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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MANSÃO HOWARDS / E. M. Forster
A MANSÃO HOWARDS / E. M. Forster

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

O melhor a fazer é começar pelas cartas de Helen à irmã.

Howards End, terça-feira.

Querida Meg,

Nada está a acontecer como idealizávamos. É velha e pequena e no entanto encantadora, cor de tijolo. Tal como é, mal conseguimos acomodar-nos nela, e sabe Deus como será amanhã quando Paul (o filho mais novo) chegar. No vestíbulo vira-se à direita ou à esquerda, para a casa de jantar ou para a sala. O próprio vestíbulo é praticamente uma sala. Tem uma outra porta que dá para as escadas que conduzem por uma espécie de túnel ao primeiro andar. Aí, há três quartos de cama, uns a seguir aos outros e por cima três mansardas, também em fila. A casa não se resume a isto, mas é o que nos salta à vista: nove janelas, quando se olha do jardim em frente.

Aí, há um enorme olmo-escocês, à esquerda quando se olha para cima, ligeiramente inclinado por sobre a casa, no limite entre o jardim e o prado. Já adoro essa árvore. Há também olmos vulgares, carvalhos - não há nada mais feio do que um carvalho vulgar -, pereiras, macieiras e uma trepadeira. Mas não há bétulas-prateadas. Agora tenho de ir ter com os meus anfitriões. Só quis contar-te que isto não é nada como imaginávamos. Porque teremos decidido que a casa deles seria toda em empenas e recantos e o jardim todo ele carreiros amarelos? Acho que muito simplesmente porque os associávamos a hotéis caros.

 

 

 

 

 

 

- Mrs. Wilcox a arrastar a cauda dos seus belos vestidos pelos longos corredores, Mr. Wilcox a intimidar os porteiros, etc. Nós, mulheres, cometemos destas injustiças.

Volto no sábado; depois te direi em que comboio. Estão tão zangados como eu por não teres vindo também; o Tibby é de facto irritante ao máximo, todos os meses inventa uma nova doença mortal. Como teria ele conseguido arranjar febre-dos-fenos em Londres? E mesmo que assim tenha sido, é intolerável que tivesses de desistir de fazer uma visita para ouvir espirrar um rapaz que já anda na escola. Diz-lhe que o Charles Wilcox (o filho que está aqui) também tem febre-dos-fenos, mas é corajoso e zanga-se quando lhe perguntamos se está melhor. Homens como

os Wilcox seriam muito benéficos para o Tibby. Mas tu não concordas e o melhor que eu tenho a fazer é mudar de assunto.

Esta carta vai longa porque estou a escrever antes do pequeno-almoço. Como são belas as folhas da trepadeira! A casa está coberta por uma trepadeira. Olhei lá para fora há bocado e Mrs. Wilcox já estava no jardim. É evidente que o adora. Não admira que tenha às vezes um ar cansado. Estava a olhar para as grandes papoilas vermelhas que estão a abrir. Depois saiu do relvado em direcção ao prado, do qual só vejo a curva para o lado direito. Lá seguiu, arrastando o seu longo vestido pela relva ensopada e voltou com as mãos cheias da erva que cortou ontem -julgo que para os coelhos, ou coisa no género - e ficou a cheirá-la. O ar aqui é uma delícia. Mais tarde, ouvi o som de bolas de croquete, olhei outra vez lá para fora, era o Charles Wilcox a exercitar-se; são entusiastas de todos os jogos. Pouco depois começou a espirrar e teve de parar. Continuei a ouvir o mesmo barulho, era Mr. Wilcox que praticava, depois "atchim atchim"; também teve de parar. Nesse momento, a Evie saiu de casa e fez uns exercícios calisténicos num aparelho que está preso a uma ameixeira - servem-se de tudo -, espirrou e foi-se embora. E finalmente reapareceu Mrs. Wilcox, de saia a arrastar, ainda a cheirar o feno e a olhar para as flores. Conto-te tudo isto porque uma vez disseste que a vida às vezes é vida e outras vezes apenas uma representação e cabe a cada um aprender a distinguir uma coisa da outra, o que até agora sempre tinha considerado "um disparate inteligente da Meg". Mas esta manhã, a vida não parece de facto vida, antes um jogo e divertiu-me imenso observar os Wilcox. Mrs. Wilcox está agora a entrar em casa.

Vou vestir [omissão]. Ontem à noite, Mrs. Wilcox trazia um [omissão] e a Evie [omissão]. Por isso, não é exactamente um vista-o-que-lhe-apetecer e se se fecharem os olhos, isto continua a parecer-se com o hotel formal que imaginámos. Se se abrirem, não. As rosas-bravas têm um cheiro demasiado adocicado. Formam uma grande sebe na relva - altíssimas, tanto que caem em grinaldas, lindas e, nas extremidades, tão transparentes que através delas se vêem patos e uma vaca. São da quinta, a única casa que fica perto. Está a tocar para o pequeno-almoço. Beijos. Beijos especiais para o Tibby. Um abraço à tia Juley; foi muito gentil da sua parte ir fazer-te companhia, mas é uma maçadora. Queima esta carta. Volto a escrever na quinta-feira.

Helen.

Howards End, sexta-feira.

Querida Meg,

Está a agradar-me imenso. Gosto de todos eles. Mrs. Wilcox, embora menos exuberante do que na Alemanha, está mais amorosa do que nunca, não conheço nada que se assemelhe à sua permanente generosidade e o mais fantástico de tudo é que os outros não se aproveitam dela. São a família mais feliz, mais encantadora que possas imaginar. Sinto que estamos realmente a tornar-nos amigos. O engraçado de tudo isto é que me acham uma pateta e dizem-no - Mr. Wilcox, pelo menos, di-lo - e quando tal acontece ninguém liga; é sem dúvida uma bela experiência, não é? Diz as coisas mais abomináveis sobre o sufrágio das mulheres de uma forma deliciosa e quando eu declarei que acreditava na igualdade limitou-se a cruzar os braços e deu-me uma descompostura como eu nunca tinha ouvido outra. Meg, nunca aprenderemos a falar menos? Nunca na minha vida me senti tão envergonhada. Fui incapaz de mencionar uma época em que os homens tivessem sido todos iguais, ou mesmo uma época em que o desejo de igualdade lhes tivesse trazido maior felicidade em qualquer campo. Não consegui dizer uma palavra. Tinha-me limitado a extrair a noção de que a igualdade é proveitosa de alguns livros - provavelmente, de livros de poesia, ou de ti. Seja como for, tal noção foi reduzida a cinzas e, como acontece com as pessoas que são efectivamente fortes, Mr. Wilcox fê-lo sem me magoar. Por meu turno, ri-me deles por terem apanhado a febre-dos-fenos. Vivemos como galos de combate e o Charles leva-nos todos os dias a passear no carro - uma sepultura com árvores em cima, a casa de um eremita, uma estrada encantadora construída pelos reis de Merda, ténis, um jogo de críquete, brídege - e à noite comprimimo-nos todos nesta adorável casa. Todo o clã cá está agora - parece uma toca de coelhos. A Evie é um amor. Querem que deixe de falar em domingo - acho que não faz mal se aceder. Um tempo maravilhoso e um ar maravilhoso - uma paisagem para ocidente a perder de vista. Obrigada pela tua carta. Queima esta.

Um abraço, Helen.

Howards End, domingo.

Muito, muito querida Meg,

Não sei o que irás dizer: Paul, o filho mais novo, que só aqui chegou na quarta-feira, e eu estamos apaixonados.

 

Margaret relanceou o olhar pelo bilhete da irmã e empurrou-o para a tia por sobre a mesa do pequeno-almoço. Houve um silêncio momentâneo e logo se abriram as comportas.

- Não posso dizer-lhe nada, tia Juley. Não sei mais do que a tia. Conhecemo-los... conhecemos só o pai e a mãe... no estrangeiro na Primavera passada. Sei tão pouco acerca deles que até ignoro o nome do filho. É tudo tão... - Fez um gesto vago com a mão e riu-se ao de leve.

- Nesse caso, é decididamente repentino de mais.

- Quem sabe, tia Juley, quem sabe?

- Mas, Margaret querida, não podemos deixar de ser práticos agora que os factos existem. É sem dúvida demasiado repentino.

- Quem sabe!

- Mas, Margaret querida...

- vou buscar as outras cartas dela - disse Margaret. - Não, não vou, vou acabar o meu pequeno-almoço. De facto, não as tenho. Conhecemos os Wilcox numa horrível viagem que fizemos, de Heidelberg a Speyer. A Helen e eu tínhamos metido na cabeça que havia uma grande catedral antiga em Speyer - o arcebispo de Speyer foi um dos sete membros do Colégio Eleitoral, está a ver? "Speyer, Mainz e Colónia". Estas três dioceses dominaram em tempos o vale do Reno, o que lhe deu o nome de Rota dos Sacerdotes.

- Continuo preocupada com este assunto, Margaret.

- O comboio atravessou uma ponte de barcas e à primeira vista pareceu-nos muito bela. Mas em cinco minutos tínhamos visto tudo! A catedral foi destruída, absolutamente destruída pelo restauro; não ficou uma polegada da estrutura original. Perdemos um dia inteiro e encontrámos os Wilcox quando comíamos as nossas sanduíches no jardim público. Também eles, os desgraçados, se tinham deixado enganar - estavam nessa altura em Speyer e agradou-lhes bastante a insistência de Helen para virem connosco para Heidelberg. Vieram, de facto, no dia seguinte. Demos juntos alguns passeios de carro.

Conviveram connosco o suficiente para convidarem a Helen a ir visitá-los, aliás, eu também fui convidada, mas a doença do Tibby não mo permitiu, e assim ela foi sozinha, na segunda-feira passada. É tudo. Sabe tanto como eu. É um jovem praticamente desconhecido. Ela devia ter regressado no sábado, mas adiou para segunda-feira, talvez por causa disto, não sei.

Calou-se e ficou a ouvir os sons da manhã londrina. A casa delas ficava em Wickham Place e era bastante sossegada porque um alto promontório de edifícios a separava da rua principal. Tinha-se a sensação de se estar numa lagoa, ou melhor, num estuário, cujas águas afluíssem de um mar invisível e vazassem em profundo silêncio enquanto lá fora as ondas continuavam a rebentar. Embora o promontório fosse constituído por apartamentos, com entradas cavernosas cheias de porteiros e palmeiras, satisfazia o seu objectivo e proporcionava às velhas casas em frente uma certa tranquilidade. Também estas seriam demolidas um dia e um outro promontório surgiria em seu lugar, porque os homens constróem cada vez mais alto no precioso solo de Londres.

Mrs. Munt tinha o seu próprio método de interpretação das sobrinhas. Decidiu que Margaret estava ligeiramente histérica e tentava ganhar tempo com uma avalancha de palavras. Muito diplomaticamente, lamentou o malogro de Speyer e declarou que nunca, nunca cairia na asneira de lá ir, acrescentando o seu acordo a que os princípios da restauração eram muito mal compreendidos na Alemanha.

- Os Alemães - disse - são meticulosos de mais, o que às vezes é um bem, mas outras vezes não resulta.

- Exactamente - respondeu Margaret. - Os Alemães são meticulosos de mais.

E os seus olhos encheram-se de brilho.

- É evidente que vos considero, aos Schlegel, ingleses - apressou-se a afirmar Mrs. Munt. - Ingleses até à medula.

Margaret inclinou-se para a frente e acariciou-lhe a mão.

- E isso lembra-me... a carta de Helen...

- Ah, claro, tia Juley, estou a pensar seriamente na carta de Helen. Sei que devo ir até lá para a ver. Tenciono ir lá.

- Mas vai com um plano qualquer - aconselhou Mrs. Munt, deixando perpassar na sua amável voz um toque de exasperação. Margaret, se me é permitido interferir, não te deixes apanhar desprevenida. O que pensas dos Wilcox? Pertencem ao nosso meio? São pessoas aceitáveis? Saberão apreciar a Helen que, em minha opinião, é alguém muito especial? Apreciam literatura e arte? É da máxima importância, quando se pensa no assunto. Literatura e arte. Da máxima importância. Que idade terá o filho? Ela diz "o filho mais novo". A sua posição permitir-lhe-á casar-se? Será capaz de fazer a Helen feliz? Deduziste que...

- Não deduzi nada. Começaram a falar ao mesmo tempo.

- Então nesse caso...

- Nesse caso, não posso fazer planos nenhuns, não percebe?

- Pelo contrário...

- Detesto planos. Detesto linhas de conduta. A Helen não é um bebé.

- Então nesse caso, minha querida, para quê ir lá? Margaret guardou silêncio. Se a tia não percebia a razão que a

obrigava a ir, não ia dizer-lha. Não ia dizer-lhe: "Gosto muito da minha irmã; tenho de estar a seu lado neste momento da sua vida." A afeição é mais reticente do que a paixão e a sua maneira de se expressar mais subtil. Se ela própria alguma vez se tivesse apaixonado por um homem, tê-lo-ia, tal como Helen, gritado aos quatro ventos, mas como apenas amava a irmã usava a linguagem sem voz da simpatia.

- Considero-vos excelentes raparigas - continuou Mrs. Munt e encantadoras e, em muitos aspectos, muito mais velhas do que a vossa idade real. Mas... não vais magoar-te? com toda a franqueza, não te acho apta para tratar deste caso. Exige uma pessoa mais velha. Querida, nada me obriga a regressar a Swanage. - Abriu os braços roliços. - Estou à tua inteira disposição. Deixa-me ir em teu lugar a essa casa cujo nome esqueci.

- Tia Juley - Margaret levantou-se de um salto e beijou-a -, tenho de ir, tenho mesmo de ir eu própria a Howards End. A tia não pode compreender, embora eu não saiba como agradecer a sua oferta.

- Compreendo, sim - retorquiu Mrs. Munt com enorme autoconfiança. - vou lá sem qualquer intenção de interferir, só para investigar. As investigações são necessárias. Agora, vou ser rude. Irias dizer as coisas erradas; não há dúvida de que as dirias. Na tua ansiedade de ver a Helen feliz, ofenderias todos esses Wilcox ao fazer uma das tuas perguntas impetuosas... não por querer ofendê-los.

- Não farei perguntas. Soube pelo que Helen escreveu que ela e um homem estão apaixonados. Não há perguntas a fazer enquanto ela assim continuar. Tudo o resto não vale um centavo. Um noivado longo, se assim quer, mas investigações, perguntas, planos, acções coordenadas, não, tia Juley, não.

Afastou-se rapidamente, não com beleza, não com grande brilhantismo, mas sim impregnada de qualquer coisa que ocupou o lugar dessas duas qualidades - qualquer coisa a que poderá chamar-se uma animação profunda, uma resposta contínua e sincera a tudo aquilo que enfrentara no seu caminho através da vida.

- Se a Helen me tivesse escrito o mesmo referindo-se a um caixeiro ou a um amanuense sem vintém...

- Querida Margaret, vem para a biblioteca e fecha a porta. As tuas criadas estão a limpar o pó ao corrimão.

- ou se tivesse decidido casar-se com o homem que dá pelo nome de Cárter Paterson, eu diria o mesmo.

Depois, com uma daquelas reviravoltas que levavam a tia a crer que não estava de facto maluca e observadores de outro tipo que não era uma teórica vazia, acrescentou:

- Embora, se se tratasse de Cárter Paterson, eu gostasse de que o noivado durasse muito, muito tempo, confesso.

- Penso que sim - anuiu Mrs. Munt. - E é claro que tenho dificuldade em te seguir. Imagina agora que dizias qualquer coisa desse género aos Wilcox. Eu compreendo, mas essa boa gente pensaria que estás maluca. Pensa como seria desconcertante para Helen! O que é preciso é uma pessoa que entre no assunto devagar, devagar, e que veja como caminham as coisas e aonde é provável que conduzam.

A isto, Margaret respondeu abruptamente:

- Mas a tia acaba de deixar implícito que acha que o noivado devia ser rompido.

- Julgo que provavelmente deverá sê-lo; mas sem precipitação.

- Pode romper-se um compromisso lentamente? - Os seus olhos brilhavam. - De que é feito um noivado, acaso sabe? Eu penso que é feito de uma matéria forte, que pode explodir mas não romper-se. É diferente dos outros laços da vida. Esses, são elásticos ou dobram-se. Admitem diferentes graus. São diferentes.

- É exactamente isso. Mas não queres deixar-me ir já para Howards House, evitando-te todo o incómodo? Não intervirei de forma alguma, mas sei tão a fundo o género de coisas que os Schlegel querem que uma olhadela discreta me bastará.

Margaret agradeceu-lhe de novo, de novo a beijou e apressou-se a correr pelas escadas acima para ir ver o irmão.

Não estava lá muito bem.

A febre-dos-fenos atormentara-o muito durante toda a noite. Doía-lhe a cabeça, os olhos estavam húmidos, a mucosa, informou-a ele, nas piores condições. A única coisa que lhe tornava a vida digna de ser vivida, era pensar em Walter Savage Landor, cujas Imaginary Conversations ela prometera ir-lhe lendo a curtos intervalos durante o dia.

A dificuldade era grande. Alguma coisa tinha de ser feita quanto a Helen. Era preciso consciencializá-la de que não é crime amar à primeira vista. Um telegrama nesse sentido seria frio e enigmático, uma visita pessoal a cada momento se afigurava menos possível. Entretanto, o médico veio e disse que Tibby estava na verdade mal. Seria de facto melhor aceitar a amável oferta da tia Juley e mandá-la a Howards End com um bilhete?

Não há dúvida que Margaret era impulsiva. Saltava rapidamente de uma decisão para outra. Correndo escada abaixo até à biblioteca, gritou:

- Mudei de ideias, sempre quero que vá!

Havia um comboio para King's Cross às onze. Às dez e meia, Tibby, com uma rara auto-anulação, adormeceu e Margaret pôde conduzir a tia à estação.

- Lembre-se, tia Juley, de não se deixar envolver em discussões sobre o noivado. Dê a minha carta à Helen e diga-lhe a ela o que pensa, mas não toque no assunto aos pais. Ainda mal lhe sabe os nomes e, além disso, esse género de procedimento é incivil e errado.

- Incivil? - repetiu Mrs. Munt, receando não estar a apanhar o sentido de alguma brilhante observação.

- Pronto, usei uma palavra afectada. Só quis dizer que se limite, por favor, a discutir o assunto com a Helen.

- Só com a Helen.

- Porque...

Mas não era o momento propício a uma explanação sobre a natureza pessoal do amor. A própria Margaret se retraiu e se contentou em apertar a mão à tia e em meditar, com um misto de sensibilidade e de poesia, na viagem que se iniciava em King's Cross.

Como muitas outras pessoas que viveram largo tempo numa grande capital, tinha ideias muito firmes sobre as várias estações dos caminhos-de-ferro. São as nossas portas para o maravilhoso e o desconhecido. Atravessando-as entramos no reino da aventura e da felicidade, através delas, infelizmente! regressamos.

Em Paddington, está latente toda a Cornualha e o remoto Oeste; passada Liverpool Street, estendem-se as terras pantanosas e o ilimitado Broad; a Escócia fica para lá dos pilones de Euston; Wessex, por detrás da ponderadamente caótica Waterloo. Os Italianos têm consciência disso, acham que é assim mesmo; aqueles que têm a infelicidade de trabalhar como criados em Berlim, chamam à Anhalt Bahnhof a Stazione d'Italia, porque é por ela que regressam a casa. E só um frio londrino não atribuirá uma certa personalidade às suas estações e não as conotará, embora envergonhadamente, com emoções de medo e de amor.

A Margaret - espero que isto não ponha o leitor contra ela a estação de King's Cross sempre sugerira o infinito. A sua situação - um pouco afastada das traseiras do esplendor fácil de St. Pancras - insinuava um comentário sobre o materialismo da vida. Aqueles dois grandes arcos, sem cor, banais, eram os portais apropriados para uma qualquer aventura eterna cujo desfecho seria auspicioso, mas decerto não explicável na linguagem corrente da prosperidade. Se acham que isto é ridículo, lembrem-se de que não é Margaret quem está a dizê-lo; e deixem que me apresse a acrescentar que tiveram muito tempo para apanhar o comboio; que Mrs. Munt arranjou um lugar confortável, de frente para a máquina mas não muito perto dela; e que Margaret, de regresso a Wickham Place, se viu confrontada com o seguinte telegrama:

Tudo acabado. Quereria nunca ter escrito. Não digas a ninguém. Helen.

Mas a tia Juley partira - partira irremediavelmente e não havia no mundo força alguma capaz de a deter.

 

Mrs. Munt desempenhava a sua missão com a máxima complacência. As suas sobrinhas eram jovens independentes e não era com frequência que podia ajudá-las. As filhas de Emily nunca tinham sido bem como as demais raparigas. Tinham ficado sem mãe quando Tibby nasceu, tinha Helen cinco anos e a própria Margaret apenas treze. Fora antes da morte da irmã da defunta mulher de Bill, por isso Mrs. Munt pudera, sem que tal fosse incorrecto, oferecer-se para se ocupar da casa de Wickham Place. Mas o cunhado, excêntrico e alemão, encarregara Margaret de tratar do assunto e esta, com a crueza dos jovens, respondera que não, que se desenvencilhariam muito melhor sozinhos. Cinco anos mais tarde, também Mr. Schlegel morreu e Mrs. Munt reiterou a sua oferta. Margaret, já mais madura, ficara grata e fora extremamente gentil, mas a essência da sua resposta mantivera-se. "Não interferirei uma terceira vez", pensara Mrs. Munt. No entanto, é claro que o fez. Soube, para seu horror, que Margaret, agora maior, retirara o seu dinheiro dos velhos e seguros investimentos e o aplicara em Coisas Estrangeiras, que infalivelmente vão à falência. O silêncio teria sido um crime. O seu próprio dinheiro estava investido nos Caminhos-de-Ferro Nacionais e foi com o maior ardor que pediu à sobrinha que a imitasse: "Ficaríamos em idênticas condições, querida." Margaret, para não ser indelicada, investiu umas centenas nos Nottingham and Derby Railway e, apesar de as Coisas Estrangeiras caminharem lindamente e os Nottingham and Derby descerem com a sóbria dignidade de que só os Caminhos-de-Ferro Nacionais são capazes, Mrs. Munt nunca deixou de se regozijar e de comentar: "Seja como for, a administração foi minha. Quando chegar a bancarrota, a pobre Margaret terá um pé-de-meia a que recorrer." Nesse ano, Helen atingiu a maioridade e aconteceu exactamente o que acontecera no caso de Margaret; também ela iria transferir o seu dinheiro dos Consolidados, mas também ela, quase sem ser pressionada, consagrou uma fracção aos Nottingham and Derby Railway. Até aí, tudo bem, mas quanto às questões sociais a tia não conseguiu nada. Mais cedo ou mais tarde, as raparigas entrariam no processo conhecido por "voar com as próprias asas" e se o tinham adiado até agora era apenas para melhor voarem no futuro. Recebiam demasiada gente em Wickham Place - músicos com a barba por fazer, até uma actriz, primos alemães (sabe-se lá quem são os estrangeiros), pessoas que conheciam em hotéis do continente (sabe-se lá, também, quem são). Era interessante e lá em Swanage ninguém apreciava mais a cultura do que Mrs. Munt; mas era perigoso e o drama não tardaria a rebentar. Como ela tinha razão e que sorte estar presente quando o desastre aconteceu!

O comboio seguia velozmente para norte, atravessando inumeráveis túneis. Era apenas uma hora de viagem, mas Mrs. Munt teve de subir e descer a janela vezes sem conta. Passou pelo South Welwyn Tunnel, vislumbrou a claridade e entrou no North Welwyn Tunnel, de trágica reputação. Cruzou o enorme viaduto cujos arcos transpõem prados imperturbáveis e a corrente sonhadora do Tewin Water. Contornou os parques de políticos. A espaços, acompanhou-a a Great North Road, mais sugestiva de infinito do que qualquer caminho-de-ferro, a acordar após uma sesta de cem anos para aquela vida que proporciona o cheiro dos escapes dos automóveis, para aquela cultura que transmitem os anúncios de pílulas antibiliosas. À história, à tragédia, ao passado, ao futuro, Mrs. Munt manteve-se indiferente; tudo nela se concentrava no objectivo da sua viagem, na libertação da pobre Helen da sua terrível perplexidade.

A estação que servia Howards End era em Hilton, uma aldeia das maiores que se sucedem com tanta frequência ao longo de North Road e que devem o seu tamanho ao tráfego dos tempos das diligências e anteriores às diligências. Como fica perto de Londres, não compartilhou da decadência rural e na sua comprida rua principal germinaram, à esquerda e à direita, propriedades residenciais. Durante cerca de um quilómetro, passou diante dos olhos desatentos de Mrs. Munt uma série de casas cobertas de telhas de ardósia; série interrompida a certa altura por seis túmulos dinamarqueses, lado a lado, ao longo da estrada nacional, sepulturas de soldados. Por detrás desses túmulos amontoavam-se as habitações e o comboio imobilizou-se num labirinto que era quase uma cidade.

A estação, tal como a paisagem, tal como as cartas de Helen, era de características indefinidas. Aonde nos conduziria, à Inglaterra ou aos arredores de Londres? Era moderna, tinha passagens para peões e passagens subterrâneas e o conforto superficial exigido pelos homens de negócios. Mas guardava segredos da vida local, das relações pessoais, como Mrs. Munt estava prestes a descobrir.

- Procuro uma casa - confidenciou ela ao factor. - Chama-se Howards Lodge. Sabe onde é?

- Mister Wilcox! - chamou o factor. Um jovem, uns passos diante, virou-se.

- A senhora está à procura de Howards End.

Tudo o que a Mrs. Munt restava fazer era prosseguir, embora tivesse ficado tão agitada que nem conseguia encarar o estranho. Mas, lembrando-se de que havia dois irmãos, teve o bom senso de perguntar:

- Desculpe-me a pergunta, mas o senhor é o Mister Wilcox mais novo ou o mais velho?

- O mais novo. Posso ser-lhe útil?

- Ah, bom! - controlava-se com dificuldade. - De facto. É o senhor? - Afastou-se do factor e baixou a voz. - Sou tia de Miss Schlegel. Devo apresentar-me, não é verdade? Sou Mistress Munt.

Reparou que ele havia tirado o boné antes de dizer, com frieza:

- Ah, sim, Miss Schlegel está connosco. Quer ir visitá-la?

- Se for possível...

- vou arranjar-lhe um carro. Não; espere um momento. - Pensou. - O nosso está aqui. Levo-a nele até lá.

- É muito amável...

- De maneira nenhuma, terá apenas que esperar até trazerem uma encomenda do escritório. Por aqui.

- A minha sobrinha não está por acaso consigo?

- Não; vim com o meu pai. Ele foi ao norte, no seu comboio. Verá Miss Schlegel ao almoço. Vem almoçar a nossa casa, não vem?

- Gostaria de ir a vossa casa - respondeu Mrs. Munt, sem querer comprometer-se para a refeição, até ter estudado um pouco mais o noivo de Helen. Parecia um cavalheiro, mas estabelecera uma tal balbúrdia à roda dela que o seu poder de observação estava entorpecido. Sub-repticiamente, ia-lhe lançando olhadelas. Para uns olhos femininos não havia nada de errado nos vincos verticais ao canto dos lábios nem na forma quadrada da testa. Era moreno, bem barbeado e parecia habituado a comandar.

- À frente ou atrás? O que prefere? À frente pode ser ventoso.

- À frente, se for possível; assim poderemos conversar.

- Desculpe-me um segundo, não percebo o que podem andar a fazer com a encomenda. - Entrou com grandes passadas no escritório e gritou, com uma voz diferente: - Eh, vocês aí! Vão fazer-me esperar todo o dia? Encomenda para Wilcox, Howards End. Procurem como deve ser!

Ao aparecer, disse num tom mais calmo:

- Esta estação tem uma organização abominável; se eu tivesse alguma influência, iam todos para o olho da rua! Posso ajudá-la a entrar?

- É muita gentileza sua - respondeu Mrs. Munt, enquanto se acomodava numa sumptuosa caverna de couro vermelho e permitia que a sua pessoa fosse acolchoada de mantas e xales. Estava a ser mais cortês do que era sua intenção, mas aquele jovem era na verdade encantador. Além disso, inspirava-lhe um certo temor: a sua presença de espírito era extraordinária.

- Está óptimo - repetia ela, acrescentando: - Exactamente como eu teria desejado.

- É muito amável - replicou ele, com um leve ar de superioridade que, como quase todos os leves ares de superioridade, escapou à percepção de Mrs. Munt. - Trouxe o meu pai precisamente para apanhar o comboio.

- Sabe, recebemos notícias da Helen esta manhã.

O jovem Wilcox metia gasolina, ligava o motor do carro, ocupava-se de outras coisas que não têm nada a ver com esta história. O formidável carro começou a baloiçar e o corpo de Mrs. Munt, que tentava dar muitas explicações, pulava alegremente para baixo e para cima por entre as almofadas vermelhas.

- A pessoa em questão terá muito prazer em vê-la - resmungou ele. - Eh! Estou a falar! A encomenda! A encomenda para Howards End. Tragam-na. Eh!

Um carregador barbudo surgiu com a encomenda numa mão e um livro de registo na outra. Ao barulho do roncar do motor juntaram-se as exclamações:

- Assinar, eu?! Porque havia eu de assinar, depois desta demora toda? Nem sequer traz um lápis? Fixe bem que da próxima vez queixo-me de si ao chefe da estação. O meu tempo é precioso, ao contrário do seu que não parece sê-lo. Tome, é uma gorjeta. As minhas maiores desculpas, Mistress Munt.

- Ora essa, Mister Wilcox.

- Importa-se que passemos pela aldeia? É uma volta mais longa, mas tenho uma ou duas coisas a fazer ali.

- Adoraria atravessar a aldeia. Evidentemente que estou ansiosa por falar consigo sobre vários assuntos.

Mal disse isto, sentiu-se envergonhada por estar a desobedecer às instruções de Margaret. A desobedecer apenas por não as seguir à letra, claro. Margaret só a pusera de sobreaviso contra a discussão do incidente com estranhos. Não era com certeza "incivil ou errado" discuti-lo com o próprio interessado, já que o acaso os juntara.

Tipo reticente, ele não respondeu. Subindo para o banco ao lado do seu, pôs as luvas e os óculos e enquanto se afastavam, o carregador barbudo - a vida é uma coisa muito curiosa - ficou a olhá-los com admiração.

O vento batia-lhes na cara enquanto desciam pela rua da estação, bombardeando de poeira os olhos de Mrs. Munt. Mas esta, mal viraram para a Great North Road, disparou:

- Decerto compreenderá que a notícia foi um grande choque para nós.

- Qual notícia?

- Mister Wilcox - esclareceu ela, com franqueza -, a Margaret contou-me tudo... tudo. Vi a carta da Helen.

O rapaz não podia olhá-la de frente, concentrado no que fazia; atravessava a High Street à velocidade máxima que ousava. Mas inclinou a cabeça na sua direcção e disse:

- Desculpe-me, não percebo o que quer dizer.

- Falo da Helen. Da Helen, evidentemente. A Helen é uma pessoa muito especial, tenho a certeza de que concorda comigo, sentindo por ela o que sente. De facto, todos os Schlegel são excepcionais. Não vim cá com o intuito de interferir, mas foi um choque enorme.

Pararam em frente de uma capelista. Sem responder, o rapaz rodou no banco e contemplou a nuvem de pó que tinham levantado à passagem pela aldeia. Estava agora a assentar, mas não no chão de onde fora arrancado. Uma parte infiltrava-se pelas janelas abertas, uma parte tornara brancas as rosas e as groselheiras dos jardins que beiravam a estrada e uma certa percentagem entrara para os pulmões dos aldeãos.

- Pergunto a mim próprio quando é que eles vão ter algum bom senso e alcatroar as estradas - foi o seu comentário. Nesse momento, um homem saiu a correr da capelista com um rolo de oleado e puderam continuar o seu caminho.

- A Margaret não pôde vir por causa do pobre Tibby, por isso eu estou aqui para a representar e ter uma conversa séria.

- Desculpe-me ser tão estúpido. - O rapaz parara de novo, em frente de outra loja. - Mas a verdade é que ainda não percebi bem.

- A Helen, Mister Wilcox, a minha sobrinha e o senhor.

Este puxou para cima os óculos e olhou-a pasmado, absolutamente desnorteado. O coração de Mrs. Munt saltou de horror, porque ela própria começava a suspeitar de que havia entre eles um mal-entendido e de que iniciava a sua missão por um tremendo disparate.

- Miss Schlegel e eu? - perguntou ele, cerrando os lábios.

- Creio não ter havido nenhum engano - articulou em voz trémula Mrs. Munt. - Era o que dizia a sua carta.

- Dizia o quê?

- Que o senhor e ela... - fez uma pausa, baixou as pálpebras.

- Julgo que sei o que insinua. - A sua voz era ríspida. - Que extraordinário engano!

- Então o senhor nem sequer... - gaguejou ela, muito corada e desejando nunca ter nascido.

- Seria difícil, porque já estou comprometido com outra senhora. Houve um momento de silêncio e então, apertando a cabeça nas

mãos, o rapaz explodiu:

- Oh, meu Deus! Não me diga que se trata de um disparate do Paul.

- Mas o Paul é o senhor.

- Não sou.

- Então porque disse que era, na estação?

- Eu não disse nada disso.

- Peço muita desculpa, mas disse.

- Peço muita desculpa, mas não disse. O meu nome é Charles. "O mais novo" pode significar filho por oposição a pai ou segundo

irmão por oposição ao primeiro. Ambas as partes teriam muito a dizer e mais tarde disseram-no. Mas de momento, havia problemas mais prementes.

- Quer dizer que o Paul...

Mas a voz do rapaz desagradou-lhe. Soava como se estivesse a falar a um carregador e, consciente de que fora induzida em erro na estação, também ela sentia aumentar a sua cólera.

- Quer dizer que o Paul e a sua sobrinha...

Mrs. Munt - é assim a natureza humana - decidiu arvorar-se em defensora dos apaixonados. Não ia deixar-se subjugar por um jovem inflexível:

- Sim, gostam de facto muito um do outro. Atrevo-me a dizer que lhe contarão tudo em pormenor. Nós soubemos esta manhã.

Charles cerrou o punho e gritou:

- O idiota, o idiota, o louco!

Mrs. Munt tentou libertar-se das mantas:

- Se é essa a sua atitude, Mister Wilcox, prefiro ir a pé.

- Peço-lhe que não faça isso. Vai até lá comigo. Deixe que lhe diga que a coisa é impossível e tem que ser impedida.

Mrs. Munt não perdia a calma com frequência e quando isso acontecia, era apenas para proteger os que amava. Nessa ocasião, irritou-se:

- Concordo absolutamente, senhor. A coisa é impossível e quando eu chegar corto o mal pela raiz. A minha sobrinha é uma pessoa muito especial e eu não estou disposta a cruzar os braços enquanto ela se desperdiça com quem não sabe apreciá-la.

Os maxilares de Charles mexeram.

- Considerando que só conhece o seu irmão desde quarta-feira e se relacionou com os seus pais num hotel ocasional...

- Poderia falar mais baixo? O homem da loja vai ouvi-la.

O espírito de classe - se é que é permitido reproduzir tal frase - era forte em Mrs. Munt. Sentou-se, tremendo de emoção, enquanto um membro da ralé depositava um funil de metal, uma caçarola e uma mangueira de jardim ao lado do rolo de oleado.

- Está tudo lá atrás?

- Sim, senhor. - E a ralé desvaneceu-se numa nuvem de pó.

- Estou a avisá-la. O Paul não tem um vintém, não vale a pena.

- Escusa de nos avisar, Mister Wilcox, garanto-lhe. O aviso é de sentido totalmente oposto. A minha sobrinha foi insensata, vou dar-Lhe uma valente descompostura e levá-la comigo para Londres.

- Ele tem de organizar a sua vida na Nigéria. Nem pensar em casar durante anos e quando o fizer terá de ser com uma mulher que possa aguentar o clima e que noutros aspectos seja... Porque é que ele não nos contou? Teve vergonha, claro! Acha que foi um idiota. E foi... um tremendo idiota.

A fúria de Mrs. Munt aumentava.

- Ao passo que Miss Schlegel não perdeu tempo a divulgar a novidade.

- Se eu fosse homem, Mister Wilcox, fazia-o engolir esse último comentário. O senhor não é digno de engraxar as botas da minha sobrinha, de se sentar na mesma sala que ela e tem a ousadia... a ousadia, sim... Recuso-me a discutir com uma pessoa como o senhor.

- Tudo o que sei é que ela deu publicidade ao caso e ele não, que o meu pai está fora e que eu...

- E tudo o que eu sei é que...

- Posso acabar a frase, por favor?

- Não.

Charles rangeu os dentes e guinou para o lado contrário da estreita rua.

Mrs. Munt berrou.

Estavam a representar os respectivos papéis de Famílias Ultrajadas, dos quais um excerto é sempre encenado quando o amor decide unir dois espécimes da nossa raça. Mas representavam-no com um raro vigor, não poupando as palavras comprovativas de que os Schlegel eram melhores do que os Wilcox, os Wilcox melhores que os Schlegel. Puseram a decência de parte. O homem era novo, a mulher estava profundamente irritada; havia latente em ambos uma veia de grosseria. A sua bulha não era mais surpreendente do que o são a maioria das bulhas: inevitáveis no momento, inacreditáveis tempos depois. Mas era mais vã do que é habitual. Mais alguns minutos e as coisas esclareciam-se. O carro parou em Howards End e Helen, muito pálida, correu ao encontro da tia.

- Tia Juley, acaba de receber um telegrama da Margaret; eu... eu queria impedi-la de vir. Já não há... acabou.

O clímax foi de mais para Mrs. Munt. Debulhou-se em lágrimas.

- Não chore, tia Juley querida. Não lhes mostre como fui parva. Não teve importância. Seja corajosa, por mim.

- Paul! - gritou Charles Wilcox, tirando as luvas.

- Não deixe que percebam. Não devem saber nunca.

- Oh, minha querida Helen...

- Paul! Paul!

Um rapaz muito novo saiu da casa.

- Paul, há alguma verdade em tudo isto?

- Eu não fiz... eu não faço...

- Sim ou não, criatura; a uma pergunta directa, uma resposta directa. Miss Schlegel foi ou não...

- Querido Charles - a voz vinha do jardim -, Charles querido, nunca devem fazer-se perguntas directas. É coisa que não existe.

Calaram-se todos. Era Mrs. Wilcox.

Aproximava-se tal como Helen a descrevera, deslizando sem ruído pelo relvado e trazia efectivamente na mão um punhado de feno. Não parecia parte integrante dos jovens e do carro, mas sim da casa e da árvore que a sombreava. Percebia-se que não descurava o passado e que a bafejava a sabedoria intuitiva que só ele confere - essa sabedoria a que damos o desengraçado nome de aristocracia. Podia não ser oriunda das altas esferas. Mas não restavam dúvidas de que se preocupava com os seus antepassados e que lhes permitia que a ajudassem. Quando viu Charles colérico, Paul aterrorizado e Mrs. Munt desfeita em lágrimas, ouviu os antepassados dizer-lhe: "Separar aqueles seres que vão magoar-se ao máximo uns aos outros. O resto pode esperar." Por isso, não fez perguntas. Ainda menos pretendeu que nada acontecera, como o teria feito qualquer competente anfitriã da alta sociedade. Disse:

- Miss Schlegel, por favor leve a sua tia para o seu quarto, ou para o meu, o que achar melhor. Paul, vai procurar a Evie e diz-lhe que o almoço é para seis, mas não tenho a certeza de que desçamos para o comer.

E quando viu que fora obedecida, virou-se para o filho mais velho, que continuava sentado no trepidante e malcheiroso carro, sorriu-lhe com ternura e sem uma palavra virou-lhe as costas e afastou-se por entre as flores.

- Mãe - chamou ele - sabe que o Paul se armou em parvo outra vez?

- Está tudo bem, querido. Romperam o noivado.

- Noivado...

- Deixaram de se amar, se preferes assim - rectificou Mrs. Wilcox, inclinando-se para cheirar uma rosa.

 

Helen e a tia regressaram a Wickham Place em estado de choque e durante um curto período Margaret viu-se a braços com três inválidos. Mrs. Munt recuperou depressa. Possuía num considerável grau o poder de deturpar os factos passados e poucos dias depois já esquecera o papel que a sua imprudência representara na catástrofe. Mesmo em plena crise gritara "Graças a Deus, a pobre Margaret escapou a isto!", exclamação que durante a viagem para Londres evoluiu para: "Alguém tinha de passar por isto!", a qual, por seu turno, se aperfeiçoou até à forma definitiva: "A única vez em que de facto ajudei as filhas da Emily, foi no caso Wilcox." Mas Helen era uma doente mais grave. Como um inesperado trovão, atordoara-a um ribombar de novas ideias que, por si próprias e pelas suas reverberações, a haviam lançado na confusão.

A verdade é que não se apaixonara por um indivíduo, mas sim por uma família.

Antes de Paul chegar, já ela estava em sintonia com ele. A energia dos Wilcox fascinara-a, dera forma a novas imagens de beleza no seu impressionável espírito. Passar o dia inteiro com eles ao ar livre, dormir debaixo do seu telhado, parecera-lhe o supremo prazer da vida e levara-a a esse abandono da personalidade que bem pode ser um prelúdio para o amor. Agradara-lhe submeter-se a Mr. Wilcox, ou a Evie, ou a Charles; agradara-lhe que lhe dissessem que as suas noções da vida eram ingénuas ou académicas; que a Igualdade era um disparate, o Voto das Mulheres um disparate, o Socialismo um disparate, a Arte e a Literatura, excepto quando provocavam um reforço da personalidade, um disparate. Um a um, todos os talismãs dos Schlegel tinham sido aniquilados e, embora afirmando defendê-los, Helen rejubilara. Quando Mr. Wilcox disse que um sólido homem de negócios era mais benéfico ao mundo do que uma dúzia de reformadores sociais, encaixara a curiosa afirmação sem pestanejar e recostara-se voluptuosamente nas almofadas do carro. Quando Charles dissera: "Porquê tanta amabilidade com os criados? Eles não a entendem", não lançara a réplica à Schlegel: "Eles não entenderão, mas entendo eu." Não; prometera passar a ser menos amável com os criados. "Estou coberta de véus de hipocrisia", pensara, "e é bom para mim que mos dispam." E tudo o que pensava, ou fazia, o próprio ar que respirava, conduzia a Paul. Paul era inevitável. Charles estava comprometido com outra rapariga, Mr. Wilcox era tão velho, Evie tão nova, Mrs. Wilcox tão diferente. Começou a nimbar da auréola do Romance o irmão ausente, a iluminá-lo com todo o esplendor desses dias felizes, a sentir que ele se aproximaria muito do saudável ideal. Ele e ela eram quase da mesma idade, dissera Evie. A maioria das pessoas achava Paul mais elegante do que o irmão. Não havia dúvida de que era melhor atirador, embora não tão bom no golfe. E quando Paul apareceu, entusiasmado com o triunfo num exame e disposto a namoriscar qualquer rapariga bonita, Helen fez meio caminho, ou mais do que meio caminho, e aproximou-se dele naquela tarde de domingo.

Falou-lhe no seu próximo exílio para a Nigéria e teria continuado a conversar sobre o assunto, permitindo que a sua convidada se recompusesse. Mas lisonjeou-o ver palpitar o seio da jovem. Como a paixão era possível, o rapaz foi dominado pela paixão. Muito no seu íntimo, uma vozinha murmurou: "Esta rapariga deixava-te beijá-la; talvez não voltes a ter uma oportunidade semelhante."

Foi "assim que aconteceu", ou melhor, foi este o relato que Helen fez à irmã, usando palavras talvez ainda menos simpáticas do que as minhas. Mas a poesia desse beijo, como foi maravilhoso, a magia que emprestou à vida nas horas que se seguiram - quem consegue descrevê-lo? É tão fácil para um inglês zombar destes encontros ocasionais dos seres humanos! Oferecem idênticas oportunidades ao cínico insular e ao moralista insular. É tão fácil falar de "emoções passageiras" e esquecer quão reais essas emoções são antes de se desvanecerem! O nosso impulso para troçar, para passar uma esponja, é, na sua essência, positivo. Reconhecemos que só emoção é pouco e que os homens e as mulheres são seres capazes de relações consistentes e não meras oportunidades para descargas eléctricas. Levamos, no entanto, o impulso longe de mais. Não admitimos que através desta banal espécie de colisões se podem entreabrir as portas do Paraíso. Seja como for, nada de mais intenso a vida traria a Helen do que o beijo desse rapaz, que nem sequer partilhava essa vida. Levara-a para fora de casa, onde havia o perigo de uma surpresa e da luz; conduzira-a por um carreiro que conhecia, até pararem sob o tronco do grande olmo-escocês. No escuro, um homem murmurara "Amo-a" no momento em que ela ansiava por amor. A sua reduzida personalidade desvaneceu-se, manteve-se o cenário que evocava. Em todos os muitos anos que se seguiram nunca ela percebeu porquê.

- Compreendo - disse Margaret -, pelo menos compreendo tanto quanto se compreendem essas coisas. Diz-me agora o que aconteceu na segunda-feira de manhã.

- Acabou repentinamente.

- Como, Helen?

- Ainda estava feliz enquanto me vestia, mas ao descer as escadas comecei a sentir-me nervosa e ao entrar na sala de jantar compreendi que não valia a pena. Estavam lá a Evie... não consigo explicar... às voltas com o samovar e Mister Wilcox a ler o Times.

- E o Paul?

- Também; e parecia aterrorizado, enquanto o Charles lhe falava de fundos de investimento e de comparticipações.

Pequenos pormenores permitiam às duas irmãs comunicar entre si. Margaret viu o horror latente da cena e a observação seguinte de Helen não a surpreendeu.

- Não sei porquê, é terrível quando um homem daquele género tem um ar aterrorizado. Está muito bem para nós ficarmos em pânico, ou para outros homens... o pai, por exemplo; mas um homem daqueles! Quando vi os outros muito calmos e o Paul louco de medo de que eu dissesse qualquer coisa errada, por um momento achei que toda a família Wilcox era uma fraude, nada mais do que uma fachada feita de jornais, automóveis, clubes de golfe e que se a fachada ruísse não encontraria por detrás dela senão pânico e vazio.

- Não concordo. Os Wilcox pareceram-me genuínos, em especial a mulher.

- Não, não penso de facto o que disse. Mas Paul tem as costas largas; uma série de coisas extraordinárias pioraram ainda a situação e eu percebi que nunca resultaria, nunca. Depois do pequeno-almoço, quando os outros foram exercitar-se com os tacos, eu disse-lhe: "Perdemos um bocado a cabeça" e logo o seu aspecto melhorou, embora ficasse extremamente envergonhado. Começou um discurso sobre não ter dinheiro para se casar, mas custava-lhe fazê-lo e eu interrompi-o. Disse-me então: "Tenho de lhe pedir desculpa pelo que aconteceu, menina Schlegel; não sei o que se passou comigo a noite passada." E eu respondi: "Nem eu comigo; não se preocupe." E pusemos ponto final no assunto... pelo menos até eu me lembrar de que te tinha escrito logo a contar-te a noite anterior, o que o assustou outra vez. Pedi-lhe que mandasse um telegrama em meu nome, porque sabia que aparecerias ou farias qualquer outra coisa; tentou usar o carro, mas o Charles e Mister Wilcox precisavam dele para irem para a estação; e o Charles ofereceu-se para mandar o telegrama, tive de dizer que não era importante, porque o Paul achou que ele podia lê-lo, e apesar de eu o ter redigido várias vezes continuava a pensar que as pessoas iam desconfiar de qualquer coisa. Acabou por ser ele a levá-lo, fingindo que tinha de sair para ir buscar cartuchos e, com uma coisa e outra de permeio, quando o telegrama chegou ao correio era tarde de mais. Foi uma manhã horrível. A minha antipatia por Paul era cada vez maior e Evie fez uma tal apologia do críquete que quase desatei aos gritos. Não consigo entender como a suportei nos outros dias todos. Finalmente, o Charles e o pai partiram para a estação e depois chegou o teu telegrama, a avisar-me de que a tia Juley vinha nesse comboio e Paul... oh, que coisa horrível!... disse que eu estragara tudo! Mas Mistress Wilcox sabia.

- Sabia o quê?

- Tudo, embora nenhum de nós lhe tenha dito uma palavra e soube-o o tempo todo, creio bem.

- Deve ter-vos ouvido, casualmente.

- Suponho que foi isso, mas foi óptimo. Quando o Charles e a tia Juley chegaram de carro, a chamar nomes um ao outro, Mistress Wilcox veio do jardim e tornou tudo menos horrível. Uf! Mas foi muito desagradável. Pensar que... - Suspirou.

- Pensar que, lá porque tu e um rapaz se tocaram por uns segundos, tinha de haver tantos telegramas e tantas irritações! - concluiu Margaret.

Helen assentiu.

- Muitas vezes tenho pensado nisto, Helen. É uma das coisas mais interessantes do mundo. A verdade é que há uma grandiosa vida exterior que nem tu nem eu aflorámos nunca, uma vida que inclui telegramas e irritações. Nela, as relações pessoais, que achamos da máxima importância, não têm uma importância por aí além; o amor significa contratos de casamento; a morte, direitos sucessórios. Até aqui, não tenho dúvidas. Mas agora vem a parte difícil para mim. Essa vida exterior, apesar de ser obviamente horrível, parece-se muitas vezes com a vida real... Tem força, forma de facto o carácter. A intimidade conduz ao desrespeito?

- Ó Meg, foi o que eu senti, só que não com tanta clareza, quando vi os Wilcox tão competentes e parecendo puxar todos os cordelinhos.

- Agora não sentes?

- Lembro-me do Paul ao pequeno-almoço - respondeu Helen serenamente. - Nunca me esquecerei. Ele não tinha nada a que recorrer. Sei que as relações pessoais são a verdadeira vida, são para todo o sempre.

- Ámen!

E assim passou a segundo plano o episódio Wilcox, deixando atrás de si recordações de ternura e de horror que se interligavam, e as irmãs prosseguiram a vida que Helen louvara. Falaram uma com a outra e com outras pessoas, encheram a casa estreita e alta de Wickham Place com aqueles de quem gostavam ou a quem podiam ajudar. Até foram a reuniões públicas. À sua maneira, interessavam-se profundamente pela política, embora não como os políticos gostariam que nos interessássemos; pretendiam que a vida pública fosse o espelho daquilo que o mundo tem de bom. Para elas, sobriedade, tolerância e igualdade sexual eram clamores inteligíveis, ao passo que não seguiam a nossa política externa no Tibete com a profunda atenção que merece e eram por vezes capazes de desmantelar o Império Britânico inteiro com um enigmático, embora reverente, suspiro. Longe delas os espectáculos montados pela História: o mundo seria um lugar pardo, exangue, se inteiramente composto por Misses Schlegel. Mas, sendo o mundo como é, talvez elas cintilem nele como estrelas.

Uma palavra sobre as suas origens. Não eram "inglesas até à medula", como a tia piedosamente afirmara. Mas, por outro lado, não eram "alemãs da pior espécie". O seu pai pertencera a uma classe com maior predominância na Alemanha de há cinquenta anos do que na actual. Não era o alemão agressivo, tão caro aos jornalistas ingleses, nem o alemão familiar, tão caro à subtileza política inglesa. Se se quisesse absolutamente classificá-lo, seria antes um provinciano de Hegel e Kant, um idealista, com tendência para sonhador, cujo Imperialismo era um imperialismo abstracto. Não que a sua vida tivesse sido inactiva. Lutara com ardor contra a Dinamarca, a Áustria, a França. Mas lutara sem ver as consequências da vitória. Teve uma percepção da realidade depois de Sedan, quando viu tornar-se grisalho o bigode pintado de Napoleão; uma outra quando entrou em Paris e reparou nas janelas partidas das Tulherias. A paz chegou - tudo era imenso, alguém construíra um império -, mas percebeu que uma certa qualidade fora banida, e disso nem a Alsácia-Lorena inteira o compensaria. A Alemanha, força comercial, a Alemanha, força naval, a Alemanha com colónias aqui, política externa além e aspirações legítimas acolá, podia atrair outros e ser convenientemente servida por eles; quanto a ele, absteve-se dos frutos da vitória e naturalizou-se inglês. Os membros mais rigorosos da família nunca esqueceram tal acto, conscientes de que os seus filhos, embora escassamente ingleses da pior espécie, nunca seriam alemães até à medula. Arranjou trabalho numa das nossas universidades da província e aí casou com a pobre Emily (ou die Englànderin, conforme as circunstâncias) e como ela tinha dinheiro prosseguiram até Londres e vieram a dar-se com muito boa gente. Mas o seu olhar continuava a perder-se para além do oceano. Tinha a esperança de que as nuvens de materialismo que obscureciam a Mãe Pátria acabassem por se dissipar e a suave luz intelectual por se reacender. "Está a insinuar que nós os Alemães somos estúpidos, tio Ernst?", exclamara um altivo e magnificente sobrinho. O tio Ernst respondera: "É o que penso. Vocês servem-se do intelecto, mas deixam imediatamente de se preocupar com ele. Chamo a isso estupidez." Como o altivo sobrinho não lhe acompanhava o raciocínio, continuava: "Vocês só ligam às coisas que podem utilizar e, portanto, ordenam-nas pela ordem seguinte: dinheiro, supremamente útil; intelecto, de alguma utilidade; imaginação, perfeitamente inútil." "Não", prosseguiu, pois o outro protestara, "o vosso pan-germanismo não é mais imaginativo do que o é aqui o nosso imperialismo. Emocionar-se com a grandeza é o vício dos espíritos banais, pensar que mil quilómetros quadrados têm mil vezes mais encanto do que um quilómetro quadrado e que um milhão de quilómetros quadrados quase equivale ao Paraíso. Isso não é imaginação. Não, isso é algo que mata a imaginação. Quando os poetas daqui tentam cantar a dimensão, morrem imediata e naturalmente. Também os vossos poetas estão a morrer, os vossos filósofos, os vossos músicos, que a Europa ouviu durante duzentos anos. Desaparecidos. Desaparecidos com as pequenas cortes que os estimularam, desaparecidos com Esterház e Weimar. O quê? O que foi? As vossas universidades? Ah, sim, instruíram homens que coligiram mais factos do que os homens instruídos de Inglaterra. Coligem factos e factos e impérios de factos. Mas qual de entre eles reacenderá a chama que esses factos contêm?"

Tudo isto ouvira Margaret, sentada nos joelhos do altivo sobrinho.

Era para as meninas um singular género de educação. O altivo sobrinho viria a aparecer um dia em Wickham Place, trazendo consigo a ainda mais altiva esposa, ambos convencidos de que a Alemanha fora eleita por Deus para governar o mundo. A tia Juley chegaria no dia seguinte, convencida de que a Grã-Bretanha fora eleita para o mesmo cargo pela mesma entidade. Estariam certas as duas altissonantes vozes? Houve uma ocasião em que se encontraram e Margaret implorara, de mãos postas, que discutissem o assunto na sua presença. O que os levou a corar e a começar a falar no tempo. "Papá", gritara ela, era uma criança agressiva, "porque é que eles não discutem este problema tão simples?" O pai, examinando ambas as partes com severidade, respondera que não sabia. Margaret comentara então, pondo a cabeça de lado: "Para mim, das duas uma: ou Deus não sabe ao certo o que pensa da Inglaterra e da Alemanha, ou então são estas que não conhecem o pensamento de Deus." Uma abominável rapariguinha, mas que aos treze anos captara o significado de um dilema que a maioria das pessoas carrega a vida inteira sem o resolver. Tinha um espírito irrequieto, que se ia desenvolvendo e tornando flexível e forte. Concluiu que qualquer ser humano está mais próximo do invisível do que qualquer organização, e nunca mudou de opinião a este respeito.

Helen cresceu seguindo-lhe as passadas, embora de uma forma mais irresponsável. Era parecida com a irmã na maneira de ser, mas era bonita e por isso predisposta para uma vida mais divertida. Era a ela que as pessoas mais prontamente rodeavam, em especial quando eram novos conhecimentos, e as pequenas homenagens agradavam-Lhe muito. Quando lhes morreu o pai e passaram a dirigir sozinhas Wickham Place, era frequente açambarcar toda a gente enquanto Margaret - ambas eram tremendamente faladoras - caía no desinteresse. Isto não aborrecia nenhuma das irmãs. Nunca Helen pedia desculpa, Margaret não sentia o mínimo rancor. Mas a aparência influencia o carácter. As irmãs pareciam-se enquanto crianças, mas, por altura do episódio Wilcox, as suas maneiras de actuar começavam a divergir; a mais nova era bastante inclinada a seduzir as pessoas e, ao seduzi-las, a ser por sua vez seduzida; a mais velha não fazia rodeios e aceitava qualquer eventual derrota como parte do jogo.

Muito pouco há a dizer sobre Tibby. Era agora um inteligente rapaz de dezasseis anos, mas dispéptico e tímido.

 

Podemos admitir, de uma maneira geral; que a Quinta Sinfonia de Beethoven é o ruído mais subtil que jamais penetrou nos ouvidos humanos. Satisfaz todos os géneros e classes de pessoas. Quer sejam como Mrs. Munt e sub-repticiamente acompanhem a melodia com suaves pancadinhas dos dedos - não a ponto de incomodar os outros, claro - quer sejam como Helen, que vê heróis e náufragos no fluxo da música, quer como Margaret, que apenas vê música, quer como Tibby, que é profundamente versado em contraponto e abre sobre os joelhos toda a partitura, quer como a prima deles, Fráulein Mosebach, que passa o tempo inteiro a lembrar-se de que Beethoven é echt Deutsch, quer como o jovem que acompanha Fráulein Mosebach e não se lembra de nada senão de Fráulein Mosebach, em todos os casos, a paixão de cada um aumenta de intensidade e é-se obrigado a admitir que semelhante barulho é barato por dois xelins. É barato, mesmo que o oiçamos no Queen's Hall, sala de música lúgubre de Londres, embora não tão lúgubre como o Free Trade Hall, de Manchester; e mesmo que fiquemos sentados ao fundo, no lado esquerdo da sala, onde o estrondo dos metais nos chega antes do resto da orquestra, continua a ser barato.

- com quem está a Margaret a falar? - perguntou Mrs. Munt, no fim do primeiro andamento. Estava de novo em Londres, de visita a Wickham Place.

Helen lançou o olhar pelo extenso grupo e respondeu que não sabia.

- Será um rapaz qualquer, ou alguém em que esteja interessada?

- Espero que sim - replicou Helen.

A música envolvia-a, não lhe permitia ocupar-se da distinção entre um rapaz por quem nos interessamos e um rapaz que apenas conhecemos.

- Vocês, raparigas, são tão engraçadas por... Oh, céus! Não se pode falar.

Porque começara o Andante - muito belo, mas com o ar de família de todos os outros belos Andantes que Beethoven compôs e, na opinião de Helen, os heróis e os náufragos do primeiro andamento desacordando bastante dos heróis e dos duendes do terceiro. Ouviu-o do princípio ao fim, mas ia divagando, olhando a audiência, o órgão, a arquitectura da sala. Criticou fortemente os débeis Cupidos que fazem uma cercadura no tecto do Queen's Hall, inclinados uns para os outros numa insípida atitude e com ramos de salgueiros banhados pelo sol de Outubro a fazer de calças. "Que horror casar com um homem parecido com estes Cupidos!", pensou Helen. Neste ponto, começou Beethoven a ornamentação da sua melodia, pelo que a rapariga lhe prestou uma vez mais atenção e sorriu à prima Frieda. Mas Frieda, que estava a ouvir Música Clássica, não retribuiu. Também Herr Liesecke tinha o ar de quem concentra toda a sua atenção em cavalos selvagens; a testa enrugada, os lábios entreabertos, o pince-nez formando ângulo recto com o nariz e uma mão gorda e branca sobre cada joelho. E a seu lado a tia Juley, tão britânica, tão cheia de vontade de agitar os dedos! Que interessante fila! Quantas influências diferentes na formação de cada um deles! Neste momento Beethoven, que vinha sussurrando com a maior doçura, exclamou "Aí... oó!" e o Andante chegou ao fim. Aplausos e por parte do contingente germânico uma série de wunderschonismos e de pratchvollismos. Margaret começou a conversar com o seu jovem; Helen disse à tia:

- Agora é aquele andamento maravilhoso: começa com os gnomos, segue-se-lhes um trio de elefantes dançarinos.

E Tibby implorou a toda a companhia que estivesse atenta à intervenção transitória da percussão.

- De quê, querido?

- Da percussão, tia Juley.

- Não; prestem atenção àquela parte em que parece que já não há mais duendes e eles reaparecem - sussurrou Helen, ao mesmo tempo que a música recomeçava, com um gnomo a passear calmamente de uma ponta à outra do universo. Mais gnomos o seguiam. Não eram criaturas agressivas; por isso é que Helen os achava tão terríveis. Limitavam-se a comentar, de passagem, que esplendor e heroísmo são coisas que não existem no mundo. Depois do interlúdio dos elefantes dançarinos, voltavam e repetiam o comentário pela segunda vez. Helen não podia contradizê-los, porque pelo menos uma vez sentira o mesmo e vira ruir as inexpugnáveis muralhas da juventude. Pânico e vazio! Pânico e vazio! Os gnomos tinham razão...

O irmão ergueu o dedo: era a intervenção transitória do tambor.

Aí, como as coisas estavam a ir depressa de mais, Beethoven agarrou os gnomos e ordenou-lhes que agissem como ele queria. Apareceu em pessoa. Deu-lhes um empurrãozito, fê-los substituir por modo maior o seu modo menor de passear e depois - soprou-os com a sua própria boca e dispersou-os! Rajadas de esplendor, deuses e semideuses lutando com espadas infindas, espectáculo de cor e fragrância no campo de batalha, vitória magnificente, magnificente morte! Oh, tudo isso explodiu em frente da rapariga, que chegou a estender as mãos enluvadas, a tal ponto o sentia tangível. Todas as mortes eram titânicas; todas as lutas desejáveis; conquistador e conquistado seriam aplaudidos de modo idêntico pelos anjos das remotas estrelas.

E os gnomos? Seria que de facto não tinham estado ali? Eram apenas os espectros da cobardia e da descrença? Um saudável impulso afastá-los-ia? Homens como os Wilcox ou o presidente Roosevelt teriam dito que sim. Beethoven fazia melhor as coisas. Os gnomos tinham mesmo estado ali. Podiam regressar - e regressaram. Era como se o esplendor da vida atingisse a efervescência e se dissipasse em vapor e espuma. E enquanto se dissipava, veio a terrível, a ominosa nota, e um duende, com incrível malignidade, passeou serenamente pelo universo, de uma ponta à outra. Pânico e vazio! Até os flamejantes baluartes protectores do mundo ruíam.

Beethoven optou por agir pelo melhor. Reconstruiu as muralhas. Soprou pela segunda vez e de novo os gnomos foram dispersos. Trouxe de volta as rajadas de esplendor, o heroísmo, a juventude, a magnificência da vida e da morte e, por entre atroadores bramidos de sobre-humano júbilo, levou até ao final a sua Quinta Sinfonia. Mas os gnomos existiam. Podiam voltar. Dissera-o corajosamente e é por isso que se pode acreditar em Beethoven quando ele diz outras coisas.

Helen abriu caminho e saiu durante os aplausos. Queria estar só. A música fora para ela um resumo de tudo quanto acontecera ou poderia vir a acontecer na sua vida. Interpretou-a como uma clara exposição que não seria nunca modificada. As notas significavam para ela isto e aquilo e não poderiam significar outra coisa, a vida não poderia ter outro sentido. Saiu do edifício, desceu devagar a escada exterior, inspirando o ar outonal, e encaminhou-se devagar para casa.

- Margaret - perguntou Mrs. Munt -, a Helen está bem?

- Está!

- Sai sempre a meio do programa - disse Tibby.

- É evidente que a música a tocou profundamente - comentou Fráulein Mosebach.

- Desculpe - disse o jovem de Margaret, que há um bom bocado preparava uma frase -, mas essa senhora levou, inadvertidamente, o meu guarda-chuva.

- Oh, meu Deus! Peço imensa desculpa. Tibby, vai atrás da Helen.

- Se for, perco as Quatro Canções Tristes.

- Tibby, querido, tens que ir.

- Não tem importância nenhuma - disse o jovem, na realidade bastante preocupado com o seu guarda-chuva.

- Claro que tem! Tibby! Tibby!

Tibby pôs-se de pé e embateu de propósito nas costas das cadeiras.

Quando finalmente acabou de levantar o assento da sua, de encontrar o chapéu e de pôr a salvo a partitura, era "tarde de mais" para correr atrás de Helen. As Quatro Canções Tristes haviam começado e ninguém podia deslocar-se durante a sua interpretação.

- A minha irmã é tão desatenta! - sussurrou Margaret.

- De forma alguma - contestou o jovem, mas a sua voz era impessoal e fria.

- Se me der o seu endereço...

- Oh, não, nem pense nisso - e dobrou o sobretudo no colo. As Quatro Canções Tristes soavam a banal aos ouvidos de Margaret.

Nunca Brahms previra quanto as suas resmunguices e lamúrias viriam a tornar-se suspeitas do roubo de um guarda-chuva. Porque o idiota daquele jovem pensava que ela, Helen e Tibby tinham estado a usar com ele o truque da confiança e que se desse o seu endereço irromperiam nas suas salas a uma meia-noite qualquer e roubariam também a sua bengala. A maioria das senhoras ter-se-ia rido, mas Margaret ficou mesmo incomodada, porque fora miséria o que de relance vislumbrara. Confiar nas pessoas é um luxo que só os afortunados se podem permitir; os pobres não lhe têm acesso. Mal Brahms acabou com os gemidos, deu ao rapaz o seu cartão e disse-lhe:

- É aqui que moramos; se o preferir, pode vir buscar o guarda-chuva depois do concerto mas não me agrada maçá-lo quando toda a culpa é nossa.

O rapaz alegrou-se um pouco ao ver que Wickham Place era seguido por "W". Era deplorável vê-lo corroído pela suspeita, pretendendo, no entanto, não ser incorrecto, não fosse dar-se o caso de esta gente bem vestida ser afinal honesta. Margaret achou de bom augúrio que ele lhe dissesse "É óptimo o programa desta tarde, não é?", pois esse fora o seu primeiro comentário, antes da intervenção do guarda-chuva.

- Beethoven sim - respondeu Margaret, que não era uma mulher do tipo encorajador. - Não gosto de Brahms, aliás nem de Mendelssohn, que tocaram primeiro... e não gosto deste Elgar que se segue.

- O quê, o quê? - exclamou Herr Liesecke que a ouvira sem querer. - Pompa e Circunstância não é bom?

- Oh, Margaret, que maçadora! - gritou a tia. - Estou eu aqui a persuadir Herr Liesecke a prestar atenção à Pompa e Circunstância e tu deitas por terra todo o meu trabalho. Estou tão ansiosa por que ele oiça o que estamos a fazer na música! Não deves depreciar os nossos compositores ingleses, Margaret.

- Eu ouvi essa obra em Stettin - disse Frãulein Mosebach. Em duas ocasiões. É dramática, relativamente.

- Frieda, tu desprezas a música inglesa. Bem sabes que é verdade. E a arte inglesa. E a literatura inglesa, excepto Shakespeare, e esse é alemão. Muito bem, Frieda, podes ir-te embora.

Os namorados riram-se e olharam um para o outro de relance. Movidos por um impulso comum, puseram-se de pé e fugiram da Pompa e Circunstância.

- É verdade, temos que fazer aquela visita em Finsbury Circus disse Herr Liesecke, que se aproximara lentamente de Frieda e atingira a coxia precisamente quando começava a música.

- Margaret - um sussurro em tom bastante alto, da tia Juley -, Margaret, Margaret! Frãulein Mosebach esqueceu-se da sua linda malinha na cadeira.

Era, sem sombra de dúvida, o saco de Frieda, com o seu livro de endereços, o seu dicionário de algibeira, o seu mapa de Londres e o seu dinheiro.

- Oh, que maçada, que família a nossa!... Frieda!

- Schiu! - fizeram todos os que achavam a obra boa.

- Mas está aqui o número de que eles precisam, em Finsbury Circus...

- Acho que... eu posso... - articulou o jovem desconfiado, corando muito.

- Ah, ficava-lhe tão grata!

O rapaz pegou no saco - lá dentro tilintava dinheiro - e deslizou pela coxia. Chegou mesmo a tempo de os apanhar à porta e recebeu um lindo sorriso da rapariga alemã e um elegante aceno de cabeça do companheiro. Regressou ao seu lugar de bem com a Humanidade. A confiança que em si tinham depositado era trivial, mas sentiu que cancelava a desconfiança que deles tivera e que provavelmente não fora "levado" no caso do guarda-chuva. Este jovem fora "levado" no passado - seriamente, talvez esmagadoramente - e agora a maior parte das suas energias era aplicada na autodefesa contra o desconhecido. Mas nessa tarde - talvez através da música - compreendera que as pessoas devem descontrair-se de vez em quando, senão qual é o prazer de estar vivo? Wickham Place, W. embora fosse um risco, era tão seguro como a maioria das coisas e ele arriscar-se-ia.

Assim, quando o concerto acabou e Margaret propôs: "Vivemos muito perto, vou para casa agora. Quer vir comigo, buscar o seu guarda-chuva!", respondeu-lhe cordialmente "Muito obrigado" e saiu com ela do Queen's Hall. A rapariga teria desejado que não se mostrasse tão ansioso por ajudá-la enquanto desciam ou por ser ele a levar o programa - a sua classe era suficientemente próxima da dela para que a cortesia dele não a humilhasse. Mas no conjunto achava-o interessante - nessa época toda a gente, no seu conjunto, interessava às Schlegel - e enquanto os lábios falavam de cultura, o coração da rapariga planeava convidá-lo para o chá.

- Fica-se tão cansado depois de ouvir música! - começou ela.

- Acha o ambiente de Queen's Hall opressivo?

- Sim muitíssimo.

- Mas não há dúvida de que o Covent Garden é ainda mais

opressivo.

- Vai lá muito?

- Quando o trabalho mo permite, assisto da galeria à Royal Opera.

Margaret deveria ter exclamado: "Também eu. Adoro ir para a galeria!" O jovem tê-la-ia apreciado. Helen fazia coisas dessas. Mas Margaret tinha horror a "cativar pessoas", a "dar um jeito nas coisas". Já estivera na galeria do Covent Garden, mas não "assistira de lá", preferira os lugares mais caros; e não gostara nada dela. Por isso, ficou calada.

- Este ano, fui três vezes... ao Fausto, à Tosca e... - Era "Tannhouser" ou "Tannhoyser"? Era melhor não arriscar a palavra.

Margaret não gostava da Tosca nem do Fausto. E assim, por uma razão ou por outra, caminharam em silêncio, acompanhados pela voz de Mrs. Munt, que estava em dificuldades com o sobrinho.

- De uma certa forma, lembro-me da passagem, Tibby, mas quando é belo o som de todos os instrumentos, é difícil isolar um dos outros. Não tenho dúvidas de que tu e a Helen me levam aos melhores concertos. Nem uma nota insípida, do princípio ao fim. Só gostava de que os nossos amigos alemães tivessem ficado até acabar.

- Mas não se esqueceu, com certeza, do potente toque do tambor em dó menor, tia Juley? - Era a voz de Tibby. - Ninguém poderia esquecer-se. É inconfundível.

