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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A JUSTIÇA DO VIZIR / Christian Jack
A JUSTIÇA DO VIZIR / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Série O Juiz do Egito

Volume III

 

A JUSTIÇA DO VIZIR

 

A traição trazia-lhe grandes benefícios. Bochechudo, vermelhusco, balofo, larrot bebeu a sua terceira taça de vinho branco, congratulando-se pela sua escolha. Quando era escrivão do juiz Paser, tornado vizir de Ramsés, o Grande, trabalhava muito e ganhava pouco. Desde que entrara ao serviço de Bel-Tran, o pior inimigo do vizir, a sua existência prosperava. Em troca de cada informação sobre os hábitos de Paser, recebia uma retribuição. Com o apoio de Bel-Tran e o falso testemunho de um dos seus esbirros, larrot esperava obter, a qualquer preço, o divórcio de sua mulher e a custódia de sua filha, futura bailarina.

 

Molestado por uma enxaqueca, o ex-escrivão levantara-se antes da alvorada, quando a noite reinava ainda sobre Mênfis, a capital económica do Egipto, situada na junção do Delta e do vale do Nilo.

 

Da ruela, habitualmente tranquila, chegou-lhe o som de murmúrios.

 

larrot pousou a taça. Desde que traía Paser, bebia cada vez mais, não por remorso, mas porque podia, enfim, comprar vinhos de boas colheitas e cerveja de primeira qualidade. Uma sede inextinguível queimava-lhe a garganta sem cessar.

 

Afastou o portal da janela de madeira e relanceou o olhar pelo exterior.

 

Ninguém.

 

Com um resmungo, pensou no magnífico dia que se anunciava. Graças a Bel-Tran, ia deixar aquele subúrbio para residir num bairro melhor, próximo do centro da cidade. A partir dessa tarde, instalar-se-ia numa casa de cinco divisões, com um pequeno jardim; no dia seguinte, seria titular de um posto de inspector do fisco, dependente do ministério dirigido por Bel-Tran.

 

Apenas uma contrariedade se apresentava: apesar da qualidade das informações fornecidas a Bel-Tran, Paser não fora ainda eliminado, como se os deuses o protegessem. A sorte acabaria por mudar.

 

Lá fora ouvia-se o som de risos.

 

Perturbado, larrot colou o ouvido à porta que dava para a ruela. Subitamente, percebeu: tratava-se novamente daquele bando de crianças que se divertia a sujar a fachada das casas com uma pedra ocre!

 

Furioso, abriu a porta sem pensar.

 

Na sua frente, a boca aberta de uma hiena. Uma fêmea enorme, com a baba escorrendo dos beiços e os olhos vermelhos. O animal soltou um grito, semelhante a uma gargalhada do outro mundo, e saltou-lhe à garganta.

 

Geralmente, as hienas varriam o deserto devorando os cadáveres que encontravam e não se aproximavam das povoações. Contrariamente aos seus hábitos, uma dúzia de animais selvagens tinha-se aventurado nos subúrbios de Mênfis, matando um ex-escrivão, larrot, um bêbado que os seus vizinhos detestavam. Armados de bastões, os habitantes do bairro tinham posto os predadores em fuga, mas todos interpretavam a tragédia como um mau presságio para o futuro de Ramsés cuja autoridade, até ao momento, ninguém havia contestado. No porto de Mênfis, nos arsenais, nas docas, nas casernas, nos bairros de Sicómoro, do Muro do crocodilo, da Escola Médica, nos mercados, nas barracas dos artesãos, corriam de boca em boca as mesmas palavras: ”o ano das hienas”!

 

O país ficaria enfraquecido, a cheia seria má, a terra estéril, os pomares definhariam, faltariam as frutas, os legumes, o vestuário e os unguentos; os Beduínos atacariam as explorações do delta, o trono do Faraó vacilaria. O ano das hienas, a ruptura da harmonia, a fenda na qual se precipitariam as forças do mal!

 

Murmurava-se que Ramsés, o Grande, mostrara-se impotente para impedir esta catástrofe. É certo que dentro de nove meses teria lugar a festa da regeneração, a qual restituiria ao monarca o poder necessário para enfrentar e vencer a adversidade. Mas não chegaria essa celebração demasiado tarde? Paser, o novo vizir, era jovem e inexperiente. O facto de ter entrado em funções no ano das hienas conduzi-lo-ia ao fracasso.

 

Se o rei já não protegia o seu povo, todos eles pereceriam na goela voraz das trevas.

 

Nesse fim do mês de Janeiro, um vento glacial varria a necrópole de Sakkarah, dominada pela pirâmide em degraus do faraó Djeser, gigantesca escadaria em direcção aos céus. Ninguém teria reconhecido o casal confortavelmente vestido que se recolhia na capela do túmulo do sábio Branir; protegidos por uma túnica grossa, feita de tiras de pano cosidas e de mangas compridas, Paser e Néféret liam em silêncio os hieróglifos gravados numa bela pedra calcária:

 

Criaturas que viveis na terra e passais perto deste sepulcro, que amais a vida e odiais a morte, pronunciai o meu nome para que eu viva, proferi em meu benefício a fórmula da oferenda.

 

Branir, mestre espiritual de Paser e Néféret, fora assassinado. Quem teria sido capaz da crueldade de lhe espetar uma agulha de madrepérola na nuca, impedi-lo de se tornar sumo-sacerdote de Carnaque e fazer recair a culpa da sua morte no seu discípulo Paser? Ainda que o inquérito não conhecesse qualquer progresso, o casal jurara descobrir a verdade, quaisquer que fossem os riscos envolvidos.

 

Uma personagem seca, de sobrancelhas negras e espessas unidas sobre o nariz, lábios finos, mãos intermináveis e pernas finas, aproximou-se da capela. Mumificador de profissão, Djuí passava a maior parte do seu tempo a preparar os cadáveres, para os transformar em Osíris.

 

Desejas ver o local do teu túmulo? perguntou ele a Paser.

 

Vai tu à frente.

 

Esbelto, de cabelos castanhos, fronte larga e alta e uns olhos verdes acastanhados, o vizir Paser recebera de Ramsés a grande missão de salvar o Egipto de uma conspiração que ameaçava o trono. Juiz de província principiante transferido para Mênfis, o jovem Paser, cujo nome significava ”o vidente”, ”aquele que discerne o longínquo”, recusara-se a dar seguimento a uma irregularidade administrativa, trazendo à luz do dia um drama abominável cuja chave lhe fora oferecida pelo rei em pessoa.

 

Os conspiradores haviam eliminado a guarda de honra da esfinge de Gize para ter acesso a um corredor que tinha o seu início entre as patas da gigantesca estátua e conduzia ao interior da grande pirâmide, centro energético e espiritual do país. Tinham violado o sarcófago de Queóps e roubado o testamento dos deuses que legitimava o poder do Faraó. Se este último não fosse exibido aos sacerdotes, à corte e ao povo aquando da festa da regeneração, fixada para o próximo dia vinte de Julho, primeiro dia do novo ano, ele ver-se-ia obrigado a abdicar e a entregar o leme da embarcação do Estado a um ser das trevas.

 

Ramsés depositara a sua confiança em Paser porque o jovem juiz se revelara inflexível, recusando todo e qualquer compromisso, mesmo pondo em risco a sua carreira e a sua vida. Nomeado vizir, magistrado supremo, mestre do selo do rei, chefe dos segredos, director dos trabalhos do Faraó, primeiro-ministro do Egipto, Paser devia tentar tudo para salvar o país da catástrofe.

 

Caminhando ao longo de uma alameda ladeada de túmulos, Paser contemplou a sua esposa, Néféret, cuja beleza o arrebatava mais cada dia que passava. Uns olhos azul de Verão, cabelos a pender para o louro, rosto muito puro e de linhas ternas, ela era a felicidade e a alegria de viver. Sem ela, ele teria cedido, vítima dos golpes do destino.

 

Nomeada médica-chefe do reino ao fim de um longo caminho de provações, Néféret dedicava-se a curar. Do sábio Branir, médico e radiestesista, herdara o dom de identificar a natureza dos males, extirpando-os pela raiz. Ao pescoço, usava uma turquesa que o seu mestre lhe havia oferecido, para afastar a infelicidade.

 

Nem Paser nem Néféret tinham desejado ocupar funções de tal importância; o seu desejo mais querido era retirarem-se para uma aldeia da região tebana e viverem dias felizes sob o sol do Alto-Egipto. Mas os deuses haviam decidido de modo diferente; únicos depositários do segredo do Faraó, eles combateriam sem fraquejar, mesmo que o poder de que dispunham parecesse ilusório.

 

É aqui indicou o mumificador, designando um local vazio perto da sepultura de um antigo vizir. Os artesãos começarão os trabalhos amanhã.

 

Paser abanou a cabeça. Em conformidade com o seu posto, o seu primeiro dever consistia em fazer escavar a sua morada eterna, onde repousaria em companhia de sua esposa.

 

Com o seu passo lento e cansado, o mumificador afastou-se.

 

Talvez nunca sejamos enterrados neste cemitério disse Paser com voz sombria. Os inimigos de Ramsés proclamaram claramente a sua vontade de abandonar os ritos tradicionais. É todo um mundo que eles querem destruir, não apenas um homem.

 

O casal dirigiu-se à grande corte a céu aberto que precedia a pirâmide em degraus. Ali, durante a festa de regeneração, Ramsés deveria empunhar o testamento dos deuses, que já não possuía.

 

Paser continuava convencido de que o assassínio do seu mestre estava ligado à conspiração; identificar o assassino colocá-lo-ia na pista dos ladrões e permitir-lhe-ia, talvez, desmantelar as diferentes partes da armadilha. Privado do auxílio insubstituível do seu amigo Suti, seu irmão de espírito condenado a um ano de fortaleza por infidelidade conjugal, Paser só pensava num modo de o fazer libertar. Mas ele, mestre da justiça, não podia favorecer alguém que lhe era próximo, sob pena de ser demitido das suas funções.

 

A grande corte de Sakkarah impunha a grandeza inimitável do tempo das pirâmides. Aqui havia tomado corpo a aventura espiritual dos faraós, aqui se haviam unido norte e sul, formando um reino luminoso e poderoso do qual Ramsés assumia a herança. Paser abraçou ternamente Néféret; deslumbrados, admiraram o austero edifício, visível de todas as partes da necrópole.

 

Atrás deles soou um ruído de passos.

 

O vizir e a sua esposa voltaram-se. Aproximava-se um homem de estatura média, rosto redondo e constituição pesada; com os cabelos negros, as mãos e os pés roliços, ele caminhava apressado e parecia nervoso. Incrédulos, Paser e Néféret entreolharam-se.

 

Era mesmo ele, Bel-Tran, o seu inimigo jurado, a alma da conspiração.

 

Director da Dupla Casa branca, ministro da economia, dotado de uma prodigiosa habilidade para o cálculo, trabalhador incansável, Bel-Tran começara pela base da escala social. Fabricante de papiro, posteriormente tesoureiro principal dos celeiros, fingira apoiar Paser para melhor controlar as suas acções. Quando este último, contra todas as expectativas, se tornara vizir, Bel-Tran deixara cair a sua máscara de amigo sincero. Paser revia o seu rosto distorcido e recordava-se das suas ameaças: ”Os deuses, os templos, as moradas eternas, os rituais... Tudo isso é ridículo e retrógrado. Não tens a mínima consciência do mundo novo em que estamos a entrar. O teu universo está carcomido, eu roí as traves que o sustinham!”

 

Paser não julgara conveniente mandar prender Bel-Tran; primeiramente, precisava de destruir a teia que ele havia tecido, desmantelar as suas redes de cúmplices e reencontrar o testamento dos deuses. Seria mera fanfarronice de Bel-Tran ou teria ele gangrenado o país?

 

Nós compreendemo-nos mal disse ele numa voz adoçada. Lamento a violência dos meus objectivos. Perdoa-me essa impetuosidade, meu caro Paser; eu tenho por ti um profundo respeito e admiração. Depois de longa reflexão, estou convencido de que nos entendemos relativamente ao essencial. O Egipto tem necessidade de um bom vizir e tu sabes sê-lo.

 

Que escondem esses elogios?

 

Porquê degladiarmo-nos mutuamente, quando uma aliança poderia evitar essas discordâncias? Ramsés e o seu regime estão condenados, e tu sabe-lo bem. Caminhemos em direcção ao progresso, eu e tu.

 

Um falcão peregrino traçava círculos no azul do céu de Inverno, sobre a grande corte de Sakkarah.

 

As tuas desculpas não são mais que hipocrisias interveio Néféret. Não esperes qualquer acordo.

 

A cólera encheu os olhos de Bel-Tran.

 

É a tua última oportunidade, Paser; ou te submetes ou eu te eliminarei. Abandona imediatamente este local; a sua luz não te fica bem. Furioso, o ministro da economia rodou nos calcanhares e afastou-se. Paser e Néféret, cujas mãos estavam agora entrelaçadas, contemplaram o falcão que voava em direcção ao sul.

 

Todos os  dignitários do reino do Egipto estavam presentes na sala de justiça do vizir, um vasto aposento com colunas e paredes nuas. Ao fundo, um estrado onde Paser tomaria assento; sobre os degraus, quarenta bastões de comando forrados a couro, simbolizando a aplicação da lei. Com a mão direita sobre o ombro esquerdo, uma dezena de escribas de peruca e tanga curtas velavam pelos preciosos objectos.

 

Na primeira fila, sentada num trono de madeira dourada, estava a rainha-mãe Tuya. Com sessenta anos, delgada, altaneira, de olhar penetrante, envergava um vestido longo de linho debruado a ouro e uma soberba peruca de cabelos humanos, cujas longas tranças lhe desciam até meio das costas. A seu lado, Néféret, que a curara de graves problemas oftálmicos; a esposa de Paser estava enfeitada com os atributos oficiais próprios do seu cargo uma pele de pantera sobre um vestido de linho, uma peruca estriada, um colar de coralina e pulseiras de lápis-lazúli nos pulsos e tornozelos. Na mão direita, segurava o seu selo; na esquerda, uma tábua de escrita. As duas mulheres estimavam-se mutuamente; a rainha-mãe lutara com eficácia contra os inimigos de Néféret, favorecendo a sua ascensão ao topo da hierarquia médica.

 

Atrás de Néféret, o chefe da polícia, aliado incondicional de Paser, o Núbio Kem. Condenado por um roubo que nunca cometera, havia-lhe sido cortado o nariz, usando uma prótese em madeira pintada; alistado como polícia em Mênfis, tornara-se amigo do jovem juiz sem experiência, apaixonado por uma justiça na qual Kem já não acreditava. Após inúmeras peripécias, e a pedido de Paser, o Núbio dirigia presentemente as forças de manutenção da ordem. Por esse motivo, empunhava, não sem orgulho, o símbolo da sua função, uma mão da justiça em marfim, ornada com um grande olho aberto para detectar o mal e uma cabeça de leão, evocando a vigilância. A seu lado, preso pela coleira, o seu babuíno-polícia, que dava pelo nome de Matador; corpulento, dotado de uma força colossal, o grande símio acabara de beneficiar de uma promoção pelos seus notáveis feitos em serviço. O seu principal papel consistia em velar por Paser, cuja existência havia sido ameaçada por diversas vezes.

 

A considerável distância do babuíno, o antigo vizir Bagey, cujas costas curvadas transportavam o peso dos anos. Grande, severo, com o rosto longo devorado por um nariz proeminente, a tez pálida, reputado pelo seu carácter inflexível, temido, gozava agora uma reforma tranquila numa pequena casa de Mênfis, sem deixar de aconselhar o seu jovem sucessor.

 

Por trás de um pilar, Silkis, a esposa de Bel-Tran, dirigia sorrisos aos seus vizinhos. Mulher-menina, obcecada pelo seu peso, havia feito apelo à cirurgia estética para continuar a agradar a seu marido. Gulosa, ávida por toda a espécie de doces, sofria de frequentes enxaquecas, mas já não se atrevia a consultar Néféret, desde que Bel-Tran declarara guerra ao vizir. Discretamente, espalhou nas têmporas uma pomada à base de zimbro, seiva de pinho e folhas de loureiro; ostensivamente, voltou a colocar ao peito o seu colar de faiança azul e fez deslizar pelos seus pulsos delicadas pulseiras, feitas de metal escarlate, presas por trancelins em forma de corolas de lótus desabrochadas.

 

Bel-Tran, mesmo vestindo-se no melhor costureiro de Mênfis, parecia sempre que tinha o pescoço enterrado nos ombros dentro das suas vestes demasiado estreitas, ou então flutuava numa tanga demasiado larga. Naquela hora de uma gravidade inquietante, ele esquecia as suas pretensões de elegância e aguardava, inquieto, a chegada do vizir. Ninguém conhecia o motivo do juízo solene que Paser decidira proclamar.

 

Quando o vizir apareceu, os cochichos cessaram. Apenas os ombros emergiam de uma veste rígida, de tecido grosso, que lhe cobria o resto do corpo; a veste era engomada, como se quisesse sublinhar a dificuldade da função. Acentuando ainda mais a austeridade e simplicidade do seu trajo, Paser contentara-se com uma peruca curta à antiga.

 

Pendurou uma pequena estatueta da deusa Maâtl numa corrente de ouro, significando assim que estava aberta a sessão.

 

Distingamos a verdade da mentira e protejamos os fracos para os salvar dos poderosos declarou o vizir, utilizando a fórmula ritual da qual, cada juiz, do mais pequeno ao maior, deveria fazer a sua regra de vida.

 

Habitualmente, quarenta escribas formavam uma fila de cada lado da ala central por onde passavam os acusados, os queixosos e as testemunhas, introduzidos na sala por guardas. Desta vez, o vizir limitou-se a sentar-se numa cadeira de espaldar baixo e a fixar longamente os quarenta bastões de comando dispostos à sua frente.

 

O Egipto corre graves perigos revelou Paser. Forças obscuras tentam apoderar-se do país. É por isso que devo fazer justiça, de modo a punir os culpados que foram identificados.

 

Silkis apertou o braço de seu marido; ousaria o vizir confrontar-se abertamente com o poderoso Bel-Tran, contra quem não possuía qualquer prova?

 

Cinco veteranos pertencentes à guarda de honra da esfinge de Gize foram assassinados prosseguiu Paser. Esse acto hediondo resultou de uma conspiração na qual participaram o dentista Qadash, o químico Chéchi e o transportador Denes. Devido aos seus diversos crimes, cabalmente provados pelo inquérito, eles são passíveis da pena capital.

 

Um escriba pediu a palavra.

 

Mas... eles estão mortos!

 

É verdade que sim, mas eles não foram julgados. O facto de o destino lhes ter batido à porta não elimina o dever deste tribunal de exercer a justiça. A morte não permite a um criminoso escapar-lhe.

 

Ainda que a assistência estivesse perplexa, não deixava de admitir que o vizir respeitava a lei. Foi dada leitura ao auto de acusação, lembrando os actos dos três cúmplices de Bel-Tran, cujo nome não foi pronunciado.

 

Ninguém contestou os factos, nenhuma voz se elevou para defender os acusados.

 

Nota: Maât é a deusa da justiça, cujo nome significa aquela que é justa, aquela que aponta a direcção correcta. Incarnando a regra universal, que sobreviverá à espécie humana, é simbolizada por uma mulher sentada, segurando uma pena de avestruz. (N. do A.)

 

Os três culpados serão devorados pelo fogo da cobra-capelo real no além, declarou o vizir. Não serão enterrados na necrópole, não beneficiarão de qualquer oferenda ou libação, e serão entregues aos sabres dos massacradores colocados às portas do mundo subterrâneo. Aí morrerão uma segunda vez e perecerão de fome e sede.

 

Silkis estremeceu, Bel-Tran permaneceu imperturbável. O cepticismo de Kem, o chefe da polícia, enfraqueceu; os olhos do babuíno dilataram-se, como se o animal sentisse prazer nessa condenação póstuma. Néféret, perturbada, teve a sensação de que as palavras proferidas adquiriam força de realidade.

 

Todo o Faraó, todo o chefe de Estado que amnistie os condenados concluiu o vizir retomando uma fórmula antiga perderá a coroa e o poder.

 

 

O sol erguera-se há quase uma hora quando Paser se apresentou à porta do palácio real; os guardas do Faraó inclinaram-se diante do vizir.

 

Ele enveredou por um corredor de paredes decoradas com pinturas delicadas representando flores de lótus, papiros e papoilas, atravessou uma sala de colunas enfeitada por um chafariz onde brincavam alguns peixes, e chegou aos aposentos do soberano. O seu secretário particular saudou Paser.

 

Sua Majestade espera-te.

 

Tal como todas as manhãs, o vizir devia prestar contas das suas acções ao chefe das Duas Terras, o Alto e o Baixo-Egipto. O local era idílico: Uma vasta sala luminosa, com janelas que se abriam sobre o Nilo e sobre os jardins, ladrilhos de faiança ornados de flores de lótus azuis, ramalhetes de flores pousados sobre mesinhas douradas. Em cima de uma mesa baixa, papiros desenrolados e material de escrita.

 

De frente para o oriente, o rei meditava. De estatura média, robusto, os cabelos quase vermelhos, o rosto largo e o nariz arqueado, Ramsés, o Grande, transmitia uma sensação de poder. Associado desde muito novo ao trono por um extraordinário faraó, Seti I, edificador de Carnaque e Abados, ele conduzira o seu povo ao caminho da paz com os Hititas e a uma prosperidade que outros países tanto invejavam.

 

Paser, finalmente! Como decorreu o processo?

 

Os mortos culpados foram condenados.

 

E Bel-Tran?

 

Tenso, impressionado, mas sólido. Gostaria de ter proferido a fórmula habitual: ”Tudo está em ordem, os assuntos do reino vão bem”, mas não tenho o direito de te mentir.

 

Ramsés pareceu perturbado. Vestia uma simples tanga branca e como enfeites apenas usava pulseiras nos pulsos em ouro e lápis-lazúli, cuja parte superior tinha a forma de duas cabeças de pato selvagem.

 

Conclusões, Paser?

 

No que diz respeito ao assassinato do meu mestre, Branir, não possuo qualquer certeza, mas conto explorar algumas pistas com a ajuda de Kem.

 

E a senhora Silkis?

 

A esposa de Bel-Tran figura à cabeça dos suspeitos.

 

Havia uma mulher entre os conjurados.

 

Não o esqueço, Majestade. Três de entre eles estão mortos; resta identificar os seus cúmplices.

 

Bel-Tran e Silkis, é óbvio!

 

É provável, mas faltam-me provas.

 

Bel-Tran não se desmascarou?

 

É verdade que sim, mas ele dispõe de apoios importantes.

 

Que descobriste?

 

Estou a trabalhar dia e noite com os responsáveis das diversas administrações. Dezenas de funcionários dirigiram-me relatórios escritos, escutei os escribas altamente colocados, os chefes de serviço e os funcionários menores. O balanço é mais sombrio do que eu poderia imaginar.

 

Explica-te.

 

Bel-Tran comprou muitas consciências. Chantagem, ameaças, promessas, mentiras... Ele não recua perante nenhuma baixeza. Ele e os seus amigos conceberam um plano preciso: tomar as rédeas da economia do país, combater e destruir os nossos valores ancestrais.

 

Através de que meios?

 

Ignoro-o ainda. Prender Bel-Tran seria um erro de estratégia, pois não teria a certeza de cortar todas as cabeças do monstro e de identificar todas as múltiplas armadilhas que ele armou.

 

No dia do ano novo, devo mostrar ao povo o testamento dos deuses, quando a estrela Sótis estiver no signo de Caranguejo, pronta a desencadear a cheia do Nilo. Se me revelar incapaz de o fazer, serei obrigado a abdicar e a oferecer o trono a Bel-Tran. Terás tu tempo, em tão poucos meses, de o reduzir à impotência?

 

Apenas Deus poderia responder à tua pergunta.

 

Foi ele que criou a realeza, Paser, para edificar monumentos à sua glória, para fazer os homens felizes e afastar os invejosos. Ele deu-nos a mais preciosa das riquezas, essa luz da qual sou depositário e que devo espalhar à minha volta. Os humanos não são todos iguais; é por esse motivo que os faraós são o sustentáculo dos mais fracos. Desde que o Egipto construa templos onde seja preservada a energia luminosa, a sua terra florescerá, os seus caminhos serão certos, a criança estará em paz nos braços de sua mãe, a viúva protegida, os canais serão mantidos, a justiça será feita. As nossas existências não têm qualquer importância; é essa harmonia que é preciso preservar.

 

A minha vida pertence-te, Majestade.

 

Ramsés sorriu e pousou as mãos sobre os ombros de Paser.

 

Tenho a sensação de ter escolhido bem o meu vizir, mesmo que a sua tarefa seja esmagadora. Tornaste-te o meu único amigo. Sabes o que escreveu um dos meus predecessores: Não confies em ninguém; não terás nem irmã nem irmão. Aquele a quem mais tiveres dado será o que te trairá, será o pobre que enriqueceste que te atacará pelas costas, será aquele a quem tiveres estendido a mão o primeiro a fomentar a confusão. Desconfia dos teus subordinados e dos que te são próximos. Conta apenas contigo. Ninguém te ajudará no dia da infelicidade.

 

O texto não acrescenta também que o faraó que saiba rodear-se preserva a sua grandeza e a do Egipto?

 

Conheces bem as palavras dos sábios! Eu não te enriqueci, vizir, esmaguei-te com um fardo que qualquer homem razoável teria recusado; tem consciência de que Bel-Tran é mais perigoso que uma víbora das areias. Ele soube enganar a vigilância dos que me são próximos, adormecer a sua suspeita, infiltrar-se na hierarquia como um verme na madeira. Ele simulou amizade em relação a ti para melhor te abafar; de agora em diante, o seu ódio crescerá progressivamente e não te deixará mais em paz. Ele atacará onde não o esperas, envolver-se-á em trevas, manipulará as armas dos traidores e dos perjuros. Aceitas esse combate?

 

A palavra dada não volta atrás.

 

Se fracassarmos, tu e Néféret sofrerão a lei de Bel-Tran.

 

Só os covardes desistem; nós resistiremos até ao fim.

 

Nota: Citações extraídas de O Ensinamento para Merikarê. (N. do A)

 

Ramsés, o Grande, sentou-se numa cadeira de madeira dourada, frente ao sol levante.

 

Qual é o teu plano?

 

Esperar.

 

O rei não dissimulou o seu espanto.

 

O tempo não joga a nosso favor!

 

Bel-Tran acreditará que eu estou desesperado e avançará em terreno conquistado; deixará cair outras máscaras e eu ripostarei de forma adequada. Para o convencer da minha retirada, dirigirei os meus esforços para um domínio secundário.

 

Estratégia arriscada.

 

Seria bem menos, se dispusesse de um aliado suplementar.

 

De quem se trata?

 

Do meu amigo Suti.

 

Ele traiu-te?

 

Foi condenado a um ano na fortaleza núbia por quebra da fidelidade conjugal. O julgamento foi de acordo com a lei.

 

Nem eu nem tu podemos desfazer a sentença.

 

Se ele fugisse, os nosso soldados deveriam dedicar-se primeiramente à protecção da fronteira ou à perseguição de um fugitivo?

 

Dito de outra forma, eles receberão uma ordem obrigando-os expressamente a não deixar as muralhas da fortaleza, por se prever um ataque de tribos núbias.

 

A natureza humana é versátil, majestade, particularmente a dos nómadas; na tua sabedoria, tiveste a intuição de que uma revolta se preparava.

 

Mas ela não terá lugar...

 

Os Núbios renunciarão ao constatar que a nossa guarnição não está desprevenida.

 

Redige essa ordem, vizir Paser, mas, de forma alguma, favoreças a evasão do teu amigo.

 

O destino disso se encarregará.

 

 

Pantera, a líbia de cabelos loiros, escondeu-se num abrigo de pastor, no meio de um campo. Há duas horas que o homem a seguia. Grandalhão, barrigudo e imundo. Um arrancador de papiro que passava a maior parte do seu tempo na lama para daí extrair o precioso material. Ele espiara-a enquanto ela tomava banho, nua, e aproximara-se rastejando.

 

Sempre vigilante, a jovem e bela líbia conseguira escapulir-se, deixando, no entanto, abandonado um xaile indispensável contra o frio nocturno. Pantera, expulsa do Egipto devido à sua ligação ostensiva com Suti, recém-casado com a senhora Tapeni por imperativos do inquérito do juiz Paser, recusava-se a aceitar a sua sorte. Firmemente decidida a não abandonar o seu amante, de quem temia a infidelidade, viajaria até à Núbia para o arrancar da prisão e viver novamente junto dele. Nunca mais conseguiria passar sem as suas carícias inflamadas, nunca mais o deixaria rebolar na alcova de uma outra mulher.

 

A distância não a assustava; fazendo uso dos seus encantos, Pantera tinha conseguido viajar clandestina em barcos de carga, de porto em porto, até Elefantina e à primeira catarata. Do outro lado do amontoado de rochas que impedia a passagem de todas as embarcações, concedera-se um momento de pausa num braço de rio que serpenteava em direcção a uma zona cultivada.

 

Não conseguiria ver-se livre do seu seguidor; ele conhecia o terreno na perfeição e não tardaria a surpreendê-la. Ser tomada à força não assustava Pantera; antes de conhecer Suti, pertencera a um bando de larápios e enfrentara os soldados egípcios. Selvagem, ela amava o amor, a sua violência e o seu êxtase. Mas aquele arrancador de papiro era repugnante e ela não tinha tempo a perder.

 

Quando o homem deslizou para o interior do abrigo, Pantera estava estendida no solo, nua e adormecida. Os seus cabelos louros espalhados sobre os ombros, os seios generosos, o sexo dourado de caracóis luxuriantes fizeram o arrancador de papiro perder toda a prudência. Quando se precipitou sobre a sua presa, os seus pés prenderam-se num laço colocado à superfície do solo e ele caiu pesadamente. Muito viva, Pantera instalou-se sobre as suas costas e estrangulou-o. Quando ele revirou os olhos, ela cessou o aperto, despiu-o para ter vestuário para a noite e continuou o seu caminho em direcção ao grande sul.

 

O comandante da fortaleza de Tjaru, no coração da Núbia, repeliu o caldo infame que o cozinheiro lhe servira.

 

Um mês de calabouço para este incapaz decretou.

 

Uma taça de vinho de palma consolou-o daquela decepção. Longe do Egipto, era difícil alimentar-se correctamente; mas a ocupação daquele posto valer-lhe-ia uma promoção e reforma vantajosas. Aqui, neste país desolado e árido, onde o deserto ameaçava as raras culturas e onde o Nilo entrava por vezes em cóleras violentas, ele acolhia os condenados a penas de exílio variando de um a três anos. Habitualmente, mostrava-se clemente e designava-lhes tarefas domésticas onde eles não se desgastavam; a maior parte desses pobres idiotas não tinham cometido delitos graves e aproveitavam a sua estada forçada naquele local para reflectir sobre o seu passado.

 

Com Suti, a situação rapidamente se degradou. Este não aceitava bem a autoridade e recusava submeter-se. Assim, o comandante, cujo primeiro dever consistia em vigiar as tribos núbias por forma a prevenir qualquer revolta, colocara o refractário na primeira linha e sem arma. Aí, ele desempenharia o papel de isco e experimentaria alguns sustos salutares. Bem entendido, a guarnição voaria em seu auxílio em caso de agressão; o comandante gostava de libertar os seus hóspedes em bom estado, preservando assim uma folha administrativa imaculada.

 

O oficial subalterno designado para o posto trouxe-lhe um papiro proveniente de Mênfis.

 

Correio especial.

 

O selo do vizir!

 

Intrigado, o comandante cortou os cordões e partiu o selo. O oficial subalterno aguardava ordens.

 

Os serviços de informações temem uma revolta na Núbia; pedem-nos que redobremos a vigilância e verifiquemos o nosso sistema de defesa.

 

Por outras palavras, fechamos as portas da fortaleza e ninguém mais sai.

 

Transmite a ordem imediatamente.

 

E o prisioneiro Suti? O comandante hesitou.

 

Que achas?

 

A guarnição detesta esse arrogante; só nos trará problemas. Lá, onde está, ser-nos-á útil.

 

E, se lhe acontecer alguma coisa...

 

O nosso relatório concluirá que se tratou de um lamentável acidente.

 

Suti era um homem de bela estatura, rosto alongado, olhar franco e directo, olhos e cabelos negros; força, sedução e elegância caracterizavam a menor das suas atitudes. Depois de se ter evadido da grande escola de escribas de Mênfis onde os estudos o aborreciam, vivera a existência aventureira com que sonhara, conhecera mulheres soberbas, tornara-se um herói ao identificar um general traidor e ao secundar o seu amigo Paser, com o qual fizera um pacto de sangue. Apesar da sua juventude, Suti estivera já por diversas vezes perto da morte; sem uma operação conseguida graças ao génio de Néféret, ele teria sucumbido aos ferimentos inflingidos por um urso que o derrubara, na Ásia, aquando de um combate singular.

 

Sentado sobre um rochedo, no meio do Nilo, preso a um bloco através de uma corrente sólida, restava-lhe contemplar o horizonte longínquo, o sul misterioso e angustiante de onde surgiam, por vezes, hordas de guerreiros núbios, de coragem indomável. A ele, sentinela mais avançada, cabia a tarefa de dar o alerta gritando a plenos pulmões.

 

A transparência do ar era tal que os vigias da fortaleza não deixariam de o ouvir.

 

Mas Suti não gritaria; não daria esse prazer ao comandante e seus esbirros. Ainda que não tivesse o menor desejo de morrer, não se humilharia. Sonhava com aquele momento maravilhoso em que abatera o general Asher, traidor e criminoso, quando tentava escapar à justiça escapulindo-se com um carregamento de ouro.

 

Um carregamento de ouro que Suti e Pantera esconderam com extremo cuidado, uma fortuna que lhes teria permitido gozar de todos os prazeres. Mas ele fora acorrentado e ela partira para a sua Líbia natal. com a interdição de voltar a pôr os pés em solo egípcio. Sem dúvida, ela já o esquecera, distraindo-se noutros braços.

 

Quanto a Paser, a sua posição de vizir manietava-o; qualquer intervenção a favor de Suti seria sancionada, sem que isso conduzisse a uma libertação. E pensar que o jovem estava sujeito a essa pena de exílio por ter desposado a bonita e fogosa Tapeni por imperativos do inquérito! Um casamento que ele pensara desfazer sem dificuldade, subestimando as exigências da tecelã. A jovem acusara-o de adultério, fazendo-o condenar a um ano de fortaleza; quando regressasse ao Egipto, deveria trabalhar para ela, para lhe dar uma pensão.

 

Irado, Suti batia na rocha e puxava as suas correntes. Mil vezes esperara que esta cedesse; mas aquela prisão sem muros e sem grades revelava-se de uma solidez inabalável.

 

As mulheres: a sua felicidade e a sua desgraça... Mas sem qualquer arrependimento! Talvez uma grande núbia de seios erectos, firmes e redondos aparecesse à cabeça dos rebeldes, talvez ela se enamorasse de si, talvez ela o libertasse em vez de lhe cortar o pescoço... Perecer assim, após tantas aventuras, conquistas e vitórias, era uma forma demasiado estúpida de morrer.

 

O sol deixava o zénite e principiava a sua descida em direcção ao horizonte. Há já bastante tempo que um soldado lhe deveria ter trazido de comer e beber. Estendendo-se ao comprido, recolheu a água do Nilo nas mãos em forma de concha e matou a sede; com um pouco de habilidade, conseguiria apanhar um peixe e não morreria de fome. Porquê esta mudança de hábitos?

 

Na manhã seguinte, foi forçado a concluir que o tinham abandonado à sua sorte. Se a guarnição permanecia entrincheirada no interior da fortaleza, não seria por se temer uma investida dos Núbios? Por vezes, seguindo-se a uma festa demasiado regada, uma trupe de guerreiros com falta de combate tinha a ideia louca de invadir o Egipto e acorria ao massacre.

 

Infelizmente, ele encontrava-se no seu caminho.

 

Era preciso quebrar aquela corrente, deixar aquele local antes do ataque; mas ele não dispunha sequer de uma pedra dura. De espírito vazio e um coração cheio de raiva, gritou a plenos pulmões.

 

Quando a noite caiu, ensanguentando o Nilo, o olhar experiente de Suti divisou um movimento insólito por detrás dos arbustos que orlavam a margem do rio.

 

Alguém o espiava.

 

Sobre a mancha vermelha, pontilhada de borbulhas, que se estendia sobre a perna esquerda, Bel-Tran aplicou uma pomada à base de flores de acácia e de clara de ovo, e bebeu algumas gotas de sumo de aloés, sem esperar uma cura espectacular. Recusando-se a admitir que os seus rins funcionavam mal e que o seu fígado estava afectado, o director da Dupla Casa branca não tinha tempo para se tratar.

 

O seu melhor remédio era uma actividade incessante. Constantemente animado por uma energia conquistadora, seguro de si, falador a ponto de esgotar o seu auditório, ele assemelhava-se a uma torrente que nada detém. A alguns meses do objectivo fixado pelos conjurados, o poder supremo, não seriam uns insignificantes problemas de saúde que interromperiam a sua marcha triunfal. Era verdade que três dos seus aliados estavam mortos; mas restavam-lhe muitos mais. Os desaparecidos revelaram-se medíocres, por vezes estúpidos; não teria ele de se desembaraçar deles, mais cedo ou mais tarde? No dia em que a conspiração fora fomentada, Bel-Tran seguira a estratégia definida sem cometer o menor erro. Todos acreditaram que era um servidor fiel do Faraó, que o seu dinamismo seria aproveitado em benefício do Egipto, que a sua capacidade de trabalho se compararia à dos grandes sábios que se abriam para o templo e não para eles mesmos.

 

Nem mesmo o desaparecimento de larrot, o escrivão traidor, o conseguira embaraçar, pois a sua fonte de informações ameaçava esgotar-se. As hienas aliviaram-no de um fardo.

 

Bel-Tran sorriu ao pensar que conseguira enganar a hierarquia e tecer uma teia sólida sem que nenhum membro das relações do Faraó tivesse percebido. Mesmo que Paser tentasse combatê-lo, era demasiado tarde.

 

O ministro da economia massajou os massacrados dedos grandes dos pés com uma pasta de folhas de acácia trituradas, misturadas à gordura de vaca; esta pasta fazia desaparecer a fadiga e a dor. Bel-Tran não parava de percorrer as grandes cidades e as capitais de província para confortar os seus cúmplices com a ideia de que, em breve, uma revolução teria lugar e que, graças a si, eles se tornariam ricos e poderosos, para além do que imaginavam nos seus sonhos mais loucos. O apelo à cobiça humana, sustentado por argumentos de peso, não ficava nunca sem resposta.

 

Mastigou duas pastilhas para tornar o hálito agradável; olíbano, junca odorífera, resina de terebentina e cana da Fenícia, misturados com mel, formavam uma das misturas mais suaves. Com satisfação, Bel-Tran contemplou a sua vivenda em Mênfis. Uma vasta casa, no centro de um jardim rodeado de muros; uma porta de pedra com o lintel decorado com palmas; uma fachada ritmada por altas e esguias colunas imitando os papiros, dos quais ele era o principal produtor; um vestíbulo e salas de recepção cujo esplendor deslumbrava os seus convidados, vestiários com dezenas de arcas de roupa, casas de banho em pedra, dez quartos, duas cozinhas, uma padaria, um poço, silos de cereais, cavalariças, um grande jardim onde, em redor do lago, cresciam palmeiras, sicómoros, jujubeiros, pérseas, romãzeiras e tamargueiras.

 

Apenas um homem rico podia possuir uma tal habitação. Ele sentia-se orgulhoso do seu sucesso; ele, o empregado insignificante, o recém-chegado que os altos dignitários haviam desdenhado antes de o temerem e de se submeterem à sua lei. Fortuna e bens materiais: não existia outra felicidade duradoura e outro sucesso. Os templos, as divindades, os rituais nada mais eram que, ilusões e sonhos. Era por esse motivo que Bel-Tran e os seus aliados haviam decidido arrancar o Egipto a um passado acabado e fazê-lo entrar no caminho do progresso onde apenas contaria a verdade da economia. Neste domínio, ninguém se lhe assemelharia; Ramsés, o Grande, e Paser, nada mais poderiam fazer senão receber os golpes antes de desaparecer.

 

Bel-Tran arrancou um jarro enterrado no buraco de uma prancha colocada numa posição superior e provido de um rolhão feito com limos; revestido a argila, o jarro conservava a cerveja de forma admirável.

 

Tendo retirado a rolha, ele introduziu no recipiente um tubo ligado a um filtro, a fim de eliminar eventuais impurezas, e saboreou um líquido fresco e digestivo.

