Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MENINA DO PAPÁ / Mary Higgins Clark
A MENINA DO PAPÁ / Mary Higgins Clark

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A MENINA DO PAPÁ

 

Ellie acordou naquela manhã com a sensação de que algo terrível tinha acontecido.

 

Estendeu instintivamente a mão para Ossos, o macio cão de pelúcia com quem, desde que se lembrava, partilhava a almofada. Quando no mês passado fizera sete anos, Andrea, a irmã de 15, tinha-lhe dito para a arreliar que já era altura de guardar Ossos no sótão.

 

Ellie lembrou-se então do que a afligia: Andrea não tinha voltado para casa na noite passada. Tinha ido depois de jantar a casa de Joan, a sua melhor amiga, a fim de estudar para um teste de Matemática e prometera voltar às nove. Às quinze para as nove, a mamã foi buscar Andrea a casa de Joan, mas disseram-lhe que ela tinha partido às oito.

 

A mamã tinha voltado a casa inquieta e quase em lágrimas no momento em que o papá chegava do trabalho. O papá era tenente da Polícia Estatal de Nova Iorque. Ele e a mamã telefonaram imediatamente a todas as amigas de Andrea, mas ninguém a tinha visto. A seguir, o papá disse que ia passar de carro pelo salão de bowling e pela casa de gelados para ver se Andrea estaria lá.

 

Se ela mentiu e não esteve a fazer os trabalhos de casa até às nove, durante seis meses não põe mais os pés na rua disse irritadamente.

 

Virou-se depois para a mamã.

 

Já te disse mil vezes. Não quero que ela saia de noite sozinha. Apesar do tom elevado da voz, Ellie percebeu que o papá estava mais preocupado do que zangado.

 

Por amor de Deus, Ted, ela saiu às sete horas. Foi a casa da Joan. Fazia tenção de voltar para casa por volta das nove e eu até fui lá buscá-la.

 

Então onde é que ela está?

 

Meteram Ellie na cama e ela tinha acabado por adormecer, acordando só agora. Talvez Andrea já estivesse em casa, pensou, cheia de esperança. Saltou da cama e precipitou-se pelo corredor fora até ao quarto de Andrea. Abriu a porta. A cama da irmã estava vazia.

 

Descalça, desceu em bicos de pés as escadas. A vizinha, a Sra. Hilmer, estava sentada com a mamã na cozinha. A mamã não tinha mudado de roupa e parecia ter estado a chorar durante muito tempo.

 

Ellie correu para ela.

 

Mamã!

 

A mamã abraçou-a e começou a soluçar. Ellie sentiu a mão da mamã fincar-se no ombro com tanta força que quase a magoava.

 

Onde é que está a Andrea, mamã?

 

Não... sabemos. O papá e a polícia andam à procura dela.

 

Por que é que não te vais vestir enquanto eu te preparo o pequeno-almoço, Ellie? propôs a Sra. Hilmer.

 

Ninguém lhe disse que tinha de se apressar porque o autocarro da escola estava a chegar. Ellie percebeu logo que hoje não iria à escola.

 

Lavou obedientemente o rosto e as mãos e, depois, vestiu roupa para brincar uma camisola de gola alta e as calças azuis preferidas. Voltou a descer as escadas.

 

No momento em que se sentou à mesa, onde a Sra. Hilmer tinha posto sumo de fruta e cereais, o papá entrou pela porta da cozinha.

 

Não há sinal dela disse. Procurámos por toda a parte. Houve um tipo que, ontem, andou pela cidade a pedir dinheiro de porta em porta para uma instituição de caridade falsa. Jantou no restaurante e foi-se embora por volta das oito. É possível que, a caminho da estrada, tenha passado pela casa da Joan na altura em que a Andrea saiu. Andam agora à procura dele.

 

Ellie notou que o papá estava quase a chorar. Não parecia ter reparado nela, mas Ellie não se importou. Às vezes, o papá regressava a casa preocupado com qualquer coisa má que tinha acontecido no trabalho, e durante uns momentos não dizia palavra. Tinha, agora, a mesma expressão no rosto.

 

Ellie tinha a certeza de que Andrea estava a esconder-se. Tinha provavelmente partido mais cedo da casa de Joan de propósito para se encontrar com Rob Westerfield no esconderijo e, depois, talvez tivesse ficado tarde e ela receasse voltar para casa. O papá tinha dito que se ela voltasse a mentir sobre onde tinha estado, não a deixaria continuar a fazer parte da banda da escola. Dissera-lhe isso quando descobriu que ela tinha ido dar um passeio no carro de Rob Westerfield em vez de estar na biblioteca.

 

Andrea adorava pertencer à banda de música; o ano passado, fora a única caloira a ser escolhida para a secção de flauta. Mas, mesmo que ela tivesse saído de casa de Joan mais cedo para encontrar-se com Rob e o papá viesse a descobrir, isso não significava que ela seria obrigada a abandoná-la. A mamã dizia sempre que Andrea podia enrolar o papá à volta do mindinho, mas já não disse a mesma coisa quando, o mês passado, um polícia contou ao papá que tinha multado Rob Westerfield por excesso de velocidade e que Andrea estava no carro com ele.

 

O papá só falou do assunto depois do jantar e perguntou então a Andrea quanto tempo tinha ficado na biblioteca.

 

Ela não lhe respondeu.

 

Vejo que és suficientemente esperta para te dar conta de que o polícia que multou o Westerfield me viria dizer que estavas com ele. Andrea, esse tipo não só é rico e mimado como também podre até ao caroço. Não hás-de estar no carro dele quando ele se matar num acidente. Estás absolutamente proibida de o ver.

 

O esconderijo deles era na garagem por detrás da enorme casa onde a velha Sra. Westerfield, a avó de Rob, passava todo o Verão. A porta estava sempre aberta e, às vezes, Andrea e as amigas escondiam-se lá dentro a fumar cigarros. Quando estava a tomar conta de Ellie, Andrea tinha-a lá levado umas quantas vezes.

 

As amigas tinham ficado furiosas com ela por trazer a irmã, mas Andrea tinha dito.

 

A Ellie é uma boa menina. Não é nenhuma queixinhas. Ao ouvir aquilo, Ellie tinha-se sentido toda vaidosa. Mas Andrea não a deixara nem sequer dar uma baforada.

 

Ellie tinha a certeza de que, na noite passada, Andrea saíra da casa de Joan mais cedo porque tencionava encontrar-se com Rob Westerfield. Ellie tinha-a ouvido falar com ele ontem ao telefone. Estava praticamente a chorar quando desligou.

 

Disse ao Rob que ia a uma festa com o Paulie e, agora, ele zangou-se comigo disse ela.

 

Ellie pôs-se a pensar naquela conversa enquanto comia os cereais e bebia o sumo de fruta. O papá estava de pé junto ao fogão com uma chávena de café na mão. A mamã estava novamente a chorar, mas quase sem fazer nenhum som.

 

O papá pareceu então reparar nela pela primeira vez.

 

Acho que estarias melhor na escola, Ellie. Vou lá levar-te à hora do almoço.

 

Posso agora ir lá para fora?

 

Podes. Mas não te afastes de casa.

 

Ellie foi a correr buscar o blusão e saiu porta fora. Era o dia 15 de Novembro e as folhas estavam húmidas e afundavam-se molemente debaixo dos pés. O céu estava pesado, coberto de nuvens, e ela sabia que iria chover outra vez. Ellie desejou estar de volta a Irvington onde costumavam viver. Isto aqui era um sítio solitário. A casa da Sra. Hilmer era a única que existia nesta estrada.

 

Apesar de o papá gostar de viver em Irvington, tínhamo-nos mudado para aqui, cinco pequenas cidades mais longe, porque a mamã queria uma casa e um jardim maiores. Deram-se conta de que poderiam arranjar uma residência assim se fossem morar mais para norte de Westchester, para uma cidadezinha que ainda não se tivesse tornado um subúrbio da cidade de Nova Iorque.

 

Quando o papá dizia que tinha saudades de Irvington, onde ele crescera e tinham vivido até há dois anos, a mamã dizia-lhe que a nova casa era formidável. E, então, ele respondia que, em Irvington, tínhamos uma vista de um milhão de dólares sobre o rio Hudson e a ponte Tappan Zee, e que ele não tinha de guiar oito quilómetros para comprar um jornal ou pão.

 

Havia bosques à volta de toda a propriedade. A grande mansão dos Westerfield ficava directamente atrás da nossa, mas do outro lado do arvoredo. Olhando para a janela da cozinha para se certificar de que ninguém a via, Ellie desatou a correr por entre as árvores.

 

Chegou à clareira cinco minutos mais tarde e atravessou o terreno dos Westerfield. Sentindo-se cada vez mais sozinha, acelerou o passo para subir o caminho e dar a volta à casa. Era uma pequenina figura perdida no meio das sombras ameaçadoras da tempestade que se aproximava.

 

Havia uma porta lateral que dava para a garagem e era essa que não estava fechada à chave. Mas, mesmo assim, foi-lhe difícil girar a maçaneta. Conseguiu finalmente abri-la e penetrou na escuridão do interior. A garagem tinha capacidade para quatro carros, mas o único que a Sra. Westerfield deixava depois do Verão era uma carrinha. Andrea e as amigas tinham trazido velhas mantas e sentavam-se sempre no mesmo lugar ao fundo da garagem por detrás da carrinha para, no caso de alguém espreitar pela janela, não as ver. Ellie sabia que, se Andrea ali estivesse, era esse o local onde estaria escondida.

 

Sem saber porquê sentiu de repente medo e, agora, em vez de se apressar, tinha de praticamente arrastar os pés para se aproximar do fundo da garagem. Viu então a ponta de uma manta a aparecer por detrás da carrinha. Andrea estava realmente aqui! Nunca ela nem as amigas teriam deixado as mantas à vista; dobravam-nas sempre antes de partir e escondiam-nas no armário das arrumações.

 

Andrea...

 

Correu chamando a irmã baixinho para não a assustar. Está provavelmente a dormir, decidiu Ellie.

 

Estava pois. Embora a garagem estivesse envolta em sombras, Elie conseguia ver o longo cabelo de Andrea caído por debaixo das mantas.

 

Sou eu, Andrea.

 

Ajoelhou-se ao lado dela e puxou a manta que lhe tapava o rosto.

 

Andrea tinha uma máscara, uma horrível máscara monstruosa e peganhenta. Ellie estendeu a mão para a arrancar e os dedos enfiaram-se por um espaço vazio na testa de Andrea. Ao puxar assustadamente a mão, reparou que o sangue a escorrer do corpo da irmã lhe manchara as calças.

 

Ouviu então alguém a respirar uma respiração rouca e pesada que se transformou numa espécie de riso.

 

Aterrorizada, tentou levantar-se, mas os joelhos escorregaram na poça de sangue e caiu por cima do peito de Andrea. Os seus lábios roçaram por um objecto macio e frio o medalhão de ouro de Andrea. Conseguiu pôr-se de pé, virou-se e desatou a fugir.

 

Só percebeu que gritava quase ao chegar a casa. Ted e Genine Cavanaugh acorreram ao pátio das traseiras e viram a filha mais nova sair do bosque a correr de braços estendidos e o corpo coberto com o sangue da irmã.

 

Excepto quando a sua equipa treinava ou tinha um jogo durante a época de basebol, Paulie Stroebel, de 16 anos, trabalhava na estação de serviço de Hillwood depois das aulas e durante todo o dia aos sábados. A alternativa era ajudar na charcutaria dos pais que ficava a um quarteirão de distância na rua principal, coisa que fazia de vez em quando desde os sete anos.

 

Lento nos estudos, mas bom em trabalhos mecânicos, adorava consertar carros e os pais tinham-se mostrado compreensivos quanto ao seu desejo de trabalhar para outras pessoas. Com cabelo louro desgrenhado, olhos azuis, face redonda e um físico robusto com um 1,70 metros de altura, Paulie era considerado um empregado trabalhador e tranquilo pelo patrão, e um idiota chapado pelos colegas do liceu Delano. A sua única proeza era ser membro da equipa de futebol.

 

Na sexta-feira, quando a informação sobre o assassínio de Andrea Cavanaugh chegou ao liceu, foram despachados conselheiros escolares para todas as aulas a fim de participar a notícia aos estudantes. Paul estava a meio de um período de estudo quando Miss Watkins entrou na aula, falou em voz baixa ao ouvido do professor e tamborilou no tampo da secretária para chamar a atenção.

 

Tenho uma notícia muito triste a dar a todos vocês começou. Acabámos de saber...

 

E, em frases hesitantes, informou-os que a aluna Andrea Cavanaugh tinha sido assassinada. A reacção foi um coro de arquejos chocados e protestos lacrimosos.

 

Um «não» gritado silenciou os outros. O plácido Paulie Stroebel, de rosto contorcido pela dor, tinha-se levantado de um pulo. Quando os colegas se viraram para ele, os seus ombros tremiam. Violentos soluços sacudiam-lhe o corpo e ele saiu da aula a correr. Ao fechar a porta atrás dele, disse algo em voz demasiado abafada para a maior parte dos estudantes ouvir. No entanto, o aluno sentado perto da porta jurou mais tarde tê-lo ouvido dizer: «Não posso acreditar que esteja morta!»

 

Emma Watkins, a conselheira escolar, já meio atordoada pela tragédia, sentiu-se como se uma faca lhe tivesse atravessado o corpo. Simpatizava com Paulie e compreendia o isolamento daquele estudante honesto e marrão, que se esforçava tanto para agradar.

 

Ela estava certa de que as palavras angustiantes que ele tinha gritado eram: «Não julguei que estivesse morta!»

 

Nessa tarde, e pela primeira vez desde que há seis meses trabalhava na estação de serviço, Paulie não apareceu nem telefonou ao patrão para justificar a sua ausência. Quando os pais chegaram a casa, deram com ele deitado em cima da cama com fotografias de Andrea espalhadas à sua volta a fitar o tecto.

 

Tanto Hans como Anja Wagner Stroebel tinham nascido na Alemanha e imigrado em criança para os Estados Unidos juntamente com os pais. Tinham-se conhecido e casado perto da casa dos 40 e usado as suas poupanças para abrir a charcutaria. Pouco demonstrativos de temperamento, protegiam encarniçadamente o único filho.

 

Toda a gente que vinha à loja falava do assassínio, perguntando-se quem poderia ter cometido um crime tão horrendo. Os Cavanaugh eram clientes habituais e os Stroebel juntaram-se às chocadas conversas que Andrea talvez tivesse ido encontrar-se com alguém na garagem da propriedade dos Westerfield.

 

Concordavam que ela era bonita, mas um bocado impetuosa. Devia ter ficado a estudar com Joan Lashley até às nove horas, mas resolvera inesperadamente sair mais cedo. Tinha ela planeado encontrar-se com alguém ou fora assaltada a caminho de casa? Anja Stroebel agiu por instinto ao ver as fotografias de Andrea espalhadas sobre a cama do filho. Recolheu-as e meteu-as entre as páginas do seu livro de apontamentos. Abanou a cabeça quando o marido lhe lançou um olhar interrogador para indicar que ele não devia fazer quaisquer perguntas e, a seguir, sentou-se ao lado de Paulie e abraçou-se a ele.

 

A Andrea era tão bonita disse ternamente com um sotaque que se tornava mais acentuado quando estava preocupada.

 

Lembro-me de como ela te felicitou quando apanhaste aquela bola e salvaste a equipa na Primavera passada. Como todos os outros amigos dela, estás muito, muito triste.

 

Ao princípio, Paulie julgou que a mãe lhe estava a falar de muito longe. Como todos os outros amigos. O que é que ela queria dizer?

 

A polícia vai procurar a pessoa que tiver sido mais íntima de Andrea, Paulie disse lentamente, mas com firmeza.

 

Convidei-a para uma festa disse ele em voz entrecortada. E ela prometeu que iria comigo.

 

Anja tinha a certeza de que o filho nunca antes convidara uma rapariga para sair. O ano passado, tinha recusado ir ao baile dos caloiros.

 

Gostavas então dela, Paulie? Paulie Stroebel começou a chorar.

 

Amava-a tanto, mamã.

 

Gostavas dela, Paul corrigiu-o Anja com insistência.

 

Não te esqueças disso.

 

No sábado, já recomposto e desculpando-se por não ter ido trabalhar na sexta-feira à tarde, Paulie Stroebel apareceu na estação de serviço.

 

Ao princípio da tarde desse mesmo dia, Hans foi entregar pessoalmente fiambre de Virgínia e saladas a casa dos Cavanaugh e pediu à vizinha deles, a Sra. Hilmer, que veio à porta, que lhes transmitisse os seus mais sinceros pêsames.

 

É pena que o Ted e a Genine sejam ambos filhos únicos ouviu Ellie a Sra. Hilmer dizer umas duas vezes no sábado. Numa altura destas, é mais fácil quando há muitos parentes à nossa volta.

 

Ellie não estava interessada em ter mais família. Desejava apenas Andrea de volta, que a mamã deixasse de chorar e que o papá falasse com ela. Mal lhe tinha dirigido uma palavra desde que chegara a casa a correr e ele a tinha pegado ao colo e ela conseguira dizer-lhe onde se encontrava Andrea e que a irmã estava ferida.

 

Mais tarde, depois de ele ter ido ao esconderijo e visto Andrea e toda a polícia chegar, o papá veio ter com ela.

 

Ellie, já sabias ontem à noite que a tua irmã podia estar na garagem. Por que é que não nos disseste?

 

Não me perguntaste e obrigaste-me a ir para a cama.

 

Pois foi admitiu ele.

 

Mas, depois, ouviu-o falar com um dos polícias.

 

Se eu ao menos soubesse que a Andrea estava naquela garagem... Talvez às nove horas ela ainda estivesse viva. Podia tê-la encontrado a tempo.

 

Alguém da polícia falou com Ellie e fez-lhe perguntas sobre o esconderijo e sobre quem costumava lá ir. Ellie ouvia a voz de Andrea dentro da sua cabeça a dizer: «A Ellie é uma boa menina. Não é nenhuma queixinhas.»

 

Pensar em Andrea e saber que a irmã nunca mais regressaria a casa fez Ellie começar a chorar tanto que o polícia parou de a interrogar.

 

A seguir, na tarde de sábado, um homem que disse ser o inspector Marcus Longo veio a casa deles. Levou Ellie para a sala de jantar e fechou a porta. Ela achou-o simpático e ele contou-lhe que tinha um filho exactamente com a mesma idade, que era muito parecido com ela.

 

Tem os mesmos olhos azuis disse. E cabelo da mesma cor que o teu. Costumo dizer-lhe que, quando está sol, se parece com areia.

 

E, depois, disse-lhe que quatro das amigas de Andrea tinham confessado que costumavam ir para o esconderijo com ela, mas que nenhuma delas tinha lá estado nessa noite. Mencionou o nome das raparigas e, depois, perguntou-lhe:

 

Conheces mais algumas outras raparigas que possam ter-se encontrado lá com a tua irmã, Ellie?

 

Se elas mesmas já tinham confessado, não estava a denunciá-las.

 

Não respondeu Ellie em voz baixa. Essas são todas que eu sei.

 

Há mais alguém com quem a Andrea possa ter-se encontrado no esconderijo?

 

Hesitou. Não podia falar-lhe de Rob Westerfield. Isso seria realmente denunciar Andrea.

 

Alguém fez tanto mal à Andrea que ela já não está viva, Ellie disse o inspector Longo. Não protejas essa pessoa. A Andrea havia de gostar que nos contasses tudo o que sabes.

 

Ellie baixou os olhos para as mãos. Nesta grande casa de quinta, esta sala era a sua preferida. Dantes, o papel das paredes era muito feio, mas agora as paredes estavam pintadas de amarelo-claro e havia um lustre novo sobre a mesa, cujas lâmpadas pareciam velas. A mamã tinha-o encontrado numa venda de objectos em segunda mão e dizia que era um tesouro. Levara muito temPO a limpá-lo, mas agora todas as visitas o admiravam.

 

Embora o papá achasse parvoíce fazerem tanta cerimónia, jantavam sempre na sala de jantar. A mamã tinha um livro que mostrava como pôr a mesa para um jantar formal, e Andrea estava encarregada de pôr a mesa assim todos os domingos, mesmo quando estavam sozinhos. Ellie ajudava-a e divertiam-se a colocar os talheres de prata e os pratos de porcelana.

 

Hoje, o nosso convidado de honra é o Lorde Malcolm Rabogrande dizia Andrea.

 

A seguir, e seguindo à risca o livro de etiqueta, ela sentava-o à direita da mamã.

 

Oh, não, Gabrielle, o jarro de água tem de ser colocado ligeiramente à direita da faca de trinchar.

 

O verdadeiro nome de Ellie era Gabrielle, mas, à parte Andrea por brincadeira, ninguém a chamava assim. Perguntou a si própria se, a partir de agora, seria ela a pôr a mesa aos domingos. Esperava bem que não. Sem Andrea já não teria graça.

 

Era esquisito estar a pensar daquela maneira. Por um lado, sabia que Andrea estava morta e seria enterrada na manhã de terça-feira no cemitério de Tanytown junto ao avô e à avó Cavanaugh. Mas, por outro, ainda esperava ver a irmã entrar a qualquer instante em casa, aproximar-se dela e contar-lhe um segredo.

 

Um segredo. Andrea encontrava-se às vezes com Rob Westerfield no esconderijo. Mas Ellie tinha feito um juramento e prometido não dizer nada.

 

Quem fez mal à Andrea pode fazer mal a qualquer outra pessoa se não o prendermos, Ellie disse o inspector Longo.

 

A voz dele era tranquila e amigável.

 

Acha que a Andrea está morta por minha culpa? O papá acha que sim.

 

Não, não acha nada, Ellie disse o inspector Longo. Mas tudo o que nos disseres sobre os segredos que tu e a Andrea partilhavam pode agora ajudar-nos.

 

Rob Westerfield, pensou Ellie. Talvez não fosse quebrar uma promessa falar dele ao inspector Longo. Se tinha sido Rob quem magoara Andrea, toda a gente devia saber. Fitou novamente as mãos.

 

Às vezes, ela encontrava-se com o Rob Westerfield no esconderijo sussurrou.

 

O inspector Longo inclinou-se para a frente.

 

Sabes se ela ia encontrar-se lá com ele naquela noite?

 

Acho que sim. O Paulie Stroebel tinha-lhe pedido para ir com ele à festa de Acção de Graças e ela tinha dito que sim. A Andrea não queria realmente ir com ele, mas o Paulie tinha-lhe dito que sabia que ela via o Rob Westerfield às escondidas e a minha irmã teve medo que ele contasse ao papá se ela não aceitasse o convite. Mas, então, o Rob zangou-se com ela e Andrea queria explicar-lhe que concordara sair com o Paulie para convencê-lo a não contar nada ao papá. Talvez fosse portanto por isso que ela saiu de casa da Joan mais cedo.

 

Como é que o Paulie descobriu que a Andrea andava a ver o Rob Westerfield?

 

A Andrea disse que ele às vezes seguia-a até ao esconderijo. O Paulie queria que ela fosse namorada dele.

 

A máquina de lavar a roupa tinha sido usada.

 

O que é que era tão importante que não podia esperar até eu voltar, Sra. Westerfield? perguntou Rosita em tom defensivo, como se receasse não ter cumprido as suas tarefas.

 

Tinha saído da cidade quinta-feira para ir visitar a tia doente. Era agora sábado de manhã e ela tinha acabado de chegar.

 

Não devia dar-se ao trabalho de lavar a roupa. Anda muito ocupada a decorar todas essas casas.

 

Sem saber bem porquê, Linda Westerfield sentiu uma campainha de alarme ressoar na cabeça e não respondeu directamente aos comentários de Rosita.

 

Oh, às vezes, quando estou a verificar as pinturas e sujo a roupa, mais vale lavá-la logo do que deixá-la por aí disse.

 

Bem, a julgar pela quantidade de detergente que utilizou, deve ter sido um grande monte de roupa. Ouvi ontem a notícia da morte da menina Cavanaugh nas informações. Não consigo deixar de pensar nela. Quem havia de acreditar que uma coisa dessas podia acontecer numa cidadezinha como esta, Sra. Westerfield? Que pena!

 

Pois é.

 

Devia ter sido Rob quem utilizara a máquina, pensou Linda.; O marido, Vince, em nenhumas circunstâncias a teria utilizado. Nem sequer deveria saber como pô-la a funcionar.

 

Os olhos negros de Rosita humedeceram de lágrimas e ela esfregou-os com a mão.

 

Pobre mãe...

 

Rob? O que é que ele teria para lavar com tanta urgência?

 

Era um velho truque dele. Quando tinha 11 anos, tentara tirar o cheiro a tabaco da roupa.

 

A Andrea Cavanaugh era a coisa mais linda. E o pai é tenente da polícia! Seria de julgar que um homem desses devia poder proteger a própria filha...

 

Pois.

 

Linda estava sentada ao balcão da cozinha e percorria os esboços que fizera para as janelas da nova casa de um cliente.

 

Pensar que alguém foi capaz de esmagar a cabeça da pobre rapariga. Tem de ser um monstro. Espero que o enforquem quando o apanharem.

 

Rosita falava agora com os seus botões e parecia não esperar por nenhuma resposta. Linda guardou os desenhos numa pasta.

 

Eu e o Sr. Westerfield vamos encontrar-nos com uns amigos para jantar, Rosita disse, deixando-se escorregar do banco.

 

O Rob vai ficar em casa? Boa pergunta, pensou Linda.

 

Ele foi dar um passeio, mas deve voltar dentro de instantes. Pergunte-lhe.

 

Julgou sentir um ligeiro tremor na voz. Ontem, Rob tinha passado todo o dia agitado e de mau humor. Quando a notícia da morte de Andrea Cavanaugh se espalhou pela cidade, tinha esperado que o filho se sentisse perturbado, mas, em vez disso, ele mostrara-se despreocupado.

 

Mal a conhecia, mamã tinha-lhe dito.

 

Seria simplesmente porque Rob, como muitos rapazes de 19 anos, não conseguia enfrentar a morte de uma pessoa jovem? Como se, de certo modo, sentisse a sua própria mortalidade ameaçada?