- A passagem especialmente pesada? - arriscou Mrs. Munt. Eu não tenho a pretensão de saber muito de música - acrescentou, por ter falhado o alvo. - Limito-me a gostar de música, o que é muito diferente. Mas há uma coisa de que estou segura: sei do que gosto e do que não gosto. Há muita gente que sente o mesmo em relação à pintura. Podem ir a um museu, como Miss Conder, por exemplo, e dizer sem hesitação o que sentem relativamente a todas as paredes. Eu nunca fui capaz. Mas a música é tão diferente da pintura, quanto a mim... No caso da música, sou firme como uma rocha e garanto-te, Tibby, nem por sombras gosto de tudo. Havia uma coisa, uma coisa qualquer sobre um fauno, em francês, que punha Helen em êxtase, mas que eu achava do mais barulhento e superficial e disse-o e mantive a minha opinião.

- Concorda? - perguntou Margaret. - Acha a música muito diferente da pintura?

- Eu... devo ter achado, mais ou menos...

- Também eu. Ora, a minha irmã afirma que são absolutamente idênticas. Temos discussões enormes sobre o assunto. Ela chama-me obtusa, eu chamo-lhe parva. - Tomando calor, gritou: - Diga-me, não acha um absurdo? Qual é o valor das artes, se forem permutáveis? Qual é o valor do ouvido, se nos transmitir o mesmo que os olhos? O único objectivo de Helen é traduzir as melodias para a linguagem da pintura e a pintura para a linguagem musical. É muito engenhosa e ela fá-lo com argumentos muito bonitos, mas o que se ganha com isso, gostava eu de saber? É um disparate pegado, radicalmente falso. Se Monet é de facto Debussy e Debussy de facto Monet, nenhum deles vale nada... na minha opinião. Não há dúvida de que estas irmãs discutiam!

- Por exemplo, essa bela sinfonia que acabámos de ouvir... não vai deixá-la em paz! Rotula-a com significados do princípio ao fim; transforma-a em literatura. Pergunto a mim própria se alguma vez voltará o tempo em que a música era tratada como música. Embora não saiba se o desejo; veja o caso do meu irmão... atrás de nós. Trata a música como música e, meu Deus! não há ninguém que me irrite tanto, põe-me simplesmente furiosa. com ele, nem sequer me atrevo a argumentar.

Uma família infeliz, embora talentosa.

- Mas, evidentemente, o verdadeiro culpado é Wagner. Conseguiu, mais do que qualquer outro homem do século dezanove, lançar a confusão nas artes. Sinto que a música está a atravessar um momento crítico, apesar de ser extraordinariamente interessante. De tempos a tempos, surgem na história esses terríveis génios, como Wagner, que de imediato agitam todas as fontes de pensamento. É esplêndido, momentaneamente. Uma sensação até então desconhecida. Mas mais tarde... um monte de lama; e as fontes, digamos assim, comunicam agora umas com as outras com demasiada facilidade, não há apenas uma a fluir com limpidez. Foi isso o que resultou de Wagner.

Como um pássaro, o seu discurso esvoaçava para longe do rapaz. Se ele soubesse falar assim, teria conquistado o mundo! Oh, adquirir cultura! Oh, pronunciar correctamente os nomes estrangeiros! Oh, estar bem informado, discorrer com facilidade sobre cada assunto aflorado por uma senhora! Mas seriam precisos anos. com uma hora ao almoço e, de vez em quando, algumas horas à noite, como era possível dialogar com mulheres ociosas, que desde crianças liam com regularidade? O seu cérebro podia estar repleto de nomes, podia até ter ouvido falar de Monet e Debussy; o problema estava em que não conseguia reuni-los numa frase, não sabia como "fazê-los falar", não conseguia esquecer totalmente o guarda-chuva roubado. Sim, o guarda-chuva era a verdadeira preocupação. Persistia para além de Monet e Debussy, impunha-se como a pancada forte de um tambor. "Espero que o meu guarda-chuva esteja a salvo", pensava. "Na verdade, isso não me interessa. vou concentrar-me na música. Espero que o meu guarda-chuva esteja a salvo." Ao princípio da tarde preocupara-se com os lugares. Deveria ter pago um preço de dois xelins? Interrogara-se ainda: "Deverei prescindir do programa?" Tão longe quanto se lembrava, houvera sempre alguma coisa a preocupá-lo, alguma coisa que o impedira de se entregar à beleza. Porque ele desejava-a, no entanto as palavras de Margaret esvoaçavam como pássaros para longe de si.

Margaret continuava a falar, perguntando de vez em quando "Não acha? Não sente o mesmo?" E uma vez parou, lançando um "Ah, por favor, interrompa-me!" que o aterrorizou. Ela não o atraía, embora o amedrontasse. Tinha o corpo magro, a cara era só dentes e olhos, as referências ao irmão e à irmã eram pouco indulgentes. Dada a sua inteligência e cultura, era provavelmente uma dessas mulheres sem alma, ateias, tão enaltecidas por Miss Corelli. Era surpreendente (e alarmante) que subitamente tivesse dito: "Espero que entre e tome chá connosco."

- Espero que entre e tome chá connosco. Dar-nos-ia muito prazer. Fi-lo desviar-se tanto do seu caminho!

Tinham chegado a Wickham Place. O Sol pusera-se e a lagoa mergulhada em sombra enchia-se de uma névoa fina. À direita, as fantasmagóricas torres de apartamentos riscavam uma linha no céu, mancha negra no matiz do fim de tarde; à esquerda, as casas antigas desenhavam no crepúsculo pardacento uma irregular muralha quadrada. Margaret remexia tudo, à procura da chave. Claro que se esquecera dela. Por isso, agarrando no guarda-chuva pela ponteira, inclinou-se e bateu com o cabo na janela da sala de jantar.

- Helen! Abre a porta!

- Está bem! - respondeu uma voz.

- Trouxeste o guarda-chuva deste senhor.

- Trouxe o quê? - perguntou Helen, abrindo a porta. - Ah, o que se passa? Entre! Muito prazer!

- Helen, não podes ser tão descuidada. Trouxeste do Queen's Hall o guarda-chuva deste senhor e ele teve de se dar ao incómodo de vir buscá-lo.

- Peço imensa desculpa! - gritou Helen, com os cabelos no ar. Arrancara o chapéu mal chegara e atirara-se para o cadeirão da sala de jantar. - Passo a vida a roubar guarda-chuvas. Lamento sinceramente! Entre e escolha um. O seu tem o cabo arqueado ou um castão? O meu tem um castão... pelo menos, julgo que tem.

Acenderam a luz e puseram-se à procura no vestíbulo, acompanhados pelos comentários de Helen, que abruptamente se abstraíra da Quinta Sinfonia:

- Não podes falar, Meg! Roubaste o chapéu alto de seda de um cavalheiro. Roubou, sim, tia Juley. É um facto real. Julgou que era um regalo. Céus! Deixei cair o cartão de Livre acesso! Onde está Frieda? Tibby, porque é que tu nunca... não sei, esqueci-me do que ia dizer.

Não era isto, mas manda as criadas despachar-se com o chá. O que acha deste guarda-chuva? - Abriu-o. - Não, está todo esgarçado nas costuras. Uma miséria. Deve ser meu.

Mas não era.

O rapaz tirou-lho, murmurou umas palavras de agradecimento e escapou-se, no seu andar bamboleante de empregadozito de escritório.

- Não se vá embora! - gritou Margaret. - Que estúpida foste, Helen!

- O que é que eu fiz agora?

- Não vês que o puseste a andar, assustadíssimo? Queria que ficasse para o chá. Não devias ter-lhe falado de roubos ou de buracos no guarda-chuva. Vi-lhe nos olhos como se sentiu infeliz. Não, agora não vale a pena. - Porque Helen voara para a rua, aos berros:

- Eh, espere aí!

- Atrevo-me a dizer que foi melhor assim - opinou Mrs. Munt.

- Não sabemos nada a seu respeito, Margaret, e a vossa sala está cheia de objectos muito tentadores.

Mas Helen gritou:

- Tia Juley, como é possível! Preferia que fosse um ladrão e levasse todas as colheres de prata a... bem, acho que vou fechar a porta da rua. Mais uma asneira da Helen.

- Sim, as colheres de prata podiam ser a cobrança - disse Margaret. Vendo que a tia não percebia o que queria dizer com "cobrança", acrescentou: - Cobrança, lembra-se? Era uma das palavras do pai. Cobrança dos seus ideais, da sua fé no ser humano. Lembra-se de como ele confiava nos estranhos e do que dizia quando o enganavam: "Mais vale ser enganado do que ser desconfiado", pois se o conto do vigário é obra dos homens, a falta de confiança não será obra do demónio?

- Sim, lembro-me agora de qualquer coisa no género - respondeu Mrs. Munt com bastante azedume, em pulgas por acrescentar: "Foi uma sorte o vosso pai ter arranjado uma mulher com dinheiro." Mas, como seria indelicado, contentou-se com: - Bem, já agora, também poderia ter roubado o Ricketts.

- Quem dera que tivesse! - interveio Helen resolutamente.

- Não, concordo com a tia Juley - disse Margaret. - Antes quero desconfiar das pessoas do que perder o meu quadrinho do Ricketts. Há limites para tudo.

O irmão, achando o incidente corriqueiro, subira as escadas para ver se havia scones para o chá. Aqueceu o bule - com uma habilidade quase excessiva -, deitou fora o Orange Pekoe que a criada preparara, pôs-lhe dentro cinco colheradas de uma excelente mistura, encheu-o com água a ferver em cachão e pediu às senhoras que se apressassem, caso contrário perdia-se o aroma.

- Muito bem, tia Tibby! - gritou Helen enquanto Margaret, de novo pensativa, comentava: - De certo modo, gostava que tivéssemos em casa um rapaz a sério, do género de rapazes que se interessam por homens. Facilitaria imenso quando temos convidados.

- Também eu gostava - concordou a irmã. - O Tibby só se interessa por mulheres cultas que cantem Brahms. - E quando chegaram ao pé dele interpelou-o com severidade: - Porque é que não recebeste este homem como deve ser, Tibby? Tens de ir começando a desempenhar o papel de anfitrião, sabes? Devias ter pegado no chapéu dele e tê-lo convencido a ficar em vez de o abandonares no meio de mulheres aos gritos!

Tibby suspirou e afastou da testa um cabelo comprido.

- Ora, não vale a pena armar em superior. Eu sei o que digo.

- Deixa o Tibby em paz! - interveio Margaret, que não suportava que ralhassem com o irmão.

- Esta casa é um perfeito galinheiro! - resmungou Helen.

- Oh, querida! - protestou Mrs. Munt. - Como podes dizer coisas tão desagradáveis? A quantidade de homens que cá trazem espanta-me sempre. Se algum perigo existe, é do lado contrário.

- Sim, mas são homens do género errado, é o que a Helen quer dizer.

- Não, não é isso - corrigiu Helen. - Trazemos homens do género certo, mas com o seu lado errado, e repito que a culpa é do Tibby. Deviam ter qualquer ligação com a casa... um... não sei o quê.

- Um toque de W. talvez? Helen deitou a língua de fora.

- Quem são os W. - perguntou Tibby.

- Os W. são coisas que eu, a Meg e a tia Juley sabemos e tu não, pronto!

- Acho que a nossa casa é uma casa-fêmea, pronto - disse Margaret -, e temos de a aceitar como é. Não, tia Juley, não digo que esta casa esteja cheia de mulheres. Estou a tentar dizer uma coisa muito mais pertinente. Quero dizer que foi sempre irremediavelmente feminina, mesmo no tempo do pai. Tenho a certeza de que agora percebe! vou dar-lhe outro exemplo. Suponha que a rainha Vitória dava um jantar e que os convidados eram Leighton, Millais, Swinburne, Rossetti, Meredith, Fitzgerald, etc. Acha que o ambiente do jantar teria sido artístico? Céus, não! Até as cadeiras em que se sentavam teriam reparado nisso. Ê o mesmo com a nossa casa: tem de ser feminina e tudo o que podemos fazer é evitar que seja efeminada. Tal como uma outra casa que poderia mencionar, mas não o faço, se mostra irremediavelmente masculina e tudo o que os seus habitantes podem fazer é evitar que seja grosseira.

- Sendo essa casa a casa dos W. presumo - deduziu Tibby.

- Ninguém te vai dizer nada sobre os W. meu menino! - gritou Helen. - Por isso, esquece o assunto. E, por outro lado, não me interessa minimamente se descobrires, nem que penses que foste muito espertinho. Dá-me um cigarro.

- Fazes o que podes pela casa - disse Margaret. - A sala tresanda a tabaco.

- Se também fumasses, tornava-se de repente masculina. Se calhar, o ambiente é uma questão de pormenores. Mesmo no jantar da rainha Vitória, se alguma coisa tivesse sido só um bocadinho diferente, talvez, se ela usasse um coleante vestido de cerimónia Liberty em vez de ir de cetim vermelho...

- com um xaile indiano nos ombros...

- Preso no peito com um alfinete de topázios...

Explosões de riso desleais - lembrem-se de que elas eram meio alemãs - saudavam estas sugestões e Margaret comentou, pensativamente:

- Como seria inconcebível se a família real se preocupasse com a arte!

E a conversa foi derivando, o cigarro de Helen era agora um pontinho rubro no escuro, os grandes apartamentos em frente constelavam-se de janelas iluminadas, onde a luz estava sempre a desaparecer e a reaparecer, e a desaparecer... Ao longe, o ruído surdo do trânsito

- uma corrente que nunca parava, enquanto a leste, escondida pelos fumos de Wapping, despontava a Lua.

- Veio-me à ideia, Margaret. Seja como for, devíamos ter levado o rapaz para a sala de jantar. Só lá há o prato de majólica... e está tão bem preso à parede! Lamento sinceramente que não tenha ficado para o chá.

Porque o pequeno incidente impressionara as três mulheres mais do que se imaginaria. Perdurou como o rasto de um demónio, como uma insinuação de que nem tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos e de que, abaixo das superstruturas do bem-estar e da arte, vagueia um rapaz desamparado, que na verdade recuperou o guarda-chuva, mas não deixou nem o endereço nem o nome.

 

Não temos nada a ver com os muito pobres. São gente em que não há que pensar, que apenas as estatísticas ou os poetas devem abordar. Esta história trata de gente fina, ou dos que são obrigados a fingir-se gente fina.

O rapaz, Leonard Bast, encontrava-se no limite extremo da burguesia. Não estava no abismo, mas via-o, e às vezes pessoas suas conhecidas caíam nele e deixavam de contar. Sabia que era pobre e aceitava-o; teria preferido morrer a confessar a sua inferioridade aos ricos. Era talvez uma atitude magnífica. Mas era inferior à maioria das pessoas ricas, não há a mínima dúvida a esse respeito. Não era tão cortês como, em média, o eram os ricos, nem tão inteligente, nem tão saudável, nem tão encantador. Porque era pobre, o seu espírito, como o seu corpo, haviam sido de idêntico modo subalimentados; e porque era moderno passavam o tempo a implorar melhor alimentação. Se tivesse vivido uns séculos atrás, nas brilhantes civilizações do passado, teria pertencido a uma classe definida e teria tido rendimentos correspondentes a essa classe. Mas no seu tempo surgira o anjo da Democracia, ensombrando as classes com as suas asas de cabedal e proclamando: "Todos os homens são iguais! Todos os homens, isto é: todos os que possuem guarda-chuvas" e assim, o rapaz vira-se compelido a reivindicar a burguesia com receio de escorregar para o abismo, onde nada conta e as declarações da Democracia são inaudíveis.

Ao afastar-se de Wickham Place, a coisa que mais lhe importava era provar que valia tanto como as Schlegel. Obscuramente ferido no seu orgulho, tentou ferir por sua vez. Se calhar, não eram senhoras. Senhoras verdadeiras tê-lo-iam convidado para o chá? Tinham com certeza mau carácter e eram frias. A cada passo aumentava a sua sensação de superioridade. Uma verdadeira senhora teria dito que roubava guarda-chuvas? Talvez, no fim de contas, fossem ladras e se ele tivesse entrado na casa lhe tivessem posto de imediato na cara um lenço com clorofórmio. Satisfeito consigo próprio, foi andando até ao Parlamento. Aí, um estômago vazio reclamou e apodou-o de louco.

- tarde, Mister Bast.

- tarde, Mister Dealtry.

- Boa tarde.

- tarde.

Mr. Dealtry, um escriturário seu amigo, passou e Leonard parou, indeciso sobre se haveria de tomar o carro eléctrico até onde o levasse um penny, se ir a pé. Decidiu andar; não adianta deixarmo-nos abater, além de que já gastara bastante dinheiro com o Queen's Hall; atravessou a ponte de Westminster, em frente do Hospital St. Thomas e o imenso túnel que passa sob a linha principal de South-Western, em Vauxhall. No túnel, deteve-se por um momento e ouviu o rugido dos comboios. Uma dor lancinante atravessou-lhe a cabeça e teve plena consciência da forma das órbitas dos olhos. Avançou um quilómetro e não abrandou a marcha até chegar à entrada de uma rua chamada Camélia Road, onde presentemente ficava a sua casa.

Aí, parou de novo e espreitou, desconfiado, para a direita e para a esquerda, como um coelho a fugir para a toca. De cada lado, elevava-se um bloco de apartamentos de construção muitíssimo barata. Mais abaixo na rua, outros dois blocos estavam a ser construídos e por detrás deles demoliam uma casa velha para dar lugar a mais dois. Era o género de cena que se pode observar por Londres inteira, seja qual for o local - tijolos e argamassa, erguendo-se e ruindo à cadência da água de uma fonte, pois as cidades acolhem cada vez mais gente no seu solo. Camélia Road não tardaria a sobressair como uma fortaleza e a dominar um extenso panorama. Mas, por pouco tempo. Também já havia planos aprovados para a construção de apartamentos em Magnolia Road. E só era preciso passarem uns anitos para que todos os apartamentos de cada uma das ruas fossem demolidos e novos edifícios, de um tamanho actualmente inimaginável, se elevassem onde os outros tinham sido assolados.

- tarde, Mister Bast.

- tarde, Mister Cunningham.

- Coisa muito séria, o declínio da taxa de natalidade em Manchester.

- Como?

- Coisa muito séria, o declínio da taxa de natalidade em Manchester - repetiu Mr. Cunningham, batendo no seu exemplar do Sundqy, que acabava de lhe anunciar a calamidade.

- Ah, claro! - respondeu Leonard, que não ia deixar que se percebesse que não tinha comprado o Sundqy.

- A continuar assim, a população da Inglaterra estará estacionária em mil novecentos e sessenta.

- Não me diga!

- Eu acho que é uma coisa muito séria, não?

- Boa tarde, Mister Cunningham.

- Boa tarde, Mister Bast.

E Leonard entrou no bloco e não subiu, antes desceu as escadas, dirigindo-se para aquilo a que os agentes imobiliários chamam subcave, e as outras pessoas a arrecadação. Abriu a porta e gritou "Eh, lá!" com uma pseudojovialidade cockney. Não teve resposta. "Eh, lá!", repetiu. A sala estava vazia apesar de ter a luz acesa. com um ar aliviado, deixou-se cair na poltrona.

Havia na sala, além da poltrona, duas outras cadeiras, um piano, uma mesa de pé-de-galo e uma cantoneira. Quanto às paredes, numa era a janela, na outra havia uma lareira ornamentada com rechonchudos Cupidos. Em frente da janela ficava a porta e junto à porta, uma estante; sobre o piano, uma das obras-primas de Maude Goodman. Era um cubículo amoroso e não desagradável quando tinha as cortinas corridas, as luzes acesas e a lareira a gás apagada. Mas saltava à vista a sua banalidade de recurso de emergência, tão vulgar nas habitações modernas. Fora conseguido com demasiada facilidade e com demasiada facilidade podia ser abandonado.

Ao tirar as botas, Leonard tocou na mesa de pé-de-galo e uma moldura que sobre ela honradamente se equilibrava deslizou, caiu na lareira e estilhaçou-se. Praguejou insipidamente e apanhou-a. A fotografia era de uma senhora nova chamada Jacky e fora tirada na época em que as senhoras novas chamadas Jacky eram frequentemente fotografadas com a boca aberta. Dentes de uma brancura ofuscante estendiam-se a toda a largura dos maxilares de Jacky e até lhe faziam pender a cabeça para o lado, tão grandes e tão numerosos eram. Acreditem, aquele sorriso era simplesmente atordoante e só os senhores e eu seremos exigentes a ponto de afirmar que a verdadeira alegria começa nos olhos e que os olhos de Jacky não se coadunavam com o seu sorriso, bem pelo contrário, eram ansiosos e esfomeados.

Leonard tentou apanhar os fragmentos do vidro, cortou os dedos e praguejou outra vez. Uma gota de sangue caiu na moldura, seguiu-se-lhe uma outra e alastraram para a fotografia desprotegida. Praguejou com maior vigor e precipitou-se para a cozinha, onde lavou as mãos. A cozinha era do mesmo tamanho que a sala de estar; a meio caminho havia um quarto. E era toda a casa. Alugara-a mobilada; de todos os objectos que a enchiam, só lhe pertenciam a fotografia emoldurada, os Cupidos e os livros.

- Diabos me levem, raios me partam - murmurou, juntamente com várias outras palavras que aprendera com homens mais velhos. Bateu com a mão na testa e disse "Bolas para tudo isto", o que tinha um significado diferente. Recompôs-se. Bebeu um pouco de chá, preto e desenxabido, que sobrevivera numa prateleira alta. Engoliu umas migalhas poeirentas de bolo. Voltou então para a sala, tornou a instalar-se e começou a ler um livro de Ruskin.

"Sete milhas a norte de Veneza..."

Como é perfeito o início do capítulo! Que supremo domínio da precisão e da poesia! O homem rico fala-nos, da sua gôndola:

"Sete milhas a norte de Veneza, os bancos de areia que perto da cidade pouco se elevam acima da linha de água, atingem gradualmente um nível muito alto e acabam por se integrar nos terrenos em que há pântanos salgados, formando aqui e além montículos informes cortados por estreitos braços de mar."

Leonard andava a tentar formar o seu estilo decalcando-o de Ruskin: considerava-o o grande mestre da Prosa Inglesa. Continuou a ler com perseverança, tomando esporadicamente apontamentos:

"Consideremos sucessivamente um pouco de cada uma destas informações; e em primeiro lugar (porque sobre as colunas já foi dito o suficiente), o que é muito peculiar a esta igreja, é a falta de luminosidade."

Havia algo a aprender com esta frase requintada? Poderia ser adaptada às necessidades da vida quotidiana? Poderia introduzi-la, com algumas alterações, na próxima carta que escrevesse ao irmão, o leitor-laico? Por exemplo:

"Considerando sucessivamente um pouco de cada uma destas informações; e em primeiro lugar (porque sobre a ausência de ventilação já foi dito o suficiente), o que é o mais peculiar deste apartamento, é a obscuridade."

Qualquer coisa lhe disse que as alterações não resultariam; e que essa alguma coisa, quem dera conhecê-la, era o espírito da Prosa Inglesa. "O meu apartamento é escuro e abafado." Estas sim, estas eram as palavras que se lhe adequavam.

E da gôndola a voz fez-se ouvir em melodiosos chilreios, falando de Esforço e Auto-Sacrifício, plena de elevados objectivos, plena de beleza, plena até de simpatia e de amor pela Humanidade, embora conseguindo evitar tudo o que era real e persistente na vida de Leonard. Porque era a voz de alguém que nunca conheceu a miséria, a fome, nem teve sucesso ao tentar adivinhar o que são a miséria e a fome.

Leonard ouviu-o com respeito. Achou que estava no caminho certo e que se persistisse com Ruskin, com os concertos do Queen's Hall e com alguns quadros de Watts, um dia emergiria das águas turvas e depararia com o universo. Acreditava na conversão súbita, uma crença que talvez esteja certa mas que é peculiarmente atractiva para os espíritos atrasados. E a base de muitas religiões populares; no reino dos negócios domina a Bolsa de Valores e transforma-se no "bocadinho de sorte" que justifica todos os sucessos e todos os malogros. "Se eu tivesse só um bocadinho de sorte, as coisas iam correr bem... Ele arranjou um lugar fantástico em Streatham e um Fiat com um motor de vinte cavalos de força, mas, pode crer, foi sorte... Desculpe a minha mulher por chegar tão atrasada, mas ela nunca tem sorte quando vai apanhar o comboio." Leonard era superior a essa gente; acreditava no esforço e numa sólida preparação para alcançar a modificação que ambicionava. Mas não conseguia conceber a herança que se expande gradualmente: esperava chegar à Cultura num abrir e fechar de olhos, tal como os Revivalistas esperam chegar a Jesus. Aquelas Schlegel tinham lá chegado; tinham feito essa habilidade; puxavam os cordelinhos, para todo o sempre. E entretanto, o apartamento dele era escuro e abafado!

Ouviu barulho nas escadas. Meteu o cartão de Margaret entre as páginas de Ruskin e abriu a porta. Entrou uma mulher, a respeito da qual o mais simples é dizer que não era respeitável. O seu aspecto metia medo. Parecia feita de cordas e fios de campainha - tiras, correntes, colares de contas que tiniam ao entrechocar-se - além de uma boa de penas azul-celeste pendurada à roda do pescoço, com pontas irregulares. Na garganta, duas voltas de pérolas; os braços, nus até aos cotovelos e de novo detectáveis nos ombros através de rendas baratas. O chapéu, florido, lembrava aqueles cestinhos cobertos de flanela onde, em crianças, semeávamos mostarda e agriões que germinavam aqui, não germinavam além... Usava-o inclinado para trás. Quanto ao cabelo, melhor dizendo, aos cabelos, eram demasiado complicados para ser descritos, mas uma parte ia para trás, onde os prendia um carrapito grosso, enquanto o resto, criado para um destino mais frívolo, lhe caía em caracóis à roda da testa. O rosto... o rosto era insignificante. Era o rosto da fotografia, mas mais velho e os dentes não eram tão numerosos como o fotógrafo sugerira, nem, evidentemente, tão brancos. Sim, Jacky ultrapassara o apogeu, fosse como fosse que esse apogeu tivesse sido. Estava a escorregar para a idade incolor mais depressa do que a maioria das mulheres e o seu olhar denunciava-o.

- Ora viva! - exclamou Leonard, saudando corajosamente a aparição e ajudando-a a libertar-se da boa.

Jacky retribuiu, em voz rouca:

- Ora viva!

- Saíste? - perguntou ele. A pergunta soou a supérflua, mas pode ser que na realidade o não fosse, porque a senhora respondeu: "Não", acrescentando: "Ah, estou tão cansada!"

- Cansada, tu?

- Hem?

- Estou cansado - disse ele, pendurando a boa.

- Oh, Len, estou tão cansada!

- Fui àquele concerto de música clássica de que te falei - continuou Leonard.

- O quê?

- Voltei logo que acabou.

- Apareceu alguém cá por casa? - perguntou Jacky.

- Que eu visse, não. Encontrei Mister Cunningham lá fora, trocámos umas palavras.

- Mister Cunningham, disseste?

- Disse.

- Ah, estás a falar de Mister Cunningham.

- Sim, Mister Cunningham.

- Fui tomar chá com uma senhora amiga.

Revelando ao mundo o seu segredo e dado a entender o nome da senhora amiga, ficaram por aí as incursões de Jacky pela difícil e cansativa arte da conversação. Nunca fora uma grande faladora. Mesmo nos seus tempos fotográficos, confiara no seu sorriso e na sua figura como atractivos e agora que estava

Na prateleira...

Na prateleira!

Rapazes, rapazes, estou na prateleira!

não lhe apetecia dar uso à língua. Às vezes ainda lhe saíam da boca bocados de canções (das quais acima se dá um exemplo), mas as palavras proferidas eram raras.

Sentou-se ao colo de Leonard e começou a acariciá-lo. Era agora uma maciça mulher de trinta e três anos e o seu peso magoava-o, mas o rapaz não foi capaz de dizer nada. Ela perguntou-lhe então:

- É um livro que estás a ler? - ao que ele respondeu:

- É um livro - e afastou-o do alcance decidido da sua mão. O cartão de Margaret caiu. Caiu com a face para baixo e ele murmurou:

- É um marcador.

- Len...

- O que é? - A voz soou algo enfadada, porque o tópico da sua conversa quando se lhe sentava ao colo, era sempre o mesmo.

- Amas-me?

- Jacky, bem sabes que sim. Porque fazes perguntas dessas?

- Mas amas-me de verdade, não amas, Len?

- Claro que sim.

Uma pausa. Faltava ainda a outra frase.

- Len...

- Sim, o que é?

- Len, vais fazer tudo como deve ser?

- Não suporto que voltes a pedir-mo. - Encolerizara-se, de súbito. - Prometi que me caso contigo quando tiver idade para isso, é quanto basta. Prometi casar-me contigo logo que chegue aos vinte e um e não aguento que me maces continuamente. Tenho maçadas que bastem. Não te abandonei, não faltei à minha palavra, quando gastei o dinheiro todo que gastei. Além disso, sou um inglês e nunca volto com a palavra atrás. Sê razoável, Jacky. Claro que casarei contigo. Mas não passes a vida a maçar-me.

- Quando é que fazes anos, Len?

- Já te disse vezes sem conta, a onze de Novembro. Agora sai do meu colo; parece-me que temos de cear!

Jacky entrou no quarto e pôs-se a olhar para o chapéu. Ou seja, a dar-lhe fortes assopradelas. Leonard arrumou a sala e começou a preparar a refeição da noite para ambos. Meteu um penny na ranhura do contador de gás e logo um cheiro metálico se espalhou pelo apartamento. Por qualquer razão, não conseguia acalmar e enquanto cozinhava continuava a lamentar-se amargamente:

- Quando um tipo não inspira confiança, é de facto uma tristeza. Faz uma pessoa sentir-se desorientada, eu, que fingi perante toda a gente daqui que és minha mulher... está bem, está bem, vais ser minha mulher... que te comprei a aliança para pores, que aluguei este apartamento mobilado e que custa muito mais do que aquilo que os meus meios permitem... e tu ainda não estás contente; e nem disse a verdade quando escrevi à minha família. - Baixou a voz. - Ele teria acabado com tudo. - Num tom horrorizado, em que não deixava de haver magnificência, repetiu: - O meu irmão teria acabado com tudo. Estou a lutar contra o mundo inteiro, Jacky.

"É isso o que estou a fazer, Jacky. Não ligo nenhuma ao que os outros dizem. Continuo em frente, decidido. Foi sempre essa a minha maneira de agir. Não sou como esses covardajolas dos teus amigos, que chocalham os joelhos com medo. Se uma mulher está em apuros, não a deixo ao abandono. Não sou desses. Não, muito obrigado.

"E digo-te mais uma coisa. Esforço-me o mais possível por me elevar, através da Literatura e da Arte, para dessa forma alargar os meus horizontes. Por exemplo, quando chegaste estava a ler o livro de Ruskin tones of Venice. Não digo isto para me gabar, mas só para te mostrar a espécie de homem que sou. E fica sabendo, gostei do concerto de música clássica desta tarde.

Cada uma destas afirmações mereceu a Jacky idêntica indiferença. Quando a ceia ficou pronta - e não antes - apareceu vinda do quarto e perguntou:

- Mas tu amas-me, não amas?

Começaram a comer, um cubo de sopa que Leonard dissolvera em água quente. Seguiu-se-lhe a língua - um cilindro de carne manchada, com um bocadinho de gelatina por cima de uma quantidade enorme de gordura amarela por baixo - e terminaram com outro cubo dissolvido em água (gelatina de ananás), que Leonard preparara mais cedo, durante o dia. Jacky comeu com bastante prazer, olhando de vez em quando o seu homem com aqueles olhos ansiosos que não se coadunavam com nada mais do seu aspecto, mas que eram o espelho da sua alma. E Leonard arranjou maneira de convencer o estômago de que estava a receber uma nutritiva refeição.

Depois da ceia, fumaram e trocaram algumas frases. Ela observou que o seu retrato se tinha partido. Ele aproveitou a ocasião para afirmar, pela segunda vez, que viera direito para casa depois do concerto do Queen's Hall. Estava agora sentada no seu colo. Os moradores de Camélia Road passavam para cá e para lá do lado de fora da janela, precisamente ao nível das suas cabeças e a família do apartamento do rés-do-chão começou a cantar Escuta, Minha Alma, E o Senhor.

- Esta música põe-me completamente neura - disse Leonard. Jacky pegou-lhe na palavra e afirmou que, pela sua parte, a achava uma música encantadora.

- Não; vou tocar para ti uma coisa encantadora. Levanta-te, querida, um minuto.

Foi para o piano e martelou um trecho de Grieg. Tocava mal e com banalidade, mas a actuação não deixou de surtir efeito, porque Jacky declarou que se ia deitar. Como se afastasse, novos interesses se apoderaram do rapaz, que se pôs a magicar no que fora dito sobre música por essa excêntrica Miss Schlegel - a que virava a cara mais ou menos assim, quando falava. E os pensamentos foram-se encadeando, tristes e invejosos. Era a rapariga chamada Helen, que levara o seu guarda-chuva, e a rapariga alemã que lhe sorrira gentilmente, e Herr qualquer coisa, e a tia qualquer coisa, e o irmão - todos, todos a puxarem os cordelinhos. Todos tinham subido aquela luxuosa escada estreita de Wickham Place e entrado naquela sala ampla à qual ele nunca os seguiria, nem que lesse dez horas por dia. Ah, não servia para nada, essa aspiração contínua. Alguns nascem cultos; os restantes fariam melhor em se contentar com o que lhes é acessível. Afrontar a vida com firmeza e em todo o seu conjunto não era para os da sua espécie.

Da escuridão para lá da cozinha, uma voz chamou:

- Len?

- Estás deitada? - perguntou ele, com a testa crispada.

- Hum, hum.

- Está bem.

Passado pouco tempo, ela chamou-o.

- Tenho de limpar as botas, para amanhã - respondeu ele. Passado pouco tempo, ela chamou-o outra vez.

- Quero acabar este capítulo.

- O quê?

Fez de conta que não a ouvira.

- O que é que disseste?

- Nada, Jacky; estou a ler um livro.

- O quê?

- O quê? - replicou ele, contagiado pela sua surdez indigna. Passado pouco tempo, ela chamou-o.

Por essa altura, já Ruskin acabara a visita a Torcello e estava a ordenar aos seus gondoleiros que o levassem a Murano. Ocorreu-lhe, enquanto deslizava pelos rumorejantes canais, que a força da Natureza não podia ser diminuída pela idiotice, nem a sua beleza totalmente ofuscada pela miséria de um Leonard qualquer.

 

- Oh, Margaret! - gritou a tia na manhã seguinte. - Aconteceu uma coisa horrível! Não devia ter-te deixado sozinha.

A coisa horrível não era muito séria. Um dos apartamentos do ornamentado bloco da frente fora alugado mobilado pela família Wilcox "que, pela certa, vem para cá na esperança de penetrar na sociedade londrina". Que tivesse sido Mrs. Munt a primeira a descobrir o azar, não era nada extraordinário, porque era tal o seu interesse pelos apartamentos que espiava cada mudança que neles se produzia com a mais infatigável atenção. Em teoria, desprezava-os: tinham acabado com aquele ambiente de velho mundo, tiravam o sol, eram apartamentos que albergavam umas criaturas espalhafatosas. Mas, se a verdade viesse à tona, saber-se-ia que achava as visitas a Wickham Place duplamente divertidas desde que tinham sido construídas as Wickham Mansions e em meia dúzia de dias soubera mais a seu respeito do que as sobrinhas em meia dúzia de meses e o sobrinho em meia dúzia de anos. Era capaz de ir dar uma volta do outro lado da rua, fazer amizade com os porteiros e perguntar as rendas, exclamando, por exemplo: "O quê?! Cento e vinte, uma cave? Não vão conseguir!" ao que eles respondiam: "Tem que se tentar, minha senhora." Os elevadores, os monta-cargas, os abastecimentos de carvão (uma grande tentação para um porteiro desonesto), tudo assuntos que lhe eram familiares e talvez uma atenuante para a atmosfera político-económico-estética que reinava em casa das Schlegel.

Margaret recebeu a informação serenamente e discordou de que tal ensombrasse a vida da pobre Helen.

- Mas a Helen não é uma rapariga sem interesses! - exclamou. - Tem imensas outras coisas e outras pessoas em que pensar. Teve um mau começo com os Wilcox e há-de pretender tanto como nós não ter mais nada a ver com eles.

- Para uma rapariga inteligente, que estranhas são as tuas palavras, querida! A Helen terá que ter algo mais a ver com eles, agora que moram em frente. Pode encontrar-se com o Paul na rua. Ser-lhe-á difícil não o cumprimentar.

- Claro que o cumprimentará. Olhe para aqui, temos de tratar das flores. Ia eu a dizer, a vontade de se interessar por ele morreu, o resto que importa? Vejo esse episódio desastroso (a propósito do qual a tia foi tão gentil) como a morte de um nervo da Helen. Está morto, não voltará a incomodá-la. As únicas coisas que contam são as que interessam a alguém. Cumprimentar, mesmo visitar e deixar cartões até um jantar, podemos fazer tudo isso aos Wilcox, se lhes der prazer; mas a outra coisa, a coisa importante, nunca mais. Compreende?

Mrs. Munt não compreendeu e na realidade Margaret estava a fazer uma afirmação das mais contestáveis - que todas as emoções, todos os sentimentos vivamente despertados um dia podem morrer por completo.

- Também tenho a honra de a informar de que os Wilcox estão aborrecidos connosco. Não lhe disse na altura, podia tê-la irritado e a tia tinha muito com que se preocupar, mas escrevi uma carta a Mistress Wilcox, a pedir desculpa pelos incómodos que Helen lhes causara. Não respondeu.

- Que grosseira!

- Fiquei surpreendida. Ou terá sido por sensibilidade?

- Não, Margaret, foi grosseria.

- Seja pelo que for, podemos classificá-lo de tranquilizador.

Mrs. Munt suspirou. Regressava a Swanage no dia seguinte, justamente quando as sobrinhas mais precisavam dela. Havia outras coisas que lamentava; por exemplo: com que magnificência teria ignorado Charles se se encontrasse cara a cara com ele! Já o vira, a dar ordens ao porteiro - e tinha um aspecto muito vulgar de chapéu alto. Mas infelizmente estava de costas para ela e embora tivesse ignorado as suas costas, não podia considerar tal acto um desprezo explícito.

- Mas vais ter cuidado, não vais? - exortou ela.

- Claro! Amigavelmente cuidadosa.

- E a Helen também tem de ter cuidado.

- Cuidado com o quê? - gritou Helen, que nesse momento entrava na sala com a prima.

- com coisa nenhuma - respondeu Margaret, momentaneamente atrapalhada.

- Cuidado com o quê, tia Juley? Mrs. Munt assumiu um ar enigmático:

- É só porque uma certa família, cujo nome sabemos mas não mencionamos, como tu própria disseste na noite do concerto, alugou aos Matheson o apartamento em frente, aquele que tem plantas na varanda.

Helen começou uma qualquer réplica cómica e então, desconcertou todos ao corar. Mrs. Munt ficou tão espantada que exclamou:

- Oh, Helen, tu não te importas que tenham vindo, pois não? O rosado passou a carmesim.

- Claro que não me importo - retorquiu Helen com certo mau humor. - Então é por causa disso que a tia e a Meg estão tão absurdamente raladas quando não há razão nenhuma para tal ralação?

- Eu não estou ralada - protestou Margaret, por sua vez levemente amuada.

- Pois pareces; não parece, Frieda?

- Não me sinto ralada, é o que eu quero dizer; estás a ir pelo caminho errado.

- Não, ela não se sente ralada - ecoou Mrs. Munt. - Sou testemunha disso. Discorda...

- Oiçam! - interrompeu Frãulein Mosebach. - O Bruno vem a entrar a porta.

Porque Herr Liesecke devia vir a Wickham Place buscar as duas jovens. Não vinha a entrar a porta - de facto, durante uns bons cinco minutos não passou por ela. Mas Frieda detectara uma situação delicada e decidiu que era muito melhor que ela e Helen esperassem Bruno lá em baixo e deixassem Margaret e Mrs. Munt acabarem de arranjar as flores. Helen aquiesceu. Mas, como que para provar que a situação não era de facto delicada, parou a caminho da porta e comentou:

- Disse o apartamento dos Matheson, tia Juley? A tia é maravilhosa! Eu nunca soube que a mulher que se espartilhava de mais se chama Matheson.

- Anda, Helen! - chamou a prima.

- Vai, Helen - disse a tia; e continuou para Margaret, quase sem interrupção: - A Helen não me engana. Ela não ficou indiferente.

- Schiu! - murmurou Margaret. - A Frieda vai ouvi-la e ela às vezes é tão impertinente.

- Não ficou indiferente - insistiu Mrs. Munt, andando pensativamente pela sala e tirando das jarras os crisântemos mortos. - Eu sabia que se interessaria, e tenho a certeza de que aconteceria o mesmo com qualquer rapariga! Uma experiência daquelas! Uma gente horrorosa, tão grosseira! Sei mais a respeito deles do que tu, o que esqueces, e se fosse a ti que o Charles tivesse levado naquele carro, bem, terias chegado lá a casa totalmente aniquilada. Oh, Margaret, tu não sabes o que te vai acontecer. Estão todos comprimidos atrás da janela da sala de visitas. Está Mistress Wilcox, já a vi. O Paul. A Evie, uma atrevida. O Charles... foi o primeiro que vi. E quem será um homem de certa idade com bigode e uma cara cor de cobre?

- Mister Wilcox, possivelmente.

- Eu sabia. É Mister Wilcox.

- É uma vergonha dizer que ele tem a cara cor de cobre - censurou Margaret. - Está muitíssimo bem para um homem da sua idade.

Mrs. Munt, triunfante noutros pontos, deu-se ao luxo de conceder a Mr. Wilcox a sua boa compleição. Daí, partiu para o plano de campanha que as suas sobrinhas deveriam seguir no futuro. Margaret tentou calá-la.

- A Helen não recebeu a notícia exactamente como eu esperava, mas a atracção pelos Wilcox morreu realmente nela, por isso é desnecessário fazer planos.

- É bom estar-se preparado.

- Porquê?

- Porque...

O seu raciocínio, proveniente de obscuros recônditos, distorceu-se. Não sabia explicá-lo por palavras, mas sentia que os que se preparam antecipadamente para todas as emergências da vida conseguem estar armados, a expensas da alegria. É necessário prepararmo-nos para um exame, ou para um jantar, ou para uma eventual queda dos valores das acções da Bolsa; quem trava relações com estranhos tem de adoptar outro método, ou então fracassa. "Porque não tardarei a correr esse risco", era a sua pouco convincente razão.

- Mas imagina as noites! - exclamou, apontando para as Mansions com o cano do regador. - Acende a luz aqui, ou lá, e estás praticamente na mesma sala. Uma noite, podem esquecer-se de baixar as persianas e tu vê-los; na outra, esqueces-te tu das tuas e vêem-te eles. Impossível sentarmo-nos nas varandas. Impossível regar as plantas, ou mesmo conversar. Imagina que vais a sair pela porta da frente e que ao mesmo tempo saem eles do lado oposto. E ainda me dizes que os planos são desnecessários, que preferes correr os riscos.

- Espero correr riscos durante toda a vida.

- Oh, Margaret, isso é arriscado de mais.

- Mas, no fim de contas - prosseguiu esta com um sorriso -, o risco nunca é muito grande se se tiver dinheiro.

- Oh, que vergonha! Que palavras tão chocantes!

- O dinheiro lima muitas arestas. Deus acuda aos que não têm nenhum.

- Aí está algo de novo! - exclamou Mrs. Munt, que coleccionava novas ideias como um esquilo colecciona nozes e tinha especial atracção pelas que eram portáteis.

- Novo para mim; as pessoas sensatas aprenderam-no há anos. A tia, eu e os Wilcox estamos instalados em dinheiro como em ilhas. Está tão firme sob os nossos pés que nos esquecemos da sua existência real. Só quando vemos cambalear alguém perto de nós é que nos apercebemos de quanto significa um rendimento independente. Na noite passada, quando estávamos a conversar aqui à roda da lareira, pus-me a pensar que a verdadeira alma do mundo é a economia e que o abismo mais profundo não é a falta de amor, mas sim a falta de dinheiro.

- Chamo a isso cinismo.

- Também eu. Mas a Helen e eu devemos lembrar-nos, quando nos sentimos tentadas a criticar os outros, que estamos instaladas nessas ilhas e que a maior parte das pessoas está abaixo da superfície do mar. Os pobres nem sempre podem chegar aos que querem amar e dificilmente podem escapar aos que já não amam. Os ricos podem. Imagine a tragédia que teria sido em Junho passado se a Helen e o Paul Wilcox não pudessem apelar a caminhos-de-ferro e automóveis para os separarem.

- Isso parece-se com socialismo - comentou Mrs. Munt, desconfiada.

- Chame-lhe o que quiser. Eu, chamo-lhe atravessar a vida com a mesa posta por suas próprias mãos. Estou farta desses ricos que fingem ser pobres e acham que dão mostras de um espírito encantador ao ignorar as pilhas de dinheiro que lhes permitem manter-se à tona da água. Eu ergo-me sobre seiscentas libras anuais, a Helen sobre igual quantia e o Tibby erguer-se-á sobre oitocentas e as nossas libras renovam-se mal se desfazem no mar. No mar, sim, no mar. E toda a nossa maneira de pensar é de quem tem seiscentas libras, tal como tudo o que dizemos; e porque não pretendemos roubar guarda-chuvas, esquecemos que os que estão em baixo, no mar, pretendem roubá-los e roubam-nos de facto algumas vezes e o que cá em cima é uma brincadeira, é lá em baixo a vida real...

- Lá vão eles... lá vai a Fráulein Mosebach. Na verdade, para alemã veste-se com elegância. Ah!

- O que foi?

- A Helen olhou para o apartamento dos Wilcox.

- Porque é que não havia de olhar?

- Desculpa, interrompi-te. O que é que estavas a dizer da vida real?

- Estava a falar comigo própria, como de costume - respondeu Margaret, revelando agora preocupação no tom de voz.

- Em todo o caso, diz-me uma coisa. És pelos ricos ou pelos pobres?

- Difícil de mais. Pergunte-me de outra maneira. Sou pela pobreza ou pela riqueza? Pela riqueza! Viva a riqueza!

- Pela riqueza! - Tendo finalmente apanhado a sua noz, passe a expressão, Mrs. Munt fez eco com a sobrinha.

- Sim. Pela riqueza. Dinheiro para sempre!

- Também eu e também, creio bem, a maioria das pessoas com quem me dou em Swanage, mas surpreende-me que concordes connosco.

- Muito obrigada, tia Juley. Enquanto eu estava para aqui com teorias, a tia arranjou as flores todas.

- De nada, querida. Bem gostava que me deixasses ajudar-te em coisas mais importantes.

- Nesse caso, quer ser gentil? Vem comigo à agência? Têm lá uma criada que não diz que sim, nem que não.

No caminho, também elas repararam no apartamento dos Wilcox. Evie estava na varanda, "a olhar sem classe nenhuma", segundo Mrs. Munt. Ah, sim, era incomodativo, disso não havia dúvida. Helen estava preparada para qualquer encontro eventual, mas... Margaret começava a perder confiança. Poderia o nervo moribundo recuperar pelo facto de a família estar a viver à frente dos seus olhos? E Frieda Mosebach, que ia ficar com elas mais quinze dias, era perspicaz, abominavelmente perspicaz e bem capaz de comentar: "Estás apaixonada por um dos rapazes da frente, não estás?" Podia não corresponder à verdade, mas era o género de coisa que, se muitas vezes repetida, se pode tornar verdade; tal como a observação "os Ingleses e os Alemães nasceram para lutar" se vai tornando mais verosímil de cada vez que é feita e por isso a repetem com prazer os pasquins de ambas as nações. Será que as emoções pessoais também têm os seus pasquins? Margaret achava que sim e receava que a boa tia Juley e Frieda fossem deles típicos espécimes. Podiam, pela sua contínua tagarelice, i levar a que se repetissem em Helen os anseios de Junho. A uma repetição - a mais do que isso, não podiam; não podiam induzi-la a um amor duradouro. Ambas eram - viu-o nitidamente - Jornalismo; o pai, com todos os seus defeitos e falta de cabeça, fora Literatura, e se estivesse vivo persuadiria as suas filhas a seguir o caminho certo.

Na agência estavam em curso as entrevistas da manhã. Uma enfiada de carros enchia a rua. Miss Schlegel esperou a sua vez e teve finalmente que se contentar com uma insidiosa "temporária", depois de ter sido rejeitada por criadas a sério por causa do número de degraus da sua casa. O fracasso deprimiu-a e embora esquecesse o fracasso, a depressão manteve-se. No regresso a casa lançou outra olhadela ao apartamento dos Wilcox e tomou a decisão bastante maternal de falar no assunto a Helen.

- Helen, tens de me dizer se este caso te preocupa.

- Qual caso? - perguntou Helen, que lavava as mãos para o almoço.

- A vinda dos Wilcox.

- Não, claro que não.

- De verdade?

- De verdade.

Admitiu então que estava um tanto preocupada em relação a Mrs. Wilcox; deu a entender que Mrs. Wilcox poderia evocar obscuros sentimentos do passado e sofrer por uma coisa que nunca atingira os outros membros do clã.

- Não sei se o Paul apontará para a nossa casa e dirá: "Ali vive a rapariga que tentou apanhar-me." Mas ela pode pensá-lo.

- Se isso te preocupa, podemos dar um jeito. Graças ao nosso dinheiro, não há razão para ficarmos perto de pessoas que nos desagradam e a quem desagradamos. Podemos mesmo ir para fora, por algum tempo.

- Bem, eu vou para fora. A Frieda acabou de me convidar a ir a Stettin e não estarei de volta até depois do Ano Novo. Chegará? Ou terei de viajar por todo o país? Francamente, Meg, o que é que te deu para fazeres um tal espalhafato?

- Estou a ficar uma solteirona, acho eu. Julguei que nada me atingia, mas na realidade... na realidade, ficaria aborrecida se te apaixonasses duas vezes pelo mesmo homem e - pigarreou - ficaste mesmo encarnada quando a tia Juley se meteu contigo esta manhã. Eu também não devia falar no assunto.

Mas o riso de Helen soou a verdadeiro quando ergueu aos céus uma mão ensaboada e jurou que nunca, em tempo algum e em caso algum, voltaria a apaixonar-se por alguém da família Wilcox, até aos seus mais remotos colaterais.

 

A amizade entre Margaret e Mrs. Wilcox, que tão rapidamente e com tão estranhos resultados iria desenvolver-se, talvez tenha nascido em Speyer, na Primavera. Talvez a senhora, enquanto contemplava a desinteressante e banalizada catedral e escutava a conversa de Helen com o seu marido, tenha detectado na outra, na irmã menos comunicativa, um estilo de simpatia mais profundo, uma maior sensatez. Era uma pessoa capaz de detectar tais indícios. É possível que tenha partido dela o desejo de receber Miss Schlegel em Howards End - e também Margaret, cuja presença teria querido especialmente. Tudo isto é especulação: poucas foram as indicações fornecidas por Mrs. Wilcox. Õ que é facto é que acabou por aparecer em Wickham Place quinze dias mais tarde, exactamente no dia em que Helen partia com a prima para Stettin.

- Helen! - gritou Fráulein Mosebach numa voz apavorada (era agora a confidente da prima). - A mãe dele perdoou-te! - E então, lembrando-se de que em Inglaterra os recém-chegados não devem visitar antes de serem visitados, mudou o tom de pavor para desaprovação e opinou que Mrs. Wilcox era "keine Dame".

- Para o diabo a família toda! - vociferou Margaret. - Helen, pára com as risadinhas e as piruetas e vai acabar de fazer as malas. Porque é que a mulher não nos deixa em paz?

- Não sei o que faria sem a Meg - troçou Helen, tropeçando nos degraus. - Tem os Wilcox nos miolos! Meg, Meg, eu não gosto do jovem cavalheiro, eu não amo o jovem cavalheiro, Meg, Meg. Poderá uma criatura falar com maior clareza?

- De certeza que o amor dela morreu - Fráulein Mosebach veio em sua defesa.

- De certeza que sim, Frieda, mas isso não me impede que me aborreça com os Wilcox se retribuir a visita.

Helen fingiu que chorava e Fráulein Mosebach, que lhe achou imensa graça, fez o mesmo.

- Ahn, ahn, ahn! A Meg vai retribuir a visita e eu não posso! Po'que não? Po'que vou p'à Alemania.

- Se vais para a Alemanha, vai fazer as malas; se não vais, vai tu visitar os Wilcox em meu lugar.

- Mas Meg, Meg, eu não amo o jovem cavalheiro, eu não amo o jovem... Oh, Deus, quem vem a descer as escadas? Aposto que é o meu irmão. O crimini!

Um macho - mesmo um macho como Tibby - foi o suficiente para acabar com a maluquice. A barreira do sexo, embora em decréscimo entre os civilizados, é ainda grande, e maior por parte das mulheres. Helen podia contar tudo à irmã e muito à prima, a respeito de Paul; ao irmão não dissera nada. Não por um exagerado pudor, porque agora falava dos "ideais Wilcox" com ironia, dir-se-ia até que com crescente rispidez. Nem por precaução, porque Tibby raramente repetia quaisquer novidades que não lhe dissessem respeito. Era antes pelo sentimento de que transmitiria um segredo ao campo masculino e de que, por mais banal que se afigurasse do lado de cá da barreira, adquiriria importância do lado de lá. Por isso se calara, ou melhor, começara a parodiar outros temas, até que os sofredores parentes a empurraram pela escada acima. Fráulein Mosebach seguiu-a, mas deteve-se para assegurar a Margaret, por cima do corrimão:

- Está tudo bem, ela não ama o rapaz, ele não era digno dela.

- Sim, eu sei; muito obrigada.

- Julguei que fazia bem em dizer-te.

- Muito e muito obrigada.

- De que é que estão a falar? - perguntou Tibby. Ninguém lho disse, ele continuou o seu caminho para a sala de jantar, aonde se dirigia para comer ameixas de Elvas.

Nessa tarde, Margaret entrou decididamente em acção. Havia na casa uma grande calma e o nevoeiro - estava-se em Novembro comprimia-se contra as janelas como um fantasma escorraçado. Frieda, Helen e todas as suas bagagens, tinham partido. Tibby, que não se sentia bem, estava estendido no sofá, junto à lareira. Sentada a seu lado, Margaret meditava. O seu espírito saltava de impulso em impulso, até que acabou por ordená-los todos. As pessoas práticas, que sabem de imediato o que querem - e geralmente não sabem mais nada - acusá-la-ão de indecisa. Mas era este o método de trabalho do seu cérebro. E no momento em que agia, ninguém poderia aplicar-lhe tal apodo. Era tão enérgica que parecia não ter reflectido minimamente sobre o assunto. A carta que escreveu a Mrs. Wilcox espelhava todo o colorido inato de uma decisão. Nela, o pálido calculismo da reflexão era mais um sopro do que um embaciamento, um sopro que deixa as cores tanto mais nítidas quanto mais forte tiver sido.

Cara Mrs. Wilcox,

Sou obrigada a escrever-lhe algo de descortês. Teria sido melhor que não nos tivéssemos conhecido. Tanto a minha irmã como a minha tia causaram problemas à sua família e, no caso da minha irmã, as causas desse problema poderiam ressurgir. Tanto quanto sei, já não pensa no seu filho. Mas não seria agradável, nem para ela nem para ele, encontrarem-se, pelo que é preferível que terminem as nossas relações, iniciadas de uma forma tão agradável.

Receio que não concorde; aliás, sei que não concordará, visto que teve a gentileza de nos visitar. É só uma questão de instinto da minha parte e sem dúvida esse instinto está errado. A minha irmã diria sem a menor hesitação que sim. Escrevo sem o seu conhecimento e espero que não a associe à minha indelicadeza.

Creia-me, com toda a consideração,

  1. J. Schlegel.

Margaret mandou pelo correio esta objectiva missiva. No dia seguinte de manhã, recebeu a resposta, por mão própria:

Cara Miss Schlegel,

Não devia ter-me escrito uma carta daquelas. Fui a sua casa para lhe comunicar que o Paul partiu para o estrangeiro.

Ruth Wilcox.

As faces de Margaret ruborizaram-se. Não foi capaz de acabar o pequeno-almoço. Ardia de vergonha. Helen dissera-lhe que o jovem ia sair de Inglaterra, mas haviam-se interposto outras coisas que lhe pareceram mais importantes e ela esqueceu-se. Todas as suas absurdas apreensões caíram por terra e em seu lugar instalou-se a certeza de que fora grosseira para com Mrs. Wilcox. A grosseria afectava tanto Margaret como um sabor amargo na boca. Envenenava a vida. Por vezes era indispensável, mas ai de quem a usasse sem absoluta necessidade! Enfiou um chapéu e pôs um xaile, como qualquer pobretanas, e mergulhou no nevoeiro, que se mantinha. Comprimia os lábios, continuava com a carta na mão e foi nessa figura que atravessou a rua, entrou no vestíbulo de mármore dos apartamentos, evitou os porteiros e correu pelas escadas acima até ao segundo andar.

Disse o nome e para sua surpresa foi directamente conduzida ao quarto de cama de Mrs. Wilcox.

- Oh, Mistress Wilcox, cometi o mais estúpido dos erros! Estou muito, muito mais envergonhada e arrependida do que o que consigo expressar.

Mrs. Wilcox inclinou gravemente a cabeça. Estava ofendida e não fingia o contrário. Sentada na cama, escrevia cartas numa mesa de doente, atravessada por cima dos seus joelhos. Noutra mesa, perto dela, uma bandeja de pequeno-almoço. A luz da lareira, a luz da janela e a luz de um candeeiro que rodeava as suas mãos de uma trémula auréola, combinavam-se para criar uma estranha atmosfera de decadência.

- Eu sabia que ele ia para a índia em Novembro, mas esqueci-me.

- Embarcou a dezassete para a Nigéria, em África.

- Eu sabia... eu sei. Portei-me absurdamente em todo este assunto. Estou envergonhadíssima.

Mrs. Wilcox não respondeu.

- Lamento mais do que sei dizer e espero que me perdoe.

- Não tem importância, Miss Schlegel. Foi simpático da sua parte ter vindo tão prontamente.

- Tem importância, sim! - gritou Margaret. - Fui malcriada consigo; e a minha irmã nem sequer está em casa, nem sequer há essa desculpa.

- Ah, não?

- Acaba de partir para a Alemanha.

- Ela também partiu - murmurou a outra. - Sim, claro, é perfeitamente seguro... seguro, absolutamente, agora.

- Também estava preocupada! - exclamou Margaret, cada vez mais excitada e sentando-se numa cadeira sem a tal ser convidada. Que extraordinário! Vejo que estava preocupada. Sentiu o mesmo que eu: a Helen não deve voltar a encontrar-se com ele.

- Achei que seria o melhor.

- Já agora, diga-me as suas razões.

- Essa pergunta é muito difícil - replicou Mrs. Wilcox, sorrindo e desvanecendo-se um pouco o seu ar aborrecido. - Penso que o expressa lindamente na sua carta: foi um instinto, que pode estar errado.

- Não foi por o seu filho ainda...

- Oh, não; ele muitas vezes... o meu Paul é muito novo, bem vê...

- Então qual era a sua razão? Mrs. Wilcox repetiu:

- Um instinto, que pode estar errado.

- Por outras palavras, eles pertencem ao tipo de pessoas que podem apaixonar-se uma pela outra, mas que não poderiam viver juntas. É imensamente provável. Receio que em nove de cada dez casos a Natureza puxe para um lado e a natureza humana para o outro.

- São sem dúvida "outras palavras" - comentou Mrs. Wilcox.

- Não havia nada de tão coerente na minha cabeça. Limitei-me a ficar alarmada quando soube que o meu filho se interessava pela sua irmã.

- Uma coisa que sempre quis perguntar-lhe: como soube? A Helen ficou surpreendidíssima quando a nossa tia chegou de carro e a senhora avançou e harmonizou as coisas. Foi o Paul que lho disse?

- Não se ganha nada em falar nisso - cortou Mrs. Wilcox, após uma pausa momentânea.

- Mistress Wilcox, a senhora estava muito zangada connosco em Junho passado? Escrevi-lhe uma carta e não me respondeu.

- É um facto que fui contra ficar com o apartamento de Mistress Matheson. Sabia que era defronte da vossa casa.

- Mas está tudo bem, agora?

- Penso que sim.

- Pensa, apenas? Não tem a certeza? Gosto muito de esclarecer este género de mal-entendidos.

- Tenho a certeza, sim. - Mrs. Wilcox mexeu-se com pouco à-vontade debaixo dos lençóis. - Tudo o que digo soa a inseguro. É a minha maneira de falar.

- Está tudo bem, também eu tenho a certeza.

Neste ponto entrou a criada para levar a bandeja do pequeno-almoço. Foram interrompidas e quando retomaram a conversa foi em termos mais normais.

- Agora despeço-me, a senhora há-de querer levantar-se.

- Não... Fique, por favor, mais um bocadinho... vou passar o dia na cama. De vez em quando faço isso.

- Sempre a idealizei uma madrugadora.

- Em Howards End, sim; em Londres, não há nada que nos incite a levantarmo-nos.

- Não há nada?! - gritou a escandalizada Margaret. - Quando há todas as exposições de Outono e Ysaye a tocar, à tarde! Para já não falar nas pessoas.

- A verdade é que me sinto um pouco cansada. Primeiro, foi o casamento, depois a partida de Paul e ontem, em vez de descansar fiz várias visitas.

- Um casamento?

- Sim; o Charles, o meu filho mais velho, casou-se.

- Ah, sim?

- Ficámos com o apartamento especialmente por causa disso e também para o Paul poder meter as coisas de que precisava para África. O apartamento é de uma prima do meu marido, que muito amavelmente no-lo ofereceu. Assim, pudemos travar conhecimento com a família da Dolly, que ainda não tínhamos visto.

Margaret perguntou quem era a família de Dolly.

- Os Fussell. O pai é oficial do Exército da índia, na reserva; o irmão está no Exército. A mãe morreu.

Portanto, talvez fossem os "homens bronzeados sem queixo" que Helen entrevira uma tarde pela janela. Margaret mostrou um interesse moderado pelos problemas da família Wilcox. Adquirira o hábito por causa de Helen e mantinha-se-lhe fiel. Fez perguntas sobre Miss Dolly Fussell que ultrapassavam a mera civilidade. A voz de Mrs. Wilcox, apesar de doce e de ela se esforçar, era pouco expressiva. Sugeria que pintura, concertos e pessoas, são tudo coisas de igual

- e pouco - valor. Só uma vez se animou, quando falou de Howards End.

- O Charles e o Albert Fussell conheceram-se em tempos. Pertencem ao mesmo clube e são ambos loucos por golfe. A Dolly também joga, mas julgo que não muito bem e viram-se pela primeira vez num jogo de pares misto. Todos nós gostamos dela e estamos muito contentes. Casaram-se a onze, uns dias antes da partida do Paul. O Charles tinha imenso empenho em que o irmão fosse o seu padrinho, daí a sua grande insistência no dia onze. Os Fussell sugeriam que fosse depois do Natal, mas mostraram-se muito compreensivos. Está aí uma fotografia da Dolly, nessa moldura dupla.

- Tem a certeza de que não estou a roubar-lhe tempo, Mistress Wilcox?

- Absoluta.

- Então fico. Estou a gostar muito.

Examinava agora a fotografia de Dolly. Estava dedicada à "querida Mims", o que Mrs. Wilcox interpretava como "o nome por que ela e Charles combinaram tratar-me". Dolly tinha cara de parva e um daqueles rostos triangulares que tão frequentemente atraem os homens fortes. Era muito bonita. Dela, Margaret passou para Charles, cujas feições eram o oposto. Discorreu sobre as forças que os tinham unido até que Deus os separe. Arranjou tempo para desejar que fossem felizes.

- Foram para Nápoles em lua-de-mel.

- Felizardos!

- É-me difícil imaginar o Charles em Itália.

- Ele não gosta de viajar?

- Gosta de viajar, mas com estrangeiros não liga muito bem. O que queria verdadeiramente era dar uma volta de carro pela Inglaterra e penso que teria levado a melhor se o tempo não estivesse tão mau. O pai deu-lhe um dos seus carros como presente de casamento, está de momento guardado em Howards End.

- Têm lá uma garagem, não têm?

- Temos. O meu marido construiu uma, pequena, só no mês passado, do lado poente da casa, não longe do olmo-escocês, onde ficava o cercado do pónei.

As últimas palavras ocasionaram vagas reminiscências.

- Para onde foi o pónei? - perguntou Margaret, após uma pausa.

- O pónei? Oh, já morreu há muito!

- Do olmo-escocês, lembro-me. A Helen dizia que era uma árvore esplêndida.

- É a mais bela árvore do Hertfordshire. A sua irmã falou-lhe dos dentes?

- Não.

- Vai achar interessante. Há dentes de porco incrustados no tronco, a cerca de quatro pés da base. Os camponeses puseram-nos lá há muito tempo e acreditam que se mastigarem um bocado de casca curam a dor de dentes. Os dentes já quase não se vêem e ninguém vem à árvore.

- Ia eu. Adoro folclore e todas as superstições.

- Acha que a árvore curava mesmo as dores de dentes, se se acreditasse nisso?

- Claro que curava. Curava tudo... imediatamente.

- De facto, lembro-me de casos... Bem vê, eu vivia em Howards End muito, muito antes de Mister Wilcox lá aparecer. Nasci lá.

O rumo da conversa fora de novo desviado. Era agora mais do que uma tagarelice inconsequente. Interessou-se enquanto a sua anfitriã lhe explicou que Howards End era propriedade sua. Maçou-se quando ela lhe falou durante tempo demasiado da família Fussell, das ansiedades de Charles a propósito de Nápoles, das deslocações de Mr. Wilcox e de Evie, que andavam a passear de carro pelo Yorkshire. Margaret não suportava ser maçada. A sua desatenção crescia, brincou com a moldura da fotografia, deixou-a cair, partiu o vidro de Dolly, pediu perdão, foi perdoada, cortou o dedo, foi lastimada e finalmente declarou que tinha que se ir embora - todo o arranjo de casa estava por fazer e precisava de falar com o professor de equitação de Tibby.

Soou então, de novo, a estranha nota.

- Adeus, Miss Schlegel, adeus. Muito obrigada por ter vindo. A sua visita animou-me.

- Isso dá-me tanto prazer!

- Eu... eu pergunto-me se alguma vez pensa em si própria.

- É só no que penso - respondeu Margaret, corando, mas deixando a mão na mão da inválida.

- Tenho dúvidas. Desde Heidelberg.

- Tenho a certeza.

- Quase penso...

- Sim? - Margaret quebrava uma longa pausa, uma pausa que de certa forma se interligava com a luz vacilante da lareira, o halo do candeeiro de leitura que lhe rodeava as mãos, a mancha branca que a névoa punha na janela; uma pausa plena de sombras movediças e eternas.

- Chego a pensar que se esquece de que é uma rapariga. Margaret estava assustada e um pouco irritada.

- Tenho vinte e nove anos - observou. - Não sou uma rapariguinha ingénua.

Mrs. Wilcox sorriu.

- O que a leva a dizer isso? Acaso fui indiscreta e indelicada?

Um abanar de cabeça.

- Só quis dizer que tenho cinquenta e um anos e que para mim, ambas... leia-o num livro qualquer; não posso ser mais clara.

- Ah, percebi... inexperiência. Não sou melhor do que a Helen, na sua opinião, e apesar disso ouso dar-lhe conselhos.

- Sim, percebeu bem. Inexperiência, é a palavra.

- Inexperiência - repetiu Margaret, num tom sério e triste. É evidente que me falta aprender tudo, absolutamente tudo, tanto quanto a Helen. A vida é muito difícil e cheia de surpresas. Até aqui, já eu cheguei. Ser humilde e gentil, seguir sempre em frente, gostar das pessoas em vez de ter pena delas, pensar nos aflitos... bem, ninguém pode fazer essas coisas todas ao mesmo tempo, o que é uma sorte, tão contraditórias são. É aí que entra a harmonia... viver com harmonia. Não começar pela harmonia. Apenas os pedantes o fazem. Deixar que a harmonia venha como último recurso, quando outras coisas melhores falharam, e um beco sem saída... Deus meu, lá estou eu a fazer discursos!

- De facto, analisa esplendidamente as dificuldades da vida disse Mrs. Wilcox, recolhendo a mão a uma sombra mais profunda. - Era exactamente assim que eu própria gostaria de me ter expressado.

 

Não podemos acusar Mrs. Wilcox de dar a Margaret muitas informações sobre a vida. E Margaret, por seu turno, proporcionou um simpático espectáculo de modéstia e pretextou uma inexperiência que decerto não era sincera. Governava a casa havia mais de sete anos; recebera visitas quase com distinção; criara uma irmã encantadora e estava a criar um irmão. com certeza que, se a experiência é atingível, a atingira.

O almoço que ofereceu em honra de Mrs. Wilcox não foi, contudo, um sucesso. A nova amiga não se entendeu com as "uma ou duas pessoas deliciosas" que foram convidadas para se conhecerem e reinou uma atmosfera de educado desentendimento. Os seus gostos eram simples, a sua cultura superficial e não estava interessada no Novo Clube de Arte Inglês, nem na linha divisória entre Jornalismo e Literatura, temas que de início foram apenas uma conversa descuidada, mas na qual as pessoas deliciosas se embrenharam gritando alegremente, com Margaret à cabeça, sem, até meio da refeição, repararem que a principal convidada não tomava parte na discussão. Não havia tópicos comuns. Mrs. Wilcox, cuja vida fora vivida ao serviço do marido e dos filhos, pouco tinha a dizer a estranhos que nunca a haviam partilhado e cuja idade era metade da sua. As conversas inteligentes assustavam-na e agrediam as suas delicadas fantasias; eram o correspondente social dos automóveis, sempre aos arrancos e ela era um molhinho de feno, uma flor. Por duas vezes se lamentou do tempo, por duas vezes criticou o serviço ferroviário da Great Northern Railway. Concordaram energicamente, mergulharam a fundo no assunto e quando ela perguntou se Helen dera notícias, a dona da casa estava demasiado ocupada com Rothenstein para lhe responder. Repetiu a pergunta:

- Espero que a sua irmã tenha chegado bem à Alemanha. Margaret interrompeu-se e respondeu:

- Chegou sim, muito obrigada; deu-me notícias na terça-feira. Mas o demónio da vociferação apoderara-se dela; no minuto seguinte acrescentou:

- Só na terça-feira, porque eles vivem em Stettin. Alguma vez conheceu alguém que vivesse em Stettin?

- Nunca - respondeu com gravidade Mrs. Wilcox, enquanto o seu vizinho, um jovem funcionário do Ministério da Educação, começava a dissertar sobre o aspecto dos habitantes de Stettin. Existiria alguma coisa a que pudesse chamar-se "stettinidade"? Margaret passou impetuosamente adiante:

- A gente de Stettin mete em barcos coisas provenientes de armazéns com ar sinistro. É pelo menos o que fazem os meus primos, mas não são especialmente ricos. A cidade não tem interesse, à excepção de um relógio cujos olhos giram e da vista sobre o Oder, que é na verdade excepcional. Ah, Mistress Wilcox, a senhora ia adorar o Oder! O rio, ou rios, melhor dizendo, parece-nos haver dúzias deles, são intensamente azuis e a planície que atravessam intensamente verde.

