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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A LISTA DE SCHINDLER / Thomas Keneally
A LISTA DE SCHINDLER / Thomas Keneally

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Em 1980, entrei numa loja de malas em Beverly Hills, Califórnia, e perguntei os preços de pastas para documentos. A loja pertencia a Leopold Pfefferberg, um sobrevivente Schindler. Foi sob prateleiras de mercadorias de couro italiano importado que ouvi pela primeira vez a história de Oskar Schindler, um alemão bon vivant, especulador, homem sedutor, e — sinal típico de sua personalidade contraditória — como salvou um segmento de uma raça condenada durante aqueles anos agora conhecidos pelo nome genérico de Holocausto.

Este relato da espantosa história de Oskar se baseia, em primeiro lugar, nas entrevistas com cinqüenta sobreviventes Schindler em sete nações — Austrália, Israel, Alemanha Ocidental, Áustria, Estados Uni dos, Argentina e Brasil. É incrementado por uma visita, na companhia de Leopold Pfefferberg, a locais mencionados em destaque no livro: Cracóvia, cidade de adoção de Oskar; Plaszóvia, cenário dos torpes trabalhos forçados de Goeth; a Rua Lipowa, Zablocie, onde ainda se situa a fábrica de Oskar; Auschwitz-Birkenau, de onde Oskar arrancou suas prisioneiras. Mas a narrativa se baseia também em documentos e outras informações fornecidos pelos poucos associados de Oskar na época da guerra, que ainda podem ser encontrados, bem co mo pelos seus muitos amigos do pós-guerra. Numerosos testemunhos relativos a Oskar, depositados pelos Judeus Schindler no Yad Vashem, a Autoridade de Recordação de Mártires e Heróis, amplificam este re lato, assim como os depoimentos por escrito de fontes privadas e um contexto de documentos e cartas de Schindler, alguns fornecidos pelo Yad Vashem, outros por amigos de Oskar.

O estilo e o esquema adotados nos romances têm sido freqüente mente usados por autores modernos para contar uma história verdadeira. Foi o caminho que decidi seguir aqui — não só por ser de romancista a minha única profissão, mas porque a técnica do romance me pareceu adequada a um personagem da ambigüidade e magnitude de Oskar. Contudo, tentei evitar qualquer ficção, pois assim fazendo iria adulterar o relato, e procurei separar a realidade dos mitos que se criam em torno de um homem da envergadura de Oskar. Por vezes se fez necessário uma reconstrução razoável das conversações que Oskar e outros poucos relataram. Mas a maioria dos contatos e entendimentos, e todos os eventos se baseiam nas recordações detalhadas dos Schindlerjuden (Judeus Schindler), do próprio Schindler e de outras testemunhas dos incríveis salvamentos por ele efetuados.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a três sobreviventes Schindler — Leopold Pfefferberg, o juiz Mosh Bejski, da Suprema Corte de Israel, e Mieczyslaw Pemper — que não somente transmitiram suas rememorações de Oskar ao autor e lhe forneceram certos documentos que contribuíram para a exatidão da narrativa, mas também leram o rascunho do livro e sugeriram algumas correções. Muitos outros, quer fossem sobreviventes Schindler ou aqueles que conheceram Oskar no pós-guerra, deixaram-se entrevistar e forneceram generosamente informações através de cartas e documentos. Nessa lista estão incluídos Frau Emilie Schindler, Sra. Ludmila Pfefferberg, Dra. Sophia Stern, Sra. Helen Horowitz, Dr. Jonas Dresner, Sr. e Sra. Henry Rosner, Leopold Rosner, Dr. Alex Rosner, Dr. Idek Schindel, Dra. Danuta Schindel, Sra. Regina Horowitz, Sra. Bronislawa Karakulska, Sr. Richard Horowitz, Sr. Shmuel Springmann, o falecido Sr. Jakob Sternberg, Sr. Jerzy Sternberg, Sr. e Sra. Lewis Fagen, Sr. Henry Kinstlinger, Sra. Rebecca Bau, Sr. Edward Heuberger, Sr. e Sra. M. Hirschfeld, Sr. e Sra. Irving Glovin e muitos outros. O Sr. e Sra. E. Korn não somente relataram suas rememorações de Oskar mas foram para mim um estí mulo constante. No Yad Vashem, Dr. Josef Kermisz, Dr. Shmuel Krakowski, Vera Prausnitz, Chana Abells e Hadassah Mõdlinger proporcionaram amplo acesso aos testemunhos de sobreviventes Schindler e ao material fotográfico e de vídeo.

Finalmente, gostaria de render homenagem aos esforços do falecido Sr. Martin Gosch no sentido de levar ao conhecimento do mundo o nome de Oskar Schindler e transmitir meus agradecimentos à sua viúva, Sra. Lucille Gaynes, pela sua cooperação neste projeto.

Através da assistência de todas essas pessoas, a espantosa história de Oskar Schindler aparece pela primeira vez detalhadamente.

 

 

 

 

 

 

Outono de 1943

Em pleno outono na Polônia, um rapaz alto, envergando um elegante sobretudo por cima de um dinner jacket, em cuja lapela trazia uma vistosa Hakenkreuz (suástica) de ouro e esmalte preto, emergiu de um luxuoso edifício de apartamentos na Rua Straszewskiego, nas circunvizinhanças do antigo centro de Cracóvia. O seu chofer o esperava, com a respiração condensada pelo frio, junto à porta aberta de uma imensa limusine Adler, que reluzia apesar da escuridão da rua.

— Cuidado com a calçada, Herr Schindler — advertiu o chofer. — Está mais gélida do que um coração de viúva.

Ao observar essa pequena cena de inverno, estamos em terreno seguro. O rapaz alto iria usar até o fim de seus dias jaquetões, iria — sendo praticamente um engenheiro — ser sempre agraciado com veículos lustrosos e — embora alemão e, neste ponto da história, alemão de alguma influência — ser, enquanto vivesse, o tipo de homem a quem um chofer polonês podia dirigir uma discreta piada em tom de camaradagem.

Mas não será possível apreender toda a história com a simples descrição desses pormenores característicos. Pois se trata da história do triunfo pragmático do bem sobre o mal, um triunfo em termos rigorosamente mensuráveis, estatísticos e nada sutis. Quando se considera o outro lado da fera — quando se relata o previsível sucesso que o mal geralmente alcança — é fácil ser perspicaz e deturpar, a fim de evitar um anticlímax. É fácil mostrar a inevitabilidade com que o mal adquire o que se poderia chamar de propriedade da história, ainda que o bem possa terminar com uns poucos e imponderáveis triunfos, tais como dignidade e autoconhecimento. A fatal malícia humana é a matéria-prima dos narradores, o pecado original, o fluido materno dos historiadores. Mas é um empreendimento arriscado escrever sobre a virtude.

Com efeito, "virtude" é uma palavra tão perigosa que temos de nos apressar em explicar: Herr Oskar Schindler, arriscando os seus re luzentes sapatos na gélida calçada daquele velho e elegante bairro de Cracóvia, não era um rapaz virtuoso no sentido convencional. Nessa cidade, ele instalara sua amante alemã numa casa e mantinha um prolongado caso com sua secretária polonesa. Sua mulher, Emilie, preferia passar a maior parte do tempo no lar em Morávia, ainda que de vez em quando fosse visitar o marido na Polônia. É preciso que se diga isso em favor de Oskar: com todas as suas mulheres ele se mostrava um amante polido e generoso. Mas na interpretação usual de "virtude", essas qualidades não servem como desculpa.

Além disso, era dado a bebidas. Às vezes bebia por simples prazer, outras vezes com companheiros, burocratas, membros da SS para obter informações mais concretas. Era capaz, como poucos, de se manter alerta enquanto bebia, de não perder a cabeça. Também isso — segundo uma rígida interpretação de moralidade — nunca foi desculpa para farras. E ainda que o mérito de Herr Schindler esteja bem documentado, é um traço da sua ambigüidade o fato de que ele trabalhava dentro ou, pelo menos, na periferia de um esquema corrupto e selvagem, que enchia a Europa de campos de variada e dura desumanidade e criava uma submersa e muda nação de prisioneiros. Portanto, talvez seja melhor começarmos experimentalmente com um caso ilustrativo da estranha virtude de Herr Schindler e dos locais e pessoas que o levaram a agir naquele sentido.

No final da Rua Straszewskiego, o carro passou sob a negra massa do Castelo Wawel, de onde o advogado Hans Frank, o bem-amado do Partido Nacional-socialista, governava a Polônia. Luz alguma brilhava no palácio do gigante mau. Nem Herr Schindler nem o seu chofer lançaram sequer um olhar aos baluartes quando o carro rumou na direção do rio. Na Ponte Podgórze, os guardas, postados acima do Vístula congelado para impedir a passagem de guerrilheiros e infratores do toque de recolher entre Podgórze e Cracóvia, estavam habitua dos ao veículo, ao rosto de Herr Schindler, ao Passierschein apresentado pelo chofer. Herr Schindler atravessava freqüentemente aquela barreira, indo da sua fábrica (onde mantinha também um apartamento) para o centro da cidade; ou então do seu apartamento na Rua Straszewskiego para a sua usina no subúrbio de Zablocie. Estavam também habituados a vê-lo à noite, em trajes formais ou semiformais, a caminho de algum jantar, festa ou encontro amoroso. Talvez, como era o caso nessa noite, rumando uns dez quilômetros para fora da cidade, onde se situava o campo de trabalhos forçados de Plaszóvia para jantar com o SS Hamptsturmführer Amon Goeth, um libertino altamente colocado. Herr Schindler gozava a fama de ser generoso com presentes de bebidas no Natal, portanto o seu carro tinha permissão para entrar sem formalidades no subúrbio de Podgórze.

É verdade que nessa fase de sua história, apesar de uma preferência por boa comida e bons vinhos, Herr Schindler encarava o jantar com o Comandante Goeth com mais desagrado do que satisfação. Com efeito nunca houvera ocasião em que se sentar e beber em companhia de Amon não lhe fosse uma perspectiva repelente. Entretanto, havia na repulsa de Herr Schindler algo de picante, um antigo, excitante senso de abominação — algo como a sensação que causa, numa pintura medieval, a vista dos justos lado a lado com os malditos. Uma emoção que, por assim dizer, mais o aguilhoava do que acovardava.

No interior forrado de couro preto do Adler, que corria ao lado dos trilhos do bonde, no local onde até recentemente fora o gueto judaico, Herr Schindler — como sempre — fumava um cigarro atrás do outro. Mas a sua maneira de fumar era calma. Jamais se via tensão nas suas mãos; sua atitude era elegante; seus modos sugeriam que ele sabia de onde viriam o próximo cigarro e a próxima garrafa de conhaque. Somente ele poderia nos dizer se tinha de se fortalecer com uns goles de seu frasco de bolso, ao passar pela silenciosa e sombria aldeia de Prokocim, onde se via, parada junto ao leito da estrada para Lwów, uma fileira de vagões de gado, que poderiam estar transportando sol dados de infantaria ou prisioneiros, ou até mesmo — embora fosse pouco provável — gado.

Já no subúrbio, talvez a uns dez quilômetros do centro da cidade, o Adler dobrou à direita e entrou numa rua chamada — por ironia — Jerozolimska. Nessa noite de marcantes contornos congelados, Herr Schindler notou à primeira vista, abaixo da colina, uma sinagoga em ruínas, e depois as formas nuas do que naqueles dias equivalia à cidade de Jerusalém, o Campo de Trabalhos Forçados de Plaszóvia, a cidade de casernas de 20.000 judeus inquietos. Os SS ucranianos e Waffen cumprimentaram cortesmente Herr Schindler, pois ele era tão conhecido ali como na Ponte Podgórze.

Quando se achou no mesmo nível que o Prédio da Administração, o Adler avançou por um caminho margeado por sepulturas judaicas. Até dois anos atrás, o acampamento fora um cemitério judaico. O Comandante Goeth, que se dizia poeta, usara na construção daquele campo todas as metáforas que lhe ocorreram. Essa metáfora de tumbas arrebentadas percorria a extensão do campo, dividindo-o em dois, mas não se estendia a leste para a villa, ocupada pelo próprio Comandante Goeth.

À direita, depois da caserna dos guardas, erguia-se uma antiga construção mortuária dos judeus. Parecia proclamar que ali toda a mor te era natural, causada pelo desgaste, que todos os mortos estavam devidamente enterrados. Na realidade, o local era agora usado como a estrebaria do comandante. Embora estivesse habituado ao cenário, é possível que este ainda provocasse em Herr Schindler a reação de uma ligeira tosse irônica. Admissivelmente, se alguém fosse reagir a cada aspecto irônico da nova Europa, essa reação passaria a fazer parte de sua bagagem. Mas Herr Schindler possuía uma imensa capacidade de carregar consigo tal bagagem.

Nessa noite, um prisioneiro chamado Poldek Pfefferberg encaminhava-se também para a residência do comandante. Lisiek, a ordenança de dezenove anos, fora à caserna de Pfefferberg munido de passes assinados por um oficial graduado da SS. O problema do rapaz era o fato de que a banheira do comandante estava com um anel encardido em seu interior, e Lisiek tinha medo de ser espancado, quando o Co mandante Goeth fosse tomar o seu banho matinal. Pfefferberg, que fora professor no curso secundário de Lisiek em Podgórze, trabalhava na garagem do campo e tinha acesso a solventes. Assim, acompanha do por Lisiek, ele foi até a garagem e apanhou um esfregão e uma lata de detergente. Aproximar-se da residência do comandante era sempre uma aventura duvidosa, mas significava a chance de receber comida de Helen Hirsch, a maltratada empregada judia de Goeth, moça gene rosa que também fora discípula de Pfefferberg.

Quando o Adler de Herr Schindler se encontrava ainda a cem metros da villa, os cães começaram a latir — o dinamarquês, o fila e to dos os animais mantidos em canis atrás da casa. A construção era de forma quadrada, com um sótão. As janelas do sobrado davam para uma varanda. Contornando todas as paredes havia um terraço com balaustrada. Amon Goeth gostava de sentar-se ao ar livre no verão. Desde que chegara a Plaszóvia aumentara de peso. No próximo verão seria um rotundo adorador do sol. Mas naquela versão particular de Jerusalém, ele estaria a salvo de pilhérias.

Um Unterscharführer SS (sargento), exibindo luvas brancas, estava nessa noite postado junto à porta da entrada. Bateu continência e introduziu Herr Schindler na casa. No saguão, Ivan, a ordenança ucraniana, apanhou o sobretudo e o chapéu-coco de Herr Schindler. Este apalpou o bolso de cima do paletó para se certificar de que estava com o presente para o seu anfitrião: uma cigarreira folheada a ouro adquirida no mercado negro. Amon estava tão bem de finanças, especial mente negociando com jóias confiscadas, que se ofenderia se recebesse algo menos que um folheado a ouro.

Ao pé das portas duplas, que abriam para a sala de jantar, os ir mãos Rosner estavam extraindo melodias, Henry de um violino, Leo de um acordeão. Por ordem de Goeth, eles tinham posto de lado as roupas esfarrapadas, que usavam durante o dia na oficina de pintura do campo, e envergado os trajes de noite, mantidos em sua caserna para eventos como aquele. Oskar Schindler sabia que, embora o co mandante admirasse a música dos Rosner, estes nunca se sentiam tranqüilos, quando tocavam na villa. Já conheciam bem Amon. Sabiam que ele era imprevisível e dado a execuções ex tempore. Assim, tocavam com cautela, no receio de que sua música, de repente, inexplicavelmente, se tornasse ofensiva.

A mesa de Goeth essa noite iriam sentar-se sete homens. Além do próprio Schindler e do anfitrião, os convidados incluíam Julian Scherner, chefe da SS para a região de Cracóvia, e Rolf Czurda, chefe da divisão em Cracóvia da SD, o Serviço de Segurança do falecido Heydrich. Scherner era um Oberführer — um posto entre coronel e general-de-brigada, para o qual não existe equivalente no Exército; Czurda, um Obersturmbannführer, equivalente a tenente-coronel. Goeth era um Hauptsturmführer, ou seja, capitão. Scherner e Czurda eram os convidados de mais alta categoria, pois aquele campo estava sob a sua autoridade. Eram ambos alguns anos mais velhos do que o Comandante Goeth, e o chefe de polícia SS Scherner parecia positivamente um homem já maduro, com seus óculos, cabeça calva e leve obesidade. Ainda assim, em virtude dos hábitos extravagantes do seu protegido, a diferença de idade entre ele e Amon não parecia ser significativa.

O mais velho do grupo era Herr Franz Bosch, um veterano da Primeira Guerra, gerente de várias oficinas, legais e ilegais, dentro de Plaszóvia. Era também "conselheiro econômico" de Julian Scherner e tinha interesses comerciais na cidade.

Oskar sentia desprezo por Bosch e pelos dois chefes de polícia, Scherner e Czurda. Contudo, a cooperação deles era essencial à existência de sua peculiar fábrica em Zablocie, e assim constantemente mandava-lhes presentes. Os únicos convidados por quem ele sentia alguma simpatia eram Julius Madritsch, proprietário da fábrica de uni formes Madritsch, dentro do campo de Plaszóvia, e Raimund Titsch, seu gerente. Madritsch era cerca de um ano mais moço do que Oskar e o Comandante Goeth. Homem empreendedor, porém humano; se lhe pedissem para justificar a existência de sua rendosa fábrica dentro do campo, argumentaria que mantinha quase quatro mil prisioneiros empregados e portanto a salvo das usinas de matança. Raimund Titsch, de quarenta e poucos anos, retraído e de físico franzino (que provavelmente deixaria cedo a reunião), contrabandeava para dentro do campo caminhões de alimentos para os seus prisioneiros (empreendimento que poderia custar-lhe uma permanência fatal na prisão de Montelupich, a cadeia da SS, ou então Auschwitz) e tinha o mesmo ponto de vista de seu patrão.

Tal era o grupo de convidados para o jantar na villa do Comandante Amon Goeth.

As quatro convidadas, muito bem penteadas e usando roupas caras, eram mais jovens do que qualquer dos homens, e todas prostitutas de alta categoria. Alemãs e polonesas, de Cracóvia. Algumas delas compareciam regularmente àqueles jantares. O seu número permitia certa opção de escolha para os dois oficiais superiores. Majola, a amante alemã de Goeth, em geral ficava em seu apartamento na cidade durante aqueles festejos de Amon. Considerava tais jantares como orgias masculinas e, portanto, ofensivas à sua sensibilidade.

Não havia dúvida de que, à maneira deles, os chefes de polícia e o comandante gostavam de Oskar. Achavam, contudo, haver algo de estranho nele. Talvez estivessem dispostos a considerar essa impressão como motivada pela origem de Oskar, um alemão da região Sudeste, entre a Boêmia e a Silésia — a mesma diferença de Arkansas para Manhattan ou de Liverpool para Cambridge. Havia dúvidas a respeito de sua mentalidade, embora ele fosse bom pagador, sempre pronto a fornecer mercadorias escassas, soubesse beber sem se embriagar e tivesse às vezes um senso de humor um tanto ousado. Era a espécie de homem para quem se sorria e cumprimentava do outro lado da sala, mas não era necessário tratá-lo efusivamente.

É bem provável que os membros da SS tivessem se dado conta da chegada de Schindler ao notar um frisson entre as quatro moças. Os que conheceram Oskar naquela época falam do charme magnético que ele exercia especialmente sobre as mulheres, com as quais seus sucessos eram escandalosamente constantes. Os dois chefes de polícia, Czurda e Scherner, voltaram-se para Schindler, talvez procurando um meio de atrair também a atenção das moças. Goeth adiantou-se para estender Ihe a mão. Era tão alto quanto Schindler, e sua obesidade, anormal para um homem de trinta e poucos anos, era ainda mais acentuada pela altura e físico atlético. O rosto não tinha marcas especiais, a não ser pelos olhos avinhados. O fato era que o comandante costumava ingerir uma quantidade imoderada do conhaque local.

Contudo, os sinais de excesso de bebida não eram tão marcantes nele como em Herr Bosch, o gênio da economia da SS em Plaszóvia. O nariz de Herr Bosch era de um vermelho arroxeado; o oxigênio que deveria correr-lhe nas veias do rosto havia muito passara a alimentar a intensa chama azul de todo aquele álcool. Cumprimentando-o, Schindler teve a certeza de que nessa noite, como de costume, Bosch iria fazer-lhe um pedido de mercadorias.

—   Que seja bem-vindo o nosso industrial! — exclamou Goeth, e então apresentou-o formalmente às moças. No decorrer da cena, os irmãos Rosner tocaram melodias de Strauss, os olhos de Henry fixando através das cordas de seu violino o canto mais vazio da sala e Leo sorrindo de olhos baixos para as teclas de seu acordeão.

Enquanto beijava a mão das moças, Herr Schindler sentiu certa piedade delas, pois sabia que mais tarde — quando começassem as brincadeiras de palmadinhas e cócegas — as palmadas podiam deixar vergões e as cócegas arranharem a pele. Mas, por enquanto, o Hauptstumführer Amon Goeth, um sádico quando embriagado, portava-se como um exemplar cavalheiro vienense.

As conversas antes do jantar foram banais. Falou-se na guerra e, enquanto o Chefe da Segurança Czurda se empenhava em garantir a uma alemãzinha alta que a Criméia estava totalmente dominada, o chefe da SS Scherner contava a outra moça que um jovem, que ele conhecera em Hamburgo, bom sujeito, Oberscharführer na SS, tinha perdido as duas pernas na explosão de uma bomba lançada pelos guerrilheiros dentro de um restaurante em Czestochowa. Schindler conversou sobre assuntos industriais com Madritsch e seu gerente Titsch. Havia entre os três empresários uma amizade genuína. Herr Schindler sabia que o franzino Titsch adquiria ilegalmente, no mercado negro, grandes quantidades de pão, que destinava aos prisioneiros da fábrica de uni formes Madritsch. Tal gesto era de mera humanidade, pois na opinião de Schindler os lucros na Polônia eram bastante altos para satisfazer o mais inveterado capitalista e justificar gastos ilegais na aquisição de um pouco mais de pão. No caso de Schindler, os contratos com a Rustungsinspektion, a Inspetoria de Armamentos — organismo que pro punha lances e concedia contratos para a manufatura de todos os artigos necessários ao Exército alemão — tinham sido tão numerosos que ele ultrapassara seu desejo de ser bem-sucedido aos olhos do pai. Infeliz mente, Madritsch, Titsch e ele próprio éramos únicos que compravam regularmente pão no mercado negro.

Pouco antes de Goeth avisar que o jantar estava servido, Herr Bosch aproximou-se de Schindler, tomou-o pelo cotovelo, como ele previra, e o conduziu para junto à porta, onde se achavam os músicos, como se esperasse que as impecáveis melodias dos Rosner abafassem a conversa.

Os negócios vão bem, pelo que vejo — disse Bosch. Schindler sorriu para o SS.

Ah, então está dando para perceber, Herr Bosch?

É claro — replicou Bosch. Era evidente que Bosch andara consultando os boletins oficiais da Junta de Armamentos, onde eram mencionados os contratos concedidos à fábrica de Schindler.

Eu estava pensando — disse Bosch, inclinando a cabeça — que, em vista do seu atual surto de prosperidade, graças, afinal de contas, aos nossos muitos êxitos nas frentes de combate... Eu estava pensando se o senhor não gostaria de fazer um gesto generoso. Nada de maior. Apenas um gesto.

É claro — respondeu Schindler. Sentia a náusea de estar sendo usado e, ao mesmo tempo, uma sensação próxima do regozijo. O departamento do chefe de polícia Scherner por duas vezes usara a sua influência para tirar Oskar Schindler da prisão. Os auxiliares do chefe iriam sentir-se ainda mais na obrigação de repetir a providência.

A minha tia em Bremen, pobrezinha, teve a sua casa bombardeada — explicou Bosch. — Tudo foi arrasado. A cama nupcial. Os aparadores. Todas as louças e panelas. Pensei que talvez pudesse lhe arranjar uns utensílios de cozinha. E talvez uma ou duas terrinas — aquelas sopeiras grandes fabricadas na sua DEF.

Deutsche Emailwaren Fabrik (Fábrica Alemã de Utensílios Esmaltados) era o nome do próspero negócio de Herr Schindler. DEF era a sigla usada pelos alemães, mas poloneses e judeus abreviavam o no me da fábrica para Emalia.

—   Acho que posso dar um jeito — concordou Herr Schindler.

—   Quer que a mercadoria seja consignada diretamente para sua tia ou para o senhor?

—   Para mim, Oskar — respondeu Bosch, sem sequer um sorriso.

—   Quero mandar-lhe junto um cartão.

É claro.

Então está combinado. Digamos meia grosa de tudo... pratos de sopa e de servir, cafeteiras. E uma meia dúzia daquelas terrinas.

Inclinando a cabeça para trás, Herr Schindler riu abertamente, embora com certo enfado. Mas, quando falava, o seu tom era afável. E realmente isso fazia parte da sua natureza. Sempre estava disposto a presentear. Mas o fato era que os parentes de Bosch pareciam ter uma grande tendência para serem bombardeados.

—   Sua tia dirige um orfanato? — perguntou Oskar.

Bosch tornou a fitá-lo nos olhos; não havia nada de furtivo naquele bêbado.

Ela é uma mulher idosa e sem recursos. Poderá negociar os artigos que sobrarem.

Direi à minha secretária que providencie a remessa.

Aquela garota polonesa? A bonita?

—   Sim, a bonita — concordou Schindler.

Bosch tentou soltar um assobio mas os nervos de seus lábios ha viam afrouxado com o excesso de conhaque, e apenas conseguiram emitir um estranho sopro.

Sua mulher — disse ele de homem para homem — deve ser uma santa.

Sim, uma santa — admitiu Herr Schindler secamente. Não se importava de fornecer mercadorias a Bosch, mas lhe desagradava ouvi-lo falar sobre sua mulher.

Diga-me — disse Bosch — como consegue que sua mulher não interfira? Ela deve saber... e, no entanto, você parece capaz de controlá-la muito bem.

A afabilidade desapareceu do semblante de Schindler. O seu de sagrado era óbvio. Contudo, o tom rosnado de irritação não diferiu muito de sua voz normal.

Nunca discuto assuntos particulares — declarou.

Oh, perdoe-me — desculpou-se apressadamente Bosch. — Não tive a intenção... — E continuou pedindo desculpas incoerentes.

Herr Schindler não prezava Herr Bosch o suficiente para lhe explicar que, naquela altura de sua vida, não se tratava de controlar ninguém, que o desastre matrimonial do casal era antes de tudo decorrente do temperamento ascético de Frau Emilie Schindler e do temperamento hedonista de Herr Oskar Schindler. Haviam-se casado de livre e espontânea vontade, apesar de essa união ter sido desaconselhada. Mas a irritação de Oskar contra Bosch era mais profunda do que ele próprio estava disposto a admitir. Emilie era muito semelhante a Frau Louisa Schindler, a falecida mãe de Oskar. Herr Schindler pai abandonara Louisa em 1935. Assim, Oskar tinha a sensação visceral de que, ao falar com descaso do casamento Emilie-Oskar, Bosch estava também aviltando o casamento dos pais.

Bosch continuava desdobrando-se em desculpas. Bosch, que tinha a mão enfiada na gaveta de todas as máquinas registradoras de Cracóvia, estava agora suando frio de medo de perder a sua meia grosa de utensílios de cozinha.

Os convidados sentaram-se à mesa. Uma sopa de cebolas foi ser vida por uma criada. Enquanto todos comiam e conversavam, os ir mãos Rosner continuavam a tocar, aproximando-se mais da mesa, mas não tão perto que pudessem atrapalhar os movimentos da criada ou de Ivan e Petr, as duas ordenanças ucranianas de Goeth. Schindler, sentado entre a moça alta, de quem Scherner se apropriara, e uma polonesa de rosto meigo e físico delicado que falava alemão, reparou que as duas olhavam para a criada. Esta usava o tradicional uniforme doméstico, vestido preto e avental branco, mas em seu braço não havia nenhuma estrela judaica, ou risco de tinta amarela nas costas. Entre tanto, era judia. O que atraíra a atenção das outras moças era o estado de seu rosto. Em seu queixo via-se uma equimose, e seria de se imaginar que Goeth tivesse vergonha de exibir para os seus convidados uma criada em tais condições. Ambas as moças e Schindler notaram também, além da pisadura no rosto, um alarmante vergão arroxeado, que a gola do vestido nem sempre escondia, na junção do pescoço fino com o ombro.

Não somente Amon Goeth não procurou desviar a atenção geral da pessoa da criada, como virou sua cadeira para ela, ordenando-lhe, com um gesto de mão, que se aproximasse, exibindo-a para os presentes. Fazia seis semanas que Schindler não vinha àquela casa, mas sabia pelos seus informantes que a relação entre Goeth e a criada era de uma estranha crueldade. Quando se achava com amigos, ele se referia a ela como assunto de conversa. Só a escondia quando era visitado por oficiais graduados de fora da região de Cracóvia.

Senhoras e cavalheiros — anunciou ele, imitando o tom de um embriagado mestre-de-cerimônias num cabaré — quero apresentar-lhes Lena. Após cinco meses em minha casa, ela agora está se saindo bem na cozinha e comportando-se adequadamente.

Posso ver pelo seu rosto — disse a moça alta — que ela deve ter sofrido uma colisão com a mobília da cozinha.

E logo a cadela poderá sofrer outra colisão — retorquiu Goeth, com uma risada jovial. — Sim, outra colisão, não é mesmo, Lena?

Ele não é mole com mulheres — comentou o chefe SS, piscando para a sua parceira. A intenção de Scherner talvez não fosse racista, pois ele não se referira a mulheres judias, mas sim às mulheres em geral. Mas sempre que Goeth se lembrava da origem de Lena é que ela era mais severamente punida, quer em público, diante dos convidados, quer mais tarde, depois de todos se terem retirado. Scherner, sendo mais graduado do que Goeth, poderia ordenar ao comandante que parasse de espancar a criada. Mas isso não seria polido para com o seu anfitrião e poderia vir a perturbar as amistosas reuniões na villa. Scherner vinha ali não como oficial superior, mas como amigo, companheiro de orgias, apreciador de mulheres. Amon era um sujeito esquisito, mas ninguém como ele para organizar festinhas.

Em seguida foi servido arenque com molho e mocotó de porco admiravelmente preparados e apresentados por Lena. Com a carne foi servido um pesado vinho tinto húngaro; os irmãos Rosner puseram-se a tocar ardentes czardas, e o ar na sala de jantar esquentou, fazendo com que todos os oficiais despissem as jaquetas. Falou-se de novo em contratos de guerra. Perguntaram a Madritsch, o fabricante de fardas, como ia a sua fábrica em Tarnow. Estava conseguindo tantos contra tos na Inspetoria de Armamentos quanto a sua fábrica em Plaszóvia? Madritsch passou a pergunta a Titsch, o seu magro e ascético gerente. De repente, Goeth pareceu preocupado, como um homem que se lembrou no meio do jantar de algum detalhe urgente de negócio, que de veria ter sido acertado durante o dia.

As moças de Cracóvia pareciam entediadas. A jovem polonesa de lábios lustrosos, que não poderia ter mais do que 18 ou 20 anos, pousou a mão na manga de Schindler.

—   Você não é militar? — perguntou ela. — Deve lhe assentar muito bem uma farda.

Todos se puseram a rir — inclusive Madritsch, que em 1940 passara algum tempo fardado, até ser dispensado porque seus talentos de empresário eram mais importantes para o esforço de guerra. Mas Herr Schindler era tão influente que nunca fora ameaçado pela Wehrmacht:

—   Ouviram isso? — perguntou o Oberführer Scherner aos presentes. — A mocinha está imaginando o nosso industrial como um soldado. O soldado Schindler em Kharkov, comendo sua marmita, com um cobertor sobre os ombros!

À vista da elegância impecável de Schindler, realmente o quadro era discrepante, e o próprio Schindler pôs-se a rir.

Aconteceu com... — disse Bosch, tentando estalar os dedos — aconteceu com... qual era mesmo o nome dele lá em Varsóvia?

Toebbens — informou Goeth, saindo inesperadamente de sua alienação. — Aconteceu com Toebbens. Quase.

Oh, sim — disse o chefe da SD Czurda — Toebbens escapou por pouco. — Toebbens era um industrial de Varsóvia, mais importante do que Schindler ou Madritsch. — Heini (o apelido de Heinrich Himmler) foi a Varsóvia e ordenou ao chefe dos armamentos da zona: "Tire aqueles judeus fodidos da fábrica de Toebbens e convoque Toebbens para o Exército e... mande-o para a Frente. Quero dizer a Frente de Combate!" Depois recomendou ao meu colega de Varsóvia que examinasse os livros de Toebbens ao microscópio!

Toebbens era muito querido na Inspetoria de Armamentos, que sempre o favorecera com contratos de fornecimento para o Exército; por sua vez, ele retribuía esse privilégio com uma profusão de presentes. Os protestos do pessoal da Inspetoria de Armamentos tinham conseguido salvar Toebbens, contou solenemente Scherner, e depois voltou-se com uma piscadela para Schindler.

—   Isso nunca aconteceria em Cracóvia, Oskar. Nós todos gostamos demais de você.

Imediatamente, talvez para demonstrar a afeição calorosa que a mesa inteira dedicava ao industrial Herr Schindler, Goeth pôs-se de pé e entoou sem palavras um trecho da melodia de Madame Butterfly, que os irmãos Rosner estavam executando tão caprichosamente quanto qualquer artesão em qualquer fábrica ameaçada, em qualquer gueto ameaçado.

A essa hora, Pfefferberg e Lisiek, a ordenança, se achavam no andar acima esfregando o anel de sujeira na banheira de Goeth. Podiam ou vir a música dos Rosner e o ruído das risadas e conversas. À hora do café, a infeliz Lena trouxe a bandeja para os convidados e se retirou às pressas para a cozinha.

Madritsch e Titsch beberam rapidamente o seu café e desculparam-se por terem de se retirar. Schindler preparou-se para fazer o mesmo. A garota polonesa esboçou um gesto de protesto mas aquela casa não tinha atrativos para ele. Na Goethhaus tudo era permitido, mas para Oskar, que sabia dos extremos do comportamento da SS na Polônia, cada palavra que ali se dizia, cada copo que ali se bebia, era repugnante, sem falar em qualquer entretenimento sexual. Mesmo que ele levas se uma das moças para cima, não poderia se esquecer de que Bosch e Scherner e Goeth estavam desfrutando os mesmos prazeres — nas escadas ou num banheiro ou quarto — executando os mesmos movi mentos. Schindler, que não era nenhum monge, preferia ser um monge a ter que dormir com uma mulher chez Goeth.

Conversou por cima da cabeça da moça com Scherner, comentando as notícias da guerra, os bandidos poloneses, a probabilidade de um mau inverno, dando a entender à pequena que Scherner era para ele como um irmão, e que nunca roubaria a mulher de um irmão. Mas, ao dizer-lhe boa-noite, ele lhe beijou a mão. Viu que Goeth, em mangas de camisa, esgueirava-se para fora da sala de jantar, encaminhando-se para as escadas, apoiado a uma das moças, que se sentara ao seu lado durante o jantar. Oskar pediu licença e foi atrás do co mandante. Pousou a mão no ombro de Goeth. Os olhos de Goeth esforçaram-se para focalizar Schindler.

Oh — balbuciou ele — já vai, Oskar?

Tenho de voltar para casa — disse Oskar. Em casa, esperava-o Ingrid, sua amante alemã.

Você é um tremendo garanhão — observou Goeth.

Não da sua classe — replicou Schindler.

Tem razão, sou imbatível. Nós vamos... aonde vamos nós? — E virou a cabeça para a moça, mas respondeu à sua própria pergunta. — Vamos à cozinha para ver se Lena está limpando tudo direito.

—   Não — disse a moça, rindo. — Não é isso que vamos fazer.

—   E encaminhou-o para as escadas. Era um gesto de solidariedade da parte dela, a fim de proteger a jovem brutalizada, na cozinha.

Schindler observou-os — o oficial volumoso, a jovem esguia sustentando-o — subirem cambaleando as escadas. Goeth dava a impressão de que a melhor coisa que teria a fazer era dormir até a hora do almoço do dia seguinte, mas Oskar conhecia a espantosa constituição do comandante e o relógio que funcionava dentro dele. Às 3:00 horas da madrugada, Goeth seria bem capaz de decidir levantar-se e escrever uma carta ao seu pai em Viena. Às 7:00 da manhã, depois de ter dormido apenas uma hora, ele estaria na varanda, de rifle em punho, pronto a atirar em qualquer prisioneiro retardatário.

Quando a moça e Goeth chegaram ao primeiro patamar, Schindler atravessou o saguão e dirigiu-se para os fundos da casa.

Pfefferberg e Lisiek ouviram o comandante chegar muito mais cedo do que esperavam, entrando no quarto e falando com a moça que o acompanhava. Em silêncio, eles apanharam o seu equipamento de limpeza, esgueiraram-se pelo quarto e tentaram escapulir por uma porta lateral. Ainda de pé e capaz de vê-los, Goeth recuou à vista do esfregão, suspeitando que os dois homens fossem assassinos. Entretanto, quando Lisiek adiantou-se e começou uma trêmula explicação, o co mandante compreendeu que se tratava de meros prisioneiros.

Herr Commandant — disse Lisiek — quero informá-lo de que na sua banheira havia um colarinho...

Ah — disse Amon —, então você recorreu a um especialista em limpeza? — E fez um sinal para o rapaz se aproximar. — Venha, meu querido.

Hesitante, Lisiek adiantou-se e levou uma bofetada tão violenta que caiu esparramado no chão. Amon repetiu o convite, como se pudesse ser divertido para a moça ouvi-lo falar em termos carinhosos com os prisioneiros. O jovem Lisiek levantou-se e tornou a aproximar-se do comandante para uma nova bofetada. Quando ele se ergueu pela segunda vez, Pfefferberg, um prisioneiro experiente, sabia que podia esperar que qualquer coisa acontecesse — os dois serem levados para o jardim e sumariamente fuzilados por Ivan. Ao invés, o comandante simplesmente esbravejou contra eles e lhes ordenou que saíssem; os dois prontamente sumiram.

Quando Pfefferberg soube alguns dias depois que Amon matara Lisiek com um tiro, presumiu que fosse por causa do incidente do banheiro. Na verdade, tinha sido por uma questão totalmente diferente —    a ofensa de Lisiek fora atrelar um cavalo numa charrete para Bosch, sem primeiro pedir permissão ao comandante.

Na cozinha da casa, a criada, cujo nome verdadeiro era Helen Hirsch (Goeth chamava-a de Lena por preguiça), ergueu os olhos e deparou com um dos convidados do jantar. Soltou na mesa o prato com restos de carne que tinha nas mãos e perfilou-se com trêmula rapidez.

Herr... — Olhou para o dinner jacket de Schindler e buscou um título para ele. — Herr Direktor, eu estava apenas pondo de lado os ossos para os cães de Herr Comandante.

Por favor — disse Schindler — não tem que me dar satisfações, Fräulein Hirsch.

E deu a volta na mesa. Não parecia querer agarrá-la mas ela te mia as suas intenções. Se bem que Amon se comprazesse em espancá-la, o fato de Helen ser judia a salvara de um franco ataque sexual. Mas havia alemães que não eram tão discriminadores quanto Amon em questões sexuais. Todavia, o tom de voz desse homem não era o mesmo a que ela estava acostumada, nem mesmo ao de oficiais da SS e NCO que vinham à cozinha queixar-se de Amon.

Não me conhece? — perguntou ele, como se fosse um jogador de futebol, astro do cinema ou um virtuose do violino, cuja consciência de sua própria celebridade se ofendia com o fato de alguém não o reconhecer. — Sou Schindler.

Herr Direktor — balbuciou ela, curvando a cabeça. — É claro que já ouvi falar... e o senhor já esteve antes aqui. Lembro-me...

Ele passou o braço pela cintura dela. Podia sentir a tensão do corpo da moça, quando lhe tocou o rosto com os lábios.

—   Não é a espécie de beijo que você está receando — murmurou ele. — Se quer saber, estou beijando-a por piedade.

Ela não pôde conter as lágrimas. Herr Direktor beijou-a agora com força na testa, à maneira de despedidas polonesas em estações de estrada de ferro, um ruidoso beijo típico da Europa Oriental. Helen viu que também ele tinha lágrimas nos olhos.

—   Este beijo é algo que lhe estou transmitindo de. . . — E, comum gesto da mão indicou a turba de honestas criaturas lá fora no escuro, dormindo em catres amontoados ou escondidas nas florestas para quem, ao absorver os espancamentos de Hauptsturmführer Goeth, ela de certa forma atuava com pára-choque.

Schindler soltou-a e tirou de dentro do bolso uma grande barra de chocolate. Em sua substância, parecia também algo de antes da guerra.

Esconda isso — advertiu ele.

Aqui tenho mais comida — respondeu ela, como se fosse uma questão de amor-próprio informá-lo de que não estava passando fome. E, com efeito, a comida era a menor de suas preocupações. Ela sabia que não sobreviveria ao trato na casa de Amon, mas não seria por falta de alimentação.

Se não quiser comer o chocolate, troque-o por outra coisa. Por que não procura se fortalecer? — Ele recuou um passo e examinou-a. — Itzhak Stern falou-me a seu respeito.

Herr Schindler — murmurou a jovem, baixando a cabeça e chorando discretamente por alguns segundos. — Herr Schindler, ele gosta de me bater diante daquelas mulheres. No meu primeiro dia aqui, espancou-me porque joguei fora os ossos do jantar. Desceu ao porão durante a noite e perguntou-me onde estavam os ossos para os seus cachorros. Foi a minha primeira sova. Eu disse a ele... não sei por que falei; agora eu não abriria mais a boca... "Por que está me batendo?" E ele respondeu: "Estou batendo em você porque me perguntou por que estou batendo."

Helen abanou a cabeça e encolheu os ombros, como se estivesse reprovando a si mesma por falar demais. Não queria dizer mais nada; não podia relatar todos os espancamentos de que fora vítima, suas múltiplas experiências com os punhos do Hauptsturmführer.

As circunstâncias em que está vivendo são horríveis, Helen — disse Schindler em tom confidencial, curvando-se para ela.

Não importa — respondeu ela. — Já aceitei o meu destino.

Aceitou?

Um dia ele vai me matar com um tiro.

Schindler fez que não com a cabeça, e ela julgou que era um encorajamento bem precário para lhe dar esperanças. Subitamente, o traje elegante de Schindler e seu ar saudável pareceram-lhe uma provocação.

—   Pelo amor de Deus, Herr Direktor, eu vejo as coisas. Na segunda-feira estávamos em cima do telhado, o jovem Lisiek e eu, arrancando o gelo. E vimos o Herr Commandant sair pela porta da frente e descer os degraus do pátio, bem abaixo de onde nos achávamos. E ali mesmo, ele puxou o revólver e atirou numa mulher que estava passando. Uma mulher carregando uma trouxa. Ela não parecia mais magra ou mais gorda ou mais rápida ou mais lenta do que qualquer outra pessoa. Não pude entender a razão. O tiro atravessou-lhe a garganta. Apenas uma mulher que passava. Quanto mais se conhece Herr Commandant, mais a gente se convence de que o comportamento dele não obedece a regras de espécie alguma. Não posso dizer para mim mesma: "Se eu seguir essas regras, estarei a salvo..."

Schindler tomou-lhe a mão e apertou-a com força.

—   Escute, minha cara Fräulein Helen Hirsch, apesar de tudo, isto aqui ainda é melhor do que Majdanek ou Auschwitz. Se conseguir se manter com saúde...

—   Pensei isso, que não haveria esse problema na cozinha do comandante. Quando me tiraram da cozinha do campo e me destacaram para cá, as outras mulheres ficaram com inveja — respondeu ela, com um sorriso.

Schindler passou a falar mais alto. Parecia um professor enunciando um princípio de física.

—   Ele não vai matá-la, porque você lhe oferece muitos divertimentos, minha cara Helen. Tantos divertimentos que nem permite que você use a estrela de judia. Não quer que saibam que ele está se divertindo com uma judia. Atirou naquela mulher porque ela não significava nada para ele, era apenas uma a menos de uma série, que nem o ofendia nem o agradava. Está compreendendo? Mas você... Isso não é decente, Helen. Mas é a vida.

Alguém mais, Leo John, o adjunto do comandante, lhe dissera o mesmo. John era um Untersturmführer SS — equivalente a segundo-tenente. "Ele não a matará", dissera John, "até o final, Lena, porque você representa muito divertimento para ele." Dito por John, o comentário não produzira o mesmo efeito. Herr Schindler estava condenando-a a uma dolorosa sobrevivência.

Ele pareceu compreender que a deixara perturbada. Murmurou palavras de encorajamento. Tornaria a procurá-la. Tentaria livrá-la.

Livrar? — perguntou ela.

Sim. Livrá-la do comandante — explicou ele — levando-a para a minha fábrica. Certamente já ouviu falar na minha fábrica. Tenho uma fábrica de artefatos esmaltados.

Oh, sim! — respondeu ela como uma criança de cortiço, falando na Riviera. — A Emalia de Schindler. Já ouvi falar.

Mantenha-se com saúde — repetiu ele. Parecia ter certeza, quando falava, de que aquela seria a solução, baseando-se no conheci mento das futuras intenções de Himmler, de Frank.

Está bem — concordou ela.

Dando-lhe as costas, Helen se dirigiu para o guarda-louça e o arrastou para a frente, numa demonstração de força que espantou Schindler, tratando-se de uma jovem tão frágil. Removendo um tijolo da parede que ficava atrás do guarda-louça, ela retirou um punhado de dinheiro — zloty de ocupação.

Tenho uma irmã na cozinha do campo — explicou ela. — É mais moça do que eu. Quero que o senhor a resgate com este dinheiro, para que ela jamais seja colocada num vagão de gado. Creio que o senhor costuma saber de antemão dessas coisas.

Tratarei pessoalmente do caso — falou Schindler, porém com displicência, não como uma promessa solene. — Quanto dinheiro tem você?

— Quatro mil zlotys.

Ele apanhou as economias da moça e enfiou-as no bolso. Esta riam mais seguras com ele do que num nicho atrás do guarda-louça de Amon Goeth.

Assim começa perigosamente a história de Oskar Schindler, envolvido com nazistas góticos, com hedonistas SS, com uma frágil e brutaliza da jovem e com uma figura de certa forma fictícia, tão popular como a da prostituta de coração de ouro: o bom alemão.

Por um lado, Oskar tratou de conhecer a verdadeira face do sistema, a face hidrófoba por detrás do véu de decência burocrática. Sabe mais cedo do que a maioria das pessoas ousaria reconhecer o que Sonderbehandlung significa; que embora a palavra queira dizer "Trata mento Especial", significa pirâmides de cadáveres cianóticos em Belzec, Sobibor, Treblinka e no complexo a oeste de Cracóvia, conhecido pelos poloneses como Oswiecim-Brzezinka, mas que será denominado no Ocidente pelo seu nome alemão, Auschwitz-Birkenau.

Por outro lado, ele é um comerciante, um homem de negócios por temperamento, e não cospe abertamente no olho do sistema. Já conseguiu reduzir as pirâmides de cadáveres, e, embora não saiba o quanto nesse ano ou no próximo elas irão crescer em número e tamanho, ultrapassando o Matterhorn, sabe que o Holocausto virá. Embora não possa prever que mudanças burocráticas irão ocorrer em sua construção, ainda assim presume que sempre haverá espaço e necessidade de mão-de-obra judaica. Portanto, durante sua visita a Helen Hirsch, ele insiste: "Conserve sua saúde." E lá fora, no sombrio Arbeilslager (campo de trabalho) de Plaszóvia, judeus vigilantes dizem a si mesmos que regime algum — com a sua maré em vazante — pode se dar ao luxo de desperdiçar uma abundante fonte de mão-de-obra gratuita. São os que não conseguem se agüentar, que cospem sangue, que são acometi dos de disenteria que são transportados para Auschwitz. O próprio Herr Schindler ouviu prisioneiros, na Appellplatz do campo de trabalho de Plaszóvia, respondendo à chamada matinal, murmurarem: "Pelo me nos ainda estou com saúde", num tom que na vida normal só os velhos usam.

Assim, naquela noite de inverno já se havia iniciado o engajamento prático de Herr Schindler no salvamento de certas vidas humanas. Ele já estava tremendamente comprometido; já burlara leis do Reich, o que lhe poderia ter valido numerosas vezes o enforcamento, a decapitação, o confinamento nas frias cabanas de Auschwitz ou Gröss-Rosen. Mas não sabe ainda o quanto aquilo tudo vai lhe custar. Embora já tenha gasto uma fortuna, não sabe a extensão do custo futuro.

Para não forçar de início a credibilidade, a história começa com um ato cotidiano de bondade — um beijo, uma voz branda, uma barra de chocolate. Helen Hirsch nunca tornaria a ver os seus 4.000 zlotys — não numa forma em que pudessem ser contados e colocados em sua mão. Mas até hoje ela considera uma questão de somenos importância que Oskar fosse tão negligente em prestação de contas.

 

As divisões blindadas do General Sigmund List, rumando da Sudetenlândia para o norte, tinham tomado Cracóvia, a pérola do sul da Polônia, em ambos os seus flancos, em 6 de setembro de 1939. E foi no rastro das divisões que Oskar Schindler entrou na cidade, que seria a sua ostra nos próximos cinco anos. Embora logo no primeiro mês ele tivesse demonstrado a sua antipatia pelo nacional-socialismo, ainda assim previa que Cracóvia, com a sua rede ferroviária e suas indústrias ainda modestas, ia ser uma cidade privilegiada pelo novo regime. Ele próprio não seria mais um simples vendedor. Agora ia ser um magnata.

Não é fácil de imediato descobrir na história da família de Oskar as origens do seu impulso de salvar vidas. Nasceu em 28 de abril de 1908, no Império Austríaco de Franz Josef, na montanhosa província de Morávia do antigo reino austríaco. Sua terra natal era a cidade industrial Zwittau, para a qual, no começo do século XVI, certas oportunidades comerciais tinham atraído de Viena os antepassados dos Schindler.

Herr Hans Schindler, o pai de Oskar, aprovara o regime imperial, considerava-se culturalmente um austríaco, e falava alemão à mesa, ao telefone, nas conversas de negócios, em momentos de ternura. Contudo, quando, em 1918, Herr Schindler e os membros de sua família se viram cidadãos da República Tchecoslovaca de Masaryk e Benes, isso não pareceu incomodar em demasia o pai, e muito menos seu filho de dez anos. O menino Hitler, segundo assevera o homem Hitler, ainda na infância vivia atormentado com o abismo existente entre a unidade mística da Áustria e da Alemanha e a divisão política dos dois países. Tal neurose nunca amargurou a infância de Oskar Schindler.

A Tchecoslováquia era uma pequena república tão frondosa e isolada que os cidadãos de língua alemã aceitaram sem relutância a condição de minoria, ainda que mais tarde a depressão e alguns desmandos governamentais tivessem provocado certos atritos.

Zwittau, terra natal de Oskar, era uma pequena cidade coberta de pó de carvão, nas faldas da cadeia de montanhas conhecida como as Jeseniks. As colinas que a cercam eram em parte desmaiadas pela indústria e, em parte, florestadas por lariços, espruce e pinheiros. Devido à comunidade Sudetendeuíschen, que falava o alemão, havia uma escola pública alemã, freqüentada por Oskar. Ali ele fez o Curso de Realgymnasium fundado para formar engenheiros — de mineração, mecânica, urbanismo — a fim de atender às necessidades industriais da região. O próprio Hans Schindler era proprietário de uma fábrica de maquinaria agrícola, e a educação de Oskar fora um preparo para essa herança.

A família Schindler era católica, assim como a do jovem Amon Goeth, por essa ocasião completando também o Curso de Ciências e prestando exames em Viena.

Louisa, a mãe de Oskar, praticava com ardor a sua fé, e suas roupas todos os domingos conservavam o aroma do incenso, que subia em espirais de fumaça na missa da Igreja de St. Maurice. Hans Schindler era o tipo de marido que impele a mulher para a religião. Por seu lado, ele gostava de conhaque; de freqüentar cafés. A emanação de conhaque, bom tabaco e indubitável materialismo se exalava daquele bom monarquista, Herr Hans Schindler.

A família morava numa residência moderna, cercada de jardins, do lado oposto ao da zona industrial. O casal tinha dois filhos, Oskar e Elfriede. Mas não restam testemunhas de que tenha sido um lar especialmente ditoso, exceto nos termos mais gerais. Sabemos, por exemplo, que Frau Schindler não gostava que o filho, como o pai, fosse um católico negligente.

Mas não pode ter sido um lar amargurado. Do pouco que Oskar contava de sua infância não havia nada de sombrio no seu passado. O sol brilha entre os pinheiros do jardim. Há ameixas maduras naqueles princípios de verão. Se ele passa parte de alguma manhã de junho assistindo a uma missa, nem por isso volta para casa com muito senso do pecado. Vai tirar o carro do pai da garagem e começa a regular o motor. Ou então, sentado num degrau dos fundos da casa, passa horas mexendo no carburador de sua motocicleta.

Oskar tinha uns poucos amigos judeus da classe média matricula dos pelos pais na escola pública alemã. Esses meninos não eram retrógrados Ashkenazim — ortodoxos de língua iídíche — mas os filhos multílinguais, pouco dados a ritos religiosos, de comerciantes judeus. Do outro lado da Planície de Hana, nas Colinas Beskidy, nascera Sigmund Freud, filho de uma família judia do mesmo padrão, pouco antes do nascimento de Hans Schindler em Zwittau, filho de uma família de sólida origem alemã.

A história de Oskar parece sugerir algum incidente marcante em sua infância, em que ele teria tomado a defesa de um menino judeu perseguido na escola. Mas é bem pouco provável que tal tenha acontecido; se aconteceu, preferimos ignorar o evento, pois pareceria uma coincidência excessiva dessa história. Além disso, um judeuzinho salvo de um soco no nariz nada prova. O fato é que o próprio Himmler iria queixar-se num discurso a um dos seus Einsatzgruppen que cada alemão tinha um amigo judeu. '"O povo judeu vai ser aniquilado', diz todo membro do Partido. 'Sem dúvida, faz parte do nosso programa a eliminação dos judeus, o extermínio da raça — disso nos encarregamos.' E então surgem oito milhões de dignos alemães, e cada um deles tem o seu bom judeu. Concordam em que todos os outros são uma escória, mas aquele seu judeu é Classe A."

Procurando ainda encontrar, à sombra de Himmler, alguma motivação para os futuros entusiasmos de Oskar, descobrimos um vizinho dos Schindler, um rabino liberal chamado Dr. Felix Kantor. O Rabino Kantor fora discípulo de Abraham Geiger, o liberador alemão do judaísmo, que afirmava que não era crime, e até digno de louvor, ser ao mesmo tempo alemão e judeu. O Rabino Kantor não era um rígido erudito de aldeia. Vestia trajes modernos e falava alemão em casa. Chamava o seu local de orações de "templo" e não pelo antigo nome de "sinagoga". O seu templo, em Zwittau, era freqüentado por judeus doutores, engenheiros e proprietários de fábricas têxteis. Quando viajavam, contavam a outros comerciantes: "Nosso rabino é o Dr. Kantor — ele escreve artigos não somente para jornais judaicos em Praga e Brno, mas também para outros diários."

Os dois filhos do Rabino Kantor freqüentavam a mesma escola que o filho de seu vizinho alemão Schindler. Ambos os meninos eram inteligentes o bastante para, eventualmente, talvez, se tornarem dois dos raros professores judeus da universidade alemã de Praga. Esses prodígios de cabelo cortado à escovinha e falando alemão corriam de calças curtas pelos jardins de verão, perseguindo Oskar e Elfriede e sendo por eles perseguidos. E Kantor, ao vê-los aparecer e desaparecer por entre as sebes de teixos, poderia ter pensado que tudo estava acontecendo conforme haviam previsto Geiger e Graetz e Lazarus e todos aqueles outros judeus-alemães liberais do século XIX. "Somos pessoas esclarecidas, recebidas por nossos vizinhos alemães — o Sr. Schindler chega a fazer na nossa frente comentários desabonadores sobre políticos tchecoslovacos. Somos eruditos seculares bem como intérpretes compreensivos do Talmude. Pertencemos não somente ao século XX como também a uma antiga raça tribal. Não somos ofensivos nem nos ofendem."

Mais tarde, em meados dos anos trinta, o rabino iria revisar essa estimativa otimista e chegar à conclusão de que seus filhos jamais iriam cair nas boas graças dos nacionalsocialistas devido apenas ao diploma de um autor de filosofia em língua alemã — que não havia nenhum nivelamento de tecnologia do século XX, no qual um judeu pudesse encontrar o seu refúgio, como também jamais haveria uma espécie de rabino aceitável para os novos legisladores alemães. Em 1936, toda a família Kantor mudou-se para a Bélgica. Os Schindler nunca mais souberam deles.

Raça, sangue, solo pouco significavam para o adolescente Oskar. Era um desses meninos para quem um modelo de motocicleta é a coisa mais fascinante do universo. E seu pai — mecânico por temperamento — parece ter encorajado o zelo do filho por motores envenenados. No seu último ano do curso secundário, Oskar andava em disparada por Zwittau num Galloni 500cc vermelho. Erwin Tragatsch, um colega de classe, via com indizível inveja o Galloni vermelho percorrendo ruidosamente as ruas da cidade e atraindo a atenção dos pedestres na praça. Para os irmãos Kantor, também era um prodígio — não apenas o único Galloni na cidade, não apenas o único Galloni italiano 500cc na Morávia, mas provavelmente o único veículo do seu tipo em toda a Tchecoslováquia.

Na primavera de 1928, os últimos meses de adolescência de Oskar e prelúdio de um verão em que ele iria se apaixonar e decidir casar-se, apareceu na praça da cidade numa Moto-Guzzi 250cc, tipo que, fora da Itália, só havia outras quatro na Europa, e mesmo essas de propriedade de corredores internacionais: Giessler, Hans Winkler, o húngaro Joo e o polonês Kolaczkowski. Na certa havia habitantes da cidade que abanavam a cabeça e diziam que Herr Schindler estava mimando demais o filho.

Mas aquele seria o mais doce e inocente verão de Oskar. Um rapazola apolítico com a cabeça protegida por um capacete de couro, acelerando o motor da Moto-Guzzi, disputando corridas com as equipes locais nas montanhas da Morávia, filho de uma família para quem o auge da sofisticação política era acender uma vela por Franz Josef. Logo em seguida, um casamento ambíguo, uma recessão econômica, dezessete anos de política fatídica o aguardavam. Mas no rosto do corredor nenhuma premonição, apenas a careta achatada pelo vento de um corredor que — por ser um novato e não um profissional, por não ter ainda estabelecido os seus recordes — tem mais condições de pagar o preço do que os mais velhos, os profissionais, os corredores que precisam bater recordes.

A primeira competição de Oskar foi em maio, a corrida de montanha entre Brno e Sobeslav. Era uma corrida de alta categoria, e as sim pelo menos o brinquedo caro que o próspero Herr Hans Schindler dera ao filho não iria enferrujar numa garagem. O rapaz chegou em terceiro lugar em sua Moto-Guzzi vermelha, atrás de dois Terrots que haviam sido "envenenados" com motores ingleses Blackburne.

Na sua próxima competição, ele se afastou mais de sua cidade, indo correr no circuito de Altvater, nas montanhas da fronteira saxônia. Walfried Winkler, o campeão alemão de 250cc, participou da cor rida, assim como o seu veterano rival Kurt Henkelmann, num DKW refrigerado a água. Todos os corredores saxões da maior categoria — Horowitz, Kocher e Kliwar — eram participantes; estavam de volta os Terrot-Blackburnes e alguns Coventry Eagles. Havia três Moto-Guzzis, inclusive a de Oskar Schindler, bem como os corredores mais destaca dos da classe 350cc e um BMW 500cc.

Aquele dia foi quase o melhor, o mais perfeito da carreira de Oskar. Manteve-se logo atrás dos primeiros colocados durante as etapas iniciais da corrida, esperando para ver o que ia acontecer. Após uma hora, Winkler, Henkelmann e Oskar tinham deixado para trás os saxônios e as outras Moto-Guzzis abandonaram a corrida devido a falhas mecânicas. No que Oskar supunha ser a penúltima etapa, ele ultrapassou Winkler e deve ter sentido, tão palpável quanto o chão e a rápida visão de pinheiros, a iminência de sua carreira como corredor de uma equipe de fábrica, e a vida de constantes viagens, que isso iria lhe proporcionar.

Então, no que ele presumiu ser a última etapa, Oskar ultrapassou Henkelmann e ambos os DKWs, cruzou a linha e reduziu sua velocidade. Devia ter havido algum sinal enganoso dos dirigentes, porque o público pensou também que a corrida estava encerrada. Quando Oskar se deu conta de que a prova não tinha terminado — que ele come teu um erro de amador — Walfried Winkler e Mita Vychodil já o haviam ultrapassado, e até o exausto Henkelmann conseguira fazê-lo perder o terceiro lugar.

Em sua casa, ele foi recebido como um campeão. Exceto por um problema técnico, tinha vencido os melhores corredores da Europa.

Tragatsch presumiu que as razões por que fora encerrada a carreira de Oskar como corredor de motocicleta tinham sido de ordem econômica. Isso é bem provável, pois naquele verão, depois de um na moro de apenas seis semanas, ele fez um casamento precipitado com a filha de um fazendeiro, e com isso perdeu o apoio do pai, que era também o seu patrão.

A moça com que Oskar se casou era de uma aldeia situada a leste de Zwittau, na Planície de Hana. Fora educada num convento e tinha um temperamento discreto, que Oskar admirava em sua própria mãe. O pai da moça, um viúvo, não era nenhum camponês rude mas um fazendeiro educado. Na Guerra dos Trinta Anos, os antepassados austríacos da família tinham conseguido sobreviver às periódicas batalhas e devastações, que assolavam aquela planície fértil. Três séculos mais tarde, numa nova era de riscos, a jovem descendente da família aceitou um mal combinado casamento com um rapaz inexperiente de Zwittau. Tanto o pai da noiva como o de Oskar desaprovaram muito o enlace.

Hans não gostou porque podia ver que Oskar tinha repetido o erro do seu próprio casamento. Um marido sensual, de temperamento desabrido, procurando demasiado cedo na vida a paz ao lado de uma jovem educada em convento, gentil, desprovida de sofisticações.

Oskar conhecera Emilie numa festa em Zwittau. Ela estava de vi sita a amigos de sua aldeia de Alt-Molstein. Evidentemente Oskar conhecia a aldeia, pois já estivera vendendo tratores naquela zona.

Quando correram os proclamas do casamento nas igrejas paroquiais de Zwittau, algumas pessoas consideraram o casal tão mal combinado que começaram a procurar outros motivos que não o amor. É possível que já naquele verão a fábrica de maquinaria agrícola de Schindler estivesse em má situação, pois era ligada à manufatura de tratores a vapor de um tipo considerado obsoleto pelos agricultores. Oskar estava colocando grande parte de seu salário no negócio, e agora — com Emilie — vinha um dote de meio milhão de reichsmarks, capital nada desprezível sob qualquer condição. As suspeitas dos mexericos, porém, não tinham fundamento, pois naquele verão Oskar estava apaixonado. E como o pai de Emilie não via razões para crer que o rapaz iria se estabelecer e ser um bom marido, pagou apenas uma fração do meio milhão do dote.

Quanto a Emilie, encantava-a a idéia de se ver livre da enfadonha Alt-Molstein, casando-se com o bonito Oskar Schindler. O amigo mais íntimo de seu pai fora o maçante padre da paróquia; Emilie crescera servindo-Ihes chá e ouvindo-Ihes apreciações ingênuas sobre política e teologia. Se ainda estivéssemos procurando conexões judaicas significativas, encontraríamos algumas na infância de Emilie — o médico da aldeia que tratava de sua avó, e Rita, neta de Reif, dono de um armazém. Durante uma de suas visitas à casa da fazenda, o padre dissera ao pai de Emilie que não convinha uma menina católica manter uma amizade mais estreita com uma judia. Emilie resistiu ao veredicto do padre. A amizade com Rita Reif iria sobreviver até certo dia de 1942, quando nazistas locais executaram Rita diante do armazém.

Depois de casados, Oskar e Emilie instalaram-se num apartamento em Zwittau. Para Oskar, a década de 30 deve ter parecido um mero epílogo do seu glorioso engano na corrida da Altvater, no verão de 1928. Fez seu serviço militar no Exército tchecoslovaco e, embora isso lhe fornecesse a oportunidade de guiar um caminhão, logo descobriu que odiava a vida militar — não por motivos pacifistas mas por causa do desconforto. De volta ao lar em Zwittau, ele abandonava Emilie noites a fio para ficar até tarde em cafés, como se fosse solteiro, conversando com moças que não eram nem discretas nem educadas em conventos. Em 1935, o negócio da família foi à falência, e nesse mesmo ano o pai de Oskar abandonou Frau Louisa Schindler e passou a morar num apartamento. Oskar odiou-o por isso e passou a falar mal do pai, durante os chás na casa de suas tias. Até mesmo nos cafés ele denunciava a traição de seu pai contra uma boa esposa. Ao que parece, Oskar não enxergava a semelhança entre o casamento fracassado dos pais e o seu próprio em vias de fracasso.

Devido aos seus bons contatos comerciais, sua sociabilidade, seu talento em promover vendas, a capacidade que tinha de beber sem se embriagar, apesar de estar o país em plena depressão, ele conseguiu um emprego de gerente de vendas na Moravian Electrotechnic. O escritório central da companhia ficava na melancólica capital provinciana de Brno e Oskar viajava diariamente entre Brno e Zwittau. Gostava da sua vida de viajante. Era em parte o destino que prometera a si mesmo, ao ultrapassar Winkler no circuito de Altvater.

Quando sua mãe faleceu, ele retornou às pressas para Zwittau e se postou junto com as tias, a irmã, Elfriede, e a mulher Emilie, de um lado da sepultura, enquanto o traidor Hans se mantinha isolado, ao lado do padre, na cabeceira do esquife. A morte de Louisa viera cimentar a inimizade entre Oskar e Hans. Não ocorria a Oskar — só as mulheres o percebiam — que Hans e Oskar eram na realidade dois irmãos separados pelo acidente da paternidade.

Na ocasião do funeral, Oskar estava usando o emblema Hakenkreuz do Partido Sudeto Alemão de Konrad Henlein. Tanto as tias co mo Emilie desaprovavam esse procedimento mas não com muita convicção, pois era algo que a maioria dos jovens alemães-tchecos usava naquela estação. Somente os socialdemocratas e os comunistas não exibiam o emblema ou não eram membros do partido de Henlein, e Deus sabe que Oskar não era nem comunista nem socialdemocrata, mas sobretudo um vendedor. A verdade é que, quando se procurava um gerente de companhia alemã, a vista do emblema decidia favoravelmente o negócio.

Contudo, mesmo com o seu livro de encomendas aberto e o lápis anotando ativamente, também Oskar — em 1938, nos meses que precederam a invasão da Sudetenlândia pelas divisões alemãs — sentiu que estava se operando uma grande mudança na História, e se deixou seduzir pela idéia de participar daquela mudança.

Fossem quais fossem os seus motivos para aderir a Henlein, parece que assim que as divisões penetraram na Morávia, ele teve uma desilusão imediata com o nacionalsocialismo, tão total e rápida quanto a desilusão que sentia após o casamento. Talvez tivesse esperado que a potência invasora iria permitir que fosse fundada uma fraternal República Sudeta. Mais tarde, ele iria revelar o quanto o horrorizara o tratamento do novo regime à população tcheca, inclusive a apropriação de propriedades tchecas. Os seus primeiros atos documentados de rebeldia ocorreriam logo no início do conflito mundial, e não resta dúvida de que o Protetorado da Boêmia e Morávia, proclamado por Hitler, do Castelo de Hradschim, em março de 1939, deixou-o surpreso por essa clara e imediata exibição de tirania.

Além disso, as duas pessoas, cujas opiniões ele mais respeitava — Emilie e Hans — não se deixaram enganar pela grandiosa hora teutônica e ambos consideraram que Hitler não alcançaria os seus fins. A opinião dos dois não era fundamentada mas tampouco era a de Oskar. Emilie simplesmente acreditava que Hitler seria punido por querer assumir o papel de Deus. Herr Schindler pai, cuja posição fora transmitida a Oskar através de uma de suas tias, argumentava com princípios históricos básicos. Logo nas imediações de Brno ficava o trecho do rio onde Napoleão tinha ganho a Batalha de Austerlitz. E que destino tivera o triunfal Napoleão? Tornara-se um joão-ninguém, plantando batatas numa ilha distante no meio do oceano Atlântico. 0 mesmo aconteceria àquele sujeito. O destino, segundo Herr Schindler pai, não era uma corda infindável. Era um pedaço de elástico. Quanto mais se esticava para a frente, mais violentamente se era jogado para trás. Era isso que a vida, um casamento fracassado e a falência econômica tinham ensinado a Herr Hans Schindler.

Mas seu filho, Oskar, talvez não fosse ainda um inimigo definido do novo regime. Certa noite, naquele outono, Herr Schindler filho com pareceu a uma festa em um sanatório nas colinas que circundavam Os trava, próximo da fronteira polonesa. A anfitriã era a diretora do sanatório, cliente e amiga de Oskar. Ela o apresentou a um bem-apessoado alemão chamado Eberhard Gebauer. Os dois conversaram sobre negócios e as futuras atuações previsíveis da parte da Inglaterra, França e Rússia. Depois se retiraram, com uma garrafa, para um quarto desocupado, por sugestão de Gebauer, a fim de poderem falar com mais franqueza. Foi então que Gebauer se identificou como oficial do serviço de inteligência Abwehr, do Almirante Canaris, e ofereceu ao seu novo conhecido a chance de trabalhar para a Seção Exterior da Abwehr. Oskar tinha contatos comerciais na Polônia, em toda a Galícia e na Silésia. Estaria ele de acordo em fornecer à Abwehr informações militares daquela região? Gebauer disse que soubera, por intermédio de sua amiga anfitriã, que Oskar era inteligente e sociável. Com esses dons, ele poderia realizar um bom trabalho, não somente mediante suas próprias observações quanto a instalações industriais e militares da região, mas também no recrutamento de poloneses germânicos, em restaurantes e bares, ou em contatos comerciais.

Os apologistas do jovem Oskar poderiam dizer, mais uma vez, que ele aceitou trabalhar para Canaris porque, como agente da Abwehr, ficava isento de servir no Exército. Era esse em grande parte o atrativo da proposta. Mas ele deve também ter acreditado que seria bom um avanço alemão na Polônia. Como o elegante oficial bebendo sentado na cama a seu lado, o nacionalsocialismo ainda devia merecer a aprovação de Oskar, apesar de ele desaprovar a maneira como o movimento estava sendo conduzido. Para Oskar, talvez Gebauer possuísse um certo fascínio moral, pois ele e seus colegas da Abwehr se consideravam uma nonesta elite cristã. Embora essa posição não os impedisse de planejar uma invasão militar na Polônia, permitia-lhes sentir desprezo por Himmler e os SS, com quem eles acreditavam sofismada mente estar em competição para controlar a alma da Alemanha.

Mais tarde, um bem diferente grupo do serviço de inteligência consideraria os informes de Oskar dignos de elogios. Em suas viagens à Polônia pela Abwehr, ele demonstrava um dom para extrair informações das pessoas, especialmente em ambientes sociais — a uma mesa de jantar, em coquetéis. Não sabemos a natureza exata ou a importância do que Oskar apurava para Gebauer e Canaris, mas ele acabou gostando muito de Cracóvia e descobrindo que, embora se tratasse de uma grande concentração industrial, era também uma linda cidade medieval, cercada por metalúrgicas e indústrias têxteis e químicas.

Quanto ao desmotorizado Exército polonês, os seus segredos eram bem aparentes.

 

Em fins de outubro de 1939, dois jovens oficiais graduados entraram na loja de J.C. Buchheister & Co., na Rua Stradom, em Cracóvia e insistiram em comprar algumas peças de um tecido caro que queriam remeter para a Alemanha. O vendedor judeu atrás do balcão, com uma estrela amarela costurada no peito, explicou que Buchheister não vendia diretamente ao público mas sim a fábricas de roupas e varejistas. Os militares não se deixaram dissuadir. Quando chegou o momento de pagar a compra, eles maliciosamente a saldaram com uma cédula bávara de 1858 e um vale de ocupação do Exército alemão datado de 1914. "Dinheiro perfeitamente válido", disse um deles ao contador judeu. Os dois eram rapazes de aspecto saudável, tendo passado toda a primavera e verão em manobras, alcançando logo no início do outono um triunfo fácil e, mais tarde, toda liberdade de não de conquistadores numa cidade afável. O contador concordou com a transação e esperou que eles saíssem da loja para guardar o dinheiro na caixa registradora.

Mais tarde, no mesmo dia, um jovem gerente alemão de contabilidade, funcionário da astuciosamente chamada Agência de Crédito do Leste, nomeado para requisitar e dirigir negócios dos judeus, visitou a loja. Era um dos dois funcionários alemães destacados para a Buchheister. O primeiro chamava-se Sepp Aue, o supervisor, homem de meia-idade, sem maiores ambições, e o segundo aquele furão. O rapaz inspecionou os livros e a caixa registradora. Apanhou o dinheiro sem valor. O que significava aquele dinheiro de ópera cômica?

O contador judeu narrou a sua história; o gerente de contabilidade acusou-o de ter substituído as velhas notas pelo zloty atual. Mais tarde ainda naquele mesmo dia, subindo ao escritório da companhia no andar de cima, o furão informou a Sepp Aue sobre o ocorrido e disse que deviam chamar a Schutzpolizei.

Tanto Herr Aue quanto o jovem contador sabiam que o resultado de tal providência seria o contador judeu ser levado para a prisão da SS na Rua Montelupich. O furão achava que tal procedimento seria um excelente exemplo para os outros empregados judeus da Buchheister. Mas a idéia perturbou Aue, que tinha uma vulnerabilidade secreta, pois uma de suas avós era judia, embora ninguém até então houvesse descoberto isso.

Aue mandou um contínuo com uma mensagem ao chefe contador da companhia, um judeu-polonês chamado Itzhak Stern, que estava acamado com gripe, em casa. Aue fora nomeado para o cargo por questões políticas e pouca experiência tinha de contabilidade. Queria que Stern comparecesse ao escritório para resolver o impasse das peças de linho. Tinha acabado de mandar o recado para a casa de Stern em Podgórze, quando seu secretário entrou no escritório e anunciou que um certo Herr Oskar Schindler estava esperando lá fora, sob a alegação de que tinha um encontro marcado. Aue foi até a ante-sala e deparou com um rapaz alto, plácido como um cachorrão, fumando tranqüila mente. Os dois tinham-se conhecido numa festa na noite anterior. Oskar estava acompanhado de uma alemã sudeta chamada Ingrid, Treuhänder, ou supervisora, de uma companhia judaica de ferragens, da mesma forma que Aue era o Treuhänder da Buchheister. Os dois formavam um casal glamouroso, Oskar e a sudeta, elegantes, francamente apaixonados um pelo outro, com muitos amigos na Abwehr.

Herr Schindler estava tentando fazer carreira em Cracóvia.

—   Têxteis? — sugerira Aue. — Não se trata apenas de uniformes. O mercado doméstico polonês é bastante amplo e expandido para sustentar a todos nós. Convido-o a visitar a Buchheister — propusera ele a Oskar, sem saber o quanto iria lamentar no dia seguinte a sua camaradagem alcoolizada.

Schindler podia perceber que Herr Aue possivelmente estava lamentando o seu convite da véspera.

—   Se não é conveniente, Herr Treuhänder sugeriu Oskar...

Herr Aue negou com veemência e levou Schindler para visitar o depósito e, do outro lado do pátio, a divisão de tecelagem, onde grandes rolos de tecido iam sendo lançados para fora das máquinas. Schindler perguntou se o Treuhänder tivera problemas com os poloneses. Não, respondeu Sepp, os poloneses cooperavam. Um pouco espanta dos, talvez. Afinal, não se tratava de uma fábrica de munições.

Schindler tão obviamente tinha o ar de um homem com boas conexões que Aue não pôde resistir à tentação de testá-lo. Conhecia Oskar pessoas da Junta Suprema de Armamentos? Conhecia, por exemplo, o General Julius Schindler? Talvez o General Schindler fosse um seu parente?

Isso não faz nenhuma diferença, respondera Schindler, concilia tório. (Na verdade, o General Schindler não tinha nenhum parentesco com ele.) Comparado a outros, o general não era tão mau sujeito, observara Oskar.

Aue concordou. Mas ele próprio nunca teria a oportunidade de jantar ou tomar um drinque com o General Schindler; essa era a diferença.

Os dois retornaram ao escritório, encontrando no caminho Itzhak Stern, o contador-chefe da Buchheister, esperando sentado numa cadeira fornecida pelo secretário de Aue, assoando o nariz e procurando conter acessos de tosse. Ele se pôs de pé, colocou as mãos uma sobre a outra no peito, e, com olhos imensos, viu os dois conquistadores se aproximarem, passarem na sua frente e entrarem no escritório. Ali Aue ofereceu um drinque a Schindler e depois, pedindo licença, deixou-o junto à lareira e saiu para falar com Stern.

Stern era muito magro; havia nele um certo ar de fria erudição. Tinha as maneiras de um erudito talmúdico e também de intelectual europeu. Aue contou-lhe a história do contador e dos dois militares e o que o jovem contador alemão tinha presumido. Depois tirou do cofre a cédula bávara de 1858 e o vale de ocupação de 1914.

—   Julguei que talvez o senhor tivesse estabelecido um processo de contabilização para resolver uma situação como esta — disse Aue. — Devem estar acontecendo muitos casos análogos agora em Cracóvia.

Stern tomou as cédulas e examinou-as. Sim, declarou ele, realmente tinha um processo para solucionar o problema. E, sem sorrir ou piscar um olho, aproximou-se da lareira na extremidade da sala e atirou as cédulas no fogo.

—   Anoto essas transações na coluna de lucros e perdas sob o título de "amostras grátis" — completou ele. (Tinha havido muitas amostras grátis desde setembro.)

Aue gostou do estilo seco e eficiente de Stern para resolver impasses legais. Começou a rir, ante as feições magras do contador, as complexidades da própria Cracóvia, a sagacidade provinciana de uma cidade pequena. Só um habitante do lugar saberia como agir. No escritório Herr Schindler continuava sentado necessitando de informações locais.

Aue fez Stern entrar no escritório do gerente para conhecer Herr Schindler, que se pusera de pé junto à lareira, segurando distraidamente um cantil aberto. A primeira coisa que Stern pensou foi: "Este não é um alemão manejável." Aue usava o emblema do seu Führer, uma

Hakenkreuz em miniatura, com certa displicência, como se se tratasse de um emblema de clube de ciclismo. Mas o emblema de Schindler era do tamanho de uma moeda e refletia a luz do fogo em sua superfície esmaltada de preto. Isso, e o aspecto saudável do rapaz eram bem os símbolos dos desgostos outonais de Stern, um judeu-polonês gripado. Aue fez as apresentações. De acordo com o edital já emitido pelo Governador Frank, Stern declarou de saída:

Tenho a dizer-lhe, meu senhor, que sou judeu.

Muito bem — resmungou Herr Schindler. — Pois eu sou ale mão. E aqui estamos nós!

"Muito bem", quase ecoou Stern por trás de seu lenço encharca do. "Neste caso, revogue o edital."

Pois Itzhak Stern era um homem — mesmo naquele momento, apenas sete semanas após ter sido instalada a Nova Ordem na Polônia — submetido não somente a um, mas a muitos editais. Hans Frank, Governador-Geral da Polônia, já havia programado e assinado seis editais restritivos, deixando outros para o seu governador distrital, Dr. Otto Wàchter, um Gruppenführer (equivalente a major-general) implementar. Stern, além de declarar sua origem, tinha também de carregar consigo um cartão de registro marcado com uma lista amarela. As Ordens do Conselho, proibindo o preparo de kosher de carnes e determinando trabalhos forçados para judeus, já estavam em vigor ha via três semanas, no momento em que Stern tossia diante de Schindler. E a ração oficial de Stern como Untermensch (subumano) era pouco mais do que a metade da ração de um polonês não-judeu, embora este último fosse também considerado Untermensch.

Finalmente, obedecendo a um edital de 8 de novembro, tinha-se iniciado o registro geral de todos os judeus-cracovianos, o qual devia encerrar-se no dia 24.

Stern, com o seu espírito calmo e abstraído, sabia que os editais iriam continuar, restringindo cada vez mais sua vida e sua própria respiração. A maioria dos judeus-cracovianos esperava essa onda de editais. Iriam ser criados transtornos na vida cotidiana — judeus dos shtetls trazidos para a cidade a fim de escavar carvão; intelectuais enviados ao campo para colher beterrabas. Haveria também matanças esporádicas por algum tempo, como a de Tursk, quando uma unidade de artilharia da SS mantivera um grupo de pessoas trabalhando o dia inteiro numa ponte, e depois as conduzira à noite para a sinagoga da aldeia, onde as fuzilara. De quando em quando ocorriam casos semelhantes. Mas a situação iria ser contornada: a raça sobreviveria por meio de petições ou subornando as autoridades. Era um velho processo que funcionava desde o Império Romano e continuaria funcionando. No final das contas, as autoridades civis necessitavam dos judeus, especialmente numa nação em que havia um judeu para cada onze pessoas.

Entretanto, Stern não se mostrava otimista. Não presumia que a legislação logo se estabeleceria num plano de severidade negociável. Pois aqueles eram os tempos mais difíceis de suportar. Assim, embora soubesse que a onda vindoura seria diferente, tanto em substância co mo em grau de intensidade, já previa um futuro bastante sombrio e pensava: "É muito fácil para você. Herr Schindler, ter pequenos gestos generosos de igualdade..."

—   Este homem — disse Aue, apresentando Itzhak Stern — é o braço direito de Buchheister. Tem boas conexões na comunidade dos negócios, na Cracóvia.

Não cabia a Stern discutir a opinião de Aue. Ainda assim, pensou que talvez o Treuhänder estivesse dourando a pílula para o distinto visitante.

Aue pediu licença para sair da sala.

A sós com Stern, Schindler murmurou que ficaria grato se o contador pudesse dizer-lhe o que sabia sobre o comércio local. Testando Oskar, Stern sugeriu que talvez Herr Schindler devesse dirigir-se aos funcionários da Agência de Crédito.

—   Não passam de ladrões — retorquiu Herr Schindler. — E também são burocratas. Eu gostaria de certa amplitude. — Depois encolheu os ombros. — Sou um capitalista por temperamento e não gosto de me sujeitar a regulamentações.

Assim, Stern e o capitalista declarado começaram a conversar. E Stern provou ser uma boa fonte; parecia ter amigos ou parentes em todas as fábricas de Cracóvia — têxteis, roupas, confeitos, marcenaria, artigos de metal. Herr Schindler ficou impressionado e tirou um envelope do bolso do paletó.

—   Conhece uma companhia chamada Rekord? — perguntou ele.

Itzhak Stern conhecia. Estava falida. Fabricava artigos esmalta dos. Desde a falência algumas das máquinas de prensar metais haviam sido confiscadas, e agora, praticamente inativa, produzia — sob a administração de um parente dos antigos donos — uma mera fração de sua capacidade. O seu próprio irmão, continuou Stern, representava uma companhia suíça que era uma das principais credoras da Rekord. Stern sabia que era permitido revelar certo grau de orgulho fraterno e em seguida mostrar desaprovação.

