Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A LENDA DA PEDRA FALANTE / Jocelyn Kelley
A LENDA DA PEDRA FALANTE / Jocelyn Kelley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

A Abadia de São Judas é bem diferente de um mosteiro comum. Ali as noviças são especializadas em técnicas de luta. Elspeth Braybrooke é uma dessas guerreiras E é a escolhida para encontrar llech-lafar, a amaldiçoada pedra que causará a morte do monarca inglês. Segundo a lenda, o rei, que está de regresso após uma batalha na Irlanda, na qual se saiu vencedor, irá morrer ao pisar na pedra. Elspeth tem a missão de encontrar a pedra e impedir que a profecia se concretize. Tarran ap Llyr, um nobre galês, está fazendo o mesmo caminho dela, porém com outro objetivo: encontrar o homem que assassinara sua esposa. Durante a viagem, ao passar por um castelo, ele vê Elspeth pendurada no alto de um muro e se apressa em socorrê-la. Tarran, sem saber de quem se trata, convida-a a seguir viagen com sua caravana, na tentativa de protegê-la, mesmo Elspeth insistindo que não precisa de proteção. Apesar de se sentiren atraídos um pelo outro, estão presos em seus juramentos. Um não pode confiar no outro. Elspeth fora treinada para combater guerreiros e proteger o reino da Inglaterra, mas seu coração não possuía nenhuma defesa. Tarran vivera até então com o coração clamando por vingança. Inimigos? Traidores? Apaixonados? Ninguém saberia dizer.

Jocelyn Kelley é especialista em romances históricos. Pesquisadora do século XII, a ambientação de seus romances é sempre fiel a realidade. Sua escrita empolgante, sua imaginação fértil com mesclas de informações históricas fazem de seus livros best sellers no mundo inteiro.

 

 

 

 

                                       Capítulo I

 

— Cuidado!

Ao aviso de alerta, Elspeth Braybrooke esquivou-se instintivamente do golpe que poderia ter sido fatal. Aespada passou rente à cabeça. Não seria exagero dizer que ela escapou por um triz de cair morta ou gravemente ferida.

A reação não se fez esperar. Com um grito de guerra, ela investiu contra a adversária, obrigando-a a recuar. Deslizou as mãos pelo cajado de quase dois metros de comprimento e girou-o de modo a prendê-lo pela extremidade enquanto endireitava o corpo e retomava a posição. Concentrou todas as forças no revide. Ao impacto do golpe, mesclou-se um grunhido, mas ela não se deixou impressionar nem distrair. Voltou ao ataque antes que tivesse de se proteger de uma ofensiva.

O bastão que também costumava chamar de espada de madeira pareceu adquirir vida própria ao ser manejado em círculos até atingir a parte posterior dos joelhos e ser retirado no intervalo de tempo exato para levar a adversária ao chão. O rápido posicionamento da espada sobre o pescoço determinou o fim da luta.

De pé, Elspeth estendeu a mão e ajudou a aluna a se levantar.

— Mostre-me como executou aquele movimento, irmã Elspeth — pediu a aprendiz, corada do esforço e da excitação da luta, enquanto curvava o corpo em saudação à instrutora.

Elspeth esperou pelo término da reverência antes de responder com um sorriso ao grupo de seis alunas.

— Amanhã, irmã Dominique. Se prosseguirmos com a demonstração, chegaremos atrasadas às vésperas. O sol está quase se pondo, o que significa que os serviços religiosos terão início em instantes. Além disso, vocês estão exaustas. Tenho certeza de que bastaria exigir um único movimento adicional a seus músculos para eu ser obrigada a providenciar a remoção de cada uma em macas até o leito.

Irmã Dominique enxugou a fronte e a nuca com a manga da túnica branca e agitou os cabelos loiros e úmidos de suor.

— Se a irmã não contar à abadessa, talvez nossa ausência passe despercebida.

— Mas hoje é dia de missa cantada, e adoro nosso coro — Elspeth protestou. — O comparecimento às celebrações na capela é sempre importante, mas imprescindível na época da Quaresma. Se a abadessa descobrir que uma de nós se recusou a participar das orações, ficará decepcionada, com razão.

— É verdade — irmã Dominique hesitou por um instante, mas acabou concordando.

Elspeth bateu palmas e indicou o caminho para a pequena e graciosa construção com janelas em arcos e para a torre que apontava para o céu. Ao primeiro olhar, a capela parecia mais elaborada do que realmente era. Seu interior era humilde. Duas colunas sustentavam o teto. Não havia bancos nem genuflexórios que impedissem a livre circulação desde a porta até o altar, porque as irmãs permaneciam de pé durante todo o ofício.

— Vamos! Não há tempo a perder. Enquanto vocês se recompõem, cuidarei de guardar o material. Encontro-as lá. Não quero perder sequer uma nota do cântico de abertura.

As noviças apoiaram os cajados contra a parede antes de seguirem para os aposentos e se lavarem. Elspeth permaneceu no recinto por mais alguns minutos. Fazia questão de deixar tudo em ordem ao final do dia, de modo a encontrar a sala pronta para a retomada dos exercícios ao amanhecer.

Estava tão cansada que temia não conseguir se manter atenta durante a missa. Com a submissão do inverno à aproximação da primavera, o sol vinha nascendo mais cedo a cada manhã, e as aulas iniciavam com a aurora.

Ao deixar a sala de treinamento que ficava bem atrás do refeitório, Elspeth assobiou sua canção preferida. Esperava que estivesse incluída no repertório daquela noite. A melodia era complicada, mas sob a regência da maestrina as notas ecoavam gloriosas pela nave. Desejaria fazer parte do coro. Amava o canto. Todavia, o trabalho que fora chamada a desenvolver em segredo na reclusão da abadia tomava quase todo seu tempo. Por outro lado, talvez essa impossibilidade revertesse para seu bem e o das componentes do coro, porque sua voz se elevava espontânea seguindo a música ditada pelo coração, não pelos movimentos da batuta. Ela teria dificuldade em ser freada no acompanhamento das regras e das outras vozes.

— Estou faminta. Se a hora da refeição não estivesse tão próxima, talvez arriscasse pegar um biscoito — Elspeth falou consigo mesma ao descer os degraus que conduziam aos porões onde costumava guardar as armas e que também serviam como depósito de suprimentos e provisões.

A abadessa ralhava com ela por falar sozinha, mas esse era um hábito do qual não conseguia se livrar. Ou talvez não quisesse realmente, porque muitas vezes precisava recorrer à distração da própria voz para não se sentir solitária. Mas não foi o som de sua voz naquele momento nem o de seus passos que ela ouviu ao guardar os bastões dentro do armário de carvalho. Também tinha certeza de que a sombra que deslizou pela janela não era fruto de sua imaginação.

— Irmã Elspeth?

— Estou aqui!

— Ela está aqui!

Elspeth olhou para a outra irmã com estupefação, certa de que aquelas mesmas palavras estavam sendo sussurradas com idêntica perplexidade por cada uma das internas ao longo dos corredores da abadia, desde o portão de entrada até a capela, passando pelos estábulos e pela antecâmara da ala privativa da abadessa.

O pronunciamento daquelas três simples palavras sempre inspirava esse tipo de reação. As irmãs e as serviçais mal podiam esperar para se reunirem no refeitório, se ela chegasse durante o dia, ou no dormitório, se ela chegasse à noite.

Ninguém que vivesse na abadia de São Judas precisava perguntar quem ela era. A mera suspeita de que a rainha Eleanor de Aquitaine, casada com o rei Henrique II, as estava visitando, todos os corações tinham o ritmo acelerado e todas as respirações ficavam em suspenso. Cada uma das mulheres que se encontrava sob a proteção daquele teto sabia que devia eterna gratidão a sua fundadora e mantenedora.

— Ela está aqui? — Elspeth repetiu para quebrar o silêncio.

— Sim, e a abadessa quer que você se apresente imediatamente na clausura.

— Mas está na hora da missa — Elspeth lembrou — e o padre repudia atrasos. No ano passado, quando aconteceu de eu me atrasar por causa de...

— Irmã, você não escutou o que eu disse? Ela está aqui! Elspeth não tornou a insistir. Em respeitoso silêncio, fez um sinal de concordância e acatou a ordem sem mais discussões. A presença da rainha mudava completamente a rotina no mosteiro. Em seu nome, até mesmo uma ausência à missa era justificada. Mas não o bastante para explicar seu comparecimento perante a superiora em trajes inadequados. Regras eram regras. Sua túnica estava suja e os cabelos, naturalmente ondulados e ruivos, estavam despenteados e soltos em cascata sobre os ombros. Mas, entre deixar a abadessa esperando e levar uma advertência, Elspeth resolveu optar pela segunda alternativa. Não seria a primeira vez. Algum tempo antes, também precisara se desculpar pelo traje e o de suas alunas durante o jantar. Não lhe parecera cabível se absterem da refeição por ela ter perdido a noção do tempo e se atrasado para encerrar a aula.

Ao atravessar o pátio de terra batida, Elspeth olhou para o chafariz, como sempre fazia, e notou algo que lhe passara despercebido da janela. As primeiras flores da primavera já haviam desabrochado ao redor da fonte, e as delicadas hastes tremulavam sob a brisa.

Algumas irmãs se dirigiam, apressadas, para a capela. Cumprimentou-as com um aceno, sem se deter.

Surpreendeu-se ao ouvir seu nome ser chamado. A uma pequena distância, três irmãs olhavam para ela com expectativa, e a abadessa, que estava entre elas, lhe fez sinal para que se aproximasse.

Do lado esquerdo da abadessa, a mais alta das três mulheres, estava Nariko, trazida pela rainha de uma cidade nas proximidades de Jerusalém para trás daqueles muros. A pele morena, os cabelos longos e pretos, os olhos amen-doados e os malares salientes lhe conferiam beleza exótica. Era mestre em artes marciais. Por sua destreza e conhecimento, lhe fora confiado o treinamento concedido apenas à elite da abadia. Seus métodos de luta jamais haviam sido vistos na Inglaterra. Era dom e herança de família. Sem recorrer a armas, o pai lhe ensinara a se defender com movimentos do próprio corpo, e era essa a técnica que as irmãs aprendiam sob sua orientação.

A terceira mulher surgiu no campo de visão de Elspeth só depois que ela terminou de contornar o chafariz. Ao reconhecer a rainha, interrompeu o passo e deixou escapar um murmúrio de estupefação.

Eleanor de Aquitaine, ex-esposa do rei de França e atual rainha da Inglaterra, tornara-se famosa por sua inteligência e beleza. Com propriedade. Elspeth notou, admirada, que os anos não haviam cobrado tributos de Sua Majestade. Ela continuava linda desde a última vez que visitara o monastério em companhia do rei.

Elspeth se colocou de joelhos e curvou a cabeça em profundo respeito. Como seus pais teriam se sentido se ainda vivessem? Quando poderiam ter imaginado que a humilde filha seria chamada um dia à presença da rainha da Inglaterra? Que uma Braybrooke, nascida de pobres menestréis, seria convocada e apresentada à soberana de seu país?

— Ela não é tão alta quanto eu esperava — Elspeth ouviu a rainha dizer à medida que seu coração retomava o batimento normal e ela se levantava a um gesto de permissão.

— Não se deixe impressionar pelo tamanho de nossa irmã — garantiu a abadessa.

— Soube que é especialista em lutas orientais com espadas de madeira. Disseram-me que é a melhor nessa modalidade aqui dentro. Isso é verdade? — A rainha examinou Elspeth detalhadamente, da cabeça aos pés. — Não seja modesta. Gosto de pessoas autênticas e seguras de si.

— Aprendi várias modalidades de lutas, mas fui escolhida para ensinar as irmãs a manejarem espadas de madeira porque esse é o tipo de arma que prefiro. Eu... — Elspeth se deteve ao ver a abadessa franzir o rosto. Falar demais era seu maior defeito. Não conseguia evitá-lo. Principalmente se ficava nervosa.

— Ser especialista em algo não significa saber ensinar

— a rainha retrucou e se voltou para Nariko. — Espero que não se ofenda com minhas palavras, minha cara amiga, mas isso é uma realidade.

— Em absoluto, Majestade. — Nariko respondeu com um de seus raros sorrisos. — Tive grande satisfação em poder lhe apresentar uma de minhas melhores alunas.

— Espero que ela corresponda à descrição que me fez.

— A rainha fez um gesto com a cabeça e Elspeth seguiu a direção de seu olhar. Estremeceu ao deparar com a figura de um desconhecido alto e moreno. Jamais nenhum homem, com exceção do padre, tivera permissão de penetrar naqueles domínios santificados. Ao vê-lo brandir a espada, analisou-o aos mesmos moldes que a soberana, chegando à conclusão de que sua destreza refletia longas horas de treinamento.

— Elspeth — alguém sussurrou as suas costas.

Irmã Dominique deveria ter sido instruída a buscar sua espada no porão, porque pôde reconhecê-la antes mesmo que lhe fosse entregue. Não era a mesma que usava para dar aulas, feita exclusivamente com madeira de carvalho, mas um modelo especial para demonstrações com pontas de ferro.

De posse da espada, Elspeth olhou para a abadessa e recebeu ordens para se aproximar do outro lutador. Antes de obedecer, contudo, ela observou o terraço sob as arcadas além da clausura, onde diversas irmãs se reuniam para acompanhar a cena. Ninguém se movia apesar do insistente badalar do sino convocando para as vésperas. A não ser o oponente, que começou a andar em sua direção com um sorriso de complacência.

— Prometo não feri-la em demasia, irmã.

— É muito gentil de sua parte, mas dispenso regalias. Estou pronta para aceitar o desafio e lhe garanto que também procurarei ser cautelosa para não feri-lo demais...

Os olhos escuros do desconhecido estreitaram diante da ousadia de Elspeth em sugerir a possibilidade de vitória. Elspeth ignorou o descaso. Risinhos lhe chegaram aos ouvidos, mas foram imediatamente calados pela mensagem desferida pela abadessa com um único olhar.

Voltou-se lentamente para o homem que se movimentava em torno dela com a rapidez do vento e empunhou o cajado em ângulo oblíquo para preparar a defesa. Em obediência à tradição, Nariko lhes ensinara a sempre cumprimentar o adversário com uma inclinação de cabeça no início e ao final da luta. Jamais poderia adivinhar que o estranho fosse se aproveitar do momento reservado à saudação para arremeter contra ela. Perplexa com a recusa ignóbil em seguir o procedimento de honra, e atordoada com o golpe que teria sido violento caso o instinto não a fizesse saltar e se esquivar, Elspeth obrigou-se a rever sua posição. Os gritos de alerta eram sinal de que a abadessa não procederia à interrupção da luta e, se aquele homem não era digno de confiança, em seu entendimento estava liberada para lutar pelo êxito, sem obediência às regras de cordialidade.

Deslocou-se para a direita e meneou a espada. Ele ergueu os braços e aparou o golpe, mas o impacto o fez recuar vários passos. O inesperado de sua atuação provocou surpresa. Ela percebeu isso ao repetir a saudação, dessa vez sem afastar os olhos dos dele.

Indignado com a ironia do gesto, a julgar pelo modo como apertou os lábios, ele deu um grito de intimidação e tornou a atacar. Ela se manteve impassível apesar do alarido das irmãs e da ressonância das investidas em seus ouvidos. Ele era mais alto e a espada, mais longa. Em contrapartida, ela era mais ágil.

A medida que a luta prosseguia, Elspeth aprendia a conhecer cada vez melhor o oponente. Antecipava os movimentos dele pelas mudanças na maneira de segurar a espada. A rapidez a compensava pela desvantagem do tamanho, mas essa qualidade não foi suficiente para conservá-la invicta, porque com um golpe na parte posterior dos joelhos, exatamente como ela fizera com irmã Dominique, ele a derrubou.

Não a venceu, porém. A tentativa do adversário de pressionar a ponta da espada em sua garganta e dar a luta por encerrada, Elspeth tornou a atacar. Em um piscar de olhos, acertou-o no estômago, obrigando-o a se deslocar com a pressão que exerceu com a ponta da espada, de modo a lhe dar espaço para se levantar. E, com um salto, ela desferiu um golpe em seu peito e finalmente o derrubou.

Assim como ela fizera alguns segundos antes, o homem tentou revidar. Ela agitou a espada e tornou a investir. Golpeou-o na perna. Ao adivinhar que ele tombaria sobre ela e a arrastaria consigo, rodopiou de forma a impedir que isso acontecesse, já se preparando para a possibilidade de novo ataque.

Mas o homem não se moveu. Continuou no chão, deitado de costas, com os olhos fechados. Um fio de sangue escorria do canto da boca. Receosa de acudi-lo e ser vítima de um truque, aproximou-se devagar e tocou-o com o cajado. Ele não se mexeu. Ela colocou o cajado sob a mão dele e ergueu-a. Ele a deixou cair, sem esboçar nenhum gesto de controle.

Elspeth caminhou até o chafariz, apoiou a arma contra a borda e mergulhou as mãos em concha na água fria, que despejou sobre o rosto pálido. Ele voltou a si com um resmungo. Ela esperou até que abrisse os olhos. Nesse instante, apoderou-se novamente do bastão e pressionou-o contra o peito ainda arfante.

— Espero não tê-lo machucado demais — murmurou com deliberada provocação.

Ele rolou para o lado e fez duas tentativas de se levantar. Ela lhe ofereceu a mão, mas o orgulho masculino o impediu de aceitar. Obstinado, tentou se levantar por mais duas vezes, finalmente conseguindo o que queria com a ajuda da espada que fincou na terra. Limpou o sangue da boca com o dorso da mão e só então se dignou a responder:

— Não.

Dessa vez, a saudação foi aceita e retribuída. Elspeth ainda não havia se recobrado da surpresa quando um farfalhar de seda anunciou a presença da rainha. Não era para ela, portanto, que o homem se curvara. Deveria ter adivinhado que ele não admitiria homenagear a mulher responsável por sua derrota.

Não houve tempo para imitá-lo no cumprimento. A rainha lhe fez um gesto dispensando-a da reverência e lhe endereçou um sorriso seguido por um arquear de sobrancelha ao homem.

— Encontrou uma oponente à altura, dessa vez, sir Bernard. Foi prudente em recuar da batalha.

Ele ergueu a cabeça com altivez e as mãos crisparam sobre a espada.

— Gostaria de propor uma revanche.

— Talvez em outra ocasião — a rainha Eleanor respondeu com o leve sotaque que conservava de Aquitaine, sua terra natal, e tornou a olhar para a jovem ruiva, para proceder a uma nova e mais detalhada avaliação. — Lady EIspeth está comprometida com uma tarefa que desejo lhe incumbir de realizar.

Lady EIspeth? Ela não se atrevia a corrigir a rainha, mas por certo não poderia usar um título. Não era aristocrata. Certamente nunca se tornaria uma.

A rainha prosseguiu, como se lhe tivesse lido a mente.

— Toda e qualquer mulher da abadia de São Judas que for chamada a meu serviço recebe esse título.

— Peça o que quiser de mim. Vossa Majestade sabe que estou aqui para servi-la e que me sentirei honrada em... — Mais uma vez a abadessa a fez silenciar, mas o gesto não teve o poder de calar seus pensamentos. Até pouco mais de um ano antes, nenhuma das irmãs conseguia entender a razão de estarem recebendo treinamento de guerra. Nessa ocasião, a rainha as visitara pela primeira vez desde a fundação da abadia para buscar-lhes assistência.

Fora pela inteligência tática da rainha que a abadia de São Judas tivera origem. Em tempos de periculosidade, quando aliados se transformavam da noite para o dia em inimigos, era quando uma mulher de sabedoria precisava estar mais preparada para enfrentar batalhas. Não batalhas religiosas, mas aquelas que pudessem destituí-la do poder e enfraquecer o trono da Inglaterra.

São Judas, o patrono das causas impossíveis. A rainha dera o nome desse santo à abadia porque eram às mulheres que ali viviam que ela sabia que podia recorrer para salvar o governo e os súditos de ameaças mortais.Porque as damas da abadia de São Judas eram treinadas em várias modalidades de lutas medievais e marciais e consideravam grande honra serem chamadas para defender o país e o povo.

— Siga-me — a rainha ordenou.

As outras irmãs abriram espaço e Elspeth se apressou para acompanhar a soberana pelo caminho de cascalho sob olhares curiosos e amigáveis, e alguns também invejosos. Cada mulher ali presente gostaria que lhe fosse concedida igual chance de provar que era digna da confiança real.

A rainha se manteve em silêncio até chegarem ao pátio em frente à sede da confraria, uma pequena e atarracada construção ao lado da capela.

— O rei se encontra na Irlanda e deve retornar em breve. Na viagem de regresso, atravessará Gales assim como teve de percorrer essas terras antes de cruzar o mar. — A rainha hesitou antes de prosseguir. — Recentemente, obtive informações de que a vida dele corre perigo.

Elspeth permaneceu atenta ao relato e ao final fez um movimento de aquiescência. Obrigou-se a permanecer calada. Se começasse a falar, talvez acabasse dizendo o que não devia. Rumores corriam pela abadia de que o casamento do rei e da rainha estava ameaçado pela ostensiva infidelidade do rei. Ninguém sabia ao certo se o problema era fato ou produto de falatórios maldosos. Na opinião de Elspeth, a grande preocupação da rainha era a sucessão do trono. Ela faria tudo que estivesse ao seu alcance para garantir que o amado filho, Richard, se tornasse o próximo herdeiro da coroa, embora o rei pretendesse indicar o primogênito ao trono.

— Fala o dialeto de Gales, milady?

— Aprendi algumas palavras, Majestade, porque acompanhava meus pais em viagens quando era pequena, mas acho que me esqueci de todas elas.

— Tudo que aprendemos fica registrado na memória. No momento oportuno, você se lembrará do que tiver de lembrar.

— Sim, Majestade — Elspeth respondeu para não contrariar a rainha, embora não acreditasse no que acabara de ouvir.

— Consegue traduzir o termo llech-lafar?

Para sua surpresa, Elspeth reconheceu que a rainha estava certa na afirmação. Porque, sem que precisasse se esforçar para isso, ao menos a primeira parte da expressão lhe voltou à lembrança.

— Llech significa pedra.

— Muito bem. Llech-lafar significa "pedra falante". — A rainha ergueu os olhos para o alto e para o oeste. — Trata-se de uma antiga profecia, atribuída a Merlin, o grande mago dos tempos, do rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, de que o homem considerado pelos galeses como rei estrangeiro, em sua viagem de regresso após a conquista da Irlanda, ao tropeçar na legendária pedra, tombaria morto.

— Vossa Majestade acredita no poder das profecias? Histórias sobre o grande mago são contadas por toda a Inglaterra e poucas delas resumem alguma verdade.

Elspeth se comprazia em ouvi-las quando era pequena. Com o passar do tempo, descobrira que a maioria eram fábulas destinadas a ensinar lições de moral e a divertir as crianças.

Como se não a tivesse ouvido, a rainha declarou, solene:

— Lady Elspeth, eu lhe confio nesse momento a missão de impedir que a profecia se cumpra. Quero que se prepare imediatamente para ir a Gales e encontrar a amaldiçoada pedra, antes que o rei possa pisar sobre ela em seu caminho.

— Vossa Majestade espera que eu localize uma pedra que provavelmente nunca existiu?

— Sim.

Deveria estar sonhando, Elspeth pensou. Era fantástico demais para ser verdade. O pedido que a rainha acabara de lhe fazer era absurdo e indigno de sua sabedoria.

— Mas e se o rei voltar direto para a Inglaterra sem passar por Gales?

— Os ventos e as correntes marítimas o levarão forçosamente para lá. Você faz muitas perguntas, milady. Contudo, só preciso que me dê uma resposta. Está preparada para aceitar a missão?

Elspeth dobrou o corpo em respeitosa reverência.

— Sinto-me honrada por merecer sua confiança, Majestade, e juro fazer o melhor que puder.

Havia sinceridade na intenção de Elspeth, por mais que sua consciência tentasse preveni-la de que a tarefa de encontrar uma pedra mítica em meio às extensas terras, montanhas e penhascos de Gales seria praticamente impossível.

— Todo cuidado será pouco, milady. Não se esqueça sequer por um segundo de que o futuro da Inglaterra está em suas mãos.

 

 

                     Capítulo II

 

O mar se tornara rubro sob os raios do sol poente que escapavam da massa de nuvens escuras que tentava cobrir a linha do horizonte.

— Não é maravilhoso? — sussurrou a única mulher no grupo de cinco homens. — Nunca vi nada tão lindo!

— Não pode estar falando sério — resmungou Tarran ao olhar por entre as árvores que os cercavam e localizar o oceano. Ele detestava o vermelho desde que encontrara o chão de sua casa tingido dessa cor.

Mas um protesto repentino afastou a tenebrosa cena de sua mente. Era Heliwr quem reclamava atenção, o companheiro inseparável, quase desde que saíra do ovo. Porque Heliwr era um falcão. Acostumado a acompanhá-lo nas cavalgadas, apoiava-se em seu ombro ou em seu punho esquerdo e compreendia como ninguém suas mudanças de humor.

Tarran encurtou as rédeas, de modo que o cavalo se ativesse ao passo de Vala, que, apesar da idade avançada, era uma mulher forte e saudável. Os cabelos estavam completamente grisalhos, e a pele trazia as marcas profundas de sua longa existência junto ao mar do Oeste. Embora a temperatura estivesse agradável naquele fim de tarde, ela usava um pesado xale preto de lã por cima das vestes escuras.

A velha senhora riu da observação. Estava entusiasmada com a perspectiva de encontrar a neta ao termo da longa viagem rumo ao sudoeste do país e não se abstinha de tecer elogios a cada esplêndida manifestação da natureza. Com todo o direito! Afinal, eram poucas as pessoas de sua idade que conseguiam atravessar as extensas terras de Cymru. Mas ela conseguiria. Mal podia esperar para ver a única neta com quem esperava viver até o último dia de sua existência.

— Estou falando sério! — ela replicou, ganiu. — Aqueles que percorreram Cymru antes de mim falaram sobre a beleza que eu encontraria em meu caminho, mas a realidade se provou ainda mais bonita do que minha imaginação. Quero gravar cada imagem na memória para poder lembrá-la sempre que sentir saudade.

Seith ap Mil incitou o cavalo para que emparelhasse com o restante do grupo. Tarran acenou com a cabeça para o jovem vestido com capa azul-noite sobre uma túnica vermelha. Alto e corpulento, a preferência por roupas coloridas o faziam parecer ainda maior em suas medidas. As meias verdes empoeiradas após as longas horas de viagem faziam suas pernas parecerem ainda mais roliças.

— Podemos ter esperança de que o senhor do castelo além desta floresta nos dará abrigo? — indagou Seith com a mão sobre o estômago volumoso em gesto significativo. — Estou com tanta fome que aceitaria comer qualquer coisa que me oferecessem, embora prefira preparar meus próprios pratos, porque, como vocês são testemunhas, ninguém supera meus dotes culinários.

— Até agora não o vi rejeitar nenhuma oferta de comida, meu caro — caçoou Tarran.

— Apenas por necessidade. Até agora, não nos deram nada, a não ser peixe e pão, enquanto a Heliwr foram concedidos nacos de coelho e de aves silvestres.

— Está com inveja de meu falcão?

— Não. Talvez estivesse se não tivéssemos nos fartado de carnes de caça até a Quarta-feira de Cinzas. De qualquer maneira, um homem tem o direito de desejar algo mais civilizado, como um frango no espeto ou uma coste-leta de carneiro.

— Ao que tudo indica, príncipe Tarran — zombou a anciã —, você é o único de nós que prefere a vida selvagem.

Com um suspiro de impaciência, o líder balançou a cabeça e deu ao cavalo o comando para se afastar.

— O que foi que eu disse de errado agora? — Tarran ouviu Seith resmungar as suas costas, mas não se deteve e nem sequer olhou para trás. Sabia que devia desculpas por sua atitude intempestiva e mais tarde o procuraria para remediar a situação. Seith sempre lhe fora fiel. No entanto, por mais que tentasse explicar, ninguém conseguia entender que preferisse desfrutar da companhia de poucos escolhidos e da tranqüilidade da natureza a freqüentar os sofisticados salões e participar das grandiosas festas, onde estaria sujeito às evocações do passado que tanto se esforçava por superar. Não que essa decisão resolvesse totalmente seu problema, porque até mesmo a vista espetacular de um crepúsculo vermelho sugeria uma cena de sangue.

As sombras em movimento pela agitação das folhas e dos galhos das árvores aguçaram de repente seu instinto de preservação. Procurou a faca que sempre trazia presa ao cinto e segurou-a com firmeza, pronto para empunhá-la caso fosse necessário. Sombras facilitavam o assédio dos ladrões e malfeitores e obrigavam a redobrarem a vigilância.

Nas terras longínquas de Cymru, as leis da Inglaterra só eram obedecidas por aqueles que acreditavam que teriam algo a ganhar com a submissão à autoridade real.

Tarran emitiu um suspiro de alívio ao sentir o calor e o dourado do sol vencerem a umidade. O perigo de uma emboscada agora se reduzia ao mínimo, porque poucos ousariam planejar um ataque nas imediações de um castelo onde teriam as torres de vigilância como testemunhas. E o risco de ser rechaçado pelo senhor do castelo também era quase nulo, embora ele pudesse ser um inimigo, porque uma atitude hostil certamente o faria cair em desgraça perante o poder real.

O castelo de pedra encravado em uma colina parecia modesto em contraste com as montanhas que se erguiam além do torreão e dos parapeitos onde sentinelas montavam guarda. De um cinza mais escuro do que as rochas das quais se cercava, o castelo Glyn Niwl fora construído em meio a uma clareira.

A medida que se aproximava, Tarran notou que os muros estavam guarnecidos por pedras pontiagudas e que nenhum tipo de vegetação se permitia crescer em suas bases, de modo a impedir que invasores ali tentassem se abrigar.

De repente, uma figura feminina lhe chamou a atenção e o fez pestanejar. Não podia acreditar em seus olhos. Não podia ser verdade. Mas era! Uma mulher estava dependurada no alto do castelo, tentando encontrar frestas onde apoiar os pés e as mãos para não cair.

Atônito com a cena, Tarran impulsionou o cavalo em direção à colina e apertou a correia presa aos pés do falcão para firmá-lo durante a corrida. Afrouxou as rédeas ao se aproximar do local e examinou rapidamente o pios para se certificar de que o falcão não se soltaria. Ele havia parado bem debaixo da mulher e ainda não sabia o que poderia fazer para ajudá-la. Por mais que tentasse alcançá-la, suas mãos não chegavam aos pés dela. Procurou subir sobre a sela e estava quase conseguindo se equilibrar quando um súbito movimento do cavalo por pouco não o levou ao chão. Ordenou que o animal se aquietasse, mas não adiantou. Por outro lado, conseguiu finalmente que a mulher olhasse para baixo e notasse sua presença.

— Solte-se! — ele gritou para se fazer ouvir sobre o tropel.

Ela negou com a cabeça. A cascata de cabelos vermelhos e ondulados ocultava seu rosto, mas Tarran adivinhou sua expressão determinada ao vê-la tentar apoiar o pé novamente em uma reentrância da parede.

Aturdido, Tarran se perguntou se ela, talvez, não entendesse seu idioma.

— Solte-se! Eu a segurarei! — tornou a gritar, dessa vez em anglo-normando, a língua falada nas terras inglesas a leste de Offa's Dyke, que aprendera, quando criança, simultaneamente ao galês.

— Afaste-se! — ela ordenou. — Não preciso de sua ajuda!

— Ela deve ser maluca — espantou-se Seith, que se apressara a oferecer o próprio braço para Heliwr, de modo a facilitar a operação de salvamento a que Tarran se dispusera.

— Provavelmente — Tarran confirmou. — Mas, louca ou não, ela não merece encontrar a morte por uma queda que estou em condições de evitar.

Que São David o ajudasse! Bastava uma morte em sua consciência...

Ato contínuo, ele desembainhou a espada e cutucou gentilmente o pequeno pé, insistindo para que ela se soltasse. Todavia, em vez de obedecer, ela chutou a espada.

— Por que não vai embora e me deixa em paz? — disse com empáfia. — Não necessito e não quero sua ajuda. Deu para entender agora?

Não restava dúvida. Ela era louca.

Tarran ergueu a espada mais alto ainda, dessa vez a atingindo não tão delicadamente no cotovelo direito.

Impossibilitada de continuar se segurando com a mão direita, e sem condições de sustentar o peso do corpo apenas pela mão esquerda, Elspeth balançou-se na tentativa de retomar a posição inicial, mas os dedos escorregaram e a perspectiva de uma queda se tornou patente.

Aconteceu rápido. Ela o atingiu no peito com os pés e as pernas. Ouviu-o gemer ao impacto que lhe roubou o ar. Uma de suas mãos bateu no queixo dele, mas antes de recuar ao golpe ele a segurou com força ao encontro de si, ignorando a própria dor que se espalhou pelo corpo inteiro pela absorção da força gravitacional. Assustado, o cavalo relinchou e empinou. Tarran o acalmou, sem se dar conta de que o fazia. Toda sua atenção estava voltada para a jovem que segurava em seus braços.

O rosto de um oval perfeito era emoldurado por cachos vermelhos e brilhantes, que chegavam às mangas do vestido cinza-azulado que ela usava sob a capa azul-clara. O traje era simples, sem rendas ou bordados, mas o tecido era fino e o preço não estava ao alcance de uma camponesa. O corpo ágil e curvilíneo era feito de músculos firmes e bem delineados. Os traços delicados convidavam à contemplação. Nenhum homem poderia ignorá-la depois de ter a visão capturada pela aura de fascínio que a circundava. Os lábios entreabertos para a retomada do fôlego eram carnu-dos e sensuais. Os olhos de um verde intenso e profundo não exibiam nenhum sinal de loucura antes que ela os fechasse na luta por respirar que ainda estremecia seu corpo.

— Como ela está? — Vala indagou, preocupada.

— Viva — Tarran respondeu com um suspiro de alívio enquanto fitava um a um os quatro homens que o acompanhavam e que lhe haviam jurado fidelidade na decisão de se vingar do homem que arruinara sua vida.

Iau ap Mil era irmão de Seith. Embora fosse mais novo, igualava-o em circunferência. A seu lado direito estava Kei ap Pebin, e o primo dele, Gryn ap Dwnn, do outro. Nenhum deles teceu qualquer comentário.

Um som longo e agudo os alcançou. Alguém no castelo estava soprando algo para anunciar a presença deles, provavelmente. Tarran olhou ao redor e pensou no que fazer. Ninguém parecia com disposição de se pronunciar. Aguardavam orientação em respeitoso silêncio. A jovem custava a recuperar a consciência. O que poderia ter acontecido para ela se entregar a um ato tão desesperado? Ou teria sido o caso de alguém ter tentado empurrá-la para a morte?

— Ela está acordando, Tarran!

Vala não precisaria tê-lo avisado. Ao voltar a si, a jovem havia sido sacudida por forte estremecimento. E, ao pressionar o corpo involuntariamente contra o dele, provocou-lhe idêntica reação, que logo foi reprimida. Ele tinha jurado nunca mais se apaixonar. Desde a morte da esposa, apenas duas emoções encontravam guarida em seu coração: o ódio e a sede de vingança.

— Não tenha medo — ele murmurou. — Abra os olhos bem devagar para que a vertigem não torne a assaltá-la.

— Eu não desmaiei — ela declarou, mas o corpo a desmentiu assim como a voz.

— Então, sua representação foi convincente — Tarran caçoou.

Ela o encarou com tanta ferocidade que ele percebeu que, sem querer, havia acertado em sua suposição. Mas por que uma mulher que acabara de ser resgatada da morte desejaria fingir inconsciência justamente a seu salvador?

— Tolo! — ela resmungou entredentes.

Tarran franziu o cenho. Teria ouvido bem? Ser chamado de tolo era a última coisa que esperava naquelas circunstâncias.

— O que disse?

Elspeth se afastou bruscamente e empertigou as costas, mas seus olhos continuaram próximos o suficiente para ele notar as faíscas que ela continuava desferindo contra ele.

— Quero que me solte! Estava quase conseguindo e você estragou tudo. Não pode imaginar quanto tempo esperei por uma oportunidade como aquela. — Enfurecida, a jovem se debateu em nova tentativa de se desvencilhar.

— Está bem, vou soltá-la. Mas só depois que me contar... — Tarran não pôde terminar a frase porque foi emudecido por um inesperado soco no estômago. E, antes que se recuperasse do golpe, a moça saltou do cavalo, apoiou as mãos na cintura e ficou olhando para o alto do castelo, como se avaliasse as chances de tornar a escalá-lo.

Por um instante, Tarran pensou em avisá-la que ninguém o desafiava e seguia impune. Mas não queria discutir com a dona daqueles cabelos vermelhos. Vermelho. Essa cor parecia persegui-lo. Contudo, embora a razão recomendasse que ele prosseguisse o caminho e esquecesse aquele estranho episódio, a honra de cavaleiro o persuadia a ficar. Porque, se ele a salvara, agora lhe devia proteção. E ele não descansaria enquanto não encontrasse o responsável pelo acidente que quase lhe causara a morte.

De um salto, Tarran a alcançou e segurou-a pelo braço.

— No mínimo, você poderia me agradecer.

— Agradecer? — ela repetiu com ironia. — Devo me curvar a seu nobre gesto? — ela fez uma mesura. — Dizer que fui abençoada porque um pretenso herói escolheu o momento mais impróprio que poderia encontrar para aparecer? Sinto muito, mas, se fui agraciada, foi pela má sorte.

— Quem é você?

Ela suspirou de enfado e afastou as longas madeixas que escondiam parte do rosto, o que pouco adiantou, porque os fios tornaram a desabar sobre os ombros e seios.

— Não tenho tempo para responder suas perguntas. Afaste-se de mim de uma vez por todas.

Ele a puxou em sua tentativa de escapar e a fez encará-lo. Não havia percebido que ela apanhara um bastão ao saltar do cavalo. Era tarde demais para se esquivar do golpe sobre sua bota, que o obrigou a conter um gemido de dor.

— Você é maluca ou o quê? — Tarran a sacudiu pelo braço, finalmente perdendo o controle. — Por que fez isso?

Ela ainda tentou chutá-lo, mas dessa vez ele foi mais rápido. Enlaçou-a pela cintura e imobilizou-a com o próprio corpo.

— Kei, dirija-se ao portão e peça para ver o senhor do castelo. Transmita nossas saudações e solicite uma audiência no momento que ele julgar conveniente.

Kei, tão magro e pálido quanto Seith era grande e corado, assentiu e se afastou.

— Não se atrase por mim — a moça tornou a usar de sarcasmo. — Não deve fazer lorde de la Rochelle esperar por minha causa e...

— Como é o seu nome?— Tarran a interrompeu.

— Se eu lhe disser, me deixará em paz?

— Responda!

Ele estava insistindo demais. Deveria ter enlouquecido. A maluquice dela o havia contagiado. De que outra forma estaria se comportando com a mesma obstinação de que a acusava? Seria talvez pelo prazer inesperado que sentira ao ter novamente uma mulher bonita nos braços?

De esguelha, Tarran viu uma portinhola se abrir à entrada do castelo e Kei se aproximar para transmitir a mensagem que lhe fora confiada. Já estava começando a cogitar que nunca descobriria a identidade da moça quando ela finalmente respondeu:

— Elspeth Braybrooke. Agora que já sabe meu nome, daria para fazer a gentileza de desaparecer da minha frente?

— Eu me chamo...

— Não estou interessada em saber seu nome. Tenho uma tarefa importante para realizar e sua impertinência está me causando problemas. — Ela se soltou com um safanão. — Adeus. Espero nunca mais vê-lo.

Tarran cogitou abandoná-la à própria sorte. Talvez devesse encarar com indiferença o desprezo com que seu ato heróico fora recebido. Assim estaria livre para seguir caminho e cumprir a promessa que fizera sobre o corpo de Addfwyn. Mas estava intrigado. Como aquela mulher conseguira se desvencilhar dele? Quando usava de força para deter alguém, ninguém se soltava com facilidade. Nem sequer Seith, que aprendera a lutar com ele.

Contudo, se ela era teimosa, ele não deixava por menos. Tornou a segurá-la e a desafiá-la.

— Afinal, o que você quer? — ela perguntou com maus modos.

— Saber a razão pela qual você estava dependurada a uma altura que teria sido fatal caso sua mão falhasse em encontrar uma fresta onde se agarrar.

— Não vejo como isso pode ser da sua conta — ela respondeu com frieza.

Antes que Tarran pudesse prosseguir com o argumento, Vala achou por bem intervir na discussão.

— Tudo que este homem deseja é se certificar de que ficará em segurança sem alguém que a proteja, minha criança.

Ao notar pela primeira vez a presença de uma senhora no grupo, Elspeth mudou de atitude. Enfrentar cara a cara um galês arrogante era coragem, mas tratar uma respeitável anciã com grosseria era inadmissível. Para se acalmar, contou até dez em latim, depois em normando e por último em inglês.

— A única pessoa que me causou algum mal hoje foi exatamente esse homem a quem a senhora se refere, ao me cutucar com sua espada e provocar minha queda.

Para demonstrar seu repúdio ao gesto, Elspeth massageou o cotovelo que ainda se ressentia da intencional agressão.

O ritmo de sua respiração, ela percebeu naquele instante, já voltara ao normal. Chegara a pensar que morreria pela absoluta incapacidade de recuperar o fôlego após cair. E mais ainda ao se ver nos braços daquele homem de cabelos e olhos quase pretos de tão escuros.

Olhar penetrante ou não, ela não viajara desde a abadia de São Judas por toda a Inglaterra para sucumbir ao fascínio de um galês. Ouvia falar sobre esse povo desde que nascera. Amantes da poesia, da música e de antigas lendas, eles não lutavam por sua terra como os normandos. Até mesmo seu comandante, lorde Rhys, príncipe de Deheubarth, dera provas de vassalagem ao homenagear o rei Henrique em seu caminho rumo à subjugação da Irlanda, de quem era aliado.

— Afaste-se para que eu possa passar! — Elspeth ordenou, esgotados os limites da paciência. Tarran continuou impassível. — Os galeses não conhecem as regras da boa educação? Não conhecem a diferença entre ser cavaleiro e cavalheiro?

— E uma moça educada se recusa a satisfazer a curiosidade do homem que lhe salvou a vida por mero capricho?

— Gaba-se de ter salvado minha vida? — Elspeth riu, debochada. — Eu disse que não precisava de ninguém que me salvasse. Pedi que fosse embora e que me deixasse em paz. Apenas você se recusou a me escutar.

— Ainda me recuso. Não a deixarei enquanto não responder a minha pergunta.

— Já lhe respondi o que precisava saber. Por que deveria satisfazer sua curiosidade se perdi todo meu esforço por sua culpa?

— Minha culpa? A culpa é de quem a empurrou para que caísse do alto do castelo.

— Mas ninguém me empurrou! — Elspeth exclamou, surpresa. — Eu não estava saindo, muito menos caindo! Estava tentando entrar!

 

 

                             Capítulo III

 

Ao espanto da comitiva somou-se o inconformismo de Elspeth. Se aqueles homens nunca tivessem aparecido, ela já teria entrado no castelo, conseguido o que queria, talvez, e saído sem ser notada. As perguntas que fizera a lorde Rhys, em seu castelo de Cardigan, a respeito de llech-lafar, haviam despertado suspeitas, e ela não podia permitir que a curiosidade alheia comprometesse a missão da qual a rainha lhe incumbira.

Não lhe ocorrera manter segredo sobre seu conhecimento acerca da lendária pedra por estar em presença de alguém ligado ao rei pelos laços do dever, da gratidão e da lealdade, mas não pretendia revelar o motivo de sua viagem a Gales a mais ninguém. Nem mesmo ao próprio lorde Rhys, príncipe de Deheubarth. Arrependera-se das perguntas quando a conversa se transformou em um verdadeiro interrogatório sobre as razões de seu interesse pela pedra. Para preservar o segredo, ela havia fugido no meio da noite, de modo que, ao darem por sua ausência, já seria tarde demais para partirem em seu encalço.

A missão que lhe fora confiada pela rainha Eleanor na distante Inglaterra soara fantástica. Agora, longe da proteção da abadia de São Judas, Elspeth se perguntava se, mais do que fantástica, ela não era impossível. Os nomes daqueles que poderiam ajudá-la em sua tarefa lhe foram entregues em um pergaminho. Ela os procurou, um a um, mas nenhum deles soube orientá-la. Não que desconhecessem a existência

33 de llech-lafar. Ao contrário. Essa como outras lendas do grande Merlin haviam-se espalhado pela região. Alguns chegaram a lhe fornecer pistas sobre a localização de dezenas de pedras supostamente deixadas pelo mago em suas oferendas à divindade. Mas a cada esperança seguira-se uma decepção, porque nenhuma das pedras era a que procurava. Ninguém parecia saber exatamente onde ela poderia ser encontrada.

A busca prosseguia, contudo. O tempo era escasso. O prazo estava se esgotando. Em Cardigan, ela ouvira dizer que o rei só estava demorando para regressar a Gales por causa das tempestades que castigavam o mar da Irlanda. Que, assim que as condições permitissem, ele partiria em seu navio.

Alguém a instruíra para que procurasse uma anciã que vivia no castelo de Glyn Niwl, porque talvez ela soubesse informá-la sobre a verdadeira localização da pedra mágica. O plano de Elspeth era adentrar o castelo, falar com a mulher e sair sem ser vista. Quanto menos atenção chamasse sobre si, maiores seriam as chances de êxito, porque ninguém a ajudaria se adivinhasse a finalidade da visita àquelas terras. O castelo de Glyn Niwl pertencia a um normando, mas seus servidores, ou a grande maioria deles, certamente eram galeses. Nem todo o povo, ao que lhe constava, vivia nas montanhas.

Enfim, talvez ela já tivesse progredido na missão se aquele homem que chamavam de Tarran não tivesse surgido e arruinado seu plano.

— Você queria invadir o castelo? — Tarran não conteve o espanto.

— Já disse que sim, não disse? — Elspeth se abaixou para recuperar o cajado. Considerou arremessá-lo contra o intruso que se recusava a deixá-la em paz, mas seus olhos se voltaram para o falcão que ele convidara a pousar em seu braço esquerdo, e ela temeu ferir a ave inocente.

— Dê-me uma explicação a respeito. Acho que mereço uma resposta depois de ter salvado sua vida.

Os ouvidos aguçados de Elspeth detectaram um movimento as suas costas. Os dedos crisparam ao redor da madeira, mas ela se obrigou a ficar imóvel enquanto via o homem que entregara o falcão ao líder desembainhar a espada.

Por quê? O que ele pretendia com aquele gesto?

A um sinal quase imperceptível de Tarran, o homem baixou a arma, mas ela não conseguiu decifrar a mensagem que os dois trocaram com o olhar. Se fosse honesta consigo mesma, admitiria que também estava curiosa em saber o que eles faziam por aquelas paragens. Principalmente por haver uma velha senhora no grupo.

Mas ela não tinha tempo a perder.

— Você não me salvou. Provocou minha queda e poderia ter causado minha morte.

— Acredita realmente que conseguiria passar pelos pequenos vãos entre as ameias? — Tarran a percorreu com os olhos da cabeça aos pés. — Seu corpo é esguio, mas apresenta curvas bem femininas...

— Claro que conseguiria! — Elspeth franziu o cenho. Esperava que fosse conseguir entrar no castelo por aquele recurso, mas não tinha certeza se realmente seria capaz de levar seu propósito a cabo. Algo que não admitiria ao estranho, por mais que ele insistisse.

— Em primeiro lugar, como fez para escalar a parede? Usou essa vara, talvez, para tomar impulso? — Tarran empurrou o bastão de madeira com a ponta do pé.

— Sim — Elspeth respondeu. Por mais que tentasse se evadir às perguntas, o estranho não parecia disposto a deixá-la. Seus olhos estavam estreitos como os do falcão.

- O nome popular é perna-de-pau.

- Você não respondeu a minha pergunta.

- Para que se você viu a cena com os próprios olhos?

— Então, vamos abordar o assunto de outra maneira. Cheguei e a vi dependurada no topo do castelo que alcançou com a ajuda de um longo bastão chamado popularmente de perna-de-pau. A pergunta agora é a seguinte: quanto tempo calcula que agüentaria ficar ali, dependurada, depois que constatou a impossibilidade de passar pela abertura?

— Isso não é da sua conta, não acha?

— Se não quer responder, a escolha é sua, mas ao menos me diga onde e por que aprendeu a andar com pernas-de-pau?

— Simples. O saber não ocupa lugar. Procuro aproveitar todas as oportunidades de aprendizado. Nunca se sabe quando se irá precisar de algum conhecimento específico.

— Isso não é resposta.

— É a única que tenho. — Quem ele pensava que era para querer investigar sua vida?

Por fim, Tarran se afastou das pernas-de-pau que Elspeth usava para escalar paredes e bater nas pessoas. Não notou o cuidado com que ela apanhou os bastões. Não viu que um deles continha pontas de ferro nas extremidades.

Naquele instante, o homem que Tarran mandara levar suas notícias ao senhor do castelo retornou com um sorriso nos lábios.

— Lorde de la Rochelle nos dá boas-vindas.

— Obrigado, Kei — Tarran agradeceu e fez um movimento com a cabeça, convidando os outros a acompanhá-lo.

— Sua equipe parece ter sido bem treinada — disse Elspeth, para se arrepender em seguida. O que ela estava fazendo que não aproveitava para escapar? Quanto mais tempo ficasse ao lado daquele homem, maiores seriam os riscos de ela acabar lhe contando a verdade.

— Eles acreditam que a disciplina os ajudará a conquistar o que desejam.

— E o que eles desejam?

— Isso não é da sua conta, não acha? — Tarran aproveitou a chance para pagar a ela na mesma moeda.

Elspeth não retrucou, mas fez questão de encará-lo com a mesma frieza com que ele e o falcão a estavam encarando. Ele tinha todo o direito de lhe devolver as palavras, mas isso não significava que poderia continuar tentando impedi-la de desempenhar a tarefa que lhe fora atribuída.

Talvez eles tivessem travado uma longa batalha com os olhares, sem que nenhum se rendesse, se o céu não tivesse decidido abrir as comportas naquele momento. Porque não foi uma gentil chuva de primavera, mas um inesperado dilúvio.

Elspeth se pôs a correr em direção às pedras. Ouviu gritos, mas não se deteve. Detectou um súbito tropel, porém, antes que pudesse interromper os passos, um cavalo surgiu a sua frente e a teria esmagado se ela não reagisse com presteza e brandisse a espada de madeira.

Aconteceu muito rápido. De repente, o cavaleiro estava estirado no chão.

— Está ferido?

O homem era corpulento e tinha olhos e cabelos castanhos. Disse algo que ela não entendeu. Sem se dar ao trabalho de repetir a pergunta, ela o examinou rapidamente e constatou uma fratura no punho.

— Sim, ele está ferido — disse Tarran de trás e tornou a deixar o falcão com o companheiro de antes. — Como poderia não estar?

Tarran se ajoelhou ao lado de Iau e imediatamente percebeu que ele estava não apenas com o punho quebrado, mas também com uma costela, por sua dificuldade em se mover e respirar.

— Eu não pretendia atingi-lo — Elspeth tentou se dirimir da culpa.

— Mas você o derrubou. Se ele se feriu na queda, a culpa certamente é sua.

— Eu tinha de me defender — Elspeth explicou. — Você gritou para eu ter cuidado!

— Gritei para ele, não para você! O cavalo poderia tê-la atingido.

— Exatamente! O que esperava que eu fizesse quando vi as patas do cavalo a poucos centímetros de minha cabeça? Esperar pela morte de braços cruzados? Como eu poderia saber se o sujeito teria conseguido controlar o animal?

