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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A LENDA ULENSPIEGEL / Charles de Coster
A LENDA ULENSPIEGEL / Charles de Coster

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

EM Damme, na Flandres, quando Maio abria as flores nos espinheiros, nasceu Ulenspiegel, filho de Claes.

Uma parteira chamada Katheline embrulhou-o em panos quentes, e depois de lhe ter observado a cabeça, apontou para o couro cabeludo:

- É peludo. Nasceu sob a influência de uma boa estrela- disse ela, bem disposta.

Todavia, daí a pouco lastimava-se, indicando um pequeno ponto preto no ombro da criança:

- Infelicidade! - exclamou. - É a marca negra do dedo do diabo.

- Será que Satanás - replicou Claes - se levanta assim tão cedo para já ter tido tempo de marcar o meu filho?

- Não se deitou - respondeu Katheline - e repara que Chanteclair está sozinha a acordar as galinhas.

E saiu, colocando a criança nas mãos de Claes.

A aurora rompeu então a bruma nocturna, as andorinhas rasaram, piando, as planuras e o Sol púrpura mostrou a radiosa face no horizonte.

Claes abriu a janela ao mesmo tempo que conversava com o bebé Ulenspiegel:

- Filho peludo - disse - eis o senhor Sol que vem saudar a terra da Flandres. Olha para ele, quando puderes, e se mais tarde fores tolhido por qualquer dúvida, e desconheceres o que deves fazer para bem agir, pede-lhe um conselho; ele é claro e quente: sê tão sincero como ele é claro, e bom como ele é quente.

- Claes, meu marido - disse Soetkin - estás a pregar a um surdo; vem comer, meu filho.

E ofereceu ao recém-nascido o seu belo seio.

Enquanto Ulenspiegel mamava, todas as aves dos campos acordaram. Claes, que atava a lenha, olhava para a mulher, vendo-a dar o peito a Ulenspiegel.

- Mulher - disse - fizeste provisão desse leite tão bom?

- Os seios estão cheios - respondeu ela - mas não tanto que me satisfaçam.

- Falas de uma tão grande hora com bastante devoção.

- Calculo - acrescentou ela - que não haja uma só moeda no saco pendurado na parede.

Claes pegou no saco, e embora o sacudisse com força, não se ouviu o tilintar de quaisquer moedas. Ficou embaraçado. Querendo todavia reconfortar a companheira, disse-lhe:

- Para que te preocupas? Não temos nós na arca do pão

o bolo que Katheline nos ofereceu ontem? Não vejo eu ali um bom bocado de carne que te proporcionará leite para a criança durante pelo menos três dias? Será este saco de favas tão bem arrumado uma profecia de fome? É algum fantasma esta barrica de manteiga? São espectros, estas etiquetas e estes frascos com maçãs, tão militarmente colocados no celeiro, em onze filas? Não é indício de bebida fresca este grande tonel de "cuyte" de Burgos, que guarda no seu bojo o nosso refrescamento?

- Quando levarmos a criança a baptizar - interrompeu Soetkin - necessitamos de dois dinheiros para o padre e de um florim para a festa.

Nesta altura entrou Katheline que disse:

- Ofereço ao bebé peludo a medalha, que defende o homem da luxúria, e o funcho, que afasta Satanás...

- Não tens a erva que chama os florins? - perguntou Claes.

- Não - respondeu ela.

- Então vou tentar apanhar qualquer coisa no canal.

Saiu, levando a linha e a rede, na certeza de que não encontraria ninguém pois ainda faltava uma hora para o "oosterzon" que é, na Flandres, o Sol das seis horas.

 

 

 

 

 

 

Claes foi para o canal de Burgos, não muito longe do mar. Ali chegado, colocou o isco na linha, lançou-a à água, e deixou cair a rede. Do outro lado do canal estava um rapazinho bem vestido que, deitado no chão, dormia profundamente.

Acordou com o barulho provocado por Claes, e quis fugir, temendo tratar-se de um sargento da comuna que viesse desalojá-lo do seu improvisado leito e levá-lo para o Steen, como vagabundo.

Deixou de ter medo, porém, quando reconheceu Claes, que lhe gritava:

- Queres ganhar seis liardes? (1) Enxota o peixe para aqui. O rapazinho, perante a proposta, entrou na água, e munindo-se de uma pequena cana, começou a enxotar o peixe na direcção de Claes.

Quando a pescaria terminou, Claes recolheu a rede e a linha, e caminhando sobre a comporta, foi até junto do garoto, a quem disse:

- Tu és aquele a quem chamam Lamme pelo baptismo e Goedzak por causa do teu carácter afável, e que vives na Rua da Garça Real, por trás da igreja de Nossa Senhora. Porque é que sendo tu tão novo e estando tão bem vestido, precisas de dormir num leito público?

- Ai de mim, senhor carvoeiro - respondeu o rapaz. - Tenho lá em casa uma irmã um ano mais nova do que eu que me sova com muita força à mais pequena discussão. Mas eu não tento retribuir-lhe, porque a magoaria, senhor. Ontem à ceia senti muita fome, e comi todo o prato de favas e carne de vaca, do qual ela pretendia ter a sua parte. Garanto-lhe, senhor, o que estava no prato não chegava para mim. Quando ela me viu a lamber os lábios, porque o molho estava muito bom, ficou furiosa e deu-me tantas bofetadas que deixou-me todo magoado, e fugi de casa.

 

* (1) Liarde: antiga moeda de cobre francesa equivalente a um

quarto de soldo.

 

Claes perguntou-lhe o que tinham feito o pai e a mãe enquanto ela o espancava. Lamme Goedzak respondeu:

- Meu pai sacudia-me um ombro, e a minha mãe o outro, e ambos diziam-me: “Vinga-te, cobarde.” Mas eu, como não queria bater numa rapariga, fugi.

De súbito Lamme empalideceu, e começou a tremer dos pés à cabeça. Claes viu aproximar-se uma mulher alta e forte, e com ela uma rapariga magra, de expressão carrancuda.

- Ai! - exclamou Lamme, agarrando-se às roupas de Claes - a minha mãe e a minha irmã vêm buscar-me. Proteja-me, senhor carvoeiro.

- Fica com estes sete liardes como recompensa pelo teu trabalho, e vamos ao encontro delas sem medo - respondeu Claes.

Quando as duas mulheres viram Lamme, correram para ele com a intenção de lhe bater - a mãe, porque tinha estado preocupada; a irmã, porque tinha esse costume.

Lamme escondeu-se atrás de Claes, gritando:

- Ganhei sete liardes, ganhei sete liardes, não me batam! Mas a mãe agarrava-o já, enquanto a irmã tentava

abrir-lhe as mãos, para lhe tirar o dinheiro. Lamme gritava:

- É meu. nunca o conseguirás!

E fechava as mãos. Claes puxou então com força as orelhas à garota, dizendo-lhe:

- Se voltas a discutir com teu irmão, que é bom e brando como um cordeiro, meto-te num buraco tão escuro como breu, onde não serei eu quem te puxará as orelhas, mas o diabo vermelho do inferno, que te fará em bocados com as suas grandes garras e dentes, que são como forquilhas.

A rapariga, já sem coragem para olhar Claes ou para aproximar-se de Lamme, foi refugiar-se entre as saias da mãe. Contudo, ao entrar na cidade, pôs-se a gritar:

- O carvoeiro bateu-me; tem o diabo na cave! Apesar de nunca mais ter batido em Lamme, fazia-o trabalhar por ela. O palerma não se importava. Claes vendera o peixe no caminho, a um lavrador que lho costumava comprar. Ao chegar a casa, disse a Soetkin:

- Olha o que ganhei com quatro solhas, nove carpas e um cesto cheio de enguias.

E deitou para cima da mesa dois florins e uma moeda de dois dinheiros.

- Porque não vais todos os dias à pesca, homem? - perguntou Soetkin. Ao que Claes respondeu:

- Para não cair eu mesmo como um peixe nas redes dos agentes da comuna.

 

Em Damme chamavam ao pai de Ulenspiegel Claes o "Kooldraeger", ou carvoeiro. Claes tinha o cabelo preto, os olhos brilhantes, pele da cor da sua mercadoria, excepto aos domingos e aos dias santos, datas em que havia abundância de sabão na sua cabana. Era baixo, quadrado, forte, e tinha uma cara alegre.

Se ao fim do dia, uma vez caída a noite, ia a uma taberna na estrada de Burgos para com "cuyte" lavar a garganta preta de carvão, as mulheres que apanhavam o fresco à soleira da porta diziam-lhe amistosamente:

- Boa noite e cerveja lúcida, carvoeiro.

- Boa noite e um marido que te proteja - respondia Claes.

As raparigas que vinham por grupos do campo barravam-lhe o caminho, dizendo:

- Que pagas pelo teu direito de passagem? Uma bijuteria vermelha, brincos de ouro, sapatos de veludo ou um florim para a bolsa?

Claes, porém, agarrando uma delas pela cintura beijava-a no rosto ou no pescoço, conforme a sua boca estava mais próxima da fresca carne; depois, dizia-lhes:

- Peçam, pequenas, peçam o resto aos vossos namorados. E elas iam-se embora a rir.

As crianças reconheciam Claes pela sua voz grossa e pelo barulho dos sapatos. Correndo para ele, diziam-lhe:

- Boa noite, carvoeiro.

- Deus vos dê boa noite, meus anjos - dizia Claes - mas não se aproximem, porque ficam negros.

Os pequenos, atrevidos, aproximavam-se. Então ele pegava num pelo gibão, e esfregava-lhe a mão na cara, o que alegrara o miúdo e os outros.

Soetkin, a mulher de Claes, era uma boa criatura, madrugadora como a aurora e diligente como a formiga.

Ela e Claes trabalhavam juntos no campo, e atrelavam-se como bois à charrua. Se puxar era penoso, mais penoso ainda era abrir as valas da sementeira, quando era preciso enterrar os dentes de madeira do engenho campestre na terra dura. Faziam-no, porém, com o coração alegre, cantando uma balada.

E por mais dura que fosse a terra, em vão o Sol fazia incidir sobre eles os seus mais quentes raios. E era em vão, também, que ao puxar a grade os joelhos se dobravam, pois os rins faziam dolorosos esforços. Mas se paravam, Soetkin voltava para Claes o terno rosto, Claes beijava este espelho de alma tão doce, e esqueciam todo o cansaço.

 

Na véspera, tinha sido apregoado nas arcadas da câmara que estando a mulher do imperador Carlos grávida, era preciso orar pelo bom êxito do parto que estava próximo.

Katheline entrou em casa de Claes muito excitada:

- O que é que te aconteceu, comadre? - perguntou o bom homem.

- Ai de mim! - respondeu ela, com a fala entrecortada. - Esta noite, espectros ceifam homens como os trabalhadores cortam a erva. Meninas enterradas vivas! Sobre os corpos dançava o carrasco. Pedra de sangue suando há nove meses, partida esta noite.

- Tende piedade de nós - gemeu Soetkin - tende piedade, Senhor Deus. Negro é o presságio para a terra da Flandres.

- Viste isso com os teus olhos ou sonhaste? - perguntou Claes.

- Com os meus olhos - respondeu Katheline, que muito pálida e a chorar, ia dizendo:

- Nasceram duas crianças: uma na Espanha - é o infante Filipe - e a outra na Flandres - é o filho de Claes, que receberá mais tarde o nome de Ulenspiegel. Filipe será um carrasco, por ter sido gerado por Carlos V, assassino do nosso país. Ulenspiegel será grande doutor em ditos alegres e brincadeiras da juventude, mas terá o coração bom por ter como pai Claes, o trabalhador que sabe com toda a bravura, honestidade e simpatia, ganhar o seu pão.

“Carlos, imperador, e Filipe, rei, caminharão pela vida espalhando o mal com batalhas, extorsões e outros crimes.

Trabalhando toda a semana, vivendo segundo o direito e a lei, e rindo em vez de chorar dos seus trabalhos tão duros, Claes será o modelo dos trabalhadores da Flandres. Ulenspiegel, sempre jovem e sem nunca morrer, correrá pelo mundo sem fixar-se em qualquer lugar. E será camponês, nobre, pintor, escultor, tudo ao mesmo tempo. Passeará pelo mundo a louvar as coisas belas e boas e rindo-se com franqueza das tolices.

“Claes é a tua coragem, nobre povo da Flandres; Soetkin, é a tua mãe corajosa, e Ulenspiegel o teu espírito; uma rapariga pequenina e gentil, companheira de Ulenspiegel e como ele imortal, será o teu coração, e uma barriga grande, Lamme Goedzak, será o teu estômago. Por cima estarão os que'comem o povo, e em baixo as suas vítimas. Por cima os zangãos ladrões, em baixo, as abelhas laboriosas. E no céu, as chagas de Cristo hão-de sangrar.”

Tendo dito isto, Katheline, a boa feiticeira, adormeceu.

 

Levaram Ulenspiegel a baptizar; de súbito, caiu um aguaceiro que o molhou bem. Foi assim baptizado pela primeira vez.

Quando entrou na igreja, foi dito pelo maceiro "school-meester", mestre escola, ao padrinho e à madrinha, ao pai e à mãe, que deviam colocar-se em volta da pia baptismal, o que eles fizeram.

Mas na cúpula, por cima da pia baptismal, uma abertura estava a ser feita por um pedreiro, destinada a suspender uma lamparina em forma de estrela dourada. O pedreiro, ao ver lá do alto o padrinho e a madrinha em volta da pia baptismal coberta com a tampa, verteu pelo buraco da cúpula a água de uma selha, e a água, que caiu sobre uma tampa da pia baptismal tudo salpicou. Ulenspiegel apanhou com a maior parte. E assim foi baptizado pela segunda vez. O deão apareceu. Queixaram-se-lhe, mas ele ordenou-lhes que se apressassem e acrescentou que aquilo fora apenas um acidente. Ulenspiegel estava muito agitado por causa da água que lhe tinha caído em cima. O deão lavou-o com o sal e com a água, e chamou-lhe Thylbert, que quer dizer “rico em movimentos”. Foi assim baptizado pela terceira vez.

Ao saírem da igreja de Nossa Senhora, entraram no “Rosário das Garrafas”, que ficava na rua principal, mesmo em frente da igreja, onde o credo era um tonel. Beberam dezassete medidas de "dobbel kuyt" ou mais. Porque essa é a verdadeira forma de as pessoas que estão molhadas se secarem na Flândria: acender uma autêntica fogueira na barriga com cerveja. Ulenspiegel foi assim baptizado pela quarta vez.

Ao voltar a casa ziguezagueando pelo caminho, com a cabeça mais pesada do que o corpo, chegaram a uma espécie de ponte colocada sobre um pequeno charco. Katheline, a madrinha, levava a criança: deu um passo em falso, e caiu com Ulenspiegel na lama, que assim foi baptizado pela quinta vez.

Tiraram-no da água, mas com água quente o lavaram em casa de Claes - e este foi o sexto baptismo.

 

Nesse dia, Sua Majestade, Carlos, resolveu celebrar com grandes festas o nascimento do filho.

Tal como Claes, resolvera ir à pesca, não num canal, mas nas algibeiras e nas bolsas do povo. É delas que as linhas soberanas pescam cruzados, "dealders" de prata, leões de ouro, e todos esses peixes maravilhosos transformam-se, segundo a vontade do pescador, em fatos de veludo, jóias preciosas, vinhos raros e finos alimentos, porque os-rios onde há peixes não são aqueles onde há mais água.

Tendo reunido os elementos do seu conselho, Sua Majestade resolveu que a “pesca” se fizesse da seguinte forma: o Infante seria levado a baptizar pelas nove ou dez horas; os habitantes de Valladolid, para mostrarem a sua grande alegria, celebrariam à sua custa bodas e festins durante toda a noite, e deixariam na Praça Grande dinheiro para os pobres.

Haveria em cinco encruzilhadas uma grande fonte de onde jorraria com abundância e até ao amanhecer bom vinho pago pela cidade. Noutras cinco encruzilhadas, seriam alinhados, em bancas de madeira, paios, salsichões, chouriços, língua de vaca e outras carnes, também à custa da cidade.

Os habitantes de Valladolid colocariam, a expensas suas, no trajecto do cortejo, arcos de triunfo representando a Paz, a Felicidade, a Abundância, a Fortuna propícia, com referências a todos e mais alguns dos dons celestes de que tinham gozado no reinado de Sua Majestade.

Finalmente, além destes pacíficos arcos apareceriam outros pintados de cores vivas, com atributos menos benignos, tais como águias, leões, lanças, alabardas, chuços de brilhante lâmina, arcabuzes, canhões, falconetes, animais de boca escancarada e outros símbolos que figuravam a força e o poder bélicos de Sua Majestade.

Quanto à iluminação da igreja, a "gilde"1 dos cerieiros era autorizada a fabricar grátis mais de vinte mil velas, cujos cotos não consumidos seriam propriedade do Capítulo da Sé.

As outras despesas seriam suportadas pelo imperador, que mostrava assim estar cheio de boa vontade para não sobrecarregar os seus súbditos.

Quando a comuna ia executar estas ordens chegaram de Roma lamentáveis notícias. Orange, Alençon e Frundsberg, comandantes do imperador, tinham entrado na cidade santa, haviam saqueado e pilhado as igrejas, as capelas e as casas a ninguém poupando - padres, freiras, mulheres e crianças. O Santo Padre tinha sido feito prisioneiro. Durante uma semana não cessou a pilhagem e "reiters" (2) e "landsknechts" (3) vaguearam por Roma, empanzinados, embriagados, brandindo as armas e procurando os cardeais, a quem prometiam maus tratos suficientes para que nunca pudessem chegar a papas. Outros, tendo já concretizado esta ameaça, passeavam orgulhosamente pela cidade, ostentando no peito rosários de vinte e oito contas ou mais, semelhantes a nozes e todas ensanguentadas.

 

*(1) Grémio, corporação.

(2) Cavaleiros.

(3) Lansquenetes.

 

Algumas ruas pareciam riachos vermelhos, onde jaziam, espoliados, os cadáveres dos mortos.

Afirmava-se que o imperador, precisando de dinheiro, tinha desejado “pescar” à custa do sangue eclesiástico, e que havia tomado conhecimento do ultimato imposto pelos seus comandantes ao pontífice prisioneiro, a quem forçou a ceder todas as praças fortes dos seus Estados, a pagar 400000 ducados e a ficar na prisão até que tudo fosse executado.

Todavia, a dor de Sua Majestade era grande, pelo que mandou suspender todos os preparativos para as manifestações de alegria, de festa e de júbilo, e ordenou aos cavalheiros e damas da sua corte para vestirem de luto. E a criança foi baptizada com vestes brancas, precisamente as de luto real.

O que os senhores e as damas interpretaram como presságio sinistro.

Não obstante, a ama apresentou o infante aos cavalheiros e às damas da corte, para que estes, segundo o costume, lhe fizessem os seus votos e as suas dádivas.

A senhora de La Coena pôs-lhe ao pescoço uma pedra preta contra o veneno, com a forma e o tamanho de uma avelã dourada. A senhora de Chauffade colocou-lhe sobre o estômago, presa por um fio, uma avelã que assegurava uma boa digestão dos alimentos; o senhor Van der Steen, da Flandres, ofereceu-lhe um salsichão de Gante, com cinco côvados de comprimento e meio côvado de grossura, desejando humildemente a Sua Alteza que só o cheiro lhe fizesse sentir sede pela "clauwaert" à moda de Gand, acrescentando que quem quer que goste de cerveja de uma cidade, não pode odiar os cervejeiros.

O escudeiro Juan-Cristovan de Castela pediu ao senhor Infante para trazer nos seus pequeninos pés jaspe verde, a fim de correr bem. Jan de Paepe, o louco, que estava presente, afirmou:

- Senhor, dai-lhe antes a trompa de Josué, à frente de cujo som todas as cidades correriam a grande velocidade mantendo ele a sua posição entre todos os habitantes - homens, mulheres e crianças - porque o meu senhor não deve aprender a correr, mas a fazer correr os outros.

A inconsolável viúva de Floris van Borsele, que foi senhor de Veer, na Zelândia, deu ao senhor Filipe uma pedra que segundo afirmava, tornava os homens amorosos e as mulheres inconsoláveis.

Mas o Infante berrava como um cabrito.

Ao mesmo tempo, Claes punha nas mãos do filho uma argola de verga com guizos, e dizia, fazendo dançar Ulenspiegel:

- Guizos, guizos que tilintam, possas tu ter sempre o seu som, homenzinho, pois é aos tolos que pertence o reino do bom tempo. - E Ulenspiegel ria.

 

Tendo Claes pescado um alto salmão, este foi num domingo comido por ele e também por Soetkin, por Katheline e pelo pequeno Ulenspiegel, mas Katheline não comia mais do que um passarinho.

- Comadre - disse-lhes Claes - o ar da Flandres será agora assim tão forte, que respirá-lo seja o suficiente para ficar como se tivesse comido um prato de carne? Quando se viverá assim? As chuvas seriam boas sopas, inchariam as favas, e as neves, transformadas em fricassés celestes, reconfortariam os viajantes pobres.

Katheline abanava a cabeça, mas não dizia uma só palavra.

- Olhem para a comadre, como tem um ar magoado. Que é que a preocupa?

Katheline, falando numa voz que pouco mais era do que um murmúrio, retorquiu:

- O mau vem quando a noite cai negra. Ouço-o anunciando a sua vinda, piando como um xofrango. Horrível, peço à Virgem - em vão. Para ele não há muros, nem sebes, nem portas, nem janelas. Entra em todo o lado como um espírito. A escada a ranger. Ele perto de mim, no celeiro onde durmo. Agarra-me com os braços frios, duros como mármore. O rosto gelado, beijos molhados como a neve. Cabana derrubada, movendo-se como barca no mar tempestuoso...

- Deves ir todas as manhãs à missa para que Jesus te dê força para afastares esse fantasma vindo das profundidades - afirmou Claes.

- É tão belo! - afirmou ela.

 

Uma vez desmamado, Ulenspiegel cresceu como um choupo novo. Claes já não o beijava com tanta frequência, mas amava-o com modos desabridos, para não fazer dele um fraco.

Quando Ulenspiegel chegava a casa queixando-se de que lhe tinham batido numa rixa, Claes castigava-o por não ter batido nos outros, e assim educado, Ulenspiegel torna-se valente como um leãozinho.

Se Claes estava ausente, Ulenspiegel pedia a Soetkin um "liarde" para ir jogar? Esta, zangada, dizia:

- Para que tens necessidade de jogar? Melhor farias aprendendo a fazer atados de lenha.

Vendo que não tinha sorte, Ulenspiegel gritava como uma águia, mas Soetkin aumentava o barulho que fazia com os cadeirões e os pratos que lavava numa selha de madeira, fingindo que não ouvia. Ulenspiegel chorava e a mãe, enternecida, abandonava a sua dureza habitual, ia para junto dele, acariciava-o e dizia:

- Chega-te um dinheiro? - deve salientar-se que um dinheiro valia seis liardes. Amava-o muito, e quando Claes não estava, Ulenspiegel era o rei da casa.

 

Uma manhã Soetkin viu Claes passear pela cozinha de cabeça baixa, absorvido nas suas reflexões.

- Que é que tens, homem? - perguntou ela. - Estás pálido, aborrecido, distraído...

Claes respondeu em voz baixa, como um cão que rosna:

- Vão renovar os cruéis editais do Imperador. A morte vai pairar de novo sobre a terra da Flandres. Os denunciadores terão metade dos bens das vítimas, se os bens não excederem os cem florins carolus(1).

- Somos pobres - disse ela.

- Pobres - respondeu ele - mas não o suficiente.

 

* (1) Antiga moeda de Carlos VIII da França.

 

Há gente vil, abutres e corvos que vivem dos mortos e que nos denunciariam tanto por partilharmos com Sua Majestade um cesto de carvão, como um saco de carolus. Que possuía a pobre Tanneken, viúva de Sis, o alfaiate, que morreu enterrada viva em Heyst. Uma Bíblia latina, três florins de ouro e alguns utensílios domésticos ingleses em estanho, bens que a vizinha cobiçava.

“Johannah Martens foi queimada por feiticeira, depois de ter sido deitada à água, porque o corpo ficara a boiar, e isso foi considerado um sortilégio. Tinha alguns móveis insignificantes, sete carolus em ouro, e o denunciador queria metade. Bem! Poderia estar a falar disto até amanhã, mas convenhamos, comadre, que por causa dos editais, a vida não é viável na Flandres. Não tarda muito para que vejamos passar todas as noites o carro da morte, e então ouviremos os esqueletos a mexerem-se, com aquele barulho seco dos ossos.

Soetkin respondeu:

- Não me metas medo, homem! O Imperador é o pai da Flandres e Brabante, e, como tal, tem os dons da magnanimidade, da brandura, da paciência, e da misericórdia.

- Com isso perderia demais - opôs Claes - porque herda bens confiscados.

Subitamente tocaram as trompetas e soaram os cimbales do arauto da cidade. Claes e Soetkin, levando Ulenspiegel ao colo, juntaram-se à multidão.

Dirigiram-se para a Casa da Comuna, em frente da qual, e a cavalo, estavam os arautos que tocavam as trombetas e faziam soar os cimbales, o preboste com o símbolo da justiça e o procurador da comuna, que ostentava uma ordem do Imperador a qual preparava-se para ler à multidão ali encontrada.

Claes ficou a saber que voltava a ser proibido a todos, em geral e em particular, “imprimir, ler, possuir ou guardar os escritos, livros ou doutrina de Martinho Lutero, Joannes Wyclif, Joannes Hus, Marcílio de Pádua, Ecolampadius, Ulrich Zwyngli, Filipe Melanchton, Franciscus Lambertus, Joannes Pomeranus, Otto Brunselsius, Justus Jonas, Joannes Puperis e Gorcianus, os Novos Testamentos impressos por Adrien de Berghes, Christophe de Remonda e Joannes Zel, cheios de heresias luteranas e outras, reprovadas e condenadas pela Faculdade de Teologia da Universidade de Lovaina”.

“Nem de igual modo pintar, reproduzir ou mandar pintar ou reproduzir pinturas ou figuras injuriosas para Deus, para a bem-aventurada Virgem Maria e para os santos - acrescentava a comunicação - rasgar, partir ou apagar as imagens ou desenhos feitos em honra, lembrança ou recordação de Deus, da Virgem Maria e dos santos aceites pela Igreja.

“Além disso, ninguém deve mencionar ou pôr em causa a santa Escritura, mesmo em matéria que levante dúvidas, se não se for teólogo conhecido e aprovado por uma Universidade famosa.”

Sua Santa Majestade determinava ainda, entre outras penas, que os suspeitos nunca mais poderiam exercer funções públicas. Quanto àqueles que cometessem um erro e se obstinassem nesse mesmo erro, seriam condenados a morrer queimados em fogo lento ou vivo, numa casa de palha, ou atados a um poste, conforme a decisão do juiz. Seriam executados à espada os de ascendência nobre ou membros da alta burguesia, os camponeses subiriam à forca e as mulheres seriam guilhotinadas. As suas cabeças, como exemplo, deviam ser colocadas em estacas.

Os bens de todos aqueles cujas propriedades fossem sujeitas à confiscação, revertiam em favor do Imperador.

Sua Majestade concedia a todos os denunciadores a metade do que os condenados possuíam, caso os bens não atingissem as cem libras, em dinheiro da Flandres. Quanto à parte do Imperador, seria utilizada em obras pias e de misericórdia, como tinha feito com o saque de Roma.

Claes afastou-se tristemente com Soetkin e Ulenspiegel.

 

Como o ano tinha sido bom, Claes comprou um burro por sete florins e nove medidas de ervilha, e uma manhã montou o animal. Ulenspiegel seguia na garupa, atrás dele. Iam assim apresentar cumprimentos ao tio e irmão mais velho, Josse Claes, que vivia nas proximidades de Meyborg, na Alemanha.

Josse, que na juventude fora simples e afável, tendo sofrido diversas injustiças, tornou-se um homem caprichoso ; o seu sangue transformou-se em bílis preta, passou a odiar os homens e vivia sozinho.

O seu prazer era ver envolverem-se em desordem os seus dois fiéis amigos, passe o termo. Atirava depois três moedas de dois dinheiros àquele que mais duramente tivesse espancado o outro.

Gostava também de reunir, numa sala bem aquecida, muitas mulheres velhas e rabugentas, a quem oferecia pão torrado, e, para beber, hipocraz. Às que tinham mais de sessenta anos, dava lã, a qual tricotavam sentadas a um canto. Recomendava-lhes sempre para deixarem crescer as unhas. E era uma maravilha ouvir apenas o gargarejo das línguas, a má tagarelice, a tosse e a expectoração acre dessas velhas maldizentes, que manipulando as agulhas denegriam em conjunto a honra do próximo.

Quando as via mais animadas, Josse lançava para o lume algum desperdício, cuja combustão empestava o ar.

As mulheres falando todas ao mesmo tempo, acusavam-se umas às outras de serem a causa do mau cheiro. Ao refutarem a acusação estavam daí a pouco agarradas umas às outras pelos cabelos, e Josse deitava ainda mais desperdícios para o lume, e espalhava pelo chão crina cortada. Quando já nada se conseguia ver, tal era a confusão com o fumo espesso e a poeira levantada, ia buscar dois criados disfarçados de sargentos da comuna, os quais obrigavam as velhas a sair da sala à chibatada, qual bando de gansos furiosos.

E Josse, olhando para o campo de batalha, via por todo o lado farrapos de saias, sapatos, camisas e dentes velhos. Exclamava então, com ar melancólico:

- O meu dia está perdido, nenhuma delas perdeu a língua no meio desta confusão.

 

Um dia, Claes atravessava um bosque nos arredores de Meyborg. O burro, pelo caminho, ia comendo cardos; Ulenspiegel atirava o boné às borboletas e recolhia-o sem sair da garupa do animal, Claes comia um bocado de pão, sonhava que o iria regar na taberna mais próxima. Ouvia ao longe soar um sino e o barulho de multidão falando ao mesmo tempo.

- É uma peregrinação - disse - e os senhores peregrinos são muitos, sem dúvida. Agarra-te bem ao burro meu filho, para que te não deitem ao chão. Vamos ver o que se passa. Adiante burro, a trote rápido.

E o asno começou a correr.

Deixando a orla do bosque, desceram para uma planície limitada por um rio a ocidente, enquanto para oriente se erguia uma pequena capela sobre cuja empena se via a imagem de Nossa Senhora tendo a seus pés duas figuras, cada uma delas representando um touro. Nos degraus da capela um eremita tocava a sineta, cinquenta espadachins empunhavam velas acesas, viam-se tamborileiros e tocadores de clarins, pífaros, gaitas e gaitas de foles, além de um grupo de folgazões que seguravam com ambas as mãos caixas de ferro cheias de ferragens ocas. Mas nesse momento estava tudo em silêncio.

Cinco mil peregrinos, ou talvez mais, caminhavam em filas cerradas de sete pessoas, com capacetes e empunhando bastões verdes em madeira. Se chegavam outros encapuçados e armados de forma semelhante, alinhavam-se com grande tumulto na cauda do cortejo. Passando sucessivamente em grupos de sete diante da capela, esperavam que os paus fossem benzidos, recebendo cada um deles das mãos dos espadachins uma vela pela qual pagavam meio florim ao eremita.

E a procissão era tão comprida que as velas dos primeiros quase já não tinham mecha enquanto as dos últimos mal podiam arder, devido ao excesso de cera.

Claes, Ulenspiegel e o burro, estupefactos, viram assim caminhar diante deles uma grande variedade de barrigas, grandes, altas, compridas, pontiagudas, altivas, firmes ou caindo pesadamente sobre os seus suportes naturais. E todos os peregrinos tinham a cabeça coberta.

Havia capacetes de Tróia, semelhantes a barretes frígios (1), ou com penachos de crina vermelha. Alguns peregrinos apesar de bochechudos e obesos traziam barretes com asas abertas, embora não tivessem qualquer intenção de levantar voo. Havia ainda os que tinham bonés enfeitados com a erva que por ser pouco verde era desprezada pelos caracóis.

Mas a maior parte usava capacetes tão velhos e ferrugentos que pareciam vir do tempo de Gambrivius, rei da Flandres e da cerveja, que viveu novecentos anos antes de Cristo e se cobria com uma medida para não se privar de beber por falta de vasilha.

De súbito ouviu-se tilintar, gemer, soar, bater, guinchar, retinir. Eram as gaitas de foles, as gaitas simples, tambores e os ferros.

Perante a amálgama de sons, que foi um sinal para os peregrinos, estes voltaram-se e ficaram frente a frente, em grupos de sete, assumindo uma atitude de provocação, com a vela acesa diante do rosto, o que os obrigava a espirrar com frequência. Agrediam-se ao pontapé, à cabeçada, com o calcanhar - de qualquer forma. Alguns arremessavam-se como cabritos contra os adversários, o capacete para a frente, enterravam-no até aos ombros, e cegos, iam abater-se sobre um grupo de furiosos peregrinos, por quem eram recebidos sem qualquer doçura.

Outros, cobardes e choramingas, lamentavam-se das agressões sofridas, mas enquanto murmuravam Padre-Nossos, caíam sobre eles, rápidos como o raio, dois grupos de sete peregrinos, deitando por terra os pobres choramingas, a quem pisavam sem misericórdia. E o eremita ria.

 

* (1) Simbólicos da República francesa.

 

Outros grupos de sete, amontoados como as uvas num cacho, rebolavam da plataforma até ao rio, onde voltavam a agredir-se, dando vazão à sua fúria. E o eremita ria.

Os que tinham ficado na plataforma esmurravam-se nos olhos, rangiam os dentes, arrancavam cabelos, rasgavam o gibão e os calções.

E o eremita, sempre a rir, gritava-lhes:

- Coragem, amigos, quem melhor bate é quem melhor ama. Para os que mais batem os amores das suas belas! Nossa Senhora de Rindbisbels, aqui se vê quem são os homens!

E os peregrinos redobravam de ardor. Claes tinha-se entretanto aproximado do eremita, enquanto Ulenspiegel, rindo e gritando, aplaudia.

- Meu pai - dizia - que crime cometeram estes pobres homens, para se baterem tão cruelmente?

Mas o eremita, ouvindo, gritou:

- Mandriões! Perdem a coragem! Se os punhos são moles, como serão os pés? Viva Deus! Há alguns entre vós que só têm pernas para fugir como lebres! Que faz saltar a faísca da pedra? - O ferro que bate. Que anima a virilidade dos velhos? Não é uma boa quantidade de murros bem aplicados por um macho furioso?

Assim os peregrinos continuavam a agredir-se com os capacetes, com as mãos e com os pés. Era uma confusão tal que até o próprio Argus, com os seus cem olhos, pouco mais conseguiria ver do que a poeira levantada e alguns capacetes.

Repentinamente, o eremita tocou a sineta. Pífaros, tambores, trombetas, gaitas de foles, gaitas simples e ferros, ouviram-se. E foi esse o sinal de paz.

Os peregrinos recolheram os feridos. Entre estes, podia distinguir-se línguas inchadas pela cólera que saíam das bocas dos combatentes. Mas voltaram a recolher sozinhas, ao céu da boca já acostumado a essas situações. O mais difícil foi tirar os capacetes que ficaram enterrados até ao pescoço, cujos donos sacudiam a cabeça sem os conseguirem fazer cair. Então, o eremita ordenou-lhes:

- Rezem todos uma Ave-Maria e voltem para junto das vossas mulheres. Daqui a nove meses haverá nas vizinhanças tantas crianças quantos foram os valentes campeões desta batalha.

E cantou a Ave-Maria, que todos acompanharam, enquanto o sino tocava. O eremita deu-lhes depois a bênção em nome de Nossa Senhora de Rindbisbels, e disse-lhes:

- Ide em paz!

Foram-se embora gritando, acotovelando-se e cantando até que chegaram a Meyborg. Todas as mulheres, velhas, e novas esperavam-nos às soleiras das portas, por onde entraram como soldados veteranos numa cidade tomada de assalto.

Os sinos de Meyborg repicavam: os rapazinhos assobiavam, gritavam, jogavam ao "rockel-pot".

Os copinhos, os copos, os vasos, as vasilhas e as medidas de meio litro tilintavam maravilhosamente. E o vinho corria em abundância pelas gargantas.

Durante o repicar dos sinos e enquanto as rajadas de vento traziam da cidade o canto dos homens, das mulheres e das crianças, Claes conversava com o eremita, a quem perguntou qual era a graça celeste que os homens pretendiam com tão rude exercício.

O eremita respondeu-lhe, sorrindo:

- Podes ver duas figuras esculpidas naquela capela, representando dois touros. Foram ali colocadas para recordar o milagre que São Martinho operou ao transformar dois bois em touros, fazendo-os lutar à marrada um com o outro. Depois passou-lhes pelo pêlo, durante uma hora ou mais, uma vela e madeira verde. Conhecendo o milagre, e munido de um mandato de Sua Santidade, o qual paguei por bom preço, vim instalar-me aqui.

“A partir de então, todos os velhos barrigudos e com catarro de Meyborg e das regiões vizinhas, influenciados por mim, ficaram com a certeza de que, depois de se terem batido com a vela, que é a unção, e com o pau, que é a força, receberiam os favores de Nossa Senhora. As mulheres mandam aqui os velhos maridos. As crianças que nascem por graça da peregrinação são violentas, ousadas, ágeis, e são soldados perfeitos.

E mudando de tom, o eremita disse a Claes:

- Não me reconheces?

- Sim - respondeu Claes - és o meu irmão Josse.

- É verdade - retorquiu o eremita - mas quem é este rapaz que me faz caretas?

- É o teu sobrinho - respondeu Claes.

- Que diferença vês entre mim e o Imperador Carlos?

- É grande - respondeu Claes.

- É pequena - retorquiu Josse - porque ambos dominamos os homens, ele fazendo-os matarem-se uns aos outros e eu proporcionando-lhes uma luta recíproca. E isto para nosso proveito e prazer.

Josse, conduziu-os então para o seu ermitério, onde se dedicaram celebrações e festins, sem tréguas, durante onze dias.

 

Ao deixar o irmão, Claes montou no burro, levando Ulenspiegel na garupa. Passou pela praça grande de Meyborg, onde estavam reunidos muitos peregrinos que ao vê-lo ficaram furiosos, e brandindo varapaus, começaram a gritar “Velhaco”, porque Ulenspiegel, abrindo os calções, arregaçara a camisa e fazia gestos obscenos.

Ao verificar que era o filho quem eles ameaçavam, Claes disse-lhe:

- Que estás a fazer, para eles estarem assim contra ti?

- Meu querido pai - respondeu Ulenspiegel - estou sentado no burro, sem dizer nada a ninguém, e no entanto dizem que sou velhaco.

Claes sentou-o à frente. Nesta posição, Ulenspiegel deitou a língua de fora aos peregrinos, os quais, vociferando e mostrando-lhe o punho cerrado, brandiram os varapaus para baterem em Claes e no burro.

Mas Claes esporeou o burro para fugir àquela fúria, e enquanto os perseguidores perdiam o fôlego, disse ao filho:

- Nasceste realmente num dia pouco afortunado, porque sentado à minha frente, sem fazer mal a ninguém, houve logo quem te quisesse desancar.

Ulenspiegel ria-se.

Ao passar por Liége, Claes soube que havia fome na área, e que os pobres habitantes estavam agora sob a jurisdição oficiosa, tribunal composto por juízes eclesiásticos. Haviam-se amotinado, exigindo pão e juízes leigos. Alguns tinham sido decapitados ou enforcados, e os outros expulsos da região, tão grande era, então, a clemência do senhor de La Marck, o afável Arcebispo.

Pelo caminho, Claes encontrou muitos dos que haviam sido expulsos, que fugiam do pequeno vale de Liège. Nas árvores, perto da cidade, viu os corpos dos homens enforcados por manifestarem a sua fome. E chorou por eles.

 

Quando, montado no burro, Claes regressou a casa com um saco cheio de moedas de dois dinheiros que o seu irmão Josse lhe tinha dado, e com uma bela taça em estanho inglês, havia na estufa manjares dominicais e os pratos de todos os dias - comiam sempre carne e favas.

Claes encheu muitas vezes a taça de estanho inglês com "dobbel-kuyt" e voltou a esvaziá-la.

Ulenspiegel comeu por três, e remexia os pratos como o pardal em monte de trigo.

- Se não temos cuidado - disse Claes - até é capaz de comer o saleiro.

Ulenspiegel respondeu:

- Quando o saleiro é feito com um bocado de pão escavado como em nossa casa, é preciso comê-lo de vez em quando, para que não envelheça e nele não nasçam vermes.

- Para que limpas as mãos engorduradas aos calções? - perguntou Soetkin.

- É para nunca ter as coxas molhadas - respondeu Ulenspiegel.

Nesta altura, Claes bebeu um grande golo de cerveja, Ulenspiegel interrogou:

- Porque tens uma taça tão grande, e eu um mísero copinho?

- Porque sou o teu pai e o "baes" da refeição. Ulenspiegel insistiu:

- Há quarenta anos que bebes, e eu só bebo há nove. O teu tempo para beber já passou, e o meu começa agora. Dá-me pois a taça, e fica com o copinho.

- Meu filho, crês que quem quisesse deitar num barril o volume de um tonel, arremessaria com a cerveja para o ribeiro?

- Serás pois inteligente se deitares o teu barril no meu tonel, pois sou maior do que a tua taça - retorquiu Ulenspiegel.

E Claes, bem disposto, entregou-lhe a taça para ele esvaziar. E assim Ulenspiegel aprendeu a falar para beber.

 

Soetkin dava indícios de nova maternidade. Katheline também estava grávida, mas com medo, não ousava sair de casa.

Quando Soetkin a ia ver, Katheline lastimava-se:

- Ah! - dizia - que farei do pobre fruto das minhas entranhas? Terei de o asfixiar? Preferia morrer. Se os esbirros me apanham com uma criança sem ser casada, tratar-me-ão como a uma rapariga de vida fácil, fazendo-me pagar vinte florins, além do que serei chicoteada na praça, em público.

Soetkin dizia-lhe algumas palavras de conforto, e quando a deixava, voltava a casa pensativa.

Um dia disse a Claes:

- Se em vez de uma criança tivesse duas, batias-me, marido?

- Não sei - respondeu Claes.

- E se essa segunda criança não tivesse saído de mim e fosse, como a de Katheline, obra de um desconhecido, do diabo, talvez?

- Os diabos - respondeu Claes - geram fogo, morte e fumo, mas não crianças. Aceitarei como meu o filho de Katheline.

- És capaz de fazer isso? - perguntou ela.

- Foi isso que eu disse - retorquiu Claes.

Soetkin foi dar a boa nova a casa de Katheline. E esta, não podendo conter-se, exclamou radiante:

- O bom homem falou, falou para a salvação do meu pobre corpo. Será abençoado por Deus e abençoado pelo diabo, se foi - disse ela, tremendo - um diabo que te criou, pequenino ser que te agitas no meu seio.

Soetkin e Katheline deram à luz, a primeira um rapaz, e a segunda outra rapariga. Foram as duas crianças a baptizar como sendo filhos de Claes. O filho de Soetkin recebeu o nome de Hans e não sobreviveu, a filha de Katheline chamou-se Nele, e criou-se bem.

Bebeu o licor da vida de quatro fontes, que foram as duas de Katheline e as duas de Soetkin. E as mulheres tinham discussões amistosas para saber quem é que ia dar de mamar à criança. Mas, contra sua vontade, Katheline foi obrigada a deixar secar o leite, para não lhe perguntarem como o tinha, uma vez que não era mãe.

Quando a pequenina Nele, sua filha, foi desmamada, levou-a para casa e não a deixou regressar para junto de Soetkin antes de lhe ter chamado mãe.

Os vizinhos diziam que era uma boa acção por parte de Katheline, que tinha tido a sorte de poder alimentar a filha dos Claes, que, como de costume, viviam pobremente do seu tão duro trabalho.

 

Ulenspiegel ficou sozinho em casa uma manhã, e para se entreter, talhava num sapato do pai um pequeno navio. Tinha colocado já na sola o mastro principal, e abrira um buraco para pôr ali o gurupés, quando viu através da porta semiaberta o busto de um cavaleiro e a cabeça do cavalo.

- Está alguém em casa? - perguntou o cavaleiro.

- Está - respondeu Ulenspiegel - um homem e meio e a cabeça de um cavalo.

- Como? - perguntou o cavaleiro. Ulenspiegel respondeu.

- Porque vejo aqui um homem inteiro, que sou eu; metade de um homem, que é o teu tronco, e uma cabeça de cavalo, que é a da tua montada.

- Onde estão teu pai e tua mãe? - perguntou o homem.

- Meu pai foi fazer de mal a pior, e a minha mãe está ocupada com uma coisa que nos trará vergonha ou prejuízo.

- Explica-te - ordenou o cavaleiro. Ulenspiegel respondeu:

- Está neste momento a cavar ainda mais fundo os buracos do campo para fazer cair de mal a pior os que costumam andar a pisar o trigo.

Minha mãe foi pedir dinheiro emprestado; se conseguir pouco, será a nossa vergonha, se conseguir muito, será o nosso prejuízo. O homem perguntou-lhe por onde é que devia ir.

- Por ali, onde estão os gansos - respondeu Ulenspiegel.

O cavaleiro voltou quando Ulenspiegel fazia do segundo sapato de Claes uma galera a remos.

- Enganaste-me - disse ele. - Onde estão os gansos, só há lodo e lama, na qual eles chafurdam.

Ulenspiegel replicou:

- Não te disse para ires para onde os gansos chafurdam, mas onde caminham.

- Indica-me, pelo menos, o caminho que vai para Heyst

- disse o cavaleiro.

- Na Flandres, são os peões que vão, e não os caminhos

- respondeu Ulenspiegel.

 

Um dia Soetkin disse a Claes:

- Marido, tenho a alma angustiada: há três dias que Thyl saiu de casa; sabes onde ele está?

Claes respondeu tristemente:

- Está onde estão os cães vagabundos, numa estrada, com outros patifes como ele. Deus foi cruel ao dar-nos um filho assim. Quando nasceu, vi nele a alegria dos nossos dias de velhice, um instrumento mais na casa; esperava fazer dele um trabalhador, e a má sorte fez dele um ladrão, um mandrião.

- Não sejas tão severo, homem - pediu Soetkin - o nosso filho só tem nove anos, está na altura das loucuras da infância. Não devia ele, como as árvores, deixar cair a gluma no caminho antes de se enfeitar com folhas, que nas árvores populares representam a honestidade e a virtude? É malicioso, não o ignoro; mas a sua malícia reverterá mais tarde em seu proveito, se, em vez de servir-se dela para maus fins, a empregar para qualquer finalidade útil.

“Troça facilmente do próximo; mas também mais tarde poderá juntar-se a qualquer confraria alegre. Ri sem parar; mas os rostos cizudos antes do amadurecimento são um mau presságio para o futuro.

“Se corre é porque precisa de crescer; se não trabalha, é porque não chegou a idade em que se sente ser o trabalho um dever, e se algumas vezes fica fora, dia e noite, durante metade de uma semana, é porque não conhece a dor que nos aflige, pois tem bom coração, ama-nos.”

Claes, abanando a cabeça, não respondeu, e Soetkin, quando o viu a dormir chorou sozinha. Na manhã seguinte, temendo que o filho estivesse doente à beira de qualquer estrada, foi até à entrada da porta, na esperança de que ele viesse a caminho. Mas não viu nada, e sentou-se à janela, olhando para a rua. Com frequência o coração saltava-lhe no peito, ao ouvir os passos leves de uma criança; mas quando ela passava, via que não era Ulenspiegel, e então a pobre mãe chorava.

Entretanto, Ulenspiegel, com camaradas tão patifes como ele, fora a Burgos para assistir ao mercado de sábado.

Viam-se ali os mestres sapateiros e os sapateiros remendões em barracas separadas, os alfaiates que vendem fatos, os "miesevangers" de Antuérpia que munidos de um mocho, apanham os milharucos durante a noite; os vendedores de aves de capoeira, os ladrões de cães, os vendedores de peles de gato com que se fazem luvas, plastrões e gibões, compradores de toda a espécie, burgueses, burguesas, criados e servos, padeiros, copeiros, despenseiros e despenseiras, vendedores e fregueses reunidos, segundo a mercadoria, gritavam para valorizar ou desvalorizar a mercadoria.

A um dos cantos do mercado estava montada uma bela tenda de pano sustentada por quatro estacas. À entrada desta tenda, um camponês de Alost, acompanhado por dois monges que valorizavam o acto, mostrava por dois dinheiros uma parte do osso do ombro de santa Maria Egípcia. Proclamava, com uma voz cansada, os méritos da santa, e não omitia na sua ladainha como, à falta de prata, pagara a um jovem barqueiro com bom e verdadeiro dinheiro, não recusando assim o salário a um trabalhador, coibindo-se de pecar contra o Espírito Santo.

E os dois monges acenavam com a cabeça indicando que o camponês dizia a verdade. Ao lado deles estava uma mulher gorda e vermelha, lasciva como Astarte, soprando com força uma gaita de foles, enquanto uma rapariguita cantava como uma toutinegra. Mas ninguém a ouvia. Por cima da entrada da tenda, balançava entre dois paus, a que estava atada com cordas, pelas asas, uma selha cheia de água benta de Roma, segundo dizia a mulher gorda, enquanto os dois monges acenavam com a cabeça aprovando o que ela dizia. Ulenspiegel, olhando para a selha, ficou pensativo.

A uma das estacas da tenda estava amarrado um burro alimentado com mais feno do que aveia. De cabeça baixa, o asno olhava para o chão, sem esperança de ali encontrar cardos.

- Camaradas - disse Ulenspiegel, apontando com o dedo para a mulher gorda, para os dois monges e para o burro de olhar melancólico. - Já que os donos cantam tão bem, há que fazer dançar o burro.

Tendo dito isto, foi à loja mais próxima, comprou pólvora por seis liardes, levantou a cauda do burro, e meteu a pólvora por baixo.

O burro, sentindo a pólvora olhou para baixo da cauda a fim de ver de onde vinha aquele calor invulgar. Julgando que tinha ali o diabo ardente, quis correr para lhe fugir, pôs-se a zurrar e a escoucinhar, e sacudiu a estaca com todas as suas forças. Ao primeiro choque, a selha colocada entre os dois paus derramou toda a água benta por toda a tenda e sobre os que estavam lá dentro. Daí a pouco, a tenda cedeu, e a tela húmida cobriu os que escutavam a história de Maria Egípcia. Ulenspiegel e os seus camaradas ouviram sob o pano um grande barulho de gemidos e lamentos, pois os devotos assim tolhidos, acusando-se mutuamente de terem voltado a selha, agrediam-se com murros furiosos. O pano levantava-se com o esforço dos que lutavam. De cada vez que isto acontecia, Ulenspiegel via desenhar-se uma forma redonda e picava-a com uma agulha. Ouviam-se então ainda mais gritos sob o pano, e havia uma maior distribuição de murros.

Era muito divertido, mas ainda o foi mais quando o burro fugindo, arrastou atrás de si o pano, a selha e as estacas, enquanto o "baes" da tenda, a mulher e a filha, se agarravam à bagagem. O burro, que já não podia correr, levantava o focinho e só parava de zurrar para espreitar para baixo da cauda, e ver se o fogo que ali ardia não estaria prestes a apagar-se.

Entretanto, os devotos continuavam a batalha.

Os monges, sem pensarem nos outros, juntavam o dinheiro que tinha caído das bandejas, e Ulenspiegel ajudava-os devotamente, não sem algum lucro.

 

Enquanto o filho do carvoeiro crescia em alegre malícia, o descendente do sublime Imperador vegetava em apática melancolia. Damas e cavalheiros viam-no arrastar-se cabisbaixo pelas salas e corredores de Valladolid, o corpo frágil e as pernas inseguras suportando com dificuldade o peso da grande cabeça coberta de cabelos loiros e rijos.

Procurava sem cessar os corredores escuros, e aí ficava sentado horas a fio, com as pernas estendidas. Se algum criado o pisava por descuido, mandava-o chicotear e sentia prazer ao ouvir os seus gritos, embora não se risse.

No dia seguinte, preparando a mesma armadilha, ia sentar-se outra vez num corredor, com as pernas estendidas, As damas, os cavaleiros e os pajens que passavam por ali a correr, ou de qualquer forma esbarravam com ele, caíam e feriam-se. E ele tinha prazer nisto, mas também não se ria.

Se algum deles tropeçava, mas não caía o Infante gritava como se lhe tivessem batido, e ficava todo contente vendo o terror deles. Mas não se ria.

Sua Majestade foi advertida acerca deste procedimento, e deu ordem para não obedecerem ao Infante, dizendo que se este não queria que andassem por cima das suas pernas, não as devia colocar nos locais por onde passam os pés.

Isto desagradou a Filipe, mas nada disse, e nunca mais o viram, até que um dia claro de Verão, foi para o pátio aquecer ao Sol o corpo arrepiado.

Um dia, ao voltar da guerra, Carlos viu-o assim melancólico.

- Meu filho - disse-lhe - como és diferente de mim! Na tua idade, gostava de subir às árvores para perseguir os esquilos, e descia com o auxílio de uma corda íngremes rochedos para ir aos ninhos das águias. Podia ter deixado os meus ossos nesta brincadeira. Mas ficaram mais rijos. Na caça, os animais fulvos escondiam-se no pêlo quando me viam aparecer, armado com o meu belo arcabuz.

- Ah! - suspirou o infante. - Dói-me a barriga, senhor meu pai.

- O vinho de Paxarete - disse Carlos - é um remédio soberano.

- Não gosto de vinho; dói-me a cabeça, senhor meu pai.

- Meu filho - retorquiu Carlos. - É preciso correr, saltar e pular, como fazem as crianças da tua idade.

- Tenho as pernas rígidas, senhor meu pai.

- Como queres que assim não aconteça, se te serves delas como se fossem pernas de pau? Quero ver-te preso a um cavalo bem rápido - afirmou Carlos.

O Infante chorou.

- Não me prenda, senhor meu pai, doem-me os rins.

- Mas - ripostou Carlos - dói-te tudo?

- Não sofreria se me deixassem repousar - respondeu o Infante.

- Pensas passar a tua vida real a sonhar como um monge? - retorquiu, já o imperador impaciente. - Esses, para cobrirem de tinta os seus pergaminhos, precisam de silêncio, de solidão e de recolhimento. Tu, filho da espada, precisas de sangue quente, olho de lince, astúcia de raposa, força de Hércules. Para que te benzer? Sangue divino! Não é próprio de um leãozinho imitar as mulheres que passam as contas do rosário.

- São as Ave-Marias, senhor meu pai - respondeu o Infante.

 

Os meses de Maio e Junho foram, nesse ano, verdadeiros meses de flores. Nunca se tinha visto na Flandres espinheiros tão perfumados, nunca houvera nos jardins tanta rosa, jasmim e madressilva. Quando o vento, soprando de Inglaterra, levava para oriente os odores desta terra florida, todos, e especialmente em Antuérpia, levantando o nariz, diziam alegremente:

- Não lhes cheira bem, o vento que vem da Flandres?

Também as abelhas diligentes sugavam o mel das flores, faziam cera, punham ovos nas colmeias insuficientes para alojarem os seus enxames. Que música laboriosa sob o céu de azul tão resplandecente nesta terra tão rica!

Faziam-se cortiços de junco, de palha, de vime, de feno entrançado. Os cesteiros, os fabricantes de cubas e de tonéis não davam descanso às suas ferramentas. Quanto aos fabricantes de arcas, há muito que não tinham mãos a medir. .

Os enxames eram de trinta mil abelhas e de dois mil e setecentos zangões. Os bolos eram tão requintados que dada a sua rara qualidade, o deão de Damme enviou onze ao Imperador Carlos, para lhe agradecer ter posto em vigor a Santa Inquisição através dos seus novos éditos. Foi Filipe quem os comeu, mas não foi por isso influenciado.

Os biltres, os pedintes, os vagabundos e toda essa gente sem eira nem beira que arrastava a sua preguiça pelos caminhos, preferindo a prisão ao trabalho, vieram ao engodo do mel, com o intuito de terem também a sua parte. E rondavam em grupo, durante toda a noite.

Claes tinha feito cortiços para atrair os enxames; alguns estavam cheios e outros estavam vazios, à espera das abelhas. Claes ficava acordado toda a noite para guardar este doce bem. Quando estava cansado, dizia a Ulenspiegel para o substituir. Este fazia-o de boa vontade.

Ora uma noite, Ulenspiegel, para fugir ao relento, tinha-se refugiado num cortiço e, todo dobrado, espreitava pelas duas aberturas existentes na parte superior.

Quando estava quase a adormecer, ouviu estalar os arbustos da cerca, e entendeu a voz de dois homens, os quais tomou por ladrões. Espreitou por uma das aberturas do cortiço, e viu que ambos tinham barba e cabelos compridos, e a barba era sinal de nobreza.

Andaram de cortiço em cortiço, até que chegaram ao seu, e, pegando-lhe, disseram: - Vamos levar este: é o mais pesado. Depois, servindo-se de paus, levantaram-no. Ulenspiegel não sentia qualquer prazer em ser transportado assim, no cortiço. A noite estava clara, e os dois ladrões caminhavam sem dizerem uma palavra. De cinquenta em cinquenta passos, paravam, sem fôlego, para continuarem logo a seguir. O da frente resmungava por ter de transportar tanto peso, e o de trás gemia mansamente. Porque há neste mundo duas espécies de poltrões, os que se enfadam com o trabalho, e os que se lamentam quando têm de trabalhar.

Ulenspiegel, como nada tinha que fazer, puxava o cabelo do ladrão que ia à frente e a barba do que ia atrás, de tal forma que, aborrecido com a brincadeira, o furioso disse ao que gemia:

- Não me puxes os cabelos porque dou-te um murro na cabeça que ta meto pelo peito dentro, e ficas a olhar pelas costelas com um ladrão pelas grades da prisão.

- Nunca faria uma coisa dessas, meu amigo - dizia o choroso. - És tu quem me está a puxar a barba.

O furioso respondeu:

- Nunca mexeria na porcaria da barba de um gatuno.

- Senhor - disse o que gemia - não faça saltar tanto o cortiço; os meus braços não o aguentam.

- Vou já aliviá-los - respondeu o furioso. Desembaraçando-se das correias de couro, pôs o cortiço no chão, e saltou sobre o companheiro. E bateram-se, um blasfemando, o outro pedindo misericórdia.

Ulenspiegel, ao ouvir como os murros choviam, saiu do cortiço, arrastou-o até uma mata próxima onde o iria buscar depois, e voltou para casa.

E é assim que das discussões os manhosos tiram proveito.

 

Aos quinze anos, Ulenspiegel montou em Damme, uma pequena tenda sobre quatro estacas e clamava que todos podiam ver ali representado, num belo quadro de feno o presente e o futuro.

Quando aparecia um homem pleno de sobranceria e de importância, Ulenspiegel passava a cabeça para fora do caixilho, e, imitando o focinho de um macaco velho, dizia:

- Focinho velho pode apodrecer, mas florescer, não; não sou realmente o vosso espelho, senhor da carantonha doutoral?

Se o freguês era um soldado, Ulenspiegel escondia-se e mostrava no centro do quadro, em vez do seu rosto, um prato de carne e pão, e dizia:

- A batalha fará de ti cobarde; o que é que me dás por esta advertência, ó soldado querido das peças de artilharia com grandes goelas?