A fábrica era muito mal administrada — completou ele. Schindler deixou cair o envelope no colo de Stern.

Este é o balancete deles. Diga-me qual é a sua opinião.

Stern alegou que evidentemente Herr Schindler devia obter também o parecer de outros.

—   Sim, é evidente — replicou Oskar. — Mas apreciaria muito ter a sua opinião.

Stern leu rapidamente o balancete; após uns três minutos de estudo, sentiu um estranho silêncio no escritório e ergueu os olhos; Herr Oskar Schindler fitava-o atentamente.

Havia, naturalmente, em homens como Stern um dom ancestral para reconhecer um bom goy, que podia ser usado como pára-choque ou refúgio parcial contra a selvageria de outros. Era um instinto que lhe indicava uma zona potencial de proteção. E daquele momento em diante, a possibilidade de Herr Schindler ser um refúgio iria permear a conversa, como uma vislumbrada, intangível, promessa sexual pode permear a conversa entre um homem e uma mulher numa reunião social. Era uma sugestão da qual Stern tinha mais consciência do que Schindler, e nada de explícito seria dito com receio de prejudicar um esboço de conexão.

É um negócio perfeitamente viável — disse Stern. — O senhor podia conversar com o meu irmão. E agora, é claro, existe a possibilidade de contratos militares...

Exatamente — murmurou Herr Schindler.

Pois quase no mesmo instante após a queda de Cracóvia, mesmo antes de terminar o cerco de Varsóvia, o Governo-Geral da Polônia tinha criado uma Inspetoria de Armamentos, cuja função era assinar contratos com fabricantes adequados para o fornecimento de equipa mentos ao Exército. Numa fábrica como a Rekord, era possível fabricar utensílios para rancho e cozinha de campanha. Stern sabia que a Inspetoria de Armamentos era chefiada pelo General-de-Divisão Julius Schindler da Wermacht. Era o general aparentado com Herr Oskar Schindler?, perguntara Stern. Infelizmente não, tinha respondido Schindler, mas dando a entender que preferia que Stern guardasse segredo sobre a revelação.

De qualquer forma, continuou Stern, a produção precária da Rekord estava rendendo mais de meio milhão de zlotys por ano, máquinas novas prensadoras de metal e fornos podiam ser adquiridos com relativa facilidade. Tudo dependia do acesso de Herr Schindler a créditos.

Ferro esmaltado, disse Schindler, era mais da sua alçada do que têxteis. Suas atividades anteriores haviam sido no ramo de máquinas agrícolas e ele entendia de prensadoras a vapor e similares.

Não ocorreu mais a Stern perguntar por que um elegante empresário alemão desejava conversar com ele sobre opções de negócios. Encontros como aquele haviam acontecido em toda a história de sua tribo, e não eram bem explicados como transações normais de negócios. Estendeu-se mais em suas observações, explicando como a Corte Comercial iria estabelecer uma remuneração para o arrendamento da massa falida. Arrendamento com uma opção para compra — era melhor do que ser um Treuhänder. Um Treuhänder, mero supervisor, ficava totalmente sob o controle do Ministério das Finanças. Stern baixou a voz e arriscou-se a dizer:

O senhor sofrerá restrições quanto aos empregados que lhe se rá permitido contratar...

Como sabe disso tudo? — perguntou Schindler. — A respeito de intenções finais?

Li num exemplar do Berliner Tageblatt. Ainda é permitido a um judeu ler jornais alemães.

Schindler pôs-se a rir, estendeu a mão e pousou-a no ombro de Stern.

—   Tem certeza disso tudo? — perguntou ele.

Na realidade, Stern sabia dessas coisas porque Aue tinha recebido uma diretriz do Secretário de Estado do Reich, Eberhard von Jagwitz, do Ministério das Finanças, delineando as providências a serem adota das para "arianizar" o comércio. Aue tinha deixado a cargo de Stern analisar o memorando. Von Jagwitz informara mais com tristeza do que com raiva que ia haver pressão da parte de outras agências do Governo e do Partido, tais como a RHSA de Heydrich, ou do Escritório Central de Segurança do Reich, para arianizar não apenas os proprietários de companhias mas também a administração e a mão-de-obra. Quanto mais depressa os Treuhänders conseguissem extirpar empregados judeus especializados, tanto melhor — sempre, naturalmente, levando em conta a manutenção da produção a um nível aceitável.

Finalmente, Schindler tornou a pôr no bolso os balancetes da Rekord, levantou-se e conduziu Itzhak Stern para a sala principal do escritório da companhia. Os dois ficaram parados ali por algum tempo, em meio de datilógrafos e funcionários, discutindo filosoficamente, co mo era hábito de Oskar. Foi ali que ele abordou a questão de o cristianismo ser baseado no judaísmo, assunto que, por algum motivo, talvez mesmo por causa de sua amizade de infância com os Kantor, em Zwittau, o interessava. Chegara mesmo a publicar artigos em jornais sobre religião comparativa. Oskar, que erroneamente se julgava um filósofo, tinha encontrado um entendido no assunto. Stern, um erudito que alguns consideravam um pedante, julgou a compreensão de Oskar superficial, uma mente benigna por natureza porém sem muita capacidade conceituai. Não que Stern estivesse disposto a lamentar-se. Estabelecera-se firmemente entre os dois uma divergente amizade. A Stern ocorreu uma analogia, como ao próprio pai de Oskar, com relação a impérios anteriores, e ele expôs suas próprias razões para acreditar que Adolf Hitler não teria êxito em seu intento.

Essa opinião escapou da boca de Stern antes de ele ter tempo de reprimi-la. Os outros judeus no escritório baixaram a cabeça e mantiveram os olhos pregados no seu trabalho. Schindler não pareceu per turbado com o comentário.

Mais para o final da conversa dos dois, Oskar disse algo que era uma novidade. Em épocas como essa, observou ele, devia ser difícil para as igrejas continuar dizendo aos fiéis que o seu Pai do Céu se preocupava até com a morte de um mísero pardal. Herr Schindler acrescentou que detestaria ser padre nos dias de hoje, quando uma vida tinha menos valor do que um maço de cigarros. Stern concordou, mas citou, no espírito moral da discussão, que a referência bíblica de Schindler poderia ser resumida num verso talmúdico que dizia que "aquele que salva a vida de um homem salva a vida do mundo inteiro".

— É claro, é claro — murmurou Oskar Schindler.

Com ou sem razão, Itzhak sempre acreditou que foi naquele mo mento que ele deixou cair a semente que iria germinar no espírito de Oskar.

 

Existe outro judeu da Cracóvia que relata um encontro com Schindler naquele outono — e de como quase o matou. O nome desse homem era Leopold (Poldek) Pfefferberg. Era comandante de uma companhia do Exército polonês durante a recente trágica campanha. Depois de sofrer um ferimento na perna na batalha pelo Rio San, ele estivera manquejando pelo hospital polonês em Przemysl, ajudando os outros feridos. Não era médico, mas sim professor de educação física formado na Universidade de Cracóvia e, portanto, com algum conhecimento de anatomia. Resiliente, cheio de confiança em si, tinha vinte e sete anos e era de constituição vigorosa.

Juntamente com algumas centenas de outros oficiais poloneses capturados, Pfefferberg estava a caminho da Alemanha, quando o seu trem parou em sua cidade natal, Cracóvia, e os prisioneiros foram levados para a sala de espera da primeira classe, a fim de ali estacionarem, aguardando novo transporte. A casa dele ficava a uns dez quarteirões da estação. Rapaz de espírito prático, parecia-lhe inadmissível que não conseguisse ir até a Rua Pawia para apanhar o bonde, que o deixaria em casa. O guarda de aspecto rústico da Wehrmacht à porta parecia uma provocação.

Pfefferberg trazia no bolso um documento assinado pelo diretor do hospital alemão em Przemysl, declarando que ele tinha licença de se locomover pela cidade em ambulâncias, cuidando dos feridos de ambos os exércitos. O documento era espetacularmente formal, selado e assinado. Pfefferberg resolveu exibi-lo ao guarda.

— Sabe ler alemão? — perguntou Pfefferberg.

Esse tipo de manobra tinha de ser feito do modo certo. Era preciso ser jovem e persuasivo; manter, inabalado pela derrota sumária, um ar de segurança típico da natureza polonesa — algo que corria nas veias de oficiais poloneses, até mesmo entre os raros judeus que tinham ingressado no Exército.

— Claro que posso ler alemão — disse o guarda, piscando os olhos. Mas depois de pegar o documento e segurá-lo como quem não sabe em absoluto ler — segurá-lo como se fosse um pedaço de pão, ouviu de Pfefferberg a explicação de que aquele documento lhe dava o direito de sair para cuidar de enfermos. Só o que o guarda podia ver era uma proliferação de carimbos oficiais. Um documento e tanto. Com um gesto de cabeça, ele indicou a porta.

Nessa manhã, Pfefferberg era o único passageiro do bonde. Não eram ainda seis horas da manhã. O condutor recebeu sem comentário o preço da passagem, pois na cidade ainda havia muitas tropas polonesas que a Wehrmacht não tinha classificado. Os oficiais eram apenas obrigados a se registrarem.

O bonde fez a volta do Barbakan, atravessou os portões da antiga muralha, desceu a Rua Florianska rumo à Igreja de Santa Maria, cruzou a praça central, e dentro de cinco minutos chegava à Rua Grodzka. Ao se aproximar do apartamento de seus pais no n? 48, ele saltou do bonde, como fazia desde menino, antes de funcionarem os freios, e deixou que o impulso do salto, acrescido pelo do bonde, o projetasse com um ruído surdo contra o batente da porta.

Após sua fuga, Poldek tinha vivido com relativo conforto em apartamentos de amigos, visitando de vez em quando o apartamento da Rua Grodzka. As escolas israelitas abriram por um curto espaço de tempo — tornariam a ser fechadas dentro de seis semanas — e ele chegou a voltar ao seu emprego de professor. Tinha certeza de que a Gestapo levaria algum tempo para encontrá-lo, e por isso requereu carnes de ração. Começou também a negociar com jóias — por conta própria — no mercado negro, que operava na praça central de Cracóvia, nas arcadas do Sukiennice e sob as torres desiguais da Igreja de Santa Ma ria. O comércio era ativo, entre os próprios poloneses porém ainda mais para os judeus-poloneses. Os carnes de ração que recebiam, cheios de cupons pré-cancelados, davam-lhes direito a apenas dois terços da carne e metade da manteiga distribuídos aos cidadãos arianos, ao passo que todos os cupons de chocolate e arroz vinham cancelados. E assim o mercado negro que operara durante séculos de ocupação e as poucas décadas de autonomia polonesa tornou-se o alimento, a fonte de renda e o meio mais disponível de resistência para respeitáveis cidadãos burgueses, especialmente aqueles que, como Leopold Pfefferberg, sabiam atuar nas ruas.

Presumiu que logo estaria viajando pelos percursos de esqui em torno de Zakopane nos Tatras, cruzando a fina faixa de terra da Eslováquia rumo à Hungria ou Romênia. Estava bem equipado para a jornada: tinha sido membro do time polonês de esqui. Numa das prateleiras mais altas do fogão de porcelana, no apartamento de sua mãe, ele escondera uma elegante pistolinha 22 — arma que lhe serviria tanto para a fuga planejada, como no caso de ser acuado dentro do apartamento pela Gestapo.

Com a sua pistolinha de cabo de madrepérola, Pfefferberg quase matou Oskar Schindler num frio dia de novembro. Vestido com um terno de jaquetão, com o emblema do Partido na lapela, Schindler decidira ir procurar a Sra. Mina Pfefferberg, mãe de Poldek, para lhe propor um trabalho. As autoridades de habitação do Reich lhe haviam reservado um moderno e bonito apartamento na Rua Straszewskiego, anteriormente de propriedade dos Nussbaum, uma família judaica. Tais alocações eram efetuadas sem qualquer indenização para o ex-proprietário. No dia em que Oskar foi procurar a Sra. Mina Pfefferberg, ela própria estava temerosa de que o mesmo fosse acontecer com o seu apartamento na Rua Grodzka.

Vários amigos de Schindler afirmariam mais tarde — embora não fosse possível prová-lo — que Oskar tinha ido procurar os Nussbaum expulsos de sua moradia na Rua Podgórze e lhes dera uma quantia de quase 50.000 zlotys como compensação. Com esse dinheiro, ao que se supõe, os Nussbaum compraram a sua fuga para a Iugoslávia. Os 50.000 zlotys significavam uma marcante divergência; antes do Natal Oskar teria outros gestos similares de divergência. Efetivamente, alguns amigos diriam que a generosidade era uma doença em Oskar, um impulso frenético, uma de suas paixões. Costumava dar a motoristas de táxi gorjetas que eram o dobro do que marcava o relógio. Mas é preciso notar também que ele considerava injustas as autoridades de habitação do Reich e disse isso a Stern, não quando o regime começou a ter problemas mas já naquele outono tão favorável aos nazistas.

De qualquer forma, a Sra. Pfefferberg não tinha a menor idéia do que viera fazer em seu apartamento o alto e elegante alemão. Teria vindo bater à sua porta à procura de Poldek, que no momento estava escondido na cozinha? Ou quem sabe para se apossar do apartamento e do negócio de decoração da Sra. Pfefferberg, de suas antigüidades e tapeçarias francesas?

Com efeito, por ocasião da festa de Hanukkah em dezembro, a polícia alemã, por ordem da agência de habitação, viria bater à porta da família e expulsá-la, tremendo de frio, para a calçada da Rua Grodzka. Quando a Sra. Pfefferberg pedira para tornar a entrar no aparta mento e apanhar o seu capote, a permissão lhe fora recusada; quando

o Sr. Pfefferberg encaminhara-se para o seu escritório a fim de apanhar um antigo relógio de ouro, levara um soco no queixo. "Testemunhei coisas terríveis no passado", tinha dito Hermann Góring, "motoristas e gauleilers têm lucrado tanto com essas transações que agora já devem ter por volta de meio milhão." O efeito dessas apropriações fáceis, como o relógio de ouro do Sr. Pfefferberg, sobre a fibra moral do Partido poderiam preocupar Góring. Mas naquele ano na Polônia, o estilo da Gestapo era não prestar contas do que encontrasse nos apartamentos.

Todavia, quando Schindler foi bater na porta do apartamento dos Pfefferberg no segundo andar, a família ainda ali residia. A Sra. Pfefferberg e o filho estavam conversando em meio de peças de tecidos e rolos de papel de parede, quando ouviram bater na porta. Poldek não ficou preocupado. Havia duas entradas no apartamento — a porta comercial e a da cozinha ficavam cada uma de um lado de um patamar. Indo até a cozinha, ele espiou pela porta entreaberta o visitante. Notou a alta estatura do desconhecido, o elegante talhe de sua roupa, e voltou à sala de estar para dizer à sua mãe que tinha a impressão de que o homem era da Gestapo. Quando ela o deixasse entrar pela porta comercial, Poldek sempre teria tempo de fugir pela cozinha.

A Sra. Pfefferberg tremia. Estava, naturalmente, de ouvido atento a ruídos no corredor. Pfefferberg tinha apanhado a pistola e a enfiara no cinto. A sua intenção era combinar o ruído de sua saída com o da entrada de Schindler. Mas parecia uma tolice fugir sem saber o que o alemão queria. Havia a possibilidade de ser preciso matar o homem, e então seria necessário combinar a fuga da família para a Romênia.

Se a pressão magnética do momento tivesse impelido Pfefferberg a puxar o gatilho da pistola, a morte, a fuga, as represálias seriam consideradas normais e próprias da época. A morte de Schindler seria brevemente lamentada e prontamente vingada. E isso teria sido, evidentemente, o sumário fim de todas as potencialidades de Oskar. E lá em Zwittau, a pergunta das pessoas seria: "Qual foi o marido que matou Herr Schindler?"

A voz surpreendeu os Pfefferberg. Era calma, polida, adequada a uma transação comercial, até mesmo a um pedido de favor. A família tinha-se habituado nas semanas anteriores ao tom de decreto, de pronta expropriação. Mas o daquele homem parecia fraternal, o que poderia significar coisa pior.

Pfefferberg tinha-se esgueirado da cozinha e estava escondido por detrás das portas duplas da sala de jantar. Podia ver por uma fresta o visitante.

—   É a Sra. Pfefferberg? — perguntou o alemão. — Foi-me recomendada por Herr Nussbaum. Acabo de tomar posse do apartamento na Rua Straszewskiego, e gostaria de redecorá-lo.

Mina Pfefferberg mantinha o homem à porta. Respondeu com tal incoerência que o filho teve pena dela e apareceu na soleira, com o paletó abotoado sobre a arma. Convidou o visitante a entrar e, ao mesmo tempo, murmurou em polonês palavras tranqüilizadoras à sua mãe.

Oskar Schindler então se identificou. Era preciso agir com calma, pois o alemão podia perceber que Pfefferberg estava executando uma manobra primordial de proteção. Schindler demonstrou o seu respeito, dirigindo agora a palavra ao filho, como se se tratasse de um intérprete.

—   Minha mulher vai chegar da Tchecoslováquia — explicou ele — e eu gostaria de redecorar o apartamento no estilo que ela gosta.

Acrescentou que os Nussbaum tinham mantido o apartamento em excelentes condições, mas decorado num gosto em que predominavam os móveis pesados e as cores sombrias. A Sra. Schindler dava preferência a um estilo mais leve — um pouco francês, um pouco sueco.

A Sra. Pfefferberg se recompusera o bastante para dizer que não sabia — eram dias muito agitados aqueles, com a proximidade do Na tal. Poldek percebeu que havia nela uma resistência instintiva em aceitar um cliente alemão; mas os alemães deviam ser, naquele momento, os únicos com suficiente confiança no futuro para se interessarem por decoração. E a Sra. Pfefferberg precisava de um bom contrato — seu marido fora despedido do emprego e agora trabalhava por uma ninharia na agência de habitação do Gemeinde, o escritório judaico de previdência social.

Dois minutos depois, os dois homens já conversavam como se fossem amigos. A pistola no cinto de Pfefferberg era agora arma reserva da para uma futura e remota emergência. Não restava dúvida de que a Sra. Pfefferberg iria decorar o apartamento de Schindler, sem olhar despesas. Schindler sugeriu que Pfefferberg talvez gostasse de ir até seu apartamento para discutir outros negócios.

—   Há a possibilidade de o senhor me aconselhar na aquisição de mercadorias locais — disse Schindler. — Por exemplo, esta sua bonita camisa azul... Não sei como procurar sozinho artigos assim.

A sua ingenuidade era uma manobra, mas Pfefferberg compreendeu.

—   As lojas, como deve saber, estão vazias — insinuou Oskar. Pfefferberg era o tipo de homem que sobreviveria, apostando alto.

—   Herr Schindler, essas camisas são extremamente caras. Espero que compreenda. Custam vinte e cinco zlotys cada uma.

Ele tinha multiplicado por cinco o preço. Imediatamente, no rosto de Schindler surgiu um malicioso sorriso de compreensão — porém não muito acentuado para não pôr em risco a tênue amizade, ou lembrar a Pfefferberg a pistola que trazia escondida sob o paletó.

—   Provavelmente, poderia conseguir-lhe algumas camisas — continuou Pfefferberg — se me der o número que o senhor usa. Mas receio que os meus contatos exijam dinheiro adiantado.

Schindler, ainda demonstrando com os olhos que estava a par do golpe, tirou do bolso a carteira e entregou a Pfefferberg 200 reichmarks. A quantia era tremendamente exagerada e, mesmo aos preços inflacionados de Pfefferberg, teria dado para comprar camisas para uma dezena de magnatas. Mas Pfefferberg nem pestanejou.

—   Precisa me dar as suas medidas — concluiu ele.

Uma semana depois, Pfefferberg levou uma dúzia de camisas de seda ao apartamento de Schindler na Rua Straszewskiego. Lá deparou com uma bonita alemã que lhe foi apresentada como Treuhänder de uma indústria de ferragens em Cracóvia. Depois, numa outra noite, Pfefferberg avistou Oskar na companhia de uma beldade polonesa loura e de grandes olhos azuis. Se existia uma Frau Schindler, ela não apareceu mesmo depois de a Sra. Pfefferberg ter redecorado o apartamento. O próprio Pfefferberg passou a ser uma das mais constantes conexões de Schindler com o mercado de artigos de luxo — sedas, móveis, jóias — que florescia na antiga cidade de Cracóvia.

 

A vez seguinte em que Itzhak Stern se encontrou com Oskar Schindler, foi numa manhã em princípios de dezembro. Schindler já dera entrada à sua proposta à Corte Comercial de Cracóvia e agora podia visitar tranqüilamente os escritórios da Buchheister; de pois de conferenciar com Aue, postou-se junto à escrivaninha de Stern, bateu palmas e anunciou, numa voz que já parecia embriagada:

— Amanhã, vai começar. As ruas Jozefa e Izaaka vão saber de tudo!

Havia realmente as ruas Jozefa e Izaaka na Kazimierz. Havia-as em todo gueto e Kazimierz era o local do antigo gueto de Cracóvia, uma ilha cedida no passado à comunidade judaica por Kazimier o Gran de agora um subúrbio aninhado num braço do Rio Vístula.

Herr Schindler curvou-se sobre Stern, que sentiu o seu hálito de conhaque e ficou na dúvida: Sabia Herr Schindler que algo estava para acontecer na Rua Jozefa e na Rua Izaaka? Ou estaria apenas citando nomes ao acaso? De qualquer forma, Stern sentiu-se enjoadamente frustrado. Herr Schindler estava alardeando um pogrom, sem uma base positiva como que para pôr Stern de sobreaviso.

Era o dia 3 de dezembro. Quando Oskar disse "amanhã", Stern presumiu que ele estivesse usando a palavra não no sentido de 4 de dezembro mas nos termos que bêbados e profetas sempre usam, como algo que aconteceria ou provavelmente iria acontecer dentro em breve. Muito poucos daqueles que a ouviram, ou que souberam da advertência alcoolizada de Herr Schindler, deram-lhe crédito. Alguns fizeram suas malas naquela noite e levaram suas famílias para Podgórze, do outro lado do rio.

Oskar sabia que corria um risco transmitindo aquelas informações

Recebera-as de pelo menos duas fontes, de novos amigos. Um era um oficial ligado à equipe de auxiliares do chefe de polícia da SS, Herman Toffel, policial com o posto de Wachtmeister (sargento); o outro, Dieter Reeder, pertencia à equipe do chefe Czurda da SS. Ambos os contatos eram característicos entre oficiais amistosos, com quem Oskar cultivava amizade.

Mas, naquele dia de dezembro, ele não soubera explicar a Stern os motivos de estar transmitindo aquela informação. Mais tarde diria que, no período da Ocupação Alemã da Boêmia e Morávia, testemunhara tantas expropriações de propriedades de judeus e tchecos, sua remoção à força das áreas sudetas consideradas alemãs, que ficara curado de qualquer lealdade à Nova Ordem. A revelação a Stern, mui to mais do que a não confirmada história a respeito dos Nussbaum, é uma prova muito mais positiva de sua atuação.

Schindler deve também ter nutrido a esperança, assim como os judeus de Cracóvia, que o furor inicial do regime iria afrouxar e permitir que as pessoas respirassem. Se os reides e incursões da SS nos meses seguintes pudessem ser mitigados com avisos de antemão, então talvez a sanidade voltasse a se estabelecer na primavera. Afinal, tanto Oskar quanto os judeus diziam a si mesmos que os alemães eram uma nação civilizada.

Entretanto, a invasão da Kazimierz pela SS despertou em Oskar uma repulsa fundamental — não uma repulsa que chegasse a afetar diretamente o nível de sua vida comercial, ou amorosa, ou seus jantares com amigos, mas uma repulsa que, quanto mais claras se tornavam as intenções do novo regime, o impulsionaria, obcecaria, levando-o em sua exaltação a arriscar-se cada vez mais. A finalidade da operação era em parte a apropriação de jóias e peles. Haveria alguns despejos de casas e apartamentos na zona mais abastada entre Cracóvia e Kazimierz. Mas, além desses resultados práticos, aquela primeira Aktion ia ser uma advertência dramática aos atemorizados habitantes daquele bairro judaico. Com esse objetivo, contou Reeder a Oskar, um peque no destacamento de homens da Einsatzgruppe juntamente com membros da SS local e da polícia de campanha entrariam em caminhões na Kazimierz.

Seis Einsatzgruppen tinham vindo para a Polônia com o exército invasor. A sua denominação tinha significação sutil. "Grupos de Tarefa Especial" é uma tradução aproximada. Mas a palavra amorfa Einsatz é também rica em nuanças — de desafio, de provocação, de nobre contenda. Esses esquadrões eram recrutados no Sicherheitsdienst (SD — Serviço de Segurança) de Heydrich. De antemão, eles sabiam que a sua tarefa era ampla. O seu líder supremo dissera seis semanas antes ao General Wilhelm Keitel que "no Governo Geral da Polônia terá de haver uma dura luta pela existência nacional, que não permitirá restrições legais de espécie alguma". Na elevada retórica de seus líderes,os soldados do Einsatz sabiam que uma luta pela existência nacional significava guerra aos judeus e outras raças, assim como o próprio Einsatz, Tarefa Especial de Cavaleiros, significava o cano quente de uma espingarda.

O esquadrão Einsatz destacado para ação na Kazimierz naquela noite era de elite. Deixariam aos tarefeiros da SS o trabalho sórdido de revistar as moradias em busca de anéis de diamante e casacos forra dos de peles. Eles próprios tomariam parte numa atividade mais radicalmente simbólica de destruir os instrumentos da cultura judaica -isto é, as antigas sinagogas de Cracóvia.

Havia semanas que os componentes do Einsatz estavam se exercitando, assim como os Sonderkommandos SS (Esquadrões Especiais), também destacados para essa primeira Aktion em Cracóvia, e a policia de segurança do chefe Czurda. O Exército negociara com Heydrich e os chefes de polícia mais categorizados um adiamento de operações até a Polônia passar da administração militar à civil. A transmissão de autoridade fora agora efetuada, e em todo o país os Cavaleiros de Einsatz e os Sonderkommandos receberam ordem de atacar, com um justo senso de racismo histórico e indiferença profissional, os antigos guetos judaicos.

No final da rua estava situado o apartamento de Oskar, e lá também se erguiam as fortificações rochosas do Castelo de Wawel, de onde governava Hans Frank. Para que se possa compreender a futura atuação de Oskar na Polônia, é preciso examinar a ligação entre Frank e os jovens membros da SS e da SD, e depois entre Frank e os judeus de Cracóvia.

Em primeiro lugar, Hans Frank não tinha autoridade direta sobre aqueles esquadrões especiais que iriam invadir a Kazimierz. As forças policiais de Heinrich Himmler, onde quer que atuassem, faziam sempre a sua própria lei. Frank não só reprovava esse poder independente, como não concordava com ele em terreno prático. Abominava tanto quanto qualquer outro membro do Partido a população judaica e considerava a agradável cidade de Cracóvia intolerável devido à quantidade de judeus que a habitavam. Pouco tempo antes ele se queixara, quando as autoridades tinham tentado usar o Governo-Geral, e especialmente Cracóvia com o seu entroncamento de estrada de ferro, como despejo de judeus das cidades da Wartheland, Lodz e Poznan. Mas não acreditava que os Einsatzgruppen ou os Sonderkommandos, com os seus métodos, pudessem trazer alguma solução para o problema.

Era opinião de Frank, partilhada por Himmler (em certos estágios das divagações mentais de "Heini"), que deveria haver um só vasto campo de concentração para judeus, pelo menos na cidade de Lublin e cercanias, ou, ainda melhor, na Ilha de Madagascar.

Os próprios poloneses sempre haviam acreditado em Madagascar. Em 1937, o Governo polonês tinha enviado uma comissão para estudar aquela ilha de picos altos tão longe de suas sensibilidades européias. O Ministério Colonial francês, a que pertencia Madagascar, estava disposto a negociar, de governo para governo, essa nova colonização, pois uma Madagascar com uma densa população judaica seria um grande mercado de exportação. Oswald Pirow, Ministro da Defesa da África do Sul, tinha atuado por um tempo como intermediário entre Hitler e a França na questão da ilha. Assim, Madagascar, como solução, tinha um alvará respeitável. Havia um interesse financeiro da parte de Hans nessa solução e não no Einsatzgruppe. Pois aqueles reides e massacres esporádicos não podiam arrasar a população subumana da Europa Oriental. Durante o tempo da campanha em torno de Varsóvia, o Einsatzgruppe tinha enforcado judeus nas sinagogas da Silésia, haviam-nos destruído com o suplício da água, tinham-lhes invadido os lares nas noites de Sabbath ou dias de festa, cortado os seus cachos rituais de oração, tocado fogo em seus tallis, haviam-nos fuzilado contra uma parede. O efeito fora quase nulo. Segundo Frank, havia muitos indícios na História de que raças ameaçadas em geral venciam os genocídios. O falo era mais rápido que o fuzil.

O que ninguém sabia — nem os participantes do debate, os fina mente educados rapazes do Einsatzgruppe dentro de um caminhão, os não tão distintos membros da SS em outro caminhão, os fiéis nas sinagogas, Herr Oskar Schindler a caminho de seu apartamento na Rua Straszewskiego para se vestir para o jantar — o que nenhum deles sabia, e muitos planejadores do Partido mal podiam esperar, era que iria ser encontrada uma resposta tecnológica: um desinfetante químico com posto, Zyklon B, iria substituir Madagascar como solução.

Houvera um incidente relacionado com Leni Riefenstahl, a atriz e diretora predileta de Hitler. A caminho de Lodz com uma equipe de cinegrafistas logo depois de a cidade cair, ela presenciara uma fileira de judeus — visivelmente judeus, de longos cachos — serem executa dos com armas automáticas. Leni fora procurar diretamente o Führer, que se achava no quartel-general do Exército do Sul, e lhe fez uma cena. Era isso — a logística, o peso dos números, as considerações de relações públicas faziam com que os rapazes do Einsatz fizessem papel de tolos. Mas Madagascar também iria parecer ridículo, uma vez que fossem descobertos meios de efetuar incursões substanciais contra a população subumana da Europa Central em locais determinados, com facilidades adequadas de remoção, que uma elegante diretora tinha pou cas probabilidades de encontrar.

Conforme Oskar tinha avisado a Stern no escritório da Buchheister, os SS desencadearam uma guerra econômica de porta em porta nas ruas Jakoba, Izaaka e Josefa. Invadiram apartamentos, arrastaram o conteúdo de armários, arrebentaram fechaduras em escrivaninhas e penteadeiras. Arrancaram jóias dos dedos e pescoços e correntes de relógios. Uma mulher que não queria entregar o seu casaco de pele teve o braço quebrado; um menino da Rua Ciemna, que queria ficar cora os seus esquis, levou um tiro.

Alguns, cujos bens tinham sido roubados — ignorando que a SS estava operando fora de qualquer restrição legal —, foram no dia seguinte dar queixa nas delegacias de polícia. Em algumas delegacias encontraram um ou outro oficial graduado com alguma integridade, que se mostrava embaraçado e talvez até disciplinasse algum depredador. Teria de haver uma investigação para o caso do menino da Rua Ciemna e da mulher com o nariz quebrado por um cassetete.

Enquanto os SS trabalhavam nos prédios de apartamentos, o esquadrão do Einsaizgruppe atacava a Sinagoga de Stara Bozníca, data da do século XIV. Como esperavam, ali encontraram orando uma congregação de judeus tradicionais de barbas e cachos e tallis nos ombros. Juntaram um grupo de judeus menos ortodoxos nos apartamentos das imediações e os fizeram entrar na sinagoga para apurar a reação de um grupo em presença do outro.

Entre os que haviam sido empurrados para dentro da Stara Bozníca achava-se o gângster Max Redlicht, que de outra forma não teria posto os pés na sinagoga nem sido convidado para entrar. Foram to dos colocados diante da Arca, dois pólos da mesma tribo que, em circunstâncias normais, teriam considerado uma ofensa estar na companhia um do outro. Um oficial graduado do Einsatz abriu a Arca e tirou de dentro o rolo de pergaminho do Tora. A discrepante congregação dentro da sinagoga recebeu ordem de desfilar diante do pergaminho sagrado e cuspir nele. Não podia haver tapeação — a cusparada teria de ser visível na caligrafia.

Os judeus ortodoxos se mostraram mais racionais do que os outros, os agnósticos, os liberais, os que se consideravam apenas europeus. Tornou-se claro para os homens do Einsatz que os judeus dessa classe recuavam diante do Tora, e tentavam mesmo transmitir-lhes encorajamento através de olhares, como que dizendo: "Vamos, somos todos muito sofisticados para dar importância a essa tolice." Os membros da SS tinham ouvido em seu treinamento que o caráter europeu dos judeus liberais era uma fina classe, e na Stara Bozníca a relutância dos que usavam cabelos curtos e roupas contemporâneas vinha provar aquela teoria.

No final, todos cuspiram exceto Max Redlicht. Os homens do Einsatzgruppe devem ter considerado isso um teste que valera a pena — ver um homem visivelmente agnóstico recusar-se a repudiar um livro, que intelectualmente ele considerava uma antiga sandice tribal, mas que seu sangue lhe diz ser sagrado. Podia um judeu se libertar das tendências de seu sangue? Podia ele pensar com tanta clareza quanto Kant? Aquele era o teste.

Redlicht não passou no teste. Pronunciou um pequeno discurso. "Já fiz muita coisa na vida. Mas isso não farei." Foi o primeiro a ser morto com um tiro, mas depois fuzilaram todos os outros e incendiaram Stara Bozníca, deixando apenas o arcabouço da mais antiga das sinagogas polonesas.

 

Victoria Klonowska, secretária polonesa, era a beldade do escritório de Oskar, e imediatamente ele se envolveu num duradouro caso com ela. Ingrid, sua amante alemã, devia saber de tudo, tão certo como Emilie Schindler sabia a respeito de Ingrid. Pois Oskar nunca fora um amante furtivo. Em questões sexuais, era de uma franqueza que chegava a ser infantil. Não que se gabasse de suas aventuras mas simplesmente não via necessidade alguma de mentir, de esgueirar-se para dentro de hotéis pelas escadas de serviço, bater de leve na porta de uma mulher a altas horas da madrugada. Como Oskar não fazia esforço algum para enganar suas mulheres, elas não tinham muita opção: as discussões tradicionais entre amantes tornavam-se difíceis.

Com os cabelos louros arrumados no alto de seu lindo, esperto e bem-maquilado rostinho, Victoria Klonowska parecia ser do tipo de jovem frívola para quem as inconveniências da História significavam uma intrusão temporária na vida real. Nesse outono, quando usavam roupas simples, Klonowska parecia bem fútil com uma blusa de baba dos e saia justa. Contudo, era astuta, eficiente e hábil. Era também uma nacionalista no robusto estilo polonês. Mais tarde, ela iria negociar com os dignitários alemães das instituições da SS o livramento do seu amante sudeto. Mas, por enquanto, Oskar tinha uma tarefa me nos arriscada para ela.

Encarregou-a de encontrar um bom bar ou cabaré em Cracóvia, onde ele pudesse levar alguns amigos. Não contatos, nem funcionários graduados da Inspetoria de Armamentos. Amigos de verdade. Um local animado e que não fosse freqüentado por autoridades.

Conhecia Klonowska, por acaso, um local assim?

Ela descobriu um excelente porão com uma banda de jazz, nas estreitas ruas ao norte da Rynek, a praça da cidade: um clube que sempre fora popular entre os estudantes e professores mais jovens da universidade, mas a própria Victoria nunca lá estivera. Os homens de meia-idade, que a haviam cortejado em tempo de paz, nunca se mos trariam dispostos a se meter num antro de estudantes. Quem desejasse podia alugar uma alcova atrás de uma cortina para reuniões privadas, sob pretexto de ouvir os ritmos tribais da banda de jazz. Por ter descoberto aquele local, Oskar apelidou Victoria de "Colombo". A linha do Partido considerava o jazz não somente manifestação artisticamente decadente mas expressão da subumana animalidade africana. O ump -pa-pa das valsas vienenses era o ritmo preferido dos homens da SS e membros do Partido, que faziam absoluta questão de evitar clubes de jazz.

Por volta do Natal de 1939, Oskar organizou uma reunião no clube com um grupo de amigos. Como qualquer cultivador instintivo de contatos, jamais tivera problema algum de beber na companhia de homens de quem não gostava. Mas nessa noite os convidados eram gente de quem realmente gostava. Além disso, naturalmente, eram todos de alguma utilidade, pois eram membros jovens mas não sem certa in fluência, nas várias agências de ocupação; todos mais ou menos exila dos duplos — não só se encontravam longe de sua pátria mas, quer no seu país quer no exterior, estavam todos mais ou menos inquietos com o regime.

Havia, por exemplo, um jovem superintendente alemão da Divisão do Interior do Governo-Geral. Fora ele quem delimitara a fábrica de esmaltados de Oskar em Zablocie. Nos fundos da fábrica de Oskar, Deutsche Email Fabrik (DEF), ficava um terreno baldio que confinava com duas outras fábricas, uma de embalagens e outra de radiadores. Schindler gostara muito de saber que a maior parte da área desocupada pertencia, segundo o superintendente, à DEF. Em sua cabeça surgiram visões de expansão econômica. Esse superintendente, é claro, linha sido convidado porque era um bom sujeito, porque era pos sível conversar com ele e porque poderia ser útil no plano de conseguir futuras licenças de construção.

O policial Herman Toffel estava presente e também Reeder, do Ser viço de Segurança, assim como um outro superintendente, jovem oficial de nome Steinhauser, da Inspetoria de Armamentos. Oskar conhecera e simpatizara com esses homens, quando havia requerido as licenças de que necessitava para pôr sua fábrica em funcionamento. Já bebera com eles em outras ocasiões. Sempre acreditara que a melhor maneira de desfazer o nó górdio da burocracia, excetuando o suborno, era a bebida.

Finalmente, havia dois membros da Abwehr. O primeiro era Eberhard Gebauer, o tenente que um ano antes tinha recrutado Schindler para a Abwehr. O segundo era o Leutnant Martin Plathe, do comando de Canaris em Breslau. Devido ao seu recrutamento através do amigo Gebauer, Herr Oskar Schindler tinha descoberto que Cracóvia era uma cidade de muitas oportunidades.

A presença de Gebauer e Plathe teria suas conseqüências. Oskar continuava inscrito nos livros da Abwehr como agente e, nos anos que permaneceu em Cracóvia, manteve a equipe de Canaris em Breslau satisfeita, transmitindo-lhes informações sobre o comportamento dos seus rivais na SS. Gebauer e Plathe consideravam como um favor, uma dá diva, o fato de Oskar ter convidado um policial, mais ou menos descontente como Toffel, e Reeder do Serviço de Segurança, além de oferecer-lhes boa companhia e bebidas.

Ainda que não seja possível dizer exatamente o que conversaram os convidados daquela reunião, é possível reconstituir com alguma plausibilidade as conversas, pelo que Oskar transmitiu mais tarde a respeito de cada um deles.

Foi Gebauer, naturalmente, quem fez a saudação, declarando que não lhes daria governos, exércitos ou potentados; ao invés, lhes dará a fábrica de esmaltados do seu bom amigo Oskar Schindler. Pois, se a fábrica prosperasse, haveria mais reuniões no estilo Schindler, e da melhores!

Mas, depois do brinde, a conversa desviou-se naturalmente para o assunto que confundia e obcecava todos os níveis da burocracia ci vil: os judeus.

Toffel e Reeder tinham passado o dia na Estação de Mogilska, supervisionando o desembarque de judeus e poloneses de trens vinda do leste. Essa gente havia sido transportada dos Territórios Incorporados, regiões recentemente conquistadas, que no passado tinham pertencido à Alemanha. Toffel não estava se preocupando com o conforto dos passageiros nos Ostbahn, vagões de gado, embora confessasse que eram muito frios. Mas esse tipo de transporte de populações era uma novidade para todo mundo e os vagões ainda não viajavam desumanamente repletos. O que deixava Toffel confuso era a intenção por de trás de tudo aquilo.

— Há um rumor persistente — disse Toffel — de que estamos em guerra. E, em tal situação, os cidadãos dos Territórios Incorpora dos se consideram de raça muito pura para conviver com uns poucos poloneses e meio milhão de judeus. O sistema Ostbahn foi planejado para entregar toda essa gente em nossas mãos.

Os membros da Abwehr ouviam com um leve sorriso nos lábios.

Para a SS o inimigo oculto podia ser o judeu mas para Canaris o inimigo oculto era a SS.

A SS, informou Toffel, tinha requisitado toda a rede ferroviária a partir de 15 de novembro. Por sua mesa, na Rua Pomorska, tinham passado memorandos irritados dirigidos pela SS ao pessoal do Exército, reclamando que os militares não estavam cumprindo o prometido, tinham ultrapassado duas semanas o prazo marcado para o uso dos Ostbahn. Pelo amor de Deus, perguntava Toffel, o Exército não devia ter prioridade, por quanto tempo quisesse, para usar a rede ferroviária? De que outra forma poderia distribuir suas tropas a leste e oeste?, perguntava ele bebendo nervosamente. Usando bicicletas?

Oskar achou graça que os homens da Abwehr não fizessem comentário algum. Suspeitavam ser Toffel um informante, em vez de simplesmente estar embriagado.

O superintendente e o homem da Inspetoria de Armamentos fizeram algumas perguntas a Toffel sobre aqueles trens que chegavam na Mogilska. Em breve tais movimentações deixariam de ser assunto de discussão; o transporte de seres humanos passaria a ser um clichê de medidas de repovoamento. Mas na noite da reunião de Oskar, ainda constituíam uma novidade.

—   Eles chamam isso — disse Toffel — concentração. É a palavra que se encontra nos documentos. Concentração. Eu chamo isso de maldita obsessão.

O proprietário do clube de jazz trouxe pratos de arenque e mo lho. O peixe combinava bem com a bebida forte e, enquanto eles o devoravam, Gebauer falou sobre os Judenrats, os conselhos judaicos formados em cada comunidade por ordem do Governador Frank. Em cidades como Varsóvia e Cracóvia o Judenrat tinha vinte e quatro membros eleitos, pessoalmente responsáveis pelo cumprimento das ordens do regime. O Judenrat de Cracóvia estava em funcionamento havia menos de um mês; Marek Biberstein, respeitada autoridade municipal, fora nomeado presidente da organização. Mas Gebauer disse ter ouvi do o rumor de que o Judenrat já apresentara no Castelo de Wawel uma lista de trabalhadores judeus. O Judenrat forneceria a mão-de-obra para cavar valas e latrinas e remover neve. Podia alguém negar que os ju deus estavam muito dispostos a cooperar?

Em absoluto, disse o engenheiro Steinhauser da Inspetoria de Armamentos. Os judeus pensavam que, se fornecessem turmas de trabalhadores, isso faria cessarem fortuitos ataques da imprensa. Ataques da imprensa levavam a espancamentos e a um ocasional tiro na cabeça.

Martin Plathe concordou.

—   Eles serão cooperativos para evitar coisas piores. É o seu método. É preciso que se compreenda isso. Sempre compraram as autoridades civis cooperando com elas e depois negociando.

Gebauer parecia estar querendo desorientar Toffel e Reeder mostrando-se mais apaixonadamente analítico a respeito de judeus que realmente o era.

—   Eu lhes digo o que para mim significa cooperação — explicouele. — Frank assina um decreto exigindo que todo judeu no Governo Geral use uma estrela. Esse decreto está em vigor há apenas umas poucas semanas. Em Varsóvia há um judeu fabricando estrelas em plástico lavável a três zlotys cada uma. É como se eles não tivessem a menor idéia de que espécie de decreto é esse. É como se se tratasse de emblema de um clube de ciclismo.

Foi então sugerido que, já que Schindler estava no comércio dos esmaltados, talvez pudesse fabricar um emblema de luxo em esmalte e distribuí-lo através do comércio de ferragens, negócio que seria supervisionado pela sua namorada Ingrid. Alguém observou que a estrela era a insígnia nacional deles, a insígnia de um Estado que havia sido destruído pelos romanos e que agora só existia na mente de sionistas Assim talvez os judeus se orgulhassem de usar a estrela.

O fato é — disse Gebauer — que eles não possuem organização alguma para se salvar. As organizações deles são do tipo de amainar a tempestade. Mas essa vai ser diferente. Essa tempestade será dirigida pela SS. — De novo Gebauer falava como se, sem se entusiasmar demais, aprovasse a eficiência profissional da SS.

Ora, vamos — ponderou Plathe —, a pior coisa que poderia acontecer aos judeus é serem enviados para Madagascar, que tem condições de temperatura melhores do que Cracóvia.

—   Não creio que eles jamais vejam Madagascar — disse Gebauer Oskar pediu que se mudasse de assunto. Afinal, a festa não era sua? O fato era que ele já tinha visto a mão de Gebauer pousada sobre

documentos forjados, permitindo a fuga para a Hungria de um comerciante judeu, no bar do Hotel Cracóvia. Talvez Gebauer estivesse co brando o serviço, embora parecesse muito sensível moralmente para negociar documentos, vender assinaturas ou carimbos. Mas era certo que, apesar da sua atitude estudada na presença de Toffel, ele não odiava os judeus. E tampouco odiavam os outros presentes. No Natal de 1939, Oskar simplesmente achava-os um alívio, em vista da bombástica linha do Partido. Mais tarde eles teriam uma utilidade mais positiva.

 

A Aktion da noite de 4 de dezembro havia convencido Stern de que Oskar Schindler era aquela raridade, um goy justo. Existe uma lenda talmúdica dos Hasidei Ummot Haolam, os Justos das Nações que, segundo a lenda, são — em qualquer época da história do mundo — trinta e seis. Stern não acreditava literalmente naquele número místico mas para ele a lenda era psicologicamente verdadeira; julgava por isso que o critério certo seria tentar fazer de Schindler um santuário vivo.

O alemão precisava de capital — a Rekord tinha sido parcialmente despojada de material de fabricação exceto por uma pequena galeria de prensas de metal, depósitos de esmalte, tornos mecânicos e fornos. Ainda que Stern pudesse exercer uma substancial influência espiritual sobre Oskar, o homem que lhe proporcionou contatos com capital em boas condições foi Abraham Bankier, o gerente do escritório da Rekord, cuja confiança Oskar tinha conquistado.

A dupla — o alto e sensual Oskar e o atarracado Bankier — puseram-se em campo para encontrar possíveis investidores. Pelo decreto de 23 de novembro, as contas bancárias e depósitos dos judeus ficariam sob a guarda da administração alemã, com crédito fixo, sem que o cliente tivesse direito algum a juros ou a lançar mão do seu dinheiro. Alguns dos negociantes judeus mais abastados e experientes mantinham fundos secretos de dinheiro em espécie. Mas podiam prever que por alguns anos, sob o governo de Hans Frank, mesmo dinheiro seria arriscado; bens móveis — diamantes, ouro, mercadorias — eram mais aconselháveis.

Em Cracóvia havia certo número de homens conhecidos de Bankier dispostos a fazer investimentos de capital contra a garantia de certa quantidade de produtos. A transação podia ser um investimento de 50 mil zlotys por tantos quilos de panelas e caçarolas, entregues a partir de julho de 1940, em todo o decorrer do ano. Para um judeu de Cracóvia, com Hans Frank no governo, utensílios de cozinha eram mais seguros e disponíveis do que zlotys.

As partes desses contratos — Oskar, o investidor, com Bankier como intermediário — não tinham papel algum assinado. Contratos formais de nada adiantavam e não representavam nenhuma garantia. Não podia haver exigência alguma quanto ao seu cumprimento. Tudo dependia da confiança que Bankier depositava naquele fabricante sudeto de artigos esmaltados.

As reuniões podiam realizar-se talvez no apartamento do investidor no Centrum de Cracóvia, a antiga cidade interna. À luz da transação podiam ser vistos os quadros dos paisagistas poloneses que a mulher do investidor apreciava ou os romances franceses que suas cultas e frágeis filhas adoravam. Ou, então, o cavalheiro investidor já fora expulso do seu apartamento e residia mais modestamente no Podgórze: um homem em estado de choque — espoliado da sua morada, agora um mero empregado do próprio negócio — e tudo isso se passara em poucos meses, o ano ainda não tinha terminado.

A primeira vista, parece um enobrecimento da história dizer que Oskar jamais fora acusado de deixar de cumprir a palavra empenhada naqueles contratos informais. No ano seguinte, ele iria ter uma briga com um varejista judeu por causa da quantidade de artigos que o homem tinha o direito de receber da fábrica na Rua Lipowa. E o varejista até o fim da vida iria afirmar que fora lesado. Mas jamais alguém confirmou que Oskar deixara de cumprir um contrato.

Pois Oskar era por natureza um pagador que, de certa forma, dava a impressão de que podia fazer pagamentos ilimitados com recursos ilimitados. Mas o fato era que ele e outros oportunistas alemães iam ganhar tanto dinheiro no decorrer dos quatro anos seguintes que só um homem sôfrego pela ambição do lucro teria deixado de saldar o que o pai de Oskar teria chamado de "dívida de honra".

No ano-novo, Emilie Schindler foi pela primeira vez a Cracóvia para visitar o marido. Achou a cidade a mais encantadora que já conhecera, tão mais agradável e antiga do que Brno, com suas nuvens de fumaça industrial.

Ficou impressionada com o novo apartamento do marido. As janelas da frente davam para um belo cinturão verde que circundava a cidade, seguindo o traçado de antigas muralhas, que há muito haviam ruído. No final da rua erguia-se a grande fortaleza de Wawel e em meio de todas essas antigüidades ficava o moderno apartamento de Oskar. Olhou em seu redor os estofados e cortinas da Sra. Pfefferberg. Eram a prova tangível dos novos sucessos do marido.

—   Vejo que tem se saído muito bem na Polônia — observou ela. Oskar sabia que Emilie estava realmente aludindo à questão do

dote, que seu pai se recusara a pagar doze anos antes. De volta de uma viagem a Zwittau, ele havia retornado à aldeia de Alt-Molstein com a informação de que o genro estava vivendo e tendo aventuras como um homem solteiro. O casamento da filha tornara-se exata mente o que ele temera e, em hipótese alguma, iria pagar o dote prometido.

Embora a ausência dos 400 mil reichmarks tivesse alterado um pouco as perspectivas de Oskar, o fazendeiro de Alt-Molstein não sabia o quanto a recusa do pagamento do dote magoara sua filha, tornara-a ainda mais defensiva, e que doze anos depois, quando aquele dinheiro não contava mais para Oskar, Emilie continuava pensando no seu dote.

—   Minha cara, nunca precisei daquele maldito dinheiro — dizia lhe freqüentemente Oskar.

As relações intermitentes de Emilie com Oskar parecem ter sido as de uma mulher que sabe que não pode contar com a fidelidade do marido mas ainda assim se recusa a tomar conhecimento de suas aventuras. Ela deve ter adotado uma atitude cautelosa em Cracóvia, com parecendo a festas e reuniões, em que amigos de Oskar certamente sabiam da verdade, podiam citar os nomes das outras mulheres, no mês que ela realmente queria ignorar.

Um dia, um jovem polonês — Poldek Pfefferberg, que quase ha via morto o seu marido, mas ela naturalmente ignorava o incidente — bateu na porta do apartamento carregando no ombro um rolo de tape te. Era um tapete do mercado negro, importado de Istambul via Hungria, e Pfefferberg recebera de Ingrid a incumbência de encontrar um tapete naquelas condições. Mas Ingrid tinha-se mudado provisoriamente do apartamento, enquanto durasse a visita de Emilie.

—   Frau Schindler está? — perguntou Pfefferberg, que sempre se referia a Ingrid como Frau Schindler por considerar que era mais delicado.

—   Eu sou Frau Schindler — respondeu Emilie, sabendo o que significava a pergunta.

Pfefferberg deu prova de habilidade, disfarçando a sua gafe: na realidade, não havia necessidade de falar com Frau Schindler, embora Herr Schindler sempre falasse muito em sua esposa. Precisava falar era com Herr Schindler... sobre um negócio.

Emilie respondeu que Herr Schindler não estava em casa e ofereceu a Pfefferberg um drinque, que foi recusado apressadamente. Emilie sabia também o que a recusa significava. O rapaz estava um pouco chocado com a vida privada de Oskar, e não achava decente aceitar uma bebida da vítima do seu cliente.

A fábrica que Oskar alugou se situava do outro lado do rio, em Zablocie, na Rua Lipowa. Os escritórios, que ficavam de frente para a rua, eram de construção moderna, e Oskar pensou na possibilidade e conveniência de instalar um apartamento no terceiro andar, embora a zona fosse industrial e não tão alegre como a Rua Straszewskiego.

Quando Oskar tomou posse da Rekord, dando-lhe o novo no me de Deutsche Emailwaren Fabrik, havia quarenta e cinco empregados responsáveis pela modesta produção de utensílios de cozinha. Em princípios do novo ano ele firmou seus primeiros contratos com o Exército, o que não constituiu surpresa. Oskar tinha cultivado relações com vários engenheiros influentes da Wehrmacht, que faziam parte da junta da Inspetoria de Armamentos do General Schindler. Dava-se socialmente com eles, tendo-os convidado a jantar no Cracóvia Hotel. Existem fotos de Oskar sentado com esses personagens ao redor de mesas luxuosas, todos sorrindo afavelmente para a câmera, todos bem alimentados, bem bebidos, e os oficiais elegantemente fardados. Alguns deles punham os carimbos certos nas ofertas apresentadas por ele e escreviam as decisivas cartas de recomendação ao General Schindler, por pura amizade e por acreditarem que Oskar estava capacitado a cumprir os contratos. Outros eram influenciados por presentes, o tipo de presentes que Oskar sempre oferecia a funcionários — conhaque, tapetes, jóias, móveis e cestas de comestíveis finos. Além do mais, era sabido que o General Schindler conhecia e apreciava muito o seu homônimo, fabricante de esmaltados.

Agora, com o prestígio de seus lucrativos contratos com a Inspetoria de Armamentos, Oskar obteve permissão de expandir sua fábrica. Não faltava espaço. Adiante do saguão e escritórios da DEF ficavam dois grandes galpões industriais. Parte do espaço no prédio à esquerda, passagem do saguão para o interior da fábrica, era ocupado pela atual produção. O outro prédio estava totalmente vazio.

Ele comprou máquinas novas, algumas no local, outras na Ale manha. Além dos pedidos militares, havia um esfaimado mercado negro a ser abastecido. Oskar soube então que poderia vir a ser um magnata. Já em meados do verão de 1940, estava empregando 250 poloneses e iria ter de instituir um turno da noite. A fábrica de maquinaria agrícola de Herr Hans Schindler, em Zwittau, empregava em seu apogeu 50 homens. É gratificante superar um pai, a quem nunca se perdoou.

Em determinadas ocasiões, no decorrer daqueles anos, Itzhak Stern ia procurar Schindler, a fim de arranjar emprego para algum jovem judeu — um caso especial; um órfão de Lodz; ou a filha de um funcionário de um dos departamentos do Judenrat (Conselho Judaico). Em poucos meses, Oskar já contava com 150 empregados judeus e sua fá brica tinha uma discreta reputação de refúgio.

Era um ano semelhante a todos os outros anos que se sucede ram até o fim do conflito mundial, em que os judeus procuravam algum emprego considerado essencial ao esforço de guerra. Em abril, o Governador Frank tinha decretado a evacuação dos judeus de sua capital, Cracóvia. Era uma decisão curiosa, já que as autoridades do Reich continuavam remetendo de volta ao Governo-Geral judeus e poloneses numa média de 10 mil por dia. Entretanto, segundo Frank informou ao seu gabinete, as condições em Cracóvia eram escandalosas. Sabia de chefes-de-divisão alemães que eram obrigados a morar em prédios de apartamentos, onde ainda havia inquilinos judeus! Até oficiais mais graduados estavam também sujeitos à mesma escandalosa indignidade. E Frank prometeu que nos próximos seis me ses tornaria Cracóvia judenfrei (livre de judeus). Seria permitido um remanescente de 5 mil ou 6 mil trabalhadores judeus especializados. Todo o resto seria removido para outras cidades do Governo-Geral, Varsóvia ou Radom, Lublin ou Czestochowa. Os judeus poderiam emigrar voluntariamente para a cidade de sua escolha, desde que o fizessem até 15 de agosto. Os que ainda permanecessem na cidade após aquela data seriam transportados de caminhão com um míni mo de bagagem para qualquer local que fosse da conveniência da administração. A partir de 1? de novembro, declarou Hans Frank, seria possível aos alemães de Cracóvia respirarem "puro ar alemão", caminhar pela cidade sem ver as ruas e alamedas "fervilhando de judeus".

Frank não ia conseguir nesse ano reduzir a população judaica a um nível tão baixo; mas logo que foram anunciados os seus pla nos, houve uma corrida dos judeus de Cracóvia, especialmente os jovens, para adquirir ofícios especializados. Homens como Itzhak Stern, agentes oficiais e extra-oficiais do Judenrat, já tinham organizado uma lista de simpatizantes alemães a quem eles podiam recorrer. Schindler figurava nessa lista; assim como Julius Madritsch, um vienense que conseguira recentemente dar baixa da Wehrmacht e as sumir o posto de Treuhànder numa fábrica de uniformes militares.

Madritsch podia ver os benefícios resultantes de contratos cora a Inspetoria de Armamentos e agora tencionava abrir uma fábrica pró pria de uniformes no subúrbio de Podgórze. Acabaria por juntar uma fortuna ainda maior do que a de Schindler, mas no annus mirabilis de 1940 ainda era um assalariado. Sabia-se que ele era uma pessoa hu mana — só isso.

Em 1? de novembro de 1940, Frank já tinha conseguido retirar de Cracóvia 23 mil voluntários judeus. Alguns deles foram para os novos guetos de Varsóvia e Lodz. As lacunas às mesas, o choro nas estações de estrada de ferro podem ser imaginados; mas as pessoas aceitavam tudo docilmente, pensando: "Vamos obedecer, e isso será um impacto maior do que eles desejam." Oskar sabia o que estava acontecendo mas, como os próprios judeus, esperava que se tratasse de um excesso temporário.

Aquele ano seria muito provavelmente o mais atarefado da vida de Oskar — um ano durante o qual ele passou transformando um negócio falido numa companhia que as agências governamentais podiam levar a sério. Por ocasião das primeiras nevadas, Schindler notou com irritação que num só dia 60 ou mais de seus empregados judeus deixa ram de comparecer ao trabalho. Haviam sido detidos a caminho do trabalho por esquadrões da SS e forçados a desobstruir a neve das ruas. Herr Schindler visitou o seu amigo Toffel no quartel-general da SS na Rua Pomorska para apresentar uma queixa. Disse a Toffel que, num só dia, 125 empregados seus não tinham podido comparecer ao trabalho.

—   Você tem de compreender — disse-lhe confidencialmente Toffel — que alguns desses sujeitos da SS estão se danando para a produção. Para eles é uma questão de prioridade nacional que judeus removam a neve das ruas. Eu próprio não compreendo isso... tem um significado ritualista para eles que os judeus removam a neve. E não é só com você, está acontecendo isso com todo mundo.

Oskar perguntou se os outros estavam também se queixando. Sim, respondeu Toffel. Todavia, acrescentou ele, um economista chefão do Orçamento da SS e do Departamento de Construção tinha vindo al moçar em Pomorska e declarado que era uma traição considerar que a mão-de-obra especializada judaica tinha alguma razão de ser na eco nomia do Reich.

—   Acho que ainda vai ter de agüentar muita pá de neve, Oskar. No momento, Oskar assumiu a atitude de um patriota indignado, ou talvez um oportunista indignado.

—   Se querem ganhar a guerra — respondeu ele — tem de se livrar de gente desse tipo.

— Livrar-se da SS? — perguntou Toffel. — Pelo amor de Deus, eles são os miseráveis que estão mandando.

Como resultado de tais conversas, Oskar tornou-se o advogado do princípio de que o dono de uma fábrica não podia ser impedido de ter acesso aos seus próprios empregados e que esses não deviam ser detidos ou tiranizados a caminho da fábrica, tanto na ida como na volta. Aos olhos de Oskar, tratava-se de um axioma tanto moral como industrial. E no final, iria aplicar ao máximo essa teoria na Deutsche Email Fabrick.

 

Algumas pessoas das cidades grandes — Varsóvia e Lodz, esta com os seus guetos, Cracóvia com o compromisso de Frank de tornar a cidade judenfrei — recorreram ao campo, onde pode riam passar despercebidos entre os camponeses. Os irmãos Rosner, músicos cracovianos, que mais tarde teriam muitos contatos com Oskar, instalaram-se na velha aldeia de Tyniec. Esta se situava numa bonita curva do Rio Vístula, de onde se podia avistar um velho mosteiro beneditino no alto de um rochedo calcário. Os Rosner consideraram o local suficientemente obscuro. Ali residiam uns poucos lojistas judeus e artesãos ortodoxos, que pouco tinham em comum com os dois músicos. Mas os camponeses, empenhados no tedioso trabalho da colheita, mostraram-se contentes, para alívio dos Rosner, de ter músicos em sua aldeia.

Os dois tinham chegado a Tyniec, não de Cracóvia, nem do grande posto militar junto aos jardins botânicos da Rua Mogilska, onde jovens SS empurravam as pessoas para dentro de caminhões, berrando deslavadas e mentirosas promessas de lhes remeter depois as suas bagagens. Tinham vindo efetivamente de Varsóvia, onde haviam sido contratados para tocar na Basilisk, tinham partido um dia antes de os alemães selarem o gueto de Varsóvia — Henry, Leopold e Manci, mulher de Henry, e Olek, o filho de cinco anos do casal.

A idéia de uma aldeia como Tyniec, no sul da Polônia, não longe de sua nativa Cracóvia, agradava aos irmãos. Oferecia a opção, caso melhorassem as condições, de tomar um ônibus para Cracóvia e lá encontrar trabalho. Manci Rosner tinha conseguido trazer sua máquina de costura, e os Rosner abriram em Tyniek uma pequena confecção de roupas. À noite, tocavam nas tavernas e assim se tornaram a sensação daquele vilarejo. Aldeias recebem bem e patrocinam talentos oca sionais, mesmo que sejam judeus. E o violino era, de todos os instru mentos, o mais venerado na Polônia.

Certa noite, um Volksdeutscher (polonês que fala alemão) vindo de Poznan ouviu os irmãos tocando numa estalagem. O Volksdeuts cher era um funcionário municipal de Cracóvia, um daqueles poloneses-alemães, em cujo nome Hitler se achara no direito de tomar o país. 0 Volksdeutscher disse a Henry que o prefeito de Cracóvia, o Obersturmbannführer Pavlu, e seu adjunto, o renomado esquiador Sepp Rõh-re, estariam visitando o campo por ocasião da colheita, e ele gostaria de providenciar para que ouvissem uma dupla tão talentosa como os Rosner.

Uma tarde, quando os feixes de feno jaziam por toda parte nos campos, tão silenciosos e abandonados como num domingo, um comboio de limusines atravessou a aldeia e subiu uma encosta até a pro priedade de um aristocrata polonês ausente. No terraço, esperavam os bem-trajados irmãos Rosner; quando todas as damas e cavalheiros tinham-se sentado num salão que, em outros tempos, poderia ter sido usado para bailes, eles foram convidados a tocar. Henry e Leopold estavam ao mesmo tempo exultantes e temerosos com o capricho com que os convidados do Obersturmbannführer Pavlu tinham-se apara mentado para o concerto. As mulheres usavam luvas e vestidos brancos, os militares uniformes de gala, os burocratas colarinhos engoma dos. Quando as pessoas se preparam assim, fica mais fácil desapontá-las. Tratando-se de um judeu, até mesmo causar uma decepção cultural ao regime podia constituir um crime grave.

Mas a audiência adorou o concerto. Era um público caracteristicamente gemütlich; apreciava Strauss, as composições de Offenbach e Lehar, as de André Messager e Leo Fall. O clima era de sentimentalismo.

Enquanto Henry e Leopold tocavam, as damas e cavalheiros sor viam champanha em taças, que haviam sido trazidas em cestas.

Uma vez terminado o concerto oficial, os irmãos foram levados encosta abaixo para onde se achavam reunidos camponeses e soldados da escolta. Se iria haver alguma rude demonstração racial, seria ali. Mas, de novo, quando os irmãos subiram numa carroça e olharam a turba nos olhos, Henry percebeu que estavam a salvo. O orgulho dos camponeses, com raízes num sentimento nacionalista — já que nessa noite os Rosner representavam um crédito à cultura polonesa — constituía uma proteção. Era como nos velhos tempos, e Henry não pôde deixar de sorrir para Olek e Manei, tocando para ela, ignorando o resto das pessoas. Por alguns breves momentos, parecia realmente que o mundo havia sido pacificado através da música.

Quando eles terminaram de tocar, um SS de meia-idade — talvez um Roítenführer (oficial subalterno), pois Henry não era ainda muito familiarizado com as gradações de postos da SS — aproximou-se deles, enquanto recebiam congratulações, e cumprimentou-os com um esboço de sorriso.

—   Espero que vocês tenham uma boa festa de colheita — disse ele e depois se retirou.

Os irmãos se entreolharam. Assim que o oficial SS se afastou, eles cederam à tentação de discutir o significado daquelas palavras. Leopold disse, convencido:

—   É uma ameaça.

Aquilo vinha provar o que eles tinham temido em seu âmago, quando o Voíksdeutsche lhes dirigira a palavra — que nessa época não convinha sobressair, ter qualquer forma de destaque.

Assim era a vida no campo em 1940. O cerceamento de uma cor rida, o tédio rústico, a luta pelo trabalho, o terror ocasional, a atração por aquele centro brilhante chamado Cracóvia. Para lá, os Rosner sabiam que eventualmente iriam voltar.

No outono Emilie regressou a sua casa; quando Stern retornou ao apartamento de Schindler, foi Ingrid quem lhe ofereceu um café. Oskar não fazia segredo de suas fraquezas e jamais poderia pensar que o ascético Itzhak Stern precisasse de alguma desculpa pela presença de Ingrid. Portanto, quando terminou o café, Oskar foi até o aparador e apanhou uma garrafa nova de conhaque; colocou-a sobre a mesa, entre sua cadeira e a de Stern, como se este realmente fosse compartilhar da bebida.

Stern tinha vindo essa noite para contar a Oskar que uma família — que chamaremos os Cs.* — o velho David e o jovem Leon C. estavam espalhando histórias sobre ele no interior das casas e até nas ruas de Kazimierz, tachando-o de gângster alemão e de escroque. Ao trans mitir essas acusações a Oskar, Stern empregou termos menos fortes.

Oskar sabia que Stern não estava aguardando uma resposta, que estava apenas transmitindo uma informação. Mas mesmo assim, naturalmente, achou que devia responder.

—   Eu poderia espalhar histórias sobre eles — disse Oskar. — Estão me roubando de todas as maneiras. Se quiser, pode perguntar aIngrid.

  • O motivo de se empregar aqui a inicial em vez de um sobrenome de ficção e porque em Cracóvia havia grande número de sobrenomes judeus-poloneses, e empregar um so brenome qualquer, em vez de uma simples inicial, poderia ofender a memória de aigu- ma família desaparecida ou de algum amigo ainda vivo de Oskar.

 

Ingrid era a supervisora dos Cs., uma Treuhänder benigna, de apenas vinte e poucos anos, comercialmente inexperiente. O que se dizia era que o próprio Schindler tinha conseguido a nomeação da moça a fim de garantir um mercado comprador para os seus artigos de

cozinha. Contudo, os Cs. tinham bastante autonomia em sua companhia. Se não gostavam da idéia de as autoridades da ocupação manterem a custódia dos seus negócios, ninguém podia censurá-los por isso.

Stern fez um gesto de mão como para afastar a sugestão de Oskar. Quem era ele para interrogar Ingrid? E, de qualquer forma, não iria obter grandes informações da moça.

— Eles tapeiam Ingrid — explicou Oskar. — Apareceram na Rua Lipowa para receber suas encomendas, alteraram as faturas e levaram mais do que haviam pago. "Ela disse que está bem", informaram os meus empregados. "Ele arranjou tudo com Ingrid."

O filho, com efeito, andava dizendo a torto e a direito que Schin dler tinha mandado os SS lhe darem uma surra. Mas sua história variava — a surra supostamente ocorrera na fábrica de Schindler, no depósito de onde o jovem C. emergira com um olho preto e dentes que brados. Depois já a surra teria acontecido no Limanowskiego, diante de testemunhas. Um homem chamado F., empregado de Oskar e ami go dos Cs., tinha dito que ouvira Oskar andando de um lado para ou tro no seu escritório na Rua Lipowa e ameaçando matar o velho David C. Ainda falavam que Oskar tinha ido de carro a Stradom e feito uma limpa na caixa registradora de C; tinha atulhado os bolsos com dinheiro, tinha dito que havia uma Nova Ordem na Europa, e isso de pois de ter espancado o velho David em seu escritório.

Seria possível que Oskar tivesse agredido o velho David C. e o deixado de cama com tantos ferimentos? Seria possível que ele tivesse pedido a amigos seus da polícia que atacassem Leon? Sob certo aspecto, Oskar e os Cs. eram gângsteres, vendendo ilegalmente toneladas de utensílios de cozinha, sem avisar a relação das vendas ao Transferstelle, sem o uso dos necessários cupons de mercadoria chamados Bezugschein. No mercado negro o diálogo era rude e os humores violentos. Oskar admitia que entrara furioso na loja dos Cs., chamara pai e filho de ladrões e indenizara a si mesmo na caixa registradora pelos utensílios de cozinha, que os Cs. tinham levado sem autorização. Oskar admitia que esmurrara o jovem Leon, nada mais.

E os Cs., que Stern conhecia desde a infância, tinham uma reputação nada invejável. Não exatamente de criminosos mas de espertalhões e, caracteristicamente, como no incidente com Oskar, de fendiam-se pondo a boca no mundo quando apanhados em flagrante.

havia ocasiões em que as únicas pessoas que restavam para fazer negócios eram os escroques.

Schindler   riu com o comentário — uma gargalhada franca, quase rústica.

— Muito obrigado, meu amigo — disse ele a Stern.

 

O Natal daquele ano não foi tão ruim. Mas havia uma tristeza no ar, a neve era como uma interrogação na paisagem defronte do apartamento de Schindler; havia algo de imobilizado, vigilante e eterno nos telhados do Wawel lá no alto, assim como nas antigas fachadas da Rua Kanonicza. Ninguém mais acreditava numa solução rápida — nem os soldados ou os poloneses, nem os judeus de cada lado do rio.

Nesse Natal, para a sua secretária Klonowska, Schindler comprou um poodle, um ridículo cãozinho parisiense, adquirido por Pfefferberg. Para Ingrid ele deu uma jóia e mandou outra para a suave Emilie, em Zwittau. Poodles eram raridade, informou Pfefferberg. Mas jóias eram fáceis de se adquirir. Naquele tempo havia uma grande oferta nesse mercado.

Oskar parece ter mantido suas simultâneas ligações com as três mulheres e eventuais casos passageiros com outras, tudo isso sem sofrer as normais penalidades infligidas a um conquistador. Pessoas que freqüentavam o seu apartamento não se lembram de jamais ter visto Ingrid amuada. Ela parece ter sido uma jovem generosa e afável. Emilie, com ainda mais motivos para queixas, tinha muita dignidade para fazer as cenas que Oskar merecia de sobra. Se Klonowska nutria quaisquer ressentimentos, isso não parecia afetar o seu comportamento no escritório da DEF, nem sua lealdade para com Herr Direktor. Seria de esperar que numa vida como a de Oskar, confrontos públicos entre mulheres enraivecidas fossem comuns. Mas ninguém entre os amigos e empregados de Oskar — testemunhas dispostas a admitir e até, em certas circunstâncias, a rir dos seus pecados da carne — se lembra de confrontos peno sos, tão comuns na vida de homens bem menos afoitos do que ele.

Sugerir, como algumas pessoas chegaram a fazer, que qualquer mulher se satisfaria com a posse parcial de Oskar é menosprezar as mulheres de sua vida. O problema era, talvez, que se alguém pretendesse discutir fidelidade com Oskar, em seus olhos surgia uma expressão de infantil e autêntica perplexidade, como se lhe estivesse sendo proposto algum conceito tal como a Relatividade, que só poderia ser compreendido se o ouvinte dispusesse de umas cinco horas para se concentrar. Ora, Oskar nunca dispunha de cinco horas e jamais compreenderia.

Exceto no caso de sua mãe. Naquela manhã de Natal, em homenagem a ela, Oskar compareceu à missa na Igreja de Santa Maria. Ha via um espaço acima do altar principal, onde o tríptico de madeira de Wit Stwosz até poucas semanas antes havia desviado a atenção dos fiéis com o seu aglomerado de divindades se acotovelando. O vazio, a marca desbotada na pedra, no local onde estivera pendurado o tríptico, provocara em Schindler uma reação indignada. Alguém tinha rouba do o tríptico e remetido para Nuremberg. Como se tornara inverossímil o mundo!

Ainda assim naquele inverno os negócios iam de vento em popa. No ano seguinte, os amigos de Oskar da Inspetoria de Armamentos começaram a discutir com ele a possibilidade de instalar um departamento de munições para fabricar granadas antitanque. Oskar estava mais interessado em panelas e caçarolas do que em granadas. Panelas e caçarolas eram de fácil fabricação. Cortava-se e prensava-se o metal, mergulhando-o depois em tanques e aquecendo-o na temperatura certa. Não era preciso calibrar instrumentos; a fabricação não necessitava em absoluto da precisão necessária para armas. Não podia haver nenhum negócio por debaixo do pano com granadas e Oskar gostava de negócios por debaixo do pano — gostava das jogadas, do descrédito, do lucro rápido, da exclusão da burocracia.

Mas, por ser de boa política, ele estabeleceu uma seção de munições, instalando umas poucas e imensas máquinas Hilo, para a precisão na prensagem e cinzelamento dos invólucros de granadas. A seção de munições era ainda evolucionária; levaria alguns meses de planeja mento e testes de produção antes de começarem a fabricar as grana das. As grandes Hilos, todavia, deram à fábrica de Schindler uma espécie de barreira contra o futuro incerto, pelo menos uma aparência de indústria essencial.

Antes mesmo de terem sido adequadamente calibradas as Hilos, Oskar começou a ouvir alusões, através de seus contatos com a SS da Rua Pomorska, de que havia um projeto de criar um gueto para judeus. Transmitiu o boato a Stern, sem querer causar alarme. Ah, sim, disse Stern, a coisa era sabida. Algumas pessoas até desejavam que se crias se um gueto. Estaremos lá dentro, o inimigo estará do lado de fora. Poderemos cuidar dos nossos próprios negócios. Ninguém irá nos invejar, ninguém nos apedrejará nas ruas. Os muros do gueto serão o limite, a forma fixa da catástrofe.

O decreto, "Gen. Gub. 44/91", emitido em 3 de março, foi publicado nos diários de Cracóvia e anunciado na Kazimierz por alto-falantes em caminhões. Percorrendo o seu departamento de munições, Oskar ouviu um de seus técnicos comentar a notícia:

— Eles não estarão melhor lá? — perguntou o técnico. — Como sabe, os poloneses odeiam os judeus.

O decreto usava a mesma desculpa. Como um meio de reduzir conflitos raciais no Governo-Geral, seria instalado um bairro judaico fechado. A inclusão no gueto seria compulsória para todos os judeus, mas aqueles que tivessem carteira de trabalho poderiam sair do gueto para trabalhar, retornando à noite. O gueto ficaria localizado no subúrbio de Podgórze, do outro lado do rio. O prazo final para dar entrada no gueto era no dia 20 de março. Uma vez lá dentro, cada um seria lotado em habitações determinadas pelo Judenrat. Os poloneses que residiam atualmente na área e que, portanto, teriam de se mudar, deviam procurar a sua própria agência de habitação para receber um apartamento em outras partes da cidade.

Um mapa do novo gueto vinha apenso ao edital. O lado norte se ria limitado pelo rio, a extremidade leste pela linha da estrada de ferro para Lwów, o lado sul pelos montes adiante de Rekawka, o oeste pela Praça Podgórze. Uma área bem restrita.

Mas havia esperança de que a repressão tomaria agora uma for ma definida e daria às pessoas uma base com que planejar seus futuros restritos. Para um homem como Juda Dresner, negociante por ataca do de tecidos da Rua Stradom, que viria a conhecer Oskar, o ano e meio anterior trouxera uma incrível sucessão de decretos, intromissões e confiscos. Perdera o seu negócio para a Agência de Crédito, seu car ro, seu apartamento. Sua conta bancária fora congelada. As escolas de seus filhos haviam sido fechadas, ou eles tinham sido expulsos de outras. As jóias da família, assim como o rádio, haviam sido confisca das. Ele e sua família estavam proibidos de penetrar no centro de Cracóvia, assim como de viajar de trem. Podiam usar apenas bondes segregados. Sua mulher, filha e filhos eram intermitentemente arrebanhados para retirar a neve das ruas e outras tarefas compulsórias. Nunca sabia quando seria forçado a entrar num caminhão, se a ausência seria curta ou longa, ou que espécie de loucos armados estariam supervisionando o trabalho que o obrigariam a executar. Sob tal tipo de regime a vida não oferecia a menor segurança, era como escorregar para dentro de um poço sem fundo. Mas talvez o gueto estivesse no fundo, o ponto do qual seria possível organizar algum plano.

Além do mais, os judeus de Cracóvia estavam acostumados — de uma forma que se poderia descrever melhor como congênita — à idéia de um gueto. E agora que ficara decidido, a própria palavra soava co mo algo ancestralmente calmante. Seus avós não tinham tido permissão de emergir do gueto de Kazimierz até 1867, quando Franz Josef assinara um decreto permitindo-lhes viver onde quisessem na cidade. Os cínicos diziam que os austríacos tinham tido necessidade de abrir Kazimierz, entalada no braço do rio tão perto de Cracóvia, a fim de que os trabalhadores poloneses pudessem encontrar acomodações próximas ao seu local de trabalho. Não obstante, Franz Josef era ainda reverenciado pelos mais velhos da Kazimierz com tanta ênfase quanto o fora no lar de Oskar Schindler, em sua infância.

Embora a liberdade tivesse chegado tão tarde, havia ao mesmo tempo, entre os judeus mais velhos de Cracóvia, uma nostalgia pelo antigo gueto de Kazimierz. Um gueto implicava esqualidez, dificuldade de moradia, compartilhar banheiros, disputas por espaço para cor das de secar roupa. Contudo, também fazia com que os judeus se dedicassem à sua especial característica: riqueza de erudição partilha da, canções e conversações em conjunto, em cafés com fartura de idéias senão de leite. Rumores tenebrosos emanavam dos guetos de Lodz e Varsóvia, mas o de Podgórze, conforme fora planejado, era mais favorecido em questão de espaço, pois, se fosse superposto num mapa do Centrum, ver-se-ia que ocupava uma área de cerca de metade do tamanho da Cidade Velha — espaço de modo algum suficiente mas que não chegava a ser um estrangulamento.

Havia também no edital uma cláusula tranqüilizadora pela qual o governo se comprometia a proteger os judeus dos seus compatriotas poloneses. Desde princípios da década de 30, uma luta racial, preme ditadamente organizada, prevalecera na Polônia. Quando começou a depressão e os preços de produtos agrícolas caíram, o governo polonês tinha sancionado vários grupos políticos anti-semitas, do tipo que via os judeus como a causa de todos os seus problemas econômicos. Sanacja, o Partido de Saneamento Moral do Marechal Pilsudski, depois da morte do velho marechal, tinha-se aliado ao Campo de Unidade Nacional, partido de direita anti-semita. O Primeiro-Ministro Sklad kowski, na tribuna do Parlamento em Varsóvia, declarara: "Guernl econômica contra os judeus? Aprovado!" Em vez de dar uma reforma agrária aos camponeses, Sanacja induzia-os a encarar as bancai de judeus no mercado como símbolo e total explicação da penúria rural polonesa. Realizaram-se pogroms contra a população judaica em algumas cidades, a começar por Grodno em 1935. Os legisladores poloneses também participaram da luta e indústrias judaicas faliram com as novas leis de crédito bancário. Grêmios de artesanato recusavam judeus e as universidades adotaram uma quota, ou o que eles próprios — muito dados à linguagem clássica — denominavam numerus clau sus aut nullus (um número reduzido ou nulo), para o ingresso de estudantes judeus. Faculdades cederam à insistência da Unidade Nacional para que os judeus se sentassem em bancos separados no quadrilátero e ficassem segregados no lado esquerdo nas salas de conferência. Era muito comum, nas universidades polonesas, bonitas e brilhantes estudantes, filhas de judeus, ao saírem das salas de aula, terem o rosto re talhado por um rápido golpe de navalha desfechado por algum magro e sério jovem do Campo de Unidade Nacional.

Nos primeiros dias da ocupação alemã, os conquistadores se espantaram com a presteza com que os poloneses lhes indicavam os lares de judeus e agarravam um judeu pelos cachos religiosos, enquanto um alemão cortava com uma tesoura as barbas ortodoxas ou espetava-lhe o rosto com a ponta de uma baioneta. Portanto, em março de 1941, o compromisso de proteger os moradores do gueto dos excessos nacionalistas poloneses foi recebido quase como verossímil.

Embora não houvesse grandes manifestações espontâneas de alegria entre os judeus de Cracóvia, ao arrumarem as bagagens para se mudar para Podgórze, havia uma estranha sensação de volta ao lar, assim como a impressão de ter alcançado um limite além do qual, com alguma sorte, não poderiam expulsá-los e tiranizá-los ainda mais. A tal ponto que mesmo judeus de aldeias nas cercanias de Cracóvia, de Wieliczka, Niepolomice, Lipnica, Murowana e Tyniec se apressaram em retornar à cidade, receosos de não poderem mais penetrar no gueto depois de 20 de março e se verem isolados num ambiente hostil. Pois o gueto era, pela sua própria natureza, quase por definição, habitável, ainda que sujeito a ataques intermitentes. O gueto representava estase em vez de fluxo.

O gueto traria um pequeno inconveniente à vida de Oskar Schindler. Era costume seu sair do luxuoso apartamento na Straszewskiego, passar pelo rochedo calcário do Castelo de Wawel, enfiado na boca da cidade como uma rolha numa garrafa, e descer atravessando Kazi-mierz, depois a ponte Kosciuszko e dobrar à esquerda, rumo à sua fábrica de Zablocie. Agora aquele caminho estaria bloqueado pelos muros do gueto. Era um problema de menor importância, mas tornava mais razoável a idéia de manter um apartamento no andar acima do seu escritório no prédio da Rua Lipowa. Era um bom prédio, construído no estilo de Walter Gropius. Muitas vidraças e claridade, elegantes tijolos cúbicos no pátio da entrada.

Sempre que fazia o percurso naqueles dias, antes do prazo de 20 de março, entre a cidade e Zablocie, Oskar via os judeus da Kazimierz arrumando suas bagagens, e na Rua Stradom, famílias empurrando carrinhos de mão com cadeiras, colchões e relógios, em direção do gueto. Os parentes daquela gente tinham vivido na Kazimierz desde o tempo em que era uma ilha separada do Centrum por um riacho chamado Stara Wisla. Na verdade, desde o tempo em que Kazimier o Grande os havia convidado a vir para Cracóvia quando, em outras cidades, eles estavam sendo responsabilizados pela Peste Negra. Oskar presumia que os seus antepassados tinham chegado a Cracóvia daquela mesma maneira, empurrando carrinhos com os seus pertences, havia mais de 500 anos. Agora estavam partindo, ao que parecia com os mesmos carrinhos de mão. O convite de Kazimier tinha sido cancelado.