- Ah, sim? Deve ser de facto uma paisagem belíssima, Miss Schlegel.

- É o que eu digo, mas a Helen, que baralha as coisas, diz que não, diz que é música. O curso do Oder tem que se assemelhar a música. É obrigado a recordar-lhe uma sinfonia. O trecho junto ao cais de desembarque é em si menor, se não estou em erro, mas mais abaixo as coisas ficam extremamente confusas. Há um tema em várias claves ao mesmo tempo, que são os bancos de lodo, um outro para o canal navegável e, quando desagua no Báltico, fá-lo em dó sustenido maior, pianíssimo.

- E qual é o papel dos armazéns com ar sinistro no meio disso tudo? - perguntou o homem, rindo.

- É considerável - replicou Margaret, desviando-se inesperadamente e impetuosamente do assunto de que falava. - Acho afectado comparar o Oder a música e tu também achas, mas a gente dos armazéns com ar sinistro de Stettin leva a beleza a sério, o que nós não fazemos e o que o Inglês médio não só não faz como até despreza os que o fazem. Agora não digas "os Alemães não têm gosto", ou eu desato aos gritos. Não têm. Mas... mas... que imenso mas!... levam a poesia a sério. Levam muito a sério a poesia.

- Ganha-se alguma coisa com isso?

- Sim, sim. O Alemão vive à procura da beleza. Pode não dar por ela por estupidez, ou interpretá-la mal, mas pede continuamente à beleza que entre na sua vida e acredito que acaba por consegui-lo. Conheci em Heidelberg um cirurgião veterinário, gordo, que ao recitar uma qualquer poesia insípida desatou aos soluços. Tão fácil para mim troçar, eu, que nunca digo poesia, boa ou má, que nem para meu próprio deleite consigo lembrar-me de um só excerto de um poema! Ferve-me o sangue... bem, eu sou meio alemã, levem-no à conta de patriotismo... quando vejo o desprezo de bom-tom dos insulares médios pelas coisas teutónicas, quer se trate de Bõcklin quer de um cirurgião veterinário. "Oh, Bõcklin", dizem eles, "esforça-se imenso para chegar à beleza, povoa a Natureza de deuses com demasiada minúcia." Claro que Bõcklin se esforça, porque pretende obter qualquer coisa: o belo e todos os outros dons inatingíveis dispersos pelo mundo. É por isso que as suas paisagens não são bem aceites e as de Leader sim.

- Não sei se concordo. E a senhora? - O rapaz interpelava Mrs. Wilcox.

Esta replicou:

- Acho que Miss Schlegel expõe tudo lindamente - e houve um silêncio gelado.

- Oh, Mistress Wilcox, diga qualquer coisa mais simpática do que isso! É tão humilhante ouvir dizer que expomos as coisas lindamente!

- Não pretendo humilhar. Interessou-me tanto o que disse! As pessoas, geralmente, não demonstram gostar muito da Alemanha. Há muito que espero ouvir a opinião contrária.

- Contrária? Então é porque discorda. Oh, meu Deus! Dê-nos a sua opinião.

- Eu não tenho opinião. Mas o meu marido - a voz adoçou-se-Lhe, o gelo aumentou - tem muito pouca confiança no continente e os nossos filhos pensam todos como ele.

- Por que motivo? Acham que o continente está mal?

Mrs. Wilcox não fazia a mínima ideia; prestava pouca atenção aos motivos. Não era intelectual, nem sequer interessada, e era estranho que apesar disso transmitisse uma sensação de grandeza. Margaret, ziguezagueando com os seus amigos através do Intelecto e da Arte, estava consciente de uma personalidade que transcendia a sua e apoucava as suas actividades. Não havia em Mrs. Wilcox a mínima causticidade; também não havia espírito crítico; era amorosa e nunca uma palavra desagradável ou cruel passara pelos seus lábios. Mesmo assim, ela e a vida quotidiana estavam desfocadas: alternadamente, uma delas ficava turva.

Ao almoço mostrou-se mais desfocada do que era habitual e mais perto da linha que divide a vida quotidiana da vida que se admite ser da maior importância.

- Mas admite que o continente... parece idiota dizer "o Continente", mas todo ele é mais semelhante a si próprio do que qualquer parte sua se assemelha à Inglaterra. A Inglaterra é única. Tire primeiro outra geleia. Ia eu a dizer que o continente está, para bem ou para mal, interessado em ideias. A sua literatura e a sua arte contêm em si aquilo a que pode chamar-se o fulcro do desconhecido e isso é evidente, apesar da decadência e da simulação. Há mais liberdade de acção em Inglaterra, mas para a liberdade de pensamento vão à burocrática Prússia. Aí, as pessoas discutem com simplicidade questões vitais que nós aqui mal afloramos.

- Não me apetece ir à Prússia - disse Mrs. Wilcox -, nem sequer para contemplar essa interessante paisagem que esteve a descrever. E para discutir com simplicidade sou velha de mais. Nunca discutimos nada em Howards End.

- Então deviam começar! - exclamou Margaret. - As discussões mantêm a vida numa casa. Não são só os tijolos e a argamassa que a mantêm de pé.

- Não se aguenta sem eles - contrapôs Mrs. Wilcox, com uma inexplicável compreensão da imagem e despertando, pela primeira e última vez, uma ténue esperança na alma das pessoas deliciosas. - Não se aguenta sem eles e às vezes penso... Mas não posso esperar que a vossa geração o compreenda, se mesmo o meu filho discorda de mim.

- Não nos confunda com ele. Diga!

- Às vezes penso que é mais sensato deixar para os homens a acção e a discussão.

Houve um curto silêncio.

- É admitido que os argumentos contra o sufrágio são extraordinariamente fortes - disse uma rapariga que estava sentada à sua frente, inclinando-se para diante e comprimindo o estômago.

- É? Eu nunca me cinjo a opiniões. Limito-me a sentir-me muito grata por não ter de votar.

- Não nos referíamos ao voto, creio, pois não? - corrigiu Margaret. - Será que não há diferenças num campo muito mais vasto, Mistress Wilcox? Se as mulheres devem continuar a ser o que sempre foram desde os primórdios da História; ou se, tendo os homens ido tão longe, também elas devem avançar um pouquinho. Eu acho que devem. Admitiria mesmo uma modificação biológica.

- Não sei, não sei.

- Tenho de voltar para os meus sinistros armazéns - disse o homem. - Andam indecentemente severos.

Mrs. Wilcox também se ergueu.

- Suba um bocadinho. Miss Quested vai tocar. Gosta de MacDowell? Reparou que ele só usa dois tons? Se tem mesmo de ir acompanho-a até lá fora. Nem toma um café?

Saíram da sala de jantar, fechando a porta atrás de si, e enquanto abotoava o casaco Mrs. Wilcox comentou:

- Que vida interessante levam todos em Londres!

- Não levamos, não - respondeu Margaret, numa súbita reviravolta. - Levamos uma vida de macacos titubeantes. No fundo de todos nós, pode crer, Mistress Wilcox, há algo de estável e calmo. Há mesmo. Em todos os meus amigos. Não finja que gostou do almoço, porque o abominou, mas perdoe-me se eu voltar, sozinha, ou se lhe pedir que apareça.

- Estou habituada a gente jovem. - E cada palavra de Mrs. Wilcox obscurecia os contornos das coisas conhecidas. - Eu oiço muita tagarelice em casa porque, tal como a senhora, nós recebemos muito. Connosco, são mais desportos e política, mas... Agradou-me muito o seu almoço, Miss Schlegel, e não estou a fingir; só gostava de ter participado mais. Uma das razões é não estar muito bem hoje; a outra, é que a sua gente nova é tão irrequieta que me atordoa. O Charles é igual, a Dolly também. Mas estamos todos no mesmo barco, velhos e novos. Nunca o esqueço.

Ficaram em silêncio um momento. Depois, com uma emoção nascente, apertaram as mãos. A conversa cessou de súbito e Margaret regressou à sala de jantar: os amigos tinham estado a falar da sua nova amiga e haviam mudado de tema porque esse, para eles, não tinha interesse.

 

Passaram vários dias.

Seria Mrs. Wilcox uma dessas pessoas medíocres como há muitas, que se esforçam por entrar na nossa intimidade para logo a seguir desaparecerem? Despertam os nossos desejos e afectos e embalam-nos o espírito. Depois, afastam-se. Quando há paixão física envolvida, existe uma palavra para definir esse comportamento - flirt - e se for levado demasiado longe é punível por lei. Mas não há lei - nem opinião pública - que puna os que brincam com a amizade, embora a dor aguda que infligem, a sensação de esforço vão e de fadiga possam ser igualmente intoleráveis. Seria ela uma dessas pessoas?

De início, foi o que Margaret pensou, porque, com a sua impaciência londrina, queria sempre tudo de imediato. Desconfiava dos períodos de calma essenciais para o amadurecimento da verdade. Desejando fazer de Mrs. Wilcox uma amiga, ignorou a etiqueta e, de lápis em punho, digamos assim, ignorou-a ainda mais por o resto da família estar fora e a oportunidade parecer favorável. Mas a senhora mais velha não se deixava pressionar. Recusou-se a integrar o grupo de Wickham Place ou a reabrir a discussão sobre Helen e Paul, que Margaret utilizara como pretexto. Levou o seu tempo, ou melhor, deixou que o tempo a levasse e quando a crise estoirou, estava a postos.

A crise iniciou-se com um recado: quereria Miss Schlegel ir com ela às compras? O Natal aproximava-se e Mrs. Wilcox estava atrasada com as prendas. Deixara-se ficar mais alguns dias na cama e tinha de recuperar o tempo perdido. Margaret aceitou e às onze horas de uma manhã sombria meteram-se num carro fechado.

- Primeiro que tudo - começou Margaret -, temos de fazer uma lista com os nomes das pessoas. É o que a minha tia faz sempre, e este nevoeiro pode levantar a qualquer momento. Tem alguma ideia?

- Penso que devíamos ir ao Harrod's ou aos Haymarket Stores respondeu Mrs. Wilcox, muito descoroçoada. - Há a certeza de encontrarmos de tudo lá. Não sou uma grande compradora. O barulho faz-me confusão, a sua tia está cheia, de razão... deve-se fazer uma lista. Pegue no meu bloco-notas e escreva o seu nome no topo da página.

- Céus! - exclamou Margaret, escrevendo-o. - Que amável da sua parte começar por mim!

Mas não quis uma prenda cara. O conhecimento que tinham era mais invulgar do que íntimo e ela pressentia que o clã Wilcox levaria a mal qualquer despesa com estranhos; acontece nas famílias mais unidas. Não queria que a considerassem uma segunda Helen, que apanharia os presentes já que não podia apanhar os rapazes, nem expor-se como uma segunda tia Juley, aos insultos de Charles. Uma certa austeridade de comportamento era melhor, pelo que acrescentou:

- Na realidade, não quero nenhuma prenda de Natal. Prefiro que não ma dê.

- Porquê?

- Porque tenho ideias excêntricas sobre o Natal. Porque tenho tudo o que o dinheiro pode comprar. Quero mais pessoas, mas não mais coisas.

- Gostava de lhe dar qualquer coisa à altura das nossas relações, Miss Schlegel, como recordação pela sua gentileza para comigo durante os quinze dias em que estive só. Aconteceu que fiquei sozinha e a menina impediu que me pusesse a cismar. Tenho muita tendência para cismar.

- Se é assim, se lhe fui útil, o que ignorava, não pode pagar-me com algo de palpável.

- Acho que não, mas gostaria. Talvez me ocorra qualquer coisa enquanto andamos por aí.

O seu nome manteve-se à cabeça da lista, mas nada foi inscrito à frente. Correram de loja em loja. O céu estava esbranquiçado e quando desceram do carro havia no ar um frio metálico. De vez em quando atravessavam manchas de cinzento. A vitalidade de Mrs. Wilcox estava baixa nessa manhã e foi Margaret quem decidiu que para tal menina seria um cavalo, para aqueloutra uma boneca, para a esposa do prior um tabuleiro-aquecedor de cobre.

- Aos criados damos sempre dinheiro.

- Ah, sim, dão? Sim, é muito mais fácil - comentou Margaret, mas sentiu o impacte grotesco do invisível sobre o visível e viu derramar de uma mangedoura esquecida de Belém essa torrente de moedas e brinquedos. Reinava a banalidade. Bares, além da sua exortação habitual contra a reforma abstencionista, convidavam os homens a "aderir ao nosso clube do ganso do Natal" - uma garrafa de gim, etc. ou duas, de acordo com o valor da subscrição. Um cartaz com uma mulher de fato coleante anunciava a pantomima de Natal e, uma vez mais neste ano, diabinhos vermelhos prevaleciam nos cartões de Natal. Margaret não era uma idealista mórbida. Não quereria ver diminuída esta avalancha de negócios e autopropaganda. Era apenas a época que todos os anos a deixava estupefacta. Quantos destes vendedores indecisos e clientes cansados se apercebiam de que era um acontecimento divino o que os aproximava? Ela apercebia-se, apesar de estranha ao assunto. Não era uma cristã no sentido corrente da palavra; não acreditava que Deus tivesse alguma vez trabalhado entre nós na pele de um jovem artesão. Estas pessoas, ou a maioria delas, acreditava-o e, se se insistisse com elas, afirmá-lo-iam. Mas os sinais visíveis da sua crença eram Regent Street ou Drury Lane, um bocadinho de barro deslocado, um bocadinho de dinheiro gasto, um bocadinho de comida cozinhada, comida e esquecida. Inadequado. Mas em público, quem expressará adequadamente o invisível? É a vida privada que espelha o infinito; são as relações pessoais - e só elas - que deixam entrever a personalidade existente para além da nossa visão do dia-a-dia.

- Não, eu gosto do Natal no seu todo. À sua desajeitada maneira, aproxima-se de facto da paz e da boa vontade. Mas é mais desajeitada a cada ano que passa.

- É? Só estou acostumada aos Natais da província.

- Nós, regra geral, estamos em Londres e entramos energicamente no jogo: cânticos na Abadia, almoços atabalhoados, jantar atabalhoado para as criadas, seguido da árvore de Natal e danças das crianças pobres, com canções cantadas pela Helen. A sala é muito apropriada para isso. Pomos a árvore no quarto de vestir, levantamos uma cortina quando as velas estão acesas e com o espelho por trás fica bastante bonito. Gostava que tivéssemos um quarto de vestir na nossa próxima casa. Claro que a árvore tem de ser muito pequena e os presentes não são pendurados nela. Não; os presentes estão numa espécie de planície rochosa feita de papel castanho amarrotado.

- Falou da vossa "próxima casa", Miss Schlegel. Então vão-se embora de Wickham Place?

- Vamos, daqui a dois ou três anos, quando o arrendamento expirar. Somos obrigados.

- Estão lá há muito?

- Toda a nossa vida.

- Vão ter muita pena de se ir embora.

- Penso que sim. Ainda mal nos convencemos disso. O meu pai... - Interrompeu-se, tinham chegado à secção de papelaria dos Haymarket Stores e Mrs. Wilcox queria encomendar uns cartões de boas-festas.

- Se possível, uma coisa personalizada - suspirou. Encontrou uma amiga no balcão que também andava na mesma azáfama, conversou mornamente com ela, perdendo muito tempo.

- O meu marido e a minha filha andam a viajar de automóvel.

- A Bertha também? Imagine, que coincidência!

Em tal companhia, Margaret, apesar de não ser uma pessoa prática, podia brilhar como tal. Enquanto elas tagarelavam, folheou um volume com cartões para amostra e submeteu um à apreciação de Mrs. Wilcox. Esta ficou encantada - tão original, palavras tão doces; ia encomendar um cento daqueles e estava imensamente grata. Então, precisamente quando a caixeira ia anotar a encomenda, disse:

- Sabe, vou esperar. Pensando melhor, vou esperar. Há ainda imenso tempo, não é verdade, e poderei ouvir a opinião da Evie.

Voltaram para o carro por ruas transversais; já dentro dele, perguntou:

- Mas não podem renová-lo?

- Como?

- Refiro-me ao contrato de arrendamento.

- Ah, o contrato de arrendamento! Esteve todo este tempo a pensar nisso? Que simpático da sua parte!

- Poderia com certeza fazer-se qualquer coisa.

- Não; as rendas subiram muitíssimo. Têm a intenção de deitar abaixo Wickham Place e construir um prédio de apartamentos como o seu.

- Que horror!

- Os proprietários de casas são horríveis. Então, Mrs. Wilcox disse com veemência:

- É monstruoso, Miss Schlegel; não está certo. Não tinha a menor ideia do que se passava consigo. Lamento-a do fundo do coração. Ser afastada da sua casa, da casa do seu pai... não devia ser permitido. É pior que morrer. Eu preferia morrer... ah, pobres raparigas! Como é que o que eles chamam civilização pode estar certo, se as pessoas não podem morrer no quarto onde nasceram? Lamento tanto, minha querida...

Margaret não sabia o que dizer. Mrs. Wilcox ficara extenuada pelas compras e estava inclinada à histeria.

- Howards End esteve uma vez à beira de ser demolido. Isso ter-me-ia matado.

- Howards End deve ser uma casa muito diferente da nossa. Gostamos da nossa, mas não tem nada de especial. Como viu, é uma vulgar casa londrina. Encontraremos outra facilmente.

- É o que pensa.

- De novo a minha falta de experiência, suponho! - disse Margaret, tentando aligeirar o assunto. - Não sei o que dizer quando envereda por esse caminho, Mistress Wilcox. Quem me dera ver-me como me vê, reduzida a uma rapariguinha. A perfeita ingénua. Muito atractiva, maravilhosamente culta para a minha idade, mas incapaz...

Mrs. Wilcox não se deixou desencorajar:

- Venha comigo para Howards End, agora. - E o seu tom de voz era mais veemente do que nunca. - Quero que conheça a casa. Nunca a viu. Quero ouvir a sua opinião sobre ela, expõe tudo tão bem.

Margaret relanceou o olhar pelo impiedoso tempo e depois pelo rosto fatigado da sua companheira.

- Mais tarde adoraria, mas não está tempo para uma expedição como essa e devemos começá-la quando estivermos mais frescas. E a casa não está fechada?

Não teve resposta. Mrs. Wilcox parecia aborrecida.

- Talvez possa ir noutro dia?

Mrs. Wilcox inclinou-se para a frente e bateu no vidro:

- De volta para Wickham Place, se faz favor! - foi a ordem que deu ao cocheiro. Margaret fora repreendida.

- Mil vezes obrigada, Miss Schlegel, pela sua ajuda.

- Por nada.

- É um alívio deixar de pensar nos presentes, em especial nos cartões de Natal. Admiro a sua escolha.

Foi a sua vez de não dar resposta. Agora, era Margaret quem estava zangada.

- O meu marido e Evie estarão de regresso depois de amanhã. Foi por isso que a arrastei para as compras hoje. Fiquei na cidade especialmente para as fazer, mas não fiz nada e agora ele escreve-me a dizer que têm de encurtar o passeio, o tempo está péssimo e a polícia tem sido muito dura, quase tanto como em Surrey. O nosso chauffeur é cuidadoso e o meu marido acha muito injusto que o tratem como um chauffeur incompetente.

- Porquê?

- Bem, naturalmente ele... ele não é um chauffeur incompetente.

- Depreendo que excedeu o limite de velocidade. Expõe-se a sofrer o mesmo que todo o resto da escumalha.

Mrs. Wilcox ficou silenciosa. Em crescente desconforto, voltaram para casa. A cidade exibia um ar satânico, as ruas mais estreitas oprimiam como as galerias de uma mina. O nevoeiro não impedia as compras, estava alto e as pessoas apinhavam-se diante das montras envidraçadas das lojas. Era o obscurecer do espírito que, fechando-se sobre si próprio aí encontrava uma ainda mais dolorosa escuridão. Margaret quase falou por uma dúzia de vezes, mas havia qualquer coisa que a levava a reprimir-se. Achou-se insignificante e desajeitada e os seus pensamentos sobre o Natal aumentaram de cinismo. Paz? Pode trazer outras prendas, mas haverá um só londrino para quem o Natal seja pacífico? A ânsia de excitação e de perfeição arruinavam essa bênção. Boa vontade? Acaso vira um só exemplo disso nas hordas de compradores? Ou em si própria? Só acedera ao convite por haver nele qualquer coisa de singular e por apelar à imaginação - ela, que usava o seu património para alimentar a imaginação! Teria sido preferível aceitar, cansarem-se um pouco durante o dia, a responder friamente: "Talvez possa ir noutro dia?" O cinismo abandonou-a. Não haveria outro dia. Esta mulher indecisa nunca mais a convidaria.

Separaram-se nas Mansions. Mrs. Wilcox virou costas depois das devidas civilidades e Margaret ficou a olhar a figura alta, solitária, que se arrastava pelo átrio em direcção ao elevador. Ao ver fecharem-se sobre ela as portas envidraçadas, visualizou uma prisão. Desapareceu primeiro a bonita cabeça, viu-se ainda o fofo regalo; seguiu-se a longa saia do vestido. Uma mulher de indefinível raridade subia para o céu, sugerindo um espécime dentro de um frasco. E para que céu - uma abóbada que lembrava o Inferno, enfarruscada de negro, que a fuligem ia cobrindo!

Ao almoço, o irmão, vendo-a inclinada ao silêncio, insistiu em falar. Tibby não tinha mau feitio, mas desde a meninice que a mais pequena coisa o levava a atitudes importunas e inesperadas. Relatava-lhe agora em pormenor o seu dia de escola, da qual era frequente falar com ares de superioridade. O relato era interessante e já anteriormente ela o incitara muitas vezes a fazê-lo, mas hoje não lhe prestava atenção porque o seu espírito estava longe. Descobria que Mrs. Wilcox, embora mãe e esposa dedicada, tinha uma única paixão na vida - a sua casa - e que fora solene o momento em que convidara uma amiga a partilhar consigo essa paixão. Responder "fica para outro dia" era dar uma resposta idiota. "Outro dia" estava bem para tijolos e argamassa, mas não para o Santo dos Santos em que Howards End fora transfigurada. A sua curiosidade era mínima. Ouvira mais do que o suficiente sobre a casa, no Verão. As nove janelas, a trepadeira e o olmo-escocês não tinham para si conexões agradáveis e teria preferido passar a tarde num concerto. Mas a imaginação triunfou. Enquanto o irmão perorava, decidiu ir, a todo o custo, e obrigar Mrs. Wilcox a ir também. Acabado o almoço, foi aos apartamentos.

Mrs. Wilcox acabara de sair e passaria a noite fora.

Margaret disse que não tinha importância, desceu as escadas a correr e tomou um cabriolé para King's Cross. Sentia que a sua ida era importante, embora não soubesse dizer porquê. Tinha a ver com prisão e fuga e, apesar de não saber a hora do comboio, ergueu os olhos para o relógio de St. Pancras.

Avistou depois o relógio de King's Cross, uma segunda lua no céu infernal, e o carro parou na estação. Havia um comboio para Hilton daí a cinco minutos. Comprou um bilhete, pedindo, tão agitada estava, um só de ida. Quando o fazia, uma voz grave e feliz saudou-a e agradeceu-lhe.

- Vou, se é que ainda posso - disse Margaret, rindo nervosamente.

- Vem e passa também a noite, querida. É de manhã que a minha casa é mais bonita. Vem para ficar. Só posso mostrar-lhe o meu campo como deve ser ao nascer do Sol. Estes nevoeiros - apontou para o telhado da estação - nunca se dissipam. Atrevo-me a dizer que vão apanhar sol para Hertfordshire e nunca se arrependerá de ir ter com eles.

- Nunca me arrependerei de ir ter consigo.

- É o mesmo.

Começaram a andar ao longo da plataforma. Ao fundo, longe, o comboio enfrentava a escuridão do exterior. Nunca o alcançariam. Antes que essa ideia se impusesse, ouviu-se gritar: "Mãe! Mãe!" e uma rapariga de sobrolho franzido precipitou-se, vinda da sala de espera, e agarrou Mrs. Wilcox por um braço.

- Evie! - sobressaltou-se ela. - Evie, minha gatinha... A rapariga chamou:

- Pai! Olhe! Veja quem está aqui!

- Evie, minha querida, porque é que não estão em Yorkshire?

- Não... um acidente com o carro... mudámos de planos... o pai vem aí.

- Olha, a Ruth! - gritou Mr. Wilcox, juntando-se-lhes. - O que fazes tu aqui, Ruth?

Mrs. Wilcox já se recompusera.

- Oh, Henry querido! Que óptima surpresa... deixa-me apresentar... mas acho que conheces Miss Schlegel.

- Conheço, sim - confirmou ele, sem grande interesse. - E tu como vais, Ruth?

- Sã como um pêro - respondeu esta, alegremente.

- Também nós, e o nosso carro também estava, porque fez a Al até Ripon, mas aí um miserável de um cavalo e uma carroça com um doido de um carroceiro...

- Miss Schlegel, o nosso passeio tem de ficar para outro dia.

- Estava eu a dizer que aquele doido do carroceiro, como o próprio polícia admite...

- Para outro dia, Mistress Wilcox. Claro.

- Mas como estamos seguros contra terceiros, não vai ter grande importância...

- Carroça e carro fazendo praticamente um ângulo recto...

As vozes da feliz família soavam alto. Margaret ficou só. Ninguém a queria. Mrs. Wilcox saiu de King's Cross entre o marido e a filha, acolhendo ambos.

 

O funeral terminara. As carruagens tinham-se afastado rodando na terra macia; só os pobres permaneciam. Aproximaram-se da cova recém-aberta e deitaram um derradeiro olhar ao caixão, agora quase invisível sob as pazadas de terra. Era a hora deles. A maior parte eram mulheres da terra da falecida, às quais fora distribuído vestuário preto por ordem de Mr. Wilcox. Pura curiosidade trouxera outros. Vibravam com a excitação de uma morte, e uma morte rápida, e juntavam-se em grupos ou espraiavam-se por entre as campas, como pingos de tinta. O filho de uma das mulheres, um podador, empoleirado acima das suas cabeças, cortava os ramos de um dos olmos do adro. De onde estava podia ver a aldeia de Hilton e os seus subúrbios, estendendo-se ao longo da North Road; em fundo, o pôr do Sol escarlate e laranja, piscando-lhe o olho sob sobrancelhas de cinzentos; a igreja; os campos semeados e por detrás, uma região bem cuidada, com campos e quintas. Mas também ele saboreava voluptuosamente o acontecimento. Tentou dizer à mãe, lá em baixo, tudo o que não dissera quando viu o caixão aproximar-se: como não podia deixar o seu trabalho e como, no entanto, não gostava de estar a fazê-lo; como quase caíra da árvore, tal era a sua perturbação; as gralhas tinham grasnado e não fora por milagre - era como se as gralhas também soubessem. A mãe havia clamado que era um poder profético - vira um olhar estranho em Mrs. Wilcox durante algum tempo. Londres é que lhe fizera mal, diziam outros. Era uma senhora amável; também a sua avó o fora - uma pessoa simples, mas muito amável. Ah, a gente antiga estava a acabar! E Mr. Wilcox, esse, era um cavalheiro cortês. Repisavam o tema vezes sem conta, estupidamente, mas com exaltação. O funeral de um rico correspondia, para eles, ao funeral de Alceste ou de Ofélia para os intelectuais. Era Arte; embora estranho à vida, enaltecia os valores dessa mesma vida, pelo que o seguiam com avidez.

Os coveiros, que no íntimo desaprovavam, antipatizavam com Charles - não era o momento para falar dessas coisas, mas não gostavam de Charles Wilcox -, acabaram o seu trabalho e empilharam por cima da sepultura as coroas e as cruzes. O Sol declinava sobre Hilton; os cinzentos acastanhados da tarde fulgiram por um momento, uma mancha escarlate absorveu-os. Tagarelando tristemente uns com os outros, os acompanhantes atravessaram o portão do cemitério e a avenida de castanheiros que conduzia à aldeia. O jovem podador ficou um pouco mais, suspenso sobre o silêncio, serrando ritmicamente. O ramo caiu enfim. Desceu, gemendo, sem já pensar na morte, mas sim no amor. Tinha uma companheira. Parou ao passar pela nova campa; um ramo de crisântemos rubros chamou-lhe a atenção. "Não devia haver flores coloridas nos enterros", reflectiu. Arrastou-se uns passos mais, parou de novo, olhou furtivamente através do escuro, retrocedeu, arrancou um crisântemo do ramo e escondeu-o no bolso.

Depois da sua passagem, o silêncio tornou-se absoluto. A casita que confinava com o adro da igreja estava vazia e não havia nenhuma outra perto. Hora após hora, o cenário do enterro não teve quem o observasse. Sobre ele amontoavam-se as nuvens, vindas de oeste - ou a igreja poderia ter sido um navio, de proa erguida, navegando com os seus companheiros rumo ao infinito. Perto do amanhecer o ar tornou-se mais frio, o céu mais claro, a superfície da terra mais dura e cintilante sobre os mortos prostrados. O podador, de regresso depois de uma noite de prazer, reflectiu: "Lírios, crisântemos; que pena não os ter levado todos."

Em Howards End, era o pequeno-almoço. Charles e Evie estavam na sala de jantar, com a mulher de Charles. O pai, que não suportava ver ninguém, tomava-o lá em cima. Sofria atrozmente. A dor atingira-o por espasmos, como se fosse física, e até ao levar a comida à boca se lhe enchiam os olhos de lágrimas e voltava a pousar o bocado, intacto.

Recordava a bondade da mulher durante trinta anos. Nenhum pormenor em especial - nada de galanteios ou arrebatamentos -, apenas a sua inalterável bondade, que se lhe afigurava a mais nobre qualidade de uma mulher. Há tantas mulheres caprichosas, que oscilam entre torrentes de paixão e torrentes de frivolidade! A sua não era assim. Ano após ano, Verão e Inverno, quer como noiva ou como mãe, fora sempre a mesma, sempre confiara nela. A sua ternura! A sua inocência! A encantadora inocência com que Deus a dotara. Ruth não conhecia da perversidade e da sabedoria do mundo mais do que as flores do seu jardim ou a relva dos seus campos. A sua noção dos negócios - "Henry, porque é que as pessoas que têm dinheiro suficiente se esfalfam para conseguir mais dinheiro?" A sua noção da política - "Tenho a certeza de que se as mães de várias nações pudessem reunir-se, não haveria mais guerras." A sua noção da religião - ah, isso fora uma nuvem, mas uma nuvem passageira. Provinha de uma família quaker e ele e os seus, anteriormente dissidentes, eram agora membros da Igreja Anglicana. Inicialmente, rejeitara os sermões do pastor e expressara o desejo de "um esclarecimento mais elevado", acrescentando "não tanto por mim, mas pelo bebé" (Charles). O esclarecimento mais elevado fora-lhe decerto prestado, porque ele deixara de ouvir queixas nos últimos anos. Criaram os três filhos sem discussões. Nunca discutiram.

Agora, está debaixo da terra. Partira e, como se quisesse acrescentar mais amargura à sua partida, partira sob um véu de mistério que não era nada característica sua. "Porque não me disseste que sabias?", lamentara-se ele, ao que ela respondera, na sua voz débil: "Não quis, Henry... podia estar enganada... e toda a gente odeia a doença." O horror fora-lhe comunicado por um médico estranho que consultara quando ele estivera ausente da cidade. Teria sido justo? Morrera, sem uma explicação pormenorizada. Fora um erro da sua parte e - as lágrimas inundavam-lhe os olhos - que ínfimo erro! Enganara-o uma única vez, em trinta anos.

Ergueu-se e olhou pela janela, porque Evie chegara com as cartas e ele não podia encarar ninguém. Ah, sim, fora uma boa esposa, fora firme. Escolheu a palavra deliberadamente. Firmeza: era para ele o elogio máximo.

Também ele, a olhar fixamente o jardim invernoso, tem toda a aparência de um homem firme. Não tem o rosto tão quadrado como o do filho, o seu é ligeiramente recuado e os lábios, ambíguos, são sombreados por um bigode. Mas não dá qualquer sinal exterior de fraqueza. Os olhos, embora capazes de ternura e amizade, embora de momento vermelhos do choro, são olhos de alguém que não se deixa conduzir. Também a testa, tal como a de Charles. Alta e direita, morena lisa, fundindo-se abruptamente nas têmporas e no crânio, era como que um bastião que protegesse do mundo a cabeça. Por vezes, era apenas uma parede nua. Habitara por detrás dela, intacto e feliz, cinquenta anos.

- Chegou o correio, pai - disse Evie, embaraçada.

- Obrigado. Põe-no aí.

- O pequeno-almoço estava bom?

- Estava, obrigado.

A rapariga olhou para ele e para o pequeno-almoço, constrangida. Não sabia o que fazer.

- O Charles pergunta se quer o Times.

- Não, leio-o mais tarde.

- Toque se precisar de alguma coisa, sim, pai?

- Tenho tudo o que me é preciso.

Depois de separar as cartas das circulares, Evie voltou para a sala de jantar.

- O pai não comeu nada - disse, sentando-se, com o sobrolho franzido, perto do bule.

Charles não respondeu, mas passado um momento subiu rapidamente as escadas, abriu a porta e declarou:

- Oiça, pai, o pai tem de comer, bem sabe.

E, após uma pausa para a resposta que não veio, voltou para baixo.

- Vai ler primeiro a correspondência, julgo eu - disse evasivamente. - com certeza que toma o pequeno-almoço depois.

Pegou no Times e por algum tempo não se ouviu qualquer som para além do tilintar da chávena contra o pires ou da faca no prato.

A pobre Mrs. Charles sentava-se entre os seus silenciosos companheiros, aterrorizada pelo curso dos acontecimentos e algo aborrecida. Era uma criaturinha insignificante e sabia-o. Um telegrama arrastara-a de Nápoles para junto do leito de morte de uma mulher que mal conhecera. Uma palavra do marido mergulhara-a num luto. De todo o coração desejava participar nesse luto, mas teria preferido que Mrs. Wilcox, já que fadada para morrer, tivesse falecido antes do casamento, porque assim haveria menos a esperar da sua parte. Partindo a torrada e demasiado nervosa para pedir a manteiga, manteve-se quase imóvel, dando graças por o sogro estar a tomar o pequeno-almoço no andar de cima.

Charles falou, enfim, dirigindo-se à irmã:

- Não tinham nada que estar a podar aqueles olmos, ontem.

- De facto, não.

- Tenho de protestar - continuou ele. - Surpreende-me que o pastor consentisse.

- Talvez o pastor não tenha nada a ver com isso.

- Então, quem?

- Talvez o fidalgo.

- Impossível.

- Manteiga, Dolly?

- Muito obrigada, Evie. Charles... - Sim, querida?

- Não sabia que os ulmeiros se podavam. Julgava que só se podavam salgueiros.

- Ah, não, também se podam olmos.

- Então porque é que os ulmeiros do adro da igreja não deviam ser podados?

Charles franziu levemente o sobrolho e de novo se dirigiu à irmã:

- Outra coisa. Tenho de falar ao Chalkeley.

- Sim, com certeza; tens de te queixar ao Chalkeley.

- Não adianta ele dizer que não é responsável por aqueles homens. É responsável.

- Claro que é.

Irmão e irmã não eram insensíveis. Falavam deste assunto em parte por desejarem ver Chalkeley à altura da situação - um desejo a seu modo salutar - e em parte porque evitavam a nota pessoal da vida. Todos os Wilcox agiam assim. Não lhes parecia de importância suprema. Ou talvez Helen estivesse certa: compreendiam a sua importância, mas temiam-na. Pânico e vazio. Não eram insensíveis e abandonaram a mesa do pequeno-almoço com o coração oprimido. A mãe nunca estivera presente ao pequeno-almoço. Era nas outras salas, e em especial no jardim, que sentiam a sua ausência. Enquanto se dirigia para a garagem, Charles recordava a cada passo a mulher que o amara e que nunca poderia ser substituída. Quantas batalhas travara contra o seu dócil conservadorismo! Como lhe desagradavam os melhoramentos e, no entanto, com que lealdade os aceitara quando concluídos! Ele e o pai, que problemas tinham tido para conseguir esta garagem! Quão difícil fora persuadi-la a ceder-lhes o cercado dos cavalos para a construir - o cercado, de que ela gostava ainda mais do que do jardim! A trepadeira, ela levara a sua avante com a trepadeira. Continuava a atravancar a parede do lado sul com os seus improdutivos ramos. E no mesmo pensava Evie, enquanto falava com a cozinheira. Embora pudesse ocupar-se do trabalho da mãe dentro de casa, tal como os homens seguiriam em frente aceitando a sua falta, sentia que qualquer coisa insubstituível desaparecera da sua vida. A mágoa de ambos, embora menos pungente do que a do pai, tinha raízes mais fundas, porque uma esposa pode ser substituída: uma mãe, nunca.

Charles devia voltar para o escritório. Pouco havia a fazer em Howards End. Conheciam há muito as disposições do testamento da mãe. Não havia legados, anuidades, nenhuma dessas azáfamas póstumas com as quais alguns mortos prolongam a sua actividade. Confiando no marido, deixara-lhe tudo sem restrições. Era uma pobre mulher tranquila - a casa fora o seu único dote e a casa passaria para Charles a seu tempo. Mr. Wilcox tinha a intenção de reservar as suas aguarelas para Paul, ao passo que Evie ficaria com as jóias e as rendas. com que simplicidade deslizara para fora da vida! Charles achava louvável a maneira como o fizera, embora não tencionasse adoptá-la para si, enquanto que Margaret a teria visto como uma quase culposa indiferença para com a fama terrena. O cinismo - não o cinismo superficial, que é crítica e escárnio, mas o cinismo em que há cortesia e ternura - era essa a nota do testamento de Mrs. Wilcox. Não quisera vexar ninguém. Alcançado esse objectivo, a terra podia gelar por cima do seu corpo para todo o sempre.

Não, Charles não tinha razão alguma para se demorar. Não podia prosseguir a sua lua-de-mel, por isso iria para Londres e para o trabalho - andar para ali às voltas afigurava-se-lhe desprezível. Ele e Dolly iriam para o apartamento mobilado, o pai ficaria tranquilamente no campo com Evie. Ocupar-se-ia também da sua pequena casa, que estava a ser pintada e decorada nos subúrbios, em Surrey, e na qual esperava instalar-se logo depois do Natal. Sim; iria a seguir ao almoço no seu novo carro e os criados da cidade, que tinham vindo para o funeral, regressariam de comboio.

Encontrou o chauffeur do pai na garagem, cumprimentou: "dia", sem olhar o homem, e, inclinando-se sobre o seu carro, exclamou:

- Esta agora! Andaram com o meu carro novo!

- Andaram, senhor?

- Andaram - afirmou Charles, muito vermelho - e quem quer que fosse não o limpou como deve ser, tem lama no eixo. Tire-a.

Sem dizer nada, o homem foi buscar um trapo. Era um chauffeur tão feio como cheio de defeitos - não que prestasse maus serviços a Charles, a quem um homem tão parvo agradava e depressa se livrara do italiano que tinham tido primeiro.

- Charles... - Atrás dele, a noiva escorregava na geada, uma graciosa coluna negra tendo por capitel o pequeno rosto, encimado pelo complicado chapéu matinal.

- Um momento, estou ocupado. Bem, Grane, quem o guiou, faz ideia?

- Não sei, de verdade, senhor. Ninguém o guiou desde que eu cheguei, mas estive de facto ausente quinze dias com o outro carro, em Yorkshire.

A lama saiu com facilidade.

- Charles, o teu pai desceu. Qualquer coisa se passou. Quer-te em casa imediatamente. Oh, Charles!

- Espera, querida, espera um minuto. Quem tinha a chave da garagem enquanto esteve fora, Grane?

- O jardineiro, senhor.

- Está a querer dizer-me que o velho Penny sabe guiar?

- Não, senhor; ninguém saiu com o carro.

- Então como explica a lama no eixo?

- Claro que não posso dizer nada quanto ao tempo em que estive em Yorkshire. Já não há lama, senhor.

Charles estava vexado. O homem tratava-o como se ele fosse parvo e se não estivesse com o coração tão oprimido contaria tudo ao pai. Mas aquela não era uma manhã para queixas. Ordenando que lhe preparasse o carro para depois do almoço, juntou-se à mulher, que passara o tempo todo a contar uma história qualquer incoerente sobre uma carta e uma Miss Schlegel.

- Agora, Dolly, posso prestar-te atenção. Miss Schlegel? O que quer ela?

Quando alguém escrevia uma carta, Charles perguntava sempre o que queria esse alguém. Querer era para ele a única causa para agir. E neste caso a pergunta estava certa, porque a esposa respondeu:

- Quer Howards End.

- Howards End? Grane, agora não se esqueça de pôr o volante Stepney.

- Não, senhor.

- Bem, veja se não se esquece porque em... Anda, noivinha. Quando ficaram fora do alcance das vistas do chauffeur, passou o braço pela cintura da mulher e apertou-a contra si. Todo o seu afecto e metade da sua atenção - era o que lhe garantia para a sua feliz vida conjugal.

- Mas tu não ouviste, Charles...

- O que há?

- Estou a dizer-te... Howards End. Miss Schlegel recebeu-a.

- Recebeu o quê? - Charles soltou-a. - Que raio estás tu para aí a dizer?

- Não, Charles, tu prometeste não dizer essas grosserias.

- Agora não estou com paciência para patetices. Nem esta é a manhã adequada para elas.

- Estou a dizer-te... continuo a dizer-te... Miss Schlegel... recebeu-a... a tua mãe deixou-lha... e toda a vossa família tem de partir!

- Howards End?

- Howards End! - gritou ela, imitando-o, e enquanto o fazia apareceu Evie, precipitando-se por cima dos arbustos.

- Dolly, volta para casa imediatamente! O meu pai está muito aborrecido contigo! Charles - estava ferozmente magoada -, vai já ter com o pai. Recebeu uma carta horrível.

Charles começou a correr, depois conteve-se e percorreu devagar o carreiro ensaibrado. Ali estava a casa, as nove janelas, a trepadeira estéril. Exclamou:

- Outra vez as Schlegel! - e, como que a completar o caos, Dolly disse:

- Ah, não, foi a directora da casa de saúde quem escreveu.

- Venham cá, todos três! - gritou o pai, que saíra da sua inércia. - Dolly, porque é que me desobedeceu?

- Oh, Mister Wilcox...

- Eu disse-lhe que não fosse à garagem. Ouvi-os a todos aos gritos no jardim. Não quero isso. Venham.

Estava na varanda, transtornado, as cartas na mão.

- Para a sala de jantar, todos. Não podemos discutir assuntos particulares no meio dos criados. Isto, Charles, isto; lê estas cartas. Vê com os teus próprios olhos.

Charles pegou nas duas cartas e leu-as em sequência. A primeira era uma carta da directora. Mrs. Wilcox exprimira o desejo de que, depois do funeral, fosse enviada a carta. A "carta inclusa" era da mãe. Escrevera: "Para o meu marido: gostava que Miss Schlegel (Margaret) ficasse com Howards End."

- Creio que vamos conversar sobre o assunto? - observou agoirentamente calmo.

- É evidente. Ia ter contigo quando a Dolly...

- bom, sentemo-nos.

- Anda Evie, não percas tempo. Senta-te.

Em silêncio, dirigiram-se para a mesa do pequeno-almoço. Os acontecimentos da véspera - aliás, dessa manhã - recuaram subitamente para um passado tão remoto que mal tinham consciência de tê-los vivido. Ouviam-se as suas respirações profundas. Tentavam acalmar-se. Charles, para que depois se mantivessem tranquilos, começou, em voz bem alta:

- Uma nota escrita à mão pela minha mãe, num sobrescrito endereçado ao meu pai, selado. Dentro: "Gostava que Miss Schlegel (Margaret) ficasse com Howards End." Sem data, sem assinatura. Remetida por intermédio da directora da casa de saúde. Agora, a questão é...

Dolly interrompeu-o:

- Eu digo que essa nota não é legal. Assuntos de casas devem sem dúvida ser tratados com um advogado, Charles.

O marido cerrou os maxilares com severidade. Surgiram pequenas protuberâncias junto das orelhas - um sintoma que ela não aprendera ainda a respeitar, pelo que lhe perguntou se podia ver a nota. Charles olhou para o pai, à procura de autorização, e este disse, abstracto:

- Dá-lha.

Ela pegou-lhe e exclamou de imediato:

- O quê, está escrita a lápis! É o que eu disse. O lápis não conta!

- Nós sabemos que não tem valor legal, Dolly - disse Mr. Wilcox. - Temos conhecimento disso. Legalmente, teria justificação para a rasgar e atirar ao lume. É evidente, minha querida, que a consideramos um membro da família, mas seria melhor que não interferisse no que não compreende.

Charles, irritado tanto com o pai como com a mulher, repetiu então:

- A questão é...

Limpara de facas e pratos uma parte da mesa para assim poder fazer desenhos na toalha.

- A questão é se Miss Schlegel, durante a quinzena em que estivemos todos fora, se indevidamente ela... - Calou-se.

- Penso que não - disse o pai, por natureza mais nobre do que o filho.

- Pensa que não, o quê?

- Que ela tivesse... que se trate de uma influência indevida. Não, em minha opinião, a questão é... as condições da doente, no momento em que escreveu.

- Meu querido pai, consulte um perito se quiser, mas eu não admito que tenha sido escrito pela minha mãe.

- O quê? Tu acabaste de dizer que era! - gritou Dolly.

- Não interessa o que eu tenha dito - retorquiu irritado - e tem tento na língua.

A pobre esposazinha corou e, tirando o lenço do bolso, limpou as lágrimas. Ninguém deu por isso. Evie amuara como um garoto zangado. Os dois homens assumiam aos poucos o comando da reunião da sala. Ambos estavam como peixes na água quando participavam em reuniões. Não cometeram o erro de tratar um assunto humano no seu conjunto, antes o analisaram ponto por ponto, com toda a atenção. A caligrafia era o ponto agora em estudo e a seu respeito deram voltas aos seus bem treinados miolos. Charles, após uma pequena hesitação, deu a escrita por autêntica e passaram ao ponto seguinte. É o melhor - talvez o único - caminho para escapar às emoções. Tivessem eles seguido o comportamento humano médio e considerado a nota como um todo e teriam ficado tristíssimos ou fora de si. Considerada ponto por ponto, o seu conteúdo emocional era minimizado e tudo prosseguia sem sobressaltos. O relógio marcava o tempo, do carvão saltavam altas labaredas, rivalizando com o esplendor branco que entrava em torrentes pelas janelas. Despercebido, o Sol ocupava o seu céu e as sombras dos troncos das árvores, extremamente sólidos, eram trincheiras purpúreas abertas no prado que a neve embranquecera. Uma gloriosa manhã de Inverno. O fox-terrier de Evie, que passava por branco, era agora apenas um sujo cão cinzento, tão intensa a alvura que o cercava. Estava desacreditado, mas os pássaros pretos que perseguia reluziam num negro árabe, porque todo o colorido convencional da vida se alterara. Dentro de casa, o relógio bateu as dez num tom forte e seguro. Outros relógios o confirmaram e a discussão aproximou-se do fim.

É desnecessário segui-la. Há um momento preciso em que o comentador deve passar adiante. Deveriam os Wilcox ter oferecido a sua casa a Margaret? Penso que não. O apelo era muito inconsistente. Não era legal, fora escrito durante uma doença e sob o encantamento de uma amizade súbita, era contrário às intenções da morta no passado, contrário à sua real maneira de ser, tanto quanto eles entendiam de maneiras de ser. Para eles, Howards End era uma casa: não podiam saber que para ela fora um espírito, pelo que idealizara um herdeiro espiritual. E - avançando um passo nesta penumbra - será que não terão decidido ainda melhor do que supunham? É crível que os bens espirituais possam de alguma forma ser legados? Há descendência para a alma? Um olmo-escocês, uma trepadeira, um feixe de feno orvalhado - pode a paixão por tais coisas ser transmitida sem que haja um laço de sangue? Não; os Wilcox não são censuráveis. O problema é por de mais terrível e eles nem sequer eram capazes de se aperceber do problema. Não; é natural e adequado que após o devido debate tenham rasgado a nota e a tenham atirado para a lareira da sala de jantar. O moralista prático pode absolvê-los totalmente. Aquele que vê mais longe pode também absolvê-los - quase. Porque subsiste um dado importante. Negligenciaram um apelo pessoal. A mulher que morrera disse-lhes de facto: "Façam-no" e eles responderam: "Não o faremos."

O incidente causou-lhes a mais dolorosa impressão. O pesar instalou-se-lhes no cérebro e aí deu início a um trabalho inquietante. Na véspera tinham lamentado: "Era uma mãe maravilhosa, uma esposa fiel, na nossa ausência negligenciou a sua saúde e morreu." Hoje, pensavam: "Não era tão fiel, nem tão maravilhosa, como supúnhamos." O desejo de um maior conhecimento íntimo tomara finalmente corpo, o desconhecido embatera no conhecido e a palavra que lhes ocorria era: "Traição." Mrs. Wilcox traíra a família e as leis da propriedade através do que escrevera. Como poderia ela esperar que Howards End fosse cedida a Miss Schlegel? Devia o marido, a quem a casa legalmente pertencia, entregar-lha a título de oferta? Teria a dita Miss Schlegel um interesse vital nela, ou em possuí-la? Não haveria uma compensação para a garagem e outros melhoramentos que haviam sido efectuados na convicção de que um dia lhes pertenceria? Traição! Traição e absurdo! Quando achamos um morto traidor e absurdo, estamos no bom caminho para nos reconciliarmos com a sua partida. Aquela nota, rabiscada a lápis, remetida pela directora da casa de saúde, era tão contrária à praxe como cruel, e diminuía de imediato o valor da mulher que a escrevera.

- Bem! - comentou Mr. Wilcox, levantando-se. - Nunca teria acreditado que isto fosse possível.

- A mãe não podia tê-lo pensado. - Evie continuava amuada.

- Não, minha filha, claro que não.

- A mãe era tão agarrada aos antepassados... Não é dela, deixar tal coisa a uma estranha que não saberia nunca apreciá-la.

- Nada é dela, nesta história toda - sublinhou o pai. - Se Miss Schlegel fosse pobre, se precisasse de uma casa, eu ainda conseguiria perceber. Mas ela tem uma casa sua. Para que quereria outra? Não saberia o que fazer de Howards End.

- Isso é o que o tempo provará - murmurou Charles.

- Como? - interrogou a irmã.

- Presumivelmente, ela está a par da situação, a mãe deve ter-Lhe dito. Foi vê-la duas ou três vezes à casa de saúde. Presumivelmente, aguarda o desenrolar dos acontecimentos.

- Que mulher horrorosa!

E Dolly, que se recompusera, gritou:

- Céus, ela pode estar a caminho para nos pôr na rua! Charles tranquilizou-a:

- Quem me dera que estivesse - disse. - Permitir-me-ia tratar o caso com ela. - O tom da sua voz era de mau agoiro.

- Eu também poderia fazê-lo - ecoou o pai, friamente. Charles fora muito amável ao ocupar-se do funeral e ao incitá-lo a tomar o pequeno-almoço, mas ao crescer o rapaz tornara-se um bocado ditatorial e tomava as rédeas depressa de mais. - Eu poderia tratar com ela, se ela viesse, mas não vem. És um bocado duro em relação a Miss Schlegel.

- Aquele caso do Paul foi bastante escandaloso, convenhamos.

- Não quero voltar a ouvir falar no caso do Paul, Charles, já o disse em tempos e, aliás, não tem nada a ver com este assunto. Margaret Schlegel tem sido uma intromissão e uma maçada durante esta péssima semana e fez-nos sofrer a todos, mas é honesta, digo-o em consciência. Não está de conluio com a directora. Tenho a certeza absoluta. Nem o estava com o médico, também tenho a certeza. Não nos escondeu nada, estava tanto na ignorância dos factos como nós, até esta tarde. Foi um joguete, tal como nós. - Fez uma pausa. No seu terrível sofrimento, a tua pobre mãe pôs-nos a todos numa falsa posição, Charles. O Paul não devia ter deixado a Inglaterra, tu não devias ter ido para Itália, nem a Evie e eu para o Yorkshire, se tivéssemos sabido. Pois bem, a posição de Miss Schlegel foi igualmente falsa. Bem vistas as coisas, não se saiu mal dela.

Evie interveio:

- Mas aqueles crisântemos...

- Ou mesmo ter vindo ao funeral - acentuou Dolly.

- Porque não havia de vir? Tinha direito a isso e deixou-se ficar atrás, no meio das mulheres de Hilton. As flores... claro que nós não teríamos enviado flores daquelas, mas devem ter-lhe parecido a ela as mais adequadas, Evie, e não sabes se será esse o costume na Alemanha.

- Ah, esqueci-me de que ela não é realmente inglesa. Isso explica muitas coisas.

- É cosmopolita - disse Charles, olhando para o relógio. - Admito que sou severo para com os cosmopolitas. Um erro meu, sem dúvida. Não consigo suportá-los e uma alemã cosmopolita é o máximo. Acho que o assunto está encerrado, não? Quero ir ver o Chalkeley. Pode ser de bicicleta. E a propósito: gostava que falasse com o Grane, quando puder. Tenho a certeza de que saiu com o meu carro.

- Estragou alguma coisa?

- Não.

- Nesse caso, deixa. Não vale a pena arranjar uma discussão.

Charles e o pai discordavam por vezes. Mas separavam-se sempre com maior consideração um pelo outro e era indubitável que se uniam com prazer quando se revelava necessário sair um pouco da rota das emoções. Tal como os marinheiros de Ulisses viajaram para longe das sereias, tendo previamente tapado com algodão os ouvidos uns aos outros.

 

Charles não teria precisado de ficar ansioso, pois Miss Schlegel jamais ouvira falar no estranho pedido de sua mãe. Iria ouvir passados anos, seguira entretanto a sua vida outros caminhos; e nessa altura, o que ouvirá irá encaixar-se no todo, como um remate final. De momento, tinha outros problemas na cabeça e também ela o teria rejeitado, considerando tratar-se de uma fantasia de doente.

Separara-se desses Wilcox pela segunda vez. Paul e a mãe, ondulação leve e vaga alterosa, haviam afluído à sua vida e dela haviam retirado para sempre. A ondulação não deixara rasto; a vaga espalhara a seus pés salpicos de mistério. Observadora curiosa, mantivera-se algum tempo à beira-mar, que pouco diz mas diz um pouco, contemplando o refluir dessa última e tremenda maré. A sua amiga desaparecera em agonia, mas não, acreditava-o, de forma degradante. O seu desaparecimento sugeria outras coisas, para além de doença e dores. Há os que deixam esta vida com lágrimas, outros com uma frieza insana; Mrs. Wilcox optara pelo meio-termo, o que só os mais excepcionais conseguem. Respeitara o equilíbrio. Contara aos amigos um pouco do seu impiedoso segredo, mas não de mais; calara o coração, quase, mas não totalmente. Era assim, se existisse uma regra, que devíamos morrer: não como vítimas nem como fanáticos, mas sim como o marinheiro que saúda de igual forma a incógnita em que vai penetrar e a costa da qual vai afastar-se.

A última palavra - fosse ela qual fosse - não fora decerto dita no adro da igreja de Hilton. Não fora aí que ela morrera. Um funeral não é a morte, tal como o baptismo não é o nascimento, ou um casamento a união. Os três actos são invenções toscas, ora tardias, ora prematuras, através das quais a sociedade regista as rápidas alterações da vida. Aos olhos de Margaret, Mrs. Wilcox escapara ao registo. Partira da vida com vida, à sua própria maneira, e pó algum era mais pó do que o contido na pesada urna descida com cerimonial até se juntar ao pó da terra, flores nenhumas mais completamente desperdiçadas do que os crisântemos que a geada decerto queimara antes do amanhecer. Margaret dissera uma vez que "gostava da superstição". Não era verdade. Poucas mulheres tentaram mais seriamente perscrutar a concreção do corpo com a alma. Nisso, a morte de Mrs. Wilcox ajudara-a. Viu um pouco mais claramente do que até aí o que é um ser humano e ao que pode aspirar. A amizade verdadeira ganhou esplendor. Talvez a última palavra fosse esperança - esperança mesmo do lado de lá da sepultura.

Entretanto, interessava-se pelos sobrevivos. Apesar das suas dúvidas sobre o Natal, apesar do irmão, os Wilcox continuavam a ocupar uma parte considerável dos seus pensamentos. Vira tantos, na última semana! Não eram o "seu género", eram demasiado desconfiados e estúpidos - e incompetentes naquilo em que ela era excelente; mas o choque com eles estimulava-a e o interesse que lhe mereciam aproximava-se da amizade, mesmo em relação a Charles. Queria protegê-los e muitas vezes pensou que eles a protegeriam, superiorizando-se nos pontos em que ela era incompetente. Uma vez passadas as emoções que actuam como refúgio, souberam tão bem o que fazer, a quem mandar chamar; trataram de tudo, a coragem que tiveram igualou a sua dor e Margaret valorizava enormemente a coragem. Levavam uma vida que ela não podia atingir - a vida exterior feita de "telegramas e ira", que explodira quando Helen e Paul se haviam tocado, em Junho, e de novo explodira na semana anterior. Para Margaret, era uma vida que continuava a ser uma força real. Não a desprezava, como Helen e Tibby fingiam desprezar. Alimentava virtudes como clareza, decisão e obediência, virtudes de segunda classe, é certo, mas que construíram a nossa civilização. E que formam também o nosso carácter. Margaret duvidava: impedem que a mente entorpeça. Como ousam os Schlegel desprezar os Wilcox, se é necessária gente de todos os géneros para fazer um mundo?

"Não cismes muito", escrevera ela a Helen, "na superioridade do oculto sobre o visível. É uma verdade, mas cismar nesse assunto é medieval. O que temos a fazer não é opor os dois, mas sim conciliá-los".

Helen respondeu que não tinha a mínima intenção de cismar num tema tão monótono. Quem julgava a irmã que ela era? O tempo estava magnífico. Ela e os Mosebach tinham ido andar de tobogã na única colina de que a Pomerânia se vangloriava. Fora divertido, mas os restantes habitantes de Pomerânia também para lá se haviam deslocado. Helen gostava da região e a sua carta transbordava de exercício físico e de poesia. Falava da paisagem, calma, embora majestosa; dos campos cobertos de neve, com as suas manadas de veados a galopar; do rio e do seu esquisito desaguar no mar Báltico, dos Oderberge, com apenas novecentos metros de altura, de onde se regressava com demasiada rapidez às planícies pomerânias, embora esses Oderberge fossem montanhas autênticas, com pinheiros, ribeiros e vastos panoramas. "Não é tanto o tamanho que conta, mas sim a maneira como as coisas estão dispostas." Noutro parágrafo, referia-se a Mrs. Wilcox com simpatia, mas as notícias não a haviam impressionado. Não tinha consciência dos acessórios da morte, que num certo sentido são mais memoráveis do que a própria morte. A atmosfera de precauções e recriminações e no meio um corpo humano cujo impacte, por ter sofrido, aumenta cada vez mais; o fim desse corpo no adro da igreja de Hilton; a sobrevivência de qualquer coisa que sugere esperança, impondo-se por seu turno à agitação da vida quotidiana - nada disso foi vivido por Helen, que apenas sentiu que uma senhora simpática não poderia continuar a sê-lo. Voltou para Wickham Place preenchida pelos seus próprios problemas - recebera outra proposta de casamento - e Margaret, após um momento de hesitação, ficou contente por ser assim.

A proposta não fora nada de sério. Resultara de uma manobra de Fráulein Mosebach, que concebera o grande e patriótico plano de, pelo casamento, trazer os primos de volta à terra pátria. A Inglaterra jogara com Paul Wilcox e perdera; a Alemanha jogou com Herr Qualquer-Coisa Fõrstmeister, Helen não conseguia lembrar-se do seu nome próprio. Herr Fõrstmeister vivia numa floresta e quando estavam no cume dos Oderberge apontara a sua casa a Helen, ou melhor, apontara os pinheiros cuneiformes no meio dos quais ficava a casa. Ela exclamara: "Oh, que maravilha! O sítio ideal para mim!" e à tarde Frieda aparecera no seu quarto. "Trago um recado, Helen querida", etc. e foi, mas foi mesmo, gentil quando Helen se riu; percebia perfeitamente - uma floresta muito solitária e húmida - em absoluto de acordo, mas Herr Fõrstmeister acreditara estar certo do contrário. A Alemanha perdera, mas com bom humor; detentora da virilidade mundial, achara-se obrigada a vencer.

- E até haveria alguém para Tibby - concluiu Helen. - E agora, Tibby, pensa nisso; a Frieda anda a arranjar uma miúda para ti, com tranças e peúgas de lã branca, mas o pé das meias é cor-de-rosa, como se a miúda tivesse pisado morangos. Falei de mais. Dói-me a cabeça. Falem vocês agora.

Tibby acedeu a falar. Também ele estava cheio dos seus problemas, porque acabava de ser considerado apto para tentar receber uma bolsa de estudo para Oxford. Os homens tinham ficado na cidade e os candidatos sido alojados em diversos colégios e jantado no refeitório. Tibby era sensível à beleza, a experiência era nova, fez uma descrição quase brilhante da sua visita. A augusta e provecta Universidade, impregnada das riquezas do condado que serve há mil anos, atraiu de imediato o rapaz; era o género de coisa que o tocava, e mais o tocara por estar vazia. Oxford é Oxford; não um mero receptáculo de jovens, como Cambridge. Talvez se esforce por que os seus internos a prefiram a qualquer outra; seja assim ou não, foi esse o efeito que causou em Tibby. As irmãs mandaram-no para lá porque precisava de fazer amigos, porque sabiam que a sua educação fora deficiente e o mantivera afastado de outros rapazes e de homens. Não fez amigos. A sua Oxford continuou a ser uma Oxford vazia e deixou-lhe para o resto da vida não uma recordação de esplendor, mas sim a recordação de um esquema sobrecarregado.

Agradou a Margaret que o irmão e a irmã conversassem. Regra geral, não chegavam a um perfeito entendimento. Ficou a ouvi-los durante um bocado, sentindo-se mais velha e benevolente. Então, algo lhe ocorreu e interrompeu:

- Helen, eu contei-te da pobre Mistress Wilcox, aquele triste acontecimento?

- Contaste.

- Troquei alguma correspondência com o filho. Estava a tratar da distribuição dos bens e escreveu para me perguntar se a mãe pretendera deixar-me alguma coisa. Achei correcto da sua parte, se considerarmos o pouco que me dei com ela. Respondi que falara uma vez em dar-me um presente pelo Natal, mas que depois ambas nos tínhamos esquecido disso.

- Espero que o Charles tenha aceite a sugestão.

- Sim... quer dizer, mais tarde a mulher dele escreveu, a agradecer-me ter sido gentil para com Mistress Wilcox e deu-me o frasco de sais, de prata, que era dela. Não achas tão generoso? Fiquei a gostar muito dele. Ele espera que o nosso conhecimento não termine aqui e que no futuro tu e eu vamos até lá, passar algum tempo com a Evie. Gosto de Mister Wilcox. Atirou-se ao trabalho, borracha, um negócio importante. Deduzo que está a iniciá-lo. O Charles também está a trabalhar com ele. O Charles casou-se com uma criaturinha bonita, mas que não parece culta. Estiveram no apartamento, mas agora foram para uma casa deles.

Respeitada uma pausa decente, Helen voltou ao seu relato sobre Stettin. Como as situações se alteram rapidamente! Em Junho, estivera em crise; em Novembro, ainda corava e fingia; agora, estava-se em Janeiro e o caso fora totalmente esquecido. Recordando os últimos seis meses, Margaret sentiu a natureza caótica da nossa vida quotidiana e o quão difere da sequência ordenada fabricada pelos historiadores. A vida actual está repleta de guias e indicadores falsos que não levam a parte nenhuma. Fazemos infinitos esforços contra crises que nunca surgem. Uma carreira muito bem sucedida é o resultado de um desperdício de energias que teria movido montanhas e o mais derrotado dos homens não é o que foi apanhado desarmado, mas sim o que se armou e nunca foi apanhado. Sobre uma tal tragédia, a nossa moralidade nacional guarda o devido silêncio. Presume que a preparação contra o perigo é em si própria um bem e que esses seres, tal como as nações, são os melhores porque cambaleiam pela vida devidamente equipados. A tragédia da prevenção pouco tem sido tratada, excepto pelos Gregos. Claro que a vida é perigosa, mas não no sentido pretendido pela moralidade. Claro que é difícil de manobrar, mas a sua essência não é uma batalha. É difícil de manobrar porque é um romance e a sua essência é a beleza romântica.

Margaret esperava vir, no futuro, a ser menos cautelosa - e não mais - do que no passado.

 

Mais de dois anos se passaram e os membros da família Schlegel continuavam a levar as suas vidas de intelectuais, mas não em mesquinho conforto, nadando tranquilamente nas cinzentas ondas de Londres. Tinham assistido a concertos e a peças, dinheiro fora gasto e reposto, reputações ganhas e perdidas e a própria cidade, emblemática das suas vidas, crescera e decrescera em contínuo fluxo, enquanto a extensão das suas sombras alastrava sobre as colinas do Surrey e os campos de Hertfordshire. Erguera-se o tal famoso edifício, rematando em abóbada. Whitehall era hoje outro; seria amanhã a esquina da Regent Street. E mês após mês era mais forte nas ruas o cheiro a gasolina, mais árduo atravessá-las, as pessoas ouviam-se umas às outras com crescente dificuldade, respiravam menos ar e viam menos céu. A Natureza desdizia-se: em meados do Verão, já caíam folhas; o Sol brilhava através da porcaria, em surpresa obscuridade.

Dizer mal de Londres já não está na moda. A Terra como culto artístico tivera os seus dias e a literatura do futuro próximo ignorará provavelmente a província e buscará inspiração na cidade. A reacção é compreensível. das forças elementares, o público teve uma dose um pouco exagerada - são vitorianos, ao passo que Londres é jorgiana - e aqueles que se preocupam sinceramente com o Planeta podem esperar longas eras até que o pêndulo se incline de novo para ele. Que Londres fascina, é um facto. Apresenta-se-nos como um espaço de indecisos cinzentos, inteligente sem objectivo e excitante sem amor; como um espírito que se modificou antes de haver tempo para se lhe escrever a crónica; como um coração que bate, evidentemente, mas sem uma única pulsação de humanidade. Mente sob todos os aspectos: a Natureza, com toda a sua crueldade, está mais próxima de nós do que toda esta multidão de homens. Um amigo explica-se por si próprio, a terra é compreensível - dela vimos, a ela regressaremos. Mas quem pode explicar a Westminster Bridge Road ou a Liverpool Street de manhã - a cidade a inspirar -, ou esses mesmos locais à tarde - a cidade a exalar o seu ar saturado? Atingimos o desespero perante o nevoeiro, perante as próprias estrelas, os vazios do universo são saqueados para justificar o monstro e neles é estampado um rosto humano. Londres é a oportunidade da religião - não a decorosa religião dos teólogos, mas sim a religião antropomórfica, crua. Sim, o fluxo contínuo seria tolerável se um homem da nossa espécie - não um ente imponente e tristonho - cuidasse de nós, lá em cima, no céu.

O londrino raramente compreende a sua cidade até que ela o solta, a ele também, das suas amarras, e os olhos de Margaret não se abriram enquanto não expirou o contrato de Wickham Place. Sempre soubera que expiraria, mas o facto só ganhou nitidez cerca de nove meses antes de ocorrer. De repente, a casa tornou-se patética. Presenciara tanta felicidade! Porque tinha de ser demolida? Reparou pela primeira vez, pelas ruas da cidade, na arquitectura apressada e ouviu a voz da pressa na boca dos seus habitantes - palavras deturpadas, frases mal construídas, expressões estereotipadas de concordância ou de rejeição. Mês após mês a vida renovava-se, mas com que fim? A população ainda aumentava, mas de que qualidade eram os homens que nasciam? O milionário que detinha a propriedade de Wickham Place e nela pretendia erigir apartamentos babilónicos que direito tinha a uma tão grande fatia do bolo? Não era um idiota - ouvira-o discorrer sobre o socialismo -, mas o verdadeiro discernimento começava exactamente onde a sua inteligência acabava e podia deduzir-se que o mesmo acontecia com a maior parte dos milionários. Que direito tinham tais homens... mas Margaret deteve-se. Por este caminho, fica-se maluco. Graças a Deus, também ela tinha algum dinheiro e podia comprar uma nova casa.

Tibby, agora no seu segundo ano de Oxford, viera passar as férias da Páscoa e Margaret aproveitou a oportunidade para uma conversa séria. Sabia ele, ao certo, onde quereria viver? Tibby não sabia que sabia. Sabia ele, ao certo, o que queria fazer? Estava indeciso, mas quando pressionado observou que preferia não ter profissão nenhuma. Margaret não ficou escandalizada, continuou a coser durante alguns minutos antes de comentar:

- Estava a pensar em Mister Vyse. Nunca o achei especialmente feliz.

- S... sim - comentou Tibby e ficou de boca aberta, agitando curiosamente os lábios, como se também ele pensasse em Mr. Vyse, mirasse à roda, por cima e por baixo Mr. Vyse, pesasse Mr. Vyse, o classificasse e por fim o despachasse por não lhe encontrar qualquer ligação possível com o assunto em discussão. Esses balidos de Tibby enfureciam Helen. Mas Helen estava de momento na sala de jantar, a preparar um discurso sobre economia política. Através do soalho ouvia-se, a espaços, a sua voz, declamando.

- Mas Mister Vyse é um infeliz, um inútil, não achas? E há o Guy. Foi um caso lamentável. Aliás, parafraseando o general, "cada pessoa é a melhor para uma determinada tarefa". Balidos.

- vou cingir-me aos factos - continuou ela, sorrindo. - Não estou a falar nisto para te educar; digo-o porque efectivamente o sinto. Acredito que no século passado despertou nos homens o desejo de trabalhar, desejo que não vão deixar morrer. É um desejo novo. Exageram-no, o que é mau, mas é algo de positivo e espero que também para as mulheres "não trabalhar" não tarde a ser tão escandaloso como era há cem anos "não casar".

- Não tenho a mínima experiência desse profundo desejo a que aludes - declarou Tibby.

- Não falemos então nisso, até que a tenhas. Não vou matraquear no assunto. Leva o tempo que quiseres. Mas pensa nas vidas dos homens que mais admiras e vê como as construíram.

- Prefiro Guy e Mister Vyse - foi a débil resposta de Tibby; e encostou-se tanto na cadeira que ficou na horizontal dos joelhos à garganta.

- E não julgues que não falo a sério pelo facto de não usar os argumentos tradicionais, fazer dinheiro, uma posição social à tua espera, etc. os quais são, por várias razões, uma hipocrisia. - Continuou a coser. - Sou apenas tua irmã. Não tenho qualquer autoridade sobre ti e não pretendo tê-la. Quero apenas que saibas o que considero certo. Bem vês - tirou as lunetas que usava desde pouco antes -, daqui a uns anos teremos praticamente a mesma idade e serei eu a pedir a tua ajuda. Os homens são tão mais simpáticos do que as mulheres!

- Laborando num tal erro, porque não te casas?

- Tenho muitas vezes o agradável pensamento de que o faria se me surgisse uma oportunidade.

- Ninguém te arrastou a asa?

- Só palermas.

- E à Helen?

- Imensos.

- Fala-me deles.

- Não.

- Então, fala-me dos teus problemas.

