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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A LESTE DO PARAÍSO - V.1 / John Steinbeck
A LESTE DO PARAÍSO - V.1 / John Steinbeck

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

O vale do Salinas fica na Califórnia do Norte. É um sulco longo e plano entre duas cadeias de montanhas, e o rio Salinas desliza e serpenteia pelo centro até desaguar na baía de Monterey.

Recordo-me dos meus nomes de infância para as plantas e para as flores secretas, do esconderijo de cada sapo e da hora a que os pássaros acordavam no Verão das árvores e das estações do ano das pessoas e do seu aspecto; recordo-me até do cheiro que tinham. A memória olfactiva é muito rica.

Recordo que as montanhas Gabilanes, a leste do vale, eram alegres e cheias de sol, lindas, tendo um ar de convite que despertava em nós o desejo de subir pelas suas veredas cálidas, quase como quem sobe para o colo da mãe bem-amada. Eram montanhas atraentes envoltas no seu manto de erva ruça. Para o lado do Ocidente, recortava-se no céu a serra de Santa Lucias, muralha escura e taciturna, inamistosa e ameaçadora, entre o vale e o mar. Sempre tive medo do Oeste, sempre gostei do Leste. Não saberei dizer donde me vem tal ideia; só se for por a manhã vir dos cumes dos Gabilanes e a noite cair das cristas de Santa Lucias.

Pode muito bem ser que o nascimento e a morte do dia tenham concorrido para a impressão que me ficou dessas duas cordilheiras.

De ambos os lados do vale precipitavam-se pequenas torrentes que iam cair no leito do rio Salinas. Nos invernos chuvosos, as torrentes engrossavam e iam aumentar o Salinas até o fazer sair do leito, espumejante e furioso, tornando-o destruidor. O rio arrastava a terra das propriedades ribeirinhas; arrancava e levava celeiros e casas; vacas, porcos e carneiros eram apanhados desprevenidos e afogados nas suas águas barrentas que os empurravam para o mar. Depois, com o fim da Primavera, o rio regressava ao seu leito e apareciam os bancos de areia. No Verão, escondia-se. Do turbilhão invernal, apenas restavam algumas poças junto dos bancos mais altos. A erva recuava e os salgueiros endireitavam-se com os destroços da torrente nos ramos mais altos. O

Salinas era apenas um rio esporádico: o sol do Verão fazia-o desaparecer. Não era um rio a valer mas era o único que tínhamos e por isso nos gabávamos dele por ser perigoso nos Invernos chuvosos e por ser seco nos Verões secos. Podemos gabar seja o que for, se nada mais tivermos. Quanto menos se tem, maior é a vontade de o gabar.

O solo do vale do Salinas, entre as cordilheiras e a seguir ao sopé das montanhas, é plano porque este vale constituía o fundo duma reentrância do mar com mais de cento e cinquenta quilómetros. A foz do rio em Moss Landing era há centenas de anos a entrada deste longo braço de mar. Uma vez, o meu pai abriu um poço a mais de oitenta quilómetros do mar. A sonda começou por encontrar uma camada de húmus, depois cascalho e, por fim, areia branca cheia de conchas e até de bocados de ossos de baleia.

Sob a camada de quatro metros de areia, havia novamente terra vegetal. A sonda atravessou um pedaço de sequóia, essa madeira vermelha que não apodrece. Antes de ter sido um mar interior, o vale deve ter sido uma floresta. E, essas coisas aconteceram mesmo debaixo dos nossos pés. Às vezes, à noite, parecia-me que podia sentir o mar e a floresta que existira antes dele.

Sob as terras planas a camada de húmus era espessa e fértil.

Bastava um bom Inverno chuvoso para que se cobrisse de erva e de flores. A floração da Primavera, nos anos húmidos, era um espectáculo inacreditável. O fundo do vale e o sopé das colinas pareciam um tapete de tremoços e de papoilas. Uma mulher disse-me um dia que as flores coloridas pareceriam ter mais brilho se lhes juntassem algumas flores brancas. As pétalas azuis do tremoço são orladas de branco e por isso um tremoçal é mais azul do que se pode imaginar. No meio disto, havia explosões de papoilas da Califórnia. Estas têm uma cor quente não laranja, nem oiro, mas se o oiro fosse líquido e emitisse um vapor, esse vapor doirado seria a cor das papoilas. Depois vinha a estação da mostarda amarela. Era tão alta quando o meu avô chegou ao Vale que apenas se conseguia ver a cabeça de um homem que no meio dela passasse a cavalo. Nas terras altas, a erva estava semeada de rainúnculos, de margaridas e de violetas amarelas com o centro negro. E um pouco mais tarde, surgiam os cravos da índia, vermelhos e amarelos. Eram as flores dos grandes espaços expostos ao sol.

Sob os carvalhos, numa atmosfera sempre sombria, cresciam as avencas perfumadas, e à beira dos regatos pendiam cachos de doiradinhas. E depois havia os jacintos, minúsculas lanternas dum branco aveludado e quase pecaminoso, mas eram tão raros que, quando uma criança descobria algum, se sentia privilegiada e esquisita durante todo o dia.

Quando chegava o mês de Junho, a erva estiolava e todo o

Vale ficava castanho, mas era um castanho em que só entrava o oiro, o açafrão e o vermelho uma cor indescritível. Então, as terras e os cursos de água secavam até às próximas chuvas. Apareciam fendas no solo. O Salinas era absorvido pelo seu leito de areia. O vento soprava no Vale, erguendo poeira e palha, adquirindo força e tornando-se mais áspero à medida que se aproximava do Sul. À noite parava. Era um vento nervoso e cortante que irritava a pele e queimava os olhos. Os homens que trabalhavam nos campos usavam óculos e protegiam o nariz com um lenço atado em volta da cara.

A terra do Vale era espessa e rica mas, junto às vertentes, tão escassa que mal chegava para alimentar as raízes das ervas.

Quanto mais se subia, mais se adelgaçava, desnudando a rocha, até que, no alto, se transformava num tapete de cascalho que cegava os olhos com o reflexo do sol.

Até aqui só falei dos anos férteis em que as chuvas eram abundantes. Mas havia também anos de estiagem, terror do Vale.

As chuvas vinham num ciclo de trinta anos. Primeiro, havia cinco ou seis magníficos anos de chuva com dezanove a vinte e cinco polegadas de água: a vegetação rebentava por toda a parte. Depois, seis ou sete anos regulares com doze a dezasseis polegadas de chuva. Por fim, eram os anos secos com as suas escassas sete ou oito polegadas. A terra endurecia, a vegetação não tinha forças para crescer e surgiam grandes peladas por todo o

Vale. Os carvalhos viçosos pareciam petrificados e a artemísia ficava pardacenta. O solo estalava, os ribeiros secavam, o gado retouçava ramos quebradiços; as vacas emagreciam e, às vezes, morriam de fome. As pessoas, se queriam beber, tinham de ir buscar a água em barris. Então os fazendeiros e os criadores de gado amaldiçoavam o Vale. Algumas famílias vendiam tudo por uma ninharia e iam-se embora. Era fatal: durante os anos de estiagem, as pessoas esqueciam os anos prósperos e, assim que voltava a chuva, esqueciam a seca. Sempre foi assim.

 

 

  

 

 

Assim era o extenso vale do Salinas. A sua história era igual à do resto do Estado. Primeiro houvera índios, mas duma raça degenerada, sem energia, incapaz de cultivar ou de inventar, alimentando-se de gorgulhos, de gafanhotos e de mariscos, tão preguiçosa que não caçava nem pescava. Para fazer farinha, moíam bolota amarga; as próprias guerras não passavam de meras pantomimas.

Depois vieram os conquistadores espanhóis, duros, vorazes e realistas, sedentos de oiro e de Deus. Coleccionavam almas como coleccionavam jóias. Acumularam montes e vales, rios e horizontes, do mesmo modo que o homem de hoje obtém licenças para construir lotes de habitações. Alguns deles estabeleceram-se em terras tão grandes como reinos, dons de reis de

Espanha que ignoravam o valor do presente. Estes primeiros proprietários viveram uma vida de senhores feudais pobres, deixando que os rebanhos pastassem em liberdade e se multiplicassem.

Periodicamente, os donatários matavam os animais para lhes tirar o coiro das botas e o sebo das velas, abandonando a carne aos abutres e aos coiotes.

Quando os Espanhóis chegaram, tiveram que baptizar tudo o que viram. É este o primeiro dever dum explorador um dever e um privilégio. Tem que se baptizar um lugar antes de lhe inscrever o nome num mapa desenhado à mão. Tratava-se de gente piedosa, e só os padres, infatigáveis companheiros dos soldados, sabiam ler, escrever, redigir os diários e desenhar os mapas. Os primeiros lugares foram, portanto, crismados com nomes de santos ou de festas religiosas celebradas ao acaso das paragens. Há muitos santos, mas a lista não é inesgotável. Assim, surgem muitas repetições nas primitivas designações: San Miguel, St. Michael,

San Ardo, San Bernardo, San Benito, San Lorenzo, San Carlos,

San Francisquito. E depois as festas: Natividad a Natividade;

Nacimiente o Nascimento; Soledad a Solidão. Mas alguns sítios também foram baptizados de acordo com o estado de espírito em que se encontrava a expedição nesse dia: Buena Esperanza

Boa Esperança; Buena Vista, porque a vista era bonita; e Chualar, porque o lugar tinha o seu encanto. Depois seguiam-se os nomes descritivos: Paso de los Robles, por causa dos carvalhos;

Los Laureles, porque havia loureiros; Tularcistos, por causa dos caniços dum pântano; e Salinas, por causa do alcali que era branco como o sal.

Depois baptizaram os lugares consoante os animais que lá viram: Gabilanes, por causa dos falcões que voavam nas montanhas; El Topo, por causa das toupeiras; Los Gatos, por causa dos gatos selvagens. Certas vezes, a configuração natural sugeria um nome: Tassajara uma chávena com o pires; Laguna Seca uma lagoa seca; Corral de Tierra uma barreira de terra; Paraíso, porque parecia estar-se no Céu.

Depois vieram os Americanos mais vorazes porque eram em maior número. Apoderaram-se das terras e, para se confinarem na legalidade, refizeram as leis. As propriedades espraiaram-se pela região, primeiro no vale e depois nos contrafortes das montanhas, casinhas de madeira com telhados de sequóia, currais de paus com a extremidade aguçada. Onde quer que irrompesse um fio de água, erguia-se uma casa que abrigava uma família que logo crescia e se multiplicava. Plantaram-se pés de gerânios e de roseiras nos jardinzinhos. As carroças traçaram trilhos nas pistas. O trigo, a aveia e a cevada expulsaram a mostarda amarela. De quinze em quinze quilómetros, ao longo das estradas movimentadas, instalaram-se vendas e ferreiros que se transformaram em núcleos de povoações: Bradley, King City,

Greenfield.

Mais ainda do que os Espanhóis, os Americanos tinham tendência para baptizar os lugares com nomes descritivos. Esses nomes exercem em mim uma grande fascinação, pois cada um deles sugere uma história esquecida. Estou pensando em Bolsa

Nueva a bolsa nova; Morocojo o Mouro Coxo (quem era e como foi ali parar?); o Desfiladeiro do Cavalo Selvagem e o da

Fralda da Camisa. Os lugares ficam marcados para sempre por aqueles que os baptizaram, respeitosos ou irrespeitosos, poéticos ou trocistas. Pode chamar-se San Lorenzo a qualquer coisa, mas

Desfiladeiro da Fralda da Camisa ou do Mouro Coxo tem outro sabor.

Para quebrar a violência do vento que ameaçava arrastar as terras lavradas, os fazendeiros plantaram quilómetros e quilómetros de filas de eucaliptos. E era este o aspecto do vale do Salinas quando o meu avô trouxe a mulher e se instalou nas colinas, a Leste de King City.

 

 

                           CAPÍTULO II

 

Para tentar reconstituir a história dos Hamilton, tive de me fiar nos “diz-se”, folhear velhos álbuns de fotografias e evocar recordações, algumas delas imprecisas e muitas vezes recheadas de imaginação, pois, além das certidões de nascimento, de casamento, de propriedade e de óbito, não deixaram mais nenhum vestígio nos arquivos do Vale. Não eram pessoas eminentes.

O jovem Samuel Hamilton e a esposa vieram da Irlanda do

Norte. Ele era filho de pequenos lavradores que, há muitas centenas de anos, viviam da terra na sua casa de pedra. Os Hamilton eram muito educados e cultos. E, como acontece com frequência no seu verde país, eram aparentados a pessoas muito importantes e a pessoas muito simples; dois primos podem ser, baronete, um, e o outro, mendigo. Os Hamilton descendiam dos reis da Velha Irlanda, como todo o irlandês que se preza.

Ignoro por que motivo Samuel abandonou a casa de pedra e os verdes alqueives dos antepassados. Não se entregava à política e é pouco verosímil que tenha sido expulso por actividades antigovernamentais; e, como era intrinsecamente honesto, ficam eliminados os motivos de ordem policial. O amor dava-se a entender por palavras veladas na minha família era a causa;

mas amor por uma mulher que não era a que desposara. Traduzira-se tal amor num êxito total ou numa derrota? Não o sei. Sempre preferimos optar pela primeira solução. Como se poderia supor que uma camponesa irlandesa tivesse podido repudiar o senhor dutor Samuel?

Chegou ao Vale com novas energias, o coração cheio de coragem, inventivo, e respirando actividade. Tinha os olhos muito azuis e, quando estava fatigado, um deles desviava-se levemente para fora. Era um homem robusto mas dotado duma espécie de delicadeza. Apesar do trabalho emporcalhante da quinta, parecia andar sempre imaculado. Tinha mãos hábeis: bom ferreiro, carpinteiro e serralheiro hábil, podia criar todo o género de coisas com simples bocados de madeira e de ferro. Inventava continuamente novos métodos para fazer melhor e mais depressa o que sempre se fizera de outro modo. Mas nunca teve o dom de ganhar dinheiro. Tinham-no outros homens que enriqueceram explorando as invenções de Samuel. Ele nunca passou de um assalariado.

Não sei porque foi que ele se fixou no vale do Salinas. Era uma escolha estranha da parte de um homem que vinha de um país verdejante. Convém esclarecer que chegou durante o período húmido do ciclo, cerca de trinta anos antes do fim do século.

Acompanhava-o a mulher: uma irlandesinha seca e sólida, tão destituída de humor como um frango, uma presbiteriana austera, que vivia fechada num sistema de valores morais que nos tirava toda a vontade de gozar os prazeres da vida.

Não sei onde foi que Samuel a encontrou, nem como a namorou, nem como a desposou. A imagem duma mulher à sua semelhança devia estar gravada em qualquer parte do seu coração.

Samuel respirava o amor, mas nunca correu qualquer boato de que enganasse a mulher.

Quando Samuel e Lizza chegaram ao vale do Salinas, já estavam ocupados todos os bons terrenos planos, as encostas férteis e as matas, mas ainda havia terras marginais. Samuel Hamilton instalou-se a leste da actual King City, no meio das colinas desnudadas.

Seguiu o processo habitual. O governo concedeu-lhe um sesmo para ele, um sesmo para a mulher, e um sesmo para a criança que ia nascer, pois ela estava grávida. Com os anos, nasceram nove filhos quatro rapazes e cinco raparigas e a propriedade aumentou de um sesmo por filho, o que totalizava onze sesmos, ou seja cerca de 900 hectares.

Se a terra tivesse qualquer valor, os Hamilton teriam sido gente rica, mas eram hectares duros e secos. Não havia água e o sílex perfurava a fina camada de húmus. Nem a própria artemísia conseguia vingar em tal terreno e os carvalhos viviam enfezados por falta de humidade.

Mesmo nos anos bons, a erva era tão ruim que o gado se extenuava à procura de pastos. Do alto das suas colinas escalvadas, os Hamilton tinham uma bela vista das terras gordas do fundo do Vale e da faixa verde onde corria o Salinas.

Samuel construiu com as próprias mãos uma casa, um celeiro e uma oficina de ferrador. Depressa compreendeu que, mesmo que tivesse dez mil acres de terra naquelas colinas, corria o risco de morrer de fome. Construiu, então, uma broca e foi abrir poços nas propriedades de lavradores mais felizes. Depois, com uma máquina de malhar inventada por ele, foi até ao Vale malhar as colheitas que não podiam germinar no seu próprio solo. Na oficina, afiava relhas de arado, reparava grades de esterroar, soldava cubos de roda quebrados e ferrava cavalos. De todos os lados do

Vale, os agricultores levavam-lhe ferramentas para consertar ou para aperfeiçoar. Para mais, gostavam de ouvir Samuel falar de poesia e de filosofia e da evolução das ideias num mundo que continuava a existir no exterior do vale do Salinas. Samuel tinha uma bela voz profunda. Tão bom cantor como orador, não tinha sotaque propriamente dito, mas as inflexões e a cadência da sua voz soavam bem aos ouvidos dos lavradores lá de baixo, gente muito taciturna. Eles traziam uísque e bebiam-lhe forte sob o olhar desaprovador da Sr.a Hamilton, postada atrás da janela da cozinha. Depois, mastigavam grãos de anis silvestre para disfarçar o cheiro do álcool. Quando não havia três ou quatro homens em torno da forja, escutando Samuel e o seu martelo, era um mau dia. Os lavradores diziam que ele tinha o génio do cómico e repetiam-lhe as histórias. Mas nas suas cozinhas elas já não tinham o mesmo sabor e eles perguntavam a si mesmos como se tinham arranjado para perder uma parte da graça pelo caminho.

Com a broca, a malhadeira e a forja, Samuel poderia ter enriquecido, mas faltava-lhe tino para os negócios. Os fregueses, com falta de dinheiro, prometiam pagar depois da ceifa, após o Natal, a seguir, depois... Depois, esqueciam-se. Samuel ignorava a arte de lho lembrar. Foi por isso que os Hamilton ficaram pobres.

Todos os anos, regularmente, nascia um filho. Os poucos médicos da região, com trabalho até aos olhos, raramente eram chamados para um nascimento, a não ser que o feliz acontecimento se transformasse em pesadelo. Samuel Hamilton ajudou a nascer todos os seus filhos, cortou e atou os cordões umbilicais, deu palmadas nos rabinhos e limpou toda a trapalhada. Quando ofilho mais novo nasceu e começou a sufocar, Samuel colou a boca à do recém-nascido e insuflou-lhe a vida. A sua habilidade e a sua delicadeza eram tão grandes que o chamavam vinte milhas em redor para assistir aos partos quer se tratasse duma égua, duma bezerra ou duma mulher.

Ao alcance da mão, tinha sempre um grande livro negro com a capa ornada dum título em letras douradas: A Medicina Familiar do Doutor Gunn. Certas páginas estavam falhadas e rasgadas; outras nunca viram certamente a luz do dia. Folhear o DoutorGunn é um excelente meio para conhecer a história médica dos Hamilton. As páginas usadas tratavam de fracturas, cortes, golpes, anginas, sarampo, espinhela caída, escarlatina, difteria, reumatismos, dores femininas, hérnia e evidentemente tudo o que dizia respeito à gravidez e ao parto. Quanto aos capítulos sobre a blenorragia e a sífilis, estavam intactos prova de que os Hamilton tinham muita virtude, ou muita sorte.

Suave no falar e de alma terna, Samuel não tinha quem se lhe comparasse para acalmar as crises de nervos e sossegar uma criança assustada. Era um homem limpo e de espírito imaculado.

Os visitantes da forja paravam um instante de praguejar não porque estivessem constrangidos, mas automaticamente, como se o lugar não se prestasse a tal.

Talvez por causa do ritmo com que falava, Samuel aparentou sempre algo de estrangeiro. Tanto os homens como as mulheres lhe confiavam coisas que nunca teriam dito a um parente ou a um amigo. Estranho à comunidade, Samuel oferecia a segurança dum túmulo.

Apesar de também ser irlandesa, Lizza Hamilton era muito diferente. A sua cabecinha redonda estava cheia de ideias feitas.

Tinha um nariz arrebitado e um queixinho metido para dentro.

Era uma boa cozinheira, e a sua casa pois era a sua casa andava escovada, varrida e lavada. O permanente estado de gravidez não a impedia de trabalhar, excepto durante as últimas duas semanas. Devia ter uma bacia provida de barbas de baleia, pois todos os filhos foram sempre robustíssimos.

Lizza tinha uma noção maravilhosamente desenvolvida do pecado. A ociosidade era um pecado, assim como os jogos de cartas, que eram uma forma de ociosidade a seus olhos. Desconfiava das distracções quer se apresentassem sob a forma de dança, de canto ou até de riso porque as pessoas que se divertem são uma presa oferecida ao demónio. E era pena porque Samuel tinha o riso fácil. Mas creio que Samuel, mesmo sério, era uma presa ideal para o demónio. A mulher protegia-o sempre que podia.

Repuxava os cabelos para trás e juntava-os na nuca em carrapito. Se não consigo recordar a maneira como se vestia, é porque usava vestidos a condizer com o carácter. Não possuía a mínima dose de humor e uma saída espirituosa era coisa rara nela. Não teve nenhuma fraqueza de avó e assustou os netos.

Suportou heróicamente os sofrimentos da vida, convicta de que tal era a vontade do seu Deus. A recompensa viria mais tarde.

 

Naqueles que primeiro chegaram ao Oeste e, em especial, naqueles que vinham das quintarolas europeias ciosamente protegidas e cadastradas, a vista de toda aquela terra que se podia adquirir assinando um papel e construindo nela uma casa, despertou uma furiosa loucura de propriedade. Queriam terra boa, se possível, mas terra antes de tudo. Talvez se lembrassem inconscientemente de que o poderio feudal repousava na propriedade terrena. Os primeiros chegados apoderaram-se de terras de que não precisavam e que não podiam cultivar, terras sem valor, só pelo prazer de as possuir. Alteraram-se todas as proporções.

Um homem que poderia viver à vontade com dez acres na Europa levava uma vida de cão em dez mil acres na Califórnia.

Não foi preciso muito tempo para que todas as colinas escalvadas entre King City e San Ardo fossem divididas entre famílias miseráveis, espalhadas pelos montes, lutando furiosamente para arrancar a subsistência ao solo pedregoso. Essa gente partilha com os coiotes uma vida de desespero, na extremidade do mundo do Vale. Tinham chegado sem um chavo, sem material, sem ferramentas, ignoravam as técnicas da agricultura a aplicar nesse país novo para eles. Pergunto a mim mesmo se eram divinamente estúpidos ou se viviam animados por uma fé imensa.

Seja como for, uma aventura colectiva de tal importância não deve reproduzir-se todos os dias neste pobre globo. As famílias cresceram e multiplicaram-se. Possuíam uma ferramenta ou uma arma que já não se sabe utilizar em nossos dias. Talvez ainda alguém a consiga descobrir. Diz-se que essas pessoas obtinham de um Deus justo e bom a força para viver e que os outros problemas se resolviam por si. Mas eu creio que é porque tinham confiança em si próprios, na sua qualidade de homens, porque sabiam ser, para lá da dúvida, sólidas entidades morais, pelo que podiam oferecer a

Deus a sua coragem e a sua dignidade, recebendo-a novamente d'Ele, mas mais fortalecida. Se tais coisas desapareceram é talvez por os homens já não confiarem em si próprios. E se assim é, a única solução que lhes resta é procurarem um homem forte, ignorando a dúvida, e, mesmo que ele não tenha razão, agarrarem-se-lhe às abas do casaco.

Se muitas pessoas chegavam ao Vale sem um ceitil; outras, depois de venderem o que lhes pertencia, chegavam com dinheiro para principiar uma vida nova. Compravam terra, mas terra boa, e mandavam construir uma casa de boa madeira. Tinham tapetes e as janelas adornavam-se de pequenos losangos de vidro colorido. Essas famílias eram numerosas. Arrancavam a mostarda e semeavam trigo.

Adam Trask achava-se nessas circunstâncias.

 

 

                           CAPÍTULO III

 

Adam Trask nasceu em 1862 numa propriedade do Connecticut, seis meses depois de o pai se ter alistado num regimento da província. Enquanto cuidava do filho e dirigia a propriedade, a mãe de Adam ainda arranjou tempo para se entregar a uma teosofia primitiva. Pressentindo que o marido seria morto por esses selvagens bárbaros que eram os rebeldes, preparou-se para se lhe juntar naquilo a que chamava o além. O marido voltou ao lar seis semanas após o nascimento de Adam, com a perna direita cortada à altura do joelho, mancando sobre uma tosca perna de pau que fizera com um pedaço de faia. Ao chegar, tirou da algibeira a bala de chumbo que lhe tinham dado a morder, enquanto lhe cortavam a perna.

Cyrus, o pai de Adam, parecia ter o diabo no corpo. Era um selvagem, um desvairado que conduzia o carro de duas rodas a velocidades loucas. Nem a mutilação o acalmara. A perna de pau transformara-se num meio de sedução e chegava quase a causar inveja. A breve carreira militar fora para ele uma fonte de prazer. A sua natureza selvagem pudera expandir-se à vontade, durante o curto período da instrução, com o vinho, o jogo e as mulheres de má vida. Quando foi para o Sul render uma unidade, os prazeres mudaram mas foram, também, intensos. Viu terras novas, roubou frangos e derrubou raparigas rebeldes em medas de feno. O horror monótono das manobras não o afectava. Avistou o inimigo pela primeira vez numa manhã de Primavera, às oito horas. Às oito e meia fora atingido na perna direita por um estilhaço de granada que lhe rasgou os tecidos e desfez os ossos. Teve sorte, os Sulistas recuaram e os médicos evacuaram-no para a retaguarda. Aí, enquanto lhe cortavam os tendões, serravam os ossos e cauterizavam a ferida, Trask viveu cinco minutos de pavor. Aliás, as marcas dos dentes na bala ficaram como prova. Sofreu indizivelmente enquanto o coto cicatrizava nas estranhas condições de assepsia que reinavam então nos hospitais. Mas Cyrus era resistente e enérgico. Mesmo sem perna, resolveu procurar madeira para fazer uma muleta. Atrás duma pilha de tábuas, encontrou uma preta que lhe assobiou e, mediante dez cêntimos, lhe pregou um violentíssimo escarépio. Assim que fez a nova perna de faia e compreendeu a infelicidade que o atingira, partiu coxeando à procura da preta. Deleitava-se contando aos camaradas do hospital o que faria à rapariga se lhe pusesse a mão em cima.

Tencionava cortar-lhe o nariz e as orelhas e obrigá-la a devolver o dinheiro. Enquanto aperfeiçoava a perna, descrevia aos companheiros o que faria: “E quando tiver acabado, a puta há-de ficar com uma rica cara... Nem os índios bêbedos a hão-de querer.,, A negra dos seus amores deve ter desconfiado do que a esperava, pois desapareceu. Cyrus foi desmobilizado. A blenorragia já não supurava. Quando regressou ao Connecticut, levava apenas o suficiente para contaminar a mulher.

A Sr.a Trask era uma mulher pálida e ensimesmada. Nunca nenhum raio de sol lhe tocara as faces e os músculos dos lábios nunca haviam sido contraídos por um verdadeiro sorriso. Empregava a religião como um agente terapêutico para tratar o mundo e a si própria. Se o mal evoluía, adaptava a religião ao mal. Quando compreendeu que a teosofia que arquitectara para comunicar com um esposo morto se mostrava inútil, procurou um outro motivo para sofrer. Depressa foi recompensada pela infecção que Cyrus trouxera da guerra. Assim que teve a certeza, substituiu a antiga iluminação por uma nova. O deus de contacto transformou-se num deus de vingança, o deus mais magnífico de todos os que inventara e o último, pela evolução dos acontecimentos. Não havia dúvida de que a sua miséria física era a punição de certos sonhos que tivera na ausência do marido. Mas a infecção não era um castigo suficiente para os seus desmandos durante o sono. O novo deus era exigente em matéria de castigo. Pedia-lhe um sacrifício.

Procurou a maneira de humilhar a carne e o espírito e, finalmente, com uma espécie de alegria, encontrou a resposta: o deus exigia-lhe o seu próprio sacrifício. Levou duas semanas a emendar os erros de ortografia da carta de despedida, onde confessava crimes que não podia materialmente ter cometido e erros que estavam muito além das suas possibilidades. Depois, uma noite, à luz do luar, envolta numa mortalha confeccionada em segredo, foi afogar-se num charco tão pouco profundo que teve de ajoelhar na lama e manter a cabeça debaixo de água o que demonstrava uma grande força de vontade. Quando, finalmente, a inconsciência começou a apoderar-se dela, pensou, com uma ponta de aborrecimento, que a mortalha ficaria manchada de lama quando a retirassem da água no dia seguinte. O que não deixou de acontecer.

Cyrus Trask carpiu a mulher com um jarro de uísque e três camaradas de regimento que regressavam ao Maine natal. Adam chorou muito no princípio do velório, pois os quatro homens, ignorantes da puericultura, esqueceram-se de alimentar o bebé. Cyrus resolveu o problema dando-lhe a chupar um trapo molhado em uísque. Adam, após três ou quatro doses, adormeceu. Acordou e chorou várias vezes durante o luto, tendo sempre direito à chupeta. O bebé não se desembebedou durante dois dias e meio. A matéria cinzenta talvez tivesse sofrido, mas o tratamento foi benéfico para o metabolismo: esses dois dias e meio dotaram-no de uma saúde de ferro. Quando, por fim, ao terceiro dia, o pai foi comprar uma cabra, Adam bebeu gulosamente o leite, vomitou, tornou a beber e pareceu satisfeito. O que não teve o condão de alarmar o pai, pois o álcool fazia-lhe o mesmo efeito.

Decorrido um mês, Cyrus Trask já fizera a sua escolha: ela tinha dezassete anos e era filha de lavradores vizinhos. O namoro foi rápido. Ninguém teve dúvidas acerca das intenções do viúvo que eram razoáveis e honestas. O pai da prometida reduziu ao mínimo o tempo de noivado: tinha duas filhas mais novas. Alice nunca tivera mais nenhum pretendente.

Cyrus precisava duma mulher para criar Adam, tratar da casa e cozinhar. Uma criada custa dinheiro. Cyrus tinha um feitio sólido e precisava duma mulher na cama. Uma amante custa dinheiro, a não ser que se case com ela. Em duas semanas namorou, desposou, desflorou e emprenhou Alice. Ninguém, na vizinhança, achou que andara depressa de mais. Nessa época, era natural que um homem, enquanto vivo, desse cabo de quatro mulheres.

Alice Trask tinha um grande número de qualidades admiráveis: sabia tratar da casa e o trabalho não a assustava. Não era necessário vigiá-la, pois era feia, com olhos pálidos e dentes irregulares. Era uma mulher saudável apesar do seu aspecto doentio. Suportou a gravidez sem uma queixa. Nunca se soube se gostava dos filhos, porque nunca ninguém lho perguntou e não era mulher que falasse sem que a interrogassem. Era esta a sua melhor qualidade, pensava Cyrus: nunca dava opiniões nem sentenças e, quando estava um homem a falar, ficava-se com a vaga impressão de que ela o ouvia enquanto se entretinha com o trabalho doméstico.

A juventude, a inexperiência e os silêncios de Alice Trask foram um estímulo para Cyrus. Além de continuar a explorar a sua propriedade de acordo com os métodos que se adoptavam na região, abraçou uma nova carreira: a de antigo combatente. A mesma energia que o fizera ser um selvagem, deu azo a que se tornasse um homem sensato e reflectido. Fora do Ministério da

Guerra, ninguém lhe conhecia a folha de serviço. A perna de pau era a garantia de que passara pelas trincheiras e de que nunca mais lá voltaria. Timidamente, começou a contar as suas campanhas a Alice. Mas, assim que dominou a técnica, as batalhas aumentaram de importância e se, ao princípio, soube que mentia, não tardou a esquecê-lo. Ele, que se desinteressara da guerra quando fora soldado, pôs-se a comprar livros históricos e tratados militares, e fez-se assinante dos jornais de Nova Iorque para ler os comunicados. Para consolidar os conhecimentos geográficos, comprou mapas. Finalmente, tornou-se uma autoridade na matéria. Podia não só citar as datas das batalhas e descrever a maneira como se tinham desenrolado, como conhecia os nomes das unidades que haviam participado, os números dos regimentos, os patronímicos dos coronéis e os lugares onde tinham nascido. Acabou por se convencer de que tinha tomado parte nos acontecimentos que narrava.

Esta transformação efectuou-se gradualmente durante o crescimento de Adam e do seu meio-irmão. Adam e o pequeno Charles escutavam religiosamente o pai explicar-lhes as tácticas dos generais, porque tinham cometido erros e como os teriam podido remediar. Chegara mesmo a chamar a atenção de Grant e de Mac

Clellan para os erros que tinham praticado, suplicando-lhes que tomassem em consideração o seu ponto de vista. Invariavelmente, os generais recusavam e só mais tarde é que se davam conta de como ele tinha razão.

Cyrus teve a inteligência de não querer brilhar com divisas ilegais. Soldado raso fora e soldado raso se manteve. Se se fizesse uma ficha das suas actividades, chegava-se à conclusão de que o soldado Trask fora o infante mais móvel da história. Dotado de ubiquidade, encontrava-se, pelo menos, em quatro sítios diferentes ao mesmo tempo. Talvez fosse o instinto que lhe ditasse a necessidade de não contar as suas campanhas por ordem cronológica. Alice e os filhos tinham dele uma imagem completa: um soldado raso orgulhoso da sua posição que, não só participara em todas as batalhas espectaculares ou importantes, mas também tinha acesso ao quartel general, onde emitia opiniões, escutadas com o maior respeito, acerca das decisões dos oficiais generais.

A morte de Lincoln ferira-o como uma punhalada. Sempre se recordou do que sentira quando recebeu a notícia. Não podia evocar o drama sem lhe assomarem as lágrimas aos olhos. Compreendia-se, sem correr o risco de errar, que Cyrus Trask fora o amigo mais querido, mais sincero, mais chegado do Presidente

Lincoln. Quando queria conhecer os sentimentos do exército do verdadeiro exército e não do constituído por manequins mascarados o Sr. Lincoln dirigia-se a Trask. A maneira como Cyrus, sem nunca o afirmar, o dava a entender, era um monumento de insinuação. Ninguém o podia considerar um mentiroso, pois a mentira estava-lhe no sangue e toda a verdade que lhe saía da boca tinha a cor da mentira.

Depressa se pôs a escrever cartas, seguidas de artigos sobre a maneira de conduzir a guerra, e as conclusões eram inteligentes. Deve-se dizer que Cyrus adquirira uma excelente mentalidade militar e que as suas criticas sobre a evolução da guerra e a organização do exército eram penetrantes. Os artigos, publicados em várias revistas, despertaram a atenção. Quando as suas cartas ao Ministério da Guerra foram publicadas simultaneamente por vários jornais, começaram a fazer caso das suas sugestões.

Era possível que, se o Grande Exército da República não representasse um corpo eleitoral tão poderoso, a sua voz não tivesse sido tão claramente escutada em Washington, mas não podiam dar-se ao luxo de ignorar o porta-voz de um bloco de cerca de um milhão de votos. E era nisto que se tornara Cyrus Trask em matéria militar. Chegaram a consultá-lo sobre assuntos que diziam respeito à organização do exército, às relações entre oficiais, ao pessoal e ao material. O Sr. Trask é um perito, dizia-se. Tem o génio das coisas militares. Transformou o Grande Exército da República numa organização que desempenhava um importante papel na vida nacional. Depois de ter, benevolamente, ocupado vários postos, ofereceram-lhe um secretariado remunerado de que assumiu a chefia até ao fim dos seus dias, viajando pelo país de ponta a ponta, assistindo aos congressos e organizando campos de repouso. Isto, quanto à sua vida pública.

Quanto à vida privada, não passava duma réplica civil da profissão marcial. Cyrus era homem de uma só ideia. Organizou o lar e a propriedade em bases militares. Exigiu relatórios sobre o andamento da economia familiar. Alice preferia este método, pois não gostava de falar. Os cuidados com as crianças, a limpeza da casa e a lavagem da roupa davam-lhe muito que fazer. Tinha a preocupação de não desperdiçar as energias, preocupação que não figurava nos relatórios. As vezes, sentia-se completamente vazia de forças e tinha de se sentar à espera que voltassem. À noite, uma transpiração abundante encharcava-lhe as roupas.

Sabia perfeitamente que estava tísica. Os ataques de tosse que a deixavam extenuada não passavam de sintomas suplementares.

Não sabia quanto tempo lhe restava ainda para viver. Certas pessoas, no mesmo caso, não duravam muito. Mas não havia regra e ela não ousava falar no caso ao marido. Ele tinha uma maneira de curar que se assemelhava muito ao castigo. Uma dor de estômago era atalhada com uma purga tão violenta que só por milagre se lhe sobrevivia. Se ela lhe falasse no seu estado, Cyrus era capaz de lhe infligir um tratamento que a mataria muito tempo antes de ser consumida pela doença. Aliás, para se defender do crescente militarismo civil de Cyrus, Alice aprendia a única técnica que permite ao soldado sobreviver: não se tornar notado; só falar para responder; não dar provas de iniciativa; desprezar as promoções. Nem soldado raso chegava a ser, o que muito simplificava as coisas. Alice recuava, recuava para o fundo do palco para não passar de uma silhueta imprecisa.

Foram os dois garotos que aguentaram com as consequências. Cyrus partia do princípio que só existia uma carreira honrosa para um homem: a das armas, apesar das suas imperfeições. Como a perna de pau o relegava para as reservas, queria filhos no activo, oficiais que se distinguissem, soldados que aprendessem o Ofício por experiência e não nos manuais. Inculcou-lhes os princípios do manual de infantaria quando eles ainda mal se tinham de pé. Quando entraram para a escola, já haviam aprendido a obediência e o ódio à obediência. Cyrus comandava os exercicios marcando o ritmo na perna de pau. Instituiu o regime das marchas forçadas, com um saco cheio de pedras às costas para enrijar os ombros. Os exercícios de tiro realizavam-se na mata atrás da casa.

 

Quando uma criança vê, pela primeira vez, os adultos tais como são, quando, pela primeira vez, lhe penetra na cabeça a ideia de que os adultos não têm uma inteligência divina, de que os seus juízos nem sempre são acertados, as ideias boas, as frases correctas, todo o seu mundo desaba e dá lugar a um caos aterrador. Os ídolos caem e a segurança desaparece. E quando um ídolo cai, não é só em parte, fica completamente esmagado e estilhaçado ou desaparece sob um monte de estrume. Torna-se, então, difícil reconstituí-lo e, mesmo que o voltem a colocar no pedestal, ficam sempre manchas inapagáveis que denunciam a queda passada. E o mundo da criança já não está intacto. Penosamente, ir-se-á arrastando até ao estado de homem.

Adam compreendeu quem era o pai. Não foi o homem quem descobriu um defeito na couraça, foi a criança quem forjou novas armas. Como todo o animal bem constituído, odiava a disciplina.

Era um mal inevitável como o sarampo, um mal que não se podia recusar nem amaldiçoar, mas apenas odiar. Foi muito simples e rápido um estalido no cérebro e Adam compreendeu. A educação não era concebida em função dos rapazes, mas unicamente para engrandecer Cyrus. Ora Adam sabia que o pai não era um grande homem. Era, dotado duma grande vontade, um homenzinho que usava um chapéu grande de mais para a cabeça. O que é que põe o mecanismo em movimento no cérebro da criança: um olhar, uma mentira descoberta, uma hesitação? Seja o que for, o ídolo desaba com fragor. Adam foi sempre uma criança obediente. Havia nele algo que o fazia furtar-se à violência, ao que podia fazer desencadear a violência. Desejoso de calma, despojava-se da agressividade, mas era obrigado a dissimular uma parte de si mesmo, pois há sempre um pouco de violência em todos nós.

Ocultava as suas acções sob um véu de bruma, mas no fundo dos olhos fervilhava uma vida rica e intensa. Se não se encontrava protegido contra os ataques, tinha uma espécie de imunidade.

O meio-irmão Charles, menos de um ano mais novo, crescia à imagem do pai. Era um atleta nato e possuía um espírito de competição que leva a afrontar os outros para os esmagar o que, no nosso mundo, é considerado um sinal de êxito.

Quer se tratasse de habilidade, de força pura ou de rapidez de reflexos, o jovem Charles, em competição com Adam, ganhava sempre com uma tal regularidade e uma tal facilidade que depressa se aborreceu e foi procurar novos adversários entre as outras crianças. Nasceu uma espécie de afeição entre os dois irmãos, mas uma afeição de irmão por irmã. Charles provocava e castigava os que desafiavam ou atacavam o irmão mais velho.

Protegia-o do rigor paterno mentindo e arcando com as culpas.

Tinha pelo irmão a afeição que se concede a um ser indefeso, cachorro cego ou recém-nascido.

Dissimulado na sua carapaça, através dos longos túneis onde escondia os olhos, Adam examinava os que habitavam o seu mundo. O pai, força natural de uma só perna, presente para aumentar nos meninos a sensação da sua pequenez, para os convencer da sua estupidez. Depois, mais tarde após a queda do ídolom um polícia congénito, um agente da policia a quem se pode enganar ou cercar, mas nunca desafiar. No campo dos seus longos olhostúneis, Adam via a imagem de Charles, um ser de outro género, feito de músculos e de ossos, rápido e ágil, vivendo num plano diferente, que se pode admirar como se admira o andar preguiçoso da pantera negra, mas com quem, nem por sombras, se podia comparar; um ser ao qual teríamos tanta vontade de nos confiarmos dizer a sede das coisas, os sonhos azuis e os prazeres que nascem para cá dos dois túneis como a uma bela árvore ou a um faisão voando. Adam gostava de Charles como uma mulher gosta de um grande diamante, e dependia do irmão na medida em que uma mulher depende do seu diamante, da posição social que o seu valor apregoa. Mas ter-lhe amor, afeição, simpatia, não.

Em relação a Alice Trask, Adam nutria um sentimento de calorosa vergonha. Não era mãe dele, de mais lho tinham dito, não por frases categóricas mas pela maneira como se dizem certas outras coisas. Sabia que tivera uma mãe e que ela fizera coisas vergonhosas como esquecer-se de alimentar as galinhas ou falhar o alvo nos exercícios da mata. E, para castigo das suas faltas, desaparecera. Adam dizia muitas vezes a si mesmo que, se conseguisse descobrir o pecado que ela cometera, se apressaria a cometê-lo para desaparecer por sua vez.

Alice tratava equitativamente os dois rapazes, lavava-os e dava-lhes de comer. O resto era com o pai que dera a entender, de uma vez para sempre, que só a ele respeitava a educação física e espiritual das duas crianças.

As felicitações e os ralhos também eram com ele. Alice nunca se queixava, nem discutia, assim como nunca chorava nem se ria. Aprendera a mostrar um rosto impenetrável nada tinha a esconder, nem a oferecer. Contudo, um dia, quando ainda era muito pequeno, Adam entrara na cozinha. Alice não o viu, entretida a remendar meias. Sorria. Adam saiu sem ruído e foi esconder-se atrás dum tronco de árvore que descobrira na mata, aninhando-se no meio das raízes protectoras. Ficara tão surpreendido como se tivesse surpreendido Alice nua. Respirava com força, muito impressionado, faltava-lhe o ar, porque Alice estava nua, completamente despida pelo sorriso. Perguntava a si mesmo porque se teria ela permitido um tal desregramento. Sentiu, então, que um sentimento doloroso, lancinante e cálido, o empurrava para ela.

Nunca fora beijado, embalado, acariciado, ele que procurava um seio, uns joelhos a que se agarrar, um pouco de ternura numa voz. A sua paixão compunha-se de todas estas coisas que lhe tinham faltado, mas não o sabia visto que as ignorava. Como lhe poderiam ter feito falta?

Pensou, evidentemente, que talvez se tivesse enganado, que fora apenas uma sombra maliciosa o que lhe embaciara o olhar.

Procurou a imagem que encerrara na memória e viu que os olhos também sorriam. A sombra podia fazer sorrir uma boca ou uns olhos, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo.

Pôs-se então a espreitar Alice com as mesmas artimanhas que empregava para surpreender as velhas doninhas prudentes que expunham os filhos ao sol. Espreitou Alice, escondido, ou com o rabo do olho. Era verdade: quando estava só ou se julgava só, ela deixava o espirito brincar num jardim e sorria. Era maravilhoso ver como ela conseguia apagar o sorriso, tão depressa como as doninhas escondem os filhos.

Adam dissimulou o seu tesouro no fundo dos túneis, mas sentiu que devia pagar um tributo pelo prazer recebido. Alice, então, passou a encontrar presentes na caixa da costura, na velha mala de mão, debaixo do travesseiro: duas flores de caneleira, uma pena azul de pássaro, meio pauzinho de lacre verde, um lenço roubado. A princípio, Alice ficou admirada mas depressa se habituou e quando, depois, encontrava um desses presentes inesperados, só o sorriso destinado ao jardim lhe iluminava o rosto, sorriso tão breve como o faiscar dum raio de sol nas escamas dum peixe na água. Mas não fez quaisquer perguntas, nem a mínima observação.

Os ataques de tosse tornaram-se tão fortes que Cyrus, resolvido a proteger o seu sono, mandou-a dormir para outro quarto.

Mas ia visitá-la com muita frequência, saltitando sobre o único pé descalço e apoiando-se à parede com a mão. Os filhos ouviam e sentiam a sacudidela, quando ele se deixava cair ou saía da cama de Alice.

Adam via aproximar-se o dia em que seria incorporado e esse dia assustava-o. O pai nunca se esquecia de lhe lembrar que tal dia não tardaria. Adam. precisava de ir para a tropa para ser um homem. Charles já era quase um homem. Um homem perigoso apesar de só ter quinze anos, quando Adam já ia nos dezasseis.

 

A amizade dos dois irmãos crescera com os anos. Nos sentimentos de Charles talvez entrasse um pouco de desprezo, mas era um desprezo protector. Uma tarde, os dois rapazes estavam jogando ao peewee na cerca. Era um jogo novo para eles: colocava-se um pauzinho esquinado no chão; batia-se numa extremidade com uma espécie de pá; o pauzinho saltava e dava-se-lhe, então, com a pá, para que atingisse a maior distância possível.

Adam era um medíocre jogador mas, por acaso, por falta de visão ou de sincronismo do irmão, ganhou-lhe ao peewee. Quatro vezes de seguida jogou o pauzinho mais longe. O facto era tão inesperado que se apoderou dele uma alegre excitação e se esqueceu de observar Charles como nunca deixava de o fazer. À quinta vez, o pauzinho elevou-se com um zumbido de abelha e desapareceu. Satisfeito, voltou-se para o irmão e a sua alegria dissipou-se subitamente para dar lugar a um grande frio. O ódio que deformava o rosto de Charles meteu-lhe medo.

Foi por acaso disse desajeitadamente. Aposto que não sou capaz de tornar a fazer o mesmo.

Charles pôs no chão o seu peewee, bateu e falhou o pauzinho às voltas no ar. Avançou para Adam, com o olhar frio e inexpressivo. Adam recuou de través, tomado de pânico. Não ousava voltar as costas e fugir porque o irmão corria mais depressa do que ele. Pôs um pé atrás do outro, com o olhar assustado e a garganta seca. Charles aproximou-se e, à queima-roupa, vibrou-lhe uma paulada na cara. Quando Adam levava as mãos ao nariz ensanguentado, Charles agrediu-o com a pá nas costas e na cabeça, deixando-o prostrado. Depois, vendo-o inanimado no chão, deu-lhe um pontapé no estômago e afastou-se.

Adam recuperou os sentidos poucos instantes depois e respirou devagarinho porque lhe doía muito o peito. Tentou sentar-se mas caiu para o lado, torcido pela dor que se enrodilhara na boca do estômago. Viu que Alice o olhava pela janela e o seu rosto exprimia qualquer coisa que nunca vira até então não era doçura, nem compaixão, talvez fosse ódio. Quando se sentiu observada, Alice deixou cair a cortina e desapareceu. Adam conseguiu, finalmente, erguer-se e dirigiu-se, dobrado em dois, para a cozinha onde encontrou uma bacia com água quente e uma toalha limpa. A madrasta tossia no quarto.

Charles só tinha uma grande qualidade: nunca lamentava nada. Não falou na sova e pareceu nunca mais ter pensado nela.

Mas Adam tomou a precaução de nunca mais ganhar a coisa nenhuma. Se quisesse ter, um dia, a veleidade de ganhar, deveria preparar-se para poder matar o irmão logo a seguir. Charles nada lamentava. Mostrara, simplesmente, aquilo de que era capaz.

Nem Charles, nem Adam, e muito menos Alice, falaram da tareia a Cyrus que, no entanto, pareceu estar informado. Nos meses que se seguiram, a sua atitude para com Adam foi mais amável. Falou-lhe com mais ternura e não o tornou a castigar.

E se, todas as noites, lhe pregava um sermão, era sem violência. Mas Adam sentia-se muito mais atemorizado pela ternura do que pela violência, um sintoma de que o iam sacrificar. As vítimas destinadas aos ídolos são tratadas com todas as considerações. Devem estender-se em cima da pedra e deixar que lhes cortem o pescoço com alegria, porque uma vitima revoltada seria um ultraje aos ídolos.

Cyrus explicava suavemente a Adam o que era um soldado.

Se bem que o seu saber fosse mais o fruto de investigações do que de experiências, era rigoroso nas explicações. Avisou o filho da triste dignidade que pode ser conferida ao soldado; disse-lhe quanto ele era necessário para iluminar os erros do homem, castigo das nossas fraquezas. Talvez Cyrus fosse descobrindo essas coisas em si mesmo à medida que as exprimia. Já andava longe do entusiasta que só se interessava pelo brilho das fardas e pelos sentimentos belicosos dos verdes anos. Nenhuma humilhação se poupava ao soldado, no consenso de Cyrus, para que, chegado o dia, aceitasse sem ira demasiada a última humilhação: uma morte ignóbil que para nada serve. Cyrus só se dirigia a Adam e não autorizava Charles a escutá-lo.

Por um fim de tarde, Cyrus levou Adam a passear. As negras conclusões de todos os seus estudos e de todos os seus pensamentos derramaram-se, semeando o pânico no ânimo do filho.

É preciso que saibas que o soldado é o mais abençoado de todos os seres humanos, por ser o que mais provações sofre.

Sim, submetem-no a mais provações do que seja quem for. Vou tentar explicar-te: sempre ensinaram ao homem que matar o próximo é um pecado sem remissão. Um homem que mata deve ser suprimido, porque matar é um grande pecado, talvez o maior de todos. Mas pegamos num soldado, metemos-lhe nas mãos o poder de matar e dizemos-lhe: “Aprende a servir-te dele. Emprega-o o melhor que puderes.” Não lhe fixamos um limite. “Vai e mata muitos irmãos teus, os que forem designados por nós, e nós te recompensaremos por isso, pois é uma violação da mais terna educação.”

Adam molhou os lábios secos e tentou fazer uma pergunta.

Não o conseguiu e tentou de novo:

Porque devem eles matar? Porque é necessário matar?

Cyrus estava profundamente comovido e falou como nunca tinha falado.

Não sei. Estudei as coisas e talvez saiba o que elas são, mas estou muito longe de saber porque são. E não deves esperar encontrar pessoas que te compreendam o que fazem. Tantos actos são instintivos: a abelha fabrica o mel e a raposa caminha no riacho para enganar os cães. A raposa não sabe porque age desse modo, e qual a abelha que se lembra do Inverno e prevê que ele há-de voltar? Quando compreendi que tinhas de partir, pensei primeiro em deixar-te um futuro virgem onde pudesses descobrir tudo tu por ti mesmo; depois, pareceu-me que ficarias melhor protegido se te desse o pouco que sei. Porque tu vais partir em breve

- já atingiste a idade.

Mas eu não quero disse rapidamente Adam.

Vais partir em breve continuou o pai, que não o escutava. E quero acautelar-te para que não sejas apanhado de surpresa. Primeiro, põem-te nu. Mas não ficam por aí. Destruirão em ti toda a dignidade; perderás o que pensas ser um direito imprescritivel: o direito de viver só, o direito à decência. Obrigar-te-ão a viver, a comer, a dormir e a cagar com outros homens. E quando te tiverem vestido, já não consegues distinguir-te dos outros. Nem sequer poderás pregar um papel no peito, dizendo: “Sou eu. Não faço parte deles.”

Mas eu não quero.

Após algum tempo, os teus pensamentos já não diferirão dos pensamentos dos outros. Deixarás de conhecer as palavras que os outros não pronunciarem. E farás as coisas porque os outros as fazem. Sentirás o perigo contido no não-conformismo, o perigo que representará para ti a existência duma massa com um só pensamento, uma só acção.

E se eu não me submeter?

É uma coisa que acontece. Muito raramente, aparece um homem que não faz o que lhe mandam. Sabes, então, o que acontece? Toda a máquina se põe em movimento e esmaga friamente todas as saliências do recalcitrante. Mói o cérebro, os nervos e o corpo até se transformarem numa pasta que se adapta às paredes do vaso que a deve conter. Se não te submeteres, a máquina vomita-te e abandona-te. Já não fazes parte dela mas, mesmo assim, não és livre. É melhor submeter-se à sua vontade. Ela só o exige para se proteger. Uma entidade tão triunfalmente ilógica, tão magnificamente insensível como o exército não pode permitir perguntas que a enfraqueceriam. Uma vez alistado, se não procurares elementos de comparação desfavoráveis, encontrarás no exército lentamente, seguramente uma razão, uma lógica e uma assustadora beleza. Um homem que o aceita não é forçosamente inferior, pode até ser um homem melhor. Presta bem atenção ao que te digo, porque tenho pensado muito nisso. Há homens que, depois de terem alcançado a mais profunda e sombria desagregação exigida pelo exército, se confessam vencidos e perdem, então, todas as cores. É preciso que se diga que esses homens começaram por nunca ter tido umas cores muito brilhantes. Talvez tu faças parte desse grupo. Mas há também os que, tendo atingido o fundo, e perdido o pé sob a camada de lama comum, sobem então à superfície e se ultrapassam porque se desenvencilharam duma mesquinhez feita de vaidade e envergaram a altivez dum grupo. Se puderes descer tão baixo, subirás mais alto do que podes imaginar e conhecerás uma alegria sem igual, saborearás o prazer duma camaradagem que vale a dos anjos no céu. Só então conhecerás os homens, mesmo que não formem senão uma massa. Mas para saber tudo isso, terás primeiro que tocar no fundo.

Quando se dirigiam para casa, Cyrus virou à esquerda e entrou na mata. Era quase de noite. Adam disse subitamente:

Vês aquele tronco, pai? Escondia-me nas raízes quando me castigavas ou só porque me sentia infeliz.

Vamos ver disse o pai.

Adam conduziu-o e Cyrus debruçou-se para a cavidade arranjada nas raízes.

Já o conhecia há muito tempo disse. Num dia em que ficaste por fora muito tempo, pensei que devias ter um esconderijo e procurei-o tentando imaginar antecipadamente qual era o género de sítio de que precisavas. Vês como a terra está batida e a erva arrancada? Enquanto estavas aí escondido, arrancavas pedaços da casca que rasgavas em tiras. Soube logo que era este o sítio, mal aqui cheguei.

Adam fitava o pai com um olhar admirado.

Mesmo assim, nunca me vieste buscar.

Pode-se obrigar um ser humano a chegar muito longe, mas eu nunca o quis fazer. Deve-se deixar sempre um meio de evasão ao homem, antes da sua morte. Recorda-te disto! Não queria levar-te a um extremo porque sentia que te havia fechado todas as saídas, menos uma.

Saíram à pressa da mata.

Tenho tantas coisas a dizer-te que acabarei por esquecer mais de metade disse Cyrus. Quero dizer-te que um soldado desde o dia em que nasce, através de cada acontecimento, por cada lei, por cada direito ou dever, aprende a proteger a vida. É com esse instinto que parte e tudo o vem confirmar. Mas quando se torna soldado, deve aprender a esquecê-lo, deve aprender a viver aceitando a morte. E a sua razão não deve vacilar. Se puderes lá chegar cuidado, muitos são incapazes terás adquirido a maior das virtudes. Ouve, meu filho... (E a voz tornou-se mais animada.) A maioria dos homens tem medo. Ignoram a causa do seu medo: sombras, perguntas, perigos sem nome e sem conta, medo da morte anónima. Se te puderes alçar até olhar de frente, não sombras, mas a morte, a verdadeira morte, a morte tal como a conhecemos, pela bala ou pelo sabre, pela flecha ou pela lança, então deixarás de ter medo ou, pelo menos, de ter medo como antes. Terás direito a um lugar à parte, serás um homem em segurança onde os outros uivam de pavor. É esta a grande recompensa. Talvez seja a única. Talvez seja a pureza derradeira com o seu anel de sujidade. Já é quase noite. Amanhã, falarei novamente contigo, depois de termos pensado no que acabei de te dizer.

Então Adam perguntou:

Porque não falas antes com o meu irmão? O Charles não se importa de ir. Será um bom soldado, muito melhor do que eu.

O Charles não vai. Não serviria de nada.

Mas daria um bom soldado?

Aparentemente. O Charles não conhece o medo. Não poderia aprender o que é a coragem. Nada sabe acerca do que há fora de si mesmo, portanto como poderia assimilar as coisas de que te falei? Pô-lo no exército equivaleria a desencadear nele sentimentos que devem, justamente, ser refreados. Não o mandarei alistar-se.

Nunca o castigas, deixa-o viver à vontade, sempre o encorajavas enquanto me humilhavas, e agora não o queres meter no exército.

Adam deteve-se, assustado com o que dissera, receando que o pai descobrisse a raiva, o desprezo ou a violência que aquelas palavras deixavam transparecer.

O pai não respondeu. Saiu da mata, com a cabeça inclinada e o queixo repousando no peito. A perna de pau desenhava um semicírculo para avançar e a anca soerguia-se sempre que o coto tocava no chão.

Fazia completamente escuro e a luz doirada dos candeeiros saía pela porta aberta da cozinha. Alice saiu e perscrutou a obscuridade, depois, ao ouvir os passos irregulares, tornou a entrar em casa.

Cyrus só se deteve no limiar. Ergueu a cabeça.

Onde estás?

Aqui, atrás de ti.

Fizeste uma pergunta. Suponho que devo responder-te

Faço bem ou mal em responder? Não sei. Tu não és inteligente.

Não sabes o que queres. Ignoras a violência. Deixas-te levar. Às vezes, convenço-me bem de que és um pobre tipo que nunca conseguirá nada. Isto responde à tua pergunta? Gosto mais de ti.

Sempre te preferi a ele. Talvez seja mau dizer-to, mas é verdade;

gosto mais de ti. Se não fosse isso, porque me teria dado ao trabalho de te fazer mal? Agora, cala a boca e vai jantar. Amanhã à tarde voltaremos a falar. A perna está a doer-me.

 

Ninguém falou durante o jantar. O sossego só foi perturbado pelo sorver da sopa e pelo ruído das mandíbulas. O pai tentava afastar com as costas das mãos as borboletas que voavam em torno do vidro do candeeiro de petróleo. Adam pensava que o irmão o observava disfarçadamente. Ergueu bruscamente os olhos e surpreendeu um clarão no olhar de Alice. Assim que acabou de comer, Adam afastou a cadeira.

Vou dar uma volta disse. Charles levantou-se:

Vou contigo.

Alice e Cyrus viram-nos sair e, depois, ela fez uma das suas raras perguntas:

Que fizeste tu? perguntou nervosamente.

Nada.

Vais mandá-lo para lá?

Vou.

Ele sabe?

Cyrus fitou a obscuridade, para lá da porta:

Sabe, sim.

Não há-de gostar. Não é bom para ele.

Não tem importância disse Cyrus.

Depois repetiu mais alto:

Não tem importância.

E o tom da voz significava: “Basta! Não tens nada com isso.”

Ficaram silenciosos por um momento e, depois, ele disse, como que a pedir que o desculpassem:

Não é como se fosse teu filho.

Alice não respondeu.

Na obscuridade, os dois irmãos caminhavam entre os trilhos da estrada. Ao fundo, algumas luzes indicavam a posição da aldeia.

Vamos à estalagem ver o que se passa? perguntou

Charles.

Não era isso o que eu tencionava fazer disse Adam.

Então o que é que tu andas a cheirar cá fora, em plena noite?

Ninguém te pediu para vir.

Charles aproximou-se:

Que foi que ele te disse esta tarde? Vi-os andarem juntos.

Que te disse ele?

Falou-me da tropa, como sempre.

Não era isso o que parecia disse Charles, suspeitoso.

Vi-o debruçado para ti, a falar-te como costuma falar aos homens. Não contava coisas, estava a falar.

Contava coisas disse Adam, pacientemente.

Mas controlou a respiração porque sentia o estômago contraído por um assomo de medo. Aspirou um profundo hausto de ar e guardou-o no peito para empurrar o medo.

Que foi que ele te contou? perguntou Charles de novo.

A tropa e o que é ser soldado.

Não acredito disse Charles.És um mentiroso refinado e um sonso! O que me estás tu a esconder?

Nada disse Adam

Charles lançou bruscamente:

A doida da tua mãe atirou-se à água. Se calhar olhou-te de perto e foi por isso.

Adam respirou suavemente; recalcando o medo ignóbil. Continuava calado.

Andas a ver se o atrais. Não sei como é que consegues.

Hem! o que é que andas a tramar?

Nada disse Adam.

Charles deu um salto para barrar a passagem a Adam que teve de parar; o seu peito quase tocava no do irmão. Adam recuou, mas com extrema cautela, como se recua diante duma serpente.

Por exemplo: vê se te recordas do aniversário dele berrou Charles. Eu tinha seis cêntimos e comprei-lhe um canivete alemão: três lâminas e o saca-rolhas, com um cabo de madrepérola. Onde está o canivete? Já o viste alguma vez servir-se dele? Deu-to? Nunca o vi afiá-lo. Tens o canivete aí no teu bolso? Que foi feito dele? Obrigado, disse-me ele, sem mais nada.