Durante aquelas longas jornadas matutinas pela cidade, Oskar notou que os planos da cidade eram de os bondes continuarem descendo a Rua Lwówska, passando pelo centro do gueto. Muros fronteiriços da linha do bonde estavam sendo erguidos por trabalhadores poloneses; onde havia espaços abertos, já se levantavam muros de cimento. Ao penetrarem no gueto os bondes fechariam hermeticamente suas por tas e não parariam até emergir novamente no Umwelí, o mundo ariano, na esquina de Lwówska com a Rua Kingi. Oskar sabia que, apesar disso, haveria clandestinos que apanhariam o bonde. Portas cerradas, sem parada, metralhadoras nos muros — não importava. Sob esse aspecto, os seres humanos eram incorrigíveis. Gente tentando descer do bonde, a empregada fiel de alguém, com um embrulho de salsichas. E gente tentaria subir no bonde, algum jovem atleta ágil como Leopold Pfefferberg, com diamantes no bolso ou zlotys de ocupação ou uma mensagem em código para os guerrilheiros. As pessoas se agarravam à menor chance, mesmo que fosse viajando do lado de fora, com portas cerradas, passando veloz entre muros silenciosos.

A partir de 20 de março, os trabalhadores judeus de Oskar não receberiam mais salário algum e, para viver, iriam depender inteiramente de suas rações. Em contrapartida, ele pagaria determinada quantia à SS de Cracóvia. Tanto Oskar como Madritsch se sentiram inquietos com a medida, pois sabiam que um dia a guerra ia terminar e os donos de escravos, tal como acontecera na América, seriam vilipendiados e despojados. A quantia que ele teria de pagar aos chefes de polícia era a estabelecida pelo Escritório Administrativo e Econômico da SS — 7.50 reichmarks pelo trabalho diário de um trabalhador especializado e cinco para as mulheres e os não-especializados. Esses eram salários abaixo dos que vigoravam no mercado de trabalho aberto. Mas tanto para Oskar como para Madritsch, o desconforto moral superava a vantagem econômica. Naquele ano, a folha de pagamento era a menor das preocupações de Oskar. Além do mais, ele nunca fora um capitalista rígido. Em sua juventude, numerosas vezes fora acusado pelo pai de esbanjar dinheiro sem necessidade. Enquanto exercera a mera função de gerente de vendas, possuía dois carros, na esperança de que isso chegasse aos ouvidos de Hans e o chocasse. Agora, em Cracóvia, ele podia se dar ao luxo de vários carros — um Minerva belga, um Maybach, um cabriolé Adler, um BMW.

Ser pródigo e ainda assim mais rico do que o seu cauteloso pai — este era um dos triunfos que Schindler ambicionava na vida. Em tempos de abundância, o custo da mão-de-obra não merecia cogitações. 0 mesmo se dava com Julius Madritsch. A fábrica de uniformes de Madritsch ficava no lado oeste do gueto, a um ou dois quilômetros da Emalia de Oskar. Seus negócios iam tão bem que ele estava em negociações para abrir uma fábrica semelhante em Tarnow. Era também muito querido pela Inspetoría de Armamentos e o seu crédito tão bom que lhe fora concedido um empréstimo de um milhão de zlotys pelo Bank Emisyjny (Banco de Crédito).

Ainda que isso lhes trouxesse certo desconforto ético, não é pro vável que qualquer dos dois empresários, Oskar ou Julius, se sentisse obrigado moralmente a não empregar judeus. Isso seria uma atitude, e, como ambos fossem pragmáticos, atitudes não eram do estilo de nenhum dos dois. Em todo caso, ltzhak Stern, assim como Roman Gin ter, um comerciante e representante do Departamento de Assistência do Judenral, foram ambos procurar Oskar e Julius e lhes imploraram que empregassem mais judeus, tantos quanto possível. O objetivo era dar ao gueto uma permanência econômica. Era quase axiomático. Stern e Ginter consideravam que, naquele estágio, um judeu que tivesse algum valor econômico num império prematuro, sequioso de trabalha dores especializados, estava a salvo de coisas piores. E Oskar e Madritsch concordaram.

Assim, durante duas semanas, os judeus empurraram seus carrinhos de mão, cruzando a Kazimierz e atravessando a ponte para chegar a Podgórze. Empregados poloneses de famílias de classe média os acompanhavam para ajudar no transporte. No fundo dos carrinhos de mão, debaixo de colchões, chaleiras e frigideiras estavam escondidos casacos de peles e as jóias que lhes haviam restado. Turbas de poloneses nas Ruas Stradom e Starovislna gritavam insultos e atiravam lama."Os judeus vão embora, os judeus vão embora! Adeus, judeus!"

Adiante da ponte um elaborado portão de madeira se abria para os novos habitantes do gueto. Branco, com baluartes entalhados parecendo arabescos, tinha dois grandes arcos para a ida e vinda dos bondes de Cracóvia. Ao lado havia uma guarita branca para a sentinela. Acima dos arcos, uma tabuleta em hebraico, visando a um efeito tranqüilizador: CIDADE JUDAICA. Cercas altas de arame farpado se es tendiam ao longo da frente do gueto voltada para o rio; espaços abertos eram selados com placas de cimento de uns três metros de altura, arredondadas o topo, parecendo fileiras de lápides anônimas.

No portão do gueto o judeu trêmulo era recebido por um representante do Departamento de Habitação do Judenrat. Se tinha mulher e uma família grande, podiam lhe ser concedidos dois cômodos e o uso da cozinha. Mesmo assim, após a boa vida das décadas de 20 e 30, era doloroso ter de partilhar sua vida privada com famílias de rituais diferentes, hábitos desagradáveis e odor de almíscar. Mães protestavam, pais diziam que as coisas poderiam ser piores e abanavam a ca beça. Num mesmo recinto, os ortodoxos julgavam os liberais uma abominação.

Em 20 de março, o movimento estava encerrado. Todos os do lado de fora do gueto estavam sujeitos a confisco e outros prejuízos. Dentro do gueto, por enquanto, havia espaço para se viver.

Edith Liebgold, de vinte e três anos, foi instalada em um quarto no primeiro andar, que passaria a partilhar com sua mãe e seu bebe. A queda de Cracóvia, dezoito meses antes, provocara em seu marido um acesso de desespero, e ele partira de casa, como se quisesse procurar alguma saída para a sua situação. Tinha idéias sobre florestas, queria encontrar alguma clareira, onde estivesse a salvo. E nunca mais voltara.

De sua janela, Edith Liebgold podia ver o Vístula através da barricada de arame farpado mas, em seu caminho para outras partes do gueto, especialmente para o hospital na Rua Wegierska, cruzava Plac Zgody, a Praça da Paz, a única praça do gueto. Ali, no segundo dia de sua vida no gueto, por uma questão de vinte segundos ela deixou de ser posta dentro dum caminhão da SS para ir trabalhar com uma pá, removendo carvão ou neve da cidade. Não era só o fato de que aquelas turmas de trabalho, segundo rumores, retornavam ao gueto com menos gente do que havia partido. Mais do que essa espécie de risco, Edith temia ser forçada a entrar em um caminhão, quando meio minuto antes estava se dirigindo para a farmácia de Pankiewicz e dentro de vinte minutos teria de amamentar o filho. Decidiu, então, ir com amigos ao Departamento de Empregos. Se pudesse conseguir trabalho noturno, sua mãe cuidaria à noite do bebê.

O departamento naqueles primeiros dias estava muito movimentado. O Judenrat tinha agora a sua própria força policial, a Ordnungs-dienst (ou OD), ampliada e regulamentada para manter a ordem no gueto, e um menino de boné e faixa no braço organizava as filas diante do departamento.

O grupo de Edith Liebgold tinha acabado de passar pela porta, fazendo muito barulho para matar o tempo, quando um senhor baixo, de meia-idade, vestido com um terno e gravata marrons, aproximou-se dela. Provavelmente o que o atraíra fora o barulho e a animação do grupo. A princípio os outros pensaram que o senhor baixo queria conquistar Edith.

— Escute — disse ele — em vez de estar aí esperando. . . há uma fábrica de esmaltados lá em Zablocie.

E deixou que o endereço produzisse o seu efeito. Zablocie ficava fora do gueto. Lá seria possível barganhar com trabalhadores poloneses. A fábrica estava precisando de dez mulheres saudáveis para o turno da noite.

As moças torceram o nariz, como se pudessem se dar ao luxo de escolher emprego. Não era trabalho pesado, garantiu ele. Elas pode riam aprender o ofício trabalhando. Quem era ele? Chamava-se Abraham Bankier e era o gerente. Evidentemente, o dono da fábrica era alemão. Que espécie de alemão?, perguntaram elas. Bankier sorriu co mo se, de repente, estivesse querendo infundir-lhes esperança. O dono não era um mau sujeito, declarou ele.

Nessa noite, Edith Liebgold reuniu-se ao grupo que formava o turno da noite da fábrica de esmaltados e saiu do gueto em direção a Zablocie sob a guarda de um judeu OD. No caminho ela fez perguntas sobre a Deutsche Email Fabrik. Servem uma sopa bem grossa, disseram-lhe. Espancamentos?, perguntou. Não é esse tipo de lugar, respon deram-lhe. Não é como a fábrica de navalhas de Beckmann; mais co mo a de Madritsch. Madritsch é um bom sujeito e Schindler também.

À entrada da fábrica, Bankier chamou as moças do turno da noite para fora das colunas e as levou para o andar de cima, passando por uma sala de escrivaninhas vazias até uma porta em que se lia HERR DIREKTOR. Edith Liebgold ouviu uma voz profunda dizer-lhes que entrassem. Lá dentro encontraram o Herr Direktor sentado no canto de sua mesa, fumando um cigarro. Seu cabelo, entre louro e castanho-claro, parecia muito bem escovado; vestia jaquetão e gravata de seda. A impressão que dava era de um homem que tinha um jantar marcado para aquela noite mas esperara especialmente para dar uma palavra às suas novas funcionárias. Era muito alto e ainda jovem. Personificando o tipo ideal de Hitler, Edith esperou que ele pronunciasse um discurso sobre esforço de guerra e a necessidade de aumentar as quotas de produção.

—   Eu queria dar-lhes as boas-vindas — disse-lhes o diretor em polonês. — Fazem parte da expansão desta fábrica. — E desviou os olhos; era até possível que estivesse pensando: "Não lhes diga isso elas não têm nenhum interesse na fábrica."

Então, sem sequer piscar os olhos, sem nenhuma introdução, sem encolher significativamente os ombros, Schindler afirmou-lhes:

—   Trabalhando aqui, vocês estarão a salvo. Se trabalharem aqui. irão até o final da guerra com vida.

Deu-lhes boa-noite e deixou-as no escritório. Bankier reteve as moças no alto das escadas, a fim de que Herr Direktor pudesse descer na frente.

A promessa deixara-as aturdidas. Era uma promessa divina. Co mo podia um homem, um mero homem, fazer uma promessa daquela ordem? Mas Edith Liebgold acreditou no mesmo instante. Não tanto porque era no que ela queria acreditar; não porque era uma dádiva, incentivo imprudente. Mas porque no instante em que Herr Schindler proferiu a promessa, a única opção era acreditar.

As novas mulheres da DEF receberam as instruções para o seu trabalho num estado de agradável perplexidade. Era como se alguma velha cigana maluca, que nada tinha a ganhar com isso, houvesse previsto para elas o casamento com um conde. A promessa tinha para sempre alterado para Edith Liebgold as expectativas de vida. Se algum dia se visse diante de um pelotão de fuzilamento, ela provavelmente tería pr testado: "Mas Herr Direktor disse que isso jamais poderia acontecer!"

O trabalho não exigia nenhum esforço mental. Edith carregava os recipientes banhados em esmalte, pendurados por ganchos em uma longa vara, até os fornos. E o tempo todo meditava na promessa de Herr Schindler. Somente loucos faziam promessas tão categóricas. Sem sequer piscar os olhos. Contudo, ele não era em absoluto louco. Era um industrial com um jantar marcado. Portanto, ele devia saber. Mas isso significava alguma visão, algum contato profundo com Deus ou o diabo ou uma configuração do futuro. Mas, de novo, o aspecto dele, a mão com o anel de sinete de ouro não era a mão de um visionária Era a mão que se estendia para o copo de vinho; a mão em que se podia de certa forma perceber carícias latentes. E assim ela retomou à primeira idéia da insanidade dele, da embriaguez, das explanações místicas, da técnica com que Herr Direktor lhe havia incutido aquela certeza.

Similares voltejos de raciocínio obcecariam naquele ano e nos anos vindouros todos aqueles a quem Oskar fizera as suas arrebatadas promessas. Alguns teriam consciência da precariedade de tais afirmações. Se o homem estava errado, se tinha usado levianamente o seu poder de convicção, então não havia nenhum Deus, nenhuma humanidade, nenhum pão, nenhuma salvação. Restavam, naturalmente, apenas probabilidades, e as probabilidades não eram boas.

 

Naquela primavera, Schindler deixou a sua fábrica em Cracóvia e rumou para o oeste na sua BMW. atravessando a fronteira e as florestas que começavam a verdejar, e chegou a Zwittau. Ia visitar suas tias, sua irmã e Emilie. Todas elas tinham-se aliado a ele contra o pai; todas elas mantinham acesa a chama do martírio de sua mãe. Se havia um paralelo entre a infelicidade de sua mãe e a de sua mulher, Oskar Schindler — no seu sobretudo com lapelas de peles, guiando com as mãos enluvadas de couro seu carro feito sob encomenda, apanhando um outro cigarro turco, enquanto percorria as retas de geladas no Jeseniks — não via esse paralelo. Não cabia a uma criança ver tais coisas. Seu pai era um deus e sujeito a leis mais rígidas.

Ele gostava de visitar as tias — do jeito como elas erguiam as mão espalmadas em admiração à vista do talhe de sua roupa. Sua irmã mais nova casara-se com um funcionário da estrada de ferro e vivia num agradável apartamento fornecido pelas autoridades ferroviárias. O seu marido era importante em Zwittau, cidade de entroncamento de estradas de ferro, que possuía grandes pátios de cargas. Oskar tomou chá com a irmã e o marido, depois alguns cálices de genebra. Havia entre eles um leve tom mutuamente congratulatório: os irmãos Schindler não tinham se saído nada mal na vida.

Naturalmente, a irmã de Oskar fora quem cuidara de Frau Schindler. na sua última enfermidade, e agora andava se encontrando secretamente com o pai. Não podia fazer mais do que algumas insinuações no sentido de uma reconciliação. Foi o que fez durante o chá, e teve como resposta apenas resmungos.

Mais tarde, Oskar jantou em casa com Emilie. A mulher mostrou-se contente por tê-lo ali, naquele feriado. Podiam comparecer às cerimônias da Páscoa juntos, como os casais de antigamente. E foi real mente um cerimonial, pois os dois dançaram formalmente a noite to da, servindo um ao outro à mesa como estranhos bem-educados. E, em seus corações e suas mentes, tanto Emilie quanto Oskar se surpreendiam com aquela singular inaptidão matrimonial — que ele pudesse oferecer e dar mais de si mesmo a estranhos, a trabalhadores em sua fábrica do que a sua mulher.

A questão que surgira entre eles era se Emilie devia ir morar com o marido em Cracóvia. Se abrisse mão do apartamento em Zwittau, permitindo que fosse ocupado por outros inquilinos, não teria mais condição de abandonar Cracóvia. Acreditava que era seu dever estar ao lado de Oskar; na linguagem da teologia moral católica, a ausência dele do lar era uma "iminente ocasião de pecado". A vida em comum na cidade estranha só seria tolerável se ele se mostrasse contido, discreto e zeloso em relação às sensibilidades de sua mulher. O problema com Oskar era que não se podia contar com ele para manter em segredo os seus deslizes. Descuidado, meio embriagado, meio sorridente, ele parecia às vezes pensar que se realmente gostasse de alguma mulher, todos também tinham de gostar dela.

A questão não solucionada a respeito de Emilie mudar-se pa ra Cracóvia tornou-se tão opressiva entre os dois que, quando ter minou o jantar, Oskar pediu licença e se dirigiu para um café na pra ça principal. Era um ponto freqüentado por engenheiros de mine ração, pequenos comerciantes, algum ocasional comerciante transformado em oficial do Exército. Ele suspirou de alívio ao encontrar alguns dos seus amigos motociclistas, quase todos envergando uniformes da Wehrmacht. Começou a beber conhaque com eles. Alguns expressaram surpresa que um grandalhão forte como Oskar não estivesse fardado.

—   Indústria essencial — replicou ele. — Indústria essencial.

Começaram a recordar os seus tempos de motociclista. Lembra ram rindo a motocicleta que Oskar tinha fabricado com peças sobressalentes, quando ainda era estudante. O ruído explosivo do motor, e também o de sua grande Galloni 500cc. O alarido no café ia num crescendo; mais conhaque era pedido aos gritos. Antigos colegas de Oskar surgiram da sala de jantar anexa, denotando pela expressão facial que haviam reconhecido uma risada esquecida, como de fato a tinham esquecido. Então um deles assumiu um ar mais sério.

—   Escute, Oskar. Seu pai está jantando na sala ao lado, total mente sozinho.

Oskar Schindler baixou os olhos para o seu conhaque. Sentia o rosto em fogo mas encolheu os ombros.

—   Você devia ir falar com ele — disse alguém. — O pobre coita do está uma sombra do que foi

Oskar respondeu que era melhor ir para casa. Começou a pôr-se de pé, mas os amigos o seguraram pelos ombros, forçando-o a tornar a sentar-se.

—   Seu pai sabe que você está aqui — ponderaram. Dois deles já tinham se dirigido para a sala anexa e estavam persuadindo o velho Hans Schindler, que terminava o seu jantar. Em pânico, Oskar já se pusera de pé, procurando no bolso a ficha do vestiário, quando Hans Schindler, com ar contrafeito, emergiu da sala de jantar, levemente empurrado pelos dois rapazes. Ao ver o pai, Oskar se deteve. Apesar da raiva que guardara dele, sempre tinha imaginado que, se houvesse um gesto de aproximação entre os dois, ele teria de ser o primeiro a se aproximar. O velho era tão orgulhoso. Contudo, estava se deixando empurrar em direção ao filho.

Quando os dois se viram frente a frente, o primeiro gesto do pai foi um meio sorriso de desculpa e uma espécie de contração das sobrancelhas. A familiaridade da atitude encontrou Oskar despreveni do. "Não pude evitar nada", estava Hans dizendo. "O casamento e tudo mais... eu e sua mãe, tudo se passou de acordo com as leis da vida." A idéia por detrás do gesto poderia ser comum mas Oskar vira uma expressão idêntica nessa mesma noite no rosto de alguém — o seu próprio, ao erguer os ombros instintivamente, diante do espelho no saguão do apartamento de Emilie. "O casamento e tudo mais, tudo aconteceu de acordo com as leis da vida." Ele tinha partilhado aquela expressão consigo mesmo, e ali — três conhaques depois — seu pai a estava partilhando com ele.

—   Como vai, Oskar? — perguntou Hans Schindler. Havia um sopro perigoso em sua voz. A saúde de seu pai era pior do que ele se recordava.

Então Oskar decidiu que até mesmo Herr Hans Schindler era um ser humano — uma noção que ele não conseguira engolir à hora do chá em casa da irmã; abraçou seu velho pai, beijando-o três vezes na face, sentindo o impacto da barba por fazer e começando a chorar, enquanto os engenheiros, militares e motociclistas aplaudiam a cena edificante.

 

Os conselheiros do Judenrat de Arthur Rosenzweig, que ainda se consideravam guardiães da saúde, do bem-estar e da ração de pão dos internos do gueto, fizeram ver à polícia judaica do gueto que eram também servidores públicos. A sua tendência era contratar homens compassivos e com alguma instrução. Embora na sede da SS a OD fosse considerada como apenas uma força de polícia auxiliar, que recebia ordens como qualquer outra força policial, não era essa a imagem que a maioria dos membros da OD fazia de si mesma. Não pode ser negado que à medida que o tempo passava, nos guetos, o membro da OD ia se tornando cada vez mais um objeto de sus peita, um suposto colaboracionista. Alguns homens da OD transmitiam informações a grupos da Resistência e desafiavam o sistema, mas tal vez a maioria deles julgasse que a sua própria existência e a de suas famílias dependia cada vez mais da cooperação dada à SS. Para os homens honestos, a OD iria tornar-se um elemento de corrupção. Para escroques, representava uma oportunidade.

Mas em seus primeiros meses de atividade em Cracóvia, a OD parecia ser uma força benigna. Poldek Pfefferberg poderia ser citado co mo um exemplo da ambigüidade de se pertencer à OD. Quando, em dezembro de 1940, foi abolida toda a instrução para os judeus, mesmo a organizada pelo Judenrat, Poldek tinha aceito um emprego de controlador das filas de espera, cuidando também do livro de apontamentos no escritório do Judenrat. Era um emprego de meio expediente mas lhe dava o pretexto de poder se movimentar em Cracóvia com uma certa liberdade. Em março de 1941, foi fundada a OD com o objetivo declarado de proteger os judeus, que entravam no gueto do Podgórze, vindos de outras partes da cidade. Poldek aceitou o convite de pôr na cabeça o boné da OD. Ele acreditava compreender a finalidade da força policial — não era apenas para garantir um comportamento racional dentro dos muros do gueto mas também para conseguir aquele grau correto de relutante obediência tribal que, na história do judaísmo europeu, tem tendido a fazer com que os opressores se retirem mais rapidamente, tornem-se menos atentos, a fim de que, nos intervalos de sua desatenção, a vida volte a ser mais viável.

Ao mesmo tempo que Pfefferberg usava o seu boné da OD, ele transava mercadorias ilegais — artigos de couro, jóias, peles, moeda corrente — para dentro e para fora do portão do gueto. Conhecia o Wachtmeister do portão, Oswald Bosko, um policial que se tornara tão rebelde ao regime que permitia a entrada de matérias-primas no gueto para serem transformadas em mercadorias — roupas, vinho, ferragens — e depois deixava que as mercadorias saíssem para ser vendi- das em Cracóvia, tudo sem sequer cogitar de suborno.

Ao deixar o gueto, com os funcionários do portão, os schmalzowniks, ou os informantes rondando pelas imediações, Pfefferberg retirava a faixa judaica do braço em algum beco discreto e ia transar os seus negócios na Kazimierz ou no Centrum.

Nos muros da cidade, acima das cabeças dos passageiros nos bondes, ele podia ler os cartazes do dia: anúncios de navalhas, os últimos editais de Wawel sobre as penalidades para quem abrigasse bandidos poloneses, o slogan JUDEUS—PIOLHOS—TIFO, o cartaz mostrando uma virginal polonesa oferecendo comida a um judeu de nariz adunco, cuja sombra era o Diabo. QUEM AJUDA UM JUDEU AJUDA SATANÁS. Em fachadas de armazéns viam-se desenhos de judeus co locando ratos picados dentro de tortas, aguando o leite, recheando pastéis com piolhos, amassando a farinha do pão com pés imundos. A existência do gueto estava sendo corroborada nas ruas de Cracóvia com cartazes executados por artistas do Ministério de Propaganda. E Pfefferberg, com ares de ariano, trafegava sob aqueles cartazes, carregando uma mala com roupas, jóias e moeda corrente.

O maior golpe de Pfefferberg se dera no ano anterior, quando o Governador Frank retirara de circulação as cédulas de 100 e 500 zlotys e ordenara que as cédulas desses valores, ainda em circulação, fossem depositadas no Reich Credit Fund. Como um judeu só tinha permissão para trocar até 2.000 zlotys, isso significava que todas as cédulas guardadas — acima de 2.000, contra os regulamentos — não mais te riam valor algum. A não ser que o portador encontrasse alguém, com aspecto ariano e sem braçadeira, que se dispusesse a entrar nas longas filas de poloneses defronte do Reich Credit Bank para trocar o seu

dinheiro. Pfefferberg e um jovem seu amigo sionista arrecadaram dos residentes do gueto algumas centenas de milhares de zlotys em cédulas banidas, saíram com uma mala cheia delas, e voltaram com a moeda de ocupação, descontando apenas os subornos que tinham tido de pagar à polícia polonesa no portão do gueto.

Pfefferberg era um policial assim. Excelente pelos padrões do Secretário Artur Rosenzweig, deplorável pelos padrões da Pomorska.

Em abril, Oskar foi fazer uma visita ao gueto — por curiosidade e para falar com um joalheiro, a quem ele tinha encomendado dois anéis. Encontrou o recinto mais super povoado do que tinha imaginado — duas famílias para cada cômodo, a não ser que se tivesse a sorte de ter um amigo no Judenrat. Havia no ar um cheiro de encanamentos entupidos, mas as mulheres se defendiam do tifo esfregando com força e fervendo as roupas nos pátios. O joalheiro confiou a Schindler que "as coisas estão mudando", e que "os OD receberam cassetetes". Quanto à administração do gueto, como a de todos os outros da Polônia, passara do controle do Governador Frank para as mãos da Seção 4B da SS, e a autoridade mais alta em todas as questões de judeus em Cracóvia era agora o Oberführer Julian Scherner, homem jovial de uns quarenta e cinco a cinqüenta anos que, em trajes civis e com óculos de lentes grossas, parecia um burocrata comum. Oskar conhecera-o em coquetéis alemães. Scherner falava muito — não sobre a guerra mas de negócios e investimentos. Era da espécie de funcionário muito comum nas categorias intermediárias da SS, um folgazão, interessado em bebidas, mulheres e bens confiscados. Às vezes, se podia notar nele um sorrisinho de contentamento com o seu inesperado poder, como a boca lambuzada de geléia como a de uma criança. Mostrava-se sempre sociável e infalivelmente impiedoso. Oskar podia perceber que Scherner era mais a favor de fazer os judeus trabalharem do que de matá-los, que desconsiderava regulamentos quando se tratava de lucro, mas que seguiria a linha geral da política da SS, fosse qual fosse o rumo que tomasse.

Oskar não se tinha esquecido do chefe de polícia no Natal anterior, enviando-lhe meia dúzia de garrafas de conhaque. Agora que o poder do homem se expandira, o presente desse ano seria mais substancial.

Era devido a essa transferência de poder — a SS tornara-se não apenas o braço da política mas também a sua formuladora — que, sob o sol de verão de junho, a OD estava adquirindo uma nova natureza. Simplesmente, ao atravessar de carro o gueto, Oskar familiarizou-se com uma nova figura, um ex-vidraceiro chamado Symche Spira, ago ra a figura mais influente na OD. Spira era de família ortodoxa e, tanto pelos seus antecedentes como por temperamento, desprezava os liberais judeus europeizados, que ainda faziam parte do Conselho do Judenrat. Recebia ordens não de Artur Rosenzweig mas do Untersturm führer Brandt e da sede da SS do outro lado do rio. De suas confabulações com Brandt, ele retornava ao gueto com mais instruções e mais poder. Brandt pedira-lhe que organizasse e chefiasse uma Seção Política da OD, e para tanto ele recrutou vários amigos. O uniforme deles deixou de ser o boné e braçadeira e passou a ser uma camisa cinza, calças de montaria, cinto largo de couro e lustrosas botas SS.

A Seção Política de Spira iria além da exigência de cooperação relutante, pois se encheria de homens venais, homens complexados, com ressentimentos secretos contra as desfeitas sociais e intelectuais recebi das no passado da comunidade judaica respeitável. Além de Spira, havia Szynwn Spitz e Marcel Zellinger, Ignacy Diamond, o negociante David Gutter, Forster e Grüner e Landau. Assim, iniciaram eles uma carreira de extorsões e passaram a fazer para a SS listas de habitantes insatisfatórios ou sediciosos do gueto.

Poldek Pfefferberg queria agora livrar-se da força policial. Corriam rumores de que a Gestapo obrigaria todos os membros da OD a jurar fidelidade ao Führer, depois do que eles não teriam mais condições para desobediência. Poldek não queria compartilhar a profissão do camisa-cinza Spira ou de Spitz e Zellinger, encarregados das listas. Assim, dirigiu-se ao hospital na esquina de Wegierska para falar com um bondoso médico chamado Alexander Biberstein, o médico oficial do Judenrat. O irmão de Biberstein, Marek, tinha sido o primeiro presidente do Conselho e estava agora cumprindo pena na tenebrosa prisão de Montelupich por violação dos regulamentos sobre a moeda corrente e por ter tentado subornar funcionários.

Pfefferberg implorou a Biberstein que lhe desse um certificado médico, que o liberasse de pertencer à OD. Era difícil, respondeu Biberstein. Pfefferberg não apresentava sinal algum de doença. Ser-lhe-ia impossível fingir que sofria de pressão alta. O Dr. Biberstein deu-lhe instruções sobre os sintomas de problemas da coluna. Pfefferberg passou a apresentar-se ao serviço muito curvado e usando uma bengala.

Spira ficou indignado. Quando Pfefferberg lhe havia pedido da primeira vez para ser dispensado da OD, o chefe de polícia declarara — como o comandante de alguma guarda de palácio — que a única maneira de sair da OD era "na horizontal". No interior do gueto, Spira e seus ingênuos amigos estavam brincando de Corpo de Elite. Eram a Legião Estrangeira; eram os pretorianos. "Vamos mandá-lo para o médico da Gestapo!", berrara Spira.

Biberstein, consciente do quanto o jovem Pfefferberg se sentia constrangido, instruíra-o muito bem. Poldek sobreviveu à inspeção do médico da Gestapo e deu baixa da OD, como portador de uma enfermidade, que impediria sua eficiência no controle das pessoas. Ao se despedir do seu funcionário graduado, Spira expressou todo seu desprezo e sua inimizade.

No dia seguinte, a Alemanha invadiu a Rússia. Oskar ouviu furtivamente a notícia, transmitida pela BBC de Londres, e compreendeu que o Plano Madagascar estava agora encerrado. Muitos anos se passariam antes de haver navios disponíveis para uma solução daquelas. Oskar sentiu que o evento mudava a essência dos planejamentos da SS, pois agora por toda parte os economistas, os engenheiros, os planejadores de deslocamento de pessoas, os policiais de todas as categorias passariam a adotar não somente os hábitos mentais adequados a uma guerra prolongada mas também as medidas mais sistemáticas pa ra chegar a um império racialmente impecável.

 

Numa viela da Rua Lipowa e dando fundos para a oficina da fábrica de esmaltados de Schindler, ficava a Fábrica Alemã de Embalagens. Oskar Schindler, sempre irrequieto e desejoso de companhia, costumava, às vezes, ir até lá e conversar com o Treuhän der Ernst Kuhnpast ou com o antigo proprietário e extra-oficial gerente, Szymon Jereth. A Fábrica de Embalagens Jereth passara a ser, havia cerca de dois anos, a Fábrica Alemã de Embalagens — segundo o ar ranjo habitual — sem pagamento de indenização e sem que houvesse qualquer documento assinado por Jereth.

A injustiça da transação não mais preocupava especialmente Jereth. Era o que havia acontecido com a maioria das pessoas que ele conhecia. O que o preocupava era o gueto. As brigas nas cozinhas, a implacável promiscuidade da vida no gueto, o cheiro de suor, os pio lhos que saltavam para a sua roupa do casaco ensebado de um homem com quem se cruzava numa escada. A Sra. Jereth, contou ele a Oskar, estava profundamente deprimida. Sempre estivera habituada ao conforto; era de uma boa família de Kleparz, ao norte de Cracóvia. E pensar, expressou ele a Oskar, que com toda aquela madeira de pinho poderia construir uma moradia ali. E apontou para o terreno baldio atrás de sua fábrica. Os trabalhadores costumavam usar o espaço amplo para as suas partidas de futebol. Grande parte do terreno pertencia à fábrica de Oskar, o restante a um casal polonês de nome Bielski. Mas Oskar não fez ver isso ao pobre Jereth, ou disse que ele também se preocupava com aquele terreno baldio. Estava mais interessado na oferta insinuada de fornecimento de madeira.

— Acha que pode "alienar" tanta madeira assim? — perguntou Oskar.

—   Claro — replicou Jereth. — É só uma questão de escrita. Os dois estavam junto à janela do escritório de Jereth, olhando para o terreno baldio. Da oficina vinha o ruído de marteladas e de uma serra.      

—   Eu odiaria perder contato com este local — disse Jereth. — Odiaria desaparecer em algum campo de trabalhos forçados e ter de pensar de longe o que aqueles imbecis estariam fazendo aqui. Deve compreender isso, não é, Herr Schindler?

Um homem como Jereth não podia prever libertação alguma. Os exércitos alemães davam a impressão de estar desfrutando ilimitados êxitos na Rússia, e até mesmo a BBC parecia pouco inclinada a acreditar que eles estavam avançando para um abismo fatal. As encomendas da Inspetoria de Armamentos para cozinhas de campo não cessavam de chegar à mesa de Oskar, com os cumprimentos do General Julius Schindler no final, acompanhados de telefonemas de congratulação de oficiais graduados. Oskar aceitava as encomendas e as congratulações como de direito mas sentia um prazer contraditório com as cartas irritadas que o pai lhe escrevia para celebrar a reconciliação. Não vai durar, dizia Schindler pai. O homem (Hitler) não tem condições de durar. A América acabará se voltando contra ele. E os russos? Meu Deus, será que ninguém se deu ao trabalho de fazer ver ao ditador que lá existem incontáveis hordas daqueles bárbaros ímpios? Oskar, sorrindo com as cartas, não se deixava perturbar pelos sentimentos conflitantes — a satisfação comercial dos contratos da Inspetoria de Arma mentos e o prazer mais íntimo com as cartas subversivas do pai. Oskar depositava no banco em nome do pai uma quantia mensal de 1.000 RM, em honra do amor filial e da subversão, e também pela alegria da generosidade.

O ano pareceu-lhe passar rápido e quase tranqüilo. Horas de trabalho mais longas do que nunca, festas no Cracóvia Hotel, rodadas de bebidas no clube de jazz, visitas ao luxuoso apartamento de Klonowska. Quando começaram a cair as folhas do outono, Schindler se espantou com a rapidez com que o ano se escoara. A impressão de que o tempo voara era acrescida pelo verão tardio e agora pelas chuvas ou tonais, que chegavam mais cedo do que de costume. As estações alteradas iriam favorecer os soviéticos e afetariam a vida dos europeus. Para Herr Oskar Schindler, instalado na Rua Lipowa, as mudanças de tempo continuavam apenas mudanças de tempo.

Então, no final de 1941, Oskar de repente foi preso. Alguém — um dos funcionários poloneses da expedição, um dos técnicos alemães da seção de munições, era difícil saber — fora à Rua Pomorska, prestara informações e o denunciara. Dois homens da Gestapo, em trajes civis, chegaram certa manhã à Rua Lipowa e bloquearam a entrada com seus Mercedes, como se tencionassem liquidar com todo o comércio da Ema lia. Em cima, diante de Oskar, eles exibiram mandados de prisão que os autorizavam a requisitar todo o seu cadastro comercial. Mas, ao que parecia, não tinham nenhuma experiência naquele ramo.

Exatamente, quais são os livros que querem? — perguntou-lhe Schindler.

Livros-caixa — disse um.

Os seus principais livros-razão — disse o outro.

Foi uma prisão calma; eles conversaram com Klonowska, enquanto Oskar foi apanhar seus livros de contabilidade. Foi-lhe concedido tempo para anotar num bloco uns tantos nomes, supostamente de pessoas com quem Oskar tinha encontros marcados para aquele dia e que agora te riam de ser cancelados. Lendo-os Klonowska compreendeu que era uma lista de gente com quem ela devia entrar em contato para ajudá-lo a ser solto.

O primeiro nome na lista era o do Oberführer Julian Scherner; o segundo, Martin Plathe da Abwehr em Breslau. Este último implica va um telefonema interurbano. O terceiro nome pertencia ao supervisor da Osífaser, o bêbado veterano do Exército, Franz Bosch, que Schindler presenteara com uma grande quantidade de utensílios domésticos. Debruçando-se sobre o ombro de Klonowska, sobre seus cabelos louros arrumados no alto da cabeça, ele sublinhou o nome de Bosch. Homem influente, Bosch conhecia e aconselhava todos os altos funcionários que participavam do mercado negro de Cracóvia. E Oskar sabia que a sua prisão tinha a ver com o mercado negro, cujo perigo consistia em sempre poder encontrar algum funcionário disposto a ser subornado mas nunca poder prever a inveja de algum dos próprios em pregados do funcionário.

O quarto nome da lista era o do diretor alemão da Ferrum AG de Sosnowiec, a companhia onde Schindler adquiria o seu aço. Esses nomes eram um conforto, pensava ele, ao ser conduzido no Mercedes da Gestapo para a Rua Pomorska, a mais ou menos um quilômetro do Centrum. Eram uma garantia de que não iria desaparecer sem deixar vestígio. Não se sentia, portanto, tão indefeso quanto os mil habitantes do gueto que haviam sido arrebanhados de acordo com as listas de Symche Spira e conduzidos sob as gélidas estrelas do Advento para os vagões de gado na Estação Prokocim. Oskar tinha bons pistolões.

O complexo da SS em Cracóvia era um imenso edifício moderno, sombrio, mas não tão portentoso quanto a prisão de Montelupich. Contudo, mesmo que não se acreditasse nos rumores de torturas ali praticadas, o edifício assustava o preso assim que ele penetrava naquela vastidão, com os seus corredores kafkianos, com a ameaça muda dos nomes dos chefões inscritos nas portas. Ali estavam instalados o Escritório Principal da SS, a sede da Polícia de Ordem, de Kripo, Sipo e Gestapo, da Economia e Administração da SS, do Corpo de Funcionários, de Questões Judaicas, de Raça e Remoção, do Tribunal SS, de Operações, de Serviço SS do Reichskommíssariat para o Fortalecimento do Germanismo, do Departamento de Assistência aos Alemães Étnicos.

Em algum setor naquela colméia, um homem de meia-idade da Gestapo, que parecia ter um conhecimento mais preciso de contabilidade do que os oficiais que haviam efetuado a prisão, começou a interrogar Oskar. O jeito do homem era de quem estava achando aquilo meio divertido, como um fiscal alfandegário que descobre que um passageiro suspeito de estar contrabandeando moedas, na realidade contrabandeou apenas plantas para a sua tia. Disse a Oskar que todas as empresas relacionadas com a produção bélica estavam sob fiscaliza ção. Oskar não acreditou mas ficou calado. Herr Schindler devia compreender, acrescentou o homem da Gestapo, que indústrias ligadas ao esforço de guerra tinham a obrigação moral de reservar todo o seu pro duto para um tão grande empreendimento — e evitar prejudicar a economia do Governo-Geral com transações ilegais.

Com aquele seu modo peculiar de falar, Oskar resmungou algumas palavras, que poderiam significar ao mesmo tempo ameaça e displicência.

Está insinuando, Herr Wachtmeister, que há informações de que a minha fábrica não está preenchendo as suas quotas?

O senhor vive muito bem — contrapôs o homem, mas ostentando um sorriso condescendente, como se não houvesse objeção quanto a isso, como se fosse admissível que industriais importantes levassem boa vida. — E, tratando-se de qualquer um que viva bem... temos de ter a certeza de que o seu padrão de vida é inteiramente resultado de contratos legais.

Oskar abriu um sorriso para o homem da Gestapo.

Quem quer que lhe tenha denunciado o meu nome é um imbecil e está fazendo o senhor perder seu tempo.

Quem é o gerente da DEF? — perguntou o homem da Gestapo, ignorando o comentário de Oskar.

Abraham Bankier.

Judeu?

Claro que é. A fábrica pertencia a parentes dele.

Aqueles dados pareciam corretos, concluiu o homem da Gestapo. Mas se fossem necessárias outras informações, ele presumia que Herr Bankier estaria apto a fornecê-las.

— Está querendo dizer que vai me deter aqui? — perguntou Oskar e começou a rir. — Afianço-lhe que, quando eu estiver rindo com o Oberführer Scherner a respeito deste incidente, eu lhe direi que o senhor me tratou com a maior cortesia.

Os dois que tinham efetuado a prisão levaram-no para o segundo andar, onde ele foi revistado e lhe foi permitido ficar com os cigarros e 100 zlotys para algum pequeno luxo. Depois o trancaram num quar to — um dos melhores disponíveis, presumiu Oskar, equipado com pia e vaso sanitário e cortinas empoeiradas na janela de grades — a espécie de quarto em que trancafiavam dignitários que estavam sendo interrogados. Se o prisioneiro fosse posto em liberdade, não poderia queixar-se de um quarto como aquele nem tampouco descrevê-lo em termos entusiásticos. E, se ficasse apurado que ele era um traidor, sedicioso, ou praticante de crime contra a economia, então, como se no assoalho do quarto se tivesse aberto um alçapão, ele se veria numa cela de interrogatório, sentado imóvel e sangrando, espécie de baia — que eles apelidavam de "bonde" — esperando ser transferido para Montelupich, onde os prisioneiros eram enforcados em suas celas. Oskar fitou a porta. "Quem quer que ponha a mão em mim", prometeu ele a si mesmo, "eu farei com que seja mandado para a frente russa."

Não sabia esperar com paciência. Após uma hora, bateu na porta e deu ao Waffen SS que o atendeu 50 zlotys para lhe comprar uma garrafa de vodca. A quantia era, naturalmente, três vezes o preço da bebida mas era esse o método de Oskar. Mais tarde, no mesmo dia, graças às providências tomadas por Klonowska e Ingrid, uma sacola de objetos de toalete, livros e pijamas chegaram à cela. Trouxeram-lhe uma excelente refeição com meia garrafa de vinho húngaro e ninguém apareceu para incomodá-lo ou fazer-lhe uma pergunta sequer. Oskar presumiu que o contador continuava curvado sobre os livros da Ema lia. Ele teria gostado de ter ali um rádio para ouvir as notícias da BBC sobre a Rússia, o Oriente e o novo combatente, os Estados Unidos. Teve a impressão de que, se pedisse aos seus carcereiros, eles eram bem capazes de lhe arranjar um rádio. Esperava que a Gestapo não tivesse invadido o seu apartamento da Rua Straszewskiego e se apoderado de objetos e jóias de Ingrid. Quando finalmente adormeceu, chegara já ao ponto em que estava ansioso por se ver diante dos seus inquisidores.

Pela manhã, trouxeram-lhe uma boa refeição — arenque, queijo, ovos, pãezinhos, café — e ele continuou não sendo incomodado. Só então o auditor SS de meia-idade, carregando os seus livros de contabilidade, veio vê-lo na cela.

O auditor desejou-lhe bom-dia. Esperava que Oskar tivesse passado uma noite confortável. Não houvera tempo de se fazer mais do que um exame superficial dos livros de Herr Schindler mas ficara decidido que um cavalheiro que gozava de tanto prestígio junto a pessoas influentes no esforço de guerra não precisava por enquanto ser inter rogado mais minuciosamente. Acrescentou que tinha recebido certos telefonemas... Ao agradecer ao SS, Oskar estava convencido de que sua liberação era temporária. Recebeu os livros de contabilidade e lhe foi devolvido todo o seu dinheiro no balcão de recepção.

Fora, Klonowska o esperava, radiante. Suas providências tinham rendido aquele resultado: Schindler, livre da terrível SS, envergando o seu jaquetão e sem o menor arranhão. Ela o conduziu até o seu Adler, que lhe haviam permitido estacionar do lado de dentro do portão. O ridículo cãozinho poodle estava sentado no banco traseiro.

 

A menina chegou na moradia dos Dresner, situada no lado leste do gueto, no final de uma tarde. Fora trazida de volta a Cracóvia pelo casal polonês que estivera cuidando dela no campo. Haviam conseguido convencer a Polícia Azul Polonesa, postada no por tão do gueto, que lhes permitisse entrarem a negócio, e a menina passou como filha deles.

Eram gente decente; estavam envergonhados por a terem trazido do campo de volta a Cracóvia e ao gueto. Era uma menina tão boazinha; tinham-se afeiçoado a ela. Mas não era mais possível conservar no campo uma criança judia. As autoridades municipais

— independentemente da SS — ofereciam até 500 zlotys por cada judeu traído. Havia o perigo dos vizinhos. Não se podia confiar nos vizinhos. E, então, não somente a criança estaria em perigo, mas todos eles. Santo Deus, havia zonas em que os camponeses saíam à caça de judeus, armados de foices e ancinhos.

A menina não parecia sofrer demais com a esqualidez do gueto. Sentada a uma mesinha, comia meticulosamente o bico de pão que a Sra. Dresner lhe oferecera. Aceitava todas as palavras carinhosas que lhe diziam as mulheres que partilhavam a cozinha. A Sra. Dresner notou a estranha atitude precavida da criança em todas as suas respostas. Tinha, porém, suas vaidades e, como é comum em crianças de três anos de idade, uma paixão pela cor vermelha. Assim, ali estava com o seu gorrinho vermelho, capote vermelho e botinhas vermelhas. O casal de camponeses fazia-lhe as vontades.

A Sra. Dresner começou a conversa falando sobre os verdadeiros pais da menina. Estavam também vivendo — na realidade, se escondendo — no campo. Mas, explicou a Sra. Dresner, em breve estariam de volta a Cracóvia e ao gueto. A criança abanava a cabeça mas não parecia ser por timidez que se mantinha calada.

Em janeiro, seus pais haviam sido arrebanhados, de acordo com uma lista fornecida à SS por Spira e, enquanto estavam sendo conduzidos em filas para a Estação de Prokocim, tinham passado por entre uma turba de poloneses vociferantes — "Adeusinho, judeus!" Haviam, porém, conseguido se esgueirar para fora da coluna, como se fossem dois honestos cidadãos poloneses atravessando a rua para ver a deportação de inimigos sociais, e tinham-se reunido à turba, gritando eles próprios um pouco, e depois se afastado e fugido para o campo.

Agora também eles não se sentiam mais seguros no campo e tencionavam penetrar clandestinamente em Cracóvia durante o verão. A mãe de "Chapeuzinho Vermelho" — como haviam apelidado a garota os filhos do casal Dresner, ao voltarem da cidade para casa, após o trabalho — era prima-irmã da Sra. Dresner.

Logo a jovem Danka, filha da Sra. Dresner, voltou também do seu trabalho de faxineira na base aérea da Luftwaffe. Danka ia fazer 14 anos, mas era alta o bastante para já ter recebido o seu Kennkarte (carteira de trabalho), o que lhe permitia trabalhar fora do gueto.

Ficou encantada com a esquiva menina.

—   Genia, conheço sua mãe, Eva. Nós duas costumávamos fazer compras juntas e ela me comprava doces na confeitaria na Rua Bracka.

A menina manteve-se sentada, não sorriu, fixou os olhos num pon to vago.

—   Moça, está enganada. O nome de minha mãe não é Eva. É

Jasha. — E continuou citando os nomes da fictícia genealogia polonesa, que a haviam feito decorar, tanto seus pais como o casal de poloneses, para o caso de ela ser interrogada pela Polícia Azul ou pela SS. A família pareceu perplexa com a excepcional esperteza da criança e, embora achando aquilo horrível, não quiseram corrigi-la, pois era bem possível que, naquela mesma semana, o embuste fosse uma arma essencial de sobrevivência.

À hora do jantar, Idek Schindel, o tio da menina, um jovem médico do hospital do gueto na Rua Wegierska, apareceu em casa dos Dresner. Era o alegre, brincalhão, carinhoso tio, de que uma criança necessita. Ao vê-lo, Genia tornou-se uma criança, levantando-se da cadeira e correndo para ele. Se o seu tio estava ali, chamando aquela gente de primos, então eram mesmo primos. Agora ela já podia admitir que tinha uma mãe chamada Eva e que os seus avós não se chamavam real mente Ludwik e Sophia.

Então o Sr. Juda Dresner, funcionário de compras da fábrica Bosch, chegou em casa, e a família ficou completa .O dia 28 de abril era aniversário de Schindler, e em 1942 ele comemorou a data como um filho da primavera, ruidosamente, prodigamente. Foi um grande dia na DEF. O Herr Direktor levou para a fábrica o raro pão branco, sem se preocupar com despesas, para ser servido com a sopa do meio-dia. Os festejos se estenderam pelo escritório geral e a oficina nos fundos da fábrica. Oskar Schindler, o industrial, desfrutava o sabor suculento da vida.

O seu trigésimo quarto aniversário começou a ser comemorado desde cedo, na Emalia. Schindler atravessou acintosamente o escritório geral sobraçando três garrafas de conhaque, para bebê-las com os engenheiros, contadores, projetistas. Os funcionários da Contabilidade e do Pessoal ganharam uma profusão de cigarros e, no decorrer da manhã, as dádivas já tinham chegado ao andar da oficina. Um bolo veio da confeitaria e Oskar partiu-o sobre a mesa de Klonowska. Delegações de trabalhadores judeus e poloneses começaram a entrar no escritório para dar-lhe os parabéns e ele beijou efusivamente uma jovem chamada Kucharska, cujo pai fizera parte do parlamento polonês antes da guerra. Apareceram então outras judias, os homens trocavam apertos de mão e até Stern veio da Comissão de Melhoramentos, onde agora trabalhava, para apertar formalmente a mão de Oskar e se ver envolvido num abraço de quebrar costelas.

À tarde alguém, provavelmente o mesmo insatisfeito da vez anterior, contatou Pomorska e denunciou Schindler por transgressões às leis raciais.

Seus livros de contabilidade podiam suportar uma investigação mas ninguém teria como negar que ele era um "beijador de judeus".

A maneira como ele foi preso dessa vez pareceu mais profissional do que a anterior.

Na manhã do dia 29, um Mercedes bloqueou a entrada da fábrica e dois homens da Gestapo, com um ar mais seguro do terreno em que pisavam do que os dois primeiros, encontraram-no quando atravessava o pátio da fábrica. Fora acusado de infringir as provisões da Lei de Raça e Reajustamento e pediram-lhe que os acompanhasse. Não, não havia necessidade de ele ir primeiro ao seu gabinete...

Os senhores têm uma ordem de prisão?

Não precisamos disso — foi a resposta.

Oskar deu-lhes um sorriso. Os cavalheiros deviam compreender que, se o levassem sem uma ordem expressa, iriam se arrepender.

Estas palavras foram ditas num tom displicente mas ele podia perceber pela atitude firme dos dois que a ameaça tinha-se concretizado e focalizado, depois da detenção meio cômica do ano anterior. Da última vez, a conversa da Rua Pomorska tinha decorrido sobre questões econômicas e suas possíveis irregularidades. Desta vez, estava-se lidando com uma lei grotesca, a lei do intestino grosso, decretos do lado negro do cérebro. Assunto grave.

—   Teremos de correr o risco do arrependimento — respondeu um deles.

Oskar avaliou a segurança da atitude, a perigosa indiferença que demonstravam a seu respeito, um homem de recursos, com recentes trinta e quatro anos de idade.

—   Numa manhã de primavera — replicou-lhes — posso dispor de umas poucas horas para um passeio de carro.

Procurou tranqüilizar a si mesmo, pensando que de novo seria confinado numa daquelas celas civilizadas na Pomorska. Mas, quando enveredaram pela Rua Kolejowa, percebeu que dessa vez seria a prisão de Montelupich.

—   Gostaria de falar com um advogado — disse ele.

—   Mais tarde — respondeu o homem que estava ao volante. Oskar sabia, a acreditar na palavra de um dos seus companheiros de rodadas de bebida, que o Instituto de Anatomia Jagiell recebia cadáveres de Montelupich.

O muro do local estendia-se por todo um comprido quarteirão e a tenebrosa igualdade das janelas do terceiro e quarto andares podia ser vista do assento traseiro do Mercedes. Passando pelo portão principal e por baixo de uma arcada, chegaram a uma sala onde um funcionário da SS falava muito baixo, como se vozes altas fossem provocar ecos ensurdecedores ao longo dos corredores estreitos. Confiscaram lhe todo o dinheiro mas lhe disseram que, enquanto estivesse preso, receberia 50 zlotys por dia. Não, responderam os SS, ainda não estava na hora de se comunicar com um advogado.

Eles partiram. No corredor, sob guarda, Oskar ficou de ouvido atento a ecos de gritos que, naquele silencio de convento, pudessem vazar pelas frestas das portinholas ao longo das paredes. Depois de descer um lance da escada, conduziram-no por um túnel claustrofóbico, ao longo de uma fileira de celas de portas trancadas e uma de grades, onde havia uma meia dúzia de prisioneiros em mangas de camisa, cada um numa baia separada, voltados para a parede dos fundos, a fim de que não se pudessem ver suas feições. Oskar notou uma orelha rasgada. Alguém estava fungando mas sem coragem de assoar o nariz. "Klonowska, Klonowska, está dando os seus telefonemas, meu amor?"

Abriram uma cela para ele e o fizeram entrar. Oskar tivera certo receio de que houvesse muita gente na cela. Mas havia só mais um prisioneiro, um militar envolto até as orelhas no seu casacão, sentado nu ma das duas camas de madeira, cada qual com o seu estrado. Naturalmente, não havia pias. Apenas um balde d'água e um para detritos. E quem seria aquele Waffen SS Standartenführer (posto da SS equivalente a coronel), com a barba por fazer, uma camisa meio suja sob o casacão, botas enlameadas?

—   Seja bem-vindo, cavalheiro — disse o oficial, com um sorriso no canto da boca, erguendo a mão para o recém-chegado. Era um bonito homem, uns poucos anos mais velho do que Oskar.

Provavelmente, tratava-se de um informante. Mas era estranho que lhe houvessem fornecido a farda de um posto tão importante. Oskar consultou seu relógio, sentou-se, levantou-se, olhou para a janela alta. Um pouco da claridade dos pátios de exercício penetrava pela janela, mas esta não era do tipo que permitia a alguém debruçar-se e assim reduzir a intimidade dos dois catres lado a lado, dos prisioneiros sentados quase tocando os joelhos um do outro.

Finalmente, começaram a conversar. Oskar mostrava-se muito cauteloso mas o Standartenführer tagarelava descontraidamente. Qual era o seu nome? Philip era como se chamava. Achava que cavalheiros não deviam revelar seu sobrenome em prisões. Além disso, estava na hora de as pessoas começarem a usar apenas nomes. Se todos tivessem adotado esse sistema antes, os alemães seriam agora uma raça mais feliz.

Oskar concluiu que, se o homem não era um informante, então tinha tido alguma espécie de exaustão nervosa ou talvez estivesse sofrendo de neurose de guerra. Estivera participando da campanha no sul da Rússia e seu batalhão tinha conseguido manter-se o inverno to do em Novgorod. Ele, então, recebera uma licença para visitar sua na morada polonesa em Cracóvia e, segundo suas palavras, "os dois tinham-se perdido um no outro", e ele fora preso no apartamento dela, três dias depois de expirada sua licença.

—   Acho que decidi — disse Philip — não ser pontual demais

quanto a prazos, quando vi a vida que esses safados levam — apontou com a mão para o teto, indicando a estrutura ao seu redor, os projetistas, contadores, burocratas. — Não foi deliberada a decisão de me ausentar, sem permissão. Mas apenas achei que devia a mim mesmo uma certa latitude.

Oskar perguntou se ele não preferia estar na Rua Pomorska.

Não. Prefiro estar aqui — respondeu Philip. — Pomorska mais parece um hotel. Mas os salafrários têm lá uma cela da morte, cheia de barras de cromo reluzente. Mudando de assunto, o que Herr Oskar fez?

Beijei uma judia — respondeu Oskar. — Uma empregada minha. É do que me acusam.

Ao ouvir isso, Philip soltou uma gargalhada.

—   Oh, oh! E o seu pau caiu no chão?

O Standartenführer Philip passou o resto da tarde condenando a SS. Eram ladrões e tarados, afirmou. Não dava para acreditar o dinheiro que aqueles safados estavam ganhando. E sempre com um ar incorruptível. Podiam matar um pobre coitado de um polonês por ro bar um quilo de toucinho, ao passo que eles viviam como barões hanseáticos.

Oskar ouvia, como se tudo aquilo fosse novidade para ele, como se a revelação da venalidade de Reichführers fosse um doloroso choque para a sua provinciana inocência Sudetendeutsch, que o havia levado ao ponto de beijar uma judia. Por fim Philip, cansado de suas vituperações, adormeceu.

Oskar estava com vontade de beber. Uma boa dose de vodca certamente ajudaria a passar o tempo, tornaria o Standartenführer melhor companhia, se ele não fosse um informante, e mais falível se o fosse. Oskar tirou do bolso uma nota de 10 zlotys e anotou nela nomes e números de telefone; mais nomes do que da última vez, uma dúzia. Acrescentou mais quatro notas, amassou-as, depois bateu na portinho Ia. Um guarda apareceu — um grave rosto de meia-idade, que o fitou Não parecia ser um homem que exercitava poloneses até eles tomba rem mortos, ou rompia rins a pontapés, uma das formas mais comuns de tortura. Não se esperava isso de um homem que parecia um tio do interior.

Seria possível encomendar cinco garrafas de vodca? — perguntou Oskar.

Cinco garrafas? — espantou-se o guarda. O seu tom era de quem estava aconselhando sobriedade a um jovem bêbado inveterado. Pareceu, porém, algo pensativo, como se estivesse cogitando denunciar Oskar aos seus superiores.

O general e eu — explicou Oskar — apreciaríamos ter uma garrafa para cada um, a fim de estimular a conversa. Você e seus colegas, por favor, aceitem as restantes, com os meus cumprimentos. Presumo, também, que um homem com a sua autoridade tem o poder de dar uns telefonemas de rotina, por um prisioneiro. Os números dos telefones estão anotados aqui... sim, na cédula. Não precisa telefonar você mesmo. Mas pode transmiti-los a minha secretária, não é? Sim, ela é a primeira da lista.

Essas pessoas são gente muito influente — murmurou o guarda.

Você é um louco — gritou Philip para Oskar. — Podem fuzilá-lo por tentar corromper um guarda.

Oskar deitou-se no catre, aparentemente despreocupado.

—   É uma estupidez tão grande como beijar uma judia — disse Philip.

—   Veremos — replicou Oskar. Mas estava apavorado. Finalmente, o guarda retornou e trouxe, juntamente com as duas

garrafas, um embrulho com camisas e roupas de baixo, alguns livros e uma garrafa de vinho, arrumado no apartamento da Rua Straszewskiego por Ingrid, que o entregou no portão da Montelupich. Philip e Oskar tiveram juntos uma noite relativamente agradável, embora em determinado momento um guarda houvesse batido na porta de aço e ordenado que eles parassem de cantar.

Mas mesmo assim, com a bebida tornando a cela mais espaçosa e dando mais credibilidade às vituperações do Standartenführer, Schindler estava de ouvido atento a gritos remotos do andar de cima ou a batidas em morse de algum preso desesperado na cela ao lado. Só uma vez a verdadeira natureza daquele local diluiu os efeitos da vodca. Junto ao seu catre, parcialmente escondido pelo estrado, Philip descobriu uma diminuta inscrição em lápis encarnado. Levou algum tempo para decifrá-la, pois o seu conhecimento da língua polonesa não era tão bom como o de Oskar.

—   "Meu Deus" — traduziu ele — "como eles me espancam!" Então, meu amigo Oskar, este não é mesmo um mundo maravilhoso?

De manhã, Schindler acordou com a cabeça desanuviada. Nunca tivera ressacas e não entendia como outras pessoas se queixavam tanto delas. Mas Philip estava pálido e deprimido. Na parte da manhã vieram buscá-lo e ele voltou para juntar seus pertences. Ia ser julgado nessa tarde por uma corte marcial mas havia sido designado para uma nova missão num campo de treinamento em Stutthorf; presumia que não pretendiam fuzilá-lo por deserção. Apanhou de cima do catre o casa cão e se foi para explicar a sua aventura polonesa. Sozinho, Oskar passou o dia lendo um livro de Karl May que Ingrid lhe mandara e, à tarde, falando com o seu advogado, um Sudetendeutscher, que dois anos antes abrira em Cracóvia um escritório de advocacia civil. A entrevista reconfortou Oskar. O motivo de sua prisão era o que fora alegado; eles não estavam utilizando seus beijos transraciais como pretexto pa ra retê-lo, enquanto investigavam os seus negócios.

Mas o caso irá provavelmente para o Tribunal da SS e irão perguntar-lhe por que você não se alistou no Exército.

O motivo é óbvio — respondeu Oskar. — Sou essencial ao es forço de guerra. Pode conseguir um depoimento do General Schindler.

Oskar era um leitor vagaroso e saboreou o livro de Karl May — o caçador e o filósofo índio na vastidão das florestas americanas — um relacionamento edificante. De qualquer modo, não queria se apressar na leitura. Podia levar uma semana até ele ser conduzido perante um tribunal. O advogado supunha que haveria um discurso do presidente do tribunal sobre a conduta deplorável de um membro da raça germânica, e lhe seria imposta uma multa substancial. Que assim fosse. Oskar Schindler sairia do tribunal um homem mais cauteloso.

Na quinta manhã, ele já havia bebido o meio litro de café preto ersatz, que lhe tinham servido bem cedo, quando um NCO e dois guardas vieram buscá-lo. Caminhando ao longo de portas mudas, ele foi levado para um dos gabinetes do andar de cima. Ali deparou com um homem, com quem tinha-se encontrado várias vezes em coquetéis, o Obersturmbannführer Rolf Czurda, chefe do Serviço de Segurança de Cracóvia. Com seu terno bem-talhado, Czurda parecia um homem de negócios.

—   Oskar, Oskar! — exclamou Czurda, como um velho amigo reprovando-o. — Nós lhe fornecemos aquelas judiazinhas a cinco

marcos por dia. Os seus beijos deviam ser para nós, não para elas.

Oskar explicou que tinha sido seu aniversário. Obedecera a um ímpeto. Estivera bebendo. Czurda abanou a cabeça.

Nunca pensei que você fosse tão importante, Oskar. Recebi te lefonemas até de Breslau, do nosso amigo na Abwehr. É claro que se ria ridículo mantê-lo afastado de seu trabalho só porque se serviu de uma judia qualquer.

É muito compreensivo, Herr Obersturmbannführer — respondeu Oskar, sentindo que Czurda estava à espera de algum tipo de gratificação. — Se jamais eu estiver em posição de retribuir o seu gesto liberal...

Por falar nisso, tenho uma velha tia cujo apartamento foi bombardeado.

Outra velha tia. Schindler deu um estalido compassivo com a língua e disse que um representante do chefe Czurda seria bem-vindo a qualquer hora na Rua Lipowa para fazer uma seleção dos produtos ali fabricados. Porém, não convinha deixar que homens como Czurda considerassem a sua libertação como um favor absoluto — e os utensílios de cozinha como o mínimo que o prisioneiro felizardo poderia oferecer. Quando Czurda falou que ele podia se retirar, Oskar fez objeção.

—   Não posso simplesmente mandar vir o meu carro, Herr Obers turmbannfúher. Afinal, a minha quota de gasolina é limitada.

Czurda perguntou se Herr Schindler esperava que o Serviço de Se gurança o levasse em casa.

Oskar encolheu os ombros. O fato era que ele vivia do outro lado da cidade. Seria uma longa caminhada.

Czurda soltou uma risada.

—   Oskar, vou mandar um dos meus motoristas levá-lo a casa.

Mas, quando a limusine estava pronta, com o motor em funcionamento, esperando-o ao pé da entrada principal, Schindler lançou um olhar para as janelas vazias acima, esperando algum sinal daquela outra república, o reino da tortura, das prisões incondicionais — o inferno daqueles que não tinham panelas e caçarolas para barganhar. Rolf Czurda deteve-o pelo cotovelo:

—   Pondo de lado as brincadeiras, Oskar, meu caro amigo, você seria muito tolo se se interessasse mesmo por alguma saia judia. É uma raça sem futuro, Oskar. Posso lhe garantir que não se trata apenas do velho preconceito anti-semita. Trata-se de um plano de ação.

 

Ainda naquele verão, as pessoas cercadas pelos muros continuavam se agarrando à noção de que o gueto era um domínio res trito, porém permanente. Não era muito difícil acreditar nessa noção no ano de 1941. Fora instalado um correio e havia até selos do gueto. Havia também um jornal, embora pouco mais contivesse do que editais de Wawel e da Rua Pomorska. Fora permitido o funcionamen to de um restaurante na Rua Lwówska: o Restaurante Foerster, onde os irmãos Rosner, de volta dos perigos do campo e das paixões mutáveis dos camponeses, tocavam violino e acordeão. Por um breve espaço de tempo, parecia que as escolas iriam funcionar normalmente, que orquestras se reuniriam para concertos, que a vida judaica seria comunicada como uma organização benigna ao longo das ruas, de artesão para artesão, de professor para professor. Não fora ainda definitiva mente manifestada a idéia pelos burocratas SS da Rua Pomorska de que tal tipo de gueto não era apenas uma extravagância como um insulto às diretrizes racionais da História.

Assim, quando o Untersturmführer Brandt mandou chamar o presidente Artur Rosenzweig à Rua Pomorska para uma surra com o cabo de seu chicote de montaria, estava tentando corrigir a incurável visão do judeu de considerar o gueto como uma zona de residência permanente. O gueto era um depósito, um desvio, uma estação de ônibus cercada de muralhas. Em 1942, qualquer suposição que encorajasse outra perspectiva já havia sido abolida.

Assim, ali era diferente dos guetos que os velhos recordavam até com uma certa afeição. A música ali não era uma profissão. Não ha via profissões. Henry Rosner trabalhava na cozinha da base aérea da Lufiwaffe. Lá tinha conhecido um jovem cozinheiro-gerente alemão

chamado Richard, um rapaz risonho que se escondia, como é possível a um cozinheiro, da história do século XX, no seu ambiente de cozi nha e gerência de bar. Ele e Henry Rosner se deram tão bem que Richard passou a mandar o violinista até o outro lado da cidade para receber o pagamento do Corpo de Fornecedores da Luftwaffe — não se podia confiar num alemão, dizia ele; o último cobrador tinha fugi do para a Hungria com o dinheiro do pagamento.

Richard, como acontece a um barman digno de seu ofício, ouvia boatos, e tinha relações amistosas com os funcionários da base aérea. No dia primeiro de junho, ele foi ao gueto com sua namorada, uma Volks deuische, envolta numa ampla capa — que, em vista das chuvas de junho, não parecia um agasalho excessivo. Devido à sua profissão, Richard conhecia muitos policiais, inclusive o Wachtmeister Oswald Bosko, e não teve problema em ser admitido no gueto, ainda que oficialmente a entrada lhe fosse proibida. Uma vez transposto o portão, Richard atravessou a Plac Zgody e descobriu o endereço de Henry Rosner. Este mostrou-se surpreso ao vê-los. Poucas horas antes, deixara Richard na base aérea e, no entanto, ali estava ele com a sua namorada, ambos vestidos como para uma visita de cerimônia. Isso veio evidenciar para Henry as discrepâncias da época. Nos últimos dois dias, os habitantes do gueto se enfileiravam à porta do edifício do velho Banco Polonês de Poupança na Rua Jozefinska a fim de obter novas carteiras de identidade. A kenn karte amarela, com a fotografia de passaporte em sépia e um grande J azul, ao qual os funcionários alemães agora anexavam — se o judeu em questão estava com sorte — uma etiqueta azul. Havia pessoas que saíam do banco, acenando com suas carteiras acrescidas da etiqueta azul, co mo se aquilo provasse o seu direito de respirar, a sua validade permanente. Os que trabalhavam na base aérea da Luftwaffe, na garagem da Wehr macht, na fábrica de Madritsch, na Emalia de Oskar Schindler, na fábrica Progress, não tinham nenhum problema em receber a Blauschein. Mas aqueles a quem ela era recusada sentiam como se até a sua cidadania no gueto estivesse sendo posta em dúvida.

Richard disse que o pequeno Olek Rosner devia ir para o aparta mento de sua namorada. Dava para perceber que ele tinha ouvido alguma coisa na base.

Olek não pode simplesmente sair pelo portão do gueto — disse Henry.

Já está tudo arranjado com Bosko — respondeu Richard.

Henry e Manci pareciam hesitar e consultaram-se mutuamente, enquanto a moça da capa prometia engordar Olek à custa de chocolate. Uma Aktion?, perguntou Henry Rosner num sussurro. Ia haver uma Aktion?

Richard respondeu com outra pergunta. Recebera Henry o seu Blauscheinl Claro, respondeu Henry. E Manei? Manei também. Mas Olek não, acrescentou Richard. Ao cair da tarde chuvosa, Olek Rosner, filho único do casal, mal tendo completado seis anos de idade, saiu do gueto escondido sob a capa da namorada de Richard. Se algum policial tivesse se dado ao trabalho de erguer a capa, tanto Richard como sua namorada poderiam ter sido executados por causa daquele generoso estratagema. Olek também teria desaparecido. Em seu quarto, sem o filho, os Rosner esperavam ter agido certo.

Poldek Pfefferberg, contrabandista de Oskar Schindler, tinha recebi do no começo do ano ordem de ensinar os filhos de Symche Spira, o importante vidraceiro, chefe da OD.

Era uma ordem desdenhosa, como se Spira estivesse dizendo: "Sim, nós sabemos que você não serve para fazer o trabalho de um homem mas, pelo menos, pode transmitir a meus filhos alguns dos benefícios de sua instrução."

Pfefferberg distraía Schindler com descrições das aulas no lar dos Symche. O chefe de polícia era um dos poucos judeus a ter todo um andar para si. Ali, entre pinturas em duas dimensões de rabinos do século XIX, Symche andava de um lado para outro, ouvindo as aulas de Pfefferberg e parecendo querer ver os conhecimentos brotarem co mo petúnias das orelhas dos filhos. Um homem predestinado, com a mão enfurnada na abertura do casaco, acreditava que aquela postura napoleônica era característica de homens de influência.

A mulher de Symche era uma criatura apagada, um pouco aturdi da com o inesperado poder do marido, talvez evitada por antigos amigos. Os filhos, um menino de doze anos e uma menina de quatorze, eram dóceis, porém não muito inteligentes.

De qualquer modo, quando Pfefferberg se dirigiu ao Banco Polonês de Poupança, esperava receber sem nenhum problema o seu Blaus chein. Tinha certeza de que as suas aulas para os filhos de Spira seriam consideradas trabalho essencial. A carteira amarela identificava-o co mo PROFESSOR DE SEGUNDO GRAU e, num mundo racional, por enquanto só parcialmente de pernas para o ar, era uma aptidão respeitável.

Os funcionários recusaram-se a entregar-lhe a etiqueta azul. Poldek discutiu com eles e pensou em apelar talvez para Oskar ou para Herr Szepessi, o burocrata austríaco que, de um prédio mais adiante na mesma rua, chefiava a agência de trabalho. Havia um ano que Oskar lhe pedia que fosse trabalhar na Emalia, mas Pfefferberg sempre achara que um horário integral iria restringir muito as suas atividades ilegais. Ao sair do prédio do banco, destacamentos da Polícia de Segurança Alemã, da Polícia Azul Polonesa e o destacamento político da OD estavam em atividade nas calçadas, inspecionando as carteiras de todo mundo e prendendo os que não tinham a etiqueta azul. Uma fila de rejeitados, homens e mulheres abjetos, já se formara no meio da Rua Josefinska. Pfefferberg adotou o seu porte de militar polonês e explicou que, naturalmente, ele tinha vários ofícios. Mas o Schupo com quem falou simplesmente sacudiu a cabeça, dizendo: "Não discuta comigo; sem Blauschein; vá para a fila. Está compreendido, judeu?"

Pfefferberg entrou na fila. Mila, a delicada e bonita jovem com quem ele se casara havia um ano e meio, trabalhava para a Madritsch e já tinha a sua Blauschein. Portanto, nada a fazer.

Quando a fila contava mais de cem pessoas, desfilou pela rua, passando pelo hospital e indo até o pátio da antiga fábrica de confeitos Optima. Ali já esperavam trezentas pessoas. Os que haviam chegado antes tinham-se abrigado nos cantos sombrios do que fora em outros tempos a estrebaria onde os cavalos da Optima costumavam ser arreados entre os varais de carroças carregadas de cremes e chocolates de licor. Não era um grupo barulhento. Eram homens profissionais, banqueiros como os Holzer, farmacêuticos e dentistas. Estavam reunidos em grupos, falando em voz baixa. O jovem farmacêutico Bachner

conversava com um velho casal de nome Wohl. Havia ali muita gente velha. Os velhos e pobres, que dependiam da ração do Judenrat. Nesse verão o próprio Judenrat, distribuidor de alimentos e até de espaço, mostrara-se menos imparcial do que no ano anterior.

Enfermeiras do hospital do gueto moviam-se entre aqueles detentos com baldes de água, que se dizia ser um bom remédio para tensão e desnorteamento. De qualquer forma, eram o único remédio que ha via, além de um pouco de cianureto do mercado negro, de que o hospital dispunha. Os velhos, as famílias pobres dos shtetls, aceitavam a água em nervoso silêncio.

No decorrer do dia, policiais de três variedades entravam no pátio com listas e formavam filas de pessoas, que eram esperadas no portão do pátio por destacamentos da SS e conduzidas para a Estação Ferro viária de Prokocim. Alguns procuraram escapar a essa nova transferência, mantendo-se nos cantos mais afastados do pátio. Mas o estilo de Pfefferberg era rondar o portão, procurando alguém para quem pudesse apelar. Talvez Spira estivesse por lá, vestido como um ator de cinema e disposto — com certa dose de grossa ironia — a soltá-lo. Mas o que viu foi, junto à guarita do vigia, um rapazola de fisionomia

triste com um boné da OD examinando uma lista, segurando a ponta da página com dedos delicados. Pfefferberg não só tinha servido durante um breve espaço de tempo com o rapaz na OD, como tinha, no seu primeiro ano de professor na Escola Secundária de Kosciuszko em Podgórze, dado aulas à irmã dele. O rapaz ergueu os olhos.

Panie Pfefferberg... — murmurou ele, com o mesmo respeito dos dias do passado. Como se o pátio estivesse cheio de criminosos empedernidos, perguntou o que Panie Pfefferberg estava fazendo ali.

E ridículo — disse Pfefferberg —, mas não tenho uma Blauschein.

O rapaz abanou a cabeça, disse a Poldek que o acompanhasse e levou-o à presença de um Schupo uniformizado ao portão. Não pare cia muito heróico com o seu cômico boné da OD, o fino e vulnerável pescoço. Mais tarde, porém, Pfefferberg chegou à conclusão de que aquilo lhe dera maior credibilidade.

—   Apresento-lhe Herr Pfefferberg, do Judenrat — mentiu ele, com uma hábil combinação de respeito e autoridade. — Estava aqui visitando uns parentes.

O Schupo parecia entediado com a quantidade de trabalho no pá tio. Com um gesto negligente da mão, deu permissão a Pfefferberg para sair. Pfefferberg não teve tempo de agradecer ao rapaz ou de refletir sobre o mistério de um jovem de pescoço fino se dispor a correr um risco de morte, mentindo para salvá-lo, só por ter ele ensinado sua irmã a usar argolas de ginástica.

Pfefferberg correu diretamente para a agência de trabalho e furou a fila de espera. Atrás da mesa estavam Fràuleins Skoda e Knosal la, duas joviais alemãs sudetas.

—   Liebchen, Liebchen — disse ele a Skoda — querem me levar embora porque eu não tenho a etiqueta azul. Olhe para mim. — (Ele tinha a constituição de um touro, era jogador de hóquei em seu país e pertencia ao time de esqui polonês.) — Não sou exatamente o tipo de sujeito que vocês gostariam de manter aqui?

Apesar da multidão que não lhe dera descanso o dia todo, Skoda ergueu as sobrancelhas e esforçou-se por conter um sorriso.

Não posso ajudá-lo, Herr Pfefferberg — respondeu ela, exa minando a Kennkarte do rapaz. — Não recebeu a etiqueta azul, por isso não posso fazer nada. Uma pena...

Mas pode me dar a etiqueta, Liebchen — insistiu ele em voz alta, adotando o tom sedutor de novelas de rádio. — Tenho ofícios Liebchen. Muitos ofícios.

Skoda ponderou que somente Herr Szepessi poderia ajudá-lo, e era impossível Szepessi receber Pfefferberg naquele momento. Leva ria dias.—   Mas vai conseguir que eu fale com ele — insistiu Pfefferberg.

De fato, ela conseguiu. Era por isso que tinha a reputação de ser

uma boa moça, porque se abstraía do turbilhão de regulamentos e podia, mesmo num dia de muita movimentação, dar atenção a um rosto individual Todavia, era pouco provável que se esforçasse do mesmo modo por um velho verruguento.

Herr Szepessi gozava também de uma reputação de humanidade, embora estivesse a serviço daquela máquina monstruosa; relanceando um olhar à carteira de Pfefferberg, murmurou:

—   Mas não precisamos de professores de ginástica. Pfefferberg sempre tinha recusado os oferecimentos de emprego

de Oskar porque se considerava especulador, um individualista. Não queria trabalhar longas horas por uma ninharia na enfadonha Zablo cie. Mas se dava conta agora de que estava desaparecendo a era do individualismo. As pessoas precisavam, como base de vida, de um ofício.

—   Sou um polidor de metais — declarou ele a Szepessi. Tinha trabalhado por um curto período com um tio de Podgórze, que dirigia uma pequena fábrica de metais em Rekawka.

Herr Szepessi examinou Pfefferberg por detrás dos óculos.

—   Bem, esta é uma profissão. — Apanhou uma caneta e passou um risco no PROFESSOR DE ENSINO SECUNDÁRIO, cancelando a educação universitária de que tanto Pfefferberg se orgulhava; acima escreveu POLIDOR DE METAIS. Depois apanhou um carimbo e um pote de cola e tirou de uma gaveta a etiqueta azul. — Pronto — concluiu ele, devolvendo o documento a Pfefferberg — agora, se, encontrar um Schupo, pode garantir-lhe que você é um membro útil da sociedade

Mais tarde, naquele ano, mandariam o pobre Szepessi para Auschwitz por se deixar persuadir tão facilmente.

 

De diversas fontes — do policial Toffel bem como do bêbado Bosch da Ostfaser, a operação têxtil da SS — Oskar ouvia rumores de que "condutas no gueto" (de significado dúbio) iam se tornar mais intensas. A SS estava mandando vir de Lublin para Cracóvia algumas unidades do violento Sonderkommando. Em Lublin es sas unidades já tinham efetuado um excelente trabalho em questões de purificação racial. Toffel sugerira que, a não ser que Oskar quisesse prejudicar sua produção, devia instalar alguns leitos de campanha para o seu turno da noite, até depois do primeiro Sabbath, em junho.

Assim Oskar organizou dormitórios nos escritórios e no andar acima, na seção de munições. Alguns empregados do turno da noite ficavam felizes por poder dormir na fábrica. Outros tinham mulher, filhos, parentes esperando-os no gueto. Além disso, estavam munidos da Blaus chein, a santa etiqueta azul, em suas Kennkartes.

No dia 3 de junho, Abraham Bankier, o gerente de escritório de Oskar, não compareceu à Rua Lipowa. Schindler ainda estava em seu apartamento na Rua Straszewskiego, tomando o café da manhã, quando recebeu um telefonema de uma de suas secretárias. Dizia ter visto Bankier sendo conduzido para fora do gueto, sem sequer parar na Optima, e encaminhado diretamente para o posto da Prokocim. Outros empregados da Emalia faziam também parte do grupo, Reich, Leser... cerca de uns doze.

Oskar mandou vir seu carro da garagem e seguiu direto para Prokocim. Ali mostrou o seu passe aos guardas do portão. O pátio do posto estava cheio de fileiras de vagões de carga, a estação repleta de cidadãos dispensáveis do gueto, documente enfileirados, ainda convenci dos — e talvez tivessem razão — da conveniência de uma atitude passiva e disciplinada. Era a primeira vez que Oskar via aquela justaposição de seres humanos em vagões de carga para gado e o choque foi maior do que imaginava; fez parar a composição à beira da plataforma. Avistou, então, um joalheiro seu conhecido.

Viu Bankier? — perguntou ele.

Ele já está dentro de um dos vagões, Herr Schindler — respondeu o joalheiro.

Para onde vocês estão sendo levados?

Dizem que para um campo de trabalho. Perto de Lublin. Provavelmente não será pior do que... — O homem fez um gesto com a mão, indicando Cracóvia.

Schindler tirou dos bolsos um maço de cigarros e algumas cédulas de 10 zlotys e deu ao joalheiro. Este agradeceu e disse que dessa vez haviam sido obrigados a deixar suas casas, sem bagagem alguma. Os guardas haviam dito que as bagagens lhes seriam remetidas depois.

Em fins do ano anterior, Schindler tinha visto no Boletim de Orçamento e Construção da SS propostas para a construção de alguns fornos crematórios no campo de Belzec, a sudeste de Lublin. Schindler fitou o joalheiro. Sessenta e três ou quatro anos. Um pouco magro; provavelmente tivera uma pneumonia no inverno passado. Terno puído, quente demais para aquele dia. E nos claros olhos compreensivos a capacidade de suportar altas doses de sofrimento. Mesmo no verão de 1942 era impossível imaginar conexões entre um homem como aquele e os tais fornos de extraordinária capacidade cúbica. Tencionavam eles provocar epidemias entre os detentos? Qual iria ser o método?

Começando pela locomotiva, Schindler passou a percorrer a com posição de mais de vinte vagões de carga, chamando Bankier pelo no me, procurando vê-lo entre as grades ou no alto das ripas dos vagões. Era uma sorte para Abraham que Oskar não perguntasse a si mesmo por que estava chamando pelo nome Bankier, que não tivesse parado para considerar que o nome Bankier tinha apenas um valor igual a to dos os outros nomes a bordo dos vagões de gado do Ostbahn. Um existencialista poderia ter sido derrotado pelos números na Prokocim, atordoado pelo igual apelo de todos os nomes e vozes. Mas Schindler era um inocente filosófico. Conhecia a quem conhecia. Conhecia o no me de Bankier.

—   Bankier! Bankier! — continuou ele a chamar.

Foi, então, interceptado por um jovem Oberscharführer SS, um técnico de Lublin em cargas ferroviárias. Ele pediu para ver o passe de Schindler. Oskar viu na mão do SS uma lista enorme — páginas e páginas cheias de nomes.

—   Meus empregados — disse Schindler. — Trabalhadores essenciais na minha indústria. O meu gerente de vendas. É uma idiotice. Tenho contratos com a Inspetoria de Armamentos e vocês estão levando o pessoal de que preciso para cumprir esses contratos.

—   Não pode retirá-los daqui — respondeu o SS. — Eles estão na lista... — O SS sabia que a lista implicava o mesmo destino a todos os seus componentes.

Oskar baixou a voz, adotando o sussurro áspero de um homem moderado, bem relacionado, que não estava ainda disposto a lançar mão de todos os seus trunfos. Por acaso Herr Oberscharführer sabia quanto tempo levaria para treinar pessoal especializado, em substituição aos da lista?

—   Na minha Deutsche Email Fabrik, tenho uma seção de munições sob a proteção especial do General Schindler, meu homônimo. Não somente os camaradas do Oberscharführer na frente russa serão afetados pelo prejuízo da produção, mas também o escritório da Inspetoria de Armamentos na certa vai exigir explicações.