- Eram homens que não tinham nada de melhor a fazer - respondeu a irmã, convicta de que marcava pontos. - Por isso, presta atenção: deves trabalhar, ou pelo menos fingir que trabalhas, que é o que eu faço. Trabalho, trabalho, trabalho, se queres salvar o teu corpo e a tua alma. Sinceramente, é uma necessidade, meu rapaz. Olha para os Wilcox, olha para Mister Pembroke. com todos os seus defeitos de carácter e de inteligência, homens desses agradam-me mais do que muitos mais dotados e acho que é porque trabalharam regular e honestamente.

- Poupa-me os Wilcox - lamentou-se ele.

- Não. Estão no caminho certo.

- Oh, meu Deus, Meg! - protestou o rapaz, sentando-se num repente, zangado. Apesar de todos os seus defeitos, Tibby tinha uma personalidade muito marcada.

- Bem, aproximam-se tanto quanto podem do caminho certo!

- Não, não... oh, não!

- Estava a pensar no filho mais novo, que em tempos classifiquei de palerma, mas que veio da Nigéria tão doente. Voltou para lá, disse-me a Evie Wilcox... voltou para as suas obrigações.

- Obrigações pressupõem sempre lamúrias.

- Ele não quer dinheiro, o que quer é trabalhar, embora seja um trabalho brutal... um país desinteressante, nativos desonestos, uma inquietação constante para arranjar água fresca e comida. Uma nação que gera homens destes, bem se pode orgulhar. Não admira que a Inglaterra tenha construído um império.

- Império!

- Não me interessam os resultados - disse Margaret com alguma tristeza. - São complicados de mais para mim. Refiro-me apenas aos homens. Um império desagrada-me, tão distante, mas aprecio o heroísmo que o criou. Londres desagrada-me, mas quantos milhares de pessoas fantásticas se esforçam por fazer de Londres...

- aquilo que é - escarneceu Tibby.

- Aquilo que é, por pouca sorte. O que eu quero é actividade sem civilização. Que paradoxal! Aliás, espero que seja isso o que vamos encontrar no Paraíso.

- E eu, quero civilização sem actividade, o que, espero, encontraremos no Outro Lado.

- Não precisas de ir tão longe como "o Outro Lado", Tibby, se é isso o que queres. Podes encontrá-lo em Oxford.

- Estúpida...

- Se sou estúpida, recambia-me para o trabalho de procurar casa. Até viveria em Oxford, se quisesses, no norte de Oxford. Viveria em qualquer sítio excepto Bournemouth, Torquay e Cheltenham. Ah, sim, ou Ilfracombe, Swanage, Tunbridge Wells, Surbiton e Bedford. Nesses lugares, nunca por nunca ser.

- Então, Londres.

- Concordo, mas a Helen prefere sair de Londres. No entanto, não há razão para não termos uma casa na província e também um apartamento na cidade, desde que nos mantenhamos juntos e contribuamos todos. Embora, claro está... ninguém deve ser indiferente, há que pensar, pensar nas pessoas realmente pobres. Como é que vivem? Não poder deslocar-me pelo mundo seria a morte para mim.

Estava ela a falar quando a porta foi aberta de rompante e Helen irrompeu, extremamente agitada:

- Oh, meus queridos, querem ouvir esta? Não adivinham. Esteve aqui uma mulher a perguntar-me pelo marido. Pelo quê? - Helen comprazia-se em transmitir a sua própria surpresa. - Sim, pelo marido, exactamente assim.

- Isso não tem a ver com o Brackwell? - gritou Margaret, que recentemente contratara um desempregado com esse nome para limpar as facas e as botas.

- Propus-lhe o Brackwell, mas foi rejeitado. O Tibby também. Não desanimes, Tibby! Não era ninguém que conheçamos. Disse-lhe: "Procure, minha boa mulher; dê uma boa vista de olhos, espreite debaixo das mesas, meta o nariz na lareira, sacuda as coberturas das cadeiras. Marido? Marido?" Vinha vestida com o maior espalhafato e tilintante como um lustre!

- Bem, Helen, o que aconteceu efectivamente?

- O que estou a dizer. Eu estava a declamar o meu discurso, chamemos-lhe assim. A Annie abre a porta como uma maluca e aparece uma mulher, direita a mim, que fiquei de boca aberta. Começámos então, muito educadamente: "Quero o meu marido, que tenho razões para crer que está aqui." Não... que injustiça! Ela disse "o qual" e não "que". com toda a perfeição. Falei: "Nome, por favor?" e ela respondeu: "Lan, miss", e ficámos por aí.

- Lan?

- Lan ou Len. Não nos preocupámos com as vogais. Lanoline.

- Mas que estranho...

- Eu disse-lhe: "Minha boa Mistress Lanoline, há aqui um grande mal-entendido. Sendo bonita como sou, o meu recato é ainda mais notável do que a minha beleza e nunca, nunca Mister Lanoline pousou os olhos em mim."

- Estavas divertidíssima - comentou Tibby.

- Claro! - guinchou Helen. - Uma experiência perfeitamente deliciosa. Ah, Mistress Lanoline é adorável, perguntou pelo marido como se ele fosse um guarda-chuva. Perdeu-o no sábado à tarde e durante algum tempo não lhe fez diferença. Mas com o correr da noite e da manhã de hoje, as suas apreensões aumentaram. O pequeno-almoço não lhe pareceu o mesmo, e o almoço também não, pelo que veio dar uma volta até ao número dois de Wickham Place, como se esse fosse o local apropriado para encontrar artigos perdidos.

- Mas por que diabo...

- Não comeces com os "por que diabo". "Sei o que sei", repetia ela continuamente, não com indelicadeza, antes com enorme melancolia. Em vão lhe perguntei o que sabia. Certas pessoas sabem o que as outras sabem, outras não, e se não sabem o melhor que as outras têm a fazer é acautelar-se. Oh, céus, como ela desempenhava bem o seu papel! Tinha cara de bicho-da-seda e a sala de jantar tresanda a lírio.

Tagarelámos com prazer um bocado sobre maridos, conjecturei sobre onde estará o dela e aconselhei-a a ir à polícia. Agradeceu-me. Concordámos em que Mister Lanoline é um safado e não tem razão nenhuma para armar em superior. Mas creio que suspeitou de mim até ao fim. vou escrever uma data de coisas à tia Juley a este respeito. Não te esqueças, Meg, montes de coisas.

- Os montes que quiseres - murmurou Margaret, pondo de lado a costura. - Não tenho a certeza de que seja assim tão divertido, Helen. Isso quer dizer que há algures um vulcão qualquer em erupção, não quer?

- Acho que não, ela não está verdadeiramente preocupada. A admirável criatura é incapaz de fazer dramas.

- Talvez o marido não o seja - comentou Margaret, dirigindo-se à janela.

- Não, não me parece. Ninguém inclinado à tragédia teria casado com Mistress Lanoline.

- Era bonita?

- A cara deve ter sido bonita, em tempos.

Os apartamentos, única paisagem exterior de que desfrutavam, pendiam como uma cortina cheia de enfeites entre Margaret e o tumulto de Londres. Os seus pensamentos viraram-se tristemente para a procura de uma casa. Wickham Place fora tão seguro! Receou, fantasiosamente, que o seu pequeno rebanho fosse transferido para o meio da barafunda e da miséria, em contacto directo com episódios como o dessa tarde.

- O Tibby e eu estivemos de novo a interrogar-nos sobre o sítio para onde iremos viver, em Setembro - disse por fim.

- O Tibby faria melhor em pensar primeiro no que vai fazer retorquiu Helen; e o tema foi retomado, mas com acrimónia. Veio o chá e depois do chá Helen continuou a preparar o seu discurso e Margaret também preparou um, porque no dia seguinte iam a um debate social. Mas os seus pensamentos estavam envenenados. Mistress Lanoline emergira do abismo, como um aroma vago, os passos de um duende, falando de uma vida onde tanto o amor como o ódio haviam descambado.

 

O mistério, como tantos outros mistérios, foi explicado. No dia seguinte, exactamente quando acabavam de se vestir para ir jantar fora, apareceu um tal Mr. Bast. Era um empregado dos escritórios da Porphyrion Fire Insurance Company. De acordo com o seu cartão. Viera "por causa da senhora de ontem". De acordo com Annie, que o conduzira à sala de jantar.

- Animem-se, crianças! - gritou Helen. - É Mister Lanoline! Até Tibby se interessou. Precipitaram-se os três pelas escadas

abaixo, para depararem não com o malandro jovial que esperavam, mas sim com um homem novo, descorado, inexpressivo, de olhos já fúnebres encimando um bigode pendente; desses homens tão vulgares em Londres, que frequentam certas ruas da cidade e em que vemos presenças acusatórias. Adivinhava-se nele a terceira geração, neto de pegureiro ou de trabalhador rural que a civilização sugara para a cidade; um dos milhares que perderam a vitalidade do corpo e não conseguiram ganhar a vitalidade do espírito. Mantinha ainda mais traços de robustez do que traços de um primitivo bom aspecto e Margaret, reparando na coluna vertebral que devia ter sido direita e no tórax que devia ter sido largo, perguntou a si própria se valia a pena desistir da glória animal em troca de uma casaca e de meia dúzia de ideias. No seu caso, a cultura resultara, mas nas últimas semanas duvidara de que ela humanize a maioria, tão fundo e tão largo é, o precipício que se estende entre o homem natural e o homem filosófico, tantos são os bons indivíduos que se afundam ao tentar atravessá-lo. Conhecia muito bem o género - as aspirações vagas, a desonestidade mental, a familiaridade com as capas dos livros. Sabia de antemão qual a entoação exacta com que ele se lhe dirigiria. Só não estava preparada para ser confrontada com um exemplar do seu próprio cartão-de-visita.

- Não se lembra de me ter dado isto, Miss Schlegel? - perguntou ele, com inquietante familiaridade.

- Não, não me lembro.

- Bem, mas foi o que aconteceu.

- Onde nos encontrámos, Mister Bast? De momento não me recordo.

- Foi num concerto no Queen's Hall. Decerto lhe virá à memória - acrescentou pretensiosamente - quando lhe disser que incluía a execução da Quinta Sinfonia de Beethoven.

- Ouvimos a Quinta Sinfonia sempre que é tocada, por isso não estou certa... Recordas-te, Helen?

- Foi daquela vez em que o gato cor de areia se passeou pela balaustrada?

Ele pensava que não.

- Então não me lembro. É o único Beethoven de que nunca me esqueci.

- E a senhora, se me permite dizê-lo, levou o meu guarda-chuva, inadvertidamente, claro.

- É bastante provável - Helen riu-se -, porque roubo guarda-chuvas quase tantas vezes quantas oiço Beethoven. Recuperou-o?

- Sim, Miss Schlegel, muito obrigado.

- O erro ocorreu por causa do meu cartão, não foi? - interrompeu Margaret.

- Sim, o erro ocorreu... foi um erro.

- A senhora que veio cá ontem supôs que o senhor também viera e que o encontraria? - Pressionava-o porque, embora ele tivesse prometido uma explicação, parecia incapaz de dá-la.

- É isso, veio também... um erro.

- Então porque... - começou Helen, mas Margaret pousou-lhe a mão no braço.

- Eu disse à minha mulher... - falava agora mais rapidamente. - Eu disse a Mistress Bast: "Tenho de ir visitar uns amigos" e Mistress Bast disse-me: "Vai." No entanto, enquanto fui, precisou de mim para uma coisa importante e pensando que eu estava aqui, devido ao cartão, veio à minha procura e eu peço-vos que aceitem as minhas desculpas e as dela, pelo incómodo que sem querer possamos ter-vos causado.

- Não houve incómodo nenhum - disse Helen -, mas continuo a não perceber.

Mr. Bast continuava evasivo. Repetiu a explicação, mas era evidente que mentia e Helen não entendia porquê. Havia nela a crueldade da juventude. Sem ligar ao sinal da irmã, perguntou:

- Continuo a não compreender. Onde disse que foi fazer essa visita?

- Visita? Que visita? - Olhava-a espantado, como se a pergunta dela fosse um disparate, um dos expedientes preferidos dos que nadam a favor da corrente.

- A visita dessa tarde.

- À tarde, claro! - E fitou Tibby para ver o efeito da réplica. Mas Tibby, ele próprio todo réplicas, foi impiedoso e inquiriu:

- Sábado à tarde ou domingo à tarde?

- S... sábado.

- Não me diga! - exclamou Helen. - E continuava de visita quando a sua mulher cá veio. Uma visita comprida.

- Não acho justo - protestou Mr. Bast que, por ter ficado escarlate, se tornara agradável à vista. - Sei o que querem dizer e não é nada disso.

- Não nos deixe na dúvida - pediu Margaret, de novo angustiada por odores a abismo.

- Foi outra coisa - afirmou ele, quebrando os seus modos afectados. - Estive num sítio diferente daquilo que pensam, é isso!

- Foi gentil da sua parte vir explicar-nos. O resto não é, naturalmente, da nossa conta.

- Sim, mas eu quero... eu queria... alguma vez leu The Ordeal of Richard Feverefí?

Margaret acenou afirmativamente.

- É um belo livro. Eu queria reencontrar-me com a Natureza, percebem, como Richard faz no fim. Alguma vez leram o Prince Otto, de Stevenson?

Helen e Tibby baliram amavelmente.

- Outro belo livro. É um retorno à Natureza, esse. Eu queria... Declamava afectadamente. Então, das névoas da sua cultura, saiu um facto concreto, concreto como um seixo: - Caminhei toda a noite de sábado. Caminhei. - Um frémito de aprovação percorreu as irmãs. Mas a cultura calou-o. Perguntou-lhes se tinham lido Open Road, de E. V. Lucas.

Helen disse:

- É sem dúvida outro belo livro, mas eu preferia que nos falasse da sua caminhada.

- Caminhei.

- Até onde?

- Não sei, nem por quanto tempo. Fez-se escuro de mais para ver as horas. - Caminhou sozinho, se me é permitido perguntar?

- Sim - respondeu ele, e endireitou-se. - Tínhamos estado a falar nisso no escritório. Tem-se discutido muito essas coisas no escritório, ultimamente. Os rapazes de lá dizem que nos podemos guiar pela Estrela Polar e eu via-a lá em cima na abóbada celeste, mas quando se está na rua torna-se tudo tão confuso...

- Não me fale na Estrela Polar! - interrompeu Helen, que começava a interessar-se. - Conheço-lhe as manhas. Gira de um lado para o outro e nós giramos atrás dela.

- Bem, eu perdi-a em absoluto. Primeiro foram os candeeiros da rua, depois as árvores e ao amanhecer apareceram nuvens.

Tibby, que o preferia enquanto comédia pura, escapuliu-se da sala. Sabia que aquele tipo nunca atingiria a poesia e não queria ouvi-lo tentar. Margaret e Helen ficaram. O irmão influenciava-as mais do que supunham: na sua ausência, entusiasmavam-se mais espontaneamente.

- De onde partiu? - perguntou Margaret com vivacidade. Conte-nos mais.

- Apanhei o Metro para Wimbledon. Ao sair do escritório disse com os meus botões: tenho de dar um passeio de vez em quando. Se não der este agora, nunca mais o dou. Comi uma espécie de jantar em Wimbledon t...

- Mas não é um local com interesse, pois não?

- Durante horas, foram candeeiros a gás. Mesmo assim, eu tinha a noite inteira e estar na rua era o principal. Também entrei em florestas.

- Continue, continue - pediu Helen.

- Não fazem ideia de como o piso irregular é difícil quando está escuro.

- Chegou a sair das estradas?

- Ah, claro. Tive sempre a intenção de sair das estradas, mas o pior é que se torna mais difícil dar com o caminho.

- Mister Bast, o senhor nasceu aventureiro - Margaret riu-se.

- Nenhum atleta profissional tentaria o que o senhor fez. É maravilhoso que o seu passeio não tenha terminado num pescoço partido. O que disse a sua esposa?

- Os atletas profissionais nunca se deslocam sem lanternas e bússolas - opinou Helen. - Aliás, não podem passear. Cansa-os. Continue.

- Senti-me um R. L. S. Provavelmente, recordam-se de como no Virginibus...

- Sim, mas a floresta. A sua floresta. Como saiu de lá?

- Orientei-me e encontrei do outro lado uma estrada que durante um bom bocado era a subir. Tenho a impressão de que eram os North Downs, porque a estrada era no meio de erva e fui dar a outra floresta. Essa era horrível, com moitas de tojo. Desejei nunca lá ter ido, mas de repente vi luz, exactamente quando me parecia estar debaixo de uma árvore. Encontrei então uma estrada que ia dar a uma estação e tomei o primeiro comboio que pude para Londres.

- O amanhecer foi maravilhoso? - perguntou Helen. com inesquecível sinceridade, o rapaz respondeu:

- Não.

A palavra voou como um seixo arremessado. Para trás tudo o que de banal ou de literário houvera nas suas palavras, para trás o maçador R. L. S. e o "amor à terra" e o seu chapéu alto de seda. Leonard chegara à presença daquelas mulheres e falava com uma fluência, uma exaltação, que raramente conhecera.

- O amanhecer foi apenas insípido, sem nada de especial...

- Apenas um entardecer insípido virado ao contrário. Sei como é.

- e eu estava demasiado cansado para levantar a cabeça e me pôr a contemplá-lo, além de ter muito frio. Estou contente por ter ido e, no entanto, no momento aborreceu-me mais do que consigo expressar. Além disso, podem acreditar-me ou não, à vossa opção, estava cheio de fome. Aquele jantar em Wimbledon... julguei que me bastaria para passar a noite, como outros jantares. Nunca pensei que andar causasse uma diferença tão grande. Pois bem, quando não paramos de andar queremos, digamos assim, pequeno-almoço, almoço e chá igualmente de noite e eu só tinha um pacote de Woodbines. Meu Deus, sentia-me mesmo mal! Olhando para trás, não foi propriamente aquilo a que pode chamar-se um divertimento. Foi mais uma questão de aguentar firme. Eu... eu estava determinado. Diabos levem tudo isso! Qual é o prazer, digo, o prazer de viver metido num quarto para todo o sempre? Vai-se para lá dia após dia, sempre a mesma coisa, o mesmo ir e vir para a cidade, até que nos esquecemos de que há outras coisas a fazer. De vez em quando, devemos ver o que se passa no exterior, mesmo que no fim de contas não vejamos nada de especial.

- Acho que sim, que devemos - concordou Helen, sentando-se na borda da mesa.

O som da voz de uma senhora reprimiu a espontaneidade do rapaz, que continuou:

- É curioso, tudo pode ter acontecido por eu ter lido qualquer coisa de Richard Jefferies.

- Desculpe, Mister Bast, mas nisso está errado. Não pode. Aconteceu por uma coisa muito mais elevada.

Mas não conseguiu detê-lo. Borrow surgiu depois de Jefferies Borrow, Thoreau e arrependimento. R. L. S. veio em último lugar e o ataque terminou num atoleiro de livros. Não é falta de respeito por esses grandes nomes. O erro é nosso, não deles. Eles querem que os usemos como postes de sinalização e não podemos censurá-los se, por fraqueza nossa, confundimos o poste com o destino final. E Leonard chegara ao seu destino. Visitara o condado de Surrey quando a escuridão cobria os seus encantos e as vivendas acolhedoras reentravam na noite dos tempos. Este milagre acontece de doze em doze horas, mas ele dera-se ao incómodo de ir lá e ver com os seus próprios olhos. No seu cerebrozinho limitado habitava algo mais grandioso do que os livros de Jefferies: o espírito que levara Jefferies a escrevê-los; e o seu amanhecer, embora nada mais do que monótono, era parte do eterno nascer do Sol que nos oferece George Borrow Stonehenge.

- Então não me acham louco? - interrogou, de novo o rapaz ingénuo e dócil que a Natureza criara.

- Céus, não! - respondeu Margaret.

- Palavra que não! - respondeu Helen.

- Estou muito contente por ouvir isso. A minha mulher nunca compreenderia... nem que eu levasse dias a explicá-lo.

- Não, não foi loucura! - gritou Helen, com o olhar em chama.

- O senhor ultrapassou o limite; foi esplêndido da sua parte.

- Não se contentou em sonhar, como nós...

- Embora nós também tenhamos passeado...

- Quero mostrar-lhe um quadro, lá em cima...

Nesta altura, ouviu-se a campainha da porta. Chegara o cabriolé que as levaria à festa dessa noite.

- Oh, que maçada, para não dizer pior... tinha-me esquecido de que vamos jantar fora; mas volte, volte outra vez para conversarmos.

- Sim, tem de vir... venha - ecoou Margaret. com extrema sensibilidade, Leonard retorquiu:

- Não, não voltarei; é melhor assim.

- Melhor porquê? - inquiriu Margaret.

- Não, é melhor não me arriscar a uma segunda entrevista. Recordarei sempre esta conversa convosco como um dos mais belos momentos da minha vida. Palavra. Falo a sério. Nada se repete. Fez-me um bem real e é melhor deixar tudo como está.

- É uma visão bastante triste da vida, sem dúvida.

- É tão frequente as coisas estragarem-se!

- Eu sei - dardejou Helen -, mas as pessoas, não.

Isto, o rapaz não compreendeu. Continuava naquela disposição de espírito em que se interligam as ideias falsas e as verdadeiras. O que dissera não era errado, mas não era certo, uma nota falsa vibrava. Uma torcedelazita, sentiam-no, e o instrumento ficaria no tom. Uma pequena distorção e podia silenciar para sempre. Agradeceu muito às senhoras, mas não voltaria. Houve um momento de embaraço, que Helen rompeu:

- Vá, então; talvez tenha razão, mas nunca se esqueça de que vale mais do que Jefferies.

E ele partiu. O cabriolé alcançou-o à esquina, passou com um agitar de mãos e desvaneceu-se na noite, com a sua carga.

Londres começava a iluminar-se para enfrentar a noite. Luzes eléctricas crepitavam e recortavam-se nas ruas principais, candeeiros a gás nas ruas secundárias luziam debilmente em amarelo-canário ou em verde. O céu era um campo de batalha primaveril cor de carmim, mas Londres não o temia. O seu fumo atenuava-lhe o esplendor e Oxford Street tinha um tecto de nuvens delicadamente pintado, que a adornou até se dispersar. Nunca essa rua conhecera os límpidos exércitos do ar puro. Pelos seus corredores coloridos, Leonard, parte integrante do quadro, apressava-se. Era cinzenta a sua vida e para a alegrar isolara para o Romance alguns recantos. As Schlegel - ou, falando com mais propriedade, a sua entrevista com elas - preencheria um desses recantos. Não que fosse a primeira vez que falara abertamente com estranhos. Era um hábito análogo a um deboche, um escape, se bem que o pior dos escapes, para os instintos que não podem ser renegados. Aterrorizava-o tanto, que precisava de vencer a sua desconfiança e a sua prudência antes de fazer confidências a pessoas que mal conhecia. Trouxe-lhe muitos receios e algumas recordações agradáveis. Talvez a mais profunda felicidade que jamais conhecera tivesse ocorrido numa viagem de comboio para Cambridge, durante a qual um caloiro universitário de modos delicados lhe dirigira a palavra. Acabaram por conversar e Leonard, cujas reticências se foram gradualmente apagando, contou-lhe alguns dos seus problemas domésticos e deu a entender os restantes. O estudante, antevendo o início de uma amizade, convidou-o para "um café ali no bar", convite que aceitou; mas mais tarde intimidou-se e teve o cuidado de não se mexer do hotel comercial onde se hospedava. Não desejava que o Romance colidisse com a Porphyrion, e com Jacky ainda menos, e as pessoas que vivem vidas plenas, felizes, são de compreensão lenta para tais sentimentos. Ele era, tanto para as Schlegel como para o estudante, uma criatura interessante sobre a qual quereriam saber mais. Mas, para ele, eles eram protagonistas do Romance, deviam ficar no recanto que lhes destinara; eram quadros que não deviam sair das suas molduras.

A sua atitude em relação ao cartão-de-visita de Margaret fora típica. O seu casamento era pouco menos do que trágico. Onde não há dinheiro nem inclinação para a violência, não há tragédia. Não podia deixar a mulher e não queria magoá-la. A irritabilidade e a miséria já bastavam. Fora aí que entrara "esse cartão". Leonard, embora dissimulado, era desleixado e deixara-o num sítio qualquer. Jacky encontrara-o e começara: "O que é este cartão, hem? Sim, não me digas que não sabes de quem é este cartão? Len, quem é Miss Schlegel?", etc. Passaram-se meses e o cartão, ora sob a forma de brincadeira, ora como ofensa, andava de um lado para o outro, cada vez mais sujo. Acompanhou-os quando se mudaram de Camélia Road para Tulse Hill. Foi submetido à apreciação de terceiros. Uns quantos centímetros quadrados de cartolina transformaram-se no campo de batalha em que se defrontavam as almas de Leonard e da mulher. Porque não disse ele "uma senhora levou o meu guarda-chuva, uma outra deu-me isto para eu poder ir buscar o meu guarda-chuva"? Porque Jacky não acreditaria nele? Em parte, mas acima de tudo porque era sentimental. O cartão não lhe merecia qualquer afecto, mas simbolizava a vida da cultura que nunca permitiria que Jacky corrompesse. À noite, dizia para com os seus botões: "born, seja como for, ela não sabe nada sobre o cartão. É bem feito!"

Pobre Jacky! Não era má e carregava uma pesada cruz. Chegou a uma conclusão - não era capaz de chegar a mais do que uma conclusão de cada vez - que, com o tempo todo por sua conta, se foi consolidando. Durante toda a sexta-feira Leonard recusara-se a falar com ela e passara o serão a observar as estrelas. No sábado fora, como habitualmente, para a cidade, mas não regressara no sábado à noite, nem no domingo de manhã, nem no domingo à tarde. O contratempo tornou-se intolerável e, apesar de ter adquirido hábitos de isolamento e de ter vergonha das outras mulheres, pôs-se a caminho de Wickham Place. Leonard voltou na sua ausência. O cartão, o cartão fatal, desaparecera das páginas de Ruskin e o rapaz adivinhou o que se passara.

"Então", exclamara ele, rindo alto e bom som. "Eu sei onde estiveste, mas tu não sabes onde eu estive."

Jacky olhara-o, disse: "Len, acho que devias explicar-te", e reassumira a vida familiar.

No ponto em que as coisas estavam, as explicações eram difíceis e Leonard era demasiado parvo - ou, é tentador escrevê-lo, demasiado puro - para tentar dá-las. As suas reticências não tinham a ver com as daqueles artigos que os comerciantes promovem, reticências que insinuam que "nada" é "qualquer coisa" e se escudam no Daily Telegraph. Também o aventureiro é reticente e para um escriturário passear algumas horas no escuro é uma aventura. Rir-se-ão os que dormiram noites ao relento na planície africana, com a espingarda ao lado e cercados por todo um ambiente de risco. E também se rirão os que acham as aventuras uma idiotice. Mas não fiquem surpreendidos por Leonard se mostrar retraído sempre que vos encontrar e por serem as Schlegel, de preferência a Jacky, a ouvi-lo falar da madrugada.

Que as Schlegel não o tenham achado louco, foi para todo o sempre um motivo de felicidade para ele. Sentia-se eufórico quando pensava nelas. Eram a sua força quando, indigno de paraísos transitórios, se dirigia para casa. Por qualquer razão, as barreiras erguidas pela prosperidade tinham sido derrubadas e houvera - não sabia exprimi-lo - uma concordância geral sobre a maravilha que o mundo é. "A minha fé", diz o místico, "aumenta infinitamente no momento em que um outro ser crê nela" e eles tinham chegado a um acordo: existe alguma coisa para além da monotonia da vida quotidiana. Pegou no chapéu alto e alisou-o de uma ponta à outra. Supusera até aí que o desconhecido eram livros, literatura, conversas inteligentes, cultura.

Chegava-se lá pelo estudo e atingia-se o topo pela palavra. Mas naquela breve troca de ideias uma nova luz despontara. Significaria "qualquer coisa" passear no escuro pelas colinas suburbanas?

Descobriu que descia a Regent Street de cabeça nua. Londres impunha-se bruscamente. Havia pouca gente por ali àquela hora, mas todos aqueles com quem se cruzava o olhavam com uma hostilidade ainda mais impressionante por ser involuntária. Pôs o chapéu. Era demasiado grande; a cabeça desaparecia como um pudim dentro de uma tigela, as orelhas dobravam-se ao contacto da orla da copa. Empurrou-o um pouco para trás, o que teve como efeito alongar-lhe enormemente a cara e realçar a distância entre os olhos e o bigode. Assim equipado, escapava à crítica. Ninguém se preocupou ao vê-lo galopar pelo passeio, um coração de homem a bater rápido no seu peito.

 

As irmãs saíram para o jantar preenchidas pela aventura e quando ambas estavam preenchidas fosse pelo que fosse, poucos jantares haveria que as fizessem esquecê-lo. Este em especial, só de mulheres, era mais estimulante do que a maior parte deles, mas mesmo assim acabou por soçobrar. Helen de um lado da mesa, Margaret do outro, falaram de Mr. Bast e de nada mais e ainda iam no prato de entrada e já os seus monólogos colidiam, caíam em ruínas e se tornavam propriedade comum. Mas não foi tudo. O jantar era na realidade um clube de discussão informal; houve uma conferência, lida na sala por entre chávenas de café e risotas, mas foram tratados, com maior ou menor atenção, alguns tópicos de interesse geral. À conferência seguiu-se um debate e também nesse debate figurou Mr. Bast, aparecendo ora no papel de um brilhante marco da civilização, ora no de um marco negro, de acordo com o temperamento da oradora. O tema da conferência fora "Como deverei eu dispor do meu dinheiro?", simulando a oradora ser uma milionária às portas da morte, inclinada a legar a sua fortuna à criação de galerias de arte locais, mas aberta à persuasão proveniente de outras fontes. As várias intervenientes tinham sido escolhidas de antemão e alguns discursos eram divertidos. A dona da casa assumiu o papel ingrato de "filho mais velho da milionária" e implorou à sua parente moribunda que não desmantelasse o clã permitindo que somas importantes saíssem da família. O dinheiro era o fruto da abnegação e a segunda geração tinha todo o direito de beneficiar da abnegação da primeira. E "Mr. Bast", que direito tinha? A National Gallery era de todo suficiente para os seus gostos. Tendo falado a propriedade - uma voz necessariamente pouco graciosa avançaram as várias filantropas. Havia que fazer alguma coisa por "Mr. Bast": os seus meios tinham de ser melhorados, sem prejuízo da sua independência; tinha de ter uma biblioteca grátis, ou campos de ténis grátis; os seus rendimentos tinham de ser pagos de tal maneira que ele não soubesse que estava a ser pago; tinha de se conseguir que lhe fosse proveitoso alistar-se no Exército Territorial; tinha de ser separado à força da sua não inspiradora esposa, dando-se a esta dinheiro para a compensar; tinha de ser nomeado um Twin Star, um membro qualquer das classes literatas, para o vigiar continuamente (balidos de Helen); tinha de se lhe dar alimentação mas não roupa, roupa mas não alimentação, um bilhete de ida e volta em terceira classe para Veneza, sem alimentação ou roupa quando lá chegasse. Em resumo, devia ser-lhe dado isto e mais aquilo, desde que não fosse dinheiro propriamente dito.

E aí, Margaret interrompeu.

- Ordem, ordem, Miss Schlegel! - ordenou a conferencista. Está aqui, segundo sei, para me dar informações no interesse da Sociedade para a Preservação de Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural. Não posso permitir que saia do seu tema. Isso desnorteia-me e parece esquecer-se de que estou muito doente.

- Não se desnorteava se pelo menos ouvisse os meus argumentos - retorquiu Margaret. - Porque não dar-lhe o dinheiro? É suposto a senhora ter cerca de trinta mil por ano.

- Tenho? Julguei que tinha um milhão.

- Um milhão não era o seu capital? Meu Deus! Devíamos ter determinado isso. Mas não importa. Tenha o que tiver, ordeno-lhe que dê a tantos homens pobres quantos lhe for possível, trezentas por ano a cada um.

- Mas isso seria empobrecê-los - contrapôs uma rapariga decidida, que gostava das Schlegel mas que por vezes as achava pouco espirituais.

- Não, se se lhes der bastante. Uma grande sorte inesperada não empobrece um homem. São essas somas ínfimas, distribuídas por demasiada gente, que são prejudiciais. O dinheiro é educativo. É muito mais educativo do que as coisas que compra. - Protestos. - Num certo sentido - acrescentou Margaret, mas os protestos continuaram. - Bem, há coisa mais civilizada para o homem do que aprender a gastar os seus rendimentos como deve ser?

- Exactamente o que Mister Bast não fará.

- Dêem-lhes uma oportunidade. Dêem-lhes dinheiro. Não lhes dêem a esmola de uns livros de poesia e bilhetes de comboio, como se fossem bebés. Dêem-lhes os meios para comprarem essas coisas. Quando o vosso socialismo chegar, talvez seja diferente e possamos pensar em termos de artigos em vez de dinheiro. Até lá, dêem às pessoas dinheiro, porque o dinheiro é o fio da civilização, seja qual for a trama. A imaginação devia brincar com o dinheiro e usufruí-lo com animação, porque o dinheiro é... é a segunda coisa mais importante do mundo. Fala-se dele com tanto desprezo, ou guarda-se tanto silêncio a seu respeito, são tão poucas as opiniões frontais... ah, a economia política, claro; mas tão poucos de nós temos ideias precisas sobre os nossos próprios rendimentos; e admitam que as opiniões independentes são, nove em cada dez casos, o resultado de recursos independentes. Dinheiro: dêem dinheiro a Mister Bast e não o macem com ideais. Ele os descobrirá por si próprio.

Encostou-se para trás, enquanto os mais severos membros do clube começavam a deturpar o sentido do que dissera. O espírito feminino, apesar de cruelmente prático no dia-a-dia, não suporta ouvir amesquinhar os ideais numa conversa e foi perguntado a Miss Schlegel como podia ela dizer coisas tão horrorosas e o que ganharia Mr. Bast se recebesse o mundo inteiro e perdesse a sua própria alma. Ela respondeu:

- Nada, mas não ganharia a alma até ter ganho um bocadinho do mundo.

Disseram então que "não, não acreditavam nisso", pelo que ela admitiu que um escriturário escravizado pelo trabalho podia salvar a alma num sentido supraterreno, em que o esforço seja entendido como um feito, mas recusou-se a admitir que alguma vez explorasse os recursos espirituais deste mundo, conhecesse os preciosos prazeres do corpo ou estabelecesse contactos francos e apaixonados com os amigos. Outras houve que atacaram os esteios da sociedade - propriedade, rendimentos, etc. ela limitava-se a uma meia dúzia de seres humanos para ver como, nas actuais condições, podiam ser mais felizes. Fazer bem à Humanidade em geral era inútil: os efeitos multicoloridos desse acto alastravam por uma vasta área, como nas películas, e daí resultava um cinzento universal. Fazer bem a um ser ou, como neste caso, a uns tantos, era o máximo que ousava esperar.

Entre as idealistas e as economistas políticas, Margaret passou um mau bocado. Discordando entre si, concordavam para repudiarem as ideias dela e manterem nas suas mãos a administração do dinheiro da milionária. A rapariga decidida apresentou um esquema de "supervisão pessoal e ajuda mútua" que teve como efeito transformar as pessoas pobres até fazer delas pessoas que não eram assim tão pobres.

A anfitriã fez notar, com pertinência, que ela, como primogénito, figuraria com certeza entre os legatários da milionária. Margaret admitiu, sem convicção, a exigência e logo outra foi apresentada por Helen, que declarou ter sido criada da milionária durante mais de quarenta anos, sobrealimentada e mal paga; não se podia fazer nada por ela, tão corpulenta e pobre? A milionária leu então as suas últimas vontades e o testamento, pelo qual deixava toda a sua fortuna ao Chanceler do Tesouro. Depois morreu. A parte de discussão fora mais meritória do que a brincadeira - num debate masculino, o inverso é frequente? - mas a reunião terminou com suficiente dose de hilariedade e uma dúzia de senhoras felizes dispersou-se, a caminho das suas casas.

Helen e Margaret acompanharam a rapariga decidida até à Battersea Bridge Station, discutindo acaloradamente durante todo o trajecto. Quando ela as deixou, sentiram um verdadeiro alívio e tomaram consciência da imensa beleza da noite. Retrocederam pela Oakley Street. Os candeeiros e as árvores, alinhadas, seguindo o contorno do aterro, punham uma nota de dignidade rara nas cidades inglesas. Os bancos, quase desertos, eram ocupados aqui e além por gente de classe, em traje de noite, que saíra das casas lá atrás para darem uma volta e gozarem o ar fresco e o murmúrio da maré a encher. Há qualquer coisa de continental no Chelsea Embankment. É um espaço aberto utilizado de forma correcta, bênção mais frequente na Alemanha do que aqui. Enquanto Margaret e Helen se sentavam, por trás delas a cidade era como que um amplo teatro, um teatro de ópera em que estivesse a ser representada uma qualquer trilogia sem fim e elas próprias um par de assinantes satisfeitas que não queriam perder nada do segundo acto.

- Frio?

- Não.

- Cansada?

- Não interessa.

O comboio da rapariga decidida atravessou a ponte, troando.

- Helen...

- Sim?

- Vamos mesmo para diante com Mister Bast?

- Não sei.

- Acho que não.

- Como quiseres.

- Não serve para nada, penso eu, a menos que conheçamos a pessoa. A discussão convenceu-me disso. Demo-nos muito bem com ele num momento de excitação, mas pensa numa relação racional. Não se deve brincar com a amizade. Não, não vale a pena.

- E há Mistress Lanoline, também - bocejou Helen. - Tão bronca...

- Exactamente; e talvez pior do que bronca.

- Gostava de saber como é que ele arranjou o teu cartão.

- Mas ele disse, qualquer coisa de um concerto e um guarda-chuva...

- Então, o cartão viu a mulher dele...

- Helen, vai para a cama.

- Não, só mais um bocadinho, está tão bonito. Diz-me; ah, disseste que o dinheiro é o fio do mundo? -x

- Disse.

- Então, a trama é o quê?

- Em grande parte, aquilo que cada um escolhe - respondeu Margaret. - Algo que não é dinheiro... é tudo o que se pode dizer.

- Passear à noite?

- É provável.

- Para o Tibby, Oxford?

- Parece que sim.

- Para ti?

- Agora que temos de deixar Wickham Place, começo a pensar que é Wickham Place. Para Mistress Wilcox era sem dúvida Howards End.

O som do nosso nome transpõe enormes distâncias. Mr. Wilcox, sentado com amigos muitos bancos além, ouviu-o, ergueu-se e encaminhou-se para as raparigas.

- É triste pensar que os locais possam alguma vez ser mais importantes do que as pessoas - continuou Margaret.

- Porquê, Meg? Geralmente, são muito mais agradáveis. Prefiro pensar na casa da floresta de Pomerânia do que no gordo Herr Fõrstmeister que morava nela.

- Acho que devemos começar a ligar-nos cada vez menos a pessoas, Helen. Quantas mais conhecemos, mais fácil se torna substituí-las. É uma das pragas de Londres. Espero sinceramente acabar os meus dias dedicando-me sobretudo a um local.

Neste ponto da conversa, Mr. Wilcox chegou junto delas. Havia várias semanas que não se viam.

- Como estão? Pareceu-me reconhecer as vossas vozes. O que fazem por aqui as duas?

O seu tom de voz era protector. Dava a entender que ninguém devia sentar-se no Chelsea Embankment sem escolta masculina. Helen ressentiu-se, mas Margaret aceitou-o como parte integrante das características do bom homem.

- Há séculos que não o via, Mister Wilcox. Encontrei foi a Evie no Metro, há pouco tempo. Espero que tenha boas notícias do seu filho.

- Paul? - Mr. Wilcox apagou o cigarro e sentou-se no meio delas. - Ah, o Paul está bom. Escreveu-nos umas linhas da Madeira. Já deve estar de regresso ao trabalho.

- Hmm - fez Helen, estremecendo por razões complexas.

- Como?

- O clima da Nigéria não é péssimo?

- Alguém tem de ir - respondeu ele com simplicidade. - A Inglaterra nunca conservará o seu comércio ultramarino se não estiver preparada para fazer sacrifícios. A menos que nos mantenhamos firmes na África Ocidental, os ale... haverá complicações enormes.

- Tivemos uma noite esplêndida - gritou Helen, que despertava sempre que aparecia um visitante. - Fazemos parte de uma espécie de clube onde se lêem conferências, a Margaret e eu, tudo mulheres, mas depois há um debate. Esta noite foi sobre a quem se deve deixar o dinheiro que se tem, se à família, se aos pobres e, na afirmativa, como... Ah, foi interessantíssimo!

O homem de negócios sorriu. Desde a morte da mulher, quase duplicara os seus rendimentos. Era finalmente uma personagem importante, um nome tranquilizador nos prospectos da companhia e a vida fora muito boa para ele. Parecia ter o mundo na mão enquanto olhava o Tamisa, que continuava a atravessar todo o país, em direcção ao mar. Tão maravilhoso para as raparigas, para ele era um rio sem segredos. Ajudara a diminuir os seus extensos reflexos comprando acções da comporta de Teddington e, se ele e outros capitalistas assim o entendessem, poderiam um dia diminuí-los ainda mais. com um bom jantar no estômago e uma mulher amável mas demasiado académica de cada lado, estava nos píncaros da lua; o que ele não conhecia não era digno de ser conhecido.

- Soa a divertimento dos mais originais! - exclamou, e riu à sua maneira simpática. - Quem me dera que a Evie fosse a esse género de coisas. Mas não tem tempo. Deu-lhe para criar terriers de Aberdeen, uns cãezinhos lindos.

- Acho que faríamos melhor se lhe seguíssemos o exemplo, palavra.

- Pretendemos estar a aperfeiçoar-nos, percebe? - interveio Helen com alguma rispidez, porque o fascínio dos Wilcox não era daquelas coisas que se repetem e ela tinha recordações amargas dos dias em que um discurso como o que ele acabava de fazer a teria impressionado favoravelmente. - Achamos uma coisa boa perder uma tarde em cada quinze dias com um debate, mas, como diz a minha irmã, talvez seja melhor criar cães.

- De maneira nenhuma. Não concordo com a sua irmã. Não há nada como um debate para nos ensinar a termos a resposta rápida. Acontece-me com frequência desejar ter ido a alguns quando era novo. Ter-me-iam ajudado.

- Rapidez...

- Sim. Rapidez de argumentação. Vezes sem conta perdi pontos porque o outro falava pelos cotovelos e eu não. Ah, sim, eu dou valor a essas discussões.

O tom paternalista, pensou Margaret, ficava bastante bem num homem com idade para ser pai delas. Sempre achara que Mr. Wilcox tinha encanto. Em momentos de dor ou de emoção a sua imperfeição penalizara-a, mas era agradável ouvi-lo agora e contemplar o seu bigode farto e a sua alta testa confrontando as estrelas. Helen, porém, estava irritada. O objectivo dos debates delas, insinuou, era a verdade.

- Ah, claro, não deve importar muito o assunto que tratam - replicou ele.

Margaret riu-se e disse:

- Mas estamos a ir mais longe do que o próprio debate.

Helen caiu em si e riu-se também:

- Não, não vou continuar - declarou. - vou apenas submeter à apreciação de Mister Wilcox o nosso caso especial.

- Mister Bast? Faz isso, sim. com um caso específico, Mister Wilcox vai compreender melhor.

- Mas, por favor, Mister Wilcox, acenda outro cigarro. É o seguinte: conhecemos há pouco tempo um rapaz que é evidentemente muito pobre e que parece intere...

- Que profissão tem?

- É escriturário.

- Onde?

- Lembras-te, Margaret?

- Porphyrion Fire Insurance Company.

- É isso, aquela amável gente que deu um tapete novo à tia Juley. Parece um sujeito interessante, sob alguns aspectos é-o muito, e desperta o desejo de o ajudarmos. É casado com uma mulher com quem não parece importar-se muito. Gosta de livros, daquilo a que poderemos, sem grande propriedade, chamar aventura e se tivesse uma oportunidade... mas é tão pobre! com a vida que tem, todo o dinheiro desaparece em disparates e roupa. É de recear que não saiba enfrentar as circunstâncias e se afunde. Pois bem, acabou por entrar no nosso debate. Não era esse o tema, mas parecia escolhido de propósito para ele. Suponha que morria um milionário e que este pretendia deixar dinheiro para ajudar esse homem. Como deveria ele ser ajudado? Deveriam dar-se-lhe trezentas libras por ano, directamente, conforme o plano de Margaret? A maioria achou que isso o empobreceria. Deveriam proporcionar-se-lhe, e a outros como ele, bibliotecas grátis? Eu respondi: "Não!" Ele não precisa de mais livros para ler, mas sim de ler os livros correctamente. A minha sugestão foi dar-lhe qualquer coisa todos os anos, umas férias de Verão, mas há a mulher e as outras disseram que ela teria de ir também. Nada parecia certo! O que pensa o senhor? Imagine que era milionário e queria ajudar os pobres. O que faria?

Mr. Wilcox, cuja fortuna não estava assim tão longe da média apontada, riu com exuberância.

- Minha querida Miss Schlegel, não vou meter-me num assunto que o seu sexo foi incapaz de tratar. Não vou acrescentar plano nenhum aos vários, excelentes, já sugeridos. A minha única contribuição é esta: façam o vosso amigo fugir da Porphyrion Fire Insurance Company a toda a velocidade possível.

- Porquê? - perguntou Margaret. Mr. Wilcox baixou a voz:

- Fica entre amigos. A Porphyrion vai cair nas mãos dos credores antes do Natal. Vai à falência - acrescentou, receando não ter sido compreendido.

- Santo Deus, Helen, ouve isto! E ele vai ter de arranjar outro emprego!

- Vai ter? Façam-no abandonar o navio antes do naufrágio. Façam-no arranjar emprego agora.

- É preferível a esperar para ter a certeza?

- Decididamente.

- Porquê?

De novo o riso olímpico e a voz baixa:

- Naturalmente, o homem que tem trabalho, quando procura emprego tem mais probabilidades, está numa posição mais sólida, do que o homem que o não tem. Apresenta-se como alguém com mérito. Sei por mim próprio (considerem isto segredo de Estado), que isso influencia grandemente um patrão. Lamento, mas é assim a natureza humana.

- Não tinha pensado nisso - murmurou Margaret, enquanto Helen dizia:

- Parece que a nossa natureza humana é às avessas. Nós empregamos pessoas por estarem desempregadas. O homem das botas, por exemplo.

- E como é que ele limpa as botas?

- Nada bem - confessou Margaret.

- Aí tem!

- Aconselha-nos então a dizer mesmo ao rapaz...

- Não aconselho nada - interrompeu ele, olhando para um e outro lado, não fosse a sua indiscrição ter sido ouvida. - Eu não devia ter falado, mas acontece que sei, porque estou mais ou menos por dentro do assunto. A Porphyrion está mesmo numa má posição, agora não digam que fui eu que lhes contei. Não têm cotação na Bolsa.

- Claro que não dizemos. De facto, nem sei o que isso significa.

- Julgava que uma companhia de seguros nunca falia - foi a contribuição de Helen. - As outras não vêm salvá-la?

- Está a pensar em resseguro - esclareceu Mr. Wilcox calmamente. - É precisamente nisso que a Porphyrion é fraca. Tentou oferecer melhores condições, teve o azar de ser atingida por uma série de pequenos fogos e não conseguiu ressegurar. As empresas públicas não se salvam umas às outras por amor.

- "Natureza humana", calculo - parafraseou Helen e ele riu-se, concordando. Quando Margaret disse supor que os escriturários tinham imensa dificuldade em arranjar colocação nos tempos que corriam, replicou:

- Sim, extrema - e levantou-se para se ir reunir aos amigos. Sabia-o pelo seu próprio escritório: raramente vagava um lugar e havia logo centenas de candidatos para ele; de momento, nem uma só vaga.

- E como vai Howards End? - interrogou Margaret, para mudar de assunto antes de se separarem. Mr. Wilcox tinha uma certa tendência para julgar que os outros pretendiam obter alguma coisa dele.

- Está alugada.

- Ah, sim? E o senhor a vaguear, sem casa, pelo vagabundo Chelsea? Que estranhas são as encruzilhadas do destino.

- Não, foi alugada sem mobília. Mudámo-nos.

- Não me diga, sempre vos imaginei a ambos ancorados em Howards End para todo o sempre. A Evie nunca mo disse.

- Eu diria que quando encontrou a Evie o caso ainda não estava arrumado. Só nos mudámos há uma semana. O Paul tem um fraquinho pela velha casa e nós ficámos mais tempo para ele poder passar lá as férias; mas é, na verdade, pequeníssima. Tem inconvenientes sem conta. Não me lembro se lá foi?

- À casa, nunca.

- Bem, Howards End é uma dessas quintas adaptadas. Não dão lucro nenhum, são autênticos sorvedouros. Metemo-nos em trabalhos com uma garagem, por causa das raízes do olmo-escocês e no ano passado cercámos um bocado do prado e encontrámos terreno rochoso. A Evie entusiasmou-se por plantas alpinas. Mas não se dão... não se dão mesmo. Lembra-se, ou lembra-se a sua irmã, da quinta, com aquelas abomináveis galinhas-da-guiné e a sebe que a velha nunca cortava como deve ser e que por isso ficava rala por cima? E, dentro de casa, as vigas, e a escada por detrás de uma porta, bastante pitoresco, mas não um sítio para se viver. - O seu olhar, alegre, perdeu-se para além do parapeito. - Coisas a mais. E a localização também não era boa. A vizinhança estava a tornar-se suburbana. Como eu costumo dizer, em Londres ou fora de Londres; por isso arranjámos casa na Ducie Street, junto de Sloane Street, e uma moradia mesmo ao pé de Shropshire, Oniton Grange. Já ouviram falar de Oniton? Venham visitar-nos: sempre a direito, seja de onde for, até Gales.

- Que mudança! - exclamou Margaret. Mas a mudança estava na sua voz, muito mais triste. - Não consigo imaginar Howards End ou Hilton sem vós.

- Hilton não está sem nós. O Charles ainda lá vive.

- Ainda? - Margaret não mantivera relações com Charles e a mulher. - Mas eu julguei que ele continuava em Epsom. Estavam a mobilar uma casa nesse Natal... num Natal. Como tudo muda! Muitas vezes admirei a esposa de Charles das nossas janelas. Não era em Epsom?

- Era, mas mudaram-se há dezoito meses. O Charles, amigo fixe - adoçou-se-lhe a voz -, pensou que eu me sentia só. Eu não queria que ele se mudasse, mas ele quis e arranjou uma casa no outro extremo de Hilton, junto às Six Hills. E tem automóvel. Vivemos lá todos, um grupo muito animado: ele e ela e os dois netos.

- Organizo a vida das pessoas muito melhor do que elas próprias! - disse Margaret ao apertarem as mãos. - Quando saiu de Howards End, teria lá posto Mister Charles Wilcox. Teria mantido na família esse lugar tão especial.

- E mantém-se. Não a vendi, nem tenciono fazê-lo.

- Não, mas nenhum de vós lá está.

- Ah, arranjei um óptimo inquilino, Hamar Bryce, um inválido. Se o Charles tivesse querido... mas não quis. A Dolly é tão dependente das comodidades modernas... Não, todos nós decidimos em desfavor de Howards End. Agrada-nos, de certa maneira, mas achamos que agora não é uma coisa nem outra. Deve ter-se uma coisa ou outra.

- E há pessoas tão felizes que têm ambas. Está a tornar-se altivo, Mister Wilcox. Os meus parabéns.

- E os meus - corroborou Helen.

- Lembre à Evie que venha ver-nos, número dois, Wickham Place. Também lá não ficaremos muito tempo.

- Também se mudam?

- Em Setembro próximo - suspirou Margaret.

- Toda a gente se muda! Até depois, então.

A maré começara a vazar. Margaret encostou-se ao parapeito, ficou a olhá-la tristemente. Mr. Wilcox esquecera a esposa, Helen o seu apaixonado; provavelmente, também ela se ia esquecendo. O mundo não pára. Vale a pena rememorar o passado quando o fluxo é contínuo, mesmo no coração dos homens?

Helen despertou-a do seu sonho ao dizer:

- Em que homem próspero e vulgar se tornou Mister Wilcox! Tenho muito poucas afinidades com ele actualmente. Mas contou-nos o que se passa com a Porphyrion. Vamos escrever a Mister Bast logo que chegarmos a casa e dizer-lhe que saia de lá imediatamente.

- Escreve, sim, é o melhor que há a fazer.

- Convidamo-lo para o chá.

 

Leonard aceitou o convite para o chá no sábado seguinte. Mas tinha razão: a visita foi um malogro total.

- Açúcar? - perguntou Margaret.

- Bolo? - perguntou Helen. - Bolo ou biscoitos? Deve ter achado bastante estranha a minha carta, mas vamos explicar-lhe: nós não somos nada estranhas, nem fingidas. Somos é exuberantes, nada mais.

Leonard não era grande coisa como cãozinho de regaço. Não era italiano, ainda menos francês, sangues em que circula o espírito autêntico da malícia e da réplica pronta e espirituosa. A sua perspicácia era a de um cockney; não abria as portas à imaginação e Helen foi abruptamente silenciada com um: "Quanto mais uma senhora tem a dizer, melhor", sentenciado com ar brincalhão.

- Ah, claro! - concordou ela.

- As senhoras animam...

- Sim, eu sei. Essas criaturas encantadoras são raios de Sol harmoniosos. Deixe-me dar-lhe um prato.

- Gosta muito do seu trabalho? - interrompeu Margaret. Também ele foi então abruptamente silenciado. Não queria que estas mulheres se intrometessem no seu trabalho. Elas eram Romance, tal como a sala onde finalmente penetrara, com os seus esquisitos esboços de gente a tomar banho pendurados nas paredes, como as próprias chávenas de chá, com os seus delicados frisos de morangos silvestres. Não deixaria o Romance interferir com a sua vida. Seria uma trapalhada diabólica.

- Bastante - respondeu.

- A sua companhia é a Porphyrion, não é?

- É, sim. - Ficara bastante ofendido. - É engraçado como as coisas se sabem.

- Engraçado, porquê? - interrogou Helen, que não seguia os meandros do seu pensamento. - Estava escrito com todas as letras no seu cartão e considerando que lhe escrevemos para lá e nos respondeu em papel timbrado...

- Diria que a Porphyrion é uma das grandes companhias de seguros? - retomou Margaret.

- Depende do que entende por grande.

- Entendo por grande uma companhia sólida, bem conceituada, que oferece aos seus empregados uma carreira normal.

- Não sei responder... uns dir-lhe-ão uma coisa, os outros outra respondeu o escriturário, pouco à vontade. - Por mim - abanou a cabeça -, só acredito em metade do que oiço. Os espertos são os que mais sofrem, já reparei. A prudência nunca é de mais.

Bebeu e limpou o bigode, que estava no bom caminho para vir a ser um daqueles bigodes que se metem sempre nas chávenas - sem dúvida mais incomodativos do que vantajosos e nem sequer elegantes.

- Concordo totalmente, e é por essa razão que tenho curiosidade em saber: é uma companhia sólida, bem conceituada?

Leonard não fazia a menor ideia. Conhecia o canto da sua máquina e nada mais para além dele. Não queria confessar nem conhecimento nem ignorância e nessas circunstâncias um segundo aceno de cabeça pareceu-lhe o mais seguro. Para ele, como para o público britânico, a Porphyrion era a Porphyrion dos anúncios - um gigante, ao estilo clássico, mas suficientemente adornado, que numa mão brandia uma tocha acesa e com a outra apontava para St. Paul e para o castelo de Windsor. Por baixo, havia a inscrição de uma elevada soma em dinheiro e cada um que tirasse as suas próprias conclusões. Esse gigante obrigava Leonard a fazer contas e a escrever cartas, a explicar os regulamentos aos novos clientes e a reexplicá-los aos antigos. Um gigante é um propulsor de moralidade - toda a gente o sabe. Paga o tapete de Mrs. Munt com aparatosa celeridade, repudia calmamente uma avultada reclamação e luta de tribunal em tribunal. Mas o peso real das suas lutas, os seus antecedentes, as suas ligações com outros membros do panteão comercial, tudo isso era tão nebuloso para o comum dos mortais como as escapadelas de Zeus. Enquanto os deuses são poderosos, pouco ouvimos falar deles. E só nos seus dias de decadência que uma forte luz ilumina os céus.

- Disseram-nos que a Porphyrion vai mal - atirou Helen, desastradamente. - Quisemos informá-lo; foi por isso que escrevemos.

- Um amigo nosso crê que está insuficientemente ressegurada acrescentou Margaret.

Agora Leonard já tinha uma pista. Tinha de enaltecer a Porphyrion.

- Podem dizer ao vosso amigo que está redondamente enganado.

- Ainda bem!

O jovem corou um pouco. No seu círculo, estar errado era fatal. As Schlegel não pareciam importar-se de errar. Estavam genuinamente contentes por terem sido mal informadas. Para elas, só o pecado era fatal.

- Enganado, é força de expressão - acrescentou ele.

- "É força de expressão", como?

- Quero dizer, não penso que esteja inteiramente certo. Mas isto era um disparate.

- Então, está parcialmente certo - deduziu a mulher mais velha, rápida como um relâmpago.

Leonard argumentou que, se formos a isso, toda a gente está parcialmente certa.

- Mister Bast, eu não percebo de negócios e atrevo-me a dizer que as minhas perguntas são estúpidas, mas pode explicar-me o que faz com que uma empresa seja "certa" ou "errada"?

Leonard voltou a sentar-se, com um suspiro.

- O nosso amigo, que também é um homem de negócios, foi tão positivo! Disse que antes do Natal...

- E aconselhou-o a sair de lá - concluiu Helen. - Mas não vejo por que razão ele saberia mais do que o senhor.

Leonard esfregou as mãos. Esteve tentado a dizer que não sabia nada do assunto. Mas o treino comercial foi mais forte do que ele. Não podia dizer que a empresa era má, porque isso seria expô-la; nem que era boa, porque seria igualmente expô-la. Tentou sugerir que era qualquer coisa intermédia, com vastas possibilidades em ambas as direcções, mas sucumbiu perante a fixidez de quatro olhos sinceros. Porque ainda distinguia mal as duas irmãs. Uma delas era mais bonita e mais viva, mas as "Miss Schlegel" continuariam a ser um complexo deus hindu, cujos braços ondulantes e discursos contraditórios eram produto de uma mente única.

- Há que esperar para ver - observou ele, acrescentando: - Como diz Ibsen, "as coisas acontecem".

Estava doido por falar de livros e aproveitar ao máximo a sua hora de romantismo. Os minutos escoavam-se enquanto as senhoras, com falta de tacto, discutiam assuntos de resseguros ou elogiavam o amigo anónimo. Leonard aborreceu-se, talvez com razão. Fez várias alusões a não ser daqueles que desejam ver os seus problemas discutidos por outros, mas elas não acusaram o toque. Se fossem homens teriam demonstrado mais tacto. As mulheres, embora cheias de tacto noutras coisas, nestas são desastradas. Não percebem a razão por que havemos de esconder os nossos rendimentos e as nossas esperanças. "Quanto tem exactamente e quanto espera ter em Junho?" E estas tinham uma teoria em consequência da qual classificavam de absurda qualquer reticência sobre questões de dinheiro e achavam que a vida seria mais franca se cada um patenteasse com exactidão o tamanho da ilha de ouro em que se firma, a exacta extensão do fio com que tece a trama imaterial. Como avaliar com justiça o padrão, senão assim?

E os preciosos minutos escoavam-se, Jacky e a miséria aproximavam-se. Acabou por não aguentar e cortou a conversa, debitando febrilmente nomes de livros. Houve um momento de intenso júbilo quando Margaret disse "Então gosta de Carlyle" e logo a seguir a porta se abriu e "Mr. Wilcox", "Miss Wilcox", entraram, precedidos por dois cachorros saltitantes.

- Oh, que queridos! Oh, Evie, que coisinhas fofas! - guinchou Helen, deixando-se cair de gatas.

- Trouxemos os pequenitos a dar uma volta - disse Mr. Wilcox.

- Fui eu que os criei.

- Não me diga! Venha brincar com os cachorrinhos, Mister Bast.

- Tenho que ir andando - foi a resposta azeda de Leonard.

- Mas primeiro brinque um bocadinho com eles.

- Este é o Ahab, aquela a Jezebel - informou Evie, que pertencia ao número dos que dão aos animais nomes das personagens menos auspiciosas do Velho Testamento.

- Tenho de ir andando.

Helen estava demasiado ocupada com os cachorros para lhe dar atenção.

- Mister Wilcox, Mister Ba... tem mesmo de ir? Adeus!

- Volte! - convidou Helen, do chão.

Leonard revoltou-se: porque haveria de voltar? Para que serviria? Respondeu com aspereza:

- Não, não volto; eu sabia que ia ser um fracasso.

A maioria das pessoas tê-lo-ia deixado partir. "Um pequeno erro. Tentamos travar conhecimento com uma classe diferente - impossível." Mas as Schlegel nunca brincavam com coisas sérias. Tinham tentado conquistar a sua amizade, sofreriam as consequências. Helen retorquiu:

- Essa observação parece-me muito indelicada. Que mal lhe fiz para a merecer? - E repentinamente, soaram na sala os ecos de uma discussão banal.

- Está a perguntar-me o que tenho contra si?

- Estou.

- Para que me quer aqui?

- Para o ajudar, idiota! - gritou Helen. - E não berre!

- Eu não quero a sua protecção. Eu não quero o seu chá. Estava bastante feliz. Porque pretende que fique preocupado? - Virou-se para Mr. Wilcox. - Pergunto a este senhor: diga-me, há razão para me porem a cabeça à roda?

Mr. Wilcox olhou para Margaret, com aquele ar de protecção irónico que tão bem assumia.

- Estamos a mais, Miss Schlegel? Podemos ajudar ou vamo-nos embora?

Mas Margaret ignorou-o.

- Estou ligado a uma companhia de seguros. Recebo o que admito ser um convite destas... senhoras - sublinhou a palavra. - Venho e é para me ver submetido a um interrogatório minucioso. Pergunto, é justo?

- Muitíssimo injusto - respondeu Mr. Wilcox, sob um suspiro de Evie, consciente de que o pai estava a ficar perigoso.

- Ora pronto, ouviram? Muitíssimo injusto, diz este senhor. Aí está! Se não lhe agrada - apontou para Margaret - pode desdizê-lo. - Subia o tom da sua voz: estava a entrar no ritmo de uma cena com Jacky. - Mas enquanto sou útil, a coisa é diferente. "Ah, sim, manda-o chamar. Interroga-o. Põe-lhe a cabeça à roda." Pois claro! Agora, vejam-me como eu sou, sou um sujeito tranquilo: cumpro a lei, não quero problemas; mas eu... eu...

- O senhor... - disse Margaret - o senhor... o senhor... Risos de Helen, perante esta réplica.

- O senhor é o homem que tentou orientar-se pela Estrela Polar. Mais risos.

- Viu o nascer do Sol. Risos.

- Tentou fugir da névoa que nos sufoca a todos, para além dos livros e das casas, a caminho da verdade. Procurou um lar autêntico.

- Não vejo a ligação - disse Leonard, estupidamente colérico.

- Nem eu. - Pausa. - Era tudo isso no domingo passado... hoje é isto. Mister Bast! Eu e a minha irmã conversámos consigo. Quisemos ajudá-lo; julgámos que desejaria ajudar-nos também. Não o chamámos cá por caridade, coisa que nos aborrece, mas sim porque esperávamos que existisse qualquer ponto de contacto entre domingo passado e os outros dias. Que utilidade têm as suas estrelas e árvores, o seu nascer do Sol e o vento, se não entrarem no nosso quotidiano? Nunca entraram no meu, mas no seu sim, pensámos, e não devemos todos nós lutar contra a monotonia do dia-a-dia, contra a mesquinhez, contra a alegria automatizada, contra a desconfiança? Eu luto por não esquecer os meus amigos; outras pessoas que conheci lutam por não esquecer um determinado local, uma praça ou árvore de que gostaram muito. Pensámos que o senhor era uma dessas pessoas.

- É claro, se houve um mal-entendido - resmungou Leonard -, tudo o que posso fazer é ir-me embora. Mas assevero que... - Fez uma pausa. Ahab e Jezebel dançavam-lhe à roda das botas, o que lhe dava um ar ridículo. - Fizeram-me um interrogatório cerrado para obter informações oficiais... posso prová-lo... eu... - Fungou e deixou-as.

- Posso agora ajudá-las? - perguntou Mr. Wilcox, virando-se para Margaret. - Posso conversar consigo junto à entrada, calmamente?

- Helen, chama-o... faz alguma coisa... alguma coisa... para esse idiota perceber.

Helen hesitava.

- De facto... - interveio o visitante. - Será que ela deve? Helen partiu de imediato.

Ele reatou:

- Eu podia ter-me intrometido, mas percebi que podia pô-lo no seu lugar sozinha e não interferi. Foi esplêndida, Miss Schlegel, absolutamente esplêndida. Palavra que foi, muito poucas mulheres conseguiriam metê-lo na ordem.

- Ah, sim - comentou Margaret, distraída.

- O que me fascinou, foi vê-la atirar-lhe com todas aquelas frases muito compridas - gritou Evie.

- Sim, claro - o pai riu entre dentes. - Toda aquela parte sobre alegria automatizada... formidável!

- Tenho muita pena. - Margaret concentrou-se. - Ele é, na realidade, uma criatura encantadora. Não consigo perceber o que o pôs fora de si. Foi muito desagradável para o senhor.

- Ah, eu não me importei. - Alterou a sua atitude. Pediu autorização para falar como velho amigo e, tendo-lhe sido concedida, disse:

- Não deveria de facto ser mais cautelosa?

Margaret riu-se, embora o seu pensamento continuasse junto de Helen.

- Sabe que foi tudo por sua causa? O senhor é o responsável.

- Eu?

- É este o rapaz que quis que puséssemos de sobreaviso contra a Porphyrion. Pusemos e... veja o resultado!

Mr. Wilcox ficou aborrecido.

- Custa-me a considerar justa essa dedução - comentou.

- É claro que é injusta - concordou Margaret. - Estava apenas a pensar em como tudo é complicado. A culpa é sobretudo nossa, nem sua, nem dele.

- Nem dele?

- Não.

- É demasiado benevolente, Miss Schlegel.

- Sim, sem dúvida - corroborou Evie, algo desdenhosa.

- Age bem de mais com as pessoas e elas abusam. Eu conheço o mundo e este género de homens, e mal entrei na sala vi que não estava a pô-lo no seu lugar. Tem de manter esta espécie à distância. De outro modo, esquecem-se de quem são. É triste, mas é a verdade. Não são do nosso meio e esse é um facto que temos de encarar.

- S... sim.

- Admita que nunca se teria dado esta explosão se ele fosse um cavalheiro.

- Admito-o de boa vontade - respondeu Margaret, que passeava de cá para lá na sala. - Um cavalheiro teria guardado para si a sua desconfiança.

Mr. Wilcox observou-a com um vago mal-estar.

- E desconfiou de si? De quê?

- De querer ganhar dinheiro à sua custa.

- Que cretino! Mas como poderia a senhora beneficiar?

- Tem razão. Como, de facto! Uma coisa horrível, a desconfiança corrosiva. Um pingo de raciocínio ou de boa vontade tê-la-ia afastado. Exactamente a falta de senso que torna os homens uns intoleráveis brutos.

- Repito o que disse ao princípio. Devia ser mais cautelosa, Miss Schlegel. As suas criadas deviam ter ordens para não deixar entrar gente desta espécie.

A rapariga encarou-o e, com franqueza:

- Deixe-me explicar exactamente porque gostamos deste homem e queremos voltar a vê-lo - disse.

- Isso é a sua maneira hábil de dizer. Nunca acreditarei que goste dele.

- Gosto, sim. Em primeiro lugar, porque lhe interessa a aventura física, tal como a si. O senhor conduz e faz tiro; ele gostaria de fazer campismo. Em segundo, porque lhe interessa encontrar algo de especial na aventura. A esse algo chama, petulantemente, poesia...

- Ah, pertence à raça dos escritores.

- Não, oh não! Talvez pudesse pertencer, acho eu, mas seria asquerosamente banal. Tem a cabeça cheia de títulos de livros, cultura, um horror; o que queremos é limpar-lhe o cérebro e meter-lhe lá dentro as coisas certas. Queremos mostrar-lhe como poderá triunfar na vida. Como já disse, há amigos ou sítios, algumas... - hesitou - algumas pessoas muito queridas ou lugares muito queridos, que se afigura existirem propositadamente para realçarem a monotonia do quotidiano, para provarem que mesmo monótono. Se possível, todos deviam possuir ambos.

Algumas das suas palavras entraram por um ouvido de Mr. Wilcox e saíram pelo outro. Deixou-as sair. Guardou outras e criticou-as com admirável lucidez:

- Esse é o seu erro, um erro, aliás, muito comum. Esse jovem pretensioso tem uma vida própria. com que direito conclui que é uma vida frustrada ou, como lhe chama, "monótona"?

- Porque...

- Um momento. Não sabe nada a seu respeito. Tem provavelmente as suas próprias alegrias e interesses: mulher, filhos, uma casinha aprazível. É nisso que nós, os indivíduos práticos - sorriu -, somos mais tolerantes do que vós, intelectuais. Vivemos e deixamos viver, partimos do princípio de que o mundo dos outros vai caminhando bastante bem e de que o simples homem comum deve merecer-nos confiança suficiente para o deixarmos resolver os seus próprios problemas. Admito francamente: vejo as caras dos empregados do meu escritório, reparo que são tristonhas, mas não sei o que há por detrás. O mesmo se passa, a propósito, com Londres. Ouvi dizer que critica Londres, Miss Schlegel e, vai achar cómico, fiquei muito zangado consigo. O que conhece de Londres? Limita-se a ver a civilização por fora. Não digo que seja o seu caso, mas há muitos casos em que essa atitude conduz à morbidez, ao descontentamento e ao socialismo. Margaret admitiu a força dos seus argumentos, embora atentassem contra a imaginação. Ao ouvi-lo, caíram por terra alguns dos seus impulsos de poesia e talvez de simpatia, o que a levou a refugiar-se naquilo a que chamava a sua "segunda linha", os factos específicos do caso.

- A mulher dele é uma maçadora - disse com simplicidade. No sábado passado, o rapaz não foi para casa porque queria estar só e ela pensou que ele estava connosco.

- Convosco?

- Sim. - Risadinha de Evie. - Ele não tem o lar aconchegado que o senhor supôs. Fazem-lhe falta interesses externos.

- O malandro! - gritou a rapariga.

- Malandro? - exclamou Margaret, que tinha mais ódio à malandrice do que ao pecado. - Quando se casar, Miss Wilcox, não pretenderá ter interesses externos?

- Aparentemente, ele encontrou-os - insinuou Mr. Wilcox.

- De facto, parece que sim, pai.

- Andou a palmilhar o Surrey, se é isso o que quer dizer - continuou Margaret, recomeçando o seu passeio, mal-humorada.

- Ah, calculo que sim!

- Andou, sim, Miss Wilcox!

- Hmmm! - Mr. Wilcox achava o episódio divertido, embora pouco conveniente. com a maioria das senhoras não o teria discutido, mas contava com a reputação de mulher emancipada de Margaret.

- Ele disse-o e não mentiria a esse respeito. Começaram ambos a rir-se.

- É nisso que eu sou diferente de vós. Os homens mentem sobre a sua posição e as suas expectativas, mas não sobre este género de coisas.

