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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MAGIA DE HOLYWOOD / Terry Pratchett
A MAGIA DE HOLYWOOD / Terry Pratchett

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

 

 

OBSERVE...

este é o espaço. Às vezes, é chamado de a última fronteira.

(Só que obviamente não pode haver uma última fronteira, porque ela seria uma fronteira com nada. Mas, tratando-se de fronteiras, esta e realmente a penúltima...).

Sobre a fina camada de estrelas de uma nebulosa vasta e negra, uma gigante avermelhada brilha como a loucura dos deuses...

Seu brilho parece uma faísca no olho de um gigante e desaparece como num piscar de olhos. A escuridão desvenda uma nadadeira em movimento, é a Grande A'Tuin, a tartaruga estelar, segue nadando pelo vazio.

Sobre suas costas, quatro elefantes gigantes. Sobre os ombros deles, cercado de água, cintilando sob seu pequeno Sol orbitante e girando majestosamente em torno das montanhas de seu Centro congelado, está o Disco, mundo e espelho dos mundos.

Quase irreal.

 

 

A realidade não e digital, algo que se liga e se desliga, mas analógica. Gradual. em outras palavras, a realidade e uma qualidade que as coisas possuem, da mesma forma como possuem, digamos, peso. Algumas pessoas são mais reais que outras, por exemplo. estima-se que existam apenas cerca de 500 pessoas reais em cada planeta, motivo pelo qual elas vivem se encontrando inesperadamente o tempo todo.

O Disco é tão irreal quanto possível e ao mesmo tempo real o suficiente para existir.

É real o suficiente para ter problemas de verdade.

A cerca de 50 quilômetros no sentido contrário ao de Ankh-Morpork, a espuma batia na porção de terra coberta de dunas onde o vento balança as gramíneas e o Mar Círculo encontra o Oceano Periférico.

A colina era visível a quilômetros de distância. Coberta por arbustos, não era muito alta, mas ficava entre as dunas feito um barco virado ou uma baleia muito azarada. Ali a chuva não caía, a menos que não conseguisse desviar. embora o vento esculpisse as dunas que a cercavam, o baixo cume da colina permanecia numa eterna e estrondosa calmaria.

Nada, a não ser a areia, havia se modificado por ali durante centenas de anos.

Até agora.

Uma cabana tosca, feita com pedaços de lenha, tinha sido construída na longa curva da praia, embora usar o termo “construído” seja uma ofensa a todos os construtores de cabanas toscas ao longo dos tempos. Se apenas deixassem que o mar empilhasse a madeira, o trabalho talvez saísse melhor.

Lá dentro, um velho acabara de morrer.

— Oh! — ele disse. Abriu os olhos e viu o interior da cabana. Não via nada com muita clareza havia dez anos.

Depois balançou, se não as pernas, pelo menos a memória delas para fora da pobre cama de sisal e se levantou. Saiu de encontro à manhã, que brilhava como um diamante. ele achou interessante o fato de ainda usar uma imagem espectral do seu manto cerimonial — manchado e esfiapado, mas que podia ser reconhecido como algo originalmente felpudo e vermelho escuro com alamar dourado — mesmo depois de morto. "Ou as roupas morrem com a pessoa", pensou, "ou as pessoas se vestem mentalmente, por força do hábito.”.

Também foi a força do hábito que o levou até a pilha de lenha ao lado da cabana. No entanto, quando tentou juntar alguns gravetos, suas mãos passaram através deles.

Soltou um palavrão.

Foi então que notou o vulto parado à beira da água, olhando para o mar. Apoiava-se numa foice. O vento chicoteava seu manto negro.

Saiu mancando em direção ao vulto, mas se lembrou de que estava morto e começou a andar com passos firmes. Não andava com passos firmes havia décadas. Impressionante como tudo voltava tão facilmente.

Antes que ele chegasse à metade do caminho, o vulto obscuro disse:

—    DeCCAN RIBOBe.

—    Sou eu.  

—    O ÚLTIMO GUARDIÃO DA PORTA.

—    Bom, imagino que sim. Morte hesitou.

—    OU VOCÊ e OU VOCÊ NÃO e.

Deccan esfregou o nariz. "e claro", pensou, "que depois de morto você consegue tocar o próprio corpo. Caso contrário, você cairia aos pedaços.”.

—    Tecnicamente o Guarda tem que ser empossado pela Suma Sacerdotisa — respondeu. — e não existe uma Suma Sacerdotisa há milhares de anos. Olha, eu aprendi tudo com o velho Tento, que morava aqui antes de mim. ele só chegou e me disse: "Deccan, parece que eu tô morrendo, então agora depende de você. Porque, se não sobrar ninguém que se lembre direito, vai começar tudo de novo, e você sabe o que isso significa". "Bom, está bem. Mas isso não e exatamente o que se pode chamar de cerimônia de posse", eu respondi. — ele olhou para a colina arenosa. — Éramos só eu e ele. Mais tarde eu me tornei a única pessoa que se lembrava da Holy Wood, a Madeira Sagrada. e agora... — ele pôs a mão na boca. e disse: — Xiiii...

—    SIM — concordou Morte.

Seria um equívoco dizer que havia uma expressão de pânico no rosto de Deccan Ribobe porque, naquele momento, seu rosto estava a vários metros de distância e tinha uma espécie de sorriso amarelo, como se ele finalmente tivesse entendido a piada. Mas seu espírito estava definitivamente preocupado.

—    Olha, o negócio é o seguinte — começou, com pressa —, ninguém jamais vem aqui, sabe, a não ser os pescadores da baía ao lado, e eles só deixa os peixe e sai correndo por causa da superstição. e eu não pude, tipo, ir atrás de um aprendiz ou algo assim porque tinha que cuidar das fogueiras a noite toda e entoar os cânticos...

—    SIM.

—    ... é uma responsabilidade tremenda ser o único capaz de realizar um trabalho...

—SIM.

—    Bom, e claro que não estou dizendo nada que você não saiba...

—NÃO.

—... quer dizer, eu tinha esperança de que alguém naufragasse ou algo do tipo, ou que viesse procurando um tesouro e eu pudesse explicar tudo, como o velho Tento explicou pra mim. eu ensinaria os cânticos, resolveria tudo antes de morrer...

—    SIM?

—    Acho que não tem nenhuma chance de eu meio que...

—NÃO.

—    Achei que não — conformou—se Deccan, desanimado. — ele olhou para as ondas batendo na praia. — Isso aqui era uma cidade grande milhares de anos atrás. Onde agora e o mar. Quando ele tá violento, dá pra ouvir os veios sinos do templo tocando no fundo do mar.

—    EU SEI.

—    eu costumava sentar aqui fora, nas noites de vento, e ficava ouvindo. Ficava imaginando todas as pessoas mortas lá embaixo, tocando os sinos.

—    AGORA TEMOS QUE IR.

—    O veio Tento disse que tinha uma coisa debaixo daquela colina com o poder de levar as pessoas a fazer coisas. Colocava fantasias estranhas na cabeça delas — disse Deccan, seguindo, relutante, o vulto de andar pomposo. — eu nunca tive nenhuma fantasia estranha.

—    MAS VOCÊ ESTAVA ENTOANDO OS CÂNTICOS – observou Morte. e estalou os dedos.

Um cavalo parou de tentar pastar na grama rala das dunas e foi trotando até Morte. Deccan ficou surpreso ao ver que ele havia deixado marcas de casco na areia. esperava faíscas ou, pelo menos, pedra fundida.

—    e... — começou — você pode me dizer, e... o que vai acontecer agora?

Morte contou a ele.

—    eu imaginava — disse Deccan, abatido.

Sobre a colina baixa, a fogueira que havia ardido a noite toda se desintegrou, formando uma chuva de cinzas. Algumas brasas ainda estavam incandescentes.

Logo elas se apagariam.

elas se apagaram.

Nada aconteceu durante um dia inteiro. Depois, numa pequena cavidade na ponta da colina sombria, alguns grãos de areia se deslocaram e deixaram um minúsculo buraco.

Algo saiu dali. Algo invisível. Algo alegre, egoísta e maravilhoso. Tão intangível quanto uma idéia — exatamente o que aquilo era. Uma idéia extravagante.

era tão antiga que não podia ser medida por nenhum calendário conhecido pelo homem. O que ela possuía, naquele exato momento, eram lembranças e necessidades. Lembrava—se da vida em outras épocas e em outros universos. Precisava de pessoas.

ela subiu até as estrelas, mudando de forma, movendo—se em espiral, como fumaça.

Havia luzes no horizonte.

ela gostava de luzes.

Observou—as com atenção por alguns segundos e, em seguida, como uma seta invisível, alongou—se em direção à cidade e acelerou.

Também gostava de ação... e várias semanas se passaram.

Existe um dito popular que afirma que todos os caminhos levam a Ankh-Morpork, a maior cidade do Disco.

Pelo menos e dito por aí que existe um dito popular que afirma que todos os caminhos levam a Ankh-Morpork.

E ele está errado. Todos os caminhos levam para longe de Ankh-Morpork, mas às vezes as pessoas simplesmente pegam a estrada na direção contrária.

Os poetas há muito desistiram de tentar descrever a cidade. Os mais espertos disfarçam. Dizem que... bem... talvez ela seja malcheirosa, talvez ela seja superpovoada, talvez ela seja um pouco como o Inferno seria se controlassem o fogo que queima por lá e formassem um curral cheio de vacas com problemas intestinais durante um ano. Mas e preciso admitir que ela e cheia de vida pura, dinâmica e vibrante. e é verdade, apesar de serem os poetas quem dizem isso. e as pessoas que não são poetas dizem: e daí? Os colchões também tendem a ser cheios de vida, mas ninguém escreve odes a eles. Os cidadãos odeiam morar lá e, se são obrigados a mudar para outra cidade por causa do trabalho, por aventura ou, o que e mais comum, para esperar que algum estatuto de limitações expire, não vêem a hora de voltar para que possam sentir um pouco mais o prazer de odiar viver lá. eles colocam adesivos na parte de trás da carroça dizendo: "Ankh-Morpork — Odeie—a ou deixe—a". Chamam—na de "A Grande Wahooni", por causa da fruta1 com esse nome.

De vez em quando, um governante da cidade constrói um muro ao redor de Ankh-Morpork para manter ostensivamente os inimigos do lado de fora. Mas Ankh-Morpork não teme os inimigos.

 

  1. esta e que dá apenas em algumas partes da Howondalândia paga. Tem seis metros de comprimento, e coberta de espinhos da cor da cera de ouvido e tem o cheiro de um tamanduá que comeu uma formiga muito estragada.

 

Na verdade, ela os recebe bem, desde que sejam inimigos com dinheiro para gastar.2 ela sobreviveu a enchentes, incêndios, multidões, revoluções e dragões. Às vezes por acidente, e preciso admitir, mas sobreviveu. O espírito animado e irrecuperavelmente mercenário da cidade tornou—a resistente a qualquer coisa... Até agora.

Bum!

A explosão arrancou as janelas, a porta e grande parte da chaminé.

era o tipo de coisa já esperada na rua dos Alquimistas. Os vizinhos preferiam as explosões, que ao menos eram identificáveis e acabavam logo. eram preferíveis aos cheiros, que se arrastavam aos poucos.

As explosões faziam parte do cenário. Pelo menos do que restara dele.

e essa tinha sido muito boa, até mesmo para os padrões dos especialistas locais. Havia um núcleo vermelho profundo na fumaça preta encrespada, o que não se via sempre. Os pedaços de cimento meio derretidos estavam mais derretidos que de costume. ela foi considerada bem impressionante.

Bum!

Um ou dois minutos após a explosão, um vulto saiu discretamente do buraco irregular onde antes ficava a porta. Não tinha cabelo, e as poucas roupas que ainda vestia estavam em chamas ele cambaleou até uma aglomeração de pessoas que admiravam a devastação e, sem querer, apoiou a mão coberta de fuligem num vendedor de torta de carne e salsicha quente no pão chamado Dibbler Cava-a-própria-Cova, que possuía a habilidade quase mágica de surgir em qualquer lugar onde pudesse vender alguma coisa.

 

  1. Na verdade, a famosa publicação do Grêmio dos Mercadores, Bem—vindos a Ankh-Morpork, a Cidade de Mil Surpresas, tem agora uma seção inteira intitulada então você e um Invasor Bárbaro?”“, que traz comentários sobre a vida noturna, promoções de artigos folclóricos no bazar e, sob o título "Circulando por aí", uma lista de restaurantes onde se pode encontrar leite de égua e um pudim de iaque confiáveis. e não foram raras as vezes em que um vândalo de capacete pontudo voltou trotando para sua terra congelada perguntando—se por que parecia estar muito mais pobre, já que era o dono legítimo de um tapete malfeito, de um litro de vinho intragável e de um jumento roxo empalhado com um chapéu de palha.

—    Tô procurando — começou, num tom de voz inebriado e maravilhado — u'a palavra. Na ponta da língua.

—    Bolha? — sugeriu Cova. — e imediatamente recuperou seus sentidos de comerciante. — Após uma experiência como essa — acrescentou, oferecendo uma caixa de salgados cheia de fragmentos orgânicos tão reaproveitados que eram quase sábios —, o que você precisa e colocar pra dentro uma torta de carne quente...

—    Nãonaonão. Num e bolha. e o que a gente diz quando descobre uma coisa. Cê sai pela rua gritando — explicou a figura fumegante, com pressa. – e uma palavra especial — acrescentou, com a sobrancelha enrugada sob a fuligem.

A multidão, satisfeita e relutante porque não haveria mais nenhuma explosão, juntou—se ao redor deles. Aquilo poderia ser muito interessante.

—    e, isso mesmo — interrompeu um senhor de idade, enchendo o cachimbo. — Cê sai correndo gritando "Fogo! Fogo!" — ele tinha um ar triunfante.

—    Num e isso...

—    Ou "Socorro!" ou...

—    Não, ele tem razão — disse uma mulher com um cesto de peixes na cabeça. — Tem uma palavra especial. e estrangeira.

—    Isso mesmo, isso mesmo — concordou seu vizinho. — Palavra estrangeira especial para pessoas que descobriram alguma coisa. Foi inventada por um maluco estrangeiro na banheira...

—    Bom — começou o homem do cachimbo, acendendo—o no chapéu incandescente do alquimista —, da minha parte não vejo por que as pessoas desta cidade têm que andar por aí gritando dialetos bárbaros só porque tomaram um banho de banheira. Aliás, olha pra ele. ele não tomou banho. ele está precisando de um banho, isso sim, mas não tomou. Pra que ele vai querer sair por aí gritando palavras estrangeiras? Nós temos palavras perfeitamente satisfatórias para serem gritadas.

—    Qual, por exemplo? — perguntou Cava-a-própria-Cova.

O que fumava o cachimbo hesitou.

—    Bom, por exemplo... "eu descobri uma coisa"... ou... "Viva!"...

—    Não, estou pensando no maluco lá de Tsort ou algum lugar desses. ele estava na banheira e teve uma idéia para alguma coisa e saiu correndo pela rua gritando.

—    Gritando o quê?

—    Num sei. Talvez "Me dá uma toalha!"

—    Aposto que ele ia gritar mesmo se tentasse fazer esse tipo de coisa por aqui — disse Cova, animado. — Agora, senhoras e senhores, eu tenho aqui umas salsichas no pão que fariam o seu...

—    eureca — disse o vulto da cor da fuligem, oscilando para frente e para trás.

—    O que e que tem? — perguntou Cova.

—    Não, essa e a palavra. eureca. — Um sorriso preocupado se espalhou pelas feições enegrecidas. — Significa "encontrei".

—    encontrei o quê? — insistiu Cova.

—    encontrei. Pelo menos, eu tinha encontrado. Octocelulose. Uma coisa incrível. estava em minhas mãos. Mas segurei perto demais do fogo — disse o vulto, com o tom perplexo dos que escaparam por pouco de uma concussão. — Um fato muit'importante. Tenho que fazer uma anotação a respeito. Não deixe esquentar. Muit' importante. Tenho que anotar fato muit'portante.

e voltou correndo para as ruínas fumegantes. Dibbler ficou olhando para ele.

—    O que será que foi tudo isso? — perguntou. Depois deu de ombros e ergueu a voz para gritar: — Torta de carne! Salsicha quente! No pão! Tão frescas que o porco inda nem notou que já era!

A idéia cintilante e espiralada da colina assistiu a tudo isso. O alquimista nem sequer sabia que ela estava lá. Sabia apenas que se sentia excepcionalmente inventivo naquele dia.

Agora ela localizara a mente do vendedor de tortas.

Conhecia aquele tipo de mente. Adorava mentes como aquela. Uma mente capaz de vender tortas que pareciam um pesadelo era capaz de vender sonhos.

Ela deu um salto.

Numa colina distante, a brisa agitava a cinza fria.

Mais abaixo na colina, numa rachadura no vão entre duas pedras, onde um arbusto acanhado de zimbro lutava para sobreviver, um pequeno punhado de areia começou a se mover.

Bum!

Uma camada fina de pó de gesso desceu até a mesa de Mustrum Ridcully, o novo arqui-reitor da Universidade Invisível, bem na hora em que tentava prender uma mosca especialmente difícil.

Olhou através do vitral da janela. Uma nuvem de fumaça subia na área residencial de Morpork.

—    Tesoureeeeiro!

O tesoureiro chegou há alguns segundos, sem fôlego. Barulhos altos sempre o perturbavam.

—    São os alquimistas, mestre — explicou, ofegante.

—    e a terceira vez nesta semana. Malditos comerciantes de fogos de artifício — resmungou o arqui-reitor.

—    Infelizmente, mestre — concordou o tesoureiro.

—    O que eles pensam que estão fazendo?

—    eu realmente não saberia dizer, mestre — respondeu o tesoureiro, recuperando o fôlego. — Nunca me interessei pela alquimia. ela e mesmo muito... muito...

—    Perigosa — completou o arqui-reitor, com firmeza. — Muita porcaria misturada, um tal de dizer "ei, o que aconteceria se a gente adicionasse uma gota dessa coisa amarela?" e depois andar por aí sem as sobrancelhas por duas semanas.

—    eu ia dizer insensata — disse o tesoureiro. — Tentar fazer as coisas da forma mais difícil, enquanto temos a magia cotidiana perfeitamente simples à disposição.

—    Pensei que estivessem tentando achar a cura para as pedras filosofais ou algo do tipo — disse o arqui-reitor. — Um amontoado de absurdos, isso sim. De qualquer maneira, estou indo embora.

Quando o arqui-reitor começou a sair discretamente da sala, o tesoureiro acenou para ele, apressado, com um punhado de papeis na mão.

—    Antes que o senhor se vá, arqui-reitor — começou, desesperado —, eu gostaria de saber se o senhor pode fazer o favor de assinar alguns...

—    Agora não, homem — gritou o arqui-reitor. — Tenho que tirar água do joelho.

—    O quê?

—    Certo. — A porta se fechou.

O tesoureiro ficou olhando para ela e suspirou.

A Universidade Invisível tivera muitos tipos diferentes de arqui-reitores ao longo dos anos. Grandes, pequenos, astutos, levemente dementes, extremamente dementes. eles vinham, serviam — em alguns casos não por tempo suficiente para a conclusão da pintura oficial a ser pendurada no Grande Salão — e morriam. O mago de cargo mais elevado do mundo da magia tinha a mesma probabilidade de se manter no emprego por um longo período que um piloto de testes de pula—pula num campo minado.

Porém, do ponto de vista do tesoureiro, isso realmente não importava. O nome podia mudar de vez em quando, mas o que importava de verdade era que havia sempre um arqui-reitor, e o trabalho mais importante do arqui-reitor, na visão do tesoureiro, era assinar coisas — de preferência, do ponto de vista do tesoureiro, sem ler antes.

Mas esse era diferente. Para começar, quase nunca estava presente, exceto para trocar as roupas sujas de lama. e gritava com as pessoas. Geralmente com o tesoureiro.

Ainda assim, na época pareceu uma ótima idéia eleger um arqui-reitor que não colocava os pés na Universidade havia 40 anos.

Tantas brigas internas entre as várias ordens de magia haviam ocorrido nos últimos anos que, apenas uma vez, os magos mais experientes concordaram que a Universidade precisava de um período de estabilidade para que pudessem seguir em paz com suas conspirações e intrigas durante alguns meses. Uma busca nos registros revelou Ridcully o Castanho, que, depois de se tornar um mago do Sétimo Nível na idade incrivelmente prematura de 27 anos, largou a Universidade para cuidar das terras da família no interior.

Ele parecia ideal.

—    e o cara certo — todos diziam. — e de menino que se torce a vassoura. Um mago do interior. Um retorno àquela coisa toda, às raízes da magia. O bom garoto feliz, de cachimbo e olhos brilhantes. O tipo de cara que conhece todas as ervas. Que perambula pelo mato com seus irmãos, os animais. Dorme sob as estrelas, como se não fosse nada. Sabe o que o vento está dizendo, não se admirem. Dá nome a todas as árvores, pode contar com isso. Fala com os passarinhos também.

Uma mensagem foi enviada. Ridcully Castanho suspirou, praguejou um pouco, encontrou seu cajado no jardim da cozinha, onde servia de apoio a um espantalho, e partiu.

—    e, se ele der algum problema — os magos acrescentaram, no espaço privado de sua mente —, uma pessoa que conversa com as árvores não deve dar nenhum trabalho para ser eliminada.

Depois ele chegou e viu-se que Ridcully o Castanho realmente falava com os passarinhos. Na verdade gritava com eles. e o que geralmente gritava era: "Acertei você, seu desgraçado!"

Os animais do campo e as aves do ar realmente conheciam Ridcully o Castanho. eles ficaram tão bons em reconhecer seus contornos que, num raio de cerca de 30 quilômetros ao redor das terras de Ridcully, corriam, se escondiam ou, em casos de puro desespero, atacavam violentamente diante da mera visão de um chapéu pontudo.

Doze horas após sua chegada, Ridcully havia acomodado um bando de dragões de caça na copa onde ficava o mordomo, disparado sua terrível besta contra corvos na antiga Torre de Arte, bebido uma dúzia de garrafas de vinho tinto e ido para a cama às duas da madrugada, cantando uma música cuja letra tinha palavras que obrigariam alguns dos magos mais velhos e esquecidos a consultar um dicionário.

Ele acordava às cinco horas para caçar patos nos charcos do estuário. e voltava reclamando do fato de não haver nenhum rio para pescar trutas num raio de quilômetros. (Não era possível pescar no rio Ankh. Seria preciso pular várias vezes em cima do anzol para fazê-lo afundar.).

 

Pedia cerveja no café-da-manhã.

E contava piadas.

"Por outro lado", pensava o tesoureiro, "pelo menos ele não interfere no verdadeiro comando da Universidade." Ridcully o Castanho não tinha o mínimo interesse em comandar nada, a não ser talvez uma fileira de cães de caça. em situações em que não era possível atirar flechas, caçar ou fisgar, ele não via muito sentido na coisa.

"Cerveja no café-da-manhã!" O tesoureiro sentiu um arrepio. Os magos não estavam no seu melhor estado ao meio-dia, e o café-da-manhã no Grande Salão era uma ocasião tranqüila e delicada, interrompida apenas por tosses, o arrastar de pés discreto dos empregados e eventuais suspiros. Gente gritando para pedir fígado, chouriço e cerveja era um fenômeno novo.

A única pessoa que não se sentia aterrorizada com aquele homem assustador era o velho Windle Poons, que tinha 130 anos, era surdo e, embora especialista em textos sobre magia antiga, necessitava de orientações adequadas e de uma preparação na véspera para lidar com o dia presente. ele havia conseguido assimilar o fato de que o novo arqui-reitor seria um daqueles sujeitinhos que gostavam de cerca de madeira e passarinhos, mas levaria uma ou duas semanas para compreender qual era realmente o caso. enquanto isso, conversava de forma educada e civilizada acerca das poucas coisas que conseguia se lembrar sobre a natureza e coisas do tipo.

Coisas como as seguintes:

—    Imagino que deva ser uma, mm, mudança para o senhor, mm, dormir numa cama de verdade, em vez de dormir debaixo das, mm, estrelas?

E:

—    essas coisas, mm, aqui se chamam garfos e facas, mm. e:

—    esta, mm, coisa verde nos ovos mexidos, mm, seria salsinha? Mas, como o arqui-reitor nunca prestava atenção a nada que qualquer um dissesse enquanto estivesse comendo e Poons nunca notava quando não recebia resposta, eles se davam muito bem.

De todo modo, o tesoureiro tinha outros problemas.

Os alquimistas, para começar. Não dava para confiar nos alquimistas. eles levavam as coisas muito a Sério.

Bum!

E aquela foi a última. Dias inteiros se passaram sem ser pontuados por pequenas explosões. A cidade sossegou novamente, o que era algo no mínimo imprudente.

O que o tesoureiro não levou em consideração foi o fato de que a ausência das explosões não significava que eles haviam parado de fazer o que quer que fosse. Significava apenas que estavam fazendo certo.

Era meia-noite. A espuma estourava na praia e gerava um brilho fosforescente na noite. Ao redor da colina antiga, no entanto, o som parece ser fraquíssimo, como se estivesse chegando através de várias camadas de veludo.

O buraco na areia estava bem grande agora.

Se alguém pudesse colocar o ouvido perto dele, poderia imaginar ouvir aplausos.

Ainda era meia-noite. Uma lua cheia deslizava acima da fumaça e dos vapores de Ankh-Morpork, agradecendo o fato de haver milhares de quilômetros de céu entre eles.

A sede do Grêmio dos Alquimistas era nova. era sempre nova. Havia sido demolida por explosões e reconstruída quatro vezes nos últimos dois anos — da última vez sem uma sala de leitura e demonstrações, na esperança de que fosse uma decisão útil.

Naquela noite, diversos vultos encapotados entraram no prédio de modo furtivo. Alguns minutos depois, as luzes de uma janela no andar de cima ficaram mais fracas e se apagaram.

Bom, quase se apagaram.

Alguma coisa estava acontecendo lá em cima. Uma estranha luz trêmula preencheu a janela por um curto instante, seguida por uma comemoração desarmônica.

e houve um barulho. Não um estrondo, mas um estranho ronrom mecânico, como se houvesse um gato feliz dentro de um barril de lata.

ele fez clicaclicaclicaclica... clique.

Prosseguiu durante alguns minutos, com palmas e vivas ao fundo. Depois uma voz disse:

—    Por hoje e só, pessoal.

_ Por hoje e só o quê? — perguntou o Patrício de Ankh-Morpork na manhã seguinte.

O homem diante dele tremeu de medo.

—    Não sei, milorde — respondeu. — eles não queriam me deixar entrar. e me fizeram esperar do lado de fora, milorde.

ele retorcia os dedos, nervoso. O olhar fixo do Patrício o imobilizava. era um ótimo olhar, e um de seus efeitos consistia em fazer com que as pessoas continuassem falando mesmo quando achavam que já tinham terminado.

Somente o Patrício sabia quantos espiões possuía na cidade. Aquele ali era um empregado do Grêmio dos Alquimistas. Certa vez caiu na desgraça de ser apresentado ao Patrício acusado de embromação maliciosa, e foi naquele momento que decidiu se tornar um espião, por livre e espontânea vontade.3

—    e só isso, milorde — choramingou. — Houve apenas esse som de clique e essa espécie de brilho tremeluzente embaixo da porta. e... e... eles disseram que a luz do dia aqui era ruim.

—    Ruim? Como assim?

—    e... Não sei, senhor. Ruim, só disseram isso. Devem ir a algum lugar onde a luz e melhor, segundo eles. Ah, e me pediram para ir buscar comida para eles.

O Patrício bocejou. Havia alguma coisa infinitamente entediante no jeito de ser dos alquimistas.

—    Certo — ele disse.

—    Mas fazia só 15 minutos que eles tinham jantado — deixou escapar o empregado.

—    Talvez o que estavam fazendo, o que quer que fosse, deixe as pessoas com fome — comentou o Patrício.

—    Sim, e a cozinha já tinha fechado. eu tive que ir comprar uma bandeja de salsichas quentes no pão com o Dibbler Cova.

 

  1. A alternativa a isso era decidir por livre e espontânea vontade ser atirado num covil de escorpiões.

 

—    Certo. — O Patrício olhou para os papeis sobre sua mesa. — Obrigado. Pode sair.

—    e sabe o que mais, milorde? eles gostaram. eles ainda por cima gostaram!

Só o fato de os Alquimistas possuírem um grêmio já era notável. Os magos também não eram nada cooperativos. eram hierárquicos e competitivos por natureza. Precisavam da organização. Que graça teria ser um mago do Sétimo Nível se não houvesse seis outros níveis para desprezar e o Oitavo Nível para almejar? era preciso haver outros magos para odiar e rejeitar.

Os alquimistas, por outro lado, atuavam sozinhos, trabalhavam em salas escuras ou em porões escondidos, eternamente à procura do grande cassino — a Pedra Filosofal, o elixir da Vida. Geralmente eram homens magros, de olhos vermelhos, com barbas que não chegavam a ser barbas, mas algo como grupos de pêlos individuais que se aglomeravam para proteção mútua. Muitos deles tinham aquela expressão vaga e desapegada que se obtém depois de ficar muito tempo na presença de mercúrio em ebulição.

Não que os alquimistas odiassem os outros alquimistas. Geralmente não os notavam ou achavam que eram morsas.

Assim seu Grêmio minúsculo e desprezado nunca havia aspirado ao status, digamos, poderoso dos Grêmios dos Ladrões, dos Mendigos ou dos Assassinos. em vez disso, se dedicava a auxiliar viúvas e famílias de alquimistas que, por exemplo, tivessem se portado de forma excessivamente relaxada com o cianureto de potássio ou que tivessem destilado algum fungo interessante, bebido o resultado e depois caminhado pelo telhado para brincar com as fadas. Na verdade, não havia muitas viúvas nem muitos órfãos, o que era bastante óbvio, porque os alquimistas tinham dificuldade de se relacionar com outras pessoas por tempo suficiente para se casar e, quando conseguiam, era apenas para ter alguém para segurar seu cadinho.

De modo geral, a única habilidade que os alquimistas de Ankh-Morpork haviam descoberto até então era a capacidade de transformar ouro em menos ouro.

Até agora...

Agora eles estavam cheios daquela ansiedade nervosa de quem descobriu uma fortuna inesperada na conta bancária e não sabe se chama a atenção das pessoas para o fato ou simplesmente pega a bolada e some logo dali.

—    Os magos não vão gostar — observou um deles, um homem magro e hesitante chamado Lully. — eles vão dizer que isso e magia. Vocês sabem como ficam irritados quando pensam que você está fazendo magia e não e mago.

—    Não há nenhuma magia envolvida — respondeu Thomas Silverfish, o presidente do Grêmio.

—    Tem os diabretes.

—    Isso não e magia. e apenas ocultismo comum.

—    Bom, tem as salamandras.

—    História natural, perfeitamente normal. Nada de errado com isso.

—    Bom, está bem. Mas eles vão dizer que e magia. Vocês sabem como eles são.

Os alquimistas concordaram, desanimados.

—    eles são reacionários — disse Sendivoge, o secretário do Grêmio. — Malditos taumocratas. e os outros Grêmios também. O que eles sabem da marcha do progresso? eles por acaso se importam? Poderiam fazer algo assim há anos, mas fizeram alguma coisa? Não! Imaginem só em como poderíamos tornar a vida das pessoas tão... bem, melhor. As possibilidades são imensas.

—    educacionais — observou Silverfish.

—    Históricas — emendou Lully.

—    e, e claro, tem o entretenimento — disse Peavie, o caixa do Grêmio. era um homem pequeno e nervoso. De qualquer modo, quase todo alquimista era nervoso — conseqüência de não saber, a cada experimento, o que o cadinho de ingredientes borbulhantes iria fazer no minuto seguinte.

—    Bom, sim. Obviamente algum entretenimento — concordou Silverfish.

—    Alguns dos maiores dramas históricos — disse Peavie. — Imaginem só a cena! Você junta alguns atores, eles encenam apenas uma vez, e as pessoas em todas as partes do Disco poderão assistir quantas vezes quiserem! Uma grande economia com salários, aliás — acrescentou.

—    Mas com discernimento — interrompeu Silverfish. — Temos a imensa responsabilidade de zelar para que nada seja feito de qualquer forma que possa ser... — sua voz falhou — vocês entendem... vulgar.

—    eles não vão deixar — disse Lully, pessimista. — eu conheço aqueles magos.

—    eu venho pensando nisso — começou Silverfish. — De todo modo, a luz aqui e ruim demais. Nisso nós concordamos. Precisamos de céu azul. e precisamos ficar num lugar bem distante. Acho que conheço um lugar perfeito.

—    Quer saber, não consigo acreditar que estamos fazendo isso —disse Peavie. — Um mês atrás, não passava de uma idéia maluca. e agora está tudo desenvolvido! Parece magia! Mas não mágica, se e que vocês me entendem — acrescentou rapidamente.

—    Não apenas ilusão, mas ilusão de verdade — concordou Lully.

—    Não sei se alguém já pensou nisso — ponderou Peavie —, mas bem que podia render um pouco de dinheiro para a gente. Hein?

—    Isso não e o importante — disse Silverfish.

—    Não. Não, claro que não — murmurou Peavie. ele olhou rapidamente para os outros.

— Vamos assistir mais uma vez? — perguntou timidamente.

—    Não me importo de virar a manivela. e, e... bom, sei que não contribuí muito para este projeto, mas fui eu que inventei esta... e... esta coisa.

ele tirou um saco enorme do bolso do manto e largou-o sobre a mesa. O saco virou, e bolinhas brancas, leves e disformes rolaram para fora.

Os alquimistas ficaram olhando para aquilo.

—    O que e isso? — perguntou Lully.

—    Bom — começou Peavie, sem jeito —, e preciso pegar um pouco de milho e colocar dentro, digamos, de um cadinho número 3, com um pouco de óleo de cozinha, sabe, e depois pôr um prato ou algo do tipo em cima. Quando você aquece, faz um estouro. Quer dizer, não um estouro grave. Quando pára de estourar, você tira o prato, e o milho se metamorfoseou nessas... e... coisas... — ele olhou para os rostos que não entendiam nada. — Dá pra comer — murmurou, tentando se justificar. — Se você colocar manteiga e sal, fica com gosto de manteiga salgada.

Silverfish estendeu a mão manchada de produtos químicos e escolheu um punhado das coisas fofinhas com cuidado. Mastigou com um ar pensativo.

—    Não sei mesmo por que fiz isso — disse Peavie, corado. — Só tive uma sensação de que estava certo.

Silverfish continuou mastigando.

—    Tem gosto de papelão — observou depois de algum tempo.

—    Desculpe — disse Peavie, tentando puxar com a mão o resto do monte para dentro do saco. Silverfish pôs a mão no seu braço com um movimento suave.

—    Veja bem — começou, escolhendo mais um punhado das coisas fofinhas —, elas realmente têm seu charme, não? Realmente parecem ter algo de bom. Como e que se chamam mesmo?

—    Não têm um nome, na verdade. eu chamo apenas de grãos estourados.

Silverfish pegou mais uma.

—    engraçado como dá vontade de continuar comendo. Têm um gosto de "quero-mais". Grãos estourados? Certo. Como eu ia dizendo... Senhores, viremos a manivela mais uma vez.

Lully começou a enrolar o filme de volta na lanterna não-mágica.

—    Você estava dizendo que conhecia um lugar onde poderíamos realmente desenvolver o projeto e onde os magos não nos perturbariam.

Silverfish pegou um punhado de grãos estourados.

—    e na costa, longe daqui. e agradável e ensolarado, e ninguém aparece mais por lá hoje em dia. Não tem nada, a não ser uma velha floresta onde venta muito e um templo, areia e dunas.

—    Um templo? Os deuses podem ficar muito irritados se você... — começou Peavie.

—    Olha — interrompeu Silverfish —, a área toda está abandonada há séculos. Não tem nada por lá. Nem gente, nem deuses, nem nada. Apenas muita luz do sol e terra esperando por nós. e a nossa chance, rapazes. Não temos permissão para praticar magia, não conseguimos fazer ouro, não conseguimos sequer nos sustentar... então vamos produzir imagens animadas. Vamos entrar para a história!

Os alquimistas relaxaram e pareciam mais animados.

—    e isso aí — disse Lully.

—    Oh. está bem — concordou Peavie.

—    Um brinde às imagens animadas — disse Sendivoge, erguendo a mão cheia de grãos estourados. — Como cê ficou sabendo desse lugar?

—    Ah, eu... — Silverfish parou. ele parecia confuso. — Não sei. Não consigo... me lembrar direito. Devo ter ouvido falar dele uma vez e esqueci, e depois simplesmente surgiu na minha cabeça. Sabe como essas coisas acontecem.

—    e — concordou Lully. — Como eu e o filme. era como se eu estivesse me lembrando de como fazer. engraçados os velhos truques que a mente sabe pregar.

—e.

—Quando chega a vez daquela idéia, acontece.

—e.

—e

—    Deve ser isso.

Um silêncio levemente preocupado se instalou à mesa. era o som das mentes tentando tocar algo que os incomodava com seus dedos mentais.

O ar parecia brilhar.

—    Como e que chama esse lugar? — perguntou Lully, por fim.

—    Não sei como se chamava nos velhos tempos — disse Silverfish, recostando-se e puxando os grãos estourados na sua direção.

— Hoje em dia e chamado de Holy Wood.

—    Holy Wood — disse Lully. — Parece... familiar.

Houve outro silêncio, enquanto pensavam sobre isso.

O silêncio foi interrompido por Sendivoge.

—    Ora, ora — disse num tom animado. — Holy Wood, aí vamos nós.

—    e — animou—se Silverfish, chacoalhando a cabeça como se afastasse um pensamento perturbador. — e engraçado mesmo. estou com uma sensação... de que nós temos ido até lá... durante todo esse tempo.

Milhares de quilômetros abaixo de Silverfish, a Grande A'Tuin, a tartaruga estelar, seguia remando e sonhando pela noite estrelada.

A realidade e uma curva.

esse não e o problema. O problema e que não há tanta realidade quanto deveria haver. De acordo com alguns dos textos mais místicos das estantes da Biblioteca da Universidade Invisível — "A faculdade de magia e grandes jantares do Disco", coleção de livros tão pesada que distorce o espaço e Tempo —, ao menos nove décimos de toda a realidade original já criada se encontra do lado de fora do multiverso. Uma vez que o multiverso, por definição, inclui absolutamente tudo o que existe, isso deixa as coisas um pouco complicadas.

Alem das fronteiras dos universos estão as matérias-primas da realidade — os poderiam—ter—sido, os podem—ser, os nunca—foram, as idéias descabidas —, tudo sendo criado e "descriado" de forma caótica, como fenômenos atmosféricos de supernovas agitadas.

Somente uma vez ou outra, nos locais em que as paredes dos mundos se tornam um pouco gastas, tudo isso pode vazar para dentro.

E a realidade vaza para fora.

O efeito e semelhante àqueles gêiseres de água quente no fundo do mar, em torno dos quais estranhas criaturas submarinas encontram calor e alimento suficientes para formar um pequeno e transitório oásis de existência num ambiente em que não deveria haver absolutamente nenhuma existência.

A idéia de Holy Wood vazou inocente e alegremente para dentro do Discworld.

e a realidade vazou para fora.

e foi encontrada. Porque há Coisas do lado de fora cuja habilidade de farejar pequenas e frágeis aglomerações de realidade faz com que aquela relação entre tubarões e vestígios de sangue pareça muito sem graça.

elas começaram a se juntar.

Uma tempestade deslizou sobre as dunas de areia, mas, ao se aproximar da colina baixa, as nuvens pareciam fazer uma curva para se esquivar. Apenas algumas gotas de chuva bateram no solo ressecado, e o temporal se transformou em nada alem de uma brisa suave.

e soprou areia sobre os restos muito antigos de uma fogueira.

Mais abaixo, no morro, perto de um buraco agora grande o suficiente para, digamos, um texugo passar, uma pequena pedra se deslocou e saiu rolando.

Um mês passou rapidamente. ele não queria ficar andando à toa.

O tesoureiro bateu respeitosamente à porta do arqui-reitor e depois a abriu.

A seta de uma besta prendeu seu chapéu no batente de madeira da porta.

O arqui-reitor baixou o arco e olhou fixamente para ele.

—    Que coisa perigosa pra se fazer, hein? — ele disse. — Você poderia ter causado um acidente horrível.

O tesoureiro não teria chegado onde estava — ou melhor, onde estivera dez segundos antes, um local em que havia uma personalidade calma e segura que agora não existia mais, já que estava à beira de um leve ataque cardíaco —, se não possuísse tremenda habilidade de se recuperar de situações perturbadoras inesperadas.

ele desprendeu o chapéu do alvo desenhado a giz na madeira antiga.

—    Não houve nenhum estrago — observou. Voz nenhuma conseguiria parecer tão calma como aquela sem um esforço tremendo. — Mal se percebe o buraco. Por que... é... o senhor está atirando na porta, mestre?

—   Use o bom senso, homem! está escuro lá fora, e as malditas paredes são feitas de pedra. Você não esperava que eu atirasse nas paredes, não é?

—    Ah — disse o tesoureiro. — esta porta tem... é ... 500 anos, sabe — acrescentou, com um tom de reprovação bem afinado.

—    Percebe-se— concordou o arqui-reitor asperamente. — Maldita coisa grande e preta. O que precisamos aqui e de menos pedra e madeira e mais alegria, homem. Algumas gravuras de esporte, sabe. Um ou dois enfeites.

—    Providenciarei o mais rápido possível — mentiu calmamente o tesoureiro. ele se lembrou do feixe de papeis que trazia debaixo do braço. — enquanto isso, mestre, talvez o senhor pudesse...

—    Certo — disse o arqui-reitor, afundando o chapéu pontudo na cabeça. — Bom sujeito. Agora tenho um dragão doente pra cuidar... O danadinho não toca no óleo de alcatrão há dias.

—    Sua assinatura em um ou dois desses... — balbuciou o tesoureiro rapidamente.

—    Não posso cuidar de toda essa coisa — negou o arqui-reitor, fazendo um gesto para que ele se afastasse. — Tem papel demais por aqui. e... — ele olhou através do tesoureiro, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa. — Vi uma coisa engraçada hoje de manhã. Vi um macaco no pátio. Todo atrevido.

—    Ah, sim — disse o tesoureiro num tom de animação. — e o bibliotecário.

—    ele tem um animal de estimação, e?

—    Não, o senhor me entendeu mal, arqui-reitor — corrigiu o tesoureiro. — Aquele e o bibliotecário.

O arqui-reitor o olhou fixamente.

O sorriso do tesoureiro começou a congelar.

—    O bibliotecário e um macaco?

O tesoureiro levou algum tempo para explicar as coisas de forma clara. Depois o arqui-reitor disse:

—    então o que você está me dizendo e que esse sujeito se transformou em macaco através da magia?

—    Um acidente na Biblioteca. explosão mágica. Num minuto, homem; no minuto seguinte, um orangotango. e o senhor não pode chamá-lo de macaco, mestre. ele e um símio.

—   Não e tudo a mesma porcaria?

—    Aparentemente não. ele fica muito... e... agressivo quando alguém o chama de macaco.

—    ele não mostra o traseiro para as pessoas, mostra? O tesoureiro fechou os olhos e estremeceu.

—    Não, mestre. esses são os babuínos.

—    Ah — o arqui-reitor parou para pensar. — Não tem nenhum desses trabalhando aqui, não e?

—    Não, mestre. Apenas o bibliotecário, mestre.

—    Não posso tolerar. Não posso tolerar, sabe. Não posso tolerar essas malditas coisas grandes e peludas rebolando por todo lado — disse o arqui-reitor com firmeza. — Livre-se dele.

—    Credo, não! ele e o melhor bibliotecário que já tivemos. e representa uma economia tremenda em dinheiro.

—    Por quê? O que pagamos a ele?

— Amendoim — respondeu de pronto o tesoureiro. —Alem disso, ele e o único que sabe como a Biblioteca realmente funciona.

—    Faça ele se transformar de novo então. Isso não e vida para homem nenhum... ser um macaco...

—    Símio, arqui-reitor. e parece que ele prefere viver assim, infelizmente.

—    Como e que cê sabe? — perguntou o arqui-reitor, desconfiado. — ele fala, e?

O tesoureiro hesitou. Sempre tinha esse problema com o bibliotecário. Todo mundo estava tão acostumado com ele que era difícil se lembrar do tempo em que a Biblioteca não era administrada por um símio de dentes amarelos e a força de três homens. Se o anormal existe por tempo suficiente, passa a ser normal. Acontece que, quando era preciso explicar isso a uma terceira pessoa, soava esquisito. ele tossiu de nervoso.

—    ele diz "oook", arqui-reitor.

—    e isso significa o quê?

—    Significa "não", arqui-reitor.

—    e como ele diz "sim" ?

O tesoureiro estava com muito medo de que isso acontecesse.

—   “Oook", arqui-reitor.

—    esse "oook" foi igual ao outro "oook"!

—    Ah, não. Não. Posso lhe garantir. A entonação e diferente... Quer dizer, quando você se acostuma com... — o tesoureiro deu de ombros. — Acho que nós simplesmente aprendemos a entendê-lo, arqui-reitor.

—    Bom, pelo menos ele se mantém em forma — observou o arqui-reitor num tom malcriado. — Diferente do resto de vocês. eu entrei na Sala Incomum hoje de manhã e ela estava cheia de homens roncando!

—    esses deviam ser os mestres sêniores, mestre — disse o tesoureiro. — eu diria que eles estão em excelente forma.

—    excelente forma? O decano parece um homem que engoliu uma cama!

—    Ah, mas, mestre — começou o Tesoureiro com um sorriso tolerante —, a expressão "em forma", do jeito que a entendo, significa "em conformidade, nos devidos termos". e eu diria que o corpo do decano está em perfeita conformidade com o propósito de ficar sentado o dia todo fazendo refeições pesadas. — O tesoureiro se permitiu um breve sorriso.

O arqui-reitor lhe lançou um olhar tão antiquado que devia ter pertencido a um amonite.

—    Isso foi uma piada? — perguntou no tom desconfiado de quem realmente não entenderia a expressão "senso de humor" mesmo se você o fizesse se sentar durante uma hora e desse uma explicação usando diagramas.

—    Foi apenas uma observação — respondeu o tesoureiro, cauteloso.

O arqui-reitor balançou a cabeça.

—    Não suporto piadas. Não suporto gente que anda por aí tentando ser engraçada o tempo todo. e o que dá passar tanto tempo sentado em locais fechados. Umas corridas de 30 quilômetros, e o decano seria um homem diferente.

—    Bom, sim — concordou o tesoureiro. — Seria um homem morto.

—    Seria saudável.

—   e, mas, ainda assim, morto.

O arqui-reitor remexeu nos papeis sobre a mesa com irritação.

—    Sedentarismo — murmurou. — e isso o que existe demais por aqui. este lugar inteiro está falido. Pessoas dormindo o dia todo e se transformando em macaco a toda hora. Nós nem sequer pensávamos em nos transformar em macacos na minha época de estudante. — ele ergueu a cabeça, irritado.

—    O que e que você queria? — gritou.

—    O quê? — perguntou o tesoureiro, sem forças.

—Você queria que eu fizesse alguma coisa, né? Provavelmente porque eu sou o único sujeito aqui que não está dormindo profundamente nem está sentado numa árvore gritando todas as manhãs — acrescentou o arqui-reitor.

—    e... Acho que são os gibões que fazem isso, arqui-reitor.

—    O quê? O quê? Tente falar coisa com coisa, homem!

O tesoureiro se recompôs. Não entendia por que tinha que ser tratado daquele jeito.

—    Na verdade eu queria ter uma conversa com o senhor a respeito de um dos alunos, mestre — disse friamente.

—    Alunos? — vociferou o arqui-reitor.

—    Sim, mestre. Sabe? Os mais magros, de rosto pálido? Porque nós somos uma universidade... eles vêm com todas as tralhas, feito ratos...

—    eu achei que pagávamos pessoas para lidar com eles.

—    O corpo docente. Sim. Mas às vezes... bem... Será que o senhor poderia fazer o favor, arqui-reitor, de ver esses resultados de provas...

era meia-noite — não a mesma meia-noite de antes, mas uma meia-noite muito semelhante. O velho Tom, o sino sem badalo da torre do sino da Universidade, acabara de bater seus 12 silêncios sonoros.

Nuvens densas e cinzentas espremiam suas últimas gotas sobre a cidade. Ankh-Morpork se esparramava sob algumas estrelas umedecidas, tão real quanto um tijolo.

Ponder Stibbons, estudante de magia, fechou seu livro e esfregou o rosto.

—    está bem — disse. — Me pergunte qualquer coisa. Anda.

Qualquer coisa mesmo.

Victor Tugelband, estudante de magia, pegou sua cópia surrada de Necrotelicomnicon Analisado para estudantes com experimentos Práticos e virou as páginas aleatoriamente. estava deitado na cama de Ponder. Pelo menos seus ombros estavam. Seu corpo se estendia pela parede. essa e uma posição perfeitamente normal para um estudante que se sinta à vontade.

—    Ok. Certo. Ok? Qual, certo, qual e o nome do monstro exterior à dimensão cujo grito característico e "Oquêoquêoquêoquêoquê"?

—    Yob Soddoth — respondeu Ponder de pronto.

—    Isso. Como e que o monstro Tshup Aklathep, Sapo estelar Infernal com Um Milhão de Girinos, tortura suas vítimas até a morte?

—    ele... não fala... ele as prende no chão e mostra fotos de seus filhos até o cérebro delas implodir.

—    Sim. Sempre me perguntei como e que isso acontece — comentou Victor, virando as páginas com o polegar. — Imagino que, depois de dizer "e, ele tem os seus olhos" pela milésima vez, você já está meio que pronto para cometer suicídio de qualquer maneira.

—    Você sabe muito, Victor — disse Ponder com um tom de admiração. — Fico surpreso por você ainda ser um aluno.

—    e... e. e... Apenas falta de sorte nas provas, acho.

—    Continua — disse Ponder. — Pergunta mais uma.

Victor abriu o livro novamente.

Houve um momento de silêncio.

então disse:

—Onde fica Holy Wood?

Ponder fechou os olhos e bateu na testa.

—    espera aí, espera aí... não fala... — ele abriu os olhos. — Como assim, onde fica Holy Wood? — acrescentou, incisivo. — Não me lembro de nada sobre Holy Wood nenhuma.

Victor olhou para a página com os olhos arregalados. Não havia nada sobre Holy Wood nenhuma ali.

—   eu podia jurar que ouvi... Acho que devo estar distraído — desculpou—se, pouco convincente. — Deve ter sido essa revisão toda.

—    e. Chega uma hora em que cansa. Mas vai valer a pena, você será um mago.

—    e — concordou Victor. — Não vejo a hora.

Ponder fechou o livro.

—    A chuva parou. Vamos dar uma saída. A gente merece uma bebida.

Victor balançou o dedo.

— Só uma então. Tenho que ficar sóbrio. Tem prova final amanhã. Tenho que manter a mente atenta.

—    Uhhh! — disse Ponder.

e claro que e muito importante estar sóbrio quando se presta um exame. Muitas carreiras valorosas no ramo de limpeza de rua, colheita de frutas e performances de violão no metrô se iniciaram graças à falta de conhecimento desse simples fato.

Mas Victor tinha um motivo especial para se manter alerta.

ele poderia cometer um erro e passar.

Seu falecido tio havia lhe deixado uma pequena fortuna para que ele não se tornasse um mago. O velho não percebeu isso ao redigir o testamento, mas foi o que acabou fazendo. ele achou que estivesse ajudando o sobrinho a terminar a faculdade, mas Victor Tugelbend era um jovem muito inteligente, de um modo um tanto distorcido, e havia raciocinado da seguinte maneira: quais são as vantagens e desvantagens de ser um mago? Bem, você possui certa dose de prestígio, mas geralmente acaba em situações de perigo e com certeza sempre corre o risco de ser morto por outro mago.

ele não via futuro em ser um cadáver respeitado.

Por outro lado...

Quais são as vantagens e desvantagens de ser um estudante de magia? Você tem muito tempo livre, alguma liberdade de ação em assuntos como beber muita cerveja e cantar músicas obscenas, ninguém tentava muito matá-lo, exceto da maneira corriqueira e comum no dia-a-dia em Ankh-Morpork e, graças à herança, também era possível levar um estilo de vida confortável. e claro que não se ganhava muito em termos de prestígio, mas pelo menos você ficava vivo para saber disso.

então Victor dedicou uma quantidade de energia considerável antes de tudo, para estudar os termos do testamento, as regras bizantinas dos exames da Universidade Invisível e todos os exames dos últimos 50 anos.

A nota mínima para a aprovação nos exames finais era 88.

Ser reprovado seria fácil. Qualquer imbecil consegue ser reprovado.

Mas o tio de Victor não era nenhum idiota. Uma das condições da herança era que, caso Victor tirasse uma nota menor que 80, o suprimento de dinheiro secaria como um cuspe ralo num forno quente.

ele havia vencido, de certa forma. Poucos alunos haviam estudado tanto quanto Victor. Diziam por aí que seu conhecimento em magia se igualava ao de alguns dos magos mais importantes. ele passava horas numa cadeira confortável da Biblioteca lendo grimórios. Pesquisava estilos de respostas e técnicas de exames. Ouvia palestras até ser capaz de citá-las de cor. De modo geral, era considerado pelo corpo docente o aluno mais inteligente e certamente o mais ocupado das últimas décadas. e, em todas as provas finais, com cuidado e competência, conseguia a nota 84.

era fantástico.

