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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MÁSCARA DE ATREU / A. J. Hartley
A MÁSCARA DE ATREU / A. J. Hartley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Alemanha, 1945

Andrew Mulligrew prendeu com mais força os fones de ouvido à cabeça. Devia ter ouvido errado. Considerando o barulho do motor do Sherman, era de espantar que ele ouvisse alguma coisa.

Repita, por favor — ele gritou.

Coluna alemã dirigindo-se rapidamente para o sul — repetiu o comandante. — Liderada por um veículo blindado seguido de alguma coisa grande, sem torre. Talvez um Jagdpanther.

Mulligrew sentiu um aperto no coração. Fora exatamente o que ouvira. Mesmo com os ruídos e rangidos das rodas do tanque, ele pôde ouvir o silêncio na estática do rádio. Alguém, talvez Williams do outro lado da rodovia à sua esquerda — o pelotão inteiro havia escrito seus nomes na carcaça do tanque —, perguntou o que mais havia no comboio. A sua voz era uma mistura de medo e resignação.

—        Alguns caminhões, uma meia-lagarta e pelo menos mais dois tanques, provavelmente um Panzer IV e um Panther.

Quatro Sherman, pensou Mulligrew — um deles se movendo com metade da velocidade — e dois Stuart M5 contra os melhores blindados alemães, inclusive um tanque que não tinham a menor condição de enfrentar, a não ser que se aproximassem o bastante para poder cuspir neles. Todos os tanques alemães tinham armas capazes de obrigar que parassem a 500 metros de distância. O Jagdpanther seria capaz de estraçalhá-los a uma distância três vezes maior.

O que, em nome de Deus, pretendiam os alemães ao mandar um pelotão tão bem equipado como esse para o sul, quando estavam usando todos os seus homens e suas armas para atrasar o ataque dos Aliados ao norte? Berlim estava prestes a cair e talvez já tivesse caído, mas uma unidade de choque fora mandada rápida e diretamente para o sul — que Deus o ajudasse — ao encontro de seu pelotão exausto e arrebentado pela guerra.

O tanque de Mulligrew e o que sobrara do pelotão fora separado da Divisão de Tanques 761 quando, cinco dias antes, se dirigiam para o leste por Regensburgo, às margens do Danúbio. Estavam a mais ou menos 120 quilômetros a nordeste de Munique, a uma distância ainda menor da Áustria e do que fora a Tchecoslováquia antes do ataque alemão e bem próximos da fronteira com a Suíça. Era um local cheio de florestas e montanhas com picos cobertos de neve e castelos longínquos e românticos. Num momento, avançavam com o resto do grupo, finalmente começando a acreditar que o pesadelo vivido entre a Normandia e Ardenes, a caminho da Alemanha, estava prestes a chegar a um final vitorioso e, no próximo, estavam encurralados pela artilharia inimiga. O pelotão de Mulligrew recebera ordens para se separar e cortar as linhas de suprimento inimigas, mas, dois dias depois, encontrava-se completamente sozinho. O resto do batalhão tivera de avançar com a máxima velocidade, adiantando-se com o resto do exército, a caminho de Steyria no rio Enns para encontrar os russos.

Mulligrew e o resto da divisão foram sozinhos para o norte. Ao passarem por estradas congestionadas por refugiados, ele começara a pensar que tinham ficado com o trabalho mais fácil. Desde Regensburgo, não tinham dado um tiro sequer e começavam a acreditar que não precisariam mais atirar. Afinal, tudo levava a crer que a guerra havia terminado.

E agora isso.

Mulligrew virou-se para o circuito interno do tanque e começou a gritar ordens, girando o nariz do Sherman e pedindo munição pesada. Tinham acabado de sair da estrada quando viram o veículo blindado vindo na direção deles. Vinha a pelo menos 80 quilômetros por hora e derrapava bastante na tentativa de encontrar cobertura, as armas de sua torre se aprontando. Eles podiam ouvir as rajadas de metralhadora atingindo a torre do Sherman. Mas o que tirou a cor de seu rosto foi o que viu atrás do carro blindado.

O Jagdpanther era enorme, baixo e ameaçador como um crocodilo ou um tubarão, e sua blindagem frontal tinha boa inclinação e vários centímetros de largura. Mesmo a curta distância, a arma de 76 milímetros do Sherman não teria qualquer chance contra ele. E se o tanque alemão apontasse suas 88 para eles, estariam mortos. Simplesmente mortos.

Mulligrew gritou ordens para que o tanque fosse levado ao campo e para que as torres fossem posicionadas. A única chance que tinham era passar pelo Jagdpanther chocando-se contra ele — várias vezes, e de uma distância bem próxima — do outro lado. Os Sherman que vinham atrás teriam de dar conta dos outros tanques alemães.

Eles estavam saindo da trincheira ao lado da estrada quando o 88 abriu fogo, causando uma enorme nuvem de fumaça e fagulhas flamejantes que cobriram o visor de Mulligrew, fazendo-o encolher-se involunta­riamente. Demorou uns dois segundos para ter certeza de que não tinham sido atingidos. Em seguida, estava aos berros, ordenando que abrissem fogo, consciente de que a torre do tanque de Williams já fora atingida por um tiro certeiro, abrindo um buraco do tamanho de uma lata de lixo na frente, as balas ricocheteando do lado de dentro...

Dezessete longos minutos depois, Mulligrew estava parado na parte traseira do caminhão alemão, olhando para os fragmentos fumegantes que sujavam a estrada e os campos ao redor. Dois dos Sherman e um dos Stuart tinham sido destruídos; um terceiro ficara seriamente avariado. Williams e todos os membros de sua equipe — com exceção de um — estavam mortos, assim como Smith, Jenkins e Pole. Rogers perdera uma perna e Lumpkin ficara cego de um olho. Os dois estavam felizes por ter escapado.

Os alemães mal haviam parado. Em vez de reposicionar-se, avançar e tentar subjugá-los com suas armas mais potentes, tentaram apenas passar por eles como se estivessem desesperados para não interromper a marcha. Quando os Sherman se espalharam para tentar atacá-los pelos flancos, não fizeram nenhum tipo de ajuste, continuando sua jornada para o sul, expondo as laterais e a traseira daquele monstruoso Jagdpanther, um tan­que que provavelmente teria acabado com o pelotão inteiro, se tivesse esperado que o atacassem.

Aquilo não fazia o menor sentido.

E depois, a maneira estranha como, quando a batalha começou a tornar-se favorável para os americanos, os alemães haviam cuidado do caminhão, todos ao seu redor como se estivessem decididos a protegê-lo nem que aquele pequeno Opel fosse o único veículo a sair inteiro daquele confronto.

—        Vamos ver a causa disso tudo — disse Mulligrew.

Tom Morris, o motorista de Mulligrew, soltou o trinco da carrocería. Seu rosto estava pálido e os olhos estavam arregalados por causa do choque e da estranheza causados pela batalha.

Mulligrew subiu na carrocería, passando pelo jovem alemão que tentou impedi-lo com uma pistola, até que eles perfuraram o caminhão com tiros de calibre .30. Lá dentro havia um enorme caixote, marcado com a águia alemã e a suástica. Ele pegou um pé-de-cabra da lateral de seu tanque, golpeou a tampa e colocou seu peso sobre ela, até que rachasse. Depois, abriu-a e ficou imóvel, olhando em silêncio.

Que diabos?

—        O que tem aí, Andrew? — perguntou Morris. — O que está vendo?

—        Não sei — respondeu Mulligrew, com a voz entrecortada de espanto e medo. — Não sei. Uma coisa muito estranha.

—        O que é?

— É melhor chamar os PMs — disse Mulligrew. — Agora mesmo.

Mesmo fazendo isso, e apesar de toda a carnificina que tinham acabado de enfrentar e da dor que se seguiu ao horror inicial, Mulligrew nunca se afastou da carroceria do caminhão. Ele ainda estava lá, olhando como que enfeitiçado, quando as ambulâncias chegaram para levar os corpos.

 

 

 

 

                                     CAPÍTULO 1

 

         O Dia de Hoje

O homem alto e corpulento estava encostado à parede, seu peso considerável apoiado sobre o pé que ele, displicentemente, encostara contra o batente da porta.

Você é uma garota extraordinária, sabe, srta. Miller? disse, de maneira arrastada, os olhos coleando em seu rosto suíno e a língua mostrando-se, úmida, por entre os lábios grossos e entreabertos.

Eu sei disse Deborah. Ela tinha um metro e oitenta e quatro e parecia um esqueleto coberto de pele. Raramente era elogiada por sua aparência. Nunca fora considerada bonita. Extraordinária, já ouvira muitas vezes. Tempos atrás, talvez tivesse se sentido lisonjeada. Muito tempo atrás. Esta noite, depois de várias semanas de planejamento e muitas horas extras de sorrisos forçados e conversa tolerante, ela se sentia muito cansada para ser educada, mesmo com Harvey Webster, membro proeminente da Liga Cristã dos Executivos de Atlanta e diretor do conselho financeiro do museu. Passava da meia-noite e ela queria ir para casa.

Verdadeiramente extraordinária ele repetiu, estendendo as mãos espalmadas em direção aos quadris dela. Ele tinha o formato de um sapo, sua pele parecia estufar e encolher ao mesmo tempo, como um balão com água pela metade, escorregando de um lado para o outro.

—        Sr. Webster ela disse, olhando para a mão cheia de manchas escuras que escorregava na direção dela. Não acho que isso seria aconselhável.

Além disso, pensou ela, se você puser as mãos em mim, é bem provável que eu vomite.

As mãos dele hesitaram. Em seguida, como se ele tivesse decidido entender a recusa dela simplesmente como timidez, retomou seu intento. Ela recuou.

—        Sr. Webster ela disse, com um sorriso um pouco mais aborrecido. Por favor. Ele mudou de tática, o olhar de soslaio transformando-se em um sorriso; mãos levadas acima, em sinal de rendição.

—        Longe de mim querer ofender ele disse, o sorriso tornando-se mais largo que a passagem da porta que ainda bloqueava. Eu queria apenas que você me levasse para um tour, porque, como sabe, todos já foram embora.

O sorriso ficou paralisado por um segundo, e Deborah percebeu a maquinação por trás dele. Agora, ele deixara de ser astuto e, para um homem de 65 anos, transpirava a presunção de um estudante trapaceiro. Presunção e, pensou ela, um toque de ameaça.

—        Um tour particular acrescentou ele, com um sorriso afetado para não deixar dúvidas sobre suas intenções.

Ele se comportara assim a noite toda; na verdade, ele sempre agia assim, especialmente depois de alguns drinques. Ela se considerava uma pessoa razoavelmente tolerante, mas sua paciência estava chegando ao fim.

—        Um outro dia, sr. Webster ela disse. Durante o dia e quando eu tiver tido a chance de comprar um bom cassetete de choque.

Ela sorriu para mostrar que estava brincando, mas não conseguiu evitar mostrar um pouco dos dentes.

A senhorita é muito bocuda, srta. Miller ele disse.

Obrigada ela disse, aceitando o fato de que, naquela noite, não poderia sair vencedora —, apesar de eu não ser bocuda.

Ele suspirou e levantou as mãos pastosas, em rendição jocosa.

Tudo bem ele disse, voltando a sorrir. Estou indo embora.

Dirija com cuidado ela disse, encolhendo-se um pouco enquanto ele fazia uma última tentativa de abraçá-la.

Devo voltar no final da semana para falar com Richard. Então... até lá.

Ele saiu pela porta de vidro, ainda olhando para ela como se estivesse esperando que ela mudasse de idéia e o convidasse a voltar.

—        Boa noite, sr. Webster ela disse, pensando consigo mesma: Seu velho bêbado e nojento.

 

Apesar de achar que ter forçado o velho a se retirar poderia ter um preço talvez maior do que pudesse imaginar, ela sentiu uma onda de alívio enquanto caminhava pela escuridão. Webster controlava a parte financeira do museu e tinha muita influência sobre os negociantes locais. Pelo menos sobre a geração mais velha que atuava na área. A Liga Cristã dos Executivos de Atlanta não impedia abertamente o ingresso de membros negros, mas era bastante sugestivo que uma organização daquele tipo não tivesse nenhum negro em seus quadros especialmente em uma cidade como Atlanta. Deborah havia tentado comparar a presença da Liga no museu com organizações do gênero com sócios mais diversificados, o que não evitou que se sentisse desconfortável toda vez que recebia seu pagamento. Talvez ela pudesse incorporar um grupo judeu de negócios, pensou, sentindo-se também desconfortável, como se estivesse dilapidando sua herança, uma herança que fazia o melhor possível para desprezar de todas as maneiras. Por que arriscar expor a si mesma e o museu ao anti-semitismo quando grande parte de seu lado judeu não passava de história antiga?

Ah, por favor, ela ouviu seu pensamento. É provável que Webster nem saiba que você é judia.

Deborah verificou se as portas do museu estavam trancadas e caminhou rapidamente pelo saguão, por entre o esqueleto do T. Rex e a feia proa do galeão que Richard apresentara ao público no mês anterior, como se anunciasse que o Natal chegaria mais cedo. Era uma mulher semidespida fundida ao pescoço de um dragão. Dava a impressão que ela se sentiria muito mais à vontade se estivesse pintada com pistola de ar comprimido no tanque de gasolina de uma Harley do que adornando a proa de um valioso galeão renascentista espanhol, mas Richard considerava aquilo uma mistura maravilhosamente engraçada de história e arte kitsch. Deborah olhou para o rosto inexpressivo e as curvas excessivas da mulher e, depois, para a parte em que se transformava em um réptil cheio de escamas, a postura sensual se transformando sem muita surpresa em uma serpente do Éden.

Ela analisou a enorme figura serpenteante do século XVII, com seios em forma de faróis, e deu um sorriso cansado e cheio de autocensura.

Richard ela disse, em voz alta. Eu amo você, mas seu senso de humor é simplesmente nojento.

Ela encolheu os ombros, soltou um suspiro e fez uma pausa para absorver o estrago feito no saguão do museu pelos funcionários do bufê. Eles haviam deixado quatro latas de lixo com pratos de papel que deveriam ter levado embora. No nicho semicircular onde, três horas antes, fizera a apresentação, ela encontrou copos para Martini de plástico, guardanapos sujos de restos de canapés e várias manchas pegajosas no chão encerado. Decidiu que pegaria no pé de Richard por ter contratado o bufê Elegância e Sabor, e não apenas por causa do gosto suspeito do foie gras, que mais parecia presuntada.

Richard Dixon era o fundador do museu, seu principal colecionador, maior fonte de investimento e conselheiro. Ele era seu patrão, mentor e amigo. Nos raros momentos em que era honesta o bastante consigo mesma para admitir, ele se tornava o mais próximo do que tivera como pai, desde que o seu falecera em função de problemas cardíacos quando ela tinha 13 anos.

Vinte anos atrás, quase na mesma data de hoje.

Algumas vezes, enquanto tentava arrastar o pequeno museu para o século XXI, negociando, no processo, com pessoas como Harvey Webster, Richard Dixon era a única coisa que lhe dava forças para continuar. De repente, ali sozinha, em pé no saguão do museu, diminuída pelo tamanho do T. Rex e iluminada apenas pela luz suave dos expositores dos novos índios Creek, ela perguntou-se por quanto tempo mais ele, Richard, teria forças para continuar.

E o que você faria se ele fosse embora?, pensou. Já faz 20 anos e você ainda não conseguiu superar a morte de seu pai. Talvez tenha passado, mas não superado. Não de verdade.

Ela repreendeu-se.

Você não devia beber em ocasiões como esta disse, em voz alta. Sempre fica muito melodramática.

Olhou ao redor, tentando ver se havia mais alguma coisa a ser feita. Seu passaporte ainda estava no cofre do escritório, onde estivera desde que enviara, por fax, as informações para os organizadores da exposição de antiguidades celtas (para o caso, imaginou ela, de estar planejando deixar o país com algumas peças de valor por baixo da blusa). Mas isso poderia esperar até amanhã. Até lá, não pretendia ir a lugar algum.

Deu uma olhada na correspondência, separando as contas dos catálo­gos de propaganda, os envelopes pessoais dos endereçados a Richard. Um terço foi para o lixo. Os envelopes com o nome dela poderiam esperar; os que tinham o nome de Richard também não pareciam ser tão urgentes. Um deles tinha, no canto, uma pequena máscara triangular: sem dúvida, uma carta de alguma companhia teatral local implorando alguma coisa. Richard recebia dúzias delas todas as semanas. A não ser pelas mais genéricas ou grosseiras, ele respondia a todas, freqüentemente incluindo doações insignificantes. Com seu costumeiro sorriso tolerante, Deborah colocou as cartas na bolsa e começou a trancar tudo. Cuidaria da corres­pondência na manhã seguinte.

Ligou o alarme, deu uma olhada rápida no estacionamento circundado por antigas magnólias do sul e preparou-se para enfrentar o calor da noite. Estavam em junho, em pleno verão de Atlanta, quando as noites podiam ser bem sufocantes. Ela encontrava-se na porta. Um mendigo estivera andando por ali nos últimos dias. Apesar de velho, tinha olhos vivazes e intensos e resmungava em uma língua que ela não entendia. No dia anterior, ele se esgueirara pelo estacionamento, deslizando entre os carros como um caranguejo enrolado, apesar do calor, em um sobretudo pesado. Com olhos fixos, ele a seguira de modo enervante.

Mas agora não havia sinal dele ou do Jaguar cuidadosamente polido de Webster, o que fez que ela saísse para a noite mormacenta soltando um enorme bocejo. Apesar da canseira e da irritação, até que fora uma boa noite.

Mas a sensação do envelhecimento de Richard permaneceu com ela enquanto dirigia para o sul, pela rodovia interestadual que passava pelo centro da cidade com suas torres de escritórios de vidro pós-modernas ainda iluminadas, vibrantes e novas como tudo em Atlanta que não estava em seu museu.

Quantos anos ele tinha? Uns 75, 76? Por aí. E estava ficando mais lento. Essa lentidão, aliás, fora uma das razões pelas quais a trouxera para trabalhar com ele, para ajudá-la com a responsabilidade de colocar o museu nos trilhos enquanto ele, lentamente, se retirava para a residência anexa, tornando-se apenas um generoso benfeitor. Três anos antes, a idéia parecia estar bem distante, mas não havia como evitar a velocidade com que esse dia se aproximava. Nunca haviam falado abertamente sobre o assunto, mas ele se interpunha entre ambos como uma sombra. Talvez o problema fosse que ele estivesse perdendo o brilho. Sim, era isso. E depois...?

Seu museu.

Isso logo se tornaria realidade. De certo modo, já era. Mas a idéia a deprimia.

Uma irritante salva de notas eletrônicas afastou Deborah de seus pensamentos desagradáveis. Seu celular. Richard achara divertido progra­mar secretamente o celular dela para tocar ao som de "La Cucaracha". Ela precisava reprogramá-lo, ou pedir que ele o fizesse. O pensamento atenuou sua irritação e fez que se lembrasse que ele costumava ligar em noites como esta, quando achava que estaria livre. Ele se retirara havia mais de uma hora, fazendo comentários vagos sobre o cansaço de um velho senhor, seguido de uma piscada furtiva para Deborah enquanto a abandonava com Webster e seus capangas. Ela precisaria dele para cuidar daquilo também.

Sim? atendeu rapidamente, pronta a despejar seu penetrante sarcasmo sobre o velho.

Deborah?

Não era Richard. De jeito nenhum.

Olá, mãe disse Deborah, sentindo seu coração encolher um pouco. Ela amava a mãe, mas havia ocasiões...

Saímos com os Lowenstein disse sua mãe, como se Deborah tivesse perguntado. Fazia mais de duas semanas que eles não apareciam. Você se lembra dos Lowenstein? ela perguntou, enfatizando as palavras de modo áspero, como se Deborah fosse um pouco surda. De Cambridge? Enfim, agora eles estão morando em Long Island, mas vieram a Atlanta, em visita. Saímos para jantar e quase tive um ataque do coração quando cheguei em casa e ouvi o recado da minha filha mais velha. O primeiro em... quanto tempo... um mês?

Não faz tanto tempo assim.

Quase.

É verdade, sinto muito, mãe disse Deborah, sentindo uma pontada de dor de cabeça. Ela se sentia impotente para estancar a dor, assim como se sentia impotente para evitar tantas coisas relacionadas à sua mãe. Ela nunca deveria ter ligado.

Deborah fora tomada por um impulso incontrolável de dividir o sucesso de sua noite com alguém qualquer um —, mas agora, apenas uma hora depois, parecia ter sido uma péssima idéia.

A mãe de Deborah fora uma enfermeira de meio período, cuja maior realização na vida, ela se orgulhava em dizer, fora casar-se com o pai de Deborah, médico especialista em doenças internas. Assim que soube que estava grávida de Deborah, abandonara o trabalho, para retomá-lo apenas depois que a morte do marido a tornara responsável pelo pagamento de suas próprias contas. Enquanto Deborah era adolescente, sua mãe passara quase dois anos entrando e saindo do hospital numa espécie de atordoa­mento indignado, como se fosse uma rainha da beleza da qual tiraram a coroa por ter burlado o regulamento. Deborah idolatrara o pai apesar de e talvez por causa de suas freqüentes ausências e, por ser dada aos livros, ressentia-se das tentativas da mãe de embelezá-la. E lembrava-se com verdadeiro horror do que sentira quando, magricela, sem graça e infantil, chegou aos 15 anos com um metro e oitenta e com perspectiva de crescer ainda mais.

—        Então, Debbie, qual é sua grande notícia? Liguei assim que ouvi sua mensagem. Parecia que você tinha boas novas.

Ninguém no mundo, além da mãe, a chamava de Debbie. Aquela era uma das maneiras que ela insistia em ignorar a personalidade da filha.

Ah, você sabe disse Deborah, fechando os olhos, e dando um passo para trás. Coisas de trabalho. Eu tive um bom dia.

Isso é ótimo, querida disse a mãe, mal fazendo uma pausa para respirar. Conte alguma coisa mais. Hoje de manhã falei com a Rachel, mas ela também não tem falado com você.

Rachel, a boa filha, que tem o corpo de uma ginasta e que como eterno presente para a mãe mora com o marido e a cria a menos de três quarteirões da casa da rua Brookline, onde nasceu...

Não, não tenho falado com ela ultimamente. Mas está tudo bem no trabalho.

Trabalho? Você trabalha muito. Igual a seu pai. Mesmo assim, eu costumava vê-lo.

Você é sempre bem-vinda — disse Deborah.

Aí?

Não estou em Calcutá — disse Deborah. — São apenas duas horas de avião.

Como você ainda se lembra? — ela perguntou, em tom de superiori­dade, como sempre.

—        Muito engraçado, mãe.

—        Então, quais são as novidades, além do trabalho? Você se casou em segredo, ou algo assim?

Ali estava: o escárnio amigável capaz de matar bandos de pássaros com uma pedra altamente polida. Esse era o maior talento de sua mãe. Ela podia espetar uma dúzia de feridas doloridas com um comentário, como se estivesse enfiando pedaços de carneiro em um espeto de kebab. Nesse caso, o comentário, tão ágil e fugaz que chegou a parecer casual, queria dizer:

 

  1. Você trabalha demais e seu trabalho, convenhamos, não vale a pena ou o esforço.
  2. Você não tem um homem em sua vida. Como sempre.
  3. O que você faz melhor é esconder as coisas de sua família.
  4. É claro que, tratando-se de você, casar-se sem avisar a família seria normal. Afinal de contas, você deu as costas à sua família, à sua cidade, à sua herança cultural e a tudo o que valorizamos quando resolveu ir, pela primeira vez, a essa Sodoma cheia de gentis...

 

Seria bom lembrar, mãe, ela pensou, que papai já está morto há 20 anos.

—        Não, mãe — ela disse, tentando, apesar de tudo, sorrir. — No momento, não tem nada de novo acontecendo na minha vida.

 

Ela ainda estava pensando em algumas espetadelas de sua autoria que deveria ter usado quando o celular tocou seu tom esquisito.

Mãe — ela começou. — Estou dirigindo. Posso ligar quando...

Ela ainda está aí?

Ela já tinha aberto a boca para responder quando percebeu que aquela voz não lhe era familiar.

O quê? — perguntou ela. — Quem está falando?

Onde você está?

Eu perguntei quem está falando — ela repetiu.

Eles o pegaram? Onde você está?

Ele estava gritando. E havia alguma coisa estranha na entonação daquela voz. Um sotaque? Britânico? Australiano? Alguma coisa do tipo.

—        Sinto muito disse Deborah, com polidez fria. Acho que você ligou para o número errado. Tente ligar novamente. E comece a conversa perguntando pela pessoa com a qual deseja gritar.

—        Ouça bem, sua mulher idiota! Você precisa voltar... Deborah desligou o celular.

 

 

                           CAPÍTULO 2

 

A rodovia interestadual estava silenciosa. Em menos de dez minutos, ela pegou a saída para a Tenth Street em direção ao Piedmont. En­quanto dirigia, fechando compartimento por compartimento como se estivesse deslizando as chaves em um painel de fusíveis, preparava-se mentalmente para cair na cama. Quando finalmente estacionou na faixa de pedriscos reservada aos moradores do condomínio Bay Court, estava no piloto automático. Sair do carro. Trancar o carro. Chaves da casa. Caixa de correspondência. Porta do apartamento. Entrar em casa.

A luz da secretária eletrônica sacudiu-a, trazendo-a de volta à reali­dade. Piscava em vermelho, forçando-a a acordar. Como durante o evento verificara os recados pelo celular, qualquer chamado teria de ter sido feito durante esta última hora. Richard? Ela franziu o cenho, apertou o botão e caminhou até o banheiro para pegar sua escova de dentes.

—        Você está em casa? perguntou a máquina.

Deborah parou, suspensa no silêncio inesperado, e sentiu a nuca arrepiar-se, tornando-se viva. De novo aquela voz. O britânico. Novamente, número errado.

Mas isso é muito estranho, não é? Da última vez, ele ligou para o celular.

É verdade.

—        Se você estiver aí, atenda o telefone.

Meio paralisada, ela ouvia a voz ansiosa. Outra longa pausa, o ruído do telefone colocado no receptor e o sinal de discar. A máquina apitou, rebo-binou e caiu no silêncio. Deborah ficou ali, parada, olhando para ela. Algu­ma coisa naquela voz a incomodava. Não sabia se era o sotaque, a determinação ou o fato de não ter se identificado.

Mas Deborah Miller não era de se assustar facilmente. Pelo menos, foi isso o que disse a si mesma. Desviou o pensamento da mesma maneira que fizera com as desajeitadas tentativas de avanço de Harvey Webster e começou a preparar-se para ir para a cama. No dia seguinte, teria um dia cheio. Enquanto apagava a luz do abajur da mesa de cabeceira e se aninhava sob as cobertas, a parte que se mantinha consciente em seu cérebro pensou em tudo o que teria de fazer. Ainda bem que tinha deixado o ar-condicionado ligado.

Richard iria pessoalmente atrás das promessas conseguidas. En­quanto isso, ela falaria com o Atlanta Journal-Constitution e começaria a rascunhar seus planos para a organização da exposição celta. Teria de ligar para o bufê e negociar um desconto, já que cuidara da maior parte da limpeza sozinha. Além disso, bem cedo, pela manhã, teria de lidar com o mau humor de Tonya, a nova faxineira do museu. Negociar com o pessoal incompetente do bufê seria fichinha comparado com a conversa que precisaria ter com a competente Tonya. Apesar de distante, ela era vigilante, cheia de energia e não tão defensiva quanto podia ser... sar­cástica. Uma qualidade peculiar para uma faxineira de meia-idade. Deborah suspeitava, sem saber exatamente como, que a atitude de Tonya, ou a reação desconfortável que sentia frente a ela, estava relacionada ao fato de Tonya também ser inteligente, educada e negra. Enfim, explicar o motivo por que todos aqueles figurões (aqueles caras brancos) conse­guiram fazer toda aquela sujeira no chão imaculadamente limpo e encerado do saguão seria mais ou menos como desarmar um artefato explosivo.

Sorriu ao pensar que, depois, teria de trabalhar na organização da exposição celta: quatro séculos de cruzes irlando-escocesas, manuscritos iluminados e jóias. Dois anos antes, eles nunca teriam emprestado as peças. Ao cair no sono, ainda sorria.

 

O tinir inesperado da campainha do telefone acordou-a como uma sirene. Confusa e ofegante, ela voltou à superfície. Por um segundo, pensou que fosse a campainha da porta da frente e, antes de poder articular-se, já praticamente saíra da cama. Estava escuro, e o rádio-relógio ao lado da cama lhe informou que eram quase três da madrugada. Se estivesse acordada, teria deixado tocar, certa de tratar-se de engano, mas, bêbada de sono, atendeu sem pensar.

Alô?

Por que você não está no museu? Você precisa voltar para lá.

—        O quê? por um segundo, ela sentiu-se perdida; depois, conseguiu se lembrar. A mesma voz. Quem está falando?

—Você precisa voltar! ele disse, novamente, com a mesma ansiedade e frustração de antes. Você não pode deixar que eles o levem!

Levem o quê?

O corpo!

— Se você me ligar de novo, em qualquer dos números, chamo a polícia. Entendeu? — ela disse.

Com o indicador, ela apertou a lingüeta do aparelho e ficou deitada no escuro, segurando o telefone e olhando para o teto, esperando que a agitação passasse.

Corpo?

Que corpo?

Ela deve ter ficado assim, sem se mover, por uns seis minutos, olhando os números rolarem no mostrador iluminado do rádio-relógio, sem conseguir pegar no sono. Na verdade, era como se todos os seus circuitos voltassem a ser ligados e seu corpo fosse percorrido por uma onda de ener­gia, acendendo luzes, ligando utensílios domésticos de maneira que sua cabeça ficasse cheia de barulhos e carga elétrica. Ela podia sentir o cheiro de relâmpago na noite.

Corpo?

Deborah levantou-se, vestiu-se e pegou as chaves do carro.

 

 

                                   CAPÍTULO 3

 

O museu estava escuro e o estacionamento, deserto. O que era de esperar às três e meia da madrugada. E ela estava sendo uma idiota. Deveria estar em casa, na cama. Destrancou a porta da frente e verificou o painel de alarme. Não havia disparado. Ninguém tentara entrar, e o saguão estava exatamente como ela deixara.

Mas o alarme não disparara com ela, como sempre fazia todas as ma­nhãs quando ela chegava. O que significava que não fora ativado. Ela olhou com mais atenção. Mesmo bastante cansada depois do evento, com certeza se lembrara de ativar o alarme... Rapidamente, alcançou os interruptores ao lado da porta, acendendo todos ao mesmo tempo.

Nada. O saguão, com seu esqueleto de dinossauro, seus balcões de informação e exposições temporárias, brilhou na iluminação mortiça das luzes de emergência. Nada. Os sussurros abafados de inquietação que a haviam impedido de voltar a dormir depois do telefonema afloraram subitamente e voltaram a diminuir, em volume um pouco mais elevado do que antes. Alguma coisa estava errada.

Deborah tirou o celular do bolso e o ligou. O saguão ficava no centro do museu; o prédio fora construído como metade de uma roda de carroça, com cada raio tendo origem ali e levando os visitantes às galerias de expo­sições até o amplo corredor perimetral, ladeado por animais e pássaros empalhados que conectavam o prédio em um enorme arco semicircular. Com passos rápidos, atravessou o saguão, passou pelos expositores dos índios Creek e pegou um dos "aros" em direção ao corredor.

Estava bastante escuro. As luzes de emergência eram menos freqüentes e os expositores (fósseis locais, mapas dos períodos jurássico e cretáceo, um esqueleto quase completo de velociráptor ao lado de uma série de modelos em tamanho natural do animal em seu ninho) estavam todos completamente escuros enormes painéis de vidro transparente, como as paredes de um grande aquário. A idéia (formas despercebidas nadando atrás dos painéis) a incomodava; por isso, passou por ali rapidamente. Apesar de ainda não ter encontrado nenhum sinal de desordem, sentia um gosto metálico na boca, como se alguma glândula primordial em seu tronco cerebral tivesse ativado um alarme milenar. Caminhou mais depressa, enquanto discava o número da casa de Richard.

Sinal de chamar. Ela preparou-se para ouvir o tom de surpresa na voz dele e, quando isso não aconteceu, começou a correr com o celular grudado na orelha. No final do corredor, fez uma pausa.

Esqueça a escuridão e continue caminhando. Não olhe para os expositores.

O corredor perimetral, com seus animais e pássaros empalhados retirados da galeria pré-histórica, era sua seção favorita do museu. Mortos e vitorianos como eram, aqueles espécimes expressavam exatamente o espírito de um museu. Tinham um cheiro diferente, como bolas de naftalina e formol, e eram muito mais antigos que o velociráptor: mofados e pedantes, uma versão do aprendizado construída por pessoas que, com suas espingardas, matavam aves em pleno vôo para depois, debruçados sobre seus corpos mal-empalhados, poder ruminar sobre seus nomes em latim. Ela chamava a isso de Lógica do Colecionador de Borboletas. Aqui está uma coisa bonita: vamos matá-la para que todos possam ver o quanto ela era bela. Algum dia, dissera a Richard, substituiria tudo; quando tivessem alguma coisa para pôr no lugar. Ele apenas sorrira e dissera o que sempre dizia:

—        Desde que você não transforme meu museu em um parque de diversões temático...

É claro que o conselho administrativo queria o maior número possível de visitas.

—        Se você insistir em fingir que isto não é um museu, algum dia ele deixará de ser? ele costumava dizer. Use seus sinos e apitos para atraí-los até a porta, mas dê-lhes alguma coisa com a qual possam aprender, alguma coisa que carregarão para o resto de suas vidas...

O telefone dele continuava a tocar.

Deborah voltou a caminhar. Ela nunca dissera a Richard que, na verdade, além de ofendê-la como curadora do museu, a coleção de animais empalhados a amedrontava. Na iluminação esverdeada e mortiça das lâm­padas de teto, ela sentia a presença dos corpos mofados de animais mortos havia muito tempo, como as górgonas na sombra de uma catedral: mortas mas, de alguma maneira, observadoras e alertas. Caminhou um pouco mais rápido, subitamente consciente de que o corredor curvo tornava-se um pouco mais iluminado.

Primeiro, ela sentiu alívio; depois, dúvida e pânico crescentes. Havia apenas uma lâmpada acima do corredor, e sua luminosidade, filtrando-se para chegar até a galeria àquela hora, não poderia significar coisa boa. Ela começou a correr, passando pelos leões mofados e altivos, com duros olhos amarelados e dentes à mostra, pelas gaivotas com suas crias congeladas, pelo imenso negror do búfalo com cabeça abaixada e chifres abertos. Começou então a murmurar, ofegante, enquanto, a cada passo, o surreal toque de luz esverdeada tornava-se mais fraco.

—        Não. Não. Não.

E então a porta entre os imóveis pingüins e as focas ali estava, escan­carada, sua luz esparramando-se pelo corredor, a única porta desse final de prédio. Ao ver a abertura, ela tomou consciência de que também podia ouvir um som, distante e regular: uma campainha. Percebendo o que era, ela desligou o celular. O ruído parou.

Richard vivia aqui, ou no prédio anexo, pelo menos desde que o museu fora fundado. Na verdade, apesar de todos acreditarem no contrário, a casa de Richard existia no terreno desde antes da construção do museu, que fora construído 35 anos antes, por ordem dele, como um presente para a cidade. Durante quase duas décadas, ele administrara o museu, mas sua fortuna e seu entusiasmo igualmente consideráveis não haviam sido sufi­cientes. Nos últimos anos, ele entregara as rédeas da fundação a uma série de curadores treinados. Deborah era a terceira, a de quem ele mais gostava, em quem confiava e aquela que talvez amasse como a uma filha.

O corpo.

Com o coração aos pulos, Deborah cruzou o batente da porta que isolava o mundo particular de Richard do museu, a porta que ele guardava como um pit bull idoso, a porta que ele nunca - sob qualquer circunstância? Deixava aberta.

—        Richard! - ela chamou.

Passou pela sala de visitas, a cozinha, a biblioteca e a sala de jantar. Nada. Correu, ainda gritando, até a espaçosa escadaria central, com seu longo corrimão de mogno cheio de curvas suaves. Foi até o estúdio. Nada. O quarto de hóspedes, o banheiro do corredor, o quarto que ele pretendia transformar em biblioteca, mas que estava cheio de restos e lembranças de sua vida de casado. Sua esposa morrera havia nove anos, mas Deborah duvidava que ele tivesse jogado fora qualquer de seus pertences. Verificou a sala de estar do andar de cima, na qual nunca estivera, e um tipo de copa servida por um elevador de serviço que Tonya usava para trazer-lhe as refeições quando ele não estava se sentindo muito bem - o que, ultimamente, acontecia com freqüência. Parou apenas quando chegou à porta do quarto de dormir.

As portas eram grandes e duplas, revestidas com pesados painéis de carvalho. Usando os nódulos dos dedos, ela bateu com força, insistentemente.

Richard - ela chamou. - Sou eu. Se você não abrir a porta, vou entrar.

Sua voz parecia calma. Talvez mais alta do que normalmente, mas não esganiçada nem externando pânico.

Ela girou a maçaneta. A porta abriu-se.

 

 

                                 CAPÍTULO 4

 

O quarto estava vazio e a cama, arrumada. Nem sinal de Richard. Ela verificou o banheiro e voltou ao patamar, chamando por ele. Pela primeira vez, desde que aceitara o trabalho, invadia seu santuário privado; esgueirar-se sorrateiramente não lhe pareceu apropriado.

Ficou algum tempo parada no patamar e, em, seguida voltou ao quarto, completamente perdida. Não havia nem sinal dele.

Considerando o que você sentira medo de encontrar, ela pensou, deveria sentir-se aliviada por não ter encontrado nada. Mas ela não conseguiu sentir alívio.

Sentou-se no duro colchão da cama e olhou ao redor do quarto. Graças a Tonya, o local estava imaculado, como sempre. Na mesa de cabeceira, ao lado do telefone, havia um bloco de papel no qual Richard rabiscara alguma coisa com sua letra cheia de volteios. Tudo estava limpo e organizado, a mobília cuidadosamente arranjada, a enorme estante de livros contra a pa­rede perfeitamente alinhada e sem resquícios de poeira.

Deborah mordeu o lábio e inclinou-se para ler o que estava escrito no bloco sobre a mesinha. Havia apenas uma palavra, circulada várias vezes e marcada com uma seqüência de interrogações.

Atreu???

Deborah olhou para a palavra e sentiu um tênue tilintar de memória, uma memória literária que, em seguida, ela afugentou. Onde diabos estará ele?

Apoiou a cabeça nas mãos e reparou alguma coisa no chão, meio escondida pela enormidade da colcha, como se, acidentalmente, tivesse sido chutada para baixo da cama. Deborah abaixou-se e pegou o objeto. Era um fragmento de cerâmica, bastante côncavo, como se fizesse parte de um jarro redondo. E era pintada. Sobre um suave fundo azul-turquesa, havia o fragmento do perfil de uma mulher, o olho grande e amendoado, os cabelos de cachos negros. Parecia um mosaico ou esboço cheio de graça, apesar de negligente, quase irreverente. Ela segurou o fragmento na luz e esfregou sua superfície com os dedos, sentindo a certeza súbita de que não se tratava apenas de um pedaço de louça quebrada. Aquilo era muito antigo.

Ela tinha quase certeza de não haver nada parecido com aquele fragmento em nenhum período da história americana. Ele lhe parecia familiar, mas familiar apenas no sentido de que ela poderia ter visto cerâmica comparável, não idêntica. Egito antigo? Não, a imagem era muito viva, o rosto muito coquete. Poderia ser tão antigo quanto, mas ela não tinha certeza. Mesopotâmia? Assíria? Não. De qualquer maneira, se fosse realmente antigo, o que estaria fazendo ali? O museu não possuía nenhum tipo de antiguidade clássica. Ela olhou novamente, com atenção. Grego, talvez?

A palavra no bloco de anotações, circulada e marcada com pontos de interrogação, voltou à sua mente: Atreu.

Aquilo também era grego.

Na mitologia grega, Atreu fora um dos descendentes de Tântalo, certo? Seu irmão... Havia qualquer coisa relacionada a esse irmão, ou aos filhos dele... Ela não se lembrava. Deborah foi até a estante da parede ao sul do quarto e olhou para as lombadas dos livros. Talvez encontrasse alguma coisa sobre mitologia grega.

Ali estava. Na verdade, enquanto olhava as estantes, ela deixou escapar um assobio de assombro. Cada um dos livros do acervo de aproximadamente 400 volumes estava, de algum modo, relacionado com a Grécia antiga: mitologia, história, arqueologia, política, poesia, cultura, arte, filosofia. Ela puxou um pesado volume, cujo título era Enciclopédia da Grécia Antiga, e procurou o verbete Atreu. Começou a ler distraidamente, sem saber exatamente o que fazia, o que procurava.

Richard. Você está procurando por ele.

Não era de admirar que ela se lembrasse do nome. Atreu fora um rei da dinastia de Micenas, a grande cidadela grega da Idade do Bronze de cujos portões com leões esculpidos Agamenon, de acordo com a lenda, liderara o exército que sitiara Tróia durante dez anos. Fora sua casa amaldiçoada que transformara suas gerações em feudos sangrentos, se­parando irmãos, crianças e esposas, perpetrando as mais terríveis vingan­ças em atos estarrecedores demais para poderem ser verbalizados: fratricídio, patricídio, matricídio, sacrifícios humanos, incesto, canibalis­mo. Deborah fechou o livro e olhou fixamente para o pedaço de cerâmica que segurava, enquanto fragmentos de memórias sobre história da Idade do Bronze e arqueologia emergiam, vinham à tona, completando o quebra-cabeça e reescrevendo a apavorante mitologia. Não havia mais dúvidas. O perfil pintado na cerâmica era grego. Micênico, para ser mais exato. Mas onde estaria o resto dele? Qual seria sua relação com o antigo nome mitológico?

Richard havia desaparecido. Aquela não era a melhor hora para se preocupar com enigmas antigos e charadas arqueológicas... A não ser que houvesse alguma ligação.

Ela abaixou-se para ler com mais facilidade os títulos da estante infe­rior e, enquanto estava ali, reparou em uma mancha vermelha no carpete. Colocou o dedo sobre ela e, ao retirá-lo, sentiu-o pegajoso. Antes de sentir o cheiro, sabia que era sangue.

 

 

                                 CAPÍTULO 5

 

Quando, com o coração disparado, abaixou-se ainda mais, seu rosto a apenas alguns centímetros da mancha vermelha, Deborah pôde ver que o carpete estava pisado, formando uma estreita trilha, como se alguma coisa tivesse sido arrastada sobre ele. Não, arrastada não: rolada. Algu­ma coisa pesada rolara sobre ele. Mesmo que a mancha de sangue não tivesse se espalhado, ela percebeu que havia uma estreita marca de alguma coisa mais nas fibras achatadas, alguma coisa meio marrom e viscosa: graxa.

Ela voltou à mancha vermelha. Em alguma parte de seu ser profundo, vazio e desesperançado, ela sabia que se tratava do sangue de Richard.

Tentou concentrar-se para manter sob controle as implicações do que estava vendo. Retomou seu pensamento anterior. Alguma coisa rolara até a estante? Não, a graxa não fora levada até a estante, fora trazida de lá. No centro do quarto, a marca desaparecia. Na direção oposta, encaminhava-se direto para a parede, ou melhor, para a estante encostada na parede. Então, alguma coisa rolara pela parede, o que era impossível, a não ser...

Deborah levantou-se e começou a passar as mãos sobre as estantes, fazendo um esforço mental para manter a calma.

Não encontrou nada. Começou a empurrar os livros, mas, indiferentes, eles escorregavam para o fundo da estante. Havia centenas deles.

Pare, ela disse a si mesma. Pense. Se algum desses livros é... Qual deles seria?

Atreu. Micenas.

Alguma coisa relacionada à velha obsessão de Richard pela Guerra de Tróia? Ele adorava contar-lhe que as lendas homéricas, histórias de deuses e heróis, foram baseadas em eventos reais. Seu entusiasmo infantil era contagiante, mesmo que não se pudesse confiar totalmente em sua ciência arqueológica.

Richard não era arqueólogo. Era, sim, um entusiasta e, sendo menos gentil, um diletante. Ele não queria que a história social se desligasse da arqueologia; queria que as lendas e todos aqueles contos juvenis de aventura e glória fossem verdadeiros. Não queria ler livros de arqueologia para ficar sabendo de novos princípios ou fatos revelados pela ciência. Lia sobre arqueologia para provar a veracidade daquilo em que acreditava. Ele era como Yigael Yadin, percorrendo a região de Negev e do Monte Sinai, empunhando uma espada em uma das mãos e uma cópia do Velho Testamento na outra. Sabia em que acreditava e queria que a arqueologia confirmasse suas crenças. Era como Schliemann, que escavou Micenas e Tróia para provar que o que Homero escreveu sobre Agamenon e Helena, Aquiles e Heitor, Ajax e Odisseu não eram lendas poéticas e sim fatos documentados.

Deborah afastou-se das estantes e percorreu as lombadas com os olhos.

No canto da direita, na quarta estante de baixo para cima, havia um volume preto e pesado, encadernado em couro e gravado a ouro. A Ilíada, de Homero. O maior de todos os relatos sobre a Guerra de Tróia.

Ela estendeu a mão para pegá-lo, puxou-o, sentiu que estava preso, forçou-o um pouco para trás e parou. Lentamente, a estante girou na dire­ção dela.

Deborah ficou olhando. O espaço atrás da estante era grande, um pouco maior do que a metade do quarto, e seus olhos demoraram um pouco para reconhecer o interior. Sua mente demorou bem mais para entender o que via.

A escuridão momentânea atrás da estante transformava-se em um brilho suave que emanava dos objetos dispostos na parede e de um único raio de luz que vinha do meio do teto abobadado, desenhando um quadrado alongado e pálido sobre o piso. Era ali, bem ao lado de um interruptor recuado, que a trilha de sangue começava.

Devagar, ela deixou-se cair sobre os joelhos enquanto sentia o medo que carregara como um fardo pesado se transformar em uma outra coisa, uma esmagadora onda de desespero que esvaziava seu coração e sua mente.

Richard estava deitado de costas, com os braços abertos, como se tivesse sido crucificado. Uma das mãos estava aberta, e a outra, fechada. Tinha o peito à mostra. Seu corpo era magro e seus membros, espigados, frágeis. Parecia impressionantemente velho, e a translucidez azulada de sua pele dava um aspecto ainda mais terrível aos ferimentos profundos em seu peito e abdômen. Com a graça de Deus, os olhos dele estavam fechados.

Deborah pegou a mão dele, fria e aberta, e a trouxe até os lábios. Com os olhos bem fechados, o ar esvaindo-se de seu peito, começou a soluçar.

 

 

                           CAPÍTULO 6

 

Deborah não fazia a menor idéia do tempo que ficara sentada ali. Na verdade, estivera agachada, meio ajoelhada, como a suplicar em frente de um altar. Durante sete noites, ela se ajoelhara daquela maneira ao lado de sua cama, depois do velório prolongado do pai, repassando mentalmente as palavras do Cadish, que prometera vida e continuidade, e um Deus justo e cheio de amor que ela não conseguia mais ver, e não vira mais desde então. As duas mortes eram completamente diferentes, mas era como se os 20 anos que as separavam tivessem desaparecido e ela tivesse voltado a ser a garotinha de 13 anos, correndo o olhar dos médicos para seus parentes e para o rabino que havia organizado a cerimônia fúnebre e com o qual nunca mais falara. Não se lembrava do aramaico do Cadish, mas a tradução para o inglês de uma das preces ditas ao lado da sepultura, tornara-se parte dela como um ferimento que jamais se cicatriza completamente. Um fragmento dela voltou-lhe à mente.

 

Oh, Deus, cheio de compaixão, Tu que habitas as alturas, conceda o descanso eterno sob o abrigo da Tua presença divina entre os santos e os puros que brilham como a luz do firmamento para a alma do meu amado que partiu para sua morada derradeira.

Deus todo-poderoso, abrigue-o eternamente sob as asas da Tua presença, permita que a alma dele receba a vida eterna e que as memórias da minha vida possam me inspirar a viver uma vida nobre e sagrada. Amém.

Doía tanto quanto antes, era amargo de uma maneira diferente do Campari que Richard tanto adorava e mais amargo ainda do que ela imaginava pudessem ser os venenos. Corrosivo como a cal.

Cheio de compaixão? Talvez fosse melhor pensar em insensível, caprichoso ou, talvez, simplesmente impassível.

Será que o Deus dos pais dela sequer notou o que acontecera esta noite? Será que Ele percebera?

Meu Deus, Richard, pensou ela. Perdão, eu deveria estar aqui.

Ela mal havia se movimentado desde que o encontrara. Respirava de maneira lenta e regular, praticamente sem movimentar o peito, como se estivesse tentando dividir a imobilidade e o silêncio dele. Seus olhos nada­vam, as lágrimas se avolumando silenciosamente para, finalmente, explodirem e escorrerem, caindo sobre o carpete como pesados pingos de uma chuva de verão.

Entrecortando seu silêncio angustiado, porém, impunha-se um grito insistente, uma voz oficial, como um policial abrindo caminho na multidão que se aglomera em um acidente de estrada; uma voz que impunha autoridade e ordem; uma voz que substituíra a emoção pela razão. A voz dizia que Richard havia sido assassinado e que aquele não era apenas um local de sofrimento, mas um local de horror e até mesmo de perigo e que ela precisava agir de modo apropriado.

Mas Deborah não era capaz de sair dali, não tinha forças para afastar-se dele e de seus ferimentos, os olhos embaçados de lágrimas.

Apesar de terem sangrado muito, os ferimentos não eram cortes, mas sim incisões um pouco maiores do que três centímetros, agora circun­dadas por uma crosta vermelha e ferrugem, com o centro ameaçadora­mente escuro. O peito estava manchado com fios de sangue escuro, mas a enorme poça sobre a qual estava deitado formara-se do sangue que vinha de suas costas. Será que ele fora atingido tão profundamente (seis ou sete vezes, dizia a voz consistente e voltada aos detalhes que normalmente ouvia nos funerais) que a lâmina perfurara o corpo, chegando às costas? Que tipo de arma faria tal coisa? Talvez uma faca muito grande, quase uma espada.

Além disso, havia na pele duas reentrâncias ao lado de cada cicatriz: dois pequenos hematomas, distantes mais ou menos três centímetros de cada ferimento...

Rapidamente, ela virou-se para o lado, invadida por uma náusea súbita que lhe deu vontade de vomitar sem que nada lhe viesse do estômago. Seus olhos, ainda cheios de lágrimas, pareciam estar desagradavelmente secos e ásperos. Ela apertou-os com força, massacrada pela idéia de que teria de lavar aqueles ferimentos, limpar o corpo...

Mas você não pode mexer no corpo, disse a voz, porque a polícia vai precisar fotografar as coisas exatamente como estão. Mais tarde, alguém se encarregará de lavá-lo.

— Ah, Richard. Ainda tínhamos tantas coisas a fazer! Tantas coisas a dizer!

Ela disse isso em voz alta, e, como se fosse uma resposta, o telefone tocou.

Por um longo momento, ela não olhou para o aparelho, mas depois sua mão começou a afastar-se de Richard e ela levou o telefone ao ouvido, seus movimentos ainda diminutos e silenciosos, a respiração lenta.

Sim? — ela disse.

Eles levaram o corpo?

A mesma voz. Deborah não respondeu. Seus olhos continuavam colados ao peito de Richard, àquele corpo agora sem vida.

—        Levaram?

Ela sentiu que parava de respirar. Ele voltou a falar, dessa vez de modo mais insistente. Com urgência.

Eles levaram o corpo?

Não — ela disse. Não conseguia entender por que lhe respondia.

Espere aí — ele disse. — Estou indo. O telefone foi desligado.

Enquanto as palavras se dissipavam, Deborah fixou o olhar no telefone que tinha na mão. De repente, toda a imobilidade que até então tomara conta dela desapareceu como uma onda de corrente elétrica. Rapidamente, colocou-se de pé, afastou-se do corpo e ligou para a polícia.

 

 

                           CAPÍTULO 7

 

Ele disse que iria até lá. Não explicou por que, o que queria ou quanto tempo levaria para chegar. Não disse quem era, como ficara sabendo do ocorrido no museu nem por que estava tão ansioso para saber se o corpo de Richard havia sido levado ou quem poderia tê-lo levado. Apesar disso, era óbvio que, seja lá quem fosse ou o que quisesse, ele estava, de alguma maneira, relacionado à morte de Richard Dixon. Foi o que ela disse à atendente da emergência, um chamado que funcionara como adrenalina em uma conversa que, até aquele ponto, fora apática e dúbia. Ela tinha certeza de que o homem estava morto?

—        Ele tem vários ferimentos no peito e no abdômen — ela disse. Seu... corpo está num tipo de sala secreta. Ele fez uma anotação sobre Atreu, o que me fez pensar em Tróia, então tentei tirar uma cópia da Ilíada da estante, que se abriu...

—        Mais devagar, querida disse a atendente.

Deborah começara de modo bastante metódico (múltiplos ferimentos a faca...), mas perdera o controle. Sua voz falhava e ela começava a gaguejar.

—        Desculpe respondeu, sentindo-se subitamente abandonada e idiota. Estou um pouco... estou...

Ela não sabia como estava e não conseguia encontrar as palavras para começar a expressar.

—        Tudo bem. Tente respirar um pouco.

Apesar do comentário sobre a sala secreta (que seria o suficiente para destruir qualquer nível de credulidade) e de seu engrolar sobre Atreu, a atendente não informara a Deborah que a má utilização do tempo policial poderia lhe causar muitos problemas. A mulher era capaz de entender que aquilo era verdade, o que significava que Deborah precisava recuperar o controle que estava tão claramente perdendo. Ela limpou a garganta.

—        Peço que me desculpe ela voltou a dizer. Richard era muito... Éramos muito amigos.

—        Este é o homem ferido?

—        Morto, sim.

Ela disse isso de maneira bastante calma, a mente embotada, as pala­vras corretas mas sem sentido.

Houve um silêncio momentâneo.

—        Onde, exatamente, você se encontra? perguntou a atendente.

Estou no quarto disse Deborah, voltando a sentir-se idiota. Desculpe. Estou no Museu Colina dos Druidas, no número 143 da Deerborne Street. A casa é anexa e interligada ao museu. Pode ser que você tenha de vir por ele. Não você, claro. As pessoas que vierem...

Sim disse a atendente. Você pode esperá-los na porta. A entrada fica perto daí?

—        Na verdade, não disse Deborah.

—        Tudo bem disse a atendente. E esse homem que ligou... você não tem idéia de quem seja?

—        Não.

Existe algum cômodo seguro na casa? Algum lugar onde você possa trancar-se até que os policiais cheguem?

Tem um banheiro ela disse, voltando a sentir uma onda de pânico por causa do tom de gravidade que a mulher respondia a seu chamado misterioso.

—        Ele pode ser trancado? A porta é sólida?

—        Sim. Mas vou ter de desligar. Não tenho um telefone sem fio. Mas tenho um celular, que posso usar caso...

Tudo bem, isso é bom. Você está bem?

Sim, estou bem ela disse. Agora, vou desligar.

Tem certeza de que está bem?

Sim.

Entre no banheiro e tranque bem a porta, certo?

Deborah assentiu com a cabeça e, em seguida, confirmou verbalmente. Desligou e sentou-se na beirada da cama por um momento, olhando para a porta do banheiro. Depois, olhou para o lado, levantou-se, deu dois passos e correu os olhos pelo cômodo mal iluminado atrás da estante, mantendo os olhos afastados do chão e do corpo caído, percebendo, pela primeira vez, a impressionante não, inacreditável — coleção exposta em suas paredes.

 

 

                                 CAPÍTULO 8

 

Mesmo sem ter entrado, Deborah sabia que os expositores com frente de vidro continham artefatos dos quais fazia parte o fragmento de cerâmica que, momentos antes, tivera nas mãos. Era bastante suspeito que um dos expositores de parede tivesse sua prateleira de vidro vazia. Deborah olhou para baixo. Em um canto de sombras, a mais ou menos um metro do quadrado central de luz, havia um amontoado de fragmentos de cerâmica colocados de maneira aleatória, restos de um pote que tinham a mesma cor turquesa do fragmento que ela encontrara sob a cama.

Deborah ficou ali, olhando fixamente acima do corpo que se encon­trava a seus pés (Não importa o que aconteça, não volte a olhar para ele), movendo lentamente o olhar pela sala, num tipo de atordoamento que aumentava à medida que ela absorvia o conteúdo daqueles expositores: um pote de ouro com duas asas, que imaginou tratar-se de um cântaro, quatro pratos decorativos com leões estilizados e um par de brincos de focas, também de ouro. Havia um pedaço de pedra possivelmente uma lápide entalhado com a imagem de uma carruagem e seu condutor, uma bacia de prata decorada com cabeças de touros, fios de contas de vidro e de pedra polida e mais ouro: colares, pendentes, diademas, anéis e broches, todos incrivelmente ricos e delicados. Havia três expositores cheios de cerâmicas, desde canecas minuciosamente decoradas com padrões geométricos até canecas e jarros com guerreiros e cenas de caça. O último expositor exibia pontas-de-lança, espadas e adagas incrustadas com ouro e pedras preciosas, delgadas e úteis, o bronze esverdeado pelo tempo, mas impressionantemente bem conservadas. Se tudo isso for autêntico...

Não havia razão para pensar que não fosse, a não ser pelo óbvio. Havia ali de 40 a 50 peças.

Se elas fossem o que aparentavam ser, essa seria a maior e mais valiosa coleção de artefatos micênicos ou minóicos fora do Museu Nacional de Arqueologia de Atenas. Era impossível estimar seu valor.


Então, aquilo tinha de ser cópia.

Era impossível que uma coleção desse vulto existisse. Há muitos séculos, a maior parte dos sítios arqueológicos gregos havia sido escavada ou pilhada. Tudo o que fora encontrado em Micenas, eniTiryns e nos sítios minóicos de Creta estava catalogado e documentado, as imagens repro­duzidas em centenas de livros de arte e história. Uma coleção como esta, desconhecida da ciência arqueológica moderna, era impensável.

Mas Deborah, colada ao chão com os olhos ainda molhados de lá­grimas, sabia que não estava olhando para cópias ou reproduções de pe­ças conhecidas. É verdade que, não sendo especialista em antiguidades gregas, ela não era capaz de identificar qualquer pote encontrado em Micenas, mas já vira o suficiente dos mais famosos para saber que essa pequena sala continha objetos tão grandes, ricamente decorados e complexos quanto os que vira em outros lugares. Sabia também que estes eram diferentes, parecidos o bastante para receber o rótulo de micênicos, porém como novas descobertas. Inclinando-se para dentro da sala para poder ver melhor, ela se deparou com uma adaga de bronze sobre um delicado suporte. A adaga era decorada com leões que caçavam um cervo, incrusta­dos em ouro e prata. Era linda.Tinha 3.500 anos de idade, e Deborah tinha certeza de que não tinha sido vista por nenhum arqueólogo sério ou historiador vivo.

Nenhum arqueólogo sério.

O que significava aquilo? Ela forçou-se a admitir o pavor embotado que se formou, como vidro moído, na base de seu estômago. Sério significa ético. Se aquelas peças fossem autênticas, só poderiam ter sido roubadas, contrabandeadas sem o conhecimento da comunidade de arqueologia e escondidas, limitando suas lições e prazeres ao consumo particular. O medo e o desapontamento que sentiu a deixaram extenuada e vazia, bloqueando suas lágrimas com preocupação e fadiga súbitas.

Richard - ela suspirou. - O que você fez?

E uma parte magoada e ressentida de si mesma, à qual ela não queria dar ouvidos no momento, sussurrou: Por que não me disse nada?

Ela se lembrou da indignação ao estilo Indiana Jones que Richard costumava expressar: "Isso deveria estar em um museu". Pois sim! Isso deveria fazê-la sorrir, mas o vazio que sentia nas entranhas se transformava em algo medíocre e triste. Novamente ela olhou para ele, ali deitado, pálido e distante, seu corpo manchado com o vermelho de seu próprio sangue.

Você era meu amigo, meu mentor, meu...

Ela não foi capaz de adicionar pai. E omitir essa parte significava uma traição a si mesma, a seus valores, ao que tentara realizar no museu.

A não ser...

Será que ele comprara essa extraordinária coleção no mercado negro com intenção de exibi-la no museu? Ela tentou respirar normalmente. Ele andava distraído e misterioso ultimamente. Mas havia sido um segredo do tipo "espere pra ver". Seria aquela sala apenas um depósito até que a documentação dos objetos fosse regulamentada e a coleção pudesse ser exibida no humilde museu deles? Teria sido uma estratégia fantástica!

Mas a sala não parecia provisória. Sua onda de esperança e idealismo dissipou-se. Richard estivera envolvido com a pior espécie de contrabandistas de antiguidades e eles se voltaram contra ele. De que outra maneira as evidências poderiam ser explicadas?

Mas se eles conseguiram entrar, por que não levaram tudo? Se aquilo se tratasse de um acordo malfeito, por que deixar todas aquelas riquezas para trás? Por que os assassinos de Richard não levaram tudo? Se...?

Deborah virou-se. Lentamente, quase sem ruído, a maçaneta da porta do quarto começou a girar.

 

 

                             CAPÍTULO 9

 

Deborah tinha poucos segundos para decidir, e todas as opções pareciam apostas arriscadas. Então, quando a porta do quarto começou lentamente a ser aberta, ela deitou-se e enfiou-se no único esconderijo do cômodo: sob a cama de Richard.