 

Subitamente, teve vontade de ver a esposa. Não tinha ele conseguido transformar uma pequena provinciana bastante desengraçada e até feia numa verdadeira dama menfita, enfeitada com os mais belos atavios, e provocando a inveja das suas rivais? É verdade que a cirurgia estética lhe custara bem caro; mas os traços de Silkis e o desaparecimento dos seus múltiplos refegos de gordura davam-lhe satisfação. Ainda que o seu humor fosse instável, por vezes abeirando-se mesmo de crises de histeria que o intérprete dos sonhos acalmava, Silkis continuava a ser uma mulher-menina obedecendo-lhe cegamente. Nas recepções de hoje e nas reuniões oficiais de amanhã, ela apareceria a seu lado como um belo objecto, tendo por obrigações o silêncio e um porte deslumbrante.

 

Ela encontrava-se a aplicar uma máscara de beleza, composta por mel, natrão vermelho e sal do norte, após ter esfregado a pele com óleo de alforva e pós de alabastro. Nos lábios, ocre escarlate; em redor dos olhos, uma pintura verde.

 

Estás espantosa, minha querida.

 

Dá-me a peruca mais bonita, dás?

 

Bel-Tran girou o manípulo de madrepérola de um velho cofre em cedro do Líbano. Daí tirou uma peruca de cabelos humanos, enquanto Silkis fazia deslizar a tampa de uma caixa de toucador para retirar uma pulseira de pérolas e um pente de acácia.

 

Como estás tu esta manhã? perguntou-lhe ele, ajustando a preciosa peruca.

 

Os meus intestinos continuam muito frágeis; tenho bebido cerveja de alfarroba misturada com azeite e mel.

 

Se a situação piorar, consulta um médico.

 

Néféret curar-me-ia.

 

Não falemos mais de Néféret!

 

É uma terapeuta excepcional.

 

Ela é nossa inimiga, como Paser, e perecerá com ele.

 

Não considerarias a possibilidade de a salvar... para me servir?

 

Veremos. Sabes o que te trago?

 

Uma surpresa!

 

Óleo de zimbro para ungir a tua pele delicada. Ela saltou-lhe ao pescoço e beijou-o.

 

Ficas em casa hoje?

 

Infelizmente não.

 

O teu filho e a tua filha gostariam de falar contigo.

 

Eles que obedeçam ao preceptor, é o mais importante. Amanhã estarão entre as personalidade marcantes do reino.

 

Não receias que...

 

Nada, Silkis, não receio nada, porque sou intocável. E ninguém pode conhecer a arma decisiva de que disponho.

 

Um servidor interrompeu-os.

 

Um homem pede para ver o senhor.

 

O seu nome?

 

Mentmosé.

 

Mentmosé, o antigo chefe da polícia, substituído pelo núbio Kem. Mentmosé, que tentara desembaraçar-se de Paser acusando-o de assassínio e mandando-o para a prisão. Mesmo não pertencendo ao círculo dos conspiradores, o ex-funcionário servira bem a causa dos futuros dirigentes. Bel-Tran considerara-o desaparecido para sempre, exilado em Biblos, no Líbano, e reduzido ao posto de operário num estaleiro naval

 

Manda-o entrar para o salão dos lótus, perto do jardim, e serve-lhe cerveja; vou já.

 

Silkis estava inquieta.

 

Que quer ele? Não gosto dele.

 

Fica tranquila.

 

Amanhã, continuarás em viagem?

 

Assim é necessário.

 

E eu, que devo fazer?

 

Continuares a ser bonita, e não falares com ninguém sem a minha autorização.

 

Quero um terceiro filho teu.

 

Tê-lo-ás.

 

Passando já dos cinquenta, Mentmosé tinha um crânio calvo e vermelho, e uma voz nasalada que subia a um tom agudo quando se achava contrariado. Corpulento, de nariz pontiagudo, cauteloso, construíra uma brilhante carreira à custa das falhas de outros. Nunca se imaginara a cair num tal abismo já que se rodeara de mil e uma precauções. Mas o juiz Paser havia desmontado o seu sistema e descoberto a sua incompetência. Desde que o seu inimigo ocupava o posto de vizir, Mentmosé não tinha a mínima hipótese de reencontrar o esplendor perdido Bel-Tran era a sua última esperança.

 

Não estás proibido de voltar ao Egipto?

 

Estou em situação ilegal, é verdade.

 

E por que razão corres tais riscos?

 

Ainda tenho algumas relações e Paser só tem amigos.

 

Que queres tu de mim?

 

Venho oferecer-te os meus serviços. Bel-Tran pareceu duvidoso.

 

Aquando da prisão de Paser lembrou o antigo chefe da polícia este defendeu-se de ter assassinado o seu mestre Branir. Nem por um segundo acreditei na sua culpabilidade e tive consciência de estar a ser manipulado, mas essa situação servia-me. Alguém me preveniu, enviando-me uma mensagem para que eu prendesse Paser em flagrante delito, quando ele se inclinasse sobre o cadáver do seu mestre. Tive tempo de reflectir nesse episódio. Quem me poderá ter alertado senão tu ou um dos teus aliados? O dentista, o transportador e o químico estão mortos; tu não.

 

Como sabes que eles eram meus aliados?

 

Algumas línguas desatam-se e apresentam-te como o futuro chefe do país; odeio Paser tanto quanto tu e tenho em meu poder indícios talvez embaraçosos.

 

Quais?

 

O juiz afirmou que acorrera a casa de Branir por causa de uma breve missiva: ”Branir está em perigo. Vem depressa.” Supõe que, contrariamente às minhas próprias afirmações, não destruí esse documento, e que seja possível identificar a caligrafia. Supõe também que conservei igualmente a agulha de madrepérola, e que ela pertence a uma pessoa que te é querida.

 

Bel-Tran reflectiu.

 

Quais as tuas exigências?

 

Aluga-me uma casa na cidade, permite-me agir contra Paser e dá-me um posto no teu futuro governo.

 

Nada mais?

 

Estou convencido de que tu és o futuro.

 

As tuas pretensões parecem-me legítimas.

 

Mentmosé inclinou-se diante de Bel-Tran. Nada mais lhe restava senão vingar-se de Paser.

 

Tendo Néféret sido chamada de urgência ao hospital principal de Mênfis para uma operação difícil, o vizir Paser deu ele próprio de comer a Diabrete, a pequena sagui verde. Ainda que a insuportável macaca passasse a vida a aborrecer os empregados domésticos e a roubar alimentos da cozinha, Paser mostrava-se de uma grande afabilidade para com ela. Quando se cruzara com Néféret pela primeira vez, não tinha sido graças à intervenção de Diabrete, que atirara salpicos de água para cima de Bravo, o cão do juiz, que ele ousara abordar a sua futura esposa?

 

Bravo pousou a pata anterior direita no pulso do vizir. De patas altas, uma longa cauda, orelhas pendentes que se erguiam à hora das refeições, o cão cor-de-areia trazia uma coleira em couro rosa e branco com a seguinte inscrição: ”Bravo, companheiro de Paser”. Enquanto Diabrete descascava nozes de palmeira, o cão regalou-se com um puré de legumes. Felizmente, uma paz concertada estabelecera-se entre os dois animais; Bravo aceitava que lhe puxassem a cauda uma dezena de vezes ao dia, Diabrete respeitava o seu sono a partir do momento em que ele se instalava na velha esteira do juiz, o único tesouro que possuía aquando da sua chegada a Mênfis. Um belo objecto, na verdade, que servia de cama, mesa, tapete e, por vezes, de lençol. Paser jurara conservá-la, qualquer que fosse a sua fortuna; desde que Bravo a adoptara, desdenhando as suas almofadas e cadeiras confortáveis, ele sabia que a esteira estava bem guardada.

 

Um doce sol de Inverno acordava as dezenas de árvores e os canteiros de flores que davam à grande propriedade do vizir o aspecto de um dos paraísos do outro mundo onde viviam os justos. Paser deu alguns passos numa alameda, saboreando os perfumes subtis que exalavam da terra orvalhada. Um focinho amigável tocou-lhe o cotovelo; o seu burro fiel, Vento do Norte, saudava-o à sua maneira. Magnífico jumento de olhar terno e inteligência arguta, possuía um fabuloso sentido de orientação do qual o próprio vizir era desprovido. Paser oferecia-lhe com prazer um domínio onde ele já não tinha de transportar fardos pesados.

 

O burro ergueu a cabeça. Pressentiu uma presença insólita no grande portão, em direcção ao qual se dirigiu num passo rápido. Paser seguiu-o.

 

Kem e o seu babuíno-polícia esperavam o vizir. Insensível tanto ao frio como ao calor, detestando o luxo, o chefe da polícia vestia apenas uma tanga curta, como qualquer homem de condição modesta; à cintura, um estojo em madeira contendo um punhal, presente do vizir: lâmina em bronze, punho em electro, mistura de ouro e prata, com uma marcheteria de rosetas de lápis-lazúli e feldspato verde. O núbio preferia aquela obra-de-arte à mão de marfim que era obrigado a empunhar aquando das cerimónias oficiais. Detestando a atmosfera dos gabinetes, ele continuava, como no passado, a percorrer as ruas de Mênfis e a trabalhar no terreno.

 

O babuíno parecia tranquilo: quando a sua fúria se desencadeava, tornava-se capaz de derrubar um leão. Apenas um outro símio do seu tamanho e força, enviado por um misterioso assassino decidido a limpar o seu caminho para melhor atacar Paser, ousara enfrentá-lo num duelo de morte. Matador saíra vencedor, mas gravemente ferido; os cuidados de Néféret, a quem o macaco devotava um reconhecimento sem limites, tinham-no posto de pé rapidamente.

 

Nenhum perigo à vista considerou Kem. Nestes últimos dias, ninguém te espiou.

 

Devo-te a minha vida.

 

Também eu, vizir; uma vez que os nossos destinos estão ligados, não gastemos saliva a agradecer-nos mutuamente. A presa está no ninho, já verifiquei.

 

Vento do Norte, como se tivesse sido informado das intenções do vizir, tomou de imediato a direcção certa. Nas ruas de Mênfis, ele trotava com elegância alguns metros à frente do babuíno e dos dois homens. A passagem de Matador impunha respeito; cabeça compacta, faixa de pêlos rudes que corria do alto do espinhaço até à cauda, capa vermelha sobre os ombros, gostava de caminhar direito lançando olhares em redor.

 

Uma alegre animação reinava diante da principal oficina de tecelagem de Mênfis; as tecelãs tagarelavam, os distribuidores traziam novelos de fio de linho que uma supervisora examinava com atenção antes de aceitar. O burro imobilizou-se diante de um monte de forragem, enquanto o vizir, o chefe da polícia e o seu babuíno penetravam no interior de uma sala bem arejada onde se encontravam dispostos os teares.

 

Dirigiram-se para o escritório da chefe das tecelãs, a senhora Tapeni, cuja aparência era enganadora. Pequena, de cabelos negros, olhos verdes, trinta anos sedutores e vivos, ela dirigia a oficina com mão de ferro e só sonhava com a sua carreira.

 

O aparecimento do trio quase a fez perder o sangue-frio.

 

É... é a mim que procurais?

 

Estou convencido que nos podes ajudar declarou Paser com voz séria.

 

Na oficina, a bisbilhotice já ia adiantada; o vizir do Egipto em pessoa e o chefe da polícia em casa da senhora Tapeni! Seria ela beneficiária de uma promoção fulgurante ou teria cometido um delito grave? A presença de Kem implicava antes a segunda hipótese.

 

Recordo-te continuou Paser que o meu mestre Branir foi assassinado com uma agulha de madrepérola. Graças às tuas informações, apresentaram-se-me várias hipóteses, infelizmente infrutíferas. Ora, tu afirmaste ser detentora de informações determinantes; não seria tempo de as formulares?

 

Vangloriei-me, simplesmente.

 

Entre os conjurados que assassinaram os guardas da esfinge, encontrava-se uma mulher, tão determinada e cruel quanto os seus cúmplices.

 

Os olhos vermelhos do babuíno fixaram-se na bela morena que cada vez se sentia menos à vontade.

 

Supõe, Tapeni, que essa mulher seja uma excelente manuseadora da agulha e que recebeu ordens para eliminar o meu mestre Branir, por forma a travar o seu inquérito.

 

Nada disso me diz respeito.

 

Gostaria de obter as tuas confidências.

 

Não! gritou ela, no limiar de um ataque de nervos. Queres vingar-te porque fiz condenar o teu amigo Suti; ele estava errado, eu tinha razão. Não me ameaces mais ou apresentarei queixa contra ti. Sai daqui!

 

Deverias adoptar uma linguagem mais respeitável recomendou Kem; estás a dirigir-te ao vizir do Egipto.

 

Trémula, Tapeni baixou o tom de voz.

 

Não tens qualquer prova contra mim.

 

Acabaremos por obtê-la; porta-te bem, senhora Tapeni.

 

O vizir está satisfeito?

 

Mais que antes, Kem.

 

Um pontapé num formigueiro...

 

Esta jovem senhora é demasiado nervosa e muito agarrada à sua ascensão social; a nossa visita não augura nada de bom para a sua reputação.

 

Logo, ela vai reagir.

 

Sem demora.

 

Acreditas que seja culpada?

 

De maldade e avareza, com certeza.

 

Inclinas-te mais em Silkis, a esposa de Bel-Tran?

 

Uma mulher-menina pode transformar-se numa criminosa por simples capricho; além disso, Silkis é uma excelente manuseadora da agulha.

 

Diz-se que é medrosa.

 

Ela inclina-se aos menores desejos de seu marido; se ele lhe pediu para servir de isco, ela obedeceu. O chefe da guarda de honra da esfinge, vendo-a aparecer no coração da noite, terá perdido a lucidez.

 

Cometer um crime...

 

Não formularei a acusação formal antes de ter a prova em meu poder.

 

E se nunca a conseguires?

 

Tenhamos confiança no nosso trabalho, Kem.

 

Estás a esconder-me um facto importante.

 

A tal sou obrigado; mas fica ciente de que estamos a lutar pela sobrevivência do Egipto.

 

Trabalhar a teu lado não dá descanso a ninguém.

 

A minha única aspiração é viver uma existência tranquila, no campo, na companhia de Néféret, do meu cão e do meu burro.

 

Tens de ter paciência, vizir Paser.

 

A senhora Tapeni não estava sossegada. Conhecia a obstinação do vizir Paser, a sua tenacidade em descobrir a verdade e a sua amizade indefectível por Suti. É verdade que a chefe das tecelãs se mostrara demasiado dura para com o seu marido; mas Suti casara-se com ela e ela não suportava que lhe fossem infiel. Ele pagaria pela sua relação com aquela cadela líbia.

 

Exposta à punição do vizir, Tapeni tinha de encontrar rapidamente um protector. Segundo os rumores recentes, não era permitida qualquer hesitação.

 

Tapeni correu até aos edifícios oficiais onde trabalhavam os funcionários do ministério das Finanças. Interrogou os guardas e esperou uma boa meia-hora antes de ver chegar uma liteira vazia, de espaldar alto, equipada com um tamborete para pousar os pés e largos apoios para os cotovelos. Na retaguarda, um guarda-sol protegia o ocupante dos raios de sol. Vinte transportadores asseguravam uma deslocação rápida, sob as ordens de um chefe de voz poderosa; eles alugavam os seus serviços a um preço elevado, excluindo os percursos demasiado longos.

 

Bel-Tran saiu pela porta principal do ministério e dirigiu-se para a sua liteira com passos apressados. Tapeni barrou-lhe o caminho.

 

Preciso de te falar.

 

Tapeni! Problemas na oficina?

 

O vizir anda a importunar-me.

 

Ele assume-se, de boa vontade, como um justiceiro.

 

Ele acusa-me de crime.

 

A ti?

 

Ele suspeita que eu assassinei o seu mestre Branir.

 

Tem provas?

 

Não, mas ameaça-me.

 

Um inocente nada tem a temer.

 

Paser, Kem e o seu símio-polícia assustam-me; preciso da tua ajuda.

 

Não vejo como...

 

És um homem rico e poderoso; fala-se para aí que a tua ascensão não terminou ainda. Gostaria de me tornar tua aliada.

 

De que forma?

 

Eu controlo o comércio dos tecidos; as senhoras nobres, como a tua, adoram-nos. Sei como obter as melhores condições de compra e venda. Os benefícios, acredita, não serão de negligenciar.

 

Um grande volume de negócios?

 

Com as tuas qualidades, depressa o aumentarás. Primeiramente, prometo-te prejudicar aquele maldito vizir.

 

Tens um plano preciso?

 

Ainda não, mas conta comigo.

 

Entendido, Tapeni; considera-te protegida.

 

 

Ao serviço dos conjurados, enriquecido pelos seus crimes, o devorador de sombras era um perfeccionista. Prometera eliminar Paser, fracassara, mas ia conseguir. Após ter seguido a sua pista durante muito tempo, o chefe da polícia decidiu finalmente constatar o seu fracasso. Trabalhando sozinho, sem auxílio, o homem das trevas nunca seria identificado. Graças ao ouro que lhe fora pago, logo seria proprietário de uma vivenda no campo onde gozaria uma reforma tranquila.

 

O devorador de sombras não tinha mais nenhum contacto com os seus patrões; três estavam mortos, e Bel-Tran e Silkis inacessíveis. No entanto, esta última não se mostrara nada arisca aquando do seu último encontro, quando lhe transmitiu a ordem de tornar Paser inválido; não gemera nem gritara por socorro submetendo-se ao seu desejo. Não tardaria muito, Bel-Tran e Silkis subiriam ao trono do Egipto; de modo que o devorador de sombras se sentia obrigado a oferecer-lhes a cabeça do vizir, seu pior inimigo.

 

Tirando partido dos seus anteriores fracassos, já não atacaria de frente; Kem e o seu babuíno revelavam-se demasiado eficazes. O macaco pressentia o perigo, o núbio velava permanentemente por Paser. O devorador de sombras agiria de maneira indirecta, lançando armadilhas.

 

A meio da noite, escalou o muro do hospital principal de Mênfis, rastejou sobre o telhado e introduziu-se no interior do edifício graças a uma escada. Enveredando por um corredor onde se fazia sentir o aroma dos unguentos e pomadas, dirigiu-se às reservas de produtos perigosos.

 

Nota: Tradução literal da expressão egípcia que significa ”assassino. (N. do A.)

 

Em vários laboratórios estavam armazenados baba, excrementos e urina de sapo, morcegos, venenos de serpentes, de escorpiões e de vespas, e outras substâncias tóxicas provenientes de vegetais, com as quais os farmacêuticos preparavam remédios muito activos.

 

Nem a presença de um vigilante embaraçou o devorador de sombras; espancou-o e apossou-se de um frasco de veneno e de uma víbora negra, aprisionada num cesto.

 

Aterrada, Néféret inteirou-se do estado do vigilante antes de inspeccionar os laboratórios. O homem não estava gravemente ferido; fora espancado na base do pescoço, sem mesmo adivinhar a presença do seu agressor.

 

Qual a extensão do roubo? perguntou ela ao médico-chefe do hospital.

 

Quase nada... uma víbora negra num cesto.

 

Venenos?

 

É difícil de dizer; acabámos de receber um lote que vou inventariar esta manhã. O ladrão não partiu nada.

 

A guarda será redobrada, a partir desta noite; eu mesma previno o chefe da polícia.

 

Inquieta, a jovem pensava nas tentativas de assassínio perpetradas contra o seu marido; este incidente pouco habitual não seria o prenúncio de um novo drama?

 

Com o espírito enevoado, o vizir apresentou-se à porta do Tesouro em companhia de Kem e do símio-polícia. Pela primeira vez desde a sua investidura inspeccionava as reservas de metais preciosos. Acordado ainda antes da alvorada por um emissário do hospital, não teve sequer tempo de trocar impressões com Néféret, que partiu a toda a pressa para o local. Incapaz de voltar a adormecer, deleitara-se com um duche escaldante antes de partir para o centro de Mênfis e franquear os cordões de polícias que interditavam o acesso ao bairro do Tesouro a pessoas não qualificadas.

 

O vizir apôs o seu selo no registo que lhe apresentou o guardião do Tesouro, um homem idoso, lento e meticuloso. Mesmo conhecendo o rosto de Paser, verificou a conformidade da impressão com a que lhe fora transmitida pelo palácio aquando da nomeação do novo vizir.

 

Que desejas ver?

 

O conjunto das reservas.

 

Essa tarefa levará tempo.

 

Ela faz parte dos meus deveres.

 

Às tuas ordens.

 

Paser começou pelo imenso edifício onde estavam armazenados os lingotes de ouro e prata provenientes das minas da Núbia e do deserto oriental. Cada peça recebia um número de ordem, a classificação era impecável.

 

Em breve partiria um carregamento para o templo de Carnaque onde os ourives trabalhariam o precioso metal a fim de adornar duas grandes portas.

 

Passado o deslumbramento, Paser constatou que metade do local estava vazio.

 

As nossas reservas estão no seu ponto mais baixo comentou o guardião do Tesouro.

 

Por que razão?

 

Ordens superiores.

 

Qual a proveniência?

 

A Dupla Casa branca.

 

Mostra-me os documentos.

 

O guardião do Tesouro não cometera qualquer falta administrativa; há vários meses, lingotes de ouro e prata, bem como uma importante quantidade de minerais raros, saíam regularmente das reservas a pedido de Bel-Tran.

 

O atentado era inadmissível.

 

Caminhando com passo rápido, Paser não teve de percorrer uma longa distância para chegar à Dupla Casa branca, conjunto de construções de dois andares que abrigavam gabinetes que separavam os pequenos jardins. Como era habitual, reinava aí uma azáfama de formigueiro; desde que Bel-Tran fora colocado à cabeça do grande corpo de Estado, não tolerava a menor inércia e reinava como um tirano sobre um exército de escribas atarefados.

 

Num vasto recinto, encontravam-se bois gordos destinados ao templo; especialistas examinavam os animais a título de liquidação do imposto. Num alpendre rodeado de um muro de tijolo e protegido por soldados, os encarregados de contas pesavam os lingotes de ouro antes de os depositarem em caixas. O correio interno funcionava desde a madrugada até à noitinha; jovens de pernas esguias corriam de um lado para outro, transportando ordens a ser executadas sem demora. Os intendentes ocupavam-se das ferramentas, do fabrico do pão e da cerveja, da recepção e circulação dos unguentos, do material para os grandes estaleiros, dos amuletos e objectos litúrgicos. Era consagrado um serviço às paletas de escriba, às canas para escrever, aos papiros, às tábuas de argila e madeira.

 

Atravessando as salas de colunas onde dezenas de funcionários redigiam notas e relatórios, o vizir tomou consciência da maquinaria da qual Bel-Tran se havia tornado manipulador. Pouco a pouco, assumira o comando dos diversos rodados e não se destacara até os ter dominado.

 

Os chefes de equipa inclinaram-se diante do vizir, os seus empregados continuaram a trabalhar; pareciam temer mais o patrão que o primeiro-ministro do Egipto. Um intendente guiou-os até à entrada de uma vasta sala onde Bel-Tran, caminhando de um lado para o outro, ditava as suas instruções a três escribas obrigados a escrever com uma rapidez notável.

 

O vizir observou o seu inimigo declarado. A ambição e a sede de poder impregnavam cada parcela do seu ser, cada uma das suas palavras; o homem não duvidava das suas qualidades nem do seu triunfo final. Quando se apercebeu da presença de Paser, interrompeu o que estava a fazer, dispensou secamente os escribas e ordenou-lhes que fechassem a porta de madeira.

 

A tua visita muito me honra.

 

Não te gastes em fórmulas hipócritas.

 

Tiveste tempo de admirar a minha administração? O trabalho afincado é a sua lei principal. Poderias demitir-me e nomear outro director, mas a máquina griparia e tu serias a primeira vítima. Precisarias de mais de um ano para retomares o leme deste pesado barco, e só dispões de alguns meses antes da nomeação do novo faraó. Renuncia Paser, e submete-te.

 

Porque esvaziaste as nossas reservas de metais preciosos? Bel-Tran sorriu, satisfeito.

 

Procedeste a uma inspecção?

 

É meu dever.

 

Grande rigor, é verdade.

 

Exijo que te expliques.

 

Interesse superior do Egipto! Era preciso contentar os nossos vassalos e os nossos amigos, os Líbios, os Palestinianos, os Sírios, os Hititas, os Libaneses, e tantos outros, a fim de manter as boas relações e preservar a paz. Os seus governantes apreciam os presentes, sobretudo o ouro dos nossos desertos.

 

Ultrapassaste largamente as quantidades habituais.

 

Em certas circunstâncias é preciso sabermos mostrar-nos generosos.

 

Nem mais um grama de metal precioso sairá do Tesouro sem minha autorização.

 

Estou às tuas ordens. Mas não foi cometida qualquer irregularidade. Eu sei o que estás a pensar: não terei eu usado um procedimento legal a fim de desviar as riquezas para meu proveito? Ideia astuciosa, admito-o. Permite-me que te deixe na dúvida, com apenas uma certeza: não podes provar nada.

 

 

Acorrentado a um rochedo no meio do Nilo, Suti observava fixamente os arbustos da margem onde se escondia o núbio que o espiava. Prudente, este último permanecia imóvel, receando uma armadilha; Suti apresentava-se como um isco demasiado apetecível.

 

O núbio moveu-se novamente; decidira agir. Excelente nadador, como todos os da sua raça, deslocar-se-ia debaixo de água e surpreenderia a sua presa.

 

Com a fúria do desespero, Suti puxou a corrente; esta rangeu, gemeu, mas não se quebrou. Morreria ali, estupidamente, sem se poder defender. Rodando sobre si próprio, tentou perceber de onde viria o ataque: a noite estava sombria, a água do rio impenetrável.

 

A forma esguia emergiu, mesmo ao seu lado. Ele esperneou, com a cabeça levantada, esticando a corrente ao máximo. A sombra evitou-o, deslizou sobre o rochedo molhado, caiu à água e ressurgiu.

 

Está quieto, imbecil!

 

Aquela voz... Ele tê-la-ia reconhecido mesmo no reino subterrâneo.

 

És tu... Pantera?

 

Quem mais viria em teu auxílio?

 

Nua, com os cabelos loiros pingando sobre os ombros, ela avançou na sua direcção, banhada por um raio de luar. A sua beleza e sensualidade deslumbraram-no.

 

Ela colou-se contra ele, envolveu-o nos seus braços, pousou os seus lábios sobre os dele.

 

Fizeste-me muita falta, Suti.

 

Estou acorrentado.

 

Pelo menos, não me enganaste.

 

Pantera inflamou-se. Suti não resistiu a este assalto inesperado. Sob o céu da Núbia, embalados pelo canto de um Nilo selvagem, entregaram-se um ao outro com furor.

 

Quando a paixão se acalmou, ela estendeu-se sobre ele, satisfeita. Ele acariciou docemente os cabelos louros.

 

Felizmente, o teu vigor não diminuiu. Senão, ter-te-ia abandonado.

 

Como chegaste até aqui?

 

Em barcos, carros, a pé, de burro... Estava certa de conseguir.

 

Tiveste problemas?

 

Uns violadores e ladrões aqui e ali. Nada de verdadeiramente perigoso; o Egipto é um país tranquilo.

 

Deixemos este local o mais rapidamente possível.

 

Eu sinto-me bem aqui.

 

Se os Núbios se abaterem sobre nós, mudarás de opinião. Pantera ergueu-se, mergulhou e voltou com duas pedras cortantes.

 

Com força e precisão, aplicou-se num dos elos da corrente, enquanto Suti aliviava o anel que lhe cingia o punho.

 

Os seus esforços foram coroados de êxito. Livre e louco de alegria, Suti agarrou em Pantera e ergueu-a no ar; as pernas da Líbia fecharam-se em redor dos rins do seu amante cuja virilidade renascia. Encaixados um no outro, deslizaram pelo rochedo molhado e caíram no rio rebentando de riso.

 

Rebolando na margem, os seus corpos não se desuniam. Ébrios um do outro, puseram no abraço uma nova energia. O frio da madrugada acalmou-os por fim.

 

É preciso irmo-nos embora disse Suti, de repente muito sério.

 

Para onde?

 

Para o Sul.

 

O desconhecido, os animais selvagens, os Núbios...

 

Afastemo-nos da fortaleza e dos soldados egípcios. Quando eles constatarem o meu desaparecimento, enviarão patrulhas e alertarão os seus espiões. Escondamo-nos até que a sua ira se dilua.

 

E o nosso ouro?

 

Recuperá-lo-emos, não te aflijas.

 

A caminhada não será fácil.

 

Juntos conseguiremos.

 

Se me enganas outra vez com aquela Tapeni, mato-te.

 

Mata-a antes a ela; tiravas-me um peso de cima.

 

O responsável por esse casamento és tu! Obedeceste ao teu amigo Paser que te abandonou, e vê onde estamos!

 

Acertarei todas as minhas contas.

 

Se escaparmos ao deserto.

 

O deserto não me assusta; tens água?

 

Dois odres cheios, presos a um ramo de tamariz. Lançaram-se numa pista estreita que passava entre rochas calcinadas

 

e falésias hostis. Pantera seguiu o leito de um curso de água onde subsistiam alguns tufos de erva de que se alimentaram. A areia escaldante queimava-lhes os pés, abutres de pescoço branco sobrevoavam-nos.

 

Durante dois dias, não se cruzaram com vivalma; a meio do terceiro, o ruído de uma galopada obrigou-os a esconderem-se atrás de um abrigo rochoso formado por blocos de granito que os ventos desgastavam. Viram aparecer dois cavaleiros núbios arrastando atrás de si um garoto nu que corria até perder o fôlego, agarrando-se à corda presa à cauda de um dos cavalos. Ao pararem, uma poeira ocre elevou-se em direcção ao céu azul. Um cortou a garganta do prisioneiro, o outro, os testículos; soltando gargalhadas alvares, abandonaram o cadáver e partiram de regresso ao seu acampamento.

 

Pantera não fechara os olhos.

 

Vês os que nos espera, minha querida; os bandidos núbios ignoram a piedade.

 

Basta não cairmos nas suas mãos.

 

Este local não é nada favorável a um retiro feliz; vamos para mais longe.

 

Alimentaram-se de rebentos de palmeiras, abandonadas na solidão das rochas negras. Gemidos lúgubres acompanhavam-nos; uma brisa poderosa levantou-se, nuvens de areia enchiam o horizonte. Eles afastaram-se do caminho, deitaram-se abrigados, apertados um contra o outro, e esperaram pelo fim da tempestade.

 

Um arrepio suave percorreu a sua pele; Suti acordou e sacudiu os grãos de areia que lhe enchiam o nariz e as orelhas.

 

Pantera permanecia inerte.

 

Levanta-te, a tormenta já passou. Ela não se moveu.

 

Em pânico, Suti ergueu-a. A jovem estava flácida, abandonada.

 

Acorda, suplico-te!

 

Será que me amas um pouco? perguntou ela, com voz quente.

 

Estavas a brincar!

 

Quando corremos o risco de nos tornarmos escrava de um amante infiel, é preciso pô-lo à prova.

 

Já não temos água.

 

Ela caminhava à frente, perscrutando a areia a fim de descobrir traços de humidade. Ao cair do dia, Pantera conseguiu matar um roedor. Espetou na areia dois pedaços de nervura de palma que imobilizou com a ajuda dos joelhos, e esfregou entre eles uma acha de madeira muito seca, com as duas mãos; o movimento, repetido com vigor, produziu pó de madeira que se incendiou. A carne cozinhada, mesmo em pouca quantidade, retemperou-lhes as forças.

 

Quando o sol se levantou, a modesta refeição e a relativa frescura nocturna depressa foram esquecidas; era preciso encontrar um poço o mais depressa possível, sob pena de morrerem. Mas como descobri-lo? Não se via nem o mais pequeno oásis, nem mesmo alguns tufos de ervas ou arbustos espinhosos que pudessem revelar a presença de água.

 

Só um sinal pode salvar-nos declarou Pantera. Sentemo-nos e esperemos por ele. Caminhar mais é inútil.

 

Suti concordou. Ele não temia nem o deserto, nem o sol; morrer livre, no coração deste oceano de fogo, não o assustava. A luz dançava nas rochas, o tempo dissolvia-se no calor, a eternidade impunha-se, escaldante e indomável. Na companhia daquela líbia de cabelos loiros, não estaria ele a viver uma forma de felicidade tão preciosa como o ouro das montanhas?

 

Ali em baixo murmurou ela à tua direita.

 

Suti voltou lentamente a cabeça. E viu-o, orgulhoso e selvagem, absorvendo o vento no cimo de uma duna.

 

Um orix macho, pesando pelo menos duzentos quilos, e cujos longos chifres podiam trespassar um leão de lado a lado. O antílope das areias suportava temperaturas caniculares, errando pelo deserto mesmo quando o sol dardejava na vertical.

 

Vamos segui-lo decidiu Pantera.

 

Uma brisa eriçava os pêlos negros da cauda do orix, cujo ritmo respiratório se acelerava à medida que o calor aumentava; animal do deus Seth, senhor dos furacões e encarnação dos excessos da natureza, o antílope de longos chifres sabia captar o mínimo sopro de ar a fim de refrescar a sua circulação sanguínea. Com o casco, o grande macho desenhou uma espécie de cruz na areia e afastou-se, seguindo uma linha de crista. O casal enveredou pelo mesmo caminho, a uma distância razoável.

 

O orix traçara um X, hieróglifo que significava ”passar”; estaria ele a indicar-lhes um meio de sair daquela imensidão estéril? O viajante solitário, com passo certo, evitava as placas de areia mole e caminhava em direcção ao sul.

 

Suti admirava Pantera. Ela não se queixava, não recuava diante de nenhum esforço, afincava-se em sobreviver com o mesmo fervor que um animal selvagem.

 

Pouco antes do sol se pôr, o orix apressou o passo e desapareceu por detrás de uma grande duna. Suti ajudou Pantera a escalar a vereda que se esquivava sob os seus pés. Ela caiu, ele ergueu-a, depois caiu também. Com os pulmões em fogo, os membros doridos, rastejaram até ao cimo.

 

O deserto tingia-se agora de ocre; o calor já não vinha do céu, mas da areia e das pedras. A frescura do vento não acalmava a queimadura dos lábios e da garganta.

 

O orix desaparecera.

 

Ele é infatigável disse Pantera não temos qualquer hipótese de nos juntarmos a ele. Se ele se apercebeu da presença de verdura, avançará sem tréguas dias a fio.

 

Suti fixava um ponto preciso, ao longe.

 

Parece-me que vejo... Não, é uma ilusão.

 

Pantera olhou na mesma direcção; a sua vista toldava-se.

 

Vem avancemos.

 

As suas pernas aceitaram regressar à caminhada, apesar do sofrimento; se Suti estava enganado, teriam de beber a própria urina antes de morrerem de sede.

 

A pista do orix!

 

Após ter continuado o seu caminho numa sucessão de saltos, o antílope retomara uma marcha lenta em direcção à miragem que fascinara Suti. Por seu turno, em Pantera renasceu a esperança; pois não vislumbrava ela uma pequena mancha de sombra verde?

 

Esqueceram o esgotamento e conduziram os seus passos pelos do orix. E o ponto verde aumentou, aumentou, até se transformar num bosquezinho de acácias.

 

Sob a árvore mais frondosa, o antílope repousava. O macho de longos chifres observava os recém-chegados que, por sua vez admiraram a sua penugem ruiva e o seu focinho branco e negro. Suti sabia que ele não recuaria perante o perigo; certo da sua força, atacá-los-ia se se sentisse ameaçado.

 

Os pêlos da sua barbicha... Estão molhados!

 

O orix acabara de beber; mastigava agora cascas de acácia das quais uma boa parte, não digerida, passaria para os seus excrementos e replantaria assim novas árvores nos sítios por onde passasse.

 

O solo é móvel notou Suti.

 

Passaram muito lentamente diante do animal e embrenharam-se no coração do pequeno bosque, mais extenso do que parecia; entre duas palmeiras-tamargueiras, encontrava-se a boca de um poço orlado de pedras lisas.

 

Suti e Pantera enlaçaram-se antes de matar a sede.

 

Um verdadeiro paraíso considerou Suti.
Reinava a confusão na ruela de Mênfis onde habitava o velho vizir Bagey, o predecessor de Paser. Ele passava por um homem intransigente e austero, inacessível ao elogio. Antigo geómetra, não suportava a inexactidão; frio, rígido, reinara sobre os seus subordinados com pulso inflexível. Desgastado pelo trabalho, suplicara a Ramsés que o demitisse das suas funções a fim de gozar uma reforma tranquila na sua pequena casa da cidade.

 

O Faraó, atento à carreira de Paser e ao seu modo de se desenvencilhar de certas autoridades, apostara na autenticidade e desejo de verdade do jovem juiz para desmantelar a conspiração da qual o Egipto seria a vítima; Bagey, que já não sentia forças para lutar, aprovara a escolha. Uma vez que Paser se havia mostrado íntegro ao prosseguir o seu inquérito e ao desempenhar as suas funções de magistrado sem fraquejar, merecia o seu apoio.

 

A esposa de Bagey, uma morena de físico ingrato, alertara a vizinhança desde que a doença de seu marido se agravara. Habitualmente, ele levantava-se cedo, passeava pela grande cidade e regressava pouco antes do almoço. Naquela manhã, queixava-se de uma dor terrível nos rins. Apesar das insistências da sua mulher, Bagey recusava a intervenção de um médico, convencido de que a dor desapareceria. Mas, perante a sua persistência, rendeu-se à razão.

 

Aos magotes, os habitantes da ruela preconizavam mil e um remédios, acusando os demónios de ter provocado a doença do antigo vizir. O silêncio estabeleceu-se com o aparecimento de Néféret, a médica-chefe do reino. De uma beleza sublime, no seu longo vestido de linho, vinha apenas acompanhada de Vento do Norte, encarregado de transportar o seu equipamento médico; o burro caminhava direito, afastando a multidão em direcção ao domicílio de Bagey. Estacou diante da porta certa, enquanto as mães de família felicitavam Néféret, cuja popularidade não cessava de aumentar. A jovem médica, apressada, respondia apenas com sorrisos.

 

A esposa de Bagey pareceu decepcionada. Esperava um médico, não aquela criatura demasiado sedutora.

 

Não devias ter-te incomodado.

 

O teu esposo ajudou o meu durante um período difícil; eu estou-lhe reconhecida.

 

Néféret penetrou na pequena casa branca de dois andares; atravessou um vestíbulo simples, sem qualquer decoração e, guiada pela dona da casa, subiu as escadas estreitas que conduziam ao primeiro andar. Bagey repousava num quarto mal arejado, que há muito não era pintado.

 

Tu aqui! exclamou ele, ao ver Néféret. O teu tempo é demasiado precioso para...

 

Não te curei já uma vez?

 

Salvaste-me mesmo a vida. Sem a tua intervenção, a minha veia porta ter-me-ia matado.

 

Já não depositas confiança em mim?

 

Mas é claro que sim.

 

Bagey soergueu-se, encostou-se à parede e olhou para a sua mulher.

 

Deixa-nos.

 

Não precisas de nada?

 

A médica vai examinar-me.

 

Ela retirou-se com um passo pesado e hostil.

 

Néféret tomou o pulso do seu paciente em diversos locais e consultou o relógio portátil que trazia no pulso, a fim de calcular o tempo de reacção dos órgãos e o seu ritmo próprio. Escutou a voz do coração, verificou a boa circulação das correntes quentes e frias. Bagey permanecia sereno, quase indiferente.

 

Qual o teu diagnóstico?

 

Só um instante.

 

Néféret utilizou um cordão delgado e sólido na ponta do qual oscilava um fragmento de granito, e passou este pêndulo sobre as diferentes partes do corpo do paciente. Por duas vezes, o granito descreveu círculos largos.

 

Sê sincera exigiu o antigo vizir.

 

Trata-se de uma doença que conheço e curarei. Tens sempre os pés inchados?

 

Muitas vezes; costumo mergulhá-los em água morna salgada.

 

Consegues alívio?

 

Pouco duradouro, ultimamente.

 

O teu fígado está novamente obstruído; o sangue está espesso. Cozinha muito gorda, não é verdade?

 

A minha mulher tem os seus hábitos; já é demasiado tarde para os mudar.

 

Bebe muita chicória e uma poção composta por briónia, extracto de fígado, sumo de uva, fruta de pérsea e de sicómoro. É preciso aumentar o volume da tua urina.

 

Já tinha esquecido esse remédio. Existe um outro mal, tenho a certeza.

 

Tenta levantar-te.

 

Bagey conseguiu; Néféret estendeu-lhe uma cadeira em madeira formada por suportes transversais e uma armação côncava sobre a qual estava colocada uma cobertura feita de cordas entrançadas em espinhas de peixe. O antigo vizir sentou-se com rigidez e a cadeira gemeu sob o seu peso. Néféret serviu-se novamente do seu pêndulo.

 

Sofres de um começo de degenerescência dos rins; tens de absorver quatro vezes por dia uma mistura de água, levedura de cerveja e sumo de tâmaras frescas; conserva-a num vaso normal em terracota, fechado por uma rolha de terra seca coberta com um pedaço de pano. Este remédio é simples, mas eficaz; se não agir rapidamente e tiveres dificuldade em urinar, previne-me imediatamente.

 

Vou ficar a dever-te também esta recuperação.

 

É claro que não, se me esconderes uma parte da verdade.