 

Linda subiu lentamente as escadas com a sensação repentina de uma catástrofe iminente. Tinham-se mudado há seis anos de uma casa na Rua 70 Este, em Manhattan, para esta mansão construida antes da Revolução Americana, quando Rob fora para um colégio interno. Nessa altura, tanto ela como o marido sabiam que era na casa da mãe de Vince, onde tradicionalmente passavam o Verão, que queriam viver para sempre. Vince tinha dito que havia óptimas oportunidades para ganhar dinheiro e começara a investir em bens imobiliários.

 

A casa, com a sua presença alheia ao tempo, era uma constante fonte de prazer tranquilo, mas, hoje, Linda não fez uma pausa para afagar a madeira polida do corrimão nem parou para contemplar da janela no alto das escadas a vista do vale.

 

Foi directamente ao quarto de Rob. A porta estava fechada. Ele tinha saído há uma hora para correr no bosque e poderia voltar a qualquer instante. Abriu nervosamente a porta e entrou. A cama estava desfeita, mas o resto do quarto estava estranhamente arrumado. Rob era bastante meticuloso com a sua roupa e, às vezes, chegava a mandar passar a ferro calças acabadas de vir da lavandaria para acentuar o vinco, mas era desarrumado. Tinha esperado ver a roupa que ele usara na quinta e na sexta-feira no chão para Rosita a apanhar.

 

Atravessou rapidamente o quarto e verificou o cesto de roupa suja que se encontrava na casa de banho. Estava vazio.

 

Entre a manhã de quinta-feira, dia em que Rosita fora visitar a tia doente, e bem cedo esta manhã, Rob tinha lavado e secado a roupa que usara anteontem e ontem. Porquê?

 

Linda teria gostado de inspeccionar o guarda-fato, mas sabia que se arriscava a que ele a encontrasse ali. Não estava preparada para uma confrontação. Saiu do quarto, sem se esquecer de voltar a fechar a porta, e percorreu o corredor em direcção à suite que ela e Vince tinham mandado acrescentar quando ampliaram a casa.

 

Consciente de que estava prestes a sentir uma enxaqueca, pousou a pasta num sofá da sala e dirigiu-se para a casa de banho, a fim de tomar um remédio. Engoliu dois comprimidos e, ao olhar-se no espelho, ficou chocada com o seu aspecto pálido e ansioso.

 

Estava vestida com um fato de treino porque fazia tenção de ir correr depois de trabalhar nos esboços. Tinha o cabelo curto castanho preso atrás por um elástico e não se maquilhara. Perante o seu olhar hipercrítico, parecia mais velha do que os seus 44 anos, com pequeninas rugas à volta dos olhos e aos cantos da boca.

 

Ao lançar um olhar pela janela da casa de banho que dava para o pátio da entrada, viu um carro desconhecido a aproximar-se e a campainha da porta principal tocou momentos mais tarde. Esperava que Rosita usasse o intercomunicador para a prevenir de quem era, mas, em vez disso, a criada subiu as escadas e entregou-lhe um cartão-de-visita.

 

Esse senhor quer falar com o Rob, minha senhora. Disse-lhe que o Rob estava a correr no bosque e ele disse então que ficaria à espera dele.

 

Linda era uns 20 centímetros mais alta do que Rosita, a qual tinha apenas um pouco mais de metro e meio, mas teve quase de apoiar-se a ela para não cair ao ler o nome no cartão-de-visita: inspector da polícia Marcus Longo.

 

Onde quer que fosse, Ellie sentia-se a mais. Foi à procura da mamã depois do simpático inspector ter-se ido embora, mas a Sra. Hilmer disse-lhe que o médico lhe tinha dado um remédio para a ajudar a descansar. E o papá passava quase todo o tempo fechado no seu gabinete. Tinha dito que queria ficar sozinho.

 

A avó Reid, que vivia na Florida, chegou ao fim da tarde de sábado, mas tudo o que fez foi chorar.

 

A Sra. Hilmer e algumas das amigas da mamã do clube de bridge sentaram-se à mesa da cozinha. Ellie ouviu uma delas, a Sra. Storey, dizer: «Sinto-me muito inútil, mas também julgo que a Genine e o Ted, sabendo que estamos aqui, se sentirão menos sozinhos.»

 

Ellie saiu e foi sentar-se no baloiço. Balançou as pernas até o baloiço subir cada vez mais alto. Queria passar por cima da barra do baloiço, cair lá do alto e magoar-se. Talvez então a dor que sentia dentro dela parasse.

 

Já não chovia, mas ainda não havia sol e fazia frio. Passados uns momentos, Ellie deu-se conta de que não valia a pena continuar; o baloiço não ia mais alto. Voltou a entrar em casa pela porta ao lado da cozinha. Ouviu a voz da mãe de Joan. Tinha-se juntado às outras senhoras e Ellie percebeu que ela estava a chorar.

 

Fiquei admirada por a Andrea sair mais cedo. Já tinha anoitecido e passou-me pela cabeça levá-la a casa de carro. Se ao menos...

 

A seguir, Ellie ouviu a Sra. Lewis.

 

Se ao menos a Ellie lhes tivesse dito que a Andrea costumava ir para aquela garagem... O «esconderijo», como elas lhe chamam... Talvez então o Ted chegasse lá a tempo.

 

Se a Ellie ao menos...

 

Ellie subiu em bicos de pés as escadas de trás para que elas não a ouvissem. A mala da avó estava em cima da cama dela. Era esquisito. Então a avó não ia dormir no quarto da Andrea? Agora estava vazio.

 

Ou, se calhar, iam deixá-la, a ela, dormir no quarto da irmã. Se acordasse a meio da noite, poderia, então, fingir que Andrea iria voltar a qualquer instante.

 

A porta do quarto de Andrea estava fechada. Abriu-a tão silenciosamente como sempre fazia nas manhãs de sábado para ver se a irmã ainda estava a dormir.

 

O papá estava sentado à secretária de Andrea. Tinha uma fotografia emoldurada nas mãos. Ellie sabia que era a fotografia de Andrea em bebé, aquela que tinha uma moldura de prata, e a frase: «A Menina do Papá» gravada em cima.

 

Enquanto ela o observava, ele abriu a caixa de música. Mais um presente que o papá tinha oferecido a Andrea pouco depois de ela ter nascido. O papá costumava contar que Andrea, quando era bebé, nunca queria dormir e que ele então dava corda à caixa de música, dançava à volta do quarto com ela ao colo e cantava a letra da música até ela adormecer.

 

Ellie tinha perguntado se o papá também fizera isso com ela, mas a mamã tinha-lhe dito que não, porque ela adormecia com facilidade. Desde que tinha nascido que não dava trabalho nenhum.

 

Fragmentos da letra vieram à cabeça de Ellie enquanto a música tocava. «... És a menina do papá para abraçar e dar colinho... És o espírito do Natal, a minha estrela no topo da árvore... E és a menina do papá.»

 

Enquanto ela o observava, o papá sentou-se à beira da cama de Andrea e desatou a chorar.

 

Ellie recuou e saiu do quarto, fechando a porta tão silenciosamente como a tinha aberto.

 

             Vinte e três anos mais tarde

 

A minha irmã, Andrea, foi assassinada há quase 23 anos, mas parece sempre como se isso tivesse acontecido ontem.

 

Rob Westerfield foi preso dois dias depois do funeral e acusado de homicídio em primeiro grau. A partir quase unicamente da informação que lhes dei, a polícia conseguiu obter autorização para fazer uma busca na casa dos Westerfield e no carro de Rob. Encontraram a roupa que ele tinha usado na noite em que a matou e, apesar de ele a ter limpo com todo o cuidado, o laboratório conseguiu identificar manchas de sangue, e o macaco usado como arma do crime foi encontrado no porta-bagagens do carro. Também o tinha lavado, mas ainda havia vestígios do cabelo de Andrea.

 

A defesa de Rob foi que, nessa noite, tinha ido ao cinema e que, como o parque de estacionamento estava cheio, ele deixara o carro na estação de serviço ao lado. Disse que as bombas de gasolina estavam fechadas, mas que tinha encontrado Paulie Stroebel a trabalhar na garagem e pedira-lhe para deixar lá o carro. Viria buscá-lo depois da sessão.

 

Rob declarou que, enquanto ele estava a ver o filme, Paulie Stroebel devia ter guiado o carro até ao esconderijo, assassinado Andrea e voltado depois a estacionar o carro na estação de serviço. Disse ainda que tinha levado pelo menos uma dúzia de vezes o carro a afinar na estação de serviço e que, numa dessas ocasiões, Paulie poderia ter feito outra chave.

 

Tentou explicar o sangue na roupa e nas solas dos ténis, e afirmou que Andrea lhe tinha suplicado para se encontrar com ela no esconderijo. Disse que Andrea o importunava com telefonemas e que lhe tinha telefonado à hora de jantar na noite em que fora morta. Tinha-lhe dito que ia a uma festa com Paulie Stroebel e que não queria que ele ficasse zangado com ela.

 

Não me importava com quem ela saía declarou no decorrer do julgamento. Era apenas uma miúda apaixonada por mim. Seguia-me por toda a parte. Sempre que vinha à cidade, ela aparecia logo. Ia jogar bowling e, de repente, ela estava na pista ao lado. Apanhei-a, a ela e às amigas dela, a fumar na garagem da minha avó. Queria ser simpática e, assim, disse-lhe que não fazia mal. Estava sempre a pedir-me para a levar a passear de carro. Estava sempre a telefonar-me.

 

Tinha uma explicação para o facto de ter ido ao «esconderijo» nessa noite.

 

Saí do cinema e meti-me no carro a caminho de casa disse. Mas, depois, fiquei preocupado por causa dela. Apesar de ter recusado encontrar-me com a Andrea, ela dissera-me que, de qualquer modo, ficaria à minha espera. Pensei que era melhor passar por lá para me certificar de que a Andrea tinha voltado para casa antes do pai dar pela sua falta. A lâmpada da garagem estava fundida e tive de me aproximar da carrinha às apalpadelas. A Andrea e as amigas costumavam sentar-se em mantas a fumar cigarros atrás da carrinha.

 

Senti a manta debaixo dos pés e distingui com dificuldade um vulto lá deitado. Pensei que a Andrea se tinha cansado de esperar por mim e acabara por adormecer. A seguir ajoelhei-me e toquei-lhe no rosto. Senti sangue e fugi.

 

Perguntaram-lhe porque tinha fugido.

 

Porque receei que alguém pensasse que tinha sido eu.

 

O que é que julgou que tinha acontecido a Andrea?

 

Não sei. Fiquei assustado. E, quando descobri que o macaco no porta-bagagem estava sujo de sangue, percebi logo que tinha sido o Paulie quem a matara.

 

Era muito manhoso e o seu testemunho tinha sido bem ensaiado. Era um jovem bem parecido e causou uma forte impressão.

 

Mas eu era a punição de Rob Westerfield. Lembro-me de ir à barra das testemunhas e de responder às perguntas que o promotor público fez.

 

A Andrea telefonou ao Rob Westerfield antes de ir estudar para casa da Joan, Ellie?

 

Telefonou.

 

Ele alguma vez lhe telefonou?

 

Às vezes, mas se o papá ou a mamã respondiam ele desligava. Queria que fosse a Andrea a telefonar-lhe porque tinha um telefone no quarto.

 

Havia algum motivo especial para a Andrea lhe ter telefonado na noite em que morreu?

 

Havia.

 

Ouviste a conversa?

 

Só um pouquinho. Entrei no quarto da minha irmã e ela estava quase a chorar. Dizia ao Rob que tinha de ir à festa com o Paulie porque não queria que o Paulie fosse contar ao papá que, às vezes, se encontrava com o Rob no esconderijo.

 

O que é que aconteceu depois?

 

Ela disse ao Rob que ia estudar com a Joan e ele disse-lhe para se encontrar com ele no esconderijo.

 

Ouviste-o dizer isso?

 

Não, mas ouvi a minha irmã dizer: «Vou tentar, Rob» e, quando ela desligou, disse-me: «O Rob quer que eu saia mais cedo da casa de Joan e me vá encontrar com ele no esconderijo. Está zangado comigo. Disse-me que eu não devia sair com mais ninguém.»

 

A Andrea disse-te isso?

 

Disse.

 

E, a seguir, o que é que aconteceu?

 

Revelei depois o último segredo de Andrea e quebrei a promessa sagrada que lhe tinha feito o juramento «eu-morra-já-aqui» se alguma vez falasse a alguém do medalhão que Rob lhe tinha oferecido. Era de ouro e tinha a forma de um coração com pedrinhas azuis. Andrea mostrara-me as iniciais que Rob tinha mandado gravar na parte de trás. Nessa altura, desatei a chorar porque tinha muitas saudades da minha irmã e custava-me falar dela.

 

Ela pôs o medalhão antes de sair e, assim, tive a certeza que ela iria encontrar-se com ele acrescentei sem que ninguém me perguntasse nada.

 

Um medalhão?

 

Foi o Rob quem lho deu. A Andrea usava-o por debaixo da blusa para que não a vissem. Mas eu sentio-o quando encontrei a minha irmã na garagem. Lembro-me de estar sentada no banco das testemunhas e de evitar olhar para Rob Westerfield que me fitava com ódio.

 

Juro que podia ler os pensamentos da minha mãe e do meu pai sentados por detrás do promotor público: devias ter-nos contado, Ellie; devias ter-nos contado.

 

O meu testemunho foi atacado pelos advogados de defesa. Disseram que Andrea usava frequentemente uma jóia que o meu pai lhe tinha dado, que era a mesma que se encontrava em cima do toucador de Andrea depois do seu corpo ter sido encontrado e que eu estava a inventar histórias ou a repetir as histórias que Andrea inventara acerca de Rob.

 

Quando a encontrei, a Andrea tinha o medalhão que o Rob lhe deu insisti.

 

Senti-o explodi. É por isso que sei que era o Rob Westerfield que estava no esconderijo quando encontrei a Andrea. Tinha voltado para tirar o medalhão.

 

Os advogados de Rob ficaram furiosos e a minha observação foi riscada dos registos. O juiz virou-se para os jurados e disse-lhes para não a tomarem em consideração. Alguém acreditou no que lhes disse sobre o medalhão que Rob oferecera a Andrea? Não sei. O caso foi apresentado ao júri que se retirou durante quase uma semana. Soubemos que, ao princípio, alguns jurados eram a favor de um veredicto por homicídio involuntário, mas o resto insistiu que ele deveria ser condenado por crime premeditado. Achavam que Rob tinha levado o macaco para a garagem porque estava decidido a matar Andrea. Reli a transcrição do julgamento no decorrer das primeiras vezes que Westerfield pediu liberdade condicional e escrevi cartas veementes protestando contra a sua libertação. Mas, como ele já tinha passado quase 22 anos na prisão, sabia que, desta vez, a liberdade condicional poderia vir a ser-lhe concedida e foi por isso que voltei a Oldham-on-the-Hudson.

 

Tenho 30 anos, vivo em Atlanta e trabalho como repórter para o Atlanta News. O redactor-chefe, Pete Lawlor, considera uma afronta pessoal o facto de um jornalista ter férias nem que seja uma vez por ano e, assim, esperava que ele trepasse pelas paredes quando lhe comuniquei que precisava imediatamente de uns dias de folga e que, mais tarde, talvez precisasse ainda de mais tempo.

 

Vais-te casar?

 

Garanti-lhe que era a última coisa que me passaria pela cabeça.

 

Então o que é que aconteceu?

 

Nunca tinha falado da minha vida pessoal a ninguém do jornal, mas Pete Lawlor é o género de pessoa que parecia saber tudo sobre toda a gente. Trinta e um anos, já meio calvo e em luta constante para perder aqueles 20 quilos a mais, era talvez o homem mais esperto que eu jamais tinha conhecido. Seis meses depois de eu ter começado a trabalhar para o News e feito uma reportagem sobre uma adolescente assassinada, ele tinha-me dito bruscamente: «Deve ter sido muito duro para ti. Sei o que aconteceu à tua irmã.»

 

Não esperava uma resposta, nem eu lhe dei nenhuma, mas senti a sua empatia. O que me ajudou. Tinha sido um trabalho emocionalmente extenuante.

 

O assassino da Andrea vai pedir novamente liberdade condicional e receio bem que, desta vez, a consiga. Quero ver se há alguma coisa que eu possa fazer para impedir que isso suceda.

 

Pete recostou-se na cadeira. Andava sempre com uma camisa aberta no peito e uma camisola. Por vezes perguntava-me se ele tinha algum casaco.

 

Quantos anos é que ele já cumpriu?

 

Quase 22.

 

E quantas vezes pediu liberdade condicional?

 

Duas.

 

Teve algum problema na prisão?

 

Senti-me como uma menina de escola a ser interrogada num exame.

 

Que eu saiba, nenhum.

 

Então vai provavelmente sair em liberdade.

 

É isso que eu acho.

 

Então qual é o problema?

 

Sinto apenas que tenho de o fazer.

 

Pete Lawlor não acredita em perder tempo nem palavras. Não me fez mais nenhuma pergunta e acenou simplesmente com a cabeça.

 

  1. Quando é que é a audiência?

 

Na próxima semana. Tenho de falar com alguém da comissão que está a rever o caso na segunda-feira.

 

Voltou-se para a papelada em cima da sua secretária, sinal que a conversa estava acabada.

 

Vai lá.

 

Mas, quando me virei para me ir embora, ele acrescentou.

 

Não és tão dura como julgas que és, Ellie.

 

Sou, sim.

 

Não me dei ao trabalho de lhe agradecer a folga.

 

Isto passou-se sexta-feira. Tomei o avião no sábado de Atlanta para o aeroporto do condado de Westchester e aluguei um carro quando lá cheguei.

 

Podia ter ficado num motel em Ossining, perto de Sing Sing, a prisão onde o assassino de Andrea estava encarcerado. Mas preferi percorrer vinte e poucos quilómetros para chegar à minha cidade natal, Oldham-on-the-Hudson, e consegui arranjar um quarto na pitoresca estalagem Parkinson. Lembrava-me vagamente termos lá ido almoçar ou jantar algumas vezes.

 

Era óbvio que os negócios da estalagem prosperavam. Neste sábado frio de Outubro, as mesas da sala de jantar estavam cheias de gente informalmente vestida, a maior parte casais e pequenos grupos. Senti saudades. Era assim que me lembrava da minha vida anterior, nós os quatro a almoçar aos sábados e depois o papá deixar-nos às vezes, a mim e à Andrea, à porta do cinema. Ela ia encontrar-se com amigas, mas não se importava que eu fosse com ela.

 

A Ellie é uma boa menina. Não é nenhuma queixinhas dizia.

 

Quando o filme terminava mais cedo, precipitávamo-nos todas para o esconderijo onde Andrea, Joan, Margy e Dottie partilhavam um cigarro à pressa antes de regressarmos a casa.

 

E se o papá dizia que a roupa dela cheirava a fumo, Andrea tinha uma resposta sempre pronta.

 

Não tenho culpa. Fomos comer uma pizza depois do cinema e havia lá uma data de gente a fumar.

 

E, depois, piscava-me o olho.

 

A estalagem Parkinson tinha apenas oito quartos, mas ainda havia um vago. Era um espaço espartano com uma cama de ferro, uma secretária de duas gavetas, uma mesinha-de-cabeceira e uma cadeira. A janela dava para leste, na direcção em que a casa onde tínhamos vivido ficava. Nessa tarde, o Sol estava incerto e escondia-se por entre as nuvens, por vezes a brilhar e outras completamente escondido.

 

Fiquei à janela a olhar lá para fora e pareceu-me ter novamente sete anos e estar a observar o meu pai com a caixa de música nas mãos.

 

Lembro-me dessa tarde como o dia que definiu a minha vida. «Dai-nos a criança até ela ter sete anos e eu mostrar-vos-ei o homem», disse Santo Inácio de Loyola.

 

Assumo que ele também se referia às mulheres. Mantive-me ali, quieta como um rato, a observar o pai que eu adorava agarrado à fotografia da minha irmã morta e a chorar enquanto os frágeis sons da caixa de música voltejavam em redor dele.

 

Olho para trás e pergunto a mim própria se ocorreu lançar-me nos seus braços e abraçá-lo, absorvendo o seu pesar e deixando-o misturar-se com o meu. Mas a verdade é que, mesmo nessa altura, compreendi que a sua dor era única e que, por mais que fizesse, nunca conseguiria consolá-lo.

 

O tenente Edward Cavanaugh, oficial condecorado da Polícia Estatal de Nova Iorque, herói de uma dúzia de situações perigosas, não fora capaz de impedir a morte da sua bela e teimosa filha de 15 anos, e a angústia dele não podia ser partilhada nem sequer por alguém do seu próprio sangue.

 

Acabei por compreender, ao longo dos anos, que quando a dor não é partilhada, a culpa é passada de uma pessoa para outra como uma batata quente e cola-se às mãos daquela que é menos capaz de se desembaraçar dela.

 

Neste caso, essa pessoa era eu.

 

O inspector Marcus Longo não perdeu tempo para se aproveitar do facto de eu ter violado a confiança que Andrea depositara em mim. Tinha-lhe dado duas pistas, dois suspeitos possíveis: Rob Westerfield, que utilizou as suas tácticas requintadas de menino rico para seduzir Andrea, e Paul Stroebel, adolescente rústico e tímido com uma paixão pela linda caloira que aplaudia entusiasticamente as suas proezas desportivas no campo de râguebi.

 

Sempre a fazer claque pela equipa da casa ninguém era melhor nisso de que Andrea!

 

Enquanto os resultados da autópsia ao corpo da minha irmã estavam a ser examinados e decorriam os preparativos para ela ser enterrada no cemitério Portas do Céu, junto dos nossos avós paternos que eu mal me lembrava, o inspector Longo interrogava Rob Westerfield e Paul Stroebel. Ambos protestaram que não tinham visto Andrea na quinta-feira à noite nem tinham planeado encontrar-se com ela.

 

Paul tinha trabalhado na estação de serviço e, embora esta tivesse fechado às sete, declarou que ficara mais tempo na garagem a consertar vários carros. Rob Westerfield jurou que tinha ido ao cinema local e até apresentou um bilhete como prova.

 

Lembro-me de estar de pé à beira da sepultura de Andrea com uma única rosa na mão e de me dizerem, depois do serviço fúnebre ter terminado, para eu a colocar em cima do caixão. Também me lembro que me sentia morta por dentro, tão morta e quieta como Andrea se encontrava quando me debrucei sobre ela na garagem.

 

Queria dizer-lhe como lamentava ter revelado o seu segredo acerca dos seus encontros com Rob e também queria dizer-lhe, com igual emoção, que tinha muita pena por não ter contado tudo aos nossos pais assim que nos demos conta de que ela já tinha saído da casa de Joan, mas ainda não chegara a casa. Mas claro que nada disse. Deixei cair a flor que escorregou do caixão e, antes que eu pudesse recuperá-la, a minha avó adiantou-se e colocou a dela como devia ser, esmagando com o pé a minha rosa na terra enlameada.

 

Momentos mais tarde, saímos em fila do cemitério e, no meio da multidão de rostos solenes, entrevi olhares coléricos lançados na minha direcção. Os Westerfield não assistiram ao funeral, mas os Stroebel, ladeando Paulie e tocando-lhe com os ombros, encontravam-se lá. Lembro-me do sentimento de culpa que me rodeava, me esmagava e sufocava. Foi um sentimento que nunca mais perdi

 

Tentei dizer-lhes que, ao ajoelhar-me ao lado do corpo de Andrea, tinha ouvido alguém a respirar, mas não acreditaram em mim porque eu estava muito assustada e histérica. A minha própria respiração quando fugi do bosque era tão arquejante e difícil como veio a tornar-se durante as minhas crises de crupe Mas, ao longo dos anos, tenho acordado muitas vezes com o mesmo pesadelo estou debruçada sobre o corpo de Andrea, a escorregar no seu sangue e a ouvir aquela respiração rouca, animalesca seguida de um riso estridente de predador

 

Por instinto e através do medo que tem salvo a humanidade de extinção, sei que Rob Westerfield é habitado por uma criatura feroz, a qual, se for libertada, voltará a atacar

 

Quando senti as lágrimas a picar-me os olhos afastei-me da janela, peguei na mochila, atirei-a para cima da cama e abri-a. Quase sorri enquanto tirava as minhas coisas, imaginando que era muita lata da minha parte criticar, nem que fosse mentalmente, o vestuário informal de Pete Lawlor. Estava vestida com jeans e uma camisola de gola alta, e, dentro da mochila, tinha apenas uma saia comprida de lã e duas outras camisolas, além de uma camisa de noite e roupa interior. Os meus sapatos favoritos são socos, o que mais vale porque tenho 1,73 metros de altura. O meu cabelo manteve o seu tom de areia. É comprido e uso-o enrolado no alto da cabeça ou preso atrás do pescoço.

 

A bonita e feminina Andrea parecia-se com a mãe. Tenho as feições fortes do meu pai, as quais assentam melhor num homem do que numa mulher. Nunca ninguém me chamou a estrela da árvore de Natal.

 

Aromas tentadores provenientes da sala de jantar chegaram-me às narinas e percebi que tinha fome. Tinha apanhado um avião que partia bastante cedo de Atlanta e é evidente que fora obrigada a chegar ao aeroporto muito antes da hora de partida. O serviço de comidas perdão! de bebidas tinha consistido aPenas numa chávena de mau café.

 

Era uma e meia quando desci para a sala de jantar e já havia Pouca gente a almoçar. Foi fácil arranjar uma mesa perto da lareira.

 

Não me dei conta do frio que tinha até o calor começar a aquecer-me as mãos e os pés.

 

Posso trazer-lhe uma bebida? perguntou-me a empregada de mesa, uma mulher sorridente de cabelo grisalho com o nome numa etiqueta pregada no peito, «Liz».

 

Por que não?, pensei, e pedi um copo de vinho tinto. Quando ela voltou, disse-lhe que queria uma sopa de cebola e ela respondeu que era um dos pratos favoritos da casa.

 

Trabalha aqui há muito tempo, Liz? perguntei.

 

Há 25 anos. Até me custa a acreditar...

 

Quer dizer portanto que podia muito bem ter-nos servido à mesa.

 

Ainda prepara sanduíches com geleia e manteiga de amendoim?

 

Oh, claro! Costumava comê-las aqui?

 

Costumava, pois.

 

Lamentei imediatamente ter mencionado isso. A última coisa que desejava era que os velhos clientes se dessem conta de que eu era a «irmã da rapariga que fora assassinada há 23 anos».

 

Mas Liz estava obviamente habituada a ouvir pessoas dizer que tinham jantado na estalagem há muito tempo e, sem mais comentários, afastou-se.