Por um momento, fez-se silêncio. Deborah estava de bruços, com as pernas do lado da cabeceira e o rosto voltado para o pé da cama, a pouca distância da porta. Prendeu a respiração e aguçou os ouvidos. Não houve entrada brusca ou botas de policiais. Quem quer que estivesse entrando, não deveria estar ali. Ela devia ter se trancado no banheiro.

Deborah colou-se ao chão, palmas das mãos abertas. Em quase toda a extensão da cama, a enorme colcha tocava o chão. A coberta garantia ao esconderijo infantil certa proteção, mas, por outro lado, não permitia que ela visse o que acontecia no quarto. A não ser por um ponto. Do lado esquerdo, a colcha estava dobrada num V que se formara quando ela se escondera. Devagar, ela virou a cabeça de modo a poder ver alguma coisa.

Carpete, o pé de uma das mesinhas de cabeceira, o sombrio espaço atrás da estante. A mão estendida de Richard. Isso é loucura. Saia daí agora.

Não. Ela não gostara da maneira furtiva com que a porta se abrira, do cuidado que aqueles pés haviam tomado ao entrar.

Passou-se algum tempo sem que Deborah ouvisse nada. Tanto tempo que ela começou a pensar que o invasor havia ido embora. Ela então ouviu, de maneira clara e distinta, um longo expelir de ar, talvez um suspiro. Moveu-se um pouco, tentando conseguir um campo de visão mais amplo na abertura da colcha. Não conseguiu nada. No entanto, quem estava no quarto, a menos de um metro de onde ela se encontrava, deu dois passos rápidos, e um par de sapatos apareceu em seu campo de visão: tênis bran­cos com o logo da Nike no calcanhar. Tênis de mulher. Estavam posicionados de modo a olhar para o corpo e para a sala secreta onde ele estava caído. Enquanto Deborah olhava, eles se apoiaram na ponta, inclinando-se para a frente, como se a pessoa estivesse esticando o pescoço para poder ver alguma coisa. Em seguida, tudo ficou parado.

Bruscamente, os pés se viraram em direção à porta e foram embora. Deborah ouviu a porta abrir e fechar novamente, muito menos furtivamente dessa vez. Depois, a distância, ouviu alguma coisa mais, vozes masculinas subindo pelo vão da escada: a polícia.

Agora.

Com um movimento rápido, ela rolou para fora da cama, ajeitou a roupa com as mãos e abriu a porta do quarto. Ainda no patamar, prepa­rando-se para receber os oficiais que subiam a escada, estava Tonya, a empregada de meia-idade, com seus tênis Nike impecáveis que, com certeza, lhe foram dados por alguma filha ou sobrinha. Ao ouvir a porta se abrir, ela virou-se, boquiaberta, e olhou para Deborah com indisfarçável animosidade.

 

 

                                       CAPÍTULO 10

 

As duas mulheres se olharam em silêncio, indiferentes ao ruído dos policiais uniformizados que, cautelosamente, anunciavam sua presença enquanto subiam a escada. Um deles era gordo e careca, apesar de não parecer ter mais de 30 anos; o outro era negro e magro.

Srta. Miller? perguntou o policial careca, desviando o olhar de uma mulher para outra.

Sim disse Deborah, fazendo um esforço para descolar o olhar da mulher negra. Ali.

Os dois tiras trocaram olhares e o careca dirigiu-se para a porta do quarto. Apesar de fazer pouco mais de 30 segundos que ele havia entrado, parecia que uma eternidade se passara. O outro policial vacilava, constrangido como se tivesse interrompido um culto religioso, apesar de Deborah não saber dizer se ele agia assim por causa das duas mulheres ou do cadáver. Ele disse alguma coisa, mas Deborah não estava prestando atenção, pois aguçava os ouvidos para ouvir a conversa que o policial careca, ao sair do quarto, iniciara ao rádio. Ela percebeu que ele estava pálido, mas tentando mostrar-se corajoso. Estranho, pensou Deborah. Ela estivera tão perdida em sua dor ao ver o corpo de Richard que não se sentira horrorizada ou enojada com ele.

—        Pensei em adiantar o trabalho do dia disse Tonya. Eu sabia que teria um dia duro por causa do evento de ontem à noite.

—        E a senhorita?

Sim? disse Deborah, virando-se para o policial negro. Ele segurava um bloco de anotações e olhava, ansioso, para ela. É provável que estivesse preocupado em proceder corretamente, ela pensou, sentindo uma estranha compaixão por ele.

Recebi um telefonema me dizendo que eu tinha de voltar para cá ela disse. Acho que foi um pouco antes das três.

Agora, eram quase quatro. Era isso o que Tonya chamava de adiantar o trabalho?

—        A senhorita conhece a pessoa que ligou?

Deborah disse que não e repassou seus movimentos e a maneira como encontrara o corpo. Tonya tentou não transparecer que ouvia cada palavra com extrema atenção.

—        E a senhorita nunca tinha visto a sala atrás da estante? — perguntou o tira careca, que assumira a liderança ao juntar-se novamente a eles.

Nunca imaginei que existisse.

Nem eu — disse Tonya. Ela evitou olhar para Deborah.

—        Vai demorar um pouco até que os especialistas cheguem para isolar a cena do crime — disse o tira careca. — Tem algum lugar onde vocês possam esperar?

Eles deixaram o tira negro vigiando o quarto. Descendo a escada, Deborah indicou o caminho para a sala de estar, onde ela e Tonya acomo­daram-se silenciosamente em cadeiras Queen Anne, olhando para as paredes, enquanto o tira careca andava de um lado para o outro olhando, aleatoriamente, para os quadros e objetos da sala. De vez em quando, fazia anotações, como se quisesse provar a si mesmo que era mais detetive que tira de bairro. Ficaram assim uns 20 minutos, antes de ouvirem bater a porta da frente da casa. Em seguida, ouviram vozes se avolumando, como se um exército de investigadores e especialistas tivesse entrado trazendo seus equipamentos.

—        Por que não voltamos para cima? — perguntou o tira. — Para o caso de alguém querer falar com vocês.

Ele parecia indeciso, mas elas seguiram sua liderança levemente incerta e sentaram-se nas duas cadeiras de espaldar alto do patamar enquanto o tira desaparecia para falar com o encarregado.

—        Sinto muito pelo que aconteceu com Richard — disse Tonya. Foi um comentário inesperado, quase brusco: um tipo de concessão, mas uma concessão que lhe ficou atravessada na garganta.

Deborah assentiu com a cabeça, mas não soube o que dizer. Tonya era uma boa empregada — na verdade, boa demais —, e o tipo de orgulho que sentia por seu trabalho indicava que o que fazia no museu era um grande incômodo. Ela era uma pessoa franca e durona e — apesar de fazer um trabalho que implicava receber instruções — ressentia-se com qualquer demonstração de autoridade sobre ela.

Pelo menos, qualquer autoridade vinda de você, Deborah lembrou a si mesma. Quando se tratava de Richard, ela se mostrava respeitosa, até mesmo dócil. Era de Deborah que ela não gostava. Ela chegara a essa conclusão porque sendo mulher, branca e mais jovem, era ela a patroa de Tonya. Mas achava que existia alguma coisa mais, alguma coisa pessoal, um ressentimento que ela não conseguia precisar. Agora Richard estava morto, e, no meio da noite, Tonya esgueirava-se furtivamente pelo quarto dele...

Não pense nisso. Deixe a investigação para os detetives. Não se envolva.

Deborah suspirou e continuou a observar enquanto a casa se enchia de gente, pessoas munidas de cameras, evidências em sacos plásticos e rolos de fita amarela. De vez em quando as pessoas homens, eram todos homens —conversavam entre si e lançavam olhares silenciosos a ela e a Tonya, mas durante um longo tempo ninguém se dirigiu a elas, o que fez com que passasse a se sentir parte da audiência de uma peça estranhamente íntima e surreal. Durante meia hora, eles entraram e saíram, falando e fazendo anotações, iluminados por ocasionais flashs de máquinas fotográficas, mas ninguém falou com ela. Passados mais 20 minutos, chegou uma policial, uma mulher encorpada que lhe ofereceu água e tentou distraí-la enquanto, em uma maca coberta, tiravam o corpo de Richard do quarto. Um homem que imaginou ser patologista conversava com o detetive, que parecia estar encarregado do caso. Ele gesticulava com as mãos, indicando alguma coisa com aproximadamente 30 centímetros de comprimento. Novamente com os dedos, indicou o tamanho das incisões.

A arma.

—        Srta. Miller? disse o detetive, enquanto o médico-legista se afas­tava. Estamos prontos para conversar com a senhorita.

Ele fez um gesto de cabeça para Tonya.

—        Se a senhora não se incomodar de esperar aqui por alguns minutos ele disse —, voltaremos logo para lhe fazer algumas perguntas.

Ele era alto, tinha mais ou menos a mesma altura que ela, ombros atléticos, cabelos escuros e pele bronzeada. A maior parte das mulheres o consideraria charmoso, pensou ela, não se importando em descobrir por que não se sentia como todas elas.

—        Sou o detetive Chris Cerniga ele disse. Você pode vir até aqui? Ele falou de modo delicado, como se o trauma de retornar ao quarto

estivesse além das forças dela, apesar de seu olhar austero titubear quando ela colocou-se de pé, com toda sua altura, e dirigiu-se ao quarto. Ele aprumou o corpo, jogando os ombros para trás um pouco mais do que o necessário, e seguiu-a, passando pelo policial negro. Dentro do quarto havia outro detetive, um homem que começava a mostrar sinais de calvície, usando um conjunto manchado de tecido sintético. Quando entraram, ele examinava a estante de livros e não se virou.

—        Dave disse Cerniga. Quando virou-se para olhar para a testemu­nha, seu olhar fixou-se nela. Apesar de não saber precisar o motivo, parecia não estar sendo esperada. Esta é a srta. Miller disse Cerniga. Foi ela quem encontrou o corpo.

Detetive Keene — disse o homem calvo, sem oferecer a mão ou exibir o distintivo. Na verdade, agora que estava sendo apresentada a ele, o detetive agia como se ela não merecesse tal privilégio, dando-lhe as costas e voltando a examinar os livros na estante.

Compreendo que isso seja extremamente difícil para você — disse Cerniga —, mas gostaria que respondesse a algumas perguntas.

Muda, ela assentiu com a cabeça. O quarto estava exatamente como ela o deixara, a alcova escondida atrás da estante ainda aberta, suas paredes iluminadas com seus estranhos tesouros. Apenas o cadáver havia sido reti­rado. O espaço no chão onde o corpo de Richard estivera ficara marcado por uma mancha escura e poderosa sob o foco peculiar das luzes, formando um retângulo ao redor do ponto. Toda a alcova fora considerada cena de crime e isolada com fita amarela. Deborah sentiu-se como se estivesse vendo tudo aquilo com olhos alheios, ou como se, acordada, estivesse tendo um sonho estranho, onde o mundo havia se tornado irreal e distorcido.

A senhorita saberia me informar se o museu possui algum tipo de arma ritualística?

Ritualística? — ela perguntou, incrédula. — Temos uma machadinha em um dos expositores, no andar de baixo...

Não — ele disse. Refiro-me a uma arma com lâmina estreita, como uma adaga ou espada.

Ela ficou ali, parada, com a boca entreaberta, enquanto tentava entender o que ele estava dizendo. Em seguida, enrubesceu.

—        Certo — ela disse. — Claro. Não. Não temos nada parecido. Sinto muito.

Ela não sabia por que dissera sinto muito. Sentia as mãos ligeiramente trêmulas. Cerniga conferia suas anotações.

Noite dura para os idosos de Atlanta — disse o tira que se apre­sentara como Keene, lançando um esgar para Cerniga.

Como assim? — perguntou Deborah.

É o segundo assassinato da noite — disse Keene, encolhendo os ombros. — O outro aconteceu a um quarteirão daqui. O cara também era idoso.

Ele fez o comentário como se estivesse falando de um sanduíche.

Existe algum tipo de relação? — perguntou Deborah, igualmente intrigada com o conteúdo e o desembaraço da conversa.

Não — ele disse. Motivos totalmente diferentes.

Lá fora, a senhora disse ao oficial que não sabia da existência da sala atrás da estante, certo? — perguntou Cerniga, levantando os olhos de seu bloco de anotações.

Sim — disse Deborah.

—        Esta noite a senhora simplesmente trombou com ela por acaso — perguntou Keene?

Havia nos olhos dele um brilho que não a agradou, uma mistura de arrogância e suspeita.

—        Não foi por acaso — ela disse. — Eu estava procurando Richard... o sr. Dixon... e acabei aqui. Encontrei este fragmento de cerâmica e vi a marca de óleo ao pé da estante...

Ela mostrou o fragmento de cerâmica que estivera distraidamen­te segurando desde que o pesadelo começara e percebeu que, imedia­tamente, os homens a fixaram com o olhar.

Sinto muito — ela disse, voltando a sentir-se como se tivesse feito alguma coisa estúpida. — Eu devia ter entregue isto ao primeiro policial que chegou. Ou deixado onde o encontrei...

Você acha? — perguntou Keene, sarcástico.

—        Onde você encontrou isso? — perguntou Cerniga, claramente irritado.

Deborah apontou.

—        Ótimo! — rosnou Keene. — Quer dizer que a cena do crime foi contaminada!

Do que se trata? — perguntou Cerniga...

Como assim? — perguntou Deborah.

O fragmento de cerâmica — respondeu ele. — Do que se trata?

É o fragmento de algum vaso ou pote — ela disse, afastando-se de Keene. — Parece antigo, mas pode ser uma cópia. Talvez seja grego. Micênico.

Grego? — perguntou Cerniga. Seu tom de voz parecia... o quê? Impressionado? Intrigado? Alguma coisa do tipo.

Onde está o resto? — perguntou Keene.

Deve estar ali, eu acho.

Ela apontou para o canto da sala onde os outros fragmentos se encontravam.

—        Isso vale alguma coisa? — perguntou Cerniga.

—        Depende. Se for autêntico, quer dizer, antigo, sim. Se for falso, não vale nada. Mas se for verdadeiro... a história é diferente — respondeu Deborah.

—        Mesmo sem estar colado com o resto? — perguntou Cerniga.

Qualquer coisa que seja tão antiga assim, se for recolocada no lugar corretamente, continuará sendo valiosa.

Quanto vale? — perguntou Keene, interrompendo como um parceiro de dança com botas ferradas.

—        Não tenho idéia.

Chute.

Seria necessário ver a peça montada. Dependeria do formato e do tamanho...

Eu pedi que desse um chute. Afinal, onde estamos, em um Antiques Road Show[1] maluco?

Milhares de dólares ela disse, dando de ombros. Uns 10 mil, talvez mais.

Por isso? perguntou Keene, mostrando-se subitamente impres­sionado e surpreso.

Pelo pote todo, pode ser disse Deborah. Se realmente for micênico.

Micênico?

Da Idade do Bronze Micênica, da Grécia Antiga.

Qual a idade dessa Idade do Bronze? perguntou Cerniga.

De 3.000 até por volta de 200 antes de Cristo disse Deborah. Por aí.

Por um segundo, os dois detetives olharam para o fragmento que Keene tinha na mão com expressão de reverência, e Deborah, curadora até os ossos, não conseguiu evitar um sorriso.

Então... essas outras coisas... continuou Cerniga, passando a mão sobre os expositores são da Idade do Bronze? São todas mice...?

Micênicas. Parece que sim, mas...

Mas, o quê? perguntou Keene, dando a entender que ela estava sendo pedante, desviando o assunto, em vez de ir direto ao ponto.

Não acredito que possam ser autênticas disse Deborah. As pessoas saberiam de sua existência. Já as teriam visto antes. É impossível trombar com uma coleção dessas assim, dessa maneira.

Mas se fosse uma coleção autêntica disse Cerniga —, quanto valeria?

Milhões. Bilhões ela disse. Eu nem me atreveria a avaliar uma coleção tão importante.

Um longo silêncio abateu-se sobre a sala enquanto os detetives se afastavam dela para olhar para os artefatos de ouro, bronze e cerâmica brilhando embotadamente na luz suave.

Foi um momento de reverência, como sentar-se sozinha num templo entre as sessões, como fizera durante anos seguidos depois da morte de seu pai. Um momento impregnado de memórias, constrangimento e tristeza.

Será que tudo se resume a dinheiro? Foi por isso que Richard morreu?

—        O que significa esta palavra? — perguntou Cerniga, trazendo-a de volta à realidade enquanto mostrava o bloco de anotações, agora dentro do saco de polietileno, encontrado na mesa de cabeceira de Richard. — Atreu. Você sabe o que significa? Alguma coisa pessoal ou profissionalmente relacionada ao sr. Dixon?

Deborah balançou a cabeça.

—        Apenas lendas — ela disse.

 

 

                         CAPÍTULO 11

 

Às cinco e quarenta da manhã, eles lhe deram permissão para voltar para casa, dizendo-lhe que precisariam voltar a falar com ela assim que tivesse descansado um pouco. Ela lhes deu seu número de telefone e disse que, durante a tarde, seria encontrada no museu. Pela segunda vez naquela noite, dirigiu-se ao estacionamento para pegar o carro. Não existia nada de parecido entre as duas vezes.

Richard. Meu Deus! Ela não tinha a menor idéia do que faria quando a realidade de sua morte realmente se instalasse em sua mente. No momento, sentia apenas um vazio no coração, como se uma parte de si mesma tivesse sido roubada, arrancada tão rapidamente que ela ainda não tivesse tido a chance de sentir. Ela sabia que a sensação de perda chegaria queimando, cortando e rasgando, mas, no momento, sentia apenas um vazio, um vácuo que, eventualmente, se encheria de sentimentos. E depois?

Como faria para lidar com a rotina diária, a administração do museu, ou simplesmente para continuar vivendo, como se tudo fosse normal? Essa parecia ser a pior parte. Nesse momento, gostaria que as coisas nunca tivessem chegado a tal ponto. Gostaria de poder pensar em seu trabalho sem pensar no homem que o oferecera. Superar seu sofrimento exigiria um pouco de esquecimento, o que lhe parecia desleal, imperdoável.

Ainda estava escuro quando ela saiu da Juniper e entrou no condo­mínio. Estacionou ao lado do Corniso branco e caminhou até a porta da frente, mal notando o cricrilar dos grilos no ar pesado e úmido. Chegava-se ao apartamento dela por uma passagem estreita com um portão de ferro, sem cobertura, a não ser pelas duas glicínias. Ela sentiu o ar carregado de perfume enquanto abria o portão, mas foi apenas no escuro corredor de tijolo aparente, parada à porta de entrada do apartamento, as chaves a apenas alguns centímetros da fechadura, que Deborah começou a processar o cheiro. Não se tratava do odor de flores, mas de especiaria, como algum licor ou colônia exótica com um toque a mais: uma pitada de fumo de cachimbo que a fazia lembrar de seu pai.

Espere.

Ela não se moveu. Ela respirou cuidadosamente como se o cheiro fosse venenoso. Deborah não fumava e podia contar quantas vezes havia usado perfume nos últimos seis meses. Ela ia usar perfume hoje a noite mas como teve que acalmar Richard e Tonya ela não tinha conseguido voltar para casa.

Havia outro apartamento nesta rua. Pertencia a senhora Reynolds, uma viuva que nunca saia do apto a noite.

Ela virou a chave e esperou ouvir a porta se abrir. Espere

Ela não se moveu. Ficou onde estava e respirou.

Captou, suspenso no ar, o aroma do jantar da noite anterior; a massa que ela deixara sobre o fogão cheirava a alho e manjericão. O cheiro familiar de uma casa aconchegante, cheia de plantas protegidas do ar externo da Geórgia durante um dia inteiro de verão. O que mais? Um toque de loção após barba e o cheiro rançoso de fumo de cachimbo.

Fuja.

Deixando a porta aberta, ela virou sobre os calcanhares e, rapidamente, caminhou em direção ao Toyota verde. Apertou o alarme. As luzes internas do carro piscaram uma vez e as travas soltaram. Ela correu até o carro.

Havia alguém no apartamento dela.

Deborah escancarou a porta do carro, onde bateu o joelho enquanto entrava, e colocou as chaves na ignição. Com um giro rápido, as travas voltaram ao lugar e o motor começou a funcionar.

Graças a Deus.

Deborah ligou os faróis e avançou alguns metros com o carro, de modo que eles iluminassem o caminho que dava para o portão de ferro de sua casa. O facho de luz deu um colorido imediato à noite; o verde exuberante das folhas das camélias e o vermelho-terra dos tijolinhos saltaram na escuridão. Assim como o branco da mão do homem que segurava o portão de ferro batido.

A mão ficou ali por um segundo talvez menos para, em seguida, largar o metal e desaparecer no caminho escurecido pela folhagem. Depois de vibrar um pouco nas dobradiças, o portão ficou imóvel.

Deborah saiu com o carro, ao mesmo tempo em que discava um número em seu celular.


 

 

                             CAPÍTULO 12

 

Levada por uma viatura policial com as luzes piscando, Deborah passou pelas portas do museu e entrou aspirando grandes golfadas de ar para tentar recuperar a compostura antes de começar a explicar-se.

Eles esperavam por ela no saguão inferior, ao lado do T. Rex e da proa em forma de mulher-dragão da antiga nau. Ela esperava um número maior de policiais. Os dois detetives continuavam lá. Assim como Tonya. Quando entrou, Keene olhou para ela, com rosto injetado e expressão irritada.

Você farejou alguém em seu apartamento? ele perguntou, dando ênfase à palavra. Pelo menos eles já sabiam o que ela dissera ao atendente. Ela não estava com muita vontade de recontar a história.

Sim, tive a clara impressão de que havia alguém lá ela disse, olhando então para Tonya. Não dava para saber se ela ainda estava sendo interrogada. Bruscamente, a mulher negra virou-se para o lado, mostrando a Deborah suas tranças de cabelos grisalhos. Antes disso, lhe lançara um olhar bastante claro: A rica sinhazinha quer privacidade? Sinta-se à vontade.

Alguma chance de podermos ganhar uma xícara de café? Keene perguntou a Tonya.

A empregada empertigou-se. Deborah preparou-se para ouvir uma reclamação que não veio. Em vez disso, ela simplesmente deu de ombros.

—        Acho que hoje vocês não vão me deixar fazer muito, além disso ela disse. Quer creme ou açúcar?

Deborah levantou uma das sobrancelhas. Cerniga virou-se para a odiosa mulher-dragão da proa.

É impressionante disse Cerniga, olhando para cima, utilizando um tom neutro.

Não é? concordou Deborah. Depois, arrependendo-se um pouco, ela continuou: Richard queria restaurá-la adequadamente. Acho que ela se parece com a capa de um dos discos do Whitesnake.

Eu gosto disse Cerniga, sorrindo e procurando o bloco de notas em seu bolso.

Por dez dólares você pode levar — disse Deborah, sentando-se em sua escrivaninha. — Devo contar sobre a pessoa que vi em meu apartamento?

Na verdade, não — disse Cerniga. — A não ser que tenha alguma coisa a acrescentar à versão que passou por telefone.

Ah — disse Deborah, aliviada. — Acho que não.

Você chegou a vê-lo?

Só a mão dele, no portão.

Branca?

Sim.

Cerniga bateu a ponta da caneta esferográfica no canto do bloco.

—        Vamos conversar um pouco sobre o museu no escritório? — perguntou.

Ela o conduziu, passando pelo balcão de informações e pelos banheiros até a livraria (na verdade, era mais uma loja de suvenires, mas Richard insistira que sua maior parte fosse livros). O escritório ficava ao lado da loja. Havia duas escrivaninhas com computadores e uma impressora, dois telefones e uma estante. O restante da sala era ocupado por uma mesa de reuniões oval, de mogno polido, com oito cadeiras. Eles sentaram-se em uma das pontas. Keene não tardou a entrar, resmungando coisas inaudíveis para um dos policiais que estava do lado de fora. Ele não olhou para Deborah.

—        Não há muito o que dizer — disse Deborah, observando a expressão desagradável de Keene, enquanto analisava as paredes do escritório, escorregando os olhos dos pôsteres de arte pré-colombiana para os de exibições fotográficas locais, como um pastor furtivamente olhando as pági­nas de uma revista Playboy. — Richard era um benfeitor local das artes e da educação...

Keene resfolegou. Deborah olhou para ele.

—        Alguma coisa ficou presa em minha garganta — disse Keene, gesticulando com a mão e dando um sorriso de contentamento.

—        Ele sempre valorizou as artes, a cultura e a educação — disse Deborah, cuidadosamente — e decidiu abrir um pequeno museu. A entrada era gratuita. A coleção era... errática.

Erótica? — perguntou Keene, com sarcasmo.

Errática — repetiu Deborah.

—        Ah — disse Keene. — Isso é mau.

Deborah virou-se para Cerniga.

—        Ele exibia todo o tipo de coisas — ela disse. — Objetos do mundo todo exibidos em expositores fora de moda, geralmente de maneira alea­tória. Enfim, quando ele se aposentou, decidiu dar uma incrementada no negócio. Criou um conselho administrativo, contratou um curador...

Você — disse Cerniga.

Não da primeira vez — ela disse. — Sou a terceira. Estou aqui há apenas três anos.

De onde você veio?

Minha tese foi sobre este museu — disse Deborah. — Mas nasci em Boston e estudei em Nova York.

Sim, seu sotaque parece com o de lá — disse Keene, enfatizando seu sotaque sulino, para o caso de ela não ter percebido. — Pensei que você só tivesse estudado lá.

Deborah ficou sem saber o que dizer. Keene não gostava dela; não gostara dela desde o momento em que a vira.

Desde então, venho tentando expandir e colocar foco na coleção — ela disse, fazendo um esforço para concentrar-se. — Na verdade, foi esse o motivo do evento de ontem. Angariar fundos. Estávamos planejando trazer uma coleção de antiguidades celtas...

Isso é fascinante — disse Keene, com evidente desprezo. — Que tal nos dar a lista dos convidados da reuniãozinha de ontem à noite?

Estávamos nos perguntando — explicou Cerniga, desculpando-se levemente — se uma das pessoas que participaram do evento pode ter ficado aqui dentro ou voltado mais tarde.

Deborah demorou um segundo para entender o que ele estava dizendo: ninguém se importava com o fato de Richard estar morto. Importavam-se apenas com o fato de ter sido assassinado.

Ela abriu uma das gavetas da escrivaninha, de onde tirou a lista de confirmação de presença dos convidados.

—        Esta é a lista de todas as pessoas que confirmaram presença — ela disse. — Não posso garantir que tenham estado todas aqui, mas posso verificar. Com certeza vou me lembrar da maioria. Havia alguns que eu não conhecia, e pode ser que Richard tenha convidado alguém mais, informalmente.

Isso era típico dele. Fazia Deborah ter tudo organizado para, em um segundo, desmantelar todo o esquema dela... O que a deixava exasperada e fazia sorrir ao mesmo tempo.

E os funcionários? — perguntou Keene.

Tonya estava aqui — disse Deborah — e alguns de nossos volun­tários. O pessoal do bufê trouxe seus funcionários.

Eram muitos?

Três garçons e dois barmen — disse Deborah.

A que horas foram embora?

Tonya foi embora mais cedo — disse Deborah. — Por volta das nove. Eu acho. Ela ficou apenas para ver se as coisas corriam bem. Os voluntários ficaram por aproximadamente mais uma hora. O pessoal do bufê saiu por volta das 11:15hrs acrescentou ela. À meia-noite, todos os convidados tinham ido embora.

E a senhorita foi a última a sair? perguntou Keene.

Sim.

Bateram à porta e Tonya colocou a cabeça para dentro, sorrindo, encabulada. Ela levantou as duas canecas de café que trazia na mão, pedindo permissão para entrar. Cerniga indicou o caminho e abriu espaço na mesa para as canecas. Ela as colocou sobre a mesa, empurrando-as na direção dos policiais. Não dirigiu o olhar para Deborah, nem lhe ofereceu coisa alguma. Por um segundo, Deborah pensou em pedir-lhe algo, talvez um café da manhã completo... Poderia ter valido a pena, só para ver a cara dela.

Ah, sim. Humor. Seu esconderijo costumeiro...

Quando Tonya saiu, Keene virou-se para Deborah e dobrou um pedaço de papel que parecia ter sido mandado por fax.

—        Você já viu algo assim antes? ele perguntou.

Ao se inclinar para ver, ela percebeu uma expressão no rosto de Cerniga, um rasgo de irritação acrescido de um momento de indecisão. No final, ele apenas franziu o cenho e, rapidamente, desviou o olhar, como se estivesse bravo com Keene por ele ter lhe mostrado a foto.

Era uma faca, ou pelo menos foi isso o que ela pensou, apesar de ser longa e fina como uma espada, com cabo em forma de cruz que virava para baixo, acabando um pouco antes da lâmina. Se enterrada em um corpo até o cabo, perfuraria a pele dos dois lados do corte.

...deixando pequenas cicatrizes simétricas...

A faca da foto estava enfiada no que parecia ser uma bainha de couro preto. A ponta da bainha era arrematada com metal brilhante e estava pendurada em uma corrente comprida, elaborada para suspendê-la, como a um cinto. Era uma arma elegante, porém de aparência letal, apesar de não ser isso o que a tornava impressionante. Na parte de cima do cabo escuro havia um disco de metal gravado com um símbolo conhecido.

—        É uma suástica? ela perguntou.

—        Acho que sim, não parece familiar? disse Cerniga, virando-se para ela e esticando a mão para pegar o fax. Seu rosto estava inexpressivo.

Eu nunca vi nada assim ela disse, franzindo a testa.

Nada parecido na coleção?

Não.

—        A suástica não é relevante ele disse, passado um momento. O que estamos é tentando comparar o formato da arma.

Agora foi a vez de Keene fuzilar o colega com o olhar, apesar de Deborah não poder avaliar a razão daquele olhar. Surpresa? Dúvida?

Ela abriu a boca para falar, mas novamente bateram à porta, dessa vez mais apressadamente. Em seguida, apareceu um dos policiais unifor­mizados.

—        Tem aqui um sujeito que quer ver a srta. Miller. Disse ser o advogado de Dixon.

Deborah fixou o olhar nele. Ela não sabia de nenhum advogado, apesar de imaginar que ele tivesse um.

—        Dixon está morto — disse Keene. — Ele não precisa mais de um maldito advogado.

Havia alguma coisa errada naquele tom de voz, alguma coisa errada na maneira que ele a olhou.

—        Sou considerada suspeita? — perguntou Deborah.

É claro que não — disse Cerniga, interrompendo.

Keene olhou para baixo.

Eu também recebi notícias da patrulha que revistou o apartamento dela. Nenhum sinal de arrombamento ou qualquer tipo de busca.

Keene olhou com interesse para Deborah.

Como assim? — perguntou Deborah. Vocês acham que eu imaginei tudo?

A senhorita teve uma noite muito estressante — ele disse, gentil. — Mas longe de mim dizer que a senhorita tenha imaginado.

Ele lhe deu um leve sorriso e ela sentiu-se enrubescer.

Vocês acham que eu estou inventando coisas? — ela perguntou, atônita. — Pensei que eu não fosse suspeita.

Senhorita — disse Keene —, até que alguém seja condenado, todos são suspeitos.

Acho que não estou entendendo — disse Deborah, voltando a sentir a mente pesada, aquela lentidão idiota, como se estivesse bêbada ou sedada.

—        Vocês acham que eu matei Richard?

—        Ei, dona, estou apenas dizendo.

—        Por favor, pare de apenas dizer — ela disse, com um pouco de seu velho olhar desafiador emergindo em meio à sua confusão. — Eu não entendo o que quer dizer com isso. E prefiro que o senhor não me chame de dona.

—        Isso — ele disse, olhando-a de cima a baixo com ironia desajeitada — não será problema algum.

Deborah manteve o olhar sobre ele. Sentiu que perdia os pés. Na verdade, percebeu naquela frase um sentido nunca antes percebido. Sentia-se flutuando em mar aberto. Embaixo dela, a água era fria e escura e, lá no fundo, criaturas com bocas cheias de dentes, olhando, dando voltas...

—        E outra coisa — disse o policial. — Aquele zé-ninguém que foi assassinado...

—        O que tem isso? — perguntou Cerniga.

Ele tinha um monte de coisas pessoais dentro de um bolso interno. A escrita parece estrangeira. Grega, talvez.

Grega? — perguntou Cerniga.

Talvez — disse o tira. — Eles não tinham certeza. Estão verificando.

Não seria perfeito se fosse um caso internacional? — perguntou Keene, com expressão azeda.

Talvez você devesse dar uma olhada — disse Cerniga para Deborah. — Para ver se você já o viu por aqui.

Porque ele é grego e existe uma sala lá em cima cheia de bugigangas gregas? — indignou-se Keene, em tom de descrença sarcástica. — Você acha que isso pode significar uma conexão?

Talvez não. — disse Cerniga. Seus olhos estreitaram-se e ele virou-se para Deborah. — A senhorita sabia que, nas duas últimas semanas, o sr. Dixon fez uma série de ligações internacionais para a Grécia?

—        Não — disse Deborah, honestamente.

Mais segredos.

Cerniga suspirou e olhou para o tira uniformizado.

Talvez não haja conexão — ele disse —, mas vamos verificar a outra vítima.

O caso não é nosso — disse Keene, agora petulante. — Já temos as mãos cheias e não precisamos dessas malditas conexões de um cadáver... rico, ferimentos de espada, dentro de casa... com outro... mendigo, sem-teto, assassinado a balas, ao ar livre!

Ele era sem-teto? — perguntou Deborah, lembrando-se do estranho que se movia furtivamente no estacionamento.

—        Provavelmente — disse Cerniga. — Ainda não temos certeza...

—        Sem aviso, a porta abriu-se e um homem alto, jovem e loiro entrou. Era magro e usava um terno claro e amarrotado com camisa bege aberta no pescoço. Parecia não estar acostumado a ser questionado.

—        Srta. Miller? — ele perguntou, ignorando completamente os policiais. — Sou Calvin Bowers. Eu era o advogado do sr. Dixon. Como sou responsável pela herança dele, até o museu, pensei em oferecer-lhe meus serviços.

Os olhos dele eram de um azul profundo e intrigante, quase roxos em sua intensidade.

A srta. Miller não foi acusada — disse Cerniga, levantando-se e lançando um olhar irritado a Keene.

Mesmo assim — disse Bowers, os olhos azuis lançando perigosa­mente dardos na direção de Cerniga. — Mas este é o segundo longo interro­gatório a que a submetem em poucas horas, e na mesma noite em que ela encontrou o corpo de seu mentor. Acredito que quaisquer evidências que tenham coletado em tais circunstâncias devam ser consideradas de confiabilidade questionável, não é? Estou absolutamente certo de que o júri pensaria como eu.

Espere um pouco disse Keene, levantando-se.

Você é o encarregado da investigação? Bowers devolveu, rápido. A pergunta parece ter forçado Keene a uma pausa, abalando sua

segurança. Ele olhou para Cerniga.

O encarregado sou eu disse Cerniga. Podemos voltar ao assunto do intruso do apartamento da srta. Miller?

O intruso? disse Bowers, dirigindo os olhos para Deborah. A senhorita está bem?

Ela assentiu com a cabeça, tensa, perguntando-se quem seria ele e por que se colocava ao lado dela.

—        Eu saí antes mesmo de poder olhar para ele.

Keene mostrou os dentes num sorriso.

Bowers virou-se para Keene.

—        Se eu ficar sabendo que vocês criaram um ambiente de interrogação hostil para essa testemunha ele disse —, vou anular o testemunho. Fui claro?

O sorriso de Keene diminuiu, apesar de não ter desaparecido completamente, e ele assentiu com a cabeça.

Quero deixar bem claro disse Cerniga que a srta. Miller está sendo entrevistada, não interrogada.

Vocês já definiram a causa do ataque realizado contra o sr. Dixon? perguntou Bowers, ainda na defensiva.

Ainda não disse Cerniga, que deixava que a grosseria do colega o contaminasse. Acreditamos que possa ter sido um roubo que não deu certo, mas... ele gaguejou.

 

Sim? disse Bowers, tentando ajudá-lo.

Ainda não sabemos se está faltando alguma coisa.

—        Isso, sem dúvida, deve ter sido assunto do interrogatório que aplicou à srta. Miller disse Bowers. — Presume-se que ela tenha feito a verifi­cação necessária para saber se falta algum objeto no museu.

—        Ainda não chegamos a isso, senhor disse Cerniga.

Bowers não pôde evitar a ponta de um sorriso. Seria por causa daquele "senhor" ou da maneira fácil como puxara o tapete debaixo dos pés de Cerniga? Ele virou-se para Deborah, sorrindo.

—        Srta. Miller, a senhorita possui um inventário completo da coleção do museu? ele perguntou. Isso pode ajudar a polícia em seu interro­gatório, dando-lhe outra coisa para investigar, além da senhorita.

Os dois policiais mantiveram-se sentados, praticamente imóveis, enquanto Deborah levantou-se para destrancar o arquivo.


 

 

                                       CAPÍTULO 13

 

Deborah e Calvin Bowers sentaram-se no saguão do museu, naquele momento inundado pelo incongruente sol da manhã. Richard estava morto, mas o sol continuava a bilhar. Assim eram as coisas, pensou ela, mas aquilo não lhe parecia certo. Na verdade, ela odiava aquilo tudo. Havia um policial uniformizado parado ao lado da porta trancada, e os detetives ainda estavam no escritório.

Longe da presença dos policiais, Bowers era uma pessoa diferente, descontraída, com sorriso amplo e bastante simpático. Sentou-se com as pernas estendidas à frente, relaxado como se fosse um enorme gato, elegante, mas pronto para agir. Deborah não sentia vontade de conversar, e a aparência tranqüila dele fez que ela se sentisse insegura sobre si mesma. Como ele a ajudara, porém, seria rude não dizer nada.

—        Quanto tempo trabalhou para Richard? ela perguntou.

—        Menos de um ano. Mas ele trabalhou com nossa empresa muitos anos antes disso. Claro. Desde que comprou este lugar, eu acho. Mas passei a tomar parte poucos meses atrás, quando ele nos mandou calhamaços de trabalho para fazer. Falamos por telefone algumas vezes e trocamos corres­pondência oficial, mas nunca nos encontramos pessoalmente.

Deborah estava impressionada. A atitude dele no escritório, mostrando-se absolutamente ultrajado, fez a que ela bem como a polícia acreditasse que Bowers fosse velho amigo de Richard, que ele se sentia pessoalmente insultado pelo crime e pela maneira como lidavam com ele. Mas tudo não passara de um rompante profissional para desestruturá-los. Seu interesse no caso era estritamente profissional.

—        Não posso acreditar que ele não esteja mais aqui conosco —, disse Deborah. Assim que as palavras saíram de sua boca para o sol, ela arrependeu-se de tê-las dito, especialmente para um estranho. Sinto muito corrigiu ela, apressadamente. Isso não passa de um clichê. Nem começa a... Meu Deus, há tanto Bowers acompanhou sua mudança de assunto com naturalidade.

—        Existem pessoas que podem ajudar a aliviar a carga, não é? ele disse. Na certa você poderá contar com o conselho administrativo do museu. Ofereço-me para ajudar. Meu relacionamento com o sr. Dixon foi curto, mas ele era cliente da firma havia muito tempo e está ligado ao valor da propriedade, por isso tenho certeza de que eles ficarão felizes em disponibilizar minha ajuda.

Disponibilizar minha ajuda. Ele parecia um cavaleiro oferecendo seus serviços a uma dama em apuros.

Acho que posso cuidar de tudo ela disse, com uma pitada de arrogância que não passava de reflexo. Na verdade, ela não tinha a menor idéia de como poderia cuidar de tudo.

Não duvido ele disse, sorrindo para animá-la um pouco.

—        Desculpe ela disse. Não estou acostumada a...

... não ser totalmente autoconfiante?

—        ...que as pessoas tomem conta de mim ela disse. Richard me dava carta-branca...

Ela pegou-se sentindo um aperto na garganta. Sorriu e afastou a sensação de maneira não muito convincente. Simpático, ele assentiu com a cabeça, e durante um tempo ela olhou para o saguão que ela e Richard haviam montado, selecionado peça por peça...

Então você é arqueóloga? ele perguntou, olhando criticamente para o expositor dos índios Creek.

Na verdade, não disse Deborah. Sou diretora de museu. Foi para isso que me graduei.

E quais são as matérias exigidas para tornar-se uma administradora de museu? ele perguntou, voltando a sorrir com simpatia de modo que ela pudesse relaxar um pouco.

Eu me formei em Língua Inglesa e Arqueologia ela disse —, mas muitas pessoas escolhem negócios.

Acho o seu jeito melhor ele disse.

Eu também disse ela e, dessa vez, seu sorriso era mais amigável.

Mesmo assim ele continuou, indicando o expositor contendo a magnífica machadinha de pedra —, você acaba no meio de todas essas coisas! Olhe para essa pequena machadinha. Uma arma bárbara, se é que se pode chamar assim. Acho que podemos acreditar um pouco em Destino Manifesto, não acha?

Eu não acho que os americanos nativos fossem menos civilizados do que os colonizadores brancos por terem uma maneira menos eficiente de matar as pessoas ela disse, com um sorriso irônico.

Americanos nativos ele disse. Engraçado, não é? As pessoas pensam que podem consertar tudo com as palavras.

Deborah sentiu um rasgo de irritação, mas não teve tempo para responder.

—        Srta. Miller? era Tonya.

Ela apareceu da longa galeria que dava para a residência. Estava hesitante, com as mãos estranhamente cruzadas à frente do corpo.

Posso falar com a senhorita? ela perguntou.

Deborah levantou-se.

Em particular, se não for problema disse Tonya.

Deborah inventou uma desculpa para Bowers e as duas mulheres caminharam silenciosamente de volta ao escritório do museu.

Qual é o problema, Tonya? perguntou Deborah, depois de fechar a porta atrás delas. Ambas estavam em pé, tensas e apreensivas.

Acho que a senhorita sabe disse Tonya. Ouça. Eu estava curiosa. Tenho um amigo na polícia e ele me contou sobre o assassinato assim que receberam o chamado. Ele disse alguma coisa sobre uma sala secreta e... eu quis ver o que era, sabe? Não pensei que fosse o sr. Dixon. Eu não quis dizer nada.

Deborah não conhecia Tonya muito bem, mas conversara o suficiente com ela para que aquela última frase soasse de maneira estranha. Tonya não falava como uma faxineira e não usava sua cor a seu favor. Como Deborah observara várias vezes, sua fala era correta e educada, tanto que ela sempre se perguntara de que profissão executiva ela despencara para acabar limpando banheiros em um museu. Ela falava de maneira a deixar claro que ninguém tinha o direito de menosprezá-la por sua aparência ou pelo tipo de trabalho que fazia. A Tonya que Deborah conhecia nunca diria "Eu não quis dizer nada" e, de alguma maneira, a frase colocava toda a confissão sob uma nova luz, confusa e incerta.

—        Seria melhor que você tivesse esperado a polícia chegar para ir até lá disse Deborah, aborrecida.

—        Sim, senhorita disse Tonya, balançando a cabeça como que espantada pela audácia de Deborah. A senhorita tem razão.

Nenhuma resposta malcriada, nenhuma insinuação bem articulada do que a branca desgraçada deveria fazer com sua suspeita. "A senhorita tem razão?"

Vindo de Tonya? De jeito nenhum.

Deborah apertou os olhos. Aquilo era como selecionar figurantes para o filme"E o vento levou".

—        Quer que eu lhe traga um café? perguntou Tonya, depois de um suspiro de alívio. Estava pensando em preparar um para mim, mas estava sentindo um nó no estômago. Agora melhorei um pouco e acho que já posso tomar alguma coisa.

Deborah conseguiu mostrar um sorriso e assentir com a cabeça. Com uma mistura de descrença e desconforto, ficou olhando enquanto Tonya se afastava. "Estava sentindo um nó no estômago?" A quem ela estava tentando enganar? E por quê?

Quando Deborah voltou ao saguão, Calvin Bowers conversava com um homem alto de terno brilhante: Harvey Webster. Ela sentiu o coração apertar, mas manteve o queixo levantado e, rapidamente, caminhou na direção deles.

Webster tinha expressão séria, mas seu rosto iluminou-se ao vê-la. Ele não dava indícios de ter estado embriagado na noite anterior, nem dava a entender que ela o tivesse despachado.

—        Que coisa horrível ele disse, naquela sua voz baixa e musical, quando ela se aproximou. Simplesmente horrível. Se eu puder ajudar em alguma coisa, é só chamar.

—        Obrigada, Harvey disse Deborah. Vou chamar.

—        A polícia me ligou imediatamente ele disse. Disse que deveríamos fechar o museu.

Como assim? perguntou Deborah. Por quanto tempo?

Não muito ele disse. Duas, talvez três semanas.

Três semanas disse Deborah.

Talvez a gente consiga convencê-los a abrir mais cedo disse Bowers, entrando na conversa com seu estilo de protetor de donzelas em perigo.

Ele me pareceu estar falando sério disse Webster. O sorriso que lançou a Deborah não chegou aos olhos dela.

Então, aquela seria sua punição. Webster e o conselho administrativo assumiriam o museu e fariam que ela se afastasse pelas próximas semanas, enquanto se reestruturavam. Ela olhou para o sorriso nem um pouco ingênuo de Harvey Webster e achou que pudesse prever o futuro: a consistente queda de seu controle sobre a coleção até que a Liga Cristã dos Executivos brancos pudesse assumir o poder, até que o museu se transformasse no que sempre quiseram: uma espécie de parque temático de conteúdo superficial e cofres cheios de grana.

—        Vou conversar com os detetives — disse Webster, enquanto se afastava. Ver o que posso fazer.

E conseguir fechar o museu por um mês, provavelmente, pensou Deborah, sentindo-se manipulada.

Cansada e frustrada por causa daquela sensação de impotência que detestava, ela virou-se para o lado. Podia sentir Bowers atrás dela, pronto para lhe dizer algumas palavras encorajadoras. Ficou ali, de pé, com as mãos na cintura, olhando para o saguão vazio e iluminado. Sem Richard, ela ficara realmente sozinha, e o prédio parecia ser apenas uma casca: vazio e sem sentido sem a presença dele.

Três semanas. Todo o trabalho promocional para as novas exposições, a felicidade ao segurar as peças, o burburinho e os cotovelos se tocando, os sorrisos educados permeando as infindáveis histórias sobre os benfeitores, a cobertura de imprensa daquela fantasmagórica proa de na­vio... Todo o trabalho fora por água abaixo. Dentro de três semanas, Atlanta teria se esquecido da existência do museu. E o que ela faria naquelas três semanas? Andaria de um lado para outro neste mausoléu cuidadosamente iluminado, enquanto Keene e seus homens faziam piadinhas baratas sobre o Homo erectus?

Uma idéia desanimadora.

Pode ser que a gente consiga reabrir o museu mais cedo, se você puder provar que nada está faltando — disse Calvin. Ele estava atrás dela, mantendo uma distância respeitosa. Ela virou-se e sorriu, agradecida.

Não tenho muita certeza do motivo por que gostaria tanto de mantê-lo aberto — ela disse. — Talvez porque uma parte de mim pense que se eu quiser fingir que está tudo normal, então...

—        Compreendo — disse Calvin, descartando o final da sentença. Deborah respirou fundo e tentou livrar-se do pensamento.

—        Hoje posso fazer um inventário completo para ter certeza de que tudo está onde deveria estar — ela disse. — É claro que, se alguma coisa na sala atrás da estante do quarto de Richard estiver faltando, não terei como saber.

Ela encolheu os ombros e suspirou, sentindo que a lembrança daquele lugar se impunha em sua memória como um cheiro familiar e desagradável, o corpo estendido daquele jeito, debaixo da luz...

Espere.

Alguma coisa estava faltando.

O pote de cerâmica fora retirado do expositor aberto atrás da estante, e os outros expositores pareciam intocados, o que a fazia pensar que nada fora retirado dali. Mas na sala secreta havia aquela luz peculiar, o quadrado de luz que brilhava do teto, jogando sua luminosidade fria sobre o corpo ferido de Richard. Mas o que estivera ali, antes do corpo, que precisava de iluminação especial?

Ela se lembrava que havia uma tomada no centro do piso.

Sim. Houvera um outro expositor no centro da sala. Ele era grande e especial, continha a peça mais importante da coleção; grande o bastante para que fosse necessário arrastá-lo para fora sobre rodinhas, deixando marcas de graxa no carpete... Mas o que poderia ser ainda mais valioso do que as peças dos expositores de parede a ponto de ser levado enquanto o resto do tesouro valioso fora deixado para trás?

 

 

                                 CAPÍTULO 14

 

Está a fim de fazer uma visita ao necrotério?

Isso vindo do detetive Cerniga. Deborah estava sentada, muda. Ela estava a caminho do escritório, mas ele pedira que parasse o carro. Não lhe vinha à cabeça nada que pudesse dizer.

—        Juro que sei que o senhor precisa de identificação formal e tudo isso ela disse, mas não me sinto preparada para olhar novamente para ele. Sei que o corpo era de Richard. Não existe dúvida quanto a isso. Preciso olhar para ele de novo?

Ela detestava dizer aquilo, detestava mostrar-se fraca e emotiva. Detestava a expressão confusa no rosto dele.

—        Não ele disse, dando mais leveza à expressão. Eu não me referia ao sr. Dixon. Sua identificação do corpo está terminada. Refiro-me ao outro corpo. O do zé-ninguém. O sujeito grego.

Estranho, ela pensou, enquanto assentia com a cabeça e o seguia até o carro dele, que a idéia de olhar para um cadáver pudesse lhe trazer alívio. Estranho que alguma outra pessoa, a filha desse outro homem, talvez, tivesse sentido por esse grego desconhecido o mesmo que sentira por Richard. O pensamento ficou com ela enquanto ele dirigia, estacionava e caminhava pelos corredores sem personalidade do Instituto Médico Legal. Ficando alguns passos atrás, ela evitava o olhar das pessoas, seguindo-o em silêncio enquanto se dirigiam ao porão com encanamento aparente, blocos de concreto pintados, passagens estéreis e cheias de ecos.

Ela nunca estivera em um necrotério, mas já vira muitos, em filmes de cinema e de televisão, o que fez que o lugar lhe parecesse estranhamente familiar, apesar de suas gavetas cheias de cadáveres. Tudo era exatamente como imaginara, e, na verdade, chegou a sentir uma vibração de satisfação peculiar, como se estivesse prestes a encontrar-se com uma celebridade cujo rosto conhecia havia anos. A sensação dissipou-se assim que o jovem assistente com seus óculos retangulares descobriu o corpo.

Ele era idoso, talvez por volta dos 70 anos, troncudo, seu corpo avolumando-se debaixo do lençol sintético. Seus olhos estavam fechados e afundados, mas ela sabia que, se estivessem abertos, seriam brilhantes e intensos, e olhariam para ela enquanto cruzasse o estacionamento.

—        Sim — ela disse. — Eu o vi perambulando pelo estacionamento do museu nos últimos três dias, talvez. Ele falou alguma coisa, mas não entendi o que dizia e, na verdade, não se dirigia a mim. Estava só... você sabe, falando sozinho.

—        Acho que você não entenderia, pois falava grego — disse Cerniga.

Não era grego — disse o rapaz dos óculos. — A tradução preliminar diz que falava russo. Apesar de que, se não me engano, no alfabeto russo existem algumas letras gregas.

O que talvez signifique que ele não tinha ligação com o tesouro — disse Cerniga, franzindo o cenho.

Tesouro? — perguntou o assistente, aproximando-se.

Depois de ignorá-lo por um momento, Cerniga disse:

Podemos ver os resultados?

—        Claro — disse o assistente, lançando a Deborah um olhar intenso. Ele continuava a pensar na absurda palavra que Cerniga dissera tão displicentemente: tesouro.

—Você deveria hospedar-se em um hotel — disse Cerniga, para preen­cher o silêncio que o assistente deixara. — Seria mais seguro. — Ele deixou as palavras suspensas no ar e, em seguida, acrescentou, um pouco mais gentilmente: — Considere isso um feriado.

Um feriado. Como se ela tivesse ganhado um presente. No momento, não havia nada que ela quisesse menos do que isso, mas talvez fosse melhor que ela se afastasse em vez de ficar sentada à entrada do museu matutando...

...impotente...

...esperando permissão para fazer seu trabalho. Depois de aproximadamente cinco segundos de silêncio pesado, a decisão foi tomada.

—        Tudo bem — ela disse. — Vou procurar um lugar para ficar.

—        Sem alarde — ele disse. Ela piscou e assentiu com a cabeça, o rosto sem expressão.

O assistente retornou com uma bandeja de objetos ensacados e uma lista impressa do conteúdo. Ele começou a levantar os sacos. Não havia carteira ou qualquer coisa parecida com documentos. Havia uma escova de dentes quase nova, um alfinete de lapela em forma de escudo, um envelope endereçado em russo e uma única folha manchada de papel rasgado, escrita com garranchos em tinta preta. Parecia fazer parte de uma carta.

—        Existem mais evidências disse o assistente —, mas estão... danificadas.

Depois de lançar um olhar rápido e desajeitado para Deborah, ele voltou a olhar para a bandeja.

Encharcado de sangue, ela pensou. Isso foi tudo o que eles puderam salvar.

—        Temos uma tradução? perguntou Cerniga.

Ainda não. Não sobrou muita coisa legível disse o assistente, verificando o papel. Ele pegou o distintivo de laca vermelha, verde e doura­da contendo a imagem de um soldado com um fuzil e letras cirílicas ao redor da margem. Na base do escudo havia uma adaga sobreposta pelo martelo e pela foice soviéticos. Aparentemente, o que está escrito aqui é "Excelente Guarda de Fronteira", ou alguma coisa do tipo. É dos anos 1950.

O que significam essas letras na parte de baixo? perguntou Deborah.

MVD disse o assistente, olhando a folha de papel significa Ministério do Interior. Algum departamento sem importância do governo, eu acho.

O que estaria um velho soldado soviético fazendo em Atlanta? perguntou Deborah.

Nada que tenha a ver conosco — disse Cerniga, dando de ombros. Vamos, vamos embora.

 

Richard estivera aprontando alguma; sua atitude recente, seu contato com os advogados do museu, seus telefonemas para a Grécia e até seu incomum entusiasmo pelo fundo de captação de recursos, tudo indicava que o que acontecera na noite passada não caíra do céu, simplesmente. Assim que voltou ao museu, Deborah dirigiu-se a seu escritório e ligou o computador. Todos os computadores da residência e do museu estavam ligados em rede, de modo que, com a combinação exata das senhas, era possível acessar, de qualquer terminal, todos os arquivos das máquinas.

O computador demorou um pouco para inicializar. Ela digitou sua senha e entrou na rede, mas percebeu que a maior parte das outras máquinas até a de Richard não apareceu. Ela fixou o olhar na tela do monitor.

Os policiais os levaram embora.

Em seguida, sua ficha caiu. Era provável que, apesar de estarem em seus lugares, os computadores estivessem desligados. A polícia havia feito o que nenhum funcionário do museu jamais fizera, desligando-os assim que terminaram de copiar o conteúdo de seus arquivos. Ela ficou ali, senta­da, encarando o computador inútil.

Alguma coisa mais estivera naquela sala secreta: alguma coisa grande, algo que Richard guardara em segredo, mas que fora o objetivo de algum plano. Ele estivera organizando alguma coisa, talvez um expositor ou uma venda, alguma coisa que mudaria a imagem do museu para sempre. Seria seu presente para a população de Atlanta, ela tinha certeza. Richard não esconderia seus tesouros, mantendo-os em seus aposentos. Ele os exibiria ao público. Com certeza, era isso o que estivera planejando. Mas alguma coisa saíra completamente errada e a principal peça, que estivera sob a luz central da sala secreta, fora levada... ou interceptada... antes de chegar ali.

Alguma coisa se agitava dentro dela, um desafio, talvez um sentido de propósito, um desejo... não... a necessidade de fazer alguma coisa para ajudar a esclarecer as circunstâncias da morte de Richard, trazendo a verdade à luz, como se ela estivesse cavando e espanando algum artefato valiosíssimo, um ato que traria graça e significado à sua morte vazia e sem sentido. Ela diria à policia tudo o que descobrisse, assim que desco­brisse, mas faria alguma coisa. Precisava fazer alguma coisa.

A porta abriu-se. Era Tonya.

—        Sinto muito ela disse, começando devagar. Não pensei que a senhorita estivesse aqui. Eu devia ter batido.

Não tem problema disse Deborah.

Volto mais tarde disse a empregada, dando um passo atrás.

—        Ah, Tonya disse Deborah, rapidamente, como se acabasse de ter um pensamento repentino. Será que você poderia ligar o computador do Richard no andar de cima? Preciso baixar alguns recibos da festa de ontem.

Era uma mentira débil, pensou ela, mas que não faria mal a ninguém, apesar de, por uma fração de segundo, Tonya ter hesitado antes de sorrir e dizer "Claro".

A porta foi novamente fechada e Deborah ficou sentada, esperando.

O relógio no canto inferior da tela do monitor virava minuto a minuto. Deborah levantou-se apenas para voltar a sentar-se. Tonya diria a Keene e ele se colocaria na frente dela com aquele olhar malicioso pregado ao rosto. Deborah mexeu o mouse e deu um clique no menu para desligar. Um novo ícone, porém, apareceu na tela. Ela digitou mais uma senha e conseguiu acesso.

Deborah não sabia o que estava procurando. Examinou uma série de relatórios financeiros e planilhas, mas tudo parecia estar no lugar certo. Abriu os arquivos de Richard e correu os olhos pelas pastas. Uma delas causou-lhe um calafrio. Seu título era bastante simples: "Atreu".

Rapidamente, ela clicou duas vezes sobre o documento e esperou que o sistema, irritantemente lento, o abrisse. O documento continha um arquivo simples, salvo em JPEG.

Uma foto?

Ela clicou e esperou que a imagem começasse a ser carregada. A porta abriu-se. Era Calvin Bowers.

Deborah pretendia minimizar rapidamente a foto assim que ela surgisse, mas ficou estática por uma fração de segundo ao ver a tela encher-se com um rosto largo e estilizado, forjado em ouro: uma máscara mortuária micênica.

 

 

                                       CAPÍTULO 15

 

—Trabalhando um pouco? perguntou Calvin Bowers, olhando por cima dos ombros dela para a tela do computador, agora branca. Ela fechara o arquivo no momento em que ele entrara, mas não fora rápida o suficiente para impedir que visse a máscara dourada.

O senhor não costuma bater? ela perguntou, o pânico tomando conta dela.

Sinto muito ele disse, com um sorriso amável. O que era aquilo na tela do computador?

Deborah vacilou.

—        Era uma máscara mortuária grega disse ela. Estou pensando em usá-la na página do museu.

A resposta esfarrapada soou idiota e desajeitada.

—        O museu tem uma dessas? ele disse, num tom que não era exatamente uma pergunta. Ele sabia que não.

Uma página na internet? ela perguntou.

Uma máscara grega ele disse.

—        Não ela admitiu. — Trata-se apenas de um tipo de ícone arqueológico. Um símbolo.

Olhando para ela, ele ponderou um pouco.

—        Devo dizer que a senhorita não sabe mentir ele disse, finalmente. Não é seu estilo. O que, para mim, está ótimo, mas se contar esse tipo de história à policia, corre o risco de arrumar problemas sérios.

Ela franziu o cenho e desviou o olhar. Ele tinha razão. Sua vida estava embasada na integridade, o que fazia que, para o mundo, ela se tornasse péssima mentirosa. O quanto sua retidão obstinada se entranhara nela mesma fazia-se evidente no fato de ter tomado seu comentário como um elogio. Definitivamente, mentir não era seu estilo.

—        Pode ser que a máscara tenha ligação com a morte de Richard ela disse. Não sei ao certo. OK?

—        OK ele disse. Como assim?

Não tenho certeza — ela disse. — Estou apenas começando a especular.

Sobre o quê?

Durante alguns momentos, ela ficou ali, sentada, pensando mais no que poderia se lembrar do que em articular uma resposta para ele. Quando ela começou a falar, ele primeiro ouviu displicentemente e, depois, com mais seriedade, inclinando-se para a frente, seu olhar apertado e cheio de vida.

 

Deborah lhe disse que potes micênicos, jóias e armas eram uma coisa, mas uma máscara mortuária era algo completamente diferente. Os arqueó­logos costumavam encontrar todo o tipo de artefatos, em vários tipos de locais, mas máscaras mortuárias eram encontradas em um lugar apenas: em sepulturas. Sepulturas de pessoas ricas, ou seja: túmulos de reis.

Além do mais, trata-se de um rosto.

Sim, aquilo também devia ser levado em consideração. Armas e jarros, anéis e tigelas, todos tinham um valor especial, mas nada evocava mais a grandeza do passado, em termos humanos, do que a máscara mortuária de um homem, mesmo que estilizada. Além de reais, as máscaras mortuárias são pessoais e até mesmo íntimas; é como se olhássemos o passado por intermédio de um túnel para descobrir que ele termina em um espelho, todas as histórias e lendas reduzidas ao rosto de um ser humano. Não era de admirar, disse Deborah, que fossem tão valorizadas pelos colecionadores e pelas hordas de pessoas que passavam pelos expositores dos museus, seus olhos perdidos nos olhos da máscara e, conseqüentemente, nos do homem que a usara na morte.

Uma outra razão por que tais máscaras eram tão apreciadas era que, normalmente, não ficavam muito tempo em contato com o solo. Os túmulos eram, via de regra, bem marcados, ou as pessoas simplesmente se lembravam do local onde as cerimônias funerárias aconteciam, assim como do tipo de tesouros enterrados com o corpo. O que significa que as sepul­turas eram pilhadas, freqüentemente logo após o enterro e algumas vezes séculos mais tarde, depois da morte da civilização, deixando apenas as lendas para os ladrões de sepultura. Quando um arqueólogo conseguia chegar lá, os objetos de maior valor já tinham desaparecido há muito tempo. É claro que existiram exceções: a descoberta do sarcófago de ouro de Tutancâmon feita por Carter, por exemplo. E Schliemann, em Micenas.