 

Porquê essa suspeita?

 

Sinto uma angústia profunda, cuja causa devo identificar.

 

És uma médica extraordinária, Néféret.

 

Aceitas esclarecer-me? Bagey hesitou.

 

Sabes que eu tenho dois filhos. O meu filho preocupa-me, mas parece gostar do seu trabalho de verificador de tijolos cozidos. A minha filha...

 

O antigo vizir baixou o olhar.

 

A minha filha passou apenas uma pequena temporada no templo; os rituais aborreceram-na. Tornou-se encarregada de contas numa quinta cujo proprietário se satisfaz dos seus serviços.

 

Julga-la com severidade?

 

Pelo contrário, a felicidade dos meus filhos vem antes de tudo. Porque não respeitar a escolha por eles feita? Ela deseja formar uma família, eu incentivo-a.

 

Então o que te contraria?

 

É estúpido, deplorável! Mal aconselhada, a minha filha moveu-me um processo a fim de obter a sua herança antes do tempo. Que tenho para lhe dar senão esta casa?

 

Não possuo nenhum remédio para esse mal, mas conheço alguém com a competência certa.

 

Bravo mendigou um bolo, Paser cedeu. Bagey, sentado numa cadeira confortável, tomava todos os cuidados para se manter à sombra de um guarda-sol. O antigo vizir receava os raios do sol.

 

O teu jardim é muito vasto; mesmo com jardineiros sérios, que preocupação! Eu prefiro uma pequena casa na cidade.

 

O cão e o burro gostam do espaço.

 

Como se têm desenrolado os teus primeiros dias na qualidade de vizir?

 

A tarefa parece-me difícil.

 

O rito de investidura preveniu-te; um trabalho mais amargo que o fel. Tu és jovem, não queimes as etapas; tens tempo de aprender.

 

Paser gostaria de lhe confessar que ele se enganava redondamente.

 

Quanto menos eu dominar a situação, mais o equilíbrio do país estará comprometido.

 

Não estarás a sucumbir ao pessimismo?

 

Mais de metade das nossas reservas de metais preciosos foi delapidada revelou Paser.

 

Mais da metade... Impossível! As minhas últimas verificações não revelaram nada disso.

 

Bel-Tran utilizou todos os recursos administrativos, na mais perfeita legalidade, e transferiu uma boa parte do tesouro para o estrangeiro

 

Com que justificação?

 

Assegurar a paz com os nossos vizinhos e nossos vassalos.

 

O argumento não deixa de ser hábil; deveria ter desconfiado mais desse recém-chegado.

 

Ele enganou toda a hierarquia; vontade de ser bem sucedido, trabalho árduo, desejo furioso de servir o país... Quem não acreditaria na sua sinceridade?

 

Dura lição. Bagey estava abatido.

 

Presentemente, estamos conscientes do perigo.

 

Tens razão reconheceu o antigo vizir. É claro que ninguém substituirá o sábio Branir, teu mestre assassinado, mas talvez eu possa ajudar-te.

 

A minha vaidade fez-me supor que rapidamente tomaria as rédeas da minha função; mas Bel-Tran fechou bem as portas. Receio que o meu poder seja apenas aparente.

 

Se os teus subordinados se convencerem disso, a tua posição logo ficará insustentável. Tu és o vizir, tu deves dirigir.

 

Os esbirros de Bel-Tran bloquearão as minhas decisões.

 

Contorna o obstáculo.

 

Como?

 

Em cada serviço oficial, existe um homem importante e experiente; não se trata forçosamente do que ocupa a posição mais elevada. Descobre-o, apoia-te nele; compreenderás as subtilezas dos diferentes mecanismos da administração.

 

O antigo vizir forneceu nomes e pormenores.

 

Sê muito escrupuloso quando testemunhares a tua acção diante do Faraó; Ramsés, o Grande, possui uma inteligência arguta. Quem tentar enganá-lo fracassará.

 

Em caso de dificuldade, gostaria de poder consultar-te.

 

Serás sempre bem-vindo, mesmo sendo a minha hospitalidade menos sumptuosa que a tua.

 

O coração conta mais que a aparência; e a tua saúde melhorou?

 

A tua esposa é uma excelente médica; mas eu sou, por vezes, um paciente indisciplinado.

 

Tem cuidado contigo.

 

Estou um pouco fatigado; permites que me retire?

 

Antes de te acompanhar, devo confessar que encontrei a tua filha.

 

Então, sabes...

 

Néféret pediu-me que interviesse; nada mo impedia. Bagey pareceu contrariado.

 

Não se trata de um privilégio insistiu Paser. Um antigo vizir merece consideração. Cabia-me a mim resolver esse conflito.

 

Como reagiu a minha filha?

 

O processo não se efectivará. Manterás a tua casa, ela construirá a sua graças a um empréstimo do qual sou fiador. Estando realizado o seu desejo mais fervoroso, a harmonia reinará de novo na tua família. Prepara-te para em breve seres... avô.

 

A severidade de Bagey esfumou-se; ele mal podia esconder a sua emoção.

 

Dás-me demasiadas alegrias ao mesmo tempo, vizir Paser.

 

É bem pouco, em comparação com a ajuda que me dás.

 

 

O grande mercado de Mênfis era uma festa quotidiana onde se trocavam tantas conversas quantas mercadorias. Os comerciantes, entre os quais figuravam mulheres de tagarelice inesgotável, beneficiavam de um local designado para o efeito. Praticava-se a troca com grandes lengalengas e mímicas; ainda que, por vezes, o tom subisse, as transacções concluíam-se sempre com bom humor.

 

O chefe da polícia, acompanhado do seu babuíno, deambulava satisfeito pela grande praça; a presença de Matador evitava os roubos, e o seu dono assestava a orelha, a fim de surpreender pedaços de conversa que reflectissem o estado de espírito da população, e interrogava discretamente os informadores utilizando um código.

 

Kem demorou-se junto de um vendedor de conservas; procurava um ganso preparado para assar, posto num recipiente depois de ter sido seco e salgado. O mercador, sentado numa esteira, mantinha a cabeça baixa.

 

Estás doente?

 

É bem pior.

 

Roubaram-te.

 

Olha para a minha mercadoria e perceberás.

 

Fabricados com uma argila do Médio-Egipto, decorados com grinaldas de flores e realçados com um azul luminoso, os recipientes utilizados para a conservação dos alimentos revelavam-se de uma notável eficácia. Kem examinou as inscrições: água, vinho, mas nada de carne.

 

Não ma entregaram confessou o comerciante. É um desastre.

 

Explicaram-te porquê?

 

Não. O transportador viajou sem a mercadoria; nunca sofri tal miséria!

 

Há outros casos semelhantes?

 

Todos os meus colegas! Alguns ainda tinham um resto de sortimento, mas ninguém tinha quantidades armazenadas.

 

Talvez se trate apenas de um simples atraso.

 

Se não nos entregarem a mercadoria amanhã, podes contar com uma revolta.

 

Kem não encarou o incidente de ânimo leve; ninguém, rico ou pobre, aceitaria uma tal perturbação. As gentes abastadas exigiam carne para os seus banquetes, os mais humildes, peixe seco. Assim, o núbio dirigiu-se ao armazém onde eram centralizados os recipientes de carne.

 

De mãos cruzadas atrás das costas, o responsável contemplava o Nilo.

 

Que se passa?

 

Nenhum descarregamento há oito dias.

 

E não denunciaste o facto?

 

É claro que sim.

 

A quem?

 

Ao funcionário de quem dependo: o encarregado da salga.

 

Onde posso encontrá-lo?

 

Na sua oficina, perto dos açougues do templo de Ptah.

 

Os açougueiros discutiam enquanto bebiam cerveja doce. Habitualmente, depenavam os gansos e os patos presos a uma longa vara, esvaziavam-nos, salgavam-nos e metiam-nos em conserva em grandes recipientes etiquetados.

 

Porque estais desocupados? perguntou Kem.

 

Temos os animais e as vasilhas respondeu um deles mas não o sal. Não sabemos de mais nada; dirige-te ao responsável.

 

O encarregado da salga era um homem baixo, rotundo, quase calvo; encontrava-se a jogar aos dados com o seu assistente. A aparição do chefe da polícia e do seu temível babuíno tirou-lhe a vontade de se distrair.

 

A culpa não é minha declarou com voz trémula.

 

Por acaso acusei-te?

 

Se estás aqui...

 

Por que razão não distribuis aos açougueiros o sal de que eles precisam?

 

Porque não o tenho!

 

Explica-te.

 

Eu tenho duas fontes de fornecimento: o vale do Nilo e os oásis. Depois dos grandes calores do Verão, a espuma do deus Seth solidifica-se à superfície do solo, perto do rio. A terra fica coberta por um lençol branco. Esse sal contém fogo perigoso para as pedras dos templos; é apanhado sem demora e armazenado. Em Mênfis, utilizamos também o sal recolhido nos oásis, pois fabricamos muitas conservas. Hoje em dia, nada mais...

 

Porquê?

 

Os depósitos de sal do Nilo foram fechados e as caravanas dos oásis já não chegam.

 

Kem apressou-se a juntar-se ao vizir, cujo gabinete fora invadido por uma dezena de altos funcionários em cólera. Cada um tentava falar mais alto do que os outros; uma cacofonia deplorável tomava o lugar do discurso. Por fim, sob a firme injunção de Paser, expressaram-se um após outro.

 

Pagamos o mesmo preço por uma pele não trabalhada e por uma pele trabalhada! Os artesãos ameaçam parar se não intervieres para estabelecer a diferença.

 

As enxadas entregues aos cultivadores dos domínios da deusa Hátor, não só são defeituosas ou frágeis, como o seu preço dobrou! Quatro deben em vez de dois!

 

O par das sandálias mais modestas vale três deben, o triplo do seu preço normal; e não me refiro a peças de luxo!

 

Uma ovelha dez deben em vez de cinco; um boi gordo: duzentos em vez de cem! Se esta loucura continua, não poderemos alimentar-nos.

 

Nota: Um deben equivalia a 91 gramas de cobre; tratava-se de um valor de referência relativamente ao qual se calculava o valor dos produtos. (N. do A.)

 

A rabadilha de touro está a tornar-se intocável, mesmo para os ricos.

 

E já nem falo dos recipientes em bronze e em cobre! Amanhã, será preciso trocar um guarda-roupa inteiro para adquirir um só.

 

Paser ergueu-se.

 

Acalmem-se, suplico-vos.

 

Vizir do Egipto, esta subida de preços é insuportável!

 

Assim o considero também, mas quem a desencadeou?

 

Os altos funcionários entreolharam-se; o mais enervado tomou a palavra.

 

Mas... tu próprio!

 

As directivas nesse sentido tinham o meu selo aposto?

 

Não, mas o da Dupla Casa branca! Onde já se viu um vizir em desacordo com o seu ministro da Economia?

 

Paser compreendeu o ponto de vista dos seus interlocutores. A armadilha lançada por Bel-Tran era hábil: inflação artificial, descontentamento da população, o vizir acusado.

 

Cometi um erro e vou rectificá-lo; preparem uma tabela de preços conforme à normal, eu a aprovarei. Os excessos serão sancionados.

 

Não seria necessário... alterar o valor do deben.

 

Tal não será necessário.

 

Os comerciantes queixar-se-ão! Graças a esse erro, eles estavam a enriquecer.

 

A prosperidade deles não me parece comprometida. Despachem-se, por favor; os meus mensageiros irão a partir de amanhã pelas cidades e vilas a fim de proclamar as minhas decisões.

 

Os altos funcionários inclinaram-se e retiraram-se. Kem contemplou o grande gabinete, atulhado de estantes vergadas ao peso dos papiros e das tabuinhas.

 

Se bem entendi disse o núbio escapámos à justa.

 

Estou ao corrente desde ontem à noite revelou Paser e trabalhei toda a noite a fim de reprimir este flagelo devastador. Bel-Tran procura descontentar toda a gente, demonstrar que eu sigo uma política desastrosa e que o Faraó já não dirige o país. Evitaremos a catástrofe, mas ele recomeçará, favorecendo certas actividades. O seu objectivo é o de dividir, opor os ricos aos pobres, espalhar o ódio e utilizar essa energia negativa em seu proveito; será preciso uma vigilância constante. Trazes-me boas notícias?

 

Receio bem que não.

 

Um novo drama?

 

O sal deixou de ser entregue.

 

Paser empalideceu. A população corria o risco de ficar sem conservas de carne e de peixes secos, os alimentos mais correntes.

 

Mas a colheita foi abundante.

 

Foram colocados selos nas portas dos depósitos.

 

Vamos lá tirá-los.

 

Os selos estavam no nome da Dupla Casa branca; na presença de Kem e de dois escribas, o vizir quebrou-os. Foi imediatamente redigido, datado e assinado um auto. O encarregado do sal foi ele próprio a abrir as portas.

 

Que humidade!

 

Este sal foi mal recolhido e mal armazenado constatou Kem. Molharam-no com água estagnada.

 

Que seja filtrado ordenou Paser.

 

Não salvaremos quase nada.

 

Furioso, Paser voltou-se para o encarregado.

 

Quem estragou este sal?

 

Ignoro-o. Quando Bel-Tran o examinou, considerou-o impróprio para consumo e para a conserva dos alimentos; foram estabelecidos processos-verbais, como era devido.

 

O homem tremia sob o olhar penetrante do babuíno; na verdade, nada mais sabia.

 

O serviço encarregado do comércio com os oásis era um anexo do departamento do Estado que se ocupava das relações com os países estrangeiros; ainda que pertencessem ao território egípcio desde as primeiras dinastias, as suas regiões longínquas permaneciam misteriosas aos olhos dos habitantes do Vale. Mas elas produziam natrão, indispensável à higiene e à mumificação, e um sal de excelente qualidade.

 

Sem cessar, caravanas de jumentos percorriam as estradas, carregadas de pesados e preciosos fardos.

 

Um ex-caçador de larápios beduínos fora colocado à cabeça dessa administração; rosto enrugado pelo sol, cabeça quadrada, torso forte, ele conhecia o valor do esforço e do perigo.

 

A presença do babuíno perturbou-o.

 

Põe uma trela nessa besta; as suas fúrias são temíveis.

 

O Matador é ajuramentado respondeu Kem. Só ataca os delinquentes.

 

O encarregado dos oásis tingiu-se de púrpura.

 

Nunca ninguém duvidou da minha honestidade.

 

Não te terás esquecido de saudar o vizir do Egipto? Com a espinha rígida, o homem obedeceu.

 

Qual a quantidade de sal que tens nos teus armazéns?

 

Muito pequena. Há já várias semanas que os burros do oásis não entregam nada, nem aqui nem em Tebas.

 

Não ficaste surpreendido?

 

Eu próprio dei ordem para interromper todo o comércio.

 

Por tua própria iniciativa?

 

Recebi uma ordem.

 

De Bel-Tran?

 

Com efeito.

 

Quais as suas razões?

 

Fazer baixar os preços. Os habitantes dos oásis recusaram terminantemente, convencidos de que a Dupla Casa branca voltaria atrás; mas a situação arrasta-se. As minhas reclamações continuam sem resposta; felizmente, dispomos do sal do vale.

 

Felizmente repetiu Paser, aterrado.

 

Barbeado, penteado com uma peruca que lhe cobria metade da fronte, vestido com uma longa túnica, o devorador de sombras estava irreconhecível. Puxando dois burros por uma corda comprida, apresentou-se à porta dos domínios de Paser que dava para as cozinhas.

 

Ao intendente, apresentou queijos frescos, iogurte salgado e cremoso, conservado num jarro, e leite coalhado com alúmen. A princípio desconfiado, o intendente apreciou a qualidade dos produtos. Quando se inclinava sobre o recipiente, o devorador de sombras agrediu-o e arrastou o seu corpo para o interior da propriedade. Enfim, estava pronto a entrar em acção.

 

O devorador de sombras possuía uma planta da casa do vizir. Não deixando nada ao acaso, sabia que àquela hora os servidores estavam ocupados na cozinha onde os jardineiros tomavam a sua refeição. A ausência do macaco e de Kem, que acompanhavam Paser na cidade, permitir-lhe-ia agir correndo o menor risco possível.

 

Insensível à natureza, o assassino ficou, no entanto, deslumbrado pela verdura luxuriante do jardim. Cem cevados de comprimento por duzentos de largura, culturas em socalcos, canteiros recortados por canais, uma horta, um poço, uma piscina de recreio, um quiosque ao abrigo dos ventos, uma fila de arbustos talhados em cones ao longo do Nilo, uma dupla fila de palmeiras, uma alameda sombreada, um caramanchão, maciços de flores onde dominavam os lóios e as mandrágoras, uma vinha, figueiras, sicómoros, tamargueiras, palmeiras-tamargueiras, pérseas e essências raras importadas da Ásia que deleitavam a vista e o olfacto. Mas o emissário das trevas não se demorou nesse lugar encantador; caminhou ao longo da piscina onde desabrochavam lótus azuis e agachou-se ao aproximar-se da residência.

 

Imobilizou-se, à escuta do menor ruído; nem o burro nem o cão, ocupados a comer do outro lado da propriedade, o tinham detectado. Segundo a planta, ele encontrava-se à altura dos quartos dos hóspedes. Saltando uma janela baixa, deslizou para o interior de uma sala rectangular mobilada com uma cama e arcas para arrumação; na mão esquerda, segurava a asa do cesto onde se agitava a víbora negra.

 

Saindo do quarto, descobriu, como previsto, uma bela sala de quatro colunas; o pintor que a decorara representara uma dezena de espécies de pássaros de cores vivas brincando num jardim. O assassino escolheria uma decoração daquele tipo para a sua futura vivenda.

 

De repente, gelou.

 

Pedaços de conversa chegavam-lhe aos ouvidos, vindos da sua direita, da sala de água, onde uma criada fazia escorrer um líquido morno e perfumado sobre o corpo nu de Néféret. A senhora da casa escutava os lamentos da sua serviçal relativamente aos seus problemas familiares, e tentava acalmá-los. O devorador de sombras gostaria de contemplar a jovem, cuja beleza o fascinava, mas o prazer vinha depois da sua missão. Voltou pelo mesmo caminho e abriu a porta de um grande quarto; sobre várias mesas estavam colocadas jarras cheias de malvarosas, lóios e flores de lis. Encimando os dois leitos, cabeceiras em madeira dourada; ali dormiam Paser e Néféret.

 

Tendo cumprido a sua tarefa, o devorador de sombras atravessou a sala de quatro colunas, ultrapassou a sala de água e entrou num aposento oblongo, cheio de frascos de diversos tamanhos.

 

O laboratório privado de Néféret.

 

Cada remédio fora identificado pelo nome, com as indicações terapêuticas correspondentes. Não teve qualquer dificuldade em encontrar o que procurava.

 

De novo, as vozes femininas e o canto da água que escorria; os sons provinham do aposento contíguo. No ângulo superior esquerdo da parede, detectou um buraco que o engessador ainda não rebocara; não podendo resistir por mais tempo, subiu a um banco e estendeu o pescoço.

 

Viu-a.

 

De pé, Néféret recebia a água deliciosa que a criada despejava, empoleirada num banco de tijolo claramente elevado em relação à sua senhora; estando o duche terminado, a jovem de corpo sublime estendeu-se sobre uma banqueta de pedra. Queixando-se do seu marido e dos seus filhos, a criada massajava-lhe suavemente as costas com um unguento. O devorador de sombras saciava-se do espectáculo; a última mulher de quem abusara, Silkis, de formas grosseiras, era um camafeu perto de Néféret. Por um instante, imaginou-se a irromper pela sala de água, a estrangular a criada e a violar a sumptuosa esposa do vizir; mas o tempo urgia.

 

De uma caixa em forma de nadadora nua empurrando diante de si um pato, a criada, com a ponta do indicador, tirou um pouco de pomada e espalhou-a na base dos rins de Néféret a fim de eliminar a fadiga e as contracções. O devorador de sombras conteve o seu desejo e deixou a habitação.

 

Quando o vizir franqueou a porta da sua propriedade, pouco antes do pôr-do-sol, o intendente precipitou-se para ele.

 

Mestre, fui agredido! Esta manhã, na hora em que passam os vendedores ambulantes... O homem apresentou-se a vender queijos. Eu desconfiei, pois não o conhecia; mas a qualidade dos seus produtos inspirou-me confiança. E então ele bateu-me.

 

Néféret foi prevenida?

 

Achei melhor não preocupar a tua esposa e eu próprio conduzi um inquérito.

 

Que descobriste?

 

Nada de inquietante. Ninguém viu esse indivíduo na propriedade; partiu depois de me ter agredido. Sem dúvida que esperava roubar e apercebeu-se de que a sua proeza estava votada ao fracasso.

 

Como te sentes?

 

Um pouco vacilante.

 

Vai repousar.

 

Paser não partilhava do optimismo do seu intendente. Se o agressor era o misterioso assassino que, por várias vezes, tentara eliminá-lo, introduzira-se provavelmente dentro de casa. Com que intenção?

 

Esgotado ao fim de um dia de trabalho durante o qual não tivera tempo de retomar o fôlego, o vizir só pensava em reunir-se a Néféret. Caminhou rapidamente ao longo da alameda principal do jardim, sob a folhagem dos sicómoros e das palmeiras, admirando a ondulação das suas folhas. Gostava do sabor da água do seu poço, das suas tâmaras e dos seus figos. Não seria o sussurro dos sicómoros evocativo da suavidade do mel, e não se assemelhava o fruto da pérsea a um coração? Deus concedia-lhe o privilégio de gozar dessas maravilhas e, ainda mais, de as partilhar com a mulher que amara com todo o seu ser desde o primeiro instante em que a viu.

 

Sentada sob uma romãzeira, Néféret tocava uma harpa portátil de sete cordas; como ela, a árvore mantinha a sua beleza todo o ano pois, assim que uma flor caía, outra desabrochava. A sua voz, bem colocada num agudo terno, cantava uma melopeia muito antiga que narrava a felicidade eterna dos amantes fiéis. Ele aproximou-se dela e beijou-a no pescoço, no local onde os seus lábios a faziam estremecer.

 

Amo-te, Paser.

 

E eu amo-te ainda mais.

 

Enganas-te.

 

Beijaram-se com a paixão da juventude.

 

Estás com má cara notou ela.

 

A constipação e a tosse voltaram.

 

Sobrecarga de trabalho e ansiedade.

 

Estas últimas horas foram difíceis; passámos ao lado de duas catástrofes enormes.

 

Bel-Tran?

 

Sem qualquer dúvida. Organizou uma subida de preços por forma a semear a confusão na população e interrompeu o comércio do sal.

 

Eis a razão por que o nosso intendente não conseguia encontrar conservas de ganso; e o peixe seco?

 

Ruptura de aprovisionamento em Mênfis.

 

Serás considerado responsável.

 

É a regra.

 

Que tencionas fazer?

 

Regressar de imediato à normalidade.

 

Para os preços, um decreto será o bastante... mas, e para o sal?

 

Nem todos os depósitos foram atingidos pela humidade; em breve, as caravanas partirão de novo dos oásis. Além disso, abri as reservas do Faraó, no Delta, em Mênfis e em Tebas. Durante muito tempo não nos faltarão conservas; a fim de acalmar os espíritos, os celeiros reais distribuirão alimentos gratuitos durante alguns dias, como nos períodos de carência.

 

E os mercadores?

 

A título de indemnização, receberão tecidos.

 

A harmonia foi, portanto, restabelecida.

 

Até ao próximo ataque de Bel-Tran; ele não deixará de me acossar.

 

Não cometeu quaisquer erros?

 

Ele pode alegar ter agido no interesse da Dupla Casa branca, e, como tal, do Faraó; aumentar os preços dos géneros e obrigar os vendedores a baixar os seus teria enriquecido o Tesouro.

 

E empobrecido o povo.

 

Bel-Tran não tem emenda; ele prefere aliar-se aos ricos, cujo apoio lhe será indispensável aquando da sua tomada de poder. Na minha opinião, tratam-se apenas de escaramuças destinadas a testar a minha capacidade de reacção. Como ele controla o sistema económico muito melhor que eu, os seus próximos golpes serão talvez decisivos.

 

Não sejas tão pessimista; a fadiga é a causa desse desespero passageiro. Um bom médico curar-te-á.

 

Conheces algum remédio?

 

A sala de unções.

 

Paser deixou-se guiar, como se descobrisse o local pela primeira vez. Depois de ter lavado os pés e as mãos, despiu a sua túnica de função e a sua tanga, e estendeu-se sobre um banco de pedra. As mãos da médica-chefe do reino massajaram-no com suavidade, dissipando as dores das costas e a rigidez da nuca. Quando se voltou de costas, Paser contemplou Néféret; o seu vestido de linho muito fino mal escondia as suas formas e o seu corpo estava impregnado de perfume. Ele puxou-a para si.

 

Não tenho o direito de te mentir, mesmo por omissão. O nosso intendente foi agredido, esta manhã, por um falso vendedor de queijos; ele não foi identificado e ninguém viu esse homem após o seu delito.

 

Aquele que já tentou eliminar-te e que Kem ainda não conseguiu identificar.

 

Provavelmente.

 

Alteraremos a ementa prevista para esta noite decidiu Néféret, lembrando-se de que o misterioso assassino tentara matar Paser com um peixe envenenado.

 

O sangue-frio de sua mulher fascinava Paser; e o desejo que crescia em si levava-o a esquecer as angústias e os perigos.

 

Renovaste as flores no nosso quarto?

 

Queres admirá-las?

 

É o meu desejo mais ardente.

 

Atravessaram a passagem entre a sala de unções e o quarto; Paser despiu Néféret, muito lentamente, cobrindo-a de beijos febris. De cada vez que faziam amor, ele contemplava os seus lábios ternos, o seu pescoço esguio, os seus seios firmes e redondos, as ancas estreitas, as pernas elegantes, e agradecia ao céu por lhe oferecer uma felicidade tão louca. Néféret respondeu ao seu ardor e, juntos, conheceram a alegria secreta que a deusa Hátor, soberana do amor, dispensava aos seus fiéis.

 

A grande casa estava silenciosa. Paser e Néféret repousavam lado a lado, de mãos entrelaçadas; um ruído intrigou o vizir.

 

Não ouviste uma espécie de pancada de bastão?

 

Néféret apurou o ouvido; o ruído repetiu-se; depois voltou o silêncio. A jovem concentrou-se; longínquas lembranças voltavam pouco a pouco à superfície.

 

À minha direita indicou Paser.

 

Néféret acendeu a mecha de uma lamparina de azeite. No local designado pelo vizir, um cofre de roupa continha as suas tangas.

 

Ele preparava-se para retirar a tampa quando a cena surgiu na memória de Néféret. Agarrou-o pelo braço direito e obrigou-o a recuar.

 

Chama um criado, pede-lhe que traga um bastão e uma faca. Já sei o que veio fazer o falso vendedor de queijos.

 

Ela revivia cada instante da prova durante a qual tivera de agarrar uma serpente e de extrair o seu veneno para preparar um remédio1. Quando essa batia a cauda contra as paredes do cesto onde estava fechada, produzia o som que ela e Paser tinham acabado de ouvir.

 

Paser regressou com o intendente e um jardineiro.

 

Tenham cuidado recomendou ela essa arca contém um réptil furioso.

 

O intendente retirou a tampa com a extremidade de um longo bastão e logo apareceu a cabeça sibilante de uma víbora negra. O jardineiro, habituado a lutar contra este género de hóspede indesejável, cortou-a em duas.

 

Paser espirrou várias vezes e foi assaltado por um ataque de tosse. Vou buscar o teu remédio disse Néféret.

 

Nem um nem outro tocaram na suculenta refeição que o cozinheiro preparara; Bravo, pelo contrário, fizera honras às costeletas de carneiro grelhadas. Satisfeito, com o focinho pousado sobre as patas cruzadas, gozava de um merecido descanso aos pés do dono.

 

No seu laboratório, povoado de frascos de madeira, marfim, vidro multicor e alabastro, adoptando formas tão variadas como uma romã, um lótus, um papiro ou um pato, Néféret escolheu a poção à base de briónia que dissiparia a congestão quase crónica de que sofria Paser.

 

A partir de amanhã anunciou o vizir darei ordens a Kem para fazer guardar a nossa casa por homens de confiança. Este género de acidente não voltará a acontecer.

 

Néféret despejou uma dezena de gotas numa taça e juntou água.

 

Bebe isto; dentro de uma hora, deves repetir a dose. Pensativo, Paser pegou na taça.

 

O assassino deve estar a soldo de Bel-Tran; seria ele um dos conjurados que violaram a grande pirâmide? Não creio. Trata-se de um elemento exterior à conspiração propriamente dita. O que deixa supor que possam existir outros...

 

Bravo rosnou, mostrando os dentes.

 

O seu comportamento assombrou o casal; nunca o cão se comportara daquela forma com eles.

 

Acalma-te ordenou o vizir.

 

Bravo ergueu-se nas patas traseiras e rosnou mais fortemente.

 

Que tens?

 

O animal saltou e mordeu o pulso de Paser. Estupefacto, este largou a taça e ergueu o punho. Néféret interpôs-se, lívida.

 

Não lhe batas! Acho que compreendi...

 

Com o olhar repleto de amor, Bravo lambeu as pernas do seu dono. A voz de Néféret tremeu.

 

Este não é o odor da tintura de briónia. O assassino substituiu a tua poção habitual por um veneno roubado no hospital. Ao tratar de ti, era eu que devia matar-te.

 

Pantera assava uma lebre, Suti acabava de fabricar um arco da fortuna em madeira de acácia. Parecia-se com a sua arma preferida, capaz de lançar flechas a sessenta metros em tiro directo, e a mais de cem metros em tiro parabólico. Desde a sua adolescência, Suti dera provas de um dom excepcional para atingir o coração de alvos longínquos e minúsculos.

 

Rei do seu modesto oásis, rico em água pura, tâmaras suculentas e caça que vinha matar a sede, ele sentia-se feliz. Suti amava o deserto, a sua força e o seu fogo devorador que transportava o pensamento até ao infinito. Durante longas horas, contemplava dia a dia o nascer e ’pôr do sol, os movimentos imperceptíveis das dunas, a dança da areia ritmada pelo vento. Afundando-se no silêncio, comungava com a imensidão escaldante onde o sol reinava, sem nada partilhar. Suti tinha a sensação de tocar o absoluto, para lá dos deuses; seria mesmo necessário deixar esse pedaço de terra desconhecido, esquecido dos homens?

 

Quando partimos? perguntou Pantera, aninhando-se contra ele.

 

Talvez nunca mais.

 

Tencionas criar raízes aqui?

 

E porque não?

 

Isto é o inferno Suti!

 

Que nos falta?

 

E o nosso ouro?

 

Não és feliz?

 

Esta felicidade não me basta; quero ser rica e comandar um exército de servidores num imenso domínio. Tu servir-me-ás vinho de qualidade, ungirás as minhas pernas de óleo perfumado e eu cantar-te-ei canções de amor.

 

E esse domínio é mais vasto que o deserto?

 

Onde estão os jardineiros, os lagos de recreio, as orquestras, os salões de banquete, os...

 

Tudo coisas de que não necessitamos.

 

Fala por ti! Viver como uma indigente repugna-me; não te arranquei da prisão para apodrecer nesta aqui!

 

Nunca fomos tão livres. Olha em teu redor: nenhum obstáculo, nenhum parasita, mas o mundo em toda a sua verdade e toda a sua beleza. Porquê afastarmo-nos de semelhante esplendor?

 

A tua detenção fez-te muito mal, meu pobre querido.

 

Não desdenhes dos meus propósitos; apaixonei-me pelo deserto.

 

E eu, já não conto?

 

Tu, tu és uma líbia foragida, inimiga hereditária do Egipto.

 

Monstro, tirano!

 

Ela bateu-lhe com os punhos cerrados; Suti agarrou-lhe os antebraços e deitou-a de costas. Pantera debateu-se mas ele era mais forte.

 

Ou te transformas na minha escrava das areias ou repudio-te.

 

Não tens qualquer direito sobre mim; antes morrer que obedecer-te. Viviam nus, protegendo-se do sol nas horas de maior calor e gozando a sombra das palmeiras e da folhagem; quando o desejo os assaltava, os seus corpos uniam-se com uma paixão sempre renovada.

 

Estás a pensar naquela megera, na tua esposa legítima, a Tapeni!

 

Por vezes, confesso que sim.

 

És-me infiel em pensamento.

 

Desengana-te; se tivesse a senhora Tapeni à mão, oferecia-a aos demónios do deserto.

 

Pantera, subitamente inquieta, franziu o sobrolho.

 

Viste-os?

 

À noite, quando tu dormes, observo o cume da grande duna. É lá que eles aparecem. Um tem corpo de leão e cabeça de serpente, um outro corpo de leão alado e cabeça de falcão, e um terceiro tem o focinho pontiagudo, com grandes orelhas e cauda fendida. Nenhuma...

 

Nota: Os animais fantásticos que povoam o deserto estão representados, nomeadamente, nos túmulos dos nobres da necrópole de Béni-Hassan, no Médio-Egipto. (N do A)

 

...flecha os pode atingir, nenhum laço os pode capturar, nenhum cão os pode perseguir.

 

Estás a brincar comigo.

 

Esses demónios protegem-nos; tu e eu somos da raça deles, indomáveis e ferozes.

 

Sonhaste, essas criaturas não existem.

 

Tu, tu existes mesmo.

 

Solta-me; és muito pesado.

 

Tens a certeza?

 

Ele fez-se doce.

 

Não! gritou ela, arremessando-o de lado.

 

A lâmina do machado enterrou-se no solo, a alguns centímetros do local onde eles se encontravam um segundo antes, rasando a têmpora de Suti. Do canto do olho, viu o seu agressor, um núbio de elevada estatura que retomou o cabo da sua arma e, com um salto de dançarino, se colocou frente à sua presa.

 

Os seus olhares cruzaram-se, carregados da morte do outro; as palavras eram inúteis.

 

O núbio fez malabarismos com o seu machado; sorria, certo da sua força e habilidade, obrigando o adversário a recuar.

 

As costas de Suti bateram no tronco de uma acácia. O núbio ergueu a sua arma no momento em que Pantera o agarrou pelo pescoço; subestimando a força da jovem, tentou afastá-la com um golpe de cotovelo no peito. Indiferente à dor, ela vazou-lhe um olho. Gritando de dor, ele baixou o machado, mas Pantera já se libertara e rolava sobre o solo.

 

De cabeça erguida, Suti perfurou o ventre do negro e abateu-o.

 

Pantera estrangulou-o com um bastão; o núbio esbracejou mas não se conseguiu libertar. Suti deixou a sua amante completar sozinha a sua vitória. O inimigo morreu sufocado, com a laringe esmagada.

 

Um só? perguntou ela, angustiada.

 

Os Núbios caçam em bando.

 

Receio que o teu querido oásis se transforme num campo de batalha.

 

És mesmo um demónio; foste tu que quebraste a minha paz atraindo-os aqui.

 

Não seria melhor levantar o acampamento rapidamente?

 

E se ele veio sozinho?

 

Acabaste de dizer o contrário; abandona as tuas ilusões e partamos.

 

Para onde?

 

Para o Norte.

 

Os soldados egípcios de ter-nos-ão; devem estar espalhados por toda a região.

 

Se me seguires, conseguiremos escapar-lhes e encontraremos o nosso ouro.

 

Pantera mostrava o seu entusiasmo estreitando o seu amante.

 

Talvez já te tenham esquecido, julgam-te perdido, talvez morto; atravessaremos as linhas, evitaremos as fortalezas e ficaremos ricos!

 

O perigo excitava a líbia; apenas os braços de Suti a acalmariam. O jovem de bom grado teria respondido à sua investida se o seu olhar não tivesse detectado um movimento insólito no cimo da grande duna.

 

Ali estão os outros murmurou.

 

Quantos?

 

Não sei; avançam a rastejar.

 

Vamos pelo caminho do orix.

 

Pantera mudou de tom ao notar a presença de vários núbios escondidos atrás dos rochedos no cume arredondado.

 

Então, vamos para Sul!

 

Essa direcção estava também interdita; o inimigo cercava o oásis.

 

Fabriquei vinte flechas lembrou Suti. Não serão suficientes. O rosto de Pantera fechou-se.

 

Eu não quero morrer. Ele apertou-a contra si.

 

Abaterei todos os que puder, colocando-me no cimo da árvore mais alta. Deixarei entrar um no oásis, tu elimina-lo com o machado, pegas no carcás e vens trazer-mo.

 

Não temos qualquer hipótese de êxito.

 

Tenho confiança em ti.

 

Do seu promontório, Suti distinguia-os.

 

Uns cinquenta homens, uns armados de cacetes, outros de arcos e flechas. Escapar-lhes seria impossível. Lutaria até ao fim e mataria Pantera antes que fosse violada e torturada. A sua última flecha seria para ela.

 

Ao longe, atrás dos núbios, na crista de uma duna, o orix que os guiara lutava contra um vento cada vez mais violento; línguas de areia soltavam-se do montículo e voavam em direcção ao céu. De repente, o antílope desapareceu.

 

Três guerreiros negros corriam aos gritos. Suti retesou o arco, fez pontaria instintivamente e atirou três vezes. Os homens caíram, de rosto no chão, com o peito trespassado.

 

Três outros se lhes sucederam.

 

O jovem atingiu dois; o terceiro, louco de raiva, penetrou no oásis. Atirou uma flecha em direcção à copa da árvore, mas errou largamente o alvo; Pantera lançou-se sobre ele e os dois corpos desapareceram do campo de visão de Suti. Nem um só grito se ouviu.

 

O tronco mexeu-se; alguém trepava por ele acima. Suti tendeu o arco.

 

Da folhagem da acácia emergiu uma mão segurando um carcás repleto de flechas.

 

Já o tenho! gritou Pantera, trémula. Suti ajudou-a a subir até junto de si.

 

Não estás ferida?

 

Fui mais rápida do que ele.

 

Não tinham tempo de se felicitarem; foi lançado um outro assalto. Apesar do carácter rudimentar do seu arco, Suti não carecia de precisão. No entanto, teve de atirar duas vezes para atingir um arqueiro que o visava.

 

O vento, explicou.

 

Os ramos começaram a torcer-se sob o efeito da tempestade que nascia; o céu cobriu-se de tons acobreados, o ar transformou-se em poeira. Um ibisco apanhado na tormenta foi quase pregado ao solo.

 

Vamos descer exigiu Suti.

 

As árvores gemiam, emitindo sinistros estalidos; arrancadas, as palmas foram aspiradas por um turbilhão amarelo.

 

Quando Suti tocou o solo, um núbio, de machado erguido, abateu-se sobre ele.

 

O sopro do deserto era tão poderoso que travou o gesto do negro; no entanto, a lâmina cortou o ombro esquerdo do egípcio que, com os dois punhos unidos, quebrou o nariz do seu inimigo. A borrasca afastou-os um do outro, o núbio desapareceu.

 

A mão de Suti agarrou a de Pantera; se eles escapassem aos núbios, a terrível cólera do deserto não os pouparia.

 

A areia, em vagas de violência inaudita, queimava-lhes os olhos e colava-os ao solo. Pantera largou o machado, Suti o arco; agacharam-se ao pé de uma palmeira cujo tronco mal discerniam. Nem eles nem os seus agressores eram capazes de se moverem.

 

Os ventos uivavam, o solo movia-se sob os seus pés, o céu desaparecera. Colados um ao outro, já cobertos por uma camada de grãos dourados que lhes açoitavam a pele, o Egípcio e a Líbia sentiam-se perdidos no meio de um oceano descontrolado.

 

Cerrando as pálpebras, Suti pensou em Paser, seu irmão de espírito. Por que razão não viera ele em seu auxílio?

 

Kem passeava pelos cais do porto de Mênfis onde assistia ao embarque e desembarque dos géneros destinados ao Alto Egipto, ao Delta ou aos países estrangeiros. As entregas do sal foram retomadas e a cólera iminente da população acalmada. O Núbio, contudo, continuava inquieto; persistiam estranhos rumores a propósito da saúde precária de Ramsés e da decadência do país.

 

O chefe da polícia estava furioso consigo próprio; porque não conseguia ele identificar o homem que tentava matar Paser? É certo que ele já não poderia penetrar nos domínios do vizir devido ao impressionante dispositivo policial doravante aí presente, dia e noite; mas Kem não dispunha da mínima pista. Nenhum dos seus informadores fora capaz de lhe fornecer qualquer indicação séria. O criminoso trabalhava sozinho, sem ajuda, sem se confiar a ninguém; até à data, esta estratégia tinha jogado a seu favor. Quando cometeria ele um erro, quando deixaria atrás de si uma pista significativa?

 

O babuíno-polícia, contrariamente ao seu colega, mantinha um humor constante. Calmo, com o olhar vigilante, o símio não perdia um só detalhe das cenas que se desenrolavam à sua volta. Diante da Casa do Pinho, a administração encarregada do transporte da madeira, Matador imobilizou-se. Sensível às mais pequenas reacções do macaco, Kem não o perturbou.

