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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MÉDIUN DE SOUTHAMPTON / Anne Perry
A MÉDIUN DE SOUTHAMPTON / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Londres, Junho de 1892. Logo haverá eleições. O clima está quente. No Parlamento e nas ruas se discute sobre a autonomia da Irlanda. A redução da jornada trabalhista para oito horas, o custo e a preservação do Império, o direito ao voto das mulheres. As liberais acreditam que poderão acessar o poder; os conservadores acreditam que devem jogar todas suas armas para não perdê-lo. E uma de suas principais cartas é Charles Voisey, o acérrimo inimigo do superintendente Thomas Pitt.

Voisey vai apresentar-se a uma cadeira em um distrito eleitoral conflituoso. Pitt, que, apesar da resolução do complô do Whitechapel, tornou a ser destinado à Brigada Especial, recebe a ordem de vigiar todos seus passos. Entretanto, quando a médium consultada por toda a alta sociedade vitoriana aparece morta em sua casa em circunstâncias suspeitas, Pitt é afastado de suas atuais obrigações para indagar sobre este estranho crime.

Porém, ignora que ambos os casos podem estar mais relacionados do que previsto.

 

 

 

 

— Sinto muito – murmurou o subcomissário Cornwallis; seu rosto era uma máscara de culpa e infelicidade –. Tenho feito tudo o que posso. Aleguei todas as razões, morais e legais. Mas não posso lutar contra o Círculo Interior.

Pitt estava perplexo. Achava-se em pé no meio do escritório, enquanto a luz do sol se derramava sobre o chão, e se ouvia o ruído dos cascos dos cavalos, as rodas sobre os paralelepípedos e os gritos dos cocheiros que chegavam da rua, mal amortecidos pelas janelas. Os navios de recreio iram e vinham pelo Tâmisa naquele quente dia de junho. Depois do complô de Whitechapel o tinham restituído a seu cargo de superintendente da delegacia de polícia de Bow Street. A rainha Vitória tinha lhe agradecido pessoalmente por seu valor e sua lealdade. E dois dias depois, antes que houvesse tornado a ocupar sequer seu cargo, Cornwallis o despedia de novo!

— Não podem fazê-lo – protestou–. Sua Majestade em pessoa... Os olhos de Cornwallis não piscaram, mas se encheram de tristeza.

— Sim podem. Têm mais poder do que você e eu jamais saberemos. A rainha ouvirá o que eles queiram que ouça. Se formos a ela, acredite, deixarão você sem nada, inclusive sem a Brigada Especial. Narraway se alegrará de voltar a contar com você. – Parecia que o tivessem arrancado à força essas palavras, que soavam ásperas em sua garganta–. Aceite, Pitt, pelo seu bem e o de sua família. É o melhor que pode fazer. Você é bom em seu trabalho. Ninguém poderá lhe agradecer suficientemente o que fez por seu país ao derrotar Voisey em Whitechapel.

— Derrotá-lo! – exclamou Pitt com amargura– . A rainha lhe concedeu o título de Sir, e o Círculo Interior continua tendo suficiente poder para decidir quem deve ser superintendente de Bow Street e quem não pode!

Cornwallis torceu o gesto; os ossos de seu rosto se marcaram sob a pele firme.

— Sei. Mas se você não o tivesse derrotado, a Inglaterra seria agora uma república imersa no caos, talvez até tivesse explodido uma guerra civil, e Voisey seria seu primeiro presidente. Isso é o que queriam. Você o derrotou, Pitt, não duvide nunca... nem tampouco esqueça. Ele não esquecerá.

Os ombros do Pitt desabaram. Sentia-se abatido e cansado. Como ia dizer isso à Charlotte? Ficaria furiosa e se sentiria indignada ante a injustiça que tinham cometido contra ele. Quereria lutar, mas não havia nada que fazer. Ele sabia; só discutia com o Cornwallis porque ainda estava em choque, a cólera ante toda aquela injustiça. Tinha acreditado que ao menos seu cargo estaria a salvo depois que a rainha tivesse reconhecido seu valor.

— Correspondem-lhe umas férias – disse Cornwallis–. Tome-as... sinto ter tido que dizer-lhe antes.

Pitt não sabia o que dizer. Não se sentia com ânimo de mostrar-se cortês.

— Vá a algum lugar bonito, fora de Londres – continuou Cornwallis–. Ao campo... ou ao mar.

— Sim... Suponho que o farei. – Seria mais fácil para Charlotte, para as crianças. Ela continuaria doída, mas ao menos poderiam passar um tempo juntos. Tinham transcorrido anos desde a última vez que tiveram uns poucos dias livres, e tinham se dedicado a passear por bosques ou campos, em fazer piquenique e em contemplar o céu.

Charlotte se sentiu horrorizada, mas depois da primeira explosão dissimulou, em boa parte, possivelmente, pelas crianças. Jemima, de dez anos e meio, percebia logo qualquer emoção, e Daniel, dois anos menor, não ficava atrás. Charlotte se concentrou na oportunidade de tirar umas férias e começou a planejar quando deveriam partir e a calcular quanto dinheiro poderiam se permitir gastar.

Ao cabo de uns dias, tudo estava arrumado. Levariam com eles o filho de sua irmã Emily; tinha a mesma idade que Daniel e adorava escapar da formalidade das salas-de-aula e responsabilidades que estava aprendendo como herdeiro de seu pai. O primeiro marido de Emily tinha sido lorde Ashworth, e a sua morte tinha deixado o título e a maior parte da herança a seu único filho, Edward.

Alojar-se-iam em uma casa de campo no pequeno povoado de Harford, perto do Dartmoor, durante duas semanas e meia. Quando retornassem, as eleições gerais teriam terminado e Pitt poderia voltar para apresentar-se a Narraway na Brigada Especial, o novo corpo criado, em boa parte para combater os terroristas fenianos, assim como a conflituosa questão do autogoverno irlandês pela qual Gladstone voltava a lutar, com tão poucas esperanças de êxito, como sempre.

— Não sei quanta roupa levar para as crianças – perguntou Charlotte–. Eu gostaria de saber se vão se sujar muito...

Ela e Pitt estavam no quarto acabando de fazer as malas, antes de tomar o trem do meio-dia para o sudoeste.

— Espero que sim – respondeu Pitt sorrindo–. Não é saudável que os pirralhos não se sujem... ao menos uma criança.

— Então me ajudará com a lavagem! – replicou ela imediatamente–. Ensinarei você a utilizar a prancha de ferro. Verá que fácil... Só pesa uma tonelada e é aborrecido até não poder mais.

Ele estava a ponto de responder quando a criada, Gracie, falou da porta.

— Veio um cocheiro com um recado para você, senhor Pitt – disse–. Deu-me isto. – Estendeu-lhe uma folha de papel dobrada.

Ele pegou e a desdobrou.

"Pitt, preciso vê-lo imediatamente. Venha com o portador desta mensagem. Narraway."

— O que é? – perguntou Charlotte, cuja voz adquiriu um tom áspero ao observar como mudava a expressão de Pitt –. O que aconteceu?

— Não sei – respondeu ele–. Narraway quer ver-me, mas não pode ser nada sério. Não tenho que começar a trabalhar com a Brigada Especial até dentro de três semanas.

Ela sabia, é claro, quem era Narraway, embora não o conhecesse pessoalmente. Desde o dia que se tropeçou com Pitt fazia onze anos, em 1881, ela tinha tomado parte ativa em cada um dos casos que tinha despertado sua curiosidade ou provocado sua indignação, ou nos que uma pessoa que lhe importava se viu envolvida. De fato, era ela quem tinha travado amizade com a viúva da vítima do John Adinett na conspiração do Whitechapel, e quem acabou averiguando a razão de sua morte. Tinha uma idéia mais aproximada de quem era Narraway que qualquer outra pessoa que não pertencesse à Brigada Especial.

— Bom, pois, mais vale que lhe diga que não o atrapalhe – disse zangada–. Está de férias e tem que pegar um trem ao meio dia. Tomara o tivesse chamado amanhã, quando já nos tivéssemos ido!

— Não acredito que seja importante – disse Pitt com tom despreocupado. Sorriu, mas seus lábios se curvaram ligeiramente para baixo–. Ultimamente não houve bombas, e com as eleições à volta da esquina, certamente não haverá por um tempo.

— Então por que não pode esperar que volte? – perguntou ela.

— Provavelmente pode esperar. – Deu de ombros, compungido–. Mas não posso me permitir desobedecer. – Era um duro aviso de sua nova situação.

Pitt estava sob as ordens diretas de Narraway, e além dele, não tinha ninguém a quem recorrer; não contava com informação nem com uma audiência pública a que apelar, como tinha ocorrido quando era dapolícia. Se Narraway o rechaçasse, não tinha aonde ir.

— Sim... – Charlotte baixou o olhar– . Sei. Só lhe recorde do trem. Não há nenhum que saia mais tarde e chegue ali esta noite.

— Farei isso. – Beijou-a na face e, depois de virar-se, saiu pela porta e desceu as escadas até a rua, onde a carruagem o esperava.

— Preparado, senhor? – perguntou o cocheiro da cabine.

— Sim – assentiu Pitt.

Levantou o olhar para ele, depois subiu na carruagem e se sentou enquanto esta se punha em movimento. O que podia querer dele Victor Narraway que não pudesse esperar que retornasse ao cabo de três semanas? Limitava-se a exercer seu poder para voltar a deixar claro que era ele quem mandava? Dificilmente podia necessitar da sua opinião: continuava sendo um novato na Brigada Especial. Não sabia quase nada dos fenianos, e carecia de conhecimentos sobre dinamite ou outra classe de explosivos. Sabia muito pouco sobre as conspirações em curso e, com franqueza, tampouco queria saber mais sobre o tema. Ele era um detetive, um policial. Dava-se bem em resolver crimes, desentranhar os detalhes e as paixões de assassinos individuais, não as maquinações de espiões, anarquistas e revolucionários políticos.

Tinha tido um grande êxito em Whitechapel, mas isso terminara. Tudo o que a Brigada Especial tinha podido chegar a saber alguma vez tinha sido silenciado e permanecia oculto nos corpos que tinham sido decorosamente enterrados para encobrir as terríveis desgraças que lhes tinham acontecido. Charles Voisey continuava vivo, e não podiam provar nada contra ele. Mas de algum modo se fizera justiça. Tinham maquinado para que parecesse que ele, o herói secreto do movimento para derrocar o trono, tinha arriscado a vida para salvá-lo. Pitt sorriu e lhe fez um nó na garganta ao recordar com dor, como tinha permanecido em pé ao lado de Charlotte e Vespasia em Palácio de Buckingham , enquanto a rainha concedia o título de Sir ao Voisey pelos serviços prestados à Coroa. Voisey tinha abandonado sua prostração e se levantara muito indignado para falar, e Vitória, acreditando-o perturbado, tinha-lhe sorrido com indulgência. O príncipe de Gales o tinha elogiado, e Voisey tinha dado meia volta e tinha passado de novo diante de Pitt com os olhos acesos pelo ódio. Inclusive agora Pitt sentia um frio nó no estômago ao recordá-lo.

Sim, Dartmoor seria o lugar perfeito: amplos céus limpos e varridos pelo vento, o aroma de terra e a erva dos caminhos sem pavimentar... Passeariam e falariam, ou simplesmente passeariam! Faria voar cometas com Daniel e Edward, subiriam às rochas e agarrariam conchas, e observariam os pássaros e os animais. Charlotte e Jemima poderiam fazer o que quisessem: ir visitar pessoas, fazer novas amizades, contemplar os jardins ou pegar flores silvestres.

A carruagem se deteve.

— Já chegamos, senhor – disse o cocheiro– . Entre diretamente. O senhor o espera.

— Obrigado. – Pitt se desceu e cruzou a calçada até os degraus que levavam a uma porta simples de madeira. Não era o aposento em que se reunira com Narraway no Whitechapel. Acaso mudava de base segundo suas necessidades? Abriu a porta sem bater e entrou. Achou-se em um corredor que conduzia a uma agradável saleta com janelas que olhavam a um pequeno jardim, em sua maior parte abarrotado de roseiras as quais fazia muita falta uma poda.

Victor Narraway estava sentado em uma das duas poltronas e ergueu a vista para o Pitt sem levantar-se. Era um homem esbelto e de estatura mediana que se vestia com esmero, mas seu aspecto chamava a atenção devido à inteligência que transparecia em seu rosto. Até em repouso irradiava energia, como se sua mente nunca descansasse.Tinha o cabelo negro, robusto e abundante, e profusamente salpicado de cãs, uns olhos quase negros com as pálpebras cansadas, e um nariz largo e reto.

— Sente-se – ordenou, enquanto Pitt continuava em pé– . Não tenho intenção de elevar a vista para você. E você se cansará e começará a mover-se nervoso, o que fará que me zangue.

Pitt meteu as mãos nos bolsos.

— Não disponho de muito tempo. Vou a Dartmoor no trem do meio-dia.

Narraway arqueou suas grossas sobrancelhas.

— Com sua família?

— Sim, é claro.

— Sinto muito.

— Não tem por que sentir! – replicou Pitt– . Vou passar muito bem. E depois de Whitechapel, mereço isso.

— É certo – reconheceu Narraway em voz baixa– . De qualquer modo, não vai.

— É claro que vou. – Fazia apenas uns meses que se conheciam e tinham trabalhado juntos em um caso, embora não cotovelo com cotovelo. O trato que ambos se proporcionavam era muito diferente da longa relação que tinha com Cornwallis, por quem sentia um profundo afeto e em quem tinha confiança mais do que qualquer outra pessoa poderia imaginar. Continuava sem saber o que pensar do Narraway e, certamente, não confiava nele, apesar de seu comportamento no Whitechapel. Achava que servia ao país e era um homem de honra segundo seu próprio código ético, mas Pitt ainda não sabia qual era esse código, e entre eles não existia nenhum vínculo que lhe movesse a confiar em sua amizade.

Narraway suspirou.

— Sente-se, por favor, Pitt. Supunha que me ia pôr em uma situação incômoda a nível moral, mas não físico. Desagrada-me ter que alongar o pescoço para olhá-lo.

— Hoje vou a Dartmoor – repetiu Pitt.

— Estamos em dezoito de junho. O Parlamento suspenderá suas sessões em vinte e oito. – Narraway falava cansativamente, como se se tratasse de algo triste e indescritivelmente exaustivo– . Haverá eleições gerais imediatamente. Imagino que por volta de quatro ou cinco de julho teremos os primeiros resultados.

— Então perderei meu direito ao voto – replicou Pitt– , porque não estarei aqui. Embora duvide que isso mude algo.

Narraway o olhou com fixidez.

— Tão corrupto é seu distrito eleitoral?

Pitt parecia ligeiramente surpreso.

— Não acredito. Mas faz anos que é liberal e, segundo a opinião geral, Gladstone sairá eleito, embora por uma estreita margem. Não me terá chamado três semanas antes para que me incorpore para me dizer isso!

— Não exatamente.

— Nem sequer aproximadamente!

— Sente-se! – ordenou Narraway com raiva contida, fazendo que sua voz caísse como um golpe.

Pitt se sentou por efeito da surpresa mais que da obediência.

— Dirigiu muito bem o assunto de Whitechapel – disse Narraway com voz baixa e serena, recostando-se de novo e cruzando as pernas– . Tem coragem, imaginação e iniciativa. Até tem moral. Derrotou ao Círculo Interior ante os tribunais, embora seja possível que tivesse pensado duas vezes se tivesse sabido contra quem lutava. É um bom detetive, o melhor que tenho. Que Deus me livre! – continuou – . A maioria de meus homens estão mais acostumados a tratar com explosivos e atentados. Fez bem ao derrotar Voisey, mas ao dar a volta ao assassinato e fazer com que lhe concedessem o título de Sir por ter salvado o trono foi genial. A perfeita vingança. Alguns de seus amigos republicanos o consideram agora um arqui-traidor da causa. – Esboçou um sorriso– . Esse homem ia ser seu futuro presidente, e agora há quem não lhe permitiria nem colar selos.

Aquele deveria ter sido o elogio maior possível, e entretanto, ao observar o olhar fixo e sombrio do Narraway, Pitt só foi consciente do perigo.

— Jamais o perdoará – observou Narraway com tanta tranqüilidade como se só tivesse comentado a hora que era.

Fez-se um nó na garganta de Pitt, de modo que sua resposta soou áspera.

— Sei. Nunca achei que o faria. Mas você também me disse ao final do caso que sua vingança não se limitaria a algo tão simples como a violência física.— Tinha as mãos rígidas e o corpo frio, mas não estava preocupado por ele, mas sim por Charlotte e as crianças.

— E não o fará – disse Narraway com delicadeza. Por um instante seu rosto se suavizou– . Mas sua genialidade é tal que utilizou sua brilhante ideia para seu próprio proveito.

Pitt clareou a garganta.

— Não sei o que quer dizer.

— É um herói! A rainha lhe concedeu o título de sir por salvar o trono – disse Narraway, descruzando as pernas e inclinando-se para diante, com uma repentina amargura que lhe fez torcer o gesto. Vai apresentar-se às eleições para o Parlamento!

Pitt estava atônito.

— Como?

— Já me ouviu! Vai apresentar-se às eleições para o Parlamento, e se tiver vontade utilizará o Círculo Interior para alcançar rapidamente um alto cargo. Renunciou a seu posto no Tribunal de Apelação para dedicar-se à política. O próximo governo será conservador e não demorará a chegar. Gladstone não durará muito. Deixando de lado os oitenta e três anos que tem nas suas costas, a questão do auto-governo acabará com ele. – Não afastou o olhar do rosto de Pitt– . Logo veremos o Voisey renomado lorde chanceler, a máxima autoridade judicial do Império! Terá poder para corromper qualquer tribunal do país.

Era terrível, mas Pitt já via isso possível. Todos os argumentos sucumbiam em seus lábios antes de expressá-los alto.

Narraway relaxou um pouco, distendendo os músculos de maneira quase imperceptível.

— Apresenta-se para a cadeira de Lambeth sul.

Pitt pensou rapidamente na geografia de Londres.

— Não abrange também Camberwell e Brixton?

— Os dois. – Narraway sustentava o olhar – . E, com efeito, é uma cadeira liberal e ele é conservador. Mas isso não me tranqüiliza, e se o tranqüiliza, é porque que és um néscio!

— Não me tranqüiliza – disse Pitt com frieza– . Terá algum motivo. Terá alguém a quem subornar ou intimidar, algum lugar onde o Círculo Interior exerce um poder que ele possa utilizar. Quem é o candidato liberal?

Narraway assentiu muito devagar, sem deixar de olhar Pitt.

— Um homem novo, um tal Aubrey Serracold.

Pitt fez a pergunta mais óbvia.

— É do Círculo Interior e se retirará no último momento, ou perderá as eleições de algum outro modo?

— Não – respondeu Narraway com certeza, mas não explicou como sabia. Contava com fontes dentro do Círculo, não tinha as revelado nem a seus próprios homens. Pitt não esperava menos dele – . Se soubesse quais são suas intenções, não necessitaria que ficasse em Londres para vigiar – continuou Narraway – . Despedir você de Bow Street talvez tenha sido um dos maiores equívocos do Círculo.

Era um aviso do poder do Círculo Interior e da injustiça cometida contra Pitt. Cintilaram-lhe os olhos dando a entender que sabia muito bem do que falava e não fez nada para ocultá-lo. Ambos sabiam que não era necessário.

— Mas eu não posso influir na votação! – exclamou Pitt com amargura. Já não era um argumento para defender suas férias e o tempo que tinha previsto passar com Charlotte e as crianças; tratava-se da impotência ante um problema insolúvel. Não sabia sequer por onde começar, e nem falemos em obter resultados.

— Não – concordou Narraway– . Se quisesse que se fizesse algo assim, conto com homens melhor preparados que você.

— E isso não faria mais que bem a Voisey – disse Pitt com frieza.

Narraway suspirou e adotou uma postura mais cômoda.

— Você é um ingênuo, Pitt, mas já sabia. Trabalho com as ferramentas que tenho e não pretendo serrar madeira com uma chave de fenda. Você se limitará a observar e escutar. Averiguará quais são as ferramentas de Voisey e como as utiliza. Averiguará os pontos fracos do Serracold e como podem explorar-se. E se contarmos com a sorte de que Voisey tem seus pontos fracos à vista, descobrirá quais são e me informará imediatamente. – Tomou ar e o expulsou muito devagar – . O que eu vou fazer com ele não é assunto seu. Quero que entenda bem, Pitt! Não vou permitir que exercite sua consciência a custa dos homens e mulheres deste país. Você só conhece uma parte de todo este assunto e não está em situação de fazer grandes julgamentos morais. – Em seus olhos e em sua boca não havia o menor traço de humor.

Pitt se conteve antes de soltar uma resposta displicente. O que Narraway lhe pedia parecia impossível. Tinha idéia do verdadeiro poder do Círculo Interior? Era uma sociedade secreta de homens que tinham jurado apoiar-se mutuamente por cima de todos os interesses ou lealdades. Organizavam-se em células; nenhum sabia a identidade de mais de um punhado de membros, mas obedeciam às exigências do Círculo. Não sabia de nenhum caso em que um membro tivesse traído a outro e denunciando ao mundo exterior. A justiça interna era imediata e mortal; era ainda mais letal porque ninguém sabia quem mais pertencia ao Círculo. Podia tratar-se de seu superior ou um empregado de escritório a quem mal prestava atenção. Podia tratar-se de seu médico, o diretor de seu banco ou até seu clérigo. Quão único sabia com segurança era que não se tratava de sua mulher. Nenhuma mulher era permitida tomar parte ou ter conhecimento dele.

— Sei que a cadeira é liberal – continuou Narraway – , mas o clima político está se tornando extremista neste momento. Os socialistas não só são buliçosos, mas sim, estão fazendo verdadeiros progressos em determinadas áreas.

— Disse que Voisey vai apresentar-se como candidato conservador – indicou Pitt– . Por quê?

— Porque haverá um contragolpe conservador – replicou Narraway – . Se os socialistas forem bastante longe e cometerem enganos, então os conservadores poderiam instalar-se no poder muito tempo, o suficiente para que Voisey se converta em lorde chanceler. Inclusive, algum dia, em primeiro-ministro.

A idéia era desagradável, e sem dúvida muito real para ser descartada. Rechaçá-la qualificando a de rocambolesca equivalia a entregar a Voisey a arma definitiva.

— Disse que o Parlamento suspenderá suas sessões dentro de dez dias ? – perguntou Pitt.

— É – assentiu Narraway – . Você começará nesta tarde. – Respirou fundo – . Sinto muito, Pitt.

— Como? – disse Charlotte com incredulidade. Estava ao pé das escadas olhando Pitt, que acabava de entrar pela porta da rua e tinha as faces acesas pelo esforço, e agora pela cólera.

— Tenho que ficar pelas eleições gerais – afirmou ele – . Voisey vai se apresentar!

Ela ficou olhando-o. Por um instante, todas as lembranças de Whitechapel foram a sua memória, e compreendeu o que ocorria. Logo os afastou de sua mente.

— E o que se supõe que tem que fazer? – perguntou – . Não pode impedir que se apresente, nem pode impedir que as pessoas votem nele se quiserem fazê-lo. É escandaloso, mas fomos nós quem o convertemos em herói porque era a única maneira de lhe parar. Os republicanos agora não lhe dirigem a palavra, e menos ainda,votar nele.Por que não deixa que eles ocupem-se dele? Estarão bastante furiosos para lhe dar um tiro! Não os detenha. Chegue muito tarde.

Ele tratou de sorrir.

— Por desgraça não posso confiar em que o façam com a suficiente eficiência para que nos seja útil. Só temos dez dias.

— Tem três semanas de férias! – Charlotte conteve umas lágrimas repentinas de decepção – . Não há direito! O que você pode fazer? Dizer a todo mundo que é um mentiroso e que esteve atrás do complô para derrocar o trono? – Sacudiu a cabeça – . Se nem sequer sabem que houve uma conspiração! Processaria-o por difamação ou, certamente, fá-lo-ia passar por louco. Asseguramo-nos de que todo mundo se inteirasse de que virtualmente, ele sozinho, tinha feito algo incrível pela rainha. Ela acredita que é maravilhoso. O príncipe de Gales e todos seus amigos lhe respaldarão. – Soprou com intensidade – . E ninguém poderá com eles, tendo ao Randolph Churchill e a lorde Salisbury entre suas filas.

Pitt se apoiou contra o poste da escada.

— Sei – admitiu – . Tomara pudesse dizer ao príncipe de Gales o perto que esteve Voisey de destruí-lo, mas agora não temos provas. – Acariciou-lhe a face – . Sinto muito. Sei que não posso fazer grande coisa, mas devo tentar.

Ela tinha os olhos cheios de lágrimas.

— Desfarei as malas mais tarde. Estou muito cansada para fazê-lo agora. Que demônios vou dizer a Daniel e à Jemima... e ao Edward? Esperavam as férias com tanta ilusão...

— Não as desfaça – interrompeu ele – . Vá você...

— Sozinha? – exclamou, gritando.

— Leve Gracie. Arrumarei-me. – Não queria lhe dizer que o estava pedindo acima de tudo por sua segurança. Nesse momento estava zangada e decepcionada, mas com o tempo compreenderia que seu marido ia voltar a desafiar Voisey.

— O que vai comer? Que roupa vai pôr? – protestou ela.

— A senhora Brady pode cozinhar para mim e lavar a roupa – respondeu ele – . Não se preocupe. Leve as crianças e aproveite. Tanto se Voisey ganhar como se perder, não haverá nada que eu possa fazer uma vez que anunciem os resultados. Reunir-me-ei com vocês então.

— Não terá tempo! – exclamou ela, zangada – . Os resultados demorarão semanas para sair.

— Vai apresentar-se para uma cadeira de Londres. Será um dos primeiros em anunciar-se.

— Poderiam demorar dias!

—Não tenho mais remédio, Charlotte!

Ela controlou com muita dificuldade sua voz.

— Sei! Não seja tão condenadamente razoável. Não se importa? Não fica furioso? – Agitou com violência a mão, com o punho fechado – . Não é direito! Têm muito mais pessoas. Primeiro o despedem de Bow Street e o fazem viver em umas miseráveis habitações do Spitalfields, logo salvas o governo e o trono e sabe Deus quem mais, recupera seu cargo... e voltam a despedí-lo! E agora que vai tirar suas únicas férias... – Respirava com dificuldade e lhe escapou um soluço– . E para que? Para nada! Odeio a Brigada Especial! Parece que não têm que responder ante ninguém! Fazem o que querem e ninguém os detém.

— Mais ou menos como Voisey e o Círculo Interior – replicou Pitt, tratando de sorrir.

— Exatamente igual a ele, que eu saiba. – Charlotte olhou-o no rosto, e apesar de seus esforços por ocultá-lo, ele conseguiu perceber o brilho de luz que havia em seus olhos– . Mas ninguém pode detê-lo.

— Eu o fiz uma vez.

— Fizemos! – corrigiu-lhe ela com brutalidade.

Desta vez ele sorriu.

— Agora não se trata de um assassinato ou algo que você possa resolver.

— Nem você! – replicou ela imediatamente – . Quer dizer que só se trata de política e eleições, e as mulheres nem sequer votam, e muito menos fazem campanha e se apresentam para o Parlamento.

— Você gostaria de fazê-lo? – perguntou ele surpreso. Preferia tratar qualquer tema, inclusive esse, antes que lhe confessar que temia por sua segurança uma vez que Voisey se inteirasse de que voltava a estar envolvido.

— Certamente que não! – replicou ela– . Mas isso não tem nada que ver!

— Um magnífico exemplo de lógica.

Ela voltou a segurar uma mecha solta com uma forquilha.

— Se estivesse em casa e passasse mais tempo com as crianças, compreendê-lo-ia perfeitamente.

— O que? – disse ele com total incredulidade.

— O fato de que eu não queira não significa que não deva ter direito a fazê-lo. Pergunte a qualquer homem!

Ele sacudiu a cabeça.

— Que pergunte o que?

— Se gostaria que eu ou qualquer outra pessoa decidisse se ele pode ou não fazê-lo – disse ela exasperada.

— Fazer o que?

— Algo! – exclamou ela com impaciência, como se fosse algo evidente – . Há um montão de pessoas que se dedica a ditar normas para que outro montão de pessoas viva de acordo com elas quando eles não as aceitariam para si mesmos. Pelo amor de Deus, Thomas! Não disse alguma vez às crianças que façam algo e elas lhe responderam: "Pois você não o faz"? Pode lhes dizer que são impertinentes e enviá-los à cama, mas sabe que está sendo injusto, e sabe que eles também sabem.

Pitt se ruborizou ao recordar um par de situações. Absteve-se de estabelecer uma analogia entre a atitude do público para as mulheres e a dos pais para os filhos. Não queria discutir com Charlotte. Sabia por que ela falava desse modo. Ele sentia a mesma raiva e decepção, e não havia melhor maneira de demonstrá-lo que se zangando.

— Tem razão! – disse ele de maneira terminante.

Charlotte abriu muito os olhos, surpreendida por um instante, e depois não pôde fazer menos que rir. Jogou os braços ao pescoço e ele a atraiu para si, lhe acariciando os ombros e delicadamente contornou seu pescoço, e a beijou.

Pitt foi à estação com Charlotte, Gracie e as crianças. Tratava-se de um lugar enorme com eco, lotado de pessoas que cruzavam rapidamente em todas as direções. Era a estação terminal da linha de Londres e sudoeste, e havia um grande estrondo produzido pelo chiar de vapor ao sair, o som metálico das portas ao abrir-se e fechar-se, os pés que caminhavam, corriam ou se arrastavam pela plataforma, as rodas dos carrinhos para a bagagem, os gritos de saudação e despedida, a emoção da aventura... O ar estava prenhe de começos e finais.

Daniel brincava de correr de um lado para outro, impaciente. Edward, loiro como Emily, tratou de recordar a dignidade que supunha ser lorde Asworth e o conseguiu durante cinco minutos, antes de pôr-se a correr pela plataforma para ver rugir o fogo à medida que um foguista jogava mais carvão em uma máquina enorme. O foguista levantou o olhar e sorriu ao menino antes de limpar a testa com a mão e voltar a começar.

— Meninos! – murmurou Jemima entre dentes, lançando um olhar à Charlotte.

Gracie, que não tinha crescido muito desde que tinha entrado de criada aos treze anos, levava roupa de viagem. Era a segunda vez que saía de Londres de férias, e conseguia parecer muito experimentada e tranqüila, exceto pelo brilho de seus olhos e a cor de suas faces, e o fato de que se aferrasse a sua bolsa de viagem como se se tratasse de um salva-vidas.

Pitt sabia que deviam partir, por sua segurança e porque queria estar livre de preocupações, e seguro de poder enfrentar Voisey sabendo que sua família estava onde ele não poderia encontrá-la. Mas continuava sentindo uma dolorosa tristeza quando chamou um moço e lhe deu instruções de levar as malas ao vagão, lhe dando três pennies pelo trabalho.

O moço inclinou a boina e amontoou as malas em seu carrinho. Ia assobiando enquanto se afastava empurrando-o, mas o som se perdeu no meio do estrondo de um chiar de vapor, o ruído do carvão ao deslizar das pás aos fornos, e o estridente apito do chefe de trem enquanto uma máquina se precipitava dando sacudidas para diante e começava a ganhar velocidade ao sair da estação.

Daniel e Edward apostaram corridas pela plataforma, procurando o compartimento mais vazio, e voltaram agitando os braços e assobiando triunfais.

Deixaram a bagagem de mão dentro e se aproximaram da porta para despedir-se.

— Cuidem uns dos outros – disse Pitt depois de abraçá-los, inclusive a Gracie, com grande surpresa e satisfação da jovem – . E passem bem. Desfrutem de tudo o que possam.

Fechou-se outra porta com estrépito e houve uma sacudida.

— É hora de ir – disse Pitt, e retrocedeu um passo dizendo adeus com a mão enquanto o vagão dava inclinações bruscas e sacudidas, os ganchos se fechavam e o trem se punha em movimento.

Ele ficou olhando, vendo como apareciam à janela. Charlotte os segurava com o rosto repentinamente sombrio pela solidão. Nuvens de vapor se erguiam para o enorme teto repleto de arcos. No ar flutuavam as bolinhas de cisco e o aroma de fuligem, ferro e fogo.

Pitt se despediu com a mão até que o trem se perdeu de vista ao tomar a curva das vias, e logo retrocedeu o mais depressa que pôde pela plataforma até sair à rua. Na parada de carruagens de aluguel, subiu na primeira e pediu ao cocheiro que lhe levasse a Câmara dos Comuns.

Recostou-se e pensou no que ia dizer quando chegasse ali. Achava-se ao sul do rio, mas não demoraria muito em chegar, nem sequer com o tráfego da hora do almoço. As câmaras do Parlamento estavam na borda norte, a uns trinta minutos.

Sempre tinha lhe preocupado muito a injustiça social, os males da pobreza e da enfermidade, a ignorância e os preconceitos, mas não tinha muito bom conceito dos políticos e duvidava que tratassem muito dos problemas que o preocupavam, a menos que os indivíduos os obrigassem, com uma grande paixão pela reforma. Era o momento de voltar a avaliar esse julgamento apressado e averiguar mais, tanto sobre os indivíduos, como sobre o sistema.

Começaria por seu cunhado, Jack Radley, o segundo marido de Emily e o pai de sua filha, Evangeline. Quando se conheceram, Jack era um homem encantador que não tinha nem título nem suficiente dinheiro para distinguir-se na alta sociedade, mas sim o engenho e a boa aparência para que o convidassem a tantas casas que desfrutava de uma vida elegante e bastante folgada.

Desde que tinha se casado com Emily, esse tipo de existência tinha lhe parecido cada vez mais vazia, até que, levado por um impulso, apresentou-se ao Parlamento e tinha surpreendido a todos, sobre tudo a si mesmo, ao ganhar uma cadeira. Talvez se devesse a uma rajada de boa sorte política, ou que sua cadeira se achava em um dos muitos distritos eleitorais onde a corrupção determinava os resultados, mas depois se convertera em um político bastante sério e mais importante do que sua vida passada teria feito prever a qualquer um. No assunto irlandês do Ashworth Hall tinha demonstrado coragem assim como aptidões para atuar com dignidade e bom critério. Ao menos poderia proporcionar a Pitt informações mais detalhada, e talvez com maior fidelidade, do que a que obteria de uma fonte pública.

Ao chegar à Câmara dos Comuns, Pitt pagou o cocheiro e subiu as escadas. Não esperava que o deixassem entrar diretamente, e se dispunha a escrever uma nota em um de seus cartões e fazê-la chegar ao Jack, mas o policial da porta o conhecia de seus tempos no Bow Street e ao vê-lo lhe iluminou o rosto de satisfação.

— Boa tarde, senhor Pitt. Alegro-me de vê-lo, senhor. Não haverá problemas aqui?

— Absolutamente, Rogers – respondeu Pitt, agradecendo por lembrar do nome do homem– . Quero ver o senhor Radley, se for possível. Trata-se de um assunto bastante importante.

— Em seguida, senhor. – Rogers se voltou e chamou por cima do ombro– : George! Acompanhe o senhor Pitt para ver o senhor Radley. Conhece-o? O senhor deputado do Chiswick. – voltou-se de novo para Pitt – . Vá com George, senhor. Levar-lhe-á acima, porque pode se perder em dez minutos nesta toca.

— Obrigado, Rogers – disse Pitt com sinceridade– . É muito amável.

Com efeito, era um autêntico labirinto de corredores e escadas com escritórios a cada passo e pessoas que iam e vinham, absortas em seus assuntos. Encontrou Jack só, em uma sala que evidentemente compartilhava com alguém. Agradeceu seu guia e esperou que saísse para fechar a porta e voltar-se para falar.

Jack Radley rondava os quarenta, mas era um homem de aparência agradável e com uma cordialidade natural que o fazia parecer mais jovem. Surpreendeu-se ao ver Pitt, mas deixou a um lado os jornais que estava lendo para olhá-lo com curiosidade.

— Sente-se – convidou – . O que o traz por aqui? Achava que por fim ia tomar umas férias. Tem Edward com você! – Seu olhar se escureceu, e Pitt percebeu com amargura que seu cunhado era consciente do injusto de sua situação atual na Brigada Especial e que temia que lhe pedisse ajuda para mudá-la. Era algo que não estava em sua mão, e Pitt sabia melhor que ele.

— Charlotte levou as crianças – respondeu – . Edward estava muito emocionado e disposto a conduzir ele mesmo o trem. Eu devo ficar um tempo aqui. Como sabe, dentro de uns dias se celebrarão as eleições. -Permitiu que seu rosto traduzisse um vislumbre de humor – . Por motivos que não posso explicar, necessito informação sobre alguns assuntos em debate... e sobre certas pessoas.

Jack conteve o fôlego.

— Motivos da Brigada Especial. – Pitt sorriu – . Não pessoais.

Jack ruborizou-se ligeiramente. Não costumavam pegá-lo despreparado, e muito menos Pitt, que não estava acostumado ao debate político e à ofensiva da oposição. Talvez tivesse esquecido que os interrogatórios de suspeitos se apoiavam virtualmente nos mesmos elementos: os rodeios, o estudo de rostos e gestos, a antecipação e a emboscada.

— Que assuntos? – perguntou Jack – . Há o auto-governo da Irlanda, mas faz gerações que se fala dele! Não se fez nenhum progresso a respeito, embora Gladstone continue com isso. Já se afundou uma vez por culpa desse assunto e acredito que vai voltar a lhe custar votos, mas ninguém foi capaz de fazê-lo renunciar. E bem sabe Deus que o tentaram. – Fez uma careta ligeiramente irônica – . Pelo contrário, do auto-governo de Escócia ou do Gales se fala bastante menos.

Pitt se sobressaltou.

— O auto-governo do Gales? – repetiu com incredulidade – . Há alguém que o respalde?

— Não muitos – admitiu Jack –. Assim como o de Escócia, mas é um dos temas que se estão debatendo.

— Não afetará os bancos de Londres?

— Poderia, se você o defendesse. – Jack deu de ombros – . Por regra geral , os que mais se opõem a tais coisas são os que se acham geograficamente mais longe delas. Os londrinos se inclinam a pensar que Westminster deveria governar tudo. Quanto mais poder tem, mais quer.

— O auto-governo, ao menos no caso da Irlanda, leva décadas na ordem do dia. – Pitt deixou o tema de lado no momento – . Que mais?

— A jornada de oito horas – respondeu Jack sombrio – . É o assunto mais candente, ao menos até a data, e não me parece que haja nenhum que lhe iguale em importância. – Olhou Pitt com o sobrecenho ligeiramente franzido – . O que acontece, Jack? Um complô para derrocar ao velho? – referia-se a Gladstone. Produziram-se atentados contra sua vida.

— Não – se apressou a dizer Pitt – . Nada tão evidente. – Teria gostado de dizer a Jack toda a verdade, mas não podia fazê-lo pelo bem de Jack, e pelo seu próprio. Devia evitar que o culpassem de traição – . Distritos corruptos, briga suja.

— Desde quando a Brigada Especial se preocupa com isso? – perguntou Jack com ceticismo, recostando-se um pouco em seu assento e atirando, sem dar-se conta, um montão de livros e papéis com o cotovelo – . Supõe-se que sua missão é deter anarquistas e dinamiteiros, sobre tudo fenianos. – Franziu o sobrecenho – . Não me minta, Thomas. Prefiro que me diga que não me coloque onde não me chamam a que me engane com evasivas.

— Não são evasivas – replicou Pitt – . Trata-se de uma cadeira em particular e, que eu saiba, não tem nada que ver com o problema irlandês nem com os dinamiteiros.

— Por que você? – disse Jack sem perder a compostura – . Tem algo que ver com o caso Adinett? – referia-se ao assassinato que tinha enfurecido tanto a Voisey e ao Círculo Interior que se vingaram de Pitt fazendo que o tirassem do Bow Street.

— Indiretamente – admitiu Pitt – . Está se aproximando desse ponto no qual preferiria que lhe dissesse que não se coloque onde não o chamam.

— Que cadeira? – perguntou Jack com absoluta serenidade – . Não posso te ajudar se não souber.

— Não pode me ajudar de qualquer modo – respondeu Pitt secamente – . A menos que seja com informação sobre os assuntos que se tratam e com algum ou outro conselho tático. Tomara tivesse prestado mais atenção à política no passado.

Jack sorriu de repente, embora não sem zombar um pouco de si mesmo.

— Quando penso em quão reduzida vai ser nossa maioria, eu também o penso.

Pitt queria falar do seguro que era a cadeira de Jack, mas era melhor averiguá-lo por meio de outra pessoa.

— Conhece Aubrey Serracold? – perguntou.

Jack pareceu surpreender-se.

— Sim, a verdade é que o conheço bastante bem. Sua mulher é amiga de Emily. – Franziu o sobrecenho – . Por que, Thomas? Apostaria que é um homem decente... honrado e inteligente, e que se colocou na política para servir a seu país. Não necessita do dinheiro e não procura simplesmente o poder.

Essas palavras deveriam ter tranqüilizado Pitt, mas em lugar disso vislumbrou um homem ameaçado por um perigo que não veria até que fosse muito tarde; um inimigo que talvez não reconhecesse, então porque, sua natureza escapava a sua compreensão.

Acaso tinha razão Jack, e ao não lhe dizer a verdade, estava desperdiçando a única arma que talvez possuísse? Narraway lhe tinha encomendado uma tarefa impossível. Não se tratava de indagar, como costumava fazer; não se tratava de resolver um crime, mas sim de acautelar uma ofensa que ia contra a lei moral, mas provavelmente não contra as leis do país. O que estava mal não era que Voisey tivesse poder – tinha tanto direito como qualquer outro candidato– , mas o que faria com ele ao cabo de dois ou três anos, ou inclusive cinco ou dez. E não se podia castigar a um homem pelo que se achava que podia fazer, por pior que isso fosse.

Jack se inclinou sobre sua escrivaninha.

— Thomas, Serracold é meu amigo. Corre-se qualquer tipo de perigo, diga-me. – Não o ameaçou nem alegou mais razões, mas curiosamente foi mais persuasivo que se o tivesse feito– . Protegeria a meus amigos como você faria com os seus. A lealdade pessoal é importante, e o dia que deixe de sê-lo não quererei ter nada que ver com a política.

Embora Pitt tivesse temido que Jack cortejasse Emily por seu dinheiro – e a fé que o tinha temido –, tinha-lhe sido impossível não sentir simpatia por ele. Possuía uma cordialidade, uma habilidade para zombar de si mesmo sem deixar de ser franco, que era a essência de seu encanto. Pitt não tinha nenhuma possibilidade de obter êxito sem correr riscos, porque não havia uma maneira segura de começar, e nem, digamos, de terminar, uma luta contra Voisey.

— Não se trata de perigo físico, que eu saiba – respondeu, esperando não equivocar-se ao desobedecer Narraway e confiar, ao menos, parte da verdade ao Jack. Tomara não se voltasse contra ele e traísse aos dois! – . Mas sim do perigo de que lhe arrebatem sua cadeira de forma fraudulenta.

Jack se manteve a espera, como se soubesse que isso não era tudo.

— E talvez de que arruínem sua reputação – acrescentou Pitt.

— Quem?

— Se soubesse estaria em melhor posição para impedi-lo.

— Quer dizer que não me pode dizer isso.

— Quero dizer que não sei.

— Então por quê? Sabe algo ou não estaria aqui.

— Por uma vitória política, evidentemente.

— Então é seu adversário. Quem são?

— Os que o respaldam.

Jack se dispunha a rebater aquela afirmação, mas se absteve.

— Suponho que todo mundo tem alguém que lhe respalde. Os que se deixam ver são os menos perigosos. – levantou-se devagar. Tinha quase a mesma estatura que Pitt, mas inclusive desalinhado, o igualava em elegância. Possuía uma distinção inata, e continuava vestindo e arrumando-se com a mesma meticulosidade que nos tempos em que abrira caminho com seu encanto – . Eu gostaria de continuar falando com você, mas tenho uma reunião dentro de uma hora e não comi como é devido todo o dia. Acompanha-me?

— Eu adoraria – aceitou Pitt imediatamente, levantando-se também.

— Vamos à sala de jantar dos deputados – sugeriu Jack, lhe abrindo a porta. Vacilou um momento, como se examinasse o colarinho limpo de Pitt, ao mesmo tempo em que reparava em sua gravata enrugada e seus bolsos avultados. Renunciou à idéia com um suspiro.

Pitt seguiu-o e se sentou a uma das mesas. Estava fascinado. Mal provou um bocado, tão ocupado estava em observar os outros comensais sem que desse a impressão de que o estava fazendo. Um atrás do outro, percorreu os rostos que já tinha visto nos jornais; a muitos punha nomes, outros lhe eram familiares, mas não os localizava. Não perdia a esperança de ver o próprio Gladstone.

Jack sorria, bastante divertido.

Estavam pela metade da sobremesa, que consistia em pudim de melaço quente com nata, quando se deteve junto a sua mesa um homem corpulento de cabelo loiro e espaçado. Jack apresentou ao Finch como o deputado pelos distritos de Birmingham, e ao Pitt como seu cunhado, sem especificar sua profissão.

— Encantado – disse Finch educadamente, depois olhou ao Jack – . Ouça, Radley, soube que esse tal Hardie vai se apresentar? E no West Ham sul, nem sequer na Escócia!

— Hardie? – Jack franziu o sobrecenho.

— Keir Hardie! – exclamou Finch com impaciência, deixando de lado Pitt– . Esse tipo está nas minas desde que tinha dez anos. Sabe Deus se é capaz de ler ou escrever, e agora se apresenta para o Parlamento! Pelo Partido Trabalhista... ou o que isso signifique. – Estendeu as mãos em um gesto brusco – . Isso não está bem, Radley! É nosso território...nossos sindicatos e todo o resto. Não conseguirá, é claro...não tem a menor possibilidade. Mas neste momento não podemos nos permitir perder nenhum apoio.–Baixou a voz– .Vai estar muito renhido! Muito renhido, maldito seja. Não podemos ceder na jornada trabalhista, prejudicaria-nos. Arruinar-nos-ia em questão de meses. Mas eu gostaria que o velho se esquecesse por um tempo do auto-governo. Acabará nos afundando!

— Uma maioria é uma maioria – replicou Jack– . Ainda é possível fazer algo com vinte ou trinta.

Finch grunhiu.

— Não é. Não por muito tempo. Necessitamos pelo menos cinqüenta. Foi um prazer conhecê-lo... Pitt? Disse Pitt? Um bom nome Conservadores. Não será você Conservadores?

Pitt sorriu.

— Deveria?

Finch o olhou; seus olhos azul claro se cravaram de repente nele.

— Não, senhor, não deveria. Deveria olhar para o futuro, e apoiar uma reforma prudente e firme. Não um conservadorismo egoísta que não trocará nada e permanecerá estagnado no passado como uma pedra. Nem um socialismo desatinado que mudaria tudo, tanto o bom como o mal, como se tudo estivesse escrito na água e o passado não significasse nada. Nossa nação é a maior que existe sobre a terra, senhor, mas ainda devemos atuar com muita sabedoria na hora de dirigir seu rumo, se quisermos conservá-la nestes tempos tão cambiantes.

— Nisso ao menos estou de acordo com você – respondeu Pitt mantendo um tom despreocupado.

Finch hesitou um momento, depois se despediu e partiu a passo brioso com os ombros jogados para diante como se abrisse passo entre uma multidão, embora em realidade só passou junto a um garçom com uma bandeja.

Pitt saía da sala de jantar atrás de Jack quando se chocaram nada menos que com o primeiro-ministro, lorde Salisbury, que nesse momento entrava no recinto. Levava um traje raiado diplomático, e tinha o rosto alongado e um pouco triste, tinha barba e estava virtualmente calvo na zona do alto da cabeça. Pitt ficou tão absorto que demorou uns momentos em reparar no homem que o seguia um passo por trás e que evidentemente era seu acompanhante. Suas feições marcadas denotavam inteligência, e tinha o nariz ligeiramente torcido e a tez pálida. Por um instante se cruzaram seus olhares, e Pitt ficou paralisado pelo intenso ódio que viu em seus olhos, como se estivessem os dois sós na sala. O murmúrio de conversas, as risadas, o tinido das taças e o faqueiro... tudo se desvaneceu. O tempo se suspendeu. Não havia nada mais que a vontade de fazer mal, de destruir.

Logo o presente retornou como uma onda: humano, ocupado, controvertido, ensimesmado. Salisbury e seu companheiro entraram na sala de jantar, e Pitt e Jack Radley saíram. Tinham percorrido vinte metros pelo corredor quando Jack falou.

— Quem ia com Salisbury? – perguntou– . Conhece-o?

— Sir Charles Voisey – respondeu Pitt, sobressaltando-se ao ouvir sua voz áspera– . O futuro candidato parlamentar por Lambeth sul.

Jack se deteve.

— Esse é o distrito do Serracold!

— Sim... – respondeu Pitt com calma – . Sim... sei.

Jack exaltou muito devagar; em seu rosto se refletiu a compreensão, e a origem do medo.

 

Pitt se sentia terrivelmente só na casa sem Charlotte e as crianças. Sentia falta da calidez, das risadas, da excitação, até das brigas. Não se ouvia o repicar dos saltos de Gracie, nem seus comentários irônicos; sua única companhia eram os dois gatos, Archie e Angus, que dormiam feitos novelos nas zonas iluminadas pela luz do sol que entrava pelas janelas da cozinha. Mas cada vez que recordava o olhar cheio de ódio de Voisey, sentia-se tão profundamente aliviado ao pensar que sua família estava fora de Londres, onde nem Voisey, nem nenhum outro membro do Círculo Interior poderia encontrá-la, que ficava sem fôlego. Uma pequena casa de campo em uma aldeia nos limites do Dartmoor era o lugar mais seguro possível. Aquela certeza lhe permitia fazer tudo o que estava em sua mão para impedir que Voisey conseguisse a cadeira e começasse sua ascensão a um poder que corromperia a consciência do país.

Entretanto, enquanto tomava o café da manhã sentado à mesa da cozinha, uma torrada carbonizada, geléia caseira e chá preparado em um grande bule, sentiu-se acovardado ante uma tarefa tão imprecisa, tão incerta. Não havia um mistério que resolver, nem explicações que oferecer, nem nada específico que procurar. Sua única arma era a informação de que dispunha. A cadeira que disputava Voisey há anos era liberal. Que eleitores esperava que mudassem de voto? Representava os conservadores, a única alternativa frente aos liberais com alguma possibilidade de formar governo, apesar da opinião da maioria ser que desta vez o senhor Gladstone ganharia, embora seu mandato não durasse muito.

Pitt pegou outra torrada da grelha e passou manteiga. A seguir estendeu uma grosa camada de geléia. Gostava de seu sabor, tão azedo que parecia lhe embargar os sentidos.

Propunha-se Voisey conquistar o terreno neutro entre os dois partidos e aumentar assim seus votos? Ou desiludir aos mais pobres e empurrá-los para o socialismo, dividindo assim o setor de votantes da esquerda? Contava com uma arma escondida até então com a qual prejudicar Aubrey Serracold e diminuir assim sua campanha eleitoral? Não podia fazer as três coisas abertamente. Mas com o espaldar do Círculo Interior não precisava atuar abertamente. Ninguém à exceção dos cabos eleitorais – talvez ninguém à exceção do próprio Voisey – conhecia os nomes ou os cargos de todos seus membros, ou inclusive quantos eram.

Pitt terminou a torrada, bebeu o que ficava de chá e deixou os pratos onde estavam. A senhora Brady os esfregaria quando chegasse, e sem dúvida voltaria a dar de comer ao Archie e Angus. Eram oito da manhã e tinha chegado o momento de obter mais informação sobre o programa eleitoral de Voisey, os temas nos quais se apoiar sua campanha, as pessoas que o apoiavam abertamente e o lugar onde ia falar. Graças a Jack tinha descoberto um pouco relacionado com o Serracold, mas não bastava.

Na cidade fazia calor e havia pó, e estava lotada de tráfego de todos os âmbitos: o comércio, os negócios e o recreio. Havia vendedores ruas que apregoavam suas mercadorias em quase cada esquina, e carruagens com damas que tinham saído para ver os monumentos e protegiam o rosto do sol com uma coleção de sombrinhas de bonitas cores que pareciam enormes flores muito abertas. Passavam carruagens pesadas que transportavam fardos de mercadorias, carretas de leite e verduras, ônibus e as habituais hordas de carruagens de aluguel. Até as calçadas estavam abarrotadas, e Pitt teve que abrir passagem fazendo esses entre as pessoas. O ruído assaltava os ouvidos e a mente do viandante: as vozes que tagarelavam, os gritos dos vendedores que anunciavam uma centena de artigos em venda, o estalo continuado das rodas sobre os paralelepípedos, o tinido dos arreios, os uivos de frustração dos cocheiros, o tamborilar dos cascos dos cavalos...

Teria preferido que Voisey tivesse sabido o menos possível dele, mas depois de seu encontro na Câmara dos Comuns, o interesse do Pitt já não era nenhum segredo. Lamentava-o, mas não podia fazer nada para emendar isso, e talvez já fosse inevitável; seria melhor adiá-lo, embora só fosse por pouco tempo. Voisey talvez tivesse estado muito absorto em suas batalhas políticas e a emoção da campanha eleitoral para perceber o interesse que mostrava uma pessoa mais por ele.

Por volta das cinco da tarde Pitt sabia os nomes das pessoas que apoiavam a candidatura do Voisey, tão publicamente como em privado; ao menos daquelas das que tinha perseverança. Também sabia que os pontos que defendia Voisey eram os valores da corrente tradicional Conservadores do comércio e Império. Era evidente que iriam atrair aos latifundiários, industriais e magnatas das companhias navais, mas o voto se estendera até o homem comum que não tinha mais que sua casa ou habitações alugadas por mais de dez libras ao ano, e que eram os defensores lógicos dos sindicatos e do Partido Liberal.

O fato de que parecesse impossível que Voisey ganhasse a cadeira preocupava Pitt muito mais que se tivesse visto uma brecha, um ponto fraco que se pudesse explorar.

Significava que o ataque vinha de um flanco do qual não sabia como proteger-se, e nem sequer tinha idéia de onde estava seu ponto vulnerável.

Dirigiu-se ao sul do rio, em direção aos moles e as fábricas à sombra da estação ferroviária do London Bridge, com a intenção de somar-se à multidão de trabalhadores para escutar o primeiro discurso público de Voisey. Intrigava-lhe enormemente ver como se comportava, assim como o tipo de resposta que recebia.

Deteve-se em uma das tavernas e tomou um pedaço de bolo de carne e uma jarra de cidra, prestando atenção às conversas das mesas ao redor. Ouviam-se muitas gargalhadas, mas debaixo delas se percebia uma inconfundível nota de amargura. Só ouviu uma alusão aos irlandeses ou ao controvertido problema do auto-governo, e até isso se tratou meio em brincadeira. Mas o tema da jornada trabalhista provocou ressentimento e um apoio considerável aos socialistas, embora ninguém parecia conhecer os nomes de nenhum. Pitt não ouviu mencionar Sydney Webb ou William Morris, nem o eloqüente e vociferante dramaturgo Shaw.

Por volta das sete estava diante de uma das portas da fábrica; os lados planos e cinzas dos edifícios se erguiam no ar cheio de fumaça. Ao longe se ouvia o rítmico tamborilar da maquinaria, e o aroma dos gases do coque e os ácidos irritantes a garganta. A seu redor havia mais de cem homens vestidos com uniforme marrom e cinza, cujo tecido estava desbotado e remendado uma e outra vez, desfiado pelos punhos e gasto pelos cotovelos e joelhos. Muitos deles levavam boinas de tecido apesar de fazer uma tarde agradável e, o que era ainda mais insólito, não chegava uma brisa fria do rio. A boina era um costume, quase parte de sua identidade.

Pitt passou despercebido entre eles, pois seu habitual desalinho constituía um disfarce perfeito. Escutou suas risadas e suas ruidosas brincadeiras freqüentemente cruéis, e percebeu o matiz de desespero que pulsava nelas. E quanto mais escutava, menos compreendia como Voisey – com seu dinheiro, sua situação privilegiada, suas finas maneiras e agora também seu título – , podia ganhar sequer a um deles, e nem digamos à maioria. Ele representava tudo o que os oprimia e o que achavam, justificadamente ou não, que os explorava em seu trabalho e lhes roubava suas gratificações. A Pitt assustava tudo aquilo porque sabia muito para acreditar que Voisey fosse um sonhador que confiava na sorte.

A multidão começava a impacientar-se e a falar de partir quando a uns vinte passos se deteve um coche, não uma carruagem, e Pitt viu como a alta figura do Voisey apeava e se encaminhava para eles. Sentiu um calafrio de apreensão, como se em meio de todas essas pessoas Voisey pudesse vê-lo e seu ódio pudesse alcançá-lo.

— Veio depois de tudo, né? – gritou uma voz, rompendo por um instante o feitiço do momento.

— É claro que vim! – respondeu Voisey voltando-se para eles com a cabeça alta e uma expressão ligeiramente divertida, enquanto Pitt permanecia invisível a seus olhos, um rosto anônimo entre centenas – . Têm votos, não?

Meia dúzia de homens riram.

— Ao menos não finge que lhe importamos! – exclamou alguém uns metros à esquerda– . Prefiro a um canalha honrado que a outro que não é.

Voisey se aproximou da carruagem que tinham colocado a modo de soalho improvisado e com um movimento ágil subiu a ela.

As pessoas observavam atentas, mas sua atitude era hostil, esperando a oportunidade de criticar, desafiar e insultar. Voisey parecia estar só, mas Pitt reparou em dois ou três policiais situados ao fundo, e em meia dúzia ou mais de homens que acabavam de chegar, todos vigiando à multidão; homens robustos e vestidos com roupa discreta de cores apagadas, mas com uma fluidez de movimentos e uma inquietação que contrastavam com o cansaço dos trabalhadores das fábricas.

— Vieram – começou a dizer Voisey – porque têm curiosidade por ouvir o que vou dizer e os intriga saber se vou propor algo que justifique que votem em mim em lugar do candidato liberal, o senhor Serracold, cujo partido os representou desde que tenho memória. Talvez até esperam se divertir a minha custa.

Houve risadas e alguns assobios.

— Bom, o que querem de um governo? – perguntou Voisey, e antes que pudesse responder lhe fizeram calar com gritos.

— Menos impostos! – gritou alguém, e soou um coro de brincadeiras.

— Trabalhar menos horas! Uma semana trabalhista decente, não mais longa que a sua!

Ouviram-se mais risadas, mas desta vez eram ásperas, furiosas.

— Salários decentes! Casa sem goteiras. Bocas-de-lobo!

— Bem! Eu também – concedeu Voisey, fazendo-se ouvir apesar de não dar a impressão de estar erguendo a voz – . Também eu gostaria que houvesse trabalho para todo o que queira trabalhar, homem ou mulher. Eu gostaria que houvesse paz, um bom comércio exterior, menos crimes, mais justiça, polícia responsável e não corrupta, comida barata, pão para todos, roupa e botas para todos. Também eu gostaria que fizesse bom tempo, mas...

O resto de suas palavras se perderam entre as gargalhadas.

— Mas não me acreditariam se lhes dissesse que posso consegui-lo! – terminou.

— Não acreditam em você de qualquer maneira! – respondeu uma voz a gritos, seguida de mais zombaria e gritos de aprovação.

Voisey sorriu, mas tinha o corpo rígido.

— Mas me vão escutar, porque para isso vieram! Intriga-lhes o que lhes vou dizer, e são justos.

Desta vez não houve assobios. Pitt percebeu a mudança no ambiente, como se uma tormenta tivesse passado sem explodir.

— Trabalham quase todos nestas fábricas? – Voisey as abrangeu com um gesto – . E nestes moles?

Houve um murmúrio de assentimento.

— Produzindo mercadorias que chegam a todo mundo? – continuou.

De novo se produziu um assentimento, e se notou uma ligeira impaciência. Não compreendiam por que o perguntava. Pitt sim sabia, como se já o tivesse escutado antes.

— Roupa confeccionada com algodão egípcio? – perguntou Voisey erguendo a voz e esquadrinhando seus rostos, a linguagem de seus corpos, o aborrecimento ou o começo da compreensão– . Brocados da Persia e da velha rota da seda até a China e Índia? – continuou –. Linho da Irlanda? Madeira da África, borracha da Birmania... ? Poderia continuar, mas provavelmente sabem a lista tão bem como eu. São os produtos do Império. Por isso somos o maior país comercial do mundo, por isso a Grã-Bretanha governa os mares, uma quarta parte do planeta fala nosso idioma, e os soldados da rainha velam pela paz, por terra e por mar, até no último rincão do globo.

Esta vez a resposta da multidão adquiriu uma nota diferente de orgulho, cólera e curiosidade. Vários homens se ergueram e ficaram firmes. Pitt se apressou a afastar-se do campo de visão de Voisey.

Voisey gritou por cima deles.

— Não se trata só de glória... É o teto que têm sobre suas cabeças e a comida que levam a mesa.

— O que tem sobre uma jornada de menos horas? – gritou um homem ruivo.

— Se perdermos o Império, para quem trabalharão? – desafiou-lhe Voisey – . A quem comprarão e venderão?

— Ninguém vai perder o Império! – replicou o homem ruivo com tom zombador– . Nem sequer os socialistas são tão tolos!

— O senhor Gladstone vai perdê-lo – replicou Voisey– . Parte a parte! Primeiro a Irlanda, depois talvez Escócia e Gales. Quem sabe o que virá depois... Índia, possivelmente? Acabarão-se o cânhamo e a juta, a madeira de mogno e a borracha da Birmania. Depois a África, Egito, uma porção cada vez. Se for capaz de perder a Irlanda, que está tão perto de nossas fronteiras, por que não vai perder todo o resto?

Houve um silêncio repentino e em seguida ressoaram fortes gargalhadas, mas nelas não havia o menor rastro de humor, mas uma nota calada de dúvida, talvez até de medo.

Pitt observou aos homens mais próximos a ele. Todos olhavam para Voisey.

— Precisamos ter comércio – continuou Voisey, mas desta vez não teve necessidade de gritar. Bastou-lhe dirigir a voz para o final da multidão– . Necessitamos o império da lei e o domínio dos mares. Se quisermos compartilhar mais equitativamente nossas riquezas, devemos nos assegurar primeiro de que as tenhamos!

Ouviu-se um murmúrio que parecia de assentimento.

— Façam o que façam, façam bem, melhor que ninguém no mundo! – No tom do Voisey havia um matiz de orgulho, inclusive de triunfo – . E votem livremente para que os representem homens que saibam fazer e manter as leis dentro de nosso país, e tenham entendimentos honrados e frutuosos com outros países do mundo para conservar e aumentar o que temos. Não votem em homens velhos que falam em nome de Deus, mas em realidade só falam em nome do passado, homens que levam a cabo seus desejos sem escutar os seus.

Ouviram-se novos gritos da multidão, mas para Pitt pareceu que em muitos setores soavam como uma aclamação.

Voisey não reteve muito mais tempo aos trabalhadores. Sabia que estavam cansados e famintos, e que a manhã seguinte chegaria muito logo. Foi suficientemente inteligente para terminar enquanto continuavam interessados e, o que é mais importante, enquanto ainda estavam a tempo de jantar bem e passar um par de horas na taverna tomando uns copos de cerveja e falando disso.

Contou-lhes algumas piadas breves e os deixou rindo enquanto voltava para seu coche e partia.

Pitt tinha o corpo intumescido de ter permanecido tão imóvel, e sentia um frio em seu interior, e uma admiração cheia de ressentimento por Voisey pelo modo em que tinha convertido essa multidão de desconhecidos hostis em homens que se lembrariam de seu nome, que se lembrariam de que ele não lhes tinha traído, nem feito falsas promessas, de que não tinha dado por assentado que iam gostar dele e que os tinha feito rir. Não esqueceriam o que havia dito sobre perder o Império que lhes proporcionava trabalho. Podia fazer ricos a seus chefes, mas a verdade era que se seus chefes fossem pobres, eles o eram ainda mais. Podia ser injusto ou não, mas muitos homens dos que estavam ali eram bastante realistas para saber que assim eram as coisas.

Pitt esperou uns minutos até que perdeu de vista Voisey, depois cruzou os poeirentos paralelepípedos à sombra dos muros da fábrica e ao longo de um estreito beco, até chegar à rua principal, onde deteve uma carruagem de aluguel. Voisey tinha deixado ver ao menos várias de suas táticas, mas não tinha dado amostras de vulnerabilidade alguma. Aubrey Serracold ia ter que demonstrar algo mais que seu encanto e honradez para competir com ele.

Ainda era cedo para voltar para casa, sobre tudo a uma casa vazia. Esperava-o um bom livro, mas o silêncio o encheria de inquietação. Só a idéia o fazia sentir-se muito só. Devia haver algo mais que ele pudesse fazer: talvez obter mais informação do Jack Radley. Ou surrupiar de Emily algo sobre a mulher de Serracold. Era muito observadora e muito mais realista que Charlotte no referente aos estratagemas do poder. Talvez tivesse detectado em Voisey um ponto fraco no qual não teria reparado um homem mais concentrado em suas opiniões políticas e menos em sua pessoa.

Inclinou-se para diante e deu novas instruções ao cocheiro.

Mas quando chegaram, o mordomo lhe disse com sinceras desculpas que o senhor e a senhora Radley tinham saído para jantar, e não era razoável esperar sua volta antes da uma da madrugada, quando viriam.

Pitt lhe agradeceu e declinou a oferta de esperar, como o mordomo tinha esperado. Voltou para carruagem e pediu ao condutor que lhe levasse a piso do Cornwallis no Piccadilly.

Abriu a porta um criado de quarto que, sem perguntar nada, conduziu-o ao pequeno salão do Cornwallis. Estava mobiliado ao estilo elegante, mas austero de um camarote de capitão, cheio de livros, dourados brunidos, e madeira escura e brilhante. Sobre a cornija da lareira pendia um quadro de um bergantín veleiro com arranjo de cruz que fugia de uma tempestade.

— O senhor Pitt, senhor – anunciou o criado de quarto.

Cornwallis deixou cair o livro e se levantou surpreso e um pouco alarmado.

— Pitt? O que lhe passa? O que ocorreu? Por que não está no Dartmoor?

Pitt não respondeu.

Cornwallis lançou um olhar ao criado de quarto e depois se voltou para Pitt.

— Comeu? – perguntou.

Pitt se surpreendeu ao dar-se conta de que o último bocado que tinha provado tinha sido o bolo de carne que tinha comido na taverna próximo à fábrica.

— Não... há um momento. – deixou-se cair na poltrona situada frente à do Cornwallis–. Um pouco de queijo e pão me viriam muito bem... ou bolacha, se tiver. – Já sentia falta das de Gracie, e as latas estavam vazias. Ela não tinha deixado nada preparado, acreditando que iriam todos.

— Traz pão e queijo para o senhor Pitt – ordenou Cornwallis–. E cidra com bolacha. – voltou-se de novo para o Pitt –. Ou prefere chá?

— A cidra me parece excelente – respondeu Pitt, relaxando-se no confortável sofá.

O criado de quarto saiu, fechando a porta atrás dele.

— E então? – perguntou Cornwallis ocupando de novo seu assento, com o sobrecenho franzido de novo. Não era bonito, mas havia em suas feições uma força e uma simetria que acabavam agradando ao observador quanto mais as olhava. Quando se movia o fazia com os movimentos graciosos e medidos de quem passou muitos anos em alto mar com a ponte como único espaço pelo qual caminhar.

— Surgiu algo relacionado com uma das cadeiras parlamentares e Narraway quer que eu... observe. – Viu como a cólera se pintava no rosto do Cornwallis, e soube que se devia à injustiça cometida pelo Narraway ao não ter respeitado a decisão de Bow Street de lhe dar umas semanas de licença. Tratava-se de uma ignomínia que se somava à ofensa de sua demissão e sua transferência, que era a forma que tinha tomado a vingança do Círculo Interior. Todas as hipóteses e certezas se desvaneceram para eles dois.

Mas Cornwallis não se dedicou a sondá-lo. Estava acostumado à vida solitária de um capitão em alto mar, que deve escutar a seus oficiais, mas compartilhar só os assuntos práticos com eles, e não justificar-se nem mostrar suas emoções; um homem que sempre deve permanecer à margem, manter o melhor possível a ilusão de que nunca tem medo, nunca se sente só e nunca o assaltam as dúvidas. Era a disciplina de toda uma vida e não podia romper com ela agora. Converteu-se em parte de sua personalidade e já não era consciente disso.

O criado de quarto retornou com pão, queijo, cidra e bolacha, e Pitt lhe agradeceu.

— De nada, senhor. – O criado se inclinou e se retirou.

— O que sabe do Charles Voisey? – perguntou Pitt enquanto passava manteiga no pão rangente e cortava um grosso pedaço de pálido e forte queijo Caerphilly, e observava como se esmiuçava sob a faca. Deu-lhe uma dentada com ânsia. Estava delicioso e cremoso.

Cornwallis apertou os lábios, mas não perguntou a Pitt por que queria saber aquilo.

— Só o que é de domínio público – replicou –. Estudou no Harrow e Oxford, e logo exerceu a advocacia. Era um advogado brilhante e ganhou muito dinheiro e, o que é mais importante a longo prazo, fez um montão de amigos nos postos adequados, e não duvido que também granjeie uns quantos inimigos. Nomearam-no juiz e pouco depois esteve no tribunal de apelação. Sabe correr riscos e aparentar coragem, e, entretanto, nunca sofreu tropeções muito graves.

Pitt já tinha ouvido tudo aquilo antes, mas aquela descrição tão sufita lhe ajudou a concentrar-se.

— É um homem enormemente orgulhoso – continuou Cornwallis–. Mas na vida cotidiana tem a habilidade para ocultá-lo, ou ao menos fazer com que pareça menos ofensivo.

— Menos vulnerável – disse Pitt imediatamente.

Cornwallis captou o que queria dizer.

— Está procurando um ponto fraco?

Pitt recordou com esforço que Cornwallis não sabia nada do caso Whitechapel, além do julgamento do Adinett ao começo e a concessão do título de sir ao Voisey ao final. Nem sequer sabia que Voisey era o chefe do Círculo Interior, e por sua segurança era melhor que nunca se inteirasse. Pitt o devia, ao menos, por sua lealdade no passado, e o teria desejado, pela amizade que unia agora a ele.

— Estou procurando informação, e isso inclui descobrir seus pontos fortes e fracos – respondeu –. Vai se apresentar como candidato Conservador ao Parlamento em uma cadeira liberal forte. Já surgiu a questão do auto-governo!

Cornwallis arqueou as sobrancelhas.

— E aqui entra Narraway?

Pitt não respondeu.

— O que quer saber do Voisey? – perguntou –. Que tipo de ponto fraco?

— Por quem sente afeto? – perguntou Pitt em voz baixa–. A quem teme? O que o faz rir, assustar-se, sofrer? O que quer além do poder?

Cornwallis sorriu olhando ao Pitt sem piscar.

— Parece que esteja desdobrando-se para entrar em batalha – disse com um leve tom interrogativo.

— Estou procurando uma arma – replicou Pitt sem desviar o olhar –. Conto com alguma?

— Duvido – respondeu Cornwallis–. Se lhe importar algo além do poder, e eu não tenho notícia disso, não lhe importa o suficiente para lamentar sua perda. – Observava o rosto do Pitt, tratando de lhe ler o pensamento–. Gosta de viver bem, mas não de forma ostentosa. Desfruta sendo admirado, e as pessoas o admiram, mas para isso não está disposto a tratar de congraçar-se com ninguém. Atreveria-me a dizer que não lhe faz falta. Adora sua casa, a boa comida, o bom vinho, o teatro, a música, a boa companhia, mas sacrificaria tudo para alcançar o cargo que quer. Ao menos isso é o que ouvi dizer. Quer que pergunte por aí?

