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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A LEI DO DESERTO / Christian Jacq
A LEI DO DESERTO / Christian Jacq

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A LEI DO DESERTO

 

O calor era tão avassalador que apenas um escorpião negro se aventurava na areia do pátio da prisão, que, perdida entre o vale do Nilo e o oásis de Khargeh, a mais de cem quilómetros para oeste da cidade santa de Carnaque, albergava os reincidentes que carregavam pesadas penas de trabalhos forçados. Quando a temperatura o permitia, os prisioneiros conversavam na pista que ligava o vale ao oásis, e era cruzada por caravanas de burros transportando mercadorias.

 

 Pela décima vez, o juiz Paser apresentou o seu pedido ao chefe do campo, um colosso sempre pronto a castigar os indisciplinados.

 

 Não suporto o regime privilegiado de que beneficio. Quero trabalhar como os outros.

 

 Esguio, bastante alto, de cabelos castanhos, face larga e alta e olhos verdes acastanhados, Paser, cujos traços haviam perdido a juventude, mantinha uma distinção que impunha respeito.

 

 Tu não és como os outros.

 

 Sou um prisioneiro.

 

 Mas não foste condenado. Estás aqui em segredo. Para mim, tu nem existes. O registro não tem nome nem número de identificação.

 

 Mas isso não me impede de partir pedras.

 

 Volta para o teu lugar.

 

 O chefe do campo desconfiava deste juiz. Pois não tinha ele deixado o Egito inteiro boquiaberto, ao instruir o processo do famoso general Asher, acusado pelo melhor amigo de Paser, o tenente Suti,  de ter torturado e assassinado um batedor, e de colaborar com inimigos de longa data, os Beduínos e os Líbios?

 

 O cadáver do infeliz não fora encontrado no local indicado por Suti. Os jurados, não podendo condenar o general, contentaram-se em pedir um inquérito suplementar, investigação que se gorou, uma vez que Paser, caindo numa armadilha, fora acusado de assassinar o seu pai espiritual, o sábio Branir, futuro sumo-sacerdote de Carnaque. Apanhado em flagrante delito, fora preso e deportado, à margem da lei.

 

 O juiz estava sentado à escriba na areia escaldante. Não parava de pensar na mulher, Néféret. Durante muito tempo, julgara que ela nunca viria a amá-lo; depois, a felicidade chegou, forte como o sol de Verão. Uma felicidade despedaçada, um paraíso de onde fora expulso sem esperança de regressar.

 

 Levantou-se um vento quente que fazia os grãos de areia rodopiar chicoteando a pele. Com um pano branco pela cabeça, Paser não ligava ao vento; recordava as etapas do inquérito.

 

 Pequeno magistrado de província, perdido na grande cidade de Mênfis, tivera o azar de se mostrar demasiadamente consciencioso ao examinar em pormenor uma documentação algo estranha. Descobrira o assassinato de cinco veteranos que formavam a guarda de honra da grande esfinge de Gize uma carnificina disfarçada de acidente, o roubo de uma grande quantidade de ferro celeste destinado aos templos, e uma conspiração envolvendo altas personalidades.

 

 Mas não conseguira provar de forma definitiva a culpa do general Asher e a sua intenção de destronar Ramsés, o Grande.

 

 E, quando tinha finalmente conseguido obter plenos poderes para ligar entre si os elementos dispersos, o azar batera-lhe à porta.

 

 Paser lembrava-se de todos os momentos daquela noite terrível. A mensagem anónima avisando-o de que o seu mestre Branir corria perigo, a corrida desvairada pelas ruas da cidade, a descoberta do cadáver do sábio Branir, uma agulha de madrepérola espetada no seu pescoço, a chegada do chefe da polícia, que não hesitou em considerar Paser um assassino, a sórdida cumplicidade do deão do pórtico, o mais alto magistrado de Mênfis, o seu transporte em segredo para a prisão e, quando o seu fim chegasse, uma morte solitária sem que a verdade viesse a ser conhecida.

 

 A trama fora organizada com a máxima perfeição. Com o apoio de Branir, o juiz poderia ter investigado nos templos e identificado os ladrões do ferro celeste. Mas o seu mestre tinha sido eliminado, tal como os veteranos, por misteriosos agressores cujos fins continuavam obscuros. O juiz chegara à conclusão de que entre eles figuravam uma mulher e vários homens de origem estrangeira; as suas suspeitas recaíam sobre o químico Chéchi, o dentista Qadash e a mulher do transportador Denes, homem rico, influente e desonesto, mas não tinha a certeza de nada.

 

 Paser resistia ao calor, às tempestades de areia e à comida intragável, porque queria sobreviver, apertar Néféret nos braços e ver a justiça florescer de novo.

 

 O que teria inventado o deão do pórtico, seu superior hierárquico, para explicar o seu desaparecimento? E que calúnias espalharia a seu respeito?

 

 Fugir, era uma utopia, ainda que o campo se abrisse sobre as colinas vizinhas. A pé, não iria longe. Tinham-no mandado para ali, para que ali definhasse. Quando estivesse fraco, consumido, quando tivesse perdido a última réstia de esperança, divagaria, como um pobre louco repetindo incoerências.

 

 Nem Néféret nem Suti o abandonariam. Recusariam qualquer mentira e qualquer calúnia, procurá-lo-iam por todo o Egito. Tinha de ser optimista e deixar o tempo correr-lhe nas veias.

 

 Os cinco conjurados encontraram-se na quinta abandonada onde era costume reunirem-se. A atmosfera era de júbilo, o plano desenrolava-se como previsto.

 

Depois de terem violado a grande pirâmide de Quéops e roubado as maiores insígnias do poder o côvado em ouro e o testamento dos deuses, sem o qual Ramsés, o Grande, perdia toda a sua legitimidade cada dia que passava mais se aproximavam do seu objetivo.

 

O assassinato dos veteranos que guardavam a esfinge de onde partia o corredor subterrâneo, que lhes permitira introduzirem-se na pirâmide, bem como a eliminação do juiz Paser eram incidentes menores, já esquecidos.

 

Ainda falta o mais importante disse um dos conjurados Ramsés continua no poder.

 

Não sejamos impacientes.

 

Fala por ti.

 

Falo por todos; precisamos de tempo para assegurarmos as fundações do nosso futuro império. Quanto mais preso Ramsés se sentir, incapaz de agir, consciente da queda, mais fácil se tornará a nossa vitória. Ele não pode revelar a ninguém que a grande pirâmide foi assaltada e que o centro de energia espiritual, o qual ele é o único responsável, já não funciona.

 

 Em breve, as suas forças enfraquecerão; ver-se-á obrigado a viver o ritual da regeneração.

 

 Quem o obrigará a isso?

 

 A tradição, os sacerdotes e ele próprio! É impossível fugir a esse dever.

 

 No fim da festa, deverá mostrar o testamento dos deuses ao povo!

 

 Ou seja, este testamento que está nas nossas mãos.

 

 Então, Ramsés ver-se-á obrigado a abdicar e entregar o trono ao seu sucessor.

 

 Precisamente aquele que foi designado por nós.

 

 Os conjurados sentiam já o sabor da vitória. Ramsés, o Grande, reduzido a escravo, não teria alternativa. Todos os membros da conspiração seriam recompensados segundo os seus méritos e, no futuro, todos ocupariam uma posição privilegiada. O maior país do mundo pertencer-lhes-ia; modificariam as suas estruturas, alterariam o sistema e modelá-lo-iam segundo a sua visão, radicalmente oposta à de Ramsés, prisioneiro de valores decadentes.

 

 Enquanto o fruto amadurecia, eles alargavam a sua rede de relações, simpatizantes e aliados. Crimes, corrupção, violência... Nada disto os conjurados rejeitavam. Era esse o preço do poder.

 

 

O pôr do Sol rosava as colinas. Àquela hora, Bravo, o cão de Paser, e Vento do Norte, o burro, deviam estar a apreciar a refeição servida por Néféret após um longo dia de trabalho. Quantos doentes teria ela curado, quantos doentes teria ela acolhido na sua casa de Mênfis, com o escritório de Paser no rés-do-chão? Ou teria ela regressado à sua aldeia, na região de Tebas, para aí exercer a profissão de médica, longe da agitação da cidade?

 

 A coragem do juiz esmorecia.

 

 Ele, que dedicara toda a sua vida à justiça, sabia que a mesma nunca lhe seria feita. Nenhum tribunal reconheceria a sua inocência. Supondo que saía da prisão, que futuro poderia ele oferecer a Néféret?

 

 Um velho veio sentar-se ao seu lado. Magro, desdentado, com a pele crestada e enrugada, soltou um suspiro.

 

 Para mim acabou-se. Estou muito velho. O chefe tirou-me do transporte de pedras. Ocupar-me-ei da cozinha. Boa notícia, hem?

 

 Paser abanou a cabeça.

 

 Porque é que tu não estás a trabalhar? perguntou o velho.

 

 Não me deixam.

 

 Quem é que tu roubaste?

 

 Ninguém.

 

 Para aqui só vêm os grandes ladrões. Roubaram tantas vezes que nunca sairão da prisão, pois não cumpriram o juramento de não o voltarem a fazer. Os tribunais não brincam com a palavra dada.

 

 Achas que procedem mal? O velho cuspiu para a areia.

 

Isso é um caso complicado! Tu estás do lado dos juizes?

 

 Eu sou juiz.

 

 A notícia de que iria ser posto em liberdade não teria espantado mais o interlocutor de Paser.

 

 Estás a gozar?

 

 Achas que sim?

 

 Esta agora... Um juiz, um juiz de verdade! Olhava-o, inquieto e reverente.

 

 O que foi que tu fizeste?

 

 Iniciei um inquérito e quiseram calar-me a boca.

 

 Deves ter-te metido num lindo sarilho. Eu cá sou inocente. Um concorrente desleal acusou-me de ter roubado o mel que me pertencia.

 

 Apicultor?

 

 Eu tinha cortiços no deserto, as minhas abelhas davam o melhor mel do Egito. Os concorrentes tiveram inveja, e prepararam uma tramóia na qual eu caí. Durante o processo enervei-me. Recusei o veredito a meu favor, pedi um segundo julgamento e preparei a minha defesa com um escriba. Estava certo de ganhar.

 

 Mas foste condenado.

 

 Os meus concorrentes esconderam em minha casa objetos roubados de uma loja. Provas de reincidência! O juiz nem abriu o inquérito.

 

 Foi injusto. No seu lugar, eu teria examinado os motivos dos acusadores.

 

 E se fosses para o lugar dele? Se mostrasses que as provas são falsas?

 

 Primeiro era preciso sair daqui.

 

 O apicultor voltou a cuspir para a areia.

 

 Quando um juiz trai as suas funções, não vai em segredo para um campo como este. Nem sequer te cortaram o nariz. Deves ser espião ou coisa parecida.

 

 Como queiras.

 

 O velho levantou-se e afastou-se.

 

 Paser não tocou no caldo aguado do costume. Já não lhe apetecia lutar. O que poderia ele oferecer a Néféret senão a degradação e  a vergonha? Seria melhor que ela nunca mais o visse e o esquecesse. Assim, guardaria na memória a recordação do magistrado inabalável, do amante ardente, do sonhador que acreditara na justiça.

 

 Deitado de costas, contemplava o céu lápis-lazúli. No dia seguinte desapareceria.

 

 Velas brancas vogavam sobre o Nilo. Com o cair da tarde, os marinheiros divertiam-se saltando de um barco para o outro, enquanto um vento norte imprimia velocidade às embarcações. Caíam à água, riam-se, insultavam-se.

 

 Sentada na margem, uma jovem não ouvia os gritos dos lutadores. De cabelos acastanhados, rosto puro e de linhas muito doces, olhos do azul do Verão, bela como um lótus desabrochado, Néféret invocava a alma de Branir, seu mestre assassinado, e suplicava-lhe que protegesse Paser, o homem que ela amava com toda a sua alma e cuja morte havia sido oficialmente proclamada, sem que ela conseguisse acreditar.

 

 Posso falar contigo por um instante? Ela virou a cabeça.

 

 Junto dela estava o médico-chefe do reino, Nébamon, um cinquentão de bom aspeto.

 

 O seu maior inimigo.

 

 Já por várias ocasiões lhe tentara destruir a carreira. Néféret detestava este cortesão ávido de riquezas e de conquistas femininas, que se servia da medicina como um meio de exercer poder sobre os outros e fazer fortuna.

 

 Com um olhar libidinoso, Nébamon admirava a jovem cujo vestido de linho deixava adivinhar formas tão perfeitas quanto estimulantes. Seios firmes e altos, pernas compridas e esbeltas, pés e mãos delicados, um deslumbramento para o olhar. Néféret estava resplandecente.

 

 Deixa-me, peço-te.

 

 Devias dar-me mais atenção; o que sei interessar-te-á imenso.

 

 As tuas intrigas não me interessam.

 

 Trata-se de Paser.

 

 Néféret não conseguiu esconder a emoção.

 

Paser morreu.

 

 Não é verdade, minha querida.

 

 Estás a mentir!

 

 Conheço a verdade.

 

 Terei de te implorar que ma contes?

 

 Gosto mais de ti intratável e arrogante. Paser está vivo, mas foi acusado de ter assassinado Branir.

 

 Isso... é um absurdo! Não acredito.

 

 Fazes mal. Mentmosé, o chefe da polícia, prendeu-o em segredo.

 

 Paser não matou o mestre.

 

 Mentmosé está convencido do contrário.

 

 Querem humilhá-lo, arruinar-lhe a reputação e impedi-lo de dar seguimento ao inquérito.

 

 Isso pouco me importa.

 

 Porque me fazes todas estas revelações?

 

 Porque sou o único que pode inocentar Paser.

 

 No arrepio que agitou o corpo de Néféret, misturavam-se a esperança e a angústia.

 

 Se queres que leve a prova ao deão do pórtico, tens de casar comigo, Néféret, e esquecer esse juízeco. É esse o preço da sua liberdade. O teu verdadeiro lugar é junto de mim. A decisão é tua. Ou libertas Paser ou o condenas à morte.

 

 

Oferecer-se ao médico-chefe horrorizava Néféret, mas recusar a proposta de Nébamon era transformar-se no carrasco de Paser.

 

 Onde estaria ele prisioneiro, a que crueldades seria submetido? Se demorasse muito a decidir, a prisão destrui-lo-ia. Néféret não confiou o segredo a Suti, amigo fiel de Paser e seu irmão espiritual; ele mataria o médico-chefe de imediato.

 

 Decidiu aceder ao pedido do chantagista na condição de rever Paser. Desonrada, desesperada, confessar-lhe-ia tudo antes de se envenenar.

 

 Kem, o polícia núbio às ordens do juiz, aproximou-se da jovem. Na ausência de Paser, ele continuava a fazer as rondas em Mênfis, na companhia de Matador, o seu temível babuíno, especialista na captura de ladrões, que imobilizava cravando-lhes as presas nas pernas.

 

 Kem sofrera o corte do nariz por estar implicado na morte de um oficial, culpado de se dedicar ao tráfico de ouro; quando reconheceram a boa-fé do núbio, fizeram-no polícia. Uma prótese de madeira pintada atenuava os efeitos da mutilação.

 

 Kem admirava Paser. Ainda que não tivesse a mínima confiança na justiça, acreditava na integridade do jovem magistrado, causa do seu desaparecimento.

 

 Tenho possibilidade de saber onde se encontra Paser declarou Néféret com gravidade.

 

 No reino dos mortos, de onde ninguém regressa. O general Asher não te entregou um relatório, segundo o qual Paser morreu na Ásia, à procura de uma prova?

 

 Esse relatório era falso, Kem. Paser está vivo.

 

 Então, mentiram-te?

 

 Paser foi acusado de ter assassinado Branir, mas o médico-chefe Nébamon tem a prova da sua inocência.

 

 Kem agarrou Néféret pelos ombros.

 

 Está salvo!

 

 Com a condição de eu me tornar esposa de Nébamon. Colérico, o núbio bateu com o punho da mão direita na palma da  mão esquerda.

 

 E se ele esteve a zombar de ti?

 

 Quero voltar a ver Paser. Kem tocou no nariz de madeira.

 

 Não te arrependerás de me teres contado isso.

 

 Depois de os forçados terem partido, Paser introduziu-se na cozinha, um barracão de madeira coberto com uma tela. Aí, roubaria um dos pedaços de sílex com que se acende o lume, e cortaria as veias. Seria uma morte lenta, mas eficaz; em pleno sol, sucumbiria lentamente num torpor benfazejo. À noite, um vigilante dar-lhe-ia um pontapé e atiraria o cadáver para a areia escaldante. Durante estas últimas horas, vivera com a alma de Néféret, na esperança de que ela, invisível, mas sempre presente, o ajudasse nesta última travessia.

 

 Quando se apoderou da pedra cortante, recebeu um golpe violento na nuca e caiu ao pé de uma panela.

 

 De colher de madeira em punho o velho ironizava. Com que então, o juiz tornou-se ladrão. O que te preparavas tu para fazer com esse sílex? Não te mexas que apanhas mais! Derramares o teu próprio sangue e deixares este maldito sítio através da má morte! Seria uma estupidez, e indigno de um homem de bem. O apicultor baixou a voz.

 

 Presta bem atenção, juiz; conheço uma maneira de saíres daqui. Eu não teria força para atravessar o deserto; mas tu és jovem. Digo-te qual é, se aceitares defender-me e anulares a minha condenação.

 

 Paser recompôs-se.

 

 É inútil.

 

 Recusas?

 

 Mesmo que consiga fugir, não voltarei a ser juiz.

 

 Volta a sê-lo por mim.

 

 Impossível. Acusam-me de um crime.

 

 A ti? Isso é ridículo!

 

 Paser massajou a nuca. O velho ajudou-o a levantar-se.

 

 Amanhã é o último dia do mês. Um carro de bois chega do oásis para trazer alimentos, e partirá vazio. Mete-te lá dentro e salta quando avistares o primeiro curso de água à tua direita. Sobe esse curso de água até ao sopé da colina; aí, encontrarás uma nascente no meio de um pequeno palmar. Enche o odre. Depois, caminha em direção ao vale e tenta encontrar nómadas. Pelo menos, terás tentado a tua sorte.

 

 O médico-chefe Nébamon tinha, pela segunda vez, esvaziado os tumores sebáceos da senhora Silkis, jovem esposa do abastado Bel-Tran, fabricante de papiros e alto funcionário, cuja influência não parava de aumentar. Na qualidade de cirurgião plástico, Nébamon cobrava honorários elevadíssimos, que os clientes pagavam sem protestar. Pedras preciosas, peças de tecido, géneros alimentícios, mobiliário, utensílios, bois, burros e cabras, tudo isso vinha aumentar a sua fortuna, à qual faltava apenas um tesouro inestimável: Néféret. Havia outras igualmente belas; mas nela existia uma harmonia única, onde a inteligência se aliava ao encanto pessoal, irradiando uma luz incomparável.

 

 Como poderia ela ter-se apaixonado por um ser tão insignificante como Paser? Um devaneio de juventude que lamentaria para o resto da vida, se Nébamon não tivesse intervido.

 

 Por vezes, sentia-se tão poderoso quanto o faraó. Quem, melhor do que ele, conhecia os segredos que salvavam as vidas ou as prolongavam? Não era ele rei entre os médicos e os farmacêuticos? Não era a ele que os altos dignatários recorriam para recuperarem a saúde perdida? Se os seus assistentes trabalhavam incógnitos para descobrirem os melhores tratamentos, era Nébamon, e mais ninguém, quem daí retirava os louros. Ora, Néféret possuía um génio médico que ele devia explorar.

 

Após uma operação bem sucedida, Nébamon concedia a si mesmo uma semana de descanso na sua casa de campo, no Sul de Mênfis, onde um exército de servos satisfazia os seus mais pequenos desejos. Deixando as tarefas subalternas à sua equipa médica, que ele controlava com rigor, preparava a lista das futuras promoções a bordo do seu novo barco de recreio. Estava ansioso por saborear um vinho branco do Delta, das suas próprias vinhas, e as últimas receitas do seu cozinheiro.

 

 O mordomo veio anunciar a visita de uma jovem belíssima. Intrigado, Nébamon foi recebê-la ao vestíbulo.

 

 Néféret! Que surpresa maravilhosa... Almoças comigo?

 

 Estou com pressa.

 

 Estou certo de que em breve poderás visitar a minha casa de campo. Vens trazer-me a resposta?

 

 Néféret baixou a cabeça. O entusiasmo apoderava-se do médico-chefe.

 

 Eu sabia que ias escutar a voz da razão.

 

 Preciso de tempo.

 

 Uma vez que vieste, é porque a decisão está tomada.

 

 Dás-me o privilégio de voltar a ver Paser? Nébamon amuou.

 

 Queres submeter-te a uma experiência inútil. Salva Paser mas esquece-o.

 

 Devo-lhe um último encontro.

 

 Como queiras. Mas as minhas condições são as mesmas: primeiro tens de me provar o teu amor. Depois, eu intervenho. Mas só depois. Percebeste bem?

 

 Não estou em posição de negociar.

 

 Admiro a tua inteligência, Néféret; apenas a tua beleza a iguala.

 

  E pegou-lhe carinhosamente na mão.

 

 Não, Nébamon, aqui não; agora não.

 

 Onde e quando?

 

 No grande palmar, perto do poço.

 

 Algum local que te é caro?

 

 Vou para lá meditar muitas vezes. Nébamon sorriu.

 

 A natureza e o amor dão-se bem. Tal como tu, gosto da poesia das palmeiras. Quando, então?

 

 Amanhã à noite, depois do pôr do Sol.

 

 Aceito a escuridão para a nossa primeira união; mas depois viveremos à luz do dia.

 

 

 Paser rebolou para fora da galera quando viu o curso de água serpenteando entre os rochedos, em direção a uma colina batida pelo vento. Não fez o mais pequeno ruído ao cair na areia, e o veículo seguiu viagem na poeira e no calor. O condutor, adormecido, deixava-se conduzir pelos bois.

 

 Ninguém se lançaria no encalço do evadido, pois o calor e a sede não lhe dariam qualquer hipótese de sobrevivência. Na devida altura, uma patrulha recolheria as suas ossadas. Descalço e com uma tanga velha, o juiz via-se obrigado a avançar muito devagar, para poupar energias. Aqui e além, ligeiras ondulações na areia testemunhavam a passagem de uma áspide, a terrível víbora do deserto, cuja mordedura era mortal.

 

 Paser imaginava que caminhava na companhia de Néféret num campo verdejante, animado pelo canto dos pássaros e percorrido por canais; a paisagem parecia-lhe menos hostil e o seu andamento mais rápido. Seguiu o leito seco do curso de água até ao sopé de uma colina com forte inclinação onde, incongruentes, três palmeiras teimavam em crescer.

 

 O juiz ajoelhou-se e escavou com as mãos; alguns centímetros abaixo da crosta fendida, a terra estava úmida. O velho apicultor não lhe havia mentido. Ao cabo de uma hora de esforços apenas interrompidos por breves pausas, encontrou água. Depois de matar a sede, despiu a tanga, limpou-a com areia e esfregou a pele. Em seguida, encheu o odre de que se munira com o precioso líquido.

 

À noite, partiu em direção a leste. À sua volta ouvia o sibilar das serpentes, que saíam com o cair da noite. Se pisasse alguma, não escaparia a uma morte atroz. Apenas um médico experimentado, como Néféret, conhecia os antídotos. O juiz esqueceu os perigos e continuou, sob a proteção da Lua. Deliciava-se com a frescura da noite. Quando raiou a aurora, bebeu um pouco de água, abriu uma cova na areia, tapou-se e dormiu em posição fetal.

 

 Quando acordou, o Sol já começava a baixar. Com os músculos doridos e a cabeça a arder, continuou em direção ao vale, tão longínquo e tão inacessível. Quando a reserva de água acabasse, tinha de encontrar um poço assinalado por um círculo de pedras. Começava a cambalear naquela vastidão desértica, ora rasa, ora ondulante. Com os lábios secos e a língua entumecida, estava a chegar ao limite das suas forças. Que mais poderia fazer senão esperar a intervenção de uma divindade benfazeja?

 

 Nébamon ordenou que o levassem até à orla do grande palmar e mandou a liteira regressar. Saboreava já antecipadamente aquela noite maravilhosa, em que Néféret se lhe ofereceria. Teria preferido que ela viesse de livre vontade, mas os métodos utilizados pouco lhe importavam, uma vez que ia ter aquilo que desejava, como era já hábito.

 

 Os guardas do palmar, encostados aos troncos das grandes árvores, tocavam flauta, bebiam água fresca e cavaqueavam. O médico-chefe meteu por um arruamento largo, virou à esquerda e dirigiu-se para o velho poço. O local era solitário e aprazível.

 

 Ela parecia nascida do clarão do ocaso, que tingia de tons alaranjados a longa túnica de linho.

 

 Néféret soçobrava. A mulher orgulhosa que o havia desafiado obedecia-lhe como uma escrava. Quando ele a conquistasse, ela ser-lhe-ia dedicada e esqueceria o passado. Seria forçada a admitir que apenas Nébamon podia oferecer-lhe a vida com que sonhava sem o saber. Ela amava de mais a medicina para se refugiar por mais tempo num serviço subalterno; tornar-se esposa do médico-chefe era, obviamente, o mais invejável dos destinos?

 

 Ela não se mexeu. Ele avançou.

 

Poderei Paser?

 

 Tens a minha palavra.

 

 Liberta-o, Nébamon.

 

 É essa a minha intenção, se aceitares ser minha.

 

 Porque és tão cruel? Sê generoso, suplico-te.

 

 Estás a brincar comigo?

 

 Apelo à tua consciência.

 

 Néféret, serás minha mulher, porque eu assim o decidi.

 

 Desiste, Nébamon.

 

 Ele avançou e parou a um metro da presa.

 

 Gosto de olhar para ti, mas exijo outros prazeres.

 

 E destruir-me faz parte desses prazeres?

 

 Livrar-te de um amor ilusório e de uma vida medíocre.

 

 Pela última vez, desiste.

 

 Tu pertences-me, Néféret. Nébamon estendeu a mão para Néféret.

 

 Mal lhe tocou, foi atirado brutalmente para trás e caiu no chão. Transtornado, viu o seu agressor; um enorme babuíno, de dentes arreganhados, a espumar. O animal fincou a mão direita, peluda e tenaz, na garganta do médico, enquanto a esquerda lhe agarrava os testículos e os puxava. Nébamon soltava gritos de dor.

 

 Kem pôs o pé sobre a cara do médico-chefe. O babuíno, sem soltar a presa, imobilizou-se.

 

 Se te recusas a colaborar connosco, o meu babuíno castra-te. Eu faço de conta que não vi nada; e ele não terá quaisquer remorsos.

 

 O que querem de mim?

 

 A prova da inocência de Paser.

 

 Não, eu...

 

 O babuíno soltou um grunhido surdo. Os dedos serraram-se-lhe.

 

 Aceito. Aceito!

 

 Sou todo ouvidos. Nébamon arquejava.

 

 Quando examinei o cadáver de Branir, reparei que a morte ocorrera muitas horas antes, talvez um dia inteiro. O estado dos olhos, o aspeto da pele, a crispação da boca, o aspeto do golpe... Os sinais clínicos não enganavam. Relatei as minhas constatações num papiro.

 

Não houve flagrante delito; Paser era apenas uma testemunha. Não havia qualquer acusação séria contra ele.

 

 Porque ocultaste a verdade?

 

 Era uma óptima oportunidade... Néféret ficava à minha mercê.

 

 Onde está Paser?

 

 Eu...Eu não sei.

 

 Estou certo de que sabes.

 

 O babuíno grunhiu de novo. Aterrorizado, Nébamon cedeu.

 

 Comprei o chefe da polícia para que ele poupasse a vida de Paser. Era preciso mantê-lo vivo para eu ser bem sucedido na minha chantagem. O juiz está preso em regime de segredo, ignoro onde.

 

 Conheces o verdadeiro assassino?

 

 Não, juro que não!

 

 Kem não duvidou da sinceridade da resposta. Quando o babuíno procedia a um interrogatório, os suspeitos não mentiam.

 

 Néféret rezou, agradecendo à alma de Branir. O mestre protegera o discípulo.

 

 O parco jantar do deão do pórtico compunha-se de figos e queijos. À falta de sono juntava-se a falta de apetite. Não suportando qualquer presença, mandara o servo embora. De que poderia ele censurar-se, senão do desejo de manter o Egito longe da desordem? Não estava, porém, de consciência tranquila. Nunca, em toda a sua longa carreira, se tinha desviado tanto da Regra.

 

 Enjoado, empurrou a tigela de madeira.

 

 Lá fora, ouviam-se gemidos. Segundo os mágicos, seriam os fantasmas, vindos para torturar as almas indignas.

 

 O deão saiu.

 

 Kem arrastava o médico-chefe Nébamon por uma orelha, com o babuíno ao lado.

 

 Nébamon tem uma confissão a fazer.

 

 O deão não gostava do núbio. Conhecia o seu passado de violência, desaprovava os seus métodos e deplorava o fato de ele fazer parte das forças de segurança.

 

  Nébamon age sobre coação. O seu depoimento não terá qualquer valor.

 

 Não se trata de um depoimento, mas sim de uma confissão. O médico-chefe tentou libertar-se. O babuíno abocanhou-lhe a

 

 barriga da perna sem enterrar as presas.

 

 Tem cuidado recomendou Kem. Se o irritas, tudo pode acontecer.

 

 Vai-te embora! ordenou o deão, enfurecido. Kem empurrou o médico para a frente do deão.

 

 Despacha-te, Nébamon. Os babuínos não são nada pacientes.

 

 Tenho um indício sobre o caso Paser declarou a notável personagem com a voz enrouquecida.

 

 Não se trata de um indício corrigiu Kem mas sim da prova da inocência de Paser.

 

 O deão empalideceu.

 

 O que vem a ser isto, uma provocação?

 

 O médico-chefe é um homem sério e respeitável. Nébamon tirou de dentro da túnica um papiro enrolado e selado.

 

 Redigi as minhas constatações em relação ao cadáver de Branir. O flagrante delito é um erro de apreciação. Esqueci-me... de lhe transmitir este relatório.

 

 O magistrado recebeu o documento contra vontade; era como se estivesse a pegar em brasas.

 

 Enganámo-nos lamentou o deão do pórtico. Para Paser, já é muito tarde.

 

 Talvez não objetou Kem.

 

 Esqueces-te de que ele morreu? O núbio sorriu.

 

 Um outro erro de apreciação, sem dúvida. Abusaram da tua boa fé.

 

 Com o olhar, o núbio ordenou ao babuíno que largasse o médico-chefe.

 

 Estou... estou livre?

 

 Desaparece.

 

Nébamon fugiu a coxear. Tinha gravadas na barriga da perna as marcas dos dentes do macaco cujos olhos brilhavam na noite.

 

 Kem, ofereço-te um emprego tranquilo, se aceitares esquecer estes acontecimentos deploráveis.

 

 Não digas mais nada, deão do pórtico; caso contrário, não segurarei o Matador. Em breve será preciso contar a verdade, toda a verdade.

 

 

No coração da paisagem de areia dourada e montanhas negras e brancas, erguia-se uma nuvem de poeira. Aproximavam-se dois homens a cavalo. Paser encontrava-se à sombra de um enorme bloco de pedra, destacado de uma pirâmide natural. Sem água, era-lhe impossível ir mais longe.

 

 Se fosse a polícia do deserto, levavam-no de novo para a prisão. Se fossem beduínos, agiriam conforme a disposição do momento: ou o torturavam ou faziam dele seu escravo. A excepção dos nómadas, ninguém mais se aventurava nas profundezas do deserto. Na melhor das hipóteses, Paser trocaria a prisão pela escravatura.

 

 Eram dois beduínos! Vestiam túnicas às riscas coloridas.

 

 Tinham os cabelos compridos e as barbas curtas.

 

 Quem és tu?

 

 Fugi do campo dos ladrões.

 

 O mais jovem desceu do cavalo e examinou Paser dos pés à cabeça.

 

 Não pareces muito forte.

 

 Tenho sede.

 

 A água, tens de fazer por merecê-la. Levanta-te e luta.

 

 Estou sem forças.

 

 O beduíno desembainhou um punhal.

 

 Se não consegues lutar, morrerás.

 

 Sou um juiz, não um soldado.

 

 Um juiz! Então não vens do campo dos ladrões.

 

 Acusaram-me injustamente. Alguém quer a minha ruína,

 

 O sol fez-te mal à cabeça.

 

 Se me matares, serás amaldiçoado no além, e os juizes dos infernos cortar-te-ão a alma em pedaços.

 

 Quero lá saber!

 

 O mais velho segurou o braço armado.

 

 A magia dos Egípcios é tremenda. Vamos pô-lo de pé; depois, será nosso escravo.

 

 Pantera, a líbia de cabelos loiros e olhos claros, não se acalmava. A Suti, amante fogoso e inventivo, sucedia um Suti molengão, piegas e circunspeto. Inimiga irredutível do Egito, Pantera caíra nas mãos do tenente dos carros de combate, transformado em herói desde a sua primeira campanha na Ásia. Ele concedera-lhe a liberdade, da qual ela não beneficiava, de tanto que gostava de fazer amor com Suti. Até quando fora expulso do exército, depois de ter tentado estrangular o general Asher, a quem vira a assassinar um batedor, mas que o tribunal não pudera condenar por o cadáver ter desaparecido, o jovem não havia perdido o seu dinamismo.

 

 Porém, após o desaparecimento do seu amigo Paser, remetera-se ao silêncio, não comendo nem olhando para ela.

 

 Quando voltarás a ser o mesmo?

 

 Quando Paser regressar.

 

 Paser, sempre Paser! Não vês que os seus inimigos o mataram?

 

 Não estamos na Líbia. Matar é um ato tão grave que condena ao aniquilamento. Um criminoso não ressuscita.

 

 Só há uma vida, Suti. Aqui e agora! Esquece essas balelas.

 

 Esquecer um amigo?

 

 Era o amor que alimentava Pantera. Privada do corpo de Suti, definhava.

 

 Suti era um homem de boa figura, rosto esguio, olhar franco e sincero e longos cabelos negros; força, sedução e elegância caraterizavam geralmente o seu mínimo gesto.

 

 Sou uma mulher livre e não aceito viver com uma pedra. Se continuas assim, deixo-te.

 

 Está bem, então deixa-me.

 

 Ela ajoelhou-se e abraçou-o pela cintura.

 

 Já não sabes o que dizes.

 

 Se Paser sofre, eu também sofro; se ele está em perigo, a angústia aperta-me o coração. Tu não podes mudar nada.

 

 Pantera despiu a tanga de Suti. Este não protestou. Nunca um corpo de homem fora tão belo, tão forte, tão harmonioso. Desde os treze anos, Pantera tivera muitos amantes, mas nenhum a fascinara tanto como este egípcio, inimigo figadal do seu povo. Acariciou-lhe suavemente o peito, os ombros, tocou-lhe ao de leve nos mamilos, desceu em direção ao umbigo. Os seus dedos, ágeis e sensuais, faziam crescer nele o prazer.

 

 Por fim, Suti reagiu. Com uma mão vigorosa, quase irritada, arrancou as alças da curta túnica que ela vestia.

 

 Nua, ela encostou-se a ele ternamente.

 

 Sentir-te, estar contigo mais uma vez que seja será o bastante.

 

 Mas para mim não.

 

 E, num repente, Suti virou-a de barriga para baixo e deitou-se por cima dela. Lânguida, triunfante, ela acolheu o seu desejo como um elixir da juventude, oleoso e quente.

 

 Lá fora, uma voz chamou-o. Uma voz grave, autoritária. Suti precipitou-se para a janela.

 

 Anda disse Kem. Sei onde está Paser.

 

 O deão do pórtico regava o pequeno canteiro de flores, à entrada de casa. Com a idade, tinha cada vez mais dificuldade em curvar-se.

 

 Posso ajudar-te?

 

 O deão voltou-se e viu Suti. O antigo tenente não perdera a arrogância.

 

 Onde está o meu amigo Paser?

 

 Está morto.

 

 Mentira.

 

 Foi redigida uma declaração oficial.

 

 Isso não importa.

 

A verdade desagrada-te, mas ninguém a pode modificar.

 

 A verdade é que Nébamon te comprou, a ti e ao chefe da polícia.

 

 O deão do pórtico empertigou-se.

 

 Não, a mim não!

 

 Então, fala. O deão hesitou.

 

 Podia mandar prender Suti por injúria a um magistrado e por violência verbal; mas envergonhava-se da sua própria conduta. Sem dúvida, o juiz Paser metia-lhe medo: determinado de mais, apaixonado de mais, enamorado de mais pela justiça. E não tinha o velho magistrado, habituado a todas as intrigas, traído a confiança da juventude de Paser? A sorte do jovem juiz incomodava-o. Talvez já estivesse morto, incapaz de resistir à reclusão.

 

 Na prisão dos ladrões, perto de Khargeh murmurou.

 

 Dá-me uma credencial.

 

 Isso já é pedir muito.

 

 Despacha-te, que tenho pressa.

 

 Suti deixou o cavalo na última pousada, na orla da pista dos oásis. Só um burro seria capaz de suportar o calor, a poeira e o vento. Com um arco, cerca de cinquenta flechas, uma espada e dois punhais, Suti sentia-se preparado para enfrentar o adversário, fosse ele quem fosse. O deão do pórtico dera-lhe uma tabuinha de madeira, declarando que devia conduzir o juiz Paser a Mênfis.

 

 Embora contra vontade, Kem ficara com Néféret. Quando Nébamon se recompusesse do susto, não ficaria inativo. Apenas o babuíno e o seu dono poderiam proteger a jovem eficazmente. O núbio, que tanto desejava libertar o juiz, entendeu que devia ficar e proteger Néféret.

 

 A notícia da partida do amante irritou Pantera. Se ele se ausentasse por mais de uma semana, enganá-lo-ia com o primeiro que aparecesse e proclamaria a sua infelicidade aos quatro ventos. Mas Suti não prometera nada, excepto regressar com o amigo.

 

 O burro transportava os odres e os cestos cheios de carne e  peixe seco, fruta e pão, coisas que se conservariam comestíveis por vários dias. Homem e burro descansariam pouco, pois Suti tinha pressa de atingir o seu objetivo.

 

 Ao avistar o campo prisional, um conjunto de barracões miseráveis dispersos no meio do deserto, Suti evocou o deus Min, padroeiro dos caravaneiros e dos exploradores. Ainda que achasse os deuses inacessíveis, mais valia garantir a sua proteção em certas circunstâncias.

 

 Suti acordou o chefe do campo, que estava a dormir debaixo de um toldo. O colosso praguejou.

 

 Sei que tens aqui prisioneiro o juiz Paser.

 

 Esse nome não me diz nada.

 

 Sei que ele não está registrado.

 

 Não o conheço, já disse.

 

 Suti mostrou-lhe a tabuinha, o que não despertou no homem qualquer interesse.

 

 Aqui não há nenhum Paser. Só ladrões reincidentes, nada de juizes.

 

 Venho em missão oficial.

 

 Espera que os prisioneiros voltem e verás com os teus próprios olhos.

 

 O chefe do campo voltou a adormecer.

 

 Suti perguntou a si mesmo se o deão do pórtico não o teria enviado uma vez mais para um beco sem saída.

 

 Entrou na cozinha para se reabastecer de água.

 

 O cozinheiro, um velho desdentado, acordou sobressaltado.

 

 Quem és tu?

 

 Venho libertar um amigo. Infelizmente, não te pareces com

 

 Paser.

 

 Que nome disseste?

 

 Juiz Paser.

 

 O que lhe queres?

 

 Libertá-lo.

 

 Bem, para isso... chegaste tarde de mais!

 

 O que queres tu dizer?

 

 O velho apicultor falou em voz baixa.

 

 Graças a mim, ele evadiu-se.

 

 Em pleno deserto! Não sobreviverá mais de dois dias. Que direção tomou?

 

 O primeiro curso de água, a colina, o palmar, a fonte, o planalto rochoso e, depois, sempre a direito em direção ao vale! Se tem a alma bem pregada ao corpo, há-de lá chegar.

 

 Paser não tem qualquer resistência.

 

 Vai depressa procurá-lo; prometeu inocentar-me.

 

 Não serás tu, por acaso, um ladrão?

 

 Nem por isso, e bastante menos do que outros. Quero cuidar das minhas colmeias, e que o teu juiz me leve de volta a casa.

 

 

 Mentmosé recebeu o deão do pórtico na sua sala de armas, onde tinha em exposição escudos, espadas e trofeus de caça. Cínico, de nariz pontiagudo e voz roufenha, o chefe da polícia era completamente calvo e tinha o crânio um pouco avermelhado devido às erupções cutâneas que frequentemente o afligiam. Corpulento, fazia regime para preservar uma certa elegância. Presença assídua nas grandes recepções, dotado de um vasto leque de amizades, homem prudente e hábil, Mentmosé reinava sem restrições sobre as diferentes corporações da polícia. Ninguém podia apontar-lhe o mínimo erro; e velava pela sua reputação de alto dignitário intocável com o maior zelo.

 

 Visita de cortesia, meu caro deão?

 

 Discreta, como gostas.

 

 É a garantia de uma carreira longa e tranquila, não é verdade?

 

 Quando prendi Paser secretamente, impus uma condição.

 

 Falha-me a memória.

 

 Teres de revelar o móbil do crime.

 

 Não te esqueças de que surpreendi Paser em flagrante delito.

 

 Por que razão teria ele matado o seu mestre, um sábio que viria a ser o sumo-sacerdote de Carnaque e, consequentemente, o seu melhor apoio?