— Basta! — Tarran exclamou. — Com essa soberba, você faz qualquer homem perder o controle!

Ao dizer isso, ele colocou a mão sobre a dela e lhe tirou o bastão. Elspeth estremeceu ao contato. Poderia atribuir a reação ao frio da chuva, mas a verdade foi que o calor do contato a provocou. Recuou, assustada. Nunca antes lhe acontecera nada igual. Nunca antes sentira nada igual.

De maneira intempestiva, ela tentou recuperar a arma, sem conseguir. Insistiu e ele a ergueu para o alto, fora de seu alcance. Elspeth não pôde deixar de notar a elevada estatura e a rigidez dos músculos.

— Eu a terei de volta, esteja certo disso! — ela ameaçou, sob a chuva que agora caía torrencialmente.

— Para ferir mais um de meus homens?

— Não tive intenção de machucá-lo, já disse! Não teria usado o bastão se minha integridade física não estivesse ameaçada.

— Se você teme por sua integridade física, por que escalou o muro do castelo?

Em vez de responder, Elspeth deu um passo para a direita, em direção ao rochedo. Surpreso, Tarran imitou-a, tropeçando em Iau e dando a Elspeth a chance de escapar. Ela saltou e girou o corpo no ar, tomando de volta a perigosa arma de aparência inofensiva. Aturdido, Tarran esfregou as mãos para aliviar a dor e gritou para que ela parasse de correr. Elspeth obedeceu, mas apenas o tempo suficiente para recuperar uma bolsa que havia escondido entre as pedras e apanhar a túnica de lã, que vestiu pela cabeça.

Tarran, seus homens e a velha senhora olhavam para ela como se fosse uma alma do outro mundo. No entanto, se estavam surpresos com seu comportamento, ela ainda lhes daria outros motivos para isso. Porque voltou para junto deles.

Não houve tempo, porém, para novas perguntas, porque dois guardas do palácio estavam se aproximando.

— Sejam bem-vindos ao castelo Glyn Ni wl. Lorde de la Rochelle os aguarda.

Elspeth suspirou. Quisera tanto entrar no castelo e falar com a velha sábia sem causar alarde que agora estava sendo convidada a entrar como mais um elemento do grupo de Tarran, que descobriu se chamar ap Llyr. Talvez devesse agradecer e dizer que precisava seguir viagem. Como justificaria, afinal, sua visita pouco ortodoxa ao castelo, caso o assunto fosse eventualmente abordado?

Um gemido e uma imprecação a fizeram recordar as instruções da abadessa. Quantas vezes ela a prevenira para refletir sobre seus impulsos antes de transformá-los em ações? Lamentava pelo jovem Iau, mas, se alguém tinha de ser ferido, que fosse ele. Ao menos ela fora poupada porque a vida do rei estava em suas mãos, caso a profecia fosse verdadeira.

Ela teve a impressão de que os guardas a fitavam com malícia. Teriam presenciado o acidente? Ou era apenas uma questão de interesse sexual? Antes de deixar a abadia, ela fora alertada sobre o mundo diferente que encontraria além daquelas paredes, onde os homens competiam pela atenção das mulheres. Um alerta que não teria sido necessário. Lembrava-se com nitidez dos esforços da mãe em afastar os homens que a assediavam durante as exibições artísticas. Nunca se esqueceria da vez em que um sujeito horrível puxara a mãe e a fizera se sentar em seu colo. Apesar de ser ainda pequena, ela repudiara o gesto e jurara que homem nenhum a trataria daquela maneira quando crescesse.

Ao atravessar a ponte levadiça e os portões de ferro, Elspeth sentiu os olhos de cada homem e mulher se voltarem para ela. A mesma sensação de calor de antes a invadiu quando Tarran tocou em seu braço.

— Não entre sozinha! — ele sussurrou. — Mantenha-se ao nosso lado.

— Posso perfeitamente cuidar de mim — Elspeth assegurou. No fundo, agradecia a preocupação com seu bem-estar, mas estava começando a temer Tarran ap Llyr, não pela autoridade, mas pelo fascínio. Em poucos minutos, ele havia conseguido fazer o que ninguém jamais conseguira: desviar seu pensamento de uma missão.

— Um golpe contra um homem desprevenido não prova nada. Às vezes nos tornamos vulneráveis quando menos esperamos. Acontece até mesmo com Heliwr.

— Heliwr?

Tarran fez sinal para a ave em seu braço esquerdo.

— Significa caçador em galês. Espero que seja sensata, para variar, e aguarde por mim ao lado de Vala enquanto converso com nosso anfitrião.

— Será uma honra cuidar dela para você.

— Basta que não a derrube da sela. — Tarran arqueou as sobrancelhas ao falar. Elspeth pensou em retrucar, mas se conteve ao ver a anciã sendo ajudada a apear por um homem parecido com o que ela ferira.

— Obrigada. Agora pode ir com os demais — a anciã dispensou a ajuda e se apoiou em Elspeth com um sorriso cansado. — Esta jovem cuidará de mim. Obrigada, milady. Sou grata por sua proteção.

— Faço votos para que não a necessite, senhora — Elspeth retribuiu o sorriso. Havia algo naquela mulher que a fazia lembrar a abadessa. Também seria dona de uma vontade férrea sob aquele sorriso meigo?

Elas ficaram mais para trás, enquanto os homens seguiam para a entrada principal do castelo.

— Não está curiosa por saber o que uma velha mulher como eu faz em companhia de cinco guerreiros?

— Estou — Elspeth respondeu com franqueza.

Chegaram a um pátio interno protegido das intempéries. Elspeth respirou, aliviada, embora sua roupa estivesse tão encharcada que colava à pele. Um cheiro característico de madeira molhada impregnou suas narinas.

— Estamos viajando com destino a Tyddewi — Vala contou. — Minha neta mora lá e me quer a seu lado. Nunca poderei agradecer o bastante pela generosidade com que Tarran se ofereceu para me conduzir até ela.

— Ele também é membro de sua família? — Elspeth olhou ao redor e não viu nada fora do comum. Pequenas cabanas de madeira cercavam a torre de menagem contra as altas paredes ao fundo. Por um pequeno portão a sua esquerda, ela conseguiu avistar águas cinzentas que indicavam a existência de um fosso de proteção contra invasores.

— Fui sua ama-de-leite quando nasceu. Mais tarde, seus pais me deram outras tarefas para que eu continuasse no castelo de Gwalch Glas.

— Castelo?

— Sim. O pai de Tarran recebeu o título de sir no reinado de Henrique I da Inglaterra, e ele é neto da princesa Nest, que foi casada com Gerald de Windsor.

— Então ele é um príncipe? — Elspeth indagou, surpresa.

Como se tivesse ouvido a conversa, Tarran olhou para elas naquele momento. Elspeth o imaginou de imediato em uma imensa sala, semelhante às que vira seus pais se apresentarem, coberto por um manto vermelho, disputado por homens e mulheres interessados em obter seus favores.

Seus olhos perscrutadores pousariam sobre cada súdito. Nenhum movimento lhe passaria despercebido. Poderoso em seu domínio, ele faria o mais bravo dos homens curvar a cabeça. Os príncipes galeses usavam coroas de ouro? Em contraste com os cabelos pretos como ébano, a coroa brilharia como o sol.

— Ele não é um príncipe para os normandos — Vala explicou. — Os galeses, no entanto, reconhecem todos os filhos, legítimos e ilegítimos, como herdeiros de direito.

Ao adentrarem a torre, Vala e Elspeth tiraram o xale e a capa molhados. Elspeth calculou o pé-direito e mudou os bastões de posição, para que não batessem no teto. Mais além, havia uma abertura em forma de arco, e ela prosseguiu nessa direção. Um homem veio ao seu encontro e barrou a passagem.

— Não é permitido entrar com armas no grande hall.

Elspeth hesitou. Estava em um lugar estranho entre estranhos. Sem os instrumentos de defesa, ela se sentiria desprotegida.

— Seja sensata. — A voz de Tarran soou persuasiva ao alcançá-la a curta distância. — O pedido é razoável.

As três peças foram entregues simultaneamente e colocadas contra a parede. Contrariada, Elspeth se aproximou de Tarran e estreitou os olhos ao vê-lo com a ave sobre o braço.

— Falcões também são perigosos e não o mandaram deixá-lo à porta.

— Todos sabem que falcões só atacam quando sentem fome e apenas criaturas menores que eles. — Tarran tornou a deslizar os olhos pelo corpo de Elspeth. — Menores que você, inclusive; portanto, não é preciso se preocupar.

— Se pretendia me insultar com essa observação, perdeu seu tempo. Não considero minha baixa estatura uma desvantagem. — Ao dizer isso, Elspeth se lembrou das palavras da mestra Nariko sobre os benefícios da pouca altura em algumas modalidades de combate. — Quem você esperaria que oferecesse maior perigo? Um homem com uma ave de rapina no braço ou uma mulher com uma espada de madeira? Minha resposta é que o fator surpresa pode ser a arma mais poderosa de todas.

— E eu ficaria surpreso se você conseguisse ser sucinta em alguma resposta.

A observação pegou Elspeth desprevenida. Embora eles tivessem acabado de se conhecer, Tarran ap Llyr descobrira um de seus piores defeitos, como a abadessa vivia dizendo. Mas, em vez de se ofender, ela riu.

Ao entrarem na grande sala, Elspeth sentiu todos os olhares se voltarem novamente para ela. Desde o grupo de crianças que estavam sendo ensinadas a costurar em um canto até os serviçais que depositavam feixes de junco no chão de pedra cinzenta, da mesma cor das paredes.

Os únicos que não fizeram caso de sua passagem pela porta foram dois homens usando longas túnicas brancas com capuz. Talvez fossem artistas ou religiosos, porque cantavam, entretidos, em tom baixo e grave.

Elspeth estava cogitando se o anfitrião seria tão carrancudo quanto Tarran ap Llyr, quando este, como se adivinhasse seu pensamento, franziu o cenho e sugeriu que ela se comportasse como uma dama enquanto ele cumprimentava o senhor do castelo.

Se não fosse parecer provocação, Elspeth teria rido. Controlou-se a custo. De lábios apertados, seguiu Tarran com os olhos e o viu colocar o falcão sobre uma barra de ferro que encontrou em um canto protegido da fumaça que impregnava o ambiente e oferecer o que deveria ser um naco de carne pela volúpia com que a ave devorou o alimento.

Tarran se dirigiu, em seguida, a uma longa mesa disposta sobre um patamar onde lorde de la Rochelle se divertia com uma mulher sentada em seu colo, cercado de convivas. Embora tivesse cabelos grisalhos, sua pele era lisa. Ele esvaziou uma taça de vinho e fez sinal para que Tarran se aproximasse.

Elspeth estava tão distraída que estremeceu ao sentir Um toque em sua mão. Era Vala, que lhe sorria com doçura.

— Não concordo com a opinião de Tarran a seu respeito. A meu ver, milady sabe muito bem o que faz.

Ocorreu a Elspeth elucidar a anciã sobre seu engano. Porque não era bem-nascida como ela supunha. Por trás dos muros da abadia, ninguém dava importância à classe social das internas. Eram apenas as aptidões de cada uma que importavam. A visão do mundo exterior era diferente. Ela era prova disso. Porque, se fosse sincera consigo mesma, admitiria que sentia orgulho de ostentar agora o título de milady.

Sem saber o que fazer com as mãos, proibida de portar a espada, Elspeth colocou-as para trás. Junto à mesa, Tarran estava sendo servido por um lacaio e levava uma taça à boca. Iau estava sendo conduzido pelos outros membros do grupo ao local onde as crianças costuravam. Logo elas também foram servidas. Não de vinho, como os homens, mas de uma bebida fermentada que lhe proporcionou agradável calor.

— Gostariam de me entregar suas capas para que eu as coloque para secar perto do fogo? — uma criada ofereceu.

Era a oportunidade que Elspeth esperava, e ela aproveitou para indagar sobre a sábia anciã que lhe disseram morar naquele castelo.

— Está se referindo a Rhan?

— Sim — Elspeth respondeu, embora não tivesse a menor idéia sobre o nome da mulher.

— Ela está acamada, milady, ardendo em febre. Não pode receber visitas.

— Mas preciso vê-la!

A urgência na voz de Elspeth foi notada. A moça a encarou, com preocupação.

— Ela está muito mal. Milady poderá contrair sua doença. A ordem que recebemos foi que ninguém entrasse no quarto até que a temperatura baixasse.

Todos os caminhos pareciam estar fechados, Elspeth pensou, ao ver a criada se afastar e estender sua capa e o xale de Vala sobre um banco próximo a uma das menores lareiras do recinto. Por São Judas, como ela faria para encontrar a pedra da profecia se lhe negavam acesso à única pessoa, talvez, que soubesse sobre seu paradeiro?

Subitamente, Elspeth teve a sensação de estar sendo observada. Voltou a si sob a intensidade dos olhares de Tarran e do senhor do castelo. Uma onda de indignação a inundou ao ver o anfitrião rir e bater no ombro de Tarran. Se eles pudessem avaliar a importância de sua missão... Mas não podia lhes dizer. Apesar de sua reputação estar em jogo, ninguém podia saber a razão de sua presença naquelas terras.

Tarran a chamou naquele momento, mas ela fingiu não perceber. Ele estava fazendo sinal com o dedo para que ela se aproximasse. O que ele pensava que ela era? Uma ave como Heliwr?

— Permita-me um conselho, milady — Vala a surpreendeu com sua sagacidade, apesar de as costas estarem vergadas pelo cansaço.

— Certamente que sim — Elspeth concedeu, ainda mais irritada com Tarran. Por que ele estava demorando? Não tinha nenhuma consideração pela anciã exausta? Antes de brindar, deveria ao menos ter providenciado para que a acomodassem.

— Tarran ap Llyr é um homem de emoções fortes. Seria prudente de sua parte zelar para que ele não perca o controle em seu cumprimento do dever.

— Dever? Pensei que ele tivesse se disponibilizado a acompanhá-la até a casa de sua neta, em Tyddewi.

Um súbito rubor cobriu as faces de Vala.

- Você deve esquecer que usei essa palavra.

- Por quê? Ter uma missão a cumprir é motivo de orgulho, não de vergonha. — Elspeth não esperava que uma profunda palidez fosse substituir o rubor. — Especialmente se a missão obedecer a uma causa nobre.

— Ela obedece. — Elspeth se virou à voz grave e séria que lhe respondeu em lugar de Vala. O fôlego lhe faltou. Precisava dizer alguma coisa antes que Tarran percebesse o efeito que lhe causava.

— É permitido perguntar que causa é essa?

— Procuro o homem que assassinou covardemente minha esposa.

 

 

                             Capítulo IV

 

A expectativa de Tarran era que Elspeth lhe fizesse as mesmas perguntas que tantas vezes o atormentaram. Qual fora o motivo do crime? Com que tipo de arma? Onde acontecera? Quando? Como pretendia vingá-la?

As primeiras quatro perguntas ele nunca se recusara a responder, apesar da dor que lhe causavam. A última resposta, contudo, só era de conhecimento de Vala e de seus quatro companheiros. De mais ninguém. Ele não queria que seus planos de vingança chegassem aos ouvidos do responsável pela morte de Addfwyn.

— Lamento.

Tarran agradeceu com uma inclinação de cabeça e continuou aguardando as perguntas. Elas nunca demoravam.

— Deve ter amado muito sua esposa. Espero que as lembranças que ela lhe deixou o confortem em sua dor.

Tarran suspirou. Agora viriam as perguntas.

— Respeito sua determinação. Acho justo seu desejo de vingança e faço votos para que tenha êxito na busca ao assassino. — Elspeth se virou para Vala nesse momento e ofereceu-lhe a mão. — Venha comigo. Precisa descansar.

Sob o olhar surpreso de Tarran, Elspeth conduziu a antiga ama a um banco e a confortou. Parecia incrível que aquela jovem guerreira também soubesse ser gentil e delicada. Examinou-a de perfil, algo que ainda não tivera oportunidade de fazer, e notou que o nariz era pequeno e levemente arrebitado na ponta, sinal que revelava atrevimento e era característico do povo ligado às fadas e aos duendes, segundo as histórias que a mãe lhe contara. Mas o que mais o atraía nessa moça, dona de um sorriso fácil e de uma fala excessivamente solta, eram os cabelos em ondas vermelhas que lhe chegavam à cintura delgada. Não fosse tão bonita quanto era, bastaria o espetáculo daqueles cabelos de fogo para render um homem.

Um homem vivo. Não ele. Porque o corpo respirava, mas a alma estava morta. A alma partira com Addfwyn. No coração só restavam as trevas e o frio da vingança ainda não realizada. Levara dois longos anos para planejá-la e nada o deferia. Nem mesmo a beleza de Elspeth Braybrooke.

Perdoe-me, minha amada. Ele não deveria estar pensando em outra mulher quando o assassino da esposa ainda vagava pelas terras de Gales.

— Traz boas notícias?

Tarran agradeceu mentalmente a intervenção de lorde de la Rochelle, que lhe forneceu uma desculpa para interromper o fluxo de pensamentos. A maioria do povo ainda considerava inimigos os lordes das fronteiras entre Inglaterra e Gales, por eles terem-se apoderado das terras de Cymru, mas a verdade era que a paz tinha sido estabelecida havia duas gerações. O fato era que os antepassados do senhor de Glyn Niwl haviam reclamado aquelas terras quando William, da Normandia atacara e subjugara Cymru da mesma forma que atuara em terras saxônícas, ao leste, onde foi proclamado William, o Conquistador.

— Nada de extraordinário. Por que pergunta?

— Correm rumores de que o rei Henrique II derrotou o conde de Clare em terras irlandesas.

O que lorde de la Rochelle esperava? Que o conde fosse repudiar sua lealdade ao rei e provocar ainda mais derramamento de sangue entre os soldados reais e os vassalos normandos enquanto os barões aproveitavam para se apoderar das terras da Irlanda e a lei não era estabelecida? De la Rochelle tinha pretensões de ganhar terras da Irlanda da mesma forma que seus antecessores fizeram em Aquitaine e em Cymru?

— O rei Henrique é um homem justo, mas não tolera indisciplina — declarou Tarran.

— Seu poder não impedirá que ele encontre seu destino. Tarran franziu o cenho.

— Posso saber a que se refere?

O anfitrião se aproximou de modo a não ser ouvido por terceiros.

— Você é nativo de Gales e certamente conhece a história sobre llech-lafar.

— Está se referindo à lenda da pedra falante atribuída ao mago Merlin?

— Segundo dizem, o rei estrangeiro que subjugar Gales e lutar na Irlanda com alguém que traz sangue nas mãos, na viagem de regresso à Inglaterra, quando atravessar novamente Gales, tropeçará na pedra falante e morrerá. O rei derrotou o conde de Clare, que traz o sangue do exército irlandês nas mãos, e está empreendendo a viagem de regresso à Inglaterra. Se a profecia se cumprir, nosso rei está com os dias contados.

Seu rei, Tarran quase retrucou, mas se conteve em tempo. Porque os galeses haviam jurado fidelidade ao rei nor-mando.

— Llech-lafar só existe nas fantasias infantis — Tarran insistiu. — Se as antigas lendas contivessem alguma verdade, vocês, normandos, já teriam sido banidos de Cymru há muito tempo.

— Não posso refutar suas palavras, meu caro — concordou lorde de la Rochelle com humor. — Venha comer a minha mesa e experimentar nossa cerveja.

— Assim que eu cuidar de meus homens — Tarran prometeu.

O anfitrião bateu em suas costas de modo amigável.

— Difyr zelará pelo conforto de sua comitiva. Ela sabe como fazer com que esqueçam o cansaço. Venha comigo para continuarmos nossa conversa.

Tarran levou algum tempo para responder. Podia se recusar a acreditar nos mitos sussurrados pelas montanhas, mas tinha sabedoria suficiente para não desdenhar das convicções de um povo, quanto mais de um senhor feudal.

— A noite mal começou, milorde. Será um prazer desfrutar de seu amável convívio — Tarran agradeceu.

— Não tem pressa de ir para os braços de sua bela mulher?

Tarran fez um esgar que felizmente passou despercebido ao anfitrião. Ele estava se referindo a Elspeth Braybrooke, não a sua esposa morta. A jovem era bonita, ele não podia contestar esse fato. Não tinha certeza, porém, de sua sanidade mental. E, como se acabasse de resolver dar outra evidência de sua ingenuidade ou loucura, ela estava gritando com Kei e com seu primo Gryn, que a prendiam cada um por um braço para afastá-la de lau. Estariam com medo de que ela fosse matá-lo ou o quê em meio ao salão principal do castelo?

A ordem de Tarran para que os primos a soltassem foi abafada pelas gargalhadas do anfitrião.

— Seus homens tratam sua mulher com evidente intimidade, ap Llyr. Dizem que as mulheres galesas não se guardam para um único homem, e acabo de constatar que talvez exista um fundo de verdade nessa afirmação.

Tarran ignorou o insulto. Além de não lhe pertencer, Elspeth não nascera em Gales.

Virou-se para seus homens e estava se preparando para repetir a ordem quando ela, de repente, empurrou os primos um sobre o outro e, antes que pudessem tornar a segurá-la, apanhou um banco e atirou-o na direção deles.

Kei se esquivou, mas Gryn não foi rápido o bastante para escapar. O banco o acertou em cheio e o lançou contra a parede. Então, com olhar de orgulhosa satisfação, ela esfregou as mãos e foi se ajoelhar ao lado de Lau.

— Que mulher incrível! — exclamou lorde de la Rochelle. — Qualquer outra em seu lugar teria espantado os espíritos com seus protestos, ao ser tratada com aquela brutalidade.

Tarran empalideceu. Até quando suportaria ser lembrado por tudo e por todos da maneira trágica como perdera a amada esposa?

— Você tem sorte por possuir uma mulher como ela.

— Ela não é minha mulher — Tarran confessou.

— Não? A qual de seus homens ela pertence?

— A nenhum. Ela se juntou a nós recentemente — Tarran respondeu, acompanhando os esforços de Kei para levantar Gryn. Os dois primos pareciam ter bebido além da conta, embora lhe parecesse impossível que pudessem ter se embebedado em tão curto espaço de tempo. Seria o caso de Elspeth tê-los contagiado com sua loucura?

Os olhos do homem adquiriram brilho luxurioso.

— Onde a encontrou?

Tarran se arrependeu da eloqüência. Não era ingênuo e deveria ter adivinhado antes aonde o barão pretendia chegar com aquelas perguntas. Ao salvar Elspeth, contraíra uma dívida com ela. Ele passara a lhe dever proteção até o fim de seus dias. Ele falhara em zelar pela vida de Addfwyn. Não se permitiria uma segunda falha.

— Eu a conheci fora dos limites de seu castelo — Tarran respondeu com uma meia-verdade. Porque o barão poderia reclamar sua posse se viesse a descobrir que ela tentara invadir a propriedade pelas ameias.

Pediu licença, em seguida, e foi ao encontro de Lau, de quem só conseguia divisar as pernas esticadas porque o corpo, apoiado contra a parede, estava bloqueado pela avantajada figura de Seith, que parecia nervoso e irrequieto em evidente demonstração de que não confiava em Elspeth, da mesma forma que os companheiros.

Acalmou-o com um toque no ombro. E, antes que pudesse indagar sobre o motivo de tanto alvoroço, seus olhos lhe proporcionaram uma visão inesperada: Elspeth e lau estavam sorrindo um para o outro.

— Sua destreza é admirável, milady — ele estava dizendo.

— Obrigada — ela agradeceu enquanto o enfaixava como se tivesse prática em tratar contusões. O que ficou provado em seguida a sua solicitação para que espalhassem clara de ovo depois que a tira de couro secasse.

— Esse recurso endurecerá o couro e protegerá o punho, até que ele se recupere.

— Jamais soube disso, milady. — A jovem criada parecia estar com dificuldade para ocultar o ceticismo.

— É uma prática comum na Terra Sagrada — Elspeth garantiu. — Aprendi com alguém que veio de lá. — Antes que Difyr pudesse estender a conversa, Elspeth se voltou novamente para o homem que sofrera a agressão. — Peço que me desculpe pelo dano que lhe causei, lau ap Mil.

— Milady só o fez para se defender. Eu teria agido da mesma forma. — Nesse instante, ele endereçou um longo olhar a Difyr. — E não posso dizer que me importo de ficar por aqui até me recuperar.

— Está dizendo que pretende abandonar seus amigos? — Elspeth olhou com censura para a serviçal que se curvava desnecessariamente para amarrar uma tira de pano ao redor do pescoço de lau, de modo a exibir o decote.

Ele apoiou a mão machucada na faixa e usou a outra para segurar o queixo da moça.

— Não se trata de abandono. Apenas acho que seria conveniente recuperar minhas habilidades com uma espada. Nesse estado, eu seria incapaz de defender o príncipe Tarran.

— Você se reporta a ele como príncipe?

— Ele é um príncipe — lau declarou. — Nós, os galeses, consideramos prudente garantir um herdeiro para a eventualidade de filhos legítimos não sobreviverem ao pai. De minha parte, acho essa medida lógica.

Antes que Elspeth pudesse contestar essa lógica, Tarran se aproximou e entregou uma caneca de cerveja ao companheiro. Se pudesse ter adivinhado o tema da conversa, aguardaria para anunciar sua presença. Seria interessante descobrir o que ela pensava a respeito do que lau acabara de contar.

— Parece-me que a atenção de tão dedicada moça compensou seu incômodo.

O que Tarran pretendia que soasse como advertência soou como observação jocosa. lau deu um largo sorriso. Os companheiros que estavam por perto se mostraram surpresos. Desde que ficara viúvo, ele nunca mais se permitira rir. Constrangido, procurou se afastar e a Elspeth do grupo.

— Posso lhe falar?

Ela se levantou com graça e elegância. A sensação que ele teve ao olhar direto em seus olhos verdes foi de que o ar lhe faltava. Os cachos vermelhos remetiam aos bosques sob a influência da despedida do outono aos rigores do inverno. Eles simplesmente o impediam de controlar a mente e o rumo de seus pensamentos.

— Certamente que sim, príncipe Tarran — ela afirmou com desenvoltura ainda não demonstrada.

— A sós?

Se a pergunta a surpreendeu, ela não deixou que transparecesse em seu rosto.

— Podemos nos sentar naquela mesa vazia? — Ela apontou para um canto. — Também tenho algo a lhe dizer.

Tarran estendeu a mão, mas quis retirá-la à sensação de ter sido atingido por um raio. Porque o calor da pele feminina atravessou a luva de couro e a força com que ela lhe apertou os dedos lhe causou espanto. Tanto quanto o gesto repentino que ela fez ao se desvencilhar e se encaminhar para a mesa, sem esperar por ele.

Um pensamento o assaltou. Elspeth não queria que ele olhasse em seus olhos. Por quê? Para que não descobrisse como o contato das mãos também a afetara? Ou porque estava com pressa de seduzi-lo da mesma forma que a criada estava tentando fazer com Lau?

Tarran praguejou mentalmente. Elspeth o teria atingido na cabeça sem que ele percebesse? Onde fora parar seu bom senso? Durante dois longos anos, ele não pensara em nada que não fosse localizar Bradwr e vingar a morte de Addfwyn. Não se permitiria por seu juramento a perder por uma aventura. Jamais poderia imaginar que Elspeth fosse se voltar para ele e encará-lo com fúria.

— Como pôde? Como foi capaz de sacrificar uma velha senhora em seus planos? Vala estava exausta ao chegar aqui. Precisaria ter parado muito antes para descansar.

— Ela não se queixou nenhuma vez — ele se defendeu, perplexo com a advertência. Esperava que Elspeth fosse se queixar do comportamento de seus homens, não do descuido dele.

— Claro que não. A tarefa de zelar pela comitiva cabe ao líder. Você deveria ter-se lembrado de que havia uma senhora de idade entre seus jovens e saudáveis guerreiros.

Tarran pensou em retrucar, mas desistiu. Não tinha como justificar a falta. Elspeth estava certa. Estivera tão absorto em seus problemas que falhara no cumprimento do dever.

— Você tem razão — Tarran acabou por admitir e fez um gesto para que Elspeth se sentasse ao chegarem à mesa.

— O que precisa me dizer de tão importante que ninguém pode escutar? — Elspeth indagou após um instante de silêncio necessário para que o coração acalmasse ao ter o corpo de Tarran quase encostado ao dela.

— Por que pergunta?

— Por que outro motivo teria se sentado tão perto de mim?

Tarran pensou em vários. E o principal deveria ter ficado estampado em seu rosto ou Elspeth não teria olhado instantaneamente para outro lado. Por São David! O que lhe estava acontecendo que precisava se obrigar a desviar os olhos dos lábios rosados a cada palavra que pronunciavam? Por que estava se deixando dominar pelo ímpeto de descobrir se os beijos de uma mulher normanda eram diferentes dos que recebera das nativas de Gales?

— Por que viaja sozinha? — ele perguntou, por fim.

— Porque não soube de ninguém que quisesse seguir pelo mesmo caminho que eu.

— Você não é tola. Está perfeitamente ciente dos perigos que a aguardam atrás de cada árvore, de cada pedra.

— Sim, estou. — Ela sorriu ao dar a resposta, mas havia um brilho em seu olhar que o fez lembrar a expressão de Heliwr momentos antes de se lançar sobre uma presa.

— Não teme por sua vida?

— Sou cautelosa, príncipe Tarran. E estou sempre alerta, como seus homens puderam comprovar.

— A vigilância nem sempre basta contra emboscadas.

— O que está me dizendo não é novidade. Como pode notar, cheguei ao castelo Glyn Niwl em segurança.

— De onde?

Elspeth baixou os olhos. Até aquele instante o enfrentara sem pestanejar, mas contar pormenores sobre a jornada significaria colocar em risco o segredo da missão. Não acreditava que tivesse sido seguida, mas não podia ter certeza.

— Para onde está indo? — ela respondeu com outra Pergunta.

— Para o sul. Se também está seguindo nessa direção, gostaria de poder contar com seus préstimos.

Ela estava olhando sobre o ombro dele. Tarran teve vontade de verificar quem chamara sua atenção, mas preferiu não ceder à curiosidade. Estavam entre pessoas de bem, afinal, De la Rochelle os recebera sem reservas.

Nem mesmo Bradwr ap Glew demonstrara ser inimigo.

— Por que pede minha ajuda quando seus homens preferem me ver a distância? — Elspeth estranhou.

— Estou pensando em Vala. Seria bom se ela pudesse contar com a companhia de outra mulher no restante do trajeto.

— Demonstra generosidade ao considerar o bem-estar de sua velha ama.

— Eu lhe devo muito. Se você resolver seguir viagem conosco, partiremos ao nascer do sol.

Elspeth hesitou.

— O que acaba de dizer não faz sentido.

— Por que diz isso?

— Porque Vala não conseguirá se refazer em uma única noite de sono. Dê-lhe mais um dia ou dois. É capaz de sacrificar suas necessidades por ela?

Sentada a uma mesa, Vala lutava contra o sono. De onde estava, Tarran podia ver a cabeça tombando a cada instante, por mais que ela se esforçasse para sustentá-la.

— Sim, sou — Tarran respondeu com um murmúrio.

Elspeth sorriu, e ele precisou conter a sensação de júbilo. O sorriso dela fazia um homem se sentir herói, mesmo que fosse indigno desse atributo.

— Obrigada por levar minhas palavras em consideração — ela agradeceu. — Pensarei em sua proposta e lhe participarei minha decisão antes que se disponha a partir.

Por mais que ele desejasse conhecer o motivo da relutância de Elspeth em lhe dar uma resposta imediata, não teve chance de indagar, porque o barão se aproximou deles. De Elspeth, especificamente. Ao estender a mão para ela, fez uma mesura.

— Venha se sentar a minha mesa. Sua visita ao meu castelo é simplesmente adorável.

Tarran se levantou a exemplo de Elspeth. Ela parecia encantada com o convite. Seu sorriso parecia mais espontâneo, e os passos o acompanharam com leveza. Estaria mais propensa a estender a visita ao barão a prosseguir viagem com um estrangeiro?

Ao interceptar um olhar do senhor do castelo a Elspeth, sem que ela percebesse, Tarran adivinhou seus planos libidinosos. Acomodou-se no banco perto deles. Não deu para escutar o que falavam, mas pôde ouvir as risadas. Seria ingenuidade de Elspeth não perceber o que o sujeito realmente queria ou ela estava incentivando a conquista?

A resposta não se fez esperar. Ao primeiro toque daquele homem em seu braço, Elspeth o afastou, como se ele a tivesse queimado. Continuou conversando e rindo, mas de maneira obviamente forçada.

— Deveria dirigir seus cumprimentos a Vala, milorde — Elspeth sugeriu. — Tenho dúvidas de que outras mulheres de sua idade seriam fortes o bastante para enfrentar as agruras de uma viagem só para poder ajudar a neta a trazer ao mundo o primeiro filho.

A neta de Vala estava esperando criança? Ela não mencionara nada a esse respeito. Não era de tratar com ele sobre assuntos de mulher, mas o nascimento de seu bisneto era algo importante demais para ser omitido.

Tarran olhou para a ama e se determinou a lhe falar a esse respeito na primeira oportunidade. Não esperava que seus olhares fossem cruzar. A sensação que teve foi de voltar no tempo. Ela o estava encarando com reprovação. Como costumava fazer quando ele era pequeno após uma travessura. Ela não o fitava daquela maneira desde a morte de Addfwyn.

— Vala jamais falhou em suas obrigações — Tarran resolveu se intrometer na conversa, sem se importar com a expressão de contrariedade que o anfitrião assumiu. — Nossas mulheres têm fibra. Costumamos louvá-las em nossas canções.

Elspeth, como Tarran esperava, aproveitou o ensejo para se afastar das mãos que insistiam em tocá-la.

— Parece que todas as famílias de Gales têm suas histórias. Ouvi algumas serem apresentadas em notas musicais por menestréis de talento — disse Elspeth, como se estivesse à espera desse ensejo para mudar o tema da conversa. — Também já tive oportunidade de ouvir diversas lendas maravilhosas serem contadas nos muitos lugares por que passei. Qual é sua preferida, príncipe Tarran?

— A história do príncipe Pwyll, que fingiu ser a morte por um ano, para aprender como derrotar o pior inimigo.

— Nunca ouvi falar sobre essa lenda — Elspeth confessou.

— Terei prazer em lhe contar enquanto comemos — de la Rochelle se prontificou.

Tarran precisou se conter para não se levantar da mesa e levar Elspeth consigo.

— Elspeth estava me dizendo que queria se certificar de que Vala se alimentasse e descansasse adequadamente após as longas horas de viagem.

— Mandarei que uma das criadas a acomode. Esta adorável jovem não precisará...

— Obrigada por me lembrar, príncipe Tarran — Elspeth não permitiu que o barão terminasse a frase. — Se me der licença, milorde, irei imediatamente até ela.

De la Rochelle havia franzido o cenho ao aparte do hóspede, mas o sorriso que Elspeth fez acompanhar suas palavras o derreteu. Ele não teria retribuído o gesto, contudo, se ouvisse o agradecimento sussurrado que ela dirigiu a Tarran antes de deixá-los.

A caminho da mesa, ora deserta, exceto pela presença de Vala, Elspeth notou que os residentes estavam se acomodando, da maneira que podiam, junto às lareiras espalhadas pelo salão, para repousarem até o amanhecer. Estava pensando na sorte que tivera pelo príncipe Tarran lhe ter proporcionado a desculpa perfeita para se afastar do barão. O modo dele a olhar e de tocá-la a todo instante sugeria um propósito de levá-la a uma situação mais íntima do que partilharem uma refeição. Seria esse o acolhimento que ele dava a todas as mulheres que adentravam o castelo Glyn Niwl? Por São Judas! Se o príncipe não tivesse interferido, ela poderia ter entrado e saído do castelo sem passar pelo incômodo de conhecer o lascivo proprietário. E por que Tarran omitira sua descendência nobre? Por sentir vergonha dela? Elspeth balançou a cabeça. Essa atitude não condizia com o bom senso. Porque, se o povo dele reconhecia seu direito ao título, por que ele o negava?

— O que houve, filha? — Vala indagou ao perceber que Elspeth tremia ao se sentar a seu lado. — Aconteceu alguma coisa?

— Não. Estou bem. — E era verdade. Ela apenas não conseguia evitar a sensação poderosa, como o vento agitado pelas tempestades, que lhe percorria o corpo cada vez que pensamentos sobre o príncipe tomavam conta de sua mente. Mais ainda depois de ser salva por ele de ser tratada como se lembrava da mãe ao se apresentar a nobres e ricos senhores, que de nobres só apresentavam os títulos.

— Sua cor desmente suas palavras — Vala retrucou. — Há poucos instantes sua pele estava corada.

— Porque eu estava com raiva!

— Ainda está. Os lábios tremem como no momento que confrontou o príncipe.

— Obrigada pelo cuidado, Vala, mas estou bem. — Um sorriso triste acompanhou a declaração. — Ou, para ser honesta, estarei assim que deixar este castelo.

Uma jovem linda como você sempre atrairá atenção Por onde quer que vá.

Não quando eu puder voltar para a abadia de São Judas. Ela vivia feliz entre as irmãs. Só depois de deixar a prisão que encontrara por trás daquelas paredes pudera realmente apreciar a liberdade que ali desfrutava.

Diante do silêncio de Elspeth, Vala não insistiu, mas empurrou uma tigela de madeira com pão e peixe para que ela se servisse.

— Aprendi, muitos anos atrás, que todo problema parece menos difícil de ser solucionado quando colocamos alguma comida no estômago.

Elspeth se apressou a seguir o conselho e, ao partir uma grossa fatia de pão e levar um naco à boca, constatou que estava fresco e macio. Não se dera conta até o primeiro contato com o alimento de que estava faminta. As provisões que trouxera de Cardigan haviam acabado no dia anterior.

— Permite-me lhe dar um aviso, filha?

— Claro que sim.

— Iau ap Mil e seu irmão Seith são homens ponderados, mas nem Kei ap Pebin nem seu primo Gryn ap Dwnn podem ser descritos dessa forma. Eles não concordam com o tratamento que você deu ao companheiro.

— Eu sei. O príncipe já me comunicou a situação.

O sorriso malicioso de Vala fez Elspeth perceber que o aviso fora apenas uma manobra para que a mulher descobrisse até que ponto Tarran lhe havia confiado seus pensamentos.

— E como ele reagiu ao ter dois de seus melhores homens vencidos pela destreza de uma mulher? Disse alguma coisa?

Os olhos verdes brilharam em reflexo aos de Vala, com sua agora indisfarçável curiosidade.

— Nada.

— Nada?

Sem perceber, Elspeth estava apertando o pão com tanta força que o amassou. Porque, ao lhe pedir para que conversassem a sós, ela imaginara que o príncipe fosse lhe perguntar como fizera para se livrar das garras de seus homens. Ocupado em conversar com o barão, ele não deveria ter presenciado o truque que aprendera com Nariko para empurrar os dois um contra o outro.

— Na verdade, ele se desculpou pelo comportamento de seus homens. Algo que eu não esperava que fizesse.

— Claro que não. Ele não deve ter visto como você se livrou de Gryn e Kei. — A capacidade de observação da velha mulher a surpreendeu mais uma vez. E, antes que se refizesse do assombro, ela perguntou: — O que decidiu sobre a proposta que ele lhe fez para que siga conosco?

— Como soube do convite? — Elspeth indagou ainda mais perplexa.

— Conheço cada uma das expressões de seu rosto. Eu o conheço desde que nasceu.

— Ele nunca sorri?

Vala baixou os olhos e deu um longo suspiro.

— Ele sorria fácil e com freqüência. Espero que você consiga lhe devolver a alegria. Nenhum de nós conseguiu.

Um completo silêncio se seguiu a essas palavras. Elspeth não estava em condições de assumir mais essa missão. Até que a sábia Rhan a recebesse e lhe transmitisse seus conhecimentos sobre llech-lafar, ela não poderia responder ao convite do príncipe nem à pergunta de Vala. Seria mais simples se tivesse de seguir por um caminho diferente do deles, mas, embora a razão lhe afirmasse isso, o coração desejava o oposto.

 

 

                           Capítulo V

 

Apesar do frio da madrugada que a esperava além da passagem em arco que dava para o pátio, Elspeth se encaminhou para lá sem titubear. Dois homens conversavam enquanto desciam pelos degraus de pedra após a troca do turno de vigilância, mas ela não se importou em ouvir o que diziam. Nada do que falassem poderia lhe interessar, a menos que mencionassem a lendária pedra.

Aromas vindos da cozinha sugeriam que o desjejum logo seria servido. O sol já estava se anunciando por trás das montanhas, mas as nuvens escuras e pesadas prometiam chuva para breve. A temperatura não estava tão baixa quanto nas semanas anteriores em que atravessara Offa's Dyke, nos limites de Gales, mas a verdade era que Elspeth mal podia esperar para fazer os exercícios de aquecimento. Apoiou os bastões de madeira na parede e retirou as pontas metálicas das pontas da espada. Evitava usá-las. Não fosse pela insistência da abadessa, ela nem sequer as carregaria consigo. Mas a ordem era que nenhuma irmã se separasse delas fora dos muros da abadia.

— Mesmo que eu possa matar meu adversário ao me defender? — Elspeth perguntara, chocada. — Porque sei que sou capaz de neutralizá-lo o tempo necessário para fugir. Basta lhe tirar temporariamente os sentidos.

— A irmã se esquece de que o inimigo nem sempre está sozinho.

Elspeth ainda tentou explicar sua posição, mas a abadessa recorreu à autoridade de que era investida e lhe cobrou o voto de obediência, encerrando o argumento. Assim, por mais que a repugnasse a idéia de tirar a vida de um ser, precisava ter em mente a responsabilidade da missão e estar preparada, inclusive, para matar, se fosse preciso, para garantir a sobrevivência do rei.

A lembrança da luta travada com o homem da rainha lhe voltou à mente. Não poderia jamais cometer o mesmo erro. Precisava antecipar cada um dos movimentos dos adversários para não ser surpreendida e derrotada.

Ao chegar ao local de treinamento dos guardas do barão, Elspeth mirou a figura que servia de alvo para as lanças e flechas. Agarrou a espada, apoiando as mãos nas extremidades, uma por cima, outra por baixo, e realizou uma espécie de dança de equilíbrio e concentração. A lição mais importante que aprendera nas aulas com Nariko fora a necessidade inicial de rápida, mas completa observação. Avaliar o oponente em um simples passar de olhos e tirar vantagem de seus pontos fracos.

Ao se aproximar da figura em formato humano que servia de alvo, Elspeth fez, instintivamente, o que a abadessa sempre dizia ser um hábito excêntrico de sua parte: falar sozinha.

— Você é mais alto que eu. Se fosse meu inimigo de verdade, estaria armado com uma espada mais longa que a minha. Mas aposto que sou mais ágil! — A essa afirmação, ela deu um salto e brandiu uma das pontas para atingir a parte de baixo do boneco. Em seguida, girou sobre si mesma de modo a aparar golpes imaginários e finalmente parou para respirar. — Escapei. Você não conseguiu atingir minha cabeça nem meus ombros. Como eu disse, sou menor, mas mais rápida que você.

A um novo movimento com a espada, Elspeth atingiu o que seria o queixo do boneco e a cabeça estourou, espalhando penas no ar. E teria prosseguido com os exercícios se não desse por uma pequena platéia junto ao portão.

— Impressionante! — exclamou lorde de la Rochelle. — Não acha, ap Llyr?

Os dois homens começaram a avançar pelo pátio. Outros três curiosos permaneceram na retaguarda.

— Realmente — concordou Tarran. — Lady Elspeth luta muito bem com uma espada.

— Aliás, um de seus homens é testemunha viva do que ela é capaz — o barão caçoou.

— Não cabe a lady Elspeth esse mérito ou essa acusação — Tarran retrucou. — Ele se feriu ao cair da sela para evitar que o cavalo a machucasse.

— Então ela não o atacou?

— Não.

Tarran estava mentindo. Elspeth cravou os dedos com tanta força na madeira que as juntas dos dedos branquearam. Mas guardou silêncio. O príncipe deveria ter algum motivo para tomar essa atitude. Porque ela ainda não conhecera o homem capaz de vencê-la e não permitiria que ninguém interferisse no cumprimento de sua tarefa.

Havia um largo sorriso no rosto do barão.

— É um prazer único conhecer uma mulher capaz de lutar com tanta perícia.

— Uma questão de prática, milorde — Elspeth declarou com naturalidade, embora as mãos continuassem crispadas. Precisava se manter serena. O homem estava apenas tentando seduzi-la. Não podia atacá-lo por causa disso.

— Mostre-me como executou o último movimento. — Ao falar, lorde de la Rochelle fez menção de pegar na espada. Antecipando-se ao gesto, Elspeth se abaixou e colocou-a no chão. Não gostava que a tocassem. Era quase sagrada para ela.

— Minha humilde arma não lhe faria jus, milorde. É curta demais para um homem de seu porte.

O anfitrião riu à sugestão com evidente malícia. Os olhos brilhavam ao convidar Elspeth para ir ao seu encontro no grande hall assim que terminasse os exercícios. Todavia, embora ela aquiescesse, seus planos eram outros. Não estava com fome. Tão logo todos estivessem sentados às mesas para comer, ela daria um jeito de encontrar a câmara onde Rhan havia sido isolada.

O príncipe não se afastou em companhia do barão, mas permaneceu no pátio, com as mãos apoiadas às costas, tão imóvel quanto o alvo que ela despedaçara.

— Por que mentiu?

Tarran balançou a cabeça e estreitou os olhos.

— Tola!

— Tolo é você! Sei que os galeses adoram contar histórias, mas não consigo entender a razão que o levou a mentir sobre o que realmente aconteceu.

Tarran agarrou a espada quase nos mesmos pontos em que as mãos de Elspeth se encontravam e puxou-a bruscamente. Aturdida, Elspeth não pôde evitar que seu corpo se projetasse contra o dele, mas a reação não se fez esperar.

Puxou a espada com força para arrancá-la das mãos dele. Como ele não a soltava, deu um passo para trás e repetiu o movimento. Mas ele deu um passo à frente e a situação permaneceu. Ansiosa por se desvencilhar, ela se debateu e tornou a recuar. Suas costas bateram contra o que restara do alvo, e ela deixou escapar um pequeno grito de susto.

Sem saída, Elspeth ergueu o queixo e encarou-o com desafio.

Eu lhe fiz uma pergunta. Bastaria que me respondesse.

Respondi da maneira que você merecia — ele disse, não mais com gelo, mas fogo no olhar. — Ouça quando lhe digo para se guardar contra nosso anfitrião. Ele tem feito perguntas.

— Sobre?

— Sobre você.

— Eu já havia suspeitado. — Elspeth suspirou, frustrada. Precisava se vigiar mais. Realmente falava demais para o próprio bem. — Que tipo de perguntas?

— Ele quer saber se somos amantes.

Ela tentou se conter, mas a vontade de rir venceu. O modo como o príncipe franziu o cenho a levou a suspeitar de que talvez pudesse se arrepender mais tarde do que estava fazendo, mas, por mais que tentasse, não conseguia parar.

— Desculpe-me, mas essa idéia não é absurda?

— É? — Ele estreitou ainda mais os olhos.

— Claro que sim! Acabamos de nos conhecer e você não escondeu em nenhum momento seu desagrado por tudo que digo e faço. Cada vez que me vê, afasta-se como se eu fosse a peste. Sei que só me convidou para acompanhá-los na viagem por causa de Vala e...

As palavras e o riso cederam lugar ao aturdimento. Elspeth parou de respirar ao ser pressionada mais uma vez contra o alvo. Os lábios estavam quase roçando nos dele, e ela podia sentir a rigidez das pernas musculosas por suas vestes.

— O que espera que eu diga? Não é verdade que você...? Ela não pôde terminar a frase porque seus lábios foram selados. Tentou fugir ao beijo, mas ele insistiu. Movida pelo instinto de defesa, quis atacá-lo com o bastão, mas ele provou que sua força era maior naquele momento e o jogou longe.

Com as mãos livres, então, Elspeth procurou se defender de outro jeito. Empurrou Tarran pelo peito e chutou-o no tornozelo. Ouviu-o gemer e dizer uma imprecação e se aproveitou do segundo de liberdade para tentar recuperar a arma.

A agilidade a ajudou a alcançar seu intento, mas no momento de endireitar o corpo Tarran a segurou pelo braço e a puxou novamente contra si, de modo a encará-lo. Ele jamais poderia esperar que ela fosse bater o cotovelo contra seu polegar, dobrar as pernas e girar. Menos ainda que, além de se soltar, ela fosse reverter as posições e agarrá-lo pelos ombros em um golpe que o fez voar e desabar de costas. O súbito silêncio a fez empalidecer.

— Príncipe Tarran? — Ela se apressou a ajoelhar ao lado do corpo inerte. — Está me ouvindo?

— Como aprendeu a fazer isso? Ela conteve um suspiro de alívio.

— O polegar é mais fraco que os outros dedos.

Ele virou de lado com um grunhido e apoiou-se sobre o cotovelo.

— Poupe minha cabeça latejante de suas extensas explicações e apenas responda por que me atacou.

— Você parece fazer questão de me irritar! — Elspeth protestou.

— Mesmo quando tento preveni-la sobre as más intenções do barão?

— Não. Você estava certo nesse sentido. Enganou-se, contudo, ao acreditar que eu necessitava de sua proteção.

— Tem a pretensão, portanto, de ser capaz de vencer sozinha qualquer oponente?

— Até agora fui.

O olhar de Tarran foi de ceticismo.

— Que tipo de inimigos já teve de enfrentar? Muros altos e ameias como os do castelo Glyn Niwl?

— Recuso-me a falar sobre isso — respondeu, categórica. — Está sentindo alguma dor?

Ele suspirou.

— Se é dessa maneira que costuma tratar aliados, espero nunca me tornar inimigo. Mas ainda não respondeu a minha pergunta. Por que me atacou?

- Não queria que você me beijasse.

— Podia ter falado.

- Como, se não tive chance de dizer duas palavras?

- Uma palavra teria sido suficiente: não.

— Tem certeza de que está bem? — Ela mudou bruscamente de assunto e o surpreendeu a ponto de lhe roubar o fôlego. Com extrema delicadeza, Elspeth o segurou pelo queixo e obrigou-o a encará-la.

— Tenho. — Após o breve aturdimento, Tarran recuperou o bom senso. — Assim como posso lhe garantir que seu admirador não reagirá como eu, caso você o submeta a esse tipo de tratamento.

Embora o príncipe afirmasse estar bem, sua expressão o desmentia. Elspeth caíra diversas vezes durante o treinamento e conhecia as conseqüências de uma queda de mau jeito.

— O que está fazendo agora? — Tarran impediu que ela continuasse deslizando a mão por seu rosto e pelos cabelos.

— Apenas verificando sua cabeça dura — ela caçoou. — Talvez eu devesse estar mais preocupada que o chão tivesse sido quebrado por ela.

— Ainda acho que é com o barão que você deve se preocupar mais.

— Pare de tentar me proteger. Sei perfeitamente cuidar de mim.

Tarran virou o pulso de Elspeth e o aproximou dos lábios. Nunca ninguém lhe fizera isso. Uma sensação estranha a dominou.

— Saberá se proteger se ele lhe fizer isso?

Antes que ela pudesse atinar com o que Tarran estava dizendo, ele encostou os lábios a sua pele, irradiando ondas de calor por todo o corpo.

— Sim — ela respondeu após um instante de hesitação.

— E se ele fizer isso? — Qualquer resposta em que ela pudesse ter pensado se desfez em um murmúrio de prazer ao toque macio dos lábios dele em seu pescoço e dos dedos, leves como plumas.

— Poderá se defender se ele lhe fizer isso?

— Sim — ela tornou a responder, com um sussurro igual ao da pergunta.