O arqui-reitor chegou à última página. Finalmente disse: —Ah. entendi. está com pena do garoto, não e?

—    Acho que o senhor não entendeu exatamente o que quero dizer — observou o tesoureiro.

—    e bastante óbvio para mim — discordou o arqui-reitor. — O rapaz e sempre reprovado por um fio de cabelo. — ele puxou um dos papeis. — De qualquer modo, aqui diz que ele passou. Tirou 91.

—    Sim, arqui-reitor. Mas ele recorreu.

—    Recorreu? Para não passar?

—    Achou que os examinadores não notaram seu erro nos alótropos de octírio da questão seis. Disse que não conseguiria suportar o peso na consciência. Disse ainda que isso o perseguiria pelo resto de sua vida, por ter passado de forma injusta, se comparado a alunos melhores e mais merecedores que ele. O senhor pode notar que ele tirou apenas 82 e 83 nos dois exames seguintes.

—    Por que isso?

—    Nós achamos que ele não queria correr riscos, mestre.

O arqui-reitor bateu os dedos na mesa.

—    Não posso aceitar uma coisa dessas. Não posso aceitar que alguém continue sendo quase um mago e rindo da gente por, por... por onde mesmo as pessoas riem da gente?

—    Sinto exatamente o mesmo — murmurou o tesoureiro.

—    Nós deveríamos jogá-lo para o alto — disse o arqui-reitor com firmeza.

—    Para baixo, Mestre — corrigiu o Tesoureiro. — Jogá-lo para o alto seria desprezá-lo, deixá-lo de lado.

—    Sim. Isso mesmo. Vamos fazer isso — animou-se o Arqui-reitor.

—    Não, mestre — disse o Tesoureiro, paciente. — Assim ele fica por cima. Temos que Jogá-lo para baixo.

—    Certo. encontre um equilíbrio — sugeriu o arqui-reitor. O tesoureiro revirou os olhos. — Ou não — acrescentou o arqui-reitor. — então você quer que eu o mande passear, né? e só mandá-lo vir aqui de manhã e...

—    Não, arqui-reitor. Não podemos fazer as coisas assim.

—    Não podemos? Achei que estivéssemos no comando aqui!

—    Sim, mas e preciso ser extremamente cuidadoso ao lidar com o mestre Tugelbend. ele e especialista em procedimentos legais. O que eu pensei foi em dar a ele esta prova no exame final de amanhã.

O arqui-reitor pegou o documento mencionado. Seus lábios se moveram em silêncio enquanto o lia.

—    Apenas uma questão.

—    Sim. Ou ele passa, ou e reprovado. Quero ver ele acertar 84 por cento disso.

De um modo que seus instrutores não conseguiam definir muito bem, muito por causa do aborrecimento que isso lhes causava Victor Tugelbend era a pessoa mais preguiçosa da história do mundo.

Não de uma forma comum, simples. A preguiça comum e simplesmente a falta de esforço. Victor tinha superado isso havia muito tempo, tinha passado direto pelo ócio trivial e chegado ao seu extremo. ele se esforçava mais para evitar o trabalho do que a maioria das pessoas precisava se esforçar para pegar no pesado.

Nunca quis ser um mago. Nunca quis muita coisa, exceto talvez ser deixado em paz e não ser acordado até o meio-dia. Quando era pequeno, as pessoas diziam coisas como "e você, o que quer ser quando crescer, rapazinho?", e ele respondia "Não sei. O que você tem pra oferecer?"

As pessoas não o deixaram continuar embromando por muito tempo. Não bastava ser o que você era, era preciso se esforçar para vir a ser alguma outra coisa.

ele tentou. Durante um bom tempo, tentou ao querer ser ferreiro, porque parecia ser interessante e romântico. Mas também envolvia trabalho árduo e pedaços de metal obstinados. Depois tentou ao querer ser um assassino, o que parecia ser elegante e romântico. Mas também envolvia trabalho árduo e, de vez em quando, na hora da verdade, ter que matar alguém. Depois tentou ao querer ser ator, o que parecia ser dramático e romântico, mas envolvia usar calças de malha justas e empoeiradas, alojamentos apertados e, para seu espanto, trabalho árduo.

No fim, ele se deixou ser enviado para a Universidade porque era mais fácil do que não ir.

Tinha a tendência de sorrir muito, de modo levemente intrigado. Isso dava às pessoas a impressão de que ele era um pouco mais inteligente do que elas. Na verdade, ele geralmente estava tentando entender o que elas tinham acabado de dizer.

e tinha um bigode fino que, sob certa luz, o fazia parecer bondoso e, sob outra, fazia parecer que ele tinha acabado de beber um milk-shake de chocolate bem grosso.

Orgulhava-se muito do bigode. Quando você se torna um mago, espera-se que pare de fazer a barba e deixe-a crescer, como um arbusto de tojo. Os magos muito antigos davam a impressão de ser capazes de capturar seu alimento por meio dos bigodes, como as baleias.

era uma e meia. ele vinha a passos lentos, voltando do Tambor Remendado, a taverna mais eloqüentemente desqualificada da cidade. Victor Tugelbend sempre dava a impressão de andar devagar, mesmo quando corria.

ele estava razoavelmente sóbrio, e portanto um pouco surpreso por se encontrar na Praça das Luas Partidas. Seguia para o pequeno beco atrás da Universidade, na direção do muro com os tijolos removíveis e espaçados de forma conveniente através do qual, havia centenas e centenas de anos, estudantes de magia silenciosos burlavam ou, mais precisamente, passavam por cima do toque de recolher da Universidade Invisível.

A praça não fazia parte do trajeto.

ele se virou para voltar vagarosamente pelo caminho que tomara e depois parou. Algo estranho estava acontecendo.

Normalmente haveria um contador de histórias ali, ou alguns músicos, ou um empreendedor à procura de possíveis compradores para alguns pontos de referência excedentes de Ankh-Morpork, como a Torre de Arte ou a Ponte de Latão.

Naquele momento, havia apenas algumas pessoas montando uma tela grande, que parecia um lençol esticado entre postes.

ele chegou até aquelas pessoas como quem não queria nada.

—    O que vocês estão fazendo? — perguntou num tom amigável.

—    Vai haver uma apresentação.

—    Ah. Teatro — disse Victor sem muito interesse.

ele vagou de volta para a penumbra úmida, mas parou quando ouviu uma voz proveniente da escuridão entre dois prédios.

A voz disse: "Socorro", bem discretamente.

Outra voz disse: "Me entrega logo isso, está bem?"

Victor se aproximou devagar e tentou enxergar por entre as sombras.

—   Olá? está tudo bem?

Houve uma pausa e depois uma voz grave disse: "Você vai ver o que e bom pra tosse, garoto".

"ele tem uma faca", pensou Victor. "está vindo na minha direção com uma faca. Isso significa que ou eu serei esfaqueado, ou terei que sair correndo, o que e um verdadeiro desperdício de energia."

As pessoas que não atentassem para os fatos apresentados poderiam pensar que Victor Tugelbend fosse um rapaz gordo e de saúde frágil. Mas na verdade ele era incontestavelmente o aluno com mais inclinações atléticas da Universidade. Ter que arrastar quilos extras por todos os lados representaria um esforço excessivo, então ele cuidava para nunca engordar e se mantinha em boas condições físicas. Afinal fazer as coisas com os músculos em ordem representava um esforço muito menor do que tentar fazê-las carregando bolsas de flacidez.

ele girou a mão e desferiu um soco desajeitado, que não apenas acertou como ergueu o assaltante do chão.

Depois olhou para a possível vítima, que ainda se encolhia contra o muro.

—    espero que não esteja ferido — disse.

—    Não se mexa!

—    eu não ia me mexer.

O vulto saiu da penumbra. Tinha um pacote debaixo do braço e as mãos estendidas diante do rosto num gesto esquisito, com os indicadores e os polegares formando um ângulo de noventa graus e fixos de modo que os olhinhos de furão do homem pareciam olhar através de uma moldura.

“ele provavelmente está espantando o mal-olhado”, pensou Victor. "Parece um mago, com todos esses símbolos na roupa."

—    Impressionante! — exclamou o homem, espremendo os olhos por trás dos dedos. — Vire só um pouquinho a cabeça, por gentileza. Ótimo! e uma pena esse nariz, mas imagino que dê para fazer algo quanto a isso.

ele se aproximou e tentou colocar o braço sobre os ombros de Victor.

—   Sorte sua — começou — ter me encontrado.

—    É? — surpreendeu—se Victor, que imaginava justamente o contrário.

—    Você e exatamente o tipo que estou procurando.

—    Desculpe — disse Victor. — Achei que você estivesse sendo assaltado.

—    ele estava atrás disso — mostrou o homem, batendo no pacote que trazia debaixo do braço, que ressoou como um gongo. — Mas não teria servido de nada para ele.

—    Não vale nada? — perguntou Victor.

—    Não tem preço.

—    está certo então.

O homem desistiu de tentar alcançar os dois ombros de Victor, largos demais, e se contentou com apenas um deles.

—    Mas muita gente ficaria decepcionada — continuou. — Olha, você tem um bom porte. Bom perfil. Ouça, rapaz, o que você acharia de entrar no ramo de imagens animadas?

—    eu?... Não. Acho que não.

O homem o olhou com espanto.

—    Você ouviu o que eu disse, não? Imagens animadas?

—    Sim.

—    Todo mundo quer entrar para o ramo de imagens animadas!

—    Não, obrigado — insistiu Victor, com educação. — Tenho certeza de que e um trabalho vantajoso, mas o ramo de imagens animadas não me parece algo muito interessante.

—    eu estou falando de imagens animadas

—    Sim — concordou Victor, num tom suave. — eu ouvi.

O homem balançou a cabeça.

—    Bom, você salvou o meu dia. É a primeira vez em semanas que encontro alguém que não esteja desesperado para entrar para o ramo de imagens animadas. Achei que todo mundo quisesse entrar para o ramo de imagens animadas. Assim que vi você, eu pensei: "ele deve estar querendo conseguir uma vaga no ramo de imagens animadas esta noite".

— Obrigado assim mesmo — disse Victor. — Mas não acho que me daria bem nisso.

— Bom, eu lhe devo uma. — O homenzinho remexeu no bolso e retirou um cartão. Victor o pegou. estava escrito:

—   Isso é para o caso de você mudar de idéia. Todo mundo em Holy Wood me conhece.

Victor ficou olhando para o cartão.

—    Obrigado — disse com um tom vago. — e... Você é mago? Silverfish olhou para ele, espantado.

—    O que fez você pensar isso? — perguntou rispidamente.

—    Você está usando um vestido com símbolos mágicos...

—    Símbolos mágicos? Olhe direito, garoto! estes certamente não são símbolos ingênuos de um conjunto de crenças ridículo e ultrapassado! esses são os emblemas de uma arte esclarecida, cujo despertar claro w novo está apenas... e... despertando! Símbolos mágicos! — terminou num tom de desprezo. — e isto é um manto, não um vestido — acrescentou.

Victor examinou o conjunto de estrelas, luas crescentes e coisas do tipo. Para ele, os emblemas de uma arte esclarecida, cujo novo despertar estava apenas despertando, eram idênticos aos símbolos ingênuos de um conjunto de crenças ridículo e ultrapassado, mas aquele provavelmente não era o momento certo para dizer isso.

—    Desculpe. Não estava conseguindo ver direito.

—    eu sou um alquimista — explicou Silverfish, apenas um pouco mais sereno.

—    Ah, fazer chumbo virar ouro, esse tipo de coisa.

—    Chumbo, não, rapaz. Luz. Com chumbo não funciona. Fazer luz virar ouro...

—    É mesmo? — perguntou Victor educadamente, enquanto Silverfish começava a montar um tripé no meio da praça.

Uma pequena multidão começava a se juntar. era muito fácil uma pequena multidão se juntar em Ankh-Morpork. A cidade tinha os espectadores mais talentosos do universo. eles observavam qualquer coisa, especialmente se houvesse alguma possibilidade de alguém se machucar de forma divertida.

—    Por que você não fica para a apresentação? — perguntou Silverfish, e saiu de perto apressadamente.

"Um alquimista. Bom, todo mundo sabe que os alquimistas são meio loucos", pensou Victor. "Isso é perfeitamente normal."

Quem iria querer perder tempo movimentando as imagens? Grande parte delas estava bem do jeito que estava.

—    Salsicha no pão! Comprem enquanto está quente! — alguém gritou perto da sua orelha. ele se virou.

—    Oh, olá, senhor Dibbler.

—    Noite, rapaz. Quer mandar uma bela salsicha quente pra dentro?

Victor encarou os tubos reluzentes na bandeja pendurada no pescoço de Dibbler. O cheiro era tentador. Sempre era. Aí você mordia e descobria mais uma vez que Dibbler Cava-a-própria-Cova sabia encontrar uma utilidade para alguns pedaços de carne que o próprio animal desconhecia possuir. Dibbler havia decidido que, com a quantidade certa de cebolas fritas e mostarda, as pessoas comiam qualquer coisa.

—    Preço especial para estudantes — Dibbler sussurrou num tom de conspiração. — Quinze centavos, e eu tô cavando a minha própria cova com isso. ele abriu a tampa da frigideira de modo estratégico, deixando subir uma nuvem de vapor.

O aroma picante das cebolas fritas fez seu trabalho perverso.

_ Só uma então — concordou Victor, cauteloso. Dibbler jogou uma salsicha para fora da frigideira e a colocou dentro de um pão com a habilidade de uma rã que pega uma mosca.

—    Você não vai ter tempo de se arrepender — disse, brincalhão.

Victor mordiscou um pedaço de cebola. Até ali ainda era confiável.

—    O que e toda essa coisa? — perguntou, apontando o polegar em direção à tela oscilante.

—    Algum tipo de entretenimento. Salsicha quente! Tá uma delícia! — ele baixou o volume da voz, voltando ao seu sussurro normal de conspiração. — É moda nas outras cidades, ouvi dizer —     acrescentou. — Uma espécie de imagem em movimento. eles estavam tentando fazer a coisa toda funcionar direito antes de vir para Ankh-Morpork.

eles observaram Silverfish e alguns de seus colegas fuçar tecnicamente na caixa sobre o tripé. Uma luz branca surgiu de repente num orifício circular na frente da caixa e iluminou a tela. Houve um aplauso receoso por parte da multidão.

—    Oh — começou Victor. — entendi. É só isso? Mas é só a boa e velha brincadeira das sombras. Só isso. Meu tio fazia isso para me distrair. Você conhece? Você meio que mexe a mão na frente da luz e as sombras formam uma espécie de imagem de silhueta.

—Ah, sim — disse Dibbler, incerto. — Tipo o "Grande elefante" ou a "Águia Careca". Meu avô fazia essas coisas.

—    O que o meu tio mais fazia era o "Coelho Deformado" — lembrou Victor. — ele não era muito bom nisso, sabe. era muito constrangedor. Todo mundo sentava ao seu redor, tentando desesperadamente adivinhar o que era a imagem, dizendo coisas como "Porco espinho Assustado" ou "Arminho Furioso", e ele ia para a cama chateado porque a gente não tinha conseguido adivinhar que na verdade era "Lorde Henry Skipps e Seus Homens Derrotando os Trolls na Batalha de Pseudópolis". Não consigo ver nada de especial em sombras numa tela.

—    Pelo que eu ouvi, não é isso — corrigiu Dibbler. — eu vendi um especial com Salsicha Gigante para um dos homens agora a pouco, e ele disse que a coisa toda e basicamente mostrar imagens muito rápido. Colar um monte de imagens lado a lado e mostrá-las uma depois da outra. Muito, muito rápido.

—    Mas não rápido demais — disse Victor seriamente. — Não daria para vê-las se estiverem passando rápido demais.

—    ele disse que esse era o grande segredo: não vê-las passando. Você tem que ver todas de uma vez ou algo do tipo.

—    elas ficariam todas borradas — argumentou Victor. — Você não perguntou isso para ele?

—    e... não. Acontece que ele teve que sair correndo bem nessa hora. Disse que estava se sentindo meio estranho.

Victor olhou com um ar pensativo para o resto de sua salsicha no pão e, ao fazê-lo, sentiu que alguém, por sua vez, olhava fixamente para ele. ele olhou para baixo. Havia um cachorro sentado aos seus pés.

era pequeno, magro, tinha as patas tortas e era basicamente cinza com manchas marrons, brancas e pretas nas extremidades. e não parava de olhar para ele.

Aquele era certamente o olhar mais penetrante que Victor já tinha visto. Não era ameaçador nem servil. era apenas muito demorado e persistente, como se o cachorro estivesse memorizando detalhes para depois dar uma descrição completa às autoridades.

Quando teve certeza de que Victor prestava total atenção nele, transferiu o olhar para a salsicha.

Sentindo-se péssimo por ser tão cruel com um pobre animal irracional, Victor jogou a salsicha para baixo. O cachorro a pegou e engoliu com um movimento econômico.

Mais pessoas se amontoavam na praça. Dibbler Cava-a-própria-Cova se afastara e fazia negócio sem parar com aqueles farristas que chegam mais tarde, bêbados demais para impedir que o otimismo triunfe sobre a experiência. Qualquer pessoa que compre uma refeição depois de uma noite de farra, à uma da madrugada, provavelmente iria passar terrivelmente mal de qualquer jeito, então poderia até tirar algum proveito daquilo.

Victor foi aos poucos sendo cercado por uma grande multidão. ela não era composta exclusivamente de humanos. Reconheceu, a alguns metros de distância, o grande contorno espaçoso de Detritus um velho troll, conhecido entre os estudantes por conseguir emprego em qualquer lugar onde precisassem pagar alguém para atirar pessoas para fora. O troll notou sua presença e tentou piscar para ele. Isso significava fechar os dois olhos, porque Detritus não era bom em coisas complicadas. Muitos acreditavam que, se pudessem ensinar Detritus a ler e escrever o suficiente para que pudesse se sentar e fazer um teste, ele demonstraria ser menos inteligente que a cadeira.

Silverfish pegou o megafone.

—    Senhoras e senhores — começou —, vocês têm o privilegio, nesta noite, de testemunhar um momento decisivo na história do Século do... — ele baixou o megafone e Victor o ouviu sussurrar, apressado, para um de seus assistentes "em que século estamos? É mesmo?" Depois ergueu novamente o megafone e continuou no tom pomposo e otimista do início: — ... Século do Morcego-de-Frutas! Nada menos que o nascimento da Kinematographia! Imagens que se movem sem o auxílio de magia!

ele esperou os aplausos. Não houve nenhum. A multidão apenas olhava para ele. era preciso mais do que simplesmente terminar suas frases com um ponto de exclamação para conseguir uma salva de palmas de uma multidão de Ankh-Morpork.

Levemente abatido, ele prosseguiu:

—    Dizem que e preciso Ver para Crer! Porém, senhoras e senhores, vocês não Acreditarão nos Seus Próprios Olhos! O que estão prestes a testemunhar e o Triunfo das Ciências Naturais! A Maravilha de uma era! A Descoberta do Mundo, não, ouso dizer, de Dimensões capazes de Abalar o Universo!...

—    Tem que ser melhor do que aquela maldita salsicha, pelo menos — disse uma voz discreta perto do joelho de Victor.

—    ... Mecanismos Naturais combinados com equipamentos Profissionais para criar Ilusão! Ilusão, Senhoras e Senhores, sem o recurso da Magia!...

Victor baixou lentamente a direção do seu olhar. Não havia nada ali alem do cachorrinho, se coçando, compenetrado. ele ergueu a cabeça devagar e disse:

—Au au?

—    ... Potencial educativo! As Artes! História! Agradeço-lhes, Senhoras e Senhores! Senhoras e Senhores, Vocês Ainda Não Viram Nada!

Houve rnais uma pausa esperançosa para os aplausos. Alguém à frente da multidão disse:

—    É verdade. Não vimos mesmo.

—    É — concordou a mulher ao lado dele. — Quando é que você vai parar de falar e começar a brincadeira das sombras?

—    É isso mesmo — gritou uma segunda mulher. — Faz o "Coelho Deformado". Meus filhos adoram.

Victor olhou para o outro lado por algum tempo, para desviar a atenção do cachorro, e depois olhou bem para ele.

ele observava a multidão com um ar afável e aparentemente nem o notava.

Victor cutucou o ouvido, explorando-o com o dedo. Deve ter sido uma ilusão causada por um eco ou algo do tipo. Não que o cachorro tivesse feito "au au!", embora isso por si só já seja algo singular. A maioria dos cachorros do universo nunca faz "au au" eles latem coisas complicadas, como "ahhuuuh!" e "uauuhh!". Não, o cachorro realmente não tinha latido. ele tinha dito "au au".

Victor balançou a cabeça e voltou a olhar para Silverfish, que descia da frente da tela e fazia um sinal para que um de seus assistentes começasse a girar a manivela ao lado da caixa. Houve um rangido que depois se transformou num clique contínuo. Sombras indefinidas dançaram na tela, e depois...

Uma das últimas coisas de que se lembrou foi uma voz ao lado do seu joelho dizendo:

—    Poderia ter sido pior, senhor. eu poderia ter dito "miau".

Sonhos de Holy Wood...

e agora oito horas haviam se passado.

Ponder Stibbons, com o corpo pendente, olhou com culpa para a carteira vazia ao seu lado. Não era típico de Victor faltar em dia de prova. ele sempre dizia que gostava do desafio.

—    Preparem-se para virar a folha de prova — disse o fiscal no final do corredor. Sessenta peitos de 60 futuros magos em potencial ficaram apertados com uma tensão carregada, insuportável. Ponder mexia sua caneta da sorte com ansiedade.

O mago no estrado virou a ampulheta.

— Podem começar.

Alguns dos alunos mais convencidos viraram a folha estalando os dedos. Ponder os odiou de imediato.

ele estendeu o braço para pegar seu tinteiro da sorte, errou feio o movimento por causa do nervosismo e o derrubou. Um pequeno lago negro invadiu sua folha de perguntas.

O pânico e a vergonha tomaram conta dele. esfregou a tinta com a barra do manto, espalhando-a de modo uniforme sobre a carteira. Sua rã desidratada da sorte tinha sido carregada pelo fluxo.

Vermelho de constrangimento, respingando tinta preta, lançou um olhar de súplica para o mago responsável, e depois um olhar de imploração para a carteira vazia ao seu lado.

O mago consentiu com a cabeça. Ponder, agradecido, passou para a fileira ao lado, esperou seu coração desacelerar e, em seguida, com muito cuidado, virou a folha que estava sobre a carteira.

Dez segundos depois, e sem nenhuma razão lógica, virou a folha de novo, imaginando que houvera algum engano e que o resto das perguntas estaria de alguma forma do outro lado.

Ao seu redor, havia o silêncio intenso de 59 mentes rachando com o esforço incessante.

Ponder virou a folha novamente.

Talvez fosse algum engano. Não... o selo da Universidade e a assinatura do arqui-reitor estavam lá. Poderia ser uma espécie de prova especial. Talvez o estivessem observando para ver o que iria fazer...

ele espiou ao redor disfarçadamente. Os outros alunos pareciam estar se esforçando muito. Talvez fosse mesmo um engano. Sim. Quanto mais ele pensava, mais lógico parecia. O arqui-reitor provavelmente tinha assinado as folhas, e depois, quando os copistas faziam as cópias, um deles copiou a importantíssima primeira pergunta, se distraiu com alguma coisa e ninguém notou que ele não tinha acabado. então ela foi colocada sobre a carteira de Victor, mas agora ele não estava presente, e Ponder a recebeu. "Isso significa", ele pensou num ataque repentino de fé cega, "que os deuses provavelmente querem que eu a receba." Afinal, não era sua culpa receber por engano uma folha daquele jeito. Provavelmente seria um sacrilégio ou algo do tipo desprezar aquela oportunidade.

eles tinham que aceitar o que você escrevesse. Ponder não tinha dividido o quarto com a maior autoridade em regras de exames do mundo sem aprender uma coisinha ou outra.

Olhou de novo para a pergunta: "Qual é o seu nome?"

ele respondeu.

Após algum tempo, sublinhou a resposta várias vezes com sua régua da sorte.

Depois de mais algum tempo, para demonstrar disposição, escreveu acima dela: "A resposta à pergunta um é:".

Mais dez minutos depois, arriscou um "Que é o meu nome" na linha de baixo e o sublinhou.

"Pobre Victor, vai lamentar muito ter perdido esta", pensou. "Onde será que ele está?"

Ainda não havia estrada para Holy Wood. Qualquer um que tentasse chegar lá teria que pegar a rodovia para Quirm e, em algum ponto sem qualquer indicação no meio da paisagem atrofiada, fazer um brusco desvio de rota e seguir na direção das dunas. Os barrancos eram repletos de lavandas e alecrins selvagens. Não havia nenhum som, a não ser o zumbido das abelhas e o canto distante de uma cotovia, que apenas tornavam o silêncio ainda mais evidente.

Victor Tugelbend saiu da estrada no ponto em que o barranco havia sido derrubado e aplanado pela passagem de muitas carroças e, pelo jeito, por um número incrível de pessoas.

Ainda havia muitos quilômetros pela frente. ele seguiu arrastando os pés.

Ouvia vagamente uma voz dizendo coisas como "Onde estou? Por que estou fazendo isso?" Outra parte dele sabia que realmente não precisava fazer aquilo. Como a vítima do hipnotizador que sabe que não está sendo hipnotizada de verdade e pode sair do transe na hora que quiser mas não está com vontade de fazê-lo naquele exato momento, ele deixou seus pés serem conduzidos.

Não sabia ao certo por quê. Sabia apenas que havia algo do qual ele tinha que fazer parte. Algo que talvez jamais fosse acontecer de novo.

Um pouco atrás, mas ganhando terreno rapidamente, estava Dibbler Cava-a-própria-Cova, tentando montar um cavalo. ele não tinha muita aptidão para cavaleiro, e de vez em quando tomava um tombo ou outro. essa era uma das razões pelas quais ainda não ultrapassara Victor. A outra era que ele havia feito uma parada, antes de sair da cidade, para vender, a um preço promocional, sua salsicha no pão para um anão que não acreditou na sorte que teve (mesmo depois de provar as salsichas, ainda não conseguia acreditar na própria sorte).

Alguma coisa chamava Dibbler, e essa coisa tinha uma voz de ouro.

Muito atrás de Cova, com as juntas dos dedos arrastando na areia, vinha Detritus, o troll. e difícil saber ao certo em que ele estava pensando. Seria como tentar saber no que uma pomba estaria pensando. ele apenas sabia que o local onde deveria estar não era aquele onde estava.

Finalmente, ainda mais atrás, na mesma estrada, vinha uma carroça de oito cavalos que levava uma carga de madeira para Holy Wood. Seu condutor não estava pensando muito em coisa nenhuma, embora estivesse levemente intrigado com um incidente que ocorrera bem na hora em que saía de Ankh-Morpork, na escuridão da madrugada. Uma voz na penumbra ao lado da estrada gritara "Pare em nome da guarda municipal!", e ele parou, mas nada mais aconteceu. ele olhou ao redor e não havia ninguém ali.

A carroça passou fazendo um estrondo, revelando, aos olhos do observador imaginativo, o pequeno vulto de Gaspode o Cão Prodígio, tentando se aconchegar entre as toras de madeira na parte traseira. ele também estava indo a Holy Wood.

E também não sabia por quê.

Mas estava determinado a descobrir.

Ninguém teria acreditado que nos últimos anos do Século do Morcego-de-Frutas, os acontecimentos do Disco eram observados de modo impaciente e cheio de interesse por inteligências maiores que a do Homem — ou pelo menos muito mais imorais —, que suas questões eram inspecionadas e estudadas da maneira como um homem com um apetite de três dias estudaria o cardápio intitulado Tudo o que Você Puder Comer Por Um Dólar na entrada da Casa das Costelas de Harga...

Bem, na verdade... a maioria dos magos teria acreditado, se alguém tivesse contado a eles.

E o bibliotecário certamente teria acreditado.

E a senhora Marietta Cosmopilite, da rua Quirm, número três, Ankh-Morpork, também teria acreditado. Mas ela acreditava que o mundo era redondo, que uma cabeça de alho na sua gaveta de roupas íntimas afastava os vampiros, que fazia bem sair e dar umas risadas de vez em quando, que havia bondade em todo mundo, desde que se soubesse para onde olhar, e que três anõezinhos terríveis a espiavam enquanto ela se despia todas as noites.4

Holy Wood!...

... ainda não era grande coisa. Apenas uma colina perto do mar e, do outro lado, muitas dunas. Uma área com um tipo especial de beleza, que só e bela se você puder sair logo dali ir a algum outro lugar que ofereça banhos quentes e bebidas geladas. Na verdade, ficar ali durante qualquer período era uma penitência.

No entanto, havia uma cidade ali... é verdade. Cabanas eram construídas em qualquer lugar onde largassem uma carga de madeira. eram toscas, como se os construtores se ressentissem pelo tempo gasto com aquilo, um tempo que poderiam ter usado para algo muito mais importante, algo que realmente tinham vontade de fazer. eram caixas quadradas de tábuas. Exceto pela fachada.

Para entender Holy Wood — Victor diria anos depois —, era necessário entender suas construções.

Você via uma caixa sobre a areia. ela possuía um telhado pontudo e mal acabado, mas isso não importava, porque nunca chovia em Holy Wood. Havia rachaduras nas paredes, tapadas com panos velhos. As janelas eram buracos — o vidro era frágil demais para ser carregado de Ankh-Morpok até lá. e, na frente de tudo, a fachada era como um enorme outdoor de madeira sustentado por uma rede de escoras.

Vista de frente, era uma extravagância arquitetônica barroca com detalhes entrelaçados, esculpidos, pintados e ornados. em Ankh-Morpork, chamar muito a atenção, e deixavam a decoração para o interior. Mas Holy Wood fazia casas do avesso.

 

  1. ela estava certa quanto a isso, mas era apenas uma coincidência.

 

Victor andou pelo que parecia uma avenida principal entorpecida. ele havia acordado cedo no meio das dunas. Por quê? Havia decidido ir a Holy Wood, mas por quê? Não conseguia se lembrar. Tudo o que conseguia se lembrar era que, no momento da decisão, parecera ser o mais óbvio a fazer. Havia centenas de bons motivos.

Se ao menos pudesse se lembrar de um deles...

Não que em sua mente houvesse algum espaço para lembranças. ela estava ocupada demais se conscientizando de que ele estava com muita fome e uma sede intensa. Seus bolsos carregavam um total de sete centavos. Isso não pagaria nem uma tigela de sopa, quanto mais uma boa refeição.

Precisava de uma boa refeição. Tudo ficaria muito mais claro após uma boa refeição.

Ele andou entre a multidão. A maior parte das pessoas parecia carpinteiros, mas havia outras, carregando galões ou caixas misteriosas. Todo mundo se movia de modo muito rápido e decidido, entregue a algum objetivo importante.

exceto ele.

Seguiu pela avenida improvisada, olhando pasmado para as casas, sentindo-se um gafanhoto perdido num formigueiro. e não parecia haver...

— Vê se olha por onde anda!

Bateu num muro. Quando retomou o equilíbrio, a pessoa em quem havia esbarrado já tinha sumido no meio da multidão, ele ficou olhando por um momento e depois saiu correndo atrás dela.

—    Ei! — gritou. — Desculpe! Por favor? Moça?

ela parou e esperou, impaciente, até que ele a alcançasse.

—    Então? — era 30 centímetros mais baixa que ele, e tinha formas indefiníveis, já que a maior parte de seu corpo estava escondida por um vestido ridiculamente cheio de babados, ainda que menos cômico que a enorme peruca loira cheia de cachos que usava. Seu rosto estava branco de tanta maquiagem, com exceção dos olhos, que tinham um forte contorno preto. O efeito geral era o de um abajur que não tinha uma boa noite de sono havia muito tempo. — então? — ela repetiu. — Anda logo! Tenho que entrar em cena daqui a cinco minutos!

—É... ela se soltou um pouco.

—Não, não me diga. Você acabou de chegar. É tudo novo para você. Não sabe o que fazer. está com fome. Não tem dinheiro. Acertei?

—    Sim! Como você sabia?.

—    Todo mundo começa assim. e agora você quer invadir os cliques, certo?

—    Os cliques?

ela revirou os olhos até desaparecerem os círculos pretos.

—    As imagens animadas!

—    Ah... — "eu realmente quero", pensou. "eu não sabia, mas quero. Sim. Foi por isso que vim para cá. Por que não pensei nisso antes?" — Sim. Sim, é isso o que eu quero fazer. eu quero... é... invadir. e como se faz isso?

—    espera-se uma eternidade. Até ser notado. — A garota o olhou de cima a baixo com um desprezo explícito.

—    Por que não aprende a mexer com carpintaria? Holy Wood sempre precisa de bons assassinos de florestas.

Então ela deu uma volta e desapareceu, perdida na multidão de pessoas atarefadas.

—    E... obrigado! — Victor gritou para ela. — Obrigado. — ele ergueu a voz e acrescentou: — espero que seus olhos melhorem!

Victor balançou as moedas que tinha no bolso.

Bem, carpintaria estava fora de cogitação. Parecia muito trabalho pesado. Havia tentado uma vez, e a madeira e ele logo chegaram a um acordo: ele não a tocaria, e ela não racharia.

esperar uma eternidade até parecia interessante, mas era preciso dinheiro para fazê-lo.

Seus dedos se fecharam em torno de um pequeno e inesperado retângulo. ele o retirou do bolso para ver o que era.

O cartão de Silverfish.

O endereço no cartão, Holy Wood, nº. 1, era na verdade um conjunto de barracos delimitado por uma cerca alta. Havia uma fila diante do portão. era formada por trolls, anões e humanos. Pareciam estar por ali havia algum tempo. Na verdade, alguns deles tinham uma postura de desânimo tão natural ao ficarem parados de pé que davam a entender que tinham evoluído a partir dos formadores de fila pré-históricos.

Ao lado do portão havia um homem grande e corpulento, que observava a fila com o olhar arrogante dos detentores de pequenos poderes.

—    Com licença... — começou Victor.

—    O senhor Silverfish não vai contratar mais ninguém esta manhã — disse o homem pelo canto da boca. — então cai fora.

—    Mas ele disse que se algum dia eu viesse para...

—    eu não acabei de dizer cai fora, amigo?

—    Sim, mas...

A porta que havia na cerca se abriu um pouco. Um rosto pequeno e pálido apareceu.

—    Precisamos de um troll e de alguns humanos. Um dia, o valor de sempre. — O portão se fechou novamente.

O homem se esticou e colocou as mãos cheias de cicatrizes ao redor da boca.

—    Vamos lá, bando de horrorosos! — gritou. — Vocês ouviram o homem! — ele passou os olhos pela fila com a naturalidade de um criador de gado. — Você, você e você — escolheu, apontando.

—    Com licença — insistiu Victor, querendo ser prestativo —, mas acho que aquele homem ali estava na frente...

ele foi empurrado para o lado. Os três sortudos entraram. Victor ficou com a impressão de ter visto o brilho de moedas trocando de mãos. em seguida, o porteiro virou o rosto vermelho de raiva na direção dele.

—    Você, vai pro fim da fila. e fica por lá!

Victor olhou bem para ele. Olhou para o portão. Olhou para a longa fila de pessoas abatidas.

—    Hum, não. Acho que não. Obrigado assim mesmo.

—    então se manda!

Victor deu um sorriso amigável. Andou até o fim da cerca e percorreu toda sua extensão. em seu outro extremo, ela entrava num beco estreito.

Victor vasculhou os entulhos, comuns em qualquer beco, até encontrar um pedaço de papel. Depois arregaçou as mangas e somente então examinou cuidadosamente a cerca até achar algumas tábuas soltas que, com um pouco de esforço, lhe deram passagem.

Isso o levou a uma área cheia de pilhas de madeira para construção e montes de tecidos. Não havia ninguém por perto.

Com o andar determinado, consciente de que alguém com as mangas arregaçadas, andando com determinação e segurando um pedaço de papel facilmente visível jamais seria incomodado, seguiu pelo mundo maravilhoso de madeira e lona da Interessante e Instrutiva Kinematographia.

Havia prédios pintados na parte de trás de outros prédios. Havia árvores que de frente eram árvores e por atrás, apenas um monte de escoras. Havia uma agitação de pessoas em atividade, embora, pelo que Victor pôde ver, ninguém estivesse realmente produzindo nada.

ele viu um homem com uma longa capa e um chapéu pretos e um bigode que parecia uma piaçava amarrar uma garota a uma das árvores. Ninguém parecia querer impedi-lo, ainda que ela estivesse se debatendo. Algumas pessoas, na verdade, assistiam sem muito interesse, e havia um homem atrás de uma caixa grande sobre um tripé girando uma manivela.

ela esticava os braços, suplicando, e abria e fechava a boca sem emitir nenhum som.

Uma das pessoas que assistiam se levantou, mexeu em uma pilha de placas ao seu lado e segurou uma delas diante da caixa.

Era preta. em branco, estava escrito: "Não! Não!"

Ele saiu de perto. O vilão retorceu o bigode. O homem voltou com uma placa. Desta vez, estava escrito: "Ahá! Minha bhela orghulhosa!"

Outro observador, que permanecia sentado, pegou um megafone.

—    Ótimo. Ótimo. está bem, façam um intervalo de cinco minutos e depois, todos aqui de volta para a grande cena de luta.

O vilão desamarrou a garota. eles saíram andando. O homem parou de girar a manivela, acendeu um cigarro e abriu a parte de cima da caixa.

—    Todo mundo entendeu o que ele disse? — perguntou.

Houve um couro de gritos impacientes.

Victor foi até o homem do megafone e deu um tapinha em seu ombro.

—    Recado urgente para o senhor Silverfish!

—    Ele está lá nos escritórios — disse o homem, apontando para trás com o polegar, sem olhar à sua volta.

—    Obrigado.

O primeiro galpão em que ele pôs a cabeça não continha nada alem de fileiras de pequenas jaulas que se estendiam na escuridão. Vultos indefinidos se atiravam contra as grades e guinchavam para ele. ele bateu a porta correndo.

A porta seguinte revelou Silverfish, parado diante de uma mesa coberta de cacos de vidro e montes de papel. ele não se virou.

—    Coloque ali, por favor — ordenou distraidamente.

—    Sou eu, senhor Silverfish — disse Victor.

Silverfish se virou e olhou com uma expressão vaga para ele, como se fosse culpa de Victor que seu nome não significasse nada. —Sim?

—    Vim por causa daquele emprego. Sabe?

—   Que emprego? O que eu devo saber? Como é que você conseguiu entrar aqui?

—    Eu invadi as imagens animadas — disse Victor. — Mas não é nada que um martelo e uns pregos não dêem jeito. — O pânico tomou conta da expressão de Silverfish. Victor sacou o cartão e acenou com ele de uma forma que esperava ser tranqüilizadora. — em Ankh-Morpork? Algumas noites atrás? O senhor estava sendo ameaçado...

O mistério foi elucidado.

—    Ah, sim — disse Silverfish quase para si mesmo. — e você é o rapaz que deu uma ajuda.

—    E o senhor me disse para procurá-lo se eu quisesse animar imagens. Naquela hora eu não queria. Mas agora eu quero. — ele abriu um sorriso radiante para Silverfish.

Mas pensou: "ele vai tentar se livrar dessa. está lamentando a oferta. Vai me mandar de volta para a fila".

—    Bem, claro, muita gente talentosa quer entrar para o ramo das imagens animadas. em breve teremos som. então, você é carpinteiro? Alguma experiência alquímica? Já treinou diabretes? Alguma habilidade manual de qualquer tipo?

—    Não — admitiu Victor.

—    Sabe cantar?

—    Um pouco. No banheiro. Mas não muito bem — Reconheceu Victor.

—    Sabe dançar?

—Não.

—    Espadas? Sabe manejar uma espada?

—    Um pouco — disse Victor. ele havia usado espadas algumas vezes na academia. Nunca chegara a lutar contra um oponente, uma vez que os magos em geral abominam exercícios, e o único outro residente da Universidade que chegara a entrar no local havia sido o bibliotecário, e apenas para usar as cordas e os aros. Mas Victor havia praticado uma técnica vigorosa e idiossincrática na frente do espelho, e não havia sido derrotado nenhuma vez.

—    Entendi — disse Silverfish, desanimado. — Não sabe cantar. Não sabe dançar. Sabe manejar a espada um pouco.

—    Mas salvei sua vida duas vezes.

—    Duas? — questionou Silverfish.

—    Sim — respondeu Victor. ele respirou fundo. Aquilo seria arriscado. — Aquela vez e agora.

Houve uma longa pausa. Depois Silverfish disse:

—    eu realmente acho que não há nenhuma necessidade disso.

—    Me desculpe, senhor Silverfish — pediu Victor. — eu realmente não sou esse tipo de pessoa, mas o senhor fez a oferta, e eu andei até aqui, não tenho dinheiro, estou com fome e farei qualquer trabalho que o senhor me der. Qualquer um mesmo. Por favor.

Silverfish olhou para ele, desconfiado.

—    Até de ator?

—    Perdão?

—    Andar de um lado para o outro e fingir que está fazendo coisas — explicou Silverfish, tentando ajudar.

—Sim!

—    É uma pena, um rapaz inteligente e educado como você. O que é que você faz?

—    estou estudando para ser m... — Victor começou. ele se lembrou da antipatia de Silverfish pela magia e se corrigiu —... balconista.

—    Malconista? — perguntou Silverfish

—    Mas não sei se conseguiria ser ator — confessou Victor.

Silverfish ficou surpreso.

—Ah, você vai se sair bem. e muito difícil ser um mau ator em imagens animadas. — ele remexeu nos bolsos e tirou uma moeda de um dólar. — Toma. Vai comprar alguma coisa para comer.

ele olhou Victor de cima a baixo.

—    Está esperando alguma coisa? — perguntou.

—    Bem, espero que o senhor possa me dizer o que está acontecendo.

—    Como assim?

—Algumas noites atrás, eu assisti ao seu, seu clique — ele sentiu um leve orgulho por ter se lembrado do termo — lá na cidade, e de repente quis estar aqui mais do que qualquer outra coisa. eu nunca quis alguma coisa de verdade na minha vida antes!

A expressão de Silverfish se abriu num sorriso aliviado.

—Ah, é isso. Isso é apenas a magia de Holy Wood. Não magia de magos — acrescentou rapidamente —, que não passa de superstição sem pé nem cabeça. Não. e uma magia para pessoas comuns. Sua mente está efervescendo com todas as possibilidades. eu sei como é. A minha também estava.

—    Sim — concordou Victor, ainda meio em dúvida. — Mas como é que funciona?

O rosto de Silverfish se iluminou.

—    Você quer saber? Você quer saber como as coisas funcionam?

—    Sim, eu...

—    Sabe, a maioria das pessoas e tão decepcionante. Você lhes mostra algo realmente maravilhoso, como a caixa de imagens, e elas só dizem "oh". Nunca perguntam como funciona. Senhor Bird!

A última palavra foi gritada. Depois de algum tempo, uma porta se abriu do outro lado do barracão, e um homem apareceu.

Ele tinha uma caixa de imagens presa com uma tira no pescoço. Havia ferramentas variadas penduradas no seu cinto. Suas mãos eram manchadas de substâncias químicas, e ele não tinha sobrancelhas, o que Victor veio a saber mais tarde que era um sinal de que a pessoa andou mexendo com octocelulose. Também estava com o boné virado para trás.

—    Este é Gaffer Bird5 — apresentou Silverfish, sorrindo. — Nosso operador—chefe. Gaffer, este e Victor. ele vai atuar para nós.

—    Ah — disse Gaffer, olhando para Victor da mesma forma como um açougueiro olharia para uma carcaça. — Vai mesmo?

—    e ele quer saber como as coisas funcionam!

Gaffer olhou para Victor com mais uma expressão pessimista.

—    Barbante — começou, desanimado. — Tudo funciona com barbante. Você ficaria impressionado ao ver como as coisas cairiam aos pedaços por aqui se não fôssemos eu e meu rolo de barbante.

Houve uma agitação repentina na caixa pendurada em seu pescoço. ele bateu nela com a palma da mão.

—    Podem parar com isso, vocês — disse. ele balançou a cabeça para Victor. — eles ficam rebeldes quando a rotina e interrompida.

—    O que tem na caixa? — perguntou Victor. Gaffer piscou para Silverfish.

—    Aposto que você gostaria de saber.

Victor se lembrou das coisas enjauladas que vira no outro barracão.

—    O som parece o de demônios comuns — observou, cauteloso.

Gaffer fez uma expressão de aprovação, como a que poderia ser feita para um cachorro que tivesse acabado de fazer um truque difícil.

—    É, isso mesmo — Reconheceu.

—    Mas como faz para eles não escaparem? — perguntou Victor. Gaffer lançou-lhe um olhar malicioso.

—    É uma coisa impressionante, o barbante.

Dibbler Cava-a-própria-Cova era uma daquelas raras pessoas com a habilidade para pensar em linha reta.

 

  1. Gaffer significa eletricista-chefe no mundo da televisão e do cinema. (N. T.)

 

A maioria das pessoas pensa em curvas e ziguezagues. Por exemplo, começam com um pensamento como "Como será que posso ficar muito rico?" Depois prosseguem por uma direção incerta que inclui pensamentos como "O que será que tem pro jantar?" e "Quem será que eu conheço que pode me empresar cinco dólares?"

Ao passo que Cova era uma daquelas pessoas que têm a capacidade de identificar o pensamento no outro extremo do processo — neste caso "Sou muito rico agora" —, traçar uma linha entre os dois e depois pensar em como percorrê-la, de forma lenta e paciente, até chegar ao outro extremo.

Não que desse certo. Sempre havia, ele descobriu, alguma falha, pequena, porém vital, no processo. Geralmente envolvia uma estranha relutância por parte das pessoas em comprar o que ele tinha que vender.

Mas as economias da sua vida estavam agora guardadas num saco de couro dentro do seu colete. ele já havia ficado em Holy Wood por um dia. Tinha visto a sua organização periclitante, se e que chegava a tanto, com o olhar de um eterno vendedor. Parecia não haver lugar para ele ali, mas isso não era problema. Sempre havia espaço em cima.

Um dia, pedindo informações e observando com atenção, foi parar na Interessante e Instrutiva Kinematographia. Agora permanecia do outro lado da rua, observando com cautela.

Ele observou a fila. Observou o homem do portão. E tomou uma decisão.

Caminhou ao lado da fila. ele tinha cérebro. Sabia que tinha cérebro. Só precisava de músculos. em algum lugar aqui deve haver...

—    Tarde, senhor Dibbler.

Aquela cabeça achatada, aqueles braços compridos, aquele lábio inferior ondulado, aquela voz coaxante que anunciava um Q.I. do tamanho de uma noz. O resultado era...

—    Sou eu, Detritus. Quem diria, você aqui, hein?

ele abriu um sorriso para Dibbler que parecia uma rachadura surgindo no apoio vital de uma ponte.

—    Olá, Detritus. Tá trabalhando nos filmes? — perguntou Dibbler.

—    Não exatamente trabalhando — respondeu Detritus, envergonhado.

Dibbler olhou calmamente para o troll, cujos punhos calejados geralmente davam a última palavra em qualquer briga de rua.

—    Eu acho isso repugnante — disse. Pegou seu saco de dinheiro e separou cinco dólares. — Você gostaria de trabalhar para mim, Detritus?

Com um ar respeitoso, Detritus passou a mão na sobrancelha arqueada.

—    Está certo, seu Dibbler.

—    Venha por aqui.     

Dibbler caminhou de volta ao início da fila. O homem ao lado da porta estendeu o braço para barrar sua passagem.

—    Aonde pensa que vai, colega?

—    Tenho um horário marcado com o senhor Silverfish — informou Dibbler.

—    e ele sabe disso? — perguntou o guarda com um tom de voz que sugeria que ele pessoalmente não acreditaria naquilo mesmo se visse por escrito, num documento oficial.

—    Não, ainda não.

—    Bom, meu amigo, nesse caso você só vai conseguir... —Detritus?

—    Sim, seu Dibbler?

—    Bata neste homem.

—    Está certo, seu Dibbler.

O braço de Detritus girou num arco de 180 graus. O guarda saiu do chão e atravessou a porta, indo parar entre seus escombros, a vários metros dali. Houve uma comemoração na fila.

Dibbler lançou um olhar de aprovação para o troll. Detritus não estava usando nada alem de uma tanga esfarrapada que cobria o que quer que os trolls achassem necessário esconder.

—    Muito bem, Detritus.

—    está certo, seu Dibbler.

—    Mas precisamos providenciar um traje para você. Agora, por favor, vigie o portão. Não deixe ninguém entrar.

—    está certo, seu Dibbler.

Dois minutos depois, um cachorrinho cinzento passou correndo entre as pernas curtas e arqueadas do troll e saltou sobre os restos do portão, mas Detritus não fez nada a respeito porque todo mundo sabe que cachorros não são ninguém.

— Senhor Silverfish? — disse Dibbler.

Silverfish, que atravessava o estúdio trazendo uma caixa com um novo estoque de filmes, hesitou diante da visão da figura esquelética que vinha em sua direção como uma doninha perdida. A expressão de Dibbler era a de algo longo, liso e branco que vinha nadando do mar aberto para as águas rasas onde ficam as crianças.

—    Sim? — respondeu Silverfish. — Quem e você? Como é que conseguiu...

—    Dibbler é o meu nome. Mas gostaria que me chamasse de Cova. ele apertou a mão de Silverfish, que não ofereceu resistência, e depois colocou a outra mão no ombro do homem e deu um passo à frente, apertando com força a primeira mão. O efeito era uma afabilidade aguda, e queria dizer que, se Silverfish recuasse, deslocaria o próprio cotovelo.

—    E só gostaria que soubesse — prosseguiu Dibbler — que estamos todos incrivelmente impressionados com o que vocês, rapazes, estão fazendo aqui.

Silverfish notou que sua mão estava sendo ardorosamente amigável com o outro e sorriu de modo incerto.

—    Ah, é? — arriscou.

—    Tudo isto... — Dibbler soltou o ombro de Silverfish apenas pelo tempo suficiente para indicar, num gesto expansivo, o caos energético que os cercava. — Fantástico! Maravilhoso! e aquela sua última coisa, como e que chama mesmo...?

—    Dhiabruras na Loja — disse Silverfish. — Aquele em que o ladrão rouba as salsichas e o vendedor vai atrás dele?

—    Sim — confirmou Dibbler, com um sorriso amarelo congelando por apenas um ou dois segundos até voltar a ser sincero de verdade. — Sim. esse mesmo. Impressionante! Realmente genial! Uma metáfora que se sustenta de forma belíssima!

—    Esse nos custou quase 20 dólares, sabe — disse Silverfish, com orgulho modesto. — Mais 40 centavos para as salsichas, e claro.

—    Impressionante! e deve ter sido visto por centenas de pessoas, não?

—    Milhares.

Agora não seria possível fazer nenhuma analogia ao sorriso de Dibbler. Se ele conseguisse ser um pouco mais largo, o topo da sua cabeça teria caído.

—    Milhares? — repetiu. — Sério? Tantas assim? e é claro que elas lhe pagam... e... quanto...?

—    Ah, no momento apenas fazemos uma coleta de contribuições — disse Silverfish. — Apenas para cobrir os custos enquanto estamos na fase experimental, entende? — ele olhou para baixo. _ Por favor — acrescentou —, poderia soltar a minha mão agora?

Dibbler seguiu a direção do seu olhar.

_ É claro! — disse, e soltou. A mão de Silverfish continuou subindo e descendo sozinha por algum tempo, por efeito de puro espasmo muscular.

Dibbler ficou em silêncio por um momento, com a expressão de um homem em comunhão profunda com algum deus interno. em seguida, disse:

—    Sabe, Thomas... Posso chamá-lo de Thomas? Quando vi aquela obra—prima, pensei, "Dibbler, por trás de tudo isso existe um artista criativo..."

—    ... como sabia que meu nome era...

—    “... um artista criativo", pensei, "que deveria ser livre para seguir sua inspiração em vez de ser sobrecarregado com todos os complicados detalhes administrativos." estou certo?

—    Bem... é verdade que toda essa papelada é um pouquinho...

—    Exatamente o que pensei. e eu disse: "Dibbler, você deveria ir lá agora mesmo e oferecer a ele os seus serviços. Sabe como e. Administrar. Tirar o peso dos ombros dele. Deixar que ele avance no que faz melhor". estou certo? Tom?

—    Eu, eu, eu, sim, claro, e verdade que o meu forte está realmente mais em...

—    está bem! está bem! Tom, eu aceito!

Os olhos de Silverfish estavam vidrados.

—e...

Dibbler deu um soquinho amigável no ombro dele.

—    É só me mostrar a papelada. Depois você pode ir lá pra fora e fazer o que quer que seja que você faz tão bem.

—    É... Sim — disse Silverfish.

Dibbler o segurou pelos dois braços e lhe transmitiu mil watts de honestidade.

—    Este é um momento de orgulho para mim — disse, com a voz rouca. — Não consigo lhe dizer o quanto isso significa para mim. Posso afirmar de todo o coração que este é o dia mais feliz da minha vida. Quero que saiba disso. Tommy. Sinceramente.

O silêncio respeitoso foi quebrado por uma contida risada de deboche.

Dibbler olhou vagarosamente ao redor. Não havia ninguém atrás deles, a não ser um pequeno vira-lata cinzento sentado à sombra de uma pilha de tábuas. O cão notou a expressão dele e colocou a cabeça para o lado.

—    Au? — ele disse.

Dibbler Cava-a-própria-Cova olhou ao redor por um momento, procurando alguma coisa para atirar nele, mas percebeu que assim sairia do personagem e voltou ao aprisionado Silverfish.