— Não! Não... ainda não.

Cornwallis assentiu.

— Teme a alguém? – perguntou Pitt sem esperanças.

— A ninguém que eu conheça – disse Cornwallis secamente–. Tem motivos para fazê-lo? É isso o que inquieta a Narraway, um atentado contra ele?

De novo Pitt não pôde responder. O silêncio o preocupava, embora soubesse que Cornwallis o compreenderia.

— Sente afeto por alguém? – perguntou com obstinação. Não podia permitir-se claudicar.

Cornwallis refletiu uns minutos.

— É possível – disse ao fim –. Embora não sei até que ponto. Mas acredito que em certos sentidos a necessita, embora só seja como sua anfitriã. Mas acredito que sente por ela todo o afeto que é capaz de sentir um homem de seu caráter.

— Ela? Quem é ela? – perguntou Pitt, finalmente esperançado.

Cornwallis resolveu a questão com um sorriso irônico.

— Sua irmã é uma viúva encantadora e com dom de pessoas. Parece ter, ou ao menos o aparenta, a sutileza e a sensibilidade moral que ele nunca demonstrou, apesar de seu recente título de sir, do qual você sabe mais que eu. – Não era uma pergunta. Jamais se meteria onde não o chamavam, e uma negativa lhe doeria. Franziu ligeiramente o cenho; apenas uma sombra entre as sobrancelhas–. Mas só encontrei-me com ela em um par de ocasiões e não entendo muito de mulheres. – de repente parecia coibido –. Alguém com mais dote poderia lhe dizer justamente o contrário. Ela é, sem dúvida, uma das figuras políticas mais valiosas do partido, com o poder e a vontade para apoiá-lo. De cara aos votantes, conta com pouco mais que sua oratória. – Parecia desalentado, como se temesse que isso fosse suficiente.

Pitt temia ainda mais o que podia ocorrer. Tinha visto Voisey enfrentar à multidão. Era um duro golpe descobrir que tinha uma aliada política com tantas aptidões. Tinha esperado que sua condição de solteiro fosse seu único ponto fraco.

— Obrigado – disse em voz alta.

Cornwallis sorriu fracamente.

— Mais cidra?

Emily Radley desfrutava de um bom jantar, especialmente quando no ambiente se respirava perigo e emoção, luta de poder, conflitos verbais, nos quais a ambição permanecia oculta atrás da máscara do humor ou encanto, dever público ou a paixão pela reforma. Ainda não haviam dissolvido o Parlamento, mas iriam fazê-lo qualquer dia, todos sabiam. Então a luta se faria pública. Seria encarniçada e rápida, questão de uma semana mais ou menos. Não havia tempo para titubear, reconsiderar um golpe ou moderar uma defesa. Atuava-se a sangue quente.

Preparou-se como se dispusesse a participar de uma campanha de guerra. Era uma mulher atraente e tinha perfeita consciência disso. Mas agora que estava nos trinta e tinha dois filhos, devia esmerar-se mais para ser a melhor. Tinha deixado de lado os juvenis tons pastel que tinha preferido por sua delicada cor, e tinha selecionado da última moda de Paris algo mais ousado, mais sofisticado. A saia e a blusa eram de seda azul escuro, mas tinham uma peça de um pálido cinza azulado cortado em diagonal que lhe cobria o peito e se segurava no ombro esquerdo e na cintura, com outro corte profundo e uns laços que lhe caíam do quadril. A roupa tinha os habituais ombros altos e vincados, e calçou, como era de esperar, umas luvas de pelica até os cotovelos. Escolheu os diamantes em lugar das pérolas.

O resultado era realmente excepcional. Sentia-se preparada para ver-se com qualquer mulher que estivesse na estadia, até com sua melhor amiga nesse momento: a deslumbrante e extraordinariamente elegante Rose Serracold. Agradava-lhe muitíssimo Rose; tinha simpatizado com ela desde o dia que se conheceram, e esperava sinceramente que seu marido, Aubrey, ganhasse sua cadeira no Parlamento, mas não tinha nenhuma intenção de que a eclipsasse ninguém. A cadeira de Jack era muito segura. Tinha servido com distinção e tinha feito vários amigos valiosos no poder que não duvidariam em apoiá-lo agora, mas não devia dar-se nada por assentado. O poder político era uma amante muito caprichosa a que se devia cortejar sempre que se podia.

A carruagem se deteve fora da magnífica casa de Park Lane, e Emily e Jack se apearam. Recebeu-os um lacaio na porta e cruzaram o vestíbulo, onde foram anunciados. Emily entrou no salão pelo braço de Jack com a cabeça alta e um ar de confiança. Saudaram-nos os anfitriões às nove menos quarto, quinze minutos depois da hora indicada no convite, que tinham recebido oportunamente fazia cinco semanas. Tinham calculado à perfeição. A pontualidade revelava uma vulgar impaciência, enquanto que era uma grosseria chegar tarde. E como o jantar se anunciava uns vinte minutos depois de que chegasse o primeiro convidado, se a pessoa chegasse muito mais tarde se expunha a que a fizessem passar ao salão quando outros entravam já na sala de jantar.

O protocolo, de uma rigidez inalterável, estabelecia quem devia entrar com quem e em que ordem; do contrário, teria sido o caos. A capacidade para chamar a atenção pela própria beleza sempre era digna de admiração; também o era a faculdade de obtê-lo mediante o engenho, mas entranhava riscos. Fazer ridículo seria desastroso. Não se serviram bebidas no breve tempo que transcorreu antes que o mordomo anunciasse o jantar. O costume era sentar-se e trocar cumprimentos com os conhecidos até que começasse a procissão para a sala de jantar.

O anfitrião encabeçou a marcha pelo braço da dama de mais categoria, seguido do resto dos convidados, por ordem do status das damas, e acompanhados finalmente pela anfitriã pelo braço do convidado de status superior.

Emily só teve tempo para falar um momento com o Rose Serracold, facilmente reconhecível com sua cabeça loira cinza e seu perfil reto e de feições marcadas, antes de voltar seus olhos água-marinha para os últimos convidados a chegar. Iluminou-se o rosto de Rose de prazer e se aproximou apressadamente a ela, fazendo virar seu tafetá rosa. O vestido lhe caía diante até a cintura sobre um brocado bordado vinho, que aparecia reproduzido nas peças da metade do quadril e as anáguas. Fazia com que seus esbeltos quadris parecessem muito curvos e sua cintura muito estreita. Só uma mulher extraordinariamente segura de si mesma a teria visto tão deslumbrante com semelhante vestido.

— Emily, quanto me alegro de vê-la! – exclamou com deleite. Olhou de cima abaixo o conjunto de Emily com aprovação, mas se absteve de comentar algo, secretamente divertida – . Que bom que tenha podido vir!

Emily lhe devolveu o sorriso.

— Como se não soubesse já! – Arqueou as sobrancelhas. As duas sabiam que Rose tinha sido informada da lista de convidados; em caso contrário, não teria aceitado o convite.

— Bom, só tinha uma vaga idéia – admitiu Rose. Inclinou-se mais para ela – . Se parece um pouco ao baile da véspera de Waterloo, verdade?

— Não é uma ocasião que eu recorde – murmurou Emily com fingida malícia.

Rose torceu ligeiramente o gesto.

— Amanhã entramos em batalha! – respondeu com exagerada paciência.

— Querida, levamos meses em guerra – replicou Emily enquanto Jack era atraído para um grupo de homens próximo– . Se não anos!

— Não dispare até que lhes veja o branco dos olhos – advertiu Rose– . Ou, no caso de lady Garson, o amarelo. Essa mulher bebe o suficiente para afogar um cavalo.

— Deveria ter visto sua mãe! – Emily deu de ombros com delicadeza– . Teria afogado uma girafa.

Rose jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada tão forte e contagiosa que fez que uma meia dúzia de homens a olhassem com prazer, enquanto suas esposas o faziam com desaprovação antes de lhe dar deliberadamente as costas.

A sala de jantar resplandecia com a luz dos lustres, que se refletia nas mil facetas do cristal sobre a mesa, e com o prateado brilho sobre o linho branco como a neve. Havia bules de prata transbordantes de rosas e largos ramos de madressilva espalhadas pelo centro do tecido que desprendiam uma intensa fragrância.

Em cada assento havia um cartão com o menu, naturalmente em francês. Cada uma levava, escrito um nome para indicar onde devia sentar-se cada comensal. Os lacaios começaram a servir a sopa segundo as preferências dos convidados, que podiam escolher entre rabo de boi e fruto do mar, e começaram a comer imediatamente, já que era o correto.

Emily lançou um olhar ao Jack por cima da mesa, mas este estava ocupado falando com um deputado liberal que também ia defender sua cadeira contra um vigoroso ataque. Chegavam-lhe palavras soltas que davam a entender que estavam preocupados com as facções entre os deputados irlandeses, as quais poderiam influir se a luta entre os principais partidos era brigada. A capacidade para formar governo podia depender da obtenção do apoio dos parnellitas ou os antiparnellitas.

Emily estava cansada da questão do auto-governo simplesmente porque estava discutindo-se desde que ela tinha memória, e a solução não parecia mais próxima que quando a tinham explicado pela primeira vez na sala-de-aula do colégio. Concentrou seus esforços em cativar ao estadista entrado em anos e de aspecto bastante augusto sentado a sua esquerda, que também tinha recusado o primeiro prato.

O segundo prato consistia em salmão ou eperlanos. Ela se inclinou pelo salmão e se absteve de falar durante um momento.

Renunciou ao prato principal, já que não gostavam dos ovos ao curry nem as moelas com cogumelos, e escutou os retalhos que lhe chegavam da conversa que se mantinha do outro lado da mesa.

— Acredito que deveríamos tomar muito a sério – dizia Aubrey Serracold, inclinando-se ligeiramente para diante. A luz arrancava brilhos em seu cabelo loiro, e seu rosto alongado estava muito sério; todo rastro de humor tinha desaparecido dele, e por uma vez seu encanto habitual era invisível.

— Pelo amor de Deus! – protestou o estadista entrado em anos, com as faces rosadas– . Esse homem deixou o colégio aos dez anos para descer às minas! Até os mineiros têm suficiente julgamento para acreditar que é capaz de fazer algo por eles no Parlamento, além do ridículo. Perdeu em sua Escócia natal, e não tem nada que fazer aqui em Londres.

— É claro que não. – Um homem de rosto afável se voltou indignado, pegando sua taça de vinho e segurando-a um momento no alto antes de beber– . Somos o partido lógico dos trabalhadores, não uma criação moderna de fanáticos de olhar extraviado com picos e pás nas mãos!

— Essa é a classe de cegueira que nos vai custar o futuro! – replicou Aubrey com a maior seriedade–. Não devemos descartar ao Keir Hardie tão à ligeira. Muitos homens verão sua coragem e sua determinação, e se inteirarão de quanto melhorou sua situação. Pensarão que se foi capaz de conseguir tantas coisas para ele, também poderá fazê-lo para eles.

— Tirá-los das minas e sentá-los no Parlamento? – disse uma mulher vestida de vermelho papoula com incredulidade.

— Oh, querida! – Rose dava voltas a sua taça entre os dedos– . Que demônios queimaremos então em nossos fogos? Duvido que as pessoas que ostentam cargos na atualidade sejam da mais mínima utilidade prática.

Produziu-se um estalo de gargalhadas, mas foram agudas e muito ruidosas.

Jack sorriu.

— É muito engraçado se tomarmos como uma brincadeira que se diz na mesa, mas não tão divertido se os mineiros o escutam e votam em mais indivíduos como ele, cheios de paixão pela reforma, mas que não têm nem idéia do que isso custa... Refiro-me ao custo real, em comércio e manutenção.

— Não o escutarão! – exclamou um homem de bigode branco com um gesto cortês, embora rechaçando com o tom de sua voz a gravidade que lhe dava Jack – . A maioria dos homens têm mais bom senso. – Viu a expressão de dúvida do Jack – . Pelo amor de Deus, Radley, só votam a metade dos homens do país. Quantos mineiros têm casa própria ou pagam mais de dez libras ao ano de aluguel?

— Então, por definição – Aubrey Serracold se voltou para ele com os olhos muito abertos – , os que podem votar são os que prosperam sob o sistema atual? Isso invalida o argumento, não lhe parece?

Os comensais se olharam. Era uma observação inesperada e, a julgar pelos rostos, não tinha sido bem recebida.

— O que pretende nos dizer, Serracold? – perguntou o homem do bigode branco com cautela– . Se algo funciona, por que trocá-lo?

— Não – replicou Serracold com a mesma cautela– . Se funciona para um setor da população, não deveria ser esse setor que tenha direito a decidir se mantê-lo ou não? E, todos temos tendência a ver as coisas de nosso ponto de vista e a preservar nossos interesses.

O lacaio retirou os pratos usados e, virtualmente sem que ninguém se desse conta, serviu aspargos cristalizados.

— Tem um conceito muito baixo de seus colegas do governo – disse um homem ruivo com um tom ligeiramente áspero –. Surpreende-me que queira unir-se a nós! – Aubrey sorriu com um extraordinário encanto, baixando o olhar por um instante antes de voltar-se para seu interlocutor.

— Absolutamente. Acredito que somos prudentes e bastante justos para exercer o poder só na medida em que nos outorga honestamente, mas não tenho tanta confiança em nossos adversários. – Suas palavras foram recebidas com gargalhadas, mas Emily percebeu que não dissipavam de todo a ansiedade, ao menos a do Jack. Conhecia-o o suficientemente bem para perceber a tensão em suas mãos ao sustentar a faca e o garfo, e cortar com destreza as pontas dos aspargos. Guardou silêncio uns minutos.

A conversa se voltou para outros aspectos da política. Os pratos usados foram retirados e substituídos pela caça: codorna, galo silvestre e perdiz. Emily continuou recusando-os. Às mulheres jovens sempre se recomendava que o fizessem, se por acaso logo lhes cheiravam a respiração. Sempre se tinha perguntado por que era aceitável que os homens não o fizessem. Em uma ocasião o tinha perguntado a seu pai e tinha recebido um surpreendido olhar de incompreensão. A ele nunca tinha ocorrido pensar na desigualdade que encerrava esse detalhe.

Esta vez ela recusou por não considerá-lo bastante velha para ser dispensada daquele hábito. Esperava não sê-lo nunca.

Depois da caça chegaram às sobremesas. O menu incluía sorvete, geléia de nectarinas, merengues ou gelatina de morangos, que aceitou e comeu com o garfo, como exigiam as boas maneiras, uma arte que necessitava certa concentração.

Aos queijos seguiu-se uma seleção de sorvetes, creme e napolitano ou sorvete de framboesa, e para acabar, abacaxi – certamente da estufa – , morangos, cerejas, damascos e melões. Observou divertida os diferentes graus de destreza que exibiam os comensais na hora de cortar e comer cada uma das frutas com faca e garfo. Mais de um teve motivos para lamentar sua escolha, sobre tudo os damascos.

Reatou-se a conversa. Era seu dever mostrar-se encantadora, adular os pressentes com sua atenção, diverti-los ou, o que era mais freqüente, parecer divertida. O maior cumprimento que podia fazer-se a um homem era achá-lo interessante, e ela sabia que poucos podiam resistir a isso. Era assombroso quanto podia revelar um homem de si mesmo se uma mulher simplesmente o deixava falar.

Sob os planos, as promessas e as fanfarronadas se percebia uma profunda inquietação, e cada vez estava mais convencida de que esses homens que tinham estado antes no governo e conheciam suas sutilezas e perigos não queriam perder essas eleições, mas tampouco desejavam ganhar de todo coração. Era uma situação curiosa que lhe preocupava, porque não a compreendia. Escutou durante um tempo até que percebeu que cada um, movido por sua própria ambição e paixão, desejava ganhar sua batalha particular, mas não a guerra. O vencedor acabava recebendo um butim com a qual não sabia muito bem o que fazer.

As risadas a seu redor eram crispadas e as vozes estavam carregadas de emoção. As luzes se refletiam nas jóias e taças de vinho e o faqueiro sem utilizar. Os fortes aromas da comida persistiam em meio da intensa fragrância da madressilva.

— Requer muita experiência, uma grande coragem, muita serenidade e uma grande habilidade para atacá-la e despachá-la sem ferir a você nem a seu vizinho, disse-me – afirmou Rose apaixonadamente, com os olhos brilhantes.

— Então, querida senhora, deveria deixar essa perigosa peça a um caçador com coragem e força, olhos de lince e coração valoroso – replicou com decisão o homem sentado a seu lado– . Sugiro que se contente com a caça do faisão ou outro esporte parecido.

— Meu querido coronel Bertrand – respondeu Rose com radiante inocência – , são as instruções ditadas pela etiqueta para comer uma laranja!

O coronel se ruborizou no meio do incontrolável estalo de gargalhadas.

— Peço-lhe desculpas! – disse Rose mal conseguiu fazer-se ouvir– . Temo que não me expliquei bem. A vida está cheia de perigos de toda classe. Sai de um escolho para cair em outro.

Ninguém a contradisse. Mais de um dos pressentes tinha percebido a condescendência do coronel e nenhum se apressou a sair em sua defesa. Lady Warden passou o resto da noite soltando risinhos.

Quando terminou por fim o jantar, as damas se retiraram para que os homens desfrutassem de seu Porto e tivessem – Emily sabia muito bem – , a conversa política séria sobre estratégias, dinheiro e troca de favores que era o propósito da noite.

A princípio, achou-se sentada com meia dúzia de esposas de homens que ou já eram parlamentares ou esperavam sê-lo, ou tinham dinheiro e muitos interesses que dependiam do resultado das eleições.

— Tomara se tomasse mais a sério os socialistas – disse lady Molloy mal se sentaram.

— Refere-se ao senhor Morris e ao Sydney Webb? – perguntou à senhora Lancaster com os olhos abertos e um sorriso à beira da gargalhada – . Com franqueza, querida, viu alguma vez ao senhor Webb? Dizem que é um homem miúdo, desnutrido e infradotado!

Soaram risinhos entre o grupo, tanto nervosos como divertidos.

— Mas o fato de que uma pessoa tenha um aspecto ligeiramente extravagante não deveria nos impedir de ver o valor de suas idéias – disse Rose, desvelando seus profundos sentimentos – ou, o que é mais importante, nos dar conta do perigo que podem significar para o verdadeiro poder. Deveríamos atraí-lo para que se alie conosco em lugar de não lhe fazer caso.

— Não vão se aliar conosco, querida – indicou a senhora Lancaster razoavelmente – . Suas idéias são tão extremistas que é impossível as levar a cabo. Querem um verdadeiro Partido Trabalhista.

Passaram a falar de reformas específicas, e comentaram o ritmo ao que poderiam conseguir-se ou deveriam tentar-se. Emily interveio, mas foi Rose Serracold quem fez as propostas mais escandalosas e provocou mais gargalhadas. Nenhuma das pressentes, salvo Emily, estava muito certa do que se escondia atrás de seu engenho e sua perspicaz observação dos sentimentos e fraquezas.

— Acham que brinco, não é? – disse Rose quando o grupo se dispersou e ficou a sós com Emily.

— Não, não acredito – respondeu Emily, dando as costas aos que estavam mais próximos. De repente estava convencida disso – . Mas acredito que faria bem em deixar que outros acreditem nisso. No momento, os fabianos nos parecem divertidos, mas começamos a ter as primeiras suspeitas de que ao final a brincadeira acabará indo contra nós.

Rose se inclinou para ela com olhar penetrante; toda sua alegria se desvaneceu.

— Precisamente por isso devemos escutá-los, Emily, e adotar ao menos suas melhores ideias... em realidade, a maioria. A reforma chegará, e devemos nos situar à frente dela. O sufrágio deve incluir a todos os adultos, pobres e ricos, e com o tempo também às mulheres. – Arqueou as sobrancelhas – . Não ponha essa cara horrorizada! Assim deve ser. Do mesmo modo que deve desaparecer o Império, mas essa é outra questão. E diga o que disser o senhor Gladstone, devemos estabelecer por lei que a jornada trabalhista não seja superior a oito horas em toda classe de profissões, e que nenhum chefe possa obrigar a um empregado a trabalhar mais horas.

— Ou mulher? – perguntou Emily com curiosidade.

— É claro! – A resposta de Rose foi imediata, uma reação automática a uma pergunta desnecessária.

Emily adotou um ar inocente.

— E se pedisse a sua criada que te trouxesse uma taça de chá às oito e meia, aceitaria que te respondesse que trabalhou oito horas e já não está de serviço, e iria procurar você mesma?

— Touché. – Rose inclinou a cabeça, ruborizando-se de vergonha– . Talvez só nos referimos ao trabalho nas fábricas, ao menos para começar. – Levantou rapidamente o olhar – . Mas isso não muda o fato de que temos que seguir adiante se quisermos sobreviver, para não falar de obter algum tipo de justiça social.

— Todos queremos justiça social – respondeu Emily com ironia – . Só que cada um tem uma idéia diferente do que é e como ou quando obtê-la.

— Amanhã! – Rose deu de ombros – . Pelo que se refere aos conservadores, em qualquer momento desde que não seja hoje!

Reuniu-se brevemente com elas lady Molloy, que se dirigiu sobre tudo à Rose. Era evidente que continuava lhe dando voltas o que esta havia dito antes.

— Será melhor que atue com prudência, não crê? – disse Rose compungida quando se foi – . A pobre está um pouco desconcertada.

— Não a subestime – advertiu Emily – . Pode ser que tenha pouca imaginação, mas é muito ardilosa quando se trata de julgamentos práticos.

— Que aborrecido. – Rose suspirou exageradamente– . É uma das grandes desvantagens de se apresentar para um cargo público: tem que agradar ao público. Não é que não queira fazê-lo! Mas conseguir que lhe compreendam é o maior desafio, não lhe parece?

Emily não pôde evitar sorrir.

— Sei perfeitamente o que quer dizer, embora confesse que a maior parte do tempo nem tento. Se as pessoas não a compreenderem, talvez pense que diz estupidezas, mas se o faz com a suficiente confiança, dar-lhe-ão o benefício da dúvida, o que nem sempre ocorre quando compreendem alguém. A arte não reside tanto em ser inteligente como em ser amável. Digo-o a sério, Rose, me acredite!

Rose parecia a ponto de soltar uma resposta engenhosa, mas trocou de opinião e ficou séria.

— Acredita que há vida depois da morte, Emily? – perguntou.

Emily estava tão surpreendida que falou só com o fim de dar-se tempo para pensar.

— Como diz?

— Acredita que há vida depois da morte? – respondeu Rose com impaciência – . Quero dizer vida de verdade e não uma espécie de existência sagrada como parte de Deus ou do que seja.

— Suponho que sim. Seria muito horrível pensar que não a há. Por quê?

Rose deu de ombros com elegância e adotou uma expressão evasiva, como se tivesse estado às portas de uma grande confidência e tivesse retrocedido.

— Só queria escandalizá-la para fazê-la abandonar por um momento seu espírito prático. – Mas nem em sua voz, nem em seu olhar havia o menor rastro de humor.

— E você acredita? – perguntou Emily esboçando um sorriso para tirar importância à pergunta.

Rose titubeou, sem saber muito bem o que ia responder. Emily percebeu a emoção que palpitava em seu corpo: seu chamativo vestido cor carne e granada, e a tensão de suas mãos presas à beira da cadeira.

— Acredita que não há? – sussurrou Emily.

— Não, não acredito! – Sua voz soou firme, com convicção – . Tenho certeza de que a há! – E de uma forma igualmente repentina relaxou.

Emily estava certa de que lhe havia custado um grande esforço responder. Rose a olhou e voltou a desviar a vista.

— Esteve alguma vez em uma sessão de espiritismo?

— Não em uma autêntica, só em plano de brincadeira, em festas. – Emily a observava – . Por quê? E você?

Rose não respondeu diretamente.

— E o que é autêntico? – disse com uma nota áspera na voz – . Supunha-se que Daniel Dunglas Home era brilhante. Ninguém lhe pilhou, e muitos o tentaram. – voltou-se para olhar Emily no rosto com expressão desafiante, como se pisasse em terreno mais firme e não lhe esperasse uma queda dolorosa se tropeçasse.

— Viu-o alguma vez? – perguntou Emily evitando tocar o tema diretamente, convencida de que não era Dunglas Home, embora não estivesse muito certa de quem se tratava.

— Não. Mas dizem que era capaz de levitar vários centímetros por cima do chão, ou alongar o corpo, sobre tudo as mãos. – Apesar de seu tom despreocupado, observava a reação de Emily.

— Deve ser extraordinário vê-lo – respondeu Emily, não muito segura porque ia alguém querer fazer algo assim –. Mas eu achava que o objetivo de uma sessão de espiritismo era pô-la em contato com os espíritos de pessoas conhecidas que morreram antes de você.

— E é! Essa só é uma manifestação de seus poderes – explicou Rose.

— Ou do poder dos espíritos – esclareceu Emily – . Embora duvide que algum de meus antepassados tivesse truques como esse debaixo da manga... A menos que queira remontar à caça de bruxas da época puritana!

Rose esboçou um sorriso que unicamente se manifestou em seus lábios. Continuava com o corpo tenso, o pescoço e os ombros rígidos, e de repente Emily se convenceu do muito que lhe importava todo o assunto. Com sua atitude frívola pretendia proteger sua vulnerabilidade, e mais que a dor que lhe causaria que se rissem dela, temia algo mais profundo, talvez que lhe arrebatassem e destruíssem sua fé em algo.

Emily respondeu com uma seriedade que não teve que fingir.

— A verdade é que não sei como os espíritos do passado poderiam ficar em contato conosco se quisessem nos dizer algo importante. Não posso dizer que não viessem acompanhados de toda classe de imagens estranhas, ou ruídos, se quiser. Eu julgaria o fenômeno pelo conteúdo da mensagem e não como se transmitiu. – de repente não estava segura de se devia continuar com o que se tinha proposto dizer ou se seria uma intrusão.

Rose interrompeu aquele momento de vacilação.

— Sem ver os efeitos, como vou saber que é autêntico, e não só o médium que me está dizendo o que acredita que quero ouvir? – Descartou aquela ideia com um gesto desembaraçado. – Não é o que alguém entende por um espetáculo sem todas as imagens e os gemidos, as aparições, os golpes, o ectoplasma e todo o resto! – riu com um som crispado – . Não fique tão séria, querida. Não é a Igreja, verdade? Só são fantasmas fazendo soar suas cadeias. O que é a vida se não nos assustarmos de vez em quando... ao menos de coisas assim, que não têm nenhuma importância? Distraem-lhe de tudo o que é realmente horrível. – Agitou uma mão no ar e os diamantes brilharam em seus dedos – . Sabe o que vai fazer Labouchére no Palácio de Buckinghamse algum dia se sair com a sua?

— Não... – Emily demorou uns momentos em passar do profundamente comovedor ao totalmente absurdo.

— Convertê-lo em refugio para mulheres perdidas! – exclamou Rose com voz ressonante– . Não é a melhor brincadeira que ouviu em anos?

Emily se mostrou desconfiada.

— Isso disse?

Rose riu.

— Não sei... mas se não o fez, logo o fará! Quando a velha rainha morrer estou certa de que o príncipe de Gales o fará!

— Pelo amor de Deus, Rose! – exortou Emily, olhando ao redor para ver quem podia havê-la escutado – . Procura conter-se! Algumas pessoas não reconheceriam um sarcasmo embora lhes jogasse em cima e as mordesse!

Rose tratou de parecer surpreendida, mas lhe brilharam os olhos e sentiu tanto desejo de rir que não o conseguiu.

— Quem está sendo sarcástica aqui, querida? Falo a sério! Se as mulheres ainda não se estragaram, ele será o homem que as ajudará!

— Sei, mas pelo amor de Deus, não o diga – sussurrou Emily, mas as duas explodiram em gargalhadas enquanto se reuniam com elas a senhora Lancaster e outras duas mulheres que morriam por saber o que perderam.

O trajeto de volta em carruagem de Park Lañe foi muito diferente. Era mais de uma da madrugada, mas as luzes iluminavam a noite do verão, cálida e sem vento, mostrando o caminho.

Emily só via o lado do rosto do Jack mais próximo à luz do interior da carruagem, mas lhe bastou para perceber uma seriedade que tinha ocultado durante toda a noite.

— O que acontece? – perguntou ela em voz baixa, enquanto saíam de Park Lañe e se dirigiam ao oeste– . O que se passou na sala de jantar quando saímos?

— Discutiu-se muito e se fez planos – respondeu ele voltando-se para ela, talvez sem dar-se conta de que seu rosto ficava em sombra – . Tomara... tomara Aubrey não tivesse falado tanto. Agrada-me muito, e acredito que é um honrado representante do povo e, possivelmente o que é mais importante, um futuro deputado honrado...

— Mas...? – disse ela em tom desafiante– . Ganhará, não? Foi uma cadeira liberal desde que tenho memória! – Queria que ganhassem o máximo número de liberais para que o partido voltasse para poder, mas nesse momento pensava em Rose e como que ficaria afundada se Aubrey fracassasse. Seria humilhante perder uma cadeira segura: atribuiria-se a um rechaço pessoal, não a uma discrepância de opiniões.

— Estou certo, todo o certo que se pode estar de algo – concedeu ele – . E formaremos governo, embora a maioria não seja tão ampla como teríamos gostado.

— O que ocorre então? E não me diga que não acontece nada – insistiu ela.

Jack mordeu o lábio inferior.

— Preferiria que guardasse para ele algumas de suas opiniões mais radicais. Está... está mais perto do socialismo do que pensava. – Falou devagar, escolhendo as palavras – . Admira Sydney Webb, pelo amor de Deus! Não podemos fazer reformas nesse ritmo! As pessoas não o permitirão e os conservadores nos crucificarão! A questão não é se devemos ter ou não um império. Temo-lo, e não podemos resolver de uma vez como se não existisse, e esperar manter o comércio, o emprego, nosso status no mundo, nossos tratados ou qualquer das coisas que temos sem o propósito que há atrás de todo isso. Os ideais estão muito bem, mas sem uma adequada interpretação da realidade podem nos levar a todos à ruína. É como o fogo, que serve ao homem de um modo estupendo, mas quando se converte em seu amo, a destruição é total.

— Disse isso a Aubrey? – perguntou ela.

— Não tive oportunidade, mas o farei.

Emily guardou silêncio uns minutos enquanto a carruagem avançava, pensando nas estranhas perguntas que lhe tinha feito de repente Rose sobre as sessões de espiritismo e quão tensa a tinha visto. Não estava segura de se devia preocupar ou não ao Jack com isso, mas era um peso muito grande, uma inquietação que não podia tirar da cabeça.

A carruagem tomou bruscamente uma curva e se internou em uma rua mais tranqüila, onde as luzes estavam mais espaçadas e projetavam um brilho fantasmagórico nos ramos.

— Rose esteve falando dos espíritas – disse com brusquidão. – Acredito que também deveria lhe insinuar a Aubrey que lhe peça que seja discreta sobre esse tema. Seus inimigos poderiam interpretar isso mal, e uma vez que se dissolva o Parlamento e comece a sério a campanha eleitoral haverá muitos... Acredito... que talvez Aubrey não esteja acostumado a que o ataquem. É um homem tão encantador que agrada a todo mundo.

Jack se sobressaltou.

— Espíritas? Refere a médiuns como Maude Lamont? – Havia em sua voz uma nota de ansiedade bastante marcada para que ela não precisasse ver seu rosto para saber qual era sua expressão.

— Não mencionou ao Maude Lamont, embora todo mundo esteja falando dela. Em realidade nomeouDaniel Dunglas Home, mas suponho que é o mesmo. Falou de levitação, ectoplasma e coisas assim.

— Nunca sei se Rose brinca ou não. Estava brincando? – Não era tanto uma pergunta como uma ordem.

— Não tenho certeza – admitiu Emily – . Mas não acredito. Deu-me a impressão de que havia algo que lhe importava muito.

Jack se sentia incomodado e mudou de postura, pois a carruagem estralava sobre os paralelepípedos desiguais.

— Terei que falar com o Aubrey também disso. Algo que não é mais que um jogo social quando é um homem comum se converte em uma corda com a qual podem lhe pendurar os jornalistas quando se apresenta ao Parlamento. Já estou vendo as tiras cômicas! – Torceu o gesto de tal modo que ela viu o movimento de suas faces ao passar por debaixo de uma luz, antes de voltar a sumir na escuridão. – Pergunta à senhora Serracold quem vai ganhar as escolhas. Que diabos, melhor ainda... pergunte quem vai ganhar o Derby! – exclamou imitando uma voz – . Perguntemos ao fantasma do Napoleão o que vai fazer o czar da Rússia a seguir. Não pode lhe ter perdoado pela invasão de Moscou de mil oitocentos e doze.

— Embora soubesse, é pouco provável que nos dissesse – indicou Emily – . E ainda é menos provável que nos tenha perdoado o do Waterloo.

— Se não pudéssemos perguntar a aqueles com os que estivemos alguma vez em guerra, teríamos que deixar fora a todo mundo exceto aos portugueses e os noruegueses – replicou ele – . Pode ser que seus conhecimentos sobre nosso futuro sejam bastante limitados; provavelmente lhes importa um nada. – Respirou fundo e exalou o ar com um suspiro – . Emily, acha que está vendo realmente um médium, não por diversão como faria em uma festa?

— Sim... – Emily falou com fria convicção– . Receio que sim.

Os dois dias seguintes vieram acompanhados de notícias de diferente e preocupante natureza. Pitt folheava o jornal enquanto tomava o café da manhã arenques defumados fervidos e pão com manteiga – uma das poucas coisas com que se dava bem em cozinhar – quando se achou com a seção das cartas ao diretor. A primeira ocupava um lugar destacado na página.

 

Estimado diretor:

Escrevo com certa consternação como cidadão que apoiou durante toda sua vida ao Partido Liberal e tudo o que conseguiu pela pessoas deste país e, indiretamente, pelo mundo. Sempre admirei e aprovou todas as reformas que empreenderam e converteram em leis.

Entretanto, vivo no distrito do Lambeth sul e escutei cada vez mais alarmado as opiniões do senhor Aubrey Serracold, o candidato liberal para essa cadeira. Não representa os velhos valores liberais da reforma prudente e inteligente, mas sim um socialismo histérico que arrasaria com todos os grandes lucros do passado em um frenesi de mudanças insensatas, certamente bem intencionadas, mas que beneficiariam indevidamente à minoria por um tempo, a custa da maioria e de destruir nossa economia.

Peço encarecidamente a todos os votantes que costumam apoiar o Partido Liberal que prestem muita atenção ao que o senhor Serracold tem a dizer, e que considerem, ainda que pesem, se realmente podem secundá-lo, e se o fazem,que tenham em conta o caminho de destruição pelo que nos estão levando.

A reforma social é o ideal de todo homem honrado, mas deve fazer-se com prudência e sabedoria, e a um ritmo que possamos assimilá-la dentro da estrutura de nossa sociedade. Se se fizer apressadamente, respondendo à falta de moderação de um homem que carece de experiência e aparentemente de tudo praticamente, será a custa da miséria da vasta maioria de nosso povo, que merece de nós algo melhor.

Escreve-lhe com profunda tristeza,

ROLAND KINGSLEY, general de divisão retirado

 

Pitt deixou que o chá se esfriasse, olhando fixamente a página impressa que tinha ante si. Aquele era o primeiro golpe franco contra Serracold, e era forte e contundente. Prejudicaria-lhe.

Tratava-se do Círculo Interior, que se estava mobilizando e iniciava a verdadeira batalha?

 

Pitt saiu para comprar outros cinco jornais e os levou a sua casa para ver se o general de divisão tinha escrito a algum mais nos mesmos termos. Em três deles achou virtualmente a mesma carta com alguma frase trocada aqui e lá.

Dobrou os jornais e permaneceu sentado uns minutos, imóvel, perguntando-se que importância devia conceder ao ataque. Quem era Kingsley? Era um homem cujas opiniões influiriam em outras pessoas? E o mais importante, era sua carta uma coincidência ou o começo de uma campanha?

Não tinha chegado a nenhuma conclusão sobre a necessidade de averiguar mais sobre Kingsley quando soou a campainha da porta. Levantou a vista para o relógio da cozinha e se deu conta de que eram novehoras passada. A senhora Brady devia haver-se esquecido as chaves. Levantou-se aborrecido pela intrusão, apesar de agradecer o trabalho daquela mulher, e foi abrir ante os toques cada vez mais insistentes.

Mas na soleira não achou à senhora Brady, mas um jovem com traje marrom, cabelo penteado para trás e uma expressão ansiosa.

— Bom dia, senhor – disse secamente em posição de espera. – O sargento Grenville, senhor...

— Se Narraway quer me falar da carta de Teme, já a li – disse Pitt com bastante aspereza– . E as do Spectator, o Mail e o Illustrated London News.

— Não, senhor – respondeu o homem carrancudo– . Se trata do assassinato.

— Como? – A princípio Pitt acreditou que não lhe tinha ouvido bem.

— O assassinato, senhor – repetiu o jovem– . No Southampton Row.

Pitt sentiu remorsos quase tão intensos como uma dor física, seguidos de uma onda de ódio por Voisey e todo o Círculo Interior por lhe haver afastado do Bow Street, onde se tinha enfrentado com crimes que compreendia, por terríveis que tivessem sido, e tinha o talento e a experiência, na maioria dos casos, para resolvê-los. Era sua profissão, e ele era bom nela. Pelo contrário, na Brigada Especial andava perdido; sabia o que se avizinhava e era incapaz de detê-lo.

— Cometeu um engano – disse cortante–. Eu já não me ocupo dos assassinatos. Volte e diga a seu comandante que não posso ajudá-lo. Apresente-se ante o superintendente Wetron no Bow Street.

O sargento não se moveu.

— Sinto muito, senhor. Não me expliquei bem. É o senhor Narraway quem quer que você se faça encarregado. Os do Bow Street não gostaram, mas tiveram que aceitá-lo. O senhor Tellman está no comando do Southampton Row. Promoveram-no recentemente, sabe? Mas suponho que já sabe posto que trabalha com ele. Desculpe, senhor, mas seria conveniente que fosse ali agora mesmo, tendo em conta que descobriram o corpo as sete e já são quase nove e meia. Nós acabamos de nos inteirar, e o senhor Narraway me enviou imediatamente aqui.

— Por quê? – Não tinha nenhum sentido– . Já tenho um caso.

— Disse que faz parte dele, senhor. – Grenville lançou Um olhar por cima de seu ombro – . Tenho um coche esperando. Se quer fechar a porta com chave, senhor, poremo-nos a caminho.

A maneira como tinha pronunciado aquelas palavras e todo seu porte davam a entender que não era um sargento que fazia uma sugestão a um oficial superior, a não ser um homem muito seguro de sua posição que transmitia uma ordem de um superior cuja palavra não podia desobedecer-se. Era como se tivesse falado Narraway em pessoa.

Ligeiramente ofendido e resistente a misturar-se no primeiro caso de assassinato do Tellman como inspetor, Pitt fez o que lhe ordenou e seguiu ao Grenville até a carruagem. Percorreram a curta distância ao longo do Keppel Street e ao redor do Russell Square, e várias centenas de metros pelo Southampton Row.

— Quem é a vítima? – perguntou Pitt mal ficaram em marcha.

— Maude Lamont – respondeu Grenville – . Se supõe que era médium, senhor. Uma dessas que diz ficar em contato com os mortos. – Seu tom e seu rosto inexpressivo davam a entender o que opinava de tais coisas, e o fato de que lhe parecesse inapropriado expressá-lo em palavras.

— E por que crê o senhor Narraway que tem que ver com meu caso? – perguntou Pitt.

Grenville olhou à frente.

— Não sei, senhor. O senhor Narraway nunca diz a ninguém o que não precisa saber.

— Bem, sargento Grenville, o que pode me dizer, além de que chego tarde, que vou encontrar-me com meu antigo sargento e lhe arrebatar seu primeiro caso, e que não tenho nem idéia de que se trata?

— Eu tampouco sei, senhor– disse Grenville, olhando de esguelha ao Pitt e dirigindo de novo a vista à frente. – Exceto que a senhorita Lamont era espírita, como disse, e que sua criada a achou morta esta manhã... estrangulada, ao que parece. E que o médico diz que não foi um acidente, de modo que deve havê-lo feito um dos clientes que teve ontem à noite. Suponho que necessita que você averigúe quem foi e talvez por que.

— E não tem você nem idéia de que relação tem com meu caso atual?

— Nem sequer sei qual é seu caso, senhor.

Pitt não disse nada mais, e pouco depois se detiveram além do Cosmo Place. Pitt se apeou, seguido de perto por Grenville, que lhe mostrou o caminho até a porta principal de uma casa muito agradável, que evidentemente pertencia a uma pessoa com ganhos mais que adequados. Um breve lance de escadas conduzia a uma porta esculpida, e ao longo da fachada havia uma grosa capa de cascalho branco.

Um agente foi a abrir, e se dispunha a dar meia volta quando viu Pitt atrás de Grenville.

— Voltou para o Bow Street, senhor? – perguntou com surpresa e o que parecia satisfação.

Antes que Pitt pudesse responder, Grenville interveio.

— No momento não, mas o senhor Pitt vai fazer se encarregado deste caso. Ordens do Ministério do Interior – acrescentou com um tom que resolvia toda discussão sobre o assunto. – Onde está o inspetor Tellman?

O agente parecia perplexo e intrigado, mas sabia captar uma indireta.

— No salão, senhor, com o cadáver. Se tiverem a bondade de me acompanhar...

Sem esperar uma resposta, conduziu-os por um corredor muito amplo decorado ao estilo chinês, com mesas laqueadas e biombos de bambu e seda, até o salão. Aquela estadia também possuía um estilo oriental, com um armário laqueado vermelho junto à parede e uma mesa de madeira com um desenho abstrato esculpido, formando uma série de linhas e retângulos. No centro havia uma mesa maior, ovalada, e ao redor dela, sete cadeiras. As portas-janelas duplas com sofisticadas cortinas davam a um jardim amuralhado cheio de arbustos em flor. Um atalho dobrava a esquina, e certamente levava a parte dianteira, ou a uma grade ou porta lateral que dava ao Cosmo Place.

A Pitt chamou indevidamente a atenção o corpo imóvel de uma mulher que permanecia meio reclinado em uma das duas poltronas atapetadas que havia a cada lado da lareira. Aparentava trinta anos largos, e parecia alta e com uma figura delicadamente curvilínea e esbelta. O rosto também tinha sido formoso em vida, com maçãs do rosto marcadas, e tinha um cabelo moreno grosso e abundante. Mas nesse momento as feições estavam desfiguradas em uma careta terrível, como se estivesse procurando ar. Tinha os olhos muito abertos e fixos, a tez com manchas, e uma estranha substância branca lhe tinha saído da boca e lhe tinha caído pelo queixo.

Em pé no meio da sala estava Tellman, taciturno como sempre e com o cabelo penteado para trás. A sua esquerda havia outro homem de mais idade, corpulento e com feições marcadas que lhe conferiam um ar inteligente. Pela maleta de couro que repousava a seus pés, Pitt deduziu que era o legista.

— Sinto muito, senhor. – Grenville tirou seu cartão e a tendeu ao Tellman – . É um caso da Brigada Especial, e o senhor Pitt vai fazer se encarregado dele. Mas para mantê-lo em segredo será melhor que fique e trabalhe com ele. – Era uma afirmação, não uma sugestão.

Tellman olhou fixamente para Pitt. Fez um esforço por mascarar seus sentimentos, assim como o fato de ter sido pilhado despreparado, mas sua indignação era evidente na rigidez de seu corpo, as mãos tensas aos flancos e a vacilação antes que se dominasse o suficiente para pensar o que dizer. Em seu olhar não havia hostilidade – ao menos a Pitt não o pareceu – , mas cólera e decepção. Tinha trabalhado muito para obter essa promoção , durante os vários anos que tinha permanecido à sombra de Pitt. E no primeiro caso de assassinato de que se fazia encarregado, traziam Pitt de volta sem nenhuma explicação e o punham à frente.Pitt se voltou para o Grenville.

— Se não houver nada mais que comentar, sargento, pode nos deixar para que iniciemos a investigação. O inspetor Tellman me informará de tudo o que se sabe até agora. – Excetuando o motivo pelo que Narraway achava que aquele caso tinha que ver com Voisey. Pitt não imaginava o que podia interessar menos a Charles Voisey que as sessões espíritas. Sua irmã não podia ter sido tão confiante para assistir a uma reunião assim em um momento tão crítico. E se o tinha feito e sua presença ali a tinha posto em uma situação comprometedora, era algo bom ou mal?

Sentiu um frio em seu interior ao pensar que Narraway pudesse ter a esperança de utilizar aquilo em seu proveito. A idéia de que tivesse participado do crime ou de que o utilizasse como forma de coação lhe produzia rechaço.

Apresentou-se ao legista, que se chamava Snow, e se voltou para o Tellman.

— O que averiguou até agora? – perguntou educadamente, da maneira menos comprometedora possível. Não devia permitir que sua cólera se refletisse em sua atitude. Tellman não tinha culpa de nada, e se se inimizasse mais lhe seria mais difícil ter êxito.

— A criada, Lena Forrest, achou-a esta manhã. Era a única criada que vivia na casa – respondeu Tellman, percorrendo com o olhar o aposento para dar a entender sua surpresa ante o fato de que em uma casa com tantas comodidades não houvesse uma cozinheira ou uma criada –. Preparou chá para sua senhora e o levou ao quarto – continuou–. Ao ver que estava vazio e que ninguém tinha dormido na cama, alarmou-se. Desceu aqui, que era o último lugar onde a tinha visto...

— Quando foi isso? – interrompeu-lhe Pitt.

— Antes que começasse a... atividade de ontem à noite. – Tellman evitou a palavra "sessão de espiritismo", e sua opinião sobre elas se fez evidente em seu lábio ligeiramente curvado. Pelo resto, seu rosto chupado estava cuidadosamente desprovido de expressão.

Pitt se surpreendeu.

— Não a viu depois disso?

— Diz que não, apesar de eu insistir. Perguntei-lhe se lhe levou uma última xícara de chá ou se subiu para lhe preparar a banheira ou lhe ajudar a despir-se, mas ela diz que não. – Sua voz não dava pé à discussão –. Parece que à senhorita Lamont gostava de ficar levantada até tarde com certos... clientes... e que todos eles preferiam a privacidade que dá o fato de não ter criados perto, a tranqüilidade de saber que não há ninguém com quem topar-se sem querer ou que lhes interrompesse quando... – calou-se e apertou os lábios.

— De modo que entrou aqui e a achou? – Pitt indicou com a cabeça a figura da poltrona.

— Isso. Perto das sete e dez – respondeu Tellman.

Pitt se surpreendeu.

— É um pouco cedo para que desperte uma senhora, não acha? Sobre tudo quando não começa a trabalhar até a noite e freqüentemente fica levantada até tarde com clientes.

— Também o perguntei. – Tellman lançava fogo pelos olhos–. Disse que a senhorita Lamont sempre madrugava e que depois dormia uma sesta à tarde. – Sua expressão revelava a inutilidade de tratar de dar sentido aos costumes de alguém que acreditava falar com fantasmas.

— A criada tocou algo?

— Assegura que não, e não vi provas de que o fizesse. Diz que em seguida viu que a senhorita Lamont estava morta. Não respirava e estava azulada, e quando lhe pôs um dedo na nuca a notou fria.

Pitt se voltou para o legista com um olhar interrogante.

Snow apertou os lábios.

— Morreu em algum momento da noite – disse, lançando ao Pitt um olhar penetrante e inquisitivo.

Pitt deu outra olhada ao cadáver, depois se aproximou mais e examinou o rosto e a estranha e pegajosa substância que lhe saía da boca e lhe caía por um lado do queixo. A princípio tinha acreditado que era vômito provocado por algum veneno ingerido; depois de examiná-lo com mais vagar, percebeu que tinha uma textura que lhe dava uma aparência similar a uma gaze muito fina.

Ergueu-se e se voltou para o médico.

— Veneno? – perguntou, dando rédea solta a sua imaginação –. O que é? Pode dizê-lo? Por seu rosto, parece que a tenham estrangulado ou asfixiado.

— Asfixia. – Snow fez um ligeiro gesto de assentimento –. Não posso dizê-lo com segurança até que vá a meu laboratório, mas acredito que é clara de ovo.

— O que? – Pitt se mostrou desconfiado. – Por que ia comer clara de ovo? E o que é o... isso...?

— Algum tipo de musselina ou gaze. – Snow torceu o gesto, como se estivesse às portas de um descobrimento mais profundo sobre a natureza humana e temesse o que ia achar –. Se afogou com ela. Introduziu-se nos pulmões ao inalar. Mas não foi um acidente. – Passou por diante de Pitt e puxou a renda da blusa da mulher sem vida. Desprendeu-se por onde o tinha quebrado pouco antes ao examiná-la, e voltou a fechá-lo por decência. Entre os seios se via o começo de um amplo hematoma que estava começando a escurecer quando a morte tinha cortado o fluxo do sangue.

Pitt olhou para Snow nos olhos.

— Obrigaram-na a engoli-lo?

Snow assentiu.

— Diria que com um joelho – assentiu –. Alguém o meteu na boca e lhe segurou o pescoço. Pode ver o ligeiro arranhão de uma unha na face. Imobilizaram-na com bastante peso, até que ela não pôde evitar inalar e afogar-se.

— Tem certeza? – Pitt tratou de afastar de sua mente a imagem: o espesso líquido saindo pela garganta enquanto a mulher lutava por respirar.

— Tanta certeza que se pode estar – respondeu Snow–. A menos que ao fazer a autópsia encontre algo totalmente diferente. Mas morreu de asfixia. Vê-se em sua expressão e nos pequenos coágulos de sangue de seus olhos. – Pitt se alegrou de que não os mostrasse. Tinha-os visto antes e se conformava com a palavra do médico. Em lugar disso pegou uma das mãos frias e a voltou ligeiramente para examinar o pulso. Encontrou os ligeiros ferimentos que esperava. Alguém a tinha segurado, talvez só uns instantes, mas com força.

— Já vejo – murmurou –. Será melhor que me confirme se é clara de ovo, mas suponho que é. Por que ia alguém escolher uma forma de matar tão estranha e desnecessária?

— Esse é seu trabalho – respondeu Snow secamente –. Eu posso lhe dizer o que ocorreu, mas não por que nem quem o fez.

Pitt se voltou para o Tellman.

— Diz que a criada a achou?

— Sim.

— Disse algo mais?

— Não muito, só que não viu nem ouviu nada depois de deixar à senhorita Lamont com os clientes que esperava. Mas diz que se cuidava de não fazê-lo. Uma das razões pela qual gostavam da senhorita Lamont era a privacidade que lhes oferecia... assim como seu... Como o chama? – Franziu o sobrecenho, esquadrinhando o rosto de Pitt. Negou-se resolutamente a chamá-lo "senhor" desde os dias duros em que tinham promovido Pitt. Tellman se tinha sentido aborrecido porque considerava que Pitt, filho de um guarda-florestal, não era a pessoa adequada para estar à frente de uma delegacia de polícia. Aquilo era coisa de cavalheiros, militares ou marinheiros que estavam de volta, como Cornwallis –. Como o chama? Dom, número, truque?

— Provavelmente as três coisas – respondeu Pitt. E pensando em voz alta, acrescentou–: Suponho que quando o propósito é entreter, é bastante inofensivo. Mas como sabe quando alguém toma a sério, tanto se sua intenção for que o faça como se não?

— Não se sabe! – replicou Tellman –. Meus truques se limitam aos jogos com um baralho de cartas ou a tirar coelhos de um chapéu. Desse modo não engana a ninguém.

— Sabe quem foram os clientes de ontem à noite e se vieram de um em um ou todos de uma vez?

— A criada não sabe – respondeu Tellman –. Ou ao menos isso é o que diz, e não tenho motivos para não acreditar nela.

— Onde está? Encontra-se em condições para responder a minhas perguntas?

— Oh, sim – respondeu Tellman com segurança –. Está um pouco afetada, certamente, mas parece uma mulher sensata. Não acredito que tenha compreendido ainda o que isto vai significar para ela. Mas assim que tenhamos acabado de revistar a casa, e pode ser que também fechado esta sala, não haverá motivos para que não possa ficar aqui um tempo, não é? Até que encontre outra casa.

— Não – concordou Pitt –. É melhor que fique. Assim saberemos onde encontrá-la se tivermos mais perguntas que lhe fazer. Falarei com ela na cozinha. Não posso esperar que venha aqui. – Deu uma olhada ao cadáver enquanto cruzava a sala em direção à porta. Tellman não o seguiu. Tinha homens a suas ordens que se encarregariam de revistar a casa e inclusive de interrogar aos vizinhos, embora fosse razoável supor que o crime tinha tido lugar depois do anoitecer, e havia poucas probabilidades de que alguém tivesse visto algo.

Pitt percorreu o corredor para a parte traseira da casa, passando diante de outras quantas portas, até chegar a do fundo, que estava aberta e deixava ver um chão de madeira reluzente banhado pelo sol. Deteve-se na soleira. Era uma cozinha ordenada, limpa e acolhedora. Sobre o fogão negro havia uma chaleira de água fumegante. Diante da pia, havia uma mulher alta e um tanto magra, arregaçada até os cotovelos e com as mãos mergulhadas em água saponácea. Estava imóvel, como se se tivesse esquecido por que se achava ali.

— Senhorita Forrest? – perguntou Pitt.

A mulher se voltou devagar. Aparentava quase cinqüenta anos e tinha o cabelo castanho, com as têmporas grisalhas, recolhido para trás com forquilhas. Possuía um rosto original de bonitas maçãs do rosto e sobrancelhas, nariz reto, mas não muito proeminente, boca grande e bem moldada. Não era bonita; de fato, de certo modo era pouco agraciada.

— Sim. Você também é policial? – perguntou com um ligeiro ceceio que não alcançava a categoria de defeito da fala. Tirou as mãos da água devagar.

— Sim– respondeu Pitt – . Sinto incomodá-la com mais perguntas nestas circunstâncias tão penosas, mas não podemos permitir esperar uma ocasião melhor. – sentiu-se um pouco absurdo enquanto o dizia. Ela parecia estar em completo domínio de si mesma, mas ele sabia que a comoção afetava de diferentes maneiras às pessoas. Às vezes o fazia de um modo tão profundo que não havia sinais externos. Chamo-me Pitt. Quer sentar-se, senhorita Forrest?

Ela obedeceu devagar, secando-as mãos mecanicamente em um trapo que pendia de uma barra de latão frente ao fogão. Sentou-se em uma das cadeiras de espaldar duro que havia perto da mesa e ele se sentou em outra.

— O que quer saber? – perguntou ela sem olhá-lo no rosto, mas sim a um ponto longínquo por cima de seu ombro direito.

A cozinha estava ordenada; no aparador havia uma baixela simples de porcelana empilhada, e em um dos amplos suportes, um montão de roupa branca engomada à espera de ser guardada nos armários. Das cordas de estender estendidas perto do teto pendia mais roupa. O balde de coque estava cheio no chão junto à porta traseira. O fogão negro brilhava, a luz se refletia fracamente nas panelas de cobre que pendiam da viga transversal, e no ar flutuava um aroma de especiarias. Só faltava a presença ou o aroma da comida. Era uma casa que já não tinha nenhuma utilidade.

— Esperava a senhora Lamont a seus clientes separado ou juntos ? – perguntou Pitt.

— Chegavam de um em um – respondeu ela – . E assim partiam, que eu saiba. Mas se juntavam todos para a sessão espírita. – Falou com voz inexpressiva, como se tratasse de mascarar seus sentimentos. Acaso tentava proteger-se a si mesma, ou a sua senhora, do ridículo?

— Viu-os?

— Não.

— Então poderiam ter vindo todos juntos?

— A senhorita Lamont me fez tirar a tranca da porta lateral que dá ao Cosmo Place, como fazia com certas pessoas – respondeu ela– . De modo que suponho que ontem à noite veio um dos discretos.

— Refere-se às pessoas que não querem que as reconheçam?

— Sim.

— São muitas?

— Quatro ou cinco.

— De modo que você preparou o terreno para que pudessem entrar por Cosmo Place em lugar da porta dianteira do Southampton Row? Diga-me exatamente como funcionava tudo.

Ela levantou a vista e olhou nos olhos.

— Há uma porta no muro que dá a essa rua. Tem uma fechadura grande de ferro e a fecham com chave ao sair.

— O que é a tranca que mencionou?

— Fica por dentro, o que significa que embora tenha chave não pode entrar. A porta permanece trancada exceto quando vem um cliente especial.

— E ela recebia a esses clientes individualmente?

— Não, geralmente com um ou dois mais.

— Eram muitos?

— Acredito que não. A maioria das vezes ia à casa dos clientes ou a festas. Só recebia a clientes especiais uma vez à semana, mais ou menos.

Pitt tratou de imaginar a situação: um punhado de pessoas nervosas e excitadas, sentadas na penumbra ao redor de uma mesa, cada uma cheia de seus próprios terrores e sonhos, esperando ouvir a voz de algum ser querido, transfigurado pela morte, que lhe dissesse... o que? Que continuava existindo? Que era feliz? Algum segredo sobre a paixão ou o dinheiro que levou consigo para a tumba? Ou talvez que o perdoava por uma ofensa que era irrevogável?

— De modo que ontem à noite assistiram clientes especiais? – disse alto.

— Deviam sê-lo – respondeu Lena com um movimento quase imperceptível dos ombros.

— Mas você não viu nenhum.

— Não. Como disse, queriam manter completamente a intimidade. De todo modo, ontem à noite era minha noite livre. Saí de casa pouco depois que viessem.

— Aonde foi? – perguntou ele.

— Ver uma amiga, a senhora Lightfoot, que vive no Newington, perto do rio.

— Qual é seu endereço?

— O número quatro do Lion Street, junto a New Kent Road – respondeu ela sem vacilar.

— Obrigado. – Pitt voltou para o assunto das visitas. Alguém comprovaria seu álibi por rotina – . Mas as pessoas que visitavam a senhorita Lamont deviam ver-se, de modo que ao menos eles se conheciam.

— Não sei – respondeu ela – . A sala sempre estava muito pouco iluminada. Sei por que a preparo antes que venham. E ponho as cadeiras necessárias. Ontem havia quatro. Sentaram-se ao redor da mesa. É muito fácil ficar na penumbra, se se quiser. Sempre ponho umas velas só em um extremo e mantenho o abajur de gás apagado. A menos que conheça alguém, não veria quem é.

— E ontem à noite veio uma dessas pessoas discretas?

— Acredito que sim, ou a senhorita Lamont não me teria pedido que tirasse a tranca da porta.

— Esta manhã estava posta de novo?

A mulher abriu um pouco os olhos, compreendendo imediatamente o que queria dizer.

— Não sei. Não o olhei.

— Eu me ocuparei. Mas antes me fale mais da noite de ontem. Tudo o que recorde. Por exemplo, estava nervosa, a senhorita Lamont, ou impaciente por algo? Sabe se alguma vez tinha recebido ameaças ou enfrentara um cliente zangado ou insatisfeito com as sessões de espiritismo?

— Se o fez, não me disse – respondeu Lena – . Mas nunca falava dessas coisas. Devia saber centenas de segredos de outras pessoas. – Por um momento, sua expressão mudou. Invadiu-lhe uma profunda emoção e se esforçou por ocultá-la. Poderia ser medo, sensação de vazio, ou o horror ante uma morte repentina e violenta. Ou qualquer outro sentimento que ele nem sequer imaginava. Acaso acreditava em espíritos vingativos e agitados –. Considerava-o um assunto confidencial – disse em alto, e seu rosto recuperou seu aspecto inexpressivo, concentrada meramente em responder as perguntas do Pitt.

Ele se perguntou quanto sabia da profissão de sua senhora. Vivia na casa. Não tinha tido curiosidade?

— Limpa o salão onde se realizam as sessões? – perguntou.

A mão dela deu uma pequena sacudida, um ligeiro movimento produzido pelos músculos ao esticar-se.

— Sim. A mulher da limpeza se ocupa do resto, mas a senhorita Lamont sempre me fazia limpar esse salão.

— Não a assusta a idéia das aparições sobrenaturais?

Um vislumbre de desdém brilhou nos olhos da senhorita Forrest, e logo se desvaneceu. Quando respondeu, sua voz voltava a ser suave.

— Se deixar essas coisas em paz, elas deixarão a você em paz.

— Acreditava no... dom da senhorita Lamont?

Lena titubeou com uma expressão inescrutável. Tratava-se de um hábito de lealdade em conflito com a verdade?

— O que pode me dizer sobre esse assunto? – de repente o tom do Pitt se tornou premente. A morte de Maude Lamont tinha sido sem dúvida conseqüência de seu dom, fosse verdadeiro ou falso. Não havia nenhuma possibilidade de que a tivesse matado um ladrão surpreendido no ato ou um parente invadido pela cobiça. Era algo profundamente pessoal, movido pela cólera ou inveja; uma vontade de destruir não só à mulher, mas também algo dos poderes que afirmava ter.

— Eu... não sei, em realidade – respondeu Lena com desconforto – . Só sou uma criada, não fazia parte de sua vida. Sabia que havia pessoas que realmente acreditavam. Havia mais, além das que recebia aqui. Uma vez comentou que aqui era onde fazia melhor seu trabalho. Quando ia a outras casas se tratava mais de um entretenimento.

— De modo que as pessoas que vieram aqui ontem à noite desejavam ficar verdadeiramente em contato com os mortos, por alguma razão pessoal e urgente. – Era mais uma afirmação que uma pergunta.

— Não sei, mas isso era o que ela dizia. – Estava tensa, com as costas retas e fastadas do espaldar da cadeira, e os punhos fechados ante si em cima da mesa.

— Assistiu alguma vez a uma sessão de espiritismo, senhorita Forrest?

— Não! – A resposta foi instantânea e veemente, embargada de uma profunda emoção. Logo desceu os olhos, evitando o olhar do Pitt. Falou em voz ainda mais baixa – . Que os mortos descansem em paz. Com repentina e entristecedora compaixão, Pitt viu como lhe enchiam os olhos de lágrimas que lhe correram pelas faces. Ela não se desculpou nem escondeu o rosto. Era como se por uns instantes se esquecesse de sua presença, absorta em sua perda. Certamente o motivo de sua pena era um ser querido e não Maude Lamont, que jazia rígida e grotesca em outro aposento. Pitt desejou que alguém a consolasse, que estendesse uma mão por cima daquela dor desconhecida e a tocasse.

— Você tem família, senhorita Forrest? Alguém a quem podem avisar?

Ela sacudiu a cabeça.

— Só tinha a minha irmã Nell, que em paz descanse, e faz tempo que morreu – respondeu ela, erguendo-se e respirando fundo. Fez um grande esforço por dominar-se e o conseguiu– . Quererá saber quem eram os clientes que vieram ontem à noite. Não posso dizer-lhe porque não sei, mas ela tinha uma agenda em que apontava todas essas coisas. Está em sua escrivaninha. Certamente estará fechada com chave, mas achará a chave em uma corrente que levava ao redor de seu pescoço. Se não quiser pegá-la, pode quebrá-la com uma faca, mas seria uma lástima. É um bonito móvel de marchetaria.

— Pegarei a chave. – Pitt se levantou – . Precisarei falar de novo com você, senhorita Forrest, mas no momento me diga onde está a escrivaninha e prepare chá, ao menos para você. Talvez o inspetor e seus homens também o agradeçam.

— Sim, senhor. – Lena vacilou – . Obrigada.

— A escrivaninha? – recordou-lhe ele.

— Oh, sim! Está no estúdio, a segunda porta à esquerda. – Indicou com um gesto.

Agradeceu-lhe, depois retornou ao salão onde estava o cadáver e viu Tellman olhando pela janela. O legista se fora, mas no pequeno jardim havia um agente rodeado de camélias e de uma longa roseira amarela em plena floração.

— Estava trancada por dentro a porta do jardim? – perguntou Pitt.

Tellman assentiu.

— E não se pode sair à rua pelas portas-janelas. Teve que ser um dos que já estavam dentro – disse desconsoladamente – . Deve ter partido pela porta principal, que se fecha sozinha. E a criada disse que não tinha nem idéia quando o perguntei.

— Não, mas disse que Maude Lamont tinha uma agenda na escrivaninha do estúdio, e que a chave está ao redor de seu pescoço. – Pitt indicou com a cabeça à mulher morta – . Poderia ter escrito algo nela, talvez inclusive o motivo pelo que iam vê-la. Ela certamente sabia.

Tellman franziu o sobrecenho.

— Pobres diabos – disse com ferocidade – . Que necessidade move uma pessoa a ir a uma mulher assim em busca da classe de resposta que deveria obter da igreja ou empregando o bom senso? Quero dizer... o que perguntam? – O sobrecenho franzido conferia um ar de severidade a seu rosto alongado– . Onde está? Como é isso? Ela podia lhes dizer algo... Como iriam dar-se conta eles? É perverso cobrar por jogar com a dor de uma pessoa. – Deu-lhe as costas – . E é uma estupidez por parte deles pagar.

Pitt demorou uns momentos em passar de um tema a outro, mas se deu conta de que Tellman lutava com uma cólera e uma confusão interior, e de que tinha tratado de evitar a conclusão de que uma dessas pessoas que ele não podia evitar compadecer-se devia ter matado à mulher sentada silenciosamente na poltrona a só uns palmos de distância, lhe cravando o joelho no peito enquanto ela lutava por respirar e se afogava com a estranha substância que lhe obstruía a garganta. Tratava de imaginar a ira que lhe tinha levado a fazer isso. Era solteiro e não freqüentava muito o trato com mulheres fora do entorno policial formal. Confiava que fosse Pitt quem tocasse o corpo e procurasse a chave em certa zona que lhe seria violento olhar.

Pitt se aproximou e levantou com delicadeza a renda da parte dianteira do vestido e apalpou por debaixo dos lados do tecido da blusa. Encontrou a fina corrente de ouro e puxou-a até ter a chave nas mãos. Passou-a com cuidado pela cabeça tratando de não despenteá-la; uma precaução claramente absurda. O que podia importar agora? Mas fazia apenas umas horas estava viva, e seu rosto se achava avivado pela inteligência e os sentimentos. Então teria sido impensável lhe roçar o pescoço e o peito desse modo.

Afastou-lhe a mão, embora pouco importava já se a esmagasse. Foi um gesto mecânico. Nesse momento reparou no cabelo longo apanhado no botão da manga, de uma cor muito diferente do seu. Ela era morena, e aquele cabelo brilhou por um instante com um matiz pálido como a lã de vidro. Quando finalmente ele se moveu, voltou a fazer-se invisível.

— O que tem que ver isto com a Brigada Especial? – perguntou Tellman, com um repentino matiz de frustração na voz.

— Não tenho nem idéia – respondeu Pitt, erguendo-se e colocando a cabeça da mulher morta na posição exata em que tinha estado.

Tellman olhou-o furioso.

— Vai deixar-me ver sua agenda? – perguntou, desafiante.

Era uma decisão que Pitt não se expôs. Respondeu sem pensar, doído pelo absurdo daquela situação.

— É claro que sim! Espero tirar dela muito mais que os nomes das pessoas que estiveram aqui ontem à noite. Vamos necessitar pouco menos que um milagre para averiguar todo o possível desta mulher. Terá que falar com o resto de seus clientes. Que tipo de pessoas ia a ela, e por quê? Quanto lhe pagavam? Ganhava o suficiente para permitir-se viver nesta casa? – Percorreu mecanicamente a sala com o olhar, com seu sofisticado papel na parede e os móveis orientais intrincadamente esculpidos. Sabia o bastante para calcular o valor pelo menos parte deles.

Tellman franziu o sobrecenho.

— Como sabia ela o que devia dizer a essas pessoas? – perguntou, mordendo o lábio inferior– . Fazia primeiro averiguações e depois inventava apoiando-se em hipóteses acertadas?

— Provavelmente. Talvez escolhesse seus clientes com muito cuidado; só a aqueles dos que já sabia algo ou estava segura de poder averiguar algo.

— Procurei por toda a sala. – Tellman ficou olhando as paredes, os braços do lampião de gás, o alto armário laqueado – . Não me ocorre como podia fazer seus truques. O que se supunha que fazia? Conseguia que aparecessem fantasmas, ou que se ouvissem vozes? Mostrava pessoas flutuando no ar? O que? O que os fazia acreditar que eram espíritos, e não o produto de alguém que lhes dizia o que queriam ouvir?

— Não sei – respondeu Pitt– . Pergunta aos outros clientes, mas tome cuidado, Tellman. Nunca zombe da fé de ninguém, por ridícula que lhe pareça. Quase todos necessitamos de algo mais que o presente; temos sonhos que não se fazem realidade aqui e necessitamos a eternidade. – Sem acrescentar nada nem esperar uma resposta, saiu, deixando que Tellman continuasse revistando a sala sem saber o que procurava.

Dirigiu-se ao estúdio e abriu a porta. Logo ao entrar achou a escrivaninha, um bonito móvel, como havia dito Lena Forrest, de madeira dourada e com deliciosos detalhes de marchetaria de tons escuros e claros.

Introduziu a chave na fechadura e a fez virar. Abriu-se facilmente, deixando ver uma superfície lisa de couro. Havia duas gavetas e meia dúzia de fichários. Em uma das gavetas achou uma agenda e a abriu pela página do dia anterior. Viu dois nomes e sentiu um frio na boca do estômago ao reconhecê-los ambos: Roland Kingsley e Rose Serracold. De repente compreendeu exatamente por que lhe tinha enviado Narraway.

Ficou imóvel, assimilando a informação e tudo o que podia significar. Era possível que o cabelo longo e loiro que tinha visto na manga da mulher morta fosse de Rose Serracold? Não tinha nem idéia porque nunca a tinha visto, mas teria que averiguar. Devia entregar a Tellman ou procurar investigar por sua conta? Ou o teria deixado o médico ao despir o corpo para a autópsia? Podia significar algo... ou nada.

Demorou uns minutos em dar-se conta de que na terceira linha não havia um nome a não ser uma espécie de desenho, como os que faziam os antigos egípcios para representar uma palavra, um nome. Tinha entendido que os chamavam "Aquele cartuchos era redondo, e dentro tinha um semicírculo sobre uma figura que parecia um f minúsculo ao contrário. Era muito simples e, ao menos para ele, não significava nada absolutamente.

Por que ia ser alguém tão misterioso para que a própria Maude Lamont tivesse tido que fazer esse estranho desenho em lugar de escrever seu nome? Não havia nada ilegal em consultar a um médium. Nem sequer era motivo de escândalo ou de ridículo, salvo para os que tinham afirmado o contrário e tinham ficado, portanto, como hipócritas. Gente de toda classe o tinha provado; alguns como parte de uma investigação séria, outros por pura diversão. E sempre havia os solitários, os inseguros, e os angustiados que necessitavam que lhes assegurassem que seus seres queridos continuavam existindo em alguma parte e se preocupavam com eles inclusive no mais à além. Talvez o cristianismo, ao menos como a Igreja o pregava agora, já não o fazia por eles.

Passou as páginas para ver se havia outros cartuchos, mas não achou nenhum, à exceção do que tinha descoberto a princípio, que aparecia repetido uma meia dúzia de vezes nos meses anteriores de maio e junho. Parecia ter acudido a cada dez dias mais ou menos, com irregularidade.

Ao voltar a olhar a agenda percebeu também que Roland Kingsley tinha estado sete vezes antes, e Rose Serracold, dez. Só em três ocasiões tinham coincidido todos na mesma sessão. Olhou outros nome e viu que muitos deles se repetiam ao longo dos meses; outros apareciam um par de vezes, ou talvez durante três ou quatro semanas seguidas, e não voltavam a aparecer. Ficavam satisfeitos ou desiludidos? Tellman teria que encontrá-los e interrogá-los, averiguar o que lhes dava Maude Lamont, que explicação tinha a estranha substância que lhe tinham encontrado na boca e na garganta.