 

Beberiquei o vinho e, aos poucos, comecei a lembrar-me das ocasiões particulares em que tínhamos estado aqui em família, no tempo em que éramos uma família. A maior parte das vezes tinha sido para festejar aniversários, ou para jantar depois de termos dado um passeio de carro. A última vez que estivemos aqui, pensei, foi quando a minha avó veio da Florida, onde vivia há quase um ano, para nos visitar. Lembro-me de o meu pai a ter ido buscar ao aeroporto e vir depois encontrar-se aqui connosco. Tínhamos encomendado um bolo para ela. As letras cor-de-rosa no creme branco diziam: «Bem-vinda a casa, avó.»

 

Ela tinha começado a chorar. Lágrimas de alegria. As últimas lágrimas de alegria derramadas na nossa família. Esse pensamento transportou-me para as lágrimas derramadas no dia do funeral de Andrea e a terrível confrontação pública entre a minha mãe e o meu pai.

 

Voltámos a casa depois do funeral. As vizinhas tinham preparado uma refeição e havia uma data de gente: os nossos antigos vizinhos de Irvington, as novas amigas da minha mãe da nossa paróquia, os membros do clube de bridge que jogavam com ela às quartas-feiras e as colegas voluntárias do hospital. Também lá se encontravam muitos amigos de longa data do meu pai e colegas da polícia, alguns deles fardados e de serviço que só tinham passado para dar-lhe os pêsames e manifestar a sua solidariedade.

 

As cinco raparigas que eram amigas íntimas de Andrea estavam agrupadas a um canto com os olhos inchados de lágrimas. Joan, em casa de quem Andrea tinha estado pouco antes de ser assassinada, tinha sido particularmente afectada e estava a ser reconfortada pelas outras quatro.

 

Sentia-me separada de todos. A minha mãe, vestida de luto e com ar muito triste, estava sentada no divã da sala de estar rodeada de amigas que lhe seguravam a mão ou insistiam para que tomasse uma chávena de chá.

 

Vai fazer-te bem, Genine. Tens as mãos tão frias.

 

Apesar dos olhos se encherem constantemente de lágrimas, tinham uma aparência calma e ouvi-a dizer várias vezes: «Não posso acreditar que ela tenha desaparecido.»

 

Ela e o meu pai tinham-se mantido abraçados um ao outro à beira da sepultura, mas, agora, estavam sentados em salas diferentes, ela na sala de estar e ele na varanda das traseiras, coberta, que fora transformada numa espécie de gabinete. A minha avó estava na cozinha com algumas das suas velhas amigas de Irvington, recordando tristemente tempos mais felizes das suas vidas.

 

Vagueei no meio daquela gente toda e, embora tenham falado comigo e dito que eu era uma menina corajosa, sentia-me muito só. Queria Andrea. Queria subir ao quarto da minha irmã, encontrá-la lá e enroscar-me junto a ela na cama enquanto ela falava sem parar ao telefone com as amigas ou com Rob Westerfield.

 

Antes de lhe telefonar, costumava perguntar-me: «Posso confiar em ti, Ellie?»

 

Claro que podia. Rob quase nunca lhe telefonava porque ela estava proibida de ter alguma coisa a ver com ele e havia sempre o perigo de, mesmo que fosse Andrea a responder, um dos nossos pais levantar o auscultador no andar de baixo e reconhecer a voz dele.

 

A minha mãe ou o meu pai? Ou era apenas o meu pai? Incomodaria isso a minha mãe? Afinal de contas, Rob era um Westerfield e tanto a avó como a mãe dele frequentavam o Clube de Mulheres a que a minha mãe pertencia.

 

Tínhamos voltado a casa ao meio-dia, e às duas as pessoas começaram a dizer coisas como: «Depois de tudo o que passaram, devem precisar de descansar.»

 

Sabia o que isso queria dizer. Depois de terem apresentado os seus sinceros pêsames, preparavam-se para regressar às suas casas. A relutância em ir-se embora devia-se ao facto de estarem ansiosos por obterem informações quanto à investigação e a eventual captura do assassino de Andrea.

 

Por volta dessa altura, todos estavam ao corrente da cena de Paulie Stroebel na escola e sabiam que, o mês passado, Andrea tinha estado no carro de Rob quando este fora multado por excesso de velocidade.

 

Paulie Stroebel. Quem havia de dizer que um rapaz introvertido e tranquilo como ele estava apaixonado por uma rapariga como Andrea, ou que ela tinha aceite ir ao baile do dia de Acção de Graças com ele?

 

Rob Westerfield. Tinha passado um ano na universidade e toda a gente podia ver que ele não era parvo. Mas corriam boatos de que ele fora expulso. Desperdiçara, aparentemente, o primeiro ano. Tinha 19 anos quando reparou na minha irmã. Por que é que ele teve de se meter com Andrea, uma menina que ainda andava no liceu?

 

Não se contava que ele esteve envolvido no que aconteceu à avó?

 

No momento exacto em que ouvi este comentário, a campainha da porta tocou e a Sra. Storey, que também era membro do clube de bridge e estava no vestíbulo, foi abrir. A Sra. Dorothy Westerfield, a avó de Rob e dona da propriedade com a garagem onde Andrea tinha morrido, surgiu no limiar da porta.

 

Era uma bela e imponente mulher de ombros largos e peito opulento. Mantinha-se muito direita, o que a fazia parecer mais alta do que era. O cabelo grisalho, que ela penteava para trás, tinha um tom de aço e era naturalmente ondulado. Aos 73 anos, as sobrancelhas ainda eram negras e chamavam a atenção para a expressão inteligente dos seus olhos castanhos-claros. Os maxilares demasiado pesados impediam que fosse considerada bonita, mas, por outro lado, davam maior força ao seu aspecto autoritário.

 

Estava sem chapéu e usava um elegante casaco cinzento-escuro de Inverno. Entrou e os seus olhos percorreram o interior à procura de minha mãe, a qual tentava agora pôr-se de pé.

 

A Sra. Westerfield dirigiu-se para ela.

 

Estava na Califórnia e só consegui chegar agora. Mas tinha de vir participar o meu pesar a si e à sua família, Genine. Perdi um filho adolescente, há muitos anos, num acidente de esqui e compreendo assim como deve sentir-se.

 

A minha mãe acenava a cabeça reconhecidamente quando a voz do meu pai ecoou na sala.

 

Mas isto não se tratou de um acidente, Sra. Westerfield disse ele. A minha filha foi assassinada. A sua cabeça foi esmagada e quem a matou pode muito bem ter sido o seu neto. Para dizer a verdade, e tendo em vista a reputação dele, a senhora deve saber que ele é o principal suspeito. Por isso, por favor, saia desta casa. Tem muita sorte em ainda estar viva. Não me diga que ainda não acredita que ele esteve envolvido naquele roubo em que a senhora levou um tiro e quase morreu?

 

Como é que podes dizer uma coisa dessas, Ted? implorou a minha mãe. Queira desculpar, Sra. Westerfield. O meu marido...

 

A não ser por eles os três, a casa podia estar vazia. Ninguém se mexia, como no jogo de estátuas a que eu costumava brincar no recreio.

 

O meu pai parecia uma personagem do Antigo Testamento. Tinha tirado a gravata e a camisa estava desabotoada no colarinho. O rosto estava tão branco como a camisa e os seus olhos azuis quase negros de raiva. Tinha uma farta cabeleira castanha-escura que, nessa altura, parecia ainda mais hirsuta, como electrificada pela sua ira.

 

Não te atrevas a pedir desculpa em meu nome, Genine gritou. Não há um polícia aqui nesta casa que não saiba que o Rob Westerfield é um tratante. A minha filha, a nossa filha está morta. Agora acrescentou aproximando-se da Sra. Westerfield. Saia já da minha casa e leve as suas lágrimas de crocodilo consigo. A Sra. Westerfield tinha ficado tão pálida como o meu pai. Não lhe respondeu, mas apertou a mão de minha mãe e dirigiu-se lentamente para a porta. Quando a minha mãe voltou a falar, não elevou a voz, mas o tom foi como uma chicotada. Queres por força que o culpado seja o Rob Westerfield, não queres, Ted? Sabes que a Andrea estava louca por ele e isso não te agrada. Queres saber uma coisa? O que tu tinhas era ciúmes. Se te tivesses mostrado razoável e deixado que ela saísse com ele, ou, já agora, com qualquer outro rapaz, ela não teria sido obrigada a marcar encontros às escondidas... E, depois, a minha mãe começou a imitar a maneira do meu pai falar.

 

Só podes ir a uma reunião escolar acompanhada por um rapaz do liceu, Andrea. Estás proibida de entrar no carro dele. Eu é que te vou buscar.

 

O meu pai corou, não sei se de vergonha ou de raiva.

 

Se ela me tivesse obedecido, ainda hoje estaria viva disse em voz calma, mas com amargura. Se não tivesses andado a beijar a mão de todos os que se chamam Westerfield...

 

Ainda bem que não és tu quem anda a investigar este caso interrompeu-o a minha mãe. E então aquele miúdo Stroebel? E o Will Nebels, o homem que faz serviços para toda a gente? E aquele caixeiro-viajante? Já o encontraram?

 

E a fada benfeitora?

 

O tom de voz do meu pai era agora desdenhoso. Virou-se e dirigiu-se para o seu gabinete onde os amigos estavam reunidos, fechando a porta atrás de si. E, finalmente, reinou um silêncio absoluto.

 

A minha avó tinha planeado ficar connosco naquela noite, mas sentindo que seria melhor deixar o meu pai e a minha mãe sozinhos fez as malas e partiu com uma amiga de Irvington. Passaria a noite em casa dela e tomaria o avião na manhã seguinte.

 

A esperança que ela tinha de que, após aquela azeda troca de palavras, os meus pais se reconciliariam não viria a acontecer.

 

A minha mãe dormiu no quarto de Andrea naquela noite e todas as outras noites durante dez meses, até depois do julgamento, quando nem todo o dinheiro e os advogados de defesa dos Westerfield conseguiram salvar Rob de ser condenado pela morte de Andrea.

 

A seguir, venderam a casa. O meu pai foi morar em Irvington e a minha mãe e eu começámos a levar uma existência nómada que começou na Florida junto da minha avó. A minha mãe, que tinha trabalhado como secretária antes de se casar, arranjou um emprego numa cadeia nacional de hotéis. Ainda bastante atraente, era também esperta e diligente. Foi rapidamente promovida e tornou-se uma espécie de especialista em hotelaria, o que a obrigava a mudar de cidade todos os 18 meses.

 

Infelizmente, aplicava a mesma diligência a ocultar de toda a gente excepto de mim o facto de se ter tornado uma alcoólica. Começava a beber assim que voltava a casa do trabalho. Conseguiu controlar-se suficientemente durante alguns anos para continuar a fazer o seu trabalho, apenas com alguns acessos de «gripe» quando precisava de se restabelecer.

 

Às vezes, ficava apática e silenciosa por causa da bebida, mas, outras vezes, falava pelos cotovelos. Foi durante um desses períodos que eu me apercebi de como ela amava apaixonadamente o meu pai.

 

Apaixonei-me por ele à primeira vista, Ellie. Alguma vez te contei como nos conhecemos?

 

Uma data de vezes, mãe.

 

Tinha 19 anos e há seis meses que trabalhava no meu primeiro emprego como secretária. Tinha comprado um carro, um caixote cor de laranja com rodas e um depósito de gasolina, e, um dia, decidi verificar que velocidade aquilo dava na auto-estrada. De repente, ouvi uma sirena e vi pelo retrovisor uma luz a cintilar atrás de mim. Uma voz ordenou-me através de um altifalante para eu encostar à beira da estrada. O teu pai passou-me uma multa e um raspanete, mas, quando fui convocada ao tribunal, ele apareceu e anunciou que me ia dar lições de condução.

 

Por vezes, queixava-se.

 

Ele era de tal modo formidável. Tinha um curso superior, boa aparência e inteligência. Mas só se sentia à vontade com os amigos e não gostava de mudanças. Era por isso que não queria sair de Irvington. O problema não era onde vivíamos. Era demasiado rigoroso com a Andrea. Mesmo que tivéssemos ficado em Irvington, ela teria continuado a marcar encontros às escondidas.

 

Essas recordações terminavam sempre com: «Se ao menos tivéssemos sabido onde procurar pela Andrea quando ela não apareceu em casa», querendo dizer com aquilo, «se ao menos eu lhes tivesse falado do esconderijo».

 

O terceiro ano do liceu na Florida. O quarto e o quinto na Luisiana. O sexto no Colorado. O sétimo na Califórnia. O oitavo no Novo México.

 

O cheque do meu pai para me sustentar chegava pontualmente no primeiro dia de cada mês, mas, ao longo desses primeiros anos, só o vi de vez em quando e, depois, deixei de o ver de todo. Andrea, a menina dos seus olhos, tinha desaparecido. Tudo o que restava entre ele e a minha mãe eram remorsos e amor recalcado, e o que quer que ele sentisse por mim não era suficiente para ele desejar a minha presença. Viver sob o mesmo tecto comigo parecia abrir o tecido cicatrizado que lhe cobria as feridas. Se ao menos eu tivesse mencionado o esconderijo...

 

À medida que eu crescia, a minha adoração pelo meu pai foi-se transformando em ressentimento. Que tal ele perguntar a si mesmo: se eu ao menos tivesse interrogado Ellie em vez de a mandar para a cama? Que tal, papá?

 

Felizmente, quando já tinha idade para entrar na universidade, já vivíamos há suficiente tempo na Califórnia para sermos residentes e eu matriculei-me no curso de jornalismo da UCLA. A minha mãe morreu de complicações no fígado seis meses depois de eu me formar e, querendo recomeçar de novo, candidatei-me e obtive o emprego em Atlanta.

 

Rob Westchester fez mais do que assassinar a minha irmã nessa noite de Novembro há 22 anos. Enquanto estava sentada na sala de jantar da estalagem a ver Liz pôr a sopa de cebola a fumegar diante de mim, comecei a perguntar-me o que teria sido as nossas vidas se Andrea ainda fosse viva.

 

Os meus pais ainda estariam juntos e ainda estaríamos a viver aqui. A minha mãe tinha grandes planos para melhorar a casa e o meu pai teria sem dúvida estabilizado. Ao conduzir através das ruas, dei-me conta de que a aldeia rural de que eu me lembrava tinha mudado consideravelmente. Tinha agora o aspecto de uma cidade de Westchester desenvolvida, exactamente o que a minha mãe previra. O meu pai já não teria sido obrigado a guiar oito quilómetros para comprar uma embalagem de leite.

 

Quer tivéssemos continuado a morar aqui, ou não, não havia quaisquer dúvidas de que, se Andrea não tivesse morrido, a minha mãe ainda estaria viva. Não teria tido necessidade de procurar conforto e esquecimento no álcool.

 

E o meu pai poderia até vir a aperceber-se da minha adoração por ele e, com o tempo, talvez quando Andrea partisse para a universidade, talvez me prestasse a atenção que eu ansiava.

 

Provei a sopa.

 

Era exactamente como eu me lembrava.

 

Liz voltou com um cesto de pão torrado nas mãos. Deixou-se ficar junto à mesa durante uns momentos.

 

Pelo que disse sobre as sanduíches com manteiga de amendoim e geleia, acho que costumava vir aqui.

 

Tinha despertado a sua curiosidade.

 

Há muito tempo disse, tentando mostrar-me natural. Fomos embora quando ainda era criança. Agora vivo em Atlanta.

 

Estive lá uma vez. É uma cidade simpática comentou ela, afastando-se.

 

Atlanta, a Porta do Sul. Foi uma boa decisão da minha parte. Enquanto muitos dos meus colegas do curso de jornalismo estavam interessados em entrar para a televisão, eu sempre soube, por uma razão qualquer, que o que me atraía mais era a palavra impressa. E comecei, finalmente, a desenvolver um sentido de permanência.

 

Os jornais não pagam muito bem aos empregados acabados de sair da universidade, mas a minha mãe tinha um modesto seguro de vida que me proporcionou a liberdade de mobilar um pequeno apartamento de três divisões. Comprei cuidadosamente mobília nas lojas de segunda mão e, quando o apartamento ficou pronto, fiquei consternada ao ver que tinha inconscientemente recriado o efeito geral da sala de estar da nossa casa em Oldham: azuis e vermelhos na carpete. Um divã forrado de azul e poltronas. Até mesmo uma otomana, embora mal lá coubesse.

 

Trouxe-me tantas recordações. O meu pai a fazer a sesta na poltrona, as suas pernas compridas esticadas sobre a otomana; Andrea a empurrá-las sem cerimónia; os olhos dele a abrirem-se e o terno sorriso lançado à sua linda filha traquinas...

 

Eu andava sempre em bicos de pés quando ele estava a dormir, sem querer incomodá-lo. Quando eu e Andrea estávamos a levantar a mesa depois do jantar, escutava-o atentamente contar à minha mãe o que tinha acontecido naquele dia no emprego, enquanto tomava uma segunda chávena de café. O meu pai, gabava-me, salvava a vida às pessoas.

 

Três anos após o divórcio, ele voltou a casar-se. Por essa altura, eu já o tinha ido visitar a Irvington pela segunda e última vez. Não quis ir ao seu casamento nem me importei quando ele escreveu a dizer que eu tinha um irmão. O seu segundo casamento tinha produzido o filho que eu deveria ter sido. Agora, Edward James Cavanaugh, Jr. tem cerca de 17 anos.

 

O último contacto que tive com o meu pai foi para lhe dar a notícia, por carta, de que a minha mãe tinha morrido e que eu gostaria de enviar as suas cinzas para o cemitério da Porta do Céu, a fim de serem enterradas na sepultura de Andrea. Caso ele não desse o seu consentimento, eu enterrá-las-ia junto dos pais dela.

 

Escreveu-me para me dar os pêsames e dizer que tinha tomado as disposições que eu pedira. Também me convidou a visitá-lo em Irvington.

 

Enviei as cinzas e recusei o convite.

 

A sopa de cebola aqueceu-me e as recordações agitaram-me. Decidi ir buscar o casaco ao quarto e guiar à volta da cidade. Eram duas e meia e eu já estava a começar a censurar-me porque não tinha esperado até ao dia seguinte para vir a Oldham. Tinha um encontro com um homem chamado Martin Brand, funcionário do departamento de liberdade condicional, às dez horas da manhã, de segunda-feira. Tencionava fazer um esforço para convencê-lo a não libertar Rob Westerfield, mas Pete Lawlor tinha-me prevenido de que seria provavelmente inútil.

 

A luz das mensagens do telefone no meu quarto estava acesa. Tinha de telefonar com urgência a Pete Lawlor. Atendeu ao primeiro toque.

 

Pareces ter o dom de estar no lugar certo no momento certo Ellie disse-me. Acabei de receber a notícia que os Westerfield vão dar uma conferência de imprensa dentro de 15 minutos. A CNN vai lá estar. O Will Nebels, o homem que foi interrogado no caso da tua irmã, declarou há pouco ter visto o Paul Stroebel no carro do Rob Westerfield na noite em que a Andrea foi morta. Diz que o viu entrar na garagem da Sra. Westerfield com um objecto na mão. Sair a correr dez minutos mais tarde, meter-se no carro e arrancar.

 

Por que é que ele não contou essa história há anos? perguntei.

 

Diz que teve medo que lhe pusessem as culpas em cima.

 

Como é que ele viu tudo isso?

 

Estava em casa da velha Westerfield. Andava a fazer umas reparações e tinha o código para lá entrar. E também sabia que a avó costumava deixar notas em gavetas pela casa toda. Não tinha cheta e precisava de dinheiro. Encontrava-se no quarto de dormir da Sra. Westerfield cuja janela dá para a garagem, e quando Stroebel abriu a porta do carro reconheceu-o.

 

Ele está a mentir disse em tom categórico.

 

Vai à conferência de imprensa disse-me Pete. E faz uma reportagem. Lembra-te de que és jornalista.

 

Fez uma pausa.

 

A não ser que, para ti, seja demasiado perto da tua terra natal.

 

Não é disse. Telefono-te mais tarde.

 

A conferência de imprensa tinha lugar no escritório, em White Plains, de William Hamilton, advogado criminal contratado pela família Westerfield para provar a inocência de Robson Parke Westerfield.

 

Hamilton iniciou a sessão apresentando-se. Estava ladeado por dois homens. Reconheci um deles pelas fotografias como sendo o pai de Rob, Vincent Westerfield. Andava pela casa dos 60 e tinha uma figura distinta com cabelo prateado e feições nobres. Do outro lado de Hamilton, um indivíduo visivelmente nervoso de olhos congestionados, que poderia ter entre 60 e 70 anos, abria e fechava os dedos entrelaçados.

 

Foi apresentado pelo nome de Will Nebels. Hamilton fez um resumo breve dos seus antecedentes.

 

O Will Nebels trabalhou durante muitos anos em Oldham. Executou várias tarefas na casa de campo da Sra. Dorothy Westerfield, a mesma em cuja garagem o corpo de Andrea Cavanaugh foi encontrado. O Sr. Nebels foi interrogado, juntamente com outras pessoas, quanto ao seu paradeiro na noite dessa quinta-feira em que a Andrea perdeu a vida. Nessa altura, declarou que tinha jantado ao balcão de um restaurante local e que, depois, fora directamente para casa. Foi visto a jantar no local mencionado por várias testemunhas e não houve motivos para duvidar da sua história.

 

No entanto, quando o escritor de livros policiais com sucesso, Jake Bern, o qual está actualmente a escrever sobre a morte de Andrea Cavanaugh e a presumível inocência de Rob Westerfield, falou com o Sr. Nebels, surgiram novos factos.

 

E Hamilton virou-se, então, para Will Nebels.

 

Pode, por favor, comunicar à imprensa o que contou exactamente ao Sr. Bern?

 

Nebels agitou-se com nervosismo. Parecia pouco confortável enfiado num fato, camisa e gravata que eu tinha a certeza de que lhe tinham posto para a ocasião. Trata-se de um velho truque dos advogados de defesa que eu vira inúmeras vezes nos tribunais. Vestem o réu, cortam-lhe o cabelo, barbeiam-no e dão-lhe uma camisa e uma gravata mesmo que ele nunca tenha usado tal coisa durante toda a vida. Faziam muitas vezes a mesma coisa às testemunhas da defesa.

 

Lamento imenso começou ele em voz rouca.

 

Reparei como estava magro e pálido e perguntei a mim própria se ele não estaria doente. Tinha apenas uma vaga lembrança dele, mas fizera uns trabalhos em nossa casa e tinha-me deixado a recordação de que era um pouco corpulento.

 

Tenho vivido com este remorso e, quando o tal escritor veio falar comigo sobre o caso, percebi que tinha de desabafar.

 

Contou depois a mesma história que tinha chegado por telex às mãos de Pete Lawlor. Vira Paul Stroebel a guiar o carro de Rob Westerfield até à garagem e entrar lá dentro com um objecto pesado na mão. É evidente que a referência a esse objecto era para insinuar que se tratava do macaco usado para espancar Andrea até à morte, o mesmo que tinha sido encontrado no porta-bagagens do carro de Rob.

 

A seguir, foi a vez de Vincent Westerfield falar.

 

Apesar de ter sempre protestado a sua inocência, há 22 anos que o meu filho se encontra encarcerado numa prisão no meio de criminosos da pior laia. Ele foi realmente ao cinema na noite desse horrível crime. Estacionou o carro na estação de serviço ao lado do cinema onde os carros da minha família são regularmente afinados. Era muito fácil fazer uma cópia da chave do seu carro, pois tinha-o lá deixado por causa de umas amolgadelas pelo menos três vezes nos últimos meses.

 

O Paul Stroebel estava de serviço nessa noite. As bombas de gasolina tinham fechado às sete, mas ele estava a consertar um carro no interior. O Rob falou com o Paul e disse-lhe que deixara o carro no parque Sabemos que o Paul negou sempre ter tido esta conversa com o meu filho, mas, agora, podemos provar que ele mentiu. Enquanto o Rob estava a ver o filme, o Stroebel pegou no carro dele, dirigiu-se para o local que as miúdas chamavam o esconderijo e assassinou essa rapariga.

 

Vincent Westerfield endireitou-se e a sua voz tornou-se mais forte e profunda.

 

Após todos estes anos, o meu filho tem direito à liberdade condicional e, pelo o que nos foi dado a entender, vai ser solto da prisão, mas isso não chega. Com esta prova, vamos solicitar novo julgamento e acreditamos que, desta vez, o Rob será absolvido. Temos boas razões para crer que o Paul Stroebel, o verdadeiro criminoso, venha a ser condenado à prisão perpétua.

 

Eu estava a ver a conferência de imprensa pela televisão numa pequena sala de estar da estalagem. Sentia-me tão furiosa que queria lançar qualquer coisa contra o ecrã. Rob Westerfield estava numa situação em que sairia sempre vencedor. Se fosse novamente considerado culpado, não poderiam metê-lo outra vez na prisão. Já tinha cumprido a pena. E, se fosse absolvido, nunca levariam Paul Stroebel a tribunal baseando-se numa testemunha digna de tão pouca confiança como Will Nebels. Contudo, aos olhos do mundo, seria ele o criminoso.

 

Julgo que outras pessoas sabiam da conferência porque, assim que liguei a televisão, começou a chegar gente. O empregado da recepção foi o primeiro a fazer um comentário.

 

Paul Stroebel... Que ideia! Esse pobre coitado não faria mal a uma mosca.

 

Bem, há quem ache que ele fez muito mais do que isso disse uma das criadas de mesa que eu vira na sala de jantar. Não estava cá quando isso aconteceu, mas ouvi contar muita coisa a esse respeito. Ficarias espantado com o número de pessoas que pensa que o Rob Westerfield está inocente.

 

Os profissionais dos meios de comunicação que assistiam à conferência lançavam perguntas a Will Nebels.

 

Dá-se conta de que pode ir parar à prisão por infracção e falsas declarações? ouvi um deles perguntar.

 

Permitam-me que responda a essa pergunta atalhou Hamilton. O caso já prescreveu e o Sr. Nebels não corre o risco de ser preso. Apresentou-se para reparar uma injustiça. Não sabia que a Andrea Cavanaugh estava na garagem nessa noite nem o que lhe tinha acontecido. Infelizmente, assustou-se quando imaginou que o seu testemunho o inculparia e, por isso, calou-se.