— Tem certeza?

— Acho que sim.

Poderia ser imaginação, mas Elspeth achou ter visto pela primeira vez uma expressão divertida nos olhos escuros. Todavia, antes que pudesse se certificar disso, seus lábios foram capturados em um beijo suave. Um beijo que lhe proporcionou a sensação de voar. E que lhe tirou por um momento o raciocínio, porque tudo que não fosse eles dois deixou de existir.

Tarran a segurou pelo rosto com as mãos e a fez inclinar a cabeça para trás, para aprofundar o beijo. Ao término, ele se afastou, mas ela não teve forças para se mover. Recusava-se a abrir os olhos. Queria prolongar o êxtase pelo tempo que pudesse. O coração batia acelerado, como se tivesse acabado de lutar.

A esse pensamento, Elspeth baixou a cabeça e se desprendeu do abraço. Percebeu a tentativa dele de tocar seus cabelos e seu arrependimento ao soltar a mão ao longo do corpo.

— Obrigada, príncipe Tarran. —A voz de Elspeth tremeu ao se dirigir a ele pelo título de nobreza. Nunca, como naquele momento, ela refletira sobre a enorme distância que os separava. Fora um erro corresponder ao beijo. O título de lady lhe fora conferido pela rainha por sua conexão com a abadia de São Judas, não por nascimento. — Garanto-lhe que sou perfeitamente capaz de me proteger contra lorde de la Rochelle.

É você que temo. Só você.

— Nesse caso, peço que me dê licença. Acho que já atrapalhei demais sua prática.

Ele fez uma reverência e saiu. Elspeth apanhou os bastões e esperou que as mãos parassem de tremer. E que os lábios parassem de murmurar o nome que a voz insistia em chamar.

 

                               Capítulo VI

 

Tarran estava calçando as botas no momento em que alguém bateu à porta. De la Rochelle se mostrara um anfitrião generoso ao lhe oferecer um aposento espaçoso e are-jado, para uso exclusivo, quando o costume mandava que os hóspedes descansassem no grande hall. Foi sua primeira noite, desde a partida de Gwalch Glas, de sono restaurador. A cama de dossel era larga e macia e lhe proporcionou conforto e bem-estar. Deveriam ter queimado óleos aromáticos ou algum tipo de erva, porque um perfume adocicado, mesclado ao cheiro de terra e de chuva que vinha de fora, tornara o ambiente ainda mais agradável.

Se estivesse viajando apenas com Heliwr, Tarran teria dado um jeito de proteger o falcão dos ventos e da tempestade e partido ao amanhecer. Não faltava muito para chegarem a Tyddewi. Cobririam a distância entre a cidade de peregrinação, por abrigar as ruínas da catedral de São David, o santo patrono de Gales, e as praias do sul, onde embarcariam para a ilha Lundy em poucos dias. De lá, ele seguiria de navio rumo ao oeste, onde esperava finalmente ajustar contas com o responsável por sua morte em vida.

— Você perdeu o juízo? — Seith esbravejou antes que Tarran tivesse tempo de terminar de abrir a porta.

— Não que eu saiba — ele respondeu, sem atinar para a causa do mau humor.

— Pelo amor de São David, Tarran! Você nunca mais foi o mesmo depois da morte de Addfwyn. Lamentamos sua perda e compreendemos sua situação. Nós nos oferecemos para ajudá-lo em seus planos de vingança, mesmo que isso nos custe nossas vidas.

— E eu lhes serei grato pelo resto de meus dias. Vocês são os melhores amigos que eu poderia desejar. Suas juras de fidelidade ecoam em meus ouvidos todas as horas do dia e em minhas noites de insônia, quando os pesadelos me torturam.

— Peço que me perdoe, Tarran, mas não era lhe cobrar gratidão que eu pretendia com minhas palavras.

— Então me alivie e diga que seu irmão melhorou.

— Sim. A bandagem que lhe fizeram com clara de ovo parece ter surtido efeito.

— Foi Elspeth Braybrooke quem sugeriu...

Seith não deixou que Tarran terminasse. O motivo de sua irritação ficou claro subitamente.

— Ela não é o que parece. Sua destreza e seus conhecimentos não condizem com sua condição de mulher.

— Deveria estar se sentindo grato por ela ter ajudado seu irmão.

— Se é a única culpada por ele ter se machucado?

— A culpa foi dele, que não conseguiu se manter sobre a sela. Lau não teria quebrado o punho se não caísse do cavalo.

Seith franziu o cenho e se calou por um instante.

— Quem quer que Elspeth Braybrooke seja, guarda algum segredo.

— Disso não tenho dúvidas.

De acusador, Seith passou instantaneamente a cúmplice.

— O que você acha que pode ser? — Seith baixou o volume de voz e olhou ao redor, como se receasse ser ouvido.

- Ela não é uma de nós, mas uma sais. Deixou seu povo e veio para Gales por alguma razão.

- Fale de uma vez o que está pensando, Seith! — Tarran pediu. — por que está tão perturbado? Qual é o problema de uma mulher normanda resolver viajar por Cymru?

Seith atravessou o quarto e foi até a janela.

— Eu não teria acreditado que ela derrubou Kei e Gryn sem precisar recorrer ao uso de armas se não tivesse visto com meus próprios olhos.

— Você está exagerando.

— Não estou. Eles a agarraram um por cada braço e ela escapou com a maior facilidade do mundo.

O que Seith estava dizendo parecia incrível, mas ele sabia que era a mais pura verdade.

— Eu sei.

— Sabe?

— Também passei por esse tipo de experiência — Tarran admitiu e esfregou a parte de trás da cabeça.

— Ela fez o mesmo com você? Teve a audácia de atacá-lo? Que absurdo! Você é um príncipe e grande guerreiro! Eu não deveria ter esperado amanhecer para vir avisá-lo.

— Não precisa se desculpar. Se eu estivesse prevenido, poderia tê-la machucado na tentativa de detê-la. Por outro lado, talvez ela ainda nos seja útil com suas habilidades no prosseguimento da viagem.

Com um movimento inesperado, Seith sacou da espada e empunhou-a.

— Eu lhe fiz um juramento e prefiro morrer a permitir que uma mulher o defenda!

— Não estou pedindo que você lhe ceda o lugar.

— Folgo em saber — disse uma voz à porta, que Tarran identificou como de Kei, antes mesmo de se certificar de sua presença.

Kei estava acompanhado do primo do qual raramente se separava. Haviam sido criados juntos como irmãos.

— Talvez ela tenha sido colocada em nosso caminho como sinal de sorte — Kei aventurou.

— Uma declaração estranha vinda de um homem que foi vencido por ela — resmungou Seith.

— Estou disposto a engolir meu orgulho se for para ver Bradwr ap Glew pagar pelo que fez — Kei declarou.

— Diz isso porque não foi seu irmão que ela derrubou. Queria ver se você a defenderia se não fosse tão bonita.

Gryn deu um largo sorriso.

— Então você também notou?

— Mulher bonita significa problema — Seith tornou a resmungar.

— Isso é verdade — Tarran concordou.

— No entanto, você a convidou para seguir conosco.

— Vala gostará de ter uma mulher para lhe fazer companhia.

Os outros se mantiveram em silêncio, mas nada convenceria Seith a aceitar Elspeth no grupo.

— Vala chegou bem até aqui. E a moça sabe como se defender.

— Não quero outra inocente morta porque não me empenhei em protegê-la.

— Ela não é sua esposa e você não teve culpa...

— Não diga mais nada, Seith. O assunto está encerrado.

Tarran olhou com autoridade para os homens, e eles baixaram a cabeça. Ocorreu-lhe mandar que jurassem defender Elspeth de qualquer perigo, mas reconsiderou a idéia e decidiu que seria uma afronta desnecessária. Porque, ao lhe jurarem fidelidade, eles já haviam concordado em ajudá-lo em quaisquer circunstâncias.

Fez-se um breve silêncio. Tarran encaminhou-se para a janela, e os homens passaram a falar sobre os rumores que corriam pelo castelo. A vista dava para o pátio onde Elspeth se exercitara no dia anterior. Ainda chovia. Se o tempo estivesse bom, eles já poderiam estar na estrada. Ou o atraso na partida se devia mais ao fato de Elspeth não ter se manifestado sobre o convite que lhe fizera?

Elspeth era o oposto de Addfwyn, tão calma e serena. No entanto, Elspeth era a primeira mulher por quem Tarran se sentira atraído desde que perdera a esposa. Apesar do espírito rebelde e da língua afiada, ela era linda, inteligente e apresentava uma noção de dever tão forte quanto ele.

Fora uma tolice beijá-la, mesmo que a intenção inicial fosse puni-la. Porque, se antes ele se surpreendia pensando nela com freqüência, agora só fazia evocar sua imagem a cada minuto. Pensara ter esquecido o prazer de uma companhia feminina ao enterrar a esposa. Elspeth o fizera lembrar que estava vivo — e que era homem.

 

 

                                 Capítulo VII

 

O grande hall estava iluminado como para uma festa. Tanta exuberância não condizia com os costumes da época nem com o horário. Mas o sol continuava oculto pelas nuvens escuras de chuva, e ninguém parecia estar se importando com o tradicional resguardo obedecido na Quaresma.

Elspeth estava sentada entre lorde de la Rochelle e o príncipe Tarran. Ela preferiria ter feito a refeição matinal com Vala, em uma das mesas dispostas pelo salão, mas o barão fizera questão de tê-la a sua nobre mesa, em destaque por ficar em uma espécie de palco. Ela havia aproveitado o silêncio da noite para refletir e decidira obedecer à prudência e não desafiar nem contrariar ninguém, a menos que fosse absolutamente necessário. Evitou olhar nos olhos de Tarran, em especial. Ele teria reagido aos beijos da mesma forma que ela?

A inegável atração que ele lhe despertara poderia comprometer a missão caso ela não se mantivesse firme e em controle das emoções. O colóquio já lhe havia custado o prolongamento da estada no castelo. Em circunstâncias normais, ela já teria burlado a vigilância, localizado Rhan e voltado para a estrada. Em vez de estar sendo obrigada a aturar o Conportamento inconveniente de lorde de la Rochelle, que insistia em colocar a mão em sua perna cada vez que lhe dirigia a palavra.

Ansiosa por encontrar uma desculpa para se levantar da mesa, Elspeth tentou se concentrar na apresentação de três artistas do grupo itinerante que havia acabado de chegar. Deveria ser a única. Ninguém aplaudiu nem ovacionou no momento em que o mais velho dos três, em uma demonstração de malabarismo com três bolas, deixou cair uma. Teria acontecido o mesmo com os pais dela? Jamais pensara em observar a reação da platéia a seus truques porque só eles lhe importavam.

— Está muito quieta. Espero que nada esteja lhe faltando — disse lorde de la Rochelle.

Sim, está. Há uma pessoa neste castelo com quem tenho grande necessidade de conversar, mas me impedem de vê-la.

Elspeth sorriu e, sem responder, foi apanhar a bola.

— Se eles a estão incomodando, posso mandar que se retirem do castelo — ofereceu o anfitrião assim que Elspeth voltou a se sentar, aproveitando para apoiar a mão mais uma vez em sua perna.

— Isso não é necessário — ela respondeu com dificuldade pelo gosto amargo da lembrança que lhe veio à boca. Aqueles três artistas a fizeram pensar na própria família. O homem mais velho poderia ser seu pai, a mulher sua mãe, e o filho ela mesma.

— Talvez você prefira ouvir uma história — o barão sugeriu.

— Sabe se há algum trovador no grupo?

Lorde de la Rochelle assobiou, e um homem se levantou em um canto afastado do hall.

Elspeth notou que as chamas das velas refletiam no cinturão metálico que o homem trazia à cintura e que algo que lhe pareceu um crucifixo pendia de seu pescoço. Mas, à medida que ele se aproximava, Elspeth percebeu o engano. Não era um crucifixo, mas uma pedra redonda, que ele colocou por dentro da túnica antes de dobrar o corpo em mesura.

— Conte-nos uma história — ordenou o senhor do castelo.

— Qual gostaria de ouvir, milorde?

Lorde de la Rochelle pegou um peixe inteiro que havia acabado de ser servido em uma travessa de madeira e partiu um pedaço com as mãos. Elspeth não pôde evitar comparar sua atitude rude com a voz melodiosa do poeta.

— Ap Llyr, você conhece alguma mais interessante do que a de llech-lafar? — o barão sugeriu.

Elspeth engoliu em seco e baixou os olhos para disfarçar a excitação. Por que lorde de la Rochelle resolvera falar justamente sobre a pedra que a trouxera a Gales? Ela teria empalidecido? As mãos estavam frias como gelo. Não podia perder o controle. A lenda deveria ter-se espalhado entre todo o povo. Ela deveria ter imaginado que uma história contada por Merlin não podia ser apenas de seu conhecimento e da rainha Eleanor. Obrigou-se a levantar o rosto e sorrir. Talvez fosse imaginação, mas acreditou ter visto o poeta fitando-a.

— Que tal a história de Pwyll, que tomou o lugar da morte para derrotar o inimigo? — ela sugeriu, em uma tentativa de fingir descontração.

— O alvo de Pwyll não era um de seus inimigos — Tarran corrigiu —, mas o maior inimigo da morte.

O anfitrião franziu o cenho.

— Tétrico demais para meu gosto nesta manhã que parece ter esquecido de amanhecer. — Ele dispensou o poeta com um gesto. — Prefiro me divertir com a apresentação desses incompetentes a ouvir histórias tristes. Mas você ainda não me respondeu, ap Llyr. Acredita que pode haver algum fundo de verdade na lenda sobre llech-lafar?

Elspeth sentiu o fôlego lhe faltar.

— Essa é mais uma das muitas lendas que nos contam na infância — disse Tarran.

— Mas uma lenda sobre maldição — lembrou lorde de la Hochelle antes de se distrair novamente com os artistas que estavam iniciando a segunda parte da apresentação.

Desanimada por ter se deixado entregar por um momento a uma falsa esperança de descobrir o paradeiro da pedra, Elspeth procurou Vala com os olhos e encontrou-a sentada entre os homens do príncipe, aquecendo-se ao fogo. Parecia preocupada e quase tão cansada quanto na noite anterior. A impressão que dava era que a velha mulher não conseguira conciliar o sono.

— Soube que mais navios estão se preparando para deixar a ilha de Lundy — comentou o anfitrião, com uma risada de deboche. — Os tolos querem tentar uma nova vida em colônias que nem sequer devem existir.

Elspeth ouviu o relato com a respiração suspensa.

— Muitos acreditam que o príncipe Madoc teve êxito na expedição à procura de novas terras.

— Uma lenda como tantas outras que se espalharam por Gales — zombou lorde de la Rochelle. — Não existe nada além da Irlanda, com exceção de algumas pequenas ilhas onde os nórdicos se instalaram depois de serem expulsos de suas terras.

— Quem é esse príncipe Madoc? — Elspeth indagou. Esperava que o príncipe Tarran lhe respondesse, mas o barão não lhe deu chance.

— É nosso mais recente mito. Dizem que ele se lançou ao mar e que encontrou, em um lugar distante, um povo gentil que lhe deu acolhimento. Nunca mais foi visto. De repente, rumores se espalharam de que a vida naquelas terras distantes é promissora, e estão tentando reunir pessoas que queiram partir para o oeste em uma nova expedição. Em minha opinião, ele foi morto por seus meio-irmãos para que nunca pudesse reclamar o legado deixado pelo pai. Mas deixemos essas histórias para lá. Estamos aqui para nos divertir!

As investidas do barão continuavam. Elspeth colocou a mão sobre a dele para tentar deter os avanços. A sua frente, uma criada colocava mais cerveja em cada caneca que encontrava vazia. A manhã ainda estava ao meio e o barão já apresentava sintomas de embriaguez. O que não poderia ser mais conveniente para Elspeth, que mal podia esperar para vê-lo desabar, inconsciente, na mesa, para que pudesse sair à procura de Rhan.

— Concordo plenamente — ela declarou com um sorriso. A seu lado, o príncipe se moveu com evidente desconforto, mas o modo como a fitou a fez pensar que ele talvez estivesse começando a confiar em seu bom senso.

O barão, contudo, a surpreendeu ao se levantar e lhe estender a mão.

— Venha comigo.

— Para onde? — Elspeth questionou, aturdida. — Está tão divertido aqui...

Todos os olhares se voltaram para eles. Ela sentiu um estremecimento no peito, mas se obrigou a sorrir. Precisava ter em mente todas as lições que aprendera na vida. Não apenas na abadia de São Judas.

— O que quero fazer com você requer privacidade — ele sugeriu, libidinoso.

— Claro que sim — Elspeth murmurou. — Antes, porém, quero lhe mostrar algo interessante. — Antes que ele pudesse tentar detê-la, ela pediu licença para passar por Tarran, que lhe endereçou um olhar de alerta, e seguiu para o centro do hall, onde os artistas estavam se apresentando.

Todos pareciam concentrados em sua figura e curiosos por descobrirem o que ela pretendia. Ninguém falava. Um homem a puxou pela saia, e ela ouviu o companheiro censurá-lo.

— Ficou louco? Ela é dele!

A advertência sussurrada chegou aos ouvidos e aos pés de Elspeth. Aos últimos ela imprimiu maior velocidade.

Embora apreciasse a aparente proteção de lorde de la Rochelle contra a lascívia daqueles homens, não tinha a menor intenção de ceder aos desejos de posse do anfitrião. Precisava continuar firme e ao mesmo tempo flexível, até encontrar o que viera buscar no castelo: informações que a levassem a llech-lafar.

O artista mais velho saudou Elspeth com uma mesura.

— Milady.

— É um prazer conhecê-los. Admiro os artistas. A cordialidade de Elspeth o desarmou.

— Lamentavelmente, esta apresentação não foi das melhores que fizemos.

— Isso acontece quando a platéia para a qual nos apresentamos não é das melhores.

Um ligeiro sorriso surgiu nos lábios do homem.

— Agradeço a compreensão, milady.

— Pode me dizer seu nome e me apresentar a seus companheiros?

— Meu nome é Cors ap Fflam. Minha esposa e meu filho.

— Eu me chamo Elspeth. Elspeth Braybrooke. Sou filha de Mercer Braybrooke.

Os artistas se entreolharam, surpresos.

— Seu pai foi o melhor malabarista que já conhecemos.

— Sinto-me honrada por sua lembrança.

— Nós nos sentimos honrados por conhecer a filha de Mercer.

Cors fez um gesto em direção à mesa elevada onde o senhor do castelo recebia os convivas. Elspeth se lembrou, nesse momento, do motivo que a levara a essa conversa e pediu que o homem lhe emprestasse o bastão que segurava, que deveria medir o dobro do cajado que ela costumava usar.

— Estamos a sua disposição. Faremos qualquer coisa para ajudar a filha de Mercer.

— Então venha comigo e reze para que eu saiba o que estou fazendo.

A caminho da mesa de lorde de la Rochelle, Elspeth manteve a cabeça erguida. O plano era simples, mas para funcionar ela precisaria ter extrema cautela. Se o barão se sentisse humilhado, o desejo por ela se transformaria em raiva.

— O que tem em mente? — O barão estreitou os olhos.

— Um desafio, milorde. O convite para um tipo diferente de entretenimento me deu uma idéia. Fiquei cogitando o que poderia fazer para agradá-lo em troca de seu amável acolhimento.

— Uma pergunta fácil de responder. — O barão estendeu a mão e pegou uma mecha dos cabelos de Elspeth.

Ela se virou imediatamente para o filho de Cors, para que lorde de la Rochelle não visse a expressão de repulsa. Todavia, ao lhe tomar o bastão, seus olhos encontraram os de Tarran, e dessa vez não foi possível ignorar a contrariedade que eles refletiam.

— Pensei ainda — Elspeth prosseguiu — que milorde provém de uma longa sucessão de bravos guerreiros e que sente prazer com as vitórias. Estou errada, meu senhor?

— Não.

Elspeth precisou conter o sorriso. Ele tinha de responder daquela forma ou passaria vergonha em presença de seus homens e convidados.

— Então me permita propor um desafio. — Mais uma vez, Elspeth se virou para Cors e para seu filho. — Cada um de vocês deve segurar o bastão em uma extremidade.

E novamente para o barão. — Eu me proponho a passar por qualquer altura que milorde estabelecer. O anfitrião riu às gargalhadas.

— Sou muito mais alto que você. Meus braços devem ser mais longos que suas pernas. Ao menos suponho que sejam...

Por enquanto, milorde realmente só pode supor... —

Elspeth concordou com deliberada malícia, inclinando-se para ele e apoiando o cotovelo na mesa, de modo a aproximar o rosto do dele. — Se meu desafio não for aceito, entenderei que não está interessado em nenhum outro tipo de diversão pelo restante da noite.

Aproveitando que o barão se distraíra com uma observação que lhe fizeram, Tarran saltou sobre o banco e aterrissou a poucos centímetros de Elspeth.

— Por que fez isso? — ela questionou, surpresa. — Poderia ter se machucado.

— Agora você ultrapassou todos os limites. Estou cansado de seu atrevimento.

— Então vá embora!

— E deixá-la sozinha com ele?

— Posso lidar perfeitamente com o barão.

— Tem certeza? — ele questionou após uma pausa deliberada para fazê-la refletir. — Porque, se estiver enganada, minha ajuda poderá se tornar preciosa.

Ela não deveria ter-se permitido distrair. O barão estava descendo a escada e olhando para eles com desagrado.

— Fique fora disso, ap Llyr.

— Certamente, milorde. Apenas achei por bem dar alguns conselhos à adversária. Não gostaria de vê-la quebrar o pescoço.

Se Elspeth ansiava por ver o príncipe Tarran sorrir, agora preferiria não ter testemunhado o modo como ele o fez.

Movido pela excitação do desafio e do incentivo da platéia que já o aclamava como vencedor, lorde de la Rochelle indicou a altura a que os dois homens deveriam segurar o bastão.

— Você está brincando com fogo, Elspeth — o príncipe murmurou. — Nenhum homem gosta de ser humilhado.

— Sei o que estou fazendo — ela afirmou, irredutível.

— Foi isso que disse ontem no pátio.

— Mas agora realmente sei o que estou fazendo — Elspeth precisou baixar a cabeça, sem ter como refutar essa verdade.

Tarran mandou que ela tornasse a olhar para a mesa onde os homens do barão já se preparavam para comemorar sua vitória com uma nova rodada de cerveja.

— Ele espera vencer e quer você como prêmio.

— Ele me quer de qualquer jeito — Elspeth contou. — Se eu não tentar uma saída, me forçará a ir para a cama.

— Não enquanto eu estiver aqui. Elspeth encarou-o, séria.

— Não quero envolvê-lo nisso, príncipe Tarran.

— Aquele que salva uma vida em perigo passa a lhe dever permanente proteção.

— Absurdo! — Elspeth retrucou. — Não preciso que me proteja. Posso cuidar de mim mesma.

Ela já estava se afastando quando sentiu um sopro em seus cabelos.

— Tarran. Não me chame mais por meu título.

— Mas você é um príncipe e devo chamá-lo como fazem os outros.

— Os outros são daqui. Você, não. Você é uma sais, uma estrangeira.

— Estou pronto! — o barão anunciou naquele instante.

— Elspeth...

— Não diga mais nada, Tarran. É tarde demais para voltar atrás.

Ela conteve uma exclamação de assombro. O barão havia erguido o bastão à altura das mesas. Ela não esperava que o desafio fosse se revelar tão grande.

— Ele prefere falhar a ser vencido por você. Mas a hipótese de falhar não lhe passa pela mente. Porque ele a quer, Elspeth.

— Eu sei.

E o que fará se a vitória for dele? Um arrepio de horror subiu pelas costas de Elspeth, mas - ela se negou a responder ao príncipe. Se tudo corresse de acordo com seus planos, não seria vencida.

O barão esvaziou outra caneca de cerveja antes de pegar impulso para o salto. Os pés, contudo, bateram na madeira, e ele caiu de joelhos no chão, para ser levantado imediatamente pelos braços e ganhar uma nova caneca de cerveja em consolação.

— Sua vez.

Elspeth pediu que as pessoas se afastassem. Andou até o bastão que lhe chegava à cintura e fingiu examiná-lo. Depois voltou ao ponto de partida, ergueu as saias o suficiente para poder correr, mas, antes que tomasse impulso, se sentiu agarrar pelo braço por dedos que pareciam tentáculos.

— Milorde — Tarran se dirigiu ao barão sem olhar para Elspeth, que se debatia, furiosa, para se desvencilhar. — Tenho uma sugestão a fazer antes que ela salte.

— Você já lhe deu conselhos que bastem!

Tarran precisava ser esperto. O barão já estava evidentemente irritado com a situação.

— Não estou pensando em dar nenhum conselho.

Com um suspiro de enfado, lorde de la Rochelle finalmente deu consentimento para que Tarran dissesse o que tinha em mente.

— Solte-me! — Elspeth protestou, antes que ele pudesse falar.

— Para quê? Esse sujeito não lhe dará chance para reconsiderar. Só fez isso agora porque existe uma lei tácita de que todo guerreiro deve dar ao oponente as mesmas oportunidades na disputa ao prêmio.

— Sei o que estou fazendo, já disse — Elspeth resmungou. — Solte-me logo. Nosso anfitrião está ficando impaciente.

— Impaciente para seduzi-la — Tarran grunhiu.

— O que não é de sua conta.

— Infelizmente é.

A pulsação de Elspeth acelerou ao ouvir isso.

— Sei que você é capaz de cuidar de si própria, mas nesse momento ao menos sua reputação corre perigo.

Elspeth puxou o braço para se soltar.

— Quer fazer o favor de parar de se comportar como se fosse meu anjo da guarda simplesmente porque me salvou de uma queda que foi você mesmo que provocou?

— Não, Elspeth. Você se tornou minha responsabilidade no momento em que demonstrou necessitar de alguém com bom senso para vigiá-la.

— Eu tenho bom senso! — Ela quase perdeu o controle de vez. Era tão fácil esquecer o desafio, o senhor do castelo e até mesmo o bom senso quando pensava que poderiam acontecer outros beijos entre ela e o príncipe Tarran.

— Não que eu tenha visto.

— Pois bem! — A indignação a fez revelar o plano antes do que pretendia. — Vou passar por baixo do bastão, não saltar por cima dele.

— Por baixo?

— Sim. Eu disse que passaria a marca que o barão estabelecesse. Não mencionei se seria por cima ou por baixo.

Tarran cerrou os punhos.

— E como você acha que ele reagirá ao ser tratado como um tolo diante de todos os seus homens e convidados?

— Ele não deveria ter me provocado, insistindo em colocar aquelas mãos asquerosas em meu corpo!

Convicto da seriedade do problema, Tarran ergueu o braço e pediu silêncio à platéia.

— Lorde de la Rochelle! Parece que esta jovem quer se retratar pelo desafio que propôs.

O quê? — Elspeth e o barão protestaram em uníssono. —- Sei que milorde não deseja ver sua convidada se ferir. O barão, contudo, não deu demonstração de querer relevar sua posição.

Um desafio é um desafio.

— Concordo — disse Elspeth.

— Ele...

Tarran cravou os dedos com força no braço de Elspeth em muda advertência. Ela considerou a idéia de agarrá-lo pelo outro braço e arremessá-lo longe, mas reconhecia seu erro por tentar ganhar tempo com lorde de la Rochelle de maneira desastrosa.

— Se V. Sa. não admite retratação, ao menos peço que considere uma mudança na proposta, de modo a impedir que esta jovem sofra graves injúrias.

O sorriso retornou aos lábios do barão.

— Concordo que a proposta seja alterada, desde que o prêmio permaneça.

Tarran finalmente soltou Elspeth e estava se encaminhando para lorde de la Rochelle quando se viu cercado por homens empunhando espadas e punhais. Virou-se para o local onde se reunia seu grupo e foi com espanto que descobriu que todos estavam igualmente encurralados.

Uma sensação de náusea se apoderou de Elspeth. Os homens do barão não deixavam as armas à entrada do hall como obrigavam os visitantes a fazer. O príncipe estava certo. Lorde de la Rochelle a havia manipulado desde o começo para conseguir o que queria.

— Apelo para sua honra para que coloque um fim nesse contra-senso — implorou Tarran. — Lady Elspeth estava ébria de excitação e o que disse não deveria ser levado em conta.

O barão riu alto.

— Ébria? Vejamos. Eu a desafio, então, a andar sobre o bastão.

— Ela poderia cair e se machucar.

O barão golpeou a mesa com um estrondo.

— Sua chance de se ferir será menor do que a minha! Um sorriso de vitória estampou o rosto do barão ao empurrar Tarran em sua passagem. Os guardas lhe abriram alas e tornaram a fechar o cerco sobre o príncipe. Ele caminhava como se fosse o caçador e Elspeth a presa.

86

— Você aceita ou prefere se render?

— Aceito, se milorde aceitar — ela respondeu, enigmática.

— Já aceitei! — ele protestou. — Não saltei sobre o bastão?

— Mas o queimou ao bater com o pé. Se eu conseguir andar sobre o bastão apoiado em duas mesas, darei um espetáculo perfeito. Nesse caso, também lhe cobrarei a perfeição.

— Não haverá necessidade disso se você não conseguir cobrir a distância entre as mesas. — O barão se vangloriou de sua esperteza. — Tombará no chão e depois eu a tombarei.

Elspeth assentiu com esforço para não demonstrar repulsa. Seguiu, então, até as mesas. Cors e o filho haviam se sentado sobre cada extremidade do bastão, para firmá-lo. Ninguém acreditava em seu êxito. Estavam apostando quantos passos ela conseguiria dar antes de cair.

De pé, em cima da mesa, Elspeth olhou para Cors e para o filho dele. Percebeu que Tarran estava vindo em sua direção e temeu que os guardas fossem lhe barrar a passagem, mas eles não o impediram de se posicionar no meio do bastão e abrir os braços, em uma última súplica para que ela desistisse.

Não se ouvia nenhum som no ambiente, a não ser os estalidos do fogo. Elspeth ouvia também as batidas de seu coração. O pedido do barão não era impossível. Antes de adoecer, a mãe lhe ensinara a arte de dançar sobre bastões. Ela havia tentado praticá-la na abadia, mas as aulas de artes marciais e outras técnicas de luta lhe tomaram todo o tempo. Deveria fazer cinco anos aproximadamente desde a última tentativa. Não conseguira percorrer toda a extensão do bastão porque começara a rir. Agora, contudo, não havia Nenhum motivo para riso.

Memórias do passado retornaram com ímpeto. Quando era criança, sempre que percebia que estava perdendo o equilíbrio, ela se apressava a dar mais um ou dois passos e pulava antes que pudesse cair e se machucar. Apenas não era mais criança...

Você sabe que pode conseguir. Não se deixe levar pela opinião dos outros que não sabem de que você é capaz.

A voz do pai pareceu ecoar em seus ouvidos. O ar lhe faltou por um instante. Parecia real. Parecia estar vendo o pai a sua frente acalmando-a e lhe imprimindo confiança.

Nesse momento, Elspeth endireitou os ombros e ergueu a cabeça. Focalizou o dintel acima da porta em arco na outra extremidade do hall e deu o primeiro passo, e outro, e mais outro. Ouviu alguém conter a respiração. Tarran? Cors? O filho dele? Outra pessoa? Ela não estava em situação de conferir. Precisava manter a concentração.

Ergueu as mãos à frente, como se segurasse sua espada. Para lutar, era preciso equilíbrio. Como ao andar sobre o bastão! Ao deslizar o pé esquerdo, porém, o bastão vibrou e ela quase desistiu, mas a fé em si mesma a obrigou a prosseguir. Armou-se, então, de coragem e deslizou o pé direito à frente.

Dessa vez, não caiu por pouco. Os homens do barão gritavam e aplaudiam. Ela sentiu um gosto de fel na boca. Não podia perder. Em hipótese alguma. Avançou mais um pouco. A qualquer momento chegaria até o filho de Cors e venceria a disputa.

Um silêncio total caiu sobre a platéia assim que o pé de Elspeth tocou a mesa oposta.

— Perfeito! — exclamou o jovem artista. — Sua atuação foi digna de uma filha de Mercer Braybrooke.

— Obrigada.

Foi tudo que Elspeth conseguiu dizer antes de ser arrebatada por dois braços fortes que a levaram ao encontro de um peito acolhedor.

Tarran! Por mais que ela tivesse desprezado sua proteção, nada lhe daria maior prazer do que deitar a cabeça em seus ombros e admitir que estava atordoada de tensão.

— Espero que não esteja aguardando por meus cumprimentos. Continuo convencido de que foi uma insensatez provocar lorde de la Rochelle.

— Não precisa me dizer nada.

— Mas a verdade é que você esteve magnífica. Tarran a colocou no chão, por mais que desejasse continuar a segurando nos braços.

— Sua vez, milorde.

— Duvido que o bastão suportaria meu peso. — O barão encolheu os ombros e saiu mancando de volta para a mesa elevada, onde logo se entreteve com uma loira que Tarran ainda não havia notado.

Um grande alívio o inundou. Seus nervos estavam em frangalhos desde que Elspeth desafiara o sujeito. Ou teria sido desde que lorde de la Rochelle se mostrara à beira de perder a paciência com ela? Se fosse honesto consigo mesmo, ele admitiria que o ar só lhe faltara quando tomara Elspeth nos braços ao término da incrível apresentação.

— Nenhuma mulher deve ter se sentido tão agraciada pela sorte ao ser tão rapidamente esquecida por um admirador — Elspeth confessou.

Esquecida? A idéia o chocou mais do que a habilidade de Elspeth em propor e vencer desafios. Jamais poderia esquecer o brilho de seus olhos, a maciez de seus lábios e a agilidade de seus movimentos e de suas palavras. Jamais poderia esquecê-la, embora soubesse que ela em breve desapareceria de sua vida.

— Sorte você teve por lorde de la Rochelle ainda estar sóbrio o suficiente para saber o que estaria arriscando se tentasse vencê-la em seu novo desafio. Por que você brinca tanto com o perigo, Elspeth, quando é dona de uma inteligência rara e de conhecimentos incomuns? Poderia ter recorrido a outras desculpas para convencer nosso anfitrião de que não estava interessada nas propostas de sedução.

— Quais? Tentei ser gentil. Tentei o humor. Fiz tudo que pude, exceto cravar uma faca em sua mão para impedir que me tocasse. Arrisquei até mesmo meu pescoço!

— Não diga mais nada!

— Se não quer ouvir minhas respostas, então não me faça perguntas! — ela esbravejou. — Ou está me provocando deliberadamente como fez ontem?

Tarran evitou fitá-la porque não queria que ela lesse a verdade em seus olhos. Porque a cena no pátio deserto ficara gravada em sua mente, da mesma forma que o calor dos lábios rosados marcara sua boca.

Não esperava que Elspeth fosse lhe dar as costas e se afastar para se sentar ao lado de Vala. Sem saber o que fazer, algo que nunca lhe acontecia, ele deixou o grande hall, mas voltou em seguida. Uma criada estava servindo cerveja, e ele lhe pediu uma caneca. Ignorou o sorriso de oferecimento. Tudo naquele ambiente parecia irritá-lo. Principalmente os risos de provocação entre homens e mulheres. Precisava de silêncio para pensar. Se estivesse em seu raciocínio perfeito, não teria beijado Elspeth.

Perdoe-me, Addfwyn. Você sabe que lhe dei meu coração para que o levasse para sempre consigo.

A esposa não podia responder. Melancólico, Tarran esvaziou a caneca e saiu para o pátio. A chuva havia passado, mas o ar ainda conservava o frio dos ventos que sopravam do mar. Ele ergueu os olhos para o céu e descobriu que já havia anoitecido. Milhares de estrelas cintilavam.

Sentiu os olhos embaciarem. Teria bebido demais? Não era de seu feitio se exceder na bebida. Mas também não era de seu feitio beijar os lábios de outra mulher que não fosse a esposa. Por que desejaria partilhar seu amor e leito com Elspeth? Ela achara graça da idéia de serem amantes. Por que ele não interpretara seu riso como um insulto e lhe virara as costas? Por que quisera puni-la com um beijo? Por que seu corpo ainda reagia à excitação que o dominara?

Aquela reação era sinal de que ele ainda estava vivo, Tarran pensou. Mas ele não queria mais viver.

Furioso com a vida e consigo mesmo, deu um soco na parede. Não tornaria a beijar Elspeth. Partiria pela manhã e lhe diria, caso ela resolvesse acompanhá-lo, que demorara demais para lhe dar uma resposta. Não cederia a seus rogos, mesmo que ela lhe oferecesse outro beijo e mais...

 

 

                             Capítulo VIII

 

Ele estava sonhando. Tinha certeza de que era sonho porque podia ouvir as batidas de seu coração e sentir o peito mover com a respiração. Como podia estar, no entanto, no castelo do rei Arawn, senhor de Annfwn, para onde eram levadas as almas dos antigos guerreiros galeses? O rei Arawn era temido no mundo dos homens, mas, em seus domínios, a lenda dizia que era venerado como um deus. Seu castelo fora construído em um vale onde a vegetação era mais alta e mais exuberante do que se observava nos campos dos homens. Em seus salões, reuniam-se os mais bravos guerreiros e as mais lindas mulheres. Muitos pertenciam a uma raça anterior à humana. Era dessa raça que o rei Arawn afirmava descender.

A morte encarnada no rei se tornava bela. Tão bela quanto a figura da mulher sentada à grande mesa. Tarran observava o casal saboreando iguarias aos acordes de uma música celestial que o emocionava, mesmo tendo certeza de que ainda vivia e que a esperança de encontrar Addfwyn era vã. Porque ele não havia perdido a consciência. Não podia ter morrido. Não enquanto não se vingasse do inimigo.

Uma voz suave penetrou a neblina onde ele se debatia em conjecturas. Era Addfwyn que o chamava com as longas madeixas escuras que lhe caíam sobre os ombros como um manto. Seu olhar o acariciava conforme se inclinava sobre ele e se sentava a seu lado. Tomado de saudade e de júbilo, ele abriu os braços para estreitá-la junto ao peito. Mas ela recuou, como Elspeth fizera com lorde de la Rochelle.

Ouviu seu nome ser novamente murmurado. Elspeth. Mas não era a voz de Elspeth que ele devia estar ouvindo se era a amada esposa quem se encontrava a seu lado.

— Addfwyn.

— Não deveria estar aqui — ela sussurrou.

— Jurei que ficaria com você até o fim de meus dias. Se você está aqui, então este também é meu lugar.

— Seu momento ainda não chegou.

— Talvez eu possa apelar ao rei Arawn para que ele me conceda o favor de me trazer para cá assim que eu conseguir vingar sua morte.

Addfwyn tocou-lhe o rosto com a mão delicada, como sempre fazia em vida.

— Nem mesmo a morte pode mudar o que está escrito.

— Deve haver um meio. — Ele tentou segurar a mão que se afastava. Embora pudesse vê-la, não conseguiu senti-la. — Por que não consigo tocá-la, minha bem-amada?

— Porque você não pertence a este mundo. Deve voltar à terra dos homens e lá permanecer até ser chamado para atravessar o rio que nos separa.

— Não quero voltar para lá. Quero ficar com você. Ela fez um movimento de negação.

— Você ainda não está pronto para fazer a passagem. Deve voltar a seu mundo. Ainda há muito a realizar. Sua missão não foi concluída.

Tarran ainda tentou argumentar, mas a imagem de Addfwyn começou a turvar, até desaparecer por completo. E ele acordou, sozinho.

 

                                 Capítulo IX

 

Quando Elspeth entrou no grande hall na manhã seguinte, ele estava estranhamente deserto. Talvez porque as velas se haviam extinguido e não houvesse ninguém ao redor da mesa elevada. Em um canto, Vala estava partindo um pedaço de pão. Kei ap Pebin, se Elspeth estava bem lembrada de seu nome, lhe fazia companhia. Ele era um dos homens que tentara afastá-la à força de Lau. Ela não se admiraria se ele se levantasse e fosse embora a sua aproximação. Mas ele não se moveu do lugar.

Vala a recebeu com um sorriso cordial.

— Sente-se e coma conosco.

— Bom dia — Elspeth saudou-os, antes de se sentar ao lado da anciã, que lhe empurrou imediatamente uma tigela de mingau.

Elspeth comeu sem apetite. O estômago dera reviravoltas durante toda a noite. Conciliar o sono fora impossível. Mesmo depois de ela se levantar e se exercitar com a espada, achando que o cansaço venceria a insônia.

— Onde está Tarran? — indagou.

— Príncipe Tarran, deveria dizer — Kei lhe dirigiu a palavra pela primeira vez. — Não pode tratá-lo com essa informalidade. Ou faz isso para nos lembrar de que é uma normanda?

— Para que eu precisaria lembrá-los se não param de se referir a mim desse modo, não é mesmo?

Vala ergueu as mãos em um gesto de apaziguamento.

- Iniciar um novo dia com uma velha contenda é desperdício de tempo e de energia.

Elspeth murmurou uma desculpa. De que adiantaria continuar alimentando aquela franca hostilidade?

— Ele pediu que eu o chamasse assim.

Vala aprovou o gesto de conciliação com um sorriso.

— Uma resposta perfeitamente razoável.

— Se ela não o satisfez, meu rapaz, deverá se dirigir ao príncipe para que o esclareça.

— Ainda tenho uma pergunta. — Ele cruzou os braços sobre a mesa. — Por que arriscou nossa sorte ontem à noite ao propor aquele desafio ao senhor deste castelo?

Elspeth imitou a pose de Kei para lhe mostrar que não estava se sentindo intimidada.

— Fui a única que correu algum tipo de perigo neste castelo ontem à noite. Precisava encontrar um jeito de escapar das garras daquele homem e encontrei. O que queria que eu fizesse? Que cruzasse os braços, como agora, só para seu conforto? — Antes que Kei ou Vala pudessem se manifestar, ela tornou a perguntar. — Algum de vocês sabe onde posso encontrar Tarran?

— Ele não dormiu em seu leito na noite passada.

Elspeth se virou à voz grave e foi tomada por uma desagradável sensação. O estômago contraiu, e ela conteve um gemido.

— Ele costuma desaparecer durante a noite?

— Sim — responderam Seith, Kei e Vala, simultaneamente.

— Alguém poderia me explicar o que está acontecendo? - Elspeth perguntou, a preocupação substituindo o ciúme de que ele estivesse, talvez, com outra mulher.

Vala olhou para os dois homens antes de responder.

- O sono o abandonou desde que a esposa foi assassinada. E, quando dorme, os pesadelos o torturam.

— Posso compreender como ele está se sentindo — Elspeth murmurou.

— Também tem pesadelos? Oh, sinto muito...

Antes que Elspeth pudesse desfazer o equívoco de Vala, um homem se dirigiu a eles. Trazia uma insígnia no braço, que o identificava como valete de lorde de la Rochelle.

— Tarran ap Llyr? — Ele olhou para Kei e Seith. Na falta de resposta, exibiu o pergaminho que trazia em uma das mãos. — Quem responde por ap Llyr em sua ausência?

— Eu respondo — disse Seith.

O valete entregou o documento e se afastou.

— O que é? — indagou Gryn, que deveria ter se aproximado enquanto as atenções estavam voltadas para o valete, porque ninguém havia dado por sua presença.

Seith quebrou o lacre de parafina e desenrolou o pergaminho. Após breve hesitação, entregou-o a Elspeth depois de perguntar se ela conseguia ler o que estava escrito.

— Não está em latim — justificou.

Elspeth abriu o pergaminho na mesa e tomou conhecimento do conteúdo. O anfitrião não precisaria ter usado um discurso tão formal para explicar a ausência. Todos que tiveram a oportunidade de participar dos entretenimentos no grande hall no dia anterior já haviam adivinhado que ele teria dificuldade em se levantar pela manhã. Fosse o consumo excessivo de cerveja, ou a luxúria, ou mesmo a vergonha de se apresentar diante de seus homens enquanto a desafiadora estivesse nas premissas, ele preferiria o resguardo dos aposentos.

— O que diz? — Kei apressou-a.

— O que já era esperado — disse Elspeth. — Com exceção de Lau, que tem permissão para ficar no castelo até seu restabelecimento, vocês deverão deixá-lo antes que o sol alcance o ápice. A desobediência os condenará a uma permanência mais prolongada, mas nos confins de uma cela. - Elspeth enrolou o pergaminho e devolveu-o. — Encontre Tarran e avise-o imediatamente.

— Seguirá conosco?

— Darei minha resposta antes que o sol atinja o ápice. De qualquer modo, peço que Tarran não vá embora antes que eu o procure.

— Mas se ele insistir...

— Detenha-o! — Elspeth se pôs a correr antes que Seith questionasse sua autoridade. Seu tempo estava se esgotando. Não podia perder nem mais um minuto. Precisava ver Rhan e consultá-la em sua sabedoria. Não havia mais tempo nem para desejar que a missão a levasse pelos mesmos caminhos de Tarran.

Ela olhou para os dois lados do corredor. O teto era alto, mas a distância entre as paredes era tão pequena que um homem do tamanho de Seith não poderia percorrê-lo. Jamais vira algo igual. Era perfeito como defesa. Porque, em caso de invasão, os inimigos só poderiam atravessá-lo um de cada vez. No teto, também havia portinholas por onde despejar areia quente sobre os invasores. As portas eram tão baixas que seria preciso curvar as costas e abaixar a cabeça para poder entrar, e elas estavam dispostas a intervalos regulares umas das outras, de forma que, se duas fossem abertas simultaneamente, o inimigo se veria incapaz de brandir a espada.

Ocorreu-lhe que o barão estava bem preparado para se defender de inimigos.

Como ela precisava estar.

Em sessenta minutos, teria de dar sua resposta ao príncipe. Teria de estar pronta e certa da decisão que deveria tomar. Agora faltava pouco para o encontro com Rhan. Graças a Difyr. A jovem criada que a ajudara a cuidar de Lau lhe revelara o paradeiro da vidente. Ela lhe teria feito qualquer revelação pela oportunidade de ficar ao lado do homem por quem se interessara à primeira vista.

Elspeth contou as portas. Encontraria a mulher em quarentena por trás da quinta. Vacilou, contudo, antes de entrar. Um contágio significaria falhar na missão. Mas era preciso correr o risco.

Ao empurrar a porta, as dobradiças guincharam. O espaço era exíguo. Uma única vela, colocada a um canto, impedia que a escuridão fosse absoluta. Não havia janelas que purificassem o ar pestilento. Um catre fora colocado no centro. Não havia nenhum outro móvel.

Elspeth se aproximou da figura oculta por um cobertor. Era tão franzina que quase não fazia volume, mas a voz soou alta e forte ao interpelá-la.

— Quem é você que desafia a morte para me ver?

— Sou Elspeth.

— Não conheço nenhuma Elspeth.

— Sou uma viajante a quem foi permitido repouso.

— O que veio fazer neste castelo?

— Procuro Rhan, a sábia. Estou diante dela? — Elspeth se ajoelhou ao lado do catre e mirou o rosto enrugado que a fez lembrar as rochas esfriadas das montanhas. Os cabelos eram tão brancos que faziam lembrar a neve ao cair.

— Sim.

— É verdade que conhece os mistérios? A mulher deu uma sonora risada.

— Já vi muitas coisas em minha longa vida, menina. E cada coisa que vi me ensinou uma lição. Mas, se veio a mim na expectativa de conseguir uma poção que faça o coração de um homem bater a seu favor, a visita foi em vão. Porque já não preparo poções nem lhe transmitirei meus segredos.

— Não estou em busca da poção do amor.

— Mas vejo em seus olhos que se debate entre questões do coração.

Elspeth se lembrou das conversas com as irmãs de São Judas, após as vésperas. Na abadia lhes era ensinado que tais poções eram inócuas, mas a resistência em acreditar nessas afirmativas era grande. As lendas já haviam criado raízes entre o povo. Diziam que uma combinação das ervas certas fazia a mágica de aquecer os corações.

— O que a traz, então, à presença da velha Rhan?

— Preciso de informações sobre llech-lafar.

— Que tipo de informações?

— Sabe onde posso encontrá-la?

— Ao longo do rio Alun.

— Onde fica esse rio?

— Quem é você que não sabe onde fica o rio Alun? — a mulher perguntou, desconfiada.

— É o rio que fica na região de Pembroke?

Elspeth fez a pergunta de um só fôlego. O rei havia partido de Pembroke rumo à Irlanda e em seu regresso à Inglaterra teria de passar novamente por lá. Talvez ele já tivesse pisado sobre a pedra da profecia sem que nada de mal lhe acontecesse. O perigo o espreitaria a cada passo, porém, quando empreendesse a viagem de volta. No momento que o rei pisasse sobre a pedra, a maldição se cumpriria.

— Não. Ele corre para o mar, não muito longe daqui, onde se erguia a catedral de São David antes de ser consumida pelo fogo. Mas por que você deseja saber sobre llech-lafar?

Elspeth sentiu vontade de rir e de rodopiar. Perto da antiga catedral de São David? No caminho por onde Tarran teria de passar? Uma alegria indescritível a inundou. Gostaria de sair dançando e cantando, porém controlou não apenas o corpo, mas também a voz ao responder.

— Curiosidade.

Rhan balançou a cabeça e fechou os olhos, como se o Movimento tivesse lhe provocado dor.

— Você é uma sais. As pessoas só atravessam Offa's Dyke Por dois motivos: ambição de poder e sonhos de riqueza.

Elspeth sorriu.

— Não foram esses motivos que me trouxeram aqui. Vim para descobrir mais a respeito de llech-lafar, porque tenho curiosidade em saber se a lenda tem algum fundamento.

— E para se assegurar de que seu rei normando não encontre a morte ao encontrá-la?

Elspeth rezou para que a mulher não tivesse notado o estremecimento que a percorreu da cabeça aos pés. Ela era realmente sensitiva.

— Nada conheço sobre o rei. Dizem que é um homem de temperamento forte e obstinado.

A anciã estendeu a mão fria e Elspeth a segurou entre as suas, para aquecê-la. A mulher estava doente e deveria estar carente de afeto. Surpreendeu-a que ela as virasse com as palmas para cima e as soltasse abruptamente após um momento.

— Volte para casa, menina. Volte para o lugar onde pertence, antes que evoque a maldição que deseja impedir que se cumpra.

Elspeth esboçou um sorriso.

— Se está tentando me assustar, saiba que não tenho medo de nada. Desejo descobrir a verdade sobre llech-lafar e pretendo permanecer em Gales até que minha curiosidade seja satisfeita.

— A verdade está em suas mãos.

— Que verdade? — Elspeth questionou. — Por que as palmas de minhas mãos conteriam a verdade sobre a pedra mítica?

Calos e uma cicatriz. Ela não conseguia enxergar mais nada. Os calos eram resultantes dos exercícios com os bastões. A cicatriz era pequena e quase invisível de uma mordida de cachorro que levara quando criança. A parte lateral estava um pouco arranhada da tentativa frustrada de entrar no castelo sem ser vista. Quase a mostrou à mulher e lhe contou sobre a atitude ousada, para que ela entendesse que não conseguiria amedrontá-la com suas palavras.

— Ela não diz nada sobre a pedra, mas indica que você estará arriscada a perder tudo que lhe é mais caro na vida se persistir no caminho que está percorrendo. Volte de onde veio, criança, e admita a derrota. Essa será a única maneira de preservar o que traz no coração.

A porta se abriu naquele instante, e uma mulher pediu que Elspeth se retirasse.

— Obrigada — Elspeth se curvou e agradeceu com respeito e admiração.