 

 Inveja ou tolice.

 

 Não me tomes por um pobre de espírito.

 

 Mas por que te preocupas tanto com o móbil? Livrámo-nos de Paser, é o que importa.

 

 Estás seguro da sua culpabilidade?

 

 Eu repito.- ele estava debruçado sobre o corpo de Branir quando o interceptei. No meu lugar, que conclusões terias tirado?

 

 Mas qual o móbil?

 

 Até tu o admitiste: um processo seria bastante prejudicial. O país deve respeitar os seus juizes e ter confiança neles. Paser gosta de escândalos. O seu mestre Branir deve ter certamente tentado acalmá-lo, mas ele exaltou-se e agrediu-o. Qualquer júri o condenaria à morte. Nós fomos até muito generosos com ele, visto que salvaguardámos a sua reputação. Oficialmente, morreu no desempenho de uma missão. Não te parece a solução mais satisfatória, tanto para ele como para nós?

 

 Suti conhece a verdade.

 

 Como...

 

 Kem obrigou Nébamon, o médico-chefe, a falar. Suti sabe que Paser está vivo e eu consenti que lhe revelassem o lugar onde está detido.

 

 O deão do pórtico ficou estupefato com a cólera do chefe da polícia. Mentmosé era considerado um homem ponderado.

 

 Insensato, completamente insensato! Tu, o mais alto magistrado da cidade, inclinares-te perante um soldado exonerado! Kem e Suti não podem fazer absolutamente nada.

 

 Estás a esquecer-te do depoimento escrito de Nébamon.

 

 As confissões obtidas sob tortura não têm qualquer valor.

 

 Mas estas foram datadas e assinadas bem antes disso.

 

 Destrói-as.

 

 Kem pediu ao médico-chefe que redigisse uma cópia, autenticada por dois servidores seus. A inocência de Paser está estabelecida. Durante as horas que precederam o crime, ele esteve a trabalhar no seu escritório. Os testemunhos comprová-lo-ão; eu já verifiquei.

 

 Admitamos que sim... Mas por que razão revelaste o local onde o escondemos? Nada nos obrigava a isso.

 

 Para poder ficar em paz comigo mesmo.

 

 Com a tua experiência, e na tua idade, tu...

 

 Justamente na minha idade. O juiz dos mortos pode chamar-me a qualquer momento. E, no caso de Paser, eu traí o espírito da lei.

 

 Tomaste o partido do Egito, sem te preocupares com os privilégios de um indivíduo.

 

 O teu discurso já não me ilude, Mentmosé.

 

 Vais abandonar-me?

 

 Se Paser voltar...

 

 Morre-se muito na prisão.

 

 Há já algum tempo que Suti ouvira o galope dos cavalos. Vinham de leste, eram dois e aproximavam-se a grande velocidade.

 

 Eram beduínos que andavam em pilhagem, à procura de uma presa fácil.

 

 Suti esperou que eles se aproximassem um pouco mais, esticou o arco, fincou um joelho em terra e fez pontaria para o da esquerda.

 

 Atingido no ombro, o homem caiu de costas. O seu companheiro precipitou-se em direção ao agressor. Suti fez novamente pontaria. A flecha atingiu o segundo nómada na coxa. O beduíno, soltando um grito de dor, perdeu o controlo da montada e caiu violentamente sobre um rochedo, perdendo os sentidos. Os dois cavalos ficaram desnorteados.

 

 Suti encostou a ponta da espada de dois gumes à garganta do nómada cambaleante, que tinha acabado de se levantar.

 

 De onde vens?

 

 Da tribo dos Corredores da Areia.

 

 Onde fica o teu acampamento?

 

 Atrás das rochas negras.

 

 Capturaram algum egípcio nestes últimos dias?

 

 Capturámos um desvairado que se julga juiz.

 

 E como é que o têm tratado?

 

 Está a ser interrogado pelo chefe da tribo.

 

 Suti saltou para o dorso do cavalo mais robusto e agarrou o outro pelas rédeas rudimentares que os beduínos utilizavam. Os dois feridos que se salvassem como pudessem.

 

 Os cavalos enveredaram por um carreiro bordado de seixos, que se tornava cada vez mais abrupto; resfolegando, e com a manta que os cobria completamente suada, atingiram o cume de uma colina de pequenos rochedos irregulares.

 

 O local era sinistro.

 

 Entre as rochas enegrecidas, crestadas pelo sol, cavavam-se bacias onde a areia rodopiava, evocando os caldeirões do inferno onde os danados eram mergulhados de cabeça, para baixo.

 

 Ao fundo da ladeira ficava o acampamento nómada. A tenda mais alta e mais colorida devia ser a do chefe. Havia cavalos e cabras dentro de uma cerca. Duas sentinelas, uma a sul outra a norte, vigiavam as redondezas.

 

 Contrariamente às leis da guerra, Suti esperou o cair da noite. Os beduínos, que se entregavam à invasão das terras inimigas, destruindo e saqueando, não mereciam qualquer consideração. O egípcio rastejou em silêncio, palmo a palmo, e só se levantou quando se acercou da sentinela do posto sul, que matou com um golpe certeiro nas vértebras cervicais. Os da tribo dos Corredores da Areia trilhavam ininterruptamente o deserto à procura de uma presa, por mais pequena que fosse, apesar de haver poucos em cada acampamento. Suti esgueirou-se até à tenda do chefe, onde entrou sorrateiramente por uma abertura oval que lhe servia de porta. Tenso, concentrado, sentia-se prestes a usar toda a violência de que era capaz.

 

 Ficou, porém, estupefato ao contemplar um espetáculo inesperado.

 

 O chefe beduíno, reclinado sobre almofadas, ouvia atentamente o discurso de Paser, sentado à escriba. O juiz parecia livre de executar qualquer movimento.

 

 O beduíno levantou-se. Suti atirou-se imediatamente para cima dele.

 

 Não o mates gritou Paser. Começávamos a entender-nos.

 

 Suti atirou o adversário para cima das almofadas.

 

 Interroguei o chefe sobre os seus costumes explicou Paser e tentei demonstrar-lhe que estava errado. Ficou admirado com a minha recusa em me tornar seu escravo, mesmo sabendo que com essa atitude arriscava a própria vida. E, agora, queria saber como funciona a nossa justiça...

 

 Quando deixasses de lhe interessar, amarrava-te à cauda de um cavalo e serias arrastado sobre pedras cortantes que te dilacerariam.

 

 Como me encontraste?

 

 Da mesma forma que te perdi. Suti amarrou e amordaçou o beduíno.

 

 Temos de sair daqui o mais depressa possível. Estão dois cavalos à nossa espera no alto da colina.

 

 Para quê? Não posso regressar ao Egito.

 

 Vem comigo, em vez de dizeres parvoíces.

 

 Não terei forças para tal.

 

 Tu as encontrarás quando souberes que estás ilibado e Néféret se impacienta com a tua ausência.

 

 

O deão do pórtico não ousava sequer encarar o juiz Paser.

 

 Estás livre declarou, num tom arrogante.

 

 O deão já estava à espera de uma dura censura e uma acusação devidamente elaborada. Contudo, Paser limitou-se a olhá-lo demoradamente.

 

 Evidentemente que a queixa é anulada. Quanto ao resto, peço-te um pouco de paciência... vou tratar de regularizar o mais rapidamente possível a tua situação.

 

 E o chefe da polícia?

 

 Pede imensa desculpa. Estávamos os dois enganados.

 

 E Nébamon?

 

 O médico-chefe não é propriamente culpado. Tratou-se de uma simples negligência administrativa... Foste vítima de um infeliz conjunto de circunstâncias, meu caro Paser. Se quiseres apresentar queixa...

 

 Vou refletir sobre o assunto.

 

 Por vezes é necessário saber perdoar...

 

 - Devolve-me o meu posto o mais rapidamente possível.

 

 Os olhos azuis de Néféret assemelhavam-se a duas pedras preciosas nascidas no coração das Montanhas do Ouro, no país dos deuses; ao pescoço, uma turquesa protegia-a dos malefícios. Envergava um vestido longo, de linho branco, com alças, que delineava a sua silhueta perfeita.

 

Ao aproximar-se, o juiz aspirou os perfumes de lótus e jasmim que aromatizavam a sua pele acetinada. Tomou-a nos braços e assim permaneceram, sem conseguirem articular uma palavra, durante longos minutos.

 

 Ainda me amas um pouco?

 

 Néféret afastou-se para olhar melhor para ele.

 

 Era orgulhoso, apaixonado, um pouco louco, jovem e velho ao mesmo tempo, sem beleza aparente, frágil, mas enérgico. Aqueles que o julgavam fraco e fácil de abater estavam redondamente enganados. Apesar do seu ar severo, da fronte alta e austera e do seu caráter exigente, a felicidade seduzia-o.

 

 Nunca mais quero separar-me de ti. Apertou-a contra o peito. A vida tinha agora um novo sabor, pujante como o jovem Nilo. Uma vida, porém, tão próxima da morte, naquela imensa necrópole de Saqqarah onde Paser e Néféret caminhavam de mãos dadas, lentamente. Queriam ir prestar,’ sem mais demora, uma última homenagem ao túmulo de Branir, o seu mestre assassinado. Afinal, não fora ele quem transmitira os segredos da medicina a Néféret e encorajara Paser a concretizar a sua vocação?

 

 Entraram na sala de mumificação, onde Djuí, sentado no chão e encostado a uma parede caiada de branco, comia carne de porco com lentilhas, apesar de o consumo dessa carne ser interdito durante os períodos de maior calor. Não tendo sido circuncidado, o mumificador não fazia caso das prescrições religiosas; de rosto comprido, sobrancelhas espessas e negras, unidas sobre o nariz, lábios finos privados de sangue, mãos intermináveis e pernas esguias, vivia num mundo à parte dos mortais.

 

 Sobre a mesa de embalsamamento jazia a múmia de um homem idoso em que Djuí tinha acabado de fazer uma incisão no flanco com uma faca de obsidiana.

 

 Estou a reconhecer-te disse, erguendo os olhos na direção de Paser. És o juiz que fez o inquérito sobre a morte dos veteranos.

 

 Mumificaste Branir?

 

 É esse o meu ofício.

 

 Não notaste nada de anormal?

 

 Não.

 

 Veio alguém visitar o túmulo?

 

 Depois da inumação não veio cá ninguém; só o sacerdote encarregado do serviço fúnebre entrou no templo.

 

 Paser ficou desapontado. Esperava que o assassino, atormentado pelo remorso, tivesse vindo implorar o perdão da vítima, para evitar a punição do além. Mas nem mesmo essa ameaça o assustava.

 

 O inquérito chegou a alguma conclusão?

 

 A seu tempo chegará.

 

 O mumificador, indiferente, cravou os dentes num naco de carne de porco.

 

 A pirâmide em degraus dominava a paisagem desde o começo dos tempos. Uma grande quantidade de túmulos estavam orientados na sua direção, de forma a participarem da imortalidade do faraó Djéser, cuja sombra imensa subia e descia todos os dias a gigantesca escadaria de pedra.

 

 Geralmente, escultores, gravadores de hieróglifos e desenhadores davam vida a inúmeras obras; aqui cavava-se um jazigo; ali restaurava-se um outro. Filas de trabalhadores puxavam zorras de madeira carregadas de blocos de calcário ou granito, enquanto os aguadeiros matavam a sede aos trabalhadores.

 

 Nesse dia de festa, em que se venerava Imotep, o mestre de obras da pirâmide em degraus, o local estava deserto. Paser e Néféret passeavam entre fiadas de túmulos datados das primeiras dinastias, zelosamente conservados por um dos filhos de Ramsés, o Grande. Quando o seu olhar pousava nos nomes dos defuntos, escritos em hieróglifos, trazia-os de novo à vida, ultrapassando a barreira do tempo. O poder da palavra superava o poder da morte.

 

 A sepultura de Branir, próximo da pirâmide em degraus, tinha sido construída com bonita pedra branca proveniente da pedreira de Turah. O acesso ao poço funerário que conduzia às câmaras subterrâneas onde repousava a múmia tinha sido obstruído por uma enorme laje, ao passo que a capela permanecia aberta aos vivos que viessem banquetear-se em companhia da estátua e das representações do defunto, carregadas da sua energia imperecível.

 

O escultor tinha criado uma magnífica efígie de Branir, imortalizando-o com o aspeto de um homem idoso, de rosto sereno e grande robustez. O texto principal, escrito em linhas horizontais sobrepostas, desejava ao ressuscitado as boas-vindas no belo ocidente; depois de uma longa viagem, ele estava agora junto dos seus irmãos, os deuses, alimentava-se de estrelas e purificava-se com água do oceano primordial. Guiado pelo seu coração, trilhava os caminhos perfeitos da eternidade.

 

 Paser leu em voz alta a dedicatória destinada ao hóspede do túmulo: Vivos que andais na terra e passais por este sepulcro, que amais a vida e odiais a morte, pronunciai o meu nome para que eu viva, dizei por minha intenção a prece da oferenda.

 

 Hei-de descobrir o assassino prometeu Paser.

 

 Néféret tinha sonhado com uma felicidade serena, longe dos conflitos e das ambições; mas o seu amor nascera na tormenta, e nem Paser nem ela própria poderiam ter paz enquanto não descobrissem a verdade.

 

 Quando as trevas foram vencidas, a terra resplandeceu de luz. As árvores e as ervas reverdesceram, os pássaros saíram dos ninhos, os peixes saltaram das águas, os barcos subiram e desceram o rio. Paser e Néféret saíram da capela cujos baixos-relevos refletiam a luz ténue da aurora. Tinham passado a noite junto da alma de Branir, sentindo-a próxima, vibrante e calorosa.

 

 Jamais se separariam dele.

 

 Terminada a festa, os artífices regressaram ao local. Os sacerdotes celebravam os ritos matinais, para perpetuar a memória dos desaparecidos. Paser e Néféret seguiram ao longo do caminho coberto do rei Unas, que terminava num templo situado num nível inferior, e sentaram-se à sombra das palmeiras, na orla dos campos cultivados. Uma menina sorridente trouxe-lhes tâmaras, pão fresco e leite.

 

 Podíamos ficar aqui para sempre, esquecer os crimes, a justiça e os homens.

 

 Tornaste-te num sonhador, juiz Paser?

 

 Quiseram livrar-se de mim da maneira mais vil possível e não vão desistir. Será sensato empreender uma guerra perdida à partida?

 

 Por Branir, pelo espírito que veneramos, temos o dever de lutar sem pensar em nós mesmos.

 

 Não passo de um juiz insignificante que a hierarquia colocará nos confins da mais longínqua província. Vão destruir-me sem dó nem piedade.

 

 E não tens medo?

 

 Falta-me a coragem. A prisão foi uma prova aterradora. Néféret encostou a cabeça ao ombro de Paser.

 

 Agora, estamos juntos. Não perdeste a tua força; sei-o, sinto-o. Um doce calor invadiu Paser. O sofrimento abrandou, a fadiga atenuou-se.  Néféret tinha poderes mágicos.

 

 Todos os dias, durante um mês, vais beber água recolhida num recipiente de cobre. É um remédio eficaz contra a fraqueza e o desespero.

 

 Quem poderia ter-me armado esta cilada, senão aquele que sabia que, em breve, Branir seria o sumo-sacerdote de Carnaque e, como tal, o nosso mais fiel aliado?

 

 A quem confiaste os teus segredos?

 

 Ao teu perseguidor, o médico-chefe Nébamon, para o impressionar.

 

 Nébamon... Nébamon possuía a prova da tua inocência e obrigava-me a casar com ele!

 

 Cometi um erro terrível. Ao revelar-lhe a nomeação de Branir, ele decidiu matar dois coelhos de uma cajadada: eliminar Branir e acusar-me do crime.

 

 Uma ruga sulcou a testa de Paser.

 

 Ele não é o único possível culpado. Uma vez que foi Mentmosé, o chefe da polícia, quem me prendeu, tinha forçosamente de estar combinado com o deão do pórtico.

 

 A polícia e a magistratura aliadas no crime...

 

 Um conluio, Néféret, um conluio que reuniu homens de poder e influência. Branir e eu tornámo-nos incómodos, pois eu tinha reunido indícios decisivos e ele ter-me-ia permitido levar o inquérito até ao fim. Por que razão é que a guarda de honra da esfinge foi exterminada? Eis uma questão a que devo responder.

 

Não te estarás a esquecer do químico Chéchi, do roubo do ferro celeste e de Asher, o general traidor?

 

 Sinto-me incapaz de estabelecer qualquer ligação entre os suspeitos e os delitos cometidos.

 

 Acima de tudo, preocupemo-nos com a memória de Branir.

 

 Suti tinha querido festejar condígnamente o regresso do seu amigo Paser, convidando o juiz e a mulher para jantarem com ele numa taberna respeitável de Mênfis, onde serviam um vinho tinto da colheita do ano um de Ramsés, borrego grelhado de primeira qualidade, legumes com um molho especial e bolos inesquecíveis. Transbordante de alegria, tentara fazê-los esquecer durante algumas horas o assassinato de Branir.

 

 De volta a casa, a cambalear e com a cabeça a andar à roda, foi de encontro a Pantera. A líbia de cabelos loiros agarrou-o pelos cabelos.

 

 De onde vens?

 

 Da prisão.

 

 Meio bêbado?

 

 Meio, não, completamente; mas Paser está são e salvo.

 

 E eu? Então, comigo não te preocupas?

 

 Suti agarrou-a pela cintura e levantou-a do chão, colando-a ao seu corpo.

 

 Voltei, não é milagre suficiente?

 

 Nem dei pela tua falta.

 

 Mentes. Os nossos corpos ainda têm muitos segredos por revelar.

 

 Deitou-a docemente na cama, levantou-lhe o vestido curto com a delicadeza de um velho amante, e penetrou-a com um arrebatamento de adolescente. Pantera gritou de prazer, incapaz de resistir à investida que tanto desejava.

 

 Quando estavam a descansar, lado a lado, ofegantes e em êxtase, ela pousou a mão no peito de Suti.

 

 Tinha prometido trair-te durante a tua ausência.

 

 E foste bem sucedida?

 

 Nunca o saberás. A dúvida far-te-á sofrer.

 

 Não te iludas. Para mim só contam o instante que passa e o prazer.

 

 És um monstro!

 

 Tens razão de queixa?

 

 Vais continuar a ajudar o juiz Paser?

 

 Claro, fizemos um pato de sangue.

 

 Continua decidido vingar-se?

 

 Antes de ser homem, ele é juiz. A verdade pesa mais que os seus sentimentos.

 

 Pelo menos desta vez, dá ouvidos ao que te digo. Não o encorajes e, se ele persistir, afasta-te.

 

 Por que razão me fazes esse aviso?

 

 Estás a incomodar gente muito importante.

 

 Que percebes tu disso?

 

 É só um pressentimento.

 

 Estás a esconder-me alguma coisa?

 

 Haverá mulher capaz de te enganar?

 

 O gabinete do chefe da polícia parecia uma colmeia fervilhante de zumbidos. Mentmosé não parava de andar de um lado para o outro, dando por vezes ordens contraditórias, apressando os empregados, para transportarem os rolos de papiro, as tabuinhas de madeira e qualquer arquivo que se tivesse acumulado após a sua entrada ao serviço. De olhar febril, Mentmosé coçava a cabeça calva e praguejava contra a lentidão da sua própria administração.

 

 No momento em que saiu à rua para verificar o carregamento de uma galera, viu-se subitamente frente a frente com o juiz Paser.

 

 Meu caro juiz...

 

 Estás a olhar para mim como se eu fosse um fantasma.

 

 Que ideia! Espero que a tua saúde...

 

 Ficou um pouco abalada com a estada na prisão, mas a minha mulher tratará de me restabelecer rapidamente. Vais mudar de instalações?

 

Osserviços de irrigação previram uma grande cheia. Devo tomar as minhas precauções.

 

 Não me parece que este bairro vá ficar inundado.

 

 O seguro morreu de velho.

 

 Onde te vais instalar?

 

 Bem... em minha casa; coisa provisória, claro.

 

 Coisa sobretudo ilegal. O deão do pórtico foi consultado?

 

 O nosso querido deão está muito cansado. Teria sido inconveniente ir importuná-lo.

 

 Não achas que devias suspender essa transferência de relatórios?

 

 A voz de Mentmosé tornou-se roufenha e estridente.

 

 Talvez estejas inocente do crime de que és acusado, mas a tua posição é ainda incerta e não te autoriza a dares-me ordens.

 

 Tens razão. Em contrapartida, a tua obriga-te a ajudares-me.

 

 Os olhos do chefe da polícia semicerraram-se como os de um gato.

 

 Que queres tu, afinal?

 

 Examinar de perto a agulha de madrepérola que matou Branir. Mentmosé coçou a cabeça.

 

 A meio da mudança...

 

 Não se trata dos arquivos, mas de uma prova do crime, que, como tal, deve estar apensa ao processo com a mensagem que me traiu: ”Branir corre perigo, vem depressa.”

 

 Os meus homens não encontraram nada.

 

 E a agulha?

 

 Espera um momento.

 

 O chefe da polícia eclipsou-se.

 

 A agitação acalmou. Os carregadores de papiros pousaram a carga nas prateleiras e retomaram o fôlego.

 

 Passados cerca de dez minutos, Mentmosé reapareceu. Estava perplexo.

 

 A agulha desapareceu.

 

 

Assim que Paser começou a beber a água medicinal contida dentro da copela de cobre, Bravo mendigou a sua parte. Sentado nas patas traseiras, com a longa cauda enrolada, as grandes orelhas caídas, para só arrebitarem à hora da refeição, e trazendo ao pescoço uma coleira de couro cor-de-rosa e branca onde se podia ler: ”Bravo, companheiro de Paser”, o cão lambeu o líquido benéfico, logo seguido do burro, que dava pelo nome de Vento do Norte. Diabrete, a sagui de Néféret, saltou para o dorso do burro, puxou a cauda ao cão e refugiou-se atrás da dona.

 

 Como posso eu restabelecer-me nestas condições?

 

 Não te queixes, juiz Paser. Tens o privilégio de teres em casa uma médica conscienciosa, permanentemente ao teu lado.

 

 Paser beijou-a no pescoço, precisamente no sítio que a fazia arrepiar-se toda. Mas Néféret encheu-se de coragem e repeliu-o.

 

 A carta.

 

 Paser sentou-se à escriba e desenrolou sobre os joelhos um papiro da melhor qualidade com cerca de vinte centímetros de largura. Dada a importância da mensagem, escreveria somente no rosto do documento. À sua esquerda, a parte enrolada; à direita, a extremidade desenrolada. Para dar um caráter respeitável ao texto, dispô-lo em linhas verticais separadas por um traço bem aprumado, desenhado os hieróglifos com a sua melhor tinta e um cálamo cuja ponta tinha sido afiada com perfeição.

 

 A mão estava absolutamente firme.

 

 Para o vizir Bagey, da parte do juiz Paser.

 

 Possam os deuses proteger o vizir, Ra iluminá-lo com os seus raios, Ámon preservar a sua integridade, Ptah dar-lhe coerência. Espero que o vizir se encontre de boa saúde e a prosperidade lhe não seja usurpada. Se a ele recorro, na minha qualidade de magistrado, é com o intuito de o informar de fatos da maior gravidade. Não só fui acusado injustamente do assassinato do sábio Branir e deportado para um campo de degredo, como, também, a arma do crime desapareceu enquanto estava na posse de Mentmosé, o chefe da polícia.

 

 Como mero juiz de bairro creio ter posto em evidência o comportamento suspeito do general Asher e demonstrado que os cinco veteranos encarregados da guarda de honra da esfinge desapareceram sem deixar rasto.

 

 Pessoalmente, penso que a própria justiça foi ridicularizada. Tentaram desembaraçar-se de mim com a cumplicidade do chefe da polícia e do deão do pórtico, com o intuito de travarem o meu inquérito e protegerem os conspiradores, cujo objetivo ignoro.

 

 Não me importa a minha sorte, mas quero identificar o, ou, os culpados pela morte do meu mestre. Que me seja ainda permitido expressar a minha apreensão pelo futuro do país; se tantas mortes atrozes permanecerem impunes, não serão o crime e a mentira, dentro em breve, os novos guias do povo? Somente o vizir tem poder para arrancar as raízes do mal. Por esta razão, solicito a sua intervenção, sob o olhar vigilante dos deuses, e juro sobre a Regra a veracidade dos meus propósitos.

 

 Paser datou e apôs o seu sinete à carta, enrolou o papiro, atou-o e fechou-o com um cunho de argila; inscreveu nele o seu nome e o do destinatário; e, em menos de uma hora, entregou-o ao empregado dos correios que nesse mesmo dia o entregaria no gabinete do vizir.

 

 O juiz levantou-se, inquieto.

 

 Esta carta pode significar o nosso exílio.

 

 Tem confiança. A reputação do vizir não é infundada.

 

 Se nos enganarmos, ficaremos separados para sempre.

 

 De modo nenhum, pois partirei contigo.

 

 Não havia ninguém no pequeno jardim.

 

 Encontrando aberta a porta da casinha caiada de branco, Paser entrou. Nem Suti nem Pantera estavam em casa, apesar do adiantado da hora. Como faltava pouco para o pôr do Sol, talvez os amantes se tivessem ido sentar debaixo do caramanchão, junto ao poço, a apanhar o fresco da tarde.

 

 Paser, intrigado, atravessou a sala principal. Finalmente, ouviu ruídos. Não provinham do quarto, mas da cozinha ao ar livre, situada nas traseiras da casa. Sem dúvida alguma, Pantera e Suti estavam a trabalhar!

 

 A líbia de cabelos loiros fabricava manteiga, que conservava na parte mais fresca da cave, à qual misturava alforba e alcaravia, sem lhe adicionar água nem sal para não escurecer.

 

 Suti fazia cerveja. Com farinha de cevada moída e amassada, tinha feito uma pasta que cozera superficialmente em formas dispostas à volta de uma lareira.

 

 Os pães assim obtidos eram depois postos a macerar numa água açucarada com tâmaras; após a fermentação, era necessário mexer e filtrar o líquido e depois transvazá-lo para uma bilha de barro vidrado, indispensável à conservação da bebida.

 

 Três bilhas foram introduzidas nos buracos de uma tábua colocada sobre tacos e fechadas com um rolhão de limos secos.

 

 Vais dedicar-te ao artesanato? perguntou Paser. Suti voltou-se.

 

 Nem te ouvi chegar! Pois é, a Pantera e eu decidimos fazer fortuna. Ela fabricará manteiga, e eu cerveja.

 

 Irritada, a líbia empurrou o bloco de gordura para o lado, limpou as mãos a um pano escuro e desapareceu sem cumprimentar o juiz.

 

 Não lhe ligues, é o mau génio. Esqueçamos a manteiga. Felizmente, há cerveja! Ora prova lá isto.

 

 Suti retirou a bilha maior do buraco, tirou a rolha e introduziu um tubo ligado a um filtro para não deixar passar senão o líquido e reter as partículas de massa flutuantes.

 

 Paser bebeu um gole, mas parou de imediato.

 

 Que azedo!

 

 Azedo como? Segui a receita à risca.

 

Suti também bebeu, e cuspiu.

 

 Está horrível! Vou abandonar o fabrico de cerveja; não é ofício para mim. Como vão as coisas?

 

 Escrevi ao vizir.

 

 É muito arriscado.

 

 Mas indispensável.

 

 Olha que se fores preso outra vez, não vais resistir.

 

 A justiça triunfará.

 

 A tua credulidade é comovente.

 

 O vizir Bagey terá de agir.

 

 Por que razão não poderá ele ser também corrupto e estar comprometido, tal como o chefe da polícia e o deão do pórtico?

 

 Porque ele é o vizir Bagey.

 

 Esse velho carcomido é inacessível a qualquer forma de sentimento.

 

 Ele privilegiará os interesses do Egito.

 

 Que os deuses te oiçam!

 

 Esta noite, revivi o momento de pavor em que vi a agulha de madrepérola cravada no pescoço de Branir. Trata-se de um objeto precioso, de custo muito elevado, que somente uma mão hábil pode manejar.

 

 Tens alguma pista?

 

 Simples intuição, talvez desprovida de interesse. Aceitarias fazer uma visita à principal tecelagem de Mênfis?

 

 Eu, de novo em missão?

 

 Parece-me que lá as mulheres são muito bonitas.

 

 Não me digas que tens medo de lá ir?

 

 É que a tecelagem fica fora da minha jurisdição, e um passo em falso desse calibre seria proveitoso para Mentmosé.

 

 Sendo monopólio real, a tecelagem empregava um grande número de homens e mulheres, que trabalhavam em teares de liços baixos, constituídos por dois cilindros sobre os quais se enrolavam os fios da urdidura, e teares de liços altos, formados por um quadro retangular  colocado verticalmente, em que o fio da urdidura se ia enrolando num cilindro superior, e a peça tecida num cilindro inferior. Certos tecidos ultrapassam os vinte metros de comprimento, podendo a altura variar entre um metro e vinte e um metro e oitenta.

 

 Suti observou um tecelão, com os joelhos encostados ao peito, que rematava um galão para a túnica de um nobre; fixou em primeiro lugar a atenção nas raparigas que torciam e enrolavam num novelo as fibras de linho curtido. Outras raparigas, não menos sedutoras, dispunham uma urdidura sobre o cilindro superior de um tear horizontal, antes de entrecruzarem duas séries de fios esticados. Uma fiandeira utilizava um fuso com um disco de madeira, que manejava com espantosa destreza.

 

 Suti não passou despercebido; o seu rosto esguio, o olhar discreto, os longos cabelos negros e um andar marcado pela força e pela elegância, deixavam poucas mulheres indiferentes.

 

 Que desejas? perguntou a fiandeira, que molhava as fibras de forma a obter um fio fino e resistente.

 

 Gostaria de falar com o diretor da tecelagem.

 

 A senhora Tapeni só recebe visitas com recomendação do palácio.

 

 Nunca abre excepções? murmurou Suti. Impressionada, a fiandeira abandonou o trabalho.

 

 Vou ver.

 

 A tecelagem era ampla e muito limpa. A inspeção do trabalho assim o exigia. A luz penetrava por clarabóias retangulares abertas no telhado plano, e a circulação de ar era obtida graças a uma sábia disposição de lucarnas oblongas. No Inverno era quente e, no Verão, fresca. Os operários especializados, com vários anos de experiência, recebiam salários elevados, sem discriminação entre homens e mulheres.

 

 No momento em que Suti sorria a uma tecelã, a fiandeira reapareceu.

 

 Vem comigo.

 

 A senhora Tapeni, cujo nome significava ”a ratinha”, estava sentada numa sala imensa cheia de teares, correntes, lançadeiras, agulhas, fusos e demais instrumentos necessários à prática da sua arte. Pequena, de longos cabelos negros, olhos verdes, tez morena e aspeto jovial, dirigia os operários com pulso militar. A sua doçura aparente escondia um autoritarismo muitas vezes marcante. Todavia, os produtos que saíam da sua tecelagem eram de uma beleza tal que nenhum defeito se lhes podia apontar. Celibatária aos trinta anos, Tapeni só pensava no seu ofício. Família e filhos apareciam-lhe como obstáculos ao progresso da sua carreira.

 

 Mal deparou com Suti, sentiu o medo apoderar-se dela.

 

 Medo de se apaixonar estupidamente por um homem a quem bastava aparecer diante de uma mulher para a seduzir. O seu receio transformou-se imediatamente num outro sentimento, deveras excitante: a atração irresistível da caçadora pela sua presa. A sua voz tornou-se afável.

 

 Em que posso ser-te útil?

 

 Trata-se de um assunto privado.

 

 Tapeni dispensou os seus ajudantes. O perfume do mistério fazia aumentar a sua curiosidade.

 

 Estamos sós.

 

 Suti deu uma volta pela sala e parou diante de uma fiada de agulhas de madrepérola dispostas sobre uma tabuinha coberta com pano.

 

 São soberbas. Quem está autorizado a utilizá-las?

 

 Interessas-te pelos segredos do ofício?

 

 Apaixonam-me.

 

 És inspetor do palácio?

 

 Está descansada, procuro apenas uma pessoa que utilizou este tipo de agulhas.

 

 Uma amante atraiçoada.

 

 Quem sabe?

 

 Os homens também as usam. Espero que não sejas...

 

 Que as tuas dúvidas sejam dissipadas.

 

 Como te chamas?

 

 Suti.

 

 Profissão?

 

 Viajo muito.

 

 Mercador e um pouco espião... És muito atraente.

 

 E tu és deslumbrante.

 

  Achas?

 

 Tapeni correu a peça de madeira que fazia de ferrolho.

 

 É possível encontrar este tipo de agulhas em qualquer tecelagem?

 

 Só nas grandes tecelagens.

 

 Então a lista de utilizadores é limitada.

 

 Certamente.

 

 Tapeni aproximou-se dele e tocou-lhe nos ombros.

 

 És forte. Deves ser um grande lutador.

 

 Sou um herói. Concordas em dar-me os nomes?

 

 Talvez. Estás assim com tanta pressa?

 

 Identificar o proprietário de uma agulha como aquela...

 

 Cala-te, falaremos mais tarde. Aceito ajudar-te, mas com a condição de seres meigo, muito meigo...

 

 Tapeni pousou os seus lábios nos de Suti, que, após uma breve hesitação, se viu obrigado a corresponder ao convite. A delicadeza e o sentido de reciprocidade contavam entre os valores mais intangíveis da civilização. Nunca recusar um presente era ponto de honra para Suti.

 

 A senhora Tapeni untou o sexo do amante com uma pomada à base de sementes de acácia moídas e mel; assim, e uma vez o esperma esterilizado, desfrutaria com toda a tranquilidade daquele magnífico corpo de homem, esquecendo o barulho dos teares no seu eterno vaivém e as recriminações dos trabalhadores.

 

 ”Fazer inquéritos por conta de Paser não traz senão perigos”, pensou Suti.

 

 

O juiz Paser e Kem, o polícia núbio, abraçaram-se. O colosso negro estava acompanhado do seu babuíno, cujo olhar inquiridor assustava os transeuntes. Comovido quase até às lágrimas, o núbio apalpou a prótese de madeira que substituía o nariz mutilado.

 

 Néféret contou-me tudo. Se estou livre, devo-o a vocês dois.

 

 O babuíno mostrou-se persuasivo.

 

 Há notícias de Nébamon?

 

 Está a descansar na casa de campo.

 

 Vai retomar a ofensiva.

 

 Quem duvida disso? Mas vai mostrar-se mais prudente contigo.

 

 Se ainda for juiz. Escrevi ao vizir: ou se ocupa do inquérito e me confirma nas funções, ou vai julgar o meu pedido insolente e inadmissível.

 

 Corado, bochechudo, com os braços carregados de papiros, o escrivão larrot entrou no gabinete do juiz.

 

 Eis o que fiz na tua ausência! Devo retomar o trabalho?

 

 Ignoro o que o futuro me reserva, mas detesto que os processos fiquem parados. Como não mo proibiram, coloco-lhes o meu sinete. Como vai a tua filha?

 

 Teve um princípio de sarampo e envolveu-se numa zaragata com um rapazito odioso que a arranhou na cara. Apresentei queixa contra os pais. Por sorte, dança cada vez melhor. Mas a minha mulher... que harpia!

 

 Sempre a resmungar, larrot arrumou os papiros nos respetivos lugares.

 

Até o vizir me dar uma resposta, não saio deste escritório.

 

 Vou dar uma volta para os lados da casa de Nébamon disse o núbio.

 

 Néféret e Paser tinham decidido não ir viver para a casa de Branir, pois onde a desgraça tinha grassado, jamais alguém devia morar. Contentar-se-iam com a pequena residência oficial, da qual, metade estava ocupada com os arquivos do juiz. Se fossem ali apanhados, voltariam para a região de Tebas.

 

 Néféret levantava-se mais cedo do que Paser, que gostava de trabalhar até tarde. Depois de se lavar e pintar, dava de comer ao cão, ao burro e à saguí. Bravo, que tinha uma pequena infeção numa pata, era tratado com lodo do Nilo, cujas virtudes desinfetantes eram bem conhecidas pela sua rapidez e eficácia.

 

 A jovem pousava a maleta dos medicamentos na garupa de Vento do Norte e, com um sentido inato de orientação, o burro levava-a pelas vielas do bairro, onde os doentes aguardavam a sua intervenção. Como retribuição, enchiam-lhe com os mais variados alimentos as cangalhas que o burro transportava com evidente satisfação.

 

 Não havia bairros separados para ricos e pobres. Nas mesmas ruelas buliçosas, por onde circulavam pessoas e animais, coexistiam pequenas casas de adobes encimadas por terraços sombreados de árvores e grandes casas rodeadas de magníficos jardins. As pessoas trocavam insultos, regateavam, riam-se; mas Néféret não tinha tempo nem para tertúlias nem para alegrias. Depois de três dias de luta incerta, conseguira finalmente expulsar uma febre maligna do corpo de uma menina que os demónios da noite tinham invadido. A pequena enferma já podia chupar o leite da ama conservado numa garrafa em forma de hipopótamo, o ritmo do seu coraçãozinho voltara ao normal, e as pulsações eram regulares. Néféret colocou à volta do pescoço da bebé um colar de flores, e nas orelhas umas argolas leves; o sorriso da paciente foi a melhor das recompensas.

 

 Quando voltou para casa, extenuada, Suti discutia com Paser.

 

 Falei com a senhora Tapeni, a diretora da principal tecelagem de Mênfis.

 

 Com bons resultados?

 

 Aceitou ajudar-me.

 

 Alguma pista importante?

 

 Ainda não. Inúmeras pessoas podem ter utilizado este tipo de agulha.

 

 Paser baixou os olhos.

 

 Diz-me Suti... Essa tal senhora Tapeni é bonita?

 

 Não é desagradável de todo.

 

 E este primeiro contato foi só... amigável?

 

 A senhora Tapeni é uma mulher independente e afetuosa. Néféret perfumou-se e deu-lhes de beber.

 

 Esta cerveja não tem qualquer tipo de riscos disse Paser. Se calhar, não se pode dizer o mesmo da tua ligação com Tapeni.

 

 Estás a pensar na Pantera? Ela vai compreender a necessidade deste inquérito.

 

 Suti beijou Néféret nas duas faces.

 

 Vocês não se esqueçam de que eu sou um herói.

 

 Denes, o rico transportador altamente reputado, gostava de repousar na sala da sua sumptuosa casa de Mênfis. Nas paredes, flores de lótus; no chão, lousas coloridas, evocando peixes a brincarem num lago. Dispersos sobre mesas redondas, uma boa dezena de cestos repletos de romãs e cachos de uvas. Quando regressava das docas, onde controlava a partida e a chegada dos seus barcos, Denes gostava de saborear coalhada com sal e de beber água mantida fresca numa bilha de barro. Estava reclinado sobre almofadas, uma serva massajava-o e o seu barbeiro privativo barbeava-o, aparando-lhe os pêlos da barba branca. De rosto quadrado e carrancudo, Denes parou de dar ordens quando a mulher, Nénofar, se intrometeu; opulenta e majestosa, vestida na última moda, era dona de três quartos da fortuna do casal. Como tal, Denes achava sempre preferível ceder durante as frequentes desavenças do casal.

 

 Nessa tarde, nenhuma zanga se desenhava no horizonte. Denes estava com dores de cabeça e nem ouvia o discurso inflamado de Nénofar, vociferando contra o fisco, o calor e as moscas.

 

Quando o servo mandou entrar o dentista Qadash, Denes levantou-se e cumprimentou-o com um abraço.

 

 Paser voltou declarou o dentista, sombrio.

 

 Choroso, de testa baixa e maçãs do rosto salientes, esfregava as mãos, vermelhas da má circulação. No nariz, as veias violáceas pareciam prestes a rebentar. Com os cabelos brancos em desalinho, Qadash mostrava-se muito agitado.

 

 Ele e o seu amigo Denes estavam sob suspeita do juiz e haviam suportado os seus ataques, sem que ele conseguisse provar que eram culpados.

 

 Mas afinal o que se passa? Então um relatório oficial não tornou público o falecimento de Paser?

 

 Acalma-te recomendou Denes. Ele voltou, mas não ousa empreender mais nenhuma ação contra nós. A detenção abalou-o.

 

 Sabe-se lá! protestou Nénofar, que se pintava, retirando um pouco de unguento de um boião com a cavidade de uma colherinha, cujo cabo representava um negro deitado com as mãos cruzadas atrás das costas. Este juiz é um obstinado. Ele vai vingar-se.

 

 Não creio.

 

 Porque és cego, como sempre.

 

 A tua posição nos tribunais permite-nos estar permanentemente informados das maquinações de Paser.

 

 A senhora Nénofar, que dirigia com ímpeto uma equipa de agentes comerciais encarregados de vender produtos egípcios no estrangeiro, tinha obtido os lugares de intendente de matérias-primas para fabrico e inspetora do Tesouro.

 

 O aparelho judicial não tem qualquer ligação com as exigências económicas objetou ela. E se ele for até ao vizir?

 

 Bagey é tão teimoso quanto intratável. Não se vai deixar manipular por um magistrado ambicioso cujo único objetivo é fazer escândalo para aumentar a sua notoriedade.

 

 A chegada do químico Chéchi interrompeu a conversa. Franzino, com o lábio superior debruado por um bigodinho preto, pouco expansivo, a ponto de se remeter dias inteiros ao silêncio, avançava como uma sombra.

 

 Estou atrasado.

 

 Paser está em Mênfis! revelou Qadash atabalhoadamente.

 

 Estou ao corrente.