Não se tratava apenas do fato de as máscaras serem raras. Se alguma fosse encontrada hoje, as chances de tirá-la de seu país de origem seriam virtualmente zero. As potências econômicas do século XIX encheram seus museus nacionais com tesouros levados de nações um dia poderosas no campo da arte e da guerra e, mais tarde, reduzidas à ignomínia dos colonizados. Mas esse tempo acabou e não se passa mais um dia sem que se ouça algum apelo da Grécia, do Egito, do Irã ou da índia, da Colômbia ou do Peru para que os proprietários atuais devolvam a seus países de origem estátuas, jóias, pinturas ou relíquias pilhadas há séculos por agentes do império europeu. Não, as chances de que tesouros mortuários micênicos tenham sido trazidos atualmente para a América, sem levantar a mais leve suspeita no radar da comunidade cultural, eram mínimas. Quase nulas. O que a levou de volta a Schliemann.

Schliemann? — perguntou Calvin. Ele estivera ouvindo atenta­mente, inclinado para a frente, e esta era a primeira palavra que pronun­ciara desde que ela começara a falar. Deborah gostava de falar sobre o assunto, e gostava da maneira como ele sabia ouvir.

Preciso ler um pouco antes de falar mais sobre ele — disse ela, com honestidade. — Richard era especialista no assunto, mas, como não gostava que eu dissesse isso, tentava não trazer o assunto à baila quando eu estava por perto.

Ela sorriu, pesarosa.

—        Por que você não gostava dele? — perguntou Calvin. — Você o conheceu pessoalmente?

Deborah riu.

Heinrich Schliemann morreu muito antes de eu nascer — ela disse. — Fez descobertas fantásticas, mas às vezes seus métodos eram bem obscuros. E, se me lembro bem, vários objetos desapareceram.

Artefatos?

Artefatos.

Ouça — disse Calvin, depois de uma pausa meditativa. — Preciso dar uma olhada na correspondência no andar de cima, mas talvez possamos conversar um pouco mais amanhã. Durante o almoço, talvez?

Foi uma pergunta cautelosa. Ele não queria mostrar-se muito interes­sado — pelo menos, não nela — ou frívolo. Por que será que perguntara? Para lhe dar a chance de falar um pouco, ajudá-la a tirar a morte de Richard da cabeça? Provavelmente. Ela imaginou que fosse gentileza, apesar de preferir que ele simplesmente quisesse falar sobre arqueologia. Richard teria achado ótimo.

—        Claro — ela disse, tentando sorrir, porém mal pensando nele. Sua mente já estava concentrada nos livros do andar de cima e no que eles poderiam lhe ensinar sobre Heinrich Schliemann.

 

 

                         CAPÍTULO 16

 

Deborah hospedou-se no Holiday Inn, do outro lado da esquina. Quando sentou-se e pediu um hambúrguer no quarto, a pilha de livros que havia emprestado do estúdio de Richard (com a permissão de Cerniga) parecia uma parede. Assistiu televisão, mudando de um canal para outro, até sentir-se tomada até a medula pelo cansaço. Desligou o aparelho, deitou-se e dormiu de roupa.

 

Passou a manhã seguinte manuseando os livros, lendo rapidamente, verificando referências e, de vez em quando, devorando capítulos inteiros. Quando terminou já era hora do almoço, mas ela estava sem fome. Tomara muito café e ainda sentia a cafeína dançando em suas veias, dizendo-lhe que não precisava comer. Talvez suas leituras a tenham deixado mais energética e vibrante do que a cafeína.

Primeiro, a comunidade arqueológica havia ridicularizado Schliemann e sua convicção de que a Guerra de Tróia realmente acontecera, mas ele foi até lá e descobriu Tróia ao nordeste da Turquia, subitamente atraindo a atenção de todos. Entretanto, muitos se mostraram previdentes e mesmo seus discípulos ficaram alarmados com seus métodos. Ele foi acusado de "jogar areia"em suas descobertas, de deturpar os locais onde encontrara os objetos, de estocá-los para provar a veracidade dos antigos poetas e de exagerar a própria glória. Além disso, houve o episódio do Tesouro de Príamo.

De acordo com Homero, Príamo era o rei de Tróia durante o cerco dos gregos. Ele era pai de Heitor, Troilus e Paris, que causara a guerra ao roubar Helena do irmão de Agamenon, Menelau. Homero disse que a cidade de Priam era rica em ouro, mas Schliemann chegou ao final de suas escavações sem encontrar o metal. Quando as escavações estavam sendo dadas por terminadas, ele, pessoalmente, encontrou artefatos de ouro parcialmente cobertos de terra. Entre os objetos havia uma extraordinária coleção de jóias. Essa história impressionante e, para muitos, duvidosa — tornou-se ainda mais estranha quando, depois de terem sido fotografadas sendo usadas por Sofia, esposa de Schliemann, todas as jóias desapareceram. Convencido de que o arqueólogo havia contrabandeado o tesouro para fora do país e de seu alcance, o governo turco ficou furioso...

Se uma coleção de artefatos pôde ser desviada, por que não outra?

Depois do trabalho realizado na Turquia, Schliemann iniciou suas escavações micênicas com um objetivo específico. De acordo com a lenda, quando Agamenon, rei dos gregos vitoriosos, retornou a Micenas, foi ludibriado por sua esposa, Clitemnestra, que o convenceu a tomar um banho e, com a ajuda de seu amante, o matou. Ele foi enterrado com grande pompa, e Schliemann acreditava que seu túmulo ainda estava por ser descoberto.

O governo grego, como todos os outros, mostrou-se cético, mas acabou lhe dando permissão para escavar. Schliemann, convencido de que a câmara mortuária real encontrava-se dentro das paredes da fortaleza, cavou um poço do lado de dentro da entrada principal, certo de estar retirando massa e não terra naturalmente compactada. Depois de cavar mais de três metros, não encontrou nada. Ele começou a cavar um novo poço, e depois outro e mais três. E as coisas começaram a ficar interessantes.

Ele encontrou uma série de túmulos contendo restos fragmentados de vários corpos. Eles usavam diademas feitos de cobre e arame e, ao lado deles, havia vasos de prata e facas de pedra de obsidiana. Na sepultura do quarto poço, ele encontrou os restos de cinco cabeças de touro de prata com chifres de ouro, espadas de bronze e taças de ouro. O mais notável é que três dos corpos usavam magníficas máscaras mortuárias.

Mas foi apenas quando ele voltou ao primeiro poço e cavou mais fundo que a comunidade arqueológica mundial finalmente voltou sua atenção e reverenciou aquela antiga fortaleza localizada sobre uma colina grega. Nesse último túmulo, ele encontrou o mais precioso de seus achados: mais três corpos, dois deles usando máscaras de ouro e uma terceira máscara, diferente de todas as outras, maior, mais nítida, mais régia.

Em um telegrama, mais tarde descartado por ser considerado apócrifo, foi reportado que Schliemann teria enviado um telegrama para um jornal ateniense anunciando, com o orgulho costumeiro, que havia "olhado para o rosto de Agamenon".

O que não aconteceu. Na verdade, os corpos e os objetos que os acompanhavam nas sepulturas eram três séculos mais antigos que Agamenon, se é que tal pessoa realmente existiu. A bem da verdade, alguns acadêmicos mostraram-se bastante desconfiados a respeito da espetacular máscara de "Agamenon". Diziam que ela possuía um formato diferente. O nariz não combinava com as outras partes. O cavanhaque parecia positivamente do século dezenove... Teria evoluído do roubo e manipulação da verdade para a falsificação descarada?

Mas, enquanto se acomodava na poltrona, absorvendo tudo, Deborah sentiu uma nova possibilidade nascer em sua mente. Seria possível que nas escavações micênicas tivessem sido encontrados mais objetos do que Schliemann admitiu? Seria possível que a máscara mortuária pouco convencional associada (mesmo que imprecisamente) a Agamenon, que agora ocupava um lugar de honra no Museu Arqueológico de Atenas, fosse falsa? Nesse caso, teria existido uma máscara autêntica, substituída por Schliemann? Será que a máscara verdadeira havia "desaparecido" do mesmo modo que o tesouro de Príamo desaparecera de Tróia? Será que aquela máscara estivera no quarto de Richard apenas algumas horas antes? Como diabos chegara lá?

Richard era capaz de deixar-se cegar por esperanças infantis, mas não era tolo. Se acreditava que a sala atrás da estante continha a maior coleção de artefatos micênicos fora da Grécia, então devia ter alguma evi­dência apontando para sua autenticidade. É quase certo que essa evidência estivesse relacionada à origem: onde e quando a máscara fora encontrada. Nos círculos arqueológicos, origem era tudo. Teria Richard sido capaz de traçar o caminho de volta até o momento em que a máscara fora encontrada? Se isso fosse verdade, quem mais saberia? Seus assassinos? A pessoa para quem estivera ligando na Grécia? Seria apenas coincidência que um velho russo que aparecera apenas alguns dias antes morresse na mesma noite e a menos de dois quarteirões de distância do museu? Será que ele sabia alguma coisa sobre esses artefatos antigos?

Ela pegou a lista telefônica da mesa de cabeceira e, com a caneta na mão, discou um número.

Delegacia de Polícia do Condado de Dekalb — respondeu uma voz feminina.

Sim — disse Deborah. — Estou ligando a respeito do russo que foi assassinado nas proximidades do Museu Colina dos Druidas, duas noites atrás.

—        Qual é seu nome?

—        Deborah Miller — ela disse, imediatamente sentindo que não lhe diriam nada. — Eu trabalho no museu e ajudei a identificar o corpo — acrescentou ela num impulso.

O que era verdade. Até certo ponto.

Esse caso pertence ao detetive Robbins, mas ele não se encontra no momento. Quer deixar recado?

Acho que não — ela disse. — Estou apenas verificando o andamento do caso.

O caso está praticamente fechado — disse a mulher, do outro lado da linha.

—        Já? Eles têm algum suspeito?

—        Não — disse a policial — e, considerando as circunstâncias, é pouco provável que encontrem um. Eu não esperaria muitas pistas para seguir, a não ser que possamos encontrar uma arma conhecida para aquele tipo de bala.

—        Considerando as circunstâncias — repetiu Deborah. — O que quer dizer com isso?

A mulher claramente soltou um suspiro, e Deborah pensou tê-la ouvido remexer alguns papéis. Quando voltou a falar, ela parecia estar lendo.

Sr. Sergei Voloshinov não era cidadão americano. Ele era um estrangeiro residente com visto vencido e, até onde sabemos, mentalmente instável. É provável que tenha trombado com as pessoas erradas enquanto perambulava à noite pelas ruas. Simples assim. Não creio que possamos fazer muita coisa a respeito.

Voloshinov — disse Deborah, escrevendo o nome no bloco de notas do hotel. — Como descobriram o nome dele?

Ele carregava um envelope selado. Parece ter levado uma vida dura nas últimas semanas. As autoridades russas e os parentes foram avisados, mas é provável que seja enterrado aqui.

Parentes?

Uma filha em Moscou. Alexandra.

E a carta? O tradutor foi capaz de descobrir alguma coisa?

—        Espere — ela disse, procurando. — Tradutor... tradutor. OK — com voz sem expressão e uma pitada de tédio, ela começou a ler diretamente da pasta que estava, aparentemente, consultando. — O tradutor David Barrons informou que a carta estava bastante danificada, contendo apenas algumas palavras claras. Parte de uma sentença dizia "Estou mais certo do que nunca de que os restos jamais chegaram a Mary". A última palavra está difícil de ler e pode estar incompleta. Parece que a carta tem mais de 20 anos.

Ela fez uma pausa.

—        É bastante tempo — ela disse. — A senhora pode voltar a ligar, mas acredito que o detetive Robbins não terá nada de novo a dizer. Agora, se não se importa...

"Estou mais certo do que nunca de que os restos jamais chegaram a Mary..."

Deborah pegou-se brincando com a sentença em sua mente. Seria possível que se tratassem de restos arqueológicos? Incluiriam uma máscara mortuária micênica? Será que esse russo enigmático os estivera procurando quando caiu nas garras de quem quer que a tenha levado da sala secreta do quarto de Richard?

 

 

                                     CAPÍTULO 17

 

Deborah voltou ao museu consciente de não ter nada além de especulações, mas estava entusiasmada e queria dividi-las com Cerniga, ou até mesmo Calvin Bowers. Tanto fazia.

Uma máscara mortuária micênica, desconhecida para o mundo, contrabandeada da Grécia por Schliemann um século atrás, e procurada por um russo solitário em Atlanta, na Geórgia! Era extraordinário! Quase o suficiente para manter sua mente afastada da morte de Richard, e sua contribuição à polícia seria contar suas conjecturas: uma maneira de prestar uma homenagem a Richard, desvendando o mistério de sua morte. Quem sabe, talvez a máscara pela qual morrera fosse redescoberta. Ela não era capaz de pensar em qualquer outro monumento tão digno da memória dele.

Mas teria de fazer uma coisa antes. Não havia comido nada aquela manhã e sentia-se subitamente faminta. Lembrando-se de que havia sobras da comida do evento, desceu até a cozinha, nos fundos do prédio. Com a graça de Deus,Tonya não estava por perto.

Descobriu as bandejas da geladeira e beliscou um pouco, cheirando cautelosamente. Tentou o patê, que não achou tão apetitoso quanto duas noites atrás. O que a fez se lembrar. Ela foi até a parede do fundo, tirou o telefone do gancho e discou para o bufê. A perambulação de seus pensa­mentos incompletos, que mais tarde contaria a Cerniga (com Keene dando risinhos sinistros ao fundo), teria de esperar um pouco.

—        Elegância e Sabor disse a voz. Posso ajudá-la?

—        Sou Deborah Miller, do Museu Colina dos Druidas ela disse. Posso, por favor, falar com a Elaine?

Como resposta, ouviu-se uma pausa, um ruído quando o telefone foi entregue a outra pessoa. Uma nova voz, escorregadia e empertigada, atendeu.

—        Elaine Shotridge falando.

Deborah começou a listar suas queixas. Ela já lidara com Shotridge antes e sabia que delicadeza e educação não serviriam para nada. Por um momento, foi como se nada tivesse acontecido. Como se este se tratasse de apenas mais um telefonema de negócios. Richard estaria no andar de cima, trabalhando em seu escritório esperando, animado, para ouvir o entrevero entre Deborah e Elaine Shotridge, a rainha tirana do serviço de bufês de Atlanta.

Posso dizer, em nossa defesa — disse Shotridge — que o espaço disponível na geladeira não correspondeu ao que esperávamos.

O espaço disponível na geladeira não tem nada a ver com o fato de seus funcionários não terem feito a limpeza depois do evento, ou de termos ficado sem vinho tinto.

Ficaremos felizes em fazer um desconto no total da nota — disse Shotridge. — Vamos dizer, 10%?

Vamos pensar em 15% — disse Deborah. — Não posso dizer que tenha ficado impressionada com sua seleção de canapés.

Srta. Miller — disse Shotridge, esfriando rapidamente o tom. — Não faço objeções a dar desconto na nota, mas questões de puro gosto não justificam uma tentativa de pechincha. Fico indignada com qualquer insinuação de que nossos canapés sejam qualquer coisa menos do que os mais finos, artesanais...

Este seria o ponto em que ela deveria dizer à mulher que Richard estava morto e que bater boca sobre alguns pratos de canapés de gorgonzola não tinha a menor relevância em sua lista de prioridades, mas não foi capaz. No momento, ela funcionava adequadamente, coisa que não poderia fazer se começasse a falar sobre a morte de Richard. Voltou a usar o sarcasmo que tentara evitar.

E eu fico indignada ao ter de pagar 30 dólares por um prato de bolinhas de melão enroladas em presunto que têm gosto de olhos de carneiro com couro de sapato — ela disse. — Então, vamos deixar a preten­são de haute cuisine de lado, por favor.

Os amigos gregos do sr. Dixon elogiaram meu queijo feta nas tortinhas de espinafre — bufou Shotridge.

Espere um momento — disse Deborah, voltando a colocar-se em foco. — Os amigos gregos do sr. Dixon? Que amigos gregos?

Os dois senhores com quem ele falava durante sua apresentação — ela disse, astuta.

E como você sabe que eram gregos?

Pareciam ser gregos — disse Shotridge. — Falavam como gregos e... ah, sim... o sr. Dixon me disse que eram gregos.

Ao que tudo indicava, Shotridge havia assumido a direção do depar­tamento de sarcasmo.

—        O que mais eles disseram? — perguntou Deborah. Estava certa de não haver nomes gregos na lista de convidados.

Nada — disse Shotridge. — Estavam conversando entre eles... em grego... eu estava passando a bandeja e o sr. Dixon perguntou se podia pegar mais alguns para seus amigos gregos, porque eles gostaram muito. Foi o melhor queijo feta que já comeram, ele disse. Eles concordaram com a cabeça e sorriram, e cada um pegou três. Depois, eu saí de perto.

Não disseram mais nada?

Não — ela disse. — 12%. É minha última oferta.

—        Fechado — disse Deborah, desligando.

Era hora de falar com a polícia.

 

 

                                   CAPÍTULO 18

 

Deborah colocou outro canapé na boca, que engoliu com um desleixado gole de suco de cranberry. Estava se virando para sair quando Calvin Bowers entrou.

—        Calvin ela disse, sem pensar. Você gostava de Richard?

Ele franziu a testa enquanto ajustava a mente para entender a pergun­ta inesperada e o fato de ela tê-lo chamado pelo primeiro nome.

—        Na verdade, eu nunca o encontrei pessoalmente, mas, sim, claro, acho que sim ele disse. Por quê?

—Você acharia difícil acreditar que ele seria capaz de colocar o museu acima de sua fortuna pessoal e até de sua reputação?

—        De maneira nenhuma ele disse.

Deborah assentiu com a cabeça. Aquela era a resposta certa. Ela sentiu-se um milímetro mais próxima dele.

—        Eu também não ela disse.

Por um brevíssimo momento, ela viu a coleção grega completa, com a máscara ao centro, disposta em expositores brilhantes para o mundo, no saguão ou na sala especialmente planejada que ficava no final do corredor longo e escuro, organizada com textos educacionais e imagens: a melhor coleção de antiguidades gregas fora de Atenas. Com certeza, era esta a imagem que Richard estivera perseguindo.

Calvin, que a observava como se pudesse ver as imagens na cabeça dela, assentiu com a cabeça.

—        Entendo ele disse. Se eu puder fazer alguma coisa para ajudar... Ela sorriu e, suspirando, percebeu que estivera prendendo a respi­ração.

E, por falar nisso ele acrescentou —, não estou encontrando parte da correspondência legal de Richard. Havia alguma coisa guardada aqui em baixo?

No escritório ela disse. É lá que eu guardo a maior parte dos documentos relacionados ao museu. Você está procurando alguma coisa específica?

Ele mostrou-se um pouco acanhado.

—        Como eu disse, o sr. Dixon estava trabalhando com alguns documen­tos relacionados tanto com sua fortuna pessoal quanto com seus interesses no museu. Pode ser que tenham alguma influência em seu testamento. A polícia vai querer averiguar a situação legal do patrimônio dele, no caso de isso ter alguma relação com o motivo.

Deborah assentiu com a cabeça, com postura executiva, tomando o cuidado de mostrar que o fato não a incomodava.

Então eram documentos pessoais — ela disse — e devem estar nos arquivos da residência, não no museu. A não ser que tenham chegado muito recentemente.

Recentemente, quando?

Se foram endereçados à casa dele, não mais do que um dia ou dois — ela disse. — Se são pessoais, mas endereçados ao museu, demora um pouco mais. A casa tem um número diferente: 143. O museu é número 157. Não me pergunte, já que fazem parte do mesmo prédio. Mas existem duas caixas de correspondência. Eu cuido da correspondência profissional, separo os catálogos de propaganda e encaminho o que precisa ser analisado. Não recebemos muita coisa e, a não ser que eu assinalasse alguma coi­sa importante, ele dava uma olhada somente quando tinha tempo. Algum problema?

Ele estava parado e seus olhos haviam se estreitado, mas, ao ouvir a pergunta dela, ele afugentou os pensamentos e sorriu.

—        Acredito que não. O problema é que eu detesto ver documentos oficiais passando pelas mãos de qualquer um, a não ser a pessoa endereçada. É o advogado que existe em mim.

 

Os detetives Cerniga e Keene estavam no andar de cima, no estúdio ao lado do quarto de Richard, onde examinavam a lista de convidados e o inventário do museu. Deborah olhou para a escadaria e decidiu tomar uma última precaução antes de subir para falar com eles.

O banheiro feminino ao lado do escritório era um pequeno cômodo quadrado, reservado aos funcionários do museu. Havia um vaso sanitário e uma pia com sabão líquido, e um secador de mãos elétrico que sempre deixava suas mãos pingando. O interruptor estava ligado a um exaustor que girava e zunia num volume quase tão alto quanto o da descarga. Com aquele barulho e o secador de mãos ligado, era espantoso que se pudesse ouvir qualquer coisa, o que fez que ela se surpreendesse com o som alterado de vozes.

Deborah demorou um segundo para perceber de onde vinham. Na parede acima do vaso sanitário havia um duto de ventilação que não era o ventilador do exaustor, o sistema de aquecimento e ventilação. No começo, ela mal prestou atenção, mas então percebeu que as vozes eram masculinas; na verdade, eram dos detetives com quem pretendia falar. Mesmo com o ruído do secador de mãos, ela tinha certeza de que as vozes eram deles.

A tubulação deve estar ligada ao estúdio, no andar de cima.

Ela nunca reparara antes. Por que deveria? Quantas vezes alguém falara em voz alta naquela sala? Ela era o santuário privado de Richard.

Uma das vozes era mais alta do que a outra. Cerniga? Não, Keene.

O melhor que você tem a fazer é ignorar, ela pensou. Por hoje, você já fez sua parte de abelhuda.

O secador de mãos parou com um ruído decrescente e as vozes ficaram mais claras.

—        Isso é o que você diz — rugiu Keene. — Como poderia saber?

Uma resposta engrolada e inaudível de Cerniga, e um latido que parecia a risada de Keene, em resposta. Depois, Cerniga voltou a murmurar, mas Deborah não entendeu o que dizia.

Agindo por impulso, ela estendeu a mão e apagou a luz. O banheiro caiu na escuridão e ouviu-se novo silêncio quando o exaustor parou de funcionar. A voz de Cerniga, levemente metálica por causa do eco da tubulação, anelava-se com leveza de fumaça.

Eu já lhe disse — ele falou, contido e irritado. — Se você tem algum problema com isso, fale com seu capitão.

Já fiz isso — gritou Keene em resposta —, e você sabe muito bem que não adiantou nada.

—        Quer dizer que a história está terminada, certo? — disse Cerniga.

—        Não, nem um pouco terminada — disse Keene. — Você, transferido do Condado de Henry? Hoje de manhã eu liguei para lá e ninguém nunca ouviu falar de você. Ninguém.

De repente, no escuro, Deborah sentiu-se desprotegida e com frio. Tinha os cabelos da nuca arrepiados, como ficaram quando ela sentiu o aroma de perfume e fumo de cachimbo na porta de seu apartamento.

Seu capitão lhe deu ordem para trabalhar comigo — disse Cerniga. Agora, a voz dele era fria como o aço, como se estivesse contendo uma fúria imensa. — Se você tem algum problema com isso, deve reclamar para ele.

Será que, ao menos, você é tira? — perguntou Keene. — Eu vi muito bem a expressão em seu rosto quando lhe dei aqueles formulários. Você nunca havia preenchido algo parecido antes. Quero ver seu distintivo.

Nesse momento, alguém do lado de fora tentava abrir a porta do ba­nheiro. E Deborah não ouviu mais nada.

 

 

                               CAPÍTULO 19

 

Era Tonya. Sinto muito ela disse, não soando nem um pouco verdadeira, até que percebesse o rosto pálido de Deborah. Não vi luz por baixo da porta e pensei... A senhorita está bem? Parece que acabou de ver um fantasma.

—        Está tudo bem disse Deborah. Estou... apenas um pouco cansada. Os últimos dias não têm sido fáceis. Acho que vou...

Mas ela não sabia o que fazer. Agitou vagamente a mão e tentou sorrir, mas a preocupação no rosto de Tonya lhe dizia que ela não estava acreditando.

Precisa de alguma coisa?

Não, obrigada.

Quer que eu peça aos policiais para descerem?

—        Não disse Deborah, mais brusca do que tivera a intenção de ser. Quer dizer... Não. Tudo bem. Falo com você mais tarde.

Deborah afastou-se da escadaria que levava ao estúdio de Richard e caminhou em direção ao museu. Apressou o passo, determinada. Ao passar pelos fantasmagóricos espécimes de taxidermia vitoriana, estava quase correndo. Entrou no escritório do museu, abriu o cofre e pegou seu passaporte. Em dois minutos, estava no saguão com o T. Rex e a senhora-dragão da proa do navio. Mais quatro minutos, estava em seu carro, indo embora.

Seu celular estava desligado e ela o deixou assim.

Tudo o que precisava era ir para casa ou, pelo menos, para o hotel. Dormir um pouco. Clarear as idéias.

Mas isso não vai mudar o que você ouviu pela tubulação.

O que era a mais pura verdade, ela pensou, enquanto passava pelos faróis da Buford Highway em direção à rodovia interestadual. Mas se ela pudesse colocar certa distância entre si mesma e o museu, com seus estranhos tesouros, o que ouvira poderia, de alguma maneira, fazer sentido. Precisava apenas de um pouco de tempo consigo mesma.

Quando entrou na I-85, em direção ao centro da cidade, sobressaltou-se com o guinchar de pneus na rodovia atrás dela. Ela olhou pelo retrovisor a tempo de ver uma van escura avançar o sinal vermelho no alto da colina e descer, em disparada, atrás dela.

Motoristas de Atlanta, ela pensou. Sempre prontos a arriscar a vida para chegar em casa cinco minutos mais cedo.

Ela manteve-se na pista da direita para dar passagem ao motorista e perguntou-se para onde iria. Instintivamente, havia começado a ir para casa, distanciando-se do Holiday Inn, que ficava bastante próximo do museu. Perto demais de Cerniga e de Keene.

Talvez eu fique algum tempo dirigindo por aí. Ou dê uma caminhada no Parque Piedmont. Sim. Pego o caminho de casa, estaciono na Juniper e dou uma volta no lago.

A idéia fez sentir um pouco de determinação. Ela relaxou alguns minutos, voltando a seu estado de espírito costumeiro enquanto deixava que o fluir do tráfego esvaziasse sua ansiedade. Sua mente consciente, mais calma agora, voltou à conversa que ouvira no banheiro. Poderia ter ouvido errado. Era possível, ela supôs, mas estava preparada para apostar que não. Poderia ter sido algum tipo de piada particular? Menos provável ainda. Então, Keene suspeitava que Cerniga o homem encarregado da investigação sobre a morte de Richard não fosse sequer um tira? Como era possível? O que isso significava?

Ao chegar à Curva Grady, ela ainda estava na pista interna, com uma mureta de concreto à direita. A parte menos consciente do cérebro, usada para dirigir, interrompeu seus outros pensamentos, fazendo sinal para uma placa familiar: Right Lane Ends, 500 metros.

Ela olhou pelo espelho retrovisor externo e começou a sair para a esquerda, desviando bruscamente ao ver um caminhão que se mantivera fora de seu campo de visão.

Preste atenção!

Ela afugentou todos os pensamentos e segurou o volante com força.

O caminhão à sua esquerda ainda estava lá, aparentemente desatento ao fato,de que ela quase o atingira. Ela aumentou a velocidade para ultrapassá-lo, mas o caminhão emparelhou-se com ela (agora que ela olhava com atenção, era na verdade uma van).

Típico.

— Vá na frente, então, seu macho idiota resmungou ela, diminuindo a marcha para deixá-lo passar. Não lhe restava estrada suficiente para defender seu ponto de vista, e o tráfego de Atlanta se movia velozmente. Sem acostamento e com o muro de concreto à sua direita, não havia espaço para erros.

A van também diminuiu a marcha, mantendo-se perfeitamente alinhada ao seu carro. Deborah virou-se para o lado, pronta para lançar um olhar duro para o motorista, mas os vidros tinham uma escura película de proteção solar e ela não pode vê-lo.

Van?

Em sucessão rápida, pensou em duas coisas. Esta era a mesma van que cantara pneus tentando alcançá-la quando entrou na interestadual. O motorista à esquerda não era apenas um idiota querendo apostar corrida com ela.

Lane Ends a 300 metros, dizia a placa. Entre à esquerda. — Estou tentando — ela disse.

Ela virou e meteu a mão na buzina. Ele não se moveu. Ela não esperava que ele saísse. Viera atrás dela desde o museu e a encurralara de propósito. Pisou no acelerador, atingindo 90, 100 quilômetros por hora. À frente, ela via a estrada transformar-se em uma estreita faixa marcada por cones alaranjados, ao longo de outro muro de concreto que apareceu à sua frente.

A van a seu lado acelerou e avançou, centímetro a centímetro, em dire­ção à pista de Deborah. Ele a estava espremendo. À sua direita, a escura massa do muro cresceu subitamente. Ela estava ficando sem espaço. Em meio ao pânico crescente, Deborah tinha absoluta certeza de que se ele não se movesse e ela atingisse a parede na velocidade em que estava, a colisão a mataria.

Lane Ends, 150 metros.

Ela pisou fundo no freio, tão fundo que a traseira de seu Toyota derrapou levemente e a lateral chocou-se contra o beiral de cimento, num baque inesperado e seguido do ranger cantante do metal. Por uma fração de segundo, a van ao seu lado pareceu avançar, mas logo começou também a frear, diminuindo a velocidade para acompanhá-la.

Ela reduzira para 40 quilômetros por hora, mas a parede à frente era ameaçadoramente grande.

Ótimo, pensou ela. Vou parar completamente.

E depois? E se ele também parasse? E se saísse do carro?

Por um breve momento, ela viu o corpo de Richard estirado ao chão, tão pálido e tão velho. O que fizeram com ele foi impiedoso.

Ela fixou os olhos na parede de concreto à frente e meteu o pé no acelerador.

 

 

                           CAPÍTULO 20

 

Fazer aquilo seria loucura. Seria, ela pensou, como se a sólida massa de concreto viesse em sua direção, uma coisa temerária e suicida.

Seria também a última coisa que o motorista da van poderia esperar e, quando ele percebesse o que Deborah estava fazendo e acelerasse para encurralá-la, ela estaria a uns 10 metros à sua frente e escorregando para a esquerda, quando a parede viesse ao seu encontro.

Ela bateu na quina em meio a uma chuva de estilhaços de vidro, mas o carro quase não diminuiu a marcha e ela rabeou em direção ao tráfego sob um coro de buzinas e guinchos de freadas.

Isso foi loucura! Você poderia estar morta!

Se eu tivesse parado, estaria.

Isso calou a outra voz. Por algum tempo.

Ela colocou-se na pista do meio, sentindo sua respiração voltar ao ritmo normal. Com as ondas que fazia com as mãos, ela começou a pedir desculpas aos motoristas ao redor, que ficaram irritados com tudo aquilo. Deborah virou então o retrovisor a tempo de ver a van preta pegar a próxima saída e sumir.

 

Deborah não foi caminhar no parque. Saiu da interestadual a tempo de parar em um caixa automático, de onde tirou a maior quantia permitida em espécie. Depois, deixou seu carro avariado em um estacionamento de uma sinagoga reformista, O Templo, que certa vez pensara em freqüentar. Caminhou até a estação Centro de Artes MARTA e concluiu sua jornada no trem urbano que a levaria diretamente ao terminal de Hartsfield-Jackson, no Aeroporto Internacional de Atlanta.

Alguém invadira seu apartamento e pior esperara por ela. Alguém tentara tirá-la da estrada. Alguém matara Richard. O mais estranho e perigoso de tudo era saber que as pessoas a quem ela mais quisera recorrer a polícia não eram, nesse caso, confiáveis. Precisava sair dali. Para muito longe. Além de sua bolsa (estufada com correspondência do museu que não tivera tempo de abrir), ela não levava bagagem alguma, mas como não dava muita importância a roupas, aquilo não a incomodava. Ao chegar, compraria o que precisasse. Ao chegar onde?

Isso ela ainda não havia decidido, e a decisão tomava conta de seus pensamentos enquanto se deixava sentar em um dos bancos de plástico do vagão de trem quase vazio, que eram, por razões que ultrapassavam sua compreensão, de um alaranjado tão odioso que chegava a causar náuseas.

Poderia voltar para sua casa em Brookline, ficar com sua mãe e irmã, pensou ela, imediatamente se dando conta de que não faria tal coisa. Suas visitas a Massachusetts, como sua mãe gostava de frisar, eram poucas e espaçadas e talvez, como resultado, eram períodos de negociações difíceis, estressantes e que envolviam muita manipulação. Era mais ou menos assim que as coisas vinham acontecendo desde a morte de seu pai.

Olá, mãe, é Debbie. Tem alguém tentando me matar. Importa-se se eu der uma passada por aí?

Céus, aquilo nunca funcionaria.

Ela saiu do trem e caminhou em direção ao terminal sul, passando pelo burburinho da multidão até o balcão de embarque Delta. Sentiu-se feliz por não ter ligado com antecedência e estava resolvida a escrever seu nome errado na passagem. Alguma coisa que parecesse apenas um erro de datilografia, o suficiente para atrasar qualquer busca policial nos com­putadores dos aeroportos.

Não! Eles são a polícia! Você pode confiar neles. Conte-lhes sobre a van. Você precisa confiar neles, ou...

O caos voltará a reinar? Exatamente.

Ela verificou os monitores, depois dirigiu-se a uma fila curta dominada por uma família de aparência atormentada, com enormes malas que vazavam de dois carrinhos. A funcionária no balcão, cabelos rigorosamente presos num coque e olhos cansados, estava explicando alguma coisa sobre bilhetes eletrônicos. Deborah olhou para trás dela. Há poucos metros dali, havia portas nas paredes de painel de vidro, portas para a área de carga e descarga, para a estrada e para o mundo normal e corriqueiro...

Onde motoristas assassinos tentam jogar você contra sólidas paredes de concreto ou, se você parar, a encurralam num viaduto deserto com uma faca que deixa equimoses simétricas ao redor da perfuração.

Ao virar-se bruscamente, ela trombou com um homem de meia-idade num terno de três peças. Ele suava e, como a maior parte dos viajantes aéreos, parecia ansioso.

— Desculpe — disse Deborah.

O homem, que parecia mais surpreso do que indignado, não disse nada. Mais por constrangimento do que por qualquer outra coisa, ela virou-se e voltou para o balcão.

Procure um policial.

Que a entregaria a Cerniga? Não. A única pessoa que parecia estar do lado dela era um advogado de quem, até dois dias atrás, ela nunca ouvira falar.

—        Posso ajudá-la? — disse a funcionária, abrindo seu sorriso ensaiado.

A família trocava palavras ansiosas e examinava seus cartões de embarque como se estivessem escritos em código.

—        Ainda tem assentos vagos? — ela perguntou.

—        Para este vôo? — respondeu a funcionária. — Você gosta de correr riscos, não é?

Deborah deu um sorriso cansado, mas não disse nada. A funcionária consultou a tela.

—        Sim — ela disse. — Mas você terá de andar rápido. A segurança tem agido como ursos. Ida e volta ou só ida?

— Ida e volta — disse Deborah —, mas posso deixar a data da volta em aberto?

—        Claro — disse a funcionária, digitando em seu teclado. — Pronto. Como quer pagar?

Apesar de não querer usá-lo, o cartão de crédito parecia ser a única opção. Na certa, ainda não teriam começado a procurar por ela. Enquanto a funcionária verificava o preço, ela colocou seu MasterCard sobre o balcão.

—        Vamos ver — ela disse. — Uma viagem de ida e volta, de Atlanta para Atenas, com volta em aberto.

 

                                           INTERLÚDIO

 

França, 1945

Edward Graves tirou seu capacete branco de policial militar, colocou-o sob sua sacola de lona no lado do passageiro da cabine do caminhão Opel e entrou com passos decididos no correio do vilarejo. Estivera um pouco preocupado com essa etapa do plano porque não falava francês, mas, no fim, acabou não precisando usar a língua. Mostrou ao agente de correio sua identidade militar cuidadosamente falsificada e esperou enquanto uma mulher idosa tagarelava aparentemente agradecida sobre a liberação. Ele assentiu e sorriu, desejando que ela o deixasse em paz.

Um pacote, monsieur disse o agente, segurando-o com ar triunfante como se tivesse, pessoalmente, atravessado o Canal da Mancha a nado para trazê-lo.

Sem dizer uma palavra, Graves pegou o pacote e retirou-se, sem tirar os olhos do agente de correio do Reino Unido até estar novamente seguro no caminhão. Rapidamente, abriu a encomenda, usando os dentes quando a fita adesiva resistia. Ele tinha dedos longos e ágeis, que tremiam levemente enquanto tiravam a carta e o maço de notas britânicas. Contou-as rapidamente e, em seguida, olhou para o envelope, que não continha nada além de um endereço de entrega em Londres e o nome do remetente: Randolph Fitz-Stephens. Amassou o envelope e atirou-o pela janela, girou a chave para dar partida e esperou que o motor começasse a funcionar.

Três horas depois, ele estava olhando para o lado do cais enquanto o navio de transporte St. Lo afastava-se do porto de Cherburgo carregado de soldados que voltavam para casa e de bens pessoais, produtos franceses (principalmente vinho) e alguns caixotes, cujo transporte fora pago por cidadãos como ele. Os carregadores não levaram mais do que dez minutos para tirar a caixa da carroceria do Opel e levá-la para o controle. Ele tivera de ficar próximo, tentando não chegar muito perto, procurando não mostrar ansiedade, caso os marinheiros começassem a bisbilhotar à procura de valores. Em marinheiros e negros não se podia confiar.

Dentro de duas semanas ele estaria voltando aos Estados Unidos. Então, Randolph Fitz-Stephens não teria como encontrá-lo, mesmo que soubesse por quem procurar, coisa que não sabia. Seriam todos os britânicos assim tão cretinos? Umas poucas fotos dos produtos haviam deixado o sujeito com água na boca. No início, Graves pensara em pedir 10 mil libras adiantadas, mas quando ficou sabendo do entusiasmo dos britânicos, dobrara a quantia e o sujeito nem pestanejara. Rico e burro, pensou Graves: do jeitinho que ele gostava. Mesmo assim, é provável que pudesse ter tirado mais dele, o que era uma pena. Entretanto, era engraçado pensar no sujeito sentado no cais em Southampton, ou fosse qual fosse o maldito lugar para o qual ele devia ter mandado a caixa, esperando, semana após semana, pela chegada da encomenda e, depois, escrevendo cartas educadas para um homem que não existia, em alguma merdinha de povoado francês insignificante!

As coisas não poderiam ter funcionado melhor. Se seus companheiros abrissem o bico, era possível que ele ainda tivesse de lidar com perguntas sobre aquele comandante do Sherman, mas ninguém acreditaria na história daqueles negros. Além disso, não havia nada ligando Edward Graves, sargento da polícia militar, ao nome daquele recibo de transporte. Considerados todos os aspectos, o verão acabara sendo ótimo. A guerra uma guerra sobre a qual sempre se mostrara, no mínimo, ambivalente havia terminado e ele preparara o terreno para um grande futuro nos Estados Unidos.

 

A guerra na Europa havia realmente acabado, mas só poucas semanas antes, e ainda havia grupos espalhados de tropas alemãs que ou não sabiam do fato, ou resolveram continuar lutando mesmo assim. A 200 quilômetros a noroeste de Cherburgo, um submarino solitário e avariado, com sua torre de comando e equipamentos de rádio destruídos por uma mina perdida, foi um dos antigos U 146, um submarino alemão tipo VIIB, vindo de Saint-Nazaire, estava, literalmente, à deriva, operando com controle mínimo de leme havia duas semanas. Durante esse tempo, o mar bravio havia arrancado os restos da antena do rádio, tornando impossível qualquer tipo de contato com a nação-mãe ou seus agentes. O capitão sabia que a guerra estava indo mal e que as forças do Terceiro Reich estavam, provavelmente, em seus estertores, mas ele fizera carreira militar e abominava a idéia de abandonar seu navio claudicante, caso ainda houvesse trabalho a ser feito. Incerto sobre quais ancoradouros para submarinos estavam em poder dos alemães, decidira esperar mais um dia antes de tentar mandar um SOS. A equipe de salvamento, se conseguisse chegar antes que o submarino afundasse completamente, seria provavelmente americana. Ele esperaria até que estivessem próximos o bastante para tirar os homens da água antes de emborcar o navio.

O grande azar do navio de transporte St. Lo fora ter aparecido no campo de visão do submarino com três horas restantes no relógio e dois torpedos ainda em seus tubos, prontos para serem lançados.

 

                                          Sobre o Mar Escuro Como O Vinho...

 

 

                       CAPÍTULO 21

 

A decisão de ir para a Grécia tinha sido automática. Fora lá que tudo comecei. De lá o tesouro era originário. De lá vieram os convidados misteriosos de Richard que compareceram ao evento. Para lá Richard estivera telefonando em segredo. Era o lugar de onde ela deveria começar, uma vez que não podia confiar na polícia de seu país. E lá ficaria bem distante do museu e de quem quer que estivesse dirigindo a van. Ela estava certa de que, de alguma maneira, essas coisas estavam ligadas. A cada quilômetro que voava, chegava mais perto de suas origens e ficava mais distante de seus desfechos assassinos.

Deborah nunca dormia em aviões. Ela os achava muito desconfor­táveis, por causa de sua altura, e não gostava da idéia de dormir entre estranhos. Ter de dividir esse tubo de metal voador com eles já era ruim o suficiente, e ela não tinha intenção alguma de perder a consciência no caminho. Entretanto, mais do que em qualquer outro dia, ela desejaria roncar pelo Atlântico afora até chegar ao Mediterrâneo e às águas azuis e brilhantes do mar Egeu.

Por mais que tentasse enganar seu corpo, fazendo-o pensar que fosse noite, ela não conseguia dormir. Estava exausta, e a perspectiva de voar por dez horas ou mais para desembarcar em Atenas, em plena madrugada, pareceu-lhe excessivamente depressiva. Mas sua mente, com sua torrente de subtextos, as palavras oscilando em seus olhos como legendas contraditórias em um filme estrangeiro, sabotou todas suas tentativas de pegar no sono. Agora não era hora de relaxar, seu cérebro dizia. Precisava fazer planos. Não tinha dinheiro em espécie (será que a moeda usada na Grécia ainda era o dracma ou já haviam mudado para o euro?) nem hotel reservado. Não tinha sequer idéia de como se metera nessa viagem maluca ou o que a levou a tomar tal decisão. Dormir estava fora de questão.

Olhando sem ver para o filme, comeu o que quer que tenham colocado à sua frente e passou metade da "noite" (os bloqueadores de luz estavam abaixados e a maioria dos passageiros dormia como bebês) andando de um lado para o outro. Sabia que aqueles que a olhavam achavam-na irritada. Ela viu o homem do terno de três peças com quem trombara na fila do check-in, mas ele estava lendo e pareceu não a notar.

Duas horas se passaram. Depois três. Por algum tempo, ela pensou que tivesse cochilado, mas quando olhou para o relógio viu que os ponteiros não tinham avançado. Sentada, ela pensava e esperava, e perguntava-se que diabos faria quando pousassem. Bem, pelo menos estaria segura.

 

O homem com o terno de três peças colocou o livro sobre o colo e girou o tronco sobre a cintura para esticar os músculos enrijecidos por causa do longo vôo. Ao fazer isso, lançou um olhar desinteressado para trás, onde a americana alta inclinava-se por sobre o companheiro de assento para ver o sol matinal pela fresta da janela. Ele estava certo de que ela não o reconhecera, o que achou ótimo. Quando pousassem, ele teria de ficar perto dela, mas não muito. Afinal, não havia razão para pressa, e a sincronia seria o mais importante de tudo.

 

 

                   CAPÍTULO 22

 

Estava quente em Atenas, um calor seco e poeirento que se grudou à pele de Deborah assim que ela começou a suar. A poeira parecia concreto moído, o que lhe pareceu verossímil quando, do ônibus que a levou do aeroporto, ela olhou para a cidade. Durante a cobertura olímpica, Atenas e arredores se pareciam com ruínas antigas e idílicos vilarejos brancos presos a penhascos rodeados de água azul e céu mais azul ainda. Ela não se preparara para os muitos quilômetros de blocos de cimento sem personalidade. Difícil dizer se não estavam terminados ou se estavam sendo demolidos.

O homem sentado do outro lado do corredor devia ter pelo menos 50 anos, era magro e musculoso e excessivamente asseado. Estava abraçado com uma garota bem mais nova, uma beleza curvilínea de rosto petulante que, a não ser pela maneira de proprietário com que ele acariciava seu pescoço, poderia ser sua filha. Deborah desviou o olhar, mas, com exceção das fachadas de concreto das ruas, não havia para onde olhar. Que diabos você está fazendo aqui?

Procurando algumas respostas e tentando passar despercebida resmungou ela para si mesma. Não necessariamente nessa ordem.

Em uma livraria do aeroporto, ela comprara o The Rough Guide to Greece. Descobriu, depois, que fora publicado em 1995 e que os preços eram fornecidos em dracmas. E a moeda na Grécia, como veio a descobrir mais tarde, já fora convertida para o euro. Ela não saberia dizer quais outras informações do livro estavam desatualizadas e, como não conseguia sentir nada além de desânimo, não se importou muito com o fato. Escolheu um dos hotéis, o Aquileus, que ficava no centro de Atenas, e ligou para lá de um quiosque de informações, torcendo para que o número estivesse atualizado. Deu sorte. Com a reserva feita, Deborah pegou o ônibus e seguiu pelo longo e desanimador trajeto até a cidade.

Desceu do ônibus na praça Sintagma. Graças à confluência dos jardins nacionais e do prédio do Parlamento, esta foi uma das partes mais exuberantes que ela veria da cidade. Dali, colocou-se na Ermou e foi em direção ao oeste. Demorou algum tempo para localizar-se nas ruas laterais, pois seus nomes eram escritos em grego, pouco familiar porém legível, e finalmente chegar às dependências frescas do saguão do Aquileus. A garota no balcão da recepção era muito parecida com a do ônibus, bela e de pele escura, olhar franco e um pouco entediado. Deborah, que sempre se aborrecia com a efusão dos funcionários dos hotéis americanos, gostou dela imediatamente.

Registrou-se com seu nome verdadeiro. Afinal, Atlanta estava extremamente distante daquele antigo prédio do Velho Mundo, com seu piso de mármore, e da recepcionista linda e decidida.

—        A senhora não tem bagagem?

Não disse Deborah, sorrindo desconfortavelmente, como se aquilo fizesse dela uma pessoa excêntrica ou suspeita.

OK disse a garota, que, na verdade, não se importava. Aqui está sua chave.

O quarto se revelou bem agradável e possuía a mesma elegância descontraída do saguão. O pequeno elevador e a escadaria extremamente estreita a deixaram hesitante, mas o hotel oferecia o necessário, e era isso o que importava. O banheiro também era todo de mármore mármore verdadeiro, que mostrava um leve brilho quando você virava a cabeça, e não as imitações tão comuns nos Estados Unidos —, e as cortinas eram longas e pesadas. Deborah fechou-as e, no escuro, deitou-se no colchão firme. Ao som do forte zumbido do ar-condicionado, em pouco tempo caiu no sono.

 

Sonhou que estava dirigindo na I-85, em direção ao centro de Atlanta. Sem aviso, a rodovia ficava cada vez mais estreita, a enorme parede de concreto mostrava-se ameaçadora acima, mas ninguém lhe dava passagem. Ela estava mais frustrada do que amedrontada o que normalmente acontece nos sonhos —, até perceber que um em cada dois motoristas usava a máscara mortuária dourada.

 

Quando acordou, o quarto estava tão escuro e silencioso que por um momento ela sentiu-se desorientada. Tentou encontrar o caminho até o banheiro, mas percebeu que já estava nele, retirando o sabonete azul e branco da embalagem decorada com um Parthenon estilizado, antes que pudesse lembrar-se onde estava.

Grécia.

Em que estivera pensando? Ela voltou ao quarto e tirou o telefone do gancho, mas interrompeu a ação.

Não. Não havia ninguém para quem pudesse ligar.

Deu uma conferida em seus minguados pertences, tomou uma ducha, espiou o sol brilhante e os fundos dos prédios pelas cortinas e desceu até a recepção. A bela morena com olhos incertos e avaliadores fora substituída por um homem de mais ou menos 60 anos, que a olhou com olhar inexpressivo quando ela lhe perguntou se ele falava inglês.

É claro — ele disse, encolhendo os ombros e parecendo um pouco desconcertado, como se ela tivesse lhe perguntado se ele sabia ler.

Como faço para chegar ao Museu Nacional de Arqueologia? — ela perguntou.

De trás do balcão, ele tirou um mapa com a localização do hotel já marcada.

—        A senhorita está aqui — ele disse. — O museu está aqui. A senhorita poderia caminhar, mas está muito quente. Melhor um táxi.

Não havia nenhuma entonação que indicasse pergunta, mas ele esperou como se tivesse feito uma. Deborah examinou o mapa, procurando, sem sucesso, uma escala que indicasse a distância.

—        Táxi para ir, a pé na volta — disse o funcionário. — Vai estar mais fresco.

Ele pegou o telefone e esperou. Deborah assentiu com a cabeça e ele discou.

No banco de trás do táxi, ela observou o concreto indefinível da cidade, tráfego lento e ruidoso, e especulou vagamente se a polícia já teria começado a procurar por ela. Não levariam muito tempo para verificar o passaporte e os cartões de crédito, mas ela não tinha a mínima idéia do que estariam preparados para fazer. Pode ser que fosse suspeita da morte de Richard, mas não seria uma suspeita forte. Pelo menos não tão forte a ponto de fazerem contato com a Interpol. Isso se fossem eles quem a polícia americana chamaria.

Não sabia também se a polícia tinha algum tipo de envolvimento.

Keene era da polícia. Apesar de não gostar dela, ele era um policial verdadeiro. Cerniga, que lhe parecera mais sensato, mais equilibrado... Quem poderia dizer quem era? Uma parte dela sentia vontade de ligar para lhes dizer que não estava exatamente fugindo... Mas aquilo não faria o mínimo sentido. Talvez pudesse ligar para Calvin Bowers.

E qual seria a desculpa para tal ligação? Perguntou uma voz em sua mente. Você acha que ele está sentindo sua falta? Acha que está procurando aquela mulher desajeitada, racional e emocionalmente lesada que encontrou enquanto ela estava sendo interrogada por causa de um assassinato cruel...?

Cale a boca.

Deborah pagou o motorista do táxi e saiu para o calor do dia. O museu era afastado da rua e ficava no alto de uma escadaria. Ela passou por um pórtico de colunas, comprou ingresso e entrou, sentindo a simplicidade do lugar, suas salas esparsas, brancas e cheias de ecos, as janelas colocadas abaixo dos tetos altos e vazios, a coleção de estátuas com suas minúsculas placas de identificação.

Era uma antítese à maior parte dos museus americanos, despido e sem fazer qualquer tipo de concessão ao valor do entretenimento ou verniz de alta cultura, e apenas algumas à educação. De certo modo, era bastante grego: uma enorme caixa compartimentada onde nada que pudesse distrair a atenção das obras exibidas, expostas com uma simplicidade que chegava à austeridade, era permitido. Não havia apertos de mão, cores alegres ou diagramas para captar o olhar."Se você quiser saber mais", parecia dizer, "e você vai querer, compre um livro ou, melhor ainda, volte para a escola." Ela gostava daquilo, especialmente da coleção de arte cicládica, com sua estatuária estranhamente pós-moderna, lembrando Moore e Picasso, artistas 4 mil anos posteriores.

Observou cuidadosamente a coleção de arte micênica, indo de expositor em expositor com uma lentidão estudada que a deixava sozinha nas salas por onde passavam os turistas apressados. Nada do que viu era exatamente o que Richard tinha escondido atrás da estante em Atlanta. É claro que havia outras coleções em outros lugares, mas esta era a maior e a mais completa, e Deborah voltou a pensar que, se a coleção de Richard fosse composta de meras cópias, elas teriam sido feitas por um artesão improvisando sobre um tema; ou seja, não eram cópias exatas de originais conservados. Em outras palavras, ou as peças eram reais (o que seria chocante), ou falsificadas (o que seria arrasador).

Deborah passou a maior parte do tempo admirando as máscaras mortuárias, a máscara de "Agamenon" (ela ficou satisfeita ao ver que o museu não a chamava por aquele nome inexato). Ela olhou para a máscara, tentando lembrar-se da imagem que vira no computador do museu, cada vez mais certa de que também se tratava de uma cópia.

A máscara de "Agamenon" era um pouco maior do que a original, dourada, um pouco assimétrica apesar de não ser capaz de dizer se a assimetria se tratava de um efeito artístico ou do resultado de ter ficado sob toneladas de terra e pedras por três milênios e meio. Tinha nariz fino, sobrancelhas levemente arqueadas, lábios finos, bigode farto e barba. As orelhas, parcialmente distantes dos cabelos e da barba, pareciam abas. O que mais impressionava, porém, eram os olhos. Eles eram amendoados e não havia íris ou pupila. Eram rasgados de um lado a outro e pareciam abertos e fechados ao mesmo tempo. Davam a impressão levemente estranha de que o rosto estava dormindo, ou melhor, estacionado entre a vida e a morte.

—        Já faz algum tempo que está olhando para ela.

A voz na altura de seus cotovelos era profunda e com sotaque carregado. Deborah virou-se e viu um homem, avançado na meia-idade, provavelmente grego, com olhos sérios e injetados, observando-a com expressão de divertimento contemplativo.

Desculpe disse Deborah, apressadamente olhando ao redor para ver se estava atrapalhando alguma excursão. É provável que esse homem fosse um guia. Ela estivera tão envolvida em sua... o quê? pesquisa? passeio? trabalho de detetive?... que não notara sua presença. Ele poderia ter estado ali, observando-a, muito tempo.

Desculpas são desnecessárias disse o homem, dispensando-as de modo tão expressivo que seu rosto envelheceu dez anos no processo. Seus olhos negros brilhavam como balas de chumbo. Estou acostumado com pessoas observando a máscara, mas poucas são tão... exaustivas ele disse, procurando a palavra com cuidado em sua observação. Estudante de arqueologia, talvez?

Deborah sorriu.

—        Sou curadora de museu ela disse. Americana.

—        Desculpe ele disse. Eu não quis dar a entender que se tratava de falta de conhecimento. Meu inglês é...

Ele gesticulou com a mão:

—        ...trôpego, pouco confiável.

De maneira nenhuma disse Deborah, seu sorriso aflorando, tornando-se genuíno. Apesar de ser arqueóloga, conheço apenas as Américas. Em assuntos gregos, ainda me considero estudante.

Ótimo — ele disse, assentindo com a cabeça. Então, você veio determinada a provar que essa nossa máscara é falsa.

—        Não ela disse. Muitas pessoas já tentaram?

Ele novamente balançou os ombros à moda do Mundo Antigo, envelhe­ceu rapidamente, e virou a palma das mãos para cima.

—        De tempos em tempos ele disse, assentindo com a cabeça, satis­feito com a frase. Os arqueólogos mais sérios não os levam em consi­deração, naturalmente, mas sempre existirá um mercado para a cons­piração, certo?

Deborah concordou com a cabeça, perguntando-se, desconfortável, se realmente viera para testar a autenticidade da máscara. Ele aproveitou o silêncio dela para oferecer-lhe a mão.

Dimitri Popadreus ele disse.

Deborah Miller disse ela.

Dar seu nome foi uma ação reflexa e, por uma fração de segundo, ela perguntou-se se seria seguro. Mas o pensamento — infrutífero — foi substituído por outro.

Espere — ela disse. — Popadreus? Ela consultou seu guia.

O senhor não é...?

O diretor do museu — ele disse. — Sim, sou eu.

Ele inclinou-se um pouco.

—        De vez em quando, gosto de caminhar entre os visitantes — ele disse —, para ver para onde dirigem sua atenção, que geralmente não é muita, e o que os entedia, o que normalmente é quase tudo. Turistas são criaturas muito estranhas — ele disse, desviando o olhar para as esculturas espalhadas, rodeadas de pessoas. — Nunca consigo entender por que eles vieram.

Ele voltou a encolher os ombros e ela sorriu, satisfeita.

—        Seu museu exibe peças do Novo Mundo? — perguntou ele.

Novo Mundo, ela pensou. Durante 500 anos, os europeus colonizaram as Américas, e ainda as consideravam novas. Bem, refletiu ela, olhando ao redor da enorme sala branca com seus tesouros da Idade do Bronze, talvez por aqui o tempo passe mais devagar. Para o diretor do museu, ela apenas disse "Basicamente", e o gesto depreciativo que fez poderia facilmente fazer parte do repertório dos gregos. Seu museu era pequeno, ela disse, e não oferecia mostras de categoria internacional.

A não ser, claro, pela secreta coleção micênica do andar de cima...

—        Então, ela é autêntica? — perguntou ela, brincalhona.

—        E por que não seria? — ele respondeu, olhando-a de perto. — Estilisticamente, é diferente das outras, mas isso não prova nada. Se tivéssemos centenas delas para comparar, seria outra história. Mas não temos. Temos seis. As variações podem ser conseqüência do gosto dos diferentes artesãos, ou do rosto do homem morto, ou...

Ele voltou a fazer seu movimento de ombro, sua marca registrada, e, para dar ênfase, soltou um suspiro.

Não existe razão para duvidar do relatório de Schliemann, que especifica quando e onde foi encontrada — ele disse. — Mas fazer tal coisa naquele tempo, com os recursos tão limitados que tinha? É ainda mais inacreditável, não?

Acho que sim — disse Deborah. — O senhor já pensou em mandar datar a máscara, só para encerrar o caso?

Sim, já pensamos nisso — ele disse —, mas não é possível. Alguns métodos são inadequados. A análise de... como vocês chamam? Pó das plantas?

—        Pólen...

—        Isso mesmo. Datação de amostras de pólen. Fazer tal teste quando a peça foi encontrada talvez tivesse sido útil, apesar de que o metal polido oferece pouca aderência ao pólen. Agora, depois de centenas de anos sendo manuseada, tal coisa pode ser considerada sem sentido.

—        C-14? sugeriu Deborah.

—        Para datação com radiocarbono seria necessário quebrar um pedaço da máscara disse o diretor do museu. O que, naturalmente, seria inaceitável, principalmente porque não existe nenhuma boa razão para expor tal peça a um teste tão destrutivo, e porque o ouro não se adapta. Se ela tivesse sido fundida com carvão e um pouco do carbono conseguisse penetrar o metal, talvez... Mas isso não garantiria resultados convincentes. Por que eu danificaria a peça, se ninguém vai ficar satisfeito com os resultados do teste?

—        E a datação com hélio? perguntou Deborah.

—        Pode ser, no futuro ele disse, assentindo com a cabeça, com gravidade —, mas precisamos ter certeza da precisão do método e de que não prejudicaria a máscara.

Ele lançou-lhe um olhar astuto.

—        Para alguém que não está interessada em provar a autenticidade da máscara, a senhorita tem muitas perguntas.

Deborah sorriu.

—        Curiosidade profissional ela disse. De um curador para outro.

—        Muito bom ele disse, sorrindo. — Conte-me sobre seu museu.

Ela lhe contou, falando sobre a enorme machadinha de pedra, sobre o restante da nova mostra dos índios Creek e sobre as peças celtas itinerantes que logo chegariam. Ele assentiu com a cabeça, sorriu e conseguiu mostrar-se entusiasmado; até mesmo impressionado. Ela estava, obviamente, se depreciando. Como poderia não estar, tendo uma conversa dessas em frente a essa coleção?

Depois de alguns minutos, levada por um crescente constrangimento em virtude do orgulho que sentia pelo Museu Colina dos Druidas, um constrangimento que o delicado encorajamento dele não conseguia dissipar, ela voltou ao assunto do ouro micênico.

Deixe-me fazer mais uma pergunta ela disse.

Por favor.

—        Assumindo que essa máscara seja realmente autêntica, qual proba­bilidade de Schliemann ter descoberto uma outra como esta, uma que nunca tenha sido mostrada ao público?

Mais tarde, quando teve chance, ela pensou no rosto dele como uma casa grande e isolada, de frente para a rua, com as janelas iluminadas, prometendo luz e fogo de lareira. Depois de feita a pergunta, as cortinas se fecharam. Por um momento, ele simplesmente olhou para ela, ou através dela.

— Isso me parece bem pouco provável — ele disse, categórico. — Eu não vejo como tal coisa poderia ter acontecido. — Ele olhou para o relógio de pulso e sorriu, mas o sorriso era cuidadoso e não chegou aos olhos escuros. — Agora, peço que me desculpe. Tenho trabalho a fazer. Por favor — ele disse, uma versão de seu sorriso anterior voltando a surgir —, aproveite a visita. E — acrescentou ele, virando-se para ela depois de ter dado vários passos — volte, por favor. Mencione meu nome à porta e eles não cobrarão ingresso.

Deborah ficou olhando enquanto ele se afastava, perguntando-se o que poderia ter dito para fazê-lo bater numa retirada claramente apressada e desconfortável.