E depois nunca mais se tornou a falar no meu canivete de seis cêntimos.

A fúria deformava-lhe a voz e Adam sentia o medo a inchar dentro de si; mas também sabia que ainda dispunha de um momento. Já vira muitas vezes começar a funcionar a máquina destruidora que esmagava tudo o que encontrava no caminho. Primeiro, vinha a fúria, depois, o frio domínio de si próprio: olhos sem expressão, sorriso satisfeito, voz sem timbre, segredar. Nessa altura, surgia a morte, mas uma morte hábil e segura de si mesma, uma morte com punhos certeiros. Adam engoliu a saliva para humedecer a garganta. Nada tinha para dizer que desviasse a máquina, pois sabia que, possuído pela fúria, o irmão não lhe prestaria atenção, nem sequer o ouviria.

Charles postou-se em frente de Adam, mais baixo, mais largo, mais forte, mas não, ainda em posição de ataque. Os lábios húmidos brilhavam à luz das estrelas, mas não sorria ainda e a voz continuava a ser timbrada.

Que fizeste tu no dia dos anos dele? julgas que não vi?

Gastaste, por acaso, seis cêntimos, ou mesmo quatro? Trouxeste-lhe um cachorro atravessado que apanhaste na rua. Riste como um imbecil e disseste-lhe que daria um bom cão de caça. É no quarto dele que dorme o cão. Enquanto lê, brinca com o cão. Até o ensinou. E onde está o meu canivete, no meio de tudo isto?

“Obrigado” foi tudo o que ele disse, obrigado”.

Charles murmurara estas palavras enquanto baixava os ombros.

Adam deu um salto desesperado para trás e levantou as mãos para proteger a cara. O irmão avançou com precisão e firmou-se nas pernas. Um punho atirado delicadamente para calcular a distância, depois o trabalho, científico de destruição: um murro no estômago para baixar as mãos de Adam, depois quatro murros na cara. Adam sentiu esmagarem-se os ossos e as cartilagens do nariz. Ergueu as mãos e Charles atingiu-o no coração. E, durante todo este tempo, Adam olhou o irmão com o olhar espantado e sem esperança que o condenado dirige ao carrasco.

Subitamente, para sua grande surpresa, Adam lançou em semicírculo um punho ineficaz que não tinha força nem precisão.

Charles esquivou-se, rodou, e o braço impotente foi enrolar-se-lhe à volta do pescoço. Adam apertou o irmão nos dois braços e colou-se a ele soluçando. Continuou a agarrar-se, apesar dos dois punhos que o martelavam, apesar da náusea. O tempo não passava. Sentiu que o irmão se movia de lado para o obrigar afastar as pernas. Sentiu o joelho subir, ultrapassar-lhe os joelhos, roçarlhe as coxas e depois esmagar-lhe os testículos. Um ferro em brasa abriu uma dor fulgurante que se propagou através de todo o corpo. Abriu os braços, dobrou-se todo e vomitou sob os golpes implacáveis que continuavam a chover.

Adam sentia as punhadas nas fontes, na cara, nos olhos, as pancadas que fendiam e faziam rebentar os lábios; mas a pele parecia-lhe mais espessa, menos sensível, como se estivesse revestida de borracha. Perguntou a si mesmo porque não se lhe vergavam as pernas, porque não caía, porque não ficava inconsciente. A punição prosseguiu durante uma eternidade. Ouvia o arfar do irmão, o há” que lhe saía dos lábios como um ferreiro que abate o martelo. Depois, à luz doentia das estrelas, através da cortina de sangue que lhe escorria dos olhos, viu o irmão. Viu o olhar inocente, sem expressão, e o sorrisinho nos lábios molhados. E quando via estas coisas, veio um clarão, logo seguido da noite.

Charles ficou de pé a olhá-lo, engolindo o ar como um cão sem fôlego. Depois voltou-se e afastou-se ràpidamente em direcção a casa, amassando as falanges doloridas.

Adam depressa recuperou a consciência e, com ela, veio o medo. O cérebro rolava num nevoeiro doloroso. O corpo ficara pesado e desajeitado com a dor. Mas, instantaneamente, esqueceu a dor. Ouvira passos rápidos na estrada. Reagiu com o instinto do rato -medo e ferocidade. Pôs-se de joelhos e atravessou a estrada em direcção à valeta. Havia água no fundo da valeta e erva nos bordos. Adam rastejou suavemente para entrar na água sem provocar ruído.

Os passos aproximaram-se, afrouxaram, afastaram-se, tornaram a aproximar-se. Do seu esconderijo, Adam apenas avistava uma sombra na noite. Riscou-se um fósforo e o enxofre ardeu com uma chamazinha azul antes que a madeira, ao pegar, iluminasse por debaixo, de maneira extravagante, o rosto de

Charles que ergueu o fósforo e inspeccionou a zona iluminada à sua volta. Adam viu-lhe um machadinho na mão.

Quando o fósforo se extinguiu, a noite pareceu mais escura do que antes. Charles avançou lentamente e riscou outro fósforo, depois outro ainda, e continuou a avançar. Procurava pegadas na estrada. Passado pouco tempo, renunciou às pesquisas. A mão direita descreveu um arco de círculo, atirando o machadinho para o meio dos campos. Depois, afastou-se rapidamente em direcção às luzes pálidas da aldeia.

Adam ficou muito tempo na água gelada. Congeminava no que pensaria o irmão. Perguntava a si mesmo que sentimento viera substituir a fúria: aflição, pena, remorso ou nada? Adam punha-se no seu lugar. Estava ligado ao irmão pelo canal do pensamento e sofria por ele como noutras circunstâncias fizera por ele os deveres escolares.

Adam saiu cautelosamente da água e endireitou-se. As pancadas cristalizavam em dores agudas e as crostas de sangue acabavam de secar na cara. Pensou que seria melhor ficar na escuridão até que o pai e Alice se fossem deitar. Sentia-se incapaz de responder à menor pergunta, pois não conhecia as respostas. Procurar uma resposta desencadeava furacões no cérebro magoado. Um mal-estar debruado de azul instalou-se-lhe na testa e sentiu que ia desmaiar de novo.

Pôs-se a andar com dificuldade, afastando muito as pernas.

Chegado ao limiar da casa, deteve-se para olhar. O candeeiro que pendia do tecto por uma corrente, gerava um círculo amarelo e alumiava Alice sentada à mesa, diante da caixa de costura. O pai, do outro lado, roía a caneta antes de apontar os seus projectos militares numa agenda preta.

Alice, ao erguer a cabeça, viu o rosto ensanguentado de Adam.

Levou a mão à boca e os dedos agarraram-se aos incisivos inferiores.

Adam subiu o primeiro degrau, depois o outro, e encostou-se ao alizar. Foi então que Cyrus levantou a cabeça. A sua primeira expressão apenas revelou uma perfeita curiosidade. Só muito lentamente compreendeu de onde provinha a deformação do rosto.

Ergueu-se, pejado de perguntas. Enfiou a caneta no tinteiro e limpou os dedos às calças.

Porque ele fez isso?perguntou docemente.

Adam tentou responder, mas os lábios estavam tumefactos e rebentados. Molhou-os com a ponta da língua e o sangue voltou a correr.

Não sei.

Cyrus precipitou-se para ele e empunhou-lhe o braço com tanta selvajaria que Adam fez uma careta e tentou libertar-se.

Não mintas! Porque fez ele isso? Discutiram?

Não.

Cyrus curvou-o para si.

Fala! Quero saber. Fala. Hás-de acabar por dizer. Porque, raio tens a mania de o proteger sempre? Julgas que não dou por isso? Tomas-me por parvo? Responde ou juro-te que te obrigo a ficar aqui de pé durante toda a noite.

Adam procurou desesperadamente uma resposta:

Ele pensa que tu não gostas dele.

Cyrus largou o braço e foi coxeando sentar-se na sua cadeira. Enquanto olhava para a agenda com um olhar ausente, ia arranhando o fundo do tinteiro com a caneta.

Alice, vai pôr o Adam na cama. Há-de ser preciso cortar-lhe a camisa. Dá-lhe uma ajuda.

Levantou-se. Num canto da casa estavam as roupas penduradas em pregos. Debaixo das roupas, estava a espingarda. Mexeu na culatra para verificar se estava carregada e, depois, saiu com o seu andar irregular.

Alice levantou a mão para o conter, como se pegasse na ponta duma corda invisível. A corda quebrou-se e o seu rosto nada deixou transparecer.

Sobe para o teu quarto disse. Vou buscar uma bacia com água.

Adam estava na cama com um lençol descido até à cintura.

Alice tratava as feridas com um lenço molhado em água quente.

Não disse nada durante um longo momento, depois continuou a frase de Adam como se ele nunca tivesse sido interrompido.

Julga que o pai não gosta dele. Mas tu gostas. Sempre gostaste dele.

Adam não respondeu.

Alice prosseguiu calmamente:

É um rapaz muito esquisito. É preciso conhecê-lo. Todo eriçado por fora, parece que dá cabo de tudo, quando se não conhece, parou para tossir, dobrou-se ao meio, tossiu e, quando a crise acabou, tinha as faces coradas e estava extenuada. É preciso conhecê-lo repetiu. Há muito tempo que me dá presentes, coisas bonitas em que ninguém o julgaria capaz de reparar. Mas não me oferece as coisas assim. Esconde-as onde sabe que as hei-de encontrar e pode-se observá-lo durante horas a fio que nunca se trai. É preciso conhecê-lo.

Alice sorriu a Adam. Ele fechou os olhos.

 

 

                         CAPÍTULO IV

 

Charles encontrava-se na estalagem da aldeia. Encostado ao bar, ria deliciado com as histórias cómicas de alguns caixeiros- viajantes que ali tinham ido parar. Tirou a bolsa do tabaco onde guardava os trocos de prata, e ofereceu de beber aos homens para que continuassem a falar. Bamboleou-se, careteou um sorriso e afagou as falanges magoadas. Os caixeiros-viajantes aceitaram a rodada e ergueram os copos dizendo: “À sua!” Charles estava encantado. Encomendou outra rodada para os novos amigos e partiu com eles para ir ofender o céu noutro sítio, de outra maneira.

Cyrus mergulhara na noite, cheio de uma cólera desesperada. Procurara o filho na estrada, depois na estalagem, mas Charles já se fora embora. Se tivesse encontrado o filho nessa noite, matá-lo-ia ou teria tentado fazê-lo. Um acto importante pode deformar a história e é provável que todos os actos exerçam uma influência no seu meio, à sua medida quer seja a pedra em que se tropeça, a respiração que se sustém quando se vê uma bela rapariga ou um fragmento de unha no chão do jardim.

Charles não tardou a saber que o pai o procurava, armado duma espingarda. Escondeu-se durante duas semanas e quando, finalmente, voltou a casa, a ideia de assassínio retrogradara à fase da cólera. Charles assumiu um ar teatralmente humilde e foi punido com um aumento de trabalho.

Adam ficou quatro dias de cama, ancilosado, debatendo-se com o sofrimento. Cada movimento arrancava-lhe um grunhido.

No terceiro dia, o pai trouxe uma prova da influência de que dispunha no exército motivo de orgulho para ele, recompensa para

Adam. No seu quarto entraram um capitão de cavalaria e dois sargentos de uniforme azul. Na cerca, dois simples soldados tomavam conta dos cavalos. Adam, amarrado ao leito, foi alistado como cavaleiro de segunda classe. Assinou e prestou juramento sob os olhares de Alice e do pai. Cyrus tinha lágrimas nos olhos.

Depois da partida dos soldados, ficou muito tempo junto do filho.

Foi voluntariamente que escolhi a cavalaria. A vida de caserna depressa perde o interesse. Mas a cavalaria vai ter muito que fazer, segundo tive o cuidado de me informar. Hás-de gostar de ir para o território índio. Parece que vão praticar desporto para esse lado. Não te posso dizer onde foi que obtive a informação.

Mas vai haver luta.

Pois sim, pai disse Adam.

 

Sempre achei estranho que caiba geralmente a homens como

Adam a obrigação de fazer a guerra. Ele não gostava de lutar e, em vez de aprender a gostar, como acontece a alguns, passou a sentir uma crescente repugnância pela violência. Os seus oficiais desconfiavam de que visava mal de propósito, mas nunca conseguiram apurar factos concretos. Durante os cinco anos que passou no exército, Adam fez mais faxinas do que qualquer outro homem do esquadrão, mas se matou um inimigo foi em consequência dum ricochete infeliz. Como era um excelente atirador, tinha particular aptidão para falhar o alvo. Nessa época, a guerra com os índios não passava duma caçada perigosa as tribos eram obrigadas a revoltar-se, perseguidas, dizimadas, e os deploráveis sobreviventes eram encurralados em reservas onde estoiravam de fóme. Não era um trabalho limpo, mas a necessidade de expansão do país tornava-o necessário.

Adam, mero executante, não entrevia as possibilidades que se preparavam. Apenas via seres humanos iguais aos que a guerra dilacerava, e achava isso inútil e revoltante. Quando atirava de propósito para não acertar, sabia que estava traindo, mas não se importava. O sentimento da não-violência foi-se fortalecendo nele até se transformar num tormento tão entorpecente como qualquer outra forma de consciência. A simples ideia de atentar contra uma vida, qualquer que fosse o motivo, tornou-se-lhe intolerável. Essa obsessão pois era uma obsessão não o deixava pensar em mais nada. Contudo, Adam nunca praticou nenhuma covardia. Foi proposto e condecorado três vezes por bravura.

Quanto mais se revoltava contra a violência, mais os seus actos tomavam uma feição oposta. Arriscou várias vezes a vida para trazer feridos para as linhas. Pediu para prestar serviço nos hospitais de campanha fora das horas de serviço. Os companheiros consideravam-no com um desprezo afectuoso mesclado de medo, medo que se tem de sentimentos que não se compreendem.

Charles escrevia regularmente ao irmão. Falava da quinta da aldeia, duma vaca doente, duma égua que parira, dos terrenos que tinham comprado, do celeiro atingido por um raio, da morte de Alice, consumida pela tísica, da ida do pai para Washington para prestar serviço no G.A.R. Como a maioria das pessoas que não sabem falar, Charles escrevia abundantemente e em pormenor. Falava na sua solidão e nas suas perplexidades, prantava no papel muitas coisas que ignorava sobre si mesmo.

Foi durante o período em que os dois irmãos estiveram separados que se compreenderam melhor. A troca de cartas aproximou-os muito mais do que teriam julgado possível.

Adam aguardou uma carta do irmão, não porque a entendesse inteiramente, mas porque parecia encobrir algo em que ele não podia tocar. “Querido irmão Adam dizia a carta -, pego na pena para desejar que estejas de boa saúde”. Começava sempre assim para ajudar a inspiração. “Ainda não recebi resposta à minha última carta, mas suponho que tenhas outras coisas a fazerah! ah! A chuva veio fora de tempo e destruiu a flor das macieiras.

Não haverá muita fruta para comer no Inverno que vem. Hei-de guardar o que puder. Esta tarde limpei a casa. Está tudo molhado e escorregadio de sabão, e se calhar não ficou mais limpo. Chego a perguntar como fazia a mamã para conseguir ter a casa limpa.

As coisas já não são como no tempo dela. Há qualquer coisa que se entranha, não sei o que é, mas não consigo raspá-la. Seja como for, uniformizei a sujidade, já é alguma coisa ah! ah! o pai escreveu-te acerca da sua viagem? Ele foi a San Francisco da

Califórnia para tomar parte num acampamento do G.A.R. O Secretário da Guerra também vai, e é o pai quem o apresenta. Mas isto nada tem de sensacional para o papá, que já esteve com o

Presidente três ou quatro vezes e até foi à Casa Branca. Gostava de a ver. Talvez lá pudéssemos ir os dois, quando tu voltasses. O pai podia receber-nos durante alguns dias e, de resto, deve estar com vontade de te ver. Acho que seria acertado se eu arranjasse uma mulher. Mesmo que não seja um bom partido, uma rapariga sempre gostaria de ter uma bela quinta como a nossa. Que dizes?

Não me disseste se contavas vir viver para casa quando saísses do exército. Espero que sim. Fazes-me falta.”

A escrita acabava ali, com um borrão de tinta e um buraco no papel. Depois recomeçava, a lápis desta vez, e com uma grafia diferente.

Os gatafunhos a lápis diziam: “Mais tarde. O aparo partiu-se mesmo aqui. Tenho de ir comprar outro aparo à aldeia.”

Depois a caligrafia tornava-se mais calma. “Mais valia esperar até ter o aparo novo e não escrever a lápis. Mas a verdade é que estava aqui, na cozinha, com o candeeiro, e devo ter-me posto a pensar e fez-se tarde meia-noite, suponho, não vi as horas.

O velho “Zé Preto” começou a cantar na capoeira. Depois a cadeira de baloiço da mamã pôs-se a ranger como se ela lá estivesse. Sabes que não me assusto com este género de coisas, mas comecei às voltas com as recordações, sabes como estas coisas acontecem. Tenho a impressão de que vou rasgar esta carta, de que serve escrever coisas assim?”

Depois as palavras começavam a correr como se tivessem medo de ser apanhadas. “Se a vou rasgar, mais vale não estar com meias medidas. Parece que toda a casa se pôs a viver e que cresceram olhos em toda a parte e que há pessoas à porta aguardando um instante de distracção da minha parte para entrarem.

Estou todo arrepiado. Queria dizer-te quero dizer-te enfim, nunca compreendi enfim, porque fez o nosso pai aquilo? Quero dizer, porque foi que ele não gostou do canivete que lhe comprei pelo aniversário? Porquê? Era um bom canivete e ele precisava dum bom canivete. Se se tivesse servido dele, se o tivesse afiado, se somente o tivesse tirado do bolso e olhado, era tudo o que eu queria. Se tivesse gostado do canivete, não me teria atirado a ti.

Mas assim, tinha de me vingar em ti. Parece-me que a cadeira da mamã está a baloiçar um pouco. É a luz. Isso não pega comigo.

Tenho a impressão de que está qualquer coisa por acabar. Qualquer coisa meio feita e de que não me lembro. Qualquer coisa não foi feita. Eu não devia estar aqui. Devia andar pelo mundo em vez de ficar numa boa quinta a perguntar a mim mesmo se vou casar.

Há qualquer coisa que não vai bem, como se tivesse acontecido cedo de mais e se tivesse esquecido qualquer coisa. Eu devia estar no teu lugar e tu aqui. Nunca pensei deste modo. É talvez por ser tarde é mais tarde do que isso. Acabo de olhar pela janela e o dia já vai nascendo. Acho que não adormeci. Como foi que a noite passou tão depressa? Agora não me posso deitar.

Fosse como fosse, não conseguia dormir.”

A carta não estava assinada. Charles talvez tivesse esquecido que a queria destruir e tinha-a enviado. Adam guardou-a durante muito tempo e, sempre que a relia, percorria-o um calafrio e não sabia porquê.

 

 

                          CAPÍTULO V

 

No rancho os pequenos Hamilton principiaram a crescer e todos os anos nascia um. George era um grande e bonito rapaz meigo e amável, dotado duma espécie de cortesia natural. Era o que se chama uma “criança sossegada”. Andava sempre limpo e arranjado como o pai, e nunca parecia estar mal vestido, mesmo quando o estava. Levou uma vida sem pecado e, se alguma vez pecou, foi por distracção. No meio da sua vida, pouco mais ou menos na época em que tais coisas se descobriram, verificou-se que estava atingido de anemia perniciosa. É possível que tenha alimentado as virtudes com a falta de energia.

Depois de George, vinha Will, atarracado e tacanho, desprovido de imaginação mas cheio de vigor. Menino ainda, já era um trabalhador infatigável desde que lhe dissessem qual era o trabalho que devia fazer. Foi conservador, tanto em política como no resto, repudiando com nojo todas as ideias que julgasse revolucionárias. Will não queria ser criticado e por isso sempre se esforçou por viver como toda a gente.

Talvez o pai tivesse alguma coisa a ver com a desconfiança que Will sentia por todas as modificações ou transformações. Na época da sua adolescência, o pai ainda não vivia há tempo suficiente no Vale para ser considerado como um “antigo”. Era estrangeiro, irlandês, e nessa época não gostavam dos irlandeses na

América. Desprezavam-nos, sobretudo na costa oriental, e é natural que o mesmo sentimento tenha germinado no Oeste. Ora Samuel não era apenas um irlandês instável e entusiasta, era também um irlandês inventivo que acreditava nas ideias novas. No seio duma pequena comunidade isolada do mundo, um tal homem é considerado com desconfiança até que consiga provar que não constitui um perigo para os concidadãos. Um ser excepcional como

Samuel podia, pode, aliás causar muitos aborrecimentos.

Podia, por exemplo, mostrar-se demasiado atraente aos olhos das esposas cujos maridos se sabiam destituídos de encantos. Depois, havia a sua educação e a sua cultura, os livros que comprava e pedia emprestados, o seu conhecimento das coisas que não se comem nem se usam, o seu interesse pela música e o seu respeito pelas belas-letras. Se Samuel fosse um homem rico como os Thornes ou os Delmar, que possuíam boas casas e boa terra plana, teria tido uma grande biblioteca.

Os Delmar tinham uma apenas livros enfileirados em prateleiras de carvalho. Samuel pedira mais livros emprestados do que os lidos pelos Delmar. Nessa época, admitia-se que um homem rico fosse culto. Podia mandar os filhos para o colégio sem dar que falar, podia usar um casaco, uma camisa e uma gravata em pleno dia e no meio da semana, podia usar luvas e tratar das unhas. Os costumes das pessoas ricas são misteriosos. Não se sabe quais são as suas necessidades. Mas um pobre, para que precisava de poesia, de pintura ou de música que não faz dançar?

Tais coisas não lhe rendiam um saco de trigo nem um remendo para pôr nas calças dos filhos. Apesar de tudo, Samuel persistia.

Devia ter razões que não sustentavam um exame aturado.

Samuel desenhava as peças das máquinas que tencionava construir. Os planos eram bem feitos e compreensíveis. Invejavam-lhe o talento. Mas, nas margens, fazia outros desenhos, umas vezes árvores, outras vezes caras de animais ou de monstros; às vezes, até, formas que nada queriam dizer. Então os homens tinham um sorriso embaraçado. E depois, sobretudo, nunca se sabia antecipadamente o que Samuel ia dizer, pensar ou fazer tudo podia acontecer.

Durante os poucos anos que se seguiram à instalação de

Samuel no vale do Salinas, os outros pouco se deram com ele.

Talvez Will, miúdo ainda, tenha ouvido algum falatório no armazém de San Lucas. Os garotos não gostam que os pais sejam diferentes dos outros homens. Foi provavelmente nessa altura que

Will se tornou conservador. Mais tarde, na época em que os outros filhos já eram crescidos, Samuel passou a ser um homem do

Vale; o Vale orgulhava-se dele como um homem se orgulha de ter um, pavão. Já não lhe tinham medo porque não lhes seduzia as mulheres nem os arrancava da sua confortável mediocridade. O

Vale pôs-se a gostar de Samuel, mas era tarde de mais para Will, que já se fizera homem.

Certos seres, se bem que nem sempre o mereçam, são verdadeiramente amados pelos deuses. O que recebem, nunca o devem nem aos seus esforços nem aos seus cálculos. Will Hamilton era um desses seres e recebeu os dons que tinha a possibilidade de apreciar. Will foi protegido desde muito cedo pela sorte.

Quanto mais o pai era incapaz de ganhar dinheiro, mais o filho não podia deixar de o ganhar. Quando Will Hamilton comprou galinhas e elas começaram a pôr, o preço dos ovos subiu. Dois amigos dele, donos dum pequeno armazém à beira da falência, pediram a Will, então ainda rapaz, que lhes emprestasse a quantia necessária para pagar as letras vencidas. Em troca disto, os amigos comprometeram-se a entregar-lhe um terço dos lucros. Will não era mesquinho e deu-lhes o que pediam. Um ano depois, o negócio prosperára novamente, abriram uma sucursal, logo seguida de outra, e o mercado é agora controlado pelos actuais proprietários.

Will aceitou um dia, em pagamento duma dívida, uma pequena oficina de reparação de bicicletas. Então, algumas pessoas ricas do Vale compraram automóveis e tornaram-se clientes de

Will. Foi nessa altura que um poeta materialista que sonhava com cobre, ferro fundido e borracha se dirigiu a ele para realizar um projecto ridículo e talvez ilegal. O poeta chamava-se Henry Ford.

Resmungando, Will aceitou o exclusivo da parte sul do Vale. Quinze anos depois, as estradas estavam pejadas de Fords e Will, rico, guiava um Marown.

Tom, o terceiro filho, assemelhava-se ao pai. Nasceu furioso e viveu como um raio. Mergulhava na vida, de cabeça baixa, sacudido por entusiasmos e por alegrias desmesurados. Não redescobria o mundo e as gentes, recriava-os. Foi o primeiro a ler os livros do pai. O seu mundo era fresco e brilhante, tão ignorante das imposições como o jardim do Paraíso no sexto dia. O seu espírito saltava como um cabrito numa pastagem radiosa e quando, mais tarde, descobriu as vedações, atirou-se a elas até que, por fim, vendo-se encurralado, partiu as vedações e abandonou a nossa pastagem. Os seus desgostos eram tão desproporcionados como as alegrias, e quando lhe morreu o cão, parou o mundo.

Tom era tão inventivo como o pai, mas mais audacioso. Ousava o que o pai nunca teria tentado e era espicaçado por uma concupiscência que o pai ignorava. É possível que o seu comportamento sexual o tenha levado a ficar solteiro. Fazia parte duma família muito virtuosa. Seria por causa dos seus desejos e da maneira como os satisfazia que se sentia indigno? Que ia ele carpir nas colinas? Tom era uma mistura de violência e de gentileza.

Impunha a si mesmo tarefas superiores às suas forças para nelas consumir os desejos que o sufocavam.

Os Irlandeses são pessoas assustadoramente alegres, mas têm um espectro sinistro que lhes cavalga os ombros e lhes perscruta os pensamentos. Se riem muito alto, o espectro mete-lhes o comprido dedo na goela. Condenam-se a si mesmos antes de serem acusados e, por isso, estão sempre na defensiva.

Tom, aos nove anos de idade, afligia-se porque a irmã mais nova, Mollie, tinha um defeito de pronúncia. Pediu-lhe para abrir bem a boca e viu debaixo da língua uma membrana que era a causa do mal. “Posso arranjar-te isso”, disse ele. Levou a irmãzinha a um lugar que só ele conhecia, afiou o canivete numa pedra e cortou a excrescência prejudicial. Depois, fugiu para ir vomitar.

A casa dos Hamilton crescia com a família. Fora concebida para nunca ser acabada, para que lhe pudessem acrescentar mais divisões conforme as necessidades. Em pouco tempo, deixou de ser possível distinguir a casa original das suas dependências.

Mas Samuel não enriquecia. Sofria duma doença comum a muitos homens: a “patentite”. Tinha aperfeiçoado uma debulhadora que custava menos e debulhava mais que qualquer outra máquina do mesmo tipo. Para patentear a invenção, despendeu o magro lucro obtido num ano. Depois mandou os planos a um fabricante que teve o cuidado de os copiar antes de os devolver. Samuel moveu-lhe um processo que perdeu num prazo relativamente curto. Foi o que, felizmente, valeu à família, que morria lentamente de fome. Samuel compreendeu pela primeira vez que, sem dinheiro, não se luta contra o dinheiro. Mas já contraíra a “febre das patentes” e, todos os anos, gastava o dinheiro ganho a debulhar ou a forjar nos pedidos de patente. Os miúdos Hamilton andavam de pé descalço, com as roupas remendadas e mal alimentados, mas Samuel continuava a desenhar planos, projecções e cortes transversais em papéis de elevado preço.

Certos homens pensam em grande, outros pensam em pequeno. Samuel e os filhos Tom e Joe pensavam em grande. George e Will pensavam em pequeno. Joe era o quarto filho, uma criança sonhadora, profundamente amada e protegida por toda a família, e que depressa descobrira que uma incapacidade sorridente o punha ao abrigo do trabalho. Os irmãos, sem excepção, eram grandes trabalhadores. Era mais fácil fazer o trabalho de Joe do que convencê-lo a fazê-lo. O pai e a mãe diziam que era um poeta, visto não servir para mais nada. Para lhes dar razão, escreveu alguns versos harmoniosos. Era fisicamente preguiçoso e, provavelmente, também era um preguiçoso mental. Sonhava com a vida e a mãe amava-o mais do que aos outros por o julgar indefeso. Na realidade, ele era quem melhor se defendia, pois obtinha o que queria com um mínimo de esforço. Joe era o benjamim da família.

Nos tempos feudais, um rapaz inapto para o trabalho era destinado à Igreja; nos Hamilton, como Joe era inapto para o trabalho no campo e na forja, foi destinado aos estudos superiores. Não era fraco nem doentio, mas não conseguia desenterrar um pé de batatas. Montava mal e detestava os cavalos. Toda a família era sacudida por um sorriso afectuoso quando evocava as tentativas de Joe atrás da charrua: o primeiro sulco que traçara era tortuoso como um rio de planície e o segundo roçara pelo primeiro para partir logo em direcção oposta.

Gradualmente, Joe soube subtrair-se a todos os trabalhos do rancho. A mãe explicava que ele andava nas nuvens, como se isso fosse uma especial virtude.

Não possuindo nenhum dom fosse para que trabalho fosse,

Joe viu que um pai desesperado lhe confiava a guarda dum rebanho de sessenta carneiros. Era a tarefa mais simples, aquela que sempre se entrega, desde que há memória, ao parvinho da aldeia.

Joe só tinha uma coisa a fazer: ficar com os carneiros. E Joe perdeu-os sessenta de uma vez. Foi incapaz de os encontrar. Estavam no fundo duma ravina, calmamente agrupados à sombra. A dar crédito à história da família, Samuel reuniu todos os seus, filhas e filhos, e obrigou-os a prometer que tomariam conta do irmão quando morresse, porque, abandonado à sua sorte, Joe morreria de fome.

No meio dos rapazes Hamilton vinham cinco raparigas: Una, a mais velha, uma rapariguinha morena, secreta e estudiosa; Lizzie suponho que esta é que devia ser a mais velha, pois tinha o nome da mãe mas pouco sei de Lizzie; parece que se envergonhou muito cedo da família; casou nova, afastou-se e só a tornaram a avistar nos enterros; Lizzie, fenómeno entre os Hamilton, sabia o que era o ódio e a amargura; teve um filho que casou com uma rapariga de quem Lizzie não gostava; não lhe falou durante anos.

Depois vinha Dessie que estava sempre a rir. Todos gostavam dela porque se sentiam melhor ao pé dela do que de outra pessoa qualquer.

A seguinte era Olive, a minha mãe. A última era Mollie, uma pequena beleza de cabelos loiros e olhos ametista.

Eram estes os Hamilton. E quase parecia milagre que uma mulher como Lizza, seca como uma ameixa, tivesse podido dar, regularmente, ao mundo, um filho todos os anos, e tivesse podido alimentá-los, cozer-lhes o pão, coser-lhes a roupa e dar-lhes uma boa educação com princípios de ferro.

Lizza teve sobre os filhos uma influência de estranhar, pois não tinha nenhuma experiência do mundo, nenhuma cultura e nunca viajara, se exceptuarmos a longa viagem da Irlanda para a

América. Todos os seus conhecimentos dos homens residiam no marido, dever fatigante e por vezes doloroso. Passou a maior parte da vida a acompanhar e a educar os filhos. A Bíblia era toda a sua bagagem intelectual. Havia ainda as ideias trocadas entre

Samuel e os filhos, mas ela recusava-se a escutá-las. A Bíblia só por si era história e poesia, conhecimento do mundo e das coisas.

Nela residiam a estética, a moral e a salvação de Lizza. Nunca estudava nem discutia a Bíblia; lia-a. Nunca se deixara embaraçar pelas suas contradições aparentes e acabou por a saber de cor.

Lizza tinha direito à consideração geral, pois era uma boa mãe que sabia educar os filhos. Podia ir para todo o lado de cabeça levantada. O marido, os filhos e os netos respeitavam-na. Ela opunha aos compromissos, às fraquezas, aos erros, o rigor duma moral de aço. Era admirada como se admira o aço.

Lizza tinha um santo horror pelo álcool. Quem quer que provasse o líquido destilado no alambique do diabo, ofendia o Senhor. Não só nunca lhe tocava, como também censurava todos os que dele gostassem. Nestas circunstâncias, era natural que

Samuel e os filhos tivessem um certo fraco pela bebida.

Samuel perguntou, num dia em que estava muito doente:

Lizza, não posso beber um copo de uísque para elevar o moral?

Ela ergueu a cabecinha redonda:

Serias capaz de comparecer diante de Deus cheirando a uísque? Claro que não eras!

Samuel voltou-se para o outro lado e sofreu o seu mal com o moral em baixo.

Lizza, por volta dos setenta anos, foi atacada de retenção e o médico receitou-lhe uma colher de café de vinho do Porto, por dia.

Para engolir a primeira colherada, apertou o nariz. Não era tão mau como isso. A partir desse dia, o seu hálito passou a cheirar a vinho do Porto. Bebia-o sempre às colherinhas e era sempre um remédio, mas foi uma mulher muito mais feliz assim que atingiu o litro diário.

Todos os filhos de Samuel e de Lizza Hamilton já tinham ultrapassado a adolescência quando mudou o século. Era quase uma tribo de Hamiltons que crescia no rancho a leste de King City.

Eram jovens americanos. Samuel nunca voltou à Irlanda e acabou por a esquecer. As suas ocupações não lhe deixavam tempo para as saudades. O universo era o seu Vale. Uma vez por ano, ia a Salinas, sessenta milhas ao Norte. Educar, alimentar, vestir a enorme família, explorar o rancho, tomavam-lhe a maior parte do tempo, mas não todo o tempo. Samuel tinha uma grande vitalidade.

A sua filha Una tornara-se uma aluna estudiosa, calada e sombria. Samuel ufanava-se do seu feitio independente. Olive preparava-se para fazer exame após um estágio, no liceu de Salinas.

Olive ia ser professora. Para os Irlandeses, uma filha professora é uma honra tão grande como ter um filho padre. Joe ia partir para o colégio visto não servir para mais nada. Will prosseguia com êxito a sua carreira de involuntário homem rico. Tom cortava-se nas asperezas da vida e tratava das feridas. Dessie andava na costura e Mollie, a bonita Mollie, haveria de casar certamente com um bom partido.

A herança não estava em causa, pois as terras nada valiam, apesar da sua extensão. Samuel abria poço após poço e não encontrava água na própria terra. A água teria feito dos Hamilton pessoas relativamente ricas. A bomba situada junto da casa ia buscar a água às entranhas da terra; havia ocasiões em que o caudal diminuía perigosamente e a nascente secou por duas vezes. O gado, para beber, tinha de atravessar toda a propriedade e, para comer, era obrigado a refazer o trajecto em sentido inverso.

Tudo bem pesado, era uma família como tantas outras, nem mais rica, nem mais pobre, que só desejava viver e prosperar no solo do Vale. Era uma família em que se equilibravam os elementos contrários: conservadores e progressivos; sonhadores e realistas.

Samuel só tinha motivos para estar contente com o fruto dos seus amores.

 

 

                         CAPÍTULO VI

 

Depois do alistamento de Adam e da partida de Cyrus para

Washington, Charles viveu só no rancho. Por mais que dissesse que procurava uma esposa, não punha em prática o método corrente que consiste em travar conhecimento com uma rapariga, levá-la ao baile, assegurar-se da sua virtude ou do contrário e, para acabar, deixar-se escorregar preguiçosamente para o casamento. Charles tinha medo das raparigas. E, como todos os homens tímidos, satisfazia os desejos com uma prostituta anónima.

A puta é a mulher que mais segurança oferece ao tímido. Tendo- se-lhe pago, e com antecedência, fica à mercê do homem que pode, à vontade, ser alegre ou brutal; e, sobretudo, o homem não tem que encarar a eventualidade duma recusa que, só de pensar nisso, dá um nó nas tripas do tímido.

O sistema era simples e razoavelmente secreto. O dono da estalagem tinha três quartos no último andar que alugava às mulheres, por duas semanas. Passadas as duas semanas, novo contingente vinha substituir o anterior. O Sr. Hallam, o estalajadeiro, não recebia nenhuma percentagem. Podia quase garantir, com sinceridade, que ignorava tudo. Contentava-se em receber pelos quartos o quíntuplo do preço normal. As mulheres eram escolhidas, procuradas, deslocadas, vigiadas e roubadas por um certo

Sr. Edwards, de Bóston. As mulheres efectuavam um lento périplo através das pequenas cidades, nunca ficando mais de quinze dias no mesmo sítio. Era um sistema muito eficaz. As mulheres não habitavam na cidade o tempo suficiente para serem notadas por um habitante ou por um guarda. Raramente saíam dos quartos e evitavam os lugares públicos. Era-lhes proibido, sob pena de chicote, beber, provocar escândalo ou ficar apaixonadas. Serviam-lhes as refeições nos quartos e os fregueses eram cuidadosamente peneirados. Um homem em estado de embriaguez não era autorizado a “subir”. De seis em seis meses, todas as raparigas tinham direito a um mês de férias, para se embebedarem e pintarem o diabo.

Se, durante o trabalho, uma das rapariga desobedecia aos regulamentos, o Sr. Edwards despia-a, amordaçava-a e zurzia-a sem lhe poupar uma polegada do corpo. Se reincidia, ia parar à prisão por vagabundagem especial.

O estágio de quinze dias tinha outra vantagem. Como a maioria das mulheres estava doente, tinham tempo de desaparecer antes que o presente incubasse no cliente. O homem contaminado não tinha ninguém a quem pedir contas. O Sr. Hallam ignorava tudo e o Sr. Edwards nunca aparecia no exercício das suas funções. Não há dúvida que o circuito era um riquíssimo negócio.

As mulheres pareciam-se todas umas com as outras: fortes, mandrionas e estúpidas. Os frequentadores chegavam a perguntar a si mesmos se, duma quinzena para a outra, houvera de facto alguma substituição. Charles Trask adquiriu o hábito de ir à estalagem, pelo menos, uma vez por quinzena, subir ao último andar, despachar o negòciozito e voltar ao bar para se embriagar ditosamente.

A casa dos Trask nunca fora muito alegre mas, durante o reinado de Charles, ficou com um ar de sinistra decrepitude. As cortinas de renda estavam cinzentas. O soalho, apesar de varrido, estava pegajoso. As paredes, o tecto e as janelas estavam cobertos duma camada de gordura produzida pelos fritos.

O constante esfregar das mulheres que ali tinham vivido e a grande limpeza bianual haviam triunfado da sujidade. Charles contentava-se geralmente em varrer. Renunciou aos lençóis e passou a dormir só com mantas. Para que serve limpar uma casa que ninguém vê? Os únicos dias em que Charles se lavava e mudava de roupa eram os dias da estalagem.

Charles sentia necessidade de se mexer, mal rompia o sol. A solidão dava-lhe forças. O irmão fazia-lhe mais falta do que a mãe e o pai. Antes da partida do irmão, eram os bons tempos, e a sua memória imprecisa dava-lhe razão. Charles desejava que esses tempos voltassem.

Nunca esteve doente durante esse período, se exceptuarmos as indigestões crónicas que eram e continuam a ser a cruz dos solitários. Uma forte purga, “o elixir de vida do Tio George”, curava-lhe as perturbações gástricas.

No decurso do terceiro ano de solidão, teve um acidente quando arrancava pedras para construir um muro. Um dos blocos era difícil de mover. Charles fez uma alavanca com uma comprida barra de ferro. A rocha recusava-se a sair do buraco e tornava sempre a cair. Charles ficou furioso. Assomou-lhe aos lábios o sorrisinho e lutou com a pedra como se fosse um homem. Animado duma raiva silenciosa, introduziu a barra debaixo da rocha e empurrou com toda a força. A barra escorregou e foi bater-lhe na testa. Charles ficou inconsciente por um momento, depois levantou-se a vacilar e dirigiu-se para casa, meio cego. O ferro arrancara-lhe uma longa tira de carne, desde a nascença dos cabelos até às sobrancelhas.

A ferida infectou e Charles andou de cabeça atada durante algumas semanas. Mas não se preocupou. Nessa altura, uma formação de pus queria dizer que a ferida estava a cicatrizar bem. Na, realidade, deixou-lhe na testa uma comprida marca encrespada. Geralmente, uma cicatriz é mais clara do que o tecido que a rodeia, mas a de

Charles coloriu-se de castanho-escuro. Talvez a barra estivesse enferrujada e se tivessem incrustado partículas de ferrugem sob a pele, formando tatuagem.

Charles não se preocupara com a ferida, mas a cicatriz atormentava-o. Dir-se-ia ter na testa um traço de dedo sujo. Olhava- se muitas vezes ao espelho pendurado ao lado do fogão e penteava-se para a frente para esconder a cicatriz o mais possível. A cicatriz envergonhava-o e pôs-se a odiá-la. Ficava inquieto se alguém a olhava e enfurecia-se se lhe faziam perguntas. Numa carta ao irmão, definiu os seus sentimentos.

“Dir-se-ía que fui marcado como um animal. Esta porcaria está cada vez mais escura. Quando voltares, talvez já esteja preta. Só me falta outra de través para ter o ar dum Papista em Quarta-Feira de Cinzas. Não sei porque é que isto me aborrece tanto. Tenho muitas outras cicatrizes. Tenho a impressão de estar marcado.

Quando vou à vila, à estalagem por exemplo, todos me observam.

Oiço-os falar quando julgam que não estou a ouvir. Gostava de saber que curiosidade é a deles. É por isso que já não tenho vontade de ir à vila.”

 

Adam foi desmobilizado em 1885 e encetou a caminhada de regresso a casa. Aparentemente, pouco mudara. Não tinha aparência militar. Na cavalaria, é diferente, apreciam-se os ares importantes.

Adam sentia-se em estado de sonambulismo. É difícil abandonar uma profunda vida de rotina, mesmo que se odeie essa rotina. Na primeira manhã de civil, ao, acordar, aguardou por instantes o toque de clarim. Os polainitos já não lhe apertavam os jarretes e sentia o pescoço nu sem o colarinho rijo. Chegado a

Chicago, alugou, por uma semana, sem razão, um quarto mobilado ocupou-o durante dois dias e partiu para Buffalo, mas, tendo mudado de opinião, dirigiu-se para as Quedas do Niágara. Não queria voltar a casa e adiava a altura de o fazer o mais que podia.

A casa não era um lugar agradável, na sua opinião. O que lá sentira já morrera nele e não tinha vontade de o fazer ressuscitar.

Observou as Quedas na altura propícia. O seu estrondo deixou-o estupefacto e hipnotizado.

Uma noite fez-lhe imensa falta a promiscuidade dos homens nas casernas e nas tendas. Sentia-se só. O primeiro sítio habitado que encontrou foi um pequeno bar fumarento. Suspirou de prazer e aninhou-se no calor humano. Pediu um uísque, bebeu-o e deixou-se invadir pelo calor. Sentia-se bem. De todos os seus sentimentos, o único que funcionava era o gosto. Contentava-se em absorver e ser absorvido.

Quando começou a fazer-se tarde e os consumidores se retiraram, assaltou-o o receio de voltar a casa. Ficou só com o patrão que esfregava o balcão e tentava, com o olhar e o gesto, pô-lo fora.

Mais um disse Adam.

O patrão foi buscar a garrafa. Adam encarou-o pela primeira vez. Tinha um sinal na testa.

Não sou cá do sítio disse Adam. As Quedas atraem muita gente. Acabo de sair do exército. Cavalaria.

Pois é disse o patrão.

Adam sentiu subitamente que devia impressionar o homem, atrair-lhe a simpatia.

Andei a combater os índios. Passámos maus bocados.

O homem não respondeu.

O meu irmão tem um sinal na testa.

O patrão levou a mão ao sinal.

Um sinal de nascença. Cresce com os anos. O seu irmão tem um?

Não. É um ferimento. Foi o que me escreveu.

Reparou que o meu tem a forma dum gato?

É isso mesmo, é.

E a minha alcunha: o Gato. Foi sempre assim que me chamaram. Diz-se que a minha velhota se deve ter assustado com um gato quando me trazia na barriga.

Vou a caminho de casa. Andei muito tempo por fora. Quer tomar alguma coisa?

Não, obrigado. Onde está hospedado?

Na casa da Sr.a May. Na pensão.

Bem sei. Parece que enche os hóspedes de sopa para que não comam muita carne.

Todos os ofícios têm os seus truques.

É claro. O meu tem imensos.

Não duvido disse Adam.

Mas há um que eu não conheço.

Qual?

A maneira de o obrigar a sair para eu poder fechar.

Adam fitou-o sem nada dizer.

Estava a gozar disse o patrão embaraçado.

Volto amanhã de manhã para a minha casa. A minha verdadeira casa.

Felicidades disse o patrão.

Adam atravessou a cidade sombria, caminhando cada vez mais depressa, como se fosse perseguido pela solidão. Quando subiu os degraus da pensão, a madeira gemeu como um sinal. A entrada mal estava iluminada por um candeeiro de petróleo, com a torcida tão baixa que a chama parecia prestes a expirar.

A dona estava no corredor. A sombra do nariz alongava-se-lhe até ao queixo. Os seus olhos frios seguiram Adam como os olhos dum retrato de frente e ela estendeu o nariz para apanhar o cheiro do uísque.

Boa noite disse Adam.

Chegado ao patamar, Adam voltou-se. A mulher tinha a cabeça levantada e o queixo projectava uma sombra na garganta.

Os olhos já não tinham pupilas.

O quarto de Adam cheirava a poeira bafienta. Riscou um fósforo e transmitiu a chama ao bocado de vela que emergia da palmatória japonesa. A cama era informe, coberta com uma manta de retalhos e o avesso de algodão estava esfrangalhado nos bordos.

Os degraus gemeram de novo. Adam sentiu que a mulher já estava no corredor, preparada para envolver de inospitalidade o recém-chegado.

Adam sentou-se numa cadeira, descansou os cotovelos nos joelhos e encravou o queixo nas palmas da mão. Uma tosse inextinguível veio de baixo, para destruir a calma da noite.

Adam compreendeu que não podia regressar a casa. Ouvira explicar a velhos soldados a razão do que ele ia fazer.

“Não conseguia aguentar. Não tinha para onde ir. Não conhecia ninguém. Andei por aí às voltas e de repente enchi-me de medo, como uma criança, e, quando dei por mim, estava diante do sargento a pedir que me reincorporasse por mais cinco anos como se fosse um favor.”

De regresso a Chicago, Adam voltou ao serviço e pediu para ser incorporado no seu antigo regimento. No comboio que o levava para o Oeste, evocou as caras dos camaradas de quem já sentia saudades.

Enquanto esperava pela ligação em Kansas City, ouviu que o chamavam pelo nome. Entregaram-lhe uma mensagem: instruções para se apresentar em Washington, no gabinete do Ministro da

Guerra. Durante os cinco anos de serviço, Adam absorvera a ideia de que as ordens não se discutem. Os longínquos ídolos de Washington não passavam de uns doidos e se um soldado queria conservar o seu juízo, mais valia que pensasse o menos possível no general.

Ao chegar ao Ministério, Adam deu o nome a um funcionário e foi sentar-se numa antecâmara. Foi aí que o pai o encontrou. Adam teve de fazer um esforço para o reconhecer. Cyrus transformara-se num grande homem: casaco e calças pretos, chapéu preto, sobretudo com gola de veludo, bengala de ébano que manejava como uma espada. Cyrus comportava-se como um grande homem: fala lenta e harmoniosa, comedida e senhora de si; os gestos eram largos. Os dentes novos davam-lhe à boca um sorriso desproporcionado com a emoção que o provocava.

Mesmo depois de ter compreendido que aquele grande homem era seu pai, Adam ficou perplexo. Subitamente, baixou o olhar: a perna de pau desaparecera. Lá estava a perna, dobrada no joelho, e o pé mergulhava num sapato preto engraxado. Quando Cyrus se deslocava, coxeava ligeiramente, mas em nada se parecia com o bamboleio anterior.

Cyrus viu o olhar.

É mecânica disse. É articulada. Tem uma mola. Se eu quiser, nem sequer coxeio. Hei-de mostrar-te quando a tirar.

Vem comigo.

Tenho de me apresentar ao coronel Wells, meu pai.

Bem sei. Disse ao Welis que esperasse. Segue-me.

Adam sentia-se embaraçado.

Se não visses inconveniente nisso, pai, preferia ir apresentar-me ao coronel.

O pai voltou-se para trás.

Queria pôr-te à prova disse ele com ar suficiente. Queria ver se a disciplina continuava a ser a mesma. Estou satisfeito. Bem sabia que te havia de fazer bem. Estás um homem e um soldado, meu rapaz.

Tenho de ir para o meu regimento, pai.

Aquele homem era um estranho. Adam sentiu-se invadir por uma leve repugnância. Havia qualquer coisa de falso em tudo aquilo. E a rapidez com que as portas se abriram até ao coronel, a obsequiosidade do oficial, as palavras “o Senhor Ministro vai recebê-lo imediatamente”, não conseguiram modificar a impressão de Adam.

Aqui está o meu filho, Senhor Ministro, soldado, tal como eu, soldado do exército dos Estados Unidos.

Fui licenciado como cabo disse Adam.

Mal ouviu a troca dos cumprimentos. Pensava, “O Ministro não percebe que o meu pai está a representar uma comédia? É extraordinário que o Ministro não perceba. Que lhe terá acontecido?”

Pelo caminho que levava ao seu pequeno hotel, Cyrus foi designando os panoramas interessantes, os monumentos e os lugares históricos com a facúndia dum guia.

Moro no hotel -disse. Podia ter comprado uma casa, mas faço tantas viagens que não vale a pena. Ando sempre por montes e vales.

O porteiro do hotel inclinou-se diante de Cyrus, tratou-o por

Senhor Senador e garantiu que se arranjaria um quarto para Adam, nem que tivessem de pôr fora um hóspede.

Mande levar uma garrafa de uísque para o meu quarto, se faz favor.

Com gelo moído?

Gelo! disse Cyrus. O meu filho é um soldado. (Com a bengala bateu na perna, que produziu um som oco.) Eu também fui soldado. Raso. Não precisamos de gelo.

Adam ficou estupefacto com o luxo em que Cyrus vivia. Não só tinha um quarto com casa de banho, como também uma sala contígua.

Cyrus deixou-se cair numa poltrona e suspirou. Arregaçou a perna da calça para que Adam pudesse ver o engenhoso mecanismo de ferro, aço e madeira, depois desapertou a correia que mantinha a perna artificial no seu lugar e colocou-a de pé ao lado da cadeira.

Há ocasiões em que magoa duma forma insuportável.

Sem a perna, Cyrus voltava a ser o mesmo. Adam tornava a encontrar o pai da infância. No princípio do encontro, sentira um leve desprezo, mas agora renasciam o medo, o respeito e a animosidade, era novamente o garoto que procura adivinhar o estado de espírito do pai para evitar qualquer aborrecimento.

Cyrus preparou a bebida, bebeu o uísque e desabotoou o colarinho.

Então? perguntou, fitando Adam.

Pai?

Porque te voltaste a alistar?

Não sei, pai. Apeteceu-me.

Não gostas do exército, Adam?

Não, pai.

Então, porque voltas?

Não queria ir para casa.

Cyrus suspirou e esfregou a ponta dos dedos nos braços da cadeira.

Tencionas fazer carreira no exército?

Não sei, pai.

Eu posso fazer com que entres para West Point. Tenho influência. Se quiser, anulam a nova incorporação e vais para West

Point.

Não quero ir para lá.

Estás a tentar desafiar-me? perguntou calmamente

Cyrus.

Adam levou muito tempo para responder, mas não havia maneira de iludir a pergunta:

Estou, sim, pai..

Dá-me um pouco de uísque. (Uma vez servido, continuou:).

Pergunto a mim mesmo se tens alguma noção da influência que eu realmente possuo. A eleição dum candidato depende do apoio do G. A. R. Ora sou eu quem resolve se havemos de conceder ou não os nossos votos. Até o próprio Presidente me pede a minha opinião acerca dos negócios públicos. Posso demolir um senador e os lugares bem pagos é a mim que os pedem. Posso fazer um homem e posso dar cabo dele. Sabias tudo isto?

Adam sabia mesmo mais. Sabia que Cyrus ameaçava para se defender.

Sabia, sim, pai.

Posso destacar-te para Washington. Posso exigir que sejas minha ordenança para te desemburrar.

Prefiro ingressar no meu regimento, pai.

Viu a sombra da derrota passar pelo rosto do pai.

Talvez eu tenha cometido um erro. Tu aprendeste a resistência imbecil do soldado. (Suspirou.) Voltas para o teu regimento.

Hás-de apodrecer numa caserna.

- Obrigado, pai.

Passado um momento, Adam perguntou:

Porque não mandas vir o Charles para o pé de ti?

Porque eu... Não o Charles está melhor lá onde está.

Adam teve muito tempo para se recordar do tom da voz e da expressão do pai, pois apodreceu, de facto, numa caserna. Teve tempo para se lembrar de que Cyrus estava só e sofria, e sabia-o.

 

Charles, decorridos os cinco anos, começara a aguardar o regresso de Adam. Pintara a casa e o celeiro e, quando se aproximou o grande dia, contratou uma mulher para limpar a casa a fundo.

A mulher era velha, asseada e agressiva. Mal olhou para as cortinas que apodreciam sob uma crosta de porcaria, deitou-as fora e fez outras. Esfregou o fogão coberto duma camada de sebo que datava da morte de Alice, e atirou-se às paredes onde se entranhara a gordura da cozinha e a fuligem dos candeeiros de petróleo. Lavou o chão com lixívia e mergulhou os cobertores numa solução de soda. O trabalho não a impedia de se queixar continuamente.

Os homens são todos uns porcos! Mais porcos do que os porcos. Deixam-se apodrecer no molho que fabricam. Gostava de saber porque é que as mulheres casam com eles. Até parece que cheira a mortos. Olhem-me para este forno, tem calda de torta que vem de Matusalém.

Charles refugiara-se num telheiro onde as suas narinas estavam ao abrigo dos cheiros desagradáveis da barrela, da soda, do amoníaco e do sabão azul. Tinha a impressão de que aquela boa mulher não aprovava a sua concepção de limpeza doméstica.

Quando a velha, finalmente, se foi embora a resmungar e deixando a casa limpa, Charles ficou no telheiro. Queria guardar a casa limpa para Adam. No sitio onde dormia estavam arrumados todos os instrumentos de lavoura e o ferramental para os reparar.

Charles verificou que podia cozer ou fritar as refeições mais depressa na forja do que no fogão da cozinha. Graças ao fole, podia activar a combustão do coque e não tinha de esperar que o fogão aquecesse. Porque não teria pensado nisso mais cedo?

Charles esperou por Adam e Adam não veio. Talvez tivesse vergonha de escrever. Foi Cyrus, com uma carta furiosa, quem informou Charles de que Adam se realistara contra a sua vontade.

Cyrus também dizia que Charles o poderia ir visitar a Washington, mas nunca mais tornou a convidá-lo.

Charles reinstalou-se na casa e lançou-se com fúria numa vida de porcaria, sentindo prazer em destruir o trabalho da velha.

Passou-se mais de um ano antes que Adam escrevesse a

Charles uma carta embaraçada em que justificava a sua coragem dizendo: “Não sei porque assinei. Parecia que era outro que assinava em meu lugar. Escreve assim que puderes e dá-me notícias tuas.”

Charles esperou que chegassem quatro cartas ansiosas para, enfim, responder com a maior frieza: “que nunca contara muito com o regresso do irmão”. Seguiam-se contas pormenorizadas do rancho e dos animais.

O tempo realizara a sua obra. Depois disto, Charles limitou- se a enviar as Boas-Festas depois do primeiro dia do ano e passou a receber do irmão uma carta escrita na mesma altura. Nunca houvera nada de comum entre eles e o silêncio fez-se sem perguntas nem comentários.

Charles arranjou, uma após outra, várias mulheres desmazeladas. Quando começavam a contundir-lhe com os nervos, desfazia-se delas como se vendesse um porco. Não tinha a minima afeição por elas e nunca o interessaram os sentimentos que elas nutriam. Passou a viver afastado da aldeia. Os únicos contactos que mantinha eram a estalagem e o carteiro. Se a gente da aldeia desaprovava a sua maneira de viver, via-se, contudo, obrigada a reconhecer-lhe uma qualidade que, a seus olhos, o recompensava duma vida tão lamentável: a quinta nunca estivera tão próspera. Charles desbravou terrenos, construiu muros, melhorou as drenagens e adquiriu novas terras. Além disso, pôs-se a plantar tabaco e construiu ao lado da casa um impressionante barracão para a secagem. Era por isso que os vizinhos continuavam a respeitá-lo.

Um lavrador não pode pensar muito mal dum bom lavrador. Charles gastava quase todo o dinheiro e as energias no rancho.

 

 

                               CAPÍTULO VII

 

Adam passou os cinco anos seguintes a fazer as coisas em que o exército emprega os homens para evitar que fiquem doidos:

limpeza interminável de metais e coiros; paradas, exercícios, juramentos de bandeira bailado frenético para homens ociosos.

Em 1886, estalou a grande greve em Chicago. Chamaram o regimento de Adam, mas a greve acabou antes que tivesse entrado em acção. Em 1888, os Seminoles, que não tinham assinado tratado de paz, principiaram a agitar-se e de novo se apelou para a cavalaria. Mas os Seminoles regressaram aos seus pântanos e nunca mais deram que falar de si, de modo que a tropa voltou ao ramerrame habitual.”

A noção do tempo decorrido é uma coisa estranha e por vezes contraditória. Seria razoável admitir que, anos passados na rotina, ou que não tenham sido animados por algum acontecimento, possam parecer intermináveis. Assim deveria ser, mas não é.

São os anos vazios os que não deixam vestígios. Um período de acção atravessado pelas feridas do drama ou pelas fendas da alegria, deixa uma impressão de tempo na memória, pois é preciso tempo para se recordar o que assinalou esse período. Os acontecimentos são os marcos da memória. Dum marco ao outro, há tempo passado. De nada a nada, só há espaço vazio.

Adam chegou ao termo do segundo período de cinco anos sem dar por isso. Era no fim de 1890. Foi desmobilizado no Presídio de San Francisco com o posto de sargento. Adam e Charles só muito raramente se correspondiam, mas Adam, antes de ser desmobilizado, enviou um bilhete: “Desta vez, regresso a casa.”

Charles não tornaria a ouvir falar nele durante três anos.

Adam deixou passar o Inverno e subiu o rio lentamente até Sacramento. Depois de errar pelo vale de San Joaquim durante uns tempos, viu-se sem dinheiro. Entretanto, chegara a Primavera. Enrolou a manta e partiu lentamente para Leste, ora a pé, ora nos eixos dos vagões de mercadorias, na companhia de outros homens. À noite, dormia em acampamentos de acaso para vagabundos, à entrada das cidades. Aprendeu a mendigar, não dinheiro, mas o seu alimento. Sem dar por isso, tornara-se um autêntico vadio.

Tais indivíduos são agora raros mas, por alturas de 1900, encontravam-se em grande número vagabundos solitários que tinham escolhido o seu destino. Alguns fugiam às responsabilidades; outros julgavam-se injustamente excluídos da sociedade. Trabalhavam um pouco, mas não por muito tempo. Roubavam um pouco, mas apenas o seu alimento ou, quando muito, uma peça de roupa de que precisavam. Eram homens de toda a espécie homens instruídos, homens ignorantes, homens asseados, homens sujos mas todos tinham de comum a inquietação. Iam atrás do calor, mas receavam tanto a canícula como a geada. Seguiam a Primavera para Leste e eram atirados para o Oeste e o Sul pelos primeiros frios. Eram irmãos do coiote que vive perto dos homens e dos seus galinheiros: paravam junto das cidades mas não entravam nelas. Associavam-se em grupo por uma semana ou por um dia e, depois, eram irremediavelmente separados pelos seus destinos.

Em torno das fogueiras onde preparavam o guisado comum, ouviam-se todas as maneiras de falar, mas nunca se exprimiam na primeira pessoa do singular. Adam soube da criação dos I. W.

W.1 e dos seus anjos coléricos. Escutou discussões filosóficas, metafísicas, estéticas, e narrativas de experiências impessoais.

Os companheiros duma noite podiam ser um assassino, um padre renegado, um professor expulso dum emprego tranquilo por uma Faculdade estúpida, um infeliz solitário fugindo às recordações, um arcanjo decaído ou um aprendiz de demónio. Cada um deles alimentava o fogo com achas de pensamentos, do mesmo

 

1 International Workers of the World. Organização sindical revolucionária criada nos Estados Unidos no fim do século XIX.

 

modo que contribuía para o guisado comum com cenouras, batatas, cebolas ou carne. Adam aprendeu a barbear-se com um caco de vidro, a avaliar uma casa antes de bater para pedir auxílio, a evitar a polícia hostil ou a colaborar com ela e a julgar uma mulher pelo coração.

Adam amava esta nova vida. Quando o Outono atingiu as árvores, chegara a Omaha. Então, sem motivo, sem se interrogar, obliquou para o Oeste e o Sul, atravessou as montanhas e atingiu com alívio a Califórnia do Sul. Vindo do Norte, foi andando à beira- mar até San Luís Obispo. Aprendeu a pescar as enguias, os mexilhões e as percas nas poças deixadas pela maré vazia; aprendeu a cavar a areia para encontrar moedas perdidas e a caçar coelhos das dunas com laços de fio de pesca. E deitava-se ao sol na areia quente, contando as ondas.

A Primavera empurrou-o de novo para Leste, mas mais lentamente desta vez. O Verão era fresco nas montanhas, e os montanheses eram amáveis como todas as pessoas que vivem sós.