 

 Que pensa o general Asher?

 

 Está tão surpreendido como tu e eu. Tínhamos acolhido com tanta alegria o anúncio da morte do juiz...

 

 Quem o libertou?

 

 Asher não sabe quem foi.

 

 Que medidas pensa ele tomar?

 

 Não me confidenciou os seus intentos.

 

 E o programa de armamento? perguntou Denes.

 

 Continua.

 

 Alguma expedição em vista?

 

 Adafi, o líbio, fomentou algumas desordens perto de Biblos, mas as forças de segurança foram suficientes para suster a revolta das duas aldeias.

 

 Então, Asher continua a ter a confiança do faraó.

 

 Uma vez que a culpabilidade dele não foi provada, o rei não pode demitir um herói que ele mesmo condecorou e nomeou chefe dos instrutores dos exércitos da Ásia.

 

 A senhora Nénofar colocou ao pescoço um colar de ametistas.

 

 A guerra faz muitas vezes prosperar o comércio. Se Asher previr uma campanha contra a Síria ou contra a Líbia, avisa-me quanto antes. Assim, mudo os meus circuitos comerciais e saberei mostrar-me generosa contigo.

 

 Chéchi anuiu, inclinando-se.

 

 Estás a esquecer-te de Paser! protestou Qadash.

 

 Um homem sozinho contra as forças que o irão esmagar ironizou Denes. Temos de continuar a ser astutos.

 

 E se ele descobre?

 

 Deixemos Nébamon agir. Afinal, não é o nosso médico-chefe a parte mais interessada?

 

 Nébamon tomava, por dia, uma dezena de banhos frios numa grande cuba de granito cor-de-rosa onde os servos deitavam um líquido perfumado. Depois, envolvia os testículos com uma pomada calmante que, pouco a pouco, lhe apaziguava as dores.

 

 O maldito babuíno de Kem, o polícia núbio, quase lhe tinha arrancado a virilidade. Dois dias depois da agressão, uma forte erupção cutânea tinha-lhe atacado a pele delicada do escroto. Receando uma supuração, o médico-chefe tinha-se isolado na casa de campo mais bonita que possuía, depois de anular as operações de cirurgia estética prometidas às belezas da corte que se sentiam a envelhecer.

 

 Quanto mais odiava Paser, mais amava. Néféret. Ela tinha troçado dele, sem dúvida, mas não lhe guardava rancor. Sem este juiz medíocre, pernicioso à força de tanta obstinação, a jovem teria cedido e ter-se-ia tornado sua mulher.

 

 Nébamon nunca havia sido recusado, e sofria agora na carne esta afronta insuportável.

 

 O melhor aliado de Nébamon ainda era Mentmosé. A posição do chefe da polícia, que tinha destruído a mensagem, destinada a atrair Paser, e também a arma do crime, tinha-se tornado muito delicada. O rigoroso inquérito instaurado tinha demonstrado, pelo menos, a sua incompetência. Mentmosé, que passara a vida engendrando intrigas para obter o cargo, não suportaria uma demissão. No entanto, nem tudo estava perdido.

 

 O general Asher era ele próprio o comandante-em-chefe das tropas de elite que, mal recebessem ordens, partiriam para a Ásia. De baixa estatura, rosto de fuinha, cabelo rapado, cara coberta de pêlos pretos e hirsutos, pernas curtas e grande cicatriz a retalhar-lhe o peito, sentia um verdadeiro prazer em ver sofrer os seus homens, carregados com sacos cheios de pedras e obrigados a rastejar na areia e no pó e a defenderem-se de um agressor armado com uma faca. Sem piedade, eliminava os vencidos. Nem os oficiais gozavam de qualquer privilégio; também eles tinham de provar as suas aptidões físicas.

 

 Que pensas destes futuros heróis, Mentmosé?

 

 O chefe da polícia, embrulhado numa manta de lã, suportava mal o ar fresco da alvorada.

 

 Parabéns, general.

 

 A maioria destes imbecis está inapta para o serviço, e os outros estão pouco melhor! O nosso exército é muito farto e muito frouxo. Já não possuímos o gosto da vitória.

 

 Mentmosé espirrou.

 

 Terás apanhado frio?

 

 As preocupações, a fadiga...

 

 E o juiz Paser?

 

 A tua ajuda será preciosa, general.

 

 No Egito ninguém pode opor-se à justiça. Noutros países, teríamos as vantagens da liberdade.

 

 Um relatório afirmava que ele estava morto na Ásia.

 

 Um erro administrativo banal, pelo qual não sou responsável. O processo que Paser me instaurou não foi encerrado e fui mantido em funções. O resto não me interessa.

 

 Devias ter sido mais prudente.

 

 Mas esse juízeco não está desacreditado?

 

 As acusações formuladas contra ele foram retiradas. Não poderíamos considerar juntos... uma solução?

 

 Tu és polícia, eu sou soldado. Não misturemos as coisas.

 

 No interesse de ambos...

 

 O meu interesse consiste em manter-me o mais longe possível desse juiz. Até breve, Mentmosé; os meus oficiais esperam-me.

 

 

A hiena atravessou o subúrbio do Sul, lançou o seu grito sinistro, desceu o talude e matou a sede no canal. Assustadas, as crianças gritaram. As mães meteram-nas em casa e trancaram as portas. Ninguém ousou enfrentar a enorme fera que nada parecia temer. Nem mesmo os caçadores mais experientes ousaram aproximar-se. Satisfeita, a hiena voltou para o deserto.

 

E todos recordaram a velha profecia, segundo a qual, ”quando as bestas selvagens vierem beber ao rio, a injustiça reinará e a felicidade abandonará o país”.

 

O povo começou a murmurar e as suas queixas, repetidas de bairro em bairro, chegaram aos ouvidos de Ramsés, o Grande. O invisível começava a falar; ao incarnar no corpo de uma hiena, desacreditava o rei aos olhos do país. Por todas as províncias o povo se mostrava inquieto com este mau presságio, e começava a interrogar-se sobre a legitimidade do reinado de Ramsés.

 

O faraó tinha de agir quanto antes.

 

Néféret varria o quarto com uma pequena vassoura; de joelhos, segurava com firmeza o cabo duro enquanto agitava, com pulso ágil, as longas fibras de junco amarradas com várias voltas de baraço.

 

A resposta do vizir nunca mais chega  desabafou Paser, sentado num banquinho.

 

Néféret pousou a cabeça nos joelhos do juiz.

 

 Para que te atormentas? Essa inquietação destrói-te e enfraquece-te.

 

 O que irá Nébamon fazer contra ti?

 

 Não vais proteger-me? Ele acariciou-lhe os cabelos.

 

 Tudo o que desejo encontro ao teu lado. Como é belo este momento! Quando durmo ao teu lado, sinto-me inundado por uma felicidade sem limites. Ao amares-me engrandeceste o meu coração. Tu pertences-lhe, a tua presença dá-lhe vida. Nunca te afastes de mim. Quando te vejo, os meus olhos já não precisam de outra luz.

 

 Os seus lábios uniram-se com a doçura de uma primeira emoção. E, nessa manhã, Paser chegou com um considerável atraso ao escritório.

 

 Néféret preparava-se para ir fazer as suas consultas quando uma jovem, ofegante, correu na sua direção.

 

 Espera, peço-te! chamou Silkis, a mulher do alto funcionário Bel-Tran.

 

 O burro, carregado com a maleta dos medicamentos, consentiu em manter-se imóvel.

 

 O meu marido queria ver com urgência o juiz Paser. Bel-Tran, fabricante e vendedor de papiros, tinha-se tornado notado pelas suas qualidades de gestor e subido ao cargo de diretor do Tesouro. Paser tinha-o ajudado num momento difícil e ele devotava-lhe reconhecimento e amizade. Silkis, muito mais nova do que o marido, tinha sido cliente do médico-chefe Nébamon, que adelgaçara com sucesso o seu rosto e as ancas bastante avantajadas. Bel-Tran queria exibir-se ao lado de uma esposa digna das mais belas mulheres do Egito, mesmo se a custo de uma cirurgia estética. De pele clara e traços agora mais finos, Silkis parecia uma adolescente com as formas ainda a desabrochar.

 

 Se ele aceitar vir comigo, levo-o ao Tesouro onde Bel-Tran o vai receber antes de partir para o Delta. E, de agora em diante, gostava de receber os teus serviços de médica.

 

 De que sofres?

 

 De horríveis enxaquecas.

 

 O que comes?

 

 Confesso que muitos doces. Adoro sumo de figo, sou louca por sumo de romã, e rego os pastéis com sumo de alfarroba.

 

 E legumes?

 

 Não gosto tanto.

 

 Come mais legumes e menos doces. As enxaquecas devem atenuar-se. No sítio onde te dói, vais aplicar uma pomada.

 

 Néféret receitou-lhe um remédio composto de caule de junco, junípero, seiva de pinheiro, bagas de loureiro e terebintina, tudo esmagado e reduzido a uma massa compata, misturada com um unguento.

 

 O meu marido vai retribuir-te generosamente.

 

 Como entenderes.

 

 Aceitarias tornares-te nossa médica?

 

 Se a minha terapia vos convém, porque não?

 

 O meu marido e eu ficar-te-emos muito gratos. Posso levar o juiz?

 

 Com a condição de não o perderes.

 

 Quanto mais depressa Bel-Tran trabalhava, mais processos meticulosos e delicados lhe confiavam. A sua prodigiosa memória para números e a sua capacidade de fazer cálculos a uma velocidade siderante, tornavam-no indispensável. Algumas semanas após ter começado a trabalhar com os altos funcionários do Tesouro, beneficiou de uma promoção e tornou-se num dos colaboradores mais próximos do diretor da Casa do Ouro e da Moeda, como encarregado das finanças do reino. Os elogios não tinham fim; preciso, rápido, metódico e trabalhador obstinado, dormia muito pouco, pois era sempre o primeiro a chegar às instalações do Tesouro e o último a ir-se embora. Alguns auguravam-lhe uma carreira fulgurante

 

 Bel-Tran estava rodeado por três escribas a quem ditava cartas administrativas, quando sua mulher mandou entrar Paser. Deu-lhe um abraço vigoroso, terminou o que tinha em mãos, mandou sair os escribas e pediu à mulher que lhe preparasse um almoço abundante.

 

Nós temos um cozinheiro, mas a Silkis é irredutível no que diz respeito à qualidade dos alimentos. A sua opinião é soberana.

 

 Pareces-me muito ocupado.

 

 Nunca imaginei que as minhas novas funções fossem tão agradáveis. Mas falemos antes de ti!

 

 De cabelos muito pretos colados a uma cabeça muito redonda por um unguento perfumado, de ossatura pesada e mãos e pés rechonchudos, Bel-Tran falava depressa e nunca estava quieto. Parecia incapaz de gozar um momento de repouso, sempre com o espírito atravessado por mil projetos e inquietações.

 

 Tu viveste um calvário. Como só fui informado muito mais tarde, não tive hipótese alguma de intervir.

 

 Não te censuro. Só Suti podia tirar-me de uma situação tão difícil.

 

 Quem achas tu que são os culpados?

 

 O deão do pórtico, Mentmosé e Nébamon.

 

 O deão deve pedir a demissão. O caso de Mentmosé é mais difícil; ele vai jurar que foi enganado. Quanto a Nébamon, esconde-se nas propriedades que possui, mas não é homem para desistir. Não estarás a esquecer-te do general Asher? Ele odeia-te. Na altura do processo, tu não conseguiste destruir-lhe a reputação; o seu poder continua mais ao menos intato e a sua influência não diminuiu. Não será ele quem, na sombra, manipula os outros?

 

 Escrevi ao vizir a pedir-lhe que reabrisse o inquérito.

 

 Excelente ideia.

 

 Ainda não respondeu.

 

 Estou confiante de que o fará. Bagey não vai aceitar ver a justiça injuriada desta maneira. Ao atacarem-te, os teus inimigos estão a opor-se a ele.

 

 Mesmo que ele me retire do caso, mesmo que eu deixe de ser juiz, hei-de descobrir o assassino de Branir. Sinto-me responsável pela sua morte.

 

 O que pensas fazer?

 

 Fui demasiado falador.

 

 Não te tortures dessa maneira.

 

 Acusarem-me de culpado da morte dele foi o golpe mais cruel que me podiam ter dado.

 

 Mas eles não conseguiram, Paser! Eu queria ver-te, para te oferecer o meu apoio. Quaisquer que sejam as provações que tenhas de enfrentar no futuro, estou do teu lado. Não gostarias de mudar de casa e ires viver para uma mais espaçosa?

 

 Aguardo a resposta do vizir.

 

 Kem, mesmo durante o sono, mantinha-se alerta. Dos anos de infância, passados nas longínquas regiões da Núbia, conservava o instinto de caçador. Quantos dos seus companheiros, muito mais seguros de si, não tinham sido mortos na savana, dilacerados pelas garras de um leão?

 

 O núbio acordou sobressaltado e tateou o nariz de madeira. Às vezes, sonhava que a matéria inerte se transformava em carne, e que pulsava. Mas não era altura para fantasias; alguns homens subiam a escada. O babuíno também tinha aberto os olhos. Kem vivia rodeado de arcos, espadas, punhais e escudos; quando dois polícias começaram a arrombar a porta da habitação, equipou-se num instante. A princípio, era ele quem batia, ajudado pelo babuíno; mas uma vintena de novos agressores entrou de roldão pela porta dentro.

 

 Foge! gritou ele ao macaco.

 

 O babuíno lançou-lhe um olhar onde se misturavam a indignação e a promessa de vingança. Escapando ao bando armado, saiu por uma janela, saltou para o telhado da casa contígua e desapareceu.

 

 Kem, lutando até ao limite das suas forças, foi difícil de dominar; depois, já deitado de costas e amarrado, viu entrar Mentmosé.

 

 O chefe da polícia passou, ele mesmo, uma peia em forma de amêndoa à volta dos seus pulsos atados.

 

 Finalmente disse, sorrindo. Cá temos o assassino.

 

 Pantera moeu restos de safiras, esmeraldas, topázios e hematites, peneirou o pó obtido por um crivo de junco fino, deitou-o numa caldeira e ateou uma fogueira com madeira de sicômoro. Depois, juntou um pouco de terebintina para obter um unguento de luxo que moldaria em forma de cone e com o qual untaria perucas, coifas e cabelos, e perfumaria todo o corpo.

 

 Suti surpreendeu a bela loira no momento em que ela se inclinava para a mistura.  Ficas-me cara, minha vaidosa, e olha que ainda não encontrei um meio de fazer fortuna. Já nem sequer te posso vender como escrava.  Foste para a cama com uma egípcia!  Como sabes?  Sinto-o. O odor dela entranhou-se no teu corpo.  Paser confiou-me um inquérito delicado. I

 

 Paser, sempre Paser! Ele também te ordenou que me enganasses?

 

 Estive a conversar com uma mulher notável, diretora da principal tecelagem da cidade.

 

 E o que tem ela assim de tão... notável? As nádegas, o sexo, os seios, o...

 

 Não sejas vulgar. Pantera atirou-se ao amante com tal violência que o imobilizou  contra a parede, cortando-lhe a respiração.  No teu país não é crime ser-se infiel?  Mas nós não somos casados.  Claro que somos; vivemos debaixo do mesmo teto.  Devido às tuas origens, precisaríamos de um contrato, e eu detesto papeladas.  Se não a deixares imediatamente, mato-te.

 

 Suti inverteu a situação, e foi a vez de a líbia ficar contra a parede.

 

 Ouve bem, Pantera. Nunca ninguém me impôs normas de conduta. Se for obrigado a casar com esta ou aquela, para cumprir os meus deveres de amigo, faço-o sem hesitações. Ou entendes isto, ou vais-te embora.

 

 Os olhos dela abriram-se desmedidamente, mas não verteu nem uma lágrima.

 

 Ela ia matá-lo; disso não tinha quaisquer dúvidas.

 

 Com a letra mais bonita que sabia fazer, Paser preparava-se para redigir uma segunda carta ao vizir, a reforçar a gravidade dos fatos ocorridos e a solicitar uma intervenção urgente da parte do mais alto magistrado do Egito, quando o chefe da polícia entrou no seu gabinete.

 

 Mentmosé trazia a satisfação estampada no rosto.

 

 Juiz Paser, mereço as tuas felicitações.

 

 Por que razão?

 

 Prendi o assassino de Branir.

 

 Continuando sentado à escrivaninha, Paser observou Mentmosé.

 

 O assunto é demasiado grave para se prestar a brincadeiras.

 

 Não estou a brincar.

 

 Qual o seu nome?

 

 Kem, o teu polícia núbio.

 

 Isso é um absurdo.

 

 O homem é um brutamontes! Lembra-te do seu passado. Ele já matou.

 

 As tuas acusações são extremamente graves. Em que provas se baseiam?

 

 Testemunha ocular.

 

 Que venha à minha presença. Mentmosé pareceu incomodado.

 

 Infelizmente, isso é impossível e, sobretudo, inútil.

 

 Inútil?

 

 O processo já seguiu o seu caminho e foi feita justiça. Paser levantou-se, confuso.

 

 Tenho um documento assinado pelo deão do pórtico.

 

 O juiz leu o papiro. Kem, condenado à morte, tinha sido levado para um calabouço da grande prisão.

 

 O nome da testemunha não aparece.

 

 Não tem importância... Ele viu Kem matar Branir e afirmou-o sob juramento.

 

 Quem é ele?

 

 Esquece a testemunha. O assassino será punido, isso é o que importa.

 

Estás a perder o sangue frio, Mentmosé! Há algum tempo atrás não terias sequer ousado mostrar-me um documento tão miserável.

 

 Não compreendo...

 

 A sentença foi proferida sem a presença do acusado, e esta ilegalidade tem como consequência a anulação do processo.

 

 Eu trago-te a cabeça do culpado e tu falas-me de técnicas judiciais.

 

 De justiça corrigiu-o Paser.

 

 Sê razoável, ao menos uma vez na vida! Há certos escrúpulos que são estéreis.

 

 A culpabilidade de Kem não está provada.

 

 Pouco importa. Quem vai ter pena de um negro mutilado e criminoso?

 

 Se não fosse a sua dignidade de juiz, Paser não teria conseguido conter a violência de que se sentiu tomado.

 

 Conheço a vida melhor do que tu continuou Mentmosé. Há certos sacrifícios que são necessários. Contudo, a tua função obriga-te a pensar no reino, no seu bem-estar e na sua segurança.

 

 E acaso Kem os fez perigar?

 

 Nem tu nem eu temos interesse em levantar a ponta do véu. Osíris acolherá Branir no paraíso dos justos e o crime será punido. Que mais podes querer?

 

 A verdade, Mentmosé.

 

 Pura ilusão!

 

 Sem ela, o Egito morreria.

 

 Tu é que vais desaparecer, Paser.

 

 Kem não receava a morte, mas sentia a falta do seu babuíno. Privado de um irmão, depois de tantos anos de trabalho em comum, já não podia trocar com ele olhares cúmplices e reconhecer-se devedor das suas intuições. Apesar disso, alegrava-se por sabê-lo em liberdade. A ele, tinham-no fechado numa espécie de cave de teto muito baixo onde o calor era sufocante. Não tinha havido julgamento; apenas uma condenação imediata e uma execução sumária: desta vez não escaparia aos  seus inimigos. Paser não teria tempo de intervir e mais não poderia fazer do que lamentar o desaparecimento do núbio, a que Mentmosé daria a aparência de um acidente.

 

Kem não nutria qualquer estima pela raça humana. Achava-a corrupta, vil e dissimulada, excelente para servir de pasto ao monstro que, ao lado da Justiça no juízo final, devorava os condenados às penas do inferno. Uma das suas poucas alegrias fora ter conhecido Paser, que, com o seu caráter, assegurava a existência de uma justiça na qual Kem há muito deixara de acreditar. Com Néféret, sua companheira para a eternidade, Paser empenhava-se numa luta desde logo perdida, sem se preocupar com o seu destino. O núbio teria gostado de o ajudar até ao fim, até ao desenlace final, quando a mentira, como sempre acontece, acabasse por silenciá-lo.

 

 A porta da cela abriu-se.

 

 O núbio levantou-se e endireitou-se. Não ia dar ao carrasco a imagem de um homem abatido. Com um golpe de rins, saiu da sua reclusão, afastando o braço que se estendia na sua direção.

 

 Cego pelo sol, pensou que os seus olhos o estavam a trair.

 

 Mas não és...?

 

 Paser cortou a corda que prendia os punhos de Kem.

 

 Anulei a tua sentença, devido às suas numerosas irregularidades. Estás livre.

 

 O colosso ergueu o juiz do chão e abraçou-o, com risco de o sufocar.

 

 Não são já inúmeras as tuas preocupações? Devias ter-me deixado nesta enxovia.

 

 Terá o cárcere afetado as tuas faculdades?

 

 O meu macaco?

 

 Anda fugido.

 

 Ele voltará.

 

 Também ele está ilibado. O deão do pórtico reconheceu a justa fundamentação dos meus protestos e contradisse o chefe da polícia.

 

 Vou torcer o pescoço a Mentmosé.

 

 Davas-te por culpado de homicídio. Temos coisas mais importantes para fazer, especialmente identificar a misteriosa testemunha ocular que foi a causa da tua prisão.

 

O Núbio levantou os punhos cerrados.

 

 Quanto a essa, deixa-a comigo!

 

 O juiz não respondeu. Kem sentiu-se animado por um regozijo selvagem quando voltou a ver a sua moca e o seu escudo revestido de couro.

 

 O babuíno é um matador acrescentou ele, galhofeiro. A esse, nenhuma lei o consegue prender.

 

 À frente do sarcófago pilhado de Quéops, Ramsés, o Grande, entregava-se a meditações piedosas. Com um nó na garganta e o coração apertado, o homem mais poderoso do mundo tinha-se tornado escravo de um bando de assassinos e ladrões. Ao apoderarem-se das insígnias sagradas da realeza, ao privá-lo da grande magia do Estado desejada pelos deuses, tornavam o seu poder ilegítimo e condenavam-no, mais cedo ou mais tarde, a abdicar em favor de um intriguista que iria destruir a obra empreendida há já tantas dinastias.

 

 Os criminosos não atacavam só a sua pessoa, mas também o ideal do governo e os valores tradicionais que ele encarnava. Se havia egípcios entre os culpados, não agiam sozinhos; líbios, hititas ou sírios ter-lhes-iam sugerido o mais maléfico dos planos para fazer o Egito tombar do seu pedestal, abrindo as portas à ingerência estrangeira, a ponto de o conduzirem à perda da independência.

 

 O testamento dos deuses havia sido transmitido de faraó em faraó e conservado intato. Hoje, mãos impuras detinham-no e cérebros diabólicos manipulavam-no. Durante muito tempo, Ramsés, o Grande, teve esperança de que o céu o protegesse e o povo ignorasse o drama até ele descobrir uma solução.

 

 Mas a estrela do grande monarca começava a empalidecer.

 

 A próxima cheia seria medíocre. Claro que as reservas dos celeiros reais iriam alimentar as províncias mais desfavorecidas e nenhum egípcio morreria de fome. Mas os camponeses ver-se-iam forçados a abandonar os campos, e ia dizer-se à boca cheia que o rei já não possuía a capacidade de repelir a desgraça, a não ser que celebrasse uma festa de regeneração, durante a qual deuses e deusas lhe iriam instilar uma energia renovada, uma energia reservada ao depositário do testamento, legitimando o seu reino.

 

 Ramsés, o Grande, implorou a ajuda da luz, da qual era filho; não se renderia sem combate.

 

 

Com o cabo de madeira da navalha bem seguro na mão, o barbeiro passou a lâmina de cobre pela face, pelo queixo e pelo pescoço do juiz Paser, sentado num banco à porta de sua casa, ao lado de Vento do Norte, que observava a cena com um olhar plácido, enquanto Bravo dormia deitado entre as patas do burro.

 

 Como todos os barbeiros, também este era muito falador.

 

 Se te estás a pôr tão bonito, é porque te convocaram para ires ao palácio.

 

 Como to poderia esconder?

 

 Paser não precisou que tinha acabado de receber uma resposta muito breve do vizir, em que o mandava ir falar com ele sem demora, nessa bela manhã de Verão.

 

 Uma promoção?

 

 É pouco provável.

 

 Que os deuses te sejam favoráveis! Na verdade, um bom juiz é seu aliado.

 

 Com efeito, é preferível que assim seja.

 

 O barbeiro mergulhou a lâmina numa taça de pé alto que continha água com natrão. Afastou-se do freguês, contemplou a sua obra e, com delicadeza, rapou alguns pêlos rebeldes do queixo.

 

 Os emissários do faraó transmitiram-nos decretos muito curiosos nestes últimos dias; porque é que Ramsés, o Grande, continua a afirmar que é ele a única proteção contra a desgraça e os cataclismos? Ninguém no país duvida disso. Enfim, quase ninguém... No entanto, diz-se que o seu poder entrou em declínio. A hiena que veio beber ao rio, a cheia nociva, as chuvas do Delta nesta época do ano... Tudo sinais tangíveis do descontentamento dos deuses. Alguns acham que Ramsés devia celebrar uma festa de regeneração para reencontrar a plenitude do seu poder mágico. Que momento magnífico! Quinze dias de repouso, distribuição de alimentos, muita cerveja, bailarinas em plena rua... Enquanto o rei está fechado no templo com as divindades, nós passamos uns belos dias!

 

 Os decretos reais tinham intrigado Paser. Que adversário obscuro temia Ramsés? Ele sentia que o monarca se mantinha na defensiva, sem dizer qual o adversário, visível ou invisível, que combatia; portanto, o Egito mantinha-se calmo, sem nenhum sinal de desestabilização, a não ser a misteriosa conspiração que Paser tinha desmantelado, pelo menos em parte. Mas de que forma iria o roubo do ferro celeste colocar em perigo o trono do faraó?

 

 Restava o general Asher, que o testemunho de Suti indicava como traidor e aliado dos Asiáticos, sempre prontos a invadir o Egito, terra de todas as riquezas. Será que, ocupando ele um dos mais altos cargos militares, iria revoltar as tropas contra o soberano? A hipótese parecia pouco provável. O traidor preocupava-se com vantagens pessoais, não com a força de um governo que ele seria incapaz de assumir.

 

 Desde o assassinato do seu mestre Branir, Paser não sabia o que fazia. Raciocinava no vazio, sentia-se tão agitado como a carga de um burro. Tinha instaurado um processo sólido contra o general Asher e os seus prováveis cúmplices, mas estava tão obcecado pelo rosto martirizado do ser venerado, a quem tinham usurpado a existência, que lhe faltava perspicácia.

 

 Está perfeito avaliou o barbeiro. No palácio, fala-lhes no meu nome; bem gostaria de barbear alguns nobres.

 

 O juiz deu o seu parecer sobre o chefe. Por sua vez, Néféret olhou-o.

 

 Com os cabelos penteados, o corpo lavado e perfumado e uma tanga de luminosa brancura, o exame foi concludente.

 

 Estás pronto? perguntou ela.

 

 Bem preciso de estar. Achas-me com um ar assustado?

 

 Aparentemente não.

 

 A carta do vizir não deixa entrever qualquer esperança.

 

 Não esperes cordialidade; assim, não ficarás desiludido.

 

 Se ele me demitir, vou exigir que o inquérito prossiga.

 

 Não vamos deixar impune a morte de Branir.

 

 A expressão sorridente da sua indomável força de vontade tranquilizou-o.

 

 Tenho medo, Néféret.

 

 Eu também. Mas não vamos recuar agora.

 

 Os nove amigos do faraó, de farta cabeleira preta e toga branca, plissada e ornamentada com um laço à altura do umbigo, tinham estado reunidos durante toda a manhã, convocados pelo vizir Bagey. No fim de acesos debates, a unanimidade fora obtida. O portador da Regra, o superintendente da Dupla Casa branca, o encarregado dos canais e diretor dos depósitos de água, o superintendente das escrituras, o superintendente dos campos, o diretor das missões secretas, o escriba do cadastro e o intendente do rei, após mudanças de pontos de vista e aprofundados exames, tinham aprovado a surpreendente proposta do vizir, à primeira vista irrealista e até perigosa. Mas a urgência da situação e o seu caráter dramático justificavam uma decisão rápida e pouco habitual. Quando Paser foi anunciado, os nove amigos instalaram-se na grande sala de audiência, de paredes brancas e nuas, onde tomaram os seus lugares em compridos bancos de pedra almofadados, colocados de um lado e outro de Bagey, que se sentava numa cadeira de espaldar baixo.

 

 Ao pescoço, trazia o imponente coração em cobre, única jóia ritual que ele se permitia usar. Debaixo dos pés, uma pele de pantera evocava os instintos selvagens dominados.

 

 O juiz Paser inclinou-se perante a insigne assembleia e farejou o ambiente. Os rostos gélidos dos nove amigos não pressagiavam nada de bom.

 

 Levanta-te ordenou Bagey.

 

 Paser ficou de pé, frente ao vizir. Suportar o peso de nove olhares desprovidos de indulgência era uma prova terrível.

 

Juiz Paser, admites que só a prática da justiça mantém a prosperidade do nosso país?

 

 Essa é a minha mais profunda convição.

 

 Se não agirmos em conformidade com a justiça, se ela for considerada uma mentira, os rebeldes acabarão por erguer a cabeça, a fome destruir-nos-á e os demónios rugirão. Ainda é esta a tua convição?

 

 As tuas palavras exprimem a verdade que eu vivo.

 

 Recebi as tuas duas cartas, juiz Paser, e comuniquei-as a este conselho para que cada um dos membros que o constituem fosse juiz da tua conduta. Consideras que foste fiel à tua missão?

 

 Julgo não a ter traído. Sofri na carne, senti na boca o gosto do desespero e da morte, mas tais sofrimentos são insignificantes comparados com o ultraje infligido à minha função de juiz. Desonraram-na, espezinharam-na.

 

 Quando souberes que o chefe da polícia, Mentmosé, e o deão do pórtico foram convocados por esta assembleia com a minha aprovação, irás manter as tuas acusações?

 

 Paser engoliu em seco.

 

 Tinha ido longe de mais. Mesmo com todas as evidências a seu favor, mesmo munido de provas irrefutáveis, um simples juiz não devia atacar os notáveis. O vizir e o seu conselho tomariam o partido dos seus diretos colaboradores.

 

 Sejam quais forem as consequências, mantenho as minhas acusações. Fui deportado injustamente, o chefe da polícia não procedeu a uma investigação séria, o deão do pórtico apagou a verdade em favor da mentira. Quiseram eliminar-me, para que os inquéritos sobre o assassinato de Branir, a morte misteriosa dos veteranos e o desaparecimento do ferro celeste não prosseguissem. Vós, os nove conselheiros do faraó, ouvirão esta verdade e não a esquecerão. A corrupção saiu do seu covil e corrompeu parte do aparelho de Estado. Se os membros doentes não forem expurgados, o mal espalhar-se-á por todo o corpo.

 

 Paser não baixou os olhos, e sustentou o olhar do vizir, que poucos homens ousariam enfrentar.

 

 A precipitação e a intransigência atraiçoam o melhor dos juizes disse Bagey. Destes dois caminhos, qual escolherias.- alcançares o sucesso ou servires a justiça?

 

 Por que razão deveriam eles ser opostos?

 

 Porque a existência de um homem raramente se concilia com a lei de Maât.

 

 A minha foi-lhe oferecida sob juramento.

 

 O vizir guardou um longo silêncio. Paser percebeu que ele ia pronunciar uma sentença sem recurso.

 

 O portador da Regra, o intendente do rei e eu próprio, analisámos os fatos, procedemos a interrogatórios e chegámos às mesmas conclusões. O deão do pórtico cometeu incontestavelmente faltas muito graves. Devido à sua avançada idade, à sua experiência e aos serviços prestados à justiça, condenamo-lo ao exílio no oásis de Khargeh, onde acabará os seus dias na solidão e no recolhimento. Nunca mais voltará ao vale. Estás satisfeito?

 

 Porque iria alegrar-me com a desgraça de um juiz em decadência?

 

 Condenar é um dever.

 

 O prosseguimento do inquérito também o é.

 

 Confio-o ao novo deão do pórtico. Tu, Paser. O juiz empalideceu.

 

 A minha pouca idade...

 

 A dignidade de ”deão” não implica anos de serviço, mas a competência que esta assembleia te reconhece. Duvidas do poder deste cargo a ponto de renunciares?

 

 Eu não esperava...

 

 O destino bate-nos à porta de um momento para o outro, tão vivo quanto o crocodilo que se lança ao rio. Qual é a tua resposta?

 

 Paser levantou as mãos juntas em sinal de respeito e de aceitação, e inclinou-se.

 

 Juiz do pórtico declarou Bagey, não tens nenhum direito. Só os teus deveres contam. Que Tot guie o teu pensamento e oriente o teu julgamento, uma vez que só um Deus pode preservar o homem de uma conduta torpe. Conhece a tua posição, orgulha-te dela e não te glorifiques. Põe a tua honra acima da multidão, sê discreto e útil ao teu semelhante. Não largues a roda do leme, sê um pilar na tua função, ama o bem e repudia o mal. Não digas uma só mentira, não sejas nem fraco nem confuso, não tenhas um coração ávido. Explora as profundezas dos seres que vais julgar, graças ao olhar de Ra, a luz celeste. Estende o braço direito e abre a mão. Paser obedeceu.

 

 Aqui está o teu anel de sinete. Ele autenticará os documentos nos quais aponhas o teu selo. De hoje em diante, exercerás funções à porta do templo, para aí distribuíres a justiça e protegeres os desvalidos. Farás respeitar a ordem em Mênfis, velarás pelo pagamento atempado dos impostos, pelo bom funcionamento dos trabalhos agrícolas e pelo transporte das mercadorias. Se for necessário, exercerás no mais alto tribunal de justiça. Em qualquer circunstância, não te contentes com o que ouves e penetra no segredo dos corações.

 

 Se é justiça que queres, quem irá ocupar-se de Mentmosé, o chefe da polícia, cuja velhacaria é imperdoável?

 

 Que o teu inquérito especifique as suas faltas.

 

 Prometo-te não ceder a nenhuma paixão e demorar o tempo que for necessário.

 

 O portador da Regra levantou-se.

 

 Em nome deste conselho, confirmo a decisão do vizir. A partir deste momento, Paser, o novo deão do pórtico, será reconhecido como tal em todo o Egito. Ser-lhe-ão atribuídos uma casa, bens materiais, servos, escritórios e funcionários.

 

 A seguir, levantou-se o superintendente da Dupla Casa branca.

 

 De acordo com a lei, o deão do pórtico será responsável, sob penhor dos seus bens, por todas as decisões iníquas que tomar. Se houver cabimento a uma reparação ao queixoso, ele mesmo a pagará, sem recorrer às finanças públicas.

 

 O vizir emitiu um gemido insólito.

 

 Todos se voltaram para ele. Bagey levou a mão ao seu lado direito, agarrou-se ao espaldar da cadeira, tentou em vão segurar-se e caiu inanimado.

 

 Quando Néféret viu Paser chegar a correr, com a testa coberta de suor e os olhos rasos de angústia, julgou que ele tinha fugido do palácio.

 

 O vizir acabou de ter uma indisposição.

 

 O médico-chefe está com ele?

 

 Nébamon está doente. Nenhum dos seus assistentes ousa intervir  sem a sua autorização.

 

 A jovem pegou no relógio, colocou-o no pulso e pousou a maleta na garupa de Vento do Norte. O burro tomou o caminho certo.

 

 Bagey estava estendido em cima de almofadas.

 

 Néféret auscultou-o, escutou-lhe a voz do coração dentro do peito, nas veias e nas artérias. Descobriu duas correntes, uma que aquecia o lado direito do corpo e outra que gelava o lado esquerdo. O mal era inacessível e estendia-se a todo o organismo. Utilizando a sua clépsidra de pulso, calculou o ritmo cardíaco e o tempo de reação dos órgãos principais.

 

 Os cortesãos esperavam o diagnóstico com ansiedade.

 

 Trata-se de uma doença que conheço e vou curar disse ela. O fígado está ferido, a veia porta obstruída. As artérias hepáticas e o dueto colédoco, que ligam o coração ao fígado, estão em mau estado; já não deixam passar água e ar suficientes e transportam um sangue demasiado espesso.

 

 Néféret fez o doente beber chicória, cultivada nos jardins dos templos. A planta, de grandes flores azuis que se fechavam ao meio-dia, possuía inúmeras virtudes curativas; misturada com vinho velho, tratava inúmeras infeções do fígado e da vesícula. O remédio magnetizava o órgão bloqueado; o vizir acordou muito pálido e vomitou.

 

 Néféret pediu-lhe que bebesse vários copos de chicória, até que ele conservasse o líquido no estômago; o corpo do doente refrescou-se, por fim.

 

 O fígado está aberto e lavado constatou ela.

 

 Quem és tu? perguntou Bagey.

 

 Sou a doutora Néféret, mulher do juiz Paser. Deves vigiar a tua alimentação disse ela, com voz calma e beber diariamente chicória. Para evitar que se repita uma obstrução desta gravidade, que te deixaria inconsciente, vais beber uma poção à base de figos, uvas, frutos entalhados de sicômoro, sementes de briónia, tâmaras, goma e resina. Eu mesma vou preparar a mistura, que é preciso deixar ao orvalho durante a noite e filtrar de manhã cedo.

 

Salvaste-me a vida.

 

 Fiz o meu dever, e tivemos sorte.

 

 Onde exerces?

 

 Em Mênfis.

 

 O vizir levantou-se. Apesar das pernas entorpecidas e de uma forte enxaqueca, deu alguns passos.

 

 O repouso é indispensável disse Néféret, ajudando-o a sentar-se. Nébamon...

 

 Tu é que vais tratar de mim.

 

 Passada uma semana, o vizir Bagey, completamente restabelecido, enviou ao novo deão do pórtico uma esteia em calcário, na qual estavam gravados três pares de orelhas, um em azul carregado, outro em amarelo e o último em verde-pálido. Assim se evocavam o céu de lápis-lazúli, onde reinavam as estrelas dos sábios, o ouro, de que era feita a carne das divindades, e a turquesa do amor; desta forma, estavam anunciados os deveres do juiz mais importante de Mênfis: ouvir os queixosos, respeitar a vontade dos deuses, mostrar-se benevolente, mas sem fraquejar.

 

 Saber ouvir era a base da educação, saber ouvir permanecia a maior virtude de um magistrado. Sério, concentrado, Paser aceitou a esteia e ergueu-a à altura dos olhos, diante de todos os juizes da grande cidade, reunidos para felicitar o novo deão.

 

 Néféret chorou de alegria.

 

 

Situada no centro de um bairro modesto composto por pequenas casas brancas de dois andares, onde viviam operários e funcionários públicos, a casa atribuída ao deão do pórtico maravilhou o jovem casal. Acabada de fazer e destinada a um dignitário que não ficaria a perder com a troca, nunca tinha sido habitada. Coberta em toda a sua extensão por uma açoteia, tinha oito divisões com paredes decoradas com pinturas de pássaros multicores a brincar entre tufos de papiros.

 

 Paser não se atreveu a entrar. Deixou-se ficar no átrio, onde um servo dava grandes quantidades de comida aos gansos; alguns patos chafurdavam num lago salpicado de lótus azuis. Abrigados numa cabana, dois rapazes encarregados de deitar comida às aves domésticas dormiam com as mãos fechadas. O novo dono do património real não os acordou. Também Néféret estava feliz por dispor de semelhante riqueza. Contemplou a terra compata e glutinosa que os vermes arejavam, e cujas dejeções constituíam excelente adubo para os cereais. Nenhum camponês os matava, pois sabiam que as minhocas asseguravam a fertilidade da terra.

 

 Bravo foi o primeiro a exercitar-se, correndo e saltando no magnífico jardim, imediatamente seguido por Vento do Norte. O burro deitou-se debaixo de uma romanzeira, árvore cuja beleza era a mais duradoira, visto que uma nova flor se abria por cada uma já velha que caía. O cão preferiu um sicômoro, onde o restolhar das folhas evocava a doçura do mel. Néféret acariciou os ramos finos e os frutos maduros, quase vermelhos, quase turquesa, e puxou o marido para si, para debaixo da sombra da árvore, abrigo da deusa do céu. Maravilhados, contemplaram um renque de figueiras importadas da Síria e um pavilhão feito de canas onde poderiam apreciar o esplendor dos poentes.

 

 O seu sossego não durou muito; Diabrete, a pequena saguí de Néféret, soltou um grito de dor e pulou para os braços da dona. Assustada, estendeu-lhe a pata, onde estava enterrado um espinho de acácia. A ferida não devia ser menosprezada; se o corpo estranho se mantivesse debaixo da pele, provocaria com o passar do tempo uma hemorragia interna, que já tinha confundido muitos médicos. Sem que ninguém lho ordenasse, Vento do Norte levantou-se e aproximou-se. Néféret tirou da maleta um bisturi, retirou o espinho com infinita doçura e untou a ferida com uma pomada feita de mel, colocíntida, ossos de siba esmagados e casca de sicômoro reduzida a pó. Se uma pequena infeção se declarasse, ela tratá-la-ia com sulfureto de arsénico. Mas Diabrete não parecia nada aflita; mal se livrou do espinho, trepou a uma palmeira-tamargueira em busca de um fruto maduro.

 

 E se entrássemos? sugeriu Néféret.

 

 O assunto tornou-se sério.

 

 Que queres dizer?

 

 Nós casámo-nos, é certo, mas não possuíamos nada. Agora a situação mudou.

 

 Já te terás cansado?