Por que uma mulher sofisticada como Rose Serracold, amiga da irmã de Charlotte, tinha ido ali a busca de vozes, aparições...? A que desejava achar resposta? Sem dúvida havia uma conexão entre sua presença e a do Roland Kingsley.

Pitt notou a presença de Tellman antes de vê-lo do outro lado da porta. Voltou-se para ele.

Tinha uma expressão interrogante.

Pitt lhe entregou a agenda e viu como descia a vista para ela para a seguir elevá-la.

— O que significa isto? – perguntou, assinalando o cartucho.

— Não tenho nem idéia – reconheceu Pitt – . Alguém tão desesperado para que não se soubesse sua identidade assim como para que Maude Lamont não escrevesse seu nome nem sequer em sua agenda.

— Talvez não soubesse – disse Tellman. Respirou fundo – . Talvez por isso a mataram. Porque ela o averiguou.

— E tratou de lhe fazer chantagem? Com base em que?

— Fosse o que fosse o que o fazia vir aqui, era secreto – replicou Tellman – . Talvez não fosse um cliente, mas um amante. É algo pelo que alguém poderia estar disposto a matar. – Torceu o gesto – . Talvez isso seja o que interessa a sua Brigada Especial. Um político que não pode permitir-se que se faça pública uma aventura amorosa em plenas eleições. – Olhava-o de forma desafiante, furioso por ter recebido aquele caso contra sua vontade e não ter sido posto à corrente, por ter sido utilizado, mas não informado.

Pitt tinha suposto que se ofenderia. Era consciente da ferida, mas foi quase um alívio que por fim se manifestasse abertamente entre eles.

— É possível, mas o duvido – disse com franqueza – . Não tenho nem idéia de por que está envolta a Brigada Especial, mas, que eu saiba, o único que me interessa neste caso é a senhora Serracold. E se resultar em que matou Maude Lamont, terei que ir atrás dela como faria com qualquer outra pessoa.

Tellman se relaxou um pouco, mas fez o possível por ocultá-lo. Ergueu ligeiramente os ombros.

— Do que estamos tratando de proteger à senhora Serracold? – Não parecia consciente de ter utilizado o plural, pois não deu sinais de ter reparado nisso.

— De uma traição política – respondeu Pitt – . Seu marido vai apresentar-se ao Parlamento. Seu adversário poderia empregar meios corruptos ou ilegais para desacreditá-lo.

— Quer dizer através de sua mulher? – Tellman parecia surpreso – . É o que se chama... uma emboscada... política?

— Provavelmente não. Espero que não tenha nada que ver com ela, e que seja uma simples casualidade.

Tellman não acreditou nele, e seu ceticismo se refletiu em seu rosto. Em realidade, Pitt tampouco acredita no que acabava de dizer. Tinha conhecido muito bem o poder de Voisey para atribuir à sorte qualquer golpe a seu favor.

— Como é a tal senhora Serracold? – perguntou Tellman, franzindo ligeiramente o sobrecenho.

— Não tenho nem idéia – reconheceu Pitt – . Estou começando a averiguar algumas coisas sobre seu marido e, o que é mais importante, sobre seu adversário. Serracold é muito rico, o segundo filho de uma família de antiga ascendência. Estudou história em Cambridge, é aficionado à arte e viajou bastante. Está muito interessado na reforma e é membro do Partido Liberal, e se apresenta para a cadeira do Lambeth sul.

O rosto do Tellman refletiu todas suas emoções, embora se tivesse sabido se teria posto furioso.

— É um rico privilegiado que não trabalhou um só dia em sua vida, e agora acredita que gostaria de fazer parte do governo e nos dizer o que se deve fazer e como fazê-lo. Ou talvez, o que é o que não se deve fazer – respondeu.

Pitt não se incomodou em discutir. Do ponto de vista do Tellman, provavelmente aquilo se aproximava bastante à verdade.

— Mais ou menos.

Tellman exaltou devagar; não tinha a menor sensação de triunfo, pois não tinha conseguido provocar a discussão que tinha esperado.

— Que tipo de pessoa vai a uma mulher que fala com fantasmas? – perguntou – . Não sabem que tudo isso são sandices? – estremeceu ligeiramente, embora fizesse calor ao sol e não corria a mais leve brisa no jardim amuralhado, com suas sombras silenciosas, sua fragrância e o zumbido das abelhas.

— Trata-se de pessoas que buscam algo – respondeu Pitt –. Vulneráveis, sozinhas, que ficaram estancada no passado porque o futuro lhes parece insuportável sem seus seres queridos. Não sei... As pessoas podem ser utilizadas e exploradas pelos que acreditam que têm poder ou sabem como criar uma ilusão, ou ambas as coisas.

O rosto do Tellman era uma máscara de indignação, enquanto a compaixão lutava em seu interior.

— Deveria ser ilegal! – disse com os lábios rígidos – . É uma mescla de prostituição e truques de estelionatário de feira, mas ao menos eles não utilizam o sofrimento alheio para fazer-se ricos!

— Não podemos impedir que as pessoas acreditem no que quiserem ou no que precisarem – replicou Pitt – . Ou que explorem a verdade que tenham vontade.

— A verdade? – disse Tellman, zombador – . Por que não se limitam a ir à igreja os domingos? – Mas era uma pergunta para a que não esperava resposta. Sabia que não a havia; ele mesmo não tinha nenhuma –. Enfim, temos que averiguar quem o fez – disse asperamente – . Suponho que não merecia que a assassinassem, como qualquer outra pessoa, embora se metesse onde não devia. Eu não gostaria que incomodassem meus mortos! – Afastou o olhar do Pitt e o cravou nos louros situados junto ao muro mais longínquo, onde estava a porta que dava ao Cosmo Place. – Como fazem os truques? Revistei essa sala de cima abaixo e não encontrei nada, nem alavancas, nem pedais, nem arames, nada. E a criada assegura que não tem nada que ver com isso... Claro, que vai dizer isso! – Tellman arrastou os pés pela grama – . Como faz acreditar às pessoas que está se erguendo no ar, pelo amor de Deus? Ou que seu corpo se está alongando?

Pitt mordeu o lábio.

— O mais importante para nós é como pode saber o que as pessoas querem ouvir para depois poder dizer-lhes.

Tellman olhou-o fixamente com a perplexidade pintada em seu rosto, e logo começou a compreender.

— Averigua coisas sobre eles – disse em voz baixa – . A criada nos disse esta manhã. Comentou que escolhia com muito cuidado seus clientes. Só aceita a aqueles dos que pode averiguar coisas. Escolhe alguém que conhece, escuta-o, faz-lhe perguntas, ata fios a partir do que ouve, pede a alguém que lhe reviste os bolsos ou a bolsa. – ia se entusiasmando com o assunto, e seus olhos brilhavam de cólera – . Talvez faça que alguém fale com seus criados. Ou entra em sua casa e as cartas e papéis, ou lhe revista a roupa! Pergunta aos lojistas, averigua quanto gasta e a quem deve dinheiro.

Pitt suspirou.

— E quando tem suficiente informação sobre uma ou duas pessoas, talvez tenta uma chantagem cuidadosamente estudada – acrescentou –. Poderíamos ter entre mãos um caso muito desagradável, Tellman, muito desagradável.

Um vislumbre de compaixão suavizou a expressão do Tellman, quem apertou deliberadamente os lábios para ocultá-lo.

— A qual dessas três pessoas pressionou mais? – perguntou em voz baixa– . E apoiando-se no que? Espero que não seja sua senhora Serracold... – Levantou ligeiramente o queixo, como se lhe apertasse muito o colarinho da camisa– . Mas se é, não vou olhar para outro lado para agradar à Brigada Especial!

— E se o fizesse, daria igual – replicou Pitt – . Porque eu não penso fazê-lo.

Tellman relaxou pouco a pouco. Assentiu ligeiramente e, pela primeira vez, sorriu.

 

Isadora Underhill estava sentada em uma mesa opulenta e brincava com a comida, empurrava-a pelo prato com estudada elegância, comendo um bocado de vez em quando. Não é que estivesse má; simplesmente era insípida, e exatamente a mesma que tinha comido a última vez que tinha estado nessa suntuosa câmara revestida de espelhos, com seus aparadores de estilo Luis XV e os enormes lustres dourados. De fato, que ela recordasse, os comensais eram virtualmente os mesmos. À cabeceira da mesa estava sentado seu marido, o bispo. Tinha um aspecto ligeiramente dispéptico, pensou, pálido e com os olhos ligeiramente inchados, como se tivesse adormecido mal e comido muito. E entretanto, observou que mal tinha provado bocado. Talvez estivesse convencido de que voltava a sentir-se mal ou, o que era mais provável, achava-se, como sempre, muito ocupado falando.

Ele e o arquidiácono elogiavam as virtudes de alguma Santa falecida fazia tempo, da qual ela nunca tinha ouvido falar. Como podia falar alguém de verdadeira bondade, inclusive de santidade, de vencer o medo, ou de desculpas para as insignificantes vaidades e enganos da vida cotidiana, a generosidade de espírito daqueles capazes de perdoar as ofensas do rancor e os julgamentos alheios, a risada amável e o amor a todas as criaturas vivas, e mesmo assim fazer que soasse tão aborrecido? Deveria ser fascinante!

— Ria alguma vez? – perguntou ela de repente.

Produziu-se um silêncio ao redor da mesa. Os quinze comensais se voltaram para olhá-la, como se tivesse atirado uma taça de vinho ou feito um ruído grosseiro.

— Era uma Santa – respondeu a mulher do arquidiácono com paciência.

— Como pode alguém ser santo se não tiver senso de humor? – perguntou Isadora.

— A santidade é um assunto muito sério – tratou de explicar o arquidiácono, olhando-a com impaciência. Era um homem corpulento com o rosto muito rosado – . Era uma mulher que estava perto de Deus.

— Ninguém pode estar perto de Deus sem amar ao próximo – disse Isadora, obstinada, com os olhos muito abertos – . E como se pode amar a outros sem um profundo sentido do absurdo?

O arquidiácono piscou.

— Não entendo a que se refere.

Ela olhou seus pequenos olhos marrons e sua boca cautelosa.

— Não – concordou ela, totalmente certa de que o homem sabia muito pouco. Mas, a seu julgamento, ela estava longe de ser uma Santa. Não podia imaginar como alguém, nem sequer um santo, podia amar o arquidiácono. Perguntou-se distraída o que sentia em realidade sua esposa. Por que se tinha casado com ele? Era diferente então? Ou tinha sido uma questão de conveniência, ou inclusive de desespero?

Pobre mulher.

Olhou o bispo. Tratou de recordar por que se casara com ele, e se ambos tinham sido realmente tão diferentes há trinta anos. Ela tinha querido ter filhos, mas não tinha conseguido. Ele tinha sido um jovem honrado com um grande futuro. Tinha-a tratado com cortesia e respeito. Mas o que tinha acreditado ver nele, em seu rosto, em suas mãos, para deixar que a tocassem? O que tinha encontrado em sua conversa para estar disposta a escutá-la o resto de sua vida? Quais tinham sido os sonhos daquele homem para que ela os tivesse querido compartilhar?

Se o tivesse sabido alguma vez, tinha esquecido isso.

Nesse momento estavam falando de política, divagando sem parar sobre as virtudes de fulano, os defeitos de beltrano, como o auto-governo da Irlanda significaria o começo da decadência que acabaria dividindo o Império e deteria o esforço missionário de levar a luz da virtude cristã ao resto do mundo.

Ela olhou ao redor e se perguntou quantas das mulheres estavam escutando realmente o que se dizia. Todas usavam trajes de noite: mangas balão, cintura ajustada, gola alta na moda. Ao menos algumas delas olhavam fixamente a toalha de linho branca, os pratos, os galheteiros, os ordenados Ramos de flores de estufa, e contemplavam a luz da lua sobre as ondas altas, os mares enfurecidos com a água branca que se aproximava rapidamente e se encrespava sob um redemoinho incessante, ou a pálida areia de algum deserto ardente onde os cavaleiros se moviam como pontos negros contra o horizonte, com suas roupas inchando-se ao vento.

Retiraram os pratos e trouxeram outros. Isadora nem sequer olhou o que era.

Quanto tempo de sua vida tinha passado sonhando com outro lugar, desejando inclusive estar nele?

O bispo tinha recusado o prato. Devia voltar a ter indigestão, mas isso não o impediu de estender-se sobre os pontos fracos, especialmente a falta de fé religiosa, do candidato parlamentar por Lambeth sul. Aparentemente, a mulher daquele homem desafortunado ganhou sua desaprovação, embora admitisse não tê-la conhecido nunca, que ele soubesse. Mas lhe tinham informado que admirava à classe de pessoas mais lamentáveis que existiam: alguns desses socialistas extraordinários que se chamavam o grupo do Bloomsbury e tinham noções radicais e absurdas sobre a reforma.

— Não está Sydney Webb nesse grupo? – inquiriu o arquidiácono torcendo o gesto com desgosto.

— É claro que está, se não for o líder – replicou outro homem, encurvando-se ligeiramente – . É o tipo que animou a essas mulheres desgraçadas a fazer a greve!

— E o candidato pelo Lambeth sul admira isso? – perguntou a mulher do arquidiácono com incredulidade – . É o começo da desordem civil e o caos total! Está procurando uma catástrofe.

— Em realidade acredito que foi a senhora Serracold quem expressou essa opinião – esclareceu o bispo – . Claro que se ele tivesse sido um homem de critério, não o teria permitido.

— Certamente. – O arquidiácono fez um enérgico gesto de assentimento.

Escutando-os e vendo seus rostos, Isadora sentiu simpatia instintivamente pela senhora Serracold, embora ela tampouco a conhecesse. Se tivesse direito a voto, votaria em seu marido, quem aparentemente se apresentava pelo Lambeth sul. Seu motivo não era mais estúpido que o que impulsionava à maioria dos homens a votar como faziam, apoiando-se no que tinham feito seus pais antes deles.

O bispo falava nesse momento sobre a santidade do papel das mulheres como protetoras do lar, guardiãs de um espaço de paz e inocência ao qual podiam retirar-se os homens que lutavam as batalhas do mundo para curar sua alma e restabelecer sua mente, e assim poder reincorporar-se à luta na manhã seguinte.

— Faz que pareçamos um cruzamento entre uma banheira fumegante e um copo de leite quente – disse Isadora em um momento de silêncio, enquanto o arquidiácono tomava ar para responder.

O bispo ficou olhando-a.

— Expressou-o de forma excelente, querida – disse – . Ambos são purificadores e reparadores, um bálsamo para o corpo e o espírito.

Como podia tê-la interpretado tão mal? Conhecia-a desde há mais de um quarto de século e achava que lhe dava a razão! Não sabia reconhecer um sarcasmo? Ou era bastante inteligente para voltá-lo contra ela e desarmá-la lhe fazendo acreditar que o tinha tomado em sentido literal?

Isadora segurou seu olhar do outro lado da mesa, quase esperando que estivesse mofando dela. Ao menos seria uma amostra de comunicação, de inteligência. Mas não era assim. Ele a olhou sem compreender, depois se voltou para a mulher do arquidiácono e ficou falando sem parar sobre as lembranças de sua querida mãe, quem, conforme recordava Isadora, era bastante divertida e nada da mulher sem caráter que ele descrevia.

Mas quantas pessoas que conhecia tendiam a não ver seus pais como o fazia o resto do mundo, porém como os estereótipos de pai e mãe que queriam fazer deles, bons ou maus. Talvez ela tampouco tinha conhecido tão bem seus pais.

As mulheres da mesa falavam muito pouco. Era mal visto que interviessem na conversa dos homens, e não estavam preparadas para colocar opiniões. Eles achavam que as mulheres eram boas por natureza, ao menos as melhores; as piores eram a origem mesmo da perdição. Entre umas e outras não havia tantas. Mas não era o mesmo ser bom que saber algo da bondade. Às mulheres correspondia serem boas, enquanto que os homens falavam disso, e quando era necessário, diziam como se devia atuar.

Como não lhe exigia nem lhe permitia participar da conversa, além de alguma expressão interessada e amável, Isadora deixou vagar sua imaginação. Era curioso quantas das imagens que desfilavam por sua mente estavam relacionadas com lugares longínquos, sobre tudo o mar. Pensou nos vastos espaços do oceano rodeados de um horizonte plano por todos os lados, tratando de imaginar o que devia sentir-se ao ter só uma coberta em contínuo movimento sob os pés, com o vento e o sol na rosto, e saber que na pequena totalidade desse navio tinha todo o necessário para sobreviver e não se perder através da impenetrável imensidão que podia elevar-se em terríveis tempestades para golpear você, inclusive para lhe agarrar e esmagar como uma mão poderosa. Ou que podia permanecer tão calma que o ar da brisa não bastaria para encher suas velas.

Quem vivia debaixo? Criaturas formosas, criaturas aterradoras? Criaturas inimagináveis? E as únicas coisas que lhe guiava eram as estrelas no alto e, é claro, o sol, um perfeito relógio, se soubesse interpretá-lo.

— ... realmente temos que falar disso com alguém – dizia uma mulher envolta em renda de cor marrom em diferentes tons –. Contamos com você, bispo.

— É claro, senhora Howarth – assentiu ele sabiamente, levando o guardanapo aos lábios–. É claro.

Isadora desviou o olhar. Não queria ver-se envolvida na conversa. Por que não falavam do mar? Era a analogia perfeita de quão, só a pessoa está na travessia da vida, como tem que levar no interior tudo o que necessita, e a constatação de que só o quem pode interpretar os céus, sabe em que direção navegar.

O capitão Cornwallis o teria entendido. Logo se ruborizou do facilmente que tinha acudido o nome a sua mente, e sentiu uma onda de prazer. Tinha a sensação de ser transparente. Tinha-lhe visto alguém o rosto? É claro, nunca tinha falado com Cornwallis de tais coisas, ao menos diretamente, mas estava mais certa do que ele pensava que se tivessem falado. Ele era capaz de dizer tanto em um par de frases, enquanto que os homens que a rodeavam se dedicavam a falar sem parar durante toda a noite, sem dizer virtualmente nada.

O bispo continuava falando, e ela olhou seu rosto complacente, incapaz de escutar, e com um horror que a percorreu como uns insetos que se arrastassem por todo seu ser, caiu na conta de que lhe tinha aversão. Quanto tempo fazia que se sentia assim? Desde que conhecia John Cornwallis ou antes?

O que tinha sido toda sua vida, transcorrida dia após dia em presença – não podia dizer companhia – de um homem que não lhe inspirava simpatia, e muito menos amor? Um dever, uma disciplina do espírito? Uma existência desperdiçada?

Como teria sido tudo se tivesse conhecido Cornwallis há trinta e um anos?

Talvez não o teria amado então, nem ele a ela. Tinham sido pessoas muito diferentes; ainda não tinham aprendido as lições do tempo e solidão. De todos os modos, era inútil pensar nisso. Não era possível mudar o passado.

Mas não podia descartar o futuro do mesmo modo. E se escapasse dessa farsa e partisse? Seria possível acudir Cornwallis? É claro, nenhum dos dois havia dito grande coisa nunca – isso seria impensável – , mas ela sabia que ele a amava, do mesmo modo que se deu conta pouco a pouco de que também o amava. Tinha a honradez, a coragem, a ingenuidade que saciava como água clara sua sede interior. Devia descobrir seu senso de humor, ser paciente, mas ali estava, sem reflexos de crueldade. Era doloroso pensar nele. Fazia com que essa ridícula noite, e sua presença nela, parecessem-lhe ainda mais lamentáveis. Tinha alguma dessas pessoas a mais remota idéia do que acontecia em sua cabeça? Ficou vermelha ao pensar nisso.

Continuavam falando de política, comentando de novo quão perigosas eram as idéias liberais extremistas; já tinham escavado os valores do cristianismo. Ameaçavam a sobriedade, a assistência à igreja, a observância do domingo, a obediência geral e o respeito, até a própria santidade do lar protegido pelo pudor das mulheres.

Do que teriam falado ela e Cornwallis? Certamente, não se teriam dedicado a manifestar o que outras pessoas deveriam fazer, dizer ou pensar! Falariam de lugares maravilhosos, cidades antigas sobre as costas de outros mares, cidades como Istambul, Atenas, Alexandria, lugares de lendas antigas e aventuras. Em sua imaginação o sol brilhava sobre as pedras quentes, o céu era muito azul e muito deslumbrante para olhá-lo durante um momento, e fazia calor. Bastaria falar disso com ele; não teria que ir ali, só escutar e sonhar. Inclusive permanecer sentados em silêncio, sabendo que pensavam no mesmo, seria suficiente.

O que aconteceria se deixasse tudo e se fosse com ele? O que perderia? Sua reputação, é claro. A condenação seria ensurdecedora! Naturalmente, os homens se escandalizariam, aterrados ante a possibilidade de que imbuiria certas idéias e desse mal exemplo a suas esposas. As mulheres ficariam ainda mais furiosas, porque a invejariam e a odiariam por isso. As que permanecessem fiéis à chamada do dever, que seriam a maioria delas, reagiriam indignando-se com atitude virtuosa.

Não poderia voltar a falar com nenhuma delas. Fariam-lhe o vazio pela rua. Tornaria-se invisível. Era curioso que não se pudesse ver uma mulher de má vida. As pessoas diriam que seria a mais visível de todas! Isadora sorriu ao pensá-lo, e percebeu uma expressão de assombro no rosto da mulher que tinha em frente. A conversa não era precisamente divertida!

Voltou para a realidade. Aquilo só era uma fantasia, uma doce e dolorosa forma de escapar de um serão aborrecido. Embora fosse bastante valente para fugir com Cornwallis, ele jamais aceitaria seu oferecimento. Seria profundamente desonroso aceitar à mulher de outro homem. Sentiria-se tentado sequer? Talvez não. Envergonhar-se-ia dela, de seu descaramento, ou de que pensasse sequer que era capaz de aceitar semelhante proposta.

Doeria-lhe de uma maneira insuportável?

Não. Se ele tivesse aceitado, ela teria deixado de querê-lo.

A conversa continuava a seu redor, tornando-se acalorada ao concentrar-se em alguma discrepância teológica.

Mas se Cornwallis a tivesse aceito, teria ido com ele? A resposta lhe rondou por um momento a cabeça, vacilante. Logo temeu que durante esse instante, ouvindo a sufocante pomposidade que lhe rodeava naquela mesa rígida e triste, teria sido sim... sim! Teria aproveitado a oportunidade de escapar!

Mas isso não ia ocorrer. Sabia com certeza; era mais real que as luzes dos lustres ou a dura borda da mesa sob suas mãos. As vozes iam e vinham a seu redor. Ninguém se tinha dado conta de que levava um momento sem dizer nada, nem sequer um educado murmúrio de assentimento.

Fugir com Cornwallis era uma fantasia que nunca se faria realidade, mas, de repente, sentia que era de vital importância averiguar se tivesse gostado que o fizesse, se tivesse sido possível, se de algum jeito tivesse sido correto. Nada lhe importava tanto nesse momento. Precisava voltar a vê-lo, só para falar, de algo ou de nada, mas tinha que saber que continuava lhe importando. Ele não o diria; nunca o tinha feito. Talvez jamais lhe ouviria dizer as palavras "Te quero". Teria que contentar-se com os silêncios incômodos, a expressão de seu rosto e suas repentinas cores.

Onde podiam ver-se sem suscitar comentários? Teria que ser em um lugar onde ambos costumavam ir para que parecesse um encontro casual. Alguma exposição de pintura ou escultura. Não tinha nem idéia do que se exibia nesse momento. Não tinha tido curiosidade pelo assunto até esse instante. Na National Gallery sempre havia algo interessante. Escreveria a Cornwallis, enviaria-lhe uma nota informal onde o convidaria a ver a exposição que houvesse nesse momento; não seria difícil averiguá-lo. Seria a primeira coisa que faria na manhã seguinte. Diria-lhe que lhe parecia interessante e que se perguntava se também gostava de ir. Se eram paisagens marinhas, não seria preciso uma desculpa; se se tratava de outra coisa, o de menos era se ele achava ou não, o importante era que fosse. Era um ato impudico, precisamente contra o que tinha estado destrambelhando o arquidiácono, mas o que tinha a perder? O que restava, de todo modo, além daquele jogo vazio, as palavras sem comunicação, a proximidade sem intimidade, paixão, risadas ou ternura?

A decisão já estava tomada. De repente despertou o apetite, e o creme de caramelo que tinha diante lhe pareceu um simples aperitivo. Não deveria ter passado por cima os pratos anteriores, mas agora era muito tarde.

Na National Gallery havia uma exposição de quadros do Hogarth centrada em seus retratos, e não em suas caricaturas, nem em suas obras de comentário político. A crítica tinha qualificado o artista em vida de lamentável colorista, fazia cento e tantos anos, mas seu prestígio tinha aumentado grandemente com os anos. Isadora podia facilmente sugerir que valia a pena visitar a exposição para formar seu próprio julgamento, e corroborar ou contradizer à crítica. Escreveu apressadamente, sem dar-se tempo para envergonhar-se e perder a coragem.

 

Estimado capitão Cornwallis:

Esta manhã soube que a National Gallery organizou uma exposição dos retratos do Hogarth que foram objeto de muitas brincadeiras enquanto viveu, mas que hoje em dia receberam uma atenção muito mais favorável. É curioso o muito que pode mudar a opinião sobre um talento. Eu gostaria de vê-los com meus próprios olhos e formar meu próprio julgamento.

Conhecendo seu interesse pela arte e seu próprio talento, pensei que talvez também lhe pareça que tais obras podem convidar à reflexão.

Sei que dispõe de pouco tempo para tais atividades, mas decidi lhe informar com a esperança de que suas obrigações lhe permitam tomar meia hora livre. Eu mesma decidi me conceder esse tempo talvez a última hora da tarde, quando não me necessitarem em casa. Despertou minha curiosidade. É Hogarth tão mal como se disse a princípio ou tão bom como agora asseguram?

Espero não importuná-lo.

Cordialmente, ISADORA UNDERHILL

 

Por muito que repassasse a missiva, sempre lhe pareceria mais torpe do que teria gostado.

Devia jogá-la na caixa antes de voltar a lê-la e sentir-se muito envergonhada para enviá-la.

Dirigiu-se a passo ligeiro à caixa da esquina e sua decisão se tornou irreparável.

Às quatro da tarde colocou seu vestido de verão mais favorecedor, com um estampado de rosas e cascatas de renda branco sobre as duas mangas que lhe chegavam até o cotovelo, e inclinando o chapéu mais do que o habitual, saiu de casa.

Só quando a carruagem entrou no Trafalgar Square caiu na conta do ridículo que estava sendo seu comportamento. Inclinou-se para dizer ao cocheiro que tinha mudado de opinião, mas guardou silêncio. Se não fosse e Cornwallis estava ali esperando, tomaria sua ausência como um rechaço deliberado. Teria dado um passo irrevogável sem propor-lhe. Não poderia retroceder. Não lhe daria a oportunidade de explicar-lhe. Simplesmente não voltaria a expor-se a que lhe fizessem mal.

Recostou-se no assento e esperou que a carruagem se detivesse perto da ampla escadaria que conduzia às enormes colunas e a imponente fachada da galeria. Apeou-se e pagou, e ficou uns momentos ao sol rodeada das pombas e dos turistas, dos vendedores de flores, dos longínquos e impressionantes leões de pedra e do ruído do tráfego.

O aborrecimento da noite anterior devia lhe haver abrandado o cérebro! Ao escrever a Cornwallis se colocou em uma posição em que só era possível retroceder ou seguir adiante. Já não poderia ficar onde estava, sozinha, sem comprometer-se, sonhando, mas assustada. Era como se alguém ficasse em pé junto a uma mesa de jogo enquanto lhe atiravam os dados, à espera de que deixassem de rodar e decidissem seu destino.

Estava exagerando! Só tinha escrito a um amigo lhe comentando uma interessante exposição que ia ver.

Então por que lhe tremiam as pernas desse modo ao aproximar-se da escadaria e cruzar as lajes até a entrada?

— Boa tarde – disse ao homem da porta.

— Boa tarde, senhora – respondeu ele educadamente, levando uma mão à boina.

— Onde está a exposição do Hogarth? – perguntou Isadora.

— À esquerda, senhora – respondeu ele, assinalando com a cabeça um enorme letreiro.

Ela ficou muito vermelha e quase lhe travou a língua ao lhe agradecer. Devia pensar que era cega! Como ia ser capaz de apreciar uns quadros alguém que não via um letreiro pendurado a um metro do chão?

Passou por diante dele e entrou na primeira sala. Havia nela ao menos uma dúzia de pessoas. Reconheceu a simples vista duas delas. Devia as saudar e chamar assim a atenção sobre sua pessoa? Ou não fazê-lo e expor-se a que acreditassem que as estava desprezando? Algo assim seria motivo de comentários que sem dúvida se repetiriam.

Antes que pudesse tomar uma decisão, os anos de prática se adiantaram a ela e se dirigiu a suas conhecidas, e imediatamente pensou que talvez tinha perdido a oportunidade de manter uma conversa com Cornwallis que não fosse corriqueira. Dificilmente poderia dizer ou escutar algo do que queria se estivesse acompanhada.

Mas era muito tarde, pois já as tinha saudado. Perguntou-lhes por sua saúde, fez um comentário sobre o tempo e rezou para que partissem. Não tinha o menor desejo de falar com elas dos quadros. No final mentiu e disse que ia a seguinte sala ver uma senhora anciã com quem lhe urgia falar.

Ali também havia outra dúzia de pessoas, mas não estava Cornwallis. Ao reparar nisso lhe caiu a alma aos pés. Por que tinha suposto que ia acudir, como se estivesse a sua plena disposição e não tivesse nada mais que fazer que ir a galerias de arte obedecendo a um capricho? Isadora não tinha a menor duvida de que ele se sentia atraído por ela, mas atração não significava amor, não o profundo e perdurável sentimento que ela sentia!

As mulheres da sala anterior entraram e não pôde escapar. Seguiu outra meia hora de conversa desesperada. Que mais dava? Só a idéia do que tinha feito era ridícula. O que mais desejava no mundo era não lhe haver escrito nunca essa nota. Tomara o correio a tivesse tragado e se perdera para sempre!

Então o viu. Tinha vindo! Reconheceria seu porte e sua postura habitual em qualquer parte. Em qualquer instante se daria a volta e a veria, e ela teria que seguir adiante. Entre o momento presente e esse instante devia controlar os batimentos de seu coração, rogar ao céu que seu rosto não a traísse, e pensar no que dizer para incitá-lo a falar sem mostrar-se muito direta ou excessivamente impaciente. Isso faria que parecesse pouco segura de si mesma e o afugentaria.

Cornwallis se voltou, como se notasse que lhe estava olhando. Viu como iluminava o rosto do homem de prazer e a seguir percebeu seu esforço por dissimulá-lo. Para sua tranqüilidade, ela se esqueceu de si mesma e se aproximou.

— Boa tarde, capitão Cornwallis. Alegro-me de que tenha podido tomar uma pausa para ver isto com seus próprios olhos. – Fez um delicado gesto assinalando um dos quadros maiores, o das seis cabeças, todas olhando fora da tela por cima do ombro esquerdo do espectador. Intitulava-se Servos do Hogarth – . Acredito que se enganaram – acrescentou com firmeza – . São pessoas de verdade e estão excelentemente desenhadas. Olhe a ansiedade do pobre homem do centro, e a serenidade da mulher situada a sua esquerda.

— O de cima mal parece um moço – observou ele, mas depois de olhar o quadro durante uns instantes, esquadrinhou o rosto dela – . Alegro-me de que tenhamos tido a oportunidade de nos ver – acrescentou. Depois hesitou, como se se tivesse tomado muita confiança – . Passou... muito tempo... ou ao menos isso me parece. Como vai?

Ela não podia lhe responder com a verdade, e entretanto desejava dizer: "Tão só que me evado com fantasias. Tenho descoberto que meu marido não só me aborrece, mas, na realidade, me desagrada". Não obstante, respondeu o que sempre dizia nesses casos:

— Muito bem, obrigada. E você? – Afastou o olhar do quadro e olhou-o.

Cornwallis se ruborizou ligeiramente.

— Oh, muito bem – respondeu, e a seguir também se voltou. Deu um par de passos para a direita e se deteve diante do seguinte quadro. Tratava-se de outro retrato, mas desta vez de uma pessoa sozinha.

— Devia ser uma moda – disse pensativo – . Um crítico fazia eco do que outros haviam dito. Como poderia tachar isto de pobre uma pessoa de mentalidade aberta? Esse rosto está cheio de vida. É extremamente original. Que mais se pode pedir a um retrato?

— Não sei – admitiu ela – . Talvez queriam que lhes dissesse algo no que já acreditavam. Às vezes a pessoa só deseja ouvir uma resposta que confirme a postura que quer manter. – Enquanto o dizia pensou no bispo e nos serões intermináveis em que tinha escutado os homens denunciar idéias sem as haver analisado previamente. Talvez as idéias fossem más, mas podiam não sê-lo. Sem as examinar jamais saberiam – . É muito mais fácil acusar alguém – acrescentou.

Lançou-lhe rapidamente um olhar interrogativo, mas não lhe perguntou nada. É claro que não o fez! Isso teria sido impertinente, além de pouco decoroso.

Ela não devia permitir que decaísse a conversa. Tinha acudido ali para vê-lo, para averiguar se seus sentimentos continuavam sendo os mesmos. Certamente não havia nada que fazer! Mas continuava precisando saber se ele o desejava tanto como ela.

— Há tantas coisas em um rosto, não lhe parece? – comentou enquanto se aproximavam de outro retrato – . Coisas que não se podem expressar e entretanto estão ali se alguém as busca.

— É claro que sim. – Ele olhou ao chão um momento, e logo voltou a erguer a vista ao retrato – . Quando a pessoa experimentou algo, reconhece-o em outros. Eu... recordo um contramestre que tive. Phillips, chamava-se. Não podia lhe agüentar. – Vacilou, mas não a olhou –. Uma manhã muito cedo estávamos a pouca distância dos Açores com um tempo terrível. Os ventos sopravam do oeste e as ondas tinham seis ou oito metros de altura. Qualquer homem normal teria se assustado, mas também havia certa beleza nisso. Os seios das ondas se mantinham escuros, mas a luz da primeira hora da manhã se refletia na espuma das cristas. Pude ver em seu rosto que apreciava a beleza daquele espetáculo um instante antes de me dar as costas. Não recordo nem sequer o que foi fazer. – Tinha o olhar extraviado, perdido em um momento mágico e revelador do passado.

Ela sorriu com cumplicidade; podia ver a cena em sua imaginação. Gostava de visualizá-lo na coberta de um navio. Parecia-lhe que era onde lhe correspondia estar, que ali estava em seu elemento, e não sentado ante uma escrivaninha da delegacia de polícia. E entretanto, nunca o teria conhecido se tivesse continuado ali. E se ele voltasse para o mar, não haveria dia em que ela não vigiasse os elementos, e cada vez que o vento soprasse, temeria por ele; cada vez que ouvisse que um navio estava em apuros, perguntaria-se se era o seu.

Cornwallis voltou seus olhos a ela, e a surpreendeu olhando-o com afeto.

— Sinto muito – se apressou a desculpar-se, ruborizando-se e lhe voltando as costas, com o pescoço rígido –. Sonhava acordado.

— Eu o faço muito freqüentemente – sussurrou ela.

— Seriamente? – Ele se voltou de novo para Isadora, surpreso– . E aonde vai? Quero dizer... aonde gostaria de ir?

"A qualquer parte se for com você", teria sido a resposta mais sincera.

— A algum lugar no qual nunca tenha estado – respondeu ela– . Talvez ao Mediterrâneo. O que me diz de Alexandria? Ou de algum lugar da Grécia?

— Acredito que gostaria – sussurrou ele – . A luz não se parece com a de nenhum outro lugar, deslumbra, e o céu é muito azul. E, é claro, estão as Índias... O oeste, quero dizer. Enquanto não vá muito ao sul, o perigo das febres não é excessivo. Jamaica, ou as Bahamas.

— Gostaria de continuar estando no mar? – Ela temeu a resposta. Talvez era ali onde estava realmente seu coração.

Ele a olhou, baixando imprudentemente a guarda por um instante.

— Não. – Era só uma palavra, mas a veemência de sua voz a encheu de todas aquelas coisas que ela esperava ouvir.

Isadora sentiu que se ruborizava ao mesmo tempo em que o alívio a deixava um pouco aturdida. Ele não tinha mudado. Não havia dito nada, só tinha respondido a uma pergunta simples sobre suas viagens com uma palavra, mas o significado daquela palavra era como uma enorme onda que a levantava no ar e o fazia flutuar. Devolveu-lhe o sorriso permitindo-se ocultar por um instante seus pensamentos, e a seguir se voltou de novo para o retrato. Disse algo sem sentido, um comentário sobre a cor ou a textura da pintura. Já não prestava atenção ao que dizia, e sabia que ele tampouco o fazia.

Adiou ao máximo a volta a casa. Seria o final de um sonho, a volta à realidade cotidiana da qual tinha escapado, e a inevitável culpa, pois seu coração não estava onde devia estar mesmo que o estivesse seu corpo.

Eram aproximadamente as sete quando cruzou finalmente a porta principal e, mal entrou, sentiu-se aprisionada na grisura do entorno. Era ridículo. Aquela casa era realmente acolhedora, cheia de cores suaves e mobiliário o mais confortável. A verdadeira falta de luz estava dentro dela mesma. Cruzou o vestíbulo e chegou ao pé das escadas no preciso momento em que a porta do gabinete do bispo se abria e este saía com o cabelo ligeiramente despenteado como se se passasse a mão por cima. Estava pálido e com olheiras.

— Onde esteve? – perguntou com tom queixoso. – Sabe que horas são?

— As sete menos cinco – respondeu ela, dando uma olhada ao relógio alongado da parede do fundo.

— Era uma pergunta retórica, Isadora! – replicou ele– . Sei ler a esfera tão bem como você. Faça o favor de responder.

— Fui ver a exposição do Hogarth na National Gallery – respondeu ela sem rodeios.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Até agora?

— Encontrei-me com uns conhecidos e nos pusemos a falar – explicou ela. Era literalmente certo, embora a realidade não se correspondia com o que sugeriam aquelas palavras. Incomodava-lhe ter que justificar-se ante ele. Voltou-se com a intenção de subir as escadas, tirar o chapéu e trocar-se para jantar.

— Parece-me muito inadequado! – exclamou ele com aspereza– . Pintava o tipo de pessoas nas quais não deveria se interessar. As aventuras de um libertino, é claro que sim! Às vezes penso que perdeu todo o sentido da responsabilidade, Isadora. Já vai sendo hora de que tome muito mais a sério sua posição.

— Era uma exposição de seus retratos! – exclamou ela bruscamente voltando-se para ele– . Não havia nada inapropriado neles. Havia vários de criados com rostos simpáticos vestidos até as orelhas. Até levavam chapéu!

— Não tem por que ser tão displicente! – exclamou ele em tom crítico – . E levar chapéu não faz a ninguém virtuoso! Como deveria saber!

Isadora ficou perplexa.

— Por que demônios deveria sabê-lo?

— Porque é tão consciente como eu da lassidão moral e a língua malévola de muitas das mulheres que vão à igreja todo domingo – replicou ele – . Com chapéu!

— Esta conversa é absurda – disse ela exasperada – . O que lhe passa? Não se encontra bem? – Não falava em sentido literal. A atitude de seu marido raiava a hipocondria, e ela já não tinha paciência para isso. Logo se deu conta da singular mudança que se operara nele. Seu rosto tinha perdido a pouca cor que tinha.

— Pareço doente? – perguntou.

— A verdade é que sim – respondeu ela com franqueza– . O que almoçou?

Ele abriu muito os olhos, como se lhe tivesse ocorrido uma idéia repentina, brilhante e inspiradora. Logo a cólera se apoderou dele, e as faces recuperaram sua cor.

— Linguado à churrasqueira – replicou – . Prefiro jantar só esta noite. Tenho que preparar um sermão. – E sem dizer nada mais, nem levantar sequer a vista para ela, virou sobre seus calcanhares e retornou a seu gabinete, fechando a porta com brutalidade.

Entretanto, na hora de jantar mudou de opinião. Isadora não tinha muito apetite, mas a cozinheira tinha preparado comida e lhe pareceu grosseiro não prová-la, de modo que estava sentada só à mesa quando apareceu o bispo. Perguntou-se devia lhe comentar se se sentia melhor, mas decidiu não fazê-lo. Poderia tomá-lo como um sarcasmo ou uma crítica, ou pior ainda, poderia lhe explicar como se achava exatamente, com muito mais detalhe do que ela desejava.

Comeram em silêncio seus respectivos pratos de sopa. Quando a criada trouxe o salmão com verduras, o bispo falou por fim.

— As coisas pintam mal. Não espero que entenda de política, mas há novas forças que estão obtendo poder e influência sobre certos setores da sociedade, os que se entusiasmam mais facilmente com as idéias novas simplesmente porque são novas.. . – interrompeu-se, depois de ter perdido aparentemente o fio de seus pensamentos.

Ela se manteve à espera, em uma mostra de educação, mais que de verdadeiro interesse.

— Temo pelo futuro – continuou ele em voz baixa, descendo a vista para seu prato.

Ela estava acostumada a seus comentários pomposos, de modo que se surpreendeu ao dar-se conta de que realmente acreditava. Percebia medo em sua voz, não a piedosa preocupação pela humanidade, mas verdadeira e profunda inquietação: a que faz que alguém desperte de noite com o corpo empapado em suor e o coração palpitando no peito. O que podia saber que lhe tinha arrancado de sua habitual complacência? A convicção de ter razão era para ele um estilo de vida, um escudo contra todas as dúvidas que assaltavam à maioria das pessoas.

Podia ser algo importante? O certo era que ela não queria sabê-lo. Provavelmente se tratava de uma triste ofensa ou uma discussão dentro da hierarquia eclesiástica ou, o que era ainda mais trágico, talvez alguém a quem ele apreciava tinha caído em desgraça. Deveria tê-lo perguntado, mas essa noite não tinha paciência para escutar uma nova variação dos velhos temas que tinha ouvido uma e outra vez, durante toda sua vida de casada.

— Só pode fazer o que estiver em sua mão – disse com calma– . Com certeza se abordar o problema dia a dia não será tão duro. – Pegou o garfo e ficou de novo a comer.

Permaneceram um momento em silêncio. Depois ela levantou a vista para ele e viu pânico em seus olhos. Olhava-a fixamente, como se visse além dela algo insuportável. A mão com que segurava o garfo de peixe lhe tremia e tinha gotas de suor sobre o lábio superior.

— O que se passou, Reginald? – perguntou ela alarmada. Não podia evitar preocupar-se com ele e isso a irritou. Não queria ter nada que ver com seus sentimentos, mas não podia evitar o fato de que seu marido estava profunda e mortalmente assustado por algo –. Reginald?

O bispo engoliu a saliva.

— Tem toda a razão – disse ele, passando-a língua por seus lábios secos –. Dia a dia. – Baixou a vista para seu prato –. Não é nada. Não deveria tê-la incomodado enquanto janta. É claro que não é nada. Estou-me antecipando... – Tomou uma baforada de ar –. Confiemos no divino... divino... – Apartou a cadeira da mesa e se levantou–. Comi suficiente. Por favor, me desculpe.

Ela se levantou pela metade.

— Reginald...

— Não se incomode! – replicou ele, afastando-se.

— Mas...

Ele a olhou furioso.

— Não discuta! Vou ler. Preciso estudar. Preciso saber... mais.

E fechou a porta com um golpe, deixando-a só na sala de jantar, confundida e tão furiosa como ele, mas com uma crescente sensação de inquietação.

A casa de campo situada nos limites do Dartmoor era linda, exatamente o que Charlotte tinha esperado, mas sem Pitt aquele lugar carecia de alma e de razão de ser. O caso de Whitechapel tinha sido muito duro para ela. Acalorou-se mais que Pitt ante a injustiça que se cometeu. Era consciente de que era inútil lutar, mas isso não aliviava sua cólera. No Palácio de Buckinghamtinha dado a impressão de que tudo ia arrumar se, embora a um terrível preço para a tia avó Vespasia. Tinham arrebatado de Voisey a oportunidade de ser presidente de uma república na Grã-Bretanha, e Pitt voltava a estar no comando de Bow Street.

Mas, inexplicavelmente, tudo se tinha desvanecido de novo. O Círculo Interior não se desintegrara, como tinham esperado. Apesar da rainha, tinha tido poder para voltar a destituir Pitt e enviá-lo de novo à Brigada Especial, onde era um novato sem experiência nas técnicas que se requeriam, e respondia ante o Victor Narraway, que não sentia lealdade por ele, nem parecia ter sentido da honra para cumprir sua promessa de lhe conceder umas férias mais que merecidas.

Entretanto, uma vez mais, não estavam em posição de lutar, nem sequer de queixar-se. Pitt necessitava um emprego na Brigada Especial. Estava quase tão bem pago como na de Bow Street, e não contavam com mais recursos do que o salário do Pitt. Pela primeira vez em sua vida Charlotte era consciente não só de que devia ser cuidadosa com o dinheiro, mas sim do verdadeiro perigo de deixar de ter dinheiro com que ser cuidadosa.

De modo que guardou silêncio, e fingiu ante as crianças e Gracie que estar ali, no campo banhado pelo sol e açoitado pelo vento, era o que queria, e que o fato de estarem sós era unicamente algo temporário. Achavam-se ali pela emoção e a aventura que entranhava a experiência, e não porque Pitt acreditasse que estavam mais seguros longe de Londres, onde Voisey não pudesse encontrá-los.

— Nunca vi tanto espaço aberto em toda minha vida! – exclamou Gracie assombrada, enquanto subiam uma longa e levantada costa até o alto do caminho de terra e ficavam contemplando a ampla vista dos páramos, que se estendiam ao longe em brumosos verdes e marrons avermelhados salpicados aqui e lá de dourados e sombreados pelas nuvens até as pessoas que se achavam na distância – . Somos as únicas pessoas que há aqui? – perguntou assombrada–. Não vive ninguém mais?

— Há granjeiros – respondeu Charlotte, contemplando a escura elevação do páramo em direção para o norte, e as ladeiras mais suaves e férteis das colinas e vales para o sul –. E quase todos os povos estão protegidos pelas ladeiras. Olhe... Vê fumaça lá encima? – Assinalou um penacho de fumaça cinza tão fraco que obrigava ao observador a forçar a vista para vê-lo.

— Né! – gritou Gracie de repente– . Cuidado, senhor Edward!

Edward lhe sorriu e cruzou a erva dando saltos seguido por Daniel. Tombaram-se entre as verdes samambaias e rodaram juntos em um matagal de braços e pernas, no meio do som das risadas felizes.

— Meninos! – disse Jemima desgostada. De repente mudou de opinião e correu atrás deles dando saltos.

Charlotte não pôde evitar sorrir. Até sem Pitt podia ser muito agradável estar ali. A casa estava a um quilômetro escasso do centro do povoado; um passeio agradável. As pessoas pareciam amáveis e serviçais. Longe da cidade, as estradas eram estreitas e serpenteantes, e as vistas das janelas do piso de cima pareciam prolongar-se indefinidamente. De noite reinava um silêncio desconhecido, e uma vez apagadas as velas a escuridão era total.

Mas estavam a salvo, e embora isso não fosse o mais importante para ela, era-o para Pitt. Ele tinha advertido a possibilidade de perigo, e levar a crianças ali era a única forma que tinha ela de ajudar.

Ouviu um ruído a suas costas e, ao voltar-se, viu uma carruagem puxada por um pônei no sinuoso atalho que havia justo debaixo deles. Conduzia-o um homem com o rosto curtido pelo vento e os olhos entreabertos para protegê-los do resplendor do sol, como se procurasse algo. Viu-os e, detendo-se na mesma altura, olhou-a com mais vagar.

— Boa tarde – disse com um tom bastante agradável– . Você deve ser a senhora que alugou a casa dos Garth. – O homem assentiu, mas era uma afirmação que parecia pedir uma resposta.

— Sim – respondeu Charlotte.

— O que eu dizia – declarou ele com satisfação, voltando a pegar as rédeas e apressando o pônei a que seguisse adiante.

Charlotte olhou ao Gracie, quem deu um passo para o homem e logo se deteve.

— Talvez só sentisse curiosidade, já sabe – murmurou– . Não devem passar muitas coisas aqui.

— Sim, claro – concordou Charlotte –. De qualquer modo, não perca de vista as crianças. Fecharemos as portas com chave de noite. Estaremos mais seguros, inclusive aqui.

— Sim... é claro – disse Gracie com firmeza – . Não queremos que entrem animais selvagens... raposas ou o que haja por aqui. – ficou olhando ao longe – . Que bonito! Acredita que deveria escrever um diário? Pode ser que não volte a ver nada parecido.

— É uma idéia excelente – disse Charlotte imediatamente– O faremos todos. Meninos! Onde estão? – sentiu-se absurdamente aliviada quando os ouviu responder, e os três se aproximaram perseguindo-se de novo pela erva. Devia fazer o impossível por evitar que sua felicidade se truncasse com temores lhes infundados.

 

No dia seguinte do assassinato de Maude Lamont, os jornais concederam à notícia a suficiente importância para que aparecesse nas primeiras páginas, junto com as crônicas sobre as eleições e os fatos internacionais. Sem dúvida tudo apontava que tinha sido um crime antes que um acidente ou uma morte por causas naturais. Assim o confirmava a presença da polícia, mas não tinham feito nenhuma declaração, além de reconhecer que a governanta os tinha chamado, a senhorita Lena Forrest. Ela tinha se negado a falar com a imprensa, e o inspetor Tellman só havia dito que estavam investigando o caso.

Em pé junto à mesa da cozinha, Pitt se serviu de uma segunda taça de chá e se ofereceu a fazer o mesmo por Tellman, que se movia com impaciência trocando o peso do corpo de um pé a outro e declinou o oferecimento.

— Vimos a meia dúzia de clientes – disse, carrancudo – . Todos têm uma fé cega nela. Dizem que era a médium com mais talento que jamais conheceram, embora não tenho nem idéia do que isso significa. – Soltou aquilo quase como um desafio, como se quisesse que Pitt o explicasse. Sentia-se profundamente desventurado com todo o assunto, e entretanto, fosse o que fosse o que lhe haviam dito da última vez que tinha visto Pitt, tinha alterado seu anterior desdém.

— O que lhes dizia e como? – perguntou Pitt.

Tellman olhou-o furioso.

— Dizem que lhe saíam espíritos da boca – afirmou, esperando a brincadeira que com toda segurança seguiria a aquelas palavras –. Trementes e algo assim como... imprecisos, mas estão certos de que era a cabeça e o rosto de alguém que conheciam.

— E onde estava Maude Lamont enquanto isso ocorria? – perguntou Pitt.

— Sentada em sua cadeira na cabeceira da mesa, ou em uma espécie de armário que tinham construído, para que não lhe escapassem as mãos. Foi ela mesma quem sugeriu, para que acreditassem.

— Quanto lhes cobrava por isso? – Bebeu um gole de chá.

— Algumas pessoas disseram que dois guineus, outros que seis – respondeu Tellman, mordendo o lábio – . A questão é que se ela dizia que só era um entretenimento e eles não apresentaram queixas contra ela, não havia nada que nós pudéssemos fazer. Não pode prender um prestidigitador, e eles lhe pagavam voluntariamente. Suponho que é um certo consolo... não?

— Certamente se encontra na mesma categoria que os específicos – disse Pitt, pensando alto – . Se acreditam que vão curar uma enfermidade nervosa ou lhe vão fazer dormir melhor, talvez o façam. E quem pode dizer que não tem direito a prová-lo?

— São sandices! – respondeu Tellman com veemência – . Ganha a vida graças a gente ignorante. Diz-lhes o que querem ouvir. Qualquer um poderia fazê-lo!

— Tem certeza? – perguntou Pitt em voz baixa – . Envia outra vez seus homens para interrogá-los mais conscienciosamente. Precisamos saber se obtinha realmente informação que não era de domínio público e cuja fonte desconhecemos.

Tellman abriu muito os olhos com incredulidade, e uma sombra de autêntica inquietação lhe cruzou o rosto.

— Se tinha um informante, quero sabê-lo – replicou Pitt – . E falo de um de carne e osso.

A cara de alívio de Tellman era cômica; a seguir ficou muito avermelhado.

Pitt sorriu. Era a primeira vez que algo fazia graça desde que Cornwallis lhe havia dito que devia voltar para a Brigada Especial.

— Suponho que já averiguou se se viu alguém pela rua perto do Cosmo Place nessa noite, ou qualquer outra, que pudesse ser nosso cliente anônimo.

— É claro que sim! Tenho sargentos e agentes que se ocupam disso – replicou Tellman secamente – . Não pode tê-lo esquecido tão logo! Irei com você ver esse general de divisão, o tal Kingsley. Estou certo de que saberá julgá-lo de forma muito perspicaz, mas quero formar minha própria opinião. – Apertou a mandíbula.

— E é uma das duas únicas testemunhas que temos que estiveram ali na... sessão de espiritismo. – Conferiu à palavra toda a cólera e frustração que sentia ao enfrentar pessoas que exerciam seu direito a fazer ridículo e envolver a ele nos resultados. Não queria compadecer-se delas e menos ainda as entender, e em seu rosto se refletia a luta por manter a equanimidade que já tinha perdido.

Pitt esquadrinhou seu rosto em busca de medo ou satisfação, e não viu nem a menor sombra. Deixou a xícara vazia.

— O que acontece? – perguntou Tellman com brusquidão.

Pitt sorriu, e não o fez com ar divertido a não ser com um afeto que o surpreendeu.

— Nada – respondeu – . Iremos falar com o Kingsley, e lhe perguntaremos por que ia ver a senhorita Lamont e o que podia fazer por ele, sobretudo na noite que morreu. – voltou-se e pôs-se a andar pelo corredor até a entrada, onde deixou passar Tellman e fechou a porta com chave atrás dele.

— Bom dia, senhor – disse o carteiro alegremente– . Hoje também faz um dia estupendo.

— Sim – concordou Pitt, sem reconhecer ao homem– . Bom dia. É novo nesta rua?

— Sim, senhor. Só estou a duas semanas – respondeu o carteiro– . Estou começando a conhecer às pessoas, sabe? Conheci sua esposa faz uns dias. Uma mulher encantadora. – Abriu muito os olhos – . Mas não a vi depois. Não estará doente? Custa tirar-se de cima um resfriado nesta época do ano, e isso que faz um calor...

— Não, obrigado – respondeu ele rapidamente – . Encontra-se perfeitamente. Está fora. Que tenha um bom dia.

— O mesmo digo, senhor. – E o carteiro seguiu seu caminho assobiando entre dentes.

— Tomaremos uma carruagem de aluguel – propôs Tellman, olhando a ambos os lados do Keppel Street sem ver nenhuma livre.

— Por que não vamos caminhando? – perguntou Pitt, esquecendo do carteiro e encaminhando-se com passo enérgico ao leste, em direção ao Russell Square – . Está a menos de um par de quilômetros. Harrison Street, justo ao lado do hospital Foundling.

Tellman grunhiu e deu um par de passadas para alcançá-lo. Pitt sorriu para si mesmo . Sabia que Tellman estava se perguntando como tinha averiguado onde vivia Kingsley sem a ajuda da delegacia de polícia, pois lhe constava que não a tinha pedido. Devia estar perguntando-se se a Brigada Especial tinha interesse no Kingsley.

Caminharam em silencio ao redor do Russell Square, através do tráfego do Woburn Agrada e ao longo do Bernard Street para Brunswick Square e o enorme e antiquado edifício do hospital. Giraram para a direita, evitando instintivamente o cemitério infantil. Como sempre, Pitt sentiu tristeza, e olhou de esguelha a Tellman, que também tinha baixado o olhar e tinha torcido o gesto. De repente se deu conta de que, apesar dos anos que levavam trabalhando juntos, sabia muito pouco de seu passado, além da indignação ante a pobreza que mostrava com tanta freqüência, que Pitt quase tinha chegado a dá-la por feito, sem perguntar-se sequer pelo sofrimento que se ocultava debaixo daquela atitude. Gracie certamente conhecia melhor que Pitt ao homem que havia atrás daquela rígida aparência! Mas Gracie se criara nos mesmos becos estreitos e tinha vivido a luta pela sobrevivência. Não era preciso que lhe dissessem nada. Talvez visse o mundo de outro modo, mas sabia como as coisas poderiam acontecer.

Pitt tinha crescido sendo o filho do guarda-florestal da fazenda de sir Arthur Desmond. Seus pais tinham sido criados, e a seu pai o tinham acusado e declarado culpado de caçar furtivamente e o tinham despedido, injustamente na opinião do Pitt. A firmeza dessa convicção nunca tinha mudado. Mas ele só tinha chegado a passar fome um dia em sua vida, e unicamente se tinha visto exposto aos ataques das crianças de sua idade. Quão máximo tinha sofrido eram uns poucos hematomas e algum ou outro chute bem merecido no traseiro por parte do chefe dos jardineiros.

Passaram de comprimento o cemitério infantil em silêncio. Tinham muitas coisas que dizer-se e ao mesmo tempo nenhuma absolutamente.

— Tem telefone – disse Pitt por fim ao internar-se no Harrison Street.

— Como diz? – Tellman tinha estado absorto em seus próprios pensamentos.

— Kingsley tem telefone – repetiu.

— Chamou-o? – Tellman estava surpreso.

— Não, mas o comprovei – explicou Pitt.

Tellman se ruborizou. Não lhe tinha ocorrido que um particular pudesse ter telefone, embora soubesse que Pitt tinha um. Talvez algum dia poderia permitir comprar um, ou inclusive se veria obrigado a fazê-lo, mas no momento não. A promoção ainda era recente, e lhe era tão incômodo como o colarinho de uma camisa nova. Não encaixava no posto – e menos tendo em conta que Pitt lhe pisava nos calcanhares todo dia e lhe tinha arrebatado seu primeiro caso – , e escoriava sua pele sensível.

Seguiram andando um ao lado do outro até que chegaram à casa de Kingsley e os deixaram entrar. Conduziram-nos por um vestíbulo bastante escuro revestido de painéis de carvalho, em três de cujas paredes pendiam quadros de batalhas. Não tiveram tempo para ler as placas de latão que havia debaixo para saber quais eram. A simples vista, a maioria faziam pensar na etapa napoleônica. Alguém parecia um enterro. Havia nela mais emoção que nas demais, mais interesse no jogo de luz e sombras, e uma sensação de tragédia no contorno dos corpos apertados. Talvez fosse Moore depois da batalha de La Corana.

A sala também tinha um aspecto rigidamente masculino, com tons verdes e marrons e muito couro, e umas estante cheias de pesados tomos. Da parede do fundo pendia uma coleção de armas africanas, azagaias e lanças. Estavam rombudas e cheias de arranhões. Na mesa de centro havia um elegante e estilizado bronze de um huussardo.O cavalo estava belamente forjado.

Quando o mordomo se retirou, Tellman olhou ao redor com interesse, mas sem sentir-se cômodo. Aquela habitação pertencia a um homem de uma classe social e uma disciplina que lhe eram totalmente alheias, e representava tudo o que lhe tinham ensinado a desprezar. Certa experiência em concreto lhe tinha obrigado a ver um oficial do exército retirado como alguém humano e vulnerável, até profundamente digno de admiração, mas continuava considerando-o uma exceção. O homem a quem pertencia a sala e cuja vida se refletia nos quadros e mobiliário era um excêntrico – para não dizer outra coisa – , o qual constituía quase um contra-senso. Como alguém que tinha feito as coisas mais odiosamente práticas, levando a homens à guerra, tinha perdido de tal modo o sentido da realidade para acabar consultando uma mulher que afirmava falar com fantasmas?

Abriu-se a porta e entrou um homem alto e bastante magro. Seu rosto tinha um aspecto cinzento, como se estivesse doente. Levava o cabelo muito curto e um bigode que era pouco mais que uma sombra escura sobre o lábio superior. Mantinha-se erguido, mais pelo costume adquirido durante toda uma vida, e não como mostra de sua vitalidade interior.

— Bom dia, senhores. Meu mordomo me disse que são da polícia. O que posso fazer por vocês? – Não havia surpresa em sua voz. Certamente se tinha informado pelos jornais da morte de Maude Lamont.

Pitt já tinha decidido que não ia mencionar sua relação com a Brigada Especial. Se não dizia nada, Kingsley assumiria que ia com o Tellman.

— Bom dia, general Kingsley – respondeu – . Sou o superintendente Pitt e este é meu companheiro, o inspetor Tellman. Lamento lhe informar que a senhorita Maude Lamont morreu faz duas noites. Encontraram-na ontem pela manhã em sua casa. Devido às circunstâncias, vemo-nos obrigados a investigar o assunto com muito vagar. Soube que assistiu a sua última sessão de espiritismo.

Tellman ficou rígido ante sua franqueza.

Kingsley respirou fundo. Estava visivelmente afetado. Convidou Pitt e Tellman para sentar, e se deixou cair em uma das grandes poltronas de couro. Não lhes ofereceu nada, esperando que começassem o interrogatório.

— Pode nos dizer o que aconteceu desde o momento que chegou a Southampton Row, senhor?

Kingsley limpou a garganta. Pareceu que lhe custava um grande esforço. A Pitt resultou estranho que um militar, que devia estar acostumado a mortes violentas, estivesse tão afetado por um assassinato. Não era a guerra um assassinato em grande escala? Sem dúvida, os homens iam à guerra com a intenção expressa de matar ao maior número possível de inimigos. Sua comoção dificilmente podia dever-se a que esta vez a pessoa morta era uma mulher. As mulheres eram muito freqüentemente as vítimas da violência, dos saques e da destruição que comportava a guerra.

— Cheguei às nove e meia passadas – começou a dizer Kingsley– . Devíamos começar às dez menos quatro...

— Fixou-se este horário há tempo? – interrompeu-o Pitt.

— Estabeleceu-se na semana anterior – respondeu Kingsley – . Era minha quarta visita.

— Com as mesmas pessoas? – perguntou Pitt rapidamente.

— Não. Só era a terceira visita com as mesmas pessoas.

— Quem eram?

Desta vez não vacilou.

— Não sei.

— Mas estavam juntos ali?

— Estávamos ali ao mesmo tempo – lhe corrigiu Kingsley – . Não estávamos juntos, unicamente... aproveitávamos a força de nossas diferentes personalidades. – Não explicou o que queria dizer.

— Pode descrever essas pessoas?

— Se sabe que eu estava ali, meu nome e onde me achar, como é que não sabe o mesmo de outros?

Um vislumbre de interesse iluminou o rosto do Tellman. Pitt o pôde apreciar com a extremidade do olho. Kingsley se comportava por fim como o homem de comando que se supunha que era. Pitt se perguntou que fato demolidor tinha motivado sua conversão em espírita. Era doloroso e desagradável intrometer-se nas desgraças alheias, mas o móvel de um assassinato freqüentemente se escondia atrás dos terríveis fatos do passado, e para chegar à medula da questão tinha que conhecer todas as circunstâncias.

— Conheço o nome da mulher – afirmou Pitt em resposta a sua pergunta – . Não o da terceira pessoa, a quem a senhorita Lamont se referia em sua agenda com um pequeno diagrama, um cartucho.

Kingsley franziu ligeiramente o cenho.

— Não tenho nem idéia de por que o fazia. Não posso lhe ajudar.

— Pode me descrever o homem... ou a mulher?

— Não com exatidão – respondeu Kingsley– . Não íamos ali a alternar socialmente. Eu não pretendia ser mais que um civil para outros pressentes. Era um homem de estatura média, que eu recorde. Levava casaco apesar da estação em que estamos, de modo que não sei qual era sua constituição. Parecia ter o cabelo claro antes que moreno, certamente grisalho. Ficou na penumbra do fundo da sala e as velas mal davam luz. Suponho que o reconheceria se voltasse a vê-lo, mas não estou seguro.

— Quem foi o primeiro a chegar? – atravessou Tellman.

— Eu – respondeu Kingsley– . E logo, a mulher.

— Pode descrever à mulher? – interrompeu-lhe Pitt, pensando no cabelo longo e loiro enrolado ao redor do botão da manga do Maude Lamont.

— Pensava que sabia você quem era – replicou Kingsley.

— Tenho um nome – explicou Pitt – . Eu gostaria de ter uma idéia de seu aspecto.

Kingsley se resignou.

— Era alta, mais alta que a maioria de mulheres, e muito elegante, com o cabelo loiro penteado em uma espécie de... – deteve-se – . Tinha um rosto original.

Fez-se um nó na garganta de Pitt que quase o afogou.

— Obrigado – murmurou – . Continue, por favor.

— O outro homem foi o último em chegar – continuou Kingsley, obediente – . Que eu recorde, tinha estado também na outra sessão. Veio pela porta do jardim e partiu antes de nós.

— Quem foi o último em partir? – perguntou Pitt.

— A mulher – disse Kingsley– . Continuava ali quando eu fui. – Parecia descontente, como se a resposta não lhe tivesse deixado satisfeito nem aliviado.

— O outro homem se foi pela porta do jardim? – perguntou Tellman esperando uma confirmação.

— Assim é.

— Acompanhou-lhe a senhorita Lamont e fechou a porta do Cosmo Place atrás dele?

— Não, ficou conosco.

— E a criada?

— Partiu depois que nós chegássemos. Suponho que saiu pela porta da cozinha. Vi como cruzava o jardim pouco depois de que anoitecesse. Levava uma lanterna e a deixou fora da porta principal.

Pitt visualizou o atalho do jardim situado atrás da casa do Southampton Row. Só conduzia à porta que havia no muro e ao Cosmo Place.

— Saiu pela porta lateral? – perguntou em voz alta.

— Sim – assentiu Kingsley– . Provavelmente por isso levou a lanterna. Deixou-a no degrau dianteiro. Ouvi seus passos pelo cascalho e vi a luz.

Tellman concluiu o que queria dizer.

— De modo que a mulher matou à senhorita Lamont, ou você e o outro homem voltaram a entrar pela porta lateral e a mataram. Ou chegou alguém cuja identidade desconhecemos para assistir a uma reunião posterior de algum tipo, e a própria senhorita Lamont lhe abriu a porta principal. Mas isso é pouco provável e, segundo a criada, a senhorita Lamont costumava estar cansada depois de uma sessão e se deitava quando partiam seus convidados. E não anotou nenhum outro nome em sua agenda. Ninguém viu nem ouviu outra pessoa. A que hora partiu, general Kingsley?

— Às doze menos quarto.

— Era tarde para receber outro cliente – comentou Pitt.

Kingsley levou uma mão à fronte como se lhe doesse a cabeça. Estava cansado e moído.

— Não tenho nem idéia do que ocorreu quando parti – disse com suavidade – . Ela parecia achar-se perfeitamente então, não estava em um estado de ansiedade ou inquietação, e certamente não parecia assustada nem dava a impressão de que esperasse ninguém. Estava cansada, muito cansada. Invocar aos espíritos dos que se foram sempre é uma experiência muito exaustiva. Costumava deixá-la com as forças justas para nos dar boa noite e nos acompanhar à porta. – deteve-se, olhando com ar desgraçado o vazio que se estendia ante ele.

Tellman olhou para Pitt e desviou o olhar. A profunda emoção de Kingsley e o estranho tema de conversa lhe incomodavam. Resultava evidente pela rigidez de seu corpo e o modo em que movia as mãos no regaço.

— Por favor, poderia nos descrever como foi a noite, general Kingsley? – insistiu-lhe Pitt – . O que se passou depois que você chegou e todos se reuniram? Conversaram?

— Não. Nós... Cada um tinha seus motivos para estar ali. Eu não tinha nenhuma intenção de compartilhar os meus com outros, e acredito que eles se sentiam assim também.– Kingsley não o olhou enquanto o dizia, como se continuasse sendo um assunto privado – . Nos sentamos ao redor da mesa e esperamos enquanto a senhorita Lamont se concentrava para... invocar aos espíritos. – Falava com pouca convicção. Devia ser consciente, ao menos, da incredulidade de Tellman, quem oscilava entre a compaixão e o desdém. Sua perplexidade quase podia respirar-se no ambiente.

Pitt não estava certo de seus sentimentos... Não sentia tanto desdém como inquietação, uma espécie de opressão. Não teria sabido dizer por que, mas achava que não estava bem tratar de comunicar-se com os espíritos dos mortos, tanto se fosse possível como se não.

— Onde se sentaram? – perguntou.

— A senhorita Lamont se colocou na cabeceira da mesa, na cadeira de espaldar alto – respondeu o general de divisão – . A mulher, em frente dela. O homem, a sua esquerda, de costas à janela. E eu, a sua direita. Demo-nos as mãos, naturalmente.

Tellman se moveu ligeiramente em seu assento.

— É o habitual? – perguntou Pitt.

— Sim, para impedir a suspeita de fraude. Alguns médiuns até se sentam dentro de um armário para refrear-se duplamente, e acredito que a senhorita Lamont o fez em uma ocasião, mas eu nunca a vi fazê-lo.

— Por que não? – perguntou Tellman bruscamente.

— Não era necessário – respondeu Kingsley, lhe lançando um olhar rápido e irado – . Todos acreditávamos em seus poderes. Teríamos-lhe insultado com semelhante... estupidez. Procurávamos conhecimentos, uma verdade superior, não sensações baratas.

— Entendo – murmurou Pitt, sem olhar para Tellman – . O que aconteceu então?

— Pelo que eu recordo, a senhorita Lamont ficou em transe – respondeu Kingsley– . Pareceu que se erguia no ar uns centímetros por cima da cadeira e em pouco tempo falou com uma voz totalmente diferente. E... – Baixou a vista ao chão. –. Acredito que era seu espírito guia quem nos falava através dela. – Falava tão baixo que Pitt teve que aguçar o ouvido – . Queria saber o que desejávamos averiguar. Era um jovem russo que tinha morrido sob um frio terrível... muito ao norte, perto do Círculo Ártico.

Desta vez Tellman não se moveu absolutamente.

— E o que responderam vocês? – perguntou Pitt. Queria saber o que tinha ido procurar ali Rose Serracold, mas temia que se Kingsley respondesse primeiro a essa questão, e via ou percebia a reação do Tellman, ocultaria seus próprios motivos. E também podiam ser relevantes. Depois de tudo, tinha escrito o virulento ataque contra Aubrey Serracold, embora sem saber que era o marido da mulher que tinha tido sentada ao lado na mesa de Maude Lamont. Ou o tinha sabido?

Kingsley ficou uns momentos em silêncio.

— General Kingsley? – insistiu Pitt– . O que queriam averiguar através da senhorita Lamont?

Kingsley respondeu com grande dificuldade, sem deixar de olhar ao chão.

— Meu filho, Robert, serve na África, nas guerras zulús. Morreu em combate ali. Eu... – Lhe quebrou a voz – . Queria estar seguro de que sua morte havia... de que seu espírito descansava em paz. Houve... diferentes versões. Precisava estar certo. – Não olhou a Pitt, como se não quisesse ver o que refletia seu rosto, nem lhe revelar a necessidade que o possuía.

Pitt sentiu que devia dizer algo.

— Entendo – murmurou – . E obteve tal informação? – Inclusive enquanto formulava aquela pergunta era consciente de que Kingsley não o tinha obtido. Seu medo era evidente na sala, e agora também se explicava sua dor. Com a morte do Maude Lamont, tinha perdido o contato com o único mundo que achava que podia lhe dar uma resposta. Era possível que o tivesse destruído voluntariamente?