— Ouça meu conselho, minha jovem! Eu lhe imploro! A mulher escancarou a porta para apressar a saída de Elspeth e bateu-a com força. O guincho das dobradiças enferrujadas pareceu atravessá-la como uma facada, mas a esperança de finalmente encontrar llech-lafar lhe emprestou asas aos pés e à mente. Mal podia esperar para dizer a Tarran que aceitava seu convite. Mal podia esperar para chegar ao rio Alun. Ela o percorreria desde a nascente até a foz, se preciso fosse, e salvaria o rei. Cumpriria a missão que a rainha lhe confiara e só então, em paz com a consciência, retomaria a vida com as irmãs da abadia de São Judas.

Amava-as. Não queria acreditar que as estaria sentenciando à morte por se manter fiel ao voto que fizera. Nenhuma irmã jamais hesitaria em se sacrificar pela rainha Eleanor. A abadia era seu único lar, seu paraíso. Não suportaria viver longe de sua proteção. Não tinha mais ninguém no mundo...

 

 

                                       Capítulo X

 

— Tem certeza de que ela não disse para onde estava indo? Tarran estava no pátio havia longo tempo. As botas já deveriam estar gastas de tanto andar de um lado para outro.

— Ela disse apenas que daria a resposta antes que o sol atingisse o ápice e pediu que o príncipe não partisse sem vê-la — explicou Seith, que segurava as rédeas de seu cavalo e de Lau, que não conseguia disfarçar o desconforto.

— Ela não fez referência a nós — declarou Gryn ao lado de Kei e dos cavalos que se abrigavam à sombra do portão.

— Mas apenas a você, príncipe Tarran. Talvez quisesse lhe pregar uma última peça. Por que não vamos embora e deixamos que o feitiço vire contra a feiticeira?

— Fiz uma pergunta simples e gostaria que me dessem uma resposta simples!

O falcão se agitou no braço de Tarran por causa da veemência. Ele se obrigou a se armar de paciência. Aqueles homens também eram seus amigos. Eles se respeitavam, mesmo quando as opiniões divergiam.

— O que Seith lhe disse é tudo que sabemos.

Um pesado silêncio caiu sobre eles. Haviam sido banidos do castelo Glyn Niwl por causa de Elspeth. Mas ele jamais poderia culpá-la por tentar proteger a própria integridade. Assim como não podia culpar Addfwyn por lhe dizer, em sonho, que seu tempo ainda não havia chegado para ir ter com ela em Annfwn.

— O sol está quase no ápice — Seith lembrou. — Se permanecermos aqui...

Tarran estreitou os olhos. Não podia expor seus homens, e Vala, principalmente, à ira do barão.

— Sigam em frente.

— Sem você? — Seith moveu a cabeça negativamente. — Não partiremos sem você.

— Eu os alcançarei. — Tarran olhou para o céu. — Ainda me restam alguns minutos. Prometo que nada de mal me acontecerá, porque estarei do lado de fora do castelo antes que lorde de la Rochelle possa me acusar de desobediência.

Vala o tocou no braço.

— Tenha cuidado.

— Terei.

— Por você e por Elspeth.

Tarran bateu gentilmente na mão de Vala e se despediu. Em seguida, montou em seu cavalo e ficou olhando os companheiros se afastarem devagar. Lau não estava em condições de seguir viagem, mas ninguém conseguira convencê-lo a ficar.

O sol estava quase a pino. Restavam-lhe apenas alguns segundos. Precisava partir antes que o barão mandasse que os guardas o prendessem. Onde estaria Elspeth que não vinha lhe falar como prometera?

Precisava ir embora.

Precisava ficar.

De repente, Tarran viu algo se mover. O sol incidiu sobre o metal e o fez reluzir. Não era um serviçal, mas um guarda. Outros começaram a surgir e a se mover ao longo do muro. O som inconfundível de uma espada sendo desembainhada o colocou em alerta.

Estava cercado. De la Rochelle queria que ele pagasse caro pela afronta em permanecer no castelo além do prazo concedido. Em outras circunstâncias, Tarran teria sentido prazer em lutar até a morte, mas a vida não era dele para arriscar. Ele só voltaria a ser seu dono quando a promessa estivesse cumprida.

Afrouxou as rédeas para puxar a espada. O cavalo recuou instintivamente para se proteger de um golpe. Heliwr se assustou, e ele o soltou, porque livre o falcão teria maiores chances de sobreviver.

O barão surgiu no alto de uma escadaria, vestido para lutar. Parecia certo de que o homem a quem dera abrigo no dia anterior agora se transformaria em seu prisioneiro.

— Minhas ordens foram claras — ele bradou. — Deveria ter partido quando podia. Agora eu o farei pagar pela desobediência. — Ao dizer isso, ergueu a mão e os portões de ferro começaram a descer.

Tarran praguejou. Lorde de la Rochelle o estava acuando como se fosse um animal. Se ele não escapasse ao cerco imediatamente, seria atirado aos calabouços e impedido de cumprir sua missão com Addfwyn e de atender ao pedido de Elspeth.

Movido pelo ódio, ele apeou e se preparou para se defender das investidas do barão. Ao dar o grito de guerra, outro grito se mesclou ao dele, vindo da direção oposta. Todos os olhares se voltaram para lá. Uma carroça irrompeu de dentro de um dos estábulos. Os guardas tiveram de correr para não serem atropelados. O barão ficou rígido de choque. Tarran pensou que seria esmagado se não reagisse. Os cavalos e o condutor pareciam alucinados.

De repente, porém, a carroça mudou de direção e começou a vir para cima dele. E só nesse instante ele viu os cabelos vermelhos brilhando ao sol.

— Elspeth!

— Para os portões! Depressa! — ela gritou.

Ele pestanejou. Como Elspeth podia esperar que ele fugisse sem saber se ela conseguiria sair? Antes que pudesse pensar, ela golpeou o cavalo e ele se afastou em disparada.

Os portões estavam quase fechando. Ele se preparou para pular para dentro da carroça, mas ela pendeu para o lado, e duas rodas ficaram erguidas no ar. Elspeth fez uma manobra com as rédeas e devolveu a carroça à posição normal. As rodas bateram na terra com um estrondo. Com um grito desesperado, ela tornou a ordenar que ele pulasse.

A parte de trás estava abaixada, ele podia ver. Assim mesmo, só teria uma chance.

Gritos ecoavam nos ouvidos de Tarran. De Elspeth, do barão, dos guardas. Ele os bloqueou da mente. Precisava de toda concentração que pudesse conseguir. Precisava calcular o alcance do salto e o momento certo de dá-lo.

Era agora ou nunca mais!

Ele saltou contra os três bastões. Deu um gemido de dor, mas não demorou a reagir. Tentou se sentar, mas Elspeth o impediu. Sem soltar as rédeas, ela se deitou de bruços no chão da carroça.

— Assim você não pode ver para onde estamos indo!

— O cavalo obedecerá ao instinto e nos levará para fora, porque viu como o seu fez para escapar. — Na confusão, Tarran ergueu a cabeça, mas Elspeth o puxou para baixo e o obrigou a se deitar, como ela fizera, no fundo da carroça.

Tarran sentiu que empalidecia ao ouvir subitamente risos em lugar de gritos. Olhou para o alto e entendeu.

— Os portões estão quase sobre nós!

— Eu sei.

Ele a agarrou pelo braço.

— Desista! Os portões cairão sobre nós e nos partirão em mil pedaços.

— Solte-me. Sei o que estou fazendo.

Não houve mais chance de discutir. A luz do sol se apagou. Eles estavam sob os portões, indo para a morte. As laterais da carroça estavam sendo atingidas, fazendo-a chacoalhar. Elspeth gritou a plenos pulmões para que o cavalo corresse ainda mais. Um dos bastões foi projetado para fora. Ela virou para trás e engoliu em seco. A parte traseira da carroça ficara enroscada no portão e ameaçava detê-los. Com um golpe certeiro da espada, Tarran empurrou-a e o modo como o sol os ofuscou deu-lhe a certeza de que estavam livres e salvos.

A carroça desmantelada continuava correndo. Embora com dificuldade, Tarran conseguiu se sentar a tempo de vê-la passar por seu cavalo. Assobiou para acalmá-lo. Em poucos instantes, Heliwr apareceu, voando em espiral, e voltou a seu braço.

— Estão nos seguindo? — Elspeth perguntou, sem fôlego. Tarran olhou para trás.

— Não. Eles ainda levarão alguns minutos para tornarem a levantar os portões, e aí já estaremos fora de alcance. Não acredito que lorde de la Rochelle mande seus homens em nossa perseguição. Nesse momento, ele deve estar espumando de raiva pela derrota.

Elspeth deu um longo e profundo suspiro.

— Você está bem? — Ele se ofereceu para pegar as rédeas, para que ela pudesse descansar.

— Exceto por alguns arranhões — ela confessou, com alívio. — Teria me machucado muito mais se aquele homem asqueroso tivesse colocado as mãos sobre mim. — Ela afastou os olhos por um instante da estrada que os levaria para o sul e para o mar. — Sinto muito pelo atraso. Você não deveria ter ficado a minha espera.

— Você pediu que eu não fosse embora antes de saber sua resposta ao meu convite.

— Isso foi antes.

— Antes de quê?

— Antes de eu descobrir que era insensato o bastante para afrontar o barão e permanecer no castelo, esgotado o prazo que ele lhe deu.

— Não podia abandoná-la. Sou responsável por você.

— Quantas vezes mais terei de repetir que não preciso de sua proteção?

— Até que eu acredite que é verdade.

— Fui eu que te salvei!

— Sim. E lhe sou grato. — Tarran bateu no que sobrara da carroça.

— O que a inspirou a pegar essa carroça no estábulo?

— Quem me inspirou, você quer dizer. Eu não a peguei por sua causa, confesso. Imaginei que fosse ter o bom senso de sair antes do meio-dia. Pensei em dar algum conforto a Vala. Ela não tem mais idade para viajar montada em um cavalo.

— Tyddewi não fica distante.

— Então não se importará que a viagem demore um pouco mais que o previsto — Elspeth declarou, incisiva. — Você pediu que eu cuidasse de Vala e é o que estou procurando fazer. A pobre mulher chegou exausta e triste ao castelo porque não consegue fazê-lo voltar a sorrir como antes. Ela me contou...

Tarran ergueu a mão para impedi-la de continuar.

— Foi para pegar a carroça que você se atrasou? Elspeth se sentiu tentada a concordar para evitar mais

perguntas, mas nunca mentia, a não ser que fosse absolutamente necessário.

— Precisava falar com uma pessoa. Foi por essa razão que vim ao castelo Glyn Niwl. E só consegui vê-la no último momento. Tivemos uma conversa interessante e perdi a noção do tempo por completo.

— Você alguma vez deu uma resposta simples a uma pergunta simples?

— Acabei de dar. Você indagou sobre o motivo de meu atraso e eu lhe contei.

Contou-me muito mais do que eu precisava saber. Nesse caso, deveria ter perguntado de outra forma. Elspeth não esperava que Tarran fosse reagir como reagiu. Ele se inclinou para ela, de modo que a túnica que usava aderiu aos músculos do torso e dos braços. Seu coração começou a bater forte. Ela ficou surpresa por não estar conseguindo respirar. Afinal, ele nem sequer a estava tocando.

— Muito bem — ele admitiu e endireitou o corpo. — Vou formular a pergunta de outra maneira. Ou melhor. Vou fazer uma declaração. Não se atrase mais quando estiver na hora de partirmos.

— Isso não é uma declaração; é uma ordem!

— Está disposta a obedecer?

— Sempre obedeço a ordens razoáveis. Elas devem ser claras, contudo, porque não sou adivinha. Se você...

— Se você fizer silêncio, talvez eu consiga lhe contar sobre meus planos.

— O que pretende fazer?

Tarran colocou Heliwr no chão da carroça e tomou finalmente as rédeas. Ao perceber que ele queria pará-la, Elspeth protestou:

— Precisamos alcançar os outros. Por que está fazendo isso? Perdeu o juízo?

— Acho provável.

Ele a segurou pelos ombros e a trouxe para junto de si. Ao ter os lábios pressionados pelos de Tarran, Elspeth deslizou as mãos pelos braços que a sustinham e depois o enlaçou pelo pescoço. Devagar, enquanto se perdia no calor das sensações, Tarran a deitou com o cuidado de proteger-lhe a cabeça com o próprio braço. Elspeth pestanejou. Tarran estava sobre ela. A força viril a impedia de se mover. Foi com total perplexidade que ela descobriu subitamente que nada faria para tentar escapar. Porque queria tanto quanto ele o que estava acontecendo.

O beijo se tornou mais íntimo. As mãos ávidas estavam se fechando sobre seus seios. Sensações desconhecidas se apoderavam de seu corpo, como se uma onda a arrastasse para o mar. Queria tocá-lo como ele a estava tocando. Queria oferecer a ele o mesmo prazer que ele estava lhe dando. Em um gesto atrevido, provou os lábios masculinos com a ponta da língua e ouviu Tarran gemer ao penetrar o interior de sua boca, do mesmo modo que ele fizera.

Em um gesto involuntário, cravou os dedos nas costas dele ao sentir que ele brincava com seus seios por baixo das vestes. Percebeu o movimento que ele fez para se afastar e o apertou contra si. Ele olhou para ela e sorriu.

— Você é deliciosa e extravagante.

— Não há nada de extravagante em querer fugir de lorde de la Rochelle.

— Queria ter visto a cara dele quando escapamos da armadilha — Tarran afirmou com um sorriso que iluminou todo seu rosto. Elspeth prendeu a respiração, fascinada. Quase com reverência, tocou as faces maravilhosamente franzidas pela expressão de júbilo, que no passado, segundo lhe disse Vala, era uma constante em sua vida.

— Precisamos encontrar os outros — ela se obrigou a lembrá-lo. — Devem estar ansiosos por nossa causa.

— Sim, precisamos.

Tarran roçou os lábios nos dela como despedida. Elspeth suspirou. Queria mais que um simples beijo. No entanto, não podiam se demorar mais. E ela não podia se entregar aos clamores do corpo. Tinha de manter em mente que estavam juntos apenas no cumprimento de uma missão. Sonhos não faziam parte da realidade.

Dominados pela paixão, Tarran e Elspeth haviam-se deitado mais uma vez, antes de seguirem seus caminhos, para trocar mais alguns beijos, quando foram surpreendidos por batidas no que sobrara da carroça.

Eram as últimas pessoas que eles esperavam encontrar. Elspeth ficou rubra de vergonha sob os olhares de Seith, Kei, Jau e Gryn. E pálida ao pressentir que Tarran seria capaz de dar um soco em Kei por ter piscado para eles com malícia.

— Não faça isso! — ela murmurou. — Ele é seu amigo. O gesto, ao ter o braço tocado por Elspeth, mais do que as palavras que ela disse, o refreou. Deveria ter perdido a razão por ter permitido que uma emoção violenta e desconhecida comprometesse sua amizade com um homem de sua inteira confiança. Ciúme? Ele deveria estar grato a Kei por ter impedido que acabasse cometendo uma loucura de que se arrependeria depois. Vala os olhava com censura, enquanto Lau havia-se dobrado sobre seu cavalo para aproveitar um rápido descanso.

— Folgamos em vê-los vivos e livres — disse Seith.

— Obrigado. Também estamos contentes que estejam bem — disse Tarran, atento ao modo solícito com que Seith ajudou Elspeth a descer do que sobrara da carroça.

Ela se apressou a examinar suas armas. Apenas duas haviam sobrado, talvez por contarem com reforços transversais. Deveria ser por isso que ela as chamava de pernas-de-pau. Com os pés apoiados sobre esses reforços, dava para andar.

— Lau deve ser trazido para cá — ela sugeriu enquanto apanhava um dos bastões e quebrava o reforço de modo a improvisar uma nova espada.

Elspeth não notou ou não quis dar importância aos olhares aturdidos do grupo. Empunhou a arma com agilidade e rapidez. Movimentou-a para todos os lados e também para o alto. Precisava testar sua eficácia. Não podia ser surpreendida pela chegada de um inimigo sem estar preparada para enfrentá-lo. E apenas quando se deu por satisfeita de que a nova arma não a decepcionaria tornou a guardá-la na carroça.

Repetiu o procedimento com a outra e só depois que a guardou pareceu se lembrar de que não estava sozinha. Olhou para os homens, um a um, e perguntou como se nada de anormal tivesse acontecido.

— Algum de vocês se lembrou de trazer alguma comida do castelo?

Elspeth se pôs a andar ao longo do rio, enquanto Tarran e seus homens procuravam algo que pudesse comer. Encontrou dezenas de pedras grandes o suficiente para serem pisadas pelo rei. Como poderia identificar a única que o levaria à morte?

Zangada com tudo e com todos, Elspeth chutou a areia e as pedras ao seu redor.

— Só conseguirá machucar o pé fazendo isso — alertou Tarran, que já havia conseguido pescar quatro peixes.

— É esse o rio Alun?

— Não. O rio Alun fica a sudoeste. Por que pergunta?

— Aquela lenda sobre llech-lafar me deixou intrigada. Tarran depositou o cesto a seus pés.

— Por que está tão curiosa sobre essa velha lenda galesa?

— As histórias sobre o mago Merlin e o rei Arthur alcançam ambos os lados de Offa's Dyke. Vocês não têm o direito de reivindicá-las com exclusividade.

— Talvez eu concorde sobre os saxões, mas você é nor-manda. Essas histórias não englobam seu povo.

Mas estou mais ligada a elas que qualquer um, Elspeth pensou. Mesmo que encontrasse a fatídica pedra, como faria para impedir que o rei fosse ao seu encontro?

— Normandos e saxões formaram uma única nação. Apenas os galeses insistem em negar a inevitabilidade de uma fusão.

— Não apenas — declarou Tarran. — E quanto aos irlandeses e escoceses?

— Os escoceses são selvagens — Elspeth retrucou. — O rei faria melhor se os deixasse em paz.

— Talvez o povo de Gales precise tomar algumas lições com os escoceses.

Tarran a surpreendeu com um forte abraço. Surpreendeu a si próprio. De repente, sentia necessidade de abraçar Elspeth como do ar que respirava. Separou-se dela a contragosto.

— Precisamos assar esses peixes ou morreremos de fome ou de protestos, quando o pessoal descobrir que a comida não estará pronta — Elspeth caçoou e recolheu a espada de que se livrara para poder abraçá-lo.

— Você não deveria andar por aí armada apenas com isso — Tarran recomendou.

— É tudo de que preciso.

— E se acontecer de um inimigo a tomar?

— Conheço outros truques para me defender.

— Quais?

Elspeth pediu que ele se afastasse dez passos. Virou-se e deu dez passos, por sua vez, mas na direção oposta. Tarran estava intrigado com o jogo, mas não fez perguntas.

— Se formos atacados — ela disse — e você estiver mais perto da espada que eu, pegue-a e jogue-a para mim dessa maneira.

Elspeth explicou como Tarran deveria proceder, mas, por mais que ele tentasse, a hesitação o impedia de lançá-la.

— Você consegue! Vamos, confie em mim!

Ele confiava! Devia a própria vida a Elspeth. E o conforto de Vala e de Lau. Era nele próprio que não confiava. Não suportaria se a vida o machucasse novamente, fazendo com que a perdesse como perdera Addfwyn.

Sem dizer nada, ele voltou ao local onde deixara a cesta com os peixes, apanhou-a, foi até Elspeth e lhe devolveu a espada. Ela a recebeu em silêncio. A atitude de Tarran tanto a surpreendera que não foi capaz de esboçar nenhuma reação quando ele a beijou no rosto e se afastou sem se despedir e sem olhar para trás. Porque nenhuma mulher, por mais linda e fascinante que fosse, deveria desviá-lo de sua missão.

 

 

                           Capítulo XI

 

Tudo o que Elspeth mais desejava era poder saltar da carroça e caminhar. O corpo todo doía após as longas horas de percurso. Por mais que tentasse distrair a mente com a paisagem, o sacolejar incessante não permitia. Nada, enfim, conseguia vencer a monotonia e o cansaço. Nem as colinas adivinhadas entre a neblina, nem os rochedos que davam para o mar. A brisa que soprava do mar, por mais pura e fragrante, não amenizava a fadiga que se instalara em seus músculos. Talvez até aumentasse o desconforto, dando a sensação de que a roupa fria colava à pele.

A bruma era tão espessa que mal dava para ver os bois à frente da carroça. No primeiro momento, ela estranhara a idéia de Tarran de trocarem o cavalo por dois bois, mas agora admitia que ele estava certo. A viagem demoraria o dobro do tempo, provavelmente, mas a resistência desses animais era maior, e eles teriam de subir montanhas a caminho de Tyddewi. O maior inconveniente da troca, na opinião de Elspeth, era a dependência dos bois em relação aos cavalos. Se os perdessem, teriam de providenciar a reposição com urgência, porque os bois só andavam se eles andassem.

Um solavanco fez com que Elspeth se apressasse a esticar o pé para impedir que a espada improvisada rolasse sobre o chão da carroça e batesse em Vala, fazendo com que acordasse do merecido sono. Ao lado dela, Lau também dormia. Ela fechou os olhos por um instante, decidida a seguir-lhes o exemplo. Talvez após alguns minutos de descanso conseguisse colocar os pensamentos em ordem.

Sua mente estava um completo tumulto. Atingido o objetivo de falar com Rhan sobre llech-lafar, ela perdera a inseparável espada. As palavras da vidente ecoavam sem cessar em seus ouvidos. A perda da arma fazia parte das predições? De qualquer forma, não podia se queixar da sorte. Conseguira, afinal, entrar no castelo e obter informações preciosas para o desempenho da missão. Poderia ter perdido a vida ao sair, mas escapara ilesa. Realmente não podia se queixar. Exceto de ter conhecido Tarran. Porque ele lhe roubara a paz e a tranqüilidade. Agora só queria ficar olhando para ele e sonhando com seus beijos. Estava cogitando trocar de lugar com um dos homens por ocasião da próxima parada para descanso, só para poder cavalgar ao lado dele.

Teria de dar um jeito de prender os bastões para que não caíssem. Não poderia carregá-los, como sempre fazia, porque as mãos estariam ocupadas com as rédeas. Não os confiaria à guarda de ninguém. Queria tê-los sempre ao encalço, em qualquer eventualidade. Talvez pudesse aproveitar o cordão que usava amarrado à cintura para prendê-los à sela. Se não desse certo, acabaria tendo de se conformar em fazer o restante do percurso sobre a carroça. Mas, ao menos tentar ficar ao lado de Tarran, ela tentaria.

Elspeth gostava de caminhar e estava acostumada a percorrer longas distâncias, mas a promessa que fizera de cuidar de Vala a impedia de se afastar da carroça por muito tempo. Vala estava amedrontada. Mal falava. Cada dia se encolhia mais pelos cantos. Kei, Gryn e Seith também se mostravam nervosos. Empunhavam as armas a cada menor ruído, com receio de uma emboscada. Ela os havia surpreendido em conferência com Tarran durante a madrugada. Tentara ouvir o que diziam, embora soubesse que era errado, mas só conseguiu distinguir alguns suspiros. Chegara a pensar em usar uma das artimanhas que aprendera com as mulheres do castelo pelo recurso da observação. Com sorrisos e trejeitos, elas conseguiam atrair os homens e persuadi-los a satisfazerem seus caprichos.

Como se estivesse lendo seus pensamentos e reprovando a curiosidade, Tarran olhou para ela de cenho franzido.

— Algum problema?

— Não.

— Os bois estão mugindo.

— O que quer que eu faça?

— Tente acalmá-los. Eles podem denunciar nossa presença caso existam salteadores escondidos entre as árvores.

— Os bois fizeram menos barulho que você com suas ordens e instruções — Elspeth criticou.

— Eu não precisaria ter aumentado o tom de voz se você os mantivesse quietos.

Elspeth quis responder à altura, mas preferiu não revidar. A reclamação de Tarran era tão absurda que ela não a levaria em conta. Ele estava irascível, aliás, desde a tarde do dia anterior. Não lhe dissera sequer uma palavra, a não ser boa-noite e bom-dia. Parecia tão vivo quanto as pedras espalhadas pelos campos.

Suas chances de êxito talvez fossem maiores se essa situação permanecesse, mas, por mais que tentasse fingir que não se importava com Tarran, mais se preocupava com ele. Seu estado de espírito era mais imprevisível do que o tempo em Gales. Com Vala, ele se desmanchava em gentilezas. No entanto, não só evitava falar com Elspeth, mas também fitá-la.

— Como está se sentindo hoje? — ela o ouviu perguntar a Lau e resolveu se arriscar a ser chamada de intrometida, para ajudar o rapaz a se erguer sobre os cotovelos.

Antes que Lau pudesse responder, um forte solavanco obrigou Elspeth a correr de volta para as rédeas.

— Alguma roda quebrou? — Tarran indagou, preocupado.

— Receio que sim. Uma delas está presa apenas por um travão.

— Acha que podemos arriscar seguir com ela nesse estado até anoitecer, quando teríamos de parar forçosamente para o repouso?

— Receio que não. Se acontecer de cairmos em outro buraco, o estrago será irreversível. Prefiro consertá-la agora mesmo.

— Uma mulher que sabe consertar as rodas de um carro de boi? — Seith perguntou, boquiaberto.

— Sim.

— Você nos surpreende com seus inúmeros talentos — disse Tarran, admirado. — A quem devemos agradecer pela útil lição?

— A meu pai. — Elspeth cogitou aproveitar o ensejo para contar a Tarran algo sobre sua vida pessoal, mas nada do que fazia ou dizia parecia impressioná-lo positivamente, e ela resolveu desistir da idéia. — A que distância estamos de Tyddewi?

— Quatro dias. Não mais que isso. Elspeth examinou a roda e esfregou as mãos.

— E a roda estará consertada até o meio-dia, o mais tardar.

Tarran fez um gesto de compreensão enquanto os homens ajudavam Vala e Lau a descer da carroça. Acenderam uma fogueira e se sentaram ao redor. Tarran se afastou. Quando voltou, carregava uma fieira de peixes e uma lebre.

Embora conversassem durante a refeição, Elspeth percebeu que eles tomavam grande cuidado para não deixar escapar nenhum detalhe sobre o destino que perseguiriam depois de deixarem Vala em casa da neta. Melhor assim. Se não falavam sobre os planos deles, não podiam se reservar o direito de lhe perguntar a respeito dos dela.

Os homens se afastaram, mais tarde, para se assegurar de que os animais tinham o que comer e beber. Elspeth ouviu Vala oferecer algo para aliviar a dor de lau e ajudá-lo a dormir. Ela e Tarran continuavam sentados, em silêncio, ao redor da fogueira. Incapaz de suportar mais tempo essa situação, ela se levantou.

— Vou dar uma olhada nos bois. Eles devem estar bem, mas...

— Sim, eles estão bem. Sente-se e descanse mais um pouco. Vi Seith alimentando-os. E, por falar em Seith, ele se ofereceu para trocar de lugar com você. Disse que você deve estar farta de olhar para traseiros de bois, horas a fio.

— Lembre-me de agradecê-lo por isso. — Elspeth não resistiu e deu uma gargalhada à suposição certeira do companheiro. Era tudo o que ela queria. De repente, estava se sentindo tão de bem com a vida que se pôs a cantarolar um de seus hinos favoritos.

— Como consegue encontrar motivos para cantar em meio a tanto desconforto? — Tarran perguntou, sério.

Ela parou instantaneamente.

— Desculpe se estou incomodando, mas que mal pode haver em nos distrairmos com um pouco de música? Adoro cantar. Se pudesse, participaria de algum coral e...

— Como consegue tagarelar todo o tempo? — Tarran questionou antes que ela pudesse terminar a explicação.

Elspeth cruzou os braços, apertou os lábios e não disse mais nada. Tarran colocou sua caneca de chá no fogo para aquecer e a chamou de criança por seu comportamento.

— Agora resolveu ser sarcástico? — ela acusou.

— O sarcasmo pode se tornar uma arma poderosa de vez em quando.

— Acredita que é necessário se armar contra mim, Tarran?

— Você me interpretou mal — ele se defendeu. — Não exatamente sobre eu a achar sarcástica, mas sobre outros fatores. O problema é que perdi minha esposa em circunstâncias trágicas e penso nela o tempo todo.

— Eu sei.

— Não quero me apaixonar por mais ninguém. Elspeth não esperava que fosse sentir tanta dificuldade em aceitar essas palavras e fazer a própria declaração a esse respeito.

— Como você, não tenho nenhuma intenção de me apaixonar por quem quer que seja. Assim que minha missão em Gales estiver cumprida, devo retornar à Inglaterra e aos meus deveres.

— Você nunca disse por que veio para cá.

Os gravetos estalaram entre as chamas, e essa súbita interrupção proporcionou a desculpa perfeita para Elspeth mudar de assunto.

— O fogo está se extinguindo. Precisamos avivá-lo.

— Fique. Eu me encarrego de apanhar mais alguns pedaços de madeira.

Uma onda de revolta inundou Elspeth. Não suportava ser tratada com arrogância. Quem Tarran pensava que ela era? Uma incapaz? Seus braços eram tão perfeitos quanto os dele para carregar lenha.Também não suportava mais a frieza de gelo em um momento e os beijos de fogo em outro.

— Não preciso de sua ajuda, Tarran — ela afirmou de cabeça erguida. — Nem de suas tentativas desastradas de me seduzir.

— Desastradas?

— Por que esse ar de ofendido se você não se importa comigo? Ou acha que toda mulher deveria se sentir honrada porque um príncipe resolveu beijá-la?

— Eu não disse que não me importo com você.

— Por que insiste em me criticar até por minhas pequenas demonstrações de bom humor? Por que teme se livrar da capa de tristeza que colocou ao redor dos ombros? Acha que superar a dor significa esquecer seu voto de vingança?

— Jamais perdoarei aquele infame. Homens de minha confiança o viram coberto de sangue.

Elspeth deu as costas a Tarran para se dirigir à carroça e pegar um dos bastões.

— Acha certo que ele triunfe cada dia em roubar sua alegria de viver?

A pergunta ressoou no vazio. Por mais que ela desejasse ouvir uma resposta, uma censura ou até mesmo uma ordem para que retirasse o que acabara de dizer, Tarran não se manifestou.

Ao mergulhar nas brumas, sem condições de enxergar nada a sua volta, Elspeth procurou enxergar dentro de si mesma. Deveria se sentir grata por Tarran ter sido honesto com ela. Mas a verdade era que estava disposta a ajudá-lo a vingar a morte da esposa, a permanecer a seu lado mesmo que fosse apenas por amizade. Porque, mesmo contra sua vontade, ao salvá-la sem que precisasse ser salva, ele se tornara parte de sua vida. Sabia que não poderia durar. Que em breve teria de lhe dizer adeus e seguir sozinha pelo nevoeiro e pelas sombras da noite. Mas, enquanto pudesse, ela permaneceria a seu lado, sem exigências.

O terreno começou a se tornar íngreme, subitamente, mas Elspeth não se deixou intimidar pelas dificuldades do caminho. A vegetação ali era alta e espessa. Seus pés estavam afundando. Um tapete de urzes se estendia para a frente e para o alto, e ela foi seguindo, sem se importar com a umidade que se apoderava de suas vestes. Poderia desistir e voltar para o acampamento, para se secar junto da fogueira, mas isso significaria reconhecer a derrota e ela era orgulhosa demais para admitir que Tarran estava certo ao recomendar que ficasse.

Sorriu consigo mesma e se chamou de tola. Que mal havia em se molhar? Por que não aproveitava o passeio e admirava as árvores que se projetavam, majestosas, como guardiãs da terra contra o avanço do mar?

A história sobre o príncipe Madoc, contada por lorde de la Rochelle, lhe voltou à lembrança e lhe serviu de incentivo a busca. Seria possível que um príncipe galés fosse destemido a ponto de navegar além do horizonte? E Tarran? Em sua sede de vingança estaria disposto a se lançar ao desconhecido? A ultrapassar todos os limites do bom senso?

A chuva caía torrencialmente agora e Elspeth finalmente resolveu voltar. Adorava a chuva. Ela a levava de volta aos tempos de criança. O pai a erguia nos braços e eles riam sob as gotas refrescantes.

A emoção a deteve no meio da descida. Tantas memórias... A vida ao ar livre evocava-as. Não havia pensado quase nunca na família por trás dos muros da abadia. Conseguira se proteger do pesar e da saudade em seu interior, mas pagara um alto preço por isso: a renúncia à alegria de viver.

Decidida a abandonar essa linha de pensamento, Elspeth se obrigou a prosseguir caminho. Escorregou inesperadamente e teria caído se não conseguisse se apoiar sobre o cajado. Surpreendeu-se com o impacto. A ponta não afundou no solo, como seria de esperar, mas bateu em uma rocha. Ela parou por um momento e forçou a vista. Não era uma simples rocha, mas reminiscências de uma antiga fortaleza. O que restara de paredes delimitava uma área extensa e quadrada. Homens teriam ocupado aqueles campos em tempos passados e lutado contra legionários ou inimigos que tentaram invadir Gales antes que os romanos reclamassem as colinas como suas fronteiras?

Um raio de luz ofuscou-a. Apoiada no bastão, Elspeth tornou a erguer os olhos para o alto. Não estava sozinha. O instinto de preservação a fez prender o fôlego. A luz agora estava direto sobre ela.

— Largue isso!

Ela se virou, pronta para atacar. E viu Tarran. O que ele estava fazendo ali? Todavia, antes que pudesse indagar, ele lhe fez a mesma pergunta.

— Vim procurar gravetos para a fogueira — respondeu.

— Não os encontrará aqui. Árvores não crescem onde só há pedras. Terá de subir até o topo.

Ele poderia estar certo, mas ela não lhe daria o gosto de admitir isso. Sentou-se em uma rocha e se pôs a balançar as pernas para fingir descaso.

— Até quando pretende continuar me provocando com suas implicâncias? Não gosto do tom que usa comigo. Estou perfeitamente ciente de que não há árvores nas encostas, mas apenas no topo. Eu já estava descendo para voltar ao acampamento. Parei quando vi aquela luz poucos instantes antes de você me chamar.

— Luz? Que luz? — Tarran ergueu a lanterna e examinou a área.

Como se tivesse adivinhado que estava sendo assunto de interesse, uma ovelha baliu nas imediações. Elspeth e Tarran se entreolharam e deram um suspiro de alívio.

— Alguma ovelha deve ter se perdido do rebanho — sugeriu Tarran. — Você teve sorte em não se perder também. — Ele olhou para o céu. — Ela parece estar brava.

— Ela? De quem você está falando?

— Da deusa — Tarran explicou com a ironia que estava se tornando sua marca. — As pessoas acreditavam antigamente que a chuva era uma dádiva ou um castigo da deusa que governava o céu e a terra.

Um sorriso tão irônico quanto o dele curvou os lábios de Elspeth.

— Deusa? Nunca pensei que houvesse algum galês que admitisse receber ordens de uma mulher.

— Eu disse uma deusa, não uma mulher — ele retrucou.

— Não conheço nenhum outro povo com tanta riqueza de lendas.

— É verdade. Cada árvore e cada pedra escondem uma história.

— Cada pedra?

— Por que é tão fascinada por pedras?

A voz de Tarran soou misteriosa como o vento. Sob o desejo que se escondia por trás daqueles olhos, Elspeth poderia esquecer todas as promessas que fizera a si mesma. Sentindo-se fraquejar na decisão de colocar o dever acima de tudo, ela se lembrou do aviso de Rhan. Seria esse o significado da mensagem? Para encontrar llech-lafar ela teria de renunciar à própria felicidade? Ao prazer que descobrira nos braços do único homem por quem já havia sentido atração? Não fazia sentido. Ela não amava Tarran ap Llyr. E, mesmo que cometesse a tolice de se apaixonar, não havia esperança de um futuro para eles, porque o coração de Tarran fora enterrado com a esposa.

— Não fiz segredo de meu interesse pelas lendas de sua terra — murmurou. — Gosto de ouvir histórias. Não tenho culpa se as pessoas daqui vivem mencionando pedras mágicas e um príncipe que lutou no lugar da morte. Agora mesmo, não nego que estou curiosa para saber sobre estas ruínas.

— Está mentindo!

— Não sou eu que escondo minhas emoções por trás de uma máscara! — Elspeth protestou.

— É isso que pensa que estou fazendo? — Tarran a segurou pelos ombros, mas ela se desvencilhou, zangada consigo mesma. Não lhe ocorrera que o movimento impetuoso fosse fazê-lo perder o equilíbrio. A lanterna escapou-lhe da mão. Ela só teve tempo de agarrá-lo pela túnica e de fincar o bastão entre duas pedras. Ouviu a ponta quebrar. Tentou fincar o pé e escorregou. Em um último esforço antes de cair, puxou o bastão para soltá-lo.

Rolou várias vezes pela encosta, até que o terreno aplainasse e a permitisse parar. Tentou se levantar, mas uma forte dor a impediu. Apalpou a perna, desde o tornozelo até a coxa, mas não constatou nenhuma fratura. Respirou fundo, tornou a apoiar o bastão entre duas pedras e rezou para que ele não quebrasse dessa vez.

Aconteceu algo ainda pior. Suas mãos, tão molhadas e escorregadias quanto as pedras, o deixaram escapar. E ela não estava conseguindo ver Tarran entre as brumas. Não sabia sequer se ele estava bem ou em situação ainda pior que a dela.

— Socorro! — gritou e sentiu um nó na garganta ao ouvir a resposta.

— Não se mova. Estou perto de você.

Braços fortes a puxaram para cima. O suspiro de alívio que ela pretendia dar foi sufocado pelo ímpeto com que Tarran a abraçou.

— Não consigo entendê-lo — Elspeth resmungou. — Como pode me abraçar assim quando acabou de dizer que não se importa comigo?

— Nunca disse que não me importava com você.

— Mas deixou claro que não pretende se envolver comigo, a não ser para satisfazer seus desejos.

— O que em parte é verdade.

— Que parte?

— Seu palpite — Tarran admitiu e tentou beijá-la. Ocorreu a Elspeth a possibilidade de empurrá-lo, mas considerou o local onde se encontravam e o calor que subiu por seu corpo apesar da chuva. A tentação a venceu. Seus lábios estavam quase encontrando os dele quando o instinto a fez adivinhar o perigo que os espreitava.

Deu um salto para tentar recuperar o bastão. Os pés escorregaram, e ela se viu deslizando pela encosta até alcançar o local, como se forças invisíveis a tivessem ajudado. Tarran chegou à base da colina em poucos instantes e estava começando a dizer algo quando foram atacados.

Elspeth adivinhou, mais do que viu, uma espada ser brandida sobre sua cabeça. Defendeu-se com um golpe certeiro. O inimigo não vacilou, porém. Ela se preparou para a uta, mas foi impedida de atacar por Tarran.

Proteja aqueles que não podem se defender!

Vala e Lau. Tarran queria que ela corresse para eles, e estava certo.

As chamas da fogueira lhe serviram de guia. A carroça estava perto, e os bois já haviam sido novamente atrelados. Ajudou Lau a subir e em seguida fez o mesmo com Vala.

— E Tarran? — a anciã indagou, aflita, ao ser ajudada a subir na carroça em companhia de Lau.

— Fomos atacados. Ele luta para nos defender.

— Precisamos avisar os homens para ajudá-lo.

— Eles já estavam correndo para lá quando eu o deixei.

— Oh, meu bom Deus!

— Fiquem deitados para que ninguém os veja. Estarei por aqui. Farei tudo que puder para protegê-los.

Não houve tempo para mais nada. Elspeth teve de saltar da carroça e atacar. Segurou o cajado pelo meio e agitou-o em círculos. Atingiu o agressor no braço, e ele largou a faca com um grito logo substituído por um urro de dor, quando a outra ponta da espada o atingiu no ombro, derruban-do-o para trás.

Subitamente ela viu Kei surgir.

— O que faz aqui?

— Tarran ordenou que viesse ajudá-la. Disse para você ficar na carroça com Vala e Lau.

Elspeth ignorou o comando. Em confinamento não teria espaço para manejar a espada e Tarran não estava em situação de recusar sua valiosa ajuda.

— Milady!

Ela girou ao grito de alerta de Lau e deparou com um homem tentando subir na carroça. Recortado contra o clarão da fogueira, ela pôde notar que ele era ainda mais alto que Tarran. Mas não se deixou amedrontar. Vencera o lutador trazido pela rainha e ela lhe confiara a missão de salvar o rei por acreditar em sua capacidade.

Não decepcionaria sua rainha!

Ele se colocou de pé e riu com escárnio ao vê-la se colocar em posição de luta. Ergueu a espada para atacá-la e o humor desapareceu de seu rosto ao sentir a dor do golpe no braço.

Furioso, tornou a investir, dessa vez com mais força. E mais uma vez Elspeth o deteve. Mas ela era baixa de estatura e certamente não teria força para lhe fazer frente. Pressionou-a e não resistiu dar uma gargalhada de vitória ao vê-la recuar.

Segura de si, Elspeth sustentou o olhar agressivo. Ouviu Vala gritar, mas não se permitiu perder a concentração. Atingiu-o no estômago. Ele recuou alguns passos e dobrou os joelhos. Caiu, curvado sobre si mesmo. Antes que ele pudesse se recuperar, Elspeth golpeou-o na cabeça para que perdesse os sentidos e a deixasse livre para entrar em combate com outro atacante.

Vala colocou uma das mãos no peito e suspirou de alívio ao ver Elspeth expulsar o agressor antes que ele subisse na carroça. Não houve tempo, contudo, para falarem. Uma flecha passou entre elas. Elspeth se atirou ao chão e levou Vala consigo. A mulher gemeu ao cair. Não de dor, mas de medo, ao ver outras flechas serem lançadas sobre suas cabeças.

— Eu já volto — Elspeth avisou.

— Não saia daqui. É perigoso. — A anciã tentou detê-la.

— Tarran pode estar precisando de mim. — Ela quis se soltar, mas, à primeira tentativa de se levantar, quase foi atingida.

— Abaixe-se! — A velha mulher começou a chorar. Foram um conselho e uma súplica impossíveis de ser desprezados. Por mais que soubesse que Tarran e o grupo precisavam de ajuda, ignorar o perigo significaria chamar a morte.

Uma idéia lhe surgiu subitamente. Sem parar para refletir, ela estendeu o bastão em direção à frente da carroça, para trazer as rédeas até as mãos. Não conteve a exclamação de susto ao ver uma flecha se chocar contra a madeira e quase arrancá-la de sua mão. Mas precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. E nada melhor lhe ocorreu do que efetuar uma nova tentativa de trazer as rédeas até as mãos.

— Consegui! — ela exclamou com júbilo e imediatamente incitou os bois a se moverem. A carroça cedeu nesse instante na parte de trás. Ao se virar para constatar o problema, Elspeth surpreendeu outro homem tentando subir.

Não havia tempo a perder. Lau estava encolhido, incapaz de ajudá-la. Passou as rédeas a Vala e empunhou o bastão. Mas o homem foi mais rápido e encostou a ponta da espada em seu peito.

O sangue congelou nas veias. Se tentasse qualquer movimento, ele a trespassaria. Um sorriso distendeu os lábios malévolos, e ela entendeu que aquele era o fim. Tentasse ou não reverter a situação, ele a mataria.

— Parem!

Elspeth arregalou os olhos ao sentir a lâmina fria contra o peito e perceber a hesitação breve, mas suficiente, para ela reagir. Ergueu o bastão e desarmou o inimigo. Viu a espada subir e descer em espiral. Não esperou que chegasse ao chão. Preparou-se para uma nova investida e o teria derrubado da carroça se uma das pontas do bastão não tivesse sido presa.

Olhou para trás e viu, à luz das chamas, o homem a quem devia a vida. Ele usava uma túnica clara de algodão com uma capa com capuz que ocultava seu rosto.

— Mandei parar. Não ouviu minha ordem, milady?

— Quem é você? — Elspeth pestanejou, atônita.

— Aquele que, na noite de hoje, a salvou da morte.

— Por quê?

— Obedeça e saberá. Elspeth tomou fôlego.

— Fomos atacados e tivemos de nos defender.

— A ordem é para que todos parem. Prefere me obedecer ou continuar lutando até perder os companheiros?

A resposta era simples. Não lhe restava escolha, exceto se render ao desconhecido que lhe salvara a vida e adivinhar que nada mais seria simples a partir daquele instante.

 

 

                               Capítulo XII

 

Ferido no braço, Tarran se colocou entre Elspeth e Vala. Gryn também havia sido ferido, mas Kei e Seith escaparam ilesos.

Embora o homem encapuzado tivesse dado ordens para que seus homens recuassem, todos sabiam que o perigo ainda os espreitava. Bastaria um estalar de dedos daquele desconhecido para que o grupo deixasse a proteção das árvores para saltar sobre eles. Eles eram poucos em comparação aos agressores. Na verdade, era um milagre que tivessem sobrevivido.

O líder deu um passo, e a espada dourada pareceu se transformar em cobre ao reflexo das chamas. Outro homem surgiu, como das sombras, e se colocou a seu lado. Também usava capa longa e clara com capuz. A vestimenta era semelhante à usada pelos frades. Também fazia lembrar as vestes usadas pelos bardos no castelo de lorde de la Rochelle. Seria o caso de o barão ter enviado guerreiros disfarçados de freis em perseguição a Tarran? Mas por que motivo? O que ele poderia ganhar com essa tática?

Quem, então, seriam aqueles homens? Nem menestréis nem religiosos emboscavam viajantes.

O líder revelou a identidade naquele instante. Afastou o capuz e ajeitou-o sobre os ombros, como se normalmente o usasse daquela forma. O corte de cabelo sugeria uma tonsura eclesiástica, mas ele também poderia ter raspado voluntariamente a cabeça ou perdido a maior parte dos fios. Mas o que mais chamou a atenção de Elspeth foi o pendente que ele trazia ao pescoço, cravejado de pequenas pedras redondas, que pareciam feitas de vidro, de cor impossível de discernir no escuro da noite. Uma pedra de tamanho maior adornava o aro de prata que ele trazia na mão esquerda. Ela teve a nítida impressão de já ter visto algo semelhante antes, mas não se lembrava onde nem quando.

Ao se aproximar, o homem examinou-a da cabeça aos pés. Parou tão abruptamente que o companheiro se chocou contra suas costas. Em seguida, inclinou a cabeça em uma gentil reverência e tornou a fitá-la, sem disfarçar o interesse que ela lhe despertava. Seus olhos eram tão claros que pareciam transparentes.

Tarran deveria ter adivinhado a intenção, da mesma maneira que ela. Em um gesto de proteção, ou de posse, talvez, colocou-se entre eles.

— Sou Tarran ap Llyr e estes são meus servidores. Por que nos atacou?

— Estão em minhas terras sem autorização.

— Estas terras pertencem a lorde Rhys, príncipe de Deheubarth.

— Não por direito de sangue, mas em nome de um rei estrangeiro.

— Um erro, concordo.

Elspeth engoliu o clamor de protesto que brotou da garganta. Como pudera ignorar a possibilidade de Tarran e seus homens regozijarem à expulsão do rei Henrique das terras de Gales? O mero fato de se referirem a ele como "príncipe" era claro sinal de que não aceitavam a autoridade de um rei normando.

Tarran, se você soubesse sobre minha missão, tentaria me impedir de salvar o rei? Ficaria feliz em ver os normandos serem banidos de Gales em decorrência de sua morte?

— Não que isso importe — o líder continuou —, porque todos que vivem nestas colinas e ao longo da costa sabem que elas me pertencem.

— Com que direito as reclama?

— Meu nome é Druce.

A expressão de Tarran não revelava reconhecimento do nome nem do direito à propriedade. Manteve-se calado, porém, no aguardo de maiores informações, que não tardaram a ser dadas.

— Este é Orwig, meu homem de confiança. Ele é versado nas leis de Cymru antes de serem subvertidas pelo rei estrangeiro.

O homem se manteve imóvel. Não afastou sequer o capuz, como fizera seu senhor.

O homem que se apresentara como Druce tornou a submeter Elspeth a intensa apreciação.

— Como se chama?

— Elspeth Braybrooke. Estou...

Tarran percebeu sua intenção de avançar contra o pretenso senhor daquelas terras e segurou-a com força pelo braço. Ela fez menção de se desvencilhar, mas a um olhar de advertência por parte de Vala mudou de idéia.

— Já lhe forneci meu nome — disse Tarran. — Estamos seguindo rumo a Tyddewi e precisamos passar por estas terras para alcançar nosso destino. V. Sa. afirma estar em seu direito de nos atacar, mas sabemos que legitimamente estas terras não lhe pertencem, mas ao rei Henrique e a lorde Rhys, príncipe de Deheubarth.

Uma risada sarcástica ecoou desagradavelmente em todos os ouvidos.

— Nem o rei nem seus vassalos guardam estas montanhas. Nós, sim.

— Não se consideram, portanto, servidores do rei?

Os dedos de Elspeth apertaram o bastão com mais força ao desembainhar das espadas, e ela estreitou os olhos à espreita de qualquer movimento nas sombras que pudesse sugerir preparativos para um novo ataque.

— Nós não servimos a ninguém — Druce declarou, orgulhoso.

— Nem aos deuses? Ele tornou a rir.

— Se tem esperança de obter respostas e descobrir quais são os segredos que guardamos, aviso-o de que está perdendo seu tempo. Somos quem somos.

— Só desejo que me responda uma única pergunta: por que nos atacou?

— Já respondi: estão em minha propriedade, sem minha permissão.

— O que precisamos fazer para obtê-la? Somos da paz. Estamos a caminho de Tyddewi, como acabei de lhe dizer, e levamos uma velha senhora para os braços da neta.

Tarran ficou atento às palavras sussurradas entre Druce e o homem chamado Orwig. Era estranho que tivessem escapado à vigilância das autoridades. O rei certamente não perdoaria ninguém que tentasse lhe usurpar o poder. A incursão à Irlanda para forçar Strongbow a se submeter a seu domínio era uma prova.

Após a breve confabulação, Druce olhou para Tarran e disse uma palavra em voz alta. Os homens responderam também com uma única palavra, em uma língua estranha.

— O que eles estão dizendo? — Elspeth perguntou baixinho.

Tarran fez sinal para que ela se calasse. Desconhecia os termos tanto quanto ela.

— Eu lhes dou permissão para viajarem por minhas terras. — Druce declarou, magnânimo, dando-se ares de legítimo rei. — Mas serão escoltados enquanto permanecerem dentro de meus limites.

— Não há necessidade. Asseguro-lhes de que estamos aqui em paz.

— Sim, há. Existem perigos em minhas terras que nem mesmo um príncipe pode estar preparado para enfrentar.

Se aquele usurpador e seus homens esperavam que Tarran fosse revelar o propósito da jornada a essa insinuação, estavam enganados. A insistência em lhes oferecer proteção, que ele não desejava, parecia suspeita. De qualquer modo, não estava em situação de fazer exigências. Às vezes, para vencer o inimigo, a melhor atitude era juntar-se a ele.

— Somos gratos por sua generosidade.

Elspeth continha a custo a revolta. Druce estava desafiando Tarran com sua arrogância. Estava até mesmo o insultando deliberadamente e humilhando-o por ele não estar em condição de revidar. Estavam em desvantagem perante o número de homens do oponente. Bastaria Druce ordenar um segundo ataque para dizimá-los. Ela talvez conseguisse sobreviver, mas o que seria de Vala e Lau? A carroça não lhes serviria de proteção. Com as flechas, os arqueiros matariam até mesmo os bois em poucos instantes.

Tarran experimentou o gosto amargo da derrota, mas não se deixou abater. Preferia ser humilhado a renunciar a vingança contra Bradwr ap Glew e colocar a vida dos amigos em perigo.

Os homens baixaram os arcos e se aproximaram do fogo com as espadas embainhadas na cintura. Uma trégua fora estabelecida, mas cada figura trazia consigo o lembrete de que Tarran havia feito a única escolha possível.

— Poderão descansar aqui esta noite e seguiremos viagem ao amanhecer.

— Não poderemos prosseguir sem antes consertarmos a roda direita dianteira — Tarran explicou.