 

Prometeram dar-lhe dinheiro em troca deste depoimento,

 

Sr. Nebels? perguntou outro repórter.

 

Era exactamente a pergunta que eu teria feito, pensei.

 

Foi novamente Hamilton quem respondeu.

 

É evidente que não.

 

Será que o Sr. Nebels vai representar o seu próprio papel no filme baseado nesta história?, perguntei-me.

 

O Sr. Nebels já fez uma deposição ao magistrado federal?

 

Ainda não. Queremos manter a imparcialidade da opinião pública e dar-lhe a conhecer este depoimento antes que o promotor público o interprete de maneira diferente. É terrível dizer isto, mas a questão é que, se a Andrea Cavanaugh tivesse sido sexualmente assaltada, teriam sido feitos testes de ADN, e o Rob Westerfield há já muito tempo estaria em liberdade. Mas, dadas as circunstâncias, foi a sua preocupação com o bem-estar da rapariga que o meteu nesta embrulhada. A Andrea tinha-lhe suplicado que se encontrasse com ela no esconderijo e dissera-lhe ao telefone que tinha aceite sair com o Paul Stroebel somente porque pensava que este era a última pessoa de quem um jovem como o Rob Westerfield sentiria ciúmes.

 

A verdade é que a Andrea Cavanaugh andava atrás do Rob Westerfield. Telefonava-lhe frequentemente, mas ele não se importava com quem ela saía. Era uma namoradeira, louca por rapazes, uma rapariga «popular».

 

Rangi os dentes perante aquela insinuação.

 

O único erro do Rob foi ter entrado em pânico ao deparar com O corpo da Andrea Cavanaugh. Foi para casa sem perceber que transportava a arma do crime no carro e que o porta-bagagem estava manchado com o sangue da Andrea. E, nessa noite, meteu as calças, a camisa e o blusão na máquina de lavar porque estava assustado.

 

Mas não suficientemente assustado para, no seu esforço para se livrar das manchas de sangue, os ter desbotado.

 

As câmaras de filmar focaram o apresentador da CNN.

 

O inspector da polícia reformado, Marcus Longo, está a acompanhar esta conferência connosco da sua casa em Oldham-on-Hudson. Sr. Longo, o que é que acha do depoimento do Sr. Nebels.

 

É pura invenção. O Robson Westerfield foi considerado culpado pelo crime porque é realmente culpado. Compreendo a aflição da sua família, mas tentar inculpar uma pessoa inocente é vergonhoso.

 

Bravo!, quase gritei.

 

A lembrança do inspector Longo a falar comigo na sala de jantar para me convencer de que não fazia mal contar os segredos de Andrea veio-me vividamente à memória. Longo devia ter agora uns 60 anos. Era um homem de rosto comprido com sobrancelhas escuras e espessas, e um nariz romano. O cabelo que lhe restava era uma franja grisalha à volta da cabeça, mas tinha uma dignidade nata que realçava o efeito do seu óbvio desprezo pela palhaçada que tínhamos acabado de assistir.

 

Ainda vivia em Oldham. Decidi que um dia destes havia de lhe telefonar.

 

A conferência de imprensa tinha terminado e as pessoas começaram a sair da sala. O empregado da recepção, um jovem com ar estudioso que parecia ter saído há pouco da universidade, aproximou-se de mim.

 

O seu quarto é confortável, Miss Cavanaugh?

 

Nesse momento, a criada de mesa ia a passar pelo sofá onde eu estava sentada. Virou-se e fitou-me com curiosidade. Percebi logo que ela queria perguntar-me se eu era parente da rapariga que tinha sido assassinada no caso Westerfield.

 

Foi a primeira indicação que eu teria de desistir do anonimato que necessitava se quisesse ficar em Oldham.

 

Que se lixe, pensei. Tenho de levar isto até ao fim.

 

A Sra. Hilmer ainda morava na mesma casa perto da nossa. Quatro outras casas separavam-na de onde tínhamos vivido todos aqueles outros anos. As pessoas que agora lá viviam tinham realizado o sonho de minha mãe. Fora aumentada em ambos os lados e nas traseiras. Sempre tivera boas dimensões, mas, agora, era uma habitação realmente encantadora, sólida mas elegante, com tábuas de revestimento brancas e batentes verdes-escuros nas janelas.

 

Abrandei a velocidade do carro ao passar e depois, pensando que nessa sossegada manhã de domingo ninguém repararia em mim, parei.

 

É claro que as árvores tinham crescido. Este ano, o Outono fora quente no Nordeste e, apesar de agora estar frio, ainda havia uma grande quantidade de folhas douradas e vermelhas a brilhar nos ramos.

 

A sala de estar da nossa casa tinha obviamente sido ampliada. E a sala de jantar?, perguntei-me. Dei por mim ali durante uns instantes a segurar a caixa dos talhes de prata ou seriam apenas revestidos por uma camada de prata enquanto Andrea punha cuidadosamente a mesa.

 

Hoje, o nosso convidado de honra é o Lorde Malcolm Rabogrande.

 

A Sra. Hilmer tinha estado à minha espera. Assim que saí, a Porta dela abriu-se e, um minuto mais tarde, senti o seu abraço apertado. Era uma mulher pequenina e rechonchuda de expressão maternal e olhos castanhos vivos. Agora, o seu cabelo castanho estava completamente branco e tinha rugas à volta dos olhos e da boca. Mas, basicamente, ainda estava como eu me lembrava dela. Durante anos enviou-nos um postal no Natal, e a minha mãe, que nunca enviava as Boas-Festas, escrevia para lhe agradecer, dar-lhe a nossa próxima morada e informá-la do meu bom aproveitamento na escola.

 

Eu tinha-lhe escrito quando a minha mãe morreu e recebera uma carta calorosa e reconfortante. Nada disse quando fui para Atlanta e julgava assim que todas as cartas e postais que ela me tivesse mandado lhe tinham sido devolvidos. Hoje em dia, os correios já não fazem seguir o correio para as novas moradas durante muito tempo.

 

Estás tão alta, Ellie! exclamou ela meio sorrindo e meio rindo-se. Eras tão pequenina.

 

Cresci entre o meu primeiro e o último ano do liceu. Havia café e bolinhos com amoras acabados de sair do forno.

 

Insisti e ficámos sentadas à mesa da cozinha. Durante uns minutos falou-me da família dela. Mal tinha conhecido o seu filho e a sua filha. Já estavam ambos casados quando tínhamos vindo morar para Oldham.

 

Tenho oito netos disse orgulhosamente. Mas, infelizmente, nenhum deles vive aqui por perto. Mas vou visitá-los muitas vezes.

 

Sabia que ela tinha ficado viúva há muitos anos.

 

Os miúdos dizem que esta casa é demasiado grande para mim, mas é o meu lar e gosto muito de cá estar. Acho que acabarei por vendê-la quando já não puder mexer-me, mas agora não.

 

Expliquei-lhe um pouco o que fazia e, depois, falámos do motivo que me tinha trazido a Oldham.

 

Ellie, desde o dia em que o Rob foi levado do tribunal de algemas nos punhos que os Westerfield insistem que ele é inocente e têm andado a tentar que seja solto. E também conseguiram convencer disso uma data de gente.

 

A sua expressão alterou-se.

 

Já que disse isso, tenho de confessar uma coisa. Estou a começar a perguntar a mim mesma se o Rob não foi condenado em parte por causa da sua reputação de arruaceiro. Toda a gente achava que ele é um mau rapaz e estava pronta a acreditar em todo o mal que se contava dele.

 

Tinha visto a conferência de imprensa na televisão.

 

Há uma coisa no que disse o Will Nebels em que eu acredito disse categoricamente. Que ele tinha entrado em casa da velha Sra. Westerfield para roubar dinheiro. Estava ele realmente lá nessa noite? É possível. Por um lado, pergunto-me quanto lhe estão a dar para ele contar essa história, e, por outro, penso no modo como o Paulie reagiu quando foi anunciado na aula que a Andrea estava morta. Ouvi o testemunho da professora no tribunal. Nunca se viu uma testemunha mais relutante. Protegeu imenso o Paulie, mas teve de confessar que, quando ele fugiu da aula, julgou tê-lo ouvido gritar: «Não pensei que ela estivesse morta!»

 

Como é que está agora o Paulie Stroebel? perguntei.

 

Está bastante bem. Durante dez ou doze anos depois do julgamento portou-se de maneira muito esquiva. Sabia que muitas pessoas julgavam que ele tinha morto a Andrea e isso quase deu cabo dele. Começou a trabalhar na charcutaria com os pais e, pelo que vi, não se dava com ninguém. Mas, desde que o pai morreu e ele tem tido que tomar cada vez mais responsabilidades, parece muito melhor. Espero que esta história do Will Nebels não o prejudique.

 

Se o Rob Westerfield for novamente julgado e absolvido, as culpas vão cair sobre o Paulie disse eu.

 

E ele seria preso, seria levado a tribunal?

 

Não sou advogada, mas duvido. O depoimento do Will Nebels pode ser suficiente para o Rob Westerfield ser julgado outra vez, mas as suas declarações nunca serão consideradas suficientemente credíveis para condenar o Paul Stroebel. O mal está feito e o Paulie será apenas mais uma vítima dos Westerfield.

 

Talvez sim, talvez não. É isso que torna tudo tão difícil. A Sra. Hilmer hesitou, mas, depois, prosseguiu.

 

Aquele indivíduo que anda a escrever um livro sobre o caso veio ver-me, Ellie. Alguém lhe disse que eu conhecia bem a tua família.

 

Senti uma advertência nas suas palavras.

 

Como é que ele é?

 

Bem-educado. Fez-me uma data de perguntas. Ponderei cuidadosamente todas as palavras que disse. Mas tenho de te dizer que esse Bern encara o caso de uma certa maneira e que vai fazer os factos encaixarem-se no seu ponto de vista. Perguntou-me se o motivo do teu pai ser tão rigoroso com a Andrea era porque ela via muitos rapazes às escondidas.

 

Isso não é verdade.

 

Mas acho que ele vai fazer com que pareça verdade.

 

Ela tinha uma paixoneta pelo Rob, mas também tinha medo dele.

 

Não estava à espera de dizer aquilo, mas, quando o disse, apercebi-me de que era verdade.

 

E eu tinha medo por ela acrescentei baixinho. Ele estava tão zangado com a Andrea por causa do Paulie.

 

Eu ouvi-te quando testemunhaste no tribunal, Ellie. Nunca lhes disseste que tu, ou a tua irmã, tinham medo do Rob Westerfield.

 

Estava ela a sugerir que eu estava a inventar uma recordação desonesta a fim de justificar o meu testemunho? Mas, a seguir, ela continuou.

 

Tem cuidado, Ellie. Aquele escritor deu a entender que tu eras uma criança emocionalmente instável. E isso é algo que ele vai insinuar no livro.

 

Então a táctica dele era essa, pensei: Andrea era uma valdevinas, eu era emocionalmente instável e Paulie era um assassino. Se eu dantes não estava bem certa, sabia agora que tinha uma tarefa à minha medida.

 

O Rob Westerfield talvez saia da prisão, Sra. Hilmer disse eu.

 

Fiz uma pausa e acrescentei depois com firmeza. Mas, quando eu terminar a minha investigação e escrever acerca de todos os podres da sua vida, ninguém desejará ser visto na sua companhia de dia ou de noite. E se ele for julgado uma segunda vez, nenhum júri há-de absolvê-lo.

 

Na segunda-feira de manhã, às dez horas, encontrei-me com Martin Brand, o funcionário da comissão de liberdade condicional, em Albany. Era um homem com cerca de 60 anos e ar cansado, papos debaixo dos olhos e espessa cabeleira grisalha que já merecia os cuidados de um barbeiro. Tinha o botão do colarinho aberto e a gravata um pouco descaída. A sua compleição congestionada indicava uma pressão arterial bastante elevada.

 

Não havia dúvidas de que, ao longo dos anos, ele tinha ouvido mil vezes várias versões do meu protesto.

 

Ms. Cavanaugh, já recusámos liberdade condicional ao Westerfield duas vezes. Mas, agora, acho que lha vão dar.

 

Ele é reincidente.

 

Não pode ter a certeza disso.

 

O senhor também não pode ter a certeza que não.

 

Há dois anos, prometemos conceder-lhe a liberdade condicional se ele confessasse ter morto a sua irmã, aceitasse a responsabilidade desse crime e exprimisse os seus remorsos, mas ele não aceitou.

 

Ora, Sr. Brand. Teria muito a perder se dissesse a verdade. Sabia que não o podiam manter preso durante muito mais tempo.

 

Ele encolheu os ombros.

 

Esqueci-me que faz jornalismo de investigação.

 

Também sou a irmã da rapariga de 15 anos que não teve a possibilidade de festejar o seu 16.° aniversário.

 

A expressão de cansaço do mundo desapareceu dos seus olhos durante uns instantes.

 

Não duvido lá muito de que o Rob Westerfield seja culpado, Ms. Cavanaugh, mas acho que tem de se resignar perante o facto de ele ter cumprido grande parte da sua sentença e de, tirando um ou dois incidentes durante o primeiro ano, ter-se comportado bem na prisão.

 

Adoraria saber quais eram os incidentes a que ele se referia, mas tinha a certeza de que Martin Brand não mos contaria.

 

Mais uma coisa prosseguiu. Mesmo que ele seja culpado, foi um crime passional e, segundo as nossas estatísticas, as possibilidades de ele voltar a cometer tal acção são quase nulas. A incidência de reincidência declina após os 30 anos e quase desaparece depois dos 40.

 

Mas há pessoas que nasceram sem nenhuma consciência e que, uma vez soltos, se tornam bombas-relógio ambulantes.

 

Empurrei a cadeira para trás e levantei-me. Brand também se ergueu.

 

Vou dar-lhe um conselho, Ms. Cavanaugh. Tenho a impressão de que tem vivido com a recordação do brutal assassínio da sua irmã toda a sua vida. Não pode ressuscitá-la nem manter o Rob preso mais tempo. Se ele for julgado novamente e absolvido, tanto pior. A senhora é jovem. Regresse a Atlanta e tente não pensar mais nessa tragédia.

 

É um bom conselho, Sr. Brand, e eu talvez um dia o siga retorqui. Mas agora não.

 

Há três anos, depois de eu ter escrito uma série de artigos acerca de Jason Lambert, um criminoso compulsivo de Atlanta, recebi um telefonema de Maggie Reynolds, uma editora de Nova Iorque que eu tinha conhecido num debate sobre o crime, a propor-me um contrato para transformar os artigos num livro.

 

Lambert era um assassino do tipo Ted Bundy. Frequentava as cidades universitárias fazendo-se passar por estudante e, depois, convidava as «colegas» para ir dar uma volta de carro com ele. A exemplo das vítimas de Bundy, essas raparigas também desapareciam. Mas, felizmente, ele não tinha tido tempo para se desembaraçar da última vítima quando foi apanhado. Está actualmente encarcerado numa prisão da Georgia onde lhe faltam ainda 149 anos para cumprir sem qualquer possibilidade de pedir liberdade condicional.

 

O livro obteve um sucesso surpreendente e até chegou a estar no fundo da lista dos livros mais vendidos do The New York Times durante algumas semanas. Telefonei a Maggie depois de sair do escritório de Brand. Descrevi-lhe o caso e o curso da investigação que tencionava seguir, ela aceitou imediatamente contratar-me Para escrever um livro sobre o assassínio de Andrea, livro que, como lhe prometi, provaria conclusivamente que Rob Westerfield era o culpado.

 

Fala-se muito do livro que o Jake Bern está a escrever disSe-me Maggie. Gostaria de usar o teu livro para competir com ele. Após termos gasto uma fortuna com a publicação e publicidade do seu último livro, o Bern rescindiu o seu contrato connosco. Calculei que seriam necessários três meses de pesquisa e escrita intensa para levar o meu projecto avante e mais algum tempo além desse se Rob Westerfield obtivesse um novo julgamento. Como a estalagem era demasiado claustrofóbica e cara para ficar, perguntei à Sra. Hilmer se sabia de um apartamento na área para alugar, mas ela insistiu para que eu fosse morar no apartamento vazio por cima da garagem dela.

 

Mandei-o construir há alguns anos para o caso de eu vir a precisar permanentemente de companhia explicou-me. É confortável e sossegado, Ellie. Vou ser uma boa vizinha e não te hei-de incomodar.

 

A senhora foi sempre uma boa vizinha.

 

Era uma solução excelente. A única desvantagem é que tinha de passar pela nossa antiga casa. Pensei que essa constante rotina acabaria por atenuar a dor que eu agora sentia quando por lá passava.

 

O meio hectare de Deus tinha-lhe a minha mãe chamado a rir.

 

Estava toda contente por ter tanto terreno e queria a toda a força fazer um jardim que seria uma das atracções dos passeios do Clube de Jardinagem de Oldham na Primavera.

 

Saí da estalagem, instalei-me no apartamento da Sra. Hilmer e, na quarta-feira, regressei de avião a Atlanta. Cheguei ao escritório às seis menos um quarto. Sabia que não corria o risco de Pete ter voltado para casa. Ele estava casado com o jornal.

 

Ergueu a cabeça e lançou-me um breve sorriso.

 

Vamos conversar enquanto comemos um bom prato de esparguete.

 

E então os cinco quilos que queres perder?

 

Decidi não pensar neles nas próximas horas.

 

Pete possui tanta intensidade que descarrega choques à volta dele. Tinha ido trabalhar para o News, um diário privado, logo que se formara e, dois anos mais tarde, foi nomeado director-geral. Aos 28 anos já ocupava dois cargos: redactor-chefe e editor, e o «jornal moribundo», como então chamavam ao Atlanta New, tinha ganho nova vida.

 

Uma das suas ideias para aumentar a circulação foi contratar um repórter especializado na investigação de crimes, e tive imensa sorte em ele me ter escolhido para esse trabalho há seis anos. Fui aceite à experiência até encontrarem alguém que ocupasse permanentemente aquelas funções. Mas, um dia e sem fazer quaisquer comentários, Pete deixou de procurar quem me substituísse.

 

Napoli era realmente o género de restaurante de bairro que existe em toda a Itália. Pete pediu uma garrafa de Chianti e deu uma dentada no pão quente que tinham posto à nossa mesa. O semestre que tinha passado em Roma, quando aí era estudante universitária, veio-me à memória. Tinha sido um dos períodos mais felizes da minha vida adulta.

 

A minha mãe andava a tentar deixar de beber e não se estava a sair nada mal. Foi lá visitar-me nas férias da Primavera e divertimo-nos imenso juntas. Explorámos Roma e passámos uma semana em Florença e nas aldeias das colinas da Toscânia, coroando tudo isso com uma visita a Veneza. A minha mãe era uma mulher muito bonita e, nessa viagem, parecia ter voltado a ser a mesma quando sorria. Por acordo tácito, os nomes de Andrea e do meu pai nunca foram pronunciados.

 

Agrada-me ter essa recordação dela.

 

O vinho foi trazido para a mesa, aprovado por Pete e aberto. Dei um gole e lancei-me no que tinha para dizer.

 

Tenho andado a trabalhar que nem uma desalmada. Toda aquela encenação sobre o caso Westerfield pode muito bem dar resultado. O Jack Bern é bom escritor e já escreveu um artigo sobre o caso que será publicado no Vanity Fair no próximo mês.

 

Pete pegou noutro bocado de pão.

 

E o que é que tu podes fazer quanto a isso?

 

Estou a escrever um livro que será publicado na Primavera, na mesma semana em que o livro do Bern vai aparecer.

 

Contei-lhe a minha conversa com Maggie Reynolds. Pete tinha-a conhecido na festa que ela organizara em Atlanta para promover o meu livro.

 

É a Maggie quem o vai publicar, mas, entretanto, tenho de contra-atacar os artigos do Bern e os comunicados de imprensa da família Westerfield.

 

Pete ficou à espera que eu terminasse. Outra coisa quanto a ele era que não se apressava a ressegurar os outros. E não preenchia os silêncios nas conversas.

 

Pete, estou perfeitamente consciente de que uma série de artigos sobre um crime cometido há 22 anos no condado de Westchester, em Nova Iorque, talvez não seja de grande interesse para os leitores do estado da Georgia e que, de qualquer modo, isto aqui não é o sítio certo para os publicar. A família Westerfield é identificada com o estado de Nova Iorque.

 

Concordo. Então o que é que propões fazer?

 

Pedir uma licença de férias, se ma deres. Ou, se não for possível, demitir-me, escrever o livro e tentar arranjar outro emprego quando o tiver terminado.

 

O criado de mesa aproximou-se da mesa. Ambos pedimos cannelloni e uma salada. Pete gaguejou durante um minuto, mas acabou por se decidir pelo molho de queijo Gorgonzola. Guardo-te o lugar enquanto puder, Ellie. O que é que isso quer dizer? Eu mesmo posso já cá não estar. Estou a considerar umas propostas bastante atraentes que me foram feitas. Fiquei de boca aberta. Mas o News é o teu mais que tudo.

 

Estamos a tornar-nos demasiado grandes para a competição. Fala-se que nos querem comprar por uma data de massa e os donos estão interessados. Esta geração está-se nas tintas para o jornal. Só está interessada no salário.

E para onde é que achas que vais? O L.A. Times vai certamente fazer-me uma oferta. A outra possibilidade é em Houston. Qual delas preferes?

 

Até ter uma garantia não vou perder tempo a escolher ] o que talvez não exista.

 

Pete não esperou o meu comentário e continuou a falar.

 

Fiz também umas investigaçõezinhas sobre o teu caso, Ellie. Os Westerfield estão a ficar bons em estratégia criminal. Têm uma impressionante equipa de advogados de defesa que só está à espera de ganhar uma fortuna. Têm esse tipo Nebels e, como ele é manhoso, há gente que vai acreditar na sua história. Faz o que tens de fazer, mas, por favor, se o Westerfield voltar a ser julgado e for absolvido, jura a ti mesma que te pões a milhas.

 

Fitou-me de frente.

 

Sei no que estás a pensar, Ellie. Aposto que, mesmo que isso aconteça, não vais largar esse Rob. Quem me dera poder fazer-te entender que, por mais livros que tu e o Bern escreverem, algumas pessoas irão para a cova a achar que o Westerfield fez um mau negócio, enquanto outras continuarão convencidas de que ele é culpado.

 

Pete deu-me o seu conselho por amabilidade, mas nessa noite, enquanto fazia as malas para voltar a Oldham, percebi que até ele achava que, culpado ou inocente, Rob Westerfield tinha cumprido a sua pena, que as pessoas pensariam o que quisessem do caso e que tinha chegado a altura de eu desistir.

 

Não há nada de errado em sentir uma ira justa, pensei. Excepto quando dura há muito tempo.

 

Regressei de carro a Oldham e, na semana seguinte, Rob Westerfield compareceu no tribunal para solicitar liberdade condicional. Como era de esperar, concederam-lha e foi anunciado que ele seria libertado no dia 31 de Outubro.

 

A Festa das Bruxas, disse para comigo mesma. Como era apropriado. A noite em que os demónios se passeiam pela Terra.

 

Paul Stroebel encontrava-se atrás do balcão quando abri a porta da charcutaria e fiz tilintar o pequeno sino preso atrás dela.

 

A minha vaga lembrança dele estava concentrada na estação de serviço onde ele trabalhara há muitos anos. Enchia de gasolina o depósito do nosso carro e esfregava o pára-brisas até este brilhar. Lembro-me da minha mãe dizer: «Como o Paulie é um rapaz simpático», palavras que nunca mais voltaram a ser pronunciadas quando ele se tornou suspeito da morte de Andrea.

 

Acho que a minha lembrança da sua aparência física se devia, em parte ou talvez unicamente, às fotografias que eu tinha visto dele nos recortes de jornais que a minha mãe guardara, jornais que tinham publicado todos os pormenores do assassínio de Andrea e do julgamento. Não há nada que desperte mais a atenção do público do que ver o filho de uma família rica e distinta acusado de ter morto uma bela adolescente.

 

É evidente que o texto era acompanhado por fotografias: o corpo de Andrea a ser transportado para fora da garagem; o caixão a sair da igreja; a minha mãe, de mãos juntas e o rosto contorcido pela dor; a expressão desesperada do meu pai; eu mesma, pequenina e com um ar perdido; Paulie Stroebel, atarantado e nervoso; Rob Westerfield, arrogante, bonito e trocista; Will Nebels com um inapropriado sorriso insinuante estampado no rosto.

 

Os fotógrafos obstinados em captar as emoções humanas ao vivo tinham tido um grande dia.

 

A minha mãe nunca me tinha dito que possuía esta colecção de recortes nem as transcrições do julgamento. Depois da sua morte, fiquei chocado ao descobrir que a volumosa mala que nos acompanhara em todas as nossas mudanças era, realmente, uma caixa de Pandora de desgraças. Suspeito agora que, quando a bebida fazia a minha mãe cair em depressão, ela devia abrir a mala e reviver a sua crucificação em privado.

 

Sabia que Paulie e a Sra. Stroebel já deviam saber que eu estava na cidade. Espantou-se ao ver-me, mas, depois, o seu rosto fechou-se numa expressão reservada. Respirei o delicioso aroma de carne assada, fiambre e outros condimentos que pareciam atributos das boas charutarias alemãs e ficámos ali a medir-nos um ao outro.

 

A impassibilidade de Paulie era mais adequada num homem maduro do que no adolescente que eu vira nas fotografias dos jornais. As suas bochechas eram menos rechonchudas e os seus olhos já não tinham aquela expressão desnorteada de há 22 anos. Eram quase seis horas, hora de fechar a loja, e, como eu tinha esperado, não havia clientes de última hora à espera de serem servidos.

 

Sou a Ellie Cavanaugh, Paulie.

 

Aproximei-me e estendi-lhe a mão. Ele apertou-a com firmeza, de modo até inconfortavelmente forte.

 

Ouvi dizer que tinhas voltado. O Will Nebels está a mentir. Não fui à garagem naquela noite.

 

A sua voz era um protesto dorido.

 

Eu sei que não foste.

 

Não é justo que ele diga isso.

 

A porta que separava a cozinha da loja abriu-se e a Sra. Stroebel apareceu. Tive imediatamente a impressão de que estava sempre em estado de alerta para que nada acontecesse ao filho.

 

Tinha envelhecido e já não era a mulher de faces coradas de que me lembrava. Também estava mais magra. O cabelo era grisalho com apenas uma sugestão de tom amarelado e andava coxeando ligeiramente. Ao reparar em mim, disse: «Ellie?», e quando acenei com a cabeça, a sua expressão preocupada iluminou-se com um sorriso de boas-vindas. Precipitou-se para me abraçar.