Ele abanou a cabeça:

- Desculpe-me, Miss Schlegel, mas eu sei como é o sujeito.

- Como já disse, ele não é um sujeito. Entende correctamente a aventura. Tem a certeza de que a nossa presunçosa existência não é tudo. É vulgar e histérico e tem a mania dos livros, mas não pense que se limita a isso. Também há nele virilidade. Sim, é o que tenho estado a tentar dizer. É um homem autêntico.

Enquanto falava os seus olhares encontraram-se e foi como se as defesas de Mr. Wilcox desabassem. Por detrás delas, a rapariga viu o homem real. Atingira sem querer a sua sensibilidade. Uma mulher e dois homens: haviam formado o triângulo mágico do sexo e o macho estremecia de ciúme se a fêmea fosse atraída por outro macho. O amor, dizem os cépticos, revela o nosso parentesco com os animais irracionais. Será; isso, pode controlar-se; só o ciúme é vergonhoso. É o ciúme, não o amor, que nos assemelha intoleravelmente aos bichos e que nos leva a evocar dois galos furiosos e uma galinha complacente. Porque era civilizada, Margaret não se prestou à complacência. Porque o não era, Mr. Wilcox continuava furioso muito depois de ter reconstruído as suas defesas e voltava a apresentar-se ao mundo como um bastião.

- Miss Schlegel, as meninas são um par de criaturas adoráveis, mas devem mesmo acautelar-se neste mundo impiedoso. O que diz o vosso irmão?

- Esqueci-me.

- Tem decerto uma opinião?

- Ri-se, se bem me lembro.

- É muito esperto, não é? - interveio Evie, que conhecera Tibby em Oxford e o detestara.

- Sim, bastante... Mas pergunto a mim própria o que estará a Helen a fazer.

- É muito nova para se meter nestas coisas - disse Mr. Wilcox. Margaret saiu para o patamar. Não ouviu nada e o chapéu de

Mr. Bast não estava na entrada.

- Helen! - chamou.

- Sim? - respondeu uma voz vinda da biblioteca.

- Estás aí?

- Estou... ele foi-se embora há um bocado. Margaret foi até junto dela.

- Estás sozinha - disse.

- Estou... está tudo bem. Pobre, pobre criatura...

- Volta para os Wilcox e depois contas-me. Mister Wilcox está muito preocupado e levemente excitado.

- Ah, não tenho paciência para ele. Detesto-o. Pobre querido Mister Bast! Queria falar de literatura e nós de negócios. Um homem tão confundido e apesar disso tão merecedor de um empurrão. Gosto imenso dele.

- Muito bem, mas agora anda para a sala e não fales nele aos Wilcox. Aligeira o assunto.

Helen foi e mostrou-se tão jovial que tranquilizou as suas visitas: esta galinha, pelo menos, era desprendida.

- Foi-se embora com a minha bênção - gritou ela. - E agora, os cachorrinhos.

Ao regressar, de carro, Mr. Wilcox disse à filha:

- Preocupa-me de verdade o caminho que estas raparigas seguem. São tão inteligentes quanto aparentam, mas não são práticas. Deus me perdoe! Algum dia ainda vão longe de mais. Raparigas deste género não deviam viver sozinhas em Londres. Até se casarem, deviam ter quem olhasse por elas. Temos de as ver com mais frequência, estamos em melhor posição do que qualquer outra pessoa. Gostas delas, não gostas, Evie?

Evie respondeu:

- A Helen, vá lá, mas não suporto a outra. E não chamaria rapariga a nenhuma delas.

Evie tornara-se atraente. De olhos escuros, com o brilho da juventude sob o bronzeado, bem constituída e com uma boca firme, era o melhor que os Wilcox sabiam fazer em matéria de beleza feminina. De momento, os cachorros e o pai eram os seus únicos amores, mas a teia do matrimónio ia-se tecendo em sua intenção e alguns dias mais tarde sentiu-se atraída por um Mr. Percy Cahill, um tio de Mrs. Charles, e este por ela.

 

A Era da Prosperidade comporta momentos amargos mesmo para um proprietário. Quando se está na iminência de uma mudança, os móveis são ridículos e agora Margaret deita-se e passa as noites acordada a magicar onde, mas onde diabo irão ser depositados em Setembro, eles e todos os seus pertences. Cadeiras, mesas, quadros, livros, que lhes desabaram em cima ao longo de gerações, desabarão uma vez mais, como um monte de lixo a que se tivesse tardado a dar o empurrão final, a atirar para o fundo do mar. Mas havia todos os livros do pai - nunca os liam, mas eram do pai, tinham de os conservar. Havia o chijfonier com tampo de mármore - a mãe estimara-o muito, não se lembravam porquê. Acumulavam-se sentimentos em redor de cada maçaneta, de cada almofada da casa, sentimentos por vezes pessoais, mas na sua maioria uma vaga devoção pelos mortos, um prolongamento dos ritos que deveriam ter tido o seu ponto final na sepultura.

Era absurdo, se pensarmos bem; Helen e Tibby pensavam-no; Margaret estava demasiado ocupada com os agentes imobiliários. O senhor feudal, proprietário de terras, transmite dignidade, o moderno dono de casas reduz-nos a uma horda de nómadas. Estamos a retroceder à civilização da bagagem e os historiadores do futuro notarão como a classe média amontoou bens sem criar raízes na terra e encontrarão nesse facto o segredo da sua pobreza de ideais. Os Schlegel ficaram sem dúvida paupérrimos ao perderem Wickham Place. Ajudara-os a estabilizar as suas vidas, fora quase um conselheiro. Nem o seu senhorio é espiritualmente mais rico. Construiu apartamentos no local, os seus automóveis são mais velozes, mais severa a sua opinião sobre o socialismo. Mas desperdiçou o precioso aroma dos anos e nenhuma fórmula química que invente poderá devolvê-lo à sociedade.

Margaret andava cada vez mais deprimida; desejava ardentemente instalar-se numa casa antes de saírem da cidade para a visita anual a Mrs. Munt. Agradava-lhe essa visita e queria ter o espírito em paz ao fazê-la. Swanage, embora insípido, era estável e nesse ano, mais do que habitualmente, ansiava pelo seu ar puro e pelas magníficas colinas que o protegem a norte. Mas Londres frustrava-a; a sua atmosfera não lhe permitia concentrar-se. Londres apenas estimula, não ajuda; e Margaret, calcorreando-a apressadamente à procura de uma casa sem saber que género de casa queria, estava a pagar caras as emocionantes sensações do passado. Nem sequer podia livrar-se da cultura e o seu tempo era desperdiçado em concertos que seria um pecado perder e com convites que em caso algum poderiam ser recusados. Acabou por desesperar; resolveu que não iria a parte nenhuma e não estaria para ninguém até encontrar uma casa e desistiu da resolução meia hora mais tarde.

Uma vez lamentara, com humor, não ter nunca ido ao restaurante Simpson, no Strand. Recebia agora um bilhete de Miss Wilcox convidando-a para ir lá almoçar. Ia Mr. Cahill e seria tão agradável tagarelarem os três, acabando talvez com uma ida ao Hipódromo. Margaret não tinha grande apreço por Evie nem o mínimo desejo de conhecer o seu noivo e ficou surpreendida por não ter sido Helen, que tivera muito mais graça ao referir-se ao Simpson, a convidada. Mas o tom íntimo do convite tocou-a. Devia conhecer melhor Evie Wilcox e, declarando que tinha "simplesmente de ser", aceitou.

Mas quando viu Evie à entrada do restaurante, fitando com ferocidade o vazio, segundo a moda das mulheres atletas e nada mais, o seu coração desfaleceu. Miss Wilcox mudara perceptivelmente desde que ficara noiva. A voz estava mais áspera, os modos mais decididos, mostrava tendências protectoras para com a virgem pateta. Margaret era tão parva que o lamentou. Deprimida no seu isolamento, via deslizar, deixando-a para trás, não só casas e mobília, mas também o barco da vida, levando a bordo pessoas como Evie e Mr. Cahill.

Há momentos em que a virtude e a paciência nos abandonam e ela teve um deles no Simpson, no Strand. Ao galgar as escadas, estreitas mas fofamente atapetadas, ao entrar na sala de jantar, onde sela de carneiro era transportada em carrinhos até junto de clérigos expectantes, teve a certeza absoluta, mesmo que errada, da sua própria futilidade e desejou nunca ter saído da sua represa, onde nada acontecia para além de arte e literatura e onde ninguém se casa ou tem a sorte de ficar noivo. Teve então uma pequena surpresa. O pai devia fazer parte do grupo. Sim, fazia. com um sorriso de prazer, deu uns passos em frente para o cumprimentar e o seu sentimento de solidão desvaneceu-se.

- Decidi que daria um salto até aqui, se pudesse - disse ele. Como a Evie me falou do seu plano, adiantei-me e arranjei mesa. Deve-se sempre começar por arranjar mesa. Evie, não finjas que queres sentar-te ao lado do teu velho pai, porque não queres. Miss Schlegel, venha para junto de mim, por muito que lhe custe. Meu Deus, que aspecto tão cansado! Ralações com os seus jovens escriturários?

- Não, com casas - respondeu Margaret, acomodando-se junto dele no compartimento. - Estou esfomeada, não estou cansada; quero montanhas de comida.

- Óptimo. O que quer?

- Empada de peixe - respondeu, depois de passar os olhos pela ementa.

- Empada de peixe! É cómico, vir ao Simpson para comer empada de peixe. Não se vem aqui para comer isso.

- Então, escolha qualquer coisa por mim - disse Margaret, tirando as luvas. Recuperava alento e a sua referência a Leonard Bast animara-a singularmente.

- Sela de carneiro - decidiu ele, após profunda reflexão - e para beber, sidra. Assim, está bem. Gosto disto, de vir cá, a título de divertimento, de vez em quando. É tão genuinamente Velha Inglaterra! Não concorda?

- Concordo - respondeu Margaret, que não concordava. A encomenda fora feita, a carne dobrada pela articulação e, sob a direcção de Mr. Wilcox, o empregado cortou-a do sítio onde era mais suculenta e encheu-lhes abundantemente os pratos. Mr. Cahill insistira em pedir lombo de vaca, mas depois admitiu que havia cometido um erro. Ele e Evie depressa encetaram uma conversa do tipo "não, não fiz; fizeste, sim" - conversa que, embora fascinante para os que a mantêm, não desperta nem prende a atenção dos outros.

- É uma regra de ouro dar gorjeta ao criado que trincha a carne. Dar gorjetas em toda a parte é o meu lema.

- Talvez isso humanize mais a vida.

- Assim, os sujeitos reconhecer-nos-ão. Especialmente no Leste, se dermos gorjetas ficam a recordar-se de nós por muitos anos.

- Já esteve no Leste?

- Na Grécia e no Levante. Costumava ir a Chipre, para fazer desporto e para tratar de negócios; há por lá uma espécie de sociedades militarizadas. Umas tantas piastras, distribuídas como deve ser, ajudam a manter-lhes a memória viva. Mas isto soa-lhe, claro está, a escandalosamente cínico. Como vão as suas discussões sociais? Algumas novas utopias?

- Não, ando à caça de uma casa, Mister Wilcox, como já lhe disse uma vez. Sabe de alguma?

- Infelizmente, não.

- Então para que serve ser prático se não consegue uma casa a duas mulheres desesperadas? Só queremos uma casa pequena com divisões amplas, e cheia delas.

- Evie, esta é boa! Miss Schlegel quer fazer de mim seu agente imobiliário!

- O quê, pai?

- Preciso de uma nova casa em Setembro e alguém tem de ma arranjar. Eu não consigo.

- Percy, sabes de alguma?

- Não posso dizer que saiba - respondeu Mr. Cahill.

- Tu também! Nunca serves para nada.

- Nunca sirvo para nada! Oiçam isto! Nunca sirvo para nada! com franqueza!

- Não serves mesmo. Serve, Miss Schlegel?

A torrente de amor de ambos, salpicadas as suas gotas sobre Margaret, retomou o curso habitual. Margaret achava agora simpático esse amor, desde que um pequeno prazer lhe devolvera a cordialidade. Tanto lhe agradava conversar como ficar em silêncio e enquanto Mr. Wilcox tecia umas considerações preliminares sobre o queijo, ia inspeccionando o restaurante com o olhar e admirando os seus bem calculados tributos à solidez do nosso passado. Embora não mais "Velha Inglaterra" do que as obras de Kipling, havia seleccionado as reminiscências com tanta habilidade que o espírito crítico adormecia e os seus frequentadores, alimentados no melhor espírito imperial, passavam a assemelhar-se a Parson Adams ou tom Jones. Chegavam-lhe aos ouvidos fragmentos desconexos das suas conversas: "Tem toda a razão! vou telegrafar para o Uganda esta tarde", veio da mesa atrás. "O imperador deles quer a guerra; pois bem, que a faça", era a opinião de um clérigo. Estas incongruências fizeram-na sorrir.

- Da próxima vez - disse a Mr. Wilcox - irá almoçar comigo ao Mister Eustace Miles.

- Com todo o prazer.

- Não, ia detestar - e aproximando do dele o seu copo para que lhe pusesse mais sidra: - É só proteínas e cuidados com o corpo e as pessoas aproximam-se de nós para nos dizer, pedindo desculpa, que temos uma aura linda.

- Uma quê?

- Nunca ouviu falar de aura? Oh, que homem tão feliz! Trabalho a minha durante horas. Nem no plano astral?

Ele ouvira falar de planos astrais e criticou-os.

- Isso mesmo. Felizmente, era a aura de Helen e não a minha, foi ela quem teve de lhe fazer companhia e ser educada. Eu limitei-me a sentar-me com o lenço na boca até o homem se ir embora.

- Acontecem-vos, às duas, as mais cómicas experiências. Nunca ninguém me fez perguntas sobre a minha... como é que se chama? Talvez eu não tenha nenhuma.

- Tem de ter, mas talvez seja de uma cor tão terrível que ninguém ousa mencioná-la.

- Diga-me, a sério, Miss Schlegel, acredita mesmo no sobrenatural e nessas coisas todas?

- Pergunta muito difícil.

- Porquê? Gruyère ou Stilton?

- Gruyère, por favor.

- É melhor escolher o Stilton.

- Stilton. Porque, embora eu não acredite em auras e ache que a teosofia é apenas meio caminho andado...

- Mesmo assim, deve haver qualquer coisa - concluiu ele, franzindo o sobrolho.

- Não é bem isso. Posso estar a meio caminho na direcção errada. Não sei explicar. Não acredito nessas novidades todas e no entanto não gosto de dizer que não acredito.

Não pareceu satisfeito, perguntou:

- Então não poderia dar-me a sua palavra de que não lida com corpos astrais e tudo o resto?

- Podia - respondeu Margaret, surpreendida por isso ser importante para ele. - Dou, de facto. Quando disse que trabalhava a minha aura, estava a brincar. Mas porque quer que lho garanta?

- Não sei.

- Ora, Mister Wilcox, sabe, sim.

- Sim, eu sou... Não, tu não és... - irrompeu dos noivos em frente. Margaret calou-se por um momento e depois mudou de assunto:

- Como vai a sua casa?

- Exactamente como quando lhe deu a honra de a visitar, na semana passada.

- Não me refiro a Ducie Street. Howards End, claro.

- Porque "claro"?

- Não pode pôr o seu inquilino na rua e deixá-la para nós? Já quase demos em doidas.

- Deixe-me pensar. Queria poder ajudá-la. Mas julguei que desejava ficar na cidade. Um pequeno conselho: determine o local que pretende, depois determine o preço que quer pagar e depois mantenha-se inflexível. Foi assim que eu adquiri tanto Ducie Street como Oniton. Disse para comigo: "É exactamente aqui que quero ficar", e fiquei, e Oniton é um lugar único entre mil.

- Mas eu mantenho-me inflexível. Os homens parecem hipnotizar as casas... intimidam-nas com um olhar e elas aí vêm, a tremer. As mulheres não conseguem. São as casas que me hipnotizam. Não tenho o mínimo controlo sobre as coisas insolentes. As casas têm vida própria. Não acha?

- Está fora da minha esfera. - E acrescentou: - Não falaria mais ou menos assim a um paquete de escritório?

- Falaria? Acho que sim, mais ou menos. Eu falo da mesma maneira a toda a gente... ou tento falar.

- Eu sei. E está convencida de que ele a perceberia?

- Isso é um problema dele. Não acredito nas vantagens de adaptar as minhas palavras às pessoas com quem estou. Claro que pode encontrar-se uma conversa média que pareça suficientemente apropriada, mas isso não se assemelha mais à realidade do que o dinheiro se assemelha à comida. Não tem conteúdo. Mantemo-la com as classes abaixo de nós, que no-la devolvem e a isso chama-se "conversa social" ou "esforço mútuo" quando afinal é, se alguma coisa for, apenas presunção mútua. Os nossos amigos de Chelsea não entendem isto. Dizem que devemos ser a todo o custo compreensíveis e sacrificar-nos...

- às classes mais baixas - interrompeu Mr. Wilcox, cortando-lhe o discurso. - Bem, admite que há ricos e pobres. Já é alguma coisa.

Margaret não soube o que replicar. Seria ele incrivelmente estúpido ou compreendê-la-ia melhor do que ela se compreendia a si própria?

- Admite que, se a fortuna fosse dividida por igual, dentro de poucos anos haveria de novo ricos e pobres como agora. Os grandes empreendedores trepariam até ao topo, o refugo estatelar-se-ia na base.

- Toda a gente o admite.

- Os seus socialistas, não.

- Os meus socialistas, sim. Talvez os seus não admitam; mas suspeito muitíssimo que não serão socialistas, mas sim joguetes, que construiu para seu próprio divertimento. Não posso imaginar um ser vivo que derrube outros com maior facilidade.

Ter-se-ia ofendido se ela não fosse uma mulher. Mas as mulheres podiam dizer fosse o que fosse - era uma das suas mais sagradas crenças -, pelo que apenas retorquiu, com um sorriso alegre:

- Não estou nada ralado. Fez duas concessões comprometedoras e em ambas estou consigo de todo o coração.

Tinham entretanto terminado o almoço e Margaret, que se desculpara por não ir ao Hipódromo, despediu-se. Evie mal lhe dirigira a palavra e Margaret suspeitava de que a reunião fora planeada pelo pai. Ele e ela adiantavam-se às respectivas famílias, caminhavam para um conhecimento mais íntimo. Começara muito antes. Fora amiga da sua mulher e, como tal, ele oferecera-lhe o frasco de sais de prata, a título de recordação. Fora um bonito gesto da sua parte dar-Lhe esse frasco e sempre a preferira a Helen, ao contrário da maioria dos homens. Mas o que depois se seguira era surpreendente. Tinham ido mais longe numa semana do que em dois anos e começavam a conhecer-se verdadeiramente.

Margaret não se esqueceu da sua promessa, de o levar a experimentar o Eustace Miles e convidou-o logo que lhe foi possível arrastar Tibby como pau-de-cabeleira. Ele veio e ingeriu humildemente comida dietética.

Na manhã seguinte, as Schlegel partiram para Swanage. Não haviam conseguido encontrar um novo lar.

 

Estavam sentadas à mesa de pequeno-almoço da tia Juley em The Bays, evitando os seus excessos de hospitalidade e usufruindo a vista da baía, quando chegou uma carta para Margaret que a perturbou imenso. Era de Mr. Wilcox. Anunciava uma "importante alteração" dos seus planos. Em consequência do casamento de Evie, decidira sair da sua casa de Ducie Street e pretendia alugá-la com contratos anuais. Era uma espécie de carta de negócios e explicava com franqueza o que estava e não estava disposto a oferecer-lhes, inclusive quanto ao aluguer. Se aprovassem, Margaret deveria vir de imediato - as palavras estavam sublinhadas, como se tal fosse necessário quando se negoceia com mulheres - e ir ver a casa. Se não concordassem, agradecia que lhe enviassem um telegrama, para poder entregá-la a um agente imobiliário.

A carta era perturbante porque a rapariga não estava segura do seu significado. Se ele gostava dela, se manobrara para a levar ao Simpson, tratar-se-ia de uma artimanha para a apanhar em Londres, resultando daí uma proposta de casamento? Pôs a si própria o problema tão cruamente quanto possível, na esperança de que a sua massa cinzenta gritasse: "Disparate, és uma idiota de uma autoconvencida!" Mas a sua massa cinzenta limitou-se a um vago tilintar, ao qual se seguiu o silêncio, e a rapariga manteve-se sentada, a fitar o mar picado e a perguntar aos seus botões se as novidades não iriam parecer estranhas aos outros.

Mal começou a falar, sossegou-a o som da sua própria voz. Não havia nada de mal no caso. Também as respostas foram típicas e os seus temores desvaneceram-se no rumor da conversa.

- Não precisas de ir, seja como for... - começou a anfitriã.

- Não preciso, mas não farei melhor em ir? Isto está a ficar um caso sério. Deixamos escapar oportunidade atrás de oportunidade e acabaremos por ser postas no meio da rua com armas e bagagens. Não sabemos o que queremos, é esse o problema...

- Não, não teríamos verdadeiros laços - disse Helen, tirando uma torrada.

- Não deverei eu ir hoje à cidade, ficar com a casa se for minimamente aceitável e voltar amanhã no comboio da tarde, começando finalmente a divertir-me? Não vou ser nada agradável para mim própria ou para os outros enquanto não tirar este assunto da cabeça.

- Mas não irás fazer algo de precipitado, Margaret?

- Não há nada de precipitado no caso.

- Quem são os Wilcox? - perguntou Tibby, pergunta que soava a parva, mas que na realidade era extremamente subtil, como a tia aprendeu à sua custa ao tentar responder-lhe.

- Eu não entendo os Wilcox; não sei onde querem chegar.

- Nem eu - concordou Helen. - É engraçado nunca os termos perdido de vista. De todos os conhecimentos que fizemos em viagens, Mister Wilcox é o único que se mantém. Já lá vão três anos e entretanto temo-nos afastado de pessoas bem mais interessantes.

- As pessoas interessantes não arranjam casas para os outros.

- Meg, se começas com a tua veia honestamente inglesa, atiro-te com o melaço!

- É uma veia melhor do que a veia cosmopolita - retorquiu Margaret, levantando-se. - E agora, meninos, o que fazemos? Conhecem a casa de Ducie Street. Devo responder que sim ou que não? Tibby querido... então? Estou ansiosa por vos alojar, aos dois.

- Tudo depende do que entendes por acei...

- Não depende de nada disso. Diz que sim.

- Diz que não.

Margaret falou então com gravidade:

- Acho que a nossa raça está a degenerar. Nem sequer conseguimos resolver uma coisa insignificante como esta; o que será quando nos virmos a braços com uma importante?

- Será tão fácil como beber um copo de água - comentou Helen.

- Estava a pensar no pai. Como se terá ele arranjado para deixar a Alemanha como deixou, tendo lutado por ela quando era novo e sendo todos os seus sentimentos e todos os seus amigos prussianos? Como terá ele cortado com o patriotismo e concentrado noutras coisas os seus esforços? Eu, teria morrido. Perto dos quarenta, pôde mudar de país e de ideais... e nós, na nossa idade, não podemos mudar de casa. É humilhante.

- O vosso pai pode ter sido capaz de mudar de país - disse com aspereza Mrs. Munt - e isso pode ter sido ou não uma coisa positiva. Mas não tinha mais jeito para mudar de casa do que vocês, tinha mesmo muito menos. Nunca esquecerei o que a pobre Emily sofreu com a mudança de Manchester.

- Eu sabia! - gritou Helen. - Foi o que eu vos disse. São as pequenas coisas que atrapalham as pessoas. As grandes, as realmente importantes, são ninharias quando surgem.

- Que atrapalham, minha querida! Eras demasiado pequena para que te lembres... de facto, nem existias. Mas a mobília foi metida em vagões e posta a caminho antes de o arrendamento de Wickham Place ser assinado e a Emily apanhou o comboio com o bebé, que nessa altura era a Margaret, e a bagagem de mão sem sequer saber como seria a sua nova casa. Sair dessa casa pode ser difícil, mas não é nada comparado com o desalento que todos sentimos ao entrar nela.

com a boca cheia, Helen berrou:

- E foi o homem que se bateu contra os austríacos, os dinamarqueses, os franceses, até mesmo os alemães que tinha no coração! E nós somos iguais a ele!

- Fala por ti - contrapôs Tibby. - Lembra-te de que eu sou cosmopolita, faz favor.

- Talvez a Helen tenha razão.

- É claro que tem razão - asseverou Helen.

Talvez Helen tivesse razão, mas não foi a Londres. Quem foi, foi Margaret. Uma interrupção das férias é o pior dos males menores e há que perdoar a uma pessoa por se sentir mórbida quando uma carta de negócios a arranca ao mar e aos amigos. Não acreditava que o pai alguma vez tivesse sentido o mesmo. Ultimamente, andava com problemas com os olhos, por isso não podia ler no comboio e enfadava-a contemplar a paisagem, que ainda na véspera vira. Em Southampton "acenou" a Frieda; Frieda ia em sentido contrário, para se lhes juntar em Swanage, e Mrs. Munt calculara que os seus comboios se cruzassem. Mas Frieda ia a olhar para o lado contrário e Margaret seguiu para a cidade, sentindo-se solitária e solteirona. Solteirona ao ponto de fantasiar que Mr. Wilcox a cortejava! Visitara em tempos uma solteirona - pobre, estúpida e nada atractiva - cuja mania era que todos os homens que se aproximavam dela se apaixonavam. Como o coração de Margaret sangrara perante tanta ilusão! Quanto perorara, a chamara à razão e, em desespero de causa, aquiescera! "Eu posso ter sido iludida pelo pastor, minha querida, mas o rapaz que traz o correio do meio-dia está na verdade interessado em mim e de facto..." Este sempre lhe parecera o mais odioso aspecto da velhice e estava a cair nele meramente pela pressão da virgindade.

Em Waterloo, Mr. Wilcox veio encontrar-se com ela. Não teve a mínima dúvida de que ele não era o mesmo do costume, pela simples razão de que tudo o que lhe dizia o ofendia.

- É gentilíssimo da sua parte - começou -, mas receio que não dê certo. Ainda está por construir a casa que sirva para a família Schlegel.

- O quê? Veio determinada a não chegar a acordo?

- Não exactamente.

- Não exactamente? Nesse caso, comecemos.

Margaret demorou-se a admirar o carro, que era novo e bem mais bonito do que o gigante escarlate que conduzira a tia Juley à sua condenação, três anos antes.

- É muito bonito - comentou. - Está contente com ele, Grane?

- Entre, vamos começar - repetiu Mr. Wilcox. - Como diabo soube que o meu chauffeur se chama Grane?

- Ora essa, eu conheço o Grane: fui dar uma volta de carro com a Evie, uma vez. Sei que teve uma criada de quarto chamada Milton. Sei imensas coisas.

- Evie! - A sua voz ecoou em tom injurioso. - Não vai vê-la. Saiu com Cahill. Não é divertido, garanto-lhe, ficar tanto tempo sozinho. Durante o dia tenho o meu trabalho, aliás, tenho imenso que fazer, mas quando chego a casa, à tardinha, digo-lho eu, não suporto

a casa.

- À minha estranha maneira, também eu estou só - replicou Margaret. - Parte-se-me o coração, deixar a nossa velha casa. Mal me lembro seja do que for anterior a Wickham Place e a Helen e o Tibby nasceram lá. A Helen diz...

- Também se sente sozinha?

- Horrivelmente. Olhe, as traseiras do Parlamento!

Mr. Wilcox lançou ao Parlamento um olhar de desprezo. Não era aí que se puxavam os cordelinhos mais importantes da vida.

- É, estão de novo a tagarelar - comentou. - Mas ia a dizer que...

- Nada de interesse, sobre mobília. A Helen diz que só haverá solidão quando os homens e as casas desaparecerem e que o mundo acabará por ser um deserto cheio de cadeiras e sofás, veja só que ideia! a rolarem até ao infinito sem ninguém para se sentar neles!

- A sua irmã tem de estar sempre a dizer graças.

- Ela diz que sim, o meu irmão que não, quanto a Ducie Street. Não é nada divertido ajudar-nos, Mister Wilcox, asseguro-lhe.

- A Margaret não é tão pouco prática como parece. Nunca acreditarei nisso.

Ela riu-se. Mas era - mesmo nada prática. Não conseguia concentrar-se nos pormenores. O Parlamento, o Tamisa, o chauffeur mudo, tudo se imiscuiria no campo da procura de casa e tudo exigiria um comentário ou uma resposta. É impossível olhar a vida moderna com firmeza e simultaneamente abrangê-la no seu conjunto. Mr. Wilcox era firme. Nunca se preocupava com o irreal ou com o privado. O Tamisa podia refluir para o interior vindo do mar, o chauffeur podia ocultar sob a pele doentia toda a espécie de paixões e filosofias indignas. Eles tratavam dos seus problemas, ele dos dele.

Apesar de tudo, agradava-lhe a sua companhia. Não criticava, era estimulante e afastava a morbidez. Uns vinte anos mais velho do que ela, conservava uma qualidade que ela supunha ter já perdido - não o poder criativo da juventude, mas sim a sua autoconfiança e o seu optimismo. Era tão estável que se tornava muito agradável estar junto dele. De compleição forte, o cabelo recuara-lhe, mas não enfraquecera, havia no seu bigode farto e nos olhos, que Helen comparara a bombons de licor, uma ameaça que atraía, quer olhasse a sarjeta ou as estrelas. Um dia - no milénio - tal tipo seria descabido. De momento, respeitam-no os que se acham a si próprios superiores e que se calhar o são.

- Em todo caso, respondeu logo ao meu telegrama - observou ele.

- Ah, achei mesmo que era uma coisa boa, quando o li.

- Dá-me prazer que não despreze as coisas boas da vida.

- Céus, não! Só os idiotas e os pedantes o fazem.

- Dá-me prazer, muito prazer - repetiu, subitamente mais gentil e virando-se para ela, como se a observação lhe tivesse mesmo agradado. - Dizem-se tantas hipocrisias nos círculos pseudo-intelectuais! Ainda bem que não é o seu caso. A rejeição por vontade própria está muito certa como um meio para fortalecer o carácter. Mas não suporto as pessoas que menosprezam o bem-estar. Em geral, fazem-no com qualquer objectivo. Não concorda?

- Há duas espécies de bem-estar - respondeu Margaret, que o tinha -, o que é fácil de partilhar com os outros, como o fogo, o tempo, a música; e o que não é: comida, por exemplo. Depende. Refiro-me a um razoável bem-estar, claro. Não gostaria de pensar que o senhor...

Ele aproximara-se muito, inclinando-se para ela; a frase morreu a meio. Margaret sentiu-se parva, qualquer coisa girava dentro da sua cabeça como o facho de um farol. Não a beijou, porque era meio-dia e meia e o carro passava pelas cavalariças de Buckingham Palace. Mas havia uma tal emoção no ar que fazia parecer que a multidão só ali estava por sua causa e Margaret, surpreendida por Grane o não notar, virou-se. Que pensamento idiota o seu, Mr. Wilcox só estava mais - como dizer? - mais psicológico do que habitualmente. Sempre bom juiz de caracteres quando se tratava de negócios, parecia nessa tarde alargar o seu campo e reparar em qualidades para além da clareza, da obediência e da determinação.

- Quero ver a casa toda - declarou ela quando chegaram. Logo que regresse a Swanage, amanhã à tarde, discutirei outra vez o assunto com a Helen e o Tibby e mando-lhe um telegrama a dizer se sim ou não.

- Muito bem. A sala de jantar. E começaram a visita.

A sala de jantar era grande, mas tinha mobília a mais. Ghelsea teria feito ouvir alto e bom som os seus queixumes. Mr. Wilcox abstivera-se daqueles esquemas decorativos que constrangem, evitam, refreiam e obtêm beleza, sacrificando o conforto e a inovação. Depois de tanta ostentação e renúncia, Margaret reparou com alívio no sumptuoso rodapé, no friso, no vistoso papel de parede, em cujas ramagens pairavam papagaios. Nunca se harmonizaria com a sua mobília, mas as cadeiras pesadas, o imenso aparador carregado de pratas, impunham-se com masculina energia. A sala sugeria homens e Margaret, inclinada a considerar os modernos capitalistas descendentes dos guerreiros e caçadores do passado, viu-a como um antigo salão de recepções, onde o senhor se sentava para comer com os nobres das suas relações. Até a Bíblia - a Bíblia holandesa que Charles trouxera da Guerra dos Bóeres - estava no lugar adequado. Numa tal sala, a pilhagem afigurava-se lícita.

- Agora, a sala de estar.

A sala de estar tinha chão de ladrilhos.

- É aqui que nós, homens, fumamos.

Nós, homens, fumavam em cadeiras de cabedal castanho. Era como se um autocarro ali tivesse desovado.

- Que óptimo! - exclamou Margaret, afundando-se numa delas.

- Gosta? - E fixou o olhar no rosto que, virado para cima, dava uma nota de quase intimidade. - São uma porcaria desconfortável. Não acha?

- A... acho. Uma semiporcaria. São Cruikshanks?

- Gillrays. Vamos lá acima?

- A mobília vem toda de Howards End?

- A mobília de Howards End foi toda para Oniton.

- Bem... seja como for, o que me interessa é a casa, não é a mobília. Quais são as dimensões da sala de fumo? - Quinze por sete e meio. Não, espere. Quinze por oito metros.

- Ah, bom! Mister Wilcox, não o diverte a solenidade com que nós, os da classe média, discutimos o problema das casas?

Continuaram, para a sala de visitas. Chelsea ocupara-se mais dessa. Era incolor e ineficaz. Podia imaginar-se as damas refugiando-se nela enquanto lá em baixo os seus cavalheiros discutiam as realidades da vida, fumando charutos. A sala de visitas de Mrs. Wilcox em Howards End teria este aspecto? No exacto momento em que tal pensamento lhe atravessava o espírito, Mr. Wilcox pediu-a em casamento e verificar que tivera razão descontrolou-a a tal ponto que quase desmaiou.

Mas aquela proposta não poderia inserir-se no lote das grandes cenas de amor universais.

- Miss Schlegel - a voz dele era firme -, fi-la vir cá sob um falso pretexto. Quero falar sobre um assunto muito mais sério do que uma casa.

Margaret quase respondeu: "Eu sei..."

- Poderei induzi-la a partilhar a minha... É, será possível...

- Oh, Mister Wilcox! - interrompeu ela, apoiando-se no piano e desviando o olhar. - Eu entendo, eu entendo. Escrever-lhe-ei mais tarde, se puder. Ele gaguejou:

- Miss Schlegel... Margaret... não percebe...

- Percebo! Percebo, sim!

- Estou a pedir-lhe que seja minha esposa.

Era já tão profunda a sua simpatia, que quando ele disse "estou a pedir-lhe que seja minha esposa", Margaret quase se assustou. Tinha de se mostrar surpreendida, se era isso o que ele esperava. Inundou-a uma imensa alegria. Indescritível. Não tinha nada a ver com a natureza humana, assemelhava-se mais a quando nos envolve um delicioso tempo. Um tempo delicioso é uma consequência do sol, mas naquele lugar Margaret não conseguia imaginar qualquer radiação solar. Ali estava, na sala de visitas, feliz e ansiosa por dar felicidade. Ao deixá-lo, apercebeu-se de que a radiação fora amor.

- Está ofendida, Miss Schlegel?

- Como poderia está-lo?

Houve uma pausa momentânea. Margaret percebeu que ele estava morto por se ir embora. Tinha intuição suficiente para ver como se debatia quando confrontado com a posse de coisas que o dinheiro não pode comprar. Desejava companhia e afeição, mas temia-as, e ela, que apenas sabia desejar e teria podido embelezar essa luta, recuou e, tal como ele, hesitou.

- Adeus - disse. - Vai receber uma carta minha. Volto amanhã para Swanage.

- Obrigado.

- Adeus e sou eu quem agradece.

- Posso mandar ligar o carro, não posso?

- É muito gentil.

- Quem me dera ter escrito em vez de falar. Devia ter escrito?

- De maneira nenhuma.

- Há só uma pergunta...

Margaret abanou a cabeça. Ele mostrou-se atrapalhado quando se separaram.

Separaram-se sem apertarem a mão; por causa dele, Margaret mantivera a conversa o mais neutra possível. No entanto, vibrava de felicidade ao chegar a sua casa. Outros a tinham amado no passado, se é que se pode aplicar uma palavra tão profunda aos seus breves desejos, mas esses outros não passavam de uns tolos - jovens que não tinham com que se ocupar, velhos que não encontravam outra melhor. E também ela algumas vezes "amara", mas não para além das exigências do sexo: meras atracções pelo homem, que se repudiam por aquilo que valem, com um sorriso. Nunca antes o seu âmago fora tocado. Não era nova nem muito rica e surpreendia-a que um homem com alguma classe a levasse a sério. Quando se sentou na sua casa vazia, tentando deitar contas à vida, por entre belos quadros e valiosos livros, as ondas da emoção rebentaram, uma maré de paixão fluiu na noite. Em vão repetia: "Mas eu já tinha passado por isto!" Nunca passara; a grande maquinaria, contrapondo-se à pequena, fora posta em movimento e a ideia de que Mr. Wilcox a amava obcecou-a antes ainda de começar a retribuir-lhe esse amor.

Não decidiria nada por enquanto. "Oh, Mister Wilcox, é tudo tão inesperado" - esta frase feita expressaria os seus sentimentos quando chegasse o momento oportuno. Premonições não são preparação. Tinha de estudar mais a fundo a sua própria personalidade e a dele; tinha de discutir judiciosamente o assunto com Helen. Fora uma estranha cena de amor - o raio de sol não admitido desde o princípio até ao fim. No lugar dele, ela teria dito: "Ich Hebe dich", mas talvez ele não estivesse habituado a abrir o coração. Talvez o tivesse feito se ela o tivesse pressionado - por dever, talvez; os Ingleses esperam que todos os homens abram o coração alguma vez na vida; mas o esforço tê-lo-ia abalado e nunca, desde que ela o pudesse evitar, ele perderia aquelas defesas que decidira erguer contra o mundo. Não deveria nunca ser aborrecido com conversas emocionais ou com demonstrações de ternura. Era hoje um homem de idade avançada e seria fútil e impudente modificá-lo.

Mrs. Wilcox ora aparecia ora desaparecia, fantasma sempre bem-vindo; inspeccionando a cena, pensou Margaret, sem demonstrar a mínima amargura.

 

Se alguém quisesse mostrar a Inglaterra a um estrangeiro, talvez a forma mais assisada fosse levá-lo à extremidade das colinas Purbeck e colocá-lo no seu cume, algumas milhas a leste de Corfe. Região atrás de região da nossa ilha desfilaria então conjuntamente a seus pés. Lá em baixo fica o vale de Frome e todas as terras selvagens que, agitadas, se estendem desde Dorchester, em negro e ouro, para espelharem as suas giestas nas vastidões de Poole. Mais além, o vale do Stour, inexplicável curso de água, imundo em Blandford, puro em Wimborne, o Stour, deslizando por férteis campos para se unir ao Avon sob a torre da Christchurch. O vale do Avon é invisível, mas ao longe, para norte, olhos treinados podem descortinar Clearbury Ring, que lhe serve de sentinela, e a imaginação pode ultrapassar a própria planície de Salisbury e, para além da planície, chegar às gloriosas colinas da Inglaterra Central. Nem suburbia falta. A ignóbil costa de Bournemouth encolhe-se à direita, ostentando os pinheiros que, por toda a sua beleza, sugerem casas vermelhas e a Bolsa de Valores e se estendem até às portas da própria Londres. Como é tremendo o rasto da City! Mas os rochedos de Freshwater nunca ela tocará e a ilha guardará a pureza da Ilha até ao fim dos tempos. Vista do ocidente, Wight ultrapassa todos os conceitos de beleza. É como se um fragmento da Inglaterra se adiantasse, flutuando, para saudar os estrangeiros - greda da nossa greda, relva da nossa relva, resumo de tudo o que se seguirá. E oculta pelo fragmento, estende-se Southampton, anfitriã de nações, Portsmouth, um fogo latente - e a toda a volta, com duplas e triplas colisões de marés, redemoinha o mar. Quantas aldeias se avistam! Quantos castelos! Quantas igrejas, vencidas ou triunfantes! Quantos barcos, linhas de caminho-de-ferro e estradas! Que incrível variedade de homens a trabalharem sob o céu brilhante para um qualquer objectivo final! A razão desvanece-se, como uma onda na praia de Swanage; a imaginação exalta-se, expande-se e intensifica-se até acabar por ser geográfica e abraçar a Inglaterra.

Para lhe provocar essa emoção, Frieda Mosebach, agora Frau Architect Liesecke e mãe do bebé do seu marido, foi levada até a essas colinas e, após prolongado olhar, comentou que as colinas eram mais altas aqui do que na Pomerânia, o que era verdade mas não pareceu adequado a Mrs. Munt. A doca de Poole estava a seco, o que a levou a elogiar a ausência de areia enlameada em Friedrich Wilhelms Bad, Riigen, onde os salgueiros se debruçam sobre o imóvel Báltico e as vacas podem contemplar o mar. Deve ser bem pouco saudável, pensava Mrs. Munt, que só achava a água digna de confiança quando agitada.

- Então os vossos lagos ingleses, Vindermere, Grasmere, também são insalubres?

- Não, Frau Liesecke, porque são de água doce e diferentes. A água salgada tem de ter marés, muito cheias e muito baixas, senão cheira mal. Veja um aquário, por exemplo.

- Um aquário! Oh, Meesis Munt, está a querer dizer-me que os aquários de água doce fedem menos do que os de água salgada? Pois bem, quando o Victor, o meu cunhado, coleccionava muitos girinos...

- Não deves dizer "feder" - interrompeu Helen -, ou então di-lo fingindo que estás a gracejar quando o dizes.

- Pronto, "cheirar". E a doca de Poole, lá em baixo, não cheira, ou poderei dizer "fede", ah, ah?

- Sempre houve lodo na doca de Poole - replicou Mrs. Munt, franzindo levemente o sobrolho. - O rio arrasta-o e uma boa safra de ostras depende dele.

- Sim, isso é verdade - anuiu Frieda; e assim foi encerrado mais um incidente internacional.

- "Bournemouth é" - resumiu a anfitriã, citando uns versos locais que muito lhe agradavam -, "Poole foi e Swanage está para ser, a cidade mais importante e a maior das três." Agora, Frau Liesecke, que lhe mostrei Bournemouth e lhe mostrei Poole, vamos recuar um pouco e olhar de novo para Swanage.

- Tia Juley, não será o comboio da Meg?

Um fino penacho de fumo circundara o porto e projectava-se agora para sul, direito a elas, por sobre o negro e o dourado.

- Querida Margaret, espero bem que não chegue exausta.

- Estou a pensar... estou a pensar se terá ficado com a casa.

- Espero que não se tenha precipitado.

- Também eu... ah, também eu.

- Será tão bonita como Wickham Place? - interrogou Frieda.

- Acho que sim. Confio em Mister Wilcox por se fazer de orgulhoso. Todas as casas de Ducie Street são bonitas no seu género moderno e não percebo porque é que ele não continua nela. Mas a verdade é que foi por causa da Evie que foi para lá e agora que a Evie vai casar...

- Ah!

- Nunca viste Miss Wilcox, Frieda. A incrível casamenteira que tu és!

- Mas é irmã desse Paul?

- É.

- E desse Charles - acrescentou Mrs. Munt com veemência. - Ah, Helen, Helen, que tempos aqueles!

Helen riu-se:

- A Meg e eu não temos uns corações tão sensíveis. Se surgir uma oportunidade de arranjar uma casa barata, aproveitamo-la.

- Olhe agora, Frau Liesecke, para o comboio da minha sobrinha. Está a ver, vem na nossa direcção... aproxima-se, aproxima-se; e, quando chegar a Corfe, atravessará mesmo as colinas onde estamos, por isso se formos andando, como eu sugeri, e olharmos para Swanage, vê-lo-emos chegar do outro lado. Vamos?

Frieda anuiu e poucos minutos depois tinham atravessado o cume e trocado a paisagem mais notável pela outra menos bonita. Lá em baixo estendia-se um vale bastante insípido, com os declives das dunas costeiras por fundo. Ficaram a olhar para a ilha de Purbeck e para Swanage, que estava para ser a cidade mais importante de todas e a mais feia das três. Como previsto, o comboio de Margaret reapareceu, aprovativamente saudado pela tia. Chegou a um apeadeiro a alguma distância e fora planeado que Tibby iria aí ter e a traria, ao mesmo tempo que um cesto de comida, até junto delas.

- Sabes - continuou Helen dirigindo-se à prima -, os Wilcox coleccionam casas como o teu Victor colecciona girinos. Têm: uma, a de Ducie Street; duas, Howards End, onde houve a trapalhada comigo; três, uma moradia de campo, em Shropshire; quatro, o Charles tem uma casa em Hilton; e cinco, outra perto de Epsom; e seis, a Evie terá uma casa quando se casar e se calhar um pied-à-terre na província, o que faz sete. Ah, pois, e o Paul uma palhota em África, faz oito. Gostava que pudéssemos ficar com Howards End. Era mesmo uma casinha encantadora! Não acha, tia Juley?

- Tive mais que fazer, minha querida, do que olhar para ela retorquiu Mrs. Munt com benevolente dignidade. - Tive de apaziguar e explicar tudo e ainda por cima manter Charles Wilcox no seu lugar. Não é fácil que recorde muitas coisas. Lembro-me apenas de ter almoçado no teu quarto.

- Pois foi, também me lembro. Mas, santo Deus, como tudo isso está morto! E no Outono começaram aquele movimento anti-Paul, a tia, a Frieda, a Meg, Mistress Wilcox, todas obcecadas pela ideia de que eu ainda pudesse vir a casar com o Paul.

- Ainda podes - disse Frieda, sem grande entusiasmo. Helen abanou a cabeça:

- O Grande Perigo Wilcox não voltará nunca. Se há alguma coisa de que tenho a certeza é disso.

- Ninguém tem a certeza de nada, excepto da realidade das suas próprias emoções.

O comentário abateu-se sobre a conversa. Mas Helen passou o braço pela cintura da prima, de uma certa forma apreciando-a mais por tê-lo feito. Não era um comentário original, nem Frieda o fizera com paixão; o seu espírito era mais patriótico do que filosófico. Evidenciava, apesar de tudo, esse interesse pelo universal que os alemães médios têm e os ingleses médios não. Era, embora ilógico, o bom, o belo, o verdadeiro, a contrapor-se ao respeitável, ao bonito, ao adequado. Uma paisagem de Bôcklin comparada com alguma paisagem de Leader, berrante e mal executada mas fremente de imaterial. Aguçava o idealismo, agitava a alma. Deve ter sido uma má preparação para o que se seguiu.

- Olhem! - gritou a tia Juley, afastando-se bruscamente das banalidades, no estreito pico da colina. - Venham para onde eu estou e verão aproximar-se o carro com o pónei. Estou a ver chegar o carro do pónei!

Juntaram-se-lhe e viram o carro do pónei a caminho. Distinguiam-se agora Margaret e Tibby lá dentro. Deixando para trás os subúrbios de Swanage, avançou um pouco por entre as azinhagas floridas e iniciou então a subida.

- Ficaste com a casa? - gritaram elas, muito antes de ser possível fazerem-se ouvir.

Helen desceu a correr ao seu encontro. A estrada principal tinha uma lomba de onde partia um caminho em ângulo recto ao longo do topo da colina.

- Ficaste com a casa? Margaret abanou a cabeça.

- Oh, que maçada! Então, está tudo na mesma?

- Não exactamente. Apeou-se, parecendo cansada.

- Tanto mistério! - comentou Tibby. - Mas vamos, enfim, ser esclarecidos.

Margaret acercou-se dela e segredou-lhe que recebera uma proposta de casamento de Mr. Wilcox.

Helen ficou divertida. Abriu a cancela que dava para a duna, para o irmão poder passar com o pónei.

- É mesmo de viúvo! - comentou. - Não têm coragem para nada e escolhem invariavelmente uma das amigas da primeira mulher.

Um relâmpago de desespero atravessou o rosto de Margaret.

- Esse tipo... - E, num grito: - Meg, não se passa nada de mau contigo?

- Espera um momento - sussurrou de novo Margaret.

- Mas tu não achaste concebível... tu nunca... - Dominou-se.

- Tibby, despacha-te; não posso segurar este portão indefinidamente. Tia juley! Quero dizer, tia Juley, se quisesse tratar do chá, e a Frieda também; estamos a falar de casas, já vamos. - E então, virando o rosto para a irmã, desfez-se em lágrimas.

Margaret ficou estupefacta. Ouviu-se dizer "Oh, francamente..." Sentiu tocar-lhe uma mão que tremia.

- Não - soluçava Helen -, não, Meg, não! - Parecia incapaz de articular outras palavras. Margaret, também a tremer, conduziu-a pela estrada, desviaram-se até um outro portão a caminho da duna.

- Não, não faças uma coisa dessas! Digo-to eu... não faças! Eu sei... não!

- Sabes o quê?

- Pânico e vazio - soluçou Helen. - Não!

Margaret pensou: "A Helen está a ser egoísta. Eu nunca agi assim quando pareceu haver uma oportunidade de ela se casar." Disse:

- Mas ver-nos-íamos muitas vezes, e tu...

- Não é nada disso - soluçou Helen. E pôs-se a caminhar em frente, distraidamente, as mãos estendidas, a chorar.

- O que é que te deu? - exclamou Margaret, atrás dela no meio do vento que ao pôr do Sol açoita as encostas das colinas. - Isso é estúpido! - E essa estupidez toldou de súbito a paisagem infinita. Mas Helen retrocedeu.

- Meg...

- Não sei o que se passa connosco - disse Margaret, esfregando os olhos. - Devemos ter enlouquecido ambas.

Então Helen esfregou os seus e riram-se as duas.

- Ouve, senta-te.

- Está bem, sento-me se tu te sentares.

- Pois sim. - Beijou-a. - E agora, o que há, o que há com este assunto?

- Eu disse o que penso. Não o faças; eu não faria.

- Oh, Helen, pára de dizer "não faças"! É idiota. Parece que tens serradura na cabeça. "Não faças" é provavelmente o que Mistress Bast passa o dia a dizer a Mister Bast.

Helen calou-se.

- Então?

- Primeiro conta-me tudo, talvez eu entretanto sacuda a serradura da cabeça.

- É melhor. Posso começar? Quando cheguei a Waterloo... não, vou retroceder, porque estou ansiosa por que saibas tudo desde o início. O "início" foi há uns dez dias. Foi no dia em que Mister Bast veio tomar chá e se descontrolou. Comecei a defendê-lo e Mister Wilcox ficou com ciúmes, ainda que superficialmente. Pensei que se tratasse daquela coisa involuntária que os homens, tal como nós, não conseguem evitar. Sabes como é... eu, pelo menos, sei, quando um homem me diz "fulana de tal é tão bonita rapariga", no primeiro momento fico com raiva à fulana de tal e morta por lhe dar um puxão de orelhas. É um sentimento aborrecido, mas não é importante e é fácil lidar com ele. Mas agora vejo que não foi só isso o que se passou com Mister Wilcox.

- Então ama-lo? Margaret ponderou.

- É muito bom saber que um homem a sério se interessa por nós - disse. - Esse simples facto enche-nos de importância. Lembra-te de que o conheço e sou sinceramente amiga dele há quase três anos.

- Mas amava-lo?

Margaret mergulhou no passado. É agradável analisar sentimentos enquanto meros sentimentos, não inseridos na estrutura social. Passando o braço em torno de Helen, perscrutou com o olhar a paisagem, como se esta ou aquela localidade pudesse revelar-lhe os segredos do seu próprio coração, reflectiu honestamente e respondeu:

- Não.

- Mas virás a amá-lo?

- Sim, disso tenho a certeza absoluta. Comecei, aliás, no momento em que ele me falou.

- E decidiste casar com ele?

- Decidi, mas agora pretendo conversar longamente sobre o assunto. O que tens contra ele, Helen? Tenta explicar-me.

Foi a vez de Helen olhar ao longe.

- É ainda por causa do Paul - disse por fim.

- Mas o que tem Mister Wilcox a ver com o Paul?

- Ele estava lá, estavam todos lá naquela manhã, quando desci para o pequeno-almoço e vi Paul apavorado... o homem que me amara apavorado e toda a parafernália que ostentou para que eu visse que era impossível, porque as relações pessoais são o que conta para todo o sempre e não essa vida exterior de telegramas e cóleras.

Despejou toda a frase de um só fôlego, mas a irmã percebeu-a, pois referia-se a pensamentos familiares a ambas.

- Isso é um disparate. Primeiro, discordo quanto à vida exterior. Bem, temo-lo discutido muitas vezes. O fulcro do problema é que existe um abismo entre a minha e a tua maneira de amar. A tua foi romance; a minha será prosa. Não estou a denegri-la, será uma prosa de muito boa qualidade, mas bem medida, bem pensada. Por exemplo: conheço todos os defeitos de Mister Wilcox. Tem medo das emoções. Preocupa-se de mais com o sucesso, de menos com o passado. À sua simpatia falta poesia, não é, portanto, uma simpatia autêntica. Diria ainda - fixou o olhar nas lagoas cintilantes - que, espiritualmente, não é tão honesto como eu. Isto satisfaz-te?

- Não, não satisfaz. Faz-me sentir cada vez pior. Deves estar louca.

Margaret fez um gesto de impaciência.

- Eu não tenciono que um homem qualquer, ou mulher, preencha toda a minha vida... Santo Deus, não! Há em mim montes de coisas que ele não compreende nem compreenderá nunca.

Foi isto que ela disse antes da cerimónia do casamento e da união física, antes de se instalar o surpreendente muro de vidro que se interpõe entre os casais e o resto do mundo. Intentava manter a sua independência, mais do que é comum entre as mulheres. O casamento destinava-se mais a modificar os seus destinos do que as suas personalidades e não estava muito errada ao gabar-se de conhecer o seu futuro marido. Mesmo assim, ele alterara a sua personalidade - um pouco. Uma revelação imprevista, uma cessação dos ventos e dos odores da vida, uma pressão social, levá-los-iam a pensar em termos conjugais.

- O mesmo se passa com ele. Há nele montes de coisas, em especial de coisas que fez, das quais sempre guardará segredo. Tem todas aquelas qualidades públicas que tu desprezas e permitem todo aquele... - A sua mão ondulou por sobre a paisagem, o que não significava nada. - Se não tivesse havido Wilcox a trabalhar e a morrer em Inglaterra durante milhares de anos, não estaríamos aqui sentadas, tu e eu, sem que nos cortassem o pescoço. Não haveria comboios, nem barcos para nos trazerem literatos, nem sequer campos cultivados. Apenas selvajaria. Não... talvez nem isso. Sem as suas iniciativas, talvez nunca tivéssemos saído do protoplasma. Recuso-me cada vez mais a embolsar o meu rendimento e escarnecer dos que o garantem. Às vezes parece-me que...

- E a mim, e a todas as mulheres. Por isso uma delas beijou o Paul.

- Isso é brutal. O meu caso é absolutamente diferente. Pensei em tudo.

- Não adianta nada pensarmos em tudo. O resultado é o mesmo.

- Disparate!

Fez-se um longo silêncio, durante o qual a maré encheu a doca de Poole.

- Todos têm de perder alguma coisa - murmurou Helen, aparentemente para si própria.

A água ia deslizando por sobre o fundo lodoso em direcção ao tojo e à urze, agora escuros. A ilha de Branksea perdia as suas imensas extensões de areia molhada, não era já mais do que uma sombria mancha de árvores. Frome penetrava à força em Dorchester, Stour ia contra Wimborne, Avon em direcção de Salisbury e a toda essa imensa deslocação presidia o Sol, enaltecendo-a antes de desaparecer para descansar. A Inglaterra estava viva, pulsando em todos os seus estuários, gritando de alegria pela boca de todas as suas gaivotas e o vento do norte, em obstinado torvelinho, soprou mais forte contra as ondas que se formavam. Qual o significado de tudo isto? Qual o objectivo das suas nítidas complexidades, das diferenças do seu solo, da sua costa sinuosa? Pertence aos que a moldaram e a fizeram temida de outros países ou aos que não acrescentaram nada ao seu poder, mas de uma qualquer forma a viram, a viram já completa, alongada como uma jóia num mar de prata, navegando como um barco carregado de almas, escoltada por todas as bravas esquadras do mundo, rumo à eternidade?

 

Muitas vezes Margaret se interrogara a propósito da agitação a que são sujeitas as águas do mundo quando o Amor, ínfimo seixo, nelas se intromete. Quem tem a ver com o Amor, para além da amada e do amante? E no entanto, o seu impacte inunda centenas de praias. Não há dúvida de que a agitação reside de facto no espírito das gerações que dão as boas-vindas às novas gerações e troçam do Destino, ele que tem na palma da mão todos os mares. Mas isto, o Amor não o entende; não compreende qualquer outro infinito; só tem consciência de si próprio: raio de sol fugidio, rosa prestes a murchar, seixo que anseia por uma calma imersão abaixo da desgastante acção combinada de espaço e tempo. Sabe que sobreviverá para além do fim de todas as coisas, que o Destino lhe pegará como do lodo se pega uma jóia e, admirativo, o apresentará à assembleia dos deuses. "Foram os homens que o criaram", dirão eles e, ao dizê-lo, concederão ao homem a imortalidade. Mas entretanto... entretanto, quanta agitação! Postas a nu, as fundações de Bens Materiais e de Boas Maneiras são rochas gémeas; o Orgulho de Família debate-se à superfície, inchado e fanfarrão, recusando qualquer ajuda; a Teologia, ambiguamente ascética, ergue altas e repelentes vagas. Acordam-se então os advogados

- raça de sangue frio - e arrastam-se para fora das suas tocas. Estes, fazem o que podem; conciliam os Bens Materiais e as Boas Maneiras, inculcam segurança na Teologia e no Orgulho de Família. São atirados meios-guinéus às águas revoltas, os advogados recuam para as suas tocas e, se tudo correu pelo melhor, o Amor une um homem e uma mulher pelo matrimónio.

Margaret contara com a balbúrdia, que por isso a não irritava. Para uma mulher sensível, tinha nervos fortes e conseguia lidar com as incongruências e o grotesco; além disso, não houve excessos no seu caso amoroso. O bom humor era a nota dominante nas suas relações com Mr. Wilcox ou, como devo passar a chamar-lhe, Henry. Henry não encorajava o Romance e ela não era rapariga para se atormentar com isso. Um amigo passara a namorado, viria a ser marido, mas manteria as características do amigo; e o papel do amor é mais confirmar uma velha amizade do que revelar uma nova.

Foi neste estado de espírito que aceitou o seu pedido.

No dia seguinte, ele apareceu em Swanage com o anel de noivado. A profunda cordialidade com que se saudaram impressionou a tia Juley. Henry jantou em The Bays, mas reservara um quarto no melhor hotel; pertencia àquela espécie de homens que sabem por instinto qual é o melhor hotel. Depois do jantar, perguntou a Margaret se não gostaria de dar uma volta pela Parade. Ela aceitou, sem poder reprimir um leve estremecimento; seria a sua primeira cena real de amor.

Mas quando punha o chapéu desatou a rir. O amor assemelhava-se tão pouco àquilo que se lê nos livros... O prazer, genuíno embora, era diferente; o mistério, um mistério inesperado. Por qualquer razão, Mr. Wilcox continuava a parecer-lhe um estranho.

Durante um bocado falaram do anel; depois ela disse:

- Lembra-se do Chelsea Embankment? Não pode ter sido há dez dias!

- Lembro - respondeu ele, a rir. - E a Margaret e a sua irmã estavam enfronhadas de alma e coração num problema quixotesco qualquer. Se me lembro!

- Nada disto me passava então pela cabeça. E a si?

- Não sei, nem gostaria de dizer.

- Porquê, foi mais cedo? Começou a pensar em mim mais cedo? Como isso é interessante, Henry! Conte-me.

Mas Henry não tinha a mínima intenção de contar. Talvez não pudesse fazê-lo por os seus estados de espírito obscurecerem mal os ultrapassava. Desagradou-lhe a palavra "interessante", por a conotar com energia perdida e até com morbidez. Os factos objectivos bastavam-lhe.

- Eu não pensava nisso - prosseguiu ela. - Não; quando me falou, na sala de visitas, apanhou-me praticamente desprevenida. Tudo foi tão diferente do que se supõe ser... No palco, ou nos livros, um pedido de casamento é... como dizer?... uma flor que desabrocha, um ramo de flores; perde o seu significado literal. Mas na vida real um pedido de casamento é mesmo um pedido de casamento.

- A propósito...

- uma sugestão, uma semente - concluiu; e na escuridão, o seu pensamento voou para longe.

- Estava a pensar, se não se importa, que devíamos passar este serão a falar de assuntos práticos; há tanto que combinar!

- Concordo. Diga-me, em primeiro lugar, como se deu com o Tibby?

- com o seu irmão?

- Sim, enquanto fumavam.

- Ah, muito bem.

- Que bom! - Mas estava um pouco surpreendida. - De que falaram? De mim, presumo.

- E também da Grécia.

- A Grécia foi uma boa jogada, Henry. O Tibby é ainda um garoto e tem de se fazer uma certa escolha dos assuntos. Foi boa ideia.

- Contei-lhe que tenho acções de uma plantação de groselhas perto de Calamata.

- Que coisa deliciosa, ter acções disso! Podemos lá ir na lua-de-mel?

- Fazer o quê?

- Comer groselhas. E não é um local maravilhoso?

- Moderadamente, mas não é o género de sítio para onde se possa levar uma senhora.

- Porque não?

- Não há hotéis.

- Há senhoras que passam sem hotéis. Sabe que a Helen e eu andámos sozinhas pelos Apeninos, com a bagagem às costas?

- Não sabia e, se eu puder impedi-lo, nunca voltará a fazer tal coisa.

com maior gravidade, Margaret perguntou-lhe:

- Ainda não arranjou tempo para uma conversa com a Helen, suponho?

- Não.

- Faça-o, antes de se ir embora. Gostava tanto que fossem amigos!

- A sua irmã e eu sempre nos demos bem - respondeu ele negligentemente. - Mas estamos a afastar-nos dos nossos problemas. Deixe-me começar pelo princípio. Sabe que a Evie vai casar com o Percy Cahill.

- O tio da Dolly.

- Exacto. A pequena está loucamente apaixonada por ele. Muito bom rapaz, mas exige, e tem razão, que ela tenha um dote conveniente. E em segundo lugar, como decerto compreenderá, há o Charles. Antes de vir para cá, escrevi ao Charles uma carta muito pormenorizada. Bem vê, aumenta a família, aumentam as despesas e o I. e W. A. não está nada bem neste momento, embora susceptível de melhorar.

- Coitadito! - murmurou Margaret, a olhar o mar e sem perceber nada.

- Sendo o Charles o filho mais velho, um dia Howards End será para Charles; mas pretendo, sentindo-me eu próprio feliz, não ser injusto para os outros.

- Claro que não - começou ela, mas de repente deu um grito:

- Refere-se a dinheiro! Que estúpida sou! Claro!

Singularmente, estremeceu às palavras dela.

- Sim, dinheiro, usando a sua franqueza. Estou decidido a ser justo com todos: consigo, com eles. Estou decidido a impedir que os meus filhos possam reprovar-me seja o que for.

- Seja generoso para eles - respondeu ela, friamente. - Ao diabo a justiça!

- Estou decidido e já escrevi ao Charles a esse respeito...

- Mas afinal, quanto tem?

- Como?

- Quanto tem por ano? Eu tenho seiscentas.

- Os meus rendimentos?

- Sim. Temos de começar por aquilo que tem, antes de determinar quanto deve dar ao Charles. A justiça, e até a generosidade, dependem disso.

- Devo dizer-lhe que é uma rapariga muito directa - comentou ele, rindo, dando-lhe palmadinhas no braço. - Que pergunta para atirar a um sujeito!

- Não conhece os seus rendimentos? Ou não quer dizer-me?

- Eu...

- Está bem. - Agora ela era mais suave. - Não me diga. Não quero saber. Também posso estabelecer a soma proporcionalmente. Divida os seus rendimentos em dez partes. Quantas partes daria à Evie, quantas ao Charles, quantas ao Paul?

- O facto, minha querida, é que não era minha intenção maçá-la com pormenores. Só pretendia informá-la de que... bem, de que há que fazer alguma coisa pelos outros, o que entendeu na perfeição, por isso passemos ao ponto seguinte.

- Sim, este está arrumado. - A sua desajeitada estratégia não a perturbou. - Vá em frente; dê tudo o que quiser, não se esquecendo de que eu tenho seiscentas libras líquidas. Que bênção ter todo este dinheiro para uma pessoa só!

- Não temos de mais, garanto-lhe; vai casar com um homem pobre.

- Nisso, a Helen não concordaria comigo. A Helen não se atreve a dizer mal dos ricos, sendo ela própria rica, mas gostaria de o fazer. Meteu-se-lhe na cabeça a extravagante teoria, que eu ainda não apreendi, de que a pobreza é uma "necessidade". Não lhe agradam as organizações e é provável que confunda a riqueza com a técnica da riqueza. Um fornecimento de libras-ouro não a atrapalharia; os cheques sim. A Helen é demasiado implacável. Não se pode lidar com o mundo à sua maneira elevada.

- Há ainda outra coisa e depois tenho de voltar para o meu hotel, para escrever umas cartas. O que é que se faz agora à casa de Ducie Street?

- Fique com ela... pendente, pelo menos. Quando quer casar comigo?

Levantara a voz, como fazia com frequência e alguns jovens que andavam também a apanhar fresco ouviram-na.

- Está a ficar muito quente, hem? - brincou um. Mr. Wilcox virou-se para eles e ameaçou:

- Eh, lá! - Fez-se silêncio. - Tenham cuidado ou queixo-me à Polícia.

Afastaram-se ordeiramente, mas aguardavam apenas o momento oportuno e o resto da conversa foi salpicada por gargalhadas incontroláveis.

Baixando a voz e incutindo-lhe laivos de reprovação, Mr. Wilcox respondeu:

- A Evie casa-se provavelmente em Setembro. É-nos difícil pensar em fazê-lo antes.

- Quanto mais cedo melhor, Henry. Em princípio, as mulheres não devem dizer coisas destas, mas quanto mais cedo, melhor.

- O que acha de Setembro também para nós? - Havia uma certa secura na sua voz.

- Certo. Vamos para Ducie Street em Setembro? Ou tentamos lá meter a Helen e o Tibby? É uma ideia. São tão pouco práticos, com jeito levamo-los a fazerem seja o que for. Sim... é isso mesmo. É o que vamos fazer. E nós podemos viver em Howards End ou em Shropshire.

- Céus! - soprou ele. - Como as mulheres vão depressa! Tenho a cabeça à roda. Ponto por ponto, Margaret. Howards End não pode ser. Aluguei-a a Hamar Bryce por três anos em Março passado. Não se lembra? Oniton. bom. É muito, muito longe para habitar permanentemente. Podemos receber lá muita gente, mas temos de ter uma casa com um acesso mais fácil à cidade. Só que Ducie Street tem enormes desvantagens. Nas traseiras há cavalariças.

Margaret não pôde impedir-se de rir. Era a primeira vez que ouvia falar das cavalariças nas traseiras de Ducie Street. Quando era uma possível arrendatária, suprimira-as, inconsciente e automaticamente. Ao jovial feitio Wilcox, embora sincero, faltava aquele grão de percepção que a verdade exige. Quando Henry vivia em Ducie Street, lembrava-se das cavalariças; quando tentava alugá-la, esquecia-se delas; e se alguém se tivesse lembrado de ver se havia ou não lá cavalariças, ter-se-ia aborrecido e mais tarde teria arranjado uma maneira qualquer de acusar o interlocutor de académico. É o que faz o meu merceeiro ao acusar-me quando me queixo da qualidade das suas sultanas e ele me responde de um fôlego que são as melhores sultanas e como posso eu esperar que sejam as melhores sultanas àquele preço? Uma falha inerente às mentes mercantis e o que Margaret tinha a fazer era ser afectuosa para com as mentes mercantis, tendo em conta tudo o que as mentes mercantis fizeram pela Inglaterra.

- Sim, em especial no Verão, as cavalariças são um sério inconveniente. A sala de fumo também, é um gabinete pequeno, abominável. Na casa em frente mora gente ligada à ópera. Ducie Street está a afundar-se, é a minha opinião pessoal.

- Que pena! Construíram aquelas bonitas casinhas há muito poucos anos.

- Prova de que as coisas mudam. bom para os negócios.

- Detesto esse fluxo contínuo de Londres. É um epítome do que há em nós de pior, uma eterna ausência de forma: todas as qualidades, o bem, o mal, a indiferença, tudo deslizando para longe, deslizando, deslizando para sempre. É por isso que me apavora tanto. Desconfio dos rios, mesmo na paisagem. Agora, o mar...

- Vagas altas, sim...

- Bagas altas - ecoaram os jovens passeantes.

- E é a estes homens que damos o voto - observou Mr. Wilcox, sem acrescentar que eram também os homens a quem dava trabalho no escritório, trabalho esse que dificilmente os encorajaria a melhorar a sua condição humana. - No entanto, têm as suas próprias vidas e interesses. Vamos embora.

Voltou-se enquanto falava, disposto a vê-la regressar a The Bays. O assunto estava arrumado. O seu hotel ficava na direcção oposta e se a acompanhasse as suas cartas atrasar-se-iam para o correio. Ela implorou-lhe que não fosse, mas ele manteve-se inflexível.

- Um lindo começo, se a sua tia a visse aparecer sozinha!

- Mas eu ando sempre sozinha por toda a parte. Considerando que passeei nos Apeninos, é sensato. Fico tão zangada consigo! Não o tomo minimamente como um cumprimento.

Ele riu-se e acendeu um charuto.

- Não é para ser tomado como um cumprimento, minha querida. Só não quero que ande para aí de noite. Há tanta gente na rua! É perigoso.

- E eu não sei tomar conta de mim? Quero...

- Venha, Margaret; sem mais conversa.

Uma mulher mais jovem melindrar-se-ia com os seus ares de superioridade, mas Margaret tinha uma visão da vida demasiado larga para se preocupar com ninharias. À sua maneira, também ela era um ser superior. Se ele era uma fortaleza, ela era o pico de uma montanha, que todos podem pisar mas à qual todas as noites a neve renova a virgindade. Desdenhando das exteriorizações heróicas, emotiva na sua forma de agir, loquaz, episódica, insistente, induzia em erro o seu apaixonado, tal como induzira a tia. Ele tomava a sua actividade por fraqueza. Julgava-a "tão inteligente quanto elas podem sê-lo", mas não mais, sem se dar conta de que a rapariga penetrara no mais íntimo da sua alma e aprovava o que aí havia encontrado.

E se a compreensão bastassse, se a vida interior fosse tudo na vida, a felicidade de ambos estaria assegurada.

O seu regresso foi rápido. A iluminação do passeio e a da rua eram boas, mas no jardim da tia Juley estava mais escuro. Ao entrarem no caminho lateral, ladeado de rododendros, Mr. Wilcox, que ia à frente, exclamou em voz rouca "Margaret", voltou-se, deitou fora o charuto e tomou-a nos braços.