Adam empregou-se em casa duma viúva perto de Denver. Humildemente, compartilhou da mesa e da cama dela, até que o frio o atirou de novo para o Sul. Seguiu o curso do Rio Grande para ML de Albuquerque e de El. Paso, através do Big Bend e de Laredo, até Brownsville. Aprendeu as palavras da língua espanhola para a fome e o prazer; aprendeu que mesmo as pessoas muito pobres têm alguma coisa para dar e a vontade de dar. Aprendeu a amar os pobres e amou-os como nunca o teria podido fazer se ele próprio não tivesse conhecido a pobreza. Transformara-se num vagabundo hábil cujo modo de existência era a humildade. Estava magro e queimado pelo sol, e sabia disfarçar a própria personalidade ao ponto de não despertar cólera nem ciúme. A voz suavizara-se; misturava na conversa palavras de diversos dialectos, de modo que nunca era um estranho, fosse onde fosse. Era esta a grande segurança do vagabundo, o seu véu protector. Raramente utilizava os comboios de mercadorias, receando a vaga de cólera que alastrava contra os vadios, por causa da violência dos I. W.

W., agravada por ferozes represálias. Adam foi preso por vagabundagem. A rápida brutalidade da policia e dos prisioneiros assustou-o. Resolveu nunca mais viajar em grupo. Passou a andar só, tendo o cuidado de se barbear e de se mostrar limpo.

Quando chegou a Primavera, mais uma vez, partiu para o Norte. Sentia que terminara o tempo do descanso e da paz. O seu objectivo era Charles e as memórias desvanecidas da infância. Adam atravessou rapidamente a interminável parte Leste do Texas, depois a Luisiana e os confins do Mississipi e do Alabama. Quando chegou à Florida, sentiu que não podia ali ficar. Os negros eram suficientemente pobres para serem hospitaleiros, mas não podiam depositar confiança num branco, por muito pobre que fosse; e o pobre branco tinha medo dos estranhos.

Perto de Tallahassee foi detido por vagabundagem e condenado a seis meses de trabalhos forçados numa estrada. Era assim que se construíam as estradas. Soltaram-no ao fim de seis meses, para logo o tornarem a prender e condenarem a mais seis meses. Foi então que ficou a saber até que ponto o homem pode considerar o homem como um animal e que a única maneira de sobreviver é portar-se como um animal. Uma cara asseada e franca, um olhar que se ergue para encontrar outro olhar atraíam a atenção e, portanto, o castigo. Adam compreendia que um homem que comete um acto brutal se fere a si mesmo e deve punir alguém pela sua ferida. Ser vigiado durante o trabalho por homens armados de espingardas, ter uma grilheta nos pés durante o sono, não eram afinal senão medidas de precaução mas as constantes flagelações ao menor sinal de resistência, ao menor assomo da vontade ou da dignidade, indicavam perfeitamente que os guardas tinham medo dos prisioneiros, e Adam aprendera no exército que um homem que tem medo é um animal perigoso. E

Adam, como qualquer outra criatura humana, receava o chicote, tanto para o corpo como para o espírito. Ergueu uma cortina à sua volta: o rosto perdeu a expressão; os olhos extinguiram-se; a língua calou-se. O que o admirou quando voltou a pensar nisso mais tarde, não foi que se tivesse encontrado em tal situação, mas que tivesse sido capaz de a suportar e com um mínimo de emoção.

É muito mais horrível depois do que na altura. Torna-se necessário um completo domínio de si próprio para ver chicotear um homem até que os músculos rasgados deixem aparecer a brancura dos tendões, e não se mostrar nenhum sintoma de pena, de cólera ou até de interesse. Adam aprendera isso.

Passados os primeiros momentos, é mais fácil adivinhar do que ver uma pessoa. Durante este segundo período de seis meses nas estradas da Florida, Adam reduziu a personalidade ao mínimo.

Não fazia ondas, não emitia vibrações; estava quase imponderável.

E, assim que os guardas deixaram de sentir uma presença humana, perderam o medo. Adam foi encarregado de limpar o acampamento, de fazer os despejos e de encher os baldes de água.

Três dias antes de ser libertado pela segunda vez, logo depois do almoço, Adam despejou os baldes de água e voltou à ribeira para os tornar a encher. Chegado ali, meteu-lhes pedras dentro e deixou-os ir para o fundo, entrou na água e nadou por muito tempo a favor da corrente; depois descansou e tornou a nadar até ao crepúsculo. Nessa altura, descobriu na margem uma anfractuosidade dissimulada por uma cortina de plantas. Ali se escondeu, mas sem sair da água.

Tarde na noite, ouviu os cães-polícias que corriam de ambos os lados do rio. Tivera o cuidado de esfregar o cabelo com folhas verdes para disfarçar o cheiro. Sentou-se na água, deixando de fora apenas o nariz e os olhos. De manhã, os cães regressaram, desinteressados da caçada. Os homens estavam demasiado cansados para fazerem uma batida em regra às margens. Depois de eles se afastarem, Adam tirou da algibeira um bocado de carne frita ensopada em água e comeu-o.

Jurara a si próprio que nunca se apressaria, pois era uma imprudência que, em geral, custava a liberdade aos evadidos. Precisou de cinco dias para chegar à Geórgia, que não distava muito dali. Evitou o risco, conteve a impaciência e sentiu-se bastante admirado com a própria habilidade.

Deteve-se à entrada de Valdosta e escondeu-se até à meia- noite; depois, entrou na cidade como uma sombra, escolheu uma loja barata e forçou lentamente uma janela das traseiras arrancando os parafusos que seguravam o trinco na madeira podre.

Tornou a pôr o trinco no lugar, mas deixou a janela aberta. A única luz de que dispunha era o luar. Roubou umas calças baratas, uma camisa branca, sapatos pretos, um chapéu preto e um impermeável de encerado, verificando se todos os artigos lhe assentavam bem. Depois, antes de sair, teve o cuidado de ver minuciosamente se não deixara nada desarrumado. Só tirara coisas de que existiam vários exemplares, e tivera o cuidado de não tocar na caixa.

Voltou a fechar a janela com precaução e deslizou sob a lua, de sombra em sombra.

Escondido durante o dia, fazia as suas provisões de noite: nabos, maçarocas de milho, maçãs caídas; nada cujo desaparecimento se pudesse descobrir. Deu aos sapatos um aspecto usado esfregando-os com areia e enrolou o encerado em bola para que parecesse velho. Esperou três dias pela chuva que a sua extrema prudência lhe aconselhava.

A chuva começou a cair quando a tarde já ia no fim. Adam acocorou-se debaixo do encerado aguardando a noite e, quando ela chegou, entrou na cidade de Valdosta, com o chapéu negro descaído para os olhos e o impermeável abotoado até ao pescoço. Dirigiu-se à estação e deu uma espreitadela através da vidraça que escorria água. O chefe da estação, de pala verde e mangas de lustrina, estava debruçado no guichê e falava a um amigo.

O amigo em questão levou vinte minutos para se ir embora. Adam, na plataforma, viu-o afastar-se. Respirou fundo para se acalmar e entrou.

 

Charles recebia muito pouca correspondência; às vezes passavam-se semanas sem ir ao correio. Em Fevereiro de 1894, chegou uma enorme carta de Washington, expedida por um cartório de notário. O carteiro pensou que talvez fosse importante e passou pelo rancho dos Trask, onde encontrou Charles cortando lenha. Entregou-lhe a carta e, já que se dera ao trabalho de lá ir, esperou para ver de que se tratava.

Charles deixou-o esperar. Leu lentamente as cinco páginas e releu-as soletrando as palavras que lia. Depois dobrou a carta e encaminhou-se para casa.

O carteiro chamou-o.

Alguma novidade, Sr. Trask?

Morreu o meu pai disse Charles.

Entrou em casa e fechou a porta.

Custou-lhe contou o carteiro na cidade -, custou-lhe a valer. É um tipo sossegado, de poucas falas.

Se bem que o dia ainda não tivesse terminado, Charles acendeu a luz, desdobrou a carta em cima da mesa e foi lavar as mãos antes de se sentar para a ler de novo.

Ninguém lhe enviara um telegrama. Os notários tinham encontrado a sua direcção nos papéis do pai. Estavam desolados, apresentavam condolências, mas encontravam-se sobretudo muito excitados. Quando tinham feito o testamento do Sr. Trask, julgaram que não deixaria ao filho mais do que umas centenas de dólares.

Pelo menos, a julgar pela cara, pouco mais valia do que isso. Mas, quando tiveram conhecimento da conta bancária, verificaram que possuía noventa e três mil dólares em metal sonante e dez mil dólares em acções. Os seus sentimentos em relação ao Sr. Trask evoluiram de forma notável. Pessoas naquelas condições eram ricas e já não tinham necessidade de se preocupar com o futuro.

Havia o bastante para fundarem uma dinastia. Na carta, os notários felicitavam Charles e o seu irmão Adam. Em conformidade com o testamento, os bens deveriam ser divididos em partes iguais.

Seguia-se uma lista dos objectos deixados pelo defunto: cinco espadas de cerimónia oferecidas a Cyrus por ocasião dos diversos Congressos do G. A. R.; um martelo de madeira de oliveira com uma placa de oiro; um emblema maçónico recamado de brilhantes; as capas de ouro dos dentes que tirara quando pusera a dentadura artificial; um relógio de prata; uma bengala com castão de oiro; e assim por aí fora...

Charles releu a carta duas vezes e apoiou a testa nas mãos.

Pensava em Adam. Queria que Adam voltasse.

Charles estava sombrio. Acendeu o fogo, pôs a frigideira ao lume e encheu-a de grossas fatias de carne de porco salgada.

Depois, a carta atraiu-o novamente. Subitamente, dobrou-a e meteu-a na gaveta da mesa da cozinha. Resolveu não tornar a pensar em tudo aquilo durante um certo tempo.

Como é evidente, não fez outra coisa senão pensar naquilo e, por mais voltas que lhe desse, voltava sempre ao mesmo: onde arranjara o pai tanto dinheiro?

Quando dois acontecimentos têm algo de comum quer seja pela sua natureza, pelo sitio ou pelo tempo em que se deram concluímos com satisfação que se assemelham e que há neles alguma coisa de estranho que enterramos na memória para, mais tarde, podermos contar. Charles nunca recebera uma carta ao domicílio. Algumas semanas depois, chegou um rapazinho a correr, com um telegrama. Charles ligou a carta ao telegrama, do mesmo modo que se ligam duas mortes na previsão duma terceira. Correu para a gare da aldeia, levando o telegrama na mão.

Oiça-me isto disse ele ao telegrafista.

Já o li.

Ah! sim?

Veio pelo telégrafo e fui eu que o escrevi.

Ah! pois claro! “Favor telegrafar urgente cem dólares. Regresso casa, Adam.”

A pagar pelo destinatário! Deve-me sessenta cêntimos.

Valdosta, Geórgia. Não conheço.

Eu também não, mas é o que aí está.

Diga lá, Carlton, como é que se faz para telegrafar dinheiro?

Tem de me trazer cento e dois dólares e sessenta cêntimos, e eu mando um telegrama para Valdosta dizendo para pagarem cem dólares ao Adam. Não esqueça que me deve sessenta cêntimos.

Está bem, mas como posso eu saber que se trata do

Adam? Qualquer pessoa me pode pedir dinheiro.

O empregado do telégrafo teve um sorriso condescendente.

Vou dizer-lhe como costumamos fazer: você faz-me uma pergunta a que mais ninguém pode responder. Eu telegrafo a pergunta e a respectiva resposta. O empregado faz a pergunta ao destinatário e se ele não conseguir responder, não recebe o dinheiro.

Não está mal achado, não senhor. Deixe ver se me lembro duma boa pergunta.

Era melhor que fosse buscar os cem dólares antes que fechasse o guichê.

Charles estava encantado com o jogo. Voltou pouco depois com o dinheiro.

Já tenho a pergunta disse.

Espero que não seja o segundo nome de baptismo da sua mãe. Há muita gente que não se lembra.

Não é nada disso. Aqui tem: “Que deste ao pai no dia do seu aniversário antes de partires para a tropa?”

A pergunta é boa, mas nunca mais acaba. Não a pode reduzira dez palavras?

Mas afinal quem paga? A resposta é: “Um cachorro.”

Ninguém conseguia adivinhar. No fim de contas, não sou eu que pago.

Tinha graça se ele se tivesse esquecido. Não podia voltar para casa.

 

Adam fez a pé o trajecto da estação ao rancho. Tinha a camisa suja e as roupas roubadas estavam no fio e cheias de terra, pois dormira com elas durante uma semana. Deteve-se entre a casa e o celeiro, para adivinhar onde se encontrava o irmão. Ao fim de certo tempo, ouviu marteladas no novo armazém do tabaco.

Ó Charles chamou Adam.

As marteladas cessaram e houve um silêncio. Adam teve a impressão de que o irmão o observava através das frinchas do barracão. Depois, Charles saiu rapidamente, correu para Adam e apertou-lhe as mãos.

Como estás?

Bem.

Santo Deus, que magro!

Não havia de estar. E também estou mais velho.

Charles inspeccionou-o da cabeça aos pés.

Não pareces nadar em prosperidade.

Pois não.

Onde está a tua mala?

Não tenho.

Jesus! mas por onde andaste?

Tenho andado por aí.

Como um vadio?

Como um vadio.

Com a idade, a cara de Charles escurecera e os olhos tinham ficado vermelhos. Adam, apesar do tempo decorrido, sabia que

Charles só pensava em duas coisas: na pergunta e noutra coisa qualquer.

Porque não voltaste logo?

Apeteceu-me passear. Não podia parar, era mais forte do que eu. Mas que grande cicatriz que tu tens.

Falei-te nela numa das minhas cartas. Está cada vez pior.

Porque não escreveste? Tens fome?

Charles enfiou as mãos nos bolsos, depois tirou-as, esfregou o queixo e coçou a cabeça.

Isso pode desaparecer. Uma vez vi um tipo, o dono dum bar, que tinha uma mancha. Era um sinal do feitio dum gato. Chamavam-lhe o Gato.

Estás com fome?

Parece-me que sim.

Tencionas ficar?

Queres falar nisso agora?

Se quiseres. O pai morreu.

Bem sei.

Santo Deus! Como sabes?

Disse-me o chefe da estação. Morreu há quanto tempo?

Um mês, pouco mais ou menos.

Com quê?

Com uma pneumonia.

Foi enterrado aqui?

Não, em Washington. Recebi uma carta e jornais. Levaram-no num armão de artilharia com uma bandeira em cima do caixão. O Vice-Presidente foi ao enterro e o Presidente mandou uma coroa. Vem tudo nos jornais, com fotografias. Tenho tudo guardado, hei-de te mostrar.

Adam fitou o irmão até que Charles desviou o olhar.

Estás furioso com alguma coisa? perguntou Adam.

Porque havia de estar furioso?

Estás com cara disso...

Não estou furioso com coisa nenhuma. Anda. Vou arranjar-te de comer.

Está bem. Ele sofreu muito?

Não. Foi de repente.

Charles estava escondendo alguma coisa. Desejava dizê-lo mas não sabia como o fazer. As palavras tinham um sentido oculto.

Adam calou-se. Pensava ser boa política calar-se e esperar que o irmão descobrisse as baterias. Charles decidiu-se finalmente:

Não acredito muito nas mensagens do além, mas nunca se sabe. Há pessoas que dizem ter recebido mensagens. A velha Sarah

Whitburn por exemplo. Até jura. A gente nem sabe o que há-de pensar. Tu não recebeste nenhuma mensagem? Valha-me Deus!

parece que tens a língua presa!

Estava a pensar disse Adam.

Na realidade, estava estupefacto. “Já não tenho medo do meu irmão! Dantes, provocava-me cólicas. Agora, acabou-se. Gostava de saber porquê. Será da tropa? Será dos trabalhos forçados na estrada? Será da morte do pai? Talvez, mas não compreendo.”

Agora, que já não tinha medo, podia pronunciar as palavras que quisesse, enquanto que antes era obrigado a escolher as que não corressem o risco de lhe trazer aborrecimentos. Sentia-se bem, como um morto no limiar da ressurreição.

Entraram na cozinha. Recordava-se dela e, contudo, parecia- lhe diferente. Parecia mais pequena por causa da desordem. Adam disse quase alegremente:

Se bem compreendi, Charles, tens qualquer coisa para me dizer, mas não há maneira de desembuchares. Vê se falas antes que isso te asfixie.

Uma chispa de cólera saltou nos olhos de Charles. Ergueu a cabeça. Mas perdera a força. Pensou com desolação: “Já não o posso esfrangalhar. Já não posso.”

Adam disse com um ar trocista:

Talvez não seja bonito a gente sentir-se bem quando o pai nos morreu, mas a verdade, Charles, é que nunca me senti tão bem na minha vida. Vamos, despacha-te, Charles, não fiques com isso atravessado.

Gostavas do nosso pai?perguntou Charles.

Só responderei quando souber aonde queres chegar.

Gostavas dele ou não?

Que tens tu com isso?

Quero saber.

A sensação de liberdade dera novas forças a Adam.

Bom. Vou dizer-te. Não, não gostava dele. Às vezes metia- me medo. Por vezes, sim, de vez em quando, admirava-o, mas a maior parte das vezes odiava-o. Agora, diz-me o que queres saber.

Charles falou sem desviar os olhos das mãos.

Não percebo disse ele. É uma coisa que não consigo meter na cabeça. Tu eras a pessoa de quem ele mais gostava no mundo.

Não acredito.

Ninguém te pede que acredites. Ele gostava de tudo quanto lhe davas. De mim não gostava. Não gostava do que eu lhe dava. Recordas-te do presente que eu lhe ofereci: o canivete? Tive de cortar e vender um estere de madeira para conseguir o canivete.

Pois nem sequer o levou para Washington. Ainda está na gaveta dele. Tu deste-lhe um cachorro que não te custou nada. Hei-de mostrar-te, uma fotografia do teu cachorro. Foi ao funeral. Como já estava cego e não podia andar, foi um coronel quem lhe pegou ao colo. Depois do enterro, meteram-lhe uma bala na cabeça.

Adam ficou surpreendido com o tom selvagem do irmão.

Não percebo disse ele. Não vejo aonde queres chegar.

Eu gostava dele disse Charles.

E, pela primeira vez na sua vida, Adam viu Charles chorar;

descansou a cabeça em cima dos braços e soluçou.

Adam esteve prestes a aproximar-se dele quando se viu paralisado por um resto de medo. “Não”, pensou, “se lhe tocasse era capaz de me matar. “ Foi até à porta aberta e olhou para fora.

Atrás dele, ouvia o irmão a fungar.

A quinta não era agradável junto da casa nunca o fora.

Tudo era desordem, confusão, falta de método. Não havia flores;

o chão estava juncado de papéis e de pedaços de lenha. A casa também não era acolhedora; quando muito era um tecto sólido sob o qual se podia dormir e comer. O conjunto era tristonho. Não se sentia vontade de amar aquele sítio, não era hospitaleiro. Não era um lar, um lugar com que se sonha e aonde se quer voltar. De súbito, Adam pensou na madrasta, mulher útil, esplêndida mulher no seu género, tão mal estimada como a quinta. A madrasta não era uma esposa. A quinta não era um lar.

O irmão já não soluçava. Adam voltou-se. Charles tinha o olhar fixo.

Fala-me da mamã disse Adam.

Morreu. Escrevi-te a esse respeito.

Fala-me dela.

Já te disse. Morreu. Há tanto tempo. Ela não era tua mãe.

O sorriso que Adam surpreendera uma vez no rosto de Alice voltou a abrir-se na sua mente. O rosto dela projectava-se à sua frente.

A voz de Charles atravessou a imagem e despedaçou-a.

Queres dizer-me uma coisa? Não tenhas pressa e escusas de responder se a resposta não for sincera. (Charles moveu os lábios para preparar as palavras.) Achas que o pai possa ter sido... desonesto?

- Que queres dizer?

Não fui bastante claro? A palavra “desonesto” só tem um significado.

Não sei disse Adam. Não sei. Nunca ouvi dizer nada.

Repara no que ele veio a ser. Chegava a passar a noite na Casa

Branca. O Vice-Presidente foi ao funeral. Será isto próprio dum homem desonesto? Vamos, Charles suplicou ele diz-me o que tens estado ansioso por me dizer desde que cheguei.

Charles humedeceu os lábios. Parecia que o sangue lhe fugira, levando toda a energia e toda a violência. Quando falou, fê-lo numa voz monocórdica.

O pai fez um testamento. Todos os seus bens deverão ser igualmente partilhados por nós dois.

Adam riu-se.

Ora, a quinta há-de dar para vivermos. Não morreremos de fome.

Deixou mais de cem mil dólares continuou a voz sem modulação.

Estás doido. Queres dizer cem dólares. Onde teria ele ido buscar tanto dinheiro?

Não estou doido, não. No G. A. R. ele ganhava cento e trinta e cinco dólares por mês. Era com isto que pagava o quarto e a alimentação, Quando viajava, recebia cinco cêntimos por milha percorrida, além de lhe pagarem as despesas de hotel.

Talvez, então, ele tenha sido sempre rico, mas nós é que não sabíamos.

Não, não foi sempre rico.

Podíamos escrever ao G. A. R. pedindo informações. Eles devem saber.

Não tenho coragem disse Charles.

Escuta-me. Não te ponhas a imaginar coisas pavorosas.

Existe uma coisa a que se chama especulação. Podem ganhar-se fortunas. O pai conhecia pessoas influentes. Talvez tenha obtido uma boa informação. Lembra-te dos homens que se meteram na corrida para o oiro da Califórnia e voltaram ricos.

O rosto de Charles exprimia a desolação. Falou tão baixo que

Adam teve de se aproximar para o ouvir. A voz era monótona, como a dum escrivão:

O pai entrou para o Exército da União em Junho de 1862.

Fez a instrução neste Estado durante três meses, o que nos leva a Setembro. A sua unidade deslocou-se para o Sul. Em 12 de

Outubro, foi atingido na perna e evacuado. Em Janeiro, já estava de volta a casa.

Continuo a não perceber aonde queres chegar.

Ele não esteve em Chancellorsville. Ele não esteve em

Gettysburg, nem em Wílderness, nem em Richmond, nem em

Appomatox.

A voz de Charles era ténue e triste.

Como sabes?

A caderneta de desmobilização estava junto aos papéis que me mandaram.

Adam suspirou profundamente. O coração palpitava-lhe de alegria. Abanou a cabeça como se não pudesse acreditar no que ouvia.

Mas como foi que ele se conseguiu arranjar? perguntou

Charles. Como diabo é que ele conseguiu arranjar-se? Nunca ninguém lhe perguntou nada. Nem tu, nem eu, nem a minha mãe.

Ninguém. Nem os tipos de Washington.

Adam levantou-se.

Há alguma coisa que se coma? Vou pôr a aquecer.

Matei ontem uma galinha. Se quiseres esperar, posso fritá- la.

Não tens nada mais rápido?

Porco salgado e ovos com fartura.

Pode ser isso disse Adam.

Abandonaram o assunto e contornaram o obstáculo. Se bem que não tornassem a falar nele, não pensavam noutra coisa. Queriam falar naquilo, mas não podiam. Charles pôs a carne de porco numa frigideira, aqueceu uns feijões guisados e fritou ovos.

Lavrei a pastagem disse ele. Semeei centeio.

E que tal?

Bem. Mas tive que tirar as pedras todas. (Apontou a testa.)

Foi lá que apanhei esta porcaria, quando tentava desviar uma rocha.

Escreveste-me acerca disso disse Adam. Não sei se te cheguei a dizer que as tuas cartas representavam muito para mim.

Nunca me disseste bem o que estavas fazendo.

Devia ser porque não queria pensar nisso. Na maioria dos casos, não era coisa que prestasse.

Li os comunicados nos jornais. Entraste em todas as batalhas?

Entrei, mas não queria pensar nelas e continuo a não querer.

Mataste índios?

Matámos índios, matámos.

Eles não valem lá grande coisa.

Talvez.

Se não queres tocar no assunto, não és obrigado.

Não quero, não.

Jantaram à luz do candeeiro de petróleo.

Via-se melhor se eu me desse ao trabalho de limpar a chaminé.

Eu depois limpo. Não se pode pensar em tudo.

Ainda bem que voltaste. Que dirias se fôssemos dar uma volta até à estalagem, depois do jantar?

Logo se vê. Talvez só me apeteça ficar para aí sentado.

Nunca te disse nada nas minhas cartas, mas na estalagem há mulheres. Talvez gostasses de vir comigo. Elas mudam de quinze em quinze dias. Talvez gostasses de ir lá deitar uma vista de olhos.

Mulheres?

Sim. No último andar. É muito cómodo. Pensava que, como estás de volta...

Esta noite, não. Mais tarde, talvez. Quanto levam elas?

Um dólar. E são jeitosas, na maior parte.

Talvez mais tarde disse Adam. O que me admira é que as deixem ficar.

Também eu me admirava ao princípio, mas eles descobriram uma maneira.

Vais lá muitas vezes?

Quase todos os quinze dias. É triste para um homem só, aqui...

Escreveste-me uma vez que pensavas casar.

De facto, pensava. Acho que não encontrei a mulher que me convinha.

Os dois irmãos andaram de roda do tema principal. Estiveram várias vezes para o atacar de frente, mas recuavam rapidamente para falarem de colheitas, de mexericos, de política ou de saúde. Sabiam que, mais cedo ou mais tarde, lá iriam parar. Charles tinha muito mais vontade de tocar na questão do que Adam.

Charles tivera tempo de reflectir no assunto, enquanto que para

Adam se tratava dum novo campo de pensamento. Teria preferido adiar aquilo para outro dia, mas ao mesmo tempo sentia que o irmão não lhe deixaria fazer tal coisa. Por isso, disse abertamente: daquilo que sabes depois duma boa noite de sono.

É como quiseres disse Charles.

Mas depressa lhes faltou assunto para conversarem. Depois de terem evocado todos os amigos e discutido os acontecimentos locais, nada mais lhes sobrava para dizer. O tempo passava.

Então, vamos a isto?perguntou Adam.

É só um momento.

Ficaram silenciosos enquanto a noite adejava em torno da casa, fazendo-se cada vez mais insistente.

Gostava de ter assistido ao funeral -disse Charles.

Deve ter sido estupendo.

Queres que te mostre os artigos dos jornais? Guardei-os no meu quarto.

Não. Esta noite, não.

Charles avançou a cadeira e fincou os cotovelos na mesa. É preciso encarar as coisas de frente disse nervosamente. Pode- se tentar sempre adiar isto para mais tarde, mas a verdade é que temos de resolver o que vamos fazer.

Bem sei disse Adam.Mas gostava de poder pensar um pouco mais no assunto.

Não serve de nada. Eu tive tempo, todo o tempo que quis, e não consegui passar da cepa torta. Até chegava a andar desorientado, mesmo quando não queria pensar no caso. Achas que o tempo ajuda alguma coisa?

Não me parece. Mas afinal por onde queres principiar?

Mais vale irmos direito ao assunto, já que não podemos pensar noutra coisa.

Primeiro, há o dinheiro - disse Charles. Mais de cem mil dólares. Uma fortuna.

Que tem o dinheiro?

De onde veio ele?

Como queres que saiba? Talvez tenha especulado. Talvez alguém lhe tenha dado uma boa informação em Washington.

- Acreditas nisso?

Não acredito em coisa nenhuma. Não sei nada. Em que queres tu que eu acredite?

É muito dinheiro disse Charles.É uma fortuna que nos vem parar às mãos. Podemos viver à custa dela o resto dos nossos dias, ou então podemos comprar terrenos e fazê-los render. Talvez ainda não tivesses pensado nisso, mas nós somos ricos. Somos mais ricos do que todos os nossos vizinhos.

Isso parece produzir-te o mesmo efeito que uma condenação aos trabalhos forçados disse Adam a rir.

De onde provinha o dinheiro?

Que tens tu com isso? perguntou Adam. O melhor que temos a fazer é aproveitá-lo.

Ele não esteve em Gettysburg. Não entrou em nenhuma das putas das batalhas de toda a guerra. Foi atingido durante uma escaramuça. Só nos contou mentiras.

Despeja o saco disse Adam.

Charles parecia o mais infeliz dos homens.

- Julgo que ele roubou o dinheiro. Fizeste-me uma pergunta e eu respondo-te.

E a quem o roubou?

Não sei.

Então porque julgas que o roubou?

Porque mentiu a respeito da guerra.

O quê?

Quero dizer que, se ele mentiu a respeito da guerra, também pode ter roubado.

Como?

Ele tinha um posto importante no G. A. R. Pode ter praticado um desfalque na tesouraria e falsificado a contabilidade.

Adam suspirou.

Se assim for, só te resta escrever-lhes e contar tudo. Eles que examinem os livros. Se for verdade, devolveremos o dinheiro.

Charles tinha o rosto contraído e a cicatriz pusera-se mais escura.

O Vice-Presidente foi ao funeral. O Presidente mandou uma coroa. Havia uma fila de carros com meia milha de comprimento e centenas de pessoas a pé. Sabes quem levava as coroas?

Aonde queres tu chegar?

Supõe que descobrimos que ele era um ladrão? Acaba por se descobrir que também não esteve em Gettysburg nem em lado nenhum. Então todos ficarão a saber que não passava de um mentiroso e que toda a sua vida foi uma enorme mentira. Portanto, se por acaso alguma vez disse a verdade, já ninguém quererá acreditar nela.

Adam manteve-se imóvel. O olhar era calmo mas interessado.

Eu bem sabia que gostavas dele disse placidamente.

Sentiu-se livre e aliviado.

Gostava dele e ainda gosto. É por isso que odeio tudo isto a sua vida destruída, completamente destruída. E a sepultura?

Eram capazes de o exumar e de o pôr de lá para fora. (A voz saía contraída pela emoção.) Então tu não gostavas mesmo nada dele?

perguntou num soluço.

Até agora, não tinha a certeza - disse Adam. Estava dividido entre o que sentia e o que devia sentir. Não, não gostava dele.

Então, é-te indiferente que ele fique com a vida toda estragada, que lhe tirem o pobre cadáver da sepultura e que... Oh! valha- me Deus Nosso Senhor!

Adam reflectiu rapidamente, tentando encontrar as palavras para definir o que sentia:

Porque me havia de interessar?

Tens razão disse Charles com amargura. Se não gostavas dele, estás-te nas tintas. Até podes ajudar a enterrá-lo ainda mais.

Adàm sabia que o irmão deixara de ser perigoso porque já não obedecia ao ciúme. Todo o peso do pai se lhe abatia sobre os ombros, mas era o pai dele e ninguém lho podia roubar.

Que impressão sentirás quando andares pelas ruas e toda a gente souber? perguntou Charles. Como poderás olhar para as pessoas?

- Já te disse que não me interessa. E não me interessa porque não acredito nisso.

Não acreditas no quê?

Não acredito que tenha roubado o dinheiro. Acredito que tenha estado na guerra, que fez tudo o que disse ter feito e que esteve em todos os sítios onde disse ter estado.

Mas a prova: a caderneta de desmobilização?

Não tens prova nenhuma de que roubou. Fabricaste toda essa história porque não sabias de onde vinha o dinheiro.

Mas a caderneta militar...

Podem ter-se enganado disse Adam. Creio que se enganaram. Tenho confiança no meu pai.

Não sei como podes...

Escuta disse Adam Há provas muito fortes de que

Deus não existe, mas, para muitas pessoas, não são tão fortes como a impressão de que Ele existe.

Mas tu disseste-me que não gostavas do pai. Como podes ter fé nele, então?

Talvez seja essa a razão disse lentamente Adam, procurando as palavras. Talvez que, se o tivesse amado, viesse a ter ciúmes dele. Tu tinhas. É possível que o amor provoque a suspeita e a dúvida. Quando se gosta duma mulher, nunca se confia nela porque não temos confiança em nós próprios. Estou a ver tudo claramente. Compreendo como gostavas dele e como reagias. Eu não gostava dele. Talvez ele gostasse de mim. Punha-me à prova, feria-me, castigava-me e, por fim, acabou por me enviar como que para o sacrifício. Talvez fosse para restabelecer o equilíbrio. Mas como não gostava de ti, tinha fé em ti. Talvez seja uma espécie de balança...

Charles fitava-o com os olhos muito abertos.

Não compreendo disse.

Eu tento compreender disse Adam. É um pensamento novo para mim. Sinto-me bem, nunca me senti tão bem na minha vida. Acabo de me ver livre de qualquer coisa. Talvez um dia venha a sofrer do teu mal, mas por agora sinto-me óptimo.

Não compreendo repetiu Charles.

Não acredito que o pai tenha sido um ladrão; não acredito que tenha mentido.

E os papéis?

Nem os quero ver. A fé que deposito no meu pai não depende duns papéis quaisquer.

Charles respirou ruidosamente.

Então, eras capaz de ficar com o dinheiro?

Evidentemente.

Mesmo que tivesse sido roubado?

Não foi roubado. Não pode ter sido roubado.

Não compreendo.

A sério? Bom, então é possível que esteja aí a chave do mistério. Ouve, nunca te falei nisto: lembras-te do dia em que me bateste, mesmo antes de me ir embora?

Lembro.

E depois, lembras-te, voltaste com um machado para me matar?

Não me recordo muito bem. Devia estar de cabeça perdida.

Não o sabia então, mas sei-o agora: tu defendias o teu amor.

O meu amor?

Sim disse Adam. Vamos tirar o máximo deste dinheiro. Talvez fiquemos aqui, talvez nos vamos embora... para a

Califórnia, por exemplo. Temos que pensar no que havemos de fazer. E, é claro, temos de mandar erigir um monumento à memória do pai, um grande monumento.

Nunca poderei sair daqui disse Charles.

Depois se vê. Não temos pressa nenhuma. Confiemos no instinto.

 

 

                              Capítulo VIII

 

Creio que os humanos podem gerar monstros. Alguns são reconhecíveis: informes e horríveis, com cabeças enormes em corpos muito pequenos, troncos sem braços ou sem pernas; alguns, mais raros, têm três braços; outros, têm cauda. Trata-se de acidentes. A culpa não é de ninguém, costuma-se pensar. Houve tempos em que eram considerados punições por pecados ocultos.

Se há monstros físicos, não haverá monstros mentais ou psíquicos? A cara e o corpo podem ser perfeitos; mas se um esperma deficiente ou um factor hereditário produzem monstros físicos, porque não hão-de produzir almas disformes?

Os monstros não passam de variações em grau mais ou menos elevado das normas usuais. Se uma criança pode nascer maneta, uma outra pode nascer sem bondade ou sem consciência. Um homem que perde os braços num acidente é obrigado a lutar durante muito tempo para se adaptar à sua nova configuração, mas aquele que nasce sem os braços só sofre com a sua singularidade. Como nunca teve braços, não lhe fazem falta. As vezes, a criança imagina o que seria ter asas, mas o que imagina não corresponde certamente ao que sente o pássaro em voo. Ao monstro, o normal deve parecer monstruoso, visto que tudo é normal para ele. E para aquele cuja monstruosidade é apenas interior, o sentimento deve ser ainda mais difícil de analisar, visto que nenhuma tara visível lhe permite comparar-se aos outros. Para o homem nascido sem consciência, o homem torturado pela consciência deve parecer ridículo. Para o ladrão, a honestidade não é mais que fraqueza. Não esqueçam que o monstro não passa duma variante e que, aos olhos do monstro, o normal é monstruoso.

Acredito sinceramente que Cathy Ames nasceu com as tendências, ou a falta de tendências, que deviam dirigir e transviar- lhe a vida. Um dos balancins fora mal calculado; uma das engrenagens não correspondia às especificações. Cathy sempre fora diferente dos outros desde o dia em que nascera. E, assim como um mutilado pode aprender a utilizar a mutilação para ultrapassar os não-mutilados num campo de acção bem delimitado, também Cathy tirou vantagens da sua enfermidade, causando muito sofrimento aos seus mais próximos.

Tempos houve em que se diria duma mulher como Cathy que estava possessa do demónio. Teria sido exorcismada para expulsar o mafarrico e se, após numerosas tentativas, o diabo teimasse em não sair, teria sido queimada como feiticeira para maior bem da comunidade. A única coisa que se não pode perdoar a uma bruxa é o seu poder de perturbar as criaturas, de as inquietar, de lhes fazer perder o equilíbrio e, até, de despertar nelas o ciúme.

Como se a natureza tivesse querido disfarçar a armadilha,

Cathy oferecia a imagem da inocência: belos cabelos doirados emolduravam um rosto em forma de coração terminado por um queixinho pontiagudo; os grandes olhos cor de avelã, sempre semicerrados, tinham um olhar misteriosamente ensonado; o nariz era fino e delicado; as maçãs do rosto eram altas e largas; a boca de lábios bem desenhados era anormalmente pequena uma boca em botão de rosa; tinha umas orelhas pequeninas, desprovidas de lóbulos, tão coladas à cabeça que, mesmo quando penteava o cabelo para trás, mal se viam pareciam frágeis borboletas pousadas de cada lado da cabeça.

Cathy, mesmo adulta, teve sempre uma silhueta de criança:

frágil, braços delicados, mãos muito pequenas. Os seios nunca se desenvolveram muito. Antes da puberdade, as pontas meteram-se para dentro; quando começaram a doer, a mãe teve de as amassar para obrigá-las a sair. Cathy tinha um corpo de rapaz, com ancas estreitas, pernas magras e tornozelos muito finos. Os pés eram pequenos, redondos e altos, lembrando quase cascos de corça. Era uma bonita criança e veio a ser uma bonita mulher.

A voz tinha suavidades roucas que ela sabia tornar irresistíveis.

Mas uma das cordas vocais devia ser de aço porque, quando ela queria, a voz de Cathy podia ser cortante como uma arma.

Ainda criança, já havia nela qualquer coisa que despertava a atenção. Quando se olhava para ela, desviava-se a vista, depois tornava-se a olhar, atraído por uma força estranha. O seu olhar exprimia qualquer coisa que escapava à análise. Era calma e falava pouco, mas quando entrava numa sala todos os olhares convergiam para ela.

Cathy criava um mal-estar nas pessoas mas nunca a ponto de as afugentar. Homens e mulheres desejavam examiná-la, aproximar-se dela para tentarem descobrir donde provinha esse embaraço que ela destilava com tanta subtileza. Sempre fora assim e Cathy achava-o naturalíssimo.

Era diferente das outras crianças que, em geral, não gostam de se singularizar e querem parecer-se com as outras, falar, vestir-se, agir como os outros. Se é lançada uma nova moda infantil, a criança sofre por não a poder seguir. Se fosse de bom-tom usar colares de costeletas de porco, a criança que não os usasse sentir- se-ia nua. Esta obediência às leis do grupo é extensível aos jogos e aos actos da vida de família. É uma capa protectora de que a criança se reveste para se proteger.

Quando Cathy cresceu, o grupo, o bando seja qual for o nome dado à reunião de várias crianças reagiu como os adultos. Cathy não era como eles. Em breve, só alguns elementos isolados do grupo andavam com ela. A colectividade reunida evitava-a como se ela representasse um perigo indizível.

Cathy era mentirosa, mas não mentia como as outras crianças que inventam acontecimentos e os apresentam como autênticos: trata-se apenas de mascarar a realidade. Creio que a diferença entre um conto e uma mentira reside no facto de o conto apenas utilizar as ciladas e as aparências da realidade para captar o interesse do auditor, enquanto que a mentira não passa de um meio de fuga ou de proveito. Se nos cingirmos a esta definição, um homem que escreve histórias é um mentiroso se obtiver um proveito apreciável, evidentemente.

As mentiras de Cathy nunca eram inocentes. Permitiam-lhe escapar aos castigos, evitar um trabalho ou fugir às responsabilidades. Utilizava-as em proveito próprio. Os mentirosos, em geral, são apanhados, ou porque se esqueceram do que disseram, ou porque são postos perante uma verdade irrefutável. Mas Cathy não se esquecia de nada e o seu método era dos mais eficazes.

Mantinha-se suficientemente perto da verdade para obter o benefício da dúvida. Também empregava outros dois processos: ou recheava as mentiras de verdades, ou dizia uma verdade como se fosse uma mentira. Se alguém for acusado de mentir e se se verificar que a mentira era uma verdade, cria-se um precedente cujos efeitos se farão sentir durante muito tempo e cobrirão um grande número de verdades truncadas.

Cathy era filha única. A mãe não tinha termos de comparação no seio da família e pensava que todas as crianças eram como a sua. Todos os pais são cegos e a Sr.á Ames estava convencida de que todas as suas amigas tinham os mesmos problemas a resolver.

O pai de Cathy não tinha uma certeza tão grande. Era dono de uma pequena tanaria no Massachusetts que lhe assegurava uma vida confortável, desde que trabalhasse muito. Fora de casa, o Sr. Ames encontrava-se em contacto com outras crianças e tinha a impressão de que Cathy não era como elas. Era mais uma impressão do que uma certeza. A filha constrangia-o um pouco, mas não saberia dizer porquê.

Todos têm apetites e impulsos, ímpetos irracionais, ilhas de egoísmo e desejos à flor da pele. Alguns vigiam-se, outros deixam andar. Cathy conhecia a existência desses impulsos nos outros e sabia explorá-los em seu proveito. Talvez estivesse convencida de que essas tendências eram as únicas que governavam o ser humano, pois era muito precoce em determinados sectores, mas muito atrasada nalguns outros.

Muito jovem, Cathy aprendeu que a sexualidade, com o seu cortejo de sofrimentos, melancolias, desejos dolorosos, ciúmes e tabus, era um dos piores impulsos que afligem os humanos. E nessa época tudo se complicava ainda mais porque se tratava dum assunto inabordável e inabordado. Todos procuravam esconder o seu inferno pessoal, enquanto, publicamente, pretendiam que ele não existia e, quando eram apanhados com a boca na botija, não havia remédio que lhes valesse. Cathy compreendeu que uma utilização racional desse medo lhe asseguraria um constante domínio da maioria das pessoas. Era, simultaneamente, uma arma e uma ameaça. Era irresistível. E como parece que Cathy nunca se deixou enlear no tal alvoroço cego, é muito provável que ignorasse o desejo e desprezasse as suas vítimas. De certo modo, ela tinha razão.

Que liberdade não teriam o homem e a mulher se não fossem constantemente traídos, enganados, escravizados e torturados pela sua sexualidade! A desvantagem é que deixariam de ser humanos; passariam a ser monstruosos.

Aos dez anos, Cathy conhecia já a força dos ímpetos sexuais e começou friamente a experimentá-la. Considerou lucidamente o projecto, previu as dificuldades e preparou-se para vencê-las.

Os jogos sexuais da infância são velhos como o mundo. Quem é que, não sendo anormal, não terá arrastado em pequenino uma rapariguinha para um ninho de verdura, para um recanto sombrio sob uma árvore, para debaixo duma ponte que atravessa uma estrada ou, pelo menos, quem é que nunca sonhou fazê-lo?

Tarde ou cedo, os pais têm de afrontar este problema. Se se recordarem então da própria infância, a criança está com sorte. Na época em que Cathy era uma rapariguinha, ainda era pior: os pais ficavam horrorizados quando descobriam nos filhos os instintos cuja existência negavam em si próprios.

 

A mãe de Cathy acabava de estender a roupa ao sol da Primavera. Cintilava um orvalho teimoso; a terra impregnava-se de calor; desabrochavam os dentes-de-leão amarelos. Os Ames viviam à beira da cidade. Atrás da casa, havia um celeiro, uma cocheira, uma horta e uma estrebaria para dois cavalos.

A Sr? Ames vira Cathy dirigir-se para o celeiro. Chamou-a e, não obtendo resposta nenhuma, julgou que se tivesse talvez enganado. Dispunha-se a entrar em casa quando ouviu um risinho na cocheira. “Cathy!”, gritou. Nenhuma resposta. Ficou inquieta.

Tentou recordar-se do som do riso. Não era a voz de Cathy. Cathy não costumava rir.

Não se sabe como nasce o medo nos pais. Deve reconhecerse que, na maior parte dos casos, as suas apreensões não são motivadas. E que os pais mais inquietos são os de filho único.

Têm tanto medo de os perder...

A Sr.a Ames ficou imóvel, de ouvido atento. Notou um cochicho e encaminhou-se sem ruído para a cavalariça. A porta de dois batentes estava fechada. As vozes vinham do interior, mas a Sr.a Ames não conseguia distinguir a da filha. Deu rapidamente um passo em frente, abriu os dois batentes da porta, e o sol iluminou um tal quadro que ficou petrificada, de boca aberta. Cathy estava estendida no chão, com a saia levantada. Estava nua até à cintura e viam- se dois rapazes de cerca de catorze anos ajoelhados ao lado dela.

A luz súbita tinha-os imobilizado. Os olhos de Cathy exprimiam um intenso terror. A Sr.a Ames conhecia os rapazes e os pais deles.

Um dos garotos saltou subitamente, empurrou a Sr.a Ames e desapareceu atrás da casa. O outro rapaz, num sobressalto desesperado, evitou a mulher e precipitou-se para a porta. A Sr.a Ames jogou-lhe a mão, mas os dedos escorregaram pelo fato e não conseguiram retê-lo.

A Sr.a Ames tentou falar, mas a voz não passava dum murmúrio rouco:

De pé!

Cathy fitou a mãe com um olhar suplicante e não se moveu.

Cathy tinha os punhos atados com uma corda forte. A Sr.a Ames soltou um grito, atirou-se para o chão e desatou o nó. Depois, levou Cathy para casa e deitou-a.

O médico da família, após tê-la examinado, não encontrou quaisquer vestígios de violência. “Agradeça a Deus por ter chegado a tempo”, contentou-se ele em repetir várias vezes.

Cathy esteve muito tempo sem falar. “É do choque”, disse o médico. Mas, passada a prostração, Cathy recusou-se a falar.

Quando lhe faziam perguntas, esgazeava os olhos de forma a deixar aparecer o branco em torno das pupilas, ficava sem respirar, punha-se vermelha e todo o corpo se inteiriçava.

O Dr. Williams presidiu o conselho que reuniu as três famílias. O Sr. Ames, que levara a corda, manteve-se calado a maior parte do tempo. Estava perplexo. Havia coisas que não compreendia, mas não as mencionou.

A Sr.a Ames entregou-se a uma histeria permanente. Estivera lá. Vira tudo. Era ela a autoridade suprema. Naquela histeria, transparecia o sadismo. Queria sangue. Sentia prazer em exigir um castigo. A cidade, a região deviam ser protegidas. Era assim que ela via as coisas. Conseguira chegar a tempo Deus seja louvado! mas quem sabe como se passariam as coisas da próxima vez? E o terror em que viveriam as outras mães? E a Cathy só tinha dez anos.

Nessa época, os castigos eram mais selvagens do que hoje.

Acreditava-se sinceramente nas virtudes salvadoras do chicote.

Primeiro, separadamente, depois, em conjunto, os rapazes foram zurzidos, zurzidos até escorrerem sangue.

O seu crime era hediondo mas, negando-o, provavam que estavam habitados por um demónio que nem o próprio chicote conseguia expulsar. Logo de princípio, a sua defesa fora ridícula.

Afirmavam que fora Cathy quem começara. Ambos lhe tinham dado cinco cêntimos. Não lhe tinham atado as mãos. Lembravam- se de que ela brincava com uma corda.

Toda a cidade entoou em coro as palavras da Sr.a Ames: Estarão eles a insinuar que foi ela própria quem atou as mãos? Uma criança de dez anos!”

Se os rapazes tivessem confessado o crime, é provável que só tivessem sofrido uma parte do castigo. Mas a sistemática denegação despertou uma fúria vingadora não só nos pais que os tinham chicoteado, mas também em toda a comunidade. Com a aprovação dos pais, os rapazes foram expedidos para a casa de correcção.

“Ela vive obcecada por aquilo”, disse a Sr.a Ames aos vizinhos. “Se ao menos pudesse falar, talvez lhe fizesse bem. Mas quando lhe faço uma pergunta, é como se revivesse a cena.”

Os Ames nunca mais evocaram o drama. O caso estava arrumado. O Sr. Ames esqueceu rapidamente as suas perplexidades.

Ficaria com um peso na consciência se tivessem enviado duas crianças para a casa de correcção por um crime que não tinham cometido.

Quando Cathy ficou completamente curada, os rapazes e as raparigas observaram-na de longe, depois, fascinados, aproximaram-se. Ela não tinha nenhum derriço, como é hábito nessa idade:

os rapazes não queriam correr o risco de serem excluídos do seu bando por terem acompanhado Cathy desde a escola até casa.

Mas ela exercia uma forte sedução e, se um rapaz se encontrava a sós com ela, sentia-se atraído por uma força que não podia compreender, nem combater.

Cathy era delicada, muito meiga, e falava em voz baixa. Dava grandes passeios sozinha, mas era raro que não encontrasse, por puro acaso, um rapaz saindo da mata. Enquanto se extinguiam os últimos rumores do acontecimento, as actividades de Cathy mantiveram-se secretas, o que causa estranheza numa idade em que os segredos são numerosos e em que não se guardam por muito tempo.

Cathy aperfeiçoou um sorrisinho, um assomo de sorriso. Tinha uma maneira de olhar de lado que dava a entender aos rapazes que estava disposta a partilhar segredos com eles.

O pai tinha uma nova preocupação, mas evitava a resposta só pela vergonha de pensar em tal assunto. Cathy tinha o dom de encontrar objectos: um berloque de oiro; moedas; uma bolsinha de seda; uma cruz de prata incrustada de pedras encarnadas que se dizia serem rubis... Encontrou muitas coisas. Quando o pai pôs um anúncio no Correio hebdomadário, acerca da cruz, ninguém apareceu a reclamá-la.

O Sr. William Ames, pai de Cathy, era um homem ensimesmado. Raramente dizia o que pensava. Seria incapaz de provocar os remoques dos vizinhos. Por isso, foi alimentando dentro de si a chamazita da suspeita: achava preferível nada saber, era mais seguro e mais prudente. E tinha a consciência em paz. Quanto à mãe de Cathy, estava tão enleada num casulo de meias-mentiras, de verdades mascaradas, de sugestões e de armadilhas preparadas por Cathy que seria incapaz de reconhecer uma verdade se a viesse a encontrar.

 

Cathy crescia em beleza. A pele aveludada, os cabelos doirados, o olhar franco, modesto e, contudo, prometedor, a boquinha cheia de doçura, atraíam a atenção. Fez os oito graus de instrução primária com tão boas notas que os pais a matricularam na escola secundária, se bem que, nesse tempo, não fosse costume pôr as raparigas a estudar. Mas Cathy dizia que queria ser professora, o que encantava a mãe e o pai, pois era a mais digna profissão que se oferecia a uma rapariga de boa família sem fortuna. Era uma honra ter uma filha no ensino. Cathy tinha catorze anos quando entrou para o liceu. Ela sempre parecera inapreciável aos pais, mas, assim que se familiarizou com a álgebra e o latim, atingiu alturas onde eles já não a podiam acompanhar. Tinham-na perdido; sentiam que atingira esferas superiores.

O professor de latim era um homem novo e pálido, de olhar intenso, que fora expulso dum seminário, mas que possuía os conhecimentos bastantes para ensinar a inevitável gramática,

César e Cícero. Era um rapaz sossegado que acalentava no seio o revés sofrido. Lá no íntimo, sentia que fora rejeitado por Deus e que Deus tinha as suas razões.

Durante certo tempo, notou-se que ardia uma chama nos olhos de James Grew. Nunca o viram com Cathy e não houve suspeitas de que tivessem mantido relações.

James Grew fez-se um homem. Endireitou a cabeça e o coração encheu-se-lhe de alegria. Escreveu cartas tão convincentes ao reitor do seminário que este pensou em readmiti-lo.

Depois, a chama vacilou. A cabeça, tão levantada, descaiu.

Os olhos ficaram febris; as mãos puseram-se a tremer. Viram-no à noite, na igreja, ajoelhado, murmurando orações. Faltou à escola, pretextando doença, apesar de o terem avistado a andar sozinho pelas colinas atrás da cidade.

Uma noite, já bastante tarde, foi bater à porta dos Ames. O

Sr. Ames saiu da cama a resmungar, acendeu uma vela, atirou um casaco por cima da camisa de dormir e foi até à porta. Deparou-se-lhe um James Grew desvairado e selvagem, com os olhos chispando e o corpo sacudido por tremuras.

Preciso de lhe falar disse ele numa voz rouca.

Já passa da meia-noite disse o Sr. Ames.

Preciso de lhe falar a sós. Vista-se e venha cá para fora.

Preciso de lhe falar.

Você ou está bêbedo ou doente. Vá para casa e durma. Já passa da meia-noite.

Não posso esperar. Tenho de lhe falar.

Venha estar comigo amanhã de manhã à tanaria.

O Sr. Ames fechou a porta com mão firme e ficou imóvel à escuta. Ouviu a voz que gemia: “Não posso esperar. Não posso esperar.” Depois, passos desceram vagarosamente os degraus.

O Sr. Ames protegeu a chama da vela com a mão e foi deitar- se. Pareceu-lhe ver fechar-se silenciosamente a porta do quarto de Cathy, mas talvez fosse a luz vacilante que lhe provocasse visões, pois também lhe pareceu ver mexer-se um reposteiro.

O que era? perguntou-lhe a mulher quando ele se tornou a meter na cama.

O Sr. Ames não soube porque respondeu assim, talvez para evitar uma discussão:

Um bêbedo que se enganou de casa.

Está o mundo perdido disse a Sr.á Ames.

Estendido no escuro, o Sr. Ames viu dançar diante dos olhos um círculo verde onde se avistava o rosto suplicante e desesperado de James Grew. Foi com dificuldade que adormeceu.

De manhã, a cidade foi percorrida por um boato, umas vezes deformado, outras, aumentado; mas, à tardinha, já se sabia a verdade: o sacristão encontrara James Grew estendido junto do altar; dera um tiro nos miolos. Ao lado dele, jaziam uma espingarda, a vara de madeira que utilizara para disparar o gatilho e um candelabro de altar. Uma das três velas ainda ardia; as duas outras não tinham sido acesas. No chão, estavam dois livros, um em cima do outro; o livro dos cânticos e o livro das orações. Na opinião do sacristão, James Grew colocara o cano da espingarda em cima dos livros para o elevar à altura da testa. O recuo afastara a arma.

Muitas pessoas se lembraram de ter ouvido uma explosão antes de o Sol nascer. James Grew não deixava nenhuma carta.

Ninguém compreendeu porque fizera aquilo.

O primeiro impulso do Sr. Ames foi ir procurar o coronel para lhe contar a visita que recebera à meia-noite; depois, pensou: “Para que servia? Se soubesse alguma coisa, seria diferente, mas como não sei...” Sentia-se vagamente enjoado. Repetia a si mesmo que a culpa não era dele. “Que poderia ter feito? Nem sei o que ele me queria”. Sentia-se culpado e infeliz.

Durante o jantar, a mulher falou-lhe no suicídio, o que lhe tirou o apetite. Cathy estava silenciosa, mas não mais do que era costume. Comeu com a ponta dos lábios e limpou muitas vezes a boca.

A Sr.a Ames passou em revista todos os pormenores do caso, incluindo o corpo e a espingarda.

Há uma coisa que te queria dizer. O bêbedo que veio cá ontem bater à porta, não era o Grew? perguntou ela ao marido.

Não respondeu ele rapidamente.

Tens a certeza? Como o podias ver no escuro?

Eu tinha uma vela respondeu ele secamente. Não era ele. O homem tinha uma grande barba.

É escusado responder assim disse ela. Estava só a fazer uma pergunta.

Cathy limpou a boca e, quando tornou a pôr o guardanapo em cima dos joelhos, estava sorrindo.

A Sr.ª Ames voltou-se para a filha:

Tu via-lo todos os dias na escola, Cathy. Pareceu-te preocupado nestes últimos dias? Notaste alguma coisa que...

Cathy inclinou a cabeça para o prato e, depois, tornou a erguê- la.

Pareceu-me doente disse ela. Sim, não tinha um ar nada bom. Toda a gente falava nisso, hoje, lá na escola. E alguém não me lembro quem foi disse que o Sr. Grew tinha aborrecimentos em Bóston. Não sei que espécie de aborrecimentos eram.

Todos nós gostávamos muito do Sr. Grew.

Limpou delicadamente a boca.

Era o método de Cath. Antes da noite seguinte, já toda a cidade sabia que James Grew tivera aborrecimentos em Bóston. Ninguém imaginava que Cathy inventara a história. A própria Sr.a Ames já não se recordava onde o ouvira dizer.

 

Cathy modificou-se pouco depois de ter completado os dezasseis anos. Uma manhã, não se levantou para ir à escola. A mãe subiu ao quarto dela e encontrou-a na cama, fitando o tecto.

Despacha-te. Já estás atrasada. Vão dar as nove.

Não vou à escola.

Estás doente?

Não.

Então, levanta-te.

Não quero ir.

Deves estar doente. Nunca faltaste nenhum dia.

Não vou à escola repetiu calmamente Cathy. Nunca mais lá volto.

A Sr.a Ames abriu a boca de espanto.

Que queres tu dizer?

Nunca mais disse Cathy.

E continuou a fitar o tecto.

Muito bem. Vamos ver o que diz o teu pai. Com todo o dinheiro que nós gastámos, dois anos antes de receberes o diploma...

Aproximou-se e perguntou ternamente:

Não pensas em te casar?

Não.

Que livro é esse que estás a esconder?

Aqui o tem. Não estou a escondê-lo.

Oh! Alice no país das maravilhas. Já estás muito crescida...

Cathy respondeu:

Quero tornar-me tão pequena que nem tu me poderás ver.

Que história é essa?

Ninguém me poderá descobrir.

A mãe disse encolerizada:

Deixa-te de disparates. Não percebo em que estás a pensar. E o que é que a menina tenciona fazer?

Oh! ainda não sei disse Cathy. Talvez me vá embora.

Muito bem! A menina vai ficar deitada e quando o seu pai voltar há-de ter uma ou duas coisas para lhe dizer.

Cathy voltou a cabeça muito devagar e contemplou a mãe.

Tinha os olhos frios e sem expressão. Subitamente, a Sr.a Ames teve medo da filha. Saiu sem fazer ruído e fechou a porta. Na cozinha, sentou-se, cruzou as mãos nos joelhos e, pela janela, pôs-se a olhar a cocheira.

A filha tornara-se uma estranha. Sentia, como acontece a todos os pais, mais cedo ou mais tarde, que já não a conseguia dominar, que lhe fugiam dos dedos as rédeas com que tentava dirigir Cathy. O que ela ignorava é que nunca exercera qualquer poder sobre Cathy. Limitara-se a servir os propósitos da filha. Passados instantes, a Sr.a Ames pôs um chapéu e encaminhou-se para a tanaria. Queria falar ao marido fora de casa.

De tarde, Cathy levantou-se e passou um grande bocado diante do espelho.

À noite, o Sr. Ames, embora contrariado, pregou um sermão à filha. Falou-lhe dos seus deveres, das suas obrigações, do amor natural que devia ter aos pais. Quando já estava no fim do discurso, percebeu que ela o não escutava. Zangou-se e ameaçou-a.

Falou da autoridade que Deus lhe concedera para guiar a filha e de como essa autoridade era confirmada e reforçada pelo Estado.

Cathy ouvia-o agora com atenção e olhava-o a direito nos olhos.

A boca sorria levemente e os olhos não pestanejavam. Por fim, o pai viu-se obrigado a desviar o olhar, o que lhe aumentou a ira.

Ameaçou-a vagamente com o chicote se ela não lhe obedecesse.

E, terminou, sentindo-se desamparado:

Vais prometer-me que amanhã não faltas à escola e que te deixas de caprichos.

O rosto de Cathy mantinha-se inexpressivo. A boca estava fechada.

Está bem disse ela.

Nessa noite, o Sr. Ames disse à mulher, com uma fingida segurança:

Como vês, basta um pouco de autoridade. Talvez não tenhamos sido bastante severos. Mas ela tem bom fundo. Talvez se tivesse esquecido de quem nós éramos. Um pouco de disciplina nunca fez mal a ninguém.

Mas não se sentia tão confiante como as suas palavras o davam a entender.

Na manhã seguinte, verificaram que Cathy se fora embora.

Desaparecera o cesto de viagem assim como a maioria dos seus vestidos. A cama estava impecavelmente feita. O quarto era impessoal nem fotografias, nem recordações, nenhum dos vestígios que costuma deixar um ser vivente. Cathy nunca brincara com bonecas. Nada parecia indicar que naquele quarto crescera uma criança.

O Sr. Ames era um homem inteligente a seu modo. Pôs o chapéu e dirigiu-se rapidamente para a estação. O chefe da estação foi categórico: Cathy tomara o primeiro comboio para Bóston.

A pedido do Sr. Ames, transmitiu um telegrama à polícia de Bóston. O pai de Cathy comprou um bilhete de ida e volta e apanhou a composição das nove e cinquenta. Era um homem de grandes decisões nos momentos cruciais.

Nessa noite, a Sr.a Ames fechou-se na cozinha e sentou-se.

Estava branca e agarrava-se à mesa, tanto tremia. O barulho primeiro as chicotadas, depois os gritos chegava-lhe distintamente através das portas fechadas.

O Sr. Ames não era um perito na arte de chicotear por nunca a ter praticado. Com o chicote da carroça, começou por zurzir as pernas de Cathy. Depois, quando viu que ela o olhava insolentemente com os olhos frios e que não chorava, perdeu as estribeiras.

Flagelou-lhe as ilhargas e as costas. O chicote estalava e feria.

Dominado pela raiva, o Sr. Ames falhou várias vezes, ou aproximou-se demasiado, fazendo com que o chicote se enrolasse em torno da vítima.

Cathy compreendeu rapidamente; descobriu o ponto fraco do pai. Logo se pôs a berrar, a torcer-se, a suplicar; e teve a satisfação instantânea de ver diminuir a dor.

O Sr. Ames assustou-se com o barulho e a punição que estava a infligir. Deteve-se. Cathy caiu na cama, soluçando. Se o pai a tivesse olhado de perto, descobriria que ela tinha os olhos secos, os músculos do pescoço retesados e os maxilares salientes de tanto os apertar. Perguntou-lhe:

Tornas?

Não. Oh! não. Perdoa-me disse Cathy.