 

Depois de eu ter testemunhado no tribunal, a Sra. Stroebel tinha vindo ter comigo para, quase a chorar, me agradecer. O advogado de defesa tinha tentado fazer com que eu dissesse que Andrea tinha medo de Paulie e acho que eu fui bem clara. «Não disse que a Andrea tinha medo do Paulie porque ela não tinha nada medo dele. O que eu disse foi que tinha medo que o Paulie fosse contar ao meu papá que, às vezes, ela se encontrava com o Rob no esconderijo...

 

É tão bom ver-te, Ellie. Estás uma senhora e eu estou uma velha disse a Sra. Stroebel quando me deu um beijo.

 

O sotaque da sua terra natal escorria como mel através das suas palavras.

 

Não está nada protestei.

 

A afabilidade das suas boas-vindas, como as da Sra. Hilmer, era um raio de luz que atravessava a tristeza sombria que me acompanhava sempre. Tinha o sentimento de voltar para o pé de pessoas que gostavam de mim. Aqui, na presença delas, e apesar de todo o tempo que tinha passado, não era uma estranha nem estava sozinha.

 

Põe o sinal de «Fechado» na porta, Paulie disse bruscamente a Sra. Stroebel. Vens jantar a nossa casa, não vens, Ellie?

 

Gostaria imenso.

 

Segui-os no meu carro. Viviam a cerca de quilómetro e meio, numa das partes mais antigas da cidade. As casas eram todas de fins do século XIX e relativamente pequenas. Mas pareciam confortáveis e bem mantidas e eu podia imaginar gerações de famílias sentadas à entrada no Verão.

 

O cão dos Stroebel, um labrador castanho-claro, recebeu-nos entusiasticamente. Paulie pôs-lhe imediatamente a trela e foi dar um passeio com ele.

 

A casa deles era exactamente como eu esperava convidativa, asseada e confortável. Não aceitei a sugestão da Sra. Stroebel para me sentar numa das cadeiras excessivamente acolchoadas da sala de estar e ver as informações na televisão enquanto ela preparava o jantar. Em vez disso, seguia-a até à cozinha e sentei-me num banco junto à bancada a vê-la trabalhar. Ofereci-me para a ajudar, mas ela não quis.

 

Vai ser uma refeição simples avisou-me. Fiz um guisado ontem, mas sirvo-o sempre um dia depois. Fica melhor, com muito mais sabor.

 

As suas mãos moviam-se com ligeireza a preparar legumes para os meter no guisado, a rolar massa para fazer biscoitos e a fazer uma salada. Deixei-me ficar ali tranquilamente sentada. Ela queria certamente pôr o jantar ao lume para, depois, podermos conversar.

 

Tinha razão.

 

Quinze minutos mais tarde, ela acenou a cabeça com satisfação.

 

Bem disse ela. Agora, antes que o Paulie chegue, tens de me contar tudo. Os Westerfield podem fazer isto? Após 22 anos, podem tentar novamente fazer com que o meu filho passe por um criminoso?

 

Podem tentar, mas não hão-de conseguir. A Sra. Stroebel deixou cair os ombros.

 

Ellie, o Paulie fez tantos progressos. Lembras-te como ele era em rapaz, era tudo tão difícil para ele. Nunca foi bom aluno. É um tipo de conhecimento que não é para ele. O pai e eu sempre nos afligimos tanto. O Paulie é uma pessoa tão boa e doce. Sentia-se sozinho na escola, excepto quando jogava râguebi. Era a única vez que sentia que gostavam dele.

 

Era-lhe obviamente difícil continuar.

 

O Paulie estava na equipa suplente e, por isso, não jogava muito. Mas, um dia, chamaram-no para jogar. A outra equipa marcou um golo e, então... Não percebo nada desses jogos... Se o pai dele estivesse vivo havia de te contar... O Paulie apanhou a bola no último minuto e marcou o ponto que nos deu a vitória.

 

A tua irmã estava na banda de música. Era a mais bonita delas todas. Foi ela que agarrou no altifalante e correu para o campo. O Paulie não se cansava de me contar... A Andrea tinha feito claque por ele.

 

A Sra. Stroebel fez uma pausa, inclinando a cabeça como se estivesse à escuta, e, depois, em voz baixa mas exuberante, pôs-se a cantar:

 

«Viva o Paulie, o melhor de todos. Está todo contente e nós gostamos dele. Viva o Paulie, o melhor de todos.»

 

Ellie disse com os olhos brilhantes. Foi o momento mais feliz da vida do Paulie. Não sabes o que ele passou quando a Andrea morreu e os Westerfield tentaram culpá-lo. Acho que ele teria morrido para a salvar. O nosso médico andava preocupado, receava que ele se matasse. Quando se é um pouco diferente, um pouco mais lento, é muito fácil ficar deprimido.

 

Tem-se estado tão bem nos últimos anos. É ele quem toma cada vez mais decisões na loja. Estás a perceber o que quero dizer... O ano passado decidiu que devíamos colocar umas mesas e empregar uma rapariga para servir os clientes. Apenas o pequeno-almoço e sanduíches à tarde. Tem tido muito sucesso.

 

Reparei nas mesas.

 

O Paulie nunca há-de levar uma boa vida. Terá sempre de trabalhar mais do que os outros. Mas há-de sair-se bem, a não ser que...

 

A não ser que as pessoas comecem a apontar novamente para ele e a perguntar a si próprias se não é ele quem deveria ter sido condenado a 22 anos de prisão interrompi-a eu.

 

Ela acenou com a cabeça.

 

Pois. É isso que eu queria dizer.

 

Ouvimos abrir a porta da frente, os passos de Paulie e os latidos do labrador anunciando a sua chegada. Paulie entrou na cozinha.

 

Não é justo que aquele homem diga que eu fiz mal à Andrea disse e, depois, subiu abruptamente as escadas.

 

Está a começar a sentir-se novamente deprimido disse a Sra. Stroebel.

 

Um dia depois de ter visto os Stroebel, tentei encontrar Marcus Longo, o inspector que investigara o assassínio de Andrea. Mas, como não estava em casa, deixei uma mensagem no atendedor de chamadas explicando quem era e o número do meu telefone portátil. Não obtive qualquer resposta durante alguns dias.

 

Senti-me terrivelmente desapontada. Depois de ver a reacção indignada de Longo na televisão a propósito de Rob Westerfield, julguei que ele me chamaria imediatamente. Já me tinha quase esquecido dele quando, a 30 de Outubro, o meu telefone portátil tocou. Respondi e uma voz perguntou em tom calmo: «Ellie, o seu cabelo ainda é da cor da areia iluminada pelo sol?»

 

Olá, Sr. Longo.

 

Acabei de chegar do Colorado e é por isso que só agora è que lhe estou a telefonar disse ele. O nosso primeiro neto nasceu terça-feira e a minha mulher ainda lá está. Quer jantar comigo hoje à noite?

 

Adoraria.

 

Disse-lhe que estava a morar no apartamento que a Sra. Hilmer reservava para os amigos.

 

Eu sei onde a Sra. Hilmer vive.

 

Houve uma ligeira pausa. É claro que ele sabia, pensámos os dois ficava a curta distância da nossa antiga casa.

 

Irei buscá-la às sete, Ellie.

 

Desci as escadas apressadamente quando vi o carro dele subir o caminho em direcção à casa. O caminho bifurca e a garagem com o apartamento por cima fica ao fundo à direita. Outrora, tinha sido um estábulo e ficava ainda a uma certa distância da casa da Sra. Hilmer. E eu não queria que ele se enganasse.

 

Há pessoas com quem nos sentimos imediatamente à vontade e foi assim que me senti com Marcus Longo logo que entrei no carro e me sentei ao lado dele.

 

Pensei muito em si durante todo este tempo disse-me enquanto dava meia volta. Já esteve em Cold Springs desde que voltou?

 

Passei por lá uma tarde, mas não saí do carro. Lembro-me de ter lá ido quando era miúda. A minha mãe andava sempre a visitar lojas de antiguidades.

 

Bem, ainda tem muitas, mas também tem bons restaurantes. Oldham é a cidade do condado de Westchester à beira do rio

 

Hudson que fica mais a norte, e Cold Springs, à beira do Hudson, faz fronteira com o condado de Putnam e está mesmo na margem oposta a West Point. É uma cidadezinha particularmente bonita com uma rua principal que lhe dá uma atmosfera do século XIX.

 

Lembrava-me de ter lá estado com a minha mãe e, ao longo dos anos, ela falava-me por vezes desse sítio. «Lembras-te quando nas tardes de sábado descíamos a rua principal e entrávamos em todas aquelas pequeninas lojas de antiguidades? Estava a ensinar a ti e à tua irmã a encontrar coisas bonitas. Achas que fazia mal?»

 

Regra geral, essas recordações começavam ao segundo ou terceiro uísque. Por volta dos meus dez anos, metia água na garrafa de Dewar’s para não lhe fazer tão mal, mas não deu resultado.

 

Longo tinha reservado uma mesa no Cathryn’s, um restaurante de estilo toscano num pátio perto da rua principal. Sentámo-nos e observámo-nos. Ele parecia mais velho do que na televisão. Tinha rugas à volta dos olhos e da boca e, embora fosse corpulento, não dava a impressão de ser fisicamente forte. Perguntei-me se ele não teria estado doente.

 

Não sei porque pensei que você tinha aí um metro e meio disse ele. Em criança, era pequena para a idade que tinha.

 

Cresci bastante no liceu.

 

Parece-se com o seu pai, sabia? Costuma vê-lo?

 

A pergunta apanhou-me desprevenida.

 

Não. E não tenciono fazê-lo.

 

Não queria perguntar, mas tive curiosidade.

 

O senhor vê-o?

 

Por favor trate-me por Marcus. Há anos que não o vejo, mas o filho dele, seu meio-irmão, é um excelente atleta e falam muito dele nos jornais locais. O seu pai reformou-se há oito anos, aos 59 de idade. A imprensa falou muito bem dele. Fez uma carreira brilhante na guarda nacional.

 

Suponho que mencionaram a morte da Andrea?

 

Sim. E publicaram algumas fotografias, recentes e antigas. É por isso que notei que é muito parecida com ele.

 

Não respondi e Longo ergueu as sobrancelhas.

 

É obviamente um cumprimento de qualquer modo, como costumava dizer a minha mãe: «Tornaste-te uma rapariga simpática.»

 

Longo mudou de assunto abruptamente.

 

Li o seu livro e gostei muito, Ellie. Conseguiu captar o sofrimento das famílias das vítimas de forma notável. Percebi porquê.

 

Tenho a certeza que sim.

 

Por que é que veio até cá, Ellie?

 

Para protestar contra a liberdade condicional concedida ao Rob Westerfield.

 

Muito embora deva ter desconfiado que não serve para nada disse em tom calmo.

 

Sabia que era inútil.

 

Acha que tem necessidade de se sentir como uma voz solitária a pregar no deserto?

 

A minha mensagem não é para abrir o caminho a Deus. É para prevenir as pessoas. «Tenham cuidado. Estão a pôr à solta um assassino.»

 

Continua a ser uma voz no deserto. Amanhã de manhã,

 

Rob Westerfield sairá da prisão. Agora ouça-me com atenção,

Não há a mínima dúvida de que o julgarão outra vez. O testemunho do Nebels será provavelmente suficiente para o júri ficar com dúvidas. O registo criminal do Rob ficará limpo e os Westerfield serão felizes para sempre.

 

Isso não pode acontecer.

 

Tem de compreender uma coisa, Ellie. Os Westerfield precisam de fazer com que isso aconteça. O Robson Parke Westerfield é o último de uma linhagem que tinha um bom nome e era respeitada. Não se deixe enganar pela imagem pública do pai. Por detrás daquela fachada filantrópica, o Vincent Westerfield, o pai do Rob, é um ladrão de gado ganancioso, mas anseia respeitabilidade para o filho. E a velha Sra. Westerfield exige-a.

 

O que é que isso significa?

 

Significa que, aos 92 anos, ela ainda mexe e controla a fortuna da família. Se o nome do Rob não for limpo, ela deixa tudo às obras de caridade.

 

O Vincent Westerfield também é rico.

 

Claro. Mas nada que se compare com a riqueza da mãe. A Sra. Dorothy Westerfield tem classe e já não acredita cegamente na inocência do neto. O seu pai não a pôs na rua no dia do funeral?

 

Pôs. A minha mãe nunca se recompôs dessa cena.

 

Aparentemente, a Sra. Dorothy Westerfield também não. O seu pai confrontou-a publicamente com o facto de que o tipo que a roubou e lhe deu um tiro declarou que o seu cúmplice era o Rob.

 

Lembro-me realmente que ele lhe disse isso.

 

E, aparentemente, a Sra. Westerfield também. Claro que ela quer acreditar que o neto foi injustamente condenado, mas creio que as sementes da dúvida sempre estiveram plantadas no seu espírito e têm crescido ao longo dos anos. Agora que ela obviamente já não tem muito tempo, passou a batata quente ao Vincent. E este tem de provar que o Rob está inocente e limpar a mancha do nome da família. Caso contrário, a fortuna dos Westerfield irá parar às obras de caridade.

 

Surpreende-me que ela possa dispor do dinheiro tão livremente.

 

Talvez o marido, o pai do Vincent, tenha deparado com algo no filho que o levou a proceder dessa maneira. Felizmente para ele, não viveu para ver o neto condenado por assassínio.

 

Quer dizer, então, que o Vincent tem de provar a inocência do Rob e, de repente, aparece uma testemunha que viu o Paulie Stroebel a entrar no esconderijo. A Sra. Westerfield engole essa história?

 

Ellie, o que ela quer é um novo júri que reveja o caso e dê o veredicto que ela deseja.

 

E o Vincent Westerfield vai fazer tudo para que isso aconteça.

 

Deixe-me contar-lhe uma coisa sobre o Vincent Westerfield.

 

Andou obstinado durante anos a transformar as zonas residenciais do vale do Hudson em áreas para negócio. Se pudesse, teria construído um centro comercial no meio do rio Hudson. Julga que ele se importa com o que venha a acontecer ao Paulie Stroebel?

 

Vieram trazer-nos a lista e eu escolhi uma das especialidades, espetada de cordeiro. Marcus pediu salmão.

 

Falei-lhe dos meus planos enquanto comíamos a salada.

 

Quando vi aquela entrevista com o Will Nebels na televisão, decidi, primeiro, tentar publicar uns artigos. Mas consegui um contrato para escrever um livro a fim de refutar o que o Jake Bern está a escrever.

 

Não só puseram o Bern a escrever um livro como também têm uma máquina publicitária bem oleada pronta a bombardear os meios de comunicação. O que viu na televisão foi apenas uma amostra avisou-me Longo. Não me surpreenderia nada se, de repente, eles publicassem uma fotografia do Rob fardado de escuteiro.

 

Lembro-me do meu pai dizer que ele era má rês. E a história do assalto a casa da avó dele?

 

Marcus tinha uma memória de chui para crimes.

 

A avó estava em casa em Oldham e, a meio da noite, foi acordada por um barulho. Havia uma criada a viver lá em casa, mas dormia numa ala separada e, quando a Sra. Westerfield abriu a porta do quarto, dispararam contra ela à queima-roupa. Não chegou a ver quem tinha sido, mas o assaltante foi preso uns dias mais tarde e disse que o instigador tinha sido o Rob, o qual lhe prometera dez mil dólares se matasse a avó.

 

- Escusado será dizer que não havia provas. Era a palavra de um rapaz de 21 anos que abandonara os estudos e tinha um longo cadastro contra um Westerfield.

 

- Qual teria sido o motivo do Rob para fazer tal coisa?

 

- Dinheiro. Herdaria cem mil dólares directamente da avó. Ela achava que um garoto de 16 não era demasiado jovem para começar a lidar com dinheiro e a aprender a investi-lo com inteligência. Não sabia que o Rob tinha problemas com drogas.

 

- Acreditou que ele não estava envolvido no assalto a casa dela?

 

- Acreditou. Mas modificou o testamento e anulou o legado de cem mil dólares.

 

- Então, ela sempre teve as suas dúvidas... Longo acenou a cabeça.

 

- Essas dúvidas, combinadas com o que aconteceu à sua irmã, abriram-lhe os olhos. No essencial, ela disse ao filho e ao neto para aguentarem ou calarem-se.

 

- E a mãe do Rob Westerfield?

 

- É outra senhora muito simpática. Passa a maior parte do tempo na Florida. Tem um negócio de decoração de interiores em Palm Beach. Registado sob o seu nome de solteira, acrescente-se. Tem muito sucesso. Tem um site na Internet.

 

- Eu também tenho um. Longo arregalou os olhos.

 

- É o meio mais rápido para divulgar informação. A partir de amanhã, vou escrever todos os dias sobre o assassínio da Andrea e implicar o Rob Westerfield no meu Website. Vou tomar nota de todos os boatos desagradáveis que se contam sobre ele e verificar cada um deles. Entrevistarei professores e colegas do liceu e do primeiro ano de universidade em Willow College. Não se é expulso sem razão. É provável que não dê resultado, mas vou tentar seguir a pista do medalhão que ele ofereceu à Andrea.

 

- Lembra-se bem dele?

 

- Agora, não muito bem. Mas, durante o julgamento, descrevi-o lindamente. Tenho a transcrição do meu depoimento e, por isso, sei exactamente o que disse na altura - era de ouro, tinha a forma de coração com três pedrínhas azuis no meio e as letras R A gravadas atrás.

 

- Encontrava-me no tribunal quando o descreveu. Lembro-me que achei que devia ter sido caro, mas, provavelmente, era um desses berloques que se compra por 25 dólares em qualquer centro comercial. E, depois, gravam as iniciais por uma ninharia.

 

- Mas não acredita que eu toquei realmente nele quando encontrei o corpo da Andrea no esconderijo, que ouvi alguém a respirar perto de mim e que o medalhão desapareceu antes da polícia chegar?

 

- Depois do choque que apanhou, ficou histérica, Ellie. Disse no tribunal que, ao ajoelhar-se, escorregou e caiu sobre a Andrea. Não acho que, em plena escuridão e como devia estar a sentir-se, teria podido identificar o medalhão. Você mesma disse que ela o usava sempre debaixo de uma blusa ou de uma camisola.

 

- Ela levou o medalhão nessa noite. Tenho a certeza. Por que é que já não o tinha com ela quando a polícia chegou?

 

- Uma explicação razoável é que ele lho tirou depois de a matar. A defesa baseou-se no facto do Rob declarar que ela era simplesmente uma miúda apaixonada por ele e que ele não tinha nenhum interesse nela.

 

- Deixemos isso por agora - disse-lhe. - Quero falar sobre outra coisa. Fale-me do seu neto novinho em folha. É o seu primeiro neto?

 

- É, pois.

 

Marcus parecia tão satisfeito quanto eu por mudarmos de assunto. O jantar foi servido e ele falou-me da família.

 

- O Marx tem a sua idade e é advogado. Casou-se com uma rapariga do Colorado e arranjou um emprego numa firma de lá. Adora o seu trabalho. Eu retirei-me há uns dois anos e fui operado ao coração no Inverno passado. Quando faz frio, passamos agora a maior parte do tempo na Florida e estamos a pensar em vender o que temos aqui e comprar uma casa pequena em Denver para podermos ver a família sem a importunar.

 

- A minha mãe e eu passámos cerca de um ano em Denver.

 

- Já vive há uns tempos em Atlanta. Acha que vai lá ficar?

 

- É uma cidade formidável. Tenho muitos amigos e gosto do meu trabalho, mas, se o jornal onde trabalho for vendido como consta, não sei se continuarei a viver lá. Talvez, um dia, assente e me instale de vez. Mas ainda não me apetece fazer isso. Sinto sempre que ainda tenho uns assuntos para resolver. Foi alguma vez ao cinema em miúdo quando tinha trabalhos de casa para fazer

 

Várias vezes.

 

E não conseguia desfrutar o filme, pois não?

 

Foi há muito tempo... Mas acho que não.

 

Eu cá tenho trabalhos de casa para acabar antes de poder desfrutar o filme disse-lhe.

 

Não tinha deixado uma luz acesa ao sair e, quando voltámos para casa da Sra. Hilmer, o apartamento por cima da garagem estava às escuras e parecia lúgubre, Marcus Longo ignorou os meus protestos e insistiu em acompanhar-me até ao andar de cima. Manteve-se ao meu lado enquanto eu procurava as chaves.

 

Tranque a porta aconselhou-me quando entrei.

 

Alguma razão especial? perguntei.

 

Como você mesma disse: «Cuidado, estão a pôr um criminoso à solta.»

 

Cheguei a tempo para apanhar as informações das dez horas. Rob Westerfield iria sair da prisão na manhã do dia seguinte e seria entrevistado na casa da família em Oldham ao meio-dia.

 

Não quero perder isso por nada deste mundo pensei.

 

Nessa noite, o sono não me veio com facilidade. Adormecia e despertava, sabendo que, a cada segundo do relógio, Rob Westerfield estava mais perto de ser solto da prisão.

 

Não conseguia deixar de pensar nele nem no motivo que o tinha mantido atrás das grades durante 22 anos. Para dizer a verdade, quanto mais ele se aproximava da liberdade mais Andrea e a minha mãe estavam vivas para mim. Se ao menos... se ao menos... se ao menos...

 

Desiste, gritava uma voz dentro de mim. Vai-te embora. Esquece. Sei o que estou a fazer com a minha vida e não é algo que eu queira que aconteça Por volta das duas da manhã, levantei-me e fiz café. Sentei-me junto da janela a bebê-lo. Os bosques que separavam a nossa casa da propriedade da velha Sra. Westerfield passavam pelo jardim da Sra. Hilmer e ainda lá estavam, protegendo a sua privacidade. Podia atravessá-los como Andrea o fizera naquela noite e, uma vez do outro lado, chegar à garagem.

 

Agora, há uma elevada cerca à volta dos vários hectares da casa dos Westerfield. Tenho a certeza de que existe um sistema de alarme que assinala a presença de quaisquer intrusos ou de uma garota de 15 anos. Aos 92 anos, as pessoas não necessitam normalmente de muitas horas de sono. Perguntei-me se a Sra. Westchester não estaria acordada neste preciso momento, satisfeita por ver um individuo do seu próprio sangue e carne solto da prisão, mas temendo toda a publicidade à volta do caso. A sua vontade de limpar o nome da família era tão forte quanto a minha de fazer tudo para que Paulie Stroebel não fosse destruído e o nome de Andrea não fosse arrastado na lama.

 

A minha irmã era uma rapariga inocente cuja paixão por Rob Westerfield se transformara em medo. Tinha sido por isso que ela fora à garagem nessa noite. Receava não ir ter com ele quando ele mandava.

 

Sentada ali de madrugada com o medo cristalizado na mente, escutava o subconsciente dizer-me que ela tinha medo dele e que eu também tinha medo dele por ela. Via nitidamente Andrea como se fosse naquela noite a prender o fio com o medalhão atrás do pescoço reprimindo as lágrimas. Não queria encontrar-se com ele, mas encontrava-se entre a espada e a parede. E, assim, acrescentei outro «se ao menos...» à lista. Se ao menos eu tivesse ido ter com os meus pais e lhes dissesse que ela fora encontrar-se com Rob.

 

Nesse momento, trocámos de papel e eu tornei-me a sua irmã mais velha. Voltei para a cama e adormeci profundamente até às sete da manhã. Estava diante da televisão quando Rob Westerfield saiu de Sing Sing numa limusina que o aguardava à porta. O repórter que se encontrava no local realçou o facto de Rob ter sempre clamado a sua inocência.

 

Ao meio-dia, voltei a sentar-me em frente do aparelho para ver Rob Westerfield ser mostrado ao mundo.

 

A entrevista teve lugar na biblioteca da mansão da família Westerfield em Oldham. O sofá onde ele se sentava tinha sido colocado diante da estante alinhada com livros encadernados a cabedal para inferir, assumo eu, que ele era um intelectual.

 

Rob estava vestido com um casaco de caxemira ocre, uma camisa aberta no pescoço, calças escuras e mocassinos. Sempre fora bonito, mas tornara-se ainda mais em adulto. Tinha as feições nobres do pai e aprendera a ocultar a expressão condescendente que aparecia em todas as suas fotografias. Os cabelos escuros tinham um ligeiro tom acinzentado. De mãos juntas pousadas diante dele, ele estava ligeiramente inclinado para a frente numa pose descontraída, mas atenta.

 

- Boa actuação - disse em voz alta. - A única coisa que falta é um cão deitado aos seus pés.

 

Só de olhar para ele sentia o fel a subir-me à garganta.

 

A entrevistadora era Corinne Sommers, apresentadora de The RealStory, popular programa das sextas-feiras à noite. Fez uma breve introdução:

 

- Solto após ter passado 22 anos na prisão... sempre protestou a sua inocência... vai agora lutar para limpar o seu nome...

 

Acaba lá com isso, pensei.

- Como é que se sente em liberdade, Rob? Ele sorriu calorosamente. Os seus olhos escuros com sobrancelhas bem desenhadas pareciam quase divertidos.

 

- É Inacreditável, maravilhoso. Já sou demasiado crescido para chorar, mas tenho vontade de o fazer. Percorri a casa toda e é formidável poder fazer coisas normais, como entrar na cozinha e beber uma segunda chávena de café.

 

- Vai ficar aqui por uns tempos?

 

- Absolutamente. O meu pai arranjou-me um apartamento maravilhoso que fica perto desta casa e quero trabalhar com os nossos advogados para ser rapidamente julgado de novo. Olhou directamente para a câmara.

 

- Corinne, ter-me-iam concedido a liberdade condicional há dois anos se eu tivesse confessado ter morto a Andrea Cavanaugh e dito que lamentava o sucedido.

- Não foi tentado a fazê-lo?

 

- De modo algum - retorquiu prontamente. - Disse sempre que era inocente e, agora, graças ao Will Nebels, tenho finalmente a oportunidade de o provar.

 

Não confessaste porque tinhas muito a perder, disse para com os meus botões. A tua avó ter-te-ia deserdado.

- É verdade que foi ao cinema na noite em que assassinaram a Andrea Cavanaugh?