 

 Nunca te esqueças, doutora, de que fui eu quem te foi arrancar à tua tranquilidade.

 

 Pois as minhas recordações são diferentes; não fui eu quem primeiro reparou em ti?

 

 Deveríamos estar sentados lado a lado, rodeados por uma multidão de familiares e amigos, a ver desfilar à nossa frente arcas de roupas, vasos, objetos vários, sandálias, sei lá o que mais! Tu terias sido conduzida num palanquim, e vestida com roupas de festa, ao som de flautas e tamborins.

 

 Prefiro este momento em que estamos só nós dois, sem alarido e sem luxo.

 

 Logo que tivermos transposto o limiar da nossa casa, seremos responsáveis por ela. A hierarquia vai censurar-me por não ter redigido um contrato que proteja o teu futuro.

 

 A tua proposta é honesta?

 

 Curvo-me perante a lei. Eu, Paser, deixo-te todos os meus bens, a ti, Néféret, que vais manter o teu nome. Como decidimos viver juntos debaixo do mesmo teto, estamos casados e devo-te reparação em caso de separação. Um terço do que vai ser adquirido por nós a partir de hoje ser-te-á entregue por obrigação natural, e eu devo alimentar-te e vestir-te. Quanto ao resto, o tribunal decidirá.

 

 Devo confessar ao deão do pórtico que estou loucamente apaixonada por um homem e que tenho a firme intenção de ficar unida a ele até ao meu último suspiro.

 

 Talvez, mas a lei...

 

 Cala-te e vamos ver a casa.

 

 Antes, porém, só uma retificação: eu é que estou loucamente apaixonado por ti.

 

 Abraçados, transpuseram o limiar da sua nova morada.

 

 Na primeira divisão, pequena e baixa, destinada ao culto dos antepassados, recolheram-se durante bastante tempo, venerando a alma de Branir, o seu mestre assassinado. Depois, descobriram a sala de visitas, os quartos, a cozinha, os lavabos com canalizações de barro e um gabinete equipado com um banco de calcário.

 

 A casa de banho maravilhou-os. De um lado e outro da laje de calcário assente a um canto, estavam colocados dois bancos de tijolo, onde se encarrapitavam os servos e as servas, para deitarem a água sobre quem quisesse tomar um duche. As paredes de tijolo eram revestidas com calcário para evitar a humidade. Um ligeiro declive, que conduzia ao orifício de um cano de barro, profundamente enterrado, permitia o escoamento.

 

 O quarto, bem arejado, tinha um mosquiteiro a cobrir uma grande cama de ébano maciço com pés em forma de patas de leão. Dos lados, ostentava a face jovial do deus Bés, encarregado de proteger o sono e proporcionar sonhos felizes aos que ali dormissem. Refastelado, Paser saboreou a esteira de cordas vegetais entrançadas, de excepcional qualidade. As numerosas cordas mais pequenas tinham sido dispostas sabiamente para suportarem um grande peso durante muitos anos.

 

 Na cabeceira da cama estava um vestido de linho branco, o pano da noiva, que seria também o seu lençol.

 

 Nunca teria acreditado que ia dormir uma só noite que fosse numa cama destas.

 

Para quê esperar? perguntou ela, insinuante. Estendeu o precioso tecido sobre a esteira, despiu o vestido que envergava e estendeu-se, nua, feliz, por acolher sobre o seu o corpo de Paser.

 

 Este momento é tão doce que nunca o esquecerei; pelo teu olhar, vais torná-lo eterno. Não te afastes de mim; pertenço-te como um jardim que vais enriquecer com flores e perfume. Quando nos transformamos num só ser, a morte deixará de existir.

 

 Desde a manhã do dia seguinte, Paser sentiu saudades da sua pequena casa de juiz principiante, e compreendeu por que razão o vizir Bagey se contentava com uma casa modesta no centro da cidade. Sem dúvida, as escovas e as vassouras de bambu eram enormes e favoreciam uma limpeza profunda, mas ainda era preciso uma mão experiente para as utilizar. Nem ele nem Néféret tinham tempo para se entregarem a tais tarefas, e estava fora de questão pedir ajuda ao jardineiro ou ao moço do galinheiro, que não iriam abandonar os seus trabalhos especializados! E ninguém tinha pensado em contratar uma serva para as limpezas.

 

 Néféret e Vento do Norte partiram cedo para o palácio; o vizir queria ser consultado antes da primeira audiência. Sem escrivão, sem escritório montado, e sem servos, o deão do pórtico sentia-se completamente perdido na gestão de uma propriedade demasiado vasta para ele. Ao elegerem a mulher ”dona da casa”, os sábios não se tinham enganado.

 

 O jardineiro aconselhou-lhe uma mulher com uns cinquenta anos que alugava os seus serviços aos patrões desesperados; por seis dias de trabalho, não exigia menos de oito cabras e dois vestidos novos! Sangrado até ficar exangue, convito de estar a pôr em perigo o equilíbrio financeiro do casal, o deão do pórtico foi obrigado a aceitar. Até Néféret voltar, ia viver numa constante inquietação.

 

 Suti esbugalhou os olhos e tateou as paredes. Parecem verdadeiras.

 

 A construção é recente, mas de boa qualidade.

 

 Pensei que era o maior pantomíneíro do Egito, mas tu levas-me a palma. Quem te emprestou esta casa?

 

 O Estado respondeu Paser.

 

 Tu não continuas a fingir que és o novo deão do pórtico?

 

 Se não acreditas, ouve Néféret.

 

 Ela é tua cúmplice.

 

 Vai ao palácio. Suti ficou hesitante.

 

 Quem te nomeou?

 

 Os nove conselheiros do faraó, com o vizir no comando.

 

 Terá esse velho insensível do Bagey sido mesmo capaz de mandar embora o teu antecessor, um dos seus estimados colegas, com tão boa reputação?

 

 As falhas existiam. Bagey e o conselho supremo agiram de acordo com a justiça.

 

 Um milagre, um sonho...

 

 O meu pedido foi atendido.

 

 Porque será que te nomearam, a ti, para um lugar tão importante?

 

 Também já pensei nisso.

 

 E chegaste a alguma conclusão?

 

 Vamos supor que uma parte do conselho supremo está convencida da culpabilidade do general Asher, e a outra não; não achas astucioso confiar um inquérito cada vez mais perigoso ao juiz que primeiro levantou a ponta do véu? Logo que se tenha uma certeza, num sentido ou no outro, será fácil condenarem-me ou felicitarem-me.

 

 Não és tão estúpido quanto pareces.

 

 Esta atitude não me choca, e está de acordo com o direito do Egito. Visto que iniciei a tarefa, cabe-me a mim terminá-la; senão, não passaria de um provocador. De que posso queixar-me? Deram-me meios com os quais não contava. E a alma de Branir protege-me.

 

 Não contes com os mortos. Kem e eu dar-te-emos melhor proteção.

 

 Achas que corro perigo?

 

E cada vez mais. Normalmente, o deão do pórtico é um homem com muitos anos de serviço, prudente, decidido a não correr quaisquer riscos e a gozar dos privilégios. Em suma, o oposto do que tu és.

 

 Que posso eu fazer? O destino quis assim.

 

 Talvez eu não seja afinal o mais louco de nós dois, mas esta situação agrada-me. Tu vais prender o assassino de Branir e eu vou oferecer a mim mesmo a cabeça de Asher.

 

 E a senhora Tapeni?

 

 Uma amante espantosa. Não tanto como Pantera, mas com uma imaginação...! Ontem à tarde caímos da cama abaixo no momento crucial. Outra qualquer teria concordado com uma pausa, mas ela não. E eu tive de me mostrar à altura, apesar de ter ficado por debaixo.

 

 Ganhaste a minha admiração. E o que foi que ela te contou na intimidade?

 

 Bem se vê que não és um especialista em sedução. Se lhe fizer perguntas demasiado diretas, ela fechar-se-á como uma boa-noite ao meio-dia. Começámos por evocar senhoras ilustres que praticam a arte da tecelagem. Algumas têm imenso talento com a agulha. A pista é boa, sinto-o.

 

 Finalmente ela voltou, precedida de Vento do Norte. Bravo acolheu o burro com latidos de alegria e os dois companheiros saborearam, um uma costela de boi, o outro luzerna fresca. Diabrete já não tinha fome; tinha o ventre tão cheio de frutas roubadas no pomar que resolveu fazer uma longa sesta.

 

 Néféret estava radiosa. Nem a fadiga nem a inquietação a venciam. Frequentemente, Paser sentia-se indigno da mulher que tinha.

 

 Como está o vizir?

 

 Muito melhor, mas é preciso tratá-lo até ao fim dos seus dias. O fígado e a vesícula estão num estado lastimoso, e não estou certa de conseguir evitar o inchaço das pernas e dos pés quando estiver cansado. Devia caminhar bastante em vez de ficar sentado dias inteiros, e devia apanhar o ar do campo.

 

 Pedes-lhe o impossível. Ele falou-te em Nébamon?

 

 O médico-chefe está doente. A intervenção do babuíno-polícia parece ter deixado marcas.

 

 Será conveniente mostrar consternação?

 

 O zurro de Vento do Norte interrompeu-os. A ração diária não era suficientemente abundante.

 

 Excedi-me confessou Paser. Contratei uma serva de limpezas temporária, a preço de ouro, mas perco-me nesta casa enorme. Não temos cozinheira, o jardineiro só faz o que lhe dá na cabeça, e não percebo nada do uso das múltiplas escovas. Os meus processos estão ao abandono, não...

 

 Néféret abraçou-o.

 

 

Envergando uma tanga engomada, semelhante a um avental, e uma soberba camisa plissada de mangas compridas, Bel-Tran cumprimentou Néféret e Paser efusivamente.

 

 Desta vez ajudar-te-ei diretamente. Fui encarregado da reorganização dos escritórios da administração central. Na qualidade de deão do pórtico, terás prioridade.

 

 É-me impossível aceitar o mínimo privilégio.

 

 Mas não se trata de um privilégio; apenas de uma disposição da lei que te permitirá possuir o conjunto dos processos. Trabalharemos juntos, em locais amplos e espaçosos. Suplico-te, não me impeças de advogar a nossa eficácia!

 

 A rápida ascensão de Bel-Tran surpreendeu os cortesãos mais indiferentes, mas nenhum a criticou. Deu novo alento aos serviços estagnados pela rotina, livrou-se dos funcionários preguiçosos ou incompetentes e resolveu os mil e um problemas técnicos que surgiam diariamente. Dotado de um entusiasmo contagioso, não poupava insultos aos seus subordinados. Os filhos das famílias nobres deploravam as suas origens modestas, mas aceitavam obedecer-lhe, sob pena de serem recambiados para os lares paternos. Nenhum obstáculo desanimava Bel-Tran: tomava providências, combatia-o com uma energia inesgotável e acabava por ultrapassá-lo. Dos seus sucessos fazia parte uma notável reorganização da cobrança do imposto sobre a madeira a que, durante muito tempo, os grandes proprietários, esquecidos do bem público, haviam conseguido esquivar-se. Nessa ocasião, Bel-Tran não se esqueceu de recordar a judiciosa intervenção de Paser. Sempre que uma dificuldade insolúvel se lhe apresentava, Bel-Tran arcava forçosamente com toda a responsabilidade.

 

 Paser reconhecia em Bel-Tran um aliado de grande importância. Graças a ele, conseguiria evitar as armadilhas.

 

 A minha mulher anda muito melhor confiou Bel-Tran a Néféret, Está-te muito grata e considera-te sua amiga.

 

 E as enxaquecas?

 

 São menos frequentes. Assim que dão sinal, aplicamos a tua pomada; é de uma eficácia extraordinária! Apesar das tuas recomendações, a Silkis continua muito gulosa. Eu bem escondo o sumo de romã e o mel, mas ela acaba por encontrar o sumo de alfarroba ou o de figos. Tal como tu, também o intérprete dos sonhos a preveniu contra o abuso do açúcar.

 

 Nenhum remédio substitui a força de vontade. Bel-Tran fez uma careta.

 

 Há uma semana que sinto os pés doridos. Até me custa calçar as sandálias.

 

 Néféret examinou os pés pequenos e rechonchudos.

 

 Coze gordura de boi com folhas de acácia, prepara uma pasta e aplica-a nos locais mais sensibilizados. Se o remédio não te trouxer alívio, avisa-me.

 

 A serva perguntou por Néféret, que se adaptava às mil maravilhas ao seu papel de dona de casa. Em breve instalaria o seu consultório numa das alas da casa. No palácio, aumentava a sua reputação; a cura do vizir valeu-lhe um título de glória concedido pelos médicos da corte, ainda paralisados pela ausência de Nébamon.

 

 Esta casa é encantadora observou Bel-Tran, enquanto saboreava uma talhada de melancia.

 

 Se não fosse a Néféret, eu não estaria aqui.

 

 Não te falta ambição, meu caro Paser! A tua mulher é um ser excepcional. Fazes sem dúvida inveja a muita gente.

 

 Já me basta a de Nébamon.

 

 O seu mutismo é passageiro. Foi humilhado por ti e por Néféret, e só pensa em vingar-se. Mas certamente a tua posição torna mais difícil a sua tarefa.

 

Que pensas dos recentes decretos-lei?

 

 Enigmáticos. Por que razão precisa o rei de reafirmar assim um poder que ninguém contesta?

 

 A última cheia foi medíocre, uma hiena veio beber a um canal, várias mulheres deram à luz crianças com deformações...

 

 Superstições populares!

 

 São por vezes temíveis.

 

 Os servidores do Estado que provem que elas não têm fundamento. Vais prosseguir com as investigações contra Asher e com o inquérito sobre a morte misteriosa dos veteranos?

 

 Não foram essas as principais razões da minha nomeação?

 

 No palácio, muitos esperavam que o esquecimento acabasse por apagar estes tristes acontecimentos. Alegro-me de constatar que não foi assim e devo dizer-te que não esperava menos da tua coragem.

 

 Maât é uma deusa sorridente, mas implacável. Nela reside a fonte de toda a felicidade, desde que não seja traída. Não procurar a verdade impedir-me-ia de respirar.

 

 O tom de Bel-Tran entristeceu.

 

 Inquieta-me a serenidade de Asher. É um homem violento, partidário de ações brutais. Devia ter reagido de forma visível à tua promoção.

 

 A sua margem de manobra não se reduz?

 

 Certamente, mas não te entusiasmes.

 

 Não é costume meu entusiasmar-me.

 

 Hoje não estás só, mas os teus inimigos não desapareceram. Terás conhecimento de tudo o que eu vier a saber.

 

 Durante duas semanas, Paser viveu em permanente agitação. Consultou os vastos arquivos do deão do pórtico, procedeu à reclassificação individual das tabuinhas de argila crua, de calcário e de madeira, das minutas das atas, dos inventários do mobiliário, do correio oficial, dos rolos de papiro lacrados e do material de escriba, consultou a lista do seu pessoal, convocou cada um dos escribas, zelou pelo pagamento e ajustamento dos salários, considerou as queixas em atraso e retificou os inúmeros erros da administração. Surpreendido com a vasta tarefa de que era incumbido, Paser não se insurgiu e depressa obteve a benévola confiança dos seus subordinados. Todas as manhãs se reunia com Bel-Tran, cujos conselhos lhe eram preciosos.

 

 Estava Paser a resolver um problema delicado de cadastro, quando um escriba vermelhusco, de traços grosseiros, surgiu de repente à sua frente.

 

 larrot! Por onde tens andado?

 

 A minha filha há-de ser dançarina profissional, tenho a certeza. Como a minha mulher não concorda, sou obrigado a divorciar-me.

 

 Quando retomas o teu trabalho?

 

 O meu lugar não é aqui.

 

 Pelo contrário! Tu és um bom escrivão...

 

 Tornaste-te numa pessoa demasiado importante. Nestes escritórios, os escribas são obrigados a trabalhar e os horários têm de ser respeitados. Isso não me convém. Prefiro ocupar-me da carreira da minha filha. Andaremos de terra em terra e participaremos nas festas de aldeia antes de conseguirmos um contrato numa companhia com experiência A pobrezinha tem de ser protegida.

 

 É essa a tua última palavra?

 

 Trabalhas demasiado, e deparar-te-ás com interesses demasiado poderosos. Prefiro abandonar a tempo o meu bastão, a minha veste de função e a esteia funerária, e viver longe dos dramas e dos conflitos.

 

 Tens mesmo a certeza de que queres abandonar o cargo?

 

 A minha filha venera-me e ouvir-me-á sempre. Quero fazê-la feliz.

 

 Denes saboreava a sua gloriosa vitória. A luta fora renhida e a mulher tivera de recorrer a todas as suas amizades para afastar os inúmeros concorrentes, amargamente frustrados com a derrota. Seria então Denes e Nénofar a organizarem o banquete em honra do novo deão do pórtico. A habilidade do transportador e a força de persuasão de sua mulher valeram-lhe, mais uma vez, o título de anfitrião das recepções da alta sociedade de Mênfis. A nomeação de Paser foi de tal maneira surpreendente que era digna de uma verdadeira festa em que os membros da melhor sociedade rivalizassem em elegância.

 

 Paser preparava-se sem grande entusiasmo.

 

 Esta recepção aborrece-me confessou ele a Néféret.

 

 Tu és muito estimado, meu querido.

 

 Preferia passar a noite contigo. A minha função não admite este género de mundanidades.

 

 Recusámos os convites de todos os notáveis; mas este é de caráter oficial.

 

 Aquele Denes... não lhe falta atrevimento! Sabe que desconfio de que ele faz parte de uma conspiração e mostra-se satisfeito!

 

 Excelente estratégia para te lisonjear.

 

 Achas que vai resultar?

 

 O riso de Néféret fascinou-o. Como estava linda, com um vestido moldado ao corpo, que lhe deixava os seios a descoberto! E a sua cabeleira negra, com reflexos lápis-lazúli, fazia sobressair o rosto gracioso, levemente pintado.

 

 Toda ela era juventude, graça e amor.

 

 Paser tomou-a nos braços.

 

 Apetece-me enclausurar-te.

 

 Estás com ciúmes?

 

 Se alguém pousar os olhos em ti, estrangulo-o.

 

 Deão do pórtico, como ousas proferir tais injúrias?

 

 Paser envolveu o busto de Néféret com um colar de pérolas de ametista, com peças em ouro, trabalhado com a forma de uma cabeça de pantera.

 

 Estamos arruinados, mas tu és a mais bela.

 

 Julgo que não se trata de uma tentativa de sedução.

 

 Fui desmascarado.

 

 Paser baixou a alça esquerda do vestido dela.

 

 Já estamos atrasados advertiu Néféret.

 

 A senhora Nénofar, antes de vestir o seu trajo de cerimónia, passou pelas cozinhas onde os carniceiros, depois de desmancharem o boi, preparavam as peças de carne, que penduravam numa trave suspensa por pilares. Ela própria escolheu os pedaços para grelhar e os que serviriam para estufar, provou os molhos e assegurou-se de que as várias dezenas de gansos estariam prontos a tempo. Depois, desceu à cave, onde o copeiro lhe mostrou os vinhos e as cervejas. Segura da qualidade das iguarias e das bebidas, Nenofar inspeccionou a sala do banquete, onde servas e servos dispunham taças de ouro em mesas baixas, travessas de prata e pratos de alabastro. Toda a casa cheirava a lótus e jasmim. A recepção seria inesquecível.

 

 Uma hora antes de chegarem os primeiros convidados, os jardineiros colheram frutos que seriam servidos frescos, guardando assim todo o seu sabor; um escriba verificou a quantidade de jarros de vinho colocados na sala do banquete, de forma a evitar qualquer fraude. O jardineiro-chefe verificou o estado das áleas, enquanto o porteiro endireitava a tanga e a peruca. Guardião irredutível daqueles domínios, deixaria entrar apenas as personalidades conhecidas e as pessoas que fossem portadoras de convite.

 

 Ao cair da tarde, enquanto o Sol se apressava em direção à montanha do Ocidente, surgiu o primeiro casal. O porteiro identificou um escriba real e a mulher, pouco depois, seguidos pela elite da grande cidade. Os hóspedes da senhora Nénofar passeavam no quintal coberto de romanzeiras, figueiras e sicômoros, conversavam à volta dos pequenos lagos, nas pérgulas e nas tendas de madeira, admiravam os ramos de flores dispostos no cruzamento das veredas. A presença do vizir Bagey, que nunca assistia a recepções, e de todos os conselheiros do faraó, impressionou a assistência; seria uma noite memorável.

 

 Depois de o disco solar desaparecer, os servos acenderam lampiões que iluminaram o jardim e a casa. A senhora Nénofar e Denes fizeram então a sua entrada. Ela, de pesada cabeleira, túnica branca debruada a ouro, colar de pérolas com dez voltas, argolas em forma de gazela e sandálias douradas, e ele, de cabeleira em tons claros, túnica comprida e plissada, com capa, e sandálias de couro adornadas a prata, eram o casal de anfitriões da moda, felizes por ostentarem a sua riqueza com o manifesto intuito de suscitar inveja.

 

 De acordo com o protocolo, o vizir foi o primeiro a dirigir-se aos donos da casa. Com as pernas pesadas, contentava-se com umas sandálias velhas, uma tanga grande e deselegante, e um sobrepeliz de mangas curtas.

 

 Satisfeitos, a senhora Nénofar e Denes inclinaram-se.

 

 Que calor! queixou-se o vizir. Somente o Inverno é suportável. Alguns instantes ao sol e fico com a pele a arder.

 

 Um dos nossos tanques está à tua disposição, se quiseres refrescar-te antes do banquete propôs Denes.

 

 Não sei nadar e tenho horror à água.

 

 O anfitrião conduziu o vizir ao lugar de honra. Seguiram-se os conselheiros do faraó, depois os altos dignitários, os restantes escribas reais e as personalidades que tiveram a sorte de serem convidadas para a festa mais prestigiada do ano. Bel-Tran e Silkis figuravam entre os últimos; a senhora Nénofar saudou-os distraidamente.

 

 O general Asher virá? perguntou Denes ao ouvido de sua mulher.

 

 Acaba de confirmar que não vem. Um imperativo de serviço.

 

 E Mentmosé, o chefe da polícia?

 

 Está doente.

 

 Na sala do banquete, com o teto ornamentado com folhas de videira, os convidados sentaram-se em confortáveis cadeiras almofadadas. À sua frente, taças, pratos e travessas em mesas de pé-de-galo. Uma orquestra feminina tocava flauta, harpa e alaúde com leveza e alegria.

 

 Rapariguinhas núbias, todas nuas, circulavam entre os convidados e colocavam-lhes nas cabeleiras um pequeno cone de pomada perfumada que, ao derreter, exalava odores suaves e afastava os insetos. A cada um foi oferecida uma flor de lótus. Um sacerdote deitou água por cima de uma mesa de oferendas, colocada no centro da sala, para purificar os alimentos.

 

 De repente, a senhora Nénofar reparou que os heróis da festa não estavam presentes.

 

 Este atraso é inadmissível.

 

 Não te preocupes. Paser trabalha até muito tarde; algum processo deve tê-lo retido.

 

 Numa noite como esta! Os nossos convidados estão impacientes, é preciso começar a servir o jantar.

 

 Não estejas assim tão nervosa.

 

Perturbada, Nénofar pediu à melhor bailarina profissional de Mênfis para atuar mais cedo do que o previsto. Com vinte anos, e aluna de Sababu, a proprietária da locanda mais famosa da cidade, trazia apenas um cinto de pequenas conchas que se entrechocavam deliciosamente a cada movimento que fazia. Na coxa esquerda, uma tatuagem representava o deus Bés, anão hílare e barbudo que concedia o dom da alegria a todas as mulheres. A artista captou a atenção da assembleia desenhando as mais acrobáticas figuras. Entretanto, chegaram Paser e Néféret

 

 Enquanto os convidados mordiscavam bagos de uva e fatias finas de melão para abrir o apetite, Nénofar, cada vez mais irritada, reparou numa certa agitação junto à entrada da propriedade. Ei-los, enfim!

 

 Venham, depressa.

 

 Estou desolado desculpou-se Paser.

 

 Como explicar que não tinha conseguido resistir à vontade de despir Néféret, que o seu arrebatamento o tinha levado a rasgar-lhe a alça do vestido, que aconteceu ter de esquecer os imperativos horários e que o seu amor era muito mais importante do que o mais ilustre convite? Despenteada, Néféret fora obrigada a escolher uma nova túnica à pressa e a convencer Paser a abandonar o leito de prazer.

 

 A bailarina retirou-se e a orquestra parou de tocar assim que o jovem casal atravessou o corredor da sala do banquete, sendo, nesse curto lapso de tempo, apreciado dos pés à cabeça por dezenas de olhos pouco indulgentes.

 

 Paser vestira-se deselegantemente: a cabeleira curta, busto nu e uma tanga curta, lembravam a rudeza de um escriba do tempo das pirâmides. Única concessão para a época: um avental plissado que atenuava minimamente a austeridade da indumentária. O homem correspondia ao rigor da sua reputação. Jogadores inveterados apostavam já no dia em que, como qualquer outro, ele cederia à corrupção. Outros entretinham-se comentando os vastos poderes do deão do pórtico, cuja juventude, de certa maneira incongruente, fatalmente o conduziria ao abuso. E criticava-se a decisão do velho vizir, cada vez mais ausente e demasiado pronto a delegar parcelas da sua autoridade. Inúmeros cortesãos tentavam persuadir Ramsés a substituí-lo por um administrador experiente e ativo.

 

 Néféret não suscitava as mesmas discussões. Uma simples grinalda de flores sobre os cabelos, um colar largo a esconder os seios, uns brincos leves em forma de lótus, pulseiras nos pulsos e nos tornozelos, uma longa túnica de linho transparente que revelava as suas formas, que ela não escondia. Contemplá-la encantava os mais insensíveis e amenizava os mais azedos; para além da juventude e da beleza, possuía o luxo de uma inteligência muito viva, que ostentava sem desdém no olhar alegre. Disso ninguém tinha dúvidas; o seu encanto pessoal não excluía a força de caráter que poucos conseguiriam fazer vibrar. Por que razão se teria ela apaixonado por um simples juiz cujo ar severo não passava de uma garantia para o futuro? Na verdade, ele tinha conseguido um lugar eminente, mas não seria capaz de o conservar por muito tempo. A paixoneta desapareceria e Néféret escolheria um partido mais promissor. Onde o infeliz médico-chefe Nébamon falhara, outro seria bem sucedido. Algumas grandes damas já de certa idade lastimaram a audácia do trajo da mulher de um alto magistrado, ignorando que não tinha mais nenhuma túnica para vestir.

 

 O deão do pórtico e sua mulher sentaram-se ao lado do vizir. Os servos apressaram-se a servir fatias de carne de vaca grelhadas e um vinho tinto generoso.

 

 A tua mulher está doente? inquiriu Néféret.

 

 Não, mas ela nunca sai de casa. A cozinha, os filhos e a casa no centro da cidade são-lhe suficientes.

 

 Quase sinto vergonha em ter aceitado uma casa tão grande confessou Paser.

 

 Procederias mal se o não fizesses. Se recusei o palácio que o faraó dá ao vizir, foi porque detesto o campo. Depois de quarenta anos passados no mesmo sítio, não faço tenções de mudar de casa. Gosto da cidade. Os espaços abertos, os insetos, os campos a perder de vista são-me indiferentes ou incomodam-me.

 

 Como médica lembrou Néféret aconselho-te, apesar de tudo, que andes o mais possível.

 

 Vou e venho a pé para o escritório.

 

 Precisas de repousar mais.

 

 Até a situação dos meus filhos estabilizar, trabalharei menos tempo.

 

 Algum problema?

 

Com a minha filha, não. Só uma pequena desilusão: tinha entrado no templo de Hathor como aprendiza de tecedeira, mas não lhe agradou o fato de existirem rituais sucessivos durante todo o dia. Empregou-se por isso numa quinta a contar grãos de cereal e aí fará carreira. Com o meu filho é mais difícil lidar; atrai-o o jogo das damas e nele perde metade do seu salário de conferidor de tijolos cozidos. Felizmente, vive em nossa casa e a mãe dá-lhe de comer. Se conta comigo para melhorar a sua situação, engana-se. Não tenho nem o dever nem a vontade de o fazer. Que estes problemas, tão banais, não te desencorajem; ter filhos é uma das maiores alegrias do mundo.

 

 As iguarias e os vinhos, tudo de excelente qualidade, deixaram maravilhados os convidados, que trocaram trivialidades até ao breve discurso do deão do pórtico, cujo tom surpreendeu toda a assistência.

 

 Apenas a função conta, não o indivíduo que a exerce de forma transitória. Maât será a minha única guia, a deusa da Justiça, que traça o caminho dos magistrados deste país. Se se cometeram erros num passado recente, sinto-me responsável por eles. Uma vez que o vizir deposita em mim a sua confiança, desempenharei as minhas funções sem me preocupar com os interesses alheios. Os assuntos pendentes não ficarão esquecidos, mesmo que neles estejam envolvidos alguns notáveis. A Justiça é o tesouro mais precioso do Egito; desejo que todas as minhas decisões tornem este país mais próspero.  Na voz de Paser havia vigor, clareza e determinação. Queml duvidasse ainda da sua autoridade, já devia estar esclarecido.  A juventude aparente do juiz não seria uma desvantagem; pelo contrário, proporcionar-lhe-ia uma energia indispensável, prova de uma maturidade impressionante. Muitos mudaram de opinião; afinal, o reinado do novo deão do pórtico talvez não fosse efémero.  Era já tarde quando os convidados partiram; o vizir Bagey, que gostava de se deitar cedo, foi o primeiro a despedir-se. Todos iam cumprimentar e felicitar Paser e Néféret.  Finalmente libertos, foram para o jardim. Um alarido chamou-lhes a atenção. Aproximando-se de um tufo de tamarizes, aperceberam-se de uma discussão entre Bel-Tran e a senhora Nénofar.

 

 Espero nunca mais te encontrar aqui.

 

 Então não me convidasses.

 

 Não seria delicado da minha parte.

 

 Nesse caso, porquê toda essa raiva?

 

 Não só persegues o meu marido com os avisos dos impostos, como também me impedes de assumir a inspeção do Tesouro!

 

 Tratava-se de uma honra. O Estado concedia-te um salário que não correspondia a um trabalho real. Estou a organizar os serviços administrativos, que são demasiado dispendiosos, e não voltarei atrás. Podes estar certa de que o novo deão do pórtico aprovará a minha atitude e de que ele teria agido exatamente da mesma maneira, dando-te, além disso, voz de prisão. Graças a mim livraste-te de boa.

 

 Bela maneira de te justificares. És mais perigoso do que um crocodilo, Bel-Tran.

 

 Os sáurios limpam o Nilo e devoram os hipopótamos excedentários. Denes devia tomar cuidado.

 

 As tuas ameaças não me assustam. Intriguistas mais astutos do que tu nunca conseguiram nada.

 

 Nesse caso, espero ter melhor sorte.

 

 A senhora Nénofar, furiosa, afastou-se do seu interlocutor e Bel-Tran foi procurar a sua mulher, já impaciente.

 

 Paser e Néféret saudaram a alvorada na açoteia da sua nova casa. Meditavam sobre a alegria do dia que começava e os iluminava de um amor tão doce quanto um perfume festivo. Quando as gerações desaparecessem, não só na terra como no outro mundo, ele enfeitaria de flores a mulher amada e plantaria sicômoros junto ao lago de água fresca onde jamais se saciariam de os contemplar. E as suas almas, unidas, viriam beber à sombra, animadas pelo canto das folhas ondulando ao  vento.

 

 

Paser estava obcecado por uma emergência: um processo que declararia de uma vez por todas a inocência de Kem lhe restituiria a dignidade. Identificaria a suposta testemunha do chefe da polícia e culparia este último de apresentar falsas provas. Mal se levantava, e ainda antes de o beijar, Néféret fazia-o beber duas grandes taças de água cobreada; uma constipação latente provava que a linfa do deão do pórtico continuava infetada e frágil depois da sua tomada de posse.

 

 Paser engoliu rapidamente o pequeno-almoço e precipitou-se para o seu gabinete onde foi logo cercado por um exército de escribas que brandiam um interminável rol de queixas graves, oriundas de duas dezenas de aldeias. Devido à recusa de um vigilante dos celeiros reais, o óleo e os cereais, indispensáveis ao bem-estar dos habitantes prejudicados por uma cheia insuficiente, não tinham sido distribuídos. Apoiando-se num regulamento obsoleto, o pequeno funcionário fazia troça dos camponeses esfomeados.

 

 O deão do pórtico, com a ajuda de Bel-Tran, consagrou dois longos dias à resolução deste assunto, tão simples na aparência, sem cometer erros administrativos. O vigilante dos celeiros foi nomeado vigilante do canal que passava por uma das aldeias que ele se recusara a abastecer.

 

 Depois, surgiu uma outra dificuldade, um conflito entre produtores de frutos e escribas do Tesouro encarregados de os contabilizar: para evitar intermináveis processos judiciais, Paser dirigiu-se ele próprio aos pomares, aplicou sanções aos responsáveis pela fraude e refutou as acusações injustificadas dos agentes do fisco. Apercebeu-se então de como o equilíbrio económico do país, aliança entre um setor privado e uma planificação estatal, era um milagre constantemente renovado. Cabia ao indivíduo trabalhar conforme a sua vontade e, para além de um determinado limite, recolher o fruto do seu trabalho; cabia ao Estado assegurar a irrigação, a segurança dos bens e das pessoas, o armazenamento e a distribuição de alimentos na eventualidade de uma cheia insuficiente e todas as restantes obrigações de interesse comunitário.

 

 Percebendo que ficaria sufocado de trabalho se não controlasse o seu horário, Paser programou ”o processo Kem” para a semana seguinte. No momento em que o dia foi anunciado, um sacerdote do templo de Ptah imediatamente se opôs: tratava-se de um dia nefasto, aniversário do combate cósmico entre Hórus, luz celeste, e seu irmão Seth, a tempestade. Mais valia não sair de casa e não iniciar uma viagem; Mentmosé utilizaria certamente esse argumento para não comparecer.

 

 Irritado consigo próprio, Paser teve de baixar os braços quando lhe foi submetido um assunto alfandegário que implicava comerciantes estrangeiros. Uma vez passado o desânimo, começou a ler o processo; como esquecer o infortúnio do polícia núbio que procurava o seu babuíno nos recantos mais obscuros da cidade?

 

 Mentmosé, o chefe da polícia, abordou Paser numa rua apinhada de gente, onde o novo deão do pórtico comprava flores vermelhas da Núbia para preparar uma tisana apreciada pelo seu cão.

 

 Pouco à vontade, Mentmosé tornou-se melífluo.

 

 Fui enganado confessou. No fundo, sempre te julguei inocente.

 

 De qualquer maneira mandaste-me para o degredo.

 

 Não terias tu agido da mesma maneira no meu lugar? Os juizes devem aplicar a justiça de forma imparcial; senão já não é credível.

 

 Neste caso, não foi feita justiça.

 

 Infeliz concurso de circunstâncias, meu caro Paser. Hoje, o destino está a teu favor e todos nos alegramos. Soube que tens em teu poder, sob a alçada do pórtico, o processo do lamentável caso do Kem.

 

Nota: Existem papiros com listas dos dias fastos e nefastos, que correspondem a acontecimentos mitológicos. (N. A.)

 

Nota:  Trata-se do Carcadé, uma bebida ainda hoje consumida no Egito, As flores são as do hibisco. (N. A.)

 

Estás bem informado, Mentmosé. Falta-me apenas fixar uma data para o julgamento, que desta vez não será um dia nefasto.

 

 Não seria melhor esquecermos estes incidentes deploráveis?

 

 O esquecimento é o princípio de toda a injustiça. Não será o pórtico o local onde devo proteger os fracos e livrá-los dos poderosos?

 

 O teu polícia núbio não é um fraco.

 

 Mas tu és o poderoso que tenta destruí-lo ao acusá-lo de um crime que não cometeu.

 

 Aceita um acordo que evite dissabores.

 

 De que género?

 

 Alguns nomes podiam ser mencionados... Os notáveis respeitam-nos.

 

 O que pode temer um inocente?

 

 Os boatos, aquilo que se diz, a malevolência...

 

 Serão destruídos no pórtico. Cometeste um erro grave, Mentmosé.

 

 Sou o braço diligente da justiça. Afastares-te de mim seria

 

 um erro grave.

 

 Quero o nome da testemunha ocular que acusa Kem de ter assassinado Branir.

 

 Inventei-o.

 

 Claro que não. Não terias utilizado esse argumento se essa personagem não existisse. Considero os falsos depoimentos um ato criminoso susceptível de arruinar uma vida. O processo continuará; colocará em evidência o teu papel de manipulador e permitir-me-á interrogar a tua famosa testemunha na presença de Kem. Qual o seu nome?

 

 Recuso-me a revelar-to.

 

 Está assim tão altamente colocada?

 

 Sou obrigado a guardar silêncio. Essa pessoa correria muitos riscos e poderia nem comparecer.

 

 Seria considerado recusa de colaboração numa investigação, e tu sabes qual é a pena.

 

 Enganas-te! Não sou um zé-ninguém; sou o chefe da polícia!

 

 E eu sou o deão do pórtico.

 

De repente, Mentmosé, cuja voz tinha adquirido um tom azedo e a cara uma cor vermelho-escuro, apercebeu-se de que já não tinha à sua frente um insignificante juiz da província, sequioso de integridade, mas o mais alto magistrado da cidade que, ao seu ritmo, progredia em direção ao objetivo que ele próprio tinha fixado.

 

 Devo refletir.

 

 Espero-te amanhã de manhã no meu gabinete. Revelar-me-ás então o nome da tua falsa testemunha.

 

 Ainda que o banquete celebrado em honra do deão do pórtico tivesse sido realmente um sucesso, Denes já não pensava nessa festa aparatosa que tinha posto em questão a sua reputação. Preocupava-se antes em acalmar o seu amigo Qadash, tão excitado que até gaguejava. De trás para diante, o dentista endireitava as mechas impertinentes da cabeleira branca. O fluxo de sangue tornava-lhe as mãos vermelhas e as veias do nariz pareciam prestes a rebentar.

 

 Os dois homens tinham-se refugiado na parte mais recuada do jardim, longe dos ouvidos indiscretos. O químico Chéchi, que tinha combinado o encontro, assegurou-se de que ninguém podia ouvi-los. Sentado junto a uma palmeira-tamargueira, o homem do bigodinho preto, sempre a recriminar a agitação de Qadash, partilhava os seus receios.

 

 A tua estratégia é uma catástrofe! censurou Qadash a Denes.

 

 Estávamos todos de acordo em utilizar Mentmosé, acusar Kem e acalmar os ânimos do juiz Paser.

 

 E falhámos, de forma lamentável! Não sou capaz de trabalhar por causa das mãos que me tremem, e tu, ainda por cima, não me deixaste utilizar o ferro celeste! Quando me comprometi a entrar nesta trama, prometeste-me um alto cargo no Estado.

 

 Primeiro o de médico-chefe, no lugar de Nébamon lembrou Denes para o acalmar e depois algo ainda melhor,

 

 Adeus, sonhos de grandeza!

 

 Claro que não.

 

 Esqueces-te de que Paser é o deão do pórtico, que quer organizar um processo que ilibe Kem de qualquer suspeita e que exige a presença da testemunha ocular, ou seja, eu próprio?!

 

 Mentmosé não pronunciará o teu nome.

 

 Estou menos seguro disso do que tu.

 

 Ele meteu-se em intrigas para obter o lugar que ocupa; se nos trair, condena-se a si próprio.

 

 O químico Chéchi meneou a cabeça, num gesto de aprovação. Qadash, tranquilizado, aceitou uma taça de cerveja. Denes, que tinha comido de mais no banquete, friccionou o ventre inchado.

 

 Esse chefe da polícia é um incompetente lamentou-se.

 

 Logo que tomarmos o poder, afastá-lo-emos.

 

 Qualquer precipitação seria prejudicial precisou Chéchi, com uma voz que mal se ouvia. O general Asher finge que trabalha e eu não estou descontente com os meus resultados. Logo que possível, disporemos de um excelente exército e controlaremos os principais arsenais. Sobretudo, é importante não aparecermos. Paser está convencido de que Qadash quis roubar-me o ferro celeste e de que somos inimigos; ignora as nossas ligações e não as descobrirá se formos prudentes. Graças às declarações públicas de Denes, ele julga que a atual estratégia militar é o fabrico de armas inquebráveis. Corroboraremos esta ideia.

 

 Será assim tão ingénuo?

 

 Pelo contrário. Um projeto desta envergadura chamar-lhe-á a atenção. Não há nada mais importante do que uma espada capaz de quebrar capacetes, armaduras e escudos sem se danificar. Com ela, Asher fomentará uma conspiração para se apoderar do poder. Eis a verdade que se imporá ao espírito do juiz.

 

 Mas isso implica a tua cumplicidade acrescentou Denes.

 

 A minha obediência enquanto especialista liberta a minha responsabilidade.

 

 Continuo inquieto insistiu Qadash, novamente a caminhar para a frente e para trás. Quando ele se meter no nosso caminho, trataremos desse Paser. Por agora, é deão do pórtico!

 

 A próxima tempestade destruí-lo-á profetizou Denes.

 

 Cada dia que passa é-nos favorável lembrou Chéchi.

 

 O poder do faraó extingue-se como pedra corroída.

 

Nenhum dos três conjurados, porém, se apercebeu da presença de uma testemunha que não tinha perdido uma palavra da conversa.

 

Empoleirado no cimo de uma palmeira, Matador, o babuíno-polícia, fitava-os com os seus olhos vermelhos.