 

 

                             CAPÍTULO 23

 

No caminho de volta do museu, Deborah parou em uma barraca de rua e comprou uma mochila amarela: sua bagagem atual. Depois, procurou a loja mais barata que pôde encontrar e encheu a mochila de roupas, perguntando-se vagamente se aquilo significava que pretendia ficar mais de um ou dois dias. Comprou shorts, camisetas, roupas de baixo de algodão, um maio que provavelmente lhe ficaria pequeno e um vestido longo e flutuante feito de um tecido macio e transparente que poderia ser musselina. Era um modelo bem grego ou, pelo menos, o que ela imaginava ser um vestido grego clássico. Atualmente, todas as mulheres têm aparência genericamente européia. As mais novas se vestem de uma maneira vistosa que sugere impetuosidade e ingenuidade curiosamente sensual; as mais velhas usam imensos xales sobre camisolões que devem ser tão quentes quanto um forno. Ela esperava que suas novas aquisições a tornassem parecida com as locais, apesar de saber que as chances nesse sentido eram mínimas. Ela não vira ninguém, homem ou mulher, tão alto quanto ela e a maior parte do tempo sentia olhares curiosos sobre si.

Na Themistokleous, Deborah encontrou uma grande livraria com uma boa coleção de guias e livros históricos em inglês. Comprou vários livros de arqueologia e de arte alguns deles ela vira na estante de Richard e uma edição de dois volumes de capa mole de Mitos gregos, de Robert Graves. A confusão de tópicos clássicos despertados pela visita ao museu a deixara claramente consciente do quanto havia esquecido ou nunca soubera sobre Homero, Ésquilo e Eurípedes. Tinha muito trabalho a fazer.

Já passava das quatro da tarde quando chegou de volta ao hotel, cansada e faminta. Uma parte dela teria ficado feliz em cair na cama, mas ela precisava comer alguma coisa e estava ansiosa para começar a ler os livros. Leu por aproximadamente uma hora e meia, tomou uma ducha rápida, vestiu algumas de suas roupas novas e, levando alguns livros com ela, voltou para o calor seco e poeirento da rua.

 

Caminhou da Ermou até a praça Sintagma e continuou até o Plaka, o recém-recuperado centro turco da cidade velha. Ali, os carros atenienses e o concreto eram esquecidos e as ruas de paralelepípedo tinham casas neoclássicas cobertas com terracota. As esquinas tinham igrejas ortodoxas cheias de domos, minaretes e tijolos rústicos. Muitas das construções, curio­samente, davam a impressão de ser bem menores. De vez em quando, ela via ruínas mais antigas: resquícios de um arco romano, parte de uma coluna do período clássico grego. Aquele ambiente tinha sobre ela um efeito apaziguador, ao contrário do museu (e da conversa levemente codificada que tivera com o diretor). Esta era a Atenas que esperara secretamente encontrar: uma cidade próspera e elegante, fortemente comprometida com seu passado histórico.

Era este o pensamento que lhe passava pela mente quando levantou a cabeça e viu, pela primeira vez, a Acrópole e parte de um edifício de colunas (dóricas ou iônicas? A essa distância, era impossível dizer), banhados de luz dourada. Era de tirar o fôlego. Ela parou onde estava e olhou para o monumento, sentindo a força do lugar. De acordo com seu guia, o que via era parte do Propileu, ou Templo de Atenas Nike, e não o Parthenon propriamente dito, que era consideravelmente maior. O mármore pálido e refinado da estrutura parecia brilhar, iluminado por um fogo interior que lhe dava destaque e aparência irreal. Fora lá, diziam as lendas, que o pai de Teseu esperara notícias do filho que partira de Atenas para lutar contra o Minotauro, que vivia no labirinto debaixo do Palácio de Cnossos, em Creta. Teseu havia prometido anunciar o sucesso de sua viagem alçando velas brancas aos navios, mas, em sua alegria, esqueceu-se de alçá-las. Quando, com suas velas negras, seus navios chegaram ao porto, seu pai, pensando que o filho estivesse morto, atirou-se em um precipício.

Lendas. Definitivamente, aquele lugar estava repleto delas. Talvez fosse isso o que motivasse pessoas como Richard, ou Schliemann. Em um lugar como este, talvez as histórias de deuses e heróis em guerra realmente pudessem ser verdadeiras.

Ela comeu kebabs de cordeiro grelhado, uma salada de tomates, azeitonas e queijo feta em um restaurante com mesas na calçada chamado Os Cinco Irmãos. Deborah leu o que atraiu o interesse romântico dos garçons observou os gatos magros que se via por toda parte esgueirando-se pelas pernas das cadeiras do restaurante e decidiu que, fossem quem fossem os gregos que disseram a Elaine Shotridge que o queijo de suas tortinhas de feta era tão bom quanto os gregos, estavam sendo, na melhor das hipóteses, educados e, na pior das hipóteses, sarcásticos. Este sim era o queijo verdadeiro: úmido, salgado e de sabor pronunciado, maravilhosamente complementado pela leve doçura dos tomates cobertos com azeite de oliva. Ela leu o guia o bastante para descobrir o caminho para a Acrópole, pagou a conta e saiu.

Em pouco menos de uma hora o lugar estaria fechado. Não teria tempo suficiente para ver tudo adequadamente e, com certeza, precisaria voltar para ver o Museu da Acrópole, mas seria bom dar uma olhada geral na luz e na temperatura mais suaves do final da tarde. Seu guia dizia que, àquela hora, haveria menos turistas, pois a maior parte dos passeios noturnos guiados era para o Monte Filopappou, de onde se tinha a melhor vista do Parthenon ao pôr-do-sol.

Do mercado romano, Deborah caminhou rapidamente, subindo a rampa que rodeava a grande pedra sobre a qual estava situado o Parthenon. Ficou satisfeita ao notar que a maior parte dos pedestres descia a rampa: turistas em cores vistosas e chapéus ridículos, com rostos, braços e pernas vermelhos e suados. Havia alguns adolescentes impetuosos carregando mochilas que pareciam (e faziam questão de parecer, pensou ela) prontos para escalar uma outra montanha, mas a maioria parecia cansada e um pouco desanimada. O que causaria aquilo? Exaustão, desapontamento, a inevitável e enlouquecedora constatação da própria ignorância, o acúmulo diário de locais intensamente comentados em um amontoado desconcertante de pe­dras sem significado? Mesmo pensando como historiadora e arqueóloga, ela não podia culpá-los. Lembrou-se do comentário de alguém a respeito de ser turista: "O que eu vejo me aborrece e o que não vejo me preocupa".

Mas ela não conseguia ser tão blasé. Ao aproximar-se do topo, olhou para as erupções pedregosas conhecidas como Areopagus, ou Montanha de Ares. Fora ali que São Paulo pregara, onde os turcos fizeram o cerco à Acrópole, 500 anos antes do nascimento de Cristo, onde — numa Atenas ainda mais antiga — se sentara o conselho dos nobres antes da primeira (e rudimentar) democracia. De acordo com a lenda, Orestes fora ali julgado ali pela morte de sua mãe, Clitemnestra, uma vingança de filho contra ela, que matara seu pai, Agamenon, filho de Atreu e rei de Micenas.

Atreu. Talvez a última palavra escrita por Richard. Esta palavra a le­vara até o corpo dele, atrás da estante. Mas o que a palavra significara para ele, quando a escrevera e marcara com os pontos de interrogação?

À direita, ela passou pelo templo de Atenas Nike e continuou pelo Propileu até o topo da Acrópole. O Erecteion com as cariátides — colunas em forma de mulheres — estava à esquerda. Bem em frente, estava o Parthenon. Ela parou para olhá-lo, feliz por estar sozinha.

Não era de espantar que ela fosse uma das estruturas mais louvadas do mundo. Sua enorme plataforma de degraus e fileiras de colunas dóricas anunciavam grandeza e mistério desconhecidos em qualquer outro lugar. Obviamente, ela não fora sempre assim, e a maior parte dos visitantes ficaria horrorizada pelas pinturas berrantes e o amontoado de estátuas que Péricles mandara construir depois da batalha de Maratona. Ela perdera seu telhado no século XVII, durante um cerco, quando o templo ocupado pelos turcos como depósito de pólvora explodiu e queimou durante dois dias. De acordo com seu guia, sua maior ameaça atualmente eram os turistas, que entravam sempre que os guardas de segurança não estavam olhando, e a chuva ácida. A terrível poluição de Atenas estava corroendo o mármore com velocidade alarmante...

—        A estrutura mantém uma proporção perfeita de nove para quatro em todas as suas dimensões disse uma voz na altura de seu ombro.

Deborah virou-se e olhou para o rosto de um estranho que, apesar de estar extasiado com a estrutura à frente deles, estava, aparentemente, falando com ela.

—        Verdade? ela perguntou.

E, quando o sorriso dele ficou mais amigável, ela soube quem era. Apesar de agora estar vestido de maneira bem diferente, ele estivera no aeroporto de Atlanta. Ela praticamente trombara com ele quando pensara em não pegar o avião, no qual, agora se lembrava, ele também voara.

Ele assentiu com a cabeça e olhou rapidamente para ela. Depois, voltou a olhar para o templo.

—        Imagino que a senhorita tenha encontrado a pequena coleção de Richard ele disse. Ou melhor, encontrou o que estava faltando.

Então, como uma lingüeta entrando em um trinco, uma outra parte da memória de Deborah se abriu, e ela reconheceu uma outra característica dele: a voz.

"Eles levaram o corpo?", ele perguntara, com aquele sotaque macio e pouco americano.

Deborah ficou boquiaberta e, incrédula, começou a afastar-se, envolta em uma onda de terror.

 

 

                                   CAPÍTULO 24

 

Ele era um homem alto, com peito e ombros largos, não muito bem vestido ou atlético, mas forte. Devia ter uns 45 anos, talvez menos. E tinha os olhos pregados nela.

Fique longe de mim ela disse. O som saíra meio engasgado e parecia absurdo, infantil. Ela deu um novo passo para trás, limpou a gar­ganta e cuspiu nos blocos de mármore trincados a seus pés. O gesto pareceu chamar a atenção dele, mas só por um momento. Ele deu um passo na direção dela, que ficou consternada ao ver sua rapidez.

Srta. Miller ele disse. Precisamos conversar.

O senhor dá mais um passo e eu chamo a polícia ela disse, agora com voz mais firme.

Por que a senhorita tem tanta confiança na polícia? ele perguntou, secamente.

O tom educado com que dissera o nome dela e a amargura sardónica daquela última resposta tornavam o sotaque dele ainda mais evidente. Ele era inglês e não australiano ou sul-africano, pensou uma parte de seu cérebro uma parte antiga e animalesca que via o mundo em termos de caça e caçador, uma parte que assumira o comando e lhe dizia que tais nuanças eram irrelevantes. Antes, ela mal sentira a presença daquela parte, mas, agora, confiava nela e sentia que enrijecia os músculos de suas panturrilhas e desviava o olhar para os grupos mais próximos de turistas. Observava seus movimentos equilibrados e cuidadosos como se lembrasse onde fora seu último lugar seguro.

Não havia nenhum por perto. Ele sincronizara perfeitamente sua aproximação, e a Acrópole, que parecera agradável e silenciosa até mesmo espiritual —, agora parecia mortalmente deserta.

Não existe motivo para sentir medo ele disse. Seu tom era mais impaciente do que consolador.

Certo ela disse. Aquele instinto de sobrevivência pré-histórico observava o chão em busca de uma pedra que pudesse ser usada como arma, mas os gregos haviam aprendido que qualquer coisa pequena o suficiente para ser carregada seria levada pelos turistas. Não havia nada que pudesse levantar sem um guindaste.

Estou do seu lado — disse o homem, dando um passo cuidadoso na direção dela.

Eu não tenho lado — ela disse, desafiadora. Ele arriscou um olhar rápido para além das costas dela. Um grupo de turistas emergia do Propileu, uns 200 metros atrás, formando um semicírculo ao redor do guia, câmeras em punho. Ela respirou fundo e outra peça do quebra-cabeça caiu no lugar: ele cheirava a fumo de cachimbo e perfume. Sentir aquele cheiro agora que sua adrenalina começava a pulsar fez com que se lembrasse de ter sentido o mesmo cheiro quando se chocara contra ele no aeroporto, mas não fizera a ligação com o intruso em seu apartamento.

A senhorita tem uma coisa que procuro — ele disse —, e estou preparado para negociar para consegui-la. Considerando o que minha família já pagou pela peça em questão, me parece mais do que razoável.

Eu não sei do que o senhor está falando — ela disse.

Vamos lá — ele disse, sorrindo indulgente. — Estou preparado para pagar bem mais do que qualquer museu poderá oferecer.

Outra lingüeta encontrou o trinco na mente de Deborah.

—        O senhor me seguiu hoje — ela disse.

—        É claro que sim — ele encolheu os ombros. — Como era sua intenção. Ele é louco, pensou ela. Só pode ser.

—        O senhor acha que, se eu tivesse qualquer coisa que tenha pertencido a Richard, eu a venderia a seu assassino? — perguntou ela, afastando-se em direção aos turistas, que pareciam estar infinitamente longe dali.

O rosto dele abateu-se

Então Richard está morto. Imaginei que isso pudesse acontecer. Ela olhou para ele.

O senhor sabia que sim.

—        Eu vi os carros de polícia e me perguntei... Mas pensei... Tinha esperança...

Sua voz tornou-se seca. Por um segundo, ele pareceu menor, mas em seguida seus traços ficaram mais nítidos e duros.

—        Entendo — ele disse. — Não é de estranhar que tenha saído do país. — Tratava-se de um tipo de acusação, mas ele não esperou pela resposta dela. — Mas se você pensa que o fato de ter sujado as mãos de sangue vai aumentar a quantia que estou preparado para pagar, sinto avisá-la que está enganada. Na verdade, o único significado real de sua brutalidade assassina é que não poderá vendê-la a nenhum museu. — Ele sorriu, contrafeito. — Sugiro que reconsidere seus termos rapidamente, — ele disse —, ou serei obrigado a informar seu paradeiro à polícia.

Essa mudança de atitude fez que Deborah sentisse a cabeça vazia. Ele está tentando confundir você.

Ela sentiu um ódio cruel e violento pelo homem à sua frente, um ódio que a fazia sentir vontade de esmurrar o rosto dele. Mas talvez fosse exatamente isso o que ele quisesse fazer: desequilibrá-la, fazer com que perdesse o controle.

—        Pensa que não sei o que fez? — disse ela, superando uma onda de náusea, com voz pouco mais alta do que um sussurro. — Você matou Richard.

De novo, os olhos dele se estreitaram, como se tivesse tentando medi-la.

Você sabe que não tive nada a ver com isso — ele disse. Não era uma negação apaixonada, apenas uma afirmação sensata de alguma coisa que ele pensou que ela soubesse. — Por que eu teria lhe telefonado?

Você soube da morte dele assim que aconteceu.

Não — ele disse, seus olhos fechando-se momentaneamente. — Não fui eu. Eu sabia que haveria uma... transação naquela noite. Liguei para lá e ninguém respondeu. Então, liguei para você.

Eu sei sobre a máscara — ela disse. Foi uma coisa idiota de se dizer, mas ela queria mantê-lo um pouco desequilibrado até que conseguisse alcançar o grupo de turistas. — Vou tirá-la de você e entregá-lo à polícia.

Tirá-la de mim — ele repetiu, parecendo confuso por um momento. — Do que está falando?

Ela está com você — ela disse. — Eu sei disso.

Ele balançou a cabeça e, num gesto de pai exasperado, virou-se para o lado. Era a oportunidade que ela estivera esperando.

Deborah saiu correndo.

 

 

                           CAPÍTULO 25

 

Ela não olhou para trás. Olhava para o chão irregular e corria com a cabeça abaixada, suas longas pernas o mais estendidas possível. Ela não parou até colocar-se no meio do grupo de turistas espantados, parando bruscamente e chocando-se contra um homem troncudo que reagiu, irritado, numa língua que ela não conhecia. Ela gaguejou algumas desculpas e, quando conseguiu descobrir quem era a guia, disse:

—        Estou sendo perseguida por um homem. Será que alguém pode chamar a polícia?

Meia dúzia de celulares apareceram, e Deborah, tendo ao fundo o cenário de uma das mais famosas estruturas do mundo, sentiu-se subitamente feliz por viver no século XX, com poluição e tudo.

 

Ela disse ao policial que encontrou olhando para as confusas ruínas dos antigos teatros, ao pé da Acrópole, que um homem a estivera seguindo mas que, aparentemente, fugira assim que ela se juntara aos turistas. Não, ela não sabia quem era ele. Sim, ela gostaria de ter uma carona até o hotel. Não mencionou que ele cruzara o Atlântico atrás dela.

—        A senhora vai ficar aqui? perguntou o policial, um jovem lacônico que parecia pouco confortável com esta americana com aparência de cegonha.

Preciso pegar minhas coisas ela disse. Depois, talvez...

Talvez o quê? Fugir novamente?

Se quiser, eu posso esperar e levá-la ao aeroporto ele disse.

Fugir como você fugiu de Atlanta, como acabou de fugir do inglês? Para onde? Eles estão aqui também. Eles a seguiram...

—        Sabe de uma coisa? ela disse. Esqueça. Eu estou bem. O cara foi embora. Posso voltar sozinha ao hotel. Ainda tenho de ficar alguns dias em Atenas.

 

 

                             CAPÍTULO 26

 

Ela suspeitava que o homem misterioso com sotaque britânico estivesse esperando por ela no hotel. Ele a seguira desde antes de entrar no avião, fora atrás dela no museu e, deliberadamente, aproximara-se dela na Acrópole. Era impossível que não soubesse onde estava hospedada.

Tentando manter o bom senso enquanto caminhava pelas ruas silenciosas do Plaka até o Aquileu, conseguiu recuperar sua velha rebeldia. Fora o sorriso sábio do jovem policial que finalmente desencadeara a sensação que estivera ali bem antes, antes que o estranho falasse com ela no Parthenon, antes até que ele saísse dos Estados Unidos, talvez até mais cedo, quando fugira de seu próprio apartamento. Fugira.

Era essa a palavra, e era isso o que ela detestava. Deborah Miller não se acovardava. Brigava pelo que acreditava. Mantinha-se firme com sua mente ágil, uma mente obstinada e, como Harvey Webster salientara, no que agora parecia ser o século XIV, uma desbocada. Ela decidiu não continuar fugindo.

O saguão do hotel estava fresco, um pequeno refúgio do mundo lá fora. O senhor idoso estava novamente a serviço. Ele parecia ter encolhido por causa do cansaço, mas iluminou-se quando ela se aproximou, virando-­se automaticamente para os escaninhos às suas costas, onde ficavam as chaves. Ele não precisou perguntar o número do quarto.

Deborah agradeceu e pegou a chave, que era grande e de latão, como ela achava que as chaves, em Atenas, deveriam ser.

Algum recado para mim? ela perguntou. Alguém ligou? Ele franziu o cenho, pressentindo alguma coisa.

Não, senhorita ele disse. Algum problema?

—        Acho que não ela disse. Vou fazer uma ligação internacional do meu quarto.

—        Não precisa me avisar antes ele respondeu.

—        Eu sei — disse ela. — Mas acho que, logo, vou receber outro chamado. Meu telefone ficará ocupado por alguns minutos. Se alguém ligar, por favor, peça para voltar a ligar por volta das dez horas.

Caso ele tivesse ficado perplexo com a quantidade de informações irrelevantes, não deixou transparecer.

—        Tudo bem, senhorita — ele disse, com uma pequena mesura.

 

Seu quarto estava exatamente como o deixara. O fato não a surpreendeu, mas ela era cautelosa o bastante para verificar o local sistematicamente. No caminho de volta, estivera pensando quem seria a pessoa a receber aquele telefonema internacional. A primeira pessoa da lista era sua mãe, mas a perspectiva de ter de explicar a situação a deixava exausta. A não ser que a polícia tivesse ligado para sua família — um pensamento aterrador —, eles nem saberiam da morte de Richard. Ela sabia que não poderia ter aquela conversa sem acabar sentindo-se responsável de alguma maneira. O pensamento a entristeceu, porque, pela primeira vez em muitos anos, ela realmente gostaria de contar tudo à sua mãe — para o bem das duas —, como deveria ter feito quando tinha 10 anos.

Desculpe, mãe, ela pensou. Mais tarde eu conto. Conto tudo. Prometo.

Deborah pegou a carteira e discou um número. O telefone tocou por longo tempo. Depois, um homem resmungou do outro lado.

Calvin? — ela perguntou.

Sim, quem diabos está falando? São quatro horas da maldita manhã.

É Deborah Miller.

Fez-se uma pausa. A sonolência e a irritação desapareceram da voz do advogado.

Deborah? Onde diabos você está?

Estou na Grécia, Calvin — disse ela, com voz calma. — E vou continuar aqui, pelo menos por enquanto.

O que está acontecendo?

A polícia está procurando por mim?

Sim. Mas não seriamente — ele disse. — Não tenho certeza. Um deles me perguntou onde você estava, mas foi só isso.

Qual deles?

Qual deles? Que diferença isso faz?

Faz muita diferença. Qual deles?

Keene — ele disse. — Não acho que ele goste muito de você. E vai ficar furioso quando souber que você saiu do país.

É provável que ele já saiba. Ouça, Calvin, sei que não nos conhe­cemos, mas preciso confiar em alguém e, como você já teve negócios com Richard eu... bem... acho que isso vai ter de bastar.

Claro ele disse, agora completamente acordado. Como posso ajudar?

Qualquer coisa que você puder encontrar no computador de Richard sobre Schliemann, Micenas, Agamenon ou Atreu e me mandar por e-mail.

—        O quê? Não tenho acesso ao computador dele.

—        Mas pode ter. Como representante dos bens dele. Richard foi assassinado por causa de alguma peça daquela coleção secreta do andar de cima, alguma coisa que eles levaram.

—        Que peça está faltando? Ela hesitou.

Não tenho certeza, mas acho que se trata de uma máscara mortuária ela disse.

Como a que você tinha na tela do computador ele disse.

Talvez ela disse. Por favor, confie em mim. Tenho seu endereço de e-mail no cartão que você me deu. Vou enviar meu endereço e você me manda tudo o que encontrar.

Ela hesitou antes de fazer o último arremesso.

Acho que existe uma chance de que a polícia não prenda o assassino de Richard. Acho que eles não querem fazer isso.

Como assim? Você acha que a polícia está... envolvida?

Ainda não sei ela disse. Mas eu daria uma boa investigada naqueles detetives antes de lhes dizer qualquer coisa.

Ele vacilou, ficou quieto. Ela esperou que ele digerisse.

OK ele disse, finalmente. Vou fazer isso.

Calvin...

Sim?

Se eles começarem a dizer que eu matei Richard ela disse —, não acredite.

De repente, ela percebeu que tinha mais coisas na cabeça, na ponta da língua, mas desligou antes que disesse alguma asneira.

Deborah assistiu 10 minutos de televisão, banhou-se rapidamente em água dura (quando estava fora, ela sempre sentia falta da água de Atlanta) e estava quase pronta para ir para a cama quando o telefone tocou.

Srta. Miller disse a voz com sotaque britânico, agora familiar. Imagino que a tenha surpreendido hoje.

Não se preocupe ela disse. Mas precisamos começar essa conversa em termos de igualdade.

Como assim? ele perguntou.

Você sabe o meu nome, mas eu não sei o seu.

A hesitação foi apenas momentânea, e ela imaginou tê-lo ouvido suspirar.

—        Muito bem — ele disse. — Meu nome é Marcus Fitz-Stephens.

É claro que ele poderia estar mentindo, mas ela não se importou. O mais importante era ter forçado o gesto.

—        Que tal começarmos pelo começo?

 

 

                         CAPÍTULO 27

 

Enquanto, naquela noite, caminhava sozinha da Acrópole de volta ao hotel, ela pensara no encontro que tivera com o inglês e pouca coisa fizera sentido. Ou ele era um ótimo ator e psicólogo experiente, ou a noção que ele tinha dos fatos não se encaixava com a dela. A idéia de que pudesse tentar convencê-la de não ser o assassino de Richard, fingindo acreditar que ela cometera o ato, era absurda, o que dava a entender que ele estivesse enganado. A não ser que quisesse matá-la, por que a seguiu para conversar com ela em um lugar público? Essas perguntas levaram a uma outra, ainda mais estranha: ele realmente achava que ela estava com a máscara? Pode ser que sim. De outra maneira, por que ele acreditaria como parecia acreditar que ela queria ser seguida por ele?

Perguntas como essas, assim como sua maldita teimosia, a fizeram voltar ao hotel, onde sabia que ele entraria em contato com ela, em vez de ir à rodoviária ou ao aeroporto. Agora, ela estava sentada, imóvel, com o bloco de notas com o nome do hotel sobre a cama, ao lado dela, uma caneta esferográfica na mão e o receptor do telefone preso entre o ombro e a bochecha.

Tudo bem, Marcus ela disse. O que pretende?

Apesar de tê-la assustado ele disse —, temo que tenha cometido uma injustiça ao dizer que você matou seu patrão.

A formalidade do seu discurso fazia que o conteúdo de suas palavras parecesse ainda mais absurdo, mas ela conseguiu superar.

Você está certo, cometeu uma injustiça disse Deborah, cautelosa, esperando para ver onde ia dar aquela conversa.

Temo também que a senhorita realmente acredite que eu possa... tê-lo assassinado.

Correto — ela disse. E agora você vai me dizer que não.

Certamente disse ele.

Do outro lado da linha, ela não ouvia nada além daquela voz culta e tranqüila, nenhum ruído, nenhuma voz ou barulho de trânsito. Era provável que, como ela, estivesse sentado em um quarto de hotel...

Mas quando você ligou pela primeira vez, em Atlanta, pergun­tou-me se eles haviam levado o corpo — ela disse. — Quem eram eles e, se você não sabia que Richard estava morto, por que perguntou sobre o corpo dele?

Eles eram dois executivos gregos com quem, acredito, Richard tenha feito uma transação. Uma transação que parece ter ido muito mal.

E a referência ao corpo?

Dessa vez, o silêncio dele foi bem mais longo. Na verdade, tão longo que ela se perguntou se a ligação havia caído. Quando voltou a falar, a voz dele parecia sair da escuridão, como uma leve bola de fumaça, como se ele tivesse afastado a boca do receptor e tivesse começado a falar antes de recolocá-la no lugar apropriado. Ela lembrou-se do cheiro que sentira do lado de fora de seu apartamento e imaginou que ele estivesse fumando seu cachimbo. Era uma imagem estranha que tornava sua voz mais contem­plativa e até mesmo agradável.

Isso porque meu pai também fumava cachimbo.

Você nunca tinha visto a coleção especial de Richard até a morte dele, certo? — ele perguntou.

Isso é importante?

Significa que você não sabe o que foi tirado de lá — disse ele.

Fico feliz por saber que você não acha que eu tenha feito isso — ela disse.

Acredito que tenhamos aqui uma falta de confiança mútua — ele disse. — Um tipo de hipótese de trabalho. Prefiro pensar que você seja inocente quanto ao assassinato e ao roubo, e que você pense o mesmo de mim. Por enquanto.

Por enquanto — ela disse.

Então, posso pensar que você não tem a posse do que foi retirado da coleção pequena e extraordinária atrás da estante. E, sim, eu a vi antes, mas não pessoalmente, na noite em que ele morreu.

Continue — ela disse, não lhe dando tempo.

O que você imagina que tenha sido tirado de lá?

Uma máscara mortuária — ela disse. — Como a que está no Museu Nacional de Arqueologia. A que Schliemann disse pertencer a Agamenon.

Schliemann disse — ele repetiu. — Você não acredita que as escavações dos túmulos de Micenas contivessem os restos do homem que liderou os gregos contra os troianos, não é?

Não — ela disse.

Pois Richard acreditava — ele disse.

—        Richard era... — ela afugentou o sorriso que começava a formar-se em seus lábios — um sonhador.

—        Talvez seja exatamente por isso que ele nunca tenha lhe mostrado os tesouros que amealhou, tesouros que fariam com que a coleção de seu museu parecesse ridícula.

Deborah controlou-se e respondeu com voz calma.

Você acha que a máscara da coleção de Richard veio dos túmulos escavados por Schliemann em 1890? — ela perguntou.

Você sabe qual foi a mensagem que Schliemann telegrafou para um jornal de Atenas ao chegar ao final de suas escavações em Micenas? Ele escreveu: "Eu olhei para o rosto de Agamenon".

Eu li que essa história é apócrifa disse Deborah. Mais tarde, ele negou ter mandado o telegrama.

Bem, é normal que tivesse negado, não acha? disse Marcus, inabalável. Desde que a máscara à qual se referia nunca chegou às mãos das autoridades do governo em Atenas.

Você acha que a máscara exibida no museu é falsa?

Não, ela é autêntica ele disse. Mas não é a máscara à qual Schliemann se referia. Havia uma outra. Ela veio da câmara mortuária mais rica de toda a escavação, e ele manteve seu conteúdo secreto.

Você acha que Richard tinha a máscara que Schliemann acreditava ter sido a máscara mortuária de Agamenon? ela perguntou, cuidadosa, verbalizando o que ele dava a entender. Isso seria impossível, mesmo que um Agamenon histórico tivesse realmente existido. Mas ela ainda não havia ouvido a afirmação mais extraordinária de Marcus.

Não apenas a máscara disse a voz ao telefone. Você teve a oportunidade de ver a riqueza da coleção com seus próprios olhos, não é?

Sim ela disse. Ela percebeu que ele estava ficando levemente sem fôlego, alguma coisa como medo ou excitação tomava conta dele enquanto ouvia, um estremecimento que, com uma golfada de possibilidades, mesmo que remotas, eliminava suas dúvidas a respeito desse homem.

Em nenhum momento lhe pareceu estranho que os assassinos deixassem a coleção para trás, levando apenas a máscara?

Sim admitiu ela —, apesar de achar que a máscara é mais... valiosa, única.

E é mesmo disse Marcus. Mas a máscara não foi simplesmente retirada do expositor, não é?

Não ela disse, a falta de ar aumentando enquanto sentia uma verdade sinistra bailando, ainda fora da visão e do alcance.

Eles levaram todo o expositor ele disse. Era uma caixa grande e teve de ser levada sobre rodas.

Deborah lembrou-se das marcas de graxa sobre o carpete, da tomada no piso e do enorme retângulo de luz. O que quer que estivesse exposto no centro daquela sala, teria de ser bem maior do que uma única máscara. Os pêlos de seus braços eriçaram-se. O quarto estava absurdamente frio.

—        Então, o que era? ela forçou-se a perguntar.

—        Perguntei se eles tinham levado o corpo ele disse. Não me referia ao de Richard, mas sim ao de Agamenon.

 

 

                                         CAPÍTULO 28

 

Aquilo era impossível. Era absurdo que aquela pequena sala em Atlanta contivesse o corpo de Agamenon. Era impossível que um arqueólogo do século XIX pudesse desenterrar e manter intacto um corpo que estivera no solo por 3.500 anos.

Ela lhe disse isso e, em seguida, sentiu-se subitamente irritada por ter gasto tanto tempo ouvindo tamanha barbaridade e por Richard ter acreditado em tal coisa. Foi invadida por um abatimento que conseguira manter afastado até aquele momento. Ela exigiu um número para poder ligar de volta (ele não definiria mais os termos da conversa), que ele lhe deu sem hesitação.

Depois de desligar e de ficar mais de uma hora sentada sobre a cama, ocorreu-lhe uma possibilidade. Pensou algum tempo, querendo descartar a idéia absurda de Marcus (Agamenon?). Depois, pegou o telefone e começou a discar.

Demorou exatamente três minutos para que a delegacia de polícia do Condado de Dekalb localizasse o telefone de David Barrons, o homem que traduzira a carta russa do imigrante ilegal chamado Voloshinov. Ela desligou e voltou a discar. Barrons atendeu ao segundo toque, parecendo estar bem acordado e alerta.

Deborah forneceu detalhes vagos sobre si mesma, tentando parecer oficial sem, no entanto, apresentar-se como uma, e foi direto ao assunto.

A linha na carta que se referia aos restos. O senhor tem alguma idéia sobre que restos poderiam ser?

Eu acho que a palavra, em russo, era ostaki ele disse, aparen­temente tão entusiasmado por falar no assunto que não se importou em perguntar quem era ela, ou por que estava interessada. E pode significar várias coisas. Coisas antigas. Restos. Coisas deixadas para trás.

—        Antiguidades?

—        Imagino que sim. Espere um pouco. Vou dar uma olhada em minhas anotações.

Fez-se uma pausa, ela pôde ouvir um ruído ao fundo que poderia ser uma televisão ligada, e ele voltou ao aparelho.

Eu disse ostaki, certo? Espere, não é isso. — Agora, ele parecia mais intrigado do que desanimado. A palavra é ostanki. Eu não havia notado o n. Hã...

O quê? — perguntou Deborah. Havia um tom de espanto na voz dela. — O que significa?

Bem, tem um significado parecido — disse o tradutor. — Continua querendo dizer restos, só que, agora, um pouco mais específico.

Continue — disse Deborah, com um pouco de ansiedade na voz.

Agora, significa restos humanos. Sabe, como um cadáver. Deborah fechou os olhos.

Estranho — disse Barrons.

E a última palavra daquele fragmento — pressionou Deborah, sentindo o ritmo de seus batimentos cardíacos aumentar. — Você escreveu Mary. Sabe o que isso significa?

Não tenho certeza de que essas palavras estejam corretas — ele disse. — A carta estava muito danificada e manchada. Além disso, foi muito mal escrita. As letras se pareciam mais com MAGD, mas como não sei o que significa, traduzi como Mary.

O senhor acha que poderia ser parte de um nome? O nome de uma pessoa... ou lugar?

—        Acho que sim, mas não tenho certeza.

Deborah agradeceu, desligou e deitou-se de costas, olhando para o ventilador de teto por alguns minutos. Depois, verificou se a porta estava trancada e voltou para a cama. Em menos de cinco minutos, havia adormecido.

 

Durante as primeiras horas, Deborah dormiu profundamente, mas estava acordada antes do raiar do dia. Ficou mais de uma hora sentada na escadaria do Museu Nacional de Arqueologia esperando dar oito horas, para que ele fosse aberto ao público. Ao mencionar o nome de Popadreus, lhe disseram que o diretor do museu já estava em seu escritório, mas que não poderia ser interrompido.

Ele está esperando por mim — ela disse, o que provavelmente era verdade, mesmo que não exatamente da maneira como ela colocara.

Espere aqui — disse a frágil oficial militar aparentemente responsável pela entrada. Deborah não tinha certeza se tinha sido abrupta em função de sua insegurança com a língua ou de sua personalidade, e repreendeu a si mesma por não ter aprendido mais algumas frases em grego. Ela supôs que, confinados à própria língua, era impossível que os turistas não acabassem parecendo presunçosos e se dessem ares de superioridade, confortáveis ao acharem que o mundo deveria acomodar-se a sua falta de capacidade de comunicação. Sentindo uma pontada de dor, ela sorriu e disse "Efharisto". A oficial fez um pequeno sinal de cabeça ao reconhecer a palavra, mas não retribuiu o sorriso.

Uma porta se abriu e Popadreus apareceu no saguão, conversando com um homem alto e de pele amarelada, que usava óculos pesados e terno. Alguns homens nunca se sentem confortáveis vestindo terno, ela pensou, mas este vestia o seu como se fosse uma segunda pele. Os ternos davam uma aparência de autoridade familiar e confortável. Ao virar-se de frente para eles, o diretor do museu a viu e liderou o outro homem na direção dela. Enquanto se aproximava, Popadreus lançou-lhe um olhar torto.

Mais estudos das peças? ele perguntou. Ou de mim?

Ambos ela disse, sorrindo.

Naturalmente. Ele virou-se para seu convidado de aparência formal. A srta. Miller é curadora de um museu americano ele disse e tem interesse em nossa coleção micênica. Este ele disse a Deborah é Alexander Davos, Ministro da Cultura e Antiguidades.

Muito prazer disse Deborah, pega de surpresa enquanto apertava a mão que o ministro lhe oferecera.

Espero que a senhorita não esteja interessada em comprar alguma peça do nosso amigo aqui disse o ministro, sorrindo seu sorriso político. A voz dele era suave, seu inglês impecável e as palavras ditas rapidamente, de modo que quase não abria a boca. Preferimos que nossos tesouros fiquem em solo nacional.

É claro disse Deborah. É uma pena que isso não tenha sido sempre possível.

Quando virou-se para Popadreus, havia um brilho qualquer no olhar dele, mas, em seguida, o sorriso voltou-lhe aos lábios e ele desistiu de falar o que pensara.

—        É verdade ele disse. Bem, Dimitri, preciso ir embora —, ele disse a Popadreus. Você vai... ele concluiu a sentença falando rápido, em grego. O diretor do museu assentiu com a cabeça e apertou a mão dele.

—        Srta. Miller disse Davos. Foi um prazer.

Em seguida, ele caminhou rapidamente até as portas de entrada. Os funcionários do museu o reconheceram e fizeram sinais de cabeça, numa mistura de cumprimento e mesura.

—        Espero não o ter ofendido disse Deborah.

—        É claro que não disse Popadreus. A senhorita queria falar comigo?

—        Sobre as escavações de Schliemann.

—        De novo — ele disse, inclinando a cabeça para o lado com expressão lacônica. — Naturalmente. Talvez queira vir até meu escritório.

Ele seguiu na frente, ela foi atrás. Popadreus caminhava rápido, e mesmo com seus passos largos ela teve dificuldade em manter o ritmo.

O escritório dele era tão espartano quanto o resto do museu: paredes vazias, mobília velha — mas não antiga —, estantes, alguns diplomas em grego sobre papel amarelado e um pôster emoldurado anunciando uma exposição egípcia.

O diretor tomou seu lugar atrás da escrivaninha e indicou-lhe uma cadeira. A maneira brusca com que o último encontro entre eles terminara havia desaparecido. Ele se mostrava amável e até mesmo feliz por vê-la.

—        Café? — ele ofereceu. — É de verdade, não é Nescafé.

Deborah aceitou, por educação. Imaginou que poucas pessoas teriam o privilégio de tomar café naquele pequeno reino isolado. Ele pegou o telefone e falou rapidamente. Depois, voltou sua atenção para Deborah.

—        Então — ele disse —, a senhorita tem perguntas.

—        Os círculos de câmaras mortuárias micênicas — ela começou — continham corpos?

—        É claro que sim — ele disse. — Afinal, eram sepulturas.

—        O que quero saber é se ainda existiam corpos ali na época das escavações.

Ah — ele disse, acomodando-se na cadeira. — Sim, havia restos parciais.

Verdade? Depois de todo aquele tempo?

—        A senhorita já ouviu falar dos homens dos brejos de turfa do norte europeu?

—        É claro — ela disse.

Os corpos dos quais ele falava (os Homens de Lindow e de Tollund eram os mais famosos) foram encontrados no norte da Britânia e da Escandinávia. Eles pertenciam à Idade do Ferro — basicamente do século anterior ao nascimento de Cristo — e, aparentemente, foram vítimas de sacrifícios ritualísticos. Eles foram assassinados e jogados nos brejos, onde ficaram até o século XX, quando foram descobertos durante trabalhos de construção realizados em Manchester. Estavam em estado de preservação tão fantástico que, em um caso específico, um policial local acreditou se tratar de uma vítima de assassinato recente. Ossos, dentes, músculos, pele, cabelos, conteúdos estomacais, o garrote em torno do pescoço, tudo perfeitamente preservado.

—        Mas os homens dos brejos de turfa foram preservados pelos elementos químicos do brejo, o óleo que faz com que a turfa queime — ela disse. — Trata-se de uma composição de solo muito rara. Não existe nada parecido em outra região do globo.

É verdade — ele disse, sorrindo, aparentemente satisfeito com o fato de ela saber o que dizia. — Mas as mesmas condições podem ser repetidas artificialmente, caso o corpo esteja intacto ao ser descoberto.

Mas isso não seria possível.

A senhorita conhece Hamlet, srta. Miller? — ele perguntou. — De Shakespeare.

Sim, eu li — ela disse, franzindo a testa. Quando estava na faculdade, seu velho professor de Shakespeare gostava de dizer que todas as coisas realmente importantes levavam a Shakespeare.

A senhorita se lembra do que o coveiro disse a Hamlet quando ele lhe perguntou quanto tempo os corpos ficavam intactos sob a terra?

Não, não me lembro — ela disse.

Ele respondeu que um corpo queimado do sol dura mais tempo, porque a pele ficou curtida a ponto de manter a água fora do corpo por algum tempo, e "a água é o maior degradador do seu maldito cadáver".

O senhor está me dizendo que as condições áridas da região desidratam o corpo? — disse ela, entendendo o que ele estava tentando dizer e avançando com a idéia.

As cerimônias fúnebres egípcias colocavam os corpos diretamente nas areias quentes do deserto — ele disse. — A aridez absorvia a umidade do corpo, mumificando-o. As práticas mais tardias dos egípcios, como remoção dos órgãos, ataduras impregnadas de elementos químicos e assim por diante, não passaram de tentativas de recriar a desidratação natural causada pelas areias do deserto para os corpos enterrados em câmaras mortuárias.

Mas certamente um corpo tão ressecado ficaria aos pedaços ao entrar em contato com o ar.

Sim — ele disse —, e a maior parte deles seria reduzida a pouco mais do que ossos bastante quebradiços.

Deborah começou a sentir que algumas de suas certezas com relação ao ridículo do que Marcus lhe dissera começavam a mudar um pouco, como se o solo onde se apoiavam começasse a tremer ou afundar.

O que foi que Schliemann encontrou em Micenas? — perguntou Deborah.

Na sepultura do círculo A, ele encontrou ossos de várias pessoas, até de crianças. Os ossos foram cuidadosamente ensacados e tirados do local.

Para onde foram levados?

Para cá — ele disse. — Nós não os exibimos, mas estão guardados nas câmaras mortuárias do museu.

Deborah ficou boquiaberta por alguns minutos.

Aqui? — ela perguntou.

Sim — ele disse, sorrindo com a reação dela. — Não se trata de nenhum segredo.

Mas não passam de fragmentos de ossos, certo? — ela perguntou.

Sim, com exceção de um — ele respondeu. — Um corpo encontrado próximo à máscara na qual estava interessada ontem.

Deborah fixou o olhar nele.

Havia... carne? — ela perguntou.

Aparentemente sim — disse o diretor, com seu conhecido meneio de ombros. — Schliemann disse que havia um corpo intacto, contornos faciais... tudo, enfim. Ele reuniu alguns embalsamadores locais para ver se conseguia preservar os restos, tentando reproduzir as mesmas condições que preservaram os homens dos brejos de turfas, imagino. Algum tipo de álcool, resina talvez.

E foi bem-sucedido? — perguntou Deborah, ainda encarando-o.

Por Deus, não — disse Popadreus. — O corpo desintegrou-se.

 

Sozinha, de pé em frente às máscaras mortuárias de ouro, Deborah especulou. Se os corpos realmente ficaram desidratados pela aridez do solo grego, seria possível que Schliemann, que claramente tentara salvar um corpo, tivesse aplicado a técnica de embalsamento num corpo cuja existência ele nunca revelara ao governo grego? Seria esta a causa de seu telegrama famoso (e infame) sobre ter olhado para o rosto de Agamenon, que, mais tarde, desmentiu como apócrifa, pois estivera se referindo a um corpo que decidira esconder das autoridades? Mas, por quê? O Schliemann sobre o qual ela lera era um sonhador que sabia promover sua própria imagem. Será que ele não teria alardeado sua descoberta para os quatro cantos do mundo?

Mas em Tróia ele não revelou suas descobertas aos turcos. Depois de fotografar os pertences que disse terem sido de Príamo, rei de Tróia, eles desapareceram. Será que algum dia foram reencontrados? Muitos dos livros do quarto de Richard estavam bastante ultrapassados, e mesmo que alguns reproduzissem a imagem de Sofia, esposa de Schliemann, adornada com as jóias desaparecidas, nenhum deles oferecia qualquer explicação sobre o que acontecera com elas. O que não significava que havia alguma explicação a ser dada. Ela olhava para as imóveis máscaras douradas e se perguntava: será que Richard adquirira o corpo intacto do rei de Micenas?

 

 

                       CAPÍTULO 29

 

Em outro restaurante do Plaka, Deborah jantou cedo, tomou um copo de retsina e depois voltou ao hotel para ler As memórias de Heinrich Schliemann, de Leo Deuel e ver se conseguia descobrir alguma coisa sobre o desaparecimento do Tesouro de Príamo. Sentada sobre as pernas, ela leu com um lápis na mão, sublinhando partes que considerava importantes. A história apresentada por Deuel era basicamente a seguinte:

Era 1873. O governo turco estava ameaçando revogar a permissão que concedera a Schliemann para escavar porque suspeitava (com razão) que ele já havia contrabandeado objetos descobertos em Tróia para fora do país. Ele parecia estar escavando aleatoriamente, mudando de local e de níveis, aparentemente alheio ao fato de que suas descobertas pertenciam a períodos diferentes. Ele estava convencido de que, no nível mais baixo, estaria a Tróia descrita na Ilíada de Homero, uma obsessão que o cegava para a destruição que seus homens fizeram dos outros níveis do povoado e até mesmo para o roubo de algumas de suas descobertas.

O triunfo estranho e controvertido de Schliemann aconteceu em uma manhã de junho, apenas alguns dias antes do fechamento da escavação. De acordo com Schliemann, ele se encontrava caminhando ao redor das escavações quando viu um brilho de metal na base de uma parede. Ele começou a escavar a peça, rapidamente revelando um depósito de ouro, vasos, taças e diademas, jóias e outros tesouros. Ele disse que se tratava do Tesouro de Príamo, uma coleção cujo valor apenas dos objetos de ouro totalizava mais de um milhão de francos. O tesouro era, ele disse, a prova derradeira da veracidade da descrição que Homero fizera das riquezas de Tróia.

Foram levantadas perguntas sobre seu relatório bastante vago e contraditório e sobre o local onde fora encontrado o tesouro, o que, no entanto, logo tornou-se irrelevante. Desprezando totalmente seu acordo com os turcos, para quem a descoberta significava um tesouro nacional que deveria ter sido entregue ao Museu de Constantinopla, ele imediatamente enviou as peças para Atenas, onde vivia na época. Os objetos foram contrabandeados em seis cestos e um saco, seu conteúdo escondido até mesmo de seus companheiros de escavação.

Dezessete anos depois, quando suas escavações em Micenas tiveram um final glorioso, ele voltou a escavar em Tróia. Encontrou quatro cabeças de machado de valor incalculável e voltou a ter o mesmo comportamento, contrabandeando os objetos de Tróia para a Grécia e, para facilitar sua subseqüente reexportação, declarando-os como egípcios aos oficiais da alfândega. Ele não tinha intenção alguma de deixar tais tesouros na Grécia. O destino deles era Berlim.

Berlim?

Deborah releu várias vezes essa passagem relevante. Os objetos escondidos, em ambos os casos o Tesouro de Príamo e os machados de pedra —, foram enviados para a Alemanha, onde, com a morte de Schliemann, em 1890, foram colocados numa ala especialmente construída no Museu de Etnografia de Berlim. Fora o último presente do arqueólogo a sua nação de origem. Mas não foi o ponto final de sua perambulação. O capítulo de Deuel fechava com um torturante pedaço de história.

No final da Segunda Guerra Mundial, o exército russo invadira Berlim e, na queda vergonhosa daquela cidade, os tesouros troianos de Schliemann desapareceram, presumivelmente levados como pilhagem pelas tropas russas. O livro não mencionava se os tesouros foram espalhados, roubados ou simplesmente destruídos. Na época em que foi impresso, seu paradeiro era desconhecido e provavelmente estivesse perdido para sempre.

Russos?

Ela fechou o livro, deitou-se na cama e olhou para o ventilador de teto, vendo o rosto de Sergei Voloshinov, um soldado da União Soviética...

Poderia Schliemann ter feito em Micenas o mesmo que fez, por duas vezes, em Tróia, secretamente exportando uma quantidade mais valiosa de descobertas não declaradas do que as que declarara? Em Tróia, ele se mostrara convencido de seus direitos de proprietário quando se tratava de suas descobertas e, apesar de parecer menos ansioso para esconder suas descobertas das autoridades gregas do que se mostrara com os turcos (sua atitude com relação aos "orientais" turcos era etnocêntrica, para não dizer racista), é bastante plausível pensar que ele considerasse apenas os alemães como merecedores de tal prêmio. Mas se isso fosse verdade, por que não havia nenhum registro sobre o assunto em Berlim? Será que ele não teria orgulhosamente mostrado esta e outras de suas descobertas aos diretores de museu da Alemanha?

Acontece que Schliemann ressentiu-se amargamente do desprezo que o público alemão nutria por ele. Na verdade, ele não passava de um excêntrico. Esse homem, que construíra para si uma mansão clássica a apenas alguns quarteirões de distância de onde Deborah agora se encontrava, que chamava seus criados por nomes mitológicos e insistia que toda a sua correspondência fosse escrita em grego clássico, esse homem, com certeza, fazia suas próprias leis. Se tal homem tivesse descoberto e preservado o que febrilmente acreditava ser o corpo de Agamenon, em toda a sua pompa funerária, o que não teria sido capaz de fazer para guardá-lo para si mesmo? Mas, se ele precisava manter o assunto em segredo, como teria o corpo chegado até um pequeno museu em Atlanta, Geórgia, e que tipo de ligação teria aquele segredo com o russo morto que estivera perambulando pelo estacionamento do museu alguns dias antes?

 

Na manhã seguinte, depois de um café da manhã com presunto defumado, queijo feta, pão quentinho, iogurte e mel, Deborah encontrou a bela jovem no balcão de recepção e perguntou se havia um computador onde pudesse conectar-se com a internet.

—        Existe um cibercafé na esquina da Ermou com a Voulis ela disse, imediatamente oferecendo o mapa do hotel e circulando a intersecção com uma caneta.

Deborah não teve dificuldade para encontrar o local, que mais se parecia com um bar. Ela entrou no cibercafé, bastante vazio, e viu um balcão com banquetas cromadas, uma parede espelhada com um cartaz de propaganda do conhaque Mataxa e uma solitária máquina de pinball. Estava pensando em ir embora quando uma voz de homem disse "Neh?".

Ele devia ter uns 25 anos, e seu rosto redondo era a única parte do corpo seu que ela podia ver, pois ele parecia estar saindo do chão. Havia uma escada bem atrás do bar.

—        Parakalo ela disse —, mipos milateh anglika?

Você fala inglês? Aquela era, basicamente, a única frase em grego que ela conhecia. Se ele respondesse qualquer coisa que não fosse sim, ela estaria frita.

—        Sim ele disse, sorrindo, um pouco incerto.

—        Estou procurando um computador disse ela.

O sorriso dele flutuou.

—        Internet? ela aventurou-se, seus dedos, involuntariamente, digitando um teclado imaginário.

O sorriso dele retornou, dessa vez enfeitado com uma pitada de triunfo.

—        Lá embaixo ele disse, descendo a escada, mudando o que acabara de dizer para "Aqui embaixo" enquanto caminhavam.

Ao final da escada, ele orgulhosamente indicou quatro terminais de computadores alinhados em mesas contra a parede, cada um com sua cadeira de cromo, lápis e um belo bloco de papel.

Ela iluminou-se em sinal de agradecimento. Ele mostrou o navegador da web no monitor e, em seguida, os preços afixados em uma tabela pregada à parede. Dois euros pela primeira meia hora, um euro por cada meia hora seguinte. Uma pechincha.

Café, gostaria? — ele perguntou.

Aceito, obrigada — ela disse.

—        Nescafé — acrescentou ele, franzindo o rosto como que pedindo desculpas.

—        OK?

Ele saiu e ela entrou na página do Hotmail. Demorou menos de cinco minutos para criar um novo (e gratuito) endereço de e-mail com o nome ridículo de embaixadorantigo2@hotmail.com visto que pelo menos um daqueles cinco minutos foi gasto com sua perplexidade ao descobrir que o endereço embaixadorantigo1@hotmail.com já estava tomado. Ela verificou o endereço de Calvin no cartão que ele lhe dera e digitou:

 

               Calvin,

Como prometido, envio meu novo endereço. Imagino que não tenha muito espaço, por isso peço que não mande fotos ou arquivos muito pesados. Por favor, informe-me de todas as novidades.

Por aqui, tudo é diversão e frivolidade. Saudades.

                               D

 

Aquilo lhe pareceu suficientemente vago.

Ela não sabia por que adicionara "Saudades" no final, ou se a frase servia para tornar a mensagem secretamente inócua. Ao mesmo tempo, ela colocara sua inicial, que entregaria o jogo a qualquer um que lesse. Será que ela realmente sentia saudades dele? Não, aquilo era absurdo. Ela nem sequer o conhecia. Sentia, talvez, falta de conversar com alguém que parecesse acreditar nela, que parecesse estar do lado dela, mas era só isso.

E o fato de ele ser bonito, simpático e inteligente não valia nada...?

Nada, nada mesmo, ela decidiu, meio séria. Se havia outras vozes sussurrantes em seu cérebro, eram simplesmente por causa da histeria provocada pela situação em que se encontrava e deveriam ser urgentemente ignoradas.

Ela olhou para o relógio de pulso. Restavam-lhe ainda 20 minutos, e seu café ainda não havia chegado. Entrou no Google e digitou a palavra "Micenas". O primeiro link a levou diretamente ao site oficial do truste arqueológico grego. Ele fornecia um pouco de história básica, algumas fotos, horários de funcionamento durante a temporada e preços. Ela tentou uma nova busca, dessa vez digitando "Tesouro de Príamo". Ao entrar no primeiro link, viu que o rapaz de rosto de lua cheia voltava com seu café.

Efharisto — ela disse. — Obrigada.

Paracalo — ele respondeu, colocando a caneca sobre a mesa. — Você é inglesa? — ele perguntou.

Americana — ela disse.

Fora dos Estados Unidos, aquela palavra era capaz de provocar uma vasta gama de reações, por isso ela fez a observação meio na defensiva, o que foi desnecessário.

Ah — ele disse, encantado. — Élvis Presley!

Certo — ela disse, sorrindo, na medida em que o sorriso franco que ele deu o deixou cinco anos mais jovem.

Blue swathe shoes — ele disse.

—        Certo — ela repetiu. — Blue suede shoes.

Deus queira que ele não resolva cantar, ela pensou.

Mas ele não cantou. Na verdade, voltou sua atenção ao computador, claramente interessado em olhar para a tela. Ao que tudo indicava, dois euros não compravam privacidade.

Príamo — ele disse, balançando a cabeça em sinal de aprovação.

Sim — ela disse.

Pusskin — ele disse.

O quê? — perguntou ela, educadamente.

—        Pusskin — ele repetiu, pegando o bloco de papel e escrevendo a palavra com o toco de lápis. — Museu Pusskin.

Ela franziu o cenho, interrogativa. Ele inclinou-se sobre o teclado.

—        Posso? — perguntou ele.

—        Hã... OK — ela disse, saindo da frente enquanto ele digitava algo e clicava em um link que levou ao site oficial do Museu Pushkin, em Moscou. Atônita, ela observou enquanto ele clicava dois outros links que trouxeram à tela a imagem de uma caixa expositora com o que era, quase certamente, a coleção dos artefatos que Schliemann chamara de Tesouro de Príamo.

Deborah mal podia acreditar no que via. O tesouro descoberto em Tróia, contrabandeado e desaparecido estava na tela do monitor, bem na frente de seus olhos, aparentemente exposto em um museu em Moscou!

O texto abaixo, em inglês meio quebrado, dizia que o display continha as descobertas feitas em Tróia por Heinrich Schliemann, no final do século XIX, um tesouro que ficara guardado em uma torre do zoológico de Berlim até ser "liberado" pelas tropas russas. Durante meio século, o tesouro ficou novamente enterrado, dessa vez na câmara mortuária de Pushkin, até que, em 1994, o museu admitisse sua existência ao mundo e o colocasse em exibição, aparentemente tarde demais para ter sido publicado em qualquer dos livros da estante de Richard. A posse do tesouro fora disputada pela Turquia, pela Grécia, pela Alemanha e por muitos arqueólogos. As disputas legais ainda estão em andamento...

Muito velho disse o jovem. Muito bonito.

Sim disse Deborah.

E se, depois de todos esses anos, uma porção do tesouro de Schliemann ressurgiu, por que não uma outra? Ela resolveu ligar para Marcus e marcar uma reunião.

 

 

                                 CAPÍTULO 30

 

Deborah sugeriu que se encontrassem em um restaurante, e Marcus fez a escolha Kostoyiannis, um lugar elegante na Zaimi, bem atrás do museu de arqueologia. Ele não precisou consultar um mapa ou guia.

Deborah chegou deliberadamente mais cedo, passou várias vezes pela frente do lugar, observou-o de uma vitrina de loja de departamentos do outro lado da rua e, finalmente, entrou. Dez minutos adiantada. Ela estava ansiosa, e o fato de que o restaurante parecesse ser freqüentado exclusiva­mente por gregos locais fez com que se sentisse ainda mais desconfortável, como se os fragmentos de inglês que se acostumara a ouvir no Plaka lhe proporcionassem uma sensação de segurança e familiaridade.

Ele chegou na hora exata, bastante elegante num terno cinza-claro. Antes de sentar-se, dirigiu-se ao maître em grego. Deborah deu um sorriso forçado.

—        Gostei que tivesse ligado ele disse. Temos muito que conversar.

Ao telefone, ela lhe dissera que ainda não confiava nele e que desconfiava que fosse responsável pelo assassinato de Richard, mas ele dissera que aquilo era bobagem. Para dizer a verdade, ela não sabia em quem acreditar, mas achava que as estranhas histórias sobre reis mortos havia muito tempo, contadas por este homem não menos estranho, faziam mais sentido do que ela gostaria de admitir. Era a única maneira de entender o motivo do desejo evidente que ele sentia de conversar com ela.

—        Os mezédes daqui são excelentes ele disse.

Ela concordou num sinal de cabeça, como se soubesse o que eram, e consultou o cardápio, que estava escrito em grego. Ela engatinhou pela lista, desmembrando as letras da melhor maneira possível, e, como conseguiu reconhecer apenas quatro itens, sentiu-se derrotada e um pouco defensiva.

Quer que eu peça para você? ele perguntou, percebendo a indecisão dela.

Não, obrigada ela disse, querendo que ele pedisse.

—        Você deveria experimentar o cozido de coelho — sugeriu ele. — É a especialidade da casa.

Ela fez uma pausa. Pensou em recusar, mas acabou desistindo.

OK — concordou. — Então peça um para mim. E os...

Mezedes?

Certo — ela disse.

Ele fez o pedido em grego, escolheu uma garrafa de retsina cujo sabor era menos ácido do que a maioria, colocou seu cachimbo sobre a mesa e olhou para ela.

Já que deixamos claro que o nível de confiança mútua é bastante baixo, acho melhor deixarmos a etiqueta de lado e irmos direto ao assunto, como vocês, americanos, gostam de dizer.

Isso seria ótimo — disse ela, colocando seu copo sobre a mesa e olhando-o direto nos olhos. — Vamos dizer que ambos estejamos procurando pelas mesmas coisas: o assassino de Richard e o tesouro que tinha em seu poder, inclusive — ela engoliu em seco, detestando dizer aquilo em voz alta — o corpo de um antigo rei de Micenas.

Agamenon — disse Marcus.

Seja quem for — ela disse.

Então, posso acrescentar um "seja quem for" ao negócio da busca pelo assassino de Richard? — ele replicou. — Não fui eu, acredito que não tenha sido você, e isso é tudo o que me importa. Não conheci Richard e presumo que as autoridades encarregadas vão procurar e julgar seu assassino.

Talvez — disse Deborah.

As sobrancelhas dele se franziram, mas ele esperou até que o garçom servisse a comida antes de continuar.

—        O que quer dizer?

Não era por aí que ela queria começar a conversa, mas o ponto lhe pareceu relevante. O fato de não ter certeza de poder confiar nele não poderia fazer-lhe mal e, se desse uma demonstração de boa-fé, poderia conseguir mais dele.

—        Existem dois detetives investigando o assassinato, um chamado Keene e outro Cerniga — ela disse. — Só que parece que Cerniga não é policial.

Ela contou-lhe a conversa que ouvira, e o rosto de Marcus empalideceu.

Sua vez — ela disse, cortando seu guisado, que, como ele dissera, estava excelente.

Muito bem — ele disse. — Deixe-me oferecer-lhe isso. O Atlanta Journal-Constitution revelou que o corpo de Richard foi apunhalado, mas não deram detalhes sobre os ferimentos. Eu acredito que os ferimentos tenham sido feitos por uma lâmina curiosamente longa, com um cabo curvo para baixo dos dois lados. Estou certo?

Ela lembrou-se do corpo coberto de sangue, dos ferimentos espalhados pelo cadáver pálido de Richard e da poça de sangue que se formou abaixo dele. Lembrou-se da estranha arma na foto com a suástica no cabo e sentiu um estremecimento.

—        Como sabe ela disse —, se não foi você quem o matou?

Richard não foi o primeiro a morrer dessa maneira ele disse. Dez anos atrás, em um vilarejo francês na costa britânica, um outro homem idoso morreu com o mesmo tipo de ferimento.

Dez anos atrás? perguntou ela. Na França? Tem certeza de que exista ligação?

—        Ah, sim, tenho certeza. Na verdade, sei exatamente qual é a ligação. Ela esperou que ele mastigasse uma porção de sua refeição e tomasse

um gole de vinho.

O cavalheiro em questão era um comprador potencial para o antigo corpo real que acabou indo para a América e para a coleção do sr. Dixon. Fazia muitos anos que ele estava tentando realizar a compra.

Você acha que Richard teve alguma coisa a ver com isso? perguntou ela, incrédula.

Não respondeu ele. Na verdade, acho que as pessoas que mataram o primeiro homem são as mesmas que mataram o sr. Dixon. Eles também têm estado à procura do corpo e não se deixariam deter por nada. Na França, não tiveram sucesso e demoraram 10 anos para descobrir novamente a pista. Acho que, seja quem for que tenha realizado a venda, manteve-se escondido depois do assassinato na França, mas os assassinos ainda estavam à espera quando a peça voltou ao mercado, no início deste ano. Eles interceptaram a transação, e o resto você já sabe.