—    Sabe — disse com sinceridade —, foi realmente uma sorte para mim ter conhecido você.

O almoço numa taverna custou o dólar e mais alguns centavos para Victor. Foi uma tigela de sopa. Todas as coisas custavam muito caro, dissera o taberneiro, porque tudo tinha que ser trazido de longe. Não havia nenhuma fazenda perto de Holy Wood. Afinal, quem iria querer plantar coisas se podia fazer filmes?

Então ele se apresentou a Gaffer para o teste de tela.

O teste consistia em ficar parado durante um minuto enquanto o operador de manivela o observava feito uma coruja através de uma caixa de imagens. Depois que o minuto passou, Gaffer disse:

—    Certo. Você é um talento nato, garoto.

—    Mas eu não fiz nada — contestou Victor. — Você só me pediu para não me mexer.

—    É. Isso mesmo. e disso que precisamos. Pessoas que saibam ficar paradas Sem nada da atuação extravagante do teatro.

—    Mas você ainda não me disse o que os demônios fazem dentro da caixa — disse Victor.

—    eles fazem isto — começou Gaffer, abrindo alguns fechos. Uma fileira de olhinhos malévolos encarou Victor. — estes seis demônios aqui — disse, apontando com cuidado para evitar as garras — olham através do pequeno buraco na frente da caixa e pintam um quadro do que vêem. Tem que haver seis deles, certo? Dois para pintar, e quatro para soprar e secar a pintura. Por causa do próximo quadro, que vem em seguida, entende? Isso porque, transparente gira um grau para baixo e dá espaço para a próxima pintura. — ele girou a manivela. ela fez cliqueclique, e os diabretes começaram a falar numa linguagem confusa.

—    Por que eles fizeram isso?

—    Ah, isso e porque a manivela também faz girar esta rodinha com chicotes. e a única maneira de fazer com que eles trabalhem rápido o suficiente. ele e um danadinho preguiçoso, o típico diabrete. e tudo por feedback, de qualquer modo. Quanto mais rápido você gira a manivela, mais rápido o filme passa, mais rápido eles têm que pintar. Você tem que acertar bem a velocidade. Muito importante esse trabalho de operador de manivela.

—    Mas não e tudo muito, bem, cruel.

Gaffer pareceu surpreso.

—    Oh, não. Na verdade, não. eu tenho descanso a cada meia hora. Normas do Grêmio dos Operadores de Manivela. — ele andou um pouco ao lado da bancada, onde havia outra caixa com o painel de trás aberto. Dessa vez era uma gaiola cheia de lagartos com ar preguiçoso, que olharam surpresos e tristes para Victor. — Não ficamos muito felizes com essa, mas e o melhor que podemos fazer. A salamandra comum, sabe, fica deitada no deserto o dia todo, absorvendo luz e, quando fica assustada, expele a luz de volta. Mecanismo de autodefesa e o nome disso. então, enquanto o filme passa e este dispositivo aqui abre e fecha, a luz delas sai através do filme e destas lentes aqui e vai para a tela. Basicamente muito simples.

—    Como você faz para elas se assustarem? — perguntou Victor.

—    está vendo esta manivela?

—Oh.

Victor cutucou a caixa de imagens, pensativo.

—    Bom, está bem. então você faz um monte de imagenzinhas. e as gira bem rápido. Deveríamos ver um borrão, mas não vemos.

—    Ah — disse Gaffer, apertando a lateral do nariz. — Segredo do Grêmio de Operadores de Manivela, isso sim. Passado de iniciado para iniciado — acrescentou num tom Sério.

—   Achei que as pessoas só fizessem filmes há alguns meses.

Gaffer ainda teve a decência de fazer uma cara de cínico.

—    Bem, sim, no momento estamos passando mais de colega para colega — admitiu. — Mas nos dê alguns anos e logo estaremos passando de iniciado para iniciado... não mexe nisso!

Victor fez um movimento repentino, com sentimento de culpa, tirando a mão de uma pilha de latas sobre a bancada.

—    Tem filme de verdade aí dentro — alertou Gaffer, empurrando-os com cuidado para o lado. — Tem que ter muito cuidado com isso. ele num pode ficar quente demais porque e feito de octocelulose e também num gosta de batidas bruscas.

—    O que acontece com ele nesse caso? — perguntou Victor, olhando fixamente para as latas.

—    Vai saber... Ninguém viveu por tempo suficiente para contar.

—    Gaffer olhou para a expressão de Victor e abriu um sorriso largo.

—    Não se preocupe com isso. Você vai ficar na frente da caixa de imagens animadas.

—    Só que eu não sei atuar.

—    Você sabe fazer o que lhe pedem?

—    O quê? Bom. Sim. Acho que sim.

—    e tudo o que precisa, rapaz. e tudo o que precisa. Isso e grandes músculos.

eles saíram à luz do sol escaldante e seguiram para o barracão de Silverfish.

Que estava ocupado.

Dibbler Cava-a-própria-Cova estava conhecendo o cinema.

—    O que eu imaginei — começou Dibbler — e que, bem, olha.

Alguma coisa assim.

ele ergueu um cartaz.

estava escrito, com uma letra tremida:

Depois desta apresenthação, Por que Não Vhisitar A Casa das Costhelas de Harga, Para o Melhor da Hawt Cuisyne

—   O que e hawt cuisyne? — perguntou Victor.

—    e estrangeiro — respondeu Dibbler. ele olhou, aborrecido, para Victor. Ter alguém como ele debaixo do mesmo teto não fazia parte dos planos. esperava o momento de poder ficar sozinho com Silverfish. — Significa comida — acrescentou.

Silverfish ficou olhando para o cartaz.

—    O que e que tem? — perguntou.

—    Por que você — disse Dibbler, falando com muito cuidado

—    não ergue este cartaz ao final da performance?

—    Por que faríamos isso?

—    Porque alguém como Sham Harga pode te pagar mui... algum dinheiro para isso.

eles ficaram olhando para o cartaz.

—    eu comi na Casa das Costelas de Harga — observou Victor.

—    eu não diria que e a melhor. A melhor, não. Muito longe de ser a melhor. — ele parou para pensar um pouco. — O mais distante de ser a melhor que se possa imaginar, na verdade.

—    Isso não importa — disse Dibbler rispidamente. — Isso não e importante.

—    Mas — começou Silverfish —, se ficássemos dizendo para todos os lados que a Casa das Costelas de Harga e a melhor da cidade, o que todos os outros restaurantes iriam pensar?

Dibbler se debruçou sobre a mesa.

—    eles pensariam "Por que não pensamos nisso antes?"

ele se recostou. Silverfish lhe lançou um olhar radiante de incompreensão.

—    Segure o cartaz na minha frente só mais uma vez, por favor —  pediu. —        eles vão fazer exatamente a mesma coisa! — exclamou Dibbler.

—    e mesmo — concordou Victor. — eles vão querer que a gente mostre cartazes com coisas como "Harga Não e o Melhor Restaurante da Cidade. O Nosso e que e".

—    Algo do tipo, algo do tipo — disse Dibbler, impaciente, lançando um olhar penetrante para ele. — Talvez a gente tenha que pensar melhor nas palavras, mas algo do tipo.

—    Mas, mas — Silverfish lutava para se adiantar na conversa — Harga não vai gostar disso, vai? Se ele nos pagar para dizer que o seu estabelecimento e o melhor, e recebermos dinheiro de outras pessoas para dizer que o estabelecimento delas e o melhor, ele fatalmente vai...

—    Nos dar mais dinheiro — interrompeu Dibbler — para dizer a mesma coisa de antes, só que em letras maiores.

eles olharam fixamente para ele.

—    Você acha mesmo que isso vai funcionar? — perguntou Silverfish.

—    Sim — disse Dibbler num tom categórico. — Vocês ouvem os feirantes todas as manhãs. eles não gritam "Laranjas quase fresquinhas, só um pouco amassadas, preço razoável", gritam? Não, eles gritam "Compra a laranja, aproveita que tá bunita". Bom senso comercial. ele se debruçou sobre a mesa novamente. — Me parece que você precisa de algo assim por aqui.

—    Parece que sim — concordou Silverfish, hesitante.

—    e, com o dinheiro — disse Dibbler, sua voz parecendo um pé-de-cabra fincado nas rachaduras da realidade —, você realmente poderia continuar aperfeiçoando sua arte.

Silverfish se animou um pouco.

—    e verdade. Por exemplo, uma forma de colocar som no...

Dibbler não estava ouvindo. Apontou para uma pilha de

tábuas encostadas na parede.

—    O que e aquilo?

—    Ah. Aquilo foi idéia minha. Achamos que seria... e... bom

senso comercial — saboreou as palavras como se fossem algum

novo doce raro — informar às pessoas sobre as outras imagens

animadas que estamos fazendo.

Dibbler pegou uma das tábuas e a segurou à distância de um braço, com olhar crítico. Estava escrito:

 

Na Próxima Semana Apresentharemos

Pelias e Melisande,

Uma Thragedia Rhomântica em Dois Rolos

Obrigado

 

—    Ah — disse, desinteressado.

—    Não está bom? — perguntou Silverfish, agora totalmente abatido. — Quer dizer, aí está tudo o que é preciso saber, não?

—    Me permite? — perguntou Dibbler, pegando um pedaço de giz da mesa de Silverfish. ele rabiscou concentradamente nas costas do cartaz durante algum tempo e depois o virou.

Agora estava escrito:

 

Os Debuxes e os Homens Dhisseram Que Não era Para Aconthecer, Mas eles Não Quiseram Ouvir!

Pelias e Melisande, Uma esthória de Um Amor Proibido!

Uma Saga Ardhente de Paixão que Superou Thempo e espaço!

Você ficará athordoado!

Com 1.000 elefhantes!

 

Victor e Silverfish leram com atenção, como quem lê um cardápio de restaurante escrito numa língua estrangeira. Aquela era uma língua estrangeira e, para piorar as coisas, era também a língua deles.

—    Bem — começou Silverfish. — O que posso dizer... Não sei se teve algo proibido. E... foi apenas muito histórico. Achei que ajudaria, entende, as crianças e coisas assim. A aprender história. Eles nunca chegaram a ficar juntos, sabe, e isso foi trágico. Tudo muito... é... triste. — Ficou olhando para o cartaz. — embora eu deva dizer que você conseguiu algo impressionante aí. e... — ele pareceu incomodar-se com algo. — Na verdade, não me lembro de nenhum elefante — observou, como se a culpa fosse dele. — estive lá a tarde toda em que o fizemos, e não me lembro de mil elefantes em nenhum momento. Tenho certeza de que teria notado.

Dibbler manteve o olhar fixo. Ele não sabia de onde vinham, mas, agora que tinha se envolvido com a situação, tinha idéias muito claras sobre o que deveria ser colocado nos filmes. Mil elefantes era um bom começo.

—    Nenhum elefante? — perguntou.

—   Acho que não.

—    Bom, tem alguma garota dançando?

—    Hum... não.

—    Alguma perseguição violenta e pessoas penduradas pelas pontas dos dedos à beira de um precipício?

O rosto de Silverfish se iluminou um pouco.

—    Acho que tem uma sacada em algum momento. Acho que Melisande se debruça sobre ela.

—    Sim, mas o público vai prender a respiração com medo de que ela caia?

—    Espero que estejam prestando atenção na fala de Pelias —       disse Silverfish, impaciente. — Tivemos que usar cinco cartazes. Com letras miúdas.

Dibbler suspirou.

—    Acho que eu sei o que as pessoas querem, e elas não querem ficar lendo um monte de coisa escrita em letras miúdas. elas querem espetáculo!

—    Gente caindo da sacada? — perguntou Victor, sarcástico.

—    Querem dançarinas! Querem emoção! Querem elefantes! Querem pessoas caindo do telhado! Querem sonhos! O mundo está cheio de pessoas pequenas com grandes sonhos!

—    O quê? Você quer dizer anões, gnomos e coisas assim? —perguntou Victor.

—    Não!

—    Diga-me, senhor Dibbler — começou Silverfish —, qual é exatamente a sua profissão?

—    Eu vendo mercadorias.

—    Principalmente salsichas — disse Victor voluntariamente.

—    E mercadorias — Dibbler acrescentou rapidamente. — Só vendo salsichas quando o negócio de mercadorias fica meio devagar.

—    E a venda de salsichas o leva a acreditar que pode produzir imagens animadas melhores que as minhas? — questionou Silverfish. — Qualquer um pode vender salsichas! Não é mesmo, Victor?

— Bom... — começou Victor, relutante. — Ninguém a não ser senhor Dibbler conseguiria vender as salsichas do Dibbler.

—    Aí está, então — disse Silverfish.

— A questão é — continuou Victor — que o senhor Dibbler consegue até vender salsichas para pessoas que já compraram dele antes.

—    Isso mesmo! — concordou Dibbler, abrindo um sorriso para Victor.

—    E um homem que consegue vender as salsichas do senhor Dibbler duas vezes consegue vender qualquer coisa.

A manhã seguinte estava clara e radiante, como todos os dias em Holy Wood, e eles começaram As Aventhuras Intheressantes e Curiosas de Cohen o Bárbaro. Dibbler havia trabalhado a noite toda na história, segundo ele.

O título, Porém, era idéia de Silverfish. Apesar de Dibbler ter lhe garantido que Cohen o Bárbaro consistia basicamente num tema histórico e certamente educativo, Silverfish se recusou a aceitar O Vhale de Sangue!

Victor recebeu o que parecia ser uma bolsa de couro, mas descobriu ser o seu figurino. Ele se trocou atrás de duas pedras.

Também recebeu uma espada grande e cega.

—    Agora — disse Dibbler, que estava sentado numa cadeira de lona — o que você tem que fazer e lutar com os trolls, sair correndo e desamarrar a garota da estaca, lutar com os outros trolls e depois correr para trás daquela outra pedra ali. A minha idéia e essa. O que você acha, Tommy?

—    Bom, eu... — começou Silverfish.

—    Ótimo. Ok. Sim, Victor?

—    Você falou em trolls. Que trolls?

As duas pedras se desdobraram.

—    Não se preocupe com nada, meu senhor — disse o troll mais próximo. — eu e o véio Galena ali já ensaiamo tudo.

—    Troll! — exclamou Victor, afastando-se.

—    Isso mesmo — disse Galena. Ele exibiu uma clava com um prego na ponta.

—   Mas, mas... — começou Victor.

—    Sim? — perguntou o outro troll.

O que Victor gostaria de ter dito era: "Mas vocês são trolls, pedras ambulantes e ferozes que vivem nas montanhas e atacam os viajantes com clavas enormes, muito parecidas com as que seguram agora, e eu pensei, quando disseram trolls, que estavam se referindo a homens comuns vestindo, ah, sei lá, sacos pintados de cinza ou algo do tipo".

—    Que bom — disse sem firmeza. — e...

—    E não dê ouvidos a essas histórias de que a gente come gente —disse Galena. Isso e calúnia, isso sim. Quer dizer, a gente e feito de pedra, pra que a gente ia querer comer gente...

—    Ingulir — corrigiu o outro troll. — Você quer dizer ingulir.

—    e. Pra que a gente ia querer ingulir gente? A gente sempre cospe o bagaço. e, mesmo assim, a gente já parou com essas coisa agora — acrescentou rapidamente. — e a gente nem fazia. — ele cutucou Victor com o cotovelo de um jeito amigável, quase quebrando uma de suas costelas. — e legal aqui — disse num tom conspirador.

—    A gente ganha três dólares por dia, mais um dólar extra para o protetor solar, por estar trabalhando durante o dia.

—    Caso contrário, a gente vira pedra e fica assim até escurecer, o que e um problema — observou o seu companheiro.

—    e, atrasa a filmagem, e as pessoas ficam acendendo palito de fósforo na gente.

—    Alem disso, nosso contrato diz que recebemos mais cinco centavos por usar a nossa própria clava — disse o outro troll.

—    Será que podemos começar?... — começou Silverfish.

—    Por que só tem dois trolls? — reclamou Dibbler. — Que heroísmo existe em lutar com apenas dois trolls? eu pedi 20, não pedi?

—    Dois está bom para mim! — gritou Victor.

—    Ouça, senhor Dibbler — começou Silverfish —, sei que está tentando ajudar, mas a economia básica...

Silverfish e Dibbler começaram a discutir. Gaffer, o operador de manivela, suspirou e tirou a parte de trás da caixa de imagens animadas para dar comida e água para os demônios, que estavam reclamando.

Victor se apoiou na espada.

_ Vocês fazem muito esse tipo de coisa, é? — perguntou aos trolls.

_ É — respondeu Galena. — O tempo todo. Tipo, em O Rei na Bharriga, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e bateu nas pessoas. e em A Florestha Negra, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e bateu nas pessoas. e, em Montanha Mistheriosa, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e pulou pra cima e pra baixo em cima das pessoas. Não vale a pena ficar estereotipado. —    e você, faz a mesma coisa? — Victor perguntou ao outro troll.

—    Ah, o Morraine é um ator que representa tipos, não é, Morraine? — disse Galena. — O melhor no ramo.

—    Que tipos ele representa?

—    Pedras.

Victor ficou olhando fixamente para eles.

—    Por causa das feições escarpadas dele — continuou Galena. — Não apenas pedras. Você tem que ver ele fazendo um monólito antigo. Você ficaria pasmado. Vai, Morry, mostra pra ele a sua inscrição.

—    Nãão... — disse Morraine, sorrindo encabulado.

—    estou pensando em mudar o meu nome para trabalhar nas imagens animadas — prosseguiu Galena. — Algo com um pouco de classe. Pensei em Sílex. — ele lançou um olhar de preocupação para Victor, como se ele fosse um especialista na variedade de expressões possíveis para um rosto que parecia ter saído de um bloco de granito depois de um chute com uma bota de bico de aço. — O que e que cê acha?

—    Ê... Muito legal.

—    Mais dinâmico, eu achei — disse o futuro Sílex. Victor se ouviu dizer:

—    Ou Rocha. Rocha é um nome legal.

O troll ficou olhando para ele, mexendo os lábios sem emitir som, experimentando o pseudônimo.

—    Nossa. Nunca pensei nisso. Rocha. Gostei. Acho que eu devia receber mais de três dólar por dia com um nome que nem Rocha.

—    Podemos começar? — perguntou Dibbler num tom severo.

—    Talvez seja possível ter mais trolls se este filme for um sucesso. Mas não será um sucesso se extrapolarmos o orçamento, o que significa que temos que terminá-lo antes do almoço. Agora, Morry e Galena...

—    Rocha — corrigiu Rocha.

—    Sério? Bom, de qualquer modo, vocês dois saiam correndo e ataquem Victor, ok? Certo... vire...

O operador de manivela virou a manivela da caixa de imagens. Houve um barulho fraco de cliques e um coro de pequenos gemidos dos demônios. Victor ficou olhando com uma postura alerta.

—    Isso significa que você pode começar — disse Silverfish, paciente. — Os trolls saem correndo de trás das pedras e você se defende com valentia.

—    Mas eu não sei como lutar contra trolls! — reclamou Victor.

—    Vou te dizer uma coisa — observou o recém-batizado Rocha. —Você finge que se defende, e a gente meio que dá um jeito de não acertar você.

A luz baixou.

—    Quer dizer que é tudo fingimento?

Os trolls trocaram um olhar breve, mas que conseguiu expressar: "Impressionante, não é?, que criaturas como esta aparentemente governem o mundo?"

—    É — disse Rocha. — É isso aí. Nada é real.

—    Não temos permissão para matá-lo — reiterou Morraine de modo tranqüilizador.

—    Isso mesmo. A gente não ia matar você— concordou Rocha.

—    eles pára de pagar o nosso dinheiro se a gente faz coisas do tipo — explicou Morraine, com tristeza.

Do lado de fora da falha na realidade, eles se aglomeravam e espiavam o que acontecia lá dentro com coisas que se assemelhavam a olhos, analisando a luz e o calor. Havia uma multidão deles agora.

Já houve uma passagem de entrada um dia. Dizer que se lembravam disso seria errado porque não possuíam nada tão sofisticado quanto a memória. eles mal tinham algo tão sofisticado quanto uma cabeça. Mas tinham, sim, instintos e emoções.

Precisavam de uma passagem para dentro.

eles a encontraram.

Funcionou muito bem na sexta vez. O problema principal era o entusiasmo dos trolls para bater um no outro, no chão, no ar e, com muita freqüência, em si mesmos. No final, Victor apenas se concentrou em tentar acertar as clavas quando elas passavam zunindo por ele.

Dibbler parecia muito feliz com isso. Gaffer não estava.

—    Eles se mexiam muito de um lado para o outro. Ficaram fora de enquadramento metade do tempo.

—    Era uma batalha — disse Silverfish.

—    É, mas eu não consigo mexer a caixa de imagens de um lado para o outro — disse o operador de manivela. — Os diabretes caem.

—    Você não poderia prendê-los com uma correia ou algo do tipo? — perguntou Dibbler.

Gaffer cocou o queixo.

—    Acho que eu poderia pregar os pés deles no chão.

—    De todo modo, por enquanto não será necessário — disse Silverfish. — Faremos as cenas em que você salva a garota. Onde está a garota? eu a instruí claramente para estar aqui. Por que ela não está aqui? Por que ninguém nunca faz o que eu mando?

O operador de manivela tirou o toco de cigarro da boca.

—    Ela está filmando A Avhentureira Loura lá do outro lado da colina — informou.

—    Mas esse tinha que ter sido terminado ontem! — gritou Silverfish.

—    O filme explodiu — explicou o operador.

—    Droga! Bem, acho que podemos fazer a próxima luta. ela não precisa estar presente — disse Silverfish, irritado. — Certo, pessoal. Faremos a parte em que Victor luta contra o terrível Balgrog.

—   O que e um Balgrog? — perguntou Victor.

Uma mão amigável, Porém pesada, bateu em seu ombro.

—    É um monstro malvado tradicional. Basicamente é o Morry pintado de verde com asas grudadas — disse Rocha. — eu só tenho que ir lá ajudar ele com a pintura.

Rocha saiu arrastando os pés.

Ninguém parecia precisar de Victor no momento.

ele enfiou a espada ridícula na areia, andou sem destino e encontrou um pouco de sombra debaixo de algumas oliveiras secas. Havia algumas rochas ali. Bateu nelas de leve. Não pareciam ser alguém.

O chão formava um pequeno vale fresco que quase chegava a ser agradável para os padrões secos da colina de Holy Wood.

Havia até uma corrente de ar proveniente de algum lugar. Quando se recostou nas pedras, sentiu uma brisa fresca saindo delas. "Deve estar cheio de cavernas aqui embaixo", pensou.

... longe dali, na Universidade Invisível, numa pequena corrente de ar, num corredor cheio de pilares, um aparelhinho em que ninguém prestava muita atenção havia anos começou afazer um barulho...

Então isso era Holy Wood. ela não parecia ser assim na tela grande. As imagens animadas envolviam muito mais espera e, se estava ouvindo bem, uma confusão com horários. As coisas aconteciam antes das coisas que lhes sucediam. Os monstros eram apenas Morry pintado de verde com asas grudadas. Nada era de verdade.

O engraçado era o fato de isso ser empolgante.

—    Já estou quase farta disto — disse uma voz ao seu lado.

Ele olhou para cima. Uma garota vinha pelo outro caminho. Seu rosto estava vermelho de esforço sob uma maquiagem pálida, seus cabelos caíam sobre o rosto em cachinhos ridículos, e ela usava um vestido que, embora claramente feito para o seu tamanho, tinha sido criado para alguém dez anos mais jovem e fanático por fitas com rendas.

Era muito bonita, embora esse fato não fosse notado de imediato.

—   E sabe o que dizem quando você reclama? — ela perguntou. Não se dirigia a Victor, na verdade. ele era apenas um oportuno par de ouvidos.

— Não consigo imaginar — respondeu Victor, por educação.

—    Dizem "Tem muita gente por aí só esperando uma chance para entrar para o ramo das imagens animadas". Isso é o que eles dizem.

Ela se encostou-se a uma árvore retorcida e se abanou com um chapéu de palha.

—    Está quente demais — reclamou. — Agora eu tenho que fazer um filme ridículo de um rolo para Silverfish, que não tem a mínima idéia do que está fazendo. E algum garoto, provavelmente com mau hálito, feno no cabelo e uma testa em que daria para colocar uma mesa.

—    E trolls — completou Victor num tom suave.

—    Oh, deuses. Morry e Galena, não!

—    Sim. Só que Galena agora quer ser chamado de Rocha.

—    Achei que ia ser Sílex.

—    Ele gostou de Rocha.

De trás das rochas, veio o berro queixoso de Silverfish, perguntando aonde havia ido todo mundo justamente quando precisava deles. A garota revirou os olhos.

—    Oh, deuses. Por causa disso estou perdendo o almoço?

—    Não se esqueça de que pode comer na minha testa — disse Victor, levantando-se.

Ele teve a satisfação de sentir na nuca o olhar pensativo dela enquanto pegava sua espada e fazia com ela alguns movimentos experimentais, com muito mais força que o necessário.

—    Você é o garoto da rua, não é? —perguntou.

—    Isso mesmo. E você é a garota que ia entrar em cena dali a cinco minutos.

Ela o olhou com curiosidade.

—    Como você conseguiu um emprego tão rápido ? A maioria das pessoas tem que esperar semanas para ter uma chance.

—    As chances estão onde você as encontra, eu sempre digo.

—Mas como...

Victor já havia saído de perto com um ar de indiferença e satisfação. ela o seguiu de cara fechada e fazendo um beicinho petulante.

—    Ah — disse Silverfish num tom sarcástico, erguendo o rosto. — O que eu posso dizer? Todo mundo está onde deveria. Muito bem. Vamos começar da parte em que ele a encontra amarrada a uma estaca. O que você tem que fazer — disse para Victor — é desamarrá-la, depois arrastá-la para longe e lutar com Balgrog. E você— apontou para a garota — você... você... você apenas o segue e tenta parecer o mais salva que puder, certo?

—    Sou boa nisso — ela disse, conformada.

—    Não, não, não — interrompeu Dibbler, pondo a cabeça entre as mãos. — De novo não!

—    Não e isso o que você queria? Lutas e salvamentos?

—    Tem que ser mais do que isso! — disse Dibbler.

—    O quê, por exemplo? — perguntou Silverfish.

—    Ah, não sei. Zástrás. Bang. O velho ratatatá.

—    Barulhos esquisitos? Nós não temos som.

—    Todo mundo faz filmes sobre gente correndo, lutando e caindo. Devia ter algo mais. Tenho visto as coisas que você faz por aqui, e todas parecem iguais para mim.

—    Bom, todas as salsichas parecem iguais para mim — gritou Silverfish.

—    Elas têm que ser! é isso o que as pessoas esperam!

—    Eu também estou dando a elas o que esperam. As pessoas gostam de ver mais daquilo que esperam ver. Lutas e perseguições, esse tipo de coisa...

—    Licença, senhor Silverfish — interrompeu o operador de manivela por cima da falação dos demônios.

—    Sim? — gritou Dibbler.

—    Licença, senhor Dibbler, mas eu tenho que dar comida pra eles daqui a 15 minutos.

Dibbler suspirou.

Pensando em retrospectiva, Victor estava sempre um pouco incerto sobre esses minutos que vinham a seguir. As coisas são assim. Os momentos que mudam a nossa vida são aqueles que acontecem de repente, como o momento em que morremos.

Mais uma batalha estilizada tinha acontecido, isso ele sabia, com Morry e o que teria sido um chicote terrível caso o troll não o tivesse enrascado entre as pernas. e, depois que o temível Balgrog foi derrotado e saiu de cena fazendo caretas horríveis, tentando segurar as asas com uma mão, ele se virou e cortou as cordas que prendiam a garota à estaca. então ele deveria tê-la arrastado rapidamente para a direita quando...

... começou um zumbido.

Não havia palavras, mas algo que era a alma das palavras entrava direto pelos seus ouvidos e descia pela espinha sem se dar ao trabalho de fazer uma parada no cérebro.

Ele olhou nos olhos da garota e se perguntou se ela também estaria ouvindo.

Muito longe dali havia palavras. Havia Silverfish dizendo:

—    Andem logo, vamos com isso, por que está olhando para ela desse jeito?

E o operador de manivela dizendo:

—    Eles fica muito mal-humorado quando perde uma refeição.

E Dibbler dizendo, com uma voz que sibilava feito uma faca cortando o ar:

—    Não pára de girar essa manivela!

Sua visão ficou nebulosa nos cantos e havia formas nas nuvens que se transformavam e desapareciam antes que ele tivesse a chance de examiná-las. Tão sem ação quanto uma mosca numa torrente de âmbar, tão no controle do seu destino quanto uma bolha de sabão num furacão, ele se inclinou e a beijou.

Havia mais palavras alem do zumbido nos seus ouvidos.

—    Por que ele está fazendo isso? eu mandei ele fazer isso? Ninguém mandou ele fazer isso!

—    ...E depois eu tenho que limpar eles e, vou te contar, não é nada...

—    Gire a manivela! Gire a manivela! — gritou Dibbler.

—    Por que ele está olhando com essa cara?

—Uau!

—Se você parar de girar essa manivela, nunca mais vai trabalhar nesta cidade!

—    Escuta aqui, meu senhor, acontece que eu faço parte do Grêmio dos Operadores de Manivela...

—    Não pára! Não pára!

Victor voltou a si. O zumbido parou e foi substituído pelo estrondo distante das britadeiras. O mundo real estava de volta, quente e voraz, e o sol fixo no céu parecia uma medalha concedida por ser um belo dia.

A garota respirou fundo.

—    Eu, nossa, eu sinto muito mesmo — balbuciou Victor, recuando. — eu realmente não sei o que aconteceu...

Dibbler não parava de pular.

—    É isso, é isso! — gritava. — Quando é que vai estar tudo pronto?

—    Bom, é como eu disse, tenho que alimentar os diabretes, limpar eles...

—    Está bem, está bem. Isso vai me dar tempo para desenhar alguns cartazes — disse Dibbler.

—    Eu já tenho alguns — observou Silverfish num tom desinteressado.

—    Tenho certeza de que sim, tenho certeza de que sim — disse Dibbler, animado. — Tenho certeza de que sim. E com certeza neles estão escritas coisas como "Pode ser que você goste de ver uma Imagem Animada Bem Interessante"!

—    Qual é o problema nisso? — perguntou Silverfish. — é muito melhor que uma maldita salsicha quente!

—    eu já te disse, quando você vende salsicha, não fica por aí esperando que as pessoas queiram salsicha. Você vai lá e faz as pessoas ficarem com fome. e você coloca mostarda nela. Foi isso o que o seu garoto aqui fez.

Ele pôs a mão no ombro de Silverfish e acenou com a outra de modo expansivo.

—    Você não está vendo? — perguntou. ele hesitou. Idéias estranhas invadiam sua mente mais rápido do que ele conseguia processar. Sentiu uma tontura diante da empolgação e das possibilidades. — espadha da Paixão. e assim que vai se chamar. Não vai ser um nome inventado por algum velho doido que nem deve estar mais vivo. espadha da Paixão. Sim. Uma Saga Conturbada de... de Desejo e Puro, Puro, Puro aquele negócio no Calor Primitivo de um Continente Atormentado! Romance! Glamour! em três Ardentes Rolos de Filme! emocione-se com a Luta Fatal com Monstros Vorazes! Grite quando mil elefantes...

—    É apenas um rolo — murmurou Silverfish, irritado.

—    Filme um pouco mais hoje à tarde! — gritou Dibbler, revirando os olhos. — Você só precisa de mais lutas e mais monstros!

—    e certamente não tem elefante nenhum — disse Silverfish num tom ríspido.

Rocha ergueu o braço áspero.

—    Sim? — perguntou Silverfish.

—    Se você tiver um pouco de tinta cinza e material pra fazer as orelhas, tenho certeza de que eu e o Morry poderíamos...

—    Ninguém jamais fez um filme de três rolos — disse Gaffer, pensativo. — Poderia ser muito complicado. Quer dizer, teria quase dez minutos de duração. — ele parecia refletir sobre algo. — Acho que se eu fizesse um carretel maior...

Silverfish sabia que estava encurralado.

—    Olha aqui — começou.

Victor olhou fixamente para a garota. Todos os outros os ignoravam.

—    È... Acho que não fomos apresentados formalmente.

—    Parece que você não deixou que isso o atrapalhasse.

—    eu normalmente não faria algo do tipo. eu devo ter... passado mal. Ou algo assim.

—    Ah, ótimo. está dizendo isso para que eu me sinta melhor?

—    Vamos sentar à sombra? está muito quente aqui fora.

—    Seus olhos ficaram meio... incandescentes.

—    Sério?

—    Ficaram muito esquisitos.

—    eu me senti muito esquisito.

—    eu sei. È este lugar. ele mexe com a gente. Sabia — ela disse, sentando-se na areia — que existe um monte de regras para os diabinhos? eles não podem se cansar demais, que tipo de alimento recebem, essas coisas. Mas ninguém se preocupa com a gente. Até os trolls recebem tratamento melhor.

—    Deve ser por causa do jeito como eles andam por aí, com seus 2,15 m de altura e 400 kg — observou Victor.

—    Meu nome é Theda Withel, mas meus amigos me chamam de Ginger.

—    Meu nome e Victor Tugelbend. e... meus amigos me chamam de Victor.

—    Este é o seu primeiro clique, não é ?

—    Como você sabe?

—    Você parecia gostar do que estava fazendo.

—    Bom, é melhor do que trabalhar, não e?

—    espere até estar nisto por tanto tempo quanto eu — ela disse num tom amargo.

—    Há quanto tempo você faz isto?

—    Praticamente desde o começo. Cinco semanas.

—    Nossa. Tudo aconteceu tão rápido.

—    É a melhor coisa que já aconteceu — disse Ginger sem entusiasmo.

—    Acho que sim... e... nós temos permissão para ir comer? — perguntou Victor.

—    Não. eles vão começar a gritar por nós a qualquer momento.

Victor concordou. Tinha, de modo geral, levado sua vida bastante satisfeito fazendo o que queria de maneira firme, porém despreocupada, e não achava que deveria ser diferente nem mesmo em Holy Wood.

—    então eles vão ter que gritar bem alto. eu quero comer alguma coisa e beber algo gelado. Talvez tenha tomado sol demais.

Ginger pareceu incerta.

—    Bom, tem o armazém, mas...

—    Ótimo. Você pode me mostrar onde fica.

—    eles demitem as pessoas como se não fosse nada...

—    O quê, antes do terceiro rolo de filme?

—    eles dizem "Tem muita gente que está morrendo de vontade de entrar para o ramo das imagens animadas", sabe...

—    Ótimo. Isso significa que terão a tarde toda para encontrar duas que sejam igualzinhas a nós. — ele passou por Morry, que também tentava se manter a sombra de uma rocha. — Se alguém precisar da gente, estamos almoçando.

—    O quê, bem agora? — perguntou o troll.

—    Sim — disse Victor com firmeza, e saiu andando a passos

largos.

Atrás dele, viu Dibbler e Silverfish concentrados numa discussão acalorada, com eventuais interrupções do operador de manivela, que falava no tom vagaroso de quem sabe que irá receber seis dólares pelo dia de trabalho independentemente de qualquer coisa.

—    ... vamos fazer dele um épico. As pessoas vão falar sobre isso durante séculos.

—    Sim, vão dizer que fomos à falência!

—    Olha, eu sei onde podemos conseguir umas estampas coloridas feitas com gravuras em madeira a um custo praticamente...

—    ... eu tava pensando, talvez se eu usar uns barbantes e amarrar a caixa de imagens animadas a umas rodas, pra ela poder ser movimentada...

—    As pessoas vão dizer "Aquele Silverfish, esse sim era um artista das imagens animadas, com coragem para dar às pessoas o que elas querem". e o que vão dizer. "Um homem que revolucionou a coisa dos meios de..."

—    ... talvez, se eu fizesse uma espécie de arranjo com uma vara

e um suporte giratório, a. gente pudesse deixar a caixa de imagens

bem perto do...

—    O quê? Você acha que vão dizer isso?

—    Confie em mim, Tommy.

—    Bem... está bem. está bem. Mas nada de elefantes. Quero

deixar isso absolutamente claro. Nada de elefantes.

— Parece esquisito para mim — disse o arqui-reitor. — Parece um bando de elefantes de cerâmica. Achei que você tivesse dito que era uma máquina. —        e mais... mais um aparelho — corrigiu o tesoureiro, incerto.

ele lhe deu um cutucão. Vários dos elefantes de cerâmica oscilaram.

— Riktor o Consertador, o construiu, acho. Foi antes da minha

época.

A peça parecia um vaso grande e decorado, quase da altura de um homem da altura de um vaso grande. Ao redor da borda, havia oito elefantes de cerâmica pendurados em pequenas correntes de bronze. Um deles balançou para frente e para trás com o toque do tesoureiro.

O arqui-reitor olhou dentro da peça.

—    e cheio de alavancas e foles — observou, com repugnância. O tesoureiro se virou para a zeladora da Universidade.

—    Bem, então, senhora Whitlow, o que aconteceu exatamente? A senhora Whitlow, enorme, rosada e com uma cinta de cima

a baixo, deu um tapinha na sua peruca ruiva e cutucou a pequena criada que pairava ao seu lado feito um barco rebocador.

—    Conte a sua senhoria, Ksandra — ordenou.

A expressão de Ksandra dizia que ela estava arrependida de ter começado aquilo.

—    Bem, senhor, por favor, senhor, eu estava tirando o pó, sabe...

—    ela estava tirando o pó — repetiu a senhora Whitlow, tentando ser útil. Quando a senhora Whitlow estava sob o domínio da consciência de classes, conseguia dobrar os erres que a natureza nem sequer pensou em dobrar.

—    ... e aí ele começou a fazer um baruio...

—    ele fez um barrrulho — repetiu a senhora Whitlow. — então, ela veio me contar, excelência, conforme as minhas instrrruções.

—    Que tipo de barulho, Ksandra? — perguntou o tesoureiro da forma mais gentil que pôde.

—    Por favor, senhor, era meio... — ela apertou os olhos — "whumm... whumm... whumm... whumm... whummwhummwhumm WHUMMWHUMMplib senhor.

—    Plib — repetiu o tesoureiro, num tom solene.

—    Sim, senhor.

—    Prrrim — ecoou a senhora Whitlow.

—    Foi então que ele cuspiu em mim, senhor — completou Ksandra.

—    expectorrrou — corrigiu a senhora Whiltow.

—    Parece que um dos elefantes lançou uma pequena bolinha de chumbo, mestre — observou o tesoureiro. — Isso foi o... e... oplib.

—    Foi? Caramba — disse o arqui-reitor. — Não dá para tolerar vasos escarrando em cima das pessoas.

A senhora Whitlow se contorceu.

—    Por que ele faria isso? — acrescentou Ridcully.

—    eu realmente não saberia dizer, mestre. Achei que talvez o senhor soubesse. Acredito que Riktor era professor aqui quando o senhor era aluno. A senhora Whitlow está muito preocupada — acrescentou, com uma entonação que deixava claro que, quando a senhora Whitlow estava preocupada com alguma coisa, seria imprudente que o arqui-reitor a ignorasse — com a intromissão da magia na vida dos empregados.

O arqui-reitor bateu no vaso com os nós dos dedos.

—    O quê, o velho Riktor dos "Números"? e esse mesmo o sujeito?

—    Parece que sim, arqui-reitor.

—    Totalmente louco. Achava que era possível medir tudo. Não apenas comprimentos e pesos, mas tudo. "Se algo existe," ele dizia, "deve ser possível medir." — Os olhos de Ridcully marejaram com a lembrança. — Fazia todo tipo de troço esquisito. Acreditava que era possível medir a verdade, a beleza, os sonhos e coisas assim. então esse e um dos brinquedinhos do velho Riktor? O que será que mede?

—    eu acho — arriscou a senhora Whitlow — que deve ser

guarrrdado em algum lugar fora do caminho dos brrraços, se

vocês não se importarrrem.

—    Sim, sim, sim, claro — se apressou em concordar o tesoureiro.

era difícil manter os empregados na Universidade Invisível.

—    Livre-se dele — ordenou o arqui-reitor.

O Tesoureiro ficou horrorizado.

—    Oh, não, senhor. Nós nunca jogamos nada fora. Alem disso, provavelmente e muito valioso.

—    Humm — ponderou Ridcully. — Valioso?

—    e possível que seja um artefato de importância histórica, mestre.

—    Deixe no meu escritório então. eu disse que o lugar precisava ficar mais agradável. Isso vai dar pano pra manga ainda, não? Agora tenho que ir. Tenho que resolver um assunto. Um homem que vai treinar um grifo. Tenham um bom dia, senhoras...

—    e... arqui-reitor, será que o senhor poderia apenas assinar... — começou o tesoureiro, mas diante de uma porta fechada.

Ninguém perguntou a Ksandra qual dos elefantes de cerâmica havia cuspido a bola, e a direção não teria significado nada para eles, de todo modo.

Naquela tarde, dois carregadores levaram o único resógrafo6 do universo ainda em funcionamento para o escritório do arqui-reitor.

Ninguém tinha encontrado uma forma de adicionar som às imagens animadas, mas havia um som particularmente associado a Holy Wood. O de pregos sendo martelados.

Holy Wood se tornara um lugar crítico. Casas novas, ruas novas e bairros novos apareciam da noite para o dia. e, naquelas áreas onde os aprendizes de alquimia mal orientados ainda não estavam totalmente a par dos estágios mais complicados da produção de octocelulose, desapareciam mais rápido ainda. Não que isso fizesse muita diferença. A fumaça mal se dissipava e alguém já estava martelando novamente.

Holy Wood crescia por meio de fissão. Só era preciso um rapaz com a mão firme, não—fumante e que soubesse ler símbolos químicos, um operador de manivelas, um saco de demônios e muita luz do sol. Ah, e algumas pessoas. Mas isso havia aos montes. Se não desse para criar demônios, misturar elementos químicos ou girar uma manivela com ritmo, ainda era possível segurar cavalos, servir mesas ou parecer interessante enquanto mantinha as esperanças. Ou, se tudo isso falhasse, martelar pregos. Prédios e mais prédios sem nenhuma firmeza margeavam a colina antiga,

 

  1. Lit.: "escritor de estados da existência objetiva", ou aparelho para detectar e medir perturbações na estrutura da realidade

.

suas tábuas já empenadas e desbotadas pelo sol impiedoso. Mas já havia demanda urgente por mais.

Porque Holy Wood chamava. Mais pessoas chegavam todos os dias. elas não vinham para trabalhar na estrebaria nem para ser empregadas de tavernas ou carpinteiros freelances. Vinham para fazer filmes.

e não sabiam por quê.

Conforme Dibbler Cava-a-própria-Cova sabia do fundo do seu coração, sempre que duas ou mais pessoas se reunissem, alguém tentaria vender a elas uma salsicha suspeita num pão.

Agora que Dibbler estava envolvido com outras coisas, outros haviam surgido para preencher essa função.

Um deles era Nodar Borgle, o klatchiano, cujo enorme galpão cheio de eco não era exatamente um restaurante, mas uma fábrica de alimentação. Grandes sopeiras fumegantes ocupavam um dos cantos. O resto era ocupado por mesas, e às mesas havia...

Victor ficou perplexo.

... havia trolls, humanos e anões. e alguns gnomos. e talvez até alguns elfos, a mais arisca das raças do Disco. e muitas outras coisas que Victor teve que torcer para que fossem trolls fantasiados, porque se não fossem estariam todos em sérios apuros. e todos comiam, e o mais incrível: não estavam comendo uns aos outros.

—    Você pega um prato, entra na fila e depois paga — explicou

Ginger. — Chama-se self-servo.

—    A gente paga antes de comer? e se a comida for horrorosa? Ginger concordou com a cara fechada.

—    e justamente por isso.

Victor deu de ombros e se inclinou para falar com o anão que estava atrás do balcão com a comida.

—    eu gostaria de...

—    Ê cuzido — disse o anão.

—    Que tipo de cozido?

 

—    Não existe mais de um tipo. Por isso e que e cuzido — respondeu o anão, impaciente. — Cuzido e cuzido.

—    O que eu quis dizer foi: o que tem nele?

—    Se você precisa perguntar, não está com fome suficiente

— disse Ginger. — Dois cozidos, Fruntkin.

Victor ficou olhando para a coisa marrom acinzentada que escorreu para o seu prato. Caroços estranhos, levados à superfície por misteriosas correntes de convecção, se agitaram por um momento e depois afundaram de volta — esperava—se que para sempre.

Borgle pertencia à escola gastronômica de Dibbler.

—    e cuzido ou nada, garoto. — Disse o cozinheiro com olhar

malicioso. — Meio dólar. Barato pela metade do preço.

Victor entregou o dinheiro com relutância e olhou ao redor, procurando Ginger.

—    Aqui — chamou Ginger, sentando—se a uma das mesas longas. — Olá, Thunderfoot. Oi, Breccia, tudo bom? este e o Vic. Garoto novo. Oi, Sniddin, não te vi aí.

Victor se viu apertado entre Ginger e um troll da montanha que usava algo parecido com um colete de malha de ferro, mas que na verdade era apenas o colete de malha de ferro de Holy Wood, ou seja, barbante tricotado e pintado de prateado.

Ginger começou a conversar animadamente com um gnomo de dez centímetros de altura e um anão que usava metade de uma fantasia de urso, deixando Victor um pouco isolado.

O troll acenou para ele com a cabeça e depois fez uma careta para o próprio prato.

—    Chamam isto de pedra-pomes. eles nem se dão ao trabalho de tirar a lava. e nem dá pra sentir o gosto da areia.

Victor olhou fixamente para o prato do troll.

—    eu não sabia que os trolls comiam pedra — disse, antes que pudesse se controlar.

—    Por que não?

—    Vocês não são feitos disso?

—    É, mas você é feito de carne, e o que você come? Victor olhou para o próprio prato.

—    Boa pergunta.

—    O Vic está fazendo um clique para Silverfish — disse Ginger, olhando ao redor. — Parece que eles vão fazer um de três rolos.

Houve um murmúrio geral de interesse.

Victor colocou, com cuidado, uma coisa amarela e trêmula ao lado do seu prato.

—    Digam uma coisa — começou, pensativo. — enquanto filmavam, algum de vocês teve um... ouviu uma espécie de... sentiu que estava... — ele hesitou. Todos olhavam para ele. — Vocês já sentiram que alguma coisa estava atravessando vocês? Não consigo pensar em nenhuma outra forma de dizer isso.

Seus companheiros de jantar relaxaram.

—    Isso e apenas Holy Wood — disse o troll. — ela mexe com a gente. É essa criatividade toda espirrando pra todos os lados.

—    Mas o que você teve foi um ataque bem sério — observou Ginger.

—    Acontece o tempo todo — disse o anão, pensativo. — É Holy Wood. Na semana passada, eu e os rapazes estávamos trabalhando em Contos dos Anões e, de repente, nós todos começamos a cantar. Sem mais nem menos. Uma música veio a nossa mente ao mesmo tempo. O que vocês acham disso?

—    Que música?

—    Sei lá. Nós a chamamos apenas de a música do "eu vou". era só isso. eu vou, eu vou. eu vou, eu vou.

—    Parece com todas as outras músicas de anão que já ouvi — resmungou o troll.

Passava das duas horas quando voltaram ao local onde se faziam imagens animadas. O operador de manivela havia retirado a parte de trás da caixa de imagens e raspava o fundo com uma pá pequena.

Dibbler estava dormindo na sua cadeira de lona com um lenço sobre o rosto. Mas Silverfish estava bem desperto.

—    Onde estavam vocês dois? — gritou.

—    eu estava com fome — disse Victor.

—    e você vai ficar com bastante fome, meu rapaz, por que... Dibbler ergueu a ponta do lenço.

—    Vamos começar — murmurou.

—    Mas não podemos aceitar que os atores nos digam...

—    Termina o clique e depois demite ele.

—    Certo! — Silverfish balançou um dedo ameaçador para Victor e Ginger. — Vocês nunca mais vão trabalhar nesta cidade!

De algum modo, conseguiram terminar a tarde de trabalho. Dibbler fez com que trouxessem um cavalo e xingou o operador de manivela porque a caixa de imagens ainda não podia ser movida de um lado para o outro. Os demônios reclamaram. então colocaram o cavalo de frente para a caixa, e Victor pulava para cima e para baixo na sela. Como disse Dibbler, para as imagens animadas, estava muito bom.

Depois Silverfish pagou dois dólares com muita má vontade a cada um deles e os demitiu.

—    ele vai contar para todos os alquimistas — disse Ginger, desanimada. — São muito unidos. Parecem colados com cola.

—    Notei que só recebemos dois dólares por dia, e os trolls recebem três — observou Victor. — Por que é assim?

—    Porque não tem tantos trolls querendo fazer imagens animadas. e um bom operador de manivela consegue receber seis ou sete dólares por dia. Atores não são importantes.

ela se virou e o encarou.

—    eu estava indo bem. Nada de especial, mas bem. Tinha bastante trabalho. As pessoas me consideravam confiável. eu estava construindo uma carreira...

—    Não dá para construir uma carreira em Holy Wood — disse Victor. — e como construir uma casa num pântano. Nada é real.

—    eu gostava daqui! e agora você estragou tudo! Provavelmente terei que voltar para uma aldeiazinha horrorosa de que você nunca sequer ouviu falar! Voltar para a maldita ordenha! Muito obrigada! Toda vez que eu vir o traseiro de uma vaca, vou me lembrar de você!

ela saiu com raiva em direção à cidade, deixando Victor com os trolls. Depois de algum tempo, Rocha limpou a garganta.

—    Você tem onde ficar? — perguntou.

—    Acho que não — respondeu Victor, vacilante.

—    Nunca tem lugar suficiente para passar a noite — disse Morry.

— eu estava pensando em dormir na praia — ponderou Victor. está bem quente, afinal. Acho que realmente preciso de um bom descanso. Boa noite.

ele saiu cambaleando naquela direção.

O sol estava se pondo, e uma brisa do mar esfriara um pouco coisas. Ao redor do vulto escuro da colina, as luzes de Holy Wood se acendiam. Holy Wood só relaxava na escuridão. Quando sua matéria-prima é a luz do dia, você não a desperdiça.

estava bastante agradável na praia. Ninguém ia muito lá. A madeira que boiava na praia, com fendas e coberta de sal, não era nada boa para a construção. ela ficava amontoada, formando uma longa linha branca na altura da maré.

Victor juntou o suficiente para fazer uma fogueira, deitou-se e ficou observando a arrebentação.

Do alto da duna mais próxima, escondido atrás de uma moita de grama seca, Gaspode o Cão Prodígio o observava com ar pensativo.

eram duas da madrugada.

ela os tinha agora, e se lançou com alegria para fora da colina, lançando seu brilho para o mundo.

Holy Wood sonha...

ela sonha por todos.

Na escuridão abafada de um galpão de tábuas, Ginger Withel sonhava com tapetes vermelhos e multidões alvoroçadas. e com uma grade de ferro. Sempre no seu sonho havia a imagem de uma grade através da qual um sopro de ar quente levantava a sua saia...

Na escuridão não muito mais fresca de um galpão um pouco mais caro, Silverfish, o artista das imagens animadas, sonhava com multidões alvoroçadas e com alguém lhe entregando um prêmio pela melhor imagem animada já feita. era uma grande estátua imponente.

Lá nas dunas de areia, Rocha e Morry dormiam um cochilo irrequieto, porque os trolls são criaturas noturnas por natureza e dormir no escuro era uma ofensa a seus instintos ancestrais. eles sonhavam com montanhas.

Na praia, sob as estrelas, Victor sonhava com cascos de cavalo batendo no chão, mantos esvoaçantes, navios piratas, lutas de espada, candelabros...

Na duna mais próxima, Gaspode o Cão Prodígio dormia com um olho aberto e sonhava com lobos.

Mas Dibbler Cava-a-própria-Cova não sonhava, porque não estava dormindo.

A viagem até Ankh-Morpork tinha sido longa, e ele preferia vender cavalos a montá-los. Mas estava lá agora.

As tempestades que desviaram de Holy Wood com tanto cuidado não se preocuparam com Ankh-Morpork, e ela se encontrava sob um pé d'água. Mas isso não atrapalhava a vida noturna da cidade — só a tornava mais abafada.

Não havia nada que não pudesse ser comprado em Ankh-Morpork, até mesmo no meio da madrugada. e Dibbler tinha que comprar muitas coisas. Precisava pintar cartazes. Precisava de todo tipo de coisa. Muitas envolviam idéias que ele havia concebido durante a longa viagem e agora tinha que explicar com muita cautela para outras pessoas. e rápido.

A chuva formava uma cortina compacta quando ele finalmente chegou cambaleando diante da luz cinzenta do amanhecer. As sarjetas transbordavam. Ao longo dos telhados, as gárgulas — calhas com carrancas — vomitavam com habilidade sobre os transeuntes, embora, como eram cinco da madrugada, as multidões haviam se dissipado um pouco.

Cova respirou fundo o ar carregado da cidade. Ar de verdade. era preciso ir muito longe para encontrar um ar mais real que o de Ankh-Morpork. Só de respirá-lo era possível perceber que outras pessoas faziam o mesmo havia milhares de anos.

Pela primeira vez após vários dias, sentiu que pensava com clareza. era estranho em Holy Wood. Quando você estava lá, tudo parecia natural, tudo parecia fazer parte da vida. Mas, quando você se afastava e se lembrava de como era lá, parecia olhar para uma grande bolha de sabão cintilante. era como se em Holy Wood você não fosse a mesma pessoa.