Quando um velho arrastando ingloriamente a cabeça esbranquiçada trazia a sua jovem esposa a Ulenspiegel, este, escondendo-se em relação ao soldado, mostrava no quadro um pequeno arbusto, nos ramos do qual estavam presas lâminas de faca, cofrezinhos, pentes, tinteiros, tudo feito de chifres, e clamava:

- De onde vêm todas estas bagatelas, meu senhor? Não é dos ornatos que crescem na cabeça dos maridos velhos? Quem é capaz de dizer agora que os maridos de mulheres infiéis são pessoas inúteis numa república?

E Ulenspiegel mostrava o seu rosto jovem no quadro, ao lado do arbusto.

O velho, ao ouvir isto, sentia-se ferido na sua virilidade, mas a sua pequenina acalmava-o com a mão, e, sorrindo, vinha até junto de Ulenspiegel.

- E o meu espelho - perguntava - o que é que mostra?

- Aproxima-te - respondia Ulenspiegel.

Ela obedecia. Então ele beijava-a onde podia:

- O teu espelho - afirmava - é de uma juventude radiante pertencente às altas carcelas.

E a rapariga ia-se embora também, depois de lhe ter deixado um ou dois florins.

Ao monge gordo e beiçudo que lhe pedia para ver o presente e o futuro, Ulenspiegel respondia:

- Tu és armário de presunto, serás também adega de cerveja; porque o sal pede bebida, não é verdade, grande pançudo? Dá-me um "patard" por não te ter mentido.

- Meu filho - respondia o monge - nunca trazemos dinheiro.

- É então o dinheiro que te leva - respondia Ulenspiegel - porque sei que o metes entre as duas solas, por baixo dos pés. Dá-me a tua sandália.

Mas o frade:

- Meu filho, são bens do convento; tirarei, contudo, se for preciso, dois "patards" pelo trabalho que tiveste.

O monge dava-lhos, e Ulenspiegel recebia-os graciosamente.

Desta forma mostrou também o futuro às gentes de Dam-me, de Burgos, de Blankenberghe, e até mesmo de Ostende.

E em vez de lhes dizer na sua língua flamenga "Ik ben u lieden spiegel" (sou o vosso espelho), dizia-lhes, abreviando, "Ik bên ulenspiegel", tal como ainda hoje se diz na Flandres oriental e ocidental.

E é daqui que lhe veio a alcunha de Ulenspiegel.

 

Ao crescer, tomou gosto em andar pelas feiras e mercados. Se via alguém a tocar oboé, rebeca ou gaita de foles, pedia para lhe ensinarem, em troca de um "patard", a fazer cantar estes instrumentos.

Tornou-se sobretudo perito no "rommel-pot", instrumento feito com uma panela, uma pele e um pequeno feixe de palhas. Eis como ele se servia disto:

estendia a pele molhada na panela, fixava-a pelo meio com uma corda presa ao nó do feixe - que tocava no fundo da panela - e nos bordos desta colocava a pele esticada até quase rebentar. De manhã a pele estava seca, e quando nela se batia parecia um tambor ao passo que quando se esfregava a palha do instrumento, tocava melhor do que uma viola. Ê Ulenspiegel com a panela rufando e latindo como um cão, ia no dia de Reis cantar as Janeiras à porta das casas, com outras crianças, uma das quais trazia uma estrela de papel brilhante.

Se aparecia em Damme um pintor para retratar numa tela, ajoelhados, os companheiros de uma "gilde", Ulenspiegel, desejando ver como ele trabalhava, pedia-lhe licença para misturar as cores, contentando-se em receber como salário uma fatia de pão, três "liardes" e meio litro de cerveja.

Enquanto misturava as tintas, ia vendo o que o pintor fazia. Quando este se afastava, tentava pintar como ele, mas enchia tudo de escarlate. Tentou fazer o retrato de Claes, Soetkin, Katheline e Nele, bem como desenhar copos e canecas. Claes disse-lhe, ao ver estas obras, que se ele fosse perseverante, podia um dia ganhar dezenas de florins, a fazer desenhos nos "speelwagen", (carros de cavalos para passeio que se usam na Flandres e na Zelândia).

Aprendeu também com um pedreiro a trabalhar a madeira e a pedra, quando este veio fazer, no coro da igreja de Nossa Senhora, um banco construído de tal forma que, quando o deão quisesse como era homem de idade, podia sentar-se parecendo que estava de pé.

Foi Ulenspiegel quem esculpiu o primeiro cabo de faca como ainda há na Zelândia, feita em forma de encaixe.

No interior, estava uma cabeça móvel de morto; por cima um cão deitado. Estes símbolos significavam: "Lâmina fiel até à morte".

E assim Ulenspiegel começava a cumprir a previsão de Katheline, ao revelar-se pintor, escultor, camponês, nobre, tudo ao mesmo tempo, porque de pai para filho os Claes possuíam três copos de prata ao natural sobre fundo de "bruinbier".

Mas Ulenspiegel não se fixava em nenhum oficio, e Claes disse-lhe que a continuar assim o expulsaria de casa.

 

O imperador, ao voltar da guerra, quis saber porquê seu filho Filipe não o tinha ido cumprimentar. O Arcebispo preceptor do Infante esclareceu que o jovem não o tinha feito porque só gostava, dizia, dos livros e da solidão.

Quis então o Imperador saber onde estava o filho nesse momento, e o preceptor respondeu que era preciso procurar em todos os sítios onde fizesse escuro, o que logo tentaram.

Tendo atravessado muitas salas, chegaram finalmente a uma espécie de retiro, sem pavimento, e iluminado por uma lanterna. Ali viram enterrado no chão um poste ao qual estava preso pela cauda uma pequenina macaca enviada da índia a Sua Alteza para o alegrar nos seus momentos de abatimento juvenil. Junto à base do poste, fumegavam ainda ramos vermelhos e instalara-se no compartimento um horrível cheiro a pêlo queimado.

O animal tinha sofrido tanto ao morrer queimado que o pequeno corpo parecia não ter pertencido a um animal que vivera - antes o fragmento de uma raiz rugosa e torcida. Na boca aberta para chorar a morte, via-se espuma ensanguentada, e as lágrimas molhavam-lhe o focinho.

- Quem fez isto? - perguntou o Imperador.

O preceptor não ousou responder, e ficaram ambos calados, tristes e zangados.

De súbito, neste silêncio, ouviu-se um leve barulho de tosse que vinha de um canto por trás deles. Sua Majestade, voltando-se, viu o Infante Filipe, todo vestido de preto, a chupar um limão.

- D. Filipe - ordenou. - Vem cumprimentar-me.

O Infante, sem se queixar, olhou para ele com uma expressão amedrontada mas isenta de amor.

- Foste tu - perguntou o imperador - quem queimou na fogueira este animal?

O Infante baixou a cabeça. Mas o Imperador:

- Se foste suficientemente cruel para fazer isto, deves ser suficientemente corajoso para o confessar.

O Infante não respondeu. Sua Majestade arrancou-lhe o limão das mãos, e deitando-o ao chão ia bater no filho, que tremia de medo, quando o Arcebispo lhe segredou ao ouvido:

- Sua Alteza acenderá um dia fogueiras para queimar os herejes.

O Imperador sorriu e saíram os dois, deixando o Infante sozinho com a macaca. Mas outros havia que não eram macacas, e também morriam nas chamas.

 

Novembro tinha chegado, esse mês da geada em que aqueles que têm tosse se entregam de boa vontade à melodia do catarro. É também o mês em que os rapazes, em grupos invadem os campos de nabos, e levam o que podem, com grande zanga dos camponeses, que em vão correm atrás deles com paus e forquilhas.

Ora uma noite, quando Ulenspiegel regressava de uma destas incursões, ouviu um gemido vindo de uma sebe. Baixando-se, viu um cão prostrado sobre pedras.

- Então, meu pobre animalzinho, que fazes aqui, tão tarde? - disse.

Ao acariciar o cão, sentiu que este tinha o dorso húmido e pensou que tinham tentado afogá-lo. Para o aquecer, pegou-lhe ao colo.

Ao entrar em casa, anunciou:

- Trago um ferido, que deve fazer-se?

- Pensá-lo - respondeu Claes.

Ulenspiegel pôs o cão em cima da mesa: Claes e Soetkin viram à luz da lamparina que o cãozinho do Luxemburgo estava ferido no dorso. Soetkin limpou as feridas, cobriu-as com bálsamo e pôs-lhe uma ligadura. Ulenspiegel levou o animal para a cama, embora Soetkin tivesse dito que o queria levar para a sua, temendo, dizia, que Ulenspiegel, que se mexia como um demónio na pia da água benta, magoasse o animal enquanto estivesse a dormir.

Mas Ulenspiegel fez o que queria e cuidou tão bem do animal, que ao fim de seis dias o ferido andava como qualquer cão fraldiqueiro.

E o "school-meester" (mestre-escola) pôs-lhe o nome de Titus Bibulus Schnouffius: Titus, em memória de um certo imperador romano, que recolhia os cães vagabundos; Bibulus, porque o cão gostava de "bruinbier" com um amor de ébrio; e Schnouffius, porque, farejando, metia constantemente o focinho nos buracos dos ratos e das toupeiras.

 

Na extremidade da Rua de Nossa Senhora havia dois salgueir56

os, um em frente do outro, junto de uma poça que tinha bastante água.

Ulenspiegel estendeu uma corda entre os dois salgueiros onde dançou um domingo, depois das Vésperas, de tal fortuna que todos os vagabundos o aplaudiram batendo palmas e gritando. Depois, desceu da corda e apresentou uma escudela, que daí a pouco estava cheia de dinheiro. Mas ele despejou-a no avental de Soetkin, e guardou para si onze "liardes".

No domingo seguinte, quis dançar outra vez na corda, mas alguns garotos mal intencionados e invejosos da sua agilidade, fizeram um golpe na corda, de tal forma que depois de alguns saltos esta partiu-se, e Ulenspiegel caiu na água.

Enquanto nadava para atingir a margem, os rapazes que tinham cortado a corda gritavam:

- Como está a tua ágil saúde, Ulenspiegel? Vais ao fundo da poça ensinar a dança às carpas, inestimável dançarino?

Ulenspiegel, saindo da água, sacudiu-se, ao mesmo tempo que gritava, pois eles tinham-se afastado, com medo:

- Não tenham receio; voltem no domingo, mostrar-vos-ei certos truques na corda, e vocês terão também uma parte da colecta.

No domingo, os rapazes não só não tinham cortado a corda, como estavam de vigia, com medo que alguém lhe tocasse, visto ter-se reunido ali uma grande multidão.

Ulenspiegel disse-lhes:

- Cada um de vocês tem de me dar um sapato, e eu prometo que quer seja grande ou pequeno, dançarei com todos eles.

- Que é que pagas, se perderes?

- Quarenta copos de "bruinbier" - respondeu Ulenspiegel. - E vocês dão-me três "patardes" se eu ganhar.

- Está bem - concordaram os outros.

E todos eles lhe deram um sapato. Ulenspiegel meteu-os no avental que trazia e com todo este peso dançou na corda - mas não sem dificuldade.

Os que tinham cortado a corda gritavam debaixo:

- Tinhas dito que dançavas com os nossos sapatos; calça-os para cumprires a tua promessa.

Ulenspiegel continuando a dançar respondeu:

- Eu não disse que calçava os vossos sapatos, mas que dançaria com eles... Ora, eu danço com eles no meu avental. Não vêem isso com os vossos olhos arregalados de rã? Paguem-me os meus três "patardes".

Mas eles apuparam-no, dizendo para lhes dar os sapatos.

Ulenspiegel deitou-os um a um para um monte. Isto deu origem a uma furiosa batalha porque nenhum deles podia distinguir claramente o seu sapato naquele monte nem tirá-lo sem luta.

Ulenspiegel desceu da árvore, e regou os que lutavam, mas não com água limpa.

 

O Infante, que tinha quinze anos, vagueava como de costume pelos corredores, escadas e quartos do castelo. Viam-no, todavia, errar muitas vezes junto dos aposentos das damas, para aborrecer os pajens que, como ele, pareciam gatos à espera de caça pelos corredores. Outros, no pátio, cantavam, de nariz no ar, uma balada terna.

Ao ouvi-los, o Infante, aparecia a uma janela e amedrontava assim os pobres pajens, que viam aquele rosto pálido em vez dos doces olhos das suas belas.

Havia, entre as damas da corte, uma gentil flamenga de Dudzeele, perto de Damme, elegante, belo fruto maduro, maravilhosamente bela, porque tinha os olhos verdes e o cabelo ruivo e encaracolado, brilhante como ouro. De humor e temperamento ardente, não escondia a ninguém a sua predilecção por um afortunado cavalheiro a quem ela oferecia, com as suas belas terras, o privilégio celeste de um amor franco. Na altura era a um jovem belo e orgulhoso que ela amava. Todos os dias, a hora certa ia encontrar-se com ele, o que Filipe verificou.

Sentando-se num banco ao vão de uma janela, espreitava-a, e quando ela passou diante dele, de olhar vivo, a boca entreaberta, insinuante, acabada de sair do banho e fazendo cantar em seu redor o vestido de brocado amarelo, viu o Infante. Este, sem se levantar do banco, disse-lhe:

- Minha senhora, será que pode parar um momento?

Impaciente, tal égua obrigada a parar quando se prepara para ir ter com o belo cavalo que relincha no prado, a dama respondeu:

- Alteza, todos aqui devem obedecer à vossa principesca vontade.

- Sentai-vos ao pé de mim - pediu ele.

Depois, olhando para ela impudicamente, com ar severo e cauteloso, disse-lhe:

- Recitai-me o Pai-Nosso em flamengo, ensinaram-mo, mas eu já esqueci.

A pobre dama disse um Pai-Nosso, e ele pediu-lhe que recitasse outro mais lentamente.

E assim, obrigou a pobre a repetir dez vezes, a ela, que julgava ter chegado a hora de recitar outros "oremus".

A seguir, elogiando-a, falou-lhe dos seus belos cabelos, da sua tez viva, dos seus olhos claros, mas não ousou dizer-lhe nada sobre os seus ombros roliços, o seu pescoço bem torneado, nem sobre mais nada.

Quando ela se preparava para ir-se embora e estava a olhar para o pátio onde o seu senhor a esperava, perguntou-lhe o Infante se sabia bem quais são as virtudes da mulher.

Como ela não respondesse, com medo de errar, falou o jovem por ela, a ponto de a importunar, dizendo:

- As virtudes da mulher são: castidade, cuidado da honra e vida recatada.

Aconselhou-a a vestir-se decentemente e a esconder as coisas que lhe diziam respeito. Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça, dizendo:

- Por Sua Alteza Hiperbórea seria capaz de me cobrir com dez peles de urso em vez de uma de musselina.

Deixando-o confuso com esta resposta, foi-se embora, muito contente.

Todavia, o fogo da juventude tinha também sido aceso no peito do Infante, mas não era esse fogo ardente que leva a altos feitos as almas fortes, nem o doce fogo que faz chorar os corações ternos.

Era um fogo sombrio, que vinha do inferno, e era Satanás, sem dúvida, quem o ateava.

Sentindo-se sem amor pelos outros, o pobre sonso não ousava oferecer-se às damas: ia para um canto afastado, num pequeno quarto caiado, iluminado por janelas estreitas onde, habitualmente, devorava os seus bolos e onde as moscas entravam em grande quantidade por causa das migalhas. Ali, acariciando-se a si próprio, esmagava lentamente as cabeças dos insectos contra os vidros, e matava-os às centenas, até os dedos ficarem tão trémulos que não podia continuar com tão sinistra ocupação. Tinha um prazer vil nesta cruel distracção, porque a concupiscência e a crueldade são duas irmãs infames. Saía deste retiro mais triste do que entrara, e todos fugiam, quando podiam, ao verem a cara do príncipe, pálido como se ele se alimentasse de cogumelos ulcerosos. E a pobre Alteza sofria, porque coração mau é sempre uma dor.

 

A bela e gentil dama deixou um dia Valladolid para se dirigir ao seu castelo de Dudzeele, na Flandres.

Ao passar por Damme, acompanhada pelo seu carregador, homem bastante gordo, viu sentado num muro caseiro, um rapaz de quinze anos que tocava uma gaita de foles. Diante dele, estava um cão ruço que, porque não gostasse da música, uivava melancolicamente. O Sol brilhava, claro. Ao lado do rapaz estava, de pé uma rapariguinha que ria com gosto de cada vez que o cão latia.

A bela dama e o carregador, ao passarem em frente da

casa, viam Ulenspiegel a tocar. Nele a rir, e Titus Bibulus Schnouffius a latir.

- Que rapaz tão mau - disse a dama a Ulenspiegel. - Não és capaz de acabar com isso, para que este pobre rafeiro deixe de uivar?

Mas Ulenspiegel, olhando para ela, soprou ainda com mais força. E Bibulus Schnouffius uivou ainda mais melancolicamente, enquanto Nele riu ainda mais.

O cargueiro, irado, disse à dama, apontando para Ulenspiegel :

- Eu passaria a bainha da minha espada por este pobre homenzinho de má raça, e acabaria com a algazarra.

Ulenspiegel olhou para o carregador, chamou-lhe “Jan Papzak”, por causa da barriga, e continuou a tocar a gaita de foles. O carregador dirigiu-se para ele, ameaçando-o com o punho, mas Bibulus Schnouffius mordeu-o numa perna; o carregador amedrontado, gritava:

- Socorro!

A dama, a sorrir, disse a Ulenspiegel:

- Tocador de gaita de foles, és capaz de me dizer se o caminho que vai de Damme para Dudzeele não mudou?

Ulenspiegel, sem deixar de tocar, abanou a cabeça e olhou para a dama.

- Porque me olhas tão fixamente? - perguntou ela. Contudo, continuando a tocar, o rapaz arregalou os

olhos, como se tivesse caído em êxtase de admiração. Ele disse-lhe:

- Não tens vergonha de olhar assim para as senhoras sendo ainda tão jovem?

Ulenspiegel corou um pouco, mas continuou a tocar e a olhar.

- Perguntei-te - lembrou ela - se o caminho de Dam-me para Dudzeele não tinha mudado?

- Não voltou a verdejar desde que o privaste da honra de te levar - retorquiu Ulenspiegel.

- Queres indicar-me o caminho? - perguntou ela. Ulenspiegel, contudo, continuava sentado sem tirar os olhos dela. E ela, embora o achasse travesso e sabendo que a sua atitude era fruto da juventude, perdoou-lhe de boa vontade. Ele levantou-se e dirigiu-se para casa.

- Onde vais? - perguntou ela.

- Vestir o meu melhor fato - respondeu ele.

- Vai - retorquiu a dama.

Sentou-se então no banco, perto da porta. O carregador fez como ela. Quis falar com Nele, mas Nele não lhe respondeu, porque sentia ciúmes.

Ulenspiegel voltou muito bem lavado e com um fato de fustão. E a verdade é que o jovem ficava bem no seu fato domingueiro.

- Vais realmente com esta bela dama? - perguntou-lhe Nele.

- Não me demorarei - respondeu Ulenspiegel.

- E se eu fosse no teu lugar? - perguntou Nele.

- Não - disse ele. - Os caminhos estão cheios de lama.

- Porque é que tu pequenita, o queres impedir de vir comigo? - perguntou a dama, igualmente zangada e ciumenta.

Nele não lhe respondeu, mas grossas lágrimas saltaram-lhe dos olhos, e ficou a olhar com tristeza e cólera para a bela dama.

Puseram-se os quatro a caminho, a dama sentada como uma rainha na sua hacaneia branca ajaezada de veludo preto, o carregador que ao andar sacudia a barriga, Ulenspiegel, que segurava as rédeas da hacaneia da dama, e Bibulus Schnouffius, que ia ao lado dele, de cauda orgulhosamente levantada.

Cavalgaram e caminharam assim durante algum tempo, mas Ulenspiegel não estava à vontade. Mudo como um peixe, aspirava o cheiro a benjoim que vinha da dama e espreitava pelo canto do olho as agulhetas dos atacadores, jóias raras, enfeites, e também a sua expressão doce, os olhos brilhantes, o pescoço nu e os cabelos que o Sol fazia brilhar como uma espiga de ouro.

- Porque é que falas tão pouco, jovem? Ele não respondeu.

- Como não deves ter a língua nos sapatos, talvez te possas encarregar de levar um recado?

- Conforme - respondeu Ulenspiegel.

- É preciso - afirmou a dama - deixares-me aqui e ires a Koolkercke, do outro lado do vento, dizer a um fidalgo vestido de preto e vermelho que não me deve esperar hoje, mas vir no domingo às 10 horas da noite, ao meu castelo, pela poterna.

- Não vou! - declarou Ulenspiegel.-Porquê? - perguntou a dama.

- Não vou, não! - retorquiu Ulenspiegel. A dama disse-lhe:

- O que é então, galinho zangado, que te inspira essa cruel decisão?

- Não vou! - repetiu Ulenspiegel.

- Mas se eu te der um florim?

- Não! - disse.

- Um ducado?

- Não.

- Um "carolus"?

- Não! - repetiu Ulenspiegel. - E todavia - acrescentou suspirando - saber-me-iam bem melhor do que uma caldeirada de mexilhões no tacho materno.

A dama sorriu, mas de repente exclamou:

- Perdi a minha bolsa, bela e rara, feita de seda e bordada a pérolas! Em Damme ainda a tinha pendurada à cintura.

Ulenspiegel nem se mexeu, mas o carregador dirigiu-se à dama:

- Minha senhora - disse-lhe - não deveis mandar à procura da bolsa este jovem ladrão, porque ele nunca mais voltaria.

- E quem é que há-de ir? - perguntou a dama.

- Eu apesar da minha idade - respondeu. E foi-se embora.

Estava a dar meio-dia, fazia muito calor, era profunda a solidão. Ulenspiegel não pronunciava uma palavra, mas tirou o gibão novo para a dama se sentar na sombra, sob uma tília, sem temer a frescura da erva. Ficou de pé junto dela, suspirando.

A dama olhou para ele e sentiu pena do jovem temeroso. Perguntou-lhe se não estava cansado de estar em pé, sobre as suas pernas tão jovens. Não obteve resposta, mas como Ulenspiegel se tivesse deixado cair a seu lado, quis segurá-lo, acabando por chegá-lo para o colo nu, onde ele se manteve com tão boa vontade que ela pensou que cometeria o pecado da crueldade, se lhe dissesse para escolher outro travesseiro.

Entretanto, chegou o carregador que informou não ter encontrado a bolsa.

- Já a encontrei quando desci do cavalo - respondeu a dama.

Tinha escorregado e estava metida no estribo. Agora - disse ela a Ulenspiegel - leva-nos directamente a Dudzeele e diz-me como te chamas.

- O meu patrono - respondeu - é São Thylbert, nome que significa lesto a correr para as coisas boas: o meu apelido é Claes, e a minha alcunha Ulenspiegel. Se quiseres ver-vos no meu espelho, vereis que não há em toda esta terra da Flandres, uma flor de beleza tão maravilhosa, como a vossa graça perfumada.

A dama corou de satisfação, e não voltou a zangar-se com Ulenspiegel.

Soetkin e Nele choraram durante esta longa ausência.

 

Quando Ulenspiegel voltou de Dudzeele, viu Nele à entrada da cidade, encostada a uma barreira. Tirava os bagos de um cacho de uvas pretas. Mastigando os bagos um a um, sentia-se sem dúvida refrescada e deleitada, mas não deixava transparecer qualquer prazer. Parecia, pelo contrário muito zangada, e arrancava os bagos com cólera. Estava tão amuada e tinha o rosto tão pesaroso, melancólico e terno, que Ulenspiegel sentiu-se possuído por uma amorosa piedade, e indo por trás dela, deu-lhe um beijo na nuca.

Mas ela, em troca, afastou-o com uma bofetada.

- Já não te vejo bem - retorquiu Ulenspiegel. Ela soluçava.

- Nele - disse ele. - Pretendes substituir as fontes que estão à entrada das aldeias?

- Vai-te embora! - respondeu.

- Mas não me posso ir embora contigo a chorar assim, minha pequenina.

- Não sou pequenina - respondeu Nele - e não estou a chorar!

- Não, não estás a chorar, mas todavia sai bastante água dos teus olhos.

- Queres ir-te embora? - perguntou ela.

- Não!

Contudo, ela segurava o avental com as mãos. trémula puxava o tecido aos safanões, e as lágrimas caíam molhando-o.

- Nele - perguntou Ulenspiegel. - Vai fazer bom tempo, daqui a bocadinho?

E olhava para ela amorosamente.

- Porque me perguntas isso?

- Porque quando está bom tempo não se chora - respondeu Ulenspiegel.

- Vai-te embora para o pé da bela dama de vestido de brocado; divertiste-a tanto, a ela.

Ulenspiegel cantou então:

Quando vejo chorar a minha amiga

o meu coração fica despedaçado.

É mel quando ela ri,

Pérola quando ela chora.

Eu, amo-a em qualquer momento.

E compro para bebermos

Do bom vinho da Lovaina

E compro para bebermos

Quando Nele sorrir.

- Vilão, ainda troças de mim.

- Nele - afirmou Ulenspiegel - sou homem, mas não vilão, porque a nossa nobre família, família de vereadores, tem três copos de prata em fundo de "bruinbier". Nele, é verdade que na Flandres, quando se semeiam beijos, se colhem bofetadas?

- Não quero falar contigo.

- Então para que abres a boca para me dizeres isso?

- Estou zangada.

Ulenspiegel deu-lhe um pequeno toque nas costas e disse:

- Beijai a vilã e ela vos dará um murro; dai um murro à vilã e ela vos ungirá. Unge-me pequenina, já que eu te dei um murro.

Nele voltou-se. Ele abriu os braços e ela lançou-se neles, chorando ainda:

- Não voltas lá, pois não, Thyl?

Mas ele não respondeu, tão ocupado estava em apertar os seus dedos trémulos e a enxugar, com os lábios, as lágrimas quentes que caíam dos olhos de Nele, como grandes gotas de chuva quando troveja.

 

Nesse tempo, Gante, a nobre, recusou-se a pagar a sua quota-parte do auxílio que lhe fora pedido por seu filho Carlos, o Imperador. Não podia fazê-lo por Carlos a ter despojado do seu dinheiro. Foi isto considerado um grande crime. E Carlos resolveu ir ele mesmo castigá-la, porque para as coátas maternais o bastão de um filho é muito mais doloroso de que qualquer outro.

Francisco do Nariz-Comprido, seu inimigo, ofereceu-se para o deixar passar pela França. Carlos assim fez, e, em vez de ser feito prisioneiro, foi saudado e recebido imperialmente. Era um acordo soberano entre príncipes, para se entreajudarem contra as populações.

Carlos esteve muito tempo em Valenciennes sem dar sinais de ira. Gante, sua mãe, vivia sem temor, na convicção de que o Imperador, seu filho, lhe perdoaria ter agido segundo o direito.

Carlos chegou junto dos muros da cidade com quatro mil cavalos. D'Alba e o príncipe de Orange acompanhavam-no. A arraia-miúda e os artífices preferiam ter evitado esta entrada filial e ter preparado os oitenta mil homens da cidade e dos arredores. A alta burguesia, a que se chamava "hoogh-pooters", opuseram-se, por terem a predominância popular. Gante podia, todavia, ter vencido o filho e os seus quatro mil cavalos. Mas ela amava-o, e até os artífices tinham recuperado a confiança.

Carlos amava-a também, mas pelo dinheiro que a mãe tinha nos seus cofres, e que pretendia para si.

Apoderando-se da cidade, estabeleceu por toda a parte postos militares, organizou rondas que percorriam as ruas dia e noite. Depois, pronunciou com grande aparato a capitulação da cidade.

Os burgueses mais notáveis deveriam, de corda ao pescoço, vir diante do trono fazer uma reparação honrosa; Gante foi declarada culpada dos piores crimes que são: deslealdade, infracção aos tratados, desobediência, sedição, rebelião e lesa-majestade. O Imperador declarou abolidos todos e quaisquer privilégios, direitos, isenções, usos e costumes; tomando disposições para o futuro, como se fosse Deus, determinou que doravante os seus sucessores na

soberania jurariam respeitar unicamente a “Concessão Carolina”, de servidão, dada por ele à cidade.

Mandou arrasar a abadia de S. Bavon, para mandar construir uma fortaleza, de onde podia, com toda a facilidade, alvejar a própria mãe.

E como bom filho cheio de pressa para herdar, confiscou todos os bens de Gante, economias, casas, artilharia, munições de guerra.

Considerando-se demasiadamente bem defendida, mandou demolir a Torre Vermelha, a torre da Boca de Sapo, a Braampoort, a Steenpoort, a Waalpoort, a Ketelpoórt e muitas outras trabalhadas e esculpidas em pedra como jóias.

Quando, mais tarde, os estrangeiros chegavam a Gante, comentavam:

- Que cidade é esta, arrasada e desolada, cujas maravilhas eram tão elogiadas?

E os habitantes de Gante respondiam:

- O Imperador Carlos acaba de tirar à cidade a sua preciosa cintura.

E ao dizerem isto, sentiam vergonha e cólera. E das ruínas o imperador retirava tijolos para a sua fortaleza.

Queria que Gante fosse pobre, porque assim não poderia através do trabalho, da indústria ou de dinheiro, opor-se aos seus altivos desígnios; condenou-a a pagar a parte do auxílio que recusara no valor de quatrocentos mil florins "carolus" de ouro, e mais cento e cinquenta mil "carolus" de uma só vez, além de mais seis mil de rendas perpétuas, todos os anos. Tinham-lhe emprestado dinheiro: devia pagar-lhes, por isso, uma renda de cento e cinquenta libras. Recebeu pela força os títulos de crédito, e saldando assim a sua dívida, enriqueceu realmente. Gante tinha-o, em muitas ocasiões, amado e socorrido, mas ele feriu-a no seio com um punhal, procurando sangue, porque não tinha encontrado leite suficiente.

Depois olhou para "Roelandt", o sino tão belo, mandou prender ao badalo aquele que tinha feito soar o alarme para chamar a cidade a defender os seus direitos. Não teve pena de "Roelandt", a língua da sua mãe, a língua pela qual ela falava à Flandres; "Roelandt", o sino fiel, que dizia:

Ais men my slaet dan is't brandt

Ais men my luyt dan ist storm in Vlaenderlandt.

(Quando eu toco é porque há fogo

Quando eu toco é porque há tempestade na Flandres.)

Concluindo que a mãe falava assim muito alto, levou o sino. E os habitantes das terras baixas diziam que Gante estava morta, porque o seu filho lhe tinha arrancado a língua com tenazes de ferro.

 

Nesses dias, que foram dias de Primavera claros e frescos, quando a terra está cheia de amor, Soetkin conversava junto da janela aberta, Claes cantarolava um estribilho, e Ulenspiegel tinha posto um barrete de juiz a Titus Bibulus Schnouffius. O cão levantava as patas como se quisesse fazer sinal para parar, embora pretendesse só libertar-se do barrete.

De súbito, Ulenspiegel fechou a janela, correu pelo quarto, saltou por cima das cadeiras e das mesas, as mãos estendidas para o tecto.

Soetkin e Claes perceberam que toda esta canseira era para apanhar uma avezinha que, de asas trémulas, piava de medo, encolhida numa trave do tecto. Ulenspiegel ia apanhá-la, quando Claes o verberou em

voz alta:

- Para que estás a saltar assim?

- Para o apanhar - respondeu Ulenspiegel - e metê-lo na gaiola, dar-lhe grãozinhos e fazer com que cante para eu ouvir.

Entretanto, a ave, piando de angústia, esvoaçava pelo quarto, batendo com a cabeça contra os vidros da janela.

Ulenspiegel não deixava de saltar. Claes pousou-lhe pesadamente a mão no ombro:

- Agarra-o - ordenou - mete-o na gaiola, fá-lo cantar para ti, mas também eu te meterei numa gaiola fechada com boas grades de ferro, e te mandarei cantar. Gostas de correr, não poderás fazê-lo; estarás à sombra quando tiveres frio, ao sol, quando tiveres calor. Depois, um domingo, sairemos sem nos lembrarmos de te dar de comer e só voltaremos na quinta-feira, e, ao voltarmos, encontraremos Thyl morto de fome e sem acção.

Soetkin chorava, Ulenspiegel saltou:

- Que fazes? - perguntou Claes.

- Vou abrir a janela à ave - respondeu.

Com efeito, a ave, que era um pintassilgo, saiu pela janela, lançando um grito feliz, subiu como uma flecha no ar, depois indo poisar numa macieira vizinha, alisou as asas com o bico sacudiu a plumagem e furiosa disse na sua língua de ave mil injúrias contra Ulenspiegel.

Claes comentou então:

- Filho, nunca prives um homem ou um animal da sua liberdade, que é o maior bem deste mundo.

Deixa ir para o sol quem tem frio e para a sombra quem tem calor. E que Deus julgue Sua Majestade que, tendo preso com correntes a liberdade de credo na Flandres, acaba de colocar Gante, a nobre, na gaiola da servidão.

 

Filipe tinha desposado Maria de Portugal que se foi juntar às possessões da coroa da Espanha; teve dela D. Carlos, o louco cruel. Mas não amava a mulher!

A rainha sentia-se muito doente depois dos partos. Ficava de cama e tinha junto dela as damas de honor, entre as quais a duquesa de Alba.

Filipe deixava-a muitas vezes sozinha para ir ver queimar herejes. O mesmo fazia a duquesa de Alba, a nobre camareira da rainha.

Nessa altura, o vigário-geral do bispado tinha detido um escultor flamengo, católico, a quem um monge se recusara a pagar o preço combinado por uma imagem de madeira de Nossa Senhora, e que tinha mutilado a estátua no rosto com uma tesoura, dizendo que preferia destruir a sua obra a dá-la por um preço tão baixo.

Foi denunciado pelo monge como iconoclasta, torturado sem piedade, e condenado a ser queimado vivo.

Durante a tortura, tinham-lhe queimado as plantas dos pés e ele gritava, enquanto se dirigia da prisão para a fogueira coberto com o “san benito”: - Cortem os pés! Cortem os pés! Filipe ouvia ao longe estes gritos, e estava satisfeito. Mas não se ria.

As damas de honor da rainha D. Maria deixaram-na para irem assistir à tortura e a duquesa de Alba que, ao gritar o escultor flamengo, quis ver o espectáculo, e deixou a rainha sozinha.

Filipe, os seus altos servidores, os príncipes, os condes, os escudeiros e as damas, estavam presentes quando o escultor foi preso com uma cadeia comprida a um poste que estava colocado no meio de um círculo formado por montes de palha em chamas, que deviam ir ardendo lentamente para o caso de, preso ao poste, ele querer fugir do fogo vivo.

E olhavam com curiosidade para o condenado que tentava, nu ou quase nu, munir-se de força de alma perante o calor do fogo.

Ao mesmo tempo, a rainha D. Maria, que estava de cama convalescendo de um parto, teve sede. Viu metade de um melão num prato. Arrastando-se para fora do leito, pegou no melão, e comeu toda a metade. Depois, porque o melão estava frio, suou e tremeu, e caiu para o chão sem se poder mexer.

- Ah! eu aqueceria se alguém me metesse na cama - murmurava a rainha. Ouviu o pobre escultor, que gritava:

- Cortem os pés!

- Ah! - exclamou a rainha - é um cão que está a uivar pela aproximação da minha morte?

Neste momento, o escultor, que só via à sua volta os rostos de inimigos espanhóis, pensou na Flandres, a terra dos varões, cruzou os braços, e puxando a corrente para trás, caminhou em direcção à palha e aos molhos ateados, e pondo-se erecto, cruzou os braços:

- Eis como morrem os flamengos diante dos carrascos espanhóis. Cortem os pés, não a mim, mas a eles, para que não corram mais para os homicídios. Viva a Flandres! Flandres até à eternidade!

As damas aplaudiram-no, louvando-o pela sua atitude orgulhosa. E ele morreu.

Maria tremia dos pés à cabeça, chorava, os dentes batiam de frio, por causa da morte próxima, e dizia, estendendo os braços e as pernas:

- Metam-me na cama que tenho calor.

E morreu.

E assim Filipe, como previra Katheline, a bruxa boa, semeava a morte, sangue e lágrimas por toda a parte.

 

Mas Ulenspiegel e Nele amavam-se com um amor verdadeiro.

Era o fim de Abril, todas as árvores abriam em flor, todas as plantas estavam cheias de seiva aguardando o mês de Maio, que se estendeu sobre a terra acompanhado por um pavão, colorido como um ramo de flores, e fez cantar nas árvores os rouxinóis.

Muitas vezes Ulenspiegel e Nele vagueavam os dois pelos caminhos. Nele apoiava-se ao braço de Ulenspiegel com ambas as mãos. Ulenspiegel, que ficava contente com isto, passava muitas vezes o braço em volta da cintura de Nele, para a segurar melhor, dizia ele. E ela sentia-se feliz, mas não lho dizia.

O vento trazia suavemente para os caminhos o perfume dos prados. O mar, ao longe, bramia preguiçoso. Ulenspiegel era como um jovem diabo, muito orgulhoso, e Nele como uma pequena santa do Paraíso, envergonhada com o seu prazer.

Apoiava a cabeça no ombro de Ulenspiegel, que lhe segurava as mãos entre as suas, beijava-a na testa, nas faces e na pequenina boca. Mas ela não dizia nada.

Ao fim de algumas horas, tinham calor e sede, bebiam leite em casa de um lavrador, mas não se sentiam refrescados.

E sentavam-se na beira de uma vala, na relva. Nele, muito pálida, ficava pensativa, e Ulenspiegel olhava para ela com timidez:

- Estás triste? - perguntava ela.

- Sim - respondia o jovem.

- Porquê?

- Não sei, mas estas macieiras e cerejeiras, todas as flores, este ar tépido, como que carregado de pólvora, estas margaridas que se abrem nos prados em tons de vermelho, o espinheiro, ali, perto de nós, nas sebes, todo

branco...

“Quem há-de dizer-me porque me sinto perturbado e quase a morrer ou a dormir? E o meu coração bate tão depressa quando ouço o acordar das aves nas árvores, e quando vejo o regresso das andorinhas; então, quero ir mais longe do que o Sol e a Lua. E ora tenho frio, ora tenho calor. Ah! Nele! o que eu gostava de já não estar neste mundo, ou dar mil existências àquela que me amasse...”

Mas ela não respondia, e satisfeita, sorrindo, olhava para Ulenspiegel.

 

No dia de finados, Ulenspiegel saiu da igreja de Nossa Senhora com alguns rapazes da sua idade. Lamme Goedzak tinha-se metido entre eles como uma ovelha no meio dos lobos.

Lamme ofereceu-lhes bebidas porque a mãe lhe dava todos os domingos e dias santos três "patardes".

Foi com os camaradas para "In den rooden schildt" (“O Escudo Vermelho”) de Jan van Liebeke, que lhes serviu "dobbele knollaert" de Courtrai.

Quente por causa da bebida e falando de orações, Ulenspiegel declarou que as missas de defuntos só são vantajosas para os padres.

Estava, todavia, um Judas no grupo: denunciou Ulenspiegel como hereje. Apesar das lágrimas de Soetkin e dos pedidos de Claes, Ulenspiegel foi preso. Ficou numa cave com grades um mês e três dias sem ver ninguém. O carcereiro comia três quartos de pitança. Entretanto, recolheram informações sobre o seu bom e mau comportamento. Só conseguiram apurar que ele era trocista, que gostava de ridicularizar os outros, mas que jamais havia dito mal de Deus, de Nossa Senhora, nem dos santos. Assim, a sentença foi suave, pois podia ter sido marcado com um ferro em brasa na cara, ou chicoteado até sangrar.

Tendo em consideração a sua pouca idade, os juízes condenaram-no a ir atrás dos padres, em camisa, cabeça descoberta, descalço e com uma vela na mão, na primeira procissão que saísse da igreja.

Foi no dia da Ascensão. Quando a procissão estava quase a entrar, Ulenspiegel teve que parar sob o pórtico de Nossa Senhora e proclamar:

- Obrigado Jesus! Obrigado senhores padres! As vossas orações são boas para as almas do purgatório. Na verdade são refrescantes, porque cada Ave-Maria é uma selha de água que lhes tomba nas costas, e cada Pai-Nosso é uma cuba.

E o povo escutava-o devotamente, não sem deixar de rir.

No Pentecostes, teve de seguir mais uma vez a procissão: ia de camisa, cabeça descoberta, descalço e levava na mão uma vela. No regresso, sob o pórtico e segurando respeitosamente a vela na mão, fazendo embora alguns trejeitos trocistas, disse em voz alta e clara:

- Se as preces dos cristãos são de grande alívio para as almas do Purgatório, as do deão de Nossa Senhora, santo homem perfeito na prática de todas as virtudes, mitigam tão bem as dores do fogo que estas de súbito se transformam em refresco. Mas aos diabos carrascos nada disso aproveita.

E o povo voltou a escutar com grande devoção, rindo embora, e o deão sorriu-se de eclesiástica satisfação.

Depois, Ulenspiegel foi expulso da Flandres por três anos, com a condição de fazer uma peregrinação a Roma e de voltar com a absolvição do Papa.

Claes teve de pagar três florins por estas sentenças, deu um outro ao filho e ofereceu-lhe o fato de peregrino.

Ulenspiegel estava triste no dia da partida, ao beijar Claes e Soetkin, esta banhada em lágrimas, pobre mãe. Acompanharam-no até bastante longe, com vários burgueses e burguesas. Ao entrar em casa, Claes disse à esposa:

- Mulher, é muito duro condenar por umas palavras tolas um rapaz tão novo a um castigo tão grande.

- Chora homem - disse Soetkin - ama-lo mais do que mostras e soluças. Soluços de varão são choros de leão.

Mas ele não respondeu. Nele tinha-se ido esconder na quinta para que ninguém visse que ela também chorava por Ulenspiegel. Seguiu ao longe Soetkin e Claes, os burgueses e as burguesas; quando viu que o amigo se afastava sozinho, correu para ele e pendurou-se-lhe ao pescoço:

- Vais encontrar muitas mulheres bonitas - afirmou ela.

- Bonitas, não sei - respondeu Ulenspiegel - mas frescas como tu não, porque o Sol queimou-as a todas.

Caminharam juntos durante muito tempo. Ulenspiegel estava pensativo, e dizia, às vezes:

- Hei-de fazê-los pagar as missas de defuntos.

- Quais missas, e quem as vai pagar? - perguntava Nele.

Ulenspiegel respondia:

- Todos os leões, curas, clérigos, bedéis e outros indivíduos superiores ou subalternos que nos fazem discursos frívolos. Se eu fosse operário, ter-me-iam roubado o fruto de três anos de trabalho ao fazerem-me peregrinar. Vão pagar estes três anos, mas pelo cêntuplo, e cantarei para o dinheiro deles a missa dos defuntos.

- Cuidado, Thyl, sê prudente: eles mandam-te queimar vivo - respondia Nele.

- Sou de amianto - respondia Ulenspiegel. Separaram-se, ela a chorar e ele triste e zangado.

 

Passando por Burgos, onde se realizava o mercado das quartas-feiras, viu uma mulher ser levada pelo carrasco e seus colaboradores, e um grupo enorme de matronas que gritavam e proferiam em volta dela as piores injúrias.

Ulenspiegel, ao ver que a parte de cima do vestido era guarnecida com bocados de tecido vermelho e que ela trazia ao pescoço a pedra da justiça, com correntes de ferro, percebeu que era uma mulher que tinha vendido para seu proveito os corpos jovens e frescos das filhas.

Disseram-lhe que ela se chamava Barbe, que era casada com Jason Darue e ia percorrer, assim vestida, todas as praças até voltar ao Mercado Grande, onde subiria ao cadafalso, que já tinha sido levantado. Ulenspiegel seguiu-a juntamente com a multidão vociferante.

Ao voltar ao Mercado Grande, a condenada foi colocada no cadafalso, ataram-na a um poste, e o carrasco pôs diante dela um molho de ervas e um bocado de terra, que significavam a tumba.

Disseram também a Ulenspiegel que a condenada tinha sido chicoteada na prisão. Quando se ia embora, encontrou Henri, o Mariscai, biltre que tinha sido enforcado na castelania de West-Ypres e ostentava ainda as marcas das cordas em volta do pescoço.

- Tinha sido libertado - dizia ele - quando já se encontrava no ar, por ter rezado uma oração a Nossa Senhora de Hal, de tal forma que, por verdadeiro milagre, depois de os bailios e justiceiros se terem ido embora, as cordas que já não o apertavam se partiram e ele caiu no chão, salvando-se assim.

Contudo, Ulenspiegel soube mais tarde que este biltre libertado da forca era um falso Henri Mariscai que se deixava andar à solta espalhando a sua vergonha porque era portador de um pergaminho assinado pelo deão de Nossa Senhora de Hal, que via, por causa da história deste Henri Mariscai, afluir muita gente à sua igreja, gente que pagava bem para vislumbrar de perto ou de longe a forca e durante muito tempo Nossa Senhora de Hal foi conhecida por Nossa Senhora dos Enforcados.

 

Nessa época, os inquisidores e os teólogos comunicaram pela segunda vez ao imperador Carlos que a Igreja se estava a perder; que a sua autoridade era desprezada; que se tinham sido conseguidas tantas vitórias ilustres, as devia às orações dos católicos, que mantinham sobre o trono o poder imperial.

Um arcebispo de Espanha pediu-lhe que cortasse seis mil cabeças ou queimasse outros tantos corpos, a fim de extirpar dos Países-Baixos a maligna heresia luterana. Sua Santa Majestade, porém, considerou que ainda não era o bastante.

Assim, em toda a parte por onde o pobre Ulenspiegel passava aterrorizado, só via cabeças em estacas, jovens metidas em sacos e deitadas vivas ao rio, homens amarrados nus à roda e fustigados com grandes barras de ferro, mulheres metidas em fossas, com terra por cima, e sobre elas o carrasco a dançar, para lhes esfacelar o peito. Mas os confessores daqueles e daquelas que se tinham arrependido ganhavam, de cada vez, doze soldos.

Viu em Lovaina os carrascos queimarem trinta luteranos de uma vez, e acenderem a fogueira com pólvora de canhão. Em Limburgo, viu uma família, homens e mulheres, filhas e genros, a caminharem para o suplício cantando salmos. O homem, que era velho, gritava enquanto ardia.

E Ulenspiegel, que sentia medo mas também dó, caminhava pela pobre terra.

 

Nos campos, sacudia-se como uma ave, como um cão à solta, e o coração reconfortava-se diante das árvores, dos prados e do sol claro.

Depois de ter caminhado três dias, chegou aos arredores de Bruxelas, à poderosa comuna de Uccle. Passando diante da estalagem “A Trompa”, foi atraído por um celeste odor a fricassés. Perguntou a um homem que de nariz no ar se deleitava com o perfume dos molhos, em honra de quem se elevavam ao céu aquele incenso de festejos. O outro respondeu que os irmãos da Boa Carantonha se deviam reunir depois de vésperas para festejar a libertação da comuna pelas mulheres e raparigas dos tempos passados.

Ulenspiegel, vendo ao longe uma vara em cuja extremidade fora colocado um "papegai", e em volta várias mulheres armadas com arcos, perguntou se as mulheres se tinham tornado archeiros.

O homem, aspirando o cheiro das salsichas, respondeu que no tempo do bom duque estes mesmos arcos, manipulados pelas mulheres de Uccle, tinham feito sucumbir mais de cem bandidos.

Ulenspiegel queria saber mais coisas, mas o homem dizendo que não podia falar porque tinha muita fome e muita sede pediu-lhe um "patarde" para comer e beber. Ulenspiegel deu-lho por piedade.

Logo que recebeu o "patarde" o outro entrou como raposa em galinheiro na estalagem “A Trompa”, de onde saiu triunfante, com metade de um salsichão e um grande bocado de pão.

Repentinamente Ulenspiegel ouviu um som suave de tambores e de violas, viu um numeroso grupo de mulheres a dançar, e entre elas, uma bastante bonita com uma corrente de ouro ao pescoço.

O homem, que ria satisfeito por ter comido, disse a Ulenspiegel que a jovem e bela mulher era a rainha do arco, que se chamava Mietje e era mulher de Renonckel, almotacej da comuna. Depois, pediu a Ulenspiegel seis "liardes” para beber: Ulenspiegel atirou-lhos. Tendo comido e bebido, o outro sentou-se ao sol, e limpou os dentes com as unhas.

Quando as archeiras viram Ulenspiegel com o fato de peregrino, puseram-se a dançar em volta dele, dizendo:

- Bom dia, belo peregrino; vens de longe, jovem peregrino?

Ulenspiegel respondeu:

- Venho da Flandres, bela região onde há muitas raparigas amorosas.

E pensava melancolicamente em Nele.

- Qual foi o teu crime? - perguntaram-lhe elas suspendendo a dança. j

- Não ouso confessá-lo tão grande ele é. Mas tenho outras coisas que também não são pequenas.

Elas sorriram e perguntaram-lhe porque é que ele tinha de viajar assim de bordão, alforje, e conchas de ostra.

Respondeu, mentindo um pouco:

- É por ter dito que as missas de defuntos são vantajosas para os padres.

- Trazem-lhes dinheiros sonantes, mas são vantajosas para as almas do Purgatório.

- Eu não compreendia isso - respondeu Ulenspiegel.

- Queres comer connosco, peregrino? - perguntou-lhe a archeira mais pequena.

- Quero comer convosco, saborear-te, a ti e às outras, uma de cada vez, porque sois pedaços de rei mais deliciosos que cencrâmides, tordos ou galinholas.

- Deus te alimente - disseram elas. - É caça fora de preço.

- Como vós todas, pequenas - respondeu.

- Talvez, mas não estamos para venda.

- E para dar? - perguntou.

- Sim, murros aos mais atrevidos. E, se for preciso, amassamos-te como um monte de cereal.

- Desisto.

- Vem comer.

Seguiu-as pelo pátio da estalagem, feliz por ver à sua volta estas caras frescas. De súbito, viu entrar no pátio, com grande cerimonial, com bandeira, trompeta, flauta e tambor, os irmãos da Boa Carantonha, trazendo bem à vista o nome tão divertido da sua confraria. Como estivessem a olhar para ele com certa curiosidade, as mulheres disseram-lhes que era um peregrino que tinham encontrado no caminho, e que, achando que tinha uma boa carantonha, semelhante às dos seus maridos e noivos, tinham-no convidado para partilhar do festim.

Estes concordaram com o que elas tinham feito e um deles dirigiu-se-lhe:

- Peregrino peregrinante, queres peregrinar pelos molhos e fricassés?

- Gostaria de ter botas de sete léguas - respondeu Ulenspiegel.

Quando ia a entrar com eles na sala do festim, avistou, na estrada de Paris, doze cegos.

Quando estes passaram diante dele, queixando-se de fome e de sede, Ulenspiegel disse para consigo próprio que iriam cear como reis, nessa noite, à custa do deão de Uccle, em memória das missas de defuntos. Dirigiu-se a eles e disse-lhes:

- Estão aqui nove florins, venham comer. Sentem o cheiro do fricassé.

- Ora! - disseram - depois de meia légua sem esperança.

- Vão comer agora com os nove florins - afirmou Ulenspiegel que não lhos deu.

- Deus te abençoe - disseram.

E conduzidos por Ulenspiegel sentaram-se em volta de uma pequena mesa, enquanto os irmãos da Boa Carantonha se sentavam a uma mesa grande com as mulheres e as noivas.

Falando com a firmeza dada pelos nove florins:

- Estalajadeiro - chamaram orgulhosos os cegos - traz para comer e para beber o que tiveres de melhor.

O estalajadeiro, que tinha ouvido falar de nove florins, julgou que eles os tinham na bolsa e perguntou-lhes o que é que eles queriam.

Falando todos ao mesmo tempo pediram:

- Ervilhas com toucinho, um guisado com carne de vaca, vitela, carneiro e galinha.

- As salsichas são feitas para os cães?

- Quem é que é capaz de cheirar os chouriços e as salsichas sem as pendurar ao peito? Eu via-as. Bem, quando os meus pobres olhos me serviam de candeias.

- Onde estão os "koekebakken" com manteiga de Anderlecht? Cantam na frigideira, suculentos a estalar, a pedirem um copo.

- Quem porá debaixo do meu nariz ovos com presunto ou presunto com ovos, esses irmãos, ternos amigos da goela?

- Onde estão vocês "choesels" celestes e flutuantes, soberbas carnes, entre rins, cristas de galo, arroz de vitela, rabos de boi, mão de carneiro e tempero de cebolas, pimenta, cravo da índia, nós moscada, tudo isto estufado com três medidas de vinho branco para o molho?

- Quem vos trará até mim, divinos chouriços, tão bons que ninguém fala enquanto os engole? Vêm direitos de Luyleckerland, a grande terra dos felizes mandriões, glutões de molhos eternos. Mas onde estão vocês, folhas secas dos últimos Outonos!

- Quero perna de carneiro com favas.

- Eu quero penachos de porco, isto é, orelhas.

- Eu quero um rosário de cencrâmides, os Pai-Nossos serão galinholas e um capão gordo será o Credo.

O estalajadeiro respondeu cruamente:

- Terão uma omelete de sessenta ovos, e como marcos indicadores para guiarem as vossas colheres, cinquenta chouriços de sangue, colocados ainda fumegantes sobre a comida e "dobbel peterman" a acompanhar será o rio.

Os pobres cegos ficaram com água na boca e disseram:

- Serve-nos a montanha, os marcos e o rio.

E os irmãos da Boa Carantonha e as suas mulheres, que já se tinham sentado à mesa com Ulenspiegel, diziam que aquele tinha sido para os cegos um dia de patuscadas invisíveis, e que os pobres homens perdiam assim metade do prazer.

Quando toda enfeitada com salsa e almeirão, veio a omelete trazida pelo estalajadeiro e quatro ajudantes, os cegos quiseram precipitar-se sobre ela, mas o estalajadeiro serviu-os honestamente, não sem pena, deitando a todos a sua parte na respectiva escudela.

As archeiras enterneceram-se quando os viram suspirar de prazer, porque tinham fome e comiam chouriços como se fossem ostras. O "dobbel peterman" corria nos seus estômagos como cascatas caindo do alto das montanhas.

Quando as escudelas ficaram vazias, pediram outra vez "koekèbakken", cencrâmides e fricassés. O estalajadeiro serviu-lhes um grande prato de ossos de boi, de vitelo e de carneiro, flutuando num bom molho, sem lho revelar.

Depois de terem molhado bem o pão e besuntarem as mãos no molho até aos cotovelos, e só encontrando ossos de costeletas de vitela, de perna de carneiro, até mesmo algumas queixadas de boi, cada um pensava que o vizinho tinha a carne toda, e arremessavam furiosamente os ossos à cara uns dos outros.

Os irmãos da Boa Carantonha, tendo rido com vontade, puseram caridosamente parte do seu festim no prato dos pobres homens, e todos eles procuravam um osso de guerra, punham a mão sobre um tordo, uma galinha, uma calhandra ou duas, enquanto as mulheres, inclinando-lhes a cabeça para trás, deitavam-lhes vinho de Bruxelas na boca. E quando eles tacteavam para ver de onde lhes vinha esta fonte de ambrósia, davam com uma saia e queriam prendê-la. Mas elas fugiam rapidamente.

Embora rissem, bebessem, comessem, cantassem alguns procuravam as raparigas e corriam como loucos pela sala, enfeitiçados de amor. Mas as jovens, maliciosas, fugiam-lhes, e escondendo-se atrás de um irmão da Boa Carantonha, diziam-lhes: “Beija-me.” O que eles faziam, mas em vez de uma mulher, beijavam a cara barbuda de um homem, não sem repulsa.

Os irmãos da Boa Carantonha cantaram, eles cantaram também. E as mulheres alegres sorriam com ternura ao verem a sua boa disposição.

Depois de se terem passado estas horas suculentas, o "baes" disse-lhes:

- Comeram bem e beberam bem, devem-me sete florins.

Todos juraram que não tinham a bolsa e acusaram o vizinho. Daqui resultou uma luta em que se procuraram atingir a pontapé, com os punhos, e a cabeça, mas não o conseguiram, pelo que batiam ao acaso, já que os irmãos da Boa Carantonha os afastavam uns dos outros. E os murros eram dados no ar, salvo um ou outro que por acaso atingia o "baes" que irritado, passou revista a todos e só encontrou um escapulário velho, sete liardes, três botões de calções e terços.

Quis mandá-los para a pocilga e deixá-los a pão e água até que alguém pagasse a despesa deles.

- Queres que eu sirva de caução? - perguntou Ulenspiegel.

- Sim - respondeu o "baes" - se alguém servir de

caução por ti.

Os Boas Carantonhas prontificavam-se a fazê-lo, mas Ulenspiegel impediu-os, dizendo:

- O deão servirá de fiador, estive com ele. Pensando nas missas de defuntos, foi a casa do deão e

contou-lhe como o "baes" de “A Trompa”, estando possesso do diabo, só falava de porcos e cegos, os porcos comiam os cegos e os cegos comiam os porcos sob diversas formas ímpias, assados e em fricassé. Durante estes acessos, o "baes", dizia, partia tudo em sua casa, por isso pedia-lhe para ir salvar o pobre homem a tão mau demónio. O deão prometeu-lho, mas disse-lhe que não podia ir imediatamente, porque estava a fazer as contas do capítulo e tentava apurar o seu lucro.

Vendo-o impaciente, Ulenspiegel disse-lhe que voltaria com a mulher do "baes" e que o deão lhe poderia falar.

- Venham os dois - disse o deão. Ulenspiegel voltou a casa do "baes" e disse-lhe:

- Acabo de estar com o deão, vai trazer a caução para os cegos. Enquanto o senhor fica a tomar conta deles, a "baesine" deve vir comigo a casa dele, para ele lhe repetir o que acabo de dizer.

- Vai lá mulher - ordenou o "baes".

A "baesine" foi com Ulenspiegel a casa do deão, que continuava a fazer contas para apurar o seu lucro. Quando entrou com Ulenspiegel, ele fez-lhe, impaciente, um sinal com a mão para se retirar, dizendo-lhe:

- Tranquiliza-te, irei em auxílio do teu marido dentro de um ou dois dias.

E Ulenspiegel, voltando à “A Trompa” dizia:

- Ele pagará sete florins e será a minha primeira missa de defuntos.

Foi-se embora, e os cegos também.

 

Encontrando-se, no dia seguinte, numa calçada e no meio de grande multidão, Ulenspiegel seguiu o povo e soube daí a pouco que iam em peregrinação a Alsemberg.

Viu mulheres muito idosas que iam descalças, recusando que haviam recebido um florim e para expiarem os pecados de grandes damas. Na berma da calçada, ao som de rebecas, violas e gaitas de foles, eram fornecidos fritos e "bruinbier". E o fumo dos acepipes fritos subia ao céu como um suave incenso de alimentos.

Havia, contudo, outros peregrinos, vilões, pobres e maltrapilhos, que pagos pela Igreja caminhavam de costas por seis soldos.

Um homenzinho careca, com olhos arregalados e ar furioso, saltitava recuando atrás deles, rezando Pai-Nossos.

Ulenspiegel, querendo saber porquê andava como o caranguejo, colocou-se diante dele, e sorrindo, saltava ao mesmo tempo. As rebecas, os pífaros, as violas, as gaitas de foles e os gemidos dos peregrinos faziam a música da dança.

- Jan Van den Duivel - dizia Ulenspiegel - é para melhor teres a certeza de que cais que corres assim?

O homem não respondeu e continuou a murmurar Pai-Nossos.

- Talvez-prosseguia Ulenspiegel-queiras saber quantas árvores há nesta rua. Mas não contas as folhas?