Margaret sobressaltou-se e quase gritou, mas logo se recompôs e beijou com verdadeiro amor os lábios que comprimiam os seus. Era o primeiro beijo que trocavam e quando terminou, ele conduziu-a até à porta e tocou à campainha, mas desapareceu na noite antes de a criada abrir. Relembrando-o, o incidente desagradou à rapariga. Fora tão isolado! Nada na sua conversa prévia o prenunciara e, pior ainda, nenhuma ternura se lhe seguira. Se um homem é incapaz de provocar paixão, é, de uma maneira ou de outra, capaz de a manter, e ela esperara, depois da complacência que havia demonstrado, uma troca de palavras ternas. Mas ele apressara-se a fugir, como que envergonhado e, por um instante, Helen e Paul vieram à memória de Margaret.

 

Charles acabava de ralhar com a sua Dolly. Ela merecera a repreensão e acatara-a, mas, apesar de tapada, tinha um espírito insubmisso e os seus trinados começavam a misturar-se ao ruído de trovão em enfraquecimento.

- Acordaste o bebé. Sabia que ias acordá-lo! (Pum! Pum! Catrapuz!) Não sou responsável pelo que faz o tio Percy, nem por qualquer outra pessoa ou coisa, pronto!

- Quem o convidou quando eu estava fora? Quem pediu à minha irmã que viesse encontrar-se com ele? Quem lhes emprestou o carro para passearem todos os dias?

- Charles, isso parece um poema.

- Parece? Agora, vamos todos dançar uma música bem diferente. Miss Schlegel tem-nos bem nas mãos.

- Era capaz de arrancar os olhos a essa mulher, é muito injusto atirar-me com as culpas.

- A culpa foi tua e, há cinco minutos, admitiste-o.

- Não admiti.

- Admitiste.

- "Serrar, serrar, madeirinhas ao luar!" - cantarolou Dolly, de súbito muito ocupada com o filho.

- É muito prático mudar de conversa, mas o pai nunca teria sonhado em casar-se enquanto tinha a Evie para tratar dele. Mas tu parece que tens necessidade de atear fogos. Aliás, o Cahill é velho de mais.

- Claro, lá vais tu ser grosseiro para com o tio Percy...

- Miss Schlegel teve sempre em mente apanhar Howards End e, graças a ti, conseguiu-o.

- A tua maneira de dar a volta aos factos e de os baralhar é muito injusta. Não podias ser mais desagradável se me tivesses apanhado a namoriscar. Podias?

- Estamos em maus lençóis e temos de tirar disso o maior proveito. vou responder à carta do pai educadamente. É evidente que ele anseia por agir com correcção. Mas eu não tenho a intenção de esquecer essas Schlegel num abrir e fechar de olhos. Enquanto mantiverem o mais correcto dos comportamentos... Dolly, estás a ouvir?... nós faremos o mesmo. Mas se as apanho a darem-se ares, ou a monopolizarem o meu pai, ou a maltratá-lo, ou a atormentá-lo com as suas imbecilidades artísticas, faço barulho, faço sim, e a sério. Tomar o lugar da minha mãe! Deus sabe o que irá dizer o pobre Paul quando souber a novidade!

O interlúdio acabou. Tivera lugar no jardim de Charles, em Hilton. Ele e Dolly sentam-se em cadeiras de bordo, do lado de lá do relvado o automóvel olha-os da garagem com placidez. Uma edição de Charles vestido de criança também os olha placidamente; uma segunda edição guincha; uma terceira edição está para breve. A Natureza vai atirando Wilcox para esta casa plácida, para que venham um dia a herdar a Terra.

 

No dia seguinte, Margaret saudou com especial ternura o seu senhor. com a maturidade que tinha, seria até capaz de o ajudar a construir a ponte de arco-íris que liga à paixão a prosa que há dentro de nós. Sem ela, somos fragmentos sem significado, meio monges, meio bestas, arcos desgarrados que nunca se unirão no ser humano. com ela, nasce o amor, descreve-se a mais alta curva, resplandecente no cinzento, esbatida na claridade. Feliz o homem que vê sob ambos os aspectos a glória dessas asas abertas. São límpidos os caminhos da sua alma e tanto ele como os seus amigos vão achar fácil a caminhada.

Difícil era seguir pelos caminhos da alma de Mr. Wilcox. Descurava-os desde a infância. "Não sou pessoa que me preocupe com o meu íntimo." Exteriormente era alegre, seguro e corajoso; mas lá dentro tudo retrocedera ao caos, governado, tanto quanto era governado, por um ascetismo incompleto. Quer como rapaz, quer como marido ou viúvo, tivera sempre a convicção secreta de que a paixão física é má, a convicção de que só é desejável quando apaixonadamente reprimida. A religião confirmara-lho. As palavras que lhe liam em voz alta ao domingo, a ele e a outros homens respeitáveis, eram as palavras que em tempos haviam incendiado as almas de Santa Catarina e de São Francisco num ódio encarniçado contra a carne. Não podia igualar os santos e amar o Infinito com um amor seráfico, mas podia envergonhar-se de amar uma esposa. "Amabat; amare timebat." E era nisso que Margaret esperava ajudá-lo.

Não parecia muito difícil. Precisava de o perturbar sem lhe fazer dádiva alguma. Limitar-se-ia a realçar a salvação latente na alma dele, como na de todos os homens. Ligar, apenas. Era só nisso que consistia a sua exortação. Ligar, apenas, a prosa e a paixão e ambas seriam exaltadas e o amor humano atingiria o seu auge. Não mais uma vida fragmentada. Ligar, apenas, e a besta e o monge, despojados da solidão que para ambos a vida é, morreriam.

A mensagem nem era difícil de transmitir. Não precisava de tomar a forma de uma "grande conversa". com sugestões calmas, a ponte ir-se-ia construindo e uniria em beleza as suas vidas.

Mas falhou. Porque Henry possuía um atributo para o qual não estava preparada, embora tivesse sido alertada: a sua compreensão lenta. Muito simplesmente, ele não reparava nas coisas e nada mais há a dizer. Nunca reparou que Helen e Frieda eram hostis, ou que Tibby não se interessava por plantações de groselhas; nunca reparou nos altos e baixos que há na mais banal das conversas, nos sinais, nos marcos, nas colisões, nas paisagens a perder de vista. Uma vez - noutra ocasião -, repreendeu-o por causa disso. Ficou atrapalhado, mas respondera, com uma gargalhada: "O meu lema é concentração. Não tenciono desperdiçar as minhas energias com esse género de coisas."

"Não é desperdiçar as energias", protestara ela. "É alargar o espaço em que pode ser forte."

Respondera-lhe: "É uma mulherzinha inteligente, mas o meu lema é a concentração." E nessa manhã concentrou-se numa vingança.

Encontraram-se nos rododendros da véspera. À luz do dia, os arbustos eram insignificantes e o chão brilhava ao sol da manhã. Estava com Helen, que mantinha uma calma de mau agoiro desde o início do caso.

- Ora cá estamos todos! - exclamou, e pegou-lhe na mão, segurando na outra a da irmã.

- Ora cá estamos. bom dia, Helen.

- bom dia, Mister Wilcox.

- Henry, ela recebeu uma carta encantadora daquele rapaz excêntrico, indeciso. Lembra-se dele? Tinha um bigode sem viço, mas, visto de costas, uma cabeça jovem.

- Também recebi uma carta. Nada gentil... Quero falar consigo a esse respeito - porque Leonard Bast não significava nada, agora que a rapariga se comprometera com ele; o triângulo de sexo fora desfeito para sempre.

- Graças ao seu aviso, vai despedir-se da Porphyrion.

- Não é má, essa Porphyrion - comentou ele, abstracto, enquanto tirava do bolso a sua carta.

- Não é mal - exclamou ela, deixando escorregar a mão. - Certamente, no Chelsea Embankment...

- Cá temos a nossa anfitriã. bom dia, Mrs. Munt. Lindos rododendros. bom dia, Frau Liesecke; em Inglaterra, temos belas flores, não temos?

- Não é má?

- Não. A minha carta refere-se a Howards End. O Bryce foi mandado para o estrangeiro e quer subalugá-la. Não estou nada inclinado a autorizar. Não havia cláusula nenhuma no contrato. Em minha opinião, o subaluguer é um erro. Se ele me arranjar outro locatário, que eu ache conveniente, posso anular o contrato. dia, Schlegel. Não acha que é melhor do que subalugar?

Helen havia entretanto retirado a sua mão e ele seguira Margaret, deixando os outros, até ao lado da casa virado para o mar. Lá em baixo ficava a baiazita burguesa, que decerto suspirara durante séculos pela construção na sua margem de uma estância balnear exactamente como Swanage. As ondas eram descoloridas e o barco de Bournemouth, aprumado junto ao cais e apitando selvaticamente a chamar os excursionistas, era uma mancha mais de insipidez.

- Onde há subaluguer, acho que o perigo...

- Desculpe-me, mas quanto à Porphyrion. Não me parece fácil... estarei a aborrecê-lo, Henry?

Falava com tanta gravidade que ele parou e lhe perguntou com certa aspereza o que queria.

- No Chelsea Embankment disse, tenho a certeza, que era uma má empresa, por isso aconselhámos o escriturário a despedir-se. Esta manhã, ele escreve que seguiu o nosso conselho e agora diz que não é uma má empresa.

- Um empregado de escritório que se despede de qualquer empresa, boa ou má, sem ter primeiro arranjado uma colocação certa noutro sítio qualquer, é parvo, não tenho pena dele.

- Ele não fez isso. Vai para um banco em Camden Town, segundo diz. O vencimento é muito mais baixo, mas ele espera arranjar-se... Uma sucursal do Dempster's Bank. É bom?

- Dempster! Santo Deus, é!

- Melhor do que a Porphyrion?

- Sim, sim, sim; tão seguro como imóveis... mais seguro.

- Muito obrigada. Desculpe-me. Se subalugar...

- Se ele subalugar, não terei o mesmo controlo. Em teoria, nada será estragado em Howards End; na prática, vai ser. Vão fazer coisas que dinheiro alguma compensa. Não gostaria, por exemplo, de ver maltratado o lindo olmo-escocês. Está a demorar... Margaret, temos de lá ir um dia e ver a velha casa. É bonita, no seu género. Vamos de carro e almoçamos com o Charles.

- Gostava muito - aquiesceu Margaret, corajosamente.

- O que acha de quarta-feira?

- Quarta-feira? Não, não posso. A tia Juley está a contar que fiquemos cá pelo menos mais uma semana.

- Mas pode ir-se embora já.

- Hmmm... não - repetiu Margaret, após pensar um momento.

- Bem, está bem. Eu falo com ela.

- Esta visita é uma solenidade. A minha tia anseia por ela todos os anos. Vira a casa de pernas para o ar por nossa causa; convida os nossos melhores amigos: mal conhece Frieda e não podemos deixar-lha nos braços. Ausentei-me um dia e ela ficou tão magoada como se eu não tivesse vindo os dez dias inteiros.

- Mas eu digo-lhe uma palavra. Não se preocupe.

- Henry, não vou. Não insista.

- Mas quer ver a casa?

- Quero, muito... Ouvi falar tanto nela, de formas diferentes. Não há dentes de porco no olmo-escocês?

- Dentes de porco?!

- E mastiga-se a casca contra a dor de dentes.

- Que estranha ideia! Claro que não!

- Talvez eu tenha feito confusão com outra árvore. Ainda há um grande número de árvores sagradas em Inglaterra, creio.

Mas deixou-o para ir ao encontro de Mrs. Munt, cuja voz se ouvia à distância; e ao encontro dele veio Helen.

- Ah, Mister Wilcox, a respeito da Porphyrion... - começou ela e ficou escarlate.

- Está tudo bem - disse Margaret, interrompendo-os. - O Dempster's Bank é melhor.

- Mas parece-me que o senhor disse que a Porphyrion não prestava e que ia à falência antes do Natal.

- Disse? Ainda estava fora do Acordo Tarifário e tinha feito apólices miseráveis. Mais tarde, aderiu ao Acordo... agora é tão segura como os imóveis.

- Por outras palavras, Mister Bast nunca devia ter saído de lá...

- Não, o rapaz não precisava de o fazer.

- e não precisava de ter recomeçado noutro sítio, com um ordenado muitíssimo baixo.

- Ele só diz "baixo" - corrigiu Margaret, pressentindo tempestade.

- Para um homem tão pobre, qualquer redução representa muito. Acho que foi um azar deplorável.

Mr. Wilcox, determinado a tratar do seu assunto com Mrs. Munt, mantinha-se resoluto, mas a última observação levou-o a exclamar:

- O quê? O que há? Está a querer dizer que sou eu o responsável?

- És ridícula, Helen.

- Parece-me que o pensa. - Olhou para o relógio. - Deixe-me explicar-lhe. É o seguinte: parece julgar que quando uma empresa comercial conduz uma negociação delicada, devia manter o público informado passo a passo. A Porphyrion devia, na sua opinião, ser obrigada a declarar: "Estou a tentar a todo o custo entrar no Acordo Tarifário. Não tenho a certeza de o conseguir, mas é a única coisa que me salvará da insolvência e eu estou a tentar." Minha querida Helen...

- Isso é o principal para si? Um homem que já tinha pouco dinheiro tem agora menos. Para mim, isto é o principal.

- Lamento pelo seu escriturário. Mas acontece todos os dias no mundo do trabalho. Faz parte da luta pela vida.

- Um homem que já tinha pouco dinheiro - repetiu ela - tem agora menos, por nossa causa. Nestas circunstâncias, não considero "a luta pela vida" uma expressão feliz.

- Por favor, por favor! - protestou ele gentilmente. - Não pode acusar-se. Ninguém é acusável.

- Ninguém é acusável por nada?

- Não diria tanto, mas está a levar o caso demasiadamente a sério. Quem é o sujeito?

- Já lhe falámos duas vezes do sujeito - respondeu Helen. Até conheceu o sujeito. É muito pobre e tem uma mulher que é uma imbecil extravagante. É capaz de ir mais longe. Nós... Nós, as classes superiores, pensámos que o ajudaríamos do alto dos nossos superiores conhecimentos... e o resultado é este!

Ele ergueu o dedo:

- Agora, um aviso.

- Não quero mais avisos.

- Um aviso: não tome essa atitude sentimental perante os pobres. Procure que ela não faça isso, Margaret. Os pobres são pobres e nós lamentamo-lo, mas é assim mesmo. À medida que as civilizações avançam os seus sapatos vão pisando, e é absurdo pretender que alguém é pessoalmente responsável por isso. Nem a Helen, ou eu, ou o meu informador, nem o homem que o informou, nem os directores da Porphyrion, podem ser acusados pela perda de salário desse empregado. Foi apenas o sapato que pisou, ninguém pôde evitá-lo e bem podia ter sido pior.

Helen estremeceu de indignação.

- Faça toda a espécie de doações para obras de caridade, grandes doações, mas não se deixe entusiasmar por esquemas absurdos de Reforma Social. Eu vejo muito bem o que está por detrás do problema e, sou eu quem lhe diz, não existe Problema Social, excepto para alguns jornalistas que tentam tirar benefícios do palavreado. Há apenas ricos e pobres, como sempre houve e haverá. Aponte-me uma época em que os homens tenham sido iguais.

- Eu não disse...

- Aponte-me uma época em que o desejo de igualdade os tenha tornado mais felizes. Não consegue. Sempre houve ricos e pobres. Não sou um fatalista. Deus me livre! Mas a civilização é moldada por fortes forças a que somos estranhos - a sua voz era agora mais complacente, como lhe acontecia sempre que eliminava o aspecto pessoal

- e haverá sempre ricos e pobres. Não pode negá-lo - e agora, era uma voz atenciosa - e não pode negar que, apesar de tudo, a tendência da civilização melhorou, no seu conjunto.

- Graças a Deus, suponho - dardejou Helen. Fitou-a.

- Nós esgravatamos os dólares. Deus faz o resto.

Não valia a pena ensinar a rapariga se ela ia pôr-se a falar de Deus à neurótica maneira moderna. Fraternal até ao fim, deixou-a na companhia, bem mais calma, de Mrs. Munt. Pensou: "Quase me parece a Dolly."

Helen ficou a olhar para o mar.

- Nunca discutas política económica com o Henry - aconselhou a irmã. - Vão acabar aos gritos.

- Ele deve ser um desses homens que reconciliaram a ciência com a religião - disse Helen, devagar. - Não me agradam. São científicos, falam da sobrevivência dos mais aptos, baixam os salários dos empregados, impedem a independência de quem quer que seja que ameace o seu bem-estar... Mas mesmo assim acreditam que o resultado será, de uma forma ou de outra, bom... sempre esses piegas "de uma forma ou de outra"... e que por qualquer via mística o Mister Bast do futuro beneficiará porque o Mister Bast de hoje sofre.

- Em teoria, é um desses homens. Mas, ó Helen, em teoria!

- Mas, ó Meg, que teoria!

- Porque falas com tanto azedume, queridinha?

- Porque não sou uma solteirona - retorquiu Helen, mordendo os lábios. - Não posso pensar que também eu vou ser assim.

Retirou as mãos das da irmã e foi para dentro de casa. Margaret, angustiada logo ao nascer do dia, seguiu com o olhar o barco de Bournemouth. Percebeu que, em consequência do infeliz caso Bast, Helen estava com os nervos à flor da pele, ultrapassara os limites da cortesia. A qualquer momento poderia ocorrer uma verdadeira explosão, que até Henry notaria. Henry tinha de ser afastado.

- Margaret! - A tia chamava-a. - Magsy! Não é verdade, pois não, o que Mister Wilcox diz, que querem ir-se embora no princípio da próxima semana?

- Não é "querer" - foi a resposta pronta de Margaret -, mas há imensas coisas a tratar e eu tenho que ver as do Charles.

- Mas partirem sem ter ido a Weymouth, nem sequer a Lulworth? - Mrs. Munt aproximou-se. - Sem ir mais uma vez ao Nine Barrows Down?

- Tem de ser.

Mr. Wilcox interveio:

- Óptimo! Fui eu que consegui.

Invadiu-a uma onda de ternura. Pôs-lhe uma mão em cada ombro e perscrutou os olhos escuros, brilhantes. O que havia por detrás do seu firme olhar? Ela sabia, mas isso não a inquietava.

 

Margaret não tinha a mínima intenção de deixar correr as coisas e na noite anterior à sua partida de Swanage deu uma valente descompostura à irmã. Censurou-a, não por desaprovar o noivado, mas sim por disfarçar essa desaprovação com um véu de mistério. Também ela foi franca:

- Sim - disse com o ar de alguém que olha para dentro de si próprio -, há um mistério. Não tenho culpa. Não é culpa minha. A vida foi feita assim.

Por essa época, Helen interessava-se imenso pelo seu subconsciente. Exagerava o aspecto ridículo da vida e falava da humanidade apodando-a de fantoches que um invisível titereiro maneja, inclinando-os ora para o amor, ora para a guerra. Margaret fez-lhe notar que se insistisse nesse caminho, também ela acabaria por eliminar os aspectos pessoais. Helen guardou silêncio um momento e irrompeu depois num estranho discurso, que purificou a atmosfera.

- Continua e casa-te com ele. Acho-te formidável; e se alguém há que possa consegui-lo, és tu.

Margaret negou que houvesse o que quer que fosse a "conseguir", mas Helen continuou:

- Há, sim, e eu não fui capaz com Paul. Só sou capaz de fazer o que é simples. Só sou capaz de seduzir e de ser seduzida. Não posso, nem quero, tentar relações difíceis. Se me casar, será com um homem bastante forte para mandar em mim, ou em relação ao qual eu tenha ascendente bastante para mandar nele. Por isso, nunca me casarei, porque não existe um homem assim. E que os céus ajudem aquele com quem eu me casar, porque com certeza lhe fugirei enquanto o diabo esfrega um olho! Isso mesmo! Porque eu sou uma mal-educada. Mas tu és diferente, tu és uma heroína.

- Oh, Helen! Achas que sou? Será assim tão medonho, com o pobre Henry?

- Estás decidida a manter o equilíbrio e isso é heróico, é grego, não vejo porque não resultaria no teu caso. Vai em frente e luta com ele e ajuda-o. Não me peças para ajudar, ou mesmo para ser simpática. A partir de agora vou seguir o meu caminho. Resolvi ser autêntica, porque a autenticidade é simples. Resolvi não gostar do teu marido e dizer-lho. Resolvi não fazer concessões nenhumas ao Tibby. Se o Tibby quiser viver comigo, tem de estar do meu lado. Resolvi gostar mais do que nunca de ti. Gosto mesmo. Tu e eu construímos algo real, porque puramente espiritual. Não há véus de mistério entre nós. A irrealidade e o mistério começam logo que o corpo é tocado. A opinião popular é, como de costume, precisamente a errada. Os nossos aborrecimentos referem-se a coisas tangíveis: dinheiro, maridos, a casa. Mas o paraíso constrói-se a si próprio.

Margaret ficou grata por tal expressão de afecto e respondeu: "talvez". Todas as perspectivas esbarram no desconhecido - ninguém o duvida - mas as de Helen haviam esbarrado demasiado depressa para o seu gosto. Cada frase do discurso era uma confrontação com a realidade e o absoluto. Talvez Margaret estivesse demasiado velha para metafísicas, talvez Henry a afastasse delas, mas sentiu qualquer coisa como um leve desequilíbrio num espírito tão pronto a esfrangalhar o que é palpável. O homem de negócios que acha que esta vida é tudo e o místico que afirma que ela não é nada falham, de modos diferentes, a descoberta da verdade. "Sim, eu sei, querida, está mais ou menos a meio caminho entre os dois", arriscara a tia Juley anos antes. Não; a verdade, porque existe, não está a meio caminho entre nada. Tem apenas de ser encontrada mediante contínuas excursões aos dois domínios e, embora o equilíbrio seja o segredo final, abraçar uma das causas desde o início é uma garantia de esterilidade.

Helen, concordando com isto, discordando daquilo, seria capaz de continuar até à meia-noite, mas Margaret, que tinha de fazer a mala, restringiu o tema a Henry. Podia dizer mal do Henry nas suas costas, mas faria o favor de ser correcta quando ele estivesse presente?

- Decididamente, não gosto dele, mas farei os possíveis - prometeu Helen. - Em contrapartida, faz tu os possíveis com os meus amigos.

Margaret ficou mais tranquila depois desta conversa. Tinham uma vida íntima tão sólida que podiam zaragatear a propósito de assuntos externos de uma maneira que pareceria inacreditável à tia Juley e impossível ao Tibby ou a Charles. Há momentos em que a vida íntima "compensa", quando anos de introspecção sem qualquer objectivo ulterior, têm de súbito uma utilização prática. Tais momentos são ainda raros no Oeste, por isso quando surgem trazem consigo a promessa de um futuro melhor. Margaret, embora incapaz de compreender a irmã, estava segura contra desavenças e regressou a Londres com muito maior paz de espírito.

Na manhã seguinte, às onze horas, apareceu nos escritórios da Imperial and West African Rubber Company. Estava contente por lá ir, porque Henry dera do seu negócio mais uma ideia do que uma descrição e a ausência de forma e de precisão que temos quanto à África haviam até esse momento pairado sobre as origens da sua fortuna. Não que uma visita aos escritórios esclarecesse tudo. Era apenas a banal camada aparente feita de livros de registos, balcões polidos, barras de latão que começavam e terminavam sem qualquer razão plausível, globos de luz eléctrica desabrochando em triplicado, coelheiras pequeninas vedadas com vidro ou arame, coelhinhos. E embora tenha percorrido tudo, não encontrou nada para além da vulgar mesa e do vulgar tapete turco e, embora o mapa pendurado por cima do fogão de sala representasse uma porção de alimentos da África Ocidental, era um mapa muito vulgar. Em frente havia outro quadro em que se via o continente todo - parecia uma baleia demarcada para a extracção de óleo - e ao seu lado uma porta, fechada, mas através da qual ouvia a voz de Henry a ditar uma carta "enérgica". Margaret poderia estar na Porphyrion, ou no Dempster's Bank, ou até no seu vendedor de vinhos. Tudo se assemelha nos dias que correm. Mas talvez estivesse a ver mais o lado imperial do que o lado oeste-africano da companhia e o imperialismo fora sempre um dos seus problemas.

- Um minuto! - disse Mr. Wilcox quando a anunciaram. Tocou uma campainha, gesto que resultou no aparecimento de Charles.

Charles escrevera ao pai uma carta adequada - mais adequada do que a de Evie, que deixara pulsar a sua indignação de rapariga. E cumprimentou com muito bons modos a sua futura madrasta.

- Espero que a minha mulher... como está?... lhe ofereça um almoço decente. Deixei instruções, mas vivemos de uma maneira muito improvisada. Ela espera que volte também para o chá, depois de ter dado uma vista de olhos a Howards End. Tenho curiosidade em saber a sua opinião sobre o local. A mim, desagrada-me. Sente-se. É uma coisita que não vale nada.

- vou gostar de a conhecer. - Pela primeira vez, havia acanhamento na voz de Margaret.

- Vai vê-la nas piores condições, porque o Bryce abalou para o estrangeiro na segunda-feira passada sem sequer ter arranjado uma mulher-a-dias para fazer uma limpeza depois da sua partida. Não esteve sequer um mês na casa.

- Tenho mais do que uma questão a resolver com o Bryce - disse da outra sala Mr. Wilcox.

- Porque é que ele saiu tão repentinamente?

- Um tipo inválido, não conseguia dormir.

- Coitado!

- Coitado, coisa nenhuma! - exclamou Mr. Wilcox, juntando-se-Lhes. - Teve a ousadia de colocar tabuletas sem sequer se dignar pedir licença. O Charles deitou-as abaixo.

- É verdade, deitei-as abaixo - confirmou Charles, com modéstia.

- Mandei-lhe um telegrama e um telegrama bem severo. Ele, e só ele, é que é responsável pela manutenção daquela casa durante os próximos três anos.

- As chaves estão na quinta, senão nem tínhamos chaves.

- Exactamente.

- A Dolly tinha-as aceite, mas felizmente eu estava presente.

- Como é Mister Bryce? - perguntou Margaret.

Mas isso não interessava a ninguém. Mr. Bryce era o inquilino que não tinha o mínimo direito de subalugar; defini-lo para além disso, era uma perda de tempo. Discorreram profusamente a respeito do seu crime até a rapariga que dactilografava a carta enérgica aparecer com ela. Mr. Wilcox acrescentou-lhe a sua assinatura.

- Agora vamos embora - disse.

Um automóvel, uma faceta do bem-estar que Margaret detestava, esperava-a. Charles viu-os entrar, cortês até ao fim, e um momento depois os escritórios da Imperial and West African Rubber Company desapareciam da vista. Mas não foi uma corrida impressionante. Talvez tivesse sido por culpa do tempo, cinzento e encoberto, com umas aborrecidas nuvens altas. Talvez o Hertfordshire seja pouco frequentado por motoristas. Não houve um fulano que atravessou tão depressa o Westmorland que não deu por ele? E ser possível não se dar por Westmorland, um condado cuja delicada estrutura exige uns olhos particularmente atentos, é de nos pôr doentes. O Hertfordshire é a Inglaterra na sua máxima quietude, com poucas perturbações de rio e de colina; é a Inglaterra meditativa. Se Drayton estivesse de novo entre nós para escrever uma nova versão do seu incomparável poema, cantaria as ninfas do Hertfordshire, de traços característicos, com os cabelos baços pelos fumos de Londres. Os seus olhos seriam tristes e, desviadas do seu destino e encaminhadas para os charcos do norte, teriam por mentor não ísis ou Sabrina, mas sim a lenta corredora Léa. Não seriam gloriosas as suas vestes, dançar não se revelaria premente; mas seriam ninfas reais.

O chauffeur não podia viajar tão depressa como esperara, porque a Great North Road estava apinhada de tráfego vindo de leste. Mas ia suficientemente depressa para Margaret, uma criatura tímida, com galinhas e crianças metidas na cabeça.

- Elas não são estúpidas - disse Mr. Wilcox. - Hão-de aprender, como as andorinhas e os fios telegráficos.

- Sim, mas enquanto aprendem...

- O automóvel veio para ficar - argumentou ele. - Temos de nos habituar. Olhe, uma igreja bonita... ah, não foi rápida, vá olhando, se a estrada a aflige, olhe ao longe, para a paisagem.

Ela olhou para a paisagem. Borbulhava e amalgamava-se como papas de aveia. De momento, estava gelada. Tinham chegado.

A casa de Charles ficava à esquerda; à direita, o recorte elevado das Six Hills. Surpreendeu-a vê-las surgir tão próximas. Interrompiam a correnteza de residências, que ia aumentando à aproximação de Hilton. Para além delas, viu prados e um bosque e reparou que mais abaixo havia sepultados soldados dos mais valorosos. Margaret detestava a guerra e gostava de soldados - era uma das suas simpáticas contradições.

Mas aí estava Dolly, requintadamente vestida, esperando-os à porta, e aí estavam os primeiros pingos de chuva. Entraram a correr alegremente e após uma longa espera na sala de visitas, sentaram-se para o almoço improvisado, composto por pratos todos eles disfarçados ou transbordantes de natas. Mr. Bryce foi o grande tópico da conversa. Dolly descreveu a sua visita com a chave enquanto o sogro se comprazia a zombar e a contradizer todas as suas palavras. Não havia dúvida de que era seu hábito troçar de Dolly. Troçou também de Margaret, e Margaret, despertada de uma grave meditação, gostou e devolveu-lhe a troça. Dolly pareceu surpreendida e olhou-a com curiosidade. Depois do almoço, as duas crianças desceram. Margaret não gostava de bebés, mas não se deu mal com o de dois anos e Dolly perdeu-se de riso ao ouvi-la falar a sério com ele.

- Agora dê-lhes um beijo e venha - disse Mr. Wilcox. Ela foi, mas recusou-se a beijá-los.

- É uma coisa tão maçadora para os pequeninos - argumentou e, apesar dos protestos de Dolly, manteve-se inflexível.

A chuva estava pegada. O carro chegou com a capota subida e uma vez mais Margaret perdeu toda a noção de distância. Alguns minutos depois pararam e Grane abriu a porta.

- O que aconteceu? - perguntou Margaret.

- O que acha? - replicou Henry.

Em sua frente havia um alpendre pequeno, fechado.

- Já chegámos? -Já- Não me passava pela cabeça! Há anos atrás parecia tão longe! Sorrindo, mas um pouco desiludida, saltou do carro e dirigiu-se

num ímpeto para o alpendre. Ia abrir o portão quando Henry disse:

- Não vale a pena, está fechado à chave. Quem trouxe a chave?

Como fora ele quem se esquecera de pedir a chave da quinta, ninguém respondeu. Quis também saber quem deixara aberto o portão da frente, porque uma vaca vinda da estrada passara por ele e estava a estragar o campo de croquete. Ordenou então, bastante zangado:

- Margaret, espere aqui, ao abrigo da chuva. Eu vou buscar a chave. Fica a menos de cem jardas.

- Não posso ir também?

- Não; vou num abrir e fechar de olhos.

O carro inverteu a marcha e foi como se uma cortina tivesse sido corrida. Pela segunda vez nesse dia, Margaret viu o aspecto da terra.

Lá estavam as ameixeiras que em tempos Helen descrevera, o campo de ténis, o recanto que devia ser maravilhoso em Junho com as rosas, mas onde agora tudo era negro e verde desmaiado. Mais abaixo, perto do vale, despontavam cores mais vivas e os narcisos-dos-prados eram as sentinelas postadas na sua orla ou os batalhões que avançavam pela erva dentro. As túlipas, um estojo de jóias. Não conseguia ver o olmo-escocês, mas uma pernada da famosa trepadeira pontilhada de botões de veludo, cobrira o alpendre. A fertilidade do solo impressionou Margaret; raramente estivera num jardim com flores tão belas e até as ervas daninhas que distraidamente arrancava do alpendre, eram de um verde intenso. O que levara o pobre Mr. Bryce a afastar-se de tanta beleza? Porque a rapariga decidira já que o local era belo.

- Malvada vaca! Vai-te embora! - gritou Margaret à vaca, mas sem indignação.

A chuva aumentou de intensidade, caindo torrencialmente de um céu estático e fustigando as tabuletas do agente imobiliário, caídas em desordem no relvado para onde Charles as atirara. Devia ter conferenciado com Charles num outro mundo - um mundo onde se fizessem conferências. Como uma tal ideia teria divertido Helen! Charles morto, toda a gente morta, só vivos as casas e os jardins. Os mortos óbvios, os vivos intangíveis e nenhuma conexão entre eles! Sorriu. Se as suas próprias fantasias fossem tão bem definidas! Se lidasse com tanto despotismo com o mundo! Sorrindo e vagueando o olhar, deixou cair a mão na porta. Esta abriu-se. A casa não estava nada fechada à chave!

Hesitou. Devia esperar Henry? Tinha ideias muito rígidas sobre propriedade e preferia que fosse ele a mostrar-lha. Por outro lado, ele dissera-lhe que se abrigasse num sítio seco e o alpendre começava a gotejar. Entrou, pois, e a corrente de ar que se estabeleceu fez bater a porta nas suas costas.

Saudou-a a desolação. Dedadas sujas nas janelas da entrada, cotão e lixo nos parapeitos por lavar. A civilização do aluguer instalara-se aqui por um mês, após o que desertara. A sala de jantar e a sala de visitas - à direita e à esquerda - só se adivinhavam pelos papéis de parede. Não eram mais do que salas onde uma pessoa podia abrigar-se da chuva. Uma grande trave mestra atravessava o tecto de cada uma delas. A casa de jantar e a entrada tinham-nas à vista, mas o tecto da sala de visitas estava forrado: porque os factos da vida deviam ser escondidos às senhoras? Sala de visitas, sala de jantar e entrada - como os nomes soavam insignificantes! Simplesmente três divisões onde crianças podiam brincar e amigos abrigar-se da chuva. Sim - e eram bonitas.

Abriu então uma das portas em frente - havia duas - e passou do papel de parede para a cal. Era a zona dos criados, embora mal se apercebesse disso: apenas mais quartos, onde amigos podiam abrigar-se. O jardim das traseiras estava cheio de cerejeiras e ameixeiras em flor. Mais adiante avistava-se o prado e uma falésia escura de pinheiros. Sim, o prado era belo.

Prisioneira do mau tempo dentro de casa, recuperou o sentido das distâncias que o carro tentara roubar-lhe. Voltou a lembrar-se de que dez quilómetros quadrados não são dez vezes mais maravilhosos do que um quilómetro quadrado, de que um milhar de quilómetros quadrados não são praticamente o mesmo que o Paraíso. O fantasma da grandeza, que Londres encoraja, foi afastado para sempre enquanto se dirigia da entrada de Howards End à sua cozinha e ouvia a chuva escorrer pelo telhado.

Veio-lhe então Helen à memória, perscrutando meio Wessex do alto das dunas de Purbeck e afirmando: "Tens de perder alguma coisa." Não tinha assim tanta certeza. Por exemplo, duplicaria o seu reino abrindo a porta que escondia as escadas.

Pensou no mapa de África; em impérios; no pai; nas duas nações supremas, cujos fluxos vitais lhe aqueciam o sangue, mas, interligando-se, lhe tinham arrefecido o cérebro. Voltou para a entrada e, ao fazê-lo, ouviu passos a ecoarem pela casa.

- É o Henry? - perguntou.

Não houve resposta, mas de novo a casa ecoou.

- Henry, está cá dentro?

Mas era o coração da casa que batia, primeiro débil, com força depois, marcialmente. Abafava o ruído da chuva.

É a imaginação faminta, não a bem nutrida, que tem medo. Margaret abriu num repente a porta das escadas. Ensurdeceu-a um barulho que parecia de marteladas. Uma mulher, uma velha, descia, aprumada, o rosto impassível, os lábios entreabertos; disse secamente:

- Ah, bom, tomei-a por Ruth Wilcox. Margaret gaguejou:

- Eu... Mistress Wilcox... eu...

- Em imaginação, claro... em imaginação. Tem a maneira de andar dela. bom dia.

E a velha saiu para a chuva.

 

- Pregou-lhe um destes sustos! - Mr. Wilcox relatava o incidente a Dolly, à hora do chá. - As raparigas não têm sangue-frio, está visto. Uma palavra minha pôs tudo no seu devido lugar, mas a idiota da velha Miss Avery assustou-a, não assustou, Margaret? E ali ficou, a segurar uma mão-cheia de ervas. A mulher podia ter dito alguma coisa, em vez de vir pelas escadas abaixo, com aquela touca assustadora. Passei por ela quando vinha para cá. Até o carro se intimidou. Creio que Miss Avery está a ficar original; acontece a algumas velhas solteironas. - Acendeu um cigarro. - É o último recurso que lhes resta. Sabe Deus o que ela lá estava a fazer; mas isso é um problema do Bryce, não meu.

- Não fui tonta como sugere - disse Margaret. - A mulher só me sobressaltou porque a casa estava em silêncio há muito tempo.

- Tomou-a por um fantasma? - pergunta de Dolly, para quem "fantasmas" e "ir à igreja" resumiam o oculto.

- Não exactamente.

- Não há dúvida de que ela a assustou - repetiu Henry, longe de desencorajar a timidez feminina. - Pobre Margaret! É muito natural. As classes iletradas são tão estúpidas!

- Miss Avery pertence às classes iletradas? - perguntou Margaret e deu por si a mirar a decoração da sala de visitas de Dolly.

- Pertence ao pessoal da quinta. As pessoas da classe dela passam a vida a imaginar coisas. Imaginou que sabia quem ela era. Deixou todas as chaves de Howards End no vestíbulo e imaginou que a Margaret as vira ao entrar, que fecharia a porta quando se fosse embora e que lhas iria entregar. A falta de educação torna as pessoas muito descuidadas. Dantes, Hilton estava cheio de mulheres como Miss Avery.

- Talvez isso não me tivesse desagradado.

- Ou que Miss Avery me desse um presente de casamento - interveio Dolly.

O que era ilógico, mas interessante. Margaret estava destinada a saber muito através de Dolly.

- Mas o Charles disse que eu devo tentar não me ralar, porque ela conheceu a sua avó.

- Como de costume, percebeu mal a história, minha boa Dorothea.

- Queria dizer bisavó... a que deixou a casa a Mistress Wilcox. As duas e Miss Avery não era amigas quando Howards End era também uma quinta?

O sogro exalou uma baforada de fumo. A sua atitude relativamente à sua falecida esposa era curiosa. Podia aludir a ela, ouvir falar dela, mas nunca mencionava o seu nome. Nem se interessava pelo passado indistinto, bucólico. Dolly interessava-se, pela razão que se segue.

- Então Mistress Wilcox tinha um irmão... ou era um tio? Fosse quem fosse, propôs-lhe casamento e Miss Avery respondeu que não. Imaginem só, se ela tivesse dito que sim, teria sido tia do Charles! Oh, quero dizer... esta é boa! "Tia do Charles"! Hei-de arreliá-lo com isso esta noite. E o homem foi-se embora e foi morto. É isso, lembrei-me agora mesmo. tom Howard... foi o último deles.

- Acredito - comentou com negligência Mr. Wilcox.

- É isso! Howards End... Howards Ended1! - gritou Dolly. Estou muito esperta esta noite, não estou?

- Gostava que perguntasse ao Grane se acabou.

- Oh, Mister Wilcox, como pode dizer uma coisa dessas?

- Porque, se já bebeu chá que baste, temos de nos ir embora.

- A Dolly é uma jóia de mulherzinha - comentou depois -, mas para tomar em pequenas doses. Não vivia perto dela nem que me pagassem.

Margaret sorriu. Embora apresentando-se como uma frente firme face ao exterior, nenhum Wilcox podia viver perto, ou perto da propriedade, de qualquer outro Wilcox. Tinham o espírito colonial, passavam a vida à procura de algum lugar onde os brancos carreguem os seus fardos sem serem observados. Nem pensar em Howards End, evidentemente, enquanto o jovem casal vivesse em Hilton. As suas objecções à casa eram agora claras como água.

Grane já bebera chá que bastasse e foi mandado para a garagem, onde o carro deles estivera a gotejar água lamacenta para o de Charles. Por essa altura já não restavam dúvidas de que o aguaceiro penetrara em Six Hills, trazendo novas da nossa agitada civilização.

- Outeirozitos curiosos - comentou Henry -, mas agora vai para casa; fica para outra vez.

Tinha de estar em Londres pelas sete, se possível pelas seis e meia. Uma vez mais, Margaret perdeu a noção das distâncias; uma vez mais, árvores, casas, pessoas, animais, colinas, diluídos e entrevistos por entre a escuridão, e ei-la em Wickham Place.

 

1 Howards Ended significa literalmente: os Howards acabaram. (N. da T.)

 

O fim do dia fora agradável. A sensação de fluxo contínuo que a obcecara o ano inteiro desapareceu por algum tempo. Esqueceu a bagagem, o automóvel e os homens apressados que sabem tanto e se ligam tão pouco. Retomou o sentido das distâncias, que é a base da beleza da Terra e, a partir de Howards End, tentou concretizar a Inglaterra. Falhou: as imagens não vêm quando tentamos evocá-las, embora possam surgir através de tentativas. Mas despertou nela um amor inesperado pela ilha, simultaneamente decorrente dos prazeres palpáveis e do incompreensível. Helen e o pai tinham conhecido esse amor, o pobre Leonard Bast tacteava no seu encalço, mas até essa tarde não se manifestara a Margaret. Acordara-o decerto a casa e a velha Miss Avery. Por causa delas: a noção de "por causa" persistia; o seu espírito vacilava no sentido de uma conclusão que só os insensatos traduziriam em palavras. Mudando então de rumo para coisas mais estimulantes, divagou por tijolos vermelhos, ameixeiras em flor e todos os júbilos tangíveis da Primavera.

Henry, tendo-a acalmado, levara-a a sua casa e explicara-lhe o uso e as dimensões das várias divisões. Resumira a história da pequena propriedade.

- É uma pena - ia ele monologando - que não se tenha investido nela há uns cinquenta anos atrás. Nessa altura tinha quatro, cinco vezes mais terreno, trinta acres, pelo menos. Podia ter-se aproveitado para qualquer coisa, um parque pequeno ou, pelo menos, podia-se ter plantado sebes e reconstruído a casa mais longe da estrada. Pegar-lhe agora, para quê? Só resta o prado e mesmo esse tinha uma hipoteca pesadíssima quando comecei a tratar destes assuntos... Sim, e a casa também. Não foi brincadeira nenhuma. - Enquanto ele falava, Margaret via duas mulheres, uma velha, a outra nova, olhando a sua herança que se esvaía. Viu-as a acolhê-lo como a um salvador. - A culpa foi da má gestão. Aliás, o tempo das quintas pequenas passou. Não rendem, excepto com culturas intensivas. Pequenas herdades, regresso à terra, ah, o palavreado filantrópico! Tome como lema que em pequena escala, nada compensa. A maior parte da terra que vê - estavam à janela do andar de cima, a única virada para poente - pertence à gente de Park, ganham a vida com o cobre, boa gente. Avery's Farm, Sishe's, aquela a que chamam a Comum, ali, onde está o carvalho caído... Uma após outra foram desaparecendo e o mesmo aconteceu a esta, pelo menos esteve tão perto disso que não valia nada. - Mas Henry salvara-a; sem grandes sentimentalismos ou conhecimentos profundos, mas salvara-a; e por esse acto, Margaret amou-o. - Quando tive as mãos mais livres, fiz o que pude; vendi parte dos animais, o pónei tinhoso, as ferramentas velhas e inúteis; deitei abaixo os anexos; drenei; desbastei não sei quantas roseiras e árvores velhas; e dentro de casa transformei a cozinha velha num vestíbulo e construí outra atrás do que era então a leitaria. A garagem e outras coisas vieram mais tarde. Mas qualquer pessoa continuará a ver que foi uma quinta velha. E mesmo assim não é o local capaz de arrancar alguém do seu grupo artístico.

Não, não era; e se ele não percebia muito bem o que se passava, o grupo ainda perceberia menos: ele era inglês e o olmo-escocês que a rapariga viu da janela era uma árvore inglesa. Nenhuma descrição a preparara para o seu encanto peculiar. Não era agressivo, nem terno, nem divino; os Ingleses não são grande coisa em nenhum destes géneros. Era um companheiro, curvado sobre a casa, vigor e aventura nas suas raízes, mas ternura nas extremidades dos ramos; e o tronco, que uma dúzia de homens não teria podido abarcar, esvaecia-se em feixes pálidos que pareciam flutuar no ar. Um companheiro. Casa e árvore transcendiam qualquer analogia com sexo. Margaret pensava agora neles e neles iria pensar durante muitas noites ventosas e muitos dias londrinos, mas compará-los a um homem ou a uma mulher amesquinhava sempre a imagem. Mantinham-se, contudo, dentro dos limites do humano. A mensagem que transmitiam não era de eternidade, mas sim de esperança no lado de cá da sepultura. Quando estivera num deles, fitando o outro, houvera uma cintilação de relações genuínas.

Um pouco mais e o seu dia estaria acabado. Aventuraram-se até ao jardim por um minuto e, para surpresa de Mr. Wilcox, ela tinha razão. Dentes, dentes de porco, podiam ver-se na casca do olmo-escocês, só com as pontas brancas à mostra.

- Extraordinário! - exclamou ele. - Quem lho disse?

- Ouvi falar nisso num Inverno, em Londres - foi a sua resposta, porque também ela evitava citar Mrs. Wilcox pelo seu nome.

 

Evie soube do noivado do pai quando ia iniciar uma partida de ténis e o seu jogo foi uma miséria. Que ela se casasse e o deixasse, afigurara-se-lhe bastante natural; que ele, tendo ficado sozinho, fizesse o mesmo, era uma traição; e agora Charles e Dolly diziam que a culpa era sua! "Mas nunca tal coisa me passou pela cabeça", resmungara. "O pai pediu-me que a visitasse de vez em quando e obrigou-me a convidá-la para o Simpson's. Estou totalmente contra o pai." Era também um insulto à memória da mãe; nisso estavam de acordo e Evie tivera a ideia de devolver as jóias e as rendas de Mrs. Wilcox em sinal de protesto! Contra o que protestava, não explicara; mas, porque tinha apenas dezoito anos, a ideia da renúncia seduzia-a, tanto mais que não se interessava por jóias ou rendas. Dolly sugerira então que ela e o tio Percy deviam fingir que rompiam o noivado e então talvez Mr. Wilcox discutisse com Miss Schlegel e rompesse o seu; ou que telegrafassem a Paul. Mas neste ponto, Charles mandou-as calar-se com os disparates. E assim, Evie decidira casar-se o mais depressa possível; não era boa ideia protelar com essas Schlegel a observá-la. Por isso, a data do seu casamento foi antecipada de Setembro para Agosto e, intoxicada pelos presentes, recuperara muito do seu bom humor.

Margaret descobriu que se esperava que participasse no acto e que participasse em grande; seria uma excelente oportunidade, segundo Henry, para ela conhecer o seu círculo social. Estariam lá Sir James Bidder e todos os Cahill e os Fussell e a cunhada, Mrs. Warrington Wilcox, que felizmente estava de regresso da sua viagem à volta do mundo. A Henry, ela amava, mas quanto ao seu círculo a coisa prometia ser diferente. Henry não tinha capacidade para se rodear de gente agradável - de facto, para um homem hábil e virtuoso, as suas escolhas eram singularmente infelizes; não tivera princípios que o elevassem acima de uma certa preferência pela mediocridade; contentava-se em deixar ao acaso uma das mais importantes coisas da vida e, assim, embora os seus investimentos fossem os certos, os seus amigos eram de uma forma geral os errados. Dir-lhe-ia: "Ah, fulano de tal, uma boa pessoa, uma pessoa formidável" e ela, ao conhecê-lo, verificaria que se tratava de um bruto ou de um maçador. Se Henry tivesse demonstrado um real afecto, compreendê-lo-ia, porque a afeição explica tudo. Mas ele parecia não ter sentimentos. A "pessoa formidável" podia a qualquer momento tornar-se "um tipo a quem nunca liguei muito e a quem agora ainda ligo menos" e ser alegremente votado ao ostracismo. Margaret procedera assim nos seus tempos de colégio. Agora, não esquecia nunca ninguém por quem se tivesse interessado; ligava-se, embora uma ligação pudesse trazer amargura; e esperava que um dia Henry viesse a ser assim.

Evie não ia casar-se de Ducie Street. Tinha predilecção pelo rural e, além disso, não haveria ninguém em Londres nessa altura do ano, pelo que se instalou durante algumas semanas em Oniton Grange, os banhos foram devidamente lidos na igreja paroquial e por uns dias a cidadezita, adormecida entre as colinas avermelhadas, foi acordada pelo som estridente da nossa civilização e empurrada até às bermas da estrada para deixar passar os carros. Oniton fora uma descoberta de Mr. Wilcox, uma descoberta de que não se orgulhava. Ficava num alto, na direcção da fronteira do País de Gales e era de tão difícil acesso que ele concluíra que deveria ser qualquer coisa de especial. Tinha um castelo em ruínas. Mas uma vez lá, o que havia para fazer? A caça era má, a pesca medíocre e as mulheres da família não achavam a paisagem notável. O local ficava afinal no lado errado do Shropshire, diabos o levassem e, apesar de nunca ter criticado em voz alta uma propriedade sua, Mr. Wilcox apenas esperava desembaraçar-se dela e depois pôr-se a milhas. O casamento de Evie seria a última aparição da casa ao público. Logo que encontrasse um inquilino, passaria a ser "uma casa a que nunca ligara muito e a que agora ainda ligava menos" e, tal como Howards End, cairia no limbo.

Mas em Margaret Oniton iria causar uma impressão duradoura. Via-a como o seu futuro lar e estava ansiosa por iniciar boas relações com o clero, etc. e, se possível, por conhecer algumas coisas da vida local. Era uma cidade onde se realizava uma feira - dessas minúsculas que há por toda a Inglaterra - e que durante séculos servira aquele vale solitário e protegera dos Celtas as nossas fronteiras. A despeito da ocasião, a despeito da jovialidade entorpecida que a inundou mal entrou no salão reservado em Paddington, os seus sentidos estavam despertos e alerta e, embora Oniton viesse a revelar-se uma das suas inumeráveis falsas partidas, nunca a esqueceu, nem às coisas que lá aconteceram.

O grupo de Londres limitava-se a oito pessoas: os Fussell, pai e filho, duas senhoras anglo-indianas que se chamavam Mrs. Plynlimmon e Lady Edser, Mrs. Warrington Wilcox e a filha e, finalmente, a garota, muito elegante e sossegada, figurante em muitos casamentos e que não tirava os olhos de Margaret, a noiva eleita. Dolly estava ausente - um assunto particular retivera-a em Hilton; Paul mandara um telegrama cheio de humor; Charles iria encontrar-se com eles em Shrewsbury, com um trio de automóveis. Helen recusara o convite; Tibby nunca respondera. A organização era excelente, como era de esperar de tudo aquilo de que Henry se encarregava; sentia-se que havia por detrás o seu espírito sensato e generoso. Os convidados eram seus hóspedes mal entravam no comboio: um rótulo especial para as suas bagagens; um mensageiro; um almoço requintado; só tinham de ser simpáticos e, se possível, bonitos. Margaret pensou com desalento nas suas núpcias -, presumivelmente sob a organização de Tibby. "Mr. Theobald Schlegel e Miss Helen Schlegel têm a honra de convidar Mrs. Plynlimmon para o casamento da sua irmã Margaret." A fórmula era incrível, mas não podia tardar a ser impressa e enviada e embora Wickham Place não pudesse competir com Oniton, haveria um copo-de-água decente para os seus convidados e cadeiras suficientes. O seu casamento seria periclitante ou bourgeois, tinha esperanças na última hipótese. Uma coisa como esta, encenada com uma habilidade que quase atingia a beleza, estava para além das suas posses e das dos seus amigos.

O ruído abafado de um expresso da Great Western não é o pior fundo para uma conversa e a viagem foi bastante agradável. Nada poderia ter excedido a gentileza dos dois homens. Subiram as janelas de umas senhoras, baixaram as de outras, tocaram a campainha para chamar o criado, identificaram os colégios quando o comboio passou por Oxford, apararam livros ou carteiras que iam cair no chão. Mesmo assim, não havia nada de afectado na sua gentileza: tinha o toque do ensino privado e, embora diligente, era viril. Nos nossos campos de jogos houvera mais vitórias do que derrotas e Margaret, curvada a um encanto que não aprovava inteiramente, não disse nada quando os colégios de Oxford foram identificados erradamente. "Macho e fêmea, Ele os criou"; a viagem para Shrewsbury confirmou este dogma discutível e o comprido salão envidraçado, que se movia com tanta facilidade e era tão confortável, transformou-se numa estufa de vidro por nele ter entrado uma insinuação de sexo.

Em Shrewsbury, refrescou. Margaret adorava conhecer novas paisagens e enquanto os outros acabavam o seu chá no Raven, arranjou um carro e precipitou-se para a surpreendente cidade. O motorista não era o fiel Grane, mas sim um italiano, que adoravelmente a levou a atrasar-se. Charles, de relógio em punho, embora com as sobrancelhas na horizontal, estava postado em frente do hotel quando chegaram. - Tudo bem - tranquilizou-a; não era de forma alguma a última. Desceu então para a sala do café e ela ouviu-o dizer: - Por amor de Deus, apressem as mulheres; nunca mais partimos - ao que Albert Fussell respondeu: - Eu não; já fiz a minha parte - e o coronel Fussell opinou que as mulheres estavam a pôr-se fascinantes. Nesse momento apareceu Myra (a filha de Mrs. Warrington) e, como era sua prima, Charles repreendeu-a um pouco: tinha estado a trocar o seu elegante chapéu de viagem por um elegante chapéu de automobilista. Veio depois Mrs. Warrington, que trazia consigo a garota sossegada; continuavam a faltar as duas senhoras anglo-indianas. Criadas, mensageiro, bagagem pesada, tinham já seguido por um ramal para uma estação perto de Oniton, mas havia cinco chapeleiras, quatro nécessaires para meter no carro e cinco guarda-pós para vestir e depois, no último minuto, para despir, porque Charles declarou que eram desnecessários. Os homens ocupavam-se de todos os pormenores com inefável boa disposição. Às cinco e meia, o grupo estava pronto e deixava Shrewsbury pela Welsh Bridge.

Shropshire não acusava a discrição do Hertfordshire. Embora a velocidade lhe roubasse metade da magia, as colinas impunham-se. Aproximavam-se dos contrafortes que empurram o Severn para leste e o transformam num riacho inglês e o Sol, a pique sobre as Sentinelas de Gales, batia em cheio nos olhos dos viajantes. Depois de terem ido buscar outro convidado, viraram para sul, evitando as montanhas maiores, mas sempre passaram por alguns picos, arredondados e suaves, cujo colorido diferia em beleza do das zonas mais baixas e cujos contornos se alteravam mais lentamente. Mistérios tranquilos progrediam por detrás destes horizontes agitados: o oeste refugiava-se, como sempre, num qualquer segredo que, embora talvez não mereça ser descoberto, nenhum homem prático alguma vez descobrirá.

Falaram da Reforma Tarifária.

Mrs. Warrington acabava de regressar das colónias. Como a muitos outros críticos do Império, haviam-lhe tapado a boca com comida e mais não podia fazer do que enaltecer a hospitalidade com que fora recebida e pôr de sobreaviso a Mãe Pátria contra brincadeiras com jovens Titãs.

- Ameaçam cortar as amarras - disse - e onde iremos então parar? Miss Schlegel, encarrega-se de convencer o Henry a fazer-se ouvir sobre a Reforma Tarifária? É a nossa última esperança.

Margaret confessou, jovialmente, que estava com o outro lado e começaram a citar os respectivos manuais, enquanto os carros se entranhavam cada vez mais nas colinas. Estas eram mais curiosas do que impressionantes, porque aos seus contornos faltava beleza e os campos rosados dos seus picos lembravam lenços de um gigante estendidos a secar. O aflorar ocasional de uma rocha, uma mata ocasional, uma "floresta" ocasional desarborizada e castanha, tudo sugerindo uma sequência de primitivismo; mas a cor predominante era o verde da agricultura. O ar era agora mais fresco; tinham subido a última falda e Oniton estendia-se-lhes aos pés com a sua igreja, as suas casas vistosas, o seu castelo, a sua península banhada pelo rio. Junto ao castelo havia uma casa cinzenta, sem estilo definido mas simpática, cujos campos se estendiam pela língua da península, o género de casa que se construiu por toda a Inglaterra nos princípios do século passado, quando a arquitectura era ainda uma expressão do carácter nacional. Era Granje, observou Albert por cima do ombro, após o que pisou o travão e o carro abrandou de velocidade até parar.

- Desculpem - disse ele, virando-se. - Importam-se de sair pela porta da direita? com calma.

- O que aconteceu? - perguntou Mrs. Warrington.

O carro que os seguia ultrapassou-os e ouviu-se a voz de Charles:

- Tirem imediatamente as mulheres.

Houve uma confluência de machos e Margaret e as suas companheiras foram empurradas e recebidas no segundo carro. O que acontecera? Quando se punham de novo em marcha, abriu-se a porta de uma casa de campo e uma garota desatou aos berros, virada para eles.

- O que é isto? - gritaram as senhoras.

Charles conduziu-as umas cem jardas sem falar. Depois disse:

- Está tudo em ordem. O vosso carro atropelou ao de leve um cão.

- Mas, pare! - gritou Margaret, horrorizada.

- Não o feriu.

- Não feriu mesmo? - interrogou Margaret.

- Não.

- Pare, por favor! - exclamou Margaret, olhando para trás. Estava de pé no carro, com os outros ocupantes a segurar-lhe os joelhos para que não caísse. - Quero voltar para trás, por favor.

Charles não lhe prestou atenção.

- Deixámos lá ficar Mister Fussell - disse outra pessoa - e o Angelo e o Grane.

- Sim, mas não ficou mulher nenhuma.

- Acho que um pouco de... - Mrs. Warrington esfregou o polegar no indicador - virá mais a propósito do que uma de nós.

- A companhia de seguros trata disso - comentou Charles e o Albert dirá o que houver a dizer.

- Mesmo assim, quero voltar para trás, já disse! - repetiu Margaret, que começava a encolerizar-se.

Charles não lhe prestou atenção. O carro, carregado de refugiados, continuava a descer muito lentamente a colina.

- Os homens estão lá - as outras faziam coro. - Os homens tratam do assunto.

- Os homens não sabem tratar do assunto. Isto é ridículo! Charles, peço-lhe que pare.

- Parar não é boa ideia - a voz de Charles soou lenta.

- Não é? - e, ao dizê-lo, Margaret saltou do carro.

Caiu sobre os joelhos, rasgou as luvas, ficou com o chapéu de banda. Houve gritos de alarme.

- Magoou-se? - exclamou Charles, saltando a seguir.

- Claro que me magoei! - retorquiu ela.

- Posso perguntar-lhe porque...

- Não há nada a perguntar.

- Tem a mão a sangrar.

- Eu sei.

- vou apanhar uma bela descompostura do pai por causa disto.

- Devia ter pensado nisso mais cedo, Charles.

Charles nunca se encontrara em tal situação. Uma mulher revoltada estava a metê-lo em apuros e semelhante facto era a seus olhos tão estranho que nem deixava no seu espírito espaço para a cólera. Recompôs-se quando os outros se levantaram; eram de uma espécie que ele compreendia. Ordenou-lhes que voltassem para trás.

Viram Albert Fussell caminhar na sua direcção.

- Não foi nada! - gritou. - Não era um cão, era um gato.

- Aí está! - exclamou Charles, triunfante. - Era apenas um reles gato.

- Arranja-se lugar para mais um no seu carro? Vim-me embora logo que soube que não era um cão; os chauffeurs estão a tentar resolver o problema com a rapariga.

Mas Margaret retrocedeu, resoluta. Porque haveriam os chauffeurs de tentar resolver o problema com a rapariga? As senhoras protegendo-se com os homens, os homens protegendo-se com os seus criados

- todo o sistema errado e ela tinha de o contestar.

- Miss Schlegel, dou-lhe a minha palavra! Tem a mão ferida.

- Vou só ver - respondeu Margaret. - Não espere, Mister Fussell.

O segundo carro apareceu na curva.

- Está tudo em ordem, minha senhora - disse Grane por seu turno. Decidira tratá-la por "minha senhora".

- Tudo em ordem? O gato?

- Sim, minha senhora. A rapariga foi compensada pelo gato.

- Era uma rapariga muita entipática - comentou Angelo do terceiro carro, pensativamente.

- No lugar dela, não teria sido antipático?

O italiano ergueu os braços, gesto do qual deveria inferir-se que não gostaria de ser antipático, mas que poderia sê-lo se isso agradasse à senhora. A situação estava a ficar absurda. Os cavalheiros esvoaçavam de novo à roda de Miss Schlegel, oferecendo assistência, e Lady Edser começou a ligar-lhe a mão. Deu-se por vencida e, desculpando-se superficialmente, foi conduzida de volta ao automóvel e depressa a paisagem retomou as suas mudanças, a casa solitária desapareceu, o castelo avolumou-se nas suas almofadas de relva e chegaram. Não havia dúvida de que Margaret se desacreditara. Mas para ela toda a viagem desde Londres fora irreal. Os outros não comungavam da terra e das suas emoções. Eram pó, eram desprezíveis, eram tagarelice cosmopolita e a rapariga cujo gato fora morto reagira mais intensamente do que eles.

- Oh, Henry - exclamou - portei-me tão mal! - Fora esta a táctica que decidira usar. - Atropelámos um gato, o Charles disse-me para eu não saltar do carro, mas saltei e olhe! - Estendeu a mão ligada. - A sua pobre Meg estatelou-se.

Mr. Wilcox ficou desorientado. Em traje de noite, estava na entrada para dar as boas-vindas aos convidados.

- Pensava que era um cão - acrescentou Mrs. Warrington.

- Ah, um cão é um companheiro! - disse o coronel Fussell. Um cão não nos esquece.

- Feriu-se, Margaret?

- Nada de grave; e é a mão esquerda.

- Óptimo; despachem-se e vão-se mudar.

A rapariga obedeceu, tal como os outros. Mr. Wilcox virou-se então para o filho:

- E agora, Charles, o que é que se passou?

Charles foi absolutamente franco. Descreveu o que acreditava ter acontecido. Albert esborrachara um gato e Miss Schlegel perdera a cabeça, como aconteceria com qualquer mulher. Fora posta a salvo no outro carro, mas quando este estava em movimento saltara de novo para fora, a despeito de tudo o que lhe disseram. Depois de caminhar uns momentos pela estrada, acalmara e pedira desculpa. O pai aceitou esta explicação e nem percebeu que Margaret preparara habilmente o terreno para ela. Ajustava-se na perfeição ao seu ponto de vista sobre a maneira de ser feminina. Na sala de fumo, depois do jantar, o coronel expendeu a sua opinião, segundo a qual Miss Schlegel saltara por obra do demónio. Lembrava-se bem de como, era então um jovem, uma vez, no porto de Gibraltar, uma rapariga - uma bonita rapariga, também - se atirara pela borda fora por uma aposta. Estava a vê-la agora... e a todos os moços a saltarem atrás dela. Mas Charles e Mr. Wilcox concordavam em que no caso de Margaret se tratara mais provavelmente de nervos. Charles estava deprimido. Aquela mulher falava de mais. Causaria ao seu pai as maiores desgraças antes de dar cabo deles todos. Saiu para uma volta até à encosta do castelo, queria pensar no assunto. A noite estava maravilhosa. Por três lados, um riacho murmurando segredos do oeste rodeava a encosta; acima da sua cabeça, as ruínas recortavam-se no céu. Reviu minuciosamente os seus contactos com aquela família, até inserir Helen e Margaret e a tia Juley numa conspiração organizada. A paternidade tornara-o desconfiado. Tinha dois filhos para cuidar e mais um a caminho e a cada dia que passava eles se lhe afiguravam menos fadados a crescerem ricos. "Está tudo muito bem", reflectiu, "o pai diz que será justo com todos, mas não se pode ser justo indefinidamente. O dinheiro não é elástico. O que haverá, se a Evie constituir família? E, já agora, também o pai pode tê-la. Não haverá o suficiente, porque não entra dinheiro nenhum, nem através da Dolly ou do Percy. E o diabo!" Olhou com inveja para a Granje, cujas janelas coavam luz e risos. No seu conjunto, este casamento ia custar um dinheirão. Duas senhoras passeavam de cá para lá no terraço do jardim e como as sílabas "imperialismo" lhe chegaram aos ouvidos, adivinhou que uma delas era a tia. Poderia tê-lo ajudado, se não tivesse também uma família em quem pensar. "Cada um por si", repetiu - uma máxima que o animara no passado, mas que soou bastante sinistra no meio das ruínas de Oniton. Faltava-lhe a habilidade do pai para os negócios e por isso preocupava-se ainda mais com o dinheiro; a menos que viesse a herdar imenso, receava deixar os filhos pobres.

Enquanto estava sentado, a pensar, uma das senhoras abandonou o terraço e encaminhou-se para o prado; reconheceu tratar-se de Margaret pela ligadura branca que sobressaía no braço e apagou o charuto, receoso de que a ponta incandescente o traísse. A rapariga subia o outeiro aos ziguezagues e de vez em quando parava, como se estivesse a mexer na relva. Parecia absolutamente incrível, mas por um momento imaginou que ela estava apaixonada por ele e saíra para o tentar. Charles acreditava na existência de mulheres sedutoras, que são na verdade o complemento necessário do homem forte e, como não tinha sentido de humor, era incapaz de remover com um sorriso tal pensamento. Margaret, noiva do seu pai e uma das convidadas para o casamento da sua irmã, continuou o seu caminho sem dar por ele, que admitiu que, nesse ponto, se enganara a seu respeito. Mas o que fazia ela? Porque andava aos tropeções no meio do cascalho, prendendo o vestido em espinheiros e cardos? Ao contornar a esquina da torre do castelo, deve ter-se virado a favor do vento e sentido o cheiro do fumo do seu charuto, porque exclamou:

- Quem é? Quem está aí? Charles não respondeu.

- Saxão ou celta? - continuou ela, rindo na escuridão. - Mas não tem importância. Quem quer que seja, terá de me ouvir. Adoro este sítio. Adoro o Shropshire. Odeio Londres. Estou contente por este ir ser o meu novo lar. Oh, céus! - descia agora, de regresso a casa. - Que bom ter chegado!

"Aquela mulher significa problemas", pensou Charles e apertou os lábios. Alguns minutos depois seguia-a para dentro de casa, porque o chão começava a ficar húmido. Do rio subia uma neblina que o ia tornando invisível, embora fosse mais ruidoso o seu murmúrio. Caíra um forte aguaceiro nas colinas galesas.

 

Na manhã seguinte um ténue nevoeiro cobria a península. O tempo estava prometedor e os contornos do outeiro do castelo eram mais nítidos a cada vez que Margaret os olhava. Agora já via a torre e o Sol coloria de dourado o cascalho e pintava de azul o céu esbranquiçado. A sombra da casa definira-se e estendia-se pelo jardim. Um gato olhou para a sua janela miou. Finalmente, apareceu o rio, ainda com neblinas entre as margens e pelo meio dos amieiros que sobre ele se debruçavam, só visível até uma colina por detrás da qual se perdia.

Margaret estava fascinada com Oniton. Dissera que a adorara, mas fora a tensão romântica que a levara a isso. Os Druids arredondados de que tivera uma breve imagem durante a viagem, os rios fugindo deles, precipitadamente, para a Inglaterra, as massas negligentemente modeladas das colinas mais baixas, embriagaram-na de poesia. A casa era insignificante, mas o panorama que proporcionava seria um eterno júbilo e a rapariga pensou em todos os amigos que lá iriam e na conversão do próprio Henry a uma vida rural. Também as relações sociais prometiam ser favoráveis. O pastor da paróquia jantara com eles na noite anterior e ela descobriu que fora um amigo do seu pai e sabia portanto bastante a seu respeito. Gostou dele. Mostrar-lhe-ia a cidade. Entretanto, sentado do outro lado, Sir James Bidder repetia que ela só precisava de dizer uma palavra e ele arrebanharia prontamente as famílias do condado num raio de vinte quilómetros. Se Sir James podia ou não cumprir o que prometia era para ela duvidoso, mas enquanto Henry as confundisse com as famílias do condado quando aparecessem, estaria satisfeita.

Charles e Albert Fussell atravessavam agora o relvado. Iam dar um mergulho matinal e um criado seguia-os com os fatos de banho. Margaret pensara dar uma volta antes do pequeno-almoço, mas percebeu que a essa hora o dia era sagrado para os homens e divertiu-se a observar os seus contratempos. Em primeiro lugar, não se encontrava a chave da barraca. Charles, de punhos cerrados na margem do rio, era a imagem da tragédia, enquanto o criado berrava e não se fazia entender por outro criado, no jardim. Depois, surgiu um problema a propósito de um trampolim e não tardou que três pessoas corressem de um lado para o outro pelo prado, com ordens e contra-ordens e recriminações e pedidos de desculpa. Se Margaret queria saltar de um automóvel, saltava; se Tibby decidia torcer os tornozelos por nada, torcia-os; se um empregado de escritório desejava aventuras, caminhava no escuro. Mas estes atletas pareciam paralisados. Eram incapazes de tomarem um banho sem todos os acessórios, apesar de o Sol da manhã os chamar e as últimas neblinas se irem afastando da ondulação do riacho. Aperceber-se-iam da existência dos seus corpos? Poderiam aqueles que desprezavam por os acharem amaricados superá-los no seu próprio elemento?

Imaginou como iriam ser os banhos no seu dia - sem aflições com criados, sem acessórios que ultrapassassem o bom senso. As suas divagações foram interrompidas pela criança sossegada, que saíra para falar ao gato, mas agora a observava a observar os homens. Saudou-a com um "bom dia, querida" um tanto ríspido. Havia consternação na sua voz. Charles olhou em redor e, embora totalmente ataviado de azul-índigo, refugiou-se na barraca e não mais se viu.

- Miss Wilcox está em cima... - a criança cochichava, tornou-se ininteligível.

- O quê?

Ouviu-se qualquer coisa como "... arto... ido..."

- Não oiço.

- no quarto... tecido... papel...

Deduzindo que o vestido de casamento estava à vista e que seria apropriado ir vê-lo, dirigiu-se ao quarto de Evie. Reinava a animação. Evie, em saiote, dançava com uma das senhoras anglo-indianas, enquanto a outra se extasiava perante jardas de tecido branco. Gritavam, riam, cantavam, e o cão ladrava.

Margaret também gritou um bocadinho, mas sem convicção. Não conseguia descobrir tanta comicidade num casamento. Talvez algo lhe escapasse.

Evie arfou:

- A Dolly é uma idiota por não estar aqui! Então é que seria uma paródia!

Margaret desceu para o pequeno-almoço.

Henry já estava instalado; comia devagar, falava pouco e era, aos olhos de Margaret, o único membro da família que disfarçava bem a emoção. Margaret não o acreditava indiferente à perda da filha nem à presença da futura mulher. Continuava no entanto impassível, limitando-se a umas instruções de quando em quando, instruções essas que tinham por objectivo a comodidade dos seus hóspedes. Perguntou-lhe pela mão; ajudou-a a servir o café e ajudou Mrs. Warrington a servir o chá. Quando Evie desceu, houve uma desorganização momentânea e as duas senhoras levantaram-se para deixarem livres os seus lugares.

- Burton - chamou Henry -, sirva o chá e o café do aparador! Não revelava tacto genuíno, mas era uma certa espécie de tacto, a espécie que se revela tão útil como a genuína e salva ainda mais situações do que aquela, em reuniões à mesa. Henry tratava de um casamento como de um funeral, ponto por ponto, sem nunca ter em consideração o conjunto e "Morte, onde está a tua dor? Amor, onde está a tua vitória?" são exclamações que só se soltam em relação ao conjunto.