 

Escandalizada com o comportamento faccioso e agressivo de Bel-Tran, a senhora Nénofar não permaneceu inativa. Convocou para sua casa os solicitadores das cinquenta famílias mais ricas de Mênfis, para lhes expor claramente a situação. Os seus patrões, tal como eles próprios, usufruíam de uma série de cargos honoríficos, que não eram obrigados a exercer, mas que lhes permitiam obter informações confidenciais e permanecer em contato privilegiado com a administração. No seu impulso para tudo organizar, Bel-Tran estava a suprimi-los uns a seguir aos outros. Desde os primórdios da sua história, o Egito tinha rejeitado sempre os excessos de autoritarismo dos novos-ricos, tão perigosos como uma víbora do deserto.

 

O discurso animado da senhora Nénofar foi aprovado por unanimidade. Um homem havia que tinha a obrigação de tomar o partido da razão e da justiça, e esse homem era Paser, o deão do pórtico. Assim, uma delegação, composta por Nénofar e dez representantes eminentes da nobreza, conseguiu marcar uma audiência para a manhã do dia seguinte. E ninguém se apresentou de mãos vazias. Todos depuseram aos pés do juiz vasos de unguentos, um lote de tecidos preciosos e um cofre cheio de jóias.

 

 Recebe estas dádivas em homenagem à tua função disse o mais velho.

 

 A tua generosidade comove-me, mas sinto-me obrigado a recusá-la.

 

 O velho dignitário ficou indignado.

 

 Por que razão?

 

 Tentativa de corrupção.

 

 Jamais nos ocorreu tal pensamento! Dá-nos o prazer de aceitares.

 

 Leva estes presentes e oferece-os aos teus servidores mais dignos.

 

A senhora Nénofar achou indispensável intervir.

 

Deão do pórtico, exigimos que respeites a hierarquia e os valores tradicionais.

 

Encontrarás em mim um aliado.

 

 Tranquilizada, a mulher escultural do transportador Denes exprime-se acaloradamente.

 

 Bel-Tran, sem qualquer razão aparente, acaba de anular o meu cargo de inspetora do Tesouro e prepara-se para lesar muitos membros das famílias mais consideradas de Mênfis. Ele causa, assim, graves prejuízos aos nossos costumes e opõe-se a privilégios muito antigos. Exigimos a tua intervenção para pores cobro a esta perseguição.

 

Paser leu uma passagem da Regra:

 

Tu, aquele que julgas, não distingas nunca um rico de um homem do povo. Não te deixes impressionar pela beleza das roupagens, não desprezes aquele cujo trajo é simples por causa dos seus fracos recursos. Não aceites presentes de quem possua bens, e não desfavoreças o fraco em proveito do primeiro. Assim, o país estabelecer-se-á solidamente, se te preocupares apenas com os atos quando emitires a tua sentença.

 

Os princípios, conhecidos por toda a gente, geraram contudo alguma inquietação.

 

 O que significa essa advertência? perguntou, espantada, a senhora Nénofar.

 

 Que estou ao corrente da situação e que concordo com Bel-Tran. Além disso, os vossos ”privilégios” não são muito antigos, uma vez que remontam aos primeiros anos do reinado de Ramsés.

 

 Estás a criticar o rei?

 

 Era seu intuito incitar-vos, enquanto nobres, a desempenharem novas obrigações, e não a beneficiarem de um título. O vizir não manifestou nenhuma oposição em relação à nova organização administrativa de Bel-Tran. Os primeiros resultados são encorajadores.

 

Considerarias então empobrecer a nobreza?

 

 Restituir-lhe a sua verdadeira grandeza, para que seja um exemplo.

Bagey, o rigoroso, Bel-Tran, o ambicioso, Paser, o idealista: a senhora Nénofar arrepiou-se com a ideia de os três serem aliados! Felizmente, o velho vizir não tardaria a reformar-se, o chacal de dentes afiados quebrá-los-ia numa pedra, e o juiz incorrupto acabaria por ceder às tentações.

 

 Trégua de sentenças feitas; para que lado pendes?

 

 Não fui já bastante claro?

 

 Nenhuma pessoa notável pôde construir a sua carreira sem o nosso apoio.

 

 Resigno-me a ser a excepção.

 

 Serás mal sucedido.

 

  Tapeni estava ávida de amor. Não tinha o arrebatamento inimitável de Pantera, mas demonstrava uma imaginação soberba, não só nas atitudes, mas também na afabilidade. Para não a desiludir, Suti foi obrigado a acompanhar as suas divagações e até mesmo a antecipar-se-lhe. Tapeni sentia uma profunda afeição pelo rapaz para o qual reservava tesouros de ternura. Morena, pequena, nervosa, praticava a arte do beijo, ora com subtileza, ora com violência.

 

 Felizmente, Tapeni andava muito ocupada com o seu trabalho, e Suti beneficiava de períodos de repouso que aproveitava para tranquilizar Pantera e provar-lhe intata a sua paixão.

 

 Tapeni enfiava o vestido, Suti endireitava a tanga.

 

 És um homem belíssimo e um galanteador fogoso.

 

 ”Gazela saltadora” ia-te mesmo matar.

 

 A poesia não me interessa, mas a tua virilidade fascina-me.

 

 Sabes falar-lhe com gestos convincentes, mas já nos esquecemos do motivo da minha primeira visita.

 

 A agulha de madrepérola?

 

 Exatamente.

 

 É um belo objeto, raro, precioso, manejado apenas pelas pessoas de qualidade, peritas em tecelagem.

 

 Possuis essa lista?

 

 Claro.

 

 Importas-te de ma mostrares?

 

 São todas mulheres, rivais... Estás a pedir de mais. Suti receava esta resposta.

 

 Como poderia seduzir-te?

 

 És o homem que eu queria. Sinto a tua falta à tarde e à noite. Sou obrigada a ficar sozinha, a pensar em ti. Não achas insuportável este sofrimento?

 

 Poder-te-ia conceder de vez em quando uma noite.

 

 Quero as noites todas.

 

 Se calhar querias...

 

 Casar, meu querido.

 

 Por princípio moral, sou avesso ao casamento.

 

 Terás de abandonar as tuas amantes, ficares rico, viveres em minha casa, esperares por mim, estares sempre disposto a satisfazer os meus mais loucos desejos.

 

 Há coisas mais difíceis.

 

 Oficializaremos a nossa união na próxima semana.

 

 Suti não protestou. Facilmente encontraria um método de fugir a esta escravatura.

 

 Quem utiliza as agulhas? Tapeni fez uma careta.

 

 Dás-me a tua palavra?

 

 Só tenho uma.

 

 Essa informação é assim tão importante?

 

 Para mim, é. Mas se recusas... Ela agarrou-se ao braço dele.

 

 Não te zangues.

 

 Torturas-me.

 

 Estou a brincar contigo. Agulhas deste tipo, poucas senhoras nobres sabem utilizá-las com perfeição e sem tremer. O instrumento exige habilidade e precisão. Só vejo três, e a mulher do antigo supervisor dos canais é a melhor.

 

 Onde está ela?

 

 Tem oitenta anos e mora na ilha de Elefantina, perto da fronteira sul.

 

 Suti fez um beicinho.

 

E as outras duas?

 

 A viúva do diretor dos celeiros, pequena e frágil; tinha, no entanto, uma força incrível. Mas partiu o braço há dois anos e...

 

 E a terceira?

 

 A sua aluna preferida, que, apesar da enorme fortuna que possui, continua a tecer a maior parte dos vestidos que usa: a senhora Nénofar.

 

 

A audiência começaria a meio da manhã. Embora Kem não tivesse encontrado o babuíno, tinha aceitado comparecer.

 

 Mal o dia raiou, Paser ocupou o seu posto no pórtico, para onde o destino o chamava. Enfrentar Mentmosé não seria fácil; o chefe da polícia, disposto a tudo, não se deixaria apanhar como um canário amedrontado. O juiz temia a reação violenta de um alto funcionário pronto a espezinhar os outros para preservar os seus privilégios.

 

 Paser saiu do pórtico e observou o templo ao qual o mesmo estava encostado. Por detrás dos altos muros, trabalhavam os especialistas da energia divina; conscientes das fraquezas humanas, recusavam-se a aceitá-las como uma fatalidade. O homem era argila e palha. Só Deus construía as moradas da eternidade onde residiam as forças da criação, para sempre inacessíveis e, no entanto, presentes no mais modesto sílex. Sem o templo, a justiça mais não seria do que uma grande maçada, um ajuste de contas e o domínio de uma casta. Graças a ele, a deusa Maât assumia o comando e cuidava da balança. Ninguém possuía a justiça; só Maât, leve como uma pluma de avestruz, conhecia o peso dos atos. Cabia aos magistrados servi-la com a ternura que uma criança dedica à sua mãe.

 

 Saído da noite que acabava de findar, surgiu Mentmosé. Paser, algo friorento apesar da estação, envergava uma capa de lã. O chefe da polícia contentava-se com uma veste ajustada, que envergava com orgulho. Preso à cinta, tinha um punhal de cabo curto e lâmina fina. O seu olhar era gélido.

 

Estás muito madrugador, Mentmosé.

 

 Não faço tenções de desempenhar o papel do acusado.

 

 Chamei-te como testemunha.

 

 A tua estratégia é clara: destruíres-me com provas mais ou menos imaginárias. Devo lembrar-te de que, tal como tu, também eu faço aplicar a lei.

 

 Esquecendo-te de a aplicares a ti mesmo.

 

 Um inquérito não se faz com bons sentimentos. Por vezes é preciso sujar as mãos.

 

 Não te terias esquecido de as purificar?

 

 O momento não se compadece com uma moral de pacotilha. Não prefiras um negro perigoso ao chefe da polícia.

 

 Nada de desigualdades perante a justiça; prestei juramento nesse sentido.

 

 Quem és tu, então, Paser?

 

 Um juiz do Egito.

 

 Paser pronunciou estas palavras com tanta força e solenidade que Mentmosé estremeceu. Teve o azar de encontrar no seu caminho um magistrado de rija têmpera, à moda antiga, um desses homens representados nos baixos relevos em ouro das pirâmides, de cabeça erguida, respeitadores da retidão, amantes da verdade, insensíveis à censura e à adulação. Ao fim de tantos anos passados na alta administração, o chefe da polícia estava convencido de que, com o vizir Bagey, esta raça se extinguia definitivamente. Que pena, a erva daninha que pensava aniquilada, renascia com Paser.

 

 Porque me persegues?

 

 Não és uma vítima inocente.

 

 Fui manipulado.

 

 Por quem?

 

 Não sei.

 

 Então, vejamos, Mentmosé! Tu és o homem mais bem informado do Egito e estás a tentar convencer-me de que alguém mais maquiavélico do que tu engendrou toda esta trama de forma a incriminar-te?

 

 Se é a verdade que queres, aí a tens. Reconhece que ela não me favorece.

 

 Continuo incrédulo.

 

 Estás enganado. Não sei nada sobre a verdadeira causa da morte dos veteranos; e nada sei sobre o roubo do ferro celeste. O assassinato de Branir oferecia-me a ocasião de me livrar de ti através de uma denúncia anónima. Não hesitei, porque te odeio. Odeio a tua inteligência, a tua vontade de chegares ao fim custe o que custar, a tua recusa em fazeres acordos. Mais cedo ou mais tarde, acabarias por me atacar. A minha última alternativa era Kem; se o tivesses aceitado como bode expiatório, teríamos selado um pato de não agressão.

 

 O manipulador não terá sido a tua falsa testemunha? Mentmosé coçou o crânio rosado.

 

 Existe certamente uma conspiração cujo cérebro é o general Asher, mas não consegui dar com o fio da meada. Temos inimigos comuns. Porque não nos aliamos?

 

 O silêncio de Paser parecia um bom augúrio.

 

 A tua intransigência será sol de pouca dura afirmou Mentmosé. Permitiu-te subir muito alto na hierarquia, mas não persistas nesse caminho. Conheço bem a vida; ouve os meus conselhos e não terás problemas.

 

 Duvido.

 

 Em boa hora o farás! Estou pronto a esquecer ressentimentos e a considerar-te meu amigo.

 

 Se não estás metido na conspiração observou Paser em voz alta, então, ainda é mais grave do que eu supunha.

 

 Mentmosé ficou perturbado. Esperava outra conclusão.

 

 O nome da tua falsa testemunha é um dado muito importante.

 

 Não insistas.

 

 Então, cairás sozinho, Mentmosé.

 

 Não ousarias acusar-me...

 

 De conspirares contra a segurança do Estado.

 

 Os jurados não te darão ouvidos.

 

 Veremos. Há queixas que chegam para os alertar.

 

 Se te der esse nome, deixas-me em paz?

 

 Não.

 

 Não estás a ser sensato.

 

Não cederei a chantagem alguma.

 

 Nesse caso, não tenho o mínimo interesse em falar.

 

 Como queiras. Daqui a pouco começa o julgamento.

 

 Os dedos de Mentmosé apertaram o cabo do punhal. Pela primeira vez na sua carreira, o chefe da polícia sentia-se aprisionado numa armadilha.

 

 Que futuro me reservas?

 

 O que tu escolheste.

 

 És um excelente juiz, e eu um bom polícia. Um erro pode sempre remediar-se.

 

 Qual é o nome da falsa testemunha? Mentmosé não cairia sozinho.

 

 O dentista Qadash.

 

 O chefe da polícia aguardou a reação de Paser. Como o deão do pórtico continuasse calado, hesitou em ir-se embora.

 

 Qadash repetiu ele.

 

 Mentmosé virou as costas, na esperança de que esta revelação o salvasse. Não se tinha, porém, apercebido da presença de uma testemunha atenta, cujos olhos avermelhados não o haviam largado um só instante. O babuíno, empoleirado no telhado do pórtico, parecia uma estátua do deus Tot. Sentado, com as mãos espalmadas sobre os joelhos, parecia meditar.

 

 Paser percebeu que o chefe da polícia não tinha mentido. De outro modo, o macaco ter-se-ia atirado a ele. O juiz chamou Matador. O babuíno hesitou, deixou-se escorregar do alto de uma coluna, pôs-se diante de Paser e estendeu-lhe a mão.

 

 Quando encontrou Kem, o animal saltou ao pescoço do homem que chorava de alegria.

 

 As codornizes sobrevoavam os campos e desciam nas plantações de trigo. Cansada de uma longa migração, a chefe do bando não se tinha apercebido do perigo. Calçados com sandálias de papiro, rasteiros, os caçadores desenrolaram uma rede de malhas apertadas, enquanto os ajudantes agitavam panos para espantar os pássaros. Assustados, foram capturados em grandes quantidades. Assadas, as codornizes seriam uma iguaria apreciada nas melhores mesas.

 

 Paser não gostava deste espetáculo. Ver um ser vivo privado de liberdade fazia-o realmente sofrer, mesmo tratando-se de uma simples codorniz. Néféret, capaz de se aperceber do seu mais íntimo sentimento, levou-o para longe daquele local. Caminharam até um lago de águas tranquilas, cercado de sicômoros e tamargueiras, que um rei tebano ali tinha mandado plantar para a sua esposa real. Segundo a lenda, a deusa Hathor vinha ali banhar-se ao pôr do Sol. A jovem esperava que a visão desse paraíso pudesse acalmar o juiz.

 

 Não era a confissão do chefe da polícia prova de que, desde os primeiros dias do inquérito levado a cabo em Mênfis, Paser tinha apontado para uma das almas danadas da conspiração? Qadash não tinha hesitado em subornar Mentmosé de forma a enviar o juiz para o degredo. Apanhado como numa vertigem, o deão do pórtico interrogava-se se não estaria a ser o instrumento de uma vontade superior, que lhe traçava o caminho e o obrigava a seguir acontecesse o que acontecesse.

 

 A incriminação de Qadash levava-o a colocar-se questões às quais não devia responder com precipitação e sem provas. Uma ânsia, por vezes insuportável, atormentava-o. Ansioso por descobrir a verdade, não se arriscava ele a desvalorizá-la indo muito depressa?

 

 Néféret tinha decidido arrancá-lo ao escritório, onde se encontravam os processos, e ao trabalho, sem dar ouvidos aos seus protestos, levando-o para um lugar solitário e aprazível nos campos ocidentais.

 

 Estou a perder horas preciosas.

 

 Será a minha companhia assim tão desagradável?

 

 Desculpa.

 

 Tens de te distanciar dos problemas.

 

 O dentista Qadash vai levar-nos ao químico Chéchi, e daí ao general Asher e ao assassinato dos cinco veteranos, e, sem dúvida, ao transportador Denes e sua mulher! Os conspiradores pertencem à elite deste país. Querem tomar o poder através de uma revolta militar, assegurando para tal o monopólio de armas novas. Eis o motivo por que fizeram desaparecer Branir, futuro sumo-sacerdote de Carnaque, que me autorizou a fazer investigações nos templos sobre o roubo do ferro celeste. Foi também por isso que tentaram fazer-me desaparecer, acusando-me da morte do meu mestre. O processo é complicado, Néféret! Contudo, não sei se tenho razão. Duvido das minhas próprias afirmações.

 

 Ela conduziu-o por uma vereda que contornava o lago. A meio da tarde, e suportando um calor excessivo, os camponeses dormitavam à sombra das árvores ou das choupanas.

 

 Néféret ajoelhou-se na margem do lago e colheu uma flor de lótus, que colocou no cabelo. Um peixe prateado de ventre bojudo saiu da água e voltou a desaparecer num círculo de gotinhas cintilantes.

 

 A jovem entrou na água; molhada, ficou com o vestido de linho colado ao corpo, o que revelava todas as suas formas. Mergulhou, nadou com agilidade e, para brincar, seguiu com a mão os movimentos de um peixe que ziguezagueava à sua frente.

 

 Quando saiu da água, o seu perfume era mais intenso, acentuado pelo banho.

 

 Não vens para ao pé de mim?

 

 Tinha um olhar tão belo que Paser esqueceu-se até de se mexer. Tirou a tanga enquanto ela tirava o vestido. Nus e enlaçados, deixaram-se escorregar para cima de um tufo de papiros onde fizeram amor, plenos de felicidade.

 

 Paser tinha-se oposto firmemente à partida de Néféret. Por que motivo a teria convocado o médico-chefe, Nébamon, senão para lhe armar uma cilada e se vingar?

 

 Kem e o babuíno seguiram Néféret com a finalidade de garantir a sua segurança. O macaco introduzir-se-ia no jardim de Nébamon, e, se o médico-chefe se tornasse ameaçador, interviria da forma mais brutal.

 

 Néféret não sentia medo; regozijava-se, pelo contrário, por conhecer as intenções do seu mais cruel inimigo. Apesar da oposição de Paser, aceitava as condições de Nébamon: uma conversa a sós.

 

 O porteiro deixou passar a jovem, que meteu por um caminho de tamargueiras, cujos ramos abundantes e entrelaçados tocavam o solo;  os seus frutos, de longos filamentos açucarados, deviam ser colhidos ainda úmidos do orvalho e depois secos ao sol. Com a madeira, fabricavam-se sarcófagos de renome, parecidos com o de Osíris, e bastões que afastavam os inimigos da claridade. Surpreendida pelo silêncio invulgar que reinava na imensa propriedade, Néféret lamentou, de repente, não vir munida com essa arma.

 

 Nem um jardineiro, nem um aguadeiro, nem um só servo... As entradas do sumptuoso palacete estavam desertas. Hesitante, Néféret entrou. O vestíbulo era fresco e bem arejado, se bem que mal iluminado por escassos feixes de luz.

 

 Aqui estou disse ela.

 

 Ninguém respondeu. A casa parecia abandonada. Será que Nébamon tinha voltado para a cidade, esquecendo-se do encontro? Incrédula, explorou os vários compartimentos.

 

 O médico-chefe dormia, estendido na cama espaçosa, no seu quarto com paredes decoradas com canários esvoaçantes e garças em repouso. Tinha um ar cansado e a respiração era curta e irregular.

 

 Voltei repetiu ela docemente. Nébamon acordou. Incrédulo, esfregou os olhos e endireitou-se.

 

 Foste corajosa... Nunca o teria imaginado!

 

 És assim tão perigoso? Ele contemplava-a, delicada.

 

 Era... Desejava o desaparecimento de Paser e a vossa desgraça. Saber-vos juntos e felizes era para mim uma tortura; queria-te a meus pés, pobre, suplicante. A tua felicidade impedia a minha. Porque não havia eu de te seduzir? Tantas outras sucumbiram ao meu assédio! Mas tu não te pareces com elas.

 

 Nébamon tinha envelhecido muito; a voz, enfraquecida, tornara-se trémula.

 

 De que mal sofres?

 

 Sou um animal desprezível. Gostarias de saborear os meus bolos em forma de pirâmide, recheados com compota de tâmaras?

 

 Não sou gulosa.

 

 Mas gostas de viver; ofereces-te à vida sem modéstia! Teríamos formado um par formidável. Paser não te serve, e tu sabe-lo bem; não será deão por muito tempo, e tu passarás ao largo da riqueza.

 

Considera-la assim tão indispensável?

 

 Um médico pobre não progride.

 

 Acaso a tua riqueza te protege do sofrimento?

 

 Tenho um tumor vascular.

 

 Nada que não tenha remédio. Para aliviar a dor, recomendo aplicações de suco de sicômoro, extraído da árvore no início da Primavera, antes de dar fruto.

 

 Excelente receita. Conheces bem o teu ofício.

 

 A operação é inevitável. Farei uma incisão com um caniço afiado, retirarei o tumor aquecendo-o ao fogo e depois cauterizo a ferida com uma lanceta.

 

 Tudo isso estaria muito certo, se o meu organismo fosse capaz de suportar a intervenção.

 

 Encontras-te assim tão debilitado?

 

 Tenho os dias contados. Por isso, mandei embora a minha família e os serviçais. Todos me aborrecem. O palacete deve estar num caos. Ninguém toma a iniciativa na minha ausência. Os imbecis que me obedecem a torto e a direito não sabem o que fazer. Que farsa lamentável... Rever-te ilumina a minha agonia.

 

 Posso auscultar-te?

 

 Se isso te diverte.

 

 Néféret escutou a voz do seu coração, fraco e desordenado. Nébamon não mentia. Estava gravemente doente. Permanecia imóvel, respirando o perfume de Néféret, sentindo a doçura da mão dela sobre a sua pele, a ternura da orelha dela no seu peito. Teria vendido a sua eternidade para que aqueles instantes não fossem interrompidos. Mas já não dispunha de tal tesouro; ao lado da balança do julgamento, a devoradora esperava-o.

 

 Néféret desviou-se.

 

 Quem cuida de ti?

 

 Eu, o ilustre médico-chefe do reino do Egito!

 

 Como?

 

 Desprezando-me. Detesto-me, Néféret, porque não sou capaz de conquistar o teu amor. A minha existência foi um interminável rol de sucessos, de mentiras e de infâmias, mas falta-me o teu rosto, a paixão que deveria ter-te trazido até mim. Morro por ti.

 

 Não tenho o direito de te abandonar.

 

 Não hesites nem um segundo, aproveita a tua sorte! Se eu me curasse tornar-me-ia numa fera, e não descansaria enquanto não fizesse desaparecer Paser, para te capturar.

 

 Um doente merece cuidados.

 

 Aceitarias essa função?

 

 Em Mênfis há excelentes médicos.

 

 Só te quero a ti, mais ninguém.

 

 Não te portes como uma criança.

 

 Ter-me-ias amado sem o Paser?

 

 Conheces a resposta.

 

 Peço-te que mintas.

 

 A partir desta noite, os teus servos voltarão. Recomendo uma alimentação leve.

 

 Nébamon endireitou-se.

 

 Juro-te que não participei em nenhuma das conspirações que preocupam o teu marido. Ignoro tudo o que diz respeito ao assassinato de Branir, à morte dos veteranos e às intrigas do general Asher. O meu único objetivo era enviar Paser para a prisão e obrigar-te a seres minha mulher. Por muito que viva, não terei outra.

 

 Não achas que é preciso renunciar ao impossível?

 

 Outros ventos soprarão, tenho a certeza.

 

 

Radiante, Pantera acariciava o peito de Suti. Tinham feito amor com o ímpeto de uma cheia crescente e tão avassaladora que as suas ondas se lançavam ao assalto das montanhas.

 

 Porque estás tão triste?

 

 Inquietações sem importância.

 

 Fala-se muito.

 

 De quê?

 

 Da sorte de Ramsés, o Grande. Alguns dizem que mudou. No mês passado, houve um incêndio nas docas; vários acidentes nos rios; e apareceram acácias rachadas de alto a baixo por faíscas.

 

 Banalidades.

 

 Não para os teus compatriotas. Acreditam que o poder mágico do faraó se está a esgotar.

 

 Olha a grande coisa? Ele vai celebrar uma festa de regeneração e o povo manifestará a sua alegria.

 

 Porque espera ele então?

 

 Ramsés tem o sentido da oportunidade.

 

 E os teus aborrecimentos?

 

 Não têm importância, já disse.

 

 Existe outra mulher.

 

 Faz parte da minha investigação.

 

 Que quer ela?

 

 Vejo-me obrigado a...

 

Um casamento, com contrato e tudo! Quer isso dizer que me repudias!

 

 Desvairada, a líbia de cabelos loiros quebrou algumas tigelas de barro e virou de pernas para o ar uma cadeira de palha.

 

 Como é ela? Alta, baixa, nova, velha?

 

 Baixa, de cabelo muito escuro, e menos bonita do que tu.

 

 Rica?

 

 Bem relacionada.

 

 Já não te chego, não tenho fortuna! Já não te divertes com a tua puta loira e tornas-te num homem honrado com a tua burguesa morena!

 

 Preciso de obter informações.

 

 E és obrigado a casar?

 

 É uma simples formalidade.

 

 E eu?

 

 Sê um pouco mais paciente. Quando estiver satisfeito, pedirei o divórcio.

 

 Como irá ela reagir?

 

 Para ela, é apenas um capricho. Esquecerá tudo depressa.

 

 Recusa, Suti. Vais cometer um erro muito grave.

 

 É impossível.

 

 Pára de obedecer a Paser!

 

 O contrato de casamento já está assinado.

 

 Paser, deão do pórtico, primeiro magistrado de Mênfis e autoridade moral incontestada, amuou como um adolescente contrariado. Não concordava com os esforços de Néféret em prol de Nébamon. A jovem tinha chamado vários terapeutas que se tinham postado à cabeceira do médico-chefe, reconduzira os seus serviçais à propriedade e velava para que o doente fosse tratado e rodeado de cuidados. E esta atitude enraivecia-o.

 

 Os inimigos não se ajudam praguejou ele.

 

 Será que um juiz se pode exprimir dessa maneira?

 

 Deve fazê-lo, pelo menos.

 

Eu sou médica.

 

Esse monstro tentou destruir-nos, a ti e a mim.

 

Mas fracassou. E hoje, é ele que se destrói interiormente.

 

O mal não apaga as suas faltas.

 

Tens razão.

 

Então, se o admites, não te preocupes mais com ele.

 

Ele não habita os meus pensamentos; cumpri apenas o meu dever.

 

Paser sentiu-se um pouco mais aliviado.

 

Ciumento?

 

Ele abraçou-a.

 

Ninguém o é mais do que eu.

 

Dás-me autorização para tratar de outro doente além do meu marido?

 

Se a lei mo permitir, não.

 

Bravo, de olhar inquieto, estendeu a pata direita a Néféret e a esquerda a Paser. As desavenças entre os seus donos deixavam-no infeliz. A sua postura de acrobata deu azo a uma gargalhada que o cão, tranquilizado, partilhou com latidos.

 

Suti afastou dois copistas e, com os braços cheios de papiros, empurrou um escrivão e forçou a porta do gabinete de Paser, que bebia um copo de água cobreada. Os seus longos cabelos negros estavam em desalinho e o antigo herói espumava de raiva.

 

Algum aborrecimento, Suti?

 

Sim, tu!

 

O deão do pórtico levantou-se e fechou a porta. A tempestade seria violenta.

 

Podemos discutir noutro lugar qualquer.

 

Nem pensar! Este lugar é precisamente a causa da minha cólera.

 

És vítima de alguma injustiça?

 

Estás um burguês, Paser! Olha à tua volta: escribas, funcionários sem capacidade, espíritos mesquinhos preocupados apenas em progredir. Esqueces-te da nossa amizade, negligencias o inquérito sobre o general Asher, não procuras a verdade, como se não acreditasses mais em mim! Foste apanhado na cilada dos títulos e da respeitabilidade. No entanto, vi Asher torturar e matar um egípcio, e sei que é um traidor; e tu, pavoneias-te como um notável!

 

 Estiveste a beber.

 

 Cerveja de má qualidade e em demasia. Estava a precisar. Ninguém se atreve a falar-te como eu.

 

 O tato não é o teu forte, mas não te sabia tão estúpido.

 

 Ainda por cima, insultas-me! Nega o que eu disse, se és capaz.

 

 Senta-te.

 

 Eu não patuo com a tua atitude!

 

 Aceita ao menos uma trégua.

 

 Algo cambaleante, Suti conseguiu sentar-se no chão sem perder o equilíbrio.

 

 É inútil tentares seduzir-me. Percebi bem o teu jogo.

 

 Tens sorte. Pois eu sinto-me perdido. Admirado, Suti voltou-se para Paser.

 

 O que queres dizer com isso?

 

 Vê bem: Estou afogado em trabalho. No meu bairro em Mênfis, na qualidade de juiz de casos de pouca monta, tinha algum tempo para investigar. Aqui, devo responder a cem solicitações, despachar pilhas de processos, acalmar as cóleras de uns e as impaciências de outros.

 

 Aí está a cilada. Pede a demissão e vem comigo.

 

 Quais são os teus planos?

 

 Estrangular o general Asher e livrar o Egito do mal que o destrói.

 

 O mal não será atingido.

 

 Certamente que sim! Cortando a cabeça à conspiração, põe-se fim à revolta.

 

 E o assassino de Branir?

 

 Suti sorriu cruelmente.

 

 Eu fui um bom investigador. Mas tive de me casar com a senhora Tapeni.

 

Aprecio o teu sacrifício.

 

Senão, ela não teria falado.

 

Finalmente, estás rico.

 

Pantera não aceita a minha decisão.

 

Um sedutor como tu deveria acomodar-se.

 

Eu, casado... É pior que o degredo! Logo que possa, divorcio-me.

 

A cerimónia correu bem?

 

Na mais estrita intimidade. Ela não quis convidar ninguém. Mas na cama foi uma loucura completa. Para Tapeni, sou uma guloseima inesgotável.

 

Então, e a investigação?

 

Só algumas pessoas de elevada posição utilizam o tipo de agulha que matou Branir. Entre elas, a mais habilidosa e notável é a senhora Nénofar. Se o lugar que ocupa de inspetora do Tesouro é apenas honorífico, é ela no entanto quem administra tudo, e conhece a matéria como ninguém.

 

A dama Nénofar, a mulher do transportador Denes, a inimiga figadal de Bel-Tran, a mais acérrima partidária do juiz! No entanto, enquanto membro do júri, aquando do processo Asher, ela não tinha criticado Paser. De novo, o juiz se sentia a pisar em falso. A sua culpabilidade parecia evidente, mas isso nem por isso tornava mais sólida a sua convição.

 

Prende-a imediatamente  aconselhou Suti.

 

Ainda não há uma prova definitiva.

 

Tal como com o Asher! Porque recusas incessantemente a evidência?

 

Eu não, Suti, mas o tribunal. Para considerar uma pessoa culpada de assassínio, os jurados exigem um processo irrepreensível.

 

Mas eu casei e tudo!

 

Então, empenha-te em conseguires mais informações.

 

Estás cada vez mais exigente e fechas-te num círculo de leis que te afastam da realidade. Recusas a verdade; Asher é um traidor e um criminoso que tenta deitar a mão ao exército da Ásia. Nénofar assassinou o teu mestre.

 

Porque é que o general não fez nada?

 

Porque coloca os seus apaniguados em postos estratégicos, nos protetorados e mesmo no Egito. Enquanto instrutor dos oficiais asiáticos, tem um conjunto de escribas e militares que lhe são dedicados. Rapidamente, e com a ajuda do seu amigo Chéchi, terá nas mãos armas de difícil destruição que lhe permitirão enfrentar sem medo qualquer exército. E quem controla o exército governa o país. Paser continuava céptico.

 

 Um golpe de Estado militar não tem qualquer hipótese de sucesso.

 

 Já não estamos na idade do ouro, mas sim no reinado de Ramsés! Nas nossas províncias, há milhares de estrangeiros; os nossos queridos compatriotas sonham muito mais em enriquecer do que em satisfazer os deuses. O velho código moral está morto.

 

 A pessoa do faraó continua sagrada. O general Asher não tem envergadura para tanto. Não será apoiado por nenhum clã; o país rejeitá-lo-á.

 

 O argumento surtiu efeito. Suti admitiu que o seu raciocínio, inatacável num país da Ásia, de nada valia no Egito de Ramsés, o Grande. Uma fação, mesmo superiormente armada, não conseguiria obter o apoio dos templos e muito menos a adesão do povo. Para governar as duas terras, não bastava a força. Era preciso um ser mágico, capaz de fazer um pato com os deuses e de fazer reinar na terra o amor pelo além. Propósito ridículo aos ouvidos de um grego, de um líbio ou de um sírio, mas essencial aos ouvidos de um egípcio. Quaisquer que fossem as suas qualidades de estratega e intriguísta, Asher não possuía as essenciais.

 

 É estranho comentou Paser. Capturámos três presumíveis culpados pela morte de Branir: o deão do pórtico, exilado e a sofrer de inanição; Nébamon, atingido por grave doença; Mentmosé, à beira do abismo. Todos três podiam ter-me enviado a mensagem, ordenando-me que fosse encontrar-me com o meu mestre, e preparado uma encenação destinada a incriminar-me. E tu, incluis ainda a senhora Nénofar. Mas o antigo deão parece-me fora de questão; teve o comportamento de um magistrado gasto, fraco, esmagado pelos seus compromissos. Nébamon jurou a Néféret que não estava metido em conspiração alguma. E o chefe da polícia, habitualmente tão habilidoso e tão seguro de si, parecia ser o manipulado e não o manipulador. Se com estes nos enganámos fortemente, porque não hesitar também quanto à senhora Nénofar?

 

Aí tens a conspiração! Os soldados de elite não são suficientes para o general Asher. Necessita do apoio de nobres e ricos. Teve o da senhora Nénofar e o de Denes, os negociantes mais abastados de Mênfis! Graças à sua fortuna, Asher pôde comprar silêncios, consciências e cumplicidades. O cérebro do esquema é duplo.

 

 Mas Denes não organizou um banquete para celebrar a minha investidura?

 

 E não tentou também comprar-te? Quando não o consegue, encontra a verdade que lhe convém. Tu, assassino de Branir, e Qadash, testemunha ocular do mesmo homicídio, de forma a afastar definitivamente Kem, o teu polícia fiel.

 

 Desta vez, apesar da sua embriaguez, Suti mostrava-se convincente.

 

 Se estás certo, os nossos adversários são ainda mais numerosos e poderosos do que imaginávamos. Terá Denes o perfil de um chefe de estado?

 

 Certamente que não! Consciente de si mesmo e indiferente aos outros, tem uma visão das coisas muito limitada; as finanças e o lucro pessoal são os seus únicos horizontes. Em contrapartida, a senhora Nénofar é mais temível do que parecia; julgo-a capaz de segurar as rédeas de um governo. Sejamos realistas, deão do pórtico! Cinco cadáveres de veteranos, Branir assassinado, várias tentativas de homicídio... Há dez anos que o Egito não conhece tantas e tais acusações. O teu inquérito está a emaranhar-se. Já que tens poder, usa-o! Os teus papéis podem esperar.

 

 São eles que garantem o equilíbrio do país e o bem-estar quotidiano da população.

 

 Se a conspiração for bem sucedida, o que restará? Paser levantou-se, decidido.

 

 O desleixo afeta-te, Suti.

 

 Um herói precisa de façanhas.

 

 E tu, estás pronto a correr riscos?

 

 Tanto como tu. Quero assistir ao castigo do general Asher.

 

 A cólica de Silkis tinha tomado proporções alarmantes. Receando disenteria, Bel-Tran tinha vindo buscar Néféret a meio da noite.

 

A médica, embebeu sementes de funcho aromático para dar à doente. As suas propriedades sedativas e digestivas atenuariam os espasmos. Como medicamento, e misturadas com briónia e coentro, aliviavam as enxaquecas. O belo umbelífero de flores amarelas não seria o suficiente, dado que as diarreias eram muito dolorosas; assim, de quarto em quarto de hora, Silkis devia tomar um copo cheio de cerveja de alfarroba, feita das vagens, e misturada com azeite e mel. Uma hora depois do início do tratamento, os sintomas abrandaram.

 

 És maravilhosa balbuciou a paciente.

 

 Fica tranquila. A partir de amanhã estarás restabelecida. Bebe a cerveja de alfarroba durante uma semana.

 

 Devo recear complicações?

 

 Nenhumas. Uma banal intoxicação alimentar. Mal tratada, ter-se-ia tornado inquietante. Durante alguns dias, faz uma alimentação à base de cereais.

 

 Bel-Tran despediu-se calorosamente de Néféret e chamou-a de parte.

 

 Não estás a mentir, pois não?

Não te preocupes.  Permite-me que te ofereça uma bebida.

 

 Néféret não recusou uns momentos de descanso, antes de começar um longo dia em que teria de visitar mais de uma dúzia de doentes, ricos e pobres. Brevemente seria dia; era inútil tentar adormecer.

 

 Desde que entrei no Tesouro revelou Bel-Tran fiquei com insónias. Enquanto a Silkis dorme, fico a trabalhar nos processos para o dia seguinte. Por vezes, forma-se-me uma bola no estômago e tenho espasmos terríveis.

 

 Estás a dar cabo do teu sistema nervoso.

 

 O Tesouro não me dá descanso. Agradeço as tuas advertências, mas... não se passa o mesmo contigo? Passas a vida a correr de um lado para o outro da cidade e não resistes a nenhuma súplica. O teu lugar não é aqui. O palácio tem falta de médicos da tua qualidade. Foi precisamente por se rodear de medíocres que Nébamon ficou sozinho. Se ele te excluiu da equipa principal de médicos é porque és competente.

 

É o médico-chefe quem decide as nomeações; nem tu nem eu podemos fazer seja o que for.

 

 Curaste o vizir e várias outras personalidades. Vou reunir os seus testemunhos e apresentá-los à comissão disciplinar. Até os mais estúpidos vão ser obrigados a reconhecer os teus méritos.

 

 Não tenho muita vontade de lutar por mim mesma.

 

 Paser, por ser deão do pórtico, não pode intervir a teu favor, sob pena de ser acusado de parcialidade, o que não é o meu caso. Farei por ti tudo o que estiver ao meu alcance.

 

 Tebas estava em alvoroço. A grande cidade do Sul, responsável pelas mais antigas tradições, mostrava-se sempre hostil às inovações económicas que Mênfis, a rival do Norte, aceitava com toda a complacência; esperava com impaciência o nome do novo sumo-sacerdote, que teria às suas ordens mais de oitenta mil subordinados, sessenta e cinco cidades e aldeias, um milhão de homens e mulheres que trabalham quase diretamente para o templo, quatrocentas mil cabeças de gado, quatrocentos e cinquenta vinhedos e pomares e noventa navios. Competia ao faraó fornecer os objetos de culto, os alimentos, o azeite, os incensos, os unguentos e o vestuário, e distribuir as terras, cuja posse seria corroborada por grandes esteias enterradas na terra, em cada canto, nos limites dos campos; e, ao sumo-sacerdote, cobrar os impostos sobre as mercadorias e sobre os pescadores. O pontífice de Ámon geria um Estado dentro de um Estado. O rei devia também nomear um homem fiel e obediente, mas que não fosse uma personagem apagada,- desprovida de autoridade. Branir era um homem dessa têmpera. O seu brutal desaparecimento tinha perturbado Ramsés, o Grande. Na véspera daentronização, a sua escolha ainda não era conhecida.

 

 Paser e Suti tinham-se, por sua vez, afastado, por curiosidade e necessidade. Uma vez consultado, o sumo-sacerdote de Ptah, em Mênfis, não tinha podido fornecer qualquer informação sobre o roubo do ferro celeste. Sem dúvida alguma, o metal precioso era oriundo de um templo do Sul, e só o sumo-sacerdote de Carnaque orientaria os investigadores numa pista credível. Mas quem teria Paser diante de si?

 

Na qualidade de deão do pórtico, Paser foi admitido no cais, na companhia de Suti, que apresentou como seu assistente. Uma grande quantidade de barcos ocupava a bacia cavada entre o Nilo e o templo; renques de árvores preservavam a frescura.

 

 Os dois amigos, conduzidos por um sacerdote, passaram entre as esfinges de cabeça humana, cujo olhar afastava os profanos. Diante de cada um dos guardas, um rego transportava água para uma cavidade de cinquenta centímetros onde cresciam flores. Deste modo, a estrada sagrada que ligava o mundo exterior ao templo estava ornamentada com as mais vivas e variadas cores.

 

 Paser e Suti tiveram acesso ao primeiro grande átrio, onde alguns celebrantes, de cabeças rapadas e envergando túnicas de linho, guarneciam o altar de flores. Quaisquer que fossem os acontecimentos, o culto devia ser assegurado. Os fiéis, os pais divinos, os servos de Deus, os mestres dos segredos, os encarregados dos rituais, os astrólogos e os músicos abandonavam as suas ocupações, determinadas pela Regra, em vigor desde o tempo das pirâmides. Só um número muito restrito de pessoas vivia permanentemente no interior do santuário; os outros celebravam lá os rituais, durante períodos mais ou menos longos que podiam ir de uma semana a três meses. Duas vezes por dia e duas vezes por noite, faziam purificações, pois achavam que a ascese interior se reforçava com o asseio do corpo.