O homem, que rezava o Credo, fez sinal a Ulenspiegel para se calar.

- Talvez - dizia este saltando diante do outro e imitando-o - seja a consequência de uma loucura súbita que te faz saltar assim ao contrário do mundo. Mas quem quer obter de um louco uma resposta certa também não é muito bom. Não é verdade senhor pelado?

O homem continuava a não responder, Ulenspiegel continuou a saltitar, mas fazendo tanto barulho com as solas que o chão ressoava como um caixão de madeira.

- Talvez - dizia Ulenspiegel - sejas mudo?

- "Ave Maria - dizia o homem - gratia plena et ben-dictus fructus tui Jesu."

- Talvez sejas surdo? - disse Ulenspiegel. - Vamos ver: dizem que os surdos não ouvem elogios nem injúrias. Vejamos se é de pele ou de bronze o tímpano das tuas orelhas. Julgas, lanterna sem vela, simulacro de peão, que te pareces com um homem? Isso acontecerá quando eles forem feitos de farrapos. Onde é que já se viu esta carantonha amarela, esta cabeça pelada, fora de um campo de estropiados? Não foste enforcado outrora?

Ulenspiegel dançava, e o homem, que começava a estar zangado, corria colericamente de costas, murmurando Pai-Nossos.

- Talvez - continuava Ulenspiegel - só entendas alto flamengo, e eu estou a falar no baixo; se não és glutão és bêbedo; se não és bêbedo, bebes água, estás obstipado em qualquer parte; se não estás obstipado, és falhado; se não és indigente, és homem importante; se há temperança não é ela que te enche o ventre, e se em milhões de homens que povoam a terra só há um homem enganado, és tu.

Nesta altura, Ulenspiegel estatelou-se no chão, as pernas no ar, porque o homem lhe tinha dado tal murro no nariz que ele viu cem estrelas. Depois, caindo-lhe lesto em cima, apesar da enorme barriga, começou a dar murros a torto e a direito os quais caíam como saraiva no corpo magro de Ulenspiegel, cujo cajado rebolou pelo chão.

- Aprende com esta lição - disse-lhe o homem - a não incomodar as pessoas honestas que vão na peregrinação. Porque, fica sabendo, também vou a Alsembcrg, segundo o costume, pedir a Nossa Senhora para abortar uma criança que a minha mulher concebeu quando eu estava em viagem. Para obter uma graça tão grande, é preciso andar e dançar recuando sem falar desde o vigésimo passo da nossa morada até aos degraus da igreja. Ora! Tenho de recomeçar.

Ulenspiegel foi buscar o cajado:

- Vou ajudar-te, velhaco, pois quero ajudar Nossa Senhora a matar as crianças no ventre das mães.

E pôs-se a bater no marido enganado tão cruelmente, que o deixou como morto no caminho.

Entretanto, os lamentos dos peregrinos continuavam a subir ao céu bem como o som dos pífaros, das violas, das rebecas e das gaitas de foles, e também, como puro incenso, o fumo dos fritos.

 

Claes, Soetkin e Nele conversavam ao canto da lareira e falavam do peregrino errante.

- Minha filha - dizia Soetkin - não podes, com a força do encanto e da juventude, conservá-lo sempre junto de nós!

- Pobre de mim! - respondia Nele. - Não posso!

- É que ele tem um encanto negativo - retorquia Claes - que o força a correr sem descansar, a não ser para dar trabalho à garganta.

- Que feio e que mau! - suspirava Nele.

- Mau - dizia Soetkin - ainda posso aceitar. Mas feio não. Se o meu filho Ulenspiegel não tem feições gregas ou romanas tem-nas melhor; porque são da Flandres os seus pés lestos, dos francos de Burgos os seus olhos vivos e castanhos, e o nariz e a boca feitos por duas raposas peritas em ciências de malícia e escultura.

- Quem é que lhe fez - perguntou Claes - os braços de preguiçoso e as pernas sempre prontas para correr para o prazer?

- O coração jovem - respondeu Soetkin.

 

Katheline curou nessa altura, por processos simples, um boi, três carneiros e um porco que pertenciam a Speelman, mas não conseguiu curar uma vaca que era de Jan Beloen. Este acusou-a de bruxaria. Declarou que ela tinha enfeitiçado o animal, dado que, enquanto lhe dava o curativo, o acariciava e lhe falava, sem dúvida numa língua diabólica, porque uma cristã honesta não deve falar com um animal.

O dito Jan Beloen acrescentou que era vizinho de Speelman, a quem ela tinha curado o boi, os carneiros e o porco, e se ela tinha morto esta vaca, tinha sido sem dúvida instigada por Speelman, que sentia inveja ao ver as terras de Beloen mais bem tratadas e produzindo mais do que as suas. Com o testemunho de Pieter Meulemeester, homem de vida séria e bons costumes, e também de Jan Beloen, que garantiram que em Damme, Katheline era considerada bruxa, e tinha sem dúvida morto a vaca, Katheline foi presa e condenada à tortura até ter confessado os crimes e as más acções.

Foi interrogada por um vereador que estava sempre zangado, porque bebia aguardente todo o dia. Fez com que Katheline fosse instalada na presença dele e dos outros dois de Vierschere, no primeiro banco de tortura.

O carrasco despiu-a toda, rapou-lhe o cabelo e o corpo, para ver se ela não tinha qualquer feitiço.

Nada tendo encontrado, atou-a com cordas ao banco de tortura. Ela declarou então:

- Tenho vergonha de estar assim despida diante destes homens. Nossa Senhora, fazei que eu morra!

O carrasco pôs-lhe uns panos molhados no peito, no ventre e nas pernas, depois, levantando o banco, verteu-lhe água quente para o estômago, em tão grande quantidade que parecia inchada. Depois, voltou a descer o banco.

O vereador perguntou a Katheline se queria confessar o crime. Ela fez sinal que não. O carrasco voltou a deitar água quente, mas Katheline vomitou-a.

Então, por conselho do cirurgião, foi desligada. Não falava, mas batia no peito para dizer que a água quente a tinha queimado. Quando viram que já tinha descansado da primeira tortura, disseram-lhe:

- Confessa que és bruxa e que enfeitiçaste a vaca.

- Não confessarei. Gosto de todos os animais, tanto quanto o meu pobre coração pode, e mais depressa faria mal a mim própria do que a eles, que não se podem defender. Empreguei para curar a vaca a quantidade de remédio que era precisa.

Mas o vereador retorquiu:

- Deste-lhe veneno, porque a vaca está morta.

- Senhor vereador - respondeu Katheline. - Estou aqui diante do senhor, à mercê do seu poder: ouso, todavia, dizer-lhe que um animal pode morrer de doença como um homem, apesar da assistência dos médicos e cirurgiões. E juro por Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu na cruz pelos nossos pecados, que não quis mal nenhum a essa vaca, mas sim curá-la com remédios simples.

O vereador disse então, já furioso:

- Esta mulher do diabo vai continuar a negar. Ponham-na noutro banco de tortura!

E bebeu um copo de aguardente. O carrasco sentou Katheline na tampa de um caixão de carvalho colocado em cima de um cavalete. A dita tampa era feita em forma de telha, cortante como uma lâmina. Na chaminé havia lume, porque se estava em Novembro. Depois de estar sentada no caixão e numa vara aguçada calçaram-lhe uns sapatos muito estreitos de couro novo e puseram-na diante do lume. Quando sentiu a madeira cortante do caixão e da vara a entrar pela carne e o calor que queimava e retorcia o couro dos sapatos, gritou:

- Sofro mil dores! Quem me dá veneno preto?

- Aproximem-na do fogo - ordenou o vereador. Depois, interrogando Katheline:

- Quantas vezes cavalgaste numa vassoura para ires ao "sabat"? Quantas vezes fizeste secar o trigo na espiga, o fruto na árvore, perecer o pequeno ser no ventre da mãe? Quantas vezes fizeste de dois irmãos inimigos declarados, e de duas irmãs rivais cheias de ódio?

Katheline quis falar, mas não pôde, e agitou os braços como para dizer não. O vereador acrescentou:

- Não falará enquanto não sentir toda a sua gordura de bruxa a derreter-se. Ponham-na mais perto.

Katheline gritou. O vereador disse-lhe:

- Pede a Satanás que te refresque.

Ela fez um movimento para tentar descalçar os sapatos que fumegavam com o calor do fogo.

- Pede a Satanás que te descalce.

Estavam a dar as dez badaladas, hora do jantar do furioso vereador que saiu com o carrasco e o carcereiro, deixando Katheline sozinha diante do lume, na câmara de tortura.

Às 11 horas voltaram e encontraram Katheline, rígida e imóvel. O carcereiro disse:

- Está morta, segundo me parece.

O vereador ordenou ao carrasco que a tirasse do caixão e que lhe descalçasse os sapatos; não conseguindo tirá-los, cortou-os, e os pés de Katheline apareceram vermelhos e sangrando.

E o vereador, pensando na sua refeição, olhava para ela sem dizer uma palavra; mas daí a pouco ela recobrava os sentidos, e caindo ao chão sem se poder levantar, não obstante os seus esforços, disse ao vereador:

- Um dia quiseste-te casar comigo, mas agora não me terás. Quatro vezes três, é o número sagrado, e treze é o marido. Depois, quando o vereador quis falar, disse-lhe:

- Fica calado, ele tem o ouvido mais apurado que o arcanjo que conta no céu as palpitações do coração dos justos. Porque vieste tão tarde? Quatro vezes três é um número sagrado, mata os que não querem.

O vereador comentou:

- Recebe o diabo na cama.

- Está louca por causa do sofrimento da tortura - afirmou o carcereiro.

Katheline foi levada para a prisão. Três dias mais tarde, a câmara dos vereadores reuniu-se em Vierschere, e Katheline, por deliberação, foi condenada à pena de fogo.

Foi levada pelo carrasco e seus ajudantes para o Mercado Grande de Damme, onde estava montado um cadafalso a que ela subiu. Na praça viam-se o preboste, o arauto e os juízes.

As trombetas do arauto da cidade soaram três vezes e este, voltando-se para o povo, anunciou:

- O magistrado de Damme, tendo-se apiedado da mulher Katheline, não querendo aplicar-lhe uma punição de acordo com o rigor extremo da lei da cidade, mas, pretendendo demonstrar que ela é bruxa, manda que os cabelos sejam queimados, que pague vinte carolus de ouro como indemnização, e que seja expulsa por três anos do território de Damme, sob pena de um membro.

E o povo aplaudiu esta rude brandura.

O carrasco amarrou Katheline ao poste, colocou na cabeça rapada uma cabeleira de estopa e deitou-lhe fogo. A estopa esteve muito tempo a arder e Katheline gritava e chorava.

Depois foi desamarrada e levada para fora do território de Damme num carro puxado a cavalos, porque tinha pés queimados.

 

Encontrando-se Ulenspiegel em Bois-le-Duc, na Brabante, os senhores da cidade quiseram escolhê-lo para seu bobo, mas ele recusou com dignidade: - Um Peregrino errante não pode descansar em locais de divertimentos, mas unicamente em albergues e caminhos.

Nesta altura, Filipe, que era rei da Inglaterra, veio visitar os países que por herança, viriam a ser seus - Flandres, Brabante, Hainut, Holanda e Zelândia. Tinha então vinte e nove anos; nos seus olhos acinzentados havia amarga melancolia, dissimulação feroz e determinação cruel. Frio era o seu rosto, rígida a cabeça de cabelos fulvos, rígidos também o magro tronco e as pernas esguias. Lento era o seu falar, e pastoso, como se tivesse lã na boca.

Visitou, no meio de torneios e justas, o alegre ducado de Brabante, o rico condado de Flandres e seus outros domínios senhoriais. Por todo o lado jurou guardar os privilégios, mas quando, em Bruxelas, jurava sobre os Evangelhos respeitar a Bula de ouro de Brabante, a mão contraiu-se-lhe de tal maneira que teve de a tirar do livro santo. Foi a Antuérpia, onde tinham sido construídos vinte e três arcos do triunfo para o receber. A cidade gastou duzentos e oitenta e sete mil florins para fazer estes arcos e vestir mil oitocentos e setenta e nove mercadores, todos com fatos de veludo carmesim, quatrocentos e dezasseis lacaios com ricas librés e quatro mil burgueses com os brilhantes atavios de seda todos iguais. Foram feitas muitas saudações pelos retóricos de quase todas as cidades dos Países-Baixos.

Ali foram vistos com os seus acompanhantes, o príncipe do Amor, de Tournai, montado numa porca chamada Astarte; o rei dos Tolos, de Lille, que conduzia um cavalo pela cauda e andava para trás; o príncipe de Plaisance, de Valenciana, que se divertia a contar certos ruídos que o seu burro fazia; o abade de Liesse, de Arras, que bebia vinho de Bruxelas por um frasco em forma de breviário, o que era uma leitura alegre; o abade de Paux-Pourvus, de Ath, que vestia um fato esburacado e botinas deformadas, mas tinha um salsichão com que enchia a barriga; o preboste Doidivanas, um jovem montado numa cabra medrosa, que trotando por entre a multidão, ouvia inúmeros insultos; o abade da Travessa de Prata, do Quesnoy, que montado no seu cavalo fingia estar sentado numa travessa, dizendo “que não há animal tão grande que o fogo não possa cozer”. Fez-se toda a espécie de fantasias inocentes, mas o rei continuou triste e circunspecto

Nessa mesma noite, o marquês de Antuérpia, os burgomestres, os capitães e os deões reuniram-se a fim de descobrirem um divertimento que pudesse fazer rir o rei Filipe.

O marquês disse:

- Não ouviram falar de um Pierkin Jacobsen, bobo de Bqis-le-Duc, e muito conhecido pelas suas graças?

- Sim - retorquiram.

- Bem! - acrescentou o marquês. - Vamos-lhe mandar recado para que venha mostrar a sua agilidade, porque o nosso bobo tem chumbo nas botas.

- Vamos mandar-lhe o recado - concordaram. Quando o mensageiro de Antuérpia chegou a Bois-le-Duc,

disseram-lhe que o bobo Pierkin tinha a barriga cheia de rir, mas que estava de passagem na cidade outro bobo, chamado Ulenspiegel.

O mensageiro procurou-o numa taberna onde ele estava a comer fricassé de mexilhões e fazia um colar de conchas para uma rapariga.

Ulenspiegel ficou radiante quando soube que era por ele que tinha vindo de Antuérpia o correio da comuna, montado num belo cavalo de Vuern-Ambacht e segurando outro pelas rédeas.

Sem desmontar, o mensageiro perguntou se ele era capaz de descobrir um novo truque para fazer rir o rei Filipe.

- Tenho uma ideia debaixo dos meus cabelos - respondeu Ulenspiegel.

Partiram. Os dois cavalos, galopando à rédea solta levaram Ulenspiegel e o mensageiro a Antuérpia.

Ulenspiegel apresentou-se ao marquês, aos dois burgomestres e a outros homens da comuna.

- Que tencionas fazer? - perguntou-lhe o marquês.

- Voar - respondeu Ulenspiegel.

- Como é que vais fazer isso? - perguntou o marquês.

- Sabes o que vale menos do que uma bacia rota?

- Ignoro - respondeu o marquês.

- É um segredo que se revela - retorquiu Ulenspiegel. Entretanto, os arautos dos festejos tinham montado nos seus cavalos ajaezados de veludo carmesim, e percorreram todas as ruas principais, praças e encruzilhadas da cidade, fazendo soar os clarins e os tambores. Anunciaram assim aos "signorkes" e às "signorkinnes" que Ulenspiegel, bobo de Damme, ia voar por sobre o cais, estando presente num estrado o rei Filipe e a sua alta, ilustre e notável companhia.

Em frente do estrado ficava uma casa construída à italiana, ao longo de cujo telhado corria uma goteira. Na goteira havia uma janela de água-furtada.

Ulenspiegel, montado num burro, percorreu nesse dia a cidade. Um criado corria ao lado dele. Ulenspiegel tinha vestido o belo fato de seda carmesim que lhe tinham dado os senhores da comuna. Na cabeça tinha um capuz carmesim, com duas orelhas de burro com um guizo na extremidade de cada uma delas.

Tinha um colar de medalhas de cobre onde estava gravado em relevo o escudo de Antuérpia. Nas mangas do vestido tocava, no cotovelo pontiagudo, um guizo dourado. Calçava sapatos de sola dourada, cada um deles com um guizo. O burro estava alabardado com seda carmesim e tinha na garupa o escudo de Antuérpia bordado a ouro fino. O criado agitava na mão uma cabeça de burro, e na outra um ramo, em cuja extremidade soava um chocalho de vaca. Ulenspiegel, deixando na rua o criado e o burro, subiu para a goteira.

Ali, agitando as campainhas, abriu os braços como se fosse voar. Depois inclinando-se para Filipe disse:

- Julgava que não havia outro bobo em Antuérpia, além de mim, mas vejo que a cidade está cheia deles. Se me tivessem dito que ias voar não teria acreditado; mas quando um bobo chega e diz, que o fará, todos acreditam. Como querem que eu voe se não tenho asas?

Uns riam, outros protestavam, mas todos diziam:

- Apesar de tudo este bobo fala verdade.

Mas o rei Filipe ficou impávido como um rei de pedra. E a população da comuna murmurava baixinho:

- Não havia necessidade de fazer tantas festas para uma cara tão dura.

E deram três florins a Ulenspiegel, que lhes entregou à força o fato de seda carmesim.

- O que são três florins no bolso de um jovem, uma bola de neve diante do fogo, uma garrafa cheia para os que têm uma garganta larga? Três florins! As folhas caem das árvores e para lá voltam, mas os florins saem dos bolsos e nunca mais voltam a entrar; as borboletas partem com o Verão, e os florins também, embora pesem dois esterlinos e nove "às".

E dizendo isto, Ulenspiegel olhava para os seus três florins.

- Que cara orgulhosa - murmurava - tem no anverso o imperador Carlos, com couraça e capacete, segurando a espada numa mão e o globo deste pobre mundo na outra! É, pela graça de Deus, imperador dos romanos, rei da Espanha, etc, e é muito bom para os nossos países, o imperador couraçado.

“E no reverso está um escudo onde se vêem gravadas as armas de duque, conde, etc, das suas diferentes possessões, com esta bela legenda: "Da mihi virtutem contra hotes tuos" (“Dá-me coragem contra os teus inimigos.”)

É corajoso, na verdade, contra os reformados cujos bens foram confiscados e que ele herdou. Ah! se eu fosse o Imperador Carlos, faria florins para toda a gente, e todos seriam ricos, ninguém trabalharia.

Mas Ulenspiegel fez bem em olhar para a bela moeda, porque ela foi para o país da ruína ao som dos copos e das garrafas.

 

Enquanto esteve na goteira vestido de seda carmesim, Ulenspiegel não viu Nele que, entre a multidão, olhava para ele sorrindo. Estava nessa altura em Borgerhout, perto de Antuérpia, e pensou que havendo um bobo que se propunha voar na presença do rei Filipe, só podia ser o seu amigo Ulenspiegel.

Este, como caminhava agora sonhador, pela estrada, não ouviu um barulho de passos apressados atrás dele, mas sentiu duas mãos que lhe tapavam os olhos. Pressentindo Nele pelo cheiro perguntou:

- Estás aí?

- Sim, venho a correr atrás de ti desde que saíste da cidade. Vem comigo.

- Mas onde está Katheline?

- Não sabes que ela foi torturada, depois de a acusarem injustamente de feitiçaria, e expulsaram-na de Damme por três anos, que lhe queimaram os pés e uma estopa na cabeça? Digo-te isto para não teres medo dela, pois ficou louca devido ao seu sofrimento.

“Passa muitas horas a olhar para os pés e a dizer: "Hanske, meu doce diabo, vê o que fizeram à tua amiga. E os seus pobres pés são como duas chagas." Depois chora, dizendo: "As outras mulheres têm marido ou amante, eu vivo neste mundo como se fosse viúva."

Digo-lhe que Hans a odiará se ela falar dele diante de outras pessoas além de mim. E ela obedece-me como uma criança, salvo quando vê uma vaca ou um boi, causa da sua tortura; então, foge a correr, sem que nada a faça parar, barreiras, regatos ou regueiras, até cair de fadiga à beira de um caminho ou contra o muro de uma quinta, onde a vou buscar para lhe fazer pensos nos pés que ficam a sangrar. E estou convencida que ao queimarem a estopa lhe queimaram também o cérebro na cabeça.

Ambos ficaram tristes, a pensar em Katheline.

Chegaram ao pé dela e viram-na sentada num banco, ao sol, encostada à parede de casa. Ulenspiegel disse-lhe:

- Estás-me a conhecer?

- Quatro vezes três é o número sagrado e treze é Thereb. Quem és tu, filho deste mundo mau?

- Sou - respondeu Ulenspiegel - filho de Soetkin e de Claes.

Abanou a cabeça e reconheceu-o; depois, chamando-o com a mão, disse-lhe ao ouvido:

- Se vires aquele cujos beijos são como a neve, diz-lhe que venha, Ulenspiegel.

E mostrando os cabelos queimados:

- Sofro! Tiraram-me o espírito, mas quando ele voltar, encher-me-á a cabeça, que está vazia agora. Entendes? toca como um sino; é a minha alma que bate à porta para partir, porque arde. Se Hanske vier e não me quiser encher o cérebro, digo-lhe para me fazer um buraco na cabeça com uma faca: a alma que está lá, batendo sempre para sair, magoa-me cruelmente, e morrerei, sim. E não durmo, estou sempre à espera dele, é preciso que ele me encha a cabeça, sim.

E vergando-se sob o seu próprio peso, gemeu. Os trabalhadores que regressavam do campo para o jantar, enquanto o sino da igreja os chamava, ao passarem diante de Katheline, diziam:

- A louca!

E benziam-se. Nele e Ulenspiegel choravam, e Ulenspiegel teve de continuar a sua peregrinação.

 

Por essa altura, peregrinando, entrou ao serviço de um certo Josse, que tinha a alcunha de "Kwaebakker", o padeiro, zangado por causa da sua cara mal disposta. O "Kwaebakker" dava-lhe para comer três pães duros por semana, e para viver num sótão, onde chovia e fazia vento à maravilha.

Vendo-se tão maltratado, Ulenspiegel fez-lhe várias partidas entre as quais esta: quando se cozia pão de manhãzinha, era preciso durante a noite peneirar a farinha. Uma noite em que a lua brilhava, Ulenspiegel pediu uma vela para se alumiar, e recebeu do patrão esta resposta:

- Peneiras a farinha ao luar.

Ulenspiegel, obedecendo, peneirou a farinha para o chão, no sítio onde incidia o luar.

De manhã, o "Kwaebakker", ao verificar o trabalho que Ulenspiegel tinha feito, encontrou-o ainda a peneirar. e disse-lhe:

- A farinha é de graça, para se estar a peneirar para o chão?

- Peneirei a farinha ao luar como me ordenou - respondeu Ulenspiegel.

O padeiro respondeu:

- Burro, isto fazia-se numa peneira.

- Pensei que a lua era uma peneira de invenção recente

- retorquiu Ulenspiegel. - Mas a perda não é grande, vou apanhar a farinha.

- É muito tarde para preparar a massa e para a cozer

- responde o "Kwaebakker". Ulenspiegel sugeriu:

- "Baes", a massa do vizinho está pronta no moinho: vou lá buscá-la?

- Vai à caça - respondeu o "Kwaebakker" - e traz o que encontrares.

- Vou já, "baes" - volveu Ulenspiegel.

Dirigiu-se imediatamente para o campo e encontrou algumas aves magras que levou ao "Kwaebakker", dizendo:

- Aqui está uma mão cheia de glória que torna invisíveis todos os que a trouxerem. Queres esconder daqui em diante o teu mau carácter?

- Vou fazer queixa de ti à comuna - respondeu o "Kwaebakker", - e verás que infringiste o direito do Senhor.

Quando estavam os dois na presença do burgomestre. o "Kwaebakker", que contava pormenorizadamente as maldades de Ulenspiegel, viu que este estava com os olhos muito abertos. ficou tão furioso que, interrompendo o seu depoimento, perguntou-lhe:

- Que te aconteceu?

Ulenspiegel respondeu:

- Disseste-me que me acusarias de uma forma que eu “veria”. Estou a tentar “ver”, e é por isso que estou a olhar.

- Sai da minha vista! - exclamou o padeiro.

- Se eu estivesse nos teus olhos - continuou Ulenspiegel - só poderia sair pelas tuas narinas, uma vez que fechas os olhos.

O burgomestre, lembrando-se que naquele dia se realizava a feira dos discursos frívolos, não os quis ouvir mais.

Ulenspiegel e o "Kwaebakker" saíram ao mesmo tempo. O "Kwaebakker" levantou o cajado para ele. Ulenspiegel, evitando-o, afirmou:

- "Baes", já que é com pancadas que se peneira a minha farinha, ouve o som: é a tua cólera; fico com a flor, que é a minha alegria.

Depois, mostrando-lhe o traseiro:

- E isto - acrescentou - é a boca do forno, se quiseres cozer.

 

Ulenspiegel, continuando a peregrinação, fez-se de bom grado salteador, mas achou as penas muito pesadas para serem transportadas.

Seguia ao acaso pela estrada de Audenaerde, onde se encontrava então uma guarnição de "reiters" flamengos, encarregada de defender a cidade das hostes francesas que pululavam como gafanhotos pela região.

O comandante dos cavaleiros era um certo capitão natural de Frison, a quem chamavam Kornjuin. Percorriam também as terras baixas e pilhavam a população, que era assim, como de costume, duplamente vítima.

Para eles, tudo servia - galinhas, frangas, patos, pombos, vitelos e porcos. Um dia em que regressavam carregados com o produto do saque, Kornjuin e os seus homens viram Ulenspiegel encostado a uma árvore, dormindo e a sonhar com fricassés.

- Que fazes para viver? - perguntou Kornjuin.

- Morro de fome - respondeu Ulenspiegel.

- Qual é o teu ofício?

- Peregrinar pelos meus pecados, ver trabalhar os outros, dançar na corda, desenhar caras bonitas, esculpir cabos de facas, agarrar no "rommel-pot" e tocar a trombeta.

Se Ulenspiegel falava com tanto entusiasmo da trombeta, é porque sabia que o lugar de vigilante do castelo de Audenaerde estava vago por ter morrido o homem que desempenhava essas funções.

Kornjuin disse-lhe:

- Serás o clarim da cidade.

Ulenspiegel seguiu-o e foi instalado na torre mais alta das muralhas, numa guarita bem arejada pelos quatro ventos, com excepção do lado sul, em que só soprava por uma entrada.

Recomendaram-lhe para tocar a trombeta mal visse os inimigos, para o que devia ter a cabeça clara e os olhos limpos. Com este objectivo, não lhe dariam muita comida nem muita bebida.

O comandante e os soldados ficavam na sua torre e faziam patuscadas todo o dia, à custa das terras baixas.

Mataram e comeram mais do que um capão cuja gordura era o seu único crime. Ulenspiegel, sempre esquecido e tendo de se contentar com o seu magro caldo, não se sentia muito feliz ao cheirar o molho das salsichas. Os franceses vieram e levaram muito gado: Ulenspiegel não tocou o clarim. Kornjuin foi ter com ele e perguntou-lhe:

- Porque não tocaste? Ulenspiegel disse-lhe:

- Não vos dou graças pela vossa comida.

No dia seguinte, o comandante mandou preparar um grande festim para ele e para os soldados, mas Ulenspiegel voltou a ser esquecido. Iam começar a comer quando Ulenspiegel tocou a trompeta.

Kornjuin e os soldados, julgando que os franceses se aproximavam, deixaram os vinhos e as carnes, montaram, saíram a toda a brida da cidade, mas no campo mais não encontraram do que um boi ruminando ao sol, e levaram-no. Entretanto, Ulenspiegel tinha-se enchido de vinhos e carnes. O comandante viu-o de pé, sorrindo, as pernas vacilantes à porta da sala do festim. Disse-lhe:

- Que ideia é essa de tocar o alarme quando não vês o inimigo, e de não tocar quando o vês?

- Senhor comandante - respondeu Ulenspiegel - Estou de tal maneira inchado com os quatro ventos, que poderia ficar a boiar numa bacia se não tivesse tocado a trompeta para me aliviar. Leve-me uma vez por outra, quando precisar de pele de burro para tambores. Kornjuin foi-se embora sem dizer uma palavra. Entretanto chegou a Audernaerde a notícia de que o gracioso Imperador Carlos V vinha a esta cidade, muito nobremente acompanhado. Nessa ocasião, os vereadores deram a Ulenspiegel um binóculo para que pudesse ver chegar Sua Santa Majestade. Ulenspiegel devia tocar três vezes a trompeta logo que visse o Imperador aparecer em Luppeghem, que fica a um quarto de légua de Borgpoort. A gente da cidade teria assim tempo para tocar os sinos, preparar o fogo de artifício, meter as carnes no forno e os espetos nas barricas.

Certa vez, pelo meio-dia, o vento vinha de Brabante e o céu estava limpo: Ulenspiegel viu, na estrada de Luppeghem, um grande grupo de senhores montados em garbosos cavalos, as plumas dos capacetes adejando ao vento. Alguns traziam bandeiras. O que cavalgava com garbo á frente tinha um capacete dourado com grandes plumas. Estava vestido de veludo castanho, bordado como se fosse brocatel.

Ulenspiegel, pegando no binóculo, viu que era o Imperador Carlos V que vinha conceder a Audernaerde o favor de lhe servir os melhores vinhos e as melhores carnes. O grupo caminhava devagar, respirando o ar fresco que abre o apetite, mas Ulenspiegel pensou que se eles comiam sempre bem podiam jejuar um dia sem lhes fazer mal. Assim, deixou-os aproximarem-se sem tocar a trompeta. Avançavam rindo e conversando, enquanto Sua Santa Majestade olhava para o estômago, certificando-se de que havia bastante espaço para o jantar da gente de Audernaerde. Parecia surpreendido e descontente por não ouvir nenhum sino a tocar anunciando a sua vinda.

Nesta altura, chegou a correr um camponês dizendo que tinha visto um grupo de cavaleiros franceses que se dirigiam para a cidade a fim de tudo comerem e pilharem.

Desta forma, o porteiro fechou os portões e mandou um criado da comuna avisar os outros porteiros da cidade.

Os cavaleiros, porém, mostravam o seu júbilo, sem saberem de nada.

Sua Majestade avançava, zangado por não ouvir o tocar dos sinos, o troar dos canhões e o detonar dos arcabuzes. Pondo-se à escuta, não ouviu mais do que o carrilhão que batia a meia hora. Chegou diante da porta, encontrando-a fechada, bateu com o punho para que abrissem.

Os senhores da sua comitiva, irados como ele, murmuravam palavras ásperas. O porteiro, que estava no alto das muralhas, disse-lhes que se eles não acabassem com aquela algazarra os regaria com metralha para lhes refrescar a impaciência.

Mas Sua Majestade, encolerizada, vociferou:

- Porco cego, não reconheces o teu Imperador?

O porteiro respondeu que os menos porcos nem sempre são os mais dourados, que ele sabia por experiência que os franceses eram por natureza trocistas e que, estando o imperador em campanha na Itália, não se podia encontrar às portas de Audenaerde.

Carlos e os fidalgos gritavam cada vez mais:

- Se não abres, fazemos-te assar na ponta de uma lança. E antes tens de comer as chaves.

Ao ouvir esta algazarra, um soldado saiu da casa dos canhões, e passando o nariz por cima do muro:

- Porteiro, estás enganado, é o nosso Imperador; reconheço-o, embora tenha envelhecido desde o dia em que levou Maria Van der Gheynst, daqui para o castelo de Lallaing.

O porteiro caiu, tolhido de medo, e o soldado tirou-lhe as chaves e foi abrir a porta.

O imperador perguntou-lhe porque o tinham feito esperar tanto tempo. Explicou-lhe o soldado, e Sua Majestade ordenou-lhe que fechasse a porta, que trouxesse à sua presença os "reiters" de Kornjuin, aos quais mandou marchar na sua frente, tocando os tambores e os pífaros.

Daí a pouco, um a um, os sinos foram acordando, para tocarem depois com toda a intensidade. Assim precedida, Sua Majestade chegou com um bulício imperial à Praça do Mercado. Os burgomestres e vereadores estavam ali reunidos; o vereador Jan Guigelaer foi atraído pelo barulho. Entrou na sala de conselho, dizendo:

"Keyser Karel is alhier!" (o Imperador Carlos está aqui!)

Estarrecidos com esta notícia, burgomestres, vereadores e conselheiros saíram da Câmara Municipal para saudarem pessoalmente o Imperador, enquanto os criados corriam pela cidade, a fim de prepararem as caixas com fogo de artifício, colocarem as aves ao lume e os espetos nos tonéis.

Homens, mulheres e crianças corriam em todas as direcções, proclamando:

"Keyser Karel is op't groot marckt!" (o Imperador Carlos está na Praça do Mercado!)

Daí a pouco, estava reunida na praça uma grande multidão.

O Imperador, muito encolerizado, perguntou aos dois burgomestres se eles não mereciam ser enforcados por terem faltado assim ao respeito devido ao seu soberano.

Os burgomestres responderam que de facto o mereciam, mas que Ulenspiegel, clarim da torre, o merecia mais, dado que, mal se ouvira falar da vinda de Sua Majestade, o tinham mandado para ali e lhe tinham dado um binóculo e a ordem expressa de tocar a trompeta três vezes, logo que avistasse o cortejo imperial. Contudo ele não tinha feito nada disso.

O imperador, ainda irado, mandou buscar Ulenspiegel.

- Porque possuindo tu um binóculo tão nítido não tocaste a trompeta quando me viste? - perguntou.

Ao dizer isto, passou a mão pelos olhos, por causa do sol, e voltou-se para Ulenspiegel.

Este passou também a mão pelos olhos e respondeu que depois de ter visto Sua Majestade espreitar por entre os dedos não tinha querido servir-se do binóculo.

O imperador disse-lhe que ia ser enforcado, o porteiro da cidade afirmou que era bem feito, e os burgomestres ficaram tão aterrorizados com esta sentença, que não disseram uma palavra nem para aprovar nem para contradizer.

Foram chamados o carrasco e os seus ajudantes. Vieram com uma escada e uma corda nova, agarraram Ulenspiegel pela gola, levando-o à frente de cem cavaleiros de Kornjuin. O condenado estava muito quieto, e dizia as suas orações, enquanto os outros zombavam dele com amargura.

O povo que a tudo assistia, ia dizendo:

- É uma grande crueldade levar assim à morte um pobre jovem por falta tão pequena.

E os tecelões, que se encontravam ali em grande número, diziam:

- Não deixaremos que se apoderem de Ulenspiegel; é contra a lei de Audenaerde.

Entretanto, chegaram ao campo dos suplícios. Ulenspiegel foi içado para a escada, e o carrasco pôs-lhe a corda em volta do pescoço. Os tecelões juntavam-se em volta da forca. O preboste tinha o símbolo da justiça - com o qual devia, por ordem do imperador, dar o sinal da execução- apoiado no dorso do cavalo.

Todo o povo gritava:

“Perdão! Perdão para Ulenspiegel!”

Ulenspiegel, na escada, dizia: “Piedade, Imperador benevolente!” O Imperador levantou a mão e disse:

- Se este maroto pedir uma coisa que eu não possa fazer, terá a vida!

- Fala, Ulenspiegel - gritou o povo. As mulheres choravam e diziam:

“Não poderá pedir nada, o pobre, porque o imperador pode tudo.” E todos clamavam: “Fala, Ulenspiegel!”

- Santa Majestade - afirmou Ulenspiegel. - Não vos peço nem dinheiro, nem terras, nem a vida, mas somente uma coisa por causa da qual não me mandareis, se eu ousar dizê-la, chicotear ou espancar, antes de ir para a terra das almas.

- Prometo - disse o Imperador.

- Majestade - disse Ulenspiegel - peço-vos que, antes de ser enforcado, venhas beijar a boca pela qual não falo flamengo.

O imperador, que ria como as outras pessoas, respondeu:

- Não posso fazer o que pedes, e não serás enforcado, Ulenspiegel.

Mas condenou os burgomestres e os vereadores a trazerem durante seis meses binóculos na nuca a fim de, dizia, permitir que a gente de Audenaerde, que não via para a frente, visse ao menos para trás. E por decreto imperial, estes binóculos aparecem ainda nas armas da cidade.

Ulenspiegel foi-se embora modestamente, com um pequeno saco de dinheiro que as mulheres lhe tinham dado.

 

Em Liège, no mercado do peixe, Ulenspiegel seguiu um rapaz alto, que tinha debaixo do braço uma rede cheia de aves de várias espécies e estava a encher outra com bacalhau, trutas, enguias e solhas. Havia reconhecido Lamme Goedzak.

- Que estás tu a fazer aqui, Lamme?

- Sabes que muita gente da Flandres veio para esta doce região de Liège; eu segui os meus amores. E tu?

- Procuro um patrão para servir pelo pão – respondeu Ulenspiegel.

- É fraco alimento - comentou Lamme. - Era melhor que fizesses passar do prato à boca uma réstea de cen-crâmides com um tordo para o Credo.

- És rico? - perguntou-lhe Ulenspiegel. Lamme Goedzak respondeu:

- Perdi o meu pai, a minha mãe e a minha irmãzita, que me batia tanto; herdei o que tinham e vivo com uma criada vesga, perita em fricassés.

- Queres que leve o teu peixe e as aves? – perguntou Ulenspiegel.

- Sim - respondeu Lamme.

E passearam os dois pelo mercado.

- Sabes porque és tolo?

- Não - respondeu Ulenspiegel.

- Porque levas o peixe e a carne na mão em vez de os levares no estômago.

- Dizes bem, Lamme - respondeu Ulenspiegel - mas como não tenho pão, as cencrâmides não querem nada comigo.

- Vais comer, Ulenspiegel - afirmou Lamme - e vais servir-me, se a minha cozinheira te quiser.

Quando se dirigiam para casa, Lamme mostrou a Ulenspiegel uma rapariga bela e gentil vestida de seda, que ia para o mercado com o pai, o qual caminhava atrás dela carregado com duas redes, uma de peixe e outra de caça.

- Aquela - afirmou Lamme - será minha mulher.

- Sim - retorquiu Ulenspiegel - conheço-a, é uma flamenga de Zotteghem, vive na Rua Vinave-d'Isle, e os vizinhos dizem que em vez dela é a mãe quem varre a rua em frente de casa, e que o pai é quem passa as camisas.

Mas Lamme não respondeu, e disse bem disposto:

- Ela reparou em mim.

Chegaram os dois a casa de Lamme, perto da Pont-des-Arches, e bateram à porta. Uma criada vesga veio abrir. Ulenspiegel viu que era velha, alta, magra e mal encarada.

- Sanginne, queres este rapaz para te ajudar? - perguntou Lamme.

- Fico com ele à experiência.

- Toma-o lá então, e inicia-o nas doçuras da tua cozinha. A Sanginne pôs em cima da mesa três chouriços de sangue, uma medida de cerveja e um grande naco de pão.

Enquanto Ulenspiegel comia, Lamme trincava também um chouriço:

- Sabes onde habita a nossa alma?

- Não, Lamme - respondeu Ulenspiegel.

- No nosso estômago - retorquiu Lamme - para o escavar sem cessar e para renovar sempre no nosso corpo a força de vida. E quais são os melhores companheiros? São todos os manjares bons e finos e o vinho do Mosa a terminar.

- Sim - concordou Ulenspiegel - os chouriços são uma companhia agradável para a alma solitária.

- Ele quer mais, dá-lhe uma, Sanginne – comandou Lamme.

Sanginne, dessa vez, deu-lhe chouriços de carne.

Enquanto Ulenspiegel comia, Lamme, que parecia pensativo, predisse:

- Quando morrer, o meu ventre morrerá comigo, e lá em baixo no Purgatório, vão deixar-me sem comer a passear uma barriga flácida e vazia.

- Gostei mais dos chouriços de sangue – comentou Ulenspiegel.

- Já comeste seis - respondeu Sanginne - e não vais comer mais.

- Sabes - interveio Lamme - aqui serás bem tratado, e comerás como eu.

- Não esquecerei essas palavras - respondeu Ulenspiegel, que vendo que comia como o outro, sentia-se feliz. Os chouriços que tinha comido davam-lhe tanta coragem que nesse dia deixou a reluzir como sóis todos os caldeirões, frigideiras e espetos.

Vivendo bem nesta casa, frequentava de boa vontade a cave e a cozinha, deixando o celeiro para os gatos. Um dia Sanginne tinha duas galinhas a assar e disse a Ulenspiegel para voltar o espeto, enquanto ia ao mercado comprar especiarias para os temperos.

Quando as duas galinhas estavam assadas, Ulenspiegel comeu uma. Sanginne, ao entrar, disse:

- Havia duas galinhas, e só vejo uma.

- Abre os olhos e verás duas - respondeu Ulenspiegel.

A criada, zangada, foi contar a Lamme Goedzak o que tinha acontecido. Este desceu à cozinha e disse a Ulenspiegel:

- Para que fazes pouco da minha criada? Havia duas galinhas.

- Com efeito, Lamme - respondeu Ulenspiegel - mas quando vim para aqui, disseste-me que beberia e comeria como tu. Havia duas galinhas; comi uma, tu comerás a outra; a minha alegria passou, a tua está para vir; não és mais feliz do que eu?

- Sim - retorquiu Lamme sorrindo - mas faz o que Sanginne te manda e só terás metade do trabalho.

- Assim farei, Lamme - respondeu Ulenspiegel. Desta forma, todas as vezes que Sanginne o mandava fazer alguma coisa, só fazia metade; se lhe dizia para ir buscar duas selhas de água, pegava apenas uma; se lhe dizia para encher um jarro de cerveja no tonel, despejava metade pela garganta abaixo, e assim por diante.

Por fim, farta desta maneira de proceder, Sanginne comunicou a Lamme que se aquele maroto continuasse naquela casa, ela sairia imediatamente.

Lamme foi ter com Ulenspiegel e disse-lhe:

- Tens de partir, meu filho, apesar de teres conseguido boa cara nesta casa. Ouves cantar o galo, são duas horas da tarde, é presságio de chuva. Gostaria de não ter de te mandar sair com o mau tempo que vai fazer; mas pensa, meu filho, que Sanginne, com os seus fricassés, é a guardiã da minha vida: não posso, sem me arriscar a uma morte próxima, deixá-la partir. Vai, meu rapaz, com a graça de Deus, e toma, para tornar menos árduo o caminho, estes três florins e esta enfiada de salsichões.

E Ulenspiegel foi-se embora embaraçado, lamentando Lamme e a sua cozinha.

 

Novembro chegou a Damme e arredores, mas o Inverno veio atrasado. Nem neve, nem chuva, nem frio. O sol brilhava de manhã à noite, sem empalidecer; as crianças rebolavam na poeira das ruas e dos caminhos. À hora do descanso, mercadores, comerciantes, ourives, carpinteiros e jornaleiros vinham para a soleira da porta e olhavam para o céu sempre azul, para as árvores cujas folhas não tinham caído, para as cegonhas no cimo dos telhados e para as andorinhas que não tinham partido. As rosas haviam florido três vezes, e estavam em botão pela quarta vez; as noites eram tépidas, os rouxinóis não tinham deixado de cantar.

A gente de Damme comentava: - O Inverno morreu, queimemos o Inverno. E fizeram um boneco enorme com focinho de urso, barba comprida feita com aparas de madeira, e uma farta cabeleira de linho. Vestiram-lhe um fato branco, e deitaram-lhe fogo.

Claes estava triste, nem bendizia o céu azul, nem as andorinhas que não queriam partir, porque a população de Damme só utilizava o carvão para a cozinha e como todos tinham o suficiente, ninguém ia comprar a Claes, que tinha empatado todas as suas economias para se abastecer. Assim, à soleira da porta, o carvoeiro sentia o nariz ficar

frio a cada sopro de vento:

- Ah! É o meu pão que vem aí - suspirava.

Mas o vento fresco deixava de soprar, o céu ficava sempre azul, e as folhas não queriam cair.

Claes recusou-se a vender por metade do preço o abastecimento de Inverno ao avarento Grypstuiver, decano dos peixeiros. E daí a pouco o pão faltava em casa.

 

Mas o rei Filipe não tinha fome e comia bolos ao pé de sua mulher, Maria, a Feia, da família real dos Tudors. Não a amava, mas esperava fecundar esta mulher insignificante e dar à nação inglesa um monarca espanhol.

Devia resultar mal esta união entre uma pedra e um tição ardente. Uniram-se todavia o suficiente para mandarem afogar e queimar centenas de pobres reformistas.

Quando Filipe não estava ausente de Londres, nem saía disfarçado para se ir divertir para qualquer lugar de má fama, a hora de deitar reunia os dois esposos.

Então a rainha, vestida com pano de Tournay e rendas da Irlanda, encostava-se ao leito nupcial, enquanto Filipe ficava à sua frente, direito como uma estaca procurando na mulher qualquer sinal de maternidade; mas nada vendo, irritava-se, não dizia uma palavra e ficava a olhar para as unhas.

Então o demónio estéril falava ternamente e os olhos que ela queria mostrar doces pediam amparo ao glacial Filipe. Lágrimas, choros, súplicas, nada desprezava para obter uma ténue carícia daquele que já a não amava.

Em vão, juntando as mãos, ajoelhava-se a seus pés; em vão, como uma louca, chorava e ria ao mesmo tempo para o enternecer; nem o riso, nem as lágrimas, fundiam a pedra desse coração tão duro. Em vão, como uma serpente apaixonada, enlaçava-o com os magros braços e apertava-o contra o peito chato, estreita gaiola onde vivia a alma definhada do rei de sangue; ele não se mexia.

Tentava, a pobre feia, fazer-se graciosa; dava-lhe todos os nomes ternos que as apaixonadas dão aos amantes da sua escolha; Filipe olhava para as unhas.

Por vezes respondia:

- Não terás filhos?

Nesta altura, Maria deixava descair a cabeça sobre o peito.

- É culpa minha ser estéril? Tem piedade de mim: vivo como uma viúva.

- Porque não tens filhos? - dizia Filipe.

Então a rainha caía no tapete como se tivesse morrido. E nos seus olhos só havia lágrimas e teria chorado sangue se pudesse, a pobre diabo.

E assim Deus vingava nos próprios carrascos as vítimas que tinham juncado o solo de Inglaterra.

 

Corria o rumor de que o Imperador Carlos ia tirar aos monges o direito de herdarem automaticamente os bens das pessoas que morriam nos conventos, o que desagradava muito ao Papa.

Ulenspiegel, que estava na margem do Mosa, concluiu que o Imperador iria lucrar com isto, porque herdaria quando a família não herdasse.

Sentou-se na margem do rio e deitou a linha com uma boa isca. Depois, roendo um bocado de pão duro, lamentou não ter vinho de Romanha para o empurrar, mas pensou que não se pode ter sempre todas as comodidades.

Deitou todavia o pão à água, dizendo que aquele que come sem partilhar a sua refeição com o próximo não é digno de comer.

Apareceu um cadoz que veio farejar uma migalha, lambeu os beiços e abriu a goela inocente, pensando sem dúvida que o pão estava ali para ele. Enquanto olhava assim para cima, foi comido por uma solha traidora, que se lançou sobre ele como uma flecha.

A solha fez o mesmo a uma carpa que apanhava moscas em voo, sem pressentir o perigo. Bem alimentada, ficou imóvel entre duas correntes, desdenhando o peixe miúdo que aliás se afastava dela em todas as direcções. Enquanto ela se regalava assim, apareceu rápida, voraz, de goela aberta, uma solha que ainda estava em jejum e que, de um salto, se lançou sobre a primeira. Travou-se um combate violento entre elas; as bocas abriram-se em ameaças de morte; a água ficou vermelha. A solha que tinha jantado defendia-se mal da que estava em jejum; esta, afastando-se, tomou fôlego e lançou-se como uma bala sobre a adversária que, esperando de boca aberta, lhe comeu mais de metade da cabeça, quis-se desembaraçar dela, mas não pôde por causa dos dentes recurvados. E ficaram as duas a debater-se, agonizantes.

Agarradas uma à outra, não viram um anzol forte, atado a um fio de seda, que subiu do fundo da água, prendeu-se na barbatana da solha que tinha jantado, a tirou da água juntamente com a sua adversária e deitou ambas para a erva, sem qualquer consideração.

Ulenspiegel, degolando-as, dizia:

- Solhas, minhas pequeninas, não serão vocês o Papa e o Imperador comendo-se um ao outro, e não serei eu a população que, na hora de Deus, vos apanha presas ao anzol durante as vossas batalhas?

 

Entretanto Katheline, que não tinha deixado Borgerhout, continuava a vaguear pelos arredores, dizendo sempre: “Hanske, meu homem, puseram-me fogo na cabeça: faz aí um buraco para a minha alma sair. Ai! Está sempre a bater e cada pancada é uma dor aguda.” E Nele cuidava dela e da sua loucura, e junto dela sonhava, triste, com o seu amigo Ulenspiegel.

Em Damme, Claes atava os feixes, vendia carvão e muitas vezes ficava melancólico ao pensar que Ulenspiegel, o expulso, só dali a muito tempo poderia regressar ao lar. Soetkin, por seu turno, ficava todo o dia à janela, na esperança de ver regressar o filho Ulenspiegel.

A este, tendo chegado aos arredores de Colónia, parecia-lhe que gostaria de tratar de jardins. Foi oferecer-se como aprendiz a Jan de Zuursmoel, que era o chefe dos "landsknechts" e quase fora enforcado por falta de resgate, e tinha um grande horror ao cânhamo, que em flamengo, se dizia então "kennip".

Um dia, Jan de Zuursmoel, querendo mostrar a Ulenspiegel o trabalho que tinha a fazer, levou-o ao fundo do cerrado, totalmente plantado com cânhamo verde.

Jan de Zuursmoel disse a Ulenspiegel:

- Todas as vezes que vires esta horrível planta deves ofendê-la de forma vergonhosa, porque é ela que serve para a roda do suplício e para as forcas.

- Ofendê-la-ei - respondeu Ulenspiegel.

Um dia estava Jan de Zuursmoel, à mesa com alguns amigos, disse o cozinheiro a Ulenspiegel:

- Vai à cave e traz "zennip" (mostarda). Ulenspiegel, fingindo ter percebido "kennip" em vez de

"zennip", ofendeu de forma vergonhosa o pote da "zennip", e da cave levou-o para a mesa, não sem se rir.

- Porque te estás a rir? - perguntou Jan Zuursmoel. - Pensas que os nossos narizes são de estanho? Come esta "zennip", já que a preparaste.

- Gosto mais de carne assada com canela - respondeu Ulenspiegel.

Jan de Zuursmoel levantou-se para lhe bater.

- Há porcaria neste pote de mostarda.

- "Baes" - retorquiu Ulenspiegel - não se lembra do dia em que fui consigo ao fundo do cercado? Ali, o senhor disse-me, mostrando o "zennip": “Sempre que vires esta planta, ofende-a vergonhosamente, porque é ela que serve para a roda do suplício e para a forca.” Rebaixei-a, "baes", ofendi-a com grande afronta; não vai castigar-me pela minha obediência.

- Disse "kennip" e não "zennip" - declarou furioso Jan Zuursmoel.

- "Baes", o senhor disse "zennip", e não "kennip" - retorquiu Ulenspiegel.

Estiveram a discutir assim durante bastante tempo. Ulenspiegel, falando de uma forma humilde; Jan de Zuursmoel, gritando como uma águia, e misturando "zennip, kennip, kemp, zemp, zemp, kemp, zemp", como uma meada de seda torcida.

E os convivas riam como diabos, comendo costeletas de dominicanos e rins de inquisidores.

Mas Ulenspiegel acabou por deixar o serviço de Jan de Zuursmoel.

 

Enquanto isto, Nele estava sempre triste por si mesma e pela mãe, a pobre louca. Ulenspiegel, por seu turno, foi oferecer-se a um alfaiate

que lhe disse:

- Quando coseres, cose fechado, para eu nada ver. Ulenspiegel foi sentar-se debaixo de um tonel e começou a coser.

- Não era isso que eu queria dizer - berrou o alfaiate.

- Estou metido num tonel, como quer o senhor ver? - respondeu Ulenspiegel.

- Vem - disse o alfaiate - senta-te na mesa e faz os pontos juntos, uns após os outros, e faz o fato como este lobo. (“Lobo” era o nome de um gibão justo de camponês).

Ulenspiegel pegou no forro, cortou-o aos bocados e coseu-o de forma a torná-lo semelhante a um lobo. O alfaiate, ao ver isto, gritou:

- Que fizeste tu por ordem do diabo?

- Um lobo - respondeu Ulenspiegel.

- Estás a zombar - retorquiu o alfaiate. - Tinha-te dito um lobo, é verdade, mas sabes que um “lobo” é um gibão justo de camponês.

Algum tempo mais tarde, ordenou-lhe:

- Rapaz, deita as mangas a este gibão, antes de ires deitar-te.

Ulenspiegel pendurou o gibão num prego e passou a noite toda a deitar-lhe as mangas. O alfaiate, ouvindo barulho, foi ver.

- Meu malandro, que partida estás a pregar-me agora?

- Isto é uma maldade? - retorquiu Ulenspiegel. - Olhe para estas mangas, estive a deitá-las toda a noite contra o preponto, e ainda não ficaram lá agarradas.

- Isto é demais e vais já para a rua; que isto te fique de emenda.

 

Entretanto, Nele, quando Katheline estava bem vigiada em casa de um vizinho amigo, saía para bem longe, sozinha, até Antuérpia, pela margem do Escalda ou arredores, procurando sempre, nas barcas do rio e nos caminhos poeirentos, o seu amigo Ulenspiegel.

Encontrando-se em Hamburgo num dia de feira, Ulenspiegel viu mercadores por todos os lados e entre eles alguns judeus velhos que viviam da usura e de velhos penhores.

Querendo também ser mercador, Ulenspiegel viu excrementos de cavalo no chão e levou-os para o seu abrigo, que era uma concavidade no muro da muralha. Pô-los a secar. Depois comprou seda vermelha e verde, fez uns saquinhos, neles meteu o excremento de cavalo, e fechou-os com uma fita, como se contivessem almíscar.

Com a ajuda de algumas tábuas fez uma caixa, pendurou-a ao pescoço com cordas velhas, e foi para o mercado levando à frente a caixa cheia de saquinhos. À noite, para os iluminar, colocou entre eles uma vela.

Quando lhe perguntavam o que estava a vender, respondia misteriosamente:

- Eu digo-lhe, mas não devemos falar muito alto.

- O que é então? - perguntavam os fregueses.

- São - respondia Ulenspiegel - grãos proféticos vindos directamente da Arábia para a Flandres e preparados com grande arte pelo mestre Abdul-Médil, da raça do grande Maomé.

Alguns fregueses mostravam-se surpreendidos:

- É turco.

Mas outros diziam:

- É um peregrino da Flandres. Não percebem pela forma de falar?

Os andrajosos, os pedintes e os maltrapilhos vinham ter com Ulenspiegel e pediam-lhe:

- Dá-nos desses grãos proféticos.

- Quando tiverem florins para os comprarem - respondia Ulenspiegel.

E os pobres iam-se embora, tristes comentando:

- Neste mundo só há alegrias para os ricos.

O boato sobre uns grãos à venda espalhou-se rapidamente pelo mercado. Os burgueses diziam uns aos outros:

- Está ali um flamengo que tem uns grãos proféticos bentos em Jerusalém, sobre o túmulo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas dizem que ele não os quer vender.

E todos os burgueses procuravam Ulenspiegel para lhe pedir grãos.

Mas Ulenspiegel, que queria ter um bom lucro, respondia que não estavam bem maduros e não perdia de vista os dois judeus ricos que passeavam pelo mercado.

- Gostaria de saber - dizia um burguês - o que vai acontecer ao meu barco que está no mar.

- Chegará ao céu se as ondas forem suficientemente altas - respondia Ulenspiegel.

Um outro dizia-lhe, mostrando-lhe a filha, muito corada:

- Com esta tudo correrá bem, não é verdade?

- Tudo corre como a natureza quer - respondia Ulenspiegel que tinha visto a rapariga dar uma chave ao rapaz que todo inchado lhe disse:

- Senhor mercador, dê-me um dos seus sacos proféticos para eu saber se vou dormir sozinho esta noite.

- Está escrito - respondeu Ulenspiegel - que quem semeia o centeio da sedução colhe o grão da infelicidade.

O jovem irritou-se:

- Que conversa é essa - exclamou.

- Os grãos dizem - respondeu Ulenspiegel - que te desejam um feliz casamento e uma mulher que te não enfie o barrete de Vulcão. Conheces o provérbio?

E depois, falando como se pregasse:

- Aquela que dá o sinal no negócio do casamento, deixa depois aos outros, e por nada, toda a mercadoria.

Perante isto, a rapariga, querendo dar um ar de segurança, disse:

- É tudo isso que se vê nos saquinhos proféticos?

- Vê-se uma chave - disse-lhe ao ouvido Ulenspiegel. Mas o jovem tinha-se ido embora com a chave.

Num ápice, Ulenspiegel viu um ladrão tirando do balcão de um salsicheiro um salsichão com uma vara de comprimento, e metê-lo debaixo do casaco. O mercador, contudo, não dera por nada. O gatuno afastou-se muito contente, e foi ter com Ulenspiegel dizendo-lhe:

- Que é que vendes, profeta da infelicidade?

- Saquinhos onde verás que serás enforcado por gostares demais de salsichões - respondeu Ulenspiegel.

Ouvindo isto, o gatuno afastou-se, lesto, enquanto o comerciante gritava:

- Agarra que é ladrão! Agarra que é ladrão! Mas era demasiado tarde.

Enquanto Ulenspiegel falava, os dois judeus ricos, que tinham escutado com muita atenção, aproximaram-se dele e disseram-lhe:

- Que vendes, flamengo?

- Saquinhos - respondeu Ulenspiegel.

- E que se vê com os teus grãos proféticos?

- Os acontecimentos futuros, quando os chupamos - respondeu Ulenspiegel.

Os dois judeus ficaram pensativos e o mais velho disse ao outro:

- Veremos assim quando é que o nosso Messias vem; será para nós uma grande consolação. Vamos comprar um destes sacos. Quanto custam?

- Cinquenta florins - respondeu Ulenspiegel. - Se não querem pagar podem-se ir embora. Quem não compra o campo deve deixar o estrume onde ele está.

Vendo Ulenspiegel tão decidido, contaram o dinheiro, pegaram num dos sacos e foram-se para o seu lugar de reunião, aonde daí a pouco acorriam todos os judeus, sabendo que um dos dois velhos tinha comprado um segredo que lhe permitiria saber e anunciar a vinda do Messias.

Conhecedores do facto, queriam chupar o saco profético sem pagar; mas o mais velho, que o tinha comprado e se chamava Jéhu, pretendia ser o único a fazê-lo.

- Filho de Israel - dizia segurando o saquinho na mão - os cristãos troçam de nós, perseguem-nos entre os homens e gritam como se fôssemos ladrões. Os filisteus querem-nos rebaixar mais do que à terra; cospem-nos na cara, porque Deus estendeu os nossos arcos e sacudiu o freio à nossa frente. Até quando, Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, nos acontecerá o mal enquanto esperamos o bem; até quando encontraremos as trevas quando esperamos a claridade? Aparecerás tu em breve na terra, divino Messias? Quando é que os cristãos se esconderão nas cavernas e nos buracos do chão por causa do terror que terão de ti e da tua magnífica glória, quando surgires para os castigar? E os judeus clamaram:

- Vem Messias! Chupa, Jéhu!