Depois do pequeno-almoço, reclamou alguns minutos com ele. Era sempre melhor abordá-lo formalmente. Pediu a entrevista, porque nessa manhã ele ia caçar faisões e ela ia encontrar-se com Helen na cidade.

- Com certeza, querida. Claro que tenho tempo. O que quer?

- Nada.

- Receei que estivesse alguma coisa a correr mal.

- Não; não tenho nada para dizer, mas podemos conversar. com um olhar de soslaio ao relógio, falou da malfadada curva junto ao portão do cemitério. Ouviu-o com interesse. A sua aparência exterior respondia à dele sem nunca demonstrar menosprezo, mesmo que no seu íntimo desejasse vivamente ajudá-lo. Abandonara todos os seus projectos de acção. O amor é o que melhor age e quanto mais se permitisse amá-lo, maior seria a possibilidade de o seu espírito se acalmar. Um momento assim, gozando bom tempo sentados junto às paredes da sua futura casa, era tão doce para ela que decerto essa doçura o penetraria. Cada erguer de olhar, cada entreabrir dos seus lábios que sobressaíam, sombreados, do rosto barbeado podiam ser um prelúdio à ternura que mata o Monge e a Besta com um simples sopro. Cem vezes desiludida, continuava a ter esperança. Amava-o com a clareza de visão suficiente para temer quando o via sombrio. Quando falava de trivialidades, como hoje, ou a cobria de beijos ao crepúsculo, conseguia perdoá-lo, corresponder-lhe.

- Se há essa curva apertada - sugeriu -, não poderíamos ir a pé para a igreja? Não, evidentemente, o Henry e a Evie; mas nós, os outros, podíamos ir primeiro, à frente; e diminuía o número de transportes.

- Não podem levar-se senhoras a pé pela Market Square. Os Fussell não iam gostar nada; ficaram derreados no casamento do Charles. Eu... a... uma pessoa do nosso grupo estava ansiosa por andar, a igreja era mesmo ali à esquina e eu não me teria importado; mas o coronel insistiu imenso.

- Os homens não deviam ser tão cavalheirescos - comentou ela, pensativa.

- Porquê?

Sabia porquê, mas respondeu que não sabia. Henry sugeriu-lhe então, a menos que ela tivesse alguma coisa especial para dizer, que podiam ir visitar a adega e foram juntos à procura de Burton. Apesar de tosca e com alguns contras, Oniton era uma casa de campo genuína. Atravessaram passagens lajeadas barulhentas, olhando sala após sala e assustando criadas desconhecidas que cumpriam os seus obscuros deveres. O pequeno-almoço de casamento deveria estar pronto quando regressassem da igreja e o chá seria servido no jardim. Ver tanta gente atarefada e séria fez sorrir Margaret, mas reflectiu que tinham sido pagos para estarem sérios e que gostavam de andar agitados. Eram as rodas escondidas da engrenagem que estava a atirar Evie para a glória nupcial. Um garoto bloqueou-lhes o caminho com baldes de lixo. Não tinha esperteza para perceber quão importantes eles eram e disse:

- com licença; deixem-me passar, por favor.

Henry perguntou-lhe onde estava Burton. Mas os criados eram tão recentes que não sabiam os nomes uns dos outros. Na sala estava a banda, que havia pedido que fosse incluído champanhe nos seus honorários e cujos membros, para já, iam bebendo cerveja. Perfumes árabes vinham da cozinha, à mistura com gritos. Margaret sabia o que lá se passava, porque o mesmo acontecia em Wickham Place. Um dos pratos do jantar transbordara e a cozinheira estava a queimar aparas de cedro para afugentar o mau cheiro.

Chegaram por fim junto do mordomo. Henry entregou-lhe as chaves e deu a mão a Margaret, ajudando-a a descer as escadas para a cave. Duas portas não estavam fechadas à chave. Ela que guardava todo o vinho que tinha na parte de baixo do armário da roupa de casa, ficou boquiaberta perante o que viu.

- Nunca gastaremos isto tudo! - gritou e os dois homens, momentaneamente irmanados, trocaram sorrisos. Margaret sentiu-se como se tivesse saltado de novo do carro em movimento.

De certo Oniton levaria tempo a ser absorvida. Não seria tarefa fácil manter-lhe a integridade e até mesmo assimilá-la. Tinha de a conservar tal como era, tanto por si própria como pela casa, visto que uma mulher hesitante degrada o marido com quem vive; e tinha de a assimilar por uma questão de mera honestidade, porque não tinha o direito de se casar com um homem para lhe trazer preocupações. O seu único aliado era o poder de um lar. A perda de Wickham Place ensinara-lhe mais do que a sua posse. Howards End repetira a lição. Estava determinada a criar novas raízes entre estas colinas.

Depois de visitar a adega, vestiu-se e chegou então o casamento, que pareceu uma coisa de nada em comparação com os preparativos que o precederam. Tudo correu optimamente. Mr. Cahill materializara-se do nada e aguardava a sua noiva à porta da igreja. Ninguém deixou cair a aliança, ou se enganou ao pronunciar as respostas, ou tropeçou na cauda de Evie, ou falou alto. Em meia dúzia de minutos, cumpriram a sua missão, o registo foi assinado e todos regressaram aos seus carros, vencendo a curva perigosa junto ao portão do cemitério. Para Margaret, não se tinham nada casado e a igreja normanda ocupara-se durante todo o tempo de outros assuntos.

Havia mais alguns documentos para assinar em casa e o pequeno-almoço para tomar e apareceriam mais algumas pessoas para a recepção no jardim. Tinham recebido uma grande quantidade de recusas e no fim de contas não fora uma coisa muito especial, não tão especial como seria o de Margaret. Esta, reparou nos pratos e nas passadeiras vermelhas, demonstração aparente do que Henry achava apropriado. Mas interiormente esperava algo melhor do que esta mistura de igreja dominical e caça à raposa. Se ao menos alguém tivesse ficado aborrecido! Mas este casamento correra tão particularmente bem, "calmo como um durbar" na opinião de Lady Edser, e não há dúvida de que Margaret concordava com ela.

E assim esse dia perdido se foi arrastando pesadamente, a noiva e o noivo partiram, rindo às gargalhadas e pela segunda vez o Sol se pôs por trás das colinas de Gales. Henry, mais cansado do que confessava, veio ao seu encontro no prado do castelo e, com uma doçura pouco habitual, admitiu estar contente. Tudo correra tão bem! Margaret, que tomou para si parte do elogio, corou; é verdade que fizera quanto pudera pelos seus intratáveis amigos e tivera especiais atenções para com os homens, que iam levantar a tenda nessa tarde: só os Warrington e a criança sossegada passavam a noite, os outros dirigiam-se já para casa para acabarem de fazer as malas.

- Acho que correu lindamente - concordou. -Já que saltei do carro, ainda bem que caí sobre a mão esquerda. Estou tão contente por isso, Henry querido! Só espero que os convidados do nosso sintam metade do prazer que eu senti. Têm todos de se lembrar de que não há ninguém prático entre nós, excepto a minha tia, e essa não está habituada a festas em larga escala.

- Eu sei - respondeu ele gravemente. - Dadas as circunstâncias, julgo melhor entregar tudo ao cuidado do Harrod's ou do Whiteley, ou mesmo ir para um hotel.

- Aconselha um hotel?

- Sim, porque... bem, eu não pretendo contrariar os seus desejos. Quer com certeza casar da sua velha casa.

- A minha velha casa está a cair aos bocados, Henry. A única casa que quero é a nova. Não está uma tarde perfeita...

- O Alexandrina não é mau...

- O Alexandrina - repetiu ela, mais interessada pelas espirais de fumo que saíam das chaminés e punham manchas de cinzento nos últimos raios de Sol.

- Não é longe de Curzon Street.

- Não? Pois casemo-nos de não longe de Curzon Street!

E virando-se para o poente, extasiou-se perante o torvelinho dourado. O Sol incidia no rio exactamente no ponto em que este circundava a colina. Para além da curva devia estender-se o país das fadas e o seu precioso líquido escoava-se pelo meio delas, ultrapassando a barraca de banhos de Charles. Olhou tanto tempo que se lhe encandearam os olhos e quando os virou para a casa não reconheceu as caras das pessoas que dela saíam. Precedia-as uma criada-de-fora.

- Quem é aquela gente?

- São visitas! - exclamou Henry. - É muito tarde para visitas.

- Talvez sejam pessoas da cidade que querem ver os presentes de casamento.

- Não estou em casa para gente da cidade.

- Está bem, esconda-se nas ruínas e eu livro-me deles, se for capaz.

Ele agradeceu-lhe.

Margaret afastou-se, afivelando um sorriso social. Supunha que fossem convidados pouco pontuais, que teriam de se contentar com a civilidade de um representante, visto que Evie e Charles se tinham ido embora, Henry estava cansado e os outros nos seus quartos. Assumiu a atitude de uma anfitriã; não por muito tempo. Porque um dos do grupo era Helen, Helen, com a sua mais velha roupa e dominada por aquela excitação tensa, ofendida, que fizera dela um terror nos seus dias de criança.

- O que há? - exclamou Margaret. - O que aconteceu? O Tibby está doente?

Helen falou com os seus dois companheiros, que tinham ficado para trás. Avançou então furiosamente.

- Estão esfomeados! - berrou. - Encontrei-os esfomeados!

- Quem? Porque vieste?

- Os Bast.

- Oh, Helen! - gemeu Margaret. - O que é que tu fizeste agora?

- Ele perdeu o emprego. Foi posto fora do banco. Sim, está liquidado. Nós, as classes superiores, arruinámo-lo e julgo que vais dizer-me que é a luta da vida. Esfomeado. com a mulher doente. Esfomeada. Desmaiou no comboio.

- Helen, estás maluca?

- Talvez. Estou. Se assim o queres, estou maluca. Mas trouxe-os. Não vou suportar por mais tempo a injustiça. vou pôr a nu a miséria que este fausto ilude, essas palavras impessoais, essas frases feitas acerca de Deus fazer o que nós somos demasiado negligentes para o fazermos nós próprios.

- Trouxeste mesmo duas criaturas esfomeadas de Londres para o Shropshire, Helen?

Helen ficou atrapalhada. Não pensara nisso e a sua histeria abrandou:

- Havia uma carruagem-restaurante no comboio - respondeu.

- Não sejas absurda. Não estão esfomeados e tu sabe-lo. Agora, começa pelo princípio. Não tenho o teu senso teatral. Como te atreves

- repetiu, sentindo a raiva crescer dentro de si - a irromper desta forma desumana no casamento da Evie? Santo Deus! Mas que perversa noção de filantropia a tua! Olha - apontou para a casa -, criados, pessoas às janelas. Pensam que se trata de um escândalo vulgar e vou ter de lhes explicar: "Oh, não, é apenas a minha irmã aos berros e apenas dois parasitas nossos, que ela trouxe aqui sem qualquer razão concebível."

- Faz o favor de retirar a palavra "parasitas" - disse Helen, agoirentamente calma.

- Muito bem - concedeu Margaret, determinada a evitar a todo o custo uma real querela. - Também eu lamento por eles, mas não consigo entender porque os trouxeste aqui ou porque estás aqui tu própria.

- É a nossa última oportunidade de vermos Mister Wilcox. Perante isto, Margaret dirigiu-se para casa. Estava decidida a não aborrecer Henry.

- Vai para a Escócia. Sei que vai. Insisto em vê-lo.

- Sim, amanhã.

- Eu sabia que era a nossa última oportunidade.

- Como está, Mister Bast? - cumprimentou Margaret, tentando dominar o seu tom de voz. - É um assunto estranho. Qual é a sua opinião?

- Mistress Bast está aqui - elucidou Helen.

Também Jacky lhe apertou a mão. Ela, tal comp o marido, estava envergonhada e além disso doente e era tão bestialmente estúpida que não conseguia compreender o que se estava a passar. Sabia apenas que a senhora entrara como um furacão na noite anterior, pagara a renda, desempenhara a mobília, lhes oferecera um jantar e lhes ordenara que se encontrassem com ela em Paddington na manhã seguinte. Leonard protestara debilmente e quando a manhã chegou sugeriu que não deveriam ir. Mas ela, semi-hipnotizada, obedecera.

A senhora dissera-lhes que fossem e eles tinham de ir e, assim, o seu quarto-sala de estar mudara-se para Paddington e Paddington para uma carruagem de caminho-de-ferro, que estremecia e que aqueceu e que arrefeceu e que desapareceu totalmente e que reapareceu por entre torrentes de perfumes caros. "Desmaiou", dissera a senhora com uma voz aterrada. "Talvez o ar fresco lhe faça bem." E talvez tivesse feito, porque aqui estava ela, sentindo-se bastante melhor, no meio de uma quantidade de flores.

- Não duvide de que não quero ser um intruso - começou Leonard, em resposta à pergunta de Margaret. - Mas foram tão gentis comigo no passado a propósito da Porphyrion, que pensei... bem, pensei se...

- Se poderíamos voltar a pô-lo na Porphyrion outra vez - suplicou Helen. - Meg, este assunto foi palpitante. Uma tarde brilhante no Chelsea Embankment.

Margaret abanou a cabeça e voltou-se para Mr. Bast.

- Não percebo. O senhor deixou a Porphyrion porque nós lhe sugerimos que era uma firma má, não foi?

- Isso mesmo.

- E mudou-se para um banco?

- Falei-te disso tudo - interveio Helen. - E eles reduziram o pessoal depois de ele ir para lá e agora está sem um tostão e eu considero que nós e o nosso informador somos os culpados directos.

- Detesto tudo isto - resmungou Mr. Bast.

- Espero que deteste, Mister Bast. Mas é inútil dissimular os problemas. Não fez bem em vir aqui. Se pretende confrontar-se com Mister Wilcox e pedir-lhe contas por uma observação ocasional, vai cometer um grande erro.

- Fui eu quem os trouxe. Fui eu quem fez tudo - gritou Helen.

- O único conselho que posso dar-lhes é que partam imediatamente. A minha irmã pô-los numa situação falsa e o melhor é eu dizer-vos isso. É muito tarde para irem para a cidade, mas encontrarão um hotel confortável em Oniton, onde Mistress Bast pode ficar e espero que sejam meus hóspedes lá.

- Não é isso o que eu quero, Miss Schlegel - retorquiu Leonard. - É muito gentil e não há dúvida de que a posição é falsa, mas tratou-me como a um miserável. Como se eu não prestasse para nada.

- É trabalho o que ele quer - interpretou Helen. - Não percebes?

Leonard disse então:

- Jacky, vamos embora. Somos mais indesejados do que merecemos. Já custámos a estas senhoras dinheiro e mais dinheiro para nos arranjarem trabalho e nunca o conseguirão. Não há nada de que sejamos dignos.

- Gostaríamos de vos arranjar trabalho - contrapôs Margaret, bastante convencionalmente. - Queremos arranjar-lho, eu e a minha irmã. Só que estamos em maré de pouca sorte. Vão para o hotel, tenham uma boa noite de descanso e um dia pagam-me a conta, se assim o preferirem.

Mas Leonard estava à beira do abismo e em tais momentos os homens são clarividentes:

- Não sabe o que está a dizer. Não vou arranjar trabalho agora. Se os ricos falham numa profissão, podem tentar outra. Eu não. Tenho a minha rotina e saí dela. Podia ocupar-me de um ramo determinado de seguros num escritório determinado, suficientemente bem para ganhar um salário, mas não mais. A poesia não é tudo, Miss Schlegel. Os nossos pensamentos sobre isto e aquilo não são nada. O vosso dinheiro também não é nada, se percebem onde quero chegar. Quero eu dizer, se um homem de mais de vinte anos perde o seu emprego certo, tudo está acabado para ele. Já vi isso acontecer a outros. Os amigos dão-lhes dinheiro durante algum tempo, mas acabam na miséria. Não vale a pena. Todo o mundo está contra. Haverá sempre ricos e pobres.

Terminara.

- Não querem comer alguma coisa? - ofereceu Margaret. Não sei o que fazer. Não estou na minha casa e embora Mister Wilcox tivesse prazer em ver-vos noutra qualquer altura... Como disse, não sei o que fazer, mas farei o que puder por vós. Helen, oferece-lhes qualquer coisa. Experimente uma sanduíche, Mistress Bast.

Dirigiram-se para uma mesa comprida, atrás da qual estava ainda um criado. Bolos gelados, inumeráveis sanduíches, café, cup, champanhe, tudo ainda quase intacto: os superalimentados convidados não podiam mais. Leonard recusou. Jacky achou que podia aproveitar um bocadinho. Margaret deixou-os a segredar entre si e trocou mais algumas palavras com Helen:

- Helen, eu gosto de Mister Bast. Concordo que está com pouca sorte. Concordo que somos directamente responsáveis.

- Não, indirectamente. Via Mister Wilcox.

- Deixa-me dizer-te de uma vez por todas que se tomas essa atitude, não faço nada. Não há dúvida de que logicamente tens razão e estás no teu direito de dizer uma quantidade de coisas severas a respeito do Henry. Só que não to admito. Por isso, escolhe.

Helen contemplou o pôr do Sol.

- Se prometes levá-los calmamente para o Hotel George, falo neles ao Henry, à minha maneira, mete isso na cabeça; nada dessa berraria absurda sobre justiça. Se fosse apenas uma questão de dinheiro, podíamos resolvê-la nós. Mas ele quer trabalho e isso não podemos nós dar-lhe; talvez o Henry possa.

- Tem esse dever - resmungou Helen.

- Não estou preocupada com deveres. Estou preocupada com o carácter de várias pessoas que conhecemos e em descobrir como, sendo as coisas como são, poderão essas coisas ser um pouco melhoradas. Mister Wilcox detesta que lhe peçam favores; todos os homens de negócios detestam. Mas eu vou pedir-lhe, arriscando-me a uma recusa, porque pretendo que as coisas sejam um pouco melhores.

- Muito bem. Prometo. Estás a ser muito ponderada.

- Então leva-os para o George e eu vou tentar. Pobres criaturas! Como parecem cansadas. - Quando se iam embora, acrescentou: Ainda temos muito que conversar, Helen. Foste muito comodista. Não posso esquecê-lo. Quanto mais avanças na idade, menos autodomínio tens. Pensa nisso e modifica-te, caso contrário não vamos ter umas vidas muito felizes.

Voltou para junto de Henry; por sorte, este continuava sentado; as atitudes físicas tinham a sua importância.

- Era gente da cidade? - perguntou, saudando-a com um sorriso atraente.

- Não vai acreditar-me - e Margaret sentou-se a seu lado. - Está tudo bem agora, mas um deles era a minha irmã.

- A Helen aqui? - exclamou ele, preparando-se para se erguer. - Mas ela recusou o nosso convite! Julguei que detestava casamentos.

- Não se levante. Ela não veio para o casamento. Recambiei-a para o George.

Intrinsecamente hospitaleiro, Henry protestou.

- Não; tinha dois protegidos com ela e era sua obrigação acompanhá-los.

- Deixe-os ficar a todos.

- Meu querido Henry, viu-os?

- Entrevi a cabeleira castanha de uma mulher.

- A cabeleira castanha, era a Helen; mas acaso deu por uma cabeleira verde-mar e salmão?

- O quê? Vieram para as comezainas?

- Não; por negócios. Queriam ver-me e mais tarde pretendo falar consigo a respeito deles.

A sua própria diplomacia envergonhava-a. Como era tentador, ao lidar com um Wilcox, afastarmo-nos da camaradagem e dar-lhes o género de mulher que desejavam!

Henry mordeu imediatamente a isca:

- Porquê mais tarde? Fale agora. Não há nada como não deixar passar o tempo.

- Acha que sim?

- Se não é uma história muito comprida.

- Não, leva cinco minutos; mas é espinhosa, dado que quero que arranje trabalho para o homem no seu escritório.

- Que aptidões tem ele?

- Não sei. É escriturário.

- Que idade?

- Vinte e cinco, talvez.

- Como se chama?

- Bast. - E Margaret esteve quase a lembrar-lhe que se tinham encontrado em Wickham Place, mas calou-se. Não fora um encontro auspicioso.

- Onde estava ele antes?

- No Dempster's Bank.

- Porque saiu? - Continuava a não se lembrar de nada.

- Reduziram o pessoal.

- Está bem; eu recebo-o.

Era a recompensa do seu tacto e da sua devoção durante o dia. Margaret percebia agora a razão por que algumas mulheres preferem a influência aos direitos. Mrs. Plynlimmon, ao condenar as sufragistas dissera: "A mulher que não consegue influenciar o marido a votar como ela quer, devia ter vergonha de si." Margaret estremecera, mas aí estava ela a influenciar Henry e, embora contente pela sua pequena vitória, sabia que a obtivera usando métodos de harém.

- Gostava que o admitisse - disse -, mas ignoro se é uma pessoa capaz.

- Farei o que puder. Mas que isto não abra precedentes, Margaret.

- Não, claro... claro...

- Não posso passar o tempo a colocar os seus protegidos. Os negócios ressentir-se-iam.

- Prometo que é o último. Ele é... é um caso muito especial.

- Os protegidos são-no sempre.

Não o contrariou. Levantou-se com um toque suplementar de complacência e estendeu a mão para a ajudar. Como era enorme a distância entre o verdadeiro Henry e o Henry que Helen achava que ele era! E ela própria - flutuando como de costume entre os dois, ora aceitando os homens tal como são, ora ansiando, como a irmã, pela Verdade. Amor e Verdade - uma eterna guerra latente. Talvez todo o mundo visível nela repouse e, se constituíssem um todo, a própria vida, como os espíritos quando Próspero se reconciliou com o irmão, se desvanecesse no ar, num ar ténue.

- Os seus protegidos atrasaram-nos. Os Fussell devem estar quase a partir.

No conjunto, estava do lado dos homens. Henry teria salvo os Bast como teria salvo Howards End, enquanto Helen e os seus amigos discutiam a ética da salvação. O método dele era impetuoso, mas o mundo fora construído com ímpeto e a beleza da montanha, do rio, do pôr do Sol, não podiam ser senão o verniz com que o artífice oculta as suas imperfeições. Oniton, como ela própria, era imperfeita. As macieiras eram enfezadas, o castelo estava em ruínas. Também ela sofrera nas suas fronteiras as guerras entre Anglo-Saxões e Celtas, entre coisas como são e coisas como deveriam ser. Uma vez mais o oeste recuara, uma vez mais as estrelas ordeiras brilharam no céu do leste. Não há dúvida de que não há no mundo paz para nós. Mas há felicidade e enquanto descia o outeiro pelo braço do seu amado, Margaret sentia que estava a usufruir a sua parte.

Para sua contrariedade, Mrs. Bast estava ainda no jardim; o marido e Helen tinham-na lá deixado a acabar a sua refeição, enquanto eles iam arranjar quartos. Margaret achou-a repelente. Lembrou-se do motivo por que as visitara em Wickham Place e de novo sentiu os odores do abismo - odores ainda mais perturbantes por serem involuntários. Porque não havia malícia em Jacky. Para ali estava, um pedaço de bolo numa mão, uma taça de champanhe vazia na outra, sem fazer mal a ninguém.

- Está extenuada - sussurrou Margaret.

- Está mais alguma coisa - disse Henry. - Isto não pode ser. Não posso tê-la no meu jardim neste estado.

- Está... - Margaret hesitou em acrescentar "bêbeda". Agora que ia casar-se com ele, tornara-se especialmente responsável. Agora desaprovava conversas inconvenientes.

Henry dirigiu-se para a mulher. Levantou-lhe o rosto, que brilhou na penumbra como um licoperdo.

- Minha senhora, está melhor no hotel - disse com aspereza. Jacky replicou:

- Olh'o Hen!

- Ne crois pás que lê mari lui ressemble - desculpou-se Margaret.

- est tout à fait différent.

- Henry! - repetiu a outra, muito distintamente. Mr. Wilcox estava aborrecidíssimo.

- Não posso felicitá-la pelos seus proteges - comentou.

- Hen, não te vás embora. Tu amas-me, querido, não amas?

- Santo Deus, que criatura! - suspirou Margaret, levantando um pouco a saia.

Jacky apontou com o bolo.

- És bom rapaz, não és? - Bocejou. - Pois então, eu amo-te.

- Henry, peço imensa desculpa.

- E pede, porquê? - Olhou-a com tanta dureza que a rapariga receou que não se sentisse bem. Mostrava-se mais escandalizado do que o justificava a situação.

- Por lhe ter trazido isto.

- Reze, não peça desculpa.

A voz da outra continuava a fazer-se ouvir.

- Porque é que ela lhe chama "Hen"? - interrogou Margaret, inocentemente. - Já o tinha visto alguma vez?

- Visto o Hen alguma vez! - interveio Jacky. - Quem não viu o Hen? Está a fazer consigo o que fez comigo, querida. Estes rapazes! Espere... mesmo assim, "a gente" ama-os.

- Está satisfeita agora? - perguntou Henry. Margaret começava a assustar-se.

- Não percebo nada do que se passa. Vamos para dentro. Mas Henry julgava que ela estava a representar. Julgava-se alvo

de uma armadilha. Via ir por água abaixo toda a sua vida.

- Não percebe mesmo? - Era irónica a sua voz. - Eu percebo. Permita-me que a felicite pelo sucesso do seu plano.

- O plano é da Helen, não meu.

- Agora compreendo o seu interesse pelos Bast. Muito bem pensado. Divertem-me as precauções que tomou, Margaret. Tem razão, era preciso. Sou um homem e vivi no passado uma vida de homem. Tenho a honra de a libertar do seu compromisso.

Ela ainda não percebia. Conhecia o lado mau da vida em teoria; não conseguia materializá-lo. Era necessário que Jacky dissesse mais, palavras inequívocas, inegáveis.

- Então... - articulou ela e entrou em casa. Proibiu-se de dizer uma palavra mais que fosse.

- O que há? - inquiriu o coronel Fussell, que estava na entrada, pronto para partir.

- Estávamos a dizer... o Henry e eu estávamos precisamente a discutir com a maior violência, sendo minha opinião... - Pegando no casaco de pele dele que um criado segurava, ofereceu-se para o ajudar. Ele protestou e houve um agradável entreacto.

- Não, deixe-me ser eu a fazê-lo - disse Henry, que a seguia.

- Muito obrigada. Está a ver, ele perdoou-me. Galantemente, o coronel disse:

- Estou certo de que não haverá grande coisa a perdoar.

Entrou no carro. Seguiram-se as senhoras, após um pequeno intervalo. Criadas, mensageiro e a bagagem mais pesada, tudo fora expedido mais cedo, pelo ramal. Ainda a tagarelar, ainda com agradecimentos ao anfitrião e uma certa condescendência para com a futura anfitriã, os convidados iam-se afastando.

Margaret reatou então:

- Portanto, esta mulher foi sua amante?

- Expõe o caso com a sua delicadeza habitual.

- Quando, por favor?

- Porquê?

- Quando, por favor?

- Há dez anos.

Sem uma palavra, Margaret virou-lhe as costas. Porque a tragédia não era sua: era de Mrs. Wilcox.

 

Helen começava a pensar na razão por que gastara oito libras para pôr umas pessoas doentes e outras furiosas. Agora que a onda de excitação se desfizera e a deixara, a ela, a Mr. e Mrs. Bast, encalhados a noite inteira num hotel de Shropshire, perguntava a si própria que forças haviam levado tal onda a formar-se. De qualquer maneira, ninguém fora prejudicado. Margaret ia jogar com lealdade e, embora Helen desaprovasse os métodos da irmã, sabia que a longo prazo os Bast beneficiariam.

- Mister Wilcox é tão lógico - explicou a Leonard, que metera a mulher na cama e estava sentado com ela na sala de fumo. - Se lhe dissermos que é seu dever tomá-lo a seu cargo, é capaz de negar. O facto é que não é bem-educado. Não quero pô-lo contra ele, mas havemos de chegar a um acordo.

- Não conseguirei agradecer-lhe como quereria, Miss Schlegel foi tudo quanto Leonard soube replicar.

- Eu acredito na responsabilidade pessoal. O senhor, não? E em tudo o que é pessoal! Odeio... acho que não devo dizer isto... mas os Wilcox estão no caminho errado. Talvez não seja por culpa deles. Talvez aquele pequeno nada que diz "eu" falte nas suas cabeças e, se assim for, é uma perda de tempo censurá-los. Há uma teoria de pesadelo que diz que está a nascer uma raça especial que no futuro governará toda a outra gente exactamente porque lhe falta a pequena coisa que diz "eu". Já ouviu falar nisso?

- Não tenho tempo para ler.

- Então, pensou nisso? Que há dois géneros de pessoas: o nosso, que vive uma vida equilibrada, e o outro, que não pode vivê-la porque nos seus cérebros não há meio-termo? São incapazes de dizer "eu". De facto, não existem, por isso são super-homens. Pierpont Morgan nunca disse "eu" em toda a sua vida.

Leonard cobrou ânimo. Se a sua benfeitora queria uma discussão intelectual, tê-la-ia. Era mais importante do que o seu passado destroçado.

- Nunca consegui compreender Nietzsche - disse. - Mas sempre soube que esses super-homens têm bastante de egoístas.

- Ah, não, isso está errado! - contrapôs Helen. - Um super-homem nunca diz "eu quero", porque "eu quero" pode levar à pergunta "quem sou eu?" e por essa via à piedade e à justiça. Limita-se a dizer "quero". "Quero a Europa", se é Napoleão; "quero esposas", se é o Barba Azul; "quero Botticelli", se é Pierpont Morgan. Nunca é "eu"; e se pudéssemos penetrar nos seus âmagos, íamos encontrar pânico e vazio.

Leonard manteve-se silencioso uns segundos, após o que disse:

- Posso deduzir, Miss Schlegel, que a senhora e eu somos ambos da espécie que diz "eu"?

- Claro.

- E a sua irmã também?

- Claro - repetiu Helen, com alguma aspereza. Estava aborrecida com Margaret, mas não queria vê-la posta em causa. - Todas as pessoas como devem ser dizem "eu".

- Mas Mister Wilcox... talvez ele não seja...

- Não acho que valha a pena falar de Mister Wilcox.

- Tem razão, tem razão - concordou ele. Helen perguntou aos seus botões por que razão estava a pô-lo no seu lugar. Uma ou duas vezes durante o dia o encorajara à crítica e agora calara-lhe a boca. Receava o seu atrevimento? Se assim era, era chocante da sua parte.

Mas ele achava absolutamente natural que ela o fizesse calar. Tudo o que viesse da rapariga era natural e incapaz de ser ofensivo. Quando as Miss Schlegel estavam juntas, achava-as pouco humanas, uma espécie de rodopio admonitório. Mas uma Miss Schlegel sozinha era diferente. Era solteira, no caso de Helen, prestes a casar, no caso de Margaret, em nenhum dos casos um eco da outra irmã. Fizera-se finalmente luz sobre este abastado mundo superior e ele via-o cheio de homens e mulheres, uns mais amistosos do que os outros. Helen era agora a "sua" Miss Schlegel, a que o apoiava e compreendia e na véspera o arrastara para aqui com uma veemência digna de agradecimento. Margaret, apesar de não ser indelicada, era severa e distante. Não lhe ocorreria ajudá-la, por exemplo. Nunca gostara dela e começava a pensar que a sua primeira impressão tinha razão de ser e que a irmã também não gostava dela. Helen era decerto uma solitária. Ela, que tanto dava, recebia muito pouco em troca. Causava prazer a Leonard pensar que podia evitar vexá-la, tendo tento na língua e calando o que sabia a respeito de Mr. Wilcox. Jacky anunciara-lhe a sua descoberta quando a fora buscar ao relvado. Passado o primeiro choque, não foi em si que pensou. Por essa altura já não tinha ilusões a respeito da mulher e este facto era apenas uma mancha mais na face de um amor que nunca fora puro. Manter perfeita a perfeição, seria o seu ideal, se a vida lhe desse tempo para ter ideais. Helen, e Margaret para bem de Helen, não deviam saber.

Helen desconcertou-o ao mudar a conversa para a sua esposa.

- Mistress Bast... alguma vez disse "eu"? - perguntou, meio maliciosamente, e logo de seguida: - Está cansada?

- É melhor que fique no quarto - respondeu Leonard.

- Farei bem em ir para ao pé dela?

- Não, obrigado; não precisa de companhia.

- Mister Bast, que espécie de mulher é a sua esposa? Leonard corou até à raiz dos cabelos.

- Já devia conhecer os meus modos. A pergunta ofende-o?

- Não, Miss Schlegel, não!

- Porque eu adoro a sinceridade. Não me venha dizer que o seu casamento é feliz. O senhor e ela não podem ter nada em comum.

Ele não negou, mas respondeu com aspereza:

- Acho que isso é inegável; mas a Jacky nunca faria mal a ninguém de propósito. Quando as coisas corriam mal, ou ouvia disparates, costumava achar que era por culpa dela mas, olhando para trás, vejo que é mais minha. Não devia ter casado com ela; mas como casei, tenho de a suportar e ficar a seu lado.

- Há quanto tempo casaram?

- Quase três anos.

- O que disse a sua família?

- Não querem nada connosco. Fizeram uma espécie de reunião familiar quando ouviram dizer que eu me casara e cortaram totalmente connosco.

Helen começou a andar de cá para lá na sala.

- Que trapalhada, meu pobre rapaz! - comentou docemente. Quem é a sua família?

A isto, podia responder. Os pais, já falecidos, tinham sido comerciantes; as irmãs tinham casado com caixeiros-viajantes; o irmão era leitor-leigo.

- E os seus avós?

Leonard contou-lhe um segredo que até agora guardara com vergonha.

- Gente sem valor - disse ele -, agricultores, ou qualquer coisa do género.

- Ah, sim? De onde?

- A maioria de Lincolnshire, mas o pai da minha mãe, estranhamente, era daqui, das redondezas.

- Precisamente daqui, de Shropshire? Sim, é estranho. A família da minha mãe era do Lancashire. Mas porque é que o seu irmão e as suas irmãs puseram objecções a Mistress Bast?

- Ah, sei cá!

- Desculpe-me, mas sabe. Não sou nenhum bebé. Aguento seja o que for que me diga e quanto mais disser, maiores possibilidades terei de o ajudar. Têm alguma coisa contra ela?

Silêncio.

Acho que adivinhei - disse Helen com gravidade.

- Acho que não, Miss Schlegel, espero que não.

Devemos ser sinceros, mesmo sobre estas coisas. Adivinhei. Lamento imensamente, terrivelmente; mas para mim nada se modifica, por pouco que seja. Continuo a sentir a mesmíssima coisa por vós ambos. Censuro por essas coisas não a sua mulher, mas sim os homens.

Leonard não adiantou mais - desde que ela não adivinhasse quem era o homem! De pé junto à janela, a rapariga levantava lentamente as persianas. O hotel ficava numa praça escura. Começara o nevoeiro. Quando se voltou para ele, brilhavam-lhe os olhos.

- Não fique triste. - A voz de Leonard era uma súplica. - Eu aguento. Ficamos bem se eu arranjar trabalho. Se eu arranjasse trabalho... qualquer coisa certa para fazer. Nada voltaria a ser tão mau como dantes. Já não me preocupo com livros como era meu costume. Creio que com trabalho certo, recomeçaríamos. Impede-nos de pensar.

- Recomeçariam o quê?

- Recomeçaríamos, só isso.

- E isso é vida! - exclamou Helen, com um nó na garganta. Como é possível que o senhor, com todas as coisas boas que há para ver... música... passeios à noite...

- Passear é óptimo quando um homem tem trabalho. Ah, quantos disparates eu disse em tempos! Mas não há nada como um beleguim dentro de casa para fazer uma pessoa cair em si. Quando o vi a apontar para os meus Ruskin e Stevenson, acho que vi a vida real... e não é uma visão bonita. Os meus livros estão de volta, graças a si, mas nunca mais serão os mesmos para mim e nunca mais acharei tão maravilhosa a noite nas florestas.

- Porque não? - Helen abria a janela.

- Porque vejo que o dinheiro é necessário.

- Pois está errado.

- Quem me dera estar errado, mas... o pastor tem dinheiro seu ou então é pago; o poeta ou o músico, a mesma coisa; o mendigo não é diferente. O mendigo acaba por ir para o asilo, que é pago com o dinheiro de outras pessoas. Miss Schlegel, a mola real é o dinheiro, tudo o resto são sonhos.

- Continua errado. Esqueceu-se da morte. Leonard não percebeu.

- Se vivêssemos para sempre, o que diz seria verdade. Mas temos de morrer, temos de abandonar a vida. A injustiça e a cupidez seriam a realidade se vivêssemos para sempre. Tal como a vida é, temos de nos agarrar a outras coisas, porque a morte é certa. Gosto da morte, não morbidamente, mas porque a morte explica. Mostra-me o vazio do dinheiro. A morte e o dinheiro são os eternos adversários. Não a morte e a vida. Não interessa o que há por detrás da morte, Mister Bast, mas tenha a certeza de que o poeta e o músico e o mendigo encontrarão nela maior felicidade do que o homem que nunca aprendeu a dizer: "Eu sou eu."

- Gostava de ter a certeza.

- Todos nós estamos envoltos num nevoeiro, eu sei, mas posso adiantar-lhe: homens como os Wilcox estão-no muito mais profundamente do que qualquer outra pessoa. Saudáveis, idóneos ingleses! Construtores de impérios, condutores de todo o mundo àquilo a que chamam senso comum. Mas falem-lhes na morte e ei-los ofendidos, porque a morte é na verdade imperial e acaba com eles para sempre.

- Tenho tanto medo da morte como qualquer outra pessoa.

- Mas não da ideia da morte.

- Qual é a diferença?

- Uma diferença infinita - respondeu Helen, com maior gravidade do que até aí.

Leonard olhou-a, cheio de dúvidas, e teve a sensação de que coisas grandiosas emanavam do fundo da noite. Mas não podia absorvê-las porque o seu coração estava ainda repleto de pequenas coisas. Tal como o guarda-chuva perdido estragara o concerto no Queen's Hall, o emprego perdido obscurecia agora as harmonias divinas. Morte, vida e materialismo eram palavras lindas, mas Mr. Wilcox dar-lhe-ia emprego no seu escritório? Tal como o descreviam, Mr. Wilcox era um rei neste mundo, o super-homem cuja cabeça, dada a sua ética pessoal, continuava nas nuvens.

- Devo ser estúpido - comentou apologeticamente. Entretanto, para Helen o paradoxo era cada vez mais claro.

"A morte destrói um homem, o conhecimento da morte salva-o." Para além dos caixões e dos esqueletos que ocupam os espíritos vulgares, existe algo tão imenso que tudo o que há de grandioso em nós lhe é sensível. Os seres humanos podem recuar perante o ossuário em que um dia entrarão, mas o amor é mais sábio. A morte é sua adversária, mas é também seu par, e na luta de ambos através dos tempos a força do amor desenvolveu-se, a sua clarividência aumentou, até não haver quem possa fazer-lhe frente.

- Por isso nunca desista - prosseguiu a rapariga, e expôs outra vez, e outra ainda, o vago embora convincente argumento de que o invisível se opõe ao visível. A sua excitação crescia à medida que tentava cortar o fio que amarrava Leonard ao mundo terreno. Urdido por experiências mais amargas, o fio resistia-lhe. Foi quando entrou a criada e lhe entregou uma carta de Margaret. Dentro, vinha uma nota para Leonard. Ouviam, enquanto as liam, o murmúrio do rio.

 

Durante muitas horas Margaret não fez nada; por fim recompôs-se, escreveu umas cartas. Estava demasiado magoada para fa lar com Henry; podia ter pena dele, podia mesmo estar decidida a casar com ele, mas agora tudo lhe doía ainda muito para poder conversar.

O sentimento da sua degradação era muito visível. Não podia comandar a voz ou o olhar e as palavras gentis que forçou a caneta a escrever pareciam proceder de outra pessoa.

"Meu rapaz muito querido, este caso não vai separar-nos. É tudo ou é nada, e eu pretendo que seja "nada". Aconteceu muito antes de nos conhecermos e mesmo se tivesse acontecido depois disso, estaria a escrever exactamente o mesmo, espero. Compreendo."

Mas riscou o "compreendo"; soava a falso. Henry não suportava ser compreendido. Riscou também "é tudo ou é nada". Henry ressentir-se-ia fortemente do seu domínio da situação. Não devia comentar; comentários não são femininos.

"Acho que está mais ou menos bem", pensou.

Então, a sua degradação chocou-a. Mereceria ele tantas maçadas? Ter sucumbido a uma mulher daquela laia significava algo, significava, sim, e ela não podia ser sua esposa. Tentou traduzir para a sua própria linguagem a tentação dele, mas sem sucesso. Os homens devem ser diferentes, até mesmo porque querem sucumbir a essas tentações. A sua crença na camaradagem fora abalada, via a vida como se a reflectisse aquela sala de espelhos do Great Western que de modo idêntico abrigava do ar puro macho e fêmea. São os sexos autênticas raças, cada uma com o seu próprio código de moralidade, e o seu amor mútuo um mero estratagema da Natureza para manter o mundo em movimento? Despe as relações humanas do manto da decência e limita-se a isso? O raciocínio dizia-lhe que não. Sabia que para além do estratagema da Natureza construímos uma magia que nos concederá a imortalidade. Muito mais misteriosa do que o apelo do sexo pelo sexo, é a ternura que pomos nesse apelo; é muito maior a distância entre nós e os animais da quinta do que entre os animais da quinta e os restos de que se alimentam. Estamos a evoluir, por caminhos que a ciência não sabe medir, para fins que a teologia não ousa contemplar. "Os homens criaram uma preciosidade", dirão os deuses e, ao dizê-lo, conceder-nos-ão a imortalidade. Margaret sabia tudo isso, mas de momento não conseguia senti-lo e via o casamento de Evie e de Mr. Cahill como um carnaval de loucos e o seu próprio casamento... Desgraçada de mais para pensar, rasgou a carta e escreveu outra:

Caro Mr. Bast,

Falei a seu respeito a Mr. Wilcox e lamento informá-lo de que não há nenhuma vaga para si.

Sinceramente, M. J. Schlegel.

Incluiu-a numas palavras para Helen, que a incomodaram menos do que seria de esperar; mas doía-lhe a cabeça e não podia escolhê-las:

Querida Helen,

Entrega-lhe isto. Os Bast não prestam. O Henry encontrou a mulher bêbeda no relvado. vou ter aqui um quarto pronto para ti, fazes o favor de vir imediatamente? Os Bast não são de forma alguma gente com quem devamos preocupar-nos. vou vê-los eu própria de manhã e farei o que for justo.

M.

Ao escrever isto, Margaret achou que estava a ser prática. Teria de se arranjar qualquer coisa para os Bast mais tarde, mas de momento o que era preciso era mantê-los calados. Estava esperançada em evitar uma conversa entre a mulher e Helen. Tocou a campainha para chamar um criado, mas ninguém respondeu; Mr. Wilcox e os Warrington tinham ido para a cama e a cozinha fora abandonada às saturnais. Por isso, foi ela própria ao George. Não entrou no hotel porque uma discussão seria perigosa e, dizendo que a carta era importante, entregou-a ao porteiro. Ao atravessar a praça, no regresso, viu Helen e Mr. Bast a olharem pela janela da sala de fumo e sentiu que era demasiado tarde. A sua tarefa não estava ainda completada; tinha de dizer a Henry como agira.

Foi fácil, porque o encontrou no vestíbulo. O vento nocturno fizera chocalhar os quadros contra a parede e o barulho incomodara-o.

- Quem está aí? - perguntou, no seu papel de dono da casa. Margaret entrou e passou por ele.

- Convidei a Helen para passar a noite - disse. - Está melhor aqui; por isso, não feche a porta da frente à chave.

- Julguei que tinha entrado alguém.

- Ao mesmo tempo, disse ao homem que não podíamos fazer nada por ele. Mais tarde não sei, mas, para já, os Bast têm que se ir embora.

- Disse que afinal a sua irmã dorme cá em casa?

- Provavelmente.

- É preciso levá-la para o seu quarto?

- Não tenho, claro, nada a dizer-lhe; vou para a cama. É capaz de falar aos criados na Helen? Poderá alguém ir buscar-lhe a mala?

Henry bateu num gongo pequeno que fora comprado para chamar os criados.

- Tem de fazer mais barulho do que isso se quer que o oiçam. Ele abriu uma porta e pelo corredor ecoaram gargalhadas.

- Há barulheira a mais ali - disse, e avançou na direcção do riso.

Margaret subiu as escadas, sem saber se devia sentir-se contente se triste por se terem encontrado. Tinham agido como se nada tivesse acontecido e por instinto ela achava, no seu íntimo, que era um erro. Por atenção a ele, tinha de haver uma explicação entre ambos.

E no entanto... o que iria adiantar urna explicação? Uma data, um local, alguns pormenores que ela podia imaginar bem de mais. Agora que o primeiro embate passara, percebia que havia várias razões para a intromissão de uma Mrs. Bast. Há muito que a vida interior de Henry não tinha segredos para ela - a sua confusão intelectual, o seu embotamento de espírito às influências pessoais, as suas fortes mas furtivas paixões. Deveria recusá-lo, por a sua vida exterior corresponder à interior? Talvez, se a ofensa lhe tivesse sido feita a ela, mas ocorrera bem antes do seu tempo. Lutou contra este sentimento. Disse para consigo que a traição a Mrs. Wilcox era uma traição a si própria. Mas não era uma teórica estéril. Enquanto se despia, a sua raiva, a sua vontade de morrer, a sua ânsia por uma cena, tudo ia enfraquecendo. Henry devia proceder como quisesse, porque ela amava-o e um dia servir-se-ia do seu amor para fazer dele um homem melhor.

Em todas as crises que atravessava, a compaixão regia as suas acções. A compaixão, se é que pode generalizar-se, supera tudo nas mulheres. Quando os homens gostam de nós, é pelas nossas melhores qualidades e por muito afectuosa que seja a sua maneira de gostar, não ousamos não ser dignas dela, senão desinteressam-se calmamente de nós. Mas a indignidade estimula a mulher. Estimula o mais profundo da sua natureza, para o bem ou para o mal.

Era esse o âmago da questão: Henry tinha de ser perdoado e aperfeiçoado por amor; nada mais contava. Mrs. Wilcox, esse irrequieto embora gentil fantasma, devia ser deixado à sua traição. Para ela tudo estava agora equilibrado e também ela teria tido compaixão do homem que interligara as suas vidas. Mrs. Wilcox tivera conhecimento da ofensa do marido? Uma pergunta interessante, mas Margaret adormeceu, presa da afeição e embalada pelo sussurro do rio que descia de Gales a noite inteira. Sentia-se em harmonia com a sua futura casa, animando-a, deixando-se animar por ela, e acordou para ver pela segunda vez o castelo de Oniton a conquistar a neblina.

 

- Henry querido! - foi a sua saudação.

Ele acabara o pequeno-almoço e começava a ler o Times. A cunhada estava a fazer as malas. Margaret ajoelhou-se a seu lado e tirou-Lhe o jornal, que achou mais pesado e espesso do que era habitual. Então, pondo o rosto no lugar que ele ocupara, olhou-o nos olhos:

- Henry querido, olhe para mim. Não, não quero que se esquive. Olhe para mim. Isso mesmo. É tudo.

- Refere-se à noite passada - disse ele, em voz rouca. - Libertei-a do seu compromisso. Podia arranjar desculpas, mas não o faço. Não, não faço. Mil vezes não. Não presto, mereço ser abandonado de todo.

Expulso da sua antiga fortaleza, Mr. Wilcox apressava-se a construir outra. Visto que já não se lhe podia apresentar respeitável, defendia-se substituindo a respeitabilidade por um passado sinistro. Não se tratava de um real arrependimento.

- Deixe as coisas como estão, meu rapaz. Não vão influenciar a nossa vida; sei o que digo, não vai haver diferença nenhuma.

- Não vai haver diferença? Não vai haver diferença, agora que ficou a saber que eu não sou quem julgava? - Tal facto indispunha-o contra Miss Schlegel. Teria preferido vê-la prostrada pela dor ou mesmo enfurecida. Contra a maré do seu pecado flutuava o sentimento de que ela não era totalmente feminina. O seu olhar era demasiado directo; lera livros próprios apenas para homens. E, embora ele tivesse tido um enorme receio de uma cena, embora ela tivesse decidido que não haveria cena nenhuma, houve mesmo assim uma cena. Era imperativo que houvesse.

- Não a mereço - começou ele. - Se a merecesse, não a teria libertado do seu compromisso. Sei o que estou a dizer. Nem ouso falar dessas coisas. O melhor é não lhes mexer.

Ela beijou-lhe a mão; ele retirou-a bruscamente e, levantando-se, prosseguiu:

- A Margaret, com a sua vida protegida e actividades requintadas e amigos e livros, a Margaret e a sua irmã e as mulheres do seu meio... quero eu dizer, como podeis vós imaginar as tentações que cercam um homem?

- É-nos difícil - retorquiu Margaret. - Mas se merecemos casar-nos, imaginamo-las.

- Separados da sociedade respeitável e dos laços de família, o que acontece a milhares de tipos no ultramar? Isolados. Sem ninguém por perto. Sei-o por amarga experiência e, contudo, a Margaret diz "não faz diferença"?

- Para mim, não.

Riu-se; amargamente. Margaret dirigiu-se ao aparador e serviu-se do pequeno-almoço; tendo sido a última a descer, apagou a lâmpada de álcool que o mantivera morno. Mostrava-se terna, mas séria. Sabia que Henry não estava tão disposto a pôr a nu a sua alma como a apontar o fosso existente entre a alma do homem e a da mulher e sobre esse assunto não estava ela disposta a escutá-lo.

- A Helen veio? - perguntou.

Ele abanou a cabeça negativamente.

- Mas não pode ser, não pode ser de forma alguma! Não nos interessa que fale com Mistress Bast.

- bom Deus, não! - exclamou ele, com súbita naturalidade. Depois, recompôs-se: - Deixá-las falar. O meu jogo acabou, embora agradeça o seu altruísmo, por pouco que valham os meus agradecimentos.

- Não mandou um recado, ou qualquer coisa?

- Não sei de nada.

- Toca a campainha, por favor?

- Para quê?

- Ora para quê, para perguntar!

com trágica afectação, Henry tocou uma sineta. Margaret serviu-se de café. O mordomo apareceu e disse que Miss Schlegel dormira no George, tanto quanto ele ouvira. Queriam que fosse ao George?

- Eu vou, muito obrigada - respondeu Margaret e despediu-o.

- Não vale a pena - disse Henry. - Estas coisas propagam-se; é impossível pôr cobro a uma história uma vez descoberta. Soube de casos de outros homens, dantes desprezava-os, achava-me diferente, que nunca cederia à tentação. Oh, Margaret! - Veio sentar-se junto dela, improvisando emoção. A rapariga não suportava ouvi-lo. - Para nós, homens, chega sempre um momento em que erramos. Acredita? Se soubesse tudo, perdoava-me. Estava longe de influências benéficas... mesmo de Inglaterra estava bastante longe. Estava muito, muito só, suspirava por uma voz de mulher. Basta. Já lhe disse mais do que o suficiente para que me perdoe.

- Sim, é suficiente, querido.

- Vivi - baixou a voz - num inferno.

Margaret considerou com gravidade este protesto. Vivera? Sofrera a tortura do remorso ou teria sido "Pronto! Acabou-se. Voltemos à vida respeitável"? A última hipótese, se é que o conhecia bem. Um homem que viveu no inferno não alardeia a sua virilidade. É humilde e disfarça-a se, de facto, ainda existe. Só nas lendas o pecador passa a penitente, heróico mas terrível, para conquistar a mulher pura com o seu poder irresistível. Henry ansiava por ser terrível, mas era característica que não possuía. Era um bom inglês médio que dera uma escorregadela. Parecia nunca se ter apercebido da verdadeira culpa - a sua falta de lealdade para com Mrs. Wilcox. Margaret estava ansiosa por mencionar Mrs. Wilcox.

E, um bocadinho hoje, outro amanhã, a história foi-lhe contada. Era uma história muito simples. Ocorrera dez anos antes, na guarnição militar de uma cidade de Chipre. Perguntou-lhe e voltou a perguntar-lhe se era possível ela perdoar-lhe, ao que ela respondia: "Já lhe perdoei, Henry." Escolhia as palavras cuidadosamente e pôde assim salvá-lo do pânico. Mostrou-se muito rapariguinha, até ele ter tempo para reconstruir a sua fortaleza e esconder do mundo a sua alma. Quando o mordomo veio para arrumar, a disposição de Henry era diferente - perguntou ao rapaz porque estava com tanta pressa, queixou-se da barulheira da noite anterior nas instalações dos criados. Margaret olhou para o rapaz intencionalmente. Jovem interessante, atraía-a vagamente como mulher - uma atracção tão vaga que mal era perceptível, embora a casa tivesse vindo abaixo se o confessasse a Henry.

Ao regressar do George, a operação de reconstrução estava terminada e confrontou-se com o antigo Henry, competente, cínico e gentil. Pusera a nu os seus pensamentos, fora perdoado e o grande objectivo era agora esquecer o seu deslize e fazê-lo seguir o caminho dos investimentos falhados. Jacky foi fazer companhia a Howards End e Ducie Street, ao automóvel vermelho, aos Argentine Hard Dollars e a todas as coisas e pessoas a que nunca ligara muito e a que agora ainda ligava menos. Lembrar-se delas incomodava-o. Pouca atenção prestou a Margaret, que trouxe do George notícias alarmantes. Helen e os seus clientes tinham-se ido embora.

- Pronto, deixe-os ir... o homem e a mulher, quero dizer, porque a sua irmã, quanto mais a virmos, melhor.

- Mas foram-se embora separadamente, a Helen muito cedo, os Bast mesmo antes de eu chegar. Não deixaram recado nenhum. Não responderam a nenhuma das minhas notas. Não me agrada pensar no que isso significa.

- O que dizia nessas notas?

- Ontem à noite contei-lhe.

- Ah... Ahn... pois foi! Quer dar uma volta pelo jardim, querida? Margaret deu-lhe o braço. A beleza do tempo acalmou-a. Mas o maquinismo do casamento de Evie ainda girava, expelindo os hóspedes com tanta destreza como tinham entrado e ela não pôde ficar mais tempo com ele. Fora decidido que iriam de carro até Shrewsbury, de onde seguiriam para o norte e ela voltava para Londres com os Warrington. Sentira-se feliz por uma fracção de tempo. Depois, o seu cérebro recomeçou a trabalhar.

- Receio que tenha havido mexericos no George. A Helen não se teria ido embora se não tivesse ouvido qualquer coisa. Tratei mal do caso. É lamentável. Devia tê-la separado imediatamente daquela mulher.

- Margaret! - exclamou ele, impetuosamente, largando-lhe o braço.

- Sim... sim, Henry?

- Estou longe de ser um santo... aliás, sou o oposto, mas a Margaret agarrou-me, para o melhor ou para o pior. O que lá vai, lá vai. Prometeu perdoar-me, Margaret, uma promessa é uma promessa. Nunca mais mencione essa mulher.

- Excepto por razões práticas... nunca!

- Práticas! Prática, a Margaret!

- Sim, eu sou prática - murmurou ela, debruçada sobre a máquina de ceifar e brincando com a erva que escorria por entre os seus dedos como areia.

Ele silenciara-a, mas os seus temores deixaram-no pouco à vontade. Não era a primeira vez que era vítima de chantagem. Era rico e acreditava-se na sua moralidade; os Bast sabiam que não era assim e era bem possível que achassem proveitoso aludir a isso.

- Seja como for, não se preocupe. É um assunto de homens. Pensou intensamente. - Não fale no caso a ninguém, haja o que houver.

Margaret corou perante um conselho tão elementar, mas o que ele estava era a preparar o terreno para uma mentira. Se necessário, negaria ter alguma vez conhecido Mrs. Bast e processá-la-ia por difamação. Talvez nunca a tivesse conhecido. Aqui, estava Margaret, que se comportava como se assim fosse. Ali, a casa. Em redor deles, uma dúzia de jardineiros, a limpar tudo depois do casamento da sua filha. Tudo era tão sólido e límpido que o passado fora isolado por uma persiana que deixava a descoberto apenas os últimos cinco minutos. Relanceando os olhos, viu que o automóvel estaria pronto dentro dos próximos cinco e entrou em acção. Houve batidas nos gongos, foram dadas ordens, Margaret mandada vestir-se e a criada mandada varrer o comprido rasto de ervas que ela deixara no vestíbulo. Tal como o Homem perante o Universo, assim era a mente de Mr. Wilcox em confronto com a mente de muitos homens - uma luz concentrada num ponto ínfimo, uns reduzidos dez minutos movimentando uma concentração de anos. Não é pagão o que vive para o dia de hoje e pode ser mais esperto do que todos os filósofos. Vivia para os cinco minutos precedentes e os cinco que se seguiam; tinha a alma dos negócios.

Como estaria ele, agora que o seu carro se afastava de Oniton e enfrentava as grandes colinas arredondadas? Margaret ouvira uns boatos, mas tudo bem. Perdoara-lhe, Deus a abençoe e isso reforçava a sua masculinidade. Charles e Evie não tinham ouvido nada e não ouviriam nunca. Nem Paul. Tinha imensa ternura pelos filhos, que não quereria deixar marcados por um caso; Mrs. Wilcox estava muito recuada na sua vida. Não a conotava com o dolorido amor que começara de repente a sentir por Evie. Pobre querida Evie! Confiava em que Cahill fosse um marido decente.

E Margaret, como estava ela?

Margaret tinha várias preocupações menores. Era evidente que a irmã ouvira alguma coisa. Apavorava-a o encontro com ela na cidade. E estava ansiosa por causa de Leonard, pelo qual eram sem dúvida responsáveis. Nem se devia matar à fome Mrs. Bast. Mas a situação principal não se alterara. Ainda amava Henry. Eram as suas acções, não as suas intenções, que a tinham desapontado, e isso ela aguentava. E gostava da sua futura casa. De pé no carro, exactamente no local onde saltara dele dois dias antes, olhou para trás, para Oniton, com profunda emoção. Apesar de a granja e o castelo sobressaírem, podia agora distinguir a igreja e as empenas pretas e brancas do George. Lá estava a ponte e o rio a mordiscar a sua península verde. Até conseguia ver a barraca de banhos, mas enquanto contemplava o novo trampolim de Charles o topo da colina elevou-se e escondeu todo o cenário.

Nunca mais o viu. Dia e noite o rio desliza para Inglaterra, dia após dia o Sol vai repousar por trás das montanhas galesas e o sino da torre toca See the Conquering Hero. Mas os Wilcox não têm lugar no local, nem em local algum. Não são os seus nomes que reaparecem no registo paroquial. Não são os seus fantasmas que suspiram à tardinha por entre os amieiros. Entraram de rompante no vale, de rompante saíram dele, deixando atrás de si um bocado de poeira e um bocado de dinheiro.

 

Tibby aproximava-se do seu último ano em Oxford. Mudara de colégio e contemplava o Universo, ou aqueles pedaços do Universo com que tinha a ver, dos seus confortáveis aposentos de Long Wall. Não tinha a ver com muitos. Quando um jovem não é perturbado por paixões e é indiferente à opinião pública, não quer dizer que os seus horizontes sejam limitados. Tibby nem desejava solidificar a posição dos ricos nem melhorar a dos pobres e, assim, contentava-se perfeitamente com a contemplação dos ulmeiros debruçados por detrás dos parapeitos ameados de Magdalen. Há vidas piores. Embora egoísta, não era nunca cruel; embora afectado, não era pedante. Como Margaret, menosprezava as atitudes heróicas e só depois de muitas visitas os homens descobriam que o Schlegel tinha personalidade e miolos. Saíra-se bem no primeiro exame para o grau de bacharel em Artes, com grande surpresa dos que assistiam às aulas e faziam os devidos exercícios e agora relanceava com desdém os olhos pelo chinês, para a eventualidade de vir um dia a condescender em se qualificar como Estudante Intérprete. E assim seguia a sua vida, quando lhe apareceu Helen. Um telefonema precedera-a.

Reparou, com certo distanciamento, que a irmã estava mudada. Regra geral, achava-lhe uma personalidade demasiado marcada e nunca dera por aquele olhar de apelo, patético embora digno - o olhar de um marinheiro que tivesse perdido tudo no mar.

- Venho de Oniton - começou ela. - Houve lá imensas complicações.

- Quem vem almoçar? - perguntou Tibby, indo buscar o clarete, que estava a aquecer junto à lareira. Helen sentou-se à mesa, submissa. - Porquê uma partida tão matinal?

- Ao nascer do Sol, acho eu... logo que pude.

- Isso presumo eu. Porquê?

- Não sei o que fazer, Tibby. Estou muito preocupada com uma série de notícias que dizem respeito à Meg e não quero enfrentá-la e não volto para Wickham Place. Parei aqui para te dizer isso.

A dona da pensão entrou com as costeletas. Tibby pôs uma marca entre as folhas da sua gramática de chinês e tomou conta delas. Oxford - a Oxford das férias - sussurrava lá fora e, dentro, a pequena lareira era uma massa acinzentada onde o sol incidia. Helen retomou a sua extravagante conversa.

- Dá beijos meus à Meg e diz que eu quero estar só. Penso ir para Munique ou para Bona.

- Um recado desses é fácil de dar - comentou o irmão.

- Quanto a Wickham Place e à minha parte da mobília, tu e ela façam o que quiserem. A minha opinião é que tudo deve ser vendido. O que é que interessam a alguém livros baratos empoeirados, que não tornaram o mundo melhor, ou o horroroso chiffonier da mãe? Tenho mais outro recado para lhe dares. Quero que entregues uma carta. - Levantou-se. -Já a escrevi. Aliás, porque não hei-de pô-la no correio? - Voltou a sentar-se. - A minha cabeça está num estado deplorável. Espero bem que nenhum dos teus amigos decida aparecer.

Tibby fechou a porta à chave. Era frequente os seus amigos encontrarem-na assim. Perguntou então se alguma coisa correra mal no casamento de Evie.

- Não foi no casamento - respondeu Helen e desfez-se em lágrimas.

Tibby já a vira histérica - era um dos seus aspectos a que não ligava - e mesmo assim aquelas lágrimas impressionaram-no, por não serem habituais. Aproximavam-se das coisas a que ligava, como por exemplo a música. Pousou a faca e fitou-a com curiosidade. Depois, como ela continuasse a soluçar, voltou ao seu almoço.

Chegou o momento do segundo prato e a rapariga continuava a chorar. O que se seguia era charlotte de maçã, que perde por esperar.

- Importas-te de que Mistress Martlett entre? - perguntou. - Ou vou buscá-la à porta?

- Posso lavar os olhos, Tibby?

Levou-a ao quarto e na sua ausência recebeu a charlotte. Serviu-se e pô-la a aquecer no fogão. A mão dirigiu-se-lhe para a gramática e depressa estava a virar as páginas, erguendo as sobrancelhas com desprezo, talvez pela natureza humana, talvez pelos chineses. Entretanto, Helen regressou. Recompusera-se, mas o grave apelo não desaparecera do seu olhar.

- E agora, a explicação. Porque não comecei eu por aí? Soube uma coisa a respeito de Mister Wilcox. Portou-se muitíssimo mal e arruinou a vida de duas pessoas. Soube tudo inesperadamente a noite passada; estou preocupadíssima e não sei o que fazer. Mistress Bast...

- Ah, essa gente! Helen guardou silêncio.

- Volto a fechar a porta à chave?

- Não, obrigada, Tibbikins. Estás a ser muito bom para mim. Quero contar-te a história antes de ir para o estrangeiro. Farás como achares melhor... trata-a como se fizesse parte da mobília. Penso que a Meg ainda não sabe de nada. Mas não sou capaz de a encarar e de lhe dizer que o homem com quem se vai casar se portou mal com ela. Nem sequer sei se se deverá dizer-lhe. Sabendo o quanto eu embirro com ele, vai suspeitar de mim, julgar que lhe quero estragar os projectos. Muito simplesmente, não sei o que hei-de fazer. Confio na tua opinião. O que farias tu?

- Deduzo que ele teve uma amante. Helen corou de vergonha e de raiva:

- E arruinou a vida de duas pessoas. E anda por aí a dizer que as acções pessoais não valem nada e que sempre haverá ricos e pobres. Encontrou-a quando tentava enriquecer em Chipre... não quero fazê-lo pior do que é e admito que ela terá sido presa fácil. Mas pronto, conheceram-se. Ele seguiu o seu caminho e ela o dela. Como supões que veio a acabar essa mulher?

O rapaz admitiu que o caso era sério.

- Acabam de duas maneiras: ou vão decaindo até irem parar a um manicómio ou a um asilo, dando aos Misters Wilcox um pretexto para escrever cartas aos jornais queixando-se da degeneração nacional, ou então apanham um rapaz que caia na ratoeira do casamento antes que seja tarde de mais. Ela... não posso censurá-la.

- Mas isto não é tudo - prosseguiu Helen, após uma longa pausa durante a qual a dona da pensão lhes serviu café. - Agora é que estou a chegar à razão que nos levou até Oniton. Fomos os três. Agindo por conselho de Mister Wilcox, o rapaz trocou um lugar seguro por um outro, instável, do qual foi despedido. Há umas certas atenuantes, mas, no cômputo geral, Mister Wilcox é condenável e a própria Meg admite isso. É da mais elementar justiça que arranje um emprego para o homem. Mas vê a mulher e, sendo a criatura desprezível que é, recusa e tenta livrar-se deles. Manda a Meg escrever. Chegaram duas notas dela na noite passada, uma para mim, uma para o Leonard, despedindo-o com uma desculpa esfarrapada. Não percebi nada. Vim então a saber que Mistress Bast tinha falado com Mister Wilcox no relvado, onde a tínhamos deixado para irmos arranjar quartos, e continuava a falar dele quando o Leonard voltou para junto dela. Leonard ficou a saber da história toda. Achou natural a sua desgraça dupla. Natural! Tu ter-te-ias resignado?

- Não há dúvida de que o caso é muito sério - admitiu Tibby. A sua resposta pareceu acalmar a irmã.

- Receava estar a exagerar. Mas tu estás de fora e sabes o que fazes. Daqui a um ou dois dias, ou talvez uma semana, toma as providências que achares adequadas. Deixo tudo nas tuas mãos.

A sua obra estava concluída.

- Estás a par de todos os factos que se relacionam com a Meg continuou.

Tibby suspirou e achou bastante duro que, em virtude do seu espírito aberto, o incluíssem numa lista de jurados. Os seres humanos nunca o haviam interessado muito, o que é criticável, mas tivera seres humanos a mais em Wickham Place. Tal como algumas pessoas deixam de prestar atenção quando se fala de livros, assim a atenção de Tibby se dispersava quando as "relações pessoais" entravam na discussão. Deveria Margaret saber o que Helen sabia que os Bast sabiam? Problemas similares enfadavam-no desde a infância e em Oxford aprendera a dizer que a importância dos seres humanos fora amplamente sobrevalorizada pelos especialistas. O epigrama, com o seu vago odor oitocentista, não significava nada. Mas tê-lo-ia pronunciado agora se a irmã não continuasse a ser tão bonita.

- Sinceramente, Helen... tira um cigarro... não estou a ver o que hei-de fazer.

- Então é porque não há nada a fazer. Creio bem que tens razão. Deixá-los casar. Mantém-se o problema da compensação.

- Também delegas isso em mim? Não farias melhor em consultar um perito?

- Esta parte é confidencial. Não tem nada a ver com a Meg e não lhe fales nisso. A compensação... não estou a ver quem a pagará se não for eu, e já decidi qual a soma mínima. Logo que possível, vou pô-la em teu nome e quando eu estiver na Alemanha vais tu pagá-la, no meu. Nunca esquecerei a tua gentileza, Tibbikins, se fizeres isso.

- Qual é a soma?

- Cinco mil.

- Deus dos céus! - exclamou Tibby, repentinamente escarlate.

- Diz-me, para que servem as ninharias? Fazer alguma coisa na vida é salvar uma pessoa do abismo e não essas dádivas insignificantes de xelins e cobertores que tornam o cinzento mais cinzento. Não há dúvida de que as pessoas devem achar-me extraordinária.

- Estou-me nas tintas para o que pensam as pessoas! - gritou ele, numa acalorada virilidade de dicção. - Mas isso é metade do que tu tens.

- Nem perto de metade. - Bateu com as mãos na saia suja. Tenho dinheiro a mais e chegámos à conclusão em Chelsea, na Primavera passada, de que para um homem se manter são necessárias trezentas por ano. O que eu lhe vou dar vai render-lhe cento e cinquenta a dividir por dois. Não chega.

O rapaz não recuperava. Não estava encolerizado nem sequer chocado, e via que ainda sobraria muito a Helen para viver. Mas assombrava-o pensar no que podiam fazer das suas vidas as pessoas desmioladas. As entoações delicadas não serviriam de nada, tudo quanto podia fazer era declarar desastradamente que, no seu caso pessoal, as cinco mil libras constituiriam um problema muito aborrecido.

- Não esperava que me compreendesses.

- Eu? Eu não compreendo ninguém.

- Mas fazes o que te pedi?

- Aparentemente.

- Então, deixo-te duas incumbências. A primeira refere-se a Mister Wilcox e tens de ser discreto. A segunda ao dinheiro; não podes contar a ninguém e tens de a executar literalmente. Amanhã mandas cem libras por conta.

Acompanhou-a à estação, atravessando essas ruas cuja beleza pesada nunca o entusiasmava, mas que também nunca o cansava. A encantadora criação elevava cúpulas e agulhas no azul sem nuvens e apenas o gânglio de vulgaridade à roda de Carfax demonstrava quão evanescente é a sua ilusória aparência e quão débil a sua exigência de representar a Inglaterra. Helen, reiterando os seus recados, não reparava em nada; tinha os Bast metidos na cabeça e voltou a narrar a crise de uma forma que teria despertado a curiosidade de outros homens. Tentava prender a atenção do irmão, que a certa altura lhe perguntou porque atirara com os Bast para o meio do casamento de Evie. Parou como um animal assustado e perguntou:

- Parece-te assim tão disparatado?

Os seus olhos, a mão sobre a boca, obcecaram-no até que os absorveu a imagem de St. Mary the Virgin, diante da qual parou um momento no caminho de regresso a casa.

É conveniente segui-lo no cumprimento dos seus deveres. Margaret mandou-o chamar no dia seguinte. Estava aterrorizada com o desaparecimento de Helen e o rapaz teve de dizer que ela o visitara em Oxford. Perguntou-lhe então:

- Parecia preocupada com algum boato acerca do Henry? Ao que ele respondeu:

- Parecia.

- Eu sabia que era isso! - exclamou ela. - vou escrever-lhe. Foi um alívio para Tibby.

Mandou então o cheque para a morada que Helen lhe dera e especificou que tinha instruções para enviar mais tarde cinco mil libras. Recebeu uma resposta, muito educada e muito adequada - uma resposta como a que o próprio Tibby teria dado. O cheque era devolvido, o legado recusado, não estando o signatário necessitado de dinheiro. Tibby remeteu tudo a Helen, acrescentando, com toda a sinceridade, que no fim de contas Leonard Bast parecia uma pessoa formidável. A resposta de Helen foi frenética. Tinha de lá ir imediatamente e de lhes dizer que ela ordenava que aceitassem. Ele foi. Aguardavam-no uns restos de livros e de bibelots de porcelana. Os Bast acabavam de ser despejados por não pagarem a renda e tinham-se ido embora ninguém sabia para onde. Helen começara por essa altura a desbaratar o seu dinheiro e vendera mesmo as acções da Nottingham and Derby Railway. Durante algumas semanas, não fez nada. Depois reinvestiu e, graças aos bons conselhos dos seus corretores, ficou bastante mais rica do que antes.