 

- É, sim. E fiquei lá até o filme terminar às nove e meia. O meu carro esteve estacionado na estação de serviço mais de duas horas. Do centro de Oldham a casa da minha avó demora-se apenas 12 minutos. O Paulie Stroebel tinha acesso ao meu carro e andava atrás da Andrea. Até mesmo a irmã dela admitiu isso quando foi depor no tribunal.

 

O empregado do cinema lembra-se de si a comprar o bilhete

 

Pois lembra. E eu tinha o talão do bilhete...

 

Ninguém o viu a sair do cinema depois do filme acabar?

 

Ninguém se lembra de me ter visto corrigiu ele. Há uma grande diferença.

 

Por uma fracção de segundo, uma explosão de cólera manifestou-se por detrás do seu amável sorriso. Tive um sobressalto.

 

O resto da entrevista, contudo, prosseguiu como se ele fosse um refém acabado de chegar a casa.

 

Além de limpar o seu nome, o que é que pensa fazer?

 

Ir a Nova Iorque. Jantar num restaurante que provavelmente não existia há 22 anos. Talvez viajar. Arranjar um emprego...

 

Fez uma pausa antes de acrescentar com um sorriso.

 

Encontrar alguém especial. Casar e ter filhos.

 

Casar. Ter filhos. Todas as coisas que Andrea nunca teria a oportunidade de fazer.

 

O que é que vai comer ao jantar esta noite e quem é que lhe fará companhia?

 

Só nós os quatro... A minha mãe, o meu pai, a minha avó e eu. Queremos reunir-nos como uma família. Pedi para me fazerem um jantar basicamente simples: uma entrada de camarões, carne, batatas assadas, uma salada...

 

E que tal torta de maçã para sobremesa?, pensei.

 

E torta de maçã concluiu ele.

 

E também champanhe, imagino.

 

Certamente.

 

Parece que tem planos bem definidos para o futuro, Rob Westerfield. Desejamos-lhe sorte e espero que, num segundo julgamento, possa provar a sua inocência.

 

Isto é que é uma jornalista? Exclamei, apagando a televisão e dirigindo-me para a mesa da sala de jantar onde tinha o computador portátil à minha espera. Liguei o meu Website e comecei a escrever.

 

«Robson Westerfield, condenado pelo assassínio de Andrea Cavanaugh, acabou de sair da prisão e está ansioso por comer um assado e torta de maçã. A canonização deste assassino já começou e será feita à custa da sua jovem vítima e de Paulie Stroebel, um homem tranquilo e trabalhador que teve de vencer muitas dificuldades.

 

Não devia ser obrigado a vencer mais esta.»

 

Nada mau para começar, pensei.

 

O Departamento Correccional de Sing Sing liberta todos os dias presos que cumpriram a sua pena ou que obtiveram liberdade condicional. Quando saem, é-lhes fornecido calças de ganga, botas de trabalho, um casaco e 40 dólares, e, a não ser que um parente ou um amigo os venha buscar, são conduzidos à estação de autocarro ou recebem um bilhete de comboio.

 

A estação de caminho-de-ferro está localizada a quatro quarteirões da prisão. O preso solto percorre a pé essa distância e toma um comboio rumo ao Norte ou ao Sul.

 

A estação do comboio que vai para o Sul é Manhattan e o que sobe o estado de Nova Iorque pára em Buffalo.

 

Calculei que quem saísse de Sing Sing por esta altura teria certamente conhecido Rob Westerfield.

 

Foi por isso que no dia seguinte de manhã cedo me agasalhei bem, estacionei o carro na estação e me dirigi a pé até à prisão. Há uma actividade constante junto dos portões. Tinha-me informado e sabia que havia cerca de 2300 reclusos lá encarcerados. Calças de ganga, botas de trabalho e um blusão não são uma vestimenta particularmente característica. Como é que eu saberia distinguir entre uma pessoa que talvez fosse um empregado a sair de folga e um preso recentemente solto? A resposta era que não poderia sabê-lo.

 

Antecipando-me ao problema, escrevi num cartaz: «Jornalista procura informação sobre o preso recentemente solto, Robson Westerfield. Boa recompensa.» E fui colocar-me ao lado do portão.

 

Mas, depois, ocorreu-me que uma pessoa que saísse da prisão de carro ou que não quisesse ser vista a falar comigo, poderia contactar-me por telefone. Acrescentei o número do meu telefone portátil 917-555-1261 em números grandes fáceis de ler.

 

Era uma manhã fria e ventosa. O primeiro de Novembro, Dia de Finados. Desde que a minha mãe morreu que vou à missa no Natal e na Páscoa, quando até mesmo católicos pouco praticantes como eu ao ouvir o sino de uma igreja tomam relutantemente a sua direcção.

 

Chego lá como um robô. Ajoelho-me e levanto-me como os outros, mas não rezo. Gosto de cantar e sinto a garganta a palpitar quando a congregação se junta ao coro. No Natal, a música é alegre: Escutai os Anjos Mensageiros a Cantar, ou No Presépio. Na Páscoa, o cântico é triunfal: Jesus Cristo Ressuscitou Hoje. Mas os meus lábios mantêm-se sempre cerrados. Os outros que cantem em exaltação.

 

Dantes, ficava zangada, mas, agora, apenas exausta. De uma maneira ou de outra, apanhaste-os a todos, Senhor. Estás finalmente satisfeito? Quando vejo na televisão famílias inteiras a ser destruídas em bombardeamentos ou a morrer de fome, sei que deveria imaginar como a minha sorte é melhor. Compreendo intelectualmente isso, mas não serve de nada. Vamos fazer um contrato, Deus. Deixemo-nos um ao outro em paz.

 

Estive duas horas de cartaz na mão. A maior parte dos indivíduos que passaram por mim ao entrar, ou ao sair, olhavam com curiosidade. Alguns dirigiram-me a palavra.

 

Não tem nada melhor para fazer do que interessar-se por essa besta, minha senhora? disse-me um homem corpulento com perto de 50 anos e boné enterrado na cabeça.

 

Admitiu que trabalhava na prisão, mas recusou dizer o seu nome.

 

Não reparei, contudo, que alguns, incluindo os que pareciam empregados, examinavam o cartaz como para memorizar o meu número de telefone.

 

Às dez horas, com os ossos gelados, desisti e dirigi-me para o carro. Tinha chegado à porta quando um homem me acostou. Era esquelético, olhos de mau, lábios finos e parecia ter uns 30 anos.

 

Por que é que anda a meter-se com o Sr. Westerfield? perguntou. Ele fez-lhe algum mal?

 

Estava vestido com calças de ganga, blusão e botas de trabalho. Teria acabado de ser solto e vindo atrás de mim?

- É amigo dele? perguntei-lhe.

 

O que é que tem a ver com isso?

 

Por instinto, recuamos quando se aproximam demasiado de nós. Tinha as costas contra o carro e este tipo estava literalmente quase em cima de mim. Pelo canto do olho, vi uma carrinha entrar no parque de estacionamento, Fiquei aliviada. Se precisasse de ajuda, havia pelo menos alguém por perto.

 

Está a impedir-me de entrar no meu carro disse-lhe.

 

O Rob Westerfield teve um comportamento exemplar na cadeia. Todos nós o admirávamos. Deu-nos um bom exemplo. Quanto é que me vai pagar por essa informação?

 

Peça-lhe a ele.

 

Virei-me e afastei-o com o ombro. Carreguei depois no controlo à distância para abrir e entrei. Não tentou deter-me.

 

Deixe-me dar-lhe um conselho de borla disse-me antes de eu ter tempo para fechar a porta. Tire dali o seu cartaz.

 

Quando voltei ao apartamento, pus-me a ler os jornais antigos que a minha mãe tinha guardado. Deram imenso jeito na minha investigação da vida de Rob Westerfield. Encontrei o nome de duas escolas preparatórias em que ele tinha andado. A primeira, a escola preparatória de Arbinger, em Massachusetts, é uma das mais requintadas do país. Tinha lá estudado durante apenas ano e meio, e, depois, mudara para Carrington, em Rhode Island.

 

Como nada sabia sobre a escola Carrington, fui informar-me na Internet. O website de Carrington Academy dava a entender que era um clube onde os estudos, os desportos e o convívio criavam uma espécie de ambiente paradisíaco. Mas, por detrás da sedutora descrição de tudo o que tinha para oferecer, a realidade era óbvia: tratava-se de uma escola para «estudantes que não tinham conseguido alcançar o seu potencial académico ou social», para «estudantes que tinham dificuldade em adaptar-se à disciplina».

 

Por outras palavras, era um lugar para adolescentes com problemas de comportamento.

 

Antes de enviar o meu inquérito através do website para obter informação sobre a vida escolar de Rob Westerfield, de colegas ou antigos funcionários de Carrington, decidi ir visitar ambas as escolas. Telefonei-lhes a explicar que era jornalista e estava a escrever um livro sobre Rob Westerfield. Em ambos os casos, liguei directamente para a administração. Em Arbinger, passaram-me imediatamente a Craig Parshall, encarregado das relações públicas.

 

O Sr. Parshall informou-me que os regulamentos da escola não permitiam que a vida de antigos ou presentes alunos fosse discutida com a imprensa.

 

Mas não deram uma entrevista ao Jake Bern a respeito do Rob Westerfield?

 

Houve uma longa pausa e eu soube logo que tinha acertado em cheio.

 

Concedemos de facto essa entrevista disse Parshall em voz fria e pouco condescendente. Fazemo-lo caso a família de um aluno antigo, ou presente, dê autorização. Tem de perceber, Ms. Cavanaugh, que os nossos alunos pertencem a famílias distintas, incluindo presidentes e realeza. Há alturas em que o acesso dos meios de comunicação tem de ser prudentemente supervisionado.

 

E claro que a publicidade aumenta o prestígio da escola atalhei. Por outro lado, se num dado website aparecesse todos os dias que o assassino de uma rapariga de 15 anos se tinha dado com um desses distintos estudantes, as famílias poderiam não ficar lá muito contentes. E poderiam vir a pensar duas vezes antes de enviar os filhos e herdeiros estudarem em Arbinger, não é verdade, Sr. Parshall?

 

Não lhe dei oportunidade para responder.

 

Talvez mostrar-se cooperativo sirva melhor os interesses da escola, não concorda?

 

Quando, após um longo momento de silêncio, Parshall acabou por responder não foi em tom muito alegre.

 

Ms. Cavanaugh, concedo-lhe uma entrevista, mas previno-a que a única informação que lhe daremos serão as datas em que o Rob Westerfield esteve aqui e o facto que ele solicitou, e obteve, uma transferência.

 

Oh, não espero que confesse que o puseram no olho da rua disse eu, desdenhosamente. Mas tenho a certeza de que conseguiu descobrir um pouco mais do que isso para contar ao Sr. Bern.

 

Concordámos que eu iria ao seu gabinete às 11 horas da manhã seguinte.

 

Arbinger fica a cerca de 60 quilómetros a norte de Boston. Localizei a cidade no mapa, escolhi o melhor itinerário e calculei quanto tempo levaria.

 

Telefonei depois a Carrington e, desta vez, passaram-me Jane Bostrom, directora do serviço de admissões. Ela reconheceu que tinham dado uma entrevista a Jake Bern a pedido dos Westerfield e acrescentou que não poderia conceder-me o mesmo sem autorização da família.

 

Ms. Bostrom, a Carrington é uma espécie de escola preparatória de último recurso fiz-lhe notar com firmeza. Quero ser justa, mas a sua existência deve-se ao facto de aceitar e tentar corrigir rapazes com problemas, não é?

 

Gostei de ela ser franca comigo.

 

Há muitos motivos para os rapazes terem problemas, Ms. Cavanaugh. A maior parte deles tem a ver com a família. São filhos de pais divorciados ou de pais em posições importantes que não lhes dedicam muito tempo. São solitários ou alvo de troça dos colegas. Isso não significa que sejam académica ou socialmente incapacitados. Significa apenas que são infelizes e que precisam de ajuda.

 

Ajuda que, por vezes por muito que tentem, não conseguem dar?

 

Posso dar-lhe uma lista de estudantes nossos que tiveram muito sucesso.

 

E eu posso citar um dos vossos alunos que teve sucesso logo no primeiro crime que cometeu... ou pelo menos no primeiro que se sabe que ele cometeu acrescentei. A minha intenção não é dar cabo de Carrington. Quero descobrir o que posso sobre o que o Rob Westerfield andava a tramar na adolescência antes de ter assassinado a minha irmã. Se deu uma data de informação a Jake Bern e ele, agora, pode fazer extrapolações e escrever coisas boas, deixando as más de lado, eu cá também quero ter o mesmo acesso.

 

Como iria a Arbinger no dia seguinte, uma sexta-feira, marquei um encontro com Ms. Bostrom para segunda de manhã. Debati comigo mesma se deveria passar algum tempo na vizinhança das escolas antes dos encontros que tinha marcado. Pelo que sabia, ambas estavam localizadas em pequenas cidades, o que significava que deveriam haver lugares onde a miudagem se reunia para comer pizza e comida servida ao balcão. Sentar-me nos locais frequentados por estudantes tinha dado resultado quando escrevera um artigo sobre um rapaz que tinha tentado matar os pais.

 

Há já uns dias que não tinha encontrado a Sra. Hilmer, mas, ao fim da tarde, ela telefonou-me.

 

Ellie, isto é uma sugestão mais do que um convite. Tive hoje uma daquelas vontades que me dá de cozinhar e, agora, tenho um frango a assar no forno. Se não tiver planos para hoje à noite, quer vir jantar comigo? Mas, por favor, não aceite se preferir estar sozinha.

 

Não me tinha dado ao trabalho de ir às compras nessa manhã e sabia que os únicos produtos que tinha em casa só davam para fazer uma sanduíche de queijo ou uma sanduíche de queijo. E também me lembrei que a Sra. Hilmer era boa cozinheira.

 

A que horas? perguntei.

 

Oh, por volta das sete.

 

Não só aceito o seu convite, como irei mais cedo.

 

Formidável!

 

Ao desligar, percebi que ela devia pensar que eu era uma solitária. E claro que, em parte, tinha razão. Mas apesar do meu isolamento interior, ou talvez por causa dele, sou uma pessoa razoavelmente sociável. Gosto de ver pessoas e, depois de um dia de trabalho no jornal, encontro-me frequentemente com amigos. Quando trabalho até tarde, acabo por comer massa ou um hambúrguer com quem quer que esteja por perto. Havia sempre dois ou três colegas lá que não se precipitavam a correr para casa depois de terem escrito um artigo ou terminado uma coluna.

 

Eu era uma dessas do grupo, e Pete também. Enquanto lavava o rosto, escovava o cabelo e enrolava-o no alto da cabeça, perguntei-me quando é que ele me diria que emprego tinha aceite. Tinha a certeza de que, mesmo que o jornal não fosse vendido imediatamente, ele não permaneceria lá muito mais tempo. O facto dos donos estarem a tentar vendê-lo chegava para ele se ir embora. Para onde é que ele iria? Houston? Los Angeles? Onde quer que fosse, havia poucas possibilidades que os nossos caminhos voltassem a cruzar-se.

 

Era um pensamento repentinamente inquietante.

 

O confortável apartamento era composto por uma grande sala com uma cozinha no fundo e um quarto de dormir de tamanho médio. A casa de banho ficava a meio de um pequeno corredor entre as duas divisões. Tinha colocado o computador e a impressora na mesa da área de jantar, perto da cozinha. Não sou muito organizada. Quando estava a vestir o casaco, olhei à volta do apartamento com os olhos da Sra. Hilmer.

 

Os jornais que tinha estado a percorrer estavam espalhados no chão à volta da cadeira onde estivera sentada. A fruteira e os candelabros de bronze, que tinham sido primorosamente colocados sobre a mesa de estilo colonial, estavam agora no aparador. O bloco-notas estava aberto ao lado do computador com a caneta em cima. O espesso volume que continha as transcrições do julgamento com marcas amarelas entre as páginas estava junto da impressora.

 

Se a Sra. Hilmer voltasse por qualquer motivo a casa comigo e visse esta confusão, pensei. Como é que reagiria? Tinha a certeza de que sabia qual era a resposta, pois não havia nada desarrumado em casa dela.

 

Baixei-me, apanhei os jornais e juntei-os numa pilha mais ou menos ordenada. Mas a seguir, pensando melhor, meti-os dentro da grande sacola onde sempre os trago.

 

As cópias das actas do julgamento seguiram o mesmo caminho. Decidi que o bloco-notas, a caneta, o computador portátil e a impressora não eram esteticamente demasiado ofensivos. Repus a fruteira e os candelabros na mesa. Ia pôr a sacola no guarda-vestidos quando me passou pela cabeça que, se houvesse um incêndio, perderia todo o material. Achei isso pouco provável, mas, no entanto, decidi levar a sacola comigo. Não sei bem porquê, mas foi o que fiz. Chamem-lhe um pressentimento, uma dessas sensações que se têm, como costumava dizer a minha avó.

 

Ainda estava frio lá fora, mas, pelo menos, o vento tinha acalmado. Mas, mesmo assim, o caminho do apartamento até à casa parecia bastante longo. A Sra. Hilmer tinha-me contado que, depois do marido morrer, ela tinha mandado acrescentar uma garagem junto a sua casa porque não queria ter de andar para trás e para diante. Agora, a velha garagem por baixo do apartamento servia para guardar utensílios de jardinagem e móveis antigos.

 

A caminho da casa da Sra. Hilmer no meio daquele silêncio sombrio, percebi porque ela não queria fazer aquele percurso de noite sozinha.

 

Não julgue que venho mudar-me para cá disse-lhe quando ela me abriu a porta e reparou na sacola. É só porque costumo andar sempre com ela.

 

Enquanto tomávamos um copo de sherry, expliquei-lhe o que é que continha e tive então uma ideia. Há quase 50 anos que ela vivia em Oldham. Participava nos trabalhos da paróquia e nas actividades da cidade o que significava que conhecia toda a gente. Aqueles jornais mencionavam pessoas da cidade cujos nomes nada me diziam, mas ela devia conhecê-las.

 

Não se importa de ver estes jornais comigo? perguntei-lhe. Citam aqui pessoas que talvez ainda estejam vivas e com quem eu adoraria falar. Por exemplo, uns amigos da Andrea dos tempos de escola, vizinhos do Will Nebels nessa altura, algum dos tipos com quem o Rob Westerfield se dava. Penso que a maior parte das colegas da Andrea está casada e, provavelmente, muitas delas já se foram embora. Se isso não a incomoda, gostaria que lesse estes velhos artigos e me fizesse uma lista das pessoas entrevistadas que ainda cá estão. Espero, claro está, que talvez saibam algo que não lhes ocorreu na altura...

 

Assim, de repente, posso dar-lhe o nome de uma delas interrompeu-me a Sra. Hilmer. A Joan Lashley. Os pais dela reformaram-se, mas ela casou-se com o Leo St. Martin e vive em Garrison.

 

Joan Lashley era a rapariga com quem Andrea tinha estudado nessa última noite! E Garrison ficava perto de Cold Springs, a 15 minutos de carro daqui. Era óbvio que a Sra. Hilmer ia ser um tesouro de informação acerca das pessoas que eu gostaria de conhecer.

 

Abri a sacola quando estávamos a tomar café e pus os jornais em cima da mesa. Vi a expressão de dor que assombrou o rosto da Sra. Hilmer quando ela pegou no primeiro. A manchete dizia, «Rapariga de Quinze Anos Espancada até à Morte». O retrato de Andrea ocupava a primeira página. Estava vestida com a farda da banda de música: casaco vermelho com botões de latão e uma saia curta da mesma cor. Tinha o cabelo caído pelos ombros e sorria. Parecia feliz, vibrante e jovem.

 

A fotografia tinha sido tirada no decorrer do primeiro jogo da temporada em fins de Setembro. Umas semanas mais tarde, Rob Westerfield tinha-a conhecido quando ela estava a jogar bowling com amigas no centro desportivo da cidade. E, na semana seguinte, ela tinha ido dar uma volta no carro dele e Rob fora multado por excesso de velocidade.

 

Deixe-me que a previna de uma coisa, Sra. Hilmer disse eu. Não vai ser fácil ler todo este material e, por isso, se acha que é demais para si...

 

Ela interrompeu-me.

 

Não, Ellie, quero fazê-lo.

 

Então, está bem.

 

Tirei o resto dos jornais. O volume com as transcrições do julgamento ficaram dentro da sacola. Também o tirei cá para fora.

 

Isto não é uma leitura lá muito agradável...

 

Deixe-o comigo disse com firmeza.

 

A Sra. Hilmer insistiu em emprestar-me uma pequena lanterna quando voltei ao apartamento. Ainda bem que a tinha. A noite estava mais clara e, agora, a Lua era visível. Acho que estava a ter fantasias, mas aquelas imagens da Noite das Bruxas de gatos sentados a sorrir ao luar como divertidos por qualquer conhecimento secreto não me saíam da cabeça.

 

Tinha deixado apenas uma luzinha acesa nas escadas por consideração para com a minha anfitriã e não aumentar a conta de electricidade. Mas, ao subi-las, já não achava uma grande ideia ter sido tão poupada. Estava sombria e os degraus rangiam sob os meus passos. Lembrei-me subitamente que Andrea fora assassinada numa garagem muito parecida com esta. Ambas tinham sido originalmente celeiros e, nesta, o antigo lugar onde se guardava a palha era, agora, o apartamento.

 

Quando cheguei ao alto das escadas de chave na mão, abri a porta à pressa e tranquei-a por dentro. Cessei imediatamente de me preocupar com as contas de electricidade e pus-me a acender todas as luzes que encontrava: os candeeiros em ambos os lados do divã, o lustre por cima da mesa da sala de jantar, a lâmpada do corredor e as do quarto de dormir. Soltei, finalmente, um suspiro de alívio e comecei a sentir-me mais calma.

 

A mesa, com apenas o computador portátil, a impressora, a caneta e o bloco-notas, e a fruteira e os candelabros em cima, parecia estranhamente bem arrumada. Percebi que qualquer coisa tinha sido mudada. Tinha deixado a caneta pousada à direita do bloco-notas, junto do computador. Senti um arrepio. Alguém tinha cá estado. Mas para quê? Para examinar o bloco-notas e ver o que é que eu andava a fazer era a única razão possível. Que mais teriam revistado?

 

Liguei o computador e verifiquei o ficheiro onde guardava informações sobre Rob Westerfield. Naquela mesma tarde tinha anotado uma breve descrição do homem que me detivera no parque de estacionamento da estação dos caminhos-de-ferro. Ainda lá se encontrava, mas uma nova frase fora acrescentada. Tinha-o descrito como tendo altura média, magro e olhos e boca perversos. A nova frase dizia: «Extremamente perigoso. Cuidado.»

 

Senti os joelhos a tremer. Já era suficientemente horrível alguém ter entrado no apartamento enquanto eu estava com a Sra. Hilmer, mas que ele tivesse a lata de assinalar a sua presença era deveras assustador. Estava segura de ter trancado a porta ao sair, mas a fechadura era simples e não representava um grande desafio a um ladrão profissional. Teria roubado alguma coisa? Precipitei-me para o quarto de dormir. A porta do guarda-vestidos, que eu tinha fechado, estava, agora, ligeiramente aberta, mas, no interior, os meus vestidos e sapatos pareciam estar exactamente como os deixara. Tinha um cofre com jóias na gaveta de cima da cómoda. Brincos, um fio de ouro e um longo colar de pérolas são quase tudo o que eu me dou ao trabalho de usar, mas também lá se encontravam dentro o anel de noivado e a aliança de minha mãe, e os brincos com diamantes que o meu pai lhe oferecera pelo 15.° aniversário de casamento, um ano antes da morte de Andrea.

 

Todas as jóias estavam no mesmo sítio. Era evidente que quem quer que tinha entrado não viera para roubar. Procurava informação e dei graças a Deus por não ter deixado as transcrições nem os jornais antigos no apartamento. Não tinha a mínima dúvida de que teriam sido destruídos se o ladrão os tivesse encontrado. Poderia conseguir novas cópias das transcrições, mas levaria imenso tempo; quanto aos jornais, eram insubstituíveis. Não só continham os relatos do julgamento como também todas as entrevistas e a identificação dos entrevistados.

 

Decidi não telefonar imediatamente à Sra. Hilmer. Ficaria certamente acordada toda a noite se soubesse que um intruso entrara no apartamento. Resolvi mandar fazer cópias das transcrições e dos jornais na manhã seguinte. Não podia dar-me ao luxo de os perder.

 

Verifiquei novamente a porta. Estava trancada, mas, mesmo assim, empurrei uma pesada poltrona contra ela. A seguir, fechei todas as janelas, excepto a do quarto de dormir pois precisava de ar fresco. Gosto de quartos frios e não queria ser privada desse prazer por causa do visitante desconhecido. Além disso, o apartamento fica no segundo andar e não há maneira de alguém lá chegar sem a ajuda de uma escada. Tinha a certeza de que, se me quisessem fazer mal, não seria fácil transportar uma escada sem eu ouvir. No entanto, depois de ter finalmente adormecido, acordei inúmeras vezes em sobressalto e de ouvido à escuta. Mas o som que ouvia era simplesmente o do vento a varrer as folhas caídas atrás da garagem.

 

Só de madrugada, quando acordei pela quarta ou quinta vez, é que percebi o que devia ter realizado imediatamente: quem quer que tinha examinado o meu bloco-notas sabia, agora, que eu tinha um encontro essa manhã na escola de Arbinger e outro, na segunda-feira, na de Carrington.

 

Decidi partir para Arbinger às sete horas. Como sabia que a Sra. Hilmer se levantava cedo, telefonei-lhe às dez para as sete e perguntei-lhe se podia passar por casa dela durante uns instantes. Enquanto bebíamos uma chávena do seu excelente café, contei-lhe o incidente e disse-lhe que ia levar as transcrições e os jornais para fazer cópias.

 

Não, não vai disse-me. Não tenho nada que fazer e trabalho como voluntária na biblioteca. Tenho as copiadoras que lá há à minha disposição sempre que quiser. Assim, ninguém vai saber o que se passa. Excepto o Rudy Schell, claro está, mas é uma pessoa muito discreta.

 

Hesitou um momento.

 

Venha morar para minha casa, Ellie. Não quero que fique sozinha no apartamento. Quem esteve lá ontem à noite pode voltar. Acho que deveríamos chamar a polícia.

 

Recuso vir viver para sua casa disse eu. Deveria talvez era sair do apartamento.