Jéhu chupou e cuspindo disse lamentando-se:

- Em verdade vos digo, isto é porcaria e o peregrino da Flandres é um gatuno.

Todos os judeus se precipitaram e abriram o saco, viram o que ele continha e correram furiosos, para a feira, a fim de castigarem Ulenspiegel, que, é claro, não havia ficado à espera deles.

 

Um homem de Damme que não podia pagar o carvão a Claes deu-lhe o seu melhor móvel - uma besta com doze projécteis feitos de pedras bem afiadas.

Nas horas em que não tinha que fazer, Claes atirava com a besta: mais de uma lebre foi morta por ele e reduzida a fricassé por ter gostado em demasia de couves.

Claes comia com gula, e Soetkin dizia, olhando para a grande estrada deserta:

- Thyl, meu filho, não sentes o aroma dos molhos? Tenho a certeza que ele tem fome.

E, sonhadora, queria guardar a parte dele.

- Se tem fome - respondia Claes - a culpa é sua; volte, e comerá connosco.

Claes tinha pombos; gostava de ouvir cantar e piar à sua volta as toutinegras, os pintassilgos, os pardais e outras aves cantoras e palradoras. Assim, alvejava de boa vontade aos bútios e aos gaviões, reais apreciadores daquelas aves.

Ora um dia, quando media carvão no pátio, Soetkin mostrou-lhe uma ave grande que planava no ar por cima do pombal.

Claes pegou na besta e ameaçou:

- Que o diabo salve as suas aves de rapina! Armado com a besta, ficou no pátio seguindo todos os

movimentos da ave para não falhar o alvo. A claridade do céu era a do lusco-fusco. Claes só conseguia distinguir um ponto negro. Disparou, e no pátio caiu uma cegonha. Ficou aborrecido, mas Soetkin ainda ficou mais.

- Que mau, abateste a ave de Deus.

Pegou na cegonha, que só estava ferida numa asa, tratou-a com bálsamo dando-lhe conta da sua pena:

- Cegonha, minha amiga, ave de quem nós tanto gostamos, não devias planar no céu como o gavião que detestamos. Assim, as flechas partem para um alvo errado. Dói-te a asa, cegonha. Será porque sabes que as nossas mãos são mãos amigas que te deixas tratar com tanta paciência.

Quando a cegonha se curou, tinha para comer o que queria; mas preferia o peixe que Claes ia pescar para ela no canal. E sempre que o via vir, a ave de Deus abria o grande bico.

Seguia Claes como um cão, mas preferia ficar na cozinha aquecendo o estômago ao fogo e batendo com o bico na barriga de Soetkin enquanto esta preparava o jantar, como se lhe perguntasse:

- Não há nada para mim?

E era agradável ver vaguear pela casa, nas suas altas patas, esta grave mensageira da felicidade.

 

Contudo, os dias maus tinham voltado: Claes trabalhava sozinho a terra, tristemente, porque não havia tarefa para os dois. Soetkin ficava sozinha em casa preparando favas de todas as maneiras, o prato de todos os dias, para animar o apetite do marido. E cantava e ria para que ele não sofresse vendo-a triste.

Um homem a cavalo parou diante de casa; apresentava-se todo vestido de negro, era extremamente magro e tinha um aspecto muito triste.

- Está alguém em casa? - perguntou.

- Deus abençoe Vossa Melancolia - respondeu Soetkin - mas será que eu sou um fantasma para que vendo-me aqui me pergunte se está alguém em casa?

- Onde está o teu pai? - perguntou o cavaleiro.

- Se meu pai se chama Claes, está ali a semear trigo, como podes ver - retorquiu Soetkin.

O cavaleiro foi-se embora e Soetkin também, muito triste porque era preciso ir, pela sexta vez, e sem pagar, buscar pão ao padeiro. Quando voltou, de mãos vazias, ficou surpreendida por ver Claes regressar a casa triunfante e feliz, sobre o cavalo do homem vestido de preto, que vinha a pé ao lado dele a segurar as rédeas. Claes tinha em cima da perna um saco de couro que segurava orgulhosamente e que parecia bem cheio.

Ao descer do cavalo, abraçou o homem, deu-lhe uma palmada amigável e acenando com o saco gritou:

- Viva o meu irmão Josse, o bom eremita! Deus o tenha em alegria, em abastança, júbilo e saúde! É o Josse de bênção, o Josse de abundância, o Josse das sopas gordas! A cegonha não mentiu! E pôs o saco na mesa.

Nesta altura, Soetkin disse, lamentando-se:

- Marido, não vamos comer hoje: o padeiro recusou-se a dar-me pão.

- Pão? - exclamou Claes abrindo o saco e fazendo correr pela mesa um rio de ouro. - Pão? Aqui está pão, manteiga, carne, vinho, cerveja, presuntos, ossos com tutano, empadas de garça, cencrâmides, trigo, capão, como em casa dos grandes senhores! Cerveja aos toneis, vinho aos barris! Bem tolo será o padeiro que nos recusar o pão, deixaremos de comprar na loja dele.

- Mas, homem! - interrompeu Soetkin, espantada.

- Ora ouve e alegra-te - disse Claes. - Katheline, em vez de acabar no marquesado de Antuérpia o seu período de expulsão, foi a pé, conduzida por Nele, até Mayborg. Ali, Nele disse ao meu irmão Josse que vivíamos muitas vezes na miséria, apesar de trabalharmos duramente. Segundo este mensageiro me disse - e Claes apontou para o cavaleiro vestido de preto - Josse abandonou a santa religião romana para se ligar à heresia de Lutero.

O homem vestido de preto respondeu:

- São hereges os que seguem o culto da Grande Prostituída. O papa é prevaricador e vendedor de coisas santas.

- Ah! - disse Soetkin - não fale tão alto, senhor, porque senão ainda vamos parar à fogueira.

- Além disso - acrescentou Claes - Josse disse a este mensageiro que como ia combater nas tropas de Frederico de Saxe, e levava cinquenta homens bem armados, não tinha necessidade de tanto dinheiro, já que ia para a guerra, e não quis em má hora deixá-lo a um velhaco de um "lands-knecht". Então disse: “Leva a meu irmão Claes, com a minha bênção, estes setecentos florins carolus de ouro: diz-lhe que viva no bem e pense na salvação da sua alma.”

- Sim - afirmou o cavaleiro. - Chegou a altura em que Deus recompensará o homem segundo as suas obras e tratará cada um segundo os méritos da sua vida.

- Senhor - acrescentou Claes. - Não serei, entretanto impedido de gozar a boa-nova. Fique connosco porque a vamos festejar comendo belas tripas, carne assada, presuntinho que vi tão gordo e tão apetitoso na salsicharia, que até os dentes me saltaram da boca.

- Bem - afirmou o homem. - Os insensatos alegram-se enquanto os olhos de Deus estão no seu caminho.

- Ora, mensageiro - comentou Claes. - Queres ou não comer e beber connosco?

O homem respondeu.

- Os tempos para os fiéis entregarem as suas almas às alegrias terrestres chegarão quando a grande Babilónia cair!

Soetkin e Claes benzeram-se, e ele quis ir-se embora. Claes disse-lhe:

- Já que preferes partir sem aceitar a minha hospitalidade, dá ao meu irmão Josse o beijo da paz e vela por ele na batalha.

- Assim farei - respondeu o homem.

E foi-se embora, ao mesmo tempo que Soetkin saía para procurar com que festejar a inesperada fortuna. A cegonha, nesse dia teve, à ceia dois cadozes e uma cabeça de badejo.

Daí a pouco todos sabiam em Damme que o pobre Claes era agora, graças a seu irmão Josse, Claes o rico, e o deão dizia que Katheline tinha sem dúvida feito uma feitiçaria a Josse, pois Claes havia certamente recebido uma grande soma em dinheiro, e não oferecera um vestido a Nossa Senhora.

Claes e Soetkin viviam felizes. Ele trabalhava nos campos ou vendia carvão, e Soetkin mostrava-se uma excelente dona de casa.

Mas Soetkin, sempre triste, detinha os olhos, pelos caminhos, em busca de seu filho Ulenspiegel.

E os três saboreavam a felicidade que lhes vinha de Deus, esperando o que lhes reservavam os homens.

 

O Imperador Carlos recebeu de Inglaterra nesse dia uma carta, na qual seu filho lhe dizia:

“Senhor e pai,

“Desagrada-me viver neste país onde pululam como pulgas, borboletas e gafanhotos, os malditos herejes. O fogo e a espada não bastam para os afastar do tronco da árvore vivificante que é a nossa mãe e Santa Igreja. Como se este desgosto não fosse bastante, não me consideram como a um rei, mas apenas como a um marido da rainha, não tendo sem ela qualquer autoridade. Troçam de mim, dizendo em panfletos horríveis, cujos autores e impressores nunca são encontrados, que o Papa me paga para perturbar e prejudicar o reino com suplícios ímpios na forca e na fogueira, e quando quero lançar qualquer contribuição urgente, porque me deixam muitas vezes sem dinheiro, respondem maldosamente com horríveis panfletos que devo pedir dinheiro a Satanás, para quem trabalho. Os do Parlamento desculpam-se e fingem ter medo que eu me aborreça, mas nada fazem.

“Entretanto os muros de Londres estão cobertos de cartazes que me representam como parricida preparado para atacar Vossa Majestade, a fim de herdar.

“Mas vós sabeis, senhor e pai, que apesar da ambição e orgulhos legítimos, desejo a Vossa Majestade muitos e gloriosos dias de reinado.

“Está também espalhado pela cidade um desenho muito perfeito, gravado em cobre, onde estou representado a tocar um cravo com patas de gato fechado na caixa do instrumento, cuja cauda sai por buracos redondos a que está fixada com hastes de ferro. Um homem, que sou eu, queima-lhe a cauda com um ferro em brasa e obriga-o a tocar as teclas com as patas e a miar furiosamente. Estou tão feio, que nem quero ver o desenho. E representam-me a rir. Ora vós sabeis, senhor e pai, que em ocasião alguma me entregaria a este prazer profano. Procurei distrair-me, sem dúvida, fazendo miar estes gatos, mas nunca ri. Cometem um crime contra mim, na sua linguagem de rebeldes, com aquilo a que chamam a novidade e crueldade deste cravo, embora os animais não tenham alma e todos os homens - e nomeadamente todas as pessoas reais - possam servir-se disso até à morte para a sua distracção.

Mas neste país da Inglaterra gostam tanto de animais que os tratam melhor do que tratam os criados. As cavalariças e os canis são palácios, e há senhores que dormem com o cavalo na mesma liteira.

“Além disso, a minha nobre mulher e rainha é estéril. Dizem, como sangrenta afronta, que a culpa é minha e não dela, que é ciumenta, violenta e insaciável no que diz respeito ao amor. Senhor e pai, peço todos os dias a Deus que me tenha na sua graça, esperando outro trono, ainda que fosse entre os turcos, enquanto espero aquele a que me obriga a honra de ser o filho de vossa muito gloriosa e vitoriosa Majestade.

“Assinado: PHLE.”

O imperador respondeu assim a esta carta:

“Senhor e filho,

“Os teus inimigos são grandes, não o contesto, mas tenta suportar sem fraqueza este tempo de espera que te levará a uma coroa mais brilhante. Já anunciei a várias pessoas a minha intenção de retirar-me dos Países-Baixos e dos meus outros domínios, porque sei que, velho e gotoso como estou, não poderia resistir a Henrique da França, segundo deste nome, porque a Fortuna ama os jovens. Pensa também que como senhor da Inglaterra, feres pelo teu poder, a França nossa inimiga.

“Fui vilmente batido diante de Metz onde perdi quarenta mil homens. Tive de fugir diante do Senhor de Saxe. Se Deus não usar para comigo da sua boa e divina vontade para dar-me a força e o vigor anteriores, estou decidido, senhor e filho, a deixar os meus reinos para tos entregar.

"Tem pois paciência e cumpre entretanto o teu dever contra os hereges, não poupando ninguém, homens, mulheres raparigas ou crianças, porque disseram-me, não sem grande mágoa para mim, que a senhora rainha lhes quer muitas vezes perdoar. “O teu pai extremoso

“Assinado: Carlos.”

 

Por ter andado muito, Ulenspiegel tinha os pés em sangue, e encontrou no arcebispado de Mogúncia um carro de peregrinos que o levou até Roma.

Quando entrou na cidade e desceu do carro, viu à porta de uma estalagem uma mulher que lhe sorriu quando olhou para ela.

Augurando bem deste bom humor, disse-lhe:

- Estalajadeira, queres dar asilo a um peregrino errante, porque cheguei ao fim e quero receber o perdão dos meus pecados?

- Damos asilo a quem nos paga.

- Tenho cem ducados no saco - respondeu Ulenspiegel que apenas tinha um - e quero gastar o primeiro a beber contigo uma garrafa do velho vinho romano.

- O vinho não é caro nestes lugares santos - respondeu ela. - Entra e bebe, por um soldo.

Estiveram a beber tanto tempo e esvaziaram tantas garrafas que a estalajadeira viu-se obrigada a dizer à criada para em vez dela dar de beber aos fregueses enquanto com Ulenspiegel se retirava para um quarto das traseiras, com o chão de mármore frio como o Inverno.

Reclinando a cabeça no ombro de Ulenspiegel, perguntou-lhe quem era ele, ao que Ulenspiegel respondeu:

- Sou o senhor de Geeland, Conde de Gavergeeten, Barão de Tuchtendeel, e tenho em Damme, que é a terra da minha naturalidade, vinte e cinco hectares de luar.

- Que terra é essa? - perguntou a estalajadeira, bebendo da taça de Ulenspiegel.

- É uma terra onde se semeia o grão da ilusão, das esperanças loucas e das promessas vãs. Mas tu não nasceste ao luar, doce estalajadeira de pele de âmbar, de olhos brilhantes como pérolas. É a cor do sol que dá o brilho de ouro a estes cabelos; foi Vénus, sem ciúmes, quem te fez estes ombros roliços, os seios firmes, os braços redondos, as mãos pequenas. Ceamos juntos esta noite?

- Belo peregrino da Flandres, porque vieste aqui?

- Para falar ao Papa - respondeu Ulenspiegel.

- Ora! - exclamou juntando as mãos. - Falar ao Papa! Eu que sou daqui nunca o consegui fazer.

- Eu vou conseguir - declarou Ulenspiegel.

- Mas sabes onde vai ele, como é ele, quais são os seus hábitos e como vive?

- Disseram-me - respondeu Ulenspiegel - que se chama Júlio III, que é devasso, folgazão e dissoluto, bom conversador e subtil nas réplicas. Disseram-me também que tinha uma amizade extraordinária por um mendigo, escuro, enlameado e mau, que pedia esmola com um macaco, e que ao subir ao trono pontifical fê-lo cardeal do Mont, e que fica doente quando passa um dia sem o ver.

- Bebe e não fales tão alto.

- Disseram-me também - prosseguiu Ulenspiegel - que jurou como um soldado: "Al dispetto di Dio, potta di Dio", um dia em que só tinha para cear um pavão frio que havia mandado guardar, dizendo: “Eu, o Vigário de Deus, posso bem jurar por um pavão, dado que o meu Senhor se ofendeu por causa de uma maçã!” Vês, pequena, que conheço o Papa e sei como ele é.

- Ora! Mas não fales disso com outras pessoas. De qualquer maneira, não o vais ver.

- Hei-de falar com ele - declarou Ulenspiegel.

- Se conseguires, dou-te cem florins.

- Já os ganhei - retorquiu Ulenspiegel.

No dia seguinte, embora tivesse as pernas cansadas, foi à cidade e soube que o Papa dizia missa, nesse dia, na igreja de S. João de Latrão. Ulenspiegel dirigiu-se para lá e instalou-se tão perto e tão à vista do Papa quanto pôde, e todas as vezes que o Papa levantava o cálice ou a hóstia, Ulenspiegel voltava as costas ao altar.

Perto do Papa estava o cardeal que o acolitava, rosto moreno, malicioso e gordo, que trazia um macaco ao ombro enquanto distribuía a comunhão ao povo, com gestos lascivos. Referiu a atitude de Ulenspiegel ao Papa, e este, no fim da missa, mandou quatro dos seus famosos soldados, daqueles cuja fama é conhecida nestes países guerreiros, buscar o peregrino.

- Qual é a tua fé? - perguntou-lhe o Papa.

- Santo Padre, tenho a mesma fé que a minha estalajadeira - respondeu Ulenspiegel.

O Papa mandou trazer a mulher.

- Em que crês?

- No que Vossa Santidade crê - respondeu ela.

- E eu também - retorquiu Ulenspiegel.

O Papa perguntou-lhe porque tinha ele voltado as costas ao Santo Sacramento.

- Sentia-me indigno de o olhar de frente - respondeu Ulenspiegel.

- és peregrino - disse-lhe o Papa.

- Sim, venho da Flandres pedir o perdão para os meus

pecados.

O Papa deu-lhe a bênção, e Ulenspiegel saiu com a estalajadeira, que lhe deu os cem florins. Assim abastecido, deixou Roma para voltar à Flandres. Mas teve de pagar sete ducados pelo perdão escrito em pergaminho.

 

Nessa altura encontravam-se em Damme dois frades que vendiam indulgências. Tinham por cima do hábito uma camisa enfeitada com rendas.

Ficando à porta da igreja quando o tempo estava bom, no pórtico quando estava de chuva, afixaram as tarifas, segundo as quais davam por seis liardes, por um patarde, por uma meia libra parisiense, por sete ou por doze florins carolus, cem, duzentos, trezentos ou quatrocentos anos de indulgências, e segundo os preços, indulgências meio-plenárias ou plenárias, e o perdão dos maiores crimes como, por exemplo, desejar violar Nossa Senhora. Mas este custava dezassete florins.

Entregavam aos fregueses que lhes pagavam bocadinhos de pergaminho onde estava escrito o número de anos de indulgências. Em baixo lia-se esta inscrição:

Quem não quiser ser Estufado, assado, guisado No purgatório por mil anos, No inferno ardendo sempre,

Compre as indulgências, Graças e misericórdias, Por pouco dinheiro Deus lhas dará.

E os clientes vinham de dez léguas em redor.

Um dos bons irmãos pregava muitas vezes ao povo. Tinha um trono florido e passeava sem embaraço os três queixos e a barriga.

- Infeliz! - dizia fixando os olhos sobre um ou outro dos seus ouvintes. - Infeliz! Eis-te no inferno! O fogo queima-te cruelmente. Vão queimar-te no caldeirão cheio de azeite onde se preparam os "olie-koekjes" de Astarte; não és mais do que uma morcela na sertã de Lúcifer, uma perna de carneiro na de Guilguiroth, o grande diabo, porque te cortam antes em bocados.

“Vejam este grande pecador que despreza as indulgências: vejam este prato de carne estufada: é ele, é ele e o seu corpo ímpio, o seu corpo condenado, assim reduzido. E que molho! Enxofre, pez e alcatrão! E todos estes pobres pecadores são assim comidos para renascerem continuamente na dor. E é lá que estão verdadeiramente as lágrimas e o ranger de dentes. Tende piedade, Deus de misericórdia!

“Sim, eis-te no inferno, pobre condenado, sofrendo todos estes males. Se derem um dinheiro por ti sentirás imediatamente um alívio na mão direita; e se derem mais meio dinheiro as duas mãos sairão do fogo. Mas o resto do corpo? Um florim, e eis que cai o orvalho da indulgência. Oh, frescura deliciosa! E durante dez dias, cem dias, mil anos conforme pagarem não haverá mais assado, "olie-koekjes" ou fricassé! E se não for por ti, pecador, não há, nas profundezas secretas do fogo, pobre alma, os teus pais, uma esposa amada, uma rapariga com a qual tivesses pecado voluntariamente?”

E dizendo isto, o monge dava uma cotovelada ao irmão que estava ao lado dele e que empunhava uma taça de prata. E o frade baixando os olhos a este sinal, agitava untuosamente a taça, para fazer tilintar o dinheiro.

“Não tens - prosseguia o monge - não tens neste terrível inferno um filho, uma filha, uma criança amada? Eles gritam, choram, chamam por ti. És capaz de ficar surdo a estas vozes que se lamentam? Não o saberias. O teu coração de gelo vai fundir-se, mas isso custará um carolus. E olha: ao som deste carolus sobre este vil metal... (o monge que o acompanhava voltava a sacudir a taça), faz-se um vazio no fogo, e a pobre alma sobe até à boca de um vulcão. Ei-la no ar fresco, no ar livre! Onde estão as dores do fogo? O mar está próximo, mergulha, nada de costas, de bruços, à superfície das ondas e debaixo de água.

“Ouve como grita de alegria, vê como se rebola na água! Os anjos olham para ela e sentem-se felizes. Esperam por ela, mas ainda não está farta, gostaria de se tornar peixe. Não sabe que há lá em cima banhos suaves, cheios de perfumes, onde rolam grandes bocados de açúcar cristalizado branco e fresco como o gelo.

“Aparece um tubarão: nada teme. Sobe-lhe para o dorso, mas ele não a sente; quer ir com ele para as profundezas do mar. Vai saudar os anjos das águas, que comem "water-zoey" nos caldeirões de coral e ostras frescas em pratos de madrepérola. E como é bem recebida, festejada, cercada de cuidados; os anjos chamam-na sempre de cima. Por fim, bem refrescada, feliz, é vê-la subir a cantar como uma calhandra até ao mais alto céu onde Deus reina em sua glória. Encontra aí todos os seus parentes e amigos terrestres, salvo os que, tendo desprezado as indulgências e a nossa Santa Madre Igreja, ardem nas profundezas dos infernos. E assim sempre, sempre, sempre, pelos séculos dos séculos, por toda a eternidade pungente. Mas a outra alma, essa já está perto de Deus, refrescando-se nos banhos suaves e comendo açúcar cristalizado. Comprem indulgências, meus irmãos: são fornecidas em troca de cruzados, florins ouro, soberanos da Inglaterra! A moeda de cobre também não é rejeitada. Comprem! Comprem! É a loja santa; há para os pobres e para os ricos, mas por grande infelicidade, não se pode fiar, meus irmãos, porque comprar e não pagar é um crime aos olhos do Senhor.”.

O frade que não pregava agitava a taça. Florins, cruzados, ducados, patardes, soldos e dinheiros caíam ali, abundantes como granizo.

Claes, vendo-se rico, pagou um florim por dez mil anos de indulgências. Os monges deram-lhe em troca um pedaço de pergaminho.

Daí a pouco, vendo que em Damme só os sovinas é que não tinham comprado indulgências, partiram os dois frades para Heyst.

 

Vestido com o seu fato de peregrino e bem absolvido das suas faltas, Ulenspiegel deixou Roma, continuou sempre em frente e chegou a Bamberga, onde há os melhores legumes do mundo.

Entrou na estalagem onde estava uma alegre estalajadeira que lhe disse:

- Jovem senhor, queres comer pelo teu dinheiro?

- Sim - respondeu Ulenspiegel. - Mas que dinheiro é preciso para comer aqui?

A estalajadeira explicou:

- Come-se à mesa dos senhores por seis florins; à mesa dos burgueses por quatro e à mesa da família por dois.

- Quanto mais dinheiro melhor para mim - retorquiu Ulenspiegel.

Foi-se sentar à mesa dos senhores. Depois de ter comido muito bem e de ter regado o jantar com "Rhyn-wyn", disse à estalajadeira:

- Mulher comi bem para o meu dinheiro: dá-me seis florins.

A estalajadeira disse-lhe:

- Estás a troçar de mim? Paga a tua conta.

- "Baesine" pequenina - respondeu Ulenspiegel. - Não tens cara de má devedora; vejo, pelo contrário, uma boa fé tão grande, tanta lealdade e amor pelo próximo, que sei que mais depressa me pagarias dezoito florins do que recusarias os seis que me deves. Que olhos tão bonitos! São sol que incide sobre mim, fazendo crescer a loucura amorosa mais alta do que a erva em campo abandonado.

A estalajadeira respondeu:

- Nada tenho a ver com a tua loucura nem com a tua erva; paga e vai-te embora.

- Ir-me embora - disse Ulenspiegel - e não mais te voltar a ver! Preferia morrer já. "Baesine", doce "baesine", não costumo comer por seis florins, eu, pobre homem errando por montes e por vales; estou farto, e daqui a pouco ponho a língua ao sol como um cão: paga-me, ganhei bem os seis florins com o trabalho violento que dei aos meus maxilares; dá-mos e eu acariciar-te-ei, beijar-te-ei e abraçar-te-ei com um tão grande ardor de reconhecimento que nem vinte e sete apaixonados conseguiriam igualar-me.

- Tu falas pelo dinheiro

- Queres que eu coma por nada?

- Não - afirmou ela já na defensiva.

- Ah! - suspirava, ele perseguindo-a. - A tua pele é como a nata, os teus cabelos como o faisão dourado no espeto, os teus lábios como cerejas! Haverá manjar mais delicado do que tu?

- Como tens coragem, vilão - disse ela, sorrindo - para exigir seis florins. Deves dar-te por feliz por ter-te dado de comer de graça, sem nada te pedir.

- Se soubesses - acrescentou Ulenspiegel - como ainda há lugar!

- Parte! - ordenou a estalajadeira. - Vai-te embora, antes que o meu marido apareça.

- Eu serei o doce credor - respondeu Ulenspiegel. - Dá-me só um florim para a sede futura.

- Toma, rapaz mau. E deu-lho.

- Deixas-me voltar? - perguntou Ulenspiegel.

- Queres ir-te embora por bem?

- Ir-me embora por bem. Isso seria ir para ti minha pequenina. Mas é mau ir-me embora, se tenho de deixar os teus belos olhos. Se te dignares esconder-me, só comerei um florim por dia.

- Será preciso um pau?

- Toma o meu - respondeu Ulenspiegel. Embora ela se risse, Ulenspiegel teve de partir.

 

Lamme Goedzak veio por essa altura viver de novo para Damme porque as heresias estavam a provocar uma certa intranquilidade na região de Liège. A mulher seguiu-o de boa vontade, porque a gente de Liège, trocista por natureza, ria-se da extrema bondade do seu marido.

Lamme estava muitas vezes com Claes, que depois de ter herdado, frequentava a taberna “Blauwe-Torre”, onde tinha escolhido uma mesa para ele e para os seus companheiros, na mesa ao lado, bebia habitualmente, o seu meio copo, com toda a parcimónia Josse Grypstuiver, o decano dos peixeiros, avarento, sovina, mesquinho, vivendo de arenques fumados e amando mais o dinheiro que a salvação da alma. Claes tinha metido na bolsa o bocado de pergaminho em que estavam inscritos os seus dez mil anos de indulgências.

Uma noite em que estava na “Blauwe-Torre”, acompanhado por Lamme Goedzak, por Jan Van Roosebeke e por Mathys Van Assche, encontrando-se presente Josse Grypstuiver, Claes estava a beber muito, e Jan Roosebeke disse-lhe:

- É pecado beber tanto! Claes respondeu:

- Só se arde meio dia por um copo a mais. Ora eu tenho dez mil dias de indulgências na bolsa. Quem quer cem, para se poder afogar sem temer o estômago?

Todos gritaram: - e como é que as vendes?

- A um copo - respondeu Claes. - Mas dou cento e cinquenta por uma "muske conyn".

Alguns pagaram-lhe uma chopine, fiambre, e ele cortava para todos um bocadinho de pergaminho. Não foi Claes quem comeu e bebeu o preço das indulgências, mas Lamme Goedzak, que inchava a olhos vistos, enquanto Claes, vendendo a sua mercadoria, ia e vinha pela taberna.

Grypstuiver, voltando para ele a cara mal disposta, perguntou:

- Não tens para dez dias?

- Não - respondeu Claes - é muito difícil de cortar. E todos riram, enquanto Grypstuiver engolia a sua cólera. Depois Claes voltou para casa, seguido de Lamme, que caminhava como se tivesse pernas de lã.

 

No fim do terceiro ano de expulsão, Katheline voltou a Damme para se instalar na sua casa. Enlouquecida, dizia sem cessar: “Fogo na cabeça, a alma bate, faz um buraco, ela quer sair.” Fugia quando via bois e carneiros. E erguia-se sobre um banco debaixo das tílias, atrás da casa, a abanar a cabeça e olhando, sem os reconhecer, os habitantes de Damme, que diziam ao passar por ela: “Olha a doida.”

Entretanto, errando pelos caminhos e pelos atalhos, Ulenspiegel viu na estrada um burro ajaezado a couro com pregos de cobre e a cabeça enfeitada com borlas e penduricalhos de lã vermelha.

Em volta do burro estavam algumas mulheres que diziam, falando todas ao mesmo tempo: “Ninguém consegue agarrar esta horrível montada do grande feiticeiro, o barão de Raix, queimado vivo por ter sacrificado oito crianças ao diabo.”

- Mulheres, fugiu tão depressa que não houve tempo de o apanhar. É Satanás que o protege.

- Porque embora estivesse cansado e tivesse parado na estrada, quando os sargentos da comuna o vieram prender, escoucinhou e espinoteou tanto que eles não ousaram aproximar-se.

- Esses homens não tinham coragem!

Apesar destas palavras quando o burro abanava as orelhas ou batia nos flancos com a cauda, fugiam aos gritos, para se censurarem a seguir, tagarelando e pairando e voltarem a fazer o mesmo ao mínimo movimento do animal.

Mas Ulenspiegel, que olhava para elas e ria disse:

- Ah! Curiosidade sem fim e eterna tagarelice saem como rios das bocas das mulheres, e especialmente das velhas, porque nas jovens a onda é menos frequente, devido as suas ocupações amorosas.

Olhando então para o asno:

“Este animal feiticeiro, embora já não trote, está ainda ágil, e eu posso montá-lo ou vendê-lo.

Sem dizer uma palavra, foi buscar uma medida de aveia, deu-a a comer ao burro, saltou lesto para o dorso e, pegando na rédea, voltou-se para o norte, o oriente e o ocidente, e de longe deu a bênção às velhas. Estas, transidas de medo, ajoelharam-se e nesse dia contava-se que um anjo usando um gorro de feltro com uma pluma de faisão estivera ali, as tinha abençoado e tinha levado o burro do feiticeiro, por especial favor de Deus.

E Ulenspiegel, escarranchado no burro, atravessava as pradarias onde saltavam em liberdade os cavalos, onde pastavam as vacas e as bezerras, deitadas ao Sol, preguiçosas. Resolveu chamar Jef ao asno.

O burro tinha parado, feliz, e comia cardos. Às vezes arrepiava-se e batia com a cauda nos flancos para afastar as moscas vorazes que, com ele, queriam comer, mas a carne do asno.

Ulenspiegel, cujo estômago gritava de fome, sentia-se melancólico, e dizia para si mesmo:

“Serias muito mais feliz, senhor do asno, se comesses como ele o suco dos cardos, se nada viesse perturbar o teu bem-estar e lembrar-te que és mortal, isto é, nascido para suportar toda a espécie de vilanias.

“Como tu - prosseguiu, apertando as pernas - como tu, o homem da Santa Pantufa tem a sua mosca, é o senhor Lutero; e a sua Alta Majestade Carlos tem a sua também, é o senhor Francisco, primeiro de seu nome, o rei do nariz muito comprido e da espada mais comprida ainda.

“Posso também ter a minha mosca, senhor do burro. Ora! Os meus bolsos estão todos rotos e pelos buracos correm os meus belos ducados, florins, e "dealders", como uma legião de ratos fugindo da boca de um gato. Não sei porque é que o dinheiro nada quer comigo, eu que gostaria tanto de o ter. A fortuna não é mulher, como se diz, porque só ama os avarentos que o escondem, ensacam e guardam a vinte chaves e nunca deixam aparecer à janela mais do que a ponta do nariz todo dourado. Eis a mosca que me pica e aborrece e faz-me cócegas sem me fazer rir. Não me ouves, senhor burro, e só pensas em pastar. Ah! Comilão, que enches a barriga, as tuas orelhas compridas são surdas ao grito dos ventres vazios. Quero que me ouças.

E chicoteou-o com força. O burro começou a zurrar.

- Vamo-nos embora agora, que estás a cantar - disse Ulenspiegel.

Mas o burro não se afastava e parecia ter a intenção de comer até ao último todos os cardos da estrada. E não lhe escapava um só.

Vendo isto, Ulenspiegel, desmontou, cortou um ramo de cardos, voltou a montar, meteu-lhe o ramo em frente do focinho, e assim o conseguiu fazer trotar até às terras do senhor de Hesse.

- Senhor burro - dizia enquanto ia andando - corres atrás dos ramos de cardos, magra pastagem, e deixas atrás de ti o caminho cheio de plantas apetitosas. É assim que fazem todos os homens, uns cheirando o ramo da glória que a Fortuna lhes mete debaixo do nariz, os outros o ramo do lucro, outros ainda o ramo do amor. No fim do caminho, apercebem-se, como tu, de terem desejado uma ninharia e deixado para trás o que vale mais - isto é: saúde, trabalho, repouso e bem-estar em casa.

Falando assim da sua sorte com o burro, Ulenspiegel chegou diante do palácio do landegrave.

Dois arcabuzeiros jogavam aos dados nas escadarias.

Um deles, que era ruivo e de estatura gigantesca, reparou em Ulenspiegel, que continuava humildemente montado no Jef e estava a olhar para o que eles faziam.

- Que queres, cara esfomeada e peregrina? - perguntou.

- Tenho realmente muita fome e sou peregrino, contra minha vontade - respondeu Ulenspiegel.

- Se tens fome - retorquiu o militar - come pela argola da corda que se balança na forca próxima, e se destina aos vagabundos.

- Senhor capitão, se me desse o belo cordão de ouro que tem no chapéu, iria agarrar-me com os dentes ao presunto que se balança na salsicharia.

- De onde vens? - perguntou o comandante.

- Da Flandres - respondeu Ulenspiegel.

- Que queres?

- Mostrar a Sua Alteza Landegravial uma pintura minha.

- Se és pintor da Flandres - disse o oficial - entra, pois vou levar-te ao senhor.

Tendo chegado ao pé do landegrave, Ulenspiegel saudou três vezes, ou mesmo mais.

- Que Vossa Alteza desculpe a minha insolência de vir depor a vossos pés uma pintura que fiz e em que tive a honra de representar a Virgem em adornos imperiais.

“Este quadro talvez agrade, e nesse caso, orgulho-me o suficiente da minha habilidade para esperar merecer sentar-me nesse belo cadeirão de veludo vermelho, onde se sentava, em vida, o pintor nunca esquecido de sua magnanimidade.

O senhor landegrave, depois de ter observado o quadro, que era bonito, disse;

- Serás o nosso pintor. Senta-te no cadeirão.

E beijou-o nas duas faces, feliz. Ulenspiegel sentou-se.

- Estás bastante andrajoso - comentou o landegrave olhando para ele.

Ulenspiegel respondeu:

- Com efeito, senhor, Jef-é o meu burro - comeu cardos, mas eu há três dias só vejo miséria e só tenho comido o fumo da esperança.

- Vais cear da melhor carne - respondeu o landegrave, que perguntou: mas onde é que está o teu burro?

Ulenspiegel respondeu:

- Deixei-o na Praça Grande, em frente do palácio de Vossa Bondade; ficaria muito contente se Jef tivesse esta noite abrigo, cama e erva.

O senhor landegrave mandou imediatamente um dos seus pajens tratar o burro de Ulenspiegel como se fosse seu.

Daí a pouco chegava a hora da ceia, que foi como uma boda ou um festim. As carnes fumadas e os bons vinhos escorriam pelas gargantas.

Ulenspiegel e o landegrave, estavam ambos vermelhos como brasas. Ulenspiegel sentia-se alegre, mas o landegrave mostrava-se pensativo.

- Nosso pintor - afirmou de súbito. - Quero um retrato, porque é uma grande satisfação para um príncipe mortal, legar aos seus descendentes a recordação do seu rosto.

- Senhor landegrave - respondeu Ulenspiegel - o vosso prazer é a minha vontade, mas parece-me que é pena retratar Vossa Senhoria sozinho, porque nos séculos que virão não se sentirá grande alegria. Seria melhor estares acompanhado pela vossa nobre esposa, a senhora lande-gravina, pelas damas e cavalheiros, comandantes e oficiais mais valentes, no centro dos quais o senhor e a senhora brilharão como dois sóis no meio de lanternas.

- Com efeito, nosso pintor - respondeu o landegrave. - E quanto terei de pagar por um trabalho desses?

- Cem florins antecipados ou de outra forma - respondeu Ulenspiegel.

- Aqui estão adiantados - declarou o landegrave.

- A vossa compaixão, senhor - afirmou Ulenspiegel - veio pôr azeite na minha lâmpada, que arderá em vossa honra.

No dia seguinte de manhã, pediu ao senhor de landegrave para fazer desfilar diante dele aqueles a quem reservava a honra de serem retratados.

Veio o duque de Lunebourg, comandante da infantaria do landegrave. Era um homem gordo, que arrastava com dificuldade a barriga cheia de carne. Aproximou-se de Ulenspiegel, e disse-lhe ao ouvido:

- Se não me tiras no retrato metade da gordura, mandar-te-ei prender pelos meus soldados.

O duque passou.

Apareceu uma dama que tinha uma bossa nas costas e um peito tão chato como uma justiceira lâmina de espada.

- Senhor pintor, se não me puseres duas bossas em vez da que tirarás, e não as colocares à frente, faço-te esquartejar como envenenador.

A dama passou.

Depois veio uma dama de honor, loura, fresca e airosa, mas a quem faltavam três dentes no maxilar superior.

- Senhor pintor, se não me puseres a rir mostrando trinta e dois dentes, faço-te cortar aos bocadinhos pelo meu apaixonado, que está ali.

E mostrou-lhe o comandante dos arcabuzeiros que jogava aos dados na escadaria do palácio. A dama de honor passou.

O desfile continuou até que Ulenspiegel ficou sozinho com o senhor landegrave.

- Se tiveres a infelicidade de mentir num traço que seja ao retratares todas estas fisionomias, mando cortar-te a cabeça como uma galinha.

Privado da cabeça - pensou Ulenspiegel - esquartejado, cortado aos bocados ou enforcado, pelo menos... será melhor nada retratar. Terei isto em mente.

- Onde fica - perguntou ao landegrave - a sala que tenho de decorar com todas estas pinturas?

- Segue-me! - ordenou o landegrave.

E mostrando-lhe uma sala grande, com enormes paredes nuas, declarou:

- É esta a sala.

- Gostaria que colocassem nestas paredes cortinas grandes, a fim de preservar as minhas pinturas das afrontas das moscas, e da poeira.

- Vai fazer-se isso - respondeu o landegrave. Depois de as cortinas terem sido colocadas, Ulenspiegel

pediu três aprendizes para lhe prepararem as cores.

Durante trinta dias, Ulenspiegel e os aprendizes só fizeram pândegas e patuscadas, não poupando boas carnes nem vinhos velhos. O landegrave vigiava tudo isto.

Entretanto, no trigésimo primeiro dia, veio meter o nariz pela porta da sala onde Ulenspiegel lhe tinha recomendado que não entrasse.

- Então, Thyl, onde estão os retratos?

- Estão longe - respondeu Ulenspiegel.

- Não se podem ver?

- Ainda não.

Ao trigésimo sexto dia, voltou a meter o nariz pela porta:

- Então Thyl?

- Bem! Senhor landegrave, caminhamos para o fim. Ao sexagésimo dia, o landegrave aborreceu-se e entrou

na sala, ordenando:

- Vais mostrar-me imediatamente as pinturas.

- Sim, senhor desconfiado, mas não deveis abrir a cortina antes de chamar os cavalheiros e damas da vossa corte.

- Está bem.

Todos vieram, uma vez recebida a ordem.

Ulenspiegel mantinha-se diante da cortina, esta bem fechada.

- Senhor landegrave, e vós senhora landegravina, senhor de Lunebourg, e vós, belas senhoras e valentes comandantes. Pintei o melhor que sabia por trás desta cortina, tanto os vossos delicados rostos como os mais severos. E todos se podem facilmente reconhecer. Tendes curiosidade de ver, é justo mas deveis ter paciência e deixar-me dizer uma ou seis palavras. Belas damas e valentes comandantes, que sois todos de sangue nobre, podeis ver e admirar a pintura, mas se houver entre vós um vilão, esse só verá uma parede branca. E agora podeis abrir os vossos olhos, nobre.

Ulenspiegel abriu a cortina:

- Só os nobres é que vêem, só os nobres é que vêem, e dirão também: Cego em pintura como um vilão, clarividente, como um nobre.

Todos abriam muito os olhos e fingiam ver, mostrando-se uns aos outros, como se estivessem a reconhecer-se, mas nada vendo além da branca parede, ficavam confusos.

Subitamente, o bobo, que estava entre eles, deu três pulos chocalhando os guizos e gritou:

- Que me chamem vilão, vilão, vilenante vilania, mas direi e apregoarei com trompetas e fanfarras, que só vejo uma parede sem nada, uma parede branca, uma parede nua. Assim Deus e todos os santos me ajudem!

Ulenspiegel respondeu:

- Quando os tolos falam, é altura de as pessoas com juízo se irem embora.

Ia a sair do palácio, quando o landegrave o fez parar:

- Louco enlouquecedor que vais pelo mundo louvando as coisas boas e belas, e rindo com gosto das tolices, tu que ousaste, diante de altas damas e dos mais altos e maiores senhores, rir-te do orgulho heráldico e senhorial, serás enforcado um dia pela liberdade com que falas.

- Se a corda é de ouro - respondeu Ulenspiegel - partir-se-á de medo ao ver-me.

- Toma - disse o landegrave, dando-lhe quinze florins - aqui tens a primeira ponta.

- Muito agradecido, senhor - respondeu Ulenspiegel. Cada estalagem do caminho terá um fio, fio do ouro que fez presos todos estes estalajadeiros gatunos.

E foi-se embora alegremente montado no burro, com o gorro e a pluma ao vento.

 

As folhas amareleciam nas árvores e o vento do Outono começava a soprar. Katheline voltava às vezes a ter juízo por uma hora ou três. Claes dizia então que o espírito de Deus e a sua doce misericórdia vinham visitá-la. Nesses momentos, tinha poder para lançar um encanto através de gestos de palavras, sobre Nele, que via as coisas que se passavam a mais de cem léguas de distância, nas praças, nas ruas e nas casas.

Nesse dia, Katheline, estando no seu perfeito juízo comia "olie-koekjes" bem regado com "dobbel-cuyt", na companhia de Claes, de Soetkin e da Nele.

- Hoje regista-se a abdicação de Sua Santa Majestade o Imperador Carlos V. Nele, minha filha, és capaz de ver o que se passa em Bruxelas e em Brabante?

- Sou, se Katheline quiser - respondeu Nele.

Katheline mandou sentar a rapariga num banco, e com as suas palavras e gestos agindo como encanto, Nele começou a ficar sonolenta.

Katheline ordenou-lhe:

- Entra na pequena casa do Parque que é o local de repouso preferido do Imperador Carlos V.

- Estou - afirmou Nele falando em voz baixa como se tivesse falta de ar - estou numa pequena sala verde, pintada a óleo. Está ali um homem de cinquenta e quatro anos, calvo e grisalho, com uma barba loura num queixo proeminente e uma expressão má nos olhos cinzentos, cheios de astúcia, crueldade e fingida bonomia. E a esse homem chamam Santa Majestade.

“Ao pé dele está um jovem, feio como um macaco hidrocéfalo: este vi-o em Antuérpia, é o rei Filipe. Sua Santa Majestade censura-o neste momento por não se ter deitado esta noite; sem dúvida, diz, para se ir encontrar em qualquer espelunca com uma mulher da cidade baixa. Afirma que os seus cabelos cheiram a taberna, que isso não é um prazer de rei que tem à sua escolha corpos airosos, peles de cetim refrescadas nos banhos de perfumes, e mãos de grandes damas muito amorosas, o que vale mais do que uma mulher louca, que mal acabou de sair dos braços de um soldado ébrio. E não há mulher virgem, casada ou viúva, que lhe queira resistir, entre as nobres e belas, iluminando os seus amores com velas perfumadas e não com coutos de sebo mal-cheirosos.

“O rei responde a sua majestade que lhe obedecerá em tudo.

“Depois sua santa majestade tosse e bebe alguns golos de hipocraz. “Tu vais ver daqui a pouco - disse ele dirigindo-se a Filipe. - os generais do estado, os prelados, nobres e burgueses: Orange, o Calado, Egmont, o Inútil, Horne, o Impopular, Brederode, o Leão. E também todos os do Tosão de Ouro, de quem te farei soberano. Verás cem portadores de argolas, e todos eles cortariam o nariz se as pudessem trazer numa corrente de ouro, ao peito, em sinal da mais alta nobreza.

“Depois, mudando de tom e muito triste, sua santa majestade diz ao rei Filipe:

“Sabes que vou abdicar a teu favor, meu filho, dar ao Universo um grande espectáculo e falar diante de uma grande multidão, embora com soluços e com tosse, porque comi demais toda a minha vida, meu filho, será preciso que tenhas um coração muito duro, se depois de me teres ouvido não deitares algumas lágrimas.

“Chorarei, meu pai - respondeu o rei Filipe.

“Agora sua santa majestade fala a um criado que se chama Dubois:

“Dubois, arranja-me um bocado de açúcar da Madeira: tenho soluços. Eles que não me ataquem quando estiver a falar a toda a gente. O pato de ontem não me passa! Se eu bebesse um cálice de vinho de Orleães? Não, é muito cru! Se eu comesse anchovas? São muito gordurosas dá-me vinho de Romanha.

“Dubois dá a sua santa majestade o que ele pede, veste-lhe uma túnica de veludo carmesim, cobre-a com um manto dourado, coloca o cinto da espada, põe-lhe na mão o ceptro e o globo, e na cabeça a coroa.

“Depois, sua santa majestade sai da casa do Parque, montado numa pequena mula. seguido pelo rei Filipe e por muitas altas individualidades.

Dirigem-se para um edifício grande a que chamam palácio e encontram numa sala um homem alto e magro, ricamente vestido, a que chamam Orange.

“Sua santa majestade fala com este homem e diz-lhe:

“Tenho boa cara, primo Guilherme? - Mas o homem não responde.

“Sua santa majestade diz-lhe então, meio a rir, meio zangado:

“Serás sempre mudo, meu primo, mesmo para dizer as verdades aos moribundos? Achas que continue a reinar, ou que abdique, Calado?

“Sua santa majestade - responde o homem magro. Quando o Inverno chega, até os castanheiros mais fortes deixam cair as folhas.

“Soam as três horas.

“Calado, empresta-me o teu ombro para nele me apoiar - diz o Imperador.

“E apoiado nele e com a sua comitiva, entra numa grande sala, senta-se sob um dossel, num estrado coberto de seda ou de tapeçarias carmesim. Há ali três lugares: Sua santa majestade ocupa o do meio, mais enfeitado do que os outros e encimado por uma coroa imperial; o rei Filipe sentou-se no segundo e o terceiro é para uma mulher, que é sem dúvida a rainha. À direita e à esquerda, estão sentados, em bancos forrados, homens ricamente vestidos que trazem em volta do pescoço um velo de ouro. Atrás deles estão várias individualidades, que são sem dúvida príncipes e senhores.

“Em frente e abaixo do estrado, estão sentados em bancos, que não estão forrados, homens vestidos de pano. Ouço-os dizer que estão tão modestamente sentados e vestidos porque tiveram de pagar sozinhos todas as despesas. Todos se levantaram quando sua santa majestade entrou, mas ele sentou-se imediatamente, e fez sinal para o imitarem.

“Um homem velho fala longamente da gota, depois, a mulher, que parece ser a rainha, entrega a sua santa majestade um rolo de pergaminho onde há coisas escritas que sua santa majestade lê tossindo com uma voz baixa e rouca. E falando de si mesmo, declara:

“Fiz muitas viagens à Espanha, à Itália, aos Países-Baixos, a Inglaterra e à África, tudo para a glória de Deus, para o renome dos meus exércitos e o bem dos meus povos

“Depois, tendo falado pausadamente, declara que está débil e fatigado, e que vai entregar a coroa da Espanha, os condados, os ducados, os marquesados desse país, nas mãos de seu filho.

“Chora, e todos choram com Ela.

“O rei Filipe levanta-se e cai de joelhos: - "Santa majestade, será que devo receber esta coroa das vossas mãos, quando sois tão capaz de a trazer ainda?"

“Sua santa majestade diz-lhe ao ouvido para falar com benevolência aos homens que estão sentados nos bancos

forrados.

“O rei Filipe, voltando-se para eles, diz-lhes num tom áspero e sem se levantar:

“Percebo muito bem o francês, mas não o bastante para falar nessa língua. Ouvireis o que o arcebispo de Arras, senhor Grandvelle, vos dirá da minha parte: - "Falas mal meu filho" - afirmou sua majestade.

“E de facto, a assembleia murmura, vendo o jovem rei tão orgulhoso e tão longínquo. A mulher, que é a rainha, fala também para fazer o seu elogio, depois chega a vez de um velho doutor a quem sua santa majestade fez um sinal de agradecimento com a mão, quando ele acabou.

Quando estas cerimónias e discursos terminam, sua santa majestade declara aos seus súbditos que estão libertos dos juramentos de fidelidade, assina as actas desta cerimónia, e levantando-se do trono, nele fez sentar o filho. Todos choram, na sala. Depois voltam à casa do Parque.

“Encontrando-se de novo sozinhos na câmara verde, com todas as portas fechadas, sua santa majestade ri às gargalhadas, e conversando com o rei Filipe, que não ri, afirma aos soluços, continuando a rir:

«- Viste como é preciso pouco para comover esses bons homens? Que dilúvio de lágrimas! E aquelas Mães, que ao terminar o seu longo discurso, chorava como uma vitela. Tu mesmo parecias comovido, mas não o suficiente. Atenta nos espectáculos que são precisos para o povo. Meu filho, nós, os homens, gostamos tanto mais das nossas amigas quanto mais caras nos ficam. Acontece o mesmo com o povo. Quanto mais os fazemos pagar, mais nos amam.

«Tolerei na Alemanha a religião reformada que puni severamente nos Países-Baixos. Se os príncipes da Alemanha tivessem sido católicos, ter-me-ia feito luterano e teria confiscado os seus bens. Acreditam na integridade do meu zelo pela fé romana e lamentam que os deixe. Morreram por ordem minha, nos Países-Baixos, por causa da heresia, cinquenta mil pessoas, entre os seus homens mais valentes e das suas mais gentis raparigas, Vou-me embora, lamentam--se. Sem contar com as confiscações, obriguei-os a contribuir mais do que as índias e o Peru: estão tristes por me perderem.

«Destrocei a paz de Cadzant, subjuguei Gante, suprimi tudo o que podia prejudicar-me; liberdades, isenções, privilégios, tudo está submetido à acção dos oficiais oo príncipe.

Mas estes homens julgam-se ainda livres porque os deixo atirar com a balestra e levar em procissão as bandeiras das corporações. Sentiram a minha mão de senhor: metidos na gaiola, sentem-se à vontade, cantam e choram-me.

«Meu filho, está com eles como eu estive: complacente nas palavras, rude nas acções; lisonjeiro para que não tenhas necessidade de morder. Jura, jura sempre as liberdades deles, as isenções e os privilégios, mas se forem para ti um perigo, destrói-os. São de ferro, quando se lhes toca "com uma mão tímida, mas de vidro quando se lhes bate com um braço forte. Ataca a heresia, não por causa da religião romana, mas porque nos Países-Baixos arruinará a nossa autoridade; os que atacam o papa, que trazem três coroas, acabariam de boa vontade com os príncipes que só têm uma.

«Faz da liberdade de consciência, como eu fiz, um crime de lesa-majestade, com confiscações de bens, e herdarás, como o fiz toda a minha vida. E quando partires, por abdicar ou por morreres, dirão: «Oh! O bom príncipe!» E serás chorado.

«Não oiço mais nada - prosseguiu Nele - porque sua santa majestade deitou-se numa cama e dorme, e o rei Filipe, altivo e orgulhoso, olha para ele sem amor.»

Tendo dito tudo isto, Nele foi acordada por Katheline. Claes, pensativo, olhava para a chama da lareira que iluminava a chaminé.

 

Ulenspiegel, ao deixar o landegrave de Hesse, montou o burro e atravessando o Grande-Palácio, encontrou alguns rostos furiosos de senhores e damas, mas nada se preocupou com o facto.

Daí a pouco chegava às terras do duque de Lunebourg, onde deparou com um grupo de "smaedelyke broeders", alegres flamengos de Sluys que todos os sábados punham de lado algum dinheiro para uma vez por ano irem à Alemanha.

Seguiam cantando, num carro descoberto e puxado por um vigoroso cavalo de Vuerne-Ambacht, o qual os levava, divertindo-os, pelos caminhos e pântanos do ducado de Lunebourg. Havia entre eles quem tocasse pífaro, rebeca, viola e gaita de foles, fazendo muito barulho. Ao lado do carro seguia muitas vezes um "dikzak" que tocava "rommel-pot" e caminhava a pé, na esperança de abater a barriga.

Quando apenas tinham um florim, viram aparecer Ulenspiegel, carregado com dinheiro sonante. Entraram numa estalagem e pagaram-lhe uma bebida. Ulenspiegel aceitou de boa vontade. Vendo, todavia, que os "smaedelkye broeders" piscavam o olho e sorriam ao deitar-lhes as bebidas, desconfiou de qualquer coisa, saiu e ficou à porta para escutar o que eles diziam. Ouviu o "dikzak" segredar:

- É o pintor do landegrave, que recebeu mais de mil florins por um quadro. Vamos-lhe oferecer cerveja e vinho, e ele nos dará o dobro.

- Ámen- disseram os outros.

Ulenspiegel foi amarrar o burro a mil passos dali, na casa de um lavrador, deu dois patardes a uma rapariga para o guardar, regressou à estalagem, e sentou-se à mesa dos "smaedelyke broeders", sem dizer uma palavra. Estes deitaram-lhe cerveja e pagaram. Ulenspiegel fazia soar na algibeira os florins do landegrave, dizendo que tinha acabado de vender o burro a um camponês por dezassete "daelders" de prata.

Viajaram Comendo e bebendo, tocando pífaro, gaita de foles e "rommel-pot" e apanhando no caminho mulheres que lhes pareciam engraçadas. Procriaram assim crianças do bom Deus. e nomeadamente Ulenspiegel, cuja mulher teve mais tarde um filho a que chamou "Eulenspiegelken", que quer dizer - “pequeno espelho” e “mocho” em alto alemão. Isto porque a mulher não compreendeu bem o significado do nome do seu homem de acaso, e também, talvez, para recordar a hora em que o pequeno foi gerado. E foi deste Eulenspiegelken que se disse erradamente que nascera em Knittigen, na Saxónia.

Deixando-se levar pelo excelente cavalo, iam por uma estrada à beira da qual havia uma aldeia e uma estalagem com a tabuleta: "In den Ketele" (“No Caldeirão”). Saía dali um bom cheiro de fricassés.

O "dikzak" que tocava "rommel-pot" foi ter com o "baes" e disse-lhe, falando de Ulenspiegel:

- É o pintor do landegrave: pagará tudo.

O "baes", olhando para a cara de Ulenspiegel, que considerou boa, e ouvindo o tilintar dos florins e dos "dael-ders", trouxe para a mesa coisas para comer e para beber. Ulenspiegel não se fazia rogado. E continuava a fazer tilintar as moedas. Bateu muitas vezes no chapéu, dizendo que estava ali o seu maior tesouro. A patuscada prolongou-se por dois dias e uma noite, até que os "smaedelyke broeders" disseram a Ulenspiegel:

- Abandonemos esta casa, e paguemos a despesa. Ulenspiegel respondeu:

- Quando o rato está no queijo, pede para se ir embora.

- Não! - disseram.

- E quando o homem come e bebe bem, procura a poeira dos caminhos e a água das fontes cheias de sanguessugas'.'

- Não - disseram.

- Então - prosseguiu Ulenspiegel - fiquemos aqui enquanto os meus florins e "daelders" nos servirem de funil para deitar na nossa garganta as bebidas que fazem rir.

E ordenou ao estalajadeiro que trouxesse mais vinho e salsichão.

Enquanto comiam e bebiam, Ulenspiegel dizia:

- Sou eu que pago, sou o landegrave, presentemente. Se a minha bolsa estivesse vazia, que fariam, camaradas? Pegariam no meu chapéu de feltro mole e veriam que está cheio de carolus, tanto na copa como nas abas.

- Deixa-nos apalpar - disseram todos ao mesmo tempo. E suspirando sentiram entre os dedos moedas grandes

com a dimensão de carolus de ouro. Mas um deles tacteava com tanta cupidez que Ulenspiegel o repreendeu dizendo:

- Leiteiro impetuoso, é preciso saber esperar a hora de mungir.

- Dá-me metade do teu chapéu - dizia o "smaedelyk broeder".

- Não - respondia Ulenspiegel. - Não quero que tenhas um cérebro de louco, metade à sombra e metade ao sol. E dando o chapéu ao "baes":

- Guarda-o tu, porque está quente. Quanto a mim, vou despejar lá fora.

Assim fez, e o estalajadeiro guardou o chapéu.

Pouco depois abandonou a hospedaria, dirigiu-se a casa do camponês, montou no burro, e a trote largo meteu pela estrada que leva a Embden.

Os "smaedelyke broeders", não o vendo voltar, diziam uns aos outros:

- Ele foi-se embora? Quem pagará a despesa?

O "baes', cheio de medo, abriu com um golpe o chapéu de Ulenspiegel, mas em vez de carolus, só encontrou entre o feltro e o forro tentos de cobre.

Voltando-se contra os "smaedelyke broeders", invectivou-os :

- Irmãos na maroteira, não sairão daqui sem deixar toda a roupa, com excepção da camisa.

Tiveram pois que despojar-se de tudo para pagar a despesa. E porque não tinham querido vender o cavalo nem o carro. Foram assim, em camisa, por montes e vales. Toda a gente, ao vê-los tão miseráveis, lhes dava de boa vontade pão, cerveja e às vezes carne; porque eles diziam às pessoas que tinham sido assaltados por ladrões. E entre todos, só um tinha calções.

Foi pois em camisa que entraram em Síuys, dançando no carro e tocando "rommel-pot".

 

Entretanto, escarranchado no dorso de Jef, Ulenspiegel atravessava as terras e os pântanos do duque de Lune-burgo. Os flamengos chamam a este duque "Water-Signorke' porque há sempre humidade em casa dele.

Jef obedecia a Ulenspiegel como um cão, bebia "bruin-bier", dançava melhor do que um húngaro, era mestre nas artes da delicadeza, fingia-se morto e deitava-se de costas ao menor sinal.

Ulenspiegel sabia que o duque de Luneburgo, aborrecido e zangado por Ulenspiegel ter zombado dele em Darmes-tádio, na presença do landegrave de Hesse, havia-lhe proibido a entrada nas suas terras, sob pena de ser enforcado.

Eis senão quando viu vir sua alteza ducal em pessoa, e como o sabia violento, ficou transido de medo. Falando com o burro, disse-lhe:

- Jef, olha ali o senhor de Luneburgo. Sinto no pescoço a comichão do baraço. Mas que não seja o carrasco que me coce. Jef, quero ser coçado, mas não enforcado. Pensa que somos irmãos na miséria e nas orelhas compridas; pensa também no bom amigo que perderias se me perdesses.

