatura! gritei, pondo-me de pé.

Pearl! exclamou a tia Jeanne, entrando na sala. O que aconteceu? Mãe, o que foi que disse?

Apenas a verdade murmurou a velha. Dá-me o comprimido.

Saí da sala a correr, sentindo o coração a ribombar e o rosto vermelho de raiva e medo.

A minha tia apanhou-me ia eu a descer os degraus da entrada.

Pearl, espera! Por favor! Não deves dar-lhe ouvidos. Pearl! Ela não está bem.

Não, não está. Tanta maldade e ódio está a corroê-la por dentro declarei. Tive esperança e rezei para que, por qualquer razão, a minha mãe tivesse vindo ter consigo. Sempre gostou de si, mas agora vejo porque tal jamais teria sido possível acrescentei, olhando para trás.

Pode ser que ela ainda me telefone, Pearl...

Vou voltar para Cypress Woods anunciei. Foi onde esteve recentemente.

Em Cypress Woods? Oh, valha-me Deus. Espero que esteja bem. Pobrezinha. Não há nada pior do que perder um filho. Olha como a minha mãe ficou.

Abrandei, pois ela tinha razão. Não havia desculpa para todo aquele ódio que dominava Gladys Tate, mas compreendia-se que achasse que o mundo fora cruel para ela.

Volta para dentro, Pearl. A minha mãe acalmará e irá dormir. Assim, nós as duas já poderemos conversar.

Agradeço-lhe, tia Jeanne, mas não ficaria descansada de tanto pensar no Pierre e nos meus pais.

Mas que contas fazer em Cypress Woods?

Esperar, ter esperança, continuar a procurar respondi. Passarei outra vez pela cabana para ver se ela lá voltou e depois voltarei para Cypress Woods.

Eu teria muito gosto em colaborar contigo nessa busca, mas não posso deixar a minha mãe sozinha explicou.

Eu ficarei bem, tia Jeanne.

A minha mãe vai voltar para a sua casa amanhã. A partir dessa altura podes vir ficar aqui comigo, está bem? Se quiseres, também te farei companhia nas tuas voltas.

Depois se vê. Esperava não ser obrigada a estar ali no dia seguinte. Obrigada.

Abraçámo-nos e eu fui andando em direcção ao carro. A minha tia ficou à entrada, de braços cruzados, sorrindo-me esperançosamente. Vi o mordomo aproximar-se dela e ouvi-o pronunciar:

Mistress Tate deseja vê-la imediatamente, minha senhora. A tia Jeanne disse-me adeus e eu meti-me no automóvel e afastei-me, compreendendo naquela altura um pouco melhor o tormento e a tristeza em que a minha mãe vivera enquanto fizera parte da família Tate.

À primeira vista, a cabana parecia estar na mesma. No entanto, o carreiro por entre a erva alta afigurava-se-me mais pisado, mas não tinha a certeza. A porta da frente da cabana Pendia agora da dobradiça de baixo, estando a de cima partida. Quando entrei, recebi um choque tremendo. As poucas peças da velha mobília que restavam haviam sido reviradas e atiradas como se fossem de brinquedo. O sofá tinha as pernas Partidas e assim estavam os braços da cadeira de balouço. No sítio da parede contra a qual uma cadeira fora atirada, viam-se marcas.

A cozinha estava pior. A mesa fora virada de pernas para o ar, e as tábuas de madeira de cipreste encontravam-se rachadas e partidas. O fogão a lenha fora afastado da parede e as prateleiras, por cima, desmanchadas.

A visão daquela destruição tão selvática encheu-me de terror. Espreitei pela escada que conduzia ao piso de cima. A minha mãe não poderia ter cometido semelhante loucura, pensei. Nem mesmo sob a acção de uma raiva tremenda teria forças para tanto. Mas então quem fora? E porquê?

Hesitante mas curiosa, comecei a subir as escadas. Os degraus rangiam tão violentamente que tive medo de que cedessem sob o meu peso. Olhei pela porta do primeiro quarto com que deparei e fiquei de boca aberta. Alguém esventrara o colchão, cujo recheio estava espalhado por todo o lado e nas paredes também se viam golpes fundos.

De repente, ouvi um pequeno estrondo e, por um momento, o coração caiu-me aos pés. O meu primeiro impulso foi dar meia volta e correr escadas abaixo; no entanto, o pânico pregou-me ao mesmo sítio. O barulho repetiu-se. Parecia vir de baixo e de trás da casa. Respirei fundo, virei-me e desci os degraus lenta e silenciosamente, de ouvido à escuta.

Os barulhos cessaram mas eu tinha a certeza de que não os imaginara. O silêncio era mais assustador. Com o coração a bater violentamente, saí da cabana e olhei à volta, para o terreno circundante. Do outro lado do carreiro, um mocho, empoleirado no ramo grosso de um plátano, olhava-me como que desconfiado. Agitava as asas nervosamente e virava-se sobre o ramo. A certa altura levantou voo e passou por cima de mim, afastando-se. Voltei a respirar fundo e fui dar a volta à cabana. Ouvi algo escapulir-se no meio das ervas e, ao ver uma cobra-boca-de-algodão enroscada em cima de uma pedra a apanhar sol, parei. Não conseguia engolir. Tinha medo de fazer um som que fosse.

Nesse momento ouvi algo a chapinhar na água do canal e acerquei-me rapidamente da esquina da casa, a tempo de ver alguém desaparecer na curva, remando numa piroga. Voltei-me lentamente para as traseiras da cabana e reparei que alguém andara a atirar bolas de lama contra a sua parede. Mas porquê? Que significaria toda aquela raiva e destruição? Seria apenas vandalismo?

Voltando silenciosamente pelo carreiro estreito que ia ter à frente da casa, meti-me no carro cheia de pressa. Fiquei sentada durante algum tempo, a reflectir. Depois resolvi ir até à cidade antes de voltar a Cypress Woods. Tinha a garganta tão seca que parecia lixa. Precisava de uma bebida fresca. Parei num pequeno restaurante chamado simplesmente "Cozinha da Avó". Tinha um balcão em fórmica branca, com dez banquetas e cerca de uma dúzia de mesinhas de dobrar e cadeiras de madeira. O cheiro a caranguejo, gumbo e jambalaya agitou-me o estômago e eu apercebi-me de que a montanha-russa emocional em que eu andara despertara-me uma fome avassaladora.

Atrás do balcão estava um homem baixo e careca e, a seu lado, uma mulher corpulenta de sorriso simpático, enormes olhos castanhos e o cabelo castanho-escuro fortemente preso com ganchos num coque atrás da cabeça. Ambos exibiam aventais brancos onde se lia "Cozinha da Avó, Houma, Luisiana". Três das mesas encontravam-se ocupadas, uma com um grupo de senhoras de idade, metade das quais me fitaram com curiosidade.

Viva cumprimentou a mulher corpulenta. Vem almoçar?

Um quadro negro anunciava que o prato do dia era caranguejos recheados.

Venho sim, se faz favor respondi, escolhendo a mesa mais próxima.

A mulher deu a volta ao balcão.

Bem, não temos lista escrita mas nesta casa nunca falta a tarte de caranguejo, sanduíches variadas e a jambalaya especial do Billy.

O homenzinho careca assentiu com a cabeça e sorriu.

Tudo acompanhado com arroz integral da região continuou a mulher. Hoje também temos quiabos e tomates guisados, se gostar.

Quero a jambalaya e uma limonada, se faz favor pedi.

Ouviste, Billy?

É pra já retorquiu o homenzinho, deitando mãos ao trabalho.

Está de passagem? perguntou a mulher, continuando a° meu lado.

É verdade respondi.

Ficou a olhar para mim como se pressentisse que eu tinha algo mais para dizer.

A minha mãe já viveu aqui acrescentei. Agora voltou e eu... conto juntar-me a ela.

- Eu nunca saí daqui. Como se chama a sua mãe?

- Ruby - respondi.

- Ruby? Não me diga que é a Ruby Landry! - Ao ver-me acenar afirmativamente com a cabeça, acrescentou, excitada: - A menina é filha da Ruby Landry?

- Sou.

- Escutem aqui - declarou, dirigindo-se para quem estava presente na sala. - Está aqui a filha da Ruby Landry. Todos Pararam de comer e olharam para mim.

- Eu sou a Ella Thibodeau - apresentou-se a mulher. A minha avó foi amiga da sua bisavó. Onde está a sua mãe? Caramba, como eu gostaria de a ver! Andámos juntas na escola. Ela não tarda aí, é?

-Não sei. Ela desconhece que vim ter com ela.

- Oh! - Sorriu, no entanto os seus olhos reflectiram a confusão que sentia. - Há muito tempo que a Ruby não aparece por cá. Ouvi dizer que agora é uma pintora famosa em Nova Orleães. Vem cá pintar alguma coisa?

- Isso mesmo - menti.

Apressei-me a desviar o olhar. o meu pai sempre dissera que o meu rosto era um livro aberto. Qualquer pessoa podia ler os meus pensamentos.