 

Os olhos vermelhos de Matador fixaram-se num homem apressado que subia para um enorme barco de transporte cuja carga se encontrava protegida por redes. Alto, muito nervoso, vestido com uma capa de lã vermelha, discutia com os marinheiros, ordenando-lhes que se apressassem. Atitude curiosa, na verdade, mesmo antes de uma grande viagem; de que serviria irritar os trabalhadores das docas em vez de celebrar os ritos da partida?

 

Kem entrou no edifício central da Casa de Pinho onde os escribas pormenorizavam as cargas e registavam em tabuinhas de madeira os movimentos dos barcos. O chefe da polícia dirigiu-se a um dos seus amigos, um folião originário do Delta.

 

Para onde vai aquele barco?

 

Para o Líbano.

 

Que transporta?

 

Jarros de água e odres.

 

Aquele homem apressado, ali, é o capitão?

 

De quem estás a falar, Kem?

 

Do homem da capa de lã vermelha.

 

Esse é o armador.

 

É sempre assim tão preocupado?

 

Geralmente é uma personagem mais discreta; o teu macaco deve tê-lo assustado.

 

De quem depende ele?

 

Da Dupla Casa branca.

 

Kem saiu da Casa do Pinho; o babuíno postara-se à saída do passadiço, impedindo o armador de deixar o navio. Este tentou escapar saltando para o cais, arriscando-se a partir o pescoço; mas o macaco agarrou-o pela gola e derrubou-o na ponte.

 

De que tens medo? perguntou-lhe Kem.

 

Ele vai estrangular-me!

 

Não, se responderes às minhas perguntas.

 

Este barco não me pertence. Deixa-me ir.

 

És o responsável pela carga: porquê carregar jarros de água e odres no sector da Casa do Pinho?

 

Os outros cais estão ocupados.

 

Inexacto.

 

O babuíno torceu a orelha do armador.

 

O Matador detesta os mentirosos.

 

As redes... Levanta as redes!

 

Enquanto o babuíno vigiava o suspeito, Kem seguiu o seu conselho. Descoberta surpreendente, na verdade.

 

Troncos de pinho e cedro, pranchas de acácia e sicómoro. Kem sentiu uma grande alegria; desta vez, Bel-Tran dera um passo em falso.

 

Néféret repousava no terraço da sua propriedade; a pouco e pouco, refazia-se do choque terrível que experimentara e continuava a ser assaltada por pesadelos. Verificara o conteúdo das poções conservadas no seu laboratório particular, receando que o assassino tivesse envenenado outros frascos; mas ele contentara-se com o único remédio que era destinado a Paser.

 

O vizir, barbeado por um excelente barbeiro, beijou ternamente a sua esposa.

 

Como te sentes esta manhã?

 

Muito melhor; vou voltar ao hospital.

 

Kem acabou de me enviar uma mensagem; parece que tem boas notícias.

 

Ela pendurou-se no seu pescoço.

 

Peço-te que aceites ser protegido durante as tuas deslocações.

 

Fica tranquila; Kem enviou-me o seu babuíno.

 

O chefe da polícia perdera a sua calma lendária, e apalpava o nariz de madeira com um nervosismo pouco habitual.

 

Apanhámos Bel-Tran anunciou ele. Tomei a liberdade de o convocar de imediato. Cinco polícias vão levá-lo ao teu gabinete.

 

Tens um processo sólido?

 

Eis as minhas constatações.

 

Paser conhecia bem a legislação que regia o comércio da madeira. Com efeito, Bel-Tran cometera um erro grave, passível de pesadas sanções. O seu ar trocista não traía, no entanto, qualquer perturbação.

 

Qual o motivo desta demonstração de força? espantou-se ele. Que eu saiba, não sou um bandido!

 

Senta-te propôs Paser.

 

Não me apetece; o trabalho espera-me.

 

Kem acaba de apreender um barco de carga com destino ao Líbano, fretado por um armador dependente da Dupla Casa branca, logo, da tua pessoa.

 

Ele não é o único.

 

Segundo o costume, os carregamentos destinados ao Líbano contêm vasos de alabastro, louça, peças de linho, peles de boi, rolos de papiro, cabos, lentilhas e peixe seco, em troca da madeira que nos faz falta e que esse país nos envia.

 

Não me estás a ensinar nada.

 

Este barco teria transportado troncos de cedros e pinho, e mesmo pranchas talhadas nas nossas acácias e nos nossos sicómoros, cuja exportação é proibida! Por outras palavras, terias assim expedido o material que já pagámos, e teríamos falta de madeira para os nossos edifícios, para os mastros erigidos diante das portas dos nossos templos e para os nossos sarcófagos!

 

Bel-Tran não perdeu a compostura.

 

Conheces mal esse assunto. As pranchas foram encomendadas pelo príncipe de Biblos para os caixões dos seus cortesãos; ele aprecia muito a qualidade das nossas acácias e dos nossos sicómoros. Não será um material egípcio garantia de eternidade? Recusar-lhe esse presente teria constituído uma grave injúria e um erro político repleto de consequências nefastas para a nossa economia.

 

E os troncos de cedro e de pinheiro?

 

Um jovem vizir não está ao corrente das subtilezas técnicas que regem as nossas trocas. O Líbano compromete-se a fornecer-nos essências resistentes aos fungos e aos insectos; aquelas não o eram. Foi por esse motivo que ordenei a reexpedição do carregamento. Os peritos confirmaram os factos; os documentos estão à tua disposição.

 

Os peritos da Dupla Casa branca, suponho?

 

Segundo a opinião geral, são os melhores. Posso retirar-me?

 

Eu não sou um simplório, Bel-Tran; organizaste um tráfico com o Líbano com a intenção de enriqueceres e beneficiares do apoio de um dos nossos mais importantes parceiros comerciais. Esse ramo corto-o eu; a partir de agora, a importação de madeira será da minha exclusiva competência.

 

Como queiras; se continuas assim, em breve desmoronarás sob o peso das responsabilidades. Chama-me uma liteira, peço-te; tenho pressa.

 

Kem estava aterrado.

 

Perdoa-me; expus-te ao ridículo.

 

Graças a ti disse Paser eliminámos um dos seus poderes.

 

O monstro dispõe de tantas cabeças... Quantas será preciso cortar para o enfraquecer?

 

Tantas quantas as necessárias. Estou a redigir um decreto ordenando aos chefes das províncias que mandem plantar dezenas de árvores para que possamos descansar sob as suas sombras. Além disso, nenhuma árvore será cortada sem a minha autorização.

 

Que esperas conseguir?

 

Devolver a confiança aos Egípcios assustados pelos rumores, provar-lhes que o futuro se apresenta risonho como uma copa frondosa.

 

E tu acreditas nisso?

 

Duvidas?

 

Não sabes mentir, vizir do Egipto. Bel-Tran cobiça o trono, não é verdade?

 

Paser permaneceu em silêncio.

 

Que os teus lábios permaneçam selados, compreendo; mas não me impedirás de dar ouvidos à minha intuição. Estás a travar um combate de morte, e não tens qualquer hipótese de sair vencedor. Desde o início que este assunto está podre, e nós amarrados de pés e mãos. Ignoro a razão, mas ficarei do teu lado.

 

Bel-Tran congratulou-se pela sua prudência; felizmente, rodeara-se de precauções eficazes e pagava a funcionários suficientes para ficar fora do alcance, qualquer que fosse a natureza e origem do ataque. O vizir fracassara e continuaria a fracassar. Mesmo que desmantelasse certas estratégias, Paser apenas conseguiria vitórias insignificantes.

 

Bel-Tran era seguido por três servidores que transportavam presentes destinados a Silkis: um unguento caro para untar e perfumar os cabelos das suas perucas; um cosmético composto por pó de alabastro, mel e natrão vermelho, que daria um toque de suavidade à sua pele; uma bela quantidade de cominhos de primeira escolha, remédio contra as indigestões e cólicas.

 

A camareira de Silkis tinha um ar contrariado. Era a esposa de Bel-Tran que deveria acolhê-lo e massajar-lhe os pés.

 

Onde está ela?

 

A tua esposa está deitada.

 

Qual o seu mal desta vez?

 

Os intestinos.

 

Que lhe deste?

 

O que ela me pediu: uma pequena pirâmide recheada de tâmaras e uma infusão de coentros. Mas a medicação não fez qualquer efeito.

 

O quarto fora arejado e fumigado; Silkis, muito pálida, contorcia-se com dores. Ao avistar o marido, fez beicinho.

 

Que excessos cometeste desta vez?

 

Nenhum, um simples docinho... Os meus males agravam-se, meu querido.

 

Amanhã à noite, tens de estar de pé e radiosa; convidei vários chefes de província e deverás honrar-me.

 

Néféret saberia como tratar-me.

 

Esquece essa mulher.

 

Tu prometeste-me...

 

Não te prometi nada. Paser não se verga; prossegue o combate com obstinação, esse fantoche! Implorar ajuda à mulher dele seria uma fraqueza da nossa parte, uma fraqueza inaceitável.

 

Mesmo para me salvar?

 

Tu não estás assim tão doente, trata-se apenas de uma indisposição. Vou chamar vários médicos imediatamente; pensa só em estar de pé amanhã à noite a seduzir os homens mais importantes.

 

Néféret conversava com um velho homem de pele trigueira e enrugada; tagarela, ele apresentava-lhe um recipiente em terracota sobre o qual ela se inclinava com interesse.

 

Ao aproximar-se, Paser reconheceu o apicultor injustamente condenado à prisão de onde ele o havia resgatado.

 

O ancião ergueu-se e saudou-o.

 

Vizir do Egipto! Que alegria rever-te... Chegar até tua casa não foi tarefa fácil. Fizeram-me mil perguntas, verificaram a minha identidade e chegaram mesmo a inspeccionar os meus potes de mel!

 

Como se portam as abelhas do deserto?

 

O melhor possível; é por isso que aqui estou. Aprecia este alimento celestial.

 

Segundo as lendas, os deuses, que a conduta humana tornava por vezes amargos, recuperavam a jovialidade comendo mel. As lágrimas de Ra, ao caírem na terra, haviam-se transformado em abelhas, alquimistas encarregados de transformar a vegetação em ouro comestível.

 

O sabor surpreendeu Paser.

 

Nunca vi uma colheita semelhante indicou o apicultor. Em quantidade e qualidade.

 

Os hospitais serão todos fornecidos interveio Néféret e guardaremos reservas abundantes.

 

Excipiente adoçante, o mel era utilizado na terapêutica dos olhos, para os cuidados das artérias e pulmões, servia na ginecologia e entrava na composição de numerosos fármacos. Os enfermeiros incorporavam-no na maior parte dos pensos.

 

Espero que a médica-chefe do reino não fique cruelmente decepcionada acrescentou o ancião.

 

Que receias? perguntou Paser.

 

As notícias correm depressa; desde que a dimensão da colheita foi conhecida, a área do deserto onde trabalho com os meus assistentes já não é tão tranquila como dantes. Somos observados enquanto retiramos os favos e introduzimos o mel nos jarros selados com cera. Quando a nossa tarefa estiver completa, receio que sejamos atacados e roubados.

 

A polícia não vos vigia?

 

Efectivos insuficientes; a minha colheita representa uma verdadeira fortuna que eles serão incapazes de defender.

 

Bel-Tran, é claro, devia estar informado; privar os hospitais dessa substância essencial conduziria a uma grave crise.

 

Vou prevenir Kem; o transporte efectuar-se-á com toda a segurança.

 

Sabes em que dia estamos? interrogou Néféret. Paser permaneceu em silêncio.
É antevéspera da festa do jardim. O rosto do vizir iluminou-se.

 

A deusa Hátor fala pela tua voz; vamos distribuir felicidade.

 

Na manhã da festa do jardim, as noivas e as recém-casadas plantaram um sicómoro nos jardins. Nas praças das cidades e aldeias, e nas margens do rio, ofereceram-se bolos, ramos de flores e bebeu-se cerveja. Depois de se terem esfregado de unguento, as raparigas dançaram ao som das flautas, harpas e tamborins. Rapazes e raparigas falaram de amor, os mais velhos fecharam os olhos.

 

Quando os escribas entregaram os jarros de mel aos chefes dos bairros, os nomes do vizir e do faraó foram aclamados. Não era a abelha, um dos símbolos do rei do Egipto? Com um preço demasiado elevado para a maior parte das famílias, o ouro comestível era um sonho quase inacessível. Um sonho que seria saboreado nesse dia de festa, celebrado sob a protecção de Ramsés, o Grande.

 

Do terraço, Néféret e Paser escutavam, deliciados, os ecos dos cantos e das danças. Os bandos armados que se preparavam para atacar as caravanas de mel, haviam sido capturados pela polícia. O velho apicultor banqueteava-se com os seus amigos, afirmando que o país era bem governado e que o mel da festa dissiparia a desgraça.

 

O oásis estava destruído.

 

Palmeiras decapitadas, acácias despedaçadas, troncos fendidos, ramos arrancados, a nascente cortada, dunas esventradas, montículos de areia cobrindo as pistas... Em redor, nada mais que desolação.

 

Quando Suti entreabriu os olhos, nada reconheceu do seu porto de paz e perguntou-se se teria chegado às regiões tenebrosas onde o sol não penetrava. Flutuava tanta areia amarela no ar que a luz já não conseguia passar.

 

A dor no seu ombro esquerdo acordou, no local onde a lâmina do machado o tocara; estendeu as pernas que, de tão doridas, pareciam fracturadas; mas estavam apenas arranhadas. A seu lado, dois núbios esmagados sob o tronco de uma palmeira. Um deles, já rígido, empunhava ainda o seu punhal.

 

Pantera... Onde estava ela? Ainda que os seus pensamentos estivessem confusos, Suti recordava-se de um ataque dos núbios, do início da tempestade, da violência do vento, da súbita loucura do deserto. Ela estivera a seu lado até que uma rabanada de vento os separara. De gatas, arquejante, ele escavou.

 

A líbia continuava desaparecida. Ele não desistiu; não deixaria aquele lugar maldito sem a mulher que lhe restituíra a liberdade.

 

Vasculhou cada recanto, afastou outros cadáveres de negros e ergueu uma enorme palma. Pantera parecia uma menina adormecida, sonhando com um belo pretendente. Nem um traço de ferimento no seu corpo nu, mas um colossal inchaço na nuca. Suti massajou-lhe os glóbulos oculares e despertou-a suavemente.

 

Estás... vivo?

 

Sossega, estás apenas em estado de choque.

 

Os meus braços, as minhas pernas!

 

Doridos, mas intactos. Ela enlaçou-o, feita menina.

 

Vamos embora daqui, depressa!

 

Não sem água.

 

Durante longas horas, Suti e Pantera trabalharam afincadamente para desobstruir os poços. Contentaram-se com uma água lamacenta e acre com que encheram os seus dois odres; depois, ele fabricou um novo arco e umas cinquenta flechas. Após um sono reparador, vestidos com os farrapos arrancados aos cadáveres para se protegerem do frio nocturno, partiram rumo ao Norte, sob a protecção da noite estrelada.

 

A resistência de Pantera espantava Suti. O facto de ter escapado ao caos dava-lhe uma nova energia, um ardor de reconquistar o seu ouro e de se transformar numa senhora abastada, respeitável e respeitada, capaz de satisfazer todos os seus caprichos. Não acreditava noutro destino que não o que ela construíra para si, momento a momento, e rasgaria o tecido da sua existência à dentada, proclamando a nudez da sua alma com um perfeito impudor. Não temia nada a não ser o seu próprio medo, que ela estrangulava sem piedade.

 

Ela só lhe concedia paragens curtas, velava pelas rações de água, escolhia a direcção e o caminho, no meio de um caos de rochas e dunas. Suti deixava-se guiar, absorvido pela paisagem revolta; esta agia sobre ele como um feitiço e enchia-o da sua magia. Resistir-lhe era inútil; vento, sol e calor criavam uma pátria da qual ele apreciava cada contorno.

 

Pantera permanecia alerta; ao aproximarem-se das linhas egípcias, redobrou a vigilância. Suti ficou nervoso; não estaria ele a afastar-se da sua verdadeira liberdade, da imensidão onde gostaria de viver com a nobreza do orix?

 

Assim que encheram os odres num ponto de água assinalado por uma pedra, eles surgiram, formando um círculo. Mais de cinquenta guerreiros núbios, armados de cacetes, espadas curtas, arcos e fundas; nem Pantera nem Suti os tinham ouvido aproximar-se.

 

A líbia cerrou os punhos; acabar assim revoltava-a.

 

Lutemos rosnou ela, entredentes.

 

Não há esperança.

 

Que achas?

 

Suti girou lentamente a cabeça: nenhuma possibilidade de fuga. Não teria sequer tempo de esticar o arco.

 

Os deuses proíbem o suicídio; se quiseres, estrangulo-te antes que eles me despedacem o crânio. Eles violar-te-ão da forma mais abominável.

 

Acabarei com eles. O círculo estreitou-se.

 

Suti decidiu arremessar-se contra dois colossos que avançavam lado a lado; pelo menos, morreria a combater. Um núbio idoso interpelou-o.

 

Foste tu que exterminaste os nossos irmãos?

 

Eu e o deserto.

 

Eles eram corajosos.

 

Eu também o sou.

 

Como o fizeste?

 

O meu arco salvou-me.

 

Mentes.

 

Deixa-me servir dele.

 

Quem és tu?

 

Suti.

 

Egípcio?

 

Sim.

 

Que procuras no nosso país?

 

Fugi da fortaleza de Tjaru.

 

Fugiste?

 

Era prisioneiro.

 

Continuas a mentir.

 

Acorrentaram-me a um rochedo, no meio do Nilo, a fim de servir de isco a pessoas como tu.

 

És um espião.

 

Estava a esconder-me no oásis quando os teus o tomaram de assalto.

 

Se a grande tempestade não tivesse tido lugar, eles ter-te-iam vencido.

 

Eles estão mortos, eu vivo.

 

És orgulhoso.

 

Se pudesse defrontar-vos, um por um, provar-te-ia que o meu orgulho é justificado.

 

O núbio trocou um olhar com os seus compatriotas.

 

O teu desafio é desprezível; mataste o nosso chefe, no oásis, e obrigaste-me a assumir a chefia do clã, a mim, um velho.

 

Permite que me bata com o teu melhor guerreiro e devolve-me a liberdade se eu sair vencedor.

 

Luta contra todos nós.

 

És um cobarde.

 

Uma pedra voou de uma funda e atingiu Suti na têmpora; aturdido, ele caiu. Os dois colossos aproximaram-se de Pantera; ela desafiou-os com o olhar e não esboçou o mínimo movimento. Eles arrancaram-lhe as vestes e o pedaço de tecido que escondia os seus cabelos.

 

Estupefactos, recuaram.

 

Com os braços caídos ao longo do corpo, Pantera não escondeu nem os seios nem os caracóis louros do seu sexo; avançou para eles, real.

 

Os núbios inclinaram-se.

 

Os ritos em honra da deusa loura duraram a noite inteira; os guerreiros haviam reconhecido a terrível criatura de quem os seus antepassados exaltavam o poder. Vinda da longínqua Líbia, ela espalhava, por capricho das suas cóleras, as epidemias, os cataclismos e a fome. Por forma a acalmá-la, os núbios ofereceram-lhe álcool de tâmaras, serpente cozida na brasa e alho fresco, eficaz contra as mordeduras de répteis e escorpiões. Dançaram em redor de Pantera, coroada de palmas e ungida com óleos perfumados; até ela subiam as preces transmitidas desde o princípio dos tempos.

 

Suti foi esquecido; como os outros, ele era o senador da deusa loura. Pantera desempenhava o seu papel na perfeição; terminada a festa, assumiu o comando da pequena trupe, ordenou aos exploradores que contornassem a fortaleza de Tjaru e seguissem uma pista em direcção ao Norte. Para grande surpresa destes, os soldados egípcios já há vários dias que estavam entrincheirados no interior da fortaleza, sem proceder a qualquer patrulha.

 

Fizeram uma paragem no sopé de um rochedo, ao abrigo do sol e do vento; Suti aproximou-se de Pantera. Ela descia de uma liteira, sustentada por quatro jovens entusiastas.

 

Não ouso erguer os olhos para ti.

 

Fazes bem, eles estripar-te-iam.

 

Não aguento mais esta situação.

 

Estamos no bom caminho.

 

Não da melhor forma.

 

Tem paciência.

 

Não está no meu carácter.

 

Um pouco de escravatura melhorá-lo-á.

 

Não contes com isso.

 

Ninguém poderá escapar ao poder da deusa loura.

 

Furibundo, Suti treinava-se com a funda com os seus novos companheiros; como se mostrou bastante hábil, atraiu a estima destes. Algumas sessões de luta à mão desarmada, de que saiu vencedor, fomentaram entre os outros uma opinião favorável que definitivamente se firmou com uma demonstração de tiro com arco. Entre guerreiros, nasceu uma amizade.

 

Após a refeição da noite, os núbios falavam da deusa de ouro, vinda para lhes ensinar a música, a dança e os jogos do amor. Enquanto os contadores alindavam o mito, dois homens, afastados do grupo, acenderam uma fogueira a fim de aquecer um pote que continha cola fabricada com gordura de antílope. Quando a temperatura foi suficiente, a substância transformou-se em líquido; o primeiro mergulhou um pincel no pote, o segundo apresentou-lhe uma fivela de cinto em madeira de ébano. Meticuloso, o seu companheiro espalhou a cola. Suti bocejou; no momento em que se afastava, um clarão brilhou nas trevas. Intrigado, aproximou-se dos dois homens; o que manejava o pincel, muito concentrado, aplicava uma folha metálica sobre a fivela.

 

O egípcio debruçou-se; o seu olhar não o enganara. Tratava-se mesmo de uma folha de ouro.

 

Onde desencantaste isso?

 

Um presente do nosso chefe.

 

E ele, onde a foi buscar?

 

Quando ele regressou da cidade perdida, trazia jóias e placas como esta.

 

Conheces esse lugar?

 

Eu não; o velho guerreiro sim.

 

Suti acordou-o e obrigou-o a desenhar um mapa sobre a areia; depois, reuniu a pequena trupe em redor da fogueira.

 

Escutai-me, todos vós! Eu fui tenente dos carros de combate no exército, sei manejar o grande arco, matei dezenas de beduínos e fiz justiça ao eliminar um general traidor. O meu país não mo reconheceu; hoje, quero ficar rico e poderoso. Este clã precisa de um chefe, de um homem aguerrido e conquistador. Eu sou esse homem; se me seguirem, o destino ser-vos-á favorável.

 

O rosto inflamado de Suti, os seus longos cabelos, a sua decisão e o seu porte impressionaram os núbios; mas o velho guerreiro interveio.

 

Tu mataste o nosso chefe.

 

Eu era mais forte do que ele; a lei do deserto não poupa os fracos.

 

Cabe-nos a nós designar o nosso próximo chefe.

 

Eu conduzir-vos-ei à cidade perdida e exterminaremos os que se nos opuserem. Não tens o direito de guardar esse segredo para ti; amanhã, o nosso clã será o mais respeitado da Núbia.

 

O nosso chefe ia sozinho à cidade.

 

Nós iremos todos juntos e vocês terão ouro.

 

Partidários e adversários de Suti começaram a discutir; a influência do ancião era tal que a derrota do egípcio se anunciava certa. Assim, ele agarrou em Pantera; com um gesto brutal, arrancou-lhe as vestes. As chamas iluminaram a sua nudez loura.

 

Vêem, ela não se revolta contra mim! Só eu posso ser seu amante. Se não me aceitarem como chefe, ela desencadeará uma nova tempestade de areia e vocês morrerão todos.

 

A líbia tinha o destino de Suti nas suas mãos; se ela o repudiasse, os núbios saberiam que ele se gabava e massacrá-lo-iam. Elevada ao posto de deusa, não estaria ela ébria de vaidade?

 

Ela afastou-se; os guerreiros negros apontaram as suas flechas e punhais para Suti.

 

Ele errara ao confiar numa líbia. Pelo menos, sucumbiria admirando um sublime corpo de mulher.

 

Com uma suavidade de felina, ela deitou-se perto do fogo e estendeu os braços na sua direcção.

 

Vem disse ela, sorrindo.

 

Paser acordou em sobressalto. Sonhara com um monstro de cem cabeças, com incontáveis patas providas de garras que dilaceravam as pedras da grande pirâmide e tentavam derrubá-la. O seu ventre era um rosto humano, o de Bel-Tran. Coberto de suor, apesar da frescura daquela noite de Fevereiro, o vizir tacteou a cabeceira de madeira da sua cama, o colchão feito de cordas vegetais entrançadas e os pés em forma de cabeça de leão.

 

Voltou-se para a cama de Néféret.

 

Vazia.

 

Afastando a rede de malhas muito finas que servia de mosquiteiro, levantou-se, vestiu um casaco e abriu a janela que dava para o jardim. Um terno sol de Inverno despertava árvores e flores, as aves cantavam. Viu-a, envolta numa manta grossa, com os pés nus no orvalho.

 

Ela confundia-se com a aurora, imbuída da sua luminosidade. Dois falcões, vindos da barca de Ra, voaram em volta de Néféret no momento em que esta depôs uma oferta de lótus no altar dos antepassados, em memória de Branir. Fecundando o espaço, unindo o Egipto à barca celeste, os rapinantes regressaram à sua proa, fora do olhar dos homens.

 

Terminado o rito, Paser enlaçou a esposa.

 

Tu és a estrela da manhã, na aurora de um dia feliz, sem igual, radiosa; os teus olhos são doces como os teus lábios. Porque és tão bela? Os teus cabelos captaram o brilho da deusa Hátor. Amo-te, Néféret, como ninguém nunca amou.

 

Na madrugada amorosa, os seus corpos uniram-se.

 

De pé, na proa do barco que vogava em direcção a Carnaque, Paser admirava o seu país, onde se celebrava com tanto esplendor o matrimónio do sol e da água. Nas margens, os camponeses encarregavam-se da escavação das valas de irrigação, enquanto um corpo de especialistas limpava os canais, artérias vitais do Egipto. As copas das palmeiras ofereciam uma sombra generosa aos homens ternamente debruçados sobre a terra negra e fértil. Ao ver passar o barco do vizir, as crianças correram pelas margens e pelos caminhos de sirgagem, lançando gritos de alegria e saudando-o com gestos entusiásticos.

 

O babuíno-polícia mantinha-se sob o tecto da cabina central, de onde velava por Paser. Kem ofereceu cebolas frescas ao vizir.

 

Nada de novo sobre o assassino?

 

Nada respondeu o chefe da polícia.

 

E a senhora Tapeni reagiu?

 

Encontrou-se com Bel-Tran.

 

Uma nova aliada...

 

Não a menosprezemos; a sua capacidade de destruição não é de negligenciar.

 

Uma inimiga a mais.

 

Estarás assustado?

 

Graças aos deuses, a inconsciência serve-me de coragem.

 

Seria mais justo dizer que não tens escolha.

 

Nenhum incidente no hospital?

 

A tua esposa pode trabalhar em paz.

 

Néféret vai ter de reformar o mais depressa possível o programa de saúde pública; o seu predecessor não se preocupou minimamente e foram descobertas graves lacunas. A função de Néféret e a minha são por vezes muito pesadas; não estávamos preparados para elas.

 

Quem acreditaria que eu me tornaria o chefe de uma polícia que me cortou o nariz?

 

O vento soprava forte, contrariando a acção da corrente; por vezes, os marinheiros avançavam remando, sem desmontar o mastro e recolher a vela triangular, alta e estreita. O capitão, habituado a navegar no Nilo durante todo o ano, conhecia-lhe as armadilhas e sabia aproveitar a mais pequena brisa, a fim de encaminhar rapidamente os seus ilustres passageiros. O perfil da embarcação, de casco sem quilha e extremidades erguidas, fora estudado pelos carpinteiros do Faraó para melhor deslizar sobre as ondas.

 

Quando achas que o assassino atacará de novo?

 

Não te preocupes Kem.

 

Pelo contrário, faço disso um caso pessoal; esse demónio mancha a minha honra.

 

Tens notícias de Suti?

 

A ordem de alerta foi recebida em Tjaru e os soldados entrincheiraram-se na fortaleza até novas ordens.

 

Terá ele conseguido escapar?

 

Segundo relatórios oficiais, não faltou ninguém à chamada; mas chegou-me uma informação bizarra. Alguém terá sido acorrentado a um rochedo, no meio do Nilo, para servir de isco aos ladrões núbios.

 

Só pode ter sido ele.

 

Nesse caso, não estejas optimista.

 

Ele sairá desse aperto; Suti seria até capaz de se evadir do reino das sombras.

 

O pensamento do vizir voou em direcção ao seu irmão de espirito, depois comungou com a admirável paisagem tebana. O terreno cultivado, de um lado e outro do Nilo, era o maior e mais luxuriante do Vale. Perto de setenta aldeias trabalhavam para o imenso templo de Carnaque, que dava trabalho a nada menos que oitenta mil pessoas, sacerdotes, artesãos e camponeses. As suas riquezas esfumavam-se diante da majestade da área consagrada ao deus Amon, rodeada por uma muralha em tijolo, ondulando como uma vaga.

 

O director da casa do sumo-sacerdote, o seu mordomo e o seu camareiro acolheram o vizir no desembarcadouro; trocadas as fórmulas de delicadeza, propuseram a Paser conduzi-lo junto do seu amigo Kani, antigo jardineiro elevado à dignidade de sumo-pontífice da mais vasta cidade-templo do Egipto. O vizir pediu-lhes que o deixassem sozinho enquanto ele caminhava pela ala central da imensa sala de colunas onde só os iniciados aos mistérios penetravam. Kem e o seu babuíno ficaram diante da grande porta dupla dourada, aberta por altura das grandes festas, quando a barca de Amon saía do santuário para inundar a terra com a sua luz.

 

Paser recolheu-se longamente diante de uma sublime representação do deus Tot, cujos braços alongados davam a medida de base que o mestre de obras utilizara. Leu as colunas de hieróglifos, decifrou a mensagem do deus do conhecimento incitando os seus discípulos a respeitar as proporções que presidem ao nascimento de toda a vida.

 

Era essa harmonia que o vizir devia manter no quotidiano, para que o Egipto fosse o espelho do céu; era essa harmonia que os conspiradores queriam destruir, para a substituírem por um monstro frio, pronto a torturar os homens, a fim de melhor se empanturrar de bens materiais. Não eram, Bel-Tran e os seus aliados uma raça nova, mais temível que os mais cruéis dos invasores?

 

O vizir saiu da sala de colunas e apreciou o azul muito puro do céu de Carnaque, na pequena corte a céu aberto, no centro da qual um altar de granito marcava o nascimento do templo, muitos anos antes. Sagrado entre todos, era constantemente coberto de flores. Por que razão seria preciso arrancar-se a esta paz profunda, intemporal?

 

Estou feliz por te rever, vizir do Egipto.

 

Kani, com o crânio rapado e um bordão dourado na mão, inclinou-se diante de Paser.

 

Sou eu que tenho de te saudar.

 

Devo-te respeito; pois não é o vizir os olhos e os ouvidos do Faraó?

 

Que eles vejam e ouçam com acuidade.

 

Pareces preocupado.

 

Venho pedir a ajuda do sumo-sacerdote de Carnaque.

 

Eu ia implorar-te a tua.

 

Que se passa?

 

Graves problemas, receio. Gostaria de te mostrar o templo que acabou de ser restaurado.

 

Kani e Paser atravessaram uma das portas do recinto de Amon, caminharam ao longo de um muro, saudaram os pintores e escultores que aí trabalhavam, e dirigiram-se a um pequeno santuário da deusa Maât.

 

No interior do modesto edifício, construído em grés, dois bancos de pedra. Aí se sentava o vizir quando julgava uma personagem da hierarquia sagrada.

 

Eu sou um homem simples disse Kani. Não esqueço que era o teu mestre Branir que deveria reinar em Carnaque.

 

Branir está morto, assassinado, e o Faraó designou-te.

 

Talvez tenha feito uma má escolha.

 

Nunca Paser vira Kani tão deprimido; habituado aos caprichos da natureza e às impiedosas realidades da terra, ele impusera-se, todavia, aos seus subordinados e aos colégios de sacerdotes, e gozava da estima geral.

 

Sou indigno da minha função, mas não fugirei às minhas responsabilidades; em breve comparecerei aqui, diante do teu tribunal, e tu condenar-me-ás.

 

Ora aí está um processo rapidamente resolvido! Dás-me autorização para inquirir?

 

Kani sentou-se num banco.

 

Não valerá muito a pena; bastará que consultes os recentes arquivos de contas. Em poucos meses, quase arruinei Carnaque.

 

De que forma?

 

Basta examinar as entradas de cereais, de lacticínios, de frutos... Qualquer que seja o produto, a minha gestão é um fracasso colossal.

 

Paser ficou perturbado.

 

Ter-te-ão enganado?

 

Não, os relatórios são sérios.

 

E as condições climáticas?

 

A cheia foi abundante, os insectos não devoraram as culturas.

 

Qual é então a causa desse desastre?

 

A minha incompetência. Quis prevenir-te para que alertes o rei.

 

Não há pressa.

 

A verdade virá ao de cima. Como podes constatar, a minha ajuda não te servirá de nada; amanhã, não serei mais que um pobre velho desprezado.

 

O vizir fechou-se na sala dos arquivos do templo de Carnaque e comparou o balanço de Kani com o dos seus predecessores. A diferença confundiu-o.

 

Uma certeza impunha-se no seu espírito: alguém tentava arruinar a reputação de Kani e obrigá-lo a demitir-se. Quem o substituiria senão um dignitário hostil a Ramsés? Sem o apoio de Carnaque era impossível controlar o Egipto; mas como imaginar que Bel-Tran e os seus fanáticos haviam ousado atacar um sumo-sacerdote tão íntegro? Ser-lhe-ia dirigida uma reprimenda decisiva: Carnaque, Luxor e os templos da margem oeste em breve ficariam sem oferendas. O culto seria mal celebrado e seria proclamado por toda a parte o nome do responsável Kani o incapaz!

 

O desespero invadiu Paser. Viera solicitar a ajuda de um amigo e ver-se-ia obrigado a culpá-lo.

 

Pára de te preocupares com os teus papiros recomendou Kem e vamos ver o que se passa.

 

Os primeiros aldeões que inspeccionaram, perto do grande templo, viviam tranquilos, ao ritmo eterno das estações; o interrogatório dos chefes e dos escribas dos campos não revelou nada de anormal. Após três dias de investigações infrutíferas, o vizir rendeu-se à evidência. Era preciso regressar a Mênfis e expor a situação ao rei, antes de abrir o processo do sumo-sacerdote Kani.

 

Como um vento violento tornava a viagem difícil, Kem obteve um dia de inquérito suplementar; desta vez, os dois homens, o símio e a sua escolta inspeccionaram uma aldeia afastada do templo, no limite da província de Coptos. Ali, como nas outras aldeias, os camponeses dedicavam-se às suas ocupações enquanto as suas mulheres se ocupavam das crianças e preparavam as refeições. Na margem do Nilo, um lavadeiro lavava roupa, e um médico de província dava consulta à sombra de um sicómoro.

 

O babuíno começou a ficar nervoso; as suas narinas fremiam, ele esgravatava o solo.

 

De que se apercebeu ele? perguntou Paser.

 

De ondas negativas; talvez não tenhamos feito a viagem em vão.

 

O chefe da administração da aldeia, com cerca de cinquenta anos de idade, era um homem de ventre proeminente, afável e cortês. Pai de cinco filhos, notável por hereditariedade, rapidamente foi prevenido da chegada de um grupo de desconhecidos. Contra sua vontade, interrompeu a sesta; acompanhado de um transportador de guarda-sol, indispensável para preservar o seu crânio calvo dos raios do sol, foi ao encontro dos visitantes inesperados.

 

Quando o seu olhar se cruzou com o do enorme babuíno de olhos vermelhos, estacou de imediato.

 

Eu vos saúdo, meus amigos.

 

Nós igualmente respondeu Kem.

 

Esse macaco está domesticado?

 

É um polícia ajuramentado.

 

Ah... e vós?

 

Eu sou Kem, o chefe da polícia; e este é Paser, o vizir do Egipto. Estupefacto, o chefe inclinou o ventre e dobrou-se em dois, com as mãos estendidas diante de si em sinal de veneração.

 

Quanta honra, quanta honra! Uma tão modesta aldeia acolher o vizir... Quanta honra!

 

Erguendo-se, o gorducho despejou uma torrente de elogios melosos; quando o babuíno rosnou, ele interrompeu-se.

 

Tens a certeza de conseguires controlá-lo?

 

Só se ele farejar um malfeitor.

 

Felizmente, não os há na minha pequena comunidade. Pensando bem, o grande núbio de voz grave parecia tão temível

 

quanto o seu símio; o chefe ouvira falar desse estranho chefe da polícia, pouco preocupado com as tarefas administrativas, mas tão próximo do povo que nenhum delinquente lhe escapava por muito tempo. Vê-lo ali, no seu território, era uma nada agradável surpresa. E o vizir! Demasiado novo, demasiado sério, demasiado inquiridor... A nobreza natural de Paser, a profundidade e acuidade do seu olhar, o rigor da sua postura, não pressagiavam nada de bom.

 

Permiti que me surpreenda: personagens tão eminentes, nesta aldeola perdida!

 

Os teus campos estendem-se a perder de vista constatou Kem e são irrigados na perfeição.

 

Não te fies nas aparências; nesta região, a terra é difícil de trabalhar. Os meus pobres trabalhadores quebram os rins.

 

No entanto, a cheia foi excelente no Verão passado.

 

Não tivemos sorte; aqui, ela foi demasiado forte e as nossas bacias de irrigação estavam em mau estado.

 

Colheita soberba, ao que se diz.

 

Desenganai-vos: muito inferior à do ano anterior.

 

E a vinha?

 

Que decepção! Nuvens de insectos despedaçaram as folhas e os bagos de uvas.

 

As outras aldeias não sofreram essa contrariedade notou Paser. A voz do vizir estava repleta de suspeita; o chefe não esperava um tom tão incisivo.

 

Talvez os meus colegas se tenham vangloriado, talvez a minha pobre aldeia fosse vítima de uma fatalidade?

 

E o gado?

 

Muitos animais morreram, vítimas de doenças; veio um veterinário, mas demasiado tarde. Este lugar é verdadeiramente afastado, e...

 

A estrada de terra é excelente objectou Kem. Os responsáveis nomeados por Carnaque tratam-na com grande cuidado.

 

Apesar nos nossos magros recursos, é um imenso privilégio convidar-vos para almoçar; perdoareis a frugalidade do manjar, mas será de coração.

 

Ninguém podia violar as leis da hospitalidade; Kem aceitou em nome do vizir e o chefe mandou o seu servidor prevenir a cozinheira.

 

Paser constatou que a aldeia era florescente; numerosas casas acabavam de ser repintadas de branco, vacas e burros tinham um pelo brilhante, e ventres bem nutridos, as crianças vestiam roupas novas. Nas esquinas das ruas, de uma limpeza agradável, estatuetas de divindades; na praça principal, diante do edifício da administração, um belo forno para cozer pão e uma mó de grande tamanho, recentemente estreada.

 

Parabéns pela tua gestão considerou Paser. Os teus cidadãos não têm carência de nada. É a aldeia mais bonita que me foi dado o prazer de visitar.

 

É demasiada honra, demasiada! Entrai, peço-vos.

 

A casa do chefe da aldeia, pelo seu tamanho, número de divisões e decoração, era digna de um nobre de Mênfis. Os cinco filhos saudaram os hóspedes ilustres; a esposa do chefe da aldeia, que inclinou a cabeça colocando a mão direita no peito, teve tempo de se maquilhar e de vestir um vestido elegante.

 

Sentaram-se em esteiras de primeira qualidade e deliciaram-se com cebolas doces, pepinos, favas, alhos porros, peixe seco, costeletas de boi grelhadas, queijo de cabra, melancia e bolos regados com sumo de alfarroba. Um vinho tinto perfumado acompanhou os pratos. O apetite do chefe parecia inextinguível.

 

O teu acolhimento é digno de elogios considerou o vizir.

 

Que honra!

 

Seria possível consultar o escriba dos campos?

 

Está de visita à sua família, no norte de Mênfis, e só voltará daqui a uma semana.

 

Os seus arquivos devem encontrar-se acessíveis.

 

Infelizmente não. Ele fecha o seu gabinete e eu não tomaria a liberdade de...

 

Mas eu sim.

 

Tu és o vizir, é claro, mas não seria um...

 

O chefe interrompeu-se, receando proferir uma enormidade.

 

A estrada é longa até Tebas e o sol põe-se rapidamente, nesta época do ano; correrias o risco de te atrasares para consultar esses documentos aborrecidos.

 

Após ter degustado o boi grelhado, Matador quebrou o osso; o estalido fez o chefe dar um salto.

 

Onde se encontram esses arquivos? insistiu Paser.

 

Pois... não sei. O escriba deve tê-los levado consigo.

 

O babuíno ergueu-se. De pé, parecia um atleta de grande tamanho; os seus olhos vermelhos fixaram a personagem de ventre proeminente e mãos trémulas.