Mais uma vez, Druce se mostrou um déspota benevolente.

— Meus homens os ajudarão, para que não se atrasem em demasia. Quero seguir antes que o sol chegue a pino.

— Será que ninguém em Gales tem imaginação para estabelecer outro limite de prazo? — Tarran ouviu Elspeth resmungar e quase não conteve a inesperada vontade de rir. Isso não lhe acontecia desde a morte de Addfwyn. Mas o momento não poderia ser mais inoportuno.

Foi com alívio que ele presenciou o afastamento dos homens. Assim que teve certeza de que não seria ouvido, aproximou-se de Vala e pediu que ela desse aos feridos uma dose da sua miraculosa poção.

— E você não vai tomar? — Elspeth indagou ao vê-lo indicar Gryn e Iau, sem se incluir entre os necessitados.

— Estou bem.

— Ele está mentindo — ela falou baixinho, de modo que apenas Vala pudesse ouvir. — A emoção que demonstrou perante Druce é sinal de que está mais fraco do que desejaria que o víssemos.

Não querendo que Elspeth notasse sua admiração pela sensibilidade de que ela se mostrara capaz, Tarran fingiu não ter escutado e se pôs a avivar o fogo. Depois, ao chamado de Vala, não protestou. Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria o desejo de que fosse Elspeth a tratá-lo. Com seu calor, ela o aqueceria mais do que as chamas. Ansiava por tocar seus seios e afundar as mãos no vale que abrigava o coração pulsante.

Nas encostas da montanha, ele tivera a oportunidade de sentir o corpo de Elspeth junto ao dele. Era firme e modelado pelas longas horas na prática de exercícios, mas feminino e sensível ao mesmo tempo às exigências da paixão. Imaginou-a se movendo com ele na dança do amor, como se movia ao exibir os conhecimentos sobre artes marciais.

Um gemido escapou-lhe da garganta.

— Oh, por favor, me desculpe! — Vala implorou.

— Estou bem. Pode continuar. Preciso ver como estão os outros.

— De que você precisa, nós dois sabemos — Vala deu um sorriso malicioso e indicou Elspeth, sentada perto da fogueira. Seus cabelos pareciam ainda mais vermelhos e exuberantes. As chamas acentuavam os malares, a linha determinada do queixo e as curvas de seu corpo.

— Ela merece mais do que tenho para dar — Tarran confessou à mulher que considerava a segunda mãe. E Vala nada mais disse. Estava satisfeita. Tarran parecia ter voltado aos tempos de criança, quando lhe confiava os pequenos segredos.

Terminado o curativo, Tarran se afastou em direção a Elspeth. Tinha certeza de não ter feito nenhum ruído que o denunciasse, mas Elspeth pressentiu sua presença, mesmo de costas.

— Por que não resistiu à proposta absurda de Druce de nos escoltar?

— Você sabe a resposta. Eles estão em maior número que nós.

— Derrotamos a guarda do barão de la Rochelle.

— Estávamos sozinhos. Não havia ninguém sob nossa dependência.

Ela baixou a cabeça e reconheceu o erro de julgamento.

— Eu não tinha levado esse fato em consideração. Tarran afastou delicadamente os cabelos que haviam caído sobre o rosto de Elspeth.

— A luz do dia oferecerá oportunidades para colocarmos um fim a essa estranha aliança. Confie em mim. Sei o que estou fazendo. Também permiti que você viajasse conosco, não permiti?

— Meu caso é diferente.

— Diferente como?

— Não o submeti a minha vontade.

— Não, mas é por sua causa que Lau está impedido de desempenhar sua função.

— Até quando terei de ouvir suas críticas? — Elspeth suspirou, aborrecida.

— Antes prevenir do que remediar.

Essas palavras precisavam ficar gravadas. Principalmente em sua memória, Tarran pensou. Elspeth era uma mulher linda e fascinante, mas o juramento de vingança estava em primeiro lugar. Sabia que estava fraquejando ao deixar que ela lhe invadisse os pensamentos. Talvez suas necessidades de homem precisassem realmente ser consideradas e satisfeitas. Talvez a libertação dependesse da posse do corpo de Elspeth. No momento em que a fizesse sua, retomaria o controle sobre si mesmo.

Seus olhos encontraram os dela e ele se perdeu. A paixão que Elspeth lhe despertava era forte e embriagadora como o vinho. Ao experimentar seu doce sabor e perfume, ele só conseguiria aumentar o desejo por novas oportunidades de prová-los.

— Se prefere falar sobre outro assunto, por que não me conta por que decidiu viajar em nossa companhia?

— Já contei. Estou seguindo na mesma direção.

— Mas por qual motivo?

— Espera que eu diga que é por sua causa? — Elspeth estreitou os olhos em provocação e conseguiu o intento, porque Tarran a segurou pelo queixo e a obrigou a sustentar seu olhar.

— Tenha cuidado, Elspeth Braybrooke, com o que diz a um homem. Poderá se deparar com um confronto muito mais perigoso que a ameaça de uma espada contra o coração.

— Mais perigoso? O que pode ser mais perigoso que o golpe de uma espada?

Ela estava sendo honesta. E ingênua. Não tinha noção do que seu sorriso, seus olhos e seus cabelos podiam fazer com um homem. Nariko, a pessoa que a ensinara a lutar, falhara ao omitir a lição sobre as outras armas de que as mulheres dispunham e que poderiam ser ainda mais poderosas e fatais.

Ele só teve consciência do que estava fazendo ao sentir um forte golpe na cabeça. Porque, ao abraçar Elspeth, o bastão ficou entre eles. Uma das extremidades ficou prensada pelos corpos e a outra escapou e atingiu-o.

— Sinto muito — ela sussurrou. — Você está bem? Não se machucou?

Talvez ele devesse agradecer a sorte pelo lembrete. Talvez devesse responder com um sim ou talvez com um não. Levantou-se sem dizer nada e se afastou antes que pudesse dar vazão ao desejo que o dominava e confessar a verdade.

Nada estaria bem até que ele a fizesse sua. E isso não poderia acontecer enquanto não vingasse a mulher a quem jurara amar para sempre.

Elspeth estava descendo entre as árvores em direção ao rio. Se é que dava para chamar de rio aquele pequeno regato cujas margens ficavam tão próximas que qualquer pessoa de longas pernas ou especial destreza poderia saltar sobre as águas. Era tão estreito quanto o córrego que passava pela abadia de São Judas. Talvez as margens se distanciassem à medida que ele se aproximava do mar, mas, do ponto onde ela se encontrava, até mesmo uma criança o atravessaria.

Llech-lafar. Aquele seria o lugar perfeito para a profecia se cumprir. Se o rei passasse por aquelas terras e resolvesse atravessar para a outra margem, seus pés poderiam pisar justamente sobre a única pedra com a qual jamais poderia se deparar em seu caminho.

Inspirada por aquele pensamento, Elspeth ergueu os olhos para o céu e para o sol, que, próximo da metade do dia, transformava as águas azuis do mar em branco e proporcionava esplêndida vista das ruínas da catedral de São David.

— O que está fazendo?

A voz de Tarran a assustou. Olhou para trás e o encontrou em uma parte mais alta da ribanceira. Trazia o falcão no braço. Ela não saberia dizer qual olhar era mais penetrante: o dele ou o da ave. E, sem perceber, seguiu em direção a ele, com a respiração suspensa. Nem sequer a atadura no braço afetava a aura de domínio que o envolvia.

Cada gota de sangue em seu corpo implorava pela atenção de Tarran, pelo toque de suas mãos e de seus lábios. Mas quem era ele naquele momento? O príncipe consumido pelo ódio ou o amante gentil que fizera sua alma serena despertar para os sonhos e para as fantasias do amor?

Tarran era imprevisível. Gostaria de ouvir uma explicação sobre seu estranho comportamento na noite anterior, mas ele não parecia disposto a se abrir.

— Vou pescar. — Ela deu a primeira e péssima desculpa que lhe veio à cabeça.

— Sem apetrechos?

— Por pescar, quis dizer que tentaria encontrar algum peixe perdido em uma das poças que o rio costuma deixar pelas margens.

— Boa sorte.

Ela começou a andar, mas se deteve a um súbito pensamento.

— Tarran?

— Sim?

— Ficaria contente se os normandos fossem embora de Gales?

— Sua pergunta é absurda. Não entendo como pôde fazê-la — ele respondeu, incisivo.

— Então responda para que eu não tenha de repeti-la.

— Eu gostaria que se fossem e adoraria se nunca mais voltassem.

— O rei Henrique preferiria a morte a admitir a derrota.

— Eu sei — Tarran respondeu. Depois saltou para a outra margem e se afastou, sem olhar para trás.

Se pudesse ceder aos desejos, Elspeth correria atrás dele e o obrigaria a lhe dizer por que a beijara na noite anterior para lhe dar as costas em seguida, como estava fazendo outra vez, naquele instante. Suas mãos se fecharam com força ao redor do bastão. Ao dar por si, relaxou os dedos e cogitou se Tarran teria achado que ela o usara contra ele de propósito. Só poderia ser essa a razão. De repente, ele parecia ter perdido a confiança nela. Estava a tratando como se fosse da mesma laia que Druce.

— Pensei que fosse encontrar o príncipe em sua companhia — disse Seith.

— Ele esteve, mas não sei para onde foi.

— O que você lhe disse?

— Algo errado, como sempre. Perguntei se ele gostaria que os normandos deixassem Gales permanentemente.

— Pergunta tola.

— Questão de lealdade! — Elspeth retrucou.

— Podemos ser leais ao rei Henrique e respeitá-lo mesmo preferindo vê-lo do outro lado de Offa's Dyke.

— Obrigada por me fazer sentir bem-vinda — Elspeth ironizou. — Pretende sair por aí à procura dele?

— Não. Se ele quer ficar sozinho, não serei eu a contrariá-lo.

— O príncipe sempre foi assim?

— Assim como? — Seith apanhou um graveto no chão e ficou rolando-o entre os dedos.

— Mal-humorado e irritadiço. Seus sorrisos são raros. Nunca ri. Quando o faz, é por escárnio. Ele parece ter esquecido como ser feliz.

— Ele esqueceu. Espero que consiga se lembrar algum dia.

— Depois que presenciar a morte de Bradwr ap Glew? Seith estreitou os olhos com evidente censura.

— Esse é um assunto que não lhe diz respeito. Vala não deveria ter contado.

— Não foi ela.

— Foi o príncipe?

— Sim, mas eu já havia adivinhado.

— Então você sabe por que ele se fechou como uma concha. Jamais poderia ter imaginado que o irmão de criação e melhor amigo fosse capaz de assassinar lady Addfwyn.

Elspeth pestanejou, incapaz de disfarçar a perplexidade.

— Ela foi morta por um amigo, quase irmão do esposo?

— Você disse que Tarran havia contado! — Seith protestou.

— Que ela foi assassinada e que vocês estão à caça de Bradwr ap Glew. Ele não mencionou a amizade e o quase parentesco!

— Não conte a ele que soube a verdade por mim. Esqueça o que eu disse.

— Como poderei esquecer que Tarran foi traído pelo melhor amigo?

— Ninguém pode esquecer isso — Seith concordou com o olhar voltado para o rio. — Seus pais eram primos. Bradwr e Addfwyn eram tudo para ele.

As palavras de Seith confirmaram a dedução a que Elspeth já havia chegado. Tarran não se conformava por não ter impedido a morte da esposa, quando nascera e fora criado para se tornar líder guerreiro.

— Como ele pôde matá-la? — Elspeth suspirou.

— Ninguém sabe. Tarran jura que arrancará a verdade de Bradwr antes de matá-lo.

Elspeth tinha certeza de que o juramento seria cumprido a qualquer preço. Apenas não conseguia acreditar que a vingança lhe devolveria a paz.

— Para onde pretende ir depois que chegarmos a Tyddewi?

— Ainda não sei — Elspeth respondeu. — O príncipe lhe pediu para me sondar?

— Se ele quisesse obter essa informação, perguntaria diretamente. O príncipe não é homem de subterfúgios.

— E vocês, para onde seguirão depois de deixarem Vala sob os cuidados da neta?

— Para onde poderemos completar nossa missão. Um ruído quase adivinhado os fez calar. Alguém estava se aproximando. Elspeth e Seith empunharam imediatamente as armas. Druce se apresentou, seguido por Orwig.

— Eu lhes asseguro que alcançarão seu destino antes que as chuvas que castigam o oeste atravessem o mar.

— Boas notícias são sempre apreciadas — Elspeth agradeceu. Estava mentindo, porém, porque, quando as grandes tempestades se deslocassem do mar, o rei poderia zarpar da Irlanda e o perigo de vir ao encontro da maldição aumentava a cada hora.

— Fico satisfeito com seu alívio. Se não estiver ocupada, gostaria de lhe falar.

Seith baixou a cabeça no mesmo instante, em sinal de que entendera o recado. Todavia, embora ele a tivesse deixado sozinha com aquele que se dizia senhor daquelas terras, ela não se preocupou. Não precisava de ninguém para defendê-la.

Druce ocupou o lugar de Seith, no tronco de árvore caído. Orwig se sentou no chão, à sombra. Elspeth estranhou que ele nunca tirasse o capuz. Teria problemas com a lua e também com o sol? Por que evitava mostrar o rosto?

— Considero estranho que uma normanda se faça acompanhar por galeses — ele observou.

— Nossos caminhos seguem na mesma direção — Elspeth explicou.

— O que acha de Cymru?

— É um lindo lugar.

— Muitos de seus patrícios pensam o mesmo ou não teriam se apropriado de nossas terras.

— Não posso responder pelo que outros fizeram, mas apenas por mim. Estou aqui para aprender sobre sua gente e seus costumes. Ouvi histórias fascinantes.

Os olhos de Druce brilharam.

— Conheço lendas antigas e estou sempre pronto a contá-las para aqueles que se interessam por meu povo.

— De que falam essas lendas?

— De inspiração. Foram elas que motivaram nossos guerreiros a empreenderem conquistas e nossos poetas a cantarem. — Druce tinha por hábito gesticular enquanto falava. A pedra de seu anel captou um raio do sol. Era azul como as que adornavam o cordão em seu pescoço, mas não exatamente igual a elas. Mais uma vez, Elspeth teve certeza de que a vira antes e de que só poderia ter sido na abadia, porque o público que prestigiava seus pais não era abastado o suficiente para poder ostentar uma jóia de tão alto valor. — Conheço-as todas e me sinto no dever de transmiti-las, como descendente do maior mago de todos os tempos, por onde quer que eu passe.

O coração de Elspeth começou a bater mais depressa. Talvez aquela pudesse ser sua grande chance de descobrir a localização de llech-lafar.

— Você descende de um mago?

— Myrddin, que nasceu Emrys at Caer-Fyrddin.

— Nunca ouvi falar.

— Oh, sim, você ouviu — Druce retrucou com um sorriso condescendente. — Vocês, normandos, o chamam de Merlin.

— Merlin? — Elspeth repetiu, entusiasmada. — Então você conhece a lenda de llech-lafar, a pedra falante?

— Eu as conheço todas, milady. — Dessa vez o sorriso foi genuíno. — Como soube sobre llech-lafar?

— Ouvi muitas histórias durante minha viagem. Contaram-me que essa pedra tem qualidades míticas. Tentei saber mais sobre ela, mas ninguém parece ter uma resposta para uma simples pergunta. Como o local onde ela pode ser encontrada, por exemplo. Talvez porque seu antepassado quis escondê-la por ser preciosa?

— Ele não a escondeu — Druce respondeu com firmeza. — Ele a deixou onde deveria ficar, até o momento certo de cumprir sua função.

— Isso significa que conhece seu paradeiro? Outro sorriso curvou os lábios do homem.

— Aqueles que estudam as lendas logo aprendem que sempre há mais a aprender.

Elspeth conteve um suspiro de resignação. Apesar da orgulhosa descendência, aquele homem não sabia nada mais que os outros. Um fio de esperança surgiu, porém, à continuação da frase.

— Todos os descendentes de Merlin prestam um juramento de perpetuar as histórias que ele deixou e também aquelas que já existiam antes de ele nascer em Carmarthen.

— Eu adoraria conhecê-las. Pode contá-las a mim?

— Certamente. Até chegarmos a Tyddewi haverá tempo para lhe contar muitas. Começarei com as mais interessantes, como a do príncipe Pwyll.

— Aquele que lutou no lugar da morte?

A expressão do homem se tornou ainda mais radiante.

— Já a conhece?

— Não. Apenas alguém a mencionou em minha presença. Estou ansiosa por ouvi-la.

Talvez as histórias que diziam respeito ao povo de Gales a ajudariam a compreender melhor as estranhas e inesperadas mudanças de humor de Tarran. Por mais que desejasse mentir a si mesma e negar o que sentia pelo príncipe, a verdade era que precisava descobrir se ainda haveria um lugar para ela naquele coração partido ou se deveria abandonar definitivamente qualquer esperança de cura.

 

 

                        Capítulo XIII

 

Ele estava sonhando.

Não se lembrava de ter adormecido. Não parecia fazer mais de um minuto que se vira contemplando a lua brilhar sobre as águas e desaparecer por trás das copas das árvores. Não conseguia conciliar o sono havia noites sucessivas.

Passara duas semanas completamente insone após a morte de Addfwyn. Depois vieram os pesadelos. Eles começavam com a imagem da esposa sorrindo, feliz, e terminavam com os gritos que ouvira ao chegar em casa e ver a criada curvada sobre o corpo da jovem sem vida. Estava começando a acreditar que seu corpo e sua mente exaustos finalmente encontrariam repouso quando Elspeth surgiu, com sua exuberância no falar e no agir. Porque, sem que ele esperasse, os pesadelos retornaram com tanta força quanto o desejo de ter de novo uma mulher nos braços.

Ele se viu, de repente, na casa onde vivera com a família. Reconheceu o salão principal. Havia música. Vozes lhe chegavam aos ouvidos. Conversas e risos se espalhavam pelo ambiente enquanto os lacaios traziam fartas bandejas de comida à mesa do rei Arawn, que estava oferecendo um banquete em recompensa aos feitos heróicos de seus guerreiros. Tarran caminhava entre as mesas como se estivesse invisível, porque ninguém lhe endereçava uma palavra, um olhar. Não reconhecia aqueles rostos. Ocorreu-lhe que estava sonhando. Que nada daquilo era real. Mesmo que fosse, estava em outro mundo, e nenhum daqueles homens lhe interessava. Porque, se ele se encontrava entre os mortos, era só pela esperança de reencontrar a bem-amada.

Até que seus passos o levaram a uma mesa onde finalmente a encontrou.

Addfwyn não havia mudado nada. O semblante era tranqüilo. Os cabelos pretos estavam soltos sobre os ombros como um véu. Não se moviam. Não ondulavam como os de Elspeth em sintonia com seus movimentos rápidos e ágeis.

Elspeth! Por que a evocara no sonho com Addfwyn? Não queria compará-las. Mas era inevitável, porque as duas mulheres tinham temperamentos completamente opostos. Enquanto Addfwyn zelava por seu conforto e adivinhava cada uma das necessidades dele, Elspeth o questionava todo tempo e adivinhava os perigos que o espreitavam.

— Príncipe Tarran ap Llyr, venha se sentar ao meu lado. Ele fez o que ela pedia, mas estranhou a formalidade no tratamento. Sua querida Addfwyn estava tão distante. Elspeth não teria se dirigido a ele com aquela frieza. Todas as vezes que a beijara, ela lhe correspondera com todo o ardor.

Debateu-se. Os músculos estavam tesos de desejo. Não podia ser sonho.

— Por que me chama assim?

— Não sou mais sua esposa, príncipe Tarran—Addfwyn respondeu, ainda mais formal. — Os votos feitos diante do altar se dissolveram com a morte. Apenas o amor que trazemos em nossos corações durará para sempre. — Ao dizer isso, Addfwyn levou as duas mãos ao coração.

— Eu te amo, Addfwyn — Tarran declarou, sincero. Não queria amar outra mulher. Não queria substituir a doce esposa. — Eu te amo além da morte.

— Sei que você queria ficar comigo para sempre — Addfwyn continuou, agora com um sorriso. — Mas a morte é soberana e impõe as próprias regras. O destino colocou outra mulher em sua vida. Essa mulher quer que você vença o pesar e valorize a vida que recebeu e que ainda sopra em seu corpo.

Addfwyn apanhou um fio de cabelo vermelho na manga da túnica que Tarran estava usando e soltou-a no ar. Como em um passe de mágica, o fio tomou a forma de Elspeth. Ela surgiu em uma imagem diáfana sobre os degraus. Trazia a espada de madeira consigo. A medida que se aproximava deles, sua figura se tornava mais nítida.

— Ela é uma mulher de fibra e de coragem — Addfwyn murmurou.

— Sim, ela é — ele admitiu. — Mas como você sabe disso? Consegue ver o mundo dos vivos desse lugar?

— Não — Addfwyn respondeu. — A cortina fluídica que separa o mundo dos vivos de Annwfn, o mundo dos mortos, é impossível de ser penetrada a nosso bel-prazer. É preciso haver permissão. Só consegui ver essa jovem porque ela teve o mérito de se sentar entre os melhores guerreiros. Coragem ela tem de sobra. Falta-lhe um pouco de prudência para não assumir riscos desnecessários.

Tarran e Addfwyn ficaram em silêncio por alguns instantes enquanto a imagem em miniatura de Elspeth praticava exercícios com o bastão.

— Você estabeleceu como missão de vida proteger aqueles que ama. Agora encontrou uma mulher que afirma não necessitar de sua proteção. Ela sabe o que diz, mas apenas em parte. Porque não poderá vencer o maior perigo de sua vida com uma espada, uma vez que ele não surgirá na forma de inimigo...

— Esse perigo é representado por mim?

— O fato de você me fazer essa pergunta significa que já conhece a resposta.

Addfwyn soprou a imagem de Elspeth naquele momento e ela voltou à forma original de um fio de cabelo. Tarran ergueu a mão para pegá-lo no ar e nesse instante acordou.

O primeiro gesto foi olhar para a própria mão, mas ela estava vazia. Ele havia perdido o que tinha enquanto tentava segurar o que não era de seu direito possuir...

O riso de Elspeth ecoou cristalino pelo anoitecer, mas aderiu como uma mão fria em sua espinha quando ele a viu em companhia de Druce, preparando-se para acampar mais uma noite à beira do rio.

Os dois haviam passado o dia inteiro juntos, seguidos de perto pelo silencioso Orwig.

Melhor assim. Talvez sem olhar para aqueles olhos verdes que pareciam enxergar o fundo de sua alma ele conseguisse se concentrar na tarefa. E foi repetindo essas palavras consigo mesmo que Tarran se afastou, com Heliwr no braço, em busca de reforço dessa perspectiva.

Não podia se permitir distrações. O fato de Elspeth ter preferido a companhia daquele sujeito abalara a confiança que resolvera depositar na jovem guerreira. Não que esperasse que ela fosse traí-lo. De qualquer modo, a vida lhe ensinara a nunca confiar cegamente em ninguém. A esposa não pagara com a vida essa ingenuidade?

Tarran fez uma pausa na escalada à colina e olhou ao redor. Excetuando-se a pequena invasão do bosque, o campo se estendia a perder de vista. Do outro lado, o mar havia desaparecido no cinza das tempestades que varriam a distância entre Cymru e a Irlanda.

Água e ar. A terra sob seus pés era sua estabilidade. Bastaria um passo para ele afundar na areia movediça onde todos os seus planos seriam tragados pelo sorriso e pelo olhar de fogo de Elspeth.

— Fui contagiado pela insensatez, meu amigo — Tarran confidenciou a Heliwr, que parecia ansioso por voar em busca de alimento. — Você tem sorte. Sua única preocupação é caçar.

Tarran encolheu rapidamente o braço e em seguida o projetou para a frente e para o alto. O falcão se soltou e saiu voando. Pousou com soberba no galho de uma árvore, à espreita e à espera da criatura desavisada que lhe serviria de repasto.

O sudoeste de Cymru era diferente da paisagem do norte, com seus penhascos e camadas superpostas de pedras partidas. Nos tempos de criança, ele não se cansava de fazer de conta que as montanhas eram castelos e que ele era o guerreiro que os defenderia contra ataques inimigos. As brincadeiras imaginárias agora eram realidade.

Ao continuar a caminhada, Tarran deparou com um lugar que deveria ter sido considerado sagrado pelos habitantes em tempos remotos.

Pedras enormes haviam sido empilhadas em formato surpreendente. Uma pedra longa e achatada, em forma de gota, apoiava-se sobre três rochas que pareciam ter sido esculpidas com a exata finalidade de servir de colunas. Uma outra, isolada, encontrava-se diretamente sob a ponta da gota. As colunas estavam rodeadas por uma profusão de outras pedras pequenas e achatadas.

Uma garoa o surpreendeu. Assobiou para chamar de volta a ave de estimação. Precisava voltar ao acampamento antes que chuvas mais fortes o alcançassem, trazidas pelo mar. Ouviu um ruído e se preparou para oferecer o refúgio do braço a Heliwr. Mas logo percebeu que não era o falcão que se aproximava. Quem poderia ser? O coração bateu forte, e ele se obrigou a silenciá-lo.

Não podia continuar assim. Tudo e todos o faziam pensar em Elspeth. Mas não conseguia imaginar quem mais poderia ter se dado ao trabalho de subir a colina para lhe falar. Seith não havia se tornado dono de um corpo avantajado em peso pela prática de exercícios físicos. Kei e Gryn não confiavam em Druce nem o suficiente em Elspeth para deixá-los a sós.

— Elspeth! O que você...?

Heliwr emitiu um som esganiçado. Tarran se virou para recebê-lo e viu uma flecha cortando o ar em sua direção. Jogou-se imediatamente para trás e rolou sobre si. Ao se levantar, já estava com a espada em punho, pronto para rebater o golpe inimigo.

O adversário trajava uma túnica simples, clara, como as usadas pelos homens de Druce. Por que resolvera emboscá-lo? Elspeth e os outros também estariam sob ataque?

Ele rebateu o golpe antes que a lâmina o atingisse no braço. O falcão tornou a gritar e o colocou em redobrado alerta. Contra quantos outros homens ele teria de se defender?

A chuva leve adquiriu características de tempestade. Ele precisou piscar para enxergar através das gotas que desciam incessantemente por seu rosto. O outro homem levava vantagem por estar protegido por largo capuz. Mas sua visão talvez pudesse estar prejudicada em sentido lateral, e foi por esse ângulo que Tarran resolveu atacar. Brandiu a espada em arco e atingiu-o pela direita. Não esperava que ele fosse reagir. O homem, contudo, aparou o golpe sem nenhuma hesitação. Mais ainda, tornou a investir e acertou-o no braço.

De relance, Tarran viu a manga da túnica adquirir tonalidade avermelhada e se espalhar com a chuva. Enquanto tentava se equilibrar para não cair, ocorreu-lhe que o corte não deveria ter sido profundo, porque seus dedos não haviam perdido a sensibilidade.

O agressor se aproveitou desse instante de vacilação para tornar a atacar e dessa vez o derrubou.

— Quem é você?

— Aquele que terá a grande honra de matá-lo — disse o homem, com a ponta da espada encostada à garganta de Tarran.

— Ninguém me matará antes que eu cumpra minha missão!

O homem deu uma gargalhada sinistra.

— A morte é soberana. Ela espreita a cada passo.

— Tarran! — O nome dele ressoou pela montanha. Era a voz de Elspeth! Como o encontrara? Heliwr tornou a se anunciar. Teria sido ele a avisá-la?

Por um instante, o inimigo se deixou distrair. Foi o suficiente. Um golpe em suas costas o aturdiu. Tentou se virar de frente para rebater a investida, mas teve de largar a espada por causa da dor que sentiu ao ter o osso do braço fraturado por um pedaço de pau.

Louco de dor e de ódio, ele ainda tentou reagir. Sacou da faca na cintura com a mão esquerda e pulou sobre a adversária. Elspeth tentou se defender da investida, mas o homem foi mais rápido.

Tarran saltou em sua defesa. Agarrou-a pela cintura e arrastou-a consigo para o chão, enquanto a faca executava um vôo por cima de suas cabeças. Não esperava que ela fosse gemer e empurrá-lo.

— O que foi? Eu a machuquei?

— Ele está fugindo! Solte-me!

Tarran ergueu-se a tempo de ver o inimigo se embrenhar pelo bosque.

— Deixe que fuja.

— Mas posso alcançá-lo! Ele negou com a cabeça.

— Você estaria em desvantagem entre todas aquelas árvores.

— Conheço muitos truques! Eu poderia...

— Não, Elspeth. — Tarran não a deixou terminar a frase. — Eu não suportaria perder você também.

 

 

                                   Capítulo XIV

 

Elspeth fechou os olhos por um instante para conter as lágrimas e suspirou, condoída.

— Eu não podia imaginar... Pensei que Addfwyn já estivesse sem vida quando você a encontrou. Sinto muito, Tarran. Deve ser terrível ver alguém que se ama morrer.

— Não queira jamais passar por essa experiência — ele murmurou, sem forças para encará-la.

— Você precisa parar de se culpar pela morte de sua esposa — ela tentou consolá-lo.

— Se eu estivesse em casa naquele momento, Addfwyn poderia estar viva. Ela não sabia se defender como você e Rhiannon, que foi mais que uma consorte para o marido, Pwyll. Addfwyn se parecia com Blodeuedd, uma dama feita de flores.

— Mas Blodeuedd foi infiel ao marido, e Addfwyn não seria capaz de trair você.

Os olhares se encontraram pela primeira vez durante a conversa. Tarran se apressou a baixar novamente a cabeça.

— Não, não seria.

— E Rhiannon foi sentenciada por um crime que não cometeu. Suportou a aversão das pessoas presentes no julgamento, que acreditaram erroneamente que seu filho fora morto por sua culpa. As mulheres galesas são fortes e determinadas. Seus feitos gloriosos se unem às façanhas realizadas pelos heróis destas terras. Por que Addfwyn seria diferente em sua opinião?

— Ela era uma alma gentil que precisava de quem a protegesse.

— Como pode ter certeza disso? Você disse que havia sangue nas vestes de Bradwr ap Glen. O sangue dele próprio não poderia ter se misturado ao dela?

Tarran apertou os lábios.

— Eu não estava lá. Não cheguei a tempo de impedir a tragédia.

— Não foi minha intenção aumentar ainda mais o peso que você carrega sobre os ombros.

— Nada pode ser pior do que o que sinto. O peso da angústia me sufoca.

— Acredita que a vingança o libertará desse sofrimento?

Tarran se afastou em direção ao local onde deixara a espada. Seu corpo estava vergado pela saudade e pela revolta. Parecia estar realmente carregando um peso imenso sobre os ombros.

Subitamente, um trovão abalou o silêncio que caíra sobre eles.

— Precisamos nos abrigar antes que um raio possa nos atingir — disse Elspeth.

— Há espaço suficiente para nós dois sob as pedras.

A um assobio, Heliwr surgiu dentre as nuvens escuras. Uma faísca de fogo tingiu as águas de vermelho e os fez correr. Uma nova cascata foi despejada dos céus.

Com as vestes e os cabelos encharcados, Elspeth se deixou cair de joelhos sob a proteção das pedras. Estava arfante pelo esforço. Esperava tudo, menos que Tarran fosse se sentar a seu lado e demonstrar ciúme por ela ter se deixado acompanhar por Druce durante o dia.

— Por seu súbito conhecimento das lendas locais, imagino que tenha se divertido com as histórias que Druce lhe contou.

— Sim, ele me contou histórias interessantes. Nada mais. Não traí você. Não se preocupe.

— Não é isso que me preocupa.

— Mas franze o cenho cada vez que me vê com ele. — Elspeth tentou sorrir. — Vamos, pare de tolice e deixe-me examinar seu braço.

Tarran encolheu-se em protesto.

— Estou preocupado que ele a traia.

O modo como ela o encarou o fez perceber que errara na atitude.

— Ficou chocada com o que eu disse?

— Fiquei — Elspeth admitiu. — Mas não pelo motivo que está pensando. Druce foi um cavalheiro. Gostou de saber que eu me interessava por ouvir as lendas de seus antepassados e teve a gentileza de aumentar meu cabedal de conhecimentos. Satisfeito? Posso examinar seu braço agora?

— Está fazendo tempestade em copo d'água — Tarran caçoou. — O ferimento não foi grave.

— Seria pior se eu desmaiasse à visão de sangue e você tivesse de se arranjar sozinho!

— Você sempre tem resposta para tudo?

— Não pode esperar que todos se curvem às suas ordens, príncipe Tarran.

— Você, por exemplo?

— Parece que estamos começando a nos entender — ela declarou diante do sorriso provocativo que ele deu e que se transformou em esgar ao inesperado rasgar do tecido que lhe cobria o braço.

— O corte foi fundo, mas não é sério. A hemorragia já foi estancada — ela murmurou, aliviada, e se apressou a improvisar uma bandagem com a tira de pano que retirara da manga.

— Eu disse que não era.

— Acontece que já notei que você é o oposto de Druce. Enquanto ele tende ao exagero, você nunca quer dar a devida importância aos fatos.

— Não sou de reclamar.

— Folgo em saber.

Um breve sorriso surgiu nos olhos de Tarran. Elspeth pestanejou. Teria sido sua imaginação? Provavelmente sim, a julgar pela continuidade da conversa.

— Parece ter aprendido rápido sobre Druce.

— Sobre as lendas que ele me conta, você quer dizer — ela se apressou a retrucar. — Acho que ele acredita que todos os eventos tenham realmente acontecido. O que talvez não seja de admirar de um verdadeiro descendente de Merlin, o grande mago.

— Talvez não.

— Não parece surpreso com o que eu disse.

— Nada que diga respeito a Druce me surpreende mais — Tarran confessou.

Elspeth aproveitou uma poça d'água feita pela chuva e lavou as mãos. Ao se levantar, o semblante se tornou sério.

— Orwig me intriga.

— Por seu perpétuo silêncio?

— Porque segue você por toda parte.

Agora Elspeth conseguira surpreendê-lo, e ele não fez segredo disso.

— Por que razão? Estou me comportando de acordo com as ordens que Druce estabeleceu. Admito que estaria mais feliz se ele tivesse se afogado na chuva ou no rio, mas não fiz nada nesse sentido.

Apesar das circunstâncias e do frio que parecia penetrar em seus ossos, Elspeth riu da observação.

— Se você fez essa sugestão a mais alguém e ela chegou aos ouvidos de Orwig, isso explicaria a estreita vigilância.

— Não me arriscaria a lhe dar uma desculpa para nos atacar.

— Eu sei.

O tom de Tarran tornou-se repentinamente íntimo. Seus olhares se cruzaram. Ele estendeu a mão, e um esgar de dor se apoderou de seu rosto. Ela a segurou com delicadeza.

— Ajude-me, Elspeth.

— Estou aqui para isso. Basta me dizer o que quer.

— Fique atenta e me informe sobre os planos de Druce, caso ele deixe algo escapar. Essa boa vontade em nos acompanhar por suas terras não me convenceu.

— Ele parece acreditar em todas as lendas que me contou.

— As aparências enganam — Tarran alertou-a. — Druce não é um homem honesto.

Elspeth quis se certificar de que o bastão que apoiara contra uma das colunas estava protegido da chuva e sorriu ao descobrir que Heliwr o adotara como poleiro.

— Concordo com você. É por isso que ando sempre armada. Acha que foi ele que ordenou esse último ataque?

— A túnica que ele usava era parecida com as dos homens de Druce, mas algo que disse me fez pensar que conhece Bradwr ap Glew.

Elspeth engoliu em seco.

— Você não deve andar sozinho por aí em hipótese alguma.

Ela percebeu que ele estava se debatendo com o orgulho masculino, mas se sentiu aliviada com o prevalecer do bom senso.

— Meu coração não estaria mais batendo se você não tivesse surgido para me salvar. Obrigado, Elspeth.

Resistir foi impossível naquele instante. Ele a enlaçou pela cintura e ela deitou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos. Muitos eram os perigos que os cercavam, mas ao menos por alguns minutos ela queria saborear aquele momento de ternura.

— Você tem razão em desconfiar do envolvimento de Druce nesse ataque. Na minha opinião, ele foi informado sobre a rota que seguimos por um bardo que deixou o castelo logo após nossa chegada.

Tarran a fez encará-lo.

— Como sabe?

— Ambos portam um cordão ao pescoço, com um pendente feito de contas de vidro. O bardo tentou escondê-lo, mas eu já havia notado o ornamento. Ele me deixou curiosa porque tive certeza de já tê-lo visto antes, embora não me lembrasse quando.

— E onde?

— Disso consegui me lembrar.

— Onde foi?

Elspeth emudeceu ao se dar conta do deslize. Precisava encontrar rápido uma desculpa para não comprometer seu segredo. E ela teria de ser convincente para poder satisfazê-lo.

— Do outro lado de Offa's Dyke.

— Em que lugar exatamente? — Tarran insistiu. — Se Druce é agente dos normandos, precisa ser detido.

— Druce, agente normando? — ela ironizou. — Ele se julga dono dessas terras e despreza o rei Henrique.

— Um agente inimigo seria capaz de tudo para não chamar atenção sobre si.

— De qualquer maneira, não acredito que Druce esteja entre nós por ordem do rei.

— Concordo. Ele detesta os normandos tanto quanto qualquer nativo de Cymru.

— Você também?

— Sim. Você sentiria o mesmo se a situação fosse inversa e meu povo tentasse se apoderar da Inglaterra.

— Não a ponto de matar o rei para obrigá-los a desocupar o país.

Tarran encarou-a como se não a conhecesse mais.

— Está insinuando que eu desejaria ver o rei morto?

— Sem uma liderança firme, os lordes se apoderariam de todas as terras.

— Se os normandos se forem agora, Cymru ficará um caos. O povo passará a reclamar seus direitos pelas terras de família e haverá ainda mais derramamento de sangue.

Quero liberdade, admito, mas antes teremos de encontrar um líder justo e capaz de nos governar.

— Você?

Tarran brincou com uma mecha dos cabelos que tanto o atraíam.

— Não preciso de outros desafios quando tenho você — ele respondeu. — Agora enxergo as situações sob outro prisma. Você me ensinou essa arte. É uma mulher corajosa e brava, sem perder a feminilidade.

Elspeth precisava mudar o tema da conversa com urgência. Sua respiração estava começando a alterar, e ela não podia perder o controle, principalmente nas circunstâncias em que eles se encontravam.

— Precisamos descobrir o que levou aquele homem a atacar você.

— Não há muito a pensar. Alguém o incumbiu de me me matar.

— Bradwr ap Glew? Por que ele cederia essa honra a outro em vez de se comprazer com o feito? — Elspeth estranhou.

— Meu inimigo não conhece o significado dessa palavra: honra. Ele matou uma mulher que sempre o tratou com amizade e deferência.

— Se você tivesse me deixado ir atrás dele...

Tarran a puxou delicadamente pela mecha de cabelo e cochichou em seu ouvido.

— Já mencionei que você fala demais?

— Mas aquele homem tentou matá-lo!

— Ele se foi — Tarran sussurrou e lhe beijou a orelha, fazendo-a estremecer. — Você está aqui.

— Isso só prova que ele não o atingiu na cabeça porque sua visão não foi afetada.

— Você é sagaz e sabe fazer um homem rir. Mas não é nesse tipo de diversão que estou pensando nesse momento em que a tenho nos braços.

— Deveria me soltar e recobrar o juízo. Esse é o conselho que tenho para dar.

— O que ganharei em troca? — ele piscou, sedutor. — Um beijo?

Elspeth olhou para o rosto queimado de sol e de vento. Antes que pudesse responder, seus lábios foram reclamados e arrastados por uma tempestade de fogo mais intensa do que a que riscava o céu. Ouviu-o gemer baixinho. Nunca ouvira nada igual. Uma emoção nova se apoderou de seu ser e uma vontade insana de tornar a ouvir aquele som a fez proceder também de maneira inédita. Fez com que ele se deitasse no chão, sem que precisasse falar, e inclinou-se sobre ele, guiada unicamente pelo instinto de retribuir o prazer que ele lhe oferecera.

Tarran não impôs resistência. Deixou-se beijar. Contorceu-se sob o corpo feminino à carícia que ela lhe fez na orelha, como a imitá-lo. Estranhou a súbita hesitação, mas logo entendeu que ela estava apenas se preparando para imobilizá-lo enquanto o submetia a uma nova seqüência de prazeres, beijando-o desde as pálpebras até a parte posterior da orelha.

Aquele deveria ser o ponto mais sensível de Tarran, ela pensou. Ele gemeu mais alto. Corada de excitação e de orgulho pelo poder que descobrira ter sobre ele, Elspeth traçou uma linha imaginária em seu pescoço com pequenos beijos. Não satisfeita com isso, introduziu a mão por baixo da túnica, para sentir o calor da pele morena e o pulsar do coração.

Com um rápido movimento, Tarran a prendeu com o braço que escapara ileso do ataque e sussurrou seu nome. Elspeth respirou fundo. A voz grave soou mais profunda que o estrondo dos trovões e o estalar dos raios. Alcançou os recessos de sua alma. Ergueu o rosto para poder olhar naqueles olhos e o que viu a emocionou.

— O que foi agora? — ele perguntou, rouco de paixão.

— Nada.

— Você está chorando.

— Você me acusa de tola injustamente, mas se preocupa comigo quando realmente cometo alguma tolice, como chorar. — Ela sorriu por entre as lágrimas. — Estou feliz por estar aqui com você.

— Então prove que confia em mim, contando-me a verdade.

O que ele disse a fez recuar instantaneamente.

— Que verdade?

— O motivo que a trouxe a Cymru. Preciso saber se a razão de sua vinda interferirá em meus planos.

A magia havia sido desfeita. Elspeth se sentou de costas para ele e não se esforçou para disfarçar o desapontamento.

— Você está certo. Sou uma tola. Tola em querer acreditar que você se importa com alguma outra coisa que não seja sua vingança. Foi por isso que se empenhou em me conquistar? Para me persuadir a lhe contar sobre a razão de minha presença aqui? Uma pergunta direta teria bastado.

— Então eu a estou fazendo agora. — Ele se levantou e beijou-a antes que ela pudesse antecipar o gesto. Mas, à segunda tentativa de beijá-la, ela o empurrou.

— Não faça isso!

— Está se referindo ao beijo ou ao meu toque?

— Não quero que me beije nem que me toque quando está pensando nela! Não sou Addfwyn! Jamais serei como as mulheres que esperam pacientemente que os amados maridos regressem ao lar. Sou como sou. Uma mulher que sabe cuidar de si mesma e que não precisa que um homem a proteja.

— Uma mulher que não precisa de ninguém porque se basta.

— Sim.

Novas lágrimas inundaram os olhos de Elspeth, mas ela as engoliu para que Tarran não pudesse vê-las. O amargor lhe queimou a garganta, mas ao menos o orgulho estava salvo.

— Talvez você esteja certa. Talvez não precise de ninguém. Diga-me apenas se uma guerreira como você é capaz de sentir compaixão.

— Mais do que você! — Elspeth revidou com veemência. — Que fingiu me querer para atingir seu objetivo.

— Eu não estava fingindo. — Ele a atraiu bruscamente contra si e deslizou as mãos com volúpia pelo corpo dela, para provar que estava sendo sincero. — Eu te quero, Elspeth.

— Tanto quanto quer vingar a morte de sua esposa?

— Não me peça para responder essa pergunta.

— Você me faz dezenas e espera que eu responda todas. Eu só lhe fiz uma. Por que se recusa a me atender?

— Por não ter uma resposta para lhe dar. Esse é o motivo, Elspeth.

A franqueza inesperada a perturbou. Ela havia se preparado para insistir no argumento e, se fosse sincera consigo mesma, confessar a esperança que nutrira de ouvi-lo dizer que estava equivocada e que ele a queria mais que tudo. A decepção a fez colocar a maior distância possível entre eles e evitar nova confrontação.

— Também precisa se decidir sobre suas metas, Elspeth.

— Sei o que quero — ela respondeu com firmeza.

Quero partilhar o que tenho com você, mas espero que se entregue a mim por inteiro, da mesma forma, sem dividir os pensamentos com outra mulher.

— Diga-me.

— Não creio que deva. — Ela olhou para o céu e suspirou. — A tempestade não promete melhorar tão cedo. Precisamos voltar para junto dos outros, antes que possa piorar ainda mais.

Tarran encostou a cabeça à pedra e fechou os olhos.

— Vá, se quiser. Não posso submeter Heliwr a tal sacrifício. Ele não é forte e destemido como você, que se porta como um cavaleiro em sua armadura reluzente. A propósito, o que a levou a aprender artes marciais?

Elspeth hesitou. Não queria mentir a ele quando acabara de lhe cobrar a verdade, mas não podia se recusar a responder.

— Meu pai sempre quis um filho. Quando se convenceu de que o sonho era impossível, instruiu-me e treinou-me como teria feito se eu fosse menino.

— Mas você é mulher e não pode arcar com as responsabilidades que toda família feudal deve ao rei.

Ela poderia ter desfeito o engano e contado que era filha de menestréis, mas se apresentara a Tarran como lady. Para explicar que fazia jus ao título, teria de mencionar a parte de sua vida dedicada à abadia de São Judas.

— Conheço as leis e sei que nunca terei direito de herdar suas terras.

— Mas isso não impediu seu pai de lhe ensinar o uso das armas.

— Não, não impediu.

Tarran esticou-se no chão, como se o cansaço o tivesse vencido.

— Obrigado por finalmente ser honesta comigo. Se é que foi — ele acrescentou com um murmúrio antes de cobrir a cabeça com a capa que trazia sobre os ombros.

Elspeth sentiu que empalidecia à insinuação. O bom senso clamava para que contasse a verdade a ele. Que lhe dissesse que não queria ficar sozinha. Suas mãos se projetaram para a frente, em uma tentativa inconsciente de tocá-lo. Como se pressentisse o gesto, Tarran se encolheu.

A tempestade persistia implacável em sua violência. As palavras de acusação reverberavam na cabeça de Elspeth com mais força que os elementos. As lágrimas escorriam, copiosas, por sua face, como a chuva pelas pedras que lhe serviam de abrigo.

Você se porta como um cavaleiro em sua armadura reluzente.

Talvez Tarran estivesse certo, porque ela nunca havia se sentido tão só.

 

 

                                   Capítulo XV

 

Ficar sem resposta não era característico de Elspeth. Ela sempre encontrava as palavras apropriadas para rebater qualquer declaração ofensiva ou capciosa. Era um traço que herdara da personalidade do pai, segundo lhe dizia a mãe. Mas o que poderia dizer a um homem que dormira a seu lado e não se dignara sequer a lhe desejar um bom-dia ao nascer do sol?

A insônia os castigara sem conseguir vencê-los em sua obstinação. Ela tentou quebrar o silêncio mais de uma vez, mas os esforços se revelaram completamente inúteis. Sabia que Tarran estava tão acordado quanto ela pelo som de sua respiração, embora não se movesse para fingir que dormia. Por outro lado, o que poderia dizer a ele que não fossem mentiras? Tivera a chance de ser sincera e a deixara escapar por entre os dedos.

Sua missão parecia destinada ao fracasso. Encontrara o rio Alun, mas não a pedra da profecia. O temporal da noite anterior fora um lembrete constante de que o rei e seus guerreiros se moviam no mar, em direção às terras de Gales, como as nuvens e os ventos entre o céu e as montanhas.

Foram recebidos no acampamento com manifestações de alívio. Vala murmurou uma prece em agradecimento. Seith, Kei e Gryn vieram saudá-los. Druce e os outros permaneceram ao redor das chamas que restavam da fogueira.

— Você parece faminta — disse Vala.

— Estou.

— Eu lhe reservei este pão.

Elspeth se apressou em cortar um pedaço com as mãos. Pensou em levá-lo a Tarran, mas ele ainda estava ocupado com seus homens. Provou-o e não pôde calar uma exclamação de surpresa e prazer.

— Mel! Eu jamais teria adivinhado. — Vala sorriu, satisfeita. — Onde você conseguiu esse manjar dos deuses? — Elspeth perguntou, animada pela primeira vez naquela manhã.

— Com um viajante em peregrinação aos sítios sagrados de Tyddewi. Dividimos nosso fogo com ele na noite passada. Ao partir, trocamos um cobertor por esse pão.

Risadas maliciosas fizeram Elspeth se esquecer por um instante de Vala, para prestar atenção no grupo de Tarran.

— O que houve com seu braço? Precisou lutar com ela esta noite para conseguir o que queria?

Intenso rubor cobriu a face de Elspeth. Vala não escondeu sua indignação. Tarran ordenou que os amigos se calassem, mas Kei o desobedeceu.

— No fim ela se rendeu?

Elspeth pestanejou ao ver Tarran derrubá-lo com um soco no queixo. Fez menção de seguir até o local, mas Vala a impediu. Kei, no entanto, não teve ninguém que o detivesse e o ajudasse a recobrar a razão. Irado, levantou-se de um salto e tentou o revide. Tarran o agarrou pela parte frontal da túnica. A perplexidade fez com que todos ficassem imóveis como estátuas. Tarran foi o primeiro a recuperar o controle, e a solução que encontrou para o impasse foi digna de mestre.

— Gryn, leve seu primo até o rio e enfie a cabeça dele na água até esfriá-la. Fomos atacados nas colinas. Não voltamos antes por causa da tempestade sem trégua.

Gryn se afastou imediatamente com Kei a tiracolo. Os outros homens manifestaram preocupação com a ocorrência, mas antes que Tarran pudesse lhes contar a respeito, Druce se aproximou e sua expressão revelava hostilidade.

— Vocês foram atacados em minhas terras? Quantos eram?

— Um homem apenas.

Vala chamou Seith e lhe deu um pequeno frasco, que foi entregue a Tarran. Enquanto o levava à boca, ele viu Orwig dizer algo no ouvido de Druce.

— Você o matou? — Druce quis saber.

— Não. O covarde fugiu por entre as árvores.

Com o cenho franzido, o pretenso senhor daquelas terras empertigou o corpo e escondeu as mãos nas fartas mangas da túnica. Mais do que nunca, sua aparência se assemelhou à de um frade. E, mais do que nunca, pelo que disse a seguir, Elspeth duvidou que ele fosse.

— Mandarei que meus homens o persigam e o capturem. Você e seu grupo estão sob minha proteção enquanto estiverem em meus domínios.

Orwig se afastou a um estalar de dedos, mas Elspeth o fez interromper os passos ao sugerir que o invasor fosse trazido vivo a eles.

— Seu coração piedoso é mais uma evidência da doce feminilidade, milady — Druce concordou com um sorriso sedutor. — Seu pedido é uma ordem.

Envenenado pelo ciúme, Tarran empalideceu.

— Não se deixe enganar por esse vislumbre de compaixão. Ela apenas deseja ter a curiosidade satisfeita. Ainda precisa aprender a ter cuidado com o que pede ou acabará descobrindo que o que conseguiu não era aquilo que esperava.

Elspeth seguiu Tarran com o olhar, até que desaparecesse de vista. Nem sequer o doce sabor do mel conseguiu sobrepujar a amargura que se espalhou por seu corpo e por sua alma.

Beber sozinho é um hábito que nenhum homem deve se permitir.

Tarran recordou o velho conselho do avô ao esvaziar de um só gole a caneca de cerveja que Druce mandara servir ao final de mais um dia de jornada. De onde estava, sentado com as costas apoiadas em um tronco de árvore, no limiar do bosque, podia ouvir o burburinho dos homens reunidos ao redor da fogueira pela fadiga e pela inevitável camaradagem surgida com a convivência pelos caminhos pantanosos.

Ele folgava em reconhecer que seus temores tivessem se provado infundados. O que lhe doía era ver Elspeth acompanhada por Druce, ouvindo com interesse as histórias que ele lhe contava. A sensação era de uma punhalada. E de abandono. Ninguém mais o procurava. Seus homens estavam se mostrando arredios depois da briga com Kei.