O rapaz abanou a cabeça — era apenas um exausto encarregado da operação de embarque.

—   Já ouvi antes esse tipo de história.

Estava, porém, preocupado. Oskar o percebeu e continuou debruçado sobre ele, inserindo uma ameaça em seu tom suave.

—   Não tem sentido continuar discutindo sobre a lista. Onde está o seu oficial superior?

O rapaz apontou com a cabeça um oficial da SS, um homem de uns trinta anos, de testa franzida acima dos óculos.

—   Quer me dar o seu nome, Herr Untersturmführer?. — pediu Oskar, já tirando do bolso um bloco de apontamentos.

0 oficial também declarou que a lista era intocável. Para ele, era o único processo seguro, racional, para toda aquela trituração de judeus e movimento de vagões. Mas Schindler agora estava mais incisivo. Já sabia a respeito da lista, disse ele. O que tinha perguntado era o nome do Untersturmführer. Sua intenção era apelar diretamente pa ra o Oberführer Scherner e para o General Schindler, da Inspetoria de Armamentos.

Schindler? — perguntou o oficial. Pela primeira vez olhou com mais atenção para Oskar. O homem estava vestido como um magnata, usava a insígnia certa, tinha generais na família.

Creio que posso lhe garantir, Herr Untersturmführer — continuou Oskar com voz macia —, que dentro de uma semana o senhor estará no sul da Rússia.

Com o NCO seguindo na frente, Herr Schindler e o oficial caminharam lado a lado entre as fileiras de prisioneiros e junto aos vagões lotados. A locomotiva já estava soltando vapor e o engenheiro debruçado para fora da cabine, olhando, à espera da ordem de partida. O oficial ordenou aos funcionários do Ostbahn na plataforma que esperassem. Por fim, chegaram a um dos últimos vagões da composição. Havia ali uma dúzia de trabalhadores com Bankier; tinham todos entrado juntos no vagão, como se estivessem à espera de uma libertação em conjunto. A porta foi destrancada e eles saltaram para fora — Bankier e Frankel, do escritório; Reich, Leser e os outros, da fábrica. Mostraram-se comedidos, não querendo permitir a ninguém ver a sua alegria por terem sido salvos daquela viagem. Os que tinham ficado dentro do vagão demonstraram satisfação, como se fosse uma sorte para eles viajar com mais espaço, enquanto que, com enfáticos riscos de caneta, o oficial eliminava da lista, um a um, os nomes dos empregados da Emalia e solicitava a rubrica de Oskar em cada página.

Depois de Schindler ter agradecido e se voltado para seguir seus empregados, o oficial deteve-o pela manga do casaco.

—   Herr Schindler, quero que compreenda que para nós é

indiferente. Não nos importamos se é esta ou aquela dúzia de gente.

O oficial, que estivera de sobrolho cerrado, quando Oskar o vira pela primeira vez, agora parecia calmo, como se houvesse descoberto o teorema por trás da situação. Acha que os seus treze míseros funileiros são importantes? Nós os substituiremos por outros míseros treze e todo o seu sentimentalismo por causa deles ruirá por terra.

—   É inconveniência para a lista, apenas isso — explicou o oficial.

O baixote e rotundo Bankier admitiu que o grupo todo não se ti nha dado ao trabalho de ir buscar as Blauscheins no velho Banco de Poupança Polonês. Schindler, subitamente irado, mandou que eles tomassem as providências necessárias. Mas o que a sua irritação escondia era a consternação de ver toda aquela gente que, por falta de uma etiqueta azul, estava ali na Prokocim, esperando pelo novo e decisivo símbolo de seu status, o vagão de gado, para ser puxado pela pesada locomotiva através da amplitude de sua visão. Era como se os vagões lhes dissessem: agora vocês todos são gado.

 

Os rostos dos seus próprios empregados, Oskar podia ler algo do tormento do gueto. Lá, uma pessoa não tinha tempo para respirar, espaço para se abrigar, não podia fazer valer seus hábitos ou praticar rituais de família. Muitos retraíam-se e encontravam uma espécie de conforto suspeitando de todos os outros — das pessoas que compartilhavam seus cômodos tanto quanto do OD na rua. Mas o fato era que nem os mais equilibrados tinham certeza de em quem confiar. "Cada morador", escreveu um jovem artista sobre as casas no gueto, "tem o seu próprio mundo de segredos e mistérios." Crianças de repente se calavam, ao ouvir um estalido nas escadas. Adultos acordavam sobressaltados com pesadelos de exílio, de desapropriação, e se viam exilados e desapropriados numa sala repleta em Podgórze — os mesmos eventos de seus pesadelos, o próprio gosto do medo de seus pesadelos, encontrando continuidade nos pavores do dia. Rumo reshorripilantes perseguiam-nos em seus quartos, nas ruas, no local de trabalho. Spira tinha outra lista que era duas ou três vezes mais longa do que a última. Todas as crianças seriam mandadas para Tarnow para serem fuziladas, Stutthof para serem afogadas, Breslau para serem doutrinadas, desarraigadas, operadas. Você tem algum parente idoso? Eles estão enviando todos acima de cinqüenta anos para as minas de sal de Wieliczka. Para trabalhar? Não, para serem trancafiados em câmaras em desuso.

Todos esses boatos, muitos dos quais Oskar tinha ouvido, se propagavam muito rapidamente impulsionados pelo instinto humano de impedir o mal expressando-o através de palavras, tentando interceptar os destinos, mostrando aos algozes que se podia ter tanta imaginação quanto eles. Mas naquele mês de junho, todos os piores pesadelos e boatos adquiriram uma forma concreta e os rumores mais inimagináveis transformaram-se em cruel realidade.

Ao sul do gueto, além da Rua Rekawka, havia pastagens montanhosas, lugar ermo como os espaços vazios do cerco de uma cidade sitiada como se vê em pinturas medievais, permitindo descortinar a mu ralha sul do gueto. À medida que se percorria a cavalo a crista das colinas, o mapa do gueto ia-se delineando, de maneira que era possível ver o que se passava nas ruas abaixo.

Schindler havia notado essa particularidade do local quando na primavera saíra a cavalo com Ingrid. Agora, chocado com o que vira no posto de Prokocim, decidiu repetir o passeio. Na manhã seguinte ao resgate de Bankier, alugou cavalos numa estrebaria no Parque Bed narskiego. Ele e Ingrid estavam impecavelmente vestidos, com longos casacos fendidos nas costas, calças de montaria e botas reluzentes. Dois Sudeten louros, espiando do alto o alvoroçado formigueiro do gueto.

Atravessaram bosques e, num rápido galope, percorreram campi nas. Das suas selas podiam ver agora, na Rua Wegierska, uma multidão aglomerada na esquina do hospital e, logo adiante, um esquadrão da SS agindo com cães, entrando nas casas, as famílias despejadas pa ra a rua, envergando capotes apesar do calor, na antecipação de uma ausência prolongada. Ingrid e Oskar estacaram as montarias à sombra de árvores e observaram a cena, começando a notar os pormenores de toda aquela movimentação. Os OD armados de cassetetes trabalhavam com os SS. Alguns membros daquela polícia judaica pareciam muito animados, pois em poucos minutos, lá do alto da colina, Oskar via três mulheres relutantes serem espancadas nos ombros. A princípio, ele sentiu uma cólera ingênua. Os SS estavam usando judeus para espancar judeus. Contido, no decorrer do dia se convenceu de que alguns dos OD espancavam seus patrícios para salvá-los de coisas piores. E, de qualquer maneira, havia um novo regulamento para o OD: se deixasse de despejar uma família, a sua própria família seria despejada.

Schindler notou também que na Rua Megierska estavam constantemente se formando duas filas. Uma estacionaria; a outra, à medida que ia se alongando, era conduzida em segmentos e, depois de dobrar a esquina da Rua Jozefinska, desaparecia de vista. Não era difícil interpretar essa movimentação, pois Schindler e Ingrid, escondidos pelos pinheiros e tendo-se colocado acima do gueto, estavam a uma distância de apenas uns dois ou três curtos quarteirões, de onde se desenrolava a Aktion.

As pessoas eram enxotadas dos apartamentos, separadas à força em duas filas, sem serem levados em consideração os laços de família. Filhas adolescentes, com os papéis em ordem, iam para a fila estática, gritando para suas mães mais idosas colocadas na outra fila. Um trabalhador de turno noturno, ainda meio estonteado por lhe terem per turbado o sono, foi conduzido para uma fila, enquanto a mulher e a filhinha iam para outra.

No meio da rua, o rapaz discutia com um policial OD. Estava dizendo: "Dane-se a Blauschein! Quero ir com Eva e minha filha."

Um SS armado interveio. Em contraste com a massa anônima de Ghettomenschen, o militar, com seu uniforme de verão muito bem-passado, parecia soberbamente alimentado e disposto. E da colina, podia-se ver o reflexo do óleo em sua pistola automática. O SS desfechou um golpe na orelha do judeu e pôs-se a falar com ele aos berros. Schindler, ainda que não pudesse ouvi-lo, tinha certeza de que eram frases que ouvira antes, na Estação de Prokocim. "Não faz a menor diferença para mim. Se quer acompanhar a sua nojenta prostituta judia, pode ir!" O rapaz foi levado de uma fila para a outra. Schindler víu-o correr e ir abraçar a mulher; aproveitando a confusão causada por aquele ato de lealdade conjugai, outra mulher esgueirou-se para dentro de uma porta, e não foi vista pelo Sonderkommando SS.

Oskar e Ingrid viraram seus cavalos, cruzaram uma avenida deserta e chegaram a uma plataforma de pedra que ficava bem defronte da Rua Krakusa. Mais de perto, essa rua parecia menos turbulenta do que a Wegierska. Uma fila de mulheres e crianças, não tão extensa, estava sendo conduzida em direção à Rua Piwna. Um guarda caminhava na frente, outro fechava a fila. Havia um desequilíbrio na com posição: muito mais crianças em relação às poucas mulheres da fila que poderiam ser suas mães. No final, caminhando com passinhos titubeantes, como que aprendendo a andar, uma criança, menino ou me nina, vestida com um casaquinho e gorro encarnados. O que atraiu a atenção de Schindler foi que na cor estava implícita uma afirmação, da mesma forma que na discussão do trabalhador do turno da noite na Rua Wegierska. A afirmação tinha a ver, naturalmente, com uma paixão pelo vermelho.

Schindler consultou Ingrid. Era certamente uma meninazinha, explicou ela. Meninas se deixavam obcecar por uma cor, sobretudo uma cor viva como o vermelho.

Enquanto eles observavam a cena, um Waffen SS, no final da coluna, de vez em quando estendia a mão para corrigir a direção daquela mancha encarnada. O gesto não era violento — ele poderia ter sido um irmão mais velho. Se os seus superiores lhe houvessem dito que procurasse apaziguar a preocupação sentimental dos civis, não pode ria ter agido melhor. Assim a ansiedade moral dos dois cavaleiros no Parque Bedmarskiego abrandou irrefletidamente por uns poucos segundos. Mas a impressão reconfortante foi breve. A certa distância da coluna de mulheres e crianças, que se afastavam, e que a garotinha de vermelho fazia serpentear, turmas da SS com cães agiam de cada lado da rua.

Eles invadiam os apartamentos fétidos; como sinal evidente da sua pressa, uma valise voou da janela de um segundo andar e se escancarou na calçada. E correndo na frente dos cães, homens, mulheres e crianças, que se haviam escondido em sótãos e armários, dentro de cômodas sem gavetas, os evadidos da primeira onda da busca, saíam pa ra a calçada, gritando, ofegantes de pavor dos ferozes cães dobermanns. Tudo parecia se passar em grande velocidade e era quase impossível acompanhar com os olhos do alto da colina aquela movimentação. Os que emergiam eram fuzilados, onde tinham parado na calçada, projetados no ar com o impacto das balas, espirrando sangue nos bueiros. Uma mãe e seu filho, talvez de uns oito anos, talvez de uns dez subnutridos, tinham-se abrigado sob o peitoril de uma janela no lado esquerdo da Rua Krakusa. Schindler sentiu um medo intolerável por eles, um tal terror em seu próprio sangue que lhe afrouxou as pernas na sela e quase o derrubou do cavalo. Olhou para Ingrid e viu que as mãos dela apertavam com força as rédeas. Podia ouvi-la a seu lado, protestando e suplicando.

Os olhos de Schindler agora se fixaram na garotinha de vermelho da Rua Krakusa. A cena se passava a uma distância de meio quarteirão dela; não tinham esperado que a coluna dobrasse a esquina e seguisse pela Rua Jozefinska. A princípio, Schindler duvidara das intenções daqueles assassinos. Mas, agora, ali estava a prova flagrante, que ninguém poderia ignorar, de quais eram as suas intenções. Quando a menina de vermelho parou de seguir sua coluna e voltou-se para olhar, eles acertaram um tiro no pescoço da mulher. O menino soluçante deixou-se escorregar junto à parede; um SS então firmou-lhe a cabeça com a bota, encostou-lhe o cano do revólver na nuca — postura recomendada pela SS — e disparou o tiro.

Oskar tornou a olhar para a garotinha de vermelho. Ela se volta ra e vira a bota calcar o pescoço do menino. Já se fizera um espaço entre ela e o penúltimo da coluna. De novo o guarda SS encaminhou-a fraternalmente para a coluna, dando-lhe nas costas um pequeno empurrão. Schindler não podia compreender por que ele não a golpeara com o cano de sua espingarda, já que na outra extremidade da Rua Krakusa a compaixão era inexistente.

Por fim, Schindler deixou-se escorregar do cavalo, tropeçou e caiu de joelhos abraçado ao tronco de um pinheiro. Sentiu que precisava conter a ânsia de vomitar o seu excelente café de manhã, pois suspeitava que o seu corpo instintivamente procurava abrir espaço para digerir os horrores da Rua Krakusa.

A infâmia de homens nascidos de mulheres e que tinham de escrever cartas para suas famílias (o que diziam nessas cartas?) não era o pior aspecto do que Schindler presenciara. Sabia que eles não tinham vergonha alguma do que estavam fazendo, pois o guarda na retaguarda da coluna não vira necessidade de impedir a garotinha de vermelho de assistir a toda a cena. Mas o pior era que, se não havia a menor vergonha, isso significava sanção oficial. Ninguém mais podia encontrar segurança na idéia de cultura alemã, nem nos pronunciamentos de líderes, que condenavam homens anônimos por terem ultrapassado seus limites, ou por olharem pelas janelas de seus escritórios para a realidade na rua. Oskar tinha visto na Rua Krakusa uma prova da política de seu governo, que não podia ser justificada como uma aberração temporária. Acreditava que os SS estavam cumprindo as ordens de seu líder pois, do contrário, o colega na retaguarda da coluna não teria deixado uma criança assistir à cena.

Mais tarde, nesse dia, depois de ter ingerido uma dose de conhaque, Oskar compreendeu o teorema em seus termos mais claros. Eles permitiam testemunhas, testemunhas tais como a garotinha de verme lho, porque julgavam que as testemunhas iam todas também perecer.

Na esquina da Plac Zgody (Praça da Paz) ficava a Apotheke de Ta deus Pankiewicz. Era uma farmácia no estilo antigo: ânforas de porcelana com letreiros de nomes em latim de velhos remédios e umas poucas centenas de delicadas gavetinhas muito lustradas escondiam dos habitantes de Podgórze a complexidade de sua farmacopéia. O farmacêutico Pankiewicz vivia no andar de cima da farmácia por permissão das autoridades e a pedido dos médicos das clínicas do gueto. Era o único polonês com licença para permanecer dentro dos muros do gueto. Homem calmo, de quarenta e poucos anos, possuía interesses intelectuais: o impressionista polonês Abraham Neumann, o compositor Mordche Gebirtig, o filósofo Leon Steinberg e o cientista e filósofo Dr. Rappaport eram todos visitas assíduas de Pankiewicz. A casa era também um elo, uma caixa de correio para informações e mensagens entre o Organização Judaica de Combate (ZOB) e os combatentes do Exército do Povo Polonês. O jovem Dolek Liebeskind, Shimon e Gusta Dranger, organizadores da ZOB de Cracóvia, às vezes apareciam ali, porém sempre discretamente. Era importante não comprometer Ta deus Pankiewicz com seus planos que — ao contrário da política de cooperação do Judenrat — implicava uma vigorosa e inequívoca resistência.

A praça defronte da farmácia de Pankiewicz tornou-se naqueles primeiros dias de junho um pátio de concentração. "Era indescritível", repetia sempre mais tarde Pankiewicz, referindo-se à Praça da Paz. No centro da praça as pessoas eram reclassificadas e recebiam ordem de deixar para trás suas bagagens. "Não, não, vamos remetê-las a todos vocês!" Contra o muro no lado direito da praça, aqueles que resistiam e aqueles que eram descobertos, levando nos bolsos qualquer documento ariano forjado, eram fuzilados, sem nenhuma explicação ou desculpa às pessoas arregimentadas no centro. O estarrecedor estampido dos fuzis fraturava conversas e esperanças. Contudo, apesar dos gritos e choro dos parentes das vítimas, algumas pessoas — chocadas ou desesperadamente concentradas em se manter com vida — pareciam quase não notar o montão de cadáveres. Quando surgiam os caminhões e os mortos eram jogados na carroceria pelos destacamentos de judeus, os que tinham restado na praça imediatamente recomeçavam a falar de seus futuros. E Pankiewicz então tornava a ouvir o que estivera ouvindo o dia inteiro dos NCO da SS: "Posso lhe afirmar, minha senhora, que vocês, judeus, vão trabalhar. Acha que estamos em condições de desperdiçar tanta mão-de-obra?" O desejo desesperado de acreditar se estampava nos rostos daquelas mulheres. E os soldados rasos da SS que tinham acabado de efetuar as execuções contra o muro, caminhavam por entre a multidão e aconselhavam às pessoas a colocar etiquetas em suas bagagens.

De Bednarskiego, Oskar Schindler não conseguira avistar a Praça Zgody. Mas tanto Pankiewicz na praça, como Schindler na colina jamais testemunharam um horror tão frio. Como Oskar, Pankiewicz sentiu náuseas; seus ouvidos estavam cheios de um silêncio irreal, como se ele houvesse levado uma pancada na cabeça. Sentia-se tão confuso com os ruídos e a selvageria que não notou entre os mortos da praça os seus amigos Gebirtig, compositor de canções famosas, e o suave artista Neumann. Médicos começaram a invadir a farmácia, ofegantes, tendo percorrido correndo os dois quarteirões que separavam a farmácia do hospital. Queriam bandagens — tinham estado arrastando das ruas os feridos. Um médico entrou, pedindo eméticos, pois na multidão havia umas doze pessoas sufocadas ou letárgicas por terem ingerido cianureto. Um engenheiro conhecido de Pankiewicz tinha colocado uma daquelas pílulas na boca, aproveitando um momento de distração de sua mulher.

O jovem Dr. Idek Schindel, que trabalhava no hospital do gueto na esquina da Rua Wegierska, ouviu uma mulher gritar histericamente que as crianças estavam sendo levadas. Ela as vira enfileiradas na Rua Krakusa, e entre elas Genia. Schindel deixara Genia nessa manhã com vizinhos — ele era o seu guardião no gueto, pois os pais dela continuavam no campo, tencionando esgueirar-se de volta para dentro do gueto até aquele momento considerado menos perigoso. Nessa manhã, Genia, sempre independente, tinha-se afastado da mulher encarregada de olhá-la e retornado à casa onde morava com o seu tio. Lá, os SS a tinham prendido. Fora assim que Oskar Schindler, do alto da colina, tinha notado a presença de Genia, sem ninguém a acompanhando, na coluna da Rua Krakusa.

Despindo seu jaleco de cirurgião, o Dr. Schindel correu para a praça e quase imediatamente viu sua sobrinha, sentada na grama, cercada por uma parede de guardas e afetando tranqüilidade. O Dr. Schindel sabia que aquela calma era fingida por ter muitas vezes levantado durante as noites para acalmar os terrores de Genia.

Contornou a periferia da praça, e ela o viu. "Não me chame", queria ele dizer. "Vou dar um jeito." Procurava evitar uma cena, que acabaria mal para ambos. Mas não precisava se preocupar, pois não se notava na expressão dos olhos da criança indício algum de tê-lo reconhecido. Deteve-se, assombrado com a admirável astúcia da meninazinha. Aos três anos de idade, ela sabia bem que não devia recorrer ao consolo imediato de gritar por um tio. Sabia que não havia salvação alguma, se atraísse a atenção dos SS sobre tio Idek.

Ele estava compondo mentalmente o discurso que tencionava fazer para o troncudo Oberscharführer postado junto ao muro de execução. Não convinha abordar as autoridades com muita humildade ou através de algum subalterno. Tornando a olhar para Genia, viu nos seus olhos uma ligeira piscadela; então, com enorme sangue-frio, ela passou entre dois guardas a seu lado, varando o cordão de isolamento. Afastou-se com uma lentidão tão exasperante que, naturalmente, gal vanizou o olhar de seu tio. Mais tarde, cerrando os olhos, freqüente mente ele via a imagem de Genia passando por entre a floresta de botas reluzentes dos SS. Na Praça Zgody ninguém a viu. Ela manteve o seu passinho, meio titubeante meio brejeiro, em todo o percurso até a farmácia de Pankiewicz e dobrou a esquina. O Dr. Schindel reprimiu o impulso de bater palmas: ainda que aquela proeza merecesse uma platéia, seria pela sua própria natureza destruída pelos espectadores.

Idek sentiu que não podia ir diretamente atrás da sobrinha sob pena de despertar a atenção para a façanha dela. Contendo seu impulso natural, ele acreditou que o instinto que a tinha feito escapulir da Praça Zgody a levaria a encontrar um esconderijo. Assim, retornou ao hospital por outro caminho.

Genia voltou ao quarto da frente na Rua Krakusa, que partilhava com o tio. A rua agora estava deserta; se uns poucos judeus ainda ali se achavam, seja por um ardil ou por paredes falsas, não davam demonstração de sua presença. Ela entrou na casa e escondeu-se debaixo da cama. Da esquina da rua, Idek, voltando a casa, viu os SS, numa última busca, baterem na porta. Mas Genia não respondeu. Nem responderia ao tio, quando ele próprio chegou. Mas ele sabia onde procurar, na fresta entre a cortina e o caixilho da janela; viu, então, reluzindo na esqualidez do quarto, a botinha vermelha sob a bainha da colcha da cama.

Àquela hora, naturalmente, Schindler já tinha devolvido o cavalo à estrebaria. Não estava na colina para assistir ao pequeno, porém significativo, triunfo da volta da garotinha de vermelho ao local de onde antes havia sido retirada pelos SS. Já se achava no seu gabinete na DEF, fechado a chave, sem coragem de contar o ocorrido ao turno do dia. Bem mais tarde, em termos nada característicos do jovial Herr Schindler, o conviva predileto das festas de Cracóvia, o perdulário de Za-blocie, isto é, em termos que revelavam — por trás da fachada de playboy — um juiz implacável, Oskar tomou naquele dia uma decisão da qual não mais se afastaria. "A partir daquele dia", diria ele mais tarde, "ninguém, com capacidade de raciocinar, poderia deixar de ver o que iria acontecer. E agora eu estava resolvido a fazer tudo em meu poder para derrotar o sistema."

 

A SS prosseguiu com suas atividades no gueto até a noite de sábado. Operava com aquela eficiência que Oskar tivera ocasião de observar nas execuções da Rua Krakusa. Era difícil predizer as suas investidas e as pessoas que escaparam na sexta-feira eram apanhadas no sábado. Genia sobreviveu à semana, graças ao seu talento precoce de manter o silêncio e de, vestida de vermelho, ser imperceptível. Em Zablocie, Schindler não ousava acreditar que a garotinha de vermelho havia sobrevivido aos métodos da Aktion. Através de Toffel e outros conhecidos da central de polícia na Rua Pomorska, ele soube que 7.000 pessoas haviam sido postas para fora do gueto. Um funcionário da Gestapo no Escritório de Questões Judaicas estava radiante de poder confirmar a "limpeza". Entre os burocratas da Rua Pomorska, a Aktion de junho foi considerada um sucesso.

Oskar agora pesquisava com mais precisão a respeito dessa espécie de informações. Sabia, por exemplo, que a Aktion estivera sob a supervisão geral de um certo Wilhelm Kunde mas fora chefiada pelo Obersturmführer SS Otto von Mallotke. Oskar não mantinha nenhum dossiê mas estava se preparando para outra ocasião, em que faria um relatório completo para Canaris ou para o mundo inteiro. Por enquanto, ele investigava fatos que no passado tinha classificado como demências temporárias. Conseguia suas informações exatas não só através de contatos com a polícia, mas também de judeus esclarecidos como Stern. As informações vindas de outros locais da Polônia chegavam ao gueto geralmente através da farmácia de Pankiewicz ou transmiti das por membros do Exército do Povo. Dolek Liebeskind, líder do Grupo de Resistência Akiva Halutz, também trazia notícias de outros guetos, em virtude do seu cargo de oficial itinerante no Auto-Auxílio Comunitário Judaico, uma organização cujo funcionamento os alemães — de olho na Cruz Vermelha — permitiam.

De nada adiantava transmitir ao Judenrat esses dados. O Conselho do Judenrat não considerava aconselhável, do ponto de vista civil, informar os habitantes do gueto sobre os campos. As pessoas certamente se apavorariam; haveria desordens nas ruas, as quais não ficariam sem punição. Era sempre melhor que aquela gente só ouvisse boatos não-confirmados, presumisse que se tratava de exageros e conservasse suas esperanças. Essa tinha sido a atitude da maioria dos conselheiros judeus, mesmo sob a direção do honesto Artur Rosenzweig. Mas Rosenzweig não estava mais lá. O caixeiro-viajante David Gutter, ajudado pelo seu sobrenome germânico, logo seria nomeado presidente do Judenrat. Rações de alimentos eram agora desviadas não apenas por membros da SS mas também por Gutter e seus novos conselheiros, cujo vicário nas ruas era Symche Spira com suas botas altas. O Judenrat, portanto, não tinha mais interesse algum em informar os habitantes do gueto sobre os seus prováveis destinos, já que estavam confiantes de que eles próprios não estariam incluídos nas listas fatídicas.

O início da elucidação para o gueto e do recebimento de informações positivas por Oskar foi a volta a Cracóvia (oito dias depois de ter sido embarcado na Estação do Prokocim) do jovem farmacêutico Bachner. Ninguém sabia como Bachner conseguira retornar ao gueto ou compreendia o mistério de ele ter voltado a um local do qual a SS simplesmente o obrigaria a uma outra jornada. Mas era, naturalmente, o desejo de se ver entre conhecidos que fizera Bachner voltar.

Em toda a extensão da Rua Lwówska e nas ruas atrás da Praça Zgody, ele ia espalhando a sua história. Tinha assistido ao horror final. Seu olhar era alucinado e, durante a curta ausência, seus cabelos tinham embranquecido. Toda a gente de Cracóvia que fora arrebanhada em princípios de junho tinha sido levada para o campo de Belzec, próximo à fronteira russa. Quando os trens chegavam na estação ferro viária, as pessoas eram postas para fora dos vagões por ucranianos armados de cacetes. Havia no ar um cheiro horrível mas um SS tinha bondosamente informado que o cheiro provinha do uso de desinfetantes. As pessoas eram enfileiradas defronte de dois grandes armazéns, um marcado VESTIÁRIO e o outro OBJETOS DE VALOR. Os recém-chegados recebiam ordem de se despirem e um menino judeu passava pelas filas distribuindo pedaços de barbante para que fossem amarrados os pares de sapatos. Óculos e anéis eram recolhidos. Assim, despidos, os prisioneiros em seguida tinham suas cabeças raspadas na barbearia, e eram informados por um NCO SS que seus cabelos eram necessários para fabricar algo para as tripulações de submarinos. O cabelo tornaria a crescer, dissera ele, mantendo o mito da perene utilidade dos prisioneiros. Por fim, eram encaminhados por uma passagem ladeada de cercas de arame farpado para casamatas toscas, marcadas com estrelas-de-davi de cobre e os letreiros SALAS DE BA NHO E INALAÇÃO. Em todo o percurso os SS tranqüilizavam suas vítimas, dizendo-lhes que respirassem profundamente, que era um excelente meio de desinfecção. Bachner viu uma meninazinha deixar cair no chão uma pulseira, que um garoto de três anos apanhou e entrou na casamata brincando com a jóia.

Uma vez lá dentro, relatou Bachner, foram todos asfixiados com gases venenosos. E, mais tarde, turmas entraram nos recintos para desmanchar a pirâmide de corpos e levá-los para serem enterrados. A operação toda levara menos de dois dias, disse Bachner, e todos, exceto ele, estavam mortos. Enquanto esperava em um cercado pela sua vez, ele tinha conseguido esgueirar-se para dentro de uma latrina e entrado na fossa. Ali passara três dias com excrementos humanos até o pescoço, com o rosto coberto de moscas. Tinha dormido em pé, apoiado na parede da fossa, com medo de se afogar. Aproveitando o escuro da noite, escapulira lá de dentro.

Não sabia bem como conseguira fugir de Belzec, seguindo o leito da estrada de ferro. Todos compreenderam que Bechner pudera esca par precisamente porque estivera em estado de transe. E porque a mão de alguém — talvez de uma camponesa — o limpara e lhe dera roupas para a sua jornada de volta ao ponto de partida.

Apesar de tudo, havia pessoas em Cracóvia que consideravam a narrativa de Bachner um boato perigoso. De alguns prisioneiros do campo de Auschwitz tinham chegado cartões-postais para parentes. Por tanto, o que acontecera em Belzec não podia ser verdade em Auschwitz. E era para acreditar? Tão escassas eram as rações emocionais do gueto que as pessoas só podiam manter seu equilíbrio acreditando numa lógica.

Pelas suas fontes de informação, Schindler descobriu que as câmaras de Belzec tinham sido terminadas em março daquele ano, sob a supervisão de uma firma de engenharia de Hamburgo e engenheiros da SS de Oranienburg. Pelo testemunho de Bachner, ao que parecia, 3.000 matanças por dia eram o cálculo da capacidade das câmaras. Crematórios estavam sendo construídos, para o caso de o meio tradicio nal de dispor de cadáveres pudesse provocar um atraso no novo método de extermínio. A mesma companhia em atividade em Belzec instalara facilidades idênticas em Sobibor, também no distrito de Lublin. Ha viam sido abertas concorrências e as construções estavam muito avançadas para instalações similares em Treblinka, perto de Varsóvia. E câmaras de gás e fornos se achavam ambos em funcionamento no campo principal de Auschwitz e no vasto campo Auschwitz II, a poucos quilômetros de Birkenau. A Resistência afirmava que 10 mil assassinatos por dia estavam dentro da capacidade de Auschwitz II. E, para a área de Lodz, havia o campo em Chelmno, também equipado de acordo com a nova tecnologia.

Relatar agora tais ocorrências é repetir lugares-comuns da Histó ria. Mas para alguém que viesse a saber delas em 1942, vê-las desabar sobre sua cabeça era um choque fundamental, um tumulto na área do cérebro onde as idéias estáveis se alojam. Naquele verão, por toda a Europa alguns milhões de pessoas, Oskar entre elas, e também os habitantes do gueto de Cracóvia, ajustaram tortuosamente as reservas de suas almas à idéia de Belzec e outros campos semelhantes nas florestas polonesas.

Naquele verão, Schindler arrematou também a massa falida da Rekord e, de acordo com as provisões do Tribunal Comercial Polonês, adquiriu, numa espécie de leilão pro forma, o título de propriedade da fábrica. Embora os exércitos alemães tivessem cruzado o Don e es tivessem avançando para os campos de petróleo do Cáucaso, Oskar previa, pelo que presenciara na Rua Krakusa, que no final a vitória não podia ser deles. Portanto, era uma boa época para legitimar ao máximo a sua posse da fábrica na Rua Lipowa. E ainda tinha esperança, de um modo quase infantil, de que a História não iria levar em consideração a queda do rei perverso, no sentido de anular aquela legitimidade — que na nova era ele continuaria sendo o filho bem-sucedido de Hans Schindler, que chegara a Cracóvia proveniente de Zwittau.

Jereth, da fábrica de embalagens, continuava pressionando-o pa ra construir uma cabana — um refúgio — no seu terreno baldio. Oskar obteve dos burocratas as necessárias autorizações. O seu pretexto era um local de repouso para o seu turno da noite. Tinha a madeira para a construção, doada pelo próprio Jereth.

Depois de terminada no outono, a cabana parecia uma frágil e desconfortável estrutura. As tábuas eram de madeira ainda verde co mo a de caixotes e davam a impressão de que iriam encolher, quando fossem escurecendo e deixando penetrar a neve por entre suas frestas. Mas durante uma Aktion em outubro foi um abrigo para Jereth e sua mulher, para os operários da fábrica de embalagens e da de radiadores, e para o turno da noite de Oskar.

O Oskar Schindler, que sai de seu gabinete nas manhãs gélidas de uma Aktion para falar com o membro da SS, com o auxiliar ucraniano, com a Polícia Azul e com o destacamento da OD, que teriam marchado de Podgórze para escoltar o seu turno da noite; o Oskar Schindler que, enquanto toma seu café, telefona para o escritório do Wachttneister Bosko próximo ao gueto e prega uma mentira a respeito da necessidade de seu turno da noite permanecer essa manhã na Rua Lipowa — esse Oskar está se comprometendo agora além dos limites de negócios cautelosos. Os homens influentes que, por duas vezes, o tiraram da prisão não poderiam fazê-lo indefinidamente, embora Oskar se mostre generoso nos aniversários deles. Nesse ano, eles estavam mandando homens influentes para Auschwitz. Se eles morrem lá, suas viúvas recebem um telegrama seco e ingrato do comandante: SEU MARIDO MORREU EM KONZENTRATIONSLAGER AUSCHWITZ.

Bosko era desengonçado, mais magro do que Oskar, ríspido e, co mo ele, um tcheco-alemão. Sua família, como a de Oskar, era conservadora e adepta dos velhos valores germânicos. Por um breve espaço de tempo, ele tinha sentido uma expectativa exaltada de pan germanismo com a subida ao poder de Hitler, exatamente como Beethoven sentira um grande fervor europeu por Napoleão. Em Viena, onde estivera estudando teologia, ele entrara para a SS — em parte como uma alternativa que o desobrigava do recrutamento da Wehrmacht, em parte devido a um evanescente ardor. Arrependia-se agora desse ardor e estava expiando-o mais do que Oskar presumia. Só o que Oskar percebia em Bosko era que ele sempre parecia satisfeito em solapar uma Aktion. Era responsável pelo perímetro do gueto e de seu escritório fora da muralha via a Aktion com positivo horror, pois, co mo Oskar, ele se considerava uma testemunha potencial.

Oskar não sabia que durante a Aktion de outubro Bosko tinha contrabandeado algumas dúzias de crianças dentro de caixas de papelão. E tampouco sabia que o Wachtmeister fornecia dezenas de passes para o movimento de resistência. A Organização Judaica de Combate (ZOB) era forte em Cracóvia. Compunha-se sobretudo de membros de clubes juvenis, especialmente de membros do Akiva — um clube assim nomeado em homenagem ao lendário Rabino Akiva ben Joseph, um erudito da Mishna. A ZOB era liderada por um casal, Shimon e Gusta Dranger — o diário dela iria tornar-se um clássico da Resistência — e por Dolek Liebeskind. Seus membros necessitavam entrar e sair livremente do gueto, levando dinheiro em espécie, documentos forjados e exemplares do jornal da Resistência. Tinham contatos com o Exército Polonês do Povo, de tendência esquerdista, que se abrigava nas florestas nos arredores de Cracóvia e que também precisava dos documentos que Bosko fornecia. Portanto, os contatos de Bosko com a ZOB e o Exército do Povo eram motivo suficiente para enforcá-lo; mas secretamente ele continuava desprezando a si mesmo e prosseguia com a sua participação incompleta nas atividades de salvamento. Pois Bosko queria salvar a todos, e era o que em breve tentaria, e por causa disso seria morto.

Danka Dresner, prima da Genia de vermelho, tinha quatorze anos e já não possuía mais o instinto infantil que levara a sua priminha a escapulir do cordão de isolamento na Praça da Paz. Embora tivesse trabalho como faxineira na base da Luftwaffe, a ordem era que, naquele outono, toda mulher com menos de quinze ou mais de trinta anos podia ser levada para um campo de concentração.

Assim, na manhã em que um Sonderkommando SS e grupos da Polícia de Segurança penetraram na Rua Lwówska, a Sra. Dresner levou Danka à Rua Dabrowski, para a casa de uma vizinha que possuía uma parede falsa. A vizinha, mulher de trinta e alguns anos, trabalhava num rancho da Gestapo perto do Castelo de Wawel, portanto podia esperar um tratamento privilegiado. Mas seus pais eram idosos, o que constituía automaticamente um risco. Ela então construíra com tijolos, uma cavidade de 60 centímetros, um esconderijo para seus pais, empreendimento dispendioso, pois os tijolos tinham sido contrabandeados para dentro do gueto em carrinhos de mão sob montes de artigos permitidos — trapos, lenha, desinfetantes. Só Deus sabia o que lhe ti nha custado aquele espaço secreto — talvez cinco, talvez dez mil zlotys.

Várias vezes ela mencionara o abrigo à Sra. Dresner. Se houvesse uma Aktion, a Sra. Dresner podia ir para lá com Danka. Portanto, na manhã em que Danka e a Sra. Dresner ouviram da esquina da Rua Dabrowski o ruído assustador, o latir de dálmatas e dobermanns, a vociferação dos Oberscharführers nos megafones, as duas se apressa ram em ir para a casa da amiga.

Depois de subir as escadas e chegar ao quarto do esconderijo, elas constataram que o clamor havia provocado uma reação em sua amiga.

—   Parece que vai ser muito perigoso — disse a mulher. — Meus pais já estão escondidos lá. Posso esconder sua filha, mas você não...

Danka olhava aturdida para a parede com o papel florido manchado. Lá dentro, comprimidos entre tijolos, talvez com ratos passeando em seus pés, o nervosismo aumentado pela escuridão, se escondiam os pais idosos da mulher.

A Sra. Dresner podia ver que sua amiga estava sendo irracional.

—   A menina, mas não você — repetia ela, como se pensasse que, se a SS descobrisse a parede falsa, seria menos severa devido ao peso menor de Danka.

A Sra. Dresner explicou que mal podia ser chamada de gorda, que a Aktion parecia estar se concentrando naquele lado da Rua Lwówska e que ela não tinha para onde ir. E que caberia ali dentro. Danka era uma menina em quem se podia confiar mas se sentiria mais segura com a mãe a seu lado. Visivelmente, medindo a parede com os olhos, quatro pessoas podiam muito bem caber na cavidade. Mas disparos a uma distância de dois quarteirões acabaram por obliterar por completo o raciocínio da mulher.

— Posso esconder a menina! — gritou ela. — Mas quero que você vá embora!

A Sra. Dresner voltou-se para Danka e lhe disse que entrasse no esconderijo. Mais tarde Danka não ia compreender como pudera obedecer à mãe e entrar docilmente no esconderijo. A mulher levou-a ao sótão, afastou um tapete do assoalho, depois ergueu um alçapão de madeira. Danka desceu então para o interior da cavidade. Não estava escuro lá dentro; o casal de velhos acendera um toco de vela. Danka viu-se ao lado de uma mulher — não era sua mãe mas, sob o odor de roupa usada, havia um protetor cheiro maternal. A mulher deu-lhe um rápido sorriso. O marido estava na outra extremidade, mantendo os olhos fechados, não querendo se deixar perturbar pelos ruídos lá fora.

Depois de alguns instantes, a mulher fez-lhe sinal de que ela podia sentar-se, se quisesse. Danka então agachou-se e encontrou uma posição confortável no chão do abrigo. Nenhum rato veio incomodá-la. Não ouvia som algum — nem uma só palavra de sua mãe e da amiga do outro lado da parede. Acima de tudo, sentia-se inesperadamente segura. E com a sensação de segurança veio o desagrado consigo mesma por ter obedecido tão docilmente à ordem da mãe, depois temeu por sua mãe, pelo que poderia lhe acontecer lá fora, no mundo das Aktionen.

A Sra. Dresner não saiu imediatamente da casa. Os SS estavam agora na Rua Dabrowski. Achou que seria melhor continuar ali; se a apanhassem, não causaria prejuízo à sua amiga. Podia até ser que a ajudasse. Se eles tirassem uma mulher daquele quarto, provavelmente ia aumentar-lhes a satisfação de tarefa cumprida, evitar que inspecionassem com mais atenção o estado do papel de parede.

Mas a mulher estava convencida de que ninguém iria sobreviver à busca, se a Sra. Dresner permanecesse no quarto; esta, por sua vez, percebia que ninguém estaria a salvo, se a mulher continuasse naquele es tado de histeria. Assim, levantou-se, calmamente aceitando a sua sorte, e saiu. Eles a encontrariam nas escadas ou na entrada. Por que não na rua? Era um regulamento tácito que os nativos do gueto deviam permanecer trêmulos em seus quartos até serem descobertos, que qualquer pessoa descendo escadas era de certa forma culpada de desafio ao sistema.

Uma figura de boné impediu-a de sair. Apareceu na entrada, apertando os olhos no corredor escuro para enxergar na fria claridade azulada do pátio ao fundo. Fitando-a, ele a reconheceu; ela também o reconheceu. Era um companheiro de seu filho mais velho, mas não se podia ter certeza de que isso tivesse algum valor, não se podia saber o quanto eram pressionados os jovens da OD. O rapaz entrou e aproximou-se dela.

—   Pani Dresner — sussurrou ele e apontou para o poço da

escada. — Em dez minutos eles terão partido. Fique debaixo da escada. Depressa!

Tão documente quanto sua filha lhe obedecera, ela fez como o jovem OD lhe ordenara. Agachou-se debaixo das escadas mas sabia que não adiantaria. A claridade outonal do pátio a revelava. Se eles quisessem revistar o pátio ou fossem até a porta do apartamento no final do corredor, não deixariam de vê-la. Como também ficar de pé ou agacha da não fazia diferença. Levantou-se. Da porta da frente, o OD insistiu para que ela não saísse dali. Depois ele se foi. Ouviu berros, ordens e súplicas, e tudo lhe pareceu estar acontecendo ali ao seu lado.

Por fim, o OD retornou com os outros. Ela ouviu o ruído das botas entrando pela porta da frente. Ouviu-o dizer em alemão que tinha revistado o andar térreo e que não havia ninguém em casa. Mas no andar de cima havia quartos ocupados. Era tão prosaica a sua conversa com os SS, que pareceu à Sra. Dresner não fazer justiça ao perigo a que ele estava se expondo. Estava arriscando sua existência contando com a probabilidade de os SS, já tendo vasculhado a Rua Lwówska e chegando até aquele trecho da Rua Dabrowski, cometerem o desleixo de não revistar eles próprios o andar térreo, deixando assim de encontrar a Sra. Dresner escondida debaixo dos degraus.

Mas os SS acabaram por aceitar a palavra do jovem OD. Ela os ouviu abrindo e batendo portas no primeiro andar, com as botas pisando forte no assoalho do quarto da cavidade. Ouviu a voz estridente de sua amiga...

—   É claro que tenho a minha carteira, trabalho no rancho da Gestapo, conheço todos os cavalheiros.

Ouviu-os descer do segundo andar com alguém, com mais de uma pessoa; um casal, uma família. "Estão me substituindo", pensou. Uma voz masculina meio cansada, com um arfar de bronquite, disse:

—   Mas, meus senhores, certamente podemos levar conosco

algumas roupas.

E, num tom tão indiferente quanto o de um carregador de estação ferroviária dando uma informação de horário, o SS respondendo-lhe em polonês:

—   Não há necessidade de levar nada. Lá para onde vocês vão, eles fornecem tudo.

Os ruídos recuaram. A Sra. Dresner esperou. Não veio uma nova onda. A segunda onda seria amanhã ou depois. Agora voltariam sempre, vasculhando o gueto. O que em junho parecera um horror supre mo, em outubro já se tornara um processo de rotina. E por mais gratidão que sentisse pelo jovem OD, ao subir as escadas para ir buscar Danka, ela sabia que quando o assassinato é programado, habitual, uma indústria, como ali em Cracóvia, não havia maneira, mesmo com tentativas heróicas, de desviar o rumo devastador do sistema. Os mais ortodoxos do gueto tinham um refrão: "Uma hora de vida é ainda vida." O jovem OD lhe dera aquela hora. Ela sabia que ninguém mais lhe daria outra.

No quarto, sua amiga estava meio envergonhada.

—   A menina pode vir sempre que quiser — disse ela; mas o que queria dar a entender era: "Não excluí você por covardia, mas por

prudência. E meu ponto de vista continua o mesmo. A menina pode ser aceita, você não."

A Sra. Dresner não discutiu — ela percebia que a atitude da mulher fazia parte da mesma equação que a salvara no andar térreo. Agradeceu à amiga. Talvez Danka precisasse aceitar de novo a sua hospitalidade.

Dali em diante, como não parecesse ter os seus quarenta e dois anos e ainda tivesse boa saúde, a Sra. Dresner tentaria sobreviver naquela base — a base econômica, o valor putativo de sua capacidade de trabalho para a Inspetoria de Armamentos ou qualquer outro setor do esforço de guerra. Não tinha muita confiança na perspectiva. Naqueles dias, qualquer um com um vislumbre de compreensão já devia saber que a SS acreditava que a morte do judeu era socialmente inapelável, ultrapassava qualquer valor que ele pudesse ter como um item de trabalho. E a questão era em tal época: Quem salva Juda Dresner, operária de fábrica? Quem salva Janek Dresner, mecânico na garagem da Wehrmacht? Quem salva Danka Dresner, faxineira na Lufíwaffe, na manhã em que a SS finalmente resolva ignorar-lhes o valor econômico?

Enquanto o jovem OD estava providenciando a sobrevivência da Sra. Dresner embaixo da escada na Rua Dabrowski, os sionistas da Juventude Halutz Youth e a ZOB preparavam um ato de resistência mais concreto. Tinham conseguido uniformes dos Waffen SS e, assim disfarçados, adquiriram o direito de visitar o Restaurante Cyganeria reservado à SS na Praça Ducha, defronte do Teatro Slowacki. No Cyganeria eles deixaram uma bomba, que fez voar as mesas pelo telhado, reduziu a fragmentos sete membros da SS e feriu cerca de quarenta.

Quando Oskar soube do ocorrido, pensou que poderia ter estado lá, adulando algum SS.

Era a intenção deliberada de Shimon e Gusta Dranger e seus companheiros agirem contra o tradicional pacifismo do gueto, convertê-lo numa rebelião universal. Colocaram uma bomba no Bagatella Cine ma, reservado só para a SS, na Rua Karmelicka. Na escuridão de uma rua, Leni Riefenstahl acenou com uma promessa de feminilidade germânica para um soldado desgastado de executar sua tarefa nacional no gueto ou nas ruas cada vez mais perigosas da Cracóvia polonesa, e no instante seguinte uma vasta chama amarela o extinguiu.

Nos próximos meses a ZOB iria afundar lanchas de patrulhamento no Vístula, incendiar diversas garagens militares por toda a cidade, providenciar Passierscheins para pessoas que não tinham direito de possuí-los, contrabandear fotografias de passaporte para centros, onde podiam ser usadas para falsificar documentos arianos, descarrilar o elegante trem, de uso exclusivo do Exército, que fazia o percurso entre Cracóvia e Bochnia, e distribuir o seu jornal clandestino. Iria também arranjar para que dois dos auxiliares OD do Chefe Spira, Spitz e Foster, que haviam preparado listas de milhares de prisioneiros, caíssem numa emboscada da Gestapo. Era uma variação de um velho truque de estudantes. Um dos membros da ZOB, fazendo-se passar por informante, marcou encontro com dois policiais numa aldeia nas proximidades de Cracóvia. Ao mesmo tempo um outro suposto informante avisou à Gestapo que dois líderes do movimento clandestino judaico poderiam ser encontrados num determinado local. Spitz e Forster foram ambos metralhados enquanto fugiam do fogo da Gestapo.

Contudo, o estilo de resistência para os habitantes de guetos permanecia o mesmo que o de Artur Rosenzweig; quando lhe disseram em junho que fizesse uma lista de milhares de conterrâneos seus para serem deportados, colocou o seu próprio nome, o de sua mulher e o da sua filha em primeiro lugar na lista.

Em Zablocie, no terreno baldio nos fundos da Emalia, o Sr. Jereth e Oskar Schindler estavam prosseguindo com o seu estilo próprio de resistência, construindo uma segunda caserna.

 

Um dentista austríaco de nome Sedlacek tinha chegado a Cracóvia e estava fazendo perguntas cautelosas sobre Schindler. Viera de trem de Budapeste e trazia consigo uma lista de possíveis contatos em Cracóvia; numa valise de fundo falso, uma quantidade de zlotys de ocupação, que, como o Governador-Geral Frank abolira as denominações majoritárias da moeda polonesa, tomava um espaço despropositado.

Embora pretendesse fazer ver que estava viajando a negócio, fazia as vezes de correio para uma organização sionista de resgate em Budapeste.

Ainda no outono de 1942, os sionistas da Palestina e, sobretudo, os vários povos do mundo, apenas tinham conhecimento dos rumores que corriam sobre o que estava se passando na Europa. Os primeiros haviam instalado um escritório em Istambul para captar informações mais exatas. De um apartamento no bairro de Beyoglu dessa cidade, três agentes enviavam cartões-postais endereçados a cada grupo sionista na Europa germânica. Os cartões diziam: "Por favor, mande me dizer como vai. Eretz está ansiosa por notícias suas." Eretz significava "o mundo" e, para qualquer sionista, Israel. Todos os cartões eram assinados por um dos três agentes, uma jovem chamada Sarka Man delblatt, que possuía uma conveniente cidadania turca.

Nenhum dos cartões tivera resposta. Isso significava que os destinatários estavam presos, escondidos nas florestas, em algum campo de trabalho, em um gueto ou mortos. Só o que os sionistas de Istambul obtiveram foi uma tenebrosa prova negativa de silêncio.

Em fins do outono de 1942, finalmente, eles receberam uma resposta, um cartão com uma vista dos Belvaros de Budapeste. A mensagem era: "O seu interesse pela minha situação é encorajante. Raha mim maher (auxílio urgente) é muito necessário. Por favor, mantenha-se em contato."

Essa resposta havia sido composta por um joalheiro de Budapeste chamado Samu Springmann, que recebera e conseguira decifrar a mensagem do cartão-postal de Sarka Mandelblatt. Samu era um homem franzino, estatura de jóquei, trinta e poucos anos. Desde os treze, apesar de uma probidade inalienável, ele vinha bajulando funcionários, fazendo favores ao corpo diplomático, subornando a opressiva Polícia Secreta da Hungria. Agora o grupo de Istambul informou-o de que queria utilizá-lo para canalizar dinheiro para dentro do império ale mão e, através dele, transmitir ao mundo informações positivas sobre o que estava acontecendo com os judeus europeus.

Na Hungria do General Horthy, aliado dos alemães, Samu Springmann e seus companheiros sionistas viviam tão privados quanto os de Istambul de notícias fidedignas sobre o que se passava do outro lado das fronteiras polonesas. Mas ele começou a recrutar correios que, por uma percentagem sobre a quantia transportada, ou por simples convicção, estavam dispostos a penetrar em território alemão. Um desses correios era um negociante em pedras preciosas, Erich Popescu, um agente da Polícia Secreta húngara. Outro era um contrabandista de ta petes, Bandi Grosz, que também trabalhara para a polícia secreta mas que passara a servir Springmann para expiar o desgosto que tinha causado à sua falecida mãe. Um terceiro era Rudi Schulz, um arrombador de cofres austríaco e agente do Escritório Administrativo da Gestapo em Stuttgart. Springmann tinha o dom de manobrar agentes duplos tais como Popescu, Grosz e Schulz, apelando para o seu sentimentalis mo, a sua ganância e, acaso os tivessem, os seus princípios.

Alguns dos correios eram idealistas e trabalhavam por premissas firmes. Sedlacek, que no final de 1942 andava fazendo perguntas sobre Schindler, era um deles. Tinha um bem-sucedido consultório dentário em Viena e, com quarenta e poucos anos, não necessitava estar transportando valises de fundo falso para a Polônia. Mas ali estava ele, com uma lista no bolso, uma lista que lhe viera de Istambul E o segundo nome mencionado era o de Oskar!

O que significava que alguém — Itzhak Stern, o comerciante Gin ter ou o Dr. Alexander Biberstein — tinha enviado o nome de Schindler para os sionistas na Palestina. Sem o saber, Herr Schindler havia sido nomeado para o posto de um justo.

O Dr. Sedlacek tinha um amigo na guarnição militar da Cracóvia, um seu cliente e conterrâneo vienense. Era o Major Franz Von Korab, da Wehrmacht. Na sua primeira noite em Cracóvía, o dentista encontrou-se com o Major Von Korab no Hotel Cracóvia para tomarem um drinque. Sedlacek tivera um dia melancólico; fora até o cinzento Vístula, donde avistara, na outra margem, o Podgórze, a fria fortaleza de ara me farpado e os altos muros construídos com lápides de sepulturas. Uma nuvem de opacidade fora do normal pairava sobre aquele gélido dia de inverno e uma chuva fina caía além do falso portão oriental, onde até os policiais pareciam míseras criaturas. Depois daquela vi são, foi com alívio que ele se dirigiu para o hotel, a fim de encontrar-se com Von Korab.

Nos subúrbios de Viena, sempre haviam circulado rumores de que Von Korab tinha uma avó judia. Clientes do dentista mencionavam isso ocasionalmente — no Reich, comentários sobre a genealogia das pessoas eram tão comuns quanto falar sobre o tempo. Em meio a ro dadas de bebidas, especulava-se muito seriamente se era verdade que a avó de Reinhard Heydrich tinha-se casado com um judeu chamado Suss. Certa vez, contra todas as precauções de bom senso, devido à amizade entre os dois, Von Korab confessara a Sedlacek que, no seu caso, o boato era verdadeiro. A confissão fora uma prova de confiança, que agora não haveria perigo em corresponder. Assim, Sedlacek perguntou ao major sobre os nomes na lista de Istambul. A menção do nome de Schindler, Von Korab respondeu com uma risada indulgente. Conhecia Herr Schindler, já jantara com ele. Fisicamente, era um magnífico tipo de homem, informou o major, e ganhava rios de dinheiro. Muito mais esperto do que fingia ser. Podia telefonar imediatamente a Schindler e marcar uma entrevista com ele.

Às dez horas da manhã seguinte, eles entraram no escritório da Emalia. Schindler recebeu polidamente Sedlacek, mas observou o Major Von Korab, estranhando a confiança dele no dentista. Após algum tempo, Oskar mostrou-se mais amistoso com o estranho e o major se desculpou por não poder ficar para o café.

— Muito bem — disse Sedlacek, depois da partida de Von Ko rab. — Vou lhe dizer exatamente o motivo de eu estar aqui.

Não mencionou o dinheiro que trouxera consigo, nem a probabilidade de, no futuro, serem entregues a contatos de confiança na Polônia pequenas fortunas provenientes das reservas do Comitê Judaico de Partilha. O que o dentista queria saber, independente de qualquer fator financeiro, era o que Herr Schindler sabia e pensava sobre a guerra contra o povo judeu na Polônia.

Uma vez formulada a pergunta de Sedlacek, Schindler hesitou. Durante um instante, Sedlacek pensou que a pergunta iria ficar sem resposta. Em fase de expansão, a oficina de Schindler empregava 550 judeus alugados pela SS. A Inspetoria de Armamentos garantia a um homem como Schindler uma continuidade de contratos substanciais; e a SS prometia-lhe, por uma diária de apenas 7.50 reichmarks por pessoa, uma continuidade de escravos. Não seria surpreendente se ele se recostasse na poltrona estofada de couro e afetasse ignorância.

Existe um problema, Herr Sedlacek — retorquiu ele. — Seguinte: o que eles estão fazendo com o povo judeu neste país é inacreditável.

Está querendo dizer — perguntou o Dr. Sedlacek — que re ceia que os meus superiores não acreditem na sua palavra?

Eu mesmo mal posso acreditar — disse Schindler; levantando se, foi até o aparador de bebidas, serviu duas doses de conhaque e es tendeu uma ao Dr. Sedlacek. Depois de franzir a testa para uma fatura que apanhara em cima de sua mesa, dirigiu-se para a porta na ponta dos pés e escancarou-a bruscamente, como para apanhar em flagrante algum bisbilhoteiro. Ficou um instante parado na soleira da porta. Se dlacek ouviu-o, então, falar calmamente em polonês com sua secretária a respeito da fatura. Momentos depois, fechando a porta, ele voltou para junto de Sedlacek, sentou-se na sua poltrona detrás da mesa e, após um prolongado gole de conhaque, começou a falar.

Até mesmo na pequena célula de Sedlacek, seu clube vienense antinazista, não se imaginava que a perseguição aos judeus tornara-se tão sistemática. Não somente a história que Schindler lhe contava era as sustadoramente primária em termos morais, como lhe pediam que acre ditasse que, em meio de uma batalha desesperada, os nacionalsocialistas empregavam milhares de homens, os recursos de preciosas estradas de ferro, técnicas de engenharia dispendiosas, uma parcela fatídica dos seus cientistas e pesquisadores, uma vasta burocracia, arsenais inteiros de armas automáticas, uma profusão de depósitos de munições, todo esse potencial para um extermínio, que não tinha nenhum objetivo militar ou econômico mas um mero objetivo psicológico. Dr. Sedlacek tinha esperado apenas histórias de horror — fome, restrições econômicas, pogroms violentos em uma ou outra cidade, violações de propriedade — todas as arbitrariedades historicamente habituais.

O sumário de Oskar dos eventos na Polônia convenceu Sedlacek precisamente por causa do tipo de homem que era o seu informante: um homem que tinha ganho muitos lucros na ocupação abancado no centro de sua própria colméia, com um copo de conhaque na mão. Apresentava ao mesmo tempo uma impressionante superfície calma e uma cólera fundamental. Era como um homem que, para seu pesar, descobre que é impossível deixar de acreditar no pior. Narrava os fatos sobriamente, sem nenhuma tendência ao exagero.

—   Se eu puder conseguir-lhe um visto — disse Sedlacek —, está disposto a ir a Budapeste relatar aos meus superiores e a outros o que acaba de me contar?

Schindler pareceu momentaneamente surpreendido.

—   Pode escrever um relatório, Herr Sedlacek — disse ele. —

Certamente já ouviu de outras fontes a espécie de fatos que lhe contei.

Sedlacek, porém, respondeu que não; tinha ouvido histórias individuais, detalhes de um ou outro incidente. Mas nenhuma descrição global.

Venha a Budapeste — insistiu Sedlacek. — Mas devo avisá-lo de que não será uma viagem confortável.

Está querendo dizer que tenho de atravessar a fronteira a pé?

Não, não será tão ruim assim — disse o dentista. — Mas tal vez tenha de viajar num trem de carga.

Eu irei — declarou Oskar Schindler.

O Dr. Sedlacek perguntou sobre os outros nomes da lista de Istambul. No alto da lista, por exemplo, figurava um dentista de Cracóvia. Dentistas eram sempre contatos fáceis, explicou Sedlacek, já que não havia ninguém no mundo que não tivesse pelo menos uma cárie bona fide.

—   Não — avisou Herr Schindler —, não procure esse homem. Ele está comprometido com a SS.

Antes de partir de Cracóvia e retornar ao Sr. Springmann em Budapeste, o Dr. Sedlacek teve outro encontro com Oskar. No gabinete da DEF, ele lhe entregou quase todo o dinheiro que Springmann o encarregara de levar para a Polônia. Havia sempre um risco, em vista da tendência hedonista de Schindler, de que ele gastasse a quantia em jóias no mercado negro. Mas nem Springmann nem Istambul pediam quaisquer garantias. Ser-lhes-ia de todo impossível desempenhar o papel de inspetores.

É preciso dizer que Oskar se portou impecavelmente e entregou o dinheiro aos seus contatos na comunidade judaica, para que o usas sem de acordo com o que julgassem conveniente.

Mordecai Wulkan que, como a Sra. Dresner, iria mais tarde conhecer Herr Schindler, era joalheiro por profissão. Agora, no final do ano, ele foi visitado em sua casa por um dos OD políticos de Spira. Não se tratava de nenhum problema, explicou o OD. Sem dúvida, Wulkan tinha uma ficha na polícia. Um ano antes, o OD o apanhara vendendo dinheiro em espécie no mercado negro. Quando ele se recusara a trabalhar como agente do Escritório de Controle da Moeda, tinha sido espancado pelo SS, e a Sra. Wulkan tivera de ir procurar o Wachtmeister Beck na delegacia da polícia do gueto e pagar um suborno pa ra seu marido ser solto.

No mês de junho desse ano, ele tinha sido preso, devendo ser trans portado para Belzek; mas um OD seu conhecido conseguira retirá-lo do pátio da Optima. Como se vê, havia sionistas na OD, por menores que fossem as suas chances de vir um dia a conhecer Jerusalém.

O OD que o visitou dessa vez não era de forma alguma um sionista. Disse a Wulkan que a SS necessitava urgentemente de quatro joalheiros. Tinham dado a Symche Spira três horas para encontrá-los. Dessa maneira Herzog, Friedner, Grüner e Wulkan, quatro joalheiros, haviam sido levados à delegacia da OD no gueto e posteriormente encaminhados à antiga Academia Técnica, agora um armazém para o Escritório Central de Economia e Administração da SS.

Era óbvio a Wulkan, ao entrar na Academia, que havia lá um forte esquema de segurança. Em cada porta estava postado um guarda. No saguão do prédio, um oficial da SS informou aos quatro joalheiros que, se revelassem a alguém o que tinham vindo fazer ali, seriam mandados para um campo de trabalhos forçados. Acrescentou que eles deviam trazer consigo todos os dias os seus estojos de classificação de diamantes, seus equipamentos para avaliar o quilate de ouro.

Os quatro joalheiros foram conduzidos ao porão. Ao redor, nas pa redes, havia prateleiras repletas de malas e pilhas enormes de pastas, cada qual com um nome cuidadosa e futilmente marcado pelo seu ex-dono. Debaixo das janelas altas alinhavam-se caixotes de madeira. Quando os quatro joalheiros se agacharam no chão, dois homens da SS apanharam uma mala, carregaram-na com dificuldade até o meio do porão e a es vaziaram aos pés de Herzog. Depois foram buscar outra na prateleira e despejaram o conteúdo diante de Grüner. Trouxeram uma cascata de ouro para Friedner, e depois para Wulkan. Era ouro velho — anéis, broches, braceletes, berloques, lorgnettes, piteiras. Os joalheiros teriam que classificar o ouro, separar os folheados dos maciços. Diamantes e pérolas seriam avaliados. Eles deviam classificar tudo, de acordo com o valor, o peso e o quilate, em montes separados.

A principio eles sopesaram as peças com hesitação, mas depois puseram-se a trabalhar com mais rapidez, como profissionais competentes que eram. A medida que se formavam as pilhas de ouro e pedra rias, os SS colocavam o material em determinados caixotes. Cada vez que acabavam de encher um caixote, escreviam nele com tinta preta — SS REICHSFÜHRER BERLIN. O SS Reichsführer era o próprio Himmler, em cujo nome eram depositados no Reichsbank os bens confiscados. Havia uma profusão de anéis de crianças, e os joalheiros tinham de manter um frio controle racional para não pensar nos ex-donos infantis. Só uma vez se deixaram perturbar: quando os SS abriram uma valise e de dentro dela caiu um dente de ouro ainda sujo de sangue. Ali, numa pilha junto aos joelhos de Wulkan, estavam representadas as bocas de mil mortos, cada uma parecendo clamar para que o joalheiro se revoltasse, se pusesse de pé, atirasse para longe seus instrumentos de trabalho e denunciasse a origem odiosa de todas aquelas preciosidades. Então, depois de uma pausa, Herzog e Grüner, Wulkan e Friedner recomeçaram a sua tarefa, conscientes agora, natural mente, do valor radioso do ouro, que porventura houvesse em suas bocas, e temendo que a SS resolvesse fazer uma sondagem nesse sentido.

Durante seis semanas eles trabalharam na classificação dos tesouros da Academia Técnica. Depois de terminado o trabalho, foram levados para uma garagem em desuso, convertida em um depósito de prataria. Os poços de lubrificação estavam cheios até a borda de prata maciça — anéis, berloques, bandejas da Páscoa, balanças yad, peitorais, coroas, candelabros. Separaram a prata maciça da folheada; pesaram tudo. O oficial da SS encarregado queixou-se de que alguns daqueles objetos eram de acondicionamento difícil. Mordecai Wulkan sugeriu que talvez fosse conveniente fundi-los. Pareceu a Wulkan, embora ele não fosse um homem piedoso, que de certo modo seria melhor, um pequeno triunfo, se o Reich herdasse prata de onde houvesse sido removida a sua forma judaica. Mas, por alguma razão, o oficial SS não aceitou a idéia. Talvez os objetos se destinassem a algum museu didático no Reich. Ou talvez o SS apreciasse a beleza artística da prataria das sinagogas.

Quando terminou esse trabalho de avaliação, Wulkan de novo se viu desempregado. Tinha de sair regularmente do gueto a fim de arranjar comida suficiente para sua família, especialmente para sua filha que sofria de bronquite. Trabalhou algum tempo numa fundição em Kazimierz, e ali ficou conhecendo o Oberscharführer Gola, um SS moderado. Gola arranjou-lhe um emprego como encarregado da manutenção na caserna da SA perto de Wawel. Quando Wulkan entrou no rancho com suas ferramentas, viu acima da porta a inscrição: FÜR JUDEN UND HUNDE EINTR/TT VERBOTEN (Entrada Proibida a Judeus e Cães). Esse letreiro, e mais os cem mil dentes avaliados na Academia Técnica, convenceram-no de que, no final, a libertação não poderia vir do favor displicente do Oberscharführer. Gola bebia naquele recinto, sem sequer notar o letreiro; tampouco notaria a ausên cia da família Wulkan no dia em que eles fossem levados para Belzec ou algum outro lugar de igual eficiência. Portanto, Wulkan, como a Sra. Dresner e uns quinze mil outros habitantes do gueto, sabiam que precisavam mesmo era de uma libertação especial e estrondosa. Mas, nem por um momento, acreditavam que essa libertação viria.

 

Dr. Sedlacek tinha avisado que a viagem seria desconfortável, e assim foi. Oskar viajou agasalhado num bom sobretudo, com uma valise e uma sacola cheia de vários confortos que, no de correr da viagem, provaram ser-lhe de grande utilidade. Ainda que estivesse com os devidos documentos para viajar, não queria ter de usá-los. Tinha chegado à conclusão de que, se não tivesse de apresentá los na fronteira, sempre poderia negar que naquele dezembro tinha viajado para a Hungria.

Fez a viagem num caminhão fechado, cheio de pacotes do jornal do Partido, Völkischer Beobachter, para distribuição na Hungria. Trancado com o cheiro da tinta de impressão e em meio das pesadas letras góticas do jornal oficial da Alemanha, seguiu aos solavancos pelas montanhas cobertas de neve da Eslováquia, cruzando depois a fronteira húngara e descendo para o vale do Danúbio.

Fora feita uma reserva para ele no Hotel Pannonia, perto da Universidade. Na tarde de sua chegada, o franzino Samu Springmann e seu companheiro, Dr. Rezso Kastner, foram vê-lo. Os dois homens, que subiram ao andar de Schindler pelo elevador, tinham ouvido fragmentos de notícias trazidas por refugiados. Mas refugiados não podiam fornecer muitas informações. O fato de terem evitado a ameaça significava que pouco sabiam de sua geografia, seu funcionamento in terno, quantas pessoas haviam sido atingidas. Kastner e Springmann estavam ansiosos por informações, pois — a se acreditar em Sedlacek — o alemão Sudeten lá em cima ia poder dar-lhes o mapa todo, o primeiro relatório completo do descalabro polonês.

No quarto, as apresentações foram breves, pois Springmann e Kastner tinham vindo ali para ouvir e podiam notar que Schindler estava ansioso por falar. Nenhuma providência foi tomada, naquela cidade obcecada por café, para formalizar o encontro, telefonando ao serviço de copa para mandar servir no quarto café e bolos. Kastner e Spring mann, depois de trocarem um aperto de mão com o enorme alemão, sentaram-se. Mas Schindler pôs-se a andar de um lado para outro. Parecia que longe de Cracóvia e das realidades do Aktion e do gueto o que sabia perturbava-o mais do que na ocasião em que contara rapidamente as ocorrências a Sedlacek. Estava agitado. No quarto do andar abaixo poderiam ouvir suas passadas — o lustre teria tremido quando ele batia o pé, demonstrando a ação do SS, que comandara o pelotão de fuzilamento na Rua Krakusa, o que tinha retido com a bota a cabeça de sua vítima, em plena vista da garotinha de vermelho no final da fila.

Começou sua narrativa com imagens pessoais das crueldades assistidas por ele em Cracóvia, o que testemunhara nas ruas ou ouvira de ambos os lados do muro, as palavras dos judeus e da SS. Naquela conexão, informou ele, estava trazendo cartas de habitantes do gueto, do médico Chaim Hilfstein, do Dr. Leon Salpeter, de Itzhak Stern. A carta do Dr. Hilfstein era um informe sobre a fome.

— Quando desaparece a gordura do corpo — disse Oskar — o cérebro começa a ser destruído.

Os guetos, contou ele, estavam sendo torturados. E o que acontecia em Cracóvia estava acontecendo também em Varsóvia e Lodz. A população do gueto de Varsóvia fora reduzida em quatro quintos. Lodz em dois terços, Cracóvia à metade. Onde estavam as pessoas que tinham sido transferidas? Algumas se achavam em campos de trabalhos forçados; mas os cavalheiros ali presentes tinham de aceitar o fato de que, pelo menos três quintos dessas pessoas haviam desaparecido em campos, que agora utilizavam novos métodos científicos. Tais campos não eram incomuns. A SS tinha até um nome oficial para eles — Ver nichtungslager — Campo de Extermínio.

Naquelas últimas semanas, informou Oskar, uns 2.000 habitantes do gueto de Cracóvia tinham sido reunidos e enviados não para as câmaras de Belzec, mas para campos de trabalhos forçados nas cercanias da cidade. Um campo ficava em Wieliczka, outro em Prokocim, ambos com estações ferroviárias da linha Ostbahn, que corria para a fronteira russa. De Wieliczka e Prokocim, os prisioneiros marchavam todos os dias para um local na aldeia de Plaszóvia, na periferia da cidade, onde estavam sendo preparadas as fundações para um vasto campo de trabalho. A vida em tal campo, explicou Schindler, não ia ser das mais aprazíveis — as casernas de Wieliczka e Prokocim estavam sob o comando de um NCO SS chamado Horst Pilarzik, que adquirira notável reputação, em junho do ano anterior, quando ajudara a ex pulsar do gueto cerca de 7.000 pessoas, das quais apenas uma, um farmacêutico, tinha retornado. O campo em construção em Plaszóvia estaria sob as ordens de um homem do mesmo calibre. O que havia a favor dos campos de trabalho era que lhes faltava o aparato técnico para o genocídio metódico. Havia um critério lógico com relação a tais campos: havia razões econômicas para existirem — prisioneiros de Wieliczka e Prokocim eram levados todos os dias para ali trabalharem em vários projetos. Wieliczka, Prokocim e o campo em construção em Plaszóvia estavam sob o controle dos chefes de polícia de Cracóvia, Julian Schemer e Rolf Czurda; ao passo que os Vernichtungslagers eram dirigidos pelo Escritório Central de Administração e Economia em Ora-nienburg, perto de Berlim. Os Vernichtungslagers usavam também pessoas vivas por algum tempo, para mão-de-obra, mas a sua indústria principal era a morte e seus subprodutos — a reciclagem de roupas, das jóias e óculos que restassem, de brinquedos e até da pele e cabelo dos mortos.

Em meio às suas explicações sobre a distinção entre campo de extermínio e os de trabalhos forçados, Schindler de repente adiantou-se para a porta, escancarou-a e olhou para um e outro lado do corredor deserto.

—   Conheço a reputação de bisbilhotice desta cidade — explicou ele.

O franzino Springmann levantou-se e foi ter com Oskar.

—   O Pannonia não oferece tanto perigo — ponderou ele em voz baixa. — O ninho da Gestapo é o Victoria Hotel.

Schindler examinou mais uma vez o corredor, fechou a porta e foi postar-se junto às janelas, onde continuou seu macabro relatório. Os campos de trabalhos forçados seriam dirigidos por homens nomeados devido à sua severidade e eficiência na limpeza dos guetos. Haveria assassinatos e espancamentos esporádicos e certamente corrupções envolvendo alimentos; em conseqüência, rações menores para os prisioneiros. Mas isso era preferível à morte certa dos Vernichtungslagers. Os que estavam em campo de trabalho podiam ter acesso a alguns confortos extras e havia a chance de serem levados para fora, contrabandeados para a Hungria.

Esses SS são tão venais quanto qualquer outra força policial? — perguntou um dos dois membros do comitê de salvamento de Budapeste.

Minha experiência pessoal — retorquiu Oskar — diz que não há um só deles que não possa ser corrompido.

Quando Oskar terminou, fez-se, naturalmente, um longo silêncio

Kastner e Springmann não se espantavam facilmente. Tinham passa do a vida inteira sob a intimidação da Polícia Secreta. Suas presentes atividades eram vagamente vigiadas pela polícia húngara, que os deixava em paz somente por causa dos contatos e subornos de Samu, e ao mesmo tempo menosprezados pelos cidadãos judeus respeitáveis. Samuel Stern, por exemplo, presidente do Conselho Judaico, membro do Senado húngaro, iria desconsiderar o relatório feito por Oskar Schindler nessa tarde como uma fantasia perniciosa, um insulto à cultura alemã, um acinte às intenções do Governo húngaro. Aqueles dois estavam habituados a ouvir o pior.

Não era tanto o fato de que Kastner e Springmann estivessem acovardados com o testemunho de Oskar, mas suas mentes estavam fazendo cálculos dolorosos. Os recursos que possuíam pareciam diminutos, agora que sabiam o que tinham pela frente — não apenas um previsível gigante filistino mas o próprio Beemonte. Talvez já estivessem cogitando que, além das barganhas individuais — um pouco mais de alimentos para este campo, providências para salvar este ou aquele intelectual, um suborno para abrandar o ardor profissional de determinado SS —, um esquema muito mais amplo de salvamento te ria de ser executado por um preço astronômico.

Schindler atirou-se numa poltrona. Samu Sprigmann olhou para o industrial exausto. Disse-lhe, então, que ambos estavam extremamente impressionados com ele. Evidentemente, iam mandar um relatório pa ra Istambul a respeito de tudo o que Oskar contara. O relatório seria usado para impulsionar os sionistas palestinos e o Comitê de Distribuição a tomar providências mais drásticas. Ao mesmo tempo seria transmitido aos governos de Churchill e Roosevelt. Springmann disse que Oskar tinha razão de se preocupar a respeito de as pessoas não acreditarem em suas palavras, pois a realidade era inacreditável.

—   Portanto — disse Samu Springmann — insisto para que vá a Istambul e fale diretamente com as pessoas de lá.

Após alguma hesitação — enquanto considerava os seus negócios na fábrica e os perigos de cruzar tantas fronteiras —, Schindler concordou.

—   Mais para o final do ano — sugeriu Springmann. — Entre mentes, quero que mantenha contatos regulares com o Dr. Sedlacek em Cracóvia. — Os três levantaram-se; Oskar pôde ver que eles agora eram homens mudados. Agradeceram-lhe e saíram, tornando-se simplesmente, ao deixar o hotel, dois pensativos profissionais de Budapeste, que tinham tido informações de má gerência em seus negócios.

Nessa noite, Dr. Sedlacek foi buscar Oskar no hotel e conduziu-o pelas ruas movimentadas para jantar no Hotel Gellert. Da sua mesa, eles podiam ver o Danúbio, suas barcaças iluminadas, a cidade cintilando do outro lado das águas. Era como uma cidade de antes da guerra e Schindler de novo começou a sentir-se como um turista. Depois de sua temperança da tarde, ele sorveu o denso vinho tinto húngaro chamado Sangue de Touro, com lenta, obstinada sede, e encarreirou uma fileira de garrafas vazias sobre a mesa.

Quando estavam no meio do jantar, veio ter com eles um jornalista austríaco, Dr. Schmidt, que se fizera acompanhar de sua amante, uma linda húngara loura. Schindler elogiou as jóias da moça e disse-lhe que também ele era grande apreciador de pedras preciosas. Mas na hora do conhaque de abricó, Schindler tornou-se menos amistoso. Calado, de testa franzida, ele ouvia Schmidt discorrer sobre preços de imóveis e falar de carros e corridas de cavalo. A moça parecia fascina da com a conversa do amante, já que estava usando no pescoço e nos pulsos os resultados dos seus golpes financeiros. Mas era óbvia a inesperada desaprovação de Oskar. Intimamente, o Dr. Sedlacek estava achando graça na reação; talvez Oskar estivesse vendo o episódio co mo vendo um reflexo de sua própria ambição, de sua tendência a tirar vantagem das situações.

Quando terminou o jantar, Schmidt e a moça saíram para alguma boate e Sedlacek tratou de levar Oskar para outro local de diversão. Os dois sentaram-se a uma mesa e assistiam ao show, enquanto bebiam grande quantidade de barack.

Esse Schmidt — começou Schindler, querendo esclarecer a questão. — Vocês o utilizam? Sim.

Acho que não deviam usar homens como ele — advertiu Oskar. — Trata-se de um ladrão. Dr. Sedlacek virou o rosto para disfarçar um meio sorriso.

Como pode ter a certeza de que ele entrega o dinheiro que lhe é confiado? — perguntou Oskar.

Deixamos que ele fique com uma percentagem — respondeu Dr. Sedlacek.

Oskar pensou meio minuto; depois murmurou:

Não quero nenhuma maldita percentagem. Não quero nem que me seja oferecida.

Muito bem — disse Sedlacek.

Agora vamos prestar atenção ao show — sugeriu Oskar.

 

EnquantoOskar Schindler voltava, de Budapeste, onde predisse ra que o gueto seria fechado, um Untersturmführer chamado Amon Goeth estava a caminho de Lublin para realizar aquela liquidação e assumir o comando do resultante Campo de Trabalhos Forçados (Zwangsarbeitslager) em Plaszóvía. Goeth era uns oito meses mais moço do que Schindler mas partilhava com ele mais do que meramente o ano do nascimento. Como Oskar, ele tinha sido criado na religião católica e só em 1938 deixara de observar os ritos da Igreja, quando o seu primeiro casamento resultará numa separação. Como Oskar, tinha-se formado no Realgymnasium — engenharia, física, matemática. Portanto, tratando-se de um homem prático, não era um pensador, embora se considerasse um filósofo.

Nascido em Viena, ele tinha ingressado cedo, em 1930, no Parti do Nacionalsocialista. Quando, em 1933, a preocupada República Austríaca baniu o partido, Goeth já era membro da Força de Segurança da SS. Proibido de atuar, ele surgira nas ruas de Viena após o Anschlussde 1938 fardado de um oficial subalterno da SS. Em 1940, fora promovido ao posto de Oberscharführer e em 1941 alcançou a honra de um posto comissionado, muito mais difícil de se conseguir na SS do que nas unidades da Wehrmacht. Depois de um treinamento em lática de infantaria, fora encarregado de comandar os Sonderkommandos durante Aktionen no populoso gueto de Lublin e, devido à sua atua ção, conquistado o direito de liquidar Cracóvia.

Assim, o Untersturmführer Amon Goeth, viajando no velho trem especial da Wehrmacht entre Lublin e Cracóvia, a fim de assumir o comando dos bem-treinados Sonderkommandos, assemelhava-se a Os kar, não apenas quanto ao ano de nascimento, à religião, ao apreço pela bebida mas também ao físico imponente. A fisionomia de Goeth era aberta e afável, um pouco mais alongada do que a de Schindler. Suas mãos, embora grandes e musculosas, tinham dedos afilados. Era sentimental com referência aos filhos do seu segundo casamento, os quais, devido estar prestando serviços no estrangeiro, não vira com mui ta freqüência nos últimos três anos. Como para se compensar, às vezes dava atenção aos filhos de oficiais seus colegas. Podia ser também um amante sentimental, mas, embora se assemelhasse a Oskar em termos de sôfrego apetite sexual, seus gostos eram menos convencionais, às vezes se manifestando com relação a colegas seus, e freqüentemente se satisfazendo em espancar mulheres. Suas duas ex-esposas poderiam ter testemunhado que uma vez esmorecido o calor da paixão, ele podia tornar-se fisicamente abusivo. Considerava a si mesmo um homem sensível e julgava que a profissão de seus parentes explicava essa tendência. O pai e o avô tinham sido impressores e encadernadores de livros sobre história econômica e militar e Goeth gostava de identificar-se em documentos oficiais como literaf. um homem de letras. E ainda que, naquele momento, ele teria dito que estava ansioso por assumir o controle da operação de liquidação — que essa era a grande chance da sua carreira, provavelmente com a promessa de uma promoção —, seu serviço em Ações Especiais parecia-lhe ter alterado o curso das suas energias. Havia dois anos que sofria de insônia e, quando lhe era possível, ficava acordado até três ou quatro horas da madrugada e dor mia até tarde na manhã seguinte. Passara a beber desordenadamente e acreditava possuir uma capacidade para ingerir bebidas, que não tivera em sua juventude. E de novo, como Oskar, não sofria as ressacas que merecia, atribuindo isso ao bom funcionamento de seus rins.

Sua comissão, confiando-lhe a tarefa de extinção do gueto e co mando do campo de Plaszóvia, era datada de 12 de fevereiro de 1943. Mas esperava que, depois de se consultar com os NCO seus superiores, com Wilhelm Kunde, comandante do destacamento da SS para o gueto, e com Willi Haase, representante de Scherner, seria possível começar a limpeza do gueto dentro de um mês após a data de sua designação para aquelas funções.

O Comandante Goeth foi recebido na Estação Central de Cracóvia pelo próprio Kunde e por um rapaz alto da SS, Horst Pilarzik, que estava temporariamente encarregado dos campos de trabalho em Prokocim e Wieliczka. Os três se instalaram no banco traseiro de um Mercedes e foram levados para uma inspeção do gueto e do local do novo campo. Era um dia de frio intenso, e a neve começou a cair, quando eles cruzaram a ponte do Vístula. O Untersturmführer Goeth gostou do trago de schnapps que Pilarzik lhe ofereceu de um frasco que carregava no bolso. Atravessaram o falso portão oriental e seguiram pelo trilho de bondes da Rua Lwówska, que cortava o gueto em duas gélidas porções. O garboso Kunde, que fora agente alfandegário na vida civil e estava capacitado a prestar informações aos seus superiores, fez um esclarecido sumário do gueto. O trecho à esquerda era o Gueto B. Seus habitantes, cerca de uns 2.000, tinham conseguido escapar de Aktionen anteriores ou em períodos precedentes já trabalhavam em indústria. Mas, desde então, haviam sido emitidas novas carteiras de identidade, com iniciais adequadas — W para empregados no Exército, Z para empregados de autoridades civis, ou R para trabalhadores de indústrias essenciais. Os habitantes do Gueto B não tinham recebi do essas novas carteiras e deviam ser enviados para Sonderbehandlung (Tratamento Especial). Quanto à limpeza do gueto, seria preferível começar por aquele setor, embora essa decisão tática dependesse inteira mente de Herr Commandant.