Bom, Holy Wood era Holy Wood, e Ankh era Ankh. e Ankh era concreta e resistente, na opinião de Cova, à esquisitice de Holy Wood.

ele chapinhou pelas poças, escutando a chuva.

Após algum tempo notou, pela primeira vez na vida, que ela tinha um ritmo.

engraçado. Você podia viver numa cidade a vida toda, mas era preciso sair dela e voltar para notar que o modo como a chuva gotejava das calhas tinha um ritmo todo próprio: DUM di—dum—dum, dumdi, dumdi, Dum—Dum...

Alguns minutos depois, o sargento Colon e o cabo Nobbs, da Guarda Noturna, compartilhavam um cigarro de palha cordialmente sob o abrigo do vão da porta e faziam o que os integrantes da Guarda Noturna sabiam fazer melhor, ou seja, manter-se aquecidos, secos e longe dos problemas.

eles foram as únicas testemunhas da figura esquisita que chapinhou pela rua encharcada, deu piruetas sobre as poças, segurou—se num tubo de escoamento para dar uma volta na esquina e, batendo um calcanhar no outro alegremente, desapareceu do campo de visão.

O sargento Colon passou o toco de cigarro empapado para seu companheiro.

—    Aquilo era o velho Dibbler Cova? — perguntou depois de algum tempo.

—    era — respondeu Nobby.

—    ele parecia feliz, não?

—    Deve estar doidão, eu acho. Pra ficar dançando na chuva desse jeito.

Whumm... whumm...

O arqui-reitor, que atualizava o seu registro de pedigrees de dragões enquanto apreciava um drinque noturno diante da lareira, ergueu a cabeça.

... whumm... whumm... whumm...

—    Caramba... — murmurou, e foi devagar até o grande vaso, que chegava a oscilar de um lado para o outro, como se o prédio estivesse tremendo.

O arqui-reitor ficou observando, fascinado.

... whumm... whummwhummivhummWHUMM.

O vaso oscilou até parar e ficou em silêncio.

—    esquisito — comentou o arqui-reitor. — esquisito pra danar.

Plib.

Do outro lado da sala, sua garrafa de conhaque se despedaçou. Ridcully o Castanho respirou fundo.

—    Tesoureiro?

Moscas da areia despertaram Victor. O ar já estava quente. Seria mais um belo dia.

ele andou pela água rasa para lavar e esvaziar a cabeça

Vejamos... ainda tinha dois dólares do dia anterior, mais um punhado de moedas. Possuía dinheiro para ficar mais um pouco, especialmente se dormisse na praia. e o "cuzido" do Borgle, ainda que só pudesse ser considerado comida no sentido técnico, era bem barato — embora, pensando bem, comer lá poderia significar encontros constrangedores com Ginger.

ele deu mais um passo e afundou.

Victor nunca havia nadado no mar. Voltou à tona, quase se afogando, batendo os pés com fúria. A praia estava a apenas alguns metros de distância.

ele relaxou, retomou o fôlego e seguiu num nado crawl vagaroso até transpor a arrebentação. A água era cristalina. Dava pra ver o fundo num declive brusco até — ele subiu para respirar um pouco — se tornar um azul turvo, no qual somente era possível ver, através dos cardumes, o contorno de rochas pálidas e retangulares espalhadas pela areia.

Tentou um mergulho, esforçando-se para descer até os ouvidos começarem a zunir. A maior lagosta que já vira abanou as antenas para ele, de cima de um cone rochoso, e arrancou para as profundezas.

Victor voltou à tona novamente, ofegante, e nadou até a margem.

Bom, se não conseguisse se dar bem no cinema, havia uma chance como pescador, isso era certo.

Um sem-teto também se daria bem por ali. Havia lenha seca empilhada ao lado das dunas em quantidade suficiente para manter lareiras de Ankh-Morpork abastecidas durante anos. Ninguém em Holy Wood sonharia acender uma fogueira se não fosse para cozinhar ou para ter companhia.

e alguém estava fazendo exatamente isso. enquanto andava até a areia, Victor percebeu que a madeira ao longo da praia havia sido empilhada, não de forma casual, mas aparentemente planejada, em pilhas bem arrumadas. Mais adiante, pedras tinham sido ajeitadas para formar uma lareira rústica.

ela estava cheia de areia. Talvez alguém estivesse morando na praia, esperando pela grande chance nas imagens animadas. Olhando bem, a madeira atrás das pedras semi-enterradas parecia ter sido arrastada até lá. era possível imaginar, vendo a partir do mar, que várias vigas de madeira tinham sido montadas para formar um vão de porta.

Talvez ainda houvesse alguém lá. Talvez tivessem algo para beber.

Realmente havia gente lá. Mas não precisava de bebida havia meses.

eram oito da manhã. Uma batida ensurdecedora à porta acordou Bezam Planter, o dono do Odium, um dos frutos da semente das imagens animadas em Ankh-Morpork.

ele tivera uma noite ruim. O povo de Ankh-Morpork gostava de novidades. O problema era que não gostavam de novidades por muito tempo. O Odium havia feito ótimos negócios durante uma semana, não teve prejuízos na segunda semana e agora estava definhando. A última sessão da noite passada havia sido prestigiada por um anão surdo e um orangotango que levara os amendoins de casa. Bezam contava com a venda de amendoins e grãos estourados para obter algum lucro, e não estava de bom humor.

ele abriu a porta e olhou para fora com a visão embaçada.

— estamos fechados até as duas horas. Matinê. Voltem nesse horário. Assentos liberados em todas as áreas.

ele bateu a porta. ela ricocheteou na bota de Dibbler Cova e atingiu Bezam no nariz.

—    eu vim para a sessão especial de espadha da Paixão —disse Cova.

—    Sessão especial? Que sessão especial?

—    A sessão especial sobre a qual vou falar com você agora.

—    Não teremos sessão de nenhuma espada especial apaixonada. Vamos apresentar O emocionante...

—    O seu Dibbler tá dizendo que cê vai passar espadha da Paixão — soou uma voz grossa.

Cova se recostou no batente da porta. Atrás dele havia uma laje de pedra. Dava a impressão de que alguém havia atirado bolas de aço nela durante 30 anos.

ela formou uma dobra no meio e se inclinou em direção a Bezam.

ele reconheceu Detritus. Todo mundo reconhecia Detritus. Não era um troll que podia ser facilmente esquecido.

—    Mas eu nem sequer ouvi falar de... — começou Bezam.

Cova retirou uma lata grande de baixo do casaco e abriu

um sorriso.

—    e aqui estão alguns cartazes — acrescentou, puxando um rolo branco e grosso.

—    O seu Dibbler me deixou colar alguns nos muros — disse Detritus, com orgulho.

Bezam abriu um cartaz. As cores eram de arder os olhos. Mostrava uma foto do que poderia ser Ginger fazendo beicinho com uma blusa pequena demais para ela e Victor prestes a jogá-la sobre o ombro ao mesmo tempo em que lutava contra alguns monstros com a outra mão. Ao fundo, vulcões entravam em erupção, dragões atravessavam os céus e cidades pegavam fogo.

—    “A Imagem Animada Que Não Conseguiram Proibir!"

— leu Bezam, hesitante. — "Uma Aventura escaldante no Despertar

Fervoroso de um Novo Continente! Um Homem e uma Mulher

se encontrão no Redemoinho de um Mundo enlouquecido!!

eSTReLANDO **Dolores dos Pecados**, no papel de A Mulher, e **Victor Marasquino**, como Cohen o Bárbaro!!! eMOÇÕeS!

AVeNTURA!! eLeFANTeS!!! em Breve numa Sala perto de Você"

ele leu mais uma vez.

— A Dolores dos Pecados vai dar uma estrela? — perguntou, desconfiado.

—    Ela é uma estrela. Por isso colocamos estrelas ao lado do nome deles, está vendo? — ele se inclinou mais perto e baixou o volume da voz para um sussurro agudo. — Há quem diga que ela e a filha de um pirata klatchiano e de sua louca e obstinada prisioneira. ele e o filho de... o filho de... um mago fraudulento e de uma dançarina flamenca cigana e sem juízo.

—    Nossa! — disse Bezam, sem conseguir controlar o choque. Dibbler se permitiu um tapinha mental nas próprias costas. ele mesmo havia ficado bastante impressionado.

—    Acho que você deveria começar a apresentá-lo daqui a mais ou menos uma hora.

—    A esta hora da manhã? — disse Bezam. O clique que havia adquirido para o dia era Um esthudo Intheressante da Arte de Fazer Cerâmica, que o estava deixando preocupado. essa proposta parecia ser muito melhor.

—    Sim. Porque muita gente vai querer assistir.

—    Isso eu não sei. O público tem diminuído ultimamente.

—    Eles vão querer assistir a este — disse Cova. — Confie em mim. Já menti pra você alguma vez?

Bezam cocou a cabeça.

—    Bom, uma noite, no mês passado, você me vendeu uma salsicha no pão e disse que...

—    Foi uma pergunta retórica — interrompeu Cova de maneira brusca.

—    É — confirmou Detritus. Bezam fraquejou.

—    Ah, bom. Eu não conheço as normas da retórica.

—    Certo — disse Cova, com o sorriso aberto de uma abóbora maquiavélica. — Apenas abra. Depois e só relaxar e nadar no dinheiro.

—    Ah. Ótimo — aprovou Bezam, hesitante.

Cova pôs um braço amigável sobre o ombro do homem.

—    E agora vamos discutir os percentuais.

—    Que percentuais?

—    Pegue um charuto — ofereceu Cova.

Victor caminhava devagar pela rua principal sem nome de Holy Wood. Suas unhas estavam cheias de areia.

Não estava seguro de ter feito a coisa certa.

O homem provavelmente era apenas um mendigo da praia que simplesmente foi dormir num dia e não acordou mais, embora o casaco vermelho e dourado não fosse uma peça de roupa típica de um mendigo. era difícil dizer há quanto tempo ele estaria morto. O ar salgado e seco havia ajudado a preservá-lo. Tinha aparência semelhante à que devia ter quando vivo, ou seja, a de alguém que parecia morto.

A julgar por sua cabana, ele costumava catar coisas esquisitas pela praia.

Victor pensou que alguém deveria ser informado, mas provavelmente em Holy Wood não haveria ninguém interessado. Provavelmente apenas uma pessoa no mundo tinha se interessado em saber se ele estava vivo ou não, e tinha sido a primeira a saber.

Victor enterrou o corpo na areia perto da cabana feita com restos de madeira.

Ele viu o restaurante do Borgle à sua frente. Havia decidido se arriscar a tomar o café-da-manhã por lá. Alem disso, precisava de um lugar para sentar e ler o livro.

Não era o tipo de coisa que se esperava encontrar numa praia, numa cabana de madeira, na mão de um homem morto.

Na capa havia as palavras O Livro do Fhilme.

Na primeira página, na letra redonda caprichada de alguém que não tinha muita facilidade para escrever, estavam as seguintes palavras: "esta é a Crônica dos Guardadores da ParaMontanha copiada por mim Deccan Porque a Anthiga estava Caindo aos Pedaços".

Ele virou com cuidado as páginas enrijecidas. Pareciam cheias de anotações quase idênticas. Nenhuma tinha data, mas isso não era muito importante, já que cada dia se parecia muito com o outro.

Acorddei. Fui ao lavatório. Acendi o fogo, anunciei a Seção da Matinê. Quebrei jejum. Apanhei madheira. Acendi o fogo. Procurei alimento na colina. Celebrei a Seção Nocturna. Jantar. entoei o hino da Última Seção. Fui ao lavatório. Cama.

Acorddei. Fui ao lavatório. Acendi o fogo, entoei Seção da Matinê. Quebrei jejum. Crullet o pescador da Angra dejowser deixou 2 percas bhonitas. Apanhei madheira. Anunciei a Seção da Tarde, acendi o fogo. Cuidar da casa. Jantar. Louvei a Ultima Seção Nocturna. Cama. Acordei a Meia-noite, fui ao lavatório e verifiquei a fogueira, mas ela não precisava de madheira.

Ele viu a garçonete pelo canto do olho.

—    Eu queria um ovo cozido.

—    É cozido. Cozido de peixe.

Ele ergueu o rosto e viu os olhos brilhantes de Ginger.

—    Eu não sabia que você era garçonete.

Ela fingiu tirar o pó do saleiro.

—    Nem eu, até ontem. Sorte minha que a menina que trabalha de manhã pro Borgle conseguiu uma chance na nova imagem animada que a Alquimistas Desatados está fazendo, não e? — ela deu de ombros. — Se eu realmente tiver sorte, quem sabe? Posso conseguir pegar o turno da tarde também.

—    Olha, eu não queria...

—    É cozido. É pegar ou largar. Três clientes hoje já fizeram os dois.

—    Vou pegar. Olha, você não vai acreditar, mas eu encontrei isto na mão de um...

—    Não tenho permissão para ficar de brincadeira com fregueses. este não é o melhor emprego da cidade, mas você não vai me fazer perdê-lo — interrompeu Ginger num tom ríspido. — Cozido de peixe, certo?

—    Ah. Certo. Desculpa.

Ele voltou algumas páginas. Antes de Deccan, havia Tento, que também entoava os cânticos três vezes por dia, que também recebia, às vezes, peixes de presente e que também ia ao lavatório, embora ou ele não era tão assíduo a esse respeito quanto Deccan, ou não achava que valesse a pena registrar todas as vezes. Antes disso, alguém chamado Meggelin havia sido o entoador. Toda uma seqüência de pessoas havia morado na praia e, se você voltasse no tempo, havia um grupo delas. Voltando mais ainda, as anotações davam a impressão de ser mais oficiais. era difícil saber. Pareciam escritas em código, linhas e mais linhas de pequenas figuras complexas...

Uma tigela de sopa primitiva foi largada diante dele.

—    Olha — ele disse. — A que horas você sai...

—    Nunca.

—    Eu só estava pensando se você sabia onde... — Não.

Victor ficou olhando para a superfície sombria do ensopado. Borgle trabalhava com o princípio de que, se algo tivesse sido encontrado na água, era peixe. Havia alguma coisa roxa lá dentro que tinha pelo menos dez pernas.

Ele comeu assim mesmo. Tinha lhe custado 30 centavos.

Depois, Ginger se mantinha ocupada ao balcão de forma decidida, voltando as costas para ele como se fosse um farol. Por mais que ele tentasse atrair sua atenção, ela ainda ficava com as costas voltadas para ele, sem parecer se mexer. Sendo assim, Victor saiu para procurar outro emprego.

Ele nunca havia trabalhado por nada na vida. De acordo com sua experiência, emprego era uma coisa que acontecia com os outros.

Bezam Planter ajeitou a bandeja ao redor do pescoço de sua mulher.

—    Está bem. Pegou tudo?

—    Os grãos estourados ficaram murchos — ela disse. — e não tem nenhum jeito de manter a salsicha quente.

—    Vai estar escuro, amor. Ninguém vai notar. — ele puxou a alça e se afastou. — Certo, você sabe o que fazer. Na metade da sessão, eu paro de passar o filme e mostro o cartaz que diz:

"Por que não Provar uma Bebida Gelada e Refrescante e Uns Grãos estourados?", e aí você sai por aquela porta e vai até o corredor.

—    Você não quer mencionar as salsichas geladas e refrescantes também? — disse a senhora Planter.

—    E eu acho que é melhor você parar de usar a tocha para mostrar os lugares para as pessoas — aconselhou Bezam. — está provocando acidentes demais.

—    Só assim eu consigo enxergar no escuro.

—    è, mas ontem à noite eu tive que devolver o dinheiro daquele anão. Você sabe como eles são sensíveis em relação à própria barba. Sabe de uma coisa, amor, vou lhe dar uma salamandra na gaiola. elas estão no telhado desde a manhã, já devem estar prontinhas.

E estavam. As criaturas, deitadas, cochilavam no fundo de suas gaiolas, com os corpos vibrando levemente enquanto absorviam a luz. Bezam selecionou seis das que estavam no ponto, desceu com dificuldade de volta para a sala de projeção e as tombou para dentro da caixa de projeção. enrolou o filme de Dibbler Cova num carretel e depois saiu andando na escuridão.

"Bem... Poderia ver se tem alguém lá fora." Ele foi até a porta da frente arrastando os pés e bocejando. Ele ergueu o braço e empurrou a barra de ferro da tranca. Ele se abaixou e empurrou a outra barra. Ele empurrou as portas.

—    Está bem, está bem — murmurou. — Pode entrar...

Ele acordou na sala de projeção, com a senhora Planter abanando-o desesperadamente com o avental.

—    O que aconteceu? — sussurrou, tentando afastar da sua mente a lembrança de ter sido pisoteado.

—    A casa está lotada! e ainda estão fazendo fila lá fora! estão todos na rua. São esses cartazes asquerosos!

Bezam se levantou sem firmeza, mas com determinação.

—    Mulher, cala a boca e vá até a cozinha estourar mais alguns grãos! — gritou. — Depois vem me ajudar a consertar as placas! Se estão fazendo fila para as poltronas de cinco centavos, com certeza vão fazer fila para as de dez!

Ele arregaçou as mangas e pegou na manivela.

Na primeira fileira, o bibliotecário estava sentado com um saco de amendoins no colo. Depois de alguns minutos, parou de mastigai e ficou sentado com a boca aberta, olhando com os olhos fixos para as imagens tremeluzentes.

—Quer que eu segure o cavalo, senhor? Senhora?

—Não!

Ao meio-dia, Victor havia ganhado dois centavos. Não que as pessoas não tivessem cavalos que precisassem ser segurados... elas apenas não pareciam querer que ele os segurasse.

Finalmente um homenzinho torto que ficava mais adiante, na mesma rua, se aproximou dele, puxando quatro cavalos. Victor observara esse mesmo homem durante horas e se espantara de verdade diante do fato de as pessoas darem ao homúnculo magrelo sorrisos sinceros, quanto mais um cavalo.

—    Você e novo nisso, não e? — perguntou o homenzinho.

—    Sim.

—    Ah. Logo vi. esperando a sua grande chance nos cliques, certo? — disse, abrindo um sorriso encorajador.

—    Não. eu já tive a minha grande chance, na verdade.

—    Por que tá aqui então?

Victor encolheu os ombros.

—    Eu a desperdicei.

—Ah, e mesmo? Sinsenhor, brigadossenhor, deuslhepagues—senhor, tácertossenhor — disse o homem, aceitando mais uma serie de rédeas.

—    Você não precisa de um ajudante? — perguntou Victor, esperançoso.

Bezam Planter ficou olhando para a pilha de moedas à sua frente. Dibbler Cova mexeu as mãos, e a pilha ficou menor, mas ainda era a maior pilha de moedas que Bezam já havia visto acordado.

—    E nós ainda estamos fazendo sessões a cada 15 minutos! —sussurrou Bezam. — Tive que contratar um garoto para girar manivela! Não sei... O que eu deveria fazer com todo este dinheiro?

Cova deu um tapinha nas suas costas.

_ Compre um lugar maior.

—    estive pensando nisso. e. Algo com pilares luxuosos na entrada. e a minha filha Calíope toca órgão muito bem, seria um bom acompanhamento. e tem que ter muita tinta dourada e coisinhas onduladas... Seus olhos ficaram vidrados.

Ela havia encontrado mais uma mente.

Holy Wood sonha.

—    ... e fazer um palácio, como o fabuloso Rhoxie de Klatch, ou o maior templo que já existiu, com escravas vendendo grãos estourados e amendoins e Bezam Planter andando de um lado para o outro com um ar de proprietário, com um casaco de Veludo vermelho com correntes douradas... Hum? — murmurou, enquanto o suor pingava da sua testa.

—    Eu disse que estou fora — disse Cova. — Tenho que seguir no negócio das imagens animadas, sabe.

—    A senhora Planter disse que você precisa fazer mais filmes com aquele jovem. A cidade toda está falando nele. ela disse que várias senhoras desmaiaram quando ele as olhou com aquela expressão ardente. ela assistiu cinco vezes — acrescentou, e sua voz ficou cheia de uma desconfiança repentina. — e aquela garota! Uau!

—    Não se preocupe com nada — disse Cova num tom grandioso. — eles estão sob contr... — Uma dúvida repentina pairou sobre o seu rosto. — Até mais — disse brevemente, e saiu correndo do prédio.

Bezam ficou parado, sozinho, e olhou para o interior coberto de teias de aranha do Odium, com a imaginação acelerada povoando os cantos escuros do lugar com palmeiras em vasos, folhagens douradas e querubins rechonchudos. Cascas de amendoim e grãos estourados estalavam sob seus pés. "Temos que limpar tudo antes da próxima sessão", pensou. "Acho que aquele macaco vai ser o primeiro da fila de novo."

Então ele avistou o cartaz de espadha da Paixão. Impressionante, realmente. Não havia muita coisa em matéria de elefantes e vulcões, e os monstros eram trolls com coisas presas neles, mas naquele close... bom... todos os homens suspiraram, e depois todas as mulheres suspiraram... era como mágica. Ele abriu um sorriso diante da imagem de Victor e Ginger.

"O que será que aqueles dois estão fazendo agora?", pensou. "Provavelmente comendo caviar em pratos de ouro e relaxando com almofadas de veludo até os joelhos, pode ter certeza."

— Você não parece ter jeito para a coisa, rapaz — observou o segurador de cavalos.

—    Infelizmente não consigo pegar o jeito para segurar o cavalo dos outros — disse Victor.

—    EE, esse negócio é difícil, segurar cavalos. Tem que aprender a ser servil na medida certa, e os gracejos alegres de segurador de cavalos têm que ser irreverentes, mas não abusados demais. As pessoas não querem só que você segure os cavalos, entende? elas querem uma experiência que envolva segurar cavalos.

—    Como assim?

—    elas querem um encontro casual e alegre, e uma resposta rápida e inventiva. Não é só uma questão de segurar rédeas.

Victor começou a entender.

—    É uma performance — ele disse.

O "sigurador" de cavalos deu um tapinha na lateral do seu nariz em forma de morango.

—    Isso mesmo!

Tochas ardiam em Holy Wood. Victor passou com dificuldade no meio da multidão da rua principal. Todos os bares, todas as tavernas e todas as lojas ficavam com as portas escancaradas. Um mar de gente fluía e refluía por elas. ele teve que dar alguns pulos para examinar a aglomeração de rostos.

Estava sozinho, perdido e com fome. Precisava de alguém para conversar, e ela não estava lá.

—    Victor!

Ele se virou. Rocha caiu sobre ele feito uma avalanche.

—    Victor! Meu amigo! — Um punho com o tamanho e a dureza de uma pedra bateu no seu ombro de um jeito amigável.

—    Ah, oi — respondeu Victor, vacilante. — e... Como vai, Rocha....

— Ótimo! Ótimo! Amanhã vamos filmar Ameaça Hostil no Vale dos Trolls!

—    Fico muito feliz por você.

—    Você meu humano da sorte! — exclamou Rocha. — Rocha! Que nome! Vem tomar alguma coisa!

Victor aceitou. Realmente não tinha muita escolha, porque Rocha o segurou pelo braço e, abrindo caminho pela multidão como um navio quebra—gelo, meio guiou, meio arrastou Victor na direção da porta mais próxima.

Uma luz azul iluminou uma placa. A maioria dos morporkianos sabia ler trollês, que não era uma língua difícil. As runas diziam com clareza O Calcário Azul.

Era um bar de trolls.

A incandescência esfumaçada das fornalhas atrás dos balcões de laje era a única iluminação. Iluminava três trolls tocando... bem, alguma coisa de percussão, mas que Victor não conseguia identificar porque os decibéis estavam num nível em que o som se tornava uma força sólida e fazia os seus globos oculares vibrar. A fumaça da fornalha escondia o teto.

—    O que cê vai tomar? — estrondeou Rocha.

—    Não vou ter que beber metal derretido, né? — Victor perguntou com a voz trêmula. Teve que usar o volume máximo de sua voz para ser ouvido.

—    A gente tem todos os tipos de bebida! — gritou a troll fêmea atrás do balcão do bar. Tinha que ser fêmea. Não havia dúvidas, lembrava um pouco as estátuas das deusas da fertilidade que os homens das cavernas esculpiam milhares de anos atrás, mas lembrava mais ainda uma cadeia de montanhas. — Gente muito cosmopolita.

—    Quero uma cerveja, então!

—   E um flores de enxofre no gelo, Ruby! — acrescentou Rocha.

Victor aproveitou a oportunidade e olhou para o bar, agora que se acostumara com a escuridão e seu tímpano ficara piedosamente dormente.

Percebeu que havia um número enorme de trolls sentados diante de mesas compridas, com um anão aqui e ali, o que era surpreendente. Anões e trolls normalmente brigavam feito... bem... anões e trolls. Nas montanhas de que eram provenientes, havia um estado de vingança ininterrupto. Holy Wood realmente modificava as coisas.

—    Posso falar uma coisa pra você? — Victor gritou na orelha pontuda de Rocha.

—    Claro! — Rocha pôs o seu copo no balcão. ele tinha um guarda—chuva roxo de papel, chamuscado com o calor.

—    Você viu a Ginger? Sabe? A Ginger?

—    Tá trabalhando no Borgle!

—    Só de manhã! Acabei de ir lá! Aonde ela vai quando não está trabalhando?

—    Vai saber aonde as pessoas vão!

A banda de jazz envolta pela fumaça fez silêncio de repente. Um dos trolls pegou uma pedra pequena e começou a dar batidas suaves, produzindo um ritmo lento e grudento, que se pregava às paredes feito fumaça. Da fumaça, Ruby surgiu como um galeão saindo da neblina, com um boá de plumas ridículo em volta do pescoço.

Era uma placa tectônica com curvas.

Começou a cantar.

Os trolls fizeram um silêncio respeitoso. Depois de algum tempo, Victor ouviu um soluço. Lágrimas rolavam pelo rosto de Rocha.

—    O que diz a letra da música? — sussurrou.

Rocha se curvou.

—    É música do folclore troll antigo. e sobre Amber e Jasper. eles eram... — hesitou e balançou a mão num gesto vago. — Amigos. Bons amigos?

—    Acho que entendo o que você quer dizer.

—    Um dia, Amber leva o seu jantar de troll pra caverna e encontra ele... — Rocha balançou as mãos com movimentos vagos, porem completamente descritivos. — ... com outra moça troll.

então ela foi para casa, pegou a sua clava, voltou e bateu nele até ele morrer, tum, tum, tum. Porque ele era troll dela e enganou ela. É música muito romântica.

Victor ficou olhando fixamente. Ruby desceu ondulando do palco minúsculo e deslizou entre os fregueses: uma pequena montanha sobre uma armação de madeira com quatro rodas. "ela deve pesar duas toneladas", pensou. "Se sentar no meu colo, vão ter que me desenrolar do chão como se eu fosse um carpete."

—    O que ela acabou de dizer àquele troll? — perguntou, enquanto uma onda de risos varria o salão.

Rocha cocou o nariz.

—    É jogo de palavras. Muito difícil traduzir. Mas basicamente ela disse: "Isso aí e o lendário Cetro de Magma, que foi Rei da Montanha, que Impressiona Milhares, Sim, Até Dezenas de Milhares, Senhor do Rio Dourado, Mestre das Pontes, explorador de Locais Misteriosos, Triturador de Muitos Inimigos" — respirou fundo — "no seu bolso ou você só está feliz em me ver?"

Victor franziu a testa.

—    Não entendi.

—    Talvez eu não tenha traduzido direito — disse Rocha. ele bebeu um gole de enxofre derretido. — Ouvi dizer que a Alquimistas Desatados está formando elenco para...

—    Rocha, tem alguma coisa muito estranha neste lugar — observou Victor, ansioso. — Você consegue sentir?

—    Estranha como?

—    Tudo parece, bem, efervescer. Ninguém age como deveria. Você sabia que um dia existiu uma grande cidade aqui? Onde é o mar. Uma grande cidade. E ela simplesmente desapareceu!

Rocha esfregou o nariz com ar pensativo. Parecia a primeira tentativa do Homem de Neanderthal de fazer um machado.

—    E tem o jeito como todas as pessoas agem! — continuou Victor. — Como se o que elas são e o que elas querem fossem as coisas mais importantes do mundo!

—    Eu fico pensando... — começou Rocha.

—Sim?

—    Eu fico pensando se valeria a pena tirar meio centímetro do meu nariz. Meu primo Breccia conhece um pedreiro que deixou as orelha dele uma beleza. Que que cê acha?

Victor ficou olhando para ele com ar de tédio.

—    Sabe, por um lado, é grande demais, mas, por outro lado, é definitivamente um nariz do estereótipo de troll, né? Quer dizer, talvez eu fique com uma aparência melhor, mas neste ramo talvez seja melhor parecer um troll o máximo que eu puder. Tipo, o Morry fez um retoque no dele com cimento, agora tá com uma cara que ninguém ia querer encontrar numa noite escura. Que que cê acha? eu considero muito sua opinião porque você é um humano que tem idéias.

Ele deu um sorriso brilhante de silício para Victor. Finalmente ele respondeu:

—    É um ótimo nariz, Rocha. Com você atrás dele, pode ir longe.

Rocha abriu um grande sorriso e deu mais um trago do enxofre. Retirou um pequeno palito de aço do coquetel e chupou a ametista que estava na ponta.

—    Você acha mesmo... — começou, e depois percebeu a pequena área de espaço vazio. Victor tinha ido embora.

— Eu num sei nada sobre ninguém — disse o segurador de cavalos, com um olhar malicioso, diante da presença volumosa de Detritus.

Dibbler mordeu seu charuto. A viagem de Ankh até lá tinha sido cheia de solavancos, mesmo com sua carroça nova, e ele não tinha almoçado.

—    Rapaz alto, meio avoado, bigode fino. Ele estava trabalhando para você, não estava?

O segurador de cavalos cedeu.

—    Nunca vai ser um bom sigurador de cavalo mesmo — disse. — Deixa o trabalho montar nele. Acho que foi comer alguma coisa.

Victor se sentou no beco escuro, com as costas encostadas no muro, e tentou pensar.

Lembrou-se de que uma vez havia ficado muito tempo debaixo do sol, quando era menino. A sensação que teve depois era algo parecido com o que sentia agora.

Ouviu um barulho pesado na areia batida ao lado dos seus pés.

Alguém havia deixado cair um chapéu na sua frente. Ele olhou para o chapéu.

Depois alguém começou a tocar gaita. Alguém que não sabia tocar muito bem. A maioria das notas estava errada, e as corretas eram estridentes. Havia uma melodia em algum lugar, do mesmo modo em que sempre há um pouco de carne num moedor de carne.

Victor suspirou e procurou moedas no bolso. Jogou-as dentro do chapéu.

—    Tá, tá. Muito bom. Agora, vá embora.

Ele sentiu um cheiro esquisito. Era difícil identificar, mas poderia ser um tapete muito velho e um pouco úmido. Ele ergueu a cabeça.

—    Au, au, caramba — disse Gaspode o Cão Prodígio.

O encarregado do restaurante de Borgle havia decidido fazer experimentos com saladas naquela noite. A cidade mais próxima que cultivava verduras ficava a demorados 50 quilômetros dali.

—    Que que isso? — perguntou um troll, mostrando uma coisa mole e marrom.

Fruntkin, o chef do prato feito, arriscou um palpite.

—    Aipo? — disse. ele examinou de perto. — É, aipo.

—    É marrom.

—    Isso mesmo. Isso mesmo! Aipo maduro tem que ser marrom — confirmou Fruntkin, rapidamente. — Assim dá pra ver que tá maduro — acrescentou.

—    Tinha que ser verde.

—    Nã... Você tá pensando em tomate.

—    e, e o que e essa coisa escorrendo? — perguntou um homem na fila.

Fruntkin se esticou em sua altura máxima.

—    Isso é a maionesia. eu que fiz. Olhei num livro — acrescentou com orgulho.

—    É, imagino que sim — disse um homem, cutucando-a. — Nota-se que óleo, ovos e vinagre não foram incluídos, certo?

—    Especialitê de lar mayson.

—    Tá bom, tá bom — aceitou o homem. — Só que ela está atacando a minha alface.

Fruntkin pegou a concha com raiva.

—    Olha... — começou.

—    Não, tudo bem — disse o freguês em potencial. — As lesmas formaram um cordão de isolamento.

Havia uma comoção à porta. Detritus, o troll, passou entre os clientes, com Dibbler Cava-a-própria-Cova andando com ar pomposo atrás dele.

O troll empurrou a fila com o ombro e encarou Fruntkin.

—    O seu Dibbler quer falar — começou, esticando o braço por cima do balcão, levantando o anão pela camisa incrustada de comida e deixando-o pendurado diante de Cova.

—    Alguém viu Victor Tugelbend? — perguntou Cova. — Ou aquela menina, a Ginger?

Fruntkin abriu a boca para xingar e pensou melhor.

—    O garoto esteve aqui uma hora atrás — disse com a voz esganiçada. — Ginger trabalha aqui de manhã. Não sei aonde ela vai depois.

—Aonde o Victor foi? — perguntou Cova. ele tirou do bolso um saco que tilintava. Os olhos de Fruntkin giraram na direção do saco como se fossem rolamentos de aço, é ele, um ímã poderoso.

—    Num sei, senhor Cova. ele foi embora de novo quando viu que ela não estava aqui.

—    Certo. Bom, se você encontrá-lo novamente, diga que estou procurando por ele e que vou fazer dele um astro, certo?

—    Astro. Certo.

Cova pôs a mão na sua sacola de dinheiro e tirou uma nota de dez dólares.

—    E eu quero pedir jantar para mais tarde — acrescentou.

—    Jantar. Certo — concordou Fruntkin com a voz trêmula.

—    Bife com pitus, acho. e uma opção de verduras douradas da estação... e depois morangos com creme.

Fruntkin encarou-o com os olhos arregalados. — e... — começou.

Detritus deu um peteleco no anão que o fez balançar para a frente e para trás.

—    E eu vô querer... é... um basalto bem temperado com um acompanhamento de conglomerados de arenito recém-arrancados. Certo?

—    É... Sim.

—    Põe ele no chão, Detritus. ele não quer ficar pendurado — ordenou Cova. — e devagar. — Ele olhou para os rostos fascinados ao redor.

—    Lembrem-se, estou procurando Victor Tugelbend e vou fazer dele um astro. Se alguém encontrá-lo, tem que dizer isso. Ah, e o meu bife é mal passado, Fruntkin.

Ele andou com passos largos até a porta. Depois que foi embora, a falação voltou a fluir como uma maré.

—    Fazer dele um astro? Pra que ele vai servir?

—    Eu não sabia que dava para fazer um astro... achava que eles ficassem assim, sabe, presos no céu...

—    Acho que ele quis dizer fazer dele um astro. Sabe, ele, ele mesmo. Transformar ele num astro.

—    Como é que se pode transformar alguém em astro?

—    Sei lá. Acho que você comprime bem a pessoa, e ela explode em forma de uma massa de hidrogênio em chamas...

—    Nossa mãe!

—    É! Aquele troll é malvado mesmo.

Victor olhou bem para o cachorro.

Não era possível que tivesse falado com ele. Devia ter sido a sua imaginação. Mas ele havia dito o seu sobrenome, não havia?

—    Qual será o seu nome? — disse Victor, afagando sua cabeça.

—    Gaspode — respondeu Gaspode.

A mão de Victor congelou no meio do afago.

—    Doicentavo — pediu o cachorro, vacilante. — Único cachorro que toca gaita no mundo. Doicentavo.

"É o sol", pensou Victor. "eu não tenho usado chapéu. Daqui a um minuto vou acordar e sentir os lençóis fresquinhos."

—    Bom, você não tocou muito bem. Não consegui reconhecer a melodia — reclamou, esticando os lábios num sorriso horrível.

—    Cê num tem que reconhecer a maldita melodia — protestou Gaspode, sentando-se com todo o seu peso e concentrando-se em cocar a orelha com a pata traseira. — eu sou um cachorro. Cê tinha que ficar muito impressionado com o fato deu conseguir tirar um maldito guincho deste troço.

"Como eu devo dizer?", pensou Victor. "Digo simplesmente: desculpe, mas parece que você está fal... Não, melhor não."

—    e... — começou. "ei, você e bastante tagarela para um... não."

—    Pulgas — comentou Gaspode, mudando de pata e de orelha. — Tão me perturbando.

—    Ai, não.

—    E esses trolls todos. Não suporto eles. Têm um cheiro muito esquisito. Malditas pedras ambulantes. Cê tenta morder eles e, quando vê, tá cuspindo um dente. Não é normal.

"Por falar em normal, não posso deixar de notar que..."

—    Maldito deserto, este lugar — continuou Gaspode.

"Você é um cachorro falante."

—    Imagino que você tá se perguntando — disse Gaspode, voltando o seu olhar penetrante para Victor mais uma vez — como é que eu posso tá falando.

—    Nem pensei nisso.

—    Nem eu. Até umas duas semanas atrás. Na minha vida toda nunca disse uma maldita palavra. Trabalhava prum sujeito lá na cidade. Truques e tal. equilibrava a bola no focinho. Andava com as patas de trás. Pulava no meio do laço. Carregava o chapéu na boca no meio das pessoas. Sabe como e. Show business. Aí uma mulher passa a mão na minha cabeça e diz: "Ai, que gracinha de cachorrinho, parece que entende tudo o que a gente fala". E eu penso: "Ho, ho, nem me preocupo mais em me esforçar pra isso, moça". Foi aí que percebi que eu entendo as palavras, e elas saem pela minha própria boca. Aí eu peguei o chapéu e o peguei com as minhas patas bem rapidinho, enquanto eles ainda tavam olhando admirados.

—    Por quê?

Gaspode revirou os olhos.

—    Que vida cê acha que vai ter um autêntico cachorro falante? Não devia ter aberto a droga da boca.

—    Mas você está falando comigo.

Gaspode lançou um olhar dissimulado, olhando de rabo de olho.

—    É, mas tenta contar pra todo mundo pra ver. De todo modo, cê é legal. Cê tem aquele jeito. eu percebo a um quilômetro.

—    Que diabos você está querendo dizer?

—    Cê acha que não consegue se reconhecer, certo? — disse o cachorro. — Cê já teve aquela sensação de que alguma outra coisa tá pensando por você?

—    Nossa.

—    Te deixa com um jeito meio cismado — prosseguiu Gaspode. ele pegou o chapéu com a boca. — Doicentavo — disse, num tom vago. — Quer dizer, não que eu conheça algum jeito de gastar isso, mas... doicentavo. — ele deu uma encolhida de ombros canina.

—    O que você quer dizer com jeito cismado?

—    Cês todos têm esse jeito. Do tipo "muitos são chamados e poucos são escolhidos".

—    Que jeito?

—    Como se tivesse sido chamado pra vir aqui e não sabe por quê. — Gaspode tentou cocar a orelha novamente. — Vi cê fazendo Cohen o Bárbaro.

—    E... O que você achou? — perguntou Victor.

—    Eu acho que, desde que o velho Cohen nunca fique sabendo, você está seguro.

 

— Eu disse: há quanto tempo ele esteve aqui? — gritou Dibbler. Num palco minúsculo, Ruby cantava alguma coisa com uma voz melosa que lembrava um navio numa neblina espessa e com problemas sérios.

—    GrooOOoivwonnogghrhhooOOo.7

—    ele acabou de sair! — berrou Rocha. — estou tentando ouvir esta música, está bem?

—    ... OowoowgrhhffrghooOOo...8

Cava-a-própria-Cova cutucou Detritus, que havia se sentado para tirar o peso dos nós dos dedos e assistia à apresentação de boca aberta.

A vida do velho troll havia sido, até o momento, bastante simples e direta. As pessoas pagavam, e ele batia em outras pessoas.

Agora ela estava começando a ficar complicada. Ruby havia piscado para ele.

 

  1. LeGeNDA: "Mai zuma vez tô apaxonada (lit., sentindo a sensação agradável de ser atingida com uma pedra na cabeça por Chondrodite, o deus troll do amor)". Nota: Chondrodite não deve ser confundido com Gigalite, o deus troll que dá sabedoria aos trolls acertando—os com uma pedra na cabeça, ou Silícaro, o deus troll que dá sorte aos trolls acertando—os com uma pedra na cabeça, ou com o herói folclórico Monólito, que foi o primeiro a deturpar o significado do segredo das pedras dos deuses.

 

  1. LeGeNDA: "Por que e que eu tô azul agora?"

 

Emoções estranhas e desconhecidas se agitavam no coração surrado de Detritus.

—    ... groooOOOooohoofooOOoo..9

—    Vamos — gritou Cova.

Detritus ficou de pé com dificuldade deu o último olhar demorado na direção do palco.

—    ... ooOOgooOOmoo. OOhhbooo.10

Ruby soprou um beijo para ele. Detritus ficou da cor da granada recém-extraída.

Gaspode liderou o caminho para fora do beco e pela região afastada e escura de arbustos atrofiados e areia de praia que havia por trás da cidade.

—    Definitivamente tem algo de errado com este lugar —murmurou.

—    É diferente — disse Victor. — Como assim, errado?

Gaspode deu a impressão de que ia cuspir.

—    Olha, veja eu, por exemplo — começou, ignorando a interrupção. — Um cachorro. Nunca sonhei com nada na vida a não ser correr atrás das coisas. e sexo, é claro. De repente, comecei a ter esses sonhos. em cores. Fiquei apavorado. Nunca tinha visto cores antes, certo? Os cachorros vêem em preto-e-branco, como cê deve saber, já que é um grande leitor. O vermelho é um maldito choque, vou te contar. Cê acha que o seu jantar e só aquele osso branco com tons de cinza, de repente, cê descobre que há anos tem comido essa coisa medonha vermelha e roxa.

—    Que tipo de sonho? — perguntou Victor.

—    É embaraçoso pra caramba. Tipo, num deles tem uma ponte que foi levada pelas águas, e eu tenho que correr e dar um alerta latindo, sabe? e tem outro em que uma casa está pegando fogo, e eu arrasto umas crianças para fora. e tem um em que umas crianças estão perdidas numas cavernas, e eu acho elas e guio as pessoas que tão procurando elas até onde elas tão... e eu odeio crianças.

 

  1. LeGeNDA: "Que atitude devo tomar nesta hora?"

 

  1. LeGeNDA: "... não posso evitar. Alô, garotão".

 

Parece que ultimamente não consigo descansar a cabeça sem resgatar ou salvar pessoas, ou despistar assaltantes e coisas assim. Poxa, eu tenho sete anos, calo nas patas, descamação na pele, pulgas a dar com pau. Não preciso ser herói toda vez que vou dormir.

—    Nossa. A vida não é interessante quando você a enxerga pelos olhos de outra pessoa...?

Gaspode virou o olhar corajoso na direção do céu.

—    Ê. Aonde estamos indo? — perguntou Victor.

—    Nós vamos falar com um pessoal de Holy Wood. Porque tem alguma coisa esquisita acontecendo.

—    No alto da colina? Não sabia que havia pessoas na colina.

—    Não são pessoas.

Uma pequena fogueira de gravetos queimava no declive da Colina de Holy Wood. Victor a acendera porque... bem... porque era reconfortante. Porque era o tipo de coisa que os humanos faziam.

Ele sentiu necessidade de lembrar que era humano e que provavelmente não estava louco.

Não que ele estivesse falando com um cachorro. As pessoas costumam falar com cachorros. A mesma coisa se aplicava a gatos. e talvez até a coelhos. A conversa com ratos e patos é que deveria ser considerada estranha.

—    Você acha que nós queríamos falar? — perguntou o coelho num tom brusco. — Num minuto sou apenas mais um coelho, e contente com isso; no minuto seguinte, shazaam, estou pensando. Isso é uma grande desvantagem pra quem quer ser feliz como coelho, pra dizer a verdade. A gente quer grama e sexo, e não pensamentos do tipo "O que é que realmente importa quando chega a hora da verdade?"

—    É, mas pelo menos cês come grama — comentou Gaspode. — A grama não responde quando cês fala. A última coisa que cê precisa quando tá com fome e de um maldito enigma ético no prato.

—    Vocês acham que eshtão com problemas? — disse o gato, aparentemente lendo a mente dele. — eu eshtou limitado a comer peixe. Quando você põe a pata em cima do jantar e ele grita "Socorro!", você eshtá em maus lençóis.

Houve um silêncio. eles olharam para Victor. Inclusive o rato. e o pato. O pato parecia especialmente hostil. Provavelmente tinha ouvido falar em molho de laranja.

—    É. Veja a gente — começou o rato. — estou sendo perseguido por isto — ele apontou para o gato, crescendo diante dele — por toda a cozinha. Arranha, arranha, gritos, pânico. Aí a minha cabeça faz um ruído borbulhante, e eu vejo uma frigideira. entenderam? Um segundo atrás, eu nem sabia o que era fritar. Agora eu seguro o cabo, o gato aparece no canto da parede, bang. Aí ele sai cambaleando e perguntando: "O que foi que me atingiu?". e eu digo: "eu". Foi quando nós dois percebemos. estamos falando.

—    Consheitualisando — corrigiu o gato. era um gato preto, com patas brancas, orelhas que pareciam alvos de espingarda e a expressão assustada de quem já perdeu seis vidas.

—    Conta pra ele, garoto — disse o rato.

—    Conta o que cê fez depois — insistiu Gaspode.

—    Viemos pra cá — disse o gato.

—   De Ankh-Morpork? — perguntou Victor.

— é.

—    São quase 50 quilômetros!

—    é, e vai por mim — continuou o gato —, é duro pedir carona quando você e um gato.

—    Tá vendo ? — disse Gaspode. — Tá acontecendo o tempo todo. Todo tipo de coisa tá vindo pra Holy Wood. eles não sabem por que vieram, só que é importante estar aqui. e não agem assim em nenhum outro lugar do mundo. Tenho observado. Algo esquisito tá acontecendo.

O pato grasnou. Havia palavras ali, em algum lugar, mas tão mutiladas pela incompatibilidade do bico e da laringe que Victor não conseguiu entender nada.

Os animais prestaram atenção nele por solidariedade.

—    Como é, Pato? — perguntou o coelho.

—    O pato tá dizendo — traduziu Gaspode — que é como uma coisa migratória. O mesmo sentimento da migração.

—    é? eu não tive que vir de longe — informou o coelho. — A gente morava nas dunas mesmo. — ele suspirou. — Durante três anos felizes e quatro dias terríveis — acrescentou.

Um pensamento ocorreu a Victor.

—    então você sabe sobre o velho da praia?

—    Ah, ele. Sim. ele. ele sempre vinha aqui pra cima.

—    Que tipo de pessoa era ele?

—    Olha, meu filho, até quatro dias atrás, eu tinha um vocabulário que consistia em dois verbos e um substantivo. O que você acha que eu pensava dele? Tudo o que eu sei e que ele não incomodava a gente. A gente provavelmente achava que ele fosse uma pedra com pernas ou algo do tipo.

Victor pensou no livro em seu bolso. entoar cantos e acender fogueiras. Que tipo de pessoa fazia isso?

—    Não sei o que está acontecendo — disse. — eu gostaria de descobrir. Olha, vocês não têm nomes? eu me sinto sem jeito ao conversar com as pessoas sem saber os nomes.

—    Só eu — respondeu Gaspode. — Por ser cachorro. Meu nome é uma homenagem ao famoso Gaspode, sabe.

—Um menino, uma vez, me chamou de Chana — disse o gato, um pouco incerto.

—Achei que vocês tivessem nomes na sua própria língua. Sabe, tipo "Patas Poderosas" ou... ou "Caçador Veloz". Ou algo assim.

ele sorriu, querendo encorajá-los.

Os outros ficaram olhando com expressão de vácuo.

—    ele lê livros — explicou Gaspode. — Veja bem, o negócio é o seguinte — acrescentou, coçando-‘se com força —, os animais geralmente não se preocupam com nomes. Nós sabemos quem somos.

—    eu gosto de "Caçador Veloz" — disse o rato.

—    Acho que e um nome mais apropriado para um gato — observou Victor, começando a suar. — Os ratos têm nomezinhos simpáticos, como... como Guincho.

—    Guincho? — repetiu o rato friamente.

O coelho abriu um sorriso.

—    É... e eu sempre achei que os coelhos eram chamados de Flofy. Ou Seu Tampinha — Victor não conseguia parar de falar.

O coelho parou de sorrir e contraiu as orelhas.

—    Olha aqui, meu amigo... — começou.

—    Quer saber — interrompeu Gaspode, entusiasmado, numa tentativa de reanimar a conversa — ouvi dizer que tem uma lenda que diz que as duas primeiras pessoas do mundo deram nomes a todos os animais. Faz a gente parar pra pensar, não?

Victor pegou o livro para esconder o seu constrangimento. entoar cantos e acender fogueiras. Três vezes ao dia.

—    esse velho... — começou.

—    O que ele tem de tão importante? — perguntou o coelho.

—    ele só costumava subir a colina e fazer uns barulhos algumas vezes por dia. Dava pra acertar o... o — hesitou. — era sempre nos mesmos horários. Muitas vezes por dia.

—    Três vezes. Três apresentações. Como uma espécie de teatro? —questionou Victor, passando o dedo pela página.

—    Não sabemos contar até três — observou o coelho num tom azedo. — É assim: um... muitos. Muitas vezes. — ele olhou para Victor. — Seu Tampinha — disse num tom agressivo.

—    e pessoas de outros lugares traziam peixes para ele — continuou Victor. — Não tem mais ninguém que more perto daqui. Deviam vir de lugares a quilômetros de distância. As pessoas navegavam por quilômetros só para trazer peixes para ele. era como se ele não quisesse comer peixe desta baía aqui. e ela está pululando deles. Quando eu fui nadar, vi lagostas que vocês não iam acreditar.

—    Que nome você deu a elas? — perguntou Seu Tampinha, que era do tipo de coelho que guardava rancor. — Dona esbelta?

—    e, eu quero esclarecer isto agora mesmo — chiou o rato. — Lá de onde eu venho, eu era o rato principal. Conseguia derrotar qualquer outro rato da casa. Quero um nome apropriado, garoto. Quem me chamar de Bolinha de Queijo — olhou para Victor — tá pedindo pra ficar com a cabeça em forma de frigideira, estou sendo claro?

O pato grasnou longamente.

—    Pera aí — interrompeu Gaspode. — O negócio e o seguinte, o pato disse que tudo isso faz parte da mesma coisa. Humanos, trolls e tudo o que tem vindo aqui. Animais falando de repente. O pato acha que essas coisas são causadas por algo daqui.

—    Como é que o pato sabe disso? — perguntou Victor.

—    Olha, meu amigo — disse o coelho —, quando você conseguir voar para atravessar todo o oceano até encontrar o mesmo maldito continente, aí vai poder falar mal dos patos.

—    Ah! Você está se referindo aos sentidos misteriosos dos animais?

eles o encararam longamente.

—    De qualquer modo, isso tem que parar — continuou Gaspode. — Toda essa cogitação e falação vai bem pra vocês humanos. Cês tão acostumados com isso. A questão é que alguém tem que descobrir o que está causando toda esta...

eles continuaram olhando para ele.

—    Bem — disse num tom vago —, talvez o livro possa ajudar? As primeiras partes estão numa espécie de linguagem antiga. eu não posso... — ele parou. Os magos não eram bem-vindos em Holy Wood. Provavelmente não seria uma boa idéia mencionar a Universidade ou a sua pequena participação nela. — Quer dizer — continuou, escolhendo as palavras com cuidado —, acho que conheço alguém em Ankh-Morpork que possa ser capaz de ler essa linguagem. É um animal também. Um símio.

—    Como ele se sai no quesito sentidos misteriosos? — perguntou Gaspode.

—    ele é o melhor em sentidos misteriosos.

—    Nesse caso... — disse o coelho.

—    Pera aí — interrompeu Gaspode. — Alguém está vindo.

Uma tocha em movimento era visível na subida da colina.

O pato decolou desajeitadamente e saiu deslizando no ar. Os outros desapareceram nas sombras. Apenas o cachorro não saiu do lugar.

—    Você não vai se afastar? — sussurrou Victor. Gaspode ergueu uma sobrancelha.

—    Au, au?

A tocha ziguezagueava de modo irregular entre os arbustos, feito um vaga-lume. Às vezes parava por um momento e depois saía vagando em alguma direção totalmente nova. era muito brilhante.

—    O que é? — perguntou Victor.

Gaspode fungou.

—    Humano. Fêmea. Usando perfume barato. — Seu focinho se contraiu de novo. — Chama-se Brinquedo da Paixão — fungou mais uma vez. — Roupas recém-lavadas e passadas sem goma. Sapatos velhos. Muita maquiagem de estúdio. esteve no restaurante do Borgle e comeu... — o focinho se contraiu — cuzido. Prato não muito grande.

—    Acho que você consegue dizer qual é a altura dela, não?

—    ela cheira a 1,57, 1,59 — arriscou Gaspode.

—    Ah, pára com isso!

—    Ande um quilômetro sobre estas patas e, aí sim, me chame de mentiroso.

Victor chutou areia sobre a sua pequena fogueira e foi descendo a colina.

A luz parou de se mover quando se aproximou. Por um instante, ele viu de relance um vulto feminino apertando um xale em volta de si e segurando a tocha com uma das mãos acima da cabeça. em seguida, a luz desapareceu tão rapidamente que deixou pós-imagens azuis e roxas dançando no campo de visão dele. Atrás delas, um pequeno vulto formou uma sombra mais escura sobre a penumbra.

ela disse:

—    O que você está fazendo na minha... o que eu estou... por que você está na... onde... — e depois, como se finalmente tivesse compreendido a situação, mudou de marcha e, num tom de voz muito mais familiar, perguntou: — O que você está fazendo aqui?

—    Ginger?

—Sim?

Victor parou. O que se deveria dizer em circunstâncias como esta?