Quem mais o evitava era Elspeth. Se por acaso a surpreendesse fitando-o, sentia o impacto da reprovação. Com os outros, porém, e com Druce, em especial, ela era afável. Teria aprendido a arte de se comportar de modo a conquistar as pessoas que serviam a seus interesses? Usar máscaras fazia parte da educação da filha de um lorde normando?

A verdade estava diante dos olhos dele desde o primeiro momento. Apenas não se importara em querer enxergá-la. Fora preciso Elspeth mencionar o pai, sob o abrigo de pedras, para ele entender. O que ela lhe contara sobre estar ciente de não possuir direitos sobre as terras pertencentes ao pai o fez reconhecer a filiação legítima. Elspeth era uma lady, enquanto ele, embora os homens o chamassem de príncipe, era filho de um bastardo. Pertencia a uma classe social tão inferior à dela que provavelmente deveria pedir permissão para lhe falar. Talvez devesse agradecer por ela ter se dignado a aceitar e retribuir o beijo.

— Tarran?

Ele se levantou ao identificar Vala.

— O que faz aqui?

Em vez de responder, a boa mulher se sentou e solicitou, com um gesto, que ele retomasse o lugar. Ainda em silêncio, tirou uma agulha e uma linha comprida do bolso e se pôs a costurar a manga rasgada.

— Por que resolveu fazer isso agora? — ele estranhou.

— Porque está precisando que alguém o chame de volta à razão.

— O que está querendo dizer com isso? — Tarran franziu o cenho.

— Que você pode gritar, espernear e se sentir o último homem sobre a face da Terra, ou pode se levantar e procurar lady Elspeth para terem uma conversa e talvez se entenderem.

— Não sou eu quem deve dar o primeiro passo.

— Por que não?

— Tenho meus motivos.

— Eles não serviram de empecilho antes. O que mudou depois daquela noite na colina?

— Ela é uma lady.

— Basta ter olhos para ver isso. Os modos, a postura e o coração generoso provam sua origem, a educação que recebeu e a humildade com que trata aqueles que não partilham de sua elevada condição. Ela parece se sentir à vontade com Druce.

— Ele não a merece.

Vala interrompeu a costura e sorriu para Tarran com zelo maternal.

— Você a defende com raro fervor.

— Não vejo motivo para graça.

— Nada mais tem graça para você. Deve ter esquecido como rir.

— Não caçoe de mim, Vala.

— Não estou caçoando — a anciã retrucou, sem parar de sorrir. — Apenas acabo de descobrir a causa de seu mais recente isolamento e contrariedade. Elspeth também o questionou sobre suas atitudes insensatas. Eu estava certa. Ela é uma jovem admirável. Realmente não se parece com Druce, mas com você.

— Comigo? Como pode dizer isso?

— Ela tem senso de responsabilidade e se preocupa mais com os outros do que consigo mesma. Como você. É corajosa e habilidosa com as armas. Também como você.

— Mas fala demais e desconhece limites.

— Eu disse que ela é parecida com você, não exatamente igual. — Vala cortou a linha após se certificar de que seu trabalho estava pronto. — Todavia, embora você se queixe por ela falar demais, noto que está ressentido por ela ter deixado de lhe contar justamente o que você queria saber.

Tarran concordou.

— Ela não sustentou meu olhar quando me falou sobre seu passado.

— Talvez não quisesse mencionar antigos amantes.

Um homem sabia reconhecer uma mulher inexperiente no amor. O modo como Elspeth reagira aos primeiros beijos revelava ingenuidade. Fora ele quem lhe ensinara a beijar e o responsável pelo despertar de seus desejos. Poderia ter possuído seu corpo naquela noite, na colina. Ela não o teria rejeitado como ele a rejeitara.

— Elspeth sabe que somos mais liberais em Cymru que na Inglaterra.

— Apenas no que diz respeito à linhagem. Embora reconheçamos o direito de herança dos filhos ilegítimos tanto quanto dos legítimos, tampouco aprovamos que donzelas de classes elevadas mantenham ligações amorosas fora do casamento. Mas não entendo por que você se considera indigno de cortejá-la, neto de uma princesa como é.

Uma lady não se deitaria sob a tempestade em companhia de um homem que cruzara seu caminho por acidente. Uma lady se submeteria à escolha do pai. Addfwyn fora uma verdadeira lady. Conheciam-se desde crianças, mas ela insistira para que ele pedisse sua mão em casamento. Tornara-se lady pelos laços do matrimônio. Vibrara de felicidade ao receber sua proposta, tanto quanto ele em fazê-la. Elspeth não precisava do nome dele nem de seu título, pois eles nada significavam na Inglaterra Normanda.

— De que você está falando, Vala? Elspeth não precisa de mim. Ela já deixou isso claro mais de uma vez.

— No entanto, você acredita que ela esteja escondendo algo de grande importância.

— Sim.

— Posso avaliar sua preocupação.

— Ela cresce a cada momento.

Tyddewi não era diferente dos outros vilarejos por onde eles haviam passado. Destacava-se, contudo, pelo imenso espaço vazio, com amontoados de pedras fragmentadas onde antes se erguera a famosa catedral de São David. Segundo os boatos que corriam pelos arredores, havia planos para a construção de uma nova igreja no local. Talvez não fossem apenas boatos. Durante a viagem, eles tiveram a oportunidade de encontrar homens retirando grandes quantidades de pedras ao longo do rio.

Fileiras de casas feitas de pedra e madeira se espalhavam a partir da antiga praça onde pessoas e animais circulavam sem restrições.

Elspeth sentiu-se esperançosa. Pelos seus cálculos, cerca de dois quilômetros, em cada margem do rio, ainda aguardavam para ser explorados. Se ao menos ela tivesse alguma idéia de como diferenciar llech-lafar das outras pedras...

Um suspiro de desalento escapou do peito de Elspeth. De que adiantava sonhar se a esperança insistia em abandoná-la como Tarran fizera? Tentara sondar Vala acerca do motivo de tanta frieza, mas a anciã se omitira a dar sua opinião, alegando que o assunto não lhe dizia respeito.

A caravana estava descendo as encostas de uma colina e a paisagem continuava nebulosa. As nuvens pareciam ter tragado o mar. As brumas se estendiam ao horizonte. A impressão era de estarem sozinhos no mundo.

Havia muito a agradecer, contudo, e Elspeth se obrigou a reagir ao desânimo. Não deveria se fixar nos problemas que os cercavam, mas nos aspectos positivos da viagem. Druce, afinal, fora fiel a sua palavra e os acompanhara somente enquanto atravessavam seu território, e eles haviam chegado sãos e salvos em Tyddewi, sem que as tormentas que castigavam o mar avançassem para o continente.

Tarran apeou diante de uma cabana construída ao mesmo estilo de todas as outras, mas que se destacava entre elas pelas paredes enegrecidas pela proximidade do incêndio que destruíra a catedral.

O grupo aguardou em silêncio que Tarran se apresentasse e anunciasse a chegada de Vala. Assim que ele bateu, a porta foi imediatamente aberta por uma mulher que poderia ter sido Vala quarenta anos antes. Seu sorriso também poderia ser comparado ao de Vala em calor e simpatia. Vestia uma túnica simples de tecido rústico, e seu único adorno era uma corrente com uma cruz, que usava ao redor do pescoço, que exibia com orgulho.

Elspeth ajudou a velha senhora a descer da carroça e observou, emocionada, o ímpeto com que se atirou nos braços da neta.

— Entrem, entrem! — convidou a dona da casa, que se apresentou com o nome de Modlen.

Gryn e Kei, que não falavam com Tarran desde a briga, entraram sem titubear. Elspeth permaneceu junto à carroça para ajudar Lau. Ele estava melhorando gradativamente, mas ainda se queixava muito de dores. Parecia já ter esquecido que Elspeth era culpada pelo estado em que se encontrava. Ao contrário do irmão, Seith, que mal trocava algumas palavras com ela.

A comida já estava na mesa até que Elspeth entrasse na cabana. Era muito pequena. As janelas de diminuto tamanho mal permitiam a entrada da luz, mas apresentavam boa vedação contra os ventos.

Lau se sentou no único lugar vago. Elspeth se deteve junto à porta, de onde dava para sentir o delicioso aroma de sopa de batata com alho-poró. Modlen a serviu sem perda de tempo e se desculpou por não haverem colheres suficientes.

— Não tem importância. Obrigada pela gentileza.

— De nada, milady. Obrigada pela compreensão. Sinto-me honrada por dividir minha humilde refeição com os amigos de minha avó, que generosamente a trouxeram de tão longe.

Elspeth deixou entornar um pouco da sopa. Distraída, não havia notado que Tarran estava as suas costas nem que a anfitriã tivesse preparado uma tigela para dar a ele.

Ninguém falou até que terminassem de comer. Tarran continuava taciturno. Não se manifestou nem quando Modlen ofereceu o local onde eles se encontravam, o maior cômodo da cabana, para que os homens descansassem, e chamava Vala e Elspeth para um canto e puxava uma cortina, para lhes proporcionar mais conforto e privacidade.

— Ela não perguntou quanto tempo pretendemos ficar — Elspeth observou assim que a anfitriã se afastou.

— Em Gales ninguém faz esse tipo de indagação — Tarran explicou. — Todos os visitantes são bem-vindos em nossos lares pelo tempo que desejarem estender a permanência. O costume é obedecido tanto na mais simples cabana quanto no mais imponente castelo. Ninguém espera explicações sobre o motivo da viagem, sobre a procedência e sobre o destino a seguir. Em suma, nossa hospitalidade é incondicional.

— Lorde de la Rochelle o submeteu a um verdadeiro interrogatório.

— Ele é um senhor em terras fronteiriças.

— Você fala como se isso fosse crime.

— Está ouvindo demais.

— Talvez tenha perdido a habilidade de interpretar suas mensagens depois de passar dois dias sem ouvir sua voz.

— Não creio que possa perder a habilidade com os bastões, mesmo sem exercícios diários.

— Claro que não.

— Admiro sua destreza.

— Obrigada — Elspeth agradeceu, surpresa com a rapidez com que Tarran mudou de assunto.

— Quero que me ensine essa modalidade de luta.

— Um príncipe não usa esse tipo de arma.

Sem se deixar intimidar, Tarran fez um gesto em direção à porta.

— Faço questão.

— Agora?

— Por que não?

Um nó fechou a garganta de Elspeth. Acabava de lhe ocorrer que aquelas poderiam ser as últimas horas ao lado de Tarran. Ele já havia cumprido a missão de trazer Vala até a casa da neta e estava pronto para seguir caminho e se vingar do homem que arruinara sua vida.

— Farei o que me pede desde que concorde em pagar esse favor com outro favor — Elspeth respondeu após longa conjetura.

— O que deseja de mim?

— Que me ensine a acolher seu falcão e soltá-lo para voar.

— Isso levaria tempo, porque antes ele precisaria se acostumar a você. Sinto muito, mas esse seu pedido não posso atender.

Ela deveria ter adivinhado. Ele não tinha mais tempo para lhe dar. Tudo que queria era aprender a manejar uma espada de madeira, porque seria mais um recurso para obter a vitória sobre o inimigo.

Ao seguir em direção à porta, Elspeth tentou disfarçar o desapontamento, fazendo o que melhor sabia: falar. Disse que teriam de procurar um galho para improvisar um bastão e que não se lembrava de ter visto árvores nos arredores.

Estavam pensando em descer pelas encostas da colina, em cujo topo ficava Tyddewi, quando viram pedaços de madeira entre as pedras que deveriam ter servido de sustentação para a antiga catedral.

Vários pedaços foram recolhidos e cortados na medida certa. Como alguns deles dariam uma espada bem melhor que aquela que Elspeth vinha usando, ela a substituiu antes de explicar como Tarran deveria segurá-la. Ele fez perguntas e ela as respondeu com demonstrações práticas. Esse era o método que ela empregava com as alunas e que sempre dava bom resultado.

— Não basta empunhar uma espada, agitá-la e atacar o adversário. O mais importante é a avaliação inicial do oponente. É mais alto e mais forte? O que você acha que deveria fazer nessa eventualidade?

— Você é mais baixa que eu — Tarran observou.

— Isso é vantagem ou desvantagem? — Elspeth questionou. — Uma espada de madeira não é uma espada tradicional. Com a arma de metal, o lutador movimenta um só braço e focaliza apenas a ponta. Com uma espada de madeira, o lutador precisa estar preparado para atingir tanto em cima quanto embaixo, e tanto para a esquerda quanto para a direita. — Elspeth se colocou em posição de treino. — Vamos. Tente me atacar.

— Só isso? Não vai me dar mais nenhuma explicação?

— Não. — Elspeth apoiou o meio do bastão sobre o ombro e segurou-o com as mãos sobrepostas. Olhou para Tarran e sentiu que ele vacilava. — O que está esperando?

— Você não está pronta. Disse que eu deveria segurar o bastão em posição vertical. Uma das mãos em cima e a outra embaixo, e que os joelhos deveriam ficar ligeiramente dobrados.

— Há muitas maneiras de se preparar para uma luta. — Antes que Tarran pudesse adivinhar o que ela pretendia, viu o bastão dançar a sua frente, como se tivesse criado vida. A uma pancada na coxa, ele resmungou um protesto, mais de susto que de dor. E depois de indignação pelo modo como ela segurou o riso.

— Nunca subestime o adversário — ela aconselhou, tranqüila pela certeza de não ter empregado força suficiente para machucá-lo.

— Não a subestimei. — Tarran se preparou para o contra-ataque.

— Nem eu a você — ela afirmou ao sentir o impacto do golpe seguinte e recomendar que ele fosse mais devagar, de modo a não exigir tanto do braço ferido.

— Conheço meus limites — Tarran se vangloriou. — E você?

Elspeth girou o bastão e, com um movimento rápido, arrancou o outro das mãos de Tarran, lançando-o para o alto, de modo que o parceiro só teve tempo de se esquivar para que o cajado não caísse direto sobre sua cabeça.

Em uma prova de destreza, ela correu e agarrou-o antes que chegasse ao chão. Tarran fitou-a, incrédulo.

— Conheço meus limites, mas os testo continuamente, da mesma forma que você vem fazendo todo esse tempo enquanto se prepara para embarcar para Lundy Island.

— Como sabe que estamos indo para esse lugar?

— Ouvi seus homens anteciparem uma dificuldade na travessia caso as tempestades continuem agitando as ondas.

— Meus homens falam demais.

— Pode ser, mas isso não muda os fatos. Lundy Island é realmente seu destino?

— A menos que receba notícias sobre meu inimigo estar em outra parte.

— Então você sabe onde encontrar Bradwr ap Glew.

— Provavelmente. — Tarran olhou para o rio que fluía em direção oeste.

— Ele está na Irlanda?

— Mais além.

— Naquelas terras desconhecidas encontradas por um príncipe galês segundo a lenda?

— Não se trata de uma lenda, mas de uma história que creio ser verídica. O príncipe Madoc é um personagem real.

— Lorde de la Rochelle não acredita que existam terras a serem descobertas e colonizadas no oeste distante.

— Ninguém que se beneficia da fraqueza de um povo conquistado admite ficar em desvantagem. Incomoda-o a idéia de que um príncipe galês possa ter feito uma descoberta importante. — Pela primeira vez, desde a noite da tempestade, Tarran segurou a mão de Elspeth e a fez se sentar a seu lado. — O barão só lhe contou parte da história. Vou-lhe contar agora a parte que está faltando.

O coração de Elspeth bateu mais forte com a esperança de retomarem a cumplicidade que permeara o início da viagem.

— Três anos atrás, o rei Owain de Gwynedd morreu ao norte de Cymru. Ele deixou muitos filhos, legítimos e ilegítimos. A herança foi disputada por todos, com exceção do príncipe Madoc e de outro irmão, que concordou em se aventurarem pelos mares à procura de um novo lugar para morarem e viverem em paz. Partiram de Aber-Kerrik-Gwynan em dois navios e chegaram a uma terra, depois de passarem pela Irlanda, com grande porto e um povo afável. Embora de outra raça, esse povo os acolheu como amigos. Um ano depois, Madoc regressou com planos de colonizar a nova terra. Com as riquezas que trouxe, reuniu dez navios em Lundy Island, no mar Severn entre Cymru e a Cornualha, e deu boas-vindas a todos que quisessem seguir com ele. Os navios partiram e nunca retornaram. Outra frota está sendo montada para empreender o mesmo roteiro.

— E você será um dos tripulantes nessa longa viagem? Tarran assentiu.

— Na tentativa de finalmente encontrar Bradwr ap Glew?

Tarran tornou a concordar.

— O que o faz pensar que ele seguiu em um dos navios do príncipe Madoc? Pelo modo como descreveu o assalto que sofreu nas colinas, o agressor parecia estar cumprindo ordens.

— Ordens que podem ter sido deixadas por Bradwr antes da partida. Ao que se sabe, um homem que corresponde a sua descrição foi visto comprando uma passagem para Lundy Island logo após o crime.

— Mas você não pode ter certeza de que esse homem era ele nem se os navios do príncipe realmente aportaram naquelas terras distantes. Nesse momento, o homem que assombra todos os seus dias e suas noites pode ter encontrado morada definitiva no fundo do oceano.

Elspeth se calou ao gesto inesperado. Tarran tocou-a suavemente na face e se deteve no canto de sua boca.

— Antes preciso ter certeza. Não encontrarei a paz enquanto pairar alguma dúvida em minha mente de que Bradwr ainda respira.

— Mesmo que o preço dessa vingança seja a própria vida?

Um movimento afirmativo com a cabeça serviu de resposta. Elspeth baixou os olhos e suspirou. Era mais forte que Tarran. Ela era tola por continuar alimentando ilusões.

— Morrerei, se for preciso.

— Para se encontrar mais depressa com ela?

— Também existem leis no mundo em que ela está. Não há garantias de que terei um lugar entre aqueles que partiram com honra.

— Não conheço ninguém que conheça o significado da honra mais que você. Renunciou ao tempo que lhe resta de vida para cumprir seu juramento.

— Eu concordaria com você se tivesse defendido minha esposa em vez de tê-la deixado sozinha enquanto saía para caçar. Ela pediu que eu ficasse, mas em vez de atendê-la Preferi a companhia de meus amigos.

— Por São Judas, Tarran, você não poderia adivinhar o que aquele dia lhes reservava.

— Ela não queria que eu fosse!

— Como tantas outras vezes deve ter acontecido.

— Sim.

Elspeth já havia adivinhado a situação muito antes de ouvir essa resposta. Tarran se culpava de todas as maneiras. Precisava ao menos tentar convencê-lo da necessidade de se perdoar.

— Essa não foi certamente sua única discussão com ela.

— Não costumávamos brigar.

— Acho difícil acreditar.

— Por quê? — Tarran questionou, surpreso ao vê-la se levantar e pegar um dos bastões. — Pelo fato de você e eu brigarmos o tempo todo?

Se ela respondesse àquela pergunta, a conversa tomaria rumos que a prudência recomendava evitar.

— Compreendo porque seus homens o chamam de "príncipe". Sua integridade é admirável.

— Está me elogiando?

— Sou capaz de reconhecer qualidades quando merecidas.

A sombra de um sorriso surgiu nos lábios de Tarran ao resolverem empreender o caminho de volta. Lá embaixo o rio corria para o mar. A pedra da profecia estava sob suas águas ou adornava as margens. Aguardava por ela.

— Mas onde você está?

O sussurro de Elspeth se perdeu no ar...

 

 

                                             Capítulo XVI

 

Tarran estava dormindo e seu sonho o levou mais uma vez para Annwfn, o mundo dos mortos. O barulho era tão grande que ele fechou os olhos e tapou os ouvidos. Após algum tempo, como isso de nada adiantasse, abriu os olhos e tentou descobrir o que estava acontecendo. Para sua surpresa, viu-se completamente sozinho. O barulho vinha de dentro dele mesmo.

Assustado, entrou por um longo corredor e chegou a uma grande sala, onde encontrou os guerreiros novamente reunidos em torno de uma mesa. Eles o encaravam em completo silêncio. Tentou avisá-los de que sabia que aquele não era seu lugar. De que tinha consciência de que não merecia participar daquela mesa de honra, mas a voz ficou presa na garganta.

Não havia teto sobre a sala. O céu sobre suas cabeças estava escurecendo, como se as nuvens estivessem se preparando para escondê-los de presenças invasoras. E, nesse exato momento, uma luz de esperança se acendeu para Tarran, porque ele interpretou o sonho como uma mensagem de que encontraria o inimigo em breve.

Um vulto feminino surgiu por entre as nuvens.

Ele havia se acostumado a encontrar Addfwyn nas noites em que transpunha o véu que separava o mundo em que vivia do mundo invisível. Mas não foi a figura da espoSa que se materializou no centro da sala.

Os cabelos de Elspeth pareciam ainda mais longos conforme ela erguia o queixo e contemplava o alto. Ele descobriu que a cor vermelha não o incomodava mais como antes. Se o vermelho o fazia lembrar o sangue de Addfwyn, também o remetia à suavidade das mechas que lhe acariciavam a face durante os momentos de paixão e de ternura. Para o calor dos lábios que retribuíam seus beijos.

Ela estava segurando o bastão apoiado sobre o pé direito. A vestimenta era simples em contraste com as túnicas exibidas pelos valentes guerreiros. A saia estava manchada de lama e pó, e a mão fechada ao redor da espada estava suja de terra, como se ela tivesse acabado de cavar um buraco.

Ele foi ao seu encontro. Queria que seus passos a alertassem sobre sua presença, mas eles foram abafados pela música estridente. Fosse o sexto sentido de Elspeth ou a vibração poderosa da expectativa, ela se virou lentamente em direção a ele.

— O que faz aqui? — ele perguntou.

— Você me trouxe. Meu conhecimento sobre suas lendas e seus costumes é limitado. Eu não teria encontrado o caminho, sem sua orientação. Onde estamos?

— Em Annfwn.

— O mundo governado pela morte? — O espanto de Elspeth intensificou o verde de seus olhos. — Você desejou que morrêssemos?

— Eu jamais a desejaria morta. Elspeth fechou os olhos e suspirou.

— Negou-se a responder minhas perguntas no mundo dos vivos, mas no mundo da verdade não foi capaz. Você se quer morto para poder ficar com sua esposa. Qual dessas mulheres é ela?

Ele apontou para o lugar à mesa onde encontrara Addfwyn nos sonhos anteriores. Ela ali estava mais uma vez e sorria para eles.

— Você deve ir até ela.

Tarran percebeu o esforço que Elspeth precisou fazer para murmurar aquelas poucas palavras. Ergueu a mão e tocou o rosto delicado em uma carícia que pretendia demonstrar gratidão por ela entender o que estava acontecendo. Emocionada, ela inclinou a cabeça de modo a aconchegá-lo. E ele não teve forças para se afastar do calor que penetrava pela palma de sua mão e se distribuía por todo o corpo. Olhou nos olhos verdes e encontrou-os brilhantes de desejo. Talvez fossem apenas reflexo dos dele. De qualquer maneira, bastaria um gesto e a dor que o corroía por dentro seria aliviada.

Abraçou-a e ela correspondeu ao gesto, atraindo-o ao encontro do próprio corpo. Ele curvou as mãos sobre os seios e não foi capaz de silenciar o gemido que brotou das profundezas de sua garganta antes de tomar os lábios rosados sob os seus.

Incapazes de se satisfazer com as formas femininas, suas mãos se apressaram a desfazer os laços do corpete. Queria se aquecer ao calor da pele aveludada. Queria sentir o palpitar daquele coração junto ao dele.

Elspeth virou a cabeça e lhe segurou as mãos. Mas não conseguiu afastá-lo nem impedir que os lábios febris de desejo se apossassem da linha do pescoço e do ombro.

— Nós não deveríamos... Não aqui, onde...

— Onde podemos ser interrompidos?

Como se Tarran tivesse invocado o vento, um sopro gelado os engolfou. Ele a trouxe rápido para junto de si. Queria aconchegá-la sob sua capa e protegê-la.

— O que está acontecendo? — Elspeth indagou, trêmula. Antes que ele pudesse responder, o rei Arawn, senhor daqueles domínios, se pôs a andar em direção a eles com passos firmes e cadenciados. Seu olhar era duro e as feições estavam contraídas. Tarran tentou empunhar a espada, mas não conseguiu desembainhá-la. Deveria ter adivinhado que não tinha poderes para vencer a morte. Seria castigado em sua prepotência. Mas foi contra Elspeth que Arawn brandiu a espada, não contra ele.

Não houve tempo para mais nada. Elspeth se afastou da proteção de seus braços e ergueu o bastão do qual nunca se separava. Preparava-se para uma batalha que nenhum ser vivente poderia vencer.

Tarran queria se mover para ajudá-la, mas os pés pareciam estar pregados no chão e os braços, ao longo do corpo. Não podia fazer nada, a não ser assistir ao tenebroso espetáculo de desafio à morte.

— Pare! — ele gritou em desespero.

A espada baixou sobre Elspeth nesse momento. Com um salto preciso para a lateral, ela aparou o golpe que a teria partido ao meio, mas perdeu o bastão. Os dedos doíam pela violência da investida, e ela os fechou sobre os punhos.

— O que está fazendo com ela? — Tarran tornou a gritar.

— Isso não lhe diz respeito, Tarran ap Llyr.

O nome dele pronunciado pela voz cavernosa causou estremecimento. O sopro gelado tornou a investir contra ele e derrubou Elspeth de joelhos. Ela estava lívida. Os dedos estavam vermelhos como se tivessem sido escaldados.

— Ela está sob minha proteção — Tarran clamou.

— Uma proteção que ela sempre repudiou.

Com olhar de desdém, a morte empurrou o bastão para perto de Elspeth com a ponta da reluzente espada.

— O que quer me dizer com essas palavras? — Tarran bradou. — Que não tenho condições de proteger Elspeth assim como não pude evitar que você trouxesse Addfwyn para este reino? Por que também a quer para si? Elspeth é normanda. Não nasceu em Cymru.

— Ela tem alma de guerreira. Seu lugar é aqui.

— Não! — Um grito de revolta cortou o ar e também os grilhões invisíveis que o atavam. Tarran puxou a espada para defender Elspeth no exato instante em que a morte tornou a investir contra ela.

Ele a ouviu gritar seu nome repetidas vezes. O chão começou a tremer sob seus pés. Sombras ameaçadoras penetraram no ambiente, até que a escuridão o dominou por completo e ele não viu mais nada...

Elspeth inclinou-se sobre Tarran e sussurrou seu nome em vão. Ele estava se debatendo no sono. Sacudiu-o e ele ficou ainda mais agitado. Empurrou-a, sem ter noção do que estava fazendo. Ela se desequilibrou e caiu. Nem assim ele acordou. Ela, então, se pôs de joelhos e segurou-o pelos braços para imobilizá-lo.

— Tarran, acorde! Você está tendo um pesadelo.

Ele tornou a gemer, mas ela percebeu, aliviada, que finalmente conseguira trazê-lo de volta à consciência. Os outros ainda dormiam. Estavam cansados e mereciam um sono prolongado. Para evitar que Tarran os acordasse, ela o fez apoiar um braço ao redor de seu pescoço e ajudou-o a se levantar. Ainda preso ao sonho, ele se deixou conduzir como uma criança até a porta da cabana. Praguejou ao bater a cabeça no dintel e fez menção de se sentar, mas Elspeth o empurrou para fora e não parou até chegarem ao poço que servia o vilarejo.

Não conseguiu arrastá-lo até a borda. Por causa do desnível do terreno, Tarran tropeçou e caiu. Ela foi até o poço e apanhou água. Foi até Tarran e sem prévio aviso despejou-a sobre sua cabeça.

Tarran quase se afogou.

— Por que fez isso? — ele protestou nos intervalos de acesso de tosse.

— Banho frio é o melhor remédio para curar bebedeira.

— Não bebi sequer um copo de cerveja hoje!

— Então o pesadelo deveria ser terrível. Você estava gritando. Não sei como não acordou o vilarejo inteiro.

— Estava sonhando com você.

Ao inesperado da revelação, Elspeth se ajoelhou ao lado dele e tocou-o na testa para verificar a temperatura, certa de que o encontraria febril. Mas não havia sinal de aumento de temperatura.

— Você me salvou — Tarran prosseguiu e afastou a mão de Elspeth de sua testa para poder beijá-la. — Você se dispôs a lutar com a morte para me salvar. Não importa se é filha de lorde ou de camponês. Preciso de seu calor para afastar o frio da sepultura.

Elspeth franziu o cenho e recuou à tentativa de Tarran de abraçá-la. Estava preocupada com seu comportamento. O que ele dizia não fazia sentido.

— Você está acordado ou ainda dorme apesar de os olhos estarem abertos?

— Não fale. Não quero conversar. Não quero discutir com você. Quero-a em meus braços. Você é o bálsamo para os pesadelos que me atormentam. Quero-a como a mulher vibrante e sensual que é e que nunca faz nada pela metade.

Antes que ela pudesse ignorá-lo, Tarran a fez girar de modo a colocá-la sob seu corpo e poder beijá-la. A água gotejava dos cabelos dele, mas o frescor não diminuía o fogo contido nos beijos depositados em sua boca. De olhos fechados, Elspeth enlaçou-o pelo pescoço para que chegasse ainda mais perto dela.

Eles tinham todas as razões do mundo para evitar o que estava acontecendo, mas o impulso de se abraçarem e de se beijarem superava o bom senso. Lábios e mãos se procuravam com desespero. Por mais que tentasse controlar os pequenos gemidos que permeavam os beijos, Elspeth não conseguia. Ainda mais ao vê-lo sorrindo, mais bonito do que nunca.

— Solte-se. Não se envergonhe — ele murmurou. — São os sons mais doces que ouvi após meses de silêncio. Comparo cada gemido seu à nota musical de uma linda melodia.

— Mas estamos a céu aberto, em meio a um vilarejo. Um som mais alto e alegre se fez ouvir à medida que Tarran olhava, completamente aturdido, ao redor. Elspeth riu ainda mais ao constatar que eles não estavam tão sozinhos como imaginavam. As risadas haviam acordado alguns porcos que dormiam a poucos metros de distância, e eles estavam se aproximando para uma visita de reconhecimento.

— Há espectadores demais aqui para meu gosto — Tarran resmungou. — Vamos para algum lugar onde possamos ter privacidade. Talvez onde você me deu uma demonstração esta tarde de como lutar com uma espada de madeira.

— Tenho uma idéia melhor. Proponho irmos até a beira do rio, onde ficaremos protegidos pelas árvores e teremos a lua para nos guiar.

— Idéia interessante — Tarran concordou.

— Sabia que você a aprovaria.

Tarran a fez levantar e se refugiar em seu peito. Queria sentir o corpo feminino junto ao dele. Queria que Elspeth soubesse quanto ele a estava desejando.

Um chamado os interrompeu. Era Vala. Antes que Elspeth pudesse se pronunciar, Tarran pediu que ela o aguardasse enquanto atendia a velha ama.

— Ficarei esperando à beira do rio.

— Não — ele retrucou, enfático. — Não saia daqui. Voltarei logo.

— Já lhe disse mil vezes para não se preocupar comigo — Elspeth respondeu com a costumeira teimosia. Mas, antes que se afastasse, Tarran a segurou com força pelo pulso.

— Dê mais um passo e eu a deitarei aqui, sem me importar que todos no vilarejo possam presenciar a cena.

Ameaças não adiantaram. Elspeth atirou-lhe um beijo e se pôs a correr. Tremia de antecipação. Na abadia de São Judas ela havia lido alguns livros que explicavam sobre a união física de um homem com uma mulher. Naquela ocasião, ela havia entendido por que em algumas noites os pais a colocavam para dormir debaixo da carroça.

A lua refletida no rio assemelhava-se a uma fita de cetim. Gostaria de tomá-la entre os dedos e amarrar os momentos preciosos que estava vivendo, para guardá-los consigo para sempre.

Olhou ao redor à procura de um recanto sem pedras. Riu consigo mesma ao perceber que era a primeira vez, desde sua chegada em Gales, que não queria saber delas. O riso morreu em seus lábios, porém, ao sentir o braço ser puxado com brutalidade. Virou-se aturdida e calou um grito ao contato frio de uma adaga.

Ela prendeu a respiração, ciente de contar com apenas poucos segundos para reagir. Usou ambas as mãos para segurar o braço do atacante e forçou-o para baixo do pescoço, até a lâmina descer reta para o peito. Dobrou os joelhos nesse instante e puxou o assaltante, de modo a atirá-lo por cima dos ombros. Ouviu um grito de dor e de choque conforme ele batia as costas no chão. De um salto, ela o prendeu pela garganta.

O homem era calvo ou raspara a cabeça. Seria um monge? Mas desde quando monges atacavam as pessoas? A hipótese era absurda demais para ser concebida. Ele apresentava uma cicatriz na face esquerda, que parecia ter sido feita por uma faca. Os olhos eram tão escuros quanto os de Tarran. As idades também se aproximavam.

— Quem é você? — Elspeth quis saber. Como ele se recusasse a responder, ela aumentou a pressão. Sem poder respirar, o homem se agitou, e nesse instante ela quase o deixou escapar, tal foi a surpresa ao notar que ele trazia o mesmo tipo de cordão ao pescoço que o usado por Druce.

— Elspeth, onde você está?

O homem se aproveitou da breve hesitação para recuperar a vantagem. De posse novamente da adaga, atingiu-a na perna, certo de que a dor a obrigaria a soltá-lo. Mas ela o chutou com a outra perna e ele tornou a perder a arma e a vontade de continuar lutando.

— Elspeth, onde está você?

— Tarran, tome cuidado! — Elspeth avisou-o enquanto o agressor corria para o abrigo das árvores.

Ao vê-la curvada sobre si mesma, Tarran sentiu o ar lhe faltar.

— Por São David! Você está ferida?— Ele caiu de joelhos ao lado dela.

— O corte foi extenso, mas superficial. — Elspeth levantou a saia e mostrou a mancha de sangue na meia. — Você estava certo. Eu não deveria ter vindo sozinha. Se você não tivesse chegado, não sei...

— Agradeça-me assim. — Tarran segurou-a pelo queixo e beijou-a. — Agora, conte-me o que houve.

— Fui atacada por um homem que usava um cordão com uma pedra em volta do pescoço igual ao de Druce e ao daquele outro homem.

— Você tem certeza que era igual?

— Absoluta. Eu a vi quando ele colocou a adaga contra meu pescoço. Esta adaga — Elspeth mostrou o objeto a pouca distância. — Ele a deixou cair na pressa de escapar.

Tarran empalideceu e gaguejou como um náufrago ao dar o último suspiro.

— Esta arma pertenceu a Addfwyn. Estava desaparecida. Veja. — Ele indicou as iniciais gravadas no cabo.

— Mas se a mataram com esta faca...

— Não. Não foi esta a arma que lhe roubou a vida. Bradwr ap Glew deve tê-la levado consigo e agora a está usando para me mandar um recado.

— O que acha que ele está tentando lhe dizer?

— Que matará toda mulher que eu tentar trazer para minha vida.

Elspeth hesitou, chocada.

— Por que ele faria isso?

— Não sei... ainda.

 

 

                                           Capítulo XVII

 

— Impossível! — Druce exclamou, enquanto seguia ao longo do rio sob os olhares curiosos de metade do vilarejo. Estava tão absorto em seus pensamentos que quase derrubou Vala. Depois de ser informada sobre o ataque sofrido por Elspeth na noite anterior, a velha senhora decidiu não mais perdê-la de vista e insistiu que Tarran mandasse avisar o senhor das terras vizinhas sobre o assalto.

As suspeitas de Elspeth se confirmaram sobre Druce ter mentido ao insistir que os acompanharia apenas até os limites de sua propriedade. Os homens de Tarran o encontraram acompanhado pelo fiel Orwig, a pouca distância de Tyddewi.

— Obviamente não foi impossível! — Tarran retrucou com firmeza. — O agressor usava a mesma indumentária sua e de seus homens.

— Nenhum de meus homens teria motivos para ameaçar lady Elspeth com uma faca.

Elspeth viu o modo como Druce sorriu para ela e tentou retribuir o sorriso, mas não conseguiu. Sentia uma dor aguda na perna e no rosto. Ao cair, deveria ter arrastado o cotovelo no esforço inconsciente de proteger a cabeça, porque a pele estava toda esfolada. Apesar dos ferimentos, contudo, a dor mais lancinante se localizava no coração. Jamais imaginara que poderia se sentir assim algum dia. Estava certa de que a intuição lhe diria quando chegasse o momento de o coração decidir pertencer a outro alguém. Admitia que sentira atração especial por Tarran desde o instante que seus olhos se encontraram e ele a obrigou a ouvi-lo. Mas o amor a pegara de surpresa.

Agora, ao olhar para Tarran, de pé junto ao rio, voltado para o mar envolto pelas brumas cinzentas, ela se perguntava se o coração dele poderia admitir sua presença algum dia. Tarran relutava em aceitar que um novo amor pudesse animar sua vida. Era paixão o que o levava a seus braços. Não podia ser amor.

Ele a desejava. Disso ela não tinha dúvida. Chegara a esquecer que se encontravam em local público em seu arrebatamento. Tudo poderia ter sido diferente se eles pudessem ter se amado sob o testemunho das árvores, mas a realidade os fizera acordar do sonho. A visão de uma faca o levou de volta ao passado.

Ela não tinha a pretensão de fazê-lo esquecer Addfwyn. Nem o queria. Era capaz de entender que sempre haveria um lugar para a esposa no coração de Tarran. Desde que ele conseguisse abrigá-la em um espaço de igual importância.

Você se dispôs a lutar com a morte para me salvar.

Ela deveria ter perguntado o que ele quisera lhe dizer com aquelas estranhas palavras. Ou talvez não. Acordara-o de um terrível pesadelo. Queria estar presente em seus sonhos.

— Considero suas acusações um insulto a minha pessoa — Druce protestou.

— Ninguém o está acusando nem a seus homens de envolvimento no ataque — Elspeth resolveu intervir à demora de Tarran em dar uma resposta. — Apenas achamos que você deveria ser informado de que alguém pode estar se fazendo passar propositalmente por um elemento de seu grupo, usando o mesmo tipo de vestimenta e adorno.

Druce hesitou.

— Demonstra rara sabedoria para uma mulher. Agora era Elspeth quem estava se sentindo insultada.

A primeira reação foi retrucar. E seus olhos deveriam ter refletido o que se passava em seu íntimo, pois Vala imediatamente pigarreou e lhe fez sinal para que calasse os protestos e aguardasse os próximos acontecimentos antes de se manifestar.

Em silêncio, ela observou Orwig dizer algo a Druce. Suas mãos estavam escondidas entre as mangas da túnica e as feições permaneciam ocultas sob o largo capuz. Ela não conseguiu ouvir sequer uma palavra do que ele disse, mas pelo modo como Druce começou a girar o anel no dedo deu para perceber que o assunto o inquietara.

A curiosidade a fez prender a respiração e morder o lábio inferior. O discurso não parecia ter fim. O que, afinal, Orwig poderia estar dizendo ao mestre? E por que Druce tornou a fitá-la assim que o outro se afastou?

— Enfim, lady Elspeth está bem. Por sorte, nada de mais grave lhe aconteceu.

— Mas o assaltante não pode escapar impune. Espero que nos ajude a encontrá-lo, de modo que pague pelo que fez a Elspeth. Se ela não soubesse se defender, estaria morta até que eu a encontrasse.

Druce se preparava para responder, mas Orwig tornou a cochichar algo em seu ouvido, e os dois iniciaram uma pequena conferência. Elspeth foi para mais perto de Tarran. Ele parecia ter se revestido de um escudo. Olhou para ela, mas não a viu. Virou-se para o mar e pareceu se esquecer de que não estava sozinho.

Em que estaria pensando? Sua imaginação o faria ver os barcos do príncipe Madoc regressando da longa viagem? Ele continuava colocando o propósito de vingança acima de tudo e de todos? Ele conseguia se lembrar de que Elspeth Braybrooke existia nos momentos em que ela estava fora de sua visão e longe dos braços?

Elspeth baixou a cabeça e se afastou em passos lentos. Nunca temera um confronto. Até agora. Porque antes não tinha nada a perder.

Mas a rainha perderá o rei se você falhar na missão que ela lhe confiou.

Um arrepio a percorreu dos pés à cabeça. Alguém parecia ter se aproximado para trazê-la de volta à razão. Ela teve a nítida impressão de ouvir aquelas palavras serem sussurradas em seus ouvidos. Não podia esquecer o motivo da vinda a Cymru. Nem mesmo quando se perdia nos braços e nos olhos escuros de Tarran.

Um grito a fez voltar ao presente.

— Pare! Não se mova!

Ela se deteve e olhou para trás. Druce estava correndo em sua direção, seguido de perto por Tarran. E Vala, aparentemente, também estava querendo alcançá-la.

— O que houve? — Elspeth franziu o cenho.

— Receei que pisasse sobre esta pedra.

Elspeth pensou que o coração fosse parar de bater nesse instante. Olhou para baixo com expectativa. Seria possível que a busca estivesse terminada quando menos esperava?

— Por que eu poderia tropeçar e cair? — ela indagou com falsa ingenuidade.

— Porque ela tem o poder de ditar a vida e a morte. Agora as batidas do coração de Elspeth estavam tão rápidas que ela receou que Druce as escutasse.

— Ouvi muitas histórias e lendas em minhas viagens por estas terras. São lindas e interessantes, mas não acredito que suas profecias possam realmente se cumprir.

— O grande mago Merlin não é uma lenda — Druce declarou.

Seria possível que o próprio homem que desconfiava ser um inimigo velado lhe tivesse fornecido-a solução do mistério sobre llech-lafar?

— Como você pode ter certeza? — Elspeth o desafiou, com a respiração suspensa.

Druce bateu na pedra com a ponta da espada.

— Se ele fosse apenas uma lenda, como você explica a existência desta pedra?

Elspeth temeu que seus olhos a traíssem. Olhou para baixo para fugir ao escrutínio, mas ao cogitar que esse gesto poderia provocar desconfiança forçou-se a encará-lo novamente.

— Não tenho como lhe dar essa resposta simplesmente porque não há explicação para a existência desta nem de nenhuma outra pedra que vi aos milhares espalhadas por todos os lugares onde já estive.

— Esta não é uma pedra comum. É llech-lafar, a pedra que foi colocada aqui por Merlin para garantir a liberdade de nosso povo. Com sua capacidade de prever o futuro, o grande mago determinou que esta pedra impedisse que um rei estrangeiro viesse tirar o que nos pertence ao regressar de uma conquista além-mar.

— Ele devia estar se referindo ao rei Henrique! — Vala exclamou, chocada. — A caminho da Inglaterra, quando retornar da Irlanda, ele passará por Cymru.

— E pagará alto preço pela ganância.

Uma risada de escárnio se seguiu à declaração. Elspeth empalideceu. Tarran tornou a olhar em direção às ondas altas que se levantavam no oceano e que pareciam compartilhar do tumulto de sua mente. A possibilidade de ter perdido Elspeth na noite anterior não lhe saía do pensamento.

Voltou-se para ela naquele instante e cogitou se não estaria sonhando muito alto. Se não estaria se iludindo ao desejar que ela renunciasse a sua vida pregressa para ficar para sempre em Tyddewi. Agora que aprendera a conhecê-la melhor, notava que ela se mostrava mais impassível quanto mais difícil era a situação que precisava enfrentar. Ela, como ele, não demonstrava suas emoções.

Vala estava certa. Eles eram iguais em força, determinação e controle.

Começou a observá-la. A pedra indicada por Druce exercia uma atração inegável sobre ela ou não estaria se esforçando tanto para demonstrar naturalidade e até mesmo descaso perante os habitantes do vilarejo, que já haviam se reunido ao redor deles, interessados em saber o que estava acontecendo.

Ele se lembrava de ter visto aquele mesmo brilho no olhar de Elspeth no momento em que lorde de la Rochelle lhe falara sobre a lendária pedra. Seria possível que tivesse acabado de descobrir por pura casualidade o que trouxera Elspeth àquelas terras? Essa busca explicaria todo o comportamento extravagante e destemido da jovem estrangeira desde que ele a encontrara em estranhas circunstâncias no alto do castelo Glyn Niwl.

— A que preço você se refere? — Tarran questionou, embora também já tivesse ouvido falar sobre a antiga profecia. Parecia-lhe suspeito que Druce desvendasse um segredo de família, mais ainda um segredo que poderia comprometer o futuro de Cymru, a estranhos.

— Morte. O preço a pagar será a morte. — Ao proferir a sentença, Druce ergueu as mãos para o alto em um gesto de exagerado misticismo. Ao baixar os braços, cerrou os punhos e prosseguiu em tom desafiador. — Então estas terras voltarão a ser nossas e não seremos mais obrigados a tolerar a convivência com sais.

Seduzidos pelo tom inflamado do discurso, os habitantes de Tyddewi começaram a se acercar e a ouvir Druce como se estivessem hipnotizados. Elspeth e Tarran recuaram.

— Você acredita que a profecia possa se realizar? — Elspeth perguntou baixinho.

— E você? — Tarran omitiu-se propositalmente a responder.

— Não importa em que acredito. — Ela "olhou em direção a Druce. — O que importa é que a lenda confere uma desculpa perfeita para aquele que tem a intenção de assassinar o rei e Druce acaba de fornecê-la.

Tarran não poderia ter outra atitude que não fosse concordar com Elspeth.

— Você é realmente a famosa llech-lafar? — Elspeth perguntou à pedra, como se ela tivesse vida. — Ou me traí de alguma forma enquanto ouvia as histórias de Druce durante a travessia por sua propriedade?

Agora era tarde demais. A localização da pedra já havia sido divulgada pelo vilarejo. Metade das pessoas deveria ter testemunhado a revelação à beira do rio. E essa metade certamente havia repetido o que ouvira à outra metade. Até que as tempestades cessassem e os barcos tivessem condições de navegar, a notícia já teria se espalhado pelos quatro cantos de Gales.

Elspeth se ajoelhou e olhou ao redor para se certificar de que estava sozinha, porque seria apontada como insana se alguém a visse falando com um mineral.

— Se é verdade que você é diferente das outras e que Merlin lhe conferiu o dom da fala, bem que poderia me dizer.

Ao examinar a pedra, Elspeth encontrou algumas linhas estranhas, causadas pela erosão no decorrer de longos anos. Mas muitas outras também apresentavam sinais do desgaste causado pelo fluxo das águas. Com um suspiro, bateu na pedra com o bastão, como se o toque pudesse acordá-la. Mas foi a voz de Rhan que ela ouviu com uma clareza que a surpreendeu. A sábia mulher a prevenira de que estaria se arriscando a perder tudo que amava se não regressasse imediatamente para o lugar de onde viera.

Na ocasião, acreditara que a maga estivesse se referindo a sua vida na abadia de São Judas e lhe ocorrera desistir da busca e voltar dizendo à abadessa que fizera tudo que estava ao seu alcance, mas que não tivera êxito na empreitada. A oferta de Tarran para que seguisse viagem em sua companhia lhe dera confiança para insistir no cumprimento da missão.

Agora, ela temia que o preço a pagar pelo cumprimento do dever estivesse ligado à renúncia ao amor.

Como se o pensamento o tivesse chamado, Tarran se aproximou.

— Tinha certeza de que a encontraria aqui. Mas não sozinha. Imaginei que Druce a estivesse ajudando a vigiar o talismã de Merlin.

— Druce está sendo homenageado na vila como o salvador de Gales.

— Na vila? — Tarran estranhou. — Pensei ter visto Orwig perambulando pelas ruínas da catedral.

— Você deve tê-lo confundido com outra pessoa. Orwig nunca sai do lado de Druce. A menos, é claro, que esteja cumprindo ordens e fazendo outra coisa. Talvez vigiá-lo. — Elspeth fechou os olhos por alguns segundos. — Estou cansada. Não quero falar sobre Orwig, nem sobre Druce, nem sobre nenhuma lenda.

— Eu a compreendo. Merlin parece estar outra vez entre nós. Suas lendas se tornaram o assunto do dia. Por isso fiquei tão surpreso ao encontrá-la sozinha. Pensei que as pessoas estivessem fazendo vigília à espera do milagre de ouvir a pedra ditar o destino.

— Ninguém se interessará por llech-lafar enquanto o rei estiver detido na Irlanda por causa das chuvas. — Elspeth olhou para baixo e balançou a cabeça.—Ela parece tão comum.

— Quem lançou a maldição teve o cuidado de escolher uma pedra que não se destacasse entre as outras.

— Para que o rei a pisasse sem se precaver.

— Exatamente.

Em silêncio, Elspeth tocou a pedra com o bastão de várias maneiras.

— Ela é grande, mas não tanto quanto eu esperava.

— Então você confessa que estava à procura de llech-lafar.

— Sim — Elspeth admitiu, sem se estender no mérito da questão.

— Foi seu pai que a enviou para cá com esperanças de obter favores do rei?

— Meu pai está morto — Elspeth contou após um instante de hesitação.

— Então quem foi que a enviou?

— A rainha.

— Não minta para mim. — Tarran a segurou pelo braço com urgência, como se temesse que ela pudesse escapar por entre os dedos. E ela captou esse sentimento porque, em vez de protestar, como costumava fazer, se virou para ele e afagou seus cabelos.

— Eu não mentiria sobre algo tão importante. Tarran olhou para a pedra.

— Llech-lafar é a razão de sua vinda a Cymru? Elspeth concordou com um gesto de cabeça.

— Não tive condições de lhe contar antes a respeito porque nem sequer estava convicta de que a pedra realmente existia e menos ainda de que teria chance de encontrá-la. Agora que ela me foi mostrada, terei de providenciar sua remoção, onde o rei nunca venha a visitar.

Tarran se agachou para examinar mais de perto a pedra coberta por espessa camada de líquen.

— Em sua maior parte, a pedra está visível. Apenas a base está enterrada. Não teremos grandes problemas para retirá-la, se quiser minha ajuda.

— Acredita que esta é realmente a pedra enfeitiçada?

— Pode ser. Ela é muito antiga. E você acredita?

— Sim. Quero dizer, acho que sim. Até alguns dias atrás, nunca ouvira falar a respeito da maldição que pesava sobre o rei.

Tarran se levantou e Elspeth não pôde deixar de admirar os músculos definidos sob a túnica à medida que ele se movimentava.

— Nasci em Cymru e posso afirmar que nossas lendas não são simples histórias. Embora certos fenômenos não possam ser explicados, sabemos que são reais. Acredito nelas, apesar de não ter sabedoria para compreendê-las.

— São essas lendas que estão por trás de seus pesadelos?

— Por que diz isso? — Tarran franziu o cenho.

— Vala me interrogou a respeito ontem à noite. Quando lhe contei o que houve, ela comentou sobre a história da participação do príncipe Pwyll na corte da morte.

— Não me lembro de ter mencionado o nome dele.

— Mas você me contou que eu estava preparada para lutar com a morte para salvar sua vida.

Uma expressão de surpresa surgiu no rosto de Tarran.

— Contei? Não me lembro. Mas parece que as lendas já fazem parte de cada um de nós. Falar sobre elas é como falar sobre a própria vida. — Tarran olhou novamente para a pedra. — Mas você estava dizendo que está aqui por ordem da rainha. Por que ela a escolheu para essa missão?

— Porque não quer que o marido morra.

— Pelos rumores que ouvi, a rainha ficou tão furiosa ao saber da ligação do rei com uma mulher chamada Rosamund que não causaria espanto em ninguém se ela não se importasse caso ele desaparecesse da face da Terra.

— Existe outro amor em sua vida que talvez justifique o desejo de salvar o rei: o filho Richard. Ele ainda é jovem demais para subir ao trono.