— Não... ainda – respondeu Kingsley. Suas palavras soaram tão abafadas que por um instante Pitt não esteve certo se as tinha ouvido. Era consciente da presença de Tellman a seu lado e de seu profundo desconforto. Estava acostumado ao sofrimento, mas aquele confundia-o e lhe enchia de inquietação. Não estava seguro de como reagir. Deveria impacientar-se e sentir-se ridículo ante aquela situação; era tudo o que lhe tinha ensinado sua experiência vital. Ao lhe olhar por um instante, quão único Pitt viu em seu rosto foi compaixão.

— O que queria a mulher? – perguntou Pitt.

Kingsley deixou de lado seus próprios pensamentos. Levantou a vista com uma expressão perplexa.

— Não estou certo. Estava impaciente por ficar em contato com sua mãe, mas não tenho certeza do porquê. Devia ser um assunto privado, porque todas suas perguntas eram muito indiretas para que eu as entendesse.

— E as respostas? – Pitt se surpreendeu ao notar-se tenso, temeroso do que Kingsley pudesse dizer. Por que Rose Serracold se expor ao ridículo e ao dispêndio em um momento tão delicado? Não se dava conta do que isso significava? Ou sua busca era tão importante para ela que o resto lhe parecia secundário? Do que podia tratar-se?

— Sua mãe? – perguntou.

— Sim.

— E a senhorita Lamont ficou em contato com ela?

— Isso parece.

— O que lhe perguntou?

— Nada em particular. – Kingsley parecia confundido à medida que recordava – . Só informação geral sobre sua família, outros parentes que se haviam... ido. Sua avó, seu pai. Todos estavam bem.

— Quando foi isso? – inquiriu Pitt– . Na noite da morte da senhorita Lamont? Antes? Se pudesse recordar exatamente o que se disse, seria de grande ajuda. Kingsley franziu o sobrecenho.

— Custa-me muito acreditar que fizesse mal à senhorita Lamont – disse com impaciência – . Parecia uma mulher excêntrica e muito original, mas não vi nela o menor sinal de cólera, crueldade ou maus sentimentos, mas... – interrompeu-se.

Tellman se inclinou para diante.

— Sim? – incitou-o Pitt.

— Medo – murmurou Kingsley, como se fosse um sentimento que conhecia bem – . Mas é inútil que me pergunte o que tinha essa mulher porque não tenho nem idéia. Parecia que a preocupava que seu pai não fosse feliz, que não tivesse recuperado a saúde. Pareceu-me uma pergunta estranha, como se acreditasse que a enfermidade o segue além da tumba. Mas talvez quando a pessoa quis tanto a alguém, essas preocupações são compreensíveis. O coração atende a razões que a razão não entende. – Mas continuou evitando o olhar dos dois homens, como se fosse um assunto íntimo.

— E o outro homem, a quem procurava? – perguntou Pitt.

— Não recordo a ninguém em particular. – Kingsley respondeu carrancudo, como se só então caísse na conta do muito que isso lhe tinha desconcertado.

— Mas, segundo você, foi ao menos três vezes – insistiu Pitt.

— Sim. Parecia tomar-lhe muito a sério – afirmou Kingsley, levantando a vista, como se já não tivesse mais sentimentos que ocultar. Aquele homem não lhe tinha despertado nenhuma emoção, nem lhe tinha inspirado a menor compaixão –. Fez várias perguntas muito reveladoras e não parou até que as responderam – explicou –. Uma vez perguntei à senhorita Lamont se achava que era um cético, que tinha dúvidas, mas ela parecia conhecer os motivos do homem e não lhe inquietavam. Parece-me... – Vacilou.

— Estranho? – apontou Tellman.

— ia dizer "reconfortante" – respondeu Kingsley.

Não se explicou, mas Pitt compreendeu ao que se referia. Maude Lamont devia ter estado muito segura de seu dom, fosse qual fosse sua natureza, para não haver-se sentido ameaçada pela presença de um cético em suas sessões. Mas, ao que parecia, não tinha sido consciente do ódio que tinha acabado provocando sua morte.

— Esse homem não deu o nome das pessoas com quem queria ficar em contato? – continuou Pitt.

— Deu vários – replicou Kingsley – . Mas nenhum com especial interesse. Parecia como se os escolhesse ao acaso.

— Interessou-se por algum assunto? – Pitt não ia render se tão facilmente.

— Por nenhum, que eu saiba.

Pitt olhou-o com seriedade.

— Não sabemos quem é, general Kingsley. Poderia ser ele quem assassinou Maude Lamont. – Viu como Kingsley fazia uma careta e adotava de novo um olhar perdido –. O que deduziu de sua voz, de seu comportamento, pelo que fosse? De sua indumentária, de seu porte? Era um homem culto? Quais eram suas crenças ou opiniões? Quais diria que eram suas origens, seus ganhos, sua posição social? Se tinha alguma ocupação, qual era? Mencionou alguma vez a sua família, a sua esposa ou onde vivia? Vinha de longe para assistir à sessão? Sabe algo dele?

Uma vez mais, Kingsley dedicou tanto tempo a refletir que Pitt temeu que não respondesse. Depois começou a falar devagar.

— Seu sotaque indicava que tinha recebido uma educação excelente. O pouco que disse estava mais relacionado com as artes e as letras que com qualquer ciência. Pelo que eu vi, ou acredito que vi, vestia roupa discreta e escura. Parecia uma pessoa nervosa, mas o atribuí à situação. Não recordo que expressasse nenhuma opinião em particular, mas me deu a impressão de que era mais conservador que eu.

Pitt pensou na carta dos jornais.

— Não é você conservador, general Kingsley?

— Não, senhor. – Desta vez olhou ao Pitt diretamente no rosto, sustentando seu olhar – . Servi no exército com toda classe de homens, e eu gostaria muito que as tropas recebessem um tratamento mais justo que o que lhes proporcionam neste momento. Acredito que quando uma pessoa enfrentou a todo tipo de contratempos e inclusive à morte ao lado de um homem, reconhece seu valor muito mais claramente do que o faria em determinadas circunstâncias mundanas.

Vendo a franqueza de seu rosto, era impossível não acreditar nele. E, entretanto, o que dizia estava em total contradição com o que tinha escrito a quatro jornais diferentes. Pitt estava mais convencido que nunca que Kingsley estava envolvido com Voisey no assunto das eleições, mas o que não sabia era se o fazia voluntariamente ou à força. Tampouco sabia se, devidamente pressionado, teria participado do assassinato do Maude Lamont.

Expôs-se a possibilidade de lhe mencionar as cartas aparecidas nos jornais contra Serracold e lhe dizer que a mulher das sessões espíritas era a mulher de Serracold. Mas não lhe ocorreu o que podia ganhar com isso nesse momento, e uma vez que o dissesse, já não conseguiria alcançar a possível vantagem da surpresa.

De modo que agradeceu Kingsley e se despediu seguido por Tellman, que se mostrava taciturno e insatisfeito.

— O que lhe pareceu? – perguntou Tellman mal estiveram na calçada ao sol– . O que pode levar a um homem como esse a ir... A... – Sacudiu a cabeça– . Não sei como o fazia ela, mas devia ter algum truque. Como não se dava conta todas essas pessoas com educação? Se os chefes de nosso exército acreditam nessa classe de... de conto de fadas...

— A educação não impede que alguém se sinta só ou sofra – respondeu Pitt. Tellman seguia demonstrando certa inocência, apesar do cru realismo de muitas de suas opiniões. Isso o irritava, e entretanto, contra toda lógica, gostava mais por isso. Não queria aprender – . Todos acabamos descobrindo a forma de aliviar essas feridas – continuou –. Fazemos o que podemos.

— Se perdesse alguém e experimentasse essa espécie de consolo – disse Tellman pensativo, baixando a vista – , e logo me inteirasse de que alguém me está enganando com truques, não posso dizer que não perdesse a cabeça e tratasse de abafá-lo. Se... se alguém achava que essa substância branca fazia parte de um fantasma, ou o que se supunha que fosse, e o colocou na boca mulher, é um assassinato ou um acidente?

Pitt não pôde evitar sorrir.

— Se isso for o que ocorreu, havia três pessoas ali, e ao menos dois teriam chamado a um médico ou à polícia. Se as três estavam confabuladas, seria uma conspiração, intencional ou não.

Tellman grunhiu e lançou com um pontapé uma pequena pedra na boca-de-lobo.

— Suponho que agora vamos ver a senhora Serracold.

— Sim, se é que está. Se não, esperá-la-emos.

— Suponho que também quererá se encarregar do interrogatório?

— Não, mas o farei. Seu marido se apresenta ao Parlamento.

— Os terroristas irlandeses vão atrás dele? – Na voz de Tellman havia uma nota de sarcasmo, mas continuava sendo uma pergunta.

— Que eu saiba, não – disse Pitt secamente – . Duvido. Está a favor do auto-governo.

Tellman voltou a grunhir e murmurou algo.

Pitt não se incomodou em lhe perguntar o que havia dito.

Tiveram que esperar quase uma hora por Rose Serracold. Fizeram-lhes passar a um salão vermelho com uma vasilha de cristal transbordante de rosas na mesa do centro. Pitt sorriu para si ao ver Tellman fazer uma careta. A decoração era pouco comum, quase imponente a simples vista, com os elegantes quadros das paredes e uma simples lareira branca. Mas no momento, a sala se tornava cada vez mais agradável. Olhou os álbuns de recortes que havia em uma mesa baixa. Estavam primorosamente confeccionados e os tinham deixado ali para entreter às visitas. O primeiro era de espécimes botânicos, e ao lado de cada exemplar, em letra bonita e bastante excêntrica, figurava uma pequena história da planta, seu hábitat originário, quando se tinha introduzido na Grã-Bretanha e por quem, e o que significava seu nome. Aficionado à jardinagem quando dispunha de tempo, Pitt ficou totalmente absorto. Sua imaginação se viu esporeada pela extraordinária coragem dos homens que tinham escalado montanhas na Índia e Nepal, China e Tibet, em busca de uma flor que fosse mais perfeita que as demais e haviam voltado com ela para a Inglaterra.

Tellman passeou pela sala. Ficou enfrascado na contemplação de outro álbum de recortes, com aquarelas de diferentes cidades marítimas de Grã-Bretanha; pareceu-lhe muito bonito, mas menos interessante. Talvez se tivesse incluído a aldeia do Dartmoor em que residiam Gracie e Charlotte, teria sido diferente. Mas Pitt não lhe havia dito o nome de todo modo. Deixou vagar a imaginação, tratando de adivinhar o que estariam fazendo nesse momento enquanto ele estava ali, nessa estranha sala. Estaria trabalhando muito Gracie, ou disporia de liberdade para desfrutar e caminhar pelas colinas ao sol? Imaginou, miúda e muito erguida, com o cabelo penteado para trás e sua carinha inteligente e cheia de vida, olhando tudo com interesse. Não devia ter visto nunca um lugar assim, a tantos quilômetros das estreitas ruas urbanas onde tinha crescido, abarrotadas e ruidosas, com seu aroma de comida rançosa, bocas-de-lobo, madeira podre e fumaça. Imaginava aquele lugar como um campo aberto, uma paisagem quase descascada.

Agora que pensava nisso, ele tampouco nunca tinha estado em um lugar assim, salvo em sonhos e ao olhar ilustrações como aquelas.

Pensaria Gracie alguma vez nele enquanto estava ali? Provavelmente não... ou não muito freqüentemente. Continuava sem estar seguro do que sentia por ele. Ao final do caso do Whitechapel lhe tinha dado a impressão de que se abrandara. Continuavam estando em desacordo em milhares de coisas: temas importantes como a justiça e a sociedade, e o papel do homem e da mulher. O ensino que tinha recebido e suas experiências lhe diziam que ela estava equivocada, mas não podia expressar com palavras qual era exatamente seu engano. E certamente não podia explicar-lhe. Ela se limitava a lhe olhar com ar impaciente e desdenhoso, como se fosse um menino protestando, e continuava com o que estava fazendo, fosse cozinhar ou engomar, com seu espírito enormemente prático, como se as mulheres mantivessem o mundo em funcionamento enquanto os homens só falavam dele.

— Deveria lhe escrever enquanto estava fora?

Tratava-se de uma pergunta difícil. Charlotte tinha ensinado Gracie a ler, mas fazia muito pouco disso. Seria embaraçoso para ela ter que responder? E o que era pior, se havia algo que não soubesse ler, mostraria a carta à Charlotte? Só a idéia fazia que se morresse de vergonha. Não! Decididamente não ia escrever lhe. Mais valia não correr riscos. E talvez fosse melhor não ter seu endereço escrito em nenhuma parte, no caso de....

Continuava sustentando o álbum de recortes aberto quando entrou por fim Rose Serracold, e tanto ele como Pitt se levantaram e ficaram em posição de sentido. Tellman não estava seguro do tipo de pessoa que tinha esperado achar, mas certamente não imaginou que se acharia ante a mulher espantosa que estava na soleira, exibindo um vestido raiado de azul marinho e lilás, com enormes mangas e cintura estreita. Levava o cabelo loiro extraordinariamente liso e enrolado ao redor da cabeça em lugar de recolhido em saca-rolhas, e os olhava surpreendida com seus olhos claros água marinha.

— Bom dia, senhora Serracold – disse Pitt depois do silêncio inicial –. Lamento importuná-la sem ter avisado, mas as trágicas circunstâncias da morte da senhorita Maude Lamont não me permitiram combinar uma entrevista. Compreendo que deve estar muito ocupada com as eleições parlamentares, mas se trata de um assunto que não pode esperar. – Seu tom não admitia discussão.

Ela ficou estranhamente imóvel, sem voltar-se sequer para reparar em Tellman, embora fosse difícil que não o tivesse visto, pois se achava a uns passos dela. Ficou olhando fixamente para Pitt. Era impossível determinar se já se inteirara da morte de Maude Lamont ou não. Quando por fim falou, fez isso em voz muito baixa. — Certamente. E exatamente o que acredita que posso lhe dizer que lhe seja de ajuda, senhor... Pitt? – Era evidente que recordava seu nome porque o o mordomo havia dito, mas teve que fazer um esforço. Não era sua intenção ser grosseira; simplesmente, ele não fazia parte de seu mundo.

— Foi uma das últimas pessoas que a viu com vida, senhora Serracold – respondeu Pitt – . E também viu as outras pessoas que estiveram presentes na sessão de espiritismo, e deve saber o que ocorreu.

Tellman tinha curiosidade por ver como ia abordar Pitt a aquela mulher para lhe tirar a maior quantidade de informação proveitosa. Não tinham falado disso, e sabia que o motivo era que Pitt não estava seguro. Ela guardava relação com seu novo papel na Brigada Especial. Seu marido ia apresentar-se ao Parlamento. Pitt não ia revelar lhe qual era exatamente sua missão, mas Tellman supôs que era protegê-la do escândalo, ou se isso fosse impossível, tratar o assunto com discrição e rapidez. Não invejava sua situação. Resolver um assassinato era simples comparado com aquilo.

Rose Serracold arqueou ligeiramente suas elegantes sobrancelhas.

— Não sei como morreu, senhor Pitt, ou se alguém foi responsável ou pôde fazer algo para impedi-lo. – Falou com voz serena, mas estava muito pálida e tão imóvel que o domínio de suas emoções podia reconhecer-se pela ausência de qualquer sinal. Não se atrevia a deixar que aflorassem.

Tellman percebeu o ligeiro perfume que desprendia, e reparou em que se ela se movia, ouviria o sussurro das sedas, como tinha ocorrido quando ela tinha entrado. Era o tipo de mulher que o alarmava e inquietava. Era plenamente consciente de sua presença, e não compreendia nada absolutamente de sua vida, seus sentimentos ou crenças.

— Alguém é responsável por isso. – A voz de Pitt abriu passagem através de seus pensamentos.

Ela não fez nenhum gesto para lhes indicar que se sentassem.

— Assassinaram-na – terminou Pitt.

A mulher inspirou fundo e exalou o ar com um suspiro apenas audível.

— Entrou alguém? – Vacilou um segundo –. Talvez se esqueceu de fechar a porta lateral que dá ao Cosmo Place? A última pessoa entrou por ali em lugar de fazê-lo pela porta principal.

— Não lhe roubaram nada – respondeu Pitt –. Ninguém rompeu nada. – Observava-a com muita atenção, sem afastar os olhos dela –. E a mataram por motivos pessoais.

Ela passou por seu lado e se deixou cair em uma das cadeiras vermelhas; sua saia se inchou ao redor dela com o débil frufru do roçar da seda. Estava tão pálida que Tellman acreditou que por fim tinha compreendido as palavras do Pitt.

Tinham-na surpreendido? Ou já sabia, e estava recordando ou assimilando o fato de que outros soubessem, concretamente a polícia?

Ou ao lhe revelar que tinha sido assassinada por motivos pessoais tinha descoberto quem era o responsável?

— Não sei se quero saber os detalhes, senhor Pitt – se apressou a dizer. Tinha recuperado totalmente o domínio de si mesma –. Só posso lhe dizer o que vi. Pareceu-me uma noite totalmente normal. Pelo que eu vi, não houve brigas, nem ressentimentos de nenhuma espécie. E me acredite, se tivesse havido algo estranho o teria visto.Apesar do que diz, não posso acreditar que fosse um de nós. Certamente eu não... – Ao chegar a esse ponto lhe quebrou um pouco a voz –. Eu... estava em dívida com seu dom. Ela me... agradava. – Parecia a ponto de acrescentar algo, mas trocou de opinião e olhou para Pitt, esperando que continuasse.

Ele se cansou de esperar que o convidassem a sentar-se e o fez frente a ela, deixando liberdade a Tellman para que fizesse o que quisesse.

— Pode me descrever como foi a noite, senhora Serracold?

— Isso acredito. Cheguei pouco antes das dez. O soldado já estava na habitação. Eu não sabia nada dele, compreende?, Mas estava interessado sobre tudo relacionado com batalhas. Todas suas perguntas giravam em torno da África e da guerra, de modo que deduzo a partir desse detalhe e de seu porte que é soldado, ou foi. – Em seu rosto transpareceu uma compaixão momentânea –. Supus que tinha perdido a um ser querido.

— E a terceira pessoa? – inquiriu Pitt.

— Oh. – A mulher deu de ombros –. O ladrão de tumbas. Foi o último a chegar.

Pitt parecia surpreso.

— Como diz?

Ela fez uma careta, uma expressão de aborrecimento.

— Chamo-lhe assim porque acredito que é um cético e trata de menosprezar nossa fé na ressurreição do espírito. Suas perguntas eram... acadêmicas, de uma maneira cruel, como se pinçasse em uma ferida. – Esquadrinhou os olhos do Pitt, tratando de ver até que ponto a entendia, se era capaz de fazer-se ao menos uma idéia do que descrevia, ou se estava expondo a um constrangimento desnecessário.

Tellman teve uma repentina revelação, como se a visse com um vestido comum como o que levaria sua mãe ou Gracie, e a rangente seda se viu obscurecida por uma luz mais clara. Ela precisava acreditar nos poderes de Maude Lamont. Procurava algo que a tinha impulsionado a ir ali, que a tinha obrigado, e agora que Maude morrera, estava perdida. Atrás daqueles olhos pálidos e brilhantes havia desespero.

Logo ela voltou a falar e interrompeu aquele momento. Ao ouvir sua dicção perfeita, notou sua fragilidade, e um abismo voltou a abrir-se entre os dois.

— Ou talvez foram minhas imaginações – disse ela com um sorriso –. Mal lhe vi o rosto. Poderia ter tido medo da verdade, não? – Curvou os lábios como se o único que lhe impedisse de rir fosse o inapropriado da situação –. Entrou e saiu pela porta do jardim. Talvez seja um personagem destacado que cometeu um crime terrível e quer saber se os mortos o trairão. – Elevou a voz movida pela fantasia –. Estou-lhe dando uma idéia, senhor Pitt. – Olhou-o com fixidez sem prestar atenção a Tellman, com uma expressão serena, cheia de vida, quase desafiante.

— Já o tinha pensado, senhora Serracold – respondeu Pitt com rosto inexpressivo –. Mas me parece interessante que também lhe tenha ocorrido.Acredita que Maude Lamont poderia ter utilizado tal informação?

As pálpebras de Rose Serracold tremeram, e retesaram os músculos do pescoço e da mandíbula.

Pitt permaneceu à espera.

— Para que? – perguntou ela com um tom ligeiramente áspero –. Refere-se a alguma classe de... chantagem? – Seu rosto refletia uma surpresa talvez excessiva.

Pitt esboçou um muito ligeiro sorriso, como se pensasse muito mais coisas do que podia dizer.

— Assassinaram-na, senhora Serracold. Ganhou ao menos um inimigo desesperado e com motivos muito pessoais.

Ela ficou tão lívida que Tellman acreditou que ia desmaiar. Sabia com absoluta certeza que era ela quem preocupava a Pitt. Sua presença na sessão de espiritismo era o que tinha feito com que a Brigada Especial interviesse no caso e o arrebatasse da polícia, para ele. Tinha Pitt alguma razão secreta para acreditar que ela era culpada? Tellman o olhou, mas a pesar do tempo que tinham trabalhado juntos, e das tragédias em que tinham estado envolvidos, não soube interpretar os sentimentos de Pitt.

Rose trocou de postura em sua cadeira. No silêncio da sala, ouvia-se até o fraco rangido da baleia e o tecido rígido do corpete.

— Compreendo que é algo terrível, senhor Pitt – disse ela em voz baixa –. Mas me ocorre outro modo de ajudá-lo. Dei-me conta de que um dos homens estava muito preocupado por seu filho e precisava saber as circunstâncias de sua morte, que teve lugar em uma batalha em algum lugar da África. – Engoliu a saliva, levantando um pouco o queixo como se se sentisse constrangida pela gola, apesar de não ser alta –. Do outro homem só posso lhe dizer que me deu a impressão de que tinha vindo para zombar e desaprovar nossa atividade. Não sei por que essas pessoas se incomodam! – Arqueou suas delicadas sobrancelhas –. Se a pessoa não acredita , por que não se esquece e deixa que os que o fazem procurem suas respostas em paz? É uma consideração, um ato compassivo que se deve ter com o próximo. Só um caipira interromperia os ritos religiosos de outra pessoa. É uma intrusão desnecessária, uma crueldade gratuita.

— Pode descrever o que observou em sua atitude ou em suas palavras que lhe produziu tal impressão? – perguntou Pitt, inclinando-se ligeiramente para diante –. Tudo o que possa recordar, senhora Serracold.

Ela permaneceu uns minutos sentada sem responder, como se quisesse esclarecer as idéias antes de começar.

— Tenho a sensação de que tratava de lhe descobrir algum truque – disse por fim –. Movia a cabeça de um lado para outro, abrangendo com o olhar todo seu campo de visão, como se não quisesse perder nada. Mas nunca havia nada que ver. Eu via como se emocionava, mas não tenho sabor do que se devia. Só o olhava de vez em quando, porque logicamente me interessava muito mais a senhorita Lamont.

— O que devia ver? – perguntou Pitt muito sério.

Ela não parecia estar segura de como responder ou talvez se perguntava se podia confiar nele.

— As mãos – murmurou –. Quando os espíritos falavam através dela, ela mudava totalmente de aspecto. Às vezes parecia mudar de forma, de feições, de cabelo. Seu rosto irradiava luz. – Sua expressão parecia o desafiar que risse. Havia ironia nela, como se quisesse frear a reação de Pitt antecipando-se a ela. Entretanto, seu corpo estava rígido e suas mãos na borda da poltrona tinham os dedos brancos.

Pitt experimentou uma estranha sensação em seu interior: uma mescla de medo, virtualmente um desejo de acreditar, e ao mesmo tempo um impulso de rir. Era algo terrivelmente humano e vulnerável, muito transparente e ao mesmo tempo fácil de compreender.

— O que perguntou esse homem? Lembra-se? – inquiriu.

— Que descrevesse a vida depois da morte, que nos dissesse o que se via, o que se fazia, que aspecto tinha uma pessoa e o que se sentia – respondeu ela –. Perguntou se se achavam ali certas pessoas e como estavam. Se... sua tia Georgina estava ali ou não. Mas me deu a sensação de que era uma pergunta com armadilha. Pensei que talvez nem sequer existisse essa tia.

— E qual foi a resposta?

Ela sorriu.

— Que não.

— Como reagiu ele?

— Isso é o estranho. – Rose deu de ombros –. Acredito que se mostrou agradado. Foi depois que fizesse todas essas perguntas sobre como era, que faziam as pessoas e, sobre tudo, se havia alguma espécie de castigo.

Pitt estava perplexo.

— Quais foram as respostas?

Nos olhos de Rose se percebia uma faísca de humor.

— Que estava perguntando coisas que ainda não tinha chegado o momento de saber. Isso é o que lhe teria respondido eu se fosse o espírito!

— Desagradava-lhe? – perguntou Pitt. Ela era muito observadora, crítica e teimosa, e entretanto, havia nela uma vitalidade extraordinariamente atraente, e seu senso de humor o atraía.

— Com franqueza, sim. – A mulher baixou a vista para sua saia de seda –. Era um homem assustado. Mas a todos dá medo algo, se tiver um pouco de imaginação ou lhe importar com algo. – Ergueu a vista e a cravou nele –. Isso não é motivo ou desculpa para zombar das necessidades de outros. – Uma sombra cruzou seus olhos, como se se tivesse arrependido imediatamente de ter sido muito franca com ele. Levantou-se e com um movimento gracioso deu meia volta, dando as costas parcialmente ao Pitt e totalmente ao Tellman, o que obrigou a ambos a ficar em pé.

— Por desgraça, não posso dizer quem era ou onde o achar – murmurou ela – . Agora lamento muito ter ido alguma vez ali. Nesse momento me pareceu inofensivo, uma forma de explorar o conhecimento um pouco ousada. Acredito apaixonadamente na liberdade de pensamento, senhor Pitt. Desprezo a censura, as restrições na educação... de qualquer pessoa! – O tom de sua voz tinha mudado por completo; o ar brincalhão tinha desaparecido, e com ele, a cautela –. Se pudesse, advogaria por uma liberdade absoluta de culto dentro da lei. Devemos nos comportar de forma civilizada e respeitar a segurança do próximo, e suponho que também a propriedade. Mas ninguém deveria pôr limites ao pensamento, e menos ao espírito! – voltou-se para o Pitt, com as faces novamente rosadas, o queixo alto e seus assombrosos olhos cintilantes.

— E tratava de fazê-lo o terceiro homem, senhora Serracold? – perguntou Pitt.

— Não seja ingênuo! – exclamou ela de forma áspera –. Gastamos a metade de nossa energia tentando impor a outros o que devem pensar! Isso é basicamente o que faz a Igreja. Não os escuta?

Pitt sorriu.

— Está tratando de minar minha fé nela, senhora Serracold? – perguntou com ar inocente.

As faces de Rose se avermelharam.

— Sinto muito – desculpou-se ele– . Mas a liberdade de uma pessoa pode pisotear muito facilmente a de outra. Por que foi à senhorita Lamont? Com quem queria ficar em contato?

— Por que quer sabê-lo, senhor Pitt? – Lhe indicou com um gesto que voltasse a sentar-se.

— Porque a assassinaram enquanto você esteve ali ou pouco depois que partisse – respondeu ele, relaxando de novo na cadeira e vendo como Tellman fazia o mesmo.

Rose ficou rígida.

— Não tenho nem idéia de quem o fez – disse quase sem fôlego –. Só sei que não fui eu.

— Disseram-me que queria ficar em contato com sua mãe. É certo?

— Quem o disse? – perguntou–O soldado?

— Por que não ia fazê-lo? Você me disse que ele queria ficar em contato com seu filho para averiguar como tinha morrido.

— Sim – concedeu ela.

— O que queria averiguar de sua mãe?

— Nada! – exclamou ela imediatamente –. Só queria falar com ela. Não lhe parece suficientemente natural?

Tellman não dava crédito ao que estava ouvindo, e advertiu pela postura do Pitt, com as mãos imóveis e rígidas nos joelhos, que lhe ocorria o mesmo. Mas não questionou as palavras de Rose.

— Sim, é claro – assentiu ele –. Foi ver outros médiuns?

Ela demorou tanto em responder que sua hesitação ficou manifesta, e fez um ligeiro gesto de renúncia.

— Não, reconheço-o, senhor Pitt. Não confiava em ninguém até que conheci a senhorita Lamont.

— Como a conheceu, senhora Serracold?

— Me recomendaram – disse ela, como se lhe surpreendesse a pergunta.

Aquele assunto despertou o interesse do Pitt. Confiou em que não se refletisse em seu rosto.

— Quem?

— Acha importante? – repetiu ela.

— Me vai dizer isso senhora Serracold, ou terei que averiguá-lo?

— Fá-lo-ia?

— Sim.

— Isso seria vergonhoso! É desnecessário! – Rose estava furiosa. Duas manchas de cor apareceram em suas altas maçãs do rosto –. Se mal não recordar, foi Eleanor Mountford. Não me lembro de como ouviu falar dela. Era muito famosa, sabe? Refiro-me à senhorita Lamont.

— Tinha muitos clientes da alta sociedade? – A voz do Pitt era inexpressiva.

— Com certeza sabe. – Rose arqueou ligeiramente as sobrancelhas.

— Sei o que põe em sua agenda – admitiu ele –. Obrigado por sua colaboração, senhora Serracold. – Voltou a levantar-se.

— Senhor Pitt... senhor Pitt, meu marido vai apresentar-se candidato ao Parlamento. Eu...

— Sei – murmurou ele –. E tenho conhecimento da partida que pode tirar a imprensa conservadora de suas visitas se se fizerem públicas.

Ela se ruborizou, mas sua expressão era desafiante e não respondeu imediatamente.

— Sabia o senhor Serracold que via a senhorita Lamont?

— Não. – Mal emitiu um murmúrio –. Ia vê-la nas tardes que ele passava no clube. Sempre à mesma hora. Foi bastante fácil.

— Correu um grande perigo – indicou ele–. Ia sozinha?

— É claro! É algo... pessoal. – Rose falava com grande dificuldade. Custava-lhe um esforço enorme fazer aquele pedido –. Senhor Pitt, se pudesse...

— Serei discreto enquanto puder – prometeu– . Mas algo que recorde poderia ser de utilidade.

— Sim... é claro. Tomara me ocorresse algo. Além do tema da justiça... vou sentir sua falta. Bom dia, senhor Pitt. Inspetor... – Vacilou um instante. Tinha esquecido o nome do Tellman, mas não tinha importância. Não se incomodou em esperar que ele o dissesse, e saiu da sala deixando que a criada os acompanhasse à porta.

Tanto Pitt como Tellman se abstiveram de fazer comentários ao sair da casa dos Serracold. Pitt percebeu que Tellman estava tão confuso como ele. Ela não era o tipo de mulher que tinha esperado, tendo em conta que se tratava da esposa de um homem que se apresentava para um dos cargos públicos mais altos do governo. Era excêntrica e bastante arrogante para parecer insultante, e entretanto, havia nela uma honradez que ele admirava. Suas opiniões eram ingênuas, mas idealistas, nascidas de um desejo de tolerância que ela mesma não era capaz de alcançar.

Mas acima de tudo era vulnerável, porque havia algo que tinha desejado de Maude Lamont tão desesperadamente que tinha ido a suas sessões espíritas de vez em quando, até sendo consciente do custo político que aquilo podia ter se chegava a saber-se. E tinha o cabelo longo, entre dourado e prateado. Pitt não podia esquecer o cabelo na manga de Maude, que podia significar algo ou nada.

— Averigue mais coisas sobre o modo em que Maude Lamont conseguia a seus clientes – disse a Tellman enquanto alongavam o passo ao descer pelo atalho –. Inteira-se se só tratava com ricos. E se o espiritismo justificava seus ganhos.

— Chantagem? – disse Tellman com um desgosto impossível de dissimular –. É patético que lhe enganem com essas... essas patranhas. Mas a maioria de pessoas se deixam enganar! Vale a pena comprar o silêncio?

— Isso depende do que tenham averiguado de nós – replicou Pitt, descendo do meio-fio e esquivando uns excrementos de cavalo –. Quase todos temos algo que preferiríamos manter em segredo. Não tem que ser necessariamente um crime, basta uma indiscrição ou um ponto fraco que tememos que seja explorado. Ninguém gosta que o tomem por tolo.

Tellman olhou fixamente à frente.

— Todo o que vai a uma mulher que cospe clara de ovo e diz que é uma mensagem do mundo dos espíritos, e acredita , é idiota – disse, com uma ferocidade que brotava de uma compaixão que não queria sentir –. Mas averiguarei tudo o que possa sobre ela. Acima de tudo eu gostaria de saber como o fez!

Subiram à calçada do outro lado da rua no preciso momento em que um Simon de quatro cavalos passava a menos de um metro deles.

— Em minha opinião, trata-se de uma combinação de truques mecânicos, manha e poder de sugestão – respondeu Pitt, detendo-se junto à beira da calçada para deixar passar outra carruagem puxada por quatro cavalos– . Suponho que sabe que era clara de ovo pela autópsia? – perguntou, com um tom um tanto cáustico.

Tellman grunhiu.

— E gaze – explicou –. Asfixiou-se com ela. Tinha-a na garganta e nos pulmões, a pobrezinha.

— Fica algo mais que não tenha mencionado?

Tellman lhe lançou um olhar de ódio.

— Não! Era uma mulher sadia de uns trinta e sete ou trinta e oito anos. Morreu de asfixia. Já viu os hematomas. Isso é tudo. – Grunhiu –. E me tenho proposto averiguar o que as pessoas não querem que se saiba. Era bastante esperta para fazer conjeturas a partir das perguntas que faziam as pessoas, como onde escondia o tio avô Ernie o testamento? Ou teve meu pai uma aventura amorosa com a vizinha de frente? O que fosse!

— Suponho que escutando em festas – respondeu Pitt – , observando às pessoas, fazendo perguntas e pressionando um pouco de vez em quando, conseguia reunir suficiente informação para fazer deduções muito acertadas. E o resto o proporcionavam as próprias conclusões que tirava das pessoas do que ela dizia. A culpa provém de ameaças tanto imaginárias como reais. Quantas vezes vimos a alguém trair-se a si mesmo porque acredita que sabemos algo quando em realidade não é assim?

— Muitas – respondeu Tellman, esquivando-se da carroça de um verdureiro ambulante – . Mas e se pressionou muito e alguém tomou com ela? Esse teria sido seu fim.

— Parece havê-lo sido. – Pitt lhe olhou de esguelha.

— Então o que tem que ver isto com a Brigada Especial? – perguntou Tellman, com um matiz colérico na voz –. Só porque Serracold se apresenta ao Parlamento? Acaso a Brigada Especial joga de política? É isso?

— Não, não é isso! – replicou Pitt, doído e furioso pelo fato de que Tellman considerasse sequer aquela possibilidade –. Não me importa tanto quem ganhe como que a luta seja limpa. Acredito que a maioria de propostas que ouvi de Aubrey Serracold são descabeladas. Não tem a mais mínima idéia do que é o mundo real. Mas se o derrotam quero que o façam pessoas que não estão de acordo com ele e não pessoas que acreditam que sua mulher cometeu um crime, se é que não o fez.

Tellman seguiu andando em silêncio. Não se desculpou, embora um par de vezes abriu a boca e tomou ar como se fosse falar. Quando chegaram à via principal se despediu e se afastou no sentido oposto ao do Pitt, com as costas rígidas, a cabeça erguida, enquanto Pitt procurava uma carruagem de aluguel para ir ver Victor Narraway.

— E então? – perguntou Narraway, recostando-se em seu assento e olhando Pitt sem pestanejar.

Pitt se sentou sem que ele o pedisse.

— Por agora parece que foi um dos três clientes dessa noite – respondeu –. O general de divisão Roland Kingsley, a senhora Serracold ou um homem cuja identidade ninguém conhecia exceto a própria Maude Lamont.

— O que quer dizer "ninguém"? Refere-se a nenhum deles?

— Assim é. Aparentemente, a criada não sabia quem era. Diz que nunca o viu. Entrava e saía pelas portas-janelas e a porta do muro do jardim.

— Por quê? Deixavam aberta a porta do muro? Então poderia ter entrado ou saído qualquer um.

— A porta do muro do jardim que dava ao Cosmo Place estava fechada com chave, mas não trancada – explicou Pitt –. Outros clientes tinham a chave. Não sabemos quem. Não há constatação disso. As portas-janelas se fechavam sozinhas, de modo que não há forma de saber se alguém saiu por uma delas uma vez que esteve morta. Quanto ao motivo, é evidente: não queria que ninguém soubesse que estava ali.

— Por que estava ali?

— Não sei. A senhora Serracold acredita que era um cético que tratava de demonstrar que Maude Lamont era uma impostora.

— Por quê? Por interesse acadêmico ou pessoal? Averigue-o, Pitt.

— Isso me proponho! – replicou Pitt –. Mas antes eu gostaria de saber quem é!

Narraway franziu o sobrecenho.

— Disse "Roland Kingsley"? É o mesmo homem que escreveu essa maldita carta sobre o Serracold?

— Sim...

— Sim o que? – Os penetrantes olhos escuros do Narraway transpassaram os do Pitt – . Há algo mais.

— Tem medo – disse Pitt sem muita convicção – . Uma angústia relacionada com a morte de seu filho.

— Averigue-o!

Pitt tinha querido lhe dizer que as opiniões pessoais de Kingsley não pareciam tão virulentas como as que tinha expressado em sua carta aos jornais, mas agora não estava certo disso. Não era mais que uma impressão, e não só não confiava em Narraway, não o conhecia o suficientemente bem para aventurar-se a dizer algo tão vago. Sentia-se desconfortável trabalhando para um homem de que sabia tão pouco. Não tinha nem idéia de suas crenças pessoais, suas paixões ou necessidades, seus pontos fracos, inclusive seu passado antes que se conhecessem; tudo estava envolvido em um halo de mistério.

— O que tem sobre a senhora Serracold? – continuou Narraway –. Eu não gosto do socialismo do Serracold, mas algo é melhor que ter ao Voisey com um pé na escada. Necessito respostas, Pitt. – de repente se voltou para diante –. Enfrentamos-nos ao Círculo Interior. Se tiver dúvidas a respeito do que são capazes de fazer, pense em Whitechapel. Pense na fábrica de açúcar, recorde Fetters morto no chão de sua própria biblioteca. Pense no perto que estiveram de ganhar! Pense em sua família!

Pitt sentiu frio.

— Já o faço – disse entre dentes. Custou-lhe um esforço precisamente porque pensava em Charlotte e nas crianças, e odiou Narraway por recordar-lhe. – Mas se Rose Serracold assassinou ao Maude Lamont, não o vou encobrir. Se o fizermos, não seremos melhores que Voisey, e ele saberá tão bem como nós.

Narraway tinha uma expressão sombria.

— Não me exorte, Pitt! – replicou-lhe –. Não é você um policial de ronda que touca o apito quando alguém rouba uma carteira! Há em jogo algo mais que um lenço de seda e um relógio de ouro; estamos falando do governo da nação. Se quiser respostas simples, volte a prender ladrões!

— E no que disse exatamente que nos diferenciamos do Círculo Interior, senhor? – Pitt sublinhou a última palavra, e sua voz soou áspera e cortante.

Narraway apertou os lábios e seu rosto refletiu uma cólera intensa, mas também um vislumbre de admiração.

— Não lhe pedi que encubra Rose Serracold se for culpada, Pitt. Não seja tão terrivelmente pomposo! Embora fale como se acreditasse que pode ser culpada! A propósito, por que acudiu ela a essa desgraçada?

— Ainda não sei. – Pitt voltou a relaxar-se em seu assento –. Diz que para ficar em contato com sua mãe, e Kingsley disse que essa foi a razão que deu ao Maude Lamont, mas não me disse por que lhe importa tanto o tema para estar disposta a enganar a seu marido e pôr em perigo sua carreira se algum jornalista conservador decide deixá-la em ridículo.

— E ficou em contato com sua mãe? – perguntou Narraway.

Pitt olhou-o com um repentino estremecimento de surpresa. Os olhos do Narraway eram transparentes; não havia neles o menor rastro de ironia. Por um instante lhe deu a impressão de que tivesse acreditado possível qualquer resposta.

— Não de forma satisfatória – respondeu Pitt com convicção –. Continua procurando algo, uma resposta que necessita... e teme.

— Acreditava nos poderes de Maude Lamont. – Era uma afirmação.

— Sim.

Narraway tomou ar e o soltou em silêncio, muito devagar.

— Descreveu-lhe o ocorrido?

— Aparentemente, Maude Lamont mudou de aspecto, brilhou-lhe o rosto e sua respiração se tornou luminosa. Falou com outra voz. – Pitt engoliu a saliva –. Também pareceu que se erguia no ar e que lhe alongavam as mãos.

A tensão do corpo do Narraway desapareceu.

— Não são precisamente dados concludentes. Há muitas pessoas que fazem esse tipo de coisas. Truques vocais, azeite de fósforo. Mesmo assim... suponho que acreditam no que querem acreditar... ou o que teme. – Evitou o olhar de Pitt– . E alguns nos sentimos obrigados a averiguá-lo, por mais que nos doa. Outros preferem não chegar a saber nunca... Não podem suportar perder sua última esperança. – ergueu-se bruscamente –. Não subestime Voisey, Pitt. Não deixará que seu desejo de vingança se interponha no caminho de sua ambição. Você não é tão importante para ele, mas não esquecerá que foi você quem o derrotou em Whitechapel. Não o esquecerá, e sem dúvida não o perdoará. Esperará o momento oportuno, quando você não possa defender-se. Não se precipitará, mas chegará um dia em que ataque. Farei o possível para lhe cobrir as costas, mas não sou infalível.

— Encontrei-o ... na Câmara dos Comuns há quatro dias – replicou Pitt sem poder evitar estremecer –. Sei que não o esqueceu. Mas se vivo com medo lhe estarei dando a vitória. Minha família está fora de Londres, mas não posso detê-lo. Reconheço que se acreditasse que há alguma escapatória, talvez teria tentado recorrer a ela... mas não a há.

— Você é mais realista do que pensava – disse Narraway, muito a contragosto , sua voz traduzia uma atitude de respeito –. Incomodou-me que Cornwallis enviasse você aqui. Aceitei-o como favor, mas talvez não foi, depois de tudo.

— Por que deve favores ao Cornwallis? – Lhe escaparam as palavras antes que pudesse parar-se para pensar nelas.

— Não é assunto seu, Pitt! – replicou Narraway com aspereza –. Vá-se e averigue as maldades que fazia essa mulher... e as demonstre!

— Sim, senhor.

Não foi até que esteve de novo na rua à luz da última hora da tarde e no meio do estrondo do tráfego, quando Pitt se perguntou se Narraway se referiu a Rose Serracold... ou a Maude Lamont!

 

Quando Emily abriu o jornal no dia seguinte do descobrimento do assassinato no Southampton Row, foi diretamente à seção de política nacional. Chamou-lhe a atenção um excelente retrato do senhor Gladstone, mas no momento lhe interessavam mais os distritos londrinos. Faltava menos de uma semana para que começassem as votações e estremecia de emoção; algo que não lhe tinha ocorrido nas anteriores eleições , porque agora tinha conhecido as possibilidades que oferecia um cargo, e as ambições que tinha depositado em Jack eram, portanto, mais elevadas. Ele tinha demonstrado sua capacidade e, o que era ainda mais importante, sua lealdade. Desta vez possivelmente lhe premiassem com um cargo mais importante, e assim gozaria de mais poder para fazer o bem.

Jack tinha pronunciado um excelente discurso no dia anterior. O público se mostrara receptivo. Folheou as páginas procurando algum comentário sobre ele. Em seu lugar viu o nome de Aubrey Serracold e debaixo um artigo que começava bastante bem. Teve que chegar à metade para perceber o sarcasmo soterrado, a insinuação velada da necedade de suas idéias, que, embora bem intencionadas, nasciam da ignorância; um homem rico que brincava de política, indescritivelmente condescendente em sua ambição por mudar os outros segundo a idéia do que lhes convinha.

Emily ficou furiosa. Deixou cair o jornal e olhou a Jack por cima da mesa do café da manhã.

— Viu isto? – perguntou, assinalando-o com o dedo.

— Não. – Jack estendeu uma mão, e ela recolheu as páginas caídas e as passou. Viu como o lia com o sobrecenho cada vez mais franzido.

— Lhe prejudicará? – perguntou ela quando ele levantou a vista –. Estou certa de que o ofenderá, mas refiro a suas possibilidades de que saia eleito – acrescentou apressadamente.

Iluminaram-se os olhos de Jack com uma expressão divertida que deu passagem à ternura.

— Quer que ganhe, não é? Pelo Rose...

Ela não se deu conta de quão transparente tinha sido. Não era nada próprio dela. Em geral, era uma perita na arte de revelar só o que queria, a diferença de Charlotte, a quem quase todo mundo podia adivinhar o pensamento. Entretanto, nem sempre era agradável sentir-se tão sozinha.

— Sim – assentiu ela –. Achava que era mais ou menos certo. Faz décadas que é uma cadeira liberal. Por que ia mudar agora?

— Só é um artigo, Emily. Se disser algo, forzosamente haverá alguém que não esteja de acordo com você.

— Você não o está – disse ela com muita seriedade –. Jack, não pode defendê-lo de todo modo? Fazem que pareça muito mais extremista do que é. Escutariam-lhe.

Viu como hesitava e como se escurecia seu rosto

— O que se passa? Já não tem confiança nele? Ou é Rose? É claro que é excêntrica, e sempre o será. Que demônios importa isso? Acaso têm que ser cinzas nossos políticos para que sejam bons?

Por um momento a risada apareceu no rosto de Jack, e logo desapareceu.

— Cinzas não, mas de uma cor um pouco apagada. Não dê nada por assentado, Emily. Não esteja tão segura de que vou ganhar. Há muitas coisas em jogo que podem trocar o voto das pessoas. Gladstone sempre está falando do auto-governo, mas é a jornada trabalhista o que acredito que vai decidir a vitória.

— Mas os Conservadores não vão concedê-la! – protestou ela –. É ainda menos provável que eles façam do que nós! Diga-lhe.

— Já o tenho feito. Mas os argumentos dos conservadores para não conceder o auto-governo são razoáveis, ao menos para os trabalhadores de Londres, cujos portos e armazéns abastecem ao mundo inteiro. – Seu rosto se crispou –. Inteirei-me do que disse Voisey, e as pessoas o escutavam. Neste momento goza de muita popularidade. A rainha lhe concedeu o título de sir por sua coragem e lealdade à Coroa. Ninguém sabe exatamente o que fez, mas parece ser que salvou o trono de uma ameaça muito séria. Tem ao público virtualmente no bolso inclusive antes de ter falado.

— Achava que a rainha não era muito popular – disse Emily com desconfiança, recordando alguns dos desagradáveis comentários que tinha ouvido, tanto entre a alta sociedade como entre as pessoas comuns. Vitória se tinha ausentado muito tempo da vida pública, chorando ainda por Albert apesar de levar trinta anos morto. Passava seu tempo com seu querido Osbourne na ilha de Wight, ou no Balmoral, nas Terras Altas escocesas. As pessoas mal a viam. Não havia ocasiões solenes, nem pompa, nem emoção, nem cor, nem o sentimento de unidade que só ela poderia ter proporcionado.

— Mesmo assim não queremos que nos tirem isso – indicou Jack –. Somos tão perversos em geral como individualmente. – Dobrou o jornal e, deixando-o na mesa, levantou-se –. Embora evidentemente apoiarei Serracold. – inclinou-se e a beijou apressadamente na fronte –. Não sei quando voltarei. Provavelmente para jantar.

Observou-o enquanto saía pela porta, depois se serviu de outra xícara de chá e voltou a abrir o jornal. Foi então quando viu o artigo que falava da morte do Maude Lamont, segundo o qual a polícia não tinha dúvidas de que se tratava de um assassinato. Mencionava-se a delegacia de polícia do Bow Street, e ao parecer o inspetor Tellman estava a cargo do caso. O próprio Tellman não tinha feito nenhuma declaração, mas não faltavam as hipóteses. Os jornalistas inventaram o que não sabiam: quem eram seus clientes; quem tinha ido ali essa noite; a que pessoas do passado tinha afirmado invocar e o que tinha revelado para que tivesse terminado em assassinato; quem tinha segredos tão atrozes que era capaz de matar para ocultá-los. O rumor do escândalo, a violência e a crueldade eram irresistíveis.

Leu-o pela segunda vez, mas não era necessário. Tinha memorizado cada palavra e todas suas desagradáveis implicações. E podia recordar com toda clareza Rose Serracold dizendo: "Sem ver os efeitos, como vou saber que é autêntico, e não só o médium que me diz o que acredita que quero ouvir?". A médium a quem Rose tinha consultado era uma mulher, e nesse momento a mais notória em Londres era Maude Lamont. De algum jeito, os fios desfiados se foram soltando no que tinha parecido um caminho reto. No mais recôndito de seu ser sentia inquietação por Rose, pela vulnerabilidade que percebia nela, um medo que ameaçava aumentar e pô-la em perigo a ela e a Audrey, e possivelmente inclusive ao Jack. Tinha chegado o momento de fazer algo.

Subiu ao quarto das crianças para passar a manhã com sua filha pequena, Evangeline, a quem sempre assaltava perguntas sobre os temas mais diversos. Suas palavras favoritas eram "por que".

— Onde está Edward? – achava-se sentada no chão com o cenho franzido –. Por que não está aqui?

— Foi de férias com Daniel e Jemima – respondeu Emily, lhe estendendo sua boneca favorita.

— Por quê?

— Porque o prometemos.

— Por quê? – Os olhos extraordinariamente abertos da menina não revelavam uma atitude desafiante.

— Ele e Daniel são muito bons amigos. – Ao pensar nisso, a Emily inquietou o fato de que não tivessem deixado que Thomas fosse com eles, e que quase ao mesmo tempo houvessem tornado a destituí-lo incompreensivelmente de seu cargo no Bow Street. De repente, e sem explicação alguma, Charlotte se tinha mostrado resistente a levar Edward, quando pouco antes tinha estado mais que disposta. Tinha comentado com inapetência que Thomas não estaria ali, e tinha insinuado que era possível que se desse alguma situação desagradável, mas não tinha especificado nada.

— Eu também sou muito boa amiga – disse Evie, dando voltas à frase na cabeça.

— É claro que o é, querida. É muito boa amiga minha – assegurou Emily em tom tranqüilizador –. Pintamos? Eu Pinto esta parte e você pode desenhar a casa aí.

Evie começou com entusiasmo, pegando o lápis com a mão esquerda. Emily se expôs se devia colocar-lhe na direita, mas decidiu não fazê-lo.

Estava preocupada com Charlotte. Ia-lhe resultar muito difícil fazer-se à idéia de que Pitt já não estava em um posto de responsabilidade na polícia. Não era exatamente um emprego de que sentir-se orgulhosa, mas era medianamente respeitável. Agora trabalhava em algo do que ela mal falava e já não discutiam juntas seus casos. É claro, o salário era outra questão, e certamente não tão bom como o anterior!

O que mais afetava a Emily era que já não podia intervir em nenhuma questão. No passado tinha ajudado Charlotte quando esta se envolvera em alguns casos do Pitt; concretamente nos mais pitorescos e dramáticos, nos quais tinha implicadas pessoas dos estratos sociais mais elevados. Ela e Charlotte tinham acesso a salões da alta sociedade nos quais Pitt jamais poderia introduzir-se. Virtualmente haviam resolvido alguns dos assassinatos mais estranhos e atrozes. Ultimamente esse tipo de coisas tinham ocorrido cada vez menos, e Emily começava a dar-se conta do muito que sentia falta disso, não só da companhia de Charlotte e da provocação e da emoção daquelas experiências, mas também a irrupção em sua vida das paixões do triunfo e o desespero, o perigo, a decisão, a culpa e a inocência, que lhe tinham feito refletir mais que as previsíveis questões políticas que sempre pareciam relacionadas com as massas e não com os indivíduos, com teorias e leis antes que com a vida de homens e mulheres de carne e osso, seus sonhos e sua capacidade para sentir alegria ou dor.

Voltar a ajudar Charlotte e Thomas seria um duro aviso das obrigações da realidade e da vida. Obrigar-lhe-ia a pôr a prova suas crenças como jamais o conseguiria limitando-se a refletir. Assustava-lhe, e por essa mesma razão também se sentia atraída. Charlotte estava em Dartmoor. Não tinha a endereço exato; Thomas e Charlotte tinham sido muito vagos. Mas iria ver Rose Serracold e averiguaria mais coisas sobre a morte dessa médium com quem ela tinha estado relacionada, Maude Lamont.

Vestiu-se com um traje à última moda parisiense. Era de cor rosa pálido e tinha umas longas raias azul lavanda que cruzavam a saia em diagonal, e uma alta gola branca. As cores pálidas eram pouco comuns e lhe favoreciam muito.

Fez todas as visitas de compromisso às esposas dos homens com quem convinha ter uma relação estreita e regular. Falou do tempo, de notícias corriqueiras, trocou cumprimentos e palavras sem sentido toda a tarde, sabendo que o que contava era a mensagem que subjazia sob todo aquele palavrório.

Depois teve liberdade para continuar com as perguntas que lhe tinham assaltado durante o café da manhã. Finalmente deu ao cocheiro instruções para ir à casa dos Serracold. Recebeu-a um lacaio, que a conduziu à estufa banhada pelo sol e embargada pelo aroma de terra úmida, a folhas e à água que caía. Encontrou Rose sentada sozinha, contemplando o lago de nenúfares. Ia vestida também com roupa de rua de um dramático verde oliva sobre renda branca, que com seu cabelo tão loiro e seu corpo extraordinariamente esbelto o fazia parecer uma exótica flor aquática.

Mas quando Emily se aproximou e ela levantou o olhar, pôde apreciar a tensão que a atendia no gesto com o qual esticou o vestido de seda até que lhe pendeu sem sua habitual elegância.

— Emily, quanto me alegro de vê-la! – exclamou, visivelmente aliviada –. Não teria deixado entrar ninguém mais, asseguro-lhe isso! – Sua expressão se tornou em um gesto de desconcerto –. Mataram Maude Lamont! Suponho que o viu nos jornais. Ocorreu faz dois dias... e eu estava ali! Ao menos estive na casa essa noite. A polícia veio esta manhã, Emily. Não sei como dizer a Aubrey. O que lhe vou contar?

Era um momento no qual convinha ser prática, não amável. Se queria averiguar algo útil, não podia permitir que Rose levasse a conversa. Foi ao ponto, tirando o primeiro assunto que realmente lhe importava.

— Aubrey não sabia que estava vendo uma espírita?

Rose sacudiu ligeiramente a cabeça, e a luz se refletiu em seu cabelo brilhante.

— Por que não o disse?

— Porque não teria gostado! – respondeu Rose imediatamente–. Ele não acredita nessas coisas.

Emily refletiu uns momentos. Rose mentia, ocultava-lhe algo. Não estava segura do que era, mas estava segura de que tinha que ver com os motivos que a tinham levado a acudir a Maude Lamont.

— Teria lhe parecido um tanto embaraçoso – explicou Rose desnecessariamente, olhando ao chão com um ligeiro sorriso nos lábios.

— Mas foi de qualquer modo – indicou Emily – . Inclusive agora, justo antes das eleições . O que significa que seus motivos para ir eram tão convincentes que pesaram mais que os desejos de Aubrey e o prejuízo que podia lhe causar, ou que ele achava que podia lhe causar. Tão segura está de que vão ganhar? – Tratou de mostrar-se compreensiva e procurou que sua voz não traduzisse a impaciência que sentia ante tão ingênua arrogância.

Rose arqueou de repente as sobrancelhas. Estava a ponto de responder, mas as palavras se desvaneceram em seus lábios.

— Achava estar – se limitou a dizer. Logo seu tom se voltou premente – . Acredita... acredita que isto poderia mudar algo? Eu não a matei! Pelo amor de Deus... necessitava-a viva!

Emily sabia que se estava intrometendo em um assunto íntimo, mas não havia tempo para delicadezas.

— Por que a necessitava, Rose? O que podia lhe dar ela que lhe importe tanto neste momento?

— Pois o que ia me dar! Era meu contato com o outro mundo! – disse Rose com impaciência–. Agora tenho que achar a outra pessoa e voltar a começar! Não há tempo... – interrompeu-se, sabendo que tinha falado muito.

— Tempo para que? – insistiu Emily –. As eleições? Tem algo que ver com as eleições? – As dúvidas sobre o motivo pelo que Thomas continuava em Londres invadiram sua mente.

A expressão de Rose se tornou impenetrável.

— Antes que Aubrey ganhe sua cadeira e ocupe um cargo no Parlamento – respondeu ela –. E eu tenha muita menos vida privada.

Continuava mentindo, ou ao menos dizia uma verdade pela metade, mas Emily não podia demonstrá-lo. Por quê? Era um segredo político ou pessoal? Como podia averiguá-lo?

— O que disse ao homem da polícia que veio vê-la? – inquiriu-lhe, pressionando-a.

— Falei-lhe dos outros dois clientes que estiveram ali essa noite, é claro. – Rose se levantou e se aproximou da terrina com peônias e esporas de cavalheiro que havia sobre a mesa de ferro forjado. Moveu os caules absorta, trocando a disposição das flores sem conseguir que luzissem mais – . O homem do Bow Street parecia acreditar que um deles o tinha feito. – estremeceu e tratou de dissimular dando de ombros – . Não era como eu esperava que fosse um policial – continuou – . Mostrou-se muito educado e tranqüilo, mas me fez sentir desconfortável. Eu gostaria de pensar que não vai voltar, mas suponho que o fará. A menos, claro, que averiguem em seguida quem foi. Deve ser o homem cético. Não pôde ser o soldado que queria falar com seu filho. Importa-lhe tanto como a mim.

Emily estava confundida. Não tinha nem idéia do que estava falando Rose, mas não era o momento para reconhecê-lo.

— E se averiguou algo que não gostou? – perguntou em voz baixa – . O que teria acontecido então?

Rose ficou sustentando uma espora de cavalheiro na mão, com o sobrecenho franzido e uma expressão desventurada.

— Então teria ficado destroçado – respondeu ela, com voz rouca – . Se teria ido desesperado... e... e teria tratado de curar-se... suponho. Não sei como. O que faz uma pessoa quando... se inteira de algo insuportável?

— Há pessoas que se teriam vingado – respondeu Emily, observando as costas rígidas de Rose, a seda retorcida ao voltar-se ligeiramente – . Embora só fosse para assegurar-se de que ninguém mais se inteirava dessa coisa intolerável. – Deu rédea solta a sua imaginação, apesar da compaixão que despertava a visível angustia de Rose. Quem eram esses homens? Que motivos podiam ter para matar a médium? Com que segredo topou Rose?

— Isso é o que sugeriu o policial – disse Rose ao cabo de um segundo.

Emily sabia que tinham promovido Tellman agora que Pitt se foi do Bow Street.

— Tellman? – perguntou.

— Não... chamava-se Pitt.

Emily exalou devagar. De repente, muitas coisas encaixavam de um modo desagradável e aterrador. Já não tinha nenhuma dúvida de que o assassinato da espírita era um assunto político; do contrário, não teriam chamado Pitt. Certamente a Brigada Especial não podia havê-lo previsto. Ou sim? Charlotte lhe tinha falado pouco das novas obrigações de Pitt, mas Emily sabia o suficiente sobre fatos de atualidade para ser consciente de que a Brigada Especial só enfrentava casos de violência, anarquia, ameaça ao governo e ao trono, e o perigo subseqüente para a paz do país.

Rose continuava lhe dando as costas. Não tinha visto nada. Emily tinha um conflito de lealdades. Tinha pedido a Jack que apoiasse ao Aubrey Serracold, e ele se mostrara resistente, mesmo que não tivesse querido reconhecê-lo. Agora compreendia que tinha razão. Ela tinha dado por assentado que Jack ia voltar a ganhar sua cadeira, com todas as oportunidades e os benefícios que este reportava. Talvez se tinha precipitado. Havia forças que não tinha tido em conta, ou Pitt não se incomodaria em resolver um desafortunado crime passional ou motivado por uma fraude no Southampton Row.

Um pensamento claro foi a sua mente. Se Rose lhe tinha falado sem querer a essa mulher de algum incidente de seu passado, alguma indiscrição, um estúpido ato que agora era censurável, então as possibilidades de chantagem política eram muito claras. E uma mulher assim poderia facilmente suscitar motivos para ser assassinada.

Ficou olhando para Rose, sua afetada e excêntrica elegância, a paixão de seu rosto tão fácil de interpretar atrás daquele fino verniz de sofisticação. Fingia que tinha tudo, mas possuía uma ferida em carne viva e bem visível, apesar de que não fosse essa sua natureza.

— Por que foi à Maude Lamont? – perguntou Emily sem rodeios– . Terá que dizer a Pitt algum dia. Não parará até averiguá-lo, e ao fazê-lo desvelará toda classe de coisas que talvez preferiria que não se soubessem.

Rose arqueou as sobrancelhas.

— Seriamente? Fala como se o conhecesse! Não esteve fazendo averiguações sobre você, não é? – Disse-o com tom zombador; uma brincadeira destinada a desviar a atenção, com uma nota desafiante bastante clara para fazer reagir Emily, ou ao menos essa era sua intenção.

— Seria uma perda de tempo e algo bastante desnecessário – disse Emily – . É meu cunhado. Já sabe tudo o que quer sobre mim. – Por um instante foi divertido observar no rosto de Rose a surpresa, a vacilação, como se tratasse de decidir se Emily estava zombando dela ou não, e em seguida a onda de fúria ao dar-se conta de que não mentia.

— Esse maldito policial é seu parente? – perguntou horrorizada –. Acredito que dadas as circunstâncias poderia havê-lo dito! – Tirou-lhe importância a aquele detalhe com um rápido gesto –. Embora suponha que se eu estivesse aparentada com um policial tampouco o diria a ninguém! Não é que o esteja! – Pronunciou aquelas palavras como um insulto, com a intenção de ofendê-la.

Emily sentiu como a cólera aumentava em seu interior, explosiva e intensa. Dispunha-se a levantar-se com a intenção de soltar uma resposta preparada quando se abriu a porta e entrou Aubrey Serracold. Seu rosto alongado e de tez clara tinha sua habitual expressão irônica, e o gesto ligeiramente torcido da boca que dava a entender que sorriria se estivesse seguro do momento e a pessoa apropriada a quem dirigir-se. Umas mechas de cabelo loiro lhe caíam sobre a testa de forma assimétrica. Como sempre, ia vestido de branco, com uma jaqueta negra, calças de raias finas e um lenço de seda perfeitamente atado. Seu valete certamente o considerava uma forma artística. Era evidente a frieza nas posturas e a rigidez das duas mulheres, a distância entre ambas e a maneira em que se achavam meio viradas. Mas as boas maneiras o fizeram fingir que não se dera conta.

— Que alegria vê-la, Emily – disse, com tanto prazer que por um momento resultou acreditável que não tinha percebido o ambiente. Aproximou-se dela, tocando o braço de Rose com um gesto carinhoso ao passar por seu lado – . Está em pé. Espero que isso signifique que acaba de chegar e não que vai. Sinto-me um tanto maltratado, como um pêssego muito amadurecido que muita gente pegou e desprezou. – Sorriu com tristeza –. Não tinha nem idéia de quão aborrecido era discutir com pessoas que são incapazes de escutar uma palavra do que diz, e que há tempo decidiu que o que quer dizer é uma estupidez. Tomou chá?

Procurou com o olhar algum rastro de uma bandeja ou outra prova de algum refresco recente.

— Talvez seja um pouco tarde. Acredito que tomarei um uísque. – Puxou o cordão para chamar o mordomo. Um brilho em seus olhos revelou que era consciente de estar falando muito para encher o silêncio, mas de todo modo seguiu– : Jack me advertiu que a maioria da pessoas já decidiu quais são suas crenças, que serão quão mesmas as de seus pais e seus avós, ou em poucos casos justo o contrário, e que qualquer classe de discussão é como falar com ar. Pensei que estava sendo cínico.– encolheu os ombros –. Faça-Lhe chegar minhas desculpas, Emily. É um homem de infinita sagacidade.

Emily fez um esforço por lhe devolver o sorriso. Não estava de acordo com Aubrey em muitas coisas, a maioria questões políticas, mas não podia evitar que lhe agradasse, e ele não tinha a culpa daquela desavença entre ela e Rose. Era agudo, direto e quase nunca era desagradável.

— Só é questão de experiência – respondeu ela –. Diz que a pessoa vota com o coração e não com a cabeça.

– Em realidade diz que o faz com a tripa. – A risada iluminou os olhos do Aubrey, e logo se desvaneceu –. Como vamos melhorar o mundo se não pensarmos além da comida de amanhã? – Olhou a Rose, que permanecia rigorosamente calada, dando as costas parcialmente a Emily como se se negasse a seguir reconhecendo sua presença.

— Pois se não termos a comida de amanhã, não sobreviveremos nesse maravilhoso futuro – indicou Emily –. E tampouco nossos filhos – acrescentou com mais seriedade.

— É claro – disse Aubrey em voz baixa; de repente, toda a frivolidade tinha desaparecido. Falavam de coisas que importavam muito a todos. Só Rose estava rígida, pois o medo não a tinha abandonado.

— Mais justiça significaria mais comida, Emily – disse Aubrey com apaixonada gravidade –. Mas os homens anseiam tanto a visão de futuro como o pão. Todos precisam acreditar neles mesmos, pensar que o que fazem é melhor que matar-se a trabalhar em troca do justo para sobreviver, e isso no melhor dos casos.

Em seu foro interno Emily queria estar de acordo com ele, mas a mente lhe dizia que seus sonhos estavam muito a adiante de seu tempo. Eram brilhantes, até bonitos. Mas também pouco práticos.

Lançou um olhar ao Rose e viu doçura em seu olhar, ternura em sua expressão, e percebeu quão pálida estava. Chegava-lhe o aroma dos nenúfares, e o vapor que se erguia da terra regada e o chão de pedra quente pelo sol, mas percebia um medo que parecia arrasar com todo o resto. Conhecendo o ardor com que Rose compartilhava as crenças de Aubrey, talvez inclusive indo mais longe que ele, o que lhe urgia tanto saber para buscar-se a outra médium, depois do que tinha ocorrido à Maude Lamont?

E o que tinha ocorrido à Maude Lamont? Tinha tentado uma vez mais fazer chantagem política com um segredo muito comprometedor? Ou se tratava de uma tragédia doméstica, um amante traído, o ciúmes por ter arrebatado ou desviado a atenção de um homem? Tinha prometido transmitir uma ordem do outro mundo, talvez relacionada com o dinheiro, e não tinha cumprido a promessa? Havia centenas de possibilidades. Não tinha por que estar relacionado com Rose, embora Thomas tivesse ido vê-la, e não da parte de Bow Street, mas da Brigada Especial.

Podia o homem não identificado ter sido um político ou um amante, ou tinha querido sê-lo? Talvez tinha albergado uma paixão pelo Lamont que ela tinha rechaçado, e sentindo-se humilhado, voltou-se contra ela e a tinha matado?

Certamente a Pitt lhe teria ocorrido essa possibilidade, não?

Emily olhou a Aubrey. Sua expressão parecia entusiasta a primeira vista, mas o fantasma do humor sempre rondava seus olhos, como se estivesse presenciando alguma grande brincadeira cômica e se acreditasse um ator secundário, nem mais nem menos importante que qualquer outro, por intensos que fossem seus sentimentos. Talvez essa fosse a principal razão pela qual lhe me agradava.

Rose seguia lhe dando parcialmente as costas. Tinha estado escutando ao Aubrey, mas a rigidez de seus ombros deixava patente que não tinha esquecido sua discussão com Emily, e se ocultava o que acontecera era porque não queria explicar a ele.

Emily lhes dedicou seu alegre e afetuoso sorriso social, e disse que se alegrava de vê-los os dois. Desejou a Aubrey êxito e lhe reiterou seu apoio e o do Jack, embora não estivesse tão segura deste último, e logo se despediu. Rose a acompanhou até o corredor. Mostrou-se educada, falando com voz alegre mas exibindo um olhar frio.

No trajeto de volta a casa, sentada em sua carruagem à medida que abria passagem através da aglomeração de carruagens, landaus e uma dúzia de veículos mais, Emily se perguntou o que devia dizer ao Pitt, se é que devia falar com ele. Rose supunha que o faria e isso lhe enfurecia; era como se já a tivesse enganado, ao menos na intenção. Não era verdade e lhe parecia injusto.

E entretanto, seu instinto lhe dizia que contar tudo aquilo ao Pitt podia lhe ser de utilidade, pois ajudaria a explicar o que tinha ocorrido, tanto pelo bem de Rose como pelo de qualquer outra pessoa!

Não era certo. Fá-lo-ia em interesse da verdade e do Jack. Enquanto permaneceu sentada, dando voltas à morte da médium, teve presente todo o tempo o rosto de Jack, sentiu sua presença como se lhe tivesse junto ao ombro e apenas o visse. Aubrey lhe agradava, queria que ganhasse, não só pelo bem que podia fazer, mas também por ele mesmo. Mas era o medo a que arrastasse consigo e ao Jack ao afundá-lo, que a levava a lutar por isso.

Nunca tinha considerado seriamente que Jack pudesse perder. Só tinha pensado nas oportunidades que tinham ante si, os privilégios e os prazeres. De repente, enquanto a carruagem voltava a precipitar-se para diante dando tombos e os gritos dos enfurecidos cocheiros fendiam o ar quente, deu-se conta com um calafrio de que sua derrota suporia uma amarga mudança ao que deveriam acostumar-se, tão radical como o que Charlotte estava experimentando nesse momento. Receberiam outra classe de convites, e as festas seriam indescritivelmente mais aborrecidas. Como ia voltar para a ociosidade da alta sociedade depois de haver sentido correr nas veias a emoção da política, o embriagador sonho do poder? E como ia ocultar a humilhação, intensa e extraordinariamente real, de não ter já nada que fazer que valesse a pena?

Propôs-se firmemente que Jack ganhasse. Era totalmente consciente de seus motivos, mas isso não mudava nada. A razão não afetava aos sentimentos mais que a luz do sol às profundas correntes marinhas. Devia fazer tudo o que estivesse em sua mão para ajudar.

Precisava falar com alguém. Charlotte estava em Dartmoor; nem sequer sabia onde. Sua mãe, Caroline, estava de gira com seu segundo marido, Joshua, um ator que nesse momento protagonizava uma das peças de teatro do senhor Wilde em Liverpool. Sua avó estava em Bath, desfrutando de seus banhos.

Entretanto, mesmo se todas elas estivessem em casa, à primeira que escolheria como confidente teria sido a lady Vespasia Cumming-Gould, uma tia avó de seu primeiro marido que continuava sendo uma de suas mais queridas amigas. De modo que se virou para diante e pediu ao cocheiro que a levasse a casa da Vespasia, apesar de não lhe haver escrito nem deixado um cartão, o que era muito mal visto. Mas Vespasia nunca tinha permitido que as regras lhe impedissem de fazer o que achava correto, e Emily estava quase certa de que lhe perdoaria por fazer o mesmo.

Teve a sorte de achar Vespasia em casa, e de que se despedira fazia meia hora de sua última visita.

— Minha querida Emily, quanto me alegro de vê-la – disse Vespasia sem levantar do assento junto à janela do salão. Tudo era de cores pálidas e estava cheia da luz do sol –. Sobre tudo neste momento tão especial – acrescentou– , já que deve ser algo muito interessante ou urgente o que a traz por aqui. Sente-se e me diga o que é. – Assinalou a cadeira que tinha em frente sem alterar-se e estudou com olho crítico o vestido de Emily. Tinha as costas retas e o cabelo grisalho, e continuava conservando os maravilhosos olhos e a compleição que a tinham convertido em uma das grandes belezas de sua geração. Nunca tinha seguido a moda, sempre a havia imposto – . Muito favorecedor– disse, dando sua aprovação – . Foi ver alguém a quem queria impressionar... uma mulher que toma muito a sério a vestimenta, imagino.