 

Ela pôs-se a abanar a cabeça e eu continuei.

 

Está bem, não me vou embora. Sinto-me muito bem perto de si. Quanto a chamar a polícia, também pensei nisso. Mas julgo que não é boa ideia. Não há sinais de arrombamento e as minhas jóias não foram roubadas. Se contar à polícia que a única coisa que aconteceu foi que alguém mudou a minha caneta de posição e acrescentou umas palavras a um ficheiro do computador, o que é que acha que eles vão pensar de mim?

 

Não esperei pela resposta dela.

 

Os Westerfield já andam a espalhar que eu era uma criança perturbada de imaginação doentia e que não deviam ter dado ouvidos à minha deposição no tribunal. Já imaginou o que eles fariam com uma história destas? Passaria por uma dessas pessoas que enviam cartas ameaçadoras a elas mesmas só para chamar a atenção.

 

Bebi o resto do café de um trago.

 

Há uma coisa que pode fazer, se quiser. Telefone à Joan Lashley e pergunte-lhe se eu posso ir visitá-la amanhã?

 

Foi confortável ouvir a Sra. Hilmer dizer-me: «Guie com cuidado», e sentir um rápido beijo na face.

 

Perto de Boston, fui apanhada num engarrafamento e, assim, já eram quase 11 horas quando atravessei os portões bem guardados da Escola Preparatória de Arbinger. Era ainda mais impressionante do que as fotografias no Website sugeriam. O elegante edifício cor-de-rosa tinha um aspecto doce e tranquilo sob o céu de Novembro. O caminho através das instalações era ladeado por árvores antigas que, na Primavera, deviam formar uma luxuriante cúpula de folhas. Era fácil imaginar porque a maior parte dos adolescentes que se formava aqui saía com um diploma e a sensação de ter obtido um direito, o sentimento de ser especial e de estar acima dos outros.

 

Ao fazer manobras para estacionar o carro na área reservada às visitas, lembrei-me dos liceus onde tinha estudado. O primeiro ano em Louisville; depois, em Los Angeles. Para onde é que tinha ido a seguir? Ah, pois, Portland, Oregon. E, finalmente, de volta a Los Angeles para o último ano do liceu e quatro anos de universidade, os quais me deram uma certa estabilidade. A minha mãe continuou a trabalhar na rede de hotéis até eu ser finalista. Foi nessa altura que os problemas de fígado se acentuaram. Acabou por vir partilhar comigo o pequenino apartamento até morrer.

 

Sempre quis que vocês soubessem fazer bem as coisas, Ellie. Para, quando encontrassem alguém com nível, poderem mostrar-se dignas.

 

Mas que ideia, mãe!, pensei ao entrar no edifício principal e ser dirigida para o gabinete de Craig Parshall.

 

As paredes ao longo do corredor estavam cobertas de retratos de figuras com ar austero, as quais, pelo que percebi através de rápidos olhares, eram antigos directores da escola.

 

Craig Parshall era menos impressionante de aparência do que a sua voz culta dava a entender. Era um homem perto dos 60 que ainda usava o anel de curso. O cabelo ralo estava penteado de maneira demasiado perfeita numa vã tentativa para ocultar a calvície no alto da cabeça, e ele não conseguia esconder o facto de se sentir excessivamente nervoso.

 

O seu gabinete era espaçoso e muito elegante, com lambris nas paredes, cortinados, um tapete persa suficientemente desfiado para garantir a sua antiguidade, confortáveis poltronas de cabedal e uma secretária de mogno para trás da qual ele prontamente se retirou após me ter cumprimentado.

 

Como lhe disse ao telefone, Ms, Cavanaugh... principiou.

 

Sr. Parshall, para quê perdermos tempo? sugeri, interrompendo-o. Estou ciente das suas reservas e aprecio-as. Responda apenas a algumas perguntas e vou-me já embora.

 

Vou dar-lhe as datas em que o Rob Westerfield frequentou...

 

Sei quando ele estudou aqui. Isso foi divulgado no decorrer do julgamento em que ele foi condenado pela morte da minha irmã.

 

Parshall piscou os olhos.

 

A família Westerfield tem um objectivo na vida, Sr. Parshall. Branquear a reputação do Robson Westerfield e fazer com que ele seja novamente julgado e absolvido. Tal sucesso terá o efeito de fazer crer ao mundo que outro jovem, o qual, devo acrescentar, não possui o dinheiro nem a capacidade intelectual para passar por esta escola, é culpado do assassínio da minha irmã. O meu objectivo é fazer tudo para que isso não aconteça.

 

Tem de compreender... gaguejou Parshall.

 

Compreendo que o senhor não pode ser citado. Mas pode abrir-me algumas portas. Quero a lista dos colegas de aula do Rob Westerfield. Quero saber se algum deles era um amigo particular dele, ou, melhor ainda, se havia alguém que não o podia suportar. Quem era o rapaz com quem partilhava o mesmo quarto? E, a título confidencial, por que é que ele foi realmente expulso?

 

Fitámo-nos em silêncio durante um longo minuto e nenhum de nós pestanejou.

 

No meu Website, podia, muito facilmente, referir-me à exclusiva escola preparatória onde andou Rob Westerfield sem a mencionar acrescentei. Ou podia fazê-lo da seguinte maneira: A Escola Preparatória de Arbinger, alma materde Sua Majestade, o príncipe Gregory, da Bélgica; de Sua Sereníssima Alteza, o príncipe...

 

Interrompeu-me

 

Estritamente confidencial?

 

Absolutamente.

 

Sem mencionar a escola nem o meu nome?

 

Absolutamente.

 

Suspirou e eu tive quase pena dele.

 

Já alguma vez ouviu a frase: «Não confiem em príncipes»,

 

  1. Cavanaugh?

 

Por acaso conheço-a bastante bem... Não só através da Bíblia, mas como me foi citada: «Não confiem em jornalistas que se dedicam à investigação.»

 

É isso um aviso, Ms. Cavanaugh?

 

Se o jornalista for íntegro, a resposta é não.

 

Vou confiar então em si e na sua discrição. Estritamente confidencial?

 

Absolutamente.

 

A única razão pela qual admitimos o Robson Westerfield nesta escola foi porque o pai doou às nossas instalações científicas. E sem qualquer publicidade. O Rob foi-nos apresentado como sendo um estudante perturbado que não se sentia bem entre os colegas.

 

Frequentou a Baldwin, em Manhattan, durante oito anos atalhei. Teve lá problemas?

 

Nenhum que nós saibamos, excepto, talvez, o facto... que nem os seus professores nem o conselheiro escolar se pronunciaram.

 

E o laboratório não precisava, por acaso, de ser reconstruído? Parshall ficou embaraçado.

 

O Westerfield provém de uma família excelente e a sua inteligência é de nível superior.

 

Muito bem disse eu. Vamos, agora, falar de coisas sérias. Como era o comportamento desse tipo nesta escola bendita?

 

Tinha começado a ensinar aqui e, por isso, sou uma testemunha de primeira apanha. Era bastante mau disse francamente Parshall. Julgo que sabe o que é um sociopata?

 

Agitou as mãos num gesto de impaciência.

 

Desculpe. Como a minha mulher me lembra com frequência, os meus exercícios de aquecimento na aula podem ser bastante irritantes. Estou a referir-me a um sociopata nascido sem consciência nem consideração por ninguém, constantemente em conflito com o código social como você e eu o entendemos. O Robson Westerfield era o protótipo desse género de personalidade.

 

Quer dizer, então, que teve problemas com ele desde o início?

 

Como com tantos outros da sua laia, ele tem boa aparência e inteligência. E também é o último de uma linhagem distinta. Tanto o avô como o pai estudaram igualmente aqui. Esperávamos poder despertar as suas boas qualidades...

 

As pessoas não têm o pai, o Vincent Westerfield, em grande estima. Como é que ele se portou aqui?

 

No plano académico, razoavelmente. Pelo o que vi, nada que se comparasse com o avô. O Pearson Westerfield chegou a senador.

 

Por que é que o Robson Westerfield saiu a meio do segundo ano?

 

Houve um grave incidente relacionado com a equipa de râguebi. Atacou outro estudante. A família deste foi persuadida a não o processar, mas os Westerfield tiveram de pagar todas as despesas. Ou talvez ainda mais, mas não posso jurar.

 

Apercebi-me de que Craig Parshall estava a ser invulgarmente franco e disse-lho.

 

Não gosto de ser ameaçado, Ms. Cavanaugh.

 

Ameaçado?

 

Esta manhã, pouco antes de você chegar, recebi um telefonema de um representante da família Westerfield, um tal Sr. Hamilton, que me avisou que eu não deveria dar-lhe informações negativas a respeito do Robson Westerfield.

 

Trabalham bastante depressa, pensei.

 

Posso perguntar-lhe que tipo de informação deu ao Jake Bern sobre o Robson Westerfield?

 

As suas actividades desportivas. O Robson era um jovem de constituição muito robusta. Aos 13 anos já tinha quase um 1,80 metros. Jogou nas equipas de squash, ténis e râguebi. Também fazia parte do grupo teatral e disse ao Bern que ele era um actor com talento. Era esse o tipo de informação que o Bern procurava. Conseguiu arrancar-me algumas frases que, uma vez publicadas, hão-de parecer muito favoráveis.

 

Podia imaginar o modo como o Bern escreveria o capítulo sobre Arbinger. Rob iria sair-se lindamente.

 

Como é que o facto de ele ter saído de Arbinger pode ser explicado?

 

Terminou o segundo ano no estrangeiro, mas, depois decidiu mudar.

 

Sei que já se passaram 30 anos, mas não me pode dar o nome dos seus antigos colegas?

 

Fica, contudo, entendido que não fui eu quem lhos deu.

 

Entendido.

 

Quando, uma hora mais tarde, me fui embora, tinha em meu poder uma lista dos colegas do primeiro e do segundo ano de Rob Westerfield. Parshall identificou dez que viviam na área entre Manhattan e Massachusetts. Um deles era Christopher Cassidy, o jogador de râguebi que Rob tinha espancado. Era, agora, dono de uma firma de investimentos e morava em Boston.

 

O Chris tinha uma bolsa explicou Parshall. E como está grato por ter tido a oportunidade de frequentar esta escola, é um dos nossos doadores mais generosos. No caso dele, não me importo de lhe telefonar. O Chris nunca escondeu os seus sentimentos pelo Westerfield, mas se a ponho em contacto com ele tem de ser, mais uma vez, a título confidencial.

 

Absolutamente.

 

Parshall acompanhou-me até à saída. Era hora de recreio e o toque discreto de uma campainha foi seguido de pequenos grupos de alunos a emergir das aulas.

 

A actual geração de notáveis saídos de Arbinger, pensei ao examinar os seus rostos jovens.

 

Muitos deles eram destinados a postos de liderança, mas não pude deixar de me interrogar se não haveria outro sociopata tipo Rob Westerfield a incubar no interior desta privilegiada instituição.

 

Saí das instalações e guiei ao longo da rua principal. Pelo mapa pude ver que esta começava na escola, a sul, e atravessava a cidade em direcção do norte até à Academia para raparigas, Jen°a Calish. New Cotswold é uma dessas encantadoras aldeias de Nova Inglaterra construída à volta de escolas. Tem uma grande livraria, um cinema, uma biblioteca, várias lojas de roupa e pequenos restaurantes. Tinha abandonado a ideia de ficar por aqui na esperança de recolher informações. Craig Parshall dera-me o que eu desejava e eu sabia que era melhor interrogar os colegas de Rob Westerfield do que desperdiçar mais tempo nas vizinhanças de Arbinger.

 

Mas era quase meio-dia e eu sentia uma ligeira dor de cabeça, em parte por ter fome e, em parte, por não ter dormido muito bem na noite anterior.

 

Passei por um restaurante chamado A Biblioteca, e situado a cerca de três quarteirões da escola. O nome pintado à mão atraiu o meu olhar e suspeitei que fosse o género de lugar onde faziam sopa caseira. Decidi entrar e parei no parque de estacionamento ao lado.

 

Era o primeiro cliente e a dona, uma senhora alegre e atarefada na casa dos quarenta e muitos, ficou toda satisfeita não só de me dar a escolher uma meia dúzia de pequenas mesas como também em contar-me a história do estabelecimento.

 

Há 50 anos que pertence à minha família assegurou-me. Foi a minha mãe, Antoinette Duval, quem abriu este restaurante. Era uma cozinheira maravilhosa e o meu pai, para lhe fazer a vontade, cedeu. Teve tanto sucesso que ele acabou por largar o emprego para tratar do negócio. Os meus pais já se reformaram e, agora, sou eu e as minhas irmãs que nos ocupamos dele. Mas a nossa mãe ainda vem cá umas duas vezes por semana cozinhar pratos especiais. Está neste momento na cozinha e, caso goste de sopa de cebolas, ela acabou de fazê-la agora mesmo.

 

Pedi a sopa. Era tão boa como eu esperava. A dona veio saber se eu tinha gostado, e o facto de eu lhe ter assegurado que era divinal encheu-a de prazer. A seguir, e como ainda havia poucos clientes, ela meteu conversa comigo e perguntou-me se eu vivia ali ou estava apenas de passagem. Decidi ser franca.

 

Sou jornalista e estou a escrever um artigo sobre o Rob Westerfield que acabou de ser solto de Sing Sing. Sabe quem ele é?

 

A sua expressão amigável tornou-se instantaneamente agressiva. Deu meia volta e afastou-se de mim.

 

Credo!, pensei. Ainda bem que já estou a acabar a sopa. Até parece que me quer pôr na rua.

 

Voltou momentos mais tarde, desta vez acompanhada por uma senhora rechonchuda de cabelo branco que limpava as mãos num avental de cozinheira.

 

Mamã disse ela, virando-se para a mulher mais velha. Esta senhora aqui está a escrever um artigo sobre o Rob Westerfield. Talvez lhe queiras contar qualquer coisa.

 

Rob Westerfield repetiu a Sra. Duval quase cuspindo o nome. É uma peste. Por que é que o deixaram sair da prisão?

 

Não precisou de encorajamento para contar a sua história.

 

Veio cá uma vez com os pais num fim-de-semana. Devia ter uns 15 anos. Começou a discutir com o pai e, de repente, levantou-se de um pulo para ir-se embora. A empregada-de-mesa ia a passar nesse momento e ele deu-lhe um encontrão. A pobre da rapariga deixou cair o tabuleiro e entornou a comida sobre ele. Nunca vi uma coisa daquelas. Agarrou-a por um braço e torceu-o até ela desatar aos gritos. É um autêntico animal.

 

Chamaram a polícia?

 

Era o que eu queria fazer, mas a mãe suplicou-me que não. O pai abriu então a carteira e deu 500 dólares à empregada. Ela era apenas uma miúda e aceitou-os de bom grado. O pai disse-me ainda para adicionar o preço da comida entornada à conta deles.

 

E o que é que, entretanto, o Rob Westerfield fez?

 

Saiu porta fora, deixando os pais a tratar do assunto. A mãe ficou muito envergonhada. Mas o pai disse-me que a culpa era da empregada e que o filho tinha reagido daquela forma porque a comida o tinha queimado. Disse-me que eu deveria ensinar as minhas empregadas a não deixar cair tabuleiros.

 

O que é que a senhora respondeu?

 

Que nos recusávamos a servi-lo e que ele saísse imediatamente do restaurante.

 

Não imagina como a mamã fica quando se zanga informou-me a filha. Pegou nos pratos que tinham acabado de ser postos diante deles e levou-os para a cozinha.

 

Mas tive muita pena da Sra. Westerfield disse a Sra. Duval. Estava tão incomodada. Escreveu-me depois uma carta muito simpática a pedir-me desculpa. Ainda a devo ter.

 

Saí do restaurante meia hora mais tarde com autorização para contar a história no meu Website e a promessa de que receberia uma cópia da carta que a Sra. Westerfield tinha escrito à Sra. Duval. E tinha ainda comigo a morada da jovem empregada a quem Rob torcera o braço. Ela era agora psicóloga e vivia duas cidadezinhas mais longe. Sim, teria muito prazer em falar comigo. Lembrava-se muito bem do Rob Westerfield.

 

Nessa altura, andava a poupar dinheiro para ir para a universidade disse-me a Dra. Fisher. Os 500 dólares que o pai dele me deu pareceram-me uma fortuna. Mas lamento não ter apresentado queixa. O tipo é violento e, caso eu tenha aprendido umas coisas sobre a mente humana, suspeito que os 22 anos que passou na prisão não o mudaram absolutamente nada.

 

Era uma mulher atraente de quarenta e poucos anos, com cabelo prematuramente grisalho e um rosto jovem. Disse-me que, às sextas-feiras, dava consultas somente até ao meio-dia e que estava prestes a sair quando eu telefonei.

 

Vi a entrevista com ele na televisão disse ela. Pôs-me doente. Compreendo muito bem como se sente.

 

Contei-lhe o que estava a planear fazer no meu Website e que tinha ido para a porta da penitenciária de Sing Sing com um cartaz a pedir informações sobre o comportamento de Rob Westerfield na prisão.

 

Muito me surpreenderia não vir a ter conhecimento de mais incidentes que lá se passaram disse-me. E então os anos entre o período que ele estudou aqui e o assassínio da sua irmã? Que idade tinha ele quando foi condenado?

 

Vinte.

 

Duvido seriamente que não haja outros casos que não foram abafados, Ellie. Já pensou que, para ele, você representa uma ameaça constante?, disse-me que a avó dele é uma mulher muito alerta. -e Imagine que ela tem conhecimento do seu Website e vai vê-lo. Se se der conta do mal que o neto tem feito, o que é que a impedirá de mudar o testamento mesmo antes do Rob ser julgado outra vez?

 

Não seria isso formidável! exclamei. Adoraria pensar que, por minha culpa, o dinheiro da família iria para obras de caridade.

 

Se fosse a si, teria muito cuidado disse calmamente a Dra. Fisher.

 

No caminho de regresso a Oldham, pensei no conselho dela. O meu apartamento fora assaltado e o que equivalia a uma ameaça tinha sido inscrita no meu computador. Pensei se não deveria ter avisado a polícia, mas, pelas razões que tinha dado à Sra. Hilmer, cheguei à conclusão de que era melhor assim. Não ia correr o risco de ser considerada maluca. Mas, por outro lado, também não tinha o direito de pôr a Sra. Hilmer em perigo. Decidi que tinha de arranjar outro sítio para viver.

 

A Dra. Fisher tinha-me dado autorização para citar o nome dela. Outra coisa a fazer no meu Website seria convidar pessoas a comunicar-me problemas que tivessem tido com Rob Westerfield antes de ele ir para a prisão.

 

Já era fim de tarde quando parei diante do apartamento. Tinha passado pelo supermercado em Oldham para fazer compras. Planeava preparar um jantar simples: bife, batatas assadas e salada. Ver depois televisão e ir cedo para a cama. Tinha de começar a escrever o livro sobre Westerfield. Embora o material que usasse no Website pudesse ser repetido no livro, este teria de ser apresentado de modo diferente.

 

Como a casa da Sra. Hilmer se encontrava às escuras, não sabia ao certo se ela estava em casa. Pensei que o carro dela estivesse na garagem e que ela ainda não tivesse acendido a luz. Telefonei-lhe ao entrar no apartamento. Respondeu ao primeiro toque e percebi que estava assustada.

 

Tenho a impressão de que alguém me seguiu quando fui à biblioteca, Ellie.

 

Por que é que diz isso?

 

Sabe que esta rua é muito sossegada. Mas, mal saí de casa, vi um carro a seguir-me pelo espelho retrovisor. Manteve-se à distância e só me ultrapassou depois de eu ter entrado no parque de estacionamento da biblioteca. E julgo que fui seguida pelo mesmo carro quando voltei para casa.

 

Continuou em frente quando a senhora virou para aqui?

 

Continuou.

 

Pode descrevê-lo?

 

Tamanho médio, escuro, preto ou azul-escuro. Estava demasiado longe para eu distinguir quem ia ao volante, mas penso que era um homem. Acha que quem entrou no seu apartamento ontem à noite anda por estas paragens?

 

Não sei.

 

Vou chamar a polícia e vou ter de lhes contar o que se passou ontem à noite.

 

Claro.

 

Odiei-me a mim mesma pelo tom nervoso da voz da Sra. Hilmer. Até agora, sempre se sentira segura em casa. Rezei para que, por minha causa, ela não perdesse esse sentido de segurança.

 

Dez minutos mais tarde, um carro da polícia parou diante da casa da Sra. Hilmer. Após reflectir alguns minutos, decidi ir falar com eles. O polícia com ar veterano não levava obviamente muito a sério as suspeitas da Sra. Hilmer.

 

Quem ia dentro desse carro não tentou detê-la nem contactou consigo? perguntava-lhe ele quando cheguei.

 

Não. Apresentou-nos.

 

Há muitos anos que conheço o agente White, Ellie.

 

Era um homem de rosto talhado à faca que parecia ter passado muito tempo ao ar livre.

 

E o que é isso acerca de um intruso, Ms. Cavanaugh? Mostrou-se céptico quando lhe falei da caneta e da frase ameaçadora no ficheiro do meu computador.

 

Quer dizer então que não tocaram nas suas jóias e que a única prova que tem de alguém ter entrado no seu apartamento é pensar que a posição da sua caneta foi mudada de um lado do bloco-notas para o outro e uma frase no computador que não se lembra de ter escrito?

 

Que não escrevi corrigi-o.

 

Foi suficientemente delicado para não me contradizer directamente, mas virou-se para a Sra. Hilmer.

 

Mantenha-se atenta durante uns dias. A minha opinião é que, depois de Ms. Cavanaugh lhe ter contado essa história esta manhã, a senhora ficou um pouco nervosa. É por isso que reparou no carro. Mas penso que não é nada.

 

A minha «história», pensei. Obrigado por coisa nenhuma.

 

Mas, a seguir, ele disse que queria examinar a fechadura da minha porta. Prometi à Sra. Hilmer que lhe telefonaria e voltei ao apartamento com ele. Examinou realmente a fechadura e chegou à mesma conclusão que eu: não fora forçada.

 

Permaneceu ali uns instantes, tentando obviamente decidir-se a abordar-me sobre qualquer coisa.

 

Ouvimos dizer que esteve em Sing Sing ontem, Ms. Cavanaugh. Fiquei à espera. Estávamos no corredor. Não me tinha pedido para ver o ficheiro do computador, o que mostrava a credibilidade que dava à minha «história». Não estava virada para o convidar a ignorar as minhas suspeitas ainda mais.

 

Ms. Cavanaugh, estava aqui quando a sua irmã foi assassinada e compreendo a dor que deve ter sentido. Mas, se o Rob Westerfield cometeu realmente esse crime, já cumpriu a sua pena e devo dizer-lhe que há muita gente nesta cidade que não o suportava quando ele era um miúdo mal comportado, mas que pensa que ele foi condenado injustamente.

 

A sua opinião também é essa?

 

Para lhe falar com franqueza, é, sim. Sempre achei o Paulie Stroebel culpado. Houve muita coisa que não foi dita no julgamento.

 

Tal como...

 

Tinha-se gabado diante de uns colegas da escola que a sua irmã iria à festa do Dia de Acção de Graças com ele. Se ela contou a algumas das suas amigas íntimas que só ia com ele porque, assim, o Rob Westerfield não sentiria ciúmes de um tipo como o Paulie e este veio a saber, é possível que tenha ficado furioso. O carro do Rob ficou estacionado na estação de serviço e a senhora mesmo declarou no tribunal que o Paulie contara a Andrea que a tinha seguido até ao esconderijo. E, depois, a conselheira escolar jurou que, quando o Paulie soube que o corpo da Andrea tinha sido encontrado, o ouviu dizer: «Não julguei que estivesse morta.»

 

E houve um aluno que estava mais perto dele que jurou tê-lo ouvido dizer: «Não posso acreditar que esteja morta» atalhei. Há uma grande diferença.

 

É óbvio que não vamos encarar este assunto do mesmo modo, mas deixe-me avisá-la...

 

Ele deve ter sentido que eu me crispei porque emendou a frase.

 

Ouça uma coisa. Perdeu a cabeça ao andar à volta de Sing Sing de cartaz na mão. Os tipos que de lá saem são criminosos endurecidos e você, uma mulher atraente e jovem, aparece-lhes pela frente a dar-lhes o número de telefone a pedir-lhes que lhe telefonem... Metade desses vadios vão acabar por voltar para a prisão dentro de uns anos. O que é que acha que lhes passa pela cabeça ao verem uma mulher como você a pedir sarilhos?

 

Fitei-o com atenção. Parecia sinceramente preocupado. E não deixava de ter razão.

 

Agente White, é você e gente do seu género que ando a tentar convencer disse-lhe. Sei que a minha irmã tinha medo do Rob Westerfield e, depois do que soube hoje, percebo muito bem porquê. Não me importo de correr um risco com as pessoas que viram o meu cartaz... A não ser, claro está, que estejam relacionadas com o Rob e a família dele.

 

Ocorreu-me então descrever o homem que tinha falado comigo no parque de estacionamento da estação de caminhos-de-ferro. Pedi-lhe para se informar se um preso com essas características fora solto ontem.

 

E o que é que vai fazer com tal informação? perguntou-me.

 

Está bem. Esqueça o que lhe pedi.

 

A Sra. Hilmer deve ter estado à espera que o agente White se fosse embora pois, assim que as luzes traseiras do carro da polícia desapareceram na estrada, o meu telefone portátil tocou.

 

Ellie disse ela. Fiz cópias dos jornais e das transcrições. Precisa dos originais esta noite? Vou jantar com umas amigas e, depois, vamos ao cinema. Só estarei em casa por volta das dez horas.

 

Odiava admitir que tinha medo de ficar com os originais em meu poder, mas a verdade é que tinha.

 

Vou já aí disse-lhe.

 

Não. Telefono-lhe quando estiver pronta a partir. Passarei de carro pelo apartamento e você então desce para pegar na sacola.

 

Chegou uns minutos mais tarde. Eram apenas quatro e meia, mas o céu já estava escuro. Senti que ela estava tensa quando abriu a janela do carro para me falar.

 

Aconteceu mais alguma coisa? perguntei-lhe.

 

Acabei de receber um telefonema, mas não sei quem foi.

 

Conte lá.

 

Preveniu-me para eu ter cuidado consigo. Disse que você era uma psicopata que já tinha sido hospitalizada numa clínica psiquiátrica por ter deitado fogo a uma sala de aula.