 

As casas têm maneiras próprias de morrer, tão variadas como as das gerações humanas, algumas com um estrondo trágico, outras serenamente, mas em direcção a uma vida para lá da morte na cidade dos fantasmas, ao passo que em outras - e foi assim a morte de Wickham Place - o espírito se evola antes de o corpo perecer. Decaíra na Primavera, afastando as raparigas mais do que elas próprias perceberam e fazendo com que cada uma delas rumasse a locais desconhecidos. Em Setembro era um cadáver, vazio de emoção e vagamente beatificado por trinta anos de felicidade. Pelas suas portas em arco passaram mobiliário, quadros, livros, até ser desentranhado o último quarto e se extinguir ao longe o ruído do último carro de transporte. Manteve-se de pé mais uma ou duas semanas, de olhos abertos, como que estupefacta com o seu próprio vazio. Depois sucumbiu. Os demolidores chegaram, atiraram-na para as cinzentas regiões. com os seus músculos e os seus acervejados bons feitios, não eram os piores cangalheiros para uma casa que sempre fora humana e não confundira a cultura com um objectivo.

Os móveis, com poucas excepções, foram para Hertfordshire, visto Mr. Wilcox ter tido a gentileza de oferecer Howards End como armazém. Mr. Bryce morrera no estrangeiro - um mau negócio - e como se afigurava diminuta a garantia de que a renda fosse paga com regularidade, cancelou o contrato e ficou ele na posse da casa. Até a alugar de novo, teria todo o prazer em que os Schlegel guardassem a mobília na garagem e nos quartos do andar de baixo. Margaret pôs algumas objecções, mas Tibby aceitou a oferta, radiante; evitava-lhe ter de vir a tomar uma decisão futura. As pratas e os quadros de maior valor encontraram um lugar seguro em Londres, mas a maior parte das coisas tomou o caminho da província e foi entregue à guarda de Miss Avery.

Pouco tempo antes da mudança, o nosso herói e a nossa heroína haviam-se casado. Passada a tempestade, tinham boas razões para esperarem a bonança. Não ter ilusões e no entanto amar - que maior segurança pode uma mulher desejar? Avaliara tão bem o passado como o coração do seu marido. Conhecia o seu próprio coração com uma profundidade que os seres comuns crêem impossível. O coração de Mrs. Wilcox escondia-se, solitário, e talvez seja supersticioso especular sobre os sentimentos dos mortos. Casaram-se tranquilamente, de facto tranquilamente, pois à aproximação do dia Margaret recusou-se a passar por outro Oniton. O irmão conduziu-a, a tia, cuja saúde não andava boa, presidiu à refeição, leve e insípida. Os Wilcox foram representados por Charles e por Mr. Cahill. Paul mandou um cabograma. Em meia dúzia de minutos, e sem ajuda de música, o pastor tornou-os marido e mulher e a parede de vidro que isola os casais do mundo não tardou a erguer-se. Ela, uma monógama, lamentou o fim de alguns odores de vida inocente; ele, polígamo por instinto, sentiu-se moralmente manietado pela mudança e menos atreito às tentações que no passado o tinham assaltado.

Passaram a lua-de-mel perto de Innsbruck. Henry conhecia um hotel recomendável no local e Margaret estava esperançada num encontro com a irmã. Quanto a isso, ficou desapontada. Enquanto se dirigiam para sul, Helen retirou-se para lá do Brenner e escreveu um insignificante postal das margens do lago de Garda, no qual dizia que os seus planos eram incertos e seria melhor ignorá-los. Era evidente que lhe desagradava encontrar-se com Henry. Dois meses bastam, sem dúvida, para habituar um estranho a uma situação que uma esposa aceitou em dois dias e uma vez mais Margaret se viu obrigada a lamentar a falta de autodomínio da irmã. Numa extensa carta, acentuou a necessidade de indulgência em problemas sexuais: sabe-se tão pouco a seu respeito; já é bastante difícil para os que pessoalmente têm de julgar; quão fútil não será, então, o veredicto da sociedade? "Não pretendo dizer que não haja regras, isso destruiria a moralidade; apenas que não podem impor-se regras até que os nossos impulsos sejam classificados e mais bem compreendidos." Helen agradeceu a sua encantadora carta - uma resposta bastante curiosa. Voltava para o sul e aludia a passar o Inverno em Nápoles.

Mr. Wilcox não lamentou que o encontro tivesse falhado. Helen deixava-lhe tempo para cicatrizar a ferida, que às vezes ainda lhe doía. Tivesse ele sabido que Margaret o esperava - Margaret, tão cheia de vida e tão inteligente e no entanto tão submissa - e ter-se-ia mantido mais digno dela. Incapaz de reconstituir o passado, confundia o episódio de Jacky com um outro episódio que ocorrera quando ainda era solteiro. Ambos parte de uma vida de pândega de rapaz, que sinceramente lamentava, incapaz de compreender que tais pândegas são parcelas de um tronco cruel enraizado na desonra de outrem. A devassidão e a infidelidade eram para ele tão confusas como para os medievais, seus únicos professores de moral. Ruth (pobre velha Ruth!) não era integrada nestas divagações, porque a pobre velha Ruth nunca dera pelas suas escapadelas.

A sua afeição pela sua actual esposa aumentou muitíssimo. A sua inteligência não lhe causava o mínimo incómodo e, aliás, gostava de a ver ler poesia ou qualquer coisa sobre questões sociais; distinguia-a das esposas de outros homens. Bastava que a chamasse para ela largar o livro e prontificar-se a fazer o que ele quisesse. Começavam então agradáveis discussões e uma vez ou duas ela pô-lo entre a espada e a parede, mas mal a coisa se tornou realmente séria, Margaret desistiu. Os homens são feitos para a guerra, as mulheres para alegrarem os guerreiros, mas não lhe desagradava quando ela decidia lutar. Não podia ganhar uma batalha autêntica, por não ter músculos, só nervos. Os nervos levavam-na a saltar de um carro em movimento, ou a recusar casar-se de uma forma adequada. O guerreiro podia bem deixá-la triunfar em ocasiões dessas; não alteravam a base imperecível das coisas afectas à sua paz.

Margaret teve um mau ataque dos tais nervos durante a lua-de-mel. Ele disse-lhe - casualmente, como era seu hábito - que Oniton Grange fora alugada. Margaret não escondeu o seu aborrecimento e perguntou com bastante aspereza porque não fora consultada.

- Não queria maçar-te - respondeu ele. - Além disso, só tive a certeza esta manhã.

- Onde vamos nós viver? - interrogou Margaret, tentando rir.

- Eu adorava aquilo. Não achas benéfico ter um lar permanente, Henry?

O marido assegurou-lhe que ela o compreendera mal. É a vida familiar que nos distingue dos estrangeiros. Mas não achava benéfico um lar húmido.

- Isso para mim é novidade. Nunca até este momento tinha ouvido dizer que Oniton é húmida.

- Minha querida! - Agitou a mão. - Não tens olhos? Não tens pele? Como poderia ser outra coisa senão húmida, com a situação que tem? Em primeiro lugar, a granja é argilosa e está construída onde foi o fosso do castelo; depois, há aquele rio detestável que passa a noite a deitar vapor, como uma chaleira. Toca nas paredes da cave; vê por baixo dos beirais. Pergunta a Sir James, ou a qualquer pessoa. Aqueles vales do Shropshire são conhecidos. O único local possível para uma casa no Shropshire é uma colina; mas, quanto a mim, acho que o condado é muito afastado de Londres e a paisagem não é nada de especial.

Margaret não resistiu a perguntar:

- Então porque foste para lá?

- Eu... acho que... - Endireitou a cabeça e zangou-se. - Se vamos a isso, porque viemos nós para o Tirol? Podem fazer-se perguntas destas indefinidamente.

Podem; mas quanto a ele, estava apenas a ganhar tempo para encontrar uma resposta plausível. Esta saiu, finalmente, e mal a deu acreditou nela.

- A verdade é que comprei Oniton por causa da Evie. Não digas nada a ninguém.

- Claro que não.

- Não gostava que ela soubesse que me pôs à beira de um péssimo negócio. Mal assinei o contrato, ficou noiva. Pobre garota! Estava tão agarrada àquilo tudo, nem sequer ia tardar a informar-se sobre a caça. Receei que se deixasse prender, como todas as do vosso sexo. bom, não houve prejuízos. Ela teve o seu casamento na província e eu livrei-me da minha casa, que vai para uns sujeitos que vão montar uma escola preparatória.

- Então onde vamos nós viver, Henry? Agradava-me ter um sítio para viver.

- Ainda não decidi. O que achas de Norfolk?

Margaret guardou silêncio. O casamento não a libertara da sensação de fluxo. Londres não era mais do que um antegozo dessa civilização nómada que está a alterar tão profundamente a natureza humana e a lançar sobre as relações pessoais uma tensão muito maior do que alguma vez suportaram. Sob o cosmopolitismo, se ele vier, não receberemos da terra ajuda alguma. Árvores, montanhas, prados, serão apenas espectáculo e a força da ligação que em tempos exerciam no carácter terá que ser assumida apenas pelo amor. Possa o amor exercer a missão a contento!

- Estamos em que mês? Quase em Outubro. Vamos acampar durante o Inverno em Ducie Street e procurar qualquer coisa na Primavera.

- Se possível, qualquer coisa de permanente. Não estou com certeza tão jovem como era, porque não me agradam as mudanças.

- Mas, minha querida, afinal o que vais ter: mudanças ou reumatismo?

- Compreendo o teu ponto de vista - disse Margaret, levantando-se. - Se Oniton é de facto húmida, é impossível e não deve ser habitada por rapazinhos. Mas na Primavera vamos procurar, antes de sairmos. A Evie vai servir-me de exemplo. Lembra-te de que desta vez tens pulso livre. Estas mudanças contínuas podem deteriorar os móveis e saem sem dúvida caras.

- Que prática esta mulher é! O que andou ela ler? Teo... teo... teo, quê?

- Teosofia.

Assim, Ducie Street foi o seu primeiro destino - um destino bastante aprazível. A casa, apenas um pouco maior do que Wickham Place, treinou-a para o enorme alojamento prometido para a Primavera. Saíam com frequência, mas a vida caseira decorria com uma regularidade satisfatória. De manhã, Henry ia para o trabalho e a sua sanduíche - resquício de algum anseio pré-histórico - era sempre confeccionada pelas mãos de Margaret. Não contava com a sanduíche para o almoço, mas gostava de a ter consigo para o caso de ter fome às onze horas. Quando ele saía, havia a casa para tratar, os criados para ensinar e vários problemas de Helen para a manterem em acção. A sua consciência atormentava-a um pouco por causa dos Bast; não lamentava tê-los perdido de vista. Sem dúvida, Leonard merecia ajuda; mas, como mulher de Henry, preferia ajudar outro qualquer. Quanto a teatros e discussões sociais, atraíam-na cada vez menos. Começou a "perder" os novos movimentos e a gastar os seus tempos livres mais a reler ou a pensar do que com os amigos de Chelsea. Estes atribuíam a mudança ao seu casamento e talvez algum instinto profundo a prevenisse de não se afastar do marido mais do que o inevitável. Aliás, talvez a causa principal fosse ainda mais profunda; à medida que o tempo corria, ultrapassava as incitações, passava das palavras à acção. Era sem dúvida uma pena não continuar actualizada em relação a Wedekind ou John, mas o fechar de algumas portas é inevitável a partir dos trinta, se o espírito se vai tornando uma força criativa.

 

Na Primavera seguinte, estava ela um dia a ver plantas de casas tinham finalmente decidido ir para Sussex e construir - quando foi anunciada Mrs. Charles Wilcox.

- Já sabe as novidades? - gritou Dolly, mal entrou na sala. O Charles está tão furio... quero dizer, ele tem a certeza de que a Margaret sabe o que se passa, ou antes, que não sabe.

- Olá, Dolly! - saudou-a Margaret, beijando-a placidamente.

- Que surpresa! Como estão os rapazes e o bebé?

Os rapazes e o bebé estavam bem e ao descrever uma enorme desordem que houvera no Hilton Tennis Club, Dolly esqueceu as novidades. "Pessoas erradas" tinham tentado entrar lá. O reitor - como representante dos habitantes mais velhos, tinha dito - Charles tinha dito - o cobrador de impostos tinha dito - Charles tinha lamentado não dizer - e encerrou o relato com:

- Sorte a sua, com quatro courts seus em Midhurst. - Vai ser muito agradável - replicou Margaret.

- São as plantas? Importa-se que eu as veja?

- Claro que não.

- O Charles nunca as viu.

- Chegaram agora mesmo. Aqui é o andar térreo... não, isto é bastante complicado. Tente os alçados. Vamos ter imensas empenas e uma vista muito pitoresca.

- O que é que a faz parecer tão engraçada? - perguntou Dolly, após uma rápida inspecção. Era incapaz de perceber plantas ou mapas.

- Acho que é o papel.

- E qual é o lado de cima?

- O lado de cima normal. Isto é a linha de horizonte e a parte mais acentuada é o céu.

- Bem, estou a zero. Margaret... ah... o que é que eu ia dizer? Como está a Helen?

- Muito bem.

- Nunca mais voltou a Inglaterra? Toda a gente acha que é demasiado estranho ela não voltar.

- E é - concordou Margaret, tentando dissimular o seu vexame. Este caso começava a magoá-la bastante. -: A Helen é extravagante, extravagante de mais. Há oito meses que está longe.

- Mas não tem uma morada?

- Uma posta restante algures na Baviera. Escreva-lhe umas linhas. Eu encarrego-me de lhas mandar.

- Não, não se incomode. Há oito meses que se foi embora, tem a certeza?

- Tenho, sim. Partiu a seguir ao casamento da Evie. Vai fazer oito meses.

- Então foi mesmo na altura em que nasceu o bebé?

- Exactamente.

Dolly suspirou e passou invejosamente os olhos pela sala. Começava a perder a frescura e o bom aspecto. Os Charles erravam, segundo Mr. Wilcox, em estarem a criar os filhos com hábitos caros, alterando eles o seu nível de vida. Bem vistas as coisas, não fora generoso com eles. Agora que um novo bebé vinha a caminho, contou ela a Margaret, tinham de prescindir do automóvel. Margaret compadeceu-se, mas de uma maneira formal, e Dolly só vagamente concebeu que a madrasta poderia pressionar Mr. Wilcox a fazer-lhes um donativo mais liberal. Suspirou de novo e lembrou-se do último agravo especial:

- Ah, é verdade - exclamou. - Miss Avery esteve a abrir os seus caixotes."

- Porque é que ela fez uma coisa dessas? Era absolutamente desnecessário!

- Não faço ideia. Supunha que lhe tivesse dado ordens para isso.

- Não dei nada. Talvez tenha estado a arejar as coisas. Ou terá decidido acender uma vez a lareira?

- Fez mais do que arejar - declarou Dolly solenemente. O chão está coberto de livros. O Charles mandou-me saber o que é que se faz, porque tem a certeza de que a Margaret não sabe.

- Livros! - gritou Margaret, movida pela palavra sagrada. Dolly, está a falar a sério? Ela mexeu nos nossos livros?

- Se mexeu! Onde era o vestíbulo, está cheio deles. O Charles tomou como certo que a Margaret sabia.

- Agradeço-lhe muito, Dolly. O que pode ter passado pela cabeça de Miss Avery? Tenho de ir imediatamente tratar do assunto. Alguns dos livros são do meu irmão, e de bastante valor. Não tinha o direito de abrir nenhuma das caixas.

- Quanto a mim, está pateta. É daquelas que nunca casaram, percebe? Ah, talvez pense que os seus livros foram presentes de casamento. Às vezes as criadas velhas ficam assim. Miss Avery detesta-nos a todos como se fôssemos veneno desde o pavoroso espalhafato que fez com a Evie.

- Não soube de nada. - Uma visita de Dolly tinha as suas compensações.

- Não soube que ela deu à Evie um presente em Agosto passado e que a Evie o devolveu e então... oh, céus! Nunca a Margaret leu uma carta como a que Miss Avery escreveu!

- Mas a Evie fez mal em devolvê-lo. Nem parece dela fazer uma coisa tão cruel.

- O presente era caríssimo.

- Que diferença faz isso, Dolly?

- Mesmo assim, se custa mais de cinco libras... eu não o vi, mas era um medalhão esmaltado, lindo, de uma loja de Bond Street. Não é muito fácil aceitar esse género de coisa de uma empregada rural. Acha que sim?

- A Dolly aceitou um presente de Miss Avery quando se casou.

- Ah, o meu era uma coisita velha de barro... não valia meio penny. O da Evie era totalmente diferente. Pode procurar entre os convidados do casamento algum que tenha oferecido um medalhão como aquele. O tio Percy, o Albert, o pai e o Charles, todos disseram que não era possível aceitar e quando quatro homens estão de acordo, o que pode uma rapariga fazer? A Evie não quis magoar a velhota, por isso preferiu escrever-lhe uma carta brincalhona e devolveu o medalhão directamente à loja, para evitar embaraços a Miss Avery.

- Mas Miss Avery disse... Dolly esbugalhou os olhos.

- Era uma carta absolutamente espantosa. O Charles disse que era a carta de uma louca. Acabou por ir buscar outra vez o medalhão à loja e atirou-o para o tanque dos patos.

- Explicou as razões?

- Julgamos que pretendia ser convidada para Oniton e assim subir socialmente.

- É demasiado velha para isso - comentou Margaret, pensativa.

- Não terá dado o presente à Evie em memória da mãe?

- É uma ideia. Dar a cada um o que lhe é devido, hem? Bem, eu certamente teria hesitado. Venha, senhor Regalo, quer um casaco novo, mas não sei quem lho dará, pode ter a certeza - e Dolly saiu da sala, conversando com as suas vestes com melancólico humor.

Margaret seguiu-a, para lhe perguntar se Henry sabia quanto Miss Avery era incorrecta.

- Claro que sim.

- Nesse caso, gostava de saber porque me deixou pedir-lhe que tomasse conta da casa.

- Mas a mulher não é mais do que uma camponesa - argumentou Dolly, com razão.

Henry só criticava as classes inferiores quando isso lhe convinha. Suportava que Miss Avery, tal como Grane, o aborrecessem - apenas porque podia utilizá-los. "Sou paciente com uma pessoa que saiba fazer o seu trabalho", diria, mas na realidade era com o trabalho que era paciente, não com a pessoa. Por paradoxal que pareça, havia nele uma certa semelhança com os artistas: preferia passar por cima de um insulto feito à filha a perder uma mulher-a-dias boa para a esposa.

Margaret julgou melhor ser ela a liquidar o pequeno problema. É evidente que ambas as partes estavam irritadas. com autorização de Henry, escreveu a Miss Avery umas linhas simpáticas, pedindo-lhe que não mexesse nos caixotes. Então, na primeira oportunidade, foi até lá, com o intuito de reembalar as suas coisas e de as depositar correctamente no armazém local; o plano foi mal elaborado e falhou. Tibby prometeu acompanhá-la, mas no último instante escusou-se. Assim, pela segunda vez na sua vida entrou sozinha na casa.

 

No dia da sua visita, o tempo estava excelente; e foi o último dia de felicidade sem nuvens que iria ter durante largos meses. A sua ansiedade quanto à extraordinária ausência de Helen não despertara ainda e a eventualidade de uma pega com Miss Avery só dava mais prazer à expedição! Livrara-se também do convite de Dolly para almoçar. Subindo a pé desde a estação, atravessou com energia a aldeia e entrou na comprida avenida de castanheiros que a ligava à igreja. A igreja ficara em tempos dentro da aldeia. Mas atraía aí tantos fiéis que o Diabo, amuado, a arrebatou das suas fundações e a pousou num cabeço inóspito, cerca de um quilómetro mais à frente. Se esta história fosse verdadeira, a avenida de castanheiros devia ter sido plantada pelos anjos: não poderia imaginar-se um apelo mais tentador para os cristãos indiferentes, e até, se achavam o caminho demasiado comprido, o Diabo saiu na mesma desfeiteado, porque a ciência construiu Holy Trinity, uma igreja auxiliar, perto da casa de Charles, e pôs-lhe um telhado de folha-de-flandres.

Margaret percorreu vagarosamente a avenida, parando para contemplar o resplendor do céu acima dos ramos superiores dos castanheiros ou para tocar com os dedos as ferradurazinhas dos ramos mais baixos. Porque não tinha a Inglaterra uma mitologia grandiosa? O nosso folclore nunca ultrapassou a mediania e as melodias mais importantes sobre o nosso país saíram das flautas da Grécia. Profunda e autêntica como pode ser a imaginação nativa, nisto parece ter falhado. Acabou nas bruxas e nas fadas. Não consegue vivificar uma parcela de um campo de Verão ou arranjar nomes para meia dúzia de estrelas. A Inglaterra continua a esperar pelo momento supremo da sua literatura, pelo grande poeta que lhe dará voz ou, melhor ainda, pela centena de pequenos poetas cujas vozes entrarão na nossa linguagem comum.

Chegados à igreja, mudava o cenário. A avenida de castanheiros ia desembocar numa estrada, plana mas estreita, que conduzia ao ainda intacto condado. Percorreu mais de um quilómetro dessa estrada. Agradavam-lhe as suas pequenas hesitações. Sem horas marcadas, descia vagarosamente a colina como lhe apetecia, sem prestar a mínima atenção aos declives nem ao panorama, que, no entanto, se ia alargando. As grandes herdades que asfixiam o sul de Hertfordshire eram aqui menos obstrutivas e o aspecto da terra não era aristocrático nem suburbano. Defini-lo era difícil, mas Margaret sabia o que ele não era: não era pretensioso. Apesar dos contornos superficiais, havia na sua indefinição um toque de liberdade que o Surrey nunca atingiria e o cume distante dos Chilterns erguia-se altaneiro como uma montanha. "Entregue a si próprio", foi a opinião de Margaret, "este condado votaria Liberal." Prometia, tal como a casa baixa de tijolo da quinta onde pediu a chave, camaradagem desapaixonada, que é a maior dádiva da nossa nação.

Mas o interior da quinta desapontava. Recebeu-a uma jovem muito pernóstica:

- Sim, Mistress Wilcox; não, Mistress Wilcox; ah, sim, Mistress Wilcox, a tia recebeu em devido tempo a sua carta. Neste momento a tia está na sua casinha. Quer que mande o criado acompanhá-la? Seguido de: - Claro, habitualmente a tia não cuida da sua casa; é coisa que só faz por amabilidade para com um vizinho ou por qualquer razão excepcional. Dá-lhe que fazer. Passa lá imenso tempo. Às vezes, o meu marido pergunta-me: "Onde está a tia?" e eu digo logo: "Precisas de perguntar? Está em Howards End." Sim, Mistress Wilcox. Mistress Wilcox, permite que lhe ofereça uma fatia de bolo? Mesmo que a corte para si?

Margaret recusou o bolo, mas infelizmente isso só aumentou a sua simpatia aos olhos da sobrinha de Miss Avery.

- Não posso deixá-la ir só. Não vá. Não deve ir. Eu próprio a levo lá. vou buscar o chapéu. Agora - implorativa -, não se vá embora entretanto, Mistress Wilcox.

Aturdida, Margaret não se mexeu da sala de visitas, marcada pela art nouveau. Mas os outros quartos pareciam acolhedores, embora deles emanasse a tristeza peculiar dos interiores rurais. Aqui viveu uma raça antiga que recordamos com inquietação. Aqui era de facto o lar da província que visitamos nos fins-de-semana e os mais graves aspectos da vida, as mortes, as separações, os anseios de amor, tinham a sua expressão mais profunda no interior dos campos. Nem tudo, porém, era melancolia. Não havia nenhuma no brilho do Sol. O tordo cantava as suas duas sílabas por entre os botões da rosa-de-gueldres. Crianças brincavam ruidosamente em montes de palha dourada. Foi a total ausência de melancolia que surpreendeu Margaret e lhe transmitiu enfim uma sensação de plenitude. Se há sítio onde possamos encarar a vida com firmeza e abrangê-la no seu conjunto, é nestas quintas inglesas, englobar numa só imagem a sua transitoriedade e a sua eterna juventude, criar elos, sem azedume, até que um dia todos os homens sejam irmãos. Mas os seus pensamentos foram interrompidos pelo regresso da sobrinha de Miss Avery e haviam sido tão repousantes que aceitou a interrupção sem desagrado.

Era mais rápido sair pela porta de trás e, após as devidas explicações, por lá saíram. A sobrinha era agora mortificada por inúmeras galinhas que se lhe metiam nos pés a pedir comida e por uma porca descarada e maternal. Ignorava a que vinham os animais. Mas a doçura da carícia do ar desvaneceu a sua afectação. O vento levantava e espalhava a palha e agitava as caudas dos patos que flutuavam em família sobre o medalhão de Evie. Uma dessas deliciosas rajadas da Primavera varreu os campos, instalou-se depois o silêncio. "Georgie", cantou o tordo. "Cu-cu", veio furtivamente dos pinheiros do rochedo. "Georgie, lindo Georgie", e os outros pássaros entraram neste coro insensato. A sebe era um quadro meio pintado, a terminar dentro de dias. Cresciam celidónias nos taludes, jarros silvestres e primaveras nas valas protegidas; os botões das rosas-bravas, carregando ainda os seus frutos murchos, eram já uma promessa do desabrochar. Chegara a Primavera nos seus trajes de gala, mas mais mágica do que todas as outras Primaveras; mais mágica ainda do que quando se passeia por entre as murtas da Toscânia, com as Graças à frente e os Zéfiros atrás.

As duas mulheres subiram a azinhaga, cheias de amabilidades aparentes. Mas Margaret ia a pensar em quão difícil seria tratar com severidade de assuntos de mobiliário num dia como aquele e a sobrinha ia a pensar em chapéus. Chegaram assim a Howards End. Gritos impacientes de "Tia!" cortaram o ar. Não houve resposta e a porta da frente estava fechada à chave.

- Tem a certeza de que Miss Avery está aqui?

- Ah, tenho sim, Mistress Wilcox, absoluta. Vem para cá todos os dias.

Margaret tentou espreitar pela janela da sala de jantar, mas a cortina interior tapava tudo. O mesmo acontecia com a sala de visitas e o vestíbulo. As cortinas afiguravam-se-lhe familiares, embora não se recordasse de as ter lá visto aquando da sua outra visita; tinha a impressão de que Mr. Bryce tirara tudo. Experimentaram as traseiras. Também aí não tiveram resposta e não conseguiram ver nada; a janela da cozinha tinha uma persiana, ao passo que contra a dispensa e a copa se apoiavam pranchas de madeira, agoirentamente semelhantes a tampas de caixotes de embalagem. Margaret pensou nos seus livros e também ela alteou a voz. Teve sucesso ao primeiro grito.

- Ora, ora! - respondeu alguém de dentro de casa. - Vejam que é Mistress Wilcox que chega finalmente!

- Trouxe a chave, tia?

- Madge, vai-te embora - disse Miss Avery, ainda invisível.

- Tia, é Mistress Wilcox... Margaret apoiou-a:

- A sua sobrinha e eu viemos juntas...

- Madge, vai-te embora. O teu chapéu não tem cabimento aqui. A pobre mulher enrubesceu.

- A tia tem-se tornado mais excêntrica ultimamente - disse, nervosa.

- Miss Avery! - chamou Margaret. - Venho por causa da mobília. Deixa-me entrar, por favor?

- com certeza, Mistress Wilcox - respondeu a voz. Mas logo se fez silêncio. Voltaram a chamar, não recebendo resposta. Deram a volta à casa desconsoladamente.

- Espero que Miss Avery não esteja doente - sugeriu Margaret.

- Bem, se me desculpa, talvez deva deixá-la agora. Numa quinta é preciso olhar pelos criados. A tia às vezes é tão estranha!

Subindo um pouco as suas elegantes saias, afastou-se, derrotada, e, como se a sua partida tivesse soltado uma mola, a porta da frente abriu-se de imediato.

Miss Avery convidou:

- Queira entrar, Mistress Wilcox. - Estava muito afável e calma.

- Muito obrigada... - começou Margaret, mas calou-se à vista de um bengaleiro. Era o seu.

- Primeiro, venha ao vestíbulo - sugeriu Miss Avery.

Abriu a cortina e Margaret soltou um grito de desespero. Porque acontecera uma coisa espantosa. O vestíbulo estava mobilado com o conteúdo da biblioteca de Wickham Place. A carpete fora estendida, a grande mesa de trabalho colocada junto à janela; as estantes ocupavam a parede fronteira à lareira e a espada do seu pai - foi isto o que mais a desnorteou - fora tirada da bainha e estava pendurada, nua, no meio dos modestos volumes. Miss Avery devia ter trabalhado dias a fio.

- Lamento, mas não era o que queríamos - começou. - Mister Wilcox e eu não desejávamos de forma alguma que se tocasse nos caixotes. Estes livros, por exemplo, são do meu irmão. Guardámo-los para ele e para a minha irmã, que está no estrangeiro. Quando a senhora teve a gentileza de se oferecer para tomar conta das coisas, nunca esperámos que o fizesse a tal ponto.

- A casa já esteve vazia o tempo suficiente - comentou a velha mulher.

Margaret recusou-se a argumentar.

- Decerto não nos explicámos bem - replicou com delicadeza. - Houve um erro e muito provavelmente, nosso.

- Mistress Wilcox, há cinquenta anos que há erro atrás de erro.

A casa é de Mistress Wilcox e ela não desejaria que continuasse vazia mais tempo.

Em socorro do pobre cérebro doente, Margaret disse:

- Sim, é a casa de Mistress Wilcox, a mãe de Mister Charles.

- Erro atrás de erro. Erro sobre erro.

- Bem, não sei. - E Margaret sentou-se numa das suas próprias cadeiras. - Realmente, não sei o que há a fazer. - Não pôde impedir-se de rir.

A outra disse:

- Sim, tem de voltar a ser uma casa alegre.

- Não sei, palavra que não sei. Bem, muito obrigada, Miss Avery. Está tudo muito bem. Tudo óptimo.

- Há ainda a saleta. - Dirigiu-se à porta em frente e levantou uma cortina. A luz inundou a saleta e os móveis da saleta de Wickham Place. - E a sala de jantar. - Mais cortinas foram levantadas, mais janelas abertas à Primavera. - E agora por aqui... - Miss Avery continuava a atravessar e a reatravessar o vestíbulo. A sua voz perdeu-se, mas Margaret ouviu-a puxar para cima a persiana da cozinha. Aqui, ainda não acabei - anunciou, ao regressar. - Há ainda imenso a fazer. Os rapazes da quinta vão carregar lá para cima os seus enormes guarda-fatos, porque não é preciso para nada ir fazer despesa a Hilton.

- Tudo isto é um erro - repetiu Margaret, sentindo que precisava de se impor. - Um mal-entendido. Mister Wilcox e eu não vimos viver para Howards End.

- Ah, claro. Por causa da febre dos fenos dele?

- Decidimos construir uma casa nova para nós no Sussex e parte destes móveis, a minha parte, vai para lá. - Fitava atentamente Miss Avery, numa tentativa de compreender onde estava a falha do seu cérebro. Não tinha à sua frente uma velha lunática. Eram sensatas e humorísticas as suas rugas. Parecia possuir uma perspicácia contundente e, ao mesmo tempo, uma elevada mas não ostensiva dignidade.

- A senhora julga que não virá viver para aqui, Mistress Wilcox, mas virá.

- Isso ainda está para se ver - respondeu Margaret, sorrindo. - De momento, não temos a mínima intenção de o fazer. Acontece que precisamos de uma casa muito maior. As circunstâncias obrigam-nos a dar grandes recepções. É evidente que um dia... nunca se sabe, não é?

Miss Avery retorquiu:

- Um dia! Tch, tch, tch! Não me venha com "um dia". Vem viver para aqui agora.

- Venho?

- Está a viver aqui e tem-no estado nos últimos dez minutos, se quer que lho diga.

Uma observação sem sentido, mas cuja estranha insinuação de deslealdade levou Margaret a saltar da cadeira. Sentira uma obscura crítica a Henry. Dirigiram-se à sala de jantar, onde o sol caía a jorros sobre o chiffonier da sua mãe e, no andar de cima, vários ídolos renasciam nos seus nichos. A mobília adaptava-se extraordinariamente bem. No quarto do meio - por cima do vestíbulo, o quarto onde Helen dormira quatro anos antes -, Miss Avery colocara o velho berço de Tibby.

- O quarto das crianças - disse. Margaret virou as costas em silêncio.

Tudo fora finalmente visto. A cozinha e a copa estavam ainda atafulhadas de móveis e de palha, mas, tanto quanto podia ver, nada do que havia se partira ou danificara. Uma exibição patética de ingenuidade! Deram depois, amistosamente, uma volta pelo jardim. Estava mais selvagem, desde a sua última visita. O caminho de saibro cheio de ervas daninhas e a relva estendia-se até à entrada da garagem. O jardim de rochas de Evie não passava de um amontoado de pedras. Talvez Evie fosse responsável pela excentricidade de Miss Avery. Mas Margaret suspeitava de que a causa era mais profunda e de que a carta idiota da rapariga se limitara a desencadear uma exasperação de anos.

- O prado é lindo - comentou. Era uma dessas salas de visitas ao ar livre formadas há centenas de anos pela junção de pequenos campos. Daí, as linhas que o delimitavam ziguezagueavam em ângulos rectos pela colina abaixo, até um pequeno anexo verde, uma espécie de gabinetezito para as vacas.

- Sim, a seara está bastante boa - disse Miss Avery - para aqueles, claro, que não espirram. - E pôs-se a tagarelar com malícia. - Vi o Charles Wilcox fugir para junto dos meus rapazes no tempo dos fenos... ah, eles tinham de fazer isto, eles não deviam fazer aquilo... ele ensiná-los-ia a ser rapazes! E nesse preciso momento, começou com as comichões. Herdou isso do pai, isso e outras coisas. Não há nenhum Wilcox que se aguente num campo em Junho... Eu ria-me das suas crises de erupção, quando namorava a Ruth.

- O meu irmão também sofre de febre dos fenos - disse Margaret.

- Esta casa está demasiado ligada à terra para eles. Naturalmente, de início ficaram muito contentes por dormirem nela. Mas os Wilcox são melhores do que nada, como vejo que descobriu.

Margaret riu-se.

- Fazem progredir um sítio, não fazem? Sim, é isso mesmo.

- Fazem progredir a Inglaterra, em minha opinião. Mas Miss Avery aborreceu-a ao responder:

- Ah, reproduzem-se como coelhos. Bem, bem, o mundo é divertido. Mas Aquele que o fez sabe o que quer que nele aconteça, suponho. Se Mistress Charles está à espera do quarto filho, não temos nada que nos queixar.

- Reproduzem-se e também trabalham - retorquiu Margaret, consciente do convite à deslealdade, ecoado pela brisa e pelas canções dos pássaros. - O mundo é de facto divertido, mas enquanto homens como o meu marido e os seus filhos o governarem, penso que não será nunca mau... nunca verdadeiramente mau.

- Não, melhor do que nada. - E Miss Avery virou-se para o olmo-escocês.

No caminho de regresso à quinta falaram da sua velha amiga muito mais abertamente do que até então. Em casa, Margaret perguntara-se se ela distinguia perfeitamente a primeira esposa da segunda. Agora, Miss Avery dizia:

- Não vi muito a Ruth depois que a avó dela morreu, mas continuámos a ser corteses uma com a outra. Era uma família muito cortês. A velha Mistress Howard nunca dizia mal de ninguém, nem deixava que se mandasse ninguém embora sem lhe dar de comer. Nunca se viu nas suas terras um letreiro de "Proibida a passagem", mas poderiam as pessoas fazer o favor de não entrar? Mistress Howard não foi nunca preparada para gerir uma quinta.

- Não tinham homens para as ajudarem? - perguntou Margaret. Miss Avery replicou:

- As coisas foram acontecendo até não haver homem nenhum.

- Até aparecer Mister Wilcox - corrigiu Margaret, ansiosa por ver reconhecido o valor do marido.

- Acho que sim; mas a Ruth devia ter casado com um... sem falta de respeito para consigo, porque eu tenho a certeza de que a senhora estava destinada a ser Wilcox, desse lá por onde desse, quer ela o tivesse sido em primeiro lugar quer não.

- com quem deveria ela ter-se casado?

- com um soldado! - exclamou a velha mulher. - Um autêntico soldado.

Margaret ficou silenciosa. Era uma crítica à maneira de ser de Henry, mais incisiva do que as que ela própria lhe fazia. Isso desagradou-lhe.

- Mas tudo isso passou - continuou Miss Avery. - Melhores tempos se aproximam agora, embora me tenha feito esperar de mais. Daqui a umas semanas, verei brilhar as vossas luzes através da sebe, à tardinha. Encomendou carvão?

- Nós não vimos - garantiu Margaret com firmeza. Respeitava demasiado Miss Avery para a enganar. - Não. Não vimos. Não viremos nunca. Foi tudo um engano. Os móveis têm de ser de novo embalados, lamento muito, mas vou tomar outras providências e sou obrigada a pedir-lhe que me dê as chaves.

- com certeza, Mistress Wilcox - respondeu Miss Avery e renunciou, com um sorriso, às suas dúvidas.

Aliviada por esta conclusão e tendo mandado cumprimentos a Madge, Margaret regressou, a pé, à estação. Tinha a intenção de ir ao armazém de móveis e dar instruções para irem buscá-los, mas a barafunda era maior do que esperara e, assim, decidiu consultar Henry. Foi muito bom tê-lo feito. Henry era absolutamente contra encarregar do assunto o homem da região que recomendara antes e aconselhou-a a armazenar em Londres, apesar de tudo.

Mas, antes que tal pudesse ser feito, um problema inesperado abateu-se sobre Margaret.

 

Não fora de todo inesperado. A saúde da tia Juley fora má durante todo o Inverno. Tivera uma quantidade de constipações e muita tosse e estivera demasiado ocupada para as tratar. Prometera vagamente à sobrinha "ver a sério o meu cansaço do peito", quando apanhou um resfriamento que evoluiu para uma pneumonia aguda. Margaret e Tibby foram para Swanage. Telegrafaram a Helen, para que também fosse, e a recepção da Primavera que os reunia nessa casa hospitaleira, tinha a ternura das recordações agradáveis. Num dia perfeito, em que o céu era porcelana azul e as ondas da baíazinha discreta se desfaziam mansamente na areia, Margaret seguia apressada por entre os rododendros, de novo confrontada com a insensatez da morte. Uma morte pode explicar-se a si própria, mas não faz luz sobre nenhuma outra; as perguntas no escuro recomeçam uma vez mais. Os pregadores ou os cientistas podem generalizar, mas nós sabemos que não há generalização possível quando se trata daqueles que amamos; não há um paraíso que os espera, nem sequer um esquecimento. A tia Juley, incapaz de tragédias, deslizava para fora da vida com umas risadinhas ocasionais e desculpas por ter cá estado tanto tempo. Estava muito fraca; não conseguia aguentar-se à altura da ocasião, ou aperceber-se do grande mistério que todos concordavam que a esperava; limitava-se a achar-se muito fatigada - mais fatigada do que alguma vez estivera; que via e ouvia menos e tinha menos tacto a cada momento; e que, a menos que alguma coisa mudasse, não tardaria a não sentir nada. Nos seus raros momentos de energia, tecia planos: Margaret não podia fazer uma viagem de barco? As cavalas estavam cozinhadas como Tibby gostava? Preocupava-se com a ausência de Helen e também com o facto de poder ser ela a causa do regresso de Helen. As enfermeiras pareciam achar estes interesses muito naturais, talvez no caso dela fossem uma maneira normal de se aproximar das Grandes Portas. Mas Margaret via a morte, arrancada a um romance artificial; o que quer que seja que possa conter a ideia de morte, o processo é trivial e odioso.

- Importante... Margaret querida, vai buscar os Lulworth quando a Helen vier.

- A Helen não vai poder ficar, tia Juley. Telegrafou a dizer que só poderá dar cá um salto a vê-la. Tem de voltar para a Alemanha logo que a tia esteja boa.

- Que estranho por parte da Helen! Mister Wilcox...

- Sim, querida?

- Ele pode separar-vos?

Henry desejava que ela viesse e fora muito gentil. Uma vez mais, Margaret repetiu-o.

Mrs. Munt não morreu. Absolutamente sem a interferência da sua vontade, um poder mais forte apoderara-se dela e empurrara-a para a rampa descendente. Ela, sem emoção, voltou para trás, tão mexida como sempre. No quarto dia estava fora de perigo.

- Margaret... importante: gostava que tivesses com quem passear. Experimenta Miss Conder.

- Dei um passeio pequeno com Miss Conder.

- Ela não tem de facto interesse. Se ao menos tivesses a Helen.

- Tenho o Tibby, tia Juley.

- Não, ele tem de se ocupar do seu chinês. Uma autêntica companheira, é do que precisas. Realmente, a Helen é extravagante.

- A Helen é extravagante, muito - concordou Margaret.

- Não contente em ir para o estrangeiro, porque quer voltar para lá imediatamente?

- Mudará com certeza de ideias quando nos vir. Não tem o mínimo juízo.

Foi esta toda a sua crítica a Helen, mas a voz de Margaret tremia ao proferi-la. Por essa altura, estava já profundamente magoada com o comportamento da irmã. Pode ser desequilíbrio correr para fora da Inglaterra, mas ficar longe oito meses demonstra que o coração é tão disparatado como a cabeça. Um leito de doente podia fazê-la vir, mas ficava surda a apelos mais humanos; após uma visita-relâmpago à tia, refugiar-se-ia na sua vida nebulosa por detrás de uma posta restante qualquer. Mal existia; as suas cartas haviam-se tornado insípidas e raras; não tinha desejos nem curiosidades. E todas as culpas eram imputadas ao pobre Henry! Henry, há muito perdoado pela esposa, continuava a ser infame de mais para que a cunhada o cumprimentasse. Era mórbido e, o que a assustava, Margaret imaginava poder encontrar vestígios do desenvolvimento dessa morbidez recuando na vida de Helen até cerca de quatro anos atrás. A fuga de Oniton; a protecção desequilibrada aos Bast; a explosão de mágoa nas dunas - tudo relacionado com Paul, um rapaz insignificante cujos lábios tinham beijado os seus durante uma fracção de tempo. Margaret e Mrs. Wilcox haviam receado que voltassem a beijar-se. Patetice: o perigo real era a reacção. A reacção contra os Wilcox minara-lhe a vida até quase lhe roubar a sanidade. Aos vinte e cinco anos tinha uma ideia fixa. Que esperanças para ela quando fosse velha?

Quanto mais pensava nisso, mais alarmada Margaret ficava. Durante muitos meses afastara o problema, mas ele era demasiado importante para continuar a ser menosprezado. Sugeria quase uns laivos de loucura. Iriam todos os actos de Helen ser governados por um desgosto de nada, desses que acontecem a todos os rapazes e raparigas? Pode a natureza humana ser construída sobre tão fracas bases? O estúpido conflito em Howards End foi vital. Propagou-se onde relações mais sérias perderam o interesse; foi mais forte do que a intimidade das irmãs, mais forte do que a razão ou livros. Num dia em que estava para aí virada, Helen confessara que ele ainda lhe "agradava", duma certa maneira: Paul desvanecera-se, mas a magia das suas carícias persistira. E quando se encontra prazer no passado pode haver também reacção - propagação nos dois sentidos.

Bem, é extravagante e triste que os nossos espíritos possam ser tão germinativos e nós não termos poder para escolher a semente. Mas o homem é um ser extravagante e até mesmo uma criatura triste, aplicado ao roubar da terra e negligente com as germinações que ocorrem dentro de si próprio. Não o macem com psicologia. Deixa isso aos especialistas, o que é o mesmo que deixar que uma máquina a vapor coma o seu jantar. Não o macem com a assimilação da sua própria alma. Margaret e Helen foram mais pacientes e pode sugerir-se que Margaret triunfou - tanto quanto o triunfo é ainda possível. Conhece-se bem, tem um domínio rudimentar sobre a sua evolução. Se Helen triunfou, não se sabe.

No dia em que Mrs. Munt melhorou, chegou a carta de Helen. Pusera-a no correio em Munique e iria a Londres no dia seguinte. Era uma carta inquietante, embora o seu início fosse afectuoso e normal.

Minha querida Meg,

Diz à tia Juley que a adoro e a adorei sempre. Estarei em Londres na quinta-feira.

O meu endereço ficará a cargo do meu banco. Ainda não arranjei hotel, por isso escreve-me ou telegrafa-me para lá e dá-me notícias pormenorizadas. Se a tia Juley estiver muito melhor ou se, por uma razão terrível, não valer a pena a minha ida a Swanage, não estranhes que eu não vá. Tenho toda a espécie de planos na cabeça. Vivo presentemente no estrangeiro e quero voltar tão depressa quanto possível. Diz-me por favor onde está a nossa mobília. Gostava de recuperar um ou dois livros; os outros são para vós.

Perdoa-ma, Meg querida. Esta carta é bastante desagradável, mas todas as cartas são cartas da tua irmã muito amiga

Helen

Era mesmo uma carta desagradável, porque tentou Margaret a dizer uma mentira. Se escrevesse que a tia Juley corria ainda perigo, a irmã viria. A insanidade é contagiosa. É-nos impossível mantermos contacto com pessoas cujo estado é mórbido sem que nos deterioremos nós próprios. "Agir pelo melhor" podia fazer bem a Helen, mas far-lhe-ia mal, a ela, e arriscando-se a um revés manteve por mais algum tempo o seu estilo de jogo. Respondeu que a tia estava muito melhor e aguardou o desenrolar dos acontecimentos.

Tibby aprovou a sua resposta. Amadurecendo rapidamente, era agora um companheiro mais simpático do que dantes. Oxford fizera muito por ele. Deixara de ser impertinente e conseguia esconder a sua indiferença pelas pessoas e o seu interesse pela comida. Mas não se tornara mais humano. A idade entre os dezoito e os vinte e dois anos, idade mágica para a maioria, transportara-o suavemente da meninice para a meia-idade. Não conhecera nunca a juventude plena, esse período que aquece o coração até à morte e dá a Mr. Wilcox um encanto imperecível. Era frio - embora não por sua culpa e sem crueldade. Achava que Helen estava errada, Margaret certa, mas via esse problema familiar como a maioria das pessoas vêem uma cena no palco. Apenas lhe ocorreu uma sugestão e essa foi característica.

- Porque não contas a Mister Wilcox? - Sobre a Helen?

- Talvez ele tenha passado por qualquer coisa de semelhante.

- Ele faria o que pudesse, mas...

- Ah, tu é que sabes. Mas ele é prático.

Era a crença do estudante nos peritos. Por uma ou duas razões, Margaret duvidou. Chegou então a resposta de Helen. Era um telegrama a pedir a morada em que estavam os móveis, porque afinal regressaria de imediato. Margaret respondeu-lhe: "Evidentemente, não; encontra-te comigo no Banco às quatro." Ela e Tibby foram a Londres. Helen não estava no Banco e o seu endereço foi-lhes recusado. Helen tornara-se caótica.

Margaret passou o braço pela cintura do irmão. Era tudo o que lhe restava e nunca ele parecera mais inconsistente.

- Tibby, meu querido, e agora?

- É extraordinário.

- Querido, muitas vezes o teu raciocínio esclareceu o meu. Tens alguma ideia do que há por detrás disto?

- Nenhuma, a menos que seja qualquer coisa mental.

- Ah! Isso! - exclamou Margaret. - Absolutamente impossível. Mas a sugestão fora pronunciada e uns minutos depois apoderara-se dela. Nada mais o explicava. E Londres concordava com Tibby. A cidade deixou cair a máscara e Margaret viu-a como é na realidade - uma caricatura do infinito. As delimitações familiares, as ruas que percorria, as casas por entre as quais haviam decorrido os seus dias durante tantos anos, tudo de repente era insignificante. Helen parecia formar um todo com as árvores sujas e o tráfego e os pedaços de argila que demoravam a florir. Cumprira um terrível acto de renúncia e reintegrara a Unidade. A fé de Margaret manteve-se firme. Sabia que a alma pode imergir, até imergir de todo, com as estrelas e o mar. Sentia, porém, que a irmã andara desnorteada, durante muitos anos. Era simbólico que a catástrofe se abatesse agora, numa tarde londrina, enquanto a chuva caía de mansinho.

Henry era a única esperança. Henry era positivo. Devia conhecer alguns atalhos do caos que eles desconheciam e Margaret decidiu seguir a opinião de Tibby e pôr o caso nas suas mãos. Tinham de o ir procurar no escritório. Piorar as coisas, não podia ele. Entrou por uns minutos em St. Paul, cuja cúpula se ergue tão altivamente acima da barafunda, como que pregando o evangelho da forma. Mas lá dentro St. Paul é igual aos seus arredores - ecos e sussurros, cantos inaudíveis, mosaicos invisíveis, pegadas húmidas que atravessam e reatravessam o chão. Si monumentum requiris, circumspice: devolve-nos a Londres. Nenhuma esperança de encontrar Helen aqui.

Henry mostrou-se, de início, contrariado. Ela já o esperava. Ficou radiante por vê-la regressar de Swanage e levou tempo a admitir o aparecimento de um novo problema. Quando lhe contaram as suas diligências, limitou-se a zombar de Tibby e dos Schlegel de forma geral e declarou que era "mesmo da Helen" pôr a família em estado de sítio.

- Isso é o que nós todos dizemos - respondeu Margaret. Mas porque é que será mesmo da Helen? Porque será ela tão estranha e cada vez mais estranha?

- Não me perguntes a mim. Sou um simples homem de negócios. Vivo e deixo viver. O meu conselho a ambos é: não se preocupem. Margaret, tens olheiras negras. Sabes que isso é totalmente proibido. Primeiro a tua tia, agora a tua irmã. Não, não vamos continuar por esse caminho. Pois não, Theobald? - Tocou a campainha. - Tomam chá e depois vão direitos para Ducie Street. Não quero que a minha pequena pareça tão velha como o marido.

- Mas ainda não percebeu bem o nosso ponto de vista - disse Tibby.

Mr. Wilcox, bem-disposto, retorquiu:

- Julgo que não perceberei nunca.

Inclinou-se para trás, rindo da dotada mas ridícula família, enquanto a chama do fogão tremeluzia sobre o mapa de África. Margaret fez sinal ao irmão para continuar. Muito intimidado, este assim fez.

- O ponto de vista da Margaret é este: a nossa irmã deve estar louca.

Charles, que trabalhava na sala interior, espreitou.

- Entre, Charles - convidou Margaret, gentilmente. - Quem sabe se poderá ajudar-nos? Estamos outra vez com problemas.

- Receio não poder. O que há? Todos andamos mais ou menos de cabeça perdida, nos tempos que correm.

- Os factos são os seguintes - interveio Tibby que dava de vez em quando mostras de uma lucidez pedante. - Os factos são que a Helen esteve em Inglaterra três dias e não quis ver-nos. Proibiu o banco de nos dar a sua morada. Recusa-se a responder a perguntas. A Margaret acha as suas cartas insípidas. Há outros factos, mas estes são os mais chocantes.

- Já alguma vez a Helen procedera assim? - indagou Mr. Wilcox.

- Claro que não! - respondeu a esposa, franzindo o sobrolho.

- Pronto, minha querida! Como queres que eu saiba? Percorreu-a um insensato espasmo de aborrecimento.

- Sabes muito bem que a Helen é afectiva. Decerto notaste isso nela.

- Claro; ela e eu, sempre que estivemos juntos nunca o escondemos.

- Não, Henry... não percebes?... não me refiro a isso. Dominou-se, mas não antes que Charles a observasse. Estúpido e

atento, assistia à cena.

- Queria eu dizer que quando, no passado, ela se mostrava excêntrica, acabávamos por encontrar as razões para tal no seu coração. Comportava-se excentricamente porque andava preocupada com alguém, ou queria ajudar alguém. Agora, não tem desculpa possível. Está a magoar-nos profundamente e é por isso que tenho a certeza de que não está bem. "Louca" é uma palavra demasiado horrível, mas ela não está bem. Nunca acreditarei que está. Não falaria da minha irmã contigo se não pensasse que ela não está bem... não te aborreceria por causa dela, quero eu dizer.

Henry começava a levar o caso a sério. Doença era qualquer coisa absolutamente positiva. Gozando em geral de boa saúde, não concebia que se pudesse adoecer aos poucos. Os doentes não têm direitos; estão fora do terreno; pode-se-lhes mentir sem remorsos. Quando a sua primeira mulher fora apanhada, prometera-lhe levá-la para o Hertfordshire, mas em vez disso tratara entretanto com uma casa de saúde. Também Helen estava doente. E o plano que desenhou para a sua captura, apesar de inteligente e bem concebido, deixava eticamente muito a desejar.

- Querem apanhá-la? É esse o problema, não é? Ela tem de ir a um médico.

- Tanto quanto sei, já foi.

- Sim, sim, não interrompas. - Levantou-se e pensou intensamente. O anfitrião cordial, conciliador, desapareceu e deu lugar ao homem que arrancara dinheiro da Grécia e de África e comprara florestas aos nativos por algumas garrafas de gim. -Já sei - disse por fim. - É facílimo. Deixem comigo. Mandamo-la para Howards End.

- Como?

- Atrás dos livros. Diz-lhe que terá ela de os desencaixotar. Depois, podem lá ir ter com ela.

- Mas, Henry, isso é exactamente o que a Helen não quer que eu faça. Faz parte da sua... seja o que for... não me ver nunca.

- Claro que não lhe dizes que vais. Quando ela lá estiver, a olhar para os caixotes, apareces. Se não houver nada de errado com ela, tanto melhor. Mas o carro estará à esquina e poderemos levá-la a um especialista num instante.

Margaret abanou a cabeça:

- É absolutamente impossível.

- Porquê?

- A mim, não me parece impossível - disse Tibby. - Não há dúvida de que é um plano muito sugestivo.

- É impossível porque... - Olhou o marido com tristeza. - Não é essa a linguagem especial que a Helen e eu falamos, entendes? Daria um resultado óptimo com outras pessoas, que não censuro.

- Mas a Helen não fala - comentou Tibby. - É essa a nossa dificuldade. Não fala a vossa linguagem especial e é por isso que achas que ela está doente.

- Não, Henry, é amoroso da tua parte, mas não sou capaz.

- Estou a ver; tens escrúpulos.

- Acho que sim.

- E, de preferência a ir contra eles, deixas a tua irmã a sofrer. com uma palavra podias tê-la feito ir a Swanage, mas tiveste escrúpulos. E todos os escrúpulos estão muito bem. Sou tão escrupuloso como qualquer homem vivo, espero; mas num caso como este, quando se trata de loucura...

- Recuso-me a que seja loucura.

- Mesmo agora disseste...

- É loucura quando sou eu a dizê-lo, mas não é quando o dizes tu. Henry encolheu os ombros.

- Margaret! Margaret - resmungou. - Não há educação que ensine lógica a uma mulher. Bem, minha querida, o meu tempo é precioso. Queres que te ajude ou não?

- Não dessa maneira.

- Responde à minha pergunta. Pergunta directa, resposta directa. Queres...

Charles surpreendeu-os ao interromper:

- Pai, também podemos deixar Howards End de fora.

- Porquê, Charles?

Charles podia não ter dado qualquer razão; mas Margaret sentiu que, através de uma imensa distância, se trocara entre eles uma saudação.

- Toda a casa está de pernas para o ar. Nós não queremos mais confusão - respondeu, mal-humorado.

- "Nós", quem? Meu rapaz, por favor, "nós", quem?

- Peço-lhe desculpa, parece sempre que sou um intruso. Margaret já desejava nunca ter falado no problema ao marido.

Recuar era impossível. Estava determinado a conduzir o caso a uma conclusão satisfatória e Helen desvanecia-se enquanto ele falava. A sua simpatia, o seu cabelo esvoaçante e os seus olhos vivos não contavam, porque estava doente, sem direitos e todos os seus amigos podiam acossá-la. com o coração apertado, Margaret aderiu à caçada. Escreveu à irmã uma carta falsa, ditada por Henry; dizia-lhe que toda a mobília estava em Howards End mas que podia ir lá vê-la na próxima segunda-feira, às três da tarde, hora a que a esperaria uma mulher-a-dias. Era uma carta fria, para o efeito a mais plausível. Helen pensaria que estava ofendida. E na segunda-feira seguinte ela e Henry iriam almoçar com Dolly e depois emboscar-se-iam no jardim. Após a partida dos irmãos, Mr. Wilcox disse ao filho:

- Não é esta a minha maneira de agir, meu rapaz. Já que a Margaret é terna de mais para actuar, actuo eu por ela.

Charles não respondeu.

- Há alguma coisa a correr-te mal esta tarde, Charles?

- Não, pai; mas o pai pode estar a meter-se numa questão mais complicada do que calcula.

- Como?

- Não me pergunte a mim.

 

Fala-se muito da disposição de cada um na Primavera, mas nos seus dias de verdadeira plenitude a disposição é apenas uma: estamos todos fartos do aumento e do cair do vento e do piar dos pássaros. Podem desabrochar novas flores, aumentar o bordado verde das sebes, mas é sempre o mesmo o céu que nos paira por cima da cabeça, suave, espesso e azul, são os mesmos os vultos, conhecidos ou desconhecidos, que erram pelos bosques e pelos prados. A manhã que Margaret tinha passado com Miss Avery e a tarde em que se pôs a caminho para armar a cilada a Helen eram as escalas de uma só balança. O tempo podia nunca se ter escoado, a chuva nunca ter caído; bastava o homem, com os seus esquemas e doenças, para perturbar a Natureza ao ponto de só a ver através de um véu de lágrimas.

Margaret deixara de protestar. Quer Henry estivesse certo quer estivesse errado, era muito gentil e essa era a única bitola por que sabia medi-lo. Tinha de confiar totalmente nele. Mal se encarregava de um assunto, a sua obtusidade desaparecia. Tirava vantagem dos mínimos indícios e a captura de Helen prometia ser encenada tão primorosamente como o casamento de Evie.

Saíram de manhã, como planeado, e descobriram que a sua vítima estava de momento em Hilton. À chegada, foi a todas as cocheiras de aluguer da aldeia e conversou seriamente alguns minutos com cada proprietário. O que dizia, Margaret ignorava-o, talvez não fosse a verdade; mas chegou depois do almoço a notícia de que uma senhora viera de Londres de comboio e apanhara um cabriolé para Howards End.

- Estava morta por partir - disse Henry. - Vai buscar os livros.

- Não posso fazer isto - disse Margaret pela centésima vez.

- Acaba o teu café, querida. Temos de ir.

- Sim, Margaret, tem de beber muito - sublinhou Dolly.

Margaret tentou, mas de súbito levou a mão aos olhos. Dolly lançou ao sogro olhadelas a que este não correspondeu. No silêncio, ouviu-se o carro chegar à porta.

- Não estás preparada para isto - disse ele, ansiosamente. Deixa-me ir sozinho. Sei exactamente o que há a fazer.

- Estou preparada, sim - afirmou Margaret, descobrindo a cara. - Estou apenas muitíssimo assustada. Não sinto que Helen esteja de facto viva. As suas cartas e telegramas parecem ser de uma outra pessoa. Falta-lhes o seu torn. Não acredito que o teu cocheiro a tenha de facto visto na estação. Quem me dera nunca ter falado nisto. Sei que o Charles está vexado. Está, sim, está... - Pegou na mão de Dolly e beijou-a. - Dolly, perdoe-me. Pronto! Vamos embora.

Henry estivera a observá-la com atenção. Não gostou deste desfalecimento.

- Não queres arranjar-te? - perguntou.

- Tenho tempo?

- Tens, de sobra.

Margaret dirigiu-se à casa de banho pela porta da frente e logo que o trinco foi corrido, Mr. Wilcox disse calmamente:

- Dolly, vou sem ela.

Os olhos de Dolly brilharam de banal excitação. Seguiu-o em bicos de pés até ao automóvel.

- Diga-lhe que achei que era o melhor.

- Sim, Mister Wilcox, percebo.

- Diga o que quiser. Está tudo bem.

O carro pegou logo e com alguma sorte teria seguido. Mas o cão, que estava a brincar no jardim, escolheu esse momento para se sentar mesmo no meio do caminho. Grane, ao tentar evitá-lo, passou com uma roda por cima de um canteiro de goivos. Dolly gritou. Margaret, ao ouvir o barulho precipitou-se para fora de casa, sem chapéu, mesmo a tempo de saltar para o estribo. Não disse uma única palavra; ele estava a tratá-la como tratara Helen e a raiva perante a sua deslealdade apenas a ajudou a perceber o que Helen sentiria contra eles. Pensou: "Mereço-o; estou a ser punida por não defender as minhas cores." E aceitou as suas desculpas com uma calma que o deixou atónito.

- Continuo a achar que não estás preparada para isto.

- Talvez não estivesse ao almoço. Mas tudo é agora muito claro para mim.

- Eu julguei estar a agir pelo melhor.

- Empresta-me o teu cachecol, sim? Este vento põe-me os cabelos no ar.

- com certeza, meu amor. Estás bem agora?

- Olha! As minhas mãos pararam de tremer.

- E desculpaste-me de todo? Então ouve. O carro dela já deve ter chegado a Howards End. Estamos um bocadinho atrasados, mas não tem importância. A primeira coisa que vamos fazer é mandá-la esperar na quinta, porque, dentro do possível, é de evitar uma cena em frente dos criados. Um certo senhor - apontou para as costas de Grane - não entra, fica à espera um pouco antes de chegar ao portão da frente, atrás dos loureiros. Ainda tens as chaves da casa?

- Tenho.

- Bem, deixa-as estar. Lembras-te da situação da casa?

- Lembro.

- Se não a encontrarmos no alpendre, podemos dar a volta, para entrarmos pelo jardim. O nosso objectivo...

Pararam, para dar entrada ao médico.

- Estava justamente a dizer à minha mulher, Mansbridge, que o nosso principal objectivo é não assustar Miss Schlegel. A casa é, como sabe, propriedade minha, por isso é perfeitamente natural a nossa presença. O problema é, claro, nervoso... Não achas, Margaret?

O médico, muito novo, começou a fazer perguntas a respeito de Helen. Era normal? Existia algum factor congénito ou hereditário? Ocorrera algo que pudesse tê-la levado a alienar-se da família?

- Nada - respondeu Margaret, imaginando o que aconteceria se tivesse acrescentado: "Embora se tenha ressentido da imoralidade do meu marido."

- Foi sempre muito nervosa - prosseguiu Henry, inclinando-se para trás no carro enquanto este passava pela igreja. - Uma tendência para o espiritualismo, e essas coisas, mas nada de sério. Dada à música, à literatura, à arte, mas eu diria normal, uma rapariga cheia de encanto.

A ira e o terror de Margaret aumentavam a cada momento. Como ousavam estes homens rotular a sua irmã! Que horrores se preparam! Quantas impertinências acoitadas sob o nome da ciência! O bando ia cercando Helen, ia negar os seus direitos humanos e afigurava-se a Margaret que, com ela, todos os Schlegel estavam a ser ameaçados. Eram normais? Que pergunta essa! E são sempre aqueles que não sabem nada da natureza humana, a quem a psicologia aborrece e a filosofia choca, os que a fazem! Por muito deplorável que fosse o estado da irmã, percebeu que tinha de ficar do seu lado. Seriam loucas juntas, se o mundo decidisse considerá-las como tal.

Eram agora três e cinco. O automóvel abrandou na quinta, em cujo pátio estava Miss Avery. Henry perguntou-lhe se passara uma carruagem. Ela acenou com a cabeça afirmativamente e no momento seguinte viram-na, ao fundo da alameda. O automóvel rodou em silêncio, como um predador. Helen era tão confiante que estava sentada no alpendre, de costas para a estrada. Viera. Só a sua cabeça e ombros eram visíveis. Enquadrada pela trepadeira, uma das suas mãos brincava com os rebentos. O vento agitava-lhe os cabelos, o Sol glorificava-a; igual ao que sempre fora.

Margaret ia sentada do lado da porta. Antes que o marido pudesse evitá-lo, saltou do carro. Correu para o portão do jardim, que estava encostado, atravessou-o e empurrou-o, fechando-lho deliberadamente na cara. O barulho alarmou Helen. Margaret viu-a erguer-se com um movimento que não lhe era familiar e, correndo para o alpendre, teve a explicação simples de todos os receios deles: a irmã esperava um bebé.

- A vadia está bem? - perguntou Henry. Margaret teve tempo para murmurar:

- Oh, minha querida!

As chaves de casa estavam na sua mão. Abriu Howards End e empurrou Helen para dentro.

- Está, está bem - respondeu, e ficou com as costas encostadas à porta.

 

- Margaret, que aspecto transtornado! - exclamou Henry.

Mansbridge seguia-o. Grane estava ao portão e o cocheiro erguera-se na boleia. Margaret acenou-lhes com a cabeça; não tinha mais nada a dizer. Continuava a agarrar as chaves, como se o futuro de todos eles dependesse delas. Henry fazia mais perguntas. Abanou de novo a cabeça. As suas palavras não faziam sentido. Ouviu discorrer sobre as razões por que deixara Helen entrar. "Podias ter-me dado uma pancada com o portão", foi outra das suas observações. Agora, era a sua própria voz que ouvia. Falava, ou falava alguém por ela:

- Vai-te embora.

Henry aproximou-se. Repetiu:

- Margaret, estás outra vez transtornada. Minha querida, dá-me as chaves. O que vais fazer com Helen?

- Oh, meu caro, vai-te embora e eu trato de tudo.

- Tratas de quê?

Estendeu a mão, a pedir as chaves. Ter-lhe-ia decerto obedecido se não fosse o médico.

- Pára com isso, ao menos - disse, de modo comovente; o médico virara as costas, estava a interrogar o cocheiro do cabriolé de Helen. Um novo sentimento se apoderou dela: estava a lutar pelas mulheres contra os homens. Não queria saber de direitos, mas os homens só entrariam em Howards End por cima do seu cadáver.

- Então! Que começo estranho! - comentou o marido.

O médico voltou e segredou duas palavras a Mr. Wilcox - o escândalo rebentara. Sinceramente horrorizado, Henry ficou especado, de olhos pregados no chão.

- Não posso evitá-lo - disse Margaret. - Espera. Não é culpa minha. Vão-se agora embora os quatro.

Era a vez de o cocheiro segredar a Grane.

- Contamos consigo para nos ajudar, Mistress Wilcox - disse o jovem médico. - Pode ir lá dentro e convencer a sua irmã a sair?

- Por que motivo? - perguntou Margaret, olhando-o directamente nos olhos.

Achando ser profissional faltar à verdade, murmurou qualquer coisa sobre um esgotamento nervoso.

- Desculpe-me, mas não é nada disso. O senhor não está apto a assistir a minha irmã, doutor Mansbridge. Se precisarmos dos seus serviços, informamo-lo.

- Posso diagnosticar o caso mais abruptamente, se quiser - retorquiu ele.

- Podia, mas não o fez. Não está, portanto, apto a prestar assistência à minha irmã.

- Então, então, Margaret! - interveio Henry, sem nunca levantar o olhar. - É um caso horrível, um caso apavorante. São ordens do médico. Abre a porta.

- Perdoa-me, mas não abro.

- Discordo.

Margaret guardou silêncio.

- É um caso tão grave quanto demorado - contribuiu o médico.

- Fazíamos melhor em conversar todos juntos. A senhora precisa de nós e nós precisamos de si, Mistress Wilcox.

- É isso mesmo - corroborou Henry.

- Não preciso minimamente de vós.

Os dois homens olharam-se com ansiedade.

- E a minha irmã também não, está ainda a muitas semanas do seu parto.

- Margaret, Margaret!

- Bem, Henry, manda o teu médico embora. De que pode servir-nos agora?

Mr. Wilcox percorreu a casa com o olhar. Tinha a vaga sensação de que devia manter-se firme e apoiar o médico. Ele próprio podia precisar de apoio, porque havia problemas pela frente.

- Agora é tudo uma questão de afecto. Afecto. Percebes? - Recorrendo aos seus métodos habituais, escreveu a palavra na casa com o dedo. - Claro que percebes. Gosto muito da Helen, tu nem por isso. O doutor Mansbridge não a conhece. Ê tudo. E o afecto, quando é recíproco, dá direitos. Assente isso na sua agenda, doutor Mansbridge. E uma fórmula útil.

Henry pediu-lhe que se acalmasse.

- Não sabem o que querem - exclamou Margaret, agitando os braços. - Para uma observação sensata, deixá-los-ia entrar. Mas são incapazes disso. Iam perturbar a minha irmã para nada. Não o permitirei. Prefiro ficar aqui o dia inteiro.

- Mansbridge - Henry falava baixo -, talvez agora não seja o momento.

O grupo dissolvia-se. A um sinal do patrão, também Grane voltou para o carro.

- Agora tu, Henry - disse ela, docemente. Nada no seu azedume lhe fora dirigido. - Vai-te embora agora, querido. Hei-de querer os teus conselhos mais tarde, claro. Desculpa-me se fui grosseira. Mas, a sério, tens de ir.

Henry estava estupidificado de mais para a deixar. Era agora o doutor Mansbridge quem o chamava em voz baixa.

- Daqui a pouco vou ter contigo a casa da Dolly - acrescentou ela, enquanto o portão rangia finalmente entre ambos. O cabriolé saiu do caminho, o automóvel recuou, rodou um pouco, recuou outra vez e entrou na rua estreita. Uma fila de carroças da quinta meteu-se de permeio; mas ela esperou a partida de todos, porque não havia pressa nenhuma. Quando tudo terminou e o automóvel se pôs em marcha, abriu a porta:

- Oh, minha querida! - exclamou. - Minha querida, perdoa-me. De pé, no vestíbulo, Helen aguardava.

 

Margaret trancou a porta por dentro. Teria então beijado a irmã, mas esta, com uma voz digna que soava estranhamente vinda dela, disse:

- Oportuno! Não me disseste que os livros estavam desencaixotados. Encontrei quase tudo o que queria.

- Não te disse nada que fosse verdadeiro.

- Foi uma enorme surpresa, não há dúvida. A tia Juley esteve mesmo doente?

- Helen, não supões que eu inventaria isso?

- Não suponho - respondeu Helen, afastando-se e elevando a voz. - Mas depois disto, perde-se a confiança.

- Pensámos que fosse doença, mas mesmo assim... Não agi correctamente.

Helen escolheu outro livro.

- Não devia ter consultado ninguém. O que pensaria de mim o nosso pai?

Não lhe passou pela cabeça interrogar a irmã, nem censurá-la. Ambas as coisas viriam a ser necessárias, mas primeiro tinha de expiar um crime muito maior do que qualquer um que Helen tivesse cometido: essa falta de confiança que é obra do demónio.

- Sim, estou magoada - disse Helen. - Os meus desejos deviam ter sido respeitados. Eu teria aceite o encontro se fosse necessário, mas depois da recuperação da tia Juley não era necessário. Planeava a minha vida, como agora tenho de fazer...

- Deixa esses livros - pediu Margaret. - Helen, conversa comigo.

- Estava precisamente a dizer que deixei de viver ao acaso. Podem fazer-se imensos... - faltou-lhe a palavra - sem planear cada acto antecipadamente. v