- A Ruby deve ter ido lá para cima, para Cypress Woods, É uma tristeza terem deixado aquele lugar tão bonito arruinar-se. Espero que ela o recupere - sussurrou. - A maluca da Gladys Tate não deixa ninguém aproximar-se de lá, nem mesmo para consertar uma persiana estragada. E aqueles campos maravilhosos... - Deu um estalo com a língua. - Foi uma tristeza, uma tragédia. Pobre Paul Tate. Não havia rapariga aqui do sítio que não andasse pelo beiço por ele, sabe, mas realmente ele só tinha olhos para a sua mãe. Sabíamos que a Gladys Tate não gostava dela. Mistress Tate andava sempre de nariz empinado, ninguém era suficientemente bom para os Tate.

"De modo que, quando a Ruby e o Paul fugiram para casar, ficámos todos satisfeitos por eles. A menina parecia um anjinho. A sua mãe foi muito corajosa por viver naquela cabana sozinha consigo, aguentando com tudo sem ajudas. o Paul levou muito tempo a assumir as suas responsabilidades - disse -, mas quando isso aconteceu, construiu aquele palácio para a Ruby. Uma tragédia - repetiu -, alguma maldição antiga, de certeza. Se a sua bisavó fosse viva, nada disso teria acontecido - assegurou-me. - Ela era uma milagreira, sobretudo quando se tratava de curar pessoas.

Eu lembro-me...

-Falas de mais, Ella - gritou Billy. - Vem buscar a limonada da senhora.

-Oh, cala essa boca - ripostou-lhe Ella, indo, porém, buscar a limonada e trazendo-a para a minha mesa. - Onde é que eu ia? Ah, já sei, lembro-me de que uma vez tive uma dor de ouvidos terrível. Não conseguia dormir para esse lado. Fui ter com a sua bisavó Catherine, que me assoprou fumo para dentro do ouvido e depois tapou-o com a mão. No dia seguinte, já estava curada. Um remédio simples mas só uma traiteur de mão-cheia é que poderia saber a quantidade de fumo a soprar e como, não é verdade?

Sorri. -É o que me têm dito - observei.

- Anda a estudar?

- No Outono entrarei para a universidade.

- Ah, mas que maravilha - exclamou.

-Aqui está a jambalaya da senhora. Queres dar-lha antes que arrefeça? - perguntou Billy.

Ella rolou os olhos e trouxe-me o meu almoço.

- o Billy não é de Houma, mas sim de Beaumont, no Texas - esclareceu, como se o facto explicasse tudo.

- Foi-nos visitar, à minha mãe e eu, enquanto estivemos emCypress Woods? - perguntei, começando a comer.

- Eu? Não. Nesse tempo a sua mãe era muito metida consigo e raramente vinha à cidade. o Paul tratava-lhe de tudo. Nunca vi homem mais dedicado à sua mulher. Os de Beaumont - continuou, alteando a voz o suficiente para Billy ouvir -, bem podiam aprender alguma coisa com ele no que respeita a cuidar das suas mulheres.

- Sai de ao pé da rapariga e deixa de lhe encher os ouvidos - ordenou-lhe Billy. - Claro, o julgamento pela sua custódia foi chocante. Ainda hoje o povo está convencido de que a menina era filha do Paul, isso lhe garanto - declarou a mulher. - Sempre que o via consigo ao colo, ficava toda derretida. Pai ou não, não poderia tê-la amado mais. Uma tragédia - voltou a repetir. - Bem, diga à sua mãe para passar aqui para nos vermos, 'tá bem? Agora que é uma artista famosa em Nova Orleães não quer dizer que esqueça as velhas amigas.

Disse-lhe que sim com a cabeça e ela voltou para o seu lugar ao balcão. Fui pensando no que Ella dissera enquanto comia. Durante algum tempo, a vida em Cypress Woods devia ter sido idílica para a minha mãe. Vivia num castelo, com um homem que a tratava como a uma rainha. A sua arte era o único contacto que mantinha com o mundo exterior.

Ajambalaya estava deliciosa; no entanto, tinha o estômago tão apertado que não consegui chegar ao fim. Depois de Ella levar a louça, liguei para o meu pai do telefone que estava a um canto. Dessa vez encontrei-o acordado.

Lá dei cabo de tudo outra vez, não é? lamuriou-se ele. Devia estar aí contigo, à procura da Ruby.

Eu estou bem, pai. Tens muitas dores?

Bem as mereço respondeu-me. Escuta, Pearl, não te quero por aí às voltas sozinha. É melhor voltares para casa. Daqui a um dia ou dois, quando estiver mais recuperado, verei o que há a fazer.

Não te preocupes porque está tudo bem, pai. Descobri que a mãe está aqui. Não posso ir-me embora sem ela. O Jack Clovis está a dar-me uma ajuda.

Ah, bem, ao menos que haja alguém que o faça disse, ainda arrasado por sentimentos de autocomiseração. Vai-me telefonando para eu estar a par da situação, está bem?

Prometo. Assim que encontrar a mãe, telefono garanti.

Agora nem sequer posso ir ao hospital ver o Pierre gemeu. Estou uma desgraça acrescentou, começando a soluçar.

Atribuí o seu estado emocional aos medicamentos e ao seu sofrimento. Tentei reconfortá-lo um pouco mais e depois desliguei e marquei o número do hospital. Dessa vez consegui falar com a Dra. LeFebre.

Receio que a situação não esteja nada bem informou-me ela. O doutor ligou o Pierre à máquina de diálise. Os seus períodos de inconsciência são cada vez mais prolongados e comigo já não reage minimamente. Soube alguma coisa da sua mãe?

Ando a tentar encontrá-la. Estou em Houma.

O tempo não joga a nosso favor alertou-me. A tensão arterial do Pierre está a baixar.

Depois de desligar, a minha expressão preocupada atraiu a atenção de Ella Thibodeau, que se aproximou rapidamente.

Está com algum problema, querida? perguntou. Sacudi a cabeça, mas as lágrimas escorriam-me pela cara.

Não, senhora respondi com voz incerta.

Bem, se precisar de alguma coisa, ligue para nós. O pessoal cajun é muito solidário.

Agradeci-lhe e paguei a conta. A seguir saí apressadamente, a fim de voltar para Cypress Woods.

Durante o caminho, recuperei de novo a serenidade. A conversa com Ella permitira-me ter uma ideia mais precisa de como fora a vida em Cypress Woods. Que teria a minha mãe visto quando regressara ali? Teria ficado ainda mais deprimida ou olhara para o seu antigo lar através de uma lente cor-de-rosa? As recordações tê-la-iam levado de volta a um tempo em que as flores estavam em botão, as aves cantavam, um tempo de música e beleza, de conforto e segurança? Considerando tudo o que acontecera, já não admirava que tivesse fugido para Cypress Woods e para o mundo onde em tempos fora protegida pelo dinheiro e o amor de Paul e pela magia da sua avó Catherine.

Onde estaria aquela magia naquele momento?, perguntei a mim mesma. Precisávamos tanto dela...

 

O PASSADO VEM A JULGAMENTO

Os cúmulos de tempestade tinham deslizado insidiosamente na nossa direcção ao longo de todo o dia. Quando cheguei a Cypress Woods, já estavam bem por cima de nós, rumorejando e anunciando chuva e vento. Segui directamente para a casa; no entanto, uma nuvem rebentou no preciso momento em que parei o carro. Esperei um pouco mas, ao ver que o tempo só pioraria antes de abrandar, tapei a cabeça com o casaco, precipitei-me para fora do carro e subi os degraus da entrada a correr. O vento açoitou-me com pesadas gotas de água, ensopando-me o rosto.

Entrei na casa e fechei a enorme porta, impedindo assim a entrada da chuva e das rajadas de ar; vi-me no meio da escuridão densa que enchia o vestíbulo húmido e bafiento. Um arrepio perpassou-me, fixando-se como a palma fria de uma mão monstruosa na base da minha nuca. Estremeci e olhei para o cimo da escadaria.

Mãe! gritei, Estás aí?

A minha voz reverberou e o eco fez lembrar alguém a atormentar-me, imitando o meu desespero.

"Mãe, estás aí?"

Ao silêncio mortal seguiu-se o ranger pesado da estrutura e do piso de madeira. As persianas agitaram-se e a chuva começou a cair com mais força. Andaria a minha mãe ali por fora? A ideia de ter sido apanhada por aquela tempestade horrorizava-me. As lágrimas deslizavam-me pelo rosto, tal como a chuva que escorria pelo vidro da janela, misturando-se com as gotas de chuva que, nele, ainda não se tinham evaporado. Senti outro arrepio percorrer-me e fazer com que os meus dentes batessem. Tornava-se imperioso encontrar um lugar mais quente.

Entrei apressadamente na sala de estar que ficava à minha direita e tirei a coberta que tapava o sofá. Apesar de poeirenta, embrulhei-me nela como se fosse um cobertor e instalei-me num dos cantos, encolhendo as pernas contra o peito e rodeando-as com os braços.