A maior área do gueto ficava à direita e ainda era habitada por umas 10 mil pessoas. Essas seriam, naturalmente, a força de trabalho inicial para as fábricas do campo de Plaszóvia. Esperava-se que os empresários e supervisores alemães — Bosch, Madritsch, Beckmann e o Sudetenlander Oskar Schindler — iriam querer transferir todas as suas indústrias, ou uma boa parte delas, para dentro do campo. Havia também uma fábrica de cabos condutores a pouco menos de um quilômetro do campo em perspectiva, havendo possibilidade de os trabalhadores serem levados e trazidos de volta todos os dias.

Estaria Herr Commandant, perguntou Kunde, disposto a ir uns poucos quilômetros mais adiante e inspecionar o próprio local do campo?

Ah, sim, tinha replicado Amon, achava aconselhável uma inspeção.

Portanto, seguiram pela rodovia, onde o pátio da fábrica de cabos, com seus gigantescos carretéis cobertos de neve, marcava o começo da Rua Jerozolimska. Amon Goeth entreviu uns poucos grupos de mulheres curvadas e envoltas em xales, arrastando segmentos de caba nas — um painel de parede, um pedaço de beirai — pela Rua Jerozo limska acima na direção oposta à estação ferroviária de Cracóvía-PIaszóvia. Eram mulheres do campo de Prokocim, explicou Pilarzik. Quando o campo de Plaszóvia estivesse pronto, Prokocim seria naturalmente dispersado e aquelas trabalhadoras ficariam sob a gerência do Herr Commandant.

Goeth calculou a distância que as mulheres teriam de percorrer, carregando os segmentos, em uns três quartos de quilômetro.

— Tudo em ladeira — disse Kunde, abanando a cabeça, como que querendo dizer que era uma forma satisfatória de disciplina, porém atrasava a construção.

O campo ia precisar de um ramal de estrada de ferro, concluiu o Untersturmführer Goeth. Falaria sobre essa necessidade com o Ostbahn.

Depois passaram, à direita, por uma sinagoga e suas construções mortuárias, e um muro meio ruído deixava ver túmulos, como dentes cruelmente expostos na boca do inverno. Parte do local fora até aquele mês um cemitério judaico.

Muito extenso — observou Wilhelm Kunde. O Herr Commandant soltou uma piada, que repetiria durante sua residência em Plaszóvia:

Eles não precisarão ir muito longe para serem enterrados.

Havia à direita uma casa, que poderia servir como moradia temporária para o comandante, e também um grande prédio novo que poderia ser um centro de administração. O mortuário da sinagoga, já parcialmente dinamitado, se tornaria o estábulo do campo. Kunde fez notar que as duas pedreiras dentro da área podiam ser avistadas dali. Uma ficava no fundo do pequeno vale, a outra na encosta do monte atrás da sinagoga. O comandante podia avistar os trilhos sendo estendidos para as carretas, que seriam usadas no transporte de pedras. Quando o tempo melhorasse, a construção da linha iria prosseguir.

O carro levou-os à extremidade sudeste do campo em perspectiva e, por uma trilha mal perceptível na neve, que terminava onde antes existira uma trincheira militar austríaca, chegaram a um outeiro circu lar em torno de uma larga e profunda reentrância. Para um artilheiro teria parecido um importante baluarte, donde um canhão podia fazer mira para fogo de enfiada na fronteira russa. Ao Untersturmführer Goeth parecia um local adequado para castigos disciplinares.

Dali de cima, a área do campo podia ser avistada em toda a sua extensão. Era uma área rural, ornamentada pelo cemitério judaico e situada entre dois morros. Naquele período do inverno, para o observador no outeiro, era como duas páginas de um imenso livro em branco aberto. Uma habitação campestre de pedra cinzenta ficava encravada na entrada para o vale e, mais adiante, ao longo de uma encosta e entre umas poucas casernas já construídas, moviam-se grupos de mulheres, negros como agrupamentos de notas musicais, na estranha luminescência da neve ao crepúsculo. Emergindo das vielas gélidas adiante da Rua Jerozolimska, elas avançavam, penosamente acossadas pelos guardas ucranianos, e deixavam cair seus fardos onde os engenheiros SS, de chapéu-melão e roupas civis, as ordenavam.

O Untersturmführer Goeth observou que o ritmo de trabalho das mulheres era limitado. Evidentemente, o pessoal do gueto não podia ser transferido para lá antes de serem erguidas as casernas e termina das as cercas e torres de vigia. Aos seus companheiros, ele disse confidencialmente que nada tinha a reparar a respeito do ritmo de trabalho dos prisioneiros no morro mais distante. Na verdade, estava intima mente impressionado que, no final de um dia tão cruelmente frio, os SS e ucranianos naquele morro não permitissem que o pensamento da ceia num abrigo quente esmorecesse suas atividades.

Horst Pilarzik assegurou a Goeth que os trabalhos estavam mais adiantados do que pareciam: trechos tinham sido aplainados, fundações cavadas apesar do frio e uma grande quantidade de seções pré-fabricadas já haviam sido transportadas da estação ferroviária. Herr Untersturmführer iria poder se entrevistar com os empresários no dia seguinte — já estava providenciada uma reunião para as dez horas da manhã. Mas a associação de métodos modernos com a farta mão-de-obra significava que o campo poderia ficar pronto quase do dia para a noite, se as condições do tempo o permitissem.

Pilarzik parecia acreditar que Goeth estava em grave perigo de desmoralização. Na realidade, Amon sentia-se muito satisfeito. Pelo que via agora, podia visualizar o acabamento final do campo. Tampouco estava preocupado com cercas. As cercas seriam um conforto moral para os prisioneiros mais do que uma precaução essencial. Pois, uma vez que fosse aplicado ao gueto de Podgórze o processo de liquidação da SS, os judeus ficariam gratos pelas casernas de Plaszóvia. Mesmo os que possuíam documentos arianos se encaminhariam para dentro do campo, procurando um obscuro beliche sob os tetos cobertos de geada. Para a maioria deles, o arame farpado era necessário apenas como um apoio moral, para que pudessem assegurar a si mesmos de que eram prisioneiros contra a própria vontade.

A reunião com os donos de fábricas locais e os Treuhanders se realizou no gabinete de Julian Scherner, em Cracóvia, na manhã do dia seguinte. Amon Goeth chegou sorrindo fraternalmente e, com sua farda Waffen SS nova, feita sob medida para o seu corpo colossal, pareceu dominar a sala. Estava certo de que os auto-suficientes sucumbiriam ao seu charme. Ia convencer Bosch, Madritsch e Schindler a transferirem seus empregados judeus para dentro do campo. Além disso, uma investigação das capacidades disponíveis entre os habitantes do gueto o havia ajudado a se convencer de que Plaszóvia poderia tornar-se um excelente negócio. Havia joalheiros, estofadores, alfaiates, que pode riam ser usados para transações especiais sob a direção do comandante, executando encomendas para a SS, a Wehrmacht, a oficialidade alemã abastada. Haveria as oficinas de confecção de Madritsch, a fábrica de esmaltados de Schindler, uma metalúrgica, uma fábrica de es covas, uma oficina para reciclar uniformes da Wehrmacht usados, rasgados ou manchados na frente russa, uma outra oficina para reciclar roupas de judeus dos guetos e remetê-las para o uso de famílias despojadas pelos bombardeios na Alemanha. Sabia, por experiências anteriores com respeito a depósitos de jóias e peles da SS em Lublin — quando cada um dos seus superiores e ele próprio recebiam o seu quinhão —, que podia esperar uma boa percentagem para si mesmo nessas transações. Tinha chegado a um ponto de sua carreira, em que dever e oportunidade financeira coincidiam. Julian Scherner, o sociável chefe de polícia da SS, durante o jantar na noite anterior, tinha falado a Amon sobre a grande oportunidade que Plaszóvia podia representar tanto para o jovem oficial como para ele próprio.

Scherner abriu a reunião com os donos de fábricas. Falou solene mente sobre a "concentração de mão-de-obra", como se se tratasse de um grande princípio de economia recém-descoberto pela burocracia da SS. Os donos das fábricas disporiam de mão-de-obra in loco, disse Scherner. Toda a manutenção da fábrica não lhes custaria nada, nem haveria aluguel a pagar. Os cavalheiros estavam convidados a ir nessa tarde inspecionar os locais das oficinas no campo de Plaszóvia.

O novo comandante foi apresentado aos presentes. Disse estar satisfeito em se associar com os industriais, cujas valiosas contribuições para o esforço de guerra já eram bem conhecidas.

Amon indicou, num mapa da área do campo, a seção reservada para as fábricas. Era ao lado do campo dos homens; as mulheres — disse ele, com um sorriso muito charmoso — teriam de caminhar um pouco mais, uns cem ou duzentos metros pela encosta abaixo, para chegar às oficinas. Garantiu aos cavalheiros que a sua principal tarefa era supervisionar o bom funcionamento do campo e que não tinha in tenção alguma de interferir na gerência das fábricas ou alterar a autonomia de que gozavam em Cracóvia. As ordens que recebera, como o Oberführer Scherner poderia atestar, proibiam terminantemente aquela espécie de intrusão. Mas o Oberführer tinha sido correto ao apontar as vantagens mútuas de transportar uma indústria para dentro do perímetro do campo. Os donos das fábricas não teriam de pagar aluguel, e ele, o comandante, não teria de fornecer uma guarda para conduzir os prisioneiros até a cidade e trazê-los de volta. Os cavalheiros não podiam deixar de compreender que a extensão da caminhada e a hostilidade dos poloneses contra uma coluna de judeus iria desgastar a capacidade de trabalho dos prisioneiros.

Durante todo o seu discurso, o Comandante Goeth olhava freqüentemente para Madritsch e Schindler, os dois que ele desejava especial mente conquistar para o seu plano. Sabia que já podia contar com os conhecimentos locais e conselhos de Bosch. Herr Schindler, por exemplo, tinha uma seção de munições, pequena e ainda em estágio de desenvolvimento; porém, se fosse transferida, daria a Plaszóvia uma grande respeitabilidade junto à Inspetoria de Armamentos.

Herr Madritsch ouvia de testa franzida, e Herr Schindler observava o orador, com um meio sorriso de aquiescência. Instintivamente, o Comandante Goeth podia perceber, mesmo antes de terminar o seu discurso, que Madritsch seria razoável e aceitaria a mudança mas Schindler iria recusar. Era difícil julgar, por essas diferentes decisões, qual dos dois se sentia mais paternal com relação aos seus empregados judeus — Madritsch, que desejava ficar dentro de Plaszóvia com eles, ou Schindler, que queria conservá-los a seu lado na Emalia.

Oskar Schindler, com a mesma expressão de impaciente tolerância no rosto, foi com o grupo inspecionar o local. Plaszóvia tinha ago ra o aspecto de um campo de concentração — uma melhora nas condições de tempo permitira que as casernas fossem montadas; o degelo do solo tornara possível cavar as fossas das latrinas e fixar os postes. Uma companhia polonesa de construção tinha instalado quilômetros de cerca no perímetro do campo. Grossas torres de vigia iam sendo erigidas na direção de Cracóvia e também na entrada do vale do lado da Rua Wieliczka, na extremidade do campo; dali, do alto do morro a leste, o grupo oficial, à sombra das fortificações austríacas, observava o trabalho intenso daquela nova criação. Mais para a direita, Oskar notou que mulheres subiam penosamente por atalhos enlameados, arrastando pesadas seções de casernas. Abaixo, desde o fundo do vale e pela encosta acima no outro lado, as casernas eram montadas sobre plataformas por prisioneiros que erguiam paredes, aparafusavam, mar telavam com uma energia que, àquela distância, dava a impressão de que trabalhavam de boa vontade.

No trecho melhor, mais plano, do terreno, tinham sido erguidas compridas estruturas de madeira destinadas a ser ocupadas industrial mente. Pisos de cimento podiam ser preparados nos locais onde seria preciso instalar maquinaria pesada. A transferência de toda a maquinaria das fábricas seria efetuada pela SS. A estrada que servia a área era sem dúvida pouco mais do que um atalho, mas a administração já entrara em contato com a firma de engenharia Klug para a construção de uma rua central no campo, e a Ostbahn prometera fornecer um desvio até o próprio portão do campo e para a pedreira à direita. Pe dras das pedreiras e algumas, que Goeth chamava de "sepulturas desmontadas", do cemitério seriam quebradas para calçar outras ruas do campo. Os cavalheiros não teriam de se preocupar com os meios de acesso às fábricas, prometeu Goeth, pois pretendia manter permanentemente uma numerosa equipe de prisioneiros para trabalhar nas pedreiras e na construção das estradas.

Uma pequena ferrovia fora instalada para as carretas de transporte de pedras; partia da pedreira e passava pelo prédio da Administração, destinando-se às grandes casernas de pedra, que estavam sendo construídas para a SS e para a guarnição militar ucraniana. Carregamentos, que pesavam cada um seis toneladas, eram transportados por grupos de trinta e cinco a quarenta mulheres, que puxavam cabos instalados de cada lado das carretas para compensar a irregularidade dos trilhos. As que tropeçavam ou caíam eram pisadas ou empurradas pa ra fora do caminho, pois os grupos tinham o seu próprio impulso orgânico e ninguém podia abdicar individualmente do ritmo. Observando aquele esforço, que lembrava o trabalho de escravos no antigo Egito, Oskar sentiu a mesma onda de náusea, o mesmo formigamento no sangue que experimentara no alto da colina, descortinando a Rua Krakusa. Goeth presumira que os industriais não se deixariam abalar por aquela visão, que todos eram espiritualmente iguais a ele. Não o constrangia aquela labuta selvagem. A questão em mente era a mesma que na Rua Krakusa: O que podia constranger a SS? O que podia causar constrangimento a Amon?

A energia dos construtores das casernas tinha, mesmo para um observador bem-informado como Oskar, o aspecto ilusório de homens trabalhando duro para providenciar abrigo para suas mulheres. Mas embora Oskar ainda não soubesse, Amon procedera a uma execução sumária essa manhã diante daqueles homens, a fim de que agora ficas sem convencidos quanto aos termos em que estavam trabalhando. De pois do encontro de manhã cedo com os engenheiros, Amon descera a Rua Jerozolimska até a caserna da SS, onde os trabalhos estavam sob a supervisão de um excelente NCO, que logo seria promovido a oficial, chamado Albert Hujar. Este adiantara-se e fizera o seu relatório. Uma seção das fundações da caserna desabara, disse Hujar, com o sangue subindo-Ihe ao rosto. Ao mesmo tempo, Amon tinha notado uma moça andando ao redor da construção, falando com os trabalha dores, apontando, dirigindo. Quem era ela?, perguntou ele a Hujar. Uma prisioneira chamada Diana Reiter, respondeu Hujar, uma arqui teta, que fora destacada para a construção das casernas. Estava reclamando que as fundações não haviam sido corretamente cavadas e queria que todas as pedras e o cimento fossem arrancados e se recomeçasse a construção desde o início.

Goeth podia notar, pela vermelhidão do rosto de Hujar, que ele tinha tido uma dura discussão com a moça. A coisa chegara a ponto de Hujar berrar que ele estava construindo uma caserna "e não um hotel de luxo"!

Amon deu um meio sorriso a Hujar.

—   Não vamos ter discussões com essa gente — disse ele, como se fosse uma promessa. — Traga a moça aqui.

Amon podia ver, pela maneira com que ela se encaminhava em sua direção, a espúria elegância com que havia sido educada pela sua família de classe média, as maneiras européias de que fora imbuída, mandando-a — quando os honestos poloneses tinham recusado admiti-la em suas universidades — para Viena ou Milão, a fim de lhe dar uma profissão e uma coloração protetora. A moça dirigiu-se a Amon, co mo se ambos fossem da mesma categoria e isso os unisse na batalha contra o NCO imbecil e a inferior capacidade profissional de algum engenheiro da SS, que supervisionara a escavação das fundações. Não sabia que estava atiçando ainda mais o ódio de Amon por ser ela do tipo que, mesmo ante a evidência do seu uniforme da SS, julgava não ser visível a sua condição de judia.

—   Você teve ocasião de discutir com o Oberscharführer Hujar — disse-lhe Goeth, como que estabelecendo um fato. Ela concordou, com um firme gesto de cabeça. O gesto sugeria que Herr Commandanl devia compreender, embora o imbecil Hujar não fosse capaz de entender. Todas as fundações daquele lado tinham de ser refeitas, declarou ela em tom positivo. É claro que Amon sabia que "eles" eram assim mesmo, gostavam de acumular tarefas umas após outras, a fim de garantir a atividade constante da força de trabalho enquanto durasse o projeto. Se tudo não for refeito, concluíra ela, haveria pelo menos um afundamento na extremidade sul da caserna. Podia mesmo haver um desabamento.

A moça continuou argumentando; Amon concordava com a ca beça e presumia que ela devia estar mentindo. Era um princípio primordial que nunca se devia dar ouvidos a um técnico judeu. Técnicos judeus se baseavam no pensamento de Marx, cujas teorias visavam solapar a integridade do governo, e no de Freud, que atacara a integridade da mente ariana. Amon julgava que os argumentos da arquiteta ameaçavam a sua integridade.

Chamou Hujar. O NCO voltou, meio contrafeito. Pensou que o chefe ia mandá-lo fazer o que a moça tinha aconselhado. Ela pensou o mesmo.

—   Atire nela — ordenou Amon a Hujar. Houve, naturalmente, uma pausa enquanto Hujar digeria a ordem. — Atire nela! — repetiu Amon.

Hujar segurou a moça pelo cotovelo para levá-la a algum lugar apropriado para a execução.

— Aqui! — disse Amon. — Atire nela aqui! A mando meu! — berrou Amon.

Hujar sabia como a coisa devia ser feita. Agarrou a moça pelo cotovelo, empurrou-a um pouco para a frente, tirou a Mauser do coldre e deu-lhe um tiro na nuca.

O ruído apavorou todos os presentes, exceto — ao que parecia — os executores e a moribunda Diana Reiter. Ela dobrou os joelhos e ergueu os olhos. Será preciso mais do que isso, parecia estar dizendo. Aquele olhar deliberado assustou Amon e depois o justificou e levantou na sua opinião. Não tinha a menor idéia e não teria acreditado que para aquelas suas reações havia uma etiqueta clínica. Na verdade, acreditava que estava sendo recompensado com a inevitável exaltação que se segue a um ato de justiça política, racial e moral. Ainda assim, aquilo tudo tinha o seu preço, pois à plenitude daquele momento mais tarde se seguiria tal vazio que ele iria precisar, a fim de evitar ser varri do para longe como um farrapo de palha, aumentar o seu peso e equilíbrio, ingerindo mais comida, bebida, procurando contato com uma mulher.

Afora essas considerações, a execução de Diana Reiter, o cancela mento de seu diploma da Europa Ocidental, tinha o seu valor prático: nenhum construtor de habitações ou estradas em Plaszóvia poderia considerar-se essencial à sua tarefa — se, com toda a sua capacidade profissional, Diana Reiter não conseguira salvar-se, a única chance dos outros era uma pronta e anônima eficiência. Portanto, as mulheres transportando seus pesados fardos da estação de Cracóvia — Plaszóvia, as equipes das pedreiras, os homens montando as habitações, to dos eles passaram a trabalhar com uma energia adequada à lição que tinham recebido com o assassinato de Diana Reiter.

Quanto a Hujar e seus colegas, sabiam agora que a execução instantânea era o estilo permitido em Plaszóvia.

 

Dois dias após a visita dos donos de fábricas a Plaszóvia, Schindler apareceu no escritório temporário do Comandante Goeth, trazendo saudações e uma garrafa de conhaque. A notícia do assassinato de Diana Reiter já havia chegado ao escritório da Emalia e era o tipo de informação que firmava Oskar em sua determinação de manter a Emalia fora de Plaszóvia.

Os dois homens atléticos se sentaram frente a frente; havia também entre eles uma compreensão mútua, como houvera no rápido contato entre Amon e Diana Reiter. O que sabiam era que ambos estavam ali em Cracóvia para fazer fortuna; e que, portanto, Oskar iria pagar pelos favores que lhe fossem concedidos. Quanto a esse ponto, Oskar e o comandante se compreendiam bem. Oskar tinha o dom característico do negociante de tratar homens que abominava como se fossem irmãos espirituais, e Herr Commandant se deixaria enganar tão completamente que sempre acreditaria que Oskar era seu amigo.

Mas segundo o testemunho de Stern e outros, é óbvio que, desde os seus primeiros contatos com Goeth, Oskar o abominou como um homem que praticava assassinatos com a mesma tranqüilidade com que um funcionário executa a sua rotina de trabalho. Oskar podia falar com Amon o administrador, Amon o especulador, mas sabia ao mesmo tempo que nove décimos da mente do comandante ficavam abaixo dos processos racionais do comum dos seres humanos. Os negócios e conexões sociais entre Oskar e Amon funcionavam muito bem para poder haver a suposição de que Oskar, de certa forma, e apesar de si mesmo, se deixava fascinar pela perversidade do homem. Na verdade, ninguém dos que conheciam Oskar nessa ocasião, ou dos que o conheceram mais tarde, viu sinal algum desse fascínio. Oskar desprezava Goeth nos termos mais simples e mais intensos. Seu desprezo iria tornar-se ilimitado, como o demonstraria dramaticamente a sua carreira. Mesmo assim, é difícil evitar o pensamento de que Amon era o irmão satânico de Oskar, o frenético e fanático carrasco em que Oskar, por alguma infeliz perversão, poderia também se tornar.

Com uma garrafa de conhaque entre os dois, Oskar explicou a Amon que lhe era impossível mudar-se para Plaszóvia. Sua fábrica era demasiado sólida para poder ser transplantada. Supunha que o seu amigo Madritsch tencionava mudar lá para dentro os seus trabalhadores judeus mas a maquinaria de Madritsch podia ser mais facilmente trans ferida — era basicamente uma série de máquinas de costura. Havia diferentes problemas envolvidos na mudança de pesadas prensas, sendo que cada uma delas, como acontece com maquinaria sofisticada, tinha suas peculiaridades. Os seus operários especializados já se tinham habituado a elas. Numa nova instalação, porém, as máquinas iriam adquirir novas peculiaridades. Haveria atrasos; o período de instalação levaria mais tempo do que seria o caso da fábrica do seu estimado amigo Julius Madritsch. O Untersturmführer devia compreender que, com importantes contratos de material de guerra a serem cumpridos, a DEF não podia dispor de tal lapso de tempo. Herr Beckmann, que tinha a mesma espécie de problema, estava despedindo todos os seus judeus da usina de Corona. Não queria a confusão de judeus sendo conduzidos de manhã para a usina e levados de volta à noite para Plaszóvia. Infelizmente ele, Schindler, tinha algumas centenas mais de trabalhadores especializados do que Beckmann. Se os despedisse, poloneses teriam de ser treinados no lugar deles e de novo haveria um atraso na produção, e um atraso maior ainda, se ele aceitasse o atraente ofereci mento de Goeth e se mudasse para Plaszóvia.

Amon pensou que talvez Oskar estivesse preocupado com a possibilidade de a mudança para Plaszóvia prejudicar algumas das suas negociatas em Cracóvia. O comandante apressou-se em garantir a Herr Schindler que não haveria interferência alguma na gerência de sua fábrica de esmaltados.

—   São puramente problemas industriais que me preocupam —

disse respeitosamente Schindler. Não queria causar inconveniências ao comandante mas ficaria grato, e tinha certeza de que a Inspetoria de Armamentos lhe seria grata, se fosse permitido à DEF permanecer em seu local.

Entre Goeth e Oskar, a palavra "gratidão" não tinha um significado abstrato. Gratidão era pronto pagamento. Eram bebidas e diamantes.

—   Compreendo os seus problemas, Herr Schindler — disse Amon.

— Terei prazer, uma vez liquidado o gueto, em fornecer uma guarda para escoltar os seus empregados de Plaszóvia a Zablocie.

Certa tarde em que foi a Zablocie a negócio da fábrica Progress, Itzhak Stern encontrou Oskar deprimido e percebeu que o amigo estava tomado de um perigoso senso de impotência. Depois de Klonowska ter servido um café, que Herr Direklor tomou como sempre com uma dose de conhaque, Oskar contou a Stern que tinha voltado a Plaszóvia: ostensivamente, para examinar as instalações; na realidade, para calcular quando estariam prontas para receber os Ghettomenschen.

—   Fiz os cálculos — disse Oskar. Tinha contado as casernas na encosta do outro lado e constatado que, se Amon tencionava atulhar 200 mulheres em cada uma delas, o conjunto poderia agora abrigar 6.000 mulheres. O setor dos homens, mais abaixo na encosta, não tinha tantas construções terminadas mas, no ritmo em que se trabalhava em Plaszóvia, dentro de poucos dias estaria tudo terminado. — Todos na oficina da fábrica sabem o que vai acontecer — continuou ele. — E não adianta manter o turno da noite aqui dentro, porque depois dessa operação, não haverá um gueto para onde eles voltem. Tudo o que lhes posso dizer — acrescentou Oskar, tomando outro gole de conhaque — é que não devem procurar esconder-se, a não ser que tenham certeza da segurança do esconderijo. — Ouvira dizer que a intenção era pôr abaixo o gueto, depois de ter sido evacuado. Cada cavidade de parede seria revistada, cada tapete de sótão retirado, cada nicho revelado, cada porão revolvido. — E o único conselho que posso dar aos meus empregados é que não resistam.

E assim, ilogicamente, Stern, um dos alvos da planejada Aktion, foi quem procurou consolar Herr Direktor Schindler, frisando que ele seria apenas uma testemunha da Aktion. A preocupação de Oskar com os seus empregados judeus estava se difundindo, devido à tragédia maior da destruição do gueto. Plaszóvia era uma instituição de trabalho, disse Stern. Como todas as instituições, podia oferecer uma sobrevida. Não era como Belzec, onde se fabricava a morte em série como Henry Ford fabricava carros. Era degradante ter de obedecer a ordens sem pestanejar, mas não era o final de tudo. Quando Stern terminou seus argumentos, Oskar colocou ambos os polegares sob a borda chanfrada de sua mesa e pareceu, por uns instantes, querer arrancá-la.

Sabe de uma coisa, Stern — disse —, nada disso é consolo suficiente!

É, sim — replicou Stern. — É o único caminho a adotar. — E continuou argumentando, citando e detalhando, sentindo-se, ele próprio, apavorado, porque Oskar parecia estar em crise. Se Oskar perdesse a esperança, Stern sabia que todos os empregados judeus da Ema lia seriam despedidos, pois Oskar iria querer purificar-se de toda aquela imundície.

Chegaria a hora de se fazer algo mais positivo, ponderou Stern. Mas não ainda.

Abandonando a tentativa de arrancar a borda da sua mesa de trabalho, Oskar reclinou-se na poltrona e voltou a parecer deprimido.

— Você conhece aquele Amon Goeth — disse ele. — É um homem com charme. Poderia chegar aqui e exercer o seu charme sobre você. Mas trata-se de um lunático.

Na última manhã do gueto — que coincidiu ser um Shabbat 13 de março —, Amon Goeth chegou à Praça Zgody, Praça da Paz, a uma hora matutina que oficialmente, precedia a madrugada. Nuvens baixas obscureciam a linha divisória entre a noite e o dia. Viu que os homens do Sonderkommando já haviam chegado e se espalhavam pelo solo congelado do parque no centro da praça, fumando e rindo baixo, mantendo em segredo sua presença para os habitantes do gueto nas ruas adiante da farmácia de Pankiewicz. Os caminhos que tomariam estavam limpos, como numa cidade-modelo. A neve restante se empilhava nas sarjetas e contra os muros. É de se presumir que o sentimental Goeth tenha-se sentido paternal com relação aos seus rapazes reunidos em camaradagem no centro da praça, antes da ação.

Amon tomou um trago de conhaque, enquanto esperava pele Sturmbannführer Willi Haase, homem de meia-idade, que estava encarregado do controle estratégico, porém não tático, da Aktion desse dia. Hoje o Gueto A, da Praça Zgody para o oeste, a seção maior onde moravam todos os trabalhadores judeus (saudáveis, esperançosos, obstinados), seria esvaziado. O Gueto B, pequeno conjunto de uns poucos quarteirões a leste, era habitado pelos velhos, os que não tinham emprego. Seriam arrancados dali à noite ou pela manhã. Estavam destinados ao grandemente expandido campo de extermínio do Comandante Rudolf Hóss, em Auschwitz. Gueto B era um trabalho direto, honesto. Gueto A era o desafio.

Todos queriam estar ali hoje, pois seria uma data histórica. Ha via bem mais de sete séculos que existia uma Cracóvia judaica, e essa noite ou no máximo até o dia seguinte — aqueles sete séculos desapareceriam, e Cracóvia estaria judenrein (limpa de judeus). E cada SS subalterno queria poder dizer que assistira ao evento. Até mesmo Unkelbach, o Treuhánder da fábrica de cutelaria Progresso, tendo um pos to de reserva na SS, ia vestir seu uniforme NCO e entrar no gueto com uma das brigadas. Portanto, o eminente Willi Haase, como oficial superior e um dos organizadores do plano, tinha todo o direito de estar ali presente.

Amon, sofrendo de sua habitual dor de cabeça e um pouco esgotado com a insônia febril que o acometera tarde da noite, mesmo as sim comparecera para assistir ao evento, tomado de certo entusiasmo profissional. Era uma grande dádiva do Partido Nacionalsocialista aos homens da SS que eles tivessem a chance de entrar em combate, sem nenhum risco físico, que pudessem conquistar honrarias sem as contingências que implicavam expor-se a ser baleado. Não fora fácil conseguir impunidade psicológica. Todo oficial SS tinha amigos que se haviam suicidado. Os compêndios de treinamento da SS, escritos para combater essas baixas absurdas, assinalavam a tolice de se acreditar que pelo fato de o judeu não estar visivelmente armado, deixasse de possuir armas sociais, econômicas ou políticas. Na realidade estava armado até os dentes. Fortaleçam-se, alertavam os compêndios, pois a criança judia é uma bomba-relógio cultural, a mulher judia uma biologia de traições, o homem judeu um inimigo mais incontrolável do que nenhum russo poderia jamais ser.

Amon Goeth se sentia em forma. Sabia que ninguém poderia tocá-lo, e esse pensamento provocava nele a mesma deliciosa excitação de um corredor de longa distância antes de uma corrida que tem certeza de ganhar. Amon desprezava com certo bom humor os oficiais que fastidiosamente deixavam a ação a cargo de seus homens e dos NCO. Sentia que de certa maneira essa atitude poderia ser mais perigosa do que uma atuação direta. Ele mostraria o caminho, como tinha mostrado no caso de Diana Reiter. Sabia a euforia que ia sentir no decorrer do dia, a gratificação crescente, juntamente com o gosto da bebida, quando o ritmo fosse se acelerando. Mesmo sob a baixa esqualidez daquelas nuvens, Amon sabia que aquele seria um dos seus melhores dias, sentia que, quando ele fosse velho e a raça judia extinta, os jovens maravilhados iriam perguntar-lhe sobre os acontecimentos de dias como aquele.

A menos de um quilômetro de distância o Dr. H., um médico do hospital de convalescença do gueto, cuidava, na penumbra, de seus últimos pacientes, grato por vê-los assim isolados no andar superior, bem distantes da rua, a sós com a sua dor e sua febre.

Pois, ao nível da rua, todos sabiam o que tinha acontecido com o hospital de isolamento perto da Praça Zgody. Um destacamento da SS sob as ordens do Oberscharführer Albert Hujar tinha penetrado no hospital para fechá-lo e encontrara a Dra. Rosalia Blau entre os leitos de seus pacientes de escarlatina e de tuberculose, que, dizia ela, não podiam ser removidos. As crianças com coqueluche ela mandara antes para suas casas. Mas os portadores de escarlatina não podiam ser re movidos seja por eles mesmos seja pela comunidade, e os doentes de tuberculose simplesmente não tinham forças para se levantar.

Como a escarlatina é uma enfermidade da adolescência, muitos dos pacientes da Dra. Blau eram meninas entre 12 e 16 anos. Diante de Albert Hujar, a Dra. Blau apontou, como uma garantia de seu julgamento profissional, para as meninas ardendo em febre.

O próprio Hujar, agindo sob mandato que lhe fora conferido uma semana antes por Amon Goeth, matou a Dra. Blau com um tiro na cabeça. As doentes de moléstias contagiosas, algumas tentando levantar-se de seus leitos, outras inconscientes em seu delírio, foram executadas numa fúria de fogo automático. Quando o pelotão de Hujar terminou a sua tarefa, uma turma de homens do gueto foi enviada ao andar superior para remover os cadáveres, empilhar os lençóis ensangüentados e lavar as paredes.

O hospital ficava situado num prédio, onde funcionara, antes da guerra, uma delegacia de polícia polonesa. Durante toda a existência do gueto, os seus três andares tinham estado repletos de doentes. O diretor do hospital era um médico muito respeitado, o Dr. B. Naquela fria manhã de 13 de março, os Drs. B. e H. haviam reduzido o número de pacientes para quatro, todos eles irremovíveis. Um era um jovem operário com tuberculose galopante; o segundo, um talentoso músico com uma doença fatal de rins. Ao Dr. H. parecia que eles deviam ser poupados do pânico final de uma alucinada rajada de balas. Sobretu do o cego, sofrendo de um insulto cerebral, e o senhor idoso que uma cirurgia para extrair um tumor intestinal deixara enfraquecido e molestado ainda por uma colostomia.

A equipe médica, inclusive o Dr. H., era do mais alto nível. Daquele mal equipado hospital de gueto iam derivar os primeiros informes poloneses sobre a doença eritroblástica de Weil, uma afecção da medula do osso, e da síndrome Wolff-Parkinson-White. Nessa manhã, porém, a preocupação maior do Dr. H. era com o dilema do cianureto.

Com o pensamento na opção do suicídio, o Dr. H. tinha adquiri do um suprimento de uma solução de cianureto. Sabia que outros médicos haviam tomado a mesma providência. Naquele último ano, o estado depressivo tinha sido endêmico no gueto e atingira também o Dr. H., homem jovem, com uma saúde de ferro. Mas a realidade era que a própria História parecia ter-se tornado maligna. Em seus dias de maior depressão, fora um conforto para o Dr. H. a certeza de que tinha acesso ao cianureto. Naquele último estágio de existência do gueto, era o único produto farmacêutico de que ele e os outros médicos podiam dispor em quantidade. A sulfa era uma raridade. Acabara o estoque de eméticos, éter e até aspirina. Cianureto era a única droga sofisticada que restava.

Nesse dia, antes das cinco horas da manhã, o Dr. H. fora despertado em seu quarto na Rua Wit Stwosz pelo ruído de caminhões estacionando do lado de fora do muro do gueto. Olhando pela janela, viu os Sonderkommandos reunindo-se à margem do rio e compreendeu que tinham vindo para alguma atuação decisiva. Correu para o hospital onde encontrou o Dr. B. e a equipe de enfermagem já em atividade, providenciando para que todos os pacientes que podiam ser removi dos fossem levados para baixo, onde parentes ou amigos se encarregavam de retirá-los do hospital. Quando todos, exceto os quatro em estado crítico, já tinham saído, o Dr. B. disse às enfermeiras que se retiras sem, e todas obedeceram exceto a enfermeira-chefe. Agora só restavam ela, os Drs. B. e H. e os quatro pacientes no hospital quase deserto.

Enquanto esperavam, os Drs. B. e H. pouco falaram. Ambos tinham acesso ao cianureto; logo o Dr. H. notaria que o Dr. B. também estava tristemente preocupado com o dilema da droga. Sim, havia o suicídio. Mas havia a eutanásia também. O conceito aterrava H. Ele tinha um rosto sensível e uma certa delicadeza na expressão dos olhos. A sua ética o fazia sofrer com uma angústia tão íntima, como se se tratasse de órgãos do seu próprio corpo. Sabia que um médico com sensibilidade comum, uma seringa de injeção e praticamente nada mais para norteá-lo, podia somar, como se fosse uma lista de compras, os valores das duas opções — injetar o cianureto ou abandonar os pa cientes ao Sonderkommando. Mas H. sabia também que tais coisas nunca eram uma questão de calcular valores, que a ética era mais complexa e tortuosa do que a álgebra.

Às vezes o Dr. B. ia até a janela, olhava para fora para ver se a Aktion já tinha começado nas ruas, e voltava-se para H. com uma ex pressão de calma profissional nos olhos. H. podia perceber que o outro também estava perplexo ante as opções, como se fossem cartas que estivesse embaralhando e tornando a embaralhar. Suicídio. Eutanásia. 4cido de hidrocianureto. Um conceito não sem atração: manter-se ali ^espera entre as camas como Rosalia Blau. Outro conceito: usar o cianureto em si próprio, assim como nos pacientes. A segunda perspectiva atraía H., por lhe parecer menos passiva do que a primeira. Além disso, tendo acordado deprimido naquelas últimas três noites, ele sentira algo como um desejo físico pelo veneno instantâneo, como se fosse apenas a droga ou bebida forte que toda vítima necessitava para suavizar a hora final.

Para um homem sério como o Dr. H., essa tentação era um motivo a mais para não ingerir o veneno. Para ele a motivação do suicídio tinha sido estabelecida desde a sua educação infantil, quando o pai lera para ele, num texto do historiador Josephus Flavius, a narrativa do suicídio em massa dos Fanáticos do Mar Morto, na iminência de serem capturados pelos romanos. O princípio era que não se devia entrar na morte como num abrigo aconchegante, mas, tão-somente, numa inequívoca recusa de rendição. Princípios são princípios, é claro, e o terror numa manhã cinzenta é outra coisa. Mas H. era um homem de princípios.

E tinha uma esposa. Ele e a mulher haviam planejado um itinerário de fuga pelos esgotos próximos da esquina da Rua Piwna com Krakusa. Os esgotos eram um caminho de fuga arriscado para a floresta de Ojców. Temia a fuga mais do que o fácil oblívio do cianureto. Se a Polícia Azul ou os alemães o detivessem e lhe amassem as calças, ele passaria na prova, graças ao Dr. Lachs. Lachs era um ilustre cirurgião plástico, que ensinara a vários jovens judeus de Cracóvia como alongar os seus prepúcios, sem derramamento de sangue: dormir cora um peso — uma garrafa contendo um volume de água gradativamente maior — amarrado ao pênis. Segundo Lachs, era um recurso usado pelos judeus em épocas de perseguição romana e a intensidade da atuação da SS em Cracóvia o fizera ressuscitar o estratagema naqueles últimos dezoito meses. Lachs ensinara aquele método ao seu jovem colega H., e o fato de o ter empregado com algum sucesso justificava ainda menos no seu caso o recurso do suicídio.

De madrugada a enfermeira, mulher calma de uns quarenta anos de idade, veio fazer o relatório da noite ao Dr. H. O rapaz estava re pousando tranqüilamente, mas o cego com a fala afetada pela embolia aparentava grande ansiedade. O músico e o caso de fístula anal tinham tido ambos uma noite penosa. Agora, porém, reinava o silêncio no hospital; os pacientes se remexiam no final do sono ou na intimidade da sua dor. O Dr. H. saiu para a fria sacada acima do pátio, a fim de fumar um cigarro e mais uma vez estudar a questão.

No ano anterior ele estivera trabalhando no velho hospital epidêmico em Rekawka, quando a SS decidira fechar aquela zona do gueto e relocalizar o hospital. Nessa ocasião haviam enfileirado a equipe contra a parede e arrastado os pacientes escadas abaixo. H. tinha visto a per na da velha Sra. Reisman ficar presa entre os balaústres e um SS, que a puxava pela outra perna não se deter para desembaraçá-la e continuar puxando-a até a perna enganchada quebrar com um estalo audível. Era assim que se removiam pacientes no gueto. Mas no ano anterior ninguém pensava em matar por piedade. Naquela altura dos acontecimentos, to dos ainda tinham esperança de que as coisas poderiam melhorar.

Agora, mesmo que ele e o Dr. B. tomassem a decisão, H não tinha certeza de que teria a coragem de dar cianureto aos seus pacientes ou assistir a alguém ministrar o veneno e manter uma impassibilidade profissional. De certa forma absurda, era como a argumentação em sua juventude, sobre se devia aproximar-se de uma garota, pela qual estava interessado. E mesmo depois de ele tomar uma decisão, isso de nada adiantava. Ainda não fora encarado o ato.

Ali, da sacada, ele ouviu o primeiro ruído. Começara cedo e vinha do lado leste do gueto. Os raus, raus dos megafones, a mentira costumeira a respeito das bagagens, que algumas pessoas ainda persistiam em acreditar. Nas ruas desertas e entre as habitações onde ninguém se movia, podia-se ouvir em todo o percurso da Praça Zgody até Madwislanska, à margem do rio, um indefinido murmúrio de terror que fazia tremer o próprio Dr. H.

Depois ele ouviu a primeira rajada, tão estrondosa que deu para acordar os doentes. E uma súbita estridência após os disparos, um megafone violento rugindo contra alguma plangente voz feminina; por fim a lamúria cessando bruscamente após uma nova rajada de balas. Sucedeu-se um choro diferente, o lamento dos que estavam sendo impelidos pelos bullhorns SS, por ansiosos OD e por vizinhos, o incontrolável lamento, que foi desaparecendo na extremidade do gueto, onde havia um portão. Sabia que aquilo tudo teria sido ouvido até pelo músico em seu estado pré-comatoso.

Quando retornou à ala da enfermaria, ele pôde notar que todos — até mesmo o músico — o observavam. Podia sentir, mais do que ver, os corpos se retesando em seus leitos; o ancião com a colostomia grilava com o esforço muscular. "Doutor, doutor!", alguém exclamou. 0 Dr. H. respondeu um "Por favor!" que significava: "Estou aqui e eles ainda estão muito longe." Então olhou para o Dr. B., que cerrou os olhos, quando recomeçou o barulho dos disparos a três quarteirões de distância. O Dr. B. fez-lhe um sinal com a cabeça, encaminhou-se para o pequeno armário farmacêutico trancado, no final da enfermaria, e voltou com um frasco de ácido cianídrico. Após uma pausa, H. aproximou-se do seu colega. Poderia ter deixado tudo a car go de Dr. B., pois sabia que o outro tinha bastante coragem para agir sozinho, sem precisar do amparo de colegas. Mas seria uma covardia, pensou H., não dar o seu próprio voto de aprovação, não assumir par te da responsabilidade. O Dr. B. era um especialista, um pensador. Que ria dar ao Dr. B. o seu apoio integral.

— Muito bem — disse o Dr. B., mostrando rapidamente o frasco a H. Suas palavras foram quase abafadas pelos gritos de uma mulher e as vociferantes ordens oficiais, que provinham da extremidade da Rua Jozefinska. O Dr. B. chamou a enfermeira. Dê a cada paciente quarenta gotas com água.

Quarenta gotas? — repetiu ela, sabendo qual era a medicação.

Quarenta — repetiu o Dr. B.

O Dr. H. olhou também para a enfermeira. "Sim", queria lhe dizer. "Agora sinto-me forte; poderia dar eu mesmo a medicação. Mas, se o fizesse, iria alarmar os doentes. Todos eles sabem que as enfermeiras são as encarregadas da medicação."

Enquanto a enfermeira preparava a mistura, H. adiantou-se pela enfermaria e pousou sua mão na do velho.

Tenho algo para ajudá-lo, Roman — disse ele. E ficou surpreso que aquele contato de pele como que lhe transmitisse a história do velho: por um segundo, como num lampejo de chama, pareceu-lhe ver ali o jovem Roman crescendo na Galícia de Franz Josef, vivendo na deliciosa cidadezinha de nugá, apetite Wien, a jóia do Vístula, Cracóvia; um rapaz sedutor fardado com o uniforme de Franz Josef, subindo as montanhas para as manobras da primavera; soldadinho de chocolate em Rynek Glowny com as moças de Kazimierz, cidade de rendas e patisseries; escalando o Morro Kosciuszko e roubando um beijo entre os arbustos. Como podia o mundo ter mudado tanto no decurso de uma só vida?, perguntava-se o que restava do jovem no velho Roman. De Franz Josef ao NCO, que tinha a sanção para trucidar Rosalia Blau e as meninas com escarlatina?

Por favor, Roman — disse o médico, como que pedindo ao velho que relaxasse o corpo. Calculava que o Sonderkommando esta ria ali dentro de uma hora. O Dr. H. sentiu, mas resistiu, à tentação de contar o seu segredo ao velho. O Dr. B. fora liberal com a dosagem. Uns poucos segundos de falta de ar e um pequeno susto não se riam nenhuma nova ou intolerável sensação para o velho Roman.

Quando a enfermeira chegou com os quatro copos de remédio, nenhum deles perguntou-lhe sequer o que ela estava lhes trazendo. o Dr. H. nunca saberia se algum deles chegara a compreender. Voltou-se e consultou o seu relógio. Receava que, quando eles bebessem o veneno, emitiriam algum gemido, algo pior do que os arquejos e engasgos normais em um hospital.

—   Aqui tem o seu remédio — ouviu a enfermeira dizer. E depois o arfar de uma respiração, mas não sabia se provinha do paciente ou da própria enfermeira. "Aqui, a mulher é a verdadeira heroína", pensou ele.

Quando tornou a olhar, a enfermeira estava acordando o moribundo, o sonolento músico, e oferecendo-lhe o copo. Na outra extremidade da enfermaria, o Dr. B. avistou uma jaqueta branca muito limpa. O Dr. H. aproximou-se do velho Roman e tomou-lhe o pulso.

Nenhuma pulsação. Em um leito na outra extremidade da enfermaria, o músico ingeriu com esforço o líquido que cheirava a amêndoas.

Tudo se passou suavemente, como H. tanto desejara. Observou os seus pacientes — bocas escancaradas mas não obscenamente, olhos vidrados e imunes, cabeças jogadas para trás, queixos voltados para o teto — observou-os com a mesma inveja, que qualquer habitante do gueto sentiria de fugitivos.

 

Poldek Pfefferberg habitava um quarto no segundo andar de uma casa do século XIX, no final da Rua Jozefinska. Das janelas descortinava-se por cima do muro do gueto o Rio Vístula, onde barcaças polonesas subiam e desciam, na ignorância de que aquele era o derradeiro dia do gueto, e barcos de patrulhamento da SS passavam casualmente, como se estivessem a passeio. Ali Pfefferberg esperava com sua mulher, Mila, pela chegada do Sonderkommando, que iria jogá-los na rua. Mila era uma pequenina e nervosa jovem de vinte e dois anos, uma refugiada de Lodz, com quem Poldek se casara nos primeiros dias do gueto. Descendia de uma família de médicos, seu pai fora um cirurgião que morrera muito cedo, em 1937; sua mãe uma dermatologista a quem, durante uma Aktion no gueto de Tarnow no ano anterior, coubera a mesma sorte que a de Rosalia Blau no hospital de isolamento: foi fuzilada entre os seus doentes.

Mila tivera uma infância feliz, mesmo na anti-semita Lodz, tendo iniciado seus estudos de medicina em Viena no ano anterior à guerra. Conhecera Poldek quando, em 1939, habitantes de Lodz tinham sido transferidos para Cracóvia, e ela fora alojada no mesmo apartamento que o ativo Poldek Pfefferberg.

Agora ele era, como Mila, o último membro de sua família. Sua mãe, que em outros tempos havia redecorado o apartamento de Schindler em Straszewskiego, fora enviada juntamente com o marido para o gueto de Tarnow. De lá, como mais tarde seria apurado, eles tinham sido levados para Belzec e assassinados. Sua irmã e cunhado, com documentos arianos, haviam desaparecido na prisão de Pawiak em Varsóvia. Poldek e Mila só tinham um ao outro neste mundo. Entre os dois existia um abismo de temperamentos: Poldek era desenvolto, um líder, um organizador; o tipo que, quando aparecia uma autoridade e perguntava que diabo estava acontecendo, daria um passo à frente e saberia falar. Mila era tímida, sendo que o incrível destino, que arrasara sua família, a havia tornado ainda mais retraída. Numa época de paz, a combinação dos dois teria sido excelente. Não só inteligente mas sensata, ela era a própria tranqüilidade. Tinha senso de humor.

Freqüentemente Poldek Pfefferberg precisava da mulher para conter suas torrentes de oratória. Hoje, porém, nesse dia problemático, os dois estavam em conflito.

Embora Mila estivesse disposta, se surgisse a oportunidade de abandonar o gueto, até mesmo de aceitar a idéia do casal se transformar em guerrilheiros na floresta, tinha medo dos esgotos. Poldek usara-os mais de uma vez como meio de escapar do gueto, embora a polícia, às vezes, estivesse de guarda à entrada e à saída. O seu amigo e antigo professor, Dr. H., também tinha recentemente sugerido a rede de esgotos como um caminho de fuga, que podia não estar sendo guardado no dia em que o Sonderkommando penetrasse no gueto. O plano era esperar pelo antecipado cair da tarde do inverno. A porta da casa do médico ficava a apenas uns poucos metros de uma entrada da rede. Uma vez lá embaixo, deviam seguir pelo túnel da esquerda, que corria por baixo das ruas do não-gueto Podgórze até uma saída na barragem do Vístula, perto do canal da Rua Zatorska. Na véspera, o Dr. H. avisara-o de que ele e a mulher iam tentar a fuga pelos esgotos e convidara os Pfefferberg a fugir com eles. Poldek não podia, àquela altura, comprometer-se a participar da fuga. Mila temia, aliás temor razoável, que a SS inundasse de gás os esgotos ou, de qualquer forma, resolvesse chegar cedo ao quarto dos Pfefferberg, no final da Rua Jozefinska.

Um dia lento, tenso, no quarto do sótão, a dúvida sobre qual rumo tomar. Vizinhos deviam estar também na expectativa. Talvez alguns deles, não tolerando esperar mais, já houvessem partido com os seus embrulhos e valises, pois aquela miscelânea de ruídos levava as pessoas a se precipitarem escadas abaixo — ruídos violentos, vagamente ouvidos a quarteirões de distância, enquanto ali pairava um silêncio em que se podia ouvir o antigo, indiferente madeiramento das casas estalando como para marcar as últimas e piores horas de seus inquilinos. Na claridade turva do meio-dia, Poldek e Mila mastigaram seu pão preto, os 300 gramas para cada um, que haviam guardado. Os ruídos provenientes da Aktion tinham avançado até a esquina da Rua Wegierska, a um longo quarteirão de distância e, no princípio da tarde, tornado a afastar-se. Fez-se então um quase silêncio. Alguém tentou inutilmente dar descarga na latrina recalcitrante do primeiro andar.

Àquela hora, era quase impossível eles acreditarem que tinham ficado esquecidos.

A última tarde pardacenta de suas vidas na Rua Jozefinska número 2, recusava-se, apesar da obscuridade, a terminar. Poldek contudo, achou que a luz já era bastante fraca para se tentar a fuga pelos esgotos, antes do cair da noite. Queria, agora que tudo parecia mais cal mo, ir falar com o Dr. H.

—   Por favor — pediu-lhe Mila.

Mas ele a tranqüilizou. Procuraria manter-se fora das ruas, avançando por uma série de buracos que ligavam um prédio ao outro. Insistiu que não correria perigo. Nas ruas daquele lado parecia não haver patrulhamento. Evitaria algum ocasional OD ou SS nos cruzamentos e estaria de volta dentro de cinco minutos.

—   Mila querida, tenho de combinar a fuga com Dr. H. — disse ele. Saindo pela escada dos fundos para o quintal, Poldek se embarafustou por um buraco na parede da estrebaria, sem emergir para a rua, até chegar à Agência de Trabalho. Ali arriscou cruzar uma via larga e chegou ao quarteirão triangular de casas do lado oposto, onde encontrou grupos de pessoas confusas, trocando boatos e discutindo opções, em cozinhas, galpões, pátios e corredores. Por fim, saiu na Rua Krakusa, logo defronte da moradia do médico. Atravessou a rua, sem ser notado por uma patrulha que revistava o limite sul no gueto, cerca de três quarteirões adiante, na área em que Schindler assistira, pela primeira vez, à prova de até que extremos iam os ditames da política racial do Reich.

O prédio do Dr. H. estava deserto, mas no pátio Poldek encontrou um atordoado homem de meia-idade, que informou que o Sonderkommando já estivera ali e que o médico e a mulher tinham primeiro se escondido, depois fugido para os esgotos. A SS vai voltar, alertou-o Poldek, que conhecia bem as táticas da Aktion, por já ter sobrevivido a tantas delas.

Voltou, então, pelo caminho que fizera na vinda e pôde de novo cruzar a via. Mas encontrou o número 2 vazio. Mila desaparecera cora as bagagens, todas as portas estavam escancaradas, ninguém nos quar tos. Pensou que talvez todos estivessem escondidos no hospital — Dr. H., sua mulher e Mila. Talvez o médico tivesse vindo buscá-la, em consideração à ansiedade daquela descendente de uma longa linhagem de médicos.

Poldek tornou a sair apressadamente pelo buraco da estrebaria e, através de passagens alternativas, chegou ao pátio do hospital. Como bandeiras de rendição abandonadas, lençóis ensangüentados estavam pendurados das sacadas dos dois primeiros andares. No calçamento de pedras da rua havia uma pilha de vítimas, algumas com a cabeça espatifada, os membros retorcidos. Não eram evidentemente os doentes moribundos dos Drs. B. e H. Eram gente que havia sido detida durante o dia e depois executada. Alguns deviam ter sido aprisionados nos andares superiores, fuzilados e depois atirados à rua.

Mais tarde, sempre que era interrogado sobre os cadáveres empilhados debaixo das janelas do hospital do gueto, Poldek calculava uns 60 ou 70, embora não tivesse tido tempo de contar toda aquela pirâmide de corpos. Cracóvia era uma cidade provinciana e Poldek fora um menino muito sociável em Podgórze, depois em Centrum, e costumava visitar com sua mãe pessoas abastadas e importantes da cidade. As sim reconheceu na pilha macabra vários rostos: antigos clientes de sua mãe; pessoas que lhe perguntavam sobre os seus estudos na Escola

Superior de Kosciuszko, a quem dava respostas precoces, e que lhe ofereciam bolos e doces. Agora estavam vexatoriamente expostas e empilhadas na rua ensangüentada.

Não ocorreu a Pfefferberg procurar os corpos de Mila e do Dr. H. e sua mulher. Como que sentia o motivo que o retinha ali naquele momento. Acreditava piamente num futuro melhor, quando haveria tribunais justos. Tinha a sensação de ser uma testemunha, a mesma sensação que Schindler sentira no morro acima da Rua Rekawka.

Sua atenção foi desviada para uma turba na Rua Wegierska adiante do pátio do hospital. Encaminhava-se para o portão de Rekawka com passos vagarosos, sem desespero, os passos de operários de fábrica nu ma manhã de segunda-feira ou de torcedores de um time de futebol derrotado. No meio dessa onda de gente, Poldek reconheceu vizinhos da Rua Jozefinska. Afastou-se do pátio carregando como uma arma escondida na manga do seu paletó a imagem daquela cena. O que acontecera a Mila? Algum vizinho o saberia? Disseram-lhe que ela já tinha partido. O Sonderkommando já passara por lá. Já devia ter atravessa do o portão, para onde? Para Plaszóvia.

Evidentemente, ele e Mila tinham elaborado um plano de emergência para o caso de um impasse como aquele. Se um dos dois fosse parar em Plaszóvia, seria melhor que o outro ficasse do lado de fora. Poldek sabia do dom de Mila de passar despercebida, dom invejável para prisioneiros, mas que também podia fazê-la sofrer o tormento da fome. Ele seria o seu provedor de comida. Tinha certeza de que essas coisas podiam se arranjar. Mas não era uma decisão fácil — a marcha da multidão aturdida, que a SS mal vigiava, para o portão sul e as Fábricas cercadas de arame farpado em Plaszóvia, indicava o local onde a maioria das pessoas, sem dúvida com razão, consideravam que se daria o final de seus padecimentos.

A claridade, apesar da hora tardia, parecia agora mais intensa, como se a neve estivesse prestes a cair. Poldek conseguiu atravessar a rua e entrar em apartamentos vazios. Não sabia se estavam mesmo vazios ou cheios de habitantes do gueto, astuciosa ou ingenuamente escondidos — aqueles que acreditavam que, para onde quer que a SS os conduzisse, no final iriam parar nas câmaras de extinção.

Poldek estava procurando um bom lugar para se esconder. Por passagens secretas chegou ao depósito de madeiras na Rua Jozefinska. Madeira era um artigo raro. Não havia estruturas grandes de madeira cortada que lhe servissem de esconderijo. O local que parecia mais adequado ficava atrás dos portões de ferro da entrada do depósito. O tamanho e negrume dos portões seriam um bom abrigo para passar a noite. Mais tarde pareceria difícil a Poldek acreditar que escolherão local com tanto entusiasmo.

Agachou-se atrás da folha do portão, que tinha sido empurrada contra a parede do escritório abandonado. Pela fresta entre o portão e a pilastra, ele podia ver a Rua Jozefinska na direção de onde viera. Escondido atrás da gélida grade de ferro entrevia uma fatia da noite, de um cinza luminoso, e puxou o paletó sobre o peito. Um homem e uma mulher passaram apressadamente, em direção ao portão do gueto, evitando esbarrar nas trouxas espalhadas no chão, as malas com inúteis etiquetas. KLEINFELD, anunciavam elas: LEHRER, BAUME, WEINBERG, SMOLAR, STRUS, ROSENTHAL, BIRMAN, ZEI TLIN. Nomes que nunca teriam de volta um recibo. "Montes de pertences, carregados de memórias", o jovem artista Josef Bau escreveria relatando tais cenas. "Onde estão os meus tesouros?"

Vindo do outro lado daquele campo de batalha de bagagens, Poldek podia ouvir o latido agressivo de cães. Então, caminhando pela calçada da Rua Jozefinska apareceram três SS, um deles puxado por dois grandes cães policiais. Os cães arrastaram seu treinador para dentro do número 41 da rua, mas os outros dois homens ficaram esperando na calçada. Ele concentrou sua atenção nos cães: pareciam uma cruza de dálmatas e pastores alemães. Continuava vendo Cracóvia como uma cidade alegre, onde animais assim pareciam estranhos, como se houvessem sido trazidos de algum gueto mais rigoroso. Pois mesmo naquela última hora, escondido atrás do portão de ferro, ele era grato à cidade, e presumia que o terror derradeiro não se daria ali, mas em outro lugar qualquer menos acolhedor. Essa presunção desapareceu no meio minuto seguinte. O pior estava acontecendo ali mesmo, em Cracóvia. Por uma fresta do portão, ele assistiu à cena que lhe revelou que, se existia um pólo da maldade, não se situava em Tarnow, Tchecoslováquia, Lwów ou Varsóvia, como supusera. Situava-se no lado norte da Rua Jozefinska, a alguns metros de distância. Do número 41, emergiu gritando uma mulher com uma criancinha. Um cão retinha a mulher pelo tecido do vestido, a carne de seu quadril. O SS treinador dos cães agarrou a criança e atirou-a contra a parede. O ruído fez com que Pfefferberg fechasse os olhos, e ele ouviu o tiro que pôs fim aos gritos de protesto da mulher.

Assim como Pfefferberg calculara que a pirâmide no pátio do hospital devia ter uns 60 ou 70 corpos, ele sempre afirmaria que a criança não podia ter mais do que dois ou três anos de idade.

Talvez até mesmo antes de ela estar morta, certamente antes de ele próprio se dar conta, Poldek pôs-se de pé, como se a decisão fosse provocada por alguma glândula da coragem em seu cérebro. Abandonou o esconderijo atrás do portão, que não o protegeria dos cães. Uma vez na rua, imediatamente ele adotou a postura militar que tinha aprendido no Exército polonês e, como um homem encarregado de uma tarefa formal, curvou-se e começou a recolher trouxas e malas espalhadas pelo solo e a empilhá-las junto aos muros. Podia ouvir os três SS se aproximando; o rosnar dos cães era quase palpável; pareceu-lhe que a noite toda se estirava até que, com a tensão, se rompessem as correias que retinham os animais. Quando Poldek calculou que eles estavam a uns dez passos de distância, endireitou o corpo e arriscou-se a notá-los fazendo o papel do judeu dócil de educação européia. Viu que as botas e calças de montaria dos três estavam respingadas de sangue mas eles não pareciam envergonhados de se apresentar daquela manei ra diante de outros seres humanos. O oficial do meio era o mais alto. Não parecia um assassino; havia algo de sensível no rosto grande e na linha sutil da boca.

Pfefferberg, em sua roupa puída, bateu os tacões de papelão, no estilo militar polonês, e esboçou uma continência para o homem alto. Ele não entendia nada de postos da SS e não sabia como dirigir-se cor retamente ao sujeito.

—   Herr — disse ele. — Herr Commandant!

Era um termo que lhe brotara no cérebro, sob a ameaça de extinção, como uma faísca elétrica. E provou ser a palavra exata, pois o homem alto era Amon Goeth, na plena atividade naquela tarde, exultante com os progressos do dia e tão capaz de instantâneos e instintivos exercícios de poder como Poldek era capaz de instantâneos e instintivos subterfúgios.

—   Herr Commandant, informo-lhe respeitosamente que recebi

ordem de empilhar todas as bagagens de um lado da rua para

desobstruí-la. Os cães em suas correias esticavam o pescoço para ele. Esperavam, condicionados pelo seu negro treinamento e pelo ritmo da Aktion do dia, ser soltos para atacar Pfefferberg. Os seus rosnados não eram apenas ferozes mas como que confiantes no desfecho daquele confronto, e a questão era se o SS à esquerda do Herr Commandant teria força suficiente para retê-los. Pfefferberg não tinha muita confiança na sua salvação. Não o surpreenderia ser triturado pelos cães e depois ser liberado por uma bala da ferocidade dos animais. Se a mulher não tinha escapado implorando pelo filho, pouca chance tinha ele com aquela conversa de bagagens, de desobstruir uma rua onde, de qualquer modo, fora abolido o tráfego humano.

Mas o comandante achou Pfefferberg mais divertido do que a mulher. Ali estava um Ghettomensch brincando de soldado diante de três oficiais da SS e fazendo o seu relatório, servil, se verdadeiro, e quase simpático se falso. O comportamento dele era, sobretudo, diferente do estilo de uma vítima. De todas as criaturas marcadas para extermínio, ninguém mais tentara bater os saltos em continência. O Herr Commandant podia portanto exercer o direito régio de mostrar uma irracional e inesperada condescendência. Inclinou a cabeça para trás, retraindo o lábio superior. Foi uma larga, espontânea risada, e seus colegas

sorriram e abanaram as cabeças.

—   Untersturmführer — disse Goeth, com sua excelente voz de

barítono. — Nós estamos cuidando de tudo. O último grupo está

deixando o gueto. Verschwinde! — Isto é, "Suma daqui, soldadinho polonês batedor de tacões!"

Pfefferberg começou a correr, sem olhar para trás, e não se teria surpreendido se levasse um tiro pelas costas. Correndo sempre, chegou à esquina da Rua Wegierska e dobrou-a, passando pelo pátio do hospital onde horas antes testemunhara aquela cena horrenda. A noite chegou quando ele já se aproximava do portão, e iam desaparecendo as últimas ruas familiares do gueto. Na Praça Podgórze, o último grupo oficial de prisioneiros esperava cercado por um cordão de homens da SS e ucranianos.

—   Eu devo ser o único que saiu de lá com vida — disse ele aos habitantes do gueto.

Além dele, havia Wulkan, o joalheiro, com mulher e filho. Wulkan estivera trabalhando naqueles últimos meses na fábrica Progress e, sabendo o que ia acontecer, fora procurar o Treuhänder Unkelback cora um grande diamante que trazia, havia dois anos, escondido no forro de um casaco.

—   Herr Unkelbach — dissera ele ao supervisor. — Irei para onde quer que me mandem mas minha mulher não está em condições de suportar todo esse estrondo e violência.

Wulkan, a mulher e o filho ficariam esperando na delegacia da OD sob a proteção de um policial judeu, que os conhecia; e então, talvez durante o dia, Herr Unkelbach viria buscá-los e os levaria sem violências para Plaszóvia.

Desde manhã bem cedo eles tinham ficado sentados num cubículo na delegacia; fora uma espera muito penosa, como se houvessem permanecido em sua cozinha, o menino alternadamente aterrado e entediado e a mulher continuando a atormentar o marido com suas censuras. "Onde está ele? Será que vai mesmo aparecer? Essa gente, essa gente." Na primeira parte da tarde, Unkelbach realmente apareceu na Ordnungsdienst para usar o banheiro e tomar um café. Ao sair do local de espera, Wulkan viu o Treuhander Unkelbach, sob um aspecto que não conhecia: envergava o uniforme da SS NCO, e estava fumando e conversando animadamente com outro SS; com a mão direita ele sorvia vorazmente o café e mordia um pedaço de pão preto, enquanto sob a esquerda retinha sua pistola pousada como um animal em repouso sobre o balcão da delegacia; manchas escuras de sangue riscavam-lhe o preto do uniforme. Os olhos que ele voltou para Wulkan não reconheceram o joalheiro. Imediatamente, Wulkan se deu conta de que Unkelbach não estava roendo a corda; simplesmente não se lembrava do combinado. O homem estava embriagado, mas não seria por esse motivo que, se Wulkan lhe houvesse dirigido a palavra, a resposta teria sido um olhar de total incompreensão, seguido, muito provavelmente, de algo bem pior.

Wulkan desistiu e voltou para junto de sua mulher, que continuou insistindo:

— Por que você não fala com ele? Vou falar, se ele ainda estiver lá.

Ela viu, então, uma sombra nos olhos de Wulkan e espiou pela porta entreaberta. Unkelbach estava se preparando para sair. Notou-lhe o uniforme desarrumado, o sangue de pequenos comerciantes e suas mulheres manchando-lhe a roupa. Soltando um gemido, voltou a sentar-se.

Como o marido, foi tomada agora de compreensível desespero e a espera de certa forma pareceu mais fácil. O OD, que os conhecia, tornou a devolver-lhes a esperança e a ansiedade, dizendo-lhes que todos os membros da OD, com exclusão dos pretorianos de Spira, tinham de estar fora do gueto às seis horas da noite e na estrada de Wieliczka a caminho de Plaszóvia. Ele ia ver se havia um jeito de colocar os Wulkan em um dos veículos.

Quando caiu a noite, após a passagem de Pfefferberg pela Rua Wegierska e de o último grupo de prisioneiros ter sido reunido na Praça Podgórze, enquanto o Dr. H. e sua mulher rumavam para leste na companhia e sob a guarda de um grupo de barulhentos bêbados poloneses e pelotões do Sonderkommando repousavam e fumavam um cigarro, antes da última investida contra as moradias do gueto, duas carroças pararam à porta da delegacia. Os OD esconderam a família Wulkan sob caixas de papelão e trouxas de roupas..Symche Spira e seus associados estavam funcionando em alguma outra rua, tomando café com os NCO, comemorando a sua atuação dentro do sistema.

Mas antes de as carroças saírem pelo portão do gueto, os Wulkan, encolhidos bem no fundo do veiculo, ouviram o quase contínuo pipocar de tiros nas ruas que iam ficando para trás. Aquilo significava que Amon Goeth, Willi Haase, Albert Hujar, Horst Pilarzik e centenas de outros da mesma laia estavam invadindo sótãos, tetos falsos, canastras em porões, e encontrando aqueles que, em todo o decorrer do dia, haviam-se mantido em esperançoso silêncio.

Mais de 4.000 pessoas foram encontradas no decorrer daquela noite e executadas nas ruas. Nos próximos dois dias seus corpos foram trans portados para Plaszóvia em caminhões abertos e enterrados em valas comuns nos bosques próximos do novo campo de concentração.

 

Não sabemos em que estado de espírito Oskar Schindler passou o dia 13 de março, o último e pior dia do gueto. Mas, quando os seus empregados voltaram, sob guarda, de Plaszóvia para a fábrica, ele estava de novo disposto a coligir informações e transmiti-las ao Dr. Sedlacek, na próxima visita do dentista. Apurou pelos prisioneiros que Zwangsarbeitslager Plaszóvia — como o denominavam os burocratas da SS — não ia ser nenhum reino racional. Goeth já se entregara à sua ojeriza por engenheiros, permitindo que os guardas espancassem Zygmunt Grünberg até deixá-lo em estado de coma, e de pois não o levassem para a clínica perto do campo das mulheres, senão quando já era tarde demais para salvá-lo. Pelos prisioneiros, que tomavam a sua substanciosa sopa do almoço na DEF, Oskar soube também que Plaszóvia estava sendo utilizado não apenas como campo de trabalho, mas como local de execuções. Além de todo o campo ouvir os disparos das execuções, alguns dos prisioneiros as haviam testemunhado pessoalmente.

O prisioneiro M.,* por exemplo, que antes da guerra tivera uma loja de decoração em Cracóvia. Nos primeiros dias de existência do campo, ele fora solicitado para decorar as residências dos SS, peque nas casas de campo que margeavam a vereda na parte norte. Como qualquer artesão com uma especialidade, tinha mais liberdade de movimento, e certa tarde daquela primavera caminhara da casa do Unlersturmführer Leo John por um atalho, que levava ao morro Chujowa Górka, em cujo cume ficava a fortaleza austríaca. Dispunha-se a descer a encosta do outro lado, de volta à fábrica, quando teve de se deter.

Residindo hoje em Viena, a pessoa não quer que seja usado o seu verdadeiro nome para dar passagem a um caminhão do Exército, que subia a encosta. M. notou que sob a capota havia mulheres sob a guarda de ucranianos vestidos com macacões brancos. Escondera-se por detrás de tábuas empilhadas e tivera uma visão incompleta das mulheres, quando eram desembarcadas e impelidas para dentro do forte, recusando despir-se. O homem, que berrava as ordens lá dentro, era o SS Edmund Sdrojewski. Os ucranianos caminhavam entre as mulheres, espancando-as com o cabo de seus chicotes. M. presumiu que elas eram judias, provavelmente surpreendidas com documentos arianos e trazidas da prisão de Montelupich para ali. Algumas gritavam de dor mas outras se mantinham em silêncio, como que recusando aos ucranianos aquela satisfação. Uma delas começou a entoar o Shema Yisroel e as outras a imitaram. Os versos soavam vigorosos acima do morro, como se tivesse ocorrido justo naquele momento às mulheres que até a véspera haviam fingido ser arianas — que agora, uma vez cessada a pressão, estavam inteiramente livres de celebrar sua diferença tribal na cara de Sdrojewski e dos ucranianos. Depois, agrupadas, por pudor e para se protegerem do ar frio da primavera, elas foram todas fuziladas. À noite, os ucranianos levaram os corpos em carrinhos de mão e os enterraram nos bosques do outro lado do Chujowa Górka.

Habitantes do campo abaixo também tinham sabido daquela primeira execução no morro, agora profanamente apelidado de "Morro do Cacete''. Alguns procuravam se convencer de que guerrilheiros tinham sido fuzilados, marxistas intratáveis ou nacionalistas enlouquecidos. Lá em cima era outro país. Quem obedecesse às ordens dentro do arame farpado nunca teria de subir aquele morro. Mas os emprega dos de Schindler, mais esclarecidos, sendo conduzidos pela Rua Wie liczka acima, passando pela fábrica de cabos de Zablocie para trabalhar na DEF — sabiam por que os prisioneiros de Montelupich estavam sendo fuzilados no forte austríaco: a SS não parecia se incomodar que fosse vista a chegada dos caminhões, ou que fossem ouvidos os disparos dos tiros em toda Plaszóvia. A razão era simples: a SS tinha conhecimento de que a população do campo jamais poderia prestai testemunho. Se houvesse a preocupação com referência a tribunais, futuros testemunhos em massa, eles poderiam ter levado as mulheres mais longe para executá-las. A conclusão a que se devia chegar, decidiu Oskar, não era que Chujowa Górka fosse um mundo separado de Plaszóvia, mas que todos eles, tanto os que eram levados de caminhão ao forte, como os que viviam por trás das cercas de arame farpado estavam sob a mesma sentença de morte.

Na primeira manhã em que o Comandante Goeth emergiu da porta da frente de sua casa e assassinou ao acaso um prisioneiro, houve uma tendência para se ver esse episódio, assim como a primeira execução no Chujowa Górka, como um fato único, apartado do que se tornaria a vida costumeira do campo. A verdade era que as matanças no morro viriam a se tornar habituais, assim como a rotina das manhãs de Amon.

De camisa, calças de montaria e botas, as quais sua ordenança dava um polimento faiscante, Amon aparecia nos degraus da frente de sua casa provisória. (Uma residência melhor estava sendo reformada para seu uso, na outra extremidade do perímetro do campo.) À medida que o tempo fosse esquentando, ele iria aparecer sem camisa, pois amava o sol. Mas, por enquanto, trazia a roupa com que tinha tomado o seu café da manhã, um binóculo numa das mãos e um fuzil com mira telescópica na outra. Com o binóculo percorria a área do campo, o trabalho na pedreira, os presos puxando e empurrando as carretas nos trilhos, que passavam pela sua porta. Os que erguessem os olhos pode riam ver a fumaça do seu cigarro preso entre os lábios, à maneira co mo um homem fuma quando está muito ocupado para largar as ferramentas de seu ofício. Logo nos primeiros dias de vida do campo ele apareceu assim à porta de sua casa e atirou num prisioneiro, que não parecia estar empurrando com bastante energia uma carreta car regada de pedra calcária. Ninguém sabia o motivo exato de Amon ter destacado aquele prisioneiro — Amon certamente não tinha de prestar contas dos seus atos. Ao estampido partindo do degrau da casa, o homem foi projetado para fora do grupo de cativos, indo cair à margem do caminho. Os outros, naturalmente, pararam de trabalhar, com os músculos retesados, na expectativa de mais uma matança geral. Mas Amon fez-lhes sinal com a mão para que continuassem a trabalhar, franzindo o sobrolho, como que para significar que, por enquanto, es tava satisfeito com o ritmo do trabalho.

À parte de tais excessos com prisioneiros, Amon estava também quebrando uma das promessas que fizera aos empresários. Oskar recebeu um telefonema de Madritsch, sugerindo que ambos fossem fazer uma queixa. Amon tinha dito que não interferiria nos negócios das fábricas. Pelo menos, não estava interferindo lá dentro. Mas atrasava os turnos, detendo a população do campo durante horas na Appell platz (praça de paradas) fazendo a chamada, nome por nome. Madritsch relatou um caso em que uma batata fora encontrada em determinada caserna; por isso, como castigo, todos os moradores tinham sido publicamente açoitados diante de milhares de prisioneiros. Evidentemente, o castigo consistia em obrigar algumas centenas de pessoas a descerem as calças e roupas de baixo, ou suspender as saias, e aplicar em cada uma vinte e cinco chicotadas. O regulamento estabelecido por Goeth era que cada prisioneiro chicoteado devia ir contando as chicotadas para facilitar o trabalho das ordenanças ucranianas, encarrega das de aplicar o castigo. Se a vítima se atrapalhava na contagem, recomeçava-se tudo do início. As chamadas do Comandante Goeth na Appellplatz eram cheias de medidas desse tipo, que atrasavam os trabalhos.

Assim, os turnos chegavam com um atraso de horas na fábrica de roupas de Madritsch dentro do campo de Plaszóvia, e ainda mais tarde na fábrica de Oskar na Rua Lipowa. Além disso, chegavam transtornados, incapazes de concentração, balbuciando histórias do que Amon ou John ou Scheidt ou qualquer outro tinha feito naquela manhã. Oskar queixou-se a um engenheiro seu conhecido na Inspetoria de Armamentos. Não adiantava queixar-se aos chefes de polícia, disse o engenheiro.

Eles não estão envolvidos na mesma guerra que nós — comentou.

O que eu devia fazer — disse Oskar — era manter os meus em pregados no recinto de trabalho. Organizar o meu próprio campo.

O engenheiro achou graça na idéia.

E aonde iria acomodar tanta gente, meu caro? O espaço de que dispõe não bastaria.

Se eu puder adquirir mais espaço — disse Oskar — você esta ria disposto a escrever uma carta apoiando a minha idéia?

Quando o engenheiro concordou, Oskar foi procurar um casal idoso chamado Bielski, que residia na Rua Stradom. Perguntou se estariam interessados numa oferta pelo terreno contíguo à fábrica. O casal ficou encantado com os seus modos. Como o aborrecesse o ritual de pechinchar, Oskar começou oferecendo-lhes um preço excelente. Eles lhe serviram um chá e, muito excitados, chamaram seu advogado para preparar os papéis imediatamente. Em seguida, muito cortesmente, Oskar foi procurar Amon para dizer-lhe da sua intenção de criar um subcampo de Plaszóvia em sua própria fábrica. Amon gostou da idéia.

—   Se os generais e a SS aprovarem — disse ele — você pode

contar com a minha cooperação. Desde que não queira me tirar os meus músicos ou a minha criada particular.

No dia seguinte, foi marcada uma reunião geral com o Oberführer Scherner na Rua Pomorska. Tanto Amon quanto o General Scherner sabiam que Oskar iria ter de arcar, de alguma forma, com todas as despesas do novo campo. Podiam perceber que, quando Oskar usava o argumento industrial — "Quero os meus empregados dentro da fábrica, a fim de poder explorar melhor o seu potencial de trabalho"

— falava ao mesmo tempo algo maluco da sua personalidade, para quem a questão de despesas não existia. Consideravam-no um bom sujeito, que fora contaminado por uma forma qualquer de amor a judeus, como um vírus. A dedução da teoria da SS era que o gênio semita de tal forma permeara o mundo, que podia produzir efeitos mágicos. Portanto, devia-se lamentar o que ocorrera com Herr Oskar Schindler, como se ele fosse um príncipe que se houvesse transformado num sapo. Mas Herr Schindler teria de pagar por essa enfermidade.

As exigências do Obergruppenführer Friedrich-Wilhelm Krüger, chefe de polícia do Governo-Geral e superior de Scherner e Czurda, baseavam-se nos regulamentos estabelecidos pela Seção de Campos de Concentração do Escritório Administrativo e Econômico do General Oswald Pohl, embora até aquele momento o campo de Plaszóvia fosse governado independentemente do escritório de Pohl. As estipulações básicas para um Subcampo de Trabalhos Forçados implicavam a construção de cercas de quase três metros de altura; torres de vigia situadas em determinados intervalos, de acordo com o perímetro do campo; latrinas, casernas, clínica, gabinete dentário, casa de banhos e complexo de desinfecção, barbearia, empório, lavanderia, escritório, habitações para os guardas, de padrão superior ao das casernas dos prisioneiros, e todos os outros anexos necessários. O que ocorrera a Amon, Scherner e Czurda era que, de justiça, Oskar teria de arcar com todas essas despesas por motivos econômicos e em razão do encantamento cabalístico, que se apossara dele.

E, como tinham a intenção de fazer Oskar pagá-las, a sua proposta os interessava. Restava um gueto em Tarnow, a uns sessenta quilômetros a leste, e, quando este fosse abolido, a população teria de ser absorvida pelo campo de Plaszóvia, além dos milhares de judeus que chegavam agora, vindos dos shteils do sul da Polônia. Um subcampo na Rua Lipowa iria aliviar a pressão.

Amon achava também que, embora nunca o expressasse em voz alta aos chefes de polícia, não haveria necessidade de suprir o campo da Rua Lipowa com muita exatidão quanto ao mínimo de necessidades alimentícias, estabelecido nas diretrizes do General Pohl. Amon — que podia lançar raios da porta de sua casa, sem que ninguém pro testasse — era adepto da idéia oficial de que convinha haver certo desgaste em Plaszóvia. Assim, já estava vendendo uma percentagem das rações dos prisioneiros no mercado de Cracóvia, através de um seu agente, um judeu chamado Wilek Chilowicz, que mantinha contatos com gerentes de fábricas, negociantes e até donos de restaurantes.

0 Dr. Alexander Biberstein, agora ele próprio um prisioneiro, apurou que a ração diária variava entre 700 e 1.000 calorias. De manhãcada prisioneiro recebia meio litro de café preto ersatz, com gosto de glandes de carvalho, e um pedaço de pão de centeio pesando 175g, a oitava parte de um dos pães redondos, que todas as manhãs as ordenanças do rancho das casernas iam buscar na padaria. Sendo a fome uma força desmoralizante, a ordenança de cada rancho cortava o pão de costas para os famintos e pilheriava: "Quem quer este pedaço? Quem vai querer?" Ao meio-dia era distribuída uma sopa — cenouras, beterrabas, um substituto de sagu. Em certos dias a sopa era mais encorpada. Alimentos melhores entravam no campo, trazidos de fora pelos trabalhadores. Uma galinha pequena podia ser transportada debaixo do casaco, um pão francês preso numa perna de calça. Entretanto, Amon procurava impedir que isso acontecesse, mandando que os guardas revistassem os trabalhadores de volta ao campo defronte do Prédio da Administração. Não queria que fosse frustrado o desgaste natural, nem que o sopro ideológico desaparecesse de suas negociatas com alimentos através de Chilowicz. Como não saciava os próprios prisioneiros, ele achava que, se Oskar decidira abrigar mil judeus, poderia matar-lhes a fome a suas próprias expensas, sem um fornecimento muito regular de pão e beterraba dos empórios de Plaszóvia.

Naquela primavera, não foi apenas com os chefes de polícia de Cracóvia que Oskar teve de se entender. Visitou a área dos fundos de sua fábrica para ganhar os vizinhos à sua causa. Adiante das duas cabanas rústicas de Jereth, construídas com tábuas de pinho, ficava a fábrica de radiadores dirigida por Kurt Hoderman, que empregava um bando de poloneses e cerca de cem prisioneiros de Plaszóvia. Na outra direção havia a fábrica de embalagens de Jereth, supervisionada pelo engenheiro alemão Kuhnpast. Como eram poucos os prisioneiros de Plaszóvia empregados ali, os dois donos das fábricas não se interessa ram muito pela idéia mas não fizeram objeção, porque Oskar estava oferecendo moradia aos empregados judeus de ambos a 50 metros do local de trabalho, em vez de cinco quilômetros.

Em seguida, Oskar foi conversar com o engenheiro Schmilewski na guarnição militar da Wehrmacht, situada umas poucas ruas adiante de sua fábrica, que empregava um esquadrão de prisioneiros de Plas zóvia. Schmilewski não tinha nenhuma objeção a fazer, e seu nome, além dos de Kuhnpast e Hoderman, foi acrescentado ao requerimento que Schindler enviou à Rua Pomorska.

Supervisores da SS foram visitar a Emalia e conferenciaram com o supervisor Steinhauser, um velho amigo de Oskar da Inspetoria de Armamentos. Inspecionaram o recinto com um ar carrancudo, como é costume dos supervisores, e fizeram perguntas sobre drenagem. Oskar levou-os todos ao seu gabinete no andar de cima e serviu-lhes café e conhaque; depois houve despedidas afáveis. Poucos dias depois, o requerimento para montar um Sub campo de Trabalhos Forçados no terreno da fábrica foi aprovado.

Naquele ano a DEF iria faturar um lucro de 15,8 milhões de reich marks. Poder-se-ia pensar que os 300 mil RM que Oskar gastara até agora na construção do campo constituíam uma despesa vultosa porém não ruinosa. Mas a verdade era que ele estava apenas começando a pagar.