 

Agarra-o, suplico-te!

 

Os arquivos exigiu Kem ou não respondo pelas reacções do meu colega.

 

A esposa do chefe ajoelhou-se diante do seu marido.

 

Diz-lhe a verdade suplicou ela.

 

Sou eu... sou eu que possuo os documentos. Vou buscá-los.

 

Matador e eu acompanhamos-te; ajudar-te-emos a transportá-los. A espera do vizir foi curta; o chefe da aldeia desenrolou ele mesmo

 

os papiros.

 

Está tudo em ordem resmungou ele as observações foram efectuadas na data devida. Esses relatórios são de uma perfeita banalidade.

 

Deixa-me ler em paz exigiu Paser.

 

Febril, o chefe da aldeia afastou-se; a sua mulher saiu da sala de jantar.

 

Minucioso, o escriba dos campos voltara várias vezes à contagem das cabeças de gado e dos sacos de cereais. Precisara o nome dos proprietários, o dos animais, o seu peso e o seu estado de saúde. As linhas consagradas às hortas e às árvores de fruto eram igualmente detalhadas. Conclusões gerais, escritas a vermelho: resultados excelentes, superiores à média.

 

Perplexo, o vizir fez um cálculo simples. A superfície das explorações agrícolas era tal que as suas riquezas perfaziam quase o saldo negativo de que Kani seria acusado; por que razão não figuravam elas no seu balanço?

 

Eu dou a maior importância ao respeito pelo próximo afirmou. O chefe da aldeia acenou em concordância.

 

Mas se o próximo persiste em dissimular a verdade, ele deixa de ser digno de respeito. Não é esse o teu caso?

 

Eu disse-te tudo!

 

Eu detesto os modos brutais mas, em certas circunstâncias, e quando a urgência se impõe, não deverá um juiz recorrer à violência?

 

Como se tivesse lido o pensamento do vizir, Matador saltou ao pescoço do chefe da aldeia e puxou-lhe a cabeça para trás.

 

Pára, ele vai partir-me a nuca!

 

O resto dos documentos pediu Kem com calma.

 

Não tenho mais nada, mais nada! Kem voltou-se para Paser.

 

Proponho-te um passeio, enquanto Matador conduz o interrogatório à sua maneira.

 

Não me abandones!

 

O resto dos documentos repetiu Kem.

 

Ele que tire as patas primeiro!

 

O babuíno aliviou a pressão, o chefe da aldeia massajou a nuca dorida.

 

Vocês comportam-se como selvagens! Eu repudio esta arbitrariedade, condeno este acto inqualificável, esta tortura exercida sobre um vereador!

 

E eu culpo-te por dissimulação de documentos administrativos. A ameaça fez o chefe da aldeia empalidecer.

 

Se te der o complemento, exijo que reconheças a minha inocência.

 

Que falta cometeste?

 

Eu agi no interesse do bem comum.

 

De uma arca de louça, o chefe da aldeia tirou um papiro selado. A expressão do seu rosto alterara-se; o medroso dava lugar a um indivíduo feroz e frio.

 

Pois bem, olhai!

 

O texto indicava que as riquezas da aldeia haviam sido entregues na capital da província de Coptos. O escriba dos campos assinara e datara.

 

Esta aldeia faz parte do domínio de Carnaque lembrou Paser.

 

Estás mal informado, vizir do Egipto.

 

O teu aglomerado populacional figura na lista das propriedades do sumo-sacerdote.

 

O velho Kani está tão mal informado quanto tu; não é a sua lista que traduz a realidade, mas o registo de propriedade. Consulta-o, em Tebas, e dar-te-ás conta de que a minha aldeia releva da jurisdição económica de Coptos, e não do templo de Carnaque. Os marcos de pedra assim o provam. Vou apresentar queixa contra ti por golpes e ferimentos voluntários; o meu acto de acusação condenar-te-á a instruíres o teu próprio processo, vizir Paser.

 

O guarda do gabinete do registo de propriedades de Tebas foi acordado em sobressalto por um ruído pouco habitual; primeiro acreditou tratar-se de um pesadelo, mas depois ouviu as batidas na porta.

 

Quem está aí?

 

O chefe da polícia, acompanhado do vizir.

 

Detesto brincadeiras, sobretudo a meio da noite; continuai o vosso caminho, ou ainda vos arrependeis.

 

Era melhor que abrisses sem demora.

 

Desaparecei ou chamo os meus colegas!

 

Não hesites; eles ajudar-nos-ão a arrombar esta porta.

 

O guarda interrogou-se; olhou pela janela de pinásios de pedra e, graças à luz da lua cheia, distinguiu o perfil de um colosso núbio e o de um enorme babuíno. Kem e o seu símio! A sua reputação espalhava-se pelo Egipto inteiro.

 

Abriu o ferrolho.

 

Perdoai-me, mas é uma visita tão inesperada...

 

Acende as lamparinas; o vizir deseja examinar os mapas.

 

Seria melhor prevenir o director.

 

Manda-o chamar.

 

A cólera do alto funcionário de rosto enrugado esfumou-se na presença do vizir; o guarda não lhe mentira. O primeiro-ministro do país estava realmente ali, àquela hora inesperada! Bruscamente obsequioso, ele facilitou a tarefa do vizir.

 

Que mapas desejas consultar?

 

Os das propriedades do templo de Carnaque.

 

Mas... é imenso!

 

Comecemos pelas aldeias mais afastadas.

 

Para o Norte ou para o Sul?

 

Para o Norte.

 

Grandes ou pequenas?

 

As mais importantes.

 

O funcionário desdobrou os mapas sobre longas mesas de madeira. Os empregados do registo de propriedades haviam indicado os limites de cada parcela de terreno, os canais, os aglomerados populacionais.

 

O vizir procurou em vão a aldeia que acabara de visitar.

 

Estes mapas estão actualizados?

 

Mas é claro.

 

Foram alterados recentemente?

 

Sim, a pedido de três chefes de administração.

 

Por que razão?

 

As águas haviam arrancado os marcos; eram necessárias novas medições. Um especialista efectuou o trabalho e os meus serviços registaram as observações.

 

Ele amputou o domínio de Carnaque!

 

Isso não cabe ao registo de propriedades julgar; eu limito-me a registar.

 

E ter-te-ás esquecido de prevenir o sumo-sacerdote Kani?

 

O funcionário afastou-se da chama da lamparina, a fim de esconder o rosto na sombra.

 

Apressar-me-ei a dirigir-lhe um relatório completo.

 

Atraso lamentável.

 

É devido a uma falta de pessoal e...

 

Qual o nome desse agrimensor responsável pelas novas medições?

 

Sumenu.

 

A morada?

 

O director do registo de propriedades hesitou.

 

Ele não é daqui.

 

Não é de Tebas?

 

Não, ele veio de Mênfis...

 

Quem o enviou?

 

Quem senão o palácio real?

 

No caminho processional que conduzia ao templo de Carnaque, os loureiros rosa e brancos ofereciam aos passantes uma visão encantadora, cuja suavidade atenuava a austeridade do recinto monumental que cercava a área sagrada. O sumo-sacerdote Kani aceitara sair do seu recolhimento para conversar com Paser; os dois homens mais poderosos do Egipto, depois do Faraó, caminhavam com lentidão entre as duas alas de esfinges protectoras.

 

O meu inquérito teve progressos.

 

Para que servirá ele?

 

Para demonstrar que estás inocente.

 

Não o estou.

 

Foste enganado.

 

Eu enganei-me a mim próprio em relação às minhas capacidades.

 

Desengana-te; as três aldeias mais afastadas do templo entregaram a sua produção a Coptos. Eis a razão por que faltam no teu balanço.

 

E dependiam de Carnaque?

 

O registo de propriedades foi alterado após a última cheia.

 

Sem me consultarem?

 

Por intervenção de um agrimensor de Mênfis.

 

Mas é inconcebível!

 

Já partiu um mensageiro para Mênfis com ordens de trazer o responsável, um chamado Sumenu.

 

Que fazer, se Ramsés em pessoa me retirou essas aldeias?

 

Meditar nas margens do lago sagrado, participar nos ritos da alvorada, do meio-dia e do crepúsculo, assistir ao trabalho dos astrólogos sobre o telhado do templo, ler os velhos mitos e os guias do além, conversar com os grandes dignitários que viviam a reforma no interior do recinto do deus Amon, tais foram as principais ocupações de Paser durante o seu retiro. Viveu a eternidade luminosa gravada na pedra, escutou a voz das divindades e dos faraós que embelezaram o edifício ao longo das dinastias e impregnou-se da vida inalterável que animava os baixos-relevos e as esculturas.

 

Por várias vezes, recolheu-se diante da estátua do seu mestre Branir, representado sob a forma de um escriba idoso, desenrolando sobre os joelhos um papiro onde estava inscrito um hino à criação.

 

Quando Kem lhe trouxe a informação desejada, o vizir deslocou-se de imediato ao gabinete do registo de propriedades, cujo director manifestou satisfação; receber uma nova visita do primeiro-ministro conferia-lhe uma importância inesperada.

 

Recorda-me o nome do agrimensor de Mênfis pediu Paser.

 

Sumenu.

 

Tens a certeza?

 

Sim... foi o que ele me disse.

 

Já verifiquei.

 

Não era necessário, já que está tudo em ordem!

 

Da época em que era um insignificante juiz de província, guardei a mania de verificar tudo; muitas vezes é fastidioso, mas por vezes é útil. Sumenu, disseste tu?

 

Talvez me tivesse enganado, eu...

 

O agrimensor Sumenu, afecto ao palácio real, morreu há dois anos. Tu substituíste-te a ele.

 

Os lábios do funcionário entreabriram-se, mas ele foi incapaz de emitir qualquer som.

 

Alterar o registo de propriedades é um crime; terás esquecido que a atribuição das aldeias e terras a esta ou aquela jurisdição depende do vizir? Aquele que te comprou acreditou na inexperiência do sumo-sacerdote de Carnaque e na minha. Mas enganou-se.

 

Estás equivocado.

 

Não tardaremos a sabê-lo: quero uma contra-peritagem imediata do cego.

 

O superior da corporação dos cegos de Tebas era uma personagem imponente, de rosto largo e maxilar maciço. Após a inundação, quando o rio arrancava os marcos e apagava as marcas de propriedade, a administração recorria a ele e aos seus colegas, em caso de contestação. O chefe dos cegos era a memória da terra; à força de percorrer os campos e as culturas, os seus pés conheciam as suas dimensões exactas.

 

Encontrava-se a comer figos secos, à sombra da sua vinha, quando escutou os passos que se aproximavam.

 

Vocês são três; um colosso, um homem de altura média e um babuíno. Será o chefe da polícia e o seu famoso colega, o Matador, e o terceiro será...

 

O vizir Paser.

 

Assunto de Estado, por conseguinte. Que terras tentaram roubar? Não, não digas nada! O meu diagnóstico deve ser completamente objectivo. Qual o sector em causa?

 

As ricas aldeias do norte, no limite da província de Coptos.

 

Os marinheiros queixam-se muito, na região; os vermes comem as suas colheitas, os hipopótamos pisam-nas, ratos, gafanhotos e pardais devoram o que resta! Mentirosos refinados. As suas terras são excelentes e o ano foi gordo.

 

Quem é o especialista desses domínios?

 

Eu próprio. Nasci naquela região e aí cresci; os marcos não variam há vinte anos. Não vos ofereço figos nem vinho, pois suponho que tendes pressa.

 

Na mão, o cego segurava uma bengala cujo cimo tinha a forma de uma cabeça de animal de focinho pontiagudo e longas orelhas; a seu lado, um agrimensor desenrolava uma corda, segundo as indicações.

 

Nem uma única vez o cego hesitou; indicou com precisão os quatro cantos de cada campo, reencontrou a localização dos marcos e das estátuas de divindades, nomeadamente da cobra-capelo protectora das colheitas, e das esteias de doação reais que delimitavam os domínios de Carnaque. Os escribas anotavam, desenhavam e inventariavam.

 

Acabada a peritagem, não subsistia qualquer dúvida: o registo de propriedades havia sido alterado erradamente, e atribuíram-se a Coptos ricas terras que pertenciam a Carnaque.

 

”Cabe ao vizir fixar os limites de cada província, velar pelas ofertas e fazer comparecer perante si quem quer que se tenha apoderado ilegalmente de uma terra”: foi esta a ordem que me deu o Faraó, como todos os faraós a dão a todos os vizires, aquando da sua investidura?

 

O chefe da província de Coptos, um quinquagenário herdeiro de uma rica família de notáveis, empalideceu.

 

Responde ordenou Paser Tu estavas presente nessa cerimónia.

 

Sim... o rei pronunciou realmente essas palavras.

 

Por que razão aceitaste riquezas que não te pertenciam?

 

O registo de propriedades havia sido alterado...

 

Um falso registo, desprovido do meu selo e do selo do sumo-sacerdote de Carnaque! Devias ter-me alertado. Que esperavas? Que os meses corressem depressa, que Kani se demitisse, que eu fosse destituído e que a função fosse atribuída a um dos vossos cúmplices?

 

Não te permito que insinues que...

 

Tu foste uma ajuda preciosa para conspiradores e assassinos. Bel-Tran terá sido suficientemente astucioso para não deixar ficar nenhuma ligação entre ti e a Dupla Casa branca; não poderei, portanto, provar as vossas relações. Mas a tua traição é-me suficiente; és indigno de governar uma província. Considera a tua destituição como definitiva.

 

O vizir dirigiu o seu tribunal em Tebas, diante da grande porta do templo de Carnaque, onde foi edificado um pavilhão em madeira. Apesar dos conselhos de prudência de Kem, Paser recusara a audiência à porta fechada que os acusados imploravam; em redor do tribunal de justiça, aglomerava-se uma multidão numerosa.

 

O vizir leu os autos de acusação, depois de ter resumido os episódios principais do seu inquérito; as testemunhas compareceram, os escrivães anotaram os depoimentos. O júri, composto por dois sacerdotes de Carnaque, pelo chefe da administração de Tebas, pela esposa de um nobre, por uma parteira e um oficial superior, decretou um veredicto que Paser considerou conforme ao espírito e à letra da lei.

 

O chefe da província de Coptos, demitido das suas funções, foi condenado a quinze anos de prisão e ao pagamento de enormes indemnizações ao templo; os três chefes de administração culpados de mentira e desvio de géneros trabalhariam daí em diante como operários agrícolas e as suas diversas propriedades seriam partilhadas entre os mais humildes; o director do registo de propriedades de Tebas seria punido com dez anos de prisão.

 

O vizir não reclamou o agravamento de penas; nenhum dos condenados apresentou recurso.

 

Uma das redes de Bel-Tran fora aniquilada.

 

 

Observa o céu do deserto recomendou o velho guerreiro a Suti; é lá que nascem as pedras preciosas. Ele põe as estrelas no mundo e das estrelas nascem os metais. Se souberes falar-lhes e se conseguires escutar a sua voz, conhecerás o segredo do ouro e da prata.

 

E tu, conheces a sua linguagem?

 

Eu era pastor antes de me pôr a caminho com o clã para parte incerta. Os meus filhos e a minha mulher morreram num ano de grande seca; foi por isso que deixei a minha aldeia e confiei os meus passos aos amanhãs sem rosto. Que me importa a margem de onde ninguém volta?

 

A cidade perdida não é apenas um sonho?

 

O nosso antigo chefe foi lá várias vezes e de lá trouxe ouro: essa é a verdade.

 

É este o bom caminho?

 

Se és um guerreiro, sabe-lo.

 

O ancião, com o seu passo igual e implacável, retomou a dianteira do clã, numa região tão árida e tão desolada que há já várias horas que não se cruzavam com um único antílope. Suti recuou até junto de Pantera, recostada numa liteira rudimentar que seis núbios sustentavam, radiantes por transportarem a deusa de ouro.

 

Pousai-me, quero caminhar.

 

Os guerreiros obedeceram, e depois entoaram um cântico de guerra, prometendo aos seus inimigos que os fariam em fatias e devorariam o seu poder mágico.

 

Pantera mostrava-se enfadada.

 

Por que razão estás zangada?

 

Esta aventura é estúpida.

 

Não querias ficar rica?

 

Nós sabemos onde está o nosso ouro; porquê perseguir uma miragem e arriscarmo-nos a morrer de sede?

 

Um núbio não morre de sede e eu não estou a perseguir uma miragem; estas promessas bastam-te?

 

Promete que vamos buscar o nosso ouro onde o escondemos.

 

Porquê tanta obstinação?

 

Tu quase morreste por esse ouro, e eu salvei-te; mataste um general traidor para o obter. É melhor não desafiares mais o destino.

 

O egípcio sorriu; Pantera exprimia uma visão muito pessoal desses acontecimentos. Suti não perseguira o ouro do traidor, mas aplicara a lei do deserto ao eliminar um perjuro e um assassino que tentava fugir e escapar ao tribunal do vizir. O facto da fortuna lhe ter sorrido provava a justeza do seu acto.

 

Supõe que a cidade perdida está repleta de ouro e que...

 

Estou-me nas tintas para os teus projectos loucos! Promete-me que regressamos à gruta.

 

Tens a minha palavra.

 

Satisfeita, a deusa loura voltou a subir para a liteira.

 

A pista interrompeu-se no sopé de uma montanha cuja vertente estava salpicada de rochas enegrecidas. O vento varria o deserto; nem falcão nem abutre volteavam num céu sufocante.

 

O velho guerreiro sentou-se; os seus companheiros imitaram-no.

 

Nós não iremos mais longe disse ele a Suti.

 

De que tendes medo?

 

O nosso chefe falava às estrelas, nós não; para lá dessa montanha não existe um único ponto de água. Aqueles que desafiaram a cidade perdida desapareceram, engolidos pelas areias.

 

O vosso chefe não.

 

As estrelas guiavam-no, mas o seu segredo está perdido. Nós não iremos mais longe.

 

Não procuras tu a morte?

 

Não essa morte.

 

O chefe não te deu nenhuma indicação?

 

Um chefe não se vangloria, age.

 

Quanto tempo durava a sua expedição?

 

A lua erguia-se três vezes.

 

A deusa de ouro proteger-me-á.

 

Ela fica connosco.

 

Erguer-te-ias contra a minha autoridade?

 

Se queres perecer no deserto, é lá contigo; nós ficamos aqui sentados até ao quinto erguer da lua; depois partimos em direcção aos oásis.

 

Suti dirigiu-se à líbia, mais enfeitiçante que nunca; o vento e o sol tornavam a sua pele cor do âmbar, douravam os seus cabelos, sublinhavam o seu carácter selvagem e indomável.

 

Vou partir, Pantera.

 

A tua cidade não existe.

 

Ela está repleta de ouro. Eu não vou em direcção à morte, mas em direcção a uma outra vida, aquela com que sonhei desde que estava enclausurado na escola de escribas em Mênfis. Não só essa cidade existe, como nos pertencerá.

 

O nosso ouro basta-me.

 

Eu quero mais, muito mais! Supõe que a alma do chefe núbio que eu matei passou para mim e me guia em direcção a um tesouro fabuloso... Quem seria suficientemente louco para recusar tal aventura?

 

Quem seria suficientemente louco para tentar empreendê-la?

 

Beija-me, deusa de ouro; tu dar-me-ás sorte. Os seus lábios eram quentes como o vento do sul.

 

Já que ousas deixar-me, que sejas bem sucedido.

 

Suti levou consigo dois odres de água salobra, peixe seco, um arco, flechas e um punhal. Não mentira a Pantera: a alma do seu inimigo vencido traçar-lhe-ia o caminho a seguir.

 

Do cume da montanha, contemplou uma paisagem de um raro poder. Um desfiladeiro de terra avermelhada serpenteava entre duas falésias abruptas, unindo-se a um outro deserto, tão largo quanto o horizonte. Suti enveredou por ele, como um nadador que desliza para uma vaga. Sentia o apelo de um país desconhecido, cujas fibras luminosas o atraíam de forma irresistível.

 

O caminhante entrou no desfiladeiro sem dificuldade; nem pássaro, nem mamífero, nem réptil era como se toda a vida estivesse dali ausente. Matando a sede com pequenos goles, descansou à sombra de um rochedo até ao cair da noite.

 

Quando as estrelas apareceram, ergueu os olhos para o céu e tentou decifrar a sua mensagem. Elas desenhavam estranhas figuras; em pensamento, ligou-as por intermédio de linhas. Subitamente, uma estrela cadente atravessou o espaço e traçou um caminho que Suti gravou na sua memória. Seria essa a direcção a seguir.

 

Apesar da sua conivência instintiva com o deserto, o calor tornou-se pesado e cada passo um sofrimento; mas o peregrino seguia a estrela invisível, como se tivesse abandonado o seu corpo dorido. A sede obrigou-o a esvaziar os odres.

 

Suti caiu de joelhos. Ao longe, fora de alcance, uma montanha vermelha; não teria forças de explorar a rocha à procura de um ponto de água. No entanto, não se enganara; lamentava-se por não ser um orix, capaz de saltar em direcção ao sol e de esquecer o cansaço.

 

Ergueu-se de novo, para provar ao deserto que a sua força o alimentava. As suas pernas avançavam, emudecidas pelo fogo que corria na areia. Quando voltou a cair, os joelhos fizeram surgir um fragmento de louça de barro. Incrédulo, ele apanhou os bocados de uma jarra.

 

Aqui haviam vivido homens; sem dúvida, um acampamento de nómadas. Avançando, constatou que o solo estalava sob os seus pés; por todo o lado, viam-se restos de potes, vasos e jarras, formando montículos. Ainda que o seu corpo lhe pesasse cada vez mais, trepou a uma das colinas de detritos que lhe tapava a vista.

 

Lá em baixo, a cidade perdida.

 

Um posto de guarda em tijolo, meio destruído, casas esventradas, um templo sem telhado cujas paredes ameaçavam ruína... E a montanha vermelha atravessada por galerias, cisternas para recolher a água das chuvas de Inverno, mesas de pedra inclinadas, destinadas à lavagem do ouro, cabanas de pedra onde os mineiros armazenavam as ferramentas! Por todo o lado, a areia era avermelhada.

 

Suti correu em direcção a uma cisterna, exigindo um último esforço das suas pernas vacilantes; agarrou-se ao rebordo de pedra e deixou-se cair no interior. A água era morna, divina; cada poro do seu corpo impregnou-se dela, antes que ele dela se saciasse.

 

Morta a sede, e animado de uma embriaguez desconhecida, explorou a cidade.

 

Nem a mais pequena ossada humana ou animal; a população inteira abandonara bruscamente o local, deixando atrás de si uma enorme exploração mineira. Em cada habitação, jóias, taças, vasos, amuletos em ouro e prata maciços; só por si, esses objectos constituíam uma fortuna colossal.

 

Suti quis assegurar-se de que os filões eram exploráveis; assim, penetrou nas galerias profundas, penetrando até ao coração da montanha. Com a vista e com as mãos, identificou os longos veios, fáceis de trabalhar. A quantidade de metal ultrapassava as esperanças dos mais insensatos.

 

Ele ensinaria os núbios a extraírem o incrível tesouro. Com um pouco de disciplina, tornar-se-iam excelentes mineiros. Nessa manhã em que o sol da Núbia ornava a montanha vermelha de clarões mágicos, Suti tornou-se o chefe do mundo. Confidente do deserto, tão rico quanto um rei, percorreu as ruelas da cidade de ouro, da sua cidade, até ao momento em que avistou o seu guardião.

 

À entrada da cidade, um leão de juba flamejante; sentado, ele observava o explorador. Com um único golpe da pata, rasgar-lhe-ia o peito ou o ventre. A lenda afirmava que o animal selvagem vigiava sempre com os olhos abertos e não dormia nunca; se assim fosse, de que maneira podia Suti iludir a sua vigilância?

 

Suti tendeu o seu arco.

 

O leão ergueu-se. Lento e majestoso, penetrou num edifício em ruínas. Suti queria ter passado ao largo, mas a sua curiosidade foi mais forte.

 

Pronto a desferir uma flecha, ele seguiu-o.

 

O animal desaparecera. Na penumbra, lingotes de ouro. Uma reserva esquecida, um tesouro que lhe oferecia o génio do lugar, aparecido sob a forma de um animal selvagem antes de se tornar invisível.

 

Pantera estava assombrada.

 

Tantas maravilhas, tantas riquezas... Suti conseguira. A cidade de ouro pertencia-lhes. Enquanto ela descobria os tesouros, o seu amante dirigia uma equipa de núbios, hábeis em extrair os metais da sua ganga. Eles atacavam o quartzo com martelo e alvião, quebravam a rocha, depois lavavam-na antes de separarem o metal; amarelo brilhante, tingido de vermelho, o ouro núbio revestia-se de cores admiráveis. Em várias galerias, a prata aurífera merecia o seu nome de pedra luminosa, capaz de iluminar as trevas; não valia menos que o ouro.

 

Segundo o costume, os núbios transportariam o metal sob a forma de pepitas ou anéis.

 

Suti juntou-se a Pantera no velho templo cujas paredes ameaçavam ruína; a Líbia não lhe prestou atenção, ocupada a experimentar colares, brincos e pulseiras.

 

Restauraremos este local afirmou ele. Já imaginaste... portas de ouro, um chão de prata, estátuas em pedras preciosas?

 

Eu não viverei aqui; esta cidade é maldita, Suti. Ela repeliu os seus habitantes.

 

Não receio essa maldição.

 

Não desafies a tua sorte.

 

Que propões então?

 

Que levemos o máximo, recuperemos o nosso ouro e nos instalemos num local tranquilo.

 

Depressa te aborrecerias.

 

Pantera amuou; Suti sabia que tocara no seu ponto sensível.

 

Tu sonhas com um império, não com uma aldeiazita; não querias tu transformar-te numa grande senhora, reinando sobre um exército de servidores?

 

Ela voltou-lhe as costas.

 

Onde poderás usar colares como esse senão num palácio, diante de uma plateia de nobres em admiração e roídos de inveja? Mas eu posso tornar-te ainda mais bela.

 

Com um fragmento de ouro perfeitamente polido, esfregou-lhe os braços e o pescoço.

 

Como é suave... Continua.

 

Ele desceu em direcção aos seios, e depois percorreu as suas costas, antes de explorar as regiões mais íntimas.

 

Vou transformar-me em ouro?

 

Pantera ondulou ao ritmo de Suti; ao contacto do metal precioso, dessa carne dos deuses que tão poucos mortais tiveram ocasião de tocar, não se transformaria ela na deusa de ouro que os Núbios veneravam?

 

Suti não esqueceu nenhuma parcela do corpo da sua amante; o ouro agia como um bálsamo oleoso e provocava arrepios de deliciosa languidez.

 

Ela deitou-se no solo do templo abandonado, onde brilhavam as palhetas de ouro; ele estendeu-se sobre ela.

 

Enquanto Tapeni viver, tu não me pertencerás.

 

Esquece-a.

 

Vou reduzi-la a cinzas.

 

Irá uma futura rainha rebaixar-se a tarefas tão vulgares?

 

Tentarás defendê-la?

 

Ela é demasiado razoável para o meu gosto.

 

Serás capaz de combater o Egipto a meu lado?

 

Sou capaz de te estrangular.

 

Os núbios massacrar-te-iam.

 

Eu sou o seu chefe.

 

E eu a sua deusa! O Egipto rejeitou-te, Paser traiu-te. Vinguemo-nos.

 

Suti lançou um grito de dor e caiu de lado. Pantera viu o agressor: um escorpião negro que se refugiou sob uma pedra.

 

Picado no pulso esquerdo, o jovem mordeu o local, aspirou o veneno, e cuspiu.

 

Serás a mais rica das viúvas ilegítimas.

 

Paser apertou Néféret contra si; a sua ternura apagou as fadigas da viagem e restitui-lhe o gosto da luta. Ele explicou-lhe como salvara Kani e contrariara um dos planos de Bel-Tran. Apesar da sua alegria, ele sentiu-a preocupada.

 

Chegaram notícias da fortaleza de Tjaru confessou ela.

 

Suti!

 

Declarado desaparecido.

 

Em que circunstâncias?

 

Segundo o relatório da fortaleza, ele fugiu; como a guarnição recebera ordens de se entrincheirar dentro das muralhas, nenhuma patrulha foi enviada no seu encalço.

 

Paser ergueu os olhos para o céu.

 

Ele vai regressar, Néféret, e ele vai ajudar-nos; mas porquê essa perturbação no teu olhar?

 

Uma simples lassidão.

 

Fala, peço-te; não transportes sozinha esse fardo.

 

Bel-Tran empreendeu uma campanha de difamação contra ti. Almoça e janta com altos dignitários, altos funcionários e chefes de província; Silkis sorri e cala-se. A tua inexperiência, o teu ímpeto mal controlado, as tuas exigências insensatas, a tua incompetência, a tua falta de conhecimento das subtilezas da hierarquia, a tua ignorância das realidades do tempo presente, o teu apego aos valores passados... Eis os seus temas favoritos.

 

Falar demasiado ser-lhe-á prejudicial.

 

É a ti que ele prejudica, dia após dia.

 

Não te preocupes.

 

Não suporto ver-te caluniado.

 

É até um bom sinal. Se Bel-Tran age assim, é porque duvida ainda do êxito final. Os golpes que acabo de desferir contra ele são talvez mais dolorosos do que ele imaginara. Reacção interessante, na verdade; encoraja-me a continuar.

 

O superintendente dos escritos reclamou a tua presença várias vezes.

 

Qual o motivo?

 

Só se confiará a ti.

 

Outros visitantes de relevo?

 

O director das missões secretas e o superintendente dos campos; desejam igualmente uma reunião e lamentaram a tua ausência.

 

Os três homens pertenciam à confraria dos nove amigos do Faraó, as personagens mais influentes do reino, habituadas a fazer e a desfazer as reputações. Era a primeira vez que eles intervinham após a nomeação de Paser.

 

E se eu os convidasse para jantar? propôs ele.

 

O superintendente dos escritos, o superintendente dos campos e o director das missões secretas assemelhavam-se; homens de idade madura, ponderados, de voz grave e porte solene, haviam superado os degraus da hierarquia dos escribas e dado plena satisfação ao rei. De peruca, vestidos com uma túnica de linho sobre uma camisa de mangas compridas e plissadas, eles chegaram juntos à porta da propriedade do vizir, onde Kem e o seu babuíno os identificaram.

 

Néféret recebeu-os e guiou-os através do jardim; admiraram a piscina de recreio e as essências raras importadas da Ásia, e felicitaram a jovem pelos canteiros de flores. Terminadas as fórmulas de cortesia, ela conduziu-os junto de seu marido, na sala de jantar de Inverno, onde ele conversava com Bagey, o antigo vizir, que os três altos dignitários se surpreenderam ao ver.

 

Néféret eclipsou-se.

 

Gostaríamos de te ver a sós declarou o superintendente dos escritos.

 

Suponho que a vossa intervenção diz respeito à forma como desempenho a minha função; por que razão o meu predecessor não me assistiria durante essa prova? Os seus conselhos poderão ser-me preciosos.

 

Frio, distante, um pouco curvado, Bagey encarou os seus interlocutores com severidade.

 

Ontem trabalhámos juntos; hoje considerais-me um estranho?

 

É claro que não respondeu o superintendente dos campos.

 

Nesse caso considerou Paser o incidente está encerrado; jantaremos os cinco juntos.

 

Eles ocuparam os seus lugares em cadeiras abauladas; diante de cada um, uma mesa baixa sobre a qual os servidores depuseram pratos cheios de iguarias. O cozinheiro preparara suculentos pedaços de vaca, cozidos numa marmita de terra de fundo arredondado, e aves grelhadas no espeto. Ao lado do pão fresco, manteiga fabricada a partir de alforva e alcaravia, sem água nem sal, e conservada numa cave fresca, de forma a evitar o escurecimento; ervilhas e beringelas com molho acompanhavam as carnes.

 

Um escanção encheu os copos de vinho tinto do Delta, colocou o jarro num suporte de madeira e saiu da sala, fechando a porta.

 

Nós falamos em nome das autoridades superiores deste país adiantou o director das missões secretas.

 

À excepção do Faraó e de mim próprio interveio Paser. O comentário feriu o dignitário.

 

Essas objecções parecem-me inúteis.

 

Esse tom é dos mais desagradáveis considerou Bagey qualquer que seja a vossa idade e a vossa posição, deveis respeito ao vizir que o Faraó designou.

 

A nossa consciência impede-nos de lhe poupar críticas e reprimendas justificadas.

 

Bagey ergueu-se, irritado.

 

Eu não aceito esta diligência.

 

Ela não é inconveniente nem ilegal.

 

Não é essa a minha opinião; o vosso papel é o de servir o vizir e obedecer-lhe.

 

Não quando a sua acção é contrária à felicidade do Egipto.

 

Não ouvirei uma só palavra mais; jantareis sem mim.

 

Bagey saiu da sala de jantar.

 

Espantado com a violência do ataque e com a reacção brutal do antigo vizir, Paser sentiu-se muito sozinho. A carne e os legumes esfriaram, a excelente colheita permaneceu nos copos.

 

Nós conversámos longamente com o director da Dupla Casa branca confessou o superintendente dos campos e as suas preocupações parecem-nos fundadas.

 

Por que razão Bel-Tran não vos acompanhou?

 

Não o prevenimos da nossa diligência; é um homem jovem, impulsivo, que poderia perder a serenidade num caso tão grave. Essa mesma juventude corre o risco de te conduzir a um impasse, a menos que a razão vença.

 

Vós ocupais postos importantes onde as palavras inúteis não são admissíveis; como o meu tempo é tão precioso quanto o vosso, obrigais-me a ir directo ao assunto.

 

Eis uma bela prova do teu comportamento erróneo! Governar o Egipto exige mais subtileza.

 

O Faraó governa, eu velo pelo respeito a Maât.

 

O quotidiano está por vezes afastado do ideal.

 

Com tais pensamentos considerou Paser o Egipto corre para a ruína.

 

Porque te falta experiência declarou o superintendente dos campos levas à letra os velhos ideais esvaziados da sua substância.

 

Não é essa a minha opinião.

 

Foi em nome do ideal que condenaste o chefe da província de Coptos, herdeiro de uma família nobre e de renome?

 

A lei foi aplicada, sem levar em conta a sua posição.

 

Contas demitir assim uma quantidade de dirigentes estimados e qualificados?

 

Se eles conspiram contra o seu país, serão acusados e julgados.

 

Confundes faltas graves com as necessidades do poder.

 

Alterar o registo de propriedades: será isso uma falta ligeira?

 

Reconhecemos a tua probidade admitiu o superintendente dos escritos. Desde o início da tua carreira, demonstraste o teu sentido de justiça e o teu amor à verdade. Ninguém sonha contestar isso; o povo admira-te e respeita-te. Mas é isso suficiente para evitar um desastre?

 

Que me censurais?

 

Talvez nada, se souberes tranquilizar-nos.

 

Os primeiros passes de armas estavam terminados; o verdadeiro combate ia começar.

 

Estes três homens sabiam tudo do poder, da hierarquia e dos mecanismos sociais; se Bel-Tran tinha conseguido convencê-los da justeza dos seus pontos de vista, Paser não teria hipóteses de transpor o obstáculo. Isolado, desencorajado, não seria ele um joguete fácil de despedaçar?

 

Os meus serviços declarou o superintendente dos campos elaboraram a lista dos proprietários e agricultores, recensearam as cabeças de gado, avaliaram as colheitas; os meus peritos fixaram as taxas, tendo em conta a opinião dos camponeses, mas esse enorme trabalho traduzir-se-á por uma muito fraca entrada de impostos. Será preciso duplicar as taxas sobre a forragem e os bovinos.

 

Recuso.

 

Quais as tuas razões?

 

Em caso de dificuldade, o agravamento dos impostos é a pior das soluções. Parece-me mais urgente eliminar as injustiças; as nossas reservas de alimentos são suficientes para fazer face a várias cheias desfavoráveis.

 

Procede à reforma das disposições que beneficiam os camponeses; em caso de imposição injusta, quem mora numa grande cidade apenas dispõe de três dias para apelar, enquanto um provinciano dispõe de três meses!

 

Eu mesmo fui vítima desse regulamento lembrou Paser. Alargarei o prazo dos citadinos.

 

Aumenta ao menos os impostos dos ricos!

 

A personagem que mais sofre com os impostos, o governante de Elefantina, dá ao Tesouro o equivalente a quatro lingotes de ouro; o governante de uma província de dimensões médias, mil pães, vitelos, bois, mel e sacos de cereais. Não é necessário exigir mais, já que eles governam uma família extensa e velam pelo bem das aldeias.

 

A tua intenção será a de atacar os artesãos?

 

Mas é claro que não. As suas casas permanecerão isentas de impostos, e manterei a interdição de embargar as suas ferramentas.

 

Cederás na questão do imposto sobre a madeira? É preciso estendê-lo a todas as províncias.

 

Eu estudei de perto os centros de madeira e a forma como eles recebem o tojo, as fibras de palmeiras e a madeira pequena; aquando da estação fria, a distribuição foi assegurada de forma correcta. Porquê modificar o trabalho de equipas cuja rotação é satisfatória?

 

Ajuízas mal a situação considerou o director das missões secretas, o modo como a nossa economia está organizada já não corresponde às exigências actuais. A produção deve ser aumentada, a rentabilidade...

 

Eis os termos caros a Bel-Tran.

 

Ele é o director da Dupla Casa branca! Se estás em desacordo com o teu ministro da economia, como podes conduzir uma política coerente? Corre com ele e corre connosco também!

 

Continuaremos a trabalhar juntos, segundo as leis tradicionais; o Egipto é rico, o Nilo oferece-nos abundância e a prosperidade durará, embora tenhamos de lutar diariamente contra a injustiça.

 

Não achas que o teu passado te deforma? A economia...

 

No dia em que a economia tiver supremacia sobre a justiça, o mal propagar-se-á sobre esta terra.

 

O papel dos templos devia ser minimizado sugeriu o superintendente dos escritos.

 

Que lhes censuras?

 

Eles recolhem a quase totalidade dos géneros, dos produtos e dos objectos antes de os distribuírem, em função das necessidades das populações; não seria mais desejável um circuito mais directo?

 

Seria contrário à regra de Maât e destruiria o Egipto em poucos anos. Os templos são os nossos reguladores de energia; os especialistas, recolhidos no interior dos seus muros, apenas se preocupam com a harmonia. Graças aos templos, estamos ligados ao invisível e às forças vitais do universo; das suas escolas e das suas oficinas saem os seres que há séculos constróem o nosso país. Desejas decapitá-lo?

 

Tu deformas os meus objectivos.

 

Receio que o teu pensamento se assemelhe a um bastão torcido.

 

Insultas-me!

 

Não estarás tu a voltar as costas aos nossos valores fundamentais?

 

És um homem demasiado íntegro, Paser, és um fanático!

 

Se essa é a tua convicção, não hesites: pede a minha cabeça ao rei.

 

Tu beneficias do apoio de Kani, o sumo-sacerdote de Carnaque, cuja opinião Ramsés considera. Mas esse favor não durará mais que a tua popularidade. Demite-te Paser. Será a melhor solução, para ti e para o Egipto.

 

O jardineiro-chefe do templo de Heliópolis estava apavorado; chorava sentado ao pé de uma oliveira. Paser, chamado de urgência, tremia; o vento frio soprava em rajadas que viravam as folhas prateadas. Alertado por Kem, o vizir achou melhor ir lá.

 

Conta-me como foi perguntou ao jardineiro.

 

Eu próprio tinha vigiado a colheita... As oliveiras mais antigas do Egipto! Que desgraça... Por quê este vandalismo, por quê?

 

O jardineiro-chefe não conseguia dizer mais nada. Depois de lhe ter dito que não o considerava responsável, Paser deixou-o mergulhado na sua infelicidade e seguiu Kem até às reservas do templo de Ra onde se conservava o melhor azeite para iluminação do país.

 

O chão parecia um pântano viscoso. Não fora poupada sequer uma ânfora; rolhas retiradas, conteúdo despejado.

 

Resultado do teu inquérito?

 

Um só homem respondeu o núbio. Entrou pelo telhado.

 

Procedimento igual ao do hospital.

 

É o homem que te quer assassinar, de certeza. Porquê esta pilhagem?

 

O papel económico dos templos incomoda Bel-Tran; suprimir a fonte de iluminação abrandará o ritmo de trabalho dos escribas e dos sacerdotes. Enviem imediatamente a seguinte mensagem: que a polícia vigie todas as reservas de azeite. Em relação à região de Mênfis, utilizaremos as do palácio. Nenhuma lamparina ficará vazia.

 

A resposta de Bel-Tran, à firmeza do vizir não se fez esperar.

 

Não havia criado que não andasse a varrer com uma vassoura de longas fibras rígidas, reunidas em meada, criada que não empunhasse uma escova de junco, amarrada por uma grande argola: os serviçais do vizir limpavam o chão com grande entusiasmo. No ar pairava um delicioso aroma a incenso, canela e cinamomo; a fumigação purificava a mansão e afugentava os insectos e outros hóspedes indesejáveis.

 

Onde está a minha mulher?