— Mas o sucessor do rei Henrique deverá ser o príncipe Henrique.

— Esse é o segundo motivo que responde por minha presença aqui.

— Que espécie de mãe desejaria ver um filho morto para que outro, de sua predileção, se tornasse o novo rei?

— Eu não disse isso! — Elspeth se defendeu. — Não coloque palavras em minha boca! Apenas sei que ela tem grande estima pelo filho caçula e que é para ele que deseja deixar o legado em Aquitaine.

Com um gesto inesperado, Tarran a puxou ao encontro do peito e olhou em seus olhos. Ela não esboçou nenhuma resistência ao ter os lábios esmagados por um beijo possessivo. Não era do feitio dele interromper uma discussão. Muito menos se mostrar descontraído a ponto de dar uma pequena risada ao se separarem.

— O que achou do que coloquei agora em sua boca? Exultante de esperança de que Tarran estava a caminho da recuperação, Elspeth imitou-o. Com um movimento rápido, enlaçou-o pelo pescoço e tomou a iniciativa de beijá-lo. Ao passar a ponta da língua pelos lábios quentes e macios, ele gemeu. Um arrepio de prazer tomou conta dele ao sentir seu corpo pressionado contra o tronco de uma árvore. Ainda mais atrevida, ela deslizou as mãos pelas costas dele e o segurou com mais força ao chegar aos quadris.

Os lábios de Tarran agora estavam espalhando pequenos beijos ao longo de seu pescoço. De olhos fechados, ela o inclinou para a lateral, de modo a recebê-los até a curva do ombro. Um novo arrepio a percorreu ao sentir o vestido deslizar pelos braços. Um súbito calor afogueou-lhe a face e lhe deu a impressão de estar derretendo.

De repente, sem que ela conseguisse entender o que estava acontecendo, Tarran se afastou e suspirou.

— Tarran? — ela murmurou, confusa.

— Temos um dever a cumprir. Não podemos nos permitir distrações.

Elspeth aquiesceu. Fizera um juramento à rainha e precisava cumprir a tarefa, embora o preço fosse alto. Tão alto que atraíra a maldição de Merlin para si. Porque, para salvar o rei, ela teria de renunciar ao amor do único homem que queria.

— Você está certo. Aceito e agradeço a ajuda que me ofereceu.

Como se selassem um acordo sagrado, apoiaram as mãos nos ombros um do outro e fitaram-se intensamente. Emocionada, Elspeth fechou os olhos por um instante e rezou por seu direito e de Tarran à felicidade.

— Você sabe que tenho minha própria missão a cumprir — Tarran declarou após longo tempo.

— Sua missão é vingar uma morte e a minha é evitar uma. Qual é mais importante?

— Você está falando agora como se também acreditasse na lenda de Merlin.

— A rainha acredita e não permitirei que se arrependa de ter confiado em mim para ajudá-la. — Elspeth ergueu os olhos e o obrigou a encará-la. — Ajude-me, Tarran. Apóie-me em minha luta para salvar a vida de um homem. Preciso de você.

— Também preciso de você e prometo fazer tudo que puder para auxiliá-la.

Lágrimas de emoção precisaram ser contidas. Se para salvar o rei ela teria de perder Tarran, queria tê-lo a seu lado e aproveitar cada segundo em sua companhia enquanto pudesse.

— Não consigo parar de pensar no que houve entre nós ontem à noite — ele confessou e tornou a abraçá-la.

Elspeth fechou os olhos e ofereceu a boca e o pescoço para que ele os beijasse. Palavras que antes nunca lhe faltavam de repente se recusavam a ser proferidas.

— Quero provar o sabor de sua pele — Tarran murmurou. — Quero beijar não apenas a boca, o pescoço e o ombro, mas também os seios. Para começar. Porque depois quero conhecer os segredos escondidos sob suas vestes. Quero sentir a maciez de seus cabelos roçar em meu peito no momento que nos tornarmos apenas um.

Elspeth recuou, ofegante. Ao perceber o desapontamento de Tarran, equivocado com sua atitude, ela se apressou a desfazer o engano.

— Não é o que está pensando. Apenas tive a sensatez de me lembrar de que estamos em um lugar de interesse público e de que os habitantes de Tyddewi poderão se surpreender com cenas proibidas se por acaso resolverem vir e examinar a pedra do grande Merlin.

O humor retornou aos olhos de Tarran ao fazer com que Elspeth o enlaçasse pela cintura, enquanto a abraçava pelo ombro, para que caminhassem juntos pela margem do rio.

Como um garoto, Tarran deu um salto que o colocou sobre uma pedra entre as águas. Depois continuou saltando até alcançar a outra margem sob o olhar divertido de Elspeth, que, contagiada pelo entusiasmo, atirou a ele seu bastão e imitou-o, sem poder imaginar a surpresa que ele se preparava para lhe fazer. Porque, em seu último salto, Tarran lhe abriu os braços e a segurou.

— Posso saber para onde pretende me levar?— ela perguntou, faceira, com os braços ao redor do pescoço dele.

— Para o mar.

A paisagem era esplêndida. Uma árvore imponente crescia, solitária, em uma espécie de nicho que a protegia. Três imensos galhos se destacavam como se tivessem sido esculpidos pela natureza propositalmente daquela forma. Um deles oferecia abrigo com suas folhagens. Sob sua sombra, ninguém poderia vê-los.

— Um caramanchão! — Elspeth exclamou. — Deve existir alguma outra lenda que fala sobre as árvores que nos dão boas-vindas, como se abrissem os braços para nos receber.

— E que oferece suas folhas tenras para nos servir de leito.

Embevecido, Tarran se pôs de joelhos e se livrou das armas que carregava na cintura e nas botas. Com um sorriso, estendeu os braços e segurou as mãos de Elspeth, ajudando-a a se ajoelhar a sua frente. Beijou-a e mergulhou o rosto na cascata de seus cabelos.

— Sinto em você o calor do sol. Luto contra o desejo que você despertou em mim desde o instante em que a fiz cair em meus braços e que ouvi a acusação de ter interferido em seus planos. Jurei que jamais me permitiria gostar de outra mulher porque não suportaria lhe dar meu coração para perdê-lo outra vez para a vida ou para a morte. Você reverteu minha posição. Você me confunde. Você é a pessoa mais obstinada que já conheci.

Os olhos verdes faiscaram, provocantes.

— O que está tentando fazer? Conquistar-me ou convencer-me a não me deixar seduzir?

— Ambos, talvez. Ou talvez nenhuma das duas coisas. Antes que você surgisse em minha vida, eu sabia para onde queria ir e o que queria fazer. Agora nada mais está claro em minha mente.

— Você também me afeta, sabe disso.

— Sim, eu sei. — Ele deixou aflorar naquele momento todo o desejo longamente reprimido e a beijou como se fosse a última vez. — Não quero pensar. Quero você de qualquer jeito, seja filha de lorde ou não.

Elspeth parou de respirar ao ouvir essa declaração. Precisava ser honesta como ele estava sendo com ela. Mas, ao tentar explicar, ele a calou com outro beijo.

— Não me importa sua origem nem o motivo da vinda a Cymru. Nada importa. Só você. Quero conhecer seu corpo por inteiro. Quero fazer amor com você.

Tarran a deitou no leito de folhas e repousou a cabeça sobre a maciez dos seios. Após um instante, ergueu-se sobre o cotovelo e sorriu.

— O único problema é que você usa roupas demais.

Elspeth sentiu o riso borbulhar em seu peito. Tarran estava voltando a ser o homem alegre de que Vala lhe falara. Ela mal podia esperar para conhecê-lo como era em sua essência.

— Se elas estão atrapalhando...

A sugestão, Tarran colocou as mãos sob as costas de Elspeth e a fez se mover de modo a alcançar os cordões que ajustavam o corpete. Desfez os laços e os nós e com os dedos em gancho afrouxou os cordões e conseguiu puxar o vestido para baixo, fazendo uma pausa apenas para sentir a maciez cálida e volumosa dos seios enquanto se apoderava mais uma vez dos lábios entreabertos antes de descer pelo colo arfante.

De repente tímida pelos gemidos altos que lhe escapavam da garganta, Elspeth afastou as mãos das costas de Tarran e levou-as à boca. Todavia, antes que os sufocasse, Tarran as afastou e beijou-as.

— Não se esconda de mim. Deixe-me conhecer seu corpo e a expressão de sua voz para que eu possa descobrir o que lhe dá prazer.

— Eu mesma não sei. Assim como não sei o que devo fazer.

— Apenas se solte, cariad, e confie em mim.

— De que você me chamou?

— Cariad. Querida.

Uma onda de júbilo inundou-a. Essa palavra adquiria significado especial no leito que a natureza lhes proporcionara e ao ímpeto que os levara à decisão de se entregarem ao amor.

Em um súbito movimento que ele fez para que ela rolasse e ficasse por cima de seu corpo, o vestido desceu até a cintura. Elspeth prendeu o fôlego ao sentir as mãos de Tarran forçando-o para baixo e tentou ajudá-lo.

— Se você continuar se movendo desse jeito — ele lhe sussurrou ao ouvido —, terminaremos muito antes do que estou planejando.

Elspeth corou e deu uma risadinha. Era tudo tão novo, tão maravilhoso. Queria que durasse para sempre.

— Não podia imaginar.

— Sei que não. Como eu disse, confie em mim. Logo descobrirá o que tenho para lhe ensinar.

Elspeth começou a aprender a lição no momento em que seu corpo estremeceu à carícia molhada nos seios. Tarran pedira para que ela não se movesse, mas a exigência era impossível de ser atendida. Sensações inéditas e arrebatadoras a dominavam ao ter os mamilos beijados e sugados. Apenas não achava justo que ele continuasse vestido enquanto sua túnica fora atirada sobre as armas.

Obedecendo ao instinto de mulher, Elspeth despiu-lhe a camisa por cima da cabeça. Tarran fitou-a com os olhos ainda mais escuros de desejo e tornou a se deslocar de modo a ficar por cima. Ela exultou à visão do peito moreno e peludo. Mas não conseguiu manter os olhos abertos por muito tempo, porque eles se fecharam para lhe permitir desfrutar mais intensamente da sensação erótica do roçar dos pêlos em sua pele.

Elspeth pestanejou à virilidade potente. Hesitou, subitamente tímida, por se encontrar em uma situação nunca antes vivenciada. Sabia o que estava por acontecer e se obrigou a vencer a inibição. Surpreendeu-se com a expressão de enlevo de Tarran no instante em que o tocou. Com um gemido rouco, ele afundou a cabeça em sua barriga e apoiou as mãos entre suas coxas, provocando sensações avassaladoras que a fizeram esquecer tudo que não fosse o prazer daquele encontro que superava todas as expectativas de seus sonhos virginais.

Ela só tornou a abrir os olhos ao perceber que Tarran se preparava para fazê-la dele. Ficou olhando e tentando absorver na memória cada contração de seus músculos, cada centelha de brilho em seus olhos, até que ele também os fechou à medida que a penetrava, só interrompendo o movimento ao perceber que a dor estava suplantando o prazer.

— Perdoe-me, cariad. Eu deveria ter me refreado. Sei que uma donzela requer cuidado especial, mas eu a quero tanto...

Elspeth estava com os lábios apertados para melhor se controlar. Ao ouvir aquilo, tomou fôlego e obrigou-se a sorrir.

— Não tenho nada a perdoar, mas tudo a dividir.

Ao sentir que seu corpo começava a se acomodar para recebê-lo, Elspeth respirou mais fundo, mas tornou a prender o fôlego ao sentir que Tarran começava a se movimentar dentro dela. Então, como por mágica, ela soube o que fazer e logo começou a ouvir os ecos de seus gemidos e de suas exclamações de prazer antes de ser tragada mais uma vez pelo êxtase da paixão compartilhada.

Tarran se deitou naquela noite certo de que sonharia com Elspeth e com sua iniciação no prazer carnal. Em vez disso, tornou a ser levado ao mundo sombrio dos pesadelos. Um mundo paralelo em que se viu sozinho. Porque não o reconheceu como o mundo em que vivia nem como a esfera dos mortos. Chamou por Elspeth e depois por Addfwyn. Nenhuma respondeu.

Teria sido banido dos mundos que conhecia por ter se permitido uma única tarde de glória?

Elspeth valia qualquer sacrifício.

A frase ressoou pelo abismo que o cercava. Mas ninguém respondeu a seu desafio. A escuridão era impenetrável. Ele não via saída daquele mundo. Mas precisava escapar das garras invisíveis que o prendiam. Um suor frio lhe cobriu a fronte. Seria um presságio? Precisava descobrir o que significava. Com supremo esforço, Tarran se virou e tentou apalpar o leito de folhas para buscar refúgio nos braços de Elspeth, só encontrando o vazio.

Acordou, sobressaltado, e reconheceu as paredes da cabana da neta de Vala. Tudo parecia em ordem. Seus homens dormiam. Aparentemente ele não os havia perturbado com o pesadelo.

Perdido em conjeturas, Tarran sentiu um frio lhe percorrer a espinha ao ouvir um dos homens falar em latim durante o sono. Contou-os imediatamente e só então notou a presença de dois elementos estranhos: Druce e Orwig. Não conhecia a voz do fiel servidor, mas sabia que não era mudo. Ao menos de cochichar ele era capaz.

Com um suspiro, Tarran desejou enxergar através da cortina que separava a câmara reservada ao repouso das mulheres. Elspeth estava a poucos passos de distância, e ele mal podia esperar para tê-la novamente nos braços. Estava escuro, mas talvez desse para ele apreciar suas formas femininas. Levantou-se com cautela para não pisar nos homens nem trombar na mesa colocada no canto. Puxou levemente a cortina e procurou-a. De repente, sentiu um toque no ombro e se virou com a mesma rapidez com que levou a mão à faca que guardava na cintura.

— Era a mim que buscava? — Elspeth sussurrou.

— Como adivinhou?

— Não adivinhei. Acordei com seu chamado. Elspeth estava tão perto que ele pôde sentir seu calor.

Os cabelos de fogo que tanto o atraíam lhe envolveram a mão ao erguê-la para tocar a pele sedosa e corada.

— Não me lembro de ter dito seu nome em meu pesadelo, mas...

— Liberte-se, Tarran. Liberte-se desse tormento.

— Oxalá eu pudesse. Temo que os pesadelos me persigam até que cumpra o que prometi. Mas me diga como passei por você sem dar por sua presença?

— Levantei-me ao seu chamado e vim atendê-lo. Você dormia e resolvi me sentar à mesa para poder estar perto.

Saíram de mútuo e silencioso acordo. Pela manhã, precisariam prosseguir as buscas individuais, mas dedicariam o restante da noite para a glória do que haviam encontrado em comum.

 

 

                                           Capítulo XVIII

 

- Precisamos tirar llech-lafar de onde está — disse Elspeth enquanto acrescentava um punhado de ervas no caldeirão de sopa. O aroma estava delicioso. Nada faria os homens se sentirem melhor naquele dia frio e chuvoso que uma refeição bem quente e nutritiva. As tempestades que haviam prolongado a permanência do rei na Irlanda estavam castigando as praias.

Um murmúrio de protesto se elevou no ambiente. Elspeth olhou para a dona da casa, que cortava fatias de peixe seco para acompanhar a sopa, e para Vala, que estava sentada entre os homens.

— Uma pedra daquele tamanho? Até mesmo um cavalo robusto teria os ossos partidos ao meio no esforço de puxá-la.

— Mas os bois darão conta da empreitada.

Tarran, que estava sentado à porta polindo a espada, foi o único a considerar a opção.

— Para onde você está pensando em levá-la? Elspeth precisou se conter para não correr e abraçá-lo pelo apoio à sugestão. Seith, Gryn e Kei continuavam olhando para ela com suspeita. Eles certamente nem desconfiavam de que Tarran e ela haviam se tornado amantes. Enquanto os outros dormiam, eles vinham se encontrando todas as noites no caramanchão. Tarran havia encontrado nela um refúgio contra as investidas dos pesadelos. Ela, no entanto, passara a ouvir a cada beijo o eco das palavras de Rhan. A angústia lhe apertava o peito ao temor da profecia. Porque não queria perdê-lo. Passara a dizer a si mesma que não o amava. Que era apenas paixão o que sentiam um pelo outro. Porque, enquanto procurassem apenas o prazer físico e o reconforto após o cansaço e as preocupações do dia, não haveria perigo.

— Elspeth?

Ela pestanejou ao chamado. Olhou ao reddor e surpreendeu todas as cabeças voltadas em sua direção à espera de uma resposta.

— A pedra oferece grande perigo onde está. Precisamos movê-la para um lugar onde o rei não corra o risco de encontrá-la.

Elspeth terminou de mexer a sopa e foi se sentar ao lado de Vala. Espiou pela janela e deu pela falta de Druce. Era a primeira vez que não o encontrava sentado na borda do poço comunitário falando sobre as lendas antigas a todos que se dispunham a ouvi-lo. Era bem provável que estivesse em visita a uma jovem viúva, que sempre manifestava vivo interesse por suas histórias.

— Em que lugar você está pensando? — Tarran quis saber.

— O lugar mais seguro seria em meio a outras pedras no fundo de um abismo.

— Acho a idéia excelente — Vala concordou. Elspeth sorriu para ela, mas ficou novamente séria ao        se lembrar de que a aprovação para o feito dependia apenas de Tarran. Ele havia permitido que ela substituísse Addfwyn como companheira nas noites, mas jamais lhe prometera renunciar à vingança para salvar o rei que considerava inimigo.

— Eu a considero absurda — afirmou Seith. — Não se pode anular uma maldição.

— Lógico que não — Elspeth respondeu, determinada a não perder a calma. — A maldição persistirá. Se o rei pisar sobre a pedra, morrerá. Mas não estamos proibidos de evitar que isso aconteça. Ela continuará sendo llech-lafar independentemente do lugar para onde a transportarmos.

— Sei para onde podemos levá-la — declarou Tarran. Elspeth precisou umedecer os lábios com a ponta da língua para conter a ansiedade.

— Para onde? — ela perguntou e precisou tossir para desatar o nó que se formara em sua garganta. O que estava havendo? Não confiava mais em sua capacidade de lutar pelo bem? Era uma das guerreiras da abadia de São Judas, treinada para defender a rainha, a abadessa, as companheiras e a si própria contra os agentes do mal.

— Para St. Govan's Head — Tarran respondeu.

— Onde fica?

— Ao sul da península, avançando para o mar. St. Govan se aninhou sobre um penhasco daquela baía vários séculos atrás e ainda restam vestígios da capela que ele lá deixou.

— Segundo os bardos, a capela foi construída por sir Gawain em homenagem ao santo — acrescentou Vala.

Elspeth não estava interessada em conhecer novos detalhes sobre as lendas do rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Apenas a resposta de Tarran lhe importava naquele momento. Era fundamental que ele convencesse também o grupo a ajudá-la. Porque, além de salvar o rei, ele adiaria o projeto de vingança, e essa seria uma forma de continuarem juntos por mais algum tempo.

Mas havia uma questão a ser considerada. Por mais que ela quisesse concordar com a idéia de Tarran, ela não lhe parecia prudente.

— Capelas significam devoção. O rei pode resolver seguir em peregrinação para St. Govan's Head, para agradecer pelas vitórias na Irlanda.

Tarran embainhou a espada e se sentou à mesa, ao lado de Elspeth. O gesto ao colocar o braço ao redor de seus ombros provocou espanto, mas ele não se importou.

— Ao contrário do que sucede com os peregrinos que buscam a catedral de St. David, ninguém segue para as ruínas da capela de São Govan para se redimir dos pecados. Apenas a procuram aqueles que estão doentes e buscam a cura para suas enfermidades. Que eu saiba o rei não foi ferido em batalha.

— Não creio que a peregrinação a St. Govan's Head seja constante — disse Kei. — O local é muito deserto. Não há nenhum vilarejo nas proximidades.

Duas boas surpresas esperavam por Elspeth. Kei parecia ter derrubado a barreira que os separava e Tarran segurou sua mão diante de Vala e de todos os homens.

— Ouça, Elspeth.

— Estou ouvindo — ela respondeu baixinho, na esperança de que mais ninguém pudesse notar o tremor de emoção em sua voz à recordação do que aquelas mãos fortes haviam feito com seu corpo durante as últimas noites.

— Dizem que as pedras se afastaram para esconder St. Govan de seus perseguidores. Segundo a lenda, elas tornaram a se abrir depois que eles se foram, para nunca mais fechar. Mais tarde, uma capela foi erguida no local do milagre. As paredes ruíram com o tempo. Apenas o altar permaneceu.

— Ou seja, será impossível escondermos a pedra maldita no pouco que restou da capela.

— Sim, mas não há necessidade de colocarmos a pedra sob um teto protetor. Estava pensando em misturá-la às outras. A praia está repleta de pedras que se desprenderam do rochedo durante as tempestades. Entre elas, a pedra da maldição passará despercebida.

Elspeth se levantou. O entusiasmo não lhe permitiu continuar imóvel. Andou de um lado para outro enquanto novas conjeturas rodopiavam por sua mente.

— Existe alguma chance de um navio aportar nessa praia?

— Sim, mas as encostas são íngremes entre a capela e o continente. Escalá-las seria praticamente impossível. Nenhum comandante escolheria aquelas águas quando pode contar com a segurança do porto de Pembroke a pouca distância. Podemos empurrar a pedra do alto da ribanceira para que se perca entre as outras no fundo do abismo.

— Como podemos ter certeza de que o rei jamais porá os pés nessa praia? — Elspeth ainda vacilou.

— Mesmo que ele resolva aportar no local, ninguém jamais avança além da pedra do sino — observou Kei, com expressão que despertou a curiosidade de Elspeth.

— Pedra do sino?

— Conte para ela, Tarran — Kei sugeriu.

— Mal posso acreditar no que estou vendo e ouvindo — murmurou Vala, com a voz embargada. — Estava com tanta saudade de ouvir uma história contada por Tarran. — Ele costumava cantar, recitar poemas e até mesmo escrever poesias.

Quanta tristeza! Quanta dor! Elspeth pensou ao testemunhar a atenção com que a pequena platéia o ouvia. Queria acreditar que aos poucos ele voltaria a ser o homem que fora antes da tragédia.

— Em certa ocasião, tentaram roubar o sino da capela. Para evitar que o problema pudesse se repetir, o santo mandou que o escondessem dentro de uma pedra. Uma batida com as juntas dos dedos em sua superfície faz com que ressoe. Todos que já procuraram a cura de suas doenças nas águas miraculosas do chafariz que fora construído à entrada da pequena igreja afirmam que a história do sino é verdadeira.

— Mas, se as pessoas continuam visitando o local até hoje, o rei pode perfeitamente querer aproveitar para conhecê-lo — sugeriu Elspeth.

— Como eu disse, as pessoas não conseguem passar desse limite. Pedras e escarpas as impedem de prosseguir.

Ninguém se manifestou à longa pausa que se seguiu à declaração. Foi Elspeth quem quebrou o silêncio.

— Isso significa que llech-lafar se perderá para sempre?

— Sim.

Um suspiro de alívio acompanhou o sorriso radiante.

— Não consigo imaginar um lugar melhor para escondê-la — ela disse, por fim. — De quanto tempo necessitaremos para transportá-la?

— De uma semana, na melhor das hipóteses. — Tarran mirou as janelas açoitadas pelo vento e pela chuva. — Se as tempestades persistirem, levaremos, talvez, o dobro do tempo.

— Precisamos contar também com a possibilidade de nos atrasarmos por outros motivos. Chamaremos atenção, certamente, pelo caminho que percorrermos. As pessoas virão até nós e farão perguntas. Também estou estranhando que Druce ainda continue no vilarejo quando foi veemente na promessa de que sairia em perseguição do homem que me atacou.

— Você sabe tanto quanto eu a verdadeira razão que o trouxe aqui, Elspeth. Ele quer proteger Cymru do domínio do rei Henrique e de seus aliados.

— Se descobrir nosso propósito, ele se empenhará em impedir que nossa vontade se cumpra. Para evitar que isso aconteça, teremos de encontrar uma pedra igual e trocá-las, de modo que ele nunca suspeite da transferência. — Elspeth se colocou ereta. De queixo solenemente erguido, olhou para cada um dos presentes. — Quem está comigo?

Os homens se levantaram em um único movimento. Tarran estendeu a mão direita e seus homens foram colocando as deles, uma por cima da outra. Elspeth colocou a dela por último. Não foram necessárias palavras de comprometimento. A missão de salvar o rei se estendera a eles também.

Encontrar e extrair uma pedra similar em forma e tamanho foi mais fácil do que Elspeth esperava por causa da chuva. A terra molhada não resistiu à escavação, e o trabalho de esconderem a porção retirada lhes foi poupada pela chuva, que a arrastava consigo para o leito do rio.

Seith surpreendeu a todos pela força descomunal. Não era acúmulo de gordura que o tornava tão grande, mas os músculos desenvolvidos acima da normalidade. Assim que a pedra se soltou, ele a colocou sobre uma tábua larga que encontraram entre os escombros na praça e se juntou ao grupo, no esforço de erguê-la sobre a carroça.

Os bois ressentiram o excesso de peso, mas, embora seguissem devagar, não se recusaram a puxá-la ao longo do rio. Tarran ordenou que seus homens seguissem na frente para garantir que ninguém testemunhasse a troca das pedras. E mais uma vez eles agradeceram à chuva amiga por continuar ajudando-os.

Para evitar que as rodas afundassem na lama, pranchas eram colocadas e recolocadas incessantemente. Da mesma forma, eles espalhavam pedriscos e fragmentos de rochas para facilitar o deslocamento dos bois.

Desenterrar llech-lafar foi mais demorado porque eles precisaram redobrar esforços no sentido de não deixar pistas do que estava sendo feito. Usando o bastão como alavanca, Elspeth finalizou a empreitada. Da mesma forma, a pedra foi erguida sobre a carroça e imediatamente coberta com velhos cobertores providenciados pela neta de Vala.

Com o coração aos saltos, Elspeth acompanhou o trajeto rumo ao vilarejo. Kei foi incumbido de devolver a carroça ao local que lhe fora destinado, atrás da cabana de Modlen, no dia que chegaram a Tyddewi. Agora só restava pedir que a sorte continuasse do lado deles.

A chuva tinha quase parado até que Tarran alcançasse o fundo do vale onde a catedral de São David um dia existira e onde se pretendia construir uma nova, ainda maior e mais magnífica. A obra levaria longos anos para ser concluída, mas ele acreditava que estaria de volta a tempo de participar da festa de inauguração. Apenas se questionava sobre o perigo que Elspeth estaria correndo se ele prosseguisse na determinação de vingar a morte de Addfwyn. Antes de conhecê-la, não temia por sua vida. Mas não suportaria se, por sua causa, mais sangue fosse derramado. O sangue de Elspeth. De repente, ele teve a impressão de ver alguém passar perto da catedral. Elspeth! Ele seria capaz de conhecer sua silhueta a qualquer distância. Seguiu por entre o mato que crescia à altura dos joelhos, mas não se fez anunciar até que tivesse certeza de que ninguém poderia ouvi-los.

— Você não deveria ter vindo aqui sozinha.

— Eu sei — ela concordou e encostou a cabeça no peito dele em um gesto inocente. Havia tanto ainda a aprender sobre Tarran. Ele se negava a falar sobre os pesadelos sombrios que o atormentavam antes que começassem a partilhar as noites. Não lhe ocorria, contudo, que a angústia continuasse a assaltá-lo nas horas de vigília. Por causa dela. Por ela nunca lhe falar sobre seus planos para o futuro. Jamais abordara a possibilidade de permanecer em Cymru após cumprir a missão que a rainha lhe confiara.

— Em que está pensando enquanto seu olhar se perde no rio? — Tarran indagou.

— Em Druce. Por mais que queira acreditar que ele foi sincero conosco, algo me diz que mentiu.

— Não se permita aumentar sua carga de preocupações — Tarran aconselhou. — Já temos o bastante com que nos preocupar.

O modo como Tarran resmungou essas palavras fez Elspeth rir, apesar das circunstâncias.

— Está bem. Vamos acreditar que estamos com a pedra verdadeira e que conseguiremos despistá-lo em nossa viagem rumo a St. Govan's Head. Talvez tenhamos essa sorte, agora que ele tem com o que se distrair. Parece exultante com o interesse dos aldeões por suas histórias.

Uma rajada de vento atingiu-os. Para se proteger, Elspeth curvou a cabeça e cobriu-a com o capuz que normalmente usava caído sobre os ombros. Não estava muito frio naquele dia, mas o vento uivava inclemente entre as ruínas, como se lamentasse a destruição da catedral.

— Existe um grande vazio aqui. — Tarran suspirou.

— Como o que você sente no peito?

— O que sinto não é um vazio, mas uma dor corrosiva que não será aplacada enquanto Bradwr ap Glew viver.

— Quando seu inimigo finalmente for morto, como você acredita que se sentirá?

— Triunfante.

— O triunfo é passageiro. A vingança sempre deixa um sabor amargo.

Antes que Tarran pudesse responder, um ruído abafado o fez olhar para trás. Ao ver um brilho metálico, desembai-nhou prontamente a espada e empurrou Elspeth com força, para derrubá-la. Só lhe restou tempo para aparar o golpe do atacante que se vestia com o mesmo tipo de indumentária usado por Druce e seus homens. Ele pressentiu, mais do que viu, Elspeth se levantar com o bastão em riste.

— Afaste-se! — ele gritou.

— Quero ajudar! — ela declarou.

Elspeth não conhecia as regras da prudência? Ela não percebia que seria perigoso demais brandir a espada de madeira quando ele e o agressor estavam quase atracados em luta? O menor erro de cálculo poderia causar seu abate em vez de nocautear o inimigo.

Tarran ficou pasmo ao deparar com o bastão despencando entre eles, sem tocá-los, mas acertando com precisão a arma do agressor, que, após ligeira hesitação, revidou o ataque.

O bastão confeccionado com a madeira encontrada na catedral fora enfraquecido pela ação do fogo. Estalou ao golpe. Tarran saltou para o lado, para se esquivar do novo ataque, mas ainda assim a lâmina cortou uma mecha de seus cabelos.

Cego de fúria pelo ataque desferido a Elspeth, Tarran cravou a espada no peito do inimigo. O homem deu um grito e tombou com as vestes manchadas de sangue.

Ele se apressou a amparar Elspeth, que havia se colocado de joelhos e olhava fixamente para o corpo inerte. Tocou-a e a sentiu estremecer.

— Você o matou!

Sem saber o que dizer, ele se limitou a colocar a mão sobre a cabeça de Elspeth.

— Este não foi o primeiro ataque que sofremos. Não pretendia feri-lo de morte, mas era sua vida ou a dele.

Um gemido os fez saber que o agressor não havia morrido como supunham. Entreolharam-se. Talvez ainda conseguissem obter alguma informação que os levasse à identificação do inimigo.

— Quem está ordenando minha morte? — Tarran perguntou.

O homem amaldiçoou-o. Elspeth se levantou nesse instante e se aproximou lentamente. Sua face estava pálida como a do agonizante.

— Quem quer me ver morto? — Tarran tornou a perguntar.

— Você deveria saber.

— Se soubesse, não estaria perguntando.

— Bradwr ap Glew jurou que o faria pagar pela morte de Addfwyn.

O choque e o espanto o silenciaram momentaneamente.

— Como o infame pode me acusar se foi ele que a matou?

— Quem a matou foi você, príncipe Tarran ap Llyr.

A beira da morte, o agressor continuava acusando Tarran como o único culpado do crime.

— Onde está Bradwr? Correm rumores de que ele partiu com a expedição do príncipe Madoc.

— Meu primo está em toda parte — o homem respondeu, altivo e ofegante. Elspeth tentou socorrê-lo, mas Tarran a afastou.

— Eu lhe fiz uma pergunta! Responda! Onde está Bradwr ap Glew?

— A espera de notícias sobre sua morte, príncipe Tarran. Mais cedo ou mais tarde ele o encontrará e a justiça será feita. Falhei, mas ele conta com outros para apoiá-lo.

Tarran ainda tentou interrogar o moribundo, mas uma tosse o impediu de continuar falando. Seu rosto pendeu para o lado, e nesse instante algo deslizou de dentro da túnica. Tarran notou uma tira de couro e puxou-a. Encontrou um pendente igual ao usado por Druce. Era tarde demais para obter informações a esse respeito.

Tarran apanhou o adorno e abraçou Elspeth, que soluçava.

— Sinto muito. Entendo que você fez o que era preciso, mas nunca tinha visto ninguém morrer assim.

— O que teria feito, naquele dia, quando a impedi de perseguir o atacante?

— Eu lhe daria uma surra. Não seria capaz de matá-lo. Com extrema gentileza, Tarran a fez sustentar seu olhar.

Molhados de lágrimas, os olhos de Elspeth estavam tão verdes quanto a relva banhada pela chuva.

— Às vezes não temos escolha.

— Espero que nunca aconteça comigo.

— Eu também.

As palavras soaram inúteis aos ouvidos de Tarran. Não adiantaria tentar se enganar. Os ataques não cessariam até que ele ou Bradwr ap Glew fosse levado para o mundo dos mortos.

 

 

                           Capítulo XIX

 

— Não tolerarei atos criminosos em minha jurisdição! — Druce golpeou a mesa com o punho fechado. A voz soou irada. Os olhos poderiam fulminar Tarran.

— Lorde de Vay, nomeado pelo rei para cuidar de Tyddewi em seu nome, entenderá que agi em defesa de lady Elspeth — Tarran se defendeu.

Elspeth cogitou apoiar Tarran no discurso, mas decidiu continuar calada. Vencido o choque inicial, não conseguia parar de pensar nas palavras do agressor. Por que ele tinha tanta certeza de que Tarran era culpado pela morte da esposa? O que Tarran poderia ter feito para que o irmão de criação e melhor amigo tivesse passado a odiá-lo? Seria possível que Bradwr ap Glew fosse inocente?

— Quero que saia de minhas terras! — Druce exigiu.

— Faremos o que pede — Tarran respondeu. — Minha missão em Tyddewi já está terminada.

Druce se afastou sob os olhares desconfiados de Tarran e Elspeth. O fiel Orwig interceptou seu caminho e mais uma vez cochichou algo em seu ouvido, antes de desaparecerem pelo vilarejo. Tarran olhou em direção a seus homens e fez sinal para que os seguissem.

— Desejaria que a solução do problema fosse tão simples assim — Elspeth suspirou.

— Nada pode ser tão simples — Tarran declarou. — Ainda não descobrimos o que existe por trás da insistência de Druce de nos acompanhar até aqui. Ele ordena que desocupemos Tyddewi, mas você acredita que nos deixará partir sem nos cobrar um tributo?

— Preferiria que ele tivesse ficado — declarou Elspeth.

— Por quê?

— Ao menos o teríamos sob vigilância.

— Você poderia ter tentado detê-lo. — Tarran segurou as mãos de Elspeth nas dele. — Permaneceu calada enquanto Druce me acusava de criminoso.

Ela virou o rosto de lado para que ele não visse suas lágrimas.

— O que foi?

— Não consigo parar de pensar no que aquele homem disse antes de morrer.

— Por quê?

— E se não foi Bradwr quem a matou? Se outra pessoa o fez e deixou sinais deliberadamente para incriminá-lo?

Tarran beijou as mãos de Elspeth antes de responder.

— Não se deixe iludir. Conheço bem Bradwr e ele sempre gostou de usar de artimanhas para conseguir seus propósitos. Provocava as pessoas para que tomassem atitudes contrárias a seus hábitos. Ele se divertia com isso. Agora está me perseguindo e me culpando pela morte de minha esposa.

Elspeth baixou os olhos como se duvidasse da inocência dele. Tarran sentiu como se levasse um soco.

— Não tem nada para me dizer a esse respeito, cariad?

— Não há o que dizer. Tenho presenciado seu sofrimento e sei que é genuíno. — Elspeth apoiou as mãos no peito dele. — Conheço o homem que está dentro de você. Ele tem honra. Por acreditar que falhou com a mulher que amava, quer corrigir seu erro tentando proteger todos ao seu redor. Sei que não foi você que matou Addfwyn.

— Quem a matou foi Bradwr. — A indignação vibrou na voz da ama. — Sei disso tanto quanto sei que estou em Tyddewi. Ele se fingia de bom, mas era vil e mau.

Tarran tocou o braço de Vala em sinal de gratidão.

— Nós sabemos disso, mas Elspeth não conhece Bradwr como nós.

— Como pensávamos conhecer — Vala retrucou e endereçou um olhar significativo para o casal. — Minha neta está com medo. Precisamos resolver o problema da carga sobre a carroça o quanto antes.

Acompanharam a anciã imediatamente até a cabana e Tarran fechou a porta. Elspeth entendia a situação. Modlen estava certa. Ela e a avó estavam correndo perigo por causa deles.

— Partiremos ao amanhecer — Tarran informou. — Mas posso deixar um de meus homens aqui para protegê-las, se você quiser.

— Não é preciso — Vala assegurou. — Leve os homens com você. A ameaça está em sua presença.

Elspeth se sentou ao lado da velha mulher.

— Tenho observado os aldeões andarem pelas margens do rio. Até agora ninguém parece ter desconfiado da troca.

— Vocês terão de atravessar Pembroke. O que pensam fazer caso sejam detidos e obrigados a mostrar o que transportam sob os cobertores?

Tarran ainda não tinha se preparado para essa possibilidade.

— Não é uma ironia que possam barrar nosso caminho em nome do rei só para nos cobrar pedágio, e que possam causar a morte justamente do soberano a quem estamos tentando salvar, com o risco de perdermos nossas próprias vidas?

— Tenho uma idéia — disse Elspeth. — Não são apenas os mercadores que viajam em carroças pelas estradas.

— Quem mais?

— Os artistas e menestréis.

Aporta foi aberta naquele instante e os homens de Tarran se juntaram a eles. Seith se sentou no chão e fez gesto afirmativo com a cabeça. Elspeth esperava que ele estivesse querendo dizer que Druce e seus homens haviam realmente partido de regresso para suas terras. Enquanto isso, Vala retomava o trabalho de costura e declarava:

— Faz perfeito sentido. Ninguém desconfiará de nada em Pembroke se vocês se fizerem passar por menestréis.

— Nós? — Tarran e seus homens falaram em uníssono. Vala e Elspeth trocaram um sorriso.

— Não adianta me olhar desse jeito! — a ama repreendeu Tarran, bem-humorada. — Nós nos lembramos dos tempos em que você gostava de cantar e declamar. Voltou a demonstrar seu talento recentemente ao contar a história sobre o sino da capela.

— Aquele tolo morreu com Addfwyn — Tarran resmungou e fez menção de sair. — Por que eu o ressuscitaria?

— Porque precisamos dele.

A voz suave de Elspeth o fez parar antes de abrir a porta. Em silêncio, ela se levantou e o trouxe de volta.

— Quero conhecer o homem que você foi, Tarran. Quero ver seus lábios se tornarem tão expressivos nas canções e nas poesias como são ao me beijarem.

— Não me lembro mais de como ele era.

— Sim, você se lembra. De que outro modo poderia sorrir quando está comigo? Você precisa vencer a impressão de que estará traindo Addfwyn se derrubar o muro de ódio que ergueu ao seu redor.

— Como?

— Pense, Tarran. Você acha que ela desejaria vê-lo desistir da busca à felicidade? Você me contou que Addfwyn foi uma mulher notável, dona de um coração de ouro. Acredito que ela, como todo o povo de Gales, apreciava a música e a poesia. Que mal pode haver em você se permitir lembrar dos talentos artísticos?

Os olhos escuros brilhavam com a emoção que ele prometera nunca mais sentir.

— Sou feliz quando estou com você. Não me peça mais, porque meu juramento não será esquecido.

— Eu jamais pediria a você que o esquecesse. Mas espero que não me negue o pedido que lhe fiz para me ajudar a cumprir a missão que a rainha me confiou.

A tensão foi quebrada por um gesto simpático de Kei. Ele se encaminhou para o caldeirão de sopa que borbulhava ao fogo e anunciou:

— Não me lembro quando foi a última vez que tivemos um pouco de diversão. Acho que será bom nos fazermos passar por menestréis.

Um silêncio total caiu sobre eles. Foi Seith quem decidiu a questão.

— Juramos fazer tudo que fosse preciso para garantir o êxito da missão. Se for preciso fingir que somos menestréis, então deveremos nos disfarçar e agirmos conforme a recomendação de lady Elspeth.

Tarran cerrou os punhos para se conter. Sua vontade era agarrar Seith pelo pescoço naquele instante. De todos os seus homens, Seith ap Mil era o mais desconfiado e prudente. Nunca precisara chamá-lo ao bom senso. No entanto, ele concordara, sem reservas, com o plano absurdo de Elspeth.

Ela não tentou esconder o alívio.

— Meu pai sempre dizia que as pessoas se divertem com pouco. Vocês não precisarão se preocupar em treinar muitos truques. Basta que aprendam algo e que o façam bem.

Todos os olhares estavam voltados para ela. De repente, ao se dar conta do que acabara de dizer, ela baixou a cabeça. Tarran notou seu constrangimento e fez sinal para que seus homens se retirassem. Vala deu uma desculpa e se afastou, discreta.

O rosto de Elspeth estava oculto pela cortina vermelha de seus cabelos. Tarran queria olhar nos olhos dela, mas não se atreveu a lhe tocar o rosto. Preferia que ela o enfrentasse espontaneamente.

— Pensei que você fosse filha de um lorde normando. Ela fez que não.

— Ele e minha mãe eram artistas ambulantes. Encenavam espetáculos por onde as peregrinações os levavam.

— Você mentiu para mim.

— Não foi exatamente uma mentira — Elspeth retrucou. — Apenas permiti que você continuasse acreditando na suposição que fez a meu respeito. Até aquela noite em que nós...

Tarran gostou de ver o rubor que subiu à face pálida. Elspeth era uma mulher surpreendente. Até mesmo aquela demonstração incomum de timidez o fascinava.

— Lembro-me de que a impedi de falar.

— Sim.

Mais uma vez Tarran precisou cerrar os punhos para conter o desejo insano que o estava consumindo.

— Por que se absteve de me contar a verdade?

— Digamos que não ficaria bem para uma humilde filha de menestréis dizer a um príncipe que ele estava errado.

— Não seria a primeira vez — Tarran retrucou com um olhar significativo. — Pelo que pude conhecer de você, sempre costuma dizer o que pensa.

— Você está certo — ela admitiu. — Não quero que imagine, contudo, que menti só para que você me aceitasse a seu lado, acreditando que eu era de uma camada social equivalente a sua.

— Ao contrário. Procurei me afastar justamente por pensar que você era filha de um lorde e que sua família não aprovaria sua ligação com o filho de um bastardo.

Lágrimas assomaram aos olhos de Elspeth, mas ela não se permitiu chorar.

— Não falo quase nunca sobre meus pais. Não me envergonho de minha condição. Eu os amava, mas depois que eles faleceram fiquei sozinha no mundo e tive de ser forte e me ajustar a uma nova situação.

— Como eles morreram?

— Contraíram uma febre por uma das cidades onde estivemos. Tentaram escapar comigo ao descobrirem que se tratava de uma epidemia, mas já era tarde demais. Eu estava com dez anos de idade e tudo que pude fazer foi aplicar compressas para refrescá-los, como minha mãe me ensinou, e lhes dar leite fervido com uma erva chamada potentilha.

Tarran afastou gentilmente os cabelos de Elspeth, de modo a poder ver-lhe as feições.

— Você foi valente. Foi filha e enfermeira dedicada. Como diriam meus antepassados, a hora havia chegado para eles fazerem a travessia para Annwfn.

— O que é isso?

— Você sabe. Esteve lá comigo.

— Estive lá? — Elspeth questionou e só nesse instante Tarran percebeu o deslize. — Que lugar é esse?

Para fugir à resposta, ele se levantou e se encaminhou para a porta. Elspeth interceptou-lhe os passos e ficou a sua frente, com os braços cruzados.

— Não adianta mentir. Se não me convencer de que está sendo honesto, buscarei informações com Vala ou com qualquer um de seus homens.

— Está bem — Tarran acabou cedendo. — Annwfn é o nome que damos ao mundo para onde vão os que morrem.

— Mas você disse que eu estava lá!

— Em meu pesadelo.

— Sinto muito, Tarran — Elspeth murmurou. — Não podia imaginar...

— Entende agora por que relutei em lhe contar? Não quero pensar no amanhã. Quero aproveitar o que temos esta noite, porque não sabemos o que o futuro nos reserva.

— Mas precisamos pensar no futuro — Elspeth o lembrou com um sorriso. — Precisamos planejar nossas apresentações.

— Nossas? Oh, não. Não conte comigo para desempenhar nenhum papel.

— Por que não?

Tarran tentou escapar como da outra vez, mas Elspeth tornou a lhe interceptar a passagem. Ele fez nova tentativa e ela a frustrou. Da terceira vez, Tarran a levantou do chão e a colocou de lado.

— Basta, Elspeth. Eu...

Com um movimento inesperado, Elspeth o derrubou e se sentou em cima dele.

— Você precisa ouvir a voz da razão, mesmo que eu tenha de obrigá-lo a isso.

A porta foi aberta com violência. Eram os homens de Tarran, alertados pelo barulho no interior da cabana, que ao depararem com a cena se puseram a rir. Vala surgiu em seguida.

Tarran tentou encontrar uma escapatória, mas não conseguiu. Fora derrotado por uma mulher menor que ele em peso e tamanho. Deveria estar furioso pelo que ela lhe fizera. Não estava. Ao vê-la ofegante, com os seios se movendo para cima e para baixo com o esforço da respiração, ele só conseguia pensar em puxá-la e fazê-la deitar sobre seu corpo.

Reagiu a custo. Mas, ao tentar afastá-la e se levantar, não conseguiu.

— Solte-me! — ordenou.

— Não enquanto você não concordar em se juntar ao nosso grupo.

Tarran poderia se libertar com facilidade. Mas usar de violência estava fora de cogitação. Não tinha nenhuma intenção de machucar Elspeth. Nem de se arriscar a um contra-ataque. Elspeth conhecia técnicas que ele não dominava. Sua rapidez era incrível.

— Tenho escolha?

— Tem, mas só existe uma escolha certa caso você esteja realmente disposto a me ajudar a salvar o rei. — Elspeth soltou os braços de Tarran e se levantou, mas ainda permaneceu com uma perna de cada lado do corpo dele. — Você precisa se perguntar, Tarran, se seu maior remorso será me ajudar ou não.

Ele a segurou pelos tornozelos. Ou tentou segurá-la. De repente, Elspeth se contorceu e, em vez de ele a prender, era ela quem o prendia novamente pelos punhos.

— Não diga nada que não seja a resposta para a pergunta que lhe fiz.

— Quebrará meus braços se eu lhe der a resposta errada? Os homens tornaram a rir, mas ela se manteve séria.

— Não há resposta errada.

— Disse que a ajudaria e o farei mesmo que precise fazer papel de tolo a caminho de St. Govan's Head.

Elspeth o soltou instantaneamente.

— Essa é a resposta certa.

— Pensei que você tivesse dito não haver resposta errada.

— Não há. Tarran balançou a cabeça, incapaz de continuar sério.

— Desconfio de que me arrependerei de ter respondido.

— Acho que sim — Elspeth concordou e quase o beijou, esquecida de que não estavam sozinhos. Mas Tarran não teve a mesma precaução.

— Você é e continuará a ser quem sempre foi. Assim como eu.

Os homens se afastaram, discretos. Enquanto a beijava, Tarran pensou que, ao concordar em ajudá-la, estaria abreviando o tempo de convivência. Addfwyn fora levada muito cedo de seus braços e, no momento em que Elspeth completasse a tarefa que lhe fora confiada pela rainha, ela também o deixaria.

Ele não acreditara que pudesse existir uma dor que se comparasse à perda de Addfwyn... Até descobrir que estava por perder também Elspeth.

 

 

                                   Capítulo XX

 

Tarran se sentia como um peixe fora d'água ao atravessar o vilarejo de Pembroke. A carroça fora transformada em camarim improvisado, com cortinas cujo verdadeiro propósito era esconder a temível pedra.

No topo da ribanceira, ele avistou um rio que corria entre os muros de um castelo e de um priorado. O priorado se erguia no meio de uma colina.

Elspeth insistiu para que ele sorrisse a todas as pessoas que cruzassem seu caminho. Ele tentou, mas sabia que por maior que fosse seu esforço não conseguiria o resultado que ela alcançava. As pessoas a aplaudiam porque estavam convencidas de que era uma autêntica artista, com seus trejeitos e meneios. Kei e Gryn também conseguiram atrair o público. Pareciam duas crianças crescidas. Gryn, maior e mais forte, carregava o primo nos ombros enquanto ele executava movimentos com as mãos, como se fosse um mago.

Heliwr se debatia no braço de Tarran, assustado com a multidão que os cercava. Se não receasse que a ave fosse despertar maior atenção ainda com os gritos agudos, ele a teria deixado no interior da carroça.

As crianças olhavam para eles, embevecidas. Em especial para Elspeth. Ela estava girando dois bastões simultaneamente no ar e parou de repente para apoiá-los no chão e usá-los como pernas-de-pau.

O riso infantil e os clamores para que ela lhes emprestasse os bastões acabaram por contagiar Tarran. Entretido, ele precisou se esforçar, por um momento, para se concentrar no que Seith começou a lhe dizer.

— Ela sempre tem uma carta escondida na manga, não acha, príncipe Tarran? Mal posso esperar para que termine o que veio fazer e nos deixe em definitivo.

— Pode me dizer por quê? Seith enrubesceu.

— Você sabe.

— Gostaria de ouvir sua opinião.

— Minha opinião é que a presença dela só nos trouxe problemas.

Tarran não respondeu. As crianças estavam rindo e Elspeth lhes acenava, entusiasmada. Seu sorriso e seus olhos brilhavam tanto quanto seus cabelos.

— Você conseguiria fazer os bois andarem mais depressa? — ela se aproximou e pediu baixinho.

Kei saltou dos ombros de Gryn e se incumbiu da tarefa.

— Estamos quase esgotando nosso estoque de truques — Elspeth sussurrou. — Precisei emprestar os bastões às crianças de tanto que elas insistiram para andar com eles como muletas. Resolvi desafiar os aldeões a lutarem comigo.

— Acha que fez bem? — Tarran franziu o cenho.

— Não sei, mas tinha de encontrar um jeito de distrair esse povo até que possamos sair da cidade.

— Posso soltar Heliwr — Tarran ofereceu. — As pessoas ficarão entretidas com seu vôo.

— Prefiro que não — Elspeth confessou. — Nunca ouvi falar de menestréis com condições de sustentar mascotes como falcões. Não devemos chamar atenção de ninguém que possa nos ver dos muros do castelo. Aqueles que nos vêem não devem duvidar de que somos simples artistas.

— Só voltarei a respirar depois que passarmos em segurança pelos arqueiros.

— Coloque um sorriso nesses lábios e tente se divertir. — Elspeth cutucou-o no peito. — A alegria é nossa maior arma no momento.

Tarran apertou o dedo que Elspeth lhe apontava.

— Continue me tocando e daremos a eles um espetáculo realmente memorável.

— Gostei da idéia. — Ela deu uma piscada.

— Como pode saber o que estou pensando?

— Posso ler sua mente. — Elspeth tocou o ponto entre as sobrancelhas de Tarran. — E o coração. — Ela deslizou a mão até o peito dele. Antes que tentasse descer mais, Tarran a advertiu.

— Cuidado com o que faz ou a levarei para o fundo da carroça na primeira chance.

— Promessa é dívida.

— Não precisará cobrá-la. Garanto — Tarran declarou com a voz subitamente rouca. — Quero que saiba que não me considero superior aos artistas. Se a fiz pensar isso, peço que me desculpe. Nunca imaginei que você pudesse sentir falta dessa vida.