E escondeu a cara na manta para que o pai não lhe visse a expressão.

E vê se te lembras quem és. E não esqueças quem eu sou.

A voz de Cathy despedaçou-se e emitiu um soluço seco:

Não hei-de esquecer.

Na cozinha, a Sr.a Ames torcia as mãos. O marido acariciou- lhe o ombro:

Custa-me muito disse ele -, mas tinha de o fazer. Acho que lhe fez bem. Pareceu-me mudada. Não devíamos ter afrouxado as rédeas. Bem mal andámos em ser fracos.

A mulher insistira, obrigara-o a chicotear Cathy, e agora odiava-o, por ele o ter feito. Apoderou-se dele o desespero.

 

Não havia dúvida nenhuma que era daquilo que Cathy precisava. Como dizia a Sr.á Ames: “Até parece que se abriu.” Cathy tornou-se prestável: durante as semanas que se seguiram, ajudou a mãe na cozinha, mais do que era necessário, e até principiou a tricotar-lhe um xaile projecto de envergadura cuja realização exigiria meses. A Sr.a Ames falou no caso às vizinhas:

Ela tem uma habilidade extraordinária para combinar cores. Ferrugem e amarelo. Já fez três carreiras.

Ao pai, Cathy oferecia um sorriso fabricado. Tirava-lhe o chapéu quando ele chegava e virava-lhe a cadeira de frente para a luz, para que pudesse ler com comodidade.

Até na escola se modificou. Sempre fora estudiosa, mas começou a fazer planos para o futuro. Falou ao director nos exames do diploma de ensino que desejava obter com um ano de antecedência. O director examinou-lhe a caderneta e achou que ela podia tentar com muitas probabilidades de êxito. Foi ver o Sr. Ames à tanaria, para discutirem o assunto.

Ela não nos disse nada.

O Sr. Ames sentia-se muito orgulhoso.

- Talvez tenha feito mal em lhes dizer. Espero não ter estragado a surpresa.

O Sr. e a Sr.a Ames julgaram ter descoberto a varinha mágica que ia resolver todos os seus problemas. Chegaram à conclusão de que aquele resultado era o fruto duma habilidade de que só os pais são capazes.

Nunca vi alguém mudar tanto dizia o Sr. Ames.

Ela sempre foi boa rapariga dizia a mulher.Já reparaste como está a ficar bonita? É quase bela. E que bonitas cores!

Não me parece que fique professora primária muito tempo acrescentava o Sr. Ames.

Era verdade que Cathy resplandecia. Enquanto fez os preparativos, manteve o sorriso infantil. O tempo não lhe faltava. Limpou a cave e colocou buchas de papel para evitar as correntes de ar.

Untou os gonzos da porta da cozinha, que rangiam, e o ferrolho, que estava muito perro, e já que estava com as mãos na massa, os gonzos da porta da rua. Sentiu-se na obrigação de encher os candeeiros e de limpar os vidros. Inventou um sistema especial de limpar as chaminés dos candeeiros, mergulhando-as numa grande bacia de petróleo que mandara pôr na cave.

Só vendo se acredita dizia o pai.

E não era só em casa que as coisas se passavam deste modo.

Cathy desafiava o cheiro do tanino para ir visitar o pai. Fizera os dezasseis anos, havia pouco e o pai considerava-a como um bebé.

As perguntas que ela lhe fez deixaram-no estupefacto.

Parece saber mais do que muitos homens que eu conheço

- disse ele ao contramestre. Talvez um dia possa ficar à frente do negócio.

Ela não se interessava apenas pelos processos de curtir, mas também pelo andamento do negócio. O pai explicou-lhe o que eram os investimentos, os prazos de pagamento, a facturação e as folhas de férias. Mostrou-lhe como se abria o cofre forte e ficou encantado por ela se lembrar da combinação à primeira tentativa.

Vou dizer-te qual é o meu ponto de vista confidenciou ele à mulher.-Todos nós temos uma tendência para o mal. Não gostava nada de ter uma filha excessivamente sossegada. Na minha opinião, ela tinha energia a mais. E se a orientarmos, há-de gastá-la no bom sentido.

Cathy cosia a sua roupa e arrumava as suas coisas.

Num dia de Maio, ao voltar da escola, dirigiu-se directamente para as agulhas de tricotar. A mãe estava vestida para sair.

Tenho de ir à Confraria do Altar. O nosso bazar de caridade realiza-se na próxima semana. Sou eu a presidente. O teu pai perguntou-me se tu podias ir ao banco levantar o dinheiro para as férias e levá-lo à tanaria, visto eu não poder ir.

Com todo o gosto disse Cathy.

O dinheiro está pronto. Já o puseram num saco.

A Sr.a Ames saiu.

Cathy trabalhou ràpidamente mas sem precipitação, envergou um velho avental para proteger a roupa. Foi buscar à cave um boião de doce, com tampa, e levou-o para a arrecadação das ferramentas. Na capoeira, apanhou um frango e cortou-lhe a cabeça; depois, segurou o pescoço em cima do boião até ficar meio cheio de sangue; em seguida, pegou no frango ainda agitado por sobressaltos e foi enterrá-lo no monte de estrume. De regresso à cozinha, tirou o avental, meteu-o no fogão e ateou as brasas até o tecido arder. Lavou as mãos, inspeccionou os sapatos e as meias, e apagou uma mancha escura na ponta do sapato direito. Mirou-se ao espelho. As faces estavam rosadas, os olhos brilhavam e a boca tinha um sorrisinho infantil. Escondeu o boião de doce na escada da cozinha. A mãe não saíra havia mais de dez minutos.

Cathy partiu com passo ligeiro e quase dançava quando chegou à rua. A Primavera fazia abrir os rebentos e, nos prados, dentes-de-leão precoces desenhavam manchas amarelas. Cathy encaminhou-se alegremente para o centro da cidade, onde se encontrava o banco. E ia tão fresca e tão bonita que todos se voltavam para a ver.

 

O incêndio deflagrou por volta das três horas da manhã. O fogo pegou, rugiu e abrasou toda a casa antes que alguém tivesse tido tempo de notar fosse o que fosse. Quando os bombeiros voluntários chegaram, arrastando a bomba, só restava uma coisa a fazer:

regar os telhados próximos para os preservar do sinistro.

A casa dos Ames ardera como um foguete. Os bombeiros e os basbaques que são sempre atraídos pelos incêndios, examinaram os rostos iluminados a ver se reconheciam o Sr. e a Sr.a Ames, assim como a filha. Depressa se verificou que não estavam ali. Os espectadores estremeceram de horror ao lembrarem-se de que lhes poderia ter acontecido o mesmo. Os corações bateram mais depressa e as gargantas contraíram-se. Os bombeiros começaram a regar as chamas como se, tomados de remorsos tardios, esperassem salvar ainda algum membro da família. Percorreu a cidade um boato aflitivo: toda a família Ames morrera queimada.

Logo de manhã cedo, reuniu-se toda a população em torno dos escombros fumegantes. Os da primeira fila eram obrigados a proteger-se do calor. Os bombeiros continuavam a borrifar os tristes restos. Por alturas do meio-dia, o coroner pôde avançar por um caminho de tábuas molhadas e esquadrinhar com um atiçador os bocados de madeira calcinada, impregnados de água. Restava o bastante do Sr. e da Sr.a Ames para garantir que havia dois corpos. Uns vizinhos designaram o local aproximado do quarto de Cathy. O coroner e alguns amadores passaram ao crivo os montes de madeira queimada, mas não encontraram ossos nem dentes.

O chefe dos bombeiros, durante esse tempo, tinha descoberto as argolas e o fecho da porta. Olhava para o metal enegrecido, perplexo, mas não sabia porque o estava. Pediu o ancinho ao coroner e entregou-se furiosamente ao trabalho. Dirigiu-se para o sítio onde se erguia a porta da entrada e procurou, até o encontrar, o ferrolho torcido e meio derretido. Alguns espectadores que faziam círculo em torno dele, perguntaram:

Que procuras tu, George? Que encontraste, George?

Finalmente, o coroner dirigiu-se-lhe: Que aconteceu,

George?

Não há chaves nas fechaduras disse o chefe dos bombeiros, embaraçado.

Talvez tenham caído?

De que maneira?

Talvez se tenham derretido?

Os fechos não se derreteram.

Talvez o Bill Ames as tenha tirado?

Do lado de dentro?

E mostrava os troféus: as duas fechaduras estavam fechadas.

Como a casa do patrão ardera e, com ela, o patrão, os empregados da tanaria não foram trabalhar. Postaram-se junto da casa, oferecendo-se para ajudar, maçadores e inúteis.

Só no fim da tarde é que Joel Robinson, o contramestre, se dirigiu à tanaria, onde encontrou o cofre aberto e os papéis espalhados no chão. Uma janela partida indicava o caminho por onde fugira o gatuno.

O caso mudava de figura. Não se tratava, então, de um acidente! O medo substituiu a dor e a cólera, irmã do medo, despertou. A multidão começou a dispersar.

Não foi preciso ir muito longe. Na cocheira encontraram aquilo a que se chama vestígios de luta: uma caixa partida, uma lanterna estilhaçada; pegadas na terra e palha espalhada por toda a parte.

Os investigadores talvez não tivessem compreendido que se tratava de vestígios de luta se não houvesse uma grande quantidade de sangue no chão.

Um agente da polícia tomou a situação em mãos. Era o seu distrito. Mandou sair toda a gente da cocheira.

Querem fazer desaparecer todos os vestígios? atirou ele aos espectadores. E agora afastem-se desta porta.

Vasculhou a casa, apanhou qualquer coisa e, num recanto, achou outra coisa qualquer. Encaminhou-se para a porta com as descobertas na mão: uma fita azul manchada de sangue e uma cruz com pedras encarnadas.

Alguém reconhece estes objectos? perguntou.

Numa pequena cidade onde todos se conhecem, custa a acreditar que uma pessoa das nossas relações possa ser o assassino de alguém. Por isso, quando se não descobrem provas esmagadoras contra determinado indivíduo, vai-se acusar um vago estranho, alguém vindo desse mundo exterior onde podem acontecer coisas semelhantes. Então, fazem-se rusgas aos acampamentos de vagabundos, os mendigos são interrogados e passam-se ao crivo os registos dos hotéis. Todo o desconhecido é automaticamente um suspeito. Não se esqueçam de que se estava no mês de Maio e de que os vadios se tinham posto a caminho, aproveitando os meses quentes em que se dorme ao relento à beira dos regatos. E havia ainda os ciganos, um acampamento completo a menos de cinco milhas de distância. Os pobres ciganos passaram um mau bocado.

O campo foi esquadrinhado em todas as direcções para se tentar descobrir uma parcela de terra remexida de fresca data.

Até os pântanos foram dragados para encontrar o corpo de Cathy.

“ Era tão bonita”, dizia-se. O que significava que talvez fosse uma boa razão para terem raptado Cathy. Finalmente, detiveram um meioparvo, hirsuto e babado. Era um candidato perfeito à forca, pois não só era incapaz de dizer onde passara aquela noite, como também não conseguia lembrar-se do que fizera durante toda a vida. O seu pobre espírito percebia que os interrogadores estavam à espera de qualquer coisa e, como era uma criatura amável, tentou satisfazer- lhes a vontade. Quando lhe faziam uma pergunta-armadilha, deixa- va-se logo cair por ela abaixo e arvorava um ar feliz ao verificar que os inquiridores se mostravam satisfeitos. Pretendia, virilmente, contentar aqueles seres superiores. Não há dúvida de que era um excelente rapaz. Só era pena que confessasse coisas de mais. Além disso, tinham que estar sempre a lembrar-lhe tudo o que supostamente cometera. Estava, de facto, encantado, quando se apresentou perante um júri rígido e assustado. Tinha a sensação de que, finalmente, realizara alguma coisa neste mundo.

Houve e ainda há certos juizes cujo amor pela justiça tem a qualidade do amor por uma mulher. Era um homem destes quem presidia ao júri, um homem tão puro e tão bom que resgatou muitas iniquidades no decorrer da sua vida. A confissão do culpado era uma estupidez. O juiz notou que o suspeito tentava seguir uma directiva, mas que não conseguia de forma nenhuma recordar-se do que fizera, quem matara, como e porquê. O juiz suspirou tristemente, libertou o homem e chamou o polícia com um gesto.

Michael disse ele -, não tinhas o direito de fazer uma coisa destas. Se o rapaz fosse um bocadinho mais inteligente, eras capaz de o mandar para a forca.

Mas ele confessou.

O polícia sentia-se ferido, pois era um homem consciencioso.

Até era capaz de confessar ter subido as escadas do Paraíso e cortado a garganta de S. Pedro com um taco de bilhar disse o juiz.Vê se és mais prudente, Michael. A lei foi concebida para salvar e não para destruir.

Em todas estas tragédias de pequena envergadura, o tempo age como um pano molhado numa aguarela. Os contornos embotam-se, a dor desaparece, as cores misturam-se e as linhas outrora distintas passam a formar uma massa cinzenta. Ao fim de um mês, já não se sentia a necessidade de enforcar ninguém. E, decorridos dois meses, admitia-se que não existiam provas reais contra quem quer que fosse. Se não tivesse sido o assassínio de

Cathy, chegar-se-ia a pensar que o fogo e o roubo não passavam duma coincidência. E depois, as pessoas começaram a dizer que se, no fim de contas, não encontravam o corpo de Cathy, era porque talvez não tivesse morrido.

Cathy deixava atrás de si um cheiro de santidade.

 

 

                             CAPÍTULO IX

 

O Sr. Edwards dirigia o seu negócio de prostituição com ordem e método. A mulher e os dois filhos, muito bem educados, viviam numa boa casa de um bom bairro de Bóston. Os filhos, dois rapazes, estavam inscritos nos registos da paróquia de Groton.

A esposa velava pela limpeza da casa e tomava conta das criadas. O Sr. Edwards tinha de se ausentar muitas vezes por causa dos negócios, mas levava uma vida conjugal surpreendente e passava mais serões em casa do que se possa imaginar. Geria os negócios com a exactidão de um contabilista diplomado. Era um homem grande e forte, com tendência para a obesidade à medida que se aproximava dos cinquenta, mas com uma saúde espantosa numa época em que só se engordava para mostrar que se vencera na vida.Fora ele quem concebera o negócio: um circuito através das pequenas cidades; a breve estadia de cada rapariga;

a disciplina; as percentagens. Não agia no ar e cometia poucos erros. Nunca mandava as mulheres para as grandes cidades. Sabia como acalmar o apetite dos polícias das vilas, mas respeitava os polícias das grandes cidades, mais inteligentes e mais vorazes. O seu campo de acção ideal era uma cidadezinha sem distracções, com um hotel hipotecado, onde os únicos concorrentes fossem as esposas legítimas e alguma forasteira ocasional. Naquela altura, tinha dez grupos. Quando morreu aos sessenta e sete anos, engasgado com um osso de frango, tinha grupos de quatro mulheres em cada uma das trinta e três pequenas cidades da Nova

Inglaterra. A sua situação era mais do que desafogada era rica.

Aliás, a maneira como morreu constituía, já de si, um símbolo de êxito.

Nos tempos que vão correndo, a instituição dos bordéis parece condenada a desaparecer. Os sábios apresentam várias razões:

uns dizem que é o declínio da moralidade das raparigas que lhe vibrou um golpe mortal; outros, mais idealistas, talvez, afirmam que a intervenção em maior escala da polícia, conduz à ruína dos prostíbulos. Nos últimos dias do século passado e nos primeiros do actual, aceitava-se a existência dos bordéis, chegando-se a discutilos publicamente. Dizia-se, então, que constituíam uma protecção para as mulheres decentes. Pelo facto de um homem ir a uma dessas casas evacuar uma energia sexual intempestiva, não deixava de continuar a partilhar a opinião tradicional acerca do encanto e castidade das mulheres. Era um mistério, mas existem muitos mistérios na nossa vida social.

Tais casas iam do palácio doirado, forrado de veludo, à cabana exalando um cheiro que teria afugentado um porco. De vez em quando, contavam-se histórias de raparigas raptadas e reduzidas à escravidão pelos magnates dessa indústria e talvez essas histórias fossem verdadeiras. Mas a maioria das prostitutas abraça a carreira tanto por preguiça como por estupidez. Nos bordéis, não tinham responsabilidades. Eram alimentadas, vestidas e tratadas até se tornarem demasiado velhas. Nessa altura, punham-nas fora.

Tão triste fim não as descoroçoava. A juventude não concebe a velhice.

De tempos a tempos, entrava para o ofício uma rapariga inteligente mas, na generalidade dos casos, passava logo a dedicar- se a tarefas mais importantes: abria a sua própria casa; ou praticava chantagem; ou, então, casava com um homem rico. Há um nome fino para as putas inteligentes: chamam-lhes cortesãs.

O Sr. Edwards não tinha muito trabalho com o recrutamento nem com a vigilância das mulheres. Se uma rapariga não era completamente idiota, recusava-a. Também não aceitava raparigas bonitas. Um jovem provinciano poderia apaixonar-se por uma bonita puta, e era complicação pela certa. Se uma das mulheres aparecia grávida, tinha direito a escolher entre o licenciamento e o aborto. O aborto era tão brutal que custava a vida a uma boa parte das operadas. Apesar disso, escolhiam em geral o aborto.

Nem sempre as coisas corriam de feição ao Sr. Edwards. Sempre tinha que resolver alguns problemas. Na época de que lhes estou falando, sofrera ele alguns reveses: um descarrilamento matara-lhe dois grupos de quatro mulheres; perdeu outro grupo que se converteu quando um pregador de província se inflamou e inflamou toda a cidade com os seus sermões. O número de fiéis aumentou de tal modo, que tiveram de abandonar a igreja e ir para os campos.

Depois, como acontece tantas vezes, o pregador acenou-lhes com um argumento de peso, com o seu maior trunfo: predisse a data do fim do mundo e toda a província aos berros lhe caiu de joelhos aos pés. O Sr. Edwards foi à cidade, sacou o chicote das grandes ocasiões e açoitou as mulheres, sem dó nem piedade. Mas, em lugar de se porem a gemer, as raparigas pediram-lhe que as chicoteasse um pouco mais para as lavar dos seus pecados. Enojado, abandonou-as, levando-lhes as roupas, e voltou para Bóston. As raparigas obtiveram um legítimo sucesso quando se encaminharam, nuas, para a assembléia campestre, a fim de se confessarem. Era por estes motivos que o Sr. Edwards se via na obrigação de recrutar um grande número de mulheres, em vez de apanhar uma aqui e outra acolá. Precisava de reconstituir três grupos a partir do nada.

Não sei como foi que Cathy Ames ouviu falar no Sr. Edwards.

Talvez por um cocheiro de tipóia. Mas são coisas que se sabem quando uma mulher deseja realmente sabê-las. O Sr. Edwards acabava de passar uma má manhã, quando ela lhe entrou no escritório. Supunha ele que as suas dores de estômago provinham da caldeirada que a mulher lhe servira no jantar da véspera. Passara a noite de pé. A caldeirada abrira passagem pelas duas saídas disponíveis, mas continuava a sentir-se fraco e enjoado.

Não contratou logo aquela rapariga que dizia chamar-se

Catherine Amesbury. Ela era bonita de mais para o trabalho a que se destinava. Tinha uma voz baixa e rouca. Era magra, quase delicada, e tinha uma pele macia. Numa palavra, não se tratava do género de rapariga para o Sr. Edwards. Se ele não se sentisse em estado de inferioridade, tê-la-ía corrido imediatamente. Não a olhou de muito perto enquanto a interrogava, sobretudo acerca dos pais que podiam causar aborrecimentos, mas algo no seu corpo se pôs a vibrar. O Sr. Edwards, não era um homem concupiscente. E, além disso, nunca misturava os negócios com o prazer. A reacção admirou-o. Ergueu os olhos, perplexo, e a rapariga semicerrou as pálpebras, suavemente, misteriosamente, enquanto se meneava ligeiramente na cadeira. Na boca pequena, brincava um sorriso de gato. O Sr. Edwards debruçou-se sobre a secretária, respirando ruidosamente. Aquela, queria-a para si.

Não compreendo como é que uma rapariga como...

começou ele.

E logo foi vítima do mais velho sentimento do mundo: a mulher que se ama não pode ser senão sincera e honesta.

O meu pai morreu disse Catherine com ar modesto. Antes de morrer, deixou ir tudo por água abaixo. Não sabíamos que tinha hipotecado a quinta. Não quero que o banco se aposse dela. Seria a morte da minha mãe. (Os olhos de Catherine encheram-se de lágrimas.) Pensava ganhar o bastante para pagar a hipoteca.

Se alguma vez na vida o Sr. Edwards teve a oportunidade de evitar aborrecimentos, foi precisamente naquela altura. Na realidade, pareceu-lhe ouvir tocar um sinal de alarme no cérebro, mas não fez caso. Cerca de oitenta por cento das raparigas que o procuravam, precisavam de dinheiro para pagar uma hipoteca. E o

Sr. Edwards obedecia a uma regra invariável: nunca acreditava no que as raparigas lhe diziam mesmo que fosse o que tinham comido ao pequeno almoço, pois até nisso eram capazes de mentir. E ali estava ele, o grande, o gordo, o poderoso proxeneta, de barriga encostada à secretária, com as faces escaldantes e arrepios que lhe percorriam as pernas e as coxas.

O Sr. Edwards ouviu que dizia:

Vejamos, minha filha, vejamos. Talvez haja outra maneira de arranjar o dinheiro.

E isto a uma rapariga que apenas lhe viera pedir para se prostituir ou não viera?

 

A Sr.a Edwards era persistentemente, se não profundamente, religiosa. Passava a maior parte do tempo velando pelo bom andamento da sua igreja. A fé e os seus objectivos não lhe diziam respeito. Para ela, o Sr. Edwards trabalhava em importações. Mesmo que tivesse sabido quais eram os verdadeiros negócios do marido, não teria acreditado. E, isto é outro mistério. O marido fora sempre para ela um homem frio e correcto que raramente cumpria os seus deveres conjugais e, quando o fazia, era como se de dever se tratasse. Ele nunca estivera apaixonado e também nunca fora cruel.

Os dramas dela, as emoções, provinham dos filhos, dos vestidos e da comida. A vida que tinha, satisfazia-a, e sentia-se reconhecida.

Quando o marido se transformou e se tornou nervoso, passando a .abandonar bruscamente a casa em meio de terríveis ataques de cólera, ela começou por pensar que era por causa do estômago e, depois, por lhe correrem mal os negócios. Quando, um dia, entrou por acaso na casa de banho e o encontrou sentado na retrete, chorando mansamente, compreendeu que era um homem doente.

Ele tentou esconder rapidamente os olhos vermelhos. Quando a mulher verificou que nem os chás nem os emplastros o curavam, ficou desorientada.

Se, até isto acontecer, o Sr. Edwards tivesse ouvido contar a história dum homem nas suas circunstâncias, era natural que se risse. Contudo, ele, o mais frio dos patrões de bordéis, acabara por se apaixonar por Catherine Amesbury e sem qualquer esperança de remissão. Comprara uma linda casinha de tijolos, onde a alojara. Mandara decorar o interior com um luxo inimaginável e excessivo. Os tapetes eram duma espessura desmesurada e as paredes estavam cobertas de quadros com enormes molduras.

O Sr. Edwards nunca fora tão infeliz. Aprendera tanta coisa acerca das mulheres que nunca acreditava em nenhuma. Mas, desde que amava profundamente Catherine e, para amar, é preciso acreditar vivia torturado e despedaçado pelo seu amor.

Queria ter confiança e, ao mesmo tempo, duvidava. Procurava comprar-lhe a lealdade com presentes e dinheiro. Quando se encontrava longe dela, torturava-o a ideia de que ela podia receber outros homens na sua ausência. Apavorava-o ter de sair de

Bóston para ir vigiar os grupos de mulheres, pois tinha de deixar

Catherine sozinha. Até certo ponto, começou a descurar os negócios. Era a primeira vez que amava daquele modo, o que quase o ia matando.

O que o Sr. Edwards não sabia nem podia saber, pois

Catherine não se deixava interrogar era que ela se lhe mantinha fiel, no sentido em que não recebia nem ia visitar outros homens.

Para Catherine, o Sr. Edwards era um negócio, do mesmo modo que os grupos de mulheres eram um negócio para ele. Se ele tinha uma técnica, ela também tinha. Assim que ela o teve à sua mercê o que não demorou muito arranjou as coisas de forma a parecer sempre insatisfeita. Tinha sempre um ar desapontado, como se estivesse à beira de se ir embora. Quando sabia que ele ia vê-la ausentava-se de propósito e chegava a casa muito atrasada arvorando o ar de quem acabava de passar por uma experiência inesquecível. Queixava-se da dificuldade que tinha em evitar os olhares e as apalpadelas dos homens na rua. Chegou, várias vezes, assustada, fugindo a um homem que a perseguia. Quando entrava em casa tarde e o encontrava à espera, explicava: “Andei a fazer compras. Não tenho outro remédio”. E dizia isto como se fosse uma mentira.

Nas relações sexuais, dava-lhe a entender que o resultado não era completamente satisfatório e que, se ele fosse mais homem, teria podido desencadear nela vagas de sensações incríveis. O seu método consistia em desequilibrá-lo. Ficou contente quando viu que os nervos dele começavam a dar de si, que lhe tremiam as mãos, que perdia peso e que tinha um olhar feroz. Ao sentir a aproximação da loucura e do castigo, sentava-se-lhe nos joelhos, acalmava-o e obrigava-o a acreditar por momentos na sua inocência. Era capaz de o conseguir.

Catherine queria dinheiro. E dispôs as coisas de modo a obtê- lo tão depressa e com tanta facilidade quanto possível. Quando o reduziu a uma massa informe e Catherine soube com exactidão quando isso se deu começou a roubá-lo. Vasculhava-lhe as algibeiras e tirava-lhe todas as notas grandes. Ele não ousava acusá-la com medo de que ela o abandonasse. As jóias que lhe oferecia desapareciam e, mesmo que ela dissesse que as perdera, ele sabia que as tinha vendido. Catherine falsificava as contas da mercearia e aumentava os preços dos vestidos. E ele não se sentia com forças para pôr termo a tudo aquilo. Ela não vendeu a casa, mas hipotecou-a na medida do possível.

Uma noite o Sr. Edwards verificou que a sua chave não entrava na fechadura. Catherine só respondeu depois de ele estar a bater por muito tempo. Sim, mudara a fechadura porque tinha perdido a chave. Como vivia sozinha, tinha medo. Qualquer pessoa podia entrar. Depois lhe daria outra chave mas nunca lha deu. E, a partir desse dia, o Sr. Edwards teve de tocar para entrar; umas vezes, ela levava muito tempo a abrir, outras, nem sequer abria. Ele não tinha meio algum de saber se ela estava em casa ou não. O Sr.

Edwards dirigiu-se a uma agência de detectives e mandou segui-la.

Catheríne nunca soube quantas vezes o fizeram.

O Sr. Edwards era essencialmente um homem simples. Mas complexidades dum homem simples podem ser obscuras e tortuosas. Catherine era inteligente, mas às vezes acontece que uma mulher inteligente não consegue descobrir alguns dos estranhos subterrâneos que atravessam o homem.

Ela só deu um passo em falso e, mesmo esse, tentou evitar.

Como estava indicado, o Sr. Edwards adornara o lindo ninho com garrafas de champanhe. Catherine sempre se recusara a bebê-lo.

Põe-me doente. Já tentei mas não consigo.

Então. Só uma taça não te fará mal.

Não, obrigada. Não gosto disso,

O Sr. Edwards pensava que essa recusa era uma prova de delicadeza       de mulher bem-educada. Nunca insistira até à noite em que compreendeu que não sabia nada a respeito dela. O vinho pode soltar a língua. Quanto mais pensava nisso, mais a ideia lhe parecia excelente.

Devias ter a amabilidade de tomar uma taça comigo.

Já te disse que me faz mal.

Disparate!

Não quero, já te disse.

Não sejas ridícula. Queres que me zangue?

Não.

Então, bebe uma taça.

Não quero.

Bebe.

Estendeu uma taça e ela recuou.

Não estás a compreender. Faz-me mal.

Bebe.

Ela pegou na taça, engoliu o líquido e ficou imóvel, arrepiada, como se escutasse. O sangue subiu-lhe à cara. Encheu outra taça e, depois, outra. O olhar tornou-se fixo e frio. O Sr. Edwards teve medo. Ia passar-se qualquer coisa que eles eram incapazes de evitar.

Não te esqueças que eu não queria disse ela calmamente.

Talvez fosse melhor parares.

Ela riu-se e encheu outra taça.

Agora já não tem importância disse. Não é a quantidade que conta.

Um copito faz sempre bem disse ele embaraçado.

Ela falou-lhe suavemente:

Meu grande imbecil disse -, que sabes tu de mim?

Pensas que não sou capaz de decifrar todos os terrores que andam às voltas na tua cabecinha? Perguntas a ti mesmo aonde foi que uma pequena como eu aprendeu todos estes truques. Pois vou dizer-te: foi numa casa de putas, estás a ouvir? Numa casa de putas. Trabalhei em lugares em que tu nunca ouviste falar. Quatro anos. Foram uns marinheiros de volta de Port-Said que me ensinaram certas habilidades. Conheço os nervos da tua carcaça a um e um e sou capaz de fazer deles o que me apetecer.

Catherine protestou ele -, não sabes o que estás a dizer.

Já cá faltava essa. Julgavas que eu ia falar, pois muito bem, falei.

Avançou lentamente para ele e o Sr. Edwards refreou a vontade de fugir. Estava com medo, mas ficou sentado. Bem na frente dele, Catherine despejou a última gota de champanhe na taça, bebeu, e partiu-a delicadamente na mesa. Com o pé, que lhe ficou nas mãos, rasgou-lhe a cara.

Foi então que ele fugiu da casa e ouviu atrás de si o riso de

Catherine.

 

O amor, para um homem como o Sr. Edwards, é um sentimento destruidor. Arruinou-lhe o espírito, o discernimento e a força. Concluiu que ela era histérica e tentou acreditá-lo. A sua tarefa foi facilitada pelo comportamento de Catherine, pois ficara aterrada com a cena que fizera e, durante algum tempo, moveu todos os esforços para recriar a doce imagem que a princípio oferecera.

Um homem tão dolorosamente apaixonado pode conseguir torturar-se a si próprio muito mais do que se possa imaginar.

O Sr. Edwards queria acreditar de todo o coração na bondade de Catherine, mas era obrigado a renunciar a tal, tanto por causa do seu demónio interior, como pelo que ela deixara entrever. Quase instintivamente, pôs-se a procurar a verdade a respeito dela e, ao mesmo tempo, não queria acreditar na verdade. Sabia, por exemplo, que ela não depositava dinheiro no banco. Um dos seus empregados, com o auxílio dum complicado jogo de espelhos, descobriu o esconderijo na cave da casinha de tijolos.

Um dia, a agência de investigações enviou-lhe um recorte de jornal. Era a notícia dum incêndio que irrompera numa cidadezinha de província. O Sr. Edwards analisou-a. Pareceu-lhe que o peito e o estômago se enchiam de chumbo derretido e que um véu vermelho lhe passava diante dos olhos. Ao seu amor juntou-se um medo autêntico: a mistura destes dois elementos produz um precipitado: a crueldade. Sentindo-se mal, cambaleou até ao divã do escritório e estendeu-se de barriga para baixo, encostando a testa ao coiro fresco. Durante um instante, ficou imóvel, quase sem respirar. Depois, gradualmente, fez-se luz. Tinha um gosto de sal na boca e sentia uma grande dor de fúria nos ombros. Mas estava calmo e a mente ia percorrendo todos os recantos das suas intenções como o estreito fanal duma lanterna vai iluminando todas as partes duma casa às escuras. Entrou lentamente em acção e fez a mala como costumava fazer sempre que partia em viagem de inspecção: camisas lavadas e roupa de baixo, camisa de noite e peúgas, e o pesado chicote enrolado no fundo da mala.

Com um andar pesado, atravessou o jardinzinho defronte da casa de tijolos e tocou à porta.

Catherine respondeu imediatamente. Estava de casaco e de chapéu.

Oh! que pena! disse ela. Ia sair.

O Sr. Edwards largou a mala.

Não disse ele.

Ela observou-o. Tinha qualquer coisa de mudado. Empurrou-a e encaminhou-se para a cave.

Aonde vais?

A voz dela era aguda. Ele não respondeu. Pouco depois, voltou a aparecer com uma caixinha de carvalho que meteu na mala.

Isso é meu disse ela de mansinho.

Eu sei.

Que tens tu na ideia?

Pensei que poderíamos ir fazer uma viagenzinha.

Onde? Eu não posso ir.

A uma cidade do Connecticut. Tenho de lá ir arrumar um negócio. Disseste-me que querias trabalhar. Pois vais trabalhar.

Não quero. Tu não podes obrigar-me. Vou chamar a polícia.

Perante o sorriso dele, Catherine recuou. O sangue latejava nas fontes do Sr. Edwards.

Talvez queiras regressar à cidade onde nasceste? Houve lá um incêndio, há alguns anos. Recordas-te desse incêndio?

Ela perscrutou-lhe o rosto, procurando um ponto fraco. Mas os olhos dele nada exprimiam.

Que queres tu que eu faça? perguntou ela lentamente.

Vem comigo. Tu disseste que querias trabalhar.

Ela não conseguia imaginar um plano de evasão. Tinha de o seguir e aguardar uma oportunidade. Não estaria sempre vigiada.

Talvez fosse perigoso tentar escapar-lhe agora. Era melhor ir com ele. Sempre pegava. Sempre tinha pegado. Mas Catherine tornava a pensar na frase que ele pronunciara e tinha medo.

Chegaram ao crepúsculo. Subiram a escura rua única da cidadezinha e encontraram-se no campo. Catherine estava desconfiada. Não sabia o que ia fazer. No saco, levava uma faca de lâmina afiada.

O Sr. Edwards julgava saber o que ia fazer. Ia zurzi-la, metê- la num dos quartos da estalagem, açoitá-la de novo, conduzi-la para outra cidade, e assim de seguida até que já não prestasse para nada. Então, desembaraçar-se-ia dela. A polícia local logo tomaria conta dela. E não tinha medo da faca. Já sabia.

A primeira coisa que fez quando se detiveram num sítio sossegado, entre um muro de pedra e uma ala de cedros, foi arrancar-lhe o saco e atirá-lo por cima da parede. Isto quanto à faca.

Mas já não tinha a mesma confiança em si mesmo, pois durante toda a sua vida nunca estivera apaixonado. Pensava que tinha apenas a intenção de a castigar. Após as duas primeiras chicotadas, verificou que o chicote não era suficiente. Atirou-o para o chão e serviu-se dos punhos, respirando ruidosamente.

Catherine não queria obedecer ao pânico. Procurou evitar os punhos ou, pelo menos, amortecer as pancadas. Mas o medo apoderou-se dela e tentou fugir. Ele agarrou-a de um salto, atirou-a ao chão e os punhos já não lhe chegavam. Apanhou uma pedra e deixou-se submergir por uma grande vaga vermelha.

Mais tarde, contemplou o rosto desfeito. Escutou o coração e não ouviu nada além das pancadas do seu. Dois pensamentos completos e separados lhe assaltaram o cérebro; um era: “Tenho de a enterrar, tenho de fazer um buraco e metê-la lá dentro”; o outro gritava como um pensamento de criança: “Não posso. Não posso tocar nela”. Depois, o mal-estar que se segue à loucura desceu sobre ele. Fugiu a correr, deixando atrás de si a mala, o chicote e a caixa. Partiu cambaleando no crepúsculo, perguntando a si mesmo onde poderia esconder a sua infelicidade durante uns momentos.

Nunca lhe fizeram nenhuma pergunta. Após uma doença, que a mulher curou com ternos cuidados, regressou aos negócios e nunca mais se deixou aproximar pela loucura do amor. “Um homem que não aprende nada com a experiência. É um imbecil”,dizia ele. A partir desta altura, teve por si mesmo uma espécie de respeito feito de medo, pois aprendera que tinha em si o desejo de matar.

Se não matara Catherine, fora por acaso. Todas as pancadas tinham essa finalidade. Ela ficou muito tempo inconsciente e mais tempo, ainda, semiconsciente. Sentiu que tinha o braço partido e que precisava de auxílio se não quisesse morrer. Foi a sua vontade de viver que lhe deu forças para se arrastar pela estrada sombria. Parou diante dum portal e subiu todos os degraus antes de desmaiar. Os galos cantavam nas cercas e a Leste um traço cinzento anunciava a madrugada.

 

 

                             CAPÍTULO X

 

Quando dois homens vivem juntos, geralmente mantêm uma espécie de tensa polidez resultante duma raiva incipiente e mútua. Dois homens sós estão sempre à beira da luta e sabem-no muito bem. Adam Trask ainda não se encontrava há muito tempo em casa quando a situação começou a tornar-se tensa. Os dois irmãos viam-se demasiado e davam-se com pouca gente de fora.

Durante alguns meses entretiveram-se a recuperar o dinheiro de Cyrus e a pô-lo a render. Foram de viagem até Washington para deitarem uma vista de olhos ao túmulo, uma bela pedra encimada por uma estrela de bronze munida de um buraco para introduzir o pau de uma bandeirinha nos dias de festa. Os dois irmãos recolheram-se demoradamente sobre a campa e depois foram-se embora sem tornar a falar no pai.

Se Cyrus fora desonesto, soubera fazer bem as coisas. Ninguém fez perguntas acerca do dinheiro. Mas Charles continuava a não pensar noutra coisa.

De regresso ao rancho, Adam perguntou-lhe:

Porque não compras fatos novos? És rico e ages como se tivesses receio de gastar um tostão.

É assim mesmo disse Charles.

Porquê?

Talvez tenha de o devolver.

Continuas a pensar nisso? Se tivesse de se passar alguma coisa, não achas que já nos teria chegado aos ouvidos?

Não sei disse Charles. Prefiro não tocar no assunto.

Mas nessa mesma noite, voltou a falar no assunto.

Há uma coisa que me preocupa começou.

Por causa do dinheiro?

Sim. Quando se ganha tanto dinheiro, deixam-se ficar vestígios.

Que queres tu dizer?

Ora, o que há-de ser? papéis, contas, recibos, apontamentos, números. Vimos todos os papéis do pai e não encontrámos nada disso.

Talvez os tivesse queimado.

Quem sabe?disse Charles.

Os dois irmãos respeitavam um horário estabelecido por Charles e que nunca variava. Charles acordava às quatro e meia em ponto, como se o pêndulo do relógio lhe tivesse feito sinal. Na realidade, despertava uma fracção de segundo antes das quatro e meia; já tinha os olhos abertos antes de soar a meia hora. Ficava um instante imóvel, sondando a escuridão e coçando a barriga.

Depois, estendia a mão para a mesa de cabeceira e, com um gesto preciso, apanhava a caixa de fósforos. Riscava um e deixava arder a chama azul até pegar bem. Só então acendia a vela.

Afastava o cobertor e levantava-se. Usava ceroulas que faziam boças nos joelhos e chegavam até aos calcanhares. Bocejando, arrastava-se até à porta, abria-a e gritava:

Adam, são quatro e meia. Toca a levantar!

A voz de Adam resmungava:

Sempre és muito teimoso!

São horas de te levantares.

Adam enfiava as calças e apertava-as na cintura.

Não precisas de te levantar, és rico. Podes ficar todo o dia na cama.

E tu? Todos os dias nos obrigas a levantar antes de nascer o sol.

Não tens necessidade de te levantar repetia Charles.Mas se queres tornar-te lavrador, tem de ser assim.

E Adam acrescentava, aborrecido:

Pois é. E quanto mais terras comprarmos, mais trabalho teremos.

Não faças caso, redarguiu Charles. Se é isso que te apetece, torna a meter-te na cama.

E Adam respondia:

- Tenho a certeza de que não conseguias dormir se ficasses na cama. E sabes de que mais tenho a certeza? De que te levantas porque tens vergonha e depois convences-te de que tens vontade.

Charles encaminhava-se para a cozinha e acendia o candeeiro.

Não se fica na cama quando se é lavrador.

Mexia o carvão, rasgava um pedaço de papel, punha-o em cima das brasas e soprava até haver chama.

Adam observava-o da porta.

Até poupas os fósforos.

Não te metas onde não és chamado. E não me chateies.

Adam. Está bem. Chego a desconfiar de que estou a mais.

Podes desconfiar à vontade. Se queres ir embora, vai.

Este género de discussão era idiota, mas Adam nada podia fazer para a evitar. Um dia, apesar dos seus esforços, não se conteve e gritou palavras injuriosas:

Vou-me embora, vou, mas só quando me apetecer. Esta casa é tanto tua como minha.

Então porque não queres trabalhar?

Valha-me Deus! Não vale a pena discutir e perder a calma.

Não sou eu quem anda a provocar disse Charles.

Encheu duas tigelas com café morno e pô-las em cima da mesa.

Os dois irmãos sentaram-se. Charles barrou uma fatia de pão com manteiga, depois, com a ponta da faca, tirou doce que estendeu no pão. Quando tornou a servir-se de manteiga, sujou-a de doce.

Mas que raio! Não podias limpar a faca? Olha para a manteiga!

Charles deixou cair a faca e o pão em cima da mesa e pousou as mãos, uma de cada lado da tigela.

Era melhor que te fosses embora.

Adam ergueu-se.

Preferia viver numa pocilga disse ele.

E saiu de casa.

Passaram-se oito meses antes que Charles tornasse a ver o irmão. Voltava do trabalho no campo quando encontrou Adam entretido a borrifar a cara e o cabelo no lavadouro da cozinha.

Viva! disse Charles. Como tens passado?

Vai-se andando respondeu Adam.

Onde estiveste?

Em Bóston.

Só?

Pois. Andei a ver a cidade.

Os dois irmãos recomeçaram a vida em comum, mas ambos tomaram precauções para não se zangarem. Num certo sentido, cada um deles protegia o outro, salvando-se assim a si próprio.

Charles, o primeiro a levantar-se, preparava o pequeno almoço antes de acordar Adam. Adam limpava a casa e fazia as contas.

Viveram assim dois anos até que a cólera venceu de novo.

Numa noite de Inverno, Adam, que fazia contas, ergueu a cabeça.

A Califórnia é estupenda. No Inverno faz bom tempo. Não há nada que se semeie que não cresça.

E depois de crescer, o que é que se lhe faz?

E o trigo? Cultivam muito trigo na Califórnia.

A ferrugem dá cabo de tudo.

Porque é que dizes isso? Ouve, Charles, na Califórnia as coisas crescem tão depressa que, quando se plantam, tem de se recuar logo a correr se não se quer levar uma pancada nos queixos.

Porque não vais para lá, então? Quando quiseres, compro-te a tua parte.

Adam manteve-se calmo. Mas no dia seguinte de manhã, enquanto se penteava diante do espelhinho, voltou à vaca-fria:

Não há Inverno na Califórnia. Há Primavera todo o ano.

Eu gosto do Inverno disse Charles.

Adam dirigiu-se para o fogão.

Não te irrites.

Então não te metas comigo. Quantos ovos queres?

Quatro disse Adam.

Charles pegou em sete ovos e pô-los em cima da mesa. Depois acendeu o lume com gravetos e, assim que a chama ficou suficientemente forte, cobriu-a com a frigideira. Sempre que cozinhava, perdia o ar pachorrento.

Não sei se já notaste, mas sempre que abres a boca é para falar na Califórnia. Desejas, de facto, ir para lá?

Adam soltou um risinho.

Isso gostava eu de saber. Mas não sei. É como quando acordo de manhã. Não consigo levantar-me apesar de não ter vontade de ficar na cama.

As ondas que tu fazes por uma coisa que não vale nada!

disse Charles.

Adam prosseguiu:

Já no quartel era a mesma coisa: não havia manhã em que o raio do clarim não tocasse. E eu jurava por todos os santos que, quando saísse da tropa, havia de dormir todos os dias até ao meio- dia. E aqui até me levanto meia hora antes do toque de alvorada.

Charles, não serás capaz de me dizer porque é que nós trabalhamos?

Quando se é lavrador, não se pode ficar na cama.

Charles mexeu o toucinho com um garfo.

Vê se encaras as coisas continuou Adam com fervor.

Não temos filhos e mulher ainda menos. E, por este andar, nunca mais teremos. Não temos tempo para procurar mulher, mas temos tempo para pensar em comprar a quinta dos Clark se o preço nos convier.

É uma bela terra retorquiu Charles. A nossa e a deles reunidas dariam um dos melhores ranchos da região. Ouve lá, tens intenção de casar?

Não tenho. E é por isso mesmo que te estou a falar. Já não faltam muitos anos para que a gente fique com o melhor rancho da região. Mas não passaremos de dois velhos imbecis que dão cabo dos costados para valorizar a melhor propriedade das redondezas. E depois há-de morrer um de nós, e o melhor rancho da região ficará a pertencer a um só velho imbecil. E depois, morre este...

Porque falas nisso? perguntou Charles. Nunca temos sossego. Vai chatear outro. Diz lá o que te anda a remoer?

Aborreço-me. Ou, pelo menos, não me divirto. O trabalho que tenho não está em relação com o que consigo obter. Eu, que não tenho necessidade de trabalhar!

Porque não largas tudo da mão? berrou Charles. Porque não te vais embora? Ninguém te prendeu. Vai para os Mares do

Sul deitar-te numa rede, se é isso que queres.

Não leves as coisas para esse lado. É como de manhã.

Não quero levantar-me e não quero ficar deitado. Eu não quero ficar aqui e também não me quero ir embora.

Dás comigo em doido disse Charles.

Pensa bem. Tu gostas de estar aqui?

Gosto.

E tencionas viver aqui toda a vida?

Tenciono.

Oh, meu Deus! Quem me dera que as coisas comigo se passassem com a mesma facilidade. Que julgas tu que eu tenho?

Estás com febre! Vai esta noite à estalagem, que te pões logo bom.

Pode ser. Mas uma puta não me diz nada.

Tanto faz, disse Charles. Se fechares os olhos, não notas a diferença.

Alguns camaradas do regimento tinham uma squaw. Eu também tive uma.

Charles, interessado, aproximou-se.

O pai havia de dar uma volta na tumba se soubesse que tu

Dormiste com uma índia. Como foi?

Bem bom. Lavava-me e passajava-me a roupa e cozinhara um pouco.

Referia-me ao resto. Como era?

Era bom. Sim, era bom. No género meigo e delicado. Terno e delicado.

Tiveste muita sorte em ela não te ter espetado uma faca nas costas enquanto dormias.

Agora! Era tão meiga!

Estás com um olhar muito esquisito. A tal squaw parece que te agradava?

Ai não! respondeu Adam.

Que lhe aconteceu?

Varíola.

E não arranjaste outra?

O olhar de Adam era doloroso.

Puseram-nos em monte como achas, mais de duzentos, com os braços e as pernas muito esticados. Depois cobriram tudo com mato e com petróleo.

Ouvi dizer que eles não resistiam à varíola.

Mata-os disse Adam. O teu toucinho está a esturrar.

Charles voltou-se rapidamente para a frigideira.

Está como eu gosto: torriscado.

Dispôs o toucinho num prato e partiu os ovos na gordura quente que espirrou. As claras escureceram nos bordos e puseram-se a crepitar.

Havia também uma professora primária disse Charles.

Tu nunca viste nada tão bonito. Tinha uns pés muito pequeninos e vestia-se em Nova York. Os cabelos eram loiros. Tu nunca viste uns pés tão pequenos. E também sabia cantar. No coro. Toda a gente passou a ir à igreja, e era cada aperto que tu nem queiras saber. Já lá vai bastante tempo.

Foi nessa altura que tu me escreveste que te querias casar?

Charles forçou um sorriso:

Evidentemente. Nessa altura, não houve nenhum tipo a quem não desse a febre de casar.

Que foi feito dela?

Sabes o que são as coisas. A presença dela não agradava às outras mulheres. Fizeram uma reunião e, em menos de dois tempos, puseram-na a andar. Disseram-me que usava combinações de seda. Dava demasiado nas vistas. O conselho disciplinar pô-la na rua mesmo no meio dum trimestre. Uns pés que não eram maiores do que isto. E mostrava os tornozelos como se fosse por distracção. Estava sempre a mostrar os tornozelos.

Chegaste a dar-te com ela?perguntou Adam.

Não. Ia vê-la à igreja. Não imaginas como custava a entrar.

Uma rapariga daquelas está a mais numa cidade pequena. Deixa as pessoas embaraçadas e só causa sarilhos.

Recordas-te da filha dos Samuels? perguntou Adam.

Era bonita a valer. Que foi feito dela?

O mesmo. Só arranjava sarilhos. Foi-se embora. Disseram- me que estava em Filadélfia e que era costureira. Contaram-me que chegava a pedir dez dólares por cada vestido.

- Talvez também fosse melhor a gente ir-se embora daqui disse Adam.

Continuas a pensar na Califórnia?

Parece que sim.

Charles estoirou:

Tu vais já desaparecer daqui! gritou ele. Vais pôr-te a mexer! Compro-te a tua parte, ou vendo a minha, ou faço o que quiseres, mas desaparece, filho duma grand... (Deteve-se.) Eu não queria dizer isto, mas tu pões-me fora de mim.

Deixa, que eu vou-me embora.

 

Três meses depois, Charles recebeu um bilhete-postal colorido representando a baía do Guanabara. Nas costas, Adam escrevera com um aparo de má qualidade: “Aqui é Verão. Em casa é

Inverno. Porque não vens até cá?”

Passados seis meses, chegou outro postal, datado de Buenos

Aires: “Meu caro Charles, não imaginas como isto é grande. Falam francês e espanhol. Mandei-te um livro.”

Mas não recebeu nenhum livro. Charles esperou-o durante todo o Inverno seguinte e uma boa parte da Primavera. E, em vez do livro, foi Adam quem chegou. Estava queimado e os fatos tinham um corte estrangeiro.

Como vai isso?perguntou Charles.

Vai-se escapando. Recebeste o livro?

Não.

Gostava de saber o que lhe aconteceu. Tinha ilustrações.

Vens para ficar?

Acho que sim. Depois te conto como é aquilo por lá.

Não estou interessado disse Charles.

Caramba, és muito mesquinho.

Estou a ver tudo a voltar à mesma. Deixas-te ficar um ano ou dois e, depois, começas a ficar nervoso e a pôr-me nervoso.

Voltaremos a detestar-nos e a tratar-nos com deferências idiotas e não há nada pior. E, depois, um dia, explodimos, tu vais-te embora mais uma vez, depois voltas e a dança continua.

Adam interrompeu:

Tu não queres que eu fique?

Claro que quero. Fazes-me falta quando cá não estás. Mas, seja como for, já sei como as coisas se passarão.

E tudo se passou como fora previsto. Durante algum tempo, falaram das velhas recordações, lembraram as épocas em que tinham vivido separados e, depois, voltaram a cair nos longos silêncios odiosos, nas horas de trabalho sem uma palavra, na cortesia agressiva, nos ataques de raiva. O tempo não tinha fronteiras e, portanto, parecia-lhes que nunca mais passava.

Uma noite, Adam disse:

Estou quase com trinta e sete anos. É metade duma vida.

Pronto acrescentou Charles.Só falta dizeres-me que estragaste a tua vida. Ouve, Adam, e se nós evitássemos zangar- nos desta vez?

Que queres dizer?

Se cada um mantém a sua posição, vamos discutir durante três ou quatro semanas para preparar a tua partida. Se te apetece viajar, não poderias ir-te embora e evitar os aborrecimentos do costume?

Adam desatou a rir e a tensão diminuiu.

Tenho um irmão que não é nada parvo. Muito bem. Quando começar a sentir cócegas nos pés, vou-me embora sem procurar um pretexto. Acho preferível assim. Tu estás a ficar rico, não é verdade, Charles?

Cá me vou defendendo. Mas não sou rico.

Não és rico ao ponto de teres comprado quatro casas e a estalagem da aldeia?

Até esse ponto, não sou.

No entanto, é a verdade. Charles, tu tens o melhor rancho das redondezas. Porque não havemos de construir uma nova casa?

Com banheira, água corrente, sanitas e tudo. Nós já não somos pobres. Diz-se que tu és o homem mais rico da região.

Não precisamos doutra casa -resmungou Charles. Põe de parte as tuas ideias de luxo.

Seria agradável poder ir à retrete sem ter de sair de casa.

Não insistas, já te disse.

Adam prosseguiu:

Talvez eu mande construir uma casinha para mim do outro lado da mata. Que te parece? Assim já não nos enervávamos um com o outro.

Não quero outra casa aqui.

A metade pertence-me.

Compro a tua parte.

Não sou obrigado a vender.

Os olhos de Charles fuzilaram.

Queimo-te a tua casa,

Capaz disso eras tu disse Adam, caindo em si. Isso é que eras. Porque estás tu a olhar-me desse modo?

Charles disse lentamente:

Tenho pensado muito no caso e esperava que voltasses a tocar nele. Mas vejo que escuso de contar com isso.

Com o quê?

Recordas-te do telegrama em que me pedias cem dólares?

Não me havia de recordar? Salvaste-me a vida. Porquê?

Nunca me devolveste esse dinheiro.

Estava convencido que sim.

Podes crer-me.

Adam olhou para a velha mesa onde Cyrus se sentara, batendo na perna de pau com a bengala. Pendia do tecto o mesmo candeeiro de petróleo, derramando uma luz amarela e tremelicante.

Adam disse lentamente:

Amanhã dou-te o dinheiro.

Tiveste todo o tempo que quiseste para pagar.

Bem sei, Charles. Devia ter-me lembrado.

Deteve-se, pensativo, e acabou por dizer:

Sabes porque precisava desse dinheiro?

Nunca te perguntei.

E eu nunca to disse. Talvez tivesse vergonha. É que eu estava preso e evadi-me.

Charles abriu a boca.

Que estás tu a dizer?

Vou-te contar. Eu andava por aí e fui caçado por vadiagem. Condenaram-me a seis meses de trabalhos forçados numa estrada e, à noite, dormia com grilhetas nos pés. Depois de ter cumprido seis meses, fui novamente apanhado. É assim que se constroem as estradas. Três dias antes do fim do segundo período de seis meses, escapei-me. Cavei para a Geórgia, roubei roupa numa loja e mandei-te o telegrama.

Não acredito no que estás a dizer disse Charles. Ou por outra, acredito. Tu nunca mentes. Acredito, sim. Porque não me disseste logo?

Talvez tivesse vergonha. Mas ainda tenho mais vergonha de não te ter pago.

Não penses mais nisso -disse Charles. Nem sei porque te toquei no assunto.

Ah! isso não. Pago-te amanhã de manhã.

Raios me partam! disse Charles. Um irmão na gaiola!

Não vale a pena estares com um ar tão satisfeito.

Não sei porquê disse Charles -, mas até me sinto orgulhoso. O meu irmão na cadeia! Diz-me uma coisa, Adam, porque esperaste até faltarem três dias para te soltarem, para dares o salto?

Adam sorriu.

Tinha dois ou três motivos. Receava que, cumprindo toda a pena, me voltassem a prender. E imaginava que, se esperasse o mais possível, não despertaria desconfiança.

É sensato. Mas não disseste que tinhas outra razão?

- Tinha, e era a mais importante. E a mais difícil de explicar.

Tinha uma dívida de seis meses. Era a sentença. Não queria fazer batota. Assim, só lhes roubei três dias.

Charles desatou a rir.

És mesmo de todo disse ele com afeição. Mas acabaste de me dizer que assaltaste uma loja.

Mandei-lhes o dinheiro com dez por cento de juros.

Charles inclinou-se para a frente. Fala-me das estradas, Adam.

Está bem, Charles, está bem.

 

 

                                 CAPÍTULO XI

 

Desde que soube que o irmão estivera preso, Charles mostrou-lhe uma espécie de deferência. Nutria pelo irmão o sentimento caloroso que só se tem por um ser imperfeito; o ódio perde a razão de ser. Adam aproveitou-se das circunstâncias e tentou seduzir Charles.

Já pensaste que temos dinheiro que chegue para fazermos tudo o que nos apetecer?

E o que é que nos apetece?

Podíamos ir à Europa, visitar Paris.

O que é isto?

O quê?

Pareceu-me ouvir alguém lá fora.

Deve ser um gato.

Pois deve. Temos que matar alguns.

Podíamos ir ao Egipto, ver a Esfinge.

- Também podíamos ficar aqui e gastar o dinheiro como deve ser. E podíamos, principalmente, agarrar-nos ao trabalho e tratar de não perder o dia. Ah! raios partam os gatos!

Charles correu para a porta, escancarou-a e berrou:

Desapareçam-me da vista!

Depois, ficou silencioso e Adam notou que ele observava qualquer coisa na escada. Aproximou-se.

Uma trouxa suja de farrapos e de lama tentava escalar os degraus. Uma mão magra agarrava-se a eles enquanto a outra pendia tristemente. A forma tinha um rosto tumefacto onde brilhava um olhar através das pálpebras inchadas e negras. Os lábios estavam gretados, a testa rachada; dos cabelos colados escorria sangue.

Adam desceu a escada e ajoelhou ao lado do corpo.

Ajuda-me disse. Vamos levá-la para dentro. Cautela com o braço dela. Parece estar partido.

Ela desmaiou assim que lhe pegaram.

Vamos metê-la na minha cama disse Adam. Era bom que fosses buscar o médico.

Não achas que seria melhor levá-la a casa dele?

Levá-la? Estás doido.

Não estou tanto como tu. Pensa bem.

Pensar bem, em quê?

Dois homens sós com isto em casa!

Adam estava escandalizado.

Não pensas no que estás a dizer?

Por isso mesmo. Era melhor levá-la daqui. Em menos de duas horas, toda a gente fica a saber. Quem é ela? Como veio cá parar? Que lhe aconteceu? Adam, olha que é um grande risco.

Adam respondeu friamente:

Se não fores já chamar o médico, vou eu e deixo-te só com ela.

Acho que cometes um erro. Eu vou, mas havemos de o pagar caro.

Pois paga-se disse Adam.Vai.

Depois de Charles se ter ido embora, Adam foi à cozinha e encheu uma bacia de água quente. Depois, regressou ao quarto, pegou num lenço, molhou-o na água e limpou a crosta de sangue e de lama que maculava a cara da mulher. Ela recuperou os sentidos e contemplou-o com os olhos azuis. De repente, Adam recordou-se era aquele quarto, aquela cama. A madrasta estava ao pé dele, com uma toalha húmida na mão, e a água ao penetrar nas chagas despertava um formigueiro. Então ela repetira várias vezes a mesma coisa. Ele ouviu mas não conseguiu recordar-se do sentido das palavras.

Vai ficar boa disse ele à rapariga. Estamos à espera do médico.

Ela remexeu os lábios.

Não tente falar. Não diga nada.

Enquanto continuava a limpar suavemente as feridas, sentia- se invadido por um enorme calor.

Pode ficar aqui o tempo que quiser. Eu trato de si.

Torceu o lenço, humedeceu o coiro cabeludo e descolou os cabelos pegados às feridas.

Como se fosse um espectador estranho, Adam ia ouvindo o que dizia enquanto trabalhava:

Aqui, faz doer muito? Pobres olhos! Depois tapam-se com papel pardo para a luz não magoar. Não há-de ter importância. O golpe na testa é profundo e é capaz de deixar cicatriz. Pode dizer- me o seu nome? Não, não é preciso. Temos muito tempo, muitíssimo tempo. Está a ouvir? É o carro do médico. Veio depressa não veio? (Adam dirigiu-se para a porta da cozinha).

Aqui, doutor, ela está aqui.

 

Ela ficara muito maltratada. Se já existisse a radiografia, o médico teria certamente descoberto uma coisa muito diferente, mas o que encontrou foi suficiente. Tinha o braço esquerdo, três costelas, o maxilar e o crânio fracturados. Três dentes do maxilar inferior esquerdo estavam partidos. O coiro cabeludo fora rasgado e a pele da testa estava cortada até ao osso. Era tudo o que o médico podia descobrir. Pôs-lhe talas nos braços, ligou-lhe o tórax e suturou o ferimento da testa. Dobrou uma pipeta na chama duma lâmpada de álcool e introduziu-a na boca, no sítio onde faltavam os dentes para que a doente pudesse beber e absorver alimentos líquidos sem mover a maxila fracturada. Aplicou-lhe uma boa dose de morfina, colocou um frasco de pílulas de ópio em cima da mesa de cabeceira, lavou as mãos e vestiu o casaco. A paciente já dormia.

Na cozinha, sentou-se à mesa e bebeu o café quente que

Charles lhe oferecia.

O que foi que aconteceu? perguntou.

Charles respondeu com brutalidade:

Como quer que a gente saiba? Encontrámo-la à nossa porta. Se quiser ver, vá deitar uma vista de olhos ao rasto que ela deixou quando se arrastava para aqui.

Sabem quem é?

Não. Você, que costuma ir à estalagem, sabe se ela faz parte daquelas mulheres?

Há bastante tempo já que lá não vou. Seja como for, no estado em que se encontra...

O médico virou-se para Adam.

Já a tinha visto?

Adam abanou lentamente a cabeça. Charles perguntou com secura:

Aonde quer chegar?

Vou dizer-lhes, já que lhes interessa. Esta mulher não caiu numa debulhadora, apesar de ser o que parece. Isto é obra dum homem que não gostava dela. Se querem que seja franco, alguém tentou matá-la.

Interrogue-a disse Charles.

Não poderá falar senão daqui a muito tempo. E depois só

Deus sabe se conseguirá lembrar-se dalguma coisa com aquela fractura do crânio. Eis onde eu queria chegar: acham que devo prevenir o xerife?

Não.

A resposta de Adam foi tão brutal que os dois homens se voltaram para ele.

Deixe-a em paz. Deixe-a descansar.

Quem tomará conta dela?

Eu disse Adam.

Ouve... começou Charles.

Não te metas nisto.

Estou tanto em minha casa como tu.

Queres que me vá embora?

Não queria dizer isso.