 

No armazém de trigo respondeu o intendente.

 

De joelhos, Néféret enterrava num canto dentes de alho, peixe seco e natrão.

 

O que está aí escondido?

 

Talvez uma serpente; estes ingredientes vão asfixiá-la.

 

Por quê tanta limpeza?

 

Receio que o assassino tenha deixado outros vestígios.

 

Surpresas desagradáveis?

 

Até agora, não; nenhum sítio suspeito foi esquecido. O que disse o Faraó?

 

Paser ajudou-a a levantar-se.

 

A atitude dos seus conselheiros surpreendeu-o; demonstrou-lhe como a doença do país é profunda. Creio não ser um terapeuta tão eficaz como tu.

 

E o que respondeu ele aos cortesãos?

 

Cabe-me a mim ocupar-me das suas reclamações.

 

Exigiram a tua saída?

 

Sugeriram-na apenas.

 

Bel-Tran continua a espalhar a sua maledicência.

 

Ele não está isento de fraquezas; compete-nos a nós descobri-las. O vizir não conseguiu conter um espirro, seguido de um arrepio.

 

Vou precisar de um médico.

 

A coriza partia os ossos, fracturava a cabeça e esmagava o cérebro. Paser bebia sumo de cebola, desinfectava as narinas com sumo de palma, desentupia o nariz com inalações e absorvia a tintura de briónia para evitar complicações pulmonares. Satisfeito por ter o seu dono em casa, Bravo dormia aos pés da cama dele, beneficiando de uma coberta macia e, ao passar junto ao dono, de uma colher de mel.

 

Apesar da febre, o vizir consultava os papiros que Kem, habilitado apenas para servir de intermediário entre ele e o escritório, lhe tinha levado. Quantos mais dias passavam, mais o vizir dominava o seu mister; este momento de afastamento era-lhe benéfico, na medida em que verificava que os grandes templos, de norte a sul, escapavam ao controlo de Bel-Tran. Eram eles que regulavam a economia conforme os anciãos haviam ensinado e velavam pela repartição das riquezas armazenadas; graças a Kani e aos outros grandes sacerdotes, de pleno acordo com o superior de Carnaque, o vizir preservaria a estabilidade do Estado, pelo menos até à data fatídica em que Ramsés deveria abdicar.

 

Uma inalação de sulfureto de arsénico que os médicos chamavam ”aquele que desafoga o coração”, aliviou Paser; para combater a tosse, inalou uma decocção de raízes de malvaísco e de colocíntida fresca. A água acobreada acabaria por curar a infecção.

 

Quando o núbio tacteou o nariz de madeira, o vizir compreendeu que ele detinha informações importantes.

 

Primeiro, uma notícia inquietante: Mentmosé, o meu predecessor, de tão tristes recordações, deixou o Líbano onde cumpria uma pena de exílio.

 

Corre grave risco... Quando tornares a apanhá-lo, será condenado a trabalhos forçados.

 

Mentmosé sabe-o; é por isso que o seu desaparecimento não é bom agoiro.

 

Uma intervenção de Bel-Tran?

 

É possível.

 

Simples fuga?

 

Gostava de acreditar nisso, mas Mentmosé odeia-te tanto como Bel-Tran. Tu fascina-los, a ambos, porque não compreendem a tua rectidão nem o teu amor pela justiça. Se fosses um simples juiz não te dariam grande importância. Mas sendo um vizir... isso é inaceitável! Mentmosé não deseja um final pacífico; ele quer vingar-se.

 

Continua a não haver nada de concreto sobre o assassinato de Branir?

 

Directamente, não, mas...

 

Mas?

 

Na minha opinião, o homem que tentou matar-te várias vezes é o mesmo que matou Branir; surge do nada e aí se refugia, mais rápido do que um galgo.

 

Estás a tentar convencer-me de que se trata de um fantasma?

 

Um fantasma, não... Mas um devorador de sombras como eu nunca vi. Um monstro com a paixão da morte.

 

Terá cometido o erro de que tu estavas à espera?

 

Talvez tenha procedido mal ao atacar o meu babuíno com o outro macaco. Foi a única ocasião em que ele precisou de um aliado e, por isso, de estabelecer contactos. Eu acreditava que esta pista não tivesse sido destruída, mas um dos meus melhores guias, um homem conhecido por Pernas-curtas, sabe alguma coisa. Um juiz acaba de aumentar o montante do subsídio de alimentação que ele deve entregar à sua ex-mulher. É por isso que recuperou a memória.

 

Ele saberia identificar o devorador de sombras?

 

Se conseguir, vai exigir uma recompensa enorme.

 

Concedida. Quando é que o vais ver?

 

Esta noite, atrás do cais.

 

Vou contigo.

 

O teu estado não to permite.

 

Néféret tinha convocado os principais fornecedores das substâncias raras e dispendiosas utilizadas nos laboratórios. Apesar de os produtos não terem ainda acabado, achava prudente reforçar a existência o mais depressa possível, devido às dificuldades de recolha e entrega.

 

Comecemos pela mirra; para que data está prevista a próxima expedição para a região de Pount?

 

O responsável tossiu.

 

Ignoro-o.

 

Que significa a tua resposta?

 

Não foi fixada nenhuma data.

 

Nota: Ver A Lei do Deserto (N do A)

 

Acho que deves ser tu a decidi-lo.

 

Não disponho nem dos barcos nem do equipamento.

 

Porquê?

 

Aguardo a boa vontade dos países estrangeiros.

 

Consultaste o vizir?

 

Preferi seguir a via hierárquica.

 

Deverias ter-me prevenido desse contratempo.

 

Não havia pressa...

 

De momento, trata-se de uma urgência.

 

Precisava de uma autorização por escrito.

 

Tê-la-ás a partir de hoje.

 

Néféret voltou-se para outro vendedor.

 

Encomendaste goma-resina verde de gálbano’?

 

Encomendei, sim, mas não vai chegar tão cedo.

 

Porquê?

 

Vem da Ásia, conforme a disposição dos que a colhem e dos vendedores. A gerência recomendou-me que não os incomodasse; as nossas relações ficariam ainda mais tensas por causa de uns incidentes que me escapam. Logo que possível...

 

E a resina escura de ládano? perguntou Néféret ao terceiro fornecedor. Sei que vem da Grécia e de Creta; estes países nunca hesitam em vender.

 

Ah, hesitam sim. A colheita foi pobre; também decidiram não exportar.

 

Néféret nem sequer interrogou os outros comerciantes. O constrangimento deles significava que também eles responderiam negativamente.

 

Quem recebe estes produtos raros no Egipto? perguntou ao fornecedor de mirra.

 

Os fiscais da alfândega.

 

E de quem dependem eles? O homem gaguejou.

 

Da... da Dupla Casa branca.

 

Do olhar da jovem, geralmente tão terno, transpareceram a revolta e a indignação.

 

Nota: Esta goma-resina (gálbano e ládano), extraída de árvores ou de arbustos, e hoje em dia utilizada em perfumaria, era considerada uma substância medicinal. (N do A.)

 

Sendo sectários de Bel-Tran declarou com firmeza é ao Egipto que estão a trair. Enquanto médica-chefe do reino, exigirei a vossa acusação por ofensa à saúde pública.

 

Não é essa a nossa intenção, mas as circunstâncias... Devias reconhecer que o mundo evolui e que o Egipto se deve adaptar. A maneira de nós vendermos modificou-se. Bel-Tran detém a chave do nosso futuro. Se aceitasse aumentar os nossos rendimentos e rever as nossas margens de lucro, as entregas poderiam ser retomadas bastante depressa.

 

Chantagem... Chantagem que compromete a saúde dos vossos compatriotas!

 

Os prazos são excessivos. Temos o espírito aberto e as negociações foram bem conduzidas...

 

Como se trata de uma urgência, vou pedir ao vizir um requerimento, e eu própria falarei com os nossos parceiros estrangeiros.

 

Não te atreverias!

 

A cobiça é uma doença incurável que eu não sei tratar. Peçam outro emprego a Bel-Tran; já não trabalham nos serviços de saúde.

 

A febre não tinha impedido Paser de assinar o requerimento que permitia à médica-chefe assegurar a livre circulação das gomas-resinas indispensáveis aos terapeutas. Munida do documento, Néféret tinha-se ocupado desde logo do serviço dos países estrangeiros, para ela própria velar pela redacção dos documentos administrativos que decidiriam a expedição dos produtos comerciais.

 

O estado de saúde do seu doente preferido não a inquietava, mas ele teria de ficar de cama durante dois ou três dias, para evitar qualquer risco de recaída.

 

O vizir não conseguia conservar-se em repouso; rodeado de papiros e de tabuinhas de madeira enviados pelos escribas das diversas administrações, procurava os pontos fracos que Bel-Tran não deixaria de explorar. Imaginava as estratégias dele e tomava medidas para desviar os seus golpes, sem se iludir; o director da Dupla Casa branca e os seus aliados saberiam encontrar outros ângulos de ataque.

 

Assim que o intendente lhe anunciou o nome do visitante, Paser nem queria acreditar. Porém, e apesar do seu espanto, aceitou

 

Seguro de si, vestido à última moda com uma luxuosa túnica de linho demasiado cingida na cintura, Bel-Tran saudou o vizir calorosamente.

 

Trouxe-te uma bilha de vinho branco do ano dois de Séti, pai do nosso ilustre soberano. Uma colheita única! Vais apreciá-lo.

 

Sem ter sido convidado a fazê-lo, Bel-Tran sentou-se em frente de Paser.

 

Soube que estavas doente; nada de grave?

 

Logo deixarei o leito.

 

É verdade que beneficias dos cuidados da melhor médica do reino; este acesso de fadiga, apesar disso, parece-me significativo. O cargo do vizir é quase impossível de suportar.

 

A não ser para quem tem as costas largas, como tu.

 

Circulam muitos rumores na corte; todos sabem que tens muita dificuldade em desempenhar a tua função.

 

Exactamente.

 

Bel-Tran sorriu.

 

Até tenho a certeza de que nunca serei capaz precisou Paser.

 

Caro amigo, para ti essa doença só traz benefícios.

 

Esclarece-me. Uma vez que deténs a arma decisiva, uma vez que estás certo de que vais alcançar o poder supremo, como é que a minha acção pode importunar-te?

 

É só uma picada de mosquito, por isso, é desagradável. Se aceitares obedecer-me e seguir uma vez por todas o caminho do progresso, continuarás a ser vizir. A tua popularidade não é de descurar; elogia-se a tua capacidade de trabalho, a tua rectidão, a tua perspicácia... Ser-me-ias útil, aplicando a minha política.

 

Kani, o sumo-sacerdote de Carnaque não concordará comigo.

 

Tu é que deves enganá-lo! Já que fizeste gorar a minha tentativa de conquista de uma boa parte das terras do templo, deves-me agora isto. Esta economia sagrada é arcaica, Paser; não é preciso travar e regular a produção das riquezas, mas favorecer um crescimento contínuo.

 

Assegurará ela a felicidade dos homens e o equilíbrio dos povos?

 

Isso pouco importa; dá poder a quem a controla.

 

Não paro de pensar no meu mestre Branir.

 

Um homem do passado.

 

Dizem os anuais que nenhum crime ficou impune.

 

Esquece essa história lamentável e preocupa-te com o futuro.

 

Kem não pára de investigar; ele pensa ter identificado o assassino. Bel-Tran manteve o sangue-frio, mas o seu olhar ficou perturbado.

 

A minha hipótese é diferente da do chefe da polícia; hesitei várias vezes em culpar a tua mulher.

 

A Silkis? Mas...

 

Foi ela a mulher que atraiu a atenção do guardião-mor da esfinge para o distrair. Ela obedece-te desde o começo da conspiração; excelente tecelã, sabe manejar a agulha melhor do que ninguém. Nenhuma mulher é mais temível do que uma mulher jovem, dizem os sábios; sinto que ela é capaz de ter assassinado Branir enfiando-lhe uma agulha de madrepérola na nuca.

 

A tua febre é perniciosa.

 

Silkis precisa da tua fortuna, mas tu és seu escravo muito mais do que imaginas. É o mal que vos une.

 

Basta de pensamentos miseráveis! Então, submetes-te?

 

Aventares sequer essa hipótese demonstra, só por si, uma incontestável falta de lucidez.

 

Bel-Tran levantou-se.

 

Não intervenhas contra a Silkis nem contra mim. Para ti e para o teu rei está tudo perdido; o testamento dos deuses está para sempre fora do teu alcance.

 

O vento da tarde anunciava a Primavera; quente, perfumado, trazia de longe a alma do deserto. Todos passavam a deitar-se mais tarde, indo conversar de casa para casa, para se informarem dos acontecimentos do dia. Kem esperou que as últimas candeias se apagassem antes de se aventurar nas vielas que levavam ao cais.

 

O babuíno caminhava a passo lento, virava a cabeça para a direita e para a esquerda, olhava para cima, como se pressentisse perigo. Nervoso, retomava de vez em quando o seu andar normal, e depois apressava bruscamente os passos. O núbio respeitava a mínima reacção do macaco; na escuridão, ele guiava-o.

 

A zona do cais estava silenciosa; havia vigilantes à frente dos entrepostos. Kem e Pernas-curtas tinham combinado um encontro por detrás de uma dependência abandonada, por reconstruir. O denunciante tinha por hábito tratar ali bastantes dos seus negócios ilícitos sobre os quais o núbio aceitava fechar os olhos, em troca de informações que os polícias sedentários não conseguiam obter.

 

Pernas-curtas tinha saído do caminho da verdade desde que nascera; traficante espontâneo, não tinha outro prazer senão roubar o próximo. O pequeno povo de Mênfis não lhe confiava segredos; desde o início da sua investigação, Kem pensava que ele seria o único à procura de uma informação séria sobre o assassino, mas não devia precipitar-se sob pena de esbarrar com um mutismo definitivo.

 

O babuíno imobilizou-se, à escuta. O seu ouvido era bem mais sensível que o de um homem e o trabalho de polícia tinha desenvolvido as suas faculdades de percepção. Umas nuvens encobriram uma primeira fatia da lua; a escuridão instalou-se no entreposto abandonado, desprovido de portas. O macaco retomou a sua caminhada.

 

A boa vontade de Pernas-curtas provinha de um contratempo jurídico; a sua mulher, bem aconselhada, despojara-o da pequena fortuna que ele tinha amealhado, e ele tinha decidido vender o seu bem mais precioso: a identidade do devorador de sombras. O que reclamaria ele em troca? Ouro, o silêncio do chefe da polícia sobre um tráfico mais importante que o normal, um carregamento de jarros de vinho... Kem tentava adivinhar.

 

O babuíno emitiu um suspiro aflitivo. Kem pensou que ele se tinha magoado; um exame rápido bastou-lhe para constatar que se enganava. Matador aceitou continuar e deu a volta ao entreposto.

 

No local do encontro não se encontrava ninguém.

 

Kem sentou-se ao lado do babuíno, muito calmo. Teria Pernas-curtas desistido? O núbio não queria acreditar. O denunciante necessitava de uma ajuda material urgente.

 

A noite caiu.

 

Pouco antes do amanhecer, Matador pegou na mão do seu colega e levou-o para dentro do entreposto. Cestos abandonados, caixas rasgadas, alguns utensílios... O macaco abriu passagem pelo meio daquele caos, parou em frente de um monte de sacos de sementes e emitiu o mesmo suspiro de algumas horas atrás.

 

O chefe da polícia, irritado, afastou os sacos.

 

Encostado a um poste de madeira, Pernas-curtas era bem-vindo ao encontro; com a cabeça esmagada pelo devorador de sombras, não iria identificá-lo.

 

Paser sossegou Kem.

 

Sou responsável pela morte do Pernas-curtas.

 

Claro que não; foi ele que te procurou.

 

Devia tê-lo protegido.

 

De que maneira?

 

Não sei, mas devia...

 

Pára de te atormentares.

 

O devorador de sombras foi informado das intenções do Pernas-curtas, seguiu-o e eliminou-o.

 

Ou então tentou fazer chantagem com ele.

 

Era bastante venal para cometer uma loucura dessas... E a pista está novamente destruída. É evidente que continuarei a proteger-te.

 

Toma as medidas necessárias; amanhã partimos para o Médio-Egipto.

 

A voz de Paser tinha entristecido.

 

Aconteceu alguma coisa?

 

Vários assuntos inquietantes relacionados com os administradores da província.

 

Sobre o quê?

 

Água.

 

Receias...

 

O pior.

 

Néféret tinha conseguido realizar com êxito uma operação delicada: um artesão ainda novo, ferido na cabeça, vértebras cervicais lesadas, contusão na têmpora direita; transportado logo para o hospital, sobreviveria.

 

Esgotada, a jovem médica tinha adormecido numa das salas de repouso. Um dos seus assistentes acordou-a.

 

Sinto muito, mas preciso de ti.

 

Chama outro cirurgião; já não tenho forças para operar.

 

Trata-se de um caso estranho; o teu diagnóstico é indispensável. Néféret levantou-se e seguiu o assistente.

 

A paciente tinha os olhos abertos, mas fixos. Com cerca de quarenta anos, envergava uma túnica luxuosa; mãos e pés tratados provavam que pertencia a uma família abastada.

 

Estava caída numa viela do quarteirão norte explicou o assistente. Os moradores não a conheciam. Parece-se com um doente que acabámos de anestesiar...

 

Néféret ouvia o coração nas artérias, e examinou os olhos da mulher.

 

Esta mulher está drogada concluiu. Introduziu no organismo extracto de dormideira cor-de-rosa, uma substância que só deve ser utilizada no hospital. Vou pedir imediatamente um inquérito.

 

Paser, perante a insistência de sua mulher, tinha atrasado a sua partida para o Médio-Egipto e tinha pedido a Kem para investigar a situação. A mulher estava morta, devido a abuso de droga, sem ter saído de coma.

 

Graças ao macaco, as pessoas logo desataram a língua. A infeliz tinha ido três vezes à viela para se encontrar com um homem, um grego instalado numa bela mansão, vendedor de vasos preciosos. Assim que Kem apareceu em casa do dito grego, o suspeito estava ausente; uma criada convidou o chefe da polícia a instalar-se na sala de espera e trouxe-lhe uma cerveja bem fresca. Tinha ido tratar de um assunto ao cais e, por isso, não devia demorar.

 

Grande, magro, barbudo, o grego deu às de vila-diogo logo que pressentiu o chefe da polícia. Kem não se mexeu, confiante na vigilância do seu colega. De facto, o macaco passou uma rasteira ao fugitivo que se estendeu ao comprido no passeio.

 

Kem levantou-o puxando-lhe pela túnica.

 

Estou inocente!

 

Mataste uma mulher.

 

Só vendo vasos, nada mais.

 

Por um instante, o núbio perguntou a si próprio se o homem não seria o devorador de sombras, mas a personagem pareceu-lhe demasiado fácil de apanhar.

 

Se não falares, serás condenado à morte. A voz do grego gemia.

 

Tem piedade! Sou só um intermediário.

 

A quem compras a droga?

 

A compatriotas que cultivam as plantas na Grécia.

 

Nota: Da planta shepen, a dormideira cor-de-rosa ou a papoila. extraía-se ópio e morfina, utilizados como sedativos e analgésicos. (N do A.)

 

Esses estão longe, mas tu não.

 

Os olhos vermelhos do babuíno garantiam a afirmação do seu colega.

 

Dou-te o nome deles.

 

Dá-me o dos teus clientes.

 

Esses não!

 

A mão peluda de Matador pousou no ombro do grego. Aterrorizado, falou com facilidade, citando funcionários, comerciantes e algumas personagens nobres.

 

Entre elas figurava a senhora Silkis.

 

Na manhã da partida, Paser recebeu um convite de Bel-Tran para um grande banquete onde estariam presentes os principais dignitários da corte, altos funcionários e vários chefes da província. Competia ao director da Dupla Casa branca, no final da cada Inverno, dar uma recepção sumptuosa que o vizir honrava com a sua presença.

 

Ri-se de nós pensou Néféret.

 

Bel-Tran sujeita-se à tradição quando ela lhe serve.

 

Somos obrigados a figurar nesta hipocrisia?

 

Receio bem que sim.

 

A incriminação da senhora Silkis seria um grande escândalo.

 

Vou fazer os possíveis para ser discreto.

 

Já foi interrompido o tráfico de droga?

 

Kem demonstrou uma eficácia perfeita; todos os cúmplices do grego foram presos no cais bem como todos os seus clientes... Com excepção de Silkis.

 

É impossível enfrentá-la, não é?

 

As ameaças de Bel-Tran não me impedirão.

 

O importante é ter acabado com este pesadelo; de que te servia agora prender a mulher de Bel-Tran?

 

Debaixo da tamargueira, onde conversavam, Paser abraçou Néféret.

 

É preciso fazer justiça.

 

O momento em que se termina um acto não será tão importante como o próprio acto?

 

Recomendar-me-ias esperar? Os dias e as semanas passam, a abdicação do Faraó aproxima-se.
146 Até ao último segundo, devemos lutar com lucidez.

 

As trevas são tão duras! Às vezes, eu... Tocou com o indicador nos lábios dele.

 

Um vizir do Egipto nunca renuncia.

 

Paser gostava da paisagem do Médio-Egipto, as falésias brancas ladeando o Nilo, as vastas planícies esverdeadas e as colinas claras onde os nobres tinham feito construir as suas mansões eternas. A região não possuía o carácter altivo de Mênfis nem o esplendor solar de Tebas, mas conservava os segredos de uma alma rústica, concentrada nas explorações de média envergadura que geravam famílias orgulhosas das suas tradições.

 

O polícia-babuíno, durante a viagem, não tinha detectado qualquer perigo; cada vez mais doce, o ar primaveril parecia encantá-lo, sem diminuir a perspicácia do seu olhar.

 

A província de Orix orgulhava-se da gestão da sua água; há séculos que assegurava a subsistência dos seus habitantes, afastava o fantasma da fome e não estabelecia distinção entre o grande e o pequeno. Nos anos de fraca cheia, os depósitos de armazenamento, construídos com apreciável arte, chegavam para irrigar as propriedades. Canais, eclusas e diques eram vigiados permanentemente por especialistas meticulosos, sobretudo durante o período crucial que se seguia ao abaixamento das águas da cheia; muitos campos permaneciam inundados, absorvendo o precioso lodo que justificava a qualificação de ”terra negra” atribuída ao Egipto. Empoleiradas no cimo das colinas, as aldeias animavam-se cantando em honra da energia fecundante escondida no rio.

 

De dez em dez dias, o vizir recebia um relatório detalhado sobre as reservas de água do país. Geralmente, sem advertir as autoridades locais, deslocava-se até ao local para inspeccionar os trabalhos. Dirigindo-se à capital da província de Orix, Paser ficou sossegado; diques em excelente estado, reservatórios ao longo do caminho e pessoal a limpar os canais ofereciam um espectáculo tranquilizador.

 

A chegada do vizir gerou uma alegria transbordante; todos queriam ver a ilustre personagem, contar-lhe as suas queixas, exigir mais justiça. Não havia agressividade nas propostas; a estima e a confiança da população comoveram Paser no mais fundo do seu íntimo e encheram-no de uma força renovada. Para aqueles seres, ele devia salvaguardar o país e impedir a decomposição do reino. Suplicava ao céu, ao Nilo e à terra fecundada, implorava aos mestres poderosos para lhe abrirem o espírito para poder salvar o Faraó.

 

O chefe da província tinha reunido na sua bela casa branca os seus principais colaboradores: o vigilante dos diques, o dos canais, o distribuidor da água armazenada, o geómetra público e o recortador de trabalhadores temporários; todos ostentavam um semblante entristecido. Inclinaram-se perante Paser, a quem o chefe da província, um sexagenário folião com uma barriga avantajada, cedeu o seu lugar e presidência da assembleia; herdeiro de uma grande geração, chamava-se laú, ”o boi gordo”.

 

Esta visita é uma honra para mim disse ele e para a minha província.

 

Fui alertado por umas informações; foste tu que as deste?

 

A brutalidade da pergunta surpreendeu o notável, mas não o chocou; os vizires, sobrecarregados com trabalho, não se deixavam intimidar com mundanidades.

 

Fui eu que as enviei.

 

Muitas províncias são vítimas dos mesmos problemas; se escolhi a tua, é por causa do seu comportamento exemplar durante muitas dinastias.

 

Eu também vou ser directo! Já não entendemos as directivas do poder central lamentou-se laú. Geralmente, sou livre de gerir a minha província, mas exigem-me resultados que nunca decepcionaram o Faraó. Porém, desde que as águas deixaram de subir, temos tido ordens para agir contra a razão!

 

Explica-te.

 

O nosso geómetra público, como faz todos os anos, calculou a cubagem de terra a deslocar e a amontoar para tornar os diques impermeáveis; os números dele foram revistos no abaixamento! Se aceitarmos a rectificação, os diques deixarão de ser resistentes e serão destruídos pelo impulso da corrente.

 

Quem emana essa vontade de correcção?

 

O serviço geral de arpentagem de Mênfis. Mas não é tudo! O nosso recrutador de trabalhadores temporários sabe bem o número de homens de que precisa para efectuar a manutenção sempre que é necessário reparar e colmatar os diques. E agora o serviço recusa-lhe metade desses homens, sem justificação. Mais grave ainda: a utilização dos depósitos submersos. Quem respeita melhor do que nós o tempo de passagem da água de um depósito a montante para um depósito a jusante, de acordo com o ritmo próprio das diversas espécies a cultivar? Mas os serviços técnicos da Dupla Casa branca querem impôr-nos agora datas incompatíveis com as exigências da natureza. E já para não falar do aumento dos impostos que vai resultar do da produção! O que se passa nos cérebros dos funcionários de Mênfis, isso é que eu gostava de saber?

 

Mostrem-me esses documentos exigiu Paser.

 

O chefe da província mandou trazer os papiros. Os signatários tanto pertenciam à Dupla Casa branca como aos serviços que Bel-Tran controlava mais ou menos directamente.

 

Dêem-me alguma coisa para escrever.

 

Um escriba apresentou ao vizir um pequeno tabuleiro com tinta fresca e um cálamo. Com a sua escrita rápida e precisa, Paser anulou as directivas e assinou.

 

Estes erros administrativos estão corrigidos anunciou não liguem a estas ordens caducadas e sigam os procedimentos habituais.

 

Espantados, os administradores da província aconselharam-se entreolhando-se; era a vez de laú intervir.

 

Devemos compreender que...

 

Somente as directivas com esta minha nova assinatura terão valor executório.

 

Maravilhados com a rapidez desta intervenção inesperada, os administradores saudaram o vizir e, alegres, ocuparam-se do seu trabalho. Só o chefe da província conservou um ar preocupado.

 

Terias outros problemas para tratar?

 

A tua atitude não implica uma espécie de guerra aberta contra Bel-Tran?

 

Um dos meus ministros pode enganar-se.

 

Nesse caso, porquê mantê-lo no cargo?

 

Paser receava esta pergunta. Até agora, as disputas tinham-se mantido discretas; mas o assunto da água lançava publicamente divergências graves entre o vizir e o director da Dupla Casa branca.

 

Bel-Tran possui uma grande capacidade de trabalho.

 

Sabes que ele empreende negociações junto dos chefes da província para os convencer da virtude da sua política? Eu, como os meus colegas, coloco a questão: quem é o vizir, ele ou tu?

 

Acabas de ter a resposta.

 

Ela tranquiliza-me... Não gostei das propostas dele.

 

Quais?

 

Um posto importante em Mênfis, vantagens materiais aliciantes, menos problemas...

 

Porquê recusar?

 

Porque estou satisfeito com aquilo que possuo; Bel-Tran não admite que a ambição seja limitada. Amo esta região e detesto as grandes cidades. Aqui as pessoas respeitam-me; em Mênfis, sou um desconhecido.

 

Então, confrontaste-o com uma recusa.

 

Aquela personagem assusta-me, confesso: também preferi fazer-me de hesitante. Mas outros chefes de província aceitaram prestar-lhe auxílio, como se tu não existisses. Não estarás a correr o risco de ele se voltar contra ti?

 

Se isso acontecer, compete-me a mim corrigir o meu erro. laú não escondeu a sua inquietação.

 

Ouvindo-te falar, julgo que o país se arrisca a passar por algumas horas difíceis. Uma vez que preservaste a integridade da minha província, defender-te-ei.

 

Kem e o macaco estavam sentados no caminho que conduzia à bela mansão; o babuíno comia tâmaras, o polícia observava o que se passava na rua, obcecado com o devorador de sombras e convencido de que o homem das trevas pensava nele com a mesma intensidade.

 

Quando o vizir reapareceu, o núbio levantou-se.

 

Corre tudo bem?

 

Ainda uma catástrofe pouco precisa; devemos inspeccionar mais outras províncias.

 

laú voltou a encontrar Paser e Kem no caminho do cais.

 

Um pormenor de que me esqueci... Foste tu que me mandaste um verificador para a água potável?

 

Claro que não. Descreve-mo.

 

Sessenta anos, estatura média, cabeça vermelha e careca, que ele não pára de coçar, irrita-se com muita facilidade, voz fanhosa, tom áspero.

 

Mentmosé murmurou o núbio.

 

Como se comportou ele?

 

Uma visita banal de inspecção.

 

Leva-me aos reservatórios.

 

A melhor água potável era colhida alguns dias depois da cheia; repleta de sais minerais, regulava a actividade intestinal e favorecia a fecundidade das mulheres. Turva e lodosa, era filtrada, armazenada em grandes ânforas que a conservavam nas melhores condições durante quatro ou cinco anos. A província de Orix exportava por vezes para o sul, nos anos muito quentes.

 

laú mandou abrir o reservatório principal, fechado com pesados ferrolhos de madeira. Ficou sem respiração quando descobriu o desastre: as rolhas das ânforas tinham sido retiradas e a água tinha-se espalhado pelo chão.

 

Como é que uma mulher podia ser assim tão bela? interrogava-se Paser, contemplando Néféret, arranjada para o banquete organizado por Bel-Tran. A médica-chefe do reino levava a gargantilha com sete fiadas de pérolas de coralina enfeitadas a ouro da Núbia que a rainha mãe lhe tinha oferecido; ocultava a turquesa, presente do seu mestre Branir, para afastar as forças nocivas. A sua cabeleira de tranças finas e mechas em espiral evidenciava a sua face muito pura e a tez clara e resplandecente; outras fiadas de pérolas pequeninas ornamentavam os seus punhos e tornozelos; um cinto de ametista, presente de Paser, sublinhava a sua cintura estreita.

 

Devias começar a vestir-te observou ela.

 

Vou ler mais um relatório.

 

Sobre os reservatórios de água potável?

 

Mentmosé destruiu cerca de uma dezena; os outros agora estão protegidos. Os arautos reclamam a identificação deste bandido; ou então cairá nas mãos da polícia ou será obrigado a isolar-se.

 

Quantos chefes de polícia foram comprados por Bel-Tran?

 

Um terço, talvez, mas os trabalhos de manutenção dos diques serão correctamente efectuados. Dei ordens nesse sentido, com interdição de reduzir os efectivos.

 

Ela sentou-se sobre os seus joelhos, levemente, para o impedir de trabalhar.

 

Agora tens mesmo de vestir uma tanga de gala, pores uma cabeleira clássica e uma gargantilha digna da tua posição.

 

Kem, enquanto chefe da polícia, tinha recebido um convite. Muito pouco à vontade neste tipo de recepção, o núbio levava apenas o punhal com cabo de electro, decorado com rosinhas embutidas em lápis-lazúli e feldspato verde. Refugiado num canto da grande sala de colunas onde Bel-Tran e Silkis recebiam os convidados, vigiava o vizir, rodeado de muitas personalidades. O macaco tinha-se colocado no telhado da casa, de onde observava tudo à sua volta.

 

Grinaldas de flores contornavam as colunas; a nobreza de Mênfis envergava trajos deslumbrantes; gansos assados e carnes grelhadas eram servidos em travessas de prata e os melhores vinhos em taças importadas da Grécia. Alguns convivas estavam sentados em almofadas, outros em cadeiras. Um grupo de criados mudavam com frequência os pratos de alabastro.

 

O vizir e a sua esposa presidiam numa mesa de oferendas bem guarnecida; os criados lavaram-lhes as mãos com água perfumada e puseram-lhes à volta do pescoço um colar de centáureas azuis. Cada convidada recebeu uma flor de lótus que fixou na cabeleira.

 

Tocadores de harpa e de alaúde, e dançarinas de tamborim encantaram a assistência; Bel-Tran tinha pago às melhores profissionais da cidade, exigindo delas melodias inéditas que os amadores apreciariam merecidamente.

 

Um cortesão muito velho, incapaz de se deslocar, beneficiava de uma confortável cadeira com um buraco que lhe permitia participar nesta noite festiva. Um criado retirava o recipiente em terracota, colocado por baixo do assento, depois de utilizado, e substituía-o por outro, cheio de areia perfumada.

 

O cozinheiro de Bel-Tran era um artista especializado em ervas aromáticas; tinha conseguido juntar o gosto do rosmaninho, dos cominhos, da sálvia, do funcho e da canela, que era considerada ”verdadeiramente nobre”. Os gastrónomos felicitavam-se mutuamente enquanto as conversas avançavam depressa em relação à generosidade do director da Dupla Casa branca.

 

Bel-Tran levantou-se e pediu silêncio.

 

Caros amigos, nesta magnífica noite que a vossa presença torna ainda mais maravilhosa, gostaria de prestar uma homenagem àquele de que todos nós respeitamos a autoridade benevolente, o vizir Paser.

 

O vizirato é uma instituição sagrada; através dela se manifesta a vontade do Faraó. Apesar de jovem, o nosso caro Paser é a prova de uma maturidade notável e surpreendente; soube fazer-se amar pela população, tomar decisões rápidas e trabalhar dia a dia para preservar a grandeza do nosso país. Em vosso nome, e a título de homenagem, que este modesto objecto lhe seja oferecido.

 

O intendente colocou no chão, à frente de Paser, uma taça azul revestida a esmalte, cujo fundo estava decorado com uma flor de lótus de quatro pétalas.

 

Agradeço-vos sentidamente disse Paser e permitam-me dar esta obra de arte ao templo de Ptah, deus dos artesãos. Quem poderia esquecer que os templos têm o dever de reunir as riquezas e de as redistribuir em função das necessidades da população? Quem ousaria diminuir o seu papel sem prejudicar a harmonia e destruir o equilíbrio criado desde a primeira das nossas dinastias? Se estes alimentos são suculentos, se esta terra é fértil, se a nossa hierarquia se baseia nos deveres do homem e não nos seus direitos, é porque Maât, a eterna regra da vida, é nossa guia. Quem a trair, quem a ofender, é um criminoso a quem não deve ser concedida indulgência. Enquanto o sentido da justiça for o nosso valor supremo, o Egipto viverá em paz e celebrará festas.

 

As palavras do vizir entusiasmaram uma parte da assistência e esmoreceram outra. Quando as discussões recomeçaram, as facções atacaram-se silenciosamente, fosse para elogiar a intervenção do vizir, fosse para a criticar. Seria uma recepção o cenário apropriado para este género de declaração? Durante o breve discurso do vizir, a cara de Bel-Tran tinha-se contraído e o seu sorriso crispado não tinha iludido ninguém. Pois não se falava de divergência profunda de opinião entre o chefe do governo e o seu ministro da economia? Mas, devido aos rumores contraditórios, não era fácil distinguir o verdadeiro do falso.

 

Terminada a refeição, os convivas retomaram o ar fresco dos jardins. Kem foi alvo de atenções a dobrar, seguido de Matador-, o vizir ouvia as queixas de alguns altos funcionários que se lamentavam, com toda a razão, da lentidão da administração. Bel-Tran, num falatório interminável, rodeava um grupo de cortesãos atentos.

 

Silkis aproximou-se de Néféret.

 

Há tanto tempo que desejava falar contigo; finalmente esta noite consegui.

 

Estarias tu a pensar divorciar-te?

 

Amo tanto Bel-Tran! É um marido maravilhoso. Se eu intervier a teu favor, será evitado o pior.

 

Que queres dizer com essa palavra?

 

Bel-Tran sente uma estima verdadeira por Paser; por que razão o teu marido não se mostra mais razoável? Os dois juntos fariam um excelente trabalho.

 

O vizir não pensa assim.

 

Está errado; convence-o a mudar de opinião, Néféret! Silkis falava num tom ingénuo e adocicado, como uma criança.

 

Paser não se deixa iludir.

 

Resta tão pouco tempo... Em breve será demasiado tarde. Não será a obstinação do vizir má conselheira?

 

O compromisso seria bem pior.

 

Chegar ao posto de médica-chefe não foi fácil; porquê arruinares a tua carreira?

 

Curar doenças não é uma carreira.

 

Nesse caso, não recusarás tratar-me.

 

Não estou a pensar nisso.

 

Um médico não pode escolher os seus doentes!

 

Mas nestas circunstâncias pode.

 

De que me acusas?

 

Ousarias afirmar que não és uma criminosa? A senhora Silkis afastou-se.

 

Não percebo... acusares-me...

 

Alivia a tua consciência. Confessa; não há remédio melhor.

 

De que seria eu responsável?

 

No mínimo de teres consumido droga.

 

Silkis fechou os olhos e escondeu a cara com as mãos.

 

Pára de proferir essas monstruosidades!

 

O vizir possui provas da tua culpa.

 

Atormentada por uma crise de nervos, Silkis correu a refugiar-se nos seus aposentos. Néféret voltou para junto de Paser.

 

Creio ter sido desajeitada.

 

Depois da reacção da tua interlocutora, estou convencido do contrário.

 

Bel-Tran interveio irritado.

 

O que se passou? Tu...

 

O olhar de Néféret petrificou o director da Dupla Casa branca. Não havia ódio, nem violência, mas uma luz que penetrava a criatura. Bel-Tran sentia-se posto a descoberto, despojado das suas mentiras, dos seus artifícios e das suas artimanhas; a sua alma ardia, um espasmo abalou-lhe o peito. Perturbado, interrompeu o combate e deixou a grande sala de colunas.

 

A recepção tinha terminado.

 

Não serás tu uma mágica? perguntou Paser à sua mulher.

 

Sem magia, como lutar contra a doença?

 

Na verdade, Bel-Tran contemplou-se a si próprio e o que descobriu não parece tê-lo divertido.

 

A suavidade da noite encantou-os; durante instantes, esqueceram-se de que o decorrer do tempo jogava contra eles. Puseram-se a sonhar que o Egipto nunca iria mudar, que o aroma do jasmim perfumaria para sempre os seus jardins, que a cheia do Nilo alimentaria para sempre um povo unido pelo amor do seu rei.

 

Uma figura frágil saiu de um bosque e cortou-lhes o caminho. A mulher deu um grito de terror. Com um salto prodigioso, Matador tinha saltado do telhado e aterrado entre ela e o casal, imobilizando-a no mesmo lugar. De boca aberta, narinas dilatadas, estava prestes a atacar.

 

Não o deixes fazer-me mal, suplico-te!

 

A Senhora Tapeni! exclamou Paser, colocando a mão direita no ombro de Matador, que voltou a juntar-se a Kem.

 

Que estranha forma de me abordares... corres um certo risco. A bela e frágil morena tremeu durante alguns segundos.

 

Tenho de te revistar declarou o núbio.

 

Chega-te para trás!

 

Se recusares, peço ao Matador para o fazer no meu lugar. Tapeni cedeu. Paser achava que o sacerdote que lhe tinha posto o nome de ”ratinha” tinha revelado bem a sua verdadeira natureza: vivacidade, nervosismo, astúcia.

 

Kem esperava encontrar uma agulha de madrepérola, a prova da sua vontade de agredir o vizir e da sua culpa no assassinato de Branir. No entanto, a tecelã não tinha nem a arma nem o instrumento.

 

Querias falar comigo?

 

Não tarda, não interrogarás mais ninguém.

 

Em que se baseia essa tua profecia?

 

A linda morena mordeu os lábios.

 

Mais uma vez, Tapeni, falaste de mais ou não o suficiente.

 

Ninguém aprova o teu rigor, neste país. O rei será obrigado a expulsar-te.

 

Cabe a Sua Majestade decidir, de facto. Já acabaste a conversa?

 

Ouvi dizer que o Suti fugiu da fortaleza onde cumpria a sua pena de exílio.

 

Estás bem informada.

 

Não penses que ele vai voltar!

 

Tornarei a vê-lo vivo... e tu também.

 

Ninguém escapa ao isolamento da Núbia. Ele morrerá de sede.

 

A lei do deserto já lhe foi favorável. O Suti sobreviverá e acertará as suas contas.

 

Isso é contra a justiça!

 

Lamento, mas como controlá-lo?

 

Deves garantir a minha segurança.

 

Como a de todos os habitantes do país.

 

Manda procurar o Suti e prende-o.

 

No deserto da Núbia? Impossível. Sejamos pacientes e esperemos que ele se manifeste. A continuação de uma noite agradável, Tapeni.

 

Escondido atrás do tronco enorme de um sicómoro, o devorador de sombras viu passar o vizir, a sua mulher, Kem e o seu maldito babuíno com as orelhas à escuta.