Emily sorriu com profundo prazer e alívio ao estar em companhia de alguém que lhe agradava plenamente, sem a mais mínima sombra de dúvida.

— Sim – disse –. À Rose Serracold. Conhece-a?

Vespasia não tinha tratado com Rose em reuniões sociais, já que as afastavam quase duas gerações, um abismo em suas posições sociais e um considerável grau de riqueza, mesmo que Aubrey contasse com ganhos adequados. Não tinha nem idéia se Vespasia aprovaria as opiniões políticas de Rose; ela mesma podia ser muito extremista as vezes, e tinha lutado como uma fera pelas reformas em que acreditava. Mas também era realista e muito prática. Podia chegar a acreditar perfeitamente que os ideais socialistas estavam baseados erroneamente na realidade da natureza humana.

— E o que aconteceu durante a visita à senhora Serracold para que tenha vindo aqui em lugar de ir a sua casa se trocar para o jantar? – perguntou Vespasia – . Está relacionado com Aubrey Serracold, esse que vai apresentar-se pelo Lambeth sul e segundo os jornais falou que ideais bastante ridículos?

— Sim, é sua mulher.

— Emily. Não sou uma dentista para ter que te tirar a informação como se fora um molar!

— Sinto-o – disse Emily com tom arrependido –. Tudo me parece tão absurdo agora que tento expressá-lo com palavras.

— Muitas coisas fazem que alguém se sinta assim – observou Vespasia –. Isso não significa que não sejam reais. Tem que ver com o Thomas? – Havia uma nota de preocupação em sua voz, e tinha um olhar sombrio.

— Sim... e não – respondeu Emily em voz baixa. De repente não lhe parecia absolutamente ridículo. Se Vespasia também estivesse assustada é que a causa era real –.Thomas e Charlotte iriam partir de férias a Dartmoor, mas retiraram de Thomas a permissão...

— Quem? – interrompeu-a Vespasia.

Emily engoliu a saliva. Sacudida pela dor e desconcertada, deu-se conta de que Thomas não tinha mencionado a Vespasia que lhe tinham despedido do Bow Street pela segunda vez. Mas tinha que sabê-lo. O silêncio só adiaria o inevitável.

— A Brigada Especial – respondeu com voz rouca; sua voz se viu empanada pela cólera e medo– . Voltaram a tirá-lo do Bow Street – continuou –. Disse-me isso Charlotte quando precisou buscar Edward para levá-lo a Dartmoor. Tornaram a enviar Thomas à Brigada Especial e lhe cancelaram a permissão.

Vespasia assentiu de maneira quase imperceptível.

— Charles Voisey vai apresentar-se candidato ao Parlamento. É o chefe do Círculo Interior. – Não se incomodou em lhe explicar nada mais. Ao ver sua rosto devia ter percebido que compreendia a gravidade de tudo aquilo.

— Meu deus! – exclamou Emily involuntariamente– . Tem certeza?

— Sim, querida, totalmente certa.

— E... Thomas sabe?

— Sim. Por isso Victor Narraway lhe cancelou a permissão e certamente lhe ordenou que faça todo o possível por deter Voisey, embora duvide que o consiga. Voisey só foi derrotado uma vez.

— Por quem? – A esperança invadiu Emily, fazendo que o coração lhe palpitasse com força.

Vespasia sorriu.

— Por meu amigo chamado Mario Corena, mas lhe custou a vida. E o ajudamos um pouco Thomas e eu. Mario está fora do alcance de Voisey, mas Voisey não deve ter perdoado Thomas e pode ser que a mim tampouco. Acredito que seria prudente, querida, que não escrevesse a Charlotte enquanto está fora.

— Acaso o perigo é tão...? – Emily se surpreendeu com a boca seca e os lábios endurecidos.

— Não enquanto ele não saiba onde encontrá-la.

— Não pode ficar eternamente em Dartmoor!

— É claro que não – concordou Vespasia – . Mas quando voltar, as eleições terão terminado, e é possível que tenhamos dado com o modo de atar as mãos ao Voisey.

— Não ganhará, verdade? A cadeira liberal é segura – declarou Emily – . Por que enfrenta a ele e não ao candidato Conservadores? Não tem sentido.

— Equivoca-se – sussurrou Vespasia –. Simplesmente tem um sentido que nós ainda não compreendemos. Tudo o que faz Voisey tem sentido. Não sei como derrotará o candidato liberal, mas acredito que o conseguirá.

Emily tinha frio a pesar do sol que entrava em torrentes pelas janelas na silenciosa sala.

— O candidato liberal, Aubrey Serracold, é meu amigo. Estou aqui por sua mulher. É uma das últimas clientes do Maude Lamont, a médium a que assassinaram no Southampton Row. Ela esteve em sua casa essa noite. Thomas está investigando o caso, e acredito que sei algo importante.

— Então deve dizer-lhe. – Na voz da Vespasia não se percebia nenhum sinal de vacilação nem de dúvida.

— Mas Rose é amiga minha, e se me inteirei que algo é porque ela confia em mim. Se trair a uma amiga, o que fica?

Desta vez Vespasia demorou para responder.

Emily se manteve à espera.

— Se tiver que escolher entre dois amigos – disse Vespasia por fim – , e tanto Rose como Thomas o são, não deve escolher a nenhum dos dois, mas fazer o que lhe dita a consciência. Não pode antepor umas obrigações e lealdades a outras no que se refere às pessoas, a intimidade que compartilham com você, a profundidade de sua dor, sua inocência ou vulnerabilidade, ou a confiança que puseram em você. Deve fazer o que a consciência lhe diga que está bem. Tem que ser conseqüente com sua própria verdade.

Vespasia não o tinha mencionado, mas Emily estava certa de que se referia a que devia dizer a Thomas tudo o que sabia.

— Sim – disse alto –. Talvez já soubesse. O que acontece é que me custava aceitá-lo porque sabia que então teria que fazê-lo.

— Acha que Rose poderia ter matado a essa mulher?

— Não sei. Suponho que sim, ou do contrário saberia, não?

— Suponho.

Ficaram sentadas em silêncio uns minutos e depois passaram a outros temas: a campanha do Jack, o senhor Gladstone e lorde Salisbury, o extraordinário fenômeno do Keir Hardie e a possibilidade de que um dia obtivesse realmente chegar ao Parlamento. Finalmente, Emily voltou a agradecer à Vespasia, beijou-a na face e se despediu.

Chegou em casa e subiu ao piso de cima com a intenção de trocar-se para jantar, embora não fosse sair. Estava em seu gabinete quando Jack entrou. Tinha uma expressão cansada e as barras das calças cobertas de pó, como se tivesse caminhado um longo trecho.

Emily se levantou para saudá-lo com uma pressa inusitada, como se lhe levasse notícias, embora não esperava mais que as ninharias da campanha, muitas das quais podia ler nos jornais, se o considerava suficientemente importante.

— Que tal vai tudo? – perguntou esquadrinhando seus olhos, muito abertos e cinzas, e com as assombrosas pestanas que ela sempre tinha admirado. Percebeu neles o prazer que lhe produzia vê-la, uma afeição que conhecia desde há tempo e apreciava tanto que ainda lhe surpreendia. Mas debaixo dessa emoção, muito perto da superfície, percebeu uma ansiedade mais profunda que a de antes. Apressou-se a perguntar–O que se passou?

Ele parecia resistente a responder. As palavras não acudiram em seguida a seus lábios como costumavam fazê-lo, e isso a deixou gelada.

— Aubrey? – sussurrou ela, pensando na advertência da Vespasia–. Poderia perder, não é? Afetaria-o muito?

Jack sorriu, embora se tratava de um gesto deliberado com o que pretendia tranqüilizá-la.

— Me agrada – disse com sinceridade, sentando-se na cadeira situada frente a ela e estirando as pernas –. E acredito que com um pouco mais de prática seria um bom parlamentar. De qualquer modo, necessitamos a uns quantos sonhadores. – deu ligeiramente de ombros –. Serviriam para rebater aos assalariados que só querem cargos dos que podem tirar proveito.

Ela sabia que ocultava a verdadeira dor que sentiria se Aubrey fracassasse. Era ela quem o tinha animado ao começo, e inclusive lhe tinha aberto grande parte do caminho para sua nomeação e o tinha apoiado depois. Ele tinha tomado com muita tranqüilidade, como fazia contudo, mantendo essa atitude instintiva de homem que toma as coisas à ligeira, que mais que trabalhar joga, a quem nada lhe importa tanto como o conforto, a popularidade, a boa comida e o bom vinho, e a elegância a seu redor. Sempre tinha apreciado a beleza, e flertava com a mesma naturalidade com a que respirava. O caráter irrevogável de seu matrimônio com uma mulher que nunca mudaria sua maneira de ser nem voltaria a rosto ante o que lhe era aborrecido era a decisão mais difícil que jamais tinha tomado , e às vezes compreendia que também a melhor.

Emily se tinha guardado muito de lhe dizer que era perita em ver só as coisas que eram prudentes. Tinha-o feito com seu primeiro marido, George Ashworth, e quando tinha acreditado que ele a tinha traído, não só fisicamente, mas também com o coração, tinha-lhe doído mais profundamente do que toda sua experiência a tinha feito esperar. Não tinha intenção de permitir que Jack acreditasse que podia fazer o mesmo. Conhecia a força que ele possuía, as ânsias de obter um objetivo tão substância absorvente como o que movia Pitt. Era seu medo a não estar à altura o que o fazia fingir que tomava à ligeira. De repente Emily se deu conta, com extraordinária dor, de que faria tudo que estivesse em seu poder para protegê-lo do fracasso.

— Rose esteve na casa da médium a noite que a assassinaram – disse com cautela –. Thomas foi interrogá-la. Está aterrorizada, Jack!

O rosto de Jack se escureceu. Desta vez não pôde ocultar a tensão que palpitava em seu interior. Ergueu-se em sua cadeira, inquieto.

— Thomas! Por que Thomas? Disse que já não está no Bow Street.

Não era a resposta que ela tinha esperado, mas para ouvi-la se deu conta de que era a que tinha temido. O resto – as perguntas, as críticas por comportar-se de forma irrefletida, o egoísmo –, viriam depois.

— Emily? – Sua voz era mais áspera, como se temesse que ela soubesse algo que não lhe dizia.

— Não sei! – exclamou ela, olhando-o diretamente nos olhos –. Charlotte não me disse isso. Suponho que é um assunto político, ou Thomas não estaria ali.

Jack ocultou o rosto entre as mãos, e logo deslizou seus dedos pelo cabelo, piscando devagar.

Emily esperou com um nó na garganta. Rose ocultava algo. Podia prejudicar Aubrey e, por meio dele, a Jack? Olhou-o fixamente, temendo lhe pressionar.

Ele estava mais pálido e parecia ainda mais cansado. Era como se tivesse abandonado a flor da juventude e ela visse de repente o aspecto que teria dentro de dez, inclusive vinte anos.

Jack ficou em pé e, lhe dando as costas, aproximou-se da janela.

— Davenport me aconselhou hoje que me distancie um pouco de Aubrey, por meu próprio bem – disse em voz muito baixa.

Ela notava o silêncio como se fosse algo tangível. Fora, a luz da tarde tingia as árvores de dourado.

— E o que lhe disse? – perguntou ela. Não suportaria nenhuma das duas possíveis respostas. Se se tinha negado, seu nome continuaria relacionado com o de Aubrey Serracold e, é claro, com Rose. Se Aubrey seguia sendo tão radical como parecia sê-lo nesse momento, se cada vez expressava mais opiniões idealistas, mas ingênuas, seu adversário se aproveitaria disso e faria que parecesse um extremista que, no melhor dos casos, resultaria ser um inútil, e no pior, um perigo. E Jack receberia o mesmo tratamento, afundaria-se com ele por associação, por idéias e princípios dos quais nunca lhe acusariam para que não os pudesse refutar, mas pelos quais seria julgado do mesmo modo, e com os mesmos resultados fatais.

E se Rose estava envolvida de algum jeito no assassinato da médium, prejudicaria-lhes também , fosse qual fosse ocorrido realmente. As pessoas só recordariam que ela tinha participado disso.

Entretanto, se Jack tivesse aceitado a sugestão do Davenport e se fizera a um lado para salvar-se, deixando que Aubrey lutasse só, o que pensaria ela? Havia um preço acima do qual a segurança custava muito caro, e a lealdade fazia parte dele. Acaso se cumpria isso no terreno da política? Se a pessoa dava as costas tão facilmente a seus amigos, em quem poderia contar quando os necessitasse? E a com certeza algum dia os necessitaria!

Olhou seus largos ombros, seu casaco de corte perfeito, sua nuca tão familiar para ela que conhecia cada cacho de seu cabelo e como crescia em seu cangote, e se deu conta do pouco segura que estava do que pensava.O que faria para salvar sua cadeira, se surgisse a tentação? Durante um instante de cegueira invejou Charlotte por ter visto Pitt enfrentar muitas decisões que lhe tinham brindado um profundo conhecimento de si mesmo, de sua compaixão e seu critério. Ela já sabia o que havia além do provado, porque fazia parte do caráter de seu marido. Jack era encantador e divertido, gentil com Emily e, pelo que ela sabia, leal. Possuía sem dúvida uma honestidade que ela admirava, e confrontava sua causa com determinação. Mas além disso, quando se enfrentasse com uma perda real, o que ocorreria?

— O que lhe disse? – repetiu ela.

— Disse-lhe que não podia abandonar a alguém sem motivos – respondeu ele, com uma nota áspera na voz –. Acredito que poderia ter algum, mas para quando o averiguar será muito tarde. – Sustentou o olhar de Emily –. Pelo amor de Deus, por que terá ido a essa médium agora? Não é estúpida! Deve saber o que pensarão as pessoas disso. – Grunhiu –. Já estou vendo as tiras cômicas! E quando Aubrey se inteire talvez lhe diga em privado que é uma irresponsável e que está furioso com ela, mas não o fará em público, nem sequer de forma insinuada. Por muito que lhe custe,se encarregará de defendê-la. – voltou-se para ela –. A propósito, por que foi ver a médium? Posso entender que experimente como um passatempo público, centenas de pessoas o fazem... mas uma sessão privada?

— Não sei! Perguntei e perdeu as estribeiras comigo. – Baixou o tom de sua voz –. Seja o que for, não é um passatempo, Jack. Não é nada frívolo. Acredito que está tratando de averiguar algo e isso a aterroriza.

Jack abriu muito os olhos.

— Através de uma médium? Perdeu a cabeça?

— Certamente. – Ele ficou imóvel.

— Diz isso a sério?

— Não sei o que digo – respondeu ela com impaciência –. Só temos uns poucos dias antes que comecem as eleições. Os jornais de cada dia podem ser decisivos. Não há tempo para corrigir enganos e voltar a ganhar às pessoas.

— Sei. – Ele se moveu de novo para Emily e a rodeou com o braço, mas ela percebeu em seu interior uma cólera exasperada que parecia a ponto de estalar, embora não sabia em que direção.

Ao cabo de uns minutos se desculpou e subiu para trocar-se ele também, e menos de meia hora depois voltou e se serviu o jantar. Estavam sentados um frente ao outro a cada lado da mesa, em lugar de ocupar os extremos. A luz se refletia no faqueiro e no cristal, e além das janelas alongadas, o sol poente seguia brilhando com sua luz dourada nas janelas das casas de frente.

O lacaio retirou os pratos e trouxe o seguinte prato.

— Não suportaria que perdesse? – perguntou Jack de repente.

Emily se deteve com o garfo no ar. Engoliu com esforço, como se tivesse a garganta obstruída.

— Acha que é possível? É o que diz Davenport que passará se não abandonar ao Aubrey?

— Não sei – respondeu ele com franqueza –. Não sei se estou disposto a pagar o preço do poder, se supõe perder a um amigo. Incomoda-me que me obriguem a escolher. Incomoda-me a hipocrisia de todo este assunto, as contínuas concessões que tem que se fazer, até que se dá conta de que pagou tanto que aferra-se a seu prêmio porque renunciou a todo o resto para obtê-lo. Quando chega o momento de dizer: "Não o farei, deixarei-o antes de perder tal coisa"? – A olhou como se esperasse uma resposta.

— Quando se vê obrigado a dizer algo que não acredita– apontou ela.

Ele soltou uma brusca gargalhada com uma nota de amargura.

— E vou ser bastante sincero comigo mesmo para saber quando chega esse momento? Vou olhar o que não quero ver?

Ela guardou silêncio.

— E o que me diz do silêncio? – continuou ele erguendo a voz, esquecendo onde estava –. Do rechaço ao compromisso? Uma cegueira judiciosa? Passar de comprimento? Ou talvez Pilatos lavando-as mãos seria a imagem adequada?

— Aubrey Serracold não é Cristo – indicou Emily.

— Trata-se de minha honra – disse ele com aspereza –. No que tenho que me converter para obter o cargo? E depois para mantê-lo? Se não fosse Aubrey, seria outra pessoa ou outra coisa. – Olhou-a desafiante, como se esperasse uma resposta dela.

— E se Rose matou essa mulher? – perguntou ela –. E se Thomas o descobrir?

Jack não respondeu. Parecia tão abatido que por um momento ela desejou não ter falado, mas a pergunta-lhe martelava na cabeça, fazendo ressoar o resto de implicações que dela se derivavam, como o que devia dizer a Thomas e o momento adequado para isso. Deveria esforçar-se mais por averiguá-lo ela mesma? E sobre tudo, como podia proteger ao Jack? O que entranhava mais perigo? A lealdade a uma causa danificada e o risco de perder sua cadeira? Ou a deslealdade, e um cargo talvez comprado a custa de sua integridade? Acaso o dever com alguém obriga a uma pessoa a afundar-se com ele?

De repente, Emily se zangou muitíssimo com Charlotte por estar em uma casa de campo de Dartmoor sem nada que fazer além das tarefas domésticas, atividades simples e físicas que não requeriam tomar decisões, e onde ela não podia lhe pedir sua opinião e compartilhar tudo aquilo com ela.

Mas tinha Aubrey alguma idéia do que estava acontecendo em realidade? Visualizou com toda clareza seu rosto, com sua inocência zombadora, e teve a sensação de que estava muito exposto à dor.

Não era seu dever protegê-lo! Correspondia à Rose. Por que não se ocupava dele em lugar de dedicar-se a perseguir as vozes dos mortos? O que precisava saber que fosse tão importante nesse momento?

— Advirta-o! – disse ela em voz alta.

Jack se sobressaltou.

— Contra Rose? Acaso não sabe?

— Não sei! Não... Como vou saber? Quem sabe realmente o que acontece entre duas pessoas? Referia-me a que lhe advertisse dos riscos da realidade política. Que lhe diga que não pode apoiá-lo se pensa chegar tão longe em seu conceito do socialismo.

As feições do Jack se crisparam.

— Tentei-o. Duvido que me acredite. Só ouve o que quer...

O mordomo interrompeu-o ao entrar discretamente.

— O que acontece, Morton? – perguntou ele, carrancudo.

Morton estava muito erguido, com rosto de circunstâncias.

— O senhor Gladstone quer vê-lo, senhor. Está no clube de cavalheiros do Pall Malí. Tomei-me a liberdade de mandar Albert pela carruagem. Espero ter feito o correto.

Não era realmente uma pergunta. Jack era um fervente admirador do Grande Velho, e a idéia de não obedecer a tal chamada pareceu imediatamente inconcebível.

Emily viu como Jack ficava rígido, esticava os músculos do pescoço e tomava ar em silêncio. Ia advertir-lhe sobre o Aubrey o líder da Partida Liberal... tão logo? Ou, pior ainda, pensava lhe oferecer um cargo mais elevado depois das eleições se Gladstone ganhasse? De repente ela se deu conta de que isso era o que realmente temia. Sentiu-se enjoada. Gladstone talvez oferecesse a Jack a oportunidade de conseguir o que até então só tinha sido para ele um sonho longamente acariciado. Mas a que preço?

Inclusive no caso de que isso não fosse o que queria Gladstone, ainda temia que Jack se visse tentado ou levado a engano. Por que não confiava em que visse a armadilha antes que se fechasse? Era de sua capacidade do que duvidava? Ou de sua força de vontade para rechaçar o prêmio quando o tinha a seu alcance? Atuaria de forma racional e justificaria sua conduta? Acaso não consistia nisso a política, na arte do possível?

Em outra época ela tinha sido uma pragmática a ultranza. Por que as coisas eram diferentes agora? Como tinha deixado de ser a jovem ambiciosa e frágil de antigamente? Inclusive enquanto o perguntava era consciente de que a resposta estava relacionada com as tragédias, a debilidade e as vítimas do espírito que tinha presenciado em alguns casos nos quais Thomas tinha trabalhado, e nos que ela e Charlotte tinham colaborado. Tinha visto como a ambição podia chegar a ficar a serviço do mal, e como a cegueira podia confundir os fins com os meios. Não era tão fácil como lhe tinha parecido em outro tempo. Inclusive os que só queriam fazer o bem podiam ser facilmente enganados.

Jack a beijou e se encaminhou para a porta lhe dando boa noite. Sabia que não podia dizer quando voltaria. Ela ficou de que não lhe esperaria levantada, sabendo que o faria. Que sentido tinha tentar dormir enquanto não soubesse o que queria Gladstone... e como tinha respondido Jack?

Ouviu passos pelo corredor e o som da porta principal ao abrir-se e fechar-se.

O lacaio lhe perguntou se queria que servisse o resto da comida. Teve que repeti-lo antes que ela rechaçasse o oferecimento.

— Peça desculpas ao cozinheiro em meu nome – disse –. Vejo-me incapaz de comer até que não tenha notícias. – Queria ser cortês, mas não desejava justificar-se. Fazia tempo tinha aprendido que uma pequena cortesia podia devolver-se multiplicada por dez.

Decidiu esperar no salão. Levou um exemplar de Nada o Lírio, o último livro do H. Rider Haggard. Estava em cima da mesa onde o tinha deixado fazia quase uma semana. Talvez se conseguisse entreter-se na leitura, o tempo passasse menos lentamente.

Conseguiu-o algum tempo . Durante uma hora se viu imersa nas paixões e sofrimento da vida na África zulú, mas depois seus próprios temores voltaram a sair à superfície, e se levantou e caminhou pela sala, passando mentalmente de um tema a outro, sem resolver nada.

O que desejava averiguar a divertida e valente Rose Serracold com tanta determinação para requerer os serviços de uma espírita, até a risco de destruir-se? Era evidente que tinha medo. Temia por ela, pelo Aubrey ou por alguém mais? Por que não tinha podido esperar até depois das eleições? Tão segura estava de que Aubrey ia ganhar que achava que não poderia averiguá-lo depois? Ou então seria muito tarde?

Era mais fácil pensar nisso que preocupar-se com o Jack e os motivos do Gladstone para querer vê-lo.

Sentou-se e voltou a abrir o livro. Depois de ler a mesma página duas vezes, continuava sem saber o que tinha lido.

Devia ter olhado o relógio da parede uma dúzia de vezes quando por fim ouviu o som da porta da rua ao fechar-se e os conhecidos passos do Jack pelo corredor. Pegou o livro para que visse como o deixava a um lado quando entrasse na sala. Levantou a vista para ele sorridente.

— Quer que Morton lhe traga algo? – perguntou, estendendo a mão para o cordão –. Que tal foi a reunião?

Jack vacilou um momento, e depois sorriu.

— Obrigado por me esperar levantada.

Emily piscou, notando como o rubor ia a suas faces.

O sorriso do Jack se fez mais amplo. Possuía o mesmo encanto, o ligeiro aborrecimento tingido de hilaridade que a tinha atraído ao princípio, apesar de tê-lo considerado frívolo, divertido quando muito.

— Não estive esperando a você! – replicou ela, fazendo um esforço por não lhe devolver o sorriso, embora sabia que seus olhos não podiam mentir –. Estive esperando para ouvir o que o senhor Gladstone tinha que lhe dizer. Interessa-me muito a política.

— Então será melhor que lhe diga isso! – concedeu ele, em um arrebatamento de cortesia, agitando a mão no ar. Girou sobre seus calcanhares e retrocedeu até a porta. De repente seu corpo mudou de postura; não se dobrou exatamente, mas sim desceu um pouco o ombro para diante como se se apoiasse a contra gosto em uma bengala. Olhou-a, piscando um pouco –. O grande velho esteve muito educado comigo – afirmou com tom coloquial –. "O senhor Radley, verdade?", disse, embora soubesse perfeitamente. Tinha-me chamado ele. Quem mais ia atrever se a ir ali? – Voltou a piscar e levou uma mão ao ouvido, como se escutasse com atenção sua resposta, fazendo um esforço para não perder nenhuma sílaba –. "Estarei encantado de lhe ajudar em tudo o que esteja em minha mão, senhor Radley. Seus esforços não passaram inadvertidos."

Não pôde evitar a nota de orgulho que se adivinhou em sua voz, uma elevação do tom que não se ajustava a sua imitação do ancião.

— Continua! – exclamou Emily com impaciência –. O que lhe disse?

— Agradeci-lhe, naturalmente!

— Mas aceitou? Não lhe ocorrerá dizer que não o fez!

Uma sombra apareceu nos olhos do Jack e logo desapareceu.

— É claro que aceitei! Embora não me ajude em nada, seria uma descortesia e uma grande estupidez não deixar que acreditasse que o fez.

— Jack! O que vai fazer ele? Não deixará...

Aproximou-se de Emily, imitando de novo Gladstone. Estirou-se o impecável peitilho da camisa e a estreita gravata de laço e, levando-se ao nariz uns óculos imaginários, ficou olhando-a sem piscar. Sustentou em alto a mão direita com o punho quase fechado, mas como se a artrite lhe impedisse de esticar suas torcidas articulações.

— "Temos que ganhar! – exclamou com ardor –. Nos sessenta anos que levo no poder nunca houve tantas coisas pelas que lutar. – Tossiu, pigarreou e continuou com um tom ainda mais empolado – Continuemos adiante com o excelente trabalho que temos entre mãos, e depositemos nossa confiança não nos latifundiários e aristocratas..." – interrompeu-se –. Se supõe que tem que aplaudir! – disse para Emily com brusquidão. – Como quer que siga assim, se não faz bem seu papel? Está em um comício. Comporte-se como exige a ocasião!

— Achava que estava só ali – se apressou a dizer ela, presa de uma decepção que tratou de dissimular. Por que tinha depositado tantas esperanças? Era surpreendente o muito que aquilo lhe importava, depois de tudo.

— E o estava! – concordou ele, voltando-se para colocar os óculos imaginários e olhando-a –. Gladstone sempre se dirige a uma pessoa como se se achasse em um comício.Um comício de uma só pessoa.

— Jack! – exclamou ela com um risinho.

— "Não nos títulos ou os hectares – acrescentou, jogando os ombros para trás e fazendo uma careta como se a rigidez de suas articulações houvesse tornado a surpreender –. Irei ainda mais longe e direi que tampouco nos homens propriamente ditos, mas em Deus Todo-poderoso, que é o Deus da justiça e decretou que os princípios da justiça, da igualdade e da liberdade sejam os guias e donos de nossas vidas. – Franziu o cenho até juntar as sobrancelhas –. O que significa, é claro, que Sua prioridade absoluta é o auto-governo irlandês, e se não o concedemos imediatamente, seremos vítimas das sete pragas mortais do conservadorismo, ou era do socialismo?"

Emily não pôde evitar rir; a ansiedade a abandonou como um casaco rechaçado ao fazer calor.

— Não disse isso!

Ele sorriu.

— Bom, não exatamente. Mas o fez no passado. O que disse em realidade é que devemos ganhar as eleições porque se não conseguir que aprovem a lei do auto-governo irlandês, o derramamento de sangue e as perdas nos perseguirão ao longo dos tempos. E além disso, queremos uma jornada trabalhista justa em todos os empregos para impedir a toda custa os planos de formar uma aliança com o Tribunal de Roma propostos por lorde Salisbury.

— O Tribunal de Roma? – perguntou ela confundida.

— o Papa! – explicou ele –. O senhor Gladstone é um fiel defensor da Igreja presbiteriana da Escócia, embora não lhe estão devolvendo precisamente o favor.

Ela ficou surpreendida. Sempre tinha visto Gladstone como a personificação da retidão religiosa. Conhecia-o por seu evangelismo e, em seus anos de juventude, por ter tentado reformar às mulheres de rua, e sua mulher tinha dado de comer e ajudado a muitas.

— Achava... – começou a dizer Emily, mas se interrompeu. Os motivos não eram importantes –. Vai ganhar, não é?

— Sim – disse Jack com suavidade, recuperando sua elegância natural –. As pessoas às vezes riem dele, e seus inimigos políticos falam constantemente de sua idade...

— Quantos anos tem?

— Oitenta e três. Mas continua tendo a paixão e a energia para percorrer todo o país fazendo campanha, e é o melhor orador que jamais tivemos. Escutei-o há alguns dias e observei como o aclamavam com entusiasmo. Muita gente tinha ido com seus filhos pequenos nos ombros, para poder lhes dizer algum dia que viram Gladstone. – Quase de maneira inconsciente, levou uma mão ao olho –. E também há quem o odeie. No Chester uma mulher lhe jogou um pedaço de pão de gengibre. Alegro-me de que não fosse minha cozinheira, porque era tão duro que lhe fez mal. E ainda por cima lhe deu em seu melhor olho. Mas isso não o freou. Continua fazendo planos para ir até Escócia e fazer campanha para sua própria cadeira... e ajudar a todos os que possa. – Em sua voz se percebia, um tanto a seu pesar, um tom de admiração –. Mas não vai ceder no assunto da jornada trabalhista! O auto-governo é o primeiro.

— Há alguma possibilidade de consegui-lo?

Jack grunhiu ligeiramente.

— Nenhuma!

— Não discutiu com ele, não é verdade, Jack?

Ele evitou o olhar de Emily.

— Não. Mas nos vai custar caro. São umas eleições onde todos querem ganhar, mas não os partidos. As cargas são muito grandes, e há temas nos que não podemos ter êxito.

Ela ficou momentaneamente perplexa.

— Quer dizer que prefeririam estar na oposição?

Ele deu de ombros.

— O Parlamento não durará muito. Da próxima vez tudo estará em jogo. E esse momento poderia chegar muito em breve, em menos de um ano.

Ela percebeu uma nota estranha em sua voz; estava discreto em algo.

Jack lhe deu as costas e olhou para a lareira, examinando o quadro que havia sobre a cornija como se o atravessasse com o olhar.

— Esta noite me convidaram a me unir ao Círculo Interior.

Emily ficou paralisada. Recordou com um calafrio o que lhe havia dito Vespasia, e as topadas que tinha tido Pitt com essa força invisível, o poder que não respondia ante ninguém porque ninguém sabia quem era. Tinham arrebatado Pitt de seu cargo no Bow Street para enviá-lo quase como um fugitivo aos becos de Whitechapel. O fato de que tivesse saído deles com uma vitória obtida com um desesperado esforço, e que inclusive havia custado sangue, tinha-lhe granjeado a implacável inimizade do grupo.

— Não pode fazê-lo! – exclamou ela, com tom temeroso.

— Sei – respondeu ele, ainda de costas a ela. A luz do abajur brilhava no tecido negro de sua jaqueta, que se esticou com a tensão de seus ombros. Por que não a olhava? Por que não rechaçava aquela proposta com a mesma indignação? Ela não se moveu, e se fez o silêncio na sala.

— Jack? – Soou quase como um sussurro.

— É claro. – Ele se voltou devagar, obrigando-se a sorrir –. Tudo tem um preço muito alto, não é? A possibilidade de fazer algo útil, de conseguir verdadeiras mudanças, a amizade de quem lhe importa e sua retidão. Sem as influências adequadas, pode jogar nas margens da política toda sua vida e não se dar conta até o final, e talvez nem sequer então, de que não mudou nada absolutamente, porque o verdadeiro poder o evitou. Sempre esteve em mãos de outro...

— Alguém anônimo – disse ela em voz muito baixa –. Alguém que não é o que acredita ou quem acredita que é, cujas motivações não conhece ou não compreende, que poderia ser a realidade que se esconde atrás de rostos que acha inocentes, que acredita que são seus amigos. – levantou-se –. Não pode fazer pactos com o diabo!

— Não tenho certeza de que se possam fazer pactos políticos com alguém – disse ele com tristeza, pondo-lhe uma mão no ombro e deslizando-a pelo braço, de modo que ela a sentiu através da seda de seu vestido –. Acredito que em política do que se trata é de discernir o que é possível do que não é, e ser capaz de ver o mais longe possível para saber aonde leva cada caminho.

—Pois o caminho do Círculo Interior te leva a renunciar a seu direito a atuar por conta própria!–respondeu ela.

— Estar no poder não consiste em atuar por conta própria. – Jack a beijou ligeiramente e ela ficou rígida, depois se afastou e o olhou fixamente –. Trata-se de obter algo realmente bom que melhore a situação das pessoas que confiam em você e que o escolheu – continuou –. Isso é a honra: cumprir suas promessas, atuar em nome dos que não têm poder para fazê-lo por si mesmos, não como uma pose, mas sentindo-se cômodo e satisfeito com sua própria consciência.

Emily baixou o olhar, sem saber muito bem o que dizer. Não sabia como expressar com palavras, nem sequer para si mesma, um argumento que deixasse claro o caminho que havia entre dar algo por impossível e fazer concessões. Ninguém conseguia nada sem pagar algo em troca. Que preço se considerava aceitável? Quanto era necessário?

— Emily? – disse ele, com um tom inquieto. Era quase imperceptível, mas sua risada de repente soava falsa, como uma máscara –. Disse que não!

—Sei – respondeu ela estremecendo,sem saber se diria que não a próxima vez,quando a persuasão fosse mais forte,os argumentos mais apaixonados e tendenciosos,e o prêmio maior.E se envergonhou de ter medo.Em sua situação,Pitt não teria. Mas Pitt tinha conhecido,ele mesmo,o poder do Círculo e tinha sofrido feridas.

 

Charlotte e Gracie trabalhavam juntas na cozinha da casa de campo. Gracie limpava o fogão, Charlotte amassava pão, e ainda em cima da mesa de mármore, no frescor da copa, repousava a manteigueira. O sol entrava em torrentes pela porta aberta; a ligeira brisa dos páramos que soprava ao longe trazia o agradável e intenso aroma das matas e ervas aromáticas, e ervas dos pântanos. As crianças brincavam na macieira, e de vez em quando chegavam suas gargalhadas.

— Se esse menino voltar a rasgar as calças ao descer da árvore, não sei o que vou dizer a sua mãe! – disse Gracie exasperada referindo-se a Edward, que estava aproveitrando bastante e tinha feito migalhas de todas as roupas que tinha levado.

Charlotte tinha se dedicado cada noite a fazer o possível para remendar as roupas. Tinha sacrificado umas calças de Daniel para fazer remendos. Até Jemima se rebelou contra as restrições da saia e a tinha recolhido ao subir nos muros de pedra, declarando a gritos que não havia nenhuma lei moral ou natural que proibisse às meninas divertir-se tanto como os meninos. Comiam pão, queijo e fruta - framboesas e morangos silvestres– até quase sofrerem uma indigestão, e salsichas recém feitas do açougue do vilarejo. Teriam sido umas férias perfeitas, se Pitt tivesse podido estar com eles.

Charlotte compreendia que era impossível, embora não soubesse muito bem por que. E apesar de Voisey não poder saber onde estavam, permanecia todo o tempo à escuta para assegurar-se de que ouvia as vozes das crianças, e cada dez minutos saía à porta para ver se os via.

Gracie não dizia nada. Nenhuma só vez fez um comentário sobre sua segurança ou o fato de que estivessem ali sós, mas Charlotte ouvia toda noite como percorriam as janelas e as portas, comprovando depois dela que estavam bem fechadas. Tampouco mencionou o nome de Tellman, embora Charlotte sabia que devia estar pensando nele, depois do que tinham passado juntos durante o caso de Whitechapel. Seu silêncio era em muitos sentidos mais revelador do que as palavras. Acaso seus sentimentos por ele se tornaram mais profundos que a pura amizade?

Terminou de amassar o pão e o deixou na forma, e depois saiu ao jardim para lavar as mãos na bomba de água. Lançou um olhar à macieira e viu Daniel no ramo mais alto, que mal conseguia suportar seu peso, e a Jemima pendurada no que estava justo debaixo. Esperou que o movimento das folhas lhe indicasse onde estava Edward, mas não se produziu.

— Edward! – gritou. Não podiam ter transcorrido mais que uns minutos – . Edward!

Silêncio. A seguir Daniel olhou para ela.

— Edward! – gritou ela, correndo para a árvore.

Daniel se desprendeu pelos ramos e logo se deslizou pelo tronco até chegar ao chão. Jemima começou a descer com muito mais cuidado, pois sua descida se via dificultada pela inexperiência e pelo tecido da saia.

— Dali de cima se vê todo o jardim – disse Daniel, judicioso –. E por ali há um atalho de morangos silvestres – indicou sorrindo.

— Edward está ali? – perguntou Charlotte com uma voz forte e áspera que não pôde controlar. Ao ouvir-se soube que estava comportando-se de maneira ridícula, mas não podia evitá-lo. Edward só tinha ido pegar morangos, como faria qualquer menino. Não tinha motivos para preocupar-se e menos para que entrasse em pânico. Estava permitindo que a imaginação se impor à razão –. Está ali?

— Não sei. – Esta vez Daniel a olhou ansioso –. Quer que volte a subir e olhe?

— Sim! Sim, por favor.

Jemima aterrissou na erva e se ergueu, olhando com irritação um pequeno rasgão em seu vestido. Viu que Charlotte a olhava e deu de ombros.

— As saias às vezes são estúpidas! – disse zangada.

Daniel voltou a subir à árvore agilmente, pendurando-se nos ramos. Sabia exatamente como fazê-lo.

— Não! – gritou do alto –. Deve ter encontrado outro melhor. Não o vejo! – Charlotte sentiu que o coração lhe dava um tombo e lhe palpitavam os ouvidos de forma ensurdecedora. Nublou-lhe a vista. E se Voisey se vingou de Pitt fazendo mal ao filho de Emily? Ou o tinha confundido com um dos seus! O que devia fazer?

— Gracie! – gritou –. Gracie!

— O que? – Gracie abriu de par em par a porta traseira e saiu correndo, com os olhos dilatados pelo medo –. O que se passou?

Charlotte engoliu a saliva, tratando de dominar-se. Não devia deixar-se levar pelo pânico e assustar Gracie. Era estúpido e injusto. Sabia que isso era exatamente o que estava fazendo e mesmo assim não podia evitá-lo.

— Edward se foi... foi pegar morangos – disse sem fôlego –. Mas já não está ali. – Procurou rapidamente uma desculpa razoável para explicar o terror que Gracie devia perceber em sua expressão e em suas palavras –. Dão-me medo esses pântanos. Até os animais selvagens às vezes ficam apanhados neles... Eu...

Gracie não esperou que acabasse.

— Fique aqui com eles! – Fez um gesto em direção a Daniel e Jemima – . Irei buscá-lo. – E sem esperar a resposta de Charlotte, recolheu a saia e pôs-se a correr a uma velocidade surpreendente pela erva até a grade, que ficou virando sobre suas dobradiças.

Daniel se voltou para Charlotte com o rosto pálido.

— Não se meteria no pântano, mamãe. Ensinou-nos isso, era todo verde e brilhante. Ele sabe que é perigoso!

— Não, é claro que não – assentiu ela, olhando fixamente a grade. Devia levar com ela Daniel e Jemima e ir também, ou estavam mais seguros ali? Não podia deixar sozinha Gracie procurando Edward. No que estava pensando! Não deviam separar-se!– . Vamos! – Saiu disparada para a grade ao mesmo tempo em que pegava Daniel pela mão, que quase perdeu o equilíbrio –. Venha, Jemima! Iremos todos procurar Edward. Mas não se separem! Devemos permanecer juntos!

Mal tinham percorrido uns cem metros do caminho, precedidos pela figura miúda e rígida de Gracie a outros cem metros deles, quando apareceu sobre a colina uma carruagem de duas rodas puxada por dois cavalos, e com um profundo alívio que lhe encheu os olhos de lágrimas, Charlotte viu Edward sentado junto ao condutor, balançando-se precariamente e sorrindo satisfeito.

Estava tão furiosa com ele pelo susto que lhe havia dado que teria dado encantada uns açoites no traseiro que o teriam obrigado a jantar em pé, e até a tomar o café da manhã! Mas seria totalmente injusto; não o tinha feito com má intenção. Ao lhe ver tão satisfeito fez um esforço por reprimir suas emoções e chamou Gracie, e abriu passagem pelos sulcos do caminho para falar com o condutor, que se tinha detido ao vê-las.

Gracie retrocedeu e olhou por um instante a Charlotte, piscando com força para dissimular a intensidade de seu próprio alívio. Nesse instante Charlotte se deu conta da quantidade de coisas que se estiveram ocultando e tratando de proteger a uma da outra, fingindo que não estavam ali, e lhe invadiu uma gratidão e um afeto extraordinariamente profundo por aquela jovem com quem tão pouco tinha em comum a primeira vista, e a que tão unida estava em realidade.

A casa de Pitt no Keppel Street estava exatamente como sempre: não havia nem um adorno nem um livro fora de lugar. Até havia flores no vaso na cornija da lareira do salão, e a luz do sol de primeira hora da manhã que entrava em torrentes pelas janelas da cozinha caía sobre o banco e se derramava pelo chão. Archie e Angus dormitavam feitos um novelo na cesta da roupa, ronronando fracamente. E entretanto, aquele vazio fazia com que tudo fosse tão diferente que parecia um quadro ante a realidade. A água rompeu a ferver no fogão, mas seu som só serviu para acentuar o silêncio. Não se ouviam passos pelas escadas, nem o barulho de Gracie na copa ou na despensa. Ninguém perguntava a gritos onde estava um sapato ou uma meia, ou um livro do colégio. Não se ouvia a resposta de Charlotte, nem nenhum aviso da hora que era. O tic-tac do relógio da cozinha parecia ressoar por toda a casa.

Entretanto, a Pitt tranqüilizava que estivessem fora de Londres, seguros no anonimato no Devon. Havia-se dito a si mesmo que não achava que ninguém do Círculo Interior fosse vingar-se dele seguindo as ordens de Voisey e fazendo mal a sua família. Voisey não contrataria a ninguém em quem não confiasse; não podia permitir-se correr riscos, e o giro que tinha dado Pitt aos acontecimentos no Whitechapel tinha convertido Voisey em um traidor, não só para seus aliados e amigos, mas também no referente a sua causa. Esse fato deveria ter dividido o Círculo de acordo com as lealdades políticas e o interesse próprio, mas Pitt não tinha maneira de saber se assim tinha sido.

Não podia tirar da cabeça o olhar de ódio que lhe tinha lançado Voisey ao passar por seu lado no Palácio de Buckingham , pouco depois de receber o título de sir que Vespasia e ele tinham planejado, servindo-se do sacrifício de Mario Corena. Aquele episódio tinha posto fim para sempre às ambições do Voisey de ser o primeiro presidente republicano de Grã-Bretanha.

E havia tornado a ver esse mesmo ódio em seus olhos quando se acharam na Câmara dos Comuns. Uma paixão assim não se extinguia. Se Pitt se sentia relativamente tranqüilo sentado à mesa de sua cozinha, era porque sabia que sua família estava escondida e fora de perigo, a quilômetros de distância. Por muito que sentisse falta do mero fato de saber que estavam em casa, a solidão era um preço pequeno que devia pagar.

Havia alguma relação entre o assassinato de Maude Lamont e a tentativa do Voisey de obter uma cadeira parlamentar? Pelo menos existiam dois possíveis elos: o fato de que Rose Serracold tivesse estado na sessão essa noite, e que Roland Kingsley, que também tinha estado presente, tivesse escrito aos jornais destrambelhando com tanta veemência contra Aubrey Serracold. Pitt não tinha percebido nada nas idéias políticas do general de divisão que fizesse pensar em uma opinião assim.

Mas as eleições traziam à tona opiniões extremas. A ameaça da derrota deixava à vista alguns aspectos desagradáveis do caráter das pessoas, do mesmo modo que alguns se mostravam surpreendentemente presunçosos com a vitória quando as pessoas tinham esperado deles elegância, inclusive generosidade.

Ou o assassino era o homem cujo nome se ocultava atrás de um cartucho, e que talvez tinha tido uma relação muito mais pessoal com Maude Lamont? Estava realmente relacionado com Voisey, ou era uma tentativa por parte de Narraway de utilizar qualquer recurso a seu alcance para impedir que chegasse ao poder?

Pitt lamentava não conhecer melhor a Narraway. Se tivesse sido Cornwallis, teria sabido que cada ataque que realizasse seria inteligente e justo, próprio de um homem curtido nos rigores da vida em alto mar que entrava em batalha olhando à frente e lutava até o final.

Não sabia quais eram as crenças de Narraway nem o que o motivava, e desconhecia a experiência, os triunfos e as perdas que tinham formado seu caráter. Nem sequer sabia se mentiria aos homens que estavam a suas ordens para obrigá-los a fazer o que fosse necessário para alcançar seus próprios fins. Pitt se movia a provas na escuridão. Por sua segurança, a fim de não ver-se manipulado e acabar lutando por algo no que não acreditava, queria averiguar muito mais sobre Narraway.

Mas nesse momento precisava averiguar por que Roland Kingsley tinha escrito contra Serracold com tanta virulência nos jornais. Essa não era a opinião que tinha expressado quando Pitt tinha falado com ele. Maude Lamont tinha-lhe manipulado com a ameaça de revelar algo que tinha averiguado através de suas perguntas aos mortos?

O que levava a um homem bem-sucedido e de espírito prático, como parecia ser seu caso, a ir a uma médium? Muita gente sofria a trágica perda de um filho. A maioria achava fortaleza no amor que se prodigalizaram no passado, e em uma crença baseada em alguma religião, oficial ou não, segundo a qual existe um poder divino que voltaria a reuni-los algum dia. Reatavam sua vida o melhor que podiam, com seu trabalho, o consolo de outros seres queridos, talvez se refugiando na música ou literatura, ou a solidão da natureza, ou inclusive derrubando-se nos menos afortunados. Mas não se interessavam pela pranchas ouija e ectoplasmas.

O que havia detrás da morte de seu filho que tinha feito que Kingsley chegasse tão longe? E se tudo se devia a uma chantagem, era obra da própria Maude Lamont, ou ela só tinha passado a informação a outra pessoa, alguém que continuava com vida e que continuaria utilizando-a?

Possivelmente um membro do Círculo Interior, como o próprio Charles Voisey?

Isso é o que gostaria Narraway! E o mesmo se dava se fosse verdade ou não. Talvez Pitt via a mão de Voisey onde não estava. O próprio medo podia ser parte de sua revanche, talvez e inclusive, melhor que o ataque real.

Pitt se levantou, deixando os pratos na mesa para que a senhora Brady os recolhesse e saiu de sua casa. Chegou ao Tottenham Court Road acalorado e se deteve na calçada para parar uma carruagem de aluguel.

Passou a manhã consultando os arquivos militares oficiais, informando-se sobre a trajetória profissional de Roland Kingsley. Certamente Narraway já os tinha consultado, se não conhecesse já os fatos, mas Pitt queria fazê-lo por si mesmo, se por acaso lhe sugeriam outra interpretação.

Havia poucos comentários pessoais. Folheou-os rapidamente. Roland James Walford Kingsley se se alistou no exército aos dezoito anos, como seu pai e seu avô antes dele. Sua carreira abrangia quarenta anos desde sua primeira instrução, passando por seu primeiro destino no estrangeiro nas guerras sijs nos finais de 1840, o horror da guerra da Crimea em meados da década de 1850, onde aparecia mencionado em vários escritórios, e o derramamento de sangue que o seguiu na rebelião dos cipayos.

Mais tarde se deslocou a África, onde tinha participado da campanha dos ashanti de meios da década de 1870 e nas guerras zulús ao final da mesma, onde tinha obtido uma condecoração por seu extraordinário valor.

Depois tinha retornado a Inglaterra gravemente ferido, e aparentemente também meio doido da alma. Nunca tornou a sair do país, embora tivesse seguido cumprindo com todas suas obrigações, e se tinha retirado em 1890, aos sessenta anos de idade.

Pitt folheou a seguir o expediente de seu filho em busca de sua morte, ocorrida nas citadas guerras zulús, e a achou registrada em 3 de julho de 1879, durante o intento fracassado de cruzar White Mfolozi. Foi a ação em que o capitão lorde William Beresford tinha obtido a cruz da Vitória. Outros dois homens também tinham morrido, e vários tinham ficado feridos em uma emboscada zulú magnificamente executada. Mas Isandhlwana tinha demonstrado aos zulús que eram soldados não só por sua coragem, mas também por suas aptidões militares excepcionais. No Rorke's Drift tinham demonstrado o melhor da disciplina e honra britânicas. Essa ação perviviría na história e avivaria a imaginação de homens e crianças quando ouvissem falar de como oito oficiais e cento e trinta e um homens, trinta e cinco dos quais estavam doentes, tinham suportado o sítio de quase quatro mil zulús. Dezessete britânicos tinham morrido, e tinham concedido onze cruzes da Vitória, a máxima honra com que se premiava o heroísmo no campo de batalha.

Pitt ficou em pé no meio da sala e fechou o livro que continha os expedientes, as diretas palavras que com muita dificuldade conseguiam descrever o ardente e poeirento campo de outro continente, e os homens, bons ou maus, covardes ou valorosos, que tinham ido ali combater ou em busca de aventura, obedecendo a uma voz interior ou uma necessidade externa, e tinham intervido e morto nos conflitos.

Não obstante, enquanto agradecia ao empregado e descia os degraus até a calçada, coberta de luz e sombras, sentiu uma emoção que lhe oprimia o peito: uma mescla de orgulho e vergonha, e um desesperado desejo de preservar tudo o que tinha de bom em um país e um povo que amava. Os homens que enfrentaram ao inimigo no Rorke's Drift tinham defendido algo muito mais simples e puro que o mistério do Círculo Interior e a traição política em altares da ambição.

Deteve uma carruagem de aluguel que o levou ao escritório de Narraway, e passeou com crescente cólera pela sala ao ver-se obrigado a esperar.

Quando Narraway chegou quase uma hora depois, pareceu ligeiramente divertido ao ver que Pitt lhe lançava um olhar iracundo. Fechou a porta.

— A julgar por sua expressão, descobriu algo de interesse. – Na realidade se tratava de uma pergunta –. Pelo amor de Deus, Pitt, sente-se e me informe devidamente. Rose Serracold é culpada de algo?

— De egoísmo – respondeu Pitt, obedecendo a ordem –. De nada mais, que eu saiba, mas continuo investigando.

— Bem! – exclamou Narraway secamente –. Para isso lhe paga Sua Majestade.

— Acredito que Sua Majestade, como Deus, ficaria horrorizada se se inteirasse da quantidade de coisas que se fazem em seu nome! – replicou Pitt. E antes que Narraway pudesse interrompê-lo, continuou – estive fazendo algumas averiguações sobre o general de divisão Kingsley para descobrir por que acudiu a Maude Lamont, e por que as cartas que escreveu aos jornais condenando Serracold estão em desacordo com as opiniões que expressa quando se fala com ele.

— Sério? – Narraway tinha um olhar fixo e muito penetrante –. E o que achou?

— Só seu expediente militar – respondeu Pitt com cautela –. E que perdeu a seu filho em uma escaramuça na África nas mesmas guerras zulú e nas que ele se distinguiu. É uma perda da qual parece não haver-se recuperado.

— Era seu único filho – disse Narraway –. Apenas um menino, em realidade. Sua mulher morreu jovem.

Pitt esquadrinhou seu rosto, tratando de averiguar que sentimentos se ocultavam atrás da exposição de uns fatos tão simples e terríveis. Não viu nada do que pudesse estar seguro. Tão freqüentemente enfrentava Narraway com a morte, com a dor de outras pessoas, que já não o afetava? Ou não podia permitir-se sentir nada, se por acaso suas emoções influíam nos julgamentos que tinham que emitir-se em interesse de todos e não só daqueles que lhe importavam? Um exame mais detido do rosto inteligente e sulcado de rugas do Narraway continuava sem lhe revelar nada. Havia paixão nele, mas procedia do coração ou tão só da mente?

— Como morreu? – perguntou em voz alta.

Narraway arqueou as sobrancelhas, surpreso de que Pitt quisesse sabê-lo.

— Foi um dos três homens que morreram durante o reconhecimento do White Mfolozi. Toparam-se com uma emboscada zulú bem planejada.

— Sim, li nos expedientes. Mas por que Kingsley trata de averiguar o que aconteceu, por meio de uma mulher como Maude Lamont? – perguntou Pitt –. E por que agora? O incidente do Mfolozi ocorreu faz trinta anos!

A cólera, e depois a dor, se traduziam nos olhos do Narraway.

— Se você tivesse perdido a alguém, Pitt, saberia que a dor não desaparece. A pessoa aprende a viver com ela, a ocultá-la a maior parte do tempo; mas nunca sabe o que vai voltar a avivá-la, e de repente, por um tempo, escapa a seu controle. – Falava em voz muito baixa –. Vi isso muitas vezes. Quem sabe o que foi que avivou a lembrança? Um jovem cujo rosto recordou seu filho, outro homem que tinha os netos que ele nunca teria, uma velha melodia... algo. Os mortos não partem, só guardam silêncio por um tempo.

Pitt percebeu algo intensamente pessoal na sala. Aquela observação era fruto da paixão do momento. Mas o olhar sombrio do Narraway e seu gesto torcido impediam a intrusão de qualquer palavra que lhe afetasse.

Pitt fingiu que não tinha reparado nisso.

— Existe alguma conexão entre Kingsley e Charles Voisey? – perguntou.

Narraway abriu muito seus olhos escuros.

— Pelo amor de Deus, Pitt, não acredita que o diria se soubesse?

— Talvez prefira que o averigúe por mim mesmo...

Narraway se virou para diante com um movimento brusco, esticando os músculos de seu corpo.

— Não há tempo para jogos! – exclamou entre dentes –. Não posso me permitir que o que você pense de mim me afete! Se Charles Voisey obtiver sua cadeira no Parlamento, não parará até conseguir o poder suficiente para corromper aos cargos mais altos do país. Continua sendo o chefe do Círculo Interior. – Uma sombra cruzou seu rosto –. Pelo menos acredito que é. Embora também intervém outra força. Não sei quem é... ainda. Esteve assim de perto – levantou o indicador e o polegar separados por um centímetro – de perdê-lo! Nós o obtemos, Pitt! E não vai esquecê-lo. Mas não acabamos com ele. Terá a um novo número dois, e a um número três, e não tenho nem a mais remota idéia de quem são. É uma enfermidade que devora as entranhas do verdadeiro governo do país, seja qual for o partido que esteja no Westminster. Não suportamos a idéia de não ter poder, e quando o temos não sabemos o que fazer com ele. É um jogo de malabarismo. Se ficarmos um passo adiante e trocamos o bastante freqüentemente, conseguimos erradicar a enfermidade mal a detectamos, a ilusão dê que podemos fazer algo e sair impune, de que somos infalíveis, intocáveis, e então ganhamos... até a próxima vez. E voltamos a começar, com novas orações e um novo jogo.

Voltou a reclinar-se na cadeira.

— Averigúe a conexão entre Kingsley e Charles Voisey, tanto se tiver que ver com a morte dessa mulher como se não. E tome cuidado, Pitt! Para Cornwallis você era um detetive, um vigilante, um juiz. Para mim é um jogador. Você também pode ganhar... ou perder. Não o esqueça.

— E você? – perguntou Pitt com um tom ligeiramente áspero.

Narraway esboçou um repentino sorriso que lhe iluminou o rosto, mas seus olhos eram duros como o carvão.

— Tenho intenção de ganhar! – Não acrescentou que estava disposto a morrer antes de perder o controle da situação, como um animal cujas mandíbulas não se abrem nem quando está morto. Não foi preciso.

Pitt se levantou, murmurou umas palavras de agradecimento e saiu, com a cabeça cheia de perguntas sem respostas que não guardavam relação com Kingsley ou Charles Voisey, a não ser com o próprio Narraway.

Retornou a casa rapidamente e ao final do Keppel Street ouviu uma voz que se dirigia a ele.

— Boa tarde, senhor Pitt!

Voltou-se sobressaltado. Era o carteiro de novo, que lhe estendia uma carta com um sorriso.

— Boa tarde – respondeu ele, invadido por uma repentina emoção: a esperança de que a carta fosse de Charlotte.

— Da senhora Pitt, não é? – perguntou o carteiro alegremente –. Está em algum lugar bonito?

Pitt desceu a vista para a carta que tinha na mão. A letra se parecia muito a de Charlotte, e entretanto não era dela, e tinha carimbo de Londres.

— Não – respondeu, incapaz de dissimular sua decepção.

— Só estará fora uns dias mais – disse o carteiro com tom consolador –. Demoram mais quando vêm de longe. Se me disser onde está, direi-lhe quanto demorará para chegar a carta a sua casa.

Pitt tomou ar para dizer "Dartmoor", depois olhou o rosto sorridente e o olhar penetrante do carteiro, e sentiu um frio em seu interior. Obrigou-se a manter a calma e lhe custou tanto esforço que demorou um momento em responder.

O carteiro se mantinha à espera.

— Obrigado. Está no Whitby – respondeu Pitt, soltando o primeiro nome que foi a sua mente.

— Yorkshire? – O homem parecia extraordinariamente satisfeito consigo mesmo –. Então não deveria demorar mais de dois dias quando muito, nesta época do ano talvez um. Terá notícias logo, senhor. Talvez esteja desfrutando muito para sentar-se a escrever. Boa tarde, senhor.

— Boa tarde. – Pitt engoliu a saliva, e viu que lhe tremiam as mãos ao abrir a carta. Era de Emily e tinha data da tarde anterior.

 

Querido Thomas:

Rose Serracold é amiga minha, e depois de ter ido vê-la ontem, acredito que sei certas coisas que poderiam lhe interessar.

Rogo-lhe que venha para ver-me assim que tenha ocasião.

Emily

 

Dobrou-a e voltou a guardá-la no envelope. A essa hora da tarde ela costumava ir de visita ou recebia alguma, mas não disporia de uma oportunidade melhor, e talvez o que ela tivesse para lhe dizer fosse de ajuda. Não podia permitir-se recusar nenhuma possibilidade.

Deu meia volta e pôs-se a andar de novo para o Tottenham Court Road. Meia hora depois estava na sala de Emily e lhe explicava, com frases torpes e certo acanhamento, sua discussão com Rose Serracold. Falou-lhe de sua crescente convicção de que Rose tinha tanto medo de algo que se viu impulsionada a visitar Maude Lamont até o risco de ficar em ridículo, e se não tivesse enganado Aubrey, ao menos lhe tinha ocultado.

A advertência de Emily a tinha enfurecido até o ponto de pôr em perigo sua amizade.

Quando terminou ficou olhando-o, e seus olhos refletiam um tremendo sentimento de culpa.

— Obrigado – sussurrou ele.

— Thomas... – começou ela.

— Não – a interrompeu ele antes que continuasse . – Não sei se ela a matou ou não, mas não posso olhar para outro lado, e não importa quem saia prejudicado. Tudo o que posso prometer é que não causarei mais dano do que o necessário. Espero que já soubesse.

– Sim – assentiu ela, com o corpo rígido e o rosto pálido. – É claro que sei.

Tomou ar como se fosse dizer algo mais, depois mudou de opinião e lhe ofereceu chá, mas ele recusou o convite. Teria gostado de aceitar, porque estava cansado e sedento, e também faminto agora que pensava nisso, mas se respirava muita emoção no ambiente, e tinham compartilhado muita informação para que se sentissem cômodos. Voltou a lhe agradecer e se despediu.

Nessa noite, Pitt telefonou aos escritórios de Jack para averiguar onde ia dar um discurso esse dia, e assim que lhe informaram do lugar se dirigiu a ele, em primeiro lugar para escutar e ver a atitude do público, e depois talvez para avaliar com mais exatidão a que enfrentava Aubrey Serracold.

Reconheceu que ele mesmo estava cada vez mais preocupado por Jack. Iriam ser eleições muito mais brigadas que as anteriores. Muitos liberais podiam perder suas cadeiras.

Quando chegou havia umas duzentas ou trezentas pessoas reunidas, a maioria trabalhadores das fábricas próximas, mas também um bom número de mulheres, vestidas com saias e blusas manchadas do pó e o suor do trabalho duro. Algumas não contavam mais de quatorze ou quinze anos, outras tinham a pele tão alhada e gasta e o corpo tão deformado que era difícil calcular sua idade. Talvez tivessem os sessenta que aparentavam, mas Pitt sabia muito bem que era muito provável que tivessem menos de quarenta, só que estavam exaustas e não se alimentavam como era devido. Muitas haviam trazido para o mundo muitos filhos, e lhes tinham dado o melhor de si mesmas a eles e a seus maridos.

Produziu-se um débil murmúrio de impaciência e se ouviram alguns assobios. Continuava chegando muita gente. Meia dúzia de assistentes se foi protestando.

Pitt trocou o peso do corpo de um pé a outro e tratou de escutar com dissimulação as conversas. O que pensavam essas pessoas, o que queriam? Deixando de lado a um punhado deles, afetava-lhes em algo a quem votavam? Jack tinha sido um bom deputado de seu distrito, mas se davam conta disso? Não contava com uma grande maioria. Em meio de uma voragem de êxitos liberais não teria tido motivos para preocupar-se, mas aquelas eram eleições nas quais nem sequer Gladstone desejava de tudo ganhar. Lutava por paixão e instinto, e porque sempre tinha lutado, mas não atuava de um modo racional.

Armou-se um repentino revôo e Pitt levantou o olhar. Jack tinha chegado e se abria passagem entre as pessoas, estreitando mãos, tanto a homens como a mulheres, e inclusive a algumas crianças. Depois subiu à parte posterior de uma carruagem que tinha sido trazida até ali a modo de soalho improvisado e começou a falar.

Quase imediatamente se viu interrompido. Um homem quase calvo e com um casaco marrom agitou o braço e lhe perguntou quantas horas ao dia trabalhava. Soaram mais gargalhadas e assobios.

— Bom, se não voltar à câmara, ficarei parado! – respondeu Jack– . E a resposta será "nenhuma"!

O tom das risadas mudou; nelas se percebia senso de humor, e não zombaria. Seguiu-lhes uma discussão sobre a semana trabalhista. As vozes se tornaram mais ásperas, e a ira latente adquiriu uma nota desagradável. Alguém arrojou uma pedra, mas falhou por uns metros e o projétil ricocheteou ruidosamente contra a parede do armazém e rodou pelo chão.

Ao esquadrinhar o rosto de Jack, atraente e aparentemente tranqüilo, Pitt percebeu que estava fazendo um esforço por conter sua cólera. Fazia uns anos talvez nem sequer o teria tentado.

— Votem nos conservadores – propôs Jack, abrindo os braços – , se acreditam que vão reduzir a jornada trabalhista.

Ouviram-se maldições, vaias e assobios de brincadeira.

— São um punhado de inúteis! – gritou uma mulher esquálida, cujos lábios deixavam ver sua dentadura trincada– . Quão único fazem é nos chupar o sangue com impostos e nos segurar com leis que ninguém entende.

E assim continuou a reunião durante outra meia hora. Pouco a pouco a paciência de Jack e alguma ou outra brincadeira começaram a convencer a alguns, mas Pitt viu na crescente tensão de seu rosto e no cansaço de seu corpo o esforço que lhe estava custando. Uma hora depois, coberto de pó, exausto e acalorado pela aglomeração da multidão e o ar viciado e abafadiço dos moles, desceu da carruagem e Pitt o alcançou enquanto se dirigia à rua em busca de uma carruagem de aluguel. Igual a Voisey, tinha tido o sentido tático de não ir em sua própria carruagem.

Voltou-se surpreso para o Pitt.

Pitt lhe sorriu.

— Uma atuação conseguida – disse com franqueza. Não acrescentou nenhum comentário fácil a respeito de sua vitória. A tão pouca distância de Jack como se achava, viu o cansaço em seus olhos e a imundície nas finas rugas de sua pele. Anoitecia e as luzes estavam acesas. Deviam ter passado junto ao faroleiro sem dar-se conta.

— Veio me dar apoio moral? – perguntou Jack dúbio.

— Não – reconheceu Pitt – . Necessito mais informação sobre a senhora Serracold.

Jack lhe olhou surpreso.

— Comeu? – perguntou Pitt.

— Ainda não. Acha que Rose pode estar envolvida nesse lamentável assassinato? – Jack se deteve, voltando-se para Pitt – . Faz alguns anos que a conheço, Thomas. É excêntrica, não o nego, e tem algumas opiniões idealistas que são muito pouco práticas, mas isso é muito diferente de matar a alguém. – meteu as mãos nos bolsos, algo insólito nele –. Não sei que demônios lhe entrou para ir ver essa médium precisamente neste momento. – Fez uma careta –. Imagino como será ridicularizada pela imprensa. Mas, com franqueza, Voisey está roubando terreno aos liberais. A princípio achava que Aubrey sairia eleito desde que não fizesse nenhuma estupidez. Agora temo que a possibilidade de que Voisey ganhe não é tão desatinada como parecia há alguns dias. – Continua andando, olhando à frente. Os dois eram vagamente conscientes da presença de policiais à paisana a vinte metros deles.

— Rose Serracold – lhe recordou Pitt –. Sua família?

— Pelo que eu sei, sua mãe era uma beleza da alta sociedade – respondeu Jack –. Seu pai era de boa família. Sabia quem era, mas o esqueci. Acredito que morreu bastante jovem, mas por causa de uma enfermidade. Nada suspeito, se for o que está pensando.

Pitt não descartava nenhuma possibilidade.

— Tinha muito dinheiro?

Cruzaram o beco e viraram à esquerda, enquanto seus passos ressoavam sobre os paralelepípedos.

— Acredito que não – respondeu Jack– . Não, o dinheiro quem tinha era Aubrey.

— Alguma conexão com Voisey? – perguntou Pitt, tratando de manter um tom despreocupado, livre da emoção que sentia ao ouvir mencionar sequer o nome desse homem.

Jack lhe cravou o olhar, e logo o desviou.

— Refere a Rose? Se a tiver, está mentindo, ou ao menos isso se deduz de sua conduta. Quer que Aubrey ganhe. Com certeza se soubesse algo sobre ele o diria.

— E o general Kingsley?

Jack estava desconcertado.

— Refere-se ao tipo que escreveu essa desagradável carta sobre Aubrey no jornal?

— Várias cartas desagradáveis – lhe corrigiu Pitt –. Sim. Está inimizado pessoalmente com Serracold?

— Que Aubrey saiba, não. A menos que também esteja ocultando algo, embora eu juraria que não é o caso. É bastante transparente. Ficou bastante afetado. Não está acostumado aos ataques pessoais.

— É possível que Rose o conheça?

Estavam na metade de um estreito lance de calçada frente ao muro de um armazém. A única luz iluminava só um par de metros a cada lado: os paralelepípedos e uma boca-de-lobo seca.

Jack voltou a deter-se com o cenho franzido e os olhos entreabertos.

— Suponho que é um eufemismo para se referir a uma aventura amorosa.

— É possível, mas refiro a qualquer forma de conhecer-se – disse Pitt, com um tom cada vez mais premente –. Jack, tenho que averiguar quem matou Maude Lamont, e se for possível, demonstrar sem nenhum tipo de dúvida que não foi Rose. As brincadeiras das que será objeto por ter assistido a sessões espíritas não serão nada comparadas com o que os jornais farão com ela, a pedido de Voisey, se sair à luz algum segredo que sugira que ela cometeu o assassinato para encobri-lo.

Continuavam estando sob a luz. Pitt viu que Jack fazia uma careta e pareceu como se seu corpo encolhesse. Desabaram-lhe os ombros e seu rosto perdeu a cor.

— É uma confusão terrível, Thomas – disse cansativamente –. Quanto mais sei, menos entendo, e não posso explicar quase nada a pessoas assim. – Moveu bruscamente uma mão para trás para indicar às pessoas do mole, oculta agora pelo armazém –. Pensava que tudo se apoiava em alguma classe de argumento – continuou, pondo-se a andar de novo. Uns passos mais adiante, a taverna Goat and Compasses resplandecia no meio do pó cada vez mais denso, convidando a entrar –. Mas tudo consiste na emoção. Sentimentos, não ideias. Nem sequer sei se quero que ganhemos... como partido, quero dizer. É claro que quero poder! Sem ele não podemos fazer nada. Já podemos recolher os bens e deixar o campo livre à oposição! – Olhou rapidamente a Pitt –. Fomos o primeiro país do mundo em nos industrializar. Fabricamos produtos por valor de milhões de libras cada ano, e o dinheiro que ganha com eles paga os salários da maior parte de nossa população.

Pitt esperou que continuasse com sua argumentação uma vez que entraram no Goat and Compasses e encontraram uma mesa. Jack se deixou cair em uma cadeira e pediu uma grande jarra de cerveja. Pitt foi ao balcão por sua cidra de rigor e voltou com as duas jarras.

Jack bebeu um bom gole antes de continuar.

— Cada vez mais produtos. E se tivermos que sobreviver, precisamos vender todos esses produtos a alguém!

Pitt intuiu de repente aonde queria ir parar.

— O Império – disse em voz baixa –. Voltamos para auto-governo?

— É algo mais que isso – replicou Jack –. Estamos falando da questão moral de se deveríamos ter um império!

— Um pouco tarde para isso, não lhe parece? – perguntou Pitt secamente.

— Várias centenas de anos. Como disse, não se apóia em idéias. Se nos despojarmos agora do Império, a quem venderemos todos nossos produtos? França, Alemanha e o resto da Europa, para não falar dos Estados Unidos, estão fabricando artigos também. – mordeu o lábio –. Cada vez são mais os produtos e menos os mercados. Devolvê-lo tudo é um ideal maravilhoso, mas se perdermos nossos mercados, um número incalculável de pessoas passará fome. Se a economia do país quebra, não haverá ninguém podendo ajudá-los, apesar de todas as boas intenções do mundo. – Um copo escorregou da mão de um homem e se fez em pedacinhos no chão. O tipo soltou uma maldição. Uma mulher riu muito forte de uma brincadeira.

Jack fez um gesto brusco e irado.

— E trata de fazer campanha dizendo às pessoas: "Votem em mim e lhes liberarei do Império que tão em contra estão. Desgraçadamente, lhes custará seus empregos, suas casas, até sua cidade. As fábricas fecharão, porque não haverá suficientes clientes para comprar tantos bens. As lojas fecharão, assim como as fábricas e as oficinas. Mas terá que ser altruísta, e devemos fazer o que é moralmente correto!".

— Nossos produtos manufaturados não podem competir com os do resto do mundo? – perguntou Pitt.

— O mundo não os necessita. – Jack pegou sua jarra de cerveja –. Estão fabricando os seus. Vê alguém que vote em você por isso? – Arqueou as sobrancelhas, com os olhos muito abertos –. Ou acha que deveríamos lhes dizer que não o faremos e fazê-lo igualmente? Mentir a todos, em nome da retidão moral! Não lhes toca decidir se querem salvar sua alma a esse preço?

Pitt não disse nada.

Jack não esperava uma resposta.