Se ela se for embora, eu vou com ela.

Acalmem-se disse o médico. Não vale a pena porem-se nesse estado.

Nem que fosse um cão ferido eu o punha na rua.

Nem se punha nesse estado. Está a tentar esconder alguma coisa? Saiu ontem à noite? Foi você quem fez aquilo?

Ele passou a noite aqui disse Charles. Ressona como uma locomotiva.

Porque não a deixam em paz?disse Adam. Deixem- na pôr-se boa.

O médico ergueu-se e esfregou as mãos.

Adam disse o seu pai era um dos meus melhores amigos. Conheço-o a si e à sua família. Você não é parvo mas parece não compreender certas coisas. Tem de se lhe falar como a uma criança. Esta rapariga foi violentada e o culpado tentou matá- la. Se não disser nada ao xerife, infrinjo a lei. Admito já ter contornado a lei várias vezes, mas desta vez quero conformar-me com ela.

Então, vá preveni-lo. Mas ele que não a venha maçar até ela se pôr boa.

Não tenho o hábito de deixar maltratar os meus clientes respondeu o médico. Está resolvido a ficar com ela aqui?

Estou.

Como quiser. Volto amanhã. Ela vai dormir. Dê-lhe água e caldo quente pelo tubo, se ela pedir.

O médico saiu. Charles voltou-se para o irmão.

Por amor de Deus, Adam, que foi que te deu?

Deixa-me sossegado.

Que tens tu?

Deixa-me sossegado, estás a ouvir? Estou a pedir-te para me deixares sossegado.

Valha-me Deus! exclamou Charles.

E cuspiu no chão. Depois dirigiu-se para o trabalho, inquieto e contrariado.

Adam estava satisfeito por ele se ter ido embora. Andou às voltas pela cozinha, lavando a loiça e varrendo o chão. Quando ficou tudo arrumado, foi até ao quarto e puxou uma cadeira para o pé da cama. A rapariga ressonava ruidosamente, sob a influência da morfina. O inchaço do rosto diminuira, mas os olhos continuavam tumefactos e cercados de negro. Adam sentou-se junto dela, imóvel, e contemplou-a. O braço partido estava dobrado em cima do estômago, mas o braço direito repousava na colcha, com os dedos levemente encolhidos. Era uma mão de criança, quase de bebé. Adam tocou no pulso febril e os dedos estremeceram. Então, com mil cuidados, como se tivesse medo de ser surpreendido, tocou na ponta dos dedos. Eram rosadas e macias, mas as costas da mão tinham transparências de nácar. Adam sorriu afectuosamente. Ela parou de respirar e ele ficou alerta. Depois, ela engoliu a saliva enquanto recomeçava o ressonar ritmado. Adam ergueu delicadamente a mão e tapou-a. Depois saiu do quarto na ponta dos pés.

Durante numerosos dias, Cathy repousou no seu subterrâneo de ópio. Estava envolta numa carapaça de chumbo e mexia-se muito pouco por causa da dor. Mas sentia os movimentos à roda dela. Gradualmente, a cabeça e o olhar foram-se tornando mais claros. Havia dois rapazes em casa: um entrava raramente no quarto; o outro, muitas vezes. Também vinha outro homem: era o médico. Quanto ao quarto, alto e magro, interessava-a mais do que todos os outros, pois metia-lhe medo. Um medo nascido durante o seu longo sono artificial.

Muito lentamente, foi recordando os dias precedentes e colocando os acontecimentos pela devida ordem. Tornou a ver o Sr.

Edwards e a loucura assassina que lhe deformava o plácido rosto.

Nunca tivera tanto medo na sua vida, mas agora aprendera a saber o que era o medo. E o seu espírito andava às voltas, como um rato que procura um buraco por onde possa sair. O Sr. Edwards sabia tudo acerca do incêndio. Mais alguém saberia? Como viera ele a saber? Quando fazia estas interrogações, sentia-se dominada por um terror que lhe dava vontade de vomitar.

Pelo que ia ouvindo, soube que o homem alto era o xerife, que ele a queria interrogar e que o rapaz que se chamava Adam a tal se opunha. Talvez o xerife estivesse a par do incêndio...?

Foi ao escutar uma conversa em voz alta que definiu a sua linha de conduta. O xerife dizia:

Ela deve ter um nome e alguém a deve conhecer.

Mas como pode ela responder se tem a maxila partida?

Era a voz de Adam.

Se ela não for canhota, podia escrever as respostas. Não sei se compreende, Adam, se alguém tentou matá-la mais vale prendê-lo enquanto é tempo. Dê-me um lápis que eu vou tentar falar com ela.

Ouviu o que disse o médico.? Ela tem uma fractura no crânio -teimou Adam. -Talvez não se recorde de nada.

Dê-me lápis e papel e depois se vê,

Não quero que a mace.

O que você quer não me interessa. Dê-me papel e lápis.

Depois a voz do outro homem disse:

Mas que tens tu? Quem te ouvisse diria que és tu o culpado. Dá-lhe um lápis.

Quando os três homens entraram no quarto sem fazerem barulho, Cathy tinha os olhos fechados.

Está a dormir murmurou Adam.

Ela abriu os olhos e contemplou-os.

O magriço aproximou-se da cama.

Eu não queria incomodá-la. Sou o xerife. Sei que não pode falar, mas talvez possa escrever?

Ela tentou dizer que sim e fez uma careta de dor. Fechou rapidamente as pálpebras em sinal de assentimento.

Boa pequena -disse o xerife. Como viram, está de acordo.

Pousou o bloco de papel em cima da cama e colocou os dedos da doente em torno do lápis.

Ora muito bem. Como se chama?

Os três homens não desviavam o olhar de Cathy. A boca contraiu-se e as pálpebras franziram-se. Depois, Cathy fechou os olhos e o lápis principiou a mover-se. “Não sei”, surgiu em grandes letras desajeitadas no papel.

Aqui tem outra folha. De que se lembra?

“Tudo negro. Não posso pensar”, escreveu o lápis, cobrindo toda a folha.

Não se recorda do seu nome? De onde veio? Pense!

Ela pareceu estar às voltas com um violento conflito interior, depois o rosto exprimiu uma trágica renúncia. “Não. Tudo confuso. Ajude-me.”

Pobre pequena disse o xerife. Obrigado por ter tentado. Quando estiver melhor, faremos uma nova tentativa. Não, não é preciso escrever mais nada.

O lápis escreveu: “Obrigada”, e caiu dos dedos.

Cathy conquistara o xerife, que passara para o lado de Adam.

Só Charles continuava contra ela. Quando os dois irmãos estavam no quarto e a ajudavam a levantar-se para se sentar na arrastadeira, ela observava a cara soturna de Charles. Havia nele qualquer coisa que ela reconhecia, que a deixava preocupada. Muitas vezes,

Charles levava a mão à cicatriz e esfregava-a percorrendo a costura com os dedos. Certa vez, surpreendeu Cathy entretida a observá- lo. Charles deitou um olhar culpado aos dedos e, depois, disse com brutalidade:

Não se rale. Há-de ter uma também e talvez ainda seja mais bonita.

Ela sorriu-lhe. Ele desviou os olhos. Quando Adam entrou com a sopa, Charles disse:

Vou à cidade beber umas cervejas.

 

Adam não se recordava de já ter sido tão feliz. Não o preocupava o facto de ignorar o nome da doente. Ela dizia chamar-se

Cathy e isso lhe bastava. Cozinhava para Cathy, empregando receitas da mãe ou da madrasta.

Cathy possuía uma grande vitalidade. Recuperou as forças rapidamente. O inchaço da cara desapareceu e o encanto da convalescença embelezou-lhe o rosto. Dentro de pouco tempo já podia sentar-se, abrir e fechar a boca com cuidado e absorver alimentos que não exigissem um excessivo trabalho de mastigação.

A testa continuava ligada mas o resto da cara pouco sofrera, exceptuando a cavidade no lado onde lhe faltavam os dentes.

Ela sentia-se desamparada e não encontrava uma saída para a sua situação. Cathy falava pouco, mesmo quando já não lhe custava tanto. Uma tarde, ouviu alguém a andar na cozinha e chamou:

É o Adam?

A voz de Charles respondeu:

Não, sou eu.

Não se importa de vir até aqui um instantinho, se faz favor? Emoldurado pela porta, Charles olhava-a com ar sombrio. Aparece muito pouco disse ela.

Lá isso, é verdade.

Não gosta de mim.

Também é verdade.

Pode dizer-me porquê?

A resposta veio dificilmente.

Não tenho confiança em si.

Porquê?

Não sei. Não acredito que tenha perdido a memória.

Porque havia de mentir?

Não sei. E é por isso que não confio em si. Há qualquer coisa que julgo reconhecer...

Nunca me viu na sua vida.

Pode ser. Mas há qualquer coisa que me aborrece... não sei o quê. E, como sabe que nunca a vi?

Ela ficou silenciosa e ele fez um movimento para sair.

Fique -disse ela. Que tenciona fazer?

A respeito de quê?

A meu respeito.

Ele olhou-a com interesse.

Quer a verdade?

Que havia de querer?

Não sei mas vou-lhe dizer. Vou pô-la na rua assim que puder. O meu irmão armou em doido, mas hei-de convencê-lo do que quero, nem que tenha de lhe pregar uma tareia.

Era capaz disso? Ele é forte.

Não tenho medo.

Onde está o Adam?

Foi à cidade comprar-lhe a porcaria dos remédios.

Você é mau.

Sabe o que penso? Que nem tenho metade da maldade que se oculta dentro dessa linda cabecinha. Parece-me que você é um demónio...

Ela riu suavemente.

Então somos dois disse. Charles, quantos dias me dá?

Para quê?

Para me pôr fora? Diga com toda a franqueza.

Muito bem. Dou-lhe uma semana. Quando muito dez dias.

Assim que puder andar.

E se eu não quiser ir?

Charles olhou-a com desafio. Parecia sentir-se quase feliz à ideia dum combate.

Oiça o que lhe vou dizer. Quando estava cheia de droga, falou como se estivesse a sonhar.

Não acredito no que diz.

Charles riu-se porque vira a boquinha franzir-se rapidamente.

Pois não acredite. Se desamparar a loja, não conto nada a ninguém. Se não, vou ter com o xerife.

Não vejo o que possa ter dito de mal.

Não estou para discutir consigo. Tenho mais que fazer.

Fez-me uma pergunta e eu respondi-lhe.

Charles saiu. Atrás do galinheiro, largou a rir e a dar palmadas nas pernas.

Julgava que fosse mais esperta.

Há muito tempo que não se sentia tão leve.

 

Cathy ficara com muito medo de Charles. Ele era da mesma raça que ela. Era a primeira vez que encontrava alguém que jogasse o mesmo jogo. Cathy podia seguir os pensamentos de Charles e não era caso para ficar tranquila. Sabia que ele não cairia nas suas ciladas. Ora ela precisava de ser protegida e de readquirir forças. Estava sem dinheiro e necessitava dum abrigo por bastante tempo. Sentia-se cansada e doente, mas já ia pensando no futuro. Adam voltou da cidade com uma garrafa de Mata-dores.

É muito amargo disse ele mas faz-lhe bem.

Ela engoliu sem protestar e nem sequer fez caretas.

Tem sido muito bom para mim disse ela.Gostava de saber porquê. Só lhe tenho dado aborrecimentos.

Nada disso. Você veio encher a casa de sol e nunca se queixa apesar do muito que tem sofrido.

Tem sido tão bom, tão amável.

É porque quero.

Precisa de sair? Não pode demorar-se e conversar comigo?

Claro que posso. Não há nada que seja tão importante para mim.

Aproxime uma cadeira, Adam, e sente-se.

Assim que Adam se sentou, ela estendeu-lhe a mão direita que ele aprisionou nas suas.

Tão bom, tão amável -repetiu ela. Adam, é capaz de manter uma promessa, não é?

Faço o possível. Porque me pergunta isso?

É que estou só e tenho medo gemeu ela. Tenho muito medo.

Posso ajudá-la?

Ninguém me pode ajudar.

Sempre posso tentar. Diga-me o que lhe mete medo.

Aí é que está o pior. Nem sequer lho posso dizer.

Porquê? Se for um segredo, não o conto a ninguém.

É um segredo que não me pertence. (Os dedos apertaram a mão de Adam.) Eu nunca perdi a memória.

Então porque foi que...?

É o que estou a tentar explicar-lhe. Gostava do seu pai,

Adam?

O que sentia por ele era mais respeito do que amor.

E não seria capaz de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para salvar alguém que respeitasse?

Acho que sim.

Pois muito bem!, é esse o meu caso.

Mas porque foi agredida?

Faz parte do segredo. É por isso que não posso dizer.

Foi o seu pai?

Não. Mas está tudo relacionado.

Quer dizer que, se denunciar aquele que a feriu, prejudica o seu pai?

Cathy suspirou. Ele não precisava da ajuda de ninguém para construir uma história.

Será capaz de ter confiança em mim, Adam?

Evidentemente.

É um pedido terrível.

Não é, se for para proteger o seu pai.

O segredo não me pertence. Senão, já lho teria confiado.

Compreendo perfeitamente. Eu teria agido da mesma maneira.

Oh! é tão compreensivo.

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Adam inclinou-se e ela beijou-o na face.

Não se preocupe. Pode contar comigo para a defender.

Ela deixou cair a cabeça no travesseiro.

Não poderá fazê-lo.

Porquê?

Porque o seu irmão não gosta de mim. Ele quer mandar- me embora.

Já lhe disse alguma coisa?

Ah! não, mas eu sinto-o. Ele não é tão compreensivo como você.

Mas tem bom coração.

Bem sei. Mas não tem a sua delicadeza. E se eu tiver de me ir embora, o xerife há-de querer fazer-me perguntas e não terei quem me defenda.

Adam olhou fixamente no vazio.

O meu irmão não pode obrigá-la a partir. Metade desta quinta é minha e tenho dinheiro só meu.

Se ele o exigir, ir-me-ei embora. Não desejo estragar-lhes a vida.

Adam levantou-se e saiu rapidamente do quarto. Foi até à porta das traseiras e encheu os olhos com o espectáculo da tarde.

Lá longe, no campo, o irmão apanhava pedras e empilhava-as no muro. Adam observou o céu. De leste vinha um cardume de nuvens esguias. Respirou profundamente e sentiu uma espécie de formigueiro no peito. Os tímpanos estalaram como depois dum bocejo muito grande e ouviu o piar dos pintos e o vento de leste que soprava rente à terra. Ouviu ainda os cascos dum cavalo batendo na estrada e as marteladas dum vizinho que consertava o celeiro. E todos estes ruídos se misturavam para formar uma melodia. Adam teve a impressão de ver pela primeira vez. As sebes, os muros, os edifícios erguiam-se na tarde alaranjada e participavam na alegre sinfonia. Tudo parecia mudado. Um bando de andorinhas precipitou-se na poeira, procurou o alimento e partiu a voar como uma faixa cinzenta torcida na luz. Adam tornou a olhar para o irmão. Perdera a noção do tempo e já não sabia há quanto tempo estava ali à porta.

Não passara tempo nenhum. Charles continuava a lutar com o mesmo pedregulho e Adam ainda não expirara o grande sorvo de ar que engolira quando o tempo se detivera.

Subitamente, compreendeu que a alegria e a dor saem do mesmo cadinho. A coragem e o medo também são uma e a mesma coisa. Descobriu que se pusera a cantarolar. Deu meia volta, atravessou a cozinha e parou à porta do quarto, olhando para Cathy.

Ela sorriu-lhe debilmente e ele pensou: “Que criança. Que criança indefesa.” E sentiu-se submergido por uma grande vaga de amor.

Quer casar comigo? perguntou.

O rosto de Cathy crispou-se e a sua mão fechou-se convulsivamente.

Não lhe peço para me responder já acrescentou Adam.

Pense no caso. Se casar comigo, poderei protegê-la, e já ninguém lhe fará mal.

Cathy recompusera-se imediatamente.

Venha cá, Adam. Sente-se. Dê-me a sua mão. Como é bom!

Cathy pegou-lhe na mão e ergueu-a à altura do rosto.

Querido disse ela numa voz entrecortada pela emoção -, querido Adam, afinal teve confiança em mim. Posso pedirlhe outra coisa ainda? Não fale ao seu irmão na proposta que me fez.

De casar consigo? Mas porquê?

Quero pensar nisso esta noite. Talvez uma noite seja pouco. Quer dar-me tempo? (Levou a mão à testa.) Não sei se poderei pensar com acerto e queria fazê-lo.

Acha que poderá casar comigo?

Por favor, Adam, deixe-me só para pensar. Peço-lhe.

Adam sorriu e disse nervosamente:

Não demore muito. Eu estou como o gato que trepou a uma árvore e não é capaz de descer.

Deixe-me reflectir... Adam, você é um homem bondoso.

Ele saiu e encaminhou-se para o irmão que empilhava pedras.

Assim que ele desapareceu, Cathy levantou-se e foi até ao espelho com passo mal seguro.

Aproximou-se e examinou o rosto. A ligadura continuava a tapar a testa. Afastou-a para ver a horrível marca vermelha. Não só estava resolvida a desposar Adam, como pensara nisso muito antes dele. Cathy tinha medo. Mas precisava de dinheiro e de protecção. Adam podia fornecer-lhe ambas as coisas. Sabia muito bem que faria dele o que quisesse. O casamento não era o seu objectivo mas, entretanto, seria um refúgio. Só uma coisa a aborrecia: Adam era arrastado para ela por um sentimento que não compreendia. Ela nunca sentira nada que se lhe assemelhasse por qualquer pessoa. O Sr. Edwards assustara-a a valer. Fora a única vez, em toda a sua vida, em que a lei lhe tinha sido ditada pelos acontecimentos. Cathy decidiu que tal nunca mais se tornaria a repetir e sorriu ao pensar no que diria Charles. Sentia-se atraída por Charles. As suspeitas dele não a incomodavam nada.

 

Charles endireitou-se quando Adam se aproximou. Levou as mãos aos rins e esfregou os músculos fatigados.

Meu Deus! Há pedras que nunca mais acabam!

Um camarada da tropa disse-me que havia vales na Califórnia com milhas e milhas onde não se encontra a mais pequena pedra.

Quando não são as pedras, é outra coisa disse Charles.

Para onde quer que se vá, aparecem sempre chatices. No

Oeste, são os gafanhotos. Noutro lado, os tornados. O que é isso comparado com algumas pedras?

Tens razão. Vinha dar-te uma ajuda.

Obrigado pela lembrança. Pensei que ias passar o resto da vida a brincar com as mãos da tua pensionista. Quanto tempo falta ainda para ela se ir embora?

Adam estava prestes a falar-lhe na proposta, mas o tom da voz de Charles fê-lo mudar de ideias.

Sabes uma coisa disse Charles -, o Alex Platt veio ver- me há algum tempo. Sabes o que lhe aconteceu? Achou uma fortuna.

Achou como?

Conheces o sítio onde a terra dele é marginada de cedros, junto à estrada municipal?

Conheço. E depois?

O Alex, quando andava a caçar coelhos, passou entre as árvores e o muro de pedra. Pois encontrou uma mala com fatos de homem muito bem dobrados. Mas estava tudo ensopado em chuva. Há muito tempo que aquilo devia ali estar. Também havia uma caixinha de madeira com uma fechadura. Depois de a arrombar, encontrou quatro mil dólares. E também achou uma mala de senhora, mas não tinha nada dentro.

Nem nome, nem papéis?

Isso precisamente é que é estranho. Os fatos não tinham nome e a roupa não estava marcada. Como se o tipo não quisesse ser descoberto.

O Alex vai ficar com tudo?

Não. Levou as coisas ao xerife que vai mandar publicar um anúncio, e, se ninguém responder, fica tudo para o Alex.

De certeza que aparece alguém.

Também acho, mas não o disse ao Alex. Pareceu-me tão contente. É esquisito que não haja marcas. E não foram cortadas.

nunca houve.

Ainda é muito dinheiro -disse Adam. Há-de aparecer alguém a reclamá-lo.

O Alex demorou-se um bocado comigo. Sabes, a mulher dele vê muita gente.

Charles deteve-se e, depois, resolveu-se:

Precisamos de ter uma conversa. Já andam todos a mexericar.

A mexericar o quê?

A propósito dela, valha-me Deus! Dois homens sós não podem viver com uma rapariga em casa. O Alex disse-me que as mulheres andam desenfreadas. Isto não pode continuar. Nós vivemos aqui e temos uma reputação a defender.

Queres que a mande embora antes de se restabelecer?

Quero que te desembaraces dela. Não gosto dela.

Nunca gostaste, desde o primeiro dia.

Não tenho confiança nela. Há qualquer coisa, não sei o que é, mas que me desagrada. Quando te livras dela?

Vou dizer-te. (Adam falou lentamente.) Dá-me mais uma semana para eu tomar uma decisão.

- Prometes?

Prometo.

Prefiro assim. Hei-de dizer à mulher do Alex. Amanhã já todos saberão. Jesus, que satisfação a minha quando voltarmos a ficar sós. Ela não recuperou a memória?

Não respondeu Adam.

 

Cinco dias depois, aproveitando a ausência de Charles que fora comprar alimento para o gado, Adam parou o cabriolé diante dos degraus da cozinha. Ajudou Cathy a subir, tapou-lhe as pernas com uma manta e agasalhou-lhe os ombros. Depois, dirigiu- se para a cidade, onde se consorciou com Cathy perante o juiz de Paz.

Charles estava em casa quando chegaram e atirou-lhes um olhar amargo quando os viu entrar na cozinha.

Pensava que a tivesses ido levar ao comboio.

Acabámos de nos casar disse Adam simplesmente.

Cathy sorriu a Charles.

Porque fizeste uma coisa dessas?

Então um homem já não tem o direito de se casar?

Cathy encaminhou-se para o quarto e fechou a porta atrás de si. Charles deixou explodir a cólera.

Ela não vale nada, digo-te eu. É uma puta.

Charles!

Estou-te a dizer que é uma puta. Falsa como Judas. Uma cabra! Uma puta!

Cala-te, Charles. Vais calar-te imediatamente. Proíbo-te que fales na minha mulher.

Ela há-de ser-te tão fiel como uma gata com cio.

Adam articulou lentamente:

Parece-me que tens ciúmes, Charles. Tu é que querias casar com ela.

Que grande besta! Com ciúmes, eu? Nunca viverei debaixo do mesmo tecto com ela.

Adam respondeu no mesmo tom:

Nem precisas. Vou-me embora. Vendo-te a minha parte, se quiseres. Podes ficar com o rancho e realizar o teu maior desejo. Deixa-te ficar aqui a apodrecer.

Charles baixou a voz:

Adam, vê se te livras dela, peço-te. Põe-na a andar. Ela há-de fazer-te em pedaços. Destrói-te, Adam. Ela destrói-te.

Como sabes tu tanto a respeito dela?

O olhar de Charles estava turvo.

Não sei nada disse ele.

E calou-se.

Adam não perguntou a Cathy se queria almoçar na cozinha.

levou dois pratos para o quarto e sentou-se ao lado dela.

Vamo-nos embora daqui disse ele.

Eu é que devo ir-me embora. Por favor, deixa-me ir embora. Não quero que te zangues com o teu irmão por causa de mim. Porque será que ele me detesta?

Creio que tem ciúmes.

Ela franziu os olhos.

Ciúmes?

Pelo menos, é o que penso. Mas não te preocupes. Nós vamo-nos embora. Vamos para a Califórnia.

Cathy respondeu calmamente:

Eu não quero ir para a Califórnia.

Não digas isso. É bem bonito e faz sempre sol.

Não quero ir para a Califórnia.

Tu és minha mulher disse ele de mansinho. Quero que venhas comigo.

Ela ficou silenciosa e não tornou a falar na partida.

Ouviram Charles bater com a porta e Adam disse:

Vai fazer-lhe bem. Depois de apanhar uma carraspana, há-de sentir-se melhor.

Cathy baixou modestamente os olhos e contemplou os dedos.

Adam, eu só poderei ser realmente tua mulher quando estiver melhor.

Eu sei disse ele.Compreendo perfeitamente. Esperarei.

Mas tens de ficar ao pé de mim. Tenho medo de Charles.

Ele odeia-me tanto...

Vou trazer a minha cama para aqui. Poderás chamar-me se sentires medo. Poderás segurar-me na mão.

Tu és tão bom disse ela. Gostava de beber uma chávena de chá.

Boa ideia. Também eu.

Adam voltou pouco depois com duas chávenas fumegantes e tornou à cozinha à procura do açucareiro. Sentou-se numa cadeira junto da cama.

Está forte. Não estará muito forte para ti?

Gosto dele assim.

Adam acabou de beber.

Não achas que tem um gosto esquisito?

Ela levou a mão à boca.

Deixa-me provar. (Bebeu o fundo da chávena.) Adam exclamou ela -, enganaste-te na chávena! Era a minha, com o meu remédio.

Ele lambeu os lábios.

Não me há-de fazer mal.

Ela riu docemente.

Não. Mas espero não precisar de ti esta noite.

Porquê?

Tu bebeste o meu sonífero. Eras capaz de não acordar.

Adam caiu num sono pesado de ópio com o qual tentava lutar.

Foi o médico quem te disse para tomares uma dose tão forte? perguntou ele, entaramelando as palavras.

Tu é que não estás habituado respondeu ela.

Charles regressou a casa ás onze horas. Cathy ouviu-lhe os passos surdos. Ele entrou no quarto, despiu a roupa e deitou-se.

Grunhiu, virou-se, procurando uma posição confortável. De repente, abriu os olhos. Cathy estava à cabeceira da cama.

Que quer?

Não arme em tolo. Chegue-se para lá.

Onde está o Adam?

Ele bebeu o meu sonífero por engano. Afaste-se um pouco.

Charles respirou ruidosamente.

Já estive esta noite com uma puta.

Você é um latagão. Chegue-se para lá.

E o seu braço partido?

Isso é comigo. Trate você do resto.

Charles desatou a rir:

Pobre corno! disse.

E afastou a roupa para que ela entrasse na cama.

 

 

                       CAPÍTULO XII

 

A pouco e pouco este livro atingiu uma grande fronteira que se chamava 1900. Mais cem anos batidos e moídos, petrificados pelo calcário da memória. Cem anos que os homens modelaram a seu gosto e, quanto mais recuados eram os acontecimentos, mais ricos se tornavam e maior significado adquiriam. Havia quem dissesse que eram os bons velhos tempos, uma era feliz, doce e simples como nenhuma outra. Os velhos que não sabiam se os seus passos trémulos os deixariam atravessar a fronteira do século, consideravam com desdém esses anos que viriam. Pois o mundo mudara e desaparecera a doçura de viver, levando com ela a virtude. A inquietação apoderava-se dum mundo corroído.

Que iríamos perder? Os bons modos, o sossego e a beleza? As senhoras já não eram senhoras. A palavra dum homem já não tinha valor.

Onde ia o tempo em que os homens apertavam os botões da braguilha? As caldeiras da liberdade extenuavam-se. A própria infância já não tinha o sabor de antanho. Então, a única preocupação era encontrar uma boa pedra, não exactamente redonda, mas achatada, gasta pela água, para a lançar com uma fisga talhada num sapato velho. Para onde foram as boas pedras e a simplicidade?

Na memória confusa do homem, as sensações do prazer e da dor apenas subsistem no estado de imagens, sem provocar qualquer emoção. Um calhau na água da memória e o homem adulto revê a menina com quem brincava aos doentes. Mas não passa de uma imagem tremida. Ele esquece, quer esquecer a emoção ácida que rói os fígados e que, em criança, o atirava para o chão no meio da aveia brava e o fazia soluçar “Meu Deus! Meu

Deus!” Tal homem esquece, não há dúvida de que se esquece:

“Mas porque anda aquele miúdo a rebolar-se na erva? Ainda apanha uma constipação!”

Ah! os morangos e as framboesas já não têm o gosto de antigamente e as coxas das mulheres já não nos excitam.

E alguns homens instalavam-se confortavelmente no ninho da morte, como galinhas poedeiras.

A história foi segregada pelas glândulas de um milhão de historiadores. Temos de sair deste século tumultuoso, diziam alguns, sair dessa batota, desse século assassino de revoltas e de morte secreta, desse século de luta pela terra, conquistada fosse de que maneira fosse.

Pensem na nossa pequena nação ladeada pelos oceanos, dividida pelos problemas, precocemente desenvolvida e que despertava quando os Britânicos nos atacaram de novo. Foram batidos mas não ganhámos grande coisa com isso. Apenas nos restavam uma Casa Branca queimada e dez mil viúvas de guerra na lista dos pensionistas.

E depois os soldados partiram para o México e foi uma espécie de doloroso piquenique. Porque se irá fazer um piquenique no meio das urtigas e das formigas, quando se está tão bem em casa?... A guerra do México sempre teve duas coisas boas. Conquistámos enormes terras a Ocidente, duplicando a nossa superfície, e foi um excelente campo de manobras para os generais que, quando começou a triste carnificina doméstica, já tinham aprendido a fazer as coisas de modo que assumissem um aspecto verdadeiramente horrível.

E depois houve as discussões.

Pode ter-se um escravo?

Se o comprou de boa fé, porque não?

Qualquer dia, ainda acabam por dizer que um homem já não tem o direito de possuir um cavalo. Quem é que quer o que é meu?

E nisto estávamos, como um homem que ferisse a própria cara e que sangrasse na própria barba.

Por fim, também isto acabou; erguemo-nos lentamente do solo ensanguentado e partimos para o Oeste.

Então, foram o boom, as falências, as bancarrotas e a crise.

Chegaram grandes ladrões patenteados que esvaziaram os bolsos dos que tinham bolsos.

Para o diabo com o século, que está podre!

Ele que acabe e que lhe dêem com a porta na cara. Vamos fechá-lo como um livro e comecemos a ler outra coisa. Um novo capítulo, uma nova vida. O homem poderá lavar as mãos quando tiver dado com a tampa nesse século fedorento. É belo o que nos espera. Os cem novos anos estão intactos, perfeitamente limpos.

As cartas não estão marcadas e o primeiro que fizer batota... pois muito bem! será crucificado de cabeça para baixo em cima das latrinas.

Pois é, mas os morangos e as framboesas já não têm o gosto de antigamente e as coxas das mulheres já não nos excitam.

 

 

                   CAPÍTULO XIII

 

Uma espécie de graça ilumina às vezes o espírito do homem.

É um fenómeno bastante vulgar. A princípio, é um crepitar de rastilho que arde em direcção à dinamite, uma alegria no estômago, uma delicia dos nervos e dos antebraços.

A pele saboreia o ar e de cada vez que se respira é uma inefável sensação. Todo o corpo se espreguiça e boceja de prazer, o cérebro ilumina-se e todo o mundo resplandece à nossa frente.

O homem pode ter vivido uma vida cinzenta, rodeado de terras escuras e de árvores negras, os acontecimentos mais importantes podem ter passado alinhados, anónimos e desprovidos de cor, mas nada disso conta. Porque, no instante da graça, o canto súbito dum grilo encanta o ouvido, o aroma da terra enche as narinas e a luz coada por uma árvore regenera a vista. Então, o homem transforma-se numa nascente inesgotável. Talvez que o lugar que ele ocupa no mundo possa ser medido pela qualidade e pelo número das suas iluminações. É uma função individual, mas que nos une à colectividade. É mãe de toda a criação e define o homem em relação aos outros homens.

Não sei o que nos reservam os anos que estão para vir. Preparam-se monstruosas transformações, forças extraordinárias desenham um futuro cujo rosto desconhecemos. Algumas delas parecem-nos perigosas porque tendem a eliminar o que consideramos bom. É bem verdade que dois homens juntos levantam mais facilmente um peso do que um homem só. Uma equipa consegue fabricar automóveis mais rapidamente e melhor do que um homem só. E, o pão que sai duma fábrica é menos caro e de qualidade mais uniforme do que o do padeiro. Quando a nossa alimentação, a nossa vestimenta e os nossos tectos forem apenas o fruto exclusivo da produção estandardizada, chegará a vez do pensamento. Toda a ideia que não obedecer a uma bitola, deverá ser eliminada. A produção colectiva ou em massa entrou na nossa vida económica, política e até religiosa, de tal modo que certas nações já substituíram a ideia de Deus pela de colectividade. Ainda é muito cedo. Aí é que está o perigo. A tensão é grande. O mundo caminha para o seu ponto de ruptura. Os homens estão inquietos.

Numa altura destas parece-me, portanto, natural fazer a mim mesmo as seguintes perguntas: Em que creio eu? Devo bater-me a favor de quê? E contra quê?

A nossa espécie é a única criadora e dispõe de uma só faculdade criadora: o espírito individual do homem. Dois homens nunca criaram nada. Não existe colaboração eficaz em música, em poesia, nas matemáticas, na filosofia. Só depois de se ter dado o milagre da criação é que o grupo o pode explorar. O grupo nunca inventa nada. O bem mais precioso é o cérebro isolado do homem.

Ora, hoje em dia, assiste-se ao espectáculo de uma guerra de extermínio entre as forças militarizadas do conceito do grupo e esse bem precioso: o cérebro do homem. Condenando-o à fome, ao desprezo, à repressão, canalizando-o, esmagando-o sob os golpes de pilão da vida moderna, acossa-se, aniquila-se, embota- se, droga-se o espirito livre e vagabundo. Parece que a nossa espécie escolheu o triste caminho do suicídio.

Eis o que penso: o espírito livre e curioso do homem é o que de mais valioso há no mundo. E por isto me baterei: a liberdade para o espírito de tomar a direcção que lhe apetecer. E contra isto me baterei: qualquer ideia, religião ou governo que limitar ou destruir a noção de individualidade. Assim sou, é esta a minha posição. Compreendo perfeitamente porque é que um sistema baseado numa bitola considera seu dever eliminar a liberdade de espírito: é que só ela, através da análise, pode destruir o sistema. Sim, compreendo tudo isto muito bem e tenho-lhe ódio, e sempre me baterei para preservar a única coisa que nos coloca acima dos animais que não criam. Se a graça puder ser destruída, estamos perdidos.

 

Adam Trask crescera na penumbra e as cortinas da sua vida tinham sido teias de aranha poeirentas e os seus dias uma longa sequência de meios desgostos e de decepções amargas. Foi então que encontrou Cathy e se iluminou.

Pouco importa que Cathy fosse aquilo a que chamei um monstro. Talvez nós não sejamos capazes de compreender Cathy, mas por outro lado somos capazes de enveredar por muitos caminhos, tanto da inocência como do pecado. Qual de nós é que não revolveu já a água negra da sua alma?

Talvez todos nós tenhamos um pântano secreto onde o mal germina e prolifera. Mas as margens são escorregadias e os vírus que nele nadam não conseguem sair para fora. Não será possível que em certos seres o mal adquira a força suficiente para fugir?

Não será esta a explicação do monstro? E não seremos nós seus parentes pelo pântano que com ele temos em comum? Seria absurdo não admitir os anjos e os demónios, já que fomos nós que os inventámos.

Monstro ou não, Cathy ateou a chama em Adam. Ele libertou- se do medo, da amargura e das recordações asfixiantes; o seu espírito pairou nas alturas. A graça ilumina o mundo e fá-lo surgir sob um novo aspecto, tal como o foguete de guerra ilumina um campo de batalha. É possível que Adam não visse Cathy, tanta era a luz que sobre ela emitia. Uma mulher terna e bela, meiga e sagrada, mais preciosa do que se possa imaginar, franca e amável assim era Cathy para o marido, e nada do que dissesse ou fizesse podia empanar a imagem criada por Adam.

Cathy recusara-se a ir para a Califórnia, mas Adam não fizera caso porque a sua imagem lhe dera o braço e o acompanhara.

Tão forte era o estado de graça que não notara a dor do irmão nem os seus olhos cintilantes. Vendendo a sua parte a Charles, por um preço inferior ao que ela valia, e com a metade do que deixara o pai, tornara-se um homem livre e rico.

Os irmãos eram agora uns estranhos. Apertaram as mãos na estação e Charles viu afastar-se o comboio enquanto esfregava a cicatriz. Foi à estalagem, bebeu quatro uísques de uma assentada e subiu ao último andar. Pagou à mulher sem chegar a qualquer resultado, pois chorara nos seus braços até ela o pôr na rua.

Só lhe restava a quinta e a ela dedicou todas as suas energias. À força de furar, cortar e acrescentar, os seus domínios aumentaram.

Desprezando o repouso e as distracções, tornou-se rico sem prazer e respeitado sem amigos.

Adam parou em Nova York o tempo suficiente para comprar roupa para Cathy e para ele, depois tomaram o comboio que os levou para o outro lado do continente. É fácil compreender porque escolheram o vale do Salinas.

As companhias de caminhos de ferro, nessa época em pleno desenvolvimento lutando abertamente umas com as outras para imporem o seu domínio empregavam todos os meios para aumentar o tráfego. Não se contentando em fazer publicidade nos jornais, mandavam imprimir prospectos e folhetos onde se descreviam e mostravam as belezas e as riquezas do Oeste. Não havia elogios nem promessas que chegassem. A Companhia dos

Caminhos de Ferro do Pacífico Sul, sob a direcção enérgica de

Leland Stanford começava a dominar, comercial e politicamente, a costa do Pacífico. Os carris penetravam nos vales. Nasciam novas cidades e novas terras eram distribuídas e povoadas, porque a Companhia precisava de criar uma clientela.

O longo vale do Salinas estava incluído na sua zona de influência. Adam estudara um lindíssimo folheto a cores que apresentava o Vale como se fosse a região que o Paraíso tentara em vão imitar. Depois de ter lido esta literatura, quem não sentisse vontade de se fixar no vale do Salinas era um caso desesperado.

Adam não andou com pressa. Comprou um carro e visitou as redondezas, discutindo com os habitantes mais antigos do Vale, informando-se acerca das terras e da água, do clima e das colheitas, dos preços e das comodidades. Adam não procurava especular. Queria apenas estabelecer-se, fundar um lar, uma família, quem sabe se... uma dinastia.

Adam, cheio de entusiasmo, ia de herdade em herdade, apanhando aqui e ali punhados de terra que deixava escorregar por entre os dedos. Falava, projectava e sonhava. A gente do Vale estimava-o e mostrava-se contente por ele ter resolvido ficar a viver no meio dela, pois reconhecia nele um homem de valor.

Adam só tinha uma preocupação: Cathy. Ela não estava bem.

Percorria a região com ele, mas sem gosto. Uma manhã, queixou - se duma dor e ficou no quarto, no hotel de King City, enquanto

Adam ia visitar os arredores. Ele regressou às cinco horas e encontrou a mulher esvaindo-se em sangue. Adam teve a sorte de encontrar o Dr. Tilson em casa e de conseguir arrancá-lo ao seu rosbife.

O médico fez um rápido exame, aplicou um penso e voltou-se para

Adam:

Era melhor que fosse lá para baixo esperar por mim sugeriu ele.

Ela corre perigo?

Não. Eu já o vou chamar.

Adam acariciou o ombro de Cathy e a mulher sorriu-lhe.

O Dr. Tilson tornou a fechar a porta e aproximou-se novamente da cama. Tinha a cara vermelha de cólera.

Porque fez isso?

A boca de Cathy estava reduzida a uma linha.

O seu marido sabe que está grávida?

A cabeça dela moveu-se lentamente dum lado para o outro.

Com que fez isso?

Cathy fitou-o intensamente.

O médico examinou o quarto. Depois, dirigiu-se para a cómoda e apanhou uma agulha de tricotar. Brandiu-a diante da cara de

Cathy:

Sempre a mesma coisa. O instrumento criminoso do costume. Não passa de uma idiota. Por um pouco não se matou e o bebé continua vivo. Suponho que também bebeu coisas, que tomou toda a espécie de venenos: cânfora, petróleo, pimentão, eu sei lá o quê? Valha-me Deus! As mulheres sempre são duma força!

Os olhos de Cathy estavam frios e inexpressivos.

O médico aproximou uma cadeira da cama.

Porque não quer ter a criança? perguntou docemente.

- Tem um bom marido. Não gosta dele?... Está resolvida a não me responder? Responda-me, c'os diabos! Não seja teimosa.

Os lábios de Cathy não se moveram, as pálpebras não estremeceram.

Veja se me compreende, minha amiga disse ele.Não deve destruir a vida. É o único acto que me põe fora de mim. Deus sabe que perdi alguns dos meus doentes por ignorância, mas fiz sempre o que pude. Por isso, quando assisto a um crime deliberado...

O médico falava rapidamente. Tinha medo do silêncio entre as frases. Aquela mulher inquietava-o. Havia nela algo de inumano.

Conhece a Sr.a Laurel? Há anos que pede ao céu para lhe dar um filho. Era capaz de dar tudo o que tem e tudo o que há-de vir a ter para ter um filho. E a senhora tentou apunhalar o seu com uma agulha de tricotar! Pois muito bem vociferou ele. Se não quiser falar, ninguém a obriga, mas oiça-me bem: o bebé está são e salvo. Não soube fazer as coisas. E mais ainda: a criança háde nascer. Sabe como se castiga o aborto no nosso Estado? Não lhe peço para responder, mas sim para escutar. Se isto se tornar a repetir, se a criança morrer e se eu vier a desconfiar de qualquer manobra suspeita, irei denunciá-la, depor contra si e exigir um castigo. Espero que tenha a inteligência bastante para acreditar no que digo e que não estou a falar no ar.

Cathy humedeceu os lábios com a ponta da língua. A expressão do olhar transmutou-se numa tristeza que causava dó.

Lamento muito disse ela.O senhor não pode compreender.

Então porque se recusa a falar?

A cólera do médico derreteu como neve ao sol.

Explique-me o que se passou.

É difícil dizer. O Adam é tão bom, tão forte, tão são, enquanto que eu tenho uma tara. Sou epiléptica.

Não pode ser!

Eu, propriamente, não sou. Mas eram o meu avô e o meu pai. E o meu irmão também é.

Cathy tapou os olhos com a mão.

Não posso dar um tal filho ao meu marido.

Minha pobre filha disse o médico. Nunca se pode ter a certeza. É mais que provável que o seu filho virá a ser bonito e saudável. Prometa-me que não torna a tentar.

Prometo.

Muito bem. Não direi ao seu marido o que fez. Agora, dei- te-se. Vamos ver se a hemorragia já parou.

Alguns minutos depois, o médico fechava o estojo e metia a agulha de tricotar na algibeira.

Volto amanhã disse ele.

Adam precipitou-se ao seu encontro quando o viu descer a escada estreita que ia dar ao vestíbulo do hotel. O Dr. Tilson repeliu um assalto de: “Como está ela? Está melhor? Qual é a origem daquilo? já posso subir?”

Eh lá! Calma. Calma.

Seguidamente, pôs em prática o método que nunca falhara.

A sua mulher está doente.

Senhor doutor!

- Tem a única doença boa que existe...

Doutor...

A sua mulher está grávida.

E saiu deixando Adam estarrecido. Três homens sentados em volta do fogão sorriram-lhe. Um deles fez uma observação:

Se fosse eu, convidaria... digamos, três amigos para beberem um copo.

A alusão perdeu-se. Adam subiu desajeitadamente a estreita escada.

A atenção de Adam foi fixar-se no rancho Bordoni, algumas milhas ao sul de King City, na realidade quase à mesma distância de San Lucas e de King City.

Restavam aos Bordoni novecentos acres duma doação de dez mil feita por um rei de Espanha ao bisavô da Sr.a Bordoni. Os

Bordoni eram suíços, mas a Sr.a Bordoni era filha e herdeira duma família espanhola que se estabelecera no vale de Salinas séculos atrás. E, como acontece frequentemente na maioria das velhas famílias, a terra fora desaparecendo: uma parte perdida ao jogo;

uma outra vendida para pagar os impostos; alguns acres arrancados como se fossem cupões para pagar um cavalo, um diamante ou os favores duma mulher formosa. Esses novecentos acres, os melhores, formavam o cerne da primitiva doação feita aos Sanchez.

O Salinas atravessava a terra que se estendia até às colinas.

Naquele lugar, o Vale estreita-se para se alargar novamente um pouco mais longe. A casa primitiva dos Sanchez ainda era utilizável. Construída em tijolo, erguia-se numa pequena abertura entre as colinas, um vale miniatura, irrigado por um riacho que nunca secava. Fora por esse motivo que o primeiro Sanchez ali se fixara. Grandes carvalhos davam sombra ao vale e a terra era dum verde único na região. As paredes da casa baixa tinham um metro e vinte de espessura e os pilares de apoio estavam ligados por correias de coiro cru que haviam sido molhadas antes de colocadas.

Ao secarem, tinham encolhido, consolidando o conjunto, duras como ferro, quase indestrutíveis. Este método de construção só tem um inconveniente: se não se tiver cuidado com os ratos, dão cabo do coiro.

A velha casa parecia ter surgido do chão. Era encantadora.

Bordoni usava-a como estábulo das vacas. Era um emigrante suíço, com o seu amor nacional pelo asseio. Não gostava das grossas paredes de argila e mandara construir uma casa de madeira a alguma distância. As vacas espreitavam pelas janelas da velha casa dos Sanchez.

Os Bordoni não tinham filhos. E quando a mulher morreu, já bastante madura, o marido, abandonado a si próprio, sentiu soar o apelo dos Alpes natais. Queria vender e regressar ao seu país.

Adam Trask não tinha pressa em comprar. Bordoni exigia um preço elevado e mantinha-o. Sabia que Adam compraria, muito antes de Adam ter tomado uma decisão.

Adam queria fixar-se e criar um lar para a criança que ia nascer. Receava comprar uma propriedade e verificar mais tarde que preferia outra. Contudo, era a dos Sanchez que mais o atraía.

Com Cathy a seu lado, a vida prometia ser longa e agradável. Mas queria rodear-se de todas as precauções. Examinou cada metro quadrado do terreno. Mandou sondar a camada de terra vegetal para ficar a conhecer bem o subsolo. Perguntou os nomes de todas as plantas silvestres que cresciam nos campos, à beira do rio e nas colinas. Nos sítios húmidos, ajoelhou para examinar as pegadas na lama. Reconheceu as do tigre ruivo, do gamo, do coiote, do gato selvagem, do toirão, da doninha, da lebre e da codorniz.

Vagueou no meio dos salgueiros e dos sicômoros, pelas amoreiras à beira do rio, acariciou os troncos dos carvalhos e dos loureiros.

Bordoni observava-o com um olhar irónico e enchia canecas com um vinho tinto da sua pequena lavra no flanco da colina.

Bordoni gostava de se embriagar ao de leve todas as tardes. E

Adam, que nunca provara vinho, começava a apreciá-lo.

Estava sempre a perguntar a Cathy qual a sua opinião. Gostava do sítio? Sentir-se-ia feliz? E não prestava atenção às suas vagas respostas. Supunha que ela partilhava o seu entusiasmo. No vestíbulo do hotel, discutia com os homens reunidos em torno do fogão para lerem os jornais de San Francisco.

É na água que eu penso disse ele uma noite. Gostaria de saber até onde será preciso cavar para encontrar água.

Um dos proprietários cruzou as pernas.

Devia ir estar com o Sam Hamilton disse ele. No que respeita à água, não há ninguém que saiba tanto como ele. É um vedor e um bom abridor de poços. Ele logo lhe diz. Foi ele quem abriu mais de metade dos poços deste lado do Vale.

O companheiro soltou uma risadinha.

O Sam tem bons motivos para se interessar pela água.

Ainda não conseguiu descobrir uma só gota nas terras dele.

Onde é que eu o posso encontrar? perguntou Adam.

Ouça cá. Eu tenho de o ir ver para lhe pedir que me dobre uns ferros. Se quiser, pode ir comigo. Há-de gostar do Sr. Hamilton. É um homem de bem.

E um grande número acrescentou o companheiro.

 

Louis Lippo levou Adam à herdade Hamilton na sua carroça.

As barras de ferro para dobrar saltavam no fundo da caixa e, em cima, ia uma perna de cabrito enrolada num pano molhado. Os costumes da época exigiam que se levasse um substancial presente de comida quando se ia de visita, pois tinha de se ficar para almoçar. A não ser, evidentemente, que se quisesse insultar a família. Alguns convidados podiam esvaziar a despensa. Era natural que se levasse com que tornar a enchê-la. Um lombo de porco ou um pedaço de carne de vaca era o que estava indicado. Louis levava, portanto, o cabrito e Adam uma garrafa de uisque.

Acho melhor preveni-lo disse Louis. O Sr. Hamilton ficará encantado, mas a mulher vai olhá-lo de revés. Se fosse a si, escondia a garrafa debaixo do banco e só a tirava quando chegássemos diante da forja. É assim que fazemos sempre.

Ela não deixa o marido beber?

É do tamanho dum passarinho disse Louis -, mas tem opiniões firmes. Esconda a garrafa debaixo do banco.

Abandonaram a estrada do Vale e penetraram nas colinas. Os trilhos traçados na lama do Inverno tinham endurecido, formando dois carris. Os cavalos faziam um esforço violento entre os varais e a carroça avançava aos solavancos. O ano fora mau e, se bem que se estivesse apenas em Junho, as colinas já estavam secas e os sílices brilhavam nas pastagens amarelecidas. A aveia elevava-se quando muito a seis polegadas acima do chão como se soubesse que, se não germinasse rapidamente, corria o risco de nunca chegar a germinar.

Não é um sítio agradável disse Adam.

Agradável? Isto é uma terra para dar cabo dum homem e devorá-lo, Sr. Adam. Agradável! O Hamilton tem um bom pedaço de terra, mas já podia ter morrido de fome mais os filhos. A herdade não os alimenta; ele tem de se dedicar a toda a espécie de trabalhos e os filhos já começam a ganhar. É uma boa família.

Adam contemplou uma sarça que crescia à beira do caminho.

Porque teria ele vindo viver para uma terra destas?

Louis Lippo, como toda a gente, gostava de brincar aos guias, especialmente com um estranho, se não houvesse nenhum indígena para o contradizer.

Eu vou explicar-lhe. Veja o meu caso, por exemplo. O meu pai era italiano. Veio para cá depois da revolução, mas ainda trouxe algum dinheiro. A minha terra não é grande, mas é boa. Foi o meu pai quem a comprou e escolheu. E o senhor, por exemplo não sei a quanto monta a sua fortuna e não vou tomar a liberdade de lho perguntar, mas diz-se que vai comprar a terra dos Sanchez e todos sabem que o Bordoni não tem o hábito de dar presentes.

Isto quer dizer que o senhor tem aquilo com que se compram os melões e sabe com o que pode contar.

Vivo com desafogo disse Adam modestamente.

Se não vou direito ao fim, é para lhe explicar melhor -disse Louis. Quando o casal Hamilton chegou ao Vale, nem sequer tinha um penico onde mijasse. Ficaram com o que restava: terras do governo que ninguém queria. Vinte e cinco acres não bastam para alimentar uma vaca, mesmo nos anos bons. E dizem que nem chega para contentar os coiotes, nos anos maus. Há pessoas que perguntam como é que os Hamilton conseguiram viver.

Foi porque o Sr. Hamilton se atirou logo ao trabalho. Andou à jorna até construir a debulhadora.

Deve ter conseguido alguma coisa. Tenho ouvido falar nele um pouco por toda a parte.

Conseguiu, sim, como o senhor diz. Conseguiu criar nove filhos. Mas não tem um tostão de lado. Como seria possível?

Uma das rodas da carroça levantou-se, passou sobre uma grande pedra e tornou a cair. Os cavalos luziam de suor e os arreios estavam negros.

Gostarei de conversar com ele disse Adam.

Pois é, Sr. Adam. Ele criou uma bela seara. Bons filhos, bem-educados. Todos se desenrascam, menos o Joe é o mais novo. Dizem que o vão mandar para o colégio. Mas os outros hão- de singrar na vida. O Sr. Hamilton pode sentir-se vaidoso. A casa fica atrás daquela encosta. E veja lá se se esquece do que lhe disse. Se mostrasse a garrafa, ela era capaz de o transformar em estátua de sal.

A terra seca estalava ao sol e as cigarras cantavam.

É mesmo uma terra desprezada pelo Senhor disse Louis.

Faz-me sentir mesquinho disse Adam.

Como?

Alegra-me ter dinheiro suficiente para estar dispensado de viver num sítio como este.

Também eu estou dispensado disso e não me sinto mesquinho. Antes pelo contrário, sinto-me feliz.

Assim que a carroça chegou ao alto da encosta, Adam pôde avistar lá em baixo os edifícios que constituíam a residência dos

Hamilton. Uma casa, um estábulo, uma oficina e uma arrecadação. O conjunto parecia seco e comido pelo sol. Árvores nenhumas e um jardinzinho regado à mão.

Louis voltou-se para Adam e havia um leve travo de hostilidade na sua voz.

Quero preveni-lo, desde já, de uma ou duas coisas, Sr.

Trask. Há pessoas, quando vêem Samuel Hamilton pela primeira vez, que podem pensar que ele é um pouco doido. Ele não fala como toda a gente. É um irlandês. Tem ideias que nunca mais acabam. Tem mais de cem ideias por dia. É um homem que respira esperança. Deus do Céu! Quanta não lhe foi precisa para viver numa terra destas. Mas lembre-se disto: é um trabalhador, um bom ferreiro e as invenções dele não são estúpidas. E tenho-lhe ouvido prever coisas que aconteceram.

Adam ficou alarmado com esta espécie de ameaça.

Não sou homem para desprezar seja quem for disse ele.

E compreendeu subitamente que Louis o considerava um estranho e um inimigo.

Queria apenas avisá-lo, mais nada. Há pessoas que vêm do Leste e que julgam que, se um homem não tem muito dinheiro, não vale nada.

Como poderia eu...

Talvez o Sr. Hamilton não tenha com que mandar cantar um cego, mas é dos nossos e talvez o melhor de todos nós. E criou uma família como não haverá muitas por aí. Não se esqueça disto.

Adam ia para defender-se, mas apenas respondeu:

Não me hei-de esquecer. Obrigado por me ter prevenido.

Louis voltou a cabeça para olhar em frente.

Olhe, ali está ele, à porta da forja. Deve ter-nos ouvido

Ele tem barbas? perguntou Adam franzindo os olhos.

Tem umas lindíssimas barbas, tem. Mas já começa a ficar grisalho. Qualquer dia estão brancas.

Passaram diante da casa de madeira e viram a Sr.a Hamilton que os observava pela janela. Detiveram-se em frente da forja onde Samuel, de pé, os esperava.

Adam viu um homem forte, barbudo como um patriarca, cujos cabelos grisalhos flutuavam no ar como uma charpa. O rosto, por cima da barba, estava corado pelo sol. Vestia uma camisa azul, limpa, um fato-macaco e um avental de coiro. Tinha as mangas arregaçadas e os braços musculados também estavam limpos.

Só as mãos estavam enegrecidas pela forja. Os olhos eram azuis- claros, duma alegria juvenil, e as rugas irradiavam um ar risonho.

Louis disse ele-, tenho muito prazer em te ver. Mesmo neste céu aberto, gostamos de receber os amigos.

Sorriu a Adam e Louis disse:

- Trouxe-lhe o Sr. Adam Trask, que veio do Leste para se fixar aqui.

Ainda bem -disse Samuel. Depois lhe apertarei a mão.

Não quereria sujar-lha com estas patorras negras.

Trouxe umas barras de ferro. Pode dobrá-las em esquadria?

É para consolidar um vigamento.

Claro que posso, Louis. Desça. Desça. Vamos pôr os cavalos à sombra.

Há uma perna de cabrito aí atrás, e o Sr. Trask trouxe-lhe uma lembrança.

Samuel deitou uma olhadela para a casa.

Talvez seja melhor a gente tirar a lembrança quando a carroça estiver atrás do celeiro.

Adam distinguia o ritmo cantante da sua fala, mas não conseguia descobrir nenhum vestígio de sotaque, excepto talvez nos “tt” e nos “II” reforçados pela língua.

Louis, quer desatrelar os cavalos? Eu vou levar o cabrito para a cozinha. A Lizza vai ficar contente. Ela adora a caça.

Os seus filhos estão cá?

Não, não estão. O George e o Will vieram passar o fim de semana e foram todos ontem à noite dançar para a escola de Peach Tree no Desfiladeiro do Cavalo Selvagem. Devem voltar em bando ao fim da tarde. Por causa disso perdemos um sofá.

Depois lhe conto. A Lizza prometeu vingar-se. O culpado foi o Tom. Mas depois lhe conto.

Riu-se e encaminhou-se para casa, levando a perna de cabrito embrulhada.

Se quiser, leve a lembrança para a forja, para não aquecer com o sol.

Ouviram-no chamar quando se aproximava de casa:

Lizza, não adivinhas. O Louis Lippo, trouxe um bocado de cabrito maior do que tu.

Louis conduziu a carroça para trás do celeiro e Adam ajudou- o a desatrelar e a prender os cavalos à sombra.

Percebeu o que ele queria dizer com aquilo do sol?

Essa mulher deve ser uma praga.

Tão grande como um passarinho. Mas uma vontade de ferro.

Samuel foi ter com eles à forja.

A Lizza gostava que almoçassem cá.

Mas a sua mulher não contava connosco protestou Adam.

Ora, ora. Põem-se mais dois pratos na mesa. É com todo o prazer. Agora nós, Louis. Vamos lá ver como quer essas barras?

Amontoou alguns cavacos na fornalha quadrada da forja, deu ao fole e alimentou o lume com coque molhado até obter uma chama vermelho-cereia.

Agora, você, Louis disse ele. Vá dando ao fole. Devagar, homem,devagar e com regularidade.

Colocou as barras de ferro em cima do carvão.

Sr. Trask, fique sabendo que a Lizza está habituada a cozinhar para nove filhos esfaimados. Não há nada que a faça perder a cabeça.

Chegou uma das barras mais ao calor e riu-se.

Quando digo que não há nada que a faça perder a cabeça, minto com todos os dentes que tenho. Previno-os de que a minha mulher anda furiosa. Não pronunciem a palavra “sofá” diante dela.

É uma palavra de cólera e de dor para a Lizza.

O senhor ia começar a contar-nos disse Adam.

Se o senhor conhecesse. O Tom, o meu filho, compreenderia melhor. O Louis conhece-o.

Ai não, que não conheço disse Louis.

Samuel continuou:

O Tom tem o diabo no corpo. Sempre teve mais olhos que barriga. Sempre semeou mais do que pode colher. É feliz e infeliz com exagero. Há pessoas assim. A Lizza diz que eu sou desses.

Não sei qual é o destino que espera o Tom. Talvez a celebridade.

Quem sabe se a forca... já houve enforcados na família. Mas esta história fica para outra vez.

O sofá sugeriu delicadamente Adam.

Tem toda a razão. Eu sei, e a Lizza também sabe, que costumo correr atrás das palavras como o pastor atrás das ovelhas teimosas. Pois bem, organizou-se um baile na escola de Peach

Tree e os rapazes o George, o Tom, o Will e o Joe resolveram ir. Claro que as minhas filhas também quiseram ir. OGeorge, o Will e o Joe, que são rapazes simples, convidaram cada um deles uma amiga. Mas o Tom, como de costume, resolveu fazer as coisas à grande e convidou as duas irmãs Williams, a Jennie e a Belle Louis, de quantos buracos precisas para os parafusos?

Cinco disse Louis.

Muito bem. Devo dizer-lhe, Sr. Trask, que o Tom, como todos os rapazes que se acham feios, julga-se muito importante aos seus próprios olhos. Anda a maior parte do tempo em desalinho, mas assim que se trata duma festa, todo ele é atavios e rescende que nem uma flor na Primavera. Leva um tempo enorme nos preparativos. Devem ter reparado que a arrecadação estava vazia. O George, o Will e o Joe partiram em primeiro lugar, pois não são tão tolos como o Tom. O George levou a carroça, o Will o cabriolé e o Joe a carrinha de duas rodas.

Os olhos azuis de Samuel brilharam de prazer.

Então, o Tom apareceu todo pimpão e reluzente como um imperador romano, e a única coisa que restava como veículo era a carroça do feno. Ele nem podia pensar em aparecer com tal coisa, mesmo que fosse só a uma das irmãs Williams. Por sorte ou por azar, a Lizza estava a dormir a sesta nessa altura. O Tom sentou-se nos degraus e procurou uma solução. Passados instantes, vi que se dirigia para a arrecadação e atrelava dois cavalos.

Depois, entrou em casa e tornou a sair com o sofá às costas. Pô- lo em cima da carroça e prendeu-o com correntes. Um sofá com braços em colo de cisne, a coisa que a Lizza mais estima neste mundo! Tinha-lho oferecido para repousar antes do nascimento do George. A última visão que tive, foi o Tom subindo a colina, reclinado no sofá e gozando a satisfação de poder oferecer às irmãs Williams um assento digno delas! Oh! meu Deus, quando penso que já não terá conserto quando voltar para casa!

Samuel largou as tenazes e pôs as mãos nas ancas para rir mais à vontade.

A fogueira expiatória já arde no coração da Lizza. O fumo até lhe sai pelo nariz. Pobre Tom!

Adam propôs a sorrir:

Não quer beber uma coisinha?

Com todo o prazer disse Samuel.

Pegou na garrafa, bebeu rapidamente um golo e entregou-a ao dono.

Uisquebaugh. A palavra irlandesa para uísque, a água da vida. E é bem certo.

Colocou, uma a uma, as barras ao rubro em cima da bigorna, fez os furos para os parafusos e dobrou-as às marteladas. As centelhas saltavam sob o martelo. Mergulhou os ferros numa dorna de água preta e ouviu-se um assobio.

Pronto disse ele.

E atirou as barras para o chão.

Obrigado disse Louis. Quanto lhe devo?

O prazer da vossa companhia.

É sempre a mesma coisa disse Louis.

Não é, não. Quando lhe abri o poço, pagou-me o preço que lhe pedi.

A propósito... Aqui o Sr. Trask talvez vá comprar a terra dos Bordoni. A antiga herdade Sanchez, recorda-se?

Conheço-a muito bem. É um bom pedaço de terra.

O Sr. Trask falou-me na água e eu disse-lhe que não havia ninguém mais indicado para o informar do que você.