O vento dava a impressão de circular em torno da casa e abraçá-la, procurando a mais pequena abertura para atravessar, assobiando e açoitando as divisões, agitando os longos cortinados numa dança macabra e balouçando os candelabros agoirentamente lá no alto. A tormenta ganhou intensidade. Já ouvira dizer que as tempestades de Verão no Hayou eram muitas vezes piores do que as de Nova Orleães. Aquela parecia ter o poder de arrancar aquela casa enorme dos seus alicerces e atirá-la para o pântano.

Mãe, onde poderás estar a esta hora? Correrás algum perigo? murmurei. Quem sabe... encontrar-se-ia no andar de cima, a chorar, encolhida a um canto, tal como eu estava ali, naquele sofá. Olhei para o tecto, desejando ter o poder, só daquela vez, de ver através das paredes.

Um prato decorativo caiu de cima da prateleira de uma estante à minha direita e desfez-se em pedaços no pavimento feito de tábuas de madeira de cipreste. O barulho assustou-me e fez-me gritar. O vento tornou-se mais ruidoso, irado. Os candelabros entrechocavam-se como ossos velhos. Numa outra divisão, ao fundo do corredor, caiu mais uma peça de vidro, explodindo como um tiro. As gotas de chuva tamborilavam contra as janelas, ziguezagueando e arranhando como unhas afiadas, vidros abaixo. O vento que passava livremente pela casa agitava a poeira. Tossi e enterrei o rosto entre as mãos, sentindo-me ora gelada ora febril. A tempestade estava cada vez mais violenta e tive a impressão de que nunca mais terminaria. As próprias paredes ameaçavam ruir, esmagando-me. Estava tão escuro que mal conseguia ver a minha mão. Foi então que ouvi a porta da frente abrir-se.

No entanto, também a ouvi fechar.

Pearl! Pearl, onde está? gritou Jack.

Nunca me sentira tão feliz por ouvir a voz de outra pessoa, sobretudo a dele.

Jack, estou aqui!

Vi-o entrar apressadamente, de impermeável negro luzidio, capuz e botas altas, de lanterna e um embrulho debaixo do braço.

Está bem? perguntou-me, correndo para mim. Pousou a lanterna e tirou o chapéu. Depois limpou a nuca molhada pela chuva com a mão.

Esta tempestade horrível surgiu tão de repente queixei-me por entre os dentes, que batiam.

-A rádio alertou-nos sobre a aproximação de tufões, contou Jack. A tempestade foi crescendo à medida que entrou pelo continente.

Tirou o embrulho que trazia debaixo do braço. Continha um cobertor e um candeeiro de petróleo, que pousou em cima de uma mesa.

Reparei que vinha para aqui e ainda lhe acenei para que fosse ter comigo ao atrelado, mas a Pearl não reparou.

Despiu a gabardina e colocou-a em cima de uma cadeira, no preciso momento em que nova rajada de vento e chuva embatia contra a casa, levando-me a soltar um grito. Jack veio imediatamente para junto de mim e eu refugiei-me entre os seus braços, saboreando o calor do seu corpo.

Pobrezinha, está enregelada reparou, esfregando-me vigorosamente os ombros e os braços.

Os meus dentes não pararam de bater uns contra os outros.

Oh, Jack, que vamos fazer?

Esperaremos que isto acabe respondeu-me. Mas não podemos esquecer que tudo o que estiver solto irá pelos ares. Deixe-me acender o candeeiro.

Afastei-me dele para lhe libertar os movimentos. Depois voltou a sentar-se e ofereceu-me de novo o aconchego dos seus braços. A luz da chama tremulante desenhava formas distorcidas na parede. Faziam lembrar silhuetas de marionetas grotescas pendendo de cordéis e movendo-se ao ritmo do vento.

Está mais quente? perguntou Jack.

Estou sim, obrigada. Ninguém disse que era um tufão

observei.

Às vezes abatem-se sobre nós sem avisar, o que torna excitante viver aqui comentou Jack, sorrindo.

Parece-me que passo bem sem este tipo de excitação, Jack, riu.

A sua mãe contactou com a sua tia? Se voltou para Cypress Woods é porque não a encontrou lá, como é evidente, concluiu.

Não. Tenho a certeza de que também não irá lá nem falará com quem lá está. Conheci a mãe da minha tia esclareci, fazendo uma careta.

A Gladys Tate?

Disse que sim com a cabeça.

Nunca a vi por estes lados, mas já ouvi dizer que é uma pessoa muito ríspida. Na verdade acrescentou, logo a seguir, a rapaziada diz mesmo que quem usa calças naquela família é ela. Sempre que Mister Tate aparece por aqui, tem um ar desgraçado. Desde que recebamos o que nos é devido, não tenho nada a ver com isso; portanto, não presto muita atenção.

Jack, voltei à cabana da minha bisavó e alguém foi ali depois de eu e o meu pai termos lá estado. Quem quer que tenha sido, destruiu tudo. Descrevi o estado em que a mobília e as paredes tinham ficado. Porque haveria alguém de fazer semelhante coisa a um lugar velho e desabitado como aquele? _ perguntei.

- Não faço ideia respondeu Jack com ar preocupado. É estranho. Reflectiu por um momento, depois encolheu os ombros. Comeu e bebeu alguma coisa?

Fui à cidade e almocei num restaurante chamado Cozinha da Avó.

Na casa da Ella? A comida é óptima, não é?

Andou na escola com a minha mãe. Não lhe falei da verdadeira razão que me trouxe até cá disse. Nem da cabana.

Bem, não tarda nada que todos saibam o que aconteceu. O meu pai diz que, aqui no Hayou, ter telefone é desperdiçar dinheiro. Uma pessoa conta algo a outra e, antes desse dia chegar ao fim, já toda a gente sabe.

As pessoas cajuns são realmente chegadas, não são?

Formam uma grande família respondeu Jack orgulhosamente. Mas também temos as nossas contendas, como toda a gente.

Eu sou meia cajum afirmei. No entanto, tenho a impressão de que estou noutro país.

A minha avó costumava dizer que uma pessoa só se torna cajun de três maneiras: pelo sangue, pelo casamento ou pela porta das traseiras. Pois eu digo-lhe uma coisa: a Pearl tem a genica de uma cajun. Aposto que poucas raparigas elegantes de Nova Orleães viriam aqui sozinhas, por muito importante que fosse.

Não sei que mais poderia fazer. A minha mãe não está em casa, o meu irmão tem vindo a piorar a cada dia que passa, o meu pai tem uma perna partida...

Jack abanou a cabeça com ar pensativo. De repente, apercebi-me de que a tempestade chegara ao fim. Reinava na casa um silêncio sepulcral e o ar estava parado.

Acabou, disse, aliviada. Jack sacudiu a cabeça.

O olho do furacão está agora a passar por cima de nós. Vem aí mais, preveniu.

De facto, momentos depois, o vento recomeçou a assobiar Pela casa, fazendo bater as persianas, e a chuva voltou a tamborilar fortemente sobre os já abalados caixilhos das janelas. No piso de cima, uma rajada de ar rebentou com uma janela, que ouvimos estatelar-se no meio do chão.

Encolhi-me e Jack apertou-me contra si. O meu coração batia tão fortemente que eu tinha a certeza de que ele pensava que era o seu.

Não lhe acontecerá nada de mal assegurou-me, mais uma vez.

Senti os seus lábios sobre o meu cabelo, o seu hálito quente sobre o meu rosto. O terror desencadeado pelo furacão, a longa tormenta de tristeza que recaíra sobre nós, assim como a situação desesperada em que nos encontrávamos, fizeram-me ansiar pela tranquilidade e segurança que encontrava nos braços de Jack, uma pessoa meiga, afectuosa e muito sensível.

Enterrei o rosto no seu ombro, incapaz de conter as lágrimas. Jack abraçou-me com força e consolou-me, enquanto eu soluçava. Conhecíamo-nos há pouco tempo, mas a sua sinceridade fazia com que esse período curto representasse anos. O vento uivava, a chuva fustigava a casa, mais objectos caíram e quebraram-se, mais uma janela foi pelos ares. O mundo parecia estar a abrir uma fenda por onde nós iríamos cair. A tonalidade púrpura do céu começara a acentuar-se e a escuridão a aumentar. A chama do candeeiro de petróleo tremeluzia a duras penas.

Caramba, sussurrou Jack, dando a perceber que mesmo ele, que nascera e vivera ali toda a vida, estava impressionado com aquele furacão. A casa continuava a tremer. Tudo o que se encontrava preso, abanava. Agarrámo-nos um ao outro quais dois náufragos desesperados tendo por única salvação uma jangada num mar revolto. O vento aumentou e abrandou, lançando repetidas rajadas de chuva contra a casa.