 

 Os dois amigos sentaram-se num banco de pedra. A tranquilidade do lugar, a sua excelência e a paz profunda inscrita nas pedras da eternidade, fizeram-nos esquecer inquietações e problemas. Ali, a vida, preservada da erosão da durabilidade, tinha um outro sabor. Até Suti, que não acreditava em deuses, encheu a alma de plenitude.

 

 O novo sumo-sacerdote de Carnaque tinha recebido do rei as insígnias do seu cargo. Um bácuio em ouro e dois anéis. Apesar de ser chefe do mais rico e grandioso dos templos do Egito, velaria por ele de forma a preservar os seus tesouros. Todas as manhãs, abriria os batentes das portas do santuário secreto, a zona de luz onde Ámon se regenerava no mistério do Oriente. Tinha prestado juramento de respeitar o  ritual, renovar as oferendas, cuidar da morada divina onde a criação dos primeiros instantes se mantinha em equilíbrio. No dia seguinte, pensaria no seu numeroso pessoal auxiliar, que compreendia o diretor de toda a sua casa, o mordomo, o camareiro, escribas, secretários e chefes de gabinete. Na manhã seguinte, teria saudades da anterior existência tranquila, a que a vontade do faraó o arrancara. Nesse momento de tanta intensidade, pensava no princípio mais importante da Regra: Não eleves a voz no templo, pois Deus detesta gritos. Que o teu coração saiba amar. Não interpeles Deus por tudo e por nada, pois ele preza o silêncio. O que sabe guardar silêncio assemelha-se à árvore que cresce no pomar: os seus frutos são doces, a sua sombra aprazível, cresce verdejante e acaba os seus dias no pomar onde nasceu.

 

 O sumo-sacerdote recolheu-se longamente diante do Santíssimo, único ponto do sacrário onde havia uma imagem de Deus. Nunca esperara viver tal emoção, aniquilando todas as suas aspirações passadas e esperanças irrisórias. A veste de primeiro servo de Ámon despojava-o da sua humanidade e fazia dele um desconhecido, mesmo aos seus próprios olhos. Isso já pouco importava, uma vez que não mais podia questionar-se acerca dos seus gostos ou das suas dúvidas.

 

 O sumo-sacerdote recuou, apagando as suas pegadas. A partir do momento em que se afastasse do Santíssimo, voltaria a enfrentar o universo do templo.

 

 Alguns aplausos saudaram o aparecimento do novo sumo-sacerdote no limiar da imensa sala com colunas, construída por Ramsés. Cabia-lhe a ele, de agora em diante, abrir caminho com o seu bácul

o de ouro e governar um exército pacífico, consagrado à glória de Ámon.

 

 Paser teve um sobressalto.

 

 É incrível.

 

 Conheces? perguntou Suti.

 

 É Kani, o jardineiro.

 

 

Quando recebia no átrio as homenagens dos altos dignitários, Kani deteve-se longamente em frente de Paser. O juiz inclinou-se respeitosamente e, na troca de olhares que se seguiu, era visível que os dois homens partilhavam da mesma profunda alegria.

 

 Gostaria de te consultar o mais cedo possível.

 

 Receber-te-ei esta tarde prometeu Kani.

 

 O palácio do sumo-sacerdote, próximo da entrada do templo, era uma maravilha de arquitetura e decoração. A beleza das pinturas, glorificando a presença das divindades na natureza, era um deleite para os olhos. Kani recebeu Paser no seu gabinete particular, já repleto de papiros.

 

 Os dois homens abraçaram-se calorosamente.

 

 Estou feliz pelo Egito afirmou o juiz.

 

 Assim tu possas dizê-lo! Branir era o escolhido para o lugar que agora ocupo. Sábio entre os sábios, quem se lhe poderá comparar? Cada dia que passar honrarei a sua memória e deporei oferendas aos pés da sua estátua, erigida no templo.

 

 Ramsés não se enganou.

 

 Na verdade, amo este lugar como se sempre aqui tivesse vivido. Se aqui estou, a ti o devo.

 

 A minha ajuda foi insignificante.

 

Mas decisiva. No entanto, sinto-te preocupado.

 

O inquérito em que estou empenhado revela-se dos mais difíceis.

 

Em que posso ajudar-te?

 

Gostaria de proceder a algumas investigações no templo de Coptos, na esperança de descobrir a origem do ferro celeste entregue ao químico Chéchi, cúmplice do general Asher. Para incriminar o primeiro e provar a culpabilidade do segundo, preciso de retroceder até às origens, o que será impossível sem a tua autorização.

 

Será possível que sacerdotes sejam cúmplices de criminosos?

 

Tudo é possível.

 

Não fugiremos às dificuldades. Dá-me uma semana.

 

Paser, com o corpo inteiramente rapado, alojou-se numa pequena casa perto do lago sagrado de Carnaque e participou nos ritos como ”sacerdote puro”. Todos os dias escrevia a Néféret, elogiando o esplendor e a paz que se respirava no templo. Suti, que não consentira em sacrificar os seus longos cabelos, refugiou-se em casa de uma amiga que ele encontrara enquanto assistia a uma regata. A beldade ainda não se tinha casado e sonhava com Mênfis. Naturalmente, Suti dedicou-se de alma e coração a distraí-la.

 

Na data prevista, o sumo-sacerdote recebeu os dois amigos na sala de audiências. Kani já tinha mudado; se as feições do antigo jardineiro, especialista em plantas medicinais, continuavam curtidas pelo sol e sulcadas de rugas profundas, a sua expressão tornara-se majestosa. Ao escolhê-lo, Ramsés vislumbrara o pontífice por debaixo do homem humilde. Não precisara sequer de se adaptar; ao fim de tão poucos dias, Kani já estava plenamente identificado com as suas novas funções.

 

Paser apresentou-lhe Suti, bem pouco à vontade num lugar tão austero.

 

É de fato em Coptos que as investigações devem continuar disse o sumo-sacerdote.  Os especialistas em metais preciosos e raros dependem do superior do templo, ele próprio antigo mineiro e depois polícia do deserto. Se alguém te pode elucidar sobre a origem desse ferro celeste, é sem dúvida ele. Coptos é o ponto de partida de todas as grandes expedições às minas e às pedreiras.

 

Estará ele implicado?

 

De acordo com os relatórios que recebi, não está. Ele vigia, mas também é vigiado, e encarrega-se da entrega de materiais preciosos em todos os templos do Egito. Desempenha o cargo há vinte anos, sem qualquer irregularidade. Tem acima de tudo a responsabilidade da rota do ouro. Não obstante, lavrei uma ordem por escrito que te dará acesso aos arquivos do templo. A meu ver, a fraude ocorreu noutro lugar; não será arriscado investigar junto dos mineiros e dos prospetores?

 

Um vento muito forte agitava os cabelos negros de Suti; de pé na proa do barco que singrava em direção a Mênfis, a sua cólera não abrandava e mostrava-se indignado com a calma de Paser.

 

Coptos, o deserto, os tesouros das areias... Mas que loucura!

 

Com o documento que Kani me entregou, posso revistar o templo de Coptos de alto a baixo.

 

Isso é absurdo! Ladrões deste quilate não são estúpidos ao ponto de deixarem pistas das suas proezas.

 

A tua opinião parece-me sensata. No entanto...

 

No entanto, é preciso armarmo-nos em heróis e partir à aventura, na companhia de indivíduos sem fé nem lei que não hesitam em matar um homem por uma pepita! Antigamente, a experiência parecer-me-ia tentadora, mas hoje sou um homem casado, e...

 

Tu... armado em burguês!?

 

Já agora gostava de usufruir um pouco da fortuna da Tapeni em troca dos meus bons serviços e lealdade. Além disso, não me mandaste tentar extorquir-lhe mais informações?

 

Viver à custa de uma mulher... Isso nem parece teu.

 

Manda o teu núbio!

 

Depressa o reconheceriam. Quem vai seguir essa pista sou eu.

 

Deliras, com certeza! Nem dois dias ias conseguir aguentar.

 

Sobrevivi ao degredo.

 

Os pesquisadores de pedras preciosas estão habituados a morrer de sede, a suportar o sol mais abrasador e a lutar contra escorpiões, serpentes e feras! Esquece essa loucura!

 

 A verdade é o meu ofício, Suti.

 

 Néféret foi chamada de urgência aos aposentos de Nébamon. Apesar de ter permanentemente três médicos à cabeceira, o doente acabara de entrar em coma, depois de ter chamado pela jovem médica.

 

 Vento do Norte aceitou conduzi-la; a bom ritmo, o burro tomou a direção da casa do médico-chefe.

 

 Com a chegada de Néféret, Nébamon recobrou a consciência. Doía-lhe o estômago e queixava-se de dores no braço e no peito. ”Uma crise cardíaca”, diagnosticou Néféret. Pousou-lhe a mão sobre o peito e magnetizou-o até a dor passar. Depois, mandou cozer raiz de briónia em óleo e acabou de preparar a poção com folhas de acácia, figos e mel.

 

 Tens de beber isto quatro vezes por dia recomendou.

 

 Quanto tempo me resta de vida?

 

 O teu estado é grave.

 

 Não sabes mentir, Néféret. Quanto tempo?

 

 Só Deus é senhor do nosso destino,

 

 Não me venhas com frases bombásticas! Tenho medo de morrer e quero saber quantos dias me restam, para mandar buscar as rameiras e beber o meu vinho!

 

 A escolha é tua.

 

 Nébamon, pálido como cera, agarrou-lhe o braço.

 

 É tudo mentira, Néféret! É a ti que eu quero. Beija-me, suplico-to. Uma vez, apenas uma vez...

 

 Ela soltou-se sem brusquidão.

 

 O rosto de Nébamon cobriu-se de suor.

 

 O julgamento do além será severo. A minha vida foi medíocre, mas tive a felicidade de dirigir a mais ilustre das equipas médicas. Faltou-me apenas uma mulher, uma mulher de verdade, que fizesse de mim um homem menos perverso. Antes de ir ao encontro de Osíris, ajudarei Paser, aquele que me derrotou. Diz-lhe que Qadash comprou o  meu testemunho com amuletos, peças excepcionais que estão à guarda do seu antigo intendente. Para pagar semelhante preço, a cabala deve ser monumental. Monumental...

 

 Esta foi a última palavra proferida pelo médico-chefe Nébamon, que expirou bebendo Néféret com os olhos.

 

 Paser lembrou-se do intendente corrupto do dentista Qadash; de fato, ele já estivera implicado no tráfico desses objetos que o próprio patrão cobiçava. Afinal, não era uso trocar um belo amuleto em lápis-lazúli por um cabaz de peixe fresco? Vivos e mortos ansiavam por esta proteção mágica contra as forças das trevas. Em forma de olho, de perna, mão, escada subindo para o céu, utensílios vários, flor de lótus ou de papiro, ou representando divindades, os amuletos eram receptáculos de energias positivas. Muitos egípcios, sem distinção de idades ou classes sociais, os traziam ao pescoço, em contato direto com a pele.

 

 Qadash ganhava importância. Paser pôs também a sua administração no encalço do seu ex-intendente. As investigações foram rápidas e férteis; o homem tinha arranjado um emprego semelhante numa grande propriedade do Médio Egito, uma propriedade que pertencia a um amigo íntimo de Qadash, o transportador Denes.

 

 Durante a audiência hebdomadária que o vizir concedia aos seus colaboradores mais próximos, as questões debatidas eram numerosas. Bagey gostava de intervenções concisas e detestava os que esbanjavam as palavras; as suas conclusões eram sempre breves e sem apelo. Um escriba registava-as e um outro transformava-as em decisões administrativas que o vizir autenticava com o seu sinete.

 

 Tens propostas a apresentar, juiz Paser?

 

 Apenas uma: a substituição do chefe da polícia. Mentmosé é indigno do cargo que ocupa. As faltas que cometeu são demasiado graves para lhe serem perdoadas.

O secretário do vizir insurgiu-se.

 

 Mentmosé prestou grandes serviços ao país. Soube manter a ordem com uma presença de espírito exemplar.

 

 O vizir conhece os meus argumentos explicou Paser. Mentmosé mentiu, forjou processos e zombou da justiça. E só o antigo deão do pórtico foi castigado; por que razão deveria o seu cúmplice ficar impune?

 

 O chefe da polícia não se ia comportar como um cordeirinho inocente!

 

 Chega atalhou o vizir. Os fatos são conhecidos e estão provados. Este caso não contém quaisquer ambiguidades. Começa a ler, escriba.

 

 As acusações eram esmagadoras. Paser, sem precisar de recorrer à mentira ou ao exagero, tinha posto em relevo as torpezas de Mentmosé.

 

 Quem deseja manter Mentmosé no seu posto? perguntou o vizir, depois de ouvida a queixa.

 

 Nem uma voz se elevou a favor do polícia.

 

 Mentmosé está demitido decidiu o vizir. Se desejar apelar, terá de comparecer perante mim. E se, de novo, for considerado culpado, a pena será o degredo. Passemos imediatamente à nomeação do seu sucessor. Quem propões?

 

 Kem declarou Paser, pausadamente.

 

 Mas isso é escandaloso! protestou um dos escribas. Também outras vozes discordantes se manifestaram.

 

 Kem possui uma larga experiência insistiu Paser. Sofreu na carne o que ele considera uma injustiça, mas apesar disso manteve-se sempre ao lado da ordem. É certo que não nutre qualquer espécie de amor pela humanidade, mas desempenha as suas funções como um sacerdócio.

 

 Um núbio de baixa estirpe, um...

 

 Um homem prático, sem ilusões. Ninguém conseguirá corrompê-lo.

 

 O vizir deu os debates por terminados.

 

 Kem é nomeado chefe da polícia de Mênfis. Se alguém se opõe, que apresente os seus argumentos perante o meu tribunal. Se eu os considerar inaceitáveis, será condenado por injúrias. Está encerrada a audiência.

 

Na presença do deão do pórtico, Mentmosé entregou a Kem o bastão de marfim encimado por uma mão, que simboliza o poder do chefe da polícia, e um amuleto em forma de quarto crescente, onde estavam gravados um olho e um leão, as insígnias da vigilância. Apesar da sua nomeação, o núbio recusara trocar o arco, as flechas, a espada e o escudo pela vestimenta dos notáveis.

 

Kem não fez quaisquer agradecimentos a Mentmosé, que estava à beira de uma apoplexia, e nenhum discurso foi proferido. O núbio, desconfiado, experimentou imediatamente o sinete, não fosse o antigo chefe da polícia tê-lo falsificado.

 

Estás satisfeito?  perguntou Mentmosé com a sua voz roufenha.

 

Sou testemunha da observância do decreto promulgado pelo vizir  respondeu Paser, serenamente.  Na minha qualidade de deão do pórtico, limito-me a registar a transferência de poderes.

 

Foste tu quem persuadiu Bagey a demitir-me!

 

O vizir agiu em conformidade com o seu dever. Foram as tuas faltas que te condenaram.

 

Eu devia ter-te...

 

Mentmosé não se atreveu a dizer a palavra que lhe queimava os lábios. O olhar do Núbio impediu-o de o fazer.

 

Uma ameaça de morte é um delito grave  declarou Kem,

 

com voz severa.

 

Eu não proferi qualquer ameaça.

 

Não tentes  nada contra o juiz Paser. Senão, ver-me-ei obrigado a intervir. O teu pessoal espera-te disse o juiz. Será melhor saíres de Mênfis o mais depressa possível.

 

Nomeado superintendente das pescarias no Delta, Mentmosé passaria a viver numa pequena cidade costeira onde não se fomentavam outras conspirações além do cálculo do preço dos peixes, em função do seu tamanho e do seu peso.

 

Mentmosé bem tentou encontrar uma réplica contundente, mas a expressão hierática do núbio cortou-lhe a inspiração.

 

Kem tinha guardado a sua mão da justiça e o amuleto oficial no fundo de um cofre de madeira, por debaixo da sua coleção de punhais asiáticos. Delegara as tarefas administrativas nos escribas, hábeis nesses exercícios rotineiros, e fechara a porta do gabinete de Mentmosé, decidido a só lá entrar muito raramente. A rua, os campos e a natureza eram os seus domínios prediletos e assim continuaria a ser; não era a ler papiros que se prendiam os culpados. Também lhe agradava muito viajar na companhia de Paser.

 

 Desembarcaram em Hermópolis, a cidade sagrada do deus Tot, mestre da língua sagrada; escarranchados em burros especializados no transporte de altas individualidades, atravessaram campos esplêndidos e plenos de serenidade. Estava-se na época das sementeiras; depois das cheias, a terra fertilizada pelos Iodos oferecia-se às charruas e às enxadas que desfaziam os torrões. Os semeadores, com grinaldas de flores à volta do pescoço e na cabeça, lançavam os grãos à terra, esvaziando com gestos largos os seus saquitéis de fibras de papiro. Depois, as vacas, as ovelhas e os porcos, ao pisarem-nas, enterravam fundo as sementes. Por vezes, o lavrador desalojava um peixe aprisionado num charco. Os carneiros guiavam os seus rebanhos através dos melhores terrenos; se necessário, os pastores manejavam uma correia fina, cujo barulho chamava os mais indisciplinados ao bom caminho. Uma vez cobertas de terra, por um processo alquímico análogo à morte e ressurreição de Osiris, as sementes fariam do Egito uma terra fértil e rica.

 

 A propriedade de Denes era imensa. Tinha três aldeias sob as suas ordens. Na maior, Paser e Kem beberam leite de cabra e provaram um iogurte salgado conservado em boiôes, barrando com ele fatias de pão de ervas aromáticas. Os camponeses usavam o alúmen, proveniente do oásis de Khargeh, para fazer coalhar o leite sem se azedar, e assim prepararem queijos de grande nomeada.  Com  a fome saciada, os dois homens caminharam até à enorme quinta  de Denes, composta por vários edifícios: silos, celeiros, lagares, estábulos, cavalariças, capoeiras, padaria e oficinas. Depois de lavarem os pés e as mãos, o juiz e o polícia exigiram a presença do intendente da propriedade. Um palafreneiro foi procurá-lo à cavalariça.

 

 Mal a importante personagem avistou Paser, fugiu a sete pés. Kem nem se mexeu. O babuíno deu um salto e atirou ao chão o fugitivo. Quando as presas afiadas se enterraram nas suas costas, o intendente deixou de lutar. Kem entendeu que um tal comportamento aconselhava um interrogatório cerrado.

 

 Folgo em ver-te disse Paser. A nossa presença, porém, parece perturbar-te.

 

Tirem daqui esse macaco!

 

 Quem te contratou?

 

 O transportador Denes.

 

 Por recomendação de Qadash?

 

 O intendente hesitou. As mandíbulas do macaco cerraram-se.

 

 Sim, sim!

 

 Nesse caso, ele não te guardou rancor por o teres roubado. Ou talvez a explicação seja mais simples: Denes, Qadash e tu próprio são cúmplices. Se tentaste fugir, é porque certamente tens peças escondidas nesta propriedade. Ora eu redigi um mandato de busca, para execução imediata. Aceitas ajudar-nos?

 

 Estás enganado.

 

 Kem teria, de boa vontade, pedido a ajuda do macaco, mas Paser preferiu uma solução menos drástica e mais metódica. O intendente foi levado, amarrado e colocado sob a vigilância de vários camponeses que odiavam a sua tirania. Foram esses mesmos camponeses que informaram o juiz de que o acusado impedia o acesso a um armazém que fechava a sete chaves com vários ferrolhos de madeira. Kem quebrou-os com a ajuda do punhal.

 

 No interior, havia inúmeros cofres, cujas tampas, ora rasas, ora abauladas, ora em bico, estavam amarradas com cordas passadas à volta de dois grampos, um de cada lado e outro sobre a tampa. Os diversos móveis, de vários tamanhos, eram muito valiosos. Kem cortou as cordas. Os vários cofres de madeira de sicômoro continham peças de linho de primeira qualidade, vestidos e tecidos.

 

 Será este o tesouro da senhora Nénofar?

 

 Vamos pedir-lhe os documentos de saída das oficinas.

 

Os dois homens viraram-se para os cofres de madeira macia, folheados a ébano e ornados de embutidos. Continham centenas de amuletos em lápis-lazúli.

 

 Uma verdadeira fortuna! exclamou o núbio.

 

 O trabalho é tão perfeito que vai ser fácil descobrir a origem das peças.

 

 Eu trato disso.

 

 Denes e os seus cúmplices vendem-nos ao preço do ouro na Líbia, na Síria e no Líbano, e noutros países ávidos da magia egípcia. Talvez até os vendam aos beduínos, com a garantia de os tornarem invulneráveis.

 

 Atentado contra a segurança do Estado?

 

 Denes negará e acusará o intendente.

 

 Mesmo sendo deão do pórtico, duvidas da justiça.

 

 Não sejas tão pessimista, Kem; então a nossa visita não é oficial?

 

 Escondido debaixo de três cofres de tampa rasa, descobriram um objeto insólito que os deixou estupefatos.

 

 Um cofre maciço de madeira de acácia, todo dourado, com trinta centímetros de altura por vinte de largura e quinze de profundidade. Sobre a tampa em ébano, dois grampos de marfim, talhados com perfeição.

 

 Esta obra-prima é digna de um faraó murmurou Kem.

 

 Dir-se-ia tratar-se de uma peça funerária.

 

 Nesse caso, não temos o direito de lhe tocar.

 

 Tenho de investigar o seu conteúdo.

 

 E não irás cometer um sacrilégio?

 

 Não contém qualquer inscrição.

 

 Kem deixou o juiz tirar ele mesmo o fio que ligava os grampos de marfim aos que estavam embutidos nos lados. Paser levantou a tampa muito devagar.

 

 O brilho do ouro ofuscou-o.

 

 Tratava-se de um enorme escaravelho em ouro maciço! E, de cada lado, um cinzel de escultor, em miniatura, feito com ferro celeste, e um olho em lápis-lazúli.

 

 O olho do ressuscitado, o cinzel utilizado para lhe abrir a boca no outro mundo, e o escaravelho, colocado no lugar do coração, para que as suas metamorfoses sejam eternas.

 

 Sobre o ventre do escaravelho, via-se uma inscrição em hieróglifos que fora martelada tão profundamente que se tornava impossível decifrá-la.

 

 É um rei profanado afirmou Kem. Um rei cujo túmulo foi pilhado.

 

 Na época de Ramsés, o Grande, uma tal façanha parecia impossível. Vários séculos atrás, os beduínos tinham invadido o Delta e pilhado as necrópoles. Mas depois da libertação, os faraós eram enterrados no Vale dos Reis, que era guardado noite e dia.

 

 Só um estrangeiro pode ter engendrado um plano tão monstruoso continuou o núbio, com voz trémula.

 

 Perturbado, Paser voltou a fechar o cofre.

 

 Vamos levar este tesouro a Kani. Em Carnaque, estará em segurança.

 

 

O sumo-sacerdote de Carnaque ordenou aos artesãos que examinassem o pequeno cofre e o seu conteúdo. Assim que recebeu o resultado da vistoria, convocou Paser. Os dois homens passeavam para trás e para a frente debaixo de um pórtico, para se protegerem do sol.

 

 É impossível identificar o proprietário destas maravilhas.

 

 Será um rei?

 

 O tamanho do escaravelho é intrigante, mas há poucos indícios.

 

 Kem, o novo chefe da polícia, pensa tratar-se de uma violação de sepulcro.

 

 Impossível. Teria sido notada e ninguém teria conseguido abafar o escândalo. Como é que tal crime, o mais grave de todos, poderia passar despercebido? Há mais de cinco séculos que tal crime não ocorre! Ramsés tê-lo-ia denunciado e o nome dos culpados teria sido denegrido publicamente.

 

 Kani tinha razão. O desvario do núbio não se justificava.

 

 É possível previu Kani que estas peças admiráveis tenham sido roubadas das oficinas, fosse para Denes as negociar, fosse para as colocar no seu próprio túmulo.

 

 Sabendo como Denes era presunçoso, Paser inclinãva-se mais para a segunda hipótese.

 

 Já investigaste em Coptos?

 

 Ainda não tive tempo respondeu o juiz. Além disso, tenho dúvidas quanto ao método a utilizar.

 

Sê prudente.

 

 Descobriram mais alguma coisa?

 

 Os ourives de Carnaque são claros: o ouro do escaravelho é oriundo da mina de Coptos.

 

 Coptos, situada a pouca distância de Tebas, para norte, era uma cidade estranha. Nas ruas cruzavam-se mineiros, pedreiros e exploradores do deserto, uns a partir, outros a chegar de uma temporada passada no inferno dos ermos abrasadores e rochosos. Todos se comprometiam a descobrirem o maior filão na próxima tentativa. Viam-se caravaneiros vendendo as suas mercadorias, provenientes da Núbia, caçadores trazendo o produto da caçada ao templo e aos nobres, nómadas tentando integrar-se na sociedade egípcia.

 

 Todos aguardavam o próximo decreto real, que determinava os voluntários que iriam seguir uma das numerosas estradas que conduziam às pedreiras de jaspe, de granito ou de pórfiro, para os lados do porto de Kossier, no Mar Vermelho, ou ainda em direção aos jazigos de turquesas do monte Sinai. Sonhava-se com o ouro, com as minas secretas ou por explorar, com o tesouro dos deuses, que o templo reservava aos deuses e aos faraós. Mil vezes se haviam urdido intrigas para os alcançar; e mil vezes haviam fracassado, devido à omnipresença de um corpo de polícia especializado, mais conhecido por ”os de olho perspicaz”; acompanhados de cães temíveis e incansáveis, ferozes e cruéis, que identificavam a mais pequena pista, o mais pequeno curso de água, e se orientavam sem problemas num mundo hostil onde um profano não sobreviveria muito tempo. Caçadores de homens e animais, matavam bodes selvagens e gazelas e apanhavam os fugitivos evadidos das prisões. As suas presas favoritas eram os beduínos que tentavam atacar as caravanas e assaltar os viajantes; numerosos, bem treinados, ”os de olho perspicaz.” não lhes davam a mínima hipótese de levar a bom termo as suas vis empreitadas. Se, por azar, um grupo de beduínos mais astutos alcançava os seus objetivos, a polícia do deserto passava a mensagem: apanhá-los e exterminá-los. Há já alguns anos que nenhum larápio se podia gabar das suas proezas. A vigilância aos mineiros era cerrada; e os próprios ladrões não tinham qualquer oportunidade de roubar qualquer quantidade de metal precioso que valesse a pena.

 

 Enquanto se dirigia para o magnífico templo de Coptos, onde estavam guardados os mapas mais antigos, que revelavam a localização dos tesouros minerais do Egito, Paser cruzou-se com um grupo de polícias que empurrava à sua frente alguns prisioneiros maltratados pelos cães.

 

 O deão do pórtico estava impaciente e pouco à vontade. Impaciente, porque queria fazer progressos e saber se Coptos lhe traria revelações inesperadas; pouco à vontade, porque receava que o Superior do Templo estivesse de conluio com os conjurados. Antes de tomar qualquer iniciativa, tinha de dissipar essa dúvida ou confirmá-la.

 

 A recomendação vigorosa do sumo-sacerdote de Carnaque foi das mais eficazes; assim que o documento foi lido, as portas abriram-se umas atrás das outras e o Superior recebeu-o imediatamente.

 

 Era um homem já de certa idade, corpulento e seguro de si; a dignidade de sacerdote não lhe tinha apagado as marcas de um passado de homem ativo.

 

 Que honra, e quanta preocupação! ironizou ele, com uma voz grave que fazia estremecer os seus subordinados. Um deão do pórtico autorizado a remexer no meu modesto templo, eis um sinal de estima, com a qual eu não contava. O teu corpo de polícias está pronto para invadir o templo?

 

 Vim sozinho.

 

 O Superior de Coptos franziu as sobrancelhas hirsutas.

 

 Não entendo muito bem a tua atitude.

 

 Gostaria que me ajudasses.

 

 Tanto aqui como lá fora, falou-se muito do processo que instauraste contra o general Asher.

 

 Em que termos?

 

 O general tem mais apoiantes do que adversários.

 

 De que lado te encontras?

 

 O homem é um corsário!

 

 Paser disfarçou o alívio que sentiu. Se o Superior não estivesse a mentir, nem tudo estava perdido.

 

 De que o acusas?

 

Sou um antigo mineiro e pertenci à polícia do deserto. Há cerca de um ano que Asher tenta controlar ”os de olho perspicaz”. Mas, enquanto eu for vivo, jamais o conseguirá!

 

 A cólera do Superior não era mera encenação.

 

 Só tu me poderás informar sobre o estranho percurso de uma grande quantidade de ferro celeste encontrada em Mênfis, no laboratório de um químico chamado Chéchi. É evidente que ele diz que ignorava a presença do metal precioso e afirma ter sido vítima de uma cilada. Contudo, tenta fabricar armas inquebráveis, sem dúvida a mando do general Asher. Chéchi necessita por isso deste ferro excepcional.

 

 Quem te contou isso quis certamente rir-se à tua custa.

 

 Porquê?

 

 Porque o ferro celeste não é inquebrável! Provém dos meteoritos.

 

 Não é inquebrável...?

 

 Essa história espalhou-se, mas não passa de uma mentira.

 

 Conhece-se o local onde caem os meteoritos?

 

 Podem cair em qualquer sítio, mas eu possuo um mapa. Apenas uma expedição oficial, sob o controlo da polícia do deserto, está habilitada a retirar o ferro celeste e a transportá-lo para Coptos.

 

 Mas um bloco inteiro foi desviado.

 

 Não me espanta. Um grupo de ladrões deve ter encontrado um meteorito cujo local não tinha sido registrado.

 

 E Asher servir-se-ia dele?

 

 Para quê? Ele sabe que o ferro celeste está reservado à prática de rituais. Ao mandar fazer armas deste metal, expor-se-ia a graves problemas. Em contrapartida, vendê-lo ao estrangeiro, sobretudo aos hititas, onde é fortemente valorizado, proporcionar-lhe-ia novos lucros.

 

 Vender, especular, negociar... Essa não era a especialidade de Asher, mas sim a do transportador Denes, sempre tão ávido de bens materiais! E, pelo caminho, Chéchi receberia a sua comissão. O químico era apenas um receptador, a serviço de Denes. Contudo, o general Asher desejava associar-se à polícia do deserto.

 

 Foi cometido algum roubo nas vossas reservas de metais preciosos?

 

 Sou vigiado por um exército de polícias, de sacerdotes e de escribas, e eu vigio-os também, observamo-nos mutuamente. Tinhas suspeitado de mim?

 

 Tinha, confesso

 

 Aprecio a tua franqueza Passa cá alguns dias e compreenderás por que razão qualquer ato de pilhagem é impossível.

 

 Paser decidiu depositar a sua confiança no Superior.

 

 Entre os bens acumulados por um traficante de amuletos, descobri um grande escaravelho em ouro maciço Ouro das minas de Coptos.

 

 O antigo mineiro pareceu perturbado.

 

 Quem faz tal afirmação?

 

 Os ourives de Carnaque.

 

 Então deve ser verdade.

 

 Suponho que essa peça esteja registrada nos teus arquivos.

 

 Qual o nome do proprietário?

 

 A inscrição foi martelada

 

 Que pena. Cada parcela de ouro proveniente da mina, desde a época dos mais antigos, tem sido realmente registrada e encontrarás informações sobre ela nos arquivos. O destino está também indicado tal templo, tal faraó, tal ourives Mas, sem o nome, não chegarás a lado nenhum

 

 Há algum trabalho manual na própria mina’

 

 Às vezes Alguns ourives talharam objetos nos locais de extração. Este templo é todo teu; pesquisa-o de alto a baixo

 

 Tal não será necessário

 

 Desejo-te boa sorte. Livra o Egito desse general Asher, ele atrai a desgraça

 

 Paser estava convencido de que o Superior de Coptos estava inocente. Provavelmente, seria melhor deixar de tentar averiguar a origem do ferro celeste, objeto de um novo negócio escuro de Denes, cuja aptidão na matéria parecia inesgotável Mas era evidente que mineiros, ourives ou polícias do deserto pilhavam pedras ou metais preciosos, fosse a mando de Denes, fosse de Asher, ou mesmo dos dois. Aliados, não amealhariam eles uma imensa fortuna para passarem à ofensiva, de que o juiz não conseguiria nunca discernir a verdadeira natureza?

 

 Se Paser conseguisse provar que o general assassino comandava um grupo de ladrões de ouro, Asher não escaparia à mais dura condenação. Mas como consegui-lo sem se introduzir entre os prospetores? Encontrar um homem suficientemente destemido seria difícil, quase impossível. A missão anunciava-se deveras perigosa. Tinha-a proposto a Suti só para o provocar.

 

 A única solução consistia em ir ele próprio, depois de ter convencido Néféret do fundamento da sua decisão.

 

 Os latidos de Bravo alegraram-no. O cão lançou-se em louca correria e parou ofegante aos pés do dono, que o cobriu de festas. Conhecendo bem o caráter ciumento do seu burro, Paser foi em seguida demonstrar-lhe também toda a sua afeição. O olhar feliz de Vento do Norte reconfortou-o.

 

 Quando beijou Néféret, o juiz sentiu-a preocupada e tensa.

 

 É grave disse ela. Suti refugiou-se em nossa casa. Há uma semana que se meteu no quarto e se recusa a sair.

 

 O que fez ele?

 

 Só falará contigo. Já bebeu muito esta noite.

 

 Paser.

 

 Finalmente chegaste! exclamou Suti, excitado.

 

 Kem e eu descobrimos indícios importantíssimos explicou

 

 Se Néféret não me tivesse escondido, teria sido deportado para a Ásia!

 

 De que delito és acusado?

 

 O general Asher acusa-me de deserção, de injúria a um oficial superior, de abandono do meu posto, perda de armas homologadas, cobardia perante o inimigo e denúncia caluniosa.

 

Ganharás o processo.

 

Claro que não.

 

Que receias então?

 

Ao deixar o exército, não preenchi determinados documentos que me libertavam de todas as obrigações. E o prazo legal já passou. Asher acusou-me, e com razão, de negligência. Sou na verdade um desertor, e passível de prisão militar.

 

 Que maçada!

 

 Um ano num campo de trabalhos na Ásia, eis o que me espera. Podes imaginar como os escribas do general me vão tratar! Não conseguirei sair de lá vivo!

 

 Intercederei por ti.

 

 Cometi um erro, Paser! Tu, o deão do pórtico, serias capaz de agir contra a lei?

 

 Corre-nos o mesmo sangue nas veias.

 

 Cairás comigo! A armadilha está bem montada. Resta-me apenas uma saída: aceitar a tua proposta e partir como prospetor, desaparecer no deserto. Fugirei da Tapeni, da Pantera, desse general assassino, e enriquecerei. A rota do ouro! Não será este o mais belo dos sonhos?

 

 Como tu mesmo disseste, não existe nada mais perigoso do que isso.

 

 Não fui feito para levar uma vida sedentária. Vou sentir a falta das mulheres, mas confio na minha sorte.

 

 Não te queremos perder objetou Néféret. Comovido, Suti olhou-a demoradamente.

 

 Voltarei. Voltarei rico, poderoso e estimado! Todos os Ashers do mundo tremerão ao ver-me e rastejarão perante mim, mas eu serei impiedoso e esmagá-los-ei, calcando-os aos pés. Voltarei para vos beijar nas duas faces e saborear o banquete que terão preparado em minha honra.

 

 Na minha opinião atalhou Paser, mais valia festejares agora e abandonares esses teus projetos de bêbado.

 

 Nunca estive tão lúcido na minha vida. Se ficar, serei condenado e arrastar-te-ei na queda; teimoso como és, persistirias em defender-me e em lutar por uma causa desde logo perdida. Assim, todos os nossos esforços teriam sido em vão.

 

É mesmo necessário correr tais riscos? perguntou Néféret.

 

 Sem uma proeza que dê nas vistas, como poderei apagar o mau passo que dei? A partir de agora, o exército está-me vedado; resta-me apenas enveredar pela maldita profissão de pesquisador de ouro! Não, não enlouqueci. Desta vez, farei fortuna. Sinto-o, na cabeça, nos dedos, nas entranhas.

 

 A tua decisão é mesmo irrevogável?

 

 Há uma semana que dou voltas e mais voltas na cama; já tive tempo de sobra para pensar. Nem tu conseguirás convencer-me do contrário.

 

 Nesse caso, tenho uma informação para te dar.

 

 Sobre Asher?

 

 Kem e eu desmantelámos um tráfico de amuletos em que Denes e Qadash estão implicados. É possível que o general esteja implicado nos roubos do ouro. Isso quer dizer que os conjurados estão a acumular riquezas.

 

 Asher, ladrão de ouro! É espantoso! Isso dá pena de morte, não dá?

 

 Se se provar.

 

 És meu irmão, Paser!

 

 E Suti caiu nos braços do juiz.

 

 Essa prova, serei eu quem ta vai trazer. Não só me tornarei rico, como também farei cair esse monstro do pedestal em que se encontra!

 

 Não te entusiasmes, trata-se apenas de uma hipótese.

 

 Não, trata-se da verdade!

 

 Já que insistes, vou tornar a tua missão oficial.

 

 De que maneira?

 

 Com o consentimento de Kem, há quinze dias que foste integrado na polícia do deserto.

 

 Quinze dias... Ou seja, antes das acusações do general!

 

 O Kem detesta burocracia. Ela estará em ordem, que é o que interessa.

 

 Bebamos! exigiu Suti. Néféret inclinou-se, resignada.

 

 Infiltra-te entre os mineiros recomendou Paser e não digas a ninguém que és polícia. Revela-o apenas em caso de perigo, para te salvares.

 

 Suspeitas de alguém em particular?

 

 Asher gostaria de ter a polícia do deserto sob o seu comando. Por isso, deve ter introduzido espiões entre os polícias ou comprado alguns deles. O mesmo se passa com os mineiros. Tentaremos estar em contato permanente, quer pelo correio, quer por qualquer outro meio que não te coloque em perigo. Deveremos estar mutuamente informados dos progressos dos nossos inquéritos. O meu código de identificação será... ”Vento do Norte”.

 

 Se reconheces ser burro, o caminho da sabedoria permanece e ficar-te-á vedado.

 

 Mas tens de me prometer uma coisa.

 

 Está prometida.

 

 Não abuses da tua famosa sorte. Se o perigo apertar, regressa.

 

 Tu conheces-me,

 

 Por isso mesmo.

 

 Atuarei em segredo; tu, sim, tu é que és um alvo exposto.

 

 Estarás tu a tentar demonstrar que eu corro mais riscos do que tu?

 

 Se os juizes se tornarem inteligentes, este país terá o futuro garantido.

 

 

Denes contou e voltou a contar os figos secos. Depois de várias contagens, constatou o roubo. Faltavam oito frutos em relação à contagem feita pelo escriba que se ocupava das árvores de fruto. Furioso, convocou o pessoal e ameaçou-os com os piores castigos se o culpado não se acusasse. Uma cozinheira já de meia-idade, que desejava acima de tudo paz e sossego, empurrou para a frente um garoto com cerca de dez anos, o filho do próprio escriba! Este último foi condenado a 10 chicotadas e o rapaz a 15. O transportador prezava acima de tudo a moralidade; todos os seus bens deveriam ser tratados como tal. Na ausência da senhora Nénofar, ocupada a exercer as suas influências nos serviços do Tesouro, para tentar diminuir o poder de Bel-Tran, Denes estava encarregado de manter a ordem em casa.

 

 A fúria tinha-lhe feito fome. Mandou servir carne de porco assada, leite e queijo fresco. Porém, a visita inesperada de Paser fê-lo perder o apetite. Simulando alegria, convidou-o, no entanto, a partilhar com ele a refeição. O deão do pórtico sentou-se no muro de pedras secas que cercava a pérgula, e observou o transportador com olhar grave.

 

 Porque contrataste o antigo intendente de Qadash, sabendo que tinha sido acusado de desonestidade?

 

 O meu gabinete de emprego cometeu um erro. Qadash e eu estávamos convencidos de que esse desgraçado tinha deixado a província.

 

 Deixar, deixou, mas para se tornar no responsável da tua maior exploração agrícola, perto de Hermópolis.

 

Deve ter usado um nome falso. Podes ter a certeza de que amanhã mesmo será despedido.

 

 Isso não será necessário. O homem está preso.

 

 O transportador alisou o fino fio de barba que lhe debruava a cara e de que se destacavam alguns pêlos mal aparados.

 

 Preso? Que delito cometeu?

 

 Não sabias que ele era receptador?

 

 Receptador; mas que palavra tão feia! Denes parecia indignado.

 

 Tráfico de amuletos, que guardava em cofres precisou Paser.

 

 Na minha exploração? Inacreditável, é uma loucura! Peço-te a maior discrição possível, meu caro deão; a minha reputação não deve ser abalada pelos crimes desse miserável.

 

 És uma das suas vítimas.

 

 Serviu-se de mim da forma mais vil, pois sabia que eu nunca lá ia. Os meus negócios prendem-me em Mênfis e não aprecio nada a província. Ouso esperar que lhe seja aplicado um castigo bastante severo.

 

 Não tens em teu poder nenhuma informação sobre a atuação do teu intendente?

 

 Nenhuma.

 

 Sabias que estava escondido um tesouro nessa mesma quinta? O transportador pareceu atordoado.

 

 Um tesouro, nos nossos dias! De que tipo?