Oskar enviou um pedido ao Bauleitung, ou Escritório de Construção, de Plaszóvia, para que lhe fosse cedido um jovem engenheiro de nome, Adam Garde, que nessa ocasião trabalhava ainda nas casernas do campo de Amon. Garde então, depois de deixar instruções aos encarregados das construções, era conduzido por uma guarda individual de Plaszóvia à Rua Lipowa, a fim de supervisionar o conjunto de obras de Oskar. Quando lá chegou pela primeira vez, o engenheiro encontrou duas casernas rudimentares, que já abrigavam perto de 400 prisioneiros.

Havia uma cerca patrulhada por um pelotão da SS mas os reclusos contaram a Garde que Oskar não permitia que os SS penetrassem no acampamento ou na oficina da fábrica, exceto, naturalmente, quando inspetores categorizados vinham inspecionar o local. Disseram ainda que Oskar mantinha a pequena guarnição militar da SS na fábrica bem provida de bebidas e satisfeita de ali permanecer. Garde podia ver que os prisioneiros da Emalia, eles próprios, pareciam contentes com suas duas frágeis moradias de tábuas de pinho, uma para os homens, outra para as mulheres. Já estavam começando a referir-se a si mesmos como os Schindlerjuden, usando o termo com cautelosa satisfação, da mesma maneira que um convalescente de ataque do coração poderia considerar-se um sujeito de sorte. Já tinham cavado umas tantas latrinas primitivas, cujo mau cheiro o engenheiro Garde, por mais que aprovasse aquela disposição para ajudar, não pudera deixar de notar desde a entrada da fábrica. Para o banho, eles usavam a água de uma bomba ao ar livre. Oskar pediu a Garde que o acompanhasse ao seu gabinete e examinasse os planos. Seis casernas para até 1.200 pessoas. A cozinha de campanha numa extremidade, a caserna da SS — Oskar estava hospedando os SS numa parte da fábrica — fora da cerca de arame farpado.

— Quero instalações de primeira qualidade para os chuveiros e lavanderia — disse Oskar. — Tenho bombeiros que poderão trabalhar sob sua direção. Tifo... — acrescentou ele, esboçando um sorriso para Garde. — Não queremos tifo no nosso campo. Piolhos é o que não falta em Plaszóvia. Precisamos ter espaço para ferver as roupas. Adam Garde estava muito satisfeito de poder ir todos os dias para a Rua Lipowa. Dois engenheiros já haviam sido punidos em Plaszóvia por causa de seus diplomas mas os técnicos na Emalia nunca eram rebaixados. Certa manhã, quando era conduzido por um guarda pela Rua Wieliczka em direção a Zablocie, de repente surgiu uma limusine preta, que freou bruscamente. Lá de dentro emergiu o Untersturmführer Goeth. Estava com aquele seu ar agitado.

—   Um guarda para um só prisioneiro? — observou ele. — O que significa isso?

O ucraniano desculpou-se, informando ao Herr Commandant que tinha recebido ordem de escoltar seu prisioneiro todas as manhãs até a Emalia de Herr Oskar Schindler. Tanto o ucraniano como Garde esperavam que a menção do nome de Oskar lhes desse imunidade. — Um guarda para um prisioneiro? — tornou a perguntar o comandante, mas se acalmou e entrou de novo na sua limusine, sem resolver a questão de algum modo radical. Mais tarde, naquele mesmo dia, ele entrou em contato com Wilek Chilowicz, que além de ser seu agente era também chefe da polícia judaica do campo — ou os "bombeiros", como eram chamados. Symche Spira, recentemente transformado em Napoleão do gueto, ainda morava lá e passava os dias supervisionando as buscas e escavações de diamantes, ouro e dinheiro escondidos, que não haviam sido registrados pelos judeus que agora eram cinzas sob os pinheiros de Belzek. Contudo, em Plaszóvia, Spira não tinha poder algum, pois o centro do poder ali era Chilowicz. Ninguém sabia de onde derivava a autoridade de Chilowicz. Talvez Willi Kunde houvesse recomendado o seu nome a Amon; talvez Amon tivesse gostado do estilo do agente. O fato é que, de um momento para outro, ele passou a ser chefe dos "bombeiros" de Plaszóvia, o distribuidor de bonés e braçadeiras, símbolos de autoridade naquele degradante reino e, como Symche, de imaginação bastante primária para equacionar o seu poder com o dos czares.

Goeth chamou Chilowicz e disse-lhe que era melhor ele mandar Adam Garde para Schindler por tempo integral e acabar com aquela função de escoltá-lo todos os dias à fábrica. "Temos engenheiros para dar e vender", dissera Goeth com desprezo. Insinuava que a engenharia era a opção mais fácil para os judeus, habitualmente barrados das faculdades de medicina nas universidades polonesas. Mas, de qualquer maneira, declarou Goeth, Garde teria primeiramente de terminar o trabalho do seu conservatório.

Adam Garde recebeu a notícia na Caserna 21, onde os beliches se empilhavam de quatro em quatro. Seria devolvido para Zablocie, no final de uma provação — a de trabalhar nos fundos da casa de Goeth onde, como o teriam advertido Reiter e Grünberg, os regulamentos eram imprevisíveis.

No decorrer da obra para o comandante, uma grande viga estava sendo colocada na cumeeira do conservatório de Amon. Enquanto trabalhava, Adam Garde podia ouvir latirem os dois cães do comandante, Rolf e Ralf, nomes inspirados numa história em quadrinhos — que apenas diferiam no modo de agir, pois, anteriormente, com o consentimento de Amon, tinham estraçalhado o seio de uma prisioneira suspeita de andar vagabundeando.O próprio Amon, com sua instrução técnica precária, aparecia freqüentemente por lá e adotava ares profissionais, enquanto via as vigas do teto sendo erguidas por roldanas. Pôs-se a fazer perguntas, quando a viga central estava sendo encaixada no lugar. Era uma imensa viga de pinho pesado; postado do outro lado da peça, Goeth fez alguma pergunta. Adam Garde não compreendeu o que o comandante estava perguntando e pôs a mão em concha no ouvido. De novo Goeth fez a pergunta, e pior do que não ouvi-la, Garden não a compreendeu.

— Não compreendo, Herr Commandant — admitiu ele.

Amon agarrou a viga imensa suspensa no ar e, com ambas as mãos de possantes dedos, impeliu-a na direção do engenheiro. Garde viu o maciço tronco apontado em direção à sua cabeça e compreendeu que seria um golpe mortal. Ergueu a mão direita defendendo-se; a viga então esmagou-lhe as juntas e metacarpos e atirou-o ao chão. Quando Garde pôde enxergar de novo através da névoa de dor e náusea, Amon já se fora. Talvez voltasse no dia seguinte para uma resposta satisfatória...

Com receio de ser considerado aleijado e deficiente, o engenheiro evitou exibir a mão a caminho da Krankenstube (enfermaria), e manteve-a numa postura normal, apesar da dor excruciante. Mas acabou permitindo que o Dr. Hilfstein a engessasse. Assim continuou a supervisionar a construção do conservatório, e todos os dias era conduzido à fábrica Emalia, esperando que a manga comprida do paletó disfarçasse o gesso. Ainda assim, impelido pelo mesmo receio, ele acabou arrancando o gesso da mão. Paciência se ela iria ficar defeituosa! O que ele queria era garantir a sua transferência para o campo de Schindler, aparentando condições físicas perfeitas.

Uma semana depois, carregando uma camisa, alguns livros e uma trouxa, ele foi definitivamente escoltado para a Rua Lipowa.

 

Entre os prisioneiros bem-informados, já havia competição para ir trabalhar na Emalia. O prisioneiro Dolek Horowitz, por ser o encarregado de compras no campo de Plaszóvia, sabia que não lhe seria permitido ir para o subcampo de Schindler. Mas tinha mulher e dois filhos. Richard, o mais novo de seus filhos, acordava cedo naquelas manhãs do começo da primavera — quando a terra se despedia do inverno envolta num nevoeiro —, saltava do beliche de sua mãe na caserna das mulheres e descia correndo a encosta para o campo dos homens, pensando no grosseiro pão da manhã. Tinha de comparecer com o pai à primeira chamada na Appellplatz. No caminho o menino passava pelo posto da polícia judaica de Chilowicz e, mesmo nas manhãs de bruma, podia ser visto das duas torres de vigia. Mas estava em segurança porque todos o conheciam. Era o filho de Horowitz. O pai era considerado valioso por Herr Bosch, que, por sua vez, costumava beber em companhia do comandante. A sensação de liberdade de Richard era uma conseqüência da capacidade técnica de seu pai; passava contente sob os olhos dos guardas, entrava na caserna dos homens e acordava o pai em seu catre, com perguntas. Por que há névoa de manhã e não à tarde? Vai haver caminhões? Vai demorar muito a chamada do dia na Appellplatz"? Vai haver gente chicoteada?

Pelas perguntas de Richard, Dolek Horowitz chegou à conclusão de que Plaszóvia não servia nem mesmo para crianças privilegiadas. Talvez pudesse entrar em contato com Schindler. Com o pretexto de estar cuidando de seu negócio, Schindler aparecia de vez em quando no campo e dava uma volta pelo Prédio da Administração e pelas oficinas, para distribuir pequenos presentes e trocar notícias com velhos amigos, tais como Stern, Roman Ginter e Poldek Pfefferoerg Como Dolek não conseguia falar com ele nessas ocasiões, ocorreu-lhe que tal vez pudesse entrar em contato com o industrial através de Bosch. Dolek acreditava que os dois se viam amiudamente. Não ali no campo, mas talvez em escritórios na cidade e em reuniões sociais. Percebia que eles não eram amigos mas mantinham ligações de negócios e de favores mútuos.

Não era talvez apenas Richard que Dolek queria que fosse para a fábrica da Schindler: Richard podia diluir seu terror em nuvens de perguntas. Mas principalmente Niusia, sua filha de dez anos, que era apenas uma criança franzina entre muitas outras, que não mais faziam perguntas; que perdera a capacidade de franqueza; que, diariamente — de uma janela na oficina de vassouras, onde ela costurava os pêlos nas armações de madeira —, via chegarem caminhões repletos no forte austríaco do morro e carregava insuportavelmente o seu terror, como uma adulta, incapaz de subir no colo de seus pais e transferir o seu medo. A fim de mitigar a fome, Niusia habituara-se a fumar cascas de cebola enroladas em papel de jornal. Os boatos que corriam sobre a Emalia eram que lá não havia necessidade daqueles recursos precoces.

Assim Dolek apelou para Bosch numa de suas idas à fábrica de roupas. Criara coragem, animado com a idéia de bondades anteriores de Bosch, para pedir-lhe que falasse com Herr Schindler. Repetiu o pedido e mais uma vez o nome dos filhos, para que Bosch, cuja memória estava afetada pelo abuso dos schnapps que bebia, não se esquecesse.

Bosch disse que Herr Schindler era "o meu melhor amigo e fará tudo o que eu pedir". Dolek não esperava muito daquela conversa. Sua mulher, Regina, não tinha nenhuma experiência em trabalhar com esmaltados. O próprio Bosch não mais tornou a mencionar o assunto. Contudo, uma semana depois, eles eram incluídos na lista dos próximos trabalhadores da Emalia, sancionada pelo Comandante Goeth, em troca de um pequeno envelope contendo jóias. Niusia parecia uma adulta retraída na caserna das mulheres na Emalia e Richard se movimentava como em Plaszóvia, conhecido de todos na seção de munições e nas oficinas de peças esmaltadas; os próprios guardas não faziam objeção à sua familiaridade. Regina estava sempre esperando que Oskar a procurasse para dizer: "É você a mulher de Dolek Horowitz?" Seu único problema, então, seria como expressar sua gratidão. Mas ele nunca a procurou. Regina notava, satisfeita, que na Rua Lipowa nem ela nem a filha chamavam muito atenção. Ambas sabiam que Oskar não ignorava quem elas fossem, pois freqüentemente ele chamava Richard pelo nome. E sabiam também, pela natureza incomum das perguntas de Richard, a extensão do benefício com que haviam sido agraciados. O campo da Emalia não tinha um comandante residente para tiranizar os prisioneiros. Não havia guardas permanentes. A guarnição era trocada a cada dois dias, homens da SS e ucranianos, que vinham em dois caminhões de Plaszóvia para Zablocie para se encarregarem da segurança do subcampo. Os soldados que gostavam de ser destacados para a Emalia. As cozinhas de Herr Direktor, embora ainda mais primitivas do que as de Plaszóvia, serviam refeições melhores. Como Herr Direktor se indignava e imediatamente ligava para o Oberführer Scherner, quando algum guarda, em vez de cingir-se ao patrulhamento do perímetro, penetrava no campo, a guarnição não ousava passar para o outro lado da cerca. O patrulhamento em Zablocie era agradavelmente monótono.

Exceto quando havia inspeção de oficiais da SS, os prisioneiros, que trabalhavam na DEF, raramente viam de perto os seus guardas. Um corredor, com cerca de arame farpado de ambos os lados, levava-os para o local do seu trabalho na oficina de esmaltados; outro, até a porta da seção de munições. Os judeus da Emalia, que trabalhavam na fábrica de embalagens, de radiadores e no escritório da guarnição, eram levados e trazidos de volta por ucranianos, substituídos por outros a cada dois dias. Assim, nenhum guarda tinha tempo de cismar com algum prisioneiro e persegui-lo.

Portanto, embora coubesse à SS estabelecer os limites da vida que os prisioneiros levavam na Emalia, era Oskar quem resolvia os detalhes.

O clima era de frágil estabilidade. Não havia cães. Nem espancamentos.

A sopa e o pão eram melhores e com mais fartura do que em Plaszóvia — cerca de 2.000 calorias por dia, de acordo com um médico que trabalhava como operário na Emalia. Os turnos eram prolongados, freqüentemente de doze horas, pois Oskar continuava sendo um homem de negócios com contratos de fornecimento de material bélico e o desejo convencional de lucro. Contudo, é preciso dizer que o trabalho não era árduo e que muitos dos seus prisioneiros pareciam ter acreditado na ocasião que aquela atividade era uma contribuição em termos comensuráveis para a sua sobrevivência. Segundo a prestação de contas apresentada por Oskar, depois da guerra, ao Comitê de Distribuição Conjunto, ele havia gasto 1.800.000 zlotys (360 mil dólares) em alimentação para o campo da Emalia. Podiam-se encontrar lançamentos adulterados para despesas semelhantes nos livros de Farbene Krupp — embora nem de longe numa percentagem de lucro tão alta como na prestação de contas de Oskar. Contudo, a verdade é que ninguém adoeceu ou morreu de excesso de trabalho, espancamento ou fome na Emalia. Ao passo que somente na fábrica I.G. Farben Buna 25 mil dos 35 mil prisioneiros da força de trabalho pereceram labutando.

Muitos anos depois, o pessoal da Emalia iria referir-se ao campo de Schindler como um paraíso. Como por essa época eles já estivessem espalhados pelo mundo, não pode ter sido um termo adotado em conjunto depois de ocorridos os fatos. Era, naturalmente, um paraíso apenas relativo, um céu em contraste com Plaszóvia. O que inspirava aquela gente era um senso de libertação quase irreal, algo de fantástico, que eles não queriam examinar muito de perto por temer vê-lo evaporar-se.

Os novos empregados da DEF não conheciam Oskar pessoalmente.

Não queriam cruzar o caminho de Herr Direktor ou arriscar-se a falar com ele. Precisavam de tempo para se recuperar e se ajustar ao sistema de prisão tão pouco ortodoxo estabelecido por Schindler.

Uma jovem chamada Lusia, por exemplo. Recentemente a tinham separado do marido, escolhido na multidão de prisioneiros na Appellplatz de Plaszóvia e enviado com outros para Mauthausen. Havia chorado muito, certa da realidade do seu estado de viúva. Em lágrimas, fora destacada para a lia. O seu trabalho era carregar os objetos banhados em esmalte para os fornos. Ali era permitido aquecer água nas superfícies da maquinaria, e a oficina ficava aquecida. Para Lusia, a água quente tinha sido o primeiro benefício da Emalia. A princípio Lusia via Oskar apenas como uma figura alta passando entre as prensas de metal ou atravessando uma passarela. Por algum motivo, não lhe parecia uma figura ameaçadora. A sua sensação era de que, se alguém a notasse, a natureza do local — a ausência de espancamentos, a comida, o campo sem uma guarda visível — talvez se invertesse. Queria apenas trabalhar discretamente no seu turno e retornar pelo túnel de arame farpado para a sua caserna. Após certo tempo, Lusia passou a dar um cumprimento de cabeça a Oskar e até a dizer-lhe que, sim, obrigada, Herr Direktor, estava tudo bem. Certa vez ele lhe ofereceu cigarros, artigo mais valioso do que ouro, não somente como reconforto, mas também como um meio de negociar com os trabalhadores poloneses. Como sabia que amigos podiam sumir, ela temia a amizade de Oskar; queria que ele continuasse sendo uma presença, uma espécie de pai encantado. Um paraíso dirigido por um amigo era demasiado frágil. Para se ter um céu duradouro,era preciso que houvesse alguém mais autoritário e mais misterioso. Muitos prisioneiros da Emalia sentiam o mesmo. Na ocasião em que o subcampo de Oskar entrou em funcionamento, uma moça chamada Regina Perlman residia em Cracóvia, com documentos forjados, que a davam como sul-americana. Sua tez morena emprestava credibilidade aos documentos e, graças a isso, ela trabalhava como sendo de raça ariana no escritório de uma fábrica em Podgórze.

Estaria mais protegida contra chantagistas, se tivesse ido para Varsóvia, Lodz ou Gdansk. Mas seus pais estavam em Plaszóvia e, na sua posição, conseguia fornecer-lhes comida, conforto, remédios. Sabia pelos seus pais no gueto, que se tornara um adágio na mitologia judaica de Cracóvia, que era possível esperar de Herr Schindler uma extrema dedicação. Estava a par, também, do que se passava no campo de Plaszóvia, na pedreira, nos degraus da entrada da casa do comandante.

Ela teria de desvendar sua falsa identidade para conseguir o que queria mas acreditava ser essencial conseguir a transferência de seus pais para o campo de Schindler. A primeira vez que se apresentou na DEF, para não se fazer notar, tinha escolhido um discreto e desbotado vestido estampado e não usava meias. O porteiro polonês telefonou para o escritório de Her Schindler no andar acima, e pela vidraça ela podia ver o olhar de desaprovação desse funcionário. "Não é ninguém especial — uma pobretona de alguma das outras fábricas." Regina sentia medo, compreensível em pessoas com papéis forjados de raça ariana, de que o polonês descobrisse que ela era judia. O guarda parecia hostil. Não tem maior importância, disse ela, quando ele voltou abanando a cabeça, pois não queria despertar a sua desconfiança. Mas o polonês não se deu sequer ao trabalho de mentir.

— Herr Direktor não a quer ver — disse ele. A capota do BMW luzia no pátio da fábrica e só podia pertencer a Schindler. "O patrão estava no recinto, mas não para visitantes, que não podiam sequer comprar um par de meias..." Ela se retirou trêmula, pensando no perigo por que passara. Tinha sido salva de fazer a Herr Schindler uma confissão que, mesmo em sonho, temia revelar a alguém. Regina esperou uma semana, até conseguir uma folga na fábrica de Podgórze. Dedicou toda a metade de um dia preparando-se. Tomou um banho e arranjou um par de meias no mercado negro. De uma de suas poucas amigas — em sua situação, com documentos falsos, não podia se arriscar a ter muitas amizades — tomou emprestado uma blusa. Tinha um casaco em boas condições e comprou um chapéu de palha laqueada com um véu. Maquilou-se, obtendo em sua tez morena o brilho próprio de uma mulher livre de qualquer ameaça. No espelho, viu-se como era antes da guerra, uma elegante cracoviana de exótica extração racial — o pai um homem de negócios húngaro e a mãe nascida no Rio.

Dessa vez, como Regina pretendia, o polonês não a reconheceu. Deixou-a entrar enquanto telefonava a Klonowska, a secretária de Herr Direkíor, e em seguida falou com o próprio Schindler.

—   Herr Direkíor, está aqui uma jovem senhora que deseja vê-lo para tratar de um negócio importante. — Herr Schindler pediu detalhes.

— É uma moça bem-vestida e muito distinta.

Como se estivesse ansioso por conhecê-la, ou talvez temendo que se tratasse de algum caso seu no passado que pudesse causar-lhe embaraço no escritório, Schindler foi ao seu encontro na escada. Sorriu ao ver que não a conhecia. Era um prazer conhecer Fràulein Rodriguez. Regina sentiu nele uma espécie de respeito por sua beleza, respeito ao mesmo tempo infantil e sofisticado. Com um gesto largo de galã de cinema, convidou-a a subir ao escritório. O que tinha a dizer era confidencial?

Pois não. Acompanhando-a, ele passou pela mesa de Klonowska, que não pareceu preocupada. A moça podia significar apenas mercado negro ou alguma transação comercial. Podia até mesmo tratar-se de uma bela guerrilheira. O amor era a suposição menos provável. De qualquer modo, uma jovem com a experiência de Klonowska não esperava que tanto Oskar como ela própria pertencessem um ao outro com exclusividade.

Uma vez em seu gabinete, Schindler ofereceu uma cadeira à moça e foi sentar-se à sua mesa de trabalho, sob o retrato de praxe do Führer.

Aceitava um cigarro? Talvez um Pernod ou um conhaque? Não, disse Regina, mas Herr Direktor não devia se constranger de tomar o seu drinque. Ele se serviu da bebida. Mas qual era aquele negócio tão importante?, perguntou, não com a mesma afabilidade charmosa que usara de início. Pois agora, com a porta do gabinete fechada, ela havia adotado uma atitude diferente. Visivelmente, a visitante viera tratar de um negócio sério. Ela chegou-se para a frente. Por um instante pareceu-lhe ridículo que, depois de seu pai ter pago 50 mil zlotys por papéis de identidade ariana, abrir o jogo e contar tudo para um Sudetendeutscher, meio irônico, meio preocupado, com um copo de conhaque na mão.

Todavia, de certa forma, foi muito mais fácil falar do que tinha imaginado.

—   Digo-lhe Herr Schindler, que não sou uma polonesa ariana. Meu sobrenome verdadeiro é Perlman. Meus pais estão no campo de Plaszóvia. Eles dizem, e eu acredito, que trabalhar na Emalia é o mesmo

que receber um Lebenskarte, um cartão com direito à vida. Não tenho nada que lhe possa dar em troca; pedi emprestado roupas para poder ser admitida em sua fábrica. Quer mandar buscar os meus pais para trabalharem aqui? Schindler devolveu o copo à mesa e pôs-se de pé.

—   Você quer fazer um arranjo secreto? Eu não faço arranjos secretos. O que sugere é ilegal, Fràulein. Tenho uma fábrica aqui em Zablocie e a única pergunta que faço é se a pessoa está capacitada para determinado trabalho. Se quiser ter a bondade de deixar o seu endereço e nome como ariana, talvez seja possível escrever-lhe daqui a algum tempo e informá-la se preciso de seus pais para o trabalho em perspectiva.

Mas não agora, e não sob qualquer pretexto.—Mas eles não podem vir para cá como trabalhadores especializados — explicou Fràulein Perlman. — Meu pai era importador, não metalúrgico.—Temos uma equipe no escritório. Mas estamos sobretudo precisando é de operários especializados na oficina.

Fora derrotada. Com lágrimas turvando-lhe a visão, escreveu o seu falso nome e endereço verdadeiro — ele que fizesse o que bem entendesse com aqueles dados. Mas, já na rua, Regina compreendeu e começou a criar ânimo. Talvez Schindler desconfiasse de que ela podia ser uma agente, que viera preparar-lhe uma armadilha. De qualquer modo, ele se mostrara bem frio. Nenhum gesto ambíguo, nenhuma bondade subentendida, na maneira pela qual a pusera para fora do seu gabinete. Um mês depois, o Sr. e a Sra. Perlman foram transferidos de Plaszóvia para a Emalia. Não isoladamente, como Regina Perlman tinha imaginado que aconteceria, se Herr Oskar Schindler decidisse ser compassívo, mas como parte de um novo grupo de trinta trabalhadores. Às vezes, ela ia até a Rua Lipovva e, à custa de suborno, conseguia entrar na oficina para vê-los. Seu pai trabalhava dando banho de esmalte em objetos, alimentando com carvão os fornos, varrendo do chão a sucata. "Mas ele está de novo falando", contou a Sra. Perlman à filha. No campo de Plaszóvia, ele não abria a boca.Com efeito, apesar das toscas casernas por onde o vento penetrava, dos encanamentos deficientes, ali, na Emalia, havia um certo estado de espírito, uma confiança renascente, uma esperança de vida, que ela, vivendo arriscadamente com documentos falsos na soturna Cracóvia, não poderia sentir senão no dia em que cessasse aquela loucura.Fràulein Perlman-Rodriguez não complicou a vida de Herr Schindler, irrompendo em seu gabinete para lhe demonstrar gratidão ou lhe escrevendo cartas efusivas. Entretanto, sempre saía pelo portão amarelo da DEF com uma insaciável inveja dos que estavam lá dentro. Houve, então, uma campanha para transferir para a Emalia o Rabino Menasha Levartov, que se fazia passar por metalúrgico em Plaszóvia. Levartov era um rabino erudito da cidade, jovem e de barbas negras. Era mais liberal do que os rabinos dos shtetls da Polônia, os que acreditavam que o Shabbai era mais importante do que a própria vida e que, no decorrer dos anos de 1942 e 1943, eram fuzilados às centenas, todas as noites de sexta-feira, por se recusarem a trabalhar nos acantonamentos de trabalhos forcados da Polônia. Menasha Levartov era homem do tipo que, mesmo nos anos de paz, teria pregado à sua congregação que, embora a inflexibilidade dos piedosos seja uma homenagem a Deus. o mesmo Deus também se sentiria homenageado com a flexibilidade dos sensatos. Levartov sempre merecera a admiração de Itzhak Stern, que trabalhava no Escritório de Construção do Prédio da Administração de Amon Goeth. Nos velhos tempos, Stern e Levartov, em horas de lazer, teriam passado horas juntos bebendo herbata, deixando a bebida esfriar, enquanto discutiam a influência de Zoroastro no judaísmo e vice-versa, ou o conceito do mundo natural no taoísmo. Stern, quando se tratava de religião comparativa, sentia mais prazer em conversar com Levartov do que jamais sentiria com o diletante Oskar Schindler, que tinha um fraco por discorrer sobre o mesmo assunto. Em uma das visitas de Oskar a Plaszóvia, Stern disse-lhe que era preciso dar um jeito de levar Menasha Levartov para Emalia, do contrário Goeth certamente acabaria matando-o. Porque Levartov tinha uma personalidade que atraía o olhar — era uma questão de presença. Goeth tinha atração por pessoas de presença; elas eram uma classe de alta prioridade para a sua mira. Stern contou a Oskar como Goeth tinha tentado assassinar Levartov.

O campo de Amon Goeth continha agora mais de 30 mil pessoas. De um lado da Appellplatz, próximo à capela mortuária judaica, transformada em cocheira. ficava um conjunto polonês, com capacidade para cerca de 1.200 prisioneiros. O Obergruppenführer Krüger, depois de inspecionar o novo campo, ficou tão satisfeito com o seu desenvolvimento que promoveu o comandante dois postos acima, à categoria de Hauptsturmführer. Assim como muitos poloneses, judeus do Leste e da Tchecoslováquia ficavam retidos em Plaszóvia, enquanto eram providenciados alojamentos para eles mais a oeste, em Auschwitz-Birkenau ou Gròss-Rosen.

Às vezes, a população era de mais de 35 mil, e a Appellplatz fervilhava de gente na hora da chamada. Assim, Amon freqüentemente tinha de livrar-se dos antigos prisioneiros a fim de criar espaço para os recém-chegados. E Oskar sabia que o método rápido do comandante era entrar num dos escritórios ou oficinas do campo, formar duas fileiras de indivíduos e ordenar que uma delas fosse conduzida para fora. Essa fileira era levada para o morro do forte austríaco, para ser executada por pelotões de fuzilamento, ou para os vagões de gado na Estação de Cracóvia-Plaszóvia ou, quando esta foi desmantelada no outono de 1943, para o desvio de estrada de ferro junto ao quartel fortificado da SS.

Stern contou a Oskar que Amon, numa daquelas suas funções de seleção, entrou na oficina metalúrgica da fábrica. Os supervisores tinham-se perfilado como soldados e prestado ansiosamente as informações, sabendo que uma palavra mal escolhida podia ser mortal.—Preciso de vinte e cinco metalúrgicos — disse Amon aos supervisores, quando esses terminaram suas explicações. — Apenas vinte e cinco. Indiquem-me os mais competentes.

Um dos supervisores apontou para Levartov e o rabino entrou na fila, conquanto notasse que Amon prestara uma atenção especial à escolha da sua pessoa. Naturalmente, nunca se sabia qual fileira receberia ordem de marchar, ou qual seria o seu destino; mas, na maioria dos casos, era preferível fazer parte da fileira dos competentes. Assim prosseguiu a seleção. Levartov tinha notado que as oficinas metalúrgicas estavam estranhamente desertas naquela manhã, pois muitos metalúrgicos e outros, que lá trabalhavam, tinham sido avisados da aproximação de Goeth e se esgueirado para dentro da fábrica de confecções de Madritsch para se esconderem entre os rolos de tecido ou fingirem que estavam consertando máquinas de costura. Os quarenta e poucos mais lentos ou inadvertidos, que tinham ficado nas oficinas de metalurgia, achavam-se agora em duas fileiras entre os bancos e os tornos. Todos estavam temerosos, porém os mais inquietos eram os que compunham a fileira menor.

Então um rapazola de idade imprecisa, entre dezesseis e dezenove anos, que fazia parte da fileira menor, gritou:   Mas, Herr Commandant, eu também sou um metalúrgico competente.

Sim, Liebchen? — murmurara Amon, puxando o revólver do coldre, adiantando-se para o rapazola e dando-lhe um tiro na cabeça. O estampido violento atirara a vítima contra a parede, matando-a instantaneamente, segundo o testemunho de Levartov. A fileira agora mais curta foi conduzida, marchando, para a estação ferroviária, enquanto o corpo do rapazola era transportado num carrinho de mão para o morro, o chão lavado, e os tornos recomeçavam a funcionar. Mas Levartov, fabricando lentamente dobradiças sentado no seu banco, percebera o lampejo do olhar de Amon — um olhar que dizia: Ali está um. O rabino tinha a impressão de que o rapazola, com seu grito de apelo, fizera Amon esquecer temporariamente o próprio Levartov, seu alvo mais óbvio. Stern contou a Schindler que uns poucos dias se passaram ate Amon voltar à oficina metalúrgica, encontrá-la cheia de gente e recomeçar a fazer as suas seleções para o morro ou para a estação ferroviária.

Então, parou junto ao banco de Levartov. Era como Levartov estivera prevendo. Podia sentir o cheiro da loção de barba de Amon. Podia ver os seus punhos engomados. Amon era sempre de uma elegância impecável.

—   O que você está fazendo? — perguntou o comandante. —       Herr Commandant — respondeu Levartov — estou fabricando dobradiças. — O rabino apontou para um pequeno monte de dobradiças no chão.

—   Faça uma agora para mim — ordenou Amon. E, tirando seu relógio do bolso, começou a marcar o tempo. Levartov cortou apressadamente uma dobradiça, manipulou o metal, apertou o torno; os dedos trabalhando com competência. Com uma contagem trêmula em sua cabeça ele terminou a dobradiça, no que lhe pareceu 58 segundos, e deixou-a cair no chão a seus pés. —      Mais uma — murmurou Amon. Após a sua experiência de velocidade, o rabino sentia-se agora mais tranqüilo e trabalhou com confiança. Em talvez um minuto, a segunda dobradiça estava pronta. Amon olhou para o pequeno monte no chão.

—   Você esteve trabalhando aqui desde as seis horas da manhã — disse ele, sem erguer os olhos do chão. — Se pode trabalhar com a rapidez que acaba de demonstrar, por que está tão pequena a pilha de dobradiças?

Naturalmente, Levartov compreendeu que a sua própria perícia o condenara à morte. Amon ordenou que ele fosse andando entre os bancos e ninguém se deu ao trabalho ou teve a coragem de levantar a cabeça. Para ver o quê? Alguém caminhar para a morte? Tais caminhadas eram muito comuns em Plaszóvia.Ao ar livre da manhã de primavera, Amon colocou Menasha Levartov contra a parede da oficina, firmando-lhe os ombros; depois pegou no revólver, com que dois dias antes havia assassinado o menino.   Levartov apertou os olhos e viu prisioneiros passarem apressadamente, empurrando ou arrastando as matérias-primas do campo de Plaszóvia, ansiosos por se afastarem dali, os cracovianos entre eles pensando:

"Meu Deus, chegou a vez de Levartov." Murmurando para si mesmo o Shema Yisroel, ele ouviu o ruído do mecanismo do revólver. Mas o acionamento interno da arma não culminou num estampido, apenas num estalido, como o de um isqueiro que se recusa a acender. E, exatamente como um fumante aborrecido, nada mais, Amon Goeth retirou e tornou a colocar o pente de balas, fez mira de novo e disparou.

Quando a cabeça do rabino desviou, na suposição instintiva de que a bala seria absorvida como um soco, só o que emergiu do revólver de Goeth foi outro clique.

—   Donnerwelter! Zum Teufel! — praguejou Goeth. Levartov teve a impressão de que a qualquer instante Amon começaria a insultar a arma defeituosa, como se se tratasse de dois negociantes tentando transar um trabalho simples — a enfiação de um cano, a perfuração de uma parede com uma broca. Amon recolocou em seu coldre preto a arma defeituosa e tirou do bolso da túnica um revólver de cabo de madrepérola de certo tipo, que o Rabino Levartov só conhecia através de leituras, na infância, de histórias do Velho Oeste. "Evidentemente", pensou ele, "não devo esperar clemência por motivo de falha técnica. Não vai desistir. Vou ser morto com um revólver de cowboy; mesmo que falhem todas as armas precedentes, o Hauptsturmführer Goeth lançará mão de outras mais primitivas para levar a cabo a sua intenção." Conforme Stern contou a Schindler, quando Goeth fez de novo pontaria e disparou, Menasha Levartov já começara a olhar à sua volta à procura de algum objeto por perto que pudesse ser usado como substituto da pistola defeituosa de Goeth. A um canto da parede havia uma pilha de carvões, material aparentemente sem utilidade nesse impasse.

—   Herr Commandant — começou Levartov, mas já podia ouvir o mortífero cão e as molas do revólver de cowboy postos em funcionamento.

E de novo foi como o clique de um isqueiro recusando-se a acender. Amon, furioso, parecia estar tentando arrancar o cano da arma.O Rabino Levartov decidiu então adotar o recurso que vira os supervisores da oficina usarem.—  Herr Commandant, devo informá-lo de que a minha produção de dobradiças foi tão pouco satisfatória porque as máquinas estavam sendo recalibradas esta manhã. Em vez de fabricar dobradiças, fui destacado para transportar carvão. Levartov pensou que tinha violado as regras do jogo em que ambos estavam empenhados, o jogo que devia terminar com a sua morte justa. Era como se o rabino tivesse escondido os dados, e não se pudesse chegar a uma conclusão. Amon esbofeteou-o com a sua mão esquerda livre, e Levartov sentiu o gosto do sangue na boca, como uma garantia de sobrevivência. Então o Hauptsturmführer Goeth simplesmente abandonou Levartov encostado contra a parede. Entretanto, a crise, como ambos, Levartov e Stern, não ignoravam, fora simplesmente adiada. Stern sussurrou sua narrativa a Oskar no Prédio da Administração de Plaszóvia. Curvando-se, com os olhos voltados para cima, as mãos postas, foi como de costume prolixo nos detalhes. — Não há problema — murmurou Oskar. Ele gostava de provocar Stern.

— Por que esta história tão comprida? Sempre há lugar na Emalia para alguém que pode fabricar uma dobradiça em menos de um minuto. Quando Levartov e sua mulher chegaram ao subcampo da fábrica Emalia no verão de 1943, ele teve de sofrer o que a princípio tomou como ligeiras brincadeiras de Schindler sobre religião. Nas tardes de sexta-feira, na oficina de munições, onde Levartov operava um torno, Schindler lhe dizia: "Não devia estar aqui, Rabino. Devia estar se preparando para o Shabbat". Mas quando Oskar lhe deu disfarçadamente

uma garrafa de vinho para usar nas cerimônias, Levartov compreendeu que Herr Direktor não estava brincando. Nas sextas-feiras, antes do cair da tarde, o rabino era dispensado do trabalho e ia para a sua caserna atrás do arame farpado no terreno dos fundos da DEF. Ali, sob roupas malcheirosas secando nas cordas, ele recitava o Kiddush com um copo de vinho, entre os beliches empilhados até o teto. E, naturalmente, à sombra de uma torre de vigia da SS.

 

Oskar Schindler que, naqueles dias, desmontava de seu cavalo no pátio da Emalia era ainda o protótipo do magnata. Elegante e belo no estilo dos astros de cinema George Sanders e Curt Jurgens, aos quais as pessoas sempre o comparavam. Usava paletó e calças de montaria de talhe impecável; o polimento das botas dava-lhe um brilho faiscante. Parecia um homem a quem só o lucro interessava. Entretanto, Oskar voltava de cavalgadas pela zona rural para o seu gabinete, onde o esperavam contas surpreendentes, mesmo para a contabilidade de uma empresa excêntrica como a DEF.

Remessas da padaria em Plaszóvia para o campo da fábrica na Rua Lipowa, Zablocie, consistiam em umas poucas centenas de pães, entregues duas vezes por semana e um ocasional meio caminhão de nabos.

Esses caminhões mal cheios eram sem dúvida registrados e multiplicados nos livros de contabilidade do Comandante Goeth, enquanto homens de sua confiança, como Chilowicz, vendiam para lucro de Herr Hauptsturmführer a diferença entre os magros suprimentos, que chegavam à Rua Lipowa, e os fartos comboios fantasmas que Goeth anotava em seus livros. Se Oskar dependesse de Amon para a comida dos presos, os seus 900 prisioneiros teriam recebido cada um, para o seu sustento, talvez três quartos de um quilo de pão por semana e sopa de três em três dias. Em suas missões e do seu gerente, Oskar estava gastando mais de 50 mil zl. por mês em alimentos adquiridos no mercado negro para a cozinha do seu campo. Havia semanas em que tinha de desencavar mais de três mil pães redondos. Ia para a cidade e falava com supervisores alemães nas grandes padarias, levando em sua pasta reichmarks e duas ou três garrafas de bebidas.

Oskar não parecia se dar conta de que, em toda a Polônia naquele verão de 1943, ele era o campeão entre os fornecedores de comida ilegal para os prisioneiros. A nuvem maligna da fome, que a política da SS fazia pairar sobre as grandes fábricas de morte e sobre cada um dos campos de trabalhos forçados, era inexistente na Rua Lipowa de um modo perigosamente acintoso. Naquele verão ocorreram vários incidentes que vieram engrandecera figura mitológica de Schindler e a suposição quase religiosa entre os muitos prisioneiros de Plaszóvia e toda a população carcerária da Emalia de que Oskar tinha o dom de efetuar salvamentos milagrosos.

Logo que foram estabelecidos subcampos, oficiais superiores do campo principal, ou Lager, iam inspecionar os primeiros a fim de se certificarem de que a energia dos trabalhadores escravos era estimulada da maneira mais radical e exemplar. Não se sabe ao certo que membros da equipe de oficinas de Plaszóvia inspecionavam a Emalia, mas alguns prisioneiros e o próprio Oskar sempre diriam que Goeth era um deles. E quando não era Goeth, era Leo John, ou Scheidt; ou ainda Josef Neuschel, um protegido de Goeth. Não é uma injustiça mencionar esses nomes, relacionando-os com a expressão "estímulo de energia de uma maneira radical e exemplar". O fato é que na história de Plaszóvia eles tinham praticado ou permitido que fossem praticadas ferozes violências. Certa vez, visitando a Emalia, notaram no pátio um prisioneiro de nome Lamus, que empurrava um carrinho de mão muito lentamente. O próprio Oskar declarou que Goeth estava lá naquele dia e, notando a lentidão de Lamus, voltara-se para um jovem NCO chamado Grün (Grün era um outro protegido de Goeth, seu guarda-costas, ex-lutador). Certamente foi ele quem recebeu a ordem para executar Lamus.

Assim Grün prendeu Lamus, enquanto os inspetores continuaram percorrendo outras partes do campo da fábrica. Alguém da fundição correu ao gabinete de Herr Direktor e o alertou. Oskar desceu as escadas, furioso, ainda mais rapidamente do que no dia da visita de Regina Perlman, e chegou ao pátio justo no momento em que Grün estava mandando que Lamus se encostasse na parede.— Não pode fazer isso aqui! — gritou Oskar. — Não vou conseguir produção do meu pessoal, se você começar a atirar a torto e a direito!

Tenho contratos de guerra de alta prioridade. — Era o argumento que Schindler sempre usava e o seu tom insinuava que ele conhecia oficiais superiores, a quem seria dado o nome de Grün, se ele impedisse a produção da Emalia. Grün era esperto. Sabia que os outros inspetores tinham entrado nas oficinas, onde o ruído das prensas de metal e o ronco dos tornos encobririam qualquer barulho que ele fizesse, ou deixasse de fazer. Lamus era de tão pouca importância para homens como Goeth e John que nenhuma investigação seria feita posteriormente.

Que vantagem vou levar com isso? — perguntou o SS.

Vodca basta para você? — retorquiu Oskar. O preço era substancial. Para trabalhar o dia inteiro atrás das metralhadoras, durante as Aktionen, as execuções diárias em massa no Leste, ele recebia meio litro de vodca. Os rapazes disputavam um lugar

no pelotão a fim de, no final da noite, receber o seu prêmio. E ali o Herr Direktor estava lhe oferecendo três vezes mais por um ato de omissão.—   Não estou vendo a garrafa — disse ele, enquanto Herr Schindler já empurrava Lamus para longe da mira do SS. — Desapareça! —   gritou ele para a sua quase vítima.—    Pode ir apanhar a sua garrafa no meu escritório quando terminar a inspeção — disse Oskar. Oskar tomou parte numa transação semelhante, quando a Gestapo deu uma busca no apartamento de um falsificador e descobriu, entre outros documentos prontos ou quase prontos, papéis de identidade arianos para uma família chamada Wohlfeiler — mãe, pai, três filhos adolescentes, todos eles trabalhando no campo de Schindler. Dois homens da Gestapo apareceram na Rua Lipowa a fim de levar a família para um interrogatório, que resultaria no seu envio à prisão de Montelupich e, em seguida, a Chujowa Górka. Três horas depois de entrarem no escritório de Oskar ambos os homens partiram, cambaleando pelas escadas abaixo, sorrindo com o bom humor temporário do conhaque e, ao que se podia presumir, com dinheiro no bolso. Os papéis confiscados agora se achavam espalhados sobre a mesa de Oskar. Ele os apanhou e jogou no fogo da lareira.

Em seguida, o caso dos irmãos Danziger, que numa sexta-feira racharam uma prensa de metal. Homens honestos, perplexos, semi-especializados, erguendo os olhos shteíl da máquina que tinham acabado de avariar. O Herr Direktor não se achava na fábrica, e alguém —     um espião entre os seus operários, afirmaria sempre Oskar — denunciou os Danziger à administração de Plaszóvia. Os irmãos foram retirados da Emalia e o seu enforcamento anunciado na chamada da manhã seguinte em Plaszóvia: "Esta noite, a população deste campo assistirá à execução de dois sabotadores." O que, naturalmente, mais pesava na balança da condenação ao enforcamento dos Danziger era a sua aura ortodoxa.

Oskar voltou da sua viagem de negócios a Sosnowiec às três horas da tarde de sábado, três horas antes do programado enforcamento dos dois irmãos. Na sua mesa esperava-o a notícia da sentença. Imediata mente ele partiu no seu carro para Plaszóvia, levando consigo conhaque e algumas deliciosas salsichas kielbasa. Estacionou junto ao Prédio da Administração e encontrou Goeth em seu gabinete. Ficou satisfeito por não ter de acordar o comandante da sua sesta habitual à tarde. Ninguém sabe os termos da transação havida naquela tarde no gabinete de Goeth, naquele gabinete que poderia ter pertencido a Torquemada e que possuía cavilhas soldadas na parede onde eram dependuradas pessoas para serem disciplinadas ou instruídas. Todavia, é difícil acreditar que Goeth pudesse se satisfazer apenas com conhaque e salsichas. Em todo caso, sua preocupação com a integridade das prensas de metal do Reich se abrandou com a entrevista e, às seis da tarde, a hora marcada para a execução, os irmãos Danziger voltaram no assento traseiro da luxuosa limusine de Oskar para a doce esqualidez da Emalia. Todos esses sucessos eram, naturalmente, parciais. Oskar bem sabia que uma das características dos Césares era remir tão irracionalmente quanto condenar. O engenheiro Emil Krautwirt, durante o dia trabalhava na fábrica de radiadores por detrás das casernas da Emalia e à noite dormia nosubcampo de Oskar. Era jovem, tendo conseguido seu diploma no final da década de 30. Como os outros na Emalia, chamava o local de o "campo de Schindler"; ao levá-lo de volta a Plaszóvia para um enforcamento exemplar, a SS queria demonstrar de quem era de fato o campo, pelo menos sob alguns aspectos. A primeira história relatada pelo restante dos prisioneiros de Plaszóvia, que ainda estariam vivos no fim da guerra, era o enforcamento do engenheiro Krautwirt, antes mesmo da narrativa de cada uma das dores e humilhações que haviam eles próprios sofrido. A SS era muito econômica com seus cadafalsos e, em Plaszóvia, as forcas pareciam uma série de traves baixas de jogo de futebol, sem a majestade dos patíbulos da História, da guilhotina revolucionária, do cadafalso elizabetano, da forca erigida atrás da cadeia do xerife. Em tempo de paz, as forcas em Plaszóvia e Auschwitz intimidariam, não pela sua solenidade, mas pela sua mediocridade. Aquele tipo de estrutura das forcas em Plaszóvia, como descobririam as mães, permitia a uma criança de cinco anos ver um enforcamento do local onde se situava a turba de prisioneiros na Appellplatz. Juntamente com Krautwirt seria também enforcado um menino de dezesseis anos, chamado Haubenstock. Krautwirt tinha sido condenado sob alegação de umas cartas que escrevera a pessoas sediciosas na cidade de Cracóvia. No caso de Haubenstock, a acusação era por ter ele sido ouvido cantando Volga, Volga, Kalinka Maya e outras canções russas proibidas, com a intenção, segundo a sentença de morte, de conquistar guardas ucranianos à causa bolchevista.

O regulamento para o ritual da execução no campo de Plaszóvia exigia silêncio. Ao contrário dos enforcamentos festivos de outros tempos, a queda do corpo se processava sem o mais leve ruído. Os prisioneiros se perfilavam em falanges e eram patrulhados por homens e mulheres cientes de seu poder: por Hujar e John; por Scheidt e Grün; pelos NCO Landsdorfer, Amthor e Grimm, Ritschek e Schreiber; e por , supervisoras da SS recentemente destacadas para Plaszóvia, ambas muito eficientes no manejo de cassetetes: Alice Orlowski e Luise Danz. Sob tal supervisão, os apelos dos condenados eram ouvidos em silêncio, O engenheiro Krautwirt pareceu a princípio aturdido, emudecido, mas o menino apelou, com voz conturbada, para o Hauptsturmfüher que se postara ao lado da forca.

— Não sou comunista, Herr Commandant. Odeio o comunismo. Eram apenas canções. Canções comuns.O carrasco, um açougueiro judeu de Cracóvia, perdoado de algum crime com a condição de aceitar aquela tarefa, ajeitou Haubens-tock em cima de um tamborete e passou-lhe o laço no pescoço. Percebia que Amon queria que o menino fosse o primeiro a ser enforcado, pois lhe desagradava continuar ouvindo aqueles apelos. Quando o açougueiro deu um pontapé no banco de sob os pés de Haubenstock, a corda se rompeu e o menino, roxo e engasgado, com o laço ainda à volta do pescoço, arrastou-se de joelhos até Goeth, continuando as suas súplicas, batendo a cabeça nos tornozelos do comandante e agarrando-lhe as pernas.

Era a mais extrema submissão; conferia a Goeth de novo a realeza, que ele vinha exercendo naqueles últimos meses febris. Amon, numa Appellplatz repleta de olhos estarrecidos, soltou apenas uma espécie de assobio, um sussurro como vento em dunas de areia, tirou a pistola do coldre, deu um pontapé no menino e o matou cora um tiro na cabeça. Quando o pobre engenheiro Krautwirt viu o horror da execução do menino, apanhou uma navalha que trazia escondida no bolso e cortou os pulsos. Os prisioneiros na fila da frente podiam ver que Krautwirt se ferira mortalmente em ambos os braços. Mas Goeth ordenou ao carrasco que prosseguisse a execução. Respingados com o sangue dos ferimentos de Krautwirt, dois ucranianos o suspenderam na forca, onde, com o sangue esguichando de ambos os pulsos, ele foi estrangulado diante dos judeus do sul da Polônia. Era natural acreditar, com uma parte lógica do cérebro, que tão bárbara exibição seria talvez a última, que poderia haver uma reviravolta nos métodos e atitudes até mesmo de Amon ou, senão dele, dos oficiais invisíveis que, de algum gabinete de grandes janelas envidraçadas e assoalho encerado, abrindo para a praça onde velhas vendiam flores, teriam de reformular parte do que acontecera em Plaszóvia e justificar o resto.

Na segunda viagem do Dr. Sedlacek de Budapeste para Cracóvia, Oskar e o dentista planejaram um esquema que, para um homem mais introvertido do que Schindler, teria parecido ingênuo. Oskar sugeriu a Sedlacek que, talvez, uma das razões de Amon Goeth demonstrar tal selvageria era a má qualidade das bebidas que ele ingeria, os galões do pretenso conhaque local que enfraquecia ainda mais o seu cérebro defeituoso, levando-o às últimas conseqüências. Com parte dos reichmarks que o Dr. Sedlacek trouxera para a Emalia e entregara a Oskar, uma caixa de conhaque de primeira qualidade devia ser adquirida — o que não era artigo fácil ou barato de se obter na Polônia pós-Stalingrado.

Oskar ofereceria a caixa a Amon e iria sugerir-lhe que, de uma ou outra forma, a guerra um dia ia terminar e haveria investigações de atos individuais. Que talvez até os amigos de Amon se lembrariam de ocasiões em que ele se excedera em seu zelo.

Oskar era homem de natureza a acreditar que se podia beber com o diabo e alcançar um equilíbrio da maldade, entre um e outro copo de conhaque. Não que considerasse assustadores os métodos mais radicais; simplesmente não lhe ocorriam. Sempre fora homem de transações. O Wachtmeister Oswald Bosko, que anteriormente tivera o controle do perímetro do gueto, era, em contraste, um homem de idéias. Tornara-se impossível para ele trabalhar dentro do esquema da SS, distribuindo subornos, providenciando papéis falsificados, colocando uma dúzia de crianças sob seu patrocínio, enquanto centenas de outras eram levadas para fora do portão do gueto. Acabara fugindo de sua delegacia em Podgórze e desaparecendo nas florestas de Niepolomice, reduto de guerrilheiros. Agora, no Exército do Povo, ele procurara expiar o entusiasmo imaturo que tinha sentido pelo nazismo no verão de 1938. Vestido como um camponês polonês, ele acabaria sendo reconhecido numa aldeia a oeste de Cracóvia e fuzilado como traidor. Desde então, Bosko seria venerado como um mártir. Bosko passara a viver na floresta porque não lhe restava outra opção.

Faltavam-lhe os recursos financeiros com que Oskar engraxava o sistema. Mas as suas naturezas eram divergentes, pois enquanto um nada possuíra a não ser um posto e um uniforme posteriormente abandonados, o outro mantinha em mão dinheiro e mercadorias com que negociar. Não pretendemos elogiar Bosko ou denegrir Oskar, afirmando que só acidentalmente esse último viria a tornar-se um mártir, só no caso de que algum negócio que ele estivesse transando o comprometesse.

Mas havia gente que ainda respirava — os Wohlfeiler, os irmàos Danziger, Lamus — porque Oskar trabalhava daquela maneira. Por ser aquele o seu sistema, o inverossímil campo da Emalia continuava funcionando na Rua Lipowa, e lá na maioria do tempo, cerca de mil pessoas estavam a salvo, e a SS se mantinha do lado de fora da cerca de arame farpado. Ninguém ali era espancado e a sopa era bastante grossa para sustentar a vida. De acordo com a natureza de cada um desses dois membros do Partido, Bosko e Schindler, a repulsa de ambos se eqüivalia, embora Bosko manifestasse a sua abandonando o uniforme num cabide em Podgórze, ao passo que Oskar espetava na roupa seu vistoso emblema nazista e saía para presentear com bebidas finas o demente Amon Goeth, em Plaszóvia. Era um fim de tarde e Oskar estava sentado com Goeth no salão da casa do comandante. Majola, a amante de Goeth, mulher de físico delicado, secretária na fábrica Wagner na cidade, apareceu no salão. Não passava o seu tempo em meio aos excessos de Plaszóvia. Tinha um ar sensível e essa sensibilidade provocara rumores de que Majola tinha ameaçado não mais dormir com Goeth se ele continuasse a matar arbitrariamente as pessoas. Mas não se sabia se eram verdadeiros ou se eram apenas dessas interpretações terapêuticas que brotam na imaginação dos prisioneiros, em seu desespero, na esperança de tornar o mundo habitável.

Majola não se demorou muito com Amon e Oskar naquela tarde, pois presumia que ia ser uma reunião regada com muita bebida. Helen Hirsch, pálida jovem vestida de preto, criada de Amon, trouxe-lhe os acompanhamentos habituais — bolinhos, canapés, salsichas. Resfolegava de cansaço. Na noite anterior Amon a tinha espancado por preparar comida para Majola sem a sua permissão; e nessa manhã a obrigara a subir e descer 50 vezes os três lances de escada da casa, por causa de uma sujeira de mosca num dos quadros do corredor. Helen tinha ouvido certos boatos sobre Herr Schindler mas era a primeira vez que o via. Nessa tarde, não a reconfortou a vista daqueles dois homens grandes, sentados de cada lado da mesa baixa, fraternais e em aparente concordância de idéias. Nada ali a interessava, pois a certeza de sua própria morte era o seu pensamento dominante. Esperava apenas a sobrevivência da irmã mais moça, que trabalhava nas cozinhas do campo. Juntara algum dinheiro, que guardava escondido, na esperança de que iria servir para salvar a irmã. Acreditava que não havia nenhuma quantia ou transação que pudesse influenciar a sua chance de sobrevivência.

Os dois homens continuaram bebendo a tarde toda e pela noite adentro. Por muito tempo, mesmo depois de a interpretação noturna do LuIlaby de Brahms, pelo prisioneiro Tosia Lieberman, ter acalmado o campo das mulheres e penetrado por entre as tábuas da caserna dos homens, Goeth e Schindler continuaram bebendo. A bebida incandescia-lhes os prodigiosos fígados como fornalhas. No momento certo, agindo em nome de uma amizade que, apesar de todo aquele conhaque ingerido, não ia além da flor da pele... Oskar debruçou-se para Amon e, astuto como um demônio, começou a induzi-lo a adotar uma atitude de maior contenção. Amon recebeu bem o que ouvia. Pareceu a Oskar que ele se deixava influir pela idéia da moderação — atitude digna de um imperador. Amon passou a imaginar um escravo doente nas carretas, um prisioneiro cambaleante voltando da fábrica de cabos — com aquele fingimento tão difícil de se tolerar —, sob um carregamento de roupas ou lenha apanhadas no portão da prisão. E Amon sentia um estranho calor no ventre, fantasiando a própria magnanimidade, ao perdoar aquele molengão, aquele ator patético. Como Calígula poderia ter tido

a tentação de ver a si mesmo como Calígula o Bom, por algum tempo a imagem de Amon o Bom tomou conta da imaginação do comandante. Na verdade, ele conservaria um fraco por aquela fantasia. Nessa noite, com o sangue aquecido pelo dourado conhaque e o campo quase todo adormecido mais além, Amon definitivamente se deixou seduzir mais pela idéia da própria clemência do que pelo medo de represálias.

De manhã, porém, ele se lembraria das advertências de Oskar confirmadas pelas notícias do dia de que os russos estavam ameaçando a frente de batalha em Kiev. Stalingrado ficava a uma distancia inconcebível de Plaszóvia mas a distância até Kiev era imaginável. Alguns dias depois da visita de Oskar a Amon, chegaram a Emalia rumores de que a dupla influência estava produzindo seus efeitos no comandante. Dr. Sedlacek, de volta a Budapeste, informaria a Samu Springmann que Amon renunciara, pelo menos por enquanto, a matar arbitrariamente as pessoas. E o bom Samu, entre as suas diversas preocupações com respeito à lista de locais como Dachau e Drancy, no oeste, e Sobibor e Belzec no leste, por algum tempo alimentara esperança de que o problema de Plaszóvia estava resolvido. Mas a atitude de clemência logo desapareceu. Se houvera uma breve trégua, aqueles que iriam sobreviver e prestar testemunho dos seus dias em Plaszóvia não a gravaram na memória. Pareceu-lhes que os assassinatos sumários eram contínuos. Se Amon não aparecia no seu alpendre essa manhã ou na manhã seguinte, isso não queria dizer que ele não aparecesse dois dias depois. Seria preciso bem mais do que a ausência temporária de Goeth para dar até mesmo ao mais iludido dos prisioneiros a esperança de uma mudança fundamental na natureza do comandante. E de qualquer forma, lá estaria ele, nos degraus, com o boné de estilo austríaco, que usava nos assassinatos, de binóculos em punho, procurando algum faltoso. Dr. Sedlacek voltara a Budapeste não apenas com notícias exageradamente esperançosas de uma transformação em Amon como com dados mais precisos sobre o campo em Plaszóvia. Certa tarde, um guarda da Emalia apareceu em Plaszóvia para levar Stern a Zablocie. Ao chegar ao portão da entrada, Stern foi conduzido ao novo apartamento de Oskar. Ali Herr Direktor apresentou-o a dois homens bem-vestidos. Um era Sedlacek; o outro um judeu — equipado com um passaporte suíço — que se apresentou como Babar.

—Meu caro amigo—disse Oskar a Stern—, quero que escreva um relatório o mais completo possível sobre o que se passa em Plaszóvia numa só tarde. Stern nunca antes vira Sedlacek ou Babar e achou que Oskar estava sendo indiscreto. Depois de cumprimentar os dois estranhos, ele murmurou que antes de empreender a tarefa gostaria de dar uma palavra em particular com Herr Direktor.

Oskar costumava dizer que Itzhak Stern nunca podia fazer uma declaração ou pedido, a não ser sob a capa de citações do Talmude babilônico e ritos de purificação. Mas agora Stern se mostrou mais direto.

—Por favor, diga-me, Herr Schindler — perguntou ele —, não acha que isso é um tremendo risco? Oskar explodiu. Antes de ter conseguido se controlar, os estranhos o tinham ouvido da outra sala. —   Acha que eu lhe pediria alguma coisa se houvesse algum risco?

— Depois, acalmando-se, acrescentou: — Sempre há algum risco como deve saber melhor do que eu. Mas não com esses dois homens. Garanto por eles.

Afinal, Stern passou a tarde inteira escrevendo o seu relatório. Era um erudito e habituado a escrever numa prosa escorreita. A organização de salvamento em Budapeste, os sionistas em Istambul iriam receber de Stern um relatório no qual podiam confiar. Multiplicando por 1.700 os pequenos e grandes campos de trabalhos forçados na Polônia, podia-se obter uma colcha de retalhos que deixaria o mundo estupefato!Sedlacek e Oskar queriam mais do que um relatório de Stern. Na manhã após a bebericação Amon-Oskar, este último tornou a arrastar o seu heróico fígado de volta a Plaszóvia, antes da hora do expediente no escritório. Entre as sugestões de tolerância, Oskar havia informado a Amon na noite da véspera de que tinha uma permissão por escrito para levar "amigos industriais" numa visita ao campo. Babar possuía uma câmera em miniatura, que ele carregava abertamente na mão. Talvez acreditasse que, se um SS lhe perguntasse alguma coisa a respeito, ele teria a chance de passar cinco minutos gabando a pequena máquina fotográfica, que adquirira numa recente viagem de negócios a Bruxelas ou Estocolmo.

Ao sair do Prédio da Administração com os visitantes de Budapeste, Oskar segurou pelo ombro o franzino Stern: seus amigos gostariam de visitar as oficinas e alojamentos, mas se houvesse alguma coisa que Stern achasse que eles não tinham notado, simplesmente deveria curvar-se e amarrar o cordão de seu sapato.

Na estrada de Goeth, pavimentada com túmulos fragmentados, eles passaram pela caserna dos SS. Quase imediatamente, o prisioneiro Stern baixou-se e precisou amarrar o cordão do sapato. O companheiro de Sedlacek bateu um instantâneo dos grupos de homens arrastando encosta acima cargas de caminhões de pedras da pedreira, enquanto Stern murmurava: "Perdão, senhores." E levou um tempo enorme amarrando o cordão do sapato, para que os visitantes pudessem ler as inscrições nos fragmentos monumentais. Ali estavam as lápides de Bluma Gemeinerowa (1859-1927); de Matylde Liebeskind, falecida aos 90 anos em 1912; de Helena Wachsberg, que morrera de parto em 1911; de Rozia Groder, uma menina de 13 anos, falecida em 1931; de Sofia Rosner e Adolf Gottlieb, que tinham morrido no reinado de Franz Josef. Stern queria que eles vissem que aqueles nomes respeitáveis tinham-se tornado pedras de calçamento.

Prosseguindo em sua caminhada, passaram pelo Puffaus, o bordel de moças polonesas para a SS e os ucranianos até chegarem à pedreira, onde eram feitas escavações no penhasco de pedra calcária. Ali, Stern parou outra vez para dar nós nos cordões; queria que a cena fosse registrada. Homens se destruíam no brutal trabalho de escavar o penhasco com malhos e cunhas. Ninguém, dos que labutavam ali, demonstrou qualquer curiosidade pelos visitantes daquela manhã. Ivan, o motorista ucraniano de Amon Goeth, estava de plantão, e o supervisor era um criminoso alemão de cabeça redonda chamado Erik. Este já tinha demonstrado sua capacidade para chacinas, tendo assassinado os próprios pais e a irmã. Deveria ter sido enforcado ou pelo menos preso numa masmorra, se a SS não houvesse chegado à conclusão de que existiam criminosos piores do que parricidas, e que Erik devia ser utilizado para punir tais criminosos. Conforme Stern tinha mencionado em seu relatório, um médico cracoviano, chamado Edward Goldblatt, fora enviado de sua clínica para o campo pelo Dr. Blancke da SS e seu protegido judeu, Dr. Leon Gross. Erik deleitava-se de ver um homem de cultura e ciência se apresentar na pedreira para trabalhai com suas mãos delicadas; no caso de Goldblatt os espancamentos começaram com a primeira demonstração de incerteza no manejo de martelos e puas. No decorrer de vários dias, Erik, vários SS e ucranianos espancaram Goldblatt. O médico era forçado a trabalhar com o rosto deformado pela inchação e um olho fechado. Ninguém sabia que erro de técnica na escavação da pedreira decidiu Erik a dar no Dr. Goldblatt a sua surra derradeira. Muito depois de o médico ter perdido a consciência, Erik permitiu que ele fosse levado para a Krankenstube, onde o Dr. Leon Gross recusou-se a admiti-lo. Com essa sanção médica, Erik e membros da SS continuaram a dar pontapés no moribundo Goldblatt que, rejeitado para tratamento, jazia à entrada do hospital, Stern curvou-se e amarrou o laço do sapato na pedreira porque, como Oskar e outros do complexo de Plaszóvia, acreditava que futuramente juízes poderiam perguntar: "Onde — numa só palavra — ocorreu tal fato?"

Oskar pôde dar a seus companheiros uma vista geral do campo, subindo com eles até Chujowa Górka e o morro austríaco, onde carrinhos de mão manchados de sangue, usados no transporte dos mortos para os bosques, se enfileiravam despudoradamente à entrada do forte. Já havia milhares enterrados ali em valas comuns ou nas matas de pinheiros a leste. Quando os russos chegaram do leste, aquela mata com sua população de vítimas seria a primeira coisa que encontrariam antes da moribunda Plaszóvia.

Quanto a Plaszóvia, proclamada uma maravilha industrial, fatalmente decepcionaria qualquer observador mais atento. Amon, Bosch, Leo John, Josef Neuschel, consideravam-na uma cidade-modelo pelo simples motivo de que os estava enriquecendo. Ficariam muito surpresos se descobrissem que uma das razões de sua rendosa situação em Plaszóvia não era porque a Inspetoria de Armamentos estava encantada com os milagres que eles vinham conseguindo.

Na realidade, os únicos milagres econômicos dentro de Plaszóvia eram as fortunas pessoais de Amon e sua panelinha. Qualquer pessoa de bom senso se surpreendia que contratos de guerra fossem cedidos a Plaszóvia, considerando que suas instalações eram tão precárias e antiquadas. Mas astutos prisioneiros sionistas dentro de Plaszóvia pressionavam gente como Oskar e Madritsch, que, por sua vez, pressionavam a Inspetoria de Armamentos. Levando em conta que a fome e os assassinatos esporádicos em Plaszóvia ainda eram preferíveis ao extermínio infalível em Auschwitz e Belzec, Oskar se empenhava em negociações com os engenheiros e oficiais encarregados das compras para a Inspetoria de Armamento do General Schindler. Esses cavalheiros faziam uma careta e diziam: "Ora vamos, Oskar! Está falando sério?" Mas acabavam concordando em firmar contratos com o campo de Amon Goeth, e com Oskar, para fornecimento de pás manufaturadas com a sucata de ferro da sua fábrica, na Rua Lipowa, de tubos de exaustores,subprodutos de uma fábrica de geléias em Podgórze. Eram pequenas as chances da entrega total das pás e seus cabos à Wehrmacht. Muitos dos amigos de Oskar, entre os oficiais da Inspetoria de Armamentos, compreendiam o que estavam fazendo, isto é, que fornecer trabalho à escravatura no campo de Plaszóvia era o mesmo que prolongar a vida de muitos escravos. Alguns deles custavam a engolir aquela situação, pois sabiam que Goeth era um escroque, e parecia-lhes um insulto, ao seu sincero e antiquado patriotismo, a vida sibarítica que Amon levava no campo.

O estranho paradoxo do Campo de Trabalhos Forçados de Plaszóvia — o fato de que alguns dos escravos estivessem conspirando para manter o reinado de Amon — pode se evidenciar no caso de Roman Ginter, antigo empresário e agora um dos supervisores na metalúrgica de onde o Rabino Levartov já havia sido salvo. Certa manhã Ginter foi chamado ao gabinete de Goeth e, ao fechar a porta, levou o primeiro de uma série de murros. Enquanto esmurrava Ginter, Amon esbravejava incoerentemente. Depois arrastou-o para fora, escadas abaixo, até uma parede da entrada do prédio.

—Posso perguntar uma coisa? — perguntou Ginter contra a parede, cuspindo dois dentes, discretamente, para que Amon não o julgasse um ator ou um choramingas.

Seu safado! — rugiu Goeth. — Não entregou as abotoaduras que eu tinha encomendado! A data está anotada no calendário da minha mesa.

Mas, Herr Commandant — tornou Ginter —, permita que lhe diga que as abotoaduras ficaram prontas ontem. Perguntei a Herr Oberscharführer Neuschel o que devia fazer com elas, e ele me respondeu que as entregasse em seu gabinete. Foi o que fiz.

Amon arrastou Ginter, sangrando, de volta ao seu gabinete e chamou o SS Neuschel.

—Sim, é verdade — replicou o jovem Neuschel. — Veja na sua segunda gaveta à esquerda, Herr Commandant.

Goeth procurou na gaveta e encontrou as abotoaduras.

—Quase o matei por causa delas — reclamou ele do seu não muito inteligente protegido vienense.

Esse mesmo Roman Ginter — cuspindo discretamente os seus dois dentes contra a parede cinzenta do Prédio da Administração, esse zero judeu, de cujo assassinato acidental Amon teria acusado Neuschelesse Ginter é o homem que, depois de obter um passe especial, vai à DEF falar com Oskar Schindler sobre fornecimento para as oficinas de Plaszóvia de uma grande quantidade de sucata, sem a qual todo o pessoal das oficinas seria mandado num trem para Auschwitz. Assim, enquanto o desatinado Amon Goeth acredita que mantém Plaszóvia graças ao seu gênio administrativo, são os prisioneiros, de boca sangrando, que mantêm o campo em funcionamento.

 

Algumas pessoas julgavam que Oskar estava gastando como um jogador compulsivo. Embora pouco soubessem a seu respeito, seus prisioneiros sentiam que Oskar se arruinaria por causa deles, se necessário fosse. Mais tarde — não agora, pois agora aceitavam sua caridade com o mesmo espírito com que uma criança aceita presentes de Natal dos pais — eles diriam: "Graças a Deus, ele era mais fiel a nós do que à mulher!" Assim como os prisioneiros, muitas pessoas podiam provocar a mesma reação em Oskar. Uma delas, um tal Dr. Sopp, médico das prisões da SS em Cracóvia e da Corte da SS em Pomorska, informou a Schindler, através de um emissário polonês, que estava disposto a fazer certa transação com ele. Na prisão de Montelupich havia uma mulher chamada Helene Schindler. O Dr. Sopp sabia que ela não era aparentada com Oskar mas o marido tinha investido algum dinheiro na Emalia. Os papéis de identidade ariana da detenta eram duvidosos. O Dr. Sopp não precisava informar que, para a Sra. Schindler, isso implicava o desfecho de uma viagem de caminhão a Chujowa Górka. Mas, se Oskar se dispusesse a comparecer com certa quantia, o Dr. Sopp estaria disposto a dar um certificado médico, declarando que, em vista de seu estado de saúde, devia ser permitido à Sra. Schindler fazer uma cura prolongada em Marienbad, na Boêmia. Oskar foi ao consultório do Dr. Sopp, onde apurou que o médico queria 50 mil zl. pelo certificado. Não adiantava discutir o preço. Após três anos de prática, um homem como Sopp sabia avaliar com precisão o preço de favores desse gênero. Nessa mesma tarde, Oskar conseguiu levantar a quantia. Sopp sabia que, se quisesse, Oskar era o tipo de homem que sempre tinha à sua disposição dinheiro de mercado negro, dinheiro cuja origem não podia ser revelada.

Antes de efetuar o pagamento, Oskar estabeleceu certas condições. O Dr. Sopp teria de acompanhá-lo a Montelupich, para tirar a mulher de sua cela. Depois ele iria entregá-la pessoalmente a amigos mútuos na cidade. Sopp não fez objeção. À luz de uma lâmpada nua na gélida Montelupich, a Sra. Schindler recebeu o seu precioso documento.

Um homem mais cauteloso, um homem com mentalidade de contador, teria razoavelmente se reembolsado dos seus gastos, com o dinheiro que Sedlacek lhe trouxera de Budapeste. Ao todo, Oskar iria receber quase 150 mil reichmarks, trazidos para Cracóvia em malas de fundo falso e no forro de roupas. Mas, em parte porque o seu apreço pelo dinheiro (quer seu ou de outros) era tão displicente, em parte por causa do seu senso de honra, Oskar sempre entregou a seus contatos judeus todas as importâncias que recebia de Sedlacek, exceto a quantia despendida com o conhaque de Amon.

O negócio nem sempre era sem complicações. Quando, no verão de 194.3, Sedlacek chegou a Cracóvia com 50 mil RM, os sionistas dentro de Plaszóvia, a quem Oskar ofereceu o dinheiro, recearam que se tratasse de uma armadilha.

Oskar procurou primeiro Henry Mandei, fundidor na fundição de Plaszóvia e membro do Hitach Dut, movimento sionista de jovens e trabalhadores. Mandei não quis tocar no dinheiro.

—Escute — disse-lhe Schindler —, tenho uma carta em hebraico remetendo o dinheiro, uma carta da Palestina.

Mas, se era uma armadilha, se Oskar tinha se comprometido e estava sendo usado, teria naturalmente uma carta da Palestina. Para quem não recebia pão suficiente para o café da manhã, a soma oferecida era assustadora: 50 mil RM — 100 mil zl. Oferecida para ser usada sem nenhum controle. Simplesmente não era crível!  Em seguida Schindler tentou entregar, dentro de Plaszóvia, o dinheiro, escondido na mala de seu carro, a outro membro do Hitach Dut, uma mulher chamada Alta Rubner, que tinha alguns contatos, com prisioneiros que trabalhavam na fábrica de cabos, com alguns poloneses na prisão polonesa, com o movimento de resistência em Sosnowiec. Talvez, disse ela a Mandei, fosse melhor reportar a questão ao movimento de resistência e deixar que os dirigentes decidissem sobre a procedência do dinheiro que Oskar Schindler estava oferecendo. Oskar continuou tentando persuadi-la, erguendo a voz sob a proteção das ruidosas máquinas de costura de Madritsch.

—Garanto de todo coração que não se trata de uma cilada! De todo o coração. Exatamente a expressão que se podia esperar de um agent provocaleur?

Contudo, depois de Oskar ter ido embora, de Mandei ter falado com Stern, que declarou ser a carta autêntica, e depois de novas conferências com Alta Rubner, foi tomada a decisão de aceitar o dinheiro. Entretanto, eles sabiam que Oskar não ia voltar com a quantia. Mandei foi ter com Marcei Goldberg do Escritório da Administração. Goldberg tinha sido também membro do Hitach Dut, mas, depois de se tornar um funcionário encarregado das listas — listas de trabalho e listas de transporte, listas dos vivos e mortos — passara a aceitar subornos. Mandel, porém, podia pressioná-lo. Uma das listas que Goldberg era encarregado de fazer — ou, pelo menos, acrescentar-lhe ou subtrair-Ihe nomes — era a lista dos que iam à Emalia para receber o fornecimento da sucata que seria usada nas oficinas de Plaszóvia. Por efeito de uma antiga amizade e, sem ter de revelar a razão para querer ir à Emalia, Mandel foi incluído na lista.

Mas, ao chegar a Zablocie, quando se esgueirava da oficina para ir falar com Oskar, ele fora detido no escritório da frente por Bankier. Herr Schindler estava muito ocupado, disse Bankier.

Uma semana depois, Mandei estava de volta à Emalia. De novo Bankier não permitiu que ele falasse com Oskar. Na terceira vez, Bankier foi mais categórico.

— Está querendo o dinheiro sionista? Não quis antes, e agora está querendo. Pois agora não vai receber nada. Assim é a vida, Sr. Mandel!

Mandel deu-lhe um cumprimento de cabeça e saiu. Presumiu, aliás erroneamente, que Bankier já se apossara de pelo menos uma parte do dinheiro. Mas o fato era que Bankier estava sendo cauteloso. O dinheiro acabou indo parar nas mãos dos prisioneiros sionistas, pois um recibo da quantia, assinado por Alta Rubner, foi entregue por Stern a Springmann. Parece que os 50 mil zl foram usados em parte para ajudar judeus, que chegavam de outras cidades, não procedentes de Cracóvia e que, portanto, não possuíam nenhuma fonte local de ajuda.

Se os fundos que Oskar recebia e passava adiante eram gastos sobretudo em alimentos, como Stern teria preferido, ou em grande parte usados no movimento da resistência — a compra de passes ou armas —, era uma questão que Oskar nunca investigou. Todavia, nenhuma parcela desse dinheiro serviu para comprar a saída da Sra. Schindler de Montelupich ou salvar as vidas de gente como os irmãos Danziger. E tampouco o dinheiro de Sedlacek foi usado para indenizar Oskar pelos 30 mil quilos de peças esmaltadas com que ele subornou funcionários mais ou menos graduados da SS durante o ano de 1943, com a finalidade de impedi-los de recomendar o fechamento do subcampo da Emalia.

Nenhuma parcela desse dinheiro foi usado na aquisição dos 16 mil zl. de instrumentos ginecológicos, que Oskar teve de comprar no mercado negro, quando uma das moças da Emalia engravidou — a gravidez, naturalmente, significava uma passagem imediata para Auschwitz. Nem foi usado na compra do Mercedes avariado do Untersturmführer John, que o ofereceu a Oskar para compra, ao mesmo tempo que este último apresentava um pedido de transferência de 30 pessoas de Plaszóvia para irem trabalhar na Emalia. O carro comprado por Oskar ura dia por 12 mil zl foi requisitado no dia seguinte pelo amigo e colega de Leo John, o Untersturmführer Scheidt, para ser usado na construção de fortificações no perímetro do campo. Talvez eles transportem terra na mala do carro — comentou furioso Oskar para Ingrid durante o jantar. Mais tarde, numa referência informal sobre o caso, ele declarou que tivera muito prazer em prestar assistência a ambos os cavalheiros.


 

Raimund Titsch estava fazendo pagamentos de uma espécie diferente. Titsch era um modesto, quieto católico austríaco, com uma manqueira, que alguns diziam ser conseqüência da Primeira Guerra Mundial e outros atribuíam a um acidente na infância. Era uns dez anos mais velho do que Amon ou Oskar. Dentro do campo de Plaszóvia, trabalhava como gerente da fábrica de uniformes de Madritsch, que empregava cerca de 3.000 costureiras e mecânicos.

Um dos pagamentos eram as partidas de xadrez que jogava com Amon Goeth. O Prédio da Administração era ligado à fábrica de Madritsch por telefone e Amon freqüentemente chamava Titsch ao seu gabinete para uma partida. A primeira vez que Raimund jogou com Amon, a partida terminou em meia hora, com a derrota do Hauptslurmführer. Titsch, com um contido e não muito triunfante "xeque-mate" morrendo-lhe nos lábios, ficara aturdido com o acesso de raiva de Amon. No final, o comandante enfiara e abotoara seu paletó, afivelara seu cinturão e metera com força o boné na cabeça. Titsch, apavorado, pensou que Amon ia descer e dirigir-se à linha de tração das carretas, procurando algum prisioneiro para desforrar-se sobre alguém da pequena vitória do adversário no xadrez. Então, desde aquela primeira tarde, Titsch adotara nova tática. Passou a levar até umas três horas para perder a partida para o comandante. Quando funcionários no Prédio da Administração viam Titsch capengar pela Rua Jerozoimska acima, a fim de cumprir suas obrigações no xadrez, sabiam que a tarde seria mais tranqüila. Um humilde senso de segurança se espalhava o prédio até as oficinas, até os infelizes puxadores de pedras.

Mas Raimund Titsch não jogava apenas apaziguadoras partidas de xadrez. Além do Dr. Sedlacek e do homem com a câmera de bolso, que Oskar levara a Plaszóvia, Titsch começara a fotografar também. Às vezes da janela do seu escritório, às vezes de cantos das oficinas, ele fotografava os prisioneiros de uniforme listrado na linha das carretas, a distribuição de pão e sopa, a escavação de bueiros e fundações. Algumas dessas fotos de Titsch são provavelmente do fornecimento ilegal de pão para a oficina de Madritsch. Sem dúvida, pães pretos de centeio eram comprados pelo próprio Raimund, com o consentimento e dinheiro de Julius Madritsch, e entregues em Plaszóvia por caminhões, sob fardos de trapos e peças de tecidos. Titsch fotografava os pães redondos sendo passados apressadamente de mão em mão para dentre do depósito de Madritsch, que ficava afastado das torres de vigia e tornado invisível da principal estrada de acesso, pelo prédio da fábrica de papel.

Ele fotografou a SS e os ucranianos marchando, divertindo-se, trabalhando; fotografou um grupo de trabalho sob a supervisão do engenheiro Karp, que logo iria ser atacado pelos cães ferozes e ter a coxa dilacerada, os órgãos genitais arrancados. Numa tomada geral de Plaszóvia, mostrou a extensão do campo, sua desolação. Ao que consta, no solário de Amon ele conseguiu mesmo bater close-ups do comandante repousando numa espreguiçadeira, um Amon pesadão agora com quase 120 quilos, que levara o novo médico da SS, Dr. Blancke, a adverti-lo: "Agora chega, Amon; vai ter de perder peso." Titsch fotografou Rolf e Ralf brincando e dormindo ao sol, e Majola segurando um dos cães pela coleira e fingindo que estava gostando da proximidade. E fotografou também Amon majestosamente montado no seu grande cavalo branco.

Titsch não revelava as fotos que batia. Formavam um arquivo mais seguro e portátil sob a forma de rolos, que escondia num cofre de metal no seu apartamento em Cracóvia. Ali ele também guardava alguns dos pertences que haviam restado aos judeus de Madritsch. Em toda Plaszóvia havia gente que ainda tinha um último tesouro; algo a oferecer — no momento de maior perigo — ao homem da lista, o homem que abria e fechava as portas dos vagões de gado. Titsch compreendia que só os desesperados lhe confiavam os seus tesouros. Os poucos prisioneiros, que tinham um estoque de anéis e relógios e jóias escondido em alguma parte no campo, não precisavam dele. Trocavam regularmente esses bens por favores e confortos. Mas no mesmo esconderijo dos rolos de filme de Titsch eram guardados os últimos recursos de uma dúzia de famílias — o broche de tia Yanka, o relógio de tio Mordche.

De fato, quando o regime de Plaszóvia deixou de existir, quando Scherner e Czurda fugiram e os arquivos impecáveis do Escritório Econômico e Administrativo da SS tinham sido empacotados e transportados em caminhões para servirem como provas, Titsch não precisou revelar as fotos, e teve todos os motivos para não as revelar. Nos arquivos de ODESSA, a sociedade secreta de ex-membros da SS no pós-guerra, ele estaria na lista dos traidores. Pelo fato de ter fornecido ao pessoal de Madritsch uns 30 mil pães, bem como muitas galinhas e uns tantos quilos de manteiga, de o Governo de Israel o ter homenageado pela sua humanidade e a imprensa o ter distinguido com alguma publicidade, pessoas o ameaçavam e vaiavam nas ruas de Viena. "Beijador de judeus!" Assim, os rolos de filmes de Plaszóvia permaneceram vinte anos enterrados num pequeno parque nos subúrbios de Viena, onde Titsch os escondera e poderiam ter ali ficado para sempre, a emulsão secando as sombrias e secretas imagens de Majola, a amante de Amon, seus cães assassinos, seus anônimos trabalhadores escravos. Portanto o arquivo de Titsch poderia ter sido considerado como uma espécie de triunfo para a população de Plaszóvia quando, em novembro de 1963, um sobrevivente da fábrica de Schindler (Leopold Pfefferberg) comprou secretamente o cofre e seu conteúdo, por 500 dólares, de Raimund Titsch, que estava sofrendo de uma grave doença do coração. Mesmo assim, Raimund não quis que os rolos fossem revelados senão depois de sua morte. A sombra anônima de ODESSA apavorava-o mais do que os nomes de Amon Goeth, de Scherner, de Auschwitz, nos tempos de Plaszóvia. Após o seu enterro, os filmes foram revelados. Quase todas as fotos puderam ser aproveitadas. Ninguém do pequeno grupo de prisioneiros do campo de Plaszóvia que tenha sobrevivido a Amon jamais teria qualquer acusação a fazer contra Raimund Titsch. Mas ele nunca fora o tipo de homem a respeito de quem se criam lendas, ao contrário de Oskar. Uma história sobre Schindler, sucedida em fins de 1943, corre entre os sobreviventes, provocando a excitação eletrizante de um mito. Pois o que importa num mito não é ser verdadeiro ou falso, nem se teria de ser verdadeiro mas que, de certa forma, seja mais verdadeiro do que a própria verdade. Ao ouvir essas histórias, constata-se que, para a população de Plaszóvia, enquanto Titsch era considerado o bom samaritano, Oskar se tornara um pequeno deus da libertação — de face dupla, à maneira grega — como qualquer deus menor; ele era dotado de todos os vícios humanos: astucioso; sutilmente poderoso; capaz de efetuar um salvamento gratuito, porém seguro.