Foi então que, tão repentinamente como tinha começado, a tempestade terminou. A Mãe Natureza relaxou e saiu de cima de nós com a tempestade no seu encalço, dirigindo-se para norte, a fim de lembrar outros de quão poderosa podia ser e do quanto a devíamos respeitar. Jack afrouxou o forte amplexo com que me prendera e ambos respirámos de alívio.

Terá mesmo acabado? perguntei, ainda céptica.

Acabou respondeu. De vez. Não vou gostar nada de ir lá para fora amanhã de manhã e deparar com toda a destruição que causou. Sente-se bem?

Disse que sim com a cabeça, porém não me afastei do seu lado. A minha pulsação abrandara, mas a lassidão que sentira anteriormente nas pernas ainda não desaparecera. Não estava com grandes forças para me levantar. Jack acariciou-me o cabelo com a mão esquerda.

Por quantas destas tempestades já passou? perguntei-lhe.

Algumas, mas esta foi de arrasar.

Eu nasci durante uma tempestade contei-lhe. A minha mãe falou-me do que passou e de como o meu tio Paul esteve ao seu lado a ajudá-la no parto.

Então, isso explica tudo exclamou Jack.

Explica o quê?

De onde lhe vem essa genica... do furacão. Deixou a sua marca no seu coração. Aposto que impõe respeito quando se zanga.

Não... Bem, talvez reconheci. Jack riu-se.

Não tenciono investigar. Portanto declarou, voltando a sentar-se, que tenciona fazer agora?

Nada. Vou ficar aqui à espera respondi.

Certamente não acha que a sua mãe voltará, pois não?

Acho, sim retorqui. Ela sabe que eu estive aqui. Não poderá deixar de voltar.

Jack reflectiu por um momento.

Muito bem disse, por fim. Vamos até ao atrelado buscar umas coisas e ver até onde chegaram os estragos causados pelo furacão, e depois voltamos.

Não, prefiro ficar aqui insisti. Ia iniciar uma busca pela casa quando a tempestade se desencadeou. Talvez a minha mãe esteja escondida nalgum sítio.

Não há dúvida de que possui a teimosia dos Cajuns. Quando tomam uma decisão, nada os faz voltar atrás observou Jack. Está bem. Espere por mim aqui. Quando eu voltar, passaremos a casa em revista juntos. Vou buscar alguma coisa para o nosso jantar.

Não tenho fome.

Mas terá assegurou-me ele. Deixarei o candeeiro, mas prometa-me que esperará por mim antes de se pôr a andar outra vez pela casa.

Prometo, declarei.

. Jack ficou a olhar para mim por uns instantes e depois sorriu-me naquele seu jeito suave e discreto que eu começava a adorar. Retribuí o gesto e inclinei-me de modo a que os meus lábios se entreabrissem ao de leve, convidando os dele. Beijámo-nos.

- Volto já, prometeu-me num sussurro, vestindo a gabardina luzidia e colocando o chapéu. Não saia daí.

Não se preocupe, não sairei prometi.

Jack riu e retirou-se apressadamente.

Olhei à minha volta. No auge da tempestade, correra a abrigar-me, sem reparar no refúgio que escolhera. Agora, mais calma, ergui os olhos para o enorme quadro a óleo que mostrava uma angra nos pântanos. Embora estivesse demasiado escuro para ver os pormenores, uma visão breve faiscou na minha mente e vi a garça noctívaga de bico grosso passar, célere, sobre as águas.

De repente, veio-me à memória uma série de recordações de infância. Vi-me a espreitar pela enorme escadaria que, na altura, parecia-me o Grande Canyon. Ouvi risos no corredor, a gargalhada intensamente melódica do meu tio Paul, que me sorria efusivamente sempre que me via. Senti-o levantar-me e levar-me aos ombros pela casa. Rememorei deliciosos aromas da cozinha. Vi a nossa cozinheira a trabalhar sobre os fogões e a mandar a ajudante cortar isto e misturar aquilo. Todas as pessoas que povoavam as minhas recordações eram grandes, gigantescas nas palavras e nos feitos.

À medida que as recordações iam fluindo, a casa, naquele momento tão escura e apavorante, ressuscitava na minha memória. Segundo as minhas recordações, era luminosa, quente e cheia de vida. O tio Paul pendurava um dos quadros da minha mãe. enquanto eu me mantinha ao lado desta, segurando na sua mão e maravilhando-me com a magia que saíra dos seus dedos. Com um traço de pincel, ela conseguia encher um rosto de vida ou fazer aves voar ou peixes saltar. Ouvi música e mais risos. Via-se gente por todo o lado, não havia sala ou canto que parecesse deserto ou frio. E de uma janela, provavelmente do meu quarto, via os jardins, ensolarados e luxuriantes de flores com todas as cores do arco-íris.

Ficara com a impressão de que, um dia, eu e minha mãe havíamos fugido daquela casa e que, por tudo ter sido tão rápido e definitivo, as minhas recordações haviam mergulhado até aos meandros mais recônditos da minha mente. Era quase como se eu tivesse receio em deixá-las vir à tona, de arrastarem consigo algum pesadelo horrendo.

Os poços de petróleo trabalhavam no meio da noite. Criaturas deslizavam ao longo das margens do pântano e a água escureceu, apavorante, ocultando o rosto que se reflectiria na sua superfície, um rosto que ainda me estava velado.

Pestanejei, e as recordações desapareceram com a mesma rapidez com que tinham chegado. Dei comigo de novo no presente, naquela casa escura e húmida, à procura da minha mãe, na esperança de a encontrar antes que fosse demasiado tarde para todos nós.

Não me mexi até Jack voltar, e este, ao ver-me no mesmo sítio, riu-se. Trazia uma caixa de cartão cheia de comida e bebida.

Está demasiado escuro para ver como deve ser, mas há árvores por terra, ramos espalhados, água a correr por tudo quanto é lado. O atrelado aguentou-se bem, embora tenha ficado sem telefone, mas só pela manhã é que poderei inspeccionar a maquinaria. Vou pousar isto em cima da mesa da sala de jantar disse, indicando a caixa de cartão. Pegue no candeeiro e vá à frente.

Assim fiz. O céu ainda estava intensamente carregado, o que também escurecia muito a casa. O candeeiro lançava um clarão de luz turva no chão e nas paredes e, à medida que percorríamos o corredor, o negrume parecia colar-se a nós. Pequenos ratos-do-campo escapuliam-se para dentro de buracos não maiores do que uma moeda de vinte cêntimos. Ouvia arranhar e correr apressadamente noutras divisões, pelo que depreendi que outros animais também se tinham refugiado da tempestade ali dentro.

A mesa da casa de jantar estava coberta por um pano que o tempo amarelecera. Puxei-o para trás e Jack pousou a caixa de cartão. Sem largar o candeeiro, olhei para as paredes, o tecto, o grandioso candelabro e as janelas amplas. Tive lampejos de velhas recordações. Em criança, aquela mesa parecera-me ter quilómetros de comprimento e largura. A imagem do tio Paul sentado à cabeceira faiscou na escuridão como um fantasma, e eu sobressaltei-me.

O que foi? perguntou Jack. Sacudi a cabeça.

Nada, está tudo bem.

Quer dar mais uma vista de olhos à casa?

Se não se importa repliquei.

Jack pegou-me na mão e segurou o candeeiro com a outra. Fomos então verificar a cozinha e as despensas, assim como as salas de estar, antes de descermos ao piso de baixo. Vi, através de uma janela ao fundo do corredor, faiscar à distância. Eu agarrava-me fortemente à mão de Jack, massacrando-lhe os dedos, mas ele parecia não se importar.

Fomos ver ao meu quarto de criança, espreitámos nos armários, demos uma vista de olhos no quarto de hóspedes, nos aposentos do tio Paul e da minha mãe, mas, desta, nem sinal.

Onde poderá ela estar com uma tempestade tão grande reflecti em voz alta.

Talvez esteja com alguém de quem pouco falou. Quem sabe se não encontrou alguma cabana desabitada e se instalou nela, ou então foi para um motel. Esta noite pouca coisa pode fazer, Pearl, com os telefones cortados e as estradas interrompidas em vários pontos. Mais vale descontrair-se o melhor que puder.

É provável que tenha razão reconheci, suspirando e apercebendo-me de que tinha a garganta seca e a língua áspera. Estou cheia de sede.

Trouxe água e um pouco de vinho de mirtilo anunciou Jack, acompanhando-me de novo até à escadaria. O jantar será de restos de ontem à noite, mas fui eu mesmo quem preparou tudo.

Ri-me ao ver o orgulho com que Jack falava dos seus cozinhados.

E que fez ontem à noite?

Peixe assado. O Bart e o Lefty tinham combinado comer comigo, mas foram antes a uma jantarada de caranguejo "à discrição" disse, enquanto descíamos as escadas.

Porque não foi com eles?

Não me apetecia respondeu.

Não tem namorada, Jack? perguntei.

Não lhe podia ver o rosto quando se virou para mim, mas desconfiei de que sorria.