Ulenspiegel enxugava os olhos, e Jef começou a zurrar. Continuando o discurso:

- Vivemos juntos felizes ou tristes conforme as circunstâncias, lembras-te Jef? - perguntou Ulenspiegel, enquanto o burro continuava a zurrar, porque tinha fome.

- E nunca me poderás esquecer - prosseguia o dono - porque a amizade forte é aquela que ri das mesmas alegrias e chora as mesmas penas! Jef, é preciso que te deites de costas.

O burro, afável, obedeceu, e foi visto pelo duque com as quatro patas para o ar. Ulenspiegel sentou-se lesto no ventre do animal. O duque chegou ao pé dele e perguntou-lhe :

- Que estás aí a fazer? Ignoras que pelo meu último edital estás proibido, sob pena de forca, de pores os pés nas minhas terras?

Ulenspiegel respondeu:

- Gracioso senhor, tende piedade de mim! Mostrando-lhe o burro, afirmou:

- Sabeis bem que por direito e lei está sempre aquele que se coloca entre as suas quatro estacas

O duque respondeu:

- Sai da minha terra, senão morrerás.

- Senhor - respondeu Ulenspiegel. - Sairei mais depressa montado num florim ou dois!

- Velhaco! - gritou o duque. - Vai-te embora. Não satisfeito com a tua desobediência, ainda me pedes dinheiro?

- Assim tem de ser, senhor, porque não o posso tirar... O duque deu-lhe um florim.

Depois Ulenspiegel disse, falando com o burro: -Jef, levanta-te e saúda o senhor. , O burro levantou-se e pôs-se a zurrar. E ambos partiram.

 

Soetkin e Nele estavam sentadas a uma das janelas da casa, e olhavam para a rua. Soetkin dizia a Nele:

- Minha filha, não vês chegar o meu filho Ulenspiegel?

- Não - respondia Nele - nunca mais o veremos, esse vagabundo mau.

- Nele - prosseguia Soetkin - não é preciso estar zangada com ele, mas lamentá-lo porque está longe de casa, aquele homenzinho.

- Isso sei eu - respondia Nele. - Tem outra casa muito longe daqui, mais rica do que a dele, onde uma bela dama lhe dá guarida.

- Isso seria uma felicidade para ele - dizia Soetkin. - Talvez lhe dêem cencrâmides para comer.

- Se lhe dessem pedras para comer voltaria para aqui num instante, o guloso! - declarava Nele.

Soetkin ria e dizia:

- De onde te vem, minha filha, essa cólera tão grande?

Mas Claes, que pensativo, também, atava feixes num canto, comentou:

- Não vês que ela está louca de paixão?

- Ora vejam esta finória cautelosa que não dizia nada! É verdade, minha pequenina, que estás à espera?

- Não confiem nisso - respondia Nele.

- Terás ali um esposo corajoso com uma grande goela, o ventre oco e a língua comprida, conseguindo florins com mentiras, mas nem um dinheiro com trabalho, pisando o chão e medindo o caminho com a vara da vagabundagem.

Mas Nele respondeu, muito vermelha e zangada:

- Não sabem falar de outra coisa?

- Olha, agora está a chorar: cala-te homem - ordenou Soetkin.

 

Ulenspiegel chegou um dia a Nuremberga e apresentou-se como um grande médico vencedor das doenças, purgador muito ilustre, célebre vencedor das febres, exterminador de nomeada das pestes e açoitador invencível da sarna.

Havia tantos doentes no hospital que não se sabia onde alojá-los. O administrador do hospital, tendo conhecimento da vinda de Ulenspiegel, foi ter com ele e perguntou-lhe se era verdade que curava todas as doenças.

- Excepto a última - respondeu Ulenspiegel - mas prometa-me duzentos florins pela cura de todas as outras e não receberei um liarde se algum dos doentes disser que não está curado e não sair do hospital.

Foi no dia seguinte ao dito hospital, compondo um olhar seguro e uma cara doutoralmente solene. Nas enfermarias, chamava à parte cada um dos doentes, e dizia-lhe:

- Jura não confiar a ninguém o que te vou dizer ao ouvido. Que doença tens?

O doente dizia-lhe e jurava-lhe por Deus que se calaria.

- Fica sabendo - dizia Ulenspiegel - que devo reduzir um de vós a pó, através do fogo, e que devo fazer desse pó uma mistura miraculosa que darei a beber a todos os doentes. O que não souber andar, será queimado. Amanhã volto aqui e ficarei na rua com o administrador. Chamar-vos-ei gritando: “Aquele que não estiver doente pegue na sua trouxa e venha!”

De manhã, Ulenspiegel apareceu e gritou como tinha dito. Todos os doentes, coxos, catarrosos, com tosse, com febre quiseram sair ao mesmo tempo. Estavam todos na rua, mesmo os que há dez anos não saíam da cama.

O administrador do hospital perguntou-lhes se eles estavam curados e podiam andar.

- Sim - responderam, julgando que um deles estava a arder no pátio.

Ulenspiegel disse então ao administrador:

- Paga-me porque saíram todos e declaram estar curados. O administrador pagou-lhe os duzentos florins. E Ulenspiegel foi-se embora.

Mas no segundo dia, o administrador viu os doentes regressarem em pior estado do que antes, excepto um que, curado com o ar da rua, foi encontrado embriagado cantando nas ruas:

“Boas-festas para o grande doutor Ulenspiegel!”

 

Tendo gasto os duzentos florins por aqui e por ali, Ulenspiegel chegou a Viena e foi contratado por um carpinteiro de carros que estava sempre a repreender os seus operários por não manejarem com a força suficiente o fole da forja:

- Ao ritmo dos foles - gritava constantemente.

Um dia em que o "baes" tinha ido ao jardim, Ulenspiegel retirou o fole, pô-lo ao ombro e seguiu o mestre. Como ficasse espantado de o ver tão carregado, Ulenspiegel explicou-lhe:

- "Baes", o senhor mandou-me seguir com o fole. Onde quer que ponha este, enquanto vou buscar o outro?

- Caro rapaz - respondeu o "baes". - Eu não te disse isso. Vai colocar o fole no seu lugar.

Todavia ficou a pensar na forma de lhe fazer pagar esta graça. Passou a partir de então a levantar-se todas as noites à meia-noite e a acordar os operários para os mandar trabalhar.

Os operários disseram-lhe:

- "Baes", para que nos acordas ao meio da noite?

- É um hábito que eu tenho - respondeu o "baes" - não permitir aos meus operários que descansem na cama mais do que meia noite, durante os sete primeiros dias.

Na noite seguinte, voltou a acordar os operários à meia-noite. Ulenspiegel, que dormia no celeiro, pôs a cama às costas e assim carregado entrou na forja.

O "baes" disse-lhe:

- És doido? Porque não deixaste a cama no seu lugar?

- É um hábito que tenho - respondeu Ulenspiegel - passar na cama metade da noite, e a outra metade sob a cama, nas sete primeiras noites.

- Pois bem - respondeu o mestre. - É um segundo hábito meu pôr na rua os operários descarados, com permissão para passarem a primeira semana sobre a rua, e a segunda sob ela.

- Na vossa cave, "baes", se quiseres, perto dos tonéis de "bruinbier" - respondeu Ulenspiegel.

 

Tendo deixado o carpinteiro e voltando à Flandres, foi-se oferecer como aprendiz a um sapateiro que de melhor vontade estava na rua do que à sovela, na oficina. Ulenspiegel, vendo-o pela centésima vez pronto para sair, perguntou-lhe como devia cortar o couro das gáspeas.

- Corta-as - respondeu o "baes" - para pés grandes e para pés médios, a fim de que os que conduzem o gado grande e médio possam usá-las comodamente.

- Assim farei, "baes" - respondeu Ulenspiegel. Quando o sapateiro saiu, Ulenspiegel cortou as gáspeas

de tal forma que só serviam para calçar éguas, burras, bezerras, porcas e ovelhas.

Ao regressar à oficina, e vendo o couro em bocados, o "baes" exclamou:

- Que fizeste tu, esbanjador e velhaco? Mandei-te cortar sapatos onde pudessem entrar comodamente os pés dos que conduzem bois, porcos e carneiros e fazes-me calçado para os pés desses animais.

Ulenspiegel respondeu:

- "Baes", quem leva o porco senão a porca, o burro senão a burra, o boi senão a vaca, o carneiro senão a ovelha, na estação em que todos os animais estão apaixonados?

Depois foi-se embora, e teve de ficar na rua.

 

Era Abril, o ar estava ameno, depois vieram tardes frias, e o céu ficou cinzento como no dia de Finados. O terceiro ano da expulsão de Ulenspiegel já tinha passado há muito tempo, e Nele esperava todos os dias pelo seu amigo.

- Ai de mim! - queixava-se ela. - Vai nevar nas pereiras, nos jasmins em flor, em todas as pobres plantas que desabrocharam confiando no calor de uma Primavera precoce. Já caem do céu sobre os caminhos pequenos flocos. E neva também no meu pobre coração.

“Onde estão os raios claros que se projectaram nas caras felizes, sobre os telhados que ficam mais vermelhos, sobre as vidraças, que ficam flamantes? Onde estão, aquecendo a terra e o céu, as aves e os insectos? Ai! Agora, noite e dia, sinto o frio da tristeza e da longa espera. Onde estás, meu amigo Ulenspiegel?

 

Ao aproximar-se de Renaix, na Flandres, Ulenspiegel sentiu fome e sede, mas não queria queixar-se, e tentava fazer rir todas as pessoas que lhe davam pão. Contudo, às vezes ria mal, e as pessoas passavam sem nada lhe dar.

Fazia frio. De quando em vez nevava, chovia, e caía granizo nas costas do vagabundo. Se passava por aldeias, vinha-lhe a água à boca, só de ver um cão roer um osso a um canto. Gostaria de ganhar um florim, mas não sabia como o dinheiro havia de cair-lhe na algibeira.

Olhando para cima, via os pombos, que do telhado de um pombal deixavam cair no caminho uns objectos brancos que não eram florins. Procurava no chão, mas os florins não floresciam entre as pedras.

À direita viu uma nuvem negra que avançava no céu, como um grande regador, mas sabia que se algo caísse dessa nuvem não seria um aguaceiro de florins. Procurando à esquerda, via um castanheiro da índia, inútil, vivendo sem nada fazer:

“Ah! - dizia para consigo. - Porque não há florineiros? Como seriam belas, essas árvores!”

Num repente rompeu-se a nuvem e a saraiva do tamanho de pedras caiu nas costas de Ulenspiegel:

- Pobre de mim! Sinto-a bem, só se deitam pedras a cães errantes.

E depois começando a correr:

- Não é por minha culpa que não tenho um palácio ou mesmo uma tenda para abrigar o magro corpo. Oh! esta horrível saraiva, as pedras são duras como balas. Não, não é por minha culpa que arrasto pelo mundo os meus andrajos, é simplesmente porque isso me agradou. Porque não sou eu imperador! Estas pedras de granizo querem entrar nas orelhas como más palavras.

E corria, sempre murmurando:

- Pobre nariz, daqui a pouco estás furado e podes servir de pimenteiro nos festins dos grandes deste mundo, em cima dos quais nunca cai a saraiva.

Mais adiante, tocando nas faces:

- Estas serviriam bem de escumadeira aos cozinheiros que têm calor perto dos fornos. Ah! Longínqua recordação dos molhos de outrora! Tenho fome. Ventre vazio, não te queixes; tristes entranhas, não façam mais ruídos. Onde te escondes fortuna propícia? Leva-me para o local onde está a pastagem.”

Enquanto falava assim consigo mesmo, o céu ficou limpo e o sol brilhou, o granizo deixou de cair e Ulenspiegel disse:

- Bom-dia sol, meu único amigo, que vens secar-me. Contudo continuava a correr, porque tinha frio. Viu então aparecer ao longe, no caminho, um cão branco e preto, que corria direito a ele, com a língua pendente e os olhos fora das órbitas.

- Este animal está com raiva! - exclamou Ulenspiegel. Pegou apressadamente numa enorme pedra e trepou a uma árvore: quando ia a chegar ao primeiro ramo, o cão passou e Ulenspiegel lançou-lhe a pedra à cabeça. O cão parou, e obstinado quis ainda subir para a árvore e morder Ulenspiegel, mas não o conseguiu, e caiu, para morrer depois.

Ulenspiegel não se sentia feliz, e menos feliz ficou quando, ao descer da árvore, viu que o cão não tinha a boca seca, como acontece com os animais possuídos pela raiva. Depois, olhando para a pele, verificou que era bonita e boa para vender. Atou-a ao cajado, deixou-a secar ao sol, e meteu-a no saco.

A fome e a sede atormentavam-no ainda mais e entrou em várias quintas, mas não ousou vender a pele por temer que o cão tivesse pertencido a um daqueles lavradores. Pediu pão e recusaram-lho. A noite caía. As pernas estavam cansadas e entrou num pequeno albergue. Viu uma "baesine" velha, que fazia festas a um cão velho e doente, cuja pele se assemelhava à pele do cão morto.

- De onde vens, viajante? - perguntou-lhe a velha "baesine".

Ulenspiegel respondeu:

- Venho de Roma, onde curei o cão do Papa de uma pituíta que o fazia sofrer muito.

- Viste o Papa? - perguntou ela, estendendo-lhe um copo de cerveja.

- Ora! - afirmou Ulenspiegel, esvaziando o copo - Só me permitiu beijar-lhe o pé sagrado e a pantufa.

Entretanto, o velho cão da "baesine" tossia e expectorava.

- Quando é que fizeste isso? - perguntou a velha.

- Há dois meses - respondeu Ulenspiegel. - Cheguei, era esperado, bati à porta: “Quem é!” - perguntou o arquicardeal, arqui-secreto, arquiextraordinário camareiro de Sua Santidade.

“ - Sou eu, senhor cardeal - respondi - Venho expressamente da Flandres para beijar o pé do papa e curar o cão da pituíta.

“-Ah! És tu, Ulenspiegel? - disse o papa, falando do outro lado da pequena porta. Gostava muito de receber-te mas é impossível agora. É-me proibido pelos Santos Decretos mostrar o rosto a estrangeiros quando me estão a passar pelo rosto a santa navalha.

“ - Ai! - exclamei eu. - Como sou infeliz, eu" que venho de terras tão longínquas para beijar o pé de Vossa Santidade e curar o seu cão de pituíta. Será que tenho de regressar sem ter feito isto?

“ - Não - respondeu o Santo Padre.

“E ouvi chamar:

“- Arquicamareiro, empurra a minha cadeira até à porta e abre o postigo interior.

“Assim foi feito, e vi passar pelo postigo um pé calçado com uma pantufa de ouro, e ouvi uma voz falando como um trovão:

- Este é o pé temível do Príncipe dos Príncipes, do Rei dos Reis, do Imperador dos Imperadores. Beija, cristão, beija a santa pantufa.

“ - E eu beijei a santa pantufa e fiquei com o nariz impregnado com o celeste perfume que vinha daquele pé. O postigo fechou-se em seguida, e a mesma voz medonha disse-me para esperar. O postigo abriu-se e saiu, salvo todo o respeito, um animal pelado, rameloso, catarroso, inchado como um odre e que andava com as patas afastadas por causa do tamanho da barriga.

“O Santo Padre dignou-se falar-me ainda:

“- Ulenspiegel, vês o meu cão; tem pituíta e outras doenças por ter roído ossos herejes que tinham sido partidos. Cura-o, meu filho. Serás recompensado.”

- Bebe - disse a velha.

- Deita - respondeu Ulenspiegel, continuando a narração. - Purguei o cão com a ajuda de uma bebida mirífica feita por mim próprio. Urinou durante três dias e três noites, sem parar, e ficou curado.

- "Jesus God en Maria"! - exclamou a velha. - Deixa-me beijar-te, glorioso peregrino, que viste o Papa e podes também curar o meu cão.

Mas Ulenspiegel, que não desejava os beijos da velha, disse-lhe:

- Os que tocarem com os lábios na pantufa santa não podem, no espaço de dois anos, receber beijos de nenhuma mulher. Dá-me primeiro para cear carne assada nas brasas, uma morcela ou duas, cerveja que baste, e eu darei ao teu cão uma voz tão clara que poderá cantar “aves” no coro da igreja.

- Se estivesses a dizer a verdade - lamentou-se a velha dava-te um florim.

- Farei isso, mas só depois de cear - respondeu Ulenspiegel.

Serviu-lhe o que ele tinha pedido. Bebeu e comeu o mais que pôde e por gratidão teria beijado a velha se não fosse o que tinha dito.

Enquanto comia, o velho cão punha-lhe as patas nos joelhos para receber um osso. Ulenspiegel deu-lhe vários, depois disse à dona da casa:

- Se uma pessoa comesse na tua casa e não te pagasse, que é que lhe fazias?

- Tiraria a esse ladrão o seu melhor fato - respondeu a velha.

- Está bem - retorquiu Ulenspiegel, que pôs o cão debaixo do braço e entrou na cavalariça. Fechou-o ali com um osso, tirou da bolsa a pele do morto, e voltando para junto da velha, perguntou-lhe se ela tinha dito que tiraria o melhor fato a quem não lhe pagasse uma refeição.

- Sim - respondeu.

- Está bem! O teu cão jantou comigo e não pagou; tirei-lhe, seguindo o teu preceito, o seu melhor e único fato.

E mostrou-lhe a pele do cão morto.

- Ah! - exclamou a velha chorando - é crueldade, senhor médico. Pobre cãozinho! Era para mim, pobre viúva, o meu filho. Porque me tiraste o único amigo que tinha no mundo? Bem posso morrer agora.

- Ressuscitá-lo-ei! - declarou Ulenspiegel.

- Ressuscitar!

E ele ainda me acariciará, ainda olhará para mim, e lamber-me-á ainda, abanará a velha cauda quando me vir! Faça isso, senhor médico, e terá aqui o jantar de graça, mas um jantar caro, e dar-lhe-ei um florim.

- Ressuscitá-lo-ei - afirmou Ulenspiegel - mas preciso de água quente, xarope para colar as costuras, uma agulha e linha e molho de carne assada. Quero estar sozinho durante a operação.

A velha deu-lhe o que ele pedia; pegou na pele do cão morto e dirigiu-se para a cavalariça.

Ali, pintou com o molho a pele do cão velho que consentiu alegremente que ele fizesse isto; traçou-lhe um risco de xarope no ventre, pôs-lhe xarope nas patas e molho na cauda.

Gritando três vezes disse:

- "Staet op! staet op! ik't bevel, vuilen hond!"

Depois, metendo rapidamente a pele do cão morto na bolsa, deu um grande pontapé ao cão vivo, levando-o assim acordado para a sala da estalagem.

A velha, vendo o cão vivo e a lamber-se, quis beijá-lo, mas Ulenspiegel não a deixou.

- Não podes acariciar este cão porque ainda não lavou com a língua todo o xarope com que está untado; só então as costuras da pele estarão fechadas. Dá-me os dez florins.

- Tinha dito um - respondeu a velha.

- Um pela operação, nove pela ressurreição - respondeu Ulenspiegel.

A mulher deu-lhos. Ulenspiegel foi-se embora, deitando para o chão da sala a pele do cão morto dizendo:

- Olha mulher, guarda a pele velha: vai servir-te para remendares a nova, quando esta tiver buracos.

 

Nesse domingo realizava-se em Burgos a procissão do Santo Sangue. Claes disse à mulher e a Nele que fossem, pois talvez encontrassem Ulenspiegel na cidade. Quanto a ele, ficaria em casa, para o caso de o peregrino regressar. As duas mulheres partiram; Claes sentou-se na soleira da porta e achou que a cidade estava muito deserta. Só ouvia o som cristalino de qualquer sino de aldeia, enquanto que de Burgos lhe chegava, às revoadas, a música dos carrilhões e o barulho dos falconetes e do fogo de artifício queimado em honra do Santo Sangue.

Sempre sonhador e procurando Ulenspiegel pelos caminhos, Claes nada via além do céu claro e azul, sem nuvens, alguns cães deitados ao sol com a língua de fora, pardais que se rebolavam na poeira, um gato que os espiava, e a luz amiga entrando em todas as casas, fazendo brilhar nas prateleiras os caldeirões de cobre e as taças de estanho. Mas Claes estava triste no meio desta alegria, e ao procurar o filho, tentava vê-lo para além do nevoeiro que pairava sobre as cinzentas pradarias e queria ouvi-lo no murmurar alegre das folhas das árvores e no alegre concerto das aves. De repente surgiu no caminho de Maldeghem um homem alto, mas logo percebeu que não era Ulenspiegel. Viu-o parar à beira de um campo de cenouras e comer avidamente este legume.

- Um homem que tem muita fome! - pensou Claes em voz alta.

Tendo-o perdido de vista por um momento, viu-o reaparecer à esquina da rua da Garça, e reconheceu o mensageiro de Josse que lhe tinha trazido os setecentos carolus de ouro. Foi ter com ele e disse-lhe:

- Entra.

O homem respondeu:

- Bem-aventurados os que são caridosos para o viajante errante.

Havia no parapeito exterior da janela migalhas de pão que Soetkin guardava para as aves das redondezas. Vinham ali no Inverno à procura de comida. O homem tirou algumas migalhas e comeu-as.

- Tens fome e sede - afirmou Claes. O homem respondeu:

- Há oito dias que fui assaltado por ladrões, só tenho comido cenouras dos campos e raízes dos bosques.

- Então são horas de fazermos uma patuscada. Aqui está - disse abrindo a arca - uma escudela de ervilhas, ovos, morcelas, presunto, salsichas de Gante, "waterzoey", e peixe guisado. Lá em baixo, na cave, dorme o vinho da Lovaina, feito à maneira de Borgonha e transparente como rubis; só pede o despertar dos copos. Vamos lá pôr lenha na lareira. Ouves cantar as morcelas no lume? É canção de bom alimento.

Sempre a movimentar-se de um lado para o outro, disse ao homem:

- Não viste o meu filho Ulenspiegel?

- Não - respondeu o outro.

- Trazes notícias do meu irmão Josse? - perguntou Claes enquanto punha em cima da mesa as morcelas grelhadas, uma omelete de presunto, queijo e taças grandes, o vinho tinto da Lovaina, transparente, a brilhar nas garrafas.

O homem respondeu:

- Teu irmão Josse morreu na roda, em Sippenaken, perto de Aix. E isto por, sendo hereje, ter pegado em armas contra o Imperador.

Claes ficou como louco, e disse, tremendo colérico dos pés à cabeça.

- Carrascos infames! Josse! Meu pobre irmão! O homem retorquiu em tom agreste:

- As nossas alegrias e dores não são deste mundo. - Começou a comer, e depois contou:

- Visitei o teu irmão na prisão fazendo-me passar por camponês de Nieswieler e seu parente. Vim agora aqui porque ele disse-me: “Se não morreres pela fé, como eu, vai ter com meu irmão Claes, diz-lhe que viva na paz do Senhor, praticando as obras de misericórdia, educando o filho no segredo da lei de Cristo. O dinheiro que lhe dei foi tirado ao pobre povo ignorante. Que o utilize para a educação de Thyl na ciência de Deus e da palavra.”

Tendo dito isto, o mensageiro deu o beijo da paz a Claes. Este lamentando-se, dizia:

- Morto na roda, o meu pobre irmão!

E não podia conformar-se na sua grande dor. Todavia, como viu que o homem tinha sede e lhe estendia o copo, deitou-lhe vinho, embora comesse e bebesse sem prazer.

Soetkin e Nele estiveram ausentes sete dias. Durante este tempo o mensageiro de Josse viveu sob o tecto de Claes. Todas as noites ouviam Katheline, que na sua casa gritava:

“O fogo! O fogo! Abram o buraco: a alma quer sair!”

E Claes ia para junto dela, acalmava-a com palavras ternas, depois voltava para casa.

Ao fim de sete dias, o homem partiu e só quis receber de Claes dois carolus para se alimentar e pernoitar pelo caminho.

 

Nele e Soetkin tinham regressado de Burgos. Na cozinha, sentado no chão à maneira dos alfaiates, Claes pregava botões nuns calções velhos. Nele estava perto dele e incitava Titus Bibulus Schnouffius contra a cegonha. O cão ladrava muito alto de cada vez que corria para a ave, ou quando recuava. A cegonha, de pé sobre uma pata, olhando para ele grave e pensativa, meteu o comprido pescoço nas penas do peito. Titus Bibulus Schnouffius, vendo-a tão calma, ladrava ainda com mais força. Contudo, num segundo, aborrecida com esta música, a ave “disparou” o bico como uma flecha apontada ao dorso do cachorro, que fugiu latindo por ajuda.

Claes ria, Nele também, e Soetkin não parava de olhar para a rua, procurando Ulenspiegel.

Foi então que exclamou:

- Olha o preboste e quatro beleguins. Não é a nós, de certeza, que eles querem. Dois deles estão a dar a volta à casa.

Claes levantou os olhos do trabalho...

- E dois pararam à frente - continuou Soetkin. Claes levantou-se.

- Quem irão eles prender nesta rua? Jesus, Senhor! Homem, estão a entrar aqui.

Claes saiu da cozinha para o jardim, seguido de Nele, a quem disse:

- Salva os carolus, estão atrás da pedra da lenha da chaminé.

Nele compreendeu o que ele lhe disse. Ao ver que os sargentos o tinham agarrado pela gola quando ele ia a saltar por cima da sebe, e que lhes batia para se defender, começou a gritar e a chorar:

- Está inocente! Está inocente! Não façam mal a Claes, meu pai! Ulenspiegel, onde estás? Tu é que os matarias, aos dois!

E deitou-se a um dos beleguins, rasgando-lhe o rosto com as unhas. Depois, gritando “Vão matá-lo!”, caiu na relva do jardim e rastejou, desvairada.

Katheline tinha acorrido ao ouvir o barulho, e direita, imóvel, a observar o espectáculo, dizia, abanando a cabeça: “O fogo! O fogo! Façam um buraco: a alma quer sair.”

Soetkin nada via porque estava a falar com os beleguins, que tinham entrado em casa:

- Senhores, que procuram na minha pobre casa? Se é o meu filho, está longe. As vossas pernas são compridas?

Ao dizer isto sentia-se feliz.

Neste momento, Nele pediu socorro. Soetkin correu para o jardim, viu o marido preso pela gola e a debater-se no caminho, perto da sebe.

- Bate! Mata! Onde estás, Ulenspiegel?

E quis ir socorrer o marido, mas um dos beleguins dominou-a, não sem esforço, aliás.

Claes debatia-se e agredia com tanta força que teria conseguido fugir, se os dois beleguins com os quais Soetkin estivera a falar não tivessem vindo em auxílio do que o segurava.

Levaram-no com as duas mãos atadas para a cozinha, onde Soetkin e Nele choravam.

- Senhor preboste - dizia Soetkin - o que fez meu marido para o atarem com estas cordas?

- Herege! - declarou um dos beleguins

- Hereje? - repetiu Soetkin - Tu é que és herético, tu. Estes demónios mentem.

Claes respondeu:

- Entrego-me à guarda de Deus.

Saíram. Nele e Soetkin seguiram-no chorando, convencidas que as levariam também à presença do juiz. Homens e mulheres vieram juntar-se-lhes, quando souberam que Claes ia atado por suspeita de heresia, tiveram tanto medo que entraram nas suas casas e fecharam todas as portas. Só algumas raparigas ousaram chegar-se a Claes para lhe perguntar:

- Onde é que vais assim atado, carvoeiro?

- Para a graça de Deus - respondeu. Levaram-no para a prisão da comuna; Soetkin e Nele

sentaram-se à porta. À noite, Soetkin disse a Nele para ir ver se Ulenspiegel não teria entretanto chegado.

 

A notícia correu depressa pelas aldeias das redondezas, onde se dizia que tinha sido preso um homem por causa da heresia e que o inquisidor Titelman, deão de Renaix, conhecido pelo nome de Inquisidor Sem-Piedade, dirigia os interrogatórios. Ulenspiegel vivia então em Koolkerke, no íntimo favor de uma fazendeira, terna viúva que nada lhe recusava dentro das suas possibilidades. Foi feliz, cercado de afecto e acariciado, até ao dia em que um traidor rival, vereador da comuna, o esperou uma manhã quando ele saía da taberna e quis dar-lhe uma tunda com um pau de castanho. Mas Ulenspiegel, para lhe refrescar a cólera, deitou-o num charco de água de onde o vereador saiu verde como um sapo e molhado como uma esponja.

Por causa deste destemido feito, Ulenspiegel teve de deixar Koolkerke e dirigiu-se a toda a pressa para Damme, temendo a vingança do vereador.

A noite caía fresca, e Ulenspiegel corria lesto; desejava encontrar-se em casa; via no seu espírito Nele correndo, Soetkin preparando a ceia, Claes fazendo molhos, Schnouf-fius roendo um osso e a cegonha batendo com o bico na barriga da dona de casa para receber algumas migalhas.

Um bufarinheiro disse-lhe ao passar:

- Onde vais assim a correr tanto?

- Para Damme, para a minha casa - respondeu Ulenspiegel.

O homem continuou:

- A cidade já não é segura por causa dos reformados que foram presos.

E foi andando.

Tendo chegado à frente da estalagem “Roode-Schildt”, Ulenspiegel entrou para beber um copo de "dobbel-kuyt". O "baes" disse-lhe:

- Não és o filho de Claes?

- Sou - respondeu Ulenspiegel.

- Apressa-te porque a hora da infelicidade soou para o teu pai.

Ulenspiegel perguntou-lhe o que significavam aquelas palavras. O "baes" respondeu que em breve o saberia. E Ulenspiegel continuou a correr.

Quando chegou à entrada de Damme, os cães que estavam às portas saltaram-lhe às pernas ladrando e rosnando. As mulheres saíram de casa ao ouvir a algazarra e disseram-lhe, falando todas ao mesmo tempo:

- De onde vens? Tens notícias do teu pai? Onde está a tua mãe? Também está na prisão? Ai! Oxalá não o queimem.

Ulenspiegel corria mais ainda. Encontrou Nele que lhe disse:

- Thyl, não vás a casa: os da cidade puseram lá um guarda de Sua Majestade.

Ulenspiegel parou:

- Nele, é verdade que Claes, meu pai, está na prisão?

- Sim, e Soetkin chora à porta - respondeu Nele. Então o coração do filho pródigo encheu-se de dor e disse à Nele:

- Vou vê-los.

- Não é isso que deves fazer, mas obedecer a Claes, que me disse antes de ser preso: “Salva os carolus; estão atrás da pedra da lenha da chaminé.” Isso é que é preciso salvar primeiro, porque é a herança de Soetkin, a pobre mulher.

Ulenspiegel, nada ouvindo, correu para a prisão. Viu Soetkin sentada à porta; beijou-a com lágrimas, e choraram os dois.

O povo que se juntara por causa deles formava uma multidão diante da prisão, e os beleguins disseram a Ulenspiegel e a Soetkin que tinham de sair imediatamente dali.

Mãe e filho dirigiram-se para casa de Nele, vizinha da sua própria casa, diante da qual viram um dos soldados mandados de Burgos por se temerem incidentes durante o julgamento e a execução, já que as gentes de Damme gostavam muito de Claes.

O soldado estava sentado no chão, diante da porta, tentando fazer sair de uma garrafa a última gota de aguardente. Nada encontrando, deitou-a fora e puxou pela lança, com a qual se pôs a levantar as pedras do chão.

Soetkin entrou em casa de Katheline a chorar. E Katheline, abanando a cabeça, dizia; “O fogo! Abram um buraco, a alma quer sair.”

 

O sino conhecido por "borgstorm" (tempestade do burgo) chamou os juízes ao tribunal. Estes reuniram-se na "Vierschare", pelas quatro horas, em torno da tília da justiça.

Claes foi levado à presença deles e viu, sentado sob o docel, o bailio de Damme. Ao lado, e voltados para ele, o presidente do município, os vereadores e o escrivão.

A população acorreu ao chamamento do sino. Muitos diziam:

- Os juízes não estão ali para fazer uma obra de justiça, mas de servidão imperial.

O escrivão declarou que o tribunal, tendo-se reunido anteriormente na "Vierschare", em volta da tília, tinha decidido que apreciadas as denúncias e ouvidas as testemunhas, devia prender-se Claes, carvoeiro, natural de Damme, marido de Soetkin, filha de Joostens. Iam agora, acrescentou, proceder à inquirição das testemunhas.

Hans Barbier, vizinho de Claes, foi o primeiro a ser ouvido. Depois de ter prestado juramento, declarou:

- Pela salvação da minha alma afirmo e garanto que conheço Claes, presente neste tribunal, há dezassete anos, que viveu sempre honestamente e seguindo as leis de nossa Santa Madre Igreja, nunca falou dela com opróbrio, não alojou, com meu conhecimento, qualquer herege, não escondeu o livro de Lutero nem do dito livro falou, e nada fez que o pudesse tornar suspeito de ter faltado às leis e ordens do Império. Assim Deus e Todos os Santos me ajudem. Jan Van Roosebeke foi ouvido a seguir e declarou que durante a ausência de Soetkin, mulher de Claes, julgou por várias vezes “ter ouvido duas vozes de homem na casa do acusado” e que muitas vezes à noite, depois de recolher, “tinha visto, num quarto pequeno e iluminado dois homens a conversarem dos quais um era Claes”. Quanto a dizer se o outro homem era ou não herege, não podia fazê-lo, porquanto apenas o havia visto de longe.

No que respeita a Claes, e falando com toda a verdade, direi que desde que o conheço cumpriu sempre o preceito pascal, comungou nas festas mais importantes, ia à missa todos os domingos, com excepção daquele em que foi celebrado o Santo Sangue e os seguintes. E não sei mais nada. Assim Deus e os anjos me ajudem.

Quando lhe perguntaram se não tinha visto Claes na taberna da "Blauwe-Torre", a vender indulgências e a zombar do purgatório, Jan Van Roosebeke respondeu que Claes tinha, com efeito, vendido indulgências, mas sem desprezo ou troça, e que ele, Jan Van Roosebeke, tinha comprado tal como o tinha querido fazer Josse Grypstuiver, o decano dos peixeiros, que estava entre os clientes.

O bailio anunciou a seguir que ia revelar os factos e acções que tinham levado Claes diante do tribunal da "Vierschare".

“O denunciante que por acaso tinha ficado em Damme para não ir a Burgos gastar dinheiro em festas e comezainas, como se faz muitas vezes nas santas ocasiões, estava a apanhar o fresco à porta de casa - disse ele. - Estando aí, viu um homem que avançava pela Rua da Garça Real.

O homem foi ter com ele e cumprimentou-o. Estava vestido de preto. Entrou na casa de Claes e a porta ficou entreaberta. Com curiosidade em saber quem seria aquele homem, o denunciante entrou no vestíbulo e ouviu Claes falar com o estrangeiro na cozinha, acerca de um tal Josse, seu irmão, que tendo sido feito prisioneiro entre as tropas reformistas, foi por esta razão morto na roda, não longe de Aix.

“O estrangeiro disse a Claes que o dinheiro recebido há tempos do irmão havia sido dinheiro ganho com a ignorância do pobre mundo, e que o devia empregar para educar o filho na religião reformista. Tinha também aconselhado Claes a deixar o seio da nossa Santa Igreja e pronunciado outras palavras ímpias às quais Claes respondeu unicamente com estas palavras: "Carrascos cruéis! Meu pobre irmão!"

“O acusado blasfemava contra o nosso santo pai, o Papa, e Sua Majestade Real, acusando de crueldade por terem justamente punido a heresia como um crime de lesa-majestade divina e humana. Quando o homem acabou de comer, o denunciador ouviu Claes exclamar:

“ - Pobre Josse, que Deus te tenha na sua glória, foram cruéis para ti.

“Acusava o próprio Deus de impiedade, considerando que ele pode receber os hereges no céu. E Claes não deixava de dizer: "Meu pobre irmão!"

“O estrangeiro, cheio de ardor, como um pregador a fazer um sermão, clamava: "Cairá a grande Babilónia, a prostituída romana, e tornar-se-á a morada dos demónios e o refúgio de todas as aves execráveis!”

“Claes dizia: "Carrascos cruéis! meu pobre irmão!"

“O estrangeiro, continuando, afirmava: "Porque o anjo pegará numa pedra grande como uma mó.

E será lançada no mar e dirá: Assim será arremessada a grande Babilónia e nunca mais será encontrada."

“ - Senhor - dizia Claes - a vossa boca está cheia de cólera; mas diga-me quando virá o reino em que os mansos de coração poderão viver em paz na terra?

“ - Nunca! - respondeu o estrangeiro - enquanto reinar o Anticristo, que é o Papa, o inimigo de toda a verdade.

“ - Ah! - dizia Claes - o senhor fala sem respeito do nosso Santo Padre. Ele ignora certamente os cruéis suplícios com que são punidos os pobres reformistas.

“O estrangeiro respondeu: "Não ignora, porque é ele quem ordena as detenções, ou manda executar através do imperador, e agora do rei, o qual goza dos benefícios da confiscação, herda dos defuntos, e levanta processos aos ricos por causa da heresia com muita facilidade."

“Claes respondeu: "Contam-se coisas como essas na Flandres, tenho de acreditar nelas; a carne do homem é fraca, mesmo quando é carne real. Meu pobre Josse!"

“E Claes dava assim a entender que era por um vil desejo de lucro que Sua Majestade punia os hereges. Como o estrangeiro o quisesse persuadir, Claes respondeu: "O senhor não deve fazer discursos desses, porque se fossem ouvidos teriam como resultado um processo."

“Claes levantou-se para ir à cave e subiu com um pote de cerveja. "Vou fechar a porta" - disse então, e o denunciante nada mais ouviu, porque teve de sair imediatamente de casa. A porta que tinha sido fechada foi ao cair da noite aberta. O estrangeiro saiu mas voltou daí a pouco, e ao bater à porta dizia: "Claes, tenho frio, não sei onde é que hei-de pernoitar; dá-me guarida; ninguém me viu entrar, a cidade está deserta." “Claes recebeu-o na sua casa, acendeu a lanterna e viram-no subir adiante do estrangeiro para um pequeno quarto no sótão, cuja janela dá para o campo...”

- Quem é que pode ter contado uma coisa destas a não seres tu, mau peixeiro, que vi no domingo à porta de casa, direito como um poste, a olhar hipocritamente para o ar seguindo o voo das andorinhas?

E Claes apontava para Josse Grypstuiver, decano dos peixeiros, que mostrava a cara feia entre a multidão.

O peixeiro sorria com maldade ao ver Claes trair-se. Entre a multidão, homens, mulheres e raparigas diziam uns para os outros:

- Pobre homem, as suas palavras vão ser sem dúvida a causa da sua morte. Mas o escrivão continuou a narrativa: “O herege e Claes estiveram a conversar até muito tarde nessa noite, o mesmo acontecendo nas seis noites seguintes, durante as quais se podia ver o estrangeiro a fazer muitos gestos de ameaça ou de bênção, levantar os braços ao céu como fazem os seus pares em heresia. E Claes parecia aprovar as suas declarações.

“É evidente que durante estas manhãs, tardes e noites, falaram de forma ignominiosa da missa, da confissão, das indulgências e de sua majestade real...”

- Ninguém ouviu nada - afirmou Claes - e não me podem acusar sem provas! O escrivão continuou:

“Ouviram outra coisa. Quando o estrangeiro saiu da tua casa, no sétimo dia, à décima hora, a noite já tinha caído, tu acompanhaste-o quase até ao limite do terreno de Katheline. Ali, ele perguntou-te o que é que tinhas feito dos maus ídolos (e o bailio benzeu-se) de Nossa Senhora, de S. Nicolau e de S. Martinho. Respondeste-lhe que os tinhas partido e deitado aos poços. Foram, com efeito, encontrados nos poços, a noite passada, e os bocados estão na câmara de torturas.”

Nesta altura, Claes pareceu acabrunhado. O bailio perguntou-lhe se nada tinha a responder, Claes negou com a cabeça.

O bailio perguntou-lhe se não queria retractar-se do maldito pensamento que o tinha levado a partir as imagens e o ímpio erro de virtude que cometera ao pronunciar as palavras de opróbrio contra sua majestade divina e sua majestade real.

Claes respondeu que o corpo pertencia a sua majestade real, mas que a sua consciência pertencia a Cristo, cuja lei ele queria seguir. O bailio perguntou-lhe se essa lei era a da nossa Santa Madre Igreja. Claes respondeu:

- Está no Santo Evangelho.

Quando lhe perguntaram se o papa era o representante de Deus na terra respondeu:

- Não.

Quando lhe perguntaram se achava que a adoração das imagens de Nossa Senhora e dos Santos devia ser interdita, respondeu que isso era idolatria. Quando lhe perguntaram se a confissão auricular é coisa boa e salutar, respondeu:

- Cristo disse: “Confessai-vos uns aos outros.”

Foi ousado nas suas respostas embora, no fundo do coração, parecesse muito triste e atemorizado.

Estavam a soar as oito horas e a noite caía. Os senhores do tribunal retiraram-se, marcando o julgamento definitivo para o dia seguinte.

 

Na casa de Katheline, Soetkin chorava, louca de dor. E dizia sem cessar:

- O meu marido! O meu pobre marido! Ulenspiegel e Nele beijavam-na com muita ternura.

Ela, abraçando-os, chorava em silêncio. Depois fez-lhes sinal para a deixarem sozinha. Nele disse a Ulenspiegel:

- Vamos deixá-la, como ela quer. Salvemos entretanto os carolus.

Saíram os dois; Katheline andava à volta de Soetkin, dizendo:

- Faz um buraco: a alma quer sair.

E Soetkin, com o olhar fixo, olhava para ela sem a ver.

As casas de Claes e de Katheline eram contíguas; a de Claes ficava num recanto com um jardinzinho diante da casa, e a de Katheline tinha um terreno onde estavam plantadas favas, e que dava para a rua. O terreno era limitado por uma sebe, na qual Ulenspiegel, para ir a casa de Nele, e Nele, para ir a casa de Ulenspiegel, tinham feito, quando eram pequenos um grande buraco.

Ulenspiegel e Nele foram até ao buraco e de lá viram o soldado, que com a cabeça inclinada para trás, cuspia para o ar. Mas a saliva caía-lhe no gibão. Ao lado dele, estava uma garrafa de vime:

- Nele - disse baixinho Ulenspiegel - este soldado ébrio não bebeu para matar a sede; é preciso que beba ainda mais. Então ficaremos senhores de tudo isto. Vamos buscar a garrafa.

Ao som das suas vozes, o lansquenete voltou para o lado deles a cabeça pesada, procurou a garrafa, e não a encontrando, continuou a cuspir para o ar e a tentar ver, ao luar, a saliva a cair.

- Tem aguardente até aos dentes. Ouves como cospe com dificuldade? - observou Ulenspiegel.

Contudo, o soldado, depois de tanto ter cuspido e olhado para o ar, estendeu o braço para a garrafa. Encontrou-a, meteu o gargalo à boca, inclinou a cabeça para trás, voltou a garrafa, deu-lhe pequenas pancadas para ela deitar todo o líquido, e chupou-a como uma criança chuparia no seio materno. Nada encontrando, porém, resignou-se, pôs a garrafa de lado, blasfemou alto em alemão, cuspiu ao acaso, abanou a cabeça de um lado para o outro, e adormeceu, balbuciando padre-nossos ininteligíveis.

Ulenspiegel, sabendo que este sono não duraria e que era preciso torná-lo mais pesado, passou pelo buraco da sebe. pegou na garrafa do soldado e deu-a a Nele, que a encheu de aguardente.

O soldado não parara de ressonar; Ulenspiegel voltou a passar pelo buraco da sebe, meteu-lhe a garrafa cheia entre as pernas, regressou ao quintal de Katheline e ficou à escuta com Nele, por trás da sebe.

Por causa da frescura do líquido recém-tirado, o soldado acordou um pouco, e o seu primeiro gesto foi procurar o que lhe dava aquela sensação de frio por baixo do gibão.

Julgando por intuição que poderia muito bem ser uma garrafa cheia levou a mão até lá. Ulenspiegel e Nele viram-no à luz do luar sacudir a garrafa para ouvir o som do líquido, experimentar, rir, ficar surpreendido por estar tão cheia, beber um trago depois um golo, pousá-la no chão. voltar a pegar nela e beber de vez em quando.

Depois cantou:

Quando o senhor Maan vier Dizer boa noite à senhora Zee...

Em alto alemão, a senhora Zee, que é o mar é esposa do senhor Maan, que é a lua e o amo das mulheres. Então cantou:

Quando o senhor Maan vier Dizer boa noite à senhora Zee, A senhora Zee servir-lhe-á Uma grande taça de vinho Quando o senhor Maan vier.

Com ele ceará

E muitas vezes o beijará;

E quando ele tiver comido bem,

Na sua cama o deitará,

Quando o senhor Maan vier.

Que a minha amiga faça assim comigo, Ceia gorda e bom vinho; Que a minha amiga faça assim comigo, Quando o senhor Maan vier.

Depois, ora bebendo, ora cantando uma estrofe, adormeceu. E não ouviu Nele dizer: “Estão num pote atrás da pedra da lenha, na lareira”; nem viu Ulenspiegel entrar pelo estábulo na cozinha de Claes, levantar a pedra, encontrar o pote e os carolus, regressar ao quintal de Katheline, e escondê-los ao lado do muro do poço, sabendo bem que se os procurassem seria lá dentro, e não fora.

Depois voltaram para junto de Soetkin e encontraram a pobre esposa a chorar, dizendo:

- O meu marido! O meu pobre marido!

Nele e Ulenspiegel ficaram ao pé dela até de manhã.

 

No dia seguinte, o "borgstorm" repicou fortemente, chamando os juízes ao tribunal de "Vierschare".

Depois de estarem sentados em quatro bancos em volta da árvore da justiça, interrogaram de novo Claes e perguntaram-lhe se ele não queria confessar os seus erros.

Claes levantou as mãos ao céu:

“Cristo, meu senhor, que me vês lá de cima. Olhei para o sol quando nasceu o meu filho Ulenspiegel. Onde está ele agora, o vagabundo? Soetkin, minha doce companheira, serás forte contra o infortúnio?

Depois, olhando para a tília, verberou:

“Suão e seca! Fazei com que as árvores da terra dos antepassados pereçam todas pela raiz, para não verem sob a sua sombra condenar à morte a livre consciência. Onde estás, meu filho Ulenspiegel? Fui duro para contigo. Senhores, tenham piedade de mim, e julguem-me como o faria Nosso Senhor misericordioso.”

Todos os que o ouviam choravam, com excepção dos juízes. Depois, perguntou se não haveria perdão para ele dizendo:

“Trabalhei sempre, ganhando pouco; fui bom para os pobres e afável para com todos. Deixei a Igreja Romana para obedecer ao espírito de Deus, que me falou. Peço só que me substituam a pena do fogo pela expulsão perpétua da Flandres, pena que já é bastante grande. Todos os que estavam presentes clamaram:

- Piedade, senhores! misericórdia! Mas Josse Grypstuiver não gritava.

O bailio fez sinal aos assistentes para se calarem e lembrou que os cartazes afixavam a proibição e a pressa de se pedir misericórdia para os hereges; mas, que se Claes quisesse abjurar do seu erro, seria enforcado, em vez de queimado - E o povo murmurava:

- Fogo ou corda, é sempre morte!

As mulheres choravam, e os homens resmungavam em voz baixa. Claes disse então:

- Não abjurarei. Façam do meu corpo o que mais agradar à vossa misericórdia.

O deão de Renaix, Titelman, declarou:

- É intolerável ver estes mesquinhos hereges levantarem a cabeça diante dos seus juízes: queimar os seus corpos é uma pena passageira, é preciso salvar-lhes as almas e forçá-los pela tortura a renegarem aos seus erros, a fim de que não ofereçam ao povo o perigoso espectáculo de hereges a morrerem na impenitência final.

Nesta altura, as mulheres choravam mais e os homens diziam:

- Onde há confissão, há pena e não tortura.

O Tribunal decidiu que uma vez que a tortura não estava prevista pelas disposições legais, Claes não a devia sofrer. Convidado uma vez mais a abjurar, respondeu:

- Não posso.

Foi de acordo com os editais, declarado culpado de simonia, por causa da venda das indulgências, herege, receptador de hereges, e, como tal, condenado a ser queimado vivo até à morte numa fogueira ateada diante da casa da comuna.

O seu corpo seria deixado atado durante dois dias à estaca, para servir de exemplo, e a seguir inumado no local onde são habitualmente enterrados os corpos dos supliciados.

O Tribunal decidiu dar ao denunciador Josse Grypstuiver, cujo nome não foi revelado, cinquenta dos cem primeiros florins carolus de herança, e uma décima parte do restante.

Tendo ouvido esta sentença, Claes disse ao decano dos pescadores:

- Morrerás de morte trágica, homem mau, que por um dinheiro fazes viúva uma esposa feliz, e órfão triste um filho alegre.

Os juízes deixaram falar Claes, porque também eles, com excepção de Titelman, sentiam muito desprezo pela denúncia do decano dos pescadores. Este estava pálido de vergonha e de cólera.

E Claes foi levado para a prisão.

 

No dia seguinte, véspera do suplício de Claes, Nele, Ulenspiegel e Soetkin tomaram conhecimento da sentença.

Pediram aos juízes autorização para entrarem na prisão, que lhes foi concedida, à excepção de Nele.

Quando entraram, viram Claes preso à parede com uma comprida corrente. Na chaminé havia uma pequena fogueira por causa da humidade. Por direito e lei, na Flandres, os que vão morrer devem ser bem tratados e receber pão, carne ou queijo, e vinho. Mas os carcereiros avaros não cumprem muitas vezes esta lei e muitos deles comem a maior parte e os maiores bocados dos alimentos destinados aos pobres prisioneiros.

A chorar, Claes beijou Ulenspiegel e Soetkin, mas foi o primeiro a secar os olhos, pois a sua condição de homem e de chefe de família, lho impunha.

Soetkin chorava, e Ulenspiegel dizia: - Quero quebrar estes horríveis ferros.

Soetkin chorava também dizendo:

- Irei ter com o rei Filipe, e ele perdoará. Claes respondeu:

- O rei herda os bens dos mártires. Depois acrescentou:

- Mulher e filho amados, vou-me embora deste mundo triste e dolorosamente. Se o sofrimento do meu corpo me causa certa apreensão, mais preocupado fico a pensar que quando eu desaparecer vocês ficarão pobres e miseráveis, porque o rei apreenderá todos os meus bens.

Ulenspiegel respondeu, falando em voz baixa:

- A Nele e eu salvámos tudo ontem.

- Assim fico mais contente - volveu Claes. - O denunciador não rirá sobre os meus despojos.

- Que morra em breve - declarou Soetkin, com o olhar cheio de ódio e já sem chorar.

Mas Claes, pensando nos carolus, afirmou:

- Foste subtil, Thylken, meu pequeno. Assim Soetkin, a minha viúva, não terá fome na velhice.

E Claes beijava-a, apertando-a muito contra o peito, e Soetkin chorava mais, ao pensar que ia perder dali a pouco a sua terna protecção.

Claes olhava para Ulenspiegel, e dizia-lhe:

- Filho, pecaste muitas vezes ao andares por essas estradas, como fazem os rapazes maus, não deves voltar a isso, meu filho, nem deixar sozinha em casa a viúva atormentada, pois deves-lhe defesa e protecção, tu que és homem.

- Pai, farei como dizes.

- Oh, meu pobre marido! - dizia Soetkin, beijando-o. Que crime assim tão grande cometemos nós? Vivíamos os dois em paz uma vida honesta e pequena, amávamo-nos um ao outro, tu sabes isso, Senhor Deus. Levantávamo-nos cedo para trabalhar, e à noite, ao darmos-te graças, comíamos o pão do dia. Quero ir ao Rei, rasgar a carne com as minhas unhas. Senhor Deus, não fomos culpados!”

Mas o carcereiro entrou nessa altura e disse que era preciso irem-se embora. Soetkin pediu para ficar. Claes sentia o pobre rosto da mulher queimar o seu, e as lágrimas de Soetkin, caindo em borbotões, molhavam-lhe as faces e o corpo trémulo preso nos seus braços. Claes pediu então para que a mulher ficasse ao pé dele.

O carcereiro insistiu em que era preciso irem-se embora, e arrancou Soetkin dos braços de Claes. Este disse a Ulenspiegel:

- Toma conta dela.

Ulenspiegel respondeu que assim faria. Ele e Soetkin foram-se embora, o filho amparando a mãe.

 

No dia seguinte, que era o do suplício, os vizinhos vieram, e por piedade fecharam Ulenspiegel, Soetkin e Nele na casa de Katheline.

Mas não pensaram que eles podiam ouvir os gritos do supliciado, e pelas janelas ver o fumo da fogueira. Katheline ia a caminho da cidade, dizendo:

- Façam um buraco, a alma quer sair.

Às nove horas, em roupa interior, as mãos atadas atrás das costas, Claes saiu da prisão. De acordo com a sentença, a fogueira foi preparada na Rua de Nossa Senhora, em volta de um poste colocado diante dos pilares da casa da comuna. O carrasco e os seus ajudantes ainda não tinham acabado de empilhar a lenha.

Claes, entre aquela gente ávida, esperava pacientemente que acabassem o seu trabalho, enquanto o preboste, a cavalo, os lacaios do bailio e os novos lansquenetes chamados de Burgos, mal podiam manter em respeito a multidão, que murmurava.

Todos diziam que era uma crueldade martirizar assim um homem de idade avançada, tão afável, tão misericordioso e tão trabalhador.

Em uníssono, puseram-se de joelhos e começaram a rezar. Os sinos da igreja de Nossa Senhora tocavam a finados.

Katheline estava também entre a multidão, na primeira fila, com um ataque de loucura. Olhando para Claes e para a fogueira, dizia, abanando a cabeça:

- O fogo! O fogo! Façam um buraco: a alma quer sair.

Soetkin e Nele, benzeram-se ao ouvirem os sinos.

Mas Ulenspiegel não as imitou, dizendo que não queria adorar a Deus como fazem os carrascos. E corria pela casa, procurando forçar as portas ou saltar pelas janelas mas todas estavam bem fechadas.

De súbito, Soetkin gritou, escondendo a cara no avental:

- O fumo!

Com efeito os três atormentados viram no céu uma grande coluna de fumo negro. Provinha da fogueira junto à qual Claes estava atado a um poste, e que o carrasco acabava de atear em três pontos diferentes, em nome de Deus Pai, de Deus Filho, e de Deus Espírito Santo.

Claes olhou em volta, e não distinguiu Soetkin nem Ulenspiegel entre a multidão, sentiu-se melhor, pensando que não o veriam sofrer.

Nada mais se ouvia para além da voz de Claes a rezar, do crepitar da madeira, do resmungar dos homens, do choro das mulheres e de Katheline, que dizia: “Afastem o fogo, façam um buraco: a alma quer sair.” Os sinos da igreja de Nossa Senhora tocavam a finados.

De repente, Soetkin ficou branca como a neve, tremeu dos pés à cabeça, sem chorar, e apontou para o céu. Uma chama longa e estreita acabava de sair da fogueira e elevou-se por instantes acima dos telhados baixos das casas. Foi extremamente doloroso para Claes, pois seguindo os caprichos do vento a chama ora lhe queimava as pernas, ora lhe aflorava a barba, à qual pegava fogo, ora lambia-lhe os cabelos, queimando-os.

Ulenspiegel segurava Soetkin nos braços e queria afastá-la da janela. Ouviram um grito agudo. Era um grito de Claes, cujo corpo ardia só de um lado. Mas o supliciado calou-se e rezou. E o peito estava todo molhado de lágrimas.

Depois, Soetkin e Ulenspiegel ouviram um grande barulho de vozes. Homens mulheres e crianças gritavam:

- Claes não foi condenado a fogo brando, mas à chama grande. Carrasco, atiça o lume da fogueira!

O carrasco obedeceu, mas o fogo não se ateou rapidamente.

- Estrangula-o - gritavam.

E arremessaram pedras ao preboste.

Com efeito, uma chama vermelha subia ao céu, no meio do fumo.

- Vai morrer - disse a viúva. - Senhor Deus, tem piedade da sua alma inocente. Onde está o rei que eu tiro-lhe o coração com as unhas?

Os sinos da igreja de Nossa Senhora tocavam a finados.

Soetkin ouviu ainda um grito soltado por Claes, mas não viu o corpo torcendo-se de dor, nem o rosto contraindo-se, nem a cabeça que se voltava para todos os lados e batia contra a estaca. O povo continuava a gritar e a assobiar, as mulheres e as crianças arremessavam pedras, quando de súbito as chamas se propagaram a toda a fogueira, e todos ouviram, por entre as chamas e do fumo, Claes chamar:

- Soetkin !Thyl!

E a cabeça caiu-lhe sobre o peito, como se fora de chumbo. Um grito agudo de lamento saiu da casa de Katheline. Não se ouvia mais nada, além da pobre louca, que abanando a cabeça dizia: “A alma quer sair.”

Claes morrera. A fogueira morrera junto à estaca do suplício. O pobre corpo, todo negro, ficou suspenso pelo

pescoço. E os sinos da igreja de Nossa Senhora tocavam a finados.

 

Soetkin estava em casa de Katheline, de pé, encostada à parede, com a cabeça baixa e as mãos juntas. Estava abraçada a Ulenspiegel, sem falar nem chorar.

Ulenspiegel também estava calado; sentia-se preocupado com a febre de fogo que sentia arder no corpo da mãe.

Os vizinhos ao voltarem do local da execução, disseram que Claes tinha deixado de sofrer.

- Está na glória - declarou a viúva.

- Reza - disse Nele a Ulenspiegel. E deu-lhe o terço; mas ele não se quis servir do rosário, porque, afirmava, as contas tinham sido benzidas pelo Papa.

A noite tinha caído, Ulenspiegel disse à viúva:

- Mãe é preciso ir para a cama: eu fico ao pé de ti.

- Não preciso que fiques ao pé de mim; o sono é bom para os jovens - respondeu Soetkin.

Nele preparou uma cama para cada um deles na cozinha, e foi-se deitar. Ficaram a fazer companhia um ao outro até as raízes que estavam na chaminé se consumirem.

Soetkin deitou-se, Ulenspiegel imitou-a, e ouviu-a chorar debaixo da roupa.

Lá fora, no silêncio da noite, o vento fazia murmurar, as árvores do canal como se fossem o mar e, precursor do Outono, arremessava a poeira contra as janelas, em turbilhões.

Ulenspiegel viu um homem ir e vir; ouviu como que um barulho de passos na cozinha. Olhando, não viu ninguém; escutando, só ouviu o vento uivando pela chaminé, e Soetkin chorando debaixo da roupa

Voltou a ouvir passos, e atrás dele, junto da cabeça, um suspiro. “Quem está aí?” - perguntou.

Ninguém respondeu, mas ouviram-se três pancadas na mesa. Ulenspiegel ficou cheio de medo, e já a tremer, voltou a perguntar:

- Quem está aí?

Ninguém respondeu, mas ouviram-se mais três pancadas na mesa, e sentiu dois braços que o estreitavam e sobre o rosto um corpo que se debruçava, cuja pele era rugosa e que tinha um grande buraco no peito e um cheiro a queimado:

- Pai - disse Ulenspiegel - é o teu pobre corpo que se inclina assim sobre mim?

Não obteve qualquer resposta, e apesar de a sombra estar perto dele, ouviu chamar lá de fora: “Thyl! Thyl!”

Soetkin levantou-se e dirigiu-se à cama de Ulenspiegel :

- Não ouves nada? - perguntou.

- Sim, o pai a chamar-me.