—    e...É legal aqui em cima à noite, você não acha?

ela olhou fixamente para Gaspode.

—    esse não e aquele cachorro horroroso que tem aparecido lá no estúdio? Não suporto cachorros pequenos.

—    Late, late — disse Gaspode. Ginger olhou fixamente para ele.

Victor quase pôde ler o pensamento dela: "ele disse late, late".

e ele é um cachorro, e é isso o que os cachorros fazem, certo?

—    eu gosto de gatos — disse ela, num tom vago. Uma voz em volume baixo disse:

—    É? É? Cê se lava com a própria saliva, é?

—    O que foi isso?

Victor se afastou, balançando as mãos num gesto frenético.

—    Não olhe para mim! eu não disse isso!

—    Ah, é? Imagino que tenha sido o cachorro então?

—    Quem, eu? — disse Gaspode.

Ginger ficou paralisada. Seus olhos viraram para o lado e para baixo, onde Gaspode cocava a orelha sem se preocupar com nada.

—   Au, au?

—    esse cachorro falou... — começou Ginger, apontando o dedo trêmulo para ele.

—    eu sei. Isso significa que ele gosta de você. — ele olhou atrás dela. Outra luz estava subindo a colina.

—    Você trouxe alguém com você? — ele perguntou.

—    eu? — Ginger se virou.

Agora a luz estava acompanhada pelo estalo de gravetos secos, e Dibbler saiu da escuridão com Detritus logo atrás, como uma sombra especialmente assustadora.

—    Ahá! — disse. — Os pombinhos ficaram surpresos, hein?

Victor olhou para ele de boca aberta.

—    Os o quê? — ele disse.

—    Os o quê? — disse Ginger.

—    Procurei por vocês por toda a parte — continuou Dibbler.

—    Alguém disse que tinha visto vocês subirem aqui. Muito romântico. Poderia fazer algo com isso. Fica bem nos cartazes. Certo.

—    Pôs os braços ao redor deles. — Vamos.

—    Pra quê? — perguntou Victor.

—    Vamos filmar amanhã cedo.

—    Mas o senhor Silverfish disse que eu não ia mais trabalhar nesta cidade... — começou Victor.

Dibbler abriu a boca e hesitou por apenas um instante.

—    Ah. Sim. Mas eu vou dar mais uma chance a vocês — disse, falando bem devagar pela primeira vez. — Sim. Uma chance. Sabe, vocês são jovens. Obstinados. Já fui jovem também. "Dibbler", eu pensei, "mesmo se isso significar que está cavando a própria cova, dê uma chance a eles." Salários mais baixos, é claro. Um dólar por dia, que tal?

Victor viu a expressão de esperança repentina no rosto de Ginger.

ele abriu a boca.

—    Quinze dólares — disse uma voz. Não era a dele. ele fechou a boca.

—    O quê? — espantou—se Dibbler. Victor abriu a boca.

_ Quinze dólares. Renegociável depois de uma semana. Quinze dólares ou nada.

Victor fechou a boca, revirando os olhos.

Dibbler balançou o dedo sob o nariz dele e depois hesitou.

—    Gostei! — disse finalmente. — Grande negociador! Ok. Três dólares.

—    Quinze.

—    Cinco é a minha última oferta, garoto. Há milhares de pessoas por aí que aceitariam correndo, certo?

—    Cite duas, senhor Dibbler.

Dibbler olhou para Detritus, perdido num devaneio relacionado a Ruby, e depois olhou fixamente para Ginger.

—    Ok. Dez. Porque eu gosto de você. Mas estou cavando a minha própria cova.

—    Fechado.

Cova estendeu a mão. Victor ficou olhando para a própria mão como se a estivesse vendo pela primeira vez, e depois apertou a mão dele.

—    e agora vamos voltar lá pra baixo. Tem muita coisa pra organizar.

ele saiu andando entre as árvores. Victor e Ginger seguiram atrás, de maneira submissa e em estado de choque.

—    Você está louco? — Ginger sussurrou. — Recusando ofertas desse jeito! Poderíamos ter perdido a nossa chance!

—    eu não disse nada! Achei que tivesse sido você! — disse Victor.

—    Foi você! — insistiu Ginger. Seus olhares se encontraram. eles olharam para baixo.

—    Late, late — disse Gaspode o Cão Prodígio. Dibbler virou para trás.

—    Que barulho foi esse? — perguntou.

—    Ah, e... é só um cachorro que encontramos — respondeu Victor rapidamente. — ele se chama Gaspode. Como o famoso Gaspode, sabe?

—    ele faz truques — disse Ginger, num tom malicioso.

—   Um cão performático? — Dibbler se inclinou e passou a mão na cabeça em forma de bala de Gaspode.

—    Rosna, rosna.

—    Você ficaria impressionado com as coisas que ele sabe fazer — observou Victor.

—    Impressionado — ecoou Ginger.

—    Mas é feio pra diabo — disse Dibbler. ele lançou um olhar demorado e lento para Gaspode, o que era o equivalente a desafiar uma centopéia para uma competição de chute no traseiro. Gaspode era capaz de encarar até um espelho sem medo.

Dibbler parecia ruminar uma idéia na cabeça.

—    Veja bem... Leve-o com você amanhã de manhã. As pessoas gostam de dar uma boa risada — disse Dibbler.

—    Ah, dá pra rir com ele mesmo — concordou Victor. — Gargalhar.

Quando eles seguiram andando, Victor ouviu uma voz calma atrás dele dizer:

—    Você me paga por essa. está me devendo um dólar, de qualquer maneira.

—    Por quê?

—    Comissão do empresário — explicou Gaspode o Cão Prodígio.

Sobre Holy Wood, apareciam as estrelas. eram enormes bolas de hidrogênio aquecidas a milhões de graus — tão quentes que não conseguiam pegar fogo. Muitas inchariam consideravelmente antes de morrer e depois encolheriam até se tornar anãs minúsculas e rancorosas, lembradas apenas por astrônomos sentimentais. enquanto isso, brilhavam graças a metamorfoses que estavam alem do alcance dos alquimistas e transformavam meros elementos sem graça em pura luz.

Sobre Ankh-Morpork apenas chovia.

Os magos mais experientes se amontoaram ao redor do vaso dos elefantes. ele havia sido devolvido ao corredor por ordem expressa de Ridcully.

—    eu me lembro de Riktor — comentou o Decano. — Homem muito magro. Mente um pouco tacanha. Mas esperto.

—   He, he. eu me lembro do seu contador de ratos — disse Windle Poons em sua cadeira de rodas antiga. — Costumava contar ratos.

—    O vaso em si e bastante... — começou o tesoureiro, mas mudou de assunto — Como assim, contar ratos? eles eram colocados no aparelho por uma correia ou algo do tipo?

—    Ah, não. era só dar corda, sabe, e ele ficava lá, fazendo um zumbido e contando todos os ratos do predio. Mm, e umas rodinhas com números iam subindo.

—    Por quê?

—    Mm?. Acho que ele só queria contar os ratos.

O tesoureiro deu de ombros.

—    este vaso — começou, examinando de perto — e na verdade

um vaso Ming bastante antigo.

ele aguardou, com expectativa.

—    Por que se chama Ming? — perguntou o arqui-reitor, aproveitando a deixa.

O tesoureiro deu um tapinha no vaso. ele fez "ming".

—    e eles cospem balas de chumbo nas pessoas, e? — perguntou Ridcully.

—    Não, mestre. ele apenas utilizava isso para colocar o... mecanismo dentro. Qualquer que seja ele. O que quer que esteja fazendo.

... whumm...

—    espere! ele oscilou — observou o Decano.

... whumm... whumm...

Os magos se encararam num pânico súbito...

—    O que está acontecendo? O que está acontecendo? — perguntou Windle Poons. — Por que ninguém, mm, me diz o que está acontecendo?

... whumm... whumm...

—    Corram! — exclamou o Decano.

—    Pra que lado? — perguntou o Tesoureiro com a voz trêmula.

... whummWHUMM...

—    eu sou um homem idoso e exijo que alguém me diga o que está...

Silêncio.

—    Abaixem—se! — gritou o arqui-reitor.

Plib.

Uma lasca de pedra foi arrancada do pilar atrás dele. ele ergueu a cabeça.

—    Caramba, foi por pura sorte que es...

Plib.

A segunda bolinha de chumbo arrancou a ponta do seu chapéu.

Os magos ficaram tremendo sobre as pedras do pavimento durante alguns minutos. Depois de algum tempo, ouviram a voz abafada do decano:

—    Vocês acham que já acabou?

O arqui-reitor ergueu a cabeça. Seu rosto, sempre vermelho, agora estava incandescente.

—    Tesoureiro?

—    Isso é o que eu chamo de disparo!

Victor se virou.

—    Wzstf— ele disse.

—    São seis da manhã, levante-se e brilhe, o seu Dibbler disse — disse Detritus, agarrando as roupas de cama com uma mão e arrastando-as para o chão.

—    Seis horas? (Mas ainda é madrugada). — gemeu Victor.

—    Vai ser um longo dia, o seu Dibbler disse — continuou o troll. — O senhor Dibbler disse que você tem que estar no set às seis e meia. Isso vai acontecer.

Victor vestiu a calça.

—    Imagino que eu consiga tomar café — disse, num tom sarcástico.

—    O seu Dibbler está providenciando comida, o seu Dibbler disse.

Havia um barulho de respiração ofegante debaixo da cama. Gaspode surgiu de um tapete velho e deu a primeira cocada do dia.

_ O qu... — ele começou, mas viu o troll. — Late, late — ele se corrigiu.

—    Oh. Um cachorrinho. eu gosto de cachorrinhos — disse Detritus.

—    Au, au.

—    Passa — acrescentou o troll. Mas ele não conseguiu colocar a quantidade certa de maldade permitida na voz. Visões de Ruby com o seu boá de plumas e três acres de veludo vermelho passavam ondulando pela sua mente.

Gaspode cocou a orelha com força.

—    Au — disse com calma. — em tom de pouca ameaça — acrescentou, depois que Detritus tinha ido embora.

O declive da colina já estava cheio de gente quando Victor chegou. Algumas tendas haviam sido montadas. Alguém segurava um camelo. Várias gaiolas de demônios faziam algazarra à sombra de um espinheiro.

No meio de tudo isso, Dibbler e Silverfish discutiam. Dibbler estava com o braço sobre o ombro de Silverfish.

—    Uma grande traição, e isso — disse uma voz na altura dos joelhos de Victor. — Quer dizer que algum pobre coitado vai pro brejo.

—    Vai ser uma evolução para você, Tom! — Dibbler dizia. — Sabe, quantas pessoas em Holy Wood podem se denominar Vice-Presidente encarregado de Assuntos executivos?

—    Sim, mas a empresa e minha! — protestou Silverfish.

—    Certo! Certo! e isso o que o nome Vice-Presidente encarregado de Assuntos executivos significa.

—    Sério?

—    eu já menti pra você alguma vez? Silverfish franziu a testa.

—    Bem, ontem você disse...

—    Quero dizer metaforicamente — emendou Dibbler rapidamente.

—    Ah. Bem. Metaforicamente? Acho que não...

—Aí está, então. Bom, onde está aquele artista? — Dibbler deu um giro, dando a impressão de que Silverfish tinha sido desligado.

Um homem subiu correndo com uma pasta debaixo do braço.

—    Sim, senhor, senhor Dibbler!

Cova tirou um pedaço de papel do bolso.

—    eu quero o cartaz pronto hoje à noite, entendeu? Toma. este e o nome do clique.

—    Sobras do Dheserto — leu o artista. ele franziu a sobrancelha. ele tinha estudado mais do que Holy Wood exigia. — e sobre comida? — perguntou.

Mas Dibbler não estava ouvindo. ele partia para cima de Victor.

—    Victor! Meu querido!

—    ele foi afetado — observou Gaspode calmamente. — Foi afetado mais do que qualquer um, eu acho.

—    O que o afetou? Como e que você sabe? — Victor sussurrou.

—    em parte por causa dos sinais sutis que você não parece conseguir reconhecer, em parte porque ele tem agido como um grande idiota.

—    Que ótimo ver você! — entusiasmou—se Dibbler, com um brilho louco no olhar. — ele pôs o braço sobre o ombro de Victor e meio andou, meio o arrastou em direção às tendas. — este vai ser um filme excelente!

—    Ah, ótimo — disse Victor, vacilante.

—    Você faz o papel de um chefe de bandoleiros, só que e um cara legal também, gentil com as mulheres e assim por diante. Você invade uma aldeia e leva uma escrava, mas quando olha nos olhos dela, sabe, você se apaixona, aí tem uma invasão com centenas de homens montados em elefantes, que atacam...

—    Camelos — corrigiu um jovem magrelo atrás de Dibbler. — São camelos.

—    eu pedi elefantes!

—    Mas recebeu camelos.

_ Camelos, elefantes — continuou Dibbler com desprezo. _ estamos falando de coisas exóticas, certo? e... _ e só temos um — interrompeu o jovem.

—    Um o quê?

—    Camelo. Só conseguimos encontrar um camelo.

—    Mas estou com dezenas de homens com lençóis na cabeça esperando pelos camelos! — gritou Dibbler, balançando as mãos para cima. — Muitos camelos, certo?

—    Só temos um camelo porque só tem um camelo em Holy Wood, e isso porque um cara de Klatch veio de lá até aqui montado nele.

—    Você devia ter mandado vir mais! — gritou Dibbler.

—    O senhor Silverfish disse que não era pra fazer isso.

Dibbler rosnou.

—    Talvez, se ele se mexer bastante, possa parecer que tem mais de um camelo — disse o jovem com otimismo.

—    Por que você não manda um dos homens passar com o camelo na frente da caixa de imagens, pede pro operador de ma—nivela parar os demônios e depois volta com o camelo pra colocar um homem diferente em cima dele? Aí faz a caixa funcionar novamente e passa com ele de novo — sugeriu Victor. — Será que funciona?

Dibbler olhou para ele com a boca aberta.

—    O que foi que eu disse? — começou, olhando para o céu. —O rapaz e um gênio! Desse jeito conseguimos 100 camelos pelo preço de um, certo?

—    Mas isso significa que os bandidos do deserto andam em fila única — observou o jovem. — Não e bem um ataque em massa, sabe?

—    Claro, claro — concordou Dibbler, sem dar importância.

—    Faz sentido. e só a gente colocar um cartaz em que o líder diz...

—    ele pensou por um segundo. — ele diz: "Sigam-me numa única fileira, bwanas, para enganar o odioso inimigo", certo?

e balançou a cabeça para Victor.

—    Já conhece o meu sobrinho Soll? — perguntou. — Rapaz esperto. Quase foi pra escola e tudo o mais. Trouxe ele pra cá ontem. É Vice-Presidente encarregado de Fazer Filmes.

Soll e Victor se cumprimentaram com um aceno de cabeça.

—    Acho que "bwanas" não é a palavra certa, tio — disse Soll.

—    É klatchiano, não e?

—    Bom, tecnicamente, sim. Mas acho que e a parte errada de Klatch e, talvez, "efêndi" ou algo assim...

—    Desde que seja estrangeiro — disse Dibbler, sugerindo que a questão estava resolvida. ele deu outro tapinha nas costas de Victor. — Ok, garoto, põe o figurino. — Deu uma risadinha. — Cem camelos! Que cabeça!

—    Com licença, senhor Dibbler — interrompeu o artista do cartaz, que ficara andando de um lado para o outro, inquieto —, não entendi esta parte aqui...

Dibbler arrancou o papel da mão dele.

—    Que parte? — perguntou bruscamente.

—    A que você descreve a senhorita Dos Pecados...

—    É óbvio. Queremos evocar aqui o romance fascinante e exótico, ainda que distante, de uma Klatch salpicada de pirâmides, certo? então naturalmente temos que usar o símbolo de um continente misterioso e impenetrável, entende? eu tenho que explicar tudo para todo mundo todas as vezes?

—    e que eu achei... — começou o artista.

—    Faça o que e pra fazer!

O artista olhou para o papel na sua mão.

—    “Ela possui o rosto" — leu — "de uma Finge".

—    Certo. Certo!

—    Creio que talvez seja esfinge...

—    está ouvindo esse homem? — disse Dibbler, falando com o céu mais uma vez. ele encarou o artista. — ela não se parece com uma Finge que já deixou de ser Finge, certo? e uma Finge, e não ex-Finge. Agora anda com isso. eu quero esses cartazes por toda a cidade amanhã cedo.

O artista olhou para Victor com uma expressão agoniada que o quase mago começava a reconhecer. Todo mundo que permanecia perto de Dibbler ficava assim após algum tempo.

—    O senhor está certo, senhor Dibbler.

—   Certo. — Dibbler voltou a falar com Victor. — Por que ainda não se trocou? — perguntou.

Victor entrou rapidamente na tenda. Uma pequena velhinha11 com o formato de uma broa de milho o ajudou a vestir um figurino aparentemente feito de lençóis tingidos de preto por alguém que não sabia muito bem o que estava fazendo — ainda que, dadas as atuais condições de hospedagem em Holy Wood, eram apenas lençóis retirados de uma cama qualquer. Depois ela lhe passou uma espada curva.

—    Por que ela está torta? — ele perguntou.

—    Acho que é assim mesmo, querido — ela respondeu, meio em dúvida.

—    Achei que as espadas tivessem que ser retas — argumentou Victor. ele conseguiu ouvir Dibbler, do lado de fora, perguntando para os céus por que todo mundo era tão burro.

—    Talvez elas sejam retas no começo e entortem com o uso — arriscou a senhora, dando um tapinha na mão dele. — Muitas coisas ficam assim.

ela abriu um sorriso radiante para ele.

—    Se estiver tudo bem com você, querido, é melhor eu ir ajudar a mocinha e ver se algum anãozinho está espiando ela.

A velha saiu da tenda com dificuldade. Da tenda ao lado veio um barulho de metal rachando e o som da voz alta de Ginger reclamando.

Victor fez alguns movimentos experimentais com a espada.

Gaspode o observava com a cabeça inclinada para o lado.

 

  1. Dona Marietta Cosmopilite, antiga costureira de Ankh-Morpork até que seus sonhos a levaram a Holy Wood, onde descobriu que sua habilidade com a agulha era altamente apreciada. Um dia uma cerzideira de meias comuns; agora tricota cotas de malha de ferro falsas para trolls e é capaz de fazer uma calça de odalisca num abrir e fechar de olhos.

 

—   O que você é, afinal? — perguntou finalmente.

—    Um líder de um bando de ladrões do deserto, ao que parece. Romântico e elegante.

—    elegante onde?

—    Apenas elegante de modo geral, acho. Gaspode, o que você estava querendo dizer quando disse que algo havia afetado Dibbler?

O cachorro roeu uma pata.

—    Olhe para os olhos dele. estão piores que os seus.

—    Os meus? O que há de errado com os meus? Detritus, o troll, colocou a cabeça para dentro da tenda.

—    O seu Dibbler tá dizendo que quer você agora.

—    Olhos? — continuou Victor. — Alguma coisa com os meus olhos?

—    Au, au.

—    O seu Dibbler tá dizendo... — começou Detritus.

—    está bem, está bem! estou indo!

Victor saiu da sua tenda ao mesmo tempo em que Ginger saiu da dela. ele fechou os olhos.

—    Nossa, me desculpe — balbuciou. — Vou voltar e esperar você se vestir...

—    eu estou vestida.

—    O seu Dibbler tá dizendo... — recomeçou Detritus, atrás deles.

—    Vamos — disse Ginger, segurando o seu braço. — Não devemos deixar todo mundo esperando.

—    Mas você está... o seu... — Victor baixou o olhar, o que não ajudava muito. — Você tem um umbigo no diamante — arriscou.

—    eu já resolvi aceitar isso — disse Ginger, flexionando os ombros um esforço para fazer as coisas ficarem no lugar. — essas duas tampas de frigideira e que estão me dando problema. Fazem você entender como aquelas pobres meninas nos haréns devem sofrer.

—    e você não se importa que as pessoas a vejam desse jeito? perguntou Victor, impressionado.

—    Por que deveria? estamos nas imagens animadas. Não e nada real. Mesmo assim, você ficaria impressionado com o que as meninas têm que fazer por muito menos de dez dólares por dia.

—    Nove — corrigiu Gaspode, que ainda arrastava atrás dos calcanhares de Victor.

—    Certo! Juntem—se, pessoal! — gritou Dibbler num megafone.

—    Filhos do Deserto ali, por favor. As escravas... onde estão as escravas? Certo. Operador de manivela?...

—    Nunca vi tanta gente num clique — sussurrou Ginger. — Deve custar mais de 100 dólares!

Victor observou os Filhos do Deserto. Parecia que Dibbler havia aparecido no restaurante do Borgle e contratado as 20 pessoas mais próximas da porta, sem levar em consideração se seriam apropriadas ou não, e dado a cada uma delas o que imaginava ser o enfeite de cabeça dos bandidos do deserto. Havia Filhos do Deserto trolls — Rocha o Reconheceu e acenou discretamente —, Filhos do Deserto anões e, arrastando—se até o fim da fila, um Filho pequeno e peludo com um enfeite de cabeça que ia até as patas que se cocava furiosamente.

—    ... agarre ela, fique extasiado com sua beleza e depois atire ela por cima da sua maçaneta — a voz de Dibbler penetrou a sua consciência.

Victor repassou desesperadamente na cabeça as instruções ouvidas pela metade.

—    Minha o quê?

—    e a parte da frente da sua sela — sussurrou Ginger.

—Ah.

—    Aí você sai cavalgando noite adentro, com todos os Filhos atrás de você, cantando músicas estimulantes de bandidos do deserto...

—    Ninguém vai ouvir — observou Soll, tentando ajudar. — Mas, se eles abrirem e fecharem a boca, vai ajudar a criar uma... sabe... ambiência.

—    Mas não e de noite — disse Ginger. — e a mais clara luz do dia.

Dibbler olhou fixamente para ela.

A boca dele se abriu uma ou duas vezes.

—    Soll! — gritou.

—    Não podemos filmar à noite, tio — apressou—se em esclarecer o sobrinho. — Os demônios não conseguiriam enxergar. Não vejo por que não colocar um cartaz escrito "Noite" no começo da cena, para que...

—    Mas isso não e a magia das imagens animadas! — vociferou Dibbler. — Isso e fazer besteira!

—   Com licença — interrompeu Victor. — Desculpe, mas certamente isso não importa, porque com certeza os demônios podem pintar um céu preto com estrelas...

Houve um momento de silêncio. Depois Dibbler olhou para Gaffer.

—    Podem? — perguntou.

—    Nah — disse o operador de manivelas. — Já e um sacrifício fazer com que pintem o que estão vendo, imagine o que não estão vendo.

Dibbler esfregou o nariz.

—    Pode ser que eu esteja disposto a negociar — disse.

O operador de manivela deu de ombros.

—    O senhor não está entendendo, senhor Dibbler. Pra que eles iam querer dinheiro? Iam apenas comê-lo. Se a gente começa a dizer para eles pintarem o que não está lá, a gente começa a ter todo tipo de...

—    Talvez a lua cheia esteja brilhando muito — arriscou Ginger.

—    e uma boa maneira de ver a coisa — concordou Dibbler. — Faremos um cartaz em que Victor diz a Ginger algo como: "Como a lua está brilhante esta noite, bwana".

—    Algo assim — concordou Soll, diplomático.

era meio-dia. Holy Wood reluzia sob o sol como uma jujuba sabor champanhe mastigada. Os operadores de manivela giravam suas manivelas, os figurantes corriam de um lado para o outro com entusiasmo, Dibbler se enfurecia com todo mundo, e a história da cinematografia se fez com uma cena em que três anões, quatro homens, dois trolls e um cão montavam o mesmo camelo e gritavam aterrorizados para que ele parasse.

Victor foi apresentado ao camelo, que piscou seus longos cílios para ele e parecia estar mastigando uma sopa. estava de joelhos, e era possível perceber que tivera uma longa manhã e não estava disposto a engolir sapo. Até aquele momento, já tinha dado coice em três pessoas.

—    Como ele se chama? — perguntou, com cuidado.

—    Nós o chamamos de Filho de uma Cadela Perverso— respondeu o recém—nomeado Vice-Presidente encarregado dos Camelos.

—    Isso não parece um nome.

—    e um ótimo nome para este camelo — insistiu o treinador com veemência.

—    Não há nada de errado em ser um filho de uma cadela — disse uma voz atrás dele. — eu sou um filho de uma cadela. Meu pai era um filho de uma cadela, seu desgraçado de pijama sujo.

O treinador deu um sorriso nervoso para Victor e se virou. Não havia ninguém atrás dele. ele olhou para baixo.

—    Au, au — disse Gaspode, e balançou o que era quase um rabo.

—    Você acabou de ouvir alguém dizer alguma coisa?

—    Não — respondeu Victor. ele se inclinou para perto de uma das orelhas do camelo e sussurrou, caso fosse um camelo especial de Holy Wood: — Olha, eu sou amigo, está bem?

Filho de uma Cadela Perverso balançou uma orelha da gros—sura de um carpete.12

—    Como e que se monta nele? — perguntou.

—    Quando você quiser ir para a frente, você xinga ele e bate nele com uma vara e, quando quiser parar, xinga ele e bate pra valer com a vara.

—    e quando quiser que ele vire?

—    Bom, aí você já está indo pro Manual Avançado. A melhor coisa a fazer e descer e o fazer virar puxando com a mão.

—    Quando vocês estiverem prontos! — berrou Dibbler pelo megafone. — Agora você monta, vai até a tenda, pula para fora do camelo, luta com eunucos enormes, invade a tenda, sai arrastando a garota, sobe de volta no camelo e vai embora. entendeu? Acha que dá pra fazer?

— Que eunucos enormes? — perguntou Victor, enquanto o camelo ficava de pé.

Um dos eunucos enormes levantou a mão timidamente.

—    Sou eu. Morry.

—    Ah. Oi, Morry.

 

  • Os camelos são inteligentes demais para admitir que são inteligentes.

 

—    Oi, Vic.

—    e eu, Rocha — disse o segundo eunuco enorme.

—    Oi, Rocha.

—    Oi, Vic.

—    Aos seus lugares, pessoal! — gritou Dibbler. — Nós vamos... O que foi, Rocha?

—    e... e que eu tava pensando, seu Dibbler... Qual e a minha motivação para esta cena?

—    Motivação?

—    e. e... Tenho que saber, sabe.

—    Que tal: eu demito você se não fizer a cena direito? Rocha sorriu.

—    Certo, seu Dibbler.

—    OK — prosseguiu Dibbler. — Todo mundo pronto... roda! Filho de uma Cadela Perverso se virou de modo desajeitado,

sacudindo as pernas em ângulos esquisitos de camelos, e depois começou um trote complicado.

A manivela girou...

O ar brilhou.

e Victor acordou. era como sair lentamente de uma nuvem cor—de—rosa ou de um sonho grandioso que, por mais que você tente se lembrar, desaparece de sua mente à medida que a luz do dia se aproxima, deixando uma terrível sensação de perda. Nada — você sabe de modo instintivo —, nada que você viva durante o resto do dia chegará perto de ser tão bom quanto aquele sonho.

ele piscou os olhos. As imagens se apagaram aos poucos. ele sentiu uma dor nos músculos, como se tivesse se esforçado muito para fazer algo.

—    O que aconteceu? — murmurou.

ele olhou para baixo.

—    Uau — exclamou. Uma extensão de traseiro seminu ocupava um espaço que há pouco tempo era ocupado pelo pescoço do camelo. era uma melhoria.

—    Nossa — disse Ginger com indiferença. — estou em cima de um camelo?

—    Sei lá. Não era isso o que queria fazer?

ela deslizou até a areia e tentou arrumar o figurino.

Naquele momento, os dois perceberam que estavam sendo observados.

Lá estava Dibbler. Lá estava o sobrinho de Dibbler. Lá estava o operador de manivela. Lá estavam os figurantes. Lá estavam os vários vice—presidentes e outras pessoas que aparentemente passam a existir por meio da mera presença da criação de cenas animadas.13 Lá estava Gaspode o Cão Prodígio.

e todos eles, exceto o cachorro, que dava uma risadinha, estavam de boca aberta.

A mão do operador de manivela ainda girava a manivela. ele olhou para a mão, como se sua presença fosse uma novidade, e parou.

Dibbler pareceu sair da espécie de transe em que estava.

—    Whuuhuu — disse. — Caramba.

—    Magia — suspirou Soll. — Magia de verdade. Dibbler cutucou o operador de manivelas.

—    Você pegou tudo isso?

—    Isso o quê? — disseram Ginger e Victor ao mesmo tempo.

então Victor notou Morry sentado na areia. Uma lasca consideravelmente grande de seu braço havia se desprendido. Rocha estava colocando uma espécie de reboco no local. O troll notou a expressão de Victor e deu um sorriso murcho para ele.

—    Tá achando que e Cohen o Bárbaro, e?

—    e — concordou Rocha. — Não tinha necessidade de chamar ele do que você chamou. e, se você sair fazendo acrobacias com a espada de novo, vamos pedir mais um dólar por dia, por Risco de Arrancarem Pedaço.

A espada de Victor tinha alguns talhos na lâmina. ele poderia jurar pela sua vida que não conseguia imaginar como foram parar ali.

—    Olha — ele começou, desesperado —, eu não estou entendendo. eu não chamei ninguém de nada. Já começamos a filmar?

—    Num minuto estou sentada numa tenda, no outro sinto cheiro de camelo — disse Ginger, atrevida. — e demais perguntar 0 que está acontecendo?

 

  • Algumas delas carregam pranchetas.

 

Ninguém parecia ouvir os dois.

—    Porque não conseguimos encontrar um jeito de colocar som nisso? — perguntou Dibbler. — O diálogo foi bom pra caramba. Não entendi uma palavra, mas eu reconheço um bom diálogo quando ouço.

—    Papagaios — sugeriu o operador de manivela num tom trivial. — O Howondalândia Verde comum. Pássaro impressionante. Memória de elefante. Pega algumas dúzias deles, de tamanhos diferentes, e você consegue um voca...

Aquilo deu início a uma detalhada discussão técnica. Victor escorregou do lombo do camelo e desviou do seu pescoço para chegar perto de Ginger.

—    Ouça — ele disse num tom de urgência —, foi igual à última vez. Só que mais forte. Como uma espécie de sonho. O operador de manivela começou a pegar as cenas, e tudo foi como um sonho.

—    Sim, mas o que nós fizemos realmente?

—    O que você fez — explicou Rocha — foi galopar no camelo até a tenda, pular dele, vir pra cima da gente feito um moinho de vento...

—    ... pisando nas pedras e rindo... — completou Morry.

—    e, e você disse pro Morry: "Toma isso, seu Guarda Imundo". Depois deu uma pancada bem no braço dele, fez um buraco na tenda...

—    Mas manejou bem a espada — observou Morry, fazendo a sua avaliação. — Um pouco exibido, mas muito bom.

—    Mas eu não sei como... — começou Victor.

—    ... e ela estava lá deitada, toda lambida — disse Rocha. — e você pegou ela, e ela disse...

—    Lambida? — perguntou Ginger, num tom vago.

 

—    Lânguida — corrigiu Victor. — Acho que ele quis dizer lânguida.

—    ... ela disse: "Oh, e o Ladrão de... o Ladrão de..." — Rocha hesitou. — "Da Bago", acho que você disse.

—    Bagui Dá — corrigiu Morry, esfregando o braço.

—    e, e depois ela disse: "Você corre grande perigo, porque meu pai jurou que vai matá-lo", e você disse: "Mas agora, ó bela rosa, posso revelar—te que na verdade sou a Sobra do Deserto"...

—    O que significa lânguida? — perguntou Ginger, desconfiada.

—    e também disse: "Agora voe comigo pro meu casbah", ou algo assim. Depois deu nela um... um... negócio que os humanos fazem com os lábios...

—    Assobio? — arriscou Victor, com pouca esperança.

—    Não, a outra coisa. Tem o som de uma rolha saindo da garrafa — explicou Rocha.

—    Beijo — disse Ginger com indiferença.

—    e. Não que eu tenha condições de julgar — continuou Rocha —, mas pareceu durar um bom tempo. Definitivamente muito, sabe, com cara de beijo mesmo.

—    Achei que a gente ia precisar do balde d'água — interrompeu uma calma voz canina atrás de Victor. ele deu um chute para trás, mas não conseguiu acertar.

—    Aí você subiu no camelo de novo e puxou ela pra cima, e o senhor Dibbler gritou: "Pára, pára, que diabos está acontecendo, por que ninguém me diz o que está acontecendo, caramba"

—    continuou Rocha. — e aí você disse: "O que aconteceu?"

—    Não sei quando foi a última vez que vi alguém manejando a espada daquele jeito — observou Morry.

—    Oh. Bem... Obrigado.

—    Toda aquela gritaria: "Há!" e "Tome isso, seu cachorro". Muito profissional.

—    entendi — disse Victor. ele esticou a mão para o lado e pegou o braço de Ginger. — Temos que conversar — sussurrou.

—    em algum lugar sossegado. Atrás da tenda.

—    Se você acha que vou para algum lugar sozinha com você...

—    ela começou.

—    Olha, agora não e o momento para começar a agir como...

Uma mão pesada pousou sobre o ombro de Victor. ele se

virou e viu o contorno de Detritus eclipsando o mundo.

—    O seu Dibbler não quer ninguém fugindo. Todo mundo tem que ficar aqui até quando o seu Dibbler mandar.

—    Você e um pé-no-saco mesmo, sabia? — disse Victor. Detritus deu um grande sorriso para ele, cravejado de pedras preciosas.14

 

  • Os dentes dos trolls são feitos de diamantes.

 

—O seu Dibbler disse que eu posso ser um vice—presidente

—    ele disse com orgulho.

—    encarregado de quê? — perguntou Victor.

—    Dos vice—presidentes — respondeu Detritus.

Gaspode o Cão Maravilha fez um leve som de rosnado no fundo da garganta. O camelo, que ficara ociosamente olhando para o céu, se aproximou em silêncio e, de repente, deu um coice que acertou o troll na lombar. Detritus uivou. Gaspode deu ao mundo um olhar de satisfação inocente.

—    Vamos lá — disse Victor num tom rígido. — enquanto ele procura alguma coisa pra jogar no camelo.

Eles se sentaram na sombra atrás da tenda.

—    Só quero que você saiba — começou Ginger friamente — que nunca na minha vida tentei parecer lânguida.

—    Poderia valer a pena tentar — disse Victor distraidamente.

—    O quê?

—    Desculpe. Olha, algo nos fez agir daquele jeito. eu não sei usar uma espada. eu sempre mexia ela só de um lado pro outro. Como você se sentiu?

—    Sabe como você se sente quando ouve alguém dizer algo e percebe que estava sonhando acordado?

—    Era como se a minha própria vida ficasse distante e alguma outra coisa preenchesse o seu espaço.

Eles refletiram sobre isso em silêncio.

—    Você acha que isso tem algo a ver com Holy Wood? — ela perguntou.

Victor concordou com a cabeça. Depois, se jogou de lado e caiu em cima de Gaspode, que ouvia tudo com atenção.

—    Caim — disse Gaspode.

—    Agora ouça — Victor sussurrou na sua orelha. — Chega de ficar falando indiretamente. O que foi que você notou em nós? Se não responder, vai pro Detritus. Com mostarda.

O cachorro se contorceu entre as mãos dele.

—    Ou poderíamos fazer você usar uma focinheira — sugeriu Ginger.

—    Eu num sou perigoso! — reclamou Gaspode, raspando as patas na areia.

—    Um cachorro falante parece bastante perigoso pra mim —observou Victor.

—    Terrivelmente — concordou Ginger. — Você nunca sabe o que ele pode dizer.

—    Tá vendo? Tá vendo? — disse Gaspode, pesaroso. — Sabia que só ia dar problema mostrar que consigo falar. Isso não deveria acontecer com um cachorro.

—    Mas vai — insistiu Victor.

—    Ah, tá bom. Tá bom. Se é que vai adiantar alguma coisa —murmurou Gaspode.

Victor relaxou. O cachorro ficou em pé e sacudiu a poeira do corpo.

—    Vocês não vão entender mesmo — resmungou. — Outro cachorro entenderia, mas vocês não. É uma questão de experiência da espécie, sabe. É como o beijo. Vocês sabem como e, mas eu não. Não é uma experiência canina. — ele notou a expressão de advertência no rosto de Victor e se apressou. — é o jeito que cês ficam, como se seu lugar fosse aqui. — ele os observou por um momento. — Tá vendo? Tá vendo? eu falei que cês num iam entender. e... é território, entendem? Vocês têm todos os sinais de estar exatamente onde deveriam estar. Quase todo mundo aqui é de fora, menos vocês. e... Tipo, cês já devem ter notado como os cachorros latem pra você quando cê é novo num lugar. Não e só olfato, a gente tem um senso de deslocamento incrível. Tipo... não tem humano que se sente desconfortável quando vê um quadro pendurado torto? é tipo isso, só que pior. e como se o único lugar em que cê deveria estar agora fosse aqui. — ele olhou para eles mais uma vez e, em seguida, cocou a orelha compenetradamente.

—    Que diabo! O problema é que eu consigo explicar em língua de cachorro, mas cês só entendem a língua dos humanos.

—    Pra mim, isso soa meio místico — disse Ginger.

—    Você disse alguma coisa em relação ao meu olhar — lembrou Victor.

—    É, pois é. Cê já viu o seu olhar? — Gaspode balançou a cabeça afirmativamente para Ginger. — O seu também, moça.

—    Não seja idiota — reclamou Victor. — Como é que podemos ver o nosso próprio olhar?

Gaspode encolheu os ombros.

—    Cês poderiam olhar um prós olhos do outro — sugeriu. Eles automaticamente se viraram e encararam um ao outro.

Houve um momento muito prolongado. Gaspode o utilizou para urinar ruidosamente sobre uma estaca da tenda. Finalmente Victor disse:

—    Uau!

Ginger disse:

—    O meu também?

—    Sim. Dói?

—    Você deveria saber.

—    Aí está, então — disse Gaspode. — e olhem para o Dibbler na próxima vez que o virem. Quero dizer, olhem mesmo.

Victor esfregou os olhos, que começavam a lacrimejar.

—    Era como se Holy Wood tivesse nos chamado aqui, feito alguma coisa conosco agora e tivesse, tivesse...

—    ... nos marcado — completou Ginger num tom amargo.

—    Foi isso o que ela fez.

—    Fica... é... fica bastante atraente, na verdade — observou Victor num tom gentil. — Dá uma espécie de brilho.

Uma sombra surgiu sobre a areia.

—    Ah, aqui estão vocês — disse Dibbler. ele pôs o braço sobre o ombro deles quando se levantaram e deu uma espécie de abraço. — Vocês, jovens, sempre saindo de perto para ficar juntos —  observou num tom malicioso. — Grande lance. Grande lance. Muito romântico. Mas temos um clique a fazer, e estou com um monte de gente esperando por vocês. Então vamos lá.

—    Entenderam o que eu quis dizer? — murmurou Gaspode calmamente. Quando você sabe o que está procurando, não dá para não encontrar.

No centro de cada olho de Dibbler havia uma estrelinha dourada.

Na região central do grande e obscuro continente de Klatch, o ar estava pesado e impregnado da promessa da próxima monção.

Sapos-bois coaxavam entre os juncos15 perto do rio lento e marrom. Crocodilos cochilavam no terreno alagadiço.

A natureza prendia a respiração.

Um gemido irrompeu no pombal de Azhural Nchoate, criador de animais. ele despertou do cochilo na varanda e foi até lá para descobrir o que causara a agitação.

Nos amplos currais atrás da choupana, alguns animais silvestres maltratados — mais baratos para vender mais depressa —, bocejando e ruminando no calor, olharam assustados quando N'choate pulou os degraus da varanda num único salto e correu em direção a eles.

Ele contornou o cercado das zebras e viu seu assistente M'Bu, que limpava calmamente o estábulo dos avestruzes.

—    Quantos... — ele parou e começou a ofegar.

M'Bu, que tinha 12 anos, largou a pá e deu um tapa forte nas costas dele.

—    Quantos... — tentou mais uma vez.

—    Tá exagerando de novo, chefe? — perguntou M'Bu com uma voz preocupada.

—    Quantos elefantes nós temos?

—    Acabei de vir de lá. Temos três.

—    Tem certeza?

—    Sim, chefe — respondeu M'Bu calmamente. — e fácil ter certeza com elefantes.

Azhural se agachou na poeira vermelha e começou a rabiscar apressadamente alguns números com um graveto.

—    O velho Muluccai deve ter meia dúzia — murmurou. — E Tazikel geralmente tem uns 20 ou mais. e tem o pessoal do delta, que geralmente tem uns...

—    Alguém tá precisando de elefantes, chefe?

—    ... tem 15 cabeças, ele me contou. e também tem um monte no serviço de corte e transporte de árvores, que provavelmente vai ficar barato, digamos duas dúzias...

—    Alguém tá precisando de muitos elefantes, chefe?

 

  1. Mas foram cortados na edição final da produção.

 

—    ... estava dizendo que tem uma manada lá prós lados de Tetse, não deve ser problema. Depois tem todos os vales na direção de...

M'Bu se debruçou na cerca e esperou.

—    Talvez 200, no máximo dez a mais ou a menos que isso — disse Azhural, jogando o graveto no chão. — Nem chega perto.

—    Não dá pra aproximar dez elefantes, chefe — comentou M'Bu com firmeza. ele sabia que contar elefantes era um trabalho de precisão. Um homem poderia não ter certeza de quantas esposas possuía, mas nunca em relação a elefantes. Ou você tinha ou você não tinha.

—    Nosso agente em Klatch tem um pedido de — Azhural engoliu seco — mil elefantes. Mil! Imediatamente! Pagamento no ato da entrega.

Azhural deixou o papel cair no chão.

—    Para um lugar chamado Ankh-Morpork — disse, desanimado. Ele suspirou. — Teria sido bom.

M'Bu cocou a cabeça e olhou fixamente para as nuvens em formato de cabeça de martelo que se amontoavam sobre o monte FWangi. A estepe seca logo estremeceria ao som do trovão das chuvas.

Ele se abaixou e pegou o graveto.

—    O que você está fazendo? — perguntou Azhural.

—    Desenhando um mapa, chefe.

Azhural balançou a cabeça.

—    Não adianta, garoto. São mais de 4 mil quilômetros até Ankh, acho. eu me empolgo, às vezes. Muitos quilômetros, sem elefantes suficientes.

—    Poderíamos atravessar a campina, chefe — sugeriu M'Bu. — Tem muitos elefantes nas campinas. Manda os mensageiros na frente. Poderíamos conseguir muito mais elefantes no caminho, sem problemas. Aquela campina e quase toda coberta de malditos elefantes.

—    Não, nós teríamos que dar a volta pela costa — disse o criador, desenhando uma linha longa e curva na areia — porque existe uma floresta bem aqui — ele bateu no solo ressecado — e aqui — bateu novamente, fazendo sacudir de leve um broto de árvore que começava a se desenvolver e havia confundido, por otimismo, a primeira batida com o início das chuvas. — Não tem estrada na floresta.

M'Bu pegou o graveto e desenhou uma linha reta atravessando a floresta.

—    No caminho por onde mil elefantes querem ir, chefe, não precisa de estrada nenhuma.

Azhural pensou nisso. Depois pegou o graveto e desenhou uma linha recortada ao lado da floresta.

—    Mas tem as Montanhas do Sol. Muito altas. Muitos desfiladeiros profundos. e nenhuma ponte.

M'Bu pegou o graveto, marcou a floresta e sorriu.

—    Eu sei onde tem muita madeira de qualidade que acabou de ser arrancada, chefe.

—    É? Ok, garoto, mas ainda temos que passar pelas montanhas.

—    Acontece que mil elefantes realmente fortes irão nessa direção, chefe.

M'Bu sorriu novamente. Sua tribo havia começado a afiar as pontas dos dentes.16 ele devolveu o graveto. Azhural abriu a boca devagar.

—    Pelas sete luas de Nasreem — sussurrou. — Nós poderíamos fazer isso, sim. São apenas... ah!... 2 mil... 2 mil e cem quilômetros por esse caminho. Talvez menos até. Sim. Poderíamos realmente fazer isso.

—    Sim, chefe.

—    Sabe, eu sempre quis fazer uma coisa grandiosa na minha vida. Alguma coisa de verdade — disse Azhural. — Sabe como e, um avestruz aqui, uma girafa ali... Não e o tipo de coisa que faz as pessoas se lembrarem de você... — ele olhou fixamente para o horizonte roxo acinzentado. — Nós poderíamos fazer isso, não?

—    Claro, chefe.

—    Atravessando as montanhas!

—    Claro, chefe.

Se você olhasse com bastante atenção, daria para ver que o roxo acinzentado estava coberto de branco.

—    São montanhas bem altas — insistiu Azhural, com uma ponta de dúvida na voz.

  1. Não por algum motivo religioso em particular. eles apenas gostavam bastante do efeito quando sorriam.

—    A ladeira que sobe também desce — disse M'Bu, como se estivesse dizendo um provérbio — é verdade. Tipo assim... na média, e tudo plano.

Ele olhou bem para as montanhas novamente.

—    Mil elefantes — murmurou. — Você sabia, garoto, que, quando construíram o túmulo do rei Leonid de Ephebe, usaram 100 elefantes para transportar as pedras? e 200 elefantes, segundo diz a história, foram empregados na construção do Rhoxie, o palácio do império de Klatch.

Um trovão foi ouvido à distância.

—    Mil elefantes — repetiu Azhural. — Mil elefantes. Pra que será que eles querem tudo isso?

Victor passou o resto do dia num estado de transe.

Houve mais galopes e lutas, e mais reorganização do tempo. ele ainda achava isso difícil de entender. Notou que o filme podia ser cortado e depois grudado novamente mais tarde, para que as coisas acontecessem na ordem certa. e algumas coisas nem precisavam acontecer. ele viu o artista desenhar um cartaz que dizia: "No Palácio do Rei, Uma Hora Depois".

Uma hora do Tempo havia desaparecido, do nada. e claro que ele sabia que ela não havia sido removida cirurgicamente de sua vida. era o tipo de coisa que acontecia o tempo todo nos livros. e no palco também. ele viu um grupo de artistas de rua uma vez, e a apresentação pulou como num passe de mágica da "Batalha em Tsort" para "A Fortaleza de ephebe, Na Mesma Noite" sem nada alem de uma breve descida da cortina de pano de saco e muitas colisões e palavrões abafados enquanto o cenário era trocado.

Mas isso era diferente. Dez minutos depois de fazerem uma cena, faziam outra que acontecia um dia antes, em outro lugar, porque Dibbler havia alugado as tendas para as duas cenas e não queria pagar mais aluguel do que o necessário. Só era preciso esquecer tudo o que não fosse o Agora, e isso era difícil quando se esperava a cada momento por aquela sensação de desaparecimento gradual...

Mas ela não veio. Logo após mais uma cena de luta sem entusiasmo, Dibbler anunciou que estava tudo terminado.

—    Não vamos fazer o final? — perguntou Ginger.

—    Vocês fizeram hoje de manhã — respondeu Soll. —Ah.

Houve um burburinho quando os demônios foram soltos de sua caixa e se sentaram, balançando as perninhas na beira da tampa e passando um cigarrinho de mão em mão. Os figurantes formaram fila para receber o pagamento. O camelo deu um coice no Vice-Presidente encarregado dos Camelos. O operador de manivelas desenrolou os enormes rolos de filmes para fora das caixas e partiu para qualquer que fosse a atividade enigmática de corte e colagem em que o operador de manivela se envolvia durante a madrugada. A senhora Cosmopilite, Vice-Presidente encarregada do Guarda—Roupa, juntou todos os figurinos e saiu logo dali, provavelmente para colocá-los de volta sobre as camas.

Alguns hectares de terreno com vegetação atrofiada deixaram de ser as dunas onduladas do deserto do Grande Nef e voltaram a ser terreno com vegetação atrofiada. Victor sentiu que a mesma coisa acontecia com ele.

Sozinhos ou aos pares, os artífices da magia das cenas animadas iam embora, rindo, brincando e combinando de se encontrar no Borgle mais tarde.

Ginger e Victor foram deixados a sós num círculo vazio e cada vez mais amplo.

—    Eu me senti assim na primeira vez em que o circo foi embora —lembrou—se Ginger.

—    O senhor Dibbler disse que faremos mais um amanhã —    disse Victor. — Tenho certeza de que ele vai inventando tudo enquanto faz. Ainda assim, temos dez dólares cada um. Menos o que devemos a Gaspode — acrescentou de forma conscienciosa. ele deu um sorriso bobo para ela. — Anime-se. Você está fazendo o que sempre quis fazer.

—    Não seja bobo. eu nem sabia que as imagens animadas

existiam até poucos meses atrás. Aliás elas nem existiam.

eles caminharam sem saber aonde ir, em direção à cidade.

—    O que você queria ser? — ele arriscou perguntar. ela deu de ombros.

—    Eu não sabia. Só sabia que não queria ser ordenhadora. Havia ordenhadoras em sua família. Victor tentou se lembrar de alguma coisa em relação a elas.

—    Sempre me pareceu um trabalho muito interessante, ordenhar vacas — observou num tom vago. — Tem aquelas florzinhas, os ranúnculos, sabe. E o ar puro.

—    E frio e úmido, e quando você acaba o serviço a maldita vaca chuta o balde e derrama tudo. Não me venha falar sobre ordenha. Ou sobre ser pastora. Ou pastora de gansos. eu realmente odiava a nossa fazenda.

— Oh.

— E eles queriam que eu me casasse com o meu primo quando eu tinha 15 anos.

—    Isso é permitido?

—    Ah, sim. Todo mundo se casa com um primo no lugar de onde venho.

—    Por quê?

—    Acho que elimina a preocupação sobre o que fazer no sábado à noite.

—Ah.

—    E você, não queria ser alguma coisa? — perguntou Ginger, colocando todo o desprezo de uma frase em meras quatro letras.

—    Sinceramente não. Tudo parece interessante até a hora em que você faz. Aí você descobre que não passa de mais um emprego. Aposto que até pessoas como Cohen o Bárbaro acordam de manhã pensando: "Oh, não, mais um dia esmagando os tronos cravejados de jóias pelo mundo com sandálias nos pés".

—   É isso o que ele faz? — perguntou Ginger, sem conseguir conter o interesse.

—    De acordo com as histórias, sim.

—    Por quê?

—    Sei lá. É só um emprego, acho.

Ginger pegou um punhado de areia. Havia conchinhas brancas no meio, que ficaram em sua mão quando a areia escorreu entre seus dedos.

—    Eu me lembro quando o circo veio para a nossa aldeia. eu tinha 10 anos. Tinha uma menina com uma malha de ginástica cheia de lantejoulas. ela andava na corda bamba. Dava cambalhotas em cima da corda. Todo mundo aplaudia e gritava. Não deixavam que eu subisse numa árvore, mas ela eles aplaudiam. Foi quando eu decidi.

—    Ah — começou Victor, tentando acompanhar a psicologia da coisa. — Você decidiu que queria ser alguém?

—    Não seja bobo. Foi quando decidi que seria muito mais do que simplesmente alguém.

Ela atirou as conchas na direção do pôr do sol e riu.

—    Serei a pessoa mais famosa do mundo. Todos se apaixonarão por mim, e viverei para sempre.

—    É sempre bom saber o que quer — comentou Victor num tom diplomático.

—    Sabe qual e a maior tragédia no mundo todo? — perguntou Ginger, sem prestar a mínima atenção a ele. — São todas essas pessoas que nunca descobrem o que realmente querem fazer ou no que são realmente boas. São todos os filhos que se tornam ferreiros porque seus pais eram ferreiros. Todas as pessoas que poderiam ter sido flautistas fantásticas, mas envelhecem sem nunca ter visto um instrumento musical e acabam se tornando péssimas agricultoras. Todas as pessoas com talentos que nem sequer descobrem que os têm. Talvez nunca nasçam numa época em que seja possível descobrir.

Ela respirou fundo.

—    São todas as pessoas que nunca chegam a saber o que realmente podem ser. São todas as chances desperdiçadas. Bom, Holy Wood e a minha chance, entende? Esta é a minha hora!

Victor concordou com a cabeça.

—    Sim. Magia para pessoas comuns, segundo Silverfish. Um homem gira uma manivela, e a sua vida é transformada.

—    E não apenas para mim — continuou Ginger. — É uma chance para todos nós. Para quem não é mago, rei ou herói. Holy Wood e como um grande cozido borbulhante, mas desta vez ingredientes diferentes sobem à tona. De repente, existem todas essas coisas novas para as pessoas fazerem. Você sabia que os teatros não permitem que as mulheres trabalhem como atrizes? Mas Holy Wood permite. E em Holy Wood há empregos para trolls que não envolvem apenas bater nas pessoas. e o que os operadores de manivela faziam quando não tinham manivelas para girar? — ela acenou vagamente na direção do brilho distante de Ankh-Morpork. —Agora estão procurando um jeito de acrescentar som às imagens animadas, e lá fora existem pessoas que serão extremamente boas para fazer, fazer... fazer sonzinhos. elas ainda nem sabem disso, mas estão lá. Consigo até senti-las. Estão lá.

Os olhos dela brilhavam feito ouro. "Pode ser apenas o pôr do sol", pensou Victor, "mas..."

—    Graças a Holy Wood, centenas de pessoas estão descobrindo o que realmente querem ser — continuou Ginger. — e milhares e milhares têm a chance de esquecer quem são durante uma hora ou mais. Toda esta droga de mundo está sendo sacudida.