 

 É segredo. Não saberás por acaso onde se encontra o teu amigo Qadash?

 

 Aqui mesmo. Por causa do seu estado de fadiga, ofereci-lhe a minha hospitalidade.

 

 Se a saúde dele o permitir, será possível vê-lo?

 

 Denes, muito enervado, mandou chamar o dentista. Gesticulando, completamente descontrolado, Qadash lançou-se numa série de explicações desordenadas em que se defendia de ter contratado o intendente, e apenas afirmava tê-lo expulsado das suas terras.

 

 Quanto às perguntas de Paser, limitava-se a responder com frases pomposas e desarticuladas. Ou o dentista de cabelos brancos estava a ficar louco, ou a representar.

 

 O juiz interrompeu-o.

 

 Parece-me que nem um nem outro sabiam de nada. O tráfico de amuletos realizava-se, pois, sem o vosso conhecimento.

 

 Denes felicitou o juiz pelas suas conclusões. Qadash desapareceu sem se despedir.

 

 Tens de o desculpar; sabes, é da idade, um esgotamento passageiro...

 

 O inquérito vai prosseguir acrescentou Paser. O intendente não passa de um peão de xadrez; descobrirei quem planeou o jogo e quem ditou as regras. Está descansado que te manterei informado.

 

 Deves-me isso.

 

 Gostaria de me encontrar com a tua mulher.

 

 Não sei a que horas regressará.

 

 Voltarei ao fim da tarde.

 

 É mesmo necessário?

 

 Indispensável.

 

 A senhora Nénofar dedicava-se ao seu prazer favorito, a confeção de vestidos. O juiz foi conduzido à sua oficina particular. Com a cara pintada a preceito, estava a cozer a manga de um vestido comprido e manifestou a sua irritação.

 

 Estou cansada. Ser importunada na minha própria casa é muito desagradável.

 

 Sinto muito. O teu trabalho é esplêndido.

 

 Os meus dons para a costura impressionam-te?

 

 Fascinam-me.

 

 Nénofar pareceu desconcertada.

 

 Que significa...

 

 De onde vêm estas peças de tecido que utilizas?

 

 Isso só a mim diz respeito.

 

 Enganas-te.

 

 A mulher do transportador pousou o vestido e levantou-se indignada.

 

Exijo que te expliques.

 

 Na tua propriedade do Médio Egito, entre objetos suspeitos, encontravam-se peças de linho, vestidos e lençóis. Suponho que sejam teus.

 

 Tens alguma prova do que afirmas?

 

 Concreta, não.

 

 Nesse caso, poupa-me às tuas suposições e retira-te!

 

 Vejo-me obrigado a fazê-lo, mas insisto num ponto: não sou parvo.

 

 Pantera tinha terminado.

 

 Alguns cabelos de um doente morto na noite anterior, alguns grãos de cevada roubados de um caixão de uma criança antes de ser fechado, pevides de maçã, sangue de um cão preto, vinho azedo, urina de burro e serrim: o filtro seria eficaz. Durante quinze dias, a líbia de cabelos loiros empenhou-se afincadamente para conseguir obter todos estes ingredientes. A bem ou a mal, a sua rival beberia a poção. Louca de amor, mas nunca frígida, seduziria Suti, e ele deixaria a outra num instante.

 

 Pantera ouviu barulho.

 

 Alguém acabara de entrar pelo jardim na pequena casa caiada de branco.

 

 Apagou a lamparina que iluminava a cozinha e muniu-se de uma faca. Ela tinha tido a coragem de vir! A malvada desafiava-a debaixo do seu próprio teto, certamente com a intenção de a eliminar!

 

 O intruso entrou no quarto, abriu um saco de viagem e atirou de forma desordenada algumas peças de roupa lá para dentro. Pantera ergueu  a arma.

 

 Suti!

 

 Ele virou-se. Julgando-se ameaçado, atirou-se para o chão. A líbia largou a faca.

 

 Enlouqueceste?

 

 Suti levantou-se, imobilizou-lhe os punhos e pôs os pés em cima da lâmina.

 

Isto é uma faca, não?

 

 Para a trespassar, a ela!

 

 De quem estás tu a falar?

 

 Daquela com quem casaste.

 

 Esquece-a e esquece-me também a mim. Pantera sobressaltou-se.

 

 Suti...

 

 Como vês, estou de partida.

 

 Para onde?

 

 Missão secreta.

 

 Mentes, vais ter com ela!

 

 Ele deu uma gargalhada, afastou-se dela, enfiou uma última peça de roupa no saco e pô-lo ao ombro.

 

 Podes ficar descansada, que ela não me seguirá. Pantera agarrou-se ao amante.

 

 Assustas-me. Explica-te, suplico-te!

 

 Fui dado como desertor e tenho de deixar Mênfis o mais depressa possível. Se o general Asher me apanha, morrerei no exílio.

 

 O teu amigo Paser não te protege?

 

 Fui negligente e estou em falta. Se desempenhar bem a tarefa que Paser me confiou, vencerei Asher e regressarei.

 

 Suti beijou Pantera com arrebatamento.

 

 Se estás a mentir ameaçou ela mato-te.

 

 Kem fez inquéritos nas fábricas de amuletos mais prestigiadas, ajudado por subordinados diretos de Kani. Mas as investigações a nada conduziram. O chefe da polícia deixou Tebas e apanhou um barco para Mênfis onde prosseguiu com o mesmo tipo de investigações, também elas infrutíferas.

 

 O núbio refletiu.

 

 Os maravilhosos amuletos, objeto de um tráfico ilegal, não provinham de uma oficina privada. Interrogou igualmente numerosos informadores, sensíveis à presença do babuíno. Um deles, um anão de origem síria, aceitou falar com a condição de receber três sacos de cevada e um burro com menos de três anos. Redigir um requerimento escrito e seguir os trâmites legais teria levado demasiado tempo. O núbio sacrificou o seu ordenado e ameaçou o anão de lhe partir as costelas se tentasse enganá-lo. O anão evocou a existência de uma oficina clandestina, aberta há cerca de dois anos no bairro norte, perto de um estaleiro.

 

 Disfarçado de aguadeiro, Kem observou o movimento durante vários dias. Após o encerramento do estaleiro, alguns operários de ar suspeito entravam numa ruela sem saída aparente e saíam antes do amanhecer com um cesto fechado que entregavam a um barqueiro.

 

 Na quarta noite, o núbio desapareceu na passagem estreita. Acabava numa parede de juncos cobertos de lama seca, a imitar um muro. Com um murro, deitou-a abaixo.

 

 Quatro homens, estupefatos, assistiram à invasão do colosso negro, seguido pelo babuíno. Kem espancou o mais fraco, o macaco mordeu o segundo na barriga das pernas, e o terceiro fugiu. Quanto ao último, o mais velho, permaneceu imóvel. Na mão esquerda, segurava um magnífico nó de ísis em lápis-lazúli. Quando Kem se aproximou dele, deixou-o cair.

 

 És tu o patrão?

 

 Ele abanou a cabeça. Baixo, barrigudo, estava apavorado. Kem apanhou o nó de ísis.

 

 Excelente trabalho. Dir-se-ia que não és um aprendiz; onde aprendeste esta arte?

 

 No templo de Ptah balbuciou ele.

 

 Porque saíste de lá?

 

 Fui despedido.

 

 Porquê?

 

 O artesão baixou a cabeça.

 

 Roubo.

 

 A oficina, de teto baixo, era abafada. Ao longo das paredes de lama seca estavam empilhados cofres contendo blocos de lápis-lazúli oriundos das longínquas regiões montanhosas e, em cima de uma mesa baixa, os amuletos já prontos; num cesto, as peças defeituosas e as aparas.

 

 Quem te contratou?

 

 Já... já não me lembro.

 

 Então, rapaz! É muito feio mentir. E, além disso, irritas o meu macaco. Não tem o nome de Matador por acaso. Quero o nome daquele que dirige este tráfico.

 

 Vais proteger-me?

 

 Na prisão reservada aos ladrões estarás em segurança.

 

 O homem sentia-se feliz por deixar Mênfis, nem que fosse para o inferno. Mas esqueceu-se de responder.

 

 Estou à espera insistiu Kem.

 

 A prisão... Não há mesmo maneira de escapar?

 

 Isso depende de ti. E sobretudo do nome que me deres.

 

 Não deixou rasto e negará tudo; o meu testemunho será insuficiente.

 

 Não te preocupes com as diligências legais.

 

 Mais valia libertares-me.

 

 Acreditando na passividade do núbio, o artesão esboçou um passo em direção à rua. Uma mão pesada apertou-lhe o pescoço.

 

 O nome, e já!

 

 Chéchi. O químico Chéchi.

 

 Paser e Kem caminhavam ao longo do canal onde circulavam os cargueiros. Os marinheiros insultavam-se e entoavam canções, uns a chegar, outros a partir. O Egito era um país próspero, feliz e em paz. Contudo, o deão do pórtico sofria de insónias e pressentia uma tragédia, sem conseguir identificar as causas desse mal. Todas as noites falava delas a Néféret, a quem comunicava a sua inquietação. Apesar do seu optimismo inato, a jovem admitia que a angústia do marido tinha fundamento.

 

 Tens razão disse Paser ao chefe da polícia; o processo de Chéchi acabaria num beco sem saída. Ele vai declarar-se inocente, e a palavra de um ladrão, expulso de um templo, de nada valerá.

 

 Contudo, o homem não mentiu.

 

 Disso não duvido.

 

 Afinal, a justiça rosnou o núbio para que serve?

 

Dá-me mais algum tempo. Neste momento, já conhecemos os laços de amizade que unem Denes a Qadash e Qadash a Chéchi. Os três são cúmplices. Além disso, Chéchi é provavelmente um fiel servidor de Asher. Eis quatro conjurados, responsáveis por vários crimes. Suti deve trazer-nos provas de que Asher está implicado; estou convencido de que foi ele quem roubou o ferro celeste e de que é ele o organizador do tráfico de metais preciosos, como o lápis-lazúli e até mesmo o ouro. O cargo que ocupa, de especialista dos negócios asiáticos, dá-lhe todo o espaço de manobra de que precisa. Denes é ambicioso, ávido de fortuna e de poder; manipula Qadash e Chéchi, que contribuiu com os seus conhecimentos técnicos. E não posso esquecer-me da senhora Nénofar, tão hábil a manejar a agulha como a furar a nuca do meu mestre.

 

 Quatro homens e uma mulher... Como é possível que eles sozinhos consigam desestabilizar Ramsés?

 

 Essa pergunta não me sai da cabeça, mas não sou capaz de responder. Porque será que, e caso se trate dos mesmos indivíduos, pilharam um túmulo real? Persistem ainda tantas incertezas, Kem; o nosso trabalho está longe de ficar concluído.

 

 Apesar da minha posição, continuarei a investigar sozinho. Só confio em ti.

 

 Dispensar-te-ei das tarefas administrativas.

 

 Se...

 

 Diz.

 

 Tem tanto cuidado como eu.

 

 Só faço confidências ao Suti e à Néféret.

 

 Ele é teu irmão de sangue, ela é tua irmã para a eternidade. Se algum deles te trair, serão castigados tanto cá em baixo como lá em cima.

 

 Porquê tanta desconfiança?

 

 Porque te esqueces de fazer uma pergunta essencial: os conjurados são só cinco, ou mais?

 

 A meio da noite, com a cabeça coberta com um xale, ela aventurou-se a ir ao armazém onde, a pedido dos seus amigos, tinha marcado um encontro com o devorador de sombras. O destino tinha-a escolhido a ela para se encontrar com ele e lhe transmitir as ordens. Normalmente não procediam assim; mas a urgência da situação exigia um contato direto e a certeza de que as ordens seriam perfeitamente compreendidas. Exageradamente pintada, irreconhecível, vestida com um grosso vestido de camponesa e sandálias de papiro, não corria o risco de ser identificada.

 

 Devido à descoberta do juiz Paser, o transportador Denes tinha convocado os amigos para uma reunião de emergência. Se a confiscação do bloco de ferro celeste representava apenas uma perda financeira, a descoberta dos objetos funerários que pertenciam a Quéops revelava-se preocupante. É evidente que Paser não poderia nem identificar o rei, cujo nome tinha sido cuidadosamente martelado, nem aperceber-se da chantagem a que Ramsés estava a ser submetido. Nem uma só palavra sairia da boca do homem mais poderoso do mundo, solitário, incapaz de confessar que já não possuía os símbolos do governo, sem os quais a sua legitimidade estava destruída.

 

 Denes votou a favor do imobilismo; o crescente interesse do deão do pórtico não o assustava; mas a maioria dos conjurados tinha votado contra. Mesmo que Paser não tivesse nenhuma hipótese de descobrir a verdade, estava cada vez mais preocupado com as respetivas atividades de cada um deles. O químico Chéchi foi o mais virulento; afinal, não tinha ele acabado de perder os benefícios substanciais do seu tráfico de amuletos clandestino? Obstinado, paciente, rigoroso, o juiz acabaria por organizar um processo; uma ou mais personalidades seriam acusadas, talvez condenadas e até mesmo encarceradas. Por um lado, a conjura sofreria um duro golpe; e, por outro, as vítimas da fúria do magistrado perderiam a honorabilidade de que tanto necessitavam no dia seguinte à abdicação de Ramsés.

 

 A mulher estremecera ao ver-se escolhida, mas depois o seu coração enchera-se de júbilo. O seu corpo fora percorrido por um arrepio empolgante, idêntico ao que sentira ao desnudar-se diante do guardião-chefe da esfinge de Gize. Ao atrair o seu olhar, levara-o a abrandar a vigilância e abrira as portas da morte. Tinham sido os seus encantos que os haviam conduzido à vitória.

 

Não sabia nada sobre o devorador de sombras, a não ser que praticava crimes por encomenda, mais pelo prazer de matar do que pelas chorudas retribuições. Assim que o viu, sentado em cima de uma caixa, a descascar uma cebola, sentiu-se ao mesmo tempo horrorizada e fascinada.

 

 Estás atrasada. A Lua já ultrapassou a extremidade do porto.

 

 É necessário agir de novo.

 

 Quem?

 

 Trata-se de uma tarefa delicada.

 

 Mulher, criança?

 

 Um juiz.

 

 Não se assassinam juizes no Egito.

 

 Não terás de o matar, mas apenas de o incapacitar.

 

 Isso é difícil.

 

 Que desejas em troca?

 

 Ouro. Muito ouro.

 

 Tê-lo-ás.

 

 Quando?

 

 Faz o trabalho como deve ser. Que todas as pessoas fiquem convencidas de que Paser foi vítima de um acidente.

 

 O deão do pórtico em pessoa! Isso faz aumentar a quantidade de ouro.

 

 Não toleraremos falhas.

 

 E eu muito menos. Paser está protegido; não posso fixar uma data.

 

 De acordo. Mas quanto mais cedo melhor.

 

 Falta só um pormenor.

 

 Qual?

 

 Atento como uma víbora, ele agarrou-lhe o braço até quase partir, e obrigou-a a virar-se de costas.

 

 Quero um adiantamento.

 

 Não ousarias...

 

 Um adiantamento carnal.

 

 Ele levantou-lhe o vestido. Ela não gritou.

 

 És louco!

 

 E tu imprudente. Não me interessa quem possas ser. Se cooperares, será melhor para os dois.

 

 Assim que sentiu o sexo dele entre as suas coxas, ela deixou de resistir. Fazer amor com um assassino excitava-a muito mais do que as investidas habituais. Sobre este episódio, nada diria aos outros. A penetração foi rápida e violenta, como é costume em casos tais.

 

 O teu juiz não te incomodará mais prometeu o devorador de sombras.

 

 

Palmeira;, figueiras e alfarrobeiras sombreavam o jardim. Depois do jantar e antes de retomar as consultas, Néféret aproveitava a calma do jardim, logo quebrada pelos saltos, trepadelas e gritos da saguí, radiante por trazer um fruto à sua dona. Diabrete não descansava enquanto Néféret não se sentava; tranquila, deixava-se escorregar na cadeira e observava as idas e vindas do cão.

 

 Afinal, não se assemelhava o Egito a um jardim onde a sombra benéfica do faraó permitia às árvores desabrochar tanto na alegria da manhã como na paz do entardecer? Não raras vezes, Ramsés em pessoa se ocupava da plantação de oliveiras. Gostava de passear nos jardins cobertos de flores e contemplar os pomares. Os templos gozavam da proteção das altas ramadas onde os pássaros, mensageiros sagrados, faziam os seus ninhos. Um ser agitado é, segundo os sábios, uma árvore que vai morrendo lentamente na secura do seu coração; a calma, pelo contrário, produz frutos e espalha à sua volta uma doce frescura.

 

 Néféret plantou um sicómoro no meio de um pequeno buraco; uma bilha porosa conservaria a humidade e protegeria a jovem planta. Pressionado pelas raízes, o frágil recipiente acabaria por rebentar e os fragmentos de barro, ao misturarem-se com a terra, reforçariam o húmus. Néféret teve o cuidado de consolidar o rebordo de lama seca, destinada a reter a água depois da planta ser regada.

 

 Os latidos de Bravo anunciavam a chegada de Paser; um quarto de hora antes de Paser transpor a soleira da porta, fosse a que horas fosse, o cão pressentia que o dono estava para chegar. E, quando Paser se ausentava durante muito tempo, Bravo perdia o apetite e não respondia às provocações de Diabrete. Esquecendo-se da posição que ocupava, o deão do pórtico correu ao encontro do cão, que lhe saltou para a tanga e a sujou com as patas enlameadas. O juiz mudou de roupa e deitou-se na esteira, ao lado da mulher.

 

 Como é bom este sol.

 

 Pareces cansado.

 

 A dose habitual de aborrecimentos foi excedida.

 

 Lembraste-te da tua água cobreada?

 

 Nem tive tempo. O meu gabinete esteve um verdadeiro inferno: da viúva de guerra ao escriba com ânsia de progredir, não faltou ninguém.

 

 Ela chegou-se mais para ele.

 

 Não estás a ser uma pessoa racional, juiz Paser. Contempla este jardim.

 

 O Suti tem razão, caí numa cilada. Quero voltar a ser um simples juiz de província.

 

 Não te está no sangue voltar atrás. O Suti já foi para Coptos?

 

 Partiu esta manhã de armas e bagagens. Prometeu que voltaria com a cabeça de Asher e muito ouro.

 

 Rezaremos todos os dias a Min, protetor dos exploradores, e a Hathor, a soberana dos desertos. A nossa amizade não conhecerá limites.

 

 E os teus doentes?

 

 Estou preocupada com alguns deles. Estou à espera de algumas plantas raras para fabricar os remédios, mas a farmácia do hospital central não atende às minhas exigências.

 

 Paser fechou os olhos.

 

 Há mais alguma coisa que te preocupa, meu querido.

 

 Como posso esconder-to? Diz-te respeito.

 

 Será que infringi a lei?

 

 A sucessão ao posto de médico-chefe do reino está aberta. Como deão do pórtico, cabe-me a mim examinar a validade jurídica das candidaturas que serão apresentadas ao conselho de especialistas. E fui obrigado a aceitar a primeira.

 

 Quem foi o requerente?

 

O dentista Qadash. Se for eleito, o processo que Bel-Tran preparou a teu favor de nada valerá.

 

Tem alguma hipótese de ser bem sucedido?

 

 Nébamon escreveu uma carta índicando-o como o seu sucessor favorito.

 

 Falsa?

 

 Duas testemunhas autenticaram o documento e atestaram o

 

 bom estado mental de Nébamon: Denes e Chéchi. Aqueles bandidos já nem se dão ao trabalho de disfarçar!

 

 Pouco importa a minha carreira. Gosto muito de tratar dos doentes. O meu consultório particular chega-me perfeitamente.

 

 Farão os possíveis para o mandar fechar. E tu mesma serás atingida.

 

 Será que o melhor juiz de todos não me vai defender?

 

 Qadash... Há já algum tempo que me interrogo sobre qual será o seu papel nisto tudo; aos poucos, o mistério começa a desvendar-se. Quais são as obrigações do médico-chefe?

 

 Tratar do faraó; nomear os cirurgiões, os médicos e os farmacêuticos que formam o corpo clínico do palácio, receber e controlar as substâncias tóxicas, os venenos e os medicamentos perigosos, adoptar as diretivas relativas à saúde pública e fazê-las cumprir com o acordo do vizír e do rei.

 

 Qadash com tais poderes... É mesmo o lugar que lhe convém!

 

 Não será fácil influenciar o comité que vai decidir.

 

 Não te iludas. Denes tentará corromper os membros do comité. Qadash está velho, é uma pessoa respeitável, dotada de longa prática, e... Ramsés apenas sofre de uma coisa: artrite dentária! Esta nomeação é uma fase do plano. É preciso travar-lhes o passo.

 

 De que forma?

 

 Ainda não sei.

 

 Receias que Qadash possa vir a atentar contra a saúde do faraó?

 

 Não! Seria demasiado arriscado.

 

 Diabrete saltou para a barriga de Paser e arrancou-lhe um pêlo no plexo. Dorido, o juiz soltou um grito, mas a sua mão direita, quando se cerrou, já não encontrou a saguí que se tinha entretanto refugiado debaixo da cadeira da dona.

 

 Se este maldito animal não estivesse ligado ao nosso primeiro encontro, já lhe tinha dado uma boa tareia.

 

 Para se desculpar, Diabrete subiu a uma palmeira e atirou uma tâmara que Paser agarrou no ar. Bravo acorreu e engoliu-a. A tristeza apoderou-se do rosto de Néféret.

 

 Estás triste porquê?

 

 Tinha concebido um projeto insensato.

 

 Que projeto?

 

 Já renunciei a ele.

 

 Revela-mo.

 

 Para quê?

 

 Ela encostou-se a ele,

 

 Gostaria de ter... um filho.

 

 Também eu penso nisso.

 

 Queres mesmo?

 

 Mas enquanto não descobrirmos toda a verdade, não vale a pena.

 

 Revolta-me semelhante ideia, mas creio que tens razão.

 

 Ou renuncio a este inquérito ou teremos de esperar.

 

 Se esquecermos o assassinato de Branir, estaremos condenados a ser o mais vil dos casais.

 

 Ele abraçou-a.

 

 Achas necessário continuar vestida, com uma temperatura tão amena?

 

 A tarefa do devorador de sombras não seria fácil. Em primeiro lugar, abandonar o seu posto oficial durante tanto tempo e tão frequentemente chamaria a atenção; agia sozinho, sem cúmplices, sempre prontos a fazer denúncias, e tinha de conhecer os hábitos de Paser, pelo que devia mostrar-se paciente. Em segundo lugar, tinham-lhe ordenado que incapacitasse o deão do pórtico, mas sem o matar, de fazer o atentado parecer um acidente, para que não fosse aberto nenhum inquérito.

 

A execução deste plano apresentava grandes dificuldades. O devorador de sombras tinha exigido em troca três barras de ouro, uma bela fortuna que lhe permitiria estabelecer-se no Delta, comprar uma herdade e aí passar o resto dos seus dias. Mataria por prazer e contentar-se-ia em comandar um exército de empregados, prontos a satisfazer-lhe as suas mais vis necessidades.

 

 Assim que recebesse o ouro, começaria a busca, excitado com a ideia de executar a sua obra-prima.

 

 O forno estava aquecido ao rubro. Chéchi tinha preparado vários moldes, para onde o metal liquefeito escorreria, tomando a forma de barras de grandes proporções. No laboratório, a temperatura era insuportável; no entanto, o químico do bigodinho preto não transpirava, ao passo que a cara de Denes se cobria de grossas gotas de suor.

 

 Todos os nossos amigos concordaram declarou.

 

 Sem objeções?

 

 Não tínhamos outra saída.

 

 O transportador tirou de dentro de um saco de linho a máscara de ouro de Quéops e o colar do mesmo metal que tinha ornamentado o busto da sua múmia.

 

 Isto dá bem duas barras de ouro.

 

 E a terceira?

 

 Comprá-la-emos ao general Asher. Os desvios de ouro estão organizados até ao mais ínfimo pormenor, mas eu conheço todo o processo.

 

 Chéchi contemplou o rosto do edificador da grande pirâmide. Os traços eram serenos e severos, de uma beleza extraordinária. O ourives tinha-lhe transmitido uma expressão de eterna juventude.

 

 Mete-me medo confessou Chéchi.

 

 É apenas uma máscara funerária.

 

 Os olhos... Têm vida!

 

 Não te deixes arrastar pela fantasia. Este juiz já nos fez perder uma fortuna ao subtrair o bloco de ferro celeste que queríamos vender aos hititas e o escaravelho de ouro que eu tinha reservado para o meu próprio túmulo. Conservar a máscara e o colar é muito arriscado; além disso, precisamos deles para pagar ao devorador de sombras. Vá, despacha-te.

 

 Chéchi obedeceu, como sempre. A máscara sublime e o colar desapareceram no forno. Em breve o ouro fundido escorreria por uma calha e encheria os moldes.

 

 O côvado em ouro? perguntou o químico. O semblante de Denes iluminou-se.

 

 Poderia ser... a terceira barra! Poderíamos assim prescindir dos serviços do general Asher.

 

 Chéchi parecia hesitar.

 

 Mais vale vermo-nos livres disto afirmou o transportador. Ficaremos apenas com o essencial: o testamento dos deuses. Onde o guardamos, Paser não tem a mínima hipótese de o encontrar.

 

 Denes soltou uma gargalhada sinistra ao ver o côvado de Quéops desaparecer na fornalha.

 

 Amanhã, meu bom Chéchi, serás uma das pessoas mais importantes do reino. Esta noite, a primeira parte do pagamento será entregue ao devorador de sombras.

 

 O polícia do deserto media mais de dois metros. Na cinta da sua tanga, dois punhais de cabo muito gasto. Nunca usava sandálias; já estava tão habituado a andar sobre o areào que nem um espinho de acácia conseguia perfurar a calosidade que lhe protegia a sola dos pés.

 

 Nome?

 

 Suti.

 

 De onde vens?

 

 De Tebas.

 

 Profissão?

 

 Aguadeiro, apanhador de linho, criador de porcos, pescador. Um cão de olhar ausente farejou Suti. Não devia pesar menos de  setenta quilos. Tinha o pêlo raso e as costas crivadas de cicatrizes. Parecia prestes a atirar-se a ele.

 

 Porque queres ser mineiro?

 

Gosto da aventura.

 

 Também gostas de sentir sede, das canículas, das víboras, dos escorpiões negros, das caminhadas forçadas, do trabalho árduo nas galerias estreitas onde quase não passa o ar?

 

 Cada profissão tem os seus contras.

 

 Enveredaste pela profissão errada, rapaz.

 

 Suti sorriu da forma mais sonsa possível. O polícia deixou-o entrar.

 

 Na bicha que se formava à porta do gabinete das contratações, Suti salientava-se pelo seu aspeto. O seu ar de conquistador e a sua musculatura impressionante contrastavam com o aspeto franzino da maior parte dos candidatos, visivelmente inaptos.

 

 Dois mineiros, já idosos, fizeram-lhe as mesmas perguntas que o polícia, às quais deu exatamente as mesmas respostas. Sentiu que estava a ser examinado como se fosse um criminoso.

 

 Está a organizar-se uma expedição. Estás disponível?

 

 Estou. Qual o destino?

 

 Na nossa corporação obedece-se e não se fazem perguntas. Metade dos novatos ficam pelo caminho e tentam voltar ao vale. Não nos preocupamos com os frouxos. Partimos esta noite, duas horas antes do amanhecer. Aqui tens o teu equipamento.

 

 Suti recebeu um bordão, uma esteira e uma manta enrolada. Com uma corda fina, amarraria a manta e a esteira à volta do bordão, indispensável no deserto. Ao martelar o solo, espantaria as serpentes.

 

 Água?

 

 Receberás a tua ração. Não te esqueças do essencial.

 

 Suti colocou ao pescoço a bolsa de couro onde o pesquisador, se tivesse sorte, iria guardar o ouro, a coralina, o lápis-lazúli ou outras pedras preciosas. O conteúdo da bolsa pertencia-lhe, para além do salário estipulado.

 

 Não leva grande coisa.

 

 Muitas bolsas ficam vazias, rapaz.

 

 São todos uns desajeitados.

 

 Tens a língua muito comprida; o deserto ensinar-te-á a ficares calado.

 

Mais de duzentos homens se juntaram na saída oriental da cidade, no início da pista do deserto. A maioria rezava ao deus Min, formulando três desejos: regressarem sãos e salvos, não morrerem de sede e trazerem as bolsas de couro cheias de pedras preciosas. Ao pescoço, todos levavam amuletos. Os mais letrados tinham consultado um astrólogo, outros tinham renunciado à viagem devido a um decano desfavorável. Aos incrédulos e aos desconfiados, os anciãos transmitiam o lema da corporação: ”Partimos sem Deus para o deserto, mas regressamos com ele para o vale.”

 

 Efraim, o chefe da expedição, era um colosso barbudo com uns braços infindáveis. Com o corpo coberto de pêlos pretos e fartos, mais parecia um urso da Ásia. Assim que o avistaram, muitos candidatos desistiram; dizia-se que Efraim era brutal e cruel. Passou revista às suas tropas, detendo-se diante de cada um dos voluntários.

 

 És tu o Suti?

 

 Parece que sim.

 

 Parece que és ambicioso.

 

 Não me alistei para recolher calhaus.

 

 Enquanto esperas, vais carregar com o meu saco.

 

 Efraim deu-lhe um saco pesado que Suti colocou no ombro esquerdo. Efraim afirmou em tom de chacota:

 

 Aproveita. Não tarda muito, toda essa tua pose acabará.

 

 O grupo partiu antes do amanhecer e caminhou até meio da manhã, atravessando uma paisagem desnudada e árida. Os camponeses, pouco habituados ao terreno, ficaram logo com os pés a sangrar. Efraim evitava a areia quente e seguia por caminhos salpicados de lascas de rocha, tão cortantes como metal. As primeiras montanhas supreenderam Suti; pareciam formar uma barreira intransponível, impedindo aos humanos o acesso a um país secreto onde se formavam os blocos de pedra pura reservada à morada dos deuses. Aí, concentrava-se uma energia tremenda; era na montanha que nascia a rocha repleta de minérios preciosos que apenas desvendava as suas riquezas aos amantes pacientes e obstinados. Fascinado, Suti pousou o seu fardo.

 

 Um pontapé nos rins fê-lo rebolar na areia.

 

Não te dei autorização para descansares disse Efraim, com ar trocista.

 

 Suti levantou-se.

 

 Limpa o saco. E, durante a refeição, não o pouses no chão. Como me desobedeceste, não terás água.

 

 Suti perguntou-se se não teria sido denunciado; mas também outros voluntários foram vítimas de bravatas semelhantes. Efraim gostava de pôr à prova o seu pessoal. Um núbio, que fez menção de ripostar, foi prontamente espancado e abandonado na berma da estrada.

 

 Ao fim da tarde, o grupo chegou a uma pedreira de grés. Os pedreiros partiam os blocos que marcavam com um sinal próprio, identificando cada equipa. Eram cuidadosamente cavadas pequenas valas ao longo de cada veio, à volta do bloco desejado; o contramestre introduzia então com um maço calços de madeira nas fendas alinhadas pelo cordel, para separar o bloco da pedra-mãe sem o rachar.

 

 Efraim cumprimentou-o.

 

 Levo para as minas um bando de preguiçosos. Se precisares de ajuda, não hesites em pedir.

 

 Não é que eu não queira, mas eles não caminharam já o dia todo?

 

 Se querem comer, que façam alguma coisa de útil.

 

 Não é bem assim.

 

 Aqui quem manda sou eu.

 

 Era necessário fazer descer uma dezena de blocos do alto da pedreira e, com a ajuda de cerca de trinta homens seria mais rápido.

 

 Efraim escolheu-os um a um, entre os quais Suti, a quem pediu de volta a sua bagagem.

 

 Bebe e toca a trepar por aí acima.

 

 O contramestre tinha arranjado uma corrediça, mas estava quebrada a meio da rampa. Era por isso necessário prender os blocos com cordas, antes de os deixar seguir o seu caminho. Um cabo grosso, seguro por cinco homens de cada lado, estava esticado na horizontal, para impedir uma descida demasiado abrupta. Quando a corrediça tivesse sido reparada, esta manobra seria desnecessária. Mas o contramestre estava atrasado e a proposta de Efraim era providencial. O acidente ocorreu quando o sexto bloco desceu com demasiada força até ao cabo.

 

Os homens, cansados, não conseguiram travá-lo. O bloco embateu com tal força no cabo que os trabalhadores foram projetados para os lados, excepto um homem de cinquenta anos que deslizou de cabeça pela corrediça abaixo. Em vão, o homem tentou agarrrar-se ao braço de Suti, que foi violentamente puxado para trás por dois colegas.

 

 Os berros do infeliz depressa foram abafados. O bloco esmagou-o, desviando-se da sua trajetória e partindo-se em bocados, com um estrondo semelhante ao de um trovão. O contramestre chorou.

 

 Apesar de tudo, conseguimos fazer metade do trabalho disse Efraim.

 

 

  Altaneiro, sobre um rochedo escarpado, com os dois longos cornos arqueados apontados para o céu e a queixada guarnecida de curta barbicha, o bode contemplava os mineiros que caminhavam debaixo de um sol escaldante. Na linguagem hieroglífica, este animal era o símbolo da nobreza serena, adquirida ao fim de uma existência vivida segundo a lei divina.

 

 Ali ao fundo! gritou um dos trabalhadores. Vamos matá-lo!  Cala-te, imbecil retorquiu Efraim. É o protetor da mina. Se lhe fizermos mal morreremos todos.

 

 O grande macho trepou a encosta abrupta e, com um salto prodigioso, desapareceu do outro lado da montanha.

 

 Os cinco dias de caminhada forçada tinham deixado o grupo exausto; apenas Efraim parecia tão cheio de vigor como quando partira. Suti permanecia inabalável; o esplendor cruel da paisagem dava-lhe novas forças. Nem a brutalidade do chefe da expedição, nem a dureza da viagem eram obstáculos à sua determinação.

 

 O colosso barbudo ordenou aos seus homens que se reunissem e saltou para cima de um bloco de pedra. Assim, esmagava aqueles zés-ninguém.

 

 O deserto é incomensurável declarou com voz retumbante e vocês são mais insignificantes do que formigas. Queixam-se constantemente de sede, como se fossem velhas impotentes. Não são dignos de ser mineiros e cavar as entranhas da terra. Porém, trouxe-vos até aqui. Mas os metais bem valem mais do que vocês. Quando retalharem a montanha, fá-la-ão sofrer e ela tentará vingar-se, engolindo-vos. Tanto pior para os incapazes! Montem o acampamento, o trabalho começa amanhã de madrugada.

 

 Os trabalhadores montaram as tendas, começando pela do chefe da expedição, que, de tão pesada que era, levou à exaustão cinco dos homens. Foi desenrolada com precaução, elevada sob o olhar atento de Efraim, e pontificava no meio do acampamento. Preparou-se a refeição, humedeceu-se o solo para fazer assentar a poeira, e todos se saciaram com a água que os odres tinham conservado fresca. O precioso líquido não faltaria, graças ao poço escavado perto da mina.

 

 Suti dormitava, quando um pontapé lhe dilacerou o flanco.

 

 Levanta-te ordenou Efraim.

 

 O jovem conteve a raiva e obedeceu.

 

 Todos os que aqui estão têm algo a esconder. E tu?

 

 Isso é cá comigo.

 

 Fala.

 

 Deixa-me em paz.

 

 Detesto gente misteriosa.

 

 Cansei-me do trabalho rotineiro.

 

 Onde?

 

 Na minha aldeia, perto de Tebas. Queriam levar-me para Mênfis, para limpar os canais. Preferi fugir e tentar a minha sorte como mineiro.

 

 Não gosto nada da tua cara. Tenho a certeza de que estás a mentir.

 

 Quero ficar rico. E ninguém, nem mesmo tu, me irá impedir.

 

 Irritas-me, rapaz. Vou dar cabo de ti. Vamos bater-nos só com os punhos.

 

 Efraim escolheu um árbitro. A sua função consistiria em desqualificar o adversário que ofendesse o outro com palavras; todos os outros golpes eram permitidos.

 

 Sem aviso prévio, o barbudo atirou-se impetuosamente sobre Suti, agarrou-o pelo tronco, levantou-o do chão, fê-lo girar por cima da cabeça e arremessou-o a alguns metros de distância.

 

Esfolado e com um ombro magoado, o jovem ergueu-se. Efraim, de mãos nos quadris, observava-o com desdém. Os mineiros riam.

 

 Ataca, se tens coragem.

 

 Vendo-se desafiado, Efraim não hesitou. Desta vez, os seus longos braços não conseguiram agarrar nada. Suti, que se esquivara no último momento, ganhou novo alento. Demasiado seguro da sua força, Efraim só conhecia um caminho.

 

 Mesmo que eles não existissem, Suti agradecia aos deuses o terem-lhe dado uma infância belicosa ao longo da qual aprendera a bater-se. Uma boa dezena de vezes, ele evitou os ataques desordenados do adversário; o seu crescente mau-humor cansava-o e fazia-o perder a lucidez. O jovem não se podia dar ao luxo de errar; na situação em que se encontrava, seria prontamente esmagado. Confiando na sua rapidez, desequilibrou o adversário, passando-lhe uma rasteira, esquivou-se por debaixo do corpo em queda do colosso e utilizou a sua própria energia para lhe aplicar um golpe no pescoço, imobilizando-o.

 

 Efraim caiu pesadamente no chão. Suti sentou-se sobre a sua nuca e ameaçou-o de a partir; o vencido batia com o punho na areia, admitindo a derrota.

 

 Pronto, rapaz!

 

 Tu mereces morrer.

 

 Se me matares, a polícia do deserto não te poupará.

 

 Quero lá saber. Não serás tu o primeiro que mando para o inferno.

 

 Efraim ficou apavorado.

 

 Que queres tu de mim?

 

 Jura que não irás martirizar mais os homens do nosso grupo. Os mineiros já não riam, e aproximaram-se cautelosamente.

 

 Despacha-te, ou torço-te o pescoço.

 

 Juro pelo deus Min!

 

 E por Hathor, senhora do Ocidente. Vá, repete o juramento!

 

 Suti soltou o prisioneiro. Um juramento, e perante tantas testemunhas, não podia ser quebrado. Se traísse a sua palavra, Efraim veria o seu nome destruído por toda a eternidade e seria condenado à humilhação.

 

Os mineiros soltaram gritos de alegria e carregaram Suti aos ombros entre exclamações triunfantes. Quando o júbilo diminuiu, ele falou-lhes com firmeza.

 

 O chefe, aqui, é Efraim. Só ele conhece as pistas, os locais exatos onde se encontram a água e as minas. Sem ele, não voltaríamos de novo para o vale. Devemos obedecer-lhe; que ele tenha a palavra, e tudo correrá bem.

 

 Atónito, o barbudo pousou a mão sobre o ombro de Suti.

 

 És forte, rapaz, mas também inteligente. Efraim chamou-o de parte.

 

 Julguei-te mal.

 

 Quero ficar rico.

 

 Podemos tornar-nos amigos.

 

 Na condição de que isso me seja útil.

 

 Poderá vir a sê-lo, meu rapaz.

 

 As mulheres que traziam as oferendas, envergando um vestido branco com uma alça que lhes passava entre os seios descobertos, e um avental revestido com uma rede de pérolas dispostas em losango, entraram vagarosamente no palácio da princesa Hattusa. Com uma peruca em forma de puxo, estavam tão frescas e belas que Denes sentiu o sangue alvoroçar-se. Sempre que viajava, Denes traía a senhora Nénofar com perfeita e obrigatória discrição; um escândalo tê-lo-ia desacreditado. Por outro lado, não tinha uma amante preferida, satisfazendo-se com breves encontros sem futuro. De vez em quando, fazia amor com a sua mulher, mas a bem conhecida frigidez de Nénofar justificava as suas aventuras extraconjugais.

 

 O intendente do harém veio ao seu encontro no jardim.

 

 Denes ainda pensou pedir que lhe mandasse uma rapariga, mas desistiu; um harém era um centro económico onde primava o sentido do trabalho, e não da boémia.

 

 Na sua qualidade de transportador, Denes tinha pedido uma audiência oficial à esposa hitita de Ramsés. Ela recebeu-o numa sala com quatro colunas e paredes pintadas de amarelo-claro. O chão era um mosaico de ladrilhos verdes e vermelhos.

 

Hattusa estava sentada num cadeirão de madeira de ébano, com braços almofadados e pés dourados. De olhos negros, pele muito clara, mãos longas e delgadas, tinha o encanto estrangeiro dos asiáticos; Denes mostrou-se reservado.

 

 Não esperava a tua visita disse ela, com azedume.

 

 Sou transportador e tu diriges um harém. Quem iria estranhar o nosso encontro?

 

 Pensas então que pode ser perigoso.

 

 A situação mudou muito, Paser tornou-se deão do pórtico e, em virtude do seu novo cargo, está apto a obstruir as minhas atividades.

 

 Em que é que isso me diz respeito?

 

 Será que mudaste de opinião?

 

 Ramsés escarneceu de mim, humilhou o meu povo! Exijo vingança.

 

 Satisfeito, Denes cofiou os pêlos brancos da barbicha.

 

 Tê-la-ás, princesa. Os nossos propósitos são idênticos. Este rei é um déspota e um incapaz; está acorrentado a tradições há muito ultrapassadas e não tem visão do futuro. O tempo é nosso aliado, mas alguns dos meus amigos começam a ficar impacientes; por essa razão, decidimos aumentar a impopularidade de Ramsés.