— Tudo depende dos métodos e equilíbrios do poder, não? – continuou em voz baixa, com o olhar perdido na lotada taverna –. Pode agarrar a espada sem te cortar? Alguém deve fazê-lo. Mas sabe utilizar melhor que seu vizinho? Acredita em algo bastante para lutar por isso? E quanto vale se não o fizer? – Voltou a olhar para Pitt –. Imagine que nada lhe importa o bastante para correr riscos! Perderia inclusive o que tem. Imagino o que Emily pensa de tudo isto. – Baixou a vista para a jarra que tinha na mão com um sorriso ligeiramente torcido. Depois levantou de repente o olhar para Pitt –. Mas enfrentaria antes Emily que Charlotte.

Pitt fez uma careta; uma nova série de imagens desfilou por sua mente, fundindo umas com outras. Por um instante sentiu tanto a falta de Charlotte que quase chegou a sentir dor física. Havia-lhe dito que se fosse para afastá-la do perigo, mas não se ofereceu a lutar uma nobre batalha por decisão própria. Ao voltar a vista atrás, deu-se conta de que se ele tivesse podido evitar Voisey, talvez ela o teria feito.

— Está pensando no que acontecerá se sai eleito? – perguntou subitamente.

Jack se ruborizou de repente, de modo que lhe foi impossível mentir.

— Não exatamente. Pediram-me que me uma ao Círculo Interior. É claro que não o vou fazer! – Falava muito depressa, com o olhar cravado nos olhos do Pitt –. Mas me indicaram muito claramente que se eu não estivesse com eles, meus adversários o estariam. Não pode ficar à margem...

Pitt sentiu como se alguém tivesse aberto as portas em plena noite invernal.

— Quem lhe pediu isso? – disse em voz baixa.

Jack sacudiu ligeiramente a cabeça.

— Não posso dizer isso.

Pitt estava a ponto de perguntar se tinha sido Charles Voisey, mas no último momento recordou que Jack não sabia o que tinha ocorrido em Whitechapel, e por sua segurança era melhor que continuasse sem sabê-lo. Realmente era melhor assim? OlhouJack, sentado frente a ele com a jarra de cerveja entre as mãos; seu rosto conservava parte do encanto e a inocência que tinha quando se conheceram. Tinha sido um grande entendido nos costumes e normas da alta sociedade, mas muito inocente no relativo aos becos mais escuros da vida e da violência que aninhava na mente. As fáceis traições nas festas em casas senhoris, o egoísmo do ocioso, eram questões pouco complicadas em comparação ao mal que Pitt tinha visto. Se Voisey se inteirasse de que Jack estava à corrente de que ele era o chefe do Círculo Interior, poderia indicar Jack como outra pessoa a eliminar!

Ou talvez fosse uma coincidência e Pitt estava inventando seus próprios demônios?

Empurrou para trás a cadeira e se levantou, bebendo o último gole de cidra e deixando o copo na mesa.

— Vamos, aos dois fica uma boa caminhada até chegar a casa e a esta hora da noite haverá muito tráfego nas pontes. Não se esqueça de Rose Serracold.

— Acha que matou essa mulher, Thomas? – Jack também ficou em pé, deixando o que ficava de cerveja.

Pitt não respondeu até que conseguiram abrir passagem com cotoveladas por entre a pessoas e saíram à rua, que estava quase totalmente escura.

— Foi ela, o general Kingsley ou a terceira pessoa que manteve em segredo sua identidade – respondeu Pitt.

— Então foi a terceira pessoa! – exclamou Jack imediatamente –. Por que ia querer um homem honrado ocultar sua identidade em uma atividade excêntrica e talvez absurda ou até patética, mas totalmente respeitável e longe de ser um crime? – Elevou a voz com entusiasmo –. Havia algo mais! Provavelmente tinha uma confusão com ela e voltou a entrar quando os outros se foram. Talvez lhe fez chantagem e ele a matou para que se mantivesse calada. Ocorre-lhe uma maneira melhor de encobrir suas visitas que as fazer públicas indo a uma sessão de espiritismo com outras pessoas ? Podia dizer que estava procurando um tataravô ou quem fosse. Estúpido, mas inocente.

— Pelo visto, não procurava a ninguém em particular. Parecia ser cético.

— Melhor ainda! Tratava de desacreditá-la, tentava demonstrar que era uma impostora. Não seria difícil. Embora o mero fato de que não a desmascarasse sugere outro motivo.

— Talvez – concordou Pitt, enquanto voltavam a passar por debaixo da luz.

Uma ligeira brisa soprava do rio, e levantava as folhas soltas de jornais velhos, arrastava-as pelos paralelepípedos e as posava de novo. Nos portais havia mendigos; era muito cedo para encolher-se e tentar passar a noite. Uma mulher da rua já tinha empreendido a caça de algum cliente. Pitt e Jack sentiram o gosto amargo do ar enquanto se dirigiam juntos à ponte.

Pitt dormiu mal. O silêncio que reinava na casa era opressivo; falava de vazio, e não de tranqüilidade. Despertou tarde com dor de cabeça, e estava sentado à mesa da cozinha quando soou a campainha. Levantou-se e foi abrir sem calçar os sapatos.

Na soleira estava Tellman com aspecto de ter frio, apesar de a manhã ser agradável e as nuvens altas estavam se dispersando. Por volta de meio-dia o sol brilharia e faria calor.

— O que acontece? – perguntou Pitt, retrocedendo e lhe convidando tacitamente a passar – . A julgar por sua cara, nada bom.

Tellman entrou carrancudo, com seu rosto chupado tenso e firme. Olhou ao redor como se por um momento se esquecera de que Gracie não estava ali. Parecia desamparado, como se também o tivessem abandonado.

Pitt seguiu-o até a cozinha.

— O que acontece? – repetiu, enquanto Tellman se aproximava do outro extremo da mesa e se sentava, sem prestar atenção à chaleira de água, nem procurar sequer com o olhar um bolo ou alguma bolacha.

— É possível que tenhamos encontrado ao homem que aparece mencionado na agenda com um desenho... Como o chamou...? Cartucho? – disse com serenidade, esforçando-se por despojar suas palavras de toda emoção, deixando que Pitt tirasse suas próprias conclusões.

— Como?

O silêncio do aposento era cansativo. Um cão ladrava ao longe, e Pitt conseguiu ouvir o ruído de um saco de carvão ao ser esvaziado pela rampa do porão da casa do lado. Sentiu um estranho desgosto. Era uma premonição da tragédia que via no rosto do Tellman, como se dentro dele já se instalara o peso da escuridão.

Tellman ergueu o olhar.

— Encaixa com a descrição – disse em voz baixa –. Estatura, idade, constituição, cabelo, até a voz, ou isso diz o informante. Suponho que é certo, ou o superintendente Wetron não nos teria comunicado isso.

— O que o faz pensar que é esse homem e não qualquer dos milhares que também encaixam com a descrição? – perguntou Pitt –. Só sabemos que é de estatura mediana, que tem uns sessenta anos, que não é nem gordo nem fraco, e que tem o cabelo cinza. Deve haver milhares de homens assim, dezenas de milhares que vivem não muito longe do Southampton Row em trem. – inclinou-se sobre a mesa –. Que mais temos, Tellman? Por que esse homem?

Tellman não piscou.

— Porque aparentemente é um professor aposentado que perdeu sua mulher depois de uma longa enfermidade. Todos seus filhos morreram jovens. Não tem a ninguém mais, e foi um duro golpe para ele. Começou a comportar-se de maneira estranha, indo por aí falando com mulheres jovens, tratando de recuperar o passado. Seus filhos mortos, suponho. – Parecia abatido, como se lhe tivessem surpreendido intrometendo-se em algum assunto muito embaraçoso e privado, como um olheiro. Conseguiu que se começasse a falar dele... um pouco.

— Onde vive? – perguntou Pitt insatisfeito– . Por que demônios acredita Wetron que esse desgraçado tem algo que ver com a morte de Maude Lamont? Vive perto do Southampton Row?

— Não – disse Tellman em voz desce– . No Teddington.

Pitt acreditou ter ouvido mal. Teddington era um vilarejo situado a vários quilômetros Tâmisa acima, além do Kew, inclusive de Richmond.

— Como disse?

— Teddington – repetiu Tellman –. Poderia vir de trem com bastante facilidade.

— Por que diabos ia fazê-lo? – perguntou Pitt com incredulidade– . Acaso não abundam as médiuns? Por que Maude Lamont? Era bastante caro para um professor aposentado, não?

— Assim é. – Tellman parecia muito desgraçado –. Ainda o consideram um grande pensador e é muito respeitado. Escreve os livros de texto de maior autoridade sobre certos assuntos. Para a maioria de nós seriam obscuros, mas sua gente tem um muito alto conceito dele.

— Que tivesse os meios para vir à cidade não significa que o fizesse para consultar a uma médium cujas sessões não acabavam quase até meia-noite – argüiu Pitt.

Tellman respirou fundo.

— Poderia se dar o caso se fosse um clérigo de alto status e sua reputação se apoiasse em sua profunda compreensão da fé cristã. – Em seu rosto voltava a perceber uma tensão entre a compaixão e o desdém –. Se queria achar respostas de boca de mulheres que cospem ovos e tecido, e lhe dizem que são fantasmas, acredito que trataria de ir o mais longe possível de sua casa. Pessoalmente, preferiria partir a outro país! Não me surpreende que entrasse e saísse pela porta do jardim, e que nunca dissesse nem à senhorita Lamont como se chamava.

De repente tudo adquiriu uma trágica clareza para o Pitt. Isso explicava o estranho do secretismo e os subterfúgios, e o motivo pelo que aquele homem tinha tanto medo de que se soubesse sua identidade que nem sequer havia dito que espíritos queria invocar. Era algo trágico, e ao mesmo tempo muito enganoso, e com um pouco de imaginação, era fácil de compreender. Era um ancião que se viu despojado de tudo o que tinha amado. O último golpe da morte de sua mulher tinha podido com seu equilíbrio mental. Até os mais fortes tinham uma noite escura da alma em algum momento da longa travessia da vida.

Tellman o observava, esperando sua reação.

— Irei ver – disse Pitt com tristeza– . Como se chama e em que parte do Teddington vive?

— No Udney Road, número quatro, a poucos metros da estação de trem. Linha de Londres e Sudoeste.

— E como se chama?

— Francis Wray – respondeu Tellman esquadrinhando os olhos do Pitt.

Pitt pensou no cartucho com a letra inclinada dentro do círculo, como um f ao reverso. Agora entendia a desdita de Tellman e por que não podia deixá-la de lado, por muito que quisesse.

— Entendo – afirmou.

Tellman abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la. Não havia realmente nada a dizer que os dois não soubessem já.

— O que averiguaram seus homens dos outros clientes? – perguntou Pitt ao cabo de um minuto.

— Não muito – respondeu Tellman, sério –. Gente de toda classe... Virtualmente o único que têm em comum é dinheiro e tempo de sobra para dedicar-se a procurar sinais dos que já morreram. Alguns se encontram sós, outros se sentem confusos e precisam acreditar que seu marido ou pai segue à corrente do que ocorre e sabe que o querem. – Sua voz foi descendo de tom –. Muitos deles só estão ligeiramente interessados e procuram um pouco de emoção, querem divertir-se. Nenhum tem um rancor tão grande para fazer algo a respeito.

— Averiguou algo de outros clientes que entravam pela porta do jardim desde Cosmo Place?

— Não. – Nos olhos do Tellman brilhou um brilho de ressentimento –. Não sabemos como achá-los. Por onde começamos?

— Quanto tirava aproximadamente o Maude Lamont de tudo isto?

Tellman abriu muito os olhos.

— Umas quatro vezes o que eu ganho, inclusive depois da promoção!

Pitt sabia exatamente o que ganhava Tellman. Podia imaginar o dinheiro que obtinha Maude Lamont se trabalhava quatro ou cinco dias na semana.

— Bastante menos do que devia lhe custar manter essa casa e ter um guarda-roupa como o seu.

— Chantagem? – perguntou Tellman sem titubear. Apertou a mandíbula para dissimular sua indignação –. Não bastava enganá-los? Tinha que lhes fazer pagar por manter seus segredos em silêncio. – Não esperava nenhuma resposta, simplesmente precisava achar as palavras para expressar sua amargura –. Algumas pessoas que morrem assassinadas o procuraram de tal modo que alguém chega a perguntar-se como escaparam antes!

— Isso não muda o fato de que devamos averiguar quem a matou – disse Pitt em voz baixa –. Um assassinato não pode ficar impune. Tomara pudesse dizer que a justiça sempre julga com imparcialidade cada ação e aplica castigos ou mostra clemência conforme merece o caso. Mas sei que não é assim. Equivocar-se-á faça o que faça. Entretanto, permitir uma vingança particular ou livrar-se de algo que não seja uma ameaça contra a vida, seria uma porta à anarquia.

— Sei! – exclamou Tellman cortante, furioso com Pitt por lhe indicar uma impotência que compreendia com toda clareza, como se ele não tivesse conseguido achar tão facilmente as palavras para expressá-lo.

— Sabe-se algo mais da criada? – Pitt passou por cima seu tom.

— Nada que nos sirva. Em geral, parece uma mulher sensata, mas acredito que sabe mais do que nos disse sobre essas sessões e como se forjavam. Tinha que sabê-lo. Era a única pessoa amealhada. O resto do pessoal (a cozinheira, a lavadeira e o jardineiro) vinham por dia e partiam antes que começassem as sessões privadas.

— A não ser que a ela também a enganasse – sugeriu Pitt.

— É uma mulher sensata – arguiu Tellman, empregando um tom mais áspero ao repetir-se –. Não se deixaria enganar por truques de pedais, espelhos, azeite de fósforo e todo esse tipo de coisas.

— Quase todos temos tendência a acreditar no que queremos – replicou Pitt –. Sobre tudo se for muito importante para nós. Às vezes a necessidade é tão grande que não nos atrevemos a deixar de acreditar por medo de que se rompam nossos sonhos, pois sem eles morreríamos. A sensatez tem pouco que ver com isso. É questão de sobrevivência.

Tellman olhou-o fixamente. Parecia a ponto de ficar a discutir de novo, mas mudou de opinião e guardou silêncio. Era evidente que não lhe tinha ocorrido que talvez Lena Forrest também tinha tido dúvidas e amores, pessoas falecidas que tinham dotado sua vida de sentido. Ruborizou-se ligeiramente ante seu esquecimento,e Pitt gostou mais dele por isso.

Pitt se levantou devagar.

— Irei ver o senhor Wray – disse –. Teddington! Suponho que Maude Lamont era bastante boa para fazer que alguém fosse desde o Teddington até o Southampton Row.

Tellman não respondeu.

Pitt não perdeu tempo pensando em como abordar ao reverendo Francis Wray quando se reunisse com ele. Ia ser um assunto desagradável dissesse o que dissesse. Era melhor fazê-lo antes que a apreensão lhe fizesse atuar de um modo mais torpe e inclusive afetado.

Dirigiu-se à estação ferroviária e perguntou qual era a melhor rota para ir ao Teddington, e lhe responderam que tinha que trocar de trem, mas lhe advertiram que o próximo em fazer esse trajeto saía em dez minutos. Comprou um bilhete, agradeceu ao homem e foi comprar um jornal ao vendedor da entrada. Continha em sua maior parte artigos sobre as eleições e as habituais tiras cômicas virulentas. Reparou em um anúncio da próxima exposição ambulante de pôneis e burros que ia ter lugar no palácio do vilarejo de Mele End Road dentro de um par de semanas.

Na plataforma havia duas senhoras velhas e uma família que ia passar o dia fora. As crianças estavam tão emocionadas que davam saltos, incapazes de estarem caladas. Pitt se perguntou se Daniel, Jemima e Edward estariam desfrutando no Devon, se gostariam do campo ou se lhes pareceria estranho, e se sentiriam falta de seus amigos de sempre. Sentiriam falta dele? Ou tudo estava sendo muito excitante? Além disso, Charlotte estava com eles.

Ultimamente tinha estado separado deles muito freqüentemente. Primeiro no Whitechapel e agora aquilo! Quase não tinha falado com Daniel ou Jemima nos últimos dois meses; ao menos não com o tempo suficiente para tocar os temas delicados e escutar o que se calavam, assim como os comentários mais evidentes. Quando terminasse o assunto de Voisey, tanto se soubessem quem tinha matado ao Maude Lamont como se não, asseguraria-se de tomar-se de vez em quando alguns dias livres para estar com eles. Narraway lhe devia ao menos isso, e ele não podia viver o resto de sua vida fugindo de Voisey. Seria como lhe dar a vitória sem ter feito sequer o esforço de lutar.

Não se atrevia a pensar muito em Charlotte; a nostalgia lhe produzia um desejo muito grande para enchê-lo com pensamentos ou atos. Até os sonhos lhe deixavam em um estado de desejo muito doloroso.

O trem chegou no meio do rugido do vapor e o ruído metálico das rodas de ferro sobre as vias, arrojando cisco a seu redor, e o aroma e o calor que despedia a máquina, e Pitt reviveu o momento em que se afastara de Charlotte com tanta intensidade como se partisse fazia apenas uns instantes. Teve que obrigar-se a voltar para o presente, abrir a porta do vagão e segurá-la para que passassem duas senhoras velhas antes de subir atrás delas e procurar assento.

Não foi um trajeto longo. Ao fim de quarenta minutos estava em Teddington. Como Tellman havia dito, Udney Road ficava a só um quarteirão da estação, e em uns minutos esteve ante a bonita porta do número quatro. Ficou olhando-a uns minutos ao sol, inalando a fragrância de dúzias de flores e o agradável aroma de limpo da terra quente recém regada. A sua mente acudiram tantas lembranças caseiras que por um momento se sentiu afligido.

A primeira vista, o jardim parecia descuidado, quase abandonado, mas Pitt era consciente dos anos que se investiram em seu cuidado e manutenção. Não havia flores murchas nem ervas daninhas, nem nada desconjurado. Era um esbanjamento de cor onde conviviam o novo e o conhecido, o exótico e o nativo. Sua simples contemplação lhe deu muita informação sobre o homem que o tinha plantado. Tinha sido o próprio Francis Wray ou um criado remunerado? Se o responsável era o segundo, por muito que cobrasse, sua verdadeira recompensa era sua arte.

Pitt abriu a grade e entrou, e depois de fechá-la atrás dele, pôs-se a andar pelo atalho. No batente havia um gato negro deitado ao sol, e outro de cor parda passeando através da sombra salpicada dos tardios dragões carmesim. Pitt rezou para que lhe tivessem enviado ali por engano.

Bateu na porta principal e lhe abriu uma jovem com uniforme de criada que não devia ter mais de quinze anos.

— É esta a casa do senhor Francis Wray? – perguntou Pitt.

— Sim, senhor. – Estava visivelmente preocupada porque era alguém a quem ela não conhecia. Talvez só visitavam o Wray seus colegas clérigos, ou os membros da comunidade local –. Se quer fazer o favor de esperar aqui, irei ver se está em casa. – Retrocedeu sem saber se pedia que entrasse, deixá-lo na soleira ou inclusive fechar a porta se por acaso tinha posto os olhos nos reluzentes medalhões de latão que pendiam. detrás dela no vestíbulo

— Posso esperar no jardim? – perguntou ele, olhando de novo as flores.

O rosto da jovem se encheu de alívio.

— Sim, senhor. É claro que pode. Dá gosto ver como o tem, não é? – de repente piscou como se lhe tivessem enchido os olhos de lágrimas. Pitt supôs que Wray se dedicara a cuidá-lo desde a perda de sua mulher. Talvez fosse um trabalho físico que aliviava parte da emoção que lhe embargava. As flores eram uma companhia agradável que monopolizavam todos os cuidados e só devolviam beleza, sem fazer perguntas nem entremeter-se em nada.

Não levava muito tempo ali, contemplando sob o sol ao gato de cor parda, quando Wray em pessoa saiu à porta e se aproximou pelo curto atalho. Era um homem de estatura média, ao menos dez centímetros mais baixo que Pitt, embora em sua juventude devia ter sido mais alto. Tinha os ombros caídos e caminhava um pouco curvado, mas era em seu rosto onde se viam os sinais indeléveis do sofrimento interior. Tinha olheiras, profundas rugas que corriam do nariz à boca e mais de um corte feito com a lâmina de barbear em sua pele fina como o papel.

— Boa tarde, senhor – disse quedamente, com uma voz extraordinariamente formosa –. Mary Ann me disse que quer ver-me. Sou Francis Wray. No que posso lhe ajudar?

Por um instante, Pitt inclusive se expôs a possibilidade de mentir. O que estava a ponto de fazer não podia resultar mais que doloroso, além de uma intrusão. Logo essa idéia se desvaneceu. Aquele homem podia ser "Cartucho" e lhe proporcionar pelo menos outra versão, não só da noite, mas sim da outra ocasião em que tinha estado em casa de Maude Lamont com Rose Serracold e o general Kingsley. Tendo estado toda a vida no seio da Igreja, devia ser um profundo observador da natureza humana.

— Boa tarde, senhor Wray – respondeu –. Me chamo Thomas Pitt. – Detestava a idéia de abordar o tema da morte do Maude Lamont, mas não tinha outro motivo para lhe roubar tempo e o importunar em sua casa –. Estou tentando por todos os meios oferecer ajuda em uma tragédia recente que ocorreu na cidade, uma morte em circunstâncias muito desagradáveis.

O rosto do Wray se crispou momentaneamente, mas a compaixão que refletia seu olhar não era fingida.

— Então será melhor que entre, senhor Pitt. Se tiver vindo de Londres, talvez não tenha almoçado ainda. Estou seguro de que Mary Ann achará algo para os dois, se se contentar com um pouco de comida simples.

Pitt não teve mais remédio que aceitar. Precisava falar com o Wray. Entrar em sua casa e recusar a hospitalidade que lhe dava teria sido uma grosseria e teria ofendido ao homem pela simples razão de acalmar sua própria consciência, e de maneira bastante artificial. O fato de pôr distância entre ambos não fazia que sua visita fosse menos aborrecida, nem que suas suspeitas fossem menos desagradáveis.

— Obrigado – aceitou, e seguiu ao Wray pelo atalho e através da porta principal, esperando não perturbar mais da conta a jovem Mary Ann.

Lançou uma olhada ao vestíbulo ao cruzá-lo em direção ao gabinete e esperou um momento enquanto Wray falava com Mary Ann. Além dos medalhões de latão, havia uma bengala de latão muito trabalhada e um guarda-chuva, um banco de madeira esculpida que a simples vista parecia de estilo Tudor e vários desenhos muito bonitos de árvores sem folhas.

Mary Ann entrou correndo na cozinha, e Wray voltou e seguiu o olhar do Pitt.

— Gosta? – perguntou delicadamente, a voz empanada pela emoção.

— Sim, muito – respondeu Pitt– . A beleza de um tronco nu é tão grande como a de uma árvore cheia de folhas.

— Sabe apreciá-lo? – Um sorriso iluminou por um instante o rosto de Wray, como um raio de sol em um dia primaveril. Depois se desvaneceu –. Minha falecida esposa os fez. Tinha o dom de ver as coisas como são na realidade.

— E um dom para comunicar essa beleza a outros – respondeu Pitt, e em seguida desejou não havê-lo feito. Estava ali para averiguar se aquele homem tinha ido a uma médium em uma tentativa por recuperar algo dos seres que tinha amado, embora de um modo que contradizia tudo o que lhe tinham ensinado a vida e a fé. Talvez até teria que considerar a possibilidade de que tivesse assassinado a artista impostora que tinha traído sua confiança.

— Obrigado – murmurou Wray, se voltando rapidamente para permitir um momento de intimidade enquanto o precedia em direção a seu gabinete, uma pequena sala com muitos livros, um busto de gesso de Dante sobre um pedestal, e uma aquarela de uma jovem de cabelo castanho sorrindo com acanhamento ao espectador. Havia um jarro de prata cheio de rosas de todas as cores colocado em equilíbrio em cima da escrivaninha, muito perto da borda. Pitt teria gostado de ler os títulos de uma vintena de livros para ver do que tratavam, mas só teve tempo de reparar em três: Histórias, do Flavio Josefo, A imitação de Cristo, de Tiram do Kempis, e um comentário sobre santo Agostinho.

— Sente-se e me diga no que posso lhe ajudar – ofereceu Wray –. Disponho de tempo e não tenho nada que fazer. – Esboçou um sorriso que expressava mais afeto que alegria.

Era impossível continuar evitando completamente o assunto.

— Conhece por acaso o general de divisão Roland Kingsley? – começou Pitt.

Wray ficou pensativo por um momento.

— Parece-me que lembro do nome.

— Um cavalheiro alto, retirado do exército, que serviu em sua maior parte na África – explicou Pitt.

Wray se relaxou.

— Ah, sim, é claro. Nas guerras zulús, não é? Prestou um grande serviço, se não recordo mal. Não, não o conheço, mas ouvi falar dele. Lamento me inteirar de que sofreu outra tragédia. Perdeu a seu único filho, isso sim que sei. – Tinha os olhos brilhantes e por um instante pareceu quase cego, mas controlava sua voz e se mostrava absolutamente disposto a ajudar ao Pitt em todo o possível.

— Não se trata de outra perda – se apressou a dizer Pitt antes de parar a pensar se se estava contradizendo ou não –. Esteve com certa pessoa pouco antes que morresse... uma pessoa a quem tinha ido para achar consolo pela morte de seu filho... ou as circunstâncias que a rodearam. – Engoliu a saliva, observando o rosto de Wray –. Uma médium. – teria se informado do assassinato de Maude Lamont pelos jornais? A notícia tinha sido virtualmente eclipsada pela difusão das eleições.

Wray franziu o sobrecenho e sua expressão se escureceu.

— Refere-se a uma dessas pessoas que afirmam estar em contato com os espíritos dos mortos, e aceitam o dinheiro das pessoas vulneráveis em troca de fazer vozes e inventar sinais?

Não poderia ter expressado com maior clareza o desdém que lhe inspiravam. Nascia de suas crenças religiosas ou se devia a sua própria traição? Em seu olhar se apreciava uma cólera genuína; o homem cortês e amável de fazia uns instantes tinha desaparecido momentaneamente. Então, talvez ao perceber a atenção de Pitt, continuou:

— Isso é muito perigoso, senhor Pitt. Não desejo mal a ninguém, mas é melhor que cessem tais atividades, embora não quereria que se fizesse por meios violentos.

Pitt estava desconcertado.

— Perigoso, senhor Wray? Talvez não me expressei bem. Mataram-na por meios inteiramente humanos. Não houve nada sobrenatural nisso. Só queria que me dissesse se talvez conhece as outras pessoas que estiveram pressentes, não que me explicasse seus conhecimentos sobre o divino.

Wray suspirou.

— É você um homem de seu tempo, senhor Pitt. A ciência é o ídolo que adoramos hoje em dia, e o senhor Darwin, e não Deus, quem engendrou nossa raça. Mas os poderes do bem e do mal continuam aí, por muito que os cubramos com a máscara do momento. Você dá por assentado que essa médium não tinha poderes para entrar em contato com o mais à frente, e provavelmente tem razão, mas isso não significa que não existam.

Pitt sentiu frio no meio do calor da sala, e compreendeu que aquela sensação procedia de seu interior. Precipitou-se ao sentir simpatia pelo Wray. Era um ancião encantador, amável e generoso que se sentia só e o tinha convidado a almoçar. Gostava de seu jardim e seus gatos. Mas também acreditava na possibilidade de invocar os espíritos dos mortos, e estava furioso com os que tentavam fazê-lo. Pitt devia averiguar ao menos por que.

— Foi o pecado de Saúl – continuou Wray com entusiasmo, como se Pitt tivesse expressado em alto seus pensamentos.

Pitt tinha ficado completamente sem entender. Nenhuma das coisas que tinha aprendido no colégio foi a sua memória.

— O rei Saúl da Bíblia – disse Wray com repentina delicadeza, quase se desculpando –. Buscou o espírito do profeta Samuel através da bruxa de Endor.

— Ah. – A intensidade que se percebia no rosto de Wray, a fixidez de seu olhar, conseguiram aplacar Pitt. Estava experimentando uma emoção quase incontrolável. Viu-se obrigado a perguntar – E o encontrou?

— OH, sim, é claro – respondeu Wray –. Mas foi o germe de seu caráter desafiante, o orgulho contra Deus, que no fundo não era senão cólera, inveja e um terrível pecado. – Estava muito sério, e na têmpora lhe palpitava um pequeno músculo de maneira incontrolável –. Nunca subestime o perigo que entranha querer saber o que não deveria saber-se, senhor Pitt. Suporta um mal monstruoso. Evite-o como se fora um poço poluído pela peste!

— Não tenho nenhum desejo de investigar tais coisas – disse Pitt com franqueza, e logo, embargado pela gratidão e culpa, deu-se conta de quão fácil era dizê-lo quando a pessoa não tinha uma profunda pena, uma solidão como a que envolvia aquele homem, uma verdadeira tentação de fazê-lo –. Quero acreditar que, se perdesse a um ser muito querido, procuraria consolo na fé da ressurreição segundo as promessas de Deus – acrescentou, envergonhado ao descobrir que lhe tremia a voz. Um repentino frio se apoderou dele quando penetrou em sua mente a imagem de Charlotte e das crianças, sem ele, em um lugar que ele nunca tinha visto sequer. Estavam fora de perigo? Ainda não tinha tido notícias deles! Estava protegendo-os da melhor maneira, e o estava fazendo o suficientemente bem? E se não fosse assim? E se Voisey se aproveitasse disso para vingar-se? Podia ser uma vingança áspera, óbvia e muito rápida, que podia ser perigosa para ele... mas também esquisitamente dolorosa para Pitt... e definitiva. Se eles morressem, que sentido teria a vida para ele?

Olhou ao ancião abatido que tinha diante, tão embargado por sua perda que parecia impregnar o ar da sala, fazendo que sentisse em sua própria carne a dor. Se ele estivesse em sua situação, comportaria-se de outro modo? Não era absurdo e incrivelmente arrogante, o indício de uma estupidez complacente, estar tão seguro de que ele alguma vez recorreria a médiuns, cartas de tarô, folhas de chá ou algo que enchesse o vazio no qual habitava só, em meio de um universo cheio de desconhecidos a cujo coração não podia chegar?

— Ao menos isso espero – voltou a dizer –. Mas, é claro, não sei.

Os olhos de Wray se encheram de lágrimas que lhe correram pelas faces sem que chegasse a piscar.

— Tem família, senhor Pitt?

— Sim, tenho mulher e dois filhos. – Agravaria sua dor ao dizer-lhe.

Pitt fez um esforço por recordar o que o tinha levado ali. Devia convencer-se de uma vez por todas de que Wray não era o homem que aparecia representado com o cartucho na agenda do Maude Lamont.

— Tentá-lo-ei – prometeu –. Por desgraça, devo fazer o possível por averiguar como morreu Maude Lamont e impedir que acusem à pessoa equivocada de havê-la matado.

Wray lhe olhou sem compreender.

— Se era algo ilegal, deve intervir a polícia, por penoso que seja. Compreendo perfeitamente que não queira envolvê-la, mas temo que moralmente não tem outra escolha.

Pitt sentiu uma pontada de vergonha por confundir deliberadamente a aquele homem.

— Já está envolvida, senhor Wray. Mas uma das pessoas que esteve presente a última noite é a esposa de um homem que vai apresentar-se candidato ao Parlamento, e a terceira pessoa é alguém que deseja manter em segredo sua identidade, e até a data o conseguiu.

— E quer saber quem é? – disse Wray em um momento de surpreendente clarividência –. Embora soubesse, senhor Pitt, se me houvessem isso dito confidencialmente não poderia revelar a você esse segredo. Quão único poderia fazer seria aconselhar ao homem em questão com todas minhas forças que fosse franco com você. Mas antes lhe teria aconselhado, com todos os argumentos a meu alcance, que abandonasse definitivamente uma prática tão daninha e perigosa como é jogar com o que sabem os mortos. A única forma de averiguar algo de forma virtuosa é através da oração. – Sacudiu ligeiramente a cabeça –. O que lhe fez pensar que eu podia ajudá-lo? Não o compreendo.

Pitt improvisou em um arrebatamento de engenho.

— Tem fama como entendido no tema, e por sua enérgica oposição a isso. Pensei que talvez me podia oferecer informação útil sobre os médiuns, em particular sobre a senhorita Lamont. É muito famosa.

Wray suspirou.

— Temo que os poucos conhecimentos que tenho são gerais, e não particulares. E ultimamente minha memória não é tão boa como costumava a ser. Esqueço coisas, e lamento dizer que tenho tendência a me repetir. Conto as piadas que me fazem graça muitas vezes. As pessoas são muito amáveis, embora eu quase preferiria que não o fossem. Agora nunca sei se já mencionei antes o que estou dizendo ou não.

Pitt sorriu.

— Não me disse nada duas vezes!

— Não lhe contei nenhuma piada – disse Wray com tristeza –. Nem almoçamos ainda, e certamente lhe mostrarei cada flor ao menos duas vezes.

— Uma flor merece contemplar-se ao menos duas vezes – respondeu Pitt.

Pouco depois chegou Mary Ann para lhes dizer com certo nervosismo que a comida estava preparada, e se dirigiram à pequena sala de jantar, onde Pitt comprovou que a jovem teve o trabalho de procurar que fosse ainda mais atraente. Na mesa havia um vaso de porcelana com flores, uma toalha cuidadosamente engomada com uma baixela de porcelana que tinha a borda azul e um faqueiro bem reluzente. Mary Ann serviu uma espessa sopa de verduras com pão rangente, manteiga, um tenro queijo branco que se esmiuçava e um escabeche caseiro que Pitt supôs que era de ruibarbo. Tudo aquilo fez que se desse conta do muito que sentia falta dos toques domésticos em sua própria casa agora que Charlotte e Gracie estavam fora.

A sobremesa era um bolo de ameixas com creme muito espesso. Absteve-se de fazer mais perguntas com um grande esforço.

Wray parecia contente de poder comer em silêncio. Talvez lhe bastava ter alguém sentado diante.

Depois se levantaram e saíram a admirar o jardim. Só então Pitt viu no aparador um folheto que anunciava os poderes do Maude Lamont, no qual se oferecia a agradar de volta aos desconsolados os espíritos dos seres queridos que haviam falecido e assim lhes dar a oportunidade de lhes dizer todas as coisas importantes que a morte lhes tinha impedido de mencionar.

Wray se tinha adiantado e tinha saído ao sol, deslumbrado por seu reflexo nas flores brilhantes e a limpa cor branca da perto pintado. Quase tropeçando com a soleira da porta vidraça, Pitt saiu atrás dele.

 

O bispo Underhill não passava muito tempo falando pessoalmente com seus paroquianos. Quando o fazia era fundamentalmente em ocasiões formais: bodas, confirmações, algum ou outro batismo. Entretanto, uma das obrigações de seu cargo consistia em estar disponível para aconselhar aos clérigos de sua diocese, e quando tinham alguma carga espiritual, era razoável que fossem a ele em busca de ajuda e consolo.

Isadora estava acostumada a ver homens angustiados de todas as idades, desde ajudantes afligidos por suas responsabilidades ou suas ambições de adquirir mais, até clérigos de alta categoria que às vezes achavam que não iriam dar provisão na hora de atender a seus paroquianos e ocupar-se das tarefas administrativas.

Aos que mais temia ela era aos desconsolados, os que tinham perdido uma esposa ou um filho e iam em busca de um maior consolo e fortaleza em sua fé que os que podiam lhes oferecer seus rituais diários. Podiam apoiar a outras pessoas, mas às vezes lhes afligia sua própria aflição.

Aquele dia era o pastor Arthur Patterson, que tinha perdido a sua filha no parto. Era um homem entrado em anos e de corpo enxuto, e permanecia sentado no gabinete do bispo com a cabeça inclinada e o rosto meio esconde entre as mãos.

Isadora apareceu com a bandeja de chá e a deixou na mesa pequena. Não se dirigiu a nenhum dos dois homens; limitou-se a encher as duas xícaras em silêncio. Conhecia Patterson o suficientemente bem para não ter a necessidade de lhe perguntar se queria leite ou açúcar.

— Achei que o entenderia – disse Patterson desesperado –. Fui pastor da Igreja durante quase quarenta anos! Sabe Deus a quantas pessoas ofereci consolo quando perderam alguém, e agora todas essas palavras que disse com tanta dedicação não significam nada para mim. – Olhou para o bispo –. Por quê? Por que não acredito nelas quando me digo isso mesmo?

Isadora esperava que o bispo respondesse que todo se devia à comoção, a indignação ante a dor, e que devia dar-se tempo para curar-se. Até a morte que é esperada constitui algo imenso e estranho que requer coragem para lhe fazer frente, tanto no caso de um homem dedicado ao serviço de Deus como no de qualquer outro. A fé não é uma certeza, e o fato de acreditar não faz com que a dor desapareça.

O bispo parecia procurar as palavras adequadas. Tomou ar e o expulsou em um suspiro.

— Querido amigo, todos experimentaremos grandes provas de fé ao longo de nossas vidas. Estou certo de que neste momento saberá estar à altura com sua habitual fortaleza. Você é um homem bom, não há a menor duvida.

Patterson levantou a vista para ele; o sofrimento era tão patente em seu rosto que parecia como se não tivesse reparado na presença de Isadora.

— Se sou um homem bom, por que me aconteceu isto ? – suplicou –. E por que não sinto nada mais que confusão e dor? Por que não vejo a mão de Deus nem um sussurro do divino por nenhuma parte?

— O divino é um mistério infinito – respondeu o bispo, olhando fixamente além da cabeça do Patterson, em direção à parede do fundo, com uma expressão de intensa preocupação. Parecia como se não visse mais consolo que o que via o próprio Patterson –. Está fora de nosso alcance. Talvez não fomos feitos para compreendê-lo.

A angústia deformou as feições do Patterson, e Isadora, que procurava não mover-se por medo a fazer-se notar, acreditou que o homem estava a ponto de gritar de frustração, ante a impossibilidade de achar respostas a seu alcance.

— Não tem nenhum sentido! – gritou, com voz estrangulada – Estava viva, totalmente viva, com a menina em suas entranhas. Resplandecia de alegria à medida que se aproximava a hora... e de repente não houve mais que sofrimento e morte. Como pôde ser? Como? Não tem sentido! É cruel e desproporcional, e estúpido, como se o universo não tivesse sentido. – Rompeu a chorar –. Por que passei a vida dizendo às pessoas que há um Deus justo que nos ama, que tudo faz parte de um plano perfeito que algum dia veremos realizado? E quando eu mesmo preciso me convencer disso... não encontro mais que escuridão... e silêncio. Por quê? – Sua voz adquiriu um tom mais premente e irado–. Por quê? Toda minha vida foi uma farsa? Diga-me.

O bispo hesitou, desconfortável, trocando o peso do corpo ao outro pé.

— Diga-me isso gritou Patterson.

— Querido amigo... – balbuciou o bispo –. Querido... amigo, estamos vivendo tempos escuros... Todos passamos por eles, tempos em que o mundo parece monstruoso. O medo cobre tudo como a noite, e o amanhecer é... inimaginável...

Isadora não pôde suportar mais.

— Senhor Patterson, sua sensação de perda é terrível, certamente – disse com tom premente –. Se de verdade ama alguém, sua morte tem que lhe doer, mas mais ainda se for alguém jovem. – Deu um passo à frente, sem atender à expressão surpreendida do bispo –. Mas a perda faz parte de nossa experiência humana, tal como Deus quis que seja. O fato de que nos doa até nos situar ao limite de nossa capacidade de resistência é a chave. Ao final todo se reduz a uma pergunta: confia você em Deus ou não? Se for assim, deve suportar a dor até que o tenha superado. Se não, será melhor que se examine e comece a perguntar-se no que acredita exatamente. – Baixou ligeiramente a voz –. Acredito que descobrirá que suas experiências pessoais lhe dizem que sua fé está aí... não todo o tempo, mas sim a maior parte dele. E com isso basta.

Patterson a olhou assombrado. A angústia diminuiu à medida que começava a considerar o que ela havia dito.

O bispo se voltou para ela; a incredulidade reduziu a tensão de seu rosto até que teve exatamente a mesma expressão que quando dormia, um misterioso vazio esperando a ser enchido com pensamentos.

— A verdade, Isadora... – começou a dizer, e logo voltou a interromper-se. Saltava à vista que não sabia como lutar com ela ou com Patterson, mas por cima de ambos havia uma profunda emoção que superava inclusive sua cólera ou seu embaraço. Sua habitual complacência se desvaneceu; Isadora estava tão acostumada a sutil confiança do bispo em sua capacidade para responder a todas as questões que sua ausência era como uma ferida em carne viva.

Voltou-se para o Patterson.

— A pessoa não morre porque seja boa ou má – disse ela com firmeza –. E certamente não o faz para castigar a outra pessoa. Essa idéia é monstruosa e destruiria os conceitos do bem e do mal. Há montões de razões, mas muitas delas se limitam simplesmente à má sorte. O único ao que podemos nos aferrar em qualquer momento, é à certeza de que Deus é dono de um destino mais amplo, e não precisamos saber qual é. De fato, não o entenderíamos se nos dissessem isso. Quão único precisamos é confiar Nele.

Patterson piscou.

— Faz com que pareça muito simples, senhora Underhill.

— É possível. – Ela sorriu com repentina tristeza ante a força dos ensinos que tinha adquirido a partir de suas próprias orações desatendidas, e a solidão que às vezes era quase insuportável –. Mas não é o mesmo que dizer que é fácil. Isso é o que deveria fazer-se. Não digo que eu possa fazer o melhor que você ou que qualquer outra pessoa.

— É você muito sábia, senhora Underhill. – Patterson a olhou com gravidade, tratando de decifrar em seu rosto a experiência que lhe tinha ensinado tais coisas.

Isadora se voltou. A experiência em questão era muito delicada para compartilhá-la com alguém, e se ele intuísse algo, trairia por inteiro Reginald. Nenhuma mulher que era feliz em seu matrimônio sentia aquela desolação dentro dela.

— Beba o chá enquanto ainda está quente – aconselhou ela –. Não resolve os problemas, mas nos dá forças para tentá-lo. – E sem esperar uma resposta, saiu da sala e fechou a porta em silêncio atrás dela.

Uma vez no corredor, apoderou-se dela a sensação de haver-se intrometido. Em toda sua vida de casada nunca tinha usurpado daquele modo o papel de seu marido. O seu consistia em apoiar, oferecer sustento e ser discreta e leal. Acabava de violar quase todas as regras existentes. Tinha-lhe feito parecer totalmente inepto frente a um de seus subordinados.

Não! Isso era injusto. Comportou-se como um inepto! Ela não tinha sido o causador! Ele tinha vacilado quando deveria haver-se mostrado firme, cheio de serena confiança, uma âncora para quando Patterson se visse sacudido pelas tempestades, ao menos temporariamente, que escapavam a seu controle.

Por quê? Que diabos acontecia com Reginald? Por que não tinha podido expressar com veemência e convicção que Deus amava a todos (homens, mulheres e crianças), e que quando algo nos era incompreensível devíamos recorrer à confiança? Esse é o significado da fé. A maioria de nós só nos sentimos capazes de nos aferrar à fé quando temos ou acreditam ter tudo o que queremos. Mas a única forma de medir algo é pondo-o a prova.

Voltou para a cozinha para falar com a cozinheira do jantar do dia seguinte. Essa noite ela e o bispo iriam assistir a outra dessas recepções políticas intermináveis. Entretanto, só faltavam uns dias para as eleições e então, ao menos, esse tipo de coisas terminaria.

O que tinha ante si? Só variações do mesmo, prolongando-se em uma solidão infinita.

Achava-se de novo na sala de estar quando ouviu que Patterson partia e soube que em uns minutos o bispo entraria para enfrentá-la por sua intrusão. Esperou, perguntando-se o que ia dizer. Seria mais simples à longo prazo limitar-se a desculpar-se? Nada justificava o que tinha feito. Tinha-lhe desacreditado oferecendo o consolo que deveria ter dado ele.

Um quarto de hora depois continuava esperando, quando ele entrou por fim na sala. Estava pálido, e ela esperava que o estalo de cólera se produzisse em qualquer momento. Mas continuava negando-se a entoar uma desculpa.

— Parece esgotado – comentou, com menos compaixão do que sabia que deviam sentir, o qual fez que se envergonhasse sinceramente. Deveria lhe haver importado. De fato, ele desabou na cadeira como se realmente estivesse bastante doente– . O que lhe passa no ombro? – Tratou de compensar sua indiferença ao ver que fazia uma careta e esfregava o braço enquanto trocava ligeiramente de postura.

— Um pouco de reumatismo – respondeu –. É muito doloroso. – Sorriu, com um gesto forçado que desapareceu quase imediatamente –. Deve falar com a cozinheira. Ultimamente a qualidade da comida está baixando. Nunca sofri maior indigestão em toda minha vida.

— Talvez um pouco de leite e araruta? – sugeriu Isadora.

— Não posso viver de leite e araruta o resto de meus dias! – replicou ele –. Necessito que minha casa funcione como Deus manda e que se sirva comida comestível! Se prestasse atenção a suas obrigações em lugar de se misturar às minhas, não teríamos esse problema. É responsável por minha saúde e deveria preocupar-se por ela em lugar de tentar consolar a alguém como o pobre Patterson, que se desmorona ante as vicissitudes da vida.

— A morte – lhe corrigiu ela.

— O que? – O bispo levantou uma mão e a olhou furioso. Estava realmente pálido e tinha o lábio superior coberto de suor.

— É a morte o que lhe é impossível aceitar – indicou Isadora –. Era sua filha. Deve ser terrível perder a um filho, embora Deus sabe que acontece a muitos pessoas. – Ocultou o doloroso vazio que sentia em seu interior ante a impossibilidade de que aquilo chegasse a ocorrer a ela. Tinha lutado com ele fazia anos; só de vez em quando voltava inesperadamente e a surpreendia.

— Não era uma menina – replicou ele–. Tinha vinte e três anos.

— Pelo amor de Deus, Reginald, que demônios tem que ver a idade com isso ? – Cada vez lhe custava mais esforço não perder o controle. – De qualquer modo, não importa qual seja a causa de sua dor. Nossa tarefa consiste em tratar de lhe dar consolo, ou ao menos lhe assegurar que conta com nosso apoio e que com o tempo a fé eliminará sua dor. – Respirou fundo –. Inclusive se esse momento não chegar até a outra vida. Certamente essa é uma das principais funções da Igreja: dar forças frente às perdas e angústias que o mundo não pode aliviar.

Ele se levantou de repente, tossindo e levando uma mão ao peito.

— A tarefa da Igreja, Isadora, consiste em mostrar o caminho moral de modo que os que temos fé possamos alcançar a... – interrompeu-se.

— Reginald, está doente? – perguntou ela, que começava a acreditar que efetivamente o estava.

— Não, é claro que não estou doente! – exclamou ele furioso –. Só estou cansado e tenho indigestão... e um pouco de reumatismo. Agradeceria que deixasse as janelas abertas ou fechadas, e não entreabertas, que é o que causa mais correntes de ar! – Sua voz era áspera, e Isadora se surpreendeu ao perceber nela o que lhe pareceu uma nota de medo. Devia-se ao evidente fracasso em seu intento por ajudar a Patterson? Acaso temia que lhe descobrissem alguma debilidade, que vissem que não estava à altura?

Tratou de recordar alguma outra ocasião em que o tivesse ouvido reconfortar aos desconsolados ou aos moribundos. Certamente se tinha mostrado mais firme... As palavras tinham ido a ele com fluidez: entrevistas das Escrituras, sermões anteriores, palavras dos grandes homens da Igreja. Tinha uma voz bonita; era a única qualidade física que nunca tinha deixado de lhe agradar, inclusive nesse momento.

— Tem certeza de que se sente... ? – Não tinha sabor de ciência certa o que queria dizer. Ia pressionar lhe para escutar uma resposta que não queria ouvir?

— O que? – perguntou ele, voltando-se na soleira –. Doente? Por que o pergunta? Já lhe disse, é indigestão e um pouco de esgotamento. Por quê? Acha que é outra coisa, algo mais grave?

— Não, é claro que não – se apressou a responder ela –. Tem toda a razão. Perdoe-me por ter armado tanto alvoroço. Ocuparei-me de que a cozinheira tenha mais cuidado com as especiarias e as massas. E com o peru... O peru é muito indigesto.

— Faz anos que não comemos peru! – exclamou ele indignado, e saiu pela porta.

— Comemo-lo a semana passada – disse ela para si –. Na casa dos Randolph. E não lhe assentou bem!

Isadora se arrumou com grande esmero para a recepção.

— É uma ocasião especial, senhora? – perguntou sua criada com interesse e um pouco de curiosidade, enquanto lhe recolhia o cabelo no alto para que luzisse a mecha branca que tinha justo à direita do pico entre as entradas. Era assombroso e ela não tratava de escondê-la.

— Não espero que seja especial – respondeu Isadora, zombando um pouco de si mesma –. Mas eu adoraria que acontecesse algo excepcional. Promete ser uma noite indescritivelmente aborrecida.

Martha não sabia muito bem o que dizer, mas captou perfeitamente a idéia. Isadora não era a primeira senhora para a que tinha trabalhado que ocultava uma profunda inquietação atrás de uma fachada de boa conduta.

— Sim, senhora – disse obediente, e continuou penteando a de um modo um pouco mais extremado e realmente favorecedor.

O bispo não fez nenhum comentário sobre o aspecto de sua mulher: levava um exagerado penteado e um vestido verde oceano com sua blusa apertada de forma atrevida, que se cruzava a muito baixa altura sobre seu peito e estava coberto de deliciosa renda branca, o mesmo que se entrevia onde a saia tinha cortes e a seda caía reta até o chão por diante, e em amplas dobras pelas costas. Observou-a e voltou a afastar o olhar enquanto a ajudava a subir à carruagem e ordenava ao cocheiro que se pusesse em caminho.

Ela permaneceu sentada a seu lado a tênue luz e se perguntou como seria vestir-se para um homem que a olhasse com deleite, que se recreasse com a cor e desenho de seu vestido, que apreciasse como a favorecia e, por cima de tudo, que a achasse muito formosa. Havia algo encantador em quase todas as mulheres, talvez não fosse mais que um instante de graciosidade ou uma inflexão da voz, mas encontrar alguém que o apreciasse devia ser como desdobrar as asas e sentir o sol no rosto.

O fato de que ele nunca falasse com ela de modo íntimo ou com prazer a consumia por dentro de tal modo que devia fazer um grande esforço para manter a cabeça alta, sorrir e caminhar como se acreditasse em si mesma.

De novo se permitiu fantasiar. Cornwallis teria gostado de seu vestido? Se se tivesse vestido para ele, teria ficado ao pé da escada e a teria visto descer com um olhar de assombro, até com certo respeito reverencial, ao comprovar quão formosa podia estar uma mulher e reparar nas sedas, rendas e o perfume, todas as coisas com as que tão pouco familiarizado estava?

Basta! Devia controlar sua imaginação. Ruborizou-se ante seus próprios pensamentos e se voltou deliberadamente para o bispo para dizer algo, algo que rompesse o feitiço de sua fantasia.

Entretanto, durante todo o trajeto ele guardou um silêncio muito pouco próprio dele, como se não fosse consciente de que ela estava a seu lado. Em geral, falava de quem ia assistir à reunião, e enumerava suas virtudes e defeitos, e comentava o que cabia esperar deles em termos de contribuição ao bem-estar da Igreja em geral, e de sua diocese em particular.

— O que acha que podemos fazer para ajudar o pobre senhor Patterson? – perguntou Isadora por fim quando quase tinham chegado –. Parece que está passando muito mal.

— Nada – respondeu o bispo, – a mulher morreu, Isadora. Não se pode fazer nada ante a morte. Está aí, diante de nós e a nosso redor nos esperando de forma inexorável. Digamos o que digamos à luz do dia, quando chega a noite não sabemos de onde vamos e não temos nem idéia de aonde nos dirigimos... se é que há algum lugar aonde ir. Não se mostre condescendente com o Patterson lhe dizendo o contrário. Se descobrir a fé, fá-lo-á ele só. Não pode lhe oferecer a sua, caso que a tenha e não esteja dizendo simplesmente o que você mesma quer ouvir, como a maioria das pessoas. Agora será melhor que se prepare, estamos a ponto de chegar.

A carruagem se deteve, e se apearam e subiram as escadarias enquanto se abria a porta principal. Como sempre, anunciaram-lhes formalmente. Em outro tempo Isadora se emocionava ao ouvir chamar Reginald por seu título. Parecia-lhe que tinha infinitas possibilidades, que era mais meritório que um título nobiliário porque não se herdava, mas sim era concedido por Deus. Ficou contemplando a demonstração de sons e cores que tinha ante si enquanto entrava na sala pelo braço dele. Nesse momento não lhe parecia mais que uma honra concedida por homens a alguém que tinha encaixado em seu modelo, que tinha agradado às pessoas adequada e tinha evitado ofender alguém. Não era o mais apto, ousado e valente para trocar vistas, a não ser simplesmente o que menos probabilidades tinha de pôr em perigo o existente, conhecido-o e cômodo. Era um conservador a a todo custo que defendia todo o presente naquele lugar, fosse bom ou mal.

Apresentaram-nos e o seguiu um passo por atrás, saudando às pessoas com um sorriso e uma resposta educada. Tratou de mostrar-se interessada por eles.

— O senhor Aubrey Serracold – lhe disse lady Warboys –. Apresenta-se para a cadeira no Lambeth sul. O bispo Underhill e sua esposa.

— Encantada, senhor Serracold – respondeu Isadora educadamente, e de repente se deu conta de que, depois de tudo, havia algo nele que lhe chamava a atenção.

Respondeu-lhe com um sorriso e a olhou nos olhos com um regozijo secreto, como se ambos fossem conscientes da mesma brincadeira absurda que a honra lhes obrigava a representar diante daquele público. O bispo passou a seguinte pessoa e Isadora se surpreendeu a si mesma devolvendo o sorriso a Aubrey Serracold.

Tinha o rosto alongado e uma mecha de seu cabelo loiro lhe caía por cima de uma sobrancelha. Recordou ter ouvido em alguma parte que era o segundo filho de um marquês ou algo pelo estilo, e que poderia ter utilizado o tratamento de "lorde", mas tinha preferido não fazê-lo. Perguntou-se quais eram suas opiniões políticas.Esperava que tivesse alguma e não estivesse procurando unicamente um novo passatempo para aliviar o aborrecimento.

— Não me diga, senhor Serracold – disse Isadora com um interesse que não teve que fingir –. E a que partido pertence?

— Não estou muito seguro de qual dos dois está disposto a fazer-se responsável por mim, senhora Underhill – replicou ele com uma ligeira careta –. Fui bastante ingênuo para expressar umas quantas opiniões pessoais que não são precisamente populares a nível universal.

Um tanto a seu pesar, Isadora se sentiu interessada, e sua curiosidade deve ter se refletido em seu rosto, porque ele se explicou imediatamente.

— Para começar, cometi o pecado imperdoável de dar prioridade ao projeto de lei da jornada de oito horas por cima do relacionado com o auto-governo irlandês. Não vejo por que não podemos nos comprometer a aprovar ambos, e com isso obter o apoio de mais pessoas e um poder que sirva de base para realizar outras reformas muito necessárias, começando por devolver o Império a seus habitantes legítimos.

— Não tenho certeza sobre o tema do Império, mas o resto soa extremamente razoável – concordou ela –. Muito para que se converta em lei.

— É uma cínica – disse ele com fingido desespero.

— Meu marido é bispo – respondeu ela.

— Ah! É claro... – viu-se obrigado a interromper sua réplica ante a necessidade de saudar as três pessoas que se uniram a eles, entre elas sua mulher, a quem Isadora não conhecia, embora tivesse ouvido falar dela com tanta inquietação como admiração.

— Encantada, senhora Underhill. – Rose lhe devolveu a saudação com fingido interesse. Isadora não estava mesclada em assuntos de política nem seguia realmente a moda, apesar de seu vestido verde oceano. Era uma mulher de elegância conservadora que possuía essa classe de beleza que não muda.

Rose Serracold, pelo contrário, era escandalosamente vanguardista. Seu vestido era uma combinação de cetim vinho e renda de guipur que criava um contraste o mais espetacular com seu cabelo assombrosamente loiro, como a mistura de sangue e neve. Seus brilhantes olhos água-marinha pareciam examinar a todos os convidados com uma espécie de avidez, como se procurasse uma pessoa em particular que não achava.

— O senhor Serracold me estava falando das reformas que deseja levar a cabo – disse Isadora para travar conversa.

Rose lhe dedicou um sorriso deslumbrante.

—Estou certa de que você tem suas próprias idéias a respeito de tais necessidades – respondeu –. Sem dúvida, em seu ministério seu marido deve ter plena consciência da pobreza e das injustiças que podiam aliviar-se com leis mais justas. – Disse aquilo desafiando Isadora a que se declarasse ignorante em tais lides e ficasse, portanto, como uma hipócrita em relação com o cristianismo que professava através do bispo.

Isadora respondeu sem parar para medir suas palavras.

—É claro. O que me custa imaginar não são as mudanças, mas como levá-las a cabo. Para que uma lei seja boa deve fazer-se respeitar, e deve existir um castigo que sejamos capazes de infligir com plena disposição se se violar, como certamente faremos, embora só seja para nos pôr a prova.

Rose se mostrou encantada.

— Pensou realmente nisso! – Sua surpresa era evidente– . Desculpe-me por ter questionado sua franqueza. – Baixou a voz, de modo que só a ouvissem os que estavam perto delas, e continuou falando com pesar do repentino silêncio que se fizera enquanto outros aguçavam o ouvido– Temos que falar, senhora Underhill. – Estendeu sua elegante mão, de dedos esbeltos e guarnecidos de anéis, afastou Isadora do grupo no qual se acharam mais ou menos por acaso –. Dispomos de um tempo terrivelmente escasso–continuou– . Devemos ir mais à frente do partido se quisermos fazer realmente o bem. A abolição das taxas para o ensino fundamental que conseguimos o ano passado já obteve efeitos maravilhosos, mas isso só é o princípio. Devemos fazer muito mais. O livre acesso à educação é a única solução duradoura à pobreza. – Tomou ar e depois continuou–Devemos abrir o caminho para que as mulheres sejam capazes de restringir suas famílias. A pobreza e o esgotamento, tanto físico como mental, são o resultado inevitável de ter um filho atrás de outro sem dispor de forças para cuidá-los, nem dinheiro para lhes dar de comer ou vestir. – Voltou a olhar Isadora com uma expressão de sincero desafio em seus olhos– . E lhe peço desculpas se isto for contra suas convicções religiosas, mas ser a esposa de um bispo e ocupar a residência que lhes proporcionou é muito diferente de estar em um par de habitações sem água corrente e com um pequeno fogo, tratando de manter uma dúzia de crianças limpas e alimentadas.

— Uma jornada de oito horas melhoraria ou pioraria a situação? – perguntou Isadora, propondo-se não ofender-se por coisas que, depois de tudo, não tinham nada que ver com o verdadeiro tema de discussão.

Rose arqueou as sobrancelhas.

— Como iria piorá-la? Cada trabalhador, homem ou mulher, deveria estar protegido contra a exploração! – A cólera acendeu suas faces, que adquiriram um tom rosado sobre a pele branca.

Isadora se propunha perguntar à Rose sua opinião antes de expressar a sua, mas lhe foi impossível fazer nenhuma das duas coisas quando se aproximou delas uma amiga de Rose que a saudou com afeto. Foi apresentada a Isadora como à senhora Swann, quem apresentou por sua vez a sua companheira, uma mulher de uns quarenta anos, com a confiança na própria pessoa que outorga a maturidade e o suficiente viço para atrair o olhar da maioria dos homens. Mantinha erguida sua cabeça de cabelo escuro com elegância, e seu porte era o de alguém totalmente segura de si mesma que, entretanto, se interessa por outros.

— A senhora Octavia Cavendish – disse a senhora Swann com uma nota de orgulho.

Justo antes de falar, Isadora se deu conta de que a recém chegada devia ser viúva para que se dirigissem a ela desse modo.

— Interessa-lhe a política, senhora Cavendish? – perguntou. Dado que o propósito da noite era esse, tratava-se de uma hipótese muito natural.

— Só enquanto se troquem as leis, espero que para proveito de todos – respondeu a senhora Cavendish –. Se requer uma grande sabedoria para antecipar quais serão as conseqüências de nossas ações. Às vezes os caminhos mais nobremente inspirados resultam desastrosos por dar lugar a conseqüências imprevistas.

Rose abriu muito seus assombrosos olhos.

— A senhora Underhill estava a ponto de nos dizer de que modo a jornada de oito horas poderia ser prejudicial – disse Rose, olhando fixamente à senhora Cavendish –. Temo que no fundo seja uma conservadora!

— A verdade, Rose... – advertiu-lhe a senhora Swann lançando um olhar de desculpa a Isadora.

— Não! – exclamou Rose com impaciência –. Já vai sendo hora de que nos deixemos de rodeios e digamos o que realmente queremos dizer. É muito pedir, ou inclusive exigir, que a pessoa seja franca? Não temos o dever de fazer perguntas e questionar as respostas?

— Rose, uma coisa é ser excêntrica, mas você corre o risco de ir muito longe – disse a senhora Swann com um soluço nervoso. Pôs uma mão no braço de Rose, mas esta a afastou com impaciência –. A senhora Underhill talvez não...

— Não quer? – perguntou Rose, recuperando brevemente seu sorriso.

Antes que Isadora pudesse responder, a senhora Cavendish interveio.

— Trabalhar em excesso é muito duro e totalmente injusto – disse com suavidade –. Mas, mesmo assim, é melhor que não ter trabalho...

— Isso é extorsão! – exclamou Rose com voz irada.

A senhora Cavendish conservou a calma de maneira admirável.

— Se se fizer de maneira deliberada, é claro que é. Mas se um empresário enfrenta uns benefícios cada vez menores e uma maior concorrência , não pode permitir-se incrementar seus custos. E se o faz, terá que fechar o negócio e seus empregados perderão seus postos de trabalho. Precisamos manter o Império agora que temos um, tanto se quisermos como se não. – Sorriu para tirar dureza a suas palavras, mas não poder de convicção –. A política se apóia no que é possível, o qual não sempre coincide com o que queremos – acrescentou– . Acredito que faz parte da responsabilidade.

Isadora olhou a Aubrey Serracold e viu a ternura que brilhava em seus olhos, e uma espécie de tristeza, a convicção de que as coisas valiosas podiam romper-se.

Talvez ela se houvesse sentido assim com respeito a John Cornwallis. Era um homem sensível e inteligente, com ânsias de honra e um rechaço do oropel que ela teria protegido a qualquer preço. Aquela atitude possuía um infinito valor, não só para ela, mas por si mesma. Não havia nada em Reginald Underhill que despertasse nela esse intenso desejo, que era metade dor, metade alegria.

Interrompeu-lhes a chegada de outro homem, que olhou à senhora Cavendish com uma familiaridade que deixou claro que tinham vindo juntos. Isadora não se surpreendeu de que tivesse ao menos um admirador. Era uma mulher excepcional em muitos mais aspectos que a mera beleza física. Tinha caráter e inteligência, e uma clarividência que era muito pouco comum.

— Me permitam que os apresente a meu irmão – se apressou a dizer a senhora Cavendish– . Sir Charles Voisey. A senhora Underhill, e o senhor e a senhora Serracold. – Acrescentou os dois últimos nomes com uma ligeira careta, e Isadora recordou com um sobressalto que Voisey e Serracold aspiravam à mesma cadeira no Parlamento.Um deles perderia. Olhou a Voisey com repentino interesse. Não se parecia com sua irmã. Tinha o cabelo e a tez ligeiramente avermelhados, enquanto que a pele dela era pálida e o cabelo castanho escuro e brilhante. Tinha o rosto alongado e o nariz um pouco torcido, como se o tivessem quebrado e colocado mal. Quão único tinham em comum era uma mente ágil e uma grande força interior. Nele era tão intensa que ela quase esperou que irradiasse calor.

Isadora murmurou algo educado e prudente. Deu-se perfeita conta de que Aubrey Serracold ocultava seus sentimentos; sabia que seu adversário era um homem muito diferente dele, e que ia ser uma luta em que tudo estaria permitido. Aquele cortês intercâmbio de palavras era uma amostra de educação, e com ele não pretendia enganar a ninguém.

A cólera se podia perceber no rígido e elegante corpo de Rose, com suas longas costas e seus esbeltos quadris metidos em brilhante tafetá, e seus dedos que lançavam brilhos ao mover as mãos. A pele de seu pescoço parecia quase de um tom branco azulado à luz dos lustres do teto, como se ao examiná-la mais de perto lhe pudessem ver as veias. Também se podia apreciar nela o medo. Isadora o percebia como um perfume mais que flutuava no ar, entre o aroma da lavanda, do jasmim e as numerosas fragrâncias dos vasos com nenúfares que havia nas mesas. Tanto importava a ela ganhar? Ou havia algo mais?

Fizeram-lhes passar à sala de jantar seguindo a correta ordem de precedência. Em qualidade de esposa de um bispo, Isadora entrou nos primeiros, depois dos membros mais destacados da nobreza mas muito antes que os homens comuns como os meros candidatos parlamentares. As mesas estavam cobertas de cristal e porcelana. Junto a cada prato brilhavam fileiras de garfos, facas e colheres.

As senhoras ocuparam seus assentos e a seguir o fizeram os cavalheiros. Imediatamente depois se serviu o primeiro prato e se retomou o objetivo da noite: a discussão, as considerações e os julgamentos, a conversa brilhante que mascarava os pactos criados, os pontos fracos que eram analisados e, uma vez descobertos, exploravam-se. Ali era onde nasciam as futuras alianças e as futuras inimizades.

Isadora só escutava pela metade. Tinha ouvido com antecedência a maioria daquelas discussões sobre a economia, as questões morais, as finanças, as dificuldades e justificações religiosas e as necessidades políticas.

Quando ouviu o bispo mencionar o nome de Voisey adotando um tom de voz cheio de entusiasmo, sobressaltou-se e lhe chamou a atenção, fazendo que voltasse para a realidade.

— A inocência não nos protege dos equívocos dos homens bem intencionados cujo conhecimento da natureza humana é muito menor que seu desejo de fazer o bem – disse com ardor. Não olhou a Aubrey Serracold, mas Isadora viu como ao menos outros três comensais o faziam. Rose ficou rígida, mantendo imóvel a mão que segurava a taça de vinho –. Ultimamente comecei a me dar conta de quão complexo é governar sabiamente – prosseguiu com uma expressão forçada, como se estivesse decidido a seguir o fio de suas idéias até o final –. Não é tarefa para o cavalheiro aficionado, por muito nobres que sejam suas intenções. Simplesmente não podemos nos permitir nos equivocar. Um experimento desafortunado com as forças do comércio e a economia, ou o abandono de certas leis que cumprimos durante séculos, e milhares de pessoas sofrerão antes que possamos inverter a situação e recuperar o equilíbrio perdido. – Sacudiu a cabeça com vigor –. É uma questão muito mais séria que as que confrontamos em nossa história. Em interesse das pessoas a quem representamos e servimos, não podemos nos permitir ser muito sentimentais ou indulgentes conosco mesmos. – Cintilavam-lhe os olhos e voltou a olhar brevemente Aubrey. – Esse é, acima de tudo, nosso dever, ou do contrário não teremos nada.

Aubrey Serracold estava muito pálido, com os olhos brilhantes. Não se incomodou em discutir. Deu-se conta de quão estúpido seria e guardou silêncio, agarrando com força a faca e o garfo.

Por um momento ninguém respondeu; depois meia dúzia de comensais falaram ao mesmo tempo, desculparam-se e voltaram a começar. Mas ao olhá-los um por um, Isadora viu que as palavras do Reginald faziam brecha neles. De repente, todo o encanto e os ideais eram menos brilhantes, menos efetivos.

— Uma visão muito desinteressada, bispo – disse Voisey, voltando-se para olhá-lo. – Se todos os líderes espirituais tivessem sua coragem, teríamos sabor de quem ir em busca de liderança moral.

O bispo olhou-o com o rosto pálido, o peito agitado, como se tivesse dificuldades inexplicáveis para respirar.

Outra vez tem indigestão – pensou Isadora –. Tomou muita sopa de aipo. Deveria havê-la deixado, sabe que não lhe cai bem. Por sua maneira de falar, qualquer um pensaria que lhe jogaram um bom jorro de vinho!

A noite se estendeu interminavelmente; fizeram-se certas promessas e se abandonaram outras. Pouco depois de meia-noite se foram os primeiros convidados, entre os quais estavam o bispo e Isadora.

Uma vez fora, enquanto subiam a sua carruagem e se afastavam, ela se voltou para ele.

— Que demônios lhe entrou para falar contra o senhor Serracold desse modo? E diante do pobre homem! Se suas idéias forem extremistas, ninguém quererá que se convertam em leis.

— Está sugerindo que deveria ter esperado que as apresentasse ante o Parlamento antes de as condenar? – perguntou ele, com uma nota áspera na voz –. Talvez você gostaria que esperasse até que os comuns as tenham aprovado e toque aos lordes as discutir? Não tenho nenhuma dúvida de que os membros laicos da câmara anulariam a maioria delas, mas não tenho tanta fé em meus irmãos, os membros eclesiásticos. Confundem o ideal com o prático. – Tossiu –. Resta pouco tempo, Isadora. As pessoas não podem permitir-se adiar o momento de atuar, pois talvez não disponha de ocasiões para retificar.

Ela estava surpreendida. Era um comentário muito pouco próprio dele. Nunca lhe tinha visto lançar-se a falar desse modo, comprometer-se com algo sem deixar uma porta aberta se por acaso as circunstâncias mudassem.

— Encontra-se bem, Reginald? – perguntou, e imediatamente desejou não havê-lo feito. Não queria ouvir uma contagem das coisas que tinham estado mal no jantar, fosse o serviço ou as opiniões e expressões de outros comensais. Lamentou não ter mordido a língua e haver-se limitado a murmurar algo em sinal de conformidade, sem mostrar a mais mínima emoção. Mas já era muito tarde.

— Não – disse ele erguendo a voz até alcançar um tom de angústia–. Não me encontro nada bem. Devo me haver sentado em meio de uma corrente de ar. O reumatismo se acentuou e sinto uma forte dor no peito.

— Acredito que a sopa de aipo não foi uma escolha acertada – disse, tratando de mostrar-se compassiva, embora fosse consciente de não o conseguir. Percebeu um matiz de indiferença em sua voz.

— Temo que seja mais sério que isso. – Desta vez a voz do Reginald refletia um pânico mal dissimulado.

Tinha certeza de que se poderia vê-lo na escuridão do interior da carruagem, seu rosto teria revelado um medo que raiava o desespero. Alegrou-se de não poder fazê-lo. Não queria ver-se arrastada por suas emoções. Já lhe tinha acontecido muitas vezes.

— As indigestões podem chegar a ser muito desagradáveis – murmurou Isadora –. Os que falam delas com ligeireza nunca as sofreram. Mas são passageiras e não deixam seqüelas, além do cansaço provocado pela dificuldade para poder dormir. Rogo-lhe que não se preocupe.

— Acredita nisso? – perguntou ele. Isadora percebeu sua impaciência, apesar de não ter virado a cabeça para ela.

— É claro – respondeu em tom tranqüilizador.

Guardaram silêncio o resto do trajeto de volta, mas ela era plenamente consciente de seu desconforto. Era como se uma terceira entidade se instalara entre ambos.

Despertou no meio da noite e o achou sentado à beira da cama com o rosto cinzento, o corpo jogado para frente e o braço esquerdo pendendo como se não tivesse forças nele. Voltou a fechar os olhos, obrigando-se a mergulhar de novo em seu sonho. Nele apareciam amplos mares e o suave fluxo que se agitava mais à frente do casco de um navio. Imaginou John Cornwallis naquele lugar, com o rosto voltado para o vento e um sorriso de prazer nos lábios. De vez em quando se virava para ela e a olhava. Talvez dissesse algo, mas provavelmente permanecia calado. Entre ambos reinava um silêncio sossegado, uma alegria tão profundamente compartilhada que não necessitava da intrusão das palavras.