- Eu senti um corpo frio ao meu lado; e o colchão mexeu, e as cortinas foram agitadas e ouvi uma voz dizendo: “Soetkin”; uma voz baixa como um sopro e um passo ligeiro como o adejar das asas de um mosquito.

Falando com o espírito de Claes Soetkin disse então:

- Marido, se desejas alguma coisa no céu onde Deus te tem na sua glória, diz-nos o que é, para que possamos fazer a tua vontade.

Nesse instante um golpe de vento entreabriu impetuosamente a porta, enchendo o aposento de pó, e Ulenspiegel e Soetkin ouviram longínquos grasnidos de corvos.

Saíram e dirigiram-se para a fogueira. A noite estava escura, salvo quando as nuvens, empurradas pelo vento forte do norte e correndo no céu como veados, descobriam a brilhante face do astro lunar.

Um beleguim da comuna andava de um lado para o outro guardando a fogueira. Ulenspiegel e Soetkin ouviram, o barulho dos seus passos na terra endurecida e a voz de um corvo que sem dúvida chamava os outros, porque de longe respondiam grasnidos.

Ao aproximarem-se da fogueira, Ulenspiegel e Soetkin viram o corvo descer sobre os ombros de Claes, ouviram as bicadas no corpo, e daí a pouco chegavam outros corvos.

Ulenspiegel quis lançar-se sobre a fogueira e afastar os corvos. Mas o beleguim disse-lhe:

- Feiticeiro, procuras as mãos da glória? Fica sabendo que as mãos dos queimados não se tornam invisíveis; isso só acontece com as mãos dos enforcados, como o saberás um dia.

- Senhor beleguim - respondeu Ulenspiegel. - Não sou feiticeiro, mas filho órfão daquele que está ali amarrado, e esta mulher a sua viúva. Só queríamos voltar a beijá-lo e recolher um pouco das suas cinzas. Deixe-nos fazer isto, senhor, que não é soldado estrangeiro, mas filho deste país.

- Faz como quiseres - respondeu o beleguim.

O órfão e a viúva, caminhando sobre a madeira queimada, chegaram até junto do corpo lavados em lágrimas, beijaram o rosto de Claes.

Ulenspiegel tirou junto do coração, onde as chamas tinham feito um grande buraco, um pouco das cinzas do morto. Depois, ajoelhando-se, ele e Soetkin rezaram. Quando a aurora apareceu pálida no céu, ainda lá estavam; mas o beleguim mandou-os embora, com medo de ser punido pelo seu gesto de boa vontade.

Ao voltarem a casa, Soetkin pegou num bocado de seda vermelha e num pedaço de seda preta, fez um saquinho onde meteu as cinzas; e ao saquinho coseu duas fitas, para Ulenspiegel o poder trazer sempre ao pescoço. Ao entregar-lho disse:

- Que estas cinzas, que são o coração do meu marido, este vermelho que é o meu sangue, este preto que é o nosso luto, estejam sempre ao teu peito, como fogo da vingança contra os carrascos.

- Assim o quero! - respondeu Ulenspiegel. E a viúva beijou o órfão, e o Sol nasceu.

 

No dia seguinte, os beleguins e os pregoeiros da comuna chegaram a casa de Claes para porem todos os móveis na rua e procederem à venda judicial. Soetkin, de casa de Katheline, viu descerem o berço de ferro e cobre, que de pai para filho sempre tinha estado na casa de Claes, onde o pobre morto nascera, onde tinha também nascido Ulenspiegel. Depois tiraram a cama onde Soetkin havia concebido o filho, e onde tinha passado noites tão ternas junto ao ombro do marido. Veio em seguida a arca em que guardava o pão, o baú onde se guardavam as carnes no tempo da fortuna, frigideiras, caldeirões e taças, não brilhantes como nos tempos de felicidade, mas sujas pelo pó do abandono. E lembraram-lhe os festins familiares, quando os vizinhos apareciam atraídos pelo bom cheiro.

Vieram depois um tonel e uma cuba de "simpel" e de "dobbel kuyt", e um cesto com garrafas de vinho, em número de pelo menos trinta; e tudo foi posto na rua, até ao último prego, o qual a pobre viúva ouviu arrancar da parede com grande barulho.

Sentada, olhava sem gritar nem se queixar, mas profundamente magoada, para as suas pobres riquezas. O pregoeiro acendeu uma vela e os móveis foram vendidos em leilão. A vela estava quase no fim e o decano dos peixeiros já tinha comprado tudo, por um preço incrivelmente baixo, a fim de voltar a vender. Parecia uma doninha saboreando o cérebro de uma galinha.

Ulenspiegel dizia do fundo do seu coração:

“Não rirás muito tempo, assassino.”

A venda tinha acabado, mas os beleguins, que procuravam por toda a parte, não tinham encontrado os carolus; o peixeiro clamava:

- Procuraram mal. Sei que Claes tinha setecentos, há seis meses.

Ulenspiegel dizia para consigo: “Não herdarás assassino.” De súbito, Soetkin voltou-se para o filho:

- O denunciador! - afirmou, mostrando-lhe o peixeiro.

- Eu sei!

- Queres que ele herde o sangue do pai?

- Preferiria sofrer um dia no banco da tortura - respondeu Ulenspiegel.

- Eu também, mas não me denuncies, por piedade, seja qual for o sofrimento que me vires padecer - pediu Soetkin.

- Valha-me Deus! És mulher.

- Pobrezinho, pus-te neste mundo e sei sofrer; mas eu, se te visse...

Depois, empalidecendo:

- Rezarei a Nossa Senhora que viu o filho na cruz. E chorava, acariciando Ulenspiegel. E desta forma foi selado entre eles um pacto de ódio e de força.

 

O peixeiro só teve que pagar metade do preço da compra, a outra metade de compensação pela denúncia, até se encontrarem os setecentos carolus que o tinham levado àquela vilania.

Soetkin passava as noites a chorar, e de dia fazia o seu trabalho de casa. Muitas vezes Ulenspiegel ouvia-a falar sozinha e dizer:

- Se ele herdar, mato-me.

Certos de que ela fazia aquilo que dizia, Nele e ele fizeram tudo o que puderam para convencer Soetkin a retirar-se para Walcheren, onde tinha parentes. Soetkin não quis, dizendo que não precisava de se afastar dos vermes que em breve comeriam os seus ossos de viúva.

Entretanto, o peixeiro tinha ido de novo procurar o bailio, para lhe dizer que o defunto tinha herdado há alguns meses setecentos carolus, que era um homem modesto, que vivia com pouco, e que não podia ter gasto uma soma tão elevada, pelo que a devia ter escondido em qualquer canto.

O bailio perguntou-lhe que mal é que Ulenspiegel e Soetkin lhe tinham feito para que depois de ter tirado a um o pai e à outra o marido ainda se empenhar em persegui-los tão cruelmente.

O pescador respondeu que sendo da alta burguesia de Damme, queria fazer respeitar as leis do Império e merecer assim a clemência de Sua Majestade.

Tendo dito isto, deixou nas mãos do bailio uma acusação escrita, e indicou testemunhas que, falando com toda a verdade, declararam que o peixeiro não mentia.

Os senhores da Câmara dos vereadores, tendo ouvido as testemunhas, declararam índices de culpabilidade suficientes para a tortura. Consequentemente, mandaram proceder a uma nova busca a casa, e deram poderes aos beleguins para trazerem a mãe e o filho para a prisão da cidade, onde ficariam detidos, até vir de Burgos o carrasco, a quem iam imediatamente chamar.

Quando Ulenspiegel e Soetkin passaram na rua, com as mãos atadas atrás das costas, o peixeiro estava à porta de casa. E os burgueses e burguesas de Damme estavam também à porta de casa. Mathyssen, o vizinho do peixeiro, ouviu Ulenspiegel dizer ao denunciante:

- Deus amaldiçoar-te-á, carrasco de viúvas! E Soetkin disse:

- Morrerás de morte trágica, perseguidor de órfãos.

Os habitantes, ao perceberem que tinha sido por uma segunda denúncia de Grypstuiver que levavam a viúva e o órfão, apuparam o peixeiro e à noite arremessaram pedras à janela. E a porta ficou coberta de imundícies. O denunciante não ousou sair de casa.

 

Pelas dez horas da manhã, Ulenspiegel e Soetkin foram levados para a câmara de tortura.

Encontravam-se ali o bailio, o escrivão e os vereadores, o carrasco de Burgos, o criado e um cirurgião-barbeiro.

O bailio perguntou a Soetkin se retinha algum bem que pertencesse ao Imperador. Ela respondeu que não tendo nada, nada podia reter.

- E tu? - perguntou o bailio, dirigindo-se a Ulenspiegel.

- Há sete meses herdámos setecentos carolus; comemos alguns. Quanto aos outros, não sei onde estão; penso, todavia, que o viajante que esteve em nossa casa, para nossa infelicidade, levou o resto, porque nunca mais os vi.

O bailio voltou a perguntar se persistiam em declarar-se inocentes. Responderam que não retinham nada que pertencesse ao Imperador. O bailio declarou então com tristeza:

- As incriminações são grandes, e a acusação é fundada. Se não confessam, terão de suportar o interrogatório.

- Poupem a viúva - dizia Ulenspiegel. - O peixeiro comprou tudo.

- Pobrezinho - dizia Soetkin. - Os homens não sabem suportar a dor como as mulheres.

Vendo Ulenspiegel tão pálido como se estivesse morto, acrescentou:

- Tenho ódio e força.

- Poupem a viúva - disse Ulenspiegel.

- Levem-me em vez dele - pedia Soetkin.

O bailio perguntou ao carrasco se tinha preparado os objectos necessários para se obter a verdade.

O carrasco respondeu:

- Estão todos aqui.

Os juízes consultaram-se uns aos outros e decidiram que, para saber a verdade, se devia começar pela mulher.

- Porque - declarou um dos vereadores - é preciso um filho ser muito cruel para ver sofrer a mãe sem fazer a confissão do seu crime, e assim libertá-la. O mesmo faria qualquer mãe, ainda que tivesse coração de tigre, em relação ao fruto do seu ventre.

Dirigindo-se ao carrasco, o bailio ordenou:

- Senta a mulher na cadeira e mete-lhe as varas nas mãos e nos pés.

O carrasco obedeceu.

- Oh! Não façam isso, senhores juízes - pediu Ulenspiegel. - Amarrem-me em vez dela, quebrem-me os dedos das mãos e dos pés, mas poupem a viúva!

- O peixeiro - disse Soetkin. - Tenho ódio e força. Ulenspiegel estava pálido, trémulo, como louco, mas calou-se.

As varas eram pequenos paus de buxo, colocadas entre os dedos, tocando no osso e juntas com cordéis por um mecanismo de uma invenção tão subtil, que o carrasco podia, segundo a vontade do juiz, apertar todos os dedos, desnudar os ossos da carne, macerá-los ou só causar ao paciente uma pequena dor.

Colocou as varinhas nos pés e nas mãos de Soetkin.

- Aperta - ordenou o bailio. Fê-lo de forma cruel.

O bailio, dirigindo-se a Soetkin:

- Indica-me o local onde estão escondidos os carolus.

- Não sei - respondeu gemendo.

- Aperta com mais força.

Ulenspiegel agitava os braços que estavam atados atrás das costas para desfazer o nó e ir em auxílio de Soetkin.

- Não apertem, senhores juízes, são ossos de mulher finos e frágeis. Qualquer ave era capaz de os quebrar com o bico. Não aperte, senhor carrasco, não falo com o senhor que se deve mostrar obediente às ordens dos senhores. Não aperte; tenha piedade!

- O peixeiro! - disse Soetkin. E Ulenspiegel calou-se.

Todavia, vendo que o carrasco apertava com mais força as varinhas, voltou a gritar:

- Piedade, senhores! Vão quebrar os dedos à viúva que precisa deles para trabalhar. Valha-me Deus! Os pés! Será que ela não poderá andar agora? Piedade, senhores!

- Terás uma morte trágica, peixeiro - exclamou Soetkin.

E os ossos estalavam e o sangue caía dos pés em gotas. Ulenspiegel assistia a tudo, e trémulo de dor e de cólera dizia:

- São ossos de mulher, não os quebrem, senhores juízes.

- O peixeiro! - gemia Soetkin.

E a sua voz era baixa e abafada como a voz de um fantasma. Ulenspiegel tremia e gritava:

- Senhores juízes, as mãos estão a sangrar e os pés também. Quebram os ossos à viúva.

O cirurgião-barbeiro tocou-lhes com um dedo, e Soetkin deu um grito.

- Confessa por ela - disse o bailio a Ulenspiegel. Mas Soetkin fixou-o com uns olhos que pareciam de um morto, muito abertos. E ele compreendeu que ela já não podia falar e chorou sem dizer nada.

Mas o bailio observou:

- Já que a mulher é dotada de uma firmeza de homem, é preciso experimentar a sua coragem perante a tortura do filho.

Soetkin não ouviu, porque tinha perdido os sentidos por causa das enormes dores que a atormentavam.

Fizeram-na voltar a si com vinagre. Depois Ulenspiegel foi despido e ficou nu diante da viúva. O carrasco rapou-lhe os cabelos e todos os pêlos, para se assegurar que não trazia qualquer malefício. Descobriu o sinal preto que ele tinha desde nascença. Espetou-o várias vezes com uma agulha comprida; mas o sangue saltou e ele considerou que não havia bruxaria neste sinal.

Por ordem do bailio, as mãos de Ulenspiegel foram amarradas a duas cordas passadas por uma polé presa ao tecto, de tal forma que o carrasco podia, segundo as ordens dos juízes, subi-la e descê-la, sacudindo-a rudemente; o que ele fez nove vezes depois de ter amarrado a cada uma das pernas do supliciado um peso de vinte cinco libras.

Ao nono safanão, a pele dos pulsos e dos tornozelos rasgou-se e os ossos das pernas começaram a sair das charneiras.

- Confessa - ordenou o bailio.

- Não - respondeu Ulenspiegel.

Soetkin olhava para o filho e não tinha forças para gritar ou falar; limitava-se a estender os braços para a frente, agitando as mãos ensanguentadas mostrando com este gesto que era preciso afastar o suplício.

O carrasco voltou a fazer subir e descer Ulenspiegel. E a pele dos tornozelos e dos pulsos rasgou-se ainda mais; e os ossos das pernas saíram ainda mais das charneiras; mas ele não gritava.

Soetkin chorava e agitava as mãos ensanguentadas.

- Confessa a receptação - ordenou o bailio - e ser-te-á perdoado.

- O peixeiro precisa de perdão - respondeu Ulenspiegel.

- Queres zombar dos juízes? - perguntou um dos vereadores.

- Troçar? Valha-me Deus! - respondeu Ulenspiegel.

- Isso é impressão, creiam-me.

Soetkin viu então o carrasco que, por ordem do bailio, atiçava um braseiro ardente enquanto um ajudante acendia duas velas. Quis levantar-se nos pés martirizados, mas voltou a sentar-se, exclamando:

- Afastem o fogo! Ah! senhores juízes, poupem a sua pobre juventude. Afastem o fogo!

- O peixeiro! - gritou Ulenspiegel, vendo-a fraquejar.

- Levantem Ulenspiegel a um pé do chão - ordenou o bailio. - Ponham-lhe um braseiro debaixo dos pés e uma vela debaixo dos braços, e aticem a chama.

O carrasco obedeceu. O que restava dos pêlos das axilas crepitou e fumegou com a chama. Ulenspiegel gritava e Soetkin, chorando, pedia:

- Afastem o fogo! O bailio ordenava:

- Confessa a receptação e serás libertado. Confessa para bem dele, mulher.

E Ulenspiegel dizia:

- Quem quer lançar o peixeiro no fogo que arde sempre? Soetkin fazia sinal com a cabeça que não tinha nada a dizer. Ulenspiegel rangia os dentes e Soetkin fixava-o com os olhos desvairados e cheios de lágrimas.

Todavia, quando o carrasco, tendo apagado as velas, colocou o braseiro ardente sob os pés de Ulenspiegel, ela gritou:

- Senhores juízes, tenham piedade dele: não sabe o que está a dizer.

- Porque é que ele não sabe o que está a dizer? - perguntou o bailio cautelosamente.

- Não a interroguem, senhores juízes; como vêem está louca de dores. O peixeiro mentiu - disse Ulenspiegel.

- Estás de acordo com ele, mulher? - perguntou o bailio.

Soetkin fez sinal com a cabeça que sim.

- Queimem o peixeiro! - gritou Ulenspiegel. Soetkin levantou o punho fechado como que para maldizer.

Contudo, vendo o braseiro ainda mais ardente sob os pés do filho, gritou:

- Meu Deus! Virgem Maria que estais no céu, fazei com que este suplício acabe! Tende piedade! Afastai o braseiro!

- O peixeiro! - gemeu Ulenspiegel.

E o sangue saiu-lhe em jorros do nariz e da boca, e, inclinando a cabeça ficou suspenso por cima dos carvões. Então Soetkin gritou:

- Está morto, meu pobre órfão! Mataram-no! Ah! Ele também. Afastem esse braseiro, senhores juízes! Deixem-me segurá-lo nos meus braços para morrer também, perto dele. Como sabem não posso fugir com os pés partidos.

- Dêem o filho à viúva - ordenou o bailio. Depois os juízes deliberaram.

O carrasco desatou Ulenspiegel, e pô-lo nu e todo coberto de sangue nos joelhos de Soetkin, enquanto o cirurgião lhe metia os ossos nas charneiras. Entretanto Soetkin beijava Ulenspiegel e chorando dizia:

- Filho, pobre mártir! Se os senhores juízes quiserem eu própria te curarei; mas acorda, Thyl, meu filho! Senhores juízes, se mo mataram, irei a Sua Majestade; porque agiram contra todo o direito e justiça, e vão ver o que pode uma pobre mulher contra os malvados. Mas, senhores, libertem-nos. Estamos sozinhos os dois no mundo, pobres criaturas sobre quem a mão de Deus caiu pesada.

Depois das deliberações, os juízes deram a seguinte sentença :

“Dado que tu, Soetkin, mulher viúva de Claes e tu Thyl, filho de Claes, conhecido por Ulenspiegel, tendo sido acusados de lesarem o rei em bens que por confiscação pertenciam a sua real majestade, apesar de todos os privilégios em contrário, nada confessarem apesar da cruel tortura e de suficientes provas.

“O tribunal, considerando a falta de índices suficientes. c em ti mulher, o estado miserável dos teus membros. e em ti, homem, a rude tortura sofrida, declaramo-vos livres e permitimos que se fixem na vossa casa ou numa casa da cidade que vos aloje, atendendo à vossa pobreza.

“Assim foi deliberado em Damme, aos vinte e três dias de Outubro do ano do Senhor de 1558.”

- Graças vos sejam dadas, senhores juízes - declarou Soetkin.

- O peixeiro! - gemia Ulenspiegel.

E a mãe e o filho foram levados numa carroça para casa de Katheline.

 

Nesse ano, que foi o quinquagésimo oitavo do século. Katheline entrou em casa de Soetkin e disse:

- Esta noite quando me esfregava com bálsamo, fui transportada para a torre da igreja de Nossa Senhora e vi os espíritos elementares transportarem as orações dos homens aos anjos, os quais, voando para os altos céus, as levavam ao trono. E o céu estava todo semeado de radiosas estrelas. De súbito, levantou-se de uma fogueira uma forma que me pareceu preta e subiu para se colocar ao meu lado na torre. Reconheci Claes, tal como era em vida, vestido com o fato de carvoeiro.

“ - Que fazes - disse-me - na torre de Nossa Senhora?

“ - E tu, onde vais voando nos ares como uma ave? - perguntei eu.

“- Vou para o julgamento; não ouves "o clarim do anjo?"

- Estava muito perto dele e senti que o seu corpo em espírito não era duro como o corpo dos vivos; mas tão subtil que ao aproximar-me dele entrei como que num vapor quente. A meus pés, por toda a terra de Flandres, brilhavam luzes e eu dizia para comigo: "Os que se levantam cedo e trabalham até tarde são os abençoados de Deus."

“E continuei a ouvir pela noite o toque do clarim do anjo. E vi então uma outra sombra que subia, vinda da Espanha. Esta era velha e decrépita, tinha o queixo gordo, e doce de marmelo nos lábios. Trazia pelas costas um manto de veludo debruado a arminho, na cabeça uma coroa imperial, numa das mãos uma anchova a que dava dentadas e na outra uma taça cheia de cerveja.

“Foi por fadiga, sem dúvida, que veio sentar-se na torre da igreja de Nossa Senhora. Ajoelhando-me, disse-lhe. “- Majestade coroada, venero-vos, mas não vos conheço. De onde vens e que fazes no mundo?

“ - Venho de S. Justo - respondeu - na Estremadura, e fui o Imperador Carlos V.

“ - Mas - retorqui - onde ides agora nesta noite fria, através destas nuvens carregadas de saraiva? “ - Vou para o julgamento.

- Quando o imperador queria acabar de comer a anchova e beber a cerveja da taça, soou o clarim do anjo; e ele levantou-se, resmungando por a sua refeição ter sido interrompida. Segui sua santa majestade. Ia pelos espaços arquejando de fadiga, arfando por causa da asma e vomitando às vezes porque a morte o tinha apanhado em estado de indigestão. “Subimos sem parar, como flechas lançadas por um arco de corniso. As estrelas corriam a nosso lado, traçando no céu raios de fogo: víamo-las separarem-se e caírem. O clarim do anjo soava. Era um toque sonoro e potente! Cada vez que as ondas sonoras tocavam nos vapores do ar, estes abriam-se como se um furacão tivesse soprado sobre eles. E o caminho era-nos traçado desta forma. Tendo sido guiados durante mil léguas ou mais, vimos Cristo na sua glória, sentado num trono de estrelas, e à sua direita estava o anjo que escreve as acções dos homens sobre um registo de bronze, e à esquerda Maria, sua mãe, pedindo-lhe incessantemente pelos pecadores.

“Claes e o Imperador Carlos ajoelharam-se diante do trono. O anjo tirou-lhe a coroa da cabeça dizendo: “ - Só há aqui um Imperador, é Cristo.”

- Sua santa majestade parecia aborrecido; todavia, falando humildemente, pediu:

“ - Não posso ficar com esta anchova e com esta taça de cerveja, já que uma viagem tão longa fez-me fome?

“ - Como aconteceu durante toda a tua vida - retorquiu o anjo - mas come e bebe.

“O imperador esvaziou a taça de cerveja e deu uma dentada na anchova. Cristo disse então:

“ - Apresentas-te ao julgamento de alma limpa?

“ - Assim o espero, meu doce Senhor, porque me confessei - respondeu o Imperador Carlos.

“- E tu Claes; não tremes como este Imperador?

“ - Meu Senhor Jesus - respondeu Claes - não há nenhuma alma que esteja limpa e não tenho medo de vós, que sois o bem supremo e a justiça suprema, mas temo pelos meus pecados, que são muitos.

“ - Fala, devasso - ordenou o anjo dirigindo-se ao imperador.

“ - Eu, Senhor - respondeu Carlos com uma voz embaraçada- tendo sido ungido pelos dedos dos vossos padres, fui sagrado rei de Castela, Imperador da Alemanha e rei dos romanos. Velei sempre pela conservação do poder que vem de vós, e por isto, recorri à corda, ao ferro, à fossa e ao fogo contra todos os reformistas.

Mas o anjo afirmou:

“ - Mentiroso e ulceroso, queres-nos enganar! Tu toleraste os reformistas na Alemanha, porque tinhas medo deles, e mandaste-os decapitar, queimar e enterrar vivos nos Países-Baixos, onde só te preocupavas com herdar o mais que pudesses com o mal dessas abelhas laboriosas. Cem mil almas pereceram por tua culpa, não porque amasses Cristo, meu Senhor, mas porque foste déspota, tirano, martirizador de terras, que só te amavas a ti próprio e depois de ti, às carnes, peixes, vinhos e cervejas, porque foste glutão como um cão e bebedor como uma esponja. “ - E tu, Claes, fala - ordenou Cristo. “Mas o anjo, levantando-se, declarou: “ - Este nada tem a dizer. Foi bom, trabalhador, como o pobre povo da Flandres, trabalhando e rindo-se de boa vontade, tendo a fé que devia aos seus príncipes e julgando que esses príncipes teriam a mesma fé que lhes tributava. Tinha dinheiro, foi acusado, e como tinha dado guarida a um reformista, foi queimado vivo.

“ - Ah! - afirmou Maria. - Pobre mártir! Mas agora estás no céu das nascentes frescas, das fontes de leite e de vinho raro, que te refrescarão. E eu própria tos levarei, carvoeiro.”

- O clarim do anjo voltou a soar e vi elevar-se do fundo dos abismos um homem nu e belo, coroado de ferro. E no círculo da coroa estavam escritas estas palavras: “Triste até ao dia da justiça.” “Aproximou-se do trono e disse a Cristo: “ - Sou teu escravo até que seja teu senhor. “ - Satanás! - exclamou Maria. - Há-de chegar o dia em que não haverá nem escravos nem senhores e em que Cristo, que é amor e Satanás, que é orgulho, dirão: Força e ciência.

“- Mulher, és boa e bela - disse Satanás. Depois, dirigindo-se a Cristo e apontando para o Imperador: “ - Que se faz disto? “Cristo respondeu:

“- Vais meter o vermezito coroado numa sala onde estejam reproduções de todos os instrumentos de tortura em uso no seu reino.

Todas as vezes que um inocente sofre o suplício da água, que faz inchar os homens como bexigas, o das velas, que lhes queima as solas dos pés e as axilas, a polé, que quebra os membros, a tracção nas quatro galeras ;

“Todas as vezes que uma alma livre exalar o último suspiro na fogueira, deve ele sofrer estas mortes e estas torturas, a fim de saber o mal que pode fazer um homem injusto dirigindo milhões de outros. Que apodreça nas prisões, morra no cadafalso, sofra no exílio, longe da pátria; que seja aviltado, vilipendiado, açoitado; que seja rico e que o fisco o arruine; que a delação o acuse, que a confiscação tudo lhe tire;

“Farás dele um burro para que seja afável, maltratado e mal alimentado; um pobre, para que peça esmola e seja recebido com injúrias; um operário, para que trabalhe muito e não coma o suficiente. Depois, quando ele já tiver sofrido muito no seu corpo e na sua alma de homem, farás dele um cão, para que seja bom e apanhe pancada; um escravo das índias, para o venderem em leilão; soldado, para que se bata por outros e se deixe matar sem saber porquê;

“E quando, ao fim de trezentos anos, tiver experimentado todos os sofrimentos, todas as misérias, farás dele um homem livre, e se nesse estado ele for bom como foi Claes, darás ao seu corpo o repouso eterno num canto da terra com sombra ao meio-dia, visitado de manhã pelo sol, sob uma árvore bonita, coberto de relva fresca. E os seus amigos virão à sepultura verter lágrimas amargas e semear violetas, as flores da recordação.

“ - Misericórdia, meu filho - pediu Maria. - Ele não sabia o que fazia porque o poder torna o coração duro.

“- Não pode haver misericórdia - declarou Cristo.

“ - Ah! - exclamou a Santa Majestade. - Se eu tivesse ao menos um copo de vinho da Andaluzia!

“ - Vem! - ordenou Satanás. - Já passou o tempo do vinho, das carnes e das aves.

“E levou para as profundezas do inferno a alma do pobre Imperador, que ainda mastigava o bocado de anchova.

“Satanás deixou-o fazê-lo por compaixão. Depois vi Nossa Senhora levar Claes para o mais alto do céu, em cuja abóbada só havia estrelas. Ali, os anjos lavaram-no e ele voltou a ser belo e jovem. Deram-lhe para comer "rystpap" com colheres de prata. E o céu fechou-se.”

- Está na glória - afirmou a viúva.

- As cinzas batem no meu coração - disse Ulenspiegel.

 

Nos vinte e três dias que se seguiram, Katheline foi-se tornando branca, magra, e secou como se fosse devorada por um fogo interior mais devastador do que o da loucura.

Já não dizia: “O fogo! Abram um buraco: a alma quer sair.” Ficava em êxtase, e falando com Nele, dizia:

- Sou esposa; esposa deves ser. Belo; cabelos compridos amor quente; joelhos frios e braços frios!

E Soetkin olhava-a com tristeza, pensando que se tratava de uma nova loucura. Katheline prosseguia:

- Três vezes três são nove, número sagrado. Só quem à noite tem os olhos brilhantes como os olhos de um gato é que vê o mistério.

Uma noite, ao ouvi-la, Soetkin fez um gesto de dúvida, mas Katheline continuou:

- Quatro e três infelicidade sob Saturno; sob Vénus, número de casamento. Braços frios! Joelhos frios! Coração de fogo!

Soetkin comentou:

- Não é preciso falar nos maus ídolos pagãos. Ao ouvir isto, Katheline fez o sinal da cruz e disse:

- Bendito seja o cavaleiro cinzento. Falta marido a Nele, um belo marido que use a espada, marido preto com a face brilhante.

- Sim - retorquia Ulenspiegel. - Fricassés de maridos para o qual farei o molho com a minha faca.

Nele olhava para o amigo com lágrimas de prazer a bailarem-lhe nos olhos, pois via-o tão ciumento:

- Não posso fazer isso - disse ela.

- Quando vier aquele que está vestido de cinzento, sempre com botas e esporas diferentes.

Soetkin dizia:

- Rezem a Deus por esta louca.

- Ulenspiegel - pediu Katheline - vai buscar quatro litros de "dobbel-kuyt" enquanto preparo os "heete-koeken' que são na França a massa frita.

Soetkin perguntou-lhe porque festejava o sábado como os judeus. Katheline respondeu:

- Porque a massa está pronta.

Ulenspiegel estava de pé e segurava o pote de estanho inglês que levava exactamente aquela medida.

- Mãe, o que é que faço? - perguntou.

- Vai! - disse Katheline.

Soetkin não queria responder, porque não era a dona da casa. Mas disse a Ulenspiegel, mesmo assim:

- Vai, meu filho.

Ulenspiegel foi a correr ao "Scaeck" de onde trouxe os quatro litros de "dobbel-kuyt".

Daí a pouco o perfume dos "heete-koeken" espalhava-se pela cozinha, e todos sentiam fome, até mesmo a pobre triste.

Ulenspiegel comeu bem. É que Katheline tinha-lhe dado uma grande taça, dizendo-lhe que ele era o único homem, o chefe de família, e que por isso devia beber mais do que elas, e cantar depois.

E ao dizer isto, tinha uma expressão maliciosa. Mas Ulenspiegel bebeu e não cantou. Nele chorava ao olhar para Soetkin, pálida e acabrunhada. Só Katheline estava alegre.

Depois da refeição, Soetkin e Ulenspiegel subiram para o celeiro a fim de se irem deitar. Katheline e Nele ficaram na cozinha onde estavam armadas as suas camas.

Pelas duas horas da manhã, já Ulenspiegel havia adormecido há muito tempo, por causa do peso da bebida, mas Soetkin, de olhos abertos - como acontecia todas as noites - rezava a Nossa Senhora para lhe dar sono Mas a Virgem não a ouvia.

Na escuridão da noite ouviu o grito da águia marinha, e da cozinha partiu um grito semelhante, em resposta: depois, ao longe, nos campos, repercutiram outros gritos, e parecia que lhes respondiam sempre da cozinha.

Pensando que se tratava apenas de aves nocturnas, não lhes prestou grande atenção. Então, ouviu relinchos de cavalos e o barulho de cascos ferrados batendo na calçada. Abriu a janela do celeiro e com efeito viu dois cavalos selados, escavando e comendo a erva das bermas do caminho. Em seguida ouviu uma voz de mulher a gritar, outra, de homem, a ameaçar, pancadas, novos gritos, uma porta que se fechava com estrondo, e passos aflitos pela escada acima.

Ulenspiegel ressonava e nada ouvia. A porta do celeiro abriu-se. Nele entrou quase nua, sem fôlego, a soluçar. Colocou uma mesa à pressa contra a porta, mais cadeiras, um velho escalfador, todos os móveis que encontrou. As últimas estrelas estavam quase a extinguir-se, e os galos cantavam.

Com o barulho que Nele fazia, Ulenspiegel voltou-se na cama, mas continuou a dormir.

Nele deitou-se ao pescoço de Soetkin dizendo:

- Soetkin, tenho medo, acende uma vela.

Soetkin fez o que ela lhe pedia, mas Nele continuava a gemer.

Quando a vela começou a dar luz, Soetkin viu a camisa da rapariga rasgada no ombro e riscos ensanguentados na testa, no rosto e no pescoço como que feitos por unhas.

- Nele! - disse Soetkin beijando-a. - De onde vens, assim ferida?

A rapariga, a tremer e a gemer dizia:

- Não nos faças queimar, Soetkin.

Entretanto, Ulenspiegel tinha acordado e piscava os olhos por causa da claridade da vela. Soetkin dizia:

- Quem está lá em baixo? Nele respondeu:

- Cala-te, é o marido que ela quer impingir-me. Soetkin e Nele ouviram Katheline gritar, e sentiram os joelhos enfraquecer.

- Está a bater-lhe, está a bater-lhe por minha causa! -dizia Nele.

- Quem é que está cá em casa? - perguntou Ulenspiegel saltando da cama. Depois, esfregando os olhos, errou pelo quarto até pegar num atiçador pesado que estava a um canto.

- Ninguém - dizia Nele - ninguém! Não vás lá, Ulenspiegel!

Mas este sem a ouvir correu para a porta, afastando cadeiras e mesas. Katheline continuava a gritar lá em baixo. Nele e Soetkin seguravam Ulenspiegel no patamar, uma pelos braços e a outra pelas pernas, dizendo:

- Não vás lá, Ulenspiegel. São diabos.

- Sim - respondeu ele - o diabo do marido de Nele, vou uni-lo maritalmente com o meu atiçador. Esponsais de ferro e de carne! Deixem-me descer.

Elas não o largavam, e seguravam-no com força contra o corrimão. O jovem empurrava-as para os degraus da escada, e elas sentiram medo de se aproximarem dos diabos. Mas nada puderam contra ele. Descendo aos saltos e aos pulos como uma bola de neve do alto de uma montanha, entrou na cozinha, viu Katheline exausta e pálida à luz do alvorecer, e ouvia dizer:

- Hanske, porque me deixas sozinha? Não tenho a culpa de Nele ser má.

Ulenspiegel, sem escutar mais nada, abriu a porta do estábulo. Não tendo aí encontrado ninguém, correu para o pátio e dali para a rua; viu ao longe dois cavalos que corriam perdendo-se na bruma. Correu para os apanhar, mas não conseguiu, porque iam como o suão varrendo as folhas secas.

Cheio de cólera e desespero, voltou para casa resmungando entre dentes:

- Abusaram dela! Abusaram dela!

E fixava Nele com uns olhos em que havia uma chama má. Ela, trémula diante da viúva e de Katheline, dizia:

- Não, Thyl, meu amado, não.

Ao dizer isto fixava-o com uns olhos tão tristes e tão francos, que Ulenspiegel viu bem que ela dizia a verdade. Depois perguntou-lhe:

- De onde é que vinham aqueles gritos, para onde é que aqueles homens iam? Porque é que a tua camisa está rasgada no ombro e nas costas? Porque é que tens arranhões na testa e nas faces?

- Escuta, mas não nos mandes para a fogueira, Ulenspiegel. Katheline - que Deus a salve do Inferno! - tem desde há vinte e três dias como amigo um diabo vestido de preto, que traz botas e esporas. Tem o rosto brilhante como o fogo que no Verão se vê nas vagas do mar, quando está calor.

- Porque partiste, Hanske, meu querido. Nele é má - dizia Katheline.

Mas Nele continuava a sua narrativa:

- Grita como um xofrango para anunciar a sua presença. A minha mãe está com ele todos os sábados, na cozinha. Diz que os seus beijos são frios e que o seu corpo é como a neve. Ele bate-lhe quando ela não faz tudo o que ele quer. De uma vez levou-lhe só alguns florins, mas depois disso levou-lhe todos os outros.

Durante esta narrativa, Soetkin, juntando as mãos, rezava por Katheline. Katheline, feliz, dizia:

- O meu corpo já não é meu, o meu espírito já não é meu, mas dele. Hanske, meu querido, leva-me no sábado. Só a Nele é que nunca quer vir. Nele é má.

- Ao alvorecer foram-se embora - continuava a rapariga.

- No dia seguinte a minha mãe contava coisas muito estranhas... Mas não é preciso estares a olhar para mim com uns olhos tão zangados, Ulenspiegel. Ontem disse-me ela que um belo senhor, vestido de cinzento e chamado Hilbert, se queria casar comigo e vinha cá a casa para eu o conhecer. Respondi-lhe que não queria nenhum marido, nem feio nem bonito. Por autoridade maternal, obrigou-me a ficar levantada para os esperar, porque ela não perde o juízo quando se trata dos seus amores.

«Estávamos meio despidas, preparadas para irmos para a cama; dormia naquela cadeira que está ali. Quando eles entraram não acordei. De súbito, senti alguém que me abraçava e me beijava o pescoço. E à luz da Lua brilhante, vi um rosto claro como são as cristas das ondas do mar em Julho, antes da trovoada e ouvi dizerem-me em voz baixa:

«- Sou o Hilbert, o teu marido; sê minha e far-te-ei rica.

O rosto deste que estava a falar cheirava a peixe. Empurrei-o. Quis agarrar-me usando de violência, mas eu tinha a força de dez homens como ele. Contudo, rasgou-me a camisa, feriu-me na cara enquanto me dizia:

- Sê minha, far-te-ei rica.

- Sim - respondi eu. - Como a minha mãe, a quem tudo levarás até ao último liarde.

«Então redobrou de violência, mas nada podia contra mim. Depois como ele era mais feio do que um morto, meti-lhe as unhas nos olhos com tanta força que enquanto ele gritava de dor consegui fugir para o pé de Soetkin.

Katheline continuava a dizer:

- Nele é má. Porque partiste tão depressa, Hanske, meu querido.

- Onde estavas, mãe má, enquanto queriam ofender a honra da tua filha? - perguntava Soetkin.

- Nele é má - repetia Katheline. - Estava ao pé do meu senhor de negro, quando o diabo cinzento chegou com o rosto ensanguentado e dizendo:

“- Vem-te embora, rapaz. A casa é má. Os homens querem matar e as mulheres têm unhas como facas nas pontas dos dedos.

“Correram ambos para os cavalos e desapareceram na bruma. Nele é má!”

 

No dia seguinte, enquanto bebiam leite quente, Soetkin disse a Katheline:

- Estás a ver como a dor me persegue neste mundo. Não queres abrandá-la e acabar com as tuas feitiçarias?

Mas Katheline continuava a dizer:

- Nele é má. Volta, Hanske, meu querido.

Na quarta-feira, os dois diabos voltaram. Nele dormia desde sábado em casa da viúva Van den Houte, dizendo que não podia ficar em casa de Katheline por causa de Ulenspiegel, aquele mocetão.

Katheline recebeu o seu senhor de preto e o amigo desse senhor no "keet", que é a casa onde se faz a barrela e onde está o forno do pão e que fica ligada à casa principal. E festejaram com vinho velho e língua de vaca fumada, iguarias que estavam sempre ali á espera deles. O diabo de preto disse a Katheline:

- Temos uma grande obra para fazer e precisamos de uma grande soma de dinheiro. Dá-nos tudo o que puderes.

Katheline não queria dar mais do que um florim, mas eles ameaçaram matá-la. Contentaram-se, contudo, com dois carolus de ouro e sete dinheiros.

- Não venham no sábado, porque Ulenspiegel já sabe que vêm nesse dia e esperar-vos-á com armas para vos matar e eu morrerei a seguir.

- Vimos na terça-feira seguinte - responderam. Nesse dia, Ulenspiegel e Nele dormiam sem receio dos diabos, porque julgavam que eles viriam no sábado.

Katheline levantou-se e foi ver ao "keet" se os seus amigos já tinham vindo

Estava muito impaciente, porque depois de ter tornado a ver Hanske, o sofrimento da sua loucura tinha diminuído muito, porque era loucura de amor, afirmava.

Não os vendo, ficou aflita. Quando ouviu do lado de Sluys, no campo, gritar o xofrango, caminhou nessa direcção. Seguindo através do prado por um dique de faxinas e ervas, ouviu do outro lado do dique os dois diabos a conversarem. Um dizia:

- Metade é para mim. O outro respondia:

- Não ficas com nada, o que é de Katheline é meu. Depois blasfemaram furiosos, discutindo qual dos dois seria o único a ter o bem e os amores de Katheline e de Nele. Transida de medo, não ousando falar nem mexer-se, Katheline ouviu-os daí a pouco envolvidos em luta, e um deles disse:

- Este ferro está frio.

Depois, um estertor, e a queda de um corpo pesado.

Amedrontada, dirigiu-se para casa. Às duas horas da madrugada ouviu de novo, mas no quintal, o grito do xofrango. Foi abrir, e viu diante da porta o diabo seu amigo. Perguntou-lhe:

- Que aconteceu ao outro?

- Já não vem - respondeu.

Beijou-a e acariciou-a. Parecia-lhe mais frio do que de costume, E o espírito de Katheline estava bem acordado. Quando se foi embora, pediu-lhe vinte florins, tudo o que ela tinha: deu-lhe dezassete.

No dia seguinte, cheia de curiosidade, caminhou ao longo do dique; mas não viu nada a não ser, um local tão grande como uma sepultura, a erva mais mole e ensanguentada. Mas à noite, a chuva lavou o sangue.

Na quarta-feira seguinte, voltou a esperar ouvir no quintal o grito do xofrango.

 

Sempre que era preciso contribuir para a despesa comum em casa de Katheline, Ulenspiegel ia de noite levantar a pedra do buraco escavado perto do poço, e retirava um carolus.

Uma noite estavam as três mulheres a fiar e Ulenspiegel esculpia com uma faca uma caixa que lhe tinha sido encomendada pelo bailio, e na qual gravava habilmente uma cena de caça, com uma matilha de cães de Hainaut, de molossos de Cândia - que são animais muito ferozes de cães de Brabante, estes aos pares e chamados comedores de orelhas, e outros cães torcidos, retorcidos, gordos, baixos e galgos.

Katheline estava presente quando Nele perguntou a Soetkin se tinha guardado bem o tesouro.

A viúva respondeu-lhe confiante que não podia estar melhor do que junto do muro do poço.

Pela meia-noite desta quinta-feira, Soetkin foi acordada por Bibulus Schnouffius, que ladrava com força, embora durante pouco tempo. Julgando que se tratava de um falso alarme, voltou a adormecer.

Na sexta-feira de manhã, ainda cedo, quando Soetkin e Ulenspiegel se levantaram, não viram Katheline na cozinha contrariamente ao habitual, nem o lume aceso, nem o leite a ferver ao lume. Ficaram surpreendidos e foram ver se por acaso não estaria no quintal. Viram-na desgrenhada, com a roupa molhada e transida de frio, porque estava a chuviscar, mas não ousava entrar em casa.

Ulenspiegel foi ter com ela dizendo:

- O que é que estás aí a fazer, quase nua, à chuva?

- Ah! - respondeu ela. - Sim, sim, grande prodígio! E mostrou o cão degolado e todo inteiriçado. Ulenspiegel pensou imediatamente no tesouro. Correu para lá. O buraco estava vazio, e a terra espalhada em redor. Correndo para Katheline, começou-lhe a bater:

- Onde estão os carolus? - perguntou.

- Sim, sim, grande prodígio! - respondia Katheline. Nele, defendendo a mãe, gritava:

- Misericórdia e piedade, Ulenspiegel.

Deixou de lhe bater. Soetkin apareceu e quis saber o que é que tinha acontecido.

Ulenspiegel mostrou-lhe o cão degolado e o buraco vazio. Soetkin empalideceu e lamentou-se:

- Atinges-me duramente, meu Deus. Os meus pobres pés!

E dizia isto por causa das dores que sentia e da tortura que tinha sofrido inutilmente pelos carolus de ouro. Nele, vendo Soetkin tão calma, desesperava e chorava; Katheline agitando um bocado de pergaminho, clamava:

- Sim, grande prodígio. Esta noite, ele veio, bom e belo. Não tinha no rosto aquela palidez brilhante que me fazia tanto medo. Falava com muita ternura. Estava radiante, o meu coração derretia-se. Disse-me:

“ - Agora sou rico e vou trazer-te mil florins de ouro daqui a pouco.

“ - Sim - disse eu. - Estou mais contente por ti do que por mim, Hanske, meu querido.

“ - Mas não tens em casa, outra pessoa que ames e possas enriquecer?

“ - Não - respondi. - Os que estão aqui não precisam de ti,

“- És orgulhosa. Soetkin e Ulenspiegel são então ricos?

“ - Vivem sem o auxílio do próximo - respondi.

“ - Apesar da confiscação? - retorquiu.

“ - A isto respondi que tinham preferido sofrer a tortura a deixar levar os vossos bens.

“ - Não ignorava isso - comentou ele.

“E começou a troçar de forma baixa e vil, do bailio e dos vereadores por eles não terem conseguido que confessassem. Eu ria-me também.

“ - Eles só foram tolos por terem escondido o tesouro em casa.

“Eu ria.

“ - Nem sequer na adega.

“ - Não senhor - dizia eu.

“ - Nem no quintal? - não respondi.

“ - Ah! isso seria uma grande imprudência.

“ - Ora - retorqui eu - nem a água nem o muro falam.” - E ele continuava a rir.

Esta noite foi-se embora mais cedo do que de costume, depois de me ter dado um pó com o qual eu iria ter o mais belo dos "sabats". Levei-o, com a roupa interior vestida, até ao portão do quintal e tinha muito sono. Senti-me como ele tinha dito, como se fosse "sabat". Só voltei da festa ao alvorecer e encontrei-me aqui e vi o cão degolado e o buraco vazio. Foi um golpe muito duro para mim que o amava com tanta ternura e lhe dava a minha alma. Mas ficarão com tudo o que tenho e trabalharei com os meus pés e as minhas mãos para viverem.

- Sou o trigo debaixo da mó. Deus e um diabo ladrão atingem-me ao mesmo tempo - afirmou Soetkin.

- Ladrão, não, não digam isso - replicou Katheline. É o diabo, o diabo. E como provas, vou-vos mostrar o pergaminho que ele deixou no pátio e onde está escrito: “Nunca te esqueças de me servir. Daqui a duas vezes três semanas e cinco dias, dar-te-ei o dobro do tesouro. Não duvides, senão morrerás.” E manterá a sua palavra, tenho a certeza.

- Pobre louca! - disse Soetkin. E foi a sua última censura.

 

As três semanas tinham passado duas vezes e os cinco dias também, mas o diabo amigo não tinha vindo. Contudo, Katheline não desesperava.

Soetkin, que já não trabalhava, estava sempre curvada diante do lume, e tossia. Nele dava-lhe as melhores ervas e os melhores bálsamos. Mas nenhum remédio lhe fazia bem. Ulenspiegel não saía, temendo que Soetkin morresse quando ele não estivesse em casa.

Daí a pouco a viúva não conseguia comer ou beber sem vomitar. O cirurgião-barbeiro veio vê-la e tirou-lhe sangue. Depois de lhe terem tirado o sangue ficou tão fraca que não podia levantar-se do banco. Por fim, uma noite, esgotada pelas dores, disse:

- Claes, meu marido! Thyl, meu filho! Obrigada, meu Deus que me vais levar!

E morreu com um suspiro.

Katheline não teve coragem para ficar de vela, mas Ulenspiegel e Nele ficaram toda a noite rezando pela morta. Ao amanhecer entrou pela janela aberta uma andorinha. Nele disse:

- A ave das almas, é bom presságio. Soetkin está no céu. A andorinha deu três voltas ao compartimento e partiu

piando. Depois entrou uma segunda andorinha maior e mais negra do que a primeira. Voou em volta de Ulenspiegel e ele disse:

- Pai e mãe, as cinzas batem no meu peito, faço o que me pedirem.

E a segunda andorinha partiu piando como a primeira. O dia nasceu mais claro. Ulenspiegel viu milhares de andorinhas rasando o prado quando o Sol se levantou.

E Soetkin foi enterrada no cemitério dos pobres.

 

Depois da morte de Soetkin, Ulenspiegel, sonhador, triste, ou irritado, andava pela cozinha sem ouvir nada, só comendo e só bebendo o que lhe davam, sem escolher. E levantava-se muitas vezes de noite.

Era em vão que Nele, com a sua doce voz, o exortava a ter esperança. Era em vão que Katheline lhe dizia saber que Soetkin estava no paraíso ao pé de Claes. Ulenspiegel respondia a tudo:

- As cinzas batem.

Estava como louco, e Nele chorava vendo-o assim.

Entretanto, o peixeiro ficava em casa sozinho como um parricida e só ousava sair à noite, porque os homens e as mulheres, ao passarem por ele, apupavam-no e chamavam-lhe assassino, e as crianças fugiam à sua frente porque lhes tinham dito que ele era o carrasco. Vagueava sozinho sem ousar entrar em nenhuma das três tabernas de Damme porque apontavam para ele, e se ficasse um minuto de pé, os homens que estavam a beber saíam.

Da mesma forma os "baesen" não o queriam ver e se lhes aparecia à porta, fechavam-lha. Então o peixeiro admoestava-os humildemente, mas eles respondiam que vender era um direito, e não um dever.

Cansado desta guerra, o peixeiro ia beber ao "Int Roode Valck", “Falcão Vermelho”, uma pequena taberna afastada da cidade, na margem do canal de Sluys. Ali serviam-no porque era gente necessitada a quem todo o dinheiro era preciso. Mas o "baes" do "Roode Valck" não lhe falava, e o mesmo acontecia com a mulher. Tinham dois filhos e um cão: quando o peixeiro queria acariciar as crianças, elas fugiam; e quando chamava o cão, este queria morder-lhe.

Uma noite, Ulenspiegel foi colocar-se na soleira da porta; Mathyssen, o tanoeiro, vendo-o tão pensativo, disse-lhe:

- Precisas de trabalhar com as tuas mãos para esqueceres essa dor.

Ulenspiegel respondeu:

- As cinzas de Claes batem no meu peito.

- Ah! - disse Mathyssen - ele leva uma vida mais triste do que tu, o pobre peixeiro. Ninguém lhe fala e todos fogem dele de tal forma que se vê obrigado a ir à casa daqueles miseráveis do "Roode Valck" para beber um copo de "bruinbier", sozinho. É um grande castigo.

- As cinzas batem! - voltou a responder Ulenspiegel. Nessa mesma noite quando o sino da igreja de Nossa Senhora dava as nove horas, Ulenspiegel dirigiu-se para o "Roode Valck", e vendo que o peixeiro não estava lá, foi errando sob as árvores que limitavam o canal. A lua brilhava clara. Daí a pouco, viu aproximar-se o assassino. Quando passou diante dele, pôde vê-lo de perto, e ouviu-o dizer, falando em voz alta como as pessoas que vivem sozinhas :

- Onde estarão escondidos os carolus?

- Onde diabo os encontrou - respondeu Ulenspiegel, dando-lhe um murro na cara.

- Ai! - gemeu o peixeiro - estou a reconhecer-te, és o filho. Tem piedade, estou velho e sem força. O que fiz não foi por ódio, mas para servir Sua Majestade. Perdoa-me. Entrego-te os móveis comprados por mim, não me pagarás nem um dinheiro. Não te chega? Comprei-os por sete florins de ouro. Ficarás com tudo e meio florim porque não sou rico como pensas. Quis pôr-se de joelhos diante dele. Ulenspiegel, vendo-o tão feio, tão trémulo e tão cobarde, deitou-o ao canal E foi-se embora.

 

Nas fogueiras esturgia a carne de caça. Ulenspiegel, pensando em Claes e em Soetkin, chorava em silêncio.

Uma noite foi ter com Katheline, para lhe pedir remédio e vingança. Estava sozinha com Nele, que cosia junto da luz. O barulho que ele fez ao entrar despertou Katheline, que levantou a cabeça com esforço, como uma mulher acordada de um sono pesado.

Disse-lhe:

- As cinzas de Claes batem no meu peito, quero salvar a terra de Flandres. Pedi isso ao Deus do céu e da terra mas ele não me respondeu.

Katheline afirmou:

- O grande Deus não te pode ouvir; era preciso primeiro falar aos espíritos do mundo elementar, os quais, sendo de duas naturezas, celeste e terrestre, recebem os lamentos dos pobres homens, e transmitem-nos aos anjos, que depois os levam ao trono.

- Ajuda-me nesta pretensão: pagar-te-ei com o sangue, se preciso for.

Katheline respondeu:

- Ajudar-te-ei, se uma rapariga que te ame for contigo ao "sabat" dos Espíritos da Primavera, que são a Páscoa da seiva.

- Irei com ele - declarou Nele.

Katheline deitou numa taça de cristal uma mistura acinzentada, que deu a beber aos dois. Esfregou-lhes as têmporas com a mistela, as narinas, as palmas das mãos e os pulsos, mandou-os comer um pouco de um pó branco, e disse-lhes para olharem um para o outro, a fim de que as suas almas se fundissem numa só.

Ulenspiegel fixou Nele, e os olhos ternos da rapariga acenderam nele uma grande chama. Depois, por causa da mistura, sentiram-se como se estivessem a ser picados por um milhar de caranguejos.

Então despiram-se, e eram belos, ali, iluminados pela luz da lâmpada, ele na sua força orgulhosa, ela na sua graça terna. Mas não se viam um ao outro porque estavam sonolentos. Depois Katheline pôs o pescoço de Nele no braço de Ulenspiegel, e pegando na mão dele colocou-a no coração da rapariga. Ficaram assim nus e deitados um ao lado do outro.

Tinham ambos a sensação de que os seus corpos, ao tocarem-se, eram como que um fogo brando como o Sol no mês das rosas.

Levantaram-se, como lhes ordenaram mais tarde, subiram para o parapeito da janela, lançaram-se dali para o vazio e sentiram o ar levá-los como a água faz aos navios.

Depois não viram mais nada, nem a terra onde dormiam os pobres homens, nem o céu onde a seus pés rolavam as nuvens. Pousaram em Sírio, a estrela fria. Depois foram lançados para o pólo.

Ali viram, não sem receio, um gigante nu - o gigante Inverno - de pêlo fulvo, sentado no gelo e encostado a um muro também de gelo. Nas poças de água andavam ursos e focas, que berravam em volta dele. Com uma voz rouca, chamava a geada, a neve, os aguaceiros frios, as nuvens negras, o nevoeiro viscoso e mal cheiroso, e os ventos, dos quais aquele que sopra mais forte é o áspero setentrião. E todos provocavam danos neste funesto lugar.

Sorrindo a estes desastres, o gigante deitava-se sobre flores amassadas por sua mão, sobre folhas que o sopro secara. Depois, inclinou-se e raspando o chão com as unhas, mordendo-o com os dentes, escavou um buraco em busca do coração da terra, para o devorar e pôr o carvão negro onde havia vastas florestas, a palha onde havia trigo, areia onde havia terra fecunda. Mas como o coração da terra era de fogo, não ousava tocar-lhe, e recuava, temeroso.

Sentava-se então num trono, como um rei, esvaziando a sua taça de óleo, no meio dos seus ursos e das suas focas, e dos esqueletos de todos os que tinha morto no mar, na terra e nas casas dos pobres. Ouvia, divertido, o roncar dos ursos, o berrar das focas, o estalar dos ossos dos esqueletos dos homens e dos animais sob as patas dos abutres e dos corvos que procuravam o último bocado de carne, e o barulho dos bocados de gelo empurrados uns contra os outros pela água morna.

E a voz do gigante era como o mugido dos furacões, como o barulho das tempestades invernais e como o vento uivando nas chaminés.

- Tenho frio e medo - dizia Ulenspiegel.

- Ele nada pode contra os espíritos - respondia Nele. Houve de repente um grande movimento entre as focas, que à pressa entraram na água, entre os ursos, que baixando as orelhas de medo, mugiram tristemente, e os corvos, que grasnando de aflição, se perderam nas nuvens negras.

Nele e Ulenspiegel ouviram os sons surdos de um ariete no muro de gelo que servia de apoio ao gigante do Inverno. E o muro fendeu-se e oscilava nos seus fundamentos.

Mas o gigante nada ouvia, urrava e gritava alegremente, enchia e esvaziava a taça de óleo e procurava o coração da terra para o gelar, mas não ousava agarrá-lo.

Entretanto, as detonações ressoavam mais fortes, o muro fendia-se mais e a chuva de blocos de gelo voando aos bocados não parava de cair em volta dele.

Os ursos mugiam tristemente e sem descanso, e as focas lamentavam-se nas águas mornas.

O muro desmoronou-se e fez-se dia no céu. Um homem desceu de lá, nu e belo, apoiando a mão num machado de ouro. E este homem era Lúcifer, o rei da Primavera.

Quando o gigante o viu deitou para longe a taça de óleo e pediu-lhe para não o matar.

E ao bafo tépido da respiração do rei da Primavera, o gigante Inverno perdeu toda a força. O rei pegou numa corrente de diamantes e amarrou-o a um poste.

Depois, parando, gritou terna e amorosamente. E do céu desceu uma mulher loura, nua e bela. Colocando-se junto do rei disse-lhe:

- És o meu vencedor, homem forte. Ele respondeu:

- Se tens fome, come; se tens sede, bebe; se tens medo, vem para junto de mim: sou o teu homem.

- Só tenho fome e sede de ti - declarou ela.

O rei gritou mais sete vezes, terrivelmente. Provocou assim uma grande tempestade de trovões e relâmpagos, e por trás dele formou-se um dossel de sóis e estrelas. E sentaram-se ambos nos tronos.

Então, o rei e a mulher, sem que os seus nobres rostos se movessem e sem que fizessem um gesto contrário à sua força e à sua majestosa calma, gritaram. A estes gritos correspondeu um movimento onduloso na terra, na pedra dura e nos blocos de gelo. E Nele e Ulenspiegel ouviram um barulho semelhante ao que fariam aves gigantes que quisessem partir com o bico a casca de enormes ovos.

E neste grande movimento do solo que subia e descia, semelhante às vagas do mar, estavam formas como as do ovo.

Repentinamente, surgiram, vindas de toda a parte, árvores que confundiam os seus ramos secos, enquanto os troncos se agitavam vacilantes como homens ébrios. Depois afastaram-se deixando entre eles um vasto espaço vazio. Do solo agitado saíam os génios da terra; do fundo da floresta, os espíritos dos bosques; do mar vizinho, os génios da água.

Ulenspiegel e Nele viram os anões que guardam os tesouros, corcundas, patudos, feios e esquisitos, príncipes das pedras, homens dos bosques vivendo como árvores, e tendo por boca e por estômago, um ramo de raízes na parte baixa do rosto, para assim sugarem o alimento do seio da terra, os imperadores das minas, que não sabem falar, não têm coração nem entranhas, e movem-se como autómatos brilhantes. Estavam lá anões de carne e osso, com caudas de lagarto, cabeças de sapo, com uma lanterna na cabeça, que à noite saltam para os ombros de um bêbedo ou de um viajante medroso, à frente de cujo nariz agitam a lanterna, com que guiam pelos charcos ou pelos buracos os pobres miseráveis que julgam ser a lanterna a candeia que arde em suas casas.

Também lá estavam as raparigas-flores, flores de força e de saúde feminina, nuas e coradas, orgulhosas da sua beleza, tendo por única veste os seus cabelos. Seus olhos brilhavam húmidos como a madrepérola na água; a carne dos seus corpos era firme, branca e dourada pela luz. Das bocas vermelhas e entreabertas saía um hálito mais perfumado do que o jasmim.