—    É isso... — começou Victor — É isso o que me preocupa. É como se fôssemos encaixados nisso tudo. Você acha que estamos usando Holy Wood, mas Holy Wood está nos usando. Todos nós.

—    Como? Por quê?

—    Não sei, mas...

—    Olhe para os magos — continuou Ginger, vibrando de indignação. — Que bem a magia deles já fez para alguém?

—    Acho que ela meio que mantém o mundo unido... — começou Victor.

—    Eles são muito bons em chamas mágicas e coisas do tipo, mas sabem fazer pão? — Ginger não estava disposta a ouvir ninguém.

—   Não por muito tempo — respondeu Victor, tentando ajudar.

—    Como assim?

—    Algo real como o pão contém muita... bem... acho que chamam isso de energia. É necessária uma quantidade de força tremenda para criar essa energia. Teria que ser um mago muito bom para fazer um pão que durasse neste mundo mais do que uma mínima fração de segundo. Mas, na verdade, não e para isso que serve a magia, sabe — acrescentou rapidamente —, porque o mundo é...

—    Quem se importa? — interrompeu Ginger. — Holy Wood está realmente ajudando as pessoas comuns. É a magia da tela grande.

—    O que deu em você? Ontem à noite...

—    Aquilo foi naquela hora — disse Ginger, impaciente. — Não está vendo? Poderíamos chegar a algum lugar. Poderíamos nos tornar alguém. Graças a Holy Wood. O mundo é a nossa...

—    Carroça — completou Victor.

Ela balançou a mão num gesto de irritação.

—    Que seja. Eu estava pensando em casa, na verdade.

—    Sério? eu estava pensando em carroça.

—    Tesoureiro!

"Eu não deveria ter que correr de um lado para o outro desse jeito na minha idade", pensou o tesoureiro, passando com pressa pelo corredor para atender ao grito do arqui-reitor. Por que será que ele está tão interessado naquela porcaria? Vaso infeliz!”“

—    Estou indo, mestre — respondeu com a voz trêmula.

A mesa do arqui-reitor estava coberta de documentos antigos.

Quando um mago morria, todos os seus documentos eram guardados numa das áreas mais afastadas da Biblioteca. Prateleiras e mais prateleiras de papeis que se deterioravam em silêncio —   servindo de retiro para besouros misteriosos e traças secas — e se estendiam por uma distância incalculável. Todo mundo dizia para todo mundo que ali havia uma riqueza de material para Pesquisadores, se alguém conseguisse encontrar tempo para se dedicar àquilo.

O tesoureiro estava irritado. Ele não conseguia encontrar o bibliotecário em lugar nenhum. O símio nunca parecia estar por perto ultimamente. Ele teve que mexer nas coisas sozinho.

—    Acho que estes são os últimos, arqui-reitor — disse, tombando uma avalanche de documentos empoeirados sobre a mesa. Ridcully abanou as mãos numa nuvem de traças.

—    Papéis, papéis, papéis — resmungou. — Quantos papéis entre as coisas dele, hein?

—    É... 23.813, arqui-reitor. Ele contava e registrava.

—    Olhe para isso — começou o arqui-reitor. — "enumerador de estrelas"... "Contador de Reverendos para uso em Áreas eclesiásticas"... "Medidor de Pântanos"... Medidor de Pântanos! O homem era louco!

—    ele tinha uma mente muito organizada.

—    Dá no mesmo.

—    Isso e... e... realmente importante, arqui-reitor? — arriscou o tesoureiro.

—    O maldito negócio atirou bolas de chumbo em mim — disse Ridcully. — Duas vezes!

—    Tenho certeza de que não foi... e... de propósito...

—    Quero saber como ele foi feito, homem! Já imaginou as

possibilidades esportivas?

O tesoureiro tentou pensar nas possibilidades.

—    Tenho certeza de que Riktor não teve a intenção de fazer nenhum tipo de invenção agressiva — arriscou, sem esperanças.

—    Quem está preocupado com á intenção dele? Onde está o troço?

—    Pedi para alguns empregados que colocassem sacos de areia em volta dele.

—    Boa idéia. e...

... whumm... whumm...

era um som abafado que vinha do corredor. Os dois magos trocaram um olhar significativo. ... whumm... whummWHUMM. O Tesoureiro prendeu a respiração. Plib. Plib. Plib.

O arqui-reitor olhou para a ampulheta acima da lareira.

—    ele está fazendo isso a cada cinco minutos agora.

—    e chega a dar três tiros — emendou o tesoureiro. — Terei que mandar trazer mais sacos de areia.

ele folheou um monte de papel. Uma palavra chamou sua atenção.

Realidade.

Passou os olhos pela caligrafia que fluía sobre a página. Parecia muito pequena, apertada e cautelosa. Alguém havia lhe dito que isso ocorria porque Riktor Números tinha retenção anal. O tesoureiro não sabia o que aquilo significava e esperava nunca descobrir.

Outra palavra era: Medição. Seu olhar deslizou para cima e percebeu o título sublinhado: Algumas Anotações Sobre a Medição Objetiva da Realidade.

No alto da página havia um diagrama. O tesoureiro o observou com atenção.

—    encontrou alguma coisa? — perguntou o arqui-reitor, sem

erguer a cabeça.

O tesoureiro enfiou o papel na manga do manto.

—    Nada importante.

Lá embaixo, a espuma das ondas estourava na areia. (... e, abaixo da superfície, as lagostas andavam para trás em ruas profundas e submersas...)

Victor atirou mais um pedaço de madeira* na fogueira. ela ficou azul ao queimar o sal.

—    eu não entendo ela — disse. Ontem parecia muito normal. Hoje todas essas coisas tomaram conta dela.

—    Cadelas! — comentou Gaspode num tom solidário.

—    Ah, eu não chegaria a dizer isso dela. ela só e desinteressada.

—    Desinteressadas!

—    e isso o que a inteligência faz com a sua vida sexual — observou Não—Me—Chame—de—Seu—Tampinha. — Os coelhos nunca tem esse tipo de problema. O negócio e "Vai, semeia e agradece à colheita".

154     A Magia de Holy Wood

—    Você poderia oferecer uma ratashana pra ela — sugeriu o gato. — Eshetuando-se os preshentes, é claro — acrescentou com sentimento de culpa, evitando o olhar de Definitivamente-Não-Guincho.

—    Ser inteligente não trouxe nenhuma melhora para a minha vida social também — disse Seu Tampinha num tom amargo.

—    Uma semana atrás, tudo bem. Agora, sem mais nem menos, eu quero conversar, e tudo o que eles fazem e sentar ali, franzindo o focinho pra mim. eu me sinto um verdadeiro idiota.

eles ouviram um grasnido sufocado.

—    O pato está dizendo: "Vocês fizeram alguma coisa em relação ao livro?" — traduziu Gaspode.

—    eu dei uma olhada nele quando fizemos a pausa pro almoço

—    disse Victor.

Houve mais um grasnido impaciente.

—    O pato disse: "e, mas o que você fez em relação a isso?"

—    Olha, não posso ir até Ankh-Morpork de uma hora pra outra — defendeu—se Victor, irritado. — Leva horas! Alem disso, nós filmamos o dia todo!

—    Peça um dia de folga — sugeriu Seu Tampinha

—    Ninguém pede um dia de folga em Holy Wood! Já fui demitido uma vez, obrigado.

—    e ele te aceitou de volta pagando mais — lembrou Gaspode.

—    engraçado, isso. — ele cocou a orelha. — Diga a ele que o seu contrato prevê que você pode ter um dia de folga.

—    eu não tenho contrato. Você sabe disso. A gente trabalha, a gente recebe. Simples.

—    e. e. e? Contrato verbal. e simples. Gostei.

Quando a noite estava acabando, Detritus, o troll, espreitava com movimentos desajeitados nas sombras perto da porta dos fundos do Calcário Azul. estranhas emoções haviam acabado com seu corpo durante todo o dia. Toda vez que fechava os olhos, via uma figura no formato de um morrinho.

ele tinha que enfrentar a situação com coragem.

Detritus estava apaixonado.

Sim, havia passado muitos anos em Ankh-Morpork batendo nas pessoas por dinheiro. Sim, era uma vida embrutecida e sem amigos. e solitária também. ele havia se conformado com uma velhice em que estaria solteiro, amargo. e agora, sem mais nem menos, Holy Wood lhe dava uma chance com a qual nunca sonhara.

ele tinha sido criado com rigidez e se lembrava vagamente do sermão que seu pai lhe deu quando era um jovem troll. "Se você vir uma garota e gostar dela, não vá logo para cima. existem maneiras apropriadas para fazer as coisas."

Havia ido até a praia e encontrado uma rocha. Não uma rocha qualquer. ele havia procurado com cuidado e encontrado uma rocha grande e alisada pelo mar, com traços de quartzo rosa e branco. Garotas gostam dessas coisas.

Naquele momento esperava, timidamente, que ela terminasse seu trabalho.

Tentava pensar no que dizer. Ninguém jamais havia lhe dito o que dizer. ele não era um troll esperto, como Rock ou Morry, que levavam jeito com as palavras. Basicamente nunca precisou muito do que se pode chamar de vocabulário. Chutou a areia com desânimo. Que chances teria com uma moça fina como ela?

Houve um baque surdo de pés pesados, e a porta se abriu. O objeto de seu desejo saiu no meio da noite e respirou fundo, o que teve em Detritus o mesmo efeito de uma pedra de gelo descendo pela nuca.

ele olhou em pânico para sua rocha. estava longe de parecer grande o suficiente, agora que via o tamanho dela. Mas talvez o que importaria era o que ele fizesse com a rocha.

Bem, o momento era aquele. Dizem que a gente nunca esquece a primeira vez...

ele ergueu o braço com a rocha na mão e a acertou em cheio entre os olhos.

Foi então que tudo começou a dar errado.

A tradição dizia que a garota, quando fosse capaz de focalizar a visão novamente, e se a rocha fosse de um padrão aceitável, ficaria imediatamente submissa a tudo o que o troll sugerisse — por exemplo, um humano a luz de velas para dois, embora não se fizesse mais esse tipo de coisa, e claro, pelo menos se houvesse qualquer chance de ser flagrado.

ela não deveria apertar os olhos e dar uma paulada na orelha dele, fazendo seus globos oculares chacoalharem.

—    Seu troll idiota! — ela gritou, enquanto Detritus cambaleava em círculos. — Pra que cê fez isso? Cê acha que eu sou uma garota qualquer que veio da montanha? Por que não faz direito?

—    Mas, mas... — começou Detritus, aterrorizado com a demonstração de fúria — eu não poder pedir pai permissão para bater em você, não saber onde ele morar...

Ruby se recompôs com orgulho.

—    Toda essa coisa antiga muito bruta agora — ela desdenhou.

—    Não e o jeito moderno. eu não interessada em troll nenhum —        acrescentou — que não atualizado. Uma rocha na cabeça pode muito sentimental — continuou, com a certeza escapando de sua voz enquanto avaliava a frase que vinha pela frente —, mas os diamantes são os melhores amigos de uma garota. — ela hesitou. Aquilo não tinha soado bem, nem para ela.

Detritus com certeza ficou confuso.

—    O quê? Você quer eu arranque meus dentes?

—    Bom, está bem, não diamantes — admitiu Ruby. — Mas

tem maneiras modernas adequadas agora. Você tem que cortejar a garota.

Detritus se animou.

—    Ah, mas eu... — começou.

—    e cortejar, não apedrejar — interrompeu Ruby, demonstrando cansaço. — Você tem que, que, que... — ela fez uma pausa.

ela não tinha tanta certeza do que era preciso fazer. Mas Ruby havia passado algumas semanas em Holy Wood e, se havia uma coisa que Holy Wood fazia, era mudar as coisas. em Holy Wood, ela se enturmou com uma vasta comunidade de fêmeas de diferentes espécies, de cuja existência nem sequer suspeitava. e estava aprendendo rápido. Teve longas conversas com garotas humanas solidárias. e anãs. Até os anões tinham rituais de conquista melhores, pelo amor dos deuses.17 e o que os humanos inventavam era impressionante.

 

  1. Todos os anões têm barba e usam muitas camadas de roupas. Seus rituais de conquista têm como preocupação principal descobrir, de maneira delicada e discreta, qual e o sexo do outro anão.

 

Por sua vez, tudo o que uma troll fêmea podia esperar era uma pancada rápida na cabeça e o resto da vida domesticando e cozinhando tudo o que o macho arrastava para dentro da caverna.

Bem, as coisas iam mudar. Da próxima vez que Ruby fosse para casa, as montanhas dos trolls sentiriam o maior tremor desde a última colisão continental. enquanto isso, começaria pela própria vida.

ela levantou a mão gigantesca num gesto vago.

—    Você tem que... que cantar embaixo da janela da garota e... e você tem que dar a ela oograah.

—    Oograah?

—    Sim. Oograah bonito!* Detritus cocou a cabeça.

—    Por quê?

Ruby pareceu entrar em pânico por um momento. ela também não podia, por nada no mundo, imaginar por que a entrega de vegetais não comestíveis seria tão importante, mas não estava disposta a admitir isso.

—    estranho você não saber — disse, sarcástica.

Detritus não percebeu a crítica. ele não percebia a maior parte das coisas.

—    Certo. eu não tão bruto quanto você pensa — acrescentou.

— eu dou pancada moderna. espere pra ver.

O som de marteladas enchia o ar. Prédios se espalhavam para trás da rua principal sem nome até as dunas. Ninguém era dono de nenhum terreno em Holy Wood. Se estivesse vazio, construía—se nele.

Dibbler tinha dois escritórios agora. Um em que gritava com as pessoas, e outro, maior, bem em frente ao primeiro, onde as pessoas gritavam umas com as outras. Soll gritava com os operadores de manivela. Os operadores de manivela gritavam com os alquimistas. Os demônios perambulavam sobre toda a superfície

 

  1. Os trolls possuem 5.400 palavras para rochas e uma para vegetais. "Oograah" significa desde musgo até sequóia gigante. Do ponto de vista dos trolls, se não dá para comer, não vale a pena dar um nome.

plana, mergulhavam nas xícaras de café e gritavam uns com os outros. Alguns papagaios com os quais se faziam algumas experiências gritavam consigo mesmos. Pessoas usando partes esquisitas de figurinos entravam apenas para gritar. Silverfish gritava porque não conseguia entender por que ele agora tinha uma mesa no escritório externo, embora fosse o dono do estúdio.

Gaspode permanecia sentado, impassível, ao lado da porta do escritório interno. Durante os últimos cinco minutos, havia atraído um chute desanimado, um biscoito murcho e um tapinha na cabeça. Considerava que estava ganhando o jogo, do ponto de vista dos cachorros.

ele tentava ouvir todas as conversas ao mesmo tempo. Foi extremamente instrutivo. Para começar, algumas das pessoas que entravam e gritavam carregavam sacolas de dinheiro...

—    Você o quê?

O grito vinha do escritório interno. Gaspode empinou a outra orelha.

—    eu... e... quero um dia de folga, senhor Dibbler — disse Victor.

—    Um dia de folga? Você não quer trabalhar?

—    Só um dia, senhor Dibbler.

—    Mas você não acha que eu vou sair por aí pagando as pessoas para tirarem dias de folga, acha? eu não sou feito de dinheiro, sabe. A gente nem está lucrando. Por que não aponta uma besta pra minha cabeça logo de uma vez?

Gaspode olhou para as sacolas na frente de Soll, que estava furioso, somando pilhas de moedas. ele ergueu uma sobrancelha com cinismo.

Houve uma pausa. "Oh, não", pensou Gaspode. "O jovem idiota está esquecendo suas falas."

—    eu não quero pagamento, senhor Dibbler. Gaspode relaxou.

—    Você não quer pagamento?

—    Não, senhor Dibbler.

—    Mas vai querer trabalho quando voltar, imagino — disse

Dibbler com sarcasmo.

Gaspode ficou tenso. Victor havia recebido muitas instruções.

—    Bom, espero que sim, senhor Dibbler. Mas estava pensando

em ver o que a Alquimistas Desatados tinha a oferecer.

Houve um som similar ao do encosto de uma cadeira batendo na parede. Gaspode deu um sorriso maldoso.

Mais uma sacola de dinheiro foi largada na frente de Soll.

—    Alquimistas Desatados!

—    Parece que eles realmente estão tendo progressos com os sonzinhos, senhor Dibbler — disse Victor num tom humilde.

—    Mas são amadores! e trapaceiros!

Gaspode franziu a sobrancelha. ele não conseguira treinar Victor a partir daquele estágio.

—    Bem, isso e um alívio, senhor Dibbler.

—    e por quê?

—    Seria horrível se eles fossem trapaceiros e profissionais.

Gaspode concordou com a cabeça. "Boa. Boa."

Houve o som de passos correndo ao redor de uma mesa. Quando Dibbler falou de novo, daria para cavar um poço na sua voz e vendê-la a dez dólares o barril.

—    Victor! Vic! Não tenho sido como um tio para você?

"Ah, sim", pensou Gaspode. “ele é como um tio para a maio”.

ria das pessoas aqui. “Isso porque são seus sobrinhos.”

ele parou de escutar, em parte porque Victor tiraria o seu dia de folga e muito provavelmente receberia por ele também, mas principalmente porque outro cachorro havia sido levado para dentro do escritório.

era enorme e tinha o pêlo lustroso. Brilhava feito mel.

Gaspode notou que era um cão de caça Ramtop puro—sangue. Quando ele se sentou ao seu lado, foi como se um belo e imponente iate tivesse atracado ao lado de um velho barco de pesca.

ele ouviu Soll dizer:

—    então essa e a última idéia do Tio, e? Como se chama?

—    Laddie — respondeu o treinador.

—    Quanto custa?

—    Sessenta dólares.

—    Por um cachorro? estamos no ramo errado.

—    ele sabe fazer todos os tipos de truques — argumentou o criador. — esperto como uma raposa. exatamente o que o senhor Dibbler está procurando.

—    Bem, amarra ele lá. e, se esse outro vira—lata começar a brigar, chuta ele pra fora.

Gaspode examinou Soll prestando atenção aos detalhes. Depois, quando a atenção não estava mais sobre eles, aproximou—se em silêncio do recém—chegado, olhou para cima e para baixo e falou com calma, pelo canto da boca.

—    Pra que cê tá aqui? — O cachorro olhou para ele com uma

expressão de ampla incompreensão. — Assim... cê pertence a alguém ou o quê?

O cachorro gemeu de leve.

Gaspode tentou o caninês básico, que é uma combinação de gemidos e fungadas.

—    Alô? — arriscou. — Tem alguém aí? — O rabo do cachorro bateu no chão de modo incerto. — O rango aqui e uma coisa horrorosa — disse Gaspode.

O cachorro ergueu seu focinho com pedigree.

—    Que lugar é este? — perguntou.

—    Aqui é Holy Wood — respondeu Gaspode num tom sociável. — eu sou Gaspode. em homenagem ao famoso Gaspode, sabe. Qualquer coisa que quiser saber, é só...

—    Todos esses duas-pernas aqui. Grr... Que lugar é este?

Gaspode olhou com os olhos arregalados.

Naquele momento, a porta de Dibbler se abriu. Victor surgiu, tossindo, na ponta de um charuto.

—    Ótimo, ótimo — disse Dibbler atrás dele. — Sabia que dava para resolvermos. Não desperdice, garoto, não desperdice. Eles custam um dólar a caixa. Ah, estou vendo que trouxe o seu cachorrinho.

—    Au — disse Gaspode, irritado.

O outro cachorro deu um latido curto e agudo e se sentou com uma vigilância obediente que irradiava de todos os pêlos.

—    Ah — começou Dibbler —, e estou vendo que conseguimos o nosso cão prodígio.

O remedo de cauda de Gaspode se contraiu uma ou duas vezes. Então a verdade se revelou.

Ele olhou fixamente para o cachorro maior e abriu a boca para falar, mas conseguiu se segurar em cima da hora e transformar a fala num:

—    Late?

—    Eu tive a idéia naquela noite, quando vi o seu cachorro —  disse Dibbler. — Pensei: "As pessoas gostam de animais. Eu, eu gosto de cachorro. Boa imagem, o cachorro. Salva vidas, o melhor amigo do homem, esse tipo de coisa".

Victor olhou para a expressão furiosa de Gaspode.

—    Gaspode é bastante inteligente.

—    Ah, imagino que você pense que sim — disse Dibbler. — Mas é só olhar para os dois. De um lado está esse animal elegante, alerta, inteligente e, do outro, esta bola de pêlo de ressaca. Quer dizer, não dá pra comparar, estou certo?

O cão prodígio deu um latido forte.

—    Que lugar é este? Bom garoto Laddie!

Gaspode revirou os olhos.

—    Está vendo o que quero dizer? — continuou Dibbler. — Dê a ele o nome certo, um pouco de treino, e nasce uma estrela. — Ele deu mais um tapa nas costas de Victor. — Bom te ver, bom te ver, apareça de novo qualquer hora, mas não sempre. Vamos almoçar juntos qualquer dia. Agora pode sair. Soll.

—    Tô indo, tio.

Victor ficou sozinho de repente, sem contar os cachorros e o escritório cheio de gente. Ele tirou o charuto da boca, cuspiu na ponta incandescente e o escondeu com cuidado num vaso de plantas.

—    Deram cria a uma estrela — disse uma voz curta e seca, vinda de baixo.

—    O que ele disse? Que lugar é este?

—    Não olhe para mim — disse Victor. — Não tenho nada com isso.

—    Olha só pra ele! Isso aqui e a Cidade dos Imbecis por acaso? —        perguntou Gaspode com desprezo.

—    Bom garoto Laddie!

—   Vamos — disse Victor. — eu tenho que estar no set em cinco minutos.

Gaspode foi atrás dele, resmungando baixinho. Victor entendeu um "tapete velho", "melhor amigo do homem" e "maldito cão prodígio maldito" aqui e ali. Por fim, não conseguiu mais suportar.

—    Você só está com ciúme.

—    O quê, de um filhote gigante com Q.I. de um dígito? — disse Gaspode com desprezo.

—    E pêlos brilhantes, focinho gelado e provavelmente um pedigree tão longo quanto o seu br... quanto o meu braço.

—    Pedigree? Pedigree? O que é pedigree? é só a criação. Eu tive um pai também, sabe. E dois avós. E quatro tataravôs. Muitos deles eram o mesmo cachorro, até. Então não venha me dizer que não tenho nenhum pedigree.

Ele parou para erguer uma pata na frente de um dos suportes da placa de "Lar das Imagens Animadas do Século do Morcego-de-Frutas".

Isso era outra coisa que havia deixado Thomas Silverfish perplexo. Quando chegou, de manhã, a placa pintada à mão em que estava escrito "Filmes Interessantes e Instrutivos" havia desaparecido e sido substituída por aquele outdoor enorme. Ele permanecia sentado no seu escritório, recostado para trás, com a cabeça nas mãos, tentando se convencer de que a idéia tinha sido sua.

—    Fui eu que fui chamado por Holy Wood — murmurou Gaspode, num tom de autopiedade. — Eu vim até aqui, e aí eles escolhem aquela coisa peluda enorme. Ele provavelmente vai trabalhar por um prato de carne por dia também.

—    Bem, olha, talvez você não tenha sido chamado para Holy Wood para ser um cão prodígio — sugeriu Victor. — Talvez ela tenha outra coisa em mente para você.

"Isto e ridículo", pensou. "Por que estamos falando dela desse jeito? Os lugares não têm mente. eles não podem chamar as pessoas para virem até eles... Bem, a menos que se considere coisas como a saudade da sua terra natal. Mas ninguém pode ter saudade de um lugar em que nunca esteve. A última vez em que pessoas estiveram aqui deve ter sido há milhares de anos."

Gaspode cheirou um muro.

—    Você disse ao Dibbler tudo o que eu te disse? — perguntou.

—    Sim. ele ficou muito perturbado quando eu disse que ia para a Alquimistas Desatados.

Gaspode deu um risinho preso na garganta.

—    E cê disse pra ele o que eu te falei sobre um contrato verbal não valer o papel em que é impresso?

—    Sim. e ele disse que não entendeu o que eu quis dizer. Mas me deu um charuto. E disse que pagaria para eu e a Ginger irmos a Ankh-Morpork em breve. Ele disse que tem planos para uma cena muito grande.

—    Qual? — disse Gaspode, desconfiado.

—    Ele não disse.

—    Ouça, rapaz, Dibbler está fazendo fortuna. Eu contei. Tinha 5.273,52 dólares na mesa do Soll. E você ganhou esse dinheiro. Bom, você e a Ginger ganharam.

—    Nossa!

—    Agora tem umas palavras novas que eu quero que você aprenda — disse Gaspode. —Acha que consegue?

—    Espero que sim.

—    “Por-cen-ta-gem do bruto." Isso. Acha que dá pra lembrar disso?

—    “Por-cen-ta-gem do bruto" — repetiu Victor.

—    Bom menino.

—    O que significa?

—    Não se preocupe com isso. Você só tem que dizer que é isso o que você quer, ok? Na hora certa.

—    Mas quando vai ser a hora certa?

Gaspode deu um sorriso malvado.

—    Ah, acho que quando Dibbler estiver com a boca cheia de comida será o melhor momento.

A Colina de Holy Wood parecia um formigueiro de tão alvoroçada. No lado do mar, os estúdios Madeira de Pinheiro produziam O Terceiro Gnomo. O Cenas Microlíticas, dirigido em sua maior parte pelos anões, trabalhava pesado em Os Caçadhores de Ouro de 1457, que seria seguido por A Corridha do Ouro. O Cenas da Bexiga Flutuante dava duro no Coxas de Peru. E o restaurante do Borgle estava lotado.

—    Não sei como se chama, mas estamos fazendo um que fala sobre uma visita a um mago. Algo sobre seguir na caçada de cacos amarelos — explicava um homem vestido com metade de uma fantasia de leão a um companheiro na fila.

—    Achei que não tivesse mago em Holy Wood.

—    Ah, mas esse é legal. Não é muito bom em magia.

—    Então qual e a novidade?

O som! esse era o problema. Os alquimistas labutavam em galpões por todos os cantos de Holy Wood, gritando com papagaios, suplicando a mainás, construindo garrafas complexas que aprisionavam o som e o chacoalhavam de um lado para o outro, de forma inofensiva, até chegar a hora em que era solto. Ao estouro esporádico da octocelulose explodindo, somava-se o eventual bufar de exaustão ou o grito de desespero quando um papagaio enraivecido confundia um dedão descuidado com uma noz.

Os papagaios não foram o sucesso que se esperava. era verdade que conseguiam lembrar o que ouviam e repetir de um certo modo, mas não havia modo de desligá-los, e eles tinham o hábito de improvisar com outros sons que tinham ouvido ou, como Dibbler desconfiava, aprendido com operadores de manivela mais maliciosos. Dessa forma, curtos pedaços de diálogos românticos eram pontuados por gritos de "Waaaarrrk! Mostraacalcinha!", e Dibbler não tinha nenhuma intenção de fazer aquele tipo de filme, pelo menos no momento.

Som! Quem conseguisse o som dominaria Holy Wood, diziam. As pessoas corriam em bandos para os cliques, mas eram volúveis. Com a cor era diferente. A cor era apenas uma questão de criar demônios que conseguissem pintar rápido o suficiente. O som e que representaria algo novo.

Enquanto isso, havia medidas provisórias. O estúdio dos anões abandonou o procedimento de colocar diálogos em cartazes entre uma cena e outra e inventou as legendas, que funcionavam bem desde que os atores se lembrassem de não andar muito para a frente, para não derrubar as letras.

Mas, se faltava o som, a tela tinha que ser preenchida por inteiro com um banquete para os olhos. O ruído das marteladas sempre foi o som de fundo de Holy Wood, mas agora havia redobrado...

As cidades do mundo eram reconstruídas em Holy Wood.

A Alquimistas Desatados começou o processo, com uma replica de um para dez, em madeira e tela, da Grande Pirâmide de Tsort. Nos terrenos logo brotaram ruas inteiras de Ankh-Morpork, palácios de Pseudópolis, castelos das Terras Centrais. em alguns casos, as ruas eram pintadas na parte de trás dos palácios, para que os príncipes e os camponeses fossem separados pela espessura de um pano de saco pintado.

Victor passou o resto da manhã trabalhando em um filme de um rolo. Ginger quase não disse uma palavra a ele, mesmo após o beijo obrigatório, quando ele a salvou do que quer que Morry representasse naquele dia. Qualquer que fosse a magia que Holy Wood operava neles, não estava funcionando naquele dia. ele estava contente por escapar dela.

Depois atravessou o terreno dos bastidores para ver Laddie o Cão Prodígio ser testado em suas habilidades.

Não havia dúvidas — diante da imagem da figura graciosa correndo feito uma flecha sobre os obstáculos e agarrando o braço bem protegido do treinador — de que lá estava um cão praticamente projetado pela Natureza para as imagens animadas. Até seu latido era fotogênico.

—    E cê sabe o que ele tá dizendo? — perguntou uma voz entediada ao lado de Victor. Era Gaspode, a imagem do sofrimento de pernas tortas.

—Não. O quê?

—Mim Laddie. Mim bom garoto. Bom garoto Laddie— traduziu Gaspode. — Dá vontade de vomitar, não?

—    É, mas você conseguiria pular uma barreira de quase dois metros?

—    Isso é inteligência, é? — perguntou Gaspode. — eu sempre dou a volta em vez de pular... O que estão fazendo agora?

—    Dando o almoço para ele, acho.

—   Eles chamam aquilo de almoço, é?

Victor ficou olhando enquanto Gaspode examinava o prato do cachorro. Laddie o olhou de rabo de olho. Gaspode latiu com calma. Laddie gemeu. Gaspode latiu novamente.

Houve uma longa troca de latidos.

Então Gaspode voltou e se sentou ao lado de Victor.

—    Veja isso — disse.

Laddie pegou o prato de comida com a boca e o virou para baixo.

—    Coisa nojenta — observou Gaspode. — Só canais e vísceras. Eu não daria isso prum cachorro, e eu sou cachorro.

—    Você fez ele virar o próprio jantar? — perguntou Victor, horrorizado.

—    Muito obediente esse rapaz, eu achei — disse Gaspode, satisfeito consigo mesmo.

—    Que maldade fazer uma coisa dessas!

—    Ah, não. Eu dou uns conselhos a ele também.

Laddie latiu de modo categórico para as pessoas que se aglomeraram ao seu redor. Victor ouviu o murmurinho.

—    O cachorro não come jantar — era a voz de Detritus —, o cachorro fica com fome.

—    Não seja idiota. O senhor Dibbler disse que ele vale mais do que a gente!

—    Talvez não seja o que ele está acostumado. Quer dizer, um cão chique como ele e tal. Isso é meio asqueroso, não?

—    É comida de cachorro! é o que cachorro tem que comer!

—    é, mas é comida de cão prodígio? Cão prodígio come o quê? — O senhor Dibbler vai dar você pra ele comer se acontecer algum problema.

—    Está bem, está bem. Detritus, vai até o Borgle. Vê o que ele tem. Não as coisas que ele dá prós clientes de sempre, veja bem.

—    Isto é o que ele dá prós clientes de sempre.

—    Foi o que eu quis dizer.

Cinco minutos depois, Detritus voltou se arrastando e carregando cerca de quatro quilos de carne crua. O bife foi jogado no prato do cachorro. Os treinadores olharam para Laddie.

Laddie ergueu um olho na direção de Gaspode, que acenou com a cabeça de modo quase imperceptível.

O cachorro grande pôs uma pata numa ponta do bife, pegou a outra ponta com a boca e arrancou um pedaço. Depois atravessou a área cercada sem fazer barulho e largou o pedaço de carne, de modo respeitoso, diante de Gaspode, que olhava fixamente para ele, como se calculasse algo.

—    Bem, sei não — disse, por fim. — Isso parece dez por cento pra você, Victor?

—    Você negociou o jantar dele?

A voz de Gaspode foi abafada pela carne.

—    Acho que dez por cento é mucho justo. Mucho justo, nas atuais circunstâncias.

—    Sabia que você realmente é um filho de uma cadela?

—    Me orgulho disso — comentou Gaspode, num tom vago. Ele mastigou o resto do bife com pressa. — O que faremos agora?

—    Eu tenho que dormir cedo. Partimos para Ankh muito cedo amanhã — disse Victor, meio em dúvida.

—    Ainda não teve nenhum progresso com o livro?

—Não.

—    Deixa eu dar uma olhada então.

—    Você sabe ler?

—    Sei lá. Nunca tentei.

Victor olhou em volta deles. Ninguém prestava atenção nele. Nunca prestavam. Assim que as manivelas paravam de girar, ninguém se preocupava com os artistas. Era como ser temporariamente invisível.

Ele se sentou sobre uma pilha de tábuas, abriu o livro de forma aleatória numa das primeiras páginas e o segurou diante do olhar crítico de Gaspode.

Por fim, o cachorro disse:

—    Está cheio de sinais nele. Victor suspirou.

—    Isso é escrita. Gaspode apertou os olhos.

—    O quê, todos esses desenhinhos?

—A escrita antiga era assim. As pessoas desenhavam pequenas imagens para representar idéias.

—    Então... Se tiver muitas vezes uma mesma imagem, significa que e uma idéia importante?

—    O quê? Bem, sim. Imagino que sim.

—    Como o homem morto? Victor estava perdido.

—    O homem morto na praia?

—    Não. O homem morto nas páginas. está vendo? em todo o lugar está o homem morto.

Victor olhou para ele com uma expressão de estranheza. Então virou o livro e o examinou.

—    Onde? Não estou vendo nenhum homem morto.

Gaspode bufou.

—    Olha, na página toda. Ele parece aquelas tumbas de templos antigos e coisas assim. Sabe? Onde eles fazem uma estauta do cadáver deitado em cima do túmulo, com os braços cruzados e segurando a espada. Aristocrata morto.

—    Nossa mãe! Você está certo! ele parece mesmo meio... morto...

—    Provavelmente toda a escrita é sobre como ele foi um ótimo homem quando vivo — sugeriu Gaspode, com ares de bem informado. — Sabe aquela coisa de "Assassino de milhares" ? ele provavelmente deixou um monte de dinheiro para padres rezarem, acenderem velas e sacrificarem bodes e coisas do tipo. Antigamente tinha muito esse tipo de coisa. Sabe, tinha esses caras que se pervertiam, bebiam, passavam a vida toda indiferentes e, quando o Velho Carrasco Inflexível começava a afiar a sua foice, eles de repente ficavam todos virtuosos e pagavam um monte de padres para dar uma geral na alma deles e ficar dizendo aos deuses que caras decentes eles eram.

—    Gaspode? — chamou Victor com firmeza.

—    O quê?

—    Você era um cão amestrado. Como é que sabe todas essas coisas?

—    Não sou só um rostinho bonito.

—    Você não é nem um rostinho bonito, Gaspode.

O cachorrinho deu de ombros.

—    Eu sempre tive olhos e orelhas. Você ficaria impressionado com as coisas que vê e ouve quando e um cachorro. Na época, eu num sabia o que significavam, claro. Agora eu sei.

Victor olhou bem para as páginas mais uma vez. Certamente havia uma figura que, se você deixasse os olhos entreabertos, parecia muito uma estátua de um cavaleiro com as mãos apoiadas sobre a espada.

—    Pode ser que não signifique um homem. A escrita pictográfica não funciona dessa maneira. e tudo uma questão de contexto, sabe. — ele queimou os miolos para se lembrar de alguns dos livros que havia visto. — Por exemplo, na linguagem agateana, os sinais para "mulher" e "escravo" escritos juntos significam "esposa".

Ele olhou mais de perto para a página. O homem morto — Ou o homem dormindo, ou o homem de pé apoiando as mãos na espada, a figura era tão estilizada que ficava difícil ter certeza —      parecia estar sempre ao lado de outra imagem comum. ele passou o dedo pela linha de pictogramas.

—    Está vendo, pode ser que a figura do homem seja apenas parte de uma palavra. Está vendo? está sempre à direita deste outro desenho, que se parece um pouco com... com uma porta ou algo assim. então ele pode significar, na verdade... — ele hesitou.

—    Porta/homem — arriscou. Ele virou o livro de leve.

—    Poderia ser algum rei antigo — disse Gaspode. — Poderia significar algo tipo: O Homem da espada está Preso. Ou algo assim. Ou talvez signifique: Cuidado, Tem um Homem com uma espada atrás da Porta. Poderia significar qualquer coisa, na verdade.

Victor olhou para o livro mais uma vez, apertando os olhos.

—    Engraçado. ele não parece estar morto. Apenas... não vivo. Esperando para estar vivo? Um homem que espera com uma espada.

Victor examinou a pequena figura de homem. Ela quase não tinha feições, mas ainda assim conseguia parecer familiar.

—    Quer saber, ele se parece muito com o meu tio Osric...

Cliquecliqueclique. Clique.

O filme foi girando até parar. Houve um estrondo de aplausos, pés batendo no chão e um mar de sacos de grãos estourados vazios.

Bem na primeira fileira do Odium, o bibliotecário olhava fixamente para o alto, para a tela em branco. era a quarta vez naquela tarde que assistia a Sobras do Dheserto. Afinal, um orangotango de 130 kg tem alguma coisa que não encoraja as pessoas a mandá-lo sair da platéia entre as sessões. Havia um amontoado de cascas de amendoim e sacos de papel amassados em volta dos seus pés.

O bibliotecário amava os cliques. eles tocavam algum sentimento na sua alma. Até havia começado a escrever uma história que achava dar uma imagem animada muito boa.19 Todo mundo para quem mostrava a história dizia que era uma maravilha, geralmente até mesmo antes de lê-la.

Mas alguma coisa naquele clique o deixava preocupado. ele assistira a tudo quatro vezes e ainda estava preocupado.

Saiu devagar dos três assentos que ocupava, caminhou pelo corredor com o apoio das juntas dos dedos e entrou na salinha onde Bezam voltava o filme.

Bezam ergueu a cabeça quando a porta se abriu.

— Saia... — começou, depois deu um sorriso desesperado e disse: — Olá, senhor. Muito bom o clique, hein? Vamos passá-lo mais uma vez a qualquer momento e... que diabos está fazendo? Você não pode fazer isso!

O bibliotecário arrancou o enorme rolo de filme do projetor e puxou o filme entre seus dedos de couro, segurando-o contra a luz. Bezam tentou pegá-lo de volta e recebeu um tapa no peito que o deixou sentado no chão, onde grandes espirais de filme se acumularam em cima dele.

Ele assistiu, horrorizado, ao grande símio grunhir, agarrar um pedaço de filme com as duas mãos e, com duas mordidas, editá-lo. em seguida, o bibliotecário o ergueu, tirou a poeira de cima dele, passou a mão em sua cabeça, atirou a grande pilha de clique desenrolado em seus braços impotentes e saiu às pressas da sala com alguns quadros de filme pendurados em uma das mãos.

Bezam ficou olhando para ele, sem ação.

—    Você está proibido de voltar aqui! — gritou, quando achou que o símio estava seguramente fora do alcance da voz.

Depois olhou para baixo, para as duas pontas cortadas.

Cortes nos filmes não eram pouco comuns. Bezam havia passado alguns minutos cortando e colando fervorosamente enquanto o público batia os pés no chão animadamente e, com muita empolgação, atirava amendoins, facas e machados de duas cabeças na tela.

 

  1. era sobre um jovem símio que é abandonado na cidade grande, cresce e se torna capaz de falar a língua dos humanos.

 

Ele deixou as espirais caírem ao seu redor e pegou a tesoura e a cola. Pelo menos — descobriu depois de segurar as duas pontas contra a luz — o bibliotecário não havia tirado uma parte muito interessante. Estranho, aquilo. ela não estranharia que o símio tirasse um pedaço em que a garota definitivamente mostrasse demais o peito ou uma das cenas de luta. Mas tudo o que ele queria era um pedaço que mostrava os Filhos descendo a fortaleza da montanha galopando, numa única fila, em camelos idênticos.

—    Pra que será que ele quis aquilo — murmurou, tirando a tampa do pote de cola. — Só aparece um monte de rochas.

Victor e Gaspode permaneciam parados entre as dunas de areia perto da praia.

—    Ali está a cabana de tábuas de madeira — mostrou Victor, apontando. — Se você olhar bem, dá para ver que tem uma espécie de estrada apontando direto para a colina. Mas não há nada na colina a não ser as árvores velhas.

Gaspode olhou para trás, para a Baía de Holy Wood.

—    Engraçado que ela seja circular.

—    Também achei — concordou Victor.

—    Ouvi dizer que tinha uma cidade tão perversa que os deuses a transformaram numa poça de vidro derretido — comentou Gaspode, a troco de nada. — e a única pessoa que a viu se transformava num monte de sal de dia e num pote de queijo à noite.

—    Nossa. O que as pessoas faziam?

—    Sei lá. Provavelmente, nada de mais. Não e preciso muito para irritar os deuses.

—    Bom garoto! Bom garoto Laddie!

O cachorro veio correndo pelas dunas, um cometa de pêlos dourados e alaranjados. Ele derrapou antes de parar na frente de Gaspode e depois começou a dançar de um lado para o outro, agitado, latindo.

—    Ele fugiu e quer que eu brinque com ele — disse Gaspode, desanimado. — Ridículo, não? Laddie, finge de morto.

Laddie rolou, obediente, com as quatro patas para cima.

—    Está vendo? ele entende cada palavra que eu digo — resmungou Gaspode.

—    Ele gosta de você.

—    Há — fungou Gaspode. — Como é que os cachorros podem algum dia valer alguma coisa se saem por aí idolatrando as pessoas só porque deram um prato de comida pra eles? O que ele quer que eu faça com isso?

Laddie havia largado um graveto na frente de Gaspode e olhava para ele com muita expectativa.

—    Ele quer que você jogue.

—    Pra quê?

—    Para que ele possa trazer de volta.

—    O que eu não entendo — começou Gaspode, enquanto Victor pegava o graveto e o arremessava e Laddie corria atrás dele — é como e possível que a gente seja descendente dos lobos. Sabe, o lobo normal é um cara esperto, entende o que eu quero dizer? Cheio de manha e tal. Estamos falando de patas acinzentadas correndo pela tundra virgem, é o que eu tô querendo dizer.

Gaspode olhou para as montanhas distantes com uma expressão saudosa.

—    E, de repente, algumas gerações depois, temos Percy o Filhote aqui com o nariz gelado, olhos brilhantes, pêlo sedoso e o cérebro de um bagre bêbado.

—    E você — completou Victor. Laddie voltou rodopiando numa tempestade de areia e largou o graveto úmido na frente dele. Victor o pegou e atirou novamente. Laddie saiu pulando, latindo até ficar enjoado de tanta excitação.

—   Bem, é — concordou Gaspode, andando de modo afetado com as patas tortas. — Só que eu sei cuidar de mim mesmo. O mundo é um lugar em que cachorro come cachorro. Você acha que Chapado, o vira-lata aí, duraria cinco minutos em Ankh-Morpork? Se ele coloca uma pata numa das ruas de lá, vira três pares de luvas de pele e Fritura Crocante número 27 pra viagem na lanchonete klatchiana 24-horas mais próxima.

Victor atirou o graveto mais uma vez.

—    Me diz uma coisa. Quem era o famoso Gaspode de quem tiraram o seu nome?

—    Você nunca ouviu falar nele?

—Não.

—    Ele era muito famoso.

—    Era cachorro?

—    Sim. Foi há muitos e muitos anos. Tinha um sujeito em Ankh que morreu. Era de uma dessas religiões em que enterram a pessoa depois que ela morre. E foi o que fizeram. ele tinha um cachorro véio...

—    ... chamado Gaspode...?

—    É, e esse cachorro veio tinha sido a única companhia dele. Depois que enterraram o homem, ele se deitou sobre o túmulo e uivou, uivou durante semanas. Rosnava pra todo mundo que se aproximava. Depois morreu.

Victor parou no momento em que ia atirar o graveto mais uma vez.

—    Isso é muito triste — disse. Ele atirou. Laddie correu acompanhando o movimento e desapareceu entre um grupo de árvores atrofiadas no declive.

—    É. Todo mundo diz que essa história demonstra o amor inocente e eterno do cão pelo seu mestre — observou Gaspode, cuspindo as palavras como se fossem cinzas.

—    Você não acredita nisso então?

—    Na verdade, não. Acredito que qualquer cachorro fica parado e uiva quando alguém baixa a lápide do túmulo em cima do rabo dele.

Houve um latido feroz.

— Não se preocupe. Ele provavelmente encontrou uma pedra ameaçadora ou algo do tipo — disse Gaspode.

Ele tinha encontrado Ginger.

O bibliotecário passou com determinação, apoiando-se nas juntas dos dedos, pelo labirinto da biblioteca da Universidade Invisível e desceu os degraus em direção às prateleiras de segurança máxima.

Quase todos os livros da Biblioteca eram — por serem mágicos — consideravelmente mais perigosos do que os livros normais. A maioria ficava acorrentada à estante para evitar que saísse batendo as páginas.

Mas os níveis mais baixos...

... lá eram guardados os livros malandros, cujo comportamento ou o mero conteúdo exigia uma prateleira inteira, uma sala inteira para eles. Livros canibais que, se deixados numa prateleira com seus colegas mais fracos, seriam encontrados consideravelmente mais gordos e presunçosos, entre as cinzas fumegantes, na manhã seguinte. Livros cujas meras páginas do índice seriam capazes de reduzir uma mente desprotegida a um queijo suíço. Livros que não eram apenas livros de magia, mas livros mágicos.

Existem muitas idéias equivocadas sobre magia. As pessoas saem por aí falando em harmonias místicas, equilíbrios cósmicos e unicórnios, tudo o que está para a magia verdadeira assim como uma marionete feita com uma luva está para a Companhia Real de Shakespeare.

A magia de verdade é a mão em volta da serra, a faísca atirada no barril de pólvora, a deformação na dimensão que liga você diretamente ao centro de uma estrela, a espada flamejante que queima inteira até a bainha. Melhor fazer malabarismos com tochas num poço de piche do que mexer com a magia verdadeira. Melhor se deitar diante de mil elefantes.

Pelo menos e o que dizem os magos — motivo pelo qual cobram taxas imensamente altas para se meterem com isso.

Mas ali embaixo, nos túneis escuros, não havia como se esconder atrás de amuletos, mantos estrelados e chapéus pontudos.

Ali embaixo, ou você dominava o assunto ou não dominava. e, se você não dominasse, não agüentaria muito tempo.

O bibliotecário ouviu sons atrás das portas pesadas de tantas trancas quando se aproximou arrastando os pés. Uma ou duas vezes, alguma coisa pesada se atirava contra a porta, fazendo as dobradiças rangerem.

Ele ouviu ruídos.

O orangotango parou em frente a um vão em forma de arco bloqueado por uma porta feita não de madeira, mas de pedra, equilibrada de forma a ser aberta por fora com facilidade, mas resistir a pressões intensas do lado de dentro.

Ele parou por um momento e depois esticou o braço para pegar, dentro de uma pequena alcova, uma máscara de ferro e vidro escurecido, a qual colocou sobre o rosto, e um par de luvas pesadas de couro, reforçadas com malha de aço. Havia também uma tocha feita com trapos encharcados em óleo. ele a acendeu em um dos braseiros tremeluzentes do túnel.

No fundo da alcova havia uma chave de bronze.

Ele a pegou e, em seguida, respirou fundo.

Todos os Livros do Poder tinham sua própria natureza. O Octavo era ríspido e tirânico. O Grimório da Diversão Abundante praticava pegadinhas mortais. O encanto do Sexo Tântrico tinha que ficar dentro da água gelada. O bibliotecário conhecia todos e sabia como lidar com eles.

Este era diferente. As pessoas geralmente viam cópias de 10a ou 12a mão que representavam a coisa real da mesma forma que uma pintura de uma explosão seria igual a, bem, uma explosão. este livro havia absorvido o mal puro e cinzento da cor do grafite que constituía seu assunto.

Seu título estava entalhado acima do arco para que homens e símios não se esquecessem.

NeCROTeLICOMNICON.

ele pôs a chave na fechadura e ofereceu uma reza aos deuses.

— Oook — disse com fervor. — Oook.

A porta se abriu.

Na escuridão do interior, uma corrente fez um leve tinido.

 

—    Ela ainda está respirando — disse Victor. Laddie saltava em volta deles, latindo furiosamente.

—    Talvez seja melhor você afrouxar as roupas dela ou algo do tipo —        sugeriu Gaspode. — É só uma idéia — acrescentou. — Não precisa me olhar com essa cara. Eu sou um cachorro, não sei de nada.

—    Ela parece estar bem, mas... olhe para as suas mãos. Que diabos ela estava tentando fazer?

—    Abrir aquela porta — respondeu Gaspode.

—    Que porta?

—    Aquela porta ali.

Parte da colina havia se movido. Enormes blocos de concreto se projetavam para fora da areia. Lá estavam as pontas de pilares antigos, sobressaindo feito dentes fluorados.

Entre dois deles havia uma passagem em forma de arco três vezes mais alta que Victor. Possuía portas de um cinza pálido ou de madeira que tivesse se tornado rígida como pedra ao longo dos anos. Uma delas estava levemente aberta, mas era impedida de se abrir mais pelos montes de areia na sua frente. Vários sulcos haviam sido escavados de modo frenético no fundo da areia. Ginger tentara deslocá-los com as próprias mãos.

—    Uma estupidez fazer isso neste calor — observou Victor, num tom vago. ele olhou da porta para o mar e depois para Gaspode.

Laddie revirava a areia e latia, agitado, para o vão entre as portas.

—    Pra que ele está fazendo isso? — perguntou Victor, sentindo-se assustado de repente. — Seus pêlos estão todos eriçados. Você não acha que ele está tendo uma daquelas misteriosas premonições do mal que os animais têm, acha?

—    Eu acho que ele é um imbecil — respondeu Gaspode. — Laddie, cala a boca!

Houve um latido. Laddie se afastou da porta, perdeu o equilíbrio na areia escorregadia e rolou ladeira abaixo. Ele deu um pulo para se levantar e recomeçou a latir. Não era um latido idiota comum de cachorro desta vez, mas a variação genuína do gato preso na árvore.

Victor se inclinou para a frente e tocou a porta. Ela estava muito gelada, apesar do calor perpétuo de Holy Wood, e havia a leve suspeita de uma vibração.

Ele passou os dedos sobre a superfície. Havia um pedaço áspero, como se alguém tivesse entalhado algo que foi ficando gasto até se tornar obscuro com o passar dos anos.

—    Uma porta como essa... — começou Gaspode, atrás dele —uma porta como essa, se quer saber minha opinião, uma porta como essa... Uma porta como essa — ele respirou fundo — é um presságio.

—    Hmm? O quê? Presságio de quê?

—    Num tem que ser presságio de nada. Só o pressagiar básico já é ruim o suficiente, vai por mim.

—    Ela deve ter sido importante. Tem um ar de entrada de templo. Por que ela queria abri-la?

—    Pedaços de um despenhadeiro rolando para baixo e portas misteriosas aparecendo — comentou Gaspode, balançando a cabeça. — é presságio demais. Vamos a algum lugar longe daqui para pensar direito sobre isso, sim?

Ginger soltou um gemido. Victor se agachou.

—    O que ela disse?

—    Sei lá.

—    Parecia algo como "eu quero ficar só linha", achei.

—    Loucura. Efeito do sol, isso aí, imagino — disse Gaspode, com ar de bem instruído.

—    Talvez você esteja certo. A cabeça dela com certeza está quente. — ele a ergueu, vacilando um pouco por causa do peso.

—    Vem — conseguiu dizer. — Vamos descer até a cidade. Logo vai escurecer. — Ele olhou ao redor, para as árvores raquíticas. A porta ficava numa espécie de vale que, presumivelmente, tomava orvalho suficiente para tornar o cultivo um pouco menos árido do que nos outros lugares. — Sabe que este lugar parece familiar? Fizemos o nosso primeiro clique aqui. Foi onde a vi pela primeira vez.

—    Muito romântico — comentou Gaspode num tom distante, afastando-se com pressa, com Laddie saltitando contente em volta dele. — Se sair alguma coisa horrível dessa porta, você pode pensar nela como o Nosso Monstro.

—    Ei! espera!

—    Vem logo então.

—    O que ela quis dizer com "ficar só linha", o que você acha?

—    Não faço idéia...20

Depois que se foram, o silêncio se derramou novamente sobre o vale.

Um pouco mais tarde, o sol se pôs. Sua longa luz bateu na porta, transformando meros rabiscos em relevos destacados. Com o auxílio da imaginação, poderiam até ter formado a figura de um homem.

Com uma espada.

Houve um ruído muito fraco, como se, grão por grão, a areia escoasse para fora da porta. A meia-noite, ela já tinha se aberto pelo menos alguns milímetros.

Holy Wood sonhava.

Sonhava que estava acordando.

 

  1. Ginger repetia a famosa frase da atriz Greta Garbo: "Quero ficar sozinha". (N. T.)

 

Ruby abafou o fogo sob os barris, pôs os bancos sobre as mesas e se preparou para fechar o Calcário Azul. Pouco antes de soprar a última vela, ela hesitou diante do espelho.

Ele estava esperando lá fora novamente, aquela noite. Assim como todas as outras noites. Ele estava lá dentro, no fim da tarde, rindo sozinho. Planejava alguma coisa.

Ruby vinha recebendo conselhos de algumas das garotas que trabalhavam nos cliques e, alem do seu boá de plumas, agora investia num chapéu de aba larga, com um tipo de oograah que achava que se chamava cereja. Garantiram a ela que o efeito era avassalador.