Entretanto, sua consciência não ia permitir ficar no mar e o céu. Sabia que Reginald estava sofrendo a escassos centímetros dela. Voltou a abrir os olhos e se sentou devagar.

— Trar-lhe-ei um pouco de água quente – disse, afastando os lençóis e levantando-se da cama. Sua fina camisola de linho lhe chegava ao chão, e essa noite de verão não precisaria usar nada mais por decência. A essa hora não teria criados pela casa.

— Não! – Um grito abafado brotou de sua garganta–. Não me deixe!

— Ajudar-lhe-á bem beber a água aos goles – disse ela, sem poder evitar compadecer-se dele. Parecia abatido, com o rosto pálido e molhado de suor, e o corpo encolhido de dor. Ajoelhou-se diante dele

– . Está enjoado? Talvez houvesse algo no jantar que não estava fresco ou cozinhado.

Ele não disse nada e permaneceu olhando fixamente o chão.

— Passará – continuou ela com suavidade –. O susto dura um momento, mas sempre se vai. No futuro talvez devesse pensar menos nos sentimentos de seus anfitriões e optar só pelos pratos mais simples. Algumas pessoas não se dão conta da freqüência com a qual se vê obrigado a comer em casas alheias, e com o tempo pode ser excessivo.

O bispo ergueu para ela seus olhos escuros e assustados, lhe suplicando sem palavras que o ajudasse como fosse.

— Quer que envie Harold a procura do médico? – Fez o oferecimento para dizer algo. Quão único o médico lhe daria seriam umas pastilhas de hortelã, como tinha feito no passado quando o bispo tinha mencionado sua digestão e lhe tinha pedido remédio. Seria degradante faz-lo ir até ali por um caso de gases, por terrível que fosse. O bispo sempre se negara, acreditando que menosprezaria a seriedade de seu alto cargo. Como iria alguém olhar com respeito reverencial a um homem que não podia controlar seus órgãos digestivos?

— Não quero! – exclamou ele com desespero. Depois exalou o ar em um soluço– . Acha que é por algo que havia no jantar? – Em sua voz havia um tom de esperança, como se lhe suplicasse que lhe desse razão.

Isadora se deu conta de que temia que não fosse só uma indigestão, que depois de todos aqueles anos queixando por minúcias por fim estivesse realmente doente. Era a dor o que tanto lhe assustava? Ou a moléstia e a vergonha de vomitar ou perder o controle de suas funções fisiológicas, e ter que deixar-se limpar depois? De repente sentiu uma sincera compaixão por ele. Certamente cada pessoa tinha um terror secreto, e mais no caso de um homem para quem o poder e a presunção eram tudo. Em seu foro interno devia suspeitar o incrivelmente frágil que era o respeito. Não imaginava que lhe amasse; não com a paixão e a ternura que a uniria a ele em um momento assim. O dever faria que se mantivesse junto a ele, mas isso seria quase pior que os cuidados de um desconhecido, exceto para o mundo exterior que veria só uma mulher ao lado de seu marido, onde devia estar. O que passasse realmente entre eles – algo ou nada– nunca se saberia.

Continuava olhando-a, esperando que lhe assegurasse que seu medo era desnecessário, que tudo acabaria. Mas a Isadora era impossível. Inclusive se tivesse sido um menino, e não um homem mais velho que ela, não teria podido fazê-lo. A enfermidade era real. A pessoa não podia proteger-se dela eternamente.

— Farei tudo o que possa para ajudá-lo – sussurrou. Estendeu uma mão com pouca confiança e a pôs sobre a dele, obstinada ao joelho. Sentiu o terror que ele estava experimentando, como se tivesse saído de sua pele e penetrado na sua. Então reconheceu do que se tratava: tinha medo de morrer. Tinha passado toda sua vida pregando o amor de Deus, a obediência aos mandamentos que não admitiam perguntas nem explicações, a aceitação do sofrimento na terra e a confiança absoluta na eternidade do céu... e todas suas crenças não eram mais que palavras. Ao enfrentar-se ao abismo da morte não via nenhuma luz, nem a Deus esperando-o ao final. Estava só como um menino no meio da noite.

Surpreendeu-se a si mesma ao ouvir-se, renunciando a seus próprios sonhos.

— Estarei a seu lado, não se preocupe. – Apertou-lhe mais a mão e lhe pegou o outro braço – . Não tem nada que temer. É o caminho que segue toda a humanidade, só uma porta. É o momento de ter fé. Não está só, Reginald. Todas as criaturas vivas estão com você. Só é um passo para a eternidade. Você também viu muitas pessoas confrontá-lo com coragem e dignidade. Você também pode fazê-lo... e o fará.

Ele ficou sentado na beira da cama, mas pouco a pouco relaxou. A dor devia ter abrandado porque ao final deixou que o ajudasse a deitar-se de novo, e em pouco tempo ficou adormecido, deixando que ela se levantasse e rodeasse a cama até seu lado para deitar-se também.

Estava cansada, mas a bênção do sono foi esquiva até que se fez quase de dia.

Ele se levantou como de costume. Estava um pouco pálido, mas pelo resto tinha um aspecto aparentemente bastante normal. Não fez referência ao episódio da noite anterior. Não a olhou nos olhos.

Isadora se zangou muitíssimo com ele. Era muito mesquinho de sua parte que não lhe desse pelo menos obrigado, e que não o agradecesse embora só fosse com um sorriso. Não era preciso as palavras. Mas ele estava furioso com ela porque tinha visto como tinha perdido a dignidade e tinha presenciado seu medo. Ela o compreendia, mas mesmo assim o desdenhou por sua pobreza de espírito.

Estava doente. Ela tinha começado a assumi-lo. Embora ele tivesse optado por esquecê-lo, era a realidade. Necessitava-a, e fosse o afeto, a compaixão, o respeito ou simplesmente o dever o que a impulsionasse, estaria acorrentada a ele enquanto resistisse. E podia ser questão de anos. Via-o como um caminho que se prolongava no horizonte através de uma planície cinza. Podia pintar seus sonhos nela, mas nunca os alcançaria.

Talvez nunca tivessem sido mais que sonhos. Nada tinha mudado, exceto em sua cabeça.

 

— Não acredito! – soltou Jack Radley, sentado à mesa do café da manhã sustentando o jornal no alto com as mãos trêmulas e o rosto pálido.

— O que acontece? – perguntou Emily, cujos primeiros pensamentos voaram para o assassinato de Maude Lamont, ocorrido fazia justo uma semana. Thomas tinha descoberto algo tão irrefutável que incriminava Rose? Só agora se dava conta do muito que tinha temido que ocorresse. Os remorsos a afligiram –. O que leu? – Em sua voz se podia perceber o medo.

— Aubrey! – exclamou Jack, baixando o jornal para vê-la. – Escreveu uma carta ao diretor. Suponho que é para refutar o que disse o general Kingsley dele, mas não está bem exposta.

— Quer dizer que está escrita de forma descuidada? Não é próprio de Aubrey. – Recordava sua bonita voz; não só era a dicção, mas também a forma de escolher as palavras.

– O que diz?

Jack respirou fundo e mordeu o lábio, negando-se a responder, como se ao lê-lo em alto cobrasse maior dimensão real.

— É tão terrível? – perguntou ela, com uma angústia que a estremecia e a consumia por dentro –. Mudará algo?

— Acredito que poderia fazê-lo.

— Bom, então ou me conte ou me passe o jornal! – ordenou ela– . Pelo amor de Deus, não me diga que é terrível e depois se cale!

Ele baixou a vista para as páginas e começou a ler em voz baixa, quase inexpressiva:

 

Fui acusado recentemente neste jornal pelo general de divisão Roland Kingsley de ser um idealista com pouco conhecimento da realidade, um homem que renunciaria às glórias do passado de nossas nações, e com elas, aos homens que lutaram e morreram para nos proteger e estender o império da lei e a liberdade a outros países. Em circunstâncias normais me teria contentado deixando que o tempo demonstrasse que estava equivocado. Confiaria que meus amigos me conhecessem melhor e esperaria que os desconhecidos fossem sinceros em seu julgamento.

Entretanto, vou apresentar-me candidato para a cadeira de Lambeth sul nas atuais eleições parlamentares, e a iminência das mesmas não me permite tomar esse tempo.

Em nosso passado houve muitos eventos gloriosos que não posso e nem queria mudar. Mas o futuro nos pertence e podemos moldá-lo a nosso gosto. Escrevamos grandes poesias sobre desastres militares como o assalto da brigada ligeira do Sebastopol, onde homens valorosos perderam inutilmente a vida às ordens de generais incompetentes. Compadeçamo-nos dos sobreviventes de tais ações desesperadas quando passarem coxeando a nosso lado pela rua, cegos ou aleijados, ou os vejamos em camas de hospital. Levemos flores a suas tumbas.

Mas também atuemos para que seus filhos e netos não caiam do mesmo modo. É algo que não só podemos, mas sim, temos a obrigação de mudar.

 

— Não está mal exposto! – respondeu Emily –. Em minha opinião, o que diz é certo, uma valorização totalmente justa e sincera.

— Ainda não terminei – disse Jack sombrio.

— Bom, que mais diz?

Ele voltou a baixar os olhos para a página.

 

Necessitamos de um exército que lute em tempos de guerra se um país estrangeiro chegasse a nos ameaçar. Não necessitamos aventureiros cortados com o patrão do imperialismo, que acreditam que como ingleses temos direito a atacar e conquistar o país que desejamos muito, já seja porque estamos profundamente convencidos de que nosso estilo de vida é superior ao dele, e seus habitantes se beneficiarão de nossas leis e instituições impostas pela força de nossas armas, ou porque eles têm terra, minerais e qualquer outro recurso que podemos explorar.

 

— Oh, Jack. – Emily estava horrorizada.

— Segue com mais do mesmo – disse ele com amargura –. Não acusa abertamente Kingsley de procurar interessadamente à glória a custa do homem da rua, mas a insinuação está bastante clara.

— Por quê? – perguntou ela com profundo desgosto– . Pensei que tinha mais... mais sentido da realidade. Embora tudo isso fosse verdade, não lhe faria ganhar seguidores! Os que pensam como ele estarão em seu grupo de todo modo, e os que não, odiarão-lhe por isso! – Ocultou o rosto entre as mãos –. Como pôde ser tão ingênuo?

— Porque Kingsley deve lhe ter posto nervoso – respondeu Jack –. Acredito que Aubrey sempre odiou o oportunismo, a idéia de que o mais forte tem direito a tomar o que quer, e vê o imperialismo desse modo.

— É um tanto intolerante, não lhe parece? – disse ela, embora na realidade não se tratava de uma pergunta. Não acatava as opiniões de Jack, nem as de ninguém. Uma coisa era o conhecimento factual, mas aquilo tinha que ver com os sentimentos e a compreensão das pessoas –. Estou começando a acreditar que a política só requer uma boa compreensão da natureza humana e o suficiente bom senso para manter a boca fechada quando não serve de nada falar. E não dizer mentiras que possam delatá-lo, e nunca perder o controle nem prometer algo que talvez não possa cumprir.

Jack esboçou um sorriso, mas não refletia a menor satisfação.

— Tomara o houvesse dito faz um par de dias.

— Realmente acha que mudará algo? – Ela continuava obstinada à esperança. – É o Time, não é? Sim. Quantos votantes do Lambeth sul calcula que o lêem?

— Não sei, mas aposto o que quiser que Charles Voisey o lê! – respondeu ele.

Emily se expôs por um momento aceitar a aposta e pedir uma nova sombrinha se ganhasse, mas logo se deu conta de quão inútil era. É claro que Voisey o leria e o utilizaria.

— Aubrey fala dos militares como se os generais fossem estúpidos – continuou Jack com um tom de desespero na voz –. Deus sabe que tivemos muitos que o eram, mas planejar táticas de batalha é mais difícil do que acredita. Pode ser que tenha inimigos preparados, armas inadequadas, escassez de fornecimentos, mudanças na meteorologia...! Ou simplesmente má sorte. Quando Napoleão nomeava um novo marechal não perguntava se era inteligente, mas sim se tinha sorte.

— O que perguntava Wellington? – replicou ela.

— Não sei – admitiu ele, levantando-se –. Mas não teria aceitado Aubrey. Isto não é um caso de falta de honradez, nem de má política, senão as táticas mais espantosas que se poderiam ter empregado contra um homem como Charles Voisey!

Na primeira hora da tarde, Emily foi com Jack escutar o discurso que Voisey ia pronunciar diante de uma grande multidão. Era no Kennington, e o parque estava cheio de pessoas que passeavam sob o forte sol tomando sorvetes e maçãs de caramelo, e bebendo limonadas enquanto esperava impaciente que começasse para divertir-se e interromper ao orador. Para começar, a ninguém importava muito o que tinha que dizer Voisey. Era uma boa maneira de passar uma hora, muito mais interessante que a anódina partida de críquete que jogavam uma vintena de crianças no outro extremo do parque. Se queria que lhe prestassem atenção teria que os divertir, e se não o tinha sabor dessas alturas, logo se inteiraria.

Evidentemente, só alguns dos que lhe escutariam tinham direito ao voto, mas o futuro de todos se veria afetado. De modo que se apinharam ao redor do quiosque de música vazio, ao qual Voisey subiu com grande confiança em si mesmo e onde tomou a palavra.

Emily permaneceu em pé ao sol com o rosto protegido pelo chapéu, contemplando primeiro à multidão, depois a Voisey, e olhando de esguelha a Jack. Não escutava realmente as palavras. Sabia que tratavam de patriotismo e orgulho. Era um discurso muito sutil, mas elogiava à multidão em um sentido muito geral, fazendo com que se sentisse parte do lucro do Império, embora não o chamasse assim. Ela observou como as pessoas se erguiam um pouco mais, sorrindo inconscientemente, ficando direitos e com o queixo ligeiramente mais alto. Ele as faziam sentir que eram parte de algo, que participavam da vitória, que se contavam entre a elite.

Olhou Jack e viu como lhe curvavam para cima as comissuras dos lábios. Tinha o rosto crispado pela indignação, mas também se apreciava nele certa admiração; por muito que quisesse, não podia ocultá-la.

Voisey continuou. Não mencionou o nome de Serracold. Serracold poderia não ter existido. Não os fazia escolher: votem em mim ou no outro candidato, votem nos conservadores ou nos liberais; simplesmente lhes falava como se a decisão já tivesse sido tomada. Eram de uma só opinião, porque eram de uma só raça, um só povo, um só destino compartilhado.

É claro, aquele argumento não persuadiria a todo mundo. Emily viu em muitos rostos obstinação, desacordo, cólera, indiferença. Mas ele não necessitava de todos, só aos suficientes para formar uma maioria junto com os votantes conservadores de toda a vida.

— Vai ganhar, não é verdade? – sussurrou ela, esquadrinhando o rosto de Jack e vendo a resposta em sua expressão. Sentia-se furioso, impotente, frustrado, e entretanto era plenamente consciente de que se saísse em defesa de Aubrey Serracold como pretendia, só conseguiria demonstrar lealdade a um amigo e pôr em perigo sua própria cadeira. Nada era tão seguro como tinha acreditado fazia uma semana.

Emily observou-o enquanto Voisey continuava falando e a multidão escutava. O pessoal estava com ele nesse momento, mas ela sabia quão volúvel era a popularidade. Fazia rir às pessoas, elogiava-a, dava-lhe esperanças de obter benefícios e lhe brindava uma crença comum, e a tinha no bolso. A menor suspeita de medo, um insulto insinuado ou inclusive o aborrecimento, e voltava a perdê-la.

Uma parte de Emily desejava que ele fizesse honra a sua amizade, que dissesse o que pudesse para corrigir a desigualdade entre Aubrey e aquele homem que manipulava a situação com tanta destreza. A carta de Aubrey ao diretor tinha feito o jogo de Voisey. Por que tinha sido tão néscio? Sentiu desalento à medida que a resposta ia a sua mente de forma espontânea. Porque era idealista, mas ingênuo. Era um homem bom com um sonho honrado, mas ainda não era um político, e as circunstâncias não lhe dariam a ocasião de converter-se em um. Não havia ensaios, só a realidade.

Voltou a olhar Jack e viu que ainda estava indeciso. Não disse nada. Ainda não estava preparada para a resposta, fosse qual fosse. Ele tinha razão: o preço a pagar pelo poder podia ser muito alto. E entretanto, sem poder um conseguia muito pouco, talvez nada. As batalhas custavam caro; era a natureza da luta por qualquer princípio, por qualquer vitória. E se alguém se retirava da luta porque era dolorosa, o prêmio ia parar a outro, a alguém como Voisey. E qual era o preço? Se os homens bons não empunhavam a espada, fosse de forma literal ou figurada, a vitória era de quem estava disposto a isso. Era justo?

Se fosse algo fácil de ver, talvez houvesse mais pessoas que a encontrassem e menos que se deixassem enganar pelo caminho.

Deu um passo para aproximar-se de Jack e lhe pegou no braço. Ele se voltou para Emily, mas não a olhou.

Nessa noite havia uma recepção que, conforme tinha parecido à Emily anteriormente, prometia certa diversão. Era menos formal que um jantar e dava muitas mais possibilidades para falar com uma maior variedade de pessoas do agrado de qualquer um, simplesmente porque não precisava estar sentado ao redor de uma mesa.como sempre em tais ocasiões, haveria algum tipo de entretenimento, como uma pequena orquestra com um solista que cantasse, ou talvez um quarteto de cordas ou um pianista excepcional.

Entretanto, sabia que Rose e Aubrey Serracold estariam também ali, e no mínimo alguns convidados já conheceriam a notícia do discurso daquela tarde, de modo que em questão de uma hora todos estariam à corrente não só da extraordinária insensatez que tinha demonstrado Aubrey nos jornais, mas sim da magnífica resposta de Voisey. Prometia ser uma situação embaraçosa, até violenta. E fizesse o que fizesse Jack a respeito, não poderia continuar adiando a decisão durante muito mais tempo.

Era injusto, mas Emily estava zangada com Charlotte por não estar ali com ela para falar disso. Não tinha a ninguém mais a quem confiar seus sentimentos, dúvidas e perguntas.

Como sempre, vestiu-se com esmero. As primeiras impressões eram muito importantes, e fazia tempo que sabia que uma mulher formosa podia atrair a atenção de um homem enquanto que a uma menos agraciada não lhe era nada fácil. Também tinha aprendido recentemente que polir-se com esmero, pôr um vestido com um tom e desenho que lhe favorecessem e exibir um sorriso franco com ar de confiança, podiam fazer que outros considerassem à pessoa mais formosa do que era em realidade. Por conseguinte, escolheu um vestido de saia acampanada e cintura ajustada elaborado com um tecido fino estampado em verde, cor que sempre lhe tinha favorecido. O resultado era tão espetacular que até Jack, que estava de péssimo humor por culpa de Voisey, arregalou os olhos se viu obrigado a felicitá-la.

— Obrigado – disse ela com satisfação. Vestiu-se para lutar, mas ele continuava sendo a conquista que mais lhe importava.

Chegaram sessenta minutos depois da hora indicada no convite; apresentar-se antes não teria sido aceitável. Uma vintena de pessoas chegaram imediatamente antes ou depois deles, e por uns momentos o vestíbulo se encheu com uma aglomeração de convidados que se saudavam. As senhoras se despojaram de suas capas. Embora fizesse uma noite agradável, não partiriam até depois de meia-noite, e então estaria fresco.

Emily viu vários conhecidos e esposas de políticos com quem convinha fazer amizade, e umas quantas pessoas que lhe agradavam. Sabia que essa noite Jack tinha obrigações que não podia permitir-se passar por cima. Não era simplesmente uma ocasião para divertir-se.

Ficou a escutar com atenção, mostrando-se encantadora, fazendo cumprimentos adequados e devidamente meditados, intercambiando um par de intrigas que se conseguia que se repetissem deixariam de atormentá-la.

Duas horas depois, uma vez que começou o espetáculo musical – a solista era uma das mulheres menos agraciadas que jamais tinha visto , mas tinha uma voz que brotava sem esforço como a de uma verdadeira diva de ópera –, Emily viu Rose Serracold. Devia acabar de chegar, porque ia vestida de um modo tão chamativo que era impossível que não tivesse reparado nela. Levava um vestido cobre em pó a listas negras coberto com renda negra sobre as mangas e o busto, o que realçava sua extrema esbelteza. Tinha uma flor de cor cobre em pó na saia a jogo com as do peito e o ombro. Estava sentada em uma das cadeiras situadas a um extremo do grupo, com as costas rígidas, enquanto a luz se refletia em seu cabelo claro como o sol ou o milho amadurecido. Emily procurou Aubrey a seu redor, mas não o viu.

A cantora era tão boa que se apoderava da mente e dos sentidos, e tinha uma voz tão formosa que teria sido um ato de vandalismo para o ouvido falar durante sua atuação. Mas mal terminou, Emily se levantou e se aproximou de Rose. Tinha um pequeno círculo a seu redor, e antes que alguém se apartasse um pouco para permitir que se unisse ao grupo, ouviu a conversa. E com uma sensação de ansiedade, soube imediatamente a que se referiam exatamente, embora não tinham mencionado nomes.

— É muito mais esperto do que pensava, reconheço-o – dizia com ar arrependido uma mulher vestida de dourado –. Temo que o subestimamos.

— Acredito que superestimastes sua moralidade – disse Rose com aspereza –. Talvez esse tenha sido nosso engano.

Emily abriu a boca para intervir, mas alguém se adiantou.

— Certamente deve ter feito algo extraordinário para que a rainha lhe tenha concedido o título de sir. Suponho que deveríamos havê-lo tido em conta. Sinto muito, querida.

Talvez fosse o tom condescendente empregado, mas para Rose foi uma rua que não pôde passar por cima.

— Estou certa de que fez algo muito especial – replicou– . Provavelmente desembolsando vários milhares de libras... e arrumou para fazê-lo enquanto ainda havia um primeiro-ministro Conservadore que lhe recomendasse.

Emily ficou paralisada. Tinha um nó na garganta, a sala brilhava e dava voltas a seu redor, e via como as luzes dos lustres se multiplicavam, como se fosse desmaiar. Todo mundo sabia que certos homens ricos tinham feito enormes contribuições a ambos os partidos políticos, e em troca lhes tinham concedido o título de sir ou inclusive um título nobiliário. Tinha sido um dos escândalos mais desagradáveis, e entretanto era assim como se financiaram os dois partidos. Mas dizer que a alguém em concreto lhe tinha recompensado desse modo era imperdoável e terrivelmente perigoso, a menos que a pessoa pudesse e estivesse em disposição de prová-lo. Emily sabia que Rose arremetia em todas as direções porque temia que depois de tudo Aubrey não ganhasse. Desejava que vencesse pelo bem que lhe constava que podia fazer e no qual acreditava apaixonadamente, mas também por ele mesmo, porque o queria e sabia que era o que ele mais desejava.

Talvez também temesse que se ele perdesse a consumissem os remorsos pela parte que teria tido no fracasso. Tanto se os jornais se inteiravam de sua relação com Maude Lamont como se não, ou inclusive se o utilizavam, ela sempre saberia que lhe tinham preocupado mais suas próprias necessidades que a carreira do Aubrey.

Não obstante, o urgente nesse momento era detê-la antes que pudesse piorar ainda mais as coisas.

— A verdade, querida, é muito extremista dizer isso! – advertiu-lhe carrancuda a mulher vestida de dourado.

Rose arqueou suas loiras sobrancelhas.

— Se a luta para obter um cargo no governo de nosso país não é extremista, que prêmio esperamos obter em troca de não dizer o que realmente queremos expressar?

Emily tratou de pensar com toda pressa em uma resposta que pudesse salvar a situação. Não lhe ocorreu nada.

— Rose! Que preciosidade de vestido! – Soou estúpido e forçado inclusive a seus ouvidos. Que ridículo devia ter parecido a outros.

— Boa tarde, Emily – respondeu Rose com frieza. Não tinha esquecido uma palavra de sua anterior topada. Toda a efusão da amizade se desvanecera. E talvez se desse conta de que Jack não ia defender Aubrey se lhe parecia que punha em perigo sua cadeira. Embora esse não fora o preço, podia significar perfeitamente que qualquer cargo que Gladstone se expunha a lhe oferecer seria reconsiderado à luz de sua imprudente amizade. Aubrey seria famoso como um homem que inspirava pouca confiança, como um canhão desvencilhado na coberta de um navio que cabeceava. Se não podia salvar sua cadeira nessas eleições, ao menos ela salvaria sua honra e reputação nas seguintes, que conforme diziam não podiam ficar muito longe.

Emily lhe dirigiu um sorriso forçado que temeu que fora tão horrível como a sensação que estava experimentando.

— Que discreta é ao não dizer o que fez! – ouviu-se si mesmo dizer com voz forte e um tanto estridente, mas sem dúvida atraindo toda a atenção do resto do círculo –. Mas acredito que ao não dizê-lo poderia ter dado a entender que contribuiu com dinheiro antes que com um serviço de grande valor equiparável a essa soma... – Tratou de recordar a informação que Charlotte ou Gracie tinham deixado cair sobre o caso Whitechapel e o papel que Voisey tinha desempenhado nele. Por uma vez se mostraram surpreendentemente discretas. Maldita seja! Sorriu de orelha a orelha e olhou às mulheres que a rodeavam, todas surpreendidas e ansiosas por saber que mais ia dizer.

Rose tomou ar com brusquidão.

Emily devia apressar-se antes que Rose falasse ou o danificaria tudo.

— Eu não sei, é claro – continuou de repente –. Sei algo mas, por favor, não me perguntem! Foi, sem dúvida, um ato de grande coragem física e violência... Não posso dizer o que, pois não queria descrever enganosamente alguém ou inclusive lhe difamar... – Deixou a insinuação no ar –. Mas foi de grande valor para Sua Majestade e para o governo dos Conservadores. É muito natural que o recompense por isso... e totalmente justo. – Lançou um olhar de advertência à Rose –. Estou certa de que era isso o que queria dizer!

— É um oportunista – replicou Rose –. Um homem que busca o poder para si mesmo e não para aprovar leis que proporcionem justiça social a um maior número de pessoas; aos pobres, ignorantes e desprovidos, que deveriam ser nossa principal preocupação. Acredito que se uma pessoa escuta durante um momento o que diz, empregando a cabeça e não só o coração, fica suficientemente claro. – Era uma acusação, e a dirigiu a todas as mulheres.

Emily começou a assustar-se. Rose parecia empenhada em se autodestruir e, é claro, isso significava arrastar Aubrey consigo, o que depois lhe causaria remorsos e uma dor infinitas. Não se dava conta do que estava fazendo?

— Todos os políticos se vêem tentados a dizer o que acreditam que fará que lhes votem – respondeu erguendo muito a voz –. E responder ante uma multidão e tratar de agradá-la é facílimo.

Rose tinha os olhos muito abertos, como se acreditasse que Emily a estava atacando deliberadamente, traindo uma vez mais sua amizade.

— Não só os políticos sucumbiram à tentação de atuar para a galeria, como uma atriz troca! – contra-atacou.

Emily perdeu a calma.

— Sério? Não consigo entender sua comparação. Mas pelo visto sabe mais de atrizes baratas que eu!

Uma mulher soltou um risinho nervoso, e logo outra. Várias delas pareciam muito desconfortáveis. A discussão tinha chegado a um extremo em que já não se alegravam de ser testemunhas e estavam desesperadas por achar um pretexto para retirar-se e unir-se a outro grupo. Uma por uma se foram, murmurando desculpas ininteligíveis.

Emily pegou Rose pelo braço, sentindo como seu corpo rígido resistia.

— Que demônios lhe passa? – murmurou –. Está louca?

O rosto de Rose perdeu a pouca cor que conservava e ficou lívida.

Emily a pegou pelo braço, temendo que caísse.

— Venha sentar-se! – ordenou– . Depressa! Ponha-se nesta cadeira antes que desmaie. – Arrastou-a os poucos metros que havia até o assento mais próximo e a obrigou a sentar-se, lhe baixando a cabeça até que a teve sobre os joelhos, e ocultando-a com seu corpo do resto da sala. Teria gostado de lhe trazer algo de beber, mas não se atrevia a deixá-la sozinha.

Rose ficou imóvel.

Emily esperou.

Ninguém se aproximou delas.

— Não pode ficar sentada eternamente – disse Emily por fim com bastante suavidade –. Não posso ajudá-la se não souber o que lhe passa. Terá que atuar com bom senso e evitar as manhas de criança. Por que Aubrey se está comportando como um néscio? Tem algo que ver com você?

Rose se levantou bruscamente, com duas manchas de cor intensa nas faces, e os olhos brilhantes como erva azul esverdeada.

— Aubrey não é nenhum néscio! – disse em voz muito baixa, mas com uma veemência que era quase surpreendente.

— Sei que não é – disse Emily empregando um tom mais suave –. Mas está se comportando como tal, e você o está sendo ainda mais que ele. Tem idéia da má impressão que causa vê-la atacar Voisey como acaba de fazer? Embora o que dissesse fora certo e pudesse demonstrá-lo, e sabe que não é o caso, continuaria sem beneficiá-la na hora de conseguir votos. Às pessoas não gostam que derrubem seus heróis ou façam em migalhas seus sonhos. Odeiam os que as enganam, mas também os que as fazem que se dêem conta disso. Se quiserem acreditar em um herói, farão exatamente isso. Comportando-se assim só consegue parecer desesperada e maliciosa. O fato de que possa ter razão é o de menos.

— Isso é monstruoso! – protestou Rose.

— É claro que é – concordou Emily –. Mas é uma estupidez jogar segundo as regras que você gostaria que houvesse. Sempre acabará perdendo. Deve jogar segundo as regras que há... É melhor se você gostar, mas nunca pior.

Rose não disse nada.

Emily repetiu a primeira pergunta que lhe tinha formulado, que continuava acreditando que podia ser a que esclarecesse aquele lamentável assunto.

— Por que foi a médium? E não me diga que o fez só para te pôr em contato com sua mãe e ter com ela um bate-papo reconfortante. Não faria algo assim em plenas eleições, nem o ocultaria de Aubrey. Atormentavam-lhe os remorsos e mesmo assim seguia indo. Por que, Rose? Que assunto do passado precisa resolver a esse preço?

— Isso não é coisa sua! – exclamou Rose com desconsolo.

— É claro que é – replicou Emily –. Vai afetar Aubrey, de fato já o está fazendo, e isso afetará Jack, se é que espera que trate de lhe ajudar e lhe apóie nas eleições. E assim é, não é? Se agora se voltasse atrás, notar-se-ia muito.

Por um instante pareceu que Rose ia discutir, com o olhar aceso e cheia de cólera. Mas não disse nada, como se as palavras lhe resultassem inúteis inclusive enquanto as buscava.

Emily aproximou outra cadeira e se sentou frente a Rose, ligeiramente virada para diante e com a saia amassada.

— A médium Estava lhe fazendo chantagem? Por que ia a ela? – Emily viu como Rose fazia uma careta –. Ou pelo que averiguou sobre sua mãe? – insistiu.

— Não, não me fazia chantagem! – Não mentia, mas Emily sabia que tampouco estava dizendo toda a verdade.

— Confronta-o, Rose! – rogou-lhe –. Assassinaram essa mulher! Alguém a odiava o suficiente para matá-la. Não foi um lunático que vinha da rua. Foi alguém que estava na sessão de espiritismo dessa noite, e você sabe! – Vacilou antes de lançar-se –. Foi você? Ameaçou-a com algo tão terrível que ficou atrás e lhe colocou isso na garganta? Foi proteger Aubrey?

Rose estava lívida, com os olhos quase negros.

— Não!

— Então por quê? Tinha que ver com sua família?

— Eu não a matei! Meu deus! Necessitava-a viva, juro-lhe isso!

— Por quê? O que fez por você que lhe importa tanto? – Não acreditava realmente no que estava dizendo, mas queria provocar Rose para que lhe contasse por fim a verdade –. Compartilhava com você os segredos de outras pessoas? Tratava-se de poder?

Rose estava horrorizada. Em seu rosto se refletia sua angústia, sua cólera e sua vergonha.

— Emily, como pode pensar essas coisas de mim? É uma rasteira!

— Acha isso? – Era um desafio, um pedido para que lhe dissesse a verdade.

— Não fiz nada que prejudicasse a outras pessoas... – desceu o olhar além de Aubrey.

— E tem a coragem de reconhecê-lo? – Emily se negava a atirar a toalha. Via que Rose tremia e estava a ponto de desmoronar-se e perder o controle de si mesma. Agarrou-lhe a mão entre as suas, ocultando-a ainda com seu corpo ao resto de pessoas da sala, enquanto todos estavam ocupados falando, mexericando, flertando, criando e rompendo alianças –. O que precisava saber?

— Se meu pai morreu alienado – sussurrou Rose –. Às vezes faço loucuras; você mesma acaba de me perguntar se estava louca. Estou? Vou acabar louca como ele, morrendo sozinha em um manicômio? – Lhe quebrou a voz –. Aubrey vai ter que passar o resto de sua vida preocupando-se do que eu possa fazer? Vou ser uma vergonha para ele, alguém a quem terá que vigiar e por quem deverá desculpar-se continuamente, apavorado ante o que possa dizer ou fazer a seguir? – Ofegou –. Ele não permitiria que me encerrassem. Não é assim, é incapaz de salvar-se a si mesmo prejudicando a outra pessoa. Esperaria até que eu arruinasse sua vida, e me seria impossível suportá-lo!

Emily se sentiu aflita por uma compaixão que a deixou sem fala. Queria rodear ao Rose com os braços e estreitá-la muito forte para lhe infundir calor e consolo, mas era impossível. E se o fizesse, só conseguiria que as pessoas ocupadas e absortas daquela lotada sala se voltassem para olhá-las. Quão único podia oferecer eram palavras. Deviam ser as adequadas.

— É o medo o que faz que se comporte como uma lunática, Rose, não a loucura herdada. O que fez não é mais estúpido que o que qualquer de nós fazemos de vez em quando. Se necessitar saber do que morreu seu pai, deve haver outro modo de averiguá-lo através do médico que o atendeu...

— Então todo mundo se inteiraria! – exclamou Rose, com uma voz em que se percebia o pânico, aferrando as mãos do Emily – . Não poderia suportar!

— Não, não têm por que fazê-lo.

— Mas Aubrey...

— Eu irei com você – prometeu Emily –. Diremos que vamos passar o dia juntas e iremos perguntar o ao médico que o atendeu. Dirá-lhe se seu pai estava louco ou não. E se a resposta for afirmativa, explicará-lhe se é algo que ocorreu a ele só por causa de um acidente ou uma enfermidade, ou algo que poderia ter herdado. Há muitos tipos de loucura, não só uma.

— E se se inteira a imprensa? Acredite-me, Emily, se se chegasse a saber que fui a uma sessão de espiritismo, não seria nada comparado com isso!

— Então esperemos até que passem as eleições.

— Preciso sabê-lo já! Se Aubrey sai eleito e lhe dão um cargo no governo, no Ministério de Assuntos Exteriores... eu... – calou-se, incapaz de pronunciar as palavras.

— Então será terrível – disse Emily –. E se não estiver louca, mas o medo fez que perca o juízo, terá sacrificado para sempre todas suas oportunidades por nada. Além disso, o fato de não sabê-lo não mudará nada.

— Fará-o? – perguntou Rose –. Virá comigo? – Logo sua expressão mudou: a esperança se desvaneceu e voltou a escurecer-se e a encher-se de dor –. Suponho que logo irás falar com seu cunhado policial! – Era uma acusação nascida do desespero, e não uma pergunta.

— Não – respondeu Emily –. Não entrarei com você, e não me inteirarei do que lhe diga o médico. Além disso, à polícia não incumbe a enfermidade que lhe causou a morte... a menos que isso a levasse a matar Maude Lamont porque ela sabia.

— Eu não o fiz! Eu... nunca cheguei a lhe perguntar nada ao espírito de minha mãe. – Voltou a ocultar a cabeça entre as mãos, imersa na desdita, o medo e a vergonha.

Desta vez a deliciosa voz da cantora chegou flutuando do outro extremo da sala, e Emily se deu conta de que se ficaram sozinhas, à exceção de uma dúzia de homens que falavam com grande seriedade na outra esquina junto às portas do vestíbulo.

— Vamos – disse com firmeza –. Jogue um pouco de água fria no rosto. Logo iremos procurar uma xícara do chá que estão servindo na sala de jantar e nos reuniremos com outros. Faremos ver que estamos fazendo planos para uma festa ou algo assim. Mas será melhor que nos ponhamos de acordo. Uma festa... para arrecadar dinheiro para uma obra beneficente. Vamos!

Rose se levantou devagar, ergueu-se e obedeceu.

 

Pitt e Tellman voltaram para a casa de Southampton Row. Pitt estava cada vez mais certo de que o observavam quando entrava no Keppel Street, embora na realidade nunca tivesse visto ninguém além do carteiro que se mostrara tão inquisitivo, e o vendedor de leite que costumava estar com sua carroça na esquina da rua flanqueada de antigas cavalariças que comunicava com o Montague Place.

Tinha recebido duas breves cartas de Charlotte nas quais lhe dizia que tudo ia bem; sentiam muitíssimo sua falta , mas além disso estavam passando bem. Nenhuma das duas cartas levava remetente. Ele tinha respondido, mas tinha se assegurado de jogar as cartas longe de Keppel Street, onde o carteiro inquisitivo não pudesse as achar.

A casa do Southampton Row parecia tranqüila, até idílica, naquela calorosa manhã de finais do verão. Como sempre, havia mensageiros pela rua que assobiavam enquanto tinham peixe, frango ou alguma mensagem. Um deles gritou um galanteio atrevido a uma criada que afugentava um gato das escadas, e lhe repreendeu com um risinho.

— Cala, bobo! Nada de flores!

— Violetas! – gritou ele atrás dela, agitando os braços.

O interior da casa era algo bem diferente. As cortinas estavam parcialmente corridas, como correspondia em uma casa de luto, embora muita gente as corria de todo modo para proteger as habitações da intensa luz ou ter mais privacidade.

O salão no qual tinha morrido Maude Lamont continuava como ela o tinha deixado. Lena Forrest os recebeu com bastante amabilidade, embora ainda parecesse cansada, estava mais tensa. Talvez tivesse começado a compreender que a morte de Maude era algo real e que dentro de pouco tempo se veria na necessidade de achar outro emprego. Não podia ser fácil viver sozinha na casa onde uma mulher, a quem alguém tinha conhecido e visto todo dia nas circunstâncias mais íntimas, tinha sido assassinada fazia apenas uma semana. Dizia muito de sua fortaleza que não tivesse perdido o controle de si mesma.

Embora sem dúvida tivesse contemplado muitas vezes a morte, e o fato de que trabalhasse para Maude Lamont não significava que lhe tivesse afeto. Podia ter sido uma senhora dura, exigente, crítica e pouco considerada. Algumas mulheres achavam que suas criadas deviam estar disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite para atender seus recados, tanto se fossem realmente necessários, como se não.

— Bom dia, senhorita Forrest – disse Pitt com cortesia.

— Bom dia, senhor – respondeu ela–. O que posso fazer por vocês? – Abrangeu também Tellman com o olhar. Estavam em pé no salão, inquietos, todos eles conscientes do que tinha ocorrido ali, embora não do motivo. Pitt tinha estado refletindo muito sobre o tema e tinha falado brevemente disso pelo caminho.

— Sente-se, por favor – sugeriu Pitt –, e ele e Tellman também o fizeram –. Senhorita Forrest – começou. Ela estava muito atenta –. Posto que a porta principal estava fechada com chave, a porta envidraçada que dá ao jardim – lhe lançou um olhar – estava fechada, mas não com chave, e a única maneira de sair do jardim era pela porta que dá ao Cosmo Place, que estava fechada, mas sem trancar, é inevitável chegar à conclusão de que quem assassinou à senhorita Lamont foi uma das pessoas que estiveram na casa durante a sessão de espiritismo. A única alternativa é que os três estivessem confabulados, e não parece muito provável.

Ela assentiu em silêncio. Em seu rosto não se percebia nenhum sinal de surpresa. Certamente ela já tinha chegado a essa conclusão.

Tinha tido uma semana para pensar nisso, e aquele assunto devia ter deslocado quase todos os pensamentos de sua cabeça.

— Ocorreu-lhe alguma razão pela qual alguém poderia ter querido fazer mal à senhorita Lamont?

Ela vacilou com uma expressão dúbia. Saltava à vista que a embargava uma forte emoção.

— Por favor, senhorita Forrest – disse Pitt em tom premente –. Era uma mulher que tinha oportunidade de descobrir alguns dos segredos mais íntimos e delicados da vida de seus clientes, coisas das quais poderiam haver-se sentido terrivelmente envergonhados, pecados do passado, tragédias muito dolorosas para ser esquecidas.– Viu a instantânea compaixão que apareceu em seu rosto, como se sua imaginação alcançasse a aquelas pessoas e visse o horror de suas lembranças com todos seus horríveis detalhes. Talvez tivesse trabalhado para outras senhoras que tinham padecido profundas angústias: mortes de filhos, matrimônios desventurados, aventuras sentimentais que as atormentavam... A pessoa nem sempre se dava conta de quão bem conhecia uma criada é da sua senhora, do muito que sabia as vezes sobre sua vida mais íntima. Algumas senhoras talvez preferissem as ver como confidentes silenciosas; outras talvez se horrorizasse só pensando que outra pessoa pudesse presenciar seus momentos de maior privacidade e chegasse a saber tantas coisas. Do mesmo modo que nenhum homem era um herói para seu valete, nenhuma mulher era um mistério para sua criada.

— Sim – murmurou Lena –. Ninguém tem segredos para uma boa médium, e ela era muito boa.

Pitt a olhou, tratando de decifrar seu rosto, seu olhar, tentando descobrir se sabia mais do que sugeriam suas diretas palavras. Para Maude Lamont seria difícil ocultar à sua criada a existência de um cúmplice, tanto para forjar suas manifestações para obter informação pessoal a respeito de futuros clientes. A presença de um amante também se teria revelado cedo ou tarde, embora só fosse na atitude de Maude. Lena Forrest guardava-se esses segredos por lealdade à morta, ou por instinto de sobrevivência, porque, se os trouxesse a luz, quem ia contratá-la então no futuro para exercer um emprego tão delicado? E ela devia ter isso em conta. Maude Lamont já não estava ali para dar boas referências dela no relativo a seu caráter ou suas qualidades. Lena vinha de uma casa onde se cometera um assassinato. Suas perspectivas eram, se não se desesperadas, ao menos muito pouco aduladoras.

— Recebia visitas com regularidade, à margem das sessões de espiritismo? – perguntou Tellman –. Estamos procurando as pessoas que lhe davam informação sobre as pessoas a que ela depois dizia... as coisas que queria ouvir.

Lena baixou a vista, aparentemente envergonhada.

— Não é preciso saber muito. A pessoa se delata sozinha. E ela se dava muito bem em interpretar os rostos, compreender o que não diziam. Adivinhava coisas com muita rapidez. Não sabe, as vezes que eu pensava algo e ela sabia o que era antes que o dissesse.

— Procuramos agendas por toda a casa – disse Tellman ao Pitt –. Não encontramos nada além de listas de clientes. Devia memorizar tudo.

— O que pensava você de suas faculdades mentais, senhorita Forrest? – perguntou Pitt de repente –. Acredita na capacidade de ficar em contato com os espíritos dos mortos? – Observou-a com atenção. Ela tinha negado que tivesse ajudado Maude Lamont, mas sem dúvida tinha recebido alguma ajuda, e ali não havia ninguém mais.

Lena inspirou fundo e exalou o ar em um suspiro.

— Não sei. Como minha mãe e minha irmã morreram, eu gostaria de acreditar que estão em alguma parte onde pudesse voltar a falar com elas. – Seu rosto se escureceu, dominado por uma emoção tão profunda que com muita dificuldade podia controlá-la. Era mais que evidente que seguia sentindo um grande vazio, e Pitt lamentou ter que avivar a dor, e ainda mais, diante de outras pessoas. Era um tema que requeria privacidade.

— Viu alguma manifestação? – perguntou. A resposta ao assassinato do Maude Lamont se escondia, ao menos em parte, naquela casa, e tinha que encontrá-la, tanto se afetava a Voisey ou às eleições como se tinha outro tipo de implicações. Não podia deixar que o assassinato ficasse impune, independentemente da vítima e o motivo.

— Isso achava – disse ela vacilante –. Faz muito tempo. Mas quando quer algo desesperadamente, como fazia essa gente... – olhou de esguelha as cadeiras onde os clientes do Maude se sentaram nas sessões de espiritismo – talvez o vejam de todos os modos, não?

— Sim, é possível – concordou ele –. Mas a você não interessavam os espíritos com os que essas pessoas queriam ficar em contato. Pense em tudo o que ouviu, tudo o que sabia que a senhorita Lamont era capaz de inventar. Ouvimos falar com outros clientes de vozes, música, mas a levitação parece ter ocorrido só aqui.

Ela parecia desconcertada.

— Elevar-se no ar – explicou Pitt, e viu um repentino brilho de compreensão em seu olhar –. Tellman, dê outra olhada à mesa – ordenou. Voltou-se para Lena Forrest –. Recorda ter visto algo diferente a manhã seguinte a uma sessão: alguma coisa deslocada, um aroma característico, pós, algo?

A mulher guardou silêncio tanto tempo que ele se perguntou se se estava concentrando em algo ou simplesmente não tinha intenção de responder.

Tellman estava sentado na cadeira que costumava ocupar Maude. Lena tinha a vista cravada nele.

— Moveu alguma vez a mesa? – perguntou Pitt de repente.

— Não. Está cravada ao chão – respondeu Tellman.

Pitt se levantou.

— E a cadeira? – Enquanto o dizia se aproximou dela, e Tellman ficou em pé e a levantou. Com grande surpresa, viu que havia quatro leves fendas nas pranchas do chão onde tinham estado apoiados os pés. Certamente nem sequer o uso contínuo poderia as haver feito. Aproximou-se de uma das outras cadeiras e a levantou. Não havia fendas. Ergueu a vista rapidamente para a Lena Forrest e percebeu em seu rosto que sabia algo.

— Onde está a alavanca? – perguntou em tom grave –. Está em uma situação muito precária, senhorita Forrest. Não ponha em perigo seu futuro mentindo à polícia. – Detestava as ameaças, mas não podia perder tempo tratando de levantar o chão de madeira para achar o mecanismo, e precisava saber até que ponto estava envolvida. Podia ser crucial mais adiante.

Lena Forrest se levantou lívida e rodeou a cadeira. Inclinou-se e tocou o centro de uma das flores esculpidas na borda da mesa.

— Aperte-a – ordenou ele.

A mulher lhe obedeceu, e por um instante não aconteceu nada.

— Volte a apertá-la! – repetiu ele.

Ela ficou totalmente imóvel.

Pouco a pouco a cadeira começou a levantar-se, e ao descer a vista, Pitt viu que também se levantavam as pranchas do chão, mas só as que suportavam as quatro pernas. As demais permaneceram em seu lugar. Não se ouviu nenhum ruído. Quando estiveram uns vinte centímetros por cima da outra parte do chão, detiveram-se.

Pitt ficou olhando Lena Forrest.

— De modo que você conhecia ao menos este truque.

— Descobri-o recentemente – disse ela com voz trêmula.

— Quando?

— Depois de sua morte. Comecei a procurar. Não o disse por que parecia... – Baixou a vista e logo a levantou rapidamente –. Bom, agora está morta. Suponho que já não pode fazer nada. Agora não sabe nada.

— Acredito que será melhor que nos diga o que mais tem descoberto, senhorita Forrest.

— Não sei nada mais, só o da cadeira. Eu... inteirei-me do que fazia através de alguém que veio... com flores, para me dizer o muito que o sentia. De modo que olhei. Eu nunca estive em uma sessão de espiritismo. Nunca!

Pitt não conseguiu lhe surrupiar nada mais. Um minucioso exame da cadeira e a mesa e uma visita ao porão revelaram um mecanismo muito sofisticado e em perfeito estado, junto com várias lâmpadas para os abajures elétricos com as que estava equipada a casa e que também funcionavam mediante um gerador situado no porão.

— Por que há tantas lâmpadas? – perguntou Pitt pensativo quando retornaram ao salão –. Não há eletricidade na maior parte da casa, só no salão e na sala de jantar. O resto são abajures de gás e carvão para as estufas.

— Nem idéia – confessou Tellman –. Parece que utilizava a eletricidade sobre tudo para os truques. De fato, agora que o penso, só há três abajures elétricos. Talvez se propusesse instalar mais?

— E comprou primeiro as lâmpadas? – Pitt arqueou as sobrancelhas.

Tellman encolheu seus ombros quadrados e enxutos.

— O que devemos averiguar é o que sabia dessas três pessoas para que uma delas a matasse. Todos tinham segredos de alguma classe e ela os fazia chantagem. Aposto que é isso!

—Bom, Kingsley vinha pela morte de seu filho – respondeu Pitt –. A senhora Serracold queria ficar em contato com sua mãe, de modo que o seu certamente é um assunto familiar do passado. Temos que averiguar quem era Cartucho e por que vinha.

— E por que não disse nem sequer seu nome! – exclamou Tellman furioso –. Para mim que é alguém a quem reconheceríamos. E seu segredo é tão terrível que não podia correr riscos. – Grunhiu –. E se lhe reconheceu, e por isso ele teve que matá-la?

Pitt pensou nisso uns instantes.

— Mas segundo a senhora Serracold e o general Kingsley, não queria falar com ninguém em particular...

— Ainda não! Talvez o tivesse feito quando se convenceu de que ela tinha poderes! – exclamou Tellman, cada vez mais seguro –. Ou talvez quando se convenceu de que era uma autêntica médium, teria perguntado por alguém. E se ainda a estava pondo a prova? Segundo as duas testemunhas, dava a impressão de que era isso o que tentava fazer.

Tellman tinha razão. Pitt o reconhecia, mas não tinha resposta. A sugestão de que a terceira pessoa podia ter sido Francis Wray não era verossímil; não se dava como claro que se ajoelhara deliberadamente sobre o peito de Maude Lamont e lhe tinha metido à força pela boca a clara de ovo e a musselina, e a tinha segurado até que se asfixiou, bloqueando enquanto lhe enchiam os pulmões e lutando por sua vida.

Tellman o observava.

— Temos que achá-lo – disse em tom sombrio. – O senhor Wetron insiste que é o homem do Teddington. Diz que acharemos as provas ali se as buscarmos. Sugeriu como quem não quer a coisa que envie a uma brigada de homens e...

— Não! – interrompeu-lhe Pitt com brusquidão. – Se alguém tiver que ir, fá-lo-ei eu.

— Então será melhor que vá hoje – advertiu Tellman –. Ou Wetron poderia...

— A Brigada Especial se ocupa deste caso – lhe interrompeu de novo Pitt.

Tellman ficou rígido; seu ressentimento ainda era patente em seu olhar e em sua expressão severa. Tinha a mandíbula tensa e um pequeno músculo lhe palpitava na têmpora.

— Mas não temos muitos resultados, equivoco-me?

Pitt notou como se ruborizava. Era uma crítica justa, mas mesmo assim ofendia, e o fato de que na Brigada Especial estivesse fora de seu elemento e fosse consciente disso, e que outra pessoa ocupasse seu cargo no Bow Street, só piorava as coisas. Não se atrevia a pensar no fracasso, mas era uma idéia que sempre estava presente de forma vaga em sua mente, esperando um momento de descuido. Quando estava em sua casa vazia, cansado e sem saber bem qual devia ser o seguinte passo na investigação, aparecia como um fosso negro que se abrisse a seus pés, e o risco a cair nele era uma possibilidade muito real.

— Irei – disse taxativamente. – E mais vale que você trate de averiguar como obtinha a informação para as chantagens. Limitava-se a observar e escutar, ou investigava de forma ativa? Talvez nos seja útil.

Tellman estava indeciso, e em seu rosto se refletiam sentimentos desencontrados. Cólera? Culpabilidade? Talvez lamentasse haver dito alto o que pensava.

— Vê-lo-ei amanhã – murmurou, e se voltou para partir.

Sentado no trem em direção a Teddington, Pitt expôs todas as possíveis linhas de investigação relacionadas com Francis Wray. Tinha presente em todo tempo o folheto que tinha visto na mesa e que anunciava os serviços de Maude Lamont, e a expressão furiosa de Wray ao ouvir falar de médiuns. Resistia a acreditar que o ancião estava tão afetado pela morte de sua mulher que tinha perdido o equilíbrio mental, e, abismado na dor, tinha abandonado a fé que tinha professado toda sua vida e tinha ido a uma médium. Certamente, não seria o primeiro em fazê-lo, nem tampouco seria estranho. E com sua veemente convicção de estar cometendo um pecado, teria identificado a médium com a ofensa, e teria tratado de aplacar o ódio que sentia por si mesmo acabando com ela! Quanto mais se introduzia esse pensamento em sua cabeça, mais ferozmente tratava de negá-lo.

Ao chegar a Teddington desembarcou do trem, mas desta vez não se deteve no Udney Road e se encaminhou ao High Street. Desagradava-lhe ter que interrogar aos aldeãos sobre Francis Wray, mas não havia outra saída. Se não o fizesse, Wetron enviaria outros homens que seriam ainda mais torpes e causariam mais dano.

Tinha que ser engenhoso. Não podia dizer abertamente: "Acredita que o senhor Wray perdeu o juízo?". De modo que optou por perguntar se tinha extraviado coisas, se tinha tido algum lapsos de memória, se alguém se preocupava que não estivesse bem. Dar com as palavras adequadas não lhe foi tão difícil como tinha esperado, mas ver-se na obrigação de indagar como tinha afetado ao ancião a perda lhe pareceu uma das coisas mais desagradáveis que jamais tinha feito, não para a pessoas aquem se dirigiu, mas para ele mesmo.

Todas as respostas continham os mesmos elementos. Francis Wray era muito estimado e admirado; talvez o adjetivo "estimado" não tinha suficiente força. Mas as pessoas que lhe responderam também estavam preocupadas com ele, conscientes de que sua perda o tinha imergido em um estado de vulnerabilidade superior ao que eles consideravam que podia agüentar. Seus amigos não sabiam se iam visitá-lo ou não. Era uma forma de intrusão ante um sentimento íntimo ou um alívio da profunda solidão que reinava na casa, sem ninguém com quem falar além da jovem Mary Ann, que cuidava dele, mas não lhe fazia companhia?

Conseguiu surrupiar algo a um daqueles amigos, um homem aproximadamente da idade de Wray e também viúvo. Pitt o achou em seu jardim, atando umas malvarrosas magníficas a uma altura situada muito acima de sua cabeça.

— Só me preocupa – se justificou Pitt –. Não tenho nenhuma queixa.

— Não, é claro – respondeu Duncan, puxando um pedaço de corda do novelo e cortando-o com estupidez com suas tesouras de podar –. Temo que quando nos fazemos velhos e ficamos sós tendemos a aborrecer sem nos dar conta. – Sorriu compungido –. Suponho que eu mesmo o fiz nos dois primeiros anos depois da morte de minha mulher. Às vezes não podemos suportar falar com as pessoas, e outras vezes não lhes deixamos em paz. Alegro-me de que simplesmente deseje esclarecer que não é sua intenção ofender. – Cortou outro pedaço de corda e olhou Pitt com ar penalizado. – As senhoras jovens podem interpretar mal, sem dúvida e com razão, o desejo de desfrutar de vez em quando de sua companhia.

Pitt puxou a contra gosto o assunto das sessões de espiritismo.

— OH, céus, que desgraça! – O rosto do senhor Duncan se tingiu de preocupação –. Receio que está muito contra essa classe de coisas. Ele estava aqui quando vivemos uma tragédia no povoado, faz já muitos anos. – mordeu o lábio, esquecendo as malvarrosas –. Uma jovem teve um filho fora do matrimônio, já sabe. Chamava-se Penélope. O menino morreu pouco depois do parto, o pobrezinho. Penélope ficou consternada pela dor e foi a uma espírita, que lhe prometeu que ficaria em contato com o menino morto. – Suspirou –. Como era de esperar, a mulher era uma impostora, e quando Penélope se inteirou ficou como louca de desgosto. Pelo visto se achava que tinha falado com o menino e que tinha ido a um lugar muito melhor. Havia-se sentido reconfortada. – Crisparam-lhe os músculos de seu rosto –. E então o engano a fez enlouquecer e se tirou a vida.

Foi horrível, e o pobre Francis viu tudo e não pôde fazer nada para impedi-lo.

"Quis que se enterrasse à criança como é devido, mas, é claro, não o conseguiu , já que era um filho ilegítimo e não estava batizado. Suas relações com o pastor do povoado se ressentiram muito depois daquilo. Os sentimentos se mantiveram durante bastante tempo. Francis teria batizado o menino apesar de tudo e teria aceitado as conseqüências. Mas, claro, não tinha poder para fazê-lo.”

Pitt tratou de dar com as palavras que expressassem as emoções que estavam a ponto de explodir em seu interior, mas não achou nenhuma que se aproximasse da cólera ou a impotência que sentia.

— É claro, consolou-a o melhor que pôde – continuou Duncan –. Sabia que aquela mulher perversa era uma impostora, mas Penélope não quis escutar. Estava desesperada e se aferrava à esperança de que seu pobre filho continuava existindo em alguma parte. Era muito jovem. Logicamente, depois disso Francis está absolutamente contra toda classe de atividade espírita. De vez em quando empreende uma espécie de cruzada.

— Sim – disse Pitt, enquanto a compaixão percorria todo seu ser com uma intensa dor –. Entendo como se sente. Poucas coisas há tão amargas e cruéis, embora não tenha sido intencional.

— Sim, certamente – assentiu Duncan –. Entendo sua raiva. Acredito que eu mesmo me senti igual desde então.

Pitt lhe agradeceu e se despediu. Não era preciso interrogar mais pessoas. Era o momento de voltar a enfrentar Wray e pressioná-lo para que dissesse com mais exatidão onde tinha estado a noite que, segundo a agenda de Maude Lamont, Cartucho tinha estado no Southampton Row.

Quando Pitt chegou a Udney Road, Mary Ann lhe fez entrar sem lhe perguntar nada, e Wray em pessoa o recebeu com um sorriso na soleira de seu gabinete. Nem sequer perguntou a Pitt se ia ficar para tomar chá, mas pediu diretamente a Mary Ann que o preparasse, acompanhado de sanduíches e pão-doces com geléia de ameixa.

— A colheita do ano passado foi excelente – disse com entusiasmo, entrando no gabinete e convidando Pitt a sentar-se. Piscou e desceu a voz, empregando um tom muito suave –. A minha mulher se dava extraordinariamente bem fazendo geléia. A de ameixa era uma de suas favoritas.

Pitt se sentiu mal. Estava certo de que lhe notavam no rosto os remorsos que lhe acossavam quando pensava que devia pinçar na dor daquele homem que tão abertamente mostrava o afeto que lhe tinha e que confiava nele, e não tinha nem a mais remota suspeita de que não estava ali por motivos de amizade, apenas para fazer seu trabalho.

— Talvez fosse melhor que eu não tomasse – disse Pitt com tristeza –. Não preferiria guardá-la para...? – Não estava certo do que queria dizer.

— Não, não – assegurou Wray –. De maneira nenhuma. Receio que se acabou toda a de framboesa. Abusei um pouco. Mas eu adoraria compartilhar esta com você. Ela fazia realmente bem. – Uma repentina preocupação escureceu seu olhar –. A menos, é claro, que não goste.

— É claro que sim! Eu adoro!

— Bem. Então tomaremos. – Wray sorriu –. Agora me diga por que está aqui e como se encontra, senhor Pitt. Achou o desgraçado que estava vendo, aquele que matou a médium?

Pitt ainda não estava preparado para abordar aquele assunto. Achava que tinha um plano claro e se deu conta de que não era assim.

— Não... não o encontrei – respondeu –. E é importante que o faça. Talvez saiba algo que me ajude a averiguar por que a matou.

— Meu deus, que triste. – Wray sacudiu a cabeça –. Essas coisas sempre têm conseqüências funestas, sabe? Não devemos brincar com elas. Embora achemos que são inocentes, ao fazê-lo abrimos ao diabo nossas debilidades. E não duvide, senhor Pitt, é um convite que ele não deixará passar.

Pitt estava envergonhado. Era um âmbito de reflexão sobre o que nunca tinha meditado, talvez porque sua fé se apoiava mais na moralidade que na metafísica de Deus ou Satanás, e nunca se expôs se acreditava na invocação de espíritos. Entretanto, Wray falava muito a sério. A paixão refletida em seu rosto era inconfundível.

— Parece provável que essa mulher cometesse um delito muito humano, senhor Wray. Chantagem.

Wray sacudiu a cabeça.

— Um tipo de assassinato moral, diria eu – afirmou em voz muito baixa –. Pobrezinha. Receio que renunciou a muitas coisas.

Não pôde dizer nada mais sobre o tema porque bateram na porta, e um momento depois apareceu Mary Ann com a bandeja do chá. Estava cheia de pratos que pareciam pesados, e Pitt se levantou rapidamente para tirá-las das mãos, se por acaso lhe caía enquanto fazia o esforço por manter a porta aberta.

— Obrigada, senhor – disse ela com desconforto, ruborizando-se ligeiramente –. Mas não tem por que incomodar-se!

— Não é nenhum trabalho – assegurou Pitt. – Tem um aspecto magnífico e é muito abundante. Não me tinha dado conta de que tinha tanta fome.

Satisfeita, Mary Ann fez uma pequena inclinação e saiu quase correndo, deixando que Wray servisse Pitt com um sorriso.

— Uma boa garota – disse com um gesto de assentimento –. Faz todo o possível por me atender.

Qualquer resposta seria inútil. O conteúdo da bandeja demonstrava seus cuidados de forma mais contundente que qualquer palavra.

Comeram com gratidão em silencio durante uns minutos. O chá estava quente, os sanduíches eram deliciosos, e os pães-doces recém feitos, com manteiga e a deliciosa e doce geléia, esmigalhavam-se só tocando-os.

Pitt deu uma mordida em um pão-doce e levantou a vista. Wray observava-o com atenção, como se esperasse sua reação para ver se realmente gostava da geléia de ameixa e não suportasse perguntar-lhe.

Pitt não sabia se lhe dedicava uns elogios acesos, temendo que soassem forçados e que ao final a condescendência fora pior que o silêncio. A compaixão podia ser a maior ofensa. E entretanto, mostrar-se pouco entusiasta também podia ser desacertado, insensível e inútil.

— É uma pena que se acabe – disse com a boca cheia. – Será difícil voltar a achar uma como esta. Tem sabor e textura. Deve conter a quantidade exata de açúcar, porque não tem um gosto adocicado que danifique o sabor da fruta. – Respirou fundo e pensou em Charlotte, em Voisey, em tudo o que podia perder e em como isso destruiria todo o bom e valioso que havia em seu mundo –. Minha mulher faz a melhor geléia que jamais provei – acrescentou, e ficou horrorizado ao ouvir sua voz rouca.

— Sério? – Wray se esforçou por dominar-se e falar com certa normalidade. Ali estavam dois homens que mal se conheciam, tomando o chá da tarde e compartilhando suas opiniões sobre geléias e geléias, e sobre mulheres que amavam mais do que poderia expressar qualquer palavra.

Wray deixouas lágrimas correram por suas faces.

Pitt comeu o último pedaço de seu pão-doce.

Wray inclinou a cabeça. Os ombros começaram a lhe tremer, e em seguida começaram a sacudir-se. Fez um esforço para dominar-se.

Pitt se levantou em silêncio, rodeou a mesa e se sentou de lado no braço do sofá do ancião. Com pouca confiança no princípio, e logo com mais segurança, colocou uma mão no ombro, que lhe pareceu surpreendentemente frágil. A seguir lhe rodeou com o braço e, à medida que relaxava o peso, deixou-o chorar. Talvez fosse a primeira vez que se permitia fazê-lo desde a morte de sua mulher.

Não tinha nem idéia de quanto tempo levavam ali sentados quando Wray deixou por fim de estremecer-se e ergueu.

Devia lhe dar a oportunidade de recuperar a dignidade. Sem olhá-lo, Pitt se levantou e se aproximou da porta envidraçada que dava ao jardim ensolarado. Daria-lhe dez minutos pelo menos para que se acalmasse e lavasse o rosto, e depois poderiam fingir que não tinha ocorrido nada.

Estava em pé olhando para a rua quando viu que se aproximava uma carruagem. Era bonita, com excelentes cavalos e um cocheiro com libré. Observou com surpresa que se detinha ante a porta e que dela se apeava uma mulher com uma cesta coberta com um tecido. Era muito atraente, com o cabelo escuro e um rosto que não era de todo formoso a primeira vista, mas que denotava uma grande inteligência e personalidade. Andava com um garbo pouco comum, e não pareceu reparar nele até que teve a mão no trinco. A princípio talvez supôs que era o jardineiro, até que o olhou com mais atenção e se fixou em sua roupa.

— Boa tarde – disse com calma –. Wray está?

— Sim, mas não se sente muito bem – respondeu Pitt, aproximando-se dela –. Tenho certeza de que se alegrará de vê-la, mas por cortesia acredito que deveríamos lhe deixar uns minutos para recuperar-se, senhora...?

— Cavendish – respondeu ela. Tinha um olhar muito direto –. Conheço seu médico e não é você. Quem é você, senhor?

— Meu nome é Pitt. Só sou um amigo.

— Deveríamos chamar a seu médico? Posso enviar minha carruagem imediatamente. – voltou-se parcialmente– . Joseph! O doutor Trent...

— Não é necessário – se apressou a dizer Pitt –. Dentro de uns minutos se sentirá muito melhor.

Ela parecia hesitante.

— Por favor, senhora Cavendish. Se for sua amiga, talvez sua companhia seja o que mais lhe ajude. – Pitt desceu a vista para a cesta.

— Trouxe-lhe uns livros – disse ela com um leve sorriso –. E uns bolos de geléia. OH! Não tem de ameixa... só de framboesa.

— É muito amável – disse Pitt com sinceridade.

— Tenho-lhe muita apreço – respondeu ela –. Como tinha a sua mulher.

Ficaram ao sol uns minutos mais, e logo a porta envidraçada se abriu e saiu Wray, caminhando com cautela como se não estivesse muito seguro de seu equilíbrio. Tinha as faces rosadas e os olhos avermelhados, mas era evidente que jogara um pouco de água no rosto e virtualmente se recuperara. Pareceu surpreender-se ao ver a senhora Cavendish, mas não lhe desagradou absolutamente; talvez só se envergonhasse de que o encontrasse naquele estado de agitação mal dissimulado. Não olhou Pitt nos olhos.

— Querida Octavia – disse, efusivo –, é uma gentileza que volte, por aqui, e tão logo. É realmente generosa.

Sorriu-lhe com afeto.

— Penso muito freqüentemente em você – respondeu –. Gostava de vir. Todos lhe temos muitíssimo apreço. – Deu as costas ao Pitt, como se desejasse excluí-lo do comentário. Depois afastou o tecido da cesta. Encontrei uns livros que talvez queira ler, e uns bolos. Espero que você goste.

— Que gentileza – disse ele fazendo um grande esforço por mostrar-se sentido prazer –. Quer entrar e tomar uma xícara de chá?

A mulher aceitou e, lançando um olhar a Pitt, aproximou-se da porta envidraçada.

Wray se voltou para o Pitt.

— Senhor Pitt, quer voltar a entrar? Está em sua casa. Tenho a impressão de que não lhe ajudei muito, embora confesse que não tenho nem idéia de como fazê-lo.

— Não estou certo de que haja uma maneira – respondeu Pitt sem parar para pensar na derrota implícita do comentário –. E não pôde ser mais hospitaleiro comigo. Não o esquecerei. – Não mencionou a geléia, mas pelo repentino brilho nos olhos de Wray e a maneira em que se ruborizou, soube que o tinha compreendido perfeitamente.

— Obrigado – disse Wray emocionado, e antes de voltar a desmoronar-se, voltou-se e seguiu à senhora Cavendish até a porta envidraçada e entrou atrás dela.

Pitt caminhou entre as flores até a grade e saiu de Udney Road.

 

A brisa que chegava dos pântanos mal agitava as folhas da macieira que havia no jardim da casa de campo, e o silêncio e a escuridão eram completos. Deveria ter sido uma noite perfeita para dormir profunda e tranqüilamente. Mas Charlotte estava acordada na cama, consciente de sua solidão, aguçando o ouvido como se esperasse ouvir algum ruído, uns passos em alguma parte, o som de uma pedra solta ao ser pegada no atalho além da grade, talvez umas rodas ou, o que era mais provável, cascos de cavalo golpeando repentinamente uma superfície dura.

Quando por fim o ouviu, a realidade se impôs e percorreu todo seu ser como uma labareda. Afastou os lençóis e, cambaleando, deu os três passos escassos que a afastavam da janela e olhou fora. À luz dos lampiões não se viam mais que sombras de diferente intensidade. Poderia ter havido alguém e ela não o teria visto.

Ficou ali até que lhe arderam os olhos, mas não percebeu nenhum movimento; só outro ruído ligeiro, apenas um sussurro. Uma raposa? Um gato de rua ou uma ave de rapina noturna? No dia anterior tinha visto uma coruja ao entardecer.

Voltou em silêncio à cama, mas continuou acordada, esperando.

 

Emily também custava dormir, mas era a culpa o que a inquietava, e uma decisão que não queria tomar, mas que sabia inelutável. Entre todas as possibilidades que tinha baralhado para explicar o temor que atormentava Rose, nunca tinha incluído a demência. Tinha pensado na possibilidade de um desafortunado idílio antes que conhecesse Aubrey, ou inclusive depois, a existência de um filho perdido ou a morte de algum membro de sua família com quem tinha discutido e ao que já não podia pedir perdão. Nenhuma só vez tinha imaginado algo tão terrível como a demência.

Não podia comprometer-se a dizer a Pitt, e entretanto, em seu foro interno sabia que devia fazê-lo; simplesmente ainda não estava preparada para admiti-lo. Queria acreditar que ainda havia uma maneira de proteger Rose... do que? Da injustiça? Das críticas baseadas unicamente em uns quantos fatos? Da verdade?

Deu-lhe voltas à idéia de ir ver Pitt na manhã seguinte, uma hora depois do café da manhã, quando tivesse tido tempo para recuperar-se e pensar exatamente o que ia dizer e como expressá-lo.

Mas a sinceridade lhe obrigava a reconhecer que se esperasse tanto o mais seguro era que Pitt já tivesse saído, e se se expor fazê-lo era só para dizer-se a si mesmo que o tinha tentado, quando em realidade teria ido sabendo que era muito tarde.

De modo que se levantou às seis, quando sua criada lhe trouxe a xícara de chá quente que lhe tinha pedido, que lhe deu forças para enfrentar a um novo dia. Vestiu-se e saiu de casa às sete e meia. Uma vez que alguém tomou a decisão de fazer algo que sabe que será difícil e desagradável, é melhor fazê-lo imediatamente, antes de pensar muito nisso e angustiar-se pelo que pode sair mal.

Pitt se surpreendeu ao vê-la. Ficou na soleira do Keppel Street em mangas de camisa e sem sapatos, e tão despenteado como sempre.

— Emily! – Sua preocupação foi imediata –. Aconteceu algo? Está bem?

— Sim, se passou algo – respondeu ela –. E não estou certa de se logo vou estar bem ou não.