— Nem eu.

— O que lhe aconteceu depois que seus pais se foram?

Ela mordeu o lábio. Queria contar toda a verdade sobre sua vida, mas temia complicar ainda mais a situação se o fizesse. Por outro lado, não suportaria inventar uma mentira.

— Eu os enterrei no pátio da igreja. Ainda não havia terminado o sepultamento quando o padre me viu e me ofereceu abrigo. Fechei-me em minha tristeza. Ao perceber que estaria melhor longe do lugar que causara a morte de meus pais, ele me mandou para junto de amigos que saberiam o que fazer com uma menina como eu.

— Uma menina que demonstrava ter condições de aprender a lutar como a guarda do rei?

Elspeth sorriu.

— Ainda tinha muito a aprender antes disso. Meus pobres pais só haviam me ensinado a andar com pernas-de-pau e agitar bastões em truques de malabarismo.

— E na falta deles você aprendeu a se bastar.

— Sim.

— A se tornar uma mulher de fibra. Uma guerreira solitária.

— Você também não é um guerreiro solitário em luta contra o destino?

— Não. Diferente de você, não luto sozinho, mas tenho amigos em quem me apoiar.

— Sim, eles estão dispostos a lutar a seu lado, mas desde a morte de sua esposa você se tornou um homem solitário. Até quando viverá só, Tarran?

Antes que ele pudesse responder, Gryn se aproximou esbaforido.

— Elspeth, venha comigo. Estão exigindo mais entretenimentos e nós não sabemos mais o que fazer.

— Vá! — Ele lhe deu um beijo doce e amargo ao mesmo tempo, porque o pesar ainda pulsava com o sangue em seu coração. — Ficarei e cuidarei da carroça.

Elspeth se afastou em companhia de Gryn. O que mais queria naquele momento era ter continuado ao lado de Tarran e se entregar à paixão, o único remédio capaz de fazê-lo esquecer da dor que se recusava a ir embora. Mas o dever a chamava...

Ela seguiu até um grupo de espectadores que pareciam camponeses por suas indumentárias, exceto por uma figura de vestes claras. Ocorreu-lhe que ele poderia pertencer ao monastério do outro lado do rio. Ou seria um dos homens de Druce? Ela não confiava em Druce mais do que Tarran. O mais provável era que ele tivesse mandado espiões para vigiá-los. Algo de que Tarran precisava ser informado urgentemente.

Pensou em dar uma escapada para contar a ele e recomendar que redobrasse a vigilância. Ninguém estava olhando para ela naquele momento. O interesse de todos estava voltado para um homem que fazia Seith parecer franzino. Era alto e grande como uma montanha a distância. Aos gritos da multidão, ele se virou e ela pôde notar que ele portava um enorme bastão.

Gryn arregalou os olhos.

— Milady, lembre-se de que não é obrigada a aceitar qualquer desafio que lhe fizerem.

— Sei disso.

Elspeth olhou por cima do ombro para as estacas sobre o rio, onde as sentinelas se postavam em vez de permanecerem no alto dos muros do castelo. Era preciso continuar distraindo-os até que a carroça acabasse de atravessar a vila e subisse a colina além do monastério.

— Direi a ele que você se referiu apenas às mulheres — Gryn sugeriu.

Contudo, Elspeth o deteve antes que ele pudesse dar o segundo passo em direção ao gigante.

— Não faça isso. Se ele criar confusão por causa de minha recusa, acabará atraindo os guardas do castelo e estes nos farão perguntas que não poderemos responder.

— Então permita que lute em seu lugar, milady.

— Quando foi a última vez que manejou um bastão? Gryn encolheu os ombros.

— Tenho mais habilidade com minha espada.

— Esqueceu-se de que estamos aqui disfarçados como artistas? — Elspeth censurou-o. — Ninguém pode saber que você tem uma espada.

— Mas ele poderá matá-la, milady!

— Eu lhe concederei a vitória antes — Elspeth assegurou.

— Está bem, então — Gryn se conformou com a explicação e foi em busca dos bastões em poder das crianças enquanto Elspeth se apresentava serenamente desafiante, apesar da recepção desdenhosa.

À verificação preliminar, Elspeth constatou que o homem estava de posse de uma arma e que a luta ofereceria perigo real. O bastão que ele segurava tinha pontas de ferro. Ela estava, portanto, em dupla desvantagem.

— O senhor decidiu aceitar meu desafio? — Elspeth indagou.

— Talvez prefira retirá-lo? — Ele riu como um trovão, mas se calou de espanto ao vê-la lançar o bastão contra uma pedra e apanhá-lo de volta em um piscar de olhos, em uma demonstração de que era capaz de enfrentá-lo.

— Talvez o senhor prefira mudar de idéia?

Desafiado no brio masculino, o homem se lançou pesadamente sobre Elspeth e bateu contra o bastão. Ela foi jogada para trás com o impacto e teria caído de costas se Gryn não a amparasse.

— Quando quiser começar a luta, avise-me — ela o provocou.

— Estou pronto! — O homem ergueu o bastão e tentou novamente acertá-la. Elspeth saltou para o lado e se concentrou para adivinhar cada movimento pelas expressões faciais do oponente. Todo cuidado era pouco. O bastão que ele usava era grosso como um tronco de árvore. Se a acertasse, esmagaria seus ossos.

Elspeth começou a saltar em círculos com o propósito de cansá-lo. A multidão gritava e aplaudia. Entre o alarido, ela pensou ouvir Tarran chamar seu nome. O que ele estava fazendo ali em vez de guardar llech-lafar?

O bastão gigantesco atingiu o dela. Trincou-o, sem chegar a quebrá-lo. Antes que ela pudesse reagir, ele tornou a golpeá-la e dessa vez a acertou de raspão na cabeça. Ela rodopiou com o choque e se prostrou de joelhos. A última coisa em que pensou foi que a pedra com o sino da capela deveria estar badalando em seus ouvidos. A claridade foi substituída pela completa escuridão, e ela teve a sensação de estar desabando do alto de um precipício.

— Elspeth! — Ela tornou a ouvir o chamado de Tarran e tentou se agarrar à ribanceira para não despencar no vazio. Sua mão tocou o bastão a sua frente. Segurou-o e cravou-o entre as pedras. Agarrou-se a ele e com esforço quase sobre-humano conseguiu se levantar.

— Por São Judas! — Elspeth saltou diante do olhar perplexo do gigante, que só teve tempo de gemer de dor ao ser atingido entre as pernas.

Aplausos e ovações se elevaram de todas as partes. Elspeth se virou e viu Tarran se acotovelando entre a multidão para chegar até ela. Depois a escuridão o tragou.

 

 

                                         Capítulo XXI

 

Elspeth abriu os olhos e tornou a fechá-los. Sua cabeça latejava. O ruído da chuva batendo incessantemente sobre a cobertura da carroça aumentava ainda mais o desconforto. Tentou se sentar e deixou escapar um gemido, que foi abafado pelo protesto de Heliwr.

— O susto dele foi aparentemente maior que o seu — sugeriu Tarran, com um sorriso de encorajamento. — Como está se sentindo?

— Viva. Como se tivesse sido atropelada por uma carroça de bois, mas viva.

— Ao menos o golpe serviu para colocar juízo em sua cabeça?

— Ou isso ou ele eliminou de vez o pouco que eu tinha.

— Como pôde ser tão tola? Ele era o dobro do seu tamanho.

— Eu o venci, e é isso que importa — ela respondeu e se agarrou à borda da carroça para se levantar. — Quanto tempo fiquei desacordada?

— O tempo necessário para trazermos você para cá e deixarmos a cidade para trás.

— Quer dizer que já passamos pelo castelo? — Ela tocou cautelosamente o local do ferimento e fez um esgar de dor. — Pensei que eles, talvez, pudessem me dar algo para essa dor de cabeça.

— Certamente poderiam — disse Tarran —, se você fosse bem-vinda em Pembroke.

— Não sou? — ela estranhou a observação.

— Não depois de vencer o campeão local. Você correria o risco de ser acorrentada e levada para o wogan.

— O que é isso?

— Wogan é a palavra que usamos para designar as cavernas com saída para o rio, que ficam sob as torres de menagem. Servem como depósitos, mas principalmente como calabouço para os castelos.

Elspeth fez menção de descer da carroça, mas precisou de ajuda.

— Você deveria aproveitar a chuva para descansar.

— Não estou inválida. Não posso me dar ao luxo de ficar de braços cruzados enquanto não nos afastarmos desse lugar.

Tarran saltou antes e ergueu Elspeth pela cintura como se ela não pesasse mais que seu falcão. Sentiu que ela vacilou ao ser colocada no chão, mas o equilíbrio foi rapidamente recuperado e ela prosseguiu a pé ao lado dele enquanto Kei o substituía na condução dos bois.

— Seu bastão estava rachado quando o apanhamos. Foi sorte não ter sido sua cabeça.

Elspeth foi obrigada a admitir que Tarran estava com a razão e que ela deveria se lembrar de ter mais cautela no futuro.

— Realmente estou precisando de um remédio que possa me aliviar. Assim que nos distanciarmos do castelo, eu...

— Não será preciso esperar tanto — ele a interrompeu com um gesto de delicada ternura. — O priorado de Monkton nos abrirá as portas.

Ao olhar para o alto da colina, cogitou que o estilo de construção o fazia parecer mais uma fortaleza que um templo sagrado. Lembrou-se, em seguida, de que as guerras se sucediam em Gales antes que o rei Henrique apaziguasse aquele povo.

— Acha que terá condições de andar até lá? — Tarran perguntou.

— Se você pode, eu posso — ela respondeu em tom jocoso. — Espero que eles nos instalem em local seco e aquecido.

— É tudo que desejo nesse momento — ele concordou ao contornar um amontoado de lama. — Ou quase tudo. — Tarran abraçou-a pelo ombro ao dizer isso.

— E um leito onde possamos dormir por algumas horas — Elspeth completou.

— E que eu possa acordar com você em meus braços. Em um gesto inesperado, Tarran a pegou no colo, mas o movimento brusco, em vez de confortá-la, a fez sentir ainda pior. Sua vista escureceu. As pálpebras ficaram tão pesadas que ela precisou fechar os olhos.

Tarran entrou pelos portões abertos e seguiu pelo caminho reto que conduzia à capela iluminada. Celeiros e cabanas se enfileiravam ao seu redor, mas, com exceção de uma, o priorado estava às escuras, em sintonia com a tarde chuvosa.

O som de um coro de vozes avisou-o que chegara a tempo de participar das vésperas. Elspeth deveria ter cochilado, porque não se lembrava de ter atravessado o portal do monastério. Uma intensa euforia a inundou ao se ver parte do ambiente que lhe era familiar, ouvindo as vozes ressonantes na entoação dos hinos que celebravam a fé religiosa. Fechasse os olhos e fosse o coral composto de vozes femininas, e ela se sentiria transportar para a abadia de São Judas.

Um pensamento lhe ocorreu, porém, e a fez voltar à angustiante realidade. Porque só reencontraria a amizade e a proteção das irmãs de São Judas se dissesse adeus a Tarran. Seus dois maiores amores não poderiam coexistir. Seria essa a mensagem implícita nas palavras premonitórias de Rhan?

Sua missão estava por se completar, mas para cumprir a promessa que fizera de se vingar do assassino da esposa Tarran ainda teria de percorrer longo caminho. Ele se dis-pusera a ajudá-la. Agora ela não poderia pagar com ingratidão o bem que recebera. Nem evitar que seu coração buscasse abrigo naqueles braços ainda relutantes.

Tarran se deteve diante de uma porta e colocou-a no chão antes de anunciar sua presença por meio da pesada aldrava de bronze.

A porta foi aberta após alguns instantes por um homem. Suas feições eram quase impossíveis de ver pelas exageradas suíças que usava e também por causa do capuz marrom-escuro puxado sobre a testa. Mas os olhos que os fitaram apresentavam um brilho de cordial curiosidade e havia acolhimento no modo como estendeu a mão para saudá-los.

— Sejam bem-vindos ao Priorado de Monkton. Em que podemos ajudá-los?

Tarran olhou para Elspeth e abraçou-a pelo ombro.

— Procuramos abrigo para a noite que se aproxima.

— Quantas pessoas?

— Somos cinco e mais dois bois e um falcão.

— Um falcão? — O sorriso do frade acentuou. — Mantemos um pombal. Sua ave de estimação não poderá ser solta enquanto estiverem entre nós. Mas não se preocupe. Daremos um jeito de acomodá-la também.

O cheiro de velas e incenso remeteu Elspeth mais uma vez à abadia. A medida que caminhavam pelo pátio de cascalhos, o cenho de Tarran franzia. O que ele poderia estar pensando? O que poderia estar errado?

—Ainda acho que deveríamos ter dado preferência ao castelo — disse Seith baixinho, para que o frade não escutasse.

— Podemos deixar lady Elspeth — sugeriu Kei, sem se importar em baixar o tom de voz — e seguirmos para lá.

Tarran virou-se, zangado.

— Silêncio! Já foram avisados de que não poderiam discutir minhas ordens.

Elspeth ficou atônita. Se Tarran estava precisando lembrar seus homens para que acatassem suas determinações, ele deveria estar perdendo a autoridade.

O religioso abriu uma porta e pediu que o casal aguardasse enquanto ele chamava alguém para providenciar as acomodações.

— Obrigado, irmão...

— Leopold — o frade se apresentou antes de se afastar levando os outros consigo.

Elspeth examinou o aposento e precisou conter um suspiro de saudade. O chão e as paredes eram feitos de pedra escura, como o restante do monastério. O leito simples e o jarro com uma bacia sobre a cômoda tosca de madeira eram tão austeros como os que lhe foram dados em sua cela na abadia.

Ela se deixou guiar por Tarran. Sua respiração estava ofegante. Estava tão cansada como se tivesse acabado de lutar.

— O que está havendo com seus homens para estarem tão ressabiados?

— Coloque-se no lugar deles e me diga onde preferiria passar a noite: em um monastério em regime de castidade ou em um castelo com mulheres ávidas por diversão?

— Seja franco. — Elspeth estreitou os olhos. — Você sabe que não se trata disso.

— Quero que se deite e descanse agora. Mais tarde conversaremos a respeito. — Tarran foi até a cômoda, abriu a gaveta de cima e apanhou uma túnica de lã da mesma cor que o irmão Leopold estava usando. Rasgou-a em tiras e umedeceu-as com a água do jarro. Em seguida, enfaixou a cabeça de Elspeth e obrigou-a a recostar contra o travesseiro.

— Está se sentindo melhor?

— Marrom-escuro — Elspeth observou e Tarran a fitou sem entender. — Estou me referindo à cor das vestes do frade. Druce e seus homens vestem túnicas claras. E, por falar nisso, acho que vi alguém vestido como eles no meio da multidão.

Tarran havia se sentado na beirada da cama enquanto ouvia a explicação.

— Mandarei um dos homens ao vilarejo para verificar, mas confesso que já esperava que Druce nos seguisse.

— Precisamos levar llech-lafar imediatamente para St. Govan's Head.

— Partiremos ao alvorecer. A noite já caiu. Seria impossível prosseguirmos nas sombras, mesmo que você estivesse em condições de viajar. Procure descansar enquanto falo com Kei e Gryn.

Elspeth segurou a mão de Tarran, impedindo-o de se afastar.

— Antes me conte o que realmente os está incomodando neste priorado.

— Sua impaciência precisa ser contida, Elspeth. Tenho assuntos urgentes para resolver. Voltarei o mais rápido que puder. Então você poderá me fazer todas as perguntas que desejar.

Ela fechou os olhos e aquiesceu. Tarran estava certo. Descobrir quem era o desconhecido de roupas claras era mais importante do que satisfazer sua curiosidade.

Não saberia dizer quanto tempo havia transcorrido até que uma batida à porta a acordasse. Tarran havia voltado à cela sem que ela percebesse. Estava sentado em uma cadeira ao lado da cama.

— Príncipe Tarran! — exclamou o monge ao espiar pela fresta. Era mais baixo e mais magro que o outro que os recebera, mas usava a mesma indumentária marrom-escuro. — Não pude acreditar quando irmão Leopold disse seu nome ao prior.

Os dois homens se abraçaram efusivamente.

— Irmão Dewey! Que bom tornar a vê-lo!

— Pediram-me que trouxesse essa infusão para alívio da dor. Está ferido, príncipe Tarran?

— Não. Lady Elspeth é quem está precisando do remédio. — Tarran fez as apresentações. — Irmão Dewey foi criado por meus pais quase desde que nasceu. Ele sempre teve temperamento calmo. Preferia ler a caçar e a participar de folguedos.

— Ainda pratica a caça, príncipe Tarran?

— Treinei um falcão para me acompanhar em uma missão de honra. Heliwr é a ave mais esperta que já tive a oportunidade de ver. Eu lhe mostraria seus truques para que pudesse comprovar o que digo, fossem outras as circunstâncias.

— Então é verdade — irmão Dewey murmurou. — Você busca vingança pela morte de sua esposa.

— Os rumores chegaram até aqui? — Elspeth se sentou com ímpeto ao ouvir a declaração. — Eu não poderia imaginar que assuntos mundanos penetrassem pelo silêncio dessas paredes.

— Não quando o nome de Bradwr ap Glew está envolvido — contou o monge. — Sabíamos que havia muito ódio em seu coração, mas pensamos que ele tivesse aprendido a refrear os instintos depois de viver entre nós.

— Ele esteve nesse monastério? — Elspeth indagou, surpresa.

— Até três anos atrás, quando nos deixou para nunca mais voltar.

Tarran aproveitou o ensejo para mostrar a tira de couro com o pendente de vidro.

— Já viu algo parecido com isso?

O monge negou com um movimento de cabeça.

— Pertence ao irmão Bradwr?

— Um homem que se identificou como primo dele o estava usando quando tentou matar Elspeth. Eu tinha esperanças de que você o reconhecesse e pudesse nos revelar seu significado.

— Só posso dizer que não pertence aos irmãos de minha ordem.

Antes que Tarran tentasse insistir, ouviu-se o repicar de um sino.

— Preciso ir — desculpou-se o irmão. — As vésperas estão chegando ao fim e preciso voltar para minha cela, para o exercício da meditação. Rezarei por todos vocês esta noite, príncipe Tarran.

O monge se foi antes que Elspeth pudesse agradecer. Tarran olhou nos olhos dela por longo momento.

— Agora você sabe por que meus homens não se sentem bem aqui. A mancha da traição de nosso inimigo se estende ao domínio do que deveria se manter sagrado.

O brilho da chama da única vela de que a cela dispunha se refletiu na conta de vidro antes que Tarran pudesse tornar a guardá-la. Vozes ecoaram na memória de Elspeth, e ela se viu entre as paredes da abadia de São Judas, testemunhando uma conversa entre a abadessa e uma irmã de nome Avisa sobre um adorno similar.

— Acho que sei o que significa!

— O que significa o quê?

— Essa conta presa à tira de couro! Tarran pestanejou, aturdido.

— Conte-me!

— Segundo uma história antiga, existem pedras com poderes mágicos. Quem as portar se reveste do poder de governar Gales e de derrotar qualquer exército inimigo.

— Aquele que portava essa pequena conta está morto!

— Essa não é uma pedra especial. Aquela a que me refiro era de um azul intenso.

— E está em segurança na Inglaterra? — Tarran questionou.

— Não sei ao certo. Ela a confiou a alguém para que a guardasse.

— Ela?

— Avisa de Vere. É uma das irmãs da abadia de São Judas e... — Elspeth interrompeu o relato ao se dar conta do que acabara de revelar. Mas já era tarde demais.

— Então você também é uma irmã?

Sem saber como escapar à verdade, Elspeth assentiu. Estava preparada para qualquer tipo de reação, menos para vê-lo rir. Ficou olhando, boquiaberta. Talvez o golpe que levara na cabeça a tivesse afetado mais do que imaginara. Desde que conhecera Tarran, nunca o vira rir como naquele momento.

Perplexa, tentou se levantar, mas as pernas se recusaram a suportá-la. Com um resmungo, tornou a se sentar e precisou fechar os olhos na tentativa de fazer as paredes pararem de girar ao seu redor.

Com delicadeza, Tarran retirou os panos e umedeceu-os.

— Sente algum alívio?

— Sim, obrigada.

— Sabe mais alguma história engraçada para me contar? — ele caçoou.

— Não é história! É verdade! — Elspeth protestou.

— Você? Uma religiosa? — Ele começou a rir outra vez.

— Nunca ouvi falar em conventos que ensinam as noviças a lutar com bastões de madeira. Espera que eu acredite que foi uma irmã que lhe ensinou técnicas que a habilitam a vencer homens treinados a lutar em guerras?

— O lugar de onde venho se chama abadia de São Judas — Elspeth revelou. — Não divulgamos o que acontece por trás de seus altos muros, mas a abadia de São Judas não é como as outras.

Enquanto Elspeth explicava as diferenças, Tarran se pôs a andar na cela de um lado para o outro. Elspeth sentiu um nó lhe apertar a garganta ao vê-lo se dirigir à porta e abri-la. Não queria que ele a deixasse sozinha. Queria implorar para que ficasse, mas calou a voz e se obrigou a calar também a dor que comprimia seu peito e que era ainda mais pungente que o latejar da cabeça.

— Sua história explica muito — Tarran disse, por fim —, mas não explica o motivo de não haver trancas nessa porta. — Ele empurrou a cômoda para bloquear a entrada. — Não quero que interrompam nosso sono.

Elspeth sentiu os olhos marejarem de alegria e procurou fazer espaço para ele, quando se sentou a seu lado. Mas não conseguiu evitar um esgar ao esbarrar o rosto no dele.

— Fique comigo — ela pediu à reação natural de Tarran de se afastar.

— Quero ficar com você — ele afirmou.— Quero ouvir as histórias sobre as irmãs da abadia de São Judas. Assim que você melhorar. Agora quero que feche os olhos e durma, porque amanhã será um longo dia.

— Concede-me um pedido?

— Qual?

— Conte-me mais uma vez a história sobre o príncipe Pwyll e sobre como ele derrotou o pior inimigo da morte.

Tarran sorriu. Elspeth adormeceu ao som da voz grave e ressonante que a transportou a uma terra encantada, onde tudo era possível... Até ser amada por Tarran pelo resto da vida.

 

 

                                                 Capítulo XXII

 

A chuva não estava forte. Eram o vento e a neblina que mais respondiam pela sensação de desconforto. A umidade penetrava os tecidos e parecia atingir os ossos. Os bois subiam com dificuldade pelos rochedos.

Elspeth apertava a capa convulsivamente contra o peito. Por mais que tentasse conservar o capuz sobre a cabeça, o vento o empurrava para trás. Não fosse pelo apoio do bastão, ela já teria desistido.

— Mais devagar com a carroça! — Tarran gritou para se fazer ouvir sobre os estrondos das ondas que quebravam sobre as pedras, agitadas pela força dos ventos.

Do outro lado, Elspeth olhou para ele e o comparou a um herói das antigas lendas. Os cabelos escuros estavam despenteados, mas os ombros permaneciam eretos. Nada parecia ter o poder de dobrá-lo. Nem mesmo as intempéries enviadas pelos deuses, como se quisessem testá-lo.

Desde que deixaram Pembroke rumo ao mar Severn, os pesadelos haviam abandonado as noites de Tarran. Ele estava mais sereno e ao mesmo tempo mais senhor de si. Ela aproveitou a parada para descanso para lhe falar.

Esperou que Seith desatrelasse os bois e os levasse para pastar. Também esperou que Gryn e Kei empurrassem a carroça para trás. Não imaginava que estivessem em lugar tão perigoso até se aproximar de Tarran e ele lhe fazer sinal para que não continuasse a avançar. Ela entendeu a apreensão ao olhar para baixo. Uma parte do terreno havia se desprendido, como se alguém a tivesse cortado com uma faca. E ela também entendeu por que Tarran se lembrara de St. Govan's Head como o melhor esconderijo para llech-lafar. Entre tantas pedras, dos mais variados formatos e tamanhos, a pedra de Merlin passaria completamente despercebida.

— Enfim poderemos dar nossa missão por encerrada! — Elspeth exclamou, com um sorriso de alívio.

— Não ainda — Tarran murmurou e olhou por cima de seu ombro, obrigando-a a virar e tentar enxergar entre as brumas.

Formas humanas se deslocavam pela ribanceira. Tentou contá-las, mas a imagem parecia se aglomerar ao centro.

— Peregrinos? — Elspeth indagou.

— Provavelmente — disse Tarran. — Mas, enquanto estiverem por aqui, a pedra deve permanecer escondida.

— Se Druce estiver em nosso encalço, ele e seus homens devem estar se aproveitando da neblina para se esconder.

— Viemos preparados. Se eles nos atacarem, não seremos pegos de surpresa — Tarran declarou, com a mão sobre a espada.

Elspeth apontou para um bloco de pedra que se destacava contra a encosta do rochedo e começou a subir por degraus que permaneciam quase intactos entre as ruínas, mas difíceis de serem vistos por causa da vegetação.

— O que é aquilo?

— O altar da capela. O motivo principal das romarias. Em poucos instantes, os peregrinos estarão nos cercando e...

— Tarran, cuidado!

Elspeth e Tarran se viraram ao grito de alerta. De espada em punho, eles viram Seith, Kei e Gryn se defendendo dos assaltantes. Os peregrinos que eles haviam visto a distância eram Druce e seus homens.

Aconteceu tão depressa que ela não conseguiu se proteger. Braços fortes como tentáculos a imobilizaram. Ela pensou em usar a técnica de defesa que Nariko lhe ensinara para situação de emergência, mas refletiu e se absteve de aplicá-la. Não adiantaria se livrar de um atacante para cair em mãos de outro no instante seguinte. Guardaria os truques para usar no momento certo.

Gryn foi acuado. Tarran lutava sozinho contra meia dúzia de homens. Ao ser empurrada contra a carroça, como Gryn, ela fingiu tropeçar e se agarrou ao pano que servia de cobertura. Com o impacto, a carroça balançou e espantou Heliwr, que saiu voando e desapareceu por entre as nuvens. Ela deu um salto nesse instante e arrancou o pano com um forte puxão, para que caísse sobre os agressores e os colocasse fora de combate, ao menos por alguns segundos.

— Tarran! — ela gritou. — Agora!

Algo a atingiu nas costas e expulsou todo o ar de seus pulmões. Lançada de queixo contra o chão, ela não teve tempo para reagir. Foi puxada e arrastada pela túnica e colocada novamente de pé. Percebeu, mais do que viu, o brilho de uma espada lhe passar diante dos olhos.

— Não! — bradaram Tarran e Druce simultaneamente, e ela foi poupada do golpe da lâmina para cair mais uma vez entre mãos inimigas que lhe cercearam os movimentos ao prendê-la pelos braços.

Com um sorriso que destilava maldade, Druce afastou, com a ponta da espada, o cobertor que cobria llech-lafar.

— Creio que deva lhe agradecer por ter trazido a pedra de Merlin para nós. Nós lhe asseguramos que faremos com que ela cumpra a tarefa que o grande mago lhe confiou.

— Como pode ter certeza de que esta é a pedra verdadeira? — Tarran procurou lançar uma dúvida na tentativa de salvar a situação.

— Qual outra o motivaria ao sacrifício de trazê-la até aqui sob um tempo inclemente?

— Percorremos longa distância desde Tyddewi. Podemos ter deixado a pedra da profecia em qualquer parte do caminho.

— No priorado de Monkton, talvez?

— Treinou bem seus espiões, Druce — Elspeth cumprimentou-o na esperança de desviar para si a atenção dos homens. Tarran estava mais próximo a seu bastão do que ela. Era o único, nas circunstâncias, com chance de escapar e dar cabo da missão. — Foi um deles que vi em Pembroke?

— Seu poder de percepção é notável, milady — Druce elogiou-a. — Surpreende-me, portanto, que tivessem vindo de Tyddewi direto para cá, apesar de saberem que estavam sob estreita vigilância.

— Digo o mesmo sobre você — Elspeth declarou com sorriso de malícia. — O fato de termos vindo direto para cá deveria ter despertado suas suspeitas.

Druce hesitou e Elspeth sorriu, triunfante. Alguns segundos de distração bastariam. Era só isso que ela pedia à sorte. Tentou se desvencilhar dos homens que a prendiam, um de cada lado, mas eles continuavam atentos. O êxito do plano dependia de seu empenho em continuar prendendo os homens pelo interesse a sua história.

— Pergunte-se por que razão nós nos daríamos ao trabalho de atravessar Pembroke se o rei Henrique deve aportar aqui. Acha que correríamos o risco de trazer a pedra justamente para o local onde ele poderia pisá-la e morrer? Alguma vez me observou cometer alguma insensatez?

— Não.

Ele relutou, mas respondeu com franqueza. Elspeth sentiu o coração bater mais depressa. Queria olhar para Tarran e lhe fazer sinal, mas o risco era grande demais.

— Ela está mentindo — disse Orwig, de repente. Elspeth ficou surpresa. Era a primeira vez que o braço- direito de Druce se pronunciava. A voz era grave e o pronunciamento fora correto. O timbre lhe pareceu estranhamente familiar. Tinha certeza de já ter ouvido antes aquela voz. Mas onde?

— A pedra na carroça é nossa — Orwig prosseguiu. — A maldição que pesa sobre ela significará nossa vitória. O poder dela combinado ao do anel que carrega em seu dedo nos tornará os novos governantes de Cymru.

Druce ergueu as mãos para o alto, como fizera ao subir naquele dia sobre a pedra enterrada no leito do rio. Espirais azuis cintilaram sob os raios do sol que haviam conseguido penetrar pela densa neblina.

— Tarran! O anel! — Elspeth gritou, alarmada. Druce apoiou as mãos na cintura e estreitou os olhos.

— Você está certo, Orwig. Não vou me deixar enganar pela argúcia desta mulher! — Sem hesitação, Druce avançou em direção a Elspeth e bateu com força em seu rosto.

Tarran descobriu-se dono de um ímpeto assassino naquele instante e defendeu-a, atingindo o agressor com um soco no queixo. Com um salto, puxou-o pela capa e aproveitou-se do desequilíbrio para golpeá-lo da mesma forma que ele fizera covardemente.

Elspeth, lúcida apesar da agressão sofrida, alertou-o para uma nova investida pelas costas, e ele atacou primeiro, revertendo a posição.

Afoita para escapar e ajudar Tarran e seus homens contra os inimigos, Elspeth fingiu que estava passando mal. Dobrou-se ao meio como se tivesse desmaiado. Um dos homens praguejou e soltou seu braço para tentar segurá-la pela túnica. Ela saltou e deu seu grito de guerra. Acertou o homem com o cotovelo e ele caiu estendido no chão. O segundo homem quis dominá-la, mas ela o chutou no estômago e se aproveitou que ele se curvou por causa da dor, para chutá-lo no rosto.

Ao ver o homem tombar para trás, sem sentidos, Elspeth correu para a carroça e para o bastão que lá deixara. Mas, no instante em que o pegou, foi novamente capturada.

Ela gritou por Tarran e em um último esforço lançou sua arma. Rezou para que tivesse mirado corretamente o alvo. O menor erro de cálculo faria o bastão se precipitar pela ribanceira e desaparecer entre as pedras e as ondas. Só havia uma chance para o bastão bater contra uma pedra e voltar exatamente para o lugar onde estava Tarran. E ele o apanhou sem dificuldade.

Teria dado um suspiro de alívio se não estivesse tão ocupada em se livrar do agressor com uma cotovelada no lado e um chute no joelho, com o propósito de quebrá-lo.

— Bom trabalho! — Tarran a cumprimentou antes de lhe atirar o bastão de volta.

— E seus homens? — Elspeth perguntou. — Não os estou vendo.

Ele apontou para um local mais abaixo.

— Estão precisando de minha ajuda.

— Vá e proteja-os — ela recomendou sem se mover. Esperou até que Tarran desaparecesse entre as brumas e olhou, depois, em todas as direções, até onde a vista conseguia alcançar. Vozes lhe chegavam aos ouvidos, mas, a não ser pelos homens com quem lutara, ela parecia ser o único ser vivente no alto da ribanceira.

Tinha a impressão de que alguém a chamava. O barulho do mar distorcia os sons. Ela não podia se afastar da carroça sob o risco de pôr a missão a perder. Se ao menos conseguisse empurrá-la até a beira do precipício...

— Elspeth! — A voz soara premente, mas ao tornar a olhar para todos os lados ela continuou sem ver ninguém.

— Tarran? — perguntou, vacilante.

Uma sombra pareceu se mover. Ela se virou e algo dourado surgiu do denso nevoeiro. Ela ergueu rapidamente o bastão para se defender do ataque inesperado, mas não adiantou. O agressor a atingiu na parte de trás da cabeça.

Uma dor insuportável a invadiu. Assim mesmo, obrigou-se a permanecer de pé e a lutar. Mas as pernas se recusaram a obedecer. Fechou os olhos por um instante. Tornou a abri-los na tentativa de se livrar de uma súbita náusea que a fez acreditar estar em um barco desgovernado ao sabor de ondas gigantescas.

Queria reagir. Precisava achar o bastão e proteger a pedra amaldiçoada. Mas não conseguia fazer nada, exceto sentir as mãos pegajosas de terra.

Alguém a levantou puxando-a pelas vestes e mais uma vez ela foi jogada contra a carroça, onde se agarrou por puro instinto para não tornar a cair. A cabeça latejava e as pálpebras pesavam. Quando finalmente conseguiu manter os olhos abertos por um instante, focalizou uma espada dourada próxima a seu rosto.

— Druce.

— Onde aprendeu a lutar? — ele quissaber. — Meus homens poderiam empregar essas técnicas para expulsar os normandos de Cymru. Quero que você os treine.

— E eu quero que você vá para o inferno! Não para o inferno em que vocês acreditam, governado pelo rei Arawn de seu castelo. Mas para o inferno de Satã!

Ele deu uma gargalhada sinistra.

— Você ouviu algumas histórias e acha que conhece tudo sobre nosso povo e sobre nossas lendas. — Com arrogância, ele mostrou o anel que trazia no dedo. — De posse desse anel e de llech-lafar, eu me tornarei invencível.

Elspeth estava estranhando o silêncio ao seu redor. Queria chamar Tarran. Queria se certificar de que ele estava a salvo. Ele e os outros.

Como se tivesse lido seu pensamento, Druce estalou os dedos e figuras grotescas começaram a se materializar saídas das brumas. Suas vestes estavam manchadas de sangue. Ela as reconheceu, e seu rosto se cobriu de mortal palidez. Eles todos haviam sido derrotados e capturados pelo pequeno exército de túnicas claras que os perseguia desde o início da viagem.

— Quais são as ordens? — indagou um dos atacantes.

— Mate-os.

Os olhos de Elspeth encontraram os de Tarran e tentaram transmitir uma migalha de esperança. Porque nada mais havia a ser oferecido. Por culpa dela, Tarran estava em iminência de morrer sem completar sua vingança. Ela havia falhado com a rainha, com a abadessa e, o que era pior, com o homem que amava. Que, apesar de tudo, estava lhe sorrindo.

Com o coração acelerado, Elspeth tentou captar a mensagem que ele estava lhe transmitindo. O que Tarran estava querendo lhe dizer? Que a perdoava? Que descobrira que a amava?

— Mate-os e atire os corpos do alto do rochedo. Os urubus terão com o que se fartar.

Ninguém notou a figura que se esgueirou de trás da carroça até que ela se pronunciasse com uma fria autoridade que fez o sangue congelar nas veias.

— Esperem!

Todos os olhares se voltaram para o homem cujo rosto estava oculto por um capuz e que não era outro senão Orwig. Elspeth prendeu o fôlego à certeza de que ele iria finalmente se mostrar. Conteve uma exclamação ao ver que uma das faces estava desfigurada por uma cicatriz e que fora ele o homem que tentara degolá-la em Tyddewi.

— Bradwr! — Tarran murmurou, em choque. Elspeth arquejou. Um arrepio a fez estremecer. Estavam diante de alguém que não se deferia diante de nada...

— Parece surpreso, meu primo — Bradwr zombou.

— Fui um tolo — disse Tarran. — Acreditei na história que você mesmo deve ter espalhado por todos os lugares por onde passou de que resolvera acompanhar o príncipe Madoc em sua expedição ao oeste para fugir a minha vingança.

Bradwr traçou lenta e deliberadamente a linha da cicatriz que atravessava a face esquerda.

— Nunca tive a intenção de escapar de sua perseguição. Apenas precisava de tempo para me curar e recuperar as forças, de modo a conseguir terminar o que comecei.

— Então agora está preparado para pagar pelo que fez com minha esposa ou ainda pretende dar um jeito de escapar e seguir para Lundy Island?

— Do outro lado do oceano? — Bradwr caçoou. — Que as terras além-mar fiquem para o príncipe Madoc, se é que elas realmente existem. Não tenho nada para fazer por lá. O que quero está aqui.

— O que você quer?

— Minha vingança.

Uma risada sarcástica brotou dos lábios de Tarran.

— Quem tem motivos para se vingar sou eu. Foi você quem matou Addfwyn.

— Jamais tive a intenção de matá-la. Eu a queria para mim. Era de você que eu queria me livrar. Você a roubou de mim. Addfwyn estava destinada a se tornar minha esposa.

— Até você optar pela vida no monastério porque seu pai não o reconheceu como filho legítimo e se recusou a incluir seu nome na partilha de bens.

— Mas ela me estava prometida!

— Até que você a trocou pela igreja.

— Ela teria me esperado se você não se aproveitasse das circunstâncias para fazê-la sua.

Elspeth mal conseguia respirar. O drama de Addfwyn e dos dois homens que a amaram e a perderam havia atraído geral atenção. Era sua única chance de cumprir a promessa que fizera à rainha Eleanor. Todo cuidado seria pouco. Tarran precisava usar de cautela e sabedoria. Bastaria uma palavra errada e seu juramento de vingança se perderia para sempre como sua própria vida.

— Addfwyn o temia — Tarran contou. — Ela pediu que eu a protegesse.

— O que você não fez.

— Porque jamais pensei que meu melhor amigo fosse nos trair.

Bradwr fez um gesto para que Druce se afastasse e Elspeth percebeu, naquele instante, que o homem antes apresentado como Orwig era o verdadeiro líder. Apenas os papéis estiveram convenientemente invertidos. O que ela não esperava era que Bradwr fosse atacá-la novamente e comprimir a faca contra seu pescoço.

— Esta é a faca que me defendeu da mulher que você desonrou, príncipe Tarran. — Bradwr pronunciou o título com desprezo.

— Não pode ser! — Tarran retrucou, atônito. — Havia uma faca cravada no peito de Addfwyn quando a encontrei.

— Mas foi com esta que me defendi quando ela reagiu e me atacou com um punhal, marcando-me para sempre. — Bradwr exibiu a cicatriz com ódio. Ao prosseguir, sua voz adquiriu tom de respeito. — Addfwyn tinha honra. Você, no entanto, preferiu manchar sua memória ao se envolver com uma sais.

— Amar Elspeth não é desonra.

Elspeth tornou a prender a respiração. Nunca, nem mesmo em sonho, se permitira acreditar que Tarran um dia seria capaz de admitir viver um novo amor. De confessar que a amava. Ainda mais em público.

— Também não foi desonra eu me casar com Addfwyn. Assassiná-la foi uma desonra.

— Ela estaria viva se você não a tivesse forçado a desposá-lo.

— Não a forcei. Não a obriguei a me aceitar em nome de uma promessa feita quando ela ainda era pouco mais que uma criança, como aconteceu com você. Acredita verdadeiramente que ela teria concordado em se tornar minha esposa se o amasse?

Cego pela ira, Bradwr empurrou Elspeth para cima de Druce e pulou sobre Tarran. Elspeth quis aproveitar aqueles poucos segundos de aturdimento para escapar, mas Druce a deteve e a imobilizou.

A pouca distância, Tarran saltava para os lados para se esquivar das tentativas de Bradwr de apunhalá-lo. O outro ria como alucinado.

— Você não tem para onde fugir, Tarran ap Llyr. Morrerá aqui e agora e seguirá para o inferno com seus homens.

— E com Elspeth?

— Druce a quer. Deixarei que ela viva para embalar seus sonhos de grandeza.

— Sonhos que se transformarão em pesadelos quando você o trair como fez comigo.

De onde estava, Elspeth não conseguia ouvir com clareza a discussão entre os primos e inimigos. As brumas tampouco permitiam uma visão nítida da dança mortal que os dois executavam na beira do precipício. Ela gritou de horror ao ver Tarran perder o equilíbrio, cair e rolar nos degraus em ruínas que levavam à capela.

Bradwr também deu um grito. Um grito de júbilo. Ele, seguido por seus homens, se precipitou pela escada para conferir o fim da luta. E de Tarran.

Em franco desespero, ela agarrou o punho direito de Druce e bateu-o com toda a força contra a carroça. Ele urrou de dor, mas reagiu prontamente à tentativa dela de golpeá-lo com o bastão. Ao erguer o outro braço para se defender, Druce não esperava que o impossível acontecesse: que Elspeth fosse conseguir lhe tomar o anel, jogá-lo ao chão e esmagá-lo com o pé.

Os protestos de Druce atordoaram seus homens. Aproveitando-se da pequena distração, os homens de Tarran se desvencilharam e partiram para o ataque. As espadas zuniam no ar. Alguém a chamou e lhe atirou um novo bastão. Ela o girou como um moinho de vento sob o ímpeto de uma tempestade e utilizou-o como alavanca para deslocar a carroça rumo ao despenhadeiro. De repente, como surgido do nada, Kei empurrou-a.

— Não faça isso! Tarran está caído lá embaixo!

Seith e Gryn se apressaram a ajudá-la e Kei a segurar a carroça. Tarde demais. A pedra deslizou e tudo se precipitou pela ribanceira.

Elspeth ainda tentou avisar Tarran para que se protegesse e rezou aos céus para que ele não fosse atingido.

Llech-lafar foi batendo contra o barranco, levando consigo pedras, terra e vegetação, fazendo soar um sino acima dos outros ruídos.

O impacto da pedra ao se chocar com as ondas que quebravam no rochedo ecoou pela praia. A carroça foi se desmantelando à medida que caía. Elspeth passou pelos homens e por Druce, que chorava, de joelhos, sobre os fragmentos de vidro que brilhavam sob os raios do sol que haviam conseguido penetrar pelas nuvens e pelas brumas. Estacou ao deparar com o corpo torcido de Bradwr. Ele deveria ter perdido o equilíbrio ao tentar escapar da pedra em perseguição a Tarran, mas não conseguira escapar da morte.

Olhou, desolada, ao redor. Não sobrara praticamente nada da antiga capela. Uma quantidade imensa de pedras havia desabado com o acidente. E ela não estava conseguindo encontrar Tarran em parte alguma.

Um som agudo a fez erguer os olhos para o alto. Heliwr! Ele estava voando em direção às ruínas e ela sentiu um soluço lhe brotar da garganta ao ver a mão de Tarran surgir detrás do altar para amparar a ave de estimação.

Rindo e chorando, correu para lá e se prostrou de joelhos. Tarran estava bastante machucado, mas vivo.

— Bradwr? — ele quis saber.

— Morto.

Ele respirou fundo e fechou os olhos.

— Addfwyn foi vingada.

— Como você lhe prometeu.

— Llech-lafar?

— Perdida no meio de outras pedras.

— Sua missão também foi cumprida.

— Sim.

Elspeth recuou à chegada dos amigos de Tarran à capela, que se abraçaram, comovidos, pelo desempenho final que os levara à libertação de corpo e espírito. Eram novamente donos de suas vidas e podiam prosseguir seus caminhos, porque a morte de uma inocente fora vingada.

Druce parecia outra pessoa. Completamente abatido. As pedras do poder agora seriam apenas lendas, como o grande mago Merlin. Seus homens ou estavam mortos ou o haviam abandonado.

— Ele perdeu tudo — Elspeth disse a Tarran ao subirem a ribanceira.

— Ele não perdeu nada — Tarran retrucou —, porque nunca teve nada a não ser sonhos de grandeza.

— Então devemos ter pena.

— Desperdicei tempo demais sentindo pena de mim mesmo. Ninguém deveria se afundar em miséria ou querer ser digno de piedade. Aprendi à custa de muito sofrimento que somos os responsáveis por nossos pesadelos. Somos nós que escolhemos se eles persistirão em nos assombrar ou se queremos afastá-los pela força da vontade e do amor.

— Não diga que me ama — Elspeth suplicou.

— Por quê? Você não me ama? — Tarran perguntou com um fio de voz.

— Porque, se me amar, eu o perderei.

— Não pode estar falando sério.

Elspeth fez um movimento afirmativo com a cabeça.

— Quando estive no castelo de lorde de la Rochelle, procurei uma velha maga de nome Rhan em busca de informações sobre llech-lafar e ela disse que eu deveria desistir da busca porque, se insistisse em levar minha missão adiante, perderia tudo que mais amo.

Fez-se longo silêncio até Tarran se pronunciar.

— Você me amava naquele dia?

Elspeth fez um movimento negativo com a cabeça.

— Quem você amava quando ela lhe falou?

— As pessoas que viviam comigo na abadia de São Judas e a rainha Eleanor.

— Então a velha maga estava certa — Tarran murmurou. — Você perderá tudo o que amou no passado se ficar comigo aqui em Cymru. Você quer isso, Elspeth?

A abadia de São Judas, as irmãs, as aulas de artes marciais, a visita da rainha e a tarefa que ela lhe conferiu, tudo passou pela mente de Elspeth, mas ela não hesitou ao responder.

— Quero.

 

 

                                     EPÍLOGO

 

O dia de Páscoa amanheceu esplêndido. As pessoas estavam reunidas em torno das ruínas da catedral de Tyddewi para assistir à missa. A estação das chuvas havia passado e a celebração seria feita ao ar livre. A alegria estava presente em cada voz que se erguia pelos ares como em breve se ergueriam as novas paredes da catedral de São David.

Todas as vozes calaram, porém, à chegada de um grupo de homens que avançava pelas margens do rio Alun. À frente, com as vestes amarrotadas e manchadas de sal, marchava um homem com a postura de quem se revestia de grande poder.

Sentada no bosque entre Tarran e Vala, Elspeth acompanhava cada passo do rei. Ela vinha aguardando por aquele momento desde que recebera a notícia de que os navios reais haviam aportado perto do vilarejo.

Elspeth olhou para Vala e lhe deu um sorriso.

— Agora!

A anciã se levantou e deixou para trás o abrigo das árvores para se dirigir ao rei.

— Acautele-se, grande rei! — ela ergueu os braços. — Pesa sobre ti uma terrível maldição. Acautele-se para não pisar sobre llech-lafar!

O rei Henrique franziu o cenho sob o capuz que lhe cobria parte da cabeça.

— Que insensatez é essa que diz?

— Tenha cuidado! Tenha cuidado com llech-lafar! — Vala insistiu.

Um dos homens se aproximou do rei e cochichou em seu ouvido. Ele riu.

— Não acredito nessas velhas lendas, senhora. Vou lhe provar o que digo.

Uma multidão já havia se reunido no local. Vala tornou a erguer os braços e invocou a maldição.

— Llech-lafar, que as profecias se cumpram nesse momento e que este homem pague com a vida por seu desdém!

O rei não fez caso das palavras de Vala. Subiu na pedra que a mulher lhe indicara, atravessou o pequeno rio e retornou sob olhares e exclamações de estupefação.

Elspeth se levantou e se dirigiu lentamente ao local. Ao pisar sobre o anel de Druce, um fragmento de vidro havia cortado a sola de seu pé. Sem dizer nada, ela se apoiou no braço de Vala.

— Perdão, Majestade. Ela não sabe o que diz na maioria das vezes. Perdoe-a com sua magnanimidade nesse dia de Páscoa.

O rei olhou para Elspeth por um longo momento.

— Eu já a vi antes.

— É possível — Elspeth admitiu e apresentou o bastão que trouxera às costas, apoiando-se sobre ele.

O rei sorriu e ela percebeu que ele havia se lembrado da única visita que fizera à abadia de São Judas em companhia da rainha.

— Parece que encontrei uma aliada em terras onde menos esperava, lady...

— Elspeth.

— Essa arma a ajudou em suas questões?

Elspeth olhou em direção a Tarran. Embora ainda estivesse com a cabeça, um braço e uma perna enfaixados, Tarran era o homem que mais se destacava na multidão. Mais, inclusive, que o rei.

— Ela e ele.

— Quem é esse homem? — O rei quis saber.

Tarran se curvou ao monarca.

— Tarran ap Llyr, filho do príncipe Llyr.

Um burburinho se espalhou à identificação de Tarran com um título que os normandos jamais haviam reconhecido. Todavia, se os comentários chegaram aos ouvidos do rei, ele não deu demonstração.

— Um bom governante sabe se mostrar grato a quem lhe é fiel e ninguém nunca me considerou tolo.

Com essas palavras, o rei se despediu com um meneio e se afastou em direção ao vilarejo. O povo o seguiu como se fizesse parte de seu séquito. Apenas Elspeth, Tarran e Vala permaneceram junto ao rio.

— De que você está rindo? — Tarran perguntou ao som contagiante das risadas de Elspeth.

— Das observações cochichadas que consegui escutar. Estavam dizendo que não acreditam que o rei tenha conquistado realmente a Irlanda ou a maldição teria se cumprido.

— Entendo. O povo galês não desiste tão fácil das crenças que lhe são transmitidas pelos antepassados. — Tarran fez uma mesura. — Obrigado, Vala, pela ajuda. Ninguém nunca mais questionará a legitimidade dessa pedra nem empreenderá buscas na esperança de encontrá-la em outras paragens.

Vala sorriu e beijou-os antes de voltar para a casa da neta. Elspeth e Tarran deram-se as mãos e começaram a caminhar pela margem do rio, onde flores estavam surgindo por entre a vegetação em sinal de que a primavera se aproximava.

Tarran se deteve algum tempo depois, olhou para Elspeth e beijou suas mãos.

— Eu desisto.

— Você desiste? De quê? — ela perguntou, sem entender.

— Desisto de tentar protegê-la, Elspeth Braybrooke. Eu me convenci não apenas de que você é perfeitamente capaz de cuidar de si mesma como também de que é arriscado demais tentar desafiá-la em seus propósitos. Cheguei definitivamente a essa conclusão em St. Govan's Head.

— Demorou muito. Eu já o havia alertado a esse respeito em ocasiões anteriores.

— Eu sei — Tarran concordou e encostou sua fronte à dela. — Lamento informar que deve ficar prevenida de que, apesar de todos os avisos, algo me diz que ainda terei algumas recaídas.

Elspeth riu.

— O tempo se encarregará de convencê-lo do contrário.

— Tive um sonho esta noite — Tarran confessou.

— Um sonho bom?

— Um sonho sobre minha vida no futuro.

— Uma vida boa?

— Uma vida boa, mas nada simples. Porque nada com você é simples — Tarran gracejou. — Para que tenha uma noção do que a espera ao meu lado, digo que respeitarei seu modo de proceder e que tentarei não interferir em suas decisões, a menos que me peça ajuda.

— O que mais você me promete? — Elspeth perguntou com o coração ansioso.

— Amar você por toda minha vida.

Os olhos verdes mergulharam nos olhos escuros que brilhavam de paixão.

— E dedicarei todos os meus dias a retribuir esse amor, príncipe Tarran ap Llyr. Mas tenho uma pergunta a lhe fazer.

— Qual pergunta?

— O que faremos se ambos precisarmos de ajuda?

— Nessa hipótese, creio que teremos de defender um ao outro e que você terá de admitir que unidos sempre seremos mais fortes.

— Mais fortes e mais felizes.

— Até o fim de nossos dias?

Elspeth respondeu com um beijo que foi mais eloqüente que qualquer palavra.

 

                                                                                Jocelyn Kelley  

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"