 

Depois do seu recente contratempo, o assassino tinha tido vontade de tentar um acto de violência durante a recepção. Mas o núbio vigiava o interior e o macaco o exterior. Não iria ele estragar vários anos de sucesso, num simples acesso de vaidade, só para provar que ninguém, nem mesmo um vizir, lhe escapavam?

 

Devia manter o sangue-frio. Depois de ter esmagado a cabeça a Pernas-curtas, chantagista medíocre que tinha cometido o erro de o enganar, o devorador de sombras sentira as suas mãos tremer pela primeira vez. Matador não o impressionava mais do que dantes, mas não conseguir eliminar Paser horrorizava-o. Teria alguma força estranha a protegê-lo? Não, tratava-se tão só de um polícia núbio e de um babuíno de inteligência arguta.

 

O devorador de sombras ganharia o combate mais renhido da sua carreira.

 

Suti apalpou os lábios, as faces, a testa, mas não reconheceu os traços da sua fisionomia. Agora era só uma massa dilatada e dolorosa; as pálpebras inchadas impediam-no de ver. Estendido numa maca transportada por seis núbios corpulentos, não chegou a mexer as pernas.

 

Estás aí?

 

Claro respondeu a Pantera.

 

Então mata-me.

 

Vais sobreviver; mais alguns dias e o veneno dissipa-se. Quando começares a falar, o teu sangue circulará outra vez. O velho guerreiro negro não percebe como o teu organismo resistiu.

 

As minhas pernas... Estou paralítico!

 

Não, estás amarrado. As convulsões incomodavam os carregadores. Eram sem dúvida pesadelos. Sonhavas com a senhora Tapeni?

 

Estava num mar de luz onde ninguém me importunava.

 

Merecias ser abandonado à beira do caminho.

 

Há quanto tempo estou inconsciente?

 

O sol ergueu-se três vezes.

 

Avançámos muito?

 

Caminhamos em direcção ao nosso ouro.

 

Não há soldados egípcios?

 

Ninguém à vista, mas aproximamo-nos da fronteira; os núbios estão a ficar nervosos.

 

Eu volto a assumir o comando.

 

No teu estado?

 

Desprende-me.

 

Sabes que és detestável? Pantera ajudou Suti a pôr-se de pé.

 

Como é bom sentir a terra! Rápido, um pau.

 

Apoiado a uma cana grossa, Suti marchou à frente do clã. O seu orgulho deixava Pantera fascinada.

 

O bando passou a oeste de Elefantina e do posto fronteiriço da primeira província do sul. Alguns guerreiros isolados tinham-se juntado durante a lenta subida em direcção ao norte. Suti confiava nos seus combatentes arrojados e experientes. Se voltassem a encontrar polícias do deserto não hesitariam em atacá-los.

 

Os núbios seguiam a deusa loira. Carregados de ouro, sonhavam com conquistas e vitórias, guiados pelo egípcio, mais forte do que um escorpião. Transpuseram uma barreira de granito tomando atalhos estreitos, caminharam pelo leito de um rio seco, mataram um animal para se alimentarem, beberam com parcimónia e continuaram sem se queixarem.

 

O rosto de Suti tinha adquirido de novo a sua beleza e o herói a sua alegria. Primeiro a levantar-se, último a deitar-se, alimentava-se do ar do deserto e mantinha-se infatigável. Pantera amava-o ainda mais; o jovem tinha a estatura de um autêntico chefe guerreiro cujas palavras se impunham e as decisões não se discutiam.

 

Os núbios tinham-lhe feito vários arcos de tamanhos diversos que utilizou para matar antílopes e um leão. Com um instinto muito seguro, como se tivesse percorrido durante toda a vida os caminhos inexploráveis, conduziu o seu pequeno exército até junto da água.

 

Um grupo de polícias vem nesta direcção avisou um guerreiro negro.

 

Suti identificou-os imediatamente: ”os de olho perspicaz” percorriam o deserto para assegurar a segurança das caravanas e para prender os larápios dos beduínos. Geralmente, não se aventuravam por aquelas paragens.

 

Ataquemo-los recomendou Pantera.

 

Não replicou Suti. Escondamo-nos e deixemo-los afastarem-se.

 

Os núbios esconderam-se num monte rochoso por onde passaram os polícias; os cães, sequiosos e fatigados, não deram pela sua presença. No fim da missão, o grupo dirigiu-se para o vale.

 

Tê-los-íamos exterminado sem dificuldade resmungou Pantera, deitada ao lado de Suti.

 

Se eles não tivessem voltado, o posto de Elefantina teria dado o alerta.

 

Tu não queres matar egípcios... mas eu sonho com isso! E tu, o pária, estás à frente dos núbios dissidentes cujo único ofício é a guerra. Não tarda terás de lutar; faz parte da tua natureza, Suti, e não podes evitá-lo.

 

A mão da Pantera acariciou o tronco do seu amante; dissimulados pelos dois blocos de granito, esquecidos do perigo, abraçaram-se no calor do monte. Coberta de jóias de ouro da cidade perdida, a pele curtida e queimada, a líbia fazia do seu corpo uma lira e cantava uma melodia calorosa de que Suti saboreava cada nota.

 

É ali disse a Pantera reconheço a paisagem. A líbia apertou o pulso de Suti até quase o partir.

 

O nosso ouro está ali, naquela caverna. Para mim, é muito mais precioso do que qualquer outra coisa. Mataste um general egípcio para te apoderares do ouro dele.

 

Já não precisamos dele.

 

Pelo contrário! Com ele serás o senhor do ouro.

 

Suti não conseguia tirar os olhos da gruta onde tinha escondido o tesouro de um general traidor, que a lei do deserto tinha condenado à morte. Pantera tinha tido razão em arrastá-lo até ali; recusar aquele episódio da sua vida e deixá-lo no esquecimento teria sido uma infâmia. Como o seu amigo Paser, Suti estava apaixonado pela justiça; se o seu braço não tivesse ferido o fugitivo, ela não teria sido feita. O céu tinha-lhe concedido o ouro do traidor, destinado a comprar a sua tranquilidade ao líbio Adafi.

 

Anda, exigiu ela, anda contemplar o nosso futuro.

 

Ela avançou, soberba. A gargantilha e as pulseiras reflectiam o sol quase a ponto de cegarem. Os núbios ajoelharam-se, fascinados pela marcha lenta da sua deusa de ouro em direcção ao santuário que só ela conhecia. Se ela os tinha conduzido até tão longe em território Egípcio, era para aumentar o seu poder mágico e torná-los invencíveis. Quando entrou na gruta com Suti, os negros cantaram a melopeia inesquecível saudando o regresso da noiva longínqua, prestes a celebrar as bodas com a alma do seu povo.

 

Pantera estava convencida de que este acto de posse consolidava o seu destino ao uni-lo com o de Suti. O instante presente seria portador de mil e um destinos de cores cintilantes.

 

Suti revivia a morte do general Asher, o assassino desprezível, convencido de que ia escapar ao tribunal do vizir e viver uma velhice feliz na Líbia, onde teria incitado distúrbios contra o Egipto. O jovem não se arrependia do que tinha feito; nele estava inscrita a rectidão dos espaços áridos onde não passava a mentira.

 

A gruta pareceu-lhe fresca. Os morcegos, incomodados, esvoaçaram por todo o lado até se pendurarem de novo das paredes, com a cabeça para baixo.

 

Era mesmo aqui lamentou a Pantera mas onde é que está o carrinho?

 

Avancemos.

 

É inútil. Lembro-me do sítio exacto onde o tínhamos escondido. Suti procurou, em vão, no esconderijo mais pequeno. A gruta estava vazia.

 

Quem poderá ter sabido... quem se atreveu...

 

Doida de raiva, Pantera arrancou a gargantilha de ouro e desfê-la em pedaços contra a rocha.

 

Vamos revistar esta caverna miserável! Suti apanhou um pedaço de pano.

 

Olha isto.

 

Ela inclinou-se sobre a descoberta.

 

Lã colorida indicou ele, os ladrões não são demónios da noite, são corredores da areia. Quando tiraram o carrinho, um ou dois deles rasgaram a túnica numa saliência da parede.

 

Pantera voltou a ter esperança.

 

Vamos procurá-los.

 

É inútil.

 

Não vou desistir.

 

Eu também não.

 

O que achas?

 

Ficamos aqui à espera, com paciência. Eles voltam.

 

Como podes estar tão certo?

 

Com a pressa de explorarmos as grutas, esquecemo-nos do cadáver.

 

O Asher está bem morto.

 

O esqueleto dele deveria ter ficado no sítio onde o matei.

 

O vento...

 

Não. Os amigos dele levaram-no. E esperam-nos, para se vingarem.

 

Caímos numa armadilha?

 

As sentinelas viram-nos chegar.

 

E se não tivéssemos voltado?

 

É pouco provável. Durante vários anos, eles teriam ficado no seu posto, enquanto não tivessem a certeza de que estávamos mortos. Terias procedido de outra forma se tivesses sido aliada do general? É essencial que nos identifiquem e um prazer que nos eliminem.

 

Lutaremos.

 

Desde que nos deixem preparar a defesa. Levaram até o meu arco... Ficarão encantados se me matarem com a minha própria flecha.

 

De peito nu, seios firmes, esplêndidos, entregues ao sol, Pantera discursou para os seus amigos. Explicou-lhes que os corredores da areia tinham saqueado e roubado o santuário da deusa do ouro. Parecia inevitável enfrentá-los e ela sabia que Suti não os deixaria ficar mal.

 

Ninguém protestou, nem mesmo o velho guerreiro. A ideia de fazer a areia beber o sangue dos beduínos deixava-o rejuvenescido. Os núbios provariam o seu valor. Frente a frente ninguém os igualava.

 

Apesar se dar por convencido, Suti, ex-tenente da cavalaria, construiu um verdadeiro campo entrincheirado com blocos atrás dos quais os guerreiros núbios estariam protegidos. Na gruta armazenaram os odres cheios de água, a comida e as armas. A uma certa distância da sua posição, cavaram buracos, distribuídos de forma irregular.

 

E esperaram.

 

Suti saboreou este tempo estático, atento aos cânticos secretos do deserto, aos seus movimentos invisíveis e à conversa do vento. Sentado numa rocha como um escriba, como se fizesse parte dela, mal dava pelo calor. Receava menos o barulho das armas do que o barulho e a agitação da cidade. Ali, o mínimo gesto devia estar em harmonia com o silêncio para poder trazer até aos seus ouvidos os passos dos nómadas. Apesar de Paser o ter abandonado, ele teria gostado de o ter ao seu lado, de partilhar com ele aquele momento que poria fim ao crime. Sem dizer nada, sentir-se-iam menos sós, com o olhar perdido no horizonte ocre, devorador do efémero.

 

Felina, Pantera abraçou-o pelas costas. Doce como um perfume de Primavera, acariciou-lhe a cabeça.

 

E se estivesses enganado?

 

Não havia problema.

 

Talvez o suficiente para estes saqueadores terem roubado o nosso ouro.

 

Interrompemos um tráfico. Não basta recuperar a mercadoria. Eles devem identificar-nos.

 

Por causa do calor e seguindo a tradição, os núbios e os egípcios, fora da cidade, andavam nus. Pantera não deixava de admirar o corpo magnífico do amante que também admirava o dela. A pele morena não temia o sol e encorajava o desejo. Todos os dias a deusa loura mudava de jóias; o ouro embelezava todas as suas curvas e deixava-a acessível só para Suti.

 

Tu combates os líbios, se eles estiverem do lado dos corredores da areia.

 

Matarei os ladrões.

 

O beijo deles foi digno da imensidade, os seus corpos unidos rolaram pela areia fina que uma brisa do norte levantava.

 

O velho guerreiro chamou a atenção de Suti para o facto de o moço de fretes ainda não ter voltado com a água.

 

Quando é que ele partiu?

 

Quando o sol apareceu por cima da gruta. Agora, pela sua posição no céu, ele já deveria ter regressado.

 

Podia não haver água.

 

O poço ia dar-nos de beber durante várias semanas.

 

Confiavas nele?

 

Era meu primo.

 

Ataque de leão...

 

As feras bebem à noite. Ele sabia evitar o ataque.

 

Vamos procurá-lo?

 

Se não voltar antes do entardecer é porque o mataram.

 

As horas passaram. Os núbios já não cantavam. Imóveis, olhavam na direcção do poço de água, por onde o companheiro deveria ter aparecido.

 

O astro do dia tombou, mergulhou na montanha do ocidente e desceu pela barca da noite para percorrer os espaços subterrâneos onde enfrentaria o enorme dragão que tentaria absorver a água do universo e secar o Nilo.

 

O caminho continuou vazio.

 

Mataram-no afirmou o velho guerreiro.

 

Suti fez redobrar a vigilância. Talvez os agressores se aproximassem da gruta. Se fossem exploradores do deserto não hesitariam em violar as leis da guerra e atacar de noite.

 

Sentado de frente para o deserto, perguntava a si mesmo, sem angústia, se não estaria a viver as últimas horas da sua vida. Seriam elas um sinal da serena gravidade das rochas esquecidas ou do furor de um último combate?

 

Pantera enroscou-se nele.

 

Sentes-te pronto?

 

Tanto como tu.

 

Não queiras morrer sem mim. Transporemos juntos a porta do além. Mas antes de tudo, seremos ricos e viveremos como reis; se a tua vontade for forte, conseguiremos. Sê um chefe, Suti, não desperdices a tua energia.

 

Como ele não respondesse, Pantera respeitou o seu silêncio e também adormeceu.

 

O ar frio acordou Suti. O deserto estava cinzento, com uma luz matinal que transparecia espessa por entre o nevoeiro. Pantera abriu os olhos.

 

Aquece-me.

 

Ele abraçou-a, mas afastou-se bruscamente com os olhos fixos no além.

 

A postos ordenou aos núbios.

 

Do nevoeiro emergiam dezenas de soldados e carros.

 

Com os cabelos compridos, a barba mal aparada, um pano enrolado na cabeça, uma túnica grande com riscas coloridas, os corredores da areia permaneciam unidos, ao lado uns dos outros. Alguns, esfomeados, tinham as clavículas salientes, os ombros cavados e as costelas visíveis; pelas costas arqueadas, caíam tranças enroladas.

 

Manejando os arcos em simultâneo, fizeram um primeiro lançamento de flechas que não atingiu nenhum núbio. Como Suti tinha dado ordem de não ripostar, os beduínos encheram-se de coragem e aproximaram-se em grande gritaria.

 

Os arqueiros núbios mostraram-se à altura da sua reputação; nem um falhou o alvo. Além disso, a sua cadência de tiro foi rápida e constante; de um para dez, restabeleceram logo o equilíbrio. Os sobreviventes recuaram, dando lugar aos carros ligeiros, feitos de correias de couro entrecruzadas e cobertas de peles de hiena; por fora, a figura agressiva de uma divindade a cavalo. Um homem segurava as rédeas, um outro uma lança. Ambos tinham uma barbicha e a pele acobreada.

 

Líbios observou Suti.

 

É impossível objectou a Pantera, mortificada.

 

Líbios associados aos corredores da areia. Lembra-te do que prometeste.

 

Eu falo com eles. Não me vão atacar.

 

Enganas-te.

 

Deixa-me tentar.

 

Não corras esse risco.

 

Os cavalos campeavam. Cada soldado, de lança em riste, erguia um escudo à altura do peito; chegando perto do adversário, atiraria a sua lança.

 

A líbia levantou-se e saiu do abrigo. Atravessou a linha dos blocos e deu alguns passos na extensão plana que a separava dos carros.

 

Deita-te gritou Suti.

 

Uma lança era arremessada, potente e exacta.

 

A flecha de Suti atravessou a garganta do lançador, sem que o seu gesto terminasse. Atirando-se de lado, Pantera tinha evitado o golpe fatal. Rastejou para voltar à gruta.

 

Os assaltantes atacaram enquanto os núbios, furiosos por causa da agressão à sua deusa de ouro, dispararam flechas, umas as seguir às outras.

 

Os condutores dos carros viram demasiado tarde os buracos feitos na areia; alguns evitaram-nos, outros voltaram para trás, mas a maioria caiu na armadilha. As rodas deslocaram-se, as caixas partiram-se, os ocupantes foram atirados ao chão. Os núbios lançaram-se sobre eles e não lhes deram tréguas; do campo de batalha tornaram a levar cavalos e lanças.

 

No fim do primeiro combate, Suti só tinha perdido três núbios e infligido perdas elevadas à aliança formada por beduínos e líbios. Os vencedores aclamaram a deusa de ouro e o velho guerreiro compôs um cântico em sua honra. Apesar da ausência do vinho de palma, a embriaguez dominava os espíritos. Suti teve mesmo de elevar a voz para impedir que os soldados abandonassem as suas posições. Cada um desejava exterminar sozinho o que restava do inimigo.

 

Um carro pintado de vermelho surgiu de uma nuvem de poeira. Um homem desarmado desceu, com os braços pendentes. Altivo, tinha uma cabeça curiosamente quadrada, desproporcionada em relação ao corpo. A voz rouca ouvia-se ao longe.

 

Quero falar com o vosso chefe. Suti apareceu.

 

Estou aqui.

 

Como te chamas?

 

E tu?

 

Chamo-me Adafi.

 

Sou Suti, oficial do exército do Egipto.

 

Falemos mais perto. Gritar não leva a uma conversa construtiva. Os dois homens aproximaram-se.

 

Então, és tu, Adafi, o inimigo figadal do Egipto, o conspirador, o fomentador de distúrbios?

 

Foste tu que mataste o meu amigo, o general Asher?

 

Tenho essa honra, apesar de a morte desse traidor ter sido muito suave.

 

Um oficial egípcio à frente de um grupo de nómadas núbios... Também já não és um traidor?

 

Roubaste o meu ouro.

 

Pertencia-me. Era o preço acordado com o general para uma retirada pacífica no meu território.

 

Esse tesouro é meu.

 

Com que direito?

 

Saque de guerra.

 

Não te falta atrevimento, meu jovem.

 

Reclamo aquilo que me é devido.

 

O que sabes do meu tráfico com os mineiros?

 

O teu bando está aniquilado e não tens apoio nenhum no Egipto. Desaparece o mais depressa possível e refugia-te nos confins do teu país bárbaro. Talvez a fúria do Faraó não te atinja.

 

Se queres o teu ouro, precisas de o ganhar.

 

Ele está aqui?

 

Debaixo da minha tenda. Uma vez que venceste o general Asher, que eu tive de enterrar, por que razão não nos tornamos amigos? À guisa de pacto, proponho-te a metade do ouro.

 

Exijo a totalidade.

 

Pedes demasiado.

 

Já perdeste muitos homens. Os meus guerreiros são superiores aos teus.

 

Isso é certamente verdade, mas conheço as tuas armadilhas e nós somos em número mais elevado.

 

Os meus núbios lutarão até ao fim.

 

Quem é a mulher loira?

 

A deusa deles, de ouro. Graças a ela, eles não temem o medo.

 

A minha espada resolverá essa superstição.

 

Se sobreviveres.

 

Se recusares colaborar, elimino-te.

 

Não me escapas, Adafi. Serás a minha vitória mais importante.

 

O orgulho dá-te volta à cabeça.

 

Se queres poupar a vida dos teus soldados, desafia-me. O líbio examinou atentamente Suti.

 

Contra mim não tens qualquer hipótese.

 

Cabe-me a mim decidir.

 

És muito novo para morrer.

 

Se ganhar fico outra vez com o meu ouro.

 

E se perderes?

 

Ficas tu com o meu.

 

Com o teu... o que queres dizer?

 

Os meus núbios transportam uma boa quantidade de metal precioso.

 

Foste tu quem retomou o tráfico, no lugar do general. Suti ficou calado.

 

Perecerás profetizou Adafi, de semblante franzido.

 

Que armas vamos utilizar?

 

Cada um com as suas.

 

Exijo a assinatura de um acordo, aprovado pelos dois campos.

 

Os deuses serão testemunhas.

 

A cerimónia foi organizada imediatamente. Participaram três líbios e três núbios, entre os quais o velho guerreiro. Invocaram os génios do fogo, do ar, da água e da terra, encarregados de destruir o eventual perjúrio, e depois tiveram uma noite de repouso antes do duelo.

 

Perto da gruta, os núbios formaram um círculo à volta da deusa de ouro. Imploraram a sua protecção e suplicaram-lhe que concedesse a vitória aos seus heróis. Com pedras friáveis que deixavam marcas avermelhadas na pele decoraram o corpo de Suti com símbolos de guerra. Não faças de nós escravos.

 

O egípcio sentou-se virado para o sol, extraindo da luz do deserto a força dos gigantes de outrora, capazes de deslocar blocos de granito para construir templos onde encarnava o invisível. Se tivesse recusado a via dos escribas e dos sacerdotes, Suti sentia a presença de uma energia oculta tanto no céu como no sol; absorvia-a, respirando, e canalizava-a, concentrando-se no objectivo a atingir. Pantera ajoelhou-se ao seu lado. É uma loucura. Adafi nunca foi vencido.

 

Qual é a arma que ele prefere?

 

A lança.

 

A minha flecha será mais rápida.

 

Não te quero perder.

 

Uma vez que desejas ser muito rica, preciso de correr riscos. Acredita em mim, não havia outra solução; repugnava-me ver aqueles núbios massacrados.

 

É-te indiferente se eu ficar viúva?

 

Enquanto deusa de ouro, tu proteges-me.

 

Quando Adafi te tiver matado, enfio-lhe um punhal na barriga.

 

Os teus compatriotas vão linchar-te.

 

Os núbios defender-me-ão. Será esse o massacre que tu tanto receias!

 

A menos que seja eu o vencedor.

 

Enterrar-te-ei no deserto e queimarei viva a senhora Tapeni.

 

Autorizar-me-ás a acender a fogueira?

 

Amo-te quando sonhas. Amo-te porque sonhas.

 

A névoa cobriu novamente o deserto, sufocando a claridade do amanhecer. Suti avançou, fazendo ranger os pés na areia. Na mão direita, empunhava um arco de tamanho médio, o melhor que possuía; na esquerda, uma só flecha. Não teria tempo de puxar outra, Adafi tinha a reputação de um lutador invencível, que nenhum adversário nunca tinha conseguido pôr em perigo. Impossível de ser apanhado, teimava em escapar às expedições da polícia para o apanhar, a sua actividade preferida consistia em armar rebeldes e saqueadores para levar a insegurança às províncias ocidentais do Delta. Não sonharia Adafi reinar no norte do Egipto?

 

Os raios de sol rasgavam um céu nublado. Muito digno na sua túnica vermelha e verde, os cabelos escondidos num turbante negro, mantinha-se a cerca de cinquenta metros do seu adversário.

 

Suti soube que ele estava perdido.

 

Adafi não trazia lança, mas sim o arco preferido do egípcio, o que ele tinha roubado da gruta. Uma arma de qualidade excepcional, em madeira de acácia, capaz de atirar uma flecha a mais de sessenta metros.

 

Aquela que Suti utilizaria parecia quase irrisória; com uma precisão aleatória, não lhe permitia matar o líbio, e muito menos feri-lo. Se ele tentasse aproximar-se, Adafi puxaria a primeira, sem sequer lhe dar a possibilidade de responder.

 

A cara do líbio tinha mudado: dura, firme, não apresentava o mais leve traço de humanidade. Adafi queria matar, o seu espírito só desejava a morte. Com o olhar gélido, esperava que a sua presa se mexesse.

 

O ex-tenente da cavalaria compreendeu por que razão o líbio vencia sempre os duelos. De barriga para baixo atrás de um pequeno monte, sobre a esquerda, um outro arqueiro líbio protegia Adafi. Agiria antes do seu mestre, coordenariam os movimentos?

 

Suti censurou a sua estupidez. Um combate sincero e leal, o respeito pelo prometido... Adafi pensara em todos os momentos. O primeiro instrutor do jovem egípcio tinha-lhe ensinado, no entanto, que os Beduínos e os Líbios atacavam pelas costas. Aquele esquecimento custar-lhe-ia a vida.

 

Adafi, Suti e o líbio emboscado tenderam o arco ao mesmo tempo. O egípcio manifestou um esforço progressivo, aumentando aos poucos a tensão. A sua atitude divertia Adafi; este último tinha pensado que Suti tentaria eliminar o primeiro homem à sua esquerda e depois atiraria outra flecha na sua direcção. Mas ele só estava munido com um projéctil.

 

De soslaio, o jovem assistiu a uma cena tão violenta quanto rápida. Pantera aproximou-se de repente do líbio agachado pelas costas e cortou-lhe a garganta. Adafi observou o drama e apontou a flecha em direcção à mulher loira que se baixou rente à areia. Suti aproveitou este erro, esticou a corda ao máximo, fez pontaria e projectou o seu espírito no alvo. Consciente de que tinha errado, Adafi precipitou o tiro.

 

A sua flecha passou rente à face direita de Suti; a do egípcio cravou-se no olho direito do líbio. Aterrado, Adafi caiu de bruços no chão.

 

Enquanto os núbios proclamavam a vitória, Suti cortou a mão direita do vencido e agitou o arco no ar.

 

Os corredores da areia e os líbios largaram as armas e prosternaram-se perante o casal abraçado, Suti e Pantera.

 

O rosto da deusa de ouro transbordava de alegria; rica, feliz, com um exército inteiro ajoelhado a seus pés, soldados líbios obrigados a obedecerem-lhe, ela assistia à concretização dos seus mais desvairados sonhos.

 

São livres de partir ou de me obedecerem declarou Suti. Se me seguirem, alcançarão o ouro. À mínima desobediência, eu próprio vos mato.

 

Ninguém se mexeu. A recompensa prometida teria seduzido os mercenários mais desconfiados. Suti examinou os carros e os cavalos; ambos o satisfizeram. Com alguns carros bem treinados e arqueiros núbios superiores a qualquer rival, o ex-tenente dispunha de um exército eficaz e coeso.

 

És o senhor do ouro disse Pantera, radiosa.

 

Salvaste-me outra vez a vida.

 

Já to tinha dito: sem mim, não conseguirás grande coisa.

 

Suti distribuiu um primeiro pagamento, que dissipou qualquer animosidade. Os líbios ofereceram vinho de palma aos núbios e a confraternização transformou-se numa orgia de álcool acompanhada de cânticos e gargalhadas. O seu novo chefe tinha-se isolado, preferindo o silêncio do deserto. Pantera foi ao seu encontro.

 

Esquecias-te de mim no teu sonho?

 

Não és tu que o inspiras?

 

Prestaste um serviço muito grande ao Egipto. Ao matares Adafi, eliminaste um dos seus adversários mais tenazes.

 

O que vamos fazer desta vitória?

 

Com uma tanga modesta, umas sandálias velhas e a barba mal feita, o vizir Paser passeava no grande mercado de Mênfis, misturando-se com o povo. Seria esta a melhor forma de saber o que a população pensava? Satisfeito, verificou que havia produtos variados à disposição dos clientes. Como a circulação dos barcos no Nilo era permanente, a entrega dos produtos alimentares beneficiava de uma regularidade apreciável. Uma verificação recente das instalações portuárias e das docas, onde os barcos eram revistos duas vezes por ano, tinha demonstrado o excelente estado da frota mercante.

 

Paser reparou que a troca de géneros era suficientemente regular e que se realizava de acordo com os princípios habituais; a inflação, bem controlada, não penalizava os mais modestos. Entre os comerciantes, havia um elevado número de mulheres que ocupavam funções vantajosas e cobiçadas. No meio das discussões, o aguadeiro acalmava os queixosos: O meu coração está contente! exclamava o camponês, feliz por ter conseguido uma bilha em troca de uns bons figos. Curiosos juntaram-se à volta de uma magnífica peça de linho que dois vendedores de tecidos desdobravam.

 

Um pano divino! comentou uma senhora abastada.

 

É por isso que o preço é alto indicou o fabricante.

 

Desde a nomeação do novo vizir que os aumentos desnecessários são mal vistos.

 

Ainda melhor! Vende-se mais e compra-se melhor. Se comprar este pano, leva também um lenço.

 

Enquanto o negócio era fechado, Paser interessou-se por um vendedor de sandálias, penduradas pelos cordões numa travezinha de madeira que sustentava duas colunas.

 

Devias mudar de sandálias, meu jovem disse o especialista. Já andaste de mais com essas; a sola deve estar quase rota.

 

Não tenho forma de as trocar.

 

Pareces honesto; troco-tas fiado.

 

É contra os meus princípios.

 

Quem paga dívida, faz cabedal! Combinado. Conserto-te as velhas por pouca coisa.

 

Guloso, Paser comeu um bolo de mel, longe das conversas sobre o que iria ser a próxima refeição. Não houve nenhum problema nas propostas nem nenhuma contestação à actividade do vizir. No entanto, este não parecia nada convencido; o nome do Ramsés quase não era pronunciado.

 

Paser aproximou-se de uma vendedeira de unguentos e negociou um frasquinho.

 

É um bocado caro opinou ele.

 

És da cidade?

 

Não, do campo. O prestígio de Mênfis atraiu-me; Ramsés fez desta cidade a mais bela do mundo. Gostava tanto de o ver! Quando é que ele sai do palácio?

 

Ninguém sabe; dizem que está doente e que reside em Pi-Ramsés, no Delta.

 

Ele, o homem mais robusto do país?

 

Corre o boato de que o seu poder mágico se esgotou.

 

E então, precisa de se regenerar!

 

Isso ainda será possível?

 

Então, um soberano novo como ele... A vendedeira abanou a cabeça.

 

O que vai então acontecer a Ramsés?

 

Quem pode saber?

 

Ouviram-se gritos. A multidão dispersou, abrindo caminho a Matador. Com alguns saltos, foi até aos pés de Paser. A vendedeira, convencida de que estava a falar com um ladrão e de que o babuíno-polícia o ia prender, passou rapidamente uma corda à volta do pescoço do delinquente para o imobilizar. Ao contrário do costume, o macaco não mordeu a barriga da perna da vítima, mas ficou plantado à frente dela até Kem chegar.

 

Fui eu que o prendi! gabou-se a vendedeira Tenho direito a um prémio?

 

Veremos respondeu o núbio ao levar Paser.

 

Pareces furioso observou o vizir.

 

Por que não me avisaste? Foste muito imprudente!

 

Ninguém podia reconhecer-me.

 

Ainda bem que Matador te encontrou.

 

Precisava de ouvir as pessoas.

 

O que sabes mais, agora?

 

A situação não é famosa. Bel-Tran prepara as pessoas para a queda de Ramsés.

 

Néféret estava atrasada, apesar da responsabilidade de presidir à comissão administrativa. Alguns impertinentes acusá-la-iam de vaidosa apesar de ela ter estado a tratar da Diabrete, a pequena macaca verde, acometida de indigestão, Bravo, o cão, vítima de uma tosse espasmódica, e Vento do Norte, o burro, que tinha esfolado uma pata.

 

Considerava uma prioridade ocupar-se dos três talentos da casa.

 

A assembleia de notáveis levantou-se quando a médica-chefe do reino entrou e inclinou-se perante ela. A beleza de Néféret dissipou as veleidades dos críticos; sempre que falava, a sua voz era como um bálsamo e os veteranos não largavam esse remédio.

 

A presença de Bel-Tran surpreendeu Néféret.

 

A administração delega-me como seu interlocutor financeiro explicou. Hoje em dia, devem adoptar-se medidas relativas à saúde pública; tenho de garantir que elas não vão comprometer o equilíbrio financeiro do Estado de que sou responsável perante o vizir.

 

Geralmente, a Dupla Casa branca contentava-se em enviar um delegado; a intervenção do director anunciava um combate para o qual Néféret não estava preparada.

 

Não estou satisfeita com o número de hospitais nas capitais de província e nas pequenas povoações. Proponho a criação de uma dezena de estabelecimentos segundo o modelo dos de Mênfis.

 

Discordo interveio Bel-Tran o custo seria enorme.

 

Os chefes de província financiarão a construção; o serviço de saúde atribuir-lhes-á os médicos competentes e assegurará o seu funcionamento. Não necessitaremos da ajuda da Dupla Casa branca.

 

O pagamento dos impostos será afectado!

 

De acordo com o decreto do Faraó, são os chefes de província que escolhem: ou obedecem à tua administração ou melhoram os equipamentos sanitários. Escolheram a segunda solução conforme os aconselhei, e legalmente. Continuaremos no próximo ano, espero.

 

Bel-Tran foi obrigado a inclinar-se; não pensava que Néféret tivesse agido com tanta habilidade e prontidão. Sem ostentação, mantinha laços próximos com os responsáveis de cada local.

 

Segundo o ”livro de protecção”, que data do tempo dos antigos fundadores, o Egipto não deve negligenciar nenhuma das suas crianças; compete-nos a nós, enquanto médicos, tratar daqueles que sofrem. Ramsés, no início do seu reinado, prometeu uma vida feliz aos jovens; a saúde é para todos um ingrediente essencial dessa felicidade. Foi por isso que decidi formar mais médicos e enfermeiros, para que cada um, seja qual for o sítio onde mora, possa beneficiar dos melhores tratamentos.

 

Desejo uma modificação na hierarquia médica declarou Bel-Tran. É preciso dar mais importância aos especialistas e muito menos à clínica geral. No futuro, com a abertura do Egipto ao mundo, os especialistas enriquecerão facilmente e nós exportá-los-emos proveitosamente.

 

Enquanto eu for médica-chefe afirmou a jovem preservaremos a tradição; se os especialistas tomassem o poder, a medicina perderia a visão do essencial: o ser humano no seu todo, a harmonia do espírito e do corpo.

 

Se não aceitas a minha proposta, a Dupla Casa branca ser-te-á hostil.

 

Isso é uma chantagem?

 

Bel-Tran levantou-se. Imperioso, dirigiu-se à assembleia.

 

A medicina egípcia é a mais reputada; muitos sábios estrangeiros vêm ao nosso país para aprenderem as bases. No entanto, é preciso reformar os nossos métodos e rentabilizar mais esta fonte de riqueza. A vossa ciência merece mais, acreditem! Façamos mais remédios, utilizemos as drogas e os venenos cujos segredos conhecemos, preocupemo-nos com a quantidade! É este o futuro.

 

Não aceitamos.

 

Fazes mal, Néféret. Vim avisá-los, a ti e aos teus colegas, como amigo. Recusar a minha ajuda seria um erro desastroso.

 

Aceitá-lo seria destruir a nossa vocação.

 

Não se trata de um valor comercial.

 

Nem a saúde.

 

Enganas-te, como o vizir. Defender o passado não vos leva a sítio nenhum.

 

A tua é uma doença que eu não sou capaz de curar.

 

Bagey, o antigo vizir, tinha ido visitar Néféret por causa de umas dores insuportáveis nos rins e de urina ensanguentada. A médica-chefe tinha-o examinado durante mais de uma hora e diagnosticado uma hematúria parasitária, que curaria com um preparado poderoso, um composto de sementes de pinheiro manso, junca, meimendro, mel e terra da Núbia, para beber todas as noites, ao deitar. A terapeuta sossegou o paciente; o tratamento seria eficaz.

 

O meu organismo está gasto lamentou-se Bagey.

 

És mais robusto do que pensas.

 

A minha resistência diminui.

 

A infecção é a causa dessa fraqueza passageira; asseguro-te uma recuperação rápida, seguida de uma longa velhice.

 

Como está o teu marido?

 

Gostava de te ver.

 

Paser e Bagey caminharam à sombra das árvores do jardim. Feliz com aquele passeio imprevisto, Bravo acompanhou-os, respirando o ar dos canteiros de flores.

 

Bel-Tran ataca por todas as frentes, mas consigo travá-lo.

 

Foste bem recebido pelos principais responsáveis da administração?

 

Nota: A que se juntavam ainda dois ingredientes não identificados, a planta shames e o fruto sasha (N do A.)

 

Alguns aceitam-me, outros desconfiam de Bel-Tran; felizmente, a sua brutalidade e ambição demasiado visíveis ofendem algumas consciências. Muitos escribas são fiéis à velha sabedoria que criou este país.

 

Acho-te mais sereno, mais seguro.

 

É só aparência; cada dia é uma luta, e não posso prever de onde surgem os golpes. Falta-me a tua experiência.

 

Não te iludas; já não tinha a energia necessária. O Faraó tomou a decisão acertada ao escolher-te. Bel-Tran percebeu; não contava com tanta resistência da tua parte.

 

Como é possível trair assim o Egipto?

 

A natureza humana é capaz do pior.

 

Às vezes sinto-me desencorajado; as pequenas vitórias que alcanço não atenuam o decorrer dos dias. A Primavera começou, já se fala da próxima cheia.

 

E o que pensa Ramsés?

 

Incita-me a trabalhar. Sem ceder um palmo de terreno que seja a Bel-Tran; tenho a impressão de retardar o prazo.

 

Conquistaste mesmo uma parte do seu território.

 

É a minha única razão de tanto esperar. Ao enfraquecê-lo, talvez o faça hesitar. Chegar ao poder sem apoio suficiente seria um fracasso. Mas será o prazo de que disponho suficiente para que eu consiga alterar as bases sobre as quais Bel-Tran se apoia?

 

O povo gosta de ti, Paser. Acredita em ti, e ama-te. Exerces as tuas funções de forma impecável, conforme os deveres que o rei te indicou. E olha que não se trata de uma mera lisonja.

 

Bel-Tran compraria facilmente os meus serviços! Quando penso nas suas demonstrações de amizade, pergunto se ele alguma vez foi sincero ou se esteve a representar desde o início, na esperança de me incluir na sua estratégia.

 

Por que razão teria limites a hipocrisia?

 

Não mantenhas ilusões.

 

Elimino o entusiasmo; é inútil e perigoso.

 

Gostava de te confiar algumas pastas sobre o cadastro e a arpentagem. Aceitarias verificar se os dados não foram modificados?

 

De boa vontade, até porque é a minha especialidade de origem. O que receias?

 

Que Bel-Tran e os seus aliados tentem roubar legalmente as terras.

 

A tarde estava tão bela e suave que Paser decidiu repousar um pouco na piscina. Sentada na borda, com os pés na água, as pálpebras levemente pintadas de verde, Néféret tocava um alaúde cujas cordas, em uníssono, estavam presas na base do cabo. A melodia, doce e ligeira, encantava o vizir. Estava em harmonia com o balançar das folhas sopradas pela brisa do norte.

 

Paser pensava em Suti, que um concerto semelhante havia encantado; sobre que pista andaria perdido, que perigos correria? O vizir apostava no seu heroísmo para apagar todos os erros, mas esbarrava sempre com a ferocidade da senhora Tapeni. Segundo Kem, ela ocupava-se cada vez menos da tecelagem para andar por toda a cidade. De que maneira estaria a tentar prejudicá-lo?

 

O som do alaúde tranquilizava-o; de olhos fechados, Paser entregou-se à magia da música.

 

Foi quando o devorador de sombras decidiu entrar em acção. Perto da mansão do vizir só havia um posto de observação, uma grande palmeira-tamargueira, plantada no meio do pátio de uma pequena casa que pertencia a um casal de reformados. O assassino tinha-se introduzido em casa deles, tinha-os espancado e depois tinha subido à árvore, munido da sua arma.

 

A sorte estava do seu lado. Tal como previra, no início deste fim de tarde em que o sol, prestes a esconder-se, brilhava muito suave, o vizir, em casa mais cedo do que o costume, dormitava na companhia de sua mulher, num lugar bem desabrigado.

 

O devorador de sombras ajustou a flecha dobrada utilizada pelos caçadores de pássaros. O polícia-babuíno, inclinado no telhado da mansão do vizir, não teria tempo de agir. A arma, temível quando manuseada com precisão, partiria a cabeça de Paser.

 

O criminoso certificou-se de que estava equilibrado, mantendo-se agarrado a um ramo com a mão esquerda; concentrou-se e avaliou a trajectória. Apesar da distância ser importante, ele não falharia o alvo; tinha provado, muito novo, qualidades excepcionais naquela actividade. Acertar na cabeça dos pássaros era o seu passatempo favorito.

 

Diabrete, a pequena macaca verde de Néféret, estava sempre atenta, pronta para apanhar um fruto maduro prestes a cair da árvore, ou a brincar com qualquer melro da palmeira-tamargueira, quando o seu braço se distendeu; ela soltou um grito de alarme.

 

No cérebro do babuíno, a coordenação foi fulgurante. Num ápice, traduziu o apelo da macaca verde, viu a direcção tomada pela flecha, discerniu o seu alvo e atirou-se do telhado.

 

Com um salto prodigioso, Matador interceptou a arma do crime e caiu a alguns metros do vizir.

 

Estupefacta, Néféret largou o alaúde; Bravo, a dormitar, acordou em sobressalto e saltou para cima da barriga do dono.

 

De tronco muito direito e as patas feridas, segurando firme a flecha, o agente da polícia Matador olhava orgulhoso para o primeiro-ministro egípcio cuja vida mais uma vez acabava de salvar.

 

O devorador de sombras escapuliu-se por uma viela, atormentado; que divindade tinha a alma daquele babuíno? Pela primeira vez na sua profissão, o assassino desconfiou das suas capacidades. Paser não era um homem como os outros; uma força sobrenatural protegia-o. Seria a deusa Maât ou a lei do vizir que o tornavam invencível?