Uma das histórias se refere ao tempo em que os chefes de polícia da SS estavam sendo pressionados para fechar Plaszóvia, já que a reputação do campo, como um eficiente complexo industrial, não era brilhante aos olhos da Inspetoria de Armamentos. Freqüentemente, Helen Hirsch, a criada de Goeth, encontrava oficiais, convidados dos jantares de Goeth, que perambulavam pelo saguão ou pela cozinha para se livrarem um pouco da presença de Amon e que abanavam a cabeça com desaprovação. Certa vez, um oficial da SS, chamado Tibritsch, surgiu na cozinha e disse a Helen: "Será que ele não sabe que há homens morrendo?" Naturalmente, referia-se à frente de batalha no Leste, não à sombra dos muros de Plaszóvia. Oficiais, com uma vida menos nababesca do que Amon, estavam ficando indignados com o que viam na casa do comandante ou, o que talvez fosse mais perigoso, o invejavam.

Segundo a lenda, foi numa noite de sábado que o General Julius Schindler visitou Plaszóvia, a fim de decidir se a existência do campo tinha algum valor real para o esforço de guerra. Era uma hora estranha para um importante burocrata estar fazendo aquela inspeção mas talvez a Inspetoria de Armamentos, em vista daquele inverno perigoso na Frente Leste, estivesse despendendo desesperada atividade. A inspeção fora precedida de um jantar na Emalia, com profusão de vinhos e conhaques, pois Oskar era adepto, como Baco, da linha dionisiana dos deuses.

Depois do lauto jantar, o grupo de inspeção que seguiu para Plaszóvia, em seus Mercedes, achava-se num estado de espírito não muito profissional. Ao alegar isso, a história ignora o fato de que Schindler e seus oficiais eram todos engenheiros e peritos em produção, com quase quatro anos de experiência. Mas não era do feitio de Oskar se intimidar com essas eficiências.

A inspeção começou na fábrica de uniformes de Madritsch, que era o principal cartaz de Plaszóvia. Durante o ano de 1943, a fábrica tinha produzido uma média de mais de 20 mil uniformes por mês para a Wehrmacht. Mas a questão era: não seria melhor Herr Madritsch esquecer Plaszóvia e usar seu capital na expansão das suas mais eficientes fábricas polonesas em Podgórze e Tarnow? As condições precárias de Plaszóvia não constituíam um encorajamento para Madritsch ou qualquer outro investidor decidir instalar a espécie de maquinaria , de que necessitaria uma fábrica sofisticada.

O grupo oficial estava começando a inspeção quando todas as luzes em todas as oficinas se apagaram; o circuito elétrico fora interrompido por amigos de Itzhak Stern na casa do gerador. Ao entorpecimento causado pelo excesso de comida e bebida com que Oskar abarrotara os membros da Inspetoria de Armamentos, se acrescentaram as limitações decorrentes da falta de iluminação. A inspeção prosseguiu com lanternas elétricas e as máquinas permaneceram inoperantes e portanto menos mensuráveis ao profissionalismo dos inspetores.

Enquanto o General Schindler apertava os olhos para distinguir, à luz de uma lanterna elétrica, as prensas e tornos da fundição, 30 mil plaszovianos, inquietos nos beliches, esperavam pela sua decisão. Mesmo nas sobrecarregadas linhas da Ostbahn, eles sabiam que a tecnologia mais aperfeiçoada de Auschwitz ficava a apenas poucas horas de trem para o oeste. Compreendiam que não podiam esperar compaixão alguma do General Schindler. Produção era a sua meta. Para ele, Produção era só o que contava.

Graças ao copioso jantar de Schindler e à falta de eletricidade, diz o mito, a população de Plaszóvia se salvou. É uma lenda humanitária, pois, na verdade, apenas um décimo dos prisioneiros do campo escaparia com vida no final. Mas Stern e outros iriam comemorar mais tarde a história e provavelmente ela é verdadeira na maioria dos detalhes. Pois Oskar sempre recorrera à bebida, quando tinha de tratar com autoridades nazistas, e teria apreciado a esperteza de mergulhá-las em escuridão. "É preciso lembrar", teria dito um rapaz que mais tarde Oskar salvou, "que Oskar tinha um lado alemão mas também um lado tcheco. Ele era o bom soldado Schweik. Adorava transtornar o sistema."

Não confere mais credibilidade ao mito perguntar o que o rigoroso Amon Goeth pensou quando as luzes se apagaram. Talvez, mesmo naquele momento importante, ele estivesse embriagado ou jantando fora. A questão que ficou pendente é: Plaszóvia sobreviveu porque o General Schindler teria sido enganado pela falta de iluminação e por uma visão turvada pela bebida ou por ser um excelente centro de controle durante aquelas semanas, em que a grande terminal de Auschwitz-Birkenau estava superlotada. Mas a história conta mais das esperanças que aquela gente depositava em Oskar do que sobre o horrendo conjunto de Plaszóvia ou sobre o fim que teve a maioria dos seus prisioneiros.

Enquanto a SS e a Inspetoria de Armamentos cogitavam do futuro de Plaszóvia, Josef Bau — um jovem artista de Cracóvia, que Oskar acabaria conhecendo bem — se apaixonava perdidamente por uma jovem chamada Rebecca Tannenbaum. Bau trabalhava no Escritório de Construção como desenhista. Era um rapaz grave, com um senso fatalista. Tinha, por assim dizer, escapado para dentro de Plaszóvia, porque nunca possuíra a documentação correta do gueto. Como o seu ofício não tinha utilidade alguma para as fábricas do gueto, sua mãe o escondera em casa de amigos. Durante uma batida em março de 1943, ele escapara para fora dos muros e se juntara sorrateiramente a uma fila de trabalhadores que retornava para Plaszóvia. Porque no campo havia uma nova indústria, que não se aplicava ao gueto: construção. No mesmo prédio sombrio de duas alas, onde Amon tinha o seu gabinete, Josef Bau desenhava plantas. Era um protegido de Itzak Stern, que o mencionara a Oskar como um excelente projetista e, pelo menos potencialmente, um falsário.

Tinha a sorte de não ter muito contato com Amon, pois certo ar de genuína sensibilidade sempre fora um incentivo para Amon usar o seu revólver. O escritório de Bau ficava na outra extremidade do prédio, bem longe do gabinete do comandante. Ali trabalhavam encarregados de compras, escriturários, o estenógrafo Mietek Pemper. Não somente enfrentavam o risco diário de uma bala inesperada mas, ainda mais certamente, violações ao seu senso de justiça. Mundek Korn, por exemplo, que antes da guerra fora comprador de uma rede de subsidiárias dos Rothschild e que agora comprava tecido, capim, lenha e ferro para as oficinas do campo, era obrigado a trabalhar não sono Prédio da Administração mas na mesma ala em que Amon tinha o seu gabinete. Certa manhã Korn ergueu os olhos de sua mesa de trabalho e viu pela janela, do outro lado da Rua Jerozolimska próximo à caserna da SS, um rapaz de cerca de vinte anos, um cracoviano seu conhecido, urinando junto a uma pilha de lenha. Ao mesmo tempo ele notou; dois braços em mangas de camisa branca e duas manoplas aparecerem na janela do banheiro, no final da ala. A mão direita segurava um revolver. Houve dois rápidos disparos, um dos quais penetrou na cabeça do rapaz e o atirou contra o monte de lenha. Quando Korn tornou a olhar para a janela do banheiro, um braço e a mão livre estavam fechando a janela.

Sobre a mesa de Korn nessa manhã havia formulários de requisição assinados com a letra redonda, regular, de Amon. Seu olhar passou da assinatura para o corpo de braguilha aberta junto à lenha. Não apenas ele duvidou se vira mesmo o que tinha visto, como se deu conta do conceito traiçoeiro inerente aos métodos de Amon. Isto é, a tentação de concordar que, se assassinato não era mais do que uma visitai ao banheiro, uma mera pulsação na monotonia da assinatura de formulários, então talvez toda morte devia agora ser encarada — fosse qual fosse a dose de desespero conseqüente — como rotina.

         Não parece que Josef Bau tenha corrido o risco de tão radical persuasão. Ficou de fora, também, no expurgo do andar térreo do prédio, deflagrado quando Josef Neuschel, um protegido de Goeth, dera queixa ao comandante de que uma funcionária do escritório havia adquirido um pedaço de toucinho. Amon saíra do seu gabinete, esbravejando. "Vocês estão todos engordando!", berrou ele. Depois dividiu o pessoal do escritório em duas filas. A Korn pareceu que assistia a uma cena na escola secundária de Podgórze: as garotas da segunda fila, tão suas conhecidas, filhas de famílias com quem ele tinha sido criado, famílias de Podgórze. Era como se a professora estivesse dividindo um grupo de alunas para irem visitar o Monumento de Kosciuszko, e outro o museu do Wawel. Na realidade, as jovens da segunda fila foram levadas diretamente de suas mesas de trabalho para Chujowa Górka, acusadas de decadência pela aquisição daquele pedaço de toucinho e fuziladas por um dos pelotões de Pilarzik.

Embora Josef Bau não houvesse sido envolvido naquele tumulto no escritório, não se podia dizer que ele levasse uma vida protegida em Plaszóvia. Era, porém, menos perigosa que a da jovem, em quem estava interessado. Rebecca Tannenbaum era órfã, embora no clã unido dos judeus de Cracóvia não lhe houvesse faltado afetuosos tios e tias. Apenas dezenove anos, um rostinho meigo e um bonito corpo. Sabia falar bem alemão e tinha uma conversa agradável. Recentemente, começara a trabalhar no escritório de Stern, atrás do Prédio da Administração, longe da interferência demente do comandante. Mas o seu trabalho no Escritório de Construção constituía apenas metade de suas atribuições. Rebecca era também manicura. Todas as semanas ela fazia as unhas de Amon, do Untersturmführer Leo John, do Dr. Blanche e de sua amante, a ríspida Alice Orlowski. Ao tratar das mãos de Amon, ela notara que eram alongadas e bem-feitas, com dedos afilados — em absoluto as mãos de um homem gordo; certamente não as de um selvagem.

Quando um prisioneiro fora ter com ela e lhe dissera que Herr Commandant queria vê-la, Rebecca se pusera a fugir, correndo por entre as mesas e descendo pela escada dos fundos.

—Por favor, não faça isso! — gritara-lhe o prisioneiro, indo em seu alcance. — Se eu voltar sem você, ele vai me castigar!

Ela, então, o acompanhou até a casa de Goeth. Mas, antes de entrar no salão, foi primeiro ao malcheiroso porão — era a primeira residência de Goeth, e o porão fora cavado onde antes existira um antigo cemitério judaico. Ali, Helen Hirsch, amiga de Rebecca, estivera cuidando de seus ferimentos.

—Você tem um problema — admitiu Helen. — Mas apenas faça o seu serviço e espere. É só o que pode fazer. Ele gosta da maneira profissional de umas pessoas, de outras não. E, quando você vier aqui, eu lhe darei bolo e salsichas. Mas não coma nada sem primeiro me perguntar. Tem gente que apanha a comida sem pedir e eu fico sem saber como prestar contas.

Amon aceitou bem a maneira profissional de Rebecca, estendendo-lhe os dedos e conversando em alemão. Poderia ser o Hotel Cracóvia de novo e Amon um jovem magnata alemão, um pouco pesadão, de camisa impecável, que teria vindo a Cracóvia para negociar têxteis ou aço ou produtos químicos. Havia, porém, dois detalhes nessas sessões que destoavam do tom de deslocada cordialidade. O comandante mantinha sempre um revólver junto a seu cotovelo esquerdo e freqüentemente um ou o outro dos seus cães dormitava no salão. Ela os vira, na Appellplatz, rasgar as carnes do engenheiro Karp. Entretanto, às vezes, com os cães imobilizados pela sonolência, quando ela e Amon falavam de suas visitas, antes da guerra, à estação de águas de Carlsbad, os horrores que se passavam na Appellplatz pareciam remotos e : inacreditáveis. Um dia ela tomou coragem e lhe perguntou por que mantinha o revólver sempre a seu lado. A resposta dele a fez curvar-se sobre o seu trabalho, sentindo um frio na espinha.

—É para o caso de você dar um corte no meu dedo.

Se Rebecca precisasse ainda de outra prova de que conversas sobre estações de águas para Amon ajustavam-se a um ato de demência, ela a teve no dia em que do corredor viu Amon arrastando Helen Hirsch pelos cabelos para fora do salão. A infeliz esforçava-se por manter o equilíbrio, enquanto seus cabelos castanho-avermelhados iam sendo arrancados aos punhados; quando sua vítima lhe escapava por um instante, Amon tornava a agarrá-la com as mãos bem-cuidadas. Rebecca teve ainda outra prova na noite em que entrou no salão e um dos cães — Rolf ou Ralf — saltou sobre seus ombros e escancarou a boca para morder-lhe o seio. Olhando para o fundo da sala ela viu Amon reclinado no sofá, sorrindo:

—Pare de tremer, estúpida, ou não vou poder livrá-la do meu cão.        Durante o tempo em que cuidou das mãos do comandante, ela o viu matar com um tiro o engraxate por não gostar dos seus serviços; pendurar a ordenança de quinze anos, Poldek Deresiewicz, nas argolas do seu gabinete porque encontrara uma pulga num dos seus cães; executar o seu criado Lisiek por ter emprestado uma drózka e o cavalo a Bosch, sem primeiro consultá-lo. Contudo, duas vezes por semana, a bonita órfã entrava no salão e tomava entre as suas a mão da fera.

Rebecca conheceu Josef Bau numa manhã cinzenta, quando ele se achava do lado de fora do Bauleitung, segurando o chassi da planta de uma construção contra a claridade de baixas nuvens do outono. O peso parecia excessivo para o seu físico franzino. Ela lhe perguntou se podia ajudá-lo.

Não — disse ele. — Só estou esperando pelo sol.

Por quê? — quis saber Rebecca.

Josef explicou que seus desenhos, em transparência, para o novo prédio estavam aparafusados no chassi, junto com o papel sensibilizado.

Se o sol brilhasse com um pouco mais de intensidade, uma misteriosa liga química transferiria o desenho da transparência para o papel. Então, perguntou-lhe:

—Não quer ser o meu raio de sol mágico?

Em Plaszóvia as meninas bonitas não estavam habituadas a delicadezas dos rapazes. Lá a sexualidade tinha o ímpeto violento das rajadas ouvidas em Chujowa Górka, das execuções na Appellplatz. Um exemplo da violência reinante: o incidente de uma galinha encontrada dentro da sacola de alguém de um grupo de trabalho que regressava da fábrica de cabos em Wieliczka. Amon pôs-se a vociferar na Appellplatz quando foi descoberta a sacola contendo a ave caída na frente do portão do campo, no decorrer de uma vistoria. A quem pertence a sacola?, esbraveja Amon. De quem é a galinha? Como ninguém na Appellplatz se apresenta, Amon toma o fuzil de um guarda SS e atira no primeiro prisioneiro da fila. A bala, atravessando o corpo da vítima, derruba também o homem que se encontra logo atrás. Mas ninguém abre a boca.

—Como vocês se amam uns aos outros! — troveja Amon, e prepara-se para executar o próximo homem da fila. Um menino de quatorze anos adianta-se. Está tremendo e chorando. Diz que pode apontar quem é o dono da galinha.

Quem, então?

Aquele! — exclama o menino, apontando para um dos dois homens mortos.

Para espanto geral, Amon acredita na palavra do menino e, jogando a cabeça para trás, ri com a espécie de incredulidade que professores gostam de exibir numa classe. "Essa gente... será que não compreenderam até agora que estão perdidos?"

Depois de uma tarde como aquela, nas horas de trânsito livre, entre as sete e as nove da noite, a maioria dos prisioneiros achava que não havia tempo para galanteios amorosos. A tortura dos chatos nas virilhas e axilas tornavam ridículas as formalidades. Rapazes montavam sem cerimônia nas meninas. No campo das mulheres cantava-se uma canção que perguntava à virgem por que ela se protegia tanto e para quem estava guardando a sua virgindade?

O ambiente na Emalia não era tão desolador. Na oficina tinham se arranjado nichos entre as máquinas para permitir aos namorados maior intimidade. Nas casernas repletas, a segregação era apenas teórica. A ausência do medo quotidiano, a ração mais farta de pão abrandavam os ímpetos. Além disso, Oskar continuava afirmando que não permitiria que a guarnição da SS penetrasse no campo, sem sua permissão.

Um prisioneiro recorda-se de ter sido instalada uma fiação no gabinete de Oskar para a eventualidade de algum SS querer vistoriara! casernas. Enquanto o SS descia as escadas do escritório, Oskar apertava um botão ligado a uma campainha dentro do campo. Assim homens e mulheres eram avisados para apagar cigarros ilícitos, fornecida diariamente por Oskar. ("Vá ao meu apartamento e encha essa cigarreira"— dizia ele quase todos os dias a alguém na oficina, piscando significativamente o olho.) A campainha servia também para avisara homens e mulheres que tratassem de voltar para os seus respectiva beliches.

A Rebecca parecia algo de espantoso, algo que lhe lembrava um cultura desaparecida, encontrar em Plaszóvia um rapaz que a cortejava, como se a houvesse conhecido numa confeitaria no Rynek.

Numa outra manhã, quando ela descia do gabinete de Stern, Josef mostrou-lhe sua mesa de trabalho. Estava desenhando plantas para novas casernas. Qual era o número de sua caserna, e quem era a sua Alteste? Ela o informou, com a apropriada relutância. Tinha visto Helen Hirsh sendo arrastada pelos cabelos no corredor e morreria se, acidentalmente, desse um pique na cutícula do dedo de Amon. E no entanto, esse rapaz lhe devolvera o senso do recato, da feminilidade

Vou falar com sua mãe — prometeu ele.

Não tenho mãe — respondeu Rebecca.

Então falarei com a sua Alteste.

Assim começou o namoro — com a permissão dos mais velhos, como se ainda houvesse condições e tempo suficiente para tais formalidades. Por ser ele um rapaz tão excêntrico e cerimonioso, não beijava a namorada. Com efeito, foi sob o teto de Amon que conseguira trocar um beijo de verdade, pela primeira vez. Acontecera depois de uma sessão de manicura. Rebecca tinha conseguido água quente e sabão com Helen e esgueirara-se para o andar de cima, deserto porque ia entrar em reforma, para lavar sua blusa e roupa de baixo. O seu tanque de lavar roupa era a gamela da comida. Iria precisar dela no dia seguinte para a sopa.

Esfregava a roupa naquele pequeno balde de espuma, quando Josef apareceu.

Por que está aqui? — perguntou Rebecca.

Estou tirando medidas para desenhar a planta da reforma — replicou ele. — E você, o que está fazendo aqui?

Não está vendo que lavo a minha. roupa? E, por favor, não fale tão alto. Ele circundou a sala, dançando e medindo com a fita métrica paredes e cornijas.

Faça tudo com cuidado — advertiu ela, ansiosa porque sabia o quanto Amon era exigente.

Enquanto estou aqui — disse ele — vou aproveitar para tomar também as suas medidas. — E começou a medir-lhe com a fita métrica os braços e as costas, desde a nuca até a base da espinha dorsal. Ela não resistiu ao toque das mãos dele. Mas depois de se deixar acariciar prolongadamente, Rebecca lhe ordenou que fosse embora. Aquele local não era apropriado para uma tarde amorosa.

Havia outros romances desesperados em Plaszóvia, mesmo entre os SS, mas se desenrolavam menos radiosos do que o namoro antiquado de Josef Bau com a manicura. O Oberscharführer Albert Hujar, por exemplo, que havia matado a Dra. Rosalia Blau no gueto e Diana Reiter depois de as fundações da caserna terem ruído, apaixonou-se por uma prisioneira judia. Por sua vez, a filha de Madritsch se encontrava com um rapaz judeu do gueto de Tarnow — naturalmente ele tinha trabalhado na fábrica de Madritsch em Tarnow até o perito em liquidação de guetos, Amon, surgir no final do verão e fechar Tarnow como fechara o gueto de Cracóvia. Agora o rapaz trabalhava na oficina de Madritsch dentro de Plaszóvia, onde a jovem podia visitá-lo. Mas o romance não podia florescer. Os próprios prisioneiros tinham nichos e abrigos, onde amantes e esposos podiam se encontrar. Mas tudo — a lei do Reich e o estranho código dos prisioneiros — proibia o amor entre Fräulein Madritsch e o rapaz. Similarmente, o honesto Raimund Titsch tinha-se apaixonado por uma de suas maquinistas. Aquele também era um romance suave, delicado e impossível. Quanto ao Oberscharführer Hujar, recebeu uma ordem direta do próprio Amon para que deixasse de ser imbecil. Assim, Albert levou a moça para um passeio a pé nos bosques e, com muita tristeza, matou-a com um tiro na nuca.

De fato, parecia que a morte pairava sobre as paixões dos SS. O violinista Henry Rosner e seu irmão Leopold, o acordeonista, enquanto tocavam melodias vienenses em torno da mesa de Goeth, tinham consciência disso. Certa noite um oficial grisalho, alto, esguio, do Waffen da SS veio jantar com Amon; depois de ingerir muita bebida, começou a insistir com os Rosner para tocarem a canção húngara Domingo Sombrio. A canção versa sobre um transbordamento emocional, em que um jovem está prestes a se suicidar por amor. O tom era exatamente do tipo de sentimentalismo excessivo que, como Henry já havia notado, tinha especial apelo para certos membros da SS. A canção desfrutara de certa notoriedade nos anos 30 — os governos da Hungria, Polônia e Tchecoslováquia tinham cogitado proibi-la porque a sua popularidade provocara uma onda de suicídios por amores mal- correspondidos. Às vezes, rapazes prestes a dar um tiro na cabeça citavam versos da canção em seus bilhetes suicidas. Desde muito tempo, Domingo Sombrio fora proibida pela Agência de Propaganda do Reich. Agora, aquele alto, elegante conviva, com idade suficiente para ter filhos adolescentes, que mais naturalmente seriam dados a excessos de amor juvenil, insistia com os irmãos Rosner: "Toquem Domingo Sombrio!” Apesar da proibição do Dr. Goebbels, ninguém nos confins do sul da Polônia iria discutir com um oficial superior da SS, que alimentava recordações amargas de um caso de amor.

Depois de o conviva ter pedido a canção umas quatro ou cinco vezes, uma absurda convicção se apossou de Henry Rosner. Sob a influência de origens tribais, a música tornava-se uma magia. E ninguém na Europa tinha melhor senso do poder mágico do violino do que um judeu cracoviano como Henry, que descendia de uma família em que o virtuosismo musical era mais herdado do que aprendido, da mesma forma que o status de cohen, ou o sacerdócio hereditário. Ocorreu naquele momento a Henry, como ele diria mais tarde: "Meu Deus, se me for concedido esse poder, talvez esse filho de uma cadela se mate!"

A melodia proscrita de Domingo Sombrio adquirira legitimidade na sala de jantar de Amon pelas

vezes que vinha sendo repetida, e agora Henry resolveu usar a canção como arma de guerra, ao passo que Leopold o acompanhava tranqüilizado pelos olhares de melancolia quase grata que o oficial lhes lançava.

Henry transpirava, acreditando que estava tão visivelmente impelindo o oficial SS à morte que a qualquer momento Amon ia perceber sua intenção e arrastá-lo para fora e executá-lo. Quanto ao desempenho de Henry, não importa saber se era bom ou mau, era arrebatador. E apenas um homem, o oficial, o notava e se empolgava por sobre a algazarra embriagada de Bosch e Scherner, Czurda e Amon. Continuava sentado em sua cadeira, olhando fixamente Henry, como se prestes a levantar-se de um salto e dizer: "É claro, cavalheiros. O violinista está com toda a razão... Não tem sentido viver com um desgosto como este."

Os Rosner continuaram repetindo a canção a tal ponto que era de admirar que Amon não tivesse gritado: "Basta!" Por fim o oficial levantou-se e foi até a sacada. Henry percebeu imediatamente que tinha levado o homem ao auge da alucinação. Ambos, ele e o irmão, passaram a tocar melodias de Von Suppé e Lehar, disfarçando o clima de melancolia com operetas alegres. O conviva permaneceu sozinho na varanda e, ao final de meia hora, interrompeu uma boa reunião dando um tiro na cabeça.

Assim era o sexo em Plaszóvia. Piolhos, chatos e incontinência dentro do campo; assassinato e demência ao redor. E em meio de tudo isso Josef Bau e Rebecca Tannenbaum prosseguiam em seu ritual de namoro.

Durante as neves daquele ano, Plaszóvia passou por uma adversa mudança nas condições sociais de todos os amantes do campo. Nos primeiros dias de janeiro de 1944, foi organizado um Konzentrationslager (Campo de Concentração) sob a autoridade central do General SS Oswald Pohl, do Escritório Econômico e Administrativo em Oranienburg, nas cercanias de Berlim. Subcampos de Plaszóvia — tais como o da Emalia, de Schindler — também passaram a ser controlados em Oranienburg. Os chefes de polícia Scherner e Czurda perderam autoridade direta. Os salários de trabalho de todos os prisioneiros empregados por Oskar e Madritsch não foram mais para a Rua Pomorska mas para o escritório do General Richard Glücks, chefe da Seção D (Campos de Concentração) de Pohl. Agora, quando precisava de favores, Oskar não tinha de ir somente a Plaszóvia amaciar Amon e convidar Julian Scherner para jantar, mas também entrar em contato com certos funcionários do grande complexo burocrático de Oranienburg.

Oskar logo arranjou uma oportunidade de viajar para Berlim e travar conhecimento com as pessoas que iriam lidar com a sua ficha. Oranienburg tinha começado como um campo de concentração. Agora se tornara uma vasta organização administrativa. Nos escritórios da Seção D, eram regulamentados todos os aspectos da vida e da morte de prisioneiros. O seu chefe, Richard Glücks, tinha também a responsabilidade, de acordo com Pohl, de estabelecer o equilíbrio entre trabalhadores e candidatos às câmaras de gás, para a equação em que X representava trabalho escravo e Y representava os próximos condenados.

Glücks estabelecera as providências para cada evento e do seu departamento eram emitidos memorandos compostos no jargão anestésico do planejador, do burocrata, do perito imparcial.

 

Escritório Central da SS de Economia e Administração Chefe da Seção D (Campos de Concentração) Di-Az:fl. 14-Ot-S-GEH TGB NO 453-44

Aos Comandantes de Campos de Concentração

Da, Sah, Bu, Mau, Slo, Neu, Au 1 -III,

Gr-Ro, Natz, Stu, Rav, Herz, A-L-Bels,

Gruppenl. D. Riga, Gruppenl. D. Cracóvia (Plaszóvia)

 

Estão se tornando cada vez mais freqüentes os requerimentos de Comandantes de Campo para que sejam punidos com chicotadas prisioneiros acusados de sabotagem na produção de indústrias de guerra.

Solicito que, no futuro, em todos os casos comprovados de sabotagem (um relatório da gerência deve ser incluído), seja feito um pedido de execução por enforcamento. A execução deverá ter lugar diante dos membros reunidos do destacamento de trabalho em questão. O motivo da execução deve ser comunicado, a fim de que seja criado um clima de coibição.

(Assinado) SS Obersturmführer

       Nessa sinistra chancelaria, alguns arquivos se referiam a discussões sobre qual o comprimento obrigatório do cabelo de um prisioneiro, material considerado utilizável economicamente "na manufatura de meias para tripulações de submarinos e feltro de cabelo para calçados", ao passo que em outros se discutia se o formulário registrando "casos de morte" devia ser arquivado por oito departamentos ou simplesmente citado por carta e apenso aos registros de pessoal, a fim de que as fichas de arquivo fossem atualizadas. E era nessa chancelaria que Herr Oskar Schindler de Cracóvia precisava falar do seu pequeno conjunto industrial em Zablocie. Destacaram alguém do segundo escalão para discutir com ele.

Oskar não desanimou. Havia maiores empregadores do que ele de mão-de-obra judaica. Havia os megalíticos, Krupp, naturalmente, e I. G. Farben. Havia a Companhia de Cabos em Plaszóvia. Walter G. Toebbens, o industrial de Varsóvia, que Himmler tentara forçar a entrar para a Wehrmacht, era mais poderoso empregador de mão-de-obra do que Schindler. E havia ainda as fundições em Stalowa Wola, as fábricas de aviões em Budzyn e Zakopane, as oficinas Steyr-Daimler-Puch em Radom.

O oficial do segundo escalão estava com os planos da Emalia sobre a mesa. Um tanto secamente, ele disse esperar que Herr Schindler não estivesse pretendendo ampliar o seu campo, o que certamente provocaria uma epidemia de tifo.

Oskar replicou que essa não era a sua intenção. O que interessava era a estabilidade da sua força de trabalho. E acrescentou que já havia conversado sobre a questão com um amigo seu, o Coronel Erich Lange. Oskar notou que esse nome produziu certo efeito no oficial da SS. Oskar estendeu uma carta do coronel e o outro reclinou-se na poltrona para lê-la. Na sala reinava o silêncio — tudo o que se podia ouvir das salas contíguas era o arranhar de canetas no papel, o rumor de papéis e as conversas em voz baixa, como se ninguém ali soubesse que se achava no centro de uma encruzilhada de gritos.

O Coronel Lange era um homem de influência, Chefe do Estado Maior da Inspetoria de Armamentos do quartel-general do Exército, em Berlim. Oskar conhecera-o numa reunião no gabinete do General Schindler em Cracóvia. Quase imediatamente os dois simpatizaram um com o outro. Em reuniões, acontecia freqüentemente duas pessoas que percebiam uma na outra certa paridade de resistência ao regime se afastarem para um canto da sala a fim de trocar idéias e talvez iniciar uma amizade. Erich Lange ficara horrorizado com os campos na Polônia — com as fábricas de I.G. Farben em Buna, por exemplo, onde os chefes de turma adotavam o "ritmo de trabalho" da SS e faziam os prisioneiros descarregarem cimento ininterruptamente; onde os cadáveres dos que tinham morrido de fome eram atirados em valas cavadas para encanamentos e cobertos, juntamente com os canos, por camadas de cimento. "Vocês não estão aqui para viver mas para morrer soterrados em concreto", dissera um gerente da fábrica a recém-chegados, e Lange tinha ouvido o discurso e se sentira arrasado. Sua carta para Oraniemburg fora precedida de alguns telefonemas; tanto a carta como os telefonemas insistiam na mesma proposição: "Herr Schindler, com seus utensílios de ranchos e granadas antitanque de 45mm, é considerado por esta Inspetoria um colaborador de grande importância na luta pela nossa sobrevivência nacional. Formou uma equipe de peritos e nenhuma medida que possa perturbar o trabalho desses homens, sob a supervisão de Herr Direktor Schindler, deve ser tomada."

       O oficial encarregado do pessoal mostrou-se impressionado e disse que ia falar francamente com Herr Schindler. Não havia planos para alterar o estado de coisas atual ou interferir com a população do campo em Zablocie. Contudo, Herr Direktor devia compreender que a situação dos judeus, mesmo a dos técnicos em armamentos, era sempre arriscada.

       — Veja, o caso de nossos próprios empreendimentos. Ostindustrie, a companhia da SS, emprega prisioneiros em trabalhos com turfa; uma fábrica de escovas e fundição de ferro em Lublin; fábricas de equipamentos em Random; uma oficina de peles em Trawniki. Mas outras sucursais da SS estão continuamente desbaratando a tiros a força de trabalho, e agora a Ostindustrie, para todas as finalidades práticas, está inutilizada. Da mesma forma, nos centros de liquidação de judeus, a equipe nunca retém uma percentagem suficiente de prisioneiros para o trabalho de fábrica. Esse item tem ocasionado muita correspondência; essa gente dos campos é intransigente. Mas, naturalmente — concluiu o oficial batendo com os dedos na carta —, farei o que puder para ajudá-lo, Herr Schindler.

— Compreendo o problema — disse Oskar, fitando o SS, com um sorriso radioso. — Se há algum modo de eu poder expressar a minha gratidão...

No final, Oskar deixou Oranienburg, com pelo menos algumas garantias sobre a continuidade de seu campo em Cracóvia.

O novo regulamento cerceava os amantes estabelecendo uma separação penal dos sexos — conforme estipulado numa série de memorandos do Escritório Central de Economia e Administração. As cercas entre a prisão dos homens e a das mulheres, a cerca perimetral, a cerca em torno do setor industrial, todas elas eram eletrificadas. A voltagem, o espaço entre os arames farpados, o número de cabos e isoladores eletrificados eram todos determinados pelas diretrizes do Escritório. Amon e seus oficiais não tardaram em notar as possibilidades disciplinares decorrentes dessa disposição. Agora se podia deixar uma pessoa de pé durante vinte e quatro horas consecutivas, entre a cerca eletrificada externa e a neutra interna. Se a pessoa cambaleava de cansaço, sabia que uns poucos centímetros atrás de suas costas havia cem volts. Mundek Korn, por exemplo, ao voltar ao campo com um grupo de trabalho em que estava faltando um prisioneiro, foi posto de pé como à beira de um abismo durante todo um dia e uma noite.

Mas talvez pior do que o risco de cair contra o fio eletrificado era a maneira como se ligava a corrente, desde o final da chamada da noite até a hora de despertar de manhã, como se homens e mulheres estivessem na muda. O tempo para contatos físicos ficava agora reduzido a uma breve fase de perambulação na Appellplatz, antes da ordem berrada para que todos se enfileirassem. Cada casal combinava certa melodia, assobiando-a em meio da multidão, de ouvido atento ao refrão da resposta, de tal modo que o ar ressoava como uma floresta de sibilância. Rebecca Tannenbaum também tinha uma melodia de código. As exigências do Escritório do General Pohl haviam forçado os prisioneiros a adotar os estratagemas de acasalamento dos pássaros. E assim prosseguiu o romance entre Josef e Rebecca.

Josef conseguiu, no depósito de roupas, o vestido de uma mulher que morrera; muitas vezes, depois da chamada dos homens, ele se dirigia para as latrinas, envergava o vestido comprido e colocava na cabeça uma touca ortodoxa. Depois saía e se encaminhava para as fileiras das mulheres. O seu cabelo curto não chamava a atenção de nenhum guarda da SS, pois que a maioria das mulheres tivera a cabeça rapada por causa dos piolhos. Assim vestido, juntamente com 13 mil prisioneiros, ele penetrava no conjunto das mulheres e passava a noite sentado na Cabana 57, fazendo companhia a Rebecca.

Na caserna de Rebecca, as mulheres mais velhas levavam a sério o namoro. Se Josef queria fazer uma corte tradicional à sua amada, elas também estavam dispostas a assumir os seus papéis tradicionais de chaperons. Portanto Josef era bem-vindo entre elas, fornecendo-lhes a oportunidade de representar suas funções sociais de antes da guerra.

Do alto de seus beliches, elas vigiavam os dois namorados até todos adormecerem. Se uma delas pensava: "Não vamos ser muito exigentes numa época como esta, com o que as crianças fazem na calada da noite", nunca expressava em palavras esse pensamento. De fato,duas das mulheres mais velhas se apertavam num beliche estreito para que Josef dispusesse de um só para ele. O desconforto, o cheiro do outro corpo, o risco de apanhar piolhos uma da outra — nada disso era tão importante, tão crucial para os seus padrões atuais como o desejo de que o namoro progredisse de acordo com as normas.

No final do inverno, Josef, usando a braçadeira do Escritório de Construção, saiu na neve estranhamente imaculada entre a cerca interna e a barreira eletrificada e, de régua em punho, sob os olhos das torres de vigia abobadadas, fingiu estar medindo a terra-de-ninguém para alguma finalidade arquitetural.

Na base dos pilares de concreto juncados de isoladores de porcelana cresciam as primeiras flores silvestres do ano. Segurando numa das mãos a régua de aço, com a outra ele colheu as flores e enfiou-as por dentro do casaco. Em seguida, encaminhou-se através do campo em direção à Rua Jerozolimska. Passava pela casa de Amon, com as flores escondidas no peito, quando o dono apareceu no limiar da porta da entrada e desceu imponente os degraus. Josef Bau estacou. Era muito perigoso parar, parecer imobilizado diante de Amon. Mas tendo parado, só lhe restava continuar na mesma posição. Temeu que o coração, que com tanta intensidade e honestidade ele entregara à órfã Rebecca, agora provavelmente fosse tornar-se apenas mais um alvo para Amon.

Mas, quando Amon passou por ele, sem o notar, sem fazer objeção por estar ele ali parado com uma régua inútil na mão, Josef Bau concluiu que isso significava uma espécie de garantia. Ninguém escapava a Amon a não ser por milagre do destino. Muito bem-trajado com sua vestimenta de caçador, Amon tinha certa vez entrado inesperadamente no campo pelo portão dos fundos e encontrara uma moça sentada numa limusine na garagem olhando-se no espelho retrovisor. As vidraças do carro que ela estava encarregada de limpar estavam ainda sujas. Por isso, ele a matara. E havia também o caso da mãe e filha que Amon notara pela janela de uma cozinha, descascando batatas com certa lentidão. Ele se debruçara no peitoril da janela e matara ambas a tiros. No entanto, ali diante de sua casa estava algo que ele odiava, um desenhista judeu apaixonado, com a régua pendurada na mão. E Amon passara por ele sem se deter. Bau sentiu um ímpeto de celebrar a sua incrível sorte com algum ato solene. E o casamento era, naturalmente, o mais imaginável ato solene.

Voltou ao Prédio da Administração, subiu as escadas para o escritório de Stern e, encontrando Rebecca, pediu-a em casamento. Foi uma alegria e uma preocupação para Rebecca refletir que agora se tratava de um caso urgente.

Nessa noite, envergando o vestido da defunta, ele foi de novo visitar sua mãe e o conselho das senhoras na Cabana 57. Esperavam apenas a chegada de um rabino. Mas, quando apareciam rabinos, demoravam-se ali apenas uns poucos dias a caminho de Auschwitz — não o tempo suficiente para as pessoas, que estivessem precisando dos ritos de kidduschín e nissuin, conseguissem localizá-los e lhes pedissem que exercessem pela última vez seu sacerdócio, antes de entrarem no forno crematório.

Josef casou-se com Rebecca em fevereiro, numa noite de frio intenso de um domingo. Não havia um rabino. A Sra. Bau, mãe de Josef, oficioua cerimônia. Eram judeus da Reforma, por isso podiam dispensar um kelubbah escrito em aramaico. Na oficina do joalheiro Wulkan, alguém tinha feito duas alianças de uma colher de prata que a Sra. Bau escondera entre os caibros do telhado. No chão da caserna, Rebecca rodeou Josef sete vezes e Josef esmagou vidro — uma lâmpada queimada do Escritório de Construção — sob os calcanhares.

Haviam reservado para o casal o beliche mais alto e, para maior privacidade, penduraram cobertores em volta. Às escuras Josef e Rebecca subiram para o seu ninho; ao redor começaram as piadas maliciosas. Nos casamentos na Polônia havia sempre um período de trégua, quando o amor profano tinha a chance de se expressar. Se os convivas não desejavam pronunciar eles próprios os tradicionais subentendidos, podiam contratar um bufão profissional especializado em piadas para casamento. Mulheres que na casa dos vinte ou dos trinta teriam assumido ares de desaprovação com os gracejos salgados do bufão e com as gargalhadas dos homens, só de vez em quando se permitindo um sorriso, estando agora na maternidade, nessa noite tomaram o lugar de todos os bufões de casamento, ausentes ou mortos, do sul da Polônia.

Josef e Rebecca não estavam juntos havia mais de dez minutos no beliche de cima, quando se acenderam as luzes da caserna. Espiando por uma fresta nos cobertores, Josef viu o Untersturmführer Scheidt patrulhando os corredores de beliches. O mesmo antigo e temeroso senso do destino se apoderou de Josef. Já tinham descoberto a sua ausência na caserna dos homens e mandado um dos piores oficiais para procurá-lo na caserna de sua mãe. Amon fingira não tê-lo visto nesse dia diante de sua casa só para que Scheidt, que era rápido no gatilho, pudesse vir matá-lo na sua noite de núpcias!

Ele sabia também que todas as mulheres estavam comprometidas — a mãe, a noiva, as testemunhas, as companheiras que tinham cochichado todas aquelas piadas deliciosamente embaraçosas. Josef começou a balbuciar desculpas, pedindo para ser perdoado. Rebecca disse-lhe que calasse a boca. Depois tirou todos os cobertores que estavam servindo de cortina, raciocinando que Scheidt não iria olhar o beliche de cima, a não ser que algo provocasse a sua curiosidade. As mulheres dos beliches de baixo passaram-lhe seus pequenos travesseiros de palha.Josef podia ter orquestrado o namoro mas agora era o menino que devia ser escondido. Rebecca empurrou-o com força para um canto do beliche e cobriu-o com travesseiros. Viu Scheidt passar abaixo dela e sair pela porta dos fundos. As luzes se apagaram. Em meio a um último murmúrio de gracejos, o casal Bau voltou à sua privacidade.

Minutos depois, as sirenes soaram. Todos se sentaram na escuridão. O ruído significou para Bau que sim, eles estavam decididos a liquidar com a sua noite nupcial. Tinham encontrado o seu beliche desocupado e agora o estavam caçando.

Na caserna escura, as mulheres debatiam-se lentamente de um lado para o outro. Elas também sabiam. Do alto de seu beliche, Josef podia ouvir o que diziam. O seu amor à antiga ia causar a morte de todas elas. A Alteste da caserna, que procurara tanto ajudar, seria a primeira a levar um tiro, quando as luzes se acendessem e fosse encontrado o noivo disfarçado com seu vestido de mulher.

Josef Bau agarrou suas roupas, beijou rapidamente a mulher, escorregou para o chão e correu para fora. Na escuridão da noite, o ruído das sirenes parecia furar-lhe os tímpanos. Disparou na neve suja, com o paletó e o velho vestido numa trouxa debaixo do braço. Quando as luzes se acendessem, ele seria visto pelas torres de vigia. Mas teve a idéia maluca de que iria conseguir chegar à cerca antes das luzes, talvez mesmo saltá-la entre as alternações da corrente. Uma vez de volta ao campo dos homens, poderia inventar uma história a respeito de diarréia, de ter ido à latrina e desmaiado no chão, recobrando os sentidos com o ruído das sirenes.

Enquanto corria desabaladamente, ele sabia que, mesmo que o eletrocutassem, não poderia confessar com que mulher estivera. Avançando para o arame fatal, não refletiu que haveria uma cena como a de colégio na Appellplatz, e que Rebecca seria obrigada, de uma ou outra forma, a se denunciar.

A cerca entre os campos dos homens e das mulheres em Plaszóvia era de nove fios eletrificados. Josef Bau tomou impulso e saltou, esperando que seus pés encontrassem apoio no terceiro fio e, esticando as mãos, ele alcançasse o segundo fio no alto. Imaginou-se saltando os fios com uma rapidez de rato. O que aconteceu foi que ele caiu sobre a rede de arame e simplesmente ali ficou pendurado. Julgou que o frio do metal em suas mãos era a primeira mensagem da corrente elétrica. Mas não havia corrente alguma. Nem luzes. Josef Bau, estendido sobre a cerca, não especulou sobre o motivo de não haver voltagem. Alcançou o alto da rede e caiu no campo dos homens. "Você é um homem casado", disse para si mesmo. Atravessou a lavanderia e entrou na latrina. "Uma terrível diarréia, Herr Oberscharführer." O mau cheiro quase o sufocou. A cegueira de Amon no dia das flores... a consumação, esperada com incômoda paciência, duas vezes interrompida... Scheidt e as sirenes... o problema com as luzes e os fios eletrificados — cambaleante e nauseado, refletiu até quando iria ele suportar a ambigüidade de sua vida. Como todos os outros, o que desejava era uma segurança mais definida.

Foi um dos últimos a entrar nas fileiras diante da sua caserna. Estava trêmulo mas certo de que o Alteste o ajudaria. "Sim, Herr Untersturmführer, dei permissão ao Haftling Bau para ir à latrina."

Não estavam em absoluto procurando-o, mas sim três jovens sionistas, que tinham fugido num caminhão de produtos da oficina de estofamento, onde se fabricavam colchões de capim para a Wehrmacht.

 

O dia 28 de abril de 1944, Oskar — examinando-se de perfil no espelho — constatou que, em seu trigésimo sexto aniversário, sua cintura estava mais grossa. Mas pelo menos hoje, quando beijava as moças, ninguém se dava ao trabalho de denunciá-lo. Qualquer informante entre os técnicos alemães devia sentir-se desmoralizado, pois a SS tinha soltado Oskar da Rua Pomorska e da prisão de Montelupich, ambas consideradas centros supostamente impregnáveís à influência.

Para marcar o dia, Emilie enviou da Tchecoslováquia as habituais congratulações e Ingrid e Klonowska lhe deram presentes. Seus arranjos domésticos pouco tinham-se modificado nos quatro anos e meio que ele passara em Cracóvia. Ingrid continuava sendo a sua consorte, Klonowska uma amante, Emilie uma esposa compreensivelmente ausente.

Nada se sabe das queixas ou perplexidades que cada uma delas pudesse sentir mas tornara-se óbvio em seu trigésimo sétimo aniversário que as suas relações com Ingrid pareciam um pouco mais frias; que Klonowska, sempre uma amiga leal, contentava-se com uma ligação meramente esporádica; e que Emilie continuava considerando o seu casamento

indissolúvel. Mas, no momento, cada qual deu seu presente a Oskar e manteve-se calada.

Outros participaram da comemoração. Amon permitiu que Henry levasse o seu violino para a Rua Lipowa à noite, sob a guarda do melhor barítono da guarnição ucraniana. Naquele estágio Amon estava muito satisfeito com a sua associação com Schindler. Em troca do contínuo apoio ao campo da Emalia, ele tinha solicitado e obtido o uso permanente do Mercedes de Oskar — não o calhambeque que Oskar tinha comprado de John por um dia mas o carro mais elegante da garagem da Emalia. O recital realizou-se no gabinete do Herr Direktor. Ninguém compareceu, a não ser o próprio Oskar. Era como se ele estivesse cansado de gente. Quando o ucraniano foi ao toalete, Oskar revelou sua depressão a Henry. Estava preocupado com as notícias da guerra. Seu aniversário chegara num hiato. Os exércitos soviéticos tinham parado atrás da região fronteiriça de Pripet na Bielo-Rússia e diante de Lwów. Os receios de Oskar intrigaram Henry. "Será que ele não compreende que, se os russos não forem detidos, será o fim de suas operações aqui?"

—   Já pedi muitas vezes a Amon que deixe você vir permanentemente para cá

— disse Oskar a Rosner. — Você e sua mulher e seu filho. Mas ele se recusa. Aprecia muito você. Mas eventualmente...

Henry sentiu-se grato. Mas achou que devia fazer ver a Oskar que sua família estava bem garantida em Plaszóvia. Sua cunhada, por exemplo, fora apanhada em flagrante por Goeth fumando no trabalho e ele ordenara a sua execução. Mas um dos NCO pediu permissão para informar Herr Commandant de que a moça era a Sra. Rosner, mulher do acordeonista Rosner.

—   Oh! — disse Amon, e suspendeu a execução. — Mas lembre-se, moça, que não permito que fumem no trabalho. Nessa noite, Henry descreveu a Oskar a atitude de Amon, em relação aos Rosner — imunes graças ao seu talento musical —, atitude essa que o persuadira e à sua mulher Manei a trazerem para dentro do campo Olek, seu filho de oito anos. O menino estivera escondido na casa de amigos em Cracóvia mas a situação estava ficando cada vez mais perigosa. Uma vez dentro do campo, Olek podia se misturar ao grupo de crianças, muitas sem registro nos livros da prisão, cuja presença em Plaszóvia encontrava apoio na conivência dos prisioneiros e era tolerada por alguns dos funcionários mais jovens. Todavia, o maior risco fora fazer Olek penetrar no campo. Poldek Pfefferberg, que tivera de ir de caminhão à cidade para apanhar caixas de ferramentas, tinha contrabandeado o menino para dentro do campo. Os ucranianos quase haviam descoberto o garoto no portão, quando ele estava ainda do lado de fora, vivendo em contravenção com todos os estatutos raciais do Governo-Geral do Reich. Os pés dele tinham furado a caixa metida entre os tornozelos de Pfefferberg. "Sr. Pfefferberg, Sr. Pfefferberg!", ouvira Poldek, enquanto os ucranianos revistavam o fundo do caminhão. "Meus pés estão de fora!"

Henry podia rir agora do incidente, embora com cautela, pois ainda havia muitos obstáculos a serem vencidos. Mas Schindler reagiu dramaticamente, com um gesto que parecia inspirado na melancolia levemente alcoólica que se apossara dele nessa noite do seu aniversário. Agarrou pelo espaldar sua cadeira e suspendeu-a até o retrato do Führer. Por um instante, pareceu que ia arremessá-la contra o retrato. Mas tornou a girar sobre os calcanhares, baixou resolutamente a cadeira até as quatro pernas estarem a igual distância do chão, e atirou-a com força sobre o tapete, fazendo estremecer a parede. Depois disse:

Eles estão queimando corpos lá fora, não é mesmo? Henry fez uma careta, como se o mau cheiro empestasse na sala.

Sim, já começaram — admitiu.Agora que Plaszóvia era — na linguagem dos burocratas — um campo de concentração, seus prisioneiros constataram ser menos perigoso deparar com Amon. Os chefes de Oranienburg não permitiam mais as execuções sumárias. Os tempos em que era fuzilado quem não descascasse batatas com bastante rapidez pertenciam ao passado. Agora só podiam ser liquidados através de um processo legal. Tinha de haver um interrogatório e um relatório remetido em três cópias para Oranienburg.

A sentença precisava ser confirmada não apenas pelo escritório do General Glück mas também pelo Departamento W (Empreendimentos Econômicos) do General Pohl. Se um comandante matasse algum dos trabalhadores essenciais, o Departamento W podia ver-se a braços com reivindicações de compensação. Allach-Munich, Ltd., por exemplo, fabricantes de porcelana, que usavam trabalho escravo de Dachau, tinham recentemente exigido uma indenização de 31.800 RM porque "em resultado da epidemia de febre tifóide que surgiu em 1943, deixamos de ter à nossa disposição mão-de-obra de prisioneiros desde 26 de janeiro de 1943 até 3 de março de 1943. Em nossa opinião temos direito à compensação, de acordo com a Cláusula 2 do Fundo de Compensação Comercial..."

O Departamento W ficava ainda mais obrigado a compensações, se a perda de mão-de-obra especializada era causada pelo zelo de algum oficial da SS rápido no gatilho.

Assim, para evitar a burocracia e as complicações departamentais, Amon passou a conter-se um pouco. As pessoas que apareciam na sua proximidade, na primavera e começo do verão de 1944, de certa forma se sentiam mais seguras, embora nada soubessem sobre o Departamento W e os Generais Pohl e Glücks. Para elas era um indulto tão misterioso quanto a própria demência de Amon. Contudo, como Oskar tinha mencionado a Henry Rosner, eles agora

queimavam os corpos em Plaszóvia. Preparando-se para a ofensiva russa, a SS estava abolindo suas instituições no Leste. Treblinka, Sobibor e Belzec haviam sido evacuados no outono anterior. A Waffen SS, que os administrava, recebera ordem de dinamitar as câmaras de gás e crematórios, não deixar vestígio algum reconhecível, e fora transferida para a Itália, a fim de combater os guerrilheiros. O imenso complexo de Auschwitz, em terreno seguro no norte da Silésia, completaria a grande tarefa no Leste e, uma vez esta concluída, o crematório seria soterrado. Pois, sem a evidência do crematório, os mortos não podiam prestar testemunho, eram um sussurro ao vento, uma poeira inconsistente nas folhas dos alamos.

Plaszóvia não era de solução tão simples, porque os seus mortos jaziam por toda parte em seu redor. No furor da primavera de 1942, cadáveres — sobretudo os das pessoas assassinadas nos últimos dois dias do gueto — eram jogados a esmo em valas comuns nos bosques. Agora, o Departamento D encarregou Amon de descobrir todas aquelas valas.Os cálculos quanto à quantidade de corpos variam muito. Publicações polonesas, baseadas no trabalho da Comissão Central para Investigação de Crimes Nazistas na Polônia e em outras fontes de informação, afirmam que 150 mil prisioneiros, muitos deles em trânsito para outros locais, passaram por Plaszóvia e seus cinco subcampos. Desses, os poloneses acreditam que 80 mil morreram ali, muitos em execuções em massa dentro de Chujowa Górka ou vítimas de epidemias.

Essa estimativa desconcerta os sobreviventes de Plaszóvia que se lembram do horrendo trabalho de queimar os mortos. Afirmam que só o número de corpos, por eles exumados, atinge mais ou menos entre oito mil e dez mil — proporção apavorante, e que eles não têm a menor vontade de exagerar. A diferença entre as duas estimativas fica mais chocante, quando lembramos que execuções de poloneses, ciganos e judeus continuariam em Chujowa Górka e em outros pontos nas circunvizinhanças de Plaszóvia, durante quase todos aqueles anos, e que os próprios SS adotaram a prática de queimar corpos imediatamente após as execuções em massa no morro do forte austríaco. Além disso, Amon não iria conseguir realizar a sua intenção de remover dos bosques todos os corpos. Alguns milhares mais seriam encontrados em exumações no pós-guerra e hoje, quando os subúrbios de Cracóvia se aproximam cada vez mais de Plaszóvia, ainda são encontrados ossos nas escavações para fundações.Oskar viu a enfiada de piras na elevação do terreno acima das oficinas, durante uma visita pouco antes de seu aniversário. Quando voltou, uma semana depois, a atividade havia aumentado. Os corpos eram desenterrados por prisioneiros que trabalhavam de rosto tapado. Em cobertores, padiolas e macas eram levados para o local da incineração e depositados sobre toras de madeira. A pira era arrumada camada por camada, e quando alcançava a altura do ombro de um homem, encharcada com combustível e acesa. Pfefferberg se horrorizara, vendo a vida temporária com que as chamas animavam os mortos, a maneira como os corpos se sentavam, atirando para longe as toras ardentes, os membros estirando-se, as bocas se escancarando como para um derradeiro grito. Um jovem SS da estação de despiolhamento corria entre as piras, sacudindo a pistola e esbravejando ordens frenéticas. A fuligem dos mortos recaía nos cabelos dos vivos e sobre as roupas postas a secar nos varais do quintal dos oficiais subalternos. Oskar ficou pasmo ao ver a indiferença com que o pessoal do campo aceitava a fumaça, como se a fuligem no ar proviesse de alguma honesta e inevitável precipitação industrial. E no ar enfumaçado, Amon saía a cavalo com Majola, ambos muito calmos em suas montarias. Leo John levava o filho de doze anos para apanhar sapos no terreno pantanoso da mata. As chamas e a fedentina não lhes perturbavam a vida quotidiana.

Curvando-se para trás ao volante de seu BMW, com as vidraças fechadas e um lenço tapando-lhe a boca e o nariz, Oskar pensou que eles deviam estar queimando os Spiras junto com os outros. Espantara-se, ao saber que a SS tinha executado todos os policiais judeus do gueto e suas famílias no último Natal, mal Symche Spira terminara de dirigir o desmantelamento do gueto. Todos eles, com suas mulheres e filhos, haviam sido levados para ali numa tarde cinzenta e executados, quando o frio sol de inverno desapareceu. Acabaram fuzilando os mais fiéis (Spira e Zellinger) bem como os mais relutantes. Spira e a tímida Sra. Spira e os obtusos filhos do casal, a quem Pfefferberg tão pacientemente dera aulas — tinham sido todos colocados nus dentro de um círculo de fuzis, encostados uns contra os outros, tremendo de frio. O uniforme OD napoleônico de Spira era agora apenas um monte de pano para reciclagem, atirado à entrada do forte. E até o último instante, Spira continuara afirmando a todos que aquilo não ia acontecer. A execução tinha chocado Oskar como prova de que, para os judeus, não havia obediência ou subserviência que pudesse garantir-lhe a sobrevivência. E agora os Spira estavam sendo queimados tão anônima e ingratamente como haviam sido executados. Até mesmo os Gutter! O evento se dera após um jantar em casa de Amon, no ano anterior. Oskar retirara-se cedo para casa, porém mais tarde soubera do que acontecera depois da sua saída. John e Neuschel tinham começado a implicar com Bosch. Acusavam-no de ser supersensível. Bosch gostava muito de se gabar de ser um veterano das trincheiras. Mas nunca o tinham visto efetuar uma execução. Durante horas bateram na mesma tecla — a brincadeira da noite. Afinal, Bosch dera ordem para acordarem David Gutter e seu filho na caserna, e a Sra. Gutter e a filha na caserna das mulheres. Nesse caso também se tratava de servos fiéis. David Gutter tinha sido o último presidente do Judenrat e cooperado em tudo — nunca fora à Rua Pomorska, tentando protestar contra os desmandos das Aktionen SS ou contra o número dos transportes com destino a Belzek. Gutter tinha assinado todas as ordens e considerado razoáveis todas as exigências. Além disso, Bosch utilizara-o como agente dentro e fora de Plaszóvia, mandando-o a Cracóvia com caminhões de móveis estofados na oficina do campo, ou jóias, para vender no mercado negro. E Gutter a tudo acedera porque era realmente um canalha mas principalmente porque acreditava que assim sua mulher e seus filhos ficariam imunes.

Às duas horas daquela manhã polar, Zauder, um policial judeu, amigo de Pfefferberg e de Stern — que seria mais tarde fuzilado por Pilarzik, num dos desmandos alcoólicos daquele oficial —, achava-se de plantão naquela noite no portão das mulheres e ouviu Bosch ordenando aos Gutter que se colocassem em posição, numa depressão do terreno próximo do local. Os filhos imploravam mas David e a Sra. Gutter mantinham-se calmos, sabendo que de nada adiantaria argumentar.

E agora Oskar via todos aqueles testemunhos — os Gutter, os Spira, os rebeldes, os sacerdotes, as crianças e as garotas bonitas com documentação ariana falsificada —, todos aqueles testemunhos sendo amontoados naquele morro horrendo para serem obliterados no caso de os russos chegarem a Plaszóvia e não aprovarem o que se fizera no campo. Deve haver cuidado, dizia Oranienburg numa carta a Amon, quanto à futura disposição de todos os corpos, e para essa finalidade estava enviando um representante de uma firma de engenharia de Hamburgo para supervisionar a construção dos crematórios. Entrementes, os mortos, enquanto esperavam para ser desenterrados, deviam ter suas valas cuidadosamente assinaladas.Quando, naquela segunda visita, Oskar viu a extensão das fogueiras no Chujowa Górka, o seu primeiro impulso foi permanecer no carro, aquele mecanismo alemão equilibrado, e voltar para casa. Ao invés, foi procurar seus amigos na oficina e depois visitou o escritório de Stern. Pensava que, com toda aquela fuligem se acumulando nas janelas, não seria de admirar se os internos de Plaszóvia cogitassem de suicídio. Contudo, era ele quem parecia mais deprimido. Não fez nenhuma das suas ironias habituais, tais como: "Então, Herr Stern, se Deus fez o homem à Sua imagem, qual a raça que mais se assemelha a Ele? Acha que um polonês se parece mais com Ele do que um tcheco?" Hoje nenhuma brincadeira lhe ocorreu. Apenas perguntou:

— O que estão todos pensando?

Stern respondeu que prisioneiros eram prisioneiros. Faziam o seu trabalho e esperavam sobreviver.

Vou tirá-los daqui — resmungou Oskar de repente. Bateu na mesa com o punho cerrado. — Vou tirar vocês todos daqui!

Todos? — não pôde Stern deixar de perguntar. Tais maciços salvamentos bíblicos não se encaixavam na época.

Você, pelo menos — disse Oskar. — Você.

 

O gabinete de Amon, no Prédio da Administração, havia dois datilógrafos. Um deles era uma moça alemã, Frau Kochmann; o outro, Mietek Pemper, um prisioneiro jovem e estudioso. Pemper um dia passaria a ser secretário de Oskar mas, no verão de 1944, ele trabalhava para Amon e, como qualquer outro em tal situação, não era muito otimista quanto às suas chances de sobrevivência. O seu primeiro contato mais prolongado com Amon foi tão acidental quanto o fora o de Helen Hirsch, a criada. Pemper foi chamado ao gabinete de Amon, depois de alguém tê-lo recomendado ao comandante.

O jovem prisioneiro era estudante de contabilidade, ótimo datilografo e taquígrafo e capaz de tomar ditado em polonês e alemão. A sua prodigiosa memória era famosa. Assim, por ser um prisioneiro de tanta capacidade, Pemper foi parar no escritório de Amon, e, às vezes, ia tomar ditados em casa do comandante. Por ironia, no final, a memória fotográfica de Pemper mais do que a de qualquer outro prisioneiro, iria causar o enforcamento de Amon em Cracóvia. Mas Pemper não sonhava que jamais chegasse esse dia. Em 1944, se tentasse adivinhar quem seria a vítima mais provável de sua memória quase perfeita, ele diria que era o próprio Mietek Pemper. Pemper exercia a função de secretário auxiliar. Para assuntos confidenciais,

Amon devia usar Frau Kochmann, mais lenta como taquígrafa e muito menos competente do que Mietek. Às vezes, Amon quebrava esse regulamento e deixava que o jovem Pemper tomasse um ditado confidencial. E Mietek, mesmo quando se achava sentado diante da mesa de Amon com o bloco nos joelhos, não podia impedir que suposições contraditórias o distraíssem de seu trabalho. A primeira eraque todos aqueles relatórios e memorandos internos, cujos detalhes estava memorizando, fariam dele uma testemunha vital no dia ainda remoto em que Amon se visse perante um tribunal. A outra suposição era que Amon, no final, teria de apagá-lo como quem apaga uma fita confidencial de gravação.

Contudo, todas as manhãs Mietek não somente organizava seus papéis de datilografia, carbonos e cópias, mas também uma dúzia deles para a secretária alemã. Depois de ter ela datilografado tudo, Pem-per fingia destruir os carbonos mas, na realidade, guardava-os e lia-os mais tarde. Não tinha nenhuma documentação por escrito mas a sua reputação de boa memória vinha desde os tempos de colegial. Mietek sabia que, se algum dia houvesse aquele tribunal, se ele e Amon se sentassem no recinto da corte de justiça, ia deixar o comandante pasmado com a precisão de datas de suas provas.Pemper teve a oportunidade de ver alguns documentos confidenciais espantosos, como, por exemplo, memorandos sobre a aplicação do chicote nas mulheres. A ordem era recomendar aos comandantes dos campos que o castigo surtisse o maior efeito possível. Seria considerado aviltante envolver no processo membros da SS; portanto, mulheres tchecas deviam ser açoitadas por mulheres eslovacas e eslovacas por tchecas. Com referência às russas e polonesas, devia ser aplicada a mesma tática. Recomendava-se aos comandantes usar a imaginação para explorar diferenças nacionais e culturais.

Outro boletim lembrava-lhes que eles não tinham pessoalmente o direito de impor uma sentença de morte. Os comandantes podiam solicitar autorização por telegrama ou carta do Escritório Central de Segurança do Reich. Amon fizera isso na primavera com dois judeus que tinham fugido do subcampo em Wieliczka e que ele pretendia enforcar.

Um telegrama de permissão chegara de Berlim, assinado, como Pemper notou, pelo Dr. Ernst Kaltenbrunner, Chefe do Escritório Central de Segurança do Reich. Agora, em abril, Pemper leu um memorando de Gerhard Maurer, Chefe da Distribuição de Mão-de-obra da Seção D do General Glück. Maurer queria que Amon lhe informasse quantos húngaros poderiam ser temporariamente mantidos em Plaszóvia. O seu destino final era a Fábrica de Armamentos Germânica, DAW, que era uma subsidiária da Krupp, fabricando fusos de granada de artilharia no enorme complexo de Auschwitz. Devido ao fato de a Hungria só recentemente ter sido anexada como Protetorado da Alemanha, esses judeus e dissidentes húngaros estavam em melhores condições de saúde do que os que tinham anos de vida em guetos e prisões. Eram portanto uma bênção para as fábricas de Auschwitz. Infelizmente, as acomodações na DAW ainda não estavam prontas mas, se o comandante de Plaszóvia pudesse aceitar uns sete mil, à espera de uma solução, a Seção D lhe seria extremamente grata.

A resposta de Goeth, quer lida ou datilografada por Pemper, era que Plaszóvia atingira o máximo de sua capacidade de prisioneiros e não havia espaço para construções dentro das cercas eletrificadas. Não obstante, Amon estava disposto a aceitar até dez mil prisioneiros em trânsito, se (a) lhe fosse permitido liquidar os elementos improdutivos dentro do campo; e (b) se ele pudesse colocar ao mesmo tempo dois prisioneiros em cada beliche. Em resposta, Maurer escreveu que a dupla utilização de beliches não podia ser permitida no verão por representar o risco de uma epidemia de tifo; além disso, idealmente, de acordo com os regulamentos, deveria haver um mínimo de três metros cúbicos de ar por pessoa. Mas estava disposto a autorizar Goeth a realizar

a primeira opção. A Seção D informaria Auschwitz-Birkenau — ou, pelo menos, a ala de extermínio daquele grande empreendimento — que esperasse o envio de um refugo de prisioneiros de Plaszóvia. Simultaneamente, seria providenciado o transporte Ostbahn em vagões de gado, naturalmente, partindo do portão de Plaszóvia. Desse modo, Amon teria condições de separar os prisioneiros dentro do próprio campo.

Com a bênção de Maurer e da Seção D, ele iria num só dia abolir tantas vidas quantas Oskar, à custa de astúcias e de dinheiro a rodo, estava abrigando na Emalia. Amon batizou a sua sessão de seleção Die Gesundheitaktion, a Operação Saúde.

Organizou tudo, como se se tratasse de uma feira rural. Quando começou, no domingo, 7 de maio, a Appellplatz amanheceu com faixas:

A CADA PRISIONEIRO, O TRABALHO APROPRIADO!

Alto-falantes tocavam baladas de Strauss e canções de amor. Sob as faixas fora colocada uma mesa, em torno da qual estavam sentados Dr. Blancke, o médico da SS, Dr. Leon Gross e vários funcionários. O conceito de "saúde" de Blancke era tão excêntrico como o de qualquer médico da SS. Já tinha livrado a clínica da prisão dos doentes crônicos, injetando-lhes benzina nas veias. Essas injeções não podiam, por definição alguma, ser consideradas eutanásias. O paciente era tomado de convulsões que terminavam, após um quarto de hora, em morte por sufocação. Marek Biberstein, outrora presidente do Judenrat e agora, após dois anos de prisão na Montelupich, fazendo parte da população de Plaszóvia, sofrerá um ataque do coração e fora levado para a Krankensíube. Antes de Blancke ter tempo de aplicar-lhe a benzina, Dr. Idek Schindel, tio de Genia, a moça cuja figura distante tanto estimulara Schindler dois anos antes, tinha-se adiantado para o leito de Biberstein com alguns colegas, e um deles injetara no paciente uma dose mais caridosa de cianureto.

Naquele dia, flanqueado pelos arquivos de toda a população do campo, Blancke ia chamando os prisioneiros de cada caserna e, quando terminava com uma bateria de fichas, esta era substituída por outra.

Ao chegarem à Appellplatz, os prisioneiros recebiam ordem de despir-se, formar filas e correr nus de um lado para o outro diante dos médicos. Blancke e Leon Gross, o médico judeu colaborador, faziam anotações nas fichas, apontavam para um prisioneiro, chamavam ou tro para verificar-lhe o nome. Os prisioneiros continuavam correndo e os médicos procuravam neles sinais de doença ou fraqueza muscular.

Era um estranho e humilhante exercício. Homens com as costas deformadas (Pfefferberg, por exemplo, cujas costas Hujar desconjuntara com um golpe do cabo do chicote); mulheres com diarréia crônica, que haviam esfregado repolho-roxo nas faces para lhes dar um colorido — todos correndo e tentando, literalmente, salvar suas vidas. A jovem Sra. Kinstlinger, que correra pela Polônia nas Olimpíadas de Berlim, sabia que tudo aquilo não passara de um jogo. Esta era a verdadeira competição. De estômago revirado, com a respiração em suspenso, ela estava correndo — sob o compasso da música enganosa — para escapar da morte.

Ninguém soube dos resultados até o domingo seguinte, quando, sob as mesmas faixas e músicas, a turba de prisioneiros foi de novo reunida. Quando foram lidos os nomes, e os rejeitados do Gesundheitaktion levados, marchando, para a extremidade leste da praça, houve gritos de indignação e susto. Amon tinha esperado um tumulto e pedido o auxílio da guarnição da Wehrmachl em Cracóvia, que ficara de prontidão para o caso de os prisioneiros se amotinarem. Quase 300 crianças haviam sido encontradas, durante a inspeção do domingo anterior, e estavam agora sendo levadas à força; eram tão altos os protestos e o choro dos pais, que a maioria da guarnição, juntamente com destacamentos da Polícia de Segurança convocados de Cracóvia, tiveram de reforçar o cordão de isolamento, que separava os dois grupos. O confronto durou horas, enquanto os guardas forçavam para trás o ímpeto dos pais desesperados e afirmavam as mentiras habituais aos que tinham parentes entre os rejeitados. Nada fora anunciado mas todos sabiam que não havia futuro para aqueles do outro lado, os que tinham fracassado no teste. Entremeada de valsas e canções cômicas, uma triste babel de mensagens passava aos gritos de um grupo para o outro. Henry Rosner sofrendo tormentos a idéia de seu filho, Olek — escondido em alguma parte do campo — teve a estranha experiência de ver um jovem SS que, com lágrimas nos olhos, denunciava o que estava acontecendo e jurava que ia se apresentar como voluntário na Frente Leste. Mas os oficiais gritaram que, a não ser que os prisioneiros se portassem com um pouco mais de disciplina, eles ordenariam aos seus homens que abrissem fogo. Talvez Amon tivesse esperança de que uma justificável rajada de balas iria diminuir ainda mais o número de prisioneiros.No final da seleção, 1.400 adultos e 268 crianças se viram, cercados por armas, na extremidade leste da Appellplatz, prontos para serem imediatamente embarcados para Auschwitz. Pemper assistia à cena e memorizava os números, que Amon considerava decepcionantes.

Embora não fosse a quantidade que Amon esperara, iria criar um espaço imediato para a permanência temporária dos húngaros.

No sistema de fichas do Dr. Blancke, as crianças de Plaszóvia não haviam sido registradas com a mesma precisão que os adultos. Muitas delas passaram aqueles dois domingos escondidas; tanto elas como seus pais, instintivamente sabendo que suas idades e a ausência de seus nomes e outros detalhes da documentação do campo faria delas evidentes alvos do processo de seleção.

No segundo domingo, Olek Rosner escondeu-se no teto de uma cabana. Com ele mais duas crianças passaram o dia inteiro escondidas acima dos caibros, o dia inteiro mantiveram a disciplina do silêncio, o dia inteiro contiveram suas bexigas, entre os piolhos, ratos e os pequenos embrulhos de pertences dos prisioneiros. Porque as crianças sabiam tão bem como qualquer adulto que a SS e os ucranianos temiam os espaços acima do teto. Acreditavam que ali se abrigava o micróbio do tifo e tinham sido informados pelo Dr. Blancke que bastava um fragmento de excremento de piolho em alguma arranhadura da pele para provocar um tifo epidêmico. Algumas das crianças de Plaszóvia estavam, havia meses, abrigadas numa cabana próxima da prisão dos homens, na qual fora pregada a tabuleta ACHTUNG TYPHUS.

Naquele domingo, para Olek Rosner, a Aktion de saúde de Amon era muito mais perigosa do que os piolhos transmissores de tifo. Outras crianças, algumas das 268 arrebanhadas naquele dia, ao se iniciar a Aktion, de fato tinham procurado em vão esconder-se. Cada criança de Plaszóvia, com aquela mesma capacidade de encontrar soluções, escolhera um esconderijo de sua preferência. Algumas preferiram depressões sob as cabanas, algumas a lavanderia, outras um galpão atrás da garagem. Mas muitos desses esconderijos tinham sido descobertos nesse domingo ou no anterior, e não mais ofereciam refúgio. Outro grupo fora trazido, sem nada suspeitar, à Appellplatz. Alguns pais conheciam esse ou aquele NCO. Era como certa vez Himmler se queixara, pois mesmo os Oberscharführers SS, que não hesitavam em executar pessoas, tinham os seus favoritos, como se a praça fosse um recreio de escola. Se houvesse um problema com as crianças, pensavam certos pais, sempre poderiam apelar para um SS que conhecessem melhor.

No domingo anterior, um órfão de treze anos pensou que estava a salvo porque, em outras chamadas, o tinham tomado por um rapaz. Mas nu, não pôde esconder a infantilidade de seu corpo. Mandaram que ele se vestisse e fosse se reunir ao grupo de crianças. Agora, enquanto os pais do outro lado da praça gritavam chamando seus filhos e enquanto os alto-falantes berravam uma canção sentimental, intitulada Mammi, kaufmir ein Pferdchen (Mamãe, compre-me um pônei), o menino simplesmente passou de um grupo para o outro, impelido pelo instinto infalível que anteriormente demonstrara a garotínha de roupa vermelha na Praça Zgody. E como acontecera com o Chapeuzinho

Vermelho, ninguém percebera a sua manobra. Ele se manteve, um falso adulto, entre os outros, enquanto a música odiosa ressoava e seu coração batia com tanta força que parecia querer escapar de sua gaiola de costelas. Depois, fingindo sentir as câimbras da diarréia, pediu a um guarda que o deixasse ir à latrina.As longas instalações das latrinas ficavam atrás do campo dos homens, e ali chegando o menino passou por cima da tábua em que os homens se sentavam para defecar. Com um braço de cada lado da fossa, ele foi descendo e procurando encontrar apoio para os joelhos e os pés. O mau cheiro deixava-o engasgado e moscas invadiam-lhe a boca, ouvidos e narinas. Ao chegar a um espaço mais amplo e tocar no fundo da fossa, pareceu-lhe ouvir o que supôs ser um murmúrio alucinatório de vozes acima do fervilhar das moscas. "Eles estavam atrás de você?", perguntou uma voz. E outra respondeu: "Que diabo, este lugar é nosso!"

Havia dez crianças ali, ao seu redor. No seu relatório, Amon fez uso da palavra Sonderbehadlung — Tratamento Especial. Era um termo que se tornaria famoso em anos vindouros, mas essa era a primeira vez que Pemper o ouvia. Evidentemente, tinha um quê de sedativo, até mesmo de medicinal, mas Mietek agora não podia mais ignorar que aquele "tratamento" nada tinha a ver com medicina. Um telegrama de Amon, ditado nessa manhã para ser transmitido a Auschwitz, era bem mais explícito quanto a seu significado. Amon insistia em que, para tornar mais difícil uma fuga, os selecionados para Tratamento Especial deviam abandonar, junto ao desvio da estrada, quaisquer sobras de trajes civis que ainda possuíssem e vestir as roupas listradas de prisioneiros, que lhes seriam fornecidas. Como haviagrande escassez de roupas listradas, as usadas por candidatos de Plaszóvia ao Tratamento Especial deviam ser imediatamente devolvidas a esse Campo de Concentração, para serem reusadas, mal os portadores das mesmas chegassem a Auschwitz.

E todas as crianças que tinham ficado para trás em Plaszóvia, das quais o maior número era das que tinham partilhado a fossa da latrina com o órfão graúdo, mantiveram-se escondidas ou se fizeram passar por adultos. Mas novas buscas as descobriram e levaram ao Ostbahn para a lenta viagem de um dia, percorrendo os 60 quilômetros até Auschwitz. Os vagões de gado foram usados dessa maneira, em todo o verão, levando tropas e suprimentos para as linhas de frente paralisadas perto de Lwów e, na viagem de volta, desperdiçando tempo em desvios, enquanto médicos da SS observavam as incessantes filas de gente nua correndo diante dos seus olhos.

 

Sentado no gabinete de Amon, com as janelas escancaradas para um irrespirável dia de verão, Oskar desde o início teve a impressão de que aquela reunião era uma tapeação. Talvez Madritsch e Bosch achassem o mesmo, pois os seus olhares se desviavam de Amon para as carretas de pedra lá fora, para caminhões ou carroças que por lá passavam. Somente o Uniersturmführer Leo John, que tomava anotações,achava seu dever permanecer muito ereto na cadeira e com todos os botões do paletó abotoados. Amon anunciara-a como uma conferência de segurança. Declarou que, apesar de a Frente ter-se estabilizado, o avanço do corpo central do Exército russo para os subúrbios de Varsóvia tinha encorajado a atividade dos guerrilheiros por todos os setores do Governo-Geral. Judeus, que estavam a par disso, sentiam-se encorajados a tentar fugas.

Não sabiam, observou Amon, que estavam em melhor situação por detrás das cercas de arame farpado do que expostos a guerrilheiros poloneses, matadores de judeus. Todos deviam estar atentos a um ataque dos guerrilheiros e, pior do que tudo, a uma possível conivência entre guerrilheiros e prisioneiros. Oskar procurou imaginar os guerrilheiros invadindo Plaszóvia, libertandotodos os poloneses e judeus, repentinamente fazendo deles um exército. Era um sonho, sem dúvida, e quem poderia acreditar em tal sonho? Mas ali estava Amon, esforçando-se por convencê-los de que ele acreditava nessa possibilidade. Aquela pequena comédia certamente tinha uma finalidade. Oskar estava disso convencido.

Se os guerrilheiros entrarem aqui no seu campo, espero que não seja numa noite em que eu tenha sido convidado — disse Bosch.

Amen, amen — murmurou Schindler.

Depois da reunião, qualquer que fosse o seu significado, Oskar levou Amon até o seu carro estacionado defronte do Prédio da Administração.

Abriu a mala. Dentro havia uma sela ricamente pirogravada, com desenhos característicos da região de Zakopane nas montanhas ao sul da Cracóvia. Oskar julgava necessário continuar agradando Amon com presentes, mesmo agora que o pagamento pelo trabalho forçado da Emalia nada mais tinha a ver com o Hauptsturmführer Goeth. O extrato das contas ia diretamente para a área de Cracóvia, que representava o quartel-general do General Pohl, em Oranienburg.   Oskar ofereceu levar de carro Amon e sua sela até a casa do comandante. Num dia de calor escaldante, alguns dos empurradores de carretas estavam mostrando um pouco menos do esforço exigido. Mas a sela tinha abrandado o zelo de Amon e, de qualquer forma, não lhe era mais permitido atirar a esmo nos prisioneiros. O carro passou pelo quartel da guarnição e chegou ao desvio, onde se achavam estacionados muitos vagões de gado. Oskar pôde ver, pela bruma pairando acima dos vagões e misturando-se ao vapor tremulante emanando dos tetos, que os vagões estavam repletos. Apesar do ruído da locomotiva, podiam-se ouvir gemidos vindos lá de dentro, gente implorando por água.

Oskar freou o carro e ficou ouvindo. Era-lhe permitido isso, considerando-se a esplêndida e dispendiosa sela na mala do carro. Amon riu com indulgência de seu amigo sentimental.

—   Em parte é gente de Plaszóvia — disse ele — e também há prisioneiros do campo de trabalho em Szebnie. E poloneses e judeus de Montelupich. Estão indo para Mauthausen. — Depois sorriu maliciosamente. — Eles se queixam agora? Não sabem o que são motivos de queixa de verdade... Os tetos dos vagões estavam bronzeados de calor.

—   Não faz objeção — perguntou Oskar — se eu chamar a sua brigada de bombeiros? Amon deu uma risada, que significava: O-que-vai-você-inventar-mais? Bem entendido, não deixaria ninguém mais chamar os bombeiros, mas tolerava isso de Oskar porque o seu amigo era um sujeito muito original e o incidente daria uma boa anedota para ser contada a uma mesa de jantar.     Mas quando Oskar deu ordem aos ucranianos que tocassem o sino chamando os bombeiros judeus, Amon se espantou. Não ignorava que Oskar sabia o que significava Mauthausen. Se esguichassem água nos vagões, era como fazer-lhes uma promessa de um futuro. E tais promessas não constituíam, segundo o código de qualquer mortal, uma verdadeira crueldade? Ao espanto de Amon, misturou-se uma tolerância sorridente, quando os jatos de água das mangueiras caíram sibilando sobre os tetos escaldantes. Neuschel também veio do seu escritório para abanar a cabeça e sorrir, enquanto os prisioneiros lá dentro gemiam e gritavam palavras de gratidão. Grün, o guarda-costas de Amon, que estivera conversando com o Untersturmführer John, começou a bater nas coxas e soltar exclamações vendo chover toda aquela água. Mesmo esticadas ao máximo, as mangueiras só alcançavam metade da composição de vagões. Oskar, então, pediu a Amon que lhe emprestasse um caminhão e uns poucos ucranianos para irem até Zablocie buscar as mangueiras de incêndio da DEF. Eram mangueiras de 200 metros, disse Oskar. Amon, por alguma razão, achou o pedido hilariante.

—   Claro que autorizo o caminhão! — disse Amon disposto a fazer qualquer coisa por aquela comédia humana. Oskar entregou aos ucranianos um bilhete para Bankier e Garde. Quando os ucranianos partiram, Amon estava tão disposto a entrar no espírito da coisa que permitiu que fossem abertas as portas dos vagões para que fossem entregues aos prisioneiros alguns baldes de água e retirados os mortos com os rostos inchados e rosados pelo calor. Ao redor da estrada de ferro, oficiais SS e NCOs divertiam-se com a cena. "Do que pensa ele que os está salvando?" Quando as grandes mangueiras da DEF chegaram e todos os vagões foram devidamente encharcados, a brincadeira adquiriu novas dimensões.

No seu bilhete para Bankier, Oskar também dera instruções ao gerente para ir ao seu próprio apartamento e encher um cesto grande com bebidas e cigarros, alguns bons queijos e salsichas e outras tantas coisas. Entregou pessoalmente o cesto ao NCO no final do trem. Tudo às claras mas o homem pareceu um tanto embaraçado com a largueza da dádiva e escondeu o cesto rapidamente no último vagão, com receio de que um dos oficiais o denunciasse. Contudo, Oskar parecia estar tão curiosamente nas boas graças do comandante que o NCO o ouviu respeitosamente.

—   Quando o trem parar perto das estações, abra as portas dos vagões — ordenou Oskar.