São elas que vagueiam à noite pelos bosques e pelos jardins, ou ao fundo dos bosques, nas sombrias veredas amorosas, em busca de uma alma masculina para folgarem. Quando passa diante delas um jovem e uma rapariga, tentam matar a rapariga, mas não o podendo fazer, sopram desejos de amor à jovem ainda hesitante, para que se entregue ao amante, pois a rapariga-flor tem metade dos beijos.

Ulenspiegel e Nele viram também descer dos altos céus os espíritos protectores, os génios dos ventos, da brisa e da chuva, jovens alados que fecundam a terra.

Depois, em todos os pontos do céu apareceram as aves das almas, as andorinhas pequeninas. Quando elas chegaram, a luz pareceu ficar mais viva. Raparigas-flores, príncipes das pedras, imperadores das minas, homens dos bosques, espíritos da água, do fogo e da terra gritaram ao mesmo tempo:

- Luz! Seiva! Glória ao rei da Primavera!

Embora o barulho do seu clamor unânime fosse mais potente que o do mar furioso, do trovão e do suão, ecoou como uma música grave aos ouvidos de Nele e de Ulenspiegel, os quais, imóveis e calados, estavam acocorados atrás do trono rugoso de um castanheiro.

Mas ainda tiveram mais medo quando os espíritos, aos milhares, tomaram lugar nas cadeiras que eram enormes aranhas, sapos com trombas de elefante, serpentes entrelaçadas, crocodilos de pé na cauda e com um grupo de espíritos na boca, serpentes ondulantes que tinham escarranchados em cima de si mais de trinta anões e anãs, e muito mais de cem mil insectos maiores que Golias, armados de espadas, de lanças, de foices dentadas, de forquilhas com sete dentes, toda a espécie de instrumentos horríveis de tortura. Lutavam uns com os outros com grande alarido, o forte comendo o fraco, engordando e mostrando assim que a Morte é feita de Vida e que a Vida é feita de Morte.

E desta multidão de espíritos buliçosa, compacta e confusa saía um barulho semelhante ao trovão surdo de cem oficinas de tecelões, de pisoeiros e de serralheiros trabalhando ao mesmo tempo.

Apareceram então os espíritos da seiva, baixos, gordos, os rins largos como o grande tonel de Heidelberg, coxas grossas como almudes de vinho, e músculos tão extraordinariamente fortes e potentes que os seus corpos pareciam feitos de ovos grandes e pequenos, juntos uns aos outros e cobertos com uma pele vermelha gorda, luzidia como a barba rala e o cabelo ruivo; e traziam taças enormes, cheias de um licor estranho.

Quando os espíritos os viram chegar houve entre eles um movimento de alegria; as árvores e as plantas agitaram-se, e a terra abriu-se para beber.

E os espíritos da seiva deitaram o vinho: imediatamente tudo brotou, verdejou, floresceu; a relva ficou cheia de insectos sussurrantes, e o céu ficou cheio de aves e de borboletas; os espíritos continuavam a verter vinho, e os que estavam baixos recebiam-no como podiam. As raparigas-flores, abrindo a boca ou saltando sobre as escanções beijavam-nos para terem mais: alguns juntavam as mãos em sinal de oração; outros, beatos, deixavam chover sobre eles. Mas todos ávidos ou alterados, voando, de pé, correndo ou parados, procuravam ter vinho, e ficavam mais vivos a cada gota que recebiam. Não havia anciãos, mas, feios ou belos, todos estavam cheios de verde força e de viva juventude.

Riam, gritavam, cantavam e perseguiam-se uns aos outros sobre as árvores, como esquilos, no céu, como aves, cada macho à procura da sua fêmea, e sob o céu de Deus realizavam a obra santa da natureza.

E os espíritos da seiva trouxeram ao rei e à rainha a grande taça cheia do seu vinho. O rei e a rainha beberam, e abraçaram-se.

Depois, o rei com a rainha enlaçada, deitou os restos da sua taça sobre as árvores, as flores e os espíritos, proclamando :

- Glória à vida! Glória ao Ar livre! Glória à Força! E todos gritaram:

- Glória à Natureza! Glória à Força!

Ulenspiegel tomou Nele nos seus braços. Estando assim enlaçados, começou uma dança. Dança voltejante como as folhas, que lembrava uma tromba, onde tudo balançava, árvores, plantas, insectos, borboletas, céu e terra, rei e rainha, raparigas-flores, imperadores das minas, espíritos das águas anões gordos, príncipes das pedras, homens dos bosques, porta-lanternas, espíritos protectores das estrelas, e os cem mil insectos horríveis que cruzavam lanças, foices dentadas, forquilhas de sete dentes; dança vertiginosa, rolando no espaço que enchia, dança em que tomavam parte o Sol, a Lua, os planetas, as estrelas, o vento e as nuvens negras.

E os castanheiros atrás dos quais Nele e Ulenspiegel estavam acoitados rolavam no turbilhão, enquanto Ulenspiegel dizia a Nele:

- Querida, vamos morrer!

Um espírito ouviu-os, e percebeu que eram mortais:

- Homens! - gritou - Homens neste lugar!

E afastou-os da árvore, atirando-os para o meio da multidão. Ulenspiegel e Nele caíram nas costas dos espíritos, que os atiravam de uns para outros dizendo:

- Salve homens! Bem-vindos, vermes da Terra! O que é que o rapazinho e a rapariguinha querem? Vieram fazer-nos uma visita, estes insignificantes.

Ulenspiegel e Nele voavam de um lado para o outro, implorando:

- Clemência!

Mas os espíritos não os ouviam, e voltejavam-nos de pernas para o ar, adejando como penas ao vento do Inverno, enquanto diziam:

- Glória aos homenzinhos e às mulherzinhas que dançam como nós!

As raparigas flores, querendo separar Nele de Ulenspiegel, batiam-lhe e tê-la-iam morto se o rei Primavera com um gesto, não tivesse feito parar a dança. Ordenou ele:

- Tragam à minha presença essas duas pulgas! Foram separados um do outro; e as raparigas-flores,

tentando arrancar Ulenspiegel às rivais, diziam:

- Thyl, não gostarias de morrer por mim?

- Certamente - respondia Ulenspiegel.

E os anões, espíritos dos bosques que levavam Nele, diziam:

- Se fosses alma como nós, poderíamos ficar contigo? Nele respondia:

- Tenham paciência.

Chegaram assim diante do trono do rei; e começaram a tremer ao verem o machado de ouro e a coroa de ferro. O rei disse-lhes:

- Que vieram aqui fazer, insignificantes criaturas? Não responderam.

- Conheço-te, rebento de bruxa - acrescentou o rei. E a ti também, pimpolho de carvoeiro; mas lá porque penetram à força de sortilégio neste laboratório da natureza, porque ficam de bico calado como capões saciados com migalhas?

Nele tremia ao olhar para o terrível diabo; mas Ulenspiegel retomou a sua segurança viril e respondeu:

- As cinzas de Claes batem sobre o meu coração. Alteza divina, a Morte vai destruindo em nome do Papa a terra da Flandres, os homens mais fortes, as mulheres mais pequenas; os seus privilégios não são respeitados, os seus alvarás são anulados, a fome arruina a Flandres, os tecelões e mercadores de panos abandonam-na para irem procurar trabalho livre no estrangeiro. Morrerá em breve, se não forem em seu auxílio. Altezas, não passo de um pobre homem que veio ao mundo como qualquer outro, tenho vivido como posso, imperfeito, limitado, ignorante, nem virtuoso, nem casto, nem digno de qualquer graça humana ou divina. Mas se Soetkin morreu em consequência da tortura e do desgosto, se Claes pereceu numa horrível fogueira, quero vingá-los, e fi-lo, já uma vez; queria também ver mais feliz este pobre solo onde estão depositados os seus ossos e pedir a Deus a morte dos perseguidores, mas ele não me ouviu. Cansado de lamentos, invoquei-vos através do poder dos encantos de Katheline, e viemos, eu e a minha trémula companheira pedir a vossos pés, Altezas divinas, que salvem aquela pobre terra.

O imperador e a sua companheira responderam em conjunto:

Pela guerra e pelo fogo, Pela morte e pela espada, Procura os Sete.

Na morte e no sangue, Nas ruínas e nas lágrimas. Encontra os Sete.

Feios, cruéis, e maus, disformes, Verdadeiros flagelos para a pobre terra. Queima os Sete.

Esperas, ouves e vês. Diz-nos, mesquinho, não está à vontade? Encontra os Sete.

E todos os espíritos ao mesmo tempo:

Na morte e no sangue, Nas ruínas e nas lágrimas, Encontra os Sete.

Espera, ouve e vê,

Diz-nos, mesquinho, não estás à vontade? , , Encontra os Sete.

- Mas Alteza - afirmou Ulenspiegel - e vós, senhores espíritos, não percebo nada do que dizem. Estão a brincar comigo, sem dúvida.

Todavia, sem o escutar, eles disseram:

Quando o setentrião Beijar o Poente, É o fim das ruínas: Encontra os Sete E a Cintura.

E isto, com um coro tão forte e com uma força tão terrível de sonoridade, que a terra tremeu e os céus estremeceram.

E as aves piaram, os mochos sopraram, os pardais chilreavam de medo, os xofrangos, queixando-se, voavam perdidos. E os animais na terra, leões, serpentes, ursos, veados, cabritos, lobos, cães e gatos, mugiam, sopravam, bramiam, gritavam, latiam e miavam terrivelmente. E os espíritos cantavam:

Espera, ouve e vê Ama os Sete E a Cintura.

E os galos cantaram, e todos os espíritos desapareceram salvo um imperador das minas mau, que, pegando em Ulenspiegel e Nele, cada um com um braço, lançou-os no vazio, sem doçura.

E encontraram-se deitados um ao pé do outro, como se fossem dormir, e tremeram ao frio da manhã.

Ulenspiegel viu o corpo franzino de Nele todo dourado por causa do sol que nascia.

 

ESSA manhã, já em Setembro, Ulenspiegel agarrou no cajado, em três florins que lhe dera Katheline, num bocado de fígado de porco, num naco de pão e deixou Damme a caminho de Antuérpia, à procura dos Sete. Nele dormia.

Enquanto caminhava era seguido por um cão que o farejava por causa do fígado e lhe saltava às pernas. Quis afugentá-lo, mas vendo que o cão se obstinava em segui-lo, fez-lhe este discurso:

- Cãozinho, meu pequeno, não é boa ideia deixares a tua casa onde te esperam boas papas, restos apetitosos, ossos cheios de tutano, para seguir pelo caminho da aventura um vagabundo que talvez nem sempre consiga raízes para te alimentar. Acredita em mim, cãozinho, volta para casa do teu "baes". Evita chuvas, neves, geadas, chuviscos, nevoeiros, degelos e outras magras sopas que caem nas costas dos vagabundos. Fica ao canto da lareira, todo enroscado, a aqueceres-te a um fogo alegre. Deixa-me a mim caminhar pela lama, pela poeira, com frio e calor, cozido hoje, gelado amanhã, bem alimentado na sexta-feira, esfomeado ao domingo. Farás algo de muito acertado se voltares para o sítio de onde vens, cãozinho pouco experiente.

O animal não parecia escutar Ulenspiegel. Abanava a cauda e saltava o mais que podia, ao mesmo tempo que ladrava de fome. Ulenspiegel julgou que se tratava de manifestações de amizade, e não por causa do fígado que levava no saco.

Ia caminhando e o cão seguia-o. Tendo feito assim perto de uma légua, surgiu na estrada um carro puxado por um burro de cabeça baixa. Num talude à beira da estrada estava sentado, entre dois tufos de cardos, um homem alto que tinha numa das mãos uma perna de carneiro que comia, e na outra uma garrafa cujo conteúdo bebia. Quando não comia nem bebia, gemia e chorava.

Ulenspiegel parou, e o cachorro parou também. Farejando a perna de carneiro e o fígado, saltou para o talude. Ali, sentado nos quartos traseiros, perto do homem, puxava-lhe pelo gibão, pedindo a sua parte no festim, mas o homem, empurrando-o com o cotovelo e segurando no ar a perna de carneiro, gemia tristemente. O cão imitava-o, mas por avidez. O burro, aborrecido por estar atrelado ao carro e por não poder chegar aos cardos, pôs-se a zurrar.

- Que é que tens, Jan? - perguntou o homem ao burro.

- Nada - respondeu Ulenspiegel - a não ser querer comer os cardos que crescem por toda a parte, como na tribuna de Tassenderloo, ao lado e por cima de Cristo... Este cão não ficaria nada aborrecido por fazer um banquete entre os maxilares e o osso que o senhor tem na mão; enquanto espera, vou dar-lhe o fígado que tenho aqui.

Depois de o cão ter comido o fígado, o homem olhou para o osso, voltou a roê-lo para comer a carne que restava, e deu-o já descarnado ao cão, que pondo as patas em cima do osso começou a comê-lo ali mesmo, sobre a erva.

Depois, o homem olhou para Ulenspiegel, e este reconheceu Lamme Goedzak, de Damme.

- Lamme! - disse-lhe. - Que fazes aqui a beber e a lamentares-te? Qualquer soldado te teria chegado a roupa ao pêlo sem contemplações.

- Valha-me Deus! A minha mulher! - exclamou Lamme. Ia esvaziar a garrafa de vinho mas Ulenspiegel pôs-lhe a mão no braço.

- Não bebas assim, porque beber precipitadamente só é bom para quem tem pedras nos rins. E melhor seria que tal mal afectasse quem não tem garrafa.

- Falas bem - respondeu Lamme - mas beberás melhor?

E estendeu-lhe a botija.

Ulenspiegel agarrou-a, levantou o cotovelo, depois entregando-lhe a garrafa disse-lhe:

- Chama-me espanhol se tiver ficado aí o suficiente para saciar um pardal.

Lamme olhou para a botija e sem deixar de lamentar-se, tirou outra do saco, bem como um bocado de salsichão que começou a cortar às rodelas e a mastigar melancolicamente.

- Comes sem parar, Lamme? - perguntou Ulenspiegel.

- Muitas vezes, meu filho - respondeu Lamme. - Mas é para afastar os meus pensamentos tristes. Onde estás, mulher? - perguntou, enxugando uma lágrima.

E cortou dez rodelas de salsichão.

- Lamme - disse Ulenspiegel. - Não comas tão depressa e sem oferecer ao pobre peregrino.

Lamme, chorando, atirou-lhe quatro rodelas que Ulenspiegel comeu, encantado com o seu bom sabor. Mas Lamme, chorando e comendo, contou:

- A minha mulher, a minha boa mulher! Como era terna e bem feita de corpo, leve como uma borboleta, viva como um relâmpago, cantava como uma cotovia! E todavia gostava tanto de adornos. Valha-me Deus! Ficavam-lhe tão bem! Mas as flores também têm ricos enfeites. Se tivesses sentido, meu filho, as suas mãozinhas tão lestas nas carícias, nunca mais a deixarias tocar nos tachos, nem nas panelas. O lume da cozinha escureceu a sua tez clara como o dia. E que olhos! Afogava em ternura, quando olhava para eles.

“Toma um golo de vinho, que eu bebo depois de ti. Ah! porque é que ela não morreu! Thyl, lá em casa era eu quem fazia tudo para a poupar a qualquer maçada; varria o chão, fazia o leito nupcial onde ela à noite se deitava, satisfeita, lavava a loiça e a roupa, e eu próprio passava a ferro.

- Come, Thyl, é salsichão de Gante - disse a Ulenspiegel.

- Muitas vezes ia passear e vinha tarde, mas eu sentia uma alegria tão grande quando a voltava a ver que não ousava censurá-la. Muito feliz quanto amuada, à noite nunca me voltava as costas. Perdi tudo!

- Bebe deste vinho, é da região de Bruxelas, do tipo do da Borgonha.

- Porque se foi ela embora? - perguntou Ulenspiegel.

- Sei lá! - retorquiu Lamme Goedzak. - Vão bem longe os tempos em que eu ia a casa dela com o objectivo de a desposar, e ela fugia-me de medo e de amor. Se tivesse os braços nus, uns belos braços redondos e brancos, e visse que eu estava a olhar para eles, deixava imediatamente cair as mangas. Outras vezes, sujeitava-se às minhas carícias e eu podia beijar os seus belos olhos, os quais fechava, e a nuca, grande e firme; então estremecia, soltava gritinhos, e inclinando a cabeça para trás dava-me um piparote no nariz. Ria-se quando eu dizia: “Ai!”, eu batia-lhe amorosamente, e tudo isto era para nós motivo de brincadeira e riso.

- Thyl, ainda há vinho na garrafa?

- Sim - respondeu Ulenspiegel.

Lamme bebeu, e continuou a sua narrativa:

- Outras vezes, mais amorosa, punha os braços em volta do meu pescoço, dizia-me: “És belo!”, e beijava-me, louca, mais de cem vezes seguidas na cara ou na testa, mas nunca na boca. Quando lhe perguntava porque fazia uma reserva tão grande, numa tão brilhante liberdade, ia a correr tirar de uma salva grande, em cima de uma arca, uma boneca vestida com sedas e pérolas, e dizia-me, embalando-a: “Não quero disto.” Sem dúvida, a mãe para lhe guardar a virtude, tinha-lhe dito que as crianças se fazem pela boca. Ah! Doces momentos! Carícias ternas!

- Thyl, vê lá se encontras mais presunto na bolsa de caça.

- Há meio - respondeu Ulenspiegel, dando a metade a Lamme, que a comeu toda. Olhando para ele, Ulenspiegel declarou:

- Esse presuntinho ter-me-ia feito muito bem ao estômago.

- A mim também - retorquiu Lamme, limpando os dentes com as unhas. - Mas nunca mais voltarei a ver a minha querida, fugiu de Damme: queres vir procurá-la comigo, no meu carro?

- Quero - respondeu Ulenspiegel.

- Mas não há mais nada na garrafa?

- Nada - respondeu Ulenspiegel.

Subiram para o carro puxado pelo burro que zurrou melancolicamente quando lhe deram o sinal de partida.

Quanto ao cachorro, havia desaparecido sem nada dizer, saciado.

 

Enquanto o carro rolava por um dique entre a albufeira e o canal, Ulenspiegel, pensativo, acariciava as cinzas de Claes que trazia ao peito. Perguntava a si próprio se a visão que tivera seria falsa ou verdadeira, se os espíritos teriam troçado dele, ou se lhe tinham dito, enigmaticamente embora, o que era preciso encontrar para tornar feliz a terra dos seus antepassados.

Em vão dava voltas ao pensamento para chegar a uma conclusão sobre o que significavam os Sete e o Cinto.

Pensando no imperador morto, no rei vivo, na governanta, no Papa de Roma, no inquisidor-mor, no superior dos jesuítas, juntava assim os seis principais carrascos da região, os quais gostaria de poder queimar imediatamente. Mas pensou que não deviam ser eles, pois seria demasiado fácil queimá-los. Teria, pois, que procurar noutros lugares.

E repetia sempre em espírito:

Quando o setentrião Beijar o poente, Será o fim das ruínas. Ama os Sete E o Cinto.

- Ai de mim! Na morte, no sangue e nas lágrimas, encontrar os sete, queimar os sete, amar os sete! Meu pobre espírito que enregelas, quem há-de queimar os teus amores?

Havia já a carroça vencido muito caminho, quando ouviram passos na areia e uma voz que cantava:

Vós que passais, vistes

O amigo louco que perdi?

Caminha sem destino, sem rumo,

Viste-o?

Como a águia faz ao cordeiro

Levou o meu coração de repente.

É homem, mas não tem barba.

Viste-o?

Se o encontrarem, digam-lhe que Nele Está muito cansada de correr. Meu amigo Thyl, onde estás? Viste-o?

Sabe ele que esmorece a rola Quando o seu homem está perdido? Ainda mais se um coração é fiel. Viste-o?

Ulenspiegel bateu no ventre de Lamme, dizendo-lhe:

- Retém a respiração, barrigudo.

- Pobre de mim - respondeu Lamme. - Isso é muito difícil para um homem da minha corpulência.

Mas Ulenspiegel, que já não estava a ouvir o que o outro dizia, escondeu-se atrás da cobertura do carro, e imitando a voz de um homem roufenho que esteve a beber, cantou:

O teu amigo tolo, vi-o

Num carro carcomido,

Sentado ao lado de um grande comilão,

Vi-o, pois.

- Thyl - afirmou Lamme - a tua voz não está boa, esta manhã.

Ulenspiegel, sem o ouvir, passou a cabeça por um buraco da cobertura dizendo:

- Nele, reconheces-me?

Cheia de medo, mas rindo e chorando ao mesmo tempo, porque tinha o rosto molhado, ela respondeu:

- Vejo-te, vil traidor!

- Nele - afirmou Ulenspiegel - se queres bater-me, tenho um pau em casa. É suficientemente pesado para fazer penetrar os golpes, e bem nodoso para deixar marca.

- Thyl - interrompeu Nele - vais à procura dos Sete?

- Sim - respondeu Ulenspiegel.

Nele trazia um saco que parecia prestes a rebentar, de tal forma estava cheio.

- Thyl - disse ela estendendo-lho - pensei que não era saudável um homem viajar sem levar com ele um pato gordo, um presunto e salsichas de Gante. É preciso que comas isto em minha memória.

Como Ulenspiegel olhasse para Nele sem pensar em agarrar o saco, Lamme, passando a cabeça por outro buraco da cobertura, declarou:

- Rapariguinha previdente, se ele não aceita é por esquecimento; mas passa-me esse presunto, dá-me esse pato, entrega-me as salsichas: eu guardo-as.

- A quem pertence esta linda cara?

- É uma vítima do casamento, e roído de dor acabaria por secar como maçã no forno, se não reparasse incessantemente as suas forças com alimentos.

- É isso mesmo, meu filho - suspirava Lamme.

O Sol, que brilhava, aquecia muito a cabeça de Nele. Tapou-se com o avental. Querendo ficar só com ela, Ulenspiegel disse a Lamme:

- Vês aquela mulher que anda a passear no prado?

- Vejo - respondeu Lamme.

- Reconhece-a?

- Ali! - exclamou Lamme. - Será a minha? Não está vestida de burguesa.

- Ainda duvidas, toupeira cega - exclamou Ulenspiegel.

- E se não for ela? - perguntou Lamme.

- Não ficarás a perder. Há à esquerda, a norte, um "kaberdoesje" onde encontrarás boa "bruinbier". Vamos lá ter contigo. Toma presunto para salgares a tua sede natural.

Saindo do carro, Lamme correu com grandes passadas para a mulher que se encontrava no prado. Ulenspiegel perguntou a Nele:

- Não vens para junto de mim?

Depois, ajudando-a a subir para o carro, sentou-a perto dele, tirou-lhe o avental da cabeça e a capa dos ombros. Dava-lhe centenas de beijos, dizia:

- Onde ias, minha bem amada?

Ela não respondeu, mas parecia estar em êxtase. E Ulenspiegel, tão radiante como ela, prosseguiu:

- Eis-te aqui! As rosas das sebes não têm o carmesim da tua pele fresca. Não és rainha, mas deixa-me fazer-te uma coroa de beijos. Braços pequeninos, tão ternos, tão rosados, que o Amor fez expressamente para abraçarem! Ah! Rapariguinha amada, não irão as minhas mãos calejadas de homem fazer mal a estes ombros? A borboleta ligeira poisa nas papoilas púrpura, mas será que eu posso pousar na tua viva brancura sem a danificar, eu que sou um desastrado?

“Deus está no céu, o rei no trono e o Sol no alto, triunfante; mas Deus sou eu, rei e sol, agora que estou tão perto de ti! Oh, cabelos mais macios que flocos de seda! Nele, eu quebro, rasgo, faço em bocados! Mas não tenhas medo, minha amiga. O teu pequenino pé! Como é tão branco! Lavaste-o com leite?

Ela quis levantar-se.

- Que temes? - perguntou Ulenspiegel. - Não é o Sol que brilha por cima de nós e te faz toda de ouro. Não baixes os olhos. Vê nos meus que belo fogo brilha. Escuta, amada; ouve, pequenina: é a hora silenciosa do meio-dia, o trabalhador está em sua casa comendo a sopa, para que não viver o amor? Pudesse eu durante mil anos lançar sobre os teus joelhos pérolas das índias!

- Língua dourada! - disse ela. O senhor Sol brilhava através da cobertura branca do carro, e uma cotovia cantava por cima dos trevos, enquanto Nele encostava a cabeça ao ombro de Ulenspiegel.

 

Entretanto, Lamme voltava coberto de grandes bagas de suor e soprando como um delfim.

- Ai de mim! Nasci sob uma má estrela. Depois de ter corrido tanto para chegar ao pé daquela mulher, que não era a minha e ainda por cima era velha, vi pela sua cara que teria quarenta e cinco anos, e a touca deu-me a entender que nunca tinha sido casada. Perguntou-me asperamente o que estava eu a fazer, passeando a barriga por entre os trevos.

“- Procuro a minha mulher, que me abandonou - respondi com brandura. - Confundindo-te com ela, e por isso corri.

“Perante isto, a idosa virgem respondeu-me que só me restava regressar ao sítio de onde tinha vindo, e que se a minha mulher me havia deixado, bem o fizera, dado que todos os homens, no entender dela, são ladrões, biltres, hereges, desleais, corruptores, enganando as raparigas apesar da maturidade da sua idade. Acrescentou que far-me-ia comer pelo cão se não tirasse dali a minha obesidade o mais depressa possível.

“O que fiz, não sem receio, pois vi um grande mastim deitado e rosnando a meus pés. Quando passei o limite dos seus terrenos, sentei-me, e para recuperar as forças dei umas dentadas no teu bocado de presunto. Estava entre dois tufos de trevo. Repentinamente ouvi um barulho atrás de mim, e voltando-me, vi o grande mastim da virgem velha, não ameaçador, mas abanando a cauda com doçura e apetite.

Queria o meu presunto. Deitei-lhe alguns bocados, mas apareceu a dona, que lhe gritou:

- Agarra o homem! Agarra-o pelos fundilhos, meu filho.”

“Deitei a correr, com o cão bem junto de mim, a ponto de levar um bocado da minha carne juntamente com um pedaço dos calções. Furioso por causa da dor, voltei-me e dei-lhe uma grande paulada nas patas da frente, das quais pelo menos uma parti. O animal caiu gritando na sua língua de cão: "Misericórdia!" - O que eu lhe concedi. Entretanto, a dona arremessava-me com terra à falta de pedras, e eu continuava a correr.

“Valha-me Deus! Não será cruel e injusto que uma mulher que não teve beleza suficiente para encontrar marido se vingue nos pobres inocentes como eu?

“ - Acabrunhado, dirigi-me para o "kaberdoesje" de que me tinhas falado, esperando encontrar aí a "bruinbier." consoladora. Mas enganei-me, porque ao entrar vi um homem e uma mulher que se batiam. Pedi-lhes para se dignarem interromper a batalha a fim de me darem uma caneca de "bruinbier", e tanto me fazia que fosse de um pinto ou de seis. Mas a mulher, verdadeira "stokfisch", furiosa, respondeu-me que se eu não abalasse imediatamente me faria engolir o tamanco com que estava a bater na cabeça do marido. E aqui estou eu, meu amigo, a suar e cansado: não tens algo que se coma?

- Sim - respondeu Ulenspiegel.

- Enfim! - exclamou Lamme.

 

Assim reunidos, seguiam pela estrada. O burro, de orelhas deitadas, puxava a carroça.

- Lamme - disse Ulenspiegel - aqui vão quatro bons companheiros: o burro, criatura do bom Deus, pastando cardos ao acaso pelos campos; tu, barrigudo, procurando aquela que te fugiu; ela, a doce amada de coração terno, que encontrou quem não é digno de a ter - ou seja: eu, o quarto do grupo.

- Ora, ora, filhos, coragem! As folhas amarelecem e os céus ficam mais brilhantes. Daqui a pouco, nas brumas outonais, o senhor Sol vai deitar-se, e o Inverno virá, imagem da morte, cobrindo de mortalhas de neve os que dormem sob os nossos pés. Será então que caminharei em busca da felicidade pela terra dos antepassados. Pobres mortos: Soetkin, que morreu de dor; Claes que morreu no fogo: cadeia de bondade e hera de amor, eu, vosso descendente, sofro muito. Mas vingar-vos-ei, cinzas amadas que batem no meu peito.

Lamme declarou:

- Não se devem chorar os que morrem pela justiça. Mas Ulenspiegel estava pensativo; de súbito, afirmou:

- Nele, chegou a hora do adeus por muito tempo e talvez nunca mais volte a ver o teu doce rosto.

Nele fixava-o com os olhos brilhantes como estrelas:

- Porque não deixas este carro para vires comigo para a floresta onde encontrarias manjares delicados pois conheço as plantas e sei chamar as aves?

- Minha menina - interrompeu Lamme - não deves querer impedir Ulenspiegel de seguir o seu caminho até encontrar os Sete, e eu o meu, até encontrar minha mulher.

- Ainda não - dizia Nele, que sorria ternamente a seu amigo Ulenspiegel por entre lágrimas.

Este, dando-se conta, respondeu:

- Tua mulher encontrá-la-ás sempre a tempo de arranjares novo tormento.

- Thyl - disse Lamme - vais deixar-me sozinho no meu carro, por causa dessa rapariga? Não me respondes, e pensas na floresta onde nem estão os Sete nem a minha mulher. Procuremos pelas estradas empedradas por onde rolam os carros.

- Lamme - retorquiu Ulenspiegel. - Tens um saco cheio no carro, por isso não morrerás de fome se fores sem mim até Koelkerke, onde irei encontrar-me contigo. Deves chegar lá sozinho a fim de saberes para que ponto cardeal te deves dirigir ao encontro da tua mulher. Espera, e escuta. Vais neste passo com o teu carro até três léguas daqui, onde fica Koelkerke, a igreja fresca, assim chamada porque é simultaneamente batida pelos quatro ventos, como aliás muitas outras. No campanário está um cata-vento em forma de galo, que se volta nos seus gonzos ferrugentos para todos os ventos. É este rangido que indica aos pobres homens que perderam as suas amigas o caminho que devem seguir para as encontrar.

“Primeiro, porém, é preciso bater sete vezes em cada uma das paredes com uma varinha de aveleira. Se os gonzos chiarem quando o vento soprar de norte é para esse lado que se deve ir, mas prudentemente, porque o vento do norte é o vento da guerra; se é do sul, pode-se ir alegremente: é vento de amor; se é do oriente, vai aos pulos: é a alegria e a luz; se é do ocidente, vai devagar: é o vento da chuva e das lágrimas.

Vai, Lamme, vai a Koelkerke. e espera-me lá.

- Vou para lá - respondeu Lamme.

E partiu no carro.

Enquanto Lamme seguia para Koelkerke, o vento, que era forte e morno, perseguia no céu, como um rebanho de carneiros, as nuvens cinzentas que erravam aos grupos; as árvores gemiam como as ondas de um mar embravecido. Ulenspiegel e Nele estavam já há algum tempo sozinhos na floresta. Ulenspiegel tinha fome e Nele que procurava raízes gostosas só encontrava bolotas e os beijos que o amigo lhe dava.

Ulenspiegel colocou depois as redes, e assobiava para chamar as aves, a fim de cozinhar as que apanhasse. Um rouxinol poisou nas folhas perto de Nele; ela não o agarrou para o deixar cantar; veio uma toutinegra e ela teve pena porque era gentilmente arrogante; depois veio uma cotovia, mas Nele disse-lhe que faria melhor cantar nos altos céus um hino à Natureza do que vir entregar-se à ponta assassina de um espeto.

E dizia a verdade, porque entretanto Ulenspiegel tinha acendido o lume e feito um espeto que aguardava apenas as suas vítimas. Mas, a não ser os corvos maus que cruzavam o céu, não apareceram mais aves.

Assim, Ulenspiegel não comeu. Contudo, Nele tinha de partir para reunir-se a Katheline. Caminhava chorando, e Ulenspiegel via-a afastar-se. Mas a rapariga voltou para trás e lançou-se-lhe ao pescoço:

- Vou-me embora - disse.

Deu alguns passos, voltou novamente para trás dizendo outra vez:

- Vou-me embora.

E fez isto vinte vezes ou mais. Depois partiu, e Ulenspiegel ficou sozinho. Pôs-se também a caminho, para ir ter com Lamme.

Quando o encontrou, estava ele sentado ao pé da torre, tendo, entre as pernas um grande pote de "bruinbier", roendo um pau de aveleira, e com ar muito melancólico, disse:

- Ulenspiegel, estou convencido que mandaste-me para aqui a fim de ficares sozinho com a rapariga; bati sete vezes com a varinha de aveleira nas paredes da torre, como me recomendaste, e embora o vento soprasse como um diabo, os gonzos não gritaram.

- É porque lhes deitaram azeite - respondeu Ulenspiegel.

Depois partiram para o ducado de Brabante.

 

O rei Filipe, de mau humor, rabiscava e revolvia sem descanso, durante todo o dia e pela noite adiante, papéis e pergaminhos. A este confiava os pensamentos do seu duro coração. Não amando ninguém nesta vida, sabendo que ninguém o amava, querendo governar sozinho o seu imenso império, triste Atlas, vergava sob o peso do fardo.

Fleumático e melancólico, os excessos de trabalho arruinavam-lhe o fraco corpo. Detestando qualquer rosto alegre, odiava a nossa terra por causa da sua alegria. Odiava os nossos mercadores devido ao seu luxo e à sua riqueza; odiava a nossa nobreza, por causa da forma de expressão, dos negócios francos, e do entusiasmo sanguíneo da sua brava jovialidade. Sabia, tinham-lhe dito, que muito tempo antes de o cardeal de Cousa, por volta do ano de 1380, se ter referido aos abusos da Igreja e pregado a necessidade das reformas, a revolta contra o Papa e a Igreja Romana, já se tinha manifestado na nossa terra sob diferentes formas de seitas, e vivia em todas as cabeças como água a ferver num caldeirão tapado.

Teimoso, obstinado, estava convencido de que a sua vontade devia pesar como a de Deus no mundo inteiro; queria que a nossa terra, desabituada de obedecer, se curvasse sob o jugo antigo, sem obter qualquer reforma. Queria a Sua Santa Madre Igreja católica apostólica e romana, una, total, universal, sem modificações nem alterações, sem nenhuma outra razão para o querer a não ser a sua vontade, comportando-se em relação a isto como mulher insensata, e à noite voltava-se na cama como se estivesse num colchão de espinhos, atormentado sem descanso pelos seus pensamentos.

- Sim, senhor S. Filipe, sim, senhor Deus, farei dos Países-Baixos uma fossa comum e nela lançarei todos os habitantes, que voltarão para vós, meu bendito patrono, para vós também, Virgem Maria e para vós santos e santas do Paraíso.

Tentou fazer o que dissera, foi mais romano do que o papa e mais católico que os concílios. Ulenspiegel e Lamme, os povos da Flandres e dos Países-Baixos, angustiados, julgavam ver ao longe, na mansão sombria do Escurial, uma aranha coroada, com as compridas patas, de pinças abertas, fazendo a teia para os envolver e sugar-lhes o seu mais puro sangue. Embora a inquisição papal, no reinado de Carlos, tivesse matado na fogueira, na fossa e na corda cem mil cristãos, e muito embora os bens dos pobres condenados tivessem entrado nos cofres do imperador e do rei, como a chuva na goteira, Filipe julgou que ainda não se fizera o suficiente. Impôs ao país novos Bispos, e pretendeu introduzir a inquisição espanhola.

Os arautos das cidades leram por toda a parte, ao som das trompas e do tambor, os cartazes decretando a morte na fogueira para todos os homens, mulheres e raparigas hereges, que não abjurassem o seu erro, e a morte na forca para os que abjurassem. As mulheres e as raparigas seriam ainda enterradas vivas, e o carrasco dançaria sobre os seus corpos.

Perante isto, a chama da resistência alastrou por todo o país.

 

No dia 5 de Abril, antes da Páscoa, os senhores condes Luís de Nassau, de Culemburgo, e Brederode, o Hércules bebedor, entraram com trezentos fidalgos na corte de Bruxelas, em casa da duquesa de Parma, a governante. Formados a quatro e quatro subiram a escadaria do palácio.

Na sala onde se encontrava a senhora, apresentaram-lhe um pedido para que tentasse obter do rei Filipe a abolição dos editais sobre a religião e também sobre a inquisição espanhola, declarando que, nas regiões descontentes, isso só poderia levar a perturbações, ruínas e miséria geral.

Este pedido foi designado por O Compromisso.

Berlaymont, que mais tarde tão cruelmente traiu a terra dos seus antepassados, estava ao pé de Sua Alteza e disse-lhe, troçando da pobreza de alguns dos nobres confederados :

- Senhora, nada deveis temer, pois não passam de indigentes.

Aludia assim a que os nobres se tinham arruinado ao serviço do rei, ou então ao quererem tornar-se iguais no luxo aos senhores espanhóis.

Desprezando estas palavras do senhor de Berlaymont, os senhores declararam imediatamente que “se sentiam honrados por serem considerados e designados por indigentes ao serviço do rei e do bem destas terras”.

Passaram a usar ao pescoço uma medalha de ouro, tendo de um lado a efígie do rei, e do outro duas mãos entrelaçadas numa sacola de mendigo, com as palavras: “Fiéis ao rei até à miséria.” Traziam também nos chapéus e barretes jóias de ouro com a forma de escudelas e de chapéus de pedintes.

Entretanto, Lamme arrastava a barriga por toda a cidade, procurando a mulher que não encontrava.

 

Ulenspiegel disse-lhe uma manhã:

- Segue-me: vamos cumprimentar uma alta, nobre, poderosa, temida individualidade.

- Saberá dizer-me onde está a minha mulher? - perguntou Lamme.

- Se souber - respondeu Ulenspiegel.

E partiram para casa de Brederode, o Hércules bebedor. Estava no pátio do palácio.

- Que queres de mim? - perguntou a Ulenspiegel.

- Falar convosco, senhor - respondeu Ulenspiegel.

- Fala - retorquiu Brederode.

- Sois - afirmou Ulenspiegel - um senhor distinto, corajoso e forte. Em tempos asfixiaste um francês dentro da armadura, como um mexilhão na casca: mas se és forte e valente, és também um homem prudente. Porque trazes essa medalha onde leio: “Fiel ao rei até à miséria”'.'

- Sim - concordou Lamme - porquê, senhor?

Mas Brederode não respondeu e ficou a olhar para Ulenspiegel. Este continuou a sua exposição:

- Porque é que os nobres querem ser fiéis ao rei até à miséria? É pelo grande bem que ele vos quer, pela bela amizade que vos tem? Porque é que em vez de serem fiéis até à miséria não fazem com que o carrasco seja afastado destas terras e fique à miséria sempre fiel?

E Lamme acenava a cabeça em sinal de assentimento. Brederode olhou para Ulenspiegel com uma expressão viva, e sorriu ao ver a sua cara simpática.

- Se não és um espião do rei Filipe, és um bom flamengo, e vou recompensar-te por ambas as possibilidades.

Levou-o para o seu gabinete e Lamme seguiu-os. Ali, puxando-lhe a orelha quase até fazer sangue disse-lhe:

- Isto é para o espião. Ulenspiegel não gritou.

- Traz esta caldeira cheia de vinho com canela - ordenou ao copeiro.

O copeiro trouxe a caldeira e uma grande taça de vinho quente, que perfumou o ar.

- Bebe - disse Brederode a Ulenspiegel. - É para o bom flamengo.

- Ah! - exclamou Ulenspiegel - bom flamengo, bela língua na canela, os santos não falam assim.

Depois, tendo bebido metade do vinho, passou o resto a Lamme.

- Quem é este "papzak" barrigudo que é recompensado sem nada ter feito?

- É o meu amigo Lamme, que sempre que bebe vinho quente imagina que vai encontrar a mulher – respondeu Ulenspiegel.

- Sim - disse Lamme, cheirando o vinho da taça com grande devoção.

- Para onde vão vocês agora? - perguntou Brederode.

- Vamos à procura dos Sete que salvarão a terra de Flandres - explicou Ulenspiegel.

- Que Sete? - perguntou Brederode.

- Quando os tiver encontrado, dir-vos-ei quem são - respondeu Ulenspiegel.

Todavia, Lamme, todo contente por ter bebido, sugeria:

- Thyl, e se fôssemos à Lua procurar minha mulher?

- Arranja a escada - retorquiu Ulenspiegel.

Em Maio, o mês verde, Ulenspiegel disse a Lamme:

- Eis o belo mês de Maio! Ah! O claro céu azul, as andorinhas alegres; eis os ramos das árvores vermelhos de seiva, a terra vive de amor. É o momento de enforcar e de queimar pela fé. Estão lá os pequenos inquisidores. Que caras nobres! Têm todo o poder para corrigir, punir, degradar, entregar nas mãos dos seculares juízes, ter as suas prisões...

“Ah! O belo mês de Maio! Apoderar-se do corpo, prosseguir com os processos sem se servir da forma ordinária de justiça, queimar, enforcar, decapitar e pisar para as pobres mulheres e raparigas a fossa da morte prematura. Os tentilhões cantam nas árvores. Os bens inquisidores têm o olho nos ricos. E o rei herdará. Ide, raparigas, dançar no prado ao som da gaita de foles. Oh! O belo mês de Maio!

As cinzas de Claes batiam no peito de Ulenspiegel.

- Vamos - disse Lamme. - Felizes os que tiverem o coração recto e a espada alta, nos dias negros que se aproximam.

 

Um dia do mês de Agosto, Ulenspiegel passou pela Rua de Flandres, em Bruxelas, diante da casa de Jean Sapermillemente, assim chamado porque nos momentos de cólera o seu avô paterno assim jurava, para não blasfemar o santo nome de Deus. O citado Sapermillemente era bordador de profissão; mas estando surdo e cego por causa da bebida, a mulher, uma velha de expressão severa, bordava em vez dele os fatos, os gibões, os casacos e os sapatos dos senhores. A filha ajudava-a neste bem pago trabalho.

Passando diante da referida casa quase ao cair do dia, Ulenspiegel viu a rapariga à janela e ouvia-a dizer:

Agosto, Agosto,

Diz-me, doce mês,

Quem me tomará por mulher,

Diz-me, doce mês?

- Eu, se tu quiseres - respondeu Ulenspiegel.

- Tu? Chega aqui para te ver.

- Como é isso, que perguntas em Agosto o que as raparigas de Brabante perguntam nas vésperas de Março? - replicou ele.

- É porque elas só têm um mês doador de marido; eu tenho doze, e na véspera de cada um deles, não à meia-noite, mas durante seis horas até à meia-noite, salto da cama, recuo três passos até à janela, canto o que ouviste; depois, voltando-me, recuo outros três passos até à cama, e à meia-noite, quando me deito e adormeço, sonho com o marido que terei. Contudo, os meses, doces meses, trocistas e maus por natureza, fazem-me sonhar não com um marido, mas com doze ao mesmo tempo; serás o décimo se quiseres.

- Os outros vão ficar ciumentos - respondeu Ulenspiegel. - Gritas também: “Libertação!”

A rapariga corando respondeu:

- Grito libertação, e sei o que peço.

- Também sei, e trago-te - respondeu Ulenspiegel.

- É preciso esperar - disse ela sorrindo, e ao sorrir mostrou os dentes brancos.

- Esperar? - retorquiu Ulenspiegel - Não! Pode cair-me uma casa sobre a cabeça, um golpe de vento pode deitar-me numa fossa, um cão vadio e raivoso pode morder-me na perna; não! Não esperarei.

- Sou muito nova, e só digo estas coisas por hábito.

Ulenspiegel ficou desconfiado, pensando que era na véspera de Março e não no mês dos trigos, que as raparigas de Brabante pedem um marido.

Ela disse, sorrindo:

- Sou muito nova e só digo estas coisas por hábito.

- Estás à espera de ser demasiadamente velha? - retorquiu Ulenspiegel. - É má aritmética. Nunca vi um pescoço tão redondinho, seios tão brancos, seios de flamenga cheios desse bom leite que faz os homens.

- Cheios? Ainda não, viajante precipitado.

- Esperar! - repetiu Ulenspiegel. - Será preciso que eu não tenha dentes para te comer mesmo crua, minha querida. Não respondes, sorris com os teus olhos castanhos claros e os teus lábios vermelhos como cerejas.

A rapariga, fixando-o, respondeu com sagacidade:

- Como é que me amaste assim tão depressa? Que ofício tens? És mendigo ou rico?

- Mendigo, sou-o, e rico também, se tu me deres o teu corpo delicado.

- Não é isso que eu quero saber. Vais à missa? És bom cristão? Onde vives? Ousarias dizer que és mendigo, verdadeiro mendigo que resiste aos editais e à inquisição?

As cinzas de Claes batem no peito de Ulenspiegel.

- Sou mendigo, quero ver mortos e comidos pelos vermes os opressores dos Países-Baixos. Estás a olhar para mim pasmada. Este fogo de amor que arde por ti, minha querida, é fogo de juventude. Deus ateia-o, brilha como o Sol até se extinguir. Mas o fogo de vingança que vive no meu coração, também é Deus que o ateia. Será a espada, o fogo, a corda, o incêndio, a devastação, a guerra e a ruína dos carrascos.

- és belo - disse ela triste, beijando-o nas duas faces - mas cala-te.

- Porque choras?

- É preciso estar sempre a olhar em redor.

- Estas paredes têm ouvidos? - perguntou Ulenspiegel.

- Só os meus.

- Esculpidos pelo Amor, fechá-los-ei com um beijo.

- Meu tolo, ouve-me quando estou a falar contigo.

- Porquê? O que tens para me dizer?

- Escuta - retorquiu ela impaciente. - Olha a minha mãe... Cala-te, cala-te, sobretudo diante dela...

A velha Sapermillemente entrou. Ulenspiegel olhando para ela, disse para consigo:

“Focinho furado como uma escumadeira, olhar duro e falso, boca que quer rir e fazer esgares, suscita em mim

a curiosidade.”

- Deus esteja convosco, senhor - disse a velha. - Convosco a todo o momento. Recebi dinheiro, minha filha, belo dinheiro do senhor d'Egmont, quando lhe levei o casaco em que bordei o ceptro da loucura. Sim, senhor, o ceptro da loucura contra o Cão Vermelho.

- O cardeal de Granvelle? - perguntou Ulenspiegel.

- Sim, contra o Cão Vermelho. Dizem que denuncia ao rei as suas intrigas; querem fazê-lo perecer. Têm razão, não têm?

Ulenspiegel não respondeu.

- Com certeza não os viu nas ruas vestidos com um gibão e um "opperst-kleed" cinzento, como o que a gente do povo usa, e as longas mangas pendentes e os capuchos de monges e em todos os "opperst-kleed cren" o ceptro da loucura bordado. Fiz pelo menos vinte e sete, e a minha filha quinze. O Cão Vermelho ficou furioso, ao ver estes bastões.

Depois falando ao ouvido de Ulenspiegel:

- Sei que os senhores decidiram substituir o ceptro por um feixe de trigo, em sinal de união. Sim. Sim, vão lutar contra o rei e a inquisição. Fazem bem, não acha, senhor?

Ulenspiegel não respondeu.

- O senhor estrangeiro transpira melancolia - disse a velha, que de súbito ficou calada como uma tumba.

Ulenspiegel não proferiu uma palavra, e saiu.

Entrou daí a pouco numa taberna para não se esquecer de beber. A tasca estava cheia de gente que bebia e falava imprudentemente do rei, detestados editais da Inquisição e do Cão Vermelho, que era preciso fazer sair do país. Viu a velha tão loquaz que parecia dormir ao lado de um copo de aguardente. Ficou muito tempo assim; depois, viu-a tirar um lenço do bolso e esmolar por entre os grupos, pedindo sobretudo aos que estavam a falar de forma mais imprudente.

E os homens davam-lhe florins, dinheiros e patardes, sem mesquinhez. Ulenspiegel, esperando saber pela rapariga o que a velha Sapermillemente não lhe dizia, voltou a passar diante de casa; viu a rapariga, que cantava mas sorriu-lhe, piscando o olho, doce promessa.

A velha voltou pouco depois.

Ulenspiegel, aborrecido por a ver, correu como um cervo pela rua gritando: "T brandt! t brandt!" (fogo! fogo!) até chegar diante da casa do padeiro Jacob Pietersen. A vidraça da janela à alemã estava vermelha à luz do Sol poente. Um fumo espesso, fumo de achas que no forno se faziam em brasas, saía da chaminé da padaria. Ulenspiegel não deixava de gritar ao correr: "T brandt, "t brandt", e indicava a casa de Jacob Pietersen. A multidão, juntando-se, viu o vidro vermelho, o fumo espesso e gritou como Ulenspiegel: "T brandt, "t brandt", (está a arder, está a arder). O guarda de Nossa Senhora da Capela fez soar a trompeta enquanto o sineiro tocava com toda a força o sino conhecido por "wacharm". E os rapazes e as raparigas acorreram como enxames, cantando e apitando.

O sino e a trompeta continuavam a tocar e a velha Sapermillemente largou a bagagem e saiu.

Ulenspiegel estava à espreita. Quando ela ia longe, entrou em casa.

- Tu aqui! - exclamou a rapariga - não há um fogo?

- Ali? Não - respondeu Ulenspiegel.

- Mas aquele sino que toca tão angustiadamente...

- Não sabe o que faz - respondeu Ulenspiegel.

- E aquela trompeta tão triste, e todo este povo que corre?

- O número de doidos é infinito.

- Então, que é que está a arder?

- Os teus olhos e o meu coração flamejante - replicou Ulenspiegel.

E beijou-a na boca.

- Estás-me a comer?

- Gosto muito de cerejas - respondeu ele.

Olhava para ele sorridente e aflita. De súbito, chorando :

- Não voltes aqui. Tu és mendigo inimigo do Papa, não voltes...

- A tua mãe!

- Sim - respondeu corando. - Sabes onde é que ela está neste momento? Está à escuta, ali onde há fogo. Sabes onde é que ela vai daqui a bocado? A casa do Cão Vermelho, contar tudo o que sabe e preparar o trabalho para o duque que há-de vir. Foge, Ulenspiegel, salvo-te, foge. Mais um beijo, mas não voltes mais. Mais um beijo, que és belo. Choro, mas vai-te embora.

- Que rapariga corajosa - disse Ulenspiegel continuando a abraçá-la.

- Nem sempre o fui. Eu também, como ela...

- Estes cantos, estes apelos mudos de beleza aos homens amorosos?...

- Sim. A minha mãe queria. A ti, salvo-te, amando-te com amor. Aos outros salvo-os lembrando-me de ti, meu bem amado. Quando estiveres longe o teu coração baterá pela rapariga arrependida? Beija-me, meu querido. Não receberá mais dinheiro das vítimas da fogueira. Vai-te embora... não... fica mais um instante. Como a tua mão é terna! Olha, estou a beijar-te a mão, é sinal de escravidão; és o meu senhor. Ouve, mais perto, cala-te. Homens biltres e ladrões, e entre eles um italiano, vieram cá a casa, esta noite, um a seguir ao outro. A minha mãe mandou-os entrar para a sala onde estás, mandou-me sair, fechou a porta. Ouvi estas palavras: “Crucifixo de pedra, porta de Borgerhoet, procissão, Antuérpia, Nossa Senhora”, risos abafados, florins que se contavam em cima da mesa... Foge, ei-los; foge, meu bem amado. Guarda de mim uma doce recordação; foge...

Ulenspiegel foi a correr como ela lhe tinha recomendado até ao “Galo Velho”. "In den ouden Haen" onde encontrou Lamme muito melancólico, comendo uma salsicha e bebendo o sétimo copo de "peterman" da Lovaina.

E obrigou-o a correr como ele, apesar da barriga.

 

Correndo a bom correr, seguido por Lamme, encontrou no "Eikenstraat" um pasquim contra Brederode. Foi imediatamente levar-lho.

- Sou, senhor, esse flamengo e esse espião do rei a quem sacudiste tão bem as orelhas e a quem destes a beber aquele vinho quente tão bom.

Ele traz-vos um pequeno panfleto onde vos acusam, entre outras coisas, de vos intitulardes conde da Holanda, como o rei. Acaba de sair da tipografia de Jan, em Calumnia, perto do cais dos vadios, beco dos Ladrões-de-Honra. Brederode, sorrindo, respondeu-lhe:

- Mando-te açoitar durante duas horas se não me disseres o verdadeiro nome do escriba.

- Senhor - respondeu Ulenspiegel - podeis mandar-me açoitar durante dois anos, mas não podeis forçar as minhas costas a dizerem-vos o que a minha boca ignora.

E foi-se embora depois de ter recebido um florim como recompensa.

 

Em Junho, o mês das rosas, começaram na Flandres as pregações.

E os apóstolos da primitiva Igreja cristã pregavam por toda a parte, em todos os lugares, nos campos e jardins, nos montículos que alojam os animais nos períodos de inundações, nos rios e nos barcos.

Em terra, entrincheiravam-se como num campo, rodeando-se de carros. Nos rios e nos portos, barcos cheios de homens armados guardavam-nos.

E nos campos, mosqueteiros e arcabuzeiros protegiam-nos das surpresas do inimigo.

E assim a palavra de liberdade foi ouvida em toda a parte na terra dos antepassados.

 

Ulenspiegel e Lamme encontravam-se em Burgos, tinham deixado o carro num pátio vizinho e entraram na Igreja do Santo Salvador, em vez de irem para a taberna, porque nas bolsas já não se ouvia o alegre tilintar do dinheiro.

O padre Cornelis Adriaensen, frade menor, sujo, descarado, furioso e inoportuno pregador, encontrava-se nesse dia na cadeira da verdade.

Jovens e belas devotas comprimiam-se em volta dele.

O padre Cornelis falava de Paixão. Quando chegou às passagens do santo Evangelho em que os judeus dizem a Pilatos, falando de Jesus:

“Crucifica-o, crucifica-o, porque temos uma lei, e, segundo essa lei, ele deve morrer!”

Broer Cornelis clamava:

“Como acabam de ouvir boa gente, se Nosso Senhor Jesus Cristo teve uma morte horrível e vergonhosa, é porque sempre houve leis para punir os hereges. Foi justamente condenado por ter desobedecido às leis. Querem agora ignorar os editais e os cartazes. Oh! Jesus! Que maldição queres fazer cair sobre esta terra! Honrada mãe de Deus, se o Imperador Carlos ainda fosse vivo e pudesse ver o escândalo destes nobres confederados que ousaram apresentar à governanta contra a inquisição e contra os editais feitos com um objectivo tão bom, que foram tão maduramente pensados, editados, para destruir todas as seitas e heresias! E queriam agora que são mais necessárias do que o pão e o queijo, reduzi-las a nada! Em que abismo fétido, infecto, abominável nos fazem cair agora?

“Lutero, esse Lutero porco, esse boi enraivecido, triunfa na Saxónia, em Brunsvique, em Luneburgo, em Meclemburgo; Brentius, o Brentius sujo, que viveu na Alemanha das bolotas que os porcos rejeitavam, Brentius triunfa em Vurtemberga; Servet, o Lunático, que tem um quarto de Lua na cabeça, o trinitário Servet, reina na Pomerânia, na Dinamarca e na Suécia, e ali ousa blasfemar contra a santa, gloriosa e poderosa Trindade.

“Sim. Mas disseram-me que tinha sido queimado vivo por Calvino, que só foi por isso bom; sim, pelo fétido Calvino, que cheira a azedo; sim, com o seu focinho comprido como um odre: cara de queijo, com dentes grandes como pás de jardineiro. Sim, estes lobos comem-se uns aos outros; sim, o boi do Lutero, o boi enfurecido, armou os príncipes da Alemanha contra o anabaptista Munzer, que era bom homem e vivia segundo o Evangelho. E os mungidos deste boi ouvem-se por toda a Alemanha, sim!

“Sim, e que se vê na Flandres, na Gueldria, na Frísia, na Holanda e na Zelândia? Nudistas correndo todos nus pelas ruas; sim, boa gente, todos nus pelas ruas, mostrando sem vergonha a carne magra a quem passa. Só há um, dizem sim, talvez, mas um vale por cem, e cem valem um. E foi queimado, dizem, foi queimado vivo, na oração dos calvinistas e dos luteranos. Esses lobos comem-se, sou eu que vos digo!

“Sim, que se vê na Flandria, na Gueldria, na Frísia, na Holanda e na Zelândia? Libertinos ensinando que a servidão é contrária à palavra de Deus. Mentem, os fedorentos hereges. É preciso que nada se submeta à Santa Madre Igreja Romana. É ali, naquela maldita cidade de Antuérpia, o encontro de toda a canalha herege do mundo. Atreveram-se a dizer que nós cozemos a hóstia com gordura de cão. Um outro, aquele mendigo sentado num penico, disse à esquina de uma rua: "Não há Deus, nem vida eterna, nem ressurreição da carne, nem condenação eterna".

“Pode - diz outro, além, com uma voz chorosa - pode-se baptizar sem sal, sem banha, sem saliva, sem exorcismo e sem vela.

“ - Não há outro purgatório - diz outro.

“Não há purgatório, boa gente! Mais valia cometer o pecado com as vossas mães, as vossas irmãs e as vossas filhas, do que pôr em dúvida o purgatório.

“Sim, e levantam o nariz diante do inquisidor, o Santo Homem, sim. Quatro mil calvinistas, com homens armados, estandartes e tambores, chegaram a Belém, não longe daqui. Sim, e chega-nos o cheiro do fumo da cozinha deles. Apoderaram-se da igreja de santa Katheline para a desonrarem, profanarem, desconsagrarem com a sua pregação condenada.

“O que é esta tolerância ímpia e escandalosa? Pelos mil diabos do inferno, católicos indolentes, porque não pegam também em armas? Têm como esses famigerados calvinistas, couraças, lanças, alabardas, espadas, bacamartes, balestras, facas, paus, chuços, falconetes e colubrinas da cidade.

“São pacíficos, dizem; querem ouvir com toda a liberdade e tranquilidade a palavra de Deus. Para mim, é tudo a mesma coisa. Que saiam de Burgos! Persigam, matem, façam saltar todos esses calvinistas para fora da Igreja. Ainda estão aí? Apre! parecem galinhas a tremer de medo no estrume! Estou a ver o momento em que os famigerados calvinistas tamborilarão no ventre das vossas mulheres

e das vossas filhas, e vocês vão deixá-los, homens de têmpera e carne mole. Não vão lá, não vão... molhariam os sapatos na batalha. Apre, burgueses! Apre, católicos! Isto é que é gente bem catolicizada. Oh! Poltrões e cobardes! A vergonha cai sobre vós, patas e patos, gansos e peruas, que é o que são!

“Será que não há bons pregadores, e é essa a razão por que vão às multidões escutar as mentiras que vomitam, é por isso que as raparigas vão de noite aos seus sermões, sim, e que nove meses depois a cidade esteja cheia de pequenos mendigos e mendigas? Eram em número de quatro, quatro escandalosos valdevinos, os que pregaram no cemitério da igreja. O primeiro destes vadios, magro e pálido, rapaz feio, tinha um chapéu sujo. Graças ao chapéu não se viam as orelhas. Sim, algum de vocês viu as orelhas do pregador? Estava sem camisa, pois viam-se os braços saírem nus do gibão. Vi bem, embora ele quisesse tapar-se com um capote pequeno, sob os calções de pano preto, à luz do dia como a flecha de Nossa Senhora de Antuérpia, o movimento dos seus sinos badalando livres. O outro vadio pregava de gibão, sem sapatos.