 

O babuíno deixou-se acariciar. Néféret lavou-lhe as patas com água acobreada, desinfectou a ferida e pôs-lhe um penso. Se bem que já o tivesse constatado noutras ocasiões, a robustez de Matador surpreendeu-a; apesar da violência do choque, a ferida não era profunda e cicatrizaria rapidamente. Com uma saúde de ferro, o babuíno só precisaria de um ou dois dias de repouso relativo, sem ter sequer de ficar imobilizado.

 

Que objecto espantoso apreciou Kem, examinando a flecha talvez o início de uma pista. O devorador de sombras fez o favor de nos deixar uma pista interessante. Ainda não a tinhas visto.

 

Nem sequer tive tempo de ter medo confessou Paser. Se não fosse o grito da Diabrete...

 

A pequena macaca verde tinha ousado aproximar-se do enorme babuíno e tinha-lhe tocado no nariz; Matador não se mexeu. Atreveu-se ainda a colocar a minúscula pata na perna do grande macho, que parecia comovido.

 

Vou duplicar o perímetro de segurança à volta da tua propriedade anunciou o chefe da polícia e eu próprio interrogarei os fabricantes de flechas. Finalmente, temos uma oportunidade para identificar o agressor.

 

Uma questão tinha oposto a senhora Silkis a Bel-Tran. Apesar de este admirar o seu filho, seu sucessor designado, achava que devia continuar a ser o dono da casa. No entanto, a sua mulher recusava repreender o rapazinho e ainda menos a filha, de quem aceitava mentiras e insultos sem reagir.

 

Considerando injustas as críticas do marido, a senhora Silkis tinha-se encolerizado. Descontrolada, tinha rasgado os estofos, partido um cofre precioso e espezinhado túnicas valiosas. Antes de ir para o escritório, Bel-Tran tinha dito as palavras terríveis: ”és louca”.

 

A loucura... Isso apavorava-a. Pois não era ela uma mulher normal, apaixonada pelo marido, escrava de um homem rico, mãe extremosa? Ao tomar parte da conspiração, ao distrair o guardião-mor da esfinge, mostrando-se nua, tinha obedecido a Bel-Tran, confiante no seu destino. Num futuro próximo, reinariam no Egipto.

 

Mas os fantasmas perseguiam-na. Aceitando ser violada pelo devorador de sombras, tinha-se metido num inferno de onde não conseguia sair. Os crimes de que era cúmplice torturavam-na menos do que aquele desamparo, causa de um prazer estranho. E a ruptura com Néféret... Querer continuar sua amiga seria loucura, mentira ou perversão?

 

Os pesadelos sucediam-se, tal como as noites em claro.

 

Um só homem a podia salvar: o intérprete dos sonhos. Exigia somas exorbitantes, mas ouvi-la-ia e ajudá-la-ia.

 

Silkis pediu à sua camareira um véu para esconder o rosto; a serva estava lavada em lágrimas.

 

O que te entristece?

 

É horrível... Está morto!

 

Quem?

 

Anda ver.

 

Do aloés, um arbusto soberbo coroado de flores cor-de-laranja, amarelas e vermelhas, só restava um caule seco. Não só era uma planta rara, presente de Bel-Tran, como também produzia um remédio que a senhora Silkis utilizava diariamente. O óleo de aloés, aplicado nos órgãos genitais, evitava inflamações e favorecia a união dos corpos; além disso, aplicado nas manchas vermelhas que atormentavam a perna esquerda de Bel-Tran, aliviava as comichões.

 

Silkis sentia-se abandonada; o incidente provocou-lhe uma enxaqueca atroz. Não tardaria a murchar como o aloés.

 

O gabinete do intérprete dos sonhos era pintado de preto e cercado de escuridão. Estendida numa esteira, com os olhos fechados, Silkis preparava-se para responder às perguntas do sírio, cuja clientela era composta somente por senhoras ricas e nobres. Em vez de se tornar operário ou comerciante, tinha estudado a feitiçaria e as causas dos sonhos, decidido a acalmar a angústia de alguns ociosos em troca de uma retribuição merecida. Os peixes não eram fáceis de apanhar numa sociedade feliz e livre; mas uma vez na rede, já não voltavam a sair. Para se mostrar eficaz, não deveria o tratamento ter uma duração ilimitada? Uma vez aceite esta evidência, bastava-lhe interpretar os fantasmas das suas pacientes, com mais ou menos severidade. Desequilibradas chegavam, desequilibradas partiam; pelo menos, habituava-as à sua loucura, mais ou menos ligeira, e aumentava a sua fortuna. Até ao momento presente, o seu único adversário tinha sido o fisco; também pagava impostos pesados para prosseguir a sua actividade sem preocupações. No entanto, a nomeação de Néféret para o posto de médica-chefe do reino inquietava-o; fontes fidedignas garantiam que ela não se deixava comprar e não demonstrava nenhuma indulgência para com os charlatães da sua espécie.

 

Sonhaste muito nestes últimos dias? perguntou ele à senhora Silkis.

 

Visões horríveis. Segurava um punhal e enfiava-o no pescoço de um touro.

 

Como é que ele reagia?

 

A lâmina partia-se! Ele voltava-se e espezinhava-me.

 

Com o teu marido, as relações são... satisfatórias?

 

O trabalho absorve-o. Está tão cansado que adormece logo. Quando lhe apetece, tem sempre pressa, muita pressa.

 

É preciso que me digas tudo, Silkis.

 

Sim, sim, eu compreendo...

 

Já alguma vez utilizaste um punhal?

 

Não.

 

Um objecto semelhante?

 

Não, acho que não.

 

Uma agulha?

 

Uma agulha, sim!

 

Uma agulha de madrepérola?

 

Sim, claro! Sei tecer, é o instrumento que prefiro.

 

Já te serviste de alguma para agredir alguém?

 

Não, juro que não!

 

Um homem de uma certa idade... Ele vira-te as costas, aproxima-se sem barulho e enterras-lhe uma agulha de madrepérola no pescoço...

 

Silkis gritou, mordeu os dedos e contorceu-se na esteira. Desvairado, o intérprete dos sonhos quis pedir ajuda, mas a crise de loucura acalmou. A escorrer suor, Silkis sentou-se.

 

Não matei ninguém declarou ela com a voz rouca, alucinada não tive coragem. Mas amanhã, se Bel-Tran me pedir, terei coragem. Para ficar com ele, aceito o que ele pedir.

 

Então, estás curada.

 

O... o que disseste?

 

Já não precisas dos meus tratamentos.

 

Os burros estavam carregados e prontos para partir em direcção ao porto, quando Kem se aproximou do intérprete dos sonhos.

 

Estás pronto para sair?

 

O barco espera-me. Em direcção à Grécia; lá não terei problemas.

 

Uma sensata decisão.

 

Tenho a tua promessa: os fiscais da alfândega não me vão interpelar.

 

Isso dependerá da tua boa vontade.

 

Interroguei a senhora Silkis, como tinhas pedido.

 

Fizeste-lhe as perguntas correctas?

 

Sem perceber nada, obedeci às tuas ordens.

 

Resultado?

 

Não matou ninguém.

 

Tens a certeza?

 

Absoluta. Sou um charlatão, mas conheço este género de mulheres. Se a tivesses visto desvairada, saberias que ela não estava a representar.

 

Esquece-a e esquece o Egipto.

 

A senhora Tapeni estava banhada em lágrimas. À sua frente estava um Bel-Tran enfurecido, sentado a uma mesa baixa, coberta de papiros desenrolados.

 

Interroguei Mênfis inteira, asseguro-te!

 

Nesse caso, o teu fracasso é tanto mais doloroso, cara amiga.

 

Paser não engana a mulher, não joga, não tem dívidas, não está envolvido em qualquer tráfico. É insensato, eu sei, mas este homem é perfeito!

 

Tinha-te avisado: ele é vizir.

 

Vizir ou não, achava que...

 

A tua cobiça deforma-te o espírito, Tapeni. O Egipto continua a ser um país à parte, onde os magistrados, e mais particularmente o primeiro de entre todos eles, adoptam a rectidão como linha de conduta; é ridículo e desusado, julgo eu, mas é preciso ter em conta esta realidade. Paser acredita na sua função e desempenha-a com paixão.

 

Nervosa, a linda morena já não sabia que atitude tomar.

 

Enganei-me a seu respeito.

 

Não aprecio as pessoas que se enganam; quem trabalha para mim tem de ser bem sucedido.

 

Se existir uma falha, descobri-la-ei!

 

E se não existir?

 

Ah, então será preciso encontrá-la sem que ele se aperceba!

 

Excelente iniciativa. O que propões?

 

Vou pensar...

 

Está tudo pensado. Tenho um plano simples, baseado no comércio de objectos muito particulares. Sempre aceitas ajudar-me?

 

Estou à tua disposição.

 

Bel-Tran deu as suas ordens. O fracasso de Tapeni aumentou o ódio que ele tinha às mulheres; como os gregos tinham razão ao considerá-las inferiores aos homens! O Egipto concedia-lhes demasiada importância. Uma incapaz como aquela Tapeni acabaria por incomodá-lo; mais valia livrar-se dela o mais depressa possível, demonstrando a Paser que a sua famosa justiça não era poderosa.

 

Na oficina, ao ar livre, trabalhavam arduamente cinco homens. Com a acácia, o sicómoro ou o tamariz fabricavam flechas, mais ou menos sólidas, mais ou menos caras. Kem consultou o patrão, um cinquentão severo de feições bruscas.

 

Quais são os teus clientes?

 

Caçadores de pássaros e outros caçadores. Porquê, interessa-te?

 

Muito.

 

Para quê?

 

Terias feito alguma coisa?

 

Um operário murmurou algumas palavras ao ouvido do patrão.

 

O chefe de polícia, na minha oficina! Procuras alguém?

 

Foste tu que fabricaste esta flecha?

 

O patrão examinou a arma destinada a matar Paser.

 

Belo trabalho... Qualidade superior. Com esta, é possível atingir um alvo bem distante.

 

Responde à minha pergunta.

 

Não, não fui eu.

 

Que oficina poderá tê-la fabricado?

 

Não sei.

 

Extraordinário.

 

Sinto muito não poder ajudar-te. Talvez numa próxima oportunidade.

 

Ao ver o núbio sair da oficina, o patrão ficou aliviado. O chefe da polícia não era assim tão obstinado como se afirmava.

 

Mas quando o artesão fechou a oficina, ao cair da noite, logo mudou de opinião.

 

A manápula do núbio pousou no seu ombro.

 

Mentiste-me.

 

Não, eu...

 

Não mintas mais; não sabes que sou mais cruel do que o meu macaco?

 

A minha oficina anda bem, tenho operários bons... Por que me persegues?

 

Fala-me desta flecha.

 

Está bem, fui eu que a fiz.

 

A quem a vendeste?

 

Roubaram-ma.

 

Quando?

 

Anteontem.

 

Por que não me disseste a verdade?

 

Porque tinhas esse objecto na mão, e desconfiei que ele estivesse metido num negócio mais suspeito... No meu lugar, serias tu a mentir.

 

Não tens nenhuma ideia sobre a identidade do ladrão?

 

Nenhuma. Uma flecha daquele valor... Bem gostava de a recuperar.

 

Contenta-te com a minha indulgência.

 

A pista do devorador de sombras tinha-se perdido.

 

Néféret ocupava-se de casos difíceis e fazia operações delicadas. Apesar da sua posição e dos cargos administrativos, não recusava dar uma ajuda em caso de urgência.

 

Ver a senhora Sababu aparecer no hospital deixou-a espantada, porque esta bela mulher que aparentava uns trinta anos, dona da locanda de cerveja mais afamada de Mênfis, povoada de criaturas deslumbrantes, só sofria de reumatismo.

 

A tua saúde piorou?

 

O teu tratamento continua muito eficaz; se vim cá mais uma vez foi por outra razão.

 

Néféret tinha tratado uma inflamação no ombro da senhora Sababu, susceptível de privá-la do uso do braço; também a sua paciência lhe devia muito. Apesar de não ter renunciado à prostituição de luxo, Sababu admirava o vizir e a sua mulher; a lealdade daquele casal, a sua união inalterável davam-lhe uma confiança que ela nunca encontraria. Pintada com arte, perfumada em excesso, sabendo ser atraente, troçava das conveniências. Néféret não deixava transparecer nem ânimo nem desprezo, mas apenas vontade de a curar.

 

Sababu colocou um vaso de cerâmica diante de Néféret.

 

Parte-o.

 

Um modelo tão bonito?

 

Por favor, parte-o.

 

Néféret deitou o vaso ao chão. No meio dos fragmentos, um falo em pedra e uma vulva lápis-lazúli, cobertos de inscrições mágicas babilónicas.

 

Descobri por acaso este tráfico explicou Sababu mas mais tarde ou mais cedo eu viria a ser informada. Estas esculturas são destinadas a estimular o desejo nos indivíduos cansados e a tornar fecundas as mulheres estéreis. A importação é ilegal, se não for declarada. Outros vasos semelhantes continham alúmen, uma substância adstringente conhecida por aumentar o prazer e lutar contra a impotência. Detesto estes afrodisíacos; fazem do amor um acto pouco natural. Honrem o Egipto interrompendo este comércio detestável.

 

A senhora Sababu, apesar das suas actividades, tinha o sentido da grandeza.

 

Conheces os culpados?

 

As entregas são feitas no cais oeste, durante a noite; não sei mais nada.

 

E o teu ombro?

 

Não tive mais dores.

 

Se voltarem a aparecer não hesites em consultar-me.

 

Vais intervir?

 

Entrego o assunto nas mãos do vizir.

 

Havia ondas no rio que vinham bater nas pedras do cais abandonado em direcção do qual deslizava um barco sem vela. Pessoa hábil, o capitão atracou docemente. No mesmo instante, acorreram dez homens apressados para desembarcarem o carregamento.

 

Tarefa cumprida, receberam o salário em amuletos da mão de uma mulher, enquanto Kem distribuiu os seus homens e procedeu a uma captura rápida e sem violência.

 

Apenas a mulher se debateu e tentou fugir. Uma tocha iluminou o seu rosto.

 

Senhora Tapeni!

 

Larga-me.

 

Creio que sou obrigado a encarcerar-te. Não és tu responsável por um comércio ilegal?

 

Estou protegida.

 

Por quem?

 

Se não me largares, arrependes-te.

 

Levem-na ordenou o núbio.
Tapeni debateu-se bravamente.

 

Recebo as minhas instruções de Bel-Tran.

 

Como dispunha de provas materiais, Paser deu prioridade a este assunto. Antes de convocar o tribunal, acareou Tapeni e Bel-Tran.

 

A linda morena estava muito excitada. Desde a chegada do director da Dupla Casa branca que ela não parava de o agredir.

 

Tira-me daqui, Bel-Tran!

 

Se esta mulher não se acalmar, eu vou-me embora. Porquê esta convocação?

 

A senhora Tapeni acusa-te de a teres colocado num comércio ilícito.

 

Ridículo.

 

Como ridículo? exclamou ela. Devia vender estes objectos a notáveis para os comprometer.

 

Vizir Paser, creio que a senhora Tapeni perdeu a cabeça

 

Não continues a falar nesse tom, Bel-Tran, ou eu digo tudo.

 

Como queiras.

 

Mas... ele é louco! Já se aperceberam...

 

O teu delírio não me interessa.

 

Então abandonas-me! Está bem, pior para ti. Tapeni voltou-se para o vizir.

 

Entre esses notáveis, tu eras o primeiro em mira! Que escândalo, se se soubesse que o belo casal se entregava a práticas imorais! Boa maneira de manchar o teu bom nome, não achas? A ideia é de Bel-Tran; encarregou-me de a concretizar.

 

Divagações desprezíveis.

 

É a verdade!

 

Tens algum elemento que o prove?

 

Basta a minha palavra!

 

Que sejas a autora desta trama, quem duvida? Foste apanhada em flagrante, Tapeni! O ódio que sentes pelo vizir levou-te longe de mais. Graças aos deuses, desconfiava de ti há muito tempo e tive a coragem de intervir. Sinto-me orgulhoso de ter-te denunciado.

 

Denunciado...

 

Exactamente reconheceu o vizir. Bel-Tran redigiu uma participação sobre as tuas actividades ilegais. Foi ontem entregue ao chefe da polícia e registada pelos seus serviços.

 

A minha colaboração com a justiça é evidente concluiu Bel-Tran. Espero que a senhora Tapeni seja severamente condenada. Ofender a moral pública é uma falta inadmissível.

 

 

Foram necessárias algumas horas de passeio no campo, na companhia de Bravo e Vento do Norte, para que a cólera do vizir se acalmasse. O sorriso triunfante de Bel-Tran era um insulto à justiça, uma ferida tão profunda que nem Néféret podia curar.

 

Um pequeno consolo: o seu inimigo acabava de perder uma das suas aliadas, ao traí-la. A senhora Tapeni, condenada a uma pequena pena de prisão, estava desprovida dos seus direitos cívicos. Grande beneficiário da situação, Suti, divórcio oficializado, não mais teria de trabalhar para a sua ex-mulher; a ruína da tecelã, apanhada na armadilha da sua própria avareza, concedia-lhe a liberdade.

 

O ar tranquilo do burro e a alegria confiante do cão sossegaram o vizir. O passeio, a serenidade da paisagem, a nobreza do Nilo dispersaram a sua angústia. Nesse momento, queria ter enfrentado a sós Bel-Tran e torcer-lhe o pescoço.

 

Criancices, uma vez que o director da Dupla Casa branca tinha tomado medidas para que a sua eventual eliminação não impedisse de forma alguma a queda do Ramsés e o abalo do Egipto num mundo onde o materialismo reinaria por absoluto.

 

Como Paser se sentia desarmado face a um monstro como Bel-Tran! Geralmente, os vizires, fossem eles ou não homens de idade e experientes, só dominavam o cargo no final de dois ou três anos. Ao jovem Paser, o destino pedia para salvar o Egipto antes da próxima cheia, sem lhe mostrar um verdadeiro método de agir. Ter identificado o adversário não chegava; porquê então continuar a lutar, se a guerra já estava perdida?

O olho malicioso de Vento do Norte e o olhar amistoso de Bravo foram estímulos decisivos. No burro e no cão encarnavam-se as forças divinas; portadores do oculto, traçavam os caminhos do coração, fora dos quais a vida não fazia sentido.

 

Com eles, defenderia a causa de Maât, a frágil e radiosa deusa da justiça.

 

Kem estava desesperado.

 

Apesar do respeito que tenho por ti, vizir Paser, apetece-me dizer-te que o teu comportamento é estúpido! Sozinho, em plena campanha...

 

Eu tinha uma escolta.

 

Porquê correr tais riscos?

 

Já não suportava o meu escritório, a admininstração, os escribas! O meu dever é fazer respeitar a justiça e tenho de me debruçar sobre um Bel-Tran que me despreza, seguro da sua vitória.

 

Diz-me, mudou alguma coisa desde a data da tua nomeação? Tudo isto já tu sabias.

 

Tens razão.

 

Em vez de teres pena de ti próprio, preocupa-te antes com um negócio escuro que atormenta a província de Abidos. Chegaram-me relatos de dois feridos graves, uma violenta luta entre os sacerdotes do grande templo e os emissários do Estado, e uma recusa da corveia. Outros delitos maiores chegarão ao teu tribunal, mas talvez demasiado tarde.

 

Abril trazia o calor, pelo menos durante o dia. Se as noites continuavam frescas e propícias à sesta, o sol do meio-dia tornava-se ardente na altura das colheitas. O jardim do vizir estava um assombro; as flores rivalizavam na beleza, compondo uma sinfonia de vermelhos, amarelo, azuis, violetas e alaranjados.

 

Quando se aventurou naquele paraíso, logo depois de acordar, Paser dirigiu-se para a piscina. Como supunha, Néféret tomava o seu primeiro banho. Nadava nua, sem esforço, continuamente, com os seus próprios movimentos. Ele pensou no instante em que pela primeira vez a vira assim, naquela hora abençoada em que o amor os tinha unido naquela terra, para sempre.

 

A água não está um pouco fria?

 

Para ti, sim! Vais constipar-te.

 

Isso está fora de questão.

 

Quando ela saiu do banho, embrulhou-se num lençol de linho e ele abraçou-a com força.

 

Bel-Tran recusa a construção de novos hospitais na província.

 

Não tem importância; a tua pasta chegará em breve às minhas mãos. Como ela está bem fundamentada, aprová-la-ei sem receio de ser acusado de favoritismo.

 

Ontem, ele foi para Abidos.

 

Tens a certeza disso?

 

A informação provém de um médico que se cruzou com ele no cais. Os meus colegas começam a aperceber-se do perigo, e já não elogiam o director da Dupla Casa branca. Alguns acham que tu devias mesmo demarcar-te.

 

Problemas, todavia menores, explodiram em Abidos; parto hoje mesmo para lá.

 

Haveria algum outro lugar mais mágico do que Abidos, o imenso santuário de Osíris, onde se celebravam os mistérios do deus assassinado e ressuscitado, reservados a alguns neófitos, entre eles o Faraó? Como o seu pai Séti, Ramsés, o Grande, tinha embelezado o lugar e concedido ao clero o usufruto de um vasto domínio arável, para que os especialistas do sagrado não sofressem nenhuma perda material.

 

No desembarcadouro, não foi o sumo-sacerdote de Abidos que recebeu o vizir, mas sim Kani, o sumo-sacerdote de Carnaque. Os dois homens saudaram-se calorosamente.

 

Não esperava a tua vinda, Paser.

 

Kem alertou-me; é assim tão grave?

 

Duvido, mas foi necessária uma longa investigação antes de te procurar. Tu próprio a conduzirás agora. O meu colega de Abidos está doente; pediu a minha ajuda para resistir às pressões extraordinárias a que está sujeito.

 

O que se exige dele?

 

O que se exige de mim e de outros responsáveis dos lugares sagrados: que aceitemos pôr os trabalhadores afectos ao templo à disposição do Estado. Vários administradores de província requereram pessoal abusivamente e decretaram corveias desde o mês passado, enquanto os grandes estaleiros exigem pessoal extraordinário só a partir de Setembro, depois do início da cheia.

 

O polvo continuava a estender os seus tentáculos e a desafiar o vizir.

 

Disseram-me que havia feridos interveio o núbio.

 

Exacto: dois camponeses que se recusaram a obedecer às ordens dos polícias. A família deles trabalha para o templo há seis séculos; também não aceitam serem transferidos para outra função.

 

Quem enviou esses brutamontes?

 

Não sei. A revolta está prestes a explodir, Paser; os camponeses são homens livres, não se deixarão manipular como brinquedos.

 

Fomentar uma guerra civil destruindo as leis do trabalho: eis o plano imaginado por Bel-Tran, que entretanto já partiu para Mênfis. Escolher Abidos para primeira sede era uma ideia excelente; considerado um território sagrado, longe dos sobressaltos económicos e sociais, a região tornar-se-ia exemplar.

 

O vizir queria ter-se retirado para o admirável templo de Osíris cuja entrada lhe era permitida devido à posição que ocupava. No entanto, a urgência da situação dissuadiu-o de conceder a si próprio essa alegria. Apressou-se a ir até à aldeia mais próxima; Kem, com o seu vozeirão, apelou à população para se reunir na praça principal, junto ao forno do pão. A mensagem espalhou-se com uma rapidez surpreendente; parecia um milagre que o próprio vizir se dirigisse aos cidadãos mais modestos. Dos campos, dos celeiros, dos jardins, todos acorreram para não faltarem ao grande acontecimento.

 

O discurso de Paser começou pela celebração do poder do Faraó, único homem capaz de dispensar a vida, a prosperidade e a saúde ao seu povo; depois, lembrou que a recruta de trabalhadores era uma prática ilegal e severamente castigada segundo a antiga lei, sempre em vigor. Os culpados perderiam o posto, receberiam duzentas cacetadas e eles próprios fariam o trabalho que queriam distribuir de forma injusta e finalmente, seriam presos.

 

Aquelas palavras dissiparam a inquietação e a cólera. Cem bocas se abriram, designando o culpado de todos os problemas: o mestre de cavalaria Fekti, o Tosquiado, proprietário de uma casa de campo à beira do Nilo e de uma criação de cavalos, em que os mais robustos estavam destinados às cavalariças reais. Autoritária e brutal, esta personagem tinha-se contentado, até então, com a sua comodidade insolente, sem incomodar os operários do templo.

 

Cinco artesãos acabavam de ser levados à força para casa dele.

 

Conheço-o diz Kem a Paser, ao aproximarem-se da casa. É o oficial que me condenou por um roubo de ouro que não pratiquei e que me cortou o nariz.

 

Neste momento, tu és o chefe da polícia.

 

Sossega. Saberei manter o sangue-frio.

 

Se ele for inocente, não posso deixar-te prendê-lo.

 

Esperemos que ele seja culpado.

 

Tu representas a força, Kem; que ela continue sujeita à lei.

 

Vamos entrar em casa de Fekti?

 

Encostado a uma das colunas do átrio de madeira, estava um homem armado com uma lança.

 

Não podem passar.

 

Baixa a tua arma.

 

Vai-te embora, oh preto, senão estripo-te!

 

O babuíno apoderou-se do cabo, arrancou-o das mãos do guarda e partiu-o em dois. Em pânico, o homem apressou-se a entrar para dentro da propriedade, aos gritos, onde estavam os especialistas a treinar dois cavalos magníficos. O grande macaco assustou-os; eles empinaram-se, desambaraçaram-se dos cavaleiros e fugiram para o campo.

 

Vários milicianos, armados com punhais e lanças, saíram de um edifício de telhado plano e obstruíram a rua aos intrusos. Um homem calvo de tronco forte afastou-os e fez frente ao trio composto por Paser, por Kem e pelo babuíno cujos olhos vermelhos se tornavam ameaçadores.

 

O que significa esta intrusão?

 

És tu o Fekti? perguntou Paser.

 

Sim e esta propriedade é minha. Se não se põem a andar daqui para fora com o vosso monstro apanham uma boa tareia.

 

Sabes quanto custa agredir o vizir do Egipto?

 

O vizir... Trata-se de alguma brincadeira?

 

Dá-me uma pedra de calcário.

 

Paser imprimiu na pedra o seu selo. Rabugento, Fekti disse aos seus guardas para dispersarem.

 

O vizir aqui... Não faz qualquer sentido! E esse preto grande quem é? Mas... Eu estou a reconhecê-lo! É ele, é mesmo ele!

 

Fekti desatou a fugir, mas a corrida foi interrompida por Matador que o agrediu e o deitou ao chão.

 

Já não estás no exército? perguntou o núbio.

 

Não, nada melhor do que criar eu mesmo os meus cavalos. Esqueçamos esta velha história, tu e eu.

 

Quem te ouvisse, não acreditaria.

 

Sabes que agi conscientemente... E depois isso não te impediu de seguir uma carreira. És soldado da guarda do vizir, não?

 

Chefe da polícia.

 

Tu, Kem?

 

O núbio estendeu a mão a Fekti, que escorria suor, e levantou-o.

 

Onde é que escondes os cinco artesãos que levaste à força?

 

Eu? Isso é uma calúnia!

 

- Os teus milicianos não espalham o pânico considerando-se polícias?

 

São tudo boatos!

 

Confrontaremos os teus soldados com os queixosos. Um esgar deformou a boca do Tosquiado.

 

Proíbo-te de o fazeres.

 

Estás sujeito à nossa autoridade lembrou Paser. Será indispensável uma investigação. Depois de ter desarmado os teus homens, é evidente.

 

Os milicianos, hesitantes, não desconfiaram o suficiente do babuíno. Saltando de um para outro, batendo-lhes com o braço, o cotovelo e a mão, juntou lanças e punhais, enquanto Kem impedia que os mais nervosos reagissem. A presença do vizir acalmou a agitação por causa da condenação de Fekti que se sentia renegado pelas suas próprias tropas.

 

Os cinco artesãos estavam fechados num silo para sementes, para onde Matador tinha levado o vizir. De boa vontade de lá saíram, explicando que tinham sido forçados, sob ameaça, a repararem uma parede da casa e a restaurarem alguns móveis.

 

Na presença do acusado, o vizir registou ele mesmo os depoimentos. Fekti foi reconhecido culpado de actos ilícitos de desvio e recruta de mão-de-obra pública. Kem apoderou-se de um pesado varapau.

 

O vizir autoriza-me a executar a primeira parte da sentença.

 

Não faças isso! Vais matar-me!

 

Os acidentes acontecem; às vezes não consigo dominar a minha força.

 

O que queres saber?

 

Quem inspirou a tua conduta?

 

Ninguém.

 

O pau ergueu-se.

 

Mentes muito mal.

 

Não! Recebi instruções, é verdade.

 

Bel-Tran?

 

De que te serve saberes? Ele negará.

 

Uma vez que não espero nenhuma revelação, toma lá duzentas cacetadas conforme a lei.

 

Fekti rolou aos pés do núbio, sob o olhar indiferente do babuíno.

 

Se cooperar, levas-me para a prisão sem me bateres?

 

Se o vizir estiver de acordo...

 

Paser assentiu.

 

O que aqui se passou não é nada; debruça-te sobre as actividades da comissão de acolhimento aos trabalhadores estrangeiros.

 

Mênfis dormitava sob um calor primaveril. Nos escritórios do serviço de acolhimento aos trabalhadores estrangeiros era hora da sesta. Uma dezena de gregos, fenícios e sírios esperavam que os funcionários se ocupassem dos seus casos.

 

Quando Paser entrou no pequeno compartimento onde os estrangeiros aguardavam com paciência, estes levantaram-se, convencidos de que tinham encontrado finalmente um responsável; o vizir não os desiludiu. Interrompendo o zum-zum dos protestos, um jovem fenício assumiu-se como porta-voz.

 

Queremos trabalho.

 

O que vos foi prometido?

 

Que o teríamos, porque estamos dentro da lei.

 

Qual é a tua profissão?

 

Sou um bom carpinteiro e conheço uma oficina que me pode contratar imediatamente.

 

O que é que ele te propõe?

 

Em cada dia, cerveja, pão, peixe seco ou carne, e legumes; de seis em seis dias, óleo, unguentos e perfumes. Em função das minhas necessidades, roupas e sandálias. Oito dias de trabalho e dois de descanso, sem contar com as festas e os feriados. As faltas devem ser todas justificadas.

 

São as condições que os egípcios aceitam; estás satisfeito com elas?

 

São bem melhores do que no meu país de origem, mas preciso, tanto eu como os outros, do consentimento do departamento de imigração! Por que nos prendem aqui há mais de uma semana?

 

Paser interrogou os outros; tinham o mesmo problema.

 

Vão dar-nos a autorização ou não?

 

A partir de hoje.

 

Um escriba de ventre dilatado interrompeu a assembleia.

 

O que se passa aqui? Sentem-se e calem-se! Senão, na qualidade de chefe de serviço, expulso-vos.

 

As tuas maneiras são muito bruscas disse Paser.

 

Por quem te tomas?

 

Pelo vizir do Egipto

 

Fez-se um longo silêncio. Os estrangeiros estavam divididos entre a esperança e o medo. O escriba fixava o sinete que Paser acabava de apor num bocado de papiro.

 

Perdoa-me gaguejou mas ninguém me tinha prevenido da tua visita.

 

Por que não dás uma satisfação a estas pessoas? Elas estão dentro da lei.

 

O excesso de trabalho, a falta de pessoal...

 

Não está correcto. Antes de vir aqui, examinei o funcionamento do teu serviço; não te faltam meios nem funcionários. O teu salário é elevado, pagas dez por cento de impostos e recebes gratificações sem as declarares. Tens uma bela casa, um jardim agradável, um carro, um barco e dois criados. Enganei-me nalguma coisa?

 

Não, não...

 

Acabado o almoço, os outros escribas apressaram-se a dirigir-se para a entrada dos edifícios administrativos.

 

Pede aos teus subordinados para entregarem as autorizações ordenou Paser e vem comigo.

 

O vizir levou o escriba para as ruas de Mênfis e o funcionário pareceu incomodado por se misturar com o povo.

 

Quatro horas de trabalho de manhã lembrou Paser quatro depois do almoço, depois de uma longa pausa para a refeição: é assim o teu ritmo de trabalho?

 

Com efeito.

 

Pois parece que não o respeitas.

 

Fazemos o melhor que podemos.

 

Trabalhando pouco e mal lesas aqueles que dependem das tuas decisões.

 

Não é essa a minha intenção, que fique bem claro!

 

No entanto, o resultado é lastimável.

 

A tua opinião parece-me muito severa.

 

Pois eu constato, e sem quaisquer dúvidas, que ela não o é o suficiente.

 

Dar trabalho aos estrangeiros não é tarefa fácil; por vezes são impertinentes, falam mais ou menos bem a nossa língua, adaptam-se lentamente aos nossos costumes.

 

Admito que sim, mas olha à tua volta: um determinado número de comerciantes e artesãos são estrangeiros, ou filhos de estrangeiros, que vieram para ficar. Enquanto respeitarem as nossas leis eles são bem-vindos. Gostaria de consultar as tuas listas.

 

O funcionário pareceu muito constrangido.

 

É um bocado delicado...

 

Porquê?

 

Estamos a fazer uma reclassificação que levará vários meses. Quando terminarmos, aviso-te.

 

Sinto muito, mas tenho pressa.

 

Mas... é mesmo impossível!

 

A confusão administrativa não me impede de trabalhar; vamos outra vez a tua casa.

 

As mãos do escriba tremiam. A informação que Paser tinha adquirido era boa, mas como explorá-la? Sem dúvida alguma, o serviço de acolhimento dos trabalhadores estrangeiros entregava-se a alguma actividade ilícita de certa grandeza; restava defini-la e arrancar o mal pela raiz.

 

O chefe do serviço não tinha mentido: os arquivos estavam dispersos pelo chão dos compartimentos oblongos onde eram conservados. Vários funcionários empilhavam tábuas de madeira e numeravam os papiros.

 

Quando é que começaram esse trabalho?

 

Ontem respondeu o responsável.

 

Quem é que vos deu ordem?

 

O homem hesitou; o olhar do vizir convenceu-o a não mentir.

 

A Dupla Casa branca... Há muito que ela se informa do nome dos imigrantes e da natureza do seu emprego, para estabelecer o montante dos impostos.

 

Então, vamos investigar.

 

É impossível, mesmo impossível!

 

Esta tarefa vai lembrar-me os meus primeiros anos de juiz em Mênfis. Podes-te retirar; vão assistir-me dois voluntários.

 

O meu papel é auxiliar-te, e...

 

Vai lá para dentro; voltamos a ver-nos amanhã.

 

O tom de Paser não admitia resposta. Dois jovens escribas, no serviço há alguns meses, ficaram contentes por ajudar o vizir que tirou a túnica e as sandálias, e se pôs de joelhos para separar os documentos.

 

A tarefa parecia insuperável, mas Paser esperava que a sorte lhe fornecesse um indício, por mais pequeno que fosse, que o colocasse na pista certa.

 

É estranho reparou o mais novo com o antigo chefe de serviço, Sechem, não teríamos passado por uma precipitação destas.

 

Quando foi substituído?

 

No início do mês.

 

Onde mora?

 

No quarteirão do jardim, ao lado da grande nascente. Paser saiu; no caminho, Kem entrava de guarda.

 

Nada de importante; o Matador patrulha à volta do edifício.

 

Por favor, prende uma testemunha e trá-la para aqui.

 

Sechem, o Fiel, era um homem idoso, doce e tímido. A sua interpelação tinha-o assustado e a sua comparência imediata perante o vizir deixava-o mergulhado numa angústia visível. Paser não o imaginava um criminoso manhoso, mas tinha aprendido a não confiar nas aparências.

 

Porque deixaste o teu posto?

 

Ordens superiores; fui transferido para o controlo do movimento dos barcos, para uma posição inferior.

 

Que erro cometeste?

 

Na minha opinião, não fiz nada; trabalho nesse serviço há vinte anos, nunca faltei, mas cometi o erro de me opor a directivas que considerava erróneas.

 

Explica-te.

 

Não admitia o atraso no processo de regularização e muito menos a ausência de controlo em relação às pessoas contratadas.

 

Receavas uma diminuição dos pagamentos?

 

Não! Quando um estrangeiro vende os seus serviços a um senhor de uma terra ou a um patrão de artesãos, pede um preço muito alto e adquire rapidamente terra e casa que pode legar aos seus descendentes. Mas por que razão, em três anos, a maioria dos queixosos foram encaminhados para um estaleiro naval dependente da Dupla Casa branca?

 

Mostra-me as listas.

 

Basta consultar os arquivos.

 

Acho que deves ter uma surpresa desagradável. Sechem ficou desesperado.

 

Esta reclassificação era inútil!

 

Em que prateleira estavam registadas as listas das pessoas contratadas?

 

Nas prateleiras em sicómoro.

 

És capaz de as encontrar nesta confusão?

 

Espero que sim.

 

Outra decepção abateu Sechem; depois de procurar em vão, concluiu.

 

Desapareceram! Mas existem minutas; mesmo incompletas, elas serão úteis.

 

Dispostos a tudo, os dois jovens escribas tiraram as pedras de calcário dos arrumos onde se acumulavam. À luz de tochas, Sechem identificou as suas preciosas minutas.

 

O estaleiro naval parecia uma colmeia em plena actividade; os contramestres davam ordens secas e precisas a marceneiros que aparelhavam longas tábuas de acácia. Os técnicos juntavam as pranchas de um casco, outros colocavam a amurada; com uma habilidade perfeita, construíram uma embarcação colocando as tábuas umas por cima das outras, e unindo-as com entalhes e encaixes. Numa outra parte do estaleiro, os operários calafetavam os barcos, enquanto os colegas fabricavam os remos.

 

Entrada interdita avisou um vigilante a Paser, acompanhado por Kem e pelo babuíno.

 

Mesmo ao vizir?

 

És o...

 

Chama o teu patrão.

 

O homem não se fez de rogado. Uma personagem de boa estatura chegou a correr, seguro de si, com a voz firme; reconheceu o babuíno e o chefe da polícia e fez uma vénia ao vizir.

 

Em que posso ajudá-los?

 

Gostaria de encontrar os estrangeiros com estes nomes. O vizir apresentou uma lista ao chefe do estaleiro.

 

São desconhecidos aqui.

 

Pensa bem.

 

Não é preciso, tenho a certeza...

 

Tenho documentos oficiais que provam que contrataste, durante três meses, cerca de cinquenta estrangeiros. Onde estão eles?

 

A reacção do interpelado foi fulgurante. Desatou a fugir tão depressa em direcção à viela que Matador pareceu ter sido apanhado desprevenido. No entanto, o macaco galgou o muro e saltou para as costas do fugitivo, mantendo-o com a cara virada para o chão.

 

O chefe da polícia levantou o acusado pelos cabelos.

 

Podes começar a falar, meu espertalhão.

 

A quinta, situada a norte de Mênfis, ocupava uma extensão enorme. O vizir e um grupo de polícias penetraram na propriedade a meio da tarde e prenderam um criador de gansos.

 

Onde estão os estrangeiros?

 

O aparato das forças impressionou o camponês, que foi incapaz de se manter calado e indicou um estábulo.

 

Quando o vizir se aproximou do estábulo, vários homens armados com foices e paus obstruíram-lhe a passagem.

 

Não utilizem a violência advertiu Paser e deixem-nos entrar aí.

 

Um impertinente agitou a sua foice; o punhal lançado por Kem atingiu-lhe o antebraço.

 

Toda a resistência parou. No interior do estábulo, cerca de cinquenta estrangeiros acorrentados estavam ocupados a ordenhar vacas e a separar sementes.

 

O vizir deu ordem para os libertarem e mandou prender os seus guardas.

 

Bel-Tran divertiu-se com o incidente.

 

Escravos? Sim, como na Grécia, e não tarda em todo o mundo mediterrânico! A escravatura é o futuro do homem, meu caro Paser. Exige uma mão-de-obra dócil e barata; graças a ela, desenvolveremos um programa de grandes trabalhos sem comprometer a sua rentabilidade.

 

Devo lembrar-te que a escravatura, contrariamente à lei de Maât, está proibida no Egipto?

 

Se tentas culpar-me, desiste; não conseguirás estabelecer qualquer ligação entre mim, o estaleiro naval, a quinta e o serviço de acolhimento aos trabalhadores estrangeiros. Entre nós, confesso-te: procedia experimentalmente uma experiência que interrompeste de forma desastrosa, mas que já começava a revelar-se frutuosa. As tuas leis são saudosistas; quando é que percebes que o Egipto de Ramsés morreu?

 

Por que odeias os homens dessa maneira?

 

Só existem duas raças: os dominadores e os dominados. Eu pertenço à primeira; a segunda deve obedecer-me. Eis a segunda lei em vigor.

 

Apenas na tua cabeça, Bel-Tran.

 

Os dirigentes concordam comigo, pois esperam vir a tornar-se dominadores; mesmo que a esperança deles não seja concretizada, ter-me-ão dado jeito.