Já tive algumas, mas nada de sério.

Porque não?

Apenas isso, retorquiu, nada de sério. Na sua maioria, as raparigas que conheci são...

São o quê? perguntei, intrigada.

Cabeças-de-vento respondeu ele, fazendo-me rir. O Bart diz que uma mulher não precisa de ter muito na cabeça para emparceirar com um homem, mas não é esse o tipo que me agrada continuou.

Voltámos à casa de jantar, onde Jack pousou o candeeiro em cima da mesa e começou a retirar as coisas de dentro da caixa de cartão. Vinha tudo cuidadosamente embrulhado em papel de alumínio. Serviu-me um copo de água.

Obrigada, Jack agradeci, bebendo rapidamente a água, que estava fresca.

Quer mais?

Para já, não, obrigada.

O seu rosto parecia lustroso mas tranquilo sob o fulgor do candeeiro, e os seus olhos brilhavam.

Que tipo de mulher prefere, Jack? insisti.

Alguém com quem possa conversar sobre coisas importantes, uma companheira, não apenas uma...

Apenas uma quê?

Apenas uma mulher replicou Jack, voltando-se de novo para a caixa de cartão. Trouxe um fogão esterno pequeno para aquecer o molho. Receita da minha avó; três chávenas de maionese caseira, seis gotas de Tabasco, quatro colheres de chá de sumo de limão, meia-chávena de alcaparras, uma colher de chá de molho de alcaparras e duas colheres de sopa de mostarda seca.

Deve ser uma maravilha. Reconheço que de cozinha não percebo nada. Lá em casa temos uma cozinheira, aliás desde sempre. Ao ver que Jack ficava calado, acrescentei: Acha-me uma menina rica e mimada?

-Não me parece mimada observou ele. Raparigas mimadas e cabeças-de-vento mimadas já eu conheci muitas disse, fitando-me atentamente. A Pearl não se assemelha a nenhuma delas.

Ainda bem. Quer que ajude nalguma coisa?

Claro, Tome disse, estendendo-me uma toalha, guardanapos e talheres. Ponha a mesa.

Sim, senhor aquiesci obedientemente.

Jack descobriu um carrinho de rodas e serviu-se dele para preparar a nossa comida. Também trouxera dois suportes com as respectivas velas, azuis. Depois de as colocar no centro da mesa, acendeu-as. Pouco contribuíram para aumentar a luminosidade, no entanto, o brilho que emanavam era reconfortante. Eu pus os pratos e os copos e Jack trouxe o seu vinho caseiro.

Muito bem, mademoiselle, agora já se pode sentar. Depois de eu o fazer, serviu o vinho. Espero que seja do seu gosto. É de uma colheita de mil novecentos e cinquenta.

Ri-me e provei-o.

Excelente, senhor! Os meus parabéns.

Obrigado, mademoiselle. E agora, a estrela da nossa festa! Pegou no meu prato e dispôs os alimentos nele. A seguir

fez o mesmo ao seu e sentou-se ao meu lado.

Tem um aspecto delicioso elogiei.

Servira-me o peixe acompanhado com feijão-verde e milho.

Lamento que não haja pão.

Passaremos sem ele repliquei.

Jack sorriu e pegou no seu copo de vinho.

Vamos brindar?

Vamos.

À tempestade.

Ao furacão?

Foi graças a ele que esta noite estamos aqui a jantar.

Os copos tilintaram um contra o outro. O que prova que, para os perseverantes, há males que vêm por bem.

Senti o calor do vinho, mas também dei-me conta de outro tipo de calor, esse vindo do coração.

Comamos, propôs Jack.

Não sei se era das circunstâncias ou do desgaste provocado pelas emoções vividas, o certo é que eu estava com um apetite voraz. Há muito, muito tempo que não tinha uma refeição tão deliciosa. Enquanto comíamos, Jack foi-me falando de si e da sua família. A mãe, que era diabética, estivera quase sempre doente durante a sua vida de adulta; portanto, quem tratara praticamente de toda a alimentação e da casa fora a avó. Havia sido criado no Hayou e raras vezes saíra dali, indo só duas vezes a Nova Orleães e a Dálias com a família, visitar uns parentes e, em certa ocasião, a Clearwater, na Florida, de férias.

Imagino que a minha vida tenha sido muito simples comparada com tudo o que a Pearl já fez e viu observou Jack. Estou longe de ser aquilo que designaria de sofisticado.

A sua vida poderá ter sido simples, mas o Jack de simples não tem nada. A maioria dos chamados homens sofisticados que conheci não lhe chegava, sequer, aos calcanhares declarei, talvez com um pouco mais de fervor do que tencionava; porém, depois do terceiro copo de vinho, tinha a língua solta e os pensamentos livres. Nem mesmo a luz fraca impediu que reparasse no rubor de Jack e no seu ar de satisfação. Riu suavemente e lançou-me um olhar de contentamento.

Continuámos a comer com lentidão e, sempre que erguia os meus olhos, encontrava os dele que, por vezes, pareciam ter a chama das velas a arder dentro.

Lamento não ter café ou sobremesa desculpou-se Jack, quase num sussurro.

Não tem importância. Comi mais do que esperava.

Realmente vê-se observou Jack, indicando o prato vazio, onde eu não deixara qualquer resto.

Muito pouco próprio de uma senhora, que deve deixar sempre alguma coisa no prato reconheci, sacudindo a cabeça com ar reprovador.

Não me diga! Bom, nesse caso acho que nunca conheci nenhuma senhora como deve ser replicou ele, imitando não sei que rato-dos-pântanos. Só daquelas que comem o prato.

Ri a bom rir, atirando a cabeça para trás e endireitando-me a seguir. Jack também riu, mas inclinou-se para mim. As nossas cabeças aproximaram-se lentamente e ele beijou-me a ponta do nariz. Os nossos olhares ficaram novamente presos um no outro. O meu coração batia suavemente e eu sentia as faces e o pescoço a ficarem quentes. Seria do vinho?

Não será melhor arrumarmos as coisas? sugeri em voz branda.

Arrumar? Nem pensar, mademoiselle. Temos empregados para isso. Permita-me que a acompanhe ao salão propôs Jack, levantando-se e oferecendo-me o braço. Eu também me pus de pé. Talvez não fosse má ideia levarmos connosco o vinho caseiro acrescentou ele, pegando na garrafa pelo gargalo e em dois copos. Depois apagou as velas com um sopro e eu segurei no candeeiro. Voltámos para a sala de estar.

Embora a tempestade já tivesse passado, continuava a chuviscar, o que originava um agradável tamborilar nos vidros das janelas. Os relâmpagos ainda faiscavam à distância, cada raio conferindo ao céu negro-azeviche uma tonalidade vermelha flamejante por uma fracção de segundo. Fixei o meu olhar na visão, enquanto Jack enchia os nossos copos.

Espero que em Nova Orleães tudo esteja bem observei.

Não perca a esperança disse Jack, passando-me o meu copo, cujo conteúdo fui beberricando. A certa altura relaxei e encostei a cabeça às costas do sofá. Jack ficou de pé, de olhos postos em mim. Quando voltei a olhar para ele, vi bastante mais do que simples preocupação e angústia no seu olhar. O que vi fez com que o meu coração desse um pulo. Aquilo a que chamavam amor à primeira vista existiria de verdade?

Os seus olhos eram um mar de desejo, o que também me tornava ciente da minha própria ânsia de satisfação romântica. Essas sensações faziam-me sentir culpada. Engoli a custo e fechei os olhos. Quando os reabri, Jack estava ao meu lado, pegando-me na mão.

Sente-se bem?

Acho que estou apenas cansada repliquei. Ele fez um gesto de compreensão.

Claro. Depois do que passou, não admira. Bem acrescentou, se insiste em ficar aqui mais uma noite, penso que podemos ir lá para cima. Os cobertores que eu trouxe ontem à noite ainda lá estão.

Eu assenti e ele tirou-me o copo para o pousar na mesa junto de nós. Em seguida ajudou-me a levantar e pegou no candeeiro. Caminhámos no meio da escuridão e subimos as escadas, pouco ou nada falando. Ele envolveu-me com o seu braço direito e eu encostei a cabeça ao seu ombro, fechando os olhos.

De repente ouvi um ruído em baixo e parei.

Que foi aquilo?

O quê?

Ouvi qualquer coisa. Olhei para o negrume que se estendia abaixo de nós. Mãe? Estás aí?

Silêncio.

Deve ter sido um rato sugeriu Jack.

Ainda fiquei mais um pouco à escuta e depois acabei por concordar. Continuámos a subir as escadas tal como até ali, Jack a levar-me e eu de cabeça encostada ao seu ombro.

Cá estamos anunciou ele ao chegarmos ao antigo quarto da minha mãe. Jack pousou o candeeiro em cima de uma mesinha-de-cabeceira e eu, depois de me descalçar, recostei-me. Jack deixou-se ficar no mesmo sítio, a olhar para mim. Estendi-lhe a mão, na qual ele agarrou, levando-a aos lábios. Eu nada disse. O meu coração batia fortemente. Ele aguardou um momento e depois largou-me a mão e voltou-se, a fim de ir para o sofá.