 

 E será isso o suficiente para o desestabilizar? Denes, nervoso, não tencionava falar demasiado.

 

 A hitita era sua aliada de momento, mas seria afastada o mais depressa possível, logo após a queda do soberano.

 

 Tenhamos confiança; a nossa estratégia é infalível.

 

 Não estejas assim tão confiante, Denes; Ramsés é um guerreiro hábil e corajoso.

 

 Ele está atado de pés e mãos. Não tem saída possível.

 

 Uma vaga excitação animou o olhar de Hattusa.

 

 Não achas que eu deveria saber mais pormenores?

 

 Seria inútil e imprudente.

 

 Hattusa amuou; a cólera reprimida tornava-a ainda mais atraente.

 

 Qual é o plano?

 

 Desorganizar o tráfico de mercadorias. Em Mênfis, serei bem sucedido e sem dificuldade. Mas em Tebas, vou precisar da tua ajuda.

 

O povo vai ficar revoltado e o faraó será considerado responsável. E o enfraquecimento da economia do país fará vacilar o trono.

 

 Quantas consciências mais será preciso comprar?

 

 Poucas, mas caras. Os principais escribas que controlam o encaminhamento das mercadorias deverão cometer erros consecutivos. As informações administrativas serão longas e complicadas, a discórdia instalar-se-á durante muitas semanas.

 

 Os meus homens de confiança vão agir.

 

 Denes acreditava muito pouco na eficácia deste plano; seria um novo golpe contra o rei, mas de consequências muito limitadas. Tinha, porém, a vantagem de acalmar a desconfiança de Hattusa.

 

 Tenho outra confidência a fazer-te murmurou.

 

 Sou toda ouvidos.

 

 Denes aproximou-se e falou em voz baixa.

 

 Daqui a alguns meses, irei dispor de uma importante quantidade de ferro celeste.

 

 O olhar da hitita refletiu o seu interesse. Utilizado para fins mágicos, o metal raro seria uma nova arma contra Ramsés.

 

 Qual é o teu preço?

 

 Três barras de ouro na altura da encomenda e outras três na altura da entrega.

 

 Quando deixares o harém, levá-las-ás na tua bagagem. Denes inclinou-se respeitosamente. Esta transação não era do conhecimento  dos seus aliados, e a princesa nunca iria receber o ferro celeste. Vender o que ele já não possuía e obter uma recompensa desta envergadura fazia Denes rejubilar. Fazer esperar a princesa seria fácil. Se ela se mostrasse demasiado impaciente, ele atiraria as culpas para Chéchi. O servilismo do químico de bigodinho preto já lhe havia sido útil em muitas outras ocasiões.

 

 Uma serva trouxe azeitonas, rabanetes e alface. Silkis preparou, ela mesma, o tempero da salada.

 

 Obrigado por terem aceitado o nosso convite disse Bel-Tran a Néféret e a Paser. Tê-los aos dois à nossa mesa é uma honra.

 

Mas nada de cerimónias sublinhou o juiz.

 

 O cozinheiro dispôs costeletas de borrego grelhadas, aboborinhas e ervilhas numa bandeja de cobre assente sobre três pés. A frescura dos alimentos era um deleite para o paladar dos convivas. Silkis ostentava uns brincos magníficos, em forma de discos ornamentados com rosetas e espirais.

 

 Tive um sonho incrível confessou ela. Por várias vezes seguidas, vi-me a beber cerveja quente. Fiquei tão angustiada que consultei o intérprete dos sonhos, e o seu diagnóstico apavorou-me! Este sonho significa que os meus bens vão ser roubados.

 

 Não fiques aflita recomendou Néféret. Os intérpretes dos sonhos enganam-se muitas vezes.

 

 Que os deuses te ouçam!

 

 A minha mulher está muito ansiosa comentou Bel-Tran. Não poderias dar-lhe algum remédio?

 

 No fim da refeição, enquanto Néféret prescrevia tisanas calmantes a Silkis, Bel-Tran e o juiz foram passear para o jardim.

 

 Tenho pouco tempo para apreciar a natureza lamentou-se o financeiro. O meu trabalho é cada vez mais esgotante. Quando chego a casa, à noite, os meus filhos já estão deitados. Não poder vê-los crescer, nem brincar com eles, são sacrifícios muito penosos para mim. A gestão dos celeiros, a minha exploração de papiros, o serviço do Tesouro... Os dias são demasiado curtos! Não sentes o mesmo?

 

 Sim, com muita frequência. Ser deão do pórtico não é uma benesse.

 

 Estás a pensar levar por diante a tua investigação sobre o general Asher?

 

 A pouco e pouco.

 

 Gostaria de te relatar um acontecimento insólito que me inquieta profundamente. Como sabes, a princesa Hattusa tem um temperamento belicoso e não perdoa a Ramsés tê-la afastado do seu país.

 

 Uma hostilidade quase declarada.

 

 E onde poderá levá-la tal hostilidade? Opor-se abertamente ao rei, tentar conspirar contra ele seriam situações suicidas. No entanto, acabou de receber uma visita estranha: a do transportador Denes.

 

 Tens a certeza do que afirmas?

 

Um dos meus colaboradores, de visita ao harém, julgou reconhecê-lo. Surpreso, assegurou-se de que não se tinha enganado.

 

 Parece-te assim tão estranha a visita de Denes?

 

 Hattusa possui o seu próprio contingente de navios de mercadorias. E o harém é uma instituição do Estado, onde um transportador privado não teria qualquer função a desempenhar. Se se trata de uma visita de amizade, que significado poderá ter?

 

 Uma aliança entre a princesa hitita, segunda esposa do rei, e um dos membros da conspiração... A revelação de Bel-Tran revestia-se de certa importância. Não seria Hattusa o cérebro e Denes, um dos executores? A conclusão parecia demasiado prematura. Ninguém conhecia o conteúdo da conversa cuja existência deixava, no entanto, entrever uma conjunção de interesses hostis ao bem-estar do reino.

 

 Essa conclusão é suspeita, Paser.

 

 Como calcular o seu alcance?

 

 Ignoro-o. Não desconfias de que estará em preparação uma tentativa de invasão pelo Norte? Ramsés derrotou sem dúvida os Hititas, mas irão eles renunciar para sempre às suas pretensões expansionistas?

 

 Nesse caso, o general Asher é altamente suspeito. Quanto mais os contornos do inimigo se precisavam, tanto mais difícil  se anunciava o combate e incerto o futuro.

 

 Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, um mensageiro do palácio entregou a Néféret uma carta autenticada com o selo de Tuya, a mãe de Ramsés, o Grande. A grande dama desejava consultar a médica o mais depressa possível. Embora vivesse em clausura, Tuya continuava a ser uma das personalidades mais influentes no palácio. Altiva, detestando a mediocridade e a mesquinhez, aconselhava sem nunca dar ordens e velava com zelo pela glória do país. Ramsés tinha por ela grande afeto e admiração; desde o desaparecimento da mulher amada, Nefertari, fizera de sua mãe a sua maior confidente. Diziam até alguns que não tomava nenhuma decisão sem primeiro a consultar.

 

 Tuya reinava numa grande casa real e dispunha de um palácio em cada cidade importante. O de Mênfis era composto por vinte divisões e um amplo salão com quatro colunas onde recebia os seus hóspedes de maior prestígio.

 

 Um camareiro conduziu Néféret ao leito da rainha-mãe.

 

 Com sessenta anos, Tuya era uma mulher franzina, de olhos encovados, nariz fino e retilíneo, faces marcadas por sinais e um queixo pequeno e quase quadrado. Ostentava a peruca ritual correspondente à sua função, imitando a pele de um abutre cujas penas lhe emolduravam a face.

 

 A tua reputação chegou até mim. O vizir Bagey, sempre pouco disposto a elogios, fala muito dos teus milagres.

 

 Eu poderia enumerar uma longa lista de fracassos, Majestade. Um médico que se vangloria dos seus sucessos devia mudar de profissão.

 

 Estou doente e preciso dos teus talentos. Os assistentes de Nébamon são uns ignorantes.

 

 De que te queixas?

 

 Dos olhos. Além disso, tenho dores violentas que me trespassam o ventre, ouço mal, e sinto a nuca um pouco rígida.

 

 Sem se mostrar preocupada, Néféret diagnosticou secreções anormais do útero, e receitou-lhe fumigações de terebintina misturada com óleo da melhor qualidade.

 

 O exame aos olhos deixou-a mais apreensiva. Tratava-se de uma conjuntivite granulosa, um tracoma com complicações nas pálpebras, e risco de glaucoma.

 

 A rainha-mãe apercebeu-se da preocupação da médica.

 

 Sê franca.

 

 Trata-se de uma doença que conheço e vou curar. Mas o tratamento será longo e exige muita vigilância.

 

 Ao levantar, a rainha-mãe devia lavar os olhos com uma solução à base de cânhamo, muito eficaz contra o glaucoma. O mesmo produto, sob a forma de um unguento misturado com mel e aplicado localmente, iria atenuar as dores do útero. Um outro remédio, em que o principal agente era um sílex negro, faria desaparecer a infeção do canto do olho, assim como os humores malignos. Para suprimir o tracoma, a doente aplicaria nas pálpebras uma pomada composta por ládano, galena, bílis de tartaruga, ocre e terra da Núbia. Por fim, devia aplicar um colírio nos olhos com a ajuda de uma pena de abutre. Devia ainda misturar aloés, crisócolo, farinha de colocíntida, folhas de acácia, raspas de ébano e água fria, reduzindo tudo a uma pasta que seria posta a secar e depois diluída em água. O produto assim obtido deveria passar uma noite ao relento, para adquirir um tom rosado, e só então ser filtrado. Além de o introduzir diretamente nos olhos, a rainha-mãe devia utilizá-lo também em compressas, que seriam aplicadas sobre os olhos quatro vezes por dia.

 

 Vê como estou velha e fraca constatou ela. Cuidar de mim no estado em que estou, não me agrada nada.

 

 Estás doente, Majestade. Dá tempo ao tempo e com este tratamento ficarás curada.

 

 Receio ter de te obedecer, se bem que isso me custe. Aceita esta lembrança.

 

 Tuya ofereceu à médica um admirável colar com sete voltas de contas de coralina e ouro da Núbia; o fecho eram duas flores de lótus. Néféret hesitou.

 

 Espera, ao menos, pelos resultados do tratamento.

 

 Já me sinto melhor.

 

 A rainha-mãe fez questão de ser ela mesma a colocar o colar no pescoço de Néféret, dando a seguir o seu parecer.

 

 És muito bela Néféret. A jovem corou.

 

 E, ainda por cima, és feliz. Os meus familiares afirmam que o teu marido é um juiz excepcional.

 

 Servir Maât é a coisa mais importante da sua vida.

 

 O Egito tem necessidade de pessoas como tu e ele.

 

 Tuya chamou o copeiro, que trouxe cerveja doce e frutos variados. As duas mulheres sentaram-se então em cadeirinhas baixas guarnecidas de confortáveis almofadas.

 

 Acompanhei a carreira e o processo do juiz Paser. Primeiro divertida, depois intrigada e, por fim, revoltada! A sua deportação foi um ato iníquo e inadmissível. Por sorte, alcançou uma primeira vitória; a posição de deão do pórtico permite-lhe prosseguir a luta com muito mais meios ao seu dispor. Ter nomeado Kem chefe da polícia foi uma excelente iniciativa, e o vizír Bagey fez bem em aprová-la.

 

Estas frases não foram pronunciadas ao acaso. Quando Néféret as transmitisse a Paser, ele iria transbordar de alegria; pela voz de Tuya, eram aqueles que mais próximo estavam do faraó que aprovavam a sua ação.

 

 Desde a morte do meu marido e da subida do meu filho ao trono que velo pela felicidade do nosso país. Ramsés é um grande rei; afastou do país o espetro da guerra, enriqueceu os templos, alimentou o povo. O Egito continua a ser a terra amada pelos deuses. Mas agora estou preocupada, Néféret; aceitas ser minha confidente?

 

 Se me julgas digna de o ser, Majestade.

 

 Ramsés anda cada vez mais preocupado, por vezes ausente, como se tivesse envelhecido de repente. O seu caráter mudou; irá ele renunciar a bater-se, a enfrentar as constantes dificuldades, a rir-se dos obstáculos?

 

 Estará doente?

 

 À excepção da sua fraqueza dentária, continua a ser o mais vigoroso e o mais infatigável dos homens. Pela primeira vez, deixou de se abrir comigo. Já não estou a par das suas intenções ocultas. Este fato não me chocaria, se, como sempre fez, ele me tivesse anunciado a sua decisão diretamente. Mas ele evita-me, e ignoro qual a verdadeira razão. Fala disto ao juiz Paser. Tenho medo pelo Egito, Néféret. Tantos assassinatos, nestes últimos meses, tantos enigmas por resolver, e o rei a afastar-se de mim cada vez mais, levado por este seu novo gosto pela solidão... Que Paser prossiga com as suas investigações.

 

 Parece-te que o faraó se possa sentir ameaçado?

 

 É amado e respeitado por todos.

 

 No entanto, o povo diz à boca pequena que a sorte o está a abandonar.

 

 A partir do momento em que um reinado se prolonga, isso é inevitável. Mas Ramsés conhece a solução: celebrar uma festa de regeneração, reforçar o seu pato com as divindades e restabelecer a alegria na alma dos seus súbditos. Esses rumores preocupam-me pouco; mas porque terá o rei promulgado os decretos que reafirmam a sua autoridade, se ninguém a contesta?

 

 Suspeitas talvez de um mal dissimulado, susceptível de lhe enfraquecer o espírito?

 

Se fosse esse o caso, a corte rapidamente se aperceberia. Não, as suas faculdades continuam intatas; no entanto, já não é o mesmo.

 

 A cerveja era doce, como convinha, e a compota de frutos suculenta. Néféret percebeu que não devia fazer mais perguntas. Deixava a Paser a apreciação destas confidências excepcionais e como saber utilizá-las.

 

 Apreciei bastante a tua dignidade aquando da morte de Nébamon prosseguiu Tuya. O homem não valia nada, mas tinha sabido impor-se. Tratou-te com extrema injustiça, mas eu decidi reparar essa afronta. Ele e eu éramos os responsáveis pelo hospital central de Mênfis. Agora, ele morreu e eu não sou médica. Amanhã será publicado o decreto que te entrega a direção do hospital.

 

 

Dois servos deitaram jarros de água morna sobre Paser, que se esfregou com um sabonete de natrão.

 

 Depois do banho, escovou os dentes com um junco perfumado e bochechou com uma mistura de alúmen e aneto. Para se barbear, utilizou a sua navalha preferida, em forma de cinzel de marceneiro; untou o pescoço com óleo de hortelã selvagem para afugentar as moscas, os mosquitos e as pulgas, e friccionou o resto do corpo com uma substância gordurosa à base de natrão e mel. Se necessário, utilizaria a meio do dia um desodorizante de alfarrobeira e incenso.

 

 Terminadas as abluções matinais, o irremediável aconteceu.

 

 Espirrou duas, cinco, dez vezes. Era uma constipação, acompanhada de tosse persistente e um zumbido nos ouvidos. A culpa era toda sua: excesso de trabalho, descuido, poucas horas de sono. Estava, seguramente, a precisar de nova medicação.

 

 Mas como fazer para consultar Néféret, uma vez que ela se levantava às seis horas e saía pouco depois para o hospital central, que agora dirigia. Já não a via há uma semana. Desejosa de ser bem sucedida, ela não tinha mãos a medir nas suas novas funções de responsável pelo maior centro de cuidados de saúde do Egito. O decreto de Tuya, a rainha-mãe, imediatamente aprovado pelo vizir, tinha merecido a aprovação da equipa de médicos, cirurgiões e farmacêuticos que trabalhavam no hospital.

 

 O administrador provisório, que bloqueava a entrega dos medicamentos à jovem médica, fora despromovido para o posto de enfermeiro e ocupava-se agora dos entrevados.

 

Néféret deixou bem claro aos escribas encarregados da gestão que a sua vocação era tratar, e não dirigir um corpo de funcionários; pediu também que respeitassem as ordens emanadas do escritório do vizir, que ela não tinha qualquer intenção de discutir. Este tipo de atuação atraiu muitos adeptos à causa da nova diretora, que trabalhava em estreita colaboração com os diferentes especialistas. Ao hospital passaram a acorrer pessoas em estado grave, que os médicos da cidade e das aldeias tinham sido incapazes de curar, e algumas dessas pessoas mostravam grande satisfação e desejo de beneficiarem de uma cura preventiva, de forma a evitar o aparecimento ou agravamento de certos males. Néféret passava a maior parte do tempo no laboratório, cabendo-lhe a tarefa de preparar os fármacos e manipular as substâncias tóxicas.

 

 Uma vez que a sinusite se estava a agravar, e vendo-se entregue a si próprio, Paser decidiu ir ao único sítio onde lhe dariam alguma atenção: o hospital central de Mênfis.

 

 Atravessar os jardins que precediam o edifício foi um prazer. Nada fazia sentir a presença tão próxima do sofrimento. Uma enfermeira afável acolheu o visitante.

 

 Que posso fazer por ti?

 

 Trata-se de uma urgência. Quero consultar Néféret, a diretora do hospital.

 

 Hoje, é impossível.

 

 Mesmo para o marido?

 

 És tu o deão do pórtico?

 

 Creio bem que sim.

 

 Segue-me, por favor.

 

 A enfermeira conduziu-o através de uma verdadeira instalação balnear, que compreendia diversos quartos equipados com três cubas de pedra: a primeira para imersão total, a segunda para banhos de semicúpio e a terceira para os joelhos e pés. Outros locais eram reservados às curas de sono. Pequenos compartimentos bem arejados albergavam os doentes que os médicos vigiavam permanentemente.

 

 Néféret procedia a uma experiência magistral, e marcava o tempo de coagulação de uma determinada substância, consultando uma clépsidra. Dois farmacêuticos experientes davam-lhe assistência. Paser esperou pelo fim da experiência para se manifestar.

 

Poderá um paciente beneficiar dos teus cuidados?

 

 É assim tão urgente?

 

 Urgentíssimo.

 

 Conservando o ar sério a muito custo, Néféret conduziu-o a um consultório. O juiz espirrou mais de uma dúzia de vezes, de forma atroadora.

 

 Hum... Não estás a fingir. Dificuldades respiratórias?

 

 Um zumbido no peito, desde que deixaste de te ocupar de mim.

 

 E os ouvidos?

 

 O esquerdo, completamente tapado.

 

 Tens febre?

 

 Um pouco.

 

 Deita-te no banco de pedra. Tenho de ouvir o bater do teu coração.

 

 Já conheces a sua voz.

 

 Estamos num local de respeito, juiz Paser. Peço-te que leves as coisas mais a sério.

 

 Durante a auscultação, o deão do pórtico manteve-se muito quieto.

 

 Tinhas razão para te queixares. É indispensável um novo tratamento.

 

 No laboratório, Néféret serviu-se de uma vara de vedor para seleccionar o fármaco apropriado. Colocou-se por cima de uma planta robusta, de largas folhas verde-pálído de cinco lobos e bagas muito vermelhas.

 

 Briónia disse ela. Um veneno temível. Usando-o diluído, eliminará a congestão que te aflige e desobstruirá os brônquios.

 

 Tens a certeza?

 

 Assumo inteira responsabilidade.

 

 Põe-me bom depressa. Os escribas devem estar a amaldiçoar o  meu atraso.

 

 Uma agitação pouco habitual reinava no escritório do juiz. Os funcionários, pessoas geraLnente moderadas, habituadas a falar em voz baixa e comedidos nos gestos, interrogavam-se hesitantes, sem saberem como agir. Uns advogavam a espera, na ausência do patrão; outros a firmeza de ação, com a condição de não serem eles a exercê-la; outros ainda chegavam mesmo a exigir a intervenção da polícia. Espalhados pelo chão, viam-se tabuinhas partidas e papiros rasgados. A chegada de Paser impôs silêncio.

 

 Foram assaltados?

 

 Por assim dizer respondeu um ancião, aterrado. Não conseguimos suster essa louca. Ela está agora no teu gabinete.

 

 Intrigado, Paser atravessou a grande sala onde trabalhavam os escribas e entrou no seu escritório. Ajoelhada sobre uma esteira, Pantera vasculhava entre os arquivos.

 

 O que procuras?

 

 Quero saber onde escondeste Suti.

 

 Levanta-te e sai daqui.

 

 Não antes de saber a verdade!

 

 Não exercerei qualquer violência sobre ti, mas olha que mando chamar o Kem.

 

 A ameaça surtiu efeito. A líbia de cabelos loiros obedeceu.

 

 Vamos discutir este assunto lá fora.

 

 Ela saiu à frente dele, sob o olhar intrigado dos escribas.

 

 Voltem ao trabalho ordenou Paser.

 

 Paser e Pantera encaminharam-se apressados para uma viela esconsa. Era dia de mercado e os comerciantes assediavam os camponeses que vinham à cidade vender os seus frutos e legumes, numa roda viva de negociações. O juiz e a líbia escaparam à onda humana e refugiaram-se na viela deserta e silenciosa.

 

 Quero saber onde está escondido Suti insistiu ela, lavada em lágrimas. Desde a sua partida que só penso nele. Esqueço até de me perfumar e de me pintar, perco a noção do tempo, dou comigo a vaguear pelas ruas.

 

 Ele não está escondido, mas tem em mãos uma missão delicada e perigosa.

 

 Com outra mulher?

 

 Não. Sozinho e sem ajuda.

 

 No entanto, ele casou!

 

Essa união pareceu-lhe necessária, no quadro da sua investigação.

 

Mas eu amo-o, juiz Paser, amo-o perdidamente. Será que me compreendes?

 

Paser sorriu.

 

Mais do que supões.

 

Onde está ele?

 

Em missão secreta, Pantera. Se eu falar, ponho-o em perigo.

 

Juro-te que não! Os meus lábios ficarão selados. Emocionado, persuadido da sinceridade desta amante tão ardentemente apaixonada, o juiz não resistiu.

 

Ele inseriu-se num grupo de mineiros que partiu de Coptos. Pantera, doida de alegria, deu-lhe um beijo na face direita.

 

Jamais esquecerei a tua ajuda. Se for obrigada a matá-lo, serás o primeiro a saber.

 

Os rumores espalharam-se por todas as províncias de norte a sul. Em Pi-Ramsés, a grande residência real do Delta, em Mêmfis e em Tebas, depressa chegaram às diversas administrações, semeando a incerteza no espírito dos responsáveis encarregados de aplicar as diretivas do vizir.

 

Depois de ter resolvido um problema imobiliário respeitante a dois primos que tinham comprado o mesmo terreno a um vendedor desonesto que foi condenado a reembolsá-los do dobro dos valores recebidos, o deão do pórtico leu o relatório do general Asher sobre o estado do exército egípcio, fonte das mais perturbantes inquietações.

 

 O oficial graduado considerava instável a situação na Ásia, devido ao empobrecimento constante do número de egípcios encarregados da vigilância dos pequenos territórios, prontos a confederar-se em torno do cajado de Adafi, o líbio inatingível. A qualidade do armamento era insuficiente. Depois da vitória sobre os Hititas, instalara-se o descuido. Quanto ao estado dos quartéis do interior do país, também não era mais satisfatório: cavalos mal tratados, carros danificados e votados ao abandono, indisciplina generalizada, oficiais mal organizados. Em caso de tentativa de invasão, seria o Egito capaz de resistir?

 

O impato deste texto seria profundo e duradouro. Que intuitos moviam Asher? Se o futuro estivesse do seu lado, o general iria aparecer como um profeta lúcido e ascenderia a uma posição fortíssima, a de um possível Salvador. Se Ramsés lhe desse crédito, Asher iria impor as suas exigências e reforçaria a sua influência.

 

 Paser pensou em Suti. Àquela hora, por que inóspitos caminhos andaria ele à procura de uma prova impossível contra este assassino que queria ditar ao país a sua estratégia militar?

 

 O juiz convocou Kem.

 

 Podes levar a cabo uma investigação rápida no quartel-general de Mênfis?

 

 Para investigar o quê?

 

 A moral das tropas, o estado do material, a saúde dos homens e dos cavalos.

 

 Não tem qualquer problema, mas só com um mandato.

 

 O juiz apresentou um motivo plausível: procurar um carro de assalto que tinha atropelado várias pessoas e conservava marcas do choque.

 

 Não percas tempo.

 

 Paser precipitou-se para junto de Bel-Tran, às voltas com o inventário das colheitas. Os dois homens subiram à açoteia do edifício dos serviços administrativos, fora do alcance dos ouvidos indiscretos..

 

 Leste o relatório de Asher?

 

 Uma exposição assustadora.

 

 Suponhamos que esteja correta.

 

 Terás, por acaso, uma opinião diferente?

 

 Suspeito que tenha agravado a situação para daí tirar proveito.

 

 Tens provas?

 

 Comecemos por reuni-las o mais depressa possível.

 

 Asher será inculpado.

 

 Isso ainda não é certo. Se Ramsés aceitar o seu ponto de vista, o general terá completa liberdade de ação. E quem ousará atacar o salvador da pátria.

 

Bel-Tran concordou com o chefe.

 

 Querias ajudar-me? Pois o momento chegou.

 

 O que queres que eu faça?

 

 Que tires informações sobre os nossos contingentes no estrangeiro e sobre os investimentos em material de guerra durante os últimos anos.

 

 Isso não vai ser fácil, mas vou tentar.

 

 De volta ao gabinete, Paser escreveu uma longa carta a Kani, o sumo-sacerdote de Carnaque, ao qual pedia informações sobre a qualidade das tropas na região tebana e o valor do seu equipamento. A carta foi redigida em código, a partir do termo ”planta medicinal”, especialidade de Kani, e confiada a um mensageiro digno de confiança.

 

 Nada a assinalar declarou Kem.

 

 Sê mais preciso exigiu Paser.

 

 O quartel está calmo, as instalações estão em bom estado e o material também.

 

 Examinei cinquenta carros que os oficiais conservavam com tanto cuidado quanto os seus cavalos.

 

 Que pensam eles do relatório de Asher?

 

 Acreditam nele, e estão convencidos de que se refere aos outros quartéis. Por descargo de consciência, fui inspeccionar o que se encontra mais a sul.

 

 E os resultados?

 

 Idênticos: nada a assinalar. E também aí julgam que a crítica é válida, mas... para os outros.

 

 Paser e Bel-Tran encontraram-se no átrio do templo de Ptah, cheio de gente inativa, cavaqueando, indiferente às entradas e saídas dos sacerdotes.

 

 Sobre o primeiro ponto, tudo o que obtive foram indicações contraditórias, uma vez que o general omite qualquer informação sobre o exército da Ásia. Oficialmente, os nossos contingentes diminuíram, precisamente quando a agitação começa a aumentar; mas um escriba do recrutamento garantiu-me que a lista de efetivos se mantinha inalterável. Por momentos, a verdade foi fácil de estabelecer, uma vez que o orçamento do exército é depositado no Tesouro. Os investimentos são estáveis já há muitos anos, e não se assinalou nenhuma falta de material.

 

 Então, Asher mentiu.

 

 O seu relatório é subtil. Apresenta os fatos de forma alarmista, mas sem afirmações categóricas. Há muitos oficiais superiores que o apoiam, muitos cortesãos temem as investidas hititas e, entretanto, Asher transforma-se num herói... E não será até salutar o sobressalto que ele provoca?

 

 Bravo dormia enroscado ao colo do dono, sentado perto do lago coberto de flores de lótus. Uma brisa arrepiava docemente o pêlo do cão e o cabelo do juiz. Néféret consultava um papiro médico que Diabrete teimava em enrolar, apesar das advertências da jovem. O derradeiro clarão do dia banhava de tons alaranjados o jardim; melharucos, pintarroxos e andorinhas entoavam as suas melodias vespertinas.

 

 O estado do nosso exército é excelente. O relatório de Asher é um chorrilho de invenções, cujo propósito é apenas instalar o pânico entre as autoridades civis e enfraquecer o moral das tropas, a fim de as ter mais facilmente nas mãos.

 

 Porque será que Ramsés não o condena? perguntou Néféret.

 

 Porque confia nele, devido às façanhas cometidas no passado.

 

 O que fazer, então?

 

 Apresentar as conclusões do meu inquérito ao vizir Bagey, que as transmitirá ao faraó. Serão corroboradas por Kem e Karri, que acabam de me dar o seu consentimento.

 

 Tanto em Tebas como em Mênfis, o nosso potencial militar está intato. O vizír vai estender as averiguações a todo o país e vai fazer frente a Asher.

 

 Será este o fim do general?

 

 Não cantemos vitória. Ele vai protestar, clamar a sua boa-fé e o seu amor pelo país, e acusará os subordinados de lhe terem transmitido falsas informações. Mas o seu ímpeto será quebrado, e conto tirar daí grandes vantagens.

 

 De que maneira?

 

 Defrontando-o.

 

O general Asher vigiava a movimentação de carros no deserto.

 

Cada carro levava dois homens a bordo; o oficial desfechava o arco sobre um alvo em movimento, enquanto o ajudante manejava as rédeas, lançando o veículo a grande velocidade.

 

Quem se mostrasse inábil era excluído do corpo de elite. Dois soldados de infantaria suplicaram ao deão do pórtico que esperasse algum tempo e não se aventurasse na zona de manobras. Uma flecha perdida podia atingir um imprudente.

 

Asher, coberto de pó, deu finalmente voz de descansar. Sem pressa, dirigiu-se ao juiz.

 

 O teu lugar não é aqui.

 

 Nenhuma parcela do território me está vedada.

 

 O rosto de fuinha crispou-se. Pequeno, entroncado e de pernas curtas, Asher, irritado, coçou a cicatriz que lhe riscava o peito, do ombro até ao umbigo.

 

 Vou lavar-me e mudar de roupa. Vem comigo.

 

 Asher e Paser entraram no bloco sanitário reservado aos oficiais superiores. Enquanto um soldado dava banho ao general, o juiz atacou.

 

 Contesto o teu relatório.

 

 A que título?

 

 Informações inexatas.

 

 Não sendo soldado, as tuas apreciações estão desprovidas de valor.

 

 Não se trata de apreciações, mas de fatos.

 

 Refuto-os.

 

 Sem os conheceres?

 

 São fáceis de adivinhar! Foste visitar dois ou três quartéis, mostraram-te meia dúzia de carros reluzentes, novinhos em folha, e alguns soldados encantados com a vida que levam. És ingénuo e incompetente; levaram-te à certa!

 

 Dirias o mesmo do chefe da polícia e do sumo-sacerdote de Carnaque?

 

A pergunta embaraçou o general. Mandou sair o soldado e ele mesmo se secou.

 

Não passam de homens muito novos, tão inexperientes como tu.

 

 Esse argumento é muito fraco.

 

 Que mais queres tu, juiz Paser?

 

 Sempre o mesmo tesouro: a verdade. O teu relatório é falso. Foi essa a razão que me levou a enviar ao vizir as minhas observações e objeções.

 

 Pois tu ousaste...?

 

 Não se trata de ousadia, mas sim do cumprimento de um dever.

 

 Asher ficou como louco.

 

 Essa tua atitude é uma estupidez! Vais arrepender-te amargamente.

 

 O vizir Bagey a julgará.

 

 O perito sou eu!

 

 O nosso potencial bélico não se degrada, e tu sabe-lo bem. O general vestiu uma tanga curta. Os seus gestos descontrolados traíam o seu nervosismo.

 

 Escuta, Paser: pouco importam os pormenores, o que conta é o espírito do texto.

 

 Esclarece-me mais detalhadamente.

 

 Um bom general deve prever o futuro, a fim de assegurar a defesa do país.

 

 Mas será que ela justifica, declarações alarmistas e sem fundamento?

 

 Tu não podes entender.

 

 Será que existe alguma ligação entre o relatório e as atividades de Chéchi?

 

 Deixa o Chéchi em paz.

 

 Gostaria de o interrogar.

 

 Impossível; está incomunicável.

 

 Por tua ordem?

 

 Sim, por minha ordem.

 

 Lamento, mas tenho de insistir. A voz de Asher tornou-se melíflua.

 

 Se tentei chamar a atenção do rei, do vizir e do Supremo Tribunal ao insistir nas nossas fraquezas militares, foi com a intenção de as eliminar e de obter um acordo definitivo sobre o fabrico de uma nova arma  que nos tornará invencíveis.

 

 A tua ingenuidade surpreende-me, general.

 

 Os olhos de Asher semicerraram-se como os de um gato.

 

 Que estás a insinuar?

 

 A tua famosa arma é sem dúvida uma espada indestrutível fabricada com ferro celeste.

 

 Espada, lança, punhal... Chéchi trabalha sem descanso. Vou exigir que lhe seja restituído o bloco guardado no templo de Ptah.

 

 Então, sempre lhe pertencia.

 

 O essencial é que o utilize.

 

 Algumas crenças conseguem iludir até os espíritos mais desconfiados.

 

 Que queres dizer com isso?

 

 Que o ferro celeste não é inquebrável.

 

 Estás a delirar!

 

 Chéchi ou está a mentir, ou a iludir-se a si próprio. Os especialistas de Carnaque confirmarão as minhas afirmações. O uso desse metal raro nos rituais fez-te sonhar, sem razão. Se o teu desejo era possuíres um instrumento de poder com o acordo forçado da autoridade suprema, caíste num logro.

 

 No seu rosto afilado de fuinha estampava-se uma incomensurável perplexidade. Será que Asher não tinha consciência de ter sido enganado pelo seu próprio cúmplice?

 

 Mal o juiz deixou as instalações sanitárias, o general pegou numa bilha de barro cheia de água morna e atirou-a violentamente contra a parede.

 

 

Suti desapertou a correia e estendeu a esteira numa rocha plana. Exausto, deitou-se de costas e contemplou as estrelas. O deserto, as montanhas, a rocha, a mina, as galerias demasiado aquecidas, onde era preciso rastejar, ficando-se todo esfolado... A maior parte dos homens não paravam de se queixar e já lamentavam ter-se metido numa aventura mais esgotante que lucrativa. Mas Suti sentia-se plenamente satisfeito. Por momentos, a beleza avassaladora da paisagem fazia-o até esquecer o general Asher. Ele, que amava os prazeres da cidade, não tinha a mais pequena dificuldade em se adaptar a estas regiões hostis, como se sempre aí tivesse vivido.

 

 Na areia, à sua esquerda, ouviu um silvo caraterístico. Uma serpente de chifres passava perto da esteira deixando um rasto ondulado atrás de si. Na primeira noite, tinha seguido atentamente os movimentos do réptil; mas ao pavor sucedia-se o hábito. Por instinto, sabia que não seria mordido; os escorpiões e as serpentes não o assustavam. Como hóspede no seu território, respeitava os seus costumes e temia-os menos do que a carraça das areias, ávida de sangue, que concentrava os seus ataques em determinados mineiros. A sua mordedura era dolorosa, e a carne inchava e infetava. Por sorte, Suti não atraía este tipo de piolho contra o qual Efraim lutava, aspergindo-se com uma loção à base de maravilha-bastarda.

 

 Apesar da viagem fatigante, o jovem não conseguia adormecer. Levantou-se e caminhou lentamente em direção a um curso de água banhado pelo luar. Só um louco se aventuraria sozinho no deserto, e à noite; divindades temíveis e animais fantásticos circulavam livremente a essa hora e devoravam os imprudentes, cujos cadáveres não mais eram encontrados. Se quisessem livrar-se dele, o momento e o local eram perfeitos.

 

 Um ruído alertou Suti. No fundo do desfiladeiro, onde a água das chuvas borbulhava por altura das trovoadas, um antílope com hastes em forma de lira esgravatava a terra com obstinação, em busca de uma nascente. Ao seu encontro, veio um outro antílope de longas hastes pouco retorcidas e pelagem branca; os dois quadrúpedes eram a encarnação do deus Seth, de quem possuíam o inesgotável dinamismo. Não se tinham enganado; não tardou que as suas línguas lambessem o precioso líquido que brotava por entre duas rochas circulares. A seguir, vieram uma lebre e uma avestruz. Fascinado, Suti sentou-se. A nobreza dos animais e a sua felicidade eram um espetáculo secreto que guardaria para si como uma recordação eterna.

 

 Efraim colocou-lhe a mão no ombro:

 

 Gostas muito do deserto, rapaz. Olha que é um vício. Se continuas a alimentá-lo, vais acabar por ver o monstro com corpo de leão e cabeça de falcão, que nenhum caçador trespassará com as suas flechas nem apanhará com o seu laço. Para ti, será tarde de mais. O monstro vai apanhar-te nas suas garras e arrastar-te para as trevas.

 

 Por que razão não gostas dos Egípcios?

 

 Sou de origem hitita. Nunca hei-de aceitar a vitória do Egito. Aqui, neste território, quem manda sou eu.

 

 Há quanto tempo diriges as equipas de mineiros?

 

 Há cinco anos.

 

 E não enriqueceste?

 

 És muito curioso.

 

 Se tu não conseguiste, isso quer dizer que eu também vou ter problemas.

 

 Quem te disse que eu não consegui?

 

 Bom, sendo assim, fico mais tranquilo.

 

 Mas não deites foguetes antes do tempo.

 

 Se estás rico, para quê tanto suor e cansaço?

 

 Detesto o vale, os campos e o rio. Estivesse eu afogado em ouro, e ias ver se eu deixava as minhas minas...

 

 Afogado em ouro... Essa expressão agrada-me. Até agora, só nos fizeste explorar minas esgotadas.

 

És muito observador, rapaz. Mas diz-me lá se pode existir melhor treino? Quando o trabalho a sério começar, os mais robustos estarão prontos a escavar as entranhas da montanha.

 

 Quanto mais cedo, melhor.

 

 Estás assim com tanta pressa?

 

 Esperar... para quê?

 

 Muitos foram os insensatos que seguiram o trilho do ouro, e quase todos falharam.

 

 Os filões não foram assinalados?

 

 Os mapas pertencem aos templos, e de lá não saem. Quem tentar roubar ouro é imediatamente preso pela polícia do deserto.

 

 E é impossível escapar-lhe?

 

 Os seus cães estão em toda a parte.

 

 Então, tu tens os mapas na cabeça. O barbudo sentou-se ao lado de Suti.

 

 Quem te disse isso?

 

 Ninguém, fica tranquilo. Mas sei que não és homem de guardar documentos por aí.

 

 Efraim apanhou uma pedra, fechou a mão e esmigalhou-a.

 

 Se tentares abusar da minha boa-fé, destruir-te-ei.

 

 Quantas vezes será preciso dizer-te que o meu único objetivo é a riqueza? Quero ter uma grande quinta, cavalos, carros, servos, um pinhal, um...

 

 Um pinhal? Mas não há disso aqui no Egito!

 

 E quem falou no Egito? Eu não quero ficar neste maldito país. É na Ásia que pretendo instalar-me, num principado onde o exército do faraó não entre.

 

 Começas a interessar-me, rapaz. És um criminoso, não és? Suti ficou calado.

 

 A polícia anda à tua procura e esperas escapar-lhe escondendo-te entre os mineiros. Mas eles são piores que cães de fila e farão tudo para te apanhar.

 

 Desta vez, não me vão apanhar vivo.

 

 Estiveste preso?

 

 Nunca mais voltarei a estar preso.

 

 Qual o juiz que te persegue?

 

Paser, o deão do pórtico. Efraim deu um assobio expressivo.

 

 És caça graúda! Com a morte desse juiz, muitos como tu hão-de festejar num famoso banquete.

 

 Ele é obstinado.

 

 Talvez o destino lhe seja adverso.

 

 A minha bolsa está vazia, e eu tenho pressa.

 

 Agradas-me, rapaz, mas não vou correr riscos. Amanhã, vamos cavar para encontrar coisas boas. Veremos do que és capaz.

 

 Efraim tinha dividido os seus homens em dois grupos.

 

 O primeiro, o mais numeroso, recolhia o cobre, indispensável ao fabrico dos instrumentos, especialmente cinzéis de canteiro; este metal, depois de martelado e lavado, era fundido no próprio lugar da extração em fornos rudimentares e deitado em moldes. O Sinai e os desertos circundantes forneciam importantes quantidades de cobre que, no entanto, era preciso importar da Síria e da Ásia Ocidental, tal era a procura por parte dos construtores. O exército também o consumia, juntando-o ao estanho a fim de obter espadas resistentes

 

 O segundo grupo, onde se encontrava Suti, era apenas composto por uns dez homens resolutos, e cada um deles sabia que as maiores dificuldades iam começar agora. Diante deles, deparou-se-lhes a entrada de uma galeria, qual boca do inferno escancarada para as profundezas, ocultando, quem sabe, um tesouro. Pendurada ao pescoço dos mineiros, estava a bolsa de couro que, caso tivessem sorte, ficaria a transbordar. Como vestimenta, usavam apenas uma tanga de couro, e tinham o corpo coberto de areia.

 

 Quem entraria primeiro? Esse era o lugar melhor e também o mais perigoso. Suti foi empurrado, mas voltou-se para trás e começou a bater nos outros; a algazarra foi geral. Efraim interrompeu-os, levantando pelos cabelos um pequeno lutador que gritava de dor.

 

 Tu, ordenou passa para a frente.

 

 A fila organizou-se. A passagem era estreita e os mineiros tiveram de se curvar, procurando apoios. Os olhares fixavam-se nas paredes em busca de um metal precioso de que Efraim não tinha determinado a natureza. O que seguia à frente, em passo rápido, levantava poeira; o segundo, asfixiado, empurrou-o pelas costas. Surpreendido, o homem perdeu o equil&iacut