Pitt se fez a um lado convidando-a a entrar e a seguiu até a cozinha. Emily se sentou em uma das cadeiras de espaldar duro e só então se permitiu lançar uma rápida olhada ao entorno conhecido, tão sutilmente diferente sem Charlotte nem Gracie. Dava a impressão de ter estado desocupada, como se ali só se fizesse o indispensável e não se assassem bolachas nem se guisasse, e nos fios de estender junto ao teto pendiam muito poucas roupas. Só Archie e Angus, estirando-se acordados frente ao fogão, pareciam achar-se totalmente a gosto.

— Chá? – perguntou Pitt, assinalando o bule da mesa e a chaleira de água que assobiava fracamente no fogo –. Torradas?

— Não, obrigada – respondeu declinando o oferecimento.

Pitt se sentou, esquecendo-se de sua xícara meio bebida.

— Do que se trata?

Era muito tarde para mudar de opinião... Bom, quase. Ainda estava a tempo de dizer outra coisa. Ele a olhava, esperando. Talvez ele o surrupiasse, tanto se ela quisesse como se não. Se titubeava muito o faria, liberando-a assim do sentimento de culpa.

Entretanto, isso seria como mentir-se a si mesmo. Estava ali. "Atua ao menos com um pouco de integridade!". Arqueou as sobrancelhas e olhou-o fixamente.

— Ontem à noite vi Rose Serracold e falei com ela como se estivéssemos sozinhas. É algo que às vezes acontece nas grandes festas: encontra-se como em uma ilha no meio do ruído, de modo que ninguém o ouça. Acossei-a para que me dissesse por que foi ver Maude Lamont. – interrompeu-se, recordando como tinha encurralado Rose em um canto emocional. "Assediar" era a palavra adequada.

Pitt esperou sem apressá-la.

— Teme que seu pai morreu louco. – Emily se deteve bruscamente ao ver o assombro do Pitt, que imediatamente se transformou em horror –. Aterra-lhe a idéia de ter herdado a mesma enfermidade – continuou em voz baixa, como se ao sussurrá-lo pudesse aliviar a dor –. Queria perguntar ao espírito de sua mãe se era certo, se estava realmente louco. Mas não teve oportunidade. Maude Lamont morreu muito cedo.

— Entendo. – Pitt permaneceu sentado imóvel, olhando-a fixamente– . Podemos falar com o general Kingsley para que confirme ao menos que não se pôs em contato com sua mãe quando partiu.

Emily se sobressaltou.

— Acha que ela poderia ter tornado depois para ter uma sessão de espiritismo privada?

— Alguém voltou ou ficou atrás, pela razão que for – indicou ele.

— Não foi Rose! – exclamou ela com mais convicção do que sentia –. Queria ela viva! – inclinou-se sobre a mesa –. Continua tão assustada que não pode controlar-se, Thomas. Ainda não sabe! Quer localizar outra médium para continuar perguntando.

A chaleira de água assobio com mais insistência no fogão e ele não se alterou.

— Ou Maude Lamont lhe disse algo que ela resiste a acreditar – disse com suavidade –. E teme que alguém o descubra.

Emily o olhou, desejando que não a entendesse tão bem, que não lhe lesse os pensamentos que se amontoavam em sua cabeça e que preferiria manter ocultos. E entretanto, se pudesse enganá-lo tampouco se sentiria aliviada. Sempre tinha acreditado que seu dom de pessoas era sua maior virtude. Era capaz de cativar e enrolar às pessoas, e freqüentemente conseguia que as pessoas fizessem o que ela queria sem que se dessem conta sequer de que o que abraçavam com tanto entusiasmo em realidade tinha sido idéia dela.

O uso daquele dom a deixava estranhamente insatisfeita. Cada vez era mais consciente disso. Não queria ver mais do que via Jack, nem ser mais forte ou mais esperta que ele. O fato de levar vantagem fazia que se sentisse muito sozinha. A pessoa tinha que aceitar às vezes a carga; fazia parte do amor e da responsabilidade, embora só às vezes, não sempre. E era uma satisfação simplesmente porque era o correto e o justo, um ato de generosidade, não porque proporcionasse algum alívio.

Assim, embora lhe incomodasse que Pitt a pressionasse para que lhe dissesse mais do que queria dizer, também se sentiu aliviada ao ver que não podia enrolá-lo respondendo pela metade. Necessitava que ele fosse mais esperto que ela, porque ela não era capaz de ajudar Rose nem estava segura de como ajudá-la. Talvez só piorasse as coisas. Dava-se conta de que não estava totalmente convencida de que Rose não se achasse à beira da loucura; invadida pelo pânico, podia ter acreditado que Maude Lamont conhecia seu segredo e que a punha em perigo a ela e depois a Aubrey. Recordou o quão rapidamente que Rose se voltou contra ela quando tinha tido medo. A amizade se desvaneceu como a água que se joga sobre a superfície quente da prancha e se evapora ante os olhos.

— Jurou-me que ela não a matou – disse alto.

— E você gostaria de acreditar nela. – Pitt deixou de refletir. Levantou-se e se aproximou do fogão para afastar a chaleira do fogo. Depois se voltou para ela –. Espero que tenha razão. Mas alguém o fez. Tampouco eu gostaria que fosse o general Kingsley.

— A pessoa anônima – concluiu Emily –. Ainda não sabe quem é... não é?

— Não.

Emily olhou para Pitt. Havia dor e hermetismo no olhar daquele homem. Ele não mentia – não lhe constava que o tivesse feito alguma vez –, mas havia um mundo de sentimentos e fatos que não estava disposto a compartilhar com ela.

— Obrigado, Emily – disse ele, voltando para a mesa –. Disse-lhe se alguém mais estava informado desse medo? Sabe Aubrey?

— Não. – Ela estava totalmente convencida –. Aubrey não sabe, e se está pensando que Maude Lamont lhe fez chantagem, acredito que se equivoca. – Enquanto dizia aquilo se sentiu sacudida repentinamente pela ansiedade, e foi consciente de que não era mais que uma verdade pela metade. Tinha-o percebido Pitt em seu rosto?

Ele deu ligeiramente de ombros.

— Talvez Maude Lamont ainda não soubesse – disse secamente –. Talvez alguém salvou Rose pelos cabelos.

— Aubrey não sabe, Thomas! Com certeza!

— Provavelmente não.

Acompanhou-a à porta principal, pegando sua jaqueta pelo caminho, e uma vez fora aceitou o oferecimento que lhe fez de levá-lo em sua carruagem até Oxford Street, onde ela seguiu para o oeste para voltar para sua casa. Ele se dirigiu ao sul, para os arquivos do Escritório de Guerra para averiguar o que tinha obrigado o general Kingsley a atacar ao partido político em cujos valores sempre tinha acreditado. Certamente estava relacionado de algum modo com a morte de seu filho, ou com algum fato que tinha ocorrido pouco depois dela.

Estava ali mais de uma hora, lendo expediente detrás expediente, quando se deu conta de que continuava sem saber nada daquele homem, além de uma corrente de palavras formais e impessoais. Era como ver o esqueleto de um homem e tratar de imaginar o aspecto de seu rosto, sua voz, sua risada e o modo em que se movia. Ali não havia nada. E se o tinha havido, tinha sido oculto. Podia passar o dia lendo, mas não averiguaria nada.

Copiou os nomes de quase todos outros oficiais e homens que tinham estado no Mfolozi para averiguar se algum deles vivia em Londres e estivesse talvez disposto a lhe dizer algo mais. Agradeceu ao encarregado e partiu.

Já tinha dado ao cocheiro o endereço do primeiro homem da lista quando mudou de parecer e lhe deu a de lady Vespasia Cumming-Gould. Talvez fosse uma rabugice ir vê-la sem que lhe houvesse convidado, mas nunca tinha visto que se negasse a ajudar em alguma causa em que acreditasse. E depois do Whitechapel – onde tinham compartilhado não só a luta propriamente dita, mas uma profunda emoção, uma sensação de medo e de perda, e uma vitória obtida a um preço terrível , entre ambos se tinha criado um vínculo que não se assemelhava a nenhum outro.

Apresentou-se, portanto, com confiança em sua casa e disse à criada que lhe abriu a porta que precisava falar com lady Vespasia de um assunto de certa urgência. Esperaria o tempo que fosse necessário até que ela considerasse oportuno recebê-lo.

Deixaram-no só no salão da manhã, mas a espera acabou durado só uns minutos, e logo lhe conduziram à sala de estar que dava ao jardim, e que sempre parecia cheia de tranqüilidade e de uma luz débil, independentemente da estação em que se encontrassem ou do tempo que fizesse.

O traje da Vespasia era de um tom rosa tão sutil que nem sequer era rosa, e levava as pérolas que sempre exibia ao redor do pescoço. Saudou-lhe com um sorriso e lhe estendeu uma mão de forma muito delicada, não para estreitar a sua, mas sim como um gesto para lhe convidar a entrar.

— Bom dia, Thomas. Que alegria vê-lo. – Esquadrinhou seu rosto– . De certo modo imaginava que viria desde que Emily veio ver-me. Ou talvez fosse mais exato dizer que de certo modo o esperava. Voisey vai se apresentar ao Parlamento. – Não podia pronunciar sequer seu nome sem que sua voz se visse empanada pela emoção. Devia recordar ao Mario Corena e os sacrifícios que havia custado derrotar Voisey.

— Sim, sei – murmurou ele. Teria gostado de calar aquela informação, mas ela nunca tinha evitado nada em toda sua vida e protegê-la agora seria sem dúvida um grande insulto –. Por isso estou aqui, em Londres, em vez de com Charlotte no campo.

— Me alegro de que esteja fora. – Vespasia tinha um rosto inexpressivo –. Mas o que acha que pode fazer, Thomas? Não sei muito de Víctor Naraway. Perguntei por aí, mas as pessoas com as que falei também sabem pouco ou não estão disposta a me dizer nada. – Olhou-o com firmeza –. Tome cuidado e não confie nele mais do que o prudente. Não dê por assentado que se preocupa com você ou que lhe é leal, como o era o capitão Cornwallis. Ele não é um homem franco...

— Sabe? – perguntou Pitt, interrompendo-a intencionalmente.

Ela esboçou um sorriso quase imperceptível sem mal mover os lábios.

— Meu querido Thomas, a Brigada Especial foi concebida e criada para apanhar a anarquistas, terroristas e toda classe de homens, e suponho que a algumas mulheres, que tramam em segredo derrocar nosso governo. Alguns deles se propõem substituí-lo por outro de sua escolha, e outros simplesmente querem destruí-lo sem expor-se o mínimo o que virá a seguir. Alguns, é claro, tem lealdades com outros países. Pode imaginar John Cornwallis organizando um exército para detê-los antes que o consigam?

— Não – admitiu Pitt com um suspiro –. É um homem valente e totalmente honrado. Esperaria lhes ver o branco dos olhos antes de disparar.

— Convidaria-os a render-lhe corrigiu ela – . A Brigada Especial necessita a um homem matreiro, sutil e com muita imaginação, um homem que se mova entre as sombras e não se deixe ver em público. Não esqueça.

Pitt tinha frio inclusive ao sol.

— Acredito que o general Kingsley estava sendo chantageado por Maude Lamont... Ao menos parece que era ela.

— Em troca de dinheiro? – Vespasia estava surpreendida.

— Pode ser, mas acredito que o mais provável é que o fizesse para atacar Aubrey Serracold nos jornais, advertindo sua inexperiência e quão provável era que reagisse mal e se prejudicasse ainda mais a si mesmo.

— Meu deus. – Ela sacudiu a cabeça muito ligeiramente.

— Um deles a matou – continuou ele –. Rose Serracold, o general Kingsley ou o homem cotado em sua agenda com um cartucho, um pequeno desenho parecido a um f ao contrário com um semicírculo em cima.

— Muito curioso. E tem alguma idéia de quem poderia ser?

— O superintendente Wetron acredita que é um ancião professor de teologia que vive em Teddington.

Vespasia abriu muito os olhos.

— Por quê? Parece algo muito perverso para um homem religioso. Pretendia desmascará-la e demonstrar que era uma impostora?

— Não sei. Mas... – Pitt hesitou, sem saber muito bem como explicar seus sentimentos ou seus atos –. Não acredito realmente que fosse ele, mas não estou certo. Sua mulher morreu recentemente e está profundamente afetado. Opõe-se firmemente aos médiuns. Acredita que encarnam o mal e são contrários aos mandamentos de Deus.

— E tem medo de que a esse homem, transtornado pela dor, lhe metesse na cabeça acabar para sempre com essa médium? – concluiu ela –. Querido Thomas, tem muito bom coração para seu trabalho. Às vezes os homens mais bondosos podem cometer os enganos mais terríveis e causar uma desgraça indescritível enquanto se derrubam na obra de Deus. Nem todos os inquisidores da Espanha foram homens cruéis e de miras estreitas, sabe? Alguns achavam sinceramente que estavam salvando as almas de quem estava a seu cargo. Se soubessem a opinião que nos merecem agora, ficariam perplexos. – Sacudiu a cabeça – . Às vezes vemos o mundo de forma tão diferente que alguém juraria que não estamos falando da mesma existência. Alguma vez interrogou a meia dúzia de testemunhas sobre um mesmo fato ocorrido na rua, ou lhes pediu que descrevessem a uma pessoa, e recebeu outras tantas respostas que, embora totalmente sinceras, contradizem-se e anulam umas às outras?

— Sim. Mas continuo sem acreditar que seja culpado de ter matado Maude Lamont.

— Não quer acreditá-lo. O que posso fazer por você além de escutar?

— Devo descobrir quem matou Maude Lamont, embora na realidade seja tarefa de Tellman, porque as pessoas a quem ela fazia chantagem fazem parte de um plano para desacreditar Serracold...

O olhar da Vespasia se encheu de tristeza e cólera.

— Já o conseguiram, com a ajuda desse pobre homem. Vai necessitar de um milagre para salvá-lo agora. – E a seguir se animou –. A menos, é claro, que possa demonstrar que Voisey teve algo que ver com isso. Fez-se que a assassinassem... – interrompeu-se –. Acredito que não teremos tanta sorte. Não seria tão néscio. Por cima de tudo é esperto. Mas com certeza está atrás da chantagem, só depende de até que ponto! Pode demonstrá-lo?

Pitt se virou ligeiramente para frente.

— Talvez.

Viu os olhos brilhantes de Vespasia e soube que de novo estava pensando no Mario Corena. Não podia chorar. Já tinha derramado todas as lágrimas por ele, primeiro em Roma em 1848 e depois em Londres fazia apenas umas semanas. Mas ainda sentia a perda em carne viva. Talvez sempre a sentisse.

— Preciso saber por que estavam chantageando Kingsley – continuou –. Acredito que está relacionado com a morte de seu filho. – Explicou-lhe brevemente o que tinha averiguado, primeiro sobre o próprio Kingsley e sua participação nas guerras zulús, e depois sobre a emboscada do Mfolozi, imediatamente depois do heroísmo mostrado no Rorke's Drift.

— Entendo – disse ela quando ele terminou. – Custa seguir os passos de um pai ou um irmão que teve êxito nos olhos do mundo, sobre tudo no terreno da coragem militar. Muitos jovens estragaram suas vidas antes que se dissesse que tinham traído as esperanças que se puseram neles. – Sua voz denotava certa tristeza, e seu olhar refletia vividas e dolorosas lembranças. Talvez pensasse em Crimea, Balaclava, a Alma, Rorke's Drift, Isandlhawana, a rebelião dos cipayos e sabia Deus quantas outras guerras e perdas. Sua lembrança poderia haver-se estendido inclusive até sua infância e Waterloo.

— Tia Vespasia... ?

Voltou para o presente com um sobressalto.

— É claro – assentiu –. Não me seria difícil me inteirar por algum amigo do que passou na realidade ao jovem Kingsley em Mfolozi, mas acredito que não tem muita importância, exceto para seu pai. Sem dúvida, para lhe chantagear expôs a possibilidade de que tivesse morrido como um covarde. Não tinha por que ser a verdade. Os maus não são os únicos que fogem quando ninguém lhes persegue, também o fazem as pessoas vulneráveis, as que se preocupam com mais coisas do que são capazes de confrontar e têm abertas feridas que não podem proteger.

Pitt pensou nos ombros fundos de Kingsley e nas rugas de seu rosto gasto. Era preciso um sadismo muito peculiar para torturar daquele modo a um homem em benefício próprio. Por um momento odiou Voisey com uma paixão que teria explodido em violência física se o tivesse diante.

— Claro que o incidente de sua morte poderia ser tão confuso que resulte impossível discernir entre a verdade e a mentira – continuou Vespasia– . Mas farei todo o possível por averiguá-lo, e se descobrir algo que possa ajudar a lhe tranqüilizar, informarei disso o general Kingsley.

— Obrigado.

— Embora não nos servirá de muito na hora de relacionar a chantagem com Voisey – continuou ela, com um tom de cólera na voz –. Que esperanças tem de descobrir a identidade dessa terceira pessoa? Suponho que sabe que é um homem. Referiu-se a ele como alguém de sexo masculino.

— Sim, é um homem de idade madura, cabelo loiro ou cinza, e estatura e constituição médias. Parece ser culto.

— Seu teólogo – disse ela com tristeza –. Se foi a uma médium com a intenção de demonstrar que era uma impostora e desmascará-la diante de seus clientes, para Voisey não teria agradado muito. Acredito que devemos supor que quer vingar-se, talvez lhe pressionando muito.

Era impossível rebater aquelas palavras. Pitt recordou o olhar de Voisey quando se cruzaram na Câmara dos Comuns. Não esquecia nem perdoava nada. De novo se surpreendeu sentindo frio apesar de estar sentado ao sol.

Vespasia tinha o sobrecenho franzido.

— O que ocorre? – perguntou ele.

Viu que havia uma sombra de preocupação em seus olhos de cor cinza prateada, e que não só tinha o corpo erguido na disciplinada postura adquirida durante décadas de autodomínio, mas seus ombros estavam rígidos pela tensão.

— Pensei muito nisso, Thomas, e continuo sem entender por que o despediram pela segunda vez do Bow Street.

— Voisey! – exclamou ele com uma amargura que o surpreendeu. Achava que podia controlar sua cólera, a violenta reação que lhe provocava semelhante injustiça, mas nesse momento se sentiu de novo açoitado por uma onda que lhe afogava.

— Não – disse ela, quase sem fôlego –. Por muito que o odeie, Thomas, nunca fará nada que vá contra seu próprio interesse. Essa é sua maior virtude. Sua mente manda sempre sobre seu coração. – Olhou fixamente à frente –. E não lhe interessa tê-lo na Brigada Especial, que é aonde devia supor que voltaria se o despedissem de novo do Bow Street. Para a polícia, a menos que ele cometa um crime, seus assuntos ficam fora de sua jurisdição. Se o colocar com ele, pode acusá-lo de perseguição e fazer que lhe prendam. Pelo contrário, na Brigada Especial suas obrigações são muito menos concretas. A Brigada Especial é secreta, não responde ante o público. – voltou-se para ele –. Mantém sempre a seus inimigos onde possa vê-los. Voisey não é tão estúpido para havê-lo esquecido.

— Então por que o faria? – perguntou Pitt, confundido pela lógica dela.

— Talvez não fosse Voisey – disse Vespasia com muita cautela.

— Então quem? – perguntou ele– . Quem, além do Círculo Interior, teria poder para atuar às costas da rainha desfazendo o que ela fez? – Era uma idéia escura e aterradora. Não sabia de ninguém a quem tivesse ofendido, nem de outras sociedades secretas com tentáculos que alcançassem o coração do governo.

— Thomas, pensou atentamente no efeito que teve no Círculo Interior a concessão do título de sir ao Voisey, e a razão disso? – perguntou Vespasia.

— Eu esperava que acabasse com sua liderança – respondeu ele com sinceridade. Tratou de conter a ira e a bílis que lhe gerava sua decepção . Dói-me que não o tenha feito.

— Não há muitos idealistas entre eles – respondeu Vespasia com tristeza –. Mas parou para pensar em que poderia ter suposto uma fratura do poder no seio do Círculo? Que poderia ter surgido um líder rival que levou consigo uma parte suficiente do velho Círculo para formar um novo?

Pitt não tinha pensado nisso, e à medida que a idéia tomava forma em sua mente, vislumbrou toda classe de possibilidades, perigosas para a Inglaterra, mas também extremamente perigosas para o próprio Voisey. Saberia quem era seu rival, mas estaria alguma vez seguro da lealdade que podia esperar de outros?

Vespasia leu seus pensamentos ao observar o rosto do Pitt.

— Não cante vitória ainda – lhe advertiu ela –. Se estiver certa, trata-se de um rival muito poderoso que não sente por você mais apreço que por Voisey. Nem sempre se cumpre isso de que "os inimigos de meu inimigos são meus amigos". Não é possível que fosse ele quem o tirou do Bow Street, porque acredita que na Brigada Especial será um espinho cravado para Voisey, e que possivelmente com o tempo até destrua Voisey por ele? Ou porque lhe interessa mais ter à superintendente Wetron no comando do Bow Street que a você?

— Wetron no Círculo Interior?

— Por que não?

Não havia nenhum motivo para isso. Quanto mais pensava naquela questão, mais se esclarecia o panorama nos olhos do Pitt. Sentia emoção, o pulso acelerado ante a idéia de perigo, mas também medo. Quando dois homens poderosos lutavam abertamente, deixavam detrás de si uma esteira repleta de vítimas.

Pitt continuava considerando as implicações daquele assunto quando apareceu na porta a criada com expressão alarmada.

— Sim?

— Senhora, há um tal senhor Narraway que quer ver o senhor Pitt. Disse que esperaria, mas que devia lhes interromper. – Não se desculpou com palavras, mas sim empregando os gestos e a voz.

— Seriamente? – Vespasia se ergueu em sua cadeira –. Então será melhor que o faça passar.

— Sim, senhora. – Fez uma leve inclinação e se retirou, obediente.

Pitt olhou Vespasia nos olhos. Centenas de idéias se cruzaram entre ambos, todas silenciosas e marcadas pelo medo.

Narraway apareceu um momento depois. Tinha o rosto sombrio pela consternação e a derrota. Até estando erguido, a cabeça lhe pesava sobre os ombros.

Pitt se levantou muito devagar e viu que lhe tremiam as pernas. Em sua cabeça se amontoavam pensamentos terríveis. O mais funesto e persistente de todos, capaz de deslocar ao resto, era que tinha ocorrido algo à Charlotte. Tinha os lábios secos, e quando tratou de falar não lhe saiu a voz.

— Bom dia, senhor Narraway – disse Vespasia com frieza– . Rogo-lhe que se sente e nos diga o que o fez vir pessoalmente a minha casa para falar com o Thomas.

Ele continuou em pé.

— Sinto muito, lady Vespasia – disse ele em voz muito baixa e sem mal olhá-la, antes de voltar-se para Pitt. – Acharam ao Francis Wray morto esta manhã.

Por um momento Pitt não entendeu o que aquilo significava. Estava enjoado, tudo girava a seu redor. Não tinha nada que ver com o Charlotte. Ela estava a salvo. Tudo ia bem! Seus temores não se fizeram realidade. Quase temeu pôr-se a rir de pura histeria por causa do alívio. Teve que fazer um grande esforço por dominar-se.

— Sinto-o – disse. E efetivamente o sentia, ao menos em parte. Wray lhe tinha se agradado. Mas tendo em conta quão imerso estava em sua dor, a morte talvez não fosse tão terrível; só uma forma de reencontro.

A expressão de Narraway permaneceu imperturbável, à exceção do músculo que se moveu ligeiramente perto de sua boca.

— Pelo visto foi um suicídio – disse com esperança –. Ontem à noite ingeriu veneno, e sua criada o achou esta manhã.

— Suicídio! – Pitt estava horrorizado. Negava-se a acreditar. Não podia imaginar Wray fazendo algo que considerava totalmente contrário à vontade de Deus, em quem tinha posta toda sua confiança: o único caminho para reencontrar-se com seus seres queridos – . Não... tem que haver outra explicação! – protestou com voz áspera e forte.

Narraway parecia impaciente, como se uma temível cólera se ocultasse atrás de seu aparente domínio de si mesmo.

— Deixou uma nota – disse com amargura –. Um poema do Matthew Arnold. E sem esperar, citou-o de cor:

 

Se deite silencioso em seu estreito leito e que não lhe diga nada mais!

Vão é seu arremesso! Tudo se mantém firme.

Você mesmo se desmoronará por fim.

Que afastamento a longa luta!

Os gansos são cisnes, os cisnes são gansos.

Que se faça sua vontade!

Os que estão cansados, melhor que não se movam.

 

Narraway não afastou o olhar de Pitt.

— Parece-se bastante ao que a maioria das pessoas entendem por uma nota de suicídio – murmurou–. E a irmã de Voisey, Octavia Cavendish, que era amiga de Wray desde muito tempo, foi vê-lo justo quando você partia ontem pela tarde. Encontrou-o um pouco agitado. Em sua opinião tinha estado chorando. Você se tinha dedicado a fazer perguntas sobre ele pelo povoado.

Octavia Cavendish era irmã de Voisey! Pitt notou como ficava lívido.

— Tinha estado chorando por sua mulher! – protestou, mas percebeu uma nota de desespero em sua voz. Apesar de dizer a verdade, soava como uma desculpa.

Narraway assentiu muito devagar, com os lábios apertados em uma fina linha.

— É a vingança de Voisey – sussurrou Vespasia –. Não lhe importou sacrificar a um ancião para acusar a Thomas de havê-lo empurrado a tirar a vida.

— Não o fiz... – começou a dizer Pitt, mas ao ver o olhar dela se interrompeu. Era Wetron quem lhe tinha dado o nome de Wray e tinha sugerido que era o homem que se escondia atrás do cartucho. E segundo Tellman, era Wetron quem tinha insistido em que Pitt reatasse seu primeiro interrogatório, ou enviaria a seus homens, sabendo sem dúvida que Pitt iria permiti-lo. Estava com Voisey ou contra ele? Ou ambas as coisas conforme lhe conviesse?

Vespasia se voltou para Narraway.

— O que vai fazer? – perguntou, como se fosse inconcebível que não fizesse nada.

Narraway parecia derrotado.

— Tem toda a razão, senhora. É a forma de vingar-se de Voisey, e é perfeita. Os jornais crucificarão Pitt. Francis Wray era um homem muito venerado e inclusive querido por todos os que o conheciam. Tinha sofrido muitos reversos do destino com coragem e dignidade: primeiro a perda de seus filhos e depois a de sua mulher. Alguém já disse à imprensa que Pitt suspeitava que tivesse ido ver Maude Lamont e depois a tinha assassinado.

— Não é certo! – exclamou Pitt desesperado.

— Isso não vem ao caso! – exclamou Narraway, rechaçando sua queixa –. Você estava tratando de averiguar se era Cartucho, e Cartucho está entre os suspeitos. Preocupa-se com a profundidade da água em que se acabará afogando. É bastante profunda. Que importa se forem dois, trinta ou cem braças?

— Tomamos chá – disse Pitt, virtualmente para si –. Com geléia de ameixa. Não ficava muita. Foi um gesto de amizade que a compartilhasse comigo. Falamos do amor e da perda de um ser querido. Por isso se se pôs a chorar.

— Duvido que seja isso o que diga a senhora Cavendish – replicou Narraway –. E ele não era Cartucho. Apareceu alguém que assegura que sabe exatamente onde esteve Wray na noite da última sessão de espiritismo do Maude Lamont. Jantou tarde com o pároco do povoado e sua mulher.

— Acredito que já o perguntei, senhor Narraway. O que se propõe fazer a respeito? – perguntou Vespasia com tom mais áspero.

Narraway se voltou para ela.

— Não há nada que eu possa fazer, lady Vespasia. Os jornais dirão o que quiserem, e não tenho poder sobre eles. Acreditam que um ancião inocente e desconsolado foi empurrado ao suicídio por um policial que põe excessivo zelo em seu trabalho. Há consideráveis provas nesse sentido, e não posso demonstrar que sejam falsas, embora acredite que o são. – Em sua voz não havia a menor convicção; só um profundo desespero. Olhou ao Pitt –. Espero que possa seguir com seu trabalho, embora agora parece inevitável que Voisey acabe ganhando. Se necessitar que lhe ajude alguém mais além de Tellman, diga-me isso - interrompeu-se com ar desgraçado –. Sinto muito, Pitt. Ninguém que se cruza com o Círculo Interior consegue ganhar por muito tempo... ao menos ainda não. – encaminhou-se para a porta –. Bom dia, lady Vespasia. Perdoe a intromissão. – E saiu com tanta rapidez como tinha entrado.

Pitt estava perplexo. Em menos de um quarto de hora seu mundo se veio abaixo. Charlotte e as crianças estavam bem; Voisey não tinha nem idéia de onde estavam, mas possivelmente em nenhum momento tinha querido averiguá-lo! Sua vingança era mais sutil e adequada que a simples violência. Pitt o tinha desacreditado aos olhos dos republicanos. E em troca, lhe tinha desacreditado aos olhos das pessoas para a que trabalhava e que tão bom conceito tinha dele.

— Coragem, querido – disse Vespasia com suavidade, mas lhe quebrou a voz –. Acredito que vai ser muito difícil, mas não atiraremos a toalha. Não permitiremos que triunfe o mal sem lutar com todas nossas forças para combatê-lo.

Pitt a olhou. Parecia mais frágil que de costume, com as costas rígidas, os magros ombros quadrados e os olhos arrasados pelas lágrimas. Não podia defraudá-la.

— Não, é claro que não – reconheceu, embora não tinha a menor ideia de por onde começar nem como fazê-lo.

 

A manhã seguinte foi uma das piores da vida de Pitt. Tinha conseguido conciliar o sono aferrando-se com gratidão à idéia de que ao menos Charlotte, as crianças e Gracie estavam fora de perigo. Despertou vendo-os em sua imaginação e se surpreendeu sorrindo.

Logo recuperou a memória e se lembrou de que Francis Wray tinha morrido, possivelmente por vontade própria, só e desesperado. Recordava-o de forma muito vivida sentado à mesa, desculpando-se por não ter bolacha ou geléia de framboesa que lhe oferecer, e compartilhando em troca a entesourada geléia de ameixa com tanto orgulho.

Pitt estava deitado na cama olhando o teto. A casa estava em silêncio. Eram seis passadas; faltavam duas horas para que chegasse a senhora Brady. Não lhe ocorria nenhuma razão para levantar-se, mas seus pensamentos não iriam permitir lhe voltar a conciliar o sono. Aquela era a vingança de Voisey, e era perfeita. Sabia que Wetron era quem lhe estava ajudando quando tinha enviado Tellman para que incitasse Pitt a voltar para Teddington uma segunda vez e a fazer perguntas pelo povoado?

Wray era a vítima perfeita, um ancião aflito e esquecido, muito honrado para calar sua aversão ante o que achava que era um pecado contra Deus: invocar aos mortos. Voisey certamente se inteirou da história da jovem Penélope, que tinha perdido seu filho e que em seu desespero tinha ido a uma médium, quem a tinha utilizado e enganado e lhe tinha arrebatado seu dinheiro, e a quem tinham pilhado logo em uma fraude barata. Depois de tudo, tinha ocorrido no mesmo povoado onde vivia sua irmã! Uma situação muito idônea para deixá-la passar.

Possivelmente tinha sido Octavia Cavendish quem tinha levado o folheto de Maude Lamont a sua casa. Seria-lhe bastante fácil deixá-lo em um lugar destacado onde Pitt o visse. A ambos os tinham levado como cordeiros ao matadouro... e no caso de Wray, de forma literal. A Pitt esperava algo mais lento, mais delicioso. Sofreria e Voisey se dedicaria a observar enquanto saboreava seu triunfo.

Era estúpido ficar na cama pensando nisso. Levantou-se rapidamente e, depois de lavar-se, barbear-se e vestir-se, desceu no meio do silêncio reinante para preparar uma xícara de chá e dar de comer a Archie e Angus. Ele não tinha apetite.

O que ia dizer à Charlotte? Como ia explicar-lhe outra calamidade? Ficou aturdido só pensando.

Perdeu a noção do tempo sentado na cozinha, deixando que o chá se esfriasse, até que finalmente se levantou e pinçou em seus bolsos em busca da carteira para sair para comprar o jornal.

Ainda não tinham dado as oito. Era uma manhã tranqüila e uma luz pálida se filtrava através da bruma que envolvia a cidade, embora o sol já estivesse alto. Estavam em meados do verão e as noites eram curtas. Havia muita gente pela rua: mensageiros, condutores de carroças de entrega, vendedores ambulantes à caça de um cliente madrugador; as criadas tiravam ruidosamente o lixo ao pátio enquanto davam ordens aos engraxate e às criadas, ou diziam às criadas que estavam a seu cargo o que fazer e como fazê-lo. De vez em quando Pitt ouvia alguém sacudir um tapete e via como se erguia no ar uma fina nuvem de pó.

Na esquina estava o menino que vendia jornais, o mesmo de todos os dias, mas desta vez não lhe sorriu, nem o saudou.

— Não acredito que o queira – disse, sombrio –. Devo reconhecer que me surpreendeu. Sabia que era você um poli, embora viva em um bairro bonito e todo o resto. Nunca pensei que seria capaz de fazer com que um homem se suicidase. São dois pennies.

Pitt lhe deu o dinheiro e o menino o pegou sem dizer nada mais, voltando-se ligeiramente mal terminou a conversa.

Pitt voltou para sua casa sem abrir o jornal. A seu lado passaram outras duas ou três pessoas. Nenhuma delas lhe dirigiu a palavra. Não tinha nem idéia de se o teriam feito em circunstâncias normais. Estava muito aturdido para pensar.

Uma vez dentro, voltou a sentar-se à mesa da cozinha e abriu o jornal. Não estava entre as notícias principais – monopolizadas pelas eleições, como tinha esperado –, mas mal as passou, achou no centro da parte superior da página cinco o seguinte:

 

Lamentamos profundamente ter que informar do falecimento do pastor Francis W. Wray, achado em sua casa em Teddington no dia de ontem. Tinha setenta e três anos, e continuava desconsolado pelo recente falecimento de sua amada esposa, Elisa. Não deixa filhos, pois todos faleceram com pouca idade.

A polícia, na pessoa de Thomas Pitt, relevado recentemente do mando da delegacia de polícia do Bow Street e portanto sem autoridade reconhecida, foi ver o senhor Wray várias vezes e falou com seus vizinhos, fazendo-lhes perguntas muito pessoais e indiscretas a respeito da vida e opiniões do senhor Wray e seu comportamento recente. Ele negou que aquilo formasse parte de sua até agora infrutífera investigação do assassinato da médium e organizadora de sessões de espiritismo, a senhorita Maude Lamont, que se cometeu no Southampton Row, Bloomsbury.

Depois de fazer novas indagações no vilarejo, o senhor Pitt foi ver o senhor Wray em sua casa, e uma pessoa que foi visitá-lo mais tarde achou o senhor Wray em um estado muito agitado, como se o tivessem feito chorar.

Na manhã seguinte, a governanta do senhor Wray, Mary Ann Smith, achou o senhor Wray morto em seu sofá e não achou nenhuma carta; só um livro de poesia no qual tinha escrito um verso do finado Matthew Arnold.

O médico que acudiu opinou que a causa da morte tinha sido a ingestão de veneno, provavelmente do tipo que danifica o coração. Especulou-se sobre a possibilidade de que fosse alguma das plantas da grande variedade que tem o senhor Wray no jardim, pois se sabe que não saiu de sua casa depois da visita do senhor Pitt.

Francis Wray tinha tido uma destacada carreira acadêmica...

 

O artigo continuava com uma contagem dos lucros de sua vida, seguida dos elogios de um bom número de figuras proeminentes que choravam sua morte e se mostravam escandalizadas e entristecidas pelas circunstâncias da mesma.

Pitt fechou o jornal e se preparou outra xícara de chá. Voltou a sentar-se e a segurou entre as mãos, tratando de recordar o que havia dito exatamente às pessoas de Teddington que podia ter chegado tão rapidamente aos ouvidos de Wray, e como podia lhe haver ferido tão profundamente. Tinha sido realmente tão torpe? Estava seguro de não haver dito nada a Wray. O estado de agitação no qual lhe tinha visto Octavia Cavendish se devia a sua consternação pela morte de sua esposa... mas, é claro, ela não podia saber, nem era provável que acreditasse naquelas circunstâncias. Ninguém o faria. O fato de que tivesse chorado por sua esposa só aumentava o pecado de Pitt.

Como ia lutar contra Voisey agora? As eleições estavam muito próximas. Aubrey Serracold perdia terreno e Voisey ganhava hora após hora. Pitt não tinha conseguido frear em nada seu êxito. Tinha observado todo o ocorrido e tinha influenciado em seu desenvolvimento tanto como o espectador de uma peça de teatro a respeito do palco que tem diante, visível e audível, mas totalmente fora de seu alcance.

Nem sequer sabia qual dos três clientes tinha matado Maude Lamont. Do único que estava seguro era de que a causa tinha sido a chantagem que ela lhes tinha feito aproveitando-se de seus diferentes temores: no caso de Kingsley, que seu filho tivesse morrido como um covarde, o que parecia pouco provável; no referente à Rose Serracold, que seu pai tivesse morrido louco, cujo grau de verdade ou falsidade continuava sem saber-se; enquanto que no caso do homem representado pelo cartucho, Pitt não tinha nem idéia de qual era sua identidade ou no que podia consistir seu ponto fraco. Nada do que tinha averiguado sobre Rose ou Kingsley jogava a menor luz sobre o assunto. Nem sequer contava com uma hipótese. As pessoas que já estavam mortas podiam saber em teoria algo. Podia tratar-se de um segredo familiar, um amigo morto traído, um filho, um amante, um crime oculto, ou simplesmente uma insensatez que os envergonharia por ser íntima. Tudo isso tinha que bastar para que o fato de averiguá-lo compensasse o preço que devia pagar por mantê-lo em segredo.

Talvez se desse a volta ao raciocínio tivesse mais sentido? Qual era o preço? Se estava relacionado com Voisey, era algo que podia impulsionar sua campanha eleitoral. Tinha toda a ajuda que necessitava em seus discursos, os recursos, os temas a debater... O que realmente podia lhe ajudar era que Serracold acabasse afundado. E isso era o que tinha encomendado a Kingsley. Já se tinha ganhado em seus defensores; a vitória dependia de sua capacidade para persuadir aos votantes liberais de toda a vida, mantendo assim o equilíbrio do poder. Quem tinha atacado Serracold e tinha obtido algum resultado? Quem era essa pessoa com a que ninguém teria contado?

Voltou a pegar a contra gosto o jornal e folheou a seção de política interior, as cartas ao diretor e as resenhas dos discursos. Havia muitos elogios e acusações dirigidos aos candidatos de ambos os partidos, mas a maioria eram gerais, orientados ao partido antes que a um indivíduo. Apareciam vários comentários mordazes sobre o Keir Hardie e sua tentativa de converter-se no novo porta-voz da classe trabalhadora.

Debaixo de um deles Pitt achou uma carta pessoal que criticava as opiniões imorais e potencialmente desastrosas do candidato liberal pelo Lambeth sul, e elogiava a sir Charles Voisey, quem defendia a prudência antes que o socialismo, os valores da economia e a responsabilidade, a autodisciplina e a caridade cristã antes que a lassidão, o egoísmo e um experimento social não ensaiado que varria com os ideais do valor e a justiça. Assinava-o Reginald Underhill, bispo da Igreja da Inglaterra.

Certamente, tinha tanto direito a possuir opiniões políticas, e às expressar com toda a virulência que quisesse, como qualquer outro homem, independentemente de serem lógicas ou inclusive honradas. Mas o fazia por convicção própria ou porque lhe tinham feito chantagem para que o fizesse?

Entretanto, não via os motivos que podia ter um bispo para ter ido a uma médium. Sem dúvida, como a Francis Wray, só a idéia lhe teria horrorizado.

Pitt continuava considerando a possibilidade quando chegou a senhora Brady. Deu-lhe bom dia com bastante cordialidade e ficou em pé, apoiando-se em um pé e em outro, visivelmente desconfortável.

— O que ocorre, senhora Brady? – perguntou ele. Nesse dia não estava de humor para ocupar-se de uma crise doméstica.

Ela parecia consternada.

— Sinto muito, senhor Pitt, mas depois do que li nos jornais esta manhã, não posso continuar vindo a esta casa. Meu marido diz que não está bem. Há trabalho de sobra, e diz que tenho que achar outra casa. Diga à senhora Pitt que sinto muito, mas tenho que fazer o que ele me diz.

Não tinha sentido discutir com ela. Olhava-o com uma triste expressão de desafio. Tinha que viver com seu marido, independentemente de quais fossem suas opiniões. Pelo contrário, podia dar as costas a Pitt.

— Então será melhor que se vá – disse ele de modo peremptório. Tirou uma moeda de meia coroa de sua carteira e a deixou na mesa– . É o que lhe devo esta semana. Adeus.

Ela não se moveu.

— Não tenho culpa! – exclamou em tom acusador.

— Tomou uma decisão, senhora Brady. – Olhou-a fixamente com a mesma cólera e dor a ponto de explodir de impotência –. Faz mais de dois anos que trabalha aqui, e preferiu acreditar o que aparece escrito nos jornais. Assunto resolvido. Direi à senhora Pitt que partiu sem nos avisar previamente. Ela decidirá se lhe dá uma carta de recomendação ou não. Mas como devem pensar mal dela por ser minha mulher, duvido que a recomendação lhe sirva muito. Por favor, feche a porta ao sair.

— Eu não tenho culpa! – exclamou –. Eu não fui ver um ancião e incitei a suicidar-se!

— Acredita que minhas suspeitas sobre ele eram infundadas? – perguntou Pitt, erguendo mais a voz do que pretendia.

— É o que põe! – A mulher lhe sustentou o olhar.

— Se para você é suficiente, será melhor que me julgue igualmente sem fundamento e parta. Como disse, assegure-se de fechar a porta da rua ao sair. Hoje é um dia desses nos quais alguém poderia entrar com más intenções. Adeus.

A senhora Brady soprou audivelmente, pegou o dinheiro da mesa e, virando sobre os calcanhares de suas botas, afastou-se pelo corredor. Ele ouviu como fechava com uma portada, sem dúvida para que não tivesse nenhuma dúvida de que partira.

Passou outro quarto miserável de hora antes que soasse a campainha. Pitt virtualmente não reparou nisso. Voltou a soar. Quem quer que seja que fosse não ia permitir que o rechaçassem tão à ligeira. Soou uma terceira vez.

Pitt se levantou e percorreu o corredor. Abriu a porta em atitude defensiva. Na soleira estava Cornwallis com ar abatido mas resoluto, olhando com rosto sombrio a Pitt.

— Bom dia – murmurou –. Posso entrar?

— Para que? – perguntou Pitt, com menos gentileza do que tinha desejado. As críticas do Cornwallis lhe seriam mais difíceis de aceitar que as de qualquer outro homem. Surpreendeu-se e inclusive se assustou um pouco do vulnerável que se sentia.

— Porque me nego a falar com você aqui, na porta, como um mascate! – disse Cornwallis com brutalidade –. Não tenho nem idéia do que vou dizer lhe, mas prefiro tratar de pensar algo enquanto me sento. Zanguei-me tanto ao ler os jornais que me esqueci de tomar o café da manhã.

Pitt quase sorriu.

— Tenho pão e geléia, e a água acaba de ferver. Será melhor que avive o fogo do fogão. A senhora Brady acaba de despedir-se.

— A criada? – perguntou Cornwallis, enquanto entrava e fechava a porta atrás do Pitt, e o seguiu pelo corredor.

— Sim. Terei que começar a fazer tudo. – Na cozinha lhe ofereceu chá e torradas, que Cornwallis aceitou, ficando razoavelmente cômodo em uma das cadeiras de espaldar duro.

Pitt jogou carvão ao fogo e o atiçou até que ardeu com força, depois pôs uma fatia de pão na tostadera e deixou que se dourasse. A chaleira de água começou a assobiar fracamente no fogo.

Quando cada um teve uma torrada e o chá ficou repousando, Cornwallis começou a falar.

— Tinha algo que ver esse tal Wray com o Maude Lamont? – perguntou.

— Que eu saiba, não – respondeu Pitt –. Detestava aos médiuns, sobre tudo aos que davam falsas esperanças aos desconsolados, mas que eu saiba, não sentia uma especial aversão por Maude Lamont.

— Por quê?

Pitt lhe contou a história da jovem de Teddington, seu filho morto, sua consulta ao médium, sua profunda tristeza e depois sua própria morte.

— Poderia ter sido Maude Lamont? – perguntou Cornwallis.

— Não. – Pitt estava totalmente seguro –. Não devia ter mais de doze anos quando isso ocorreu. A única relação que há é a que Voisey inventou para me apanhar. E eu o ajudei.

— Isso parece – assentiu Cornwallis –. Mas que me crucifiquem se deixar que saia impune. Se não puder nos defender a nós mesmos, devemos atacar.

Desta vez Pitt sorriu. O fato de que Cornwallis tivesse tomado partido por ele sem fazer perguntas o surpreendeu e lhe encheu de gratidão.

— Tomara soubesse como – respondeu –. estive considerando a possibilidade de que o homem que se esconde atrás do cartucho seja o bispo Underhill. – surpreendeu-se ao ouvir-se a si mesmo dizer aquilo sem medo que Cornwallis o descartasse tachando o de absurdo. A amizade que lhe tinha demonstrado era o único bom que tinha ocorrido nesse dia. No fundo sabia que Vespasia reagiria de maneira similar. Confiava que ajudasse Charlotte no que ia ser um momento difícil, não só para ela, que se sentiria furiosa e incapaz de ajudar e sofreria por ele, mas também pela crueldade que as crianças teriam que suportar dos amigos do colégio, até das pessoas da rua, sem saber apenas a razão, só que seu pai era repudiado. Era algo que nunca tinham experimentado antes e não o entenderiam. Negava-se a pensar nisso nesse momento. Já seria bastante terrível quando chegasse o momento de fazê-lo; não havia necessidade de antecipar a dor quando não podia fazer-se nada a respeito.

— O bispo Underhill – repetiu Cornwallis pensativo –. Por quê? Por que ele?

Pitt lhe explicou seu raciocínio baseado na ajuda que tinha devotado o bispo a Voisey, que dificilmente podia ser uma coincidência e, segundo Emily, era pouco próprio do caráter demonstrado anteriormente.

Cornwallis franziu o sobrecenho.

— O que o levaria a ir a uma médium?

— Não tenho nem idéia – respondeu Pitt, muito absorto em sua infelicidade para perceber a emoção que vibrava na voz de seu interlocutor.

A discussão se viu interrompida por outra chamada à porta. Cornwallis se levantou imediatamente e foi abrir sem dar a Pitt a oportunidade de fazê-lo. Voltou ao cabo de uns minutos seguido de Tellman, que parecia o principal enfermo de um funeral.

Pitt esperou que um dos dois falasse.

Tellman pigarreou e a seguir voltou a sumir-se em um silêncio abatido.

— Para que veio? – perguntou Pitt. Ouviu o tom brusco e acusador que tinha empregado, mas lhe era absolutamente impossível moderá-lo.

Tellman lhe olhou furioso.

— Onde quer que esteja se não aqui? – replicou em tom desafiante –. Foi minha culpa! Disse-lhe que fosse a Teddington! Se não tivesse sido por mim, nunca teria ouvido falar de Wray! – Tinha uma expressão angustiada, o corpo rígido e o olhar aceso.

Pitt se viu surpreso e compreendeu que Tellman acusava a si mesmo pelo ocorrido. Sentiu-se muito envergonhado para achar palavras. Se houvesse se sentido menos abatido, lhe teria comovido a lealdade do Tellman, mas estava excessivamente assustado. Tudo era conseqüência das provas que tinha obtido antes do ocorrido de Whitechapel. Tomara não tivesse estado tão seguro de si mesmo e não se tivesse obstinado em apresentar suas ideias porque queria defender sua idéia de justiça!

Fazia o correto, certamente, mas isso não ia ajudar agora.

— Quem lhe falou de Francis Wray? – perguntou Cornwallis a Tellman –. E pelo amor de Deus, sente-se. Parece que estamos em pé ao redor de uma tumba. A briga ainda não terminou.

Pitt queria acreditar nele, mas não havia esperança racional a que pudesse aferrar-se.

— O superintendente Wetron – respondeu Tellman, e olhou para Pitt.

— Por quê? – insistiu Cornwallis –. Que motivos lhe deu? Quem lhe insinuou que era Wray? Não o conhecia pessoalmente, de modo que alguém teve que lhe falar dele. Quem relacionou Wray com o desconhecido que visitava Maude Lamont?

Ensimesmado, Pitt pensou no muito que Cornwallis tinha averiguado sobre o caso, e olhou a Tellman.

— Nunca o disse – respondeu Tellman, abrindo muito os olhos –. Perguntei, mas nunca me chegou a responder. Voisey? Devia ser ele. – Em sua voz se percebia uma nota de esperança –. Toda a informação sobre Wray o superintendente Wetron nos deu, que eu saiba. – Apertou os lábios –. Mas e se acreditar no Voisey O... ou ele mesmo pertence ao Círculo Interior? – Disse-o com incredulidade, como se inclusive nesse momento a possibilidade de que seu superior pertencesse a essa terrível sociedade fosse muito monstruosa para ser algo mais que uma má idéia, algo que se diz e se descarta.

Pitt pensou em Vespasia.

— É possível que ao desprestigiar Voisey conseguíssemos dividir o Círculo Interior – disse, deslocando o olhar de Cornwallis a Tellman. Tellman conhecia o caso Whitechapel a fundo; Cornwallis sabia algo, mas ainda tinha grandes lacunas, embora enquanto lhe observava, Pitt descobriu que começava a compreender certas coisas. Não fez perguntas.

— Dividir? – perguntou Tellman devagar –. Quer dizer em duas partes?

— Pelo menos – respondeu Pitt.

— Voisey e alguém mais? – Cornwallis arqueou uma sobrancelha –. Wetron?

Tellman se escandalizou.

— Não! É policial! – Mas enquanto protestava considerou a idéia. Sacudiu a cabeça, afastando a de sua mente –. Talvez um grupo reduzido. As pessoas o fazem para progredir, mas...

Cornwallis mordeu o lábio inferior.

— Teria muito sentido. Alguém com muito, mas, muito poder fez que o despedissem do Bow Street pela segunda vez – disse a Pitt –. Talvez Wetron? Depois de tudo foi ele quem o substituiu. O superintendente do Bow Street é um bonito cargo para o chefe do Círculo Interior. – Parecia compungido, inclusive consciente por um instante do perigo –. Sua ambição não tem fim.

Ninguém riu, nem negou.

— É um homem ambicioso – disse Tellman muito sério.

Cornwallis se inclinou para frente sobre a mesa.

— Poderiam ser rivais?

Pitt sabia no que estava pensando, virtualmente como se o houvesse dito alto. Era o primeiro vislumbre de verdadeira esperança, por disparatado que fosse.

— E utilizá-lo?

Cornwallis assentiu muito devagar.

Tellman os olhou fixamente com o rosto mudado.

— O um contra ou outro?

— Lhe ocorre algo melhor? – perguntou Cornwallis –. Wetron é ambicioso. Se acreditar que pode desafiar Voisey pela liderança da metade do Círculo Interior... e acredito que podemos dar por feito que foi ele quem provocou a cisão, se não ao princípio, ao menos quando alcançou sua independência, então é que é realmente muito ambicioso. E não pode ser tão estúpido para acreditar que Voisey lhe perdoará por isso. Terá que viver o resto de sua vida vigiando suas costas. Se lhe constar que tem um inimigo, é melhor fazer um ataque preventivo. Se crê que pode fazer o de forma efetiva, acaba com ele.

— Como? – perguntou Pitt –. Relacionando a Voisey com o assassinato do Southampton Row? – A idéia cobrou força enquanto falava –. Deve haver uma conexão permanente: Voisey acode à Maude Lamont com contatos, dinheiro, o que ela queira, e ela em troca faz chantagem a certos clientes para que falem contra o adversário de Voisey nas eleições, Aubrey Serracold. O que por sua vez ajuda a Voisey.

— Tudo combina – concordou Tellman. – Voisey acode à Maude Lamont e ela chantageia a seus clientes para que façam o que ela lhes diz, e desse modo Voisey sai beneficiado. Mas não podemos prová-lo! – Respirou fundo –. Um momento! Cessou a chantagem? Deixaram de ajudar Voisey? – Dirigiu aquela pergunta a Pitt.

— Não – respondeu –. Não. De modo que não foi Maude quem os chantageou, só facilitou a informação sobre quais eram seus pontos fracos. – Voltou a sentir frio –. Mas não encontramos nada que a relacione com Voisey. Procuramos em todos seus papéis, cartas, agendas, contas bancárias... tudo. Não há rastro de que houvesse um vínculo entre eles. Claro que ele não deixaria nenhum. É muito esperto para isso. Para começar, ela poderia havê-lo utilizado!

— Está apontando ao suspeito equivocado – disse Cornwallis com um tom de crescente excitação. Parecia como se estivesse revivendo uma de suas batalhas no mar, deitando-se ao navio inimigo para lançar o ataque que o furaria por debaixo da linha de flutuação –. Wetron! Tampouco deveríamos apontar a ele, a não ser fazer que se ataquem mutuamente.

Tellman franziu o sobrecenho.

— Como?

Pitt sentiu um novo arrebatamento de euforia e se voltou para contê-lo, se por acaso semelhante resplendor escapava a seu controle e a escuridão que seguia era muito profunda para suportá-la.

— Wetron é um homem ambicioso – repetiu Cornwallis, mas desta vez o fez com mais veemência –. Se conseguisse resolver o assassinato de Southampton Row de forma brilhante e se atribuísse o mérito, melhoraria sua posição, faria-se o bastante forte para que ninguém pudesse lhe desafiar no Bow Street, e talvez até lhe ajudasse a subir um degrau mais na escada.

O seguinte grande passo correspondia a Cornwallis. Pitt se emocionou ao pensar que Cornwallis não podia ter passado por cima do risco que suportava, e entretanto, ao lhe olhar com os cotovelos apoiados na mesa da cozinha, não viu um vislumbre de vacilação nele.

— Devemos achar Cartucho! – exclamou Cornwallis –. Se fosse Wetron quem averiguasse quem é, apanhasse-o e lhe surrupiasse o segredo da chantagem, talvez até para implicar Voisey... o que não é impossível, tendo em conta que Rose Serracold é uma das outras vítimas e Kingsley a terceira...

— É perigoso... – advertiu Pitt, mas notou como lhe começava a acelerar o pulso e voltava a sentir-se vivo, e algo parecido à esperança despertava nele.

Cornwallis sorriu sem convicção.

— Utilizou Wray. Deixemos que volte a lhe utilizar. Ao pobre homem já não podem lhe fazer mais dano que o que lhe fizeram. Até sua reputação ficará arruinada se confirmarem o veredicto do suicídio. Sua vida perderá o sentido que lhe dava.

Uma intensa cólera se apoderou de Pitt ao pensar nisso.

— Sim, eu gostaria muito de utilizar Wray – disse entre dentes – . Ninguém sabe o que lhe disse nem o que ele me disse. E do mesmo modo que eu não posso demonstrar que não o ameacei, eles tampouco podem negar o que eu afirme que ele me disse! – Também ele se inclinou sobre a mesa. Wray não tinha nem idéia de quem era Cartucho, mas isso ninguém sabe. E se disser que ele sabia, e que me confessou isso, e que era a identidade de Cartucho o que tanto o inquietava? – As idéias se amontoavam em sua cabeça –. E que a mesma Maude sabia, apesar de todas as precauções do homem em questão? Também posso dizer que deixou uma nota escondida entre seus papéis. Revistamos a casa, mas não soubemos interpretar o que encontramos. E agora, com a informação de Wray, havemos...

— Então Cartucho deverá buscar a nota para destruí-la. .. se souber! – terminou Tellman –. Só que como podemos estar seguros de que saberá?Wetron dirá? Wetron não sabe quem é O... – interrompeu-se, confuso.

— A imprensa – respondeu Cornwallis –. Assegurarei-me de que saia amanhã nos jornais. O caso continuará nas manchetes devido à morte de Wray. Cartucho pensará que tem que recuperar as notas de Maude Lamont sobre ele ou se verá descoberto. Não importa qual seja seu segredo.

— O que dirá a Wetron? – perguntou Tellman carrancudo. Estava confuso, mas as ânsias de atuar lhe consumiam. Tinha os olhos brilhantes.

— Fá-lo-á você – lhe corrigiu Cornwallis –. Apresente-lhe um informe como faria normalmente e lhe diga que o círculo está a ponto de fechar-se: Voisey dá dinheiro a Maude Lamont, este chantageia a Kingsley e Cartucho para destruir o rival de Voisey, e voltamos para Voisey. E lhe assegure que está a ponto de achar provas. Então chamaremos à imprensa. Mas tem que acreditar ou eles não o publicarão.

Tellman engoliu a saliva e assentiu devagar.

— Mesmo assim, enterrarão Wray como a um suicida – disse Pitt, e inclusive o fato de ter que expressá-lo com palavras lhe resultou doloroso –. Me... custa acreditar que o fizesse... Não é possível, depois de ter suportado tanta dor e... – Entretanto, podia imaginá-lo, por valente que fosse, certas penas se tornavam insuportáveis nos momentos mais escuros da noite. Talvez o tivesse conseguido a maior parte do tempo, quando tinha tido pessoas ao redor, algo que fazer, inclusive a luz do sol, a beleza das flores, ou alguém a quem queria. Mas só na escuridão, muito cansado para continuar lutando...

— Era profundamente admirado e querido. – Cornwallis se esforçava por achar uma resposta melhor –. Talvez tivesse amigos na Igreja que utilizarão sua influência para impedir que seja considerado um suicida.

— Mas você não o acossou! – protestou Tellman –. Por que ia render se agora? Ia contra sua fé!

— Foi um tipo de veneno – disse Pitt –. Como ia ser um acidente? E tampouco foi por causas naturais. – Mas outra idéia cobrava forma em sua mente, uma possibilidade desatinada –. Talvez Voisey se deu conta de que não estava aproveitando a oportunidade tão perfeita que lhe davam, e assassinou Wray ou ao menos fez que o assassinassem. Sua vingança só seria completa se Wray morresse. Abatido, atormentado pelos rumores e o medo, acossado, eu pareço o mal. Mas se estiver morto é muito melhor. Então eu sou redimível. Com certeza não vacilaria no último momento. Não o fez em Whitechapel.

— E sua irmã? – disse Cornwallis com autêntico horror –. A utilizou para envenenar ao Wray?

— Pode ser que ela não tivesse nem idéia do que fazia – indicou Pitt –. Não havia virtualmente nenhuma possibilidade de que a pilhassem. Ela considera que só foi uma testemunha de minha crueldade com um ancião vulnerável.

— Como o demonstramos? – disse Tellman, com os lábios apertados –. Não basta com que nós saibamos! Se soubermos o que aconteceu na realidade e não podemos fazer nada a respeito, só conseguiremos que ele saboreie mais a vitória!

— Uma autópsia. – Pitt mencionou quão único parecia uma possível resposta.

— Não a farão. – Cornwallis sacudiu a cabeça –. Ninguém quererá que se faça. A Igreja temerá que demonstre que foi um suicídio e fará todo o possível por evitá-la, e a Voisey preocupará que revele que foi um assassinato, ou que no mínimo o exponha.

Pitt se levantou.

— Há uma maneira. Eu me encarregarei. Irei ver lady Vespasia. Se houver alguma pessoa capaz de fazer pressão para que se faça, ela saberá quem é e como encontrá-la. – Olhou a Cornwallis e depois a Tellman –. Obrigado – disse com uma repentina gratidão que lhe afligiu– . Obrigado por... vir.

Nenhum dos dois respondeu, pois ambos estavam muito confusos para achar as palavras. Não procuravam nem queriam gratidão; só pretendiam ajudar.

Tellman voltou diretamente para o Bow Street. Eram dez e quinze da manhã. O sargento de recepção o chamou, mas não o ouviu. Subiu diretamente as escadas até o escritório de Wetron, que tinha pertencido a Pitt. Era incrível pensar que fazia só uns poucos mesesaquilo. Agora era um lugar desconhecido, e o homem que o ocupava, um inimigo. Tinham chegado em seguida a essa conclusão. Surpreendeu-se ao dar-se conta de que para ele não tinha suposto nenhum esforço ter consciência disso.

Bateu na porta e ao cabo de uns instantes ouviu a voz de Wetron, que o convidava a entrar.

— Bom dia, senhor – disse quando se achou dentro e a porta esteve fechada atrás dele.

— Bom dia, Tellman. – Wetron levantou o olhar de sua escrivaninha. A primeira vista, parecia um homem comum, de meia estatura e cabelo castanho esvaído. Só quando se olhava nos olhos se dava conta da força que possuía, a vontade firme de triunfar.

Tellman engoliu a saliva e começou a mentir.

— Vi Pitt esta manhã. Disse-me o que realmente lhe disse ao senhor Wray e por que o ancião estava tão agitado.

Wetron olhou-o com cara inexpressiva.

— Acredito, inspetor, que quanto antes se desvincule e a polícia, do senhor Pitt, será melhor para todos. Prepararei uma declaração para a imprensa, e insistirei em que ele não tem nada que ver com a Polícia Metropolitana e que não nos responsabilizamos de suas ações. É um problema da Brigada Especial. Que se eles encarreguem de o tirar disto, se puderem. Esse homem é um desastre.

Tellman ficou rígido, a ponto de explodir de raiva; cada injustiça que tinha presenciado formava uma neblina vermelha em seu interior.

— Não duvido que tenha razão, senhor, mas acredito que antes que o faça deveria saber o que ele averiguou. – Fez caso omisso da impaciência do Wetron, refletida em seus dedos nervosos e no cenho franzido –. Ao que parece, o senhor Wray sabia quem era a terceira pessoa que esteve na casa de Maude Lamont a noite que a assassinaram.– Respirou trêmulo. – Porque era um conhecido dele. Outro sacerdote, acredito.

— Como? – de repente, Wetron o estava escutando com suma atenção, embora não acreditava no que lhe contava.

Tellman sustentou seu olhar sem piscar.

— Sim, senhor. Ao que parece nas notas da mulher, refiro-me à senhorita Lamont, há algo que poderia demonstrá-lo, agora que temos sabor do que se referia.

— Do que se trata? – inquiriu Wetron– . Não fique aí falando em chave.

— Isso é tudo, senhor. O senhor Pitt não pode estar certo até que veja os papéis da casa da senhorita Lamont. – apressou-se a continuar antes que Wetron voltasse a interrompê-lo, obrigando-se a elevar a voz como se estivesse emocionado –. Mesmo assim, vai ser difícil prová-lo. Mas se disséssemos à imprensa que temos a informação (é claro, não é preciso mencionar o senhor Pitt, se não lhe parecer boa idéia), seja quem for o homem, e provavelmente é quem a matou, pode ser que delate a si mesmo indo ao Southampton Row.

— Sim, sim, Tellman, não tem que me soletrar isso – disse Wetron com aspereza –. Entendo o que está insinuando. Deixe que pense nisso.

— Sim, senhor.

— Acredito que deixaremos Pitt à margem. Deve ir ao Southampton Row. Depois de tudo, é seu caso. – Fez aquela elucidação pausadamente, observando o rosto do Tellman.

Tellman se obrigou a sorrir.

— Sim, senhor. Não sei por que a Brigada Especial se mesclou em tudo isto. A não ser, é claro, que seja por causa de sir Charles Voisey.

Wetron ficou imóvel em sua cadeira.

— O que tem que ver Voisey com isto? Não acreditará que o homem que se esconde atrás do cartucho é Voisey, não é?

Sua voz refletia uma grande ironia, e seu sorriso amargo estava empanado pela brincadeira e o pesar.

— OH, não, senhor – se apressou a dizer Tellman –. Estamos muito seguros de que Maude Lamont fez chantagem pelo menos a vários de seus clientes. Sem dúvida, aos três que estiveram com ela a noite que a mataram.

— Em troca do que? – perguntou Wetron com cautela.

—De diferentes coisas, mas não de dinheiro. Talvez lhes exigisse certa conduta na atual campanha eleitoral que ajudasse a sir Charles Voisey.

Wetron abriu os olhos como pratos.

—Seriamente? É uma acusação bastante estranha, Tellman. Suponho que é consciente de quem é exatamente sir Charles.

—Sim, senhor! É um juiz do tribunal de apelação muito distinto, que se candidata uma cadeira do Parlamento. Sua Majestade lhe outorgou recentemente o título de sir, mas não sei exatamente por que. Corre o rumor de que foi por algo excepcionalmente valoroso. – Disse-o com tom reverente, e viu como Wetron apertava os lábios, e como lhe marcavam os músculos do pescoço. Talvez as hipótese que tinha feito Pitt e Cornwallis eram verdadeiras?

—E tem Pitt alguma razão para acreditar em tudo isso? – perguntou Wetron.

—Sim, senhor. – Manteve um tom desapaixonado, não muito convencido –. Há um vínculo muito claro. Tudo tem muito sentido. Estamos assim próximos de descobri-lo! – Levantou o indicador e o polegar, deixando-os separados por um par de centímetros –. Só precisamos fazer que esse homem apareça e poderemos demonstrá-lo. O assassinato é um crime horrível de qualquer ponto de vista, e este é especialmente. Asfixiou à mulher. Parece que foi ele quem lhe pôs o joelho sobre o peito e lhe colocou à força essas coisas na garganta até que morreu.

—Sim, não tem por que ser tão gráfico, inspetor – disse Wetron, cortante –. Chamarei à imprensa e falarei com ela. Você continue procurando as provas que necessita. – inclinou-se para o papel que tinha estado lendo antes que o interrompessem. Era sua forma de despedi-lo.

—Sim, senhor. – Tellman ficou em posição de sentido e virou sobre seus calcanhares. Não exalou nenhum suspiro de alívio nem permitiu que seu corpo abandonasse a tensão e o estremecimento até que esteve no meio das escadas.

 

Pitt voltou imediatamente para casa da Vespasia, mas desta vez escreveu uma nota que entregou à criada enquanto esperava na saleta da manhã. Achava que Vespasia se absteria de julgar o papel que tinha desempenhado ele na morte de Wray, mas não podia dá-lo por assentado sem antes ter falado com ela. Esperou dando voltas pela estadia com as mãos suadas e a respiração agitada.

Quando se abriu a porta do salão, voltava-se rapidamente esperando que fosse a criada, que lhe diria se lady Vespasia ia recebê-lo ou não. Mas era Vespasia em pessoa. Entrou e fechou a porta atrás dela, deixando fora aos criados e, a julgar por sua expressão, ao resto do mundo.

—Bom dia, Thomas. Suponho que veio porque tem um plano de ação, e eu jogo um papel nele. Será melhor que me diga qual é. Vamos lutar sós ou temos aliados?

Empregar o plural foi o mais alentador que poderia ter feito. Não deveria ter duvidado dela, em face ao que tinha publicado a imprensa ou os elementos que pudessem ter em seu contrário. Não era modéstia por sua parte, mas falta de fé.

—Sim, o subcomissário Cornwallis e o inspetor Tellman.

—Bem, e o que podemos fazer? – Vespasia se sentou em uma das grandes poltronas rosas e indicou outra para ele.

Pitt lhe contou o plano, tal como o tinham formulado ao redor da mesa de sua cozinha. Ela escutou em silêncio até que ele terminou.

—Uma autópsia – disse ela por fim –. Não vai ser fácil. Era um homem não só venerado, mas também querido. Ninguém, além de Voisey, quererá que o considere um suicida, embora isso seja o que todos supõem. Imagino que a Igreja tentará por todos os meios evitar que se estabeleça com exatidão a causa da morte, e sustentará, ao menos tacitamente, que foi algum tipo de acidente, convencida de que quanto menos se diga, antes se esquecerá tudo. E é um fato de bastante discrição e bondade. – Olhou-o fixamente – . Está preparado para aceitar que se tirou realmente a vida, Thomas?

—Não – disse ele com sinceridade –. Mas o que eu sinta não vai mudar a verdade, e acredito que preciso sabê-la. Realmente não acredito que se tirasse a vida, mas admito que seja possível. Acredito que Voisey arranjou para matá-lo utilizando a sua irmã, certamente sem que ela soubesse.

—E acredita que uma autópsia o demonstrará? Talvez tenha razão. De todo modo, e como sem dúvida estará de acordo, dispomos de pouca coisa mais. – Vespasia se levantou com rigidez –. Eu não tenho a influência para consegui-lo, mas acredito que Somerset Carlisle a tem. – Esboçou um sorriso que iluminou seus olhos cinza prata –. Certamente o recordará da absurda tragédia entre valentões no Resurrection Row. – Não mencionou o estranho papel que ele tinha desempenhado nela. Era algo que nenhum dos dois esqueceria. Se havia algum homem no mundo que estaria disposto a pôr em perigo sua reputação por uma causa em que acreditava, esse era Carlisle.

Pitt lhe devolveu o sorriso; a lembrança fez que por um instante desaparecesse o presente. O tempo tinha atenuado o horror daqueles acontecimentos, e deles só ficava o humor negro e a paixão que tinha impulsionado a aquele homem extraordinário a atuar como o tinha feito.

—Sim – assentiu com ardor –. Sim, pediremos.

 

Vespasia gostava do telefone. Era um dos inventos que em geral se tornaram acessíveis para as pessoas que tinham meios para pagá-lo, e era bastante útil. Em menos de um quarto de hora se certificou de que Carlisle estava em seu clube do Pall Mall, onde naturalmente não se admitiam mulheres, mas partiria imediatamente dali para dirigir-se ao hotel Savoy, onde lhes receberia assim que chegassem.

Na realidade, no estado em que se achava o tráfego nesses momentos, teve que passar quase uma hora até que Pitt e Vespasia fossem conduzidos a saleta privada que Carlisle tinha reservado para a ocasião. Levantou-se assim que os fizeram entrar, elegante embora algo abatido, com aquelas sobrancelhas tão pouco comuns que ainda lhe conferiam uma expressão ligeiramente zombadora.

Mal estiveram sentados e tiveram pedido os refrescos apropriados, Vespasia foi direta ao ponto.

—Certamente leu os jornais e está à corrente da situação de Thomas. É possível que não se fizeram queixas de que foi forjado de forma cuidadosa e muito inteligente por um homem cujo desejo mais veemente é vingar-se de uma recente e muito grave derrota. Não posso lhe dizer do que se trata, só que é um homem poderoso e perigoso, e que conseguiu resgatar das ruínas de sua apreciada ambição uma pretensão pouco menos ruinosa para o país.

Carlisle não perguntou qual era. Estava muito familiarizado com a necessidade de discrição absoluta. Observou Pitt com um olhar penetrante, detectando talvez sob a superfície o cansaço e os rastros do desespero.

—O que querem de mim? – perguntou com muita seriedade.

Foi Vespasia quem respondeu.

—Uma autópsia do cadáver do pastor Francis Wray.

Carlisle engoliu em seco . Por um instante ficou desconcertado.

Vespasia esboçou um pequeno sorriso.

—Se fosse fácil, querido, não necessitaria de sua ajuda. O pobre homem vai ser considerado um suicida, embora a Igreja, naturalmente, nunca permitirá que se diga com todas as letras. Falará de acidentes desafortunados e o enterrará como é devido. Mas as pessoas continuarão acreditando que se tirou a vida, e isso é o que necessitava desesperadamente nosso inimigo para vingar-se de forma efetiva de Thomas.

— Entendo – afirmou Carlisle –. Ninguém pode lhe haver induzido ao suicídio a não ser que as pessoas considerem que se produziu tal coisa. As pessoas suporão que a Igreja o está encobrindo por lealdade, e provavelmente estarão certas. – voltou-se para o Pitt –. O que acredita que aconteceu?

— Acredito que o assassinaram – respondeu