Jack, chamei.

Foi como se a minha voz tivesse o poder de se alhear da minha vontade. O nome dele viera-me à boca tão rápida e espontaneamente que eu nem tive oportunidade de reflectir sobre o porquê ou o que eu desejava. Não importava. Ele sabia.

Jack voltou para junto de mim, ajoelhou-se ao lado da cama para beijar a minha mão antes de se inclinar para pousar os seus lábios sobre os meus.

Pearl, sussurrou.

Tentei raciocinar, pensar no que estava prestes a acontecer, como sempre fizera quando me sucedera beijar algum rapaz. Naquela noite, no entanto, a minha avaliação científica manteve-se ao largo, aquela minha parte que questionava e analisava cada carícia, cada beijo, nunca mostrou a face. E não era apenas o vinho. Nos braços de Jack, sentia-me segura e certa dos cuidados e da ternura dele por mim. O que ele desejava que acontecesse... era por nós dois.

As suas carícias eram ternas e desprovidas de egoísmo. Em vez de me sentir receosa e com medo, recebi com prazer o turbilhão de emoções, tendo vontade de me deixar envolver por aquela onda avassaladora. Senti que abria cada porta, convidava cada beijo. Ergui o queixo para que os seus lábios alcançassem o meu pescoço, enquanto eu lhe beijava as faces e os olhos. Quando se levantou, cheguei-me para o lado, a fim de lhe arranjar espaço junto de mim.

Pearl, sussurrou Jack.

Nunca o meu nome soara tão docemente.

Passou as mãos pelos meus braços, pousando-as a seguir nos meus seios. As nossas roupas como que desapareceram num abrir e fechar de olhos, deixando que a pele dos nossos corpos se tocasse. Sempre que ele se detinha, algo hesitante, eu beijava-o com mais ardor, afastando qualquer relutância, asseverando-lhe que eu queria seguir a trilha que ambos íamos abrindo em direcção ao meu coração.

Tens a certeza? perguntou-me ele uma última vez.

Sim, oh, sim, Jack respondi.

A cada carícia dos seus lábios e das suas mãos, percorriam-me sensações electrizantes. Dei-me conta de que, afinal de contas, eu não era nenhuma criatura científica, mas sim uma mulher.

Explodimos um contra o outro. Eu mordi-lhe a orelha com tal força que me pareceu sentir o gosto de sangue; porém, ele não se queixou. Jack manteve-me fortemente presa nos seus braços, abrandando os seus beijos à medida que os nossos corações se aquietavam. Agarrava-se a mim como se não quisesse deixar-me partir.

Estás bem? perguntou-me ao ver que eu não falava e mal respirava.

Acenei com a cabeça e sussurrei que sim. Jack libertou-me então e acomodou-se ao meu lado. Durante muito tempo nenhum dos dois proferiu uma palavra.

Pearl principiou ele a certa altura, não quero que penses que...

Não fales. Pousei um dedo sobre os seus lábios. Não te atrevas a explicar o que quer que seja.

Reparei que ficava surpreendido.

Je ne regrette rien. Não me arrependo de nada apressei-me a acrescentar calmamente.

Jack sorriu e beijou-me.

Fizemos amor apaixonadamente, ambos certos do que queríamos. Sem timidez nem hesitação, foi uma longa torrente de Paixão que subiu cada vez mais alto até rebentar numa cascata que ia batendo repetidas vezes nas rochas em baixo, cada uma acompanhada por um "Sim" cada vez mais forte e feliz.

Exaustos, separámo-nos e ficámos deitados um ao lado do outro, esperando que a nossa respiração se acalmasse e os corações se aquietassem. Senti um calor saboroso no corpo e fechei Os olhos.

Jack encontrou a minha mão e agarrou nela.

Não há dúvida de que nasceste no meio de um furacão declarou, fazendo-me rir.

No entanto, à medida que a minha paixão esmorecia, o neu raciocínio e a minha lógica voltavam, trazendo na bagagem a culpa. Que se passaria de errado comigo? Como podia eu comportar-me com semelhante abandono? Sabia que, se dissesse uma palavra, também Jack ficaria cheio de remorsos, o que eu não desejava.

E no entanto, no meio de todas aquelas complicações e tristezas, eu fora capaz de sentir um prazer tão intenso. Não estava certo, pois não? Virei-lhe as costas e contive as lágrimas.

Jack, como se escutasse os meus pensamentos, voltou-se para mim e sussurrou-me:

Não fiques assim. O que aconteceu não significa que te preocupes menos com a tua família ou que não estejas a esforçar-te o suficiente para a ajudar. Não podes andar sempre em alta velocidade sem de vez em quando fazeres uma paragem para recarregar as baterias. És humana, Pearl. Acho que, às vezes, esqueces-te disso.

Voltei-me para ele lentamente e sorri.

Nunca mais me esquecerei disso, Jack.

Ele retribuiu-me o sorriso, beijou-me e aninhou-me nos seus braços, enquanto eu fechava os olhos.

O sono caiu sobre mim com a mesma força e rapidez dos ventos gerados pelo furacão. Não fui capaz de o conter, assim como não o pudera fazer em relação ao vento. Segundos depois, adormecia.

Quando reabri os olhos, o sol entrava a jorros pelas janelas. Custava a acreditar que passáramos por uma tempestade tão violenta na noite anterior. Na verdade, toda essa noite parecera um sonho. Teríamos, Jack e eu, jantado romanticamente? Fizéramos realmente amor? Quando me voltei para o seu lado, vi que já partira. Deixara-me um bilhete em cima da almofada.

Não tive coragem de te acordar, dormias como um anjo. Precisei de me levantar muito cedo por causa da tempestade. Quando acordares vem ter comigo ao atrelado, que eu preparo-te um pequeno-almoço à moda cajun.

Jack.

Sentei-me e consultei o relógio. Dormira quase até às dez da manhã. Enchi-me de pânico. Devia ter acordado mais cedo para procurar um telefone. Precisava de saber como estavam ° meu pai e Pierre.

Levantei-me apressadamente e fui à casa de banho ver se havia água. Para minha agradável surpresa, depois de correr acastanhada durante algum tempo pela torneira, começou a sair tépida. Não estava quente; no entanto, pude lavar a cara e ir aos lavabos. Depois disso vesti-me e desci ao piso de baixo. jack limpara todos os vestígios do nosso jantar, mas vi o resultado da intrusão da tempestade em todo o lado: pratos quebrados, janelas partidas, cortinados e zonas de chão ensopadas de água.

Era horrível que os Tate tivessem deixado aquela mansão chegar a tal estado de degradação, pensei. Porque seria que as pessoas que tinham tudo eram tão esbanjadoras e más? Que vingança poderia Gladys Tate retirar do prazer de ver algo que seu filho tanto estimara deteriorar-se? Quereria certificar-se de que nunca mais ninguém desfrutava daquela casa? Mesmo o pouco de que me recordava do tio Paul e do que a minha mãe me contara, sabia que ele jamais teria desejado semelhante coisa.

Ao ouvir passos atrás de mim, sobressaltei-me.

Jack? És tu? chamei.

Não houve resposta, mas uma das tábuas do soalho do corredor rangeu.

Virei-me lentamente. "É a minha mãe", pensei. "Voltou, finalmente." Com o coração a bater de alegria e expectativa, corri pelo corredor, em direcção à cozinha. Certamente ter-se-ia lá sentado, à minha espera.

Mãe! chamei, irrompendo pela cozinha dentro. No entanto, em vez da minha mãe, deparei com um homenzarrão. No rosto enorme, o nariz monstruoso era dotado de narinas suficientemente largas para inalar três vezes o ar de que necessitava. A queixada era saliente e arredondada na ponta, e os lábios eram grossos e muito vermelhos. Tinha uma barba castanha, entremeada de pêlos brancos, de três ou quatro dias, barba que formava um tufo denso por baixo do lábio inferior. Quando sorriu, reparei que lhe faltava um dente de baixo e alguns de trás. Tudo o resto estava manchado de amarelo devido à nicotina.

Calçava umas botas pela altura do joelho, vestia calças de ganga esfarrapadas e uma camisa com um rasgão no sítio do ombro e que parecia que fora lavada em água com ferrugem.

Sorriu, fazendo com que a curva dos lábios grossos se afundasse entre as bochechas salientes e estreitasse os olhos castanhos estupidificados, que se abriam sob a testa saliente e fortemente vincada.

Quem é o senhor? perguntei.

- Sempre é verdade exclamou o homem, é a filha da Ruby, não é?

Sim, sou filha da Ruby Dumas. E quem é o senhor? ^ perguntei com mais insistência.

O sorriso do homem desvaneceu-se.