Richard estava vendendo o corpo? perguntou Deborah. Isso significava que ele realmente havia escondido a história dela, que não pretendia expô-lo no museu. Ela sentiu um aperto no coração.

Marcus assentiu com a cabeça, primeiro lentamente e, agora, mais rápido. Ele colocou o cachimbo apagado na boca e mascou o bocal.

Sim disse ele. É possível que estivesse de posse do corpo desde que ele saiu da França, há 10 anos. E decidiu vendê-lo. Quando começou a fazer insinuações para conseguir compradores, os assassinos finalmente conseguiram localizá-lo.

Anos depois? perguntou Deborah. Quem estaria pronto a matar... pelo menos duas vezes... e esperar décadas por um cadáver? Por que isso vale tanto para eles?

Trata-se da mais extraordinária descoberta histórica jamais feita ele disse, com simplicidade e um pouco de veemência.

Acredito que existam pessoas que não concordem com isso.

Os colecionadores são uma raça estranha disse Marcus. Seus desejos beiram a obsessão. E por uma peça como esta, tão rica em história e valor de mercado, alguma coisa tão saturada de lenda e poder... alguns homens fariam qualquer coisa para colocar as mãos em uma peça assim.

Como você ficou sabendo do corpo? ela perguntou.

Já faz algum tempo que ando de olhos abertos ele disse, com um sorriso desolado. Há muitos anos sei da existência do corpo, dos tesouros do túmulo e de outras peças micênicas que foram deixadas para trás. Assim como sei que, quando desapareceram, foram transportadas com outros artefatos menos interessantes ou valiosos. Sabia também que, se algum dia encontrasse um deles, estaria bem perto de encontrar o corpo de Agamenon. Um dos artefatos é bem representativo, talvez até único. Alguns meses atrás, essa peça reapareceu no lugar menos esperado. Sabe onde foi encontrada?

Ele sorriu novamente, mas dessa vez era um sorriso fino e duro, completamente desprovido de humor.

—        Como poderia saber? respondeu Deborah, irritada com seu ar de sabedoria. Não sei do que se trata.

Ele colocou o cachimbo sobre a mesa, inclinou-se para a frente e segu­rou as mãos dela. Seus dedos eram longos e frios; ela começou a afastar-se, mas ele segurou-as com força a aproximou-se mais, seu rosto subitamente com expressão de lobo e seus lábios afastados, mostrando os dentes.

—        Trata-se — ele disse de uma proa de navio do início do Renascimento espanhol, metade mulher, metade cobra. Isso lhe soa familiar, srta. Miller?

 

 

                                 CAPÍTULO 31

 

Deborah tentou lembrar-se do ar jubiloso com que Richard desempacotara a grotesca mulher-dragão. Fora a dois ou três meses atrás. Ela chegara de manhã e lá estava a proa, em toda sua abominável glória. Estivera exposta durante o primeiro evento para arrecadação de fundos. Suas fotos haviam sido publicadas nos jornais...

Sim disse Marcus, observando Deborah fazer suas ligações. Não sei por quanto tempo ele estava de posse dela, ou porque resolveu revelá-la naquele momento, mas, assim que a vi, sabia do que se tratava e o que estivera sendo transportado com ela. E assim como eu soube, tenho certeza de que outras pessoas também souberam.

Talvez a intenção fosse essa disse Deborah. Se ele pretendia vender o corpo e seus tesouros, talvez o fato de exibir aquela aberração fosse uma maneira de anunciar que ele realmente tinha a posse do que dizia ter.

Deborah olhou para a comida em seu prato, subitamente sem apetite.

O que foi? perguntou Marcus.

Nada ela mentiu.

Você está se perguntando por que ele nunca lhe contou a respeito —       ele disse; por que ele nunca deixou o legado para o museu.

—        Isso mesmo disse ela.

Eu não sei ele disse, gentilmente. E suponho que nunca sabe­remos.

Estranho, não é? comentou ela. — Você trabalha vários anos com uma pessoa e pensa que a conhece bem, sabe o que quer da vida e, de repente...

Ela fez um meneio de ombros.

—        Se pelo menos eu soubesse mais sobre quem pudesse ter feito a ligação da proa do navio com Agamenon disse Marcus.

—        Acabo de pensar em uma coisa disse Deborah, concentrando-se.

—        Você disse que achava que Richard havia se encontrado com dois executivos gregos. Eles compareceram ao evento do museu na noite em que Richard foi assassinado. Seus nomes não constavam da lista de con­vidados e eu nunca os vi. Aparentemente, passaram algum tempo com ele, mas...

Deborah teve uma idéia. Era provável que não passasse de esperança desesperada, mas, mesmo assim, fazia sentido, um sentido que reforçava a imagem do Richard que ela conhecera.

—        Richard era obcecado pelas lendas gregas ela disse —, pela Guerra de Tróia. Ao mesmo tempo, era um homem de princípios. Pode ser que, algum tempo atrás, ele tenha comprado a coleção inteira. Que tenha passado anos estudando-a em segredo, tentando descobrir se era realmente autêntica, com a intenção de fazê-la parte da coleção do museu. Mas ela continuou, falando rapidamente, não vendo nada ao redor além da idéia que se desdobrava em sua mente parte dele acha que Agamenon porque ele realmente acredita que o corpo pertencia a Agamenon não deveria ficar nos Estados Unidos. Ele pertence à Grécia. Richard era parecido com Schliemann no que se refere a sua paixão por provar que Homero estava certo, mas os dois não se pareciam quando se tratava de ética de possessão. Pode ser que ele tenha sido procurado... ou tenha iniciado contato com alguma organização de antiguidades gregas, talvez até o governo grego. Ele lhes disse o que tinha e revelou aquela proa de navio ao mundo de modo que soubessem que estava dizendo a verdade. Talvez tenha feito um acordo: eles levariam o corpo de Agamenon de volta à Grécia e ele ficaria com o restante da coleção para exibir no museu. Alguns representantes da organização grega vêm para ver a peça. Alguma coisa sai errada. Ou eles não são as pessoas que ele imaginava que fossem, ou...

Sem palavras, ela sentiu-se subitamente derrotada. Tudo aquilo não passava de especulação que não a levaria a lugar algum.

Mas Marcus não pensava assim. A luz que estivera nos olhos dela foi transferida para os dele.

—        Se você estiver certa ele disse —, eles vão tentar trazê-lo de volta à Grécia. Mas não se arriscarão a trazê-lo de avião; o colocarão em um navio.

—        Como Schliemann fez ela disse.

—        Precisamos ir a Corinthos disse Marcus, colocando seus talheres sobre a mesa, como se quisesse sair imediatamente.

—        Corinthos? Por quê?

—        Você tem um guia turístico, ou algo do tipo? ele perguntou. Um mapa?

Deborah tirou seu Rough Guide da bolsa e abriu na página do mapa da Grécia e regiões vizinhas.

—        Olhe — disse ele, apontando para o mapa. — Atenas está bem aqui. Qualquer carregamento vindo dos Estados Unidos será desembarcado no porto de Pireus, aqui. Mas Pireus é um porto muito importante para ser conveniente ao contrabando e requer que os navios atravessem o Mediterrâneo, passem pela Itália e dêem a volta pelo Peloponeso e pelas Cíclades. Mas eles podem economizar bastante tempo e evitar muitas inconveniências se passarem por Corinthos e depois seguirem para Pireus. O uso do canal significa uma economia de 200 a 300 mil milhas de mar aberto.

E continuou:

Se formos a Corinthos, poderemos descobrir se existem navios programados para chegar dos Estados Unidos. A passagem pelo canal é complicada e precisa ser marcada com antecedência. Poderíamos ficar de olho nas cargas que chegam e até mesmo interceptá-las.

Isso só acontecerá dentro de algumas semanas — disse Deborah.

E nós estaremos prontos.

Imagino que possamos avisar as autoridades antes da chegada deles — ela disse.

Mas tudo indica que são as autoridades quem estão trazendo a carga.

Deborah balançou a cabeça.

Não acho que o governo grego faça vista grossa a roubo e assassinato para recuperar um tesouro nacional.

Não? — perguntou ele. — Os gregos são bastante nacionalistas quando se trata de sua herança histórica. O que não é nada surpreendente, considerando a maneira como foram roubados durante séculos.

Principalmente pelos britânicos — Deborah lembrou-o. — A frisa do Parthenon era a jóia da Acrópole até que lorde Elgin a tirasse de lá e a levasse para Londres.

E agora fazia parte da coleção do Museu Britânico e, apesar dos constantes pedidos dos gregos, não havia a menor indicação de que fosse devolvida a Atenas. Lorde Elgin afirmara que, se tivesse deixado a frisa onde estava, ela teria sido destruída pelos turcos, e pode ser que tivesse razão. Agora, entretanto, os britânicos recusavam-se a abrir mão dos már­mores — apesar de ocasionalmente usarem a precariedade das instalações dos museus gregos como motivo, tratava-se mais do fato de a lei favorecer o proprietário na quase totalidade dos casos.

—        Obrigado pela lição sobre usos e costumes culturais — chicoteou Marcus. — Podemos, por favor, voltar a nosso assunto?

Deborah sorriu, surpresa ao perceber que começava a gostar dele.

— Sabe — ela disse —, você ainda não me contou como se envolveu nessa história. Sim, você é um historiador e colecionador de arte; sim, você parece ser tão obcecado quanto Richard pela arte micênica e suas lendas. Mas como ficou sabendo sobre o corpo e que ele estava sendo transportado com aquela carranca espanhola do século XVI?

Ela continuava a sorrir. Como o tom que usara fora bastante leve, ela surpreendeu-se ao ver que ele parecia distante.

—        O velho cavalheiro que foi morto na França me contou tudo — ele disse. — Décadas antes, ele estivera em contato com um negociante inescrupuloso, mas nunca pusera os olhos no corpo.

E por que ele lhe contaria tudo? Marcus franziu o cenho.

Ele era meu pai — ele disse.

 

 

                           CAPÍTULO 32

 

Assim que o pequeno cibercafé subterrâneo abriu suas portas, Deborah entrou. O jovem de rosto de lua cheia mostrou-se feliz ao vê-la, talvez lisonjeado. Ela evitou qualquer tipo de conversa e recusou o café; havia um brilho no olhar dele que ela não queria explorar ou encorajar. Ele pareceu ficar um pouco desapontado, mas não invadiu a privacidade dela.

Havia duas mensagens em sua caixa de correspondência do Hotmail. Uma era uma mensagem automática de boas-vindas do serviço de e-mail; a outra, de Calvin, era angustiantemente curta.

"Computadores confiscados. Eles sabem onde você está.Também sinto saudades."

Não havia nenhum anexo.

Deborah soltou um grande suspiro e perguntou-se se deveria responder. Ela não sabia o que lhe dizer. Afinal de contas, mal conhecia o homem. Mas Richard confiara nele, e isso deveria contar alguma coisa. Para ser mais exata, talvez fosse prudente deixar alguém saber que planejava ir a Corinthos com um homem que, até 24 horas antes, ela acreditara ter sido o responsável pela morte de Richard. Seus olhos pousaram no fragmento da última sentença: Também sinto saudades. Ela sentiu uma onda absurda de prazer, que logo afugentou.

Não dê uma de adolescente ridícula.

Respirou fundo e digitou antes que tivesse a chance de mudar de idéia.

"Vou para Corinthos com Marcus. O clima está perfeito. Gostaria que você estivesse aqui."

Aquilo era uma brincadeira, ela disse a si mesma, uma tentativa de amenizar a estranheza da situação. Assim que enviasse, ela provavelmente se recriminaria, odiando a superficialidade do tom do e-mail.

Bem, pensou ela. Agora é tarde demais. Onde estava, não havia nada que pudesse fazer se Calvin achasse que ela estava ficando caída por ele, e aquele e-mail não poderia lhe fazer mal algum. Talvez ele ficasse menos tentado a contar seu paradeiro à polícia. Aquele foi um pensamento cruel. E bastante dissimulado. Ela não estava simplesmente flertando com ele (embora de maneira pateticamente ambígua e adolescente) para mantê-lo sob controle. Estava fazendo isso porque uma parte dela queria, porque gostava da maneira como ele sorria e esticava as pernas à frente dele quan­do se sentava...

Vamos parar de sonhar.

Afinal de contas, Deborah não era de romances. Não era de relaciona­mentos (fosse qual fosse o significado da maldita palavra) e, com certeza, não era de cair de amores.

Além disso, você não confia nos homens, ela lembrou a si mesma.

Nem mesmo nos bonitinhos?

Especialmente nos bonitinhos.

De qualquer maneira, ele sairia em disparada assim que percebesse qualquer interesse da parte dela. Era bastante provável que Calvin Bowers pudesse escolher entre todas as advogadas atraentes e bem-sucedidas de Atlanta. Uma relação de longa distância (palavra odiosa) com uma fugitiva de pernas de cegonha não seria prioridade em sua lista.

Enquanto olhava para a tela, recebeu uma nova mensagem. Por um segundo, pensou que ele estivesse respondendo ao e-mail que acabara de enviar e sentiu o coração subir-lhe à garganta, ao mesmo tempo que sentia uma onda de humilhação tomar conta dela. Mas era um e-mail com endereço desconhecido, cheio de letras e números. Franzindo a testa, ela o abriu.

Continha oito palavras e nenhuma pista de quem o havia mandado.

"Volte imediatamente para casa. Sua vida corre perigo."

 

 

                             CAPÍTULO 33

 

Como poderia estar correndo perigo maior agora do que correra em Atlanta? Aquilo não fazia o mínimo sentido. Pensando bem, talvez aquele e-mail nem fosse para ela. Ninguém, além de Calvin, tinha seu novo e-mail e ela não acreditava que ele o tivesse dado a alguém. Volte imediatamente para casa. Sua vida corre perigo. É provável que se tratasse de alguma brincadeira de hacker, enviada a ela e a milhões de outros endereços aleatórios uma brincadeira não muito engraçada, ela admitia, mas... Por isso era tão pouco específico em seu enunciado: tentava ser relevante a todos que o recebessem. Era possível que funcionários de escritório entrassem em pânico e saíssem correndo porta afora para voltar para casa. Talvez fosse ainda mais provável que esses funcionários de escritório estivessem rolando de rir como sempre faziam com pedidos suspeitos de números de contas bancárias que, supostamente, levariam à transferência de milhões de dólares de algum banco da África. Para ela, o e-mail parecera mais verdadeiro, porque estava longe de casa, não conhecia ninguém e havia saído (fugido) do país por causa de um assassinato... Se ela corria algum perigo, esse perigo ficara em Atlanta.

A não ser, claro, que o assassino a tenha seguido de Atlanta até a Grécia...

Bobagem.

Quando chegou ao hotel, havia uma mensagem telefônica de Marcus. Ele não a encontrara. Ela estava ficando acostumada a pensar nele como um aliado e até mesmo como amigo. A mensagem secreta do computador, mesmo que racionalmente pudesse culpar algum adolescente com talento para escrever em código, abalara um pouco aquele sentimento. No momento, ela não sentia muita vontade de conversar com Marcus.

Deborah ele disse, com voz carregada de ansiedade —, onde diabos você se meteu? Eu falei com o operador dos navios em Pireus. No próximo mês, apenas um navio contêiner está escalado para passar pelo canal de Corinthos. Ele está três semanas atrasado; deve ter ficado detido em New Orleans. Vou até Corinthos para ver se consigo descobrir o que aconteceu. Ligue-me quando chegar.

Corinthos era bem próxima de Micenas. Ela sabia que, em algum momento, iria até lá.

Com a ajuda do recepcionista do Aquileus, ela fez reserva em um hotel de preço razoável em Corinthos e ligou para Marcus, secretamente esperando que ele tivesse saído. Tinha saído, de fato, mas não deixara a secretária eletrônica ligada, apenas uma voz impessoal dizendo o número da caixa postal. Ela não queria ficar parada, esperando que Marcus voltasse. Sentia-se impaciente e queria fazer alguma coisa.

—        Sim — ela disse ao telefone. — Diga-lhe que Deborah ligou e que estará no Ephira, em Corinthos. Podemos nos encontrar lá.

Havia mais uma coisa a fazer antes de partir. Ela desceu até a recepção com olhar sério e perguntou ao recepcionista se podia ajudá-la.

Preciso fazer uma ligação internacional, mas não tenho certeza do número — ela lhe disse. — Sei apenas o nome.

Podemos tentar — ele disse. — Mas pode custar caro.

Tudo bem.

Que país?

Rússia — ela disse. — Moscou. O nome da mulher é Alexandra Voloshinov.

Se a resposta dela causou-lhe espanto, ele não demonstrou.

Ele fez três ligações, falando grego e rabiscando números entre elas. No último chamado, ele passou para o inglês e entregou-lhe o telefone. A voz do outro lado era feminina e tinha um sotaque que Deborah presumiu ser russo.

—        Existem três Alexandra Voloshinov em Moscou. A senhora quer os três números?

Deborah anotou os números, desligou e discou o primeiro da lista.

O homem que atendeu não falava inglês e ficou irritado porque ela continuou com suas perguntas. Quando ele bateu o telefone na cara dela, o recepcionista sorriu sardônicamente e sublinhou o segundo número.

Da — atendeu uma mulher.

Desculpe — disse Deborah, falando dolorosamente devagar, odiando o fato de não ser capaz de falar russo, sentindo uma mistura de futilidade e idiotice. — Estou tentando falar com Alexandra Voloshinov, mas não sei falar russo. Sou americana. Estou ligando a respeito...

Meu pai — ela disse, com voz inexpressiva. — Eu já sei.

Sinto muito por sua perda — disse Deborah, sendo verdadeira e, ao mesmo tempo, ouvindo a falta de emoção em sua própria voz.

Alguma notícia? — perguntou a mulher. Ela não parecia estar curiosa ou esperançosa.

—        Na verdade, não — disse Deborah, sentindo-se traiçoeira. — Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

Como a mulher não dissesse nada, Deborah pressionou.

—        Você conhece alguma pessoa ou lugar com as iniciais MAGD ligados à seu pai?

A mulher não hesitou.

—        Magdeburgo — ela disse. — Na Alemanha. Ele morou lá algum tempo.

—        Certo — disse Deborah, confiante.

Alemanha, de novo?

—        Seu pai trabalhou para o Ministério do Interior — ela disse, tentando ganhar tempo. Não sabia o que mais queria saber. — A MVD?

Dessa vez, fez-se uma pausa. Quando a mulher voltou a falar, seu tom era brusco.

Sim. Muitos anos atrás.

O que ele fazia?

O que ele fazia? — ela repetiu, curiosa.

Qual era o trabalho dele? — reformulou Deborah.

Eu não sei — ela disse.

Subitamente, Deborah franziu o cenho, sabendo que Alexandra esquivava-se.

—        Sinto muito, mas não estou entendendo — ela disse, tentando parecer educada.

A MVD — disse a mulher, evasiva. — Ele trabalhava lá. Deborah mudou de tática.

O que é a MVD?

Ela não existe mais — disse Alexandra Voloshinov. Fez-se outra longa pausa e, em seguida, com evidente relutância, ela acrescentou. — Originariamente era chamado de NKVD.

NKVD? — repetiu Deborah.

O recepcionista, que, levemente surpreso, estivera ouvindo a conversa, aprumou o corpo. Seus olhos arregalaram-se e mostraram-se assustados. Por um segundo, Deborah pensou que ele fosse dar um passo atrás. Ela lhe fez um sinal com a boca perguntando "O quê?", mas ele continuou apenas encarando-a. Sua atitude confortável e lacônica havia desaparecido. Ele parecia nervoso, quase amedrontado.

Sinto muito — disse Deborah ao telefone. — Não sei do que se tratava.

Eu não quero falar sobre essas coisas, não por telefone — disse a mulher.

Por favor — disse Deborah. — O que eram a MVD e a NKVD?

Um tipo de polícia — disse a mulher, e Deborah percebeu que mesmo essa resposta inadequada lhe custava grande esforço. — Polícia secreta. Eles observam, em seus países e em países estrangeiros.

Como espiões? — disse Deborah, ainda olhando para o recepcionista paralisado, tomado por uma onda de aflição que beirava o pânico.

Como era possível que algumas letras maiúsculas lhe causassem tanto pavor?

—        A NKVD tornou-se MVD — disse a mulher, pronunciando cuidadosamente, um toque de apreensão claramente perceptível em sua voz. — A MVD transformou-se em KGB.

Aquelas letras, Deborah conhecia.

 

 

                     CAPÍTULO 32

 

O ônibus parado no terminal Kiffisou 100, com película de controle solar bastante escura nos vidros das janelas, tinha, com a graça dos céus, ar-condicionado e não era a carroça velha cheia de bodes e galinhas que ela — de modo bastante condescendente — temera. Dito isso, tratava-se do principal meio de transporte utilizado pelos locais, e ela não identificou nenhum estrangeiro a bordo.

Demorou uns 40 minutos para saírem da cidade, quando o cenário mudou completamente, transformando-se em espaços abertos e montanhosos, prodigamente pontilhados com oliveiras; o azul cristalino do mar brilhando do lado esquerdo enquanto dirigiam-se da Ática para o Peloponeso, que abrigava uma incrível densidade de locais antigos da Grécia: Corinthos, Micenas, a Tirinto da Idade do Bronze, Epidaurus com seu incomparável teatro e Argos, em razão da qual a região — Argólida — foi nomeada.

Deborah aproveitou a oportunidade para esticar as pernas e respirar um pouco de ar puro quando o ônibus fez uma parada rápida em Elefsina, dando tempo aos passageiros para comprarem lanches e refrigerantes extremamente caros. Continuaram a viagem e chegaram ao canal, cruzando uma ponte de vigas sobre o sulco profundo. De lá, tinham uma breve vista dos penhascos até o canal aberto na rocha, onde enormes barcas moviam-se como barcos de brinquedo centenas de metros abaixo. A viagem terminou na rua Ermou, de onde caminhou até o hotel.

O Ephira estava localizado na movimentada Ethnikis Andistasis, a alguns quarteirões do frontão do mar. Era um hotelzinho pequeno, limpo e de cores vibrantes que mais se parecia com um centro para executivos do que um hotel para turistas. Para os turistas, saciados com as ruínas espetaculares da antiga Atenas, a cidade de Corinthos não tinha nem de longe o charme de Delfos, Epidaurus ou Micenas. Deborah passou pela porta giratória de vidro e esperou até que um homem que supôs ser o proprietário se afastasse de um tabuleiro de gamão e do que lhe pareceu ser um copo com café extremamente forte. Atrás de uma palmeira plantada em um vaso, o adversário dele, um homem em mangas de camisa, observava-a descaradamente.

O mais velho entregou a Deborah uma chave de cartão magnético e, em seguida, pegou um pedaço de papel do escaninho numerado.

— Srta. Miller? — ele perguntou, verificando uma segunda vez. — Isso é para a senhorita.

O bilhete estava escrito num rabisco feito a lápis de letras longas, provavelmente dele. Dizia: "Encontre-me na Acrocorinthos às cinco da tarde. Marcus".

Deborah franziu o cenho. Não gostava que lhe dissessem o que fazer. De qualquer maneira, o bilhete evitava que ficasse sentada esperando pelo chamado dele.

Ela dormiu durante uma hora, voltou a sair para a rua, comeu torta de espinafre que acabara de sair do forno em uma padaria e caminhou até a praia de pedregulhos. Na praia apinhada, só havia gregos. Ela olhou para a água azul e observou o constante desfile dos petroleiros e dos navios de carga que se afunilavam, ela supôs, canal adentro. Um pouco antes das cinco horas, pegou um táxi e foi direto para Acrocorinthos. Imaginou que chegaria adiantada, mas isso lhe daria tempo para dar uma olhada nas ruínas antes que Marcus chegasse.

 

No tempo da Grécia clássica, a Corinthos Antiga era um local extremamente rico e, depois de um breve hiato, voltou a ser poderosa sob o domínio dos romanos. Estava estrategicamente situada de modo a controlar o comércio entre os mares Egeu e Iônico, e servindo de ponte entre o leste o oeste do Mediterrâneo. Na época dos gregos, abrigara um importante Templo de Apolo e, durante o domínio romano, sua importância religiosa foi acompanhada de opulência fabulosa, de modo que a cidade tornou-se sinônimo de luxúria, excessos e "pecados da carne". Corinthos era também o local onde fora construído um santuário romano para Vénus (a quem os gregos chamavam de Afrodite), que era cuidado por 1000 pros­titutas sagradas. São Paulo passara ali mais de um ano, e a cidade abrigava uma importante comunidade cristã antiga, mas a Nova Igreja lutava para manter a cabeça acima das águas hedonistas. São Paulo não conseguiu eliminar a cultura pagã da cidade, deixando essa tarefa a dois fantásticos terremotos que aconteceram durante o séculoVI (sem dúvida ocasionados pela ira de Deus), que causou grande destruição e o abandono da antiga Corinthos.

Deborah estava entusiasmada com a quantidade de monumentos a serem visitados. A não ser por algumas partes do Templo de Apolo e a grande extensão do fórum romano, a maior parte da cidade ainda não fora escavada, o que fazia com que o lugar parecesse estranhamente real e doméstico de uma maneira especial, coisa que não acontecia com as ruínas de Atenas. Nos Estados Unidos, ela era antropóloga e arqueóloga, uma estudiosa dos povos antigos, não de suas maravilhas arquitetônicas. Todo esse negócio sobre Schliemann e seus tesouros a haviam desviado do que, no passado, sempre fora seu foco de interesse: a oportunidade de vislumbrar coisas da vida das pessoas comuns que haviam povoado as cidades. Nos livros sobre Tróia e Micenas, ela mergulhara em lendas, histórias de feitos épicos e tesouros. Por mais que essas coisas encantassem o público e o sinal evidente da condição de diletante que pessoas como Richard e Marcus também se deixassem seduzir eram considerados basicamente acidentais por arqueólogos sérios. Mesmo em Atenas, a elegância simples das ruínas fora irresistível e fizera o passado remoto heróico e estético, de maneira que as vidas humanas jamais poderiam ser. Nas ruínas mais modestas da cidade próspera e efervescente de Corinthos, ela pôde sentir o eco de pés há muito ausentes perambulando pelas rotinas diárias.

O táxi andou rápido pela Skoutela. Dentro de pouco tempo estava parando numa rua secundária repleta de cafés e lojas para turistas, suas vitrines cheias de reproduções de cerâmicas e estatuetas de gesso. Ao longo das calçadas abarrotadas com suportes para cartões-postais, havia ônibus estacionados com seus vidros escuros e motores funcionando. Os portões nas paredes atrás deles deixavam entrever a vastidão branca do fórum, pontuadas por capitéis de colunas elaboradamente entalhados: colunas coríntias, lembrou-se Deborah. Durante o domínio romano, a velha sim­plicidade dórica e a elegância jônica foram substituídas pelas colunas coríntias, bem mais ornamentadas, seus capitéis entalhados com padrões de folhas de acanto. Ela esticou o pescoço para ver mais, mas o táxi voltou a movimentar-se e ela perdeu tudo.

Por um momento, ela pensou que ele estivesse apenas procurando um lugar melhor para estacionar. No entanto, ao passarem pela entrada do lugar e continuarem sem parar até uma ruazinha estreita, ela deu uns tapinhas no ombro do motorista.

Estamos a caminho da cidade velha, certo?

Acrocorinthos ele disse.

Ela presumiu que Acrocorinthos fosse a parte mais elevada da cidade antiga, talvez uma escarpa de rochas sobre a qual estivesse o Templo de Apolo.

—        Ela não está ali dentro? ela perguntou, olhando para trás pela janela, para as ruínas da cidade velha cuja muralha se afastava rapidamente à medida que o táxi deixava para trás o tráfego de turistas e ficava sozinho na estrada.

— Não — disse o motorista, apontando pela janela. — Lá em cima.

Suspensos no penhasco de uma montanha quase vertical, a centenas de metros acima e olhando para a cidade velha e para toda a região ao redor, quase invisível por causa da distância e do brilho da luz do sol, havia muros e torres entalhadas. Quando o motor do carro começou a forçar, o motorista olhou para trás e deu-lhe um sorriso.

Deborah não retribuiu. A subida era longa e, sinceramente, ela duvidava que os ônibus de turistas fossem até lá, mesmo que seus motores agüentassem. A estrada ziguezagueava numa série de curvas fechadas e, mesmo assim, a inclinação parecia ser praticamente impossível. Ela duvidava que houvesse alguém lá em cima, especialmente naquele sol escaldante da tarde. As marchas do táxi gemiam e vibravam; por um segundo, o motor pareceu ter morrido, mas o motorista deu uma ré forçada e depois fez que o carro continuasse avançando, subindo devagar, inexoravelmente, em direção ao pico.

Nos 15 minutos que demoraram para subir, não passaram por nenhum outro veículo. Abaixo deles havia terras cultivadas e as comuns plantações de oliveiras. No entanto, ao subirem mais, os campos organizados deram lugar ao solo arenoso e árvores ocasionais de tronco baixo e retorcido, alguns pinheiros e oliveiras antigas. Era um território agreste, árido, exposto e de difícil acesso, mesmo com a tecnologia do século XXI. Era evidente que não se dirigiam a uma cidade como a que ficara abaixo, mas a uma fortaleza.

A suspeita de Deborah foi confirmada assim que os primeiros sinais de rampas e muros se fizeram ver, mas ela ficou surpresa ao notar que não se tratavam de antigas fortificações gregas ou romanas. Elas eram feitas de tijolos e azulejos, talvez bizantinos, ou medievais. Algumas delas pareciam ser ainda mais antigas, remanescentes da ocupação e guerra turcas. Eram os primeiros sinais das hostilidades que duravam longa data e que ela via, perguntando-se se o fervor nacionalista dos gregos havia descartado todo o resto. Diferente da maior parte de seus compatriotas que Deborah encontrara até agora, rápidos para oferecer uma percepção ou comentário sobre a cultura e a história de sua nação, o motorista do táxi se mantivera calado.

Ao chegarem ao pico, o carro dirigiu-se a um amplo estacionamento, empoeirado e completamente deserto e, apesar de o motorista não ter desligado o motor, parou. Ela pagou-o controlando o impulso raro e covarde de pedir que ficasse esperando. Como estava adiantada para o encontro, podia esperar um pouco. Apesar de o pensamento não ser muito encorajador, ela saiu, produziu um sorriso e disse um "Efharisto". O motorista abriu um sorriso largo, olhou para o topo estéril e ensolarado da montanha e expressou-se num meneio de ombros: "É o seu funeral, turista". Enquanto se afastava, ele colocou a mão para fora da janela, como se estivesse acenando, e olhou-a pelo retrovisor até desaparecer de vista.

Deborah virou-se para o portão enferrujado com seu arco alto e caminhou, lenta e cautelosamente, até a longa rampa que levava ao forte, parando nos focos de sombra antes de chegar ao calor insuportável das rampas mais baixas do contraforte. Ela havia trazido apenas uma garrafa de água, e seu celular não funcionava fora dos Estados Unidos. De repente, perguntou-se como faria para descer e pediu a Deus que Marcus viesse de carro.

Ela já podia dizer que Acrocorinthos não era apenas um forte. Algumas das edificações parcialmente arruinadas se pareciam com capelas, algu­mas com mesquitas, provavelmente construídas umas sobre as outras através dos séculos enquanto esta superioridade impressionante era tomada e retomada em uma luta contínua para controlar a região. O lugar não deixava dúvidas quanto à sua importância estratégica. Escalando um dos muros mais altos da fortificação, com seus nichos para canhões e mosquetes, Deborah poderia ver tudo lá embaixo; não apenas a cidade velha que vislumbrara antes, aninhada no sopé da montanha, mas até o golfo de Corinthos. De cima das camadas de muros e torres ela poderia ver, ao leste, o golfo Sarônico na direção de Atenas. Quando começou a seguir pelo caminho que serpenteava pelos prédios e fortificações arruinadas, ela protegeu os olhos do sol com as mãos e olhou para cima, para as linhas crescentes das ameias. Não havia ninguém por perto, e o ar estava pesado com o zunido estridente dos grilos e gafanhotos, a algazarra aumentando e diminuindo em intensidade, como uma corrente elétrica rasgando o ar em ondas de calor.

A cidadela, se é que era isso, era grosseiramente concêntrica, com linhas de defesa interna ziguezagueando loucamente ao longo dos contornos da montanha. O topo era mais uma crista com uma torre qua­drada claramente definida, avultando sobre os muros de paralelepípedos e grandes extensões de grama seca pelo sol. Ela andava com dificuldade, consciente do suor que lhe banhava o rosto e os ombros, sentindo o peso dos sapatos. O dia estava quente demais para isso...

No meio da subida, onde o caminho abria-se em um espaço com piso pavimentado, ela parou e olhou para o caminho que percorrera e o distante azul do mar. E foi naquele momento, quando colocou as mãos sobre os quadris e respirou profundamente, que ouviu um ruído agudo e uma chuva de fragmentos de pedra; quando a primeira bala ricocheteou na construção ao lado dela.

 

 

                     CAPÍTULO 35

 

Deborah moveu-se por instinto, mas seu primeiro impulso foi mais o de acenar e gritar de raiva do que tentar esconder-se. Sem nenhuma prática de servir de alvo, ela pensou que aquilo estivesse acontecendo por algum maldito erro, que era um exemplo cretino de alguma espécie de brutamontes grego que havia decidido começar a atirar em esquilos. E ela, por acaso, estava por ali. O segundo tiro passou zunindo por sua orelha e um pedaço do azulejo bizantino na parede atrás dela explodiu. O que diabos...

Mesmo quando ela se abaixava no chão de pedra, mesmo quando rolava na direção de um monte irregular de pedras que antigamente pode ter sido a quina de uma construção, mesmo quando ouviu o baque do terceiro tiro na terra onde estivera havia pouco, parte de seu pensamento continuava a acreditar que aquilo não passasse de um engano.

Seu coração foi tomado por uma onda de incredulidade e ultraje.

Ninguém se atreve a atirar em mim!

Então, houve uma nova pausa; um intervalo de silêncio na tarde. Fique quieta. Ouça. Respire.

Ela esperou, sentindo dor no pulso e um arranhão no braço. Quando se atirara aó chão, caíra de mal jeito. Seus cabelos cobriam-lhe os olhos, e a poeira grudava no suor que banhava seu corpo. Isso era loucura. Mesmo que estivesse, deliberadamente, sendo usada como alvo, tratava-se de um lunático, certo?

Algum maluco brincando de fazer tiro ao alvo em turistas. A alternativa de que eles estivessem atirando nela, mais especificamente em Deborah Miller era muito perturbadora para ser considerada no momento. Ela descartou o pensamento e flexionou o pulso. Distensão, provavelmente.

Onde estava ela?

Foi o primeiro pensamento produtivo que teve. Olhou para trás, para onde caminhara sob o arco e até a rampa, tentando ver se conseguia encontrar os buracos de bala e fazer alguma dedução sobre o trajeto do atirador. Essa era a melhor maneira de lidar com a situação, ela pensou, forçando algum tipo de racionalidade para combater a crescente onda de pânico que se apossava dela. Sim: lógica, dedução, razão. Essas eram as coisas para as quais tinha talento. Eram as coisas que a manteriam viva...

Deus, será que as coisas chegariam a tal ponto?

Ele deve estar lá em cima, ela pensou. Era obviamente uma posição privilegiada que lhe daria a melhor posição para atirar. Ela deu uma espiada, tentando descobrir qual seria o campo de cobertura dele, se estivesse na torre.

O quarto tiro acertou uma pedra a poucos centímetros da cabeça dela, quebrando-a em dois pedaços, um dos quais acertou-a direto na têmpora. Ela atirou-se novamente ao chão, sentindo o choque do impacto e a dor, perguntando-se por um momento se havia sido atingida. Colocou a mão ao lado da cabeça e sentiu a grossa viscosidade de seu próprio sangue.

Não está jorrando. O ferimento foi superficial.

Mas não parecia ser superficial. Por um segundo, o mundo girou.

Convulsão?

Era só o que lhe faltava.

Ela forçou-se a olhar ao redor, movimentando-se por etapas, tentando não o incentivar. Precisava proteger-se melhor.

Incentivá-lo. Ela assumira que se tratava de um homem. Marcus? Quem mais sabia que ela estava lá? A não ser que fosse um ato aleatório cujo alvo fosse qualquer um que aparecesse...

Ela adoraria poder acreditar nisso, mas não. Aquelas balas tinham seu nome escrito nelas. O absurdo da frase clichê não era tão engraçado assim, uma fala de um filme que ela vira por acidente, uma das aventuras de Hitchcock, como Intriga internacional, ou Os 39 degraus. Ficou deitada na poeira, sentindo o sol queimar sua pele e pensando em coisas malucas. Era como se estivesse assistindo a si mesma através de um telescópio ou, para ser mais exata, assistindo uma outra pessoa e ouvindo seus pensa­mentos como num filme dublado.

Dê o fora daqui.

Se ficasse ali deitada o dia todo, o atirador poderia descer e encontrá-la. Na verdade, não precisaria nem procurar. Sua proteção era precária, e ela sabia que ele devia estar a alguns metros de onde se encontrava e que podia vê-la claramente. Ela não perceberia se ele se movimentasse até que entrasse em seu campo de visão e começasse a atirar. Mas ele não precisava esperar que ela se movesse. Com certeza, ele esperava que ela desse uma de coelho, que fica paralisado de modo que o olhar fixo do predador sobre ele seja sua perdição: aquela imobilidade era metade estratégia e metade terror. Era exatamente isso que ele esperava que ela fizesse. Por isso, precisava correr. Deus do céu, não...

Sim. Era o único jeito. Ela rolou e ficou de cócoras, tentando liberar o peso do pulso e, imediatamente, saiu em disparada, como um fragmento caído dos blocos de pedra. Tinha dado o equivalente a quatro passadas largas quando ouviu o primeiro tiro. Como não viu para onde ia, imaginou que ele estivesse atrás dela. Mais duas passadas e chegou a um muro da altura da cintura, arruinado pelo tempo. Pulou por cima dele enquanto a próxima bala passou perto. Raspando fortemente a perna em uma lasca de pedra, caiu na grama áspera do outro lado, gritando e segurando o ferimento. Duas outras balas ricochetearam na pedra em seguida e, depois, fez-se novamente silêncio.

Quantos tiros ele disparara? Não importava. Ela não sabia nada sobre armas. Mesmo assim, aqueles últimos tiros se pareciam mais com frus­trações. Talvez ele tivesse, deliberadamente, descarregado a arma e agora, enquanto recarregava, ela estaria salva por algum tempo. Talvez este fosse o momento certo para tentar dar mais uma corrida...

Não! Fique onde está, atrás da parede. Aqui você está segura.

Mas ela sabia que seu primeiro pensamento era melhor. Era uma aposta, mas uma aposta que poderia acrescentar uma distância vital entre ela e o atirador. Forçou-se a se levantar rapidamente e a correr mais alguns metros.

Pensara corretamente. Antes de ouvir o novo tiro, conseguira ganhar uns 600 metros, ou mais. A bala acertou a alguns metros à sua direita e ela não pôde evitar um sorriso ameaçador enquanto corria: conseguiu driblar esta, não é? Continuou, correndo de um lado para outro, pulando sobre o chão irregular, sem quebrar o ritmo. Como se fosse uma gazela. Suas pernas, magras e compridas, suas pernas de cegonha ou de flamingo, que podiam alcançar o Canadá, vingaram-se, em 10 segundos, de todos os insultos e comentários jocosos que, durante a vida toda, lançaram a seu respeito. Quando ouviu o último tiro, ela voltou à guarita interna. A não ser que seu pretendente a assassino estivesse se movendo muito rapidamente montanha abaixo, ela agora estaria invisível para ele.

Mas havia apenas uma estrada para a cidade. Se ele viesse guiando atrás dela, poderia compensar sua má pontaria. Ela tinha quase certeza de que, quando chegara, não havia carro algum no estacionamento. O que queria dizer que ele viera caminhando, trazido por um carro que como o dela se fora, ou havia escondido o veículo em algum lugar. Ela ponderou suas opções enquanto passava pelo arco da guarita e descia a rampa de pedra que levava ao estacionamento.

Espere. Tente recuperar o fôlego. Talvez seja melhor pensar em se esconder...

Ela não viu nenhum carro, ou qualquer lugar onde alguém pudesse estar escondido. Com fúria, tentou pensar, tomar a decisão de começar a correr pelo estacionamento empoeirado e pelo caminho espiral que levava montanha abaixo. Ela se manteria grudada à encosta da montanha, de modo que ele não pudesse atirar nela de cima, e continuaria a caminhar. Demoraria meia hora para chegar à cidade, talvez menos se pudesse man­ter-se em movimento. Mesmo nervosa, desidratada e exausta como estava. Apesar de sentir as pernas latejando, ainda não começara a mancar e era provável que pudesse avançar até a metade do caminho antes que ele voltasse a importuná-la. Talvez alguém passasse por ali e ela conseguisse pegar uma carona...

Desde que independentemente de estar a pé, ou em algum carro escondido ele não fosse mais rápido do que ela. Deborah aumentou a velocidade, deixando que a inclinação em declive constante a levasse para baixo até que estivesse quase fora de controle, arremessando-se estrada abaixo com passos cambaleantes. Dois minutos depois, ela mal notou a dor que queimava sua perna. Cinco minutos. Sete. Então ela ouviu o distante ruído de um pequeno motor. Havia uma motocicleta descendo a estrada.

 

 

                       CAPÍTULO 36

 

Havia uma boa chance de que ele não a tivesse visto desde que deixara Acrocorinthos e de que pudesse apenas adivinhar o quanto ela descera. Ela olhou para os lados, em busca de um lugar para se esconder, enquanto a rotação do motor da motocicleta aumentava.

Está andando mais rápido. Chegando mais perto. Na encosta da montanha daquele lado havia apenas uma vala de concreto para drenagem e um íngreme muro de retenção. Do outro, a parte mais baixa era o limite de uma plantação de oliveiras, as árvores contorci­das e atarracadas.

Ela disparou pela estrada, correu uns 20 metros plantação adentro e atirou-se ao chão de barriga para baixo. Antes que a poeira assentasse, ela ouviu a moto fazendo a curva. Pode ser que ele a tenha visto correr em busca de abrigo. Tudo o que precisava fazer era olhar atentamente para a rala sombra das árvores, onde facilmente a veria. Estou segura, ou devo dar o fora?

Ela manteve-se imóvel. O ruído do motor ficara mais baixo. Ele estava diminuindo a marcha.

Ela sentiu um ímpeto de correr, mas, com certeza, ele a veria. Forçou-se a ficar ali, imóvel (de novo a tática do coelho), sequer mexendo a cabeça para tentar vê-lo, até que ele entrasse em seu campo de visão.

A moto era pouco mais do que uma lambreta, umas 200 cilindradas, no máximo. Tinha uma cor escura e indefinida, manchada de ferrugem. O homem que dirigia parecia ser delgado, usava botas, uma camiseta man­chada e o que poderia ser calças de gabardina. O capacete verde fluores­cente que usava cobria todo o seu rosto e parecia mais adequado a uma motocicleta maior e mais rápida.

Marcus?

Não havia como ter certeza, mas ela achava que não. Havia um objeto longo e fino embrulhado num trapo e preso à traseira: uma espingarda.

De repente, ele se virou e o visor escuro do capacete olhou direto para ela, de modo que quase pôde sentir os olhos dele. Ela lembrou-se do amarelo vivo de sua mochila e desejou que tivesse se deitado sobre ela. Mas a moto acelerou um pouco e ele continuou, ganhando velocidade enquanto descia.

Salva. Pelo menos por enquanto.

Deborah ficou ali, deitada, por um ou dois minutos, ouvindo seu batimento cardíaco diminuir e sua respiração voltar ao normal.

Ele voltaria. Desceria mais ou menos uns 400 metros e voltaria a subir na esperança de pegá-la em espaço aberto. Se, em vez de ziguezaguear pela estrada, ela descesse direto para baixo, em direção à cidade, estaria protegida pelas oliveiras por mais de 1.000 metros. Demoraria mais tempo e não sabia que tipo de cobertura teria depois, além de ter de cruzar a estrada quando essa atravessava a plantação. Por enquanto, porém, essa era a opção mais segura.

Pensou em livrar-se da mochila, mas resolveu cobri-la com uma camisa parda que comprara para as noites mais frias. Entretanto, não fez nada antes de colocar uma pedra do tamanho de um melão dentro dela. A pedra não seria de grande ajuda, caso eles continuassem jogando o jogo do caçador e da caça distante, mas, se ele se aproximasse, ela ficaria feliz em ter alguma coisa para usar como arma. Pelo peso que sentiu e a maneira como forçava as alças da mochila, Deborah imaginou que, se o atingisse com um golpe certeiro, seria capaz de matá-lo. O pensamento a deixou um pouco nauseada. Engoliu um grande gole de água e, com ouvidos atentos, começou a andar rápida e silenciosamente por entre as árvores perfumadas e empoeiradas.

Sendo pequenas e dispersas, as oliveiras não ofereciam copas frondosas, sombras densas ou a limitação de linhas de visão imposta por uma floresta real, de modo que ela continuou andando, pronta para atirar-se novamente ao chão caso ouvisse o motor da motocicleta. Se, por outro lado, ele tivesse decidido estacionar ao lado da estrada e vir a pé atrás dela, certamente a veria antes que ela tivesse a chance de vê-lo.

Bem, é bobagem pensar nisso agora.

Depois de alguns minutos de descida íngreme, ela viu, a uns 20 metros, um sulco de concreto no chão da plantação e soube ser ali que a estrada cruzaria seu caminho. Se ela começasse a descer o muro de retenção, seria vista de qualquer lugar. Voltou a colocar-se de barriga ao chão e rastejou mais uns 10 metros até chegar à borda, até poder ver além das árvores acima da estrada, três metros abaixo, e chegar a uma plantação de oliveiras do outro lado. Olhou para todos os lados, alertando os sentidos para sinais da moto ou de seu motorista.

Nada.

Avançou, sentindo uma súbita pontada de dor tanto no pulso como na coxa. Ignorou as duas enquanto passava uma perna e depois a outra pela aresta do muro de retenção, até que ficasse pendurada pelas mãos. Deixou-se cair numa vala, raspando o cotovelo e o rosto contra a pedra enquanto tentava absorver o choque dos últimos metros com os joelhos. Foi uma aterrissagem desajeitada, mas ela arrastou-se para fora da vala e foi para a estrada, olhando de um lado para o outro à procura de seu perseguidor.

Ainda nada.

Deborah galopou pelo asfalto quente até chegar às árvores do outro lado e, mancando por causa da dor na coxa que se tornava mais intensa, avançou em direção ao próximo cruzamento.

Tudo indicava que ele tivesse ido embora. Agora, ela estava num nível bem mais baixo, mais próxima das construções das fazendas que podiam ser vistas além da cidade velha e do aglomerado de cafés e lojas para turistas que se amontoavam na rua que ficava na frente das ruínas romanas. Será que ele teria coragem de atirar nela agora? Ele perdera a chance e fora embora, talvez para informar... alguém.

Novamente as árvores diminuíram e ela voltou a ver o céu. Na distân­cia, podia ver os telhados e as cinco colunas monolíticas do antigo Templo de Apolo. Deborah rastejou os últimos metros que faltavam antes de chegar ao final do muro de retenção, olhou para os dois lados da estrada, para as fileiras mais longínquas das oliveiras antigas e para a liberdade. Estava prestes a jogar uma das pernas sobre o muro quando lhe ocorreu que deveria certificar-se de que, dessa vez, a queda seria um pouco melhor e olhou pela borda.

Abaixo dela, aninhada em uma vala de drenagem, estava a motocicleta. Ao lado dela, deitado sobre a grama e com a espingarda apontada para a curva da estrada que se fechava abruptamente montanha acima em direção a Acrocorinthos, havia uma figura esguia com um capacete verde-limão.

 

 

                             CAPÍTULO 37

 

Ele estava a menos de três metros, e Deborah teria apostado um bom dinheiro que fora por causa do capacete que ele não a ouvira aproximar-se. Rapidamente, ela voltou para trás muito rápido, na verdade e dei­tou-se sobre a grama seca e empoeirada, perguntando-se se seu movimento teria chamado a atenção dele. E agora?

Ele parecia ter cavado um buraco, preparado uma toca de raposa quase militar como provavelmente fizera no topo de Acrocorinthos —, esperando que ela se aproximasse, descendo estrada abaixo, cega e cretina como apenas um turista poderia ser. A idéia deixou-a irritada, como se uma pedra tivesse se alojado em suas entranhas.

Se ela pulasse sobre ele, pensou, teria uma vantagem momentânea. Poderia girar sua mochila extremamente pesada e... Mas o capacete lhe dizia que tal abordagem seria, no mínimo, arriscada e, com uma sensação que poderia ser de alívio, ela descartou a possibilidade.

Poderia ficar ali, esperando, mas só Deus sabia quanto tempo ele ficaria lá. O sol estava baixando, e, mesmo que ainda faltassem algumas horas para escurecer, ela não gostava da idéia de estar ali ao anoitecer, especialmente se ele estivesse com ela.

Poderia tentar distraí-lo, jogando pedras por baixo dos arbustos, como costumava ver nos filmes. Assim, quando ele se levantasse para investigar, ela passaria correndo. Deborah franziu o cenho, rolando lentamente até ficar de costas e olhando para o céu por entre os galhos das árvores. O que lhe pareceu uma maneira certa de ser morta.

Não. Agir sob a influência de um impulso ingênuo para apresentar-se e, de alguma maneira, conseguir, na conversa, sair dessa enrascada estava fora de questão. Gostaria de fazer alguma coisa mais construtiva, mas este parecia ser o plano mais seguro: ficaria quieta até que ele decidisse abandonar seu posto.

Em seguida, passaram-lhe mais clichês de filmes pela cabeça, todos mais para o lado da comédia do que do drama, apesar de ser provável que todos eles terminassem com uma bala na cabeça: o impulso irresistível de espirrar, o toque do celular, a súbita vontade de urinar. Ela forçou-se a parar de pensar e a ficar completamente imóvel, especulando sobre o absurdo da situação, os dois deitados ali, em silêncio; a cabeça dela a menos de uma dúzia de passos de distância do homem que tentava matá-la.

Agora, isso era inevitável. Não apenas ficara claro que ela não estava lidando com um idiota metido a brincar com armas que a teria confundido com um coelho. Ficara claro que ele estava atrás dela, especificamente dela. Pela primeira vez, a importância de saber quem era aquela pessoa deu lugar à importância de saber o motivo por que estaria fazendo aquilo.

Ela fugira para a Grécia para evitar o que, em casa, lhe parecera perigoso. Deitada aqui, a cinco metros do motociclista, era difícil não per­ceber a ironia — assim como a estupidez — daquela decisão.

"Volte imediatamente para casa. Sua vida corre perigo."

Agora, aquelas palavras não pareciam nem um pouco arbitrárias...

Ela sentira medo que um dos policiais encarregados de investigar a morte de Richard não fosse um tira de verdade e tinha certeza de que alguém a estivera seguindo com um propósito bastante incomum em mente. E aquela pessoa era Marcus, com quem ela fizera um tipo de pacto de investigação. Apesar de que isso também começava a lhe parecer questio­nável. Entretanto, mesmo colocando toda a idiotice de lado, ela não conseguia entender por que alguém gostaria de vê-la morta. Não era porque ela tivesse descoberto alguma coisa significativa sobre a morte de Richard. Mas quem sabe? Com certeza assassinos gostariam de tê-la viva para que, eventualmente, pudesse vir a se incriminar completamente com suas ações absurdas.

Mas, e se a coisa não estivesse relacionada com o que ela sabia, mas sim com o que eles pensavam que ela soubesse?

Ela tivera acesso momentâneo à coleção — agora parcialmente — secreta de Richard, assim como aos seus arquivos no computador. Talvez ela tivesse realmente visto algo significativo sem saber o quê, alguma coisa que juntasse os pontos de Agamenon a Schliemann, a Richard e a seus assassinos. Ela olhou para o extraordinário azul do céu. Ouviu o zunido dos grilos e perguntou-se onde teria pisado na bola.

Nesse exato momento, ouviu um movimento abaixo. O motociclista estava se mexendo.

Ah, Deus. É agora.

Por um momento, ela pensou que ele tivesse decidido escalar o muro de retenção para poder olhar melhor para a estrada abaixo. Fechou os olhos e concentrou-se o mais que pôde, mas não conseguiu decifrar os sons que vinham de baixo. Num único movimento, ela colocou-se de cócoras e virou-se o mais silenciosamente possível, inconscientemente levantando sua pesada mochila, pronta para acioná-la caso uma mão e um capacete ultrapassassem o limite do muro.

O som da motocicleta sendo ligada soou tão alto em sua imobilidade nervosa que ela quase gritou. Um segundo depois, ela teve a presença de espírito de atirar-se de volta ao chão de modo que ele não pudesse vê-la quando passasse por ali.

Durante 20 ou 30 segundos, ficou deitada, seguindo o som. Ele subia novamente a montanha, na esperança de encontrá-la descendo. Deborah esperou uns 10 segundos mais, olhou para a estrada para ver se ele estava fora de vista e atirou-se muro abaixo. Apesar do grito de protesto emitido por seu tornozelo, ela imediatamente disparou numa corrida trôpega pela estrada e o que prometia ser a última plantação de oliveiras antes que chegasse às fazendas, mais abaixo. Ainda conseguia ouvir o ruído da motocicleta subindo a montanha. Se ele virasse a cabeça lá em cima, ela pensou, poderia vê-la correndo entre as árvores. Mas era possível que ele não olhasse para trás; além disso, tentar seguir pela estrada levaria mais tempo e ela ficaria ainda mais exposta. Suas passadas largas tornaram-se curtas e desiguais, um membro claudicante que ficava cada vez mais comprometido. Não. Se voltasse à estrada, ele certamente a pegaria.

Deborah não demorou mais do que um minuto para cruzar a próxima plantação de oliveiras. Mal parou, ao chegar à inclinação abrupta que levava à estrada principal. O som da motocicleta havia praticamente desaparecido, e ela tinha certeza de que, se ele tivesse voltado, seria capaz de ouvi-lo. Olhou, pulou e, em vez de cruzar a estrada, correu ao longo dela. Uns 50 metros à frente, a estrada fazia uma curva fechada para o norte e descia em direção às ruínas e à baía. Ela baixou a cabeça e tentou bloquear a dor que sentia ao correr. Sua camisa estava encharcada de suor e seu rosto pingava tanto que seus olhos ardiam por causa do sal. Um pouco depois de fazer a curva, seu tornozelo cedeu e ela caiu na vala ao lado da estrada.

Dessa vez, ela gritou, mais de frustração do que de dor, como se um instinto ancestral adormecido por longo tempo houvesse decidido ser aquela a emoção mais produtiva. Enquanto tentava colocar-se novamente sobre os pés, ouviu ou imaginou ter ouvido o ruído do motor da moto. Por um breve momento, ela fez uma pausa para ouvir melhor. Sim. Era ele. Estava voltando e, a julgar pelo som do motor, vinha depressa. Ele a vira.

Agora, começa a corrida.

Ela olhou para a frente. A estrada estendia-se como uma longa fita de asfalto quente e brilhante. Uns 100 metros à frente, havia algumas casas ao lado da estrada, mas estavam no meio de um pasto e não pareciam ser mais do que pequenos depósitos. Mais adiante, havia uma cerca alta ao redor da parte posterior das ruínas, algumas das colunas se faziam visíveis por trás das árvores existentes no local. Uns 200 metros à frente, a estrada fazia uma bifurcação. Se pegasse a da direita, estaria na rua dos cafés e lojas para turistas em pouco mais de um ou dois minutos.

Se tivesse aqueles minutos, o que ela duvidava. Forçou suas pernas a funcionarem tão rápido quanto possível. O sangue de sua coxa escorrera até ficar estancado na meia, deixando o que parecia ser um corte quase do comprimento da perna dela. Ela afugentou a imagem da cabeça. Não era tão feio quanto parecia. O que mais importava agora era a desidratação, a exaustão e a leve torcida de tornozelo, que diminuíra pela metade sua velocidade.

Apenas mais alguns metros...

Ela passou pelas casinhas e pelo bode solitário que tomava conta delas. O som da motocicleta diminuíra um pouco enquanto a estrada o levava para o lado leste da montanha, mas agora voltava a ficar mais audível. Uma curva a mais e ele estaria bem acima da cabeça dela. Deborah correu.

As colunas antigas do Templo de Apolo fizeram-se visíveis, mas as ruínas pareciam desertas e com o alambrado grosso que as separava da estrada, provavelmente não faria muita diferença se, do outro lado, estivesse um ônibus cheio de fuzileiros navais em férias. O motor da moto voltara a ficar distante. Talvez ele reconsiderasse, pensasse que ela tivesse voltado a se esconder e fosse embora. Mesmo com a dor no tornozelo, Deborah sorriu, apertando os dentes como um antigo romano mordendo uma tira de couro durante uma cirurgia. Seguiu correndo e, sentindo a cabeça leve, sem querer, começou a ir de um lado para outro na estrada flamejante.

A diferença no som do motor quando a moto fez a curva foi como um outro tiro. Num momento, não passava de um zumbido distante, talvez uma cigarra, ou uma máquina de cortar grama; em seguida, todas as barreiras do som desapareceram e a moto vinha rugindo atrás dela. Ela não se virou. Se ele estivesse em posição de atirar nela agora, a única coisa que podia fazer era esperar que errasse. Não tinha mais energia para atirar-se ao chão.

Ela correu 10, 15, 20 metros até chegar à junção e entrada à direita num trote claudicante e cheio de dor. O perímetro das ruínas antigas era cercado com enormes blocos de pedra que abafavam e reduziam pela metade o ruído da moto. À frente, ela viu as mesas e cadeiras nas calçadas, a súbita explosão de cores do expositor de cartões-postais, a frente de uma loja, um ônibus... pessoas.

Às cegas, entrou no primeiro café que encontrou e, tentando chegar à cozinha, derrubou uma mesa de metal. O lugar estava vazio, apenas o garçom fumava ao lado do bar. Quando a mesa caiu, ele olhou para o chão com uma mistura de irritação e surpresa. Em seguida, uma mulher de meia-idade, vestindo preto e com os cabelos presos em coque na altura da nuca, rosto marcado e severo, veio na direção dela, com olhar fulminante.

Deborah foi abandonada pelo ímpeto de continuar correndo, ou talvez o tivesse deixado ir. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão, espalhando mesas e cadeiras. Ferida e sangrando, exausta como jamais se sentira, não tinha condição de mover-se.

—        Sinto muito — gaguejou ela, enquanto o rosto da mulher entrava em foco.

A mulher gritou alguma coisa para o garçom e voltou-se novamente para Deborah, seu rosto duro amolecendo-se numa expressão preocupada.

—        Aes OK — ela disse, enquanto o garçom colocava uma garrafa de água nas mãos dela.

A mulher levantou a cabeça de Deborah e pressionou a boca da garrafa contra a dela.

Ela deu um grande gole, sentindo o líquido fresco e delicioso como se fosse uma corrente de vida.

Mesmo sentindo que ainda pudesse desmaiar, Deborah apoiou-se nos cotovelos e forçou-se a olhar para fora, para além do caos de mesas e cadeiras ao redor. O motociclista estava lá. O visor sem rosto do capacete verde-limão virou-se, impassível, para olhá-la. Depois, produzindo um som metálico, a moto acelerou e disparou pela rua, até sumir de vista.

 

 

                               CAPÍTULO 38

 

A mulher grega que disse chamar-se Sofia (como a esposa de Schliemann) ofereceu água e comida a Deborah: cordeiro grelhado e pepino em fatias. Depois, limpou sua pele esfolada e arranhada, desinfetando o ferimento da coxa com iodo que tirou de uma velha garrafa marrom com tampa de vidro. Falava apenas algumas palavras em inglês, a maior parte relacionada a seu cardápio, mas falava sem parar, num tom amigável que acalmou Deborah.

Deborah lhe disse que fora perseguida por um homem de motocicleta. Não mencionou nada sobre ter sido alvo do atirador e não acatou a sugestão de Sofia para que chamasse a polícia. Apesar de não saber por quê, sentia que a grega estava levemente aliviada, talvez por saber que sua história seria ouvida com ceticismo. Quando finalmente Deborah levantou-se e disse que se sentia bem o suficiente para pegar um táxi ou ônibus para voltar ao hotel, Sofia simplesmente disse "Não" e começou a gritar para o garçom, até que ele saísse, com cara de bravo, para retornar no banco do motorista de um velho Fiat.

Agradecida e um pouco apreensiva ao entrar no veículo pequeno e enferrujado, Deborah aceitou uma garrafa de água e um filão de pão e depois ainda mais surpreendente ganhou um abraço. Sofia, que despejava uma torrente de grego incompreensível, lhe dava tapinhas nas bochechas e um último sorriso de encorajamento enquanto Deborah, encolhendo as pernas longas e feridas dentro do carro, sentia, pela primeira vez desde que chegara à Grécia, vontade de chorar.

Sofia certificou-se de que o garçom soubesse o caminho do hotel, pois o inglês dele parecia reduzir-se aos nomes de jogadores de futebol ingleses (Beckham, Scholes, Owen, ele dissera, sorrindo e fazendo ruídos entusiasmados, porém pouco específicos), e eles voltaram para a cidade nova e para o Ephira.

Por razões que não conseguia discernir claramente, Deborah esperava receber alguma notícia assim que chegasse ao hotel: um bilhete de Marcus ou o próprio, fumando seu cachimbo e sentado no saguão do hotel; talvez uma palavra de Calvin. O fato de não encontrar nada ou ninguém para mostrar interesse ou preocupação pela tarde infernal que tivera deixou-a profundamente deprimida. Teria sido bom ouvir uma palavra de Calvin hoje.