Adam tornou a fazer circular a garrafa. Samuel bebeu outro golo e limpou a boca à parte limpa do antebraço.

Ainda não tomei uma decisão disse Adam.O que eu queria era fazer-lhe um certo número de perguntas.

Valha-o Deus, homem, lá deu um passo em falso! Diz-se que é perigoso fazer perguntas a um irlandês porque ele dá logo a resposta. Espero que saiba ao que se arrisca abrindo as comportas do meu verbo. Há duas maneiras de ver: o homem silencioso é um sábio ou então o homem que nunca diz nada é porque nada pensa. Como é natural, agrada-me muito mais a segunda definição. A Lizza diz que eu me aproveito. Que deseja saber?

Na terra dos Bordoni, por exemplo, até onde será preciso cavar para encontrar água?

Necessitava de ver o lugar. Às vezes, são dez metros, outras, quinze, por vezes é preciso ir até ao centro da terra.

Seria capaz de encontrar água?

Eu encontro água em toda a parte, menos na minha terra.

Ouvi dizer que tinha muita falta de água.

Ouviu dizer? Até Deus já deve ter ouvido, tal é a força com que tenho gritado.

Há um terreno de quatrocentos acres à beira do rio. Acha que terá algum lençol de água?

Só vendo. Este vale é muito estranho. Se achar que tem paciência, talvez lhe possa contar alguma coisa, pois conheço-o como às minhas mãos.

Louis Lippo disse:

- O Sr. Trask veio da Nova Inglaterra. Tenciona fixar-se aqui, mas já esteve antes no Oeste. Era soldado e andou a combater os índios. A sério? Então compete-lhe a si falar e a mim escutar.

Não gosto de falar nesse assunto.

Mas porquê? Valha-me Deus! Se eu tivesse combatido os

Indios, a família e os vizinhos bem se podiam queixar.

Mas eu não queria combatê-los, Senhor...

O Senhor viera-lhe à boca sem que ele desse por isso.

Pois é, compreendo perfeitamente. Deve ser duro matar um homem que não se conhece e por quem não se sente nenhum ódio.

Pelo contrário, é mais fácil disse Louis.

São modos de ver, Louis.

Mas certos homens sentem amizade por toda a gente, enquanto que outros se odeiam a si próprios e espalham o ódio à sua volta como se pusessem manteiga em pão quente.

Preferia que falássemos do Vale disse Adam com um certo embaraço.

A recordação dos cadáveres amontoados causava-lhe uma espécie de náusea.

Que horas são?

Louis saiu e observou o Sol.

Ainda não são duas horas.

Quando começo a falar, desoriento-me por completo. O meu filho Will diz que eu falo às árvores quando não tenho auditório humano.

Suspirou e sentou-se numa cadeira.

Eu disse que era um estranho vale, mas talvez seja por ter nascido num país verdejante. O Vale parece-lhe estranho, Louis?

Não, eu não conheço mais nada.

Tenho-o sondado muito continuou Samuel. Algo viveu e talvez continue a viver sob a terra. Há o leito dum oceano e, mais fundo ainda, há um outro mundo. Mas isto não interessa ao lavrador. A superfície, o solo é bom, especialmente na parte plana.

No vale superior, a terra arável é leve e arenosa, mas está misturada ao húmus que cobria as colinas e que foi arrastado para baixo pelas chuvas. Quanto mais se vai para o Norte, mais o Vale se alarga e a terra se torna mais negra, mais pesada e talvez mais rica. Suponho que, antigamente, haveria pântanos. No decorrer dos séculos, as plantas foram apodrecendo e enegreceram e fertilizaram o solo. Quando se revolve a terra, verifica-se que está misturada com argila gorda. Sobretudo nas proximidades de Gonzales, a norte da foz do rio. Nas margens, perto de Salinas, de

Blanco, de Castroville e de Moss Landing, ainda há pântanos.

Quando, um dia, drenarem esses pântanos, ficará sendo a terra mais rica deste mundo.

Está sempre a falar no que será a terra um dia interrompeu Louis.

- O espírito do homem não se pode contentar em viver com o seu tempo, como o faz o corpo.

Se ficar aqui, quero saber o que é e o que será a terra disse Adam. Porque os meus filhos, se os tiver, hão-de viver nesta terra.

Os olhos de Samuel fitaram a luz doirada, para lá dos seus amigos, e a forja sombria.

Devo avisá-lo de que, sob uma boa parte do Vale, umas vezes a grande profundidade, outras muito perto da superfície, existe aquilo a que chamamos uma crusta. É argila densa e gorda.

“Em certos sítios, tem trinta centímetros de espessura; às vezes, mais. E essa crusta é impermeável à água. Se lá não estivesse, as chuvas do Inverno impregnariam a terra e, no Verão, a água poderia subir até às raízes. Mas quando a terra por cima da camada de argila está bem ensopada, a água perde-se em riachos ou fica à superfície a apodrecer as culturas. É uma das grandes maldições do Vale.

Apesar disso, é um lugar agradável para se viver, não é?

Pois é. Mas um homem não fica completamente satisfeito quando sabe que a terra poderia ser mais rica. Eu pensei que, se pudesse fazer milhares de buracos para obrigar a água a penetrar, obteria a solução do problema. Fiz algumas experiências com cartuxos de dinamite. Parti a crusta e a água pôde infiltrar-se. Mas imagine a quantidade de dinamite que seria precisa para todo o

Vale! Li que um sueco aquele que inventou a dinamite fabrica um explosivo mais forte e mais seguro. Talvez esteja aí a solução.

Com irrisão, mas com admiração também, Louis disse:

Ele está sempre a pensar em mudar as coisas. Nunca se sente satisfeito com o que elas são.

Samuel sorriu-lhe:

Parece que há muito tempo o homem vivia nas árvores. Foi necessário que um deles se sentisse insatisfeito para que as coisas se modificassem. De contrário, a estas horas, ainda os seus pés não tocariam no chão.

E riu-se novamente.

Estou para aqui, sentado no meu monte de poeira, criando um mundo, tão certo como Deus criou o Seu. Mas Deus viu a Sua obra, ao passo que eu nunca verei a minha, a não ser na minha imaginação. Este vale ainda virá a ser rico. Poderá alimentar o mundo e talvez o venha a alimentar. E há-de vir para aqui gente feliz viver aos milhares, aos milhares...

Uma nuvem pareceu escurecer-lhe o olhar. O rosto entristeceu. Calou-se.

Quem o ouvir dirá que isto é um bom sitio para se viver disse Adam.Com uma perspectiva destas, onde é que os meus filhos correriam o risco de serem mais felizes?

Samuel continuou:

Há uma coisa que eu não compreendo. Paira uma sombra sobre este vale. Não sei de que se compõe, mas sinto-a. Às vezes, quando a claridade do dia é deslumbrante, sinto essa sombra passar e envolver o Sol, chupando toda a luz como se fosse uma esponja.

A sua voz elevou-se, mais sonora:

Uma negra violência ameaça este vale. Não sei. Não sei.

“É como se um fantasma saído do oceano morto que dorme a nossos pés viesse assombrar o Vale e turvar o nosso ar com a desgraça. É uma sombra secreta como um desgosto oculto. Não sei o que é, mas vejo-a e sinto-a nas pessoas daqui.

Adam arrepiou-se.

Agora me lembro que prometi voltar cedo. A Cathy, a minha mulher, está à espera dum bebé.

Mas a Lizza já tem o almoço pronto.

Há-de desculpar-me quando souber a razão. A minha mulher não se tem sentido bem. Obrigado pelas informações acerca da água.

Foram as minhas divagações que o deixaram preocupado?

Não, não. Nem pensar nisso. É o primeiro filho e ela tem medo.

Adam pesou os prós e os contras durante toda a noite. No dia seguinte de manhã, foi a casa de Bordoni, fechou o negócio e a terra dos Sanchez tornou-se sua.

 

 

                                   CAPÍTULO XIV

 

Há tanto a dizer a respeito do Oeste nessa época, que não se sabe por onde começar. Uma coisa arrasta cem outras. A questão está em determinar qual será a que se deve contar em primeiro lugar.

Recordam-se que Samuel dissera que os filhos tinham ido ao baile na escola de Peach Tree. As escolas rurais constituíam então os centros culturais. Nas cidades, a Igreja protestante lutava pela existência numa região onde era novidade. A Igreja católica enraizada há muito tempo, adormecia numa tradição confortável enquanto as missões eram gradualmente abandonadas, com os telhados a apodrecer e os pombos a arrulhar nos altares. A biblioteca (formada de livros latinos e espanhóis) da missão de San

Antonio, atirada para um sótão, era devorada pelos ratos que roíam as encadernações de carneira. No campo, o repositório das artes e das ciências era a escota; a professora empunhava o facho do saber e da beleza. Era na aula que se realizavam as discussões públicas e as sessões de música; era lá que se instalavam as urnas para as eleições; era lá que se coroavam as rainhas de

Maio, que se fazia o panegírico dum presidente falecido e que se efectuavam os bailes nocturnos. E a professora não era apenas um padrão de ciência e uma mulher notável, era também o objectivo matrimonial de toda a região. Uma família podia legitimamente orgulhar-se quando um dos seus filhos desposava a professora. Presumia-se que os filhos duma professora possuíam grandes vantagens intelectuais, tanto por herança como pela educação.

As filhas de Samuel Hamilton, não estavam destinadas a tornar-se lavradoras envelhecidas prematuramente pelos trabalhos do campo. Eram belas raparigas de quem emanava o esplendor inerente aos seus ascendentes, os antigos reis da velha Irlanda. Possuíam uma altivez que transcendia a sua pobreza. Nunca ninguém pensara que elas pudessem causar dó. Samuel dera origem a uma raça distintamente superior. A todos Samuel comunicara a sua sede de aprender e não quisera que tivessem a orgulhosa ignorância do seu tempo. Olive Hamilton fez-se mestre-escola. Aos quinze anos abandonou o rancho para ir viver em Salinas onde se matriculou na escola secundária. Aos dezassete anos fez os exames de aptidão que abrangiam todas as artes e todas as ciências e, aos dezoito anos, era a professora de Peach Tree.

Olive tinha na sua escola alunos mais velhos e maiores do que ela. Era preciso muito tacto para ensinar. Manter a disciplina entre latagões sem se servir duma pistola ou dum chicote era tarefa difícil e perigosa. Numa escola das montanhas, a professora fora raptada pelos alunos.

Olive Hamilton ensinava tudo a todas as idades. Muito poucas crianças ultrapassavam o grau primário nessa época e, como não podiam abandonar os trabalhos do campo, precisavam às vezes de catorze ou quinze anos para concluírem o curso. Olive também era obrigada a possuir rudimentos de medicina, pois os acidentes eram constantes. Devia saber pensar uma chaga quando se trocavam facadas no pátio de recreio. Quando um rapazito de pés descalços era mordido por uma cascavel, era a ela que competia chupar o dedo para extrair o veneno.

Aos pequenos ensinava o alfabeto, e a álgebra aos do último ano. Dirigia o coro, fazia as vezes de crítico literário e compunha a rubrica mundana que aparecia uma vez por semana no Jornal de

Salinas. Tinha nas mãos toda a vida social da região. Não só fazia os exames de admissão como organizava os bailes, as reuniões, os debates, as festas do Natal e de Maio, e as grandes comemorações patrióticas do Decoration Day e do 4 de Julho. Pertencia à junta eleitoral, dirigia e centralizava todas as obras de caridade.

Era um trabalho que estava longe de ser fácil e que impunha deveres e obrigações difíceis de imaginar. A professora não tinha vida privada. Qualquer fraqueza de carácter era logo notada. Não podia hospedar-se numa casa durante mais de um período, para não despertar ciúmes: subia-se na escala social quando se dava guarida à professora. Se na casa onde ela se hospedava havia um filho em idade casadoira, era automaticamente pedida em matrimónio. E se havia vários filhos, travava-se uma luta desesperada pela posse da sua mão. Os filhos dos Aguita, que eram três, estiveram à beira de se matar por causa de Olive Hamilton. Era raro que uma professora conservasse o seu emprego por muito tempo. O trabalho era tão esgotante e os pretendentes tão encarniçados que, na generalidade, logo se casava, em desespero de causa.

Era este um caminho por onde Olive Hamilton não estava disposta a enveredar. Ela não partilhava os entusiasmos intelectuais do pai, mas, após a estadia em Salinas, resolvera que nunca viria a ser uma lavradora. Queria viver numa cidade, talvez não tão grande como Salinas, mas que também não fosse um lugarejo situado na encruzilhada de dois caminhos. Em Salinas, Olive aprendera os encantos da existência, familiarizara-se com os coros e os paramentos, com as confrarias religiosas e os bodos na igreja episcopal. Despertara para o prazer das artes, companhias itinerantes vinham representar peças e até óperas que exalavam o perfume mágico e embriagador dum mundo exterior cheio de promessas.

Fora a recepções, jogara às adivinhas, concorrera a jogos florais e tocara numa orquestra. Salinas tentara-a. Lá, podia ir ao baile vestida como deve ser e voltar a casa com a mesma roupa sem ter de enrolar o vestido num saco, cavalgar dez milhas e depois desenrolar o vestido e tornar a passá-lo.

Sempre que a escola rural lhe deixava algum tempo livre, Olive sonhava com a vida das grandes cidades. Por isso, quando o jovem que construiu a moagem de Kíng City, lhe pediu a mão, ela aceitou, sob condição de manterem o noivado secreto. Era necessário para salvaguardar a tranquilidade da região.

Olive não tinha o brio do pai, mas misturava-se nela um certo sentido do humor aliado à vontade inquebrantável, herdada da mãe. A bem ou à força, os seus alunos recalcitrantes eram obrigados a ingurgitar os conhecimentos humanos.

Havia um preconceito contra a cultura. Um homem queria que os seus filhos só soubessem ler, escrever e contar, e mais nada.

Tudo o que fosse além disto, era perigoso. Citavam-se muitos exempLos de crianças que, por terem ido à escola em demasia, tinham trocado o campo pela cidade, considerando-se superiores aos próprios pais. Conhecer a aritmética suficiente para medir os terrenos, contar os animais e fazer as contas, saber passar uma encomenda e escrever cartões de boas-festas, saber ler os jornais, os semanários e os boletins locais, conhecer a música suficiente para cantar na igreja e entoar os hinos patrióticos, era quanto bastava em matéria de educação sem que se corresse o risco de ver um rapaz desviado do seu caminho. A cultura era para os médicos, para os advogados, para os professores, uma classe social à parte. Havia excepções, evidentemente, como Sam Hamilton, que era tolerado e amado, mas se ele não fosse capaz de abrir um poço, de ferrar um cavalo ou de manobrar uma debulhadora, só Deus sabe o que teriam pensado da sua família.

Olive casou-se com o jovem empreiteiro e foi primeiro para

Paso Robles, em seguida para King City e finalmente para Salinas. Tinha a intuição dum gato. Os seus actos eram mais instintivos do que reflectidos. Possuía o queixo firme, o nariz arrebitado da mãe e os lindíssimos olhos do pai. Era a mais representativa do tipo Hamilton, se exceptuarmos a mãe. A sua teologia era uma curiosa mistura de contos de fadas e do Antigo Testamento. Já no fim da vida, confundia Jeová com o pai e vice-versa. O Paraíso era para ela uma quinta agradável onde habitavam os mortos da família. Recusava-se a aceitar os obstáculos que a natureza coloca no nosso caminho. E se havia alguém que não partilhasse a sua recusa, ficava furiosa. Parece que numa noite de sábado chorou amargamente por não poder ir a dois bailes ao mesmo tempo.

Um realizava-se em Greenfield e o outro em San Lucas, a vinte milhas de distância. Ir a ambos e, depois, regressar a casa, representava uma galopada de sessenta milhas. Vexada por não poder encontrar uma solução para tal problema, pôs-se a chorar e não foi a nenhum dos bailes.

Com a idade, aperfeiçoou um método espalhafatoso para lutar contra a adversidade. Aos dezasseis anos, contraí uma pleurisia, doença mortal na época. Fui decaindo, decaindo, até as asas dos anjos me roçarem nas pálpebras. Olive pôs em prática o seu método para curar a pleurisia. O pastor rezou comigo e por fim, a madre superiora e as freiras do convento ao lado imploraram o Céu duas vezes por dia, um dos nossos parentes afastados, que era teólogo, meditava em minha intenção: foram aplicados todos os sortilégios, magias, fórmulas de bruxaria; postaram à minha cabeceira duas enfermeiras e os melhores médicos da cidade. Foi um êxito e eu restabeleci-me. Olive era afectuosa e firme com as minhas três irmãs e comigo. Ensinava-nos a arrumar A casa, a lavar a loiça e a roupa e a estar à mesa. Quando se zangava, ficava com um olhar terrível perante o qual o culpado empalidecia como uma amêndoa cozida.

Assim que me curei, tive de aprender novamente a andar.

Estivera nove semanas na cama e os músculos atrofiados deixavam-se penetrar pela preguiça da convalescença. Quando me puseram de pé, todos os nervos gritaram e a ferida que eu tinha ao lado doeu-me horrivelmente. Tornei a cair na cama, berrando como um possesso:

Não posso, não posso levantar-me.

Olive fitou-me com o seu olhar terrível.

De pé! disse ela. O teu pai passou estes dias todos a trabalhar e as noites à tua cabeceira. Por causa de ti encheu-se de dívidas. Já de pé!

E eu levantei-me.

Dívida era uma palavra hedionda e uma prática ignóbil para

Olive. Uma conta por pagar no dia quinze de cada mês era uma dívida. Esta palavra evocava traição, desonra e mancha, Olive, que acreditava sinceramente ser a sua família a melhor do mundo não queria que ela fosse corroída pelas dívidas. Tão profundamente nos inculcou esse terror que, mesmo hoje, num sistema económico em que as dívidas fazem parte da vida, começo a ficar preocupado quando uma factura tem dois dias de atraso. Olive nunca aceitou o principio do pagamento a prestações, mesmo quando se tornou popular. Um objecto comprado a crédito não nos pertencia; era uma coisa pela qual nos tínhamos endividado.

Para obter aquilo de que tinha vontade, fazia economias. E todos os vizinhos beneficiavam das novas invenções dois anos antes de nós.

 

Olive tinha uma coragem extraordinária. Talvez a coragem seja necessária para criar os filhos. Devo dizer-lhes o que ela fez durante a primeira guerra mundial. Olive não tinha uma mentalidade internacional. A sua primeira fronteira rodeava a família; a segunda, a sua cidade, Salinas; quanto à terceira, era uma linha vaga, indefinida, a que delimitava a sua província. Por conseguinte, custava-lhe a acreditar na guerra, mesmo quando a nossa milícia a cavalo foi chamada, carregada num comboio e levada para um destino desconhecido.

Martin Hopps morava à esquina da nossa rua. Era largo, baixo e ruivo. Tinha uma boca enorme e olhos vermelhos. Era o rapaz mais tímido de Salinas. Dar-lhe os bons-dias era o mesmo que mergulhá-lo num profundo terror. Pertencia à milícia pelo facto de a sua equipa de básquete se treinar na sala de armas.

Se os Alemães tivessem conhecido Olive, se tivessem tido um pouco de senso comum, reflectiriam antes de agir. Mas ou não sabiam ou eram parvos. Na altura em que mataram Martin

Hopps, perderam a guerra, pois a minha mãe encheu-se de fúria e lançou-se-lhes na peugada. ela gostava muito de Martin Hoopps.

Ele nunca fizera mal a ninguém. Quando morreu, Olive declarou guerra ao império alemão.

Correu tudo á procura duma arma. Tricotar abafos ou peúgas não era actividade que ela considerasse suficientemente mortífera. Durante algum tempo envergou o uniforme da cruz vermelha e reuniu-se na sala de armas com outras damas; para enrolar ligaduras e desenrolar reputações. Era bem bom, mas não era assim que vibrava o golpe mortal no coração do Kaiser. Olive exigia sangue em troca da vida de Martin Hoops. A arma que pretendia, achou-a nos Bónus da Liberdade. Ela, que nada vendera durante toda a sua vida, se exceptuarmos alguns bolos na tômbola da igreja episcopal, pôs-se a vender bónus as carradas. Fazia-o com uma espécie de ferocidade e suponho que as pessoas compravam coagidas pelo medo. E, quando compravam a Olive, ela dava-lhes a sensação de combate real: mergulhavam uma baioneta no ventre da Alemanha.

Á medida que o volume do negócio assumia uma amplitude espectacular, o ministério das Finanças começava a acompanhar a actividade dessa nova Amazona. Primeiro vieram circulares de agradecimento, depois foram autênticas cartas assinadas pela mão do Ministro. Nós sentíamo-nos orgulhosos, mas ainda o ficámos mais quando começaram a chegar os presentes: um capacete alemão pequeno de mais para qualquer de nós -; uma baioneta; um pedaço de granada montado numa base de ébano. Como éramos muito novos para ir combater e como tínhamos de nos contentar em marchar com espingardas de pau, parecia-nos que a guerra movida pela nossa mãe, nos justificava. Foi então que ela se ultrapassou e que ultrapassou todos os habitantes daquela região do país. Quadruplicou o seu já fabuloso recorde e obteve a mais bela de todas as recompensas: um baptismo do ar num avião do exército.

Ah! como ficámos radiantes! Mesmo por procuração era uma glória difícil de suportar. Mas para a minha pobre mãe devo dizer-lhes que a minha mãe não acreditava na existência de certas coisas, mesmo que lhe fornecessem todas as provas não existiam maus Hamilton, não existiam aeroplanos e acabou-se!

Não era o facto de já ter visto aeroplanos que a faria mudar de opinião.

Após o acontecimento, tentei imaginar o que ela teria sentido.

A sua alma deve ter uivado de terror, pois como se pode voar numa coisa que não existe? Ainda se esse voo tivesse sido um castigo, seria algo de cruel e de invulgar. Mas era uma recompensa, um dom, uma honra escolhida entre as maiores. Creio que ela nos fitou nos olhos e que viu uma tal idolatria que se deixou cair na armadilha. Se tivesse recusado, trairia a família., Estava entre a espada e a parede e a única salvação era a morte. Quando resolveu subir para aquela coisa que não existia, pareceu-me que se resignara a não sobreviver à experiência.

Olive fez o testamento. Foi uma coisa que lhe levou muito tempo, e redigiu-o perante um notário. Depois abriu o cofre de pau-rosa onde guardava as cartas que o marido lhe escrevera durante e depois do noivado. Ignorávamos que ele lhe tivesse escrito versos, mas afinal era verdade, Queimou todas as cartas;

aquelas páginas pertenciam-lhe e não queria que mais ninguém, as lesse. Comprou roupa de baixo nova porque não queria que a encontrassem morta com roupa remendada, ou, o que era pior, rota. É possível que ela avistasse a grande boca contorcida e os olhos embaraçados de Martin Hopps e que julgasse pagar a seu modo essa vida roubada. Foi muito boa connosco e nunca nos disse nada quando os pratos mal lavados deixavam marcas de gordura nos panos da loiça.

A apoteose de Olive devia ter lugar no campo de corridas de

Salinas. Fomos levados para a pista num automóvel do exército e íamos mais solenes e circunspectos do que em funerais nacionais. O nosso pai trabalhava na refinação de açúcar de Spreckles, a cinco milhas da cidade, e não obteve licença; talvez não a tivesse solicitado, receando não conseguir resistir à emoção. Mas Olive pedira para o avião passar por cima da fábrica antes de se despenhar. Só agora compreendo que as centenas de curiosos que acorreram o fizeram apenas para admirar o avião, mas naquela altura julgávamos que se tinham deslocado para homenagear a minha mãe. Olive era pequena e já principiara a ficar obesa. Tivemos de a ajudar a sair do carro. É muito natural que já estivesse morta de medo, mas mantinha a cabeça erguida.

O avião estava pousado na erva, no meio do campo de corridas. Parecia terrivelmente pequeno e frágil um biplano de carlinga aberta e estrutura de madeira retesada por cordas de piano. As asas eram cobertas de lona. Olive mostrava-se aparvalhada. Encaminhou-se para o aparelho como um boi para o cutelo do chacinador. Dois sargentos ajudaram-na a vestir por cima da sua roupa da mortalha, julgava ela um fato-macaco, um blusão de pele de cabrito e um casaco de piloto. Cada nova camada a tornava mais roliça. Enfiou na cabeça um capacete de coiro e uns óculos e, com o seu narizinho e as faces rosadas, oferecia um espectáculo que valia a pena ser visto. Tinha todo o ar duma cebola. Os dois sargentos pegaram-lhe por debaixo dos braços e puseram-na na carlinga. Ela enchia completamente o lugar. Assim que eles apertaram o cinto de segurança, ela voltou subitamente à vida e pôs-se a gesticular freneticamente para chamar a atenção. Um dos soldados içou-se até à carlinga, escutou-a, depois dirigiu-se à minha irmã Mary e conduziu-a ao aparelho. Olive lutou para se livrar da enorme luva de voo que lhe tapava a mão esquerda. Assim que a conseguiu libertar, tirou o anel de noivado guarnecido dum pequeno brilhante e, estendeu-o a Mary. Depois, verificou se a aliança estava no seu lugar, tornou a calçar as luvas e olhou para a frente. O piloto instalou-se no lugar da frente e um dos sargentos puxou com toda a força a hélice de madeira. A pequena aeronave rodou, deu meia volta, depois, chegada ao fim do campo, fez um barulho ensurdecedor e levantou voo. Olive tinha a cabeça muito direita, mas é muito possível que levasse os olhos fechados.

,Acompanhámos o aparelho com a vista e, quando se afastou muito, deixou atrás de si um silêncio melancólico. A comissão dos bónus, os amigos, parentes e simples espectadores nem sequer pensaram em abandonar o campo. Do aparelho apenas restava um ponto no céu, para os lados de Spreckles, e mesmo isso desapareceu logo a seguir. Só quinze minutos depois o tornámos a ver.

Voava muito alto, serenamente. Então, vimos horrorizados que perdia o equilíbrio e caía. Caía sem fim, continuava a cair. Subitamente, endireitou-se, subiu e efectuou um looping. Um dos sargentos desatou a rir. Por instantes, o avião voou a direito e depois pareceu-nos que enlouquecia. Executou um tonneau, alguns immelmans, alguns loopings exteriores e interiores, depois virou- se ao contrário e passou por cima de nós nessa posição. Avistámos o ponto escuro que representava o capacete da nossa mãe.

Um dos soldados disse pachorrentamente:

Ele está doido. A mulher já não é nova.

O aparelho aterrou e aproximou-se do nosso grupo. O motor parou. O piloto saiu e abanou a cabeça com ar perplexo.

Mas que mulher espantosa!

Depois voltou-se para o lugar de trás, sacudiu a mão mole de Olive e afastou-se rapidamente.

Foram precisos quatro homens e bastante tempo para tirar

Olive do seu lugar. Estava tão rígida que não a conseguiam dobrar. Levámo-la para casa. Pusemo-la na cama e não se levantou durante dois dias.

Tivemos de esperar muito tempo até sabermos o que se tinha passado. Aos bocados, arrancámos ao piloto e a Olive alguns pormenores e tivemos de comparar as duas histórias para que formassem um certo sentido. Primeiro, tinham voado até à refinação de açúcar e dado a volta, como fora previsto deram três voltas para que o meu pai tivesse tempo de os ver. Foi então que o piloto resolveu pregar-lhe um susto. Gritou qualquer coisa com o rosto contraído pelo vento. Olive não compreendeu nada porque o barulho do motor abafava as palavras. O piloto cortou o gás e gritou:”Folha morta?” Não passava duma partida. Mas Olive só viu o rosto contorcido sob os óculos e o vento deformou as palavras.

Olive apenas ouviu “... morte. “

“Eu bem sabia, pensou ela. Chegou a altura.” Tentou recordar-se se não se esquecera de nada: o testamento, as cartas queimadas, a roupa de baixo nova e as provisões para o jantar. Ainda procurou lembrar-se se tinha apagado a luz da arrecadação. Tudo isto no espaço de um segundo. Depois pensou que talvez ainda restasse uma pequena probabilidade de se salvarem. O militar estava cheio de medo, disso não havia a menor dúvida. Se notasse que a passageira fora tomada pelo pânico, era capaz de ficar ainda com mais medo e de não conseguir dominar a situação. Resolveu, portanto, encorajá-lo. Endereçou-lhe um sorriso encantador e aquiesceu com a cabeça para lhe dar coragem. E foi nessa altura que se via de cabeça para baixo. Assim que voltou à posição normal, o piloto perguntou-lhe: “Mais?”

Olive já não se encontrava em estado de responder fosse o que fosse. Mas mantinha a cabeça erguida e estava firmemente decidida a ajudar o piloto para que ele fizesse boa figura antes de se esmagar no solo. Por conseguinte, tornou a sorrir e a acenar com a cabeça. Sempre que terminava uma acrobacia, ele repetia- lhe a pergunta e ela tornava a encorajá-lo. Passado muito tempo, ele ainda repetia: “Nunca encontrei uma mulher tão espantosa.

Fiz-lhe tudo o que aprendi na escola e ainda pediu mais. Caramba, aquilo é que dava um piloto.”

 

 

                             CAPÍTULO XV

 

Adam instalou-se na sua nova propriedade como um gato consolado. Da entrada do seu pequeno vale, assinalada por um carvalho gigantesco que mergulhava as raízes na humidade subterrânea,

Adam avistava os terrenos aluvianos à beira do rio e os contrafortes arredondados das colinas. Era uma terra agradável, mesmo sob o sol de Verão, atravessada por uma fila de chaparros e de sicômoros, e as colinas a Ocidente tinham o tom amarelo-castanho do feno maduro. Por uma razão desconhecida, a camada de húmus daquele lado do Vale é mais espessa do que a Leste e a erva cresce mais densa. Talvez as geleiras distribuam a água mais por igual e talvez esta parte da montanha, mais arborizada, seja um centro de precipitações.

Só uma pequena parte da terra dos Sanchez, agora dos Trask, era cultivada. Mas Adam já via os campos de aveia e os pastos de luzerna à beira do rio. Atrás dele, matraqueavam e serravam os carpinteiros vindos especialmente de Salinas para reparar a velha casa, pois fora nela que Adam resolvera fundar o seu novo lar.

Raspou-se o estrume, arrancaram-se os velhos sobrados e as velhas janelas por onde as vacas enfiavam a cabeça. A madeira carcomida seria substituída pelo abeto que rescendia e pela sequóia aveludada. Um telhado novo iria para o lugar do antigo.

Nas velhas paredes foram aplicadas várias camadas de uma mistura branca, à base de cal e água salgada, que parecia fosforescente, ao secar.

Um jardineiro aparara as roseiras, plantara gerânios e escolhera o local para a horta, depois de ter canalizado a água do ribeiro para regar o jardim. Adam pensava em si e nos seus descendentes.

Num celeiro, tapados com lonas, repousavam belos móveis enviados de San Francisco e trazidos de King City na carroça.

Adam previa tudo. Lee, o seu cozinheiro chinês, fizera uma viagem especial a Pajaro para comprar caçarolas, panelas, jarros, marmitas e tachos. Estava a ser construida uma nova pocilga, longe da casa e abrigada do vento, assim como um canil para os cães que haviam de defender a casa dos coiotes. Adam não queria pressas. Tinha muito tempo. “Devagar, mas bem”, dissera ele aos operários. Verificava todas as juntas de madeira e perdia horas a examinar amostras de tinta. Num canto do seu quarto, amontoavam-se catálogos de máquinas, de móveis, de sementes, de árvores de fruto. Sentia-se satisfeito por o pai ter feito dele um homem rico. o Connecticut começava a desvanecer-se-lhe na memória.

Talvez fosse a luz crua do Oeste que apagasse as recordações da terra natal. Sempre que pensava na casa do pai, no rancho, na aldeia, passava-lhe uma sombra pelo rosto. Era um passado que o importunava e desejava ver-se livre dele.

Mandara pintar a casa de madeira dos Bordoni e nela instalara Cathy para que esperasse o nascimento do filho e o fim das obras. Mas não restava dúvida nenhuma; a criança nasceria muito tempo antes de a casa ficar pronta. Adam não tinha pressa.

“Quero que seja sólida. Quero que dure. Pregos de cobre e madeira resistente. Nada que enferruje ou apodreça.”

Adam não era o único a preocupar-se com o futuro. O mesmo acontecia em todo o Vale, em todo o Oeste. O passado já não era o bom tempo de antanho. Poder-se-ía percorrer uma grande distância sem encontrar um homem que carpisse a juventude. Por mais duro e estéril que fosse o presente, as pessoas sentiam-se à vontade nele, pois era o limiar dum futuro fantástico. Era raro que dois homens se encontrassem, que três homens discutissem num bar, que uma dúzia de homens comessem cabrito montês em torno duma fogueira, que não fosse para conversar do futuro do Vale que viria a ser um dia um paraíso. E não se tratava duma conjectura, mas duma certeza.

“Há-de ser... quem sabe? talvez ainda durante a nossa vida” diziam eles.

E as pessoas imaginavam um futuro tão rico como era miserável o seu presente. Na época, para ir ao Vale, um lavrador das colinas era obrigado a empilhar a família numa espécie de carro constituído por uma grande caixa na qual se fixavam quatro rodas maciças sem eixos. No fundo, punha-se palha. A mulher aconchegava a si os filhos que batiam os dentes e que, com os solavancos, se arriscavam a cortar a língua. O pai pensava: “Quando tivermos estradas é que há-de ser bom. Iremos num cabriolé e chegaremos a King City em três horas. Que mais se pode desejar neste mundo?”

Se um homem possuía uma mata de carvalhos verdes o melhor combustível do mundo, mais rijo e mais quente que o carvão e se tinha no bolso um jornal que anunciava: “pagam-se dez dólares por metro cúbico de carvalho em Los Angeles”, dizia lá para consigo: “quando o caminho de ferro chegar até aqui, poderei levar a minha lenha à estação por dólar e meio cada metro cúbico.

Suponhamos que a Pacífico Sul me pede trinta e cinco cêntimos.

Com as despesas de exploração, ainda sobram cinco dólares e eu tenho três mil metros cúbicos de lenha. Ao todo, são quinze mil dólares que ali tenho.”

Outros profetizavam que, um dia, o Vale viria a ser irrigado por canais. “Quem sabe? Talvez seja antes de morrermos.” Abririam poços, iriam buscar a água às entranhas da terra por meio de bombas a vapor. “Veja se imagina. Pense só no que renderia esta terra se houvesse água. Ali! jardim mais bonito não haveria!”

Um outro homem mas era doido dizia que um dia descobririam a maneira, talvez graças ao gelo, talvez de outra forma, de transportar aquele pêssego que tinha na mão até Filadélfia.

Nas cidades, falava-se de esgotos e de retretes no interior das casas. Alguns já as tinham. Falava-se de lâmpadas de arco à esquina das ruas já havia em Salinas e de telefones. Já não havia limites, o futuro era imenso. Viria o tempo em que o homem já não teria espaço suficiente dentro de si mesmo para armazenar tanta felicidade. A alegria jorraria pelo Vale como o rio Salinas no mês de Março dum ano chuvoso.

Contemplavam o vale chato, seco, poeirento e as horríveis cidades-cogumelo e só viam beleza. “Quem sabe? Talvez enquanto formos vivos... “ Era por isso que não se podia troçar de Samuel Hamilton que deixava vaguear o espírito mais deliciadamente do que qualquer outro; aliás, o que ele dizia não parecia tão idiota quando se sabia o que estavam fazendo em San José. Mas Samuel emitia dúvidas. Seria a gente feliz quando tudo isso acontecesse?

Feliz? Dêem-nos tudo isso e logo lhes mostramos o que é a felicidade.

E Samuel recordava-se de ter ouvido a história dum primo da sua mãe, um barão irlandês, rico e belo, amado pela mulher mais formosa do mundo e que, apesar disso, metera uma bala nos miolos.

“Há apetites de felicidade, dizia Samuel, que nem todo um paraíso conseguiria satisfazer.”

Adam Trask também fazia incursões no futuro, mas o presente era uma fonte suficiente de felicidade. A alegria invadia-o quando imaginava Cathy sentada ao sol, calma, pegando no filho, com um rosto semelhante ao dos anjos das imagens da primeira comunhão. às vezes, a brisa agitava-lhe os cabelos ou ela erguia os olhos e Adam sentia-se dominado por um êxtase tão profundo que chegava à ser doloroso.

Se Adam se sentia como um gato bem nutrido aninhado nas suas terras, Cathy também parecia um felino. Ela sabia renunciar às coisas para melhor poder vir a obtê-las mais tarde. A sua gravidez não passara de mero acidente. Quando o médico a ameaçara, após a tentativa de aborto, ela abandonara a ideia. Isto não quer dizer que se tivesse reconciliado com o facto de estar grávida. Resolveu levar as coisas com paciência, como se fosse uma crise de urticária, tal como tinha sido o seu casamento com Adam. Caíra na armadilha. Só lhe restava esperar. Também não quisera ir para a

Califórnia, mas não tivera outro remédio. Muito pequena ainda, já aprendera a vencer utilizando o ímpeto do adversário. É fácil dirigir a força dum homem, enquanto que é impossível resistir-lhe. Muito poucas pessoas poderiam podido adivinhar que Cathy não queria estar onde estava e nas condições em que estava. Descansava e aguardava a oportunidade que não deixaria de se apresentar. Tinha a qualidade indispensável aos grandes criminosos: não confiava em ninguém, não se confiava a ninguém. Era uma ilha. Era muito provável que não deitasse um olhar à terra de Adam nem à casa; era natural que os projectos dele não a interessassem pois não tinha a intenção de continuar a viver ali após a sua cura, assim que as maxilas da armadilha se abrissem. Mas às perguntas do marido respondia da forma que ele esperava. Agindo de outro modo, teria perdido tempo e desbaratado forças.

Estás a ver como a nossa casa é bonita com as janelas dando para o Vale?

- É maravilhosa respondia Cathy.

- Talvez te pareça ridículo, mas às vezes tento imaginar o que fez o primeiro Sanchez há centenas de anos. Como seria o Vale, então? Como ele deve ter previsto tudo cuidadosamente! Sabes que havia canalizações? Encontrámos algumas quando revolvíamos a terra. Eram feitas de troncos de sequóia escavados.

É extraordinário. Ele devia ser muito inteligente.

Gostava de saber mais alguma coisa acerca dele. Pela posição da casa, pela sua forma e pelas proporções, pelas árvores que plantou, devia ser um artista no seu género.

Era espanhol, não era? Ouvi dizer que os Espanhóis eram artistas. Recordo-me que no meu livro escolar se falava dum pintor... Não. Esse era Grego.

Gostava de saber onde poderia encontrar informações a respeito do primeiro Sanchez.

Alguém deve saber.

Quando penso no trabalho todo que ele teve, e o Bordoni transformou a casa num estábulo! Sabes o que eu mais gostaria de saber?

O que era, Adam?

Se ele tinha uma Cathy e quem era ela.

Ela sorriu, baixou os olhos e evitou-lhe o olhar.

Dizes-me cada uma...

Devia ter uma, devia. Eu não tinha coragem, não tinha objectivo, nem sequer... tinha grande desejo de viver antes de te conhecer.

Adam, não digas isso. Não faças pouco de mim. Olha que me ofendes.

Desculpa. Sou tão desajeitado.

Não és, não. Mas não reflectes no que dizes. Achas que devo tricotar ou coser? Sinto-me tão bem, sentada ao sol.

Eu compro tudo o que for preciso. Contenta-te em ficar sentada. Num certo sentido, tu ainda és quem mais trabalha aqui.

Mas o resultado é maravilhoso.

Adam, a minha cicatriz nunca mais desaparece.

O médico disse que desaparecia com o tempo.

Às vezes acredito que sim, mas depois ela torna a acentuar-se. Achas que está mais escura, hoje?

Não me parece.

No entanto, estava. Assemelhava-se a uma grande dedada e a pele parecia franzida a toda a volta. Adam aproximou o dedo e ela recuou a cabeça.

Não disse ela -, é muito sensível ao toque. Se carregares, fica encarnada.

Sorriu-lhe quando o viu afastar-se mas, assim que ele desapareceu, os olhos perderam-se-lhe no vazio. Aconchegou-se bem na cadeira. O bebé estava a dar pontapés. Respirou e descontraiu todos os músculos. Esperava.

Lee aproximou-se da cadeira instalada sob o carvalho mais frondoso.

Sinhôla, quê chá?

Não... Quero, sim.

Cathy perscrutou-lhe a expressão mas não conseguiu interpretar o sentido do seu olhar. O chinês deixava-a embaraçada. Cathy sabia perfeitamente rebuscar o cérebro dum homem para lhe adivinhar os ímpetos e os desejos. Mas o de Lee amachucava-se e voltava ao seu lugar como espuma de borracha. O rosto magro com uma testa larga, firme e sensível era agradável; os lábios sorriam sempre. Nas costas pendia e mexia ao ritmo dos gestos o longo rabicho brilhante terminado por uma estreita fita de seda preta.

Quando precisava de fazer um trabalho violento, Lee prendia o rabicho no alto da cabeça. Usava calças de algodão muito cingidas, sandálias pretas sem salto e uma comprida cabaia chinesa. Sempre,que podia, escondia as mãos nas mangas, como que para as proteger.

Vô buscá mesinha disse ele.

Cumprimentou ligeiramente e afastou-se.

Cathy seguiu-o com o olhar e franziu as sobrancelhas. Não tinha medo de Lee e, contudo, não se sentia à vontade na sua presença. Mas era um excelente criado, respeitoso... o melhor.

Que mal lhe poderia fazer?

 

O Verão progredia e o rio Salinas secava. Só algumas poças verdes subsistiam junto das margens. O gado ruminava todo o dia debaixo dos salgueiros e apenas se levantava à noite para comer.

A erva começava a adquirir um tom ruço. À tarde, o inevitável vento descia peloVale e levantava uma poeira que subia como nevoeiro para o céu, até quase ao cimo das montanhas. As raízes da aveia brava, desnudadas pelo vento, pareciam cabeças de preto. Na terra polida, palhas e gravetos corriam doidamente até encontrarem um obstáculo. E os calhaus voavam aos saltos, empurrados pelo vento.

Compreendia-se então porque é que o primeiro Sanchez construíra a casa no valezinho. O vento e o pó não chegavam lá e o ribeiro, embora tivesse um caudal diminuto, continuava a fornecer uma água clara e fria. Mas Adam, sempre que contemplava a sua terra seca, obscurecida pela nuvem de poeira, sentia o pânico próprio do homem do Leste que se vê pela primeira vez na

Califórnia. No Connecticut se, durante o Verão, há duas semanas a fio sem chover, fala-se logo em seca. Quatro semanas são uma catástrofe. Se a erva não se mantém verde, morre. Mas na

Califórnia não chove geralmente entre fins de Maio e princípios de

Novembro. E o homem do Leste, apesar de prevenido, julga que a terra está doente durante os meses secos.

Adam enviou Lee com um recado ao Sr. Hamilton, pedindo- lhe que o fosse ver para discutirem a abertura de alguns poços.

Samuel estava sentado à sombra, observando o filho Tom que montava um novo tipo de armadilha, quando Lee chegou no carro dos Trask. Lee dissimulou as mãos nas mangas, enquanto Samuel lia a mensagem.

Tom disse ele achas que és capaz de tomar conta da propriedade enquanto eu for tratar duma questão de águas com um homem seco?

Leva-me contigo. Talvez precises de ajuda.

Para falar? Não, obrigado. Os trabalhos de abertura ainda levarão certo tempo para começar. Quando se trata de poços, tem de se começar por falar muito. Cerca de quinhentas a seiscentas palavras por cada pazada de terra.

Gostava de ir. Tu vais a casa do Sr. Trask, não vais? Eu não o vi quando cá veio.

Logo vais quando começarem as obras. Como sou mais velho do que tu, tenho o direito de falar em primeiro lugar. Vê se tens cuidado, Tom, se cair uma doninha na armadilha, basta-lhe enfiar uma pata por este sítio para se soltar. Bem sabes como são espertas.

Estás a ver esta barra? Dá uma volta e fica presa. Nem tu eras capaz de te soltar.

Eu não sou tão esperto como uma doninha. Mas parece- me que achaste a solução. Tom, não te importas de selar o

Doxology enquanto vou dizer à tua mãe para onde vou?

Mim leva sinhô disse Lee.

De qualquer forma, tenho de voltar para casa.

Mim tlazê sinhô.

Que disparate! disse Samuel. Atrelo o cavalo ao carro e volto nele.

Samuel sentou-se no cabriolé ao lado de Lee, enquanto o cavalo os seguia com um passo desigual.

Como se chama? perguntou Samuel para ser agradável.

Lee. Tenho outlo nome, mas Lee nome famila do papá.

Tlate-me pu Lee.

Tenho lido muitas coisas sobre a China. Foi lá que nasceu?

Não. Nascê aqui.

Samuel manteve-se calado durante muito tempo, enquanto o carro descia aos solavancos para a poeira do Vale.

Lee disse ele por fim não pretendo ofendê-lo, mas nunca consegui compreender porque é que os da sua raça continuam a falar o pidgim quando os labregos analfabetos das terras negras da Irlanda, que têm o bestunto cheio de gaélico e a língua como uma batata, aprendem o inglês em menos de dez anos.

Lee sorriu.

Mim falá linga chinesa.

Lá deve ter as suas razões e eu não tenho nada com isso.

Espero que me desculpe se não acreditar no que diz.

Lee fitou-o e os seus olhos castanhos sob as pálpebras esféricas pareceram adquirir uma certa profundidade até se tornarem calorosos e compreensivos. Lee riu-se.

É mais do que uma conveniência disse ele. Até é mais do que uma protecção. Se quisermos ser compreendidos, temos de utilizar esta linguagem.

Samuel não deu a entender que notara a modificação.

Compreendo os dois primeiros motivos disse. Agora o terceiro é que não percebo.

- Eu sei que custa a acreditar Mas já nos aconteceu tantas vezes, aos meus compatriotas e a mim, que o consideramos uma regra geral. Se me apresentar a um homem ou a uma mulher e lhes falar como o estou a fazer neste momento, não me compreendem.

Porque estão preparados para ouvir o pidgim e só isso é que percebem. Se falar inglês, não me escutam e, portanto, não me compreendem.

Será possível? Então como é que eu o compreendo?

É por isso que lhe falo. O senhor é um dos raros homens que conseguem separar a ideia recebida da ideia preconcebida.

O senhor vê o que é, enquanto que a maioria das pessoas não vê senão o que espera ver.

Não tinha pensado nisso. Não tenho tanta experiência com você. Mas o que disse parece reflectir a verdade. Estou a gostar muito de conversar consigo. Tinha tantas perguntas a fazer-lhe.

Teria o maior gosto em responder-lhes.

Tantas perguntas. Por exemplo, você usa rabicho. Li em qualquer parte que era um sinal de escravidão imposto pelos conquistadores manchus aos Chineses do Sul.

É a verdade.

Mas então, valha-o Deus, porque é que usa rabicho quando nada tem a recear dos Manchus?

Mim falá pidgim, mim usá rabicho china. Sinhô complende?

Samuel soltou uma gargalhada.

Já compreendi onde quer chegar. Quem me dera ter também um alçapão desses para me escapar de vez em quando.

Não sei se lhe poderei explicar tudo disse Lee. Quando existe uma certa falta de experiência, é muito difícil. Se não me engano, o senhor não nasceu na América...

Não, nasci na Irlanda.

Apesar disso, daqui a alguns anos terá perdido os caracteres distintivos do Irlandês. Enquanto que eu, que nasci na América, que fui à escola e passei vários anos numa universidade, não tenho qualquer probabilidade de vir a passar por americano.

Mesmo que cortasse o rabicho, que se vestisse e falasse como nós?

Sim, mesmo assim. Já tentei. Para os pretensos brancos, eu continuava a ser um chinês, mas um chinês que procurava dissimulá-lo. Ao mesmo tempo, os meus amigos iam-se afastando de mim. Tive de desistir.

Lee deteve o carro sob uma árvore, desceu e tirou o freio ao cavalo.

É tempo de almoçar disse. Trouxe um farnel. Quer partilhá-lo comigo?

Com todo o prazer. Vou pôr-me à sombra. Já me tem acontecido esquecer-me de comer, o que é tanto de estranhar porquanto ando sempre com fome. Interessa-me muito o que diz;

tem um tom de autoridade. Nunca se lembrou de ir para a China?

Lee sorriu com ironia.

Daqui a pouco, há-de ter feito todas as perguntas que eu já fiz a mim mesmo. Já estive na China, já. O meu pai tinha uma óptima situação antes de se vir embora. Comigo não deu resultado. Disseram-me que tinha o ar de um demónio estrangeiro, que falava como um demónio estrangeiro, que cometia faltas de tacto e que ignorava todas as delicadezas que se tinham posto na moda depois da partida do meu pai. A China não queria nada comigo. Quer queira acreditar quer não, sou menos estrangeiro aqui do que na China.

Acredito, pois parece-me muito razoável. Acaba de me fornecer matéria para pensar, pelo menos, durante um ano. As minhas perguntas estão a aborrecê-lo?

Pelo contrário. O defeito do pidgim é que se acaba por pensar em pidgim. Eu escrevo muito para manter o meu inglês em forma. Ouvir e ler não é a mesma coisa que falar e escrever.

E nunca se engana? Quer dizer: nunca lhe acontece começar a falar inglês de repente?

Não. O mais importante é saber-se o que se espera de nós.

Perscrutam-se os olhos dum homem e vê-se logo que ele espera que falem pidgim e que façam erros de sintaxe. Então, pomo-nos a falar pidgim e a massacrar a gramática.

Tem razão -disse Samuel. Eu próprio, se digo piadas é porque as pessoas vêm de muito longe para que eu as faça rir.

Procuro ser engraçado mesmo que esteja invadido pela tristeza.

Mas dizem que os Irlandeses são alegres e felizes.

Isso é o pidgim e o rabicho, deles. Não são, não. É um povo sombrio mais dotado para sofrer do que realmente merece.

Diz-se que se matariam se não tivessem o uísque para lhes adoçar a vida. E se gracejam, é porque é isso o que deles se espera.

Lee tirou uma garrafa do cesto.

Quer provar? É uma bebida chinesa, Ng-ka-py.

- O que é?

Aguardente chinesa. Muito forte. Na realidade, é uma mistura de aguardente e absinto. É fortíssimo e faz adoçar a vida.

Samuel bebeu um gole.

Sabe a maçãs podres.

Pois é, mas a boas maçãs podres. Encha a boca, deixe a língua impregnar-se bem e beba devagarinho.

Samuel tomou um bom trago e atirou a cabeça para trás. Estou a ver o que quer dizer. É, de facto, muito bom.

- Aqui tem sandes, pepino de conserva, queijo e uma lata de leite.

Sabe fazer as coisas.

Claro.

Samuel mordeu uma sandes.

Não tinha menos de quinhentas perguntas a fazer-lhe. Gostaria de lhe fazer a mais interessante de todas. Não o maço?

De forma nenhuma. A única coisa que lhe peço é que não fale assim quando estiverem outras pessoas a escutar. Só contribuiria para as embaraçar e, seja como for, não acreditavam.

Vou tentar disse Samuel. Se me enganar, não se esqueça que tenho fama de cómico. É difícil cortar um homem ao meio e servir-se sempre da mesma metade.

Creio poder adivinhar a sua pergunta.

Qual é?

Porque me contento em ser criado?

Como diabo é que adivinhou?

Era lógico.

A pergunta desagrada-lhe?

Vinda de si, não. Só são desagradáveis as perguntas envolvidas em condescendência. Não compreendo porque é que a condição de criado tem má fama. É o refúgio do filósofo, o alimento do preguiçoso e, se for bem compreendida, é uma posição de poderio e até de amor. Não percebo como é que não há mais pessoas inteligentes que abracem esta carreira, lhe aprendam os segredos e dela beneficiem. Um bom criado está ao abrigo, não atrás da bondade do amo, mas atrás do hábito e da preguiça. Um homem tem dificuldade em cozinhar ou em passajar as meias. E prefere ficar com um mau criado a trocá-lo por outro. Mas um bom criado e eu sou excelente pode dirigir completamente a vida do seu amo. Pode dizer-lhe o que deve pensar, como deve agir, deve casar, quando deve divorciar-se. Pode reduzi-lo ao terror pelo hábito, oferecer-lhe a felicidade e, finalmente, ser contemplado no seu testamento. Se tivesse querido, poderia ter roubado, espoliado e espancado todos aqueles para quem trabalhei, acabando ainda por obrigálos a agradecer-me.. Se pesarmos tudo bem, a minha condição não me protege, mas o meu amo tem o dever de me defender. O senhor é obrigado a trabalhar e a enfrentar as preocupações. Eu trabalho e preocupo-me menos do que o senhor. E sou um bom criado. Um mau criado não trabalha, não se preocupa com nada e não deixa de ser vestido e protegido. Não conheço nenhuma profissão em que haja tanta incompetência e em que a excelência seja tão rara.

Samuel inclinara-se para ele, escutando-o com o maior interesse.

Lee continuou:

Que alívio não vai ser voltar a falar pidgim!

Estamos pertissimo de casa. Porque foi que parámos?

Pâla tê tempo falá. Sinhô tá plonto?

O quê? Ah!... estou, sim. Mas é uma vida muito solitária a sua.

É o único inconveniente. Já pensei em ir para San Francisco e abrir uma lojeca.

Lavandaria? Ou uma mercearia?

Não. Já há muitas lavandarias e restaurantes chineses. Tinha pensado numa livraria. O ramo agradava-me e a concorrência não havia de ser grande. Mas o mais provável é nunca o fazer. Um criado perde o espírito de iniciativa.

 

Samuel e Adam percorreram a propriedade a cavalo. Como todas as tardes, o vento começou a soprar e a poeira amarela ergueu-se no céu.

É uma bela terra -disse Samuel. Não há dúvida que é.

Tenho a impressão de que o vento a leva observou Adam.

Não, apenas a desloca. O que o vento lhe tira vai cair na terra dos James e você recebe o que vem dos Southeys.

Não gosto do vento. Põe-me nervoso.

Ninguém gosta. Até deixa os animais inquietos. Não sei se reparou, mas um pouco mais para o alto do Vale plantam barreiras de eucaliptos para cortar o vento. São árvores que vêm da Austrália e dizem que crescem três metros por ano. Porque não planta algumas filas para ver? Com o tempo, poderão deter o vento e darão excelente lenha para queimar.

Boa ideia disse Adam. Mas o que eu quero é água.

Este vento bombearia toda a água que eu pudesse encontrar...

Pensei que se furasse alguns poços e irrigasse, a terra não se iria embora. Até poderia experimentar semear feijão.

Samuel franziu os olhos para os proteger do vento.

Vou tentar encontrar-lhe água disse. Inventei uma bomba que aspira muito depressa. Um moinho de vento custa caro, mas talvez lhe possa fabricar um mais em conta.

Óptimo disse Adam. Se o vento trabalhar para mim, já não me incomoda e, se tiver água, poderei semear luzerna.

É coisa que rende pouco.

Não é nisso que eu pensava. Há algumas semanas fui dar uma volta para os lados de Greenfield e de Gonzales. Descobri lá uns suíços que alimentam as manadas de vacas leiteiras com quatro colheitas de luzerna por ano.

- Já ouvi falar nisso. Mandaram vir os animais da Suíça.

O rosto de Adam parecia iluminado.

O que eu queria fazer era vender a manteiga e o queijo e dar o almece aos porcos.

Você vai valorizar o Vale disse Samuel. É um homem de iniciativa.

Se encontrar água.

Encontrar-se-á se houver. Trouxe a minha varinha mágica.

Com a mão, acariciou uma varinha bifurcada presa à sela.

Adam apontou à esquerda um grande plaino coberto de artemísia anã.

Veja disse ele. Trinta e seis acres tão lisos como um soalho. Já os sondei. A camada de terra tem a média de um metro de espessura e está ao alcance da relha do arado. Acha que seria capaz de encontrar água?

Não sei disse Samuel. Vou ver.

Desceu do cavalo, estendeu as rédeas a Adam e pegou na varinha. Depois, principiou a andar. Lentamente, com os braços esticados para a frente, segurando cada uma das pontas da forquilha. Deslocava-se em ziguezague. Uma vez, franziu o cenho, recuou alguns passos, depois abanou a cabeça e recomeçou a avançar. Adam cavalgava ao lado dele, segurando o outro cavalo.

Adam não desviava os olhos da varinha. Viu-a estremecer e depois torcer-se ligeiramente como a ponta duma cana de pesca que fosse puxada por um peixe invisível. O rosto de Samuel estava contraído. Continuou a andar até que a extremidade da varinha pareceu violentamente atraída para o chão, lutando contra a mão que a retinha. Samuel girou lentamente em círculo, partiu um ramo de artemísia e atirou-o ao chão. Depois, saiu do círculo traçado, tornou a colocar a varinha em posição e dirigiu-se para o centro marcado pelo ramo quebrado. À medida que se aproximava, a ponta da varinha era novamente atraída. Samuel suspirou, pareceu distender-se e deixou cair a varinha no chão.

Aqui há água disse ele. E não está muito profunda. A atracção era forte. Deve haver muita água.

Bom disse Adam. Vou mostrar-lhe dois outros sítios.

Samuel desfolhou um ramo de artemísia e espetou-o na terra. Depois, fendeu-o na ponta e entalou outro galho para servir de ponto de referência. Antes de se ir embora, ainda calcou o solo para poder encontrar a marca com facilidade.

Numa segunda tentativa, a trezentos metros de distância, a varinha pareceu literalmente querer fugir-lhe das mãos.

Há toneladas de água disse ele.

A terceira tentativa não obteve resultado. Após hora e meia de esforços, a varinha não deu o mais pequeno sinal de agitação. Os dois homens regressaram lentamente a cavalo para casa. O ar estava doirado pela refracção dos raios solares através da poeira amarela. Como de costume, o vento acalmara com o cair da tarde, mas às vezes só a meio da noite é que a poeira voltava a cair no chão.

Eu bem sabia que era uma boa terra disse Samuel.

É uma coisa, que se nota à primeira vista. Deve haver um rio subterrâneo que vem da serra. O senhor sabe escolher uma terra.

Adam sorriu.

Nós tínhamos um rancho no Connecticut. Há seis gerações que não fazemos outra coisa senão arrancar-lhe as pedras.

Mal sabia andar já apanhava pedras para fazer muros. Até julgava que todas as herdades fossem iguais. Aqui a terra parece-me estranha e eu quase que me sinto culpado. Se quiséssemos uma pedra teríamos de andar muito antes de a encontrar.

O pecado é coisa curiosa observou Samuel. Se um homem se visse obrigado a despojar-se de tudo o que tem, creio que o faria de modo a ficar com alguns pecadinhos para seu próprio tormento. São sempre as últimas coisas que largamos.

Talvez seja um bom meio de se mostrar humilde perante a ira de Deus.

Não há dúvida de que a humildade é uma boa coisa disse Samuel -, pois raros são os homens que não a têm, mesmo em pequena quantidade. Mas chega-se a perguntar onde é que reside o seu valor. A não ser que a aceitemos como uma dor agradável e muito preciosa. A dor... gostava de saber se já alguma vez foi bem compreendida.

Fale-me da sua varinha pediu Adam. Como é que funciona?

Samuel designou com o dedo a varinha bifurcada presa na sela.

A verdade é que não acredito nela. Mas não há que duvidar:

funciona. (Sorriu a Adam.) -Talvez eu saiba onde se encontra a água, talvez eu a sinta. Uns têm o sentido da orientação, outros têm o sentido da água. Suponha... chamemos humildade, ou falta de fé em mim mesmo às razões que me obrigam a empregar métodos de feiticeiro para trazer à superfície o que eu sei existir com toda a certeza. Compreende o que eu quero dizer?

Preciso de pensar nisso disse Adam.

Os cavalos caminhavam à vontade, de cabeça baixa e freio nos dentes.

Quer passar cá a noite? perguntou Adam.

Podia fazê-lo mas mais vale que não. Não preveni a Lizza e não quero que se aflija por minha causa.

Mas ela sabe onde está.

Pois sabe, mas prefiro voltar para casa. A hora pouco importa. Se me convidar para jantar, aceito. Quando quer começar a abrir os poços?

Assim que puder.

Sabe que a mania da água não sai nada barata? Terei de levar cinquenta cêntimos ou mais por cada meio metro, consoante o terreno que encontrarmos. Pode sair-lhe caro.

Dinheiro não me falta. O que eu quero é água. Oiça, Sr. Hamilton...

Trate-me por Samuel.

Oiça, Samuel, eu quero transformar a minha terra num jardim. Não se esqueça de que me chamo Adam. Até hoje, nunca conheci o paraíso ou, se o conheci, foi para me ver posto na rua.

Não se pode arranjar melhor pretexto para fazer um jardim exclamou Samuel.E onde tenciona plantar o pomar?

Adam respondeu:

Não quero macieiras. É escusado ir ao encontro dos aborrecimentos.

E que diz a isso a sua Eva? Não se esqueça de que a opinião dela também conta. Eva adora as maçãs.

A minha não. (Os olhos de Adam brilhavam.) Você não conhece a minha Eva. Há-de ficar satisfeita com a minha decisão.

Ninguém pode avaliar até onde vai a generosidade dela.

Então é uma raridade. Não há maior dom.

Aproximavam-se da entrada do pequeno vale onde se escondia a casa dos Sanchez. Já se avistavam as copas verdes e arredondadas dos grandes carvalhos.

Um dom disse brandamente Adam.-O senhor nem pode imaginar. A minha vida era cinzenta, Sr. Hamilton... Samuel. Não que fosse má, comparada com outras vidas, mas não era nada.

Nem sei porque lhe estou a dizer isto.

Talvez seja por eu gostar de ouvir.

A minha mãe faleceu muito antes de eu começar a ter recordações; a minha madrasta era uma mulher cheia de qualidades, mas doente. O meu pai era um homem severo. Talvez fosse um grande homem...

E não conseguia gostar dele.