O meu nome é Buster Trahaw e sou amigo da sua mãe. replicou. Uns amigos meus disseram-me que anda à procura dela, por isso vim ver com os meus olhos.

Viu a minha mãe? perguntei.

Não me lembrava de a ter ouvido mencionar alguém com aquele nome e também me custava a acreditar que alguma vez tivesse tido amigos como aquele; porém, como Jack dissera na noite anterior, havia muita gente que eu não conhecia e que a minha mãe podia ter ido ver ou visitar, sobretudo se fora apanhada pela tempestade.

Claro que a vi respondeu o homem. Porque é que acha que tou aqui?

Onde é que ela está? Encontra-se bem? inquiri rapidamente.

Ela... ela não 'tá bem declarou. 'Tá doente que nem um cão. Quando me contaram que você estava aqui. ela disse: "Vai buscá-la depressa." Por isso eu vim.

Onde é que se encontra?

Em casa da minha mãe respondeu o homem. A minha mãe é traiteur.

Ah, exclamei. Fazia sentido. É capaz de me levar até lá, se faz favor?

Claro respondeu o homem. Só que temos de ir de pressa. Tenho trabalho para fazer e não posso andar por aí muito tempo.

Muito bem, vamos incitei eu, voltando-me para a saída. Tenho o carro lá fora.

Não podemos ir de carro contrapôs o indivíduo, sem se mexer. A casa da minha mãe fica nos pântanos. Vim buscá-la numa piroga. É por aqui...

Dirigiu-se para a porta das traseiras.

Mas...

Vem ou não? Já lhe disse que tenho de trabalhar. Hesitei. Devia informar Jack, pensei. Peguei no bilhete qque ele me deixara e escrevinhei nas suas costas:

Querido Jack

Fui com o Buster Trahaw, que diz que a minha mãe está em casa dele. Voltarei assim que puder.

Beijos, Pearl.

Deixei o papel em cima do aparador e apressei-me a seguir guster Trahaw, que já saíra porta fora. Indicou-me o embarcadouro.

Tenho a piroga ali em baixo.

Fui atrás dele, olhando para trás uma vez e lamentando não ter tido tempo para ver Jack, mas talvez houvesse tempo para encontrar a minha mãe e trazê-la de volta ainda antes de ele encontrar o meu bilhete. Cheia de esperança, segui apressadamente o homem, que, sem esperar por mim, praticamente correu para o embarcadouro e meteu-se na piroga. Voltei a hesitar. Não me recordava da última vez em que andara num transporte daqueles, ou percorrera mesmo algum dos canais.

Por fim, estendeu a mão para me ajudar e eu entrei na embarcação.

Óptimo disse. Até que enfim.

Sorriu, mergulhou o remo na água e afastou-nos para longe do embarcadouro, pelo pântano dentro. Fiquei sentada, muito tensa, e observei-o, cheia de ansiedade. O homem não desviou o olhar de mim uma vez sequer e também não parou de sorrir.

 

A DíVIDA DO BISAVÔ TEM DE SER PAGA

A piroga de Buster Trahaw estava tão velha e em tão mau estado que eu tive medo de que se desmanchasse e nos fizesse mergulhar na água do pântano que, quando saímos do embarcadouro, ficara cor de chá. Buster ia remando, no meio de roncos e grunhidos. Não tardou que gotas de suor, do tamanho de berlindes, lhe brotassem da testa, deslizando pela pele áspera antes de lhe pingarem do maxilar e do queixo.

Fica muito longe? perguntei, nervosa.

O chão da piroga estava atravancado de restos de isco e de minhocas secas pelo sol, assim como beatas, garrafas de cerveja vazias e latas de conserva amolgadas

Perto, muito perto respondeu-me sem hesitar. Instintivamente olhei para o embarcadouro que ficara para trás. Sentia uma vontade enorme de lhe pedir que me levasse de volta até lá, mas receava que estivesse a falar verdade e que a minha mãe se encontrasse realmente em casa dele. Sentir-me-ia muito mais segura e descansada se tivesse podido falar com Jack antes de partir. Quem sabe quanto tempo passaria antes de ele dar com o meu bilhete. E se não o encontrasse? Não devia ter-me ido embora daquela maneira, disse a mim mesma.

Virei-me de novo para a frente. De facto não me recordava de ter andado de piroga em criança, mas, ao rever coisas em tempos familiares, certas recordações visuais voltaram. À minha direita, no meio dos nenúfares e das tábuas, bremas alimentavam-se dos insectos que esvoaçavam à tona da água. Isso dava a impressão de ter bolhas a rebentar. As cortinas de barbas-de-velho que pendiam dos ramos dos ciprestes, balançavam ao sabor da brisa. As libélulas pairavam a poucos centímetros da superfície do canal, deslocando-se velozmente ora para um lado ora para outro. Sempre que algo as espantava Moviam-se em conjunto, como se fossem pontinhos negros formando uma mosca gigantesca.

Buster dirigiu a piroga ligeiramente para a esquerda e enveredámos por um canal mais estreito, passando primeiro por baixo de uma abóbada formada por ramos de salgueiro. Quando olhei para trás, foi como se uma porta verde se tivesse fechado atrás de nós. À medida que íamos avançando pelo canal, a vegetação ia-se tornando cada vez mais densa. Por vezes, o dossel formado pelos ciprestes inclinados sobre a água era tão denso que quase tapava o sol. Vi um aligator a dormir debaixo de um tronco de árvore caído e meio apodrecido, e a seguir um outro, que passou por nós a flutuar, mirando-nos com olhos desconfiados ou expectantes.

Buster, ao ver que eu me encolhia, riu.

Não tens que te preocupar declarou. Lutar com os aligatores até me dá gozo. A seguir soltou uma gargalhada monumental que ecoou por entre a vegetação. Tu és uma madame toda janota, não és? Aposto como já nem te lembras de que viveste aqui, hem?

Não. Mas não sou nenhuma madame janota repliquei. Aonde fica esse lugar?

Já além, ao virar da curva respondeu, fazendo sinal com a cabeça para a esquerda.

Protegi os olhos com a mão e espraiei o olhar na dita direcção. A margem, ao fundo, estava coberta de madressilvas em flor. Duas garças níveas pavoneavam-se em cima de uma rocha, enquanto rãs enormes saltavam à sua volta; porém, não avistei nem cabanas nem outros seres humanos.

A quietude do lugar invadiu-me. Tirando o som de uma pomba ou o grito de um falcão-dos-pântanos, só ouvia os grunhidos que Buster soltava de vez em quando e o mergulhar rítmico do seu remo na água. Vi um par de lontras desaparecer no interior das suas cúpulas construídas com erva seca e depois um veado de cauda branca, que ergueu a cabeça e olhou para nós, afastando-se a trotar. Era como se tudo o que existia na Natureza soubesse que devia precaver-se contra Buster Trahaw.

Em que se ocupa? perguntei-lhe, pois não o vira fazer o mínimo esforço para iniciar uma conversa e, na verdade, nada adiantara sobre si mesmo.

Que quer dizer com essa de me ocupar?

É pescador de ostras ou carpinteiro?

Advogado é que não sou declarou, começando a rir. - Pesco um pouco. Caço outro tanto. Vendo barbas-de-velho ao pessoal das mobílias, para enchimento de cadeiras e sofás e faço outras coisas quando as arranjo. O meu pai também me Deixou umas massas. Claro que já foi quase tudo pela goela abaixo acrescentou, voltando a rir alarvemente, o que lhe fazia saltar a maçã-de-adão sob a pele grosseira.

Quando íamos a dar a curva, Buster começou a remar como se fosse perseguido por alguém.

Como é que a minha mãe veio aqui parar? perguntei-lhe, desconfiada.

Veio da outra ponta respondeu-me apressadamente.

Que outra ponta?

Pára com tanta pergunta atirou-me secamente. Não posso remar este barco e falar ao mesmo tempo.

Senti o meu coração começar a acelerar. Voltei-me e olhei para trás. Cypress Woods ficara quilómetros para trás. Entrámos noutro canal, esse ainda mais estreito. Nalguns pontos podia mesmo estender os braços e tocar em ambas as margens. Os mosquitos pareciam maiores e havia-os em nuvens cada vez mais densas. A água também estava mais escura. Algo deslizou de uma rocha à nossa frente, enfíando-se na água, o que fez com que eu me encolhesse de novo.

Não estou a gostar disto observei. Nunca mais chegamos a lado nenhum. Vá pôr-me no sítio de onde me trouxe. Pedirei a alguém que me leve de carro até à outra ponta.

Buster, no entanto, não olhou para mim nem abrandou.

Mister Trahaw, eu disse...

Nessa altura o homem virou-se e olhou para trás.

Já chegámos anunciou, na altura em que saíamos do canal e desembocávamos num pequeno lago.