Ah, um pouco de auto-piedade para juntar à que sentira na adoles­cência. Fantástico.

Entretanto, enquanto agradecia ao garçom, que longe da presença de Sofia mostrou-se mais feliz por poder ajudar, e ao voltar para o quarto, ela pensou que não se tratava somente do anticlímax. Era mais do que isso.

Ela fugira de Atlanta porque se sentira em perigo, mas ali não estava mais segura do que lá, além de não ter feito nenhum progresso no sentido de descobrir o motivo da morte de Richard. Não encontrara nada realmente significativo. Enquanto bebericava um café que esfriava rapidamente, sentia a sensação de ter falhado com Richard e consigo mesma. Agora, ficara bastante claro que nenhuma descoberta que pudesse fazer traria sentido à morte de Richard, caso ela realmente achasse que isso pudesse tornar a morte do amigo mais compreensível ou aceitável. Esfregou o tor­nozelo inchado e aceitou as palavras que, de repente, apareceram em sua cabeça. Hora de voltar para casa.

Verificou se a porta estava trancada, deitou-se nua sob o lençol e dormiu até a manhã seguinte. Durante a noite, acordou apenas uma vez, com o ruído alucinante de uma motocicleta percorrendo seus sonhos.

A depressão com a qual fora para a cama retornou assim que acordou, como uma ressaca ou memória de alguma perda terrível, e ficou com ela a manhã toda. Passou pela recepção antes de tomar café, mas não havia recados para ela. Ao que tudo indicava, Marcus a abandonara. Foi até o cibercafé e verificou seu e-mail, mas não havia nenhuma mensagem.

Trocou o curativo da coxa, limpando-o cuidadosamente para ter certeza de que não havia infeccionado. Até agora, parecia tudo bem, mas o corte era profundo e a região ao redor estava vermelha e inchada. Talvez ela conseguisse um pouco de loção anti-séptica com o recepcionista. Mas, por alguma razão, sentiu-se sem energia e sentou-se na cama, olhando o domo da basílica e o mar pela janela.

Era realmente hora de voltar para casa, encarar o problema, contar o que descobrira para os profissionais que entendiam do assunto e prestar muita atenção para não acabar sendo presa por atrapalhar a investigação do assassinato de seu amigo e mentor. Tinha apenas mais uma coisa a fazer antes de voltar a Atenas e ao aeroporto: a única coisa que sempre soubera ter de fazer antes de partir.

 

 

                                           Capítulo 39

 

Mikines gritou a mulher que pegara seu bilhete. Ela usava óculos com lentes bem escuras e, na cabeça, um turbante engraçado, com vários tons de amarelo tendendo ao mostarda. Mikines ela repetiu, apontando para a porta do ônibus como se Deborah estivesse lhes causando um grande prejuízo.

Deborah desembarcou e analisou o entroncamento poeirento da estrada com seu antigo posto de gasolina, enquanto, numa nuvem de fumaça acre e escura, o ônibus sumia a distância. Ao se afastar, o motorista inclinou-se pela janela e apontou o dedo na direção de uma longa estrada vicinal.

Mikines (três sílabas) era um vilarejo moderno que se desenvolvera próximo ao local onde existira a antiga Micenas, embora a velha cidadela ficasse três quilômetros montanha acima. Deborah colocou a mochila e seguiu na direção indicada pelo motorista, testando seu tornozelo e o curativo da coxa antes de começar a caminhada. Ela estremeceu e, em seguida, decidiu que ele estava apenas enrijecido e que o desconforto passaria assim que seus músculos esquentassem. A dor não passaria completamente, mas poderia piorar caso ela andasse muito. Como este seria seu último dia e ela visitaria a cidade que dera início a toda aquela história, chegaria até lá nem que tivesse de passar uma semana se convalescendo em algum hospital da Geórgia. Afinal de contas, não tinha nada melhor a fazer.

O vilarejo ficou rapidamente para trás, deixando apenas um punhado de hoteizinhos e restaurantes com enormes pátios protegidos por guarda-sóis empoeirados. Os ônibus de turistas chegariam mais tarde, ela pensou, e os restaurantes ficariam repletos de britânicos, alemães e americanos protegendo-se do sol inclemente da tarde, especialmente porque os sítios arqueológicos não possuem muita sombra. Passados os cafés, havia apenas terras cultiváveis com oliveiras anãs de troncos retorcidos pontos de verde embaçado na luz forte e os eucaliptos altos e perfumados que acompanhavam a estrada. As oliveiras que vira no dia anterior lhe basta­riam por longo tempo.

Ao avistar as impressionantes muralhas vermelho-douradas da cidadela elevando-se das montanhas áridas a nordeste, ela fez uma pausa para beber água e admirar. De onde estava, não via nenhuma decoração ou coluna. Era robusta e grandiosa, um local repleto de lenda e pujança.

Comprou o bilhete de entrada e subiu a rampa pavimentada que levava ao célebre portal dos leões. As paredes da fortaleza eram feitas de enormes pedras irregulares. Na verdade, blocos imensos. Os poetas os chamaram de ciclópicos, fazendo alusão ao fato de que a cidade fora construída pelos fantásticos gigantes de um olho só. Era difícil não se deixar impressionar e até mesmo maravilhar com a capacidade dos antigos moradores de transportarem esses vastos blocos de pedra, colocando-os no lugar certo, sobrepondo-os e cimentando-os sem os equipamentos modernos de construção. Aqui, como em Stonehenge ou nas grandes pirâmides, Deborah sentiu avolumar-se a extraordinária presunção de habitante do século XXI. As pessoas estavam tão acostumadas ao conceito de evolução cultural que facilmente viam seus ancestrais como inferiores, mas quando se deparavam com conquistas como esta, era difícil imaginar o que seriam capazes de fazer caso pudessem voltar no tempo para contribuir para a civilização que florescera ali. Sem veículos motorizados, computadores ou acesso à eletricidade, que maravilhas o mundo moderno seria capaz de produzir para essas pessoas mortas e há tanto tempo esquecidas? Nada. Ela talvez pudesse lhes contar alguns princípios da ciência e da astronomia, mas nada que pudesse provar. É possível que eles a executassem por bruxaria ou mais provável e infinitamente pior a ignorassem, como ela ignorou o sem-teto da rua Rosweel que lhe dissera que o mundo estava acabando.

Ela passou sob o relevo dos dois leões de pedra e novamente se perguntou se Richard estivera certo. Será que, com o sol brilhando em suas lanças e seus capacetes com presas de javalis, marchou por este mesmo portal um enorme exército? Estaria Agamenon em pessoa em sua carruagem de guerra, liderando a coluna com seus cavalos batendo as patas no mesmo chão que ela agora pisava? Aqui, olhando para os muros imensos e para os leões que o guardam, entrando na cidade e, finalmente, sendo apresentada ao círculo de câmaras mortuárias que Schliemann cavara da terra árida e vermelha, tudo aquilo lhe parecia perfeitamente possível.

"Que é ele de Hécuba, Hécuba que é dele, para chorar por ela?", perguntou Hamlet, depois que um ator representara o sofrimento da rainha troiana pela morte do marido, Príamo. De repente, as lembranças de algumas aulas de Literatura que tivera na faculdade lhe vieram à mente. Qual seria o significado daquelas histórias antigas? Que importância tinha se Agamenon marchara pelo portal dos leões? O que importava que seu corpo tivesse sido encontrado e ocultado por Schliemann? Nada disso traria Richard de volta. De repente, ela sentiu vontade de estar longe dali, de estar de volta a Atlanta. Reconstruindo sua vida, ou — não pensara nisso antes — recomeçando em qualquer outro lugar.

Mas ela chegara até ali e, assim como as milhares de pessoas que passavam por ali a cada ano, cumpriria sua tarefa de visitar o local. É claro que as sepulturas agora estavam vazias e nada em suas profundezas de pedra lembrava as extraordinárias descobertas de Schliemann, feitas pouco mais de um século antes. Deborah inclinou-se sobre o sítio e deu uma olhada, perguntando-se vagamente o que teria esperado encontrar ali. Alguma pista que passara despercebida de visitantes através dos anos?

Andou pelas rampas, olhando para as colinas áridas, observando os bodes e sentindo o cheiro de tomilho selvagem que crescia por ali. No ponto mais alto, passeou pelos pisos do palácio e analisou uma pequena sala de banhos onde, de acordo com as lendas, Agamenon fora assassinado por sua esposa e seu amante, Egisto. Foi até as tumbas em forma de domo atribuídas aos dois assassinos de Schliemann e para as ruínas da impressionante "casa das colunas", no canto sudoeste da cidade. Mesmo à seus olhos de arqueóloga, tudo parecia indistinto, uma surpreendente confusão de paredes baixas, portais e poeira dos tempos. De acordo com o que lera em seu guia, você podia caminhar pelas rampas até a passagem secreta e, em algum lugar ali atrás, havia uma escadaria escura e traiçoeira que levava a uma cisterna construída no século XII a.C. O livro dizia que a passagem terminava em uma inclinação de 70 metros que, abrupta e inesperadamente, dava em uma fonte cuja profundidade era desconhecida. Apesar de a idéia de caminhar sob a terra fresca e escura lhe soar vagamente convidativa, ela sentia-se cansada, e o lugar parecia ser perigoso. De repente, a exaustão, a busca infrutífera e o estresse dos dias anteriores pareceram descer sobre ela como as asas de um pássaro enorme e escuro, e tudo o que queria era colocar-se a caminho de casa. Saiu do sítio e começou a andar pela estrada em direção ao vilarejo, sentindo-se deprimida e um pouco perdida, incerta dos motivos que a levaram até ali, certa de não ter encontrado nada.

De volta à rua que fazia uma curva suave ao redor da montanha, alinhada por algum tempo às ruínas das casas de mercadores da Idade do Bronze, Deborah afastou-se do estacionamento, que ficava cada vez mais cheio. Sentindo um pouco de auto-piedade, dirigia-se ao ponto de ônibus quando notou uma aglomeração de pessoas do outro lado da rua. Parecia haver alguma coisa mais ali, alguma ruína. Depois, deu uma olhada em seu guia e, antes de recolocá-lo na mochila, fez uma breve ponderação a respeito do que lera sobre a cidadela. Ela sentia calor e não olhava para a calçada atrás de si, o que fazia com que parte de seu cérebro se rebelasse contra a idéia de sair de sua rota para fazer um passeio vago, mas quando a pequena multidão se dissipou, ela viu claramente uma passagem íngreme, sustentada por pesados blocos de pedra, que se estreitava à entrada da montanha. Acima, havia um V escuro, apontado para cima. O sinal lhe pareceu familiar, a imagem no alto da porta, com a profunda impressão que causava e a escuridão triangular acima. Ela já vira aquilo antes, havia muito tempo, talvez em alguma palestra da faculdade.

E tinha outra coisa, algo que a vinha incomodando, uma vaga lembrança que veio à luz de sua mente investigadora. Ela desviou os olhos da imagem da porta e livrou-se da mochila. Ao abrir o zíper para pegar o guia, sua garrafa de água caiu e rolou pelo chão.

Deborah encontrou a página que procurava. Estava manchada de suor e protetor solar, mas seus olhos não precisaram de mais do que um segundo para passar por ela. O portal dos leões. Os muros. A sepultura de Clitemnestra. A casa dos pilares. Ela virou a página para uma que nunca tinha visto. Lá estava a porta que dava para a montanha. Sobre ela, a frase que, nos últimos dias, sua memória lutara para resgatar: "O Tesouro de Atreu".

 

 

                                     CAPÍTULO 40

 

Sem dúvida, pensou ela enquanto atravessava a rua, era mais um daqueles nomes extravagantes que tinham mais a ver com os aficionados dos mitos antigos do que com arqueologia. Para ser mais exata, não tinha nada a ver com Richard, nada que ela pudesse entender ao examinar o lugar agora. Mas caminhou mais depressa ao descer a enorme passagem revestida de pedras que levava ao portal escuro e vazio, forçando-se a dar uma nova olhada no guia, para o caso de conseguir alguma outra informação, qualquer coisa que pudesse lhe ser útil.

De acordo com o guia, tratava-se de uma câmara mortuária diferente das sepulturas que vira dentro dos muros da fortaleza. Às vezes, esse tipo de câmara mortuária era chamado (e ela não pôde evitar engolir em seco ao deparar-se novamente com a palavra) a câmara mortuária de Agamenon.

Mais mitologia, ela disse a si mesma. Estritamente para turistas. Nada mais. Supor que todas as descobertas do local tenham alguma coisa a ver com Agamenon é como aquelas pessoas que dizem ter vivido vidas passadas e que estão sempre ligadas a alguém famoso: a dama de companhia de Cleópatra ou o jardineiro de Maria Antonieta... coisas de turista.

É, mas mesmo assim... O lugar tinha uma espécie de força, ou seja lá como chamassem isso. Ela olhou para o portal que, frio e escuro, mostrava-se à sua frente. Ele tinha uns 15 metros de altura. Talvez o lugar do descanso final do rei. Ela voltou ao livro. A câmara mortuária era mais ou menos da mesma época de Clitemnestra, a esposa assassina de Agamenon, e, como datava de 13 séculos antes de Cristo, correspondia aproximadamente à data da destruição de Tróia definida pelos arqueólogos.

O que quer dizer que, afinal, pode ser que Agamenon tenha mesmo sido enterrado ali.

Era chamado de Tesouro de Atreu por causa de uma tradição folclórica que ligava o túmulo à antiga casa real de Micenas, combinada à fixação bizarra de Schliemann de que aquela casa real havia depositado seu ouro e objetos preciosos do lado de fora dos muros da cidade. Um estudo acadêmico recente descartava a idéia de que a estrutura escavada por Schliemann fosse alguma coisa além de uma sepultura e dizia que era essa, e não as sepulturas mais antigas encontradas dentro da cidade, a fazer jus aos saques realizados em Tróia. Caso Atreu e seu filho Agamenon tenham realmente existido, fora este seu lugar de descanso final e não as câmaras mortuárias onde Schliemann encontrara as máscaras mortuárias e tesouros.

Quase sem fôlego, Deborah entrou na escuridão da tumba.

Ela era circular e enorme, talvez com 30 metros de circunferência. O teto, apenas vagamente visível, tinha a forma de domo, gerando um outro nome para aquele estilo de câmara mortuária: colmeia. A não ser por uma entrada existente em um dos lados, a câmara estava vazia. Deborah sentou-se no chão ao centro e, enquanto o último grupo de turistas se retirava protegendo os olhos da claridade, esperou que seus olhos se acostumassem ao escuro.

Teve de admitir que havia pouco para ver e novamente sentiu o desapontamento tomando conta dela. Vista de dentro, havia apenas o te­lhado, a alcova escura ao lado, na qual provavelmente eram enterrados os corpos, e a entrada principal, agora iluminada pelo sol. O lintel sobre o sólido portal devia pesar várias toneladas, ela pensou, mas o peso da construção acima era incalculável. Não era de espantar que tivessem deixado uma abertura triangular na parte de cima. Originariamente, pode ter sido coberto por um fino painel de pedra, colocado do lado de fora, de modo a parecer compacto e aliviar o peso do lintel. Apesar de muito impressionante, não trazia nenhuma informação relevante à sua vida ou à morte de Richard.

Outro beco sem saída.

Ela sorriu, deprimida com seu trocadilho triste, porém preciso, fechou os olhos e apoiou o queixo nas mãos. Durante quase um minuto, estivera sentada no silêncio fresco e escuro do lugar quando percebeu que não estava sozinha. Ela virou-se em direção ao ruído e viu alguém vindo em sua direção.

Eu sabia que você acabaria vindo até aqui disse a voz.

Deborah conhecia aquela voz, mas, calada, levantou-se na escuridão, mesmo depois de achar que tivesse lhe dado um nome.

Não pode ser.

Foi quando viu uma pistola apontando em sua direção e todo o resto sumiu de sua mente.

 

 

                               CAPÍTULO 41

 

Tonya? perguntou Deborah. O que é que você está fazendo aqui? Então, quando a arma elevou-se até a altura de sua garganta, ela acrescentou: Vire essa coisa para lá.

—        Não fale comigo como se eu fosse a empregada disse Tonya, num tom rude.

Mas você é a empregada, Deborah teve vontade de dizer. Você é! Em vez disso, ela disse simplesmente:

Eu não entendo. Por que você está aqui? Eu não...

Então, cale a boca e escute ela disse. O próximo ônibus de turistas deve chegar dentro de mais ou menos um minuto e eu quero ter certeza de que você não fará nenhuma idiotice, OK?

OK disse Deborah, esquecendo-se de todos seus pensamentos sobre Atreu e Agamenon, concentrando-se única e exclusivamente na ponta da pistola automática.

Vamos começar com algumas regras básicas disse Tonya. Primeiro, dê um passo à frente para que eu possa atirar em você.

Deborah, que inconscientemente se movia em direção à mulher, ficou paralisada.

Segundo disse Tonya —, se você tentar falar com alguém, eu vou...

Atirar em mim? perguntou Deborah. Apesar do tremendo esforço necessário, ela fingiu estar se divertindo. Forçou seus olhos a se desprega­rem da arma e encontrarem os de Tonya. Não, você não vai atirar. Você já reparou no número de negros na Grécia,Tonya? Eles vão pegar você em poucos minutos.

Não foi a coisa certa a dizer.

—        Talvez disse Tonya, com frieza ainda maior. Mas não estou nem um pouco preocupada.

Ela disse aquilo sem nenhuma entonação dramática e com tanta decisão que Deborah deu um passo atrás, imediatamente convencida de estar ouvindo a verdade. Pensou também que o fato de ter feito menção à cor da pele da mulher a tornara ainda mais decidida, além das razões que ultrapassavam o costumeiro desconforto que sentiam uma pela outra. De maneira vaga e sem sentido, Deborah sentiu que a presença de Tonya naquele lugar e o fato de ela estar com uma arma na mão tinham alguma coisa a ver com raça.

Raça?

—        Vim até aqui para recuperar uma coisa que nunca lhe pertenceu disse Tonya. Ou, caso falhasse, para matar você. Tanto faz que seja uma ou outra alternativa, e espero cumprir as duas. Não me importo de morrer ou ser jogada em uma prisão grega.

Ela falava com a resignação resultante de um ódio duradouro e amargo. Dava arrepios em ouvir, e Deborah, que sabia não haver como protestar contra o absurdo da situação e contra o fato de Tonya não demonstrar nenhum tipo de fraqueza ou compaixão, perguntou:

—        Por quê?

A mulher negra deu um leve sorriso sarcástico, um daqueles esgares do tipo como-se-você-não-soubesse, sem nem uma pitada de brincadeira; na verdade, um sorriso um pouco ferido, constrangido e até mesmo triste.

—        Por quê? ela repetiu.

—        Sim disse Deborah. Se você vai atirar em mim, acho justo que eu saiba por quê.

—        Pelo pai que eu nunca conheci ela disse.

Deborah encarou-a.

—        Isso lhe parece justo? perguntou Tonya, levantando um pouco mais a pistola.

 

 

                           CAPÍTULO 42

 

Richard era seu pai? perguntou Deborah. Como isso é possível? Não é nada disso, sua cretina disse Tonya. Não dê uma de engraçadinha comigo, ou eu juro por Deus...

—        Que você me dá um tiro agora mesmo disse Deborah. O que dissera não era uma pergunta ou brincadeira. Ela podia sentir a fúria mal contida nos olhos da mulher e sabia que ela seria capaz de atirar.

Isso mesmo disse Tonya.

Você está trabalhando com Marcus?

Quem diabos é Marcus?

Cerniga, então.

Cerniga? repetiu Tonya O tira?

—        Ele não é tira disse Deborah. Pelo menos, não de acordo com Keene.

Fez-se um longo silêncio, mas estava muito escuro para ler adequadamente a expressão de Tonya. Quando falou, a voz dela parecia insegura.

—        Não estou trabalhando para ninguém.

—        Com toda certeza, você não é uma empregada disse Deborah.

Eu deveria estar com medo, pensou Deborah, vagamente. Não tinha razão alguma para pensar que aquela mulher não seria capaz de matá-la. Na verdade, achava que Tonya estava procurando uma razão para isso. Ela não sabia por quê, e a referência ao pai de Tonya não fazia o menor sentido, mas não havia dúvida de que a mulher que considerara uma empregada a odiava e que a escolha incorreta das palavras poderia fazer que acionasse o gatilho e abrisse um buraco em seu coração, mesmo na presença de testemunhas.

Dito isso, Deborah estava cansada de sentir-se amedrontada. "Se for agora", disse Hamlet em sua mente,"não há o que esperar. Estar pronto é tudo." Ela não tinha certeza de estar pronta para morrer, mas tinha certeza absoluta de não estar pronta para implorar por sua vida.

Você está certa — disse Tonya. — Não sou uma empregada.

Deborah sentiu uma pitada de sorriso na voz dela.

E daí?

—        Não importa — ela disse. — Para você, não passo de alguém interes­sada em descobrir a verdade. Você deveria ser capaz de fazer as ligações. Certo, arqueóloga?

Aquilo foi pronunciado indistintamente.

A verdade sobre o quê?

O pequeno esconderijo de Richard atrás da estante.

Deborah ficou quieta. Não tinha a menor vontade de voltar ao assunto.

Além do fato de você querer me matar — ela disse —, por que eu deveria lhe contar?

Atirar em você não é o suficiente? — perguntou Tonya. Ela parecia insegura, indecisa.

Atiraram em mim ontem — disse Deborah com um sorriso implacável, como se a repetição do ocorrido apenas a entediasse. — Por que não vamos para fora? Não podemos conversar no escuro.

Tonya virou-se para a entrada. Um grupo de pessoas se aproximava, e a voz da guia, dizendo meias verdades acima de suas cabeças, podia ser ouvida.

OK — ela disse. — Mas fique perto de mim até chegarmos no carro.

Você alugou um carro? — perguntou Deborah. — Que eficiência! Eu tenho andado de ônibus ou de táxi. E você conseguiu passar pela alfândega com uma arma. O que também deve ter exigido inteligência.

Quer calar a boca e caminhar? — ordenou Tonya.

Com um meneio de ombros, Deborah caminhou lentamente para o retângulo de luz.

Não sentia a indiferença que fingia sentir. Pelo menos, não inteira­mente. Mas o abatimento que sentira antes não a abandonara inteiramente, e o que sentia tinha mais a ver com curiosidade do que com medo. De alguma maneira, a não ser por um interesse distante no desfecho das coisas e na maneira como Tonya se envolvera na história, a apatia que sentira a libertara de tudo. Nada além disso.

Ela caminhou para a luz, espremendo-se entre a aglomeração de turistas que se afunilava para entrar na câmara mortuária. Tonya deu alguns passos rápidos para alcançá-la e fez gestos significativos com a pequena bolsa na qual escondera a mão direita, para lhe mostrar que seu dedo continuava no gatilho da arma. Deborah sorriu com compreensão despreocupada, e o cenho franzido e determinado de Tonya brilhou numa expressão de desconforto.

Eu não dou a mínima, disse uma voz na cabeça de Deborah. Você quer me matar? Foda-se.

Sem se falar, elas caminharam até o estacionamento e Tonya a levou a um pequeno Renault vermelho, dizendo-lhe que se sentasse no banco do passageiro. Deborah obedeceu, convencida de que a mulher negra de meia-idade estivesse improvisando, de que nunca fizera algo parecido antes e de que não tinha a menor idéia do que faria em seguida. Mas o ódio constante em seus olhos não se dissipara, e Deborah sabia que corria perigo.

Dentro do carro fazia um calor infernal e cheirava a plástico derretido. Tonya deu partida e abaixou o vidro da janela.

—        Não tem ar-condicionado — ela disse, quase desculpando-se.

—        Tudo bem — disse Deborah. Se isso era um seqüestro, tratava-se de um bastante estranho.

—        Vou dirigir até o vilarejo — disse Tonya — e vamos conversar.

—        OK — disse Deborah. — Posso tomar alguma coisa? Estou com muita sede.

Tonya lançou-lhe um olhar rápido e, por um segundo, Deborah pensou que ela fosse explodir "Sou eu quem faz as perguntas" ou qualquer coisa absurda do gênero, mas ela simplesmente assentiu com a cabeça e voltou a olhar para a estrada.

Quando você viu a coleção de Richard pela primeira vez? — perguntou Deborah.

Na noite em que ele morreu, enquanto você estava escondida no banheiro ou em outro lugar qualquer.

Mas você sabia que a coleção estava lá — disse Deborah, lembrando-se de ter visto os tênis de Tonya enquanto se escondia embaixo da cama.

Mais ou menos — disse Tonya. — Eu sabia que havia alguma coisa lá, e sabia que era o que você estava procurando.

Como assim?

Não sabia o que estava procurando, mas sabia que estava procurando alguma coisa — disse Tonya, ríspida. — OK?

Deborah não disse nada. Elas haviam deixado a antiga cidadela para trás e agora faziam a passagem obrigatória pelos restaurantes e lojas de suvenir que se alinhavam ao lado da estrada que levava às ruínas. No cruzamento onde havia o ponto de ônibus, ela virou à esquerda, entrou no vilarejo e parou em um café menos movimentado.

—        Saia do carro — disse Tonya.

Deborah obedeceu e, seguindo as indicações de Tonya, sentou-se em uma das três únicas mesas na calçada. O lugar parecia estar deserto. Deborah olhou para a rua. Havia apenas uma loja para turistas, uma enorme fachada anunciando "As Melhores Reproduções de Antiguidades da Grécia!", que, provavelmente, fazia a maior parte de suas vendas aos ônibus de turistas, cujos guias ganhavam comissão da loja. Alguns poucos turistas caminhavam pelo vilarejo.

Por um longo momento, as duas mulheres olharam-se em silêncio, ambas tentando aferir o rumo que tomaria a conversa. Em seguida, apareceu o garçom. Deborah pediu água e ouzo. Quando sua bebida chegou, ela girou os cubos de gelo no copo até que o líquido passasse de transparente a leitoso.

—        Que diabo de bebida é essa?

Deborah empurrou o copo na direção dela. Tonya, que tinha tirado a mão da arma de dentro da bolsa, olhou com suspeita para a bebida, cheirou e bebeu um gole.

Alcaçuz? — perguntou ela, espantada. — Parece absinto.

Só que mais forte — disse Deborah.

—        Deixa a gente louca como o absinto? — perguntou Tonya, tentando se proteger. — Ou cega?

—        Acho que não.

—        Um ponto para New Orleans — disse Tonya, com um toque de prazer, dando um pouco de arrogância ao comentário.

—        Você é da Louisiana?

Tonya assentiu com a cabeça, incapaz de evitar o orgulho no olhar.

Com um movimento de cabeça, Deborah levantou o copo, fazendo um brinde. New Orleans? Agora o sotaque de Tonya fazia sentido. Ela sabia que, na Geórgia, as pessoas de New Orleans eram confundidas com nova-iorquinas. Talvez por causa dos portos.

Por causa dos portos...

De acordo com Marcus, o navio de carga atrasado estava no porto de New Orleans. Uma coincidência?

O que é? — perguntou Tonya.

O que é o quê?

O que está faltando na coleção?

Você não sabe mesmo? — perguntou Deborah.

 

Não, mas você vai me dizer — disse Tonya, novamente com frieza de aço.

Depende do que você acredita — disse Deborah. Richard e esse sujeito britânico chamado Marcus acham que se trata do corpo de Agamenon.

Tonya não reagiu, mas Deborah teve certeza de que não foi por que o nome não significasse nada para ela.

—        Existe uma máscara mortuária — disse Deborah. — E outros objetos de sepultura. Armas. Jóias. Talvez cerâmicas. Mas a máscara e o corpo são os mais importantes.

—        Valiosos?

- Se forem autênticos — disse Deborah, bebericando o ouzo. — De valor incalculável.

Estão com você?

Eu nunca os vi — disse Deborah. Tonya olhou-a com dureza e Deborah bateu o copo na mesa. — Ouça, Tonya, tenho estado um farrapo nos últimos dias. Richard era meu... amigo. E se você quiser saber a verdade, ele era como um pai para mim. Vim até aqui porque me senti em perigo e porque pensei que pudesse... não sei, ajudar de alguma maneira. Ontem, alguém tentou me matar. De verdade. Não foi um simples empurrão num ponto de ônibus e sim uma tentativa contínua que durou algumas horas.

Quem foi? — perguntou Tonya. Sua expressão era uma mistura de surpresa e curiosidade.

Não tenho a menor idéia, mas vou lhe dizer uma coisa: me cansei da brincadeira. Não tenho o que você está procurando e não sei quem teria. Aparentemente, não sei de muitas coisas e, a não ser que você estoure meus miolos com aquela sua espingardinha de chumbo, pretendo pegar um ônibus de volta a Atenas amanhã de manhã e tomar o primeiro avião para Atlanta.

Tonya pensou no que ela dissera, seus olhos fixos no rosto de Deborah, como se estivesse procurando qualquer sinal de enganação. Passado um longo momento, ela desviou o olhar, soltou um suspiro e ajeitou-se na cadeira.

A polícia estará esperando por você — ela disse.

Eu sei — disse Deborah. — Acho que chegou a hora de entrar na dança. Mas acho que eles não vão conseguir me condenar por nada além de estupidez e paranóia.

—        Você disse que Cerniga não é tira — disse Tonya. — Tem certeza? Deborah contou-lhe a história enquanto Tonya franzia o cenho.

—        Eu confio em Keene — disse Deborah. — Não gosto dele, mas confio nele. Pode ser que tente me enquadrar, mas posso lidar com isso e se tiver problemas vou até o país vizinho e me entrego ao primeiro tira de bairro que encontrar. Aliás, é o que deveria ter feito desde o começo.

Ela fez um meneio de ombros diante da constatação de seu mau julgamento, e Tonya fez um pequeno movimento de cabeça, com certa simpatia. A expressão anunciou uma mudança de estado de espírito, e as duas mulheres puderam relaxar um pouco. A bolsa de Tonya — e conse­qüentemente sua pistola — ainda estava à seu lado, mas sua mão se afastara dela.

—        OK — disse Deborah. — Então você veio até aqui atrás de alguma coisa que nunca viu, supostamente por ter pensado que estivesse comigo. Você vai roubá-la de mim para depois vendê-la?

Tonya balançou a cabeça e franziu a testa.

Não — ela disse, como que desgostosa com a idéia. — A não ser pelo que significa para a minha família, não estou nem um pouco interessada na coisa em si.

Seu pai? — perguntou Deborah.

Isso mesmo.

Eu não entendo — disse Deborah.

Tonya sorriu, dessa vez com pesar, e, em seguida, fez um gesto para o garçom, que se retirara para a sombra do interior do café.

—        Traga-nos mais dois copos dessa maldita bebida de alcaçuz — ela disse, segurando o copo de Deborah. OK — ela disse, voltando sua aten­ção a Deborah com um último olhar avaliador e um meneio de ombros decidido. — O que eu sei é o seguinte.

 

 

                         CAPÍTULO 43

 

Tonya bebeu um gole de ouzo e olhou para o copo como se ainda não tivesse certeza se gostava ou não da bebida. Deborah esperou, perguntando-se se Tonya estava indecisa quanto a lhe contar a história.

OK disse Tonya, inclinando o corpo para a frente e colocando as mãos sobre a mesa, como se fosse uma executiva. Meu pai morreu na Segunda Grande Guerra. Ele fazia parte da Divisão de Tanques 761 e comandava um tanque Sherman M4A3E8: o que os operadores de tanque chamavam de "Oito Fácil", por causa de sua maciez.

Ele era comandante de tanque? perguntou Deborah, incapaz de conter sua surpresa. Ela não sabia que soldados negros ocupavam tais postos.

Isso mesmo disse Tonya. Ela não se mostrou indignada, apenas orgulhosa. O batalhão 761 era composto exclusivamente de negros. Em outubro de 1944, eles foram de navio da Inglaterra para a Normandia como parte do Terceiro Exército de Patton. Lutaram na Batalha do Bulge e no sudeste da Alemanha. Chegaram a libertar alguns campos de concentração.

Deborah piscou. Os campos de concentração.

Nos anos 1920, no breve momento de estabilidade entre as condições desastrosas do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, e a Depressão, que colocou um ponto final na República de Weimar, a família de Deborah havia se mudado da Alemanha para os Estados Unidos, fugindo dos duvidosamente denominados Socialistas Nacionais que assumiram a política alemã. Na época, seu avô, um jovem solteiro à procura de oportunidades, escolheu os Estados Unidos, embora, pelo que ela soubera, de modo relutante e sem saber muito em que se transformaria o Socialismo Nacional que logo ficou conhecido como nazismo sob o domínio de Hitler. Três anos depois, sua avó se mudara da Polônia para Boston. Apesar de muitos terem ficado, o horizonte europeu oferecia um futuro bem mais incerto. Os parentes judeus de Deborah, tanto na Alemanha como na Polônia, sentiram a violência da "filosofia" nazista, e muitos não sobreviveram ao final da guerra. Ela os conhecera apenas como jovens, seus rostos ingênuos em velhas fotografias, e subitamente se envergonhou por isso. Seus pais se tornaram pessoas bem-sucedidas e demonstravam surpreendente falta de preocupação com seu passado judeu.

—        Deixem que os mortos enterrem os mortos — seu pai costumava dizer. — A tradição é construída pelas pessoas que caminham para a frente. Muitos costumam culpar o passado pelo presente. É preciso superar. Continuar.

Os pais de Deborah não falavam sobre os membros da família que ficaram na Europa. Apesar de assentir com a cabeça com ar grave quando algum programa de TV falava sobre o Holocausto, seu pai nunca falou sobre ele — agora que ela pensava nisso. Ele nunca pronunciara a palavra em voz alta.

—        Não adianta olhar para trás — ele dizia. — Isso só impediria de vislumbrar o futuro que se pode criar para si mesmo.

Apesar da profissão que escolhera, Deborah sempre vira aquilo como uma atitude útil e positiva ante a vida. A arqueologia lidava com a desco­berta de um passado morto, ela costumava dizer a si mesma; com o aprendizado daqueles que já se foram; com descobrir quem foram eles e não com definir o presente ou o futuro. Na verdade, nunca lhe ocorrera que isso pudesse ser uma tentativa de compensar a estranha falta de passado de sua própria família.

Ela franziu o cenho. A referência aos campos de concentração a deixara desconfortável, um pouco instável, como se os marcos de pedra pelos quais tivesse passado mil vezes tivessem mudado, inesperadamente, sob seus pés. Ela olhou para Tonya, que a observava atentamente.

Sinto muito — ela disse. — Continue.

Meu pai morreu no final da primeira semana de maio de 1945 — disse Tonya, com um sorriso amargo. — A guerra estava oficialmente terminada, mas parece que a luta continuou por algum tempo. É assim que acontece nas guerras, certo?

Ela fez uma pausa e voltou a apoiar as costas na cadeira. Deborah afugentou suas preocupações para ver Tonya com novos olhos. A mulher negra não parecia ter idade suficiente para ter tido um pai na guerra, mas supôs que isso pudesse ser possível. Na raiz, seus cabelos eram brancos, o que poderia significar que os tingisse de preto. Os olhos, sim, eram velhos. Deborah estava surpresa — e um pouco envergonhada — por não ter notado antes.

Estranho, pensou ela, pensar que as pessoas nascem e chegam aos 60 anos e que alguém que realmente tenha lutado na mais mítica das guerras ainda esteja vivo, ainda se lembre de como foi.

— Eu nunca o vi — disse Tonya. — Quando ele começou o treina­mento, minha mãe estava grávida. Nasci quando ele estava na Inglaterra, esperando para ser escalado. Cresci com a história que contaram a minha família: ele morreu em ação no sudeste da Alemanha, no último dia da guerra. Como não havia motivos para duvidar dos relatórios oficiais... Eu cresci, fui para a escola, consegui emprego como jornalista e repórter free-lance em Louisiana e, oito anos atrás, finalmente ingressei no Atlanta Journal Constitution. Mudei-me para Atlanta e comecei a me interessar por escrever a história de meu pai. Consegui analisar alguns registros oficiais e tentei fazer contato com alguns sobreviventes da divisão à qual meu pai pertenceu. Encontrei um sujeito chamado Thomas Morris, ainda vivo e morando em College Park. Ele servira no mesmo pelotão que meu pai e, quando entrei em contato, descobri que ele havia sido o piloto do tanque comandado por meu pai. Pensei que a morte de um comandante de tanque em serviço significasse que o tanque fora destruído e fiquei surpresa ao saber que um dos membros da equipe ainda estivesse vivo. Descobri que não é bem assim que funciona. Quando um tanque é atingido, a carcaça pode explodir, ou vibrar internamente, matando alguns e mutilando outros, mas deixando um ou dois intactos. A não ser que pegue fogo, naturalmente, coisa a que os Sherman eram propensos.

Pegando o copo, sem beber, Tonya continuou:

—        Enfim, liguei para o tal Morris e o convenci a encontrar-se comigo. Mas desde o começo ele se mostrou astuto: amigável e tudo mais, porém... cuidadoso, como se estivesse escondendo alguma coisa. Contou-me muitas histórias sobre meu pai, como se encontraram, como ele era, as cartas que escrevia para minha mãe... ficou claro que gostava dele, que foram amigos. Mas quando comecei a fazer perguntas sobre a morte de meu pai, sua memória tornou-se um tanto vaga. De repente, ele não conseguia se lembrar de nada além do que o exército já havia me informado. Eles estavam ao norte de Munique, seu pelotão separado do resto da divisão, quando se chocaram com um comboio alemão que lutara de Berlim até chegar ao sul, aparentemente tentando escapar para a Suécia. Houve luta e eles conseguiram dominar o comboio, mas meu pai morreu no processo.

Tonya encolheu os ombros, resignada.

—        Continuei com minha pesquisa — ela disse. — Imaginei que daria um bom artigo para o AJC, ou um bom argumento para um livro, e encontrei muita informação, mas nada sobre as circunstâncias da sua morte. Depois de algum tempo, acostumei-me com a idéia de que a memória de Morris havia se mostrado seletiva porque ele tentara eliminar alguma coisa dolorosa, ou traumática. Então, o livro de Kareem Abdul-Jabbar sobre o 761 foi publicado e eu abandonei o projeto. Continuei com meu trabalho regular, pois achei que não tinha muita coisa a acrescentar.

Para que seção você escreve? — perguntou Deborah.

Gastronomia — ela disse, sorrindo um pouco melancólica —, mas eu escrevia, não escrevo mais. Parei de escrever para trabalhar no Museu Colina dos Druidas.

Por quê?

—Vou chegar lá — ela disse. — Três meses atrás, sem mais nem menos, recebi um telefonema. Era de Thomas Morris, o piloto do meu pai. Ele me disse que tinha uma coisa importante a me dizer e que não tinha muito tempo. Fui vê-lo, e ele estava muito mal. Devia estar com mais de 80 anos e estava com câncer nos pulmões. Disse que precisava tirar um peso da consciência... além dos 60 anos de tabagismo. Ele disse que meu pai não morreu no tanque. Eles se chocaram contra o comboio alemão exatamente como os relatórios oficiais disseram, mas o comboio em si era estranho: o equipamento não se enquadrava à missão, ele disse. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso, mas o principal é que tudo no comboio parecia estar lá para proteger um único caminhão. Os alemães deram a vida para defendê-lo.

Tonya continuou:

Enfim, apesar de ter sofrido sérias perdas, o pelotão de meu pai conseguiu destruir os tanques inimigos e capturar o caminhão. Meu pai foi o primeiro a pegar a carga, mas Morris e alguns outros estavam por perto quando ele a abriu. Tratava-se de um enorme caixote, marcado com um número de despacho por navio. Eles mandaram uma mensagem de rádio para o quartel-general informando a situação e, por algum tempo, ficaram esperando, cuidando de seus ferimentos e prestando homenagem aos mortos. Quase se esqueceram do caixote. Entretanto, algumas horas se passaram e meu pai ficou curioso para saber o que os nazistas haviam tentado defender com tanta coragem. Disse que iria abrir só para dar uma olhada. Alguns dos homens disseram que ele deveria esperar até que a polícia militar chegasse, mas, como ele sofrera baixas em seu pelotão por causa do caixote, ele achou que tivesse o direito de saber o motivo da morte deles. Ele usou um pé-de-cabra que tirou da lateral do tanque para abri-lo. Morris e o resto da equipe estavam de pé, ao lado dele. Os policiais militares chegaram quando ele abria o caixote. Morris disse não ter visto muita coisa, a não ser por uma enorme figura entalhada, meio verde, parte mulher, parte...

Cobra — disse Deborah — ou dragão. Sim.

Exatamente. Imaginei que você já soubesse disso — disse Tonya. Dois dias antes de me chamar, Morris vira a mesma figura em um dos cadernos do jornal para o qual eu trabalhava. Um artigo sobre uma nova mostra em seu museu.

Então, você empregou-se lá para descobrir o que mais seu pai vira completou Deborah.

Em parte disse Tonya. Mas tem mais. Seja o que for que meu pai tenha visto naquele caixote, aquilo o deixou pasmado. Quando os PMs chegaram, imediatamente mandaram os soldados de volta a seus veículos. Havia um jovem oficial... branco, naturalmente... que comandava o show. É preciso lembrar como eram as coisas entre brancos e negros, naquele tempo. Os soldados brancos ressentiam-se da igualdade outorgada às tropas negras, mesmo que não se tratasse de igualdade verdadeira. Durante o treinamento das unidades negras nos Estados Unidos foi dito que, a cada fim de semana, quando as tropas eram dispensadas para visitar as cidades vizinhas, pelo menos um soldado negro era assassinado por turbas de brancos. Freqüentemente, a polícia militar estava envolvida e, se não participava da matança, o que às vezes ocorria, com certeza não movia uma palha para condenar os responsáveis, civis ou militares. Muitos dos negros pensavam que nunca seriam recrutados. Foi somente após a perda maciça de divisões de tanques depois do Dia D que eles foram mandados à França como soldados de campo e não para prestação de serviços gerais de base.

Com um novo tipo de amargura tomando conta de sua voz, ela continuou:

—        Ainda assim, foram tratados como covardes e inaptos para a realização das tarefas por muitos comandantes brancos, mesmo que os integrantes do pelotão 761 fossem constantemente elogiados por homens brancos que atuavam nas proximidades, por causa de seu valor e determinação quando se encontravam em batalha. Mesmo que morressem lutando por seu país, o país não queria saber deles.

Ela voltou a ajeitar as costas e respirou fundo.

Apesar de calada, Deborah continuou olhando e ouvindo, com medo de quebrar a frágil trégua.

—        De qualquer maneira disse Tonya —, enquanto retiravam as coisas do local, o caminhão e o caixote estavam sendo guardados por um policial. Morris nunca ficou sabendo o nome dele, mas disse que era um desses garotos sulistas e que fez questão de deixar bem claro como se sentia a respeito do batalhão, que chamou de "tropa de negros", dando a entender que seriam capazes de roubar qualquer coisa de valor que encontrasse no caminhão. Quando eles perguntaram o que havia dentro do caixote, ele pegou sua arma e disse que explodiria os miolos de quem resolvesse se aproximar. Os operadores abandonaram seus veículos, mas meu pai voltou. Uns dois minutos depois, Morris ouviu um tiro e, em seguida, mais dois. O PM voltou e disse que um dos alemães, ainda vivo, atirara em meu pai antes que o policial pudesse acabar com ele. Todos sabiam se tratar de uma mentira, mas sabiam também que levariam a pior se tentassem protestar. O atirador de Morris foi nomeado comandante e substituído por um novato. Morris foi o último sobrevivente da equipe. Três dias depois do incidente com o comboio, o atirador nomeado comandante foi morto por uma mina, e o restante faleceu nos últimos anos. Há um mês, Morris morreu de câncer.

Pressentindo que havia mais, Deborah esperou.

—        Mas disse a Tonya, inclinando-se para a frente ele disse que meu pai viu alguma coisa "inacreditável"no caixote, algo de que não queria falar a respeito até que pudesse olhar melhor, e Morris achava que o que matou meu pai aquele dia não estava relacionado ao costumeiro problema entre brancos e negros: estava relacionado ao conteúdo do caixote. E foi por isso que larguei meu emprego para ficar perto dele. E por isso estou aqui, com você.

Deborah ficou calada por algum tempo. Em seguida, assentiu com a cabeça.

—        Lembra-se do sem-teto que foi morto perto do museu, na noite em que Richard foi assassinado? ela perguntou.

Tonya anuiu com a cabeça.

—        Eles disseram que não havia ligação ela disse.

—        Pode ser que não haja disse Deborah. Mas ouça. Eu falei com a filha dele. Ele era russo e... adivinhe... membro da KGB, ou da organização que se tornou KGB.

—        O que ele estava fazendo em Atlanta?

—        Não tenho certeza disse Deborah —, mas estou começando a pensar que estivesse atrás do mesmo caixote que seu pai viu na carroceria do caminhão alemão.

Tonya arregalou os olhos e, depois, apertou-os de maneira quase dramática.

Encontraram uma carta com ele Deborah disse. A maior parte estava muito danificada para ser lida, mas havia referência a alguns "restos", que o autor da carta acreditava nunca ter chegado a seu destino, uma cidade chamada Magdeburgo, na Alemanha. Ainda não tive tempo de verificar, mas não ficaria surpresa se descobrisse que fica na divisa com a Suíça. Sejam o que forem os "restos"... e poderiam ser restos humanos e, portanto, o corpo de Agamenon... seu pai ajudou a impedir que saíssem do país. Tenho certeza disso.

Os russos continuou ela levaram muitas antiguidades de Berlim. Que estão com eles até hoje. Entretanto, mesmo sendo o maior, mais valioso e lendário carregamento do lote, escorregou-lhes pelos dedos. Cinqüenta anos depois, eles continuam procurando por ele.

Fez-se um enorme silêncio entre elas. Na rua, uma buzina tocou e alguém gritou algumas palavras em grego; um outro respondeu com risadas. Mas, sentadas, imóveis e com os olhos fixos uma na outra, as duas mulheres mal ouviram.

 

 

                         CAPÍTULO 44

 

As duas mulheres pediram almoço, o que pensou Deborah poderia parecer surreal, considerando a natureza do relacionamento entre elas nos Estados Unidos e o fato de que, menos de uma hora antes, Tonya lhe apontara uma arma. Mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, desenvolveu-se entre elas uma união tácita e inesperada que ia muito além de serem duas americanas (bastante incomuns) em uma terra estranha. Tratava-se de duas mulheres decididas tentando, sem muito sucesso, entender perdas e tragédias.

Deborah contou tudo a Tonya: Richard, Marcus, seus e-mails para Calvin (apesar de ter omitido suas tentativas de flerte, se é que se podia chamar assim) e a mensagem em código que recebera antes de sofrer a tentativa de assassinato em Acrocorinthos. Contou-lhe tudo o que sabia sobre o corpo de Agamenon, sobre os altos e baixos da reputação de Schliemann, sobre a MVD e até mesmo sobre a maldita proa de navio cujo reaparecimento súbito desencadeara os acontecimentos.

—        E esse tal Marcus, desapareceu? perguntou Tonya.

—        Parece que sim disse Deborah. Não consegui falar com ele nem em Corinthos nem em Atenas. Imagino que tenha deixado o país.

—        Você acha que foi ele quem tentou matá-la ontem?

—        Tenho quase certeza de que não foi ele disse Deborah, com os olhos apertados. Não sei se foi ele quem organizou tudo. Mas acho que não. Não sei o que poderia ganhar com isso, mas, ao mesmo tempo, não sei o que qualquer pessoa poderia ganhar. O que não me leva muito longe.

Depois de uma nova pausa,Tonya fez a pergunta que estivera suspensa entre elas desde que começaram a trocar informações.

—        Então ela disse. E agora?

Deborah simplesmente balançou a cabeça. Ela não tinha a menor idéia.

Estou pronta para voltar para casa ela disse. Não vejo o que mais possa fazer. E você?

Bem, eu ia matar você disse ela, sorrindo. Na verdade, o projeto ainda é tentador. Não sei quem assumiria o comando no museu, mas, com certeza, não seria uma pessoa tão controladora quanto você.

Obrigada disse Deborah, retribuindo o sorriso.

E se fôssemos fazer umas compras? sugeriu Tonya, dando um sorriso que a deixava 10 anos mais jovem e olhando para a loja de suvenires do outro lado da rua. O único outro programa que me atrai é ir a uma igreja. Você prefere as compras?

Ainda não comprei nada disse Deborah, sorrindo com relutância. Tudo bem. Afinal, que mal pode fazer?

Elas pagaram a conta e foram para a loja com vitrines repletas das "melhores reproduções de antiguidades gregas"; entraram olhando uma para a outra com ar pesaroso. Mesmo que tentassem ser otimistas, ambas estavam desapontadas com o final de suas respectivas investigações.

Ao entrar, pararam impressionadas. O lugar era enorme, do tamanho de um hangar, e cada centímetro estava coberto por prateleiras, expositores e ganchos pendurados nas paredes. Deborah olhou embasbacada: estátuas de mármore e gesso de todos os tamanhos, miniaturas de vasos, tigelas, ânforas, peças geométricas e esculturas cicladenses como as que inspiraram Moore e Picasso no Museu Nacional de Arqueologia, urnas clássicas ver­melhas e pretas decoradas com cenas mitológicas, esfinges de bronze e cocheiros copiados dos originais existentes em Delfos, cabeças de touro baseadas nas de Creta, peças da Idade do Bronze, dos períodos clássico e romano, de todos os tipos e formatos. Alguns não passavam de suvenires baratos, outros eram réplicas de qualidade. Tonya pegou um pequeno Príapo de bronze e fez uma careta.

—        Esses gregos têm bastante auto-estima ela disse.

Deborah mal ouviu o comentário dela. Sua mente começava a andar muito depressa e seus olhos esforçavam-se para manter o ritmo. Suas per­nas acompanharam, e, por um momento, ela se esqueceu da dor que sentia no tornozelo.

Ela ignorou as quinquilharias. E até mesmo as peças intermediárias. Apesar de serem bem-acabadas e perfeitas para presentear, elas não chamaram sua atenção. Seus olhos se dirigiram para as prateleiras de cima, onde estavam os objetos que poderiam estar expostos no Museu Nacional de Arqueologia, peças que pareciam não ser autênticas apenas por causa das etiquetas de preço. Não era simplesmente a aparência de verdadeiras que as fazia especial. Elas pareciam ser antigas, como se tivessem acabado de ser retiradas do solo. Potes, pratos e até bronzes: todos davam a impressão de ter milhares de anos e, como se isso não bastasse, Deborah estava convencida de que algumas peças não eram reproduções, mas peças recentes inspiradas nos artefatos antigos. Ela não vira peças como aquelas em nenhuma das muitas lojas para turistas em

Atenas ou Corinthos. Na verdade, o único lugar onde vira peças parecidas fora na sala secreta atrás da estante de Richard.

Por favor ela disse, pegando pela mão uma vendedora que pareceu espantar-se com a urgência em sua voz. Onde vocês conseguem essas peças?

Elas vêm de toda parte disse a garota. Algumas são feitas no exterior.

Deborah percebeu que a garota não estava prestando muita atenção.

—        Não ela disse, não me refiro à loja toda. Refiro-me a essas peças. As mais caras.

A garota, talvez pressentindo a possibilidade de uma boa comissão, resolveu lhe dar toda a atenção, tornando-se educadamente engraçada.

—        Estas são daqui mesmo disse ela. Trabalhos especiais, feitos por uma família que trabalha no ramo e produz peças de alta qualidade há muitas gerações. Não são reproduções, são trabalhos de arte.

Deborah esforçou-se para manter a calma.

—        Estou muito interessada em comprar uma disse ela, gesticulando vagamente em direção à estante de bronzes, que, definitivamente, não poderia transportar para casa sem aumentar consideravelmente o espaço em sua bagagem. Mas gostaria muito de conhecer o artista.

Tonya se aproximou e ficou ouvindo e conversa com interesse confuso.

Sinto muito, madame disse a garota —, mas os artistas são muito reclusos. Algumas vezes eles vêm trazer as peças, mas, normalmente, ficam em casa, onde têm sua própria... qual é a palavra? Onde os trabalhos de metal são feitos.

Forja? contribuiu Tonya.

Isso mesmo disse a garota. Forja.

E onde eles moram? perguntou Deborah.

Sinto muito, madame, mas não posso lhe dizer. É a casa deles.

Sim disse Deborah —, mas...

—        Sinto muito. Não posso. Deborah pensou rápido.

—        Ouça ela disse. Estou procurando uma coisa muito específica, que precisa ser feita sob encomenda. Venho procurando essa peça por todo o país e acabo de decidir que quero fazer uma encomenda a esses artistas.

—        Todas as peças são exclusivas disse a garota.

—        Sim, mas a peça que quero tem de ser feita de acordo com certas especificações. Se você me colocar em contato com os artistas, vai receber a comissão da mesma maneira que se eu tivesse adquirido a peça aqui na loja.

A garota hesitou e, em seguida, balançou a cabeça.

—        Sinto muito ela disse. Não posso fazer isso.

—        Você ainda quer que seja feita em ouro? — Tonya perguntou a Deborah.

A garota lançou um rápido olhar a Deborah, que recobrou sua segurança e disse:

Se eles forem capazes de fazer no tamanho que quero. A garota piscou.

Venha comigo, por favor — ela disse.

 

 

                           CAPÍTULO 45

 

A casa, uma vulgar estrutura de argamassa branca, ficava do outro lado do vilarejo. As três mulheres caminhavam rapidamente, falando pouco, como se todas achassem que pronunciar uma palavra pudesse lhes custar uma oportunidade única. Num telefonema apressado, a garota avisara a família que estariam recebendo visitas. Um menino de aproxi­madamente 10 anos, descalço, acariciando um gato branco, as esperava à soleira da porta.

Ele as conduziu pelo corredor estreito, passando por uma cozinha que cheirava a orégano até uma sala de estar onde um homem idoso e sua esposa esperavam, ambos vestindo roupas de tecido escuro e pesado. A sala estava surpreendentemente vazia; algumas fotos preto-e-branco emolduradas eram a única decoração.

A vendedora da loja falou em grego com o casal, indicando Deborah com um movimento de cabeça. O homem, que tinha um pesado bigode grisalho, murmurou alguma coisa, mas não mostrou nenhum tipo de expressão que pudesse ser lida. Então, ele resmungou alguma coisa para a esposa e ela assentiu com a cabeça uma vez, dirigindo um olhar avaliador para Deborah.

O que a senhora está querendo? ele perguntou, simplesmente. Deborah ficou surpresa. Pensou que ele não falasse inglês.

Bem disse ela. Na verdade, não sei...

Para ganhar tempo, ela olhou para Tonya e, em seguida, disse, subitamente:

—        Uma máscara mortuária. Uma máscara mortuária de ouro, como as encontradas em Micenas.

Aquelas foram palavras mágicas. O rosto do velho iluminou-se num sorriso. Ele comunicou-se rapidamente com a esposa, que também abriu um sorriso, dirigindo-se em grego às americanas, suas mãos postas à frente, como se estivesse pronta a bater palmas. O velho ficou de pé e começou a coxear pela sala, fazendo-lhes sinal para que o seguissem.

Como as máscaras encontradas por Herr Schliemann, certo?

Exatamente.

Eles passaram pela cozinha e foram até um quintal circundado por barracões, vários deles com chaminés de metal.

Forno de cerâmica — ele disse, apontando para um. — Forja — disse, levando-as a outro.

Herr Schliemann dormia no vilarejo — ele disse. — Três casas abaixo, nesta mesma rua. Não apenas ele. Muitas pessoas famosas. Himmler e Goebbels também dormiam lá.

Deborah lançou-lhe um olhar, esperando que ele dissesse estar apenas brincando.

—        Os nazistas — perguntou ela.

—        Certamente — ele disse, com um meneio de ombros. — Na época, Micenas era muito importante. O próprio Schliemann era... como eles costumavam dizer... um super-homem teutônico. — Ao fazer o comentário, ou lembrar-se dele, deu um sorriso torto. Deborah e Tonya trocaram um olhar de cumplicidade.

Ele empurrou uma porta pesada e acendeu a luz. O galpão tinha piso de cimento e, ao fundo, uma série de braseiros. Havia várias bigornas e uma parede repleta de ferramentas de cabos longos, fórceps enegrecidos pelo fogo, alicates azulados e cabeças de martelos que, com o uso, tornaram-se lustrosas como cromo. Ao longo de outra parede, havia uma bancada de trabalho coberta com estátuas de cera em diferentes estágios de preparação.

—        Usamos apenas técnicas antigas — ele disse. — Mesmo com os moldes de bronze. Cada figura de cera é usada apenas uma vez; cada molde serve para fazer apenas uma estátua. Um processo muito lento, muito caro. Hoje em dia, ninguém mais trabalha assim.

Com certeza

O senhor já fez alguma, antes?

—        Uma ou duas — ele disse, com um meneio de ombros. — Muitos anos atrás. Pequenas, assim.

Ele juntou as mãos para indicar uma área de aproximadamente 15 centímetros de largura.

Elas podem ser maiores? — perguntou Deborah. — No tamanho natural?

É claro — ele disse, repetindo o meneio de ombros que fez Deborah se lembrar do diretor do museu de Atenas. — Mas o ouro é caro. E muito difícil de encontrar. Antigamente, no tempo de Agamenon, o ouro tinha muitas impurezas. Estanho. Zinco.

O senhor pode fazê-la exatamente como eram? Com a mesma mistura?

O velho franziu o cenho.

Quase — disse ele. — As máscaras originais eram diferentes umas das outras. É provável que tenham sido feitas com metais de lugares diferentes, o que significa que não existe uma composição única e... correta. Qual cópia vai querer? A de Agamenon?

Não — disse Deborah. — Quero uma máscara parecida, mas diferente. O senhor pode fazer uma?

Ele assentiu com a cabeça e levantou um dedo solitário, como se lhes pedisse para esperar. Em seguida, saiu do galpão e demorou-se um pouco. Enquanto esperavam, as mulheres sorriram e deram uma olhada ao redor, estudando o trabalho em andamento. Quando o velho voltou, segurava o que Deborah pensou ser uma das fotos em preto-e-branco da sala de estar.

—        Olhe — ele disse, mostrando a primeira foto.

O coração de Deborah deu um salto. A foto monocromática mostrava um homem curvado sobre a bigorna. Ele segurava uma enorme máscara mortuária, diferente de todas as que vira no Museu Nacional de Arqueologia. A mesma que vira na tela do computador de Richard.

—        Meu avô — disse o ferreiro, orgulhoso. — Veja.

Aproximou a outra foto de Deborah. Ela mostrava dois homens sorrindo para a câmara: um moreno, com bigode espesso e expressão jovial, e o outro, também de bigode, mais magro e com ar professoral, com óculos de metal sem aro. Ambos vestiam antiquados ternos escuros com colarinhos curiosamente pequenos.

Meu avô, de novo — disse o velho.

Quem é o outro homem? — perguntou Tonya.

Este — disse o ferreiro, batendo o vidro da moldura com o dedo, como um condutor chamando os violinos com a batuta —, este é Heinrich Schliemann.

 

 

                           CAPÍTULO 46

 

No momento em que vira a foto, Deborah ficara sabendo. Seu coração encolheu-se ao reconhecer a pose habitual de Schliemann, uma mistura de acadêmico confuso e showman pomposo. As mulheres demo­raram uns 10 minutos para conseguir sair da casa. Levavam consigo duas peças do casal de idosos e várias do showroom, que não chegaram a ver, na tentativa de fazer a saída um pouco mais palatável. Durante aquele tempo, Deborah quase não foi capaz de pensar. Era como se as notícias de uma emergência familiar tivessem sido interrompidas por uma ligação de telemarketing e ela tivesse perdido o bom senso e a boa educação. Precisava sair daquele galpão, daquele vilarejo e daquele país. Estava tudo terminado.

Porque, do ponto de vista de Deborah, aquelas fotos podiam significar apenas uma coisa. Tanto a máscara quanto todas as peças pelas quais Richard perdera a vida foram falsificadas por um talentoso artesão grego no final do século XIX. O fato de Richard e Marcus e talvez pessoas dos governos grego e russo terem sido ludibriados e pensarem que eram peças autênticas não lhe servia de consolo. Todas as investigações e pesquisas que fizera, arriscando a vida, arriscando sua liberdade e repu­tação como acadêmica e executiva nos Estados Unidos, tinham se baseado em uma mentira.

A maneira como a máscara e as outras peças haviam chegado à América não tinha a menor importância. Não importava se havia um corpo. Não importava que os soviéticos estivessem atrás dele havia 50 anos. Não importava quem estava de posse das peças. Tudo não passava de lixo que não valia mais do que um punhado de suvenires. E por isso o pai de Tonya fora morto. Richard fora morto. Tudo não passava de uma piada sem graça, uma piada de terrível mau gosto que se tornava cada vez mais amarga a cada cadáver que criava. De volta à rua ensolarada do vilarejo, Deborah sentiu vontade de vomitar.

Tonya não precisou perguntar a Deborah como ela se sentia, ou o que pensava daquilo. Apesar de ter demorado um pouco mais a perceber, tudo ficara claro para ela a partir do momento em que enxugara as lágrimas de humilhação dos cantos dos olhos. Antes mesmo de saírem do galpão, ela soube muito bem das conseqüências dos atos daquelas pessoas, orgulhosamente expostas nas fotos emolduradas. Será que Schliemann sabia, estivera envolvido? Uma pequena travessura para ajudar a construir sua mansão em Atenas? É provável que não. De qualquer maneira, não fazia diferença. O pai de Tonya morrera a troco de nada. Teria sido melhor, ela pensou, se tudo não tivesse passado de racismo. Pelo menos o ódio e a indignação que sentia teriam sentido. Da maneira como as coisas acon­teceram, seu pai se tornava uma vítima inocente de um acidente estúpido. Sim, tudo não passava de uma piada de mau gosto.