O problema, tinha ela que admitir, e que ele era, bem, um troll muito vigoroso. Durante milhões de anos, as mulheres trolls tinham sentido atração natural por trolls com uma constituição semelhante à de um monólito com uma maçã no topo. Os instintos traiçoeiros de Ruby atiravam mensagens por sua espinha, repetindo de modo desleal que, naquelas longas presas e pernas curvas, havia tudo o que uma garota troll poderia desejar de um companheiro.

Trolls como Rocha e Morry, é claro, eram muito mais modernos e sabiam fazer coisas como usar garfo e faca. Mas havia algo... bem... tranqüilizador em Detritus. Talvez fosse o jeito com que as juntas dos dedos tocavam o solo com tanto dinamismo. e, à parte todas as outras coisas, ela tinha certeza de que era mais inteligente do que ele. Havia uma imbecilidade incontrolável nele que ela achava fascinante. Isso eram os instintos em funcionamento — a inteligência nunca tinha sido uma característica particularmente valiosa num troll.

E ela tinha que admitir que, por mais que pudesse experimentar coisas como boas de plumas e chapéus luxuosos, chegava aos 140 anos e estava 180 kg acima do peso considerado ideal.

Se pelo menos ele fosse mais animado para fazer as coisas.

Ou se ele fosse mais animado para fazer uma coisa.

Talvez valesse a pena tentar essa maquiagem de que as garotas vinham falando.

Ela suspirou, apagou a vela, abriu a porta, saiu e se viu no meio de um labirinto de raízes.

Uma árvore gigantesca se espalhava por toda a extensão do beco. Ele deve tê-la arrastado por quilômetros. Os poucos galhos que sobreviveram entravam por janelas ou balançavam solitários no ar.

No meio de tudo aquilo, Detritus se empoleirava no tronco com orgulho, com o rosto dividido por um sorriso de melancia e os braços escancarados.

— Tralaa! — disse.

Ruby soltou um suspiro gigantesco. O romance não é nada fácil quando você é um troll.

O bibliotecário forçou a página para que ela se abrisse e acorrentou-a ao chão. O livro tentou dar um tapa nele.

Seus conteúdos fizeram dele o que era. Malvado e traiçoeiro.

Ele continha um conhecimento proibido.

Bem, não proibido, na verdade. Ninguém jamais havia chegado tão longe a ponto de proibi-lo. Mais que qualquer outra coisa, para proibi-lo era necessário conhecê-lo, o que era proibido. Mas definitivamente continha o tipo de informação que, uma vez que você conhecia, desejava não ter conhecido.21

Dizia a lenda que qualquer homem mortal que lesse mais que algumas linhas do original morreria louco.

Isso certamente era verdade.

 

  1. O Necrotelicomnicon foi escrito por um necromancista klatchiano conhecido pelo mundo como Achmed o Louco, embora preferisse ser chamado de Achmed o eu Só Tenho Umas Dores de Cabeça. Dizem que o livro foi escrito em um dia, depois que Achmed bebeu demais do estranho café forte klatchiano, que não apenas deixa a pessoa sóbria, mas faz com que atravesse a sobriedade e vá até o outro lado, de modo que tenha um vislumbre do universo real alem das nuvens de auto—ilusão confortável que a vida sapiente geralmente gera em torno de si para evitar que se transforme num bolo de nozes. Pouco se sabe sobre a sua vida antes desse acontecimento, porque a página intitulada "Sobre o Autor" sofreu combustão espontânea logo após sua morte. No entanto, a seção intitulada "Outros Livros do Mesmo Autor" indica que sua obra publicada anteriormente foi O Livro de Histórias Humorísticas sobre Gatos de Achmed o eu Só Tenho Umas Dores de Cabeça, o que talvez explique muita coisa.

 

A lenda também dizia que o livro continha ilustrações que fariam o cérebro de um homem forte escorrer para fora dos ouvidos.

Isso provavelmente também era verdade.

A lenda prosseguia dizendo que o mero gesto de abrir o Necrotelicomnicon faria a carne de um homem rastejar para fora da sua mão e subir pelo braço.

Na verdade, ninguém sabia se isso era verdade, mas soava terrível o suficiente para ser verdade, e ninguém estava disposto a pagar para ver.

A lenda tinha muito a dizer sobre o Necrotelicomnicon, mas absolutamente nada sobre orangotangos, que poderiam rasgar o livro em pedacinhos e mastigá-lo que a lenda não daria a mínima. O pior que já acontecera ao bibliotecário depois de olhar para o livro fora uma leve enxaqueca e um toque de eczema, mas aquilo não justificava correr riscos. ele ajustou o visor de vidro escurecido e passou o dedo de couro preto pelo índice. As palavras se ergueram quando o dedo deslizou sobre elas e tentaram mordê-lo.

De vez em quando, segurava o pedaço de filme contra a luz trêmula da tocha.

O vento e a areia o deixaram manchado, mas não havia dúvidas de que as rochas tinham partes entalhadas. e o bibliotecário já havia visto desenhos como aqueles antes.

Ele encontrou a referência que procurava e, após uma luta rápida em que teve que ameaçar o Necrotelicomnicon com a tocha, forçou o livro a virar até a página.

Examinou mais de perto.

Grande Achmed o eu Só Tenho Umas Dores de Cabeça...

"... e naquela colina, diz-se, uma Porta para fora do Mundo foi encontrada, e as pessoas da cidade observaram O que foi Visto naquele lugar, sem saber que o Pavor aguardava entre os universos..."

A ponta dos dedos do bibliotecário se arrastaram da direita para a esquerda sobre as imagens e pularam para o parágrafo seguinte.

"... porque Outros encontraram o Portão de Holy Wood e caíram sobre o Mundo, e numa noite Toda espécie de Loucura sucedeu, o Caos vigorou, a Cidade afundou sob o Mar, e tudo se transformou numa coisa só, com os peixes e as lagostas, salvo pelos poucos que fugiram..."

ele envergou o beiço e olhou mais para baixo, na mesma página.

"... um Cavalheiro Dourado, que levou o Inimigo de volta e salvou o Mundo, e disse: 'Onde o Portão estiver, Lá estarei eu Também. Sou Aquele que Nasceu de Holy Wood para vigiar a Idéia Desvairada'. e eles disseram: 'O que temos que fazer para Destruir o Portão para Sempre'. e ele respondeu a eles: 'Isto vocês Não podem Fazer, por Não ser isto uma Coisa, mas eu Vigiarei o Portão para vocês'. e eles, como não tinham Nascido ontem, e temendo a Cura mais do que a Doença, disseram a ele: 'O que você Levará de Nós para Vigiar a Porta'. e ele cresceu até ficar da altura de uma árvore e disse: Apenas a sua Lembrança, assim eu Não Durmo. Três vezes por dia vocês se lembrarão de Holy Wood. Senão As Cidades do Mundo Tremerão e Cairão, e vocês Verão a Maior delas Toda em Chamas'. e, com isso, o Homem Dourado pegou sua espada dourada e seguiu até a Colina e ficou diante do Portão para sempre. e as Pessoas disseram umas às outras: engraçado, ele se parece tanto com o meu tio Osberto...'"

O bibliotecário virou a página.

"... Mas havia entre eles, humanos e animais também, aqueles que tinham sido tocados pela magia de Holy Wood. ela e passada através das gerações, como uma maldição antiga, até que os sacerdotes interrompam sua Lembrança e o Homem Dourado adormeça. então, que o mundo tome Cuidado..."

O bibliotecário deixou o livro se fechar de uma vez.

Não era uma lenda incomum. ele a havia lido antes — pelo menos a maior parte dela — em livros consideravelmente menos perigosos que aquele. era possível encontrar variações em todas as cidades da Planície Sto Lat. Houve uma vez uma cidade, nos tempos obscuros da pré-história — maior que Ankh-Morpork, se isso fosse possível. e os habitantes haviam feito uma coisa, uma espécie de crime inenarrável não apenas contra a Humanidade ou os deuses, mas contra a própria natureza do universo, que tinha sido tão horrível que ela afundou sob o mar numa noite de tempestade. Apenas algumas pessoas sobreviveram para transmitir aos povos bárbaros das partes menos avançadas do Disco todas as artes e ofícios da civilização, tais como a usura e o macramê.

Ninguém jamais a levou a Sério, na verdade. era apenas um daqueles mitos comuns, do tipo "Se você não parar com isso, vai ficar cego", que as civilizações tendiam a passar a seus descendentes. Afinal, Ankh-Morpork era considerada, de modo geral, a cidade mais perversa que se poderia encontrar em um ano navegação pelo Disco, e parecia ter conseguido evitar qualquer tipo de vingança sobrenatural, embora seja possível que ela tenha acontecido e ninguém tenha notado.

A lenda também havia colocado a cidade sem nome bem longe, e muito tempo atrás.

Ninguém sabia onde ela ficava ou se havia existido.

O bibliotecário olhou para os símbolos mais uma vez.

eram muito familiares. estavam nas velhas ruínas, por toda a parte, em Holy Wood.

Azhural permanecia de pé sobre um monte baixo, observando o mar de elefantes se mover abaixo dele. Aqui e ali, um carro de entrega passava sacudindo entre os corpos cinza empoeirados feito um barco desgovernado. Um quilômetro e meio de savana era pisoteado e transformado num chafurdeiro empapado de lama, sem nada de grama — embora, a julgar pelo cheiro, seria o pedaço de terra mais verde do Disco depois das chuvas.

Ele esfregou os olhos de leve, com a ponta do manto.

Trezentos e sessenta e três! Quem diria?

O ar estava sólido com o barrito irritado de 363 elefantes. e, com os grupos de caça e apreensão já seguindo na frente, haveria muitos mais. Pelo menos de acordo com M'Bu. e ele não ia discutir.

engraçado, isso. Durante anos, pensou em M'Bu como uma espécie de sorriso ambulante. Um rapaz habilidoso com um pincel e uma pá, mas não o que se poderia chamar de um grande empreendedor.

então, de repente, alguém em algum lugar quis mil elefantes, e o garoto ergueu a cabeça e um brilho surgiu em seu olhar. Dava para ver que por baixo daquele sorriso largo havia um habilidoso kilopaquidermatologista pronto para atender ao chamado. engraçado. era possível conhecer alguém a vida inteira e não perceber que os deuses o colocaram neste mundo para movimentar mil elefantes de um lado para o outro.

Azhural não tinha filhos. ele já se decidira a deixar tudo para seu assistente. Tudo o que tinha, àquela altura, consistia em 363 elefantes e... a—há—há... um mamute como garantia de credito, mas o que valia era a intenção.

M'Bu veio correndo pelo caminho que ia até ele, segurando a prancheta com firmeza debaixo do braço.

— Tudo pronto, chefe. e só o senhor mandar.

Azhural se esticou. Olhou para a planície oscilante, os baobás distantes e as montanhas purpúreas. Ah, sim. As montanhas. Ficara apreensivo em relação às montanhas. ele as mencionara a M'Bu, que disse "A gente atravessa aquelas pontes quando chegar lá, chefe" e, quando Azhural observou que não havia nenhuma ponte, ele o olhou com sinceridade e disse com firmeza: "Primeiro a gente constrói as pontes, depois atravessa elas".

Muito alem das montanhas estava o Mar Círculo, Ankh-Morpork e aquela tal de Holy Wood. Lugares distantes, com nomes esquisitos.

Um vento soprou pela savana, carregando leves sussurros, até mesmo aqui.

Azhural ergueu a bengala.

—    São 2.400 quilômetros até Ankh-Morpork. Nós temos 363 elefantes, 50 carroças de forragem, a monção está prestes a começar, e nós estamos usando... estamos usando... uma espécie de coisa, tipo óculos, só que escuros... coisas de vidro escuro nos olhos... — Sua voz falhou. ele franziu a sobrancelha, como se tivesse escutado a própria voz e não entendesse.

O ar parecia cintilar. Ele viu M'Bu olhando fixamente para ele. E deu de ombros.

—    Vamos — disse.

M'Bu fez uma concha com as mãos na frente da boca. ele passara a noite toda pensando na ordem da marcha.

—    Seção Azul pertencente Tio N'Gru, avante! — gritou. — Seção Amarela pertencente Tia Googool, avante! Seção Verde pertencente Primo de segundo grau! Kck! Avante...

Uma hora mais tarde, a savana em frente ao monte baixo estava deserta, com exceção de um bilhão de moscas e um besouro rola-bosta que não acreditava na própria sorte.

Alguma coisa fez "plop" na poeira vermelha, fazendo se abrir uma pequena cratera. E mais uma, e mais outra.

Um raio dividiu o tronco de um baobá próximo.

As chuvas começaram.

As costas de Victor começavam a doer. Carregar mocinhas para lugares seguros parecia uma boa idéia no papel, mas apresentava grandes empecilhos depois dos primeiros 100 m.

—    Você tem alguma idéia de onde ela mora? e é em algum lugar perto daqui?

—    Não faço idéia — respondeu Gaspode.

—   Uma vez, ela disse algo sobre ser em cima de uma loja de roupas.

—    Então fica no beco ao lado do restaurante do Borgle —disse Gaspode.

Gaspode e Laddie mostraram o caminho através dos becos e por uma frágil escada externa. Talvez tivessem farejado o quarto de Ginger. Victor não questionaria os sentidos misteriosos de animais.

Ele subiu as escadas dos fundos fazendo o menor barulho possível. estava vagamente consciente de que o lugar em que as pessoas ficavam era geralmente assolado pela Proprietária Comum ou Altamente Desconfiada, e sentia que já tinha problemas suficientes.

Ele usou os pés de Ginger para empurrar a porta.

O quarto era pequeno, de pé direito baixo e mobiliado com os infelizes móveis desbotados encontrados em quartos alugados por todo o multiverso. Pelo menos a princípio era assim.

Agora era decorado com Ginger.

Ela havia guardado todos os cartazes. Até mesmo os dos primeiros cliques, em que aparecia apenas em letras miúdas como Uma Garota. estavam pregados à parede com tachinhas. O rosto de Ginger — e o dele próprio — olhava fixamente para ele de todos os ângulos.

Havia um espelho grande numa extremidade do quarto apertado e duas velas queimadas até a metade, na frente dele.

Victor colocou a garota com cuidado na cama estreita e depois olhou ao redor. Seu sexto, sétimo e oitavo sentidos gritavam para ele. Estava num local cheio de magia.

—    É como uma espécie de templo — disse. — Um templo para... ela mesma.

—    Me dá arrepios — comentou Gaspode.

Victor ficou olhando. Talvez tenha conseguido evitar com sucesso o recebimento do chapéu pontudo e do grande cajado, mas adquirira instintos de mago. ele teve uma visão súbita de uma cidade sob o mar, com polvos enrolando—se furtivamente em portais submersos e lagostas olhando para as ruas.

—   O destino não gosta quando as pessoas ocupam mais espaço do que deveriam. Todo mundo sabe disso.

"Eu serei a pessoa mais famosa do mundo", pensou Victor. "Foi o que ela disse." ele balançou a cabeça.

—    Não — disse, em voz alta. — ela só gosta de cartazes. É apenas uma simples vaidade.

Aquilo não soou convincente nem mesmo para ele. O quarto estava pululando de...

... do quê? ele nunca sentira nada como aquilo antes. Alguma espécie de poder, com certeza. Alguma coisa que mexia com seus sentidos de forma provocadora. Não exatamente magia. Pelo menos não do tipo com a qual estava acostumado. Algo que parecia similar sem ser a mesma coisa, como o açúcar comparado ao sal. Da mesma forma e da mesma cor, mas...

A ambição não era mágica. Poderosa, sim, mas não mágica... certamente?

A magia não era difícil. esse era o grande segredo sobre o qual todo o extravagante edifício da magia havia sido montado para esconder. Qualquer um com um pouco de inteligência e perseverança poderia fazer magia, motivo pelo qual os magos a encobriam com rituais e toda essa coisa do chapéu pontudo.

O truque consistia em fazer magia e sair impune.

Porque era como se a raça humana fosse um milharal e a magia ajudasse seus praticantes a ficar um pouco mais altos para que se sobressaíssem. Isso atraía a atenção dos deuses e — Victor hesitou — de outras Coisas de outro mundo. As pessoas que usavam a magia sem saber o que faziam geralmente acabavam numa situação complicada.

Às vezes, num quarto como esse.

Ele se lembrou de Ginger lá na praia. "eu quero ser a pessoa mais famosa do mundo." Pensando bem, talvez aquilo fosse algo novo. Ambição não por ouro, poder, terra ou todas as coisas conhecidas do mundo humano. Apenas ambição de ser você mesmo da maior forma possível. Não ambição por algo, mas ambição de ser algo.

Ele balançou a cabeça. Estava apenas num quarto qualquer, num predio qualquer, numa cidade qualquer, que era mais ou menos tão real quanto... quanto... quanto... bem... quanto um clique. Não parecia o lugar para ter pensamentos daquele tipo.

Importante era lembrar que Holy Wood não era um lugar real de jeito nenhum.

Ele ficou olhando para os cartazes mais uma vez. "Você só consegue uma chance", ela disse. "Você vive talvez por 70 anos e, se tiver sorte, consegue uma chance. Pense em todos os esquiadores natos que nascem em desertos. Pense em todos os ferreiros geniais que nasceram centenas de anos antes de alguém inventar o cavalo. Todos os talentos que nunca são usados. Todas as chances desperdiçadas."

"Que sorte a minha", ele pensou, de um jeito sombrio, "estar vivo nesta época."

Ginger se virou em seu sono. Pelo menos sua respiração parecia mais regular.

—    Vamos — disse Gaspode. — Não é certo ficar sozinho no buduá de uma dama.

—    Não estou sozinho. Ela está comigo.

—    Essa é a questão — insistiu Gaspode.

—    Au, au — acrescentou Laddie, por lealdade.

—    Sabe de uma coisa — começou Victor, seguindo os cachorros na escada —, estou começando a sentir que tem alguma coisa errada aqui. Alguma coisa está acontecendo, e eu não sei o que e. Por que ela estava tentando entrar na colina?

—    Provavelmente em pacto com Poderes terríveis — sugeriu Gaspode.

—    A cidade, a colina, o livro e tudo o mais — disse Victor, ignorando aquilo. — Tudo isso faria sentido se ao menos eu soubesse o que liga essas coisas umas às outras.

Ele saiu e se deparou com o fim da tarde, com as luzes e os ruídos de Holy Wood.

—    Amanhã nós vamos até lá, à luz do dia, e resolvemos isso de uma vez por todas.

—   Não vamos, não — interferiu Gaspode. — E o motivo e que amanhã iremos a Ankh-Morpork, lembra?

—    Nós? Ginger e eu vamos. Não sabia sobre você.

—    Laddie vai também — disse Gaspode. — Eu...

—    Bom garoto Laddie!

—    É, é. Eu ouvi os treinadores falando. Então tenho que ir pra garantir que não aconteça nada de errado com ele, esse tipo de coisa.

Victor bocejou.

—    Bom, eu vou para a cama. Provavelmente vamos ter que começar cedo.

Gaspode olhou para um lado e para o outro do beco com um olhar inocente. Em algum lugar, uma porta se abriu, e eles ouviram o som de uma risada bêbada.

—    Eu tava pensando em dar uma volta antes de dormir — disse.

—    Mostrar pro Laddie...

—    Laddie bom garoto!

—    ... os pontos turísticos e tal.

Victor fez uma expressão de dúvida.

—    Não fique com ele até muito tarde. As pessoas vão ficar preocupadas.

—    É, tá bom — concordou Gaspode. — Boa noite.

Ele se sentou e ficou olhando. Victor saiu andando.

—    Sei — disse baixinho. — Vai ver se tem alguém se preocupando comigo. — ele ergueu a cabeça para olhar para Laddie, que se curvou para prestar atenção com obediência. — Certo, jovem filhote companheiro. Desta vez você foi educado. Lição Um: Como Pegar Bebidas de Graça nos Bares. Sorte sua — acrescentou —que você me encontrou.

Duas silhuetas caninas cambaleavam de modo incerto pelas ruas de madrugada.

—    Somos pobres cordeirinhos — uivou Gaspode — que ficaram perdidos...

—Au! Au! Au!

— Somos pobres ovelhinhas que... que... — Gaspode desabou e cocou uma orelha, ou pelo menos o local onde ele pensava que ela estaria. Sua pata balançava de modo incerto no ar. Laddie olhou para ele com olhar solidário.

A noite tinha sido incrivelmente bem—sucedida. Gaspode sempre conseguia suas bebidas de graça simplesmente sentando e olhando de modo intenso para as pessoas até que elas ficassem desconfortáveis e derramassem um pouco de cerveja para ele, num pires, na esperança de que beberia e iria embora. era demorado e tedioso, mas, como técnica, servia muito bem. enquanto Laddie...

Laddie fazia truques. Laddie sabia beber de garrafas. Laddie sabia latir o número de dedos que as pessoas mostravam. Gaspode também sabia, é claro, mas nunca havia lhe passado pela cabeça que tal atividade pudesse ser recompensada.

Laddie conseguia avistar moças que saíam para passar a noite com um pretendente esperançoso, colocar a cabeça no colo delas e lançar um olhar tão comovente que o pretendente comprava um pires de cerveja e um pacote de biscoitos em forma de peixinho só para impressionar a futura amada. Gaspode nunca tinha sido capaz de fazer aquilo porque era muito baixo para os colos e, de todo o modo, mesmo se tentasse, só conseguiria gritos de aversão.

Ele se sentou embaixo da mesa, num estado de desaprovação perplexa no começo, e depois num estado de desaprovação perplexa alcoolizada, porque Laddie era a generosidade em cachorro quando se tratava de dividir pires de cerveja.

Agora, depois que os dois tinham sido botados para fora, Gaspode decidiu que era hora de um sermão sobre o verdadeiro cachorrismo.

—Você não deve ficar se humolhando. Umiliando. Humilhando para os humano — disse. — Isso deixa todo mundo mal. Nós nuca vamos jogar fora as correntes da dependência da humanidade se cães como você ficarem felizes toda vez que virem gente. Fiquei pessoalmente enojado quando você fez aquela serie Deitar de costas e fingir de morto, vou te contar.

—Au!

—    Você não passa de mais um cachorro do imperialismo humano — disse Gaspode num tom severo.

Laddie pôs as patas sobre o focinho.

Gaspode tentou se levantar, tropeçou nas próprias patas e se sentou com todo o seu peso. Depois de algum tempo, duas lágrimas enormes correram pelo seu pêlo.

—    É claro que eu nunca tive uma oportunidade, sabe. — ele conseguiu ficar novamente sobre as quatro patas. — Sabe, olha o começo que eu tive na vida. Jogado num rio drento dum saco.Num saco de verdade. O pequeno cachorrinho gracioso abre os olhos, olha para o mundo com admiração, esse tipo de coisa, ele está dentro de um saco. — As lágrimas pingaram do seu focinho.

—    Durante duas semanas eu achei que o tijolo fosse a minha mãe.

—    Au — disse Laddie, com solidariedade e sem compreender.

—    Minha sorte foi que me jogaram no rio Ankh — continuou Gaspode. — em qualquer outro rio, eu teria me afogado e ido pro céu dos cachorrinhos. Ouvi dizer que um cachorrão preto fantasmagórico chega pra você quando você morre e diz: "Sua hora jegou. Zegou. Chegou".

Gaspode ficou olhando para o nada.

—    Mas não dá pra afundar no Ankh — continuou, pensativo. — é um rio muito duro, o Ankh.

—Au.

—    Isso não deveria acontecer nem com um cachorro. Metaforicamente.

—Au.

Gaspode observou o rosto de Laddie com os olhos embaçados. era um rosto vivo, alerta e irrevogavelmente burro.

—    Você não entendeu uma maldita palavra do que eu disse, não e? — murmurou.

—Au!— respondeu Laddie, implorando.

—    Sujeitinho sortudo — suspirou Gaspode.

Havia uma agitação na outra ponta do beco. ele ouviu uma voz dizer:

—    Lá está ele! Aqui, Laddie! Aqui, garoto! — As palavras estavam cheias de alívio.

—    É o Homem — resmungou Gaspode. — Você não precisa ir.

—    Bom garoto Laddie! Laddie bom garoto!— latiu Laddie, trotando em frente com obediência, talvez um pouco oscilante.

—    Procuramos você por toda parte! — murmurou um dos treinadores, erguendo um graveto.

—    Não bata nele! — disse o outro treinador. — Você vai estragar tudo. — ele olhou para o beco, e seu olhar encontrou o de Gaspode.

—    Aquele é o saco de pulgas que tem ficado por perto. Me dá arrepios.

—    Atira alguma coisa nele — sugeriu o outro homem.

O treinador se abaixou e pegou uma pedra. Quando se levantou novamente, o beco, estava vazio. Bêbado ou sóbrio, Gaspode tinha reflexos perfeitos em determinadas circunstâncias.

—    Está vendo? — disse o treinador, olhando de modo fixo para as sombras. — e como se fosse um tipo de adivinho.

—    É só um vira—lata — observou o seu companheiro. — Não se preocupe com ele. Vamos, pegue a coleira deste aqui e vamos levá-lo de volta antes que o senhor Dibbler descubra.

Laddie os seguiu de modo obediente de volta às instalações da Século do Morcego-de-Frutas e permitiu que o acorrentassem no seu canil. era possível que não gostasse da idéia, mas era difícil ter alguma certeza em meio à rede de deveres, obrigações e sombras emocionais vagas que formavam o que, por falta de palavra melhor, tinha que ser chamado de sua mente.

Ele deu um ou dois puxões experimentais na corrente e depois se deitou, à espera de acontecimentos.

Após algum tempo, uma vozinha rouca do outro lado da cerca disse:

—    Eu poderia lhe mandar um osso com um alicate dentro, só que você o comeria.

Laddie se reanimou.

—    Bom garoto Laddie! Bom garoto Gaspode!

—    Ssh! Ssh! Pelo menos eles têm que deixar você falar com um advogado — continuou Gaspode. — Acorrentar alguém é contra os direitos humanos.

—Au!

— De todo modo, eu dei o troco. Segui o horroroso até a casa dele e mijei na porta da frente.

—Au!

Gaspode suspirou e saiu andando com seu gingado. Às vezes, no fundo do seu coração, ele se perguntava se, afinal de contas, não seria legal pertencer a alguém. Não apenas ter um dono ou ser acorrentado por ele, vaus pertencer de verdade e ficar contente ao vê-lo, carregar seus chinelos na boca, se consumir de desgosto quando morresse etc.

Laddie gostava daquele tipo de coisa, se e que era possível chamar aquilo de "gostar". era mais algo que estava no seu sangue. Gaspode se perguntou, com melancolia, se aquilo era o verdadeiro cachorrismo e uivou do fundo da garganta. Se ele tinha realmente alguma coisa a ver com aquilo tudo, certamente não era. Porque o verdadeiro cachorrismo não tinha a ver com chinelos, passeios e se consumir pelas pessoas, disso Gaspode tinha certeza. O cachorrismo tinha a ver com ser durão, independente e egoísta.

É isso aí.

Gaspode ouvira dizer que todos os caninos poderiam acasalar entre si, até com os lobos de verdade. então isso devia significar que, lá no fundo, todo cachorro era um lobo. era até possível que um lobo virasse um cachorro, mas não era possível eliminar o lobo que existia no cachorro. Quando a doença do coxim duro atacava, as pulgas ficavam de mau humor e todas rechonchudas, e essa idéia era reconfortante.

Gaspode se perguntou como e que se saía por aí acasalando com lobas, e o que acontecia quando se parava.

Bem, isso não importava. O que importava era que os cães de verdade não saíam por aí enlouquecendo de prazer só porque um humano disse alguma coisa para eles.

É isso aí.

Ele rosnou para um monte de lixo e o desafiou a discordar.

Uma parte do monte se moveu, e um rosto felino com um peixe morto na boca apareceu diante dele. estava a ponto de dar um latido desanimado para ele, apenas para manter a tradição, quando o gato cuspiu o peixe para fora e falou com ele.

—    Olá, Gashpode. Gaspode relaxou.

—    Oh. Olá, gato. Não quis ofender. Não sabia que era você.

—    Odeio peixshe, mash pelo menosh elesh não reshpondem com grossheria.

Uma outra parte do lixo se mexeu, e Guincho, o rato, emergiu.

—    O que cês dois tão fazendo aqui embaixo? — perguntou Gaspode. — Achei que cês tivessem dito que era mais seguro na colina.

—    Não maish — disse o gato. — eshtá ficando asshombrado.

Gaspode franziu a testa.

—    Você é um gato — disse, num tom de desaprovação. — Você está lado a lado com a idéia de assombração.

—    É, mash isso não se estende a ter faíscas douradas estalando no pêlo e o chão tremendo o tempo todo. E vozes eshtranhas que parechem vir da própria cabeçsha — disse gato. — está ficando sinishtro lá em cima.

—    Então nós todos descemos — disse Guincho. — Seu Tampinha e o pato estão escondidos lá nas dunas...

Outro gato caiu da cerca ao lado deles. Era grande e ruivo, e não tinha sido abençoado com a inteligência de Holy Wood. Ele ficou assustado ao ver o rato com uma aparência tranqüila na presença de um gato.

Guincho cutucou o gato na pata.

—    Manda ele embora daqui. Gato encarou o recém-chegado.

—    Some — disse. — Anda, cai fora. Deuses, ishto é tão humilhante.

—    Não apenas pra você — observou Gaspode, quando o novo gato saiu correndo, balançando a cabeça. — Se alguns dos cachorros desta cidade me virem batendo papo com um gato, minha reputação nas ruas vai cair muito.

—    Nósh eshtávamos penshando — disse o gato, com o olhar nervoso na direção de Guincho, de vez em quando — que talvez deveríamos ceder e ver... ver... ver...

—    Ele está tentando dizer que talvez haja um lugar para nós nas imagens animadas — completou Guincho. — O que você acha?

—   Como uma dupla? — perguntou Gaspode. Eles responderam que sim com a cabeça.

—    Sem chance. Quem vai pagar algum dinheiro para ver gatos e ratos perseguindo um ao outro? Até se for cachorro, eles só se interessam se servir para satisfazer os humanos o tempo todo, então com certeza não vão assistir a perseguições de gato e rato. Vai por mim. eu entendo de imagens animadas.

—    Então já está mais que na hora de seus humanos resolverem isso pra que a gente possa voltar pra casa — irritou-se o rato. — O garoto não está fazendo nada. ele não serve pra nada.

—    Ele está apaixonado — disse Gaspode. — É muito complicado.

—    É, eu shei como é — concordou o gato, num tom solidário.

—    As pessoas jogam botas velhas e outras coisas em você.

—    Botas velhas? — espantou-se o rato.

—    Issho é o que sempre aconteceu comigo quando me apaixonei -explicou o gato, saudoso.

—    É diferente com os humanos — disse Gaspode, incerto. — As pessoas não jogam tantas botas e baldes de água em você. É mais assim... e... flores, discussões e coisas assim.

Os animais se entreolharam com ares de mau humor.

—    Eu já vi aqueles dois — disse Guincho. — ela acha que ele é um idiota.

—    Isso tudo faz parte — acrescentou Gaspode. — eles chamam de romance.

O gato deu de ombros.

—    É só me dar uma bota. Você sabe onde está pisando com a bota.

O espírito radiante de Holy Wood se derramou pelo mundo, deixando de ser uma gota para se tornar uma enchente. ele borbulhava nas veias das pessoas e até dos animais. Quando os operadores de manivela giravam suas manivelas, lá estava ele. Quando os carpinteiros martelavam seus pregos, martelavam por Holy Wood. Holy Wood estava no cozido do Borgle, na areia, no ar. Estava crescendo. E ia florescer...

Dibbler Cava-a-própria-Cova, ou C.A.P.C., como gostava de ser chamado, sentou-se na cama e ficou olhando para a escuridão.

Na sua cabeça, uma cidade pegava fogo.

Ele tateou com pressa ao lado da cama para encontrar os fósforos, conseguiu acender a vela e finalmente localizou a caneta.

Não havia papel. ele fora bem específico quando disse a todo mundo que tinha que haver papel ao lado da sua cama para o caso de acordar com uma idéia. As melhores idéias apareciam quando estava dormindo.

Pelo menos havia uma caneta e tinta...

As imagens vinham como uma chuva de granizo passando diante de seus olhos. Pegue-as agora ou deixe-as escapar para sempre...

Ele apanhou a caneta e começou a escrever às pressas nos lençóis.

Um Homem e Uma Mulher Radiantes de Paixão Numa Cidade Assolada pela Guerra Civil!

A caneta rangia e estalava ao percorrer seu caminho sobre o tecido branco e áspero.

Isso! Isso! era isso mesmo!

Ele mostraria a eles, com suas tolas pirâmides de gesso e palácios de moedinhas. Este seria um que eles teriam que respeitar! Quando a história de Holy Wood fosse escrita, este seria aquele para o qual apontariam e diriam: "essa foi a Imagem Animada para Acabar com todas as Imagens Animadas!"

Trolls! Batalhas! Romance! Pessoas com bigodes finos! Mercenários! e a luta de uma mulher para proteger o... — Dibbler hesitou — alguma coisa que ela ama, pensaremos nisso depois, num mundo enlouquecido!

A caneta dava trancos, se agitava e seguia adiante.

Irmão contra irmão! Mulheres usando vestidos com anáguas dando tapas na cara das pessoas! Uma dinastia poderosa em decadência!

Uma grande cidade ardendo! Não de paixão, ele fez uma nota na margem, mas em chamas.

Possivelmente até mesmo... ele mordeu o lábio.

Sim. esperava por isso! Sim!

Mil elefantes!

(Mais tarde, Soll Dibbler diria:

—    Olha, tio, a guerra civil de Ankh-Morpork é uma grande idéia. Sem problemas. Acontecimento histórico conhecido, sem problemas. É que nenhum dos historiadores mencionou ter visto algum elefante.

—    Foi uma guerra grande — disse Dibbler num tom defensivo. — Sempre se deixa passar alguma coisa.

—    Mil elefantes, acho que não.

—    Quem é o diretor deste estúdio?

—    É só que...

—    Ouça. Talvez não houvesse mil elefantes, mas nós teremos mil elefantes. Porque mil elefantes é mais real, ok?)

O lençol aos poucos foi ficando cheio dos rabiscos agitados de Dibbler. ele chegou à ponta e continuou sobre a madeira da cama.

Pelos deuses, aquilo era a idéia de verdade! Nada de pequenas batalhas trabalhosas. Seriam necessários quase todos os operadores de manivela de Holy Wood!

Ele se recostou, ofegante com o esgotamento causado pela empolgação.

Podia ver agora. Estava melhor do que a encomenda.

Só faltava o título. Algo que soasse bem. Algo que as pessoas lembrassem. Algo — ele cocou o queixo com a caneta — que mostrasse que as questões das pessoas comuns ficaram desprezadas nas grandes tempestades da história. Tempestades, era isso. Boa imagem, uma tempestade. Tem o trovão. Relâmpago. Chuva. Vento.

Vento. era isso!

Ele engatinhou até a outra ponta do lençol e, com muito cuidado, escreveu:

E O SOPRO CARREGOU.

Victor se agitava e virava na cama estreita, tentando dormir. As imagens marchavam por sua mente semi-adormecida. Havia corridas de carruagens, navios piratas e outras coisas que ele não conseguia identificar e, no meio de tudo isso, essa coisa escalando uma torre. Algo enorme e terrível com um sorriso desafiador para o mundo. E alguma coisa gritando...

Ele se sentou, encharcado de suor.

Depois de alguns minutos, jogou as pernas para fora da cama e foi até a janela.

Acima das luzes da cidade, a colina de Holy Wood recebia a primeira luz tênue da manhã. Mais um belo dia estava por vir.

Os sonhos de Holy Wood se lançavam pelas ruas em grandes ondas douradas invisíveis.

E Algo veio com eles.

Algo que nunca, nunca sonhava. Algo que nunca adormecia.

Ginger saiu da cama e também olhou na direção da colina, embora se pudesse duvidar de que a tivesse visto. Movendo-se como uma pessoa sem visão num quarto que lhe e familiar, caminhou até a porta, desceu a escada e saiu no final da noite.

Um cachorro pequeno, um gato e um rato observavam nas sombras quando ela passou pelo beco em silêncio e seguiu em direção à colina.

—    Vocês viram os olhos dela? — perguntou Gaspode.

—    Incandescentes — disse o gato. — Irck!

—    Ela está indo para a colina — observou Gaspode. — Não gosto disso.

—    E daí? — começou Guincho. — Ela está sempre por perto. Sobe lá toda noite e fica andando distraída com uma atitude dramática.

—    O quê?

—    Toda noite. Nós achamos que fosse essa coisa de romance.

—    Mas dá pra ver, pelo jeito como ela se move, que alguma coisa não tá certa — disse Gaspode, desesperado. — Isso num é andar, é oscilar. Como se estivesse sendo puxada por uma voz interior ou algo do tipo.

—    Pra mim não parece isso — discordou Guincho. — Andar com as duas pernas é que é oscilar, no meu manual.

—    Ê só olhar pro rosto dela que a gente vê que tem alguma coisa errada!

—    É claro que tem alguma coisa errada. Ela é humana — disse Guincho.

Gaspode considerou as opções. Não havia muitas. A mais óbvia era encontrar Victor e fazê-lo ir até lá. Ele rejeitou essa. Soava muito como o tipo de coisa tola e alegre que Laddie faria. Sugeria que o melhor que um cão poderia fazer quando enfrentava um dilema era encontrar um humano para resolvê-lo.

Ele correu e agarrou firme entre as mandíbulas a bainha rastejante da camisola da sonâmbula. Ela continuou andando, derrubando-o no chão. O gato riu de modo sarcástico demais para o gosto de Gaspode.

—    Hora de acordar, moça — rosnou, soltando a camisola. Ginger seguiu a passos firmes.

—    Está vendo? — começou o gato. — Dê um polegar opositor a eles, e eles acham que são eshpeciais.

—    Eu vou segui-la — disse Gaspode. — Uma garota sozinha à noite pode se machucar.

—    Os cachorros são assim — o gato explicou para Guincho. — Shempre sacudindo o rabo para as pessoas. A próxima vai ser uma coleira de diamante e um prato com o nome dele, eshtou te falando.

—    Se você tá querendo perder um monte de pêlo numa mordida só, você veio pro lugar certo, bichano — rosnou Gaspode, deixando os dentes podres à mostra mais uma vez.

—    Não tenho que tolerar esse tipo de coisa — disse o gato, erguendo o focinho com arrogância. — Vamos, Guincho. Vamos logo para um monte de lixo que não tenha tanta imundície.

Gaspode fez uma careta para as costas deles.

—    Bichano! — gritou.

Depois correu atrás de Ginger, sentindo ódio de si mesmo. "Se eu fosse um lobo, o que, em termos técnicos, eu sou", pensou, "certamente haveria um arranca-rabo ou algo semelhante. Qualquer garota vagando sozinha por aí estaria em sérios apuros. eu poderia atacar, eu. poderia atacar na hora que quisesse, estou apenas escolhendo não fazê-lo. Uma coisa eu não vou fazer. Não vou ficar assim, de olho nela. Sei que Victor me disse pra ficar de olho nela mas eu não fico por aí fazendo o que os humanos mandam. Gostaria de encontrar um humano que possa dar ordens a mim. Corto a garganta dele, assim. Há. E, se alguma coisa acontecesse com ela, ele ficaria andando por aí com a cabeça na lua durante dias e provavelmente esqueceria de me dar comida. Não que cães como eu precisem de humanos para conseguir comida. eu poderia derrubar uma rena só de saltar nas costas dela e morder a jugular, mas e conveniente pra caramba receber tudo num prato."

Ela estava andando bem rápido. A língua de Gaspode ficou pendurada para fora enquanto ele se esforçava para acompanhar o seu passo. A cabeça dele doía.

Ele arriscou algumas olhadelas de lado para ver se algum outro cachorro estava vendo. "Se estivesse", pensou, "poderia fingir que estava correndo atrás dela." Que era o que ele estava fazendo de fato. O problema era que ele nunca teve muito fôlego, nem nos seus melhores momentos, e ficava difícil manter o ritmo. ela deveria ter a decência de ir um pouco mais devagar.

Ginger começou a subir as ladeiras mais baixas da colina.

Gaspode pensou em latir alto e, se alguém chamasse atenção para isso mais tarde, ele poderia dizer que tinha sido para assustá-la. O problema era que tinha fôlego suficiente apenas para ofegar de forma ameaçadora.

Ginger chegou a um patamar e desceu até um pequeno vale entre as árvores.

Gaspode foi cambaleando atrás dela, se endireitou, abriu a boca para choramingar um aviso e quase engoliu a língua.

A porta tinha se aberto mais alguns centímetros. Mais areia rolou para o monte sob o olhar de Gaspode.

E ele ouviu vozes. Não pareciam dizer palavras, mas a essência das palavras, significados sem disfarces. elas zumbiam por sua cabeça pontuda feito mosquitos, implorando, induzindo e...

... ele era o cachorro mais famoso do mundo. Os nós de seus pêlos se desfizeram, das partes puídas brotaram cachos brilhantes, sua pelagem cresceu no corpo repentinamente dócil e se afastou de seus dentes. Pratos surgiram na sua frente, não carregados dos órgãos misteriosos e multicoloridos que normalmente esperavam que ele comesse, mas com um bife vermelho—escuro. Havia água doce... não... havia cerveja numa tigela com o nome dele. Odores torturantes no ar sugeriam que diversas damas cadelas ficariam felizes em conhecê-lo depois que bebesse e jantasse. Milhares de pessoas achavam que ele era maravilhoso. ele tinha uma coleira com o seu nome e...

Não, aquilo não estava certo. Uma coleira, não. Depois disso viria um brinquedinho que soltava um guincho quando apertado se não impusesse limites quanto à coleira.

A imagem desmoronou na confusão e agora...

... a matilha saltava entre as árvores escuras e cobertas de neve, ficando para trás dele, bocas vermelhas abertas, longas pernas correndo pela estrada. Os humanos que fugiam de trenó não tinham chances. Um deles foi atirado de lado quando uma das lâminas bateu num galho e ficou gritando na estrada quando Gaspode e os lobos encontraram...

"Não, não está certo", ele pensou com tristeza. Na verdade, você não come humanos. "eles enchem a sua paciência — isso e certo e os deuses sabem —, mas você não pode comê-los"

Uma confusão de instintos ameaçou dar um curto—circuito em sua mente esquizofrênica canina.

As vozes desistiram de seu ataque com desgosto e voltaram sua atenção para Ginger, que tentava de forma sistemática remover mais areia.

Uma das pulgas de Gaspode lhe deu uma mordida dolorida. ela provavelmente sonhava ser a maior pulga do mundo. A pata subiu automaticamente para cocar, e o encanto desapareceu.

ele piscou.

— Que inferno — gemeu.

"e isso o que está acontecendo com os humanos! O que está fazendo ela sonhar?"

Os pêlos das costas de Gaspode se eriçaram.

Não era necessário nenhum instinto animal especial ali. Os instintos perfeitamente comuns do dia-a-dia foram suficientes para horrorizá-lo. Havia algo terrível do outro lado da porta.

e ela tentava deixar sair.

ele tinha que acordá-la.

Morder não era uma boa idéia. Seus dentes não andavam muito bons ultimamente. ele duvidava muito de que latir seria melhor. Isso deixava uma alternativa...

A areia se moveu de modo sinistro sob suas patas. Talvez ela estivesse sonhando em ser rocha. As árvores esqueléticas em torno do vale estavam ocupadas com fantasias de se tornar sequóias. Até o ar que se espiralava ao redor da cabeça pontuda de Gaspode se movia lentamente, embora ninguém possa adivinhar o que o ar sonha.

Gaspode correu até Ginger e pressionou o focinho contra a sua perna.

O universo contem uma certa quantidade de formas horríveis de acordar alguém, como o ruído da multidão derrubando a porta da frente, a sirene dos carros de bombeiros ou a percepção de que hoje e segunda-feira que, na sexta-feira à noite, se encontrava confortavelmente longe. O focinho úmido de um cachorro não e, estritamente falando, a pior forma de todas essas, mas tem seu pavor peculiar, que especialistas nas coisas desagradáveis e donos de cachorros de toda parte conhecem e temem. e como sentir um pequeno pedaço de fígado descongelado encostando-se a você de modo carinhoso.

Ginger piscou. O brilho incandescente desapareceu de seus olhos. ela olhou para baixo, e sua expressão de horror se transformou em perplexidade, mas, quando viu Gaspode olhando de soslaio para ela, retornou a um horror mais mundano.

—    Olá — disse Gaspode, insinuando—se.

ela se afastou, erguendo as mãos num gesto de proteção. A areia escorreu entre seus dedos. Seus olhos tremularam sobre seu próprio corpo com espanto e depois voltaram a Gaspode.

—    Deuses, isso e horrível. O que está acontecendo? Por que

estou aqui!. — Suas mãos voaram para a sua boca. — Oh, não — sussurrou —, de novo, não!

ela olhou intensamente para o cão por um momento, olhou com raiva para a porta, depois se virou, ergueu a camisola e voltou correndo para a cidade em meio à neblina da manhã.

Gaspode se arrastou atrás dela, consciente da raiva que pairava no ar, tentando desesperadamente aumentar o máximo possível a distância entre ele e a porta.

"Tem alguma coisa terrível lá dentro", pensou. "Provavelmente dedos em forma de tentáculo que arrancam a sua cara. Tipo, quando cê encontra portas misteriosas em colinas antigas, faz sentido que o que sair dali num fique feliz em te ver. Criaturas malignas que o Homem num deveria conhecer, e aqui está um cachorro que também num quer saber delas. Por que ela num pôde..."

ele seguiu murmurando em direção à cidade.

Atrás dele, a porta se deslocou uma mínima fração de centímetro.

Holy Wood despertou muito antes de Victor, e as marteladas nas instalações do Século do Morcego-de-Frutas ecoavam pelo céu. Cargas de madeira eram enfileiradas para passar pela arcada. ele foi atropelado e empurrado de lado por um fluxo apressado de gesseiros e carpinteiros. Do lado de dentro, multidões de operários passavam correndo pelos vultos de Silverfish e Dibbler C.A.P.C. discutindo.

Victor se aproximou deles no exato momento em que Silverfish dizia, em tom de perplexidade:

—    A cidade inteira?

—    Você pode deixar de fora uma coisa ou outra dos arredores — respondeu Dibbler. — Mas eu quero toda a área central. O palácio, a Universidade, os Grêmios, tudo o que faz dela uma cidade de verdade, entende? Tem que dar certo!

Seu rosto estava vermelho. Atrás dele, revelava—se Detritus, o troll, paciente, segurando com sua mão enorme o que parecia ser uma cama acima da sua cabeça, como um garçom com uma bandeja. Dibbler tinha os lençóis em suas mãos. então Victor percebeu que a cama inteira, e não apenas o lençol, estava repleta de textos escritos.

—    Mas o custo... — protestou Silverfish.

—    Conseguiremos o dinheiro de algum modo — disse Dibbler calmamente.

Silverfish não ficaria mais horrorizado se Dibbler estivesse usando um vestido. ele tentou chegar a um acordo.

—    Bem, se você estiver determinado, Cova...

—Certo!

—... suponho, pensando melhor, que talvez pudéssemos amortizar o custo de vários cliques, talvez até alugá-la depois...

—    Do que está falando? — perguntou Dibbler. — Nós vamos construí-la para e O Sopro Carregou.

—    Sim, sim, claro — tranqüilizou—o Silverfish. — e depois nós podemos...

—    Depois? Não vai ter nenhum depois! Você não leu o roteiro? Detritus, mostra o roteiro pra ele!

Detritus largou a cama com obediência entre os dois.

—    e a sua cama, Cova.

—    Roteiro, cama, qual a diferença? Olha... aqui... bem acima do entalhe...

Houve uma pausa enquanto Silverfish lia. era uma pausa bem longa. Silverfish não estava acostumado a ler coisas que não viessem em colunas e com o total embaixo.

Finalmente disse:

—Você... vai... botar fogo nela?

—    e histórico. Não se pode discutir com a história — argumentou Dibbler, tentando convencê-lo. — A cidade foi incendiada na guerra civil, todo mundo sabe disso.

Silverfish se endireitou.

—    A cidade pode ter sido — começou com firmeza —, mas eu não tive que conseguir dinheiro para que isso acontecesse! Isso e uma extravagância irresponsável!

—    eu vou pagar de alguma forma — disse Dibbler com calma.

—    Só tenho uma palavra: impossível!

—    Isso são duas palavras.

—    Não tem como eu trabalhar em algo desse tipo — disse Silverfish, ignorando a interrupção. — Tentei ver o seu ponto de vista, não tentei? Mas você pegou as imagens animadas e está tentando transformá-las em... em... em sonhos. eu nunca quis que elas fossem assim! Me inclua fora disso!

—    Ok — Dibbler ergueu a cabeça para olhar para o troll. — O senhor Silverfish já está de saída — disse. Detritus confirmou com a cabeça e, em seguida, ergueu Silverfish devagar e com firmeza pela gola.

Silverfish ficou pálido.

—    Você não pode se livrar de mim desse jeito.

—    Quer apostar?

—    Não haverá um alquimista em Holy Wood que trabalhará para você! Pegaremos o operador de manivela para nós! Você está acabado!

—    Ouça uma coisa! Depois deste clique, toda a cidade de Holy Wood virá me procurar para conseguir um emprego! Detritus, jogue esse imprestável para fora!

—    Certo, seu Dibbler — murmurou o troll, agarrando a gola de Silverfish.

—    Você ainda vai ouvir, seu... seu megalomaníaco manipulador e desonesto!

Dibbler tirou o charuto da boca.

—    Pra você e senhor Megalomaníaco.

ele pôs o charuto de volta e deu um aceno significativo para o troll, que, com delicadeza, mas com firmeza, segurou Silverfish pela perna também.

—    encoste um dedo em mim e você nunca mais vai trabalhar nesta cidade! — gritou Silverfish.

—    eu já tenho emprego mesmo, seu Silverfish — disse Detritus, com calma, carregando Silverfish em direção ao portão. — Sou Vice-Presidente de Atirar Para Fora Pessoas De Quem O Seu Dibbler Não Vai Com a Cara.

—    então vai ter que arranjar um assistente! — rosnou Silverfish.

—    Tenho um sobrinho procurando emprego. Tenha um bom dia.

—    Certo — disse Dibbler, esfregando as mãos com força. — Soll!

Soll apareceu de trás de um cavalete cheio de projetos enrolados e tirou um lápis da boca.

—    Sim, tio?

—    Quanto tempo vai demorar?

—    Uns quatro dias, tio.

—    e tempo demais. Contrate mais gente. Quero que fique pronto amanha, certo?

—    Mas, tio...

—    Ou então está demitido — completou Dibbler. Soll pareceu amedrontado.

—    Sou seu sobrinho, tio — protestou. — Não se pode demitir sobrinhos.

Dibbler olhou ao redor e pareceu notar Victor pela primeira vez.

—    Ah, Victor. Você e bom com as palavras. eu posso demitir um sobrinho?

—    e... Acho que não. Acho que você pode deserdá-lo ou algo do tipo — arriscou Victor, pouco convincente. — Mas...

—    Certo! Certo! Bom rapaz. Sabia que era algum tipo de palavra assim. Posso deserdar você. Ouviu isso, Soll?

—    Sim, tio — disse Soll, abatido. — Vou ver se consigo encontrar mais carpinteiros então, está bem?

—    Certo. — Soll lançou um olhar de espanto amedrontado para Victor ao passar com pressa. Dibbler começou a fazer um discurso enfadonho para um grupo de operadores de manivela. As instruções jorravam do homem como as águas de uma fonte.

—    Acho que ninguém vai a Ankh-Morpok hoje de manhã então — disse uma voz na altura dos joelhos de Victor.

—    ele com certeza está... e... muito ambicioso hoje — comentou Victor. — Totalmente diferente do que costuma ser.

Gaspode cocou uma orelha.

—    Tinha uma coisa que eu precisava falar. O que era mesmo?

Ah , sim. Lembrei. Sua namorada e agente de poderes demoníacos.

Aquela noite em que vimos ela na colina, ela provavelmente tava

indo comungar com o mal. O que cê acha disso, hein?

ele sorriu. Ficou bastante orgulhoso do modo como introduzira o assunto.

—   Que bom — respondeu Victor, distraído. Dibbler com certeza estava agindo de forma mais estranha que o normal. Mais estranho que o normal inclusive para Holy Wood...

—    e — continuou Gaspode, levemente irritado com aquela recepção. — Pulando por aí à noite com Inteligências ocultas e sinistras do Outro Lado, eu não deveria me surpreender.

—    Ótimo — concordou Victor. Não era comum queimar coisas em Holy Wood. elas eram guardadas e depois pintadas do outro lado. Sem querer, começou a ficar interessado.

—    ... um elenco de milhares — Dibbler ia dizendo. — Não importa onde vocês vão achar gente, vamos contratar todo mundo em Holy Wood se for necessário, certo? e eu quero...

—    Ajudando eles nas suas tentativas maléficas de dominar o mundo todo, se e que sou capaz de julgar alguma coisa — disse Gaspode.

—    ela ajuda? — perguntou Victor. Dibbler conversava com dois aprendizes de alquimista. O que era isso? Um filme de 20 rolos? Mas ninguém jamais havia sonhado passar de cinco!

—    e, cavoucando sem parar para despertá-los do seu estado de inatividade antigo exalando o cheiro da destruição, esse tipo de coisa. Provavelmente com o auxílio dos gatos, ouça o que estou...

—    Olha, cala a boca só um minuto, por favor! — pediu Victor, irritado. — estou tentando ouvir o que eles estão dizendo.

—    Bom, desculpa aí. estava só tentando salvar o mundo — resmungou Gaspode. — Se criaturas fantasmagóricas de Antes do Alvorecer começarem a acenar pra você debaixo da sua cama, só não venha reclamar comigo.