“Ninguém viu as suas orelhas. Teve de interromper a prédica porque os rapazes e as raparigas apupavam-no dizendo: "Ui! ui! não sabe a lição." O terceiro destes escandalosos valdevinos tinha um chapelinho desprezível e sujo, com uma pena. Também não se lhe viam as orelhas. O quarto vadio, Hermanus, mais bem vestido do que os outros, deve ter sido marcado duas vezes no ombro pelo carrasco, sim.

“Trazem todos por baixo dos chapéus umas boinas de seda gordurosa que lhes escondem as orelhas. Viram as orelhas de alguns destes pregadores?

Qual destes vadios ousou mostrar as orelhas? As orelhas! Ah! sim, mostrar os ouvidos! cortaram-lhos. Sim, o carrasco cortou as orelhas a todos.

“E todavia é em volta destes escandalosos valdevinos, destes escamoteadores, destes sapateiros remendões que fugiram das bancas, destes andrajosos, que o povo clama: "Viva o mendigo!" Como se toda a gente estivesse furiosa, embriagada ou louca.

“Ah! Não nos resta outra alternativa, a nós, pobres católicos romanos, senão deixarmos os Países-Baixos para que lancem este grito: "Viva o mendigo! Viva o mendigo!" Que maldição devastadora é esta que caiu sobre um povo enfeitiçado e estúpido. Ah! Jesus! Por toda a parte, ricos e pobres, nobres e ignóbeis, jovens e velhos, homens e mulheres, todos gritam: "Viva o mendigo!"

“E quanto a todos esses senhores, esses rabos de couro pelado vindos da Alemanha? Todo o seu interesse foi para as raparigas, para as casas de jogo, guloseimas, cópulas, deboches, obscenidades, abominações aos dados e para o triunfo no modo de trajar, tão ridículo. Não têm sequer um prego ferrugento. Precisam agora dos bens das igrejas e dos conventos.

“E no banquete em casa desse vadio do Culemburgo, com esse outro vadio do Brederode, beberam em escudelas de madeira, por desprezo pelo senhor de Berlaymont e pela senhora governanta. Sim; gritaram "Viva o mendigo!" Ah! se. eu fosse o bom Deus, com a devida vénia, teria feito com que a bebida deles, fosse cerveja ou vinho, se transformasse numa água suja, infame, daquela de lavar a loiça. Sim, numa barrela suja, abominável, nojenta, na qual tivessem sido lavadas camisas e a roupa suja de excrementos. “Sim, gritem, burros, gritem "Viva o mendigo!" Sim!

e eu sou profeta. E todas as maldições, misérias, febres, pestes, incêndios, ruínas, devastações, cancros, febres inglesas e pestes negras cairão sobre os Países-Baixos. Sim, e assim Deus será vingado desse vosso nojento: "Viva o mendigo!" E não ficará pedra sobre pedra das vossas casas, e nem um bocado de osso das vossas infames pernas que correram para estas prédicas se salvará. Assim seja, seja, seja, seja, seja, seja, Amem.”

- Vamo-nos embora, meu filho - disse Ulenspiegel a Lamme.

- É para já - respondeu Lamme.

E procurou por entre as belas e jovens devotas que assistiam ao sermão, mas não encontrou a mulher.

 

Ulenspiegel e Lamme chegaram a um local chamado "minne-Water" (Água do Amor), mas os grandes médicos e Wysneusen Savantasses dizem que é "Minre-Water" (Água dos Mínimos). Sentaram-se os dois, sob as árvores com grandes copas, cujas folhas, como uma abóbada baixa tocavam as suas cabeças, vendo passar homens, mulheres, raparigas e rapazes de mãos dadas, com flores na cabeça, caminhando anca contra anca, olhando-se ternamente nos olhos, sem verem mais nada neste mundo do que eles próprios.

Ulenspiegel via-os, pensando em Nele. No meio desta recordação melancólica, disse:

- Vamos beber.

Lamme, contudo, não ouviu Ulenspiegel, pois olhava também para os pares enamorados.

- Outrora também a minha mulher e eu passávamos apaixonados diante daqueles que estavam sentados à beira das valas como nós agora, sem mulher, solitários.

- Anda beber - dizia Ulenspiegel. - Encontraremos os Sete no fundo de um copo.

- Proposta de quem gosta de beber - respondia Lamme. - Bem sabes que os Sete são gigantes que só poderiam estar em pé dentro da grande igreja do Santo Salvador.

Pensando com tristeza em Nele, e também na possibilidade de encontrar uma boa hospedaria, com boa ceia e uma estalajadeira simpática, Ulenspiegel disse outra vez:

- Vamos beber!

Mas Lamme não o ouvia, e murmurava, olhando para a torre da igreja de Nossa Senhora:

- Virgem Maria, padroeira dos amores legítimos, permiti que eu volte a ver o alvo pescoço, a sua doce orelha.

- Anda beber - dizia Ulenspiegel. - Vais encontrá-la a servir bebidas numa taberna.

- Ousas pensar tão mal dela? - perguntou Lamme.

- Vamos beber - retorquiu Ulenspiegel. - É "baesine" algures, sem dúvida.

- Conversa de quem tem sede - dizia Lamme. Ulenspiegel prosseguiu:

- Talvez ela reserve para os pobres viajantes um prato de carne de vaca estufada com especiarias que perfumem o ar, não muito gorda, tenra, suculenta como folhas de rosas, e nadando como peixe de terça-feira de carnaval entre o cravo da índia, a noz moscada, cristas-de-galo, glândulas de vitela e outros manjares celestiais,

- Que mau! - interrompeu Lamme - queres fazer-me morrer, sem dúvida. Ignoras que desde há dois dias para cá só vivemos de pão seco e de cerveja?

- Palavras de quem tem fome - respondeu Ulenspiegel. Choras de apetite, vem comer e beber. Tenho meio florim que pagará a despesa do nosso repasto.

Foram buscar o carro e percorreram a cidade à procura da melhor hospedaria. Mas tendo visto vários "baes" aborrecidos e "baesines" com caras pouco complacentes, seguiram sempre, pensando que uma cara mal humorada é mau princípio para uma cozinha hospitaleira.

Chegaram ao mercado de sábado e entraram na hospedaria chamada "de Blauwe-Lanteera" (a Lanterna Azul). Estava ali um "baes" com boa cara.

Meteram a carroça na cocheira e mandaram levar o burro para o estábulo com um cesto de aveia. Encomendaram a ceia, comeram até ficarem saciados, dormiram bem, e levantaram-se para voltar a comer. Lamme, bem disposto, dizia:

- Oiço música celestial no estômago.

Quando chegou o momento de pagar, o "baes" foi ter com Lamme e disse-lhe:

- São dez patardes.

- Ele tem-nos - dizia-lhe Lamme mostrando Ulenspiegel que respondeu:

- Não tenho.

- E o meio florim? - admirou-se Lamme.

- Não tenho - respondeu Ulenspiegel.

- Bonita conversa - disse o "baes". - Vou tirar-vos o gibão e a camisa.

De súbito, com a coragem que a garrafa de vinho lhe dera, Lamme afirmou:

- E se eu quiser comer e beber, comer e beber, sim, beber por vinte sete florins e mais, faço-o. Pensas que não há bens nem dinheiro nesta barriga? Viva Deus! até agora só tinha sido alimentada com cencrâmides. Nunca tiveste abaixo da cintura uma camada de gordura. Como um patife, tens sebo na gola do gibão, e não, como eu, três dedos de bom toucinho na barriga!

O "baes" entrara em êxtase tal era a sua fúria. Gago por natureza, queria falar depressa; quanto mais se apressava, mais se engasgava, como um cão ao sair da água. Ulenspiegel deitava-lhe bolinhas de pão ao nariz. Lamme, animando-se, prosseguia:

“Sim, tenho com que pagar as tuas três galinhas magras, os teus quatro frangos sarnentos e este parvo deste pavão que passeia a cauda enlameada no pátio. E se a tua pele não fosse mais seca do que a de um galo velho, se os ossos do peito não se desfizessem em pó, ainda te comeria a ti, ao ranhoso do teu criado, à zarolha da tua criada e ao teu cozinheiro, que se por acaso fosse sarnento tinha os braços demasiado curtos para se coçar.

- Ora vejam - continuava. - Ora vejam esta bela ave, que por meio florim quer tirar o gibão e a camisa? Diz-me o que vale o teu guarda-roupa presunçoso esfarrapado, e eu dou-te três liardes.

Contudo, o "baes", cada vez mais colérico, engasgava-se cada vez mais. Ulenspiegel continuava a deitar-lhe bolas de pão à cara. E Lamme, como um leão, gritava:

- Quanto é que tu pensas, cara magra, que vale um belo burro, de focinho fino, orelhas compridas, peito largo, jarretas como ferro? Dezoito florins pelo menos, não é verdade, "baes" bexigoso? Quantos pregos velhos tens nos teus cofres para pagar um animal destes?

O "baes" gaguejava cada vez mais, e não ousava mexer-se. Lamme dizia:

- Quanto julgas tu que vale um belo carro em madeira de freixo, pintado de vermelho, protegido por um toldo de pano de Courtrai contra o Sol e as intempéries? Vinte e quatro florins, pelo menos, hein? E quantos são vinte e quatro florins mais dezoito florins? Responde, avarento pouco calculador. E como é dia de mercado, e como há camponeses na tua hospedaria tão ruim, vou vendê-los imediatamente.

O que ele fez, pois todos conheciam Lamme. E de facto recebeu pelo burro e pelo carro quarenta e dois florins e dez patardes. Então, fazendo tilintar o dinheiro debaixo do nariz do "baes", dizia-lhe:

- Cheiras aqui o fumo da boa comida que vai vir?

- Sim - respondia o estalajadeiro. E dizia baixinho:

- Quando venderes a tua pele compro um liarde dela para fazer um amuleto contra a prodigalidade.

Entretanto uma mulher pequenina e gentil que estava no pátio escuro vinha muitas vezes espreitar Lamme pela janela e retirava-se sempre que ele podia ver o seu rostozinho bonito.

À noite, na escada, quando subia sem luz, estrebuchando por causa do vinho que tinha bebido, sentiu uma mulher que o abraçava, o beijava no rosto, na boca, até mesmo no nariz, com avidez, molhando-lhe a cara com lágrimas amorosas, até que o deixou.

Lamme, ensonado por causa da bebida, deitou-se, dormiu, e no dia seguinte foi para Gante com Ulenspiegel.

 

Ali procurou a mulher em todos os "kaberdoesjen", nas tabernas, nos "tafelhooren" e tascas. À noite, encontrava-se com Ulenspiegel no "In den zingende Zwaan", (Cisne Cantante). Ulenspiegel andava por toda a parte espalhando o alarme e sublevando o povo contra os carrascos da terra dos seus antepassados.

Encontrando-se no mercado de Sexta-feira, perto de "Dulle-Griet" (o Grande Canhão), Ulenspiegel deitou-se de bruços no chão.

Chegou ao pé dele um carvoeiro que lhe disse:

- Que estás aí a fazer?

- Estou a molhar o nariz para saber de que lado vem o vento - respondeu Ulenspiegel.

Veio um marceneiro, que lhe perguntou:

- Confundes o chão com um colchão?

- Há quem em breve o tenha como coberta - respondeu Ulenspiegel.

Parou um monge que perguntou:

- Que está esse vitelo aqui a fazer?

- Pede de bruços a vossa bênção, meu padre - retorquiu Ulenspiegel.

O monge deu-lha e foi-se embora.

Ulenspiegel pôs a orelha no chão; veio um camponês.

- Ouves barulho lá em baixo?

- Sim - respondeu Ulenspiegel - oiço puxar a lenha que servirá para queimar os pobres hereges.

- Não ouves mais nada? - disse-lhe um sargento da Comuna.

- Oiço a polícia que vem de Espanha - replicou Ulenspiegel. - Se tens alguma coisa para guardar, enterra-a porque daqui a pouco as cidades deixarão de ser seguras por causa dos ladrões.

- É doido - retorquiu o polícia.

- É doido - repetiram os burgueses.

 

Entretanto, Lamme não comia, pensava no doce sonho da escada na "Blauwe-Lanteern". O coração impelia-o para Burgos, mas Ulenspiegel levou-o à força para Antuérpia, onde continuou as suas tristes buscas.

Quando estava nas tabernas, no meio de bons flamengos reformistas ou até mesmo de católicos amigos dos reformistas, Ulenspiegel dizia-lhes, a respeito dos editais:

- Trazem-nos a inquisição com o pretexto de nos livrarem da heresia, mas é para a nossa pele que este remédio servirá. Só não gostamos de ser medicamentados como nos agrada; zangar-nos-emos, revoltar-nos-emos e pagaremos em armas. O rei já sabia isto. Ao ver que não queremos o remédio, fará vir as seringas, ou seja, os falconetes e os canhões de boca larga. Limpeza real! Não ficará um único flamengo rico numa Flandres assim medicamentada. Feliz país, que tem um médico real como este. Mas os burgueses riam. Ulenspiegel dizia:

- Riam-se hoje, mas fujam ou armem-se no dia em que se partir qualquer coisa na igreja de Nossa Senhora.

 

No dia 15 de Agosto, o grande dia de Maria e da bênção da forragem e das raízes, quando, saciadas de milho, as galinhas são surdas aos chamamentos de amor dos galos, foi quebrado numa das portas de Antuérpia um grande crucifixo de pedra, obra levada a cabo por um italiano pago pelo cardeal de Granvelle. Mas a procissão da Virgem, precedida de bobos vestidos de verde, amarelo e encarnado, saiu da igreja de Nossa Senhora. Só que a imagem da Virgem, insultada no caminho por homens desconhecidos, foi trazida precipitadamente para o coro da igreja, cujas grades foram fechadas.

Ulenspiegel e Lamme entraram na igreja de Nossa Senhora. Jovens maltrapilhos andrajosos e alguns homens que ninguém conhecia, estavam em frente do coro fazendo sinais e trejeitos. Faziam muito barulho com os pés e com a língua. Nunca ninguém os tinha visto em Antuérpia e nunca ninguém os viu. Um deles, com cara de cebola queimada, perguntou se Mieke (Nossa Senhora) havia tido medo, para ter entrado assim tão precipitadamente na igreja?

- Não foi de ti que ela teve medo, moreno vilão - respondeu Ulenspiegel.

O jovem a quem ele se dirigia avançava para lhe bater, mas Ulenspiegel, agarrando-o pela gola, disse-lhe:

- Se me bates faço-te vomitar a língua.

Depois, voltou-se para alguns homens de Antuérpia que estavam ali e declarou, mostrando os jovens maltrapilhos :

- "Signorkes et pagaders", desconfiem, são flamengos falsos, traidores pagos para nos induzirem ao mal, à miséria e à ruína. Depois, dirigindo-se aos desconhecidos:

- Eh! Focinhos de burros definhando de miséria, onde conseguiram dinheiro que hoje ouvimos tilintar nos vossos bolsos? Venderam antecipadamente a vossa pele para fazerem tambores?

- Olha o pregador! - disseram os desconhecidos.

E puseram-se a gritar ao mesmo tempo, falando de Nossa Senhora:

- Mieke tem um belo vestido! Mieke tem uma bela coroa! Vou dá-los à minha romeira!

Saíram, enquanto um deles subia ao púlpito para fazer propostas loucas e os outros voltaram berrando:

- Desce, Mieke, desce porque senão vamos buscar-te. Faz um milagre para vermos se sabes andar tão bem como sabes ser transportada, Mieke, a preguiçosa.

Mas Ulenspiegel gritava:

- Obreiros da ruína, acabem com as vossas vis propostas. toda a pilhagem é um crime!

Não pararam, apesar disso, com os discursos, e alguns falavam em arrombar a grade do coro para obrigar a Mieke a descer.

Ouvindo isto, uma velha que vendia velas na igreja deitou-lhes à cara as cinzas da braseira; mas agrediram-na e deitaram-na ao chão, e o barulho recomeçou.

O margrave apareceu com os polícias. Vendo toda aquela multidão, incitou-os a saírem da igreja, mas de uma forma tão branda que só alguns é que obedeceram; os outros disseram:

- Queremos primeiro ouvir os cónegos cantarem vésperas em honra de Mieke.

O margrave respondeu:

- Não cantarão.

- Cantamos nós - responderam os desconhecidos andrajosos. E cantaram nas naves e junto do pórtico da igreja.

Alguns jogavam aos "krieke-steenen" (caroços de cereja) e diziam:

- Mieke, nunca joga no paraíso e por isso aborreces-te. Joga connosco.

E insultavam a imagem; gritavam, vaiavam, e assobiavam.

O margrave fingiu estar amedrontado e foi-se embora. Por ordem dele, todas as portas da igreja, com excepção de uma foram fechadas.

Sem que a multidão se misturasse, o grupo dos desconhecidos tornou-se mais ousado e vociferava ainda mais. E as abóbadas ressoavam como se lá dentro troassem cem canhões.

Um deles, o da cara de cebola queimada, que parecia ter uma certa autoridade, subiu ao púlpito e fazendo um gesto com a mão começou a pregar.

- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, os três são um só e num só estão os três. Deus nos livre no Paraíso da aritmética; neste dia vinte e nove de Agosto, Mieke saiu vestida com toda a pompa para mostrar o rosto de madeira aos "signorkes e pagaders" de Antuérpia. Contudo, Mieke, na procissão, encontrou o diabo Satanás, e Satanás disse-lhe, troçando dela: “Aqui estás tu tão orgulhosa e ataviada como uma rainha, Mieke, levada por quatro "signorkes", e já não queres olhar para o pobre "pagader" Satanás, que caminha a pé.” E a Mieke respondeu:

“ - Vai-te Satanás, senão esmago-te ainda mais a cabeça, serpente vil! “ - Mieke - disse Satanás - é isso que fazes há mil e quinhentos anos, mas o Espírito do Senhor libertou-me. Sou mais forte do que tu, não voltarás a passar sobre a minha cabeça e agora vou-te fazer dançar.

“Satanás pegou num chicote grande, muito áspero, e começou a bater em Mieke, que não se atrevia a gritar com medo de mostrar o seu terror. Então começou a correr, forçando os "signorkes" que a levavam a correr também, para não a deixarem cair com a coroa de ouro e as jóias para cima do pobre povo. E agora a Mieke está refugiada e transida no seu nicho, olhando para Satanás, que está ali sentado no alto da coluna, sob a abóbada mais pequena, e que, segurando o chicote e troçando, lhe diz:

“- Far-te-ei pagar o sangue e as lágrimas que correram em teu nome! Mieke, como vai o teu comportamento virginal! Chegou a hora de sair desse lugar. Cortar-te-ão em duas, imagem má de madeira, por todas as imagens de carne e osso que foram queimadas, enforcadas, enterradas vivas sem piedade sempre em teu nome.

“Assim falou Satanás; e falou bem. É preciso fazer-te descer do teu nicho, Mieke, a Sanguinária, Mieke, a Cruel que não és parecida com o teu filho Cristo.”

E todo o grupo de desconhecidos, apupando e gritando, vociferou:

“- Mieke! Mieke! Chegou a hora de sair! Aí, no teu nicho, estás a molhar a roupa com medo? Sus, Brabante ao bom duque! Tirai os santos de madeira! Que vão tomar banho no Escalda! A madeira nada melhor do que os peixes!

A multidão escutava-os sem nada dizer.

Ulenspiegel, subindo a escada, obrigou o outro pela força, a descer, e disse às pessoas ali reunidas:

“Doidos varridos, doidos lunáticos, doidos e palermas, não conseguem ver para além dos vossos ranhosos narizes, não percebem que tudo isto é obra de traidores? Querem fazer de vós sacrílegos e ladrões para vos declararem rebeldes, esvaziarem os vossos cofres, para vos decapitarem e queimarem vivos! E o rei herdará. "Signorkes et pagaders", não devem dar crédito às palavras destes obreiros da infelicidade: deixem Nossa Senhora no seu nicho, vivam com convicção, trabalhem com alegria, dispondo dos vossos ganhos e benefícios. O demónio negro da ruína tem o olho em vós, e se vocês se entregarem a pilhagens e ruínas, chamará o exército inimigo para vos tratar como rebeldes e fazer reinar sobre vós a ditadura de Alba, a inquisição, a confiscação e a morte! E ele herdará!

- Ai de vós - dizia Lamme - não pilhem, "signorkes et pagaders". O rei já está muito zangado. A filha da bordadoura disse isso ao meu amigo Ulenspiegel. Não pilhem, senhores!

Mas a multidão não o ouvia. Os desconhecidos gritavam:

- Saque e desalojamento! Saque, Brabante ao bom duque! A água, os santos de madeira! Nadam melhor do que os peixes!

Ulenspiegel, no púlpito, gritava em vão:

- "Signorkes et pagaders", não deixem fazer a pilhagem! Não chamem a ruína sobre esta cidade!

Foi arrancado dali com a cara arranhada, o gibão e os calções rasgados, e apesar de ir de cabeça para baixo continuava a gritar:

- Não deixem fazer a pilhagem.

Mas foi em vão. Os desconhecidos e os vadios da cidade arremessaram-se contra a grade que arrombaram, gritando :

- Viva o mendigo!

A sua passagem gozavam a partir, a pilhar e a destruir. Antes da meia-noite, a grande igreja, onde havia setenta altares, toda a espécie de belas pinturas e de objectos preciosos, ficou vazia como uma noz. Os altares foram partidos, as imagens deitadas ao chão e todas as fechaduras arrombadas.

Feito isto, os mesmos desconhecidos puseram-se a caminho para tratarem da mesma forma a igreja dos Irmãos-Menores, os Franciscanos, S. Pedro, Santo André, S. Miguel, S. Pedro do Pote, o Burgo, os Fawkens, as Irmãs Brancas, as Irmãs-Cinzentas, a Terceira Ordem, os Pregadores, todas as igrejas e capelas da cidade. Pegaram nas velas e nos archotes e percorreram assim toda a urbe.

Não houve entre eles querela ou debate; nenhum deles ficou ferido neste derrubar de pedras, de madeira e de outros materiais.

Apresentaram-se na Haia para proceder à destruição das imagens e dos altares sem que ali ou em qualquer outro local os reformados lhe prestassem auxílio.

Na Haia, o magistrado perguntou-lhes onde estava a comissão.

- Está aqui - respondeu um deles, batendo no coração.

- A comissão! Ouvem, "signorkes" e "pagaders"? - comentou Ulenspiegel, ao ter conhecimento do facto. Há alguém que os encarregou desta tarefa de sacrílegos. Se entrar na minha casa um ladrão, farei como o magistrado da Haia, direi, tirando o boné: “Gentil ladrão, gracioso vadio, venerável biltre, mostra-me a tua comissão.” Ele diz-me que está no seu coração ávido pelos meus bens. E eu dou-lhe as chaves de tudo. “Pensem, pensem, em quem tira lucro desta pilhagem. Desconfiem do Cão Vermelho; o crime está cometido, vão castigá-lo. Desconfiem do Cão Vermelho.

O grande crucifixo de pedra foi derrubado. Desconfiem do Cão Vermelho.”

O Grande Conselho de Malinas ordenou entretanto, através do seu presidente Viglius, que não se levantasse qualquer obstáculo à destruição das imagens:

- Ai! A seara está madura para os ceifeiros espanhóis. O duque! O duque marcha sobre nós. Flamengos, o mar sobe, o mar de vingança. Pobres mulheres e raparigas, fujam da fossa! Pobres homens, fujam da forca, do fogo e da espada! - clamava Ulenspiegel. - Filipe quer terminar a obra sangrenta de Carlos. O pai semeou a morte e o exílio; o filho jurou que preferia reinar sobre um cemitério do que sobre um povo de hereges. Fujam, vêm aí o carrasco e os coveiros.

A multidão ouvia Ulenspiegel e as famílias, às centenas, deixavam as cidades, enchendo as estradas com os carros carregados de móveis daqueles que partiam para o exílio.

E Ulenspiegel andava por todo o lado, seguido de Lamme, triste que procurava os seus amores.

E em Damme, Nele chorava ao pé de Katheline, a louca.

 

Estando em Gante no mês da cevada, que é Outubro, Ulenspiegel viu Egmont que voltava de uma festa na nobre companhia do abade de S. Bavon. Bem disposto, levava o cavalo a passo. De súbito, viu um homem que, segurando uma lanterna, ia a pé ao lado dele.

- Que queres de mim? - perguntou Egmont.

- Bem - replicou Ulenspiegel - bem de lanterna, quando está acesa.

- Vai-te embora e deixa-me - respondeu o conde.

- Não vou - retorquiu Ulenspiegel.

- Queres uma chicotada?

- Queria dez se te pudesse meter na cabeça uma lanterna que te permitisse ver claro daqui para o Escurial.

- Não me interessa a tua lanterna para nada, nem o Escurial- respondeu o conde.

- Pois bem - respondeu Ulenspiegel. - Eu estou ansioso por vos dar um bom conselho.

Depois, pegando na rédea do cavalo do conde, que escoucinhava e se empinava:

- Senhor, pensa que agora danças bem no teu cavalo e que a cabeça também dança bem sobre os teus ombros; mas o rei quer, dizem, interromper esta bela dança, deixar-te o corpo, mas ficar com a cabeça e fazê-la dançar em terras tão longínquas que nunca mais a poderás agarrar. Dá-me um florim, porque o ganhei.

- O chicote, se não te vais embora, mau conselheiro.

- Senhor, sou Ulenspiegel, filho de Claes, queimado vivo pela fé, e de Soetkin, morta de dor. As cinzas que batem no meu peito dizem-me que Egmont, o bravo soldado, pode com a guarda que comanda opor-se ao duque de Alba e às suas tropas três vezes vitoriosas.

- Vai-te embora - respondeu Egmont. - Não sou traidor.

- Salva o país; só tu o podes fazer - retorquiu Ulenspiegel.

O conde queria chicotear Ulenspiegel, mas este já tinha

fugido gritando:

- Comei lanternas, comei lanternas, senhor conde.

Salvai o país.

Um outro dia Egmont estava com sede e parou em frente da estalagem de "In't bondt verken" (Porco Sarapintado), propriedade de uma mulher de Courtrai, pequena, a quem chamavam Musekin, a Ratinha. O conde, levantando-se nos estribos, gritou:

- Uma bebida!

Ulenspiegel, que estava a trabalhar para a Musekin, chegou junto do conde com uma taça de estanho numa mão e uma caneca cheia de vinho tinto na outra.

O conde vendo-o, disse-lhe:

- Olha quem aqui está, o corvo do negro augúrio?

- Senhor - respondeu Ulenspiegel - se o meu augúrio é negro é porque está mal lavado; mas podeis dizer-me qual deles é mais vermelho, se o vinho que corre pela garganta ou o sangue que corre do pescoço? É o que a minha lanterna perguntava.

O conde não respondeu, mas pagou e partiu.

 

Ulenspiegel e Lamme, montados cada um em seu burro, os quais lhes tinham sido dados por Simon Simonsen, um dos partidários do príncipe de Orange, iam por toda a parte, advertindo os burgueses acerca dos negros e sangrentos desígnios do rei, sempre à espreita para saberem as novidades que vinham da Espanha.

Vendiam legumes, estavam vestidos como os camponeses e corriam todos os mercados.

Voltando de Bruxelas, viram numa casa de pedra, do cais de Briques, numa sala baixa, uma bela dama vestida de cetim, corada, pescoço bonito e olhos vivos.

Dizia a uma cozinheira, jovem e fresca:

- Limpa esta frigideira, não gosto do molho com ferrugem.

Ulenspiegel meteu o nariz pela janela.

- Pois eu gosto de todos, porque barriga esfomeada não escolhe petiscos.

A mulher voltando-se perguntou:

- Quem é este homem que se vem meter com o meu caldo?

- Bem! Bela dama - respondeu Ulenspiegel. - Se quiseres um pouco da minha companhia, ensinar-vos-ei guisados de viajante desconhecidos de belas damas sedentárias.

Depois, dando estalos com a língua, disse:

- Tenho sede.

- De quê?

- De ti.

- É um homem bonito - disse a cozinheira à dama. Vamos mandá-lo entrar para que nos conte as suas aventuras.

- Mas são dois - afirmou a dama.

- Tomarei conta de um - retorquiu a cozinheira.

- Minha senhora - replicou Ulenspiegel - somos dois, é verdade, eu e o meu pobre Lamme, que não pode com cem libras às costas, mas que leva de boa vontade, quinhentas no estômago em carnes e bebidas.

- Meu filho - disse Lamme - não te preocupes comigo, este infeliz a quem a barriga custa tanto a encher.

- Hoje não te custará - afirmou a dama. - Entrem

os dois.

- Mas - acrescentou Lamme - há também os dois burros em que estamos montados.

- Não falta aveia no estábulo do senhor conde de Meghem.

A cozinheira deixou a frigideira e encontrou no pátio Ulenspiegel e Lamme, cujos burros se puseram imediatamente a zurrar.

- É a fanfarra do alimento próximo - declarou Ulenspiegel. - Anunciam a sua alegria, os pobres burros!

Tendo desmontado, Ulenspiegel disse à cozinheira:

- Se fosses burra, querias um burro como eu?

- Se fosse mulher - respondeu ela - queria um jovem de rosto alegre.

- Que és tu afinal, se não és nem mulher nem burra? - perguntou Lamme.

- Sou virgem e uma virgem não é mulher nem burra: compreendes, barriga gorda?

Ulenspiegel disse a Lamme:

- Não acredites, é metade de uma louca e um quarto de duas diabas. A sua malícia carnal já lhe valeu um lugar no inferno, num colchão, a cuidar de Belzebu.

- Que trocista - disse a cozinheira. - Se os teus cabelos fossem de crina não os queria nem para passar por cima.

- Eu por mim - replicou Ulenspiegel - queria comer todos os teus cabelos.

- Língua dourada - disse-lhe a dama - precisas de todos?

- Não - respondeu Ulenspiegel - chegavam mil fundidos numa só como vós.

A dama disse-lhe:

- Bebe primeiro um copo de "bruinbier", come um bocado de presunto, corta desta perna de carneiro, abre esta empada, experimenta esta salada.

Ulenspiegel juntou as mãos, comentando:

- O presunto é boa carne; a "bruinbier", cerveja celeste; a perna de carneiro, carne divina; uma empada que se abre faz tremer de prazer a língua na boca; uma salada gorda é manjar principesco. Mas abençoado será aquele a quem

dês a cear a tua beleza.

- Vejam como ele tagarela. Come primeiro, valdevinos.

Ulenspiegel respondeu:

- Não dizemos o "benedicite" antes das graças?

- Não - respondeu ela. Lamme queixava-se:

- Tenho fome.

- Vais comer porque não tens outro prazer além da carne cozida.

- E fresca como era a minha mulher – respondeu Lamme.

A cozinheira ficou aborrecida com isto. Comeram até fartar e beberam muito. E a dama ainda deu ceia nessa noite a Ulenspiegel, bem como na noite seguinte e nas outras.

Os burros tiveram ração dupla de aveia e Lamme teve também ração dupla. Durante uma semana, não deixou a cozinha e brincava com os pratos. Mas não com a cozinheira, pois pensava na mulher.

Isto enfurecia a rapariga, que dizia não valia a pena estar a atravancar o pobre mundo para pensar só no ventre.

Entretanto, Ulenspiegel e a dama viviam amistosamente. E ela disse-lhe um dia:

- Thyl, tu não tens bons costumes: quem és tu?

- Sou um filho que o Feliz Acaso teve um dia da Boa

Ventura.

- Não dizes mal de ti.

- É com medo que os outros não me elogiem - respondeu Ulenspiegel.

- Tomarias a defesa dos teus irmãos que são perseguidos.'

- As cinzas de Claes batem no meu peito - respondeu Ulenspiegel.

- Como és belo! Quem é esse Claes? Ulenspiegel respondeu:

- O meu pai queimado pela fé.

- O conde de Meghem não se parece contigo; quer fazer sangrar a pátria que amo, porque nasci em Antuérpia, a cidade gloriosa. Sabes que ele assinou um acordo com o conselheiro de Brabante Scheyf para fazer entrar em Antuérpia dez bandeiras de infantaria.

- Denunciá-lo-ei aos burgueses - afirmou Ulenspiegel e vou lesto como um fantasma.

Foi, e no dia seguinte os burgueses estavam armados.

Todavia, Ulenspiegel e Lamme, tendo deixado os burros em casa de um rendeiro de Simon Simonsen, tiveram que se esconder por causa do conde de Meghem, que os tinha mandado procurar por toda a parte para os prender, pois tinham-lhe dito que dois hereges haviam bebido do seu vinho e comido da sua carne.

Tinha ciúmes. Disse-o à sua bela mulher, que rangia os dentes de cólera, chorava e desmaiou dezassete vezes. A cozinheira fez o mesmo, mas não tantas vezes, e declarou sobre a sua parte no paraíso e a salvação eterna da sua alma que nem ela nem a sua senhora tinham feito mais nada além de darem jantar a dois pobres peregrinos, que montados nuns miseráveis burros, tinham parado à janela da cozinha.

E ele foi-se embora nesse dia, satisfeito com tantas lágrimas que humedeciam o chão. Ao ver isto, o senhor de Meghem teve a certeza que elas não estavam a mentir-lhe.

Lamme não ousou voltar a casa do senhor de Meghem, porque a cozinheira zombava sempre: “A minha mulher!”

Estava pois muito triste, ao pensar nos petiscos, mas Ulenspiegel trazia-lhe sempre um bom prato, porque entrava em casa pela rua de Santa Catarina e escondia-se no celeiro.

No dia seguinte, à hora das vésperas, o conde de Meghem confessou à sua bela mulher que tinha resolvido fazer entrar a guarda que comandava em Bois-le-Duc, antes do nascer do dia. Depois adormeceu. A bela mulher foi ao celeiro contar a novidade a Ulenspiegel.

 

Vestido de peregrino, Ulenspiegel partiu imediatamente, sem provisões e sem dinheiro, para Bois-le-Duc, a fim de prevenir os burgueses. Contava arranjar um cavalo em casa de Jeroen Praet, irmão de Simon, para o qual tinha cartas do príncipe, e dali seguir a grande velocidade, por atalhos, até Bois-le-Duc.

Ao atravessar a calçada, viu surgir um grupo de soldados. Teve medo, por causa das cartas.

Mas, resolvido a apresentar boa cara apesar do mau encontro, esperou a pé firme pelos soldados e parou murmurando Pai-Nossos, e quando passaram, seguiu com eles, ficando a saber que iam para Bois-le-Duc.

Um porta-bandeira valão abria a marcha. À frente ia o capitão Lamotte, com a sua guarda de seis alabardeiros; depois, segundo a sua categoria, a bandeira com uma guarda menor, o preboste, os alabardeiros e os seus dois guardas, o chefe da ronda e o guarda-bagagens, o carrasco e o seu ajudante, pífaros e tamborins, que faziam grande barulho.

Vinha em seguida uma bandeira flamenga de duzentos homens, com capitão, porta-bandeira, dividida em duas centúrias comandadas por sargentos, soldados principais, e em decúrias comandadas pelos "rotmeesters". O preboste e os "stocks-knechten" (ajudantes de bastão) eram igualmente precedidos por pífaros e tamborins, que batiam e guinchavam.

Atrás deles vinham em dois carros descobertos, rindo, chilreando como toutinegras, cantando como rouxinóis, comendo, bebendo, dançando, de pé, deitadas ou escarranchadas, as suas companheiras, raparigas belas e tolas.

Algumas estavam vestidas como lansquenés, mas de tecido fino branco, decotada”, com uma espécie de aberturas que deixavam ver as suas carnes delicadas nos braços, nas pernas e no peito; toucas de linho fino debruadas a ouro, com belas plumas de avestruz adejando ao vento. Na cintura, de faixa de cetim vermelho, pendiam punhais de capas douradas. E os sapatos, as meias, os calções, os gibões, os atacadores, as guarnições, tudo era feito de ouro e seda branca.

Outras estavam vestidas de lansquenés, mas em azul, verde, escarlate, azul escuro, carmesim, com bordados e armas segundo a sua fantasia. E todas tinham no braço a rodela de cor que indicava o seu ofício.

Um "hoer-wyfel" o seu chefe, queria fazê-las calar; mas os seus trejeitos e palavras, obrigavam-no a rir-se, e não obedeciam.

Ulenspiegel, vestido de peregrino, seguia junto das duas bandeiras, como um batelzinho ao lado de um grande navio.

De súbito, Lamotte disse-lhe:

- Para onde vais peregrino?

- Senhor comandante - respondeu Ulenspiegel, que tinha fome - fiz outrora um grande pecado e fui condenado pelo capítulo da igreja de Nossa Senhora a ir a Roma, a pé, pedir perdão ao Santo Padre, que me perdoou. Voltei lavado a estas terras com a condição de pregar na estrada todos os santos mistérios a todos e qualquer soldado que encontrasse, os quais devem pelos meus sermões dar-me pão e carne. Dá-me licença para cumprir a minha promessa na próxima paragem?

- Sim - respondeu o senhor de Lamotte. Ulenspiegel, misturando-se fraternalmente com os valões e os flamengos, tacteava as cartas que tinha debaixo do gibão. As raparigas diziam-lhe:

- Peregrino, belo peregrino, sobe para aqui, mostra-nos a força das tuas escamas.

Aproximou-se delas e disse modestamente:

- Minhas irmãs em Deus, não trocem do pobre peregrino que vai por montes e vales pregar a santa fé aos soldados.

E comia com os olhos aquelas graciosas raparigas. Mas as jovens, metendo a cabeça por entre a cobertura dos carros, respondiam com uma expressão radiante:

- És muito novo para pregar aos soldados. Sobe para os nossos carros, e nós te ensinaremos palavras doces.

Ulenspiegel teria obedecido de boa vontade, mas não podia por causa das cartas; já duas entre elas passando os braços redondos e brancos para fora do carro, tentavam içá-lo para dentro, quando o "hoer-wyfel", ciumento, disse a Ulenspiegel:

- Se não te vais embora, espanco-te.

E Ulenspiegel afastou-se, olhando de soslaio para as frescas raparigas douradas do Sol que brilhava claro sobre o caminho.

Chegaram a Berchem. Filipe de Lannoy, senhor de Beauvoir, comandante dos flamengos, mandou parar.

Neste lugar havia um castanheiro de altura mediana, sem ramos, com excepção de um, partido pelo meio, no qual tinham enforcado, no mês anterior, um anabaptista.

Os soldados pararam, os cantineiros foram ter com eles, venderam-lhes pão, vinho, cerveja, carnes de todas as espécies. Quanto às raparigas, venderam-lhes açúcar, amêndoas e tortazinhas. Ao ver isto, Ulenspiegel ainda sentiu mais fome.

De súbito, trepando como um macaco pela árvore, escarranchou-se no ramo grosso que estava a sete pés da terra; ali castigando-se com um chicote enquanto os soldados e as raparigas faziam círculo em volta dele, ia dizendo:

- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. “Quem dá aos pobres empresta a Deus; soldados e vós, belas damas, companheiras de amor destes valorosos guerreiros, emprestai a Deus, isto é, dai-me o pão, a carne, o vinho, a cerveja, se quiserdes, as tortazinhas não desagradam, e Deus, que é rico, retribuir-vos-á em pedaços de cen-crâmides, em regatos de malvasia, em montanhas de açúcar cristalizado, em "rystpap", que comereis no paraíso com colheres de prata.” Depois, lamentando-se:

- Não vêem com que cruéis sacrifícios tento merecer o perdão dos meus pecados? Não quereis aliviar a dor aguda deste chicote que me fere as costas e as faz sangrar?

- Quem é este doido? - perguntaram os soldados.

- Meus amigos - prosseguiu Ulenspiegel. - Não sou doido, mas arrependido e esfomeado; porque, enquanto o meu espírito chora os seus pecados, o meu ventre chora a ausência de carne. Abençoados soldados e vós, belas raparigas, vejo entre vós presunto gordo, pato, salsichas, vinho, cerveja, tortazinhas. Será que não dais nada ao pobre peregrino?

- Sim, sim - responderam os soldados. - Tem boa cara, o pregador.

E todos lhe deitaram bocados de alimentos como se fossem bolas. Ulenspiegel não se calava e comia escarranchado no ramo:

- A fome torna o homem duro e inapto para a oração, mas o presunto levanta imediatamente o moral.

- Arreda! Oh, tu, que tens pancada na mola! - disse o sargento da companhia, deitando-lhe uma garrafa meio cheia.

Ulenspiegel apanhou a garrafa no ar, e bebendo com golos pequeninos, dizia:

- Se a fome aguda furiosa é coisa nociva para o pobre corpo do homem, há outra também perniciosa: é a angústia de um pobre peregrino ao qual um soldado generoso deu um bocado de presunto e outro deu uma garrafa de cerveja. E isto porque é habitualmente sóbrio, e se bebesse tendo no estômago pouco alimento, ficaria imediatamente embriagado.

Enquanto falava, apanhou no ar uma perna de pato.

- Isto é uma coisa miraculosa, pescar no ar um peixe de pradaria. Mas desapareceu com o osso. O que é que há mais ávido que a areia seca? É uma mulher estéril e um estômago esfomeado.

Sentiu então um ferro de alabarda picando-o no traseiro. Ouviu um soldado dizer:

- Os peregrinos desdenham agora de uma perna de carneiro?

Ulenspiegel viu, espetado no ferro da alarbarda, um grande bocado de perna de carneiro. Agarrando-o, afirmou:

- Osso por osso prefiro este entre os meus dentes. (1) Vou fazer uma flauta com o osso para cantar os teus louvores, alabardeiro misericordioso. Todavia - dizia roendo o osso - o que é uma refeição sem sobremesa, o que é uma perna de carneiro por muito suculenta que seja, se depois o peregrino não vê subir o rosto abençoado de uma tortazinha?

Dizendo isto, levou a mão à cara, porque duas tortas que vinham do grupo das raparigas se tinham esmagado contra um olho e contra a face. E enquanto as raparigas riam, Ulenspiegel agradecia:

- Muito obrigado, gentis raparigas, por estas pancadinhas de doces.

Mas as tortazinhas tinham caído ao chão.

De repente, os tambores soaram, os pífaros soltaram os seus gritos agudos e os soldados puseram-se em marcha.

O senhor de Beauvoir disse a Ulenspiegel para descer da árvore e caminhar ao lado dos soldados de quem ele queria estar a cem léguas de distância,

 

*(1) “Manche pour manche, j'aime mieux celui-ci entre mes dents que l'autre à mon pourpoint”. O autor joga aqui com os significados das palavras le manche - (osso de uma perna de carneiro por onde se pega) e la manche - (a manga) trocadilho que em português não se pode fazer.

 

porque sentia pelas palavras de alguns e pelas expressões carrancudas, que suspeitavam dele e o mandariam prender se lhe encontrassem as cartas. Então, deixando-se cair na valeta, começou a gritar:

- Piedade, senhores soldados, a minha perna está partida, não posso andar mais, deixem-me subir para o carro das raparigas. Sabia, contudo, que o "hoer-wyfel', ciumento, não lhe permitiria fazê-lo. Elas dos carros gritavam-lhe:

- Vem, gentil peregrino, vem. Cuidaremos de ti, acariciar-te-emos, alegrar-te-emos e num dia curar-te-emos.

- Eu sei - afirmava ele - mão de mulher é bálsamo celeste para todas as feridas.

Todavia o "hoer-wyfel', ciumento, disse ao senhor de Lamotte:

- Senhor, estou convencido que este peregrino está a troçar de nós, ao dizer que tem a perna partida, para subir para o carro das raparigas. Mandai que o deixem no caminho.

- Está bem - respondeu o senhor de Lamotte. E Ulenspiegel ficou na valeta.

Alguns soldados, julgando que ele tinha realmente partido a perna, ficaram aborrecidos com isso por causa da sua alegria. Deixaram-lhe carne e vinho para dois dias. As raparigas queriam ir socorrê-lo, mas como não podiam, deitaram-lhe todos os bolos que lhes restavam.

Quando as tropas já estavam longe, Ulenspiegel fugiu pelos campos com o fato de peregrino, comprou um cavalo e, por caminhos e por atalhos, entrou como o vento em Bois-le-Duc. À notícia da chegada dos senhores de Beauvoir e de Lamotte, oitocentos homens da cidade pegaram em armas, elegeram os comandantes e mandaram Ulenspiegel, disfarçado de carvoeiro, a Antuérpia a fim de pedir auxílio ao Hércules-Bebedor Brederode.

E os soldados dos senhores de Lamotte e Beauvoir não puderam entrar em Bois-le-Duc, cidade vigilante, preparada para uma defesa valorosa.

 

No mês seguinte, um certo doutor Agileus deu dois florins a Ulenspiegel e cartas com as quais se devia apresentar em casa de Simon Praet, que lhe diria o que tinha a fazer.

Ulenspiegel encontrou em casa de Praet tecto e alimentação. O sono era bom, boa também a sua cara florescente de juventude; Praet, pelo contrário, triste e carrancudo, parecia sempre entregue a maus pensamentos. E Ulenspiegel espantava-se de ouvir marteladas, à noite, se por acaso acordava.

Por mais cedo que se levantasse, Simon Praet já estava a pé, carrancudo e com uns olhos tão tristes e brilhantes como os de um homem que se prepara para a morte ou para uma batalha.

Praet suspirava muitas vezes, juntando as mãos para rezar, e parecia sempre indignado. Os dedos estavam negros e gordurosos, bem como os braços e a camisa.

Ulenspiegel resolveu saber de onde é que vinham as marteladas, e o negrume dos braços e a melancolia de Praet. Uma noite, depois de ter estado em "Blauwe Gans" na taberna do “Pato Azul”, em companhia de Simon, que tinha ido bem contra sua vontade, acabou por fingir estar tão embriagado e sentir tanto o peso da bebida na cabeça, que tinha de a deitar imediatamente no travesseiro. E Praet levou-o tristemente para casa. Ulenspiegel dormia no celeiro, perto dos gatos; a cama de Simon era em baixo, perto da adega.

Continuando a fingir-se embriagado, Ulenspiegel subiu a escada, estrebuchando, fingindo que ia a cair e agarrando-se à corda. Simon ajudou-o com cuidados fraternos. Tendo-o deitado, lastimando a sua bebedeira, e pedindo a Deus para lhe perdoar, desceu, e daí a pouco Ulenspiegel ouviu as mesmas marteladas que tantas vezes o tinham

acordado.

Levantando-se sem fazer barulho, desceu descalço uns degraus estreitos, tão cuidadosamente que depois de contar setenta e dois, encontrou-se diante de uma porta baixa, de onde saía luz por uma greta.

Simon imprimia folhas volantes com caracteres antigos do tempo de Laurens Coster, grande propagador da nobre arte da imprensa.

- Que estás a fazer? - perguntou Ulenspiegel. Simon respondeu-lhe aterrorizado:

- Se és do diabo, denuncia-me, que eu morro; mas se és de Deus, que a tua boca seja a prisão da tua língua.

- Sou de Deus - respondeu Ulenspiegel - e não te quero mal nenhum. Que estás a fazer?

- Estou a imprimir Bíblias - respondeu Simon. - Porque se de dia, para que a minha mulher e os meus filhos possam viver, publico editais maus e cruéis de Sua Majestade, à noite semeio a verdadeira palavra de Deus, e reparo assim o mal que fiz durante o dia.

- És corajoso - retorquiu Ulenspiegel.

- Tenho fé - respondeu Simon.

De facto, foi nesta santa tipografia que saíram as Bíblias em flamengo que se espalharam pelas terras de Brabante, de Flandres, da Holanda, da Zelândia, de Utreque Noord-Brabante, do Overissel, da Gelderland, até ao dia em que Simon foi condenado à morte pela guilhotina, acabando assim a sua vida por Cristo e pela justiça.

 

Simon disse um dia a Ulenspiegel:

- Escuta, irmão, tens coragem?

- Tenho coragem - respondeu Ulenspiegel - para chicotear um espanhol até que a morte sobrevenha, para matar um assassino, para destruir um homicida.

- Saberás - perguntou o impressor - aguentar-te pacientemente numa chaminé para escutar o que se está a dizer numa sala?

Ulenspiegel respondeu:

- Tendo, pela graça de Deus, rins fortes e joelhos flexíveis, posso ficar muito tempo onde quiser, como um gato.

- Tens paciência e memória? - perguntou Simon.

- As cinzas de Claes batem no meu peito - respondeu Ulenspiegel.

- Ouve então - disse o impressor. - Levas esta carta de jogar assim dobrada a Dendermonde, bates duas vezes com força e uma devagar à porta da casa cujo desenho está aqui. Virá alguém abrir-ta e perguntar-te-á se és o limpa-chaminés; responderás que és magro e que não perdeste a carta. Mostrá-la-ás. Então, Thyl, farás o que deves.

“Grandes infelicidades pairam sobre a terra de Flandres. Ser-te-á mostrada uma grande chaminé convenientemente preparada e varrida; encontrarás aí ganchos bons para os joelhos e para o teu assento uma prancha de madeira bem firme. Quando aquele que te abriu a porta te disser para subires para a chaminé, subirás e ficarás no teu esconderijo. Ilustres senhores vão reunir-se na sala diante da chaminé em que te encontras. São Guilherme, o Calado, príncipe de Orange, os condes d'Egmont, de Hoorn, de Hoogstraeten e Ludwig de Nassau, irmão do valente Calado. Nós, reformistas, queremos saber o que os senhores pretendem e o que podem empreender para salvar o país. No dia 1 de Abril, Ulenspiegel fez o que lhe tinha sido dito e instalou-se na chaminé. Ficou satisfeito por verificar que o lume não estava aceso e pensou que não havendo fumo poderia ouvir melhor.

Daí a pouco abriu-se a porta da sala e sentiu uma corrente de ar. Suportou este vento com paciência, dizendo que lhe refrescaria a atenção.

Depois ouviu o senhor de Orange, de Egmont e os outros entrarem na sala. Começaram a falar dos receios que sentiam, da cólera do rei e da má administração dos dinheiros e das finanças. Um deles falava num tom áspero, alto e claro, era Egmont. Ulenspiegel reconheceu-o, como reconheceu Hoogstreten pela voz rouca; Hoorn pela voz grossa; o conde Luís de Nassau, pela forma de falar firme e marcial; e o Calado, por pronunciar lentamente todas as palavras como se tivesse pesado cada uma numa balança.

O conde d'Egmont perguntou porque é que se iam reunir esta segunda vez, enquanto Hellegat dizia que tinham tido tempo para decidir o que queriam fazer.

De Hoorn respondeu:

- As horas são rápidas, o rei está furioso, não devemos contemporizar.

O Calado disse então:

- Estas terras estão em perigo, é preciso defendê-las contra o ataque de um exército estrangeiro.

D'Egmont respondeu, enfurecendo-se, que estava admirado que o rei seu senhor julgasse dever enviar um exército quando tudo estava pacificado graças aos esforços dos senhores e nomeadamente dos seus.

Mas Calado interferiu:

- Filipe tem nos Países-Baixos catorze companhias de ordenança cujos soldados são dedicados àquele que os comandou em Gravelines e em Saint-Quentin.

- Não compreendo - retorquiu d'Egmont. O príncipe replicou:

- Não quero dizer mais nada, mas devem ser lidas a vós e aos senhores reunidos certas cartas, as do pobre prisioneiro Montigny para começar.

Nessas cartas, o senhor de Montigny escrevia:

“O rei está muitíssimo aborrecido com o que aconteceu nos Países-Baixos, e castigará, na hora aprazada, os agitadores.”

Nesta altura, o conde d'Egmont disse que tinha frio e que seria bom acender a lareira. Isto foi feito enquanto os dois senhores falavam das cartas.

O lume não pegou por causa do tampão que estava na chaminé e a sala encheu-se de fumo.

O conde d'Hoogstraeten leu então as cartas que tinham sido interceptadas a Alava, embaixador da Espanha, dirigidas à Governanta.

- O embaixador - afirmou - escreve que todo o mal dos Países-Baixos vem de três fontes, a saber: senhores de Orange, d'Egmont e de Hoorn. É preciso, declara o embaixador, mostrar boa cara aos três senhores e dizer-lhes que o rei reconhecia manter estas terras sob a sua obediência, como homenagem aos seus serviços. Quanto aos outros dois, Montigny e Berghes, estão onde devem estar.

- Ah! - dizia para consigo Ulenspiegel - gosto mais de uma chaminé na famosa terra da Flandres do que uma prisão fresca na Espanha; porque põem os garrotes entre as paredes húmidas.

- O dito embaixador acrescenta que o rei disse na cidade de Madrid:

“Por tudo o que aconteceu nos Países-Baixos, a nossa reputação real ficou diminuída, o serviço de Deus é aviltado e preferimos expor todas as outras terras a deixar impune esta rebelião. Estamos decididos a ir pessoalmente aos Países-Baixos e a requerer a assistência do papa e do Imperador. No mal presente jaz o bem futuro. Reduziremos os Países-Baixos à nossa absoluta obediência e modificaremos à nossa maneira o Estado, a religião e o Governo.”

- Ah! Filipe rei - dizia para consigo Ulenspiegel - se eu pudesse à minha moda modificar-te, suportarias sob o meu bastão flamengo uma grande transformação nas tuas coxas, braços e pernas; meter-te-ia a cabeça no meio das costas com dois pregos para ver se nesse estado, olhando para o cemitério que deixas atrás de ti, cantarias à tua maneira a canção tirânica da modificação.

Trouxeram vinho. D'Hoogstraeten levantou-se e disse:

- Bebo pelo país!

Todos assim fizeram, e ele, pousando a taça vazia em cima da mesa, acrescentou:

- A má hora soará para a nobreza belga. É preciso avisá-los para se defenderem.

Esperando uma resposta, olhou para d'Egmont, que não disse uma palavra. Mas Calado falou:

- Resistiremos se d'Egmont, que em Saint-Quentin e em Grevalines por duas vezes fez tremer a França e tem toda a autoridade sobre os soldados flamengos, quiser vir em nosso socorro e impedir o espanhol de entrar nas nossas terras.

O senhor d'Egmont respondeu:

- Tenho uma opinião muito respeitosa acerca do rei para considerar que nos temos de armar como rebeldes contra ele. Que aqueles que temem a sua cólera se retirem. Eu ficarei, pois não tenho outro modo de vida sem o seu auxílio.

- Filipe pode vingar-se cruelmente - disse Calado.

- Tenho confiança - respondeu d'Egmont.

- A cabeça incluída? - perguntou Ludwig de Nassau.

- Incluídos cabeça, corpo e dedicação, que lhe pertencem- retorquiu Egmont.

- Prezado e fiel, farei como tu - declarou Hoorn. Calado afirmou:

- É preciso prever e não esperar.

Então, o senhor d'Egmont, falando violentamente:

- Vou mandar prender em Gramont vinte e dois reformistas. Se as pregações cessarem, se se castigarem os profanadores de imagens, a cólera do rei apaziguar-se-á.

O Calado respondeu:

- As esperanças são incertas.

- Armemo-nos de confiança - afirmou d'Egmont.

- Armemo-nos de confiança - acentuou de Hoorn.

- É de ferro que temos de nos armar, e não de confiança - retorquiu d'Hoogstraeten.

Nesta altura, Calado fez um sinal indicando que se queria ir embora.

- Adeus príncipe sem terra - disse d'Egmont.

- Adeus conde sem cabeça - respondeu Calado. Ludwig de Nassau afirmou então:

- O carniceiro é para o carneiro e a glória para o soldado que salva a terra dos antepassados!

- Não posso, não quero - retorquiu d'Egmont.

- Que o sangue das vítimas caia sobre a cabeça do cortesão! - disse Ulenspiegel.

Os senhores retiraram-se.

Ulenspiegel desceu da chaminé e foi imediatamente levar as novidades a Praet. Este disse:

- D'Egmont é traidor, Deus está com o príncipe.

O duque! o duque em Bruxelas! Onde estão os cofres-fortes que têm asas?

 

             Fim do Primeiro Tomo

 

 

                                                                Charles de Coster

 

 

  

Ele vai, o "Calado", Deus o leva. Os dois condes já foram apanhados; d'Alba promete ao "Calado" doçura e perdão, se ele consentir em comparecer na sua presença. Ao saber esta notícia, Ulenspiegel disse a Lamme: - O duque intimou a comparecer na sua presença, a conselho de Dubois, procurador-geral, dentro de três vezes catorze dias, o príncipe de Orange, Ludwig seu irmão, d'Hoogstraeten, Van den Bergh, Culembourg, de Brederode e outros amigos do príncipe, prometendo-lhes boa justiça e misericórdia. Escuta, Lamme: Certo dia, um judeu de Amsterdão intimou um dos seus inimigos a descer à rua; o intimador estava no passeio e o intimado a uma janela.

"Desce - dizia o intimador ao intimado - e dar-te-ei um tal murro na cabeça que ela enfiar-se-te-á pelo peito e poderás ver através das costelas como um ladrão através das grades da prisão: - E o intimado respondeu: - Mesmo que me prometesses cem vezes mais, não desceria.

"Assim possam responder d'Orange e os outros." E fizeram-no, recusando-se a comparecer. D'Egmont e de Hoorn não os intimaram. E a fraqueza no dever chama a hora de Deus.

Nessa época foram decapitados no mercado dos Cavalos, em Bruxelas, os Andelot, os filhos de Battembourg e outros ilustres e valorosos senhores, os quais tinham tentado apoderar-se de Amsterdão por surpresa. E enquanto iam para o suplício, sendo dezoito, e cantando hinos, os tambores rufavam à frente e atrás, ao longo de todo o caminho.

E os soldados espanhóis que os escoltavam e empunhavam archotes, queimavam-nos com eles em todos os lugares do corpo. E quando eles se agitavam por causa da dor, os soldados diziam-lhes:

- Como, luteranos, custa-lhes assim tanto ser queimados tão cedo?

E o que os traíra chamava-se Dierick Slosse, tendo-os levado a Enkhuyse, ainda católico, para os entregar aos magarefes do duque.

E eles morreram valentemente.

E o rei herdou.

 

 

 

 

 

 

- Viste-o passar? - perguntou Ulenspiegel, vestido de lenhador, a Lamme, disfarçado do mesmo modo. Viste passar o feio duque, com a sua cabeça chata em cima, como a da águia, e a sua comprida barba, que é como uma corda pendente de uma forca? Que Deus o estrangule com ela! Viste essa aranha de grandes patas peludas que Satanás, ao vomitar, cuspiu em cima do nosso país? Vem, Lamme, vem, vamos atirar pedras à teia...

- Ah! - exclamou Lamme. - Seremos queimados vivos!

- Vem a Groenendael, meu querido amigo; vem a Groenendael, há lá um belo claustro onde sua ducalidade aracnídea vai pedir ao Deus da paz que o deixe terminar a sua obra, que é fazer dançar os seus negros espíritos sobre os cadáveres. Estamos na quaresma e só de sangue é que a sua ducalidade não quer fazer jejum. Vem, Lamme, há quinhentos cavaleiros armados em torno da casa de Ohain; trezentos peões partiram separados em pequenos grupos e entram na floresta de Soignes.

"Em breve, quando d'Alba estiver a fazer as suas devoções, cair-lhe-emos em cima, e depois de o termos metido numa bela jaula de ferro, enviamo-lo ao príncipe."

Lamme, no entanto, estremecendo de angústia, respondeu :

- Grande perigo, meu filho, grande perigo! Seguir-te-ia nessa empresa se as minhas pernas não fossem tão débeis, se a minha barriga não estivesse tão inchada devido à má cerveja que se bebe nesta cidade de Bruxelas.

Esta conversa tinha lugar num buraco cavado na terra, no meio do mais espesso do bosque. Subitamente, espreitando através da folhagem, viram...

 

                                                                               Charles de Coster 

 

 

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