Eles deixaram seus endereços para que a garota da loja lhes enviasse os objetos comprados, distribuindo generosamente seus euros. Elas não precisariam mais deles. Estavam voltando para casa. Enquanto caminhavam até o pequeno Renault, Deborah tentou, mas não conseguiu lembrar-se de nada que comprara.

—        Quer uma carona de volta a Atenas? perguntou Tonya.

—        Preciso voltar ao hotel em Corinthos para pegar minhas coisas Deborah disse. Ver se Marcus ou Calvin ligaram. Vou para Atenas amanhã de manhã.

Tem certeza?

Sim.

Tonya assentiu com a cabeça. Tirou as chaves do carro da bolsa e, agindo por força de um impulso que havia muito tempo parecia tentar suprimir, apertou o braço de Deborah. Uma vez mais, os olhos delas se encontraram, e as duas mulheres sorriram e anuíram com a cabeça, aper­tando os olhos para conter as lágrimas, sem dizer uma palavra. Tonya entrou no carro e partiu. Deborah não acenou em despedida. Começou a caminhar até o ponto de ônibus. Um carro tocou a buzina e ela virou-se na direção do muro de uma casa para sair do caminho. Novamente o ruído da buzina. Ela virou-se, irritada, e viu que era um táxi. O motorista pensou que ela estivesse procurando um.

O que mais estaria uma americana palerma fazendo por aqui?

—        Quer ver a cidade velha?

Não, ela não queria, mas uma parte dela sabia que agora estava pronta para dizer adeus a Richard. A essa altura, ele já devia ter sido enterrado. Ela se despediria dele aqui, na fortaleza pela qual fora tão fascinado, mesmo que estivesse enganado. Abriu a porta de trás do táxi e entrou sem dizer nada.

Tudo o que acontecera nos últimos dias parecia longínquo e irrele­vante, dissipado pela meia descoberta que fizera no vilarejo. Um último ato de fechamento, e ela iria para casa.

Ela ainda tinha o bilhete que comprara pela manhã e eles a deixaram usá-lo. Micenas estava exatamente como antes, a não ser pelo fato de que, agora, parecia menor, menos grandiosa, como um teatro depois que você teve a chance de visitar a vulgaridade empoeirada dos bastidores. Ela subiu a mesma rampa que levava ao portal dos leões, viu o mesmo círculo de sepulturas onde tudo começou e foi até a acrópole. Como já era tarde, a maior parte dos turistas havia ido embora ou, mais provavelmente, ido aos restaurantes e lojas de suvenires. Alguns estariam voltando a Atenas, outros para Delfos, com a sensação de magnitude mitológica e história invejavelmente intacta.

Do ponto mais alto da cidadela, Deborah olhou para os muros de construção ciclópica, os círculos de câmaras mortuárias, para as casas de mercadores, a estrada e para a empoeirada vegetação rasteira das encostas das montanhas.

— Estou aqui por sua causa, Richard — murmurou ela. — Vim para tentar ajudar. Gostaria de não ter vindo, mas acho que precisava vir. — Ela abaixou-se e pegou um punhado de terra e pedriscos. — Adeus, Richard. Você foi um bom homem. Um mau historiador e curador, mas um bom homem. Eu o amei muito.

E, no ar vazio, ela atirou o punhado de terra num arco, de forma que parte dela caísse nas sepulturas.

Por um momento, ela ficou ali, em silêncio, olhando ao redor. Atrás das montanhas, o sol começava sua lenta descida, e os últimos guias turísticos saíam da cidadela para dar uma breve olhada no Tesouro de Atreu. Apenas uma pessoa ficara com ela nas ruínas, um garoto magro, por volta de 18 anos, que, sentado nos degraus onde ela estava, fumava e olhava através dela com olhos pequenos e duros. Quando sentiu o olhar dela sobre ele, levantou-se lentamente com um leve sorriso lateral enrugando seus lábios pálidos. Não estivera sentado sobre um degrau, mas sobre um capacete de motocicleta verde-limão.

 

 

                               CAPÍTULO 47

 

Deborah ficou completamente imóvel. O rapaz estava a menos de 30 metros, perto o bastante para que ela pudesse observar cada detalhe da tragada displicente que dava no cigarro e a maneira como, examinando-a com ar divertido, ele atirou para longe a bituca ainda em brasa. Ela ainda estava lá, de pé, olhando para o garoto, quando ele levantou-se lentamente, ainda sorrindo e olhando de soslaio, arrogante, divertindo-se com alguma piada particular. Era magro, porém musculoso e, a não ser pelo tom azulado da cabeça raspada, extremamente pálido. Seus olhos eram pequenos, bem próximos um do outro. Ele parecia olhar para o vazio, ignorando-a deliberadamente e, ao mesmo tempo, divertindo-se com o pânico que causava nela. Quando decidiu olhar diretamente para ela, o rapaz o fez com a presunção de um showman, como se ali houvesse uma multidão para assistir a seu inevitável triunfo. Ele veio para matá-la, dessa vez de perto.

Deborah deu uma rápida olhada ao redor, afastando os olhos dele na tentativa de quebrar o encanto de naja. A acrópole não era alta, mas, se ela se atirasse sobre a borda, provavelmente quebraria algum membro ao rolar entre as ruínas do próximo círculo concêntrico do sítio arqueo­lógico. Mesmo assim, em questão de segundos, ele a alcançaria. A cidadela fora planejada para resistir aos ataques e oferecia apenas uma saída: a escadaria sobre a qual ele agora languidamente se colocava. Não havia nenhum outro lugar para ir, a não ser para cima e para trás na esperança de que ele a seguisse e ela encontrasse uma maneira de passar por ele.

Ele esperou até que os olhos dela voltassem a pousar nele para, absorto, começar a desabotoar a camisa. Aquela atitude a incomodou de maneira irracional. Não pelo que a camisa aberta revelava. Havia uma faca na cintura dele, mas não era a mesma que matou Richard disso ela tinha certeza. Era uma grande faca de caça com lâmina longa que terminava numa ponta cruel. Apesar disso, a faca era menos alarmante do que as tatuagens. Mesmo de onde estava, ela podia vê-las: uma máscara mortuária decorada que ia de mamilo a mamilo, da garganta ao púbis, e, sobre ela, um pássaro, talvez uma águia com ar imperial. Sim, uma águia romana, ela pensou. Havia uma palavra escrita em código sobre a máscara, e, mesmo que ele estivesse lhe dando bastante tempo para sentir medo, Deborah não conseguiu adivinhar sua origem, apesar de poder fazer uma idéia de seu significado.

Ele demorou uma eternidade para mover-se e, quando o fez, foi com uma espécie de gingado que tinha a intenção de amedrontar, os dedos de uma mão abertos e esticados para a frente, a outra mão buscando a faca. Deborah assustou-se e ele deu uma risada infantil. Ela não esperou para ver o que aconteceria depois; virou-se e começou a correr, tentando, freneticamente, lembrar-se do mapa em seu guia turístico.

Ele não foi atrás dela, pelo menos não imediatamente. Quando, por sobre os ombros, ela olhou para trás, viu que ele pegara seu capacete e começava a caminhar lentamente na direção dela. Ele ainda sorria, como se a idéia de uma caçada o deixasse feliz. Seus gestos pareciam estudados e ele parecia confortável como se estivesse vivendo um filme fantástico. Talvez ele fosse o Exterminador: lento, inexorável, brutalmente frio. Deborah continuou a correr em direção ao muro mais ao norte.

O castelo de Micenas, como muitos outros, tinha o que se chamava uma porta dos fundos: uma saída secreta para, na eventualidade de um cerco, a entrada de suprimentos e a saída de soldados. Ficava distante da entrada principal e, comparada ao sólido maciço espetáculo do portal dos leões, não passava de um pequeno buraco na muralha da fortaleza. Deborah a vira de manhã. Tinha quase certeza de que ficava no muro ao norte, mas não sabia dizer exatamente onde, e no momento a visão que tinha dos muros não era das melhores. Ela correu até chegar aos fundos do palácio real e, caminhando rapidamente, fez uma rápida investigação do muro. Ele avançava em um longo arco para o leste, maior do que ela imaginara.

A passagem secreta deve ser por ali.

Ela virou-se para a direita e novamente saiu em disparada. Mesmo que conseguisse sair pela passagem, ele poderia alcançá-la chegando pela frente, mas lá embaixo ainda haveria turistas e os guardas de segurança do sítio. Deu uma olhada para trás e o viu a uns 30 metros atrás dela, sua boca levemente aberta e cabeça abaixada, como um cão de caça.

Não, ela pensou, como uma hiena.

Deborah manteve-se afastada da casa com colunas e chegou ao largo caminho sobre a muralha. Novamente virou para a direita em direção ao leste, passando pelos ameados em direção aos fundos da cidadela. Agora, movia-se mais rapidamente, consciente de que ele tinha alcançado maior velocidade e que provavelmente tivesse percebido o que ela pretendia fazer. Ouviu-o subir ao topo do muro e seguir atrás dela.

Ela aumentou a velocidade. Pensou que, com o capacete, ele parecia mais amedrontador; como se o fato de não ser possível ver-lhe os olhos o fizesse menos humano e, por isso, mais perigoso. Mas ter visto olhos dele não fazia com que se sentisse mais confortável. Eles pareciam cheios de uma malícia cega e estúpida, bem pior do que o autômato que fora antes. E as tatuagens...

Alguma coisa parecia familiar naquelas tatuagens. Alguma coisa relacionada à máscara, ela pensou, o que não fazia sentido. Ela sabia que, por vários dias, a imagem da máscara estava e estivera olhando para várias representações dela mesma. É claro que era familiar. Mesmo assim, havia alguma coisa...

Depois de dar mais meia dúzia de passos, Deborah teve de reconhecer a dúvida que se instalara em sua mente e que começava a se tornar consciente. Nenhum dos braços daquela muralha lhe parecia familiar. Naquela manhã, ela vira a passagem dos fundos de cima, mas não estivera tão distante nas ruínas.

Não ela disse em voz alta. Não. Por favor, Deus, não.

Mas, a cada passo, a verdade ficava cada vez mais inevitável. Ela calculara mal sua localização. A passagem secreta ficava mais perto do canto oeste da acrópole do que imaginara. Ela continuaria correndo sobre a muralha, mas não havia saída, e tudo o que estava fazendo era distanciar-se das pessoas que ainda estivessem na entrada. Ela contou cinco passos e decidiu seguir adiante.

Deborah olhou para trás. O muro fazia uma leve curva e o rapaz ficara temporariamente fora de visão.

Um momento tão bom quanto os outros.

Ela chegou à pedra do monte da acrópole e escalou o topo da plataforma. Pode ser que isso fosse exatamente o que precisava. Se ele não a tivesse visto fazer aquilo, pode ser que passasse por ela, e então Deborah poderia voltar, correr pelo centro da cidadela e cruzar o portal dos leões em busca de segurança. Desesperada, ela avançou, esfolando os dedos contra as pedras até conseguir jogar os ombros sobre o topo e lançar-se sobre a plataforma. Olhou para baixo e respirou. Ele não estava lá. Ela conseguira.

Ao começar a levantar-se, ela o viu, de pé, na plataforma. Agora, estava muito mais perto, olhando para ela. Momentos antes, ele fizera a mesma coisa, talvez com a intenção de cair sobre ela. De qualquer maneira, ela perdera uma vantagem crucial e ele agora estava entre ela e ambas as saídas. Deborah estava completamente encurralada.

 

 

                           CAPÍTULO 48

 

Nenhum lugar para ir, a não ser para baixo. No mais distante canto a oeste das ruínas, ela viu um portal triangular na pedra com seu topo arqueado em ponta, como as janelas quase góticas do Templo Ohabei Shalom, em Brookline, que, até os 13 anos, ela freqüentara durante o sabá e as cerimônias festivas: era a passagem para a cisterna secreta sobre a qual lera, a que tinha uma inclinação bem íngreme. Sua hesitação durou apenas um segundo.

Nenhum outro lugar para ir...

Ela correu até lá e entrou no buraco. A entrada devia ter um metro de largura por três ou quatro de altura. Pelas centenas de anos de uso, as pedras do piso adquiriram brilho. A passagem era fria, escura e sinistra e, ao entrar, ela teria de comprometer-se... com alguma coisa. Ela não sabia bem o quê, mas uma idéia começava a se formar em sua mente: uma idéia difusa e terrível.

Dando uma olhada para trás, ela enfiou-se lá dentro. Se ele não tivesse percebido que ela viera até ali, ainda teria uma chance. Mas, na verdade, essa chance não existia. Ele estivera muito perto. Agora, ela o via vindo em sua direção, mais próximo do que nunca, perto o suficiente para que ela pudesse ler a palavra tatuada sobre a máscara e a águia: Atreu.

Por um momento, Deborah apenas ficou ali, olhando para ele, boquia­berta apesar de a palavra não ter sido uma grande surpresa. Foi apenas a realidade horrível e transparente que fez gerar uma pausa. Ele continuou a aproximar-se, sorrindo de maneira desagradável, e ela não teve outra escolha senão encarar as profundezas subterrâneas e improvisar.

Os primeiros passos não foram tão ruins, mas, numa curva, toda a luz desapareceu. As paredes eram surpreendentemente polidas, como que plastificadas. Não havia corrimão ou corda com os quais pudesse guiar-se, e ela começou a diminuir a marcha, sentindo as extremidades do caminho com os pés. Outra curva e ela se encontrou na mais completa escuridão. Deu dois passos e tropeçou, seu tornozelo machucado cedendo quando ela pisou em falso. Ela conseguiu recuperar o equilíbrio, evitando cair mais do que uns poucos degraus, apoiando-se com as mãos e causando uma onda de dor que, do pulso machucado, foi até a cabeça como uma enxaqueca e, em seguida, tornou-se uma dor suportável. Endireitou o corpo e deu mais dois passos capengas. Ela precisava de luz.

Deborah podia ouvi-lo vindo atrás dela, seus passos ecoando no túnel. Ele também diminuíra a marcha, mas não tinha razão para apressar-se. Ela supôs que ele a tivesse em suas mãos, exatamente como queria. Não havia onde se esconder, nenhum nicho no qual pudesse se esgueirar enquanto ele passasse. Tudo o que havia era o súbito final da passagem e, como o guia dissera, um declive de 70 metros na escuridão que levava ao poço frio e fantasmagórico, abaixo.

Ela tirou a mochila e procurou alguma coisa nos bolsos laterais. Encontrou seu celular, que não usara desde que chegara à Grécia. Sabia que não conseguiria fazer ligações fora dos Estados Unidos e que, ali onde estava, não conseguiria sinal, mas era possível que tivesse bateria suficiente para lhe dar...

Luz!

Assim que abriu o aparelho, a pequena tela digital brilhou com uma luz verde. Não era muita, mas, na escuridão da caverna, era melhor do que nada. Ao segurar o celular à sua frente, mantendo-o um pouco acima do solo, ela viu os degraus entrarem num foco suave e fosforescente, como se o piso estivesse coberto por aquelas plantas microscópicas que fazem com que as ondas dos oceanos tropicais brilharem no escuro. Cautelosamente, retomou seu ritmo.

Não demorou muito para que perdesse a noção de quantos degraus descera, mas imaginou que fossem pelo menos 50. A passagem fizera várias curvas fechadas pelo caminho, girando pelo chão pedregoso como um maldito saca-rolhas, ou uma toca de coelho.

E eu sou a Alice, ela pensou. Mas o Coelho Branco está atrás de mim, e não ao contrário, e, em vez de um relógio de bolso, ele tem uma faca.

Deborah continuou avançando, descendo, um braço estendido para sentir a parede fria e o outro estendido à frente, segurando o celular com sua luz esverdeada. Enquanto isso, tentava lembrar-se do que lera no Rough Guide, A passagem era longa e difícil, dissera o guia, e fazia muitas curvas, mas ela não se lembrava se mencionava seu comprimento. 60? 80? Alguma coisa do tipo, talvez, mas nenhum número a ajudava a lembrar-se nada do livro, a não ser a maneira como terminava: um súbito declive pelo nada e para as águas profundas da morte.

No livro, a cisterna lhe parecera incômoda e traiçoeira, mas estar ali naquela escuridão sepulcral era aterrador. Mesmo com a fraca luz do celular, ela poderia não parar a tempo, e não haveria nenhuma equipe de resgate ou mão amiga para tirá-la de lá.

De qualquer maneira, você morreria na queda, disse uma voz em sua mente. Mesmo que batesse contra a água. Setenta metros? Seria como cair sobre concreto.

—        Cale a boca ela disse em voz alta. Cale a boca.

Enquanto contava os 10 próximos passos com a intenção de se distrair, um novo pensamento começou a tomar forma.

Será que não haveria uma corda cruzando a passagem ao chegar ao declive? Talvez... Se ela fosse rápida especialmente agora, que se movia com mais velocidade do que ele graças à luz limitada do celular —, poderia soltar a corda de um dos lados, segurá-la e descer pela escuridão da cister­na. Ele não veria o final da passagem, daria mais um passo e o chão sumiria sob os pés dele. Ele cairia no poço, passando por ela, gritando nas águas negras lá embaixo.

Deus, ela pensou, enquanto a idéia abominável insistia em permanecer em sua mente, a sensação dos dedos dele tentando agarrar-se à rocha, passando por sobre o tecido de suas roupas, enquanto tropeçava e caía no vácuo escuro... Deus.

Seria capaz de fazer isso, mesmo que tivesse corda suficiente e ela estivesse presa com segurança à parede? Será que conseguiria soltar a corda a tempo? Teria forças para ficar pendurada no escuro, esperando pelo som da aproximação dele, com o vazio da vasta cisterna ao redor dela, esperando que ele cometesse o erro que ela não cometera? E se ele percebesse o que havia feito e ficasse sentado à margem, morrendo de rir, enquanto ela ficava lá, pendurada (70 metros...), com seus braços queimando pelo esforço de agarrar-se à corda? E se fosse chutada para baixo e caísse...

Queimaremos a ponte quando chegar a hora, ela pensou. Era uma das frases prediletas de Richard.

—        Deborah chamou uma voz atrás no túnel. Uma voz melodiosa e alegre, um tipo de escárnio. De-bo-rah.

Era ele.

Deborah hesitou e, em seguida, continuou, com o coração batendo mais rápido do que nunca e uma náusea tomando conta dela. Não diga nada. Continue caminhando.

—        Vou pegar você, Deborah cantarolou ele.

Uma coisa era certa: ele não era grego. Era americano. Do sul? Talvez.

—        Como se sente? ele perguntou. Prestes a morrer sem saber por quê.

Ele riu da piadinha, mas Deborah não estava ouvindo. Recusava-se a ouvir.

A passagem fez nova curva fechada, e mais outra. Depois, acabou.

Por um momento, ela passou a luz do telefone ao redor, mas não havia como escapar à terrível verdade.

Não havia uma corda à beira do declive. Na verdade, não havia declive algum. Eles não protegeram a cisterna com uma corda porque ela fora aterrada. O guia turístico estava desatualizado e ela estava em maus lençóis.

 

 

                                CAPÍTULO 49

 

Seu último avanço em velocidade criara certa vantagem entre ela e seu perseguidor, e, durante alguns segundos, ela acreditou que ele pudesse ter mudado de idéia e decidido voltar. Tê-lo esperando à saída seria melhor do que ser pega ali, encurralada como um rato. A imagem reavivou sua coragem.

Eu não sou o rato, ela pensou. O rato é ele. Fuinha arrogante e assas­sino...

Agora, ele estava bem próximo. Além do ruído dos passos, ela ouvia algo mais, alguma coisa pouco mais alta do que a pesada respiração dele. Ele está assobiando.

Era um assobio longo, monótono, as notas misturadas e indistintas, co­mo se ele estivesse assoprando ar entre os dentes com os lábios recuados como um chacal, ou a imagem retornou uma hiena. A displicência que ele a mataria, a petulância cabal e despreocupada do ato a deixaram subitamente furiosa. Ela colocou o celular aberto no chão sobre o último degrau da passagem e caminhou até o final do túnel.

Ele estava quase chegando. Sem a luz esverdeada para orientá-la, ela juraria que ele estava a ponto de tocá-la. Pressionou o corpo contra a parede da maldita cisterna onde, através dos anos, tantos turistas idiotas tinham, sem dúvida, caído para a morte e seus músculos curvaram-se da coxa ao ombro como uma aranha numa daquelas teias em formato de funil, tensos e prontos para saltar. Ela teria apenas um breve momento de vantagem. Não havia tempo para meias medidas.

Quando o assobio parou, os olhos dela ainda não tinham definido o contorno do corpo dele, mas ele fez-se visível ao parar em frente ao celular com o rosto subitamente claro e demoníaco na luz esverdeada.

O Coelho Branco...

Ela viu os olhos dele se estreitarem, desacostumados à luz depois de tanta escuridão, e atirou-se para frente, chutando-lhe o rosto com toda a força que tinha em seu pé bom. Acertou e ele cambaleou para trás.

Surpresa ela disse, dando-lhe um soco na bochecha.

Ele caiu para trás, estatelado sobre os degraus e resfolegando em busca de ar, mas aquilo tirou-o do campo iluminado e ela o perdeu. Deu novo chute sem conseguir alcançá-lo e quase perdeu o equilíbrio. Aproximou-se um pouco, percebendo tarde demais que talvez sua silhueta estivesse visível na luz verde que estava a uns 60 centímetros atrás dela. A faca dele atingiu-a no ombro e ao lado do pescoço.

Recuando, ela caiu para trás, agarrando o ferimento, primeiro de modo instintivo e depois procurando algum sangramento. Não tinha a menor idéia de como fizera isso, mas fizera. Com os dedos, procurou algum feri­mento nas artérias. Não encontrando nada, não perdeu mais tempo com exames. Chutou o telefone e atirou-se para o lado direito longe da mão que segurava a arma e foi novamente para cima dele, de cabeça baixa como um touro furioso.

Pode ser que alguém do tamanho dela tivesse alguma vantagem lutando nos degraus onde ele estava, mas ele era bem mais baixo e parecia estar completamente despreparado para enfrentar a fúria que se apoderou dela. Alguma coisa lhe tocou o ombro (o rosto ou o braço dele?), e ela o empurrou com força contra a parede. Deborah ouviu um barulho surdo a cabeça dele contra a pedra e o inconfundível ruído da faca caindo no chão. Ela não pegou a faca nem esperou para ver se ele estava consciente. Passou por sobre o corpo caído e, desvairada, começou a correr degraus acima.

Por duas vezes tropeçou nos degraus traiçoeiros (a única informação correta fornecida pelo guia). Podia sentir o ar ficando mais morno à medida que subia. Apesar de ainda estar bastante escuro, à sua frente havia luz, calor e vida. Ela continuou correndo, pulando cegamente, chocando-se contra as paredes nas curvas, sem nunca parar. Depois, a escuridão dissipou-se um pouco e o contorno de algumas pedras do piso fez-se visível. Na próxima curva havia luz, que ela sugou como se fosse oxigênio. Depois de cinco passos, mais uma curva e ela estava fora, meio cega pela luminosidade e subitamente invadida por uma onda de suor, tremedeira e uma dor excruciante no ferimento do ombro. Nada disso a impediu de continuar a correr de volta às ruínas do palácio, passando pelo círculo de câmaras mortuárias e até o portal dos leões que levava à saída. Lembrando-se do mito de Orfeu que tentara salvar sua esposa do reino dos mortos, ela não olhou para trás.

                          

  

                             CAPÍTULO 50

 

Dessa vez, ela contou aos guardas, que, por seu turno, chamaram a polícia. Perguntaram-lhe se ele estava morto, mas ela não sabia dizer. Achava que não. Pode ser que estivesse inconsciente. Demorou 20 minutos até que a viatura policial chegasse e, quando finalmente pegaram suas lanternas e chegaram à boca do túnel da cisterna, outros 10 ou 12 haviam passado. Dois policias se aventuraram a entrar, um deles com a pistola em punho, mas o ruído de uma motocicleta saindo do estacionamento disse a Deborah que não encontrariam ninguém lá dentro. Sem dúvida, ele deixara sua toca de coelho enquanto ela reportava o incidente aos guardas, saindo silenciosamente pela passagem secreta e caminhando até a motocicleta estacionada aos pés do muro da fortaleza.

Cansada e aborrecida, ela sentou-se ao sol de final de tarde enquanto um dos policiais revirava um velho estojo de primeiros socorros em busca de alguma coisa para fazer um curativo em seu ombro. Graças a Deus, o ferimento no pescoço era superficial, tornando-se bem mais profundo na altura do ombro. O que fez que levasse mais tempo para estancar o sangue. O policial dizia algumas palavras de encorajamento que ela mal ouvia e várias vezes teve de ser cutucada para responder a suas perguntas.

Devolveram seu celular e anotaram seu nome e o nome do hotel em que estava hospedada, mas quando ela disse que pretendia pegar o próximo avião para os Estados Unidos, eles puseram seus blocos de anotações nos bolsos e olharam para o relógio. Eles a levaram de volta a Corinthos e a deixaram no Esphira, salvando-a de ter de fazer uma viagem de ônibus e uma caminhada que não sabia ser capaz de fazer.

No hotel, não havia recado algum e, apesar de se sentir tentada a ir até o cibercafé para verificar seus e-mails, resolveu que seria melhor não correr riscos. Avisou a recepcionista que fecharia sua conta pela manhã e trancou-se no quarto com um sanduíche comprado no bar do saguão do hotel. Comeu rapidamente, bebeu um pouco de água, tomou uma ducha, marcou seu vôo de retorno e, por impulso, pediu uma refeição kosher, coisa que nunca havia feito antes.

Confiando em Deus ao enfrentar coelhos brancos assassinos? Dificilmente.

Sem ter planejado pelo menos não conscientemente —, ela ligou para Calvin Bowers, discando rapidamente para que não tivesse de pensar no que fazia, ou no que iria dizer.

Alô? ele atendeu. Parecia sonolento e um pouco irritado. Era melhor que ela começasse a pensar na diferença de fuso horário antes de fazer aquelas ligações. Por um momento, ela ficou ali, sentada, segurando o aparelho sem dizer nada, entrando em pânico como se tivesse 14 anos de idade e estivesse ligando para algum quarterback[2] iniciante, ultrapassando os fios de teia de aranha que davam estrutura à cultura e à hierarquia do curso colegial. Em silêncio, lembrando-se de ter feito a mesma ligação, sem se dar conta do quanto estava sendo idiota até que o quarterback (Tim Andrews: o nome dele se mantinha preso em um pequeno calabouço escuro na cabeça dela) começara a rir.

Deborah perguntou Calvin Bowers. É você?

A voz, subitamente preocupada, acolhedora e até esperançosa, pelo menos até onde o evidente desprezo de Tim Andrews pudesse permitir, a trouxe de volta à realidade, ou até o que se poderia chamar de si mesma.

Sim ela disse. Peço desculpas por estar amolando você. Sou péssima em calcular...

Tudo bem ele disse. Onde você está?

Vou voltar para casa amanhã ela disse. Hoje alguém tentou me matar. De novo. Mas eu estou bem.

Aquele "de novo" mais parecia uma piada. Enquanto respondia às perguntas preocupadas que ele fazia, ela continuava a ouvir o eco de seu próprio cinismo e perguntava-se de onde viera aquilo. O pânico, o estresse, o desapontamento brutal, a sensação de fracasso, o terror e a exaustão haviam evaporado como uma névoa matinal dissipada pelo sol do meio-dia, e ela sentiu-se inexplicavelmente feliz.

—        A que horas chega seu vôo? — ele perguntou. Vou esperá-la no aeroporto.

Ela verificou o horário e lhe passou o número do vôo, perguntando-se vagamente por que ele faria tal coisa e por que ficava tão feliz que ele fizesse.

—        Ótimo — ele disse. Vai ser bom vê-la de novo.

Ela sorriu e pensou naquilo por um momento antes de simplesmente responder[3] "Sim".

No dia seguinte, tomou o primeiro ônibus para Atenas, ligou para o aeroporto para verificar se o vôo estava no horário e pegou um táxi para o Museu Nacional de Arqueologia.

Popadreus estava em seu escritório, usando o mesmo — ou outro muito parecido — imaculado terno escuro e tinha os cabelos alvoroçados, talvez por causa da pressa. Quando percebeu que era ela, seu habitual sorriso lacónicamente bem-humorado desapareceu por um segundo e demorou um pouco para readquirir o equilíbrio.

Srta. Miller — ele disse. — Que bom vê-la. Infelizmente, hoje estou muito ocupado.

Vim apenas me despedir — disse. — Meu avião parte em — olhou para o relógio — três horas.

Ao ficar sensivelmente aliviado, o sorriso dele tornou-se mais afável.

Que pena — ele disse, aparentemente sendo sincero. — Sente-se, por favor. Aceita uma xícara de café? Não é...

Nescafé — ela completou a frase por ele, sorrindo. — Sim, por favor. Obrigada.

Ele fez o pedido por telefone, com os olhos pregados nela. Quando ele desligou, Deborah inclinou-se para a frente, decidida a ir direto ao ponto.

—        Não vou tomar muito de seu tempo — ela disse. — Quero apenas dizer-lhe por que vim para cá.

Ao perceber seu tom decidido, ele ajeitou-se na cadeira, como que se preparando para receber más notícias.

—        Não vim simplesmente como turista — ela disse. — O homem para quem trabalho, aquele que estabeleceu e fundou o museu que gerencio, foi assassinado alguns dias atrás. Encontrei o corpo dele em meio a uma coleção pequena, mas aparentemente valiosa, de antiguidades gregas, que, acredito, ele tivesse intenção de incorporar ao museu. Entretanto, havia alguma coisa faltando. Nunca a vi, mas acredito tratar-se de um corpo usando uma máscara mortuária e outras relíquias de um rei de Micenas da Idade do Bronze. Acho que Richard... o homem assassinado... acreditava que o tesouro fora descoberto por Schliemann e contrabandeado para uma coleção particular na Alemanha. No final da guerra, os alemães tentaram contrabandear os restos para uma cidadezinha chamada Magdeburgo e depois para a Suécia, mas foram interceptados por uma divisão de tanques americanos. A coleção foi parar no mercado negro, tendo passado pelas mãos de pelo menos um colecionador interessado e do governo russo, que queria levá-la a Moscou por acreditar que tinha nas mãos o Tesouro de Príamo. Também acho que Richard acreditava que se tratasse dos restos do próprio Agamenon.

Fez-se uma pausa.

E o que você acha? — disse o diretor do museu. A voz dele saiu baixa e uniforme, até mesmo controlada. Não demonstrou nenhum choque ou incredulidade. Mas Deborah não esperava que o fizesse.

Se realmente existir um corpo, ou partes dele — disse Deborah —, estou praticamente certa de que não seja tão antigo nem pertença a Agamenon. Tenho também certeza de que a máscara mortuária e os outros tesouros de sepultura foram manufaturados por um artesão grego local, no final do século XIX. Não sei dizer como foram parar na Alemanha, ou quem os levou para lá, mas agora sei o que aconteceu com eles no final da guerra, assim como sei que acabaram em uma sala secreta ligada a um pequeno museu de Atlanta, Geórgia.

O café chegou. Ambos ficaram em silêncio enquanto era servido, olhando-se, cautelosos.

—        Essa história é muito interessante — disse Popadreus. — Mas estou curioso para saber por que me contou tudo isso antes de partir.

Foi o primeiro lance errado da parte dele. Concentrado em adoçar o café, Popadreus evitou olhar para ela.

Acho que sabe porquê — ela disse.

É mesmo? — o tom era mais de pergunta do que de desafio. — Como assim?

Acho que o governo grego ficou sabendo, quiçá por esta instituição, que um corpo talvez tivesse sido roubado da escavação de Schliemann, que esse corpo ficara perdido na Alemanha por quase 50 anos e depois, em algum outro lugar, por mais algum tempo. Ele apareceu em Atlanta, mas seu proprietário pode ter sido convencido a devolvê-lo à sua pátria natal. É até possível que ele tivesse oferecido o corpo e os tesouros de sepultura em troca do direito de manter o restante da coleção nos Estados Unidos. O Ministro da Cultura e Antiguidades... que por acaso encontrei aqui no mu­seu... pode ter sugerido a averiguação do caso, talvez autorizando o pagamento de uma alta soma para recuperar os objetos perdidos, de grande valor para a identidade cultural grega.

O silêncio de Popadreus durou um longo momento. Em seguida, ele suspirou e sorriu.

Interessante — ele disse. — Uma hipótese inteiramente baseada em especulações. Mesmo assim, muito interessante.

Obrigada — disse Deborah, tomando um gole de café.

—        De fato, tão interessante que eu gostaria de saber o final da história.

Deborah abaixou a xícara e olhou para ele. Popadreus não estava caçoando ou tentando descartar sua síntese. Tratava-se de uma outra coisa, alguma coisa aparente em seus olhos, o conhecimento de alguma coisa que lhe causava certa tristeza. Era uma verdadeira inquirição, um convite, quase uma súplica, e tinha a intenção de relevar tanto quanto perguntava.

—        OK — ela disse. — Bem, eu diria que existem alguns especialistas em artefatos micênicos, provavelmente empregados por este museu ou que estejam, de alguma maneira, lhe prestando serviços, que foram enviados a Atlanta para um encontro e negociação com o dono do corpo de modo a trazê-lo de volta à Grécia, esperando encontrar provas de sua autentici­dade. Ao mesmo tempo, um homem russo também foi a Atlanta para tentar botar as mãos no tesouro. Não sei dizer se ele estava agindo sozinho ou, como os outros, servindo seu país.

Disso ela estava praticamente certa. A história tinha, entretanto, alguns finais alternativos e ela não tinha certeza sobre qual deles abordar primeiro.

—        Quando os gregos viram os artefatos, ficaram satisfeitos o suficiente para removê-los imediatamente, mas o proprietário fez algumas objeções que terminaram num desacordo violento...

Popadreus levantou a mão, pedindo que ela parasse. Por um segundo ele ficou ali, sentado, a palma de uma das mãos levantada e uma expressão dolorida no rosto. Quando falou, Deborah percebeu que ele havia notado alguma coisa que não o deixara convencido da versão da história.

Vamos tentar a alternativa B — ele disse.

Os dois agentes... adidos culturais, ou como os queira chamar... ficam impressionados com o que vêem — disse Deborah Impressiona­dos a ponto de querer levar o corpo para submetê-lo a um exame mais minucioso. Richard concorda que removam expositor contendo-o o corpo e seus tesouros, feliz por o estar devolvendo à Grécia, mas ainda com pretensões de manter o resto da coleção no museu. Depois que os agentes gregos levam o corpo, alguém mais aparece, percebe que chegou tarde para a negociação que tentara impedir e mata tanto Richard como o russo disfarçado de mendigo para monitorar o movimento do museu. Enquanto isso, os agentes gregos examinam a peça recuperada e decidem que não é autêntica. Decidem tentar mandá-la para a Grécia e, com medo de serem acusados do assassinato de Richard, preferem agir por baixo do pano.

Com medo também — interveio o diretor do museu — de compro­meter seu governo. Afinal de contas, seria extremamente ruim para a ima­gem do país que se tenha ido tão longe para recuperar alguma coisa que acabou se mostrando sem valor cultural ou histórico.

Isso era o mais perto que ele chegaria de uma confissão.

—        Então, podemos pensar que uma outra pessoa matou Richard — disse Deborah.

—        O povo grego tem muito orgulho de seu passado, especialmente de seu passado remoto — disse Popadreus. — E tem motivos para isso. Eles precisam disso. Ajuda-os a manter sua identidade. Dito isso, não acredito que um grego fosse capaz de tirar a vida de uma pessoa para trazer um morto para casa.

Ele fez uma pausa, subitamente vencido e abatido.

—        Richard Dixon era um homem íntegro e amigo da Grécia. Se o que ele tinha a oferecer não era o que acreditava que fosse... mesmo que talvez não se tratasse do conteúdo de uma tragédia antiga... uma pílula amarga e indigesta tanto para ele quanto para nós. Aceite minhas sinceras condolências.

Deborah olhou para o piso. Não tinha certeza a quem ele se referia com a palavra "nós", mas parecia incluí-la e ela sentiu-se sensibilizada com isso. Mas não conseguiu dizer nada.

—        A senhorita vai perder o avião — ele disse, levantando-se.

Ela piscou duas vezes e, enquanto se levantava, deu um sorriso forçado.

Obrigada pelo café — disse ela. — Estava muito bom.

A senhorita é sempre bem-vinda — ele disse.

 

                         INTERLÚDIO

 

           França, 1997

Dois dias antes, Randolph Fitz-Stephens completara 87 anos. Seus médicos desaconselharam a viagem, dizendo que poderia ser perigosa. Mas ele não lhes dera ouvidos. Esperara metade de sua vida por isso e não deixaria que sua saúde fosse um empecilho. Por mais de meio século ele esperara, procurando arquivos e registros, pressionando investigações internacionais durante quase meio século, sem nenhum resultado, a não ser o desprezo de todos aqueles em quem confiara. Todos, menos seu filho. Marcus gostaria de ter estado ali quando ele a vira, mas ele teria tentado impedi-lo de fazer a viagem no estado em que estava. Por isso, Marcus não poderia saber de nada até que chegasse a hora de aplaudi-lo pela decisão tomada.

Em poucos dias, eles trariam Agamenon, rei de Micenas, para a Inglaterra! Depois, e somente depois, começariam as negociações com o Museu Britânico. Caso Randolph não sobrevivesse para ver o herói da Guerra de Tróia exposto com pompa abaixo da frisa do Parthenon salva por lorde Elgin, podia ao menos contar com Marcus para cuidar de tudo.

Ele sempre soubera que existiam problemas com a documentação. O caos dos últimos dias de guerra e dos que depois se seguiram foi um pesadelo administrativo. Não era de surpreender que americanos ines­crupulosos tivessem sido capazes de desviar a carga que deveria ter sido levada para outro lugar, assim como não era de admirar que não existissem registros corretos que levassem ao seu destino final. O que nunca lhe ocorrera é que algum navio sem nome pudesse ter levado seu precioso tesouro ao fundo do mar ou que, 50 anos depois, um banco de areia em movimento arrastasse os destroços do navio naufragado até a costa britânica.

Um garoto de aparentemente 12 anos fora o primeiro a mostrar interesse pelo caixote peculiar, agora apodrecido pela água do mar, um caixote do qual retirara algumas bugigangas para vender nas lojas de antiguidades locais. Foi apenas quando pegou-se numa discussão sobre a idade de uma ânfora que Marcus percebeu estar lendo os relatórios de salvamento de uma herança de valor incalculável, adquirida por sua família. Teria o corpo do homem sobrevivido à viagem e pior aos anos passados sob a água?Tudo dependeria do modo como fora preservado. Mesmo que apenas um fragmento de osso tivesse restado, ainda assim todos aqueles anos de trabalho teriam valido a pena.

Mesmo não tendo qualquer outro parâmetro de julgamento, a não ser que o caixote parecia estar cheio, o negociante afirmava que o conteúdo do caixote estava intacto. Fora esquivo a respeito dos outros interessados, mas Randolph tinha certeza de estar preparado para pagar mais do que qualquer outra pessoa. Ele ainda tinha as fotos, agora bastante desbotadas e amassadas, que seu primeiro contato duvidoso lhe havia mandado, décadas antes. Seria ele a reclamar a posse das peças. Moralmente, elas já lhe pertenciam.

À mesa de metal no café designado, ele sentou-se ereto como um cabo de vassoura, esperando. O agente estava uma hora atrasado. Enquanto tomava seu chá (ou o que quer que fosse o nome do resultado de um saquinho de chá em xícara de água morna), Randolph tentou não pensar numa viagem de volta sem ter botado os olhos no agente e, principalmente, no corpo.

Um homem cruzou a praça do vilarejo, seus olhos dirigidos ao pátio do café.

Ele deve ser o agente.

A irritação de Randolph por ter sido deixado esperando dissipou-se como uma névoa.

Sr. Fitz-Stephens? perguntou o homem, sentando-se à sua frente. Ao que tudo indica, monsieur Thibodaux teve um imprevisto, mas acho que posso ajudar.

Ele não vem a meu encontro? perguntou Randolph, a névoa voltando, mais espessa do que nunca, de maneira que, por um segundo, ele sentiu-se sufocado.

Trata-se mais de irmos ao encontro dele disse o outro. O senhor se importa em fazer uma pequena caminhada? Meu carro está estacionado do outro lado da praça.

Aonde iremos? respondeu Randolph, levantando-se lentamente, com as juntas enferrujadas.

À praia disse o outro, despreocupadamente. Ele não tinha ne­nhum sotaque francês.

Caminharam, dirigiram e caminharam novamente, adentrando apenas alguns metros na areia dura e escura do local deserto onde os destroços do st. Lo vieram dar, seu casco avariado e inundado. O dia, que já estava encoberto, escurecia mais a cada minuto, prometendo chuva forte. Randolph deixara seu guarda-chuva no café. Suas pernas doíam e ele já tinha andado uma distância maior do que normalmente caminhava em uma semana.

Estou curioso disse o jovem. O que o senhor acredita existir dentro do caixote?

O corpo de Agamenon, rei da Grécia, preservado por Heinrich Schliemann, com tudo o que havia em sua sepultura disse Randolph. Ele entoou a frase como se fosse uma litania: uma afirmação reverente e íntima de fé e respeito. - Ea popa do galeão acrescentou ele —, apesar de não estar interessado nela.

Algo mais? perguntou o homem. Ele sorria de maneira meio seca. Apesar de Randolph já ter visto outras versões desse sorriso quando mencionava o que acreditava ter estado a bordo do St. Lo, havia alguma coisa diferente nessa manifestação, alguma coisa mais fria. Procurou alguns sinais de vida na praia, sentindo uma pontada de ansiedade ao perceber que não havia ninguém por perto.

O que mais poderia haver? perguntou ele, fingindo surpresa para mascarar seu desconforto. O que mais alguém poderia querer?

O homem riu uma vez, um insolente ronco sem conotação de divertimento.

Eles haviam acabado de contornar uma saliência de pedra irregular que irrompia abruptamente da areia brilhante lavada pelo mar e depararam-se com uma onda. Ela tinha uns três metros de altura, dimi­nuindo quando a praia terminava nas águas escuras.

—        Isso o diverte? perguntou Randolph, que não gostara muito dele.

—        Cinqüenta e três anos disse o outro, com desprezo indisfarçável e o senhor ainda não sabe com o que está lidando! Juro por Deus que o matar será um ato de misericórdia. E, por falar nisso, este é o monsieur Thibodaux.

O corpo estava caído com o rosto sobre a rocha, meio submerso na maré intrusa, de modo que os cabelos em sua cabeça flutuavam brevemente a cada onda.

Quem é você? perguntou Randolph, incapaz de despregar os olhos do cadáver à sua frente.

Apenas mais um cliente terrivelmente desapontado do agente respondeu ele, dando um meio sorriso enquanto olhava para o corpo que não avaliou corretamente as reivindicações das partes interessadas.

Para sua surpresa, Randolph pegou-se retribuindo o sorriso.

—        Você também não conseguiu o que queria ele disse.

Mas vou conseguir — disse o outro. — E o senhor não estará em posição de dizer a ninguém que esteja lá.

Meu filho vai encontrá-lo — disse Randolph. — Assim como vai encontrar Agamenon.

Sabe — disse o outro —, detesto vê-lo morrer tão confiante. E se eu lhe dissesse o conteúdo do caixote e depois o matasse? Com certeza, isso acabaria com esse sorriso que tem no rosto. O que acha? Quer morrer na ignorância ou prefere saber o que vem procurando às cegas por todos esses anos?

Randolph vacilou, hesitante, e, supondo que seu silêncio fosse de concordância, o homem jovem sacou de sua arma peculiar, com lâmina reta e extremamente longa, para, em seguida, lhe contar.

O velho caiu lentamente, seus olhos arregalados, atingido menos pela lâmina em seu peito do que pela idéia que entrara em sua cabeça, uma idéia que se apoderou dele como uma onda de terror enquanto, quase imediatamente, as águas do Atlântico o levavam às pálidas areias aos pés das dunas.

 

                                     Retorno a Ítaca

 

Apesar de recitado em memória dos que partiram, o Cadish não faz nenhuma referência à morte. Trata-se, sim, de um reconhecimento, em meio à dor, de que Deus é justo mesmo que, às vezes, não reconheçamos Suas razões. Quando a morte parece nos sobrecarregar negando a vida, o Cadish renova nossa fé na importância da vida. Por intermédio do Cadish, manifestamos publicamente nosso desejo e intenção de assumir uma relação com a comu­nidade judaica de nossos pais. Garantindo, assim, a continuidade da tradição que une geração a geração, expressamos nossa fé imorredoura no amor e na justiça de Deus, e oramos para que Ele apresse o dia em que Seu reino possa, enfim, ser estabelecido e a paz reine sobre a terra.

— Meditação sobre o Cadish extraída do The Sabbath and Festival Prayer Book elaborado pela Assembléia Rabínica da América e da Sinagoga Unida da América.

 

 

                               CAPÍTULO 51

 

O vôo da Delta partiu de Atenas pouco depois do meio-dia com destino ao JFK e, depois, Atlanta. Todos diziam que seria uma viagem de 14 horas. Pela janela, Deborah olhou para o céu azul e para a névoa de calor na pista, verificando o espaço disponível para suas pernas com a deses­perança e a autodepreciação costumeiras.

É melhor você encarar a realidade, ela pensou. O mundo foi progra­mado para mulheres menores.

Enquanto levantavam vôo, ela tentou dar uma última olhada para a Acrópole, mas não conseguiu ver nada além dos pálidos retângulos de concreto desbotado que compunham uma porção desanimadoramente grande da charmosa cidade. Sua permanência na Grécia chegara ao fim e ela voltava para casa. Se tudo caminhasse bem, ela pensou, acabaria se saindo melhor do que os gregos na Guerra de Tróia. Muitos deles nunca regressaram e muitos voltaram aos lares apenas para encontrar o caos e a morte à sua espera. Mesmo tendo se saído melhor do que os outros, Odisseu demorou 10 anos para conseguir voltar a ítaca e ao pandemônio desenca­deado por seu retorno. Na primeira hora que passou, Deborah examinou o plano de vôo em uma revista de vôo, olhando distraidamente para todos os lugares onde nunca estivera, perguntando-se quantos deles teria a chance de conhecer antes de morrer.

Se a última semana servir como modelo, pensou ela, é melhor que logo, você faça um safari, para não se esquecer como é.

Engraçado. Na verdade, o ambiente estéril e impessoal do avião, seu zumbido abafado e a pressão que sentia nos ouvidos fizeram o fato de ter, por duas vezes nos últimos dias, lutado pela própria vida quase impossível de acreditar e até de imaginar. Pela primeira vez desde que ouvira o ruído do motor da motocicleta subindo e descendo a estrada de Acrocorinthos, talvez desde que os tiros ecoaram pelas ruínas, ela perguntou-se se tudo não passara de um acidente ou de uma coincidência colossal.

No túnel da cisterna, ele chamou-a pelo nome. Chamou-a de Deborah.

A lembrança causou-lhe um estremecimento.

"Prestes a morrer sem saber por quê."

Nas duas vezes fora o mesmo homem. Ele levava no peito uma tatua­gem com a palavra que Richard, perplexo, escrevera na noite que morrera. Não fora acidente nem coincidência. Alguém queria vê-la morta.

Mas por que ela? Matar Richard por tesouros que acabaram não tendo valor algum era uma coisa, mas não fazia o menor sentido persegui-la em outro continente poucos dias após o evento. Se ela pôde descobrir que o ouro e os tesouros de sepultura foram manufaturados pelo artesão do vilarejo como suvenir para turistas ávidos, por que não era capaz de descobrir quem a estava perseguindo? Não fora difícil descobrir. Com certeza, as pessoas que estavam atrás das peças sabiam do que se tratava e que não eram valiosas. E se o sujeito que tentara matá-la sabia, porque continuaria a persegui-la?

Não fazia sentido.

(...sem saber porquê)

Será que a coleção era verdadeira? Ela não tinha provas concretas em contrário, apenas um palpite e alguma informação circunstancial. Seria possível que Popadreus a tivesse induzido a pensar que a coleção fos­se uma fraude para afastá-la de cena enquanto esperava que o tesouro fosse transferido de volta à Grécia? Sim, era possível, ela supôs, sem muita convicção. Se eles conseguissem trazer o corpo mascarado a Atenas, colocando-o em exposição, ela imediatamente saberia de onde ele viera, o que poderia lançar o governo em um complexo processo legal sobre quem tinha direito à posse do tesouro e como ele fora parar nas mãos dele.

A não ser que você já esteja morta, disse em sua cabeça uma voz que adorava dizer esse tipo de coisa. Você comenta com Popadreus seu interesse na máscara mortuária e, de repente, está sendo perseguida por um assassino. Coincidência?

De jeito nenhum. Ela simplesmente não acreditava que o diretor do museu fosse capaz de planejar um esquema tão sangrento. O que ela sabia não ser um argumento muito forte, mas era tudo o que tinha.

Ela ajeitou-se no banco, fechou os olhos e, propositadamente, dirigiu o pensamento a Calvin, que prometera esperá-la no aeroporto. Ela sorriu por dentro, o terror que sempre reservara aos relacionamentos dando, por um breve momento, lugar ao prazer antecipado, evitando todos os alertas — alguns deles baseados em exemplos trágicos de seu próprio passado.

Mas por baixo disso tudo, a frase do assassino (prestes a morrer...) ecoou na cabeça de Deborah com um toque de verdade. Ela não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Na verdade, quanto mais descobria, mais alguma coisa parecia estar errada, como se ela estivesse tentando completar um quebra-cabeça cujas peças tivessem sido misturadas com as de outro jogo. Quanto mais ela pensava ser capaz de ver, mais ela pressentia outra peça por trás, um cenário completamente diferente que não era capaz de ver.

Milagrosamente, ela dormiu por umas três horas. Quando acordou, as aeromoças estavam acabando de retirar o jantar e o avião preparava-se para pousar em Nova York. Assim que aterrissaram e enquanto esperava o vôo para Atlanta, Deborah comprou e leu vorazmente o New York Times.

Quarenta e cinco minutos antes de pousarem em Atlanta, a aeromoça, comissária de bordo ou seja lá como se chamam atualmente essas pessoas apareceu ao lado dela, abaixando-se com um sorriso conciliatório que não era suficiente para encobrir certa preocupação.

—        Srta. Miller? perguntou ela, mostrando dentes perfeitos ao expan­dir o sorriso. Deborah Miller?

—        Sim disse Deborah. Algum problema?

—        Não, nenhum problema mentiu a mulher, alegremente. Dentro de pouco tempo vamos pousar em Atlanta e eu só queria confirmar se a senhorita estava no assento correto.

OK disse Deborah, cautelosa.

Quando aterrissarmos ela disse, uma das aeromoças virá buscá-la.

Por quê? Acho que não estou entendendo.

Precisamos deixar que saia primeiro.

Primeiro?

Antes dos outros passageiros disse a comissária de bordo, com o sorriso esticando-se como um elástico.

Como assim? perguntou Deborah. Por que eu? O que está acontecendo?

 

 

                              CAPÍTULO 52

 

A inquietação de Deborah crescia, mas quanto mais pedia detalhes à equipe de bordo, mais eles diziam não saber e pediam que se acal­masse, sempre com sorrisos condescendentes como se estivessem lidando com uma garotinha de três anos de idade que estivesse fazendo birra. Pelo menos não havia ninguém sentado ao lado dela. Assim ela não precisaria passar os 20 minutos restantes de vôo agüentando olhares de curiosidade. Por que eles queriam que ela saísse primeiro? E quem eram eles? Será que este era um esquema de alguma maneira montado por Calvin para evitar que enfrentasse a espera e o empurra-empurra que acontecia a cada final de vôo? Aquilo lhe pareceu remotamente plausível. Talvez tivesse a intenção de protegê-la de algum passageiro do avião. Ela lançou um olhar rápido ao redor, levantando-se e piscando os olhos para os rostos inexpressivos atrás dela. Não viu ninguém com aparência familiar, e a única pessoa que lhe deu atenção foi uma criança que fez um comentário com a mãe sobre "a moça alta" que estava na frente da tela do filme. Deborah sentou-se e voltou a afivelar o cinto antes que tivesse de encarar mais alguma censura educada dos comissários de bordo.

Pode ser que Calvin não fosse a única pessoa esperando por ela no aeroporto. A idéia deixou-a ansiosa. Mas, mesmo que alguém em terra firme quisesse causar-lhe mal, como poderia fazer que a equipe de bordo fosse conivente?

Da mesma maneira que o "detetive" Cerniga assumiu um caso sem ser tira, ela pensou.

Sentiu que o avião começava a descer enquanto seu estômago parecia flutuar pelo corpo, como um barco levantado por uma onda inesperada. Começou a tamborilar os dedos no apoio de braços do assento. O sistema de alto-falantes anunciou os requisitos de sempre: bandejas das mesas presas contra o assento da frente, assentos na posição vertical, cintos afivelados...

Vamos lá. Se é para pousar, que seja logo.

Deborah olhou pela janela. O avião embicou sobre um punhado de nuvens e, em seguida, viu a cidade espalhada. À espera. Numa tentativa de manter a mente ocupada, procurou orientar-se de modo a descobrir para que bairro olhava, mas não tinha a menor idéia. Nada lhe parecia familiar. Muitos complexos industriais, depósitos e enormes estacionamentos. Em seguida, casas brancas quase invisíveis sob um manto de árvores e estradas largas e congestionadas, alinhadas por postos de gasolina. Poderia ser qualquer lugar.

A aeromoça que a avisara que seria levada antes dos outros passageiros sentou-se em um assento dobrável ao lado da porta da cabine e afivelou o cinto de segurança. No breve momento em que seus olhos se encontraram, a mulher rapidamente desviou os dela. Surpreendida sem seu sorriso profis­sional, ela parecia cansada e um pouco ansiosa. Deborah perguntou-se se aquilo tinha alguma coisa a ver com ela.

O avião emitiu um zunido baixo e um estalido quando o trem de pouso foi acionado, um som mecânico que lembrou a todos como era espantoso que um enorme tubo de metal como aquele pudesse voar.

Agora, ela podia ver alguns carros, um ônibus MARTA e mesmo uns dos raros pedestres de Atlanta. Em seguida, topos de árvores, fios de eletricidade e, subitamente, uma movimentada rodovia e um viaduto, quase em tamanho real. Eles cruzaram a estrada com três pistas de cada lado e uma cerca de alambrado e logo avistaram a pista com símbolos e letras pintados espalhando-se em meio a quilômetros de vegetação rasteira. Sentiram um outro tranco uns metros adiante, um momento de paralisia quando a aeronave parecia estar flutuando sem motores ou gravidade e, depois, o tocar das rodas sobre o asfalto e o refluxo do freio. A inércia impulsionou Deborah para a frente.

O avião ainda manobrava para chegar ao terminal quando um dos comissários de bordo, um jovem atlético que ela imaginou ser homossexual, apareceu ao lado dela.

—        Onde está sua bagagem, srta. Miller?

Estupefata, ela olhou para ele, fazendo um sinal com a cabeça em direção aos compartimentos. Ele ergueu os braços e retirou uma mochila e uma sacola de compras.

Alguma coisa mais?

Não.

Assim que o avião pousar ele disse, como se estivesse pronto a participar de uma corrida montanha abaixo —, nós sairemos.

Sem dizer nada, ela assentiu com a cabeça. Com a boca seca, ela olhava ao redor sem saber o que procurava. Lembrou-se de um recital de piano do qual participara aos dez anos de idade quando, com as mãos trêmulas e molhadas de suor, espiara pela cortina do Centro de Eventos Brookline para ver se encontrava o pai na platéia. Agora, sentia-se de modo parecido, como se estivesse com medo de subir ao palco.

O avião diminuiu a marcha, virou, deu ré, ajustou os comandos e parou. Antes que o aviso de apertar os cintos se apagasse, o comissário a seu lado ajudou-a a levantar-se e a conduziu à porta da saída. A mulher que estivera sentada ali lhes deu passagem, mostrando-se atarefada e desviando o olhar enquanto passavam.

O acompanhante de Deborah puxou uma alavanca no mecanismo de segurança e levantou o painel da porta, revelando o mundo. No tubo colado à porta, homens da manutenção e mulheres com uniformes impermeáveis e jaquetas cor-de-rosa fluorescente moveram-se para o lado, para dar lugar a um policial uniformizado. Ao lado dele, Deborah viu Keene e Cerniga.

—        Obrigado — disse Keene ao comissário. Pode deixar que agora nós cuidaremos de tudo.

O tira uniformizado pegou a bagagem que estava com ele e o comis­sário de bordo voltou para o avião sem dizer nada.

—        Por favor, srta. Miller, venha conosco — disse Keene, aproximando-se.

Ao final do túnel, havia uma agitação e um homem de cabelos alvoro­çados e olhar ansioso apareceu correndo, com os guardas de segurança a seus pés. Era Calvin Bowers.

Deborah — ele gritou.

Tirem esse cara daqui — berrou Keene.

Eles estão tentando me levar! — Deborah gritou na direção de onde Calvin, agora impedido de continuar pelos guardas, tentava ver o que estava acontecendo.

Sou advogado dela — ele gritou. — Vocês não podem prendê-la sem me levar junto.

Não estamos prendendo ninguém — disse Cerniga, ainda olhando para Deborah —, mas poderemos fazer isso, se continuarem com essa confusão.

Calvin conseguiu libertar-se e adiantou-se alguns metros para juntar-se a eles. O guarda de segurança seguiu-o como um cão de caça.

Podemos conseguir outros tiras? — perguntou Deborah a Calvin.

A senhorita está completamente segura — disse Cerniga.

—        Com você? — ela disparou em resposta. — Verdade? Vamos ver seu distintivo.

A expressão desapareceu do rosto de Cerniga.

—        Não temos tempo para bobagens — ele começou.

—        Eu disse que quero ver seu distintivo! — repetiu Deborah, com voz estridente e em um volume mais alto do que pretendia.

Cerniga olhou de soslaio para Keene. Com um meneio de ombros, o outro detetive desviou o olhar. Cerniga fez uma cara furiosa e colocou a mão no bolso da jaqueta, de onde tirou um objeto de couro preto do tamanho de uma carteira. Ele o abriu e mostrou a ela.

Deborah olhou. A carteira continha uma foto de Cerniga e três letras grandes: FBI.

 

 

                             CAPÍTULO 53

 

—        FBI? perguntou Deborah. Instintivamente, ela olhou para Keene, que encolheu os ombros e concordou com a cabeça.

Isso não era necessário disse Cerniga.

Espere um momento disse Calvin. Por que esse caso foi para a esfera federal? Quem faz parte dessa jurisdição?

Eu faço disse Cerniga. Keene havia se afastado um passo para observar. Deborah podia ver que ele se divertia.

Isso é loucura disse Calvin, não conseguindo evitar que sua indignação balançasse seu comedimento profissional. Você não pode se passar por tira para depois...

O senhor está enganado disse Cerniga, fincando os pés no chão.

—        Num caso como este, posso fazer exatamente isso.

—        Sinto muito disse o comissário, reaparecendo na altura do cotovelo de Deborah, com olhar envergonhado. Os passageiros estão esperando para desembarcar. Será que os senhores poderiam resolver essa história no interior do aeroporto?

Cerniga deu meia-volta e conduziu o grupo.

 

Eles passaram pelo controle de passaportes e pela alfândega, mostrando uma chuva de distintivos e explicações e ainda discutindo entre eles. Mesmo sendo a principal participante dessa marcha degradante, Deborah era, ironicamente, a mais calma do grupo. Afinal de contas, ela dizia a si mesma, poderia ter sido bem pior. Enquanto batia boca a respeito da identidade de Cerniga, sentira-se muito mais segura do que no avião e, para falar a verdade, mais segura do que em qualquer outro momento que se seguiu à conversa entre os policiais que ouvira pela tubulação de ar. Calvin, no entanto, não se deixou convencer facilmente.

—        Continuo querendo saber por que os federais estão participando nesse caso! exigiu ele.

—        Eu já lhe disse — respondeu Keene. Ele rapidamente deixara de se divertir, voltando a ser o mal-humorado de sempre. — Os objetos roubados foram levados para fora do país e existem acusações de contrabando internacional. Aparentemente um caso complicado demais para nós, pobres policiais.

O tira uniformizado deixou-os em uma viatura policial branca e preta. Deborah e os três homens foram no Oldsmobile velho de Keene, estacionado do lado de fora da esteira de bagagens, em sentido à rodovia Interestadual 85. Os tiras sentaram-se no banco da frente; Deborah e Calvin, no banco de trás, muito mais quente e intimista. Vários minutos se passaram sem que ninguém falasse.

Deborah lançou um olhar a Calvin. De cenho cerrado, ele olhava pela janela, mas ao sentir o olhar dela virou-se, sorrindo.

Não era assim que eu planejara recepcioná-la — ele disse. Deborah simplesmente assentiu com a cabeça.

Onde vai ser? — perguntou Keene, do banco da frente.

Como assim? — perguntou Calvin, ríspido.

—        Estou apenas perguntando onde a senhorita quer ser deixada — disse Keene. Ele sorriu para Cerniga, que, pelo que Deborah pôde ver, não mostrou nenhum tipo de reação.

—        E eu tenho escolha? — perguntou ela.

—        Quer ir à sua casa para tomar uma ducha? — perguntou Keene. — Ou prefere que a deixemos no museu?

Ela não gostou da idéia de ter Keene por perto enquanto tomava banho.

—        Ao museu — ela disse. Naquela noite, quando fosse para casa, poderia ficar sozinha para relaxar, o que era bem melhor do que quebrar sua melhor louça ou ser educadamente interrogada.

E se Calvin quiser ir com você?, ela perguntou-se.

Cale a boca.

Deborah olhou pela janela e mordeu o lábio até que o sorriso desaparecesse.