Sentia por ele o que se sente na igreja, mas sem sombra de medo.

Samuel aquiesceu.

Bem sei. E é o que pretendem certos homens. (Sorriu.)

Sempre desejei outro amor. A Lizza diz que é uma das minhas fraquezas.

O meu pai alistou-me no exército. Estive no Oeste a combater os índios.

Já me disse isso, mas não raciocina como um militar.

Nunca o consegui ser. Parece-me que lhe estou a contar a minha vida.

É porque o deseja. Há sempre uma razão.

Um soldado deve querer fazer o que lhe mandam. Ou, pelo menos, não deve ir contra as ordens. Eu não conseguia descobrir motivos fortes para matar homens e mulheres e não compreendia as justificações quando as davam.

Cavalgaram um momento em silêncio e, depois, Adam prosseguiu:

Saí do exército a arrastar-me como se quisesse livrar-me dum atoleiro. Vagueei muito tempo antes de voltar a casa, um lugar de que me lembrava mas que não amava.

E o seu pai?

Morreu. E a casa não era mais que um lugar para me sentar, ou trabalhar enquanto a morte não vem, como se se esperasse por uma festa terrível.

É filho único?

Não. Tenho um irmão.

E onde está ele? Espera pela festa?

Sim, é exactamente isso. Foi então que apareceu a Cathy.

Talvez lhe conte um dia como as coisas se passaram, se estiver disposto a ouvir.

Pode crer que estou. Gosto de histórias como de uvas.

Ela emitia uma espécie de luz. E tudo mudou de cor. O mundo abriu-se e sabia bem acordar. Já não havia limites. As pessoas eram boas e belas. Eu perdera o medo.

Estou a reconhecer isso disse Samuel.É um velho conhecimento. Sem nunca morrer completamente, às vezes afasta-se ou então é você que o faz. Estou a reconhecer isso, estou os mesmos olhos, o nariz, a boca e o cabelo.

E tudo veio duma rapariguinha ferida.

E de si mesmo, também não?

- Ah! não. Teria vindo mais cedo. Foi a Cathy quem o trouxe e é ela própria quem o alimenta. É por isso que quero água. Tenho de pagar o que recebi. Vou fazer um jardim maravilhoso onde ela possa viver e espalhar a sua luz.

Samuel engoliu a saliva várias vezes. Quando falou, a voz parecia comovida.

Sei qual é o meu dever disse ele. E devo cumpri-lo, se sou homem e se sou realmente seu amigo.

Que quer dizer?

Samuel acrescentou com ironia:

É meu dever arrancar essa coisa que vive em si, esmagar- lhe a cabeça, plantá-la à sua frente e cobri-la de cal viva para que não irradie. (A voz avolumou-se, veemente.) Deveria mostrá-la a si tal qual é: fedendo a esterco, perigosa e porca. Deveria aconselhá-lo a perscrutá-la até que descobrisse como ela na realidade é medonha. Deveria acautelá-lo contra a infidelidade e dar-lhe exemplos. Deveria estender-lhe o lenço de Othello. Ai não que não sei que deveria fazê-lo! E deveria endireitar-lhe os pensamentos desequilibrados e mostrar-lhe que esse entusiasmo é cinzento como o chumbo e está podre como um animal morto. Se cumprisse o meu dever, devolvê-lo-ia à sua antiga e triste vida e só teria que me felicitar por isso.

Está a brincar? Talvez não devesse ter-lhe dito...

Um dia, um dos meus amigos cumpriu o seu dever para comigo. Mas eu sou um falso amigo. Você possui uma coisa magnífica, preserve-a e arda com ela. E quanto a mim, abro-lhe todos os poços que quiser, nem que tenha de enfiar a sonda até às negras entranhas da terra. A água há-de esguichar como o sumo dum fruto.

Cavalgaram sob os grandes carvalhos em direcção à casa.

Adam disse:

Lá está ela, sentada à porta. (Gritou:) Cathy, há água, muita água. (Depois, numa voz perturbada, acrescentou para

Samuel:) Sabia que ela estava à espera duma criança?

Mesmo de tão longe, parece muito bonita respondeu

Samuel.

 

O dia fora muito quente. O Sol estava quase a desaparecer por detrás das cristas da serra. Lee pôs a mesa debaixo dum carvalho, andando numa roda-viva entre a árvore e a cozinha, levando as carnes frias, os picles, a salada de batata, um bolo de coco e uma torta de pêssegos. No centro da mesa, colocou um grande jarro de barro cheio de leite.

Adam e Samuel voltaram do lavatório com a cara e o cabelo reluzentes de água; a barba de Samuel encaracolara após a ensaboadela. Ficaram de pé diante da mesa desmontável e aguardaram Cathy.

Ela chegou devagar, pousando cautelosamente os pés, como se tivesse medo de cair. Uma saia plissada e um avental dissimulavam, até certo ponto, o ventre inchado. O rosto tinha uma expressão calma e infantil; vinha de mãos cruzadas em cima da barriga. Só quando chegou perto da mesa é que ergueu os olhos para contemplar Samuel e, logo a seguir, Adam.

Adam ofereceu-lhe uma cadeira.

Ainda não conheces o Sr. Hamílton, querida.

Cathy estendeu a mão.

Como está?

Samuel estivera a observá-la e achava-a bela.

Muito prazer em conhecê-la. Tem passado bem, não é verdade?

Tenho, sim, muito obrigada!

Os homens sentaram-se.

Para ela, cada refeição é uma cerimónia que ela honra ou não com a sua presença disse Adam.

Não digas isso. Não é verdade.

Não acha que há uma atmosfera de festa, esta tarde,

Samuel?

É verdade. E, pelo que me toca, estou sempre disposto a participar numa festa. Quanto aos meus filhos, ainda são piores.

O meu filho Tom queria vir hoje. Ficou a remorder-se na quinta.

Samuel notou subitamente que estava falando para evitar que o silêncio caísse sobre eles. Calou-se e o silêncio amortalhou-os.

Cathy olhava para o prato enquanto comia a fatia de carneiro assado. Só erguia a cabeça para introduzir uma garfada entre os dentinhos aguçados. Nos olhos muito abertos, não havia nada.

Samuel arrepiou-se.

Faz frio, não faz?perguntou Adam.

Frio? Não. Parece que alguém me pisou a sepultura.

Já tenho tido essa sensação.

O silêncio voltou a cair. Samuel esperava que atirassem uma frase, mas já sabia que tal não aconteceria.

A Sr.a Trask gosta do nosso vale?

Como? Gosto, gosto.

Se não sou indiscreto, quando espera ser mãe?

Daqui a umas seis semanas respondeu Adam. A minha mulher é daquelas que não falam muito.

“Um silêncio pode ser revelador”, reflectiu Samuel. E viu que os olhos de Cathy se erguiam para logo se baixarem, e pareceu- lhe que a cicatriz que ela tinha na testa ficava mais escura. Tinha sido atingida por algo, como quando se roça num cavalo com a ponta dum chicote. Samuel não via o que poderia ter dito para a alarmar. Sentia uma tensão semelhante à que precede a torção da varinha de aveleira: era algo estranho e forçado. Dirigiu o olhar para Adam: ele fitava a mulher intensamente. O que era estranho não o era para Adam. O seu rosto reflectia a felicidade.

Cathy mastigava um bocado de carne com os incisivos. Samuel nunca vira mastigar assim. Após ter engolido, ela lambia os lábios.

Na cabeça de Samuel, martelava uma frase: “Há qualquer coisa, qualquer coisa que não consigo descobrir. Qualquer coisa que não está bem. “ E o silêncio envolveu o grupo.

Ouviu uma coisa deslizar atrás dele. Voltou-se. Lee poisou um bule em cima da mesa e retirou-se silenciosamente.

Samuel recomeçou a falar para repelir o silêncio. Contou como viera ter ao Vale, vindo direito da Irlanda, mas, após algumas palavras, verificou que tanto Cathy como Adam já não o escutavam.

Para ter a certeza, utilizou o processo que empregava com os filhos quando, depois de lhe pedirem que lhes lesse uma história, deixavam de o interromper. Lançou duas frases que nada significavam. Não houve reacção. Desistiu.

Apressou-se a comer, bebeu o chá a ferver e dobrou o guardanapo.

Se me dá licença, minha senhora, vou voltar para casa.

Boa noite disse ela.

Adam levantou-se de um salto. Parecia que o tinham arrancado a um sonho.

Não se vá embora, agora. Esperava que passasse a noite aqui.

Não, obrigado. Não posso. E depois a caminhada não é grande e o luar ajuda.

Quando começa a perfuração?

Tenho de preparar as brocas, afiá-las e deixar tudo em ordem antes de me vir embora. Dentro de poucos dias, mando o meu filho com o material.

Adam renascia para a vida.

Não demore disse ele. Cathy, nós vamos ter o mais belo jardimdo mundo. Não haverá nada que se lhe possa comparar.

Samuel desviou rapidamente o olhar para Cathy. O rosto continuava imóvel. Os olhos mantinham-se frios e a boca levemente arqueada nos cantos era apenas uma linha.

Há-de ser óptimo.

Por instantes, Samuel teve vontade de fazer ou de dizer alguma coisa que afizesse sair do mundo onde se refugiara. Percorreu- o um novo arrepio.

Andam outra vez em cima do seu túmulo? perguntou

Adam.

Parece que sim.

O crepúsculo aproximava-se e as árvores já desenhavam silhuetas negras no fundo do céu.

Boa noite.

Vou acompanhá-lo.

Não, fique com a sua mulher. Ainda não acabou de jantar.

Mas eu...

Deixe-se estar sentado. Hei-de dar com o meu cavalo. Se não conseguir, roubarei um dos seus. (Samuel empurrou amavelmente Adam para a cadeira.) Boa noite. Boa noite, minha senhora.

Encaminhou-se rapidamente para o celeiro.

Doxology, o velho cavalo de cascos chatos, comia desdenhosamente com a ponta dos beiços o feno disposto na manjedoira.

A corrente batia na madeira. Samuel despendurou a sela do prego e atirou-a sobre o largo costado. Estava a apertar a cilha quando ouviu um ligeiro rumor. Voltou-se e viu a silhueta de Lee que se recortava na tarde moribunda.

Quando volta? perguntou suavemente o chinês.

Não sei. Dentro de alguns dias. Talvez uma semana. Lee, que se passa?

Onde?

Que se passa aqui? Há qualquer coisa que me intriga.

Que quer dizer?

Sabe muito bem.

Cliado chinê tlabalhá. Não escutá. Não falá.

Sim, sim, parece-me que tem razão. Não devia ter-lhe perguntado. Fui indelicado.

Voltou-se, meteu o freio na boca de Dox e passou por entre as orelhas a rédea que segurava os antolhos. Soltou a corrente e deixou-a cair na manjedoira.

Boa noite, Lee.

Sr. Hamilton...

O que é?

Não precisa dum cozinheiro?

Não posso dar-me esse luxo.

Eu não peço muito.

A Lizza dava cabo de si. Porquê? Quer ir-se embora?

Foi só para saber. Boa noite.

 

Adam e Cathy estavam sentados debaixo da árvore no crepúsculo que se adensava.

É um bom homem disse Adam.Agrada-me. Gostava de o convencer a vir viver para aqui e a dirigir a exploração. Uma espécie de administrador.

Cathy respondeu:

Ele tem uma casa e família.

Pois tem. Mas a terra dele é a coisa mais pobre que já se viu. Ganhava mais se trabalhasse aqui. Hei-de perguntar-lhe. É preciso tempo para nos adaptarmos a uma nova terra. É como se nascêssemos de novo e tivéssemos de reaprender tudo. Na minha terra, saberia de onde vinha a chuva. Aqui é diferente. Na minha terra, adivinhava quando se aproximava o vento e quando faria frio. Mas hei-de aprender. É preciso tempo. Sentes-te bem,

Cathy?

Sinto.

Um dia e já não falta muito todo este vale ficará verde de luzerna. Hás-de vê-la das grandes janelas da casa. Plantarei filas de eucaliptos. Vou mandar buscar sementes e plantas para transformar isto numa espécie de herdade experimental. Podia tentar plantar nogueiras anãs da China. Gostava de saber se pegariam. Não custa nada tentar. O Lee logo me aconselha. Quando a criança tiver nascido, percorreremos toda a plantação a cavalo.

Tu ainda não a viste bem. Já te disse que o Sr. Hamilton vai montar moinhos de vento? Havemos de vê-los girar à nossa frente.

(Estiraçou as pernas sob a mesa.) O Lee devia trazer velas. Só gostava de saber o que andará a fazer.

Cathy articulou muito devagar:

Adam, eu não queria vir e não ficarei aqui. Assim que puder, vou-me embora.

Não digas disparates. (Adam riu-se.) És como uma criança que deixa os pais pela primeira vez. És como eu. Quando fui para a tropa, julguei morrer de tristeza. Mas depressa me recompus. Toda a gente se recompõe. Deixa-te de disparates.

Não são disparates.

Peço-te o favor de não dizeres nada. Assim que o bebé nascer, tudo há-de mudar, verás.

Cruzou as mãos atrás da cabeça e ergueu os olhos para o céu.

Através da ramaria das árvores, avistava a luz pálida das estrelas.

 

 

                     CAPÍTULO XVI

 

A noite era tão clara que as colinas pareciam feitas da mesma matéria que o luar. Samuel Hamilton cavalgava numa paisagem silenciosa, desprovida de ar, morta. As sombras eram negras sem meios-tons e as claridades, brancas, sem cor. Aqui e ali, Samuel surpreendia a actividade secreta dos animais nocturnos: o gamo que pasta toda a noite quando há lua e que dorme nas moitas durante o dia; os coelhos bravos, os ratos dos campos e todos os outros animaizinhos perseguidos de dia, esgueiravam-se, saltavam, escondiam-se ou imobilizavam-se em atitudes que os faziam assemelhar-se a pedras ou a arbustos, quando o ouvido ou as narinas descobriam um perigo; os ratoneiros também metiam mãos à obra: a esguia doninha que ondula como uma vaga pardacenta;

o gato selvagem, rastejando sempre e quase invisível, excepto quando os olhos amarelos reflectem a luz e cintilam; a raposa sempre a farejar com o focinho afilado, à procura duma refeição sangrenta; os raccoons que patinham na água e imitam o coaxar das rãs. Os coiotes vagueavam pelos caminhos e, atormentados por um alegre penar, levantavam a cabeça e uivavam à Lua sua deusa uma soluçante explosão de riso. E por cima deste mundo de sombra, voavam as corujas, desenhando um rastro de medo obscuro no chão. O vento da tarde amainara e só uma pequena brisa suspirosa nascia das terras frias, atraída pelas colinas quentes.

O ruído forte e irregular dos cascos de Doxology impunha o silêncio à fauna nocturna mesmo muito depois de se ter extinguido.

A barba de Samuel brilhava e o cabelo estava revolto.

O chapéu preto ia pendurado no arção. Sentia um mal-estar no estômago, uma apreensão que se assemelhava ao princípio dum pesadelo. Era o weltschmerz, que nós transformámos em welsrats, palavra que traduz toda a tristeza do mundo que invade a alma como um gás e dela tão bem se apossa que é escusado procurar a origem do mal ninguém a consegue descobrir.

Samuel rebuscou a memória. Tornou a ver a bela herdade e as suas promessas de água. Nada que pudesse magoar, a não ser que dissimulasse ciúmes inconfessáveis. Interrogou-se e não encontrou quaisquer vestígios de ciúme. Recordou então o sonho de Adam e o seu jardim do Paraíso, a sua adoração por Cathy. Nada, também, a não ser que... a não ser que alimentasse no fundo de si mesmo uma secreta amargura e que a velha ferida não tivesse cicatrizado. Mas havia já tanto tempo que esquecera a dor... Ainda conservava uma lembrança quente e suave, agora que tudo acabara. Os seus rins e as suas coxas já tinham esquecido o desejo.

Enquanto cavalgava através da luz e da sombra, continuava a procurar. Quando tinham começado a fervilhar no seu peito os animais roedores? Foi então que descobriu. Era Cathy, a pequena, a delicada Cathy. Sim, mas depois? Era silenciosa. Muitas mulheres o são. O que era então? De onde vinha o mal? Sentira uma tensão comparável à que antecede a descoberta da água. Lembrou-se dos arrepios, dos passos sobre o túmulo. Conseguira determinar o tempo, o lugar e o actor. Acontecera durante o jantar, tudo viera de

Cathy.

Evocou a sua imagem e observou-lhe os olhos muito abertos, as narinas delicadas, a boca bonita mas demasiado pequena para o seu gosto, o queixinho firme, depois voltou novamente aos olhos.

Eram frios? Seria dos olhos? Voltava sempre ao mesmo ponto.

Os olhos de Cathy não eram habitados. Não comunicavam nada.

Por detrás deles nada havia de familiar. Não eram olhos humanos. Lembravam-lhe qualquer coisa. Mas o que era? Uma recordação? Uma imagem? Percorreu demoradamente a memória e, de súbito, reviveu.

A imagem brotou do fundo dos anos com as suas cores, os seus gritos e as suas sensações compactas, intactas. Viu-se garoto ainda tão pequeno que era obrigado a pôr-se na ponta dos pés para chegar à mão do pai. As calçadas de Londonderry faziam-no tropeçar. Nunca tinha visto outra grande cidade. As pessoas empurravam-no e divertiam-se. Era uma festa com os seus teatros de marionetas, os seus tabuleiros de legumes, os seus cavalos e os seus carneiros apresentados na rua para venda, e os vendedores de bugigangas de cores berrantes, bugigangas desejáveis e que talvez obtivesse visto o pai estar bem disposto.

Foi então que a multidão se engolfou numa ruela estreita, como destroços arrastados pela corrente. Os peitos faziam pressão nas costas e andava-se levantando muito os pés. A rua desembocava numa praça e, na parede cinzenta duma casa, destacava-se a alta estrutura duma forca de onde pendia um nó corredio.

Samuel e o pai foram arrastados, empurrados pela enxurrada até ficarem junto da forca. Samuel ainda ouvia o pai a dizer:

“Não é para crianças. Não é para ninguém e, muito menos, para uma criança.” O pai lutou para se voltar, para tentar abrir caminho na multidão. “Deixem-nos sair, tenho uma criança.”

A massa era anónima e empurrava sem paixão; Samuel ergueu a cabeça. Um grupo de homens com fatos e chapéus pretos subira à alta plataforma e rodeava um homem de cabelos doirados, envergando umas calças negras e uma camisa azul-clara, aberta no peito. Samuel e o pai estavam tão próximos que a criança era obrigada a levantar a cabeça para ver.

O homem doirado parecia não ter braços. Contemplou a multidão e, depois, baixou o olhar e fitou Samuel. A imagem destacava-se na luz, clara e perfeita. Os olhos do homem não tinham profundidade. Não eram como os outros olhos. Não eram os olhos dum homem.

Subitamente, a agitação redobrou na plataforma e o pai de

Samuel colocou as mãos na cabeça do filho. As palmas cobriram as orelhas e os dedos juntaram-se na nuca. Depois, as mãos apoiaram-se com toda a força na cara, obrigando o rosto a encostar-se ao capote domingueiro do pai. Tentou lutar mas não conseguiu desenvencilhar a cabeça. Só distinguia uma faixa de luz e um murmúrio surdo. Ouvia as pancadas do coração. Depois, as mãos que o mantinham contraíram-se, o pai parou de respirar e o seu corpo pôs-se a tremer.

Havia ainda outra imagem. Juntou os fragmentos e examinou-a por cima da cabeça do cavalo: uma mesa usada numa taverna, risos e exclamações. O pai tinha à frente uma caneca de estanho cheia de cerveja; ele tinha uma chávena de leite quente com canela. O pai tinha os lábios curiosamente azuis e lágrimas nos olhos.

Se soubesse, não te teria trazido. Não é espectáculo para um homem e muito menos para um rapaz.

Eu não vi nada retorquiu Samuel. Tu baixaste-me a cabeça.

Ainda bem.

O que era?

Mais vale dizer-te. Estavam a matar um homem mau.

Era o homem doirado?

Era, sim, mas não fiques triste. Ele devia morrer, não uma, mas muitas vezes. Praticou actos horriveis, coisas que só um monstro pode imaginar. E o que me custa não é que o tenham enforcado, mas que isso tenha sido pretexto para uma festa, quando afinal um homem devia ser enforcado em segredo e às escuras.

Eu vi o homem doirado. Ele olhou para mim.

Só por isso, sinto-me satisfeito por ele já não existir.

O que é que ele tinha feito?

Não quero que tenhas pesadelos.

O homem doirado tinha uns olhos estranhos. Pareciam-se com olhos de cabra.

Bebe o teu leite doce se queres que eu te dê um pau com fitas e um apito dos grandes a imitar prata.

E a caixa reluzente com um boneco lá dentro?

Isso também. Bebe o leite e não peças mais nada.

Era esta a imagem arrancada ao passado poeirento.

Doxology subia a última encosta antes da depressão onde se erguia a casa, e os seus grandes cascos tropeçavam nas pedras.

“Eram os olhos, não há dúvida, pensava Samuel. Em toda a minha vida, só vi duas vezes olhos como aqueles. Olhos desumanos.” E, acrescentou para consigo: “São as fantasmagorias da noite! Que relação pode existir entre o homem doirado que enforcaram há tanto tempo e a linda mulherzinha grávida? A Lizza tem razão. A minha imaginação ainda prega comigo no Inferno. Tenho que me livrar deste pensamento estúpido ou ainda acabo por passar o resto do tempo à procura do Diabo naquela criatura. É assim que a gente cai no laço. O melhor é pensar agora nisto a valer e depois pôr uma pedra no assunto. Trata-se apenas duma semelhança de forma e de cor. Mas não, não é bem isso. Trata-se dum olhar, e tanto a forma como a cor nada têm que ver com isso. Mas então porque é que um olhar é mau? Talvez já tenha havido algum santo com um olhar desses. Agora vê se te livras de todo este romanesco... para sempre.” Estremeceu. “Vou ter que pôr um gradeamento à roda da minha sepultura, para que ninguém a pise.”

E Samuel Hamilton, para resgatar os maus pensamentos, resolveu dedicar todos os seus esforços à criação do Paraíso do vale do Salinas.

 

Lizza Hamilton, toda afogueada, andava dum lado para o outro na cozinha, como uma fera enjaulada. Uma fogueira de carvalho ardia no forno do pão. A massa levedava nos cestos. Lizza levantara-se antes do romper do dia, como de costume. Ficar na cama depois da aurora ou passear após o crepúsculo era cometer um pecado. Uma só pessoa no mundo podia ficar impunemente estendida na cama depois da aurora, e essa pessoa era Joe, o filho mais novo de Lizza.

Só Tom e Joe viviam agora na herdade. Tom, espadaúdo e corado, preocupando-se já com o bigode que despontava, estava sentado à mesa da cozinha, com as mangas abotoadas como lhe tinham ensinado. Lizza deitou pequenas bolas de massa numa pedra chata. Formaram-se vulcões que assobiavam. Os coscorões tinham uma cor acastanhada, mais escura nas bordas. A cozinha rescendia.

Samuel entrou, vindo do pátio onde se fora lavar. A cara e barba escorriam água. Samuel desenrolou as mangas da camisa abotoou-as antes de entrar na cozinha. As mangas arregaçadas à mesa não eram autorizadas pela Sr.a Hamilton. Considerava-as uma ignorância ou um desprezo das leis da etiqueta.

Estou atrasado, mamã disse Samuel.

Ela não se voltou para o olhar. A espátula que tinha na mão deslocou-se com a rapidez duma serpente que ataca e as bolinhas de massa, ao serem voltadas, puseram-se a chiar na pedra quente.

Que horas eram quando entraste? perguntou ela.

Oh! era tarde, bastante tarde. Aí umas onze horas. Não vi as horas com medo de te acordar.

Eu não acordei -resmungou Lizza. Talvez julgues que é bom para a saúde andar a vadiar toda a noite. Mas Deus Nosso

Senhor fará o que entender.    

Era bem notório que Deus Nosso Senhor e Lizza professavam a mesma opinião em quase todas as circunstâncias. Ela voltou- se, esboçou um gesto rápido, e um prato de bolos quentes a estalar foi parar às mãos de Tom.

Que te pareceu a terra dos Sanchez? perguntou Lizza.

Samuel aproximou-se da mulher, inclinou-se e beijou-lhe a bochecha corada.

Bom dia, mamã. Dá-me a tua bênção.

Deus te abençoe respondeu maquinalmente Lizza.

Samuel sentou-se à mesa e disse:

Deus te abençoe, Tom. Pois muito bem! O Sr. Trask tem feito grandes mudanças. Está a reparar a casa velha para ir viver para lá.

Lizza virou-se com um movimento brusco.

A casa onde as vacas e os porcos dormiram durante anos?

Oh! Eles rasparam os soalhos e substituíram as janelas.

Foi tudo arranjado de novo e pintado de fresco.

O cheiro dos porcos nunca há-de desaparecer disse

Lizza com firmeza. O fedor dos porcos resiste a tudo.

Garanto-te que entrei em casa e que não me cheirou a nada, a não ser a tintas.

Quando secar a tinta, volta o cheiro dos porcos.

Ele arranjou um jardim atravessado por um ribeiro e já tem o lugar para as flores, para as rosas, e mandou vir plantas de Bóston.

Não sei se o Senhor verá um tal desperdício com bons olhos disse ela a resmungar.Mas as rosas nada têm que se lhes diga.

Ele prometeu dar-me algumas estacas disse Samuel.

Tom terminou os bolos e mexeu o café.

Que género de homem é ele, papá?

Creio que é um homem de valor. Sabe falar bem e tem o espírito fino. Pareceu-me um pouco sonhador...

Vejam-me isto: a desgraça a fazer pouco da miséria!

interrompeu Lizza.

Bem sei, mamã, bem sei. Mas nunca terás tu compreendido que os meus sonhos substituíam algo que eu não tenho?

O Sr. Trask pode dar-se ao luxo de sonhar. O dinheiro tudo consegue. Ele quer fazer da sua terra um jardim e há-de conse- gui-lo.

Como é a mulher dele?perguntou Lizza.

É muito nova e muito bonita. É calma e fala pouco. Está prestes a ter o primeiro filho.

Bem sei disse Lizza. Qual é o nome dela de solteira?

Não sei.

De onde é?

Não sei.

Lizza colocou um prato de bolos quentes diante de Samuel, deitou café numa chávena e tornou a encher a de Tom.

Que foi que descobriste, afinal? Como se veste ela?

Veste-se muito bem. Tinha um vestido azul com um casaquinho cor-de-rosa apertado na cintura.

Isso não te escapou! Saberás dizer-me se era feito por ela ou comprado na loja?

Oh! era comprado na loja.

Não sejas mentiroso afirmou Lizza Também pensaste que o vestido de viagem que a Dessie fez para ir a San José era comprado na loja.

A Dessie tem muita habilidade. Na mão dela, as agulhas até cantam.

Tom disse:

A Dessie talvez vá abrir uma loja de roupas, em Salinas.

Foi o que ela me disse replicou Samuel. Há-de vingar.

Salinas? (Lizza pôs as mãos nas ancas.) A Dessie não me disse nada.

Parece-me que traímos a nossa amiguinha disse Samuel.

Ela queria fazer uma surpresa à mãe, nós fomos estragar tudo, como quem destapa uma coisa escondida.

Ela podia ter-me dito continuou Lizza.Não aprecio surpresas. Bom. Prossegue. Que estava ela a fazer?”

- Quem?

A Sr.a Trask, quem havia de ser?

O que estava a fazer? Estava simplesmente sentada. Sentada numa cadeira debaixo dum carvalho. O parto está para breve.

As mãos, Samuel, as mãos? Que estava ela fazendo com as mãos?

Samuel rebuscou na memória.

Nada, se bem me lembro. Estou agora a recordar-me. Ela tem umas mãos muito pequenas e tinha-as cruzadas em cima dos joelhos.

Lizza fungou.

Não estava a coser? Nem a passajar? Não estava a fazer malha?

Não, mamã.

Não sei se será muito bom para ti ires a essa casa. A riqueza e a ociosidade são as armas do Maligno, e tu não ofereces lá uma grande resistência.

Samuel ergueu a cabeça e riu com prazer. Às vezes, a mulher provocava-lhe hilaridade, mas ele não lhe podia confessar porquê. Precisamente por ele ser rico que eu lá vou, Lizza. Tencionava dizer-to depois do pequeno almoço para que tivesses tempo de me ouvir. Ele quer que eu lhe abra quatro ou cinco poços e que instale moinhos de vento e talvez, até, reservatórios.

Ficou tudo bem assente? Trata-se de um moinho de vento para extrair a água? Achas que te pagará ou que voltas com desculpas como é costume? “Paga-me quando fizer a ceifa” imitou ela.”Paga-me quando lhe morrer o tio milionário.” Já sei por experiência, Samuel, que quando não te pagam logo, nunca mais te pagam. Com tudo o que te devem, já podíamos ter comprado um rancho no fundo do Vale.

O Adam Trask há-de pagar disse Samuel.Ele tem dinheiro. O pai deixou-lhe uma fortuna. É um Inverno inteiro de trabalho, mamã. Poderemos pôr alguma coisa de lado e ter um verdadeiro Natal. Ele paga-me dólar e meio por cada metro, mais os moinhos de vento. Posso fabricar tudo aqui, excepto os revestimentos. Vou precisar dos rapazes para me ajudarem e levo o Tom e o Joe comigo.

O Joe não irá disse ela. Bem sabes como ele é delicado.

Parece-me que se poderia desembaraçar duma parte da sua delicadeza. Tanta delicadeza é capaz de o matar à fome.

O Joe não irá atalhou ela. E quem tratará da herdade enquanto tu e o Tom andarem por fora?

Tinha pensado em pedir ao George para voltar. Ele não gosta do trabalho de escritório em King City.

Talvez não goste, mas por oito dólares por semana nem sempre se faz o que se quer.

Mamã suplicou Samuel. Nunca mais teremos uma oportunidade igual a esta de abrir uma conta no banco. Não desafies a sorte com o peso da tua língua. Peço-te por tudo, mamã.

Lizza resmungou toda a manhã enquanto Tom e Samuel se ocupavam do material de perfuração, desenhavam esboços de moinhos de vento revolucionários e estabeleciam os planos dos depósitos. No meio da manhã, Joe foi ter com eles e ficou tão fascinado que pediu a Samuel para o levar consigo. Samuel respondeu:

Lamento muito; mas não posso, Joe. A tua mãe precisa de ti aqui.

Mas eu queria ir, papá. No ano que vem, entro para o colégio de Paio Alto e é ainda mais longe. Deixa-me ir contigo. Garanto-te que trabalharei a valer.

Tenho a certeza de que trabalharias se fosses, mas sou contra a tua ida. E, quando falares nisso à tua mãe, agradecia-te muito que não esquecesses de acrescentar que eu sou contra.

Até lhe poderias dar a entender que recusei levar-te.

Joe sorriu e Tom largou a rir.

Queres que a mamã te convença a levar o Joe? perguntou Tom.

Samuel franziu o cenho e mirou os filhos.

Eu sou um homem com ideias firmes disse ele. Quando tomo uma decisão, ninguém consegue fazer-me voltar atrás. Já estudei todos os aspectos da questão e a minha última palavra é esta: o Joe não vai. Ou quererão obrigar-me a mentir?

Vou já falar à mamã disse Joe.

Devagar, rapaz. Vê se tens cuidado recomendou-lhe Samuel. Serve-te da cabeça. Deixa a tua mãe fazer a maior parte do trabalho. Entretanto, eu irei reconsiderando a minha decisão.

Dois dias depois, a grande carroça afastava-se carregada de madeira e de ferramentas. Tom conduzia os quatro cavalos e, sentados a seu lado, Samuel e Joe baloiçavam as pernas.

 

 

                                   CAPÍTULO XVII

 

Quando afirmei que Cathy era um monstro foi porque disso estava convencido. Agora que me debrucei sobre os caracteres alinhados que contam a sua história e que reli todas as notas no fundo das páginas, pergunto a mim mesmo se seria verdade. Como não sabíamos o que ela queria, nunca saberemos se o conseguiu ou não. E se, em vez de ir ao encontro dequalquer coisa, ela fugia à sua frente, também ignoramos se lhe conseguiu escapar. Quem sabe se ela não tentou dizer o que era a alguém, ou a todos, e se não falhou por não conhecer a nossa linguagem? Talvez a sua vida tenha sido a sua linguagem, com a sua sintaxe e as suas belezas, mas indecifrável. Não custa nada dizer que ela era má.

Mas isso pouco significa se não soubermos porquê.

Desenhei o retrato de Cathy, aguardando calmamente o termo da gravidez, vivendo num rancho que não amava, com um homem que não amava.

Estava sentada numa cadeira sob um carvalho, com as mãos cruzadas em cima do ventre. O seu estado tornava-a gordíssima, anormalmente gorda, se bem que estivessem na moda os bebés enormes e que os quilos a mais fossem motivo de orgulho. Cathy estava deformada; o ventre esticado, prenhe, proibia-lhe a posição vertical sem o apoio das mãos. Mas a deformação estava localizada. Os ombros, o pescoço, os braços, as mãos, o rosto não eram afectados e continuavam finos como os duma rapariga.

Os seios não aumentavam e as pontas não escureciam. As glândulas mamárias não trabalhavam. Nada se preparava para alimentar o nascituro. Quando ela se sentava a uma mesa, não se conseguia perceber que estava grávida.

Naquela época, não se media o arco pélvico, não se analisava o sangue, nem se tomavam fortificantes à base de cálcio. Cada filho custava um dente à mãe. Era a lei. E as mulheres tinham estranhos apetites, até por coisas porcas, e dizia-se que isso era o tributo ao pecado original que Eva continuava a pagar.

Comparados a outros, os apetites de Cathy eram simples. Os carpinteiros que reparavam a velha casa queixavam-se de nunca encontrarem os paus de giz com que faziam as marcas. Desapareciam todos. Cathy roubava-os, cortava-os aos bocadinhos e escondia-os no bolso do avental. Quando ninguém a via, trincava a cal com os dentes. Ela falava pouco e tinha um olhar vago. Dir-se-ia que se fora embora, deixando em seu lugar uma boneca animada.

Em torno dela, notava-se uma grande azáfama. Adam, nadando em felicidade, construía o seu Paraíso. Samuel e os filhos tinham aberto um poço de doze metros e colocavam uma armação de ferro, pois Adam queria que fosse tudo do melhor.

Os Hamilton levaram a sua sonda para outro lado e começaram a abrir um novo buraco. Dormiam numa tenda ao lado das obras e cozinhavam numa fogueira. Mas um deles estava sempre a caminho de casa, para ir buscar uma ferramenta ou levar um recado.

Adam andava numa roda-viva por toda a parte, como uma abelha atraída por um excesso de flores. Sentava-se ao pé de Cathy e falava-lhe das novas plantas que acabavam de chegar.

Descrevia-lhe a nova pá do moinho de vento que Samuel inventara. Tinha um passo variável e era uma coisa nunca vista. Ia até aos poços e atrasava o trabalho com as suas perguntas. E, evidentemente, como falava de poços com Cathy, falava de partos e de enxovais com os operários. Era um período feliz para Adam, o melhor de todos os períodos. Ele era o rei duma vida longa e repleta. E o Verão cedeu o lugar a um Outono quente e fragrante.

 

Os Hamilton tinham acabado o seu almoço de pão, queijo e café forte aquecido ao lume. Joe sentia as pálpebras pesadas e procurava meio de se afastar para as moitas para dormir um pouco.

Samuel estava ajoelhado no solo arenoso e examinava os dentes partidos da sua sonda. Antes de pararem para almoçar, a broca encontrara qualquer coisa a dez metros de profundidade que desfizera o aço como se fosse chumbo. Samuel raspou a peça de metal com o canivete e examinou as lascas na palma da mão. Os seus olhos tinham um brilho infantil. Estendeu a mão e deitou as lascas na mão de Tom.

Olha para isto, meu filho. Que te parece que seja?

Joe aproximou-se bamboleando-se. Tom examinou os fragmentos.

Não sei o que é, mas é rijo disse ele. É grande de mais para ser um diamante. Parece metal. Achas que demos com uma locomotiva enterrada?

O pai riu-se.

A dez metros! disse ele com admiração.

Parece o aço duma ferramenta disse Tom. Mas não temos nada tão duro.

Samuel pareceu absorvido pela contemplação dum espectáculo longínquo mas aprazível, enquanto Tom sentia percorre-lo um arrepio de satisfação. Os rapazes Hamilton gostavam de ver vaguear o espírito do pai, pois então o mundo povoava-se de coisas espantosas.

Samnel disse:

Tu pensas que é metal? Que é aço? Tom, vou dizer-te o que é e, depois, mandarei fazer uma análise. Vê se não te esqueces: vamos encontrar níquel e, talvez, prata, grafite e manganésio.

Quem me dera trazê-los à superfície! Estão envolvidos numa camada de areia marinha.

Tom disse:

Que disseste tu que era? Níquel e prata...?

Deve ter-se passado há milhares de séculos disse

Samuel. (E os filhos sabiam que ele estava a ver tudo.) Talvez houvesse água aqui. Um mar interior com pássaros que voavam em círculo e piavam. Se tudo se passou à noite, que espectáculo!

Um risco fulgurante, um fuso de luz branca e, depois, uma bola incandescente vinda do céu. A seguir, um enorme jacto de água e um espantoso esguicho de vapor. O barulho é de ensurdecer, porque se juntou o estrondo da coisa que caiu à explosão da água. E depois é a noite negra por causa da luz deslumbrante. E, a pouco e pouco, os peixes mortos voltam à superfície, com o ventre prateado brilhando ao luar, enquanto os pássaros os vêm comer. É uma bela imagem, não é verdade?

Tom perguntou baixinho:

- Achas que é um meteoro não é verdade?

- Tenho a certeza. E a análise há-de prová-lo.

Joe, muito excitado, disse:

Vamos tirá-lo cá para fora.

Tira-o tu, se quiseres. Nós temos um poço a abrir.

Tom disse com seriedade:

Se a análise mostrar que há níquel e prata em quantidade, não teria interesse...?

És bem o filho do teu pai - disse Samuel. Mas não sabemos se é grande como uma casa ou pequeno como um chapéu.

Podíamos descer e ir ver.

Mas, então, em segredo e sem dizer nada a ninguém.

Porquê?

Ouve, Tom. Não pensas na tua mãe? já lhe damos bastantes aborrecimentos. Ela já me disse com clareza que, se eu gastasse mais um tostão em patentes, me faria uma cena que nunca mais se me varreria da memória. Já pensaste na vergonha que ela sentiria quando lhe perguntassem o que estávamos a fazer? A tua mãe diz sempre a verdade, Tom, e teria de responder:

“Estão a cavar um buraco para irem buscar uma estrela.” (Riu com satisfação.) Nunca nos perdoaria. Havia de ser o bom e o bonito. Ficávamos sem sobremesa, pelo menos, durante três meses.

Tom disse:

Não podemos continuar a furar. Temos de ir para outro lado.

Vou fazer explodir uma carga de pólvora. Se o meteoro resistir, iremos abrir outro buraco. (Ergueu-se.) Tenho de ir a casa buscar o explosivo e afiar a sonda. Porque não vamos todos juntos? Será uma surpresa para a mamã. Passará toda a noite a cozinhar e a queixar-se. Assim, poderá fingir que não ficou contente de nos ver.

Joe disse:

Vem aí alguém a toda a pressa.

Um cavaleiro aproximava-se a todo o galope, mas era um estranho cavaleiro saltitando na montada como um boneco desengonçado. Quando se acercou, viram que era Lee, com os cotovelos a abanar como asas e a trança a torcer-se como uma serpente. Era surpreendente que não se tivesse deixado cair com uma tal velocidade. Deteve-se, ofegante.

Sinhô Adam dizê pâla vi, Sinhôla Cathy muito mal. lie deplessa, Sinhô só glitá, cholá.

Calma, Lee disse Samuel. Quando começou?

Talvê hola almoço.

Bom. Sossegue. Como está o Adam?

Sinhô Adam maluco. Glitá, lile, vomita.

Pois claro disse-lhe Samuel. Ah! estes pais novos!

Também já o fui há muito tempo. Tom, sela-me o cavalo, não te importas?

Joe perguntou:

Que há de novo?

A Sr.aTrask vai ter um menino. Eu disse ao Adam que o ajudava.

Tu?estranhou Joe.

Samuel contemplou o filho mais novo.

Trouxe-vos a ambos ao mundo e parece-me que ainda nenhum dos dois se queixou de eu ter prestado um mau serviço ao mundo. Tom, junta a ferramenta e vai a casa afiar a broca...

Não te esqueças de trazer a lata de pólvora que está na prateleira da arrecadação e trata-a com respeito se tens amor aos braços e às pernas. Joe, tu ficas aqui a tomar conta do material.

Joe perguntou queixosamente:

Que fico eu aqui a fazer sozinho?

Samuel guardou silêncio e, depois, disse:

Joe, gostas de mim?

Claro que gosto.

Se te dissessem que eu tinha cometido um crime, ias denunciar-me à polícia?

Que estás tu a dizer?

Ias denunciar-me?

Não.

Muito bem! Na minha mochila, debaixo da roupa, encontrarás dois livros. São novos. Portanto, vê se os tratas bem. São dois volumes escritos por um homem que, em breve, será famoso. Podes começar a lê-los, verás que te farão muito bem. São os Princípios de Psicologia por um homem do Leste chamado William James. Não tem qualquer parentesco com o célebre salteador de comboios. E se, por desgraça, disseres a quem quer que seja que eu tenho estes livros, ponho-te fora do rancho. Se a tua mãe viesse a saber que eu gastei dinheiro para comprar os livros, era ela quem me punha na rua.

Tom aproximou-se segurando um cavalo pela rédea.

Eu também os posso ler?

Podes, sim respondeu Samuel. (E saltou para a sela com ligeireza). A caminho, Lee.

O chinês quis partir a galope, mas Samuel reteve-o.

Devagar, Lee. Um parto leva mais tempo do que você pensa.

Cavalgaram um momento em silêncio e, depois, Lee disse:

É pena que tenha comprado esses livros. Eu também os tenho na edição integral e num só volume. Poderia emprestar- lhos.

É pena, de facto. Tem muitos livros?

Muitos, não. Aí uns trinta ou quarenta. Mas os que ainda não tiver lido estão à sua disposição.

Obrigado, Lee. Assim que puder, irei deitar uma vista de olhos à sua biblioteca. Você devia falar com os meus filhos. O Joe é um pouco cabeça no ar, mas o Tom é um rapaz sério e far-lhe-ia bem conversar consigo.

É um passo difícil de dar, Sr. Hamilton. A minha timidez impede-me de falar com os novos conhecimentos, mas hei-de tentar já que me pede.

Apressaram os cavalos em direcção ao vale.

Como está a mãe?perguntou Samuel.

Preferia que visse pelos seus olhos respondeu Lee.

Quando um homem vive sempre só como eu, chega a considerar as coisas sob um ângulo irracional, em função da sua posição social.

Pois é. Até eu, que não vivo só, também considero as coisas sob um ângulo irracional. Mas talvez seja diferente do seu.

Então não acredita que seja fruto da minha imaginação?

Não acredito em coisa nenhuma. E, para o tranquilizar, também lhe posso dizer que sinto uma sensação de estranheza.

- Creio que é também o que eu sinto disse Lee, e sorriu-se vou-lhe dizer como se passam as coisas comigo. Desde que estou aqui, não me saem da memória os contos de fadas que o meu pai me contava. Nós, os Chineses, temos uma demonologia muito aperfeiçoada.

Acha que ela é um demónio?

Claro que não disse Lee. Espero já ter passado essa fase primária. Sabe, Sr. Hamilton, os criados adquirem uma habilidade especial para descobrir donde sopram os ventos e para julgar a atmosfera da casa onde trabalham. Ora, a casa onde eu sirvo é muito estranha. Talvez seja por isso que me faz recordar os demónios paternos.

O seu pai acreditava neles?

Ah! não. Mas era da opinião que eu devia conhecê-los.

Aliás, vocês, os Ocidentais, também se encarregaram de perpetuar um bom número de mitos.

Samuel inquiriu:

Diga-me o que foi que despertou os demónios?

Se não estivéssemos a chegar, tentaria dizer-lho. Mas prefiro abster-me. Verá por si. Talvez eu ande delirando. O Sr. Adam vive numa tal tensão que é capaz de se partir como a corda dum banjo.

Dê-me um ponto de referência para evitar perder tempo.

Que foi que ela fez?

Nada. Para falar verdade, nada. Já assisti a muitos nascimentos, Sr. Hamilton, mas este oferece um aspecto inteiramente novo.

Que aspecto?

Pois bem! Vou dizer-lhe a única imagem que me ocorre:

parece tratar-se mais duma luta de morte do que dum nascimento.

Quando passaram sob os carvalhos, antes de entrarem no vale, Samuel disse:

Gostaria de saber porque é que este dia me parece tão estranho.

Não há vento disse Lee. É a primeira vez, de há um mês para cá, que o vento não sopra de tarde.

Deve ser isso. Prestei tanta atenção aos pormenores que nem sequer vi como estava o dia. Esta manhã descobrimos uma estrela enterrada e agora vamos trazer para o mundo um ser humano.

Contemplou as colinas ensolaradas, através dos ramos dos carvalhos.

- Que belo dia para nascer! Se os sinais têm alguma influência, está para surgir uma bela vida. Estou com receio de que o Adam só sirva para nos atrapalhar. Fique ao pé de mim, se não se importa, para o caso de eu precisar de alguma coisa. Olhe, os carpinteiros estão sentados debaixo duma árvore.

O Sr. Adam mandou parar o trabalho. Receava que as marteladas incomodassem a mulher.

Samuel repetiu:

Fique ao pé de mim. O Adam está cheio de boas intenções mas o que ele ignora é que a mulher seria incapaz de ouvir o próprio Deus tocando a reunir nas nuvens.

Os operários sentados à sombra da árvore saudaram-nos.

Como tem passado, Sr. Hamilton? E a sua família?

Vou andando menos mal, obrigado. Espera, aquele ali não é o Rabbit Holman? Por onde tens andado, Rabbit?

Tenho andado na prospecção, Sr. Hamilton.

E encontraste alguma coisa?

Nem sequer consegui encontrar a mula que tinha levado comigo.

Encaminharam-se para casa. Lee disse rapidamente:

Se tivesse um minuto disponível, gostava de lhe mostrar uma coisa.

Que coisa, Lee?

Tentei traduzir algumas poesias chinesas antigas para inglês. Não sei se será possível. Quer deitar-lhes uma vista de olhos?

Com todo o prazer, Lee. Só tenho a ganhar com isso.

 

A casa branca dos Bordoni estava silenciosa, quase secretamente silenciosa, e tinha as persianas fechadas. Samuel desmontou diante da porta, tirou os sacos da sela e estendeu as rédeas a Lee. Bateu, não obteve resposta, e entrou. Após a luz do dia, a sala parecia às escuras. Entrou na cozinha. Uma cafeteira de barro cinzento aquecia brandamente ao lume. Samuel bateu de leve à porta do quarto e entrou.

O quarto estava quase completamente na escuridão pois, além de as cortinas estarem fechadas, ainda tinham tapado as janelas com mantas. Cathy estava estendida numa grande cama de colunas e Adam encontrava-se a seu lado, com a cara escondida na colcha. Ao ouvir passos, ergueu a cabeça e lançou um olhar cego.

Samuel, afavelmente, disse:

Porque está às escuras?

Adam respondeu com uma voz roufenha:

A luz faz-lhe doer a vista.

Samuel deu alguns passos e compreendeu que se devia mostrar autoritário.

É preciso luz disse ele. Ela que feche os olhos. Posso pôr-lhe uma venda, se ela quiser.

Dirigiu-se para a janela e agarrou na manta, mas Adam levantou-se de um salto.

Deixe isso. A luz faz-lhe mal disse ele com selvajaria.

Samuel enfrentou-o:

Oiça, Adam, sei muito bem o que está a sentir. Prometi-lhe que tratava de tudo e não deixarei de o fazer. A única coisa que peço é que não me obrigue a tratar de si.

Arrancou a manta, correu as cortinas e a luz doirada entrou pela janela.

Cathy gemeu. Adam aproximou-se dela.

Fecha os olhos, querida. Vou pôr-te uma venda.

Samuel colocou os dois sacos em cima duma cadeira e postou-se junto do leito.

Adam disse ele com firmeza -, vou pedir-lhe para sair deste quarto e para não tornar cá a entrar.

Porquê? Não posso fazer uma coisa dessas.

Não quero que se ande a meter debaixo dos meus pés. Em geral, os futuros pais apanham uma boa piela.

Não seria capaz.

Samuel continuou:

Sinto a cólera a vir-me aos poucos e o desprezo mais devagar ainda. Mas já os sinto a borbulhar. Vai sair deste quarto e deixar de me aborrecer, ou então vou-me eu embora e você que se arranje sozinho.

Adam acabou por se ir embora e, mal fechou a porta, Samuel atirou-lhe:

E veja se não irrompe por este quarto ao menor grito. Espere que eu saia. (Fechou a porta, notou que havia uma chave e deu-lhe uma volta.) Ele está desorientado e veemente. É sinal de que gosta de si.

Até então, ainda não olhara para Cathy. Ao fazê-lo, viu-lhe nos olhos um ódio feroz, implacável, assassino.

Não demorará muito, esteja descansada. já rebentaram as águas?

O olhar hostil fitou o homem e os lábios afastaram-se para mostrarem os dentinhos, mas Cathy não respondeu.

Ele contemplou-a com frieza.

Estou aqui na qualidade de amigo. Não é por gosto, minha menina. Ignoro quais sejam as suas razões de queixa e não me interessa sabê-las. Talvez possa evitar que sofra. Vou fazer-lhe ainda mais uma pergunta. Se não me responder e se me tornar a olhar dessa maneira trocista, vou-me embora e deixo-a sozinha.

As palavras produziram o mesmo efeito que uma descarga de chumbo num charco. Cathy fez um esforço e Samuel estremeceu ao ver que a expressão do rosto se modificava, que o olhar de aço desaparecia e os lábios se entreabriam enquanto os cantos da boca se erguiam. Observou os movimentos das mãos, os punhos que se abriam e as palmas que se curvavam, abertas. As feições adquiriram um aspecto jovem, inocente e reflectiram um verdadeiro sofrimento. Era como se uma vista de lanterna mágica cedesse o lugar a outra.

Cathy respondeu baixinho:

Perdi as águas de madrugada.

Assim é que eu gosto. Custou-lhe muito?

Custou.

As dores eram muito espaçadas?

Não sei.

Faça um cálculo. Estou consigo há um quarto de hora.

Desde que chegou já tive duas dores pequenas, mas nenhuma grande.

Muito bem. Onde tem a roupa?

Na arca.

Vai ver que tudo correrá bem disse ele com afabilidade.

Abriu um dos seus sacos e tirou para fora uma corda grossa forrada de veludo azul e com uma alça em cada extremidade. O veludo era bordado a flores cor-de-rosa.

A Lizza mandou-lhe a corda disse. Fê-la enquanto esperava pelo primeiro filho. Contando com os nossos filhos e com os dos nossos amigos, esta corda já trouxe muita gente ao mundo.

Enfiou cada uma das alças num pé da cama.

De súbito, Cathy arregalou os olhos e retesou as costas como uma mola, enquanto o sangue lhe afluía à cara. Samuel esperava lágrimas ou gritos e olhou com apreensão para a porta fechada.

Mas não houve gritos, quando muito uma série de grunhidos dolorosos. Decorridos alguns segundos, Cathy caiu para trás. Voltara- lhe o olhar de ódio.

Novamente a sacudiu uma dor.

Menina boazinha disse em voz meiga -, sentiu uma ou duas dores? porquê, quanto mais experiência se tem, mais se percebe que se torna difícil distingui-las. Já vai sendo tempo de ir lavar as mãos.

Com os dentes apertados, ela abanava a cabeça dum lado para o outro.

Pronto, pronto, minha filha. O bebé não tarda a chegar.

(Levou a mão à testa de Cathy e tocou-lhe na feia cicatriz.)

Como foi que se feriu? perguntou.

Cathy atirou a cabeça para a frente e os seus dentinhos pontiagudos cravaram-se na palma da mão de Samuel, junto do dedo mínimo. Ele soltou um grito de dor e tentou retirar a mão. Mas estava bem filada. Cathy abanava a cabeça às sacudidelas, rasgando a carne como um cão rasga um saco e, ao mesmo tempo, ia soltando um grito agudo. Samuel esbofeteou-a, sem resultado.

Automaticamente, fez o que teria feito a um cão. Com a mão esquerda, apertou a garganta de Cathy para a sufocar. Ela estrebuchou e cravou ainda mais os dentes antes de afrouxar a dentada. Samuel conseguiu retirar a mão ensanguentada. Recuou e observou a ferida. Contemplou Cathy com receio. Mas o rosto dela ficara novamente calmo, infantil, inocente.

Desculpe. Desculpe. É a dor disse ela. Samuel teve um breve sorriso. Ainda acabo por ter de açaimá-la. Uma cadela já me fez uma vez a mesma coisa.

Pelo olhar de Cathy perpassou novamente um lampejo de ódio.

Samuel acrescentou:

Tem alguma coisa para pôr nisto? Os humanos são mais venenosos do que as serpentes.

Não sei se tenho.

E uísque, não tem?

Aplicou a garganta da garrafa na ferida e, depois, emborcou-a.

Sentiu uma enorme vontade de vomitar enquanto um véu de bruma lhe embaciava a vista. Bebeu um golo de álcool para se dar novas forças. Tinha receio de olhar para a cama.

Vou ficar com a mão inutilizada por algum tempo disse.

Mais tarde, Samuel contou a Adam: “Ela tem uma constituição de ferro. A criança nasceu antes de eu estar pronto. Saiu como uma rolha. Eu nem sequer tinha água para a lavar e ela nem se agarrou à corda para dar à luz. Uma constituição de ferro.”

Correu para a porta, chamou Lee e pediu água quente. Adam precipitou-se no quarto.

Um rapaz gritou Samuel. É um menino.

Adam viu os lençóis cheios de sangue e pôs-se verde.

Calma aconselhou Samuel. Vá chamar o Lee. E você,

Adam, se ainda sabe o que faz, vá preparar café. E veja se os candeeiros estão cheios e se têm as chaminés limpas.

Adam girou como um pião e saiu do quarto. Lee entrou logo a seguir. Samuel apontou para uma espécie de trouxa na cesta da roupa.

Passe-lhe uma esponja com água quente, Lee. Cautela com as correntes de ar. Quem me dera ter cá a Lizza. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. (Depois voltou-se para o leito:)

Agora vou limpá-la a si. (Mas Cathy estava novamente dobrada ao meio e torcia-se com dores.) Já falta pouco acrescentou ele

- , é só o tempo de sair a placenta. Andou muito depressa. E quando penso que nem precisou da corda da Lizza!...

Depois, de repente, viu qualquer coisa e arregalou os olhos:

Deus do Céu, aí vem mais outro!

Pôs mãos à obra e, como da primeira vez, o parto foi incrivelmente rápido. Samuel cortou um segundo cordão umbilical. Lee pegou no segundo bebé, lavou-o, vestiu-o e colocou-o na cesta.

Samuel lavou a mãe e ergueu-a para lhe mudar a roupa. Notou que lhe vinha uma sensação de repugnância quando lhe olhava para a cara. Trabalhava o mais depressa possível, mas a mão mordida dificultava-lhe os movimentos. Tapou Cathy com um lençol lavado e levantou-lhe a cabeça para lhe meter debaixo uma almofada limpa. Por fim, teve de se resignar a olhá-la.

Os cabelos doirados estavam encharcados em suor, mas a expressão do rosto modificara-se. Parecia petrificado e sem vida.

No pescoço, distinguia-se nitidamente o latejar das artérias.

Tem dois filhos disse Samuel. Dois belos rapazes.

Não são gémeos autênticos. Cada um nasceu no seu saco.

Ela contemplou-o friamente e sem interesse.

Samuel continuou:

Vou mostrar-lhe os meninos.

Não respondeu ela.

O quê?! Não quer ver os seus filhos?

Não quero saber deles.

Não tardará a mudar de opinião. Agora está cansada. E posso jurar-lhe que nunca assisti a um parto tão rápido.

O olhar de Cathy desviou-se de Samuel.

Não quero saber deles. Corra as cortinas e não deixe entrar a luz.

É o cansaço. Dentro de alguns dias, já verá as coisas de outro modo e terá esquecido tudo.

Nunca esquecerei. Vá-se embora. Leve-os deste quarto e mande-me cá o Adam.

Samuel ficou estupefacto com o tom da voz. Não se notava o mínimo mal-estar, nem fadiga, nem ternura. As palavras eram a própria expressão da vontade.

Não gosto de si disse ele.

Mas logo se arrependeu e desejou poder engolir a frase que, aliás, não produzira nenhum efeito em Cathy.

Mande-me cá o Adam insistiu ela.

Na saleta, Adam deitou um olhar vago aos dois filhos e encaminhou-se rapidamente para o quarto cuja porta fechou. Passados alguns instantes, ouviu-se o ruído de marteladas. Adam estava a pregar as mantas nas janelas.

Lee entrou com o café para Samuel.

A sua mão está com mau aspecto.

- Também me parece e receio que haja complicações.

Porque fez ela isso?

Não sei. É uma mulher estranha.

Lee prosseguiu:

Vou tratar de si, Sr. Hamilton. Isso podia custar-lhe o braço.

Samuel parecia moribundo.

Faça o que lhe apetecer, Lee. Apoderou-se de mim um desgosto horrível. Gostava de ser criança para poder chorar. Já sou velho de mais para ter medo. Nunca mais tinha tido um desespero tão grande desde o dia em que me morreu um pássaro na mão, já lá vão muitos anos.

Lee abandonou a sala e voltou pouco depois sobraçando uma caixa de ébano incrustada de dragões. Sentou-se junto de Samuel e tirou do estojo uma navalha chinesa de lâmina triangular.

Vai doer disse ele.

Hei-de aguentar.

O chinês mordeu os lábios, sentindo em si próprio a dor que infligia, quando lancetou profundamente a ferida e retalhou os bocados de carne até fazer sair um jorro de sangue. Agitou um frasco de unguento Hall e despejou algumas gotas do líquido amarelo na chaga. Depois, saturou um lenço com o mesmo remédio e atou a mão. Samuel fez uma careta e agarrou-se à cadeira com a mão válida.

É, principalmente, ácido fénico explicou Lee. Deve ter-lhe cheirado.

Obrigado, Lee. Pareço uma criança a torcer-me desta maneira.

Eu não sei se seria capaz de ficar tão calmo dissé Lee.

Vou buscar-lhe outra chávena de café.

Voltou logo a seguir com duas chávenas e sentou-se junto de Samuel.

Vou sair desta casa disse ele. Nunca tive tendência para trabalhar no matadouro.

Samuel empertigou-se:

Que quer dizer?

Nem eu sei; as palavras saíram-me sem dar por isso.

Samuel sentiu-se percorrido por um calafrio.

Lee, os homens são estúpidos. E, até agora, eu ainda não tinha dado por isso, mas os Chineses também são estúpidos.

E porque havia de ser o contrário?

- Talvez por julgarmos que os estrangeiros são mais fortes e melhores do que nós.

Que pretende dizer?

Samuel explicou:

Talvez a estupidez seja necessária, assim como as lutas com o dragão, o orgulho, a coragem lastimável que consiste em encolerizar Deus e a cobardia infantil que transforma cada árvore à beira da estrada num fantasma, talvez tudo isto seja bom e necessário mas...

Que pretende dizer?repetiu pacientemente

Supunha que tivesse soprado um vento de loucura no deserto do meu espírito mas, agora que ouvi a sua voz, compreendo que também soprou em si. Há qualquer coisa a pairar sobre esta casa. Aproxima-se algo horrível.

Eu também pressinto a mesma coisa.

Bem sei. E é por isso que me sinto menos à vontade do que é costume na minha estupidez. Este nascimento foi demasiado rápido, fácil de mais, parecia uma gata a parir gatinhos. E receio por esses dois gatinhos. A minha cabeça está a encher-se de pensamentos horríveis.

Que pretende dizer? perguntou Lee pela terceira vez.

Queria ter aqui a minha mulher exclamou Samuel Acabavam- se os sonhos, os fantasmas e a estupidez! Quero-a ao pé de mim.

Dizem que os mineiros descem às galerias com canários para ver se o ar é respirável. A Lizza sabe reconhecer a estupidez. Se a Lizza vê um fantasma, é realmente um fantasma e não um bocado de sonho. Se a Lizza farejar desgraça, poremos barricadas nas portas.

Lee levantou-se, aproximou-se da cesta da roupa e contemplou os bebés. Teve de se aproximar muito porque a luz diminuía, rapidamente.

Estão a dormir disse ele.

Daqui a pouco desatam a berrar. Lee, não se importa de atrelar a carrinha e de ir buscar a Lizza? Diga-lhe que preciso dela.

Se o Tom ainda lá estiver, diga-lhe para ficar. Se não, volta para lá amanhã. E se a Lizza não quiser vir, diga-lhe que precisamos da mão duma mulher e duns olhos que saibam ver. Ela compreenderá o que isto quer dizer.

Vou já disse Lee.Talvez a gente esteja a assustar-se um ao outro, como duas crianças no escuro.

Já pensei nisso disse Samuel. Lee, diga-lhe que feri a mão quando abria o poço. Não lhe conte a verdade, por amor de

Deus.

Vou acender uns candeeiros antes de sair. A presença da sua mulher vai ser um grande alívio para nós.

Pode crer que sim, Lee, pode crer que sim. Ela há-de trazer um pouco de luz a esta cave tão escura.

Após a partida de Lee, Samuel pegou num candeeiro com a mão esquerda, mas viu-se obrigado a pousá-lo no chão para girar a maçaneta da porta do quarto. Lá dentro, reinava a escuridão e a luz amarela do petróleo apenas alumiava o tecto, enquanto a cama ficava na sombra.