—    Do que você está falando sem parar? — perguntou Victor.

—    Ah, nada. Nada.

Dibbler levantou a cabeça, avistou Victor de pescoço esticado e acenou para ele.

—    Você, rapaz! Vem aqui! Tenho um papel pra você?

—    Tem? — perguntou Victor, abrindo passagem no meio das pessoas.

—    Foi o que eu disse!

—    Não, você perguntou se... — Victor começou e desistiu.

—    e será que posso perguntar onde está à senhorita Ginger? — disse Dibbler. — Atrasada mais uma vez?

—    ... provavelmente dormindo em... — rosnou uma voz mal—humorada e totalmente ignorada que vinha de baixo, do mar de pernas. — ... a pessoa deve ficar fora de si, mexendo com o oculto...

—    Soll, manda alguém trazer ela aqui...

—    Sim, tio.

—    ... o que se pode esperar... ha... pessoas que gostam de gatos são capazes de qualquer coisa, não dá pra confiar nelas...

—    e encontre alguém para transcrever a cama.

—    Sim, tio.

—... mas eles ouvem? eles, não. Aposto que, se eu tivesse um pêlo brilhante e ficasse correndo e latindo, eles ouviriam... tá legal...

Dibbler abriu a boca para falar, depois franziu a testa e levantou a mão.

—    De onde está vindo este murmúrio?

—    ... provavelmente salvei o mundo todo pra eles. Por direito eu ganharia uma estátua do meu focinho, mas não, oh, não, não pra você, senhor Gaspode, por você não ser o tipo certo de pessoa, então...

O lamento parou. A multidão se afastou, revelando um cachorrinho cinza, de pernas tortas, que ergueu a cabeça para olhar com indiferença para Dibbler.

—    Late? — disse, num tom inocente.

Os eventos sempre aconteciam com rapidez em Holy Wood, mas o trabalho em e O Sopro Carregou seguia acelerado como um cometa. Os outros cliques da Morcego-de-Frutas estavam parados. Assim como a maioria dos outros da cidade, porque Dibbler contratava atores e operadores de manivela pelo dobro do que qualquer pessoa ia querer pagar.

e uma espécie de Ankh-Morpork foi erguida entre as dunas. Poderia ter sido mais barato, reclamou Soll, poderiam ter arriscado sentir a ira dos magos, feito algumas filmagens escondidas em Ankh-Morpork mesmo e depois passado um punhado de dólares para que alguém jogasse um fósforo no lugar.

Dibbler discordou.

—    Acima de qualquer outra coisa — declarou —, não ficaria bom.

—    Mas seria a verdadeira Ankh-Morpork, tio. Tem que ficar exatamente bom. Como pode não ficar bom?

—    Ankh-Morpok não parece tão genuína assim, sabe — disse Dibbler, pensativo.

—    e claro que e genuína, caramba! — gritou Soll, com os laços de parentesco se esticando a ponto de quase se romperem. — ela está lá de verdade! ela e ela mesma! Não tem como ser mais genuína! e o mais genuína que se pode ser.

Dibbler tirou o charuto da boca.

—    Não e, não. Você vai ver.

Ginger apareceu por volta da hora do almoço, tão pálida que Dibbler nem gritou com ela. ela ficou encarando Gaspode, que tentou não ficar no caminho.

De todo modo, Dibbler estava preocupado. estava em seu escritório, explicando O enredo.

era basicamente muito simples, mais ou menos na linha conhecida de Garoto Conhece Garota, Garota Conhece Outro Garoto, Garoto Perde Garota, exceto que dessa vez havia uma guerra civil no meio de tudo isso...

As origens da Guerra Civil de Ankh-Morpork (20h32, 3 de grunho de 432 — 10h45, 4 de grunho de 432) sempre foram tema de debates acalorados entre historiadores. existem duas teorias principais: 1. As pessoas comuns, depois de pagarem muito imposto a um rei burro e desagradável, decidiram dar um basta e resolveram que era hora de abolir o conceito ultrapassado de monarquia e substituí-lo por, como acabou acontecendo, uma serie de chefes supremos déspotas que continuavam cobrando muitos impostos, mas pelo menos tinham a decência de não fingir que os deuses haviam lhe dado o direito de fazê-lo, o que fez todo mundo se sentir um pouco melhor; ou 2. Um dos jogadores de uma partida de Aleije o senhor Cebola numa taverna acusou o outro de esconder na palma da mão um número de ases maior que o de costume, e facas foram sacadas. Depois alguém acertou alguém com um banco, outra pessoa apunhalou mais alguém, flechas começaram a voar e alguém se pendurou no candelabro.

Um machado arremessado com descuido atingiu alguém na rua, então a Guarda foi chamada, alguém pôs fogo na taverna, alguém acertou muita gente com uma mesa e depois todo mundo perdeu a calma e começou a brigar.

enfim, tudo isso causou uma guerra civil, que e algo que toda civilização madura tem que ter tido...22

—    Da forma como eu vejo a coisa — começou Dibbler —, lá está a menina bem—nascida, morando totalmente sozinha numa casa grande, certo, e o rapaz de quem ela gosta vai embora para lutar ao lado dos rebeldes, entende? ela conhece outro homem e acontece uma química entre eles...

—    eles explodem? — perguntou Victor.

—    ele quis dizer que se apaixonam — explicou Ginger friamente.

—    e, esse tipo de coisa — Dibbler balançou a cabeça, concordando. — Olhares se cruzam num salão cheio de gente. e ela está totalmente sozinha no mundo, com exceção dos criados e... vejamos... talvez do seu cão de estimação...

—    Que vai ser o Laddie? — perguntou Ginger.

—    Certo. e é claro que ela vai fazer tudo o que puder para preservar a mina da família. então ela meio que fica flertando com os dois — os homens, não o cachorro —, e depois um deles morre na guerra e o outro a abandona, mas tudo bem, porque ela tem um coração forte. — ele se recostou na cadeira. — O que vocês acham? — perguntou.

As pessoas sentadas na sala se entreolharam com desconforto. Houve um silêncio nervoso.

—    está ótimo, tio — disse Soll, que não queria mais problemas

naquele dia.

—    Muito desafiador em termos técnicos — disse Gaffer. Houve um coro de aceitação aliviada do resto do grupo.

—    Não sei — começou Victor lentamente.

Os olhares de todas as outras pessoas se voltaram para ele da mesma maneira como os espectadores na cova dos leões veem

 

  1. Acima de tudo, ela dá ao irmão uma desculpa muito melhor para brigar com o irmão do que a desculpa normal, a saber, o que a esposa dele disse sobre a nossa mãe no funeral da tia Vera.

o primeiro criminoso condenado ser empurrado pelo portão de ferro. ele prosseguiu:

—    Tipo, e só isso? Não parece... bem... muito complicado

para um clique tão longo. As pessoas se apaixonando enquanto a

guerra civil está acontecendo no fundo... não vejo como se pode

fazer uma imagem animada tão boa com isso.

Houve mais um silêncio perturbado. Algumas pessoas que estavam próximas de Victor foram para outro lado. Dibbler olhava fixamente para ele.

Victor conseguiu ouvir uma vozinha quase inaudível debaixo da sua cadeira.

—    ... ah, e claro, tem sempre um papel pro Laddie... o que ele tem que eu não tenho, e isso o que eu gostaria de...

Dibbler ainda encarava Victor. então ele disse:

—    Você está certo. Você está certo. O Victor está certo. Por que ninguém mais percebeu isso?

—    era exatamente o que eu estava pensando, tio — disse Soll, apressado. — Precisamos incrementar um pouco.

Dibbler balançava o charuto num gesto vago.

—    Podemos pensar em mais alguma coisa, não tem problema. Tipo... tipo... que tal uma corrida de carruagens? As pessoas sempre gostam de corridas de carruagem. Prende a atenção. Será que ele vai cair, será que as rodas vão se soltar? e. Uma corrida de carruagens.

—    eu tenho... e... lido sobre a Guerra Civil — começou Soll, ' cauteloso — e acho que não há nenhuma menção a...

—    A não haver corridas de carruagens, estou certo? — interrompeu Dibbler, no tom escorregadio que contem a navalha da ameaça. Soll desistiu.

—    Já que está colocando dessa maneira, tio, está certo.

—    e... — Dibbler fez uma expressão de reflexão —... poderíamos tentar... um tubarão enorme? — Até Dibbler pareceu levemente surpreso com a própria sugestão.

Soll olhou para Victor com alguma esperança.

—    Tenho quase certeza de que os tubarões não lutaram na Guerra Civil — disse Victor.

—    Tem certeza?

—    Tenho certeza de que as pessoas teriam notado.

—    eles teriam sido pisoteados pelos elefantes — murmurou Soll.

— e — concordou Dibbler, desiludido. — Foi só uma idéia.

Não sei por que eu disse isso na verdade.

ele ficou olhando para o nada durante algum tempo, depois sacudiu a cabeça com força.

"Um tubarão", pensou Victor. "Todos os peixinhos dourados dos nossos próprios pensamentos vão nadando contentes, e aí as águas se movem e um tubarão enorme de um pensamento vem de fora para dentro. Como se alguém estivesse pensando em nosso lugar."

—    Você simplesmente não sabe se comportar — Victor disse a Gaspode quando estavam sozinhos. — eu ouvi você resmungando debaixo da cadeira o tempo todo.

—    Posso não saber como me comportar, mas pelo menos não fico todo triste por causa de uma garota que está deixando terríveis Criaturas da Noite entrarem no mundo — disse Gaspode.

—    espero que não — concordou Victor, e depois: — O que você está querendo dizer?

—    A—há! Agora ele ouve! A sua namorada...

—    ela não e minha namorada!

—    Suposta namorada — corrigiu Gaspode — tem saído todas as noites pra tentar abrir aquela porta na colina. ela tentou de novo ontem à noite, depois que você foi embora. eu vi ela. eu parei ela —     acrescentou num tom provocador. — Não que eu espere algum reconhecimento, claro. Tem alguma coisa horrível lá dentro, e ela está tentando deixar sair. Por isso está sempre atrasada e cansada de manhã. Pudera. Passando a noite toda cavando...

—    Como e que você sabe que e uma coisa horrível? — perguntou Victor, vacilante.

—    Vamos dizer assim: se alguma coisa e empurrada pra dentro duma caverna, debaixo de uma colina, atrás de portas enormes, não é porque as pessoas querem que saia toda noite pra lavar os pratos, é? Claro — acrescentou, por caridade — que eu num tô dizendo que ela sabe que está fazendo isso. Provavelmente estão controlando a mente fraca e delicada de amante de gatos feminina dela e induzindo que ela aceite um propósito maquiavélico.

—    Você realmente fala um monte de besteira às vezes — comentou Victor, mas não pareceu muito convincente nem para si mesmo.

—    Pergunte a ela, então — sugeriu o cachorro, com ares de convencimento.

—    Vou perguntar!

—    Ótimo!

"Mas como exatamente?", pensou Victor, enquanto se arrastavam na direção dos raios de sol. "Com licença, moça, meu cachorro disse que você... não. eu digo: Ginger, fiquei sabendo que você tem saído e... não. ei, Ginger, por que foi que o meu cachorro viu... não. Talvez devesse puxar uma conversa esperar até que surgisse naturalmente o tema de monstruosidades de Além do Infinito."

Mas aquilo teria que esperar, graças à agitação que havia ali.

Já haviam discutido a terceira grande parte de e O Sopro Carregou. Victor era, e claro, o herói enérgico, Porém perigoso. Ginger era a única escolha possível para a personagem principal feminina, mas o segundo papel masculino — o chato, Porém dedicado — estava causando problemas.

Victor nunca tinha visto alguém bater o pé no chão de raiva antes. ele sempre pensou que fosse uma coisa que só se fazia nos livros. Mas Ginger estava fazendo isso.

—    Porque eu iria parecer uma idiota, por isso! — dizia.

Soll, que a essa altura se sentia um pára—raios num dia de tempestade, balançava a mão de modo frenético.

—    Mas ele e ideal para o papel! O papel pede uma personalidade sólida...

—    Sólida? e claro que ele e sólido! e feito de pedra!' — gritou Ginger. — ele pode ter uma roupa de malha de ferro e um bigode falso, mas não deixa de ser um troll!

Rocha, surgindo como um vulto monolítico acima dos dois, pigarreou ruidosamente.

—    Com licença, espero que a gente não dê uma de elementarista nessa questão.

Agora era a vez de Ginger balançar as mãos.

—    eu gosto dos trolls. Isto é, como trolls. Mas você não pode estar falando Sério quando quer que eu faça uma cena romântica com uma... uma... uma face de penhasco.

—    Olha aqui — começou Rocha, elevando a voz como se ela fosse o braço de um arremessador de beisebol. — O que você está dizendo é que... é que tudo bem um troll ser mostrado dando surra nas pessoas com clavas, e não tudo bem mostrar trolls tendo sentimentos mais admiráveis como os humanos molengas?

—    Isso não é o que ela está dizendo, de jeito nenhum — interrompeu Soll, desesperado. — ela não está...

—    Se você me cortar, eu não sangro? — perguntou Rocha.

—    Não, não sangra — respondeu Soll —, mas...

— Ah, sim, mas eu sangraria. Se eu tivesse sangue, eu sangraria tudo isso aqui.

—    e tem mais uma coisa — começou um anão, cutucando o joelho de Soll. — No roteiro está escrito que ela tem uma mina cheia de anões felizes, sorridentes, cantando, certo?

—Ah, sim — respondeu Soll, deixando o problema do troll de lado. — O que tem isso?

—    e meio estereotipado, não? Quer dizer, é meio anões igual a mineradores. Não sei por que a gente tem que fazer sempre os mesmos papeis.

—    Mas a maioria dos anões é composta por mineradores — argumentou Soll desesperadamente.

—    Bem, pode ser, mas eles não estão satisfeitos com isso —outro anão. — e não ficam cantando o tempo todo.

—    Isso mesmo — concordou um terceiro anão. — É questão de segurança, sabe? Você pode fazer o teto inteiro cair em cima de você se ficar cantando.

—    e não tem nenhuma mina perto de Ankh-Morpork — disse possivelmente o primeiro anão, embora todos parecessem idênticos para Soll. — Todo mundo sabe disso. e tudo argila. A gente seria motivo de riso se o nosso pessoal visse a gente trabalhando em minas em qualquer lugar perto de Ankh-Morpork.

—   eu não diria que tenho uma face de penhasco — murmurou Rocha, que às vezes levava um pouco de tempo para digerir as coisas. — escarpado, talvez. Mas não de penhasco.

—    O fato é que — continuou um dos anões — não entendemos por que os humanos conseguem todos os papeis bons e a gente fica com as participações minúsculas.

Soll deu a risadinha de alguém em apuros que espera que uma piada alegre um pouco a atmosfera.

—    Ah, isso é porque vocês...

—    O quê? — perguntaram os anões, em uníssono.

—    Hum — disse Soll, e rapidamente mudou de assunto. — Na verdade, a questão, do meu ponto de vista, é que Ginger fará qualquer coisa para manter a mansão, a mina e...

—    espero que a gente consiga continuar — interrompeu Gaffer —, só que eu tenho que limpar a sujeira dos diabinhos daqui a uma hora.

—    Ah, entendi — disse Rocha. — eu sou absolutamente qualquer coisa, é?

—    Não se pode manter uma mina — continuou um dos anões. — A mina e que mantém você. Você tira o tesouro de dentro. Você não coloca ele lá. Isso e fundamental para todo o negócio das minas.

—    Bom, talvez já tenham usado essa mina — sugeriu Soll rapidamente. — então ela...

—    Bom, nesse caso, você não mantém a mina — disse outro anão, com um jeito expansivo de quem está prestes a dar uma explicação boa e longa. — Você tem que abandoná-la, colocando apoios e escoras onde for necessário e afundando outra coluna em alinhamento com a fenda principal...

—    Deixando espaço para escarpas de imperfeições geológicas e estruturas anticlinais — emendou outro anão.

—    É claro, deixando espaço para escarpas de imperfeições geológicas e estruturas anticlinais, e depois...

—    e deslocamentos gerais da crosta.

—    Isso mesmo, e depois...

—    A menos que você esteja apenas talhando e preenchendo, e claro.

—    Confere, mas...

—    Não vejo por que — começou Rocha — meu rosto poderia ser chamado de...

—    Calem A BOCA! — gritou Soll. — Todo mundo, cala a boca! Calem A BOCA! A próxima pessoa que não calar a boca nunca mais vai conseguir trabalho nesta cidade! entenderam? Fui CLARO? Certo. — ele tossiu e continuou, com a voz mais normal: — Muito bem. Quero que fique entendido que este e um filme Romântico, empolgante e Campeão de Bilheteria. e sobre a luta de uma mulher para salvar o... — consultou a prancheta e prosseguiu corajosamente —... tudo o que ela ama, com o pano de fundo de um Mundo enlouquecido, e eu não quero que ninguém mais cause problemas.

Um anão arriscou levantar a mão.

—    Licença?

—    Pois não?

—    Por que e que todos os filmes do senhor Dibbler se passam com o pano de fundo de um mundo enlouquecido?

Soll apertou os olhos.

—    Porque o senhor Dibbler — resmungou — é um homem muito observador.

Dibbler tinha razão. A cidade nova era a cidade antiga refinada. Os becos estreitos eram mais estreitos, os prédios altos, mais altos. As carrancas de goteira eram mais assustadoras, os telhados, mais pontudos. A altíssima Torre da Arte da Universidade Invisível era, aqui, ainda mais alta e se elevava de forma mais precária, ainda que ao mesmo tempo tivesse apenas um quarto do tamanho da outra. A Universidade Invisível era mais barroca e tinha mais pilastras de apoio. O Palácio do Patrício tinha mais pilares. Os carpinteiros fervilhavam numa construção que, quando terminasse, faria Ankh-Morpork parecer uma cópia bastante razoável de si mesma, exceto pelo fato de os prédios da cidade original não serem, de modo geral, pintados em telas estendidas sobre madeira e de sua sujeira não ter sido borrifada neles de forma cuidadosa.

Os prédios de Ankh-Morpok tinham que arrumar sua sujeira sem a ajuda de ninguém.

ela se parecia muito mais com Ankh-Morpork do que Ankh-Morpork jamais se pareceu.

Ginger foi conduzida às tendas para se trocar antes que Victor tivesse a chance de falar com ela. Depois as tomadas de cena começaram, e era tarde demais.

A Século do Morcego-de-Frutas (e agora estava escrito na placa, em letras um pouco menores: Mais estrelas do que Há nos Céus23) acreditava que um clique deveria ser feito em menos de dez vezes o tempo necessário para assisti-lo. Mas O Sopro Carregou seria diferente. Havia batalhas. Havia cenas noturnas, com os diabretes pintando furiosamente à luz das tochas. Os anões trabalhavam felizes numa mina nunca antes vista, onde falsas pepitas de ouro do tamanho de uma galinha tinham sido fixadas em paredes de gesso. Como Soll disse que tinham que ver seus lábios mexendo, cantaram uma versão picante da canção "eu vou", que fazia bastante sucesso entre a população de anões de Holy Wood.

era bem possível que Soll soubesse como tudo se encaixaria. Victor não sabia. era sempre melhor, ele havia aprendido, nunca tentar seguir o enredo de nenhum clique de que estivesse participando e, de todo modo, Soll não filmava apenas de trás para a frente, mas das beiras para o centro também. era totalmente confuso, assim como a vida real.

Quando finalmente conseguiu uma chance de falar com Ginger, dois operadores de manivela e todas as pessoas do elenco que não tinham nada para fazer naquele momento estavam olhando para eles.

— Ok, pessoal — disse Soll. — esta é a cena, perto do final, em que Victor encontra Ginger depois de tudo o que passaram juntos, e no cartaz ele vai dizer... — ele ficou olhando fixamente para o retângulo grande e preto que lhe entregaram. — Sim, ele vai dizer: "Francamente, minha querida, eu daria qualquer coisa, 23.049.873, de acordo com o enumerador Celestial automático de Riktor, por uma daquelas... costelas... de porco... de primeira... com... molho... curry... especial..."

A voz de Soll foi ficando mais lenta até parar. Quando aspirou o ar, foi como uma baleia vindo à tona.

—    Quem escreveu ISTO?

Um dos artistas levantou a mão com cautela.

—    O senhor Dibbler mandou — respondeu rapidamente.

Soll folheou a grande pilha de cartazes que representavam o diálogo de uma boa parte do clique. ele contraiu os lábios. Acenou com a cabeça para uma das pessoas com prancheta e disse:

—    Você poderia correr até o escritório e pedir para o meu tio dar um pulinho aqui se ele tiver um minuto?

Soll tirou um cartaz da pilha e leu:

—    “Com certeza vou sentir falta da velha mina, mas, para provar uma comida caseira de verdade, eu sempre... vou... à... Casa... de... Harga." entendi.

ele pegou mais uma de modo aleatório.

—    Ah, estou vendo aqui que as últimas palavras de um soldado monarquista ferido são: "O que eu não daria, neste exato momento, por uma promoção especial Coma Até Doer por um dólar na... Casa... das... Costelas... de Harga... Mãe!"

—    eu acho muito comovente — disse Dibbler atrás dele. — Não vai ter um olho seco na platéia, você vai ver.

—    Tio... — começou Soll.

Dibbler levantou as mãos.

—    eu disse que conseguiria o dinheiro de alguma forma, e Sam Harga está até nos ajudando com a comida para a cena do churrasco.

—    Você disse que não iria interferir no roteiro!

—    Isso não e interferir — disse Dibbler, impassível. — Não vejo como isso pode ser considerado interferência. eu só dei uma arrematada aqui e ali. Acho que, na verdade, e uma melhora. Alem disso, a promoção Tudo o Que Você Puder engolir Por Um Dólar do Harga tem uma importância impressionante hoje em dia.

—    Mas o clique se passa centenas de anos atrás! — gritou Soll.

—   Beeem. Acho que alguém pode dizer: "Será que a comida da Casa das Costelas de Harga ainda será tão boa daqui a centenas de anos?..."

—    Isso não e uma imagem animada. e comercio grosseiro!

—    espero que sim. estaremos em verdadeiros apuros se não for.

—    Olha aqui... — começou Soll, num tom ameaçador.

Ginger se virou para Victor.

—    Podemos ir a algum lugar para conversar? — ela disse num tom reservado. — Sem o seu cachorro — acrescentou com sua voz normal. — Definitivamente sem o seu cachorro.

—    Você quer falar comigo? — perguntou Victor.

—    Não tivemos muita chance, né?

—    Certo. Certamente. Gaspode,y?íV2. Bom cachorro. — Victor sentiu uma satisfação silenciosa ao ver o breve olhar de puro ódio no rosto de Gaspode.

Atrás deles, a eterna discussão de Holy Wood havia evoluído rapidamente, com Soll e C.A.P.C. encostando nariz com nariz e brigando dentro de um círculo de funcionários interessados e entretidos.

—    eu não sou obrigado a tolerar isso, sabe! Posso pedir demissão!

—    Não, não pode! Você e meu sobrinho! Não pode se demitir de ser sobrinho de alguém...!

Victor e Ginger se sentaram nos degraus de uma mansão de tela e madeira. eles tinham privacidade total. Ninguém se incomodaria em olhar para eles com uma briga vigorosa acontecendo a alguns metros dali.

—    e... — começou Ginger, entrelaçando os dedos. Victor não pôde deixar de notar que suas unhas estavam gastas.

—    e... — ela disse novamente. Seu rosto era o retrato da angústia e estava pálido sob a maquiagem. "ela não e bonita", Victor se pegou pensando, mas você poderia ter muita dificuldade para acreditar nisso.

—    eu... e... não sei como dizer isso, mas... e... alguém me viu andando enquanto dormia?

—Até a colina?

A cabeça dela virou rápido como uma cobra.

—    Você sabe? Como e que você sabe? Você anda me espionando? — perguntou com rispidez. era a velha Ginger novamente, cheia de fogo, veneno e agressividade paranóica.

—    Laddie a encontrou... dormindo ontem à tarde — começou Victor, afastando—se dela.

—    Durante o dia?

—    Sim.

ela pôs as mãos sobre a boca.

—    e pior do que eu pensava — sussurrou. — está ficando pior! Sabe quando você me encontrou lá na colina? Um pouco antes de Dibbler nos achar e pensar que estávamos... namorando — ela corou. — Bom, eu não sabia nem como tinha ido parar lá!

—    e você voltou ontem à noite.

—    O cachorro contou pra você, foi? — ela disse, com ar de idiota.

—    Sim. Desculpe.

—    Agora e toda noite — lamentou—se Ginger. — eu sei por que, mesmo quando eu volto para a cama, tem areia por todo o chão, e as minhas unhas estão quebradas! eu vou para lá todas as noites e não sei por quê!

—    Você está tentando abrir a porta. Tem uma porta grande e antiga onde uma parte da colina foi deslizando e...

—    Sim, eu já vi, mas por quê?

—    Bom, eu tenho algumas idéias — disse Victor, cauteloso.

—    Conte!

—    Hum. Bem, você já ouviu falar numa coisa chamada genius?

—    Não. — ela franziu a testa. — é inteligente?

—    É tipo a alma de um lugar. Ela pode ser muito forte. Pode ficar forte por meio de adoração, amor ou ódio se durar por tempo suficiente. eu queria saber se o espírito de um lugar pode chamar as pessoas. e animais também. Quer dizer, Holy Wood e um lugar diferente, não é? As pessoas agem de maneira diferente por aqui. em qualquer outro lugar, as coisas mais importantes são deuses, dinheiro ou gado. Aqui a coisa mais importante e ser importante.

Ela prestava total atenção nele.

—   E daí? — disse, num tom encorajador. — Até agora não parece tão ruim.

—    Vou chegar à parte ruim.

—Oh.

Victor engoliu em seco. Seu cérebro borbulhava como um caldo de carne. Fatos lembrados de forma incompleta vinham à tona de forma excitante e afundavam novamente. Velhos professores severos em salas velhas e agitadas disseram a ele coisas velhas e chatas que eram, no momento, tão urgentes quanto uma faca, e ele tentava pescá-las desesperadamente.

—    Eu não tenho... — começou, em voz baixa. e pigarreou. — Não tenho certeza se está certo — conseguiu dizer. — Vem de um outro lugar. Isso pode acontecer. Já ouviu falar de idéias que esperam a sua hora?

—    Sim.

—    Bom, essas são as mansas. existem outras. Idéias tão cheias de vigor que nem esperam sua hora chegar. Idéias selvagens. Idéias que escapam. e o problema e que, quando acontece algo assim, você fica com um buraco...

Ele olhou para a expressão educada e pasmada dela. As analogias borbulhavam na superfície como crótons empapados. Imagine que todos os mundos que já existiram estejam de alguma forma prensados como um sanduíche... um baralho... um livro... um papel dobrado... nas condições certas, as coisas podem passar através, em vez de passarem ao lado... mas, se abrirem um portão entre mundos, há perigos terríveis, como...

Como...

Como...

Como o quê?

A resposta veio à tona na sua memória como o pedaço de tentáculo suspeito que e descoberto de repente no exato momento em que você decidiu que era seguro comer a paella.

—    Pode ser que alguma outra coisa esteja querendo passar pelo mesmo caminho — arriscou. — No... ãh... lugar nenhum em meio aos lugares existem criaturas que, no conjunto, eu preferia não descrever para você.

—   Já descreveu — disse Ginger com uma voz tensa.

—    É.. ãh... elas geralmente são bastante ávidas para entrar nos mundos reais e talvez estejam de algum modo fazendo contato enquanto você dorme e... — ele desistiu. Não conseguia mais suportar a expressão dela. — eu poderia estar totalmente errado.

—    Você tem que me impedir de abrir aquela porta — ela sussurrou. — eu poderia ser um Deles.

—    Ah, acho que não — disse Victor, num tom imponente. — eles geralmente têm braços demais, acho.

—    Tentei colocar tachinhas no chão para me acordar.

—    Que coisa horrível. Funcionou?

—    Não. Na manhã seguinte, estavam todas no saco de novo. Devo ter recolhido elas depois.

Victor franziu os lábios.

—    Isso pode ser um bom sinal.

—    Por quê?

—    Se você tivesse sido chamada por... ãh... coisas desagradáveis, acho que elas não se importariam se você pisasse nas tachinhas.

—Urgh.

—    Você não tem nenhuma suspeita do porquê de tudo isso estar acontecendo, tem? — perguntou Victor.

—    Não! Mas eu sempre tenho o mesmo sonho. — ela apertou os olhos. — ei, como é que você sabe todas essas coisas?

—    Eu... um mago me contou uma vez.

—    Você não é mago?

—    Claro que não. Não tem nenhum mago em Holy Wood. e esse sonho?

—    Ah, é estranho demais para ter algum significado. Mesmo assim, eu sonhava com isso quando ainda era pequena. Começa com uma montanha, só que não e uma montanha normal por que...

Detritus, o troll, foi surgindo aos poucos acima deles.

—    O jovem senhor Dibbler está dizendo que é hora de recomeçar as tomadas — disse com voz grossa.

—    Você pode ir até o meu quarto hoje à noite? — sussurrou Ginger. — Por favor? Você pode me acordar se eu começar a andar dormindo de novo.

—   Bem... é... sim, mas a dona da pensão pode não gostar... —começou Victor.

—    Ah, a senhora Cosmopilite tem uma mente muito aberta.

—    Tem?

—    Ela só vai achar que estamos fazendo sexo.

—    Ah — disse Victor, sem sinceridade. — está bom, então.

—    O jovem senhor Dibbler não gosta de ficar esperando —insistiu Detritus.

—    Ah, cala a boca — disse Ginger. Ela se levantou e tirou a poeira do vestido. Detritus ficou surpreso. As pessoas normalmente não o mandavam calar a boca. Algumas linhas-fendas de preocupação apareceram em sua testa. ele se virou e tentou mais um aparecimento gradual, desta vez para Victor.

—    O jovem senhor Dibbler não gosta...

—    Ah, sai daqui — disse Victor, irritado, e foi andando atrás dela.

Detritus ficou parado sozinho e apertou os olhos num esforço para pensar.

É claro que, de vez em quando, as pessoas diziam coisas como "Sai daqui" e "Cala a boca" para ele, mas sempre com o tremor da intimidação apavorada na voz, e de modo muito natural ele sempre revidava com um "hur, hur" e batia nelas. Mas ninguém jamais havia falado com ele como se sua existência fosse a última coisa do mundo com a qual poderiam ser persuadidos a se preocupar. Seus ombros enormes ficaram caídos. Talvez toda essa coisa de passar o tempo com Ruby estivesse fazendo mal a ele.

Soll estava de pé atrás do artista que escrevia os cartazes. Ele ergueu a cabeça quando Victor e Ginger se aproximaram.

—    Certo. Aos seus lugares, pessoal. Vamos direto para a cena do salão de baile. — ele parecia satisfeito consigo mesmo.

—    As palavras já foram todas arrumadas? — perguntou Victor.

—    Sem problemas — disse Soll, orgulhoso. ele olhou rápido para o Sol. — Perdemos muito tempo — acrescentou —, então não vamos perder mais.

—    Quem diria que você seria capaz de fazer C.A.P.C. ceder desse jeito — comentou Victor.

—   Ele não tinha absolutamente nenhum argumento. Voltou para o escritório para se lamentar, imagino — disse Soll num tom imponente. — Ok, pessoal, vamos todos voltar...

O artista que fazia as letras o puxou pela manga.

—    Eu estava pensando em perguntar, senhor Soll, o que o senhor queria que eu colocasse na grande cena agora que Victor não menciona mais as costelas...

—    Não me aborreça agora, homem!

—    Mas se o senhor pudesse pelo menos me dar uma idéia...

Soll soltou a mão do homem da sua manga com firmeza.

—    Francamente eu não ligo a mínima — e saiu andando a passos largos até o cenário.

O artista foi deixado sozinho. ele pegou o pincel. Seus lábios se moveram em silêncio, moldando-se ao redor das palavras. Depois ele disse:

—    Humm. Ótimo.

Banana N'Vectif, o caçador mais habilidoso dos grandes prados amarelos de Klatch, prendeu a respiração ao colocar, com a pinça, o último pedaço no lugar. A chuva tamborilava no telhado da sua cabana.

Pronto. Era isso.

Ele nunca tinha feito nada assim antes, mas sabia que estava fazendo o certo.

Na sua época, prendia tudo nas suas armadilhas, de zebras a thargas, e o que ele tinha para mostrar? Mas ontem, quando foi levar um carregamento de peles para N'kouf, ouviu um comerciante dizer que, se algum homem chegasse a construir uma ratoeira mais eficaz, o mundo correria em peso para sua porta.

Ele ficou acordado a noite toda pensando nisso. Então, na primeira luz do amanhecer, rabiscou alguns projetos com um graveto na parede da cabana e foi trabalhar. Aproveitara para ver algumas ratoeiras enquanto estava na cidade, e elas definitivamente estavam longe da perfeição. Não tinham sido construídas por caçadores.

Pegou um galho fino e o empurrou lentamente para dentro do mecanismo.

Snap.

Perfeito.

Agora tudo o que ele tinha a fazer era levá-la para N'kouf e ver se o mercador...

A chuva estava muito forte mesmo. Na verdade, soava mais como...

Quando Banana acordou, estava deitado entre as ruínas da sua cabana, e elas estavam numa faixa de um quilômetro de largura de lama pisoteada.

Ele olhou com a vista embaçada para o que restara de sua casa. Olhou para a mancha marrom que se estendia de horizonte a horizonte. Olhou para a nuvem escura e desarrumada, visível apenas numa de suas pontas.

Depois olhou para baixo. A ratoeira mais eficaz se tornara um projeto bidimensional bastante interessante, esmagada no meio de uma enorme pegada.

Ele disse:

—    Eu não sabia que ela era tão boa.

De acordo com os livros de história, a batalha decisiva que pôs fim à Guerra Civil de Ankh-Morpork foi travada entre dois punhados de homens estropiados num pântano numa manha nebulosa e, embora um dos lados reivindique a vitória, terminou com um placar simples de Humanos 0, corvos 1.000, que e o que ocorre na maioria das batalhas.

Uma coisa sobre a qual ambos os Dibblers concordavam era que, se estivessem no comando, ninguém teria sido capaz de ir até o fim com uma guerra tão simplória. era um crime que alguém encenasse um momento crucial da história da cidade sem usar milhares de pessoas e camelos, trincheiras, fortificações, cercos, catapultas, cavalos e estandartes.

—    E numa maldita neblina também — disse Gaffer. — Não querem nem saber de níveis de luminosidade.

Ele inspecionou o campo de batalhas proposto, protegendo do sol os olhos com a mão. Haveria 11 operadores de manivela trabalhando desta vez, de todos os ângulos concebíveis. Um por um, levantaram o polegar.

Gaffer deu um tapa na caixa de imagens à sua frente.

—    Prontos, rapazes?

Houve um coro de xingamentos.

—    Bons rapazes. Acertem esta e vós podereis ganhar um lagarto extra para vosso chá.

Ele segurou a manivela com uma das mãos e pegou um megafone com a outra.

—    Quando quiser, senhor Dibbler! — gritou.

C.A.P.C. acenou com a cabeça e estava prestes a levantar a mão quando Soll estendeu o braço rapidamente e a segurou. O sobrinho olhava atentamente para as fileiras alinhadas de cavaleiros.

—    Só um momento — disse com firmeza. Depois pôs as mãos em forma de concha e ergueu a voz para gritar. — ei, você aí! Décimo quinto cavaleiro da frente para trás. E, você! Poderia esticar o seu estandarte, por favor? Obrigado. Poderia pedir um novo para a senhora Cosmopilite? Obrigado.

Soll se voltou para o tio com as sobrancelhas arqueadas.

—    Aquilo é... é um desenho heráldico — disse Dibbler rapidamente.

—    Costelas magras com uma cruz num manto de alface?

—    Muito apaixonados por sua comida, aqueles cavaleiros...

—    É gostei da divisa — disse Soll. — "Todo cavaleiro que se preze leva a sua dama para a Noite Gourmet Na Casa das Costelas de Harga." Se tivéssemos som, qual seria o grito de batalha dele, eu me pergunto.

—    Você tem o mesmo sangue que eu — começou Dibbler, balançando a cabeça. — Como é que pode fazer isso comigo?

—    Porque tenho o mesmo sangue que você.

Dibbler se animou. É claro, quando se via a coisa desse ângulo, não parecia tão ruim.

Isso é Holy Wood. Para que o tempo passe rápido, é só filmar os ponteiros do relógio se mexendo rápido...

Na Universidade Invisível, o resógrafo já está registrando sete plibs por minuto.

E, perto do fim da tarde, eles botaram fogo em Ankh-Morpork.

A cidade real havia sido incendiada muitas vezes na sua longa história — por vingança, descuido, ódio ou até mesmo só pelo seguro. A maioria dos grandes prédios de pedra que realmente faziam dela uma cidade, em oposição a um monte de choupanas no mesmo lugar, sobreviveu aos incêndios intacta, e muitas pessoas24 achavam que um bom incêndio a cada 100 anos ou mais era essencial para a saúde da cidade, uma vez que ajudava no controle dos ratos, baratas, pulgas e, é claro, das pessoas que não eram suficientemente ricas para morar em casas de pedra.

O famoso incêndio durante a Guerra Civil tinha sido digno de nota simplesmente porque fora provocado pelos dois lados ao mesmo tempo, com o objetivo de impedir que a cidade caísse nas mãos do inimigo.

Por outro lado, de acordo com os livros de história, ele não foi muito impressionante. O nível do Ankh estava particularmente alto naquele verão, e a maior parte da cidade estava úmida demais para pegar fogo.

Desta vez foi muito melhor.

As chamas se expandiam pelo céu. Como se tratava de Holy Wood, tudo pegou fogo, porque a única diferença entre os prédios de pedra e os prédios de madeira era o que estava pintado nas telas. A Universidade Invisível bidimensional pegou fogo. O palácio sem fundos do Patrício pegou fogo. Até o modelo em escala da Torre de Arte expeliu chamas que pareciam fogos de artifício.

Dibbler assistia preocupado.

Depois de algum tempo, Soll, atrás dele, disse:

—    Esperando alguma coisa, tio?

—    Humm? Ah, não. espero que Gaffer esteja se concentrando na torre, só isso — disse Dibbler. — Marco simbólico muito importante.

 

  1. Pelo menos as que moravam em prédios de pedra.

-- Certamente — concordou Soll. — Muito importante. Tão importante, na verdade, que mandei alguns rapazes até lá no intervalo do almoço só para verificar se estava tudo ok.

—    Mandou? — perguntou Dibbler, sentindo-se acuado.

—    Sim. E sabe o que descobriram? Descobriram que alguém havia pregado fogos de artifício do lado de fora. Montes e montes de fogos de artifício com detonadores. Ainda bem que descobriram porque, se as coisas tivessem estourado, teriam arruinado a tomada e nunca seríamos capaz de fazê-la de novo. EW você sabia que eles disseram que parecia que os fogos iam escrever palavras no céu? — acrescentou Soll.

—    Que palavras?

—    Nem passou pela minha cabeça perguntar a eles. Nem passou pela minha cabeça.

Ele enfiou as mãos no bolso e começou a assobiar baixinho. Depois de algum tempo, olhou enviesado para o tio.

—    “As costelas mais quentes da cidade" — murmurou. — Francamente!

Dibbler ficou mal-humorado.

—    Teria provocado uma boa risada pelo menos.

—    Olha, tio, isso não pode continuar. Chega dessas patacoadas comerciais, está bem?

—    Ah, está bem.

—    Tem certeza?

Dibbler confirmou com a cabeça.

—    Eu disse está bem, não disse?

—    Quero um pouco mais que isso, tio.

—    eu juro solenemente não me intrometer mais, de nenhuma forma, no clique — disse Dibbler num tom grave. — Sou seu tio. Sou da família. Assim está bom o suficiente para você?

—    Certo. está bem.

Quando o fogo diminuiu, eles juntaram as brasas com ancinhos para fazer um churrasco na festa do fim das tomadas, sob as estrelas.

O lençol de veludo da noite cobre a gaiola de papagaio que é Holy Wood, e em noites quentes como esta há muitas pessoas com assuntos pessoais para resolver.

Um casal de jovens, passeando de mãos dadas pelas dunas, ficou assustado a ponto de quase ficar inconsciente quando um troll enorme pulou na sua frente, saindo de trás de uma rocha, balançando os braços e gritando: "Aaaargh!"

—    Assustei vocês, foi? — perguntou Detritus, esperançoso. Eles confirmaram balançando a cabeça, pálidos.

—    Bom, isso é um alívio — disse o troll. Ele deu uma tapinha na cabeça deles, enterrando seus pés um pouco mais na areia.

—    Muito obrigado. Muito agradecido. Tenham uma boa noite — acrescentou, arrependido.

Ele observou o casal sair andando de mãos dadas e caiu no choro.

No galpão dos operadores de manivela, Dibbler C.A.P.C. observava de pé e pensativo, enquanto Gaffer colava pedaços das cenas do dia. O operador de manivela se sentia muito satisfeito. O senhor Dibbler nunca havia demonstrado interesse nas verdadeiras técnicas de tratamento do filme até então. Isso pode explicar por que ele estava um pouco mais acessível do que de costume em relação aos segredos do Grêmio que foram passados lateralmente de uma geração para a mesma geração.

—    Por que todas as imagenzinhas são iguais? — perguntou Dibbler enquanto o operador de manivelas enrolava o filme no carretel. — Pra mim parece desperdício de dinheiro.

—    Na verdade, elas não são iguais. Cada uma é um pouquinho diferente da outra, está vendo? Assim as pessoas vêem um monte de imagenzinhas levemente diferentes muito rápido, e os olhos delas acham que estão vendo algo em movimento.

Dibbler tirou o charuto da boca.

—    Quer dizer que é tudo um truque? — perguntou, surpreso.

—    É, isso mesmo. — O operador de manivela deu um risinho preso e estendeu o braço para o pote de cola.

Dibbler observava, fascinado.

— Eu achei que fosse tudo um tipo especial de magia —comentou, meio decepcionado. —Agora você me diz que não passa de uma grande brincadeira de tirar moedas da orelha?

— Mais ou menos. Veja, as pessoas na verdade não vêem nenhuma das imagens. Elas vêem um monte delas de uma vez, percebe o que eu quero dizer?

—    Ei, eu fiquei perdido com esse monte de "ver" aí.

—    Cada imagem contribui para o efeito geral. As pessoas não vêem, desculpa, cada uma das imagens, elas só vêem o efeito causado por um monte delas passando muito rápido.

—    É mesmo? Isso e muito interessante. Muito interessante mesmo. — ele bateu a cinza do charuto em cima dos diabretes. Um deles pegou-a e comeu.

—    Então o que aconteceria — começou, devagar — se, digamos, apenas uma imagem no clique inteiro fosse diferente.

—    Engraçado você perguntar isso. Isso aconteceu outro dia, quando estávamos remendando Alem do Vale dos Trolls. Um dos aprendizes havia colado apenas uma imagem de A Corridha do Ouro e todos nós ficamos a manhã inteira pensando em ouro sem saber por quê. Foi como se ela tivesse entrado direto na nossa cabeça sem que os nossos olhos vissem. e claro que eu levei a minha parte para o rapaz assim que localizamos a falha, mas nunca teríamos descoberto se eu não tivesse olhado para o clique devagar, por acaso.

Ele pegou o pincel de cola mais uma vez, alinhou duas tiras de filme e as prendeu. Depois de certo tempo, sentiu que havia ficado tudo muito silencioso atrás dele.

—    Está tudo bem, senhor Dibbler?

—    Hum? Oh. — Dibbler estava mergulhado em pensamentos. — Apenas uma imagem teve todo esse efeito?

—    Ah, sim. O senhor está bem, seu Dibbler?

—    Nunca estive melhor, rapaz. Nunca estive melhor - ele esfregou as mãos.

—    Vamos ter uma conversinha, você e eu, de homem pra homem — acrescentou. — Porque, sabe... — Ele pôs a mão no ombro de Gaffer, num gesto amigável. — ... estou com a sensação de que hoje pode ser o seu dia de sorte.

E, numa outra passagem estreita, Gaspode estava sentado, murmurando consigo mesmo.

—    Hã. Parado, ele disse. Me dando ordens. Só pra namorada dele não ter que ter um cachorro horroroso e fedido no quarto dela. então aqui estou eu, o melhor amigo do homem, sentado na chuva. Se estivesse chovendo, em todo caso. Talvez não esteja chovendo, mas, se estivesse chovendo, eu estaria encharcado a essa altura. Seria bem feito pra ele se eu me levantasse e fosse embora. eu poderia fazer isso também. Na hora que eu quisesse. Não tenho que ficar sentado aqui. espero que ninguém pense que estou sentado aqui porque me mandaram sentar aqui. Tô pra ver um humano que vá me dar ordens. Tô sentado aqui porque quero. É.

Depois ganiu um pouco e foi se arrastando pelas sombras, onde havia menos chance de ser visto.

No quarto acima, Victor estava de pé e virado para a parede. Isso era humilhante. Já tinha sido ruim o suficiente esbarrar com a senhora Cosmopilite com um sorriso enorme na escada. ela deu um sorriso escancarado para ele e mexeu o cotovelo num gesto complicado que, ele tinha certeza, doces senhoras de idade não deveriam conhecer.

Ele ouviu tinidos e ruídos de tecidos roçando atrás de si enquanto Ginger se preparava para ir para a cama.

—    Ela é realmente muito legal. Ontem me contou que já teve quatro maridos — disse Ginger.

—    O que ela fez com os ossos?

—    Tenho certeza de que não entendi o que você quis dizer — disse Ginger, torcendo o nariz. — Tudo bem, pode virar agora. estou na cama.

Victor relaxou e virou. Ginger tinha puxado as cobertas até o pescoço e estava segurando a ponta com a tensão de uma tropa militar sitiada, mandando os soldados para as trincheiras.

—    Você tem que me prometer que, aconteça o que acontecer, você não vai tentar se aproveitar da situação.

Victor suspirou.

—    Prometo.

—    É que eu tenho uma carreira a zelar, só isso.

—    Sim, eu entendo.

Victor se sentou ao lado do abajur e tirou o livro do bolso

—    Não estou querendo ser ingrata nem nada do tipo — continuou Ginger.

Victor folheou rapidamente as páginas amareladas, procurando a parte em que havia parado. Enormes quantidades de pessoas haviam passado a vida ao redor da colina de Holy Wood, aparentemente, apenas para manter uma fogueira acesa e entoar um canto três vezes por dia. Por quê?

—    O que você está lendo? — perguntou Ginger, depois de certo tempo.

—    É um livro velho que eu achei — respondeu Victor, em poucas palavras. — É sobre Holy Wood.

—Oh.

—    Eu dormiria um pouco se fosse você — ele disse, curvando-se para conseguir entender a letra horrível à luz do abajur.

Ele a ouviu bocejar.

—    Eu terminei de te contar o sonho?

—    Acho que não — respondeu Victor, com o que ele esperava ser uma voz educadamente dissuasiva.

—    Começa sempre com uma montanha...

—    Olha, você não deveria ficar conversando...

—... e tem estrelas em volta dela, sabe, no céu, mas uma delas cai e não é uma estrela, não, e uma mulher segurando uma tocha acima da cabeça...

Victor voltou lentamente para a folha de rosto do livro.

—    Sim? — disse, atento.

—    e ela fica tentando me dizer alguma coisa. Alguma coisa que eu não consigo entender, sobre andar sobre alguma coisa, e depois tem um monte de luzes e um rugido, como se fosse de um leão ou tigre ou algo do tipo, sabe? e aí eu acordo.

Sem perceber, Victor passou o dedo sobre o contorno da montanha sob as estrelas.

—    Provavelmente é só um sonho — ele disse. — Provavelmente não significa nada.

É claro que a colina de Holy Wood não era pontuda. Mas talvez já tivesse sido, na época em que havia uma cidade onde agora havia uma baía. Nossa. Alguma coisa deve ter odiado este lugar de verdade.

— Você não se lembra de mais nada do sonho por acaso? — perguntou, com uma casualidade disfarçada.

Não houve resposta. Ele se aproximou lentamente da cama. Ela estava dormindo.

Victor voltou para a cadeira, que prometia se tornar irritantemente desconfortável dentro de meia hora, e apagou o abajur.

Alguma coisa na colina. Esse era o perigo.

O perigo mais imediato era que ele também ia cair no sono.

Ficou sentado no escuro, preocupado. Como é que se acordava uma sonâmbula? Lembrava-se vagamente de ter ouvido dizer que era uma coisa muito perigosa. Havia histórias de pessoas que sonhavam que eram executadas e aí, quando alguém as tocava no ombro para acordá-las, a cabeça delas caía. Como chegaram a saber o que uma pessoa morta sonhava não foi revelado. Talvez o fantasma tenha voltado depois e ficado na cabeceira da cama, reclamando.

A cadeira fez um rangido alarmante quando ele mudou de posição. Talvez, se esticasse uma perna deste jeito, ele pudesse apoiá-la na beira da cama, de modo que, mesmo se caísse no sono, ela não conseguiria passar sem acordá-lo.

Engraçado, realmente. Durante semanas ele passara os dias carregando-a no colo, defendendo-a com coragem do que quer que Morry estivesse fantasiado no dia, beijando-a e geralmente cavalgando na direção do pôr do sol para viver feliz, e possivelmente até em êxtase, para sempre. Era provável que não houvesse ninguém que assistisse a um dos cliques e acreditasse que ele passaria a noite sentado no quarto dela numa cadeira feita de lascas de madeira. Até o próprio Victor achava difícil acreditar, e lá estava ele. Esse tipo de coisa não acontecia nos cliques. Os cliques eram só sobre Paixões num Mundo enlouquecido. Se aquilo fosse um clique, ele certamente não estaria sentado no escuro numa cadeira dura. Ele estaria... bem, ele não estaria sentado numa cadeira dura, isso era certo.

O tesoureiro trancou a porta do escritório. Era preciso fazer isso. O arqui-reitor achava que bater na porta era algo que só acontecia com os outros.

Pelo menos o homem horrível parecia ter perdido o interesse no resógrafo, ou seja lá como Rektor o chamava. O tesoureiro tivera um dia terrível, tentando resolver os assuntos da Universidade sabendo que o documento estava escondido naquela sala.

Ele o tirou de debaixo do tapete, virou a luminária para cima e começou a ler.

Ele seria o primeiro a admitir que não era nada bom em coisas mecânicas. Desistiu rapidamente da parte sobre pinos, pêndulos de octiron e ar comprimido em foles.

Recomeçou o parágrafo que dizia: "então, se perturbações no tecido da realidade fizerem as ondulações se espalharem a partir do epicentro, o pêndulo vai balançar, comprimir o ar nos foles apropriados e fazer com que o elefante decorativo mais próximo do epicentro lance uma bolinha de chumbo para dentro de um copo. e assim a direção da perturbação..."

... whumm... whumm...

Ele conseguia ouvi-lo mesmo lá de cima. Tinham acabado de colocar mais sacos de areia ao seu redor. Ninguém ousava tocá-lo agora. O tesoureiro tentou se concentrar na leitura.

"... pode ser estimada pelo número e força..."

...whumm... whummWHUMMWHUMM.

O tesoureiro percebeu que estava prendendo a respiração.

"... das balas expelidas, as quais estimo, em perturbações sérias..."

Plib.

“... podem muito bem exceder duas balas..."

Plib. ... expelidas a alguns centímetros..."

Plib.

"... durante o..."

Plib.

"... curso..." Plib.

... de...         Plib.

... um... Plib.

... mês. Plib.

 

Gaspode despertou e rapidamente se colocou no que esperava parecer uma posição de alerta.

Alguém estava gritando, mas de forma educada, como se quisesse ajuda, mas apenas se não fosse incomodar muito.

Ele subiu os degraus correndo. A porta estava entreaberta. Ele a empurrou com a cabeça.

Victor estava deitado de costas, amarrado numa cadeira. Gaspode se sentou e o observou atentamente, para ver se ele faria alguma coisa interessante.

—    Estamos bem aí? — perguntou após algum tempo.

—    Não fique sentado aí, idiota! Desfaça esses nós — ordenou Victor.

—    Idiota eu posso ser, mas amarrado eu não tô — respondeu Gaspode, sem se abalar. —Ela foi mais rápida que você, foi?

—    Eu devo ter cochilado por um momento.

—    Por tempo suficiente para que ela se levantasse, rasgasse um lençol e amarrasse você nessa cadeira.

—    É, está bem, está bem. Você não pode roer o lençol ou algo assim?

—    Com estes dentes? Mas eu poderia chamar alguém — disse Gaspode, e sorriu mostrando os dentes.

—    É... não sei se seria uma idéia muito...

—    Não se preocupe. Já volto — prometeu Gaspode, e saiu andando em silêncio.

—    Pode ser um pouco difícil de explicar... — gritou Victor, mas o cachorro já tinha descido as escadas e avançava entre o labirinto de cenários e becos, rumo aos fundos da Século do Morcego-de-Frutas.

Ele foi até a cerca alta e ouviu o tinido leve de uma corrente.

—    Laddie? — sussurrou com a voz rouca, ele ouviu um latido cheio de alegria.

—    Bom garoto Laddie!

—    É. — ele suspirou. Será que ele já tinha sido assim? Se tinha, ainda bem que não sabia.

—    Mim bom garoto!

—    Claro, claro. Laddie, fica quieto — Gaspode murmurou e espremeu o corpo artrítico por debaixo da cerca. Laddie lambeu seu rosto enquanto se levantava.