—        Vamos voltar ao assunto do motivo que a levou a sair do país — disse Cerniga.

Desde o encontro no aeroporto, ele se tornara sucinto e até belicoso. Deborah não sabia dizer se era por ter sido obrigado a revelar seu status de agente, em vez de simples detetive. Talvez seu estado de espírito tivesse começado antes disso. Ela tinha a clara impressão de que ele não ficara muito satisfeito com sua pequena excursão internacional, apesar de ninguém, como rapidamente percebera, a ter proibido de deixar o país.

—        Já lhe disse — ela disse. Há mais de uma hora conversavam no pequeno escritório do museu e ela já estava começando a perder a paciência.

—        Srta. Miller — ele disse. — Com base em suas atividades até a presente data, não seria muito difícil acusá-la por obstrução da justiça. Se continuar insistindo em não cooperar, não terei outra escolha a não ser fazer exatamente isso.

Ele não estava blefando. Estava bravo e talvez até se sentindo um pouco humilhado pela maneira como ela escapara, impedindo o andamento satisfatório do caso durante sua ausência. Ela precisava se mostrar menos defensiva. Afinal de contas, mesmo tendo se mostrado pouco confiável no início, como agente federal ele era, com certeza, um aliado para ajudar a desvendar o mistério da morte de Richard. Se ela não o tratasse como tal, poderia acabar sendo vista como suspeita.

OK — ela disse. — Saí do país porque meu amigo foi assassinado, porque havia alguém esperando por mim em meu apartamento e porque pensei que o senhor não fosse um tira de verdade. Fui para a Grécia porque o pouco que eu sabia sobre as circunstâncias da morte de Richard apontava para lá e eu queria ver se conseguia... Não sei.

Dar uma de Nancy Drew — disse Keene, sem tirar os olhos de seu bloco de anotações.

Deborah deu de ombros.

Eu não sabia em quem confiar — ela disse. — Sair do país fazia sentido.

Só se for o tipo de sentido que se aprende numa escola de museus — caçoou Keene. — Aqui fora, no mundo real, não significa merda nenhuma.

Não existe uma coisa chamada escola de museus — disse De­borah —, mas se o senhor está se referindo a academia, ou qualquer outro aspecto do mundo no qual trabalho, trata-se de algo tão palpável quanto o que o senhor faz.

Verdade? — perguntou Keene, movimentando a cabeça como se estivesse a provocá-la para que se atrevesse a lhe dar um soco.

Sim, é verdade — ela disse, olhando-o com desprezo.

Vamos repassar mais uma vez o que lhe aconteceu na Grécia — disse Cerniga, falando alto e compassadamente e jogando, pela terceira vez na última hora, água fria no bate-boca petulante que acontecia entre Deborah e Keene.

Até agora, Deborah lhes dissera a verdade sobre sua viagem à Grécia. Em todos os aspectos, menos dois. Primeiro, não revelara a hipótese de que a máscara mortuária desaparecida estava, na verdade, sendo usada por um cadáver parcialmente preservado. A polícia ainda estava procurando um artefato de valor estritamente monetário. O fato de que estivera procurando pelo corpo de Agamenon lhe parecia agora muito ridículo para ser contado. Se pudesse manter segredo, ela poderia salvar a dignidade daqueles que haviam sido ludibriados e acreditaram na história: Richard, o Ministério da Cultura e Antiguidades do governo da Grécia, Sergei Voloshinov e talvez até Marcus, mesmo que ela não estivesse predisposta a lhe fazer concessões.

Ela tentara despertar o interesse de Cerniga pela morte do russo, mas ele não engoliu, e Keene rolara os olhos quando ela mencionara as letras referentes a "restos" como prova.

Não se trata nem de coincidência zombou ele. Na mesma noite, dois traficantes de drogas foram mortos no Condado de Fulton.Você acha que eles botaram a cara na rua para comprar também uma máscara mortuária? Talvez uma peça decorativa para colocarem no suporte de armas de sua Mercedes?

O russo não estava envolvido disse Cerniga, acabando com o sarcasmo do colega da única maneira aceitável para ele. Esse caso está encerrado.

Não entendo aonde esta conversa pode nos levar disse Calvin Bowers. Ele parecia cansado e um pouco desanimado, como se tivesse dormido mal na noite anterior. Por que não retomamos a reunião amanhã de manhã, caso ainda existam perguntas a serem respondidas por minha cliente?

Alguém bateu à porta do escritório. Cerniga abriu-a eTonya, vestindo um macacão cinza e armada com uma vassoura, colocou a mão sobre a porta.

—        Estou indo embora e vou trancar tudo ela disse. Querem alguma coisa antes que eu vá?

Ela não olhou para Deborah.

—        Obrigado disse Cerniga, balançando a cabeça. Não precisamos de nada.

Tonya inclinou a cabeça em sinal de respeito e começou a sair. Mas parou a meio caminho, aparentemente presa de um pensamento, e virou-se para Deborah.

—        Srta. Miller disse ela com formalidade. Gostaria de dar meu aviso prévio de duas semanas. Eu gostava muito do sr. Dixon, mas acho que, desde que ele se foi, não existe mais lugar aqui para mim.

Deborah teve de pensar rápido. A atitude da mulher negra era esnobe e desafiadora, e o sorriso de Keene parecia confirmar o que Deborah sentia. Mas havia alguma cautela no olhar dela, alguma coisa que lhe dizia" Jogue o jogo...".

A segunda coisa que Deborah ainda não reportara à polícia sobre sua viagem fora o encontro com Tonya na Grécia e que ela também tivera um assunto pessoal a tratar por mais falso que pudesse parecer relacionado às antiguidades desaparecidas.

—        Tudo bem ela disse —, mas vou bloquear seu pagamento se tudo não estiver em ordem quando você sair. Estive fora por apenas alguns dias e, ao que tudo indica, você mal pegou na vassoura durante esse tempo. Você apareceu para trabalhar?

—        Aproveitei a oportunidade para visitar minha família em Louisiana

disse Tonya, seu ar desafiador atingindo o ápice. O museu não estava aberto, e a polícia estava atrapalhando o tempo todo. Sem querer ofender

continuou ela, fazendo um gesto de cabeça para Keene.

—        Não se preocupe ele disse, achando graça.

Muito esperta, pensou Deborah, controlando a vontade de sorrir. Ao chamar a atenção para Keene, ela desviou a atenção das pessoas da pequena história que inventara. A decisão de manter Tonya fora de seus relatos sobre a Grécia fora correta.

Srta. Miller? disse Tonya, com tom arrogante, como se ela fosse a curadora e Deborah a empregada. Posso vê-la hoje à noite antes de ir embora? Precisamos conversar sobre alguns documentos e impostos.

Claro disse Deborah, defensiva.

Assim que a empregada ou repórter saiu, Deborah perguntou-se o que ela ainda fazia ali e por que tentava manter-se sob o radar do FBI, especialmente depois que as duas mulheres haviam decidido que os tesouros que estiveram procurando não passavam de falsificações. Bem, o último comentário de Tonya deixara um tipo de reunião marcada. Antes de ir para casa, ela saberia do que se tratava.

—        Eu tenho uma pergunta disse Keene quando a porta fechou-se atrás de Tonya. Se a senhorita tivesse roubado a máscara, o que faria com ela?

Deborah pensou a respeito. Era provável que Keene estivesse fazendo o que, de acordo com sua mente pouco sutil, seria uma acusação, mas, mesmo assim, era uma pergunta válida.

—        Se eu não estivesse trabalhando para algum comprador específico, acho que tentaria vendê-la no mercado negro ela disse. Ou enterraria as peças até que as coisas se acalmassem, até que os principais colecionadores parassem de procurar por elas.

Keene levantou uma das sobrancelhas, ironicamente. Pode ser que ele não estivesse esperando uma resposta verdadeira, mas considerou-a útil.

—        E se você estivesse trabalhando para um comprador específico disse Cerniga. Vamos supor, o governo grego, e não tivesse vindo aqui para roubar a máscara, mas para inspecioná-la?

Deborah tentara ser vaga a respeito de suas conversas com Popadreus, mas Cerniga percebera.

Acho que faria o possível para que fosse autenticada disse ela.

E como faria isso?

Deborah soltou um suspiro.

O ideal seria que a máscara fosse examinada por um especialista ela disse —, apesar de que os homens em questão pudessem ser, eles mesmos, especialistas. Depois, eu a levaria a um laboratório onde testes verdadeiros pudessem ser realizados.

—        Certamente disse Cerniga —, caso Richard estivesse vendendo ou doando a peça, ele teria, antes de mais nada, provado sua autenticidade ao comprador.

—        Não, se não pudesse levá-la de um lado para outro com facilidade disse Deborah —, ou se estivesse tentando mantê-la em segredo. Se ele pensasse que a máscara pudesse transformá-lo num alvo para negociantes menos escrupulosos, ele a manteria escondida, fornecendo o mínimo de informações apenas ao comprador interessado. De qualquer modo, ele não podia simplesmente enviar os resultados dos testes de laboratório ao comprador como prova de sua autenticidade. O comprador exigiria estar presente aos testes.

Eu não entendo disse Keene. Se a máscara é uma grande peça de ouro, deve ter muito valor. Qual a importância de ser tão antiga, ou do lugar de procedência?

Não se trata apenas do valor intrínseco disse Calvin. Estamos falando de valor cultural, da estética da máscara, de suas ligações históricas e seus elos com mitos e lendas. É isso que torna o valor da máscara incalculável.

Continuo sem entender insistiu Keene, orgulhoso com o fato, como se pensasse que aquele monte de besteiras o tornasse um homem e atirador melhor.

—        Na verdade, não existe diferença entre o valor intrínseco e o cultural disse Deborah. O ouro tornou-se valioso apenas porque as pessoas decidiram gostar dele e por se tratar de um metal relativamente raro. O mesmo acontece com os diamantes. Não existe nada especialmente mais valioso com relação aos diamantes do que em relação a qualquer outro composto ou elemento raro, a não ser que as pessoas decidiram gostar deles. Estamos falando da mesma coisa. Mas enquanto o ouro e o diamante são continuamente extraídos de muitos lugares, uma máscara mortuária de Micenas é uma peça única. Não haverá mais nenhuma sendo fabricada, mas como é impossível separar seu valor de sua época, a quem pertenceu e assim por diante, o processo de autenticação torna-se essencial.

E como eles fazem isso? — perguntou Cerniga. — A senhorita disse que fazem testes de laboratório. Como o quê? Datação com carbono?

É impossível datar ouro com carbono — ela respondeu. — A datação com radiocarbono mede a metade da vida do material, que já foi orgânico. Não funciona para trabalhos com ouro; pelo menos não de maneira confiável.

—        Que outros tipos de testes de laboratório existem?

—        Nenhum que seja cientificamente confiável sem que se tenha provas concretas sobre a origem.

—        Então, por que diabos estamos perdendo tempo com essa conversa?

—        perguntou Cerniga.

—        Existiam outras peças na coleção que poderiam ser datadas com carbono — disse Deborah. — Artefatos de cerâmica, por exemplo. Não sabemos o que havia junto com a máscara no expositor. Caso existissem outros itens que supostamente tivessem vindo do mesmo sítio arqueológico, datá-los forneceria maiores parâmetros para definir a autenticidade da máscara.

O que Deborah não mencionou foi que qualquer fragmento do corpo humano encontrado com a máscara poderia ser facilmente datado. Se Agamenon realmente estivera deitado naquela pequena sala atrás da estante, um teste de radiocarbono provavelmente determinaria a idade do tecido até uns 100 anos, mais ou menos. Antigamente, uma quantidade considerável de tecido teria de ser destruída durante a execução do teste — coisa que os arqueólogos detestavam fazer. Como alguém disse uma vez, “Aquele que destrói uma peça para descobrir o que é abandonou o caminho da sabedoria". Enfim, a MAS (accelerated mass spectrometry) mudou tudo isso. Atualmente, os melhores laboratórios (MAS machines custam milhões de dólares) têm a capacidade de conseguir alguns resultados utilizando apenas minúsculos fragmentos de material testável.

É evidente que tais laboratórios eram raros e distantes, e se os gregos quiseram aplicar tais testes, tiveram um número limitado de opções nos Estados Unidos. Felizmente para eles e para ela, pensou Deborah, ela sabia da existência de um desses laboratórios. Ele ficava a menos de duas horas de carro dali.

 

 

                         Capítulo 54

 

— Quer uma carona até seu apartamento? perguntou Cerniga.

Foi uma pergunta estranha. Calvin estava de pé ao lado dele, e Deborah percebeu a maneira rápida com que desviou os olhos. Cerniga fora mais rápido do que ele. Com seu carro ainda parado no estacionamento do Templo (a não ser que o tivessem rebocado), Deborah não conseguiu pensar em nenhuma razão para recusar.

—        Antes de ir embora, preciso conversar com Tonya sobre sua documentação empregatícia ela disse. Pode ser que demore alguns minutos.

Ela não se atreveu a olhar para Calvin.

—        Posso esperar disse Cerniga.

Deborah deu um sorriso forçado e disse "Obrigada" antes de começar a mexer em alguns papéis que estavam sobre sua escrivaninha.

—        Então, acho que vou embora disse Calvin.

Deborah olhou para cima. Por um segundo, seus olhos se encontraram em frustração silenciosa.

—        OK ela disse. Imagino que nos veremos amanhã.

Ela não sabia o que ele estava pensando, ou o que estivera esperando que acontecesse naquela noite nem mesmo tinha certeza do que ela própria estivera esperando —, mas ele ficara claramente desapontado com a gentileza profissional de Cerniga.

—        Certo Calvin disse. Hesitou por um segundo como se quisesse dizer alguma coisa, mas estava apenas matando tempo. Quando Cerniga virou-se para olhá-lo, ele começou a afastar-se. O som da porta fechando-­se atrás dele foi tão definitivo que Deborah sentiu vontade de gritar.

—        Você queria ver a empregada?

—        Sim disse Deborah, voltando à realidade. Estarei de volta assim que puder.

Com essa desculpa, ela saiu da sala o mais rápido que pôde, sem correr. Calvin estava quase chegando à porta do saguão. Ela o chamou pelo nome.

Ele parou e virou-se para ela. Deborah lembrou-se da primeira conversa que tiveram e de como ele a irritara com seu comentário de que a machadinha no expositor a menos de cinco metros de onde se encontravam era uma arma que pertencera a uma cultura bárbara. A lembrança fez com que sorrisse.

O que foi? — ele perguntou.

Oi — disse Deborah. — Sinto muito ter...

Ela fez um gesto vago na direção do escritório.

Certo — ele disse —, não tem problema. A gente se vê amanhã.

Sim — ela disse, de repente sentindo-se uma garotinha idiota. — OK.

Ele ficou algum tempo parado, a parte de cima de seu corpo num leve balanço, como se estivesse tendo impulsos contraditórios. Em seguida, afastou-se com um sorriso de desculpas.

Amanhã — ele disse.

Sim.

Vou ficar esperando.

Ela olhou-o ir embora, incerta de querer mais alguma coisa no momento.

 

Tonya estava limpando a pia da cozinha. Quando viu Deborah entrar, foi rapidamente à seu encontro, olhou por cima dos ombros dela e fechou a porta.

Oi — ela disse, inclinando-se num abraço breve. — Como vai, tudo bem?

Sim — disse Deborah. — Só um pouco cansada.

Aposto que sim — disse Tonya. A expressão que tinha no rosto era a de uma amiga preocupada, e Deborah pegou-se perguntando como o relacionamento delas, que sempre lhe parecera tenso, fora alterado pelo encontro que tiveram em Micenas. — Ouça — continuou ela, com voz apressada —, sinto muito pelo que houve há pouco. Diga-me que não mencionou o nosso encontro na Grécia.

Pode ficar tranqüila, não falei nada.

Ainda bem, obrigada. — disse Tonya, expressando seu alívio com o corpo todo.

Por quê? — perguntou Deborah. — Você sabia que Cerniga trabalha para o FBI, certo?

Sim — respondeu Tonya. — Ele me contou assim que voltei, como se isso fosse fazer com que eu lhe contasse todos os meus segredos. Não acreditei, mas liguei para verificar. Tenho quase certeza de que ele fala a verdade. Mas uma coisa me deixa intrigada. Por que os federais estão envolvidos no caso? Isso não faz muito sentido.

—        O corpo... e é bom que saiba que mencionei apenas a máscara, não disse nada sobre o corpo... foi trazido de fora, provavelmente contraban­deado em águas internacionais. Isso transforma o caso em um crime federal, não é?

—        Claro — disse Tonya —, mas quando eles ficaram sabendo disso?

Ao entender o que Tonya queria dizer, Deborah ficou calada, ouvindo o eco de seu próprio pânico como quando ouviu a conversa entre Keene e Cerniga pelos dutos de ar do banheiro.

Eles estão aqui para investigar o assassinato, certo? — perguntou Tonya. — Eles vieram juntos. Naquele momento eles não sabiam coisa alguma sobre contrabando e peças roubadas. Pelo menos não disseram nada. Então, por que o FBI está envolvido? Liguei para um amigo que trabalha na delegacia do Condado de Clayton e perguntei-lhe quais são os motivos mais comuns que justificam o envolvimento de federais em casos de assassinato. Sabe o que ele me disse?

O quê?

Crimes de racismo — ela disse.

Crimes de racismo?

Ele não hesitou nem um minuto. Foi a primeira coisa que lhe saiu da boca. Crimes de racismo.

E ali estava, novamente, aquela sensação de estar completamente fora dos trilhos, procurando pistas erradas, montando as peças do quebra-cabeça errado...

Mas como o assassinato de Richard poderia ser considerado crime de racismo? — perguntou Deborah, espantando a insegurança familiar que sentia. — Ele era homem, branco e, pelo que eu saiba, não era homossexual. A mulher dele morreu há muitos anos, mas... Não, ele não era homossexual.

Mas e se o crime de racismo que eles estão investigando não tiver nada a ver com Richard? — ponderou Tonya. — E se aconteceu há muitos anos?

Ah, meu Deus, pensou Deborah, aí vem.

Seu pai? — ela perguntou. — Você acha que eles estão investigando a morte de seu pai?

Estou apenas especulando — disse Tonya, pensativa. — Fiz um monte de perguntas. Entrei em contato com as autoridades militares e pensei até em exumar o corpo dele. Pode ser que alguém tenha decidido descobrir.

Então, por que manter a investigação em segredo? Especialmente de você?

Você me pegou — ela afirmou. — Mas, por enquanto, prefiro guardar as coisas pra mim mesma. Entende o que quero dizer?

Lentamente, Deborah assentiu com a cabeça, pensativa, sem ter nada mais a dizer. Crime de racismo? Ela não acreditava naquela história, mas sabia que dizer isso a Tonya colocaria em risco a recente amizade entre elas. Para a repórter disfarçada de empregada, a história da morte do pai era essencial e estava ligada a assuntos profundamente emocionais. Deborah conhecia Tonya o suficiente para saber o tipo de reação que ela teria caso demonstrasse qualquer tipo de ceticismo sobre o assunto. Ela se tornaria recalcitrante e defensiva, secretamente magoada e ofendida, o que faria com que se fechasse como uma ostra.

Alguma novidade?

Deborah ficou ali parada, em silêncio, com expressão grave.

—        Falando em manter as coisas em segredo disse Tonya, tornando-se repentinamente íntima e surpresa —, reparei que, ultimamente, você tem usado maquiagem e perfume... Pergunto-me quando você percebeu que a profissão que escolheu não lhe tirará as credencias caso resolva, de vez em quando, parecer mais feminina.

Deborah ignorou o comentário, corando. Ela começara o dia com uma fina camada de batom e algumas gotas de Chanel no 19, produtos que estavam guardados e sem uso quase tanto tempo quanto o ouro de Schliemann fora enterrado em Micenas.

Já houve um tempo disse Deborah com arrogância brincalhona que as empregadas conheciam seu lugar.

E aqueles eram os bons tempos disse Tonya. Ela pontuou seu comentário com uma risadinha de desprezo e saiu da cozinha levando um balde e um escovão.

Deborah sorriu e pegou-se voltando à conversa anterior e como ela poderia causar problemas no futuro. Crime de racismo?

E por falar nisso disse Tonya, enfiando a cabeça pela fresta da porta. Aquela cidade que você disse ficar próxima da fronteira com a Suíça... como era mesmo o nome?

Magdeburgo.

Sim, foi o que pensei disse Tonya. Mas não é. Pelo menos, não que eu pudesse encontrar. Existe uma Magdeburgo perto de Berlim, mas não faria muito sentido tentar contrabandear coisas para uma outra cidade distante apenas algumas milhas, passando pelos Aliados que estavam nos calcanhares deles, certo?

Acho que não disse Deborah, franzindo o cenho. Talvez exista mais coisa a ser descoberta.

Talvez disse Tonya ao sair.

Deborah ligou o computador do escritório, entrou na internet e procurou por "Magdeburgo" no Google. A primeira página de resultados veio em alemão. Uma delas parecia ser sobre um teatro, outra era um site turístico e nenhuma delas disponibilizava mapas localizando a cidade na Alemanha. A opção oferecida pelo mecanismo de busca para localizar "Magdeburgo"não ajudou muito. Entretanto, a próxima página disponi­bilizou o que parecia ser um site da câmara do comércio, surpreendente­mente em inglês. Um link para direções a levou a um mapa.

Tonya estava certa. Magdeburgo ficava no meio do país, aproxima­damente 160 quilômetros a sudoeste de Berlim, na chamada província Saxony-Anhalt. É evidente que mandar o corpo naquela direção seria o mesmo que o mandar para as mãos dos aliados. E, caso a intenção dos alemães fosse simplesmente afastá-lo dos russos que estavam se aproximando pelo leste, continuava sem explicação o fato de ter ido parar a mais de 400 quilômetros ao sul.

Retornando à sua busca, Deborah tentou uma outra página. Um único artigo em inglês destacou-se do resto. Ela clicou no link e seu espanto aumentou ao ler:

 

Sangue e Florescência

Novas Evidências sobre a Atrocidade de Magdeburgo

 

Durante a construção de um novo edifício, em 1994, os operários encontraram esqueletos de 32 corpos, aparentemente todos de jovens assassinados ao mesmo tempo. Como a sepultura parecia datar de algum momento entre 1945 e 1960, inicialmente pensou-se que se tratasse da descoberta da evidência de mais uma das atrocidades cometidas pelos nazistas, apesar de não ser comum que a Gestapo cavasse uma vala comum no centro de uma cidade. Entretanto, evidências mais recentes sugerem que a atrocidade não ocorreu no final da Segunda Guerra, mas sete anos mais tarde, e que os criminosos eram membros da polícia secreta soviética.

Embora tenha se tornado comum a análise de pólen em exames forenses de corpos para determinar a causa da morte, o biólogo Reinard Szibor, da Universidade Otto von Guericke, de Magdeburgo, usou pólen nesse caso para demonstrar que as vítimas morreram no início do verão. Szibor descobriu que os crânios de sete das vítimas continham pólen de bananeiras, limeiras e centeio, plantas cujo pólen é disseminado nos meses de junho e julho, coincidentemente depois da queda do nazismo, em 1945.

 

Isso coloca a responsabilidade do crime inteiramente nas costas da inteligência soviética.

Isso era tudo. A perplexidade de Deborah aumentou. Por que a culpa caía automaticamente sobre os soviéticos? Qual era a relação daquela história com Voloshinov, o homem supostamente sem-teto que morrera próximo ao museu: seria aquele massacre relevante à busca que ela realizava para descobrir os assassinos de Richard e a trilha para as antiguidades falsificadas que, aparentemente, levaram os matadores a Richard? Não havia razão para pensar que sim, mas, de alguma maneira, todos aqueles cadáveres pareciam estar ligados, como se cada osso que ela descobria às cegas fosse parte de uma criatura maior e mais estranha, cuja verdadeira natureza pudesse ser desvendada apenas quando ela tivesse uma visão geral do esqueleto completo.

Aquilo fazia tanto sentido quanto a nova idéia de Tonya sobre crimes de racismo, apesar de ela estar evitando pensar no assunto. Enquanto caminhava ao encontro de Cerniga, Deborah disse a si mesma que aquela hipótese não estava baseada em nenhuma forte evidência. Tratava-se apenas de uma observação feita pelo tira amigo de Tonya sobre a participação dos federais em crimes de assassinato. Não trazia qualquer prova concreta. Mas ela se pegou lembrando do rapaz magro que, por duas vezes, tentara matá-la na Grécia: o olhar cruel e arrogante, a cabeça raspada, as tatuagens... Crime de racismo?

 

Cerniga a levou para casa num silêncio empedernido e profissional. Ele esperou atrás dela até que abrisse a porta do apartamento e parou à soleira da porta enquanto ela se certificava de estar realmente sozinha e de que tudo estava em ordem. Ela não percebeu isso até que ele fosse embora.

A princípio, tudo lhe parecera normal. Depois de estar de volta por pouco mais de uma hora, porém, Deborah começou a notar alguns pequenos detalhes incongruentes: roupas que ela havia jogado no cesto de roupas sujas agora estavam penduradas, uma gaveta de escrivaninha trancada, livros fora de lugar nas estantes. Marcus lhe dissera que não mexera em nada e ela acreditara nele. Caso ele tivesse lhe dito a verdade, alguém mais estivera lá desde que partira e, aparentemente, procurando alguma coisa. Fizera tudo com calma, como se soubesse que ela não estava lá e não voltaria logo. E fora bem-sucedido ao encobrir o que buscava. Se ela não tivesse uma natureza perversamente controladora, pensou, desanimada, era possível que não notasse as coisas fora do lugar. No entanto, ela não tinha a menor idéia do que procuravam.

Ela ligou para Cerniga e lhe contou o que descobrira, mas disse que não queria ver ninguém. Ao dar uma nova olhada pelo apartamento, usou um martelo que tirou de uma gaveta da cozinha para afundar uns pregos há muito cobertos de tinta na porta.

—        É provável que eu leve uns 10 minutos para sair de casa amanhã de manhã — resmungou ela, deixando o martelo sobre a mesa, onde não poderia deixar de vê-lo.

No silêncio do apartamento, com a pesada umidade de uma noite de verão em Atlanta ao redor, ela começou a perguntar-se se fazia a mais remota idéia do motivo da morte de Richard Dixon. Na Grécia, tudo lhe parecera mais claro, apesar de tudo aquilo agora lhe parecer distante e longínquo, uma distância no tempo e no espaço que fazia com que as experiências vividas lá fossem tão estrangeiras e exóticas como as próprias ruínas. Lá, seus problemas e confusões pareciam apropriados, mas ela tivera esperanças de, ao voltar para casa, encontrar certa clareza que estava relacionada à familiaridade do ambiente. Entretanto, agora que estava ali, com a estranheza da presença dos policiais ainda acontecendo no museu, com as teorias estranhas de Tonya cercando-a e com o buraco que a morte de Richard deixara em tudo o que antes lhe fizera sentido como lar, ela sentia-se completamente perdida.

Num impulso, Deborah pegou o telefone e discou.

Alô?

Oi, Calvin — ela disse. — É Deborah. Peço desculpas por já ser um pouco tarde.

Pensei que uma das coisas boas de sua volta ao país fosse o fato de eu poder voltar a dormir bem — ele disse.

Ela sorriu, o desconforto dissipando-se ao sentir o prazer na voz dele.

Não me diga que você precisa do sono da beleza — ela brincou. O tom que usara implicara justamente você. Ela mordeu o lábio enquanto ria.

Como você parece estar acordada o tempo todo, independentemente do continente onde esteja, pode continuar — ele disse. — Ao que tudo indica, esse negócio de sono da beleza não passa de mito.

Ela corou e mudou o rumo da conversa antes que pudesse estragar tudo ao usar de sarcasmo, dizendo que ele não perdia uma oportunidade de flertar.

Você achou estranho que os federais tenham vindo para investigar a morte de Richard antes que alguém dissesse qualquer coisa sobre contrabando ou dos tipos de crime que envolvem estados e nações diferentes?

Na verdade, eu não havia pensado nisso — ele disse, tentando focar-se rapidamente. — Mas agora que você mencionou o fato... Em que está pensando?

Você consegue pensar em alguma razão por que a morte de Richard pudesse estar ligada a algum crime de racismo?

Ele ficou em silencio por um segundo, como se lhe tivessem tirado o chão debaixo dos pés.

Crime de racismo? ele perguntou. Contra Richard? Como?

Eu não sei disse ela, humilde. Estava apenas especulando.

Um pensamento bem estranho para se ter no meio da noite ele disse.

Novamente, ela pôde ouvir aquele sorriso. Pelo menos ele não dissera "cabecinha oca".

Eu sei ela disse, afastando a idéia por enquanto. Sinto muito. Não devia ter incomodado você.

Você não me incomoda ele disse. Gosto de conversar com você. Antes... com os tiras... quer dizer... ele hesitou. Assim é melhor.

Sim ela disse.

Você está bem? Quer que eu vá até aí?

A hesitação dela foi um pouco longa demais antes de dizer, distraidamente, que estava bem e que não havia necessidade. Que estava segura em sua casa.

Se você tem certeza... ele disse.

Você gostaria de pegar uma estrada amanhã? ela perguntou. Primeiro, preciso ter certeza de que Cerniga não vai precisar de mim, mas estava pensando seriamente em fazer uma viagem.

Ah, é? ele disse. Claro. Para onde?

Atenas ela disse.

Você vai voltar à Grécia? ele perguntou, bastante chocado. Mostrou-se preocupado e até mesmo em pânico.

Atenas, Geórgia ela disse, rindo. Cidade dos Geórgia Bulldogs e onde se encontra o Center for Applied Isotope Studies.

O que diabos significa isso? ele perguntou, mostrando-se aliviado.

É lá que fica uma máquina enorme e caríssima que pode muito bem ter sido a primeira parada para alguém que acreditava que se tratava do corpo de Agamenon quando saiu do quarto de Richard.

—        O corpo de quem? ele perguntou.

E ela lhe disse.

 

 

                       CAPÍTULO 55

 

Logo pela manhã, Deborah conversou com o agente Cerniga por telefone. De acordo com ele, não precisaria falar com ela hoje. Ela podia dar andamento aos trabalhos que vinha realizando "na área", mas precisava deixar o celular ligado e não podia sair do estado. Deborah concordou e conseguiu esquivar-se de problemas posteriores, aplicando esquisitices em vez de simples mentiras.

Por que você simplesmente não lhe conta sobre o laboratório, que pode ser importante se concentrar num lugar onde os gregos se é que foram realmente os gregos a levar o corpo mascarado visitaram? ela perguntou a si mesma.

Porque talvez fosse apenas um beco sem saída. Porque as peças roubadas não eram suficientemente valiosas para ser procuradas. Porque ela suspeitava que Cerniga ainda mantinha segredo sobre o verdadeiro veio de sua investigação. Apesar de serem argumentos verdadeiros, não constituíam a verdadeira razão. A verdadeira razão era que, se fosse descoberto que Richard pusera tanta energia numa coleção que não valia nem o espaço de exposição que ocupava, sua reputação iria pelo ralo.

Tem certeza de que não é por que você está curtindo dar uma de Nancy Drew?

Não, pensou ela, desafiadora. Não é isso.

Ela ligou para Calvin e perguntou se podia apanhá-lo em frente ao se escritório. Antes de sair com ela, ele tinha trabalho a fazer no escritório. Ele conseguira fazer que o passeio deles merecesse ser brindado com champanhe e um cesto de morangos, e Deborah pegou-se prestando atenção a detalhes para se fazer bonita para ele, uma coisa que não fazia parte de seu repertório. Colocou brincos e passou perfume, coisas que fez com uma sensação de alegria adolescente, que era tão estranha quanto verdadeira. Experimentou um batom mais escuro, mas aquilo seria um passo grande demais e ela limpou os lábios, sentindo-se constrangida tanto por ter cedido ao impulso quanto por ter se acovardado.

Deus do céu, ela pensou, odeio essa história de fazer a corte. Ou seja qual for a palavra que o século XX inventou para isso. Todo aquele jogo cuidadoso para cima e para baixo, os sorrisos amarelos, as conversas movidas a associações de palavras, as decepções menores, as indiferenças estudadas e o exaustivo clima de caçada. Sim, é isso aí. Cortejar é como jogar tênis para perder — conseguir um escore respeitável de modo que não pareça que você entregou o jogo, mas acaba perdendo do mesmo jeito. É como jogar tênis de salto alto e usando burca.

Ou, disse uma outra voz vinda dos cantos mais escuros de sua mente, ela estava apenas com medo da realidade para a qual apontavam todas as evidências: relações amorosas (palavras aterrorizantes) e a mais absurda das vacas sagradas, ou seja, sexo?

Quem liga para isso? Ela pensou com seus botões, fugindo do pensamento como se corresse o risco de ser eletrocutada por ele. Vamos dizer apenas que eu odeio essa história de fazer a corte e paramos por aí, certo?

Certo.

Decidida, ela optou por um vestido de verão profissional o bastante para justificar sua visita ao laboratório e ao mesmo tempo casual, como se ela o tivesse simplesmente tirado do cabide sem prestar muita atenção.

O que provavelmente devesse ter feito...

Deborah foi até o carro determinada a não se olhar no espelho.

 

O escritório de Calvin ficava em um edifício de vidro que parecia o iridescente azul de uma chapa quente. Ela podia ser vista através do Parque Centenário, em direção ao Centro da Coca-Cola e o anúncio iluminado de uma das áreas mais caras da cidade, onde o preço dos terrenos começava a competir com os de Boston e Nova York. Deborah, que normalmente não se deixava impressionar por coisas do tipo e considerava a opulência contrária aos valores que cultivava, ficou espantada ao perceber que sentira uma pontada de prazer ao ver Calvin sair, sorrindo, pelas portas de vidro fume do prédio: um daqueles que ficava bem com suas linhas graciosas e simples.

—        Belo edifício — ela disse, quando se afastavam.

Ele deu um meneio de ombros.

—        É muito escuro por dentro — ele disse. — E os elevadores não são suficientes. Mas moro bem ali, na esquina.

Sorrindo, ela deslizou pelos semáforos até chegar à rodovia do norte, perguntando-se se aquilo seria um prelúdio ou um convite.

 

Depois de 45 minutos na I-85, cruzaram a Rota 316 em direção a Atenas, falando de livros, cinema e comida sem jamais fazerem qualquer referência a Richard ou à missão que desempenhavam. A cidade os surpreendeu, mostrando-se por inteiro depois de quilômetros de floresta de pinheiros como a deusa que lhe dera o nome e nascera, já adulta, da cabeça de Zeus. Seis meses antes, Deborah participara de um simpósio na universidade de lá e ainda tinha com ela o mapa do campus. Consultou o mapa apenas uma vez antes de encontrar a Riverbend Road e o CAIS (Center for Applied Isotope Studies).

Como era verão, o lugar não tinha o fervilhar dos alunos que habitavam o campus durante o período de aulas, mas o Center for Applied Isotope Studies, além de ser integrado à universidade, atuava também comercialmente, e por isso estava sempre movimentado. Ao falar com a recepcionista, Deborah confirmou ter ligado antes para marcar uma reunião e que trouxera uma amostra que precisava de preparo. Sim, Deborah disse, estava preparada para pagar as taxas extras para o preparo do material, e não, não estava interessada em contador de cintilação líquida, apenas na datação com carbono. Enquanto ouvia, Calvin ficou esperando com cara séria e sentindo-se um peixe fora d'água. Ao levar os detalhes que anotara ao laboratório, a recepcionista sorriu para Calvin e ele retribuiu, um pouco nervoso.

Eu não entendo ele disse. Você tem uma amostra?

Nada relevante ela respondeu. Fique calmo.

O técnico que veio conversar com eles era um jovem de pele amarelada e barba aparada. Talvez fosse do Oriente Médio, quem sabe até norte-africano, mas falava sem qualquer sotaque.

—        Eu sou o dr. Kerem ele disse. Por favor, venham comigo. A senhorita trouxe uma amostra?

Deborah mostrou um tubo de ensaio fechado, contendo o que parecia ser um fragmento de madeira um pouco maior do que uma farpa.

Isso é suficiente? perguntou Calvin. Deborah olhou para ele.

Mais do que suficiente disse o técnico. E precisa de preparo?

Por favor disse Deborah. Estamos quase certos de que se trata de um fragmento de um galeão do século XVI, mas precisamos de confirmação científica.

Muito bem ele disse, levando-os a uma enorme sala retangular com luzes fluorescentes que zuniam com a carga constante de eletricidade.

—        Os testes são feitos com essas máquinas? perguntou Deborah.

O equipamento da sala era uma série de consoles, cilindros de metal, instrumentos de complexidade estonteante, quilômetros de fios coloridos a maior parte deles encapsulados em caixas de arame com arestas de metal pintado de azul. De repente, Kerem desabrochou num sorriso largo e orgulhoso, como se tivesse recebido um elogio pelo desempenho de um filho na escola.

É um National Electrostatics 1.5SDH-1 Pelletron Accelerator Mass Spectometer — ele disse. Você pensou que fosse bem maior, certo?

É verdade — disse Deborah, achando que aquela era a resposta desejada.

500 kV — disse Kerem, ainda brilhando de orgulho. — Pode medir concentração isotópica. Essa beleza fará os Goliahs entrar na competição, e eu estou dizendo detecção a nível de 1/2%.

Deborah e Calvin se mostraram devidamente impressionados.

Isso mesmo — disse Kerem, como se alguém o tivesse contradito. Apontou para os vários componentes, explicando nomes e funções, aparentemente supondo que Deborah soubesse muito bem do que ele estava falando.

Uma fonte íons — ele disse, indicando o conteúdo de uma das áreas encapsuladas. — Aquilo — ele disse, apontando para cada seção do aparato — é o ima de injeção, aí temos o acelerador pelletron também, o ima de análise, copos de Faraday, analisador de eletrostática, e o detector de partículas Carbono 14. Se tiver menos de 60 mil anos, nós pegamos.

Certo — disse Deborah. — Excelente.

Kerem esticou a mão para o tubo de ensaio contendo o fragmento de madeira.

Pode deixar isso comigo — ele disse. — Cuide da burocracia na recepção e eu entrarei em contato assim que os testes forem feitos. Vai custar 400 dólares.

Quanto tempo até que eu tenha os resultados?

De dois a três meses — ele disse. — É urgente?

O desapontamento tomou conta da expressão de Deborah.

—        Mais ou menos — ela disse. Duas semanas?

Ela pensou rápido.

E os outros resultados, quando ficam prontos? — ela perguntou.

Outros resultados?

—        Sim — ela disse, olhando para Calvin. — Há pouco mais de uma semana, nosso museu mandou algumas amostras. Restos mortais e alguns fragmentos de cerâmica. Foram trazidos por uns homens gregos. Talvez pudéssemos pegar os dois resultados no mesmo dia.

Ela prendeu a respiração. O técnico franziu o cenho e virou as páginas em sua prancheta.

Não vejo nenhuma outra amostra de sua instituição em pendência — ele disse.

Pode ser que tenha dado entrada com o nome de Dixon — insistiu ela. — Richard Dixon. Ele é o diretor do museu e o responsável pelas despesas maiores.

Outra pausa. Deborah mordeu o lábio.

Dixon ele disse. Sim, aqui está. Pagaram uma taxa extra para apressar o processo e os resultados estarão prontos amanhã à tarde. Mas o telefone de contato é diferente. Teremos de enviar por correio.

Tudo bem disse Deborah, seu coração aos pulos. Talvez possamos passar por aqui amanhã, antes de enviá-los. O sr. Dixon está realmente ansioso para ficar sabendo de tudo assim que os resultados ficarem prontos. Temos de tomar uma decisão importante sobre um expositor.

—        Tudo bem disse Kerem. A senhorita está hospedada na cidade?

—Vou daqui para o hotel disse Deborah, evitando olhar para Calvin.

 

 

                           CAPÍTULO 56

 

Eles pediram dois quartos. Apesar disso, Deborah achava que a chance de que acabassem usando apenas um eram bastante grandes. O pensamento deixou-a nervosa e desastrada. Não tinha certeza do que ele estava pensando e supôs que ele também deveria estar imaginando a mesma coisa sobre ela. Suas inseguranças que eram sempre a voz mais alta em situações como esta aumentavam sua ansiedade.

Situações como esta.

Aquilo era uma piada. Parecia até que acontecia toda semana. Na verdade, havia sido... já fazia muito tempo para ser capaz de lembrar. Ela espantou aquele pensamento e ficou observando-o comer enquanto comia.

Deborah teria ficado feliz com um sanduíche e uma cerveja, que Atenas, sendo uma cidade de estudantes, tinha um bom estoque. Talvez, ela pensou, pudessem pegar uma balada local com som no estilo do REM e do B-52s. Entretanto, apesar de não saber exatamente quais, Calvin tinha outros planos que pareciam estar direcionados a dar um requinte maior à noite.

Ele reservara uma mesa no que deveria ser o bistrô mais caro e elegante da cidade, onde poderiam ter certeza de não encontrar nenhum estudante. Pediram carneiro e ele declarou ser um ótimo bordo, dando-se ares de entendido no assunto. Deborah resistiu ao impulso de pedir uma cerveja apenas para impor seu ponto de vista em parte porque, no momento, não tinha tanta certeza de seu ponto de vista e, em parte, porque se divertia ao vê-lo dando um toque de classe ao encontro deles. Apesar disso tudo, a formalidade imposta pelo bistrô fez que Deborah se sentisse desconfortável. O lugar, que mais parecia um templo do que um restaurante, era surpreendentemente silencioso e tornava qualquer comentário carregado de significados. Incapaz de pensar em alguma coisa que tivesse significação especial, ela optou por abdicar do controle e deixar que ele falasse.

Ele lhe contou sobre seu trabalho, enfatizando o tédio geral em vez dos detalhes o que a fez sentir-se aliviada e sobre sua paixão pela pesca com iscas artificiais, igualmente dispensando os detalhes.

—        É apenas uma questão de estratégia — ele disse. — Escolher a melhor isca e condições para cada peixe. Ou, melhor ainda, confeccionar suas próprias iscas, sempre inventando novas, aprendendo a enganar os peixes.

Ela sorriu.

—        Sei que pode parecer fácil para um homem com meu salário — ele disse —, mas pode acreditar: enganar uma truta marrom num rio de corredeiras... é melhor do que qualquer negócio ou contrato que possa surgir, independentemente da grana.

Deborah gostou de ouvir aquilo.

Então você é um estrategista — ela disse.

Eu gosto de buscar excelência — ele disse, assentindo com a cabeça e sorrindo de modo a fazer com que o conteúdo da conversa se tornasse totalmente irrelevante. — Gosto de caçadas sobre as quais se tenha de pensar, planejar.

Uma caçada aos peixes? — ela perguntou.

O que mais, além disso? — perguntou ele, sorrindo. Ela riu e ficou um momento a analisá-lo.

Você me lembra um pouco Richard — ela disse.

Ele franziu a testa, sem saber se o comentário era um elogio.

—        Como assim?

—        Acho que é só uma sensação — ela disse, corando um pouco, desejando ter ficado de boca fechada.

—        Continue.

—        Bem, vocês dois têm um tipo de esperteza brincalhona — ela disse, procurando as palavras adequadas. — Quer dizer, um tipo de inteligência que pode ser um pouco desconcertante.

—        Para você? — Ele riu. — De maneira alguma.

—        Não quero dizer que seja exatamente intimidadora — disse ela. — Trata-se de um tipo de consideração, talvez até premeditação, que mantém as pessoas à distância, como se vocês estivessem o tempo todo analisando; como se as pessoas fossem pequenos peixes e vocês estivessem cuidado­samente lançando suas iscas, ou seja lá o que fazem.

Amarrando — ele riu.

Que seja.

—        Não sei quanto a mim — ele disse —, mas entendo o que você quis dizer sobre Richard. Algumas vezes, quando ele olhava para você, era como se soubesse de todos os seus segredos.

—        E você tem muitos segredos?

—        Nenhum — ele disse, afastando o momento pensativo com um sorriso.

Não acredito — ela disse.

De qualquer maneira — ele disse, voltando à conversa ante­rior —, não sei se gosto dessa versão que me coloca como astuto e tolerante, por mais inteligente que eu possa parecer. Não me parece muito saudável.

Ah, eu não sei — ela fez um meneio de ombros e olhou para longe, como se aquilo não importasse. — Tem certo fascínio.

Ela pegou a taça de vinho e, com os olhos baixos, deu um longo gole.

Quando voltaram ao hotel, ficou claro que ainda não sabiam como terminaria a noite. Haviam flertado um pouco, sempre escapando para a defesa assim que alguma coisa mais profunda ou física se tornava visível no horizonte. Deborah disse a si mesma que tinha tido o suficiente, que, por não ter prática, era melhor avançar devagar e que não conhecia bem o cara. Mas quando, no corredor em frente da porta do quarto dela, ele inclinou-se para beijá-la, ela entregou-se inteiramente ao momento.

Depois de entrarem no quarto, beijaram-se um pouco mais, primeiro docemente e com cautela; depois, com mais desejo. Mesmo assim, quando as mãos dele buscaram os botões de sua saia, ela sentiu, quase contra sua vontade, seu corpo enrijecer. Ele parou e olhou para ela. Deborah corou, insegura do que dizer ou fazer, desejando que os olhos dele não estivessem grudados nos dela. O olhar silencioso de Calvin deixou-a ainda mais desconfortável, fazendo com que desviasse o olhar, enlouquecida pela sensação dos olhos dele sobre ela, até que ele esticasse a mão e apagasse a luz do quarto.

As cortinas pesadas bloqueavam qualquer réstia de luz. Seu coração deu um salto na escuridão, como se ela estivesse de volta à passagem micênica, penetrando na antiga cisterna. Ele continuou a beijá-la e, lenta e cautelosamente, buscou permissão com as mãos, começando a mover-se sobre ela, que, protegida pela liberdade da escuridão, sentia-se como se tivesse soltado de si uma velha casca. Era como estar bêbada ou de férias, sem lenço e sem documento. Ela puxou-o para perto, controlando uma vontade inesperada e assustadora de chorar.

 

 

                                     CAPÍTULO 57

 

Quando Deborah acordou, Calvin estava ocupado, procurando um lugar para tomarem café da manhã. Por alguns minutos, ela simplesmente ficou ali, consigo mesma, preocupando-se de maneira mais ou menos específica sobre como seria seu dia. Tomou uma ducha, vestiu-se e, enquanto olhava para o nada através do jornal, ele voltou.

Tomaram café da manhã com omeletes e waffles num pequeno restaurante. As omeletes estavam excelentes, os waffles, suspeitosamente frios no meio, eram, sem dúvida, industrializados. Comeram apressada­mente e falaram pouco, como se estivessem com pressa. Na verdade, ainda tinham algumas horas antes que os resultados ficassem prontos, mas não podiam ficar no hotel, neste ou em qualquer outro restaurante. Em cinco minutos, Deborah olhou três vezes para o relógio. Acabaram concordando em esperar no laboratório. Era melhor que ficassem sabendo assim que os funcionários estivessem prontos a dizer-lhes alguma coisa.

Deborah tinha a sensação de ter voltado à adolescência, esperando que os médicos que operavam seu pai saíssem do centro cirúrgico. Ficara seis horas na sala de espera, ao lado de um homem sonolento, incapaz de pregar os olhos e olhando tão atentamente o avançar do ponteiro de minu­tos que chegara a vê-lo mover-se. Várias vezes, as portas pelas quais o levaram se abriram, dando passagem a algum residente, tão apressado a caminho de casa que nem sequer percebia a presença dela.

Quando o médico finalmente apareceu, na fração de segundo antes que a porta se fechasse atrás dele, o coração dela deu um pulo, metabolizou-se em esperança pura e ela pulou sobre os pés. Ao finalmente colocar-se inteiramente de pé, já havia ficado sabendo da morte do pai pela expressão do rosto do médico. Então ficou ali, feito boba, inteiramente sozinha na sala excessivamente branca, enquanto ele tentava encontrar as melhores palavras e o vizinho sonolento voltava à consciência. Quando conseguiu acordar completamente, o vizinho, que no aspecto religioso era mais conservador do que sua família sempre fora, disse a Deborah para rasgar a roupa sobre o coração, em sinal de pesar. Ela obedeceu, desnorteada. Foi o último ato remotamente ortodoxo que cometeu. Na semana seguinte, ela comeu apenas dois camarões. Como sua família fora bastante cuidadosa em manter a alimentação kosher, não seria capaz de entender a atitude dela. Ela não se alimentara mais nos preceitos kosher desde que pedira a refeição no vôo de volta da Grécia, assim como nunca retornara ao judaísmo.

Na verdade, ela se arrependia daquele dia e dos camarões furtivos, sua versão própria, aos 13 anos, do desprezo pelo Deus que levara seu pai. Fora um gesto medíocre, que seu pai teria considerado ofensivo não pela violação da prática religiosa ortodoxa, mas por sua mesquinhez rancorosa.

Bem, pensou ela. Tudo isso faz parte do passado.

A não ser, é claro, que aquilo não fosse verdade. Não verdadeiramente. Ela se lembrara do fato ao esperar pelos resultados do teste, mas tinha certeza que dessa vez seria diferente. A morte de seu pai fora um final e o começo de uma fase nova e bastante difícil.

Certamente, pensou ela, os resultados do teste serão um final, não um começo, não um recomeço. O corpo era antigo ou não. Ponto final.

Durante uma hora e meia, eles esperaram na recepção antes que o dr. Kerem finalmente aparecesse.

Vocês são bastante ansiosos — ele disse, oferecendo um envelope endereçado do qual tirou um maço de folhas dobradas, com impressão de computador. — Estou pronto para colocar esses resultados no correio, mas imagino que, mesmo assim, queiram vê-los.

Claro — disse Deborah, fingindo uma calma tão ridícula que fez o doutor a olhar por cima das lentes dos óculos. É claro que queriam ver o relatório. Afinal de contas, tinham passado várias horas esperando.

Kerem entregou-lhe um maço de folhas para cada teste. Cada um consistia em um gráfico acompanhado por páginas de números e esquemas técnicos que se avolumavam. Pela narrativa do técnico, foi o que Deborah supôs.

O que temos aqui? — perguntou Calvin, passando a mão pelo primeiro maço.

As cerâmicas — disse Kerem. — As análises indicam, de maneira consistente, que pertencem ao século XVIII ou XIX. Não podemos precisar exatamente, porque se trata do período quando o uso disseminado de combustíveis fósseis pode alterar os resultados.

Tem certeza? — perguntou Deborah. — Não existe a possibilidade de serem antigos?

O que quer dizer com "antigos"?

Idade do Bronze — ela disse. — Vamos dizer, século XVII a.C.

—        De jeito nenhum — ele disse.

Deborah sentiu seu corpo afrouxar como se, de repente, o ar tivesse saído de um balão em suas entranhas. Mesmo não sendo uma surpresa, aquilo era deprimente. Richard morrera por aquelas falsificações sem valor e — o que era ainda pior — vivera por elas.

E os restos humanos? — perguntou Calvin.

Um caso diferente — disse Kerem.

Deborah demorou um segundo para perceber o que ele havia dito.

—        Diferente, como? — perguntou Calvin. Ele parecia concentrado, olhos brilhantes e incisivos.

O corpo não é do mesmo período das cerâmicas — disse Kerem.

É muito mais antigo? — perguntou Deborah, meio sem fôlego.

Ah — disse Kerem. — Não é mais antigo, mas sim mais recente.

O quê? — disse Deborah, espantada.

Mas não muito — disse Kerem. — Por volta dos anos 1950.

—        Tem certeza? — perguntou Calvin.

Kerem mostrou-se um pouco aborrecido.

—        A máquina MAS detecta a deterioração do radiocarbono — ele disse — calcula a idade com base no nível de deterioração do isótopo radioativo... naturalmente presente no material orgânico... e tem precisão para medir idades entre 50 e 60 mil anos. Qualquer coisa mais antiga do que isso não contém mais radiocarbono. Do outro lado do espectro, temos o fato de que extensas pesquisas nucleares realizadas nos anos 1950 aumentaram consideravelmente o nível de radiação nos materiais orgâni­cos. A diferença entre os materiais desse período e os anteriores e poste­riores a esses testes é marcante. Os restos humanos pertencem claramente ao período anterior aos testes atômicos, mas posteriores aos séculos XVIII, XIX. O corpo pertence ao século XX e é provável que a morte tenha ocorrido em meados de 1940.

Deborah sentiu sua mandíbula ceder. Anos 1940? Aquilo não fazia o menor sentido.

—        Posso dar uma olhada? — perguntou Calvin.

Ao receber o envelope de Kerem, Calvin olhou interrogativamente para as páginas de informações.

Deborah gostaria de perguntar a Kerem se ele tinha certeza, mas sabia que sua pergunta seria inútil e ofensiva.

OK — ela disse, vagamente. — Certo. Bem, acho que vamos indo.

Os outros resultados ficarão prontos dentro de algumas semanas — disse Kerem. — Devo enviá-los ao museu pelo correio?

Outros resultados? — perguntou Deborah, ainda se sentindo lenta e entorpecida, como se estivesse bêbada.

Seu galeão espanhol — ele disse.

Claro — ela disse. — Sim. Por favor, mande para o museu.

Ele agradeceu, pegou o envelope das mãos de Calvin e deixou-os no saguão vazio e pálido, que agora se parecia ainda mais com uma sala de espera de hospital.

Você está bem? — perguntou Calvin.

Sim — ela mentiu. — Vou ligar para Cerniga.

Não havia escolha. A brincadeira de detetive havia acabado.

—        Tudo bem — disse Calvin, examinando-a com o olhar. — Uma atitude inteligente. Enquanto você liga para ele, vou até o banheiro. Depois, pegamos nossas coisas e botamos o pé na estrada.

Era quase uma pergunta, como se essa recente sensação de conclusão pudesse lhe sugerir passarem alguns dias juntos nas montanhas. Alguma coisa do tipo. Ela mal ouviu o que ele dizia, indicando que concordava num assentir com a cabeça enquanto procurava seu celular.

Então não era Agamenon. Ela nunca acreditara em nada diferente, pelo menos não ultimamente, mas essa estranheza era nova e alarmante. Não se tratava de um corpo desenterrado depois de passar séculos debaixo da terra, nem de alguns ossos tirados de um cemitério qualquer no final do século XIX. Era um corpo mais recente e menos conectado a Schliemann, à suas escavações, a Micenas e à arqueologia em si. Sem dúvida, era recente o bastante para que uma nova pergunta tomasse conta dos pensamentos de Deborah enquanto, trêmula, discava o número de Cerniga. Ela pensara mais na busca pelas peças perdidas da coleção de Richard em termos de como, o que e por quê. Agora, aquelas perguntas eram eclipsadas por outra: quem?

De quem era o corpo que estivera exposto atrás da estante de Richard?

E quem o matara?

 

 

                     CAPÍTULO 58

 

A gente Cerniga disse a voz na linha.

Sim, aqui é Deborah Miller ela disse. Estou em Atenas.

—        Você está onde?

—        Atenas, Geórgia disse ela. Acabei de descobrir uma coisa que você precisa saber.

—        Continue.

Ela continuou. Deu a entender que fora ao laboratório para descobrir a idade do galeão e que, por acidente, esbarrara nos resultados da caixa de Agamenon. Como Cerniga não dissesse nada, ela avançou, indo de um ponto a outro sem fazer nenhuma tentativa consciente de esconder o que quer que fosse. Mesmo assim, não mencionou que Calvin estava com ela, ou pensou no assunto, até que ele, com ar solene e sorrindo para ela, emergisse no saguão. Ela virou-se para poder concentrar-se no relato que fazia a Cerniga.

—        Qual é o telefone do Laboratório CAIS? perguntou Cerniga, depois de ouvi-la descrever os resultados do teste.

Deborah deu uma olhada no recibo do teste do galeão e passou-lhe o número.

É provável que eles não forneçam nenhuma informação além dessas acrescentou ela.

Eu não quero mais detalhes ele disse. Quero informações sobre as pessoas que levaram as amostras para serem testadas. No momento, encontrá-las é mais importante do que os resultados. Volte a Atlanta e mantenha seu celular ligado.

É claro que era mais importante, pensou ela ao desligar. Como não pensara nisso? Não se tratava de um antigo mistério arqueológico e sim da morte de seu amigo mais querido. Eles estavam procurando um assassino, não um corpo, e o fato de ter, de alguma maneira, se esquecido disso fez se sentir ferida, humilhada e culpada.


Deborah dirigiu com o pé fundo no acelerador, tentando entender o que havia descoberto até agora. Os novos acontecimentos a deixaram envolvida com seus pensamentos e, apesar de não ter se arrependido do que vivera com Calvin na noite anterior, uma parte dela gostaria que ele tivesse vindo em seu próprio carro. Ela não queria conversar. Não queria mostrar-se bem-humorada ou carinhosa. Queria pensar e não estava acostumada a falar até que soubesse o que dizer. Normalmente, os silêncios entre eles podia ser medido em frações de segundo, mas, agora, ela se sentia confusa, insegura e meio amedrontada. E não queria falar ou deixar que essas emoções tomassem vida.

Alguma coisa errada? perguntou Calvin. Ela balançou a cabeça e forçou-se a responder.

Nada. Estou concentrada, pensando.

Na estrada ou nos resultados?

Começara a chover. Ela ligou o limpador de pára-brisa e abaixou um pouco o encosto do banco.

—        Ambos ela disse, sem sorrir ou tirar os olhos da estrada. Com aquela palavra, pretendia encerrar a conversa.

—        O que você acha desse corpo? perguntou Calvin.

Ela percebeu que ele não se importava tanto com o corpo quanto com o restabelecimento do diálogo entre eles, mas não conseguiu continuar o jogo. Deu um meneio de ombros.

Nenhuma idéia? — ele insistiu.

Na verdade, não.

Ele virou-se para o lado e olhou pela janela salpicada de gotas de chuva.

Tem certeza de que está tudo bem? perguntou ele. — Conosco, quero dizer.

Está tudo bem, Calvin ela disse, com voz irritada. Cale a boca e me deixe em paz. Estou apenas tentando me concentrar.

 

Na verdade, os pensamentos dela estavam ligados a três coisas: à idade do corpo, ao fato de crimes de racismo fazerem parte da jurisdição do FBI e à morte, durante a Segunda Guerra Mundial, de um comandante de tanques negro que nunca vira sua filha. Mas se quem matou Richard e tentou matá-la na Grécia soubesse que o corpo do caixote não era o de Agamenon, mas o do pai de Tonya, o esquecido comandante Shermann executado por sua curiosidade por um policial racista 50 anos há, porque estaria tão ansioso tão mortalmente ansioso para botar as mãos nele?

 

O toque do seu celular tirou-a de suas ponderações. Ainda "La Cucaracha". A brincadeira de Richard. Há mais de uma hora viajavam em silêncio e agora se dirigiam para a parte sul da cidade, saindo das colinas cobertas de florestas que circundavam a Red Top Mountain, onde as águas do Lago Allatoona brilhavam, escuras, por entre as árvores encharcadas pela chuva.

Por favor, me passe o celular — disse Deborah, inclinando-se na direção de Calvin, quando o celular escorregou de suas mãos e caiu no chão aos pés dele.

Quer dizer que você não perdeu a língua? — ele comentou. Foi uma brincadeira bastante sem graça.

É que... obrigada — ela disse, tirando bruscamente o telefone das mãos dele. — Alô?

Sou eu, Cerniga. — disse o agente do FBI. — Onde você está?

Estou à meia hora do perímetro norte. Talvez menos. Por quê?

Vou lhe dar o endereço de onde deve ir — ele disse. — Quero que chegue aqui o mais rápido possível. Não vá a lugar nenhum antes.

  1. Pode falar.

Você precisa estacionar para anotar?

Pode deixar que eu me lembro — ela disse, prendendo o celular entre o ombro e a cabeça enquanto, impaciente, usava a mão livre para indicar a Calvin que queria que anotasse.

O quê? — ele perguntou.

Uma caneta — ela cochichou, afastando a boca do bocal.

Está bem — disse Cerniga. — Greencove Street, 136. Fica a uns 20 minutos ao sul do aeroporto. Saia da I-85 na saída para Palmetto, pegue a rampa à esquerda e ande seis quilômetros até Haysbridge Road. Vire à esquerda e depois à direita, na Greencove. É o primeiro prédio à esquerda. Mesmo sendo bem afastado da rua, você vai poder vê-lo. Parece abandonado.

Deborah repetiu a informação para Calvin, que anotou rapidamente e com expressão de censura por ter sido reduzido à condição de estenógrafo.

Que lugar é esse? — ela perguntou. — E por que quer que eu vá até lá?

É o lugar onde os gregos ficaram entocados — disse Cerniga, com voz decidida. — E onde estavam guardando o caixote.

Como você os encontrou? — perguntou Deborah, subitamente entusiasmada.

Ligamos para o laboratório. Eles nos passaram a informação.

Certo — disse Deborah. — Claro. Isso é ótimo.

Nem tanto — disse Cerniga. — Alguém chegou antes de nós.

E... — Deborah teve dificuldade para encontrar as palavras. — Está tudo bem?

— Venha até aqui — ele disse, desligando.

 

 

                         CAPÍTULO 59

 

Vou deixar você antes de ir para lá. ela disse a Calvin, sem desviar V o olhar da estrada. Onde é melhor para você?

Ela sentiu que Calvin se virara para ela, mas ele passou algum tempo sem dizer nada.

—        Calvin? ela disse.

Eu fiz alguma coisa errada? ele perguntou. — Você se arrependeu da noite passada?

Não ela disse, incerta de estar falando a verdade. Só acho melhor não chegarmos lá juntos.

Por que não?

Bom, eles não pediram que você fosse.

—        Legal chicoteou ele. Sabe de uma coisa, Deborah? Tudo bem. Mais tarde preciso passar pelo museu, mas você pode me deixar em meu escritório.