A voz de Cathy soou:

Feche a porta. Não quero luz. Adam, vai-te embora. Quero ficar sozinha, às escuras.

Eu fico ao pé de ti disse Adam em voz rouca.

Não te quero ao pé de mim.

Eu fico.

Fica se quiseres, mas cala-te. Torne a fechar essa porta e leve a luz.

Samuel voltou à sala. Colocou o candeeiro em cima duma mesa junto da cesta da roupa e examinou as carinhas dos dois bebés adormecidos. Tinham os olhos profundamente fechados e rabujaram, incomodados pela luz. Samuel, com a ponta do indicador, acariciou as, duas testas quentes. Um dos gémeos bocejou, abrindo uma boca enorme e tornou a adormecer. Samuel voltou a pegar no candeeiro, encaminhou-se para a porta, abriu-a e deu alguns passos no terreiro. A estrela do pastor estava tão brilhante que parecia cintilar como um foguete prestes a cair atrás das montanhas. O ar estava calmo e Samuel distinguia o cheiro das salvas que o calor fizera murchar. A noite estava muito escura. Samuel teve um sobressalto ao ouvir uma voz que saía da sombra.

Como está ela?

Quem está a falar? perguntou Samuel.

Sou eu, o Rabbit.

O homem emergiu da escuridão e a sua silhueta recortou-se na luz da porta.

A mãe, Rabbit? Está passando bem.

O Lee disse que eram gémeos.

É verdade. Dois gémeos. Não se podia esperar melhor. Agora é que o Sr. Trask vai revolver céus e terra! Vai ter que plantar sementes de chupeta! (Samuel mudou de assunto sem saber porquê.)

Sabes o que encontrámos hoje, Rabbit? Um meteoro.

O que é isso, Sr. Hamilton?

Uma estrela cadente que caiu há milhões de anos.

A sério? Ora vejam! Como foi que feriu a mão?

Eu ia responder que foi “numa estrela cadente”. Mas a verdade é menos interessante. Entalei-a numa roda dentada.

O golpe é profundo?

Não. Não é muito.

Dois rapazes - continuou Rabbit. A minha mulher vai ter ciúmes.

Queres entrar e fazer-me companhia?

Não, não, obrigado. Tenho de me ir deitar. À medida que os anos passam, as noites parecem mais curtas.

É da idade, Rabbit. Boa noite.

Lizza Hamilton chegou por volta das quatro da manhã. Samuel adormecera numa cadeira e sonhava que estava pegando numa barra de ferro em brasa. Lizza, despertou-o e observou-lhe a mão antes mesmo de deitar uma olhadela aos bebés. Depois, enquanto punha um toque feminino no trabalho masculino do marido, deu as suas ordens. Samuel ia vestir-se, selar o Doxology e galopar para King City. Pouco importava a hora. Acordaria o inútil do médico para que lhe tratasse da mão. Se não fosse grave, voltaria para casa e esperaria. E era mesmo um verdadeiro crime ter deixado o Joe, pobre criança indefesa, sentado à beira dum buraco sem ninguém que cuidasse dele. O descuido bradava tanto aos Céus que até o próprio Senhor se devia ter encarregado de o remediar.

Se era realismo o que Samuel pedira, ficara bem servido. Lizza atirou com ele para a estrada ao romper do dia. Às onze horas tinha a mão ligada e, às cinco, estava sentado na sua própria cadeira, à sua própria mesa, a tremer de febre, enquanto Tom lhe preparava um caldo de galinha.

Samuel ficou de cama durante três dias, combatendo os fantasmas da febre, até que a sua forte constituição veio ao de cima e expulsou a infecção.

Então, Samuel contemplou Tom com um olhar límpido, e disse:

Tenho de me levantar.

Pôs-se de pé e caiu molemente sentado, soltando um riso que mais parecia um cacarejo. Ria-se assim sempre que alguma coisa lhe levava a melhor. Ele pensava que, embora derrotado, sempre conseguia uma certa vitória rindo do malogro. Tom empanturrou-o de caldo, apesar das ameaças de morte do pai.

Ainda se encontram pessoas que estão convencidas de que o caldo de galinha cura todas as doenças, cicatriza todas as feridas, e pode ser servido nos velórios.

Lizza esteve fora uma semana e limpou a casa dos Trask desde o sótão até à cave. Lavou tudo o que podia caber numa selha e escovou o resto. Estabeleceu o regime alimentar dos bebés e notou com satisfação que eles dormiam bem e ganhavam peso. Fez de Lee um escravo por não confiar inteiramente nele.

Ignorou Adam, por não lhe servir para nada, excepto uma vez, em que o obrigou a lavar as janelas, trabalho que ela tornou a fazer logo a seguir.

Lizza permaneceu à cabeceira de Cathy o tempo suficiente para chegar à conclusão de que era uma rapariga inteligente que falava pouco e não tentava dar lições aos mais velhos. Observou- a e concluiu que estava de perfeita saúde nem ferida nem doente. Também compreendeu que Cathy não amamentaria os dois gémeos. “E, no fundo, antes assim. Os dois comilões eram capazes de a chupar até ao osso!” Esquecia-se de que era mais pequena que Cathy e que alimentara os seus nove filhos.

Numa tarde de sábado, Lizza deitou uma vista de olhos geral, deixou uma lista de instruções prevendo tudo, desde a cólica até à nuvem de gafanhotos, fez a mala e pediu a Lee que a levasse para casa.

Achou que a casa estava transformada num chiqueiro, que era indecente, e entregou-se à limpeza com a violência e o nojo dum Hércules. Samuel atirou-lhe perguntas de raspão: Como estavam os miúdos? Bem. Iam crescendo. Como passava o Adam? Vagueia pela casa como um ser vivo, mas não há grandes provas disso. O Senhor, na sua extrema prudência, dava dinheiro a pessoas bem estranhas, mas talvez fosse para impedir que morressem de fome.

Como estava a Sr.a Trask? Calma, dando-se ares de grande dama como a maioria das ricaças do Leste. (Lizza nunca vira ricaças do Leste). Mas dócil e respeitosa.

É estranho disse Lizza. Não vejo nada que lhe censurar, salvo, talvez, uma certa inclinação para a preguiça. Pois, mesmo assim, não gosto lá muito dela. Talvez seja por causa da cicatriz? Como a arranjou?

Não sei respondeu Samuel.

Lizza apontou o indicador, como uma pistola, aos olhos do marido.

Vou dizer-te uma coisa. Nem ela mesma sabe, mas deitou mau-olhado ao marido. Ele anda em torno dela como um pato doente. Tenho a impressão de que ainda não olhou a valer para os filhos.

Samuel esperou que Lizza lhe passasse de novo ao alcance da voz.

Se ela é preguiçosa e se ele não tem cabeça para nada, quem vai tomar conta dos bebés? Um casal de gémeos exige muito trabalho.

Lizza parou de varrer, aproximou uma cadeira da cama e sentou-se com as mãos em cima dos joelhos.

Bem sabes que eu nunca menti.

Tu és incapaz de mentir disse Samuel.

E Lizza sorriu, julgando que era um cumprimento.

Vou dizer-te uma coisa que talvez te custe a acreditar.

Diz lá.

Samuel, tu conheces aquele chinês com os olhos em amêndoa, fala de estrangeiro e rabicho?

O Lee? Claro que conheço.

Não estavas convencido de que era um pagão?

Eu sei lá?

Ora, Samuel, era natural que fosse. Pois não é.

E Lizza empertigou-se.

O que é ele, então?

Ela bateu-lhe no braço com um dedo de ferro.

Um presbiteriano! E bem-educado... muito bem-educado, podes crer-me. Mas é preciso perceber-lhe a algaraviada. Que me dizes tu a isto?

Samuel só muito dificilmente conseguia refrear a vontade de rir.

Não me digas?

Estou-te a dizer que sim. Quem julgas tu que trata dos gémeos? Tu bem sabes que eu não iria confiar num pagão... Mas um presbiteriano. Ele aprendeu num instante tudo o que lhe ensinei.

Assim não me admira que tenham ganho peso.

Só temos razões para estar orgulhosos e para rezar.

Partilharemos o orgulho e rezaremos disse Samuel.

 

Cathy descansou durante uma semana e readquiriu forças.

No sábado da segunda semana de Outubro, ficou toda a manhã trancada no quarto. Adam quis entrar mas a porta estava fechada à chave.

Tenho que fazer gritou ela.

Adam afastou-se.

Está a arrumar a secretária” pensou ele, ouvindo abrir e fechar gavetas.

Ao fim da tarde, Lee foi ter com Adam, sentado em frente da casa, e disse-lhe com uma espécie de embaraço:

Sinhôla dizê a mim ile King City complá bibelão.

Pois vai! disse Adam.Ela é a tua patroa.

Sinhôla dizê a mim não volta antes segunda-feita.

A voz de Cathy ergueu-se atrás deles:

Ele já não sai há muito tempo. Precisa de descansar.

É verdade -disse Adam. Não tinha pensado nisso. Vê se te divertes. Se eu precisar de alguma coisa, peço aos carpinteiros.

Os home voltá p'a casa no domingo.

Peço ao índio Lopez que me ajude.

Lee sentiu o olhar de Cathy em cima dele.

Lopez andá bêbado. Mim acha galafa uísque.

Adam respondeu a rir:

Cá me hei-de arranjar.

Lee olhou para Cathy no enquadramento da porta e baixou os olhos.

Mim talvê enflá talde.

E pareceu-lhe que se desenhavam e logo desapareciam duas rugas entre os olhos de Cathy. Lee girou sobre os calcanhares.

Boa talde disse ele.

Cathy voltou para o quarto ao cair da noite. Ás sete e meia,

Adam foi bater-lhe à porta.

Preparei-te um jantarinho.

A porta abriu-se como se Cathy estivesse por detrás à espera de um sinal. Vestia um trajo de viagem: jaqueta orlada de preto com grandes botões, aplicações e gola de veludo preto. Na cabeça tinha um grande chapéu de palha com enormes alfinetes. Adam ficou de boca aberta. Ela não lhe deu tempo a que falasse.

Vou-me embora.

O quê?

Já te tinha prevenido.

Isso é que não.

Não fizeste caso. Pior para ti!

Não acredito.

A voz de Cathy era amorfa e metálica.

O que tu acreditas não interessa. Vou-me embora!

E os bebés?

Atira com eles a um dos teus poços.

Tomado de pânico, Adam gritou:

Cathy, tu endoideceste. Não podes deixar-me, Cathy, não podes.

Eu posso fazer de ti o que quiser. Tu estás à mercê de qualquer mulher. Não passas dum imbecil.

A palavra arrancou-o ao aparvalhamento em que caíra. Inesperadamente, agarrou Cathy pelos ombros e empurrou-a. Ela recuou a cambalear e Adam aproveitou a oportunidade para tirar a chave do interior da porta. Sem perda de tempo, fechou-a e deu uma volta à chave.

Ficou ofegante, de ouvido encostado à porta, sentindo-se invadido por uma vontade mórbida. Lá dentro, Cathy andava calmamente. Ouviu abrir uma gaveta e pensou logo: “Ela fica.” Depois distinguiu um estalido que não conseguiu definir. A voz de Cathy soou-lhe tão perto do ouvido que o obrigou a recuar.

- Querido-disse ela-nunca pensei que ficasses tão abalado. Desculpa.

Adam suspirou e deu uma volta com a mão trémula à chave que caiu.Empurrou a porta. Cathy estava à sua frente e segurava na mão direita um Colt 44 com o buraco negro do cano apontado para ele. Adam avançou um passo e viu que o cão estava erguido.

Cathy disparou. A bala de chumbo atingiu-o no ombro, esborrachou-se e arrancou-lhe uma parte da omoplata. A explosão, o ruído e a dor fizeram-no vacilar e cair. Ela aproximou-se devagar, com cuidado, como quem se aproxima duma fera ferida. Ele olhou- lhe para os olhos e não viu nada. Cathy atirou a pistola para o chão, ao lado dele, e saiu de casa.

Adam ouviu-lhe os passos no terreiro, depois, nas folhas secas do caminho, depois, mais nada. E o grito monótono que soava há tanto tempo era dos gémeos que tinham fome. Esquecera-se da hora da refeição.

 

 

                         CAPÍTULO XVIII

 

Horace Quinn era o novo xerife adjunto nomeado pelo Governo para ver o que se passava no distrito de King City.

Tanto ele como a mulher se queixavam de que o novo emprego o impedia de cuidar do rancho. Mas, na realidade, os crimes eram pouco frequentes. Horace Quinn apresentara a sua candidatura como adjunto mas esperava vir a ser xerife, Tratava-se dum posto importante, muito mais estável do que o de procurador do distrito e quase tão honroso como o de juiz do Supremo Tribunal.

Horace não queria ser lavrador toda a vida e a mulher ansiava por ir viver para Salinas onde tinha família.

Assim que correu o boato, espalhado pelo indio e pelos carpinteiros, de que Adam fora ferido com uma bala de pistola, Horace selou o cavalo e deixou à mulher o cuidado de transformar em enchidos o porco que ele matara nessa mesma manhã.

Ao norte do grande sicômoro, no sítio onde a estrada de Hester volta para a esquerda, Horace encontrou Julius Euskadi. Julius perguntava a si mesmo se deveria ir caçar a codorniz ou ir até

King City e tomar o comboio para Salinas, terra onde um homem pode passar um bom bocado. Os Euskadi eram gente de bem, rica e descendente de imigrantes bascos.

Julius disse:

Quer ir comigo até Salinas? Disseram-me que ao lado da casa da Jenny, a dois passos de Long Green, abriu uma nova casa que dá pelo nome de Faye. Disseram-me que é estupenda.

Quase como em San Francisco. E tem um pianista.

Horace apoiou o cotovelo no botão da sela e afugentou com o pingalim uma mosca que pousara na garupa do cavalo.

Fica para outro dia -disse ele. Tenho de ir ver uma coisa.

Por acaso, não vai a casa dos Trask?

Exactamente. Ouviu dizer alguma coisa?

Ouvi mas não faz sentido. O Sr. Trask feriu-se no ombro com um 44 e pôs todos os operários na rua. Faz ideia como é que alguém se consegue ferir num ombro com um 44, Horace?

Eu não. Mas essa gente do Leste é tão esperta! Foi por isso que resolvi ir ver o que se passava. A mulher dele não teve um filho há pouco tempo?

Dois gémeos, foi o que me disseram informou Julius.

Talvez o tiro tenha sido disparado por eles.

Um segurava o revólver e o outro carregava no gatilho? Que mais ouviu dizer?

Montes de coisas, Horace. Posso acompanhá-lo?

Não conte comigo para o nomear adjunto, Julius. Parece que os guarda-livros do Governo têm o mau hábito de esmiuçar as notas de despesas. Conhece o Hornby em Alisal? Pois fique sabendo que nomeou adjunto a tia-avó e a manteve na folha de pagamentos durante três semanas.

Está a gozar-me!

Era o que faltava. Portanto, já sabe que não apanha a estrela.

Nem eu a queria para nada. Tinha pensado, apenas, em fazer-lhe um pouco de companhia. Sou curioso.

Também eu. Ainda bem que vem comigo. Se precisar de si, estou sempre a tempo de o fazer prestar juramento. Como se chama essa nova casa de que me falou?

Faye. Uma mulher de Sacramento.

Em Sacramento costumam fazer bem as coisas.

E Horace contou como se faziam as coisas em Sacramento.

Era um belo dia. Quando os dois homens penetraram no vale dos Sanchez, iam entretidos a maldizer os resultados das caçadas dos últimos anos. Comparadas ao passado, há três coisas que já não são o que foram: as colheitas, a pesca e a caça. Julius acrescentou:

Só gostava de saber quem foi que lhes meteu na cabeça a ideia de matarem todos os ursos pardos. Em oitenta e oito, o meu avô matou um para as bandas de Pleyto, que não pesava menos de novecentos quilos.

Quando chegaram ao pé dos carvalhos, calaram-se para respeitar o silêncio. Nada se movia nem se ouvia.

Gostava de saber se terão acabado de restaurar a velha casa perguntou Horace.

Acabaram agora! O Rabbit Holman contou-me que o Trask tinha reunido todos os operários para os pôr na rua.

Parece que o Trask tem um bom pecúlio...

É o que corre. O Sam Hamilton anda a abrir quatro poços...

se também não foi despedido.

Como está o Sr. Hamilton? Tenho que ir fazer-lhe uma visita.

Está bom. Sempre mais próximo do Inferno do que do Céu.

Um destes dias dou um salto até à casa dele disse Horace.

Lee saiu de casa para os acolher.

Horace atirou-lhe:

Bom dia, Ching Chong. O patrão está?

Patlão doente respondeu Lee.

Gostava de o ver.

Agola não pode. Patlão doente.

Basta atalhou Horace.Diga-lhe que o xerife-adjunto Quinn quer vê-lo.

Lee desapareceu e voltou logo a seguir.

Pode entlá. Mim guadá cavalos.

Adam estava estendido na cama de colunas onde os gémeos tinham nascido. Encostava-se a um monte de almofadas e tinha o ombro e o seio esquerdo tapados por um espesso penso. Todo o quarto fedia ao unguento Hafi.

Horace disse depois à mulher: “Foi a primeira vez na minha vida que vi um morto a respirar ainda.”

As maçãs do rosto de Adam estavam salientes e a pele da cara esticada e transparente. Os olhos pareciam sair-lhe da cabeça; brilhavam de febre com um olhar intenso e miope. Com a mão direita, ossuda, amarrotava a colcha.

Horace principiou:

Bom dia, Sr. Trask. Ouvi dizer que se tinha ferido. (Detevese. Depois, como não obtivesse resposta, prosseguiu:) Resolvi vir até cá para saber notícias suas. Como aconteceu isso?

Uma espécie de aspereza endureceu as feições de Adam.

Encolheu-se ainda mais na cama.

Se lhe custa falar, responda em voz baixa acrescentou Horace.

Só quando respiro com força respondeu Adam devagarinho. Estava a limpar o revólver quando se disparou.

Horace fitou Julius e, depois, o doente. Adam viu o olhar e ruborizou-se ligeiramente.

Isso acontece frequentemente disse Horace. Posso ver a arma?

Suponho que o Lee a guardou.

Horace aproximou-se da porta.

Eh! Ching Chong, traz-me a pistola.

Alguns instantes depois, Lee entregava a arma com a coronha para a frente. Depois de examiná-la, Horace fez girar o tambor com uma pancada da mão. Despejou-o e cheirou o pequeno cilindro de cobre da bala vazia.

Estas engenhocas só disparam quando as limpam. Tenho de fazer um relatório, Sr. Trask. Não o vou maçar muito. Se calhar estava a limpar o cano com uma vareta, quando se deu o disparo e ficou ferido no ombro?

Foi isso mesmo, Sr. Adjunto disse Adam precipitadamente.

E, apesar de estar a limpá-lo, esqueceu-se de extrair o tambor?

Foi isso, foi.

Estava a limpá-lo com uma vareta, com o cano apontado para si e o cão armado?

Adam respirou rápidamente.

Horace continuou:

Mas então a vareta deve ter-lhe atravessado o corpo e arrancado a mão esquerda.

Os olhos pálidos de Horace não se desviavam da cara de

Adam. Amavelmente, acrescentou:

Então, Sr. Trask, o que foi que se passou?

Garanto-lhe que foi um acidente.

Certamente não quer que ponha no meu relatório o que acabo de lhe dizer. Passaria por idiota. Que foi que houve?

Eu não estou habituado às armas de fogo e as coisas talvez não se tivessem passado exactamente assim, mas a verdade é que estava a limpá-lo quando se disparou.

No nariz de Horace, pôs-se a vibrar um pêlo, obrigando-o a respirar pela boca para evitar as cócegas. Afastou-se dos pés da cama para se aproximar de Adam.

Chegou do Leste há pouco tempo, Sr. Trask?

Vim do Connecticut.

Já pouco se servem de armas de fogo lá para esses lados?

Muito pouco.

Ainda se caça?

Alguma coisa.

Está mais habituado às espingardas?

Estou, mas caço pouco.

Calculo que nunca tenha visto uma pistola na sua vida e que não sabia servir-se dela.

Pois é disse Adam prontamente. Na minha terra, poucos são os que possuem uma pistola.

Por isso, quando aqui chegou, comprou um colt para fazer como toda a gente e na intenção de aprender a usá-lo?

Estava convencido de que era uma boa ideia.

Julius Euskadi escutava com todas as fibras do seu corpo retesadas. Mas não dizia nada.

Horace suspirou e desviou os olhos. A seguir, fitou Julius na cara e nas mãos. Colocou a pistola em cima da secretária e alinhou, cuidadosamente, lado a lado, a bala vazia e as balas carregadas.

Sabe disse ele -, só há pouco tempo é que sou adjunto. Estava convencido de que me distrairia e que, daqui a alguns anos, poderia candidatar-me a xerife. Mas estou a ver que não tenho estômago para isto.

Adam observava-o com nervosismo.

Suponho nunca ter metido medo a ninguém. Que me queiram mal, está bem, mas terem-me medo, não. É um sentimento que me desagrada e avilta.

Julius exclamou com impaciência:

Deixe lá isso! Não vai pedir a demissão numa ocasião destas!

E quem me impediria? Bom! Sr. Trask, o senhor serviu na cavalaria. As armas são a carabina e a pistola. O senhor... (Deteve-se e engoliu a saliva.) Que se passou, Sr. Trask?

Os olhos de Adam pareceram aumentar. Estavam húmidos e franjados de vermelho.

Foi um acidente murmurou ele.

Tem testemunhas? A sua mulher estava ao pé de si?

Adam não respondeu; tornara a fechar os olhos.

Sr. Trask disse Horace -, eu sei que não se sente bem e estou a tentar facilitar-lhe as coisas. Enquanto o senhor descansa, eu irei conversar com sua mulher. (Esperou um instante e, depois, virou-se para a porta, dirigindo-se a Lee:) Ching Chong, diga à senhora que gostaria de lhe falar por pouco tempo.

Lee não respondeu.

Adam falou sem abrir os olhos.

A minha mulher foi fazer uma visita.

Ela não estava presente quando isso aconteceu?

Horace olhou para Julius e viu-lhe uma curiosa expressão no rosto. Tinha os cantos da boca arrepanhados e exibia um sorriso dubitativo. Horace pensou rapidamente: “Este anda mais depressa do que eu. Dava um bom xerife.”

Mas que curioso. A sua mulher teve um bebé, dois bebés, há quinze dias e já anda a fazer visitas. Os meninos foram com ela? Parece-me tê-los ouvido. (Horace debruçou-se para a cama e tocou na mão direita de Adam.) Lamento muito mas já se está fazendo tarde, Trask! disse ele em voz alta -, e você vai dizer-me o que se passou. E não julgue que vou meter o nariz onde não sou chamado. É a lei. E agora, cos diabos, abra os olhos e responda ou, então, pego em si, mesmo ferido, e levo-o ao xerife!

Adam abriu os olhos, mas eram olhos de sonâmbulo, completamente cegos.

A voz não tinha tonalidade, nem timbre, nem emoção. Dir-se- ia que pronunciava na perfeição palavras duma língua estrangeira que não compreendia.

A minha mulher foi-se embora.

Para onde?

Não sei.

O quê?

Não sei para onde foi.

Julius atirou bruscamente:

Porque se foi ela embora?

Não sei.

Horace disse com violência:

Cautela, Trask, olhe que está fazendo um jogo perigoso. E o que suspeito não me está a agradar mesmo nada. Você deve saber porque se foi embora a sua mulher.

Não sei, não.

Ela estava doente? Portava-se de forma estranha?

Não.

Horace voltou-se.

E tu, Ching Chong, sabes alguma coisa?

Mim ile King City no sábado. Mim voltá peito meia-noite e enconflá sinhô Tlask no chão.

Não estavas cá quando isto sucedeu?

Não, sinhô.

Muito bem. Trask, só o senhor me pode responder. Ching

Chong, abre as cortinas para podermos ver alguma coisa. Ora bem, assim já está melhor. Agora, vou falar em seu lugar. A sua mulher foi-se embora. Foi ela quem disparou?

Foi um acidente.

Ela tinha a pistola na mão?

Foi um acidente.

Não me está a facilitar o trabalho. Bem. Suponhamos que ela se foi embora e que a encontramos. Há quanto tempo está casado?

Quase um ano.

Que nome tinha ela em solteira?

Fez-se um longo silêncio até que Adam respondeu, muito baixo: Prometi não o revelar.

De onde era ela? Não sei.

Sr. Trask, está-me a parecer que não precisa de ajuda para ir parar à cadeia. Descreva-me a sua mulher. Era alta?

Os olhos de Adam brilharam.

- Não era alta. Pequena e franzina.

Muito bem. A cor dos cabelos, dos olhos?

Era linda.

Era?

Cicatrizes?

Meu Deus, não! Ah! sim, uma cicatriz na testa.

Não sabe, como se chama, donde veio ou para onde foi e não é capaz de descrevê-la. Toma-me por parvo?

Adam respondeu:

Ela tinha um segredo e eu prometi não lhe perguntar qual era. Ela tinha medo por causa de alguém.

E, de súbito, Adam pôs-se a chorar. Todo o corpo estremecia e a respiração era entrecortada de soluços. Era um desgosto desesperado.

Horace sentiu-se invadido pela piedade.

Vamos para outra sala, Julius. (Passaram para a sala ao lado.) Que pensa disto tudo? Estará ele doido?

Não sei.

Acha que a matou?

Foi o que pensei logo.

Também eu disse Horace.Valha-me Deus! (Precipitou-se para o quarto e voltou com a pistola e as balas.) Tinha- me esquecido disse ele à laia de desculpa. Estou a ver que não vou longe na carreira.

E agora? perguntou Julius.

Já não estou à altura da situação. Tinha-lhe dito que não o incluía na folha de pagamentos, mas tenho de pedir-lhe que erga a mão direita.

Não estou nada interessado em prestar juramento, Horace.

Eu quero ir a Salinas.

Não tem por onde escolher, Julius. Se não levantar a mão, prendo-o.

Julius levantou a mão com repugnância e repetiu o juramento.

É nisto que dá fazer companhia aos amigos. O meu pai vai esfolar-me vivo. E, agora, que fazemos?

Eu vou prevenir o xerife. Preciso dele. Estava capaz de levar o Trask, mas ele não se pode mexer. Fique ao pé dele. Tem um revólver?

Não tenho, não.

Fique com este. E com a minha estrela.

Tirou-a da camisa e estendeu-a a Julius.

Quanto tempo se conta demorar?

Voltarei o mais depressa possível. Já viu alguma vez a Sr.a

Trask, Julius?

Não.

Nem eu. Vou ter que contar ao xerife que o marido não lhe conhece o nome nem a estatura. Não é muito alta e é bonita. Quer melhor descrição? Se tivesse juízo, pedia a demissão antes de me apresentar ao xerife. Seja como for, é ele quem me põe na rua.

Acha que o Trask matou a mulher?

Como quer que o saiba?

Não se zangue.

Julius apoderou-se da pistola, introduziu as balas no tambor e fez girar a arma em torno do dedo.

Quer uma ideia, Horace?

Acha que tenho cara de quem não quer aceitar uma ideia?

O Sam Hamilton conhecia-a. Foi ele quem assistiu ao parto. Disse-me o Rabbit. A Sr.a Hamilton esteve cá a tratar da mulher. Porque não vai até ao rancho deles e lhes pede os sinais?

Está-me cá a parecer que você é que deve usar essa estrela disse Horace. É uma boa ideia. Vou andando.

Quer que deite uma vista de olhos às imediações?

Tudo o que lhe peço é que evite que o Trask se escape ou que faça algum mal. Compreendeu? Até logo.

 

Por altura da meia-noite, Horace subiu para um comboio de mercadorias em King City. Instalou-se na plataforma da locomotiva ao lado do fogueiro e chegou a Salinas de manhã cedo. Salinas era a sede do condado, uma cidade que se desenvolvia E rapidamente, prestes a ultrapassar os dois mil habitantes. Era o maior aglomerado entre San José e San Luis Obispo, e toda a gente lhe predizia um brilhante futuro.

Horace, ao sair da estação da Pacifico Sul, foi tomar o pequeno almoço. Não queria acordar o xerife muito cedo e provocar observações desagradáveis. No restaurante, encontrou o jovem

Will Hamilton, cuja prosperidade se traduzia num belo fato cinzento. Horace sentou-se à sua mesa.

Como tem passado, Will?

Muitíssimo bem, obrigado.

Anda tratando dos negócios?

Sim, vim fechar um negócio.

Devia lembrar-se de mim de vez em quando.

Horace achava estranho dirigir-se assim a um rapaz tão novo.

Mas Will Hamilton respirava o êxito. Toda a gente sabia que ele se tornaria um dos homens mais influentes da província. Assim acontece com certas pessoas que trazem o futuro, bom ou mau, estampado no rosto.

Com todo o gosto, Horace. Estava convencido de que o tempo não lhe chegava para o rancho.

Se aparecesse outra coisa, talvez me deixasse convencer com facilidade.

Will aproximou-se dele.

Sabe, Horace, que esta parte da nossa província anda bastante abandonada? Já pensou alguma vez em ocupar um lugar mais importante?

Que lugar?

Você não passa dum adjunto. Não se sentiria tentado a deixar-se eleger xerife?

Não. Nunca tinha pensado nisso.

É agora ou nunca. Mas guarde segredo. Irei visitá-lo dentro de quinze dias e, depois, falaremos. Mas nem uma palavra a ninguém.

Pode contar comigo, Will. Mas nós já temos um excelente xerife.

Bem sei. Não é nisso que eu pensava. Não há nenhum em

King City. Está a perceber-me?

Estou, estou. Vou pensar no assunto. Sabe que fui visitar ontem os seus pais?

As feições de Will iluminaram-se. Ah, sim? Como estão eles?

Óptimos. Sabe, o seu pai é realmente divertido.

Will soltou uma casquinada.

Sempre nos fez rir enquanto fomos crescendo.

É inteligente, ainda por cima. Mostrou-me o projecto dum moinho de vento. Nunca vi nada parecido.

Valha-me Deus! exclamou Will. Não me diga que a febre o atacou de novo?

Mas tem muito interesse! disse Horace.

Tem sempre interesse. Mas os únicos que ganham alguma coisa são os que registam as patentes dele. É uma coisa que põe a minha mãe fora de si.

Ela tem uma maneira diferente de ver as coisas.

Will continuou:

A única maneira de ganhar dinheiro é vender qualquer coisa fabricada pelos outros.

Você tem carradas de razão, Will, mas garanto-lhe que o tal moinho de vento é um caso sério.

Ele levou-o à certa, hem, Horace?

Parece-me que sim. Mas, com franqueza, você não gostava que ele mudasse, pois não?

De forma nenhuma! disse Will. Pense no que eu lhe disse.

Não deixarei de o fazer.

E bico calado.

O cargo de xerife não era uma sinecura. E a província que, na lotaria das eleições, obtinha um bom xerife, podia considerar-se feliz. As suas funções eram bastante indefinidas. Os seus principais deveres fazer respeitar a lei e manter a paz estavam longe de ser os mais importantes. Um xerife estúpido ou violento não fazia carreira numa comunidade onde os interesses individuais devem ser respeitados. Tinha de arbitrar as brigas de vizinhos por questões de água, de marcos, de direitos de passagem; tinha de averiguar as paternidades duvidosas, e tudo isto sem recorrer à força das armas. Só quando todos os outros meios se revelavam improfícuos é que um bom xerife procedia a uma detenção.

O melhor não era o campeão da pontaria, mas sim o da diplomacia. A província de Monterey possuía um xerife excelente que tinha o maravilhoso dom de se meter apenas no que lhe dizia respeito.

Horace chegou à velha cadeia às nove e dez. O xerife já estava no seu gabinete. Apertaram as mãos, falaram do tempo e das colheitas, até que Horace resolveu entrar no assunto.

Vim cádisse finalmente Horace -, porque preciso dos seus conselhos.

E contou a história com todos os pormenores, sem nada esquecer os sinais das testemunhas e a hora a que tinham deposto. O xerife fechara os olhos e cruzara as mãos. Se, por acaso, pontuava a história, era unicamente abrindo os olhos, mas nunca soltando uma palavra.

Como vê, eu estava em maus lençóis terminou Horace.

Nem conseguia saber o que se passara, nem obtinha os sinais da mulher. Foi o Julius Euskadi quem me deu a ideia de ir ver o

Sam Hamilton.

O xerife espreguiçou-se, bocejou, traçou as pernas e fez um resumo da situação.

Acha que ele a matou?

Era o que eu pensava. Mas o Sr. Hamilton deixou-me na dúvida. Na opinião dele, o Trask não tem alma de assassino.

Há um assassino em cada um de nós disse o xerife. Basta encontrar o gatilho para o tiro sair.

O Sr. Hamilton contou-me coisas estranhas a respeito dela.

Antes de dar à luz os filhos, mordeu-o na mão. Se visse a ferida, pensava que era uma dentada de lobo.

O Sam deu-lhe a descrição dela?

Deu, sim. E a mulher dele, também.

Horace tirou um papel da algibeira e leu a descrição pormenorizada fornecida pelos Hamilton.

Quando Horace se calou, o xerife suspirou:

Estão ambos de acordo sobre a cicatriz?

Inteiramente. E também notaram que mudava de cor de um dia para o outro.

O xerife tornou a fechar os olhos e aninhou-se confortavelmente na cadeira. De súbito, endireitou-se, abriu uma gaveta da secretária e tirou uma garrafa de uisque.

Sede? perguntou.

À sua saúde!

Horace bebeu, limpou a boca e devolveu a garrafa.

- Que pensa de tudo isto? perguntou ele.

O xerife emborcou três goladas de uísque, rolhou a garrafa e tornou a guardá-la na gaveta. Só então respondeu:

- O nosso condado é bem administrado. Eu mantenho boas relações com os oficiais da polícia. Sempre que é necessário, damos uma ajuda uns aos outros. Numa cidade em plena expansão como Salinas, cheia de estranhos que entram e saem, podíamos ter aborrecimentos sem fim se não vigiássemos tudo de perto. Eu estou em excelentes termos com toda a gente.

O xerife fitou Horace.

Não se impaciente. Não tenciono fazer-lhe um discurso.

Estou apenas a pôr-lhe as coisas no seu devido pé. Nós não estamos aqui para aborrecer as pessoas, mas para viver com elas.

Terei feito mal?

De forma nenhuma, Horace. Você agiu como devia. Se não tivesse vindo ver-me, ou se tivesse prendido o Sr. Trask, estávamos metidos num lindo sarilho. Oiça...

Estou a ouvir disse Horace.

Do outro lado da linha do caminho de ferro, ao pé do bairro chinês, há uma rua de casas de prostituição.

Bem sei.

Toda a gente sabe. Se as fechássemos, mudavam de lugar. É uma instituição necessária. Trazemo-las debaixo de olho para que não se passe nada de grave. E as proprietárias dessas casas estão em contacto connosco. Quando um cadastrado ou um evadido anda a rondar no bairro, sou logo informado.

Horace interrompeu:

O Julius contou-me...

Deixe-me dizer tudo o que tenho a dizer para que não tenhamos de voltar ao assunto. Há cerca de três meses, veio ver-me uma mulher muito respeitável. Desejava instalar-se, o mais legalmente possível, e vinha de Sacramento, onde explorara uma casa.

Mostrou-me cartas de recomendação de gente muito importante.

Tinha o registo criminal virgem. Em resumo: uma excelente cidadã.

O Julius falou-me nela. Chama-se Faye.

É isso mesmo. Abriu uma óptima casa, sossegada e bem dirigida. Já ia sendo tempo que a velha Jenny e a Negra tivessem alguma concorrência. Elas ficaram desesperadas com a história, mas eu disse-lhes o mesmo que lhe disse a si. Já lhes estava a fazer falta a concorrência.

Dizem que tem um pianista.

Pois tem e é bem bom. Um cego. Mas deixa-me falar ou não deixa?

Desculpe.

Não tem importância. Bem sei que sou vagaroso, mas atinjo sempre o meu objectivo. Seja como for, a Faye mostrou ser o que parecia: uma cidadã valiosa. Sabe que as casas de toleradas têm mais medo duma coisa do que de todas as outras: receberem uma rapariga que, depois de fugir, resolve entrar para o serviço. Os pais acabam sempre por encontrá-las e armam um escândalo terrível.

Depois, a igreja entra na dança, seguida pelas ligas femininas, e não tarda muito que a casa adquira má fama e nos vejamos obrigados a encerrá-la. Está a compreender?

Estou, sim disse Horace.

Agora veja lá se me passa à frente! Detesto explicar uma coisa que as pessoas já perceberam. No domingo à noite, a Faye mandou-me um recado. Acabava de albergar uma rapariga e não sabia o que lhe havia de fazer. O que a preocupava é que a tal pequena, apesar do seu arzinho de filha-família, mostrava conhecer o ofício na ponta dos dedos. Fui até lá para a interrogar. Ela contou-me a clássica história, mas, fora isso, nada tenho a censurar-lhe. Além de ter a idade requerida, ninguém apresentou queixa contra ela.

Colocou as mãos abertas sobre a mesa.

Aqui tem, meu caro. O que pensa?

Tem a certeza de que se trata da Sr.a Trask?

Olhos grandes, cabelo loiro, cicatriz na testa. Chegou no domingo à tarde.

Horace relembrou o rosto de Adam a soluçar.

Valha-me Deus Todo-Poderoso! Outro que se encarregue de prevenir o marido. Eu prefiro demitir-me.

O xerife olhou para o espaço à sua frente.

Disse que o marido não lhe conhecia o nome de solteira nem sabia donde vinha? As histórias que ela não lhe terá contado!...

O palerma disse Horace está apaixonado por ela.

Não, não é o filho do meu pai quem lhe vai contar.

O xerife levantou-se.

Vamos tomar um café.

Caminharam em silêncio durante um momento. Depois, o xerife disse:

Horace, se eu revelasse tudo o que sei, esta província ficava reduzida a cinzas.

Não duvido.

Ela teve um par de gémeos?

Dois rapazes.

Oiça, Horace. Só três pessoas sabem disto. Ela, você e eu.

Eu vou preveni-la de que, se ela disser uma só palavra que seja, a ponho a andar com tanta velocidade que há-de julgar que leva fogo no rabo. Quanto a você, Horace, se algum dia sentir cócegas na língua, antes de dizer seja o que for, mesmo à sua mulher, lembre- se dos dois miúdos que ficavam a saber que a mãe é uma prostituta.

 

Adam estava sentado numa cadeira à sombra do grande carvalho. Tinha o braço esquerdo ligado ao peito para não poder mover o ombro. Lee saiu de casa com a cesta da roupa, colocou-a no chão ao lado de Adam e voltou para casa.

Os gémeos estavam acordados e atiravam olhares cegos e ansiosos às folhas do carvalho que o vento fazia oscilar. Uma folha seca caiu a rodopiar e pousou na cesta. Adam inclinou-se e deitou-a fora.

Só ouviu o cavalo de Samuel quando estava quase ao pé dele, mas Lee já o tinha avistado. Lee trouxe uma cadeira e levou Doxology para a estrebaria.

Samuel sentou-se calmamente. Não queria perturbar Adam olhando-o insistentemente, nem evitando olhá-lo. O vento começava a refrescar e brincava nos cabelos de Samuel.

Pensei que talvez não fosse asneira recomeçar com o trabalho dos poços.

Adam já não se servia da voz há tanto tempo que ela parecia ter enferrujado.

Não, disse ele. já não quero poços. Pagar-lhe-ei o trabalho que teve.

Samuel debruçou-se para a cesta e meteu um dedo numa das mãozinhas, que se fechou.

Acho que o último mau hábito que um homem perde é o de dar conselhos.

Não preciso de conselhos.

Ninguém precisa. O conselho é um presente. É necessário fazer os gestos, Adam.

Que gestos?

Os gestos da vida. Finja que vive como numa peça de teatro. Ao fim de certo tempo, de muito tempo, a mentira tornar-se-á verdade.

Para quê? perguntou Adam.

Samuel contemplou os gémeos.

Quer queira, quer não, terá de transmitir o facho. Por muito estéril que deseje ser, as ervas e os espinhos hão-de nascer. Alguma coisa há-de crescer disseele..

Adam não respondeu e Samuel levantou-se

Voltarei as vezes que forem precisas. Faça os gestos, Adam.

Na estrebaria, Lee segurou Doxology enquanto Samuel montava.

Lá se vai a sua livraria, Lee.

Oh! disse o chinês talvez eu não estivesse muito interessado nela.

 

 

                               CAPÍTULO XIX

 

Parece que os países novos seguem sempre a mesma rotina.

Primeiro, chegam os desbravadores, fortes e heróicos, mas vulneráveis. Podem lutar contra as forças da natureza, mas são ingénuos e impotentes perante o homem, e é talvez a ele que fujam. Quando a terra fica desbravada, chegam, por sua vez, os homens de negócios e de leis para auxiliarem o progresso e resolverem os problemas de propriedade, o que equivale a dizer que acabam também por contrair a febre da posse. Vem, por fim, a cultura que é, simultaneamente, distracção, descanso para os nervos e olvido da amargura de viver. E a cultura pode apresentar-se sob todas as formas.

A igreja e o bordel chegaram ao mesmo tempo ao Oeste. E ambos teriam ficado horrorizados se soubessem que não passavam de diferentes facetas da mesma necessidade. Porque, na realidade, ambos pretendiam alcançar o mesmo fim: os cânticos, os ritos, a poesia da igreja ofereciam ao homem o esquecimento da sua tristeza; o bordel, esse, oferecia-lhe outros esquecimentos. As diversas seitas chegaram de cabeça levantada, cheias de suficiência,e seguras da sua missão. Desprezando as mais simples leis económicas, mandaram construir igrejas que ainda não acabaram de pagar. Combatiam o mal, é certo, mas também se combatiam umas às outras com um vigor diabólico. Em nome duma doutrina, não havia nenhuma que não condenasse as outras às chamas do Inferno. Só numa coisa estavam de acordo: todas se gabavam de Serem fiéis intérpretes das Escrituras que definiram a nossa estética e as nossas relações com os outros humanos. Seria necessário um homem sagaz para descobrir onde residiam as diferenças entre as seitas, mas toda a gente podia ver o que elas tinham de comum. Todas ofereciam a música, talvez não a melhor, mas qualquer coisa que dela tinha a forma e o som. Todas traziam, também, a consciência ou talvez fosse preferível dizer que aguilhoavam as consciências adormecidas... Não eram puras, mas possuíam um potencial de pureza como uma camisa branca que estivesse suja. E todos os homens se podiam apoderar do melhor para o fazer germinar em si. Quando o Reverendo Billing foi preso, verificaram que era ladrão, adúltero, libertino e zoomaníaco, mas isso não alterava o facto de ele ter comunicado muitas coisas boas a um grande número de fiéis. Prenderam o Reverendo Billing, mas o que nunca prenderam foi o que ele tinha libertado. E pouco importa que ele tenha obedecido a intentos impuros. Os seus materiais eram bons e o que ele construiu ainda se conserva de pé. Apenas cito o caso de Billing como um exemplo extremo. Os pregadores honestos tinham energia e eram dinâmicos. Combatiam o mal e expulsavam Satã de todos os lugares onde se introduzira. Poder- se-á talvez dizer que cantavam a verdade e a beleza da mesma maneira que uma foca canta o Hino Nacional ao som das cornetas dum circo. É possível mas ainda sobravam beleza e verdade bastantes e o hino era reconhecível. Contudo, as seitas fizeram mais do que isso. Criaram as bases da vida mundana no vale do Salinas.

O jantar no presbitério é avô do clube local e as sessões poéticas que se realizavam à terça-feira na cave da sacristia apadrinharam o teatro.

Enquanto as igrejas, carregadas do suave olor da piedade, investiam como ajaezados e impetuosos cavalos de cervejaria em dia de festa, a sua parente pobre entrava com pezinhos de lã, toda curvada e velada, para evangelizar os corpos.

Talvez já tenham visto palácios de vício e de deboche no Far West truncado e artificial dos filmes; alguns até, podem ter existido. Mas não havia nenhum assim no vale do Salinas. Os bordéis eram calmos, ordenados e discretos. E, na verdade, se depois de terem escutado os gritos de êxtase dos fiéis, pontuados pelos acordes dos harmónios, ouvissem os murmúrios que saíam duma casa de prostituição, era natural que confundissem as identidades dos dois ministérios. O bordel era tolerado, mas não reconhecido.

Vou-lhes contar como eram os solenes recintos amorosos de Salinas. Pareciam-se com os outros recintos das outras cidades, mas a rua amorosa de Salinas tem bastante que ver com esta história.

Ia-se pela Main Street para Nascente até se encontrar Castroville Street, que hoje se chama Market Street, só Deus sabe porquê. Antigamente, as ruas tinham os nomes dos sítios aonde levavam. Assim, seguindo-se por Castroville Street, andadas nove milhas, estava-se em Castroville; Alisal Street ia ter a Alisal e assim por diante.

Seja como for, quando dessem com Castroville Street, viravam à direita. Passado o segundo cruzamento, a rua era atravessada na diagonal pela linha da Pacífico Sul e por outra rua na direcção

Poente-Nascente. Juro-lhes pela minha salvação eterna que não me recordo do nome dessa rua. Se virassem à esquerda nessa rua e se atravessassem a linha, iam ter ao bairro chinês. Se virassem à direita, iam dar à tal rua do amor.

A calçada era de barro, lamacenta no Inverno e dura como pedra no Verão. Na Primavera, a erva crescia nas valetas: aveia brava, malvaísco e mostarda amarela. De manhã cedo, as andorinhas chilreavam no meio dos bonicos de cavalo.

Recordas-te desses ruídos, meu velho? Lembras-te da brisa oriental que trazia os cheiros do bairro chinês, porco assado, álcool, tabaco negro e yen shi? Lembras-te do som pesado do gongo do Joss? Lembras-te como o ar ficava a vibrar?

Recordas-te das humildes casas que nunca eram pintadas, nem reparadas? Pareciam muito pequenas e procuravam desaparecer atrás duma aparência desmazelada, enquanto a grama tentava dissimulá-las aos olhos da rua. Recordas-te dos estores sempre corridos, delimitados por três nesgas de luz amarela? Do interior só vinha um murmúrio. Abria-se a porta, entrava um campónio e tu ouvias gargalhadas e até uma cantilena sentimental moída num piano com um bocado de corrente de autoclismo atravessado nas cordas, e depois a porta tornava-se a fechar.

E o martelar dos cascos dos cavalos na rua? Desembocava

Peter Bulene, guiando o seu carro. Parava diante duma casa e quatro ou cinco cavalheiros muito bem postos desciam. Talvez fossem personalidades oficiais, homens ricos, banqueiros, ou frequentadores habituais da casa. Então o Peter levava os cavalos até à esquina e estendia-se no carro enquanto esperava pelos cavalheiros. Gatos enormes atravessavam a rua e desapareciam na erva alta.

E depois lembras-te? um apito de locomotiva, a luz incongruente do seu farol, e um comboio de mercadorias proveniente de King City atravessava Castroville Street para entrar em Salinas, e tu ficavas a ouvir a locomotiva a arfar na estação. Recordas-te?

Todas as cidades têm as suas damas célebres, mulheres eternas sentimentalmente glorificadas pelos anos fora. As damas exercem uma atracção muito especial nos homens. Têm o cérebro dum comerciante, os músculos dum campeão de boxe, o calor dum amigo e o talento dum actor. Formam-se lendas em torno delas e, por mais estranho que pareça, tais lendas nada têm de voluptuosas. As histórias que se contam duma dama englobam tudo, excepto a cama. Quando a recorda, o velho frequentador evoca uma alma filantrópica, uma autoridade médica, uma impostora e uma poetisa das emoções corporais que nunca participava no jogo do amor.

Durante um certo número de anos, Salinas abrigara dois desses tesoiros: Jenny, a quem também chamavam às vezes Jenny- a-Peidorreira, e a Negra, proprietária do Long Green. Jenny era uma boa mulher que sabia guardar um segredo e emprestar dinheiro. Há todo um livro a escrever sobre as histórias da Jenny de Salinas.

A Negra era uma bela mulher de cabelos brancos de neve, austera, e duma dignidade sombria e terrível. Os seus olhos castanhos, onde se escondia uma negra amargura, contemplavam este mundo pavoroso com um olhar desgostoso mas compreensivo. A Negra governava a casa como uma catedral onde se adorasse um Príapo triste, sim, mas em erecção. Quem quisesse gozar um bocado e apanhar umas palmadas nas costas, devia ir à casa da Jenny, onde se dava o dinheiro por bem empregado. Mas quem sentisse cair-lhe em cima toda a tristeza do mundo, a ponto de lhe fazer chegar as lágrimas aos olhos, devia ir ao Long Green.

Quando de lá se saía, tinha-se a impressão de haver realizado um acto importante. Nada que se comparasse com levantar umas saias numa meda de feno. Os belos olhos escuros da Negra não se apartavam de nós durante vários dias.

Quando Faye chegou de Sacramento e abriu a sua casa, as duas veteranas aliaram-se para correrem com ela, mas depressa verificaram que não se tratava de uma concorrente.

Faye era do género maternal, caloroso: peito opulento e bacia larga. Era um seio para derramar lágrimas, toda ela acalmava e acariciava. Havia amadores para a catedral sexual da Negra e para as bacanais da Jenny, mas também havia clientela para a Faye. A sua casa transformou-se no refúgio dos jovens minados, pela puberdade, que choravam uma virtude perdida e choravam por a continuar a perder cada vez mais. Faye era a consoladora dos maridos mal casados. Na sua casa, vingavam-se os esposos das mulheres frias. Faye era para os homens a avó cedo desaparecida. E se, por acaso, algo de sexual acontecia em Faye, tinha-se a impressão de que era um acidente perdoável. Era na sua casa que a juventude de Salinas enveredava, pela forma mais fácil e encantadora, pelo áspero caminho do sexo. Faye era uma mulher,agradável, não muito inteligente, agarrada aos princípios e que se ofendia por tudo e por nada. Inspirava confiança e tinha confiança em nós. Quando se conhecia Faye, não se sentia vontade de lhe fazer mal. Não era uma concorrente para as outras.

Era uma terceira fase.

Tal como numa loja ou num rancho os empregados se parecem com o patrão, também numa casa de toleradas as mulheres se parecem com a patroa. Primeiro, porque ela só escolhe quem lhe apetece e, depois, porque uma boa patroa imprime a sua personalidade ao negócio. Podia-se estar bastante tempo em casa de Faye sem ouvir pronunciar uma palavra grosseira ou sugestiva. À entrada para os quartos, os pagamentos, eram tão simples e casuais que mal se dava por eles. Tudo somado, ela dirigia uma casa de primeiríssima ordem, e disso se davam conta o delegado e o xerife. Contribuía largamente para todas as obras de caridade.

Com um medo pavoroso das doenças, pagava a um médico para examinar regularmente as suas pensionistas. Tinha-se menos probabilidades de arranjar uma complicação em casa de Faye do que com a professora da escola dominical. De modo que não tardou que Faye se tornasse uma das cidadãs mais invejadas da próspera cidade de Salinas.

 

A menina Kate intrigou bastante Faye: era tão nova e bonita, tão bem-educada e distinta... Faye mandou-a entrar para o seu próprio quarto e interrogou-a muito mais do que às vulgares pretendentes. Faye era capaz de definir num abrir e fechar de olhos todas as mulheres que lhe batiam à porta: indolentes, viciosas, insatisfeitas, gulosas, ambiciosas. Kate não entrava em nenhuma destas classificações.

Espero que não se importe que lhe faça todas estas perguntas. Acho estranho que tenha cá vindo. Com uma cara dessas, podia arranjar um marido, uma equipagem e uma boa casa, sem que se incomodasse muito.

Faye fez girar a aliança no seu gordo anular. Kate sorriu timidamente.

É tão difícil de explicar. Espero que não insista em querer saber. Está em jogo a felicidade de alguém muito chegado. Peço- lhe por tudo que não me pergunte nada.

Faye aquiesceu solenemente.

Há tantos casos lamentáveis! Tive uma pensionista que estava criando um filho e, durante muito tempo, não soube de nada. Agora, tem uma bela casa e um marido em... Lá me escapava! Preferia cortar a língua. Tem algum menino, querida?

Kate baixou os olhos para tentar dissimular as lágrimas. Quando conseguiu falar, murmurou:

Desculpe-me, mas não posso dizer nada.

Ora essa, ora essa, ninguém a obriga a falar.

Faye não era inteligente, mas estava longe de ser parva. Foi ter com o xerife e explicou-lhe tudo. Seria ridículo arriscar-se. Sabia que havia algo de estranho em Kate, mas, se isso não trouxesse prejuízo para a casa, Faye nada tinha a ver com o caso.

Os seus temores dissiparam-se logo que Kate se entregou ao trabalho com ardor. Quando os clientes voltam e escolhem uma rapariga tratando-a pelo seu nome próprio, é porque ela vale alguma coisa. E não é com os seus lindos olhos que ela obtém esse resultado. Faye adquiriu a certeza de que Kate não era uma principiante.

Quando se tem uma nova pensionista, há duas coisas que contam: a primeira é “trabalhará ela?”; e a segunda” entender se-á com as outras?” Não há como uma rapariga dotada de mau feitio para semear a desordem numa casa.

Faye não teve de esperar muito tempo para obter resposta à segunda pergunta. Kate fez tudo o que pôde para se tornar agradável. Ajudou as colegas a limpar os quartos; levou-lhes comida quando estavam doentes, ouviu-lhes as histórias e, assim que teve dinheiro, emprestou-lhes. Não podia haver melhor. Passado pouco tempo, era a maior amiga de toda a gente.

Kate chamava a si todos os aborrecimentos, não havia empreitada que a assustasse e, o que era melhor, fazia subir a receita.

Não tardou muito tempo que tivesse um numeroso grupo de admiradores. E que delicadeza. Recordava-se sempre das datas dos aniversários e oferecia uma prenda e um bolo com velas. Faye estava convencida de ter achado um tesoiro.

As pessoas não sabem o que é ser patroa. Pensam que basta sentar-se numa poltrona, ingurgitar muita cerveja e arrecadar metade dos ganhos das raparigas. Mas não é nada disto. As pensionistas têm direito ao sustento, o que representa conta na mercearia e um cozinheiro. O problema da lavagem da roupa é muito mais complicado do que num hotel. É preciso conservar o harém em boas condições, fazendo com que se sinta tão feliz quanto possível, e o prostíbulo é um lugar de eleição para a neurastenia.

Tem de se reduzir o suicídio a um mínimo absoluto e as prostitutas, principalmente as que vão envelhecendo, têm uma grande tendência para brincar com navalhas, o que só pode dar cabo da fama duma casa.

Não é tarefa fácil e o desperdício pode levar um negócio à falência. Quando Kate se ofereceu para tomar conta das compras e das refeições, Faye ficou encantada mas perguntou a si mesma onde iria a rapariga arranjar tempo para tanta coisa. Pois bem!

Não só a comida melhorou como as contas da mercearia ficaram reduzidas a um terço no primeiro mês. Quanto às da lavandaria, encolheram vinte e cinco por cento. Faye nunca soube o que Kate disse ao homem da lavandaria, mas era caso para perguntar como tinha conseguido viver antes de conhecer a rapariga.

À tardinha, antes de principiar o trabalho, sentavam-se as duas no quarto de Faye e tomavam chá. O quarto ficara muito mais agradável desde que Kate pintara as madeiras e colocara cortinas de renda. As raparigas compreenderam que havia duas patroas e sentiram-se contentes pois, com Kate, tudo se tornava fácil. Deixaram- se iniciar em novas práticas, que não tinham mal nenhum e que só eram pretexto para uma boa gargalhada.

Um ano se passou e Faye e Kate eram como mãe e filha. E as pequenas diziam: “Reparem bem. Esta casa ainda há-de ser dela um dia.”

Kate tinha sempre as mãos ocupadas, a maior parte das vezes a bordar iniciais em finos lenços. Todas as raparigas tinham um que guardavam preciosamente.

Gradualmente, aconteceu uma coisa muito natural. Faye, a essência da maternidade, pôs-se a considerar Kate como filha. Era um sentimento que se lhe assenhoreara do coração e das emoções que lhe fazia sofrer a sua natural moralidade. Não queria que sua filha fosse uma puta, o que era perfeitamente razoável.

Faye perguntava a si mesma como abordaria o problema. Não estava nos seus hábitos atacar as questões pela frente. Seria incapaz de dizer: “Não quero que continues a prostituir-te.”

Se for segredo, não me respondas. Mas sempre senti vontade de te perguntar. Que te disse o xerife...? Meu Deus, já foi há um ano. Como o tempo passa! E passa mais depressa quando se envelhece. Ele esteve quase uma hora fechado contigo. Não teria ele... Não, claro que não. É um pai de família. Ele prefere ir a casa da Jenny. Mas não me quero meter na tua vida.

Não há segredo nenhum disse Kate. Se houvesse dizia-lhe logo. Ele aconselhou-me, com toda a amabilidade, a que voltasse para casa. Quando lhe expliquei que não podia, foi muito compreensivo.

Disseste-lhe porquê? perguntou Faye com uma ponta de ciúme.

Claro que não. Supõe que lhe ia revelar uma coisa que nem a si quis dizer? Não seja ridícula, querida. Até parecem coisas de criança.

Faye sorriu e aninhou-se com satisfação na sua poltrona.

O rosto de Kate estava impassível, mas ela recordava-se, palavra por palavra, de toda a entrevista. Francamente, o xerife agradara-lhe. Era um homem às direitas.

 

Ele fechara a porta do quarto e examinara tudo com um olhar rápido e profissional: nem fotografias, nem objectos pessoais.

Nada, a não ser roupas e calçado.

Sentou-se na exígua cadeira de verga e uniu os dedos que pareceram começar a conversar como formigas gigantes. Falou numa voz monocórdica como se não estivesse muito interessado no que dizia. Foi talvez isso o que impressionou Kate.

No princípio da conversa, ela arvorara o seu olhar estúpido e teimoso, mas assim que ele pronunciou as primeiras palavras, Kate pôs de parte esse método e mergulhou os olhos nos dele para tentar adivinhar o que pensava. Ele não olhava para ela, mas também não desviava o olhar. Ela sabia que o xerife a estava observando. Sentia-lhe o olhar fixo na cicatriz, um olhar tão insistente que quase parecia roçá-la.

Não organizarei cadastro -disse ele calmamente. Já ocupo este posto há muito tempo e a reforma está por pouco.

Garanto-lhe, minha menina, que se isto se tivesse passado quinze anos atrás, não deixaria de fazer as minhas indagações e tenho a certeza de que poria a claro coisas bastante feias.

Aguardou uma reacção, mas ela não protestou. O xerife abanou a cabeça.

Não quero saber nada continuou. Só desejo a paz neste condado e quero que seja respeitada, custe o que custar.

Ainda não travei conhecimento com o seu marido.

Kate compreendeu que ele notara o pequeno estremecimento que a percorrera.

Parece que é um homem encantador. Também parece que foi gravemente atingido.

Fitou-a nos olhos.

Não lhe interessa saber o mal que causou o seu tiro de pistola?

Interessa disse ela.

Desta ainda escapa. Ficou com o ombro esfrangalhado, mas escapa. O chinês trata-o na perfeição. Como é evidente, não poderá utilizar o braço esquerdo por muito tempo. Um tiro de 44 não é brincadeira nenhuma. Se o chinês não tivesse voltado a tempo, o

Sr. Trask teria sangrado toda a noite, morreria e você estaria agora atrás das grades da minha prisão.

Kate continha a respiração, procurando adivinhar o que se iria seguir, mas o polícia mantinha-se impenetrável.

Tenho muita pena disse ela.

O olhar do xerífe ficou alerta.

Acaba de cometer um erro, pois sei muito bem que não tem pena nenhuma. Conheci uma pessoa no seu género, há uma dúzia de anos, que foi enforcada diante da cadeia. Costumávamos fazer isso nesse tempo.

O quartinho com o seu leito de mogno, os seus objectos de toucador, a sua mesa de cabeceira e o bacio, o seu papel pintado onde se repetiam infindavelmente as mesmas rosas, ficou completamente silencioso quando acabaram de soar as últimas palavras.

O xerife contemplava uma gravura representando três querubins só três cabeças de cabelos encaracolados e olhares límpidos, com os pescoços ornados de asas de pombo. Franziu as sobrancelhas.

Estranha gravura para uma casa destas disse ele.

Já cá estava quando cheguei esclareceu Kate.

Aparentemente, o preâmbulo já tinha terminado.

O xerife endireitou-se na cadeira, desenlaçou os dedos e pousou as mãos nos braços da cadeira.

Abandonou dois gémeos recomeçou ele -, duas crianças de tenra idade. Calma. Não lhe vou pedir que volte para junto deles. Creio até que farei tudo o que puder para evitar uma coisa dessas. Conheço muito bem as pessoas da sua raça. Poderia pôla fora do meu distrito e passar palavra ao xerife vizinho e assim sucessivamente até a obrigar a mergulhar no oceano Atlântico. Mas não farei isso. Não me importa saber como vive, desde que não me arranje aborrecimentos. Uma puta é uma puta.

Kate perguntou numa voz sem cor:

Que quer que faça?

Assim é que é respondeu o xerife. O que eu quero é só isto: reparei que mudou de nome. Vai ficar com ele. Suponho que também inventou outro local de nascimento. A partir de hoje, foi lá que realmente nasceu. Quanto ao motivo que a empurrou para aqui, veja se nunca o explica a menos de duas mil milhas do meu gabinete.

Kate sorriu ligeiramente, mas era um autêntico sorriso. Principiava a depositar confiança naquele homem. O xerife agradava- lhe.

Também me lembrei prosseguiu ele de que talvez conhecesse gente na vizinhança.

Não conheço ninguém.

Ouvi falar numa agulha de tricotar acrescentou ele acidentalmente. Pode dar-se o caso de alguém que conhece entrar aqui. É essa a cor natural dos seus cabelos?<