Vi um casebre de caçador à frente. Erguia-se uns dois metros acima do pântano, sobre fileiras de paus. As tábuas davam a impressão de terem sido coladas umas às outras com pastilha elástica. Algumas pendiam, meio soltas, sobre as janelas. O corrimão da varanda estava na ponta mais afastada e, mesmo à distância, não tinha dificuldade em ver buracos abertos no piso da habitação. Como poderia a minha mãe ir, sequer, a semelhante sítio?

A minha mãe jamais ficaria aqui declarei.

Porque não? Sabes de quem era esta casa? perguntou ele reduzindo os lábios a uma linha fina. Do teu bisavô, menina. Foi daqui que vocês todos saíram; portanto, não te armes em toleirona, ouviste?

O meu bisavô?

Isso mesmo. O Jack Landry. Caçava com armadilhas, era o melhor guia de caça destas bandas. Claro que agora sou eu acrescentou.

Remou mais depressa, enquanto eu me esforçava por ver sinais da minha mãe.

Onde é que ela está?

Já te disse, deitada no catre, lá dentro, doente que nem um cão. Já 'tás mais satisfeita por teres vindo?

Não, respondi. Sosseguei e esperei que ele chegasse ao embarcadouro e prendesse a piroga. O acesso à varanda era feito por uma escada que balançava por todos os lados. Buster pousou um dos pés no primeiro degrau e estendeu-me a mão.

Anda. Eu ajudo ofereceu-se.

Levantei-me com lentidão, mas a piroga começou a balouçar e eu por pouco não caí borda fora. Soltei um grito e o homem riu-se.

Pega aqui ordenou.

Fi-lo com relutância e assim que lhe toquei na mão, puxou-me com força tal que perdi o equilíbrio e caí no meio dos seus braços monstruosos. Ele voltou a rir, manteve-me contra si por instantes e depois puxou-me para fora da piroga como se eu não pesasse mais do que um bebé. Firmei os meus pés na escada o melhor que pude e subi para a varanda. Ele seguiu-me de perto.

Espalhadas pela varanda, formando montes aqui e ali, viam-se redes de apanhar ostras, montículos de barbas-de-velho, garrafas de cerveja vazias, tigelas imundas com restos de gumbo seco, e a única peça de mobília à vista era uma cadeira de balouço tombada de lado e sem um dos braços. As tábuas deram de si e eu receei que alguma ainda cedesse sob o meu peso.

Não tem perigo. Entra disse ele, apontando para a porta.

Eu acerquei-me lentamente da porta e entrei no casebre que, segundo ele, pertencera em tempos ao meu bisavô.

Era uma divisão única. Mesmo à nossa frente estava uma mesa de tábuas coberta de louça usada há muito, assim como garrafas de cerveja e de uísque vazias. À direita via-se um catre, com um cobertor cinzento manchado caído ao lado e os lençóis acastanhados de sujidade e rasgados. Peles de vários animais pendiam de pregos fixos nas paredes. Sobre uma prateleira comprida, perto da mesa, viam-se frascos com rãs e cobras de salmoura e os insectos de água mais horrendos que eu Já vira. Para onde quer que olhasse só via roupa e serapilheiras espalhadas por tudo o que era sítio. As duas janelas tinham uma camada de sujidade tão espessa que mal deixavam passar a luz.

- Onde está a minha mãe? perguntei.

Ora esta! exclamou Buster. Então não é que ela foi-se embora e nem sequer arrumou a casa?

Riu-se e eu, ao ouvir um ruído metálico, virei-me. Buster, estava à porta, com uma longa corrente de metal nas mãos.

-Quero voltar imediatamente para trás - ordenei.

- Caramba, isso não é nada simpático da tua parte, pois não? Ainda por cima depois de tudo o que eu fiz pela tua mãe. Riu-se de novo.

- Imediatamente - exigi, dirigindo-me para a porta. Buster riu, uma vez mais, e, rodeando-me com os braços, levantou-me e levou-me para o catre, enquanto eu gritava. Atirou-me para cima dele com toda a força e, antes que eu tivesse possibilidade de resistir, enrolou a corrente em volta do meu tornozelo direito e prendeu-a com um cadeado.

-A chave está aqui - disse, mostrando-ma antes de a meter dentro do bolso do lado direito das calças. Ao ver que eu me erguia para protestar, levantou a enorme mão direita, ameaçando que me batia. Olhei para os dedos calejados e sujos e para o pulso grosso e encolhi-me.

O que está a fazer? - gritei.

-A arrecadar o que me é devido - declarou, recuando, sem largar a outra ponta da corrente, que passou pelo meio do que parecia ser um enorme espigão metálico de linha férrea cravado no chão de madeira, prendendo depois essa ponta com outro cadeado.

O que é que lhe é devido? - perguntei, aterrorizada.

- Uma mulher, aí tens. Comprei uma Landry aqui há uns anos e ela fugiu-me. Depois, quando voltou e eu fui reclamar o que era legitimamente meu, ela mandou-me prender. Passei algum tempo na choça por causa dela, mas o Buster Trahaw nunca perdoa uma dívida. Não, senhora. Parentes meus - continuou, pegando numa garrafa com um resto de cerveja, no fundo - disseram-me que tu estavas cá. Bem, cá a mim não me interessa que Landry for, desde que a minha dívida fique paga.

Levou a garrafa à boca e sorveu o resto da cerveja através dos lábios grossos, enquanto a sua garganta se contorcia como uma cobra. Depois atirou-a para o fundo da casa. Não se partiu, apenas embateu na parede e caiu no chão.

- Achei que, como fora aldrabado, podia ficar com esta cabana, mas isto não é nada comparado com o que me devem. Sorriu. - Tu completas o resto.

- o que quer de mim?

- o quê? - Por um momento pareceu confuso. - Pra já, quero uma mulher. E o que eu quero que tu faças é o que uma mulher deve fazer. Primeiro, limpas esta casa. Dou largueza suficiente a esta corrente para te poderes mexer por aí à vontade.

- Aqui! -acrescentou, apontando para um pote ferrugento, no canto à direita -, fica a cagadeira. Se quiseres, serves-te dos

jornais que empilhei ao lado.

- Não pode fazer uma coisa destas - gritei. - isto é rapto...

- - Claro que posso. É o que me é devido e aqui nos pântanos uma dívida é uma dívida, percebeste?

Comecei a chorar. Ele analisou-me durante um momento e depois aproximou-se, ameaçadoramente. Eu encolhi-me contra a parede do casebre.

-Não quero ouvir chorar. Nem berrar. Quero uma mulher quieta e obediente, igual às duas que o meu pai teve. Agora vou arranjar-te uns trapos para vestires e perderes esse ar janota, agora és uma mulher dos pântanos. - Enfiou a mão por debaixo do catre e tirou de lá o que parecia ser mais uma serapilheira. - Bota isto. Já! - gritou, fazendo cair sobre mim pingos de saliva.

Toda eu tremia, mal me conseguindo mexer. Ele agarrou-me pelo braço, logo abaixo do cotovelo, e apertou-mo de tal maneira que gritei. A seguir bateu-me com a mão esquerda, projectando-me a cabeça para trás. o choque foi pior do que a dor qe se seguiu. Fiquei sem conseguir falar ou engolir. Ele enfiou os dedos no meu cabelo e agarrou uma mão-cheia dele, pondo-me de pé. Eu soluçava silenciosamente, sentindo como que o peito prestes a rebentar.

- Tira-me já esses trapos janotas - ordenou. - Toca a fazer o que eu mando!

Comecei a desabotoar a blusa com as mãos trémulas, sem parar de tremer e de chorar. Quando despi a saia, ele sorriu de satisfação.

-Quero isso tudo daí para fora - ordenou. - Mesmo essa roupa de baixo comprada em loja. Vá. Tenho de ver o material que arranjei.

Ao princípio achei que iria desmaiar. No interior do casebre estava abafado. Ao ver que eu não me mexia, o homenzarrão virou-se e foi buscar um cinturão de couro preto ao cimo duma pilha de roupa, enrolando uma das pontas em volta da mão e do pulso. Quando o vi aproximar-se, de mão levantada, abri nuito os olhos e ergui os braços para me proteger. Ele balançou o cinto e atingiu-me na coxa. A pancada deixou-me sem fôlego. Dessa vez não voltou a pegar em mim pelos cabelos, enfiou antes os dedos no meu soutien e puxou-o com tal força que os colchetes rebentaram e a peça de roupa foi-me arrancada. Atirou-a para trás de si, enquanto eu caía sobre o catre, a gritar. Bateu-me de novo, dessa vez na outra perna. Senti os olhos rolarem para trás e depois tudo ficou escuro. Quando os reabri estava deitada de costas sobre o catre, envergando a serapilheira e sem nada por baixo. Não me mexi. A dor que sentia na coxa fez-me lembrar vivamente o que acontecera. Também reparei que a minha moedinha da sorte desaparecera. No início tive medo de me virar para a direita ou para a esquerda, mas quando olhei, ele desaparecera. Respirei fundo e sentei-me, para ter a certeza de que não se instalara a um canto ou no chão, por baixo de mim. O casebre estava vazio.