Anos mais tarde, dois sobreviventes daquele transporte, Dr. Ru-binstein e Dr. Feldstein, contariam a Oskar que o NCO ordenara freqüentemente que fossem abertas as portas e se enchessem os baldes de água regularmente, durante a tediosa jornada para Mauthausen. Mas para a maioria dos passageiros dos vagões, naturalmente, aquilo não passara de um conforto antes da morte. Quem visse Oskar movimentando-se ao longo da composição de vagões, acompanhado pelas risadas dos SS, fazendo uma caridade que era em grande parte inútil, poderia perceber que ele estava agora menos afoito do que alucinado. Até o próprio Amon notara que seu amigo entrara em nova fase. Todo aquele desespero para inundar até o último carro, depois subornando um SS em plena vista dos colegas — bastaria uma pequena mudança no tom do riso de Scheidt ou John ou Hujar para provocar uma tremenda denúncia contra Oskar, uma informação que a Gestapo não poderia ignorar. E então Oskar Schin-dler iria parar na Montelupich e, em vista de anteriores acusações raciais contra ele, provavelmente acabaria sendo mandado para Auschwitz. Assim Amon ficou horrorizado com a insistência de Oskar em tratar aqueles condenados, como se fossem parentes pobres viajando de terceira classe mas sendo enviados para um destino normal. Pouco depois das duas horas, uma locomotiva puxou toda a mísera fila de vagões para a linha principal da estrada de ferro, e as mangueiras de novo foram enroladas. Schindler levou Amon e sua sela para casa. Amon podia ver que Oskar estava ainda preocupado e, pela primeira vez, desde que existia a relação entre os dois, deu ao amigo alguns conselhos sobre como viver.

—   Você tem de relaxar — disse Amon. — Não pode sair correndo atrás de cada carregamento de presos que sai do campo. Adam Garde, engenheiro e prisioneiro da Emalia, notou também sintomas dessa mudança em Oskar. Na noite de 20 de julho, um SS apareceu na caserna de Garde e despertou-o. O Herr Direktor telefonara ao corpo da guarda e dissera que precisava ver profissionalmente o engenheiro Garde em seu gabinete. Garde encontrou Oskar ouvindo o rádio, com o rosto afogueado, uma garrafa e dois copos na sua frente sobre a mesa. Por detrás da escrivaninha havia agora um mapa em relevo da Europa. O mapa nunca estivera ali nos dias da expansão germânica mas Oskar parecia ter um vivo interesse no recuo das frentes alemãs. Nessa noite, o seu rádio estava ligado com a estação Deutschlandsender, e não — como usualmente acontecia — com a BBC da Inglaterra. Estava sendo transmitida uma música inspirada, o que, freqüentemente, significava o prelúdio de notícias importantes.

Oskar parecia estar ouvindo com avidez. Quando Garde entrou, ele se pôs de pé e convidou o jovem engenheiro a sentar-se. Serviu o conhaque e estendeu um copo a Garde.

—   Houve uma tentativa para matar Hitler — disse Oskar. A notícia fora transmitida no começo da noite, e a informação era que Hitler sobrevivera ao atentado. A estação tinha prometido que ele logo falaria ao povo alemão. Mas até agora isso não ocorrera. As horas se passavam, e nada de Hitler. Agora a estação estava tocando Beethoven, com insistência, como acontecera por ocasião da queda de Stalingrado.

Oskar e Garde continuaram ali sentados durante horas. Um even to sedicioso, um judeu e um alemão ouvindo juntos — a noite inteira, se necessário fosse — para apurar se o Führer tinha morrido. Adam Garde, é claro, sentia também o peito ardendo de esperança. Notou que os gestos de Oskar eram lentos, como se a possibilidade de o líder estar morto lhe tivesse afrouxado os músculos. Bebia sem cessar e insistia com Garde para fazer o mesmo. Se fosse verdade, disse Oskar, então os alemães, os alemães triviais como ele próprio, poderiam começar a redimir-se. Simplesmente porque alguém próximo de Hitler tivera a coragem de removê-lo da face da terra. Oskar soprava nuvens de fumaça.

—   Será o fim da SS — prenunciou ele. — Até amanhã de manhã, Himmler já deverá estar na cadeia. Oh, Deus meu, o alívio de ver o sistema liquidado!

O noticiário das 10 horas da noite apenas repetiu a informação anterior. Houvera um atentado contra a vida do Führer mas fracassara, e o Führer ia falar à nação dentro de poucos minutos. Quando se passou uma hora e Hitler não falou, Oskar animou-se com uma fantasia que seria popular em relação a muitos alemães com a aproximação do fim da guerra.

—   Nosso sofrimento terminou — disse ele. — O mundo voltou à sanidade. A Alemanha poderá juntar-se aos Aliados contra os russos. As esperanças de Garde eram mais modestas. Na pior das hipóteses, esperava que se restabelecesse um gueto nos antigos moldes de Franz Josef. Os dois continuaram bebendo, enquanto a música ressoava; parecia cada vez mais provável que a Europa seria nessa noite agraciada com a morte vital à recuperação do seu equilíbrio mental. Eram de novo cidadãos do Continente; não mais o prisioneiro e o Herr Direktor. As promessas da rádio de transmitir uma mensagem do Führer se repetiam, e cada vez Oskar ria mais enfaticamente.

Chegou a meia-noite e eles passaram a não dar mais atenção as promessas da rádio. Sentiam a respiração mais leve naquela nova Cracóvia pós-Führer. Previam que na manhã do dia seguinte todo mundo estaria dançando nas praças, sem medo de castigo. A Wehrmacht prenderia Frank no Castelo de Wawel e sitiaria o complexo da SS na Rua Pomorska.Um pouco antes de uma hora da manhã, a palavra de Hitler foitransmitida de Rastenberg. Oskar se convencera a tal ponto de que jamais teria de ouvir de novo aquela voz, que, por uns poucos segundos não lhe reconheceu o timbre, apesar de tão familiarizado, e julgou que era apenas um porta-voz do Partido, contemporizando. Mas Garde também ouviu e, logo na primeira palavra, soube de quem era a voz "Meus camaradas alemães!", começou a voz. "Se eu lhes falo hoje, é em primeiro lugar para que possam ouvir a minha voz e saber que estou perfeitamente bem; em segundo lugar, para que fiquem sabendo de um crime sem paralelo na história da Alemanha."

O discurso terminou quatro minutos depois, com uma referência aos conspiradores. "Desta vez, acertaremos nossas contas com eles de acordo com os métodos que nós, nacionalsocialistas, estamos habituados a adotar."

Adam Garde nunca aderira à fantasia a que Oskar se entregara no decorrer daquela noite. Pois Hitler era mais do que um homem; era um sistema com ramificações. Mesmo que morresse, não estava na natureza de um fenômeno como Hitler desaparecer no espaço de uma só noite.

Mas Oskar passara aquelas últimas horas acreditando, com uma convicção febril, na morte do Führer, e quando se evidenciou que tudo não passara de uma ilusão, foi o jovem Garde quem assumiu o papel de consolador, ao passo que Oskar mergulhou numa tristeza quase melodramática.

— Foi vã a nossa esperança de libertação — disse ele servindo mais duas novas doses de conhaque e abrindo sua caixa de cigarros. — Leve para você esta garrafa de conhaque e uns cigarros e trate de dormir. Teremos de esperar um pouco mais pela nossa liberdade.

Na confusão do conhaque, das notícias e de sua súbita inversão a altas horas da noite, Garde não estranhou que Oskar estivesse falando em "nossa liberdade", como se a situação deles fosse equivalente, ambos prisioneiros, que tinham de esperar passivamente para serem liberados. Mas de volta ao seu beliche, Garde pensou: "É espantoso que Herr Direktor tenha falado daquela maneira, como alguém facilmente dado a fantasias e a acessos de depressão. Em geral, ele é tão pragmático." A Rua Pomorska e os campos nas cercanias de Cracóvia fervilhavam de rumores, naquele fim de verão, a respeito de iminentes novas providências a respeito dos prisioneiros. Tais boatos preocuparam Oskar em Zablocie, e em Plaszóvia Amon foi informado extra-oficialmente que os campos seriam dispersados. De fato, aquela reunião sobre segurança nada tinha a ver com salvar Plaszóvia dos guerrilheiros, mas sim com o próximo fechamento do campo. Amon chamara Madritsch, Oskar e Bosch a Plaszóvia apenas para dar a si mesmo uma coloração protetora. Tornou-se então plausível para ele ir a Cracóvia falar com Wilhelm Koppe, o novo chefe de polícia da SS no novo Governo-Geral. Amon sentou-se na outra extremidade da mesa de Koppe, com um falso ar de preocupação, estalando as juntas dos dedos como se estivesse tenso com a perspectiva de uma invasão de Plaszóvia. Contou a Koppe a mesma história que contara a Oskar e aos outros — organizações de guerrilheiros tinham surgido no campo, sionistas de dentro das cercas de arame farpado tinham conseguido estabelecer comunicação com radicais do Exército do Povo Polonês e com a Organização de Combate Judaica. Como podia compreender o Obergruppenführer, era difícil impedir esse tipo de comunicação; mensagens podiam entrar no campo escondidas dentro de um pão. Mas ao primeiro sinal de rebelião ativa, ele — Amon Goeth —, como comandante, teria necessidade de agir sumariamente. A pergunta que Amon queria fazer era, se ele primeiro atirasse e depois comunicasse oficialmente a Oranienburg, o eminente Obergruppenführer Koppe lhe daria o seu apoio? Nenhum problema, respondeu Koppe. Realmente não tinha simpatia por burocratas. Em anos passados, como chefe de polícia da Wartheland, tinha comandado a frota de caminhões de extermínio, que transportavam Untermenschen para zonas rurais e, então, pondo o motor em funcionamento, bombeavam o gás do escapamento para dentro dos caminhões trancados. Essa também era uma operação clandestina, que não necessitava ser transmitida oficialmente aos burocratas.

A resposta de Koppe foi que Amon devia usar seu próprio critério; se assim agisse, ele o apoiaria.Oskar tinha percebido na reunião que Amon não estava realmente preocupado com os guerrilheiros. Se soubesse na ocasião que Plaszóvia ia ser liquidado, ele teria compreendido o verdadeiro significado da representação de Amon. Pois Amon estava preocupado com Wilek Chilowicz, o chefe de polícia judeu do campo. Amon usara freqüentemente Chilowicz como seu agente no mercado negro. Chilowicz conhecia bem Cracóvia. Sabia onde vender farinha, arroz, manteiga, que o comandante retinha para si subtraídos aos suprimentos do campo. Conhecia os negociantes, que se interessariam por produtos da oficina de jóias de fantasia, em que trabalhavam prisioneiros tais como Wulkan. Amon estava preocupado com toda a panelinha de Chilowicz: a Sra. Marysia Chilowicz, que desfrutava de privilégios graças à sua posição como esposa de Wilek; Mietek Finkelstein, um associado; a irmã de Chilowicz, Sra. Ferber; e o marido, Sr. Ferber. Se existia uma aristocracia em Plaszóvia, era composta pela família Chilowicz. Tinham poder sobre os prisioneiros, mas sua posição era uma faca de dois gumes: sabiam tanto sobre Amon quanto sobre qualquer mísero maquinista na fábrica Madritsch. Se e quando Plaszóvia fechasse, eles fossem transferidos para outro campo, Amon estava certo de que tentariam se aproveitar do que sabiam sobre suas transações, assim que se vissem numa posição desvantajosa. Ou assim que estivessem com fome. Naturalmente, Chilowicz estava também preocupado, e Amon percebia nele a dúvida quanto a lhe ser permitido sair de Plaszóvia. Amon decidiu usar a própria preocupação de Chilowicz como uma alvanca. Chamou ao seu gabinete Sowinski, um auxiliar SS recrutado da Alta Tatras da Tchecoslováquia, para uma conferência. Sowinski seria encarregado de procurar Chilowicz e embromá-lo com um oferecimento de fuga. Amon tinha certeza de que Chilowicz se apressaria em aceitar a transação.

Sowinski saiu-se bem da sua missão. Disse a Chilowicz que tinha condições de retirar do campo todo o seu clã num grande caminhão movido a lenha. Mas se usasse gasolina em vez de lenha, era possível caberem umas seis pessoas na fornalha destinada à lenha. Chilowicz interessou-se pela proposta. Sowinski precisaria, naturalmente, de entregar um bilhete a amigos do lado de fora do campo, que providenciariam um veículo. Sowinski levaria o clã de caminhão ao ponto do encontro. Chilowicz estava disposto a pagar o serviço em diamantes. Mas acrescentou que, como prova de confiança mútua, Sowinski teria de fornecer-lhe uma arma.

Sowinski relatou as condições da transação ao comandante, que lhe deu uma pistola calibre 38 com o pino limado. A arma foi entregue a Chilowicz, que evidentemente não teria a oportunidade nem a necessidade de testá-la. Isso contudo permitiu a Amon jurar tanto a Koppe quanto a Oranienburg que encontrara uma arma em poder do prisioneiro. Foi num domingo, em meados de agosto, que Sowinski se encontrou com a família Chilowicz no galpão de material de construção e os escondeu no caminhão. Depois desceu a Rua Jerozolimska, que ia dar no portão. Ali haveria formalidades de rotina; depois o caminhão estaria livre de seguir caminho. Na fornalha vazia, nas pulsações dos cinco fugitivos, havia a febril, quase insuportável, esperança de deixar Amon para trás.

No portão, contudo, achavam-se Amon, Amthor e Hujar, mais o ucraniano Ivan Scharujew. Procederam a uma inspeção minuciosa. Com um meio sorriso, depois de vistoriar a plataforma do caminhão, eles deixaram a fornalha por último. Fingiram surpresa ao descobrir a infeliz família Chilowicz, como sardinhas em lata dentro da fornalha.

Assim que Chilowicz foi arrastado para fora, Amon "encontrou" a arma ilegal enfiada em sua bota. Os bolsos de Chilowicz estavam repletos de diamantes, subornos que lhe haviam sido dados pelos desesperados prisioneiros do campo.

Prisioneiros, em seu dia de folga, souberam que Chilowicz achava-se no portão, sob sentença. A notícia provocou o mesmo temor, a mesma confusão de emoções que desencadeara um ano antes, na noite em que Symche Spira e os seus OD haviam sido executados. E nenhum prisioneiro podia decifrar o significado daquele fato em relação às suas próprias chances.

A família Chilowicz foi executada, um a um, com tiros de pistola. Muito amarelo devido a uma doença do fígado, no auge de sua obesidade, resfolegando como um tio velho, foi Amon quem colocou o cano da arma na nuca de Chilowicz. Mais tarde, os corpos ficaram em exibição na Appellplatz, com tabuletas pregadas no peito:

AQUELES QUE VIOLAM LEIS JUSTAS PODEM ESPERAR UMA MORTE SEMELHANTE.

Naturalmente, esta não foi a moral que assimilaram os prisioneiros ante aquele espetáculo.Amon passou a tarde preparando dois longos relatórios, um para Koppe, outro para a Seção D do General Glück, explicando como tinha salvo Plaszóvia de uma conspiração incipiente — quando um grupo de conspiradores tinha tentado fugir do campo — executando todos os líderes. Não terminou a revisão de ambos os relatórios senão às 11 horas da noite. Frau Kochmann era muito lenta para um trabalho tão tardio; assim, o comandante mandou acordar Mietek Pemper para ser levado à sua casa. Na sala da frente, Amon declarou tranqüilamente ao rapaz que acreditava que ele tinha sido cúmplice na tentativa de fuga de Chilowicz. Atônito, Pemper não soube o que responder. Lançou um olhar ao redor, em busca de alguma inspiração; viu, então, que a bainha da perna de sua calça estava descosturada. Como poderia sair do campo, com a roupa naquele estado?, perguntou.

O raciocínio de franco desespero de sua resposta satisfez Amon. Ordenou que o rapaz se sentasse e deu-lhe instruções a respeito de como os relatórios deviam ser datilografados e as páginas numeradas. Amon bateu com os dedos espatulados nas folhas de papel.

— Quero um serviço de primeira classe — disse ele.

Pemper refletiu: "Assim são as coisas aqui — posso morrer agora por ser um fugitivo, ou mais tarde, por ter lido as justificativas de Amon."

Quando Pemper estava saindo da casa com os rascunhos na mão, Goeth seguiu-o até o pátio e gritou uma última ordem, em tom afável:

—Quando você datilografar a lista dos insurretos, quero que deixe espaço acima da minha assinatura, onde possa ser inserido mais um nome. Pemper concordou com um gesto de cabeça, discreto como qualquer secretário profissional. Parou meio segundo, procurando uma inspiração, alguma resposta rápida, que inverteria a ordem de Amon de um espaço extra. O espaço para o seu nome. Mietek Pemper. Naquele odioso silêncio tórrido da noite de domingo, na Rua Jerozolimska, nada de plausível lhe ocorreu.

—Sim, Herr Commandant — respondeu Pemper.

Ao encaminhar-se para o Prédio da Administração, Pemper lembrou-se de uma carta que Amon lhe dera para datilografar no início do verão. Era dirigida ao pai, um editor vienense, cheia de preocupação filial por uma alergia, que estivera incomodando o velho na primavera anterior. Amon esperava que a alergia já tivesse deixado em paz o seu velho pai. A razão de Pemper ter-se lembrado daquela carta, entre tantas outras, era que meia hora antes de ele ter sido chamado ao gabinete de Amon para taquigrafá-la, o comandante tinha arrastado para fora uma jovem que trabalhava no arquivo e a executado. A justaposição da carta e da execução provou a Pemper que, para Amon, assassinato e alergia eram eventos de igual valor. Se dizia a um datilografo que deixasse espaço em branco, onde pudesse ser inserido o próprio nome, a única coisa a fazer era deixar o espaço. Pemper passou mais de uma hora datilografando, e, no final, deixou o espaço destinado ao seu nome. Não obedecer à ordem seria ainda mais prontamente fatal. Corria um boato, entre os amigos de Stern, que Schindler tinha em mente algum plano a respeito dos prisioneiros, alguma tática para salvá-los, mas nessa noite os boatos de Zablocie não significavam mais nada. Mietek continuou datilografando; Mietek deixou em cada um dos dois relatórios o espaço para a sua sentença de morte. E todos os carbonos que ele tão laboriosamente gravara na mente

— todas aquelas provas ficariam perdidas, anuladas pelo fatal espaço, que ele estava deixando no final da lista de Amon. Quando ambos os relatórios tinham sido datilografados à perfeição, ele retornou à casa do comandante. Amon manteve-o esperando junto à janela, enquanto permanecia sentado lendo os documentos. Pemper pensou que talvez o seu próprio corpo fosse exibido depois na Appellplatz, com alguma frase declamatória:

QUE ASSIM PEREÇAM TODOS OS JUDEUS BOLCHEVIQUES!

Por fim, Amon veio até a janela.

Pode ir para a sua cama — disse ele.

Herr Commandaní?

Eu disse, pode ir para a cama.

Pemper retirou-se. Caminhava agora com passos menos firmes. Depois do que ele tinha visto, Amon não podia deixar que ele continuasse vivo. Mas talvez o comandante julgasse que não havia pressa em matá-lo. Entrementes, um dia de vida sempre era vida.

O espaço em branco acabou sendo utilizado para um prisioneiro idoso que, através de entendimentos imprudentes com homens como John e Hujar, tinha revelado que possuía diamantes escondidos em algum lugar fora do campo. Enquanto Pemper mergulhava no sono de um condenado que teve a sua pena comutada, Amon mandou chamar o velho prisioneiro à sua casa e ofereceu-lhe a vida em troca de revelar onde estavam escondidos os diamantes. Depois de conseguir a informação,evidentemente mandou executá-lo e acrescentou-lhe o nome no relatório a Koppe e Oranienburg, juntamente com a sua modesta alegação de ter extinguido a centelha de uma rebelião.

 

As ordens, rotuladas OKH (Alto-Comando do Exército) já se achavam sobre a mesa de Oskar. Devido à situação da guerra, informava o Diretor de Armamentos que KL Plaszóvia e, portanto, o campo da Emalia teriam de ser desativados. Os prisioneiros da Emalia seriam enviados para Plaszóvia, à espera de redistribuição. O próprio Oskar devia encerrar a sua operação Zablocie o mais rapidamente possível, retendo no recinto apenas os técnicos necessários ao desaparelhamento da fábrica. Para mais instruções, ele devia dirigir-se à Junta de Evacuação, OKH, Berlim.

A reação inicial de Oskar foi um acesso de fúria. Ofendia-o o tom, o senso de um funcionário distante resolvendo desobrigá-lo de quaisquer compromissos. Havia um homem em Berlim — ignorante do pão do mercado negro que ligava Oskar aos seus prisioneiros — que considerava razoável que o dono de uma fábrica abrisse seus portões e deixasse que seus trabalhadores fossem levados para qualquer outra parte. Mas a pior arrogância era o fato de que a carta não definia a "redistribuição".

O Governador-Geral Frank era mais honesto e tinha feito um discurso notório algum tempo antes: "Quando, finalmente, ganharmos a guerra, então, pelo que me toca, poloneses, ucranianos e toda essa ralé podem ser transformados em picadinho de carne ou qualquer outra coisa que se queira." Frank tivera a coragem de dar um nome preciso ao processo. Em Berlim, eles falavam em "redistribuição" e, com isso, se consideravam justificados.Amon sabia o que significava "redistribuição" e, na próxima visita de Oskar a Plaszóvia, disse-lhe francamente do que se tratava. Todos os homens de Plaszóvia seriam enviados a Grõss-Rosen. As mulheres iriam para Auschwitz. Grõss-Rosen era um vasto campo de pedreiras na Baixa Silésia. A Terra & Pedra da Alemanha, grande empreendimento da SS com filiais em toda a Polônia, Alemanha e territórios conquistados, consumia os prisioneiros de Grõss-Rosen. Os processos em Auschwitz eram, naturalmente, mais diretos e modernos. Quando a notícia da extinção da Emalia chegou às oficinas da fábrica e se espalhou pelas casernas, alguns dos presos de Schindler julgaram que era o fim de todo o santuário. Os Perlman, cuja filha abandonara a sua cobertura de ariana para interceder por eles, empacotaram os seus cobertores e conversaram filosoficamente com seus vizinhos de beliche. Emalia lhes dera um ano de tranqüilidade, um ano de sopa, um ano de sanidade. Talvez fosse o bastante. Mas agora eles se consideravam condenados à morte. Era o que as suas vozes deixavam transparecer.

O Rabino Levartov estava também resignado. Chegara a hora do seu acerto de contas com Amon. Edith Liebgold, que fora recrutada por Bankier para o turno da noite nos primeiros dias do gueto, notou que, embora Oskar passasse horas falando solenemente com os seus supervisores judeus, não mais fazia ao seu pessoal promessas mirabolantes.

Talvez se sentisse tão perplexo e humilhado quanto os outros, com aquelas ordens de Berlim. Assim, não parecia mais ser o profeta que Edith conhecera na noite em que, pela primeira vez, ela viera a Emalia, mais de três anos antes.

Ainda assim, no final do verão, quando seus prisioneiros fizeram as trouxas e marcharam de volta a Plaszóvia, corria entre eles o boato de que Oskar falara em comprá-los de volta. Dissera isso a Garde; dissera a Bankier. Quase podiam ouvi-lo falando — aquela certeza sincera, aquele

rouquenho tom paternal. Mas, ao subirem os prisioneiros a Rua Jerozolimska, passando pelo Prédio da Administração, fitando com espanto de recém-chegados as turmas puxando carretas da pedreira, a memória das promessas de Oskar era quase como uma sobrecarga de amargura.

A família Horowitz estava de volta a Plaszóvia. O pai, Dolek, no ano anterior conseguira a transferência de todos eles para a Emalia, mas agora ali estavam de novo, Richard, de seis anos de idade, a mãe, Regina. Niusia, com onze anos, de novo costurava pêlos em vassouras e via, das altas janelas, os caminhões subindo para o morro do forte austríaco, e a fumaça negra das cremações erguer-se no céu. Plaszóvia continuava como era quando ela saíra de lá no ano anterior. Era-lhe impossível acreditar que aquilo tudo teria um fim.Mas o pai de Niusia acreditava que Oskar faria uma lista de pessoas e conseguiria tirá-las dali. A lista de Oskar, na mente de alguns deles, passara a ser mais do que uma mera tabulação. Era uma Lista. Uma esperança que talvez se concretizasse. Uma noite, na casa de Amon, Oskar falou na idéia de levar judeus consigo para fora de Cracóvia. Era uma noite tranqüila, no final do verão. Amon parecia satisfeito de vê-lo. Em vista do estado de saúde do comandante — tanto o Dr. Blancke como o Dr. Gross o haviam advertido que, se não moderasse a comida e a bebida, acabaria morrendo — ultimamente os visitantes em sua casa tinham escasseado. Instalados na sala, eles bebiam, com a recente moderação de Amon. De repente, Oskar tocou no assunto. Queria levar seus trabalhadores especializados para a sua fábrica na Tchecoslováquia. E também talvez precisasse de mais alguns prisioneiros de Plaszóvia.

Procuraria a ajuda da Junta de Evacuação para encontrar um local adequado,em alguma parte na Morávia, e recorreria à Ostbahn para fazer o transporte de Cracóvia para sudeste. Deu a entender a Amon que ficaria grato com o apoio que dele recebesse. A palavra gratidão sempre

excitava Amon. Sim, acedeu ele, se Oskar conseguisse a cooperação de que precisava de todas as juntas em questão, Amon permitiria que fosse feita uma lista de prisioneiros.Quando o acordo ficou acertado, Amon quis jogar cartas. Gostava de blackjack, uma versão do vingt-et-un francês. Era um jogo difícil para os oficiais subalternos fingirem perder, sem tomar a coisa muito óbvia.

Não permitia bajulação excessiva. Era, portanto, um jogo para valer, e isso agradava a Amon. Além do mais, nessa noite Oskar não estava interessado em perder. Pagaria muito bem a Amon por aquela lista.

O comandante começou apostando modestamente, em cédulas de 100 zlotys, como se os seus médicos lhe houvessem aconselhado moderação também no jogo. Mas passou a aumentar as apostas, e quando chegaram a 500 zlotys, Oskar recebeu a combinação mais alta de cartas, um ás e um valete, o que significava que Amon teria de pagar-lhe o dobro da aposta.Amon mostrou-se desconsolado por ter perdido mas não se irritou.

Mandou que Helen Hirsch lhes trouxesse café. A moça entrou, uma paródia da criada de um cavalheiro, muito engomada, vestida de preto, mas com o olho direito fechado pela inchação. Helen era tão pequena que Amon tinha de se abaixar para espancá-la. Agora ela já conhecia Oskar, mas não levantou os olhos para ele. Havia quase um ano que ele lhe prometera tirá-la dali. Sempre que aparecia na casa de Amon, dava um jeito de esgueirar-se pelo corredor até a cozinha para perguntar como ia ela. Já era alguma coisa, mas não alterava a suasituação na vida. Poucas semanas antes, por exemplo, pelo fato de a sopa não estar na temperatura correta — Amon era exigente com respeito a sopa, sujeiras de mosca no corredor, pulgas nos cães — o comandante tinha chamado Ivan e Petr e lhes ordenado que levassem Helen ao vidoeiro no jardim e sumariamente a fuzilassem. Observara-a da janela, enquanto ela caminhava na frente da Mauser de Petr, implorando baixinho ao jovem ucraniano: "Petr, quem você vai matar? Ê Helen, Helen que lhe dá bolos! Como vai poder atirar em Helen?" Petr, respondendo da mesma maneira, de dentes cerrados:

"Eu sei, Helen. Não queria, mas sou obrigado. Se me negar, sou eu quem ele vai matar." Ela curvara a cabeça, apoiando-a na casca manchada da árvore. Tantas vezes já havia perguntado a Amon por que ele não a matava, ela queria morrer com simplicidade, aborrecê-lo com a sua aceitação. Mas não era possível. Estava tremendo tanto que Amon o notou. Seus joelhos dobravam. Ouviu então Amon gritar da janela:

—   Tragam de volta a cadela. Não faltará ocasião de liquidar com ela. Mas, por enquanto, talvez ainda seja possível educá-la.

Em meio de seus acessos de selvageria insana, havia breves fases em que ele tentava personificar o patrão benigno. Um dia, dissera a Helen que ela era realmente uma criada muito bem-treinada. "Se depois da guerra você precisar de uma referência, eu lhe darei todas as que quiser." Helen sabia que era só da boca para fora, um devaneio. E voltara para Amon o seu ouvido surdo, o que tivera o tímpano perfurado por uma pancada. Sabia que cedo ou tarde iria morrer, vitimada pela fúria de Amon. Naquela vida, o sorriso de um visitante era apenas um conforto momentâneo. Nessa noite, colocou uma enorme cafeteira de prata ao lado do Herr Commandant — ele continuava bebendo incríveisquantidades de café, com quilos de açúcar — fez uma mesura e retirou-se. Uma hora depois, quando Amon já tinha perdido 3.700 zlotys e queixava-se amargamente do seu azar, Oskar sugeriu uma variação nas apostas. Ia precisar de uma criada em Morávia, disse, quando se mudasse para a Tchecoslováquia. Lá, ser-lhe-ia difícil conseguir uma tão inteligente e bem-treinada como Helen Hirsch. Todas elas eram camponesas.

Assim, propôs que jogassem uma rodada, apostando o dobro ou nada.

Se Amon ganhasse, Oskar lhe pagaria 7.400 zlotys. Porém se perdesse, a sua dívida subiria a 14.800 zlotys.

—Mas se eu ganhar — disse Oskar — você terá de ceder Helen Hirsch para a minha lista.Amon queria pensar melhor na proposta. Mas Oskar ponderou que, de qualquer jeito, ele teria de abrir mão da criada, pois ela ia ser mandada para Auschwitz. Amon estava tão habituado com Helen que lhe era difícil perdê-la. Quando pensava em um fim para ela, provavelmente sempre fora liquidá-la ele mesmo, num ímpeto passional. Se a perdesse nas cartas, estaria obrigado, com o espírito esportivo de um autêntico vienense, a desistir do prazer pessoal daquele assassinato. Em outra ocasião, Schindler tinha pedido que Helen fosse destacada para trabalhar na Emalia. Mas Amon recusara. Havia apenas um ano que parecera a todos que Plaszóvia iria durar algumas décadas, e que o comandante e sua criada envelheceriam juntos, ou pelo menos até que algum erro cometido por Helen encerrasse abruptamente o vínculo

entre eles. Um ano antes, ninguém teria acreditado que aquele relacionamento terminaria porque os russos tinham chegado às portas de Lwów. Quanto a Oskar, a sua proposta fora feita em tom displicente. Não parecia haver, em sua oferta a Amon, nenhum paralelo com Deus e Satã, apostando nas cartas almas humanas. Não perguntou a si mesmo que direito tinha de incluir a jovem numa aposta. Se perdesse, a sua chance de tirá-la dali de algum outro modo seria bem precária. Mas naquele ano todas as chances eram precárias. Até mesmo as de Oskar.

Oskar levantou-se e procurou na sala uma folha de papel com cabeçalho oficial, na qual escreveu para Amon assinar, caso este perdesse a aposta: "Autorizo que o nome da prisioneira Helen Hirsch seja incluído em qualquer lista de mão-de-obra especializada, a ser utilizada por Herr Oskar Schindler em sua fábrica DEF." Amon deu as cartas e Oskar recebeu um 8 e um 5; Oskar pediu mais cartas e recebeu um 5 e um ás. Devia ser o suficiente. Depois, Amon deu as cartas para si mesmo. Primeiro foi um 5, depois um rei.

—   Meu Deus do céu! — exclamou Amon, que praguejava com muita distinção, considerando-se demasiado requintado para usar palavreado obsceno. — Perdi. — E soltou uma risadinha; mas não estava achando nada divertido. — Minhas primeiras cartas foram um 3 e um 5. Com um 4 eu estaria garantido. E então recebi este maldito rei. Terminada a partida, ele assinou a autorização. Oskar juntou todas as fichas que tinha ganho nessa noite e devolveu-as a Amon.

—Cuide bem da moça por mim — recomendou ele — até chegar a hora de eu mandar buscá-la.

Na sua cozinha, Helen não podia saber que acabava de ser salva por um baralho.

 

E determinado ponto de qualquer discussão sobre Schindler, os sobreviventes amigos de Herr Direktor apertam os olhos, abanam a cabeça e se empenham na tarefa quase matemática de descobrir a soma de suas motivações. Pois um dos sentimentos mais comuns aos judeus de Schindler é ainda: "Não sei por que ele fez tudo aquilo." Para começar, pode-se dizer que Oskar era um jogador, um sentimental que amava a luminosidade, a simplicidade de fazer o bem; que Oskar era por temperamento um anarquista, que se comprazia em ridicularizar o sistema; e que sob a sua jovial sensualidade havia a capacidade de se indignar com a selvageria humana, de reagir a essa selvageria e de não se deixar dominar. Mas nem todos esses motivos somados explica a tenacidade com que, no outono de 1944, ele preparou um abrigo final para a sua gente da Emalia.

E não só para aquela gente. Em princípios de setembro ele foi em seu carro a Podgórze e visitou Madritsch, que àquela altura empregava mais de 3 mil prisioneiros em sua fábrica de uniformes. Essa fábrica seria agora desmontada. Madritsch receberia de volta suas máquinas de costura e seus operários desapareceriam.

— Se trabalhássemos em conjunto — propôs Oskar — poderíamos salvar mais de quatro mil prisioneiros. Os meus e os seus. Poderíamos dar-lhes proteção em Morávia. Madritsch seria sempre, e com razão, reverenciado pelos seus prisioneiros sobreviventes. O pão e as galinhas contrabandeados para dentro de sua fábrica eram pagos do seu próprio bolso e com sérios riscos. Poderia ser considerado um homem mais equilibrado do que Oskar. Não tão entusiástico, não tão sujeito a obsessões. Nunca tinhasido preso. Mas fora muito mais humano do que seria prudente e,se fosse menos sagaz e enérgico, teria acabado em Auschwitz.

Agora Oskar apresentava-lhe uma visão de um campo Madritsch-Schindler em alguma parte na Alta Jeseniks; algum enevoado, seguro e pequeno povoado industrial. Madritsch sentiu-se atraído pela idéia mas não se apressou em dizer sim. Via que, embora a guerra estivesse perdida, o sistema SS tinha se tornado não menos, porém, mais implacável. Tinha razão de presumir que, infelizmente, os prisioneiros de Plaszóvia — nos próximos meses — seriam destruídos nos campos de morte a oeste. Porque, se Oskar era pertinaz e alucinado, também o eram o Escritório Central da SS e seus operadores, os comandantes dos Campos de Concentração.

Madritsch, porém, não deu um "não" definitivo. Precisava de tempo para pensar melhor. Embora não pudesse dizer isso a Oskar, é provável que ele temesse se empenhar num projeto de sociedade com um sujeito temerário e demoníaco como Schindler.

Sem ter recebido uma resposta clara de Madritsch, Oskar resolveu agir.

Foi para Berlim e lá convidou o Coronel Erich Lange para jantar. Em conversa, afirmou-lhe que poderia dedicar-se inteiramente à manufatura de granadas, se conseguisse transferir sua maquinaria pesada. Lange era crucial. Podia garantir contratos; podia fornecer as recomendações de que Oskar necessitava para convencer a Junta de Evacuação e os funcionários alemães em Morávia.

Mais tarde, Oskar diria desse sombrio oficial do estado-maior que ele o ajudara concretamente. Lange estava ainda naquele estado de exaltado desespero e repulsa moral característico de muitos homens que tinham trabalhado dentro do sistema, mas nem sempre pelo sistema.

— Podemos conseguir isso — disse Lange — mas vai ser preciso algum dinheiro. Não para mim. Para outros.Apresentado por Lange, Oskar conversou com um oficial da Junta de Evacuação no OKH, na Rua Bendler. Era provável, disse esse oficial, que, em princípio, a evacuação fosse aprovada. Mas havia um obstáculo maior. O Governador cum Gauleiter da Morávia, que administravaa região do seu castelo em Liberec, seguia a política de manter os campos de trabalho de judeus/ora de sua província. Nem a SS nem a Inspetoria de Armamentos conseguira até então fazê-lo mudar de atitude.

Um homem com quem discutir esse impasse, disse o oficial, era um engenheiro veterano da Wehrmacht na Inspetoria de Armamentos, chamado Sussmuth. Oskar poderia discutir com Sussmuth quais os locais disponíveis, na Morávia, para a execução do seu plano. Em todo o caso, Herr Schindler podia contar com o apoio da Junta de Evacuação.

— Mas o senhor deve compreender que em vista das pressões, sob as quais vive o pessoal da Junta, e da redução que a guerra trouxe aos seus confortos pessoais, eles provavelmente dariam uma resposta mais rápida, se o senhor pudesse compensá-los de alguma forma. Nós, pobres funcionários da cidade, estamos com falta de presunto, charutos, bebidas, roupas, café... todo tipo de coisas.

O oficial parecia pensar que Oskar carregava consigo a metade dos produtos do tempo de paz da Polônia. Em vez de remeter aos cavalheiros da Junta um pacote de presentes, Oskar teve de comprar artigos de luxo aos preços do mercado negro de Berlim. Um velho senhor no balcão do Hotel Adlon pôde adquirir excelentes schnapps para Herr Schindler por um bom preço, cerca de 80 RM a garrafa. E não se podia mandar aos membros da Junta menos de uma dúzia de garrafas. Mas o café era como ouro, e havanas estavam por um preço absurdo. Os cavalheiros poderiam precisar de muita pressão para conseguirem vencer a resistência do Governador da Morávia.

Em meio às negociações de Oskar, Amon Goeth foi preso.Alguém devia tê-lo denunciado. Algum oficial subalterno invejoso, ou um cidadão apreensivo, que estivera na casa do comandante e ficara chocado com o estilo sibarita de Amon. Um investigador da SS chamado Eckert iniciou uma devassa nas transações financeiras de Amon. Não cabiam às investigações de Eckert os disparos de Amon contra prisioneiros. Mas os desfalques e as negociatas no mercado negro lhe eram pertinentes, assim como as queixas de alguns dos seus oficiais subalternos sobre a maneira excessivamente severa como ele os tratava.

Amon estava de licença em Viena, hospedado com o seu pai, o editor, quando a SS veio prendê-lo. Deram também uma busca em um apartamento que o Hauptsturmführer Goeth mantinha na cidade e descobriram 80 mil RM escondidos, cuja proveniência Amon não pôde explicar satisfatoriamente. Além disso, encontraram, empilhados até o teto, cerca de um milhão de cigarros. Ao que parecia, o apartamento de Amon em Viena era mais um depósito de mercadorias do que um pied-à-lerre.À primeira vista poderia parecer surpreendente que a SS — ou antes, os oficiais do Escritório Central de Segurança do Reich — se dis-pusessem à tarefa de prender um funcionário tão eficiente como o Hauptsturmführer Goeth. Mas já haviam investigado irregularidades em Buchenwald e tentado encurralar Koch, o seu comandante. Tinham até procurado juntar provas para prender o notório Rudolf Hõss e interrogado uma judia vienense, que se suspeitava estivesse grávida daquele astro do sistema de campos de concentração. Por isso Amon,furioso em seu apartamento, enquanto o revistavam, não podia ter muita esperança de impunidade.

Amon foi levado para Breslau e colocado numa prisão da SS para aguardar outras investigações e o julgamento. Os oficiais deram prova de sua ingenuidade, quanto à maneira como eram conduzidos os negócios em Plaszóvia, indo à casa de Amon para interrogar Helen Hirsch, sob suspeita de estar envolvida nas negociatas do comandante. Nos meses

seguintes, duas vezes ela foi levada às celas no subsolo do quartel-general da SS em Plaszóvia para interrogatório. Fizeram-lhe perguntas sobre os contatos de Amon no mercado negro — quem eram os seus agentes, como ele fazia funcionar a oficina de jóias em Plaszóvia, a oficina de alfaiate, de estofamento. Ninguém a espancou ou ameaçou.

Mas estavam convencidos de que ela era membro de uma gangue que a atormentava. Se Helen por acaso tivesse sonhado com uma improvável e gloriosa salvação, não teria ousado sequer pensar que Amon seria preso pela sua própria gente. Sentia-se agora à beira da loucura na sala do interrogatório, quando eles tentaram atrelá-la a Amon. Chilowicz poderia ajudá-los, disse-lhes ela. Mas Chilowicz estava morto.

Eram policiais por profissão; após algum tempo, decidiram que ela nada podia dizer-lhes, exceto umas poucas informações sobre a cozinha suntuosa na casa de Goeth. Poderiam ter-lhe perguntado a respeito de suas cicatrizes mas sabiam que não adiantava acusar Goeth de sadismo. Ao tentar investigar sadismo no campo de Sachsenhau-sen, tinham sido expulsos do recinto por guardas armados. Em Buchenwald haviam entrado em contato com uma testemunha importante, um NCO disposto a testemunhar contra o comandante, mas o informante ora encontrado morto em sua cela. O chefe do grupo de investigadores ordenara que amostras de um veneno encontrado no estômago do NCO fossem ministradas a quatro prisioneiros russos. Viu-os morrer, obtendo assim a prova contra o comandante e o médico do campo. Embora o comandante houvesse sido condenado por assassinato e sadismo, era uma justiça estranha. Antes de tudo, fez com que o pessoal do campo se unisse e liquidasse com todas as provas vivas. Assim, os homens do Escritório V não interrogaram Helen a respeito de suas cicatrizes. Continuaram perguntando-lhe sobre negociatas e acabaram por deixá-la em paz.

Investigaram também Mietek Pemper, que teve a prudência de não lhes revelar muito a respeito de Amon, certamente nada sobre seus crimes contra seres humanos. Ouvira apenas rumores das falcatruas de Amon. Representou o papel do datilografo profissional, alheio a todo material confidencial. "O Herr Commandant nunca discutiria tais assuntos comigo", insistia ele. Mas a sua representação era motivada pela mesma incerteza de Helen Hirsch. Se existia uma circunstância, que mais provavelmente garantia a ele a chance de sobrevivência, era a prisão de Amon. Pois não havia desfecho mais certo de sua vida do que este: quando os russos chegassem a Tarnow, Amon ditaria as suas últimas cartas e depois assassinaria o datilografo. Portanto, o que preocupava Mietek era que soltassem Amon cedo demais. Mas os investigadores não estavam interessados somente na questão das especulações de Amon. O juiz da SS que interrogou Pemper fora informado pelo Oberscharführer Lorenz Landsdorfer que o Hauptsturmführer Goeth permitira que o seu funcionário judeu datilografasse as diretrizes e os planos a serem seguidos pela guarnição de Plaszóvia, no caso de o campo ser atacado por guerrilheiros. Ao explicar a Pemper como devia datilografar os planos, Amon mostrara-lhe cópias de planos similares para outros campos de concentração. O juiz se alarmou tanto com essa revelação de documentos secretos a um prisioneiro judeu que ordenou a prisão de Pemper.

Pemper passou duas semanas terríveis numa cela do quartel da SS. Não foi espancado mas interrogado regularmente por vários investigadores do Escritório V e por dois juizes da SS. Julgou ler nos olhos daqueles homens a conclusão de que a coisa mais garantida era fuzilá-lo. Um dia, durante um interrogatório sobre planos de emergência para Plaszóvia, Pemper perguntou a seus interrogadores:

— Por que me manter aqui? Uma prisão é uma prisão. Dessa maneira, estou sob sentença de prisão perpétua.

Era um argumento calculado para provocar uma solução, ou o soltavam ou lhe davam um tiro. Quando terminou a sessão, Pemper passou algumas horas de ansiedade, até tornarem a abrir a porta de sua cela. Levaram-no para fora e o devolveram ao campo de Plaszóvia.

Não foi a última vez, porém, que ele seria interrogado a respeito de questões relativas ao Comandante Goeth. Em vista de Pemper ter sido preso, os auxiliares de Amon não pareceram muito dispostos a falar em seu favor. Eram cautelosos. Bosch, que tanto se servira das bebidas do comandante, declarou ao Untersturmführer John que era perigoso tentai subornar aqueles decididos investigadores do Escritório V. Quanto aos superiores de Amon, Scherner

se fora, destacado para caçar guerrilheiros, e acabaria sendo morto numa emboscada nas florestas de Niepolomice. Amon estava nas mãos de homens de Oranienburg, que nunca tinham jantado na Goeihhaus — ou, se tinham jantado, saíram de lá escandalizados ou invejosos.

Após ser libertada pela SS, Helen Hirsch, agora trabalhando para o novo comandante, Haupisturmführer Büscher, recebeu um bilhete amistoso de Amon, pedindo-lhe que fizesse um embrulho de roupas, alguns romances e histórias policiais, e algumas bebidas para reconfortá-lo em sua cela. A Helen pareceu a carta de um parente. "Queira ter a bondade de me remeter o seguinte:", dizia ele, e terminava com: "Esperando tornar a vê-la dentro em breve."Enquanto isso, Oskar fora à cidade de Troppau para ver o engenheiro Sussmuth. Levava consigo bebidas e diamantes, mas nesse caso não foram necessários. Sussmuth disse a Oskar que já havia proposto a instalação de pequenos campos de trabalho judeus nas cidades fronteiriças da Morávia, a fim de manufaturar peças para a Inspetoria de Armamentos. Naturalmente, esses campos estariam sob o controle central de Auschwitz ou Grõss-Rosen, pois as áreas de influência dos grandes campos de concentração cruzavam a fronteira polonesa-tchecoslovaca.

Mas havia mais segurança para prisioneiros em pequenos campos de trabalho do que se poderia esperar na grande necrópole do próprio Auschwitz. Evidentemente, Sussmuth não conseguira fazer aprovar o seu plano. O Castelo de Liberec tinha vetado a sua proposta. Ele nunca tivera influência alguma. O apoio que Oskar conseguira do Coronel Lange e dos membros da Junta de Evacuação é que poderia realmente representar alguma influência.

Sussmuth tinha, em seu escritório, uma lista de locais adequados para receber fábricas evacuadas da zona de guerra. Perto de Zwittau, a cidade natal de Oskar, junto a uma aldeia chamada Brinnlitz, havia uma grande fábrica de têxteis de propriedade de dois vienenses, os irmãos Hoffman. Anteriormente, eles negociavam com manteiga e queijos em sua cidade de origem mas tinham-se mudado para a Sudetenland atrás das legiões (exatamente como Oskar fora para Cracóvia) e se tornado magnatas da indústria têxtil. O anexo inteiro da fábrica estava desocupado e sendo utilizado para guardar máquinas de tecelagem obsoletas.

A zona era servida pela estação de estrada de ferro em Zwittau, onde o cunhado de Schindler administrava os vagões de carga. E um ramal da estrada passava próximo dos portões da fábrica.

— Os irmãos Hoffman são especuladores — disse Sussmuth, sorrindo.

— Têm certo apoio do Partido local — o Conselho Municipal e o chefe do distrito estão no bolso deles. Mas você pode contar com o apoio do Coronel Lange. Escreverei imediatamente para Berlim

— prometeu Sussmuth — recomendando a utilização do anexo Hoffman.

Oskar conhecia desde a infância a aldeia alemã de Brinnlitz. O caráter racial da aldeia transparecia em seu próprio nome, pois os tchecos a teriam chamado de Brnenec, da mesma forma que uma Zwittau tcheca se teria tornado Zvitava. Os cidadãos de Brinnlitz não gostariam muito da perspectiva de ter mil e tantos judeus em suas cercanias. A população de Zwittau, de onde eram recrutados alguns dos operários dos Hoffman, tampouco gostaria dessa contaminação — já quase no fim da guerra — em seu rústico complexo industrial.

Em todo caso, Oskar foi fazer uma rápida vistoria do local. Não se aproximou do escritório dos Irmãos Hoffman, pois isso daria ao irmão mais inflexível, o que era diretor da companhia, motivo de suspeita.

Mas conseguiu penetrar no anexo, sem qualquer dificuldade. Era uma antiquada caserna industrial de dois andares, construída em torno de um pátio. O andar térreo tinha o pé-direito alto e estava cheio de velhas máquinas e engradados de lã. O sobrado devia ter sido destinado

aos escritórios e equipamentos mais leves. O seu piso não agüentaria o peso das grandes prensas. O andar de baixo serviria para as novas oficinas da DEF, o escritório e, a um canto, o apartamento de Herr Direktor. No andar de cima seriam instalados os prisioneiros.

Oskar gostou muito do local. Voltou para Cracóvia ansioso por dar andamento ao projeto, fazer as despesas necessárias, conversar de novo com Madritsch, pois Sussmuth podia encontrar também um local para Madritsch se instalar — talvez mesmo dentro de Brinnlitz. Na volta, ele constatou que um bombardeiro dos Aliados, derrubado por um caça da Luftwaffe, tinha caído sobre duas cabanas do campo. A fuselagem enegrecida jazia retorcida entre as ruínas das cabanas.

Apenas uma pequena equipe de prisioneiros permanecia na Emalia para encerrar a produção e cuidar da fábrica. Tinham visto o bombardeiro cair em chamas. Dois homens jaziam lá dentro, carbonizados A equipe da Luftwaffe, que viera para levar os corpos, dissera Adam Garde que o bombardeiro era um Stirling e os homens australianos Um deles segurava os restos queimados de uma Bíblia inglesa; devia ter caído com ela na mão. Dois outros tinham descido de pára-quedas nos subúrbios. Um fora encontrado morto por efeito dos ferimentos, ainda com os arreios. Os guerrilheiros tinham encontrado primeiro o outro e o mantinham escondido em alguma parte. Os aviões australianos estavam jogando suprimentos para os guerrilheiros, na floresta virgem situada a leste de Cracóvia.

Se Oskar precisasse de alguma confirmação, ali estava a prova. Aqueles homens tinham vindo de longínquas cidadezinhas, dos confins da Austrália, para apressar a queda de Cracóvia. Imediatamente ele telefonou ao funcionário encarregado do material circulante, no escritório do Presidente Gerteis da Ostbahn, e convidou-o a jantar para discutirem a necessidade potencial da DEF de obter vagões-plataforma. Uma semana depois da conversa de Oskar com Sussmuth, os membros da Junta de Armamentos de Berlim informaram ao Governador da Morávia que a fábrica de armamentos de Oskar ia ser instalada no anexo da tecelagem de Hoffman, em Brinnlitz. Os burocratas do Governador nada mais podiam fazer. Sussmuth disse por telefone a Oskar que apressasse a escrita da transação. Mas Hoffman e outros membros do Partido na área de Zwittau já estavam conferenciando e aprovando resoluções contra a intrusão de Oskar na Morávia. O Kreisleiter o Partido em Zwittau escreveu a Berlim, queixando-se de que prisioneiros judeus da Polônia poriam em perigo a saúde dos alemães moravianos. Muito provavelmente haveria um surto de meningite cerebrospinal pela primeira vez, desde tempos imemoriais, e a pequena fábrica de armamentos de Oskar, de dúbio valor para o esforço de guerra, atrairia bombardeiros dos Aliados, com o resultante prejuízo da importante tecelagem dos Hoffman. A população de criminosos judeus no campo Schindler seria maior do que a pequena e decente população de Brinnlitz e se tornaria um câncer no honesto flanco de Zwittau.

Um protesto dessa ordem não teve chance de ser atendido, pois foi direto para o escritório de Erich Lange, em Berlim. Apelos dirigidos a Troppau eram obstaculizados pelo honesto Sussmuth. Não obstante, surgiram cartazes nos muros da cidade natal de Oskar:

MANTENHAM AFASTADOS OS CRIMINOSOS JUDEUS. E Oskar estava pagando. Estava pagando ao Comitê de Evacuação em Cracóvia para ajudar a apressar as guias de transferência da sua maquinaria. O Departamento da Economia em Cracóvia precisava ser encorajado para providenciar a liberação de depósitos bancários.

A moeda corrente não tinha muito valor naqueles dias; sendo assim ele pagava em mercadorias — quilos de chá, sapatos de couro, tapetes, café, peixe enlatado. Passava as tardes nas ruas estreitas junto à praça do mercado de Cracóvia regateando os preços exorbitantes de tudo o que os burocratas desejavam. Se assim não fizesse, ele tinha certeza de que o deixariam esperando até o último judeu ir para Auschwitz Foi Sussmuth quem avisou Oskar de que pessoas de Zwittau escreviam à Inspetoria de Armamentos, acusando-o de atuar no mercado negro.

— Se estão mandando cartas — disse Sussmuth — pode apostar que as mesmas cartas estão sendo endereçadas ao chefe de polícia da Morávia, o Obersíurmführer Otto Rasch. Portanto, aconselho-o a ir travar conhecimento com Rasch e mostrar-lhe que sujeito encantador você é.

Oskar tinha conhecido Rasch quando ele era chefe de polícia da SS de Katowice. Por sorte, Rasch era amigo do diretor da Ferrum AG em Sosnowiec, de quem Oskar tinha comprado o aço para a sua fábrica.

Mas apressando-se em ir a Brno para chegar antes dos informantes, Oskar não confiou apenas no sentimento frágil de amizades por tabela. Levou consigo um diamante lapidado no estilo brilhante que, em determinado momento, ele exibiu na entrevista. Quando o diamante rolou sobre a mesa e foi parar ao lado de Rasch, essa foi a garantia de que Oskar precisava para o seu plano.

Mais tarde, Oskar calculou que gastara 100 mil RM — quase 40 mil dólares — a fim de facilitar a transferência de sua fábrica para Brinnlitz. Poucos dos sobreviventes iriam considerar exagerado o cálculo; havia mesmo os que abanavam a cabeça e opinavam: "Não, mais! Na certa a quantia foi bem maior."Oskar tinha feito o que chamava de lista preparatória, a qual entregara no Prédio da Administração. Havia mais de mil nomes na lista — os nomes de todos os prisioneiros do campo da Emalia e mais alguns nomes novos. O de Helen Hirsch figurava entre eles e Amon não estava mais lá para discutir a respeito de sua criada.

Essa lista ter-se-ia alongado se Madritsch tivesse ido para a Morávia com Oskar, que juntamente com Titsch continuava insistindo com Madritsch. Os prisioneiros de Madritsch mais íntimos de Titsch sabiam que a lista estava sendo compilada, e que podiam aspirar a ela. Titsch disse-lhes sem rodeios que eles deviam fazer o possível para entrar na lista. Em meio de toda a papelada de Plaszóvia, os nomes nas doze páginas da lista de Oskar eram os únicos com acesso ao futuro.Mas Madritsch continuava sem decidir se queria fazer uma aliança com Oskar e acrescentar os seus 3 mil prisioneiros ao total.

Aqui também existe uma incerteza própria das lendas quanto à exata cronologia da lista de Oskar. A incerteza não se refere à existênciada lista — uma cópia dela pode ser vista ainda hoje nos arquivos do Yad Vashem. E tampouco há incerteza, como veremos, quanto aos nomes lembrados por Oskar e Titsch no último minuto e acrescentados no final do documento. Os nomes na lista são explícitos. Mas as circunstâncias encorajam divagações. O problema é que a lista é lembrada com uma veemência que lhe tira a nitidez. A lista é um bem absoluto.

A lista é vida. Em todo o seu pequeno redor abre-se um precipício. Alguns daqueles cujos nomes apareceram na lista contam que houve uma festa na casa de Goeth, uma reunião de membros da SS e empresários para comemorar o tempo de existência do campo. Alguns chegam mesmo a acreditar que Goeth compareceu à festa mas, como a SS não soltava ninguém sob fiança, isso não é possível. Outros acreditam

que a festa se realizou no próprio apartamento de Oskar acima da sua fábrica. Durante mais de dois anos, ele dera lá excelentes reuniões.

Um prisioneiro da Emalia se lembra de uma madrugada em 1944 quando estava de plantão noturno e Oskar saiu do seu apartamento por volta de uma hora da manhã, escapulindo do alarido dos seus convidados e trazendo consigo dois bolos, duzentos cigarros e uma garrafa de bebida para o seu amigo vigia. Na festa de graduação de Plaszóvia, onde quer que se tenha realizado, os convivas incluíam Dr. Blancke, Franz Bosch e, segundo informações, o Oberführer Julian Scherner, de férias de sua luta contra os guerrilheiros. Madridtsch também tinha comparecido, assim como Titsch. Segundo contou Titsch mais tarde, foi nessa festa que Madritsch informou pela primeira vez a Oskar que não iria para a Morávia com ele.

— Já fiz tudo o que podia pelos judeus — disse-lhe Madritsch, confiante.

Era uma alegação razoável, e ele não se deixou persuadir, apesar das insistências de Oskar e Titsch. Madritsch era um homem justo; por isso mais tarde lhe seriam prestadas merecidas homenagens. Mas simplesmente não acreditava que Morávia poderia funcionar. Se acreditasse, é bem provável que tivesse feito a tentativa. O que se sabe ainda a respeito daquela festa é que a urgência exigia a sua realização imediata, pois a lista Schindler teria de ser entregue naquela mesma noite. As versões contadas pelos sobreviventes coincidem todas nesse particular. Se havia algum exagero nessas versões, este provavelmente se baseava em prévias conversas com Oskar, que era dado a enfeitar as suas histórias. Mas, no começo de 1960, o próprio Titsch confirmou a verdade substancial desses fatos. Talvez o novo e temporário Comandante de Plaszóvia, o Hauptsturmführer Büscher, tivesse dito a Schindler: "Basta de confusões, Oskar! Temos de finalizar toda a documentação e transporte." Talvez houvesse alguma outra forma de prazo de entrega imposto pelo Ostbahn quanto à disponibilidade do transporte.

Assim, no final da lista de Oskar, Titsch datilografou, acima das assinaturas oficiais, nomes de prisioneiros de Madritsch. Quase setenta foram acrescentados por Titsch, pelo que ele próprio e Oskar podiam lembrar-se. Entre esses, figurava a família Feigenbaum — a filha adolescente do casal sofria de um incurável câncer dos ossos; e o jovem Lutek com a sua duvidosa capacidade de consertar máquinas de costura. Agora eles estavam todos transformados pela escrita de Titsch em peritos em munições. No apartamento havia cantorias, conversas em voz alta e risadas, uma névoa de fumaça de cigarros e, a um canto, Oskar e Titsch discutindo nomes de pessoas, esforçando-se por acertar a ortografia de patronímicos poloneses.

No final, Oskar teve de segurar o pulso de Titsch, dizendo que eles já tinham ultrapassado os limites toleráveis, e que as autoridades iam protestar contra o tamanho da lista. Titsch continuou procurando lembrar-se de nomes, e na manhã seguinte iria acordar maldizendo-se por só ter-se lembrado de um certo nome quando já era demasiado tarde.

Mas agora ele estava no seu limite de resistência, angustiado com aquela tarefa. Parecia-lhe quase uma blasfêmia, como se só de pensar em pessoas ele as estivesse recriando. Não era a tarefa que o revoltava. Era a prova de no que se transformara o mundo — o que tornava o ar pesado no apartamento de Schindler, tão irrespirável para Titsch.

Todavia, a lista era vulnerável devido ao coordenador do pessoal, Mareei Goldberg. O novo Comandante, Büscher, que estava ali simplesmente para fechar o campo, pouco se importava com os nomes que compunham a lista mas apenas com os seus limites numéricos. Portanto, Goldberg era quem tinha o poder de fazer alterações. Já era voz corrente entre os prisioneiros que Goldberg era subornável. Os Dres-ner sabiam disso. Juda Dresner — tio do Chapeuzinho Vermelho Genia, marido da Sra. Dresner, a quem em outros tempos havia sido recusado um esconderijo na parede, e pai de Janek e da jovem Danka — Juda Dresner sabia. "Pagamos a Goldberg", dizia simplesmente a família para explicar como fora incluída na lista Schindler mas nunca se saberia qual tinha sido o preço do suborno. Presumivelmente, Wulkan, o joalheiro, tinha conseguido ser incluído juntamente com a mulher e o filho pelo mesmo processo.

Poldek Pfefferberg foi informado da existência da lista por um NCO da SS chamado Hans Schreiber. Rapaz de vinte e poucos anos, Schreiber tinha tão mau nome como qualquer outro SS em Plaszóvia, mas Pfefferberg caíra nas suas boas graças de um modo que de vez em quando acontecia no relacionamento entre prisioneiros e membros da SS. Tudo tinha começado no dia em que coubera a Pfefferberg, como líder do grupo de sua caserna, a responsabilidade de limpar vidraças.

Ao inspecionar o serviço, Schreiber encontrara uma nódoa, e começara a descompor Poldek de um modo que, freqüentemente, significava o prelúdio de uma execução. Pfefferberg perdeu a paciência e disse a Schreiber que ambos sabiam que as vidraças estavam absolutamente limpas e que, se Schreiber queria um pretexto para matá-lo, devia agir o quanto antes. A explosão de Pfefferberg contraditoriamente divertira Schreiber. Depois disso, às vezes Schreiber parava Pfefferberg para perguntar-lhe como ele e sua mulher estavam passando, e de vez em quando lhe dava uma maçã para Mila. No verão de 1944, Poldek apelara desesperadamente para ele a fim de arrancar Mila de um vagão cheio de mulheres que iam ser mandadas de Plaszóvia para o terrível campo de Stutthof no Báltico. Mila já se achava nas fileiras, entrando nos vagões de gado, quando Schreiber veio correndo, sacudindo um pedaço de papel e chamando-a pelo próprio nome. Em outra ocasião, um domingo, ele apareceu embriagado na caserna de Pfefferberg e, diante de Poldek e de alguns outros prisioneiros, começou a chorar pelo que ele chamava de "coisas horríveis" que fizera em Plaszóvia. Disse que a sua intenção agora era expiar suas culpas na Frente Leste. Algum tempo depois, acabou lá se alistando.

Mas antes ele disse a Poldek que Schindler tinha uma lista e que Poldek devia fazer o impossível para ser incluído nela. Poldek foi ao Prédio da Administração para implorar a Goldberg que acrescentasse o seu nome e o de Mila à lista. Naquele último ano e meio, Schindler freqüentemente fora procurar Poldek na oficina de carros do campo e sempre lhe prometera que o salvaria. Poldek, porém, se tornara um soldador tão competente que os supervisores da oficina, que precisavam prestigiar a si mesmos, nunca abririam mão dele. Agora Goldberg tinha a mão pousada sobre a lista — ele próprio já se incluíra nela — e aquele velho amigo de Oskar, anteriormente um convidado assíduo no apartamento da Rua Straszewskiego, esperava ter o seu nome incluído na lista por uma questão sentimental.

Você tem diamantes? — perguntou Goldberg.

Está falando sério? — perguntou Poldek.

Para esta lista — disse Goldberg, homem de prodigioso poder contingente — é preciso ter diamantes. Agora que o amante vienense de boa música, o Hauptsturmführer

Goeth fora preso, os irmãos Rosner, músicos da corte, estavam livres para batalhar para entrar na lista. Dolek Horowitz, que no passado conseguira transferir sua mulher e filhos para a DEF, agora também persuadiu Goldberg a incluí-lo na lista juntamente com sua família. Horowitz sempre tinha trabalhado no depósito central de mercadorias em Plaszóvia e conseguira economizar uma pequena fortuna. Agora esse dinheiro passou para as mãos de Mareei Goldberg. Entre os incluídos na lista figuravam os irmãos Bejski, Uri e Moshe, oficialmente com as profissões de montador de máquinas e projetista.

Uri tinha alguns conhecimentos de fabricação de armas e Moshe um dom para forjar documentos. As especificações da lista são tão pouco explicitas que não é possível saber se foi por causa dessas aptidões que eles tinham sido incluídos. Josef Bau, o cerimonioso noivo, em dado momento seria incluído, mas sem o saber. Convinha a Goldberg manter todo mundo em suspenso quanto à lista. Considerando a natureza de Bau, é possível presumir que, se ele houvesse procurado pessoalmente Goldberg, só poderia ter sido com a condição de que sua mãe, sua mulher e ele próprio fossem todos incluídos. Só tarde demais Bau iria descobrir que apenas o seu nome estava na lista para Brinnlitz.

Quanto a Stern, Herr Direktor o incluíra desde o início. Stern era o único padre confessor que Oskar alguma vez tivera, e as suas sugestões exerciam grande influência sobre ele. Desde o primeiro dia de outubro, nenhum prisioneiro judeu tivera permissão de sair de Plaszóvia, quer para marchar para a fábrica de cabos condutores ou para qualquer outra finalidade. Ao mesmo tempo, os encarregados das prisões polonesas tinham começado a destacar guardas para as casernas, a fim de impedir os prisioneiros judeus de negociar pão com os poloneses. O pão ilegal atingiu tal preço que seria difícil pagá-lo em moeda corrente.

No passado, podia-se trocar um pão por um casaco, 250 gramas por uma camisa limpa. Agora — como com Goldberg — era preciso ter diamantes.

No decorrer da primeira semana de outubro, Oskar e Bankier foram por algum motivo a Plaszóvia e, como de costume, visitaram Stern no Escritório de Construção. A mesa de trabalho de Stern ficava num corredor próximo ao antigo gabinete de Amon. Lá era possível falar com mais liberdade. Stern contou a Schindler o que se estava passando com o preço inflacionado do pão de centeio. Oskar voltou-se para Bankier e murmurou:

— Providencie para que Weichert receba 50 mil zlotys.

O Dr. Michael Weichert era diretor do antigo Auxílio Mútuo Comunal Judaico, agora rebatizado Escritório Judaico de Compensação. Ele e seus auxiliares tinham permissão para operar por questões de aparência e, em parte, porque Weichert mantinha conexões com gente de alta categoria na Cruz Vermelha Alemã. Embora muitos judeus-poloneses nos campos o tratassem com compreensível desconfiança, e embora essa desconfiança motivasse o seu julgamento depois da guerra — ele foi absolvido — Weichert era exatamente o homem capaz de providenciar rapidamente 50 mil zl de pão e fazer com que a mercadoria entrasse em Plazóvia.

Stern e Oskar prosseguiram em sua conversa. Os 50 mil zl eram um mero obiter dieta em relação aos assuntos que discutiam sobre a insegurança do momento e sobre Amon e como ele devia estar passado na sua cela em Breslau. Naquela mesma semana o pão do mercado negro foi contrabandeado para o campo, escondido sob fardos de roupa, carvão e sucata. E naquele mesmo dia o preço voltou ao seu nível normal. Era um belo caso de conivência entre Oskar e Stern, a que se seguiriam outras instâncias.

 

Pelo menos um dos prisioneiros da Em ai ia, dos riscados por Gold-berg para dar lugar a outros — parentes, sionistas, especialistas e subornadores — iria culpar Oskar por sua exclusão da lista.

Em 1963, a Sociedade Martin Buber receberia uma lamentável carta de um nova-iorquino, ex-prisioneiro da Emalia. Segundo ele, na Emalia, Oskar tinha prometido libertação. Em troca, o pessoal do seu campo deixara-o rico com o seu trabalho. Contudo, alguns deles se viram excluídos da lista. Esse homem via a sua própria omissão como uma traição pessoal e — com toda a fúria de alguém que tivera de passar por tremendos sofrimentos para pagar pela mentira de outro homem — culpava Oskar por tudo o que acontecera depois: por Gróss-Rosen, pelo abominável penedo de Mauthausen de onde prisioneiros eram lançados e, finalmente, pela marcha para a morte, com a qual a guerra terminaria. O curioso é que a carta, cheia de justa cólera, mostra com exatidão gráfica que a vida na lista era uma questão exeqüível, ao passo que a vida fora dela era uma tortura. Mas parece injusto condenar Oskar pela manipulação de nomes praticada por Goldberg. As autoridades do campo, no caos daqueles últimos dias, assinariam qualquer lista que Goldberg lhes apresentasse, desde que não excedesse muito drasticamente o número de 1.100 prisioneiros. Oskar tinha obtido uma concessão; não podia ele próprio policiar Goldberg o tempo todo.

Passava os dias argumentando com burocratas, as noites bajulando-os com jantares.

Tinha, por exemplo, de receber autorizações de embarque para as suas máquinas Hilo e prensas de metal, que dependiam de velhos amigos do escritório do General Schindler, alguns dos quais atrasavam o andamento dos papéis, enquanto investigavam problemas, que poderiam vir a prejudicar o salvamento dos 1.100 prisioneiros de Oskar.

Um desses homens da Inspetoria criara um problema, alegando que as máquinas de fabricação de armamentos de Oskar tinham-lhe chegado às mãos por meio da seção de concessões da Inspetoria de Berlim, e sob aprovação da seção de licenças, especificamente para uso na Polônia. Nenhuma das duas seções fora notificada do projeto de mudança para Morávia. Ambas tinham de ser notificadas; podia se passar um mês até concederem a autorização. Oskar não dispunha de um mês. Plaszóvia estaria deserta até o final de outubro; todos os prisioneiros estariam já em Gróss-Rosen ou Auschwitz. No final, o problema foi solucionado com os habituais presentes de suborno.

Além dessas preocupações, Oskar temia os investigadores da SS que tinham prendido Amon. Receava ser preso ou — o que dava na mesma — ser acirradamente interrogado sobre seus contatos com o ex-comandante. E demonstrou prudência, antecipando o que ia acontecer, pois sabia que a explicação que Amon oferecera pelos 80 mil RM encontrados em seu apartamento, fora: "Oskar Schindler me deu esse dinheiro para que eu fosse menos severo com os judeus." Portanto, tratou de se manter em contato com amigos seus na Rua Pomorska, os quais poderiam informá-lo sobre a direção que o Escritório V estava adotando com referência às investigações sobre Amon. Finalmente, como o seu campo em Brinnlitz estaria sob a supervisão superior de KL Gróss-Rosen, ele já entrara em contato com o Comandante de Gróss-Rosen, Slurmbannführer Hassebroeck. Sob a gerência de Hassebroeck, mil prisioneiros iriam morrer pelo sistema Gróss-Rosen, mas quando Oskar conferenciou com ele pelo telefone e viajou para a Baixa Silésia a fim de visitá-lo, a impressão que deixou era de não estar em absoluto preocupado com o comandante. Agora, ele já estava habituado a lidar com assassinos de classe e notou que Hassebroeck parecia até ser-lhe grato por ampliar o império Gróss-Rosen incluindo neste a Morávia. Pois Hassebroeck pensava realmente em termos de império. Controlava 103 subcampos. (Brinnlitz seria o número 104 e, com os seus mil prisioneiros e sua indústria sofisticada, representaria um acréscimo importante.) Dos campos de Hassebroeck, 78 ficavam localizados na Polônia, 16 na Tchecoslováquia, 10 no Reich. Era um conjunto bem maior do que Amon jamais conseguira. Com tantos subornos, bajulações e, ainda, formulários a preencher ocupando-o na semana em que o campo de Plaszóvia era desmantelado, Oskar não poderia ter encontrado tempo para controlar Goldberg, mesmo que tivesse meios para fazê-lo. De qualquer forma, a descrição que os prisioneiros fazem no campo em suas últimas vinte e quatro horas é de agitação e caos, enquanto Goldberg — Senhor das Listas , no centro, esperava ofertas.

O Dr. Idek Schindel, por exemplo, procurou Goldberg para ser transferido para Brinnlitz, juntamente com seus dois irmãos mais moços.

Goldberg se recusou a dar uma resposta e Schindler só iria descobrir na noite de 15 de outubro, quando os prisioneiros de sexo masculino estavam sendo levados para os vagões de gado, que ele e seus irmãos não estavam na lista Schindler. Mesmo assim, eles se juntaram à fila dos que partiam. Houve, então, uma cena semelhante a uma gravura admoestatória do Juízo Final: os pecadores tentando esgueirar-se na fila dos justos e sendo descobertos pelo anjo da Justiça, naquele caso o Oberscharführer Müller, que se adiantou para o médico e o fustigou na face esquerda e na direita, de novo esquerda e direita com o seu chicote de couro, enquanto lhe perguntava, com uma risadinha: "Por que quer entrar nesta fila?"

Schindel seria destacado para permanecer com o pequeno grupo encarregado de destruir Plaszóvia e depois seguiria viagem com um vagão cheio de mulheres doentes para Auschwitz. Seriam postos numa cabana em algum canto de Birkenau e ali deixados para morrer. Contudo,

ignorados pelos funcionários e excluídos do regime habitual do campo, sobreviveriam. Schindel seria mandado para Flossenburg e então , juntamente com seus irmãos — ingressaria na marcha da morte.

Com a sua vida por um fio, ele conseguiria sobreviver, mas seu irmão mais moço seria assassinado na marcha, no penúltimo dia da guerra. Esta é uma imagem da maneira como a lista Schindler, sem nenhuma malícia da parte de Oskar mas com muita malícia da parte de Goldberg, ainda atormentava sobreviventes, como os atormentou naqueles dias desesperados de outubro .Todo mundo tem uma história a contar sobre a lista. Henry Rosner entrou na fila para Brinnlitz, mas um NCO notou o seu violino e, sabendo que Amon iria querer música, se fosse solto da prisão, mandou Rosner de volta. Rosner então escondeu seu violino sob o capote, firmando-o debaixo do braço. Depois tornou a entrar na fila e transpôs o portão rumo aos vagões de Schindler. Rosner fora um dos prisioneiros a quem Oskar fizera promessas, e portanto sempre estivera na lista. O mesmo se dava com os Jereth: o velho Sr. Jereth da fábrica de embalagem e a Sra. Chaja Jereth, incluída inexatamente na lista como uma Metallarbeiterin — metalúrgica. Os Perlman também estavam incluídos, como antigos trabalhadores da Emalia, assim como os Levartov.

O fato era que, apesar de Goldberg, Oskar conseguiu incluir na lista a maioria das pessoas que queria, embora deva ter havido algumas surpresas entre elas. Um homem com tanta experiência da vida como Oskar não poderia se surpreender muito de ver o próprio Goldberg entre os habitantes de Brinnlitz.

Mas havia alguns acréscimos mais bem-vindos do que Goldberg. Poldek Pfefferberg, por exemplo, que fora acidentalmente esquecido e depois rejeitado por Goldberg pelo fato de não possuir diamantes, fez saber que queria comprar vodca — a compra seria paga em roupas ou pão. Quando adquiriu a garrafa, ele conseguiu permissão para ir levá-la à Rua Jerozolimska, onde Schreiber estava de plantão. Entregou a garrafa a Schreiber e pediu-lhe que forçasse Goldberg a incluir Mila e ele na lista.

Sabe que Schindler — disse ele — teria nos inscrito se tivesse se lembrado. — Poldek não tinha dúvida de que estava negociando sua própria vida.

Sei — concordou Schreiber. — Vocês dois devem ser incluídos.E um enigma para a mente humana que um homem como Schreiber, num tal momento, não perguntasse a si mesmo: "Se este homem e sua mulher merecem ser salvos, por que não todos os outros?" Quando chegou o momento, os Pfefferberg estavam na fila para Brinnlitz. E também, para sua grande surpresa, Helen Hirsch e sua irmã mais nova, cuja sobrevivência sempre fora a obsessão de Helen.Os homens da lista Schindler embarcaram no trem num domingo, 15 de outubro. Ainda levaria toda uma semana até a partida das mulheres.

Embora os 800 homens houvessem sido mantidos isolados durante o embarque e fossem para dentro de vagões de carga reservados exclusivamente para o pessoal de Schindler, na composição havia também outros carros transportando 1.300 prisioneiros, todos com destino a Grõss-Rosen. Ao que parece, alguns temiam ter de fazer uma parada em Grõss-Rosen, a caminho do campo de Schindler, mas a maioria acreditava que a jornada seria direta. Estavam resignados a suportar a longa viagem para a Morávia — aceitavam a perspectiva de passar algum tempo dentro dos vagões, em entrocamentos e desvios. Talvez tivessem de esperar horas a fio até que passasse o tráfego com prioridade.

A primeira neve caíra na semana anterior; iria fazer frio. Cada prisioneiro recebera apenas 300 gramas de pão para todo o percurso da viagem e. ím cada vagão havia apenas um balde de água. Quanto às funções fisiológicas, teriam de usar um canto do vagão, ou, se muito aglomerados, urinar e defecar em pé onde se achavam. Mas, no final, apesar de todos os desconfortos e sofrimentos, eles chegariam ao estabelecimento de Schindler!

As 300 mulheres da lista entrariam nos vagões no domingo seguinte, no mesmo estado de espirito esperançoso.

Alguns prisioneiros notaram que Goldberg não viajava com mais bagagem do que eles. Certamente possuía contatos fora de Plaszóvia a quem devia ter confiado os seus diamantes. Os que ainda esperavam influenciá-lo em favor de um tio, um irmão, ou irmã, deram-lhe espa ço suficiente para se sentar confortavelmente. Os outros agacharam-se, com os joelhos encostados no queixo. Dolek Horowitz segurava nos braços seu filho Richard, de seis anos. Henry Rosner fez um ninho de roupas no chão para Olek, de nove anos. Foram três dias. Às vezes, em desvios da estrada de ferro, a respiração dos passageiros congelava nas paredes do vagão. O ar era sempre escasso mas, quando se respirava com mais força, era gélido e fétido. O trem finalmente parou, ao cair de uma friorenta tarde de outono. As portas foram destrancadas e esperou-se dos passageiros que desembarcassem com a rapidez de homens de negócios que tivessem compromissos marcados. Guardas SS corriam entre eles, gritando ordens e censurando-os por cheirarem mal. "Dispam tudo!", esbravejavam os NCO. "Tudo para a desinfecção!" Os prisioneiros empilharam as roupas e marcharam nus para dentro do campo. Por volta das seis da tarde, continuavam nus e perfilados na Appellplatz desse amargo destino.

Havia neve nas cercanias; a superfície do chão estava congelada. Não era um campo Schindler. Era Grõss-Rosen. Os que tinham pago a Goldberg fitaram-no com um ódio assassino, ao passo que os SS de sobretudo caminhavam ao longo das filas, chicoteando as nádegas dos que tremiam ostensivamente. Assim foram mantidos na Appellplatz a noite inteira, pois não havia cabanas disponíveis. Só a uma hora avançada da manhã do dia seguinte os prisioneiros foram postos ao abrigo. Ao se referir àquelas dezessete horas em que tinham estado expostos a um frio indizível, que penetrava até o âmago, os sobreviventes não mencionam morte alguma.

Talvez a vida sob o jugo da SS, ou mesmo na Emalia, tenha-os deixado preparados para suportar uma noite como aquela. Embora mais amena do que nas noites anteriores, ainda assim a temperatura era mortífera.

Naturalmente alguns deles estavam demasiado empolgados com a perspectiva de Brinnlitz para se deixarem abater pelo frio.

Mais tarde, Oskar veria os prisioneiros que haviam sobrevivido ao frio e ao enregelamento. Certamente, o idoso Sr. Garde, pai de Adam Garde, conseguiu sobreviver àquela noite, assim como os pequenos Olek Rosner e Richard Horowitz.

Por volta das 11 horas da manhã seguinte, eles foram conduzidos aos chuveiros. Poldek Pfefferberg, levado para lá com os outros, olhou desconfiado para o chuveiro acima de sua cabeça, sem saber se era água ou gás que iria jorrar. Era água! Mas antes de ser ligada, barbeiros ucranianos passaram entre eles, raspando-lhes a cabeça, os pêlos púbicos, as axilas. Os prisioneiros ficavam imóveis, olhando fixo em frente, enquanto os ucranianos trabalhavam com navalhas sem gume. "Está muito cega", queixou-se um dos prisioneiros. "Não!", replicou o ucraniano e desfechou um golpe na perna do prisioneiro para mostrar que a lâmina não estava tão cega assim.

Depois dos chuveiros, receberam uniformes listrados e foram para a caserna. Os SS mandaram que todos se sentassem em fileiras, como remadores de galeras, um homem de costas entre as pernas de outro atrás dele e, por sua vez, estreitando com as pernas o companheiro sentado na sua frente. Mediante esse processo, dois mil homens couberam em três cabanas. Kapos alemães, armados de porretes, se instalaram em cadeiras contra a parede e ficaram de vigia. Os homens estavam de tal forma comprimidos — cada centímetro do espaço do chão ocupado — que levantar-se dali e ir à latrina, mesmo quando os Kapos o permitiam, significava caminhar por sobre cabeças e ombros, ouvindo protestos.

No centro de uma cabana havia uma cozinha onde estavam sendo preparados sopa de nabos e pão assado. Poldek Pfefferberg, voltando da latrina, encontrou a cozinha sob a supervisão de um NCO do Exército polonês, que ele conhecera no começo da guerra. O NCO deu a Poldek um pouco de pão e permitiu que ele dormisse junto ao fogo da cozinha. Os outros, porém, passavam as noites comprimidos naquela corrente humana. Todos os dias deviam se perfilar na Appellplatz e ficar ali em silêncio durante dez horas. Ã noite, porém, depois de ser distribuída a sopa rala, eles tinham permissão para caminhar em redor da cabana e falar uns com os outros. Mas, às nove horas, soava um apito; era o sinal para retornarem às suas estranhas posições em cadeia.

No segundo dia, apareceu um oficial SS na Appellplatz procurando o escriturário que compusera a lista Schindler. Ao que parecia, a lista não tinha chegado de Plaszóvia. Tremendo em seu uniforme de pano ordinário, Goldberg foi conduzido a um escritório, onde lhe disseram que datilografasse de memória a lista. No final do dia ele ainda não tinha terminado o trabalho e, de volta às casernas, foi cercado de pedidos finais de inclusão. Ali, na amarga obscuridade, a esperança da lista continuava incitando e atormentando, embora até aquele momento o único resultado com que agraciara os nela inscritos fora traze-los a Gróss-Rosen. Cercando Goldberg, Pemper e outros, começaram a pressioná-lo para na manhã seguinte colocar no papel o nome do Dr. Alexander Biberstein. Alexander era irmão de Marek Biberstein, que fora aquele primeiro, otimista presidente da Judenrat de Cracóvia. No inicio da semana Goldberg confundira Biberstein, dizendo-lhe que ele estava na lista. Só depois de já ter sido embarcado, o médico descobriu que não estava incluído no grupo Schindler. Mesmo num lugar como Gröss-Rosen, Mietek Pemper tinha bastante confiança no futuro para ameaçar Goldberg de represálias depois da guerra, se o nome de Biberstein não fosse acrescentado.

Então, no terceiro dia, os 800 homens da lista de Schindler, agora revisada, foram apartados, levados à estação de despiolhamento para mais um banho, tiveram permissão para se sentar por algumas horas, e logo se puseram a especular e a conversar como aldeões em frente de suas cabanas. Depois, mais uma vez marcharam para o desvio da estrada de ferro. Com uma pequena ração de pão, entraram nos vagões de gado. Nenhum dos guardas encarregados de embarcá-los admitiu saber para onde eles iriam. Todos se agacharam no chão conforme as ordens. Procuravam manter gravado em suas mentes o mapa da Europa Central e continuamente calculavam a passagem do sol, especulando sua direção por lampejos de claridade através de pequenos ventiladores de tela de arame, no alto, quase no teto dos vagões. Olek Rosner foi erguido até o ventilador do seu vagão e disse que podia ver florestas e montanhas. Os entendidos afirmavam que o trem estava viajando na direção sudeste. Tudo indicava um destino tcheco mas ninguém ousava dizer o que estava pensando.

Essa jornada de cerca de 150 quilômetros levou quase dois dias; quando as portas se abriram, na madrugada do segundo dia, eles estavam na estação de Zwittau. Desembarcaram e foram levados através da cidade ainda adormecida, uma cidade que paralisara em fins da década

de 1930. Até as frases escritas nos muros — MANTENHAM OS JUDEUS FORA DE BRINNLITZ — soavam estranhamente para eles, como slogans de antes da guerra. Naqueles últimos tempos, tinham vivido num mundo em que até a própria respiração lhes era regateada. Parecia quase uma agradável ingenuidade da população de Zwittau querer

recusar-lhes um mero