 

Não é verdade. Deus meu, desde que nasci que nunca passei um dia no hospital, quanto mais numa clínica psiquiátrica.

 

Percebi pela sua expressão de alívio que a Sra. Hilmer acreditava em mim. Mas isso significava que ela tinha, pelo menos ao princípio, dado ouvidos ao que o desconhecido lhe contara. Já quando a visitara pela primeira vez, ela tinha sugerido que Rob Westerfield podia estar inocente e que eu andava obcecada pela morte de Andrea.

 

Por que é que alguém anda a contar essas coisas horríveis sobre si, Ellie? protestou. E o que é que você pode fazer para a impedir de as espalhar por aí?

 

Estão a tentar desacreditar-me e é evidente que nada posso fazer.

 

Abri a porta de trás do carro e tirei a sacola. Tentei escolher cuidadosamente as palavras.

 

Sra. Hilmer, penso que é melhor eu voltar para a estalagem amanhã de manhã. O agente White acha que eu vou chamar a atenÇão de gente muito estranha por causa de ter estado à porta de Sing Sing com um cartaz na mão. Não quero que me descubram aqui. Estarei mais segura na estalagem e a senhora voltará a ficar em paz.

 

Ela era suficientemente franca para não me contrariar.

 

Julgo que ficará realmente em maior segurança, Ellie disse-me em tom de alívio.

 

Fez uma pausa e, depois, acrescentou.

 

E eu também me sentirei mais segura.

 

E arrancou.

 

Voltei para o apartamento com a sacola na mão quase aflita. Nos tempos bíblicos, os leprosos eram obrigados a usar guizos à volta do pescoço e gritar: «Intocável! Intocável!», se alguém se aproximasse deles. Nesse momento, senti-me realmente como uma leprosa.

 

Deixei cair a sacola no chão da sala e fui mudar de roupa ao quarto. Substituí o blusão por uma camisola larga, descalcei os sapatos e enfiei os pés numas pantufas forradas. A seguir voltei à sala, servi-me de um copo de vinho e instalei-me na grande poltrona com os pés sobre uma almofada.

 

A camisola e as pantufas faziam sentir-me confortável. Pensei no meu antigo conforto, Ossos, o cão de pelúcia que partilhava comigo a almofada quando eu era criança. Estava agora metido dentro de uma caixa na prateleira de cima de um armário no meu apartamento em Atlanta. Partilhava a caixa com outras recordações que a minha mãe tinha guardado do passado: um álbum do seu casamento, fotografias de nós os quatro, roupas de bebé e, a recordação mais terrível de todas, a farda da banda de música de Andrea. Senti um certo ressentimento infantil por Ossos não se encontrar ali comigo.

 

Beberiquei o vinho a pensar nas vezes que Pete e eu ficávamos a tomar um copo depois de sair do trabalho enquanto esperávamos pela hora do jantar.

 

Duas recordações: a minha mãe a beber à procura de sossego, e Pete e eu a falar e a trocar piadas sobre o que, por vezes, tinha sido um dia de muito trabalho ou frustrante.

 

Há dez dias, desde o nosso jantar em Atlanta, que nada sabia dele. Longe da vista, longe do coração, pensei. Está à procura de outro emprego. «À cata de outros interesses», como se diz no mundo dos negócios quando alguém é despedido.

 

Ou quando se decide cortar as amarras. Todas elas.

 

O tempo alterou-se subtilmente uma hora mais tarde. O ruído de uma janela a bater foi o primeiro indício de que o vento tinha mudado. Levantei-me e aumentei o aquecimento central. A seguir, sentei-me diante do computador. Dando-me conta de que estava em perigo de sentir pena de mim mesma, pus-me a trabalhar no primeiro capítulo do livro.

 

Depois de vários rascunhos, sabia que deveria começar o livro com a minha última recordação de Andrea e, enquanto escrevia, a memória parecia tornar-se mais nítida. Via-a no quarto com a colcha de organdi branca e cortinas com folhos. Lembrava-me em pormenor da cómoda antiga que a mãe tinha cuidadosamente escolhido num antiquário e visualizar as fotografias de Andrea e das suas amigas presas na moldura do espelho.

 

Via Andrea em lágrimas a falar ao telefone com Rob Westerfield e, depois, via-a a pôr o medalhão à volta do pescoço. Enquanto escrevia, compreendi que havia algo quanto ao medalhão que ainda me escapava. Sabia que, agora, já não conseguia identificá-lo se o visse, mas, na altura, descrevi-o perfeitamente à polícia descrição que há anos fora rejeitada como uma mera fantasia infantil.

 

Mas sabia que Andrea o tinha com ela quando a encontrei e estava segura de que ouvi Rob Westerfield na garagem. A minha mãe contou-me mais tarde que ela e o meu pai levaram dez ou 15 minutos a acalmar-me para eu lhes dizer onde estava o corpo de Andrea. Tempo suficiente para Rob fugir com o medalhão.

 

Ele declarou perante o tribunal que tinha estado a correr e que não se aproximara da garagem. No entanto, tinha lavado o fato de treino que trazia vestido nessa manhã juntamente com a roupa suja de sangue.

 

Fiquei mais uma vez impressionada com o enorme risco que ele tinha corrido ao voltar à garagem. Por que é que tinha tirado o medalhão? Teria receado que isso confirmasse que Andrea não era apenas uma miúda apaixonada por ele? Senti as mãos suadas só de pensar na respiração arquejante e no riso nervoso que ele soltara escondido por detrás da carrinha.

 

Se eu não tivesse atravessado o bosque sozinha e viesse com o meu pai, Rob teria sido apanhado na garagem. Teria sido o pânico que o fizera regressar? Seria possível que ele quisesse provar a si mesmo que o que tinha feito não era um pesadelo? Ou, pior ainda, teria ele voltado para se certificar que Andrea estava realmente morta?

 

Liguei o forno às sete horas, meti lá dentro a batata solitária a assar e voltei ao trabalho. O telefone tocou pouco depois. Era Pete Lawlor.

 

Olá, Ellie.

 

Havia algo na sua voz que me pôs imediatamente de pé atrás.

 

O que é que há, Pete?

 

Não perdes tempo, pois não?

 

Combinámos que nunca o faríamos.

 

Pois. O jornal já foi vendido, Ellie. É definitivo e vão anunciar isso na segunda-feira. O pessoal vai ser reduzido ao mínimo.

 

E o que é que te vai acontecer?

 

Ofereceram-me emprego, mas não aceitei.

 

Era o que estavas a pensar fazer.

 

Informei-me sobre ti, mas, segundo me disseram a título confidencial, não estão a planear manter a série de investigação jornalística.

 

Já aguardava esse género de notícias, mas, de repente, senti-me muito desamparada.

 

E tu já decidiste para onde ias, Pete?

 

Ainda não sei ao certo, mas estou a pensar ir ver umas pessoas a Nova Iorque antes de me decidir. Talvez alugue um carro nessa altura e te vá visitar ou, então, podemos encontrar-nos em Manhattan.

 

Gostaria imenso. Estava à espera de receber um postal de Houston ou de Los Angeles.

 

Nunca envio postais, Ellie. Tenho andado a ver o teu Website.

 

Ainda não há lá muita coisa. É uma espécie de sinal, do género que se põe numa loja alugada. Estás a ver o que quero dizer: «A ser inaugurada brevemente.» Mas ando a desenterrar muitas coisas desagradáveis sobre o Westerfield. Se o Jake Bern tentar descrevê-lo como um americano de gema, o seu livro terá de ser publicado como um romance.

 

Ellie, não é meu feitio... Cortei-lhe a palavra.

 

Ah, deixa-te disso, Pete. Não me vais avisar para ter cuidado, pois não? Já hoje fui avisada por uma vizinha... uma psicóloga... e por um chui.

 

Então deixa-me juntar ao coro.

 

Vamos mudar de assunto. Já perdeste esses cinco quilos?

 

Fiz melhor do que isso. Decidi que estou bem como estou. Telefono-te quando souber quando vou. Ou tu podes telefonar-me. As chamadas de longa distância são muito baratas à noite.

 

Desligou antes de eu poder despedir-me.

 

Carreguei no botão de desligar do meu telefone portátil e pousei-o junto do computador. Enquanto preparava a salada, a ideia de perder o emprego começou a entrar-me nos miolos. O adiantamento que me tinham dado quando assinei o contrato para escrever o livro aguentar-me-ia durante uns tempos, mas o que é que iria fazer quando o dinheiro acabasse e eu tivesse dado o meu melhor para dar cabo de Rob Westerfield?

 

Regressar a Atlanta? Os meus amigos do jornal estariam espalhados por toda a parte. Outra coisa a ponderar: não era lá muito fácil arranjar trabalho num jornal hoje em dia. Demasiados jornais tinham sido engolidos ou ido à falência. E, quando o livro estivesse terminado e eu me tivesse livrado de tudo isto, onde é que desejaria viver? Continuei a pensar nessa questão ao longo de todo o jantar embora tentasse concentrar-me na revista que tinha comprado no supermercado.

 

O telefone portátil tocou novamente quando estava a levantar a mesa.

 

A senhora é a pessoa que esteve ontem à porta da prisão com um cartaz na mão? perguntou uma voz rouca de homem.

 

Sou, sim.

 

Fiz mentalmente figas. O código de identificação da origem da chamada dizia «indisponível».

 

Talvez tenha uma coisa para lhe contar sobre o Westerfield. Quanto é que me paga?

 

Depende da informação que me der.

 

Pague primeiro, e depois ouça.

 

Quanto?

 

Cinco mil dólares.

 

Não tenho esse dinheiro.

 

Então, esqueça. Mas o que tenho para lhe contar meteria o Westerfield de novo na prisão para o resto da vida.

 

Estaria ele a fazer bluff? Não tinha a certeza, mas não podia correr o risco de perdê-lo. Pensei no adiantamento que me tinham dado.

 

Vou receber algum dinheiro dentro de uma semana ou duas. Dê-me apenas uma dica do que sabe.

 

Que tal isto? Quando, o ano passado, o Westerfield estava pedrado com cocaína, contou-me que tinha morto um tipo aos dezoito anos. O nome desse tipo vale cinco mil dólares, ou não? Pense nisso. Telefono-lhe na próxima semana.

 

Ouvi um clique.

 

Margaret Fisher tinha-me dito naquela tarde que, em sua opinião, Rob Westerfield já era culpado de outros crimes antes de ter assassinado Andrea. Pensei nos incidentes que me tinham contado, como os que tinham acontecido na escola e no restaurante. Mas, se ele tivesse realmente morto alguém...

 

Isto transformava-se de repente num jogo completamente diferente. Se o tipo que tinha acabado de telefonar estivesse a falar a sério e me desse o nome da vítima, eu poderia verificar e seria bastante fácil descobrir factos sobre o caso. É evidente que podia ser mentira, uma simples vigarice para me extorquir 5000 dólares. Tinha de decidir se estava pronta a correr esse risco.

 

Estava de pé diante do computador. Ao ler a descrição dos últimos momentos em que passara com Andrea, imaginei que ajudar a pôr Rob Westerfield novamente na prisão valia todos os cêntimos que eu conseguiria ganhar durante a minha vida inteira.

 

Havia um copo de água ao lado do computador. Levantei-o numa espécie de saudação, um brinde a Andrea e à perspectiva de fazer com que Rob Westerfield voltasse a ser preso.

 

Arrumei a cozinha e liguei a televisão para ver as notícias locais. O apresentador desportivo estava a mostrar extractos de um jogo de basquetebol. O melhor marcador era Ted Cavanaugh, e vi o rosto do meio-irmão que nunca tinha conhecido.

 

Parecia-se comigo. Era mais novo, claro está, mas os nossos olhos, narizes, bocas e ossos do rosto eram iguais. Ele olhava directamente para a câmara e eu senti como se estivéssemos a fitar-nos um ao outro.

 

A seguir, e antes que eu tivesse tempo para mudar de canal, a claque começou a entoar o seu nome num toque de ironia.

 

A Sra. Hilmer tinha-me dito que Joan Lashley St. Martin vivia numa casa à beira da estrada perto de Graymoor, mosteiro dos frades franciscanos da Expiação. Quando passei por lá, tive a vaga recordação de ter subido de carro aquele caminho cheio de curvas para assistir a uma missa na capela principal juntamente com os meus pais e Andrea.

 

A minha mãe tinha por vezes recordado a última vez que lá tínhamos estado; fora pouco antes da morte de Andrea. Nesse dia, a minha irmã tinha passado o tempo a sussurrar piadas ao meu ouvido; soltei até mesmo uma forte gargalhada no meio do sermão. A minha mãe separou-nos e, depois da missa, disse ao meu pai que devíamos partir directamente para casa e não irmos almoçar, como tanto ansiávamos, na estalagem da Montanha do Urso.

 

Nem mesmo a Andrea conseguiu amansar o teu pai nesse dia lembrava-se a minha mãe. Claro que quando tudo aconteceu, umas semanas mais tarde, lamentei não termos passado alegremente essa última vez juntos.

 

O dia anterior... a última vez... Perguntava-me se alguma vez haveria de me livrar desse tipo de observações. Não seria certamente hoje, pensei, abrandando para verificar a morada de Joan outra vez.

 

Vivia numa casa de madeira de três andares numa encantadora área arborizada. As telhas brancas brilhavam ao sol e eram complementadas pelos batentes verdes das janelas. Estacionei no pátio semicircular, subi os degraus da entrada e toquei à campainha.

 

Joan veio abrir a porta. Sempre me parecera alta, mas percebi logo que não tinha crescido um centímetro nestes últimos 22 anos. O seu cabelo castanho comprido dava-lhe agora pelo pescoço e a sua figura delgada estava mais cheia. Lembrava-me de que era muito atraente. Tal constatação ainda se aplicava, pelo menos quando ela sorria era uma dessas pessoas cujo sorriso é tão caloroso e vivo que todo o rosto se torna bonito. Quando olhámos uma para a outra, os olhos de Joan ficaram rasos de lágrimas e, depois, ela agarrou-se às minhas mãos.

 

A pequena Ellie! exclamou. Meu Deus, julguei que fosses mais baixa do que eu. Eras uma miúda tão pequenina.

 

Ri-me.

 

Eu sei. É a reacção de toda a gente que me conhecia. Passou o braço pelo meu.

 

Entra. Estou a fazer café e meti uns pãezinhos no forno. Não garanto que sejam bons. Por vezes são óptimos, outras sabem a chumbo.

 

Atravessámos a sala de estar que ia da fachada da casa até ao fundo. Era o género de sala que eu gostava divãs confortáveis, poltronas, uma parede coberta de livros, uma lareira e amplas janelas de onde se avistava as colinas à volta.

 

Tínhamos gostos semelhantes, pensei. E, depois, dei-me conta de que isso também incluía o estilo de roupa. Estávamos ambas vestidas casualmente com camisolas e jeans. Esperava ver uma mulher alta toda elegante e de cabelos compridos. Além de julgar que eu era pequena, tinha a certeza que também pensara que eu aparecesse com um vestido aos folhos. O gosto da minha mãe em roupas para mim e para a Andrea tinha sido muito feminino.

 

O Leo saiu com os rapazes disse ela. Entre eles os três, a vida é um longo jogo de basquetebol.

 

A mesa do pequeno-almoço já estava posta para nós as duas e a cafeteira estava ligada. A janela oferecia uma impressionante vista do rio Hudson.

 

Nunca me cansaria de olhar por esta janela disse eu ao sentarmo-nos.

 

Eu nunca me canso. Tantos dos velhos amigos partiram para a cidade, mas, sabes uma coisa? Uma data deles está a voltar. Manhattan fica apenas a uma hora daqui e chegaram à conclusão que valia a pena.

 

Joan servia o café enquanto falava, mas, de repente, pousou bruscamente a cafeteira.

 

Oh, meu Deus! Já está na hora de salvar os pãezinhos. Desapareceu na cozinha.

 

Ela talvez não fosse como eu a tinha visualizado, pensei, mas havia uma coisa que não tinha mudado! Continuava a ser muito divertido estar com Joan. Era a melhor amiga de Andrea e, por conseguinte, estava sempre a entrar e a sair de nossa casa. Claro que eu tinha as minhas próprias amigas, mas, se uma delas não andasse por ali, Andrea e Joan deixavam que eu me juntasse a elas para ouvirmos juntas discos no quarto de Andrea. Às vezes, quando estavam a fazer os trabalhos de casa, também me deixavam fazer os meus com elas desde que me portasse bem.

 

Joan voltou triunfalmente com um tabuleiro de pãezinhos de milho.

 

Tens de me felicitar, Ellie disse ela. Tirei-os mesmo antes de começarem a queimar.

 

Tirei um. Joan sentou-se, abriu outro, barrou-o ligeiramente de manteiga, provou-o e soltou uma exclamação.

 

Deus seja louvado, estão comestíveis!

 

Rimo-nos e desatámos a falar pelos cotovelos. Queria saber o que eu tinha andado a fazer e eu fiz-lhe um breve resumo do que me tinha acontecido entre a idade dos sete anos e o presente. Ela soubera do falecimento de minha mãe.

 

O teu pai publicou a notícia nos jornais locais disse-me. Muito enternecedor, sabias?

 

Não ma mandou.

 

Guardei-a algures. Vou procurá-la se quiseres. Mas talvez demore a encontrá-la. A minha organização é igual aos meus cozinhados.

 

Queria dizer-lhe que não, para ela não se maçar, mas estava curiosa de ver o que o meu pai tinha escrito.

 

Se a encontrares, gostaria de a ver. disse eu tentando parecer natural. Mas, por favor, não te incomodes.

 

Tinha a certeza de que Joan me queria perguntar se eu me tinha mantido em contacto com o meu pai, mas devia ter sentido que eu não desejava falar dele.

 

A tua mãe era tão encantadora disse-me. E o teu pai era um homem muito bem parecido. Lembro-me que ele me intimidava, mas acho que também tinha uma paixão por ele. Tive tanta pena quando ouvi dizer que se tinham separado depois do julgamento. Vocês os quatro pareciam sempre tão felizes e fizeram tantas coisas juntos. Sempre desejei que a minha família fosse aos almoços de domingo na estalagem da Montanha do Urso como vocês faziam.

 

Há coisa de uma hora estive exactamente a pensar no almoço lá a que não fomos disse-lhe.

 

E, depois, expliquei a Joan que Andrea me tinha feito rir durante a missa.

 

Joan sorriu.

 

Às vezes também me fazia rir nas reuniões da escola. A Andrea conseguia manter-se séria e eu era castigada por me rir quando o director estava a falar.

 

Fez um ar pensativo enquanto bebericava o café.

 

Os meus pais são boas pessoas, mas, para te ser franca, a companhia deles não é lá muito divertida. Nunca fomos a um restaurante porque o meu pai dizia que a comida era mais barata e sabia melhor em casa. Felizmente, agora que vivem na Florida, ele está um pouco melhor.

 

Riu-se.

 

Mas, quando jantam fora, a regra é sentarem-se no restaurante às cinco horas para pagar menos, e se tomam um cocktail, preparam-no em casa e bebem-no sentados na carrinha diante do restaurante antes de jantar. Não é bestial?

 

A seguir, acrescentou:

 

Quer dizer, seria diferente se ele não pudesse dar-se a esse luxo, mas pode. O papá é simplesmente avarento. A minha mãe diz que ele ainda tem o dinheiro que lhe deram quando da Primeira Comunhão.

 

Serviu-nos uma segunda chávena de café.

 

Ellie, como toda a gente que vive por estas bandas, vi a entrevista do Rob Westerfield na televisão. O meu primo é juiz e ele diz que há tanta pressão para ser feito um segundo julgamento que ele está espantado por ainda não terem seleccionado um júri. Sabes como o pai do Rob é manipulador e é claro que a Dorothy Westerfield, a avó, tem feito enormes doações aos hospitais, bibliotecas e escolas destas paragens. Ela quer que o neto tenha um segundo julgamento e tem o poder para o conseguir.

 

Vais ser certamente chamada como testemunha, Joan.

 

Eu sei. Fui a última pessoa a ver a Andrea viva. Hesitou e, depois, prosseguiu.

 

Excepto, evidentemente, o assassino. Ficámos ambas caladas durante uns instantes.

 

Joan disse eu então. Preciso de saber tudo o que te lembras sobre essa última noite. Li as transcrições do julgamento inúmeras vezes e fiquei surpreendida pelo teu depoimento ser tão breve.

 

Ela colocou os cotovelos em cima da mesa, juntou as mãos e pousou o queixo nelas.

 

Fui breve porque nem o promotor nem o advogado da defesa me fizeram as perguntas que deviam ter feito.

 

Que género de perguntas?

 

Sobre o Will Nebels, por exemplo respondeu. Lembras-te que ele trabalhava para quase toda a gente da cidade. Até ajudou a construir a vossa varanda, não foi?

 

Foi.

 

Arranjou a porta da nossa garagem quando a minha mãe embateu contra ela a fazer marcha atrás. Como o meu pai costumava dizer, quando o Will não estava com os copos, era um bom carpinteiro. Mas era evidente que nunca se podia contar com ele.

 

Lembro-me vagamente disso.

 

Uma coisa de que não te podes lembrar é que a Andrea e eu costumávamos comentar o facto de ele ser demasiado afável.

 

Demasiado afável? Joan encolheu os ombros.

 

Hoje, sabendo o que sei, diria que ele estava a um passo de ser um pedófilo. Quer dizer, todas nós o conhecíamos porque ele já tinha ido a nossas casas. Sempre que o encontrávamos na rua, ele aproveitava-se e dava-nos grandes abraços, mas nunca quando havia adultos por perto claro está.

 

Mostrei-me incrédula.

 

Tenho a certeza que mesmo com a minha idade nessa altura eu teria notado se a Andrea se tivesse queixado dele ao meu pai, Joan. Percebi muito bem quando ele a mandou afastar-se do Rob Westerfield.

 

Ellie, há 22 anos nós, miúdas, não podíamos imaginar que ele era potencialmente mais do que um simples incómodo. Nessa altura, quando o Nebels nos abraçava e nos chamava «as suas meninas», dizíamos apenas que era um nojo. «Que tal, gostas da nova varanda que eu construí com o teu papá, Andrea?», perguntava com um grande sorriso amigável, ou: «Não consertei bem a tua garagem, Joan?», gania.

 

Tenta entender o que te estou a dizer. Ele não nos apalpava, e, pensando melhor, era apenas um pobre coitado bêbedo muito atrevido. Mas não tenho dúvidas de que ele andava de olho na Andrea. Lembro-me até de dizer aos teus pais, a brincar, que a Andrea ia convidar o Will Nebels para o baile do Natal, mas eles não perceberam.

 

É espantoso que o meu pai não tenha compreendido!

 

A Andrea imitava muito bem o Will a tirar cerveja às escondidas da caixa de ferramentas e a apanhar uma bebedeira enquanto trabalhava. Não havia motivo para o teu pai se dar conta de que havia um problema.

 

Não compreendo por que é que estás a dizer-me isso agora, Joan. É porque julgas que a história que o Will Nebels anda a contar é mentira e que os Westerfield o compraram?

 

Desde que ouvi o Will Nebels falar na televisão que me pergunto a mim mesma se há alguma verdade naquilo que ele disse. Encontrava-se ele realmente em casa da Sra. Westerfield naquela noite? Viu de facto a Andrea a entrar na garagem? Depois do que aconteceu, perguntei-me muitas vezes se tinha visto alguém na estrada quando a Andrea saiu da nossa casa. Mas fui tão incoerente quando falei com a polícia e os advogados que a minha história foi considerada histeria adolescente.

 

E o que eu lhes disse foi considerado imaginação infantil.

 

O que eu sei de certeza é que, nessa altura, tinham tirado a carta de condução ao Will Nebels e que ele andava sempre a vaguear pela cidade. E também sei que ele tinha um fraco pela Andrea. Supõe que ela estava tão ansiosa para se encontrar com o Rob na garagem que chegou lá mais cedo. Supõe que o Will a viu e se atirou a ela. Supõe que ela se debateu e caiu para trás... O chão é de cimento. Tinha um ferimento atrás da cabeça que a polícia disse dever-se ao facto de ela ter caído depois de lhe baterem com o macaco. Mas não é possível que ela tenha caído antes de apanhar com o macaco?

 

A pancada na parte de trás da cabeça tê-la-ia apenas atordoado disse eu. Li isso nos registos do médico legista.

 

Escuta. Vamos assumir só por um instante que a história do Rob é verdadeira e que ele estacionou realmente o carro na estação de serviço, foi ao cinema e que, depois, passou pelo esconderijo para ver se a Andrea ainda estava à espera dele.

 

E a encontrou morta?

 

Sim. E que entrou em pânico, como declarou.

 

Vendo o protesto formar-se nos meus lábios, Joan ergueu a mão.

 

Escuta, Ellie, por favor. É possível que toda a gente tenha contado partes da verdade. Supõe que a Andrea lutou com o Nebels, que caiu, bateu com a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Supõe que ele depois fugiu para casa da Sra. Dorothy Westerfield. Tinha lá trabalhado e conhecia o código do alarme. E que viu então o Paulie chegar de carro. Por que é que o Paulie teria tirado o macaco do carro?

 

Talvez para se proteger caso encontrasse o Rob Westerfield. Lembra-te que a Miss Watkins, a conselheira escolar, jurou que o Paulie tinha dito: «Não julguei que ela estivesse morta.»

 

O que é que estás a tentar dizer-me, Joan?

 

Topa-me esta cena: o Will Nebels seguiu a Andrea até à garagem e atirou-se a ela. Houve uma luta. Ela caiu e perdeu os sentidos. O Will refugiou-se em casa da Sra. Westerfield e viu então o Paulie chegar de carro, tirar o macaco do porta-bagagens e entrar na garagem. Um minuto mais tarde, o Paulie voltou a entrar no carro e arrancou. O Nebels aí não sabe ao certo se o Paulie vai chamar a polícia. Volta à garagem e vê o macaco que o Paulie deixou cair. Sabe que se arrisca a ir parar à prisão se a Andrea contar que ele a atacou. Mata-a, leva o macaco com ele e desaparece dali. Mais tarde, depois do filme terminar, o Rob vai ao esconderijo, encontra a Andrea morta e entra em pânico.

 

Não percebes que estás a esquecer-te de um pormenor elementar, Joan?

 

Esperava não parecer tão impaciente como a sua teoria me fazia sentir.

 

Como é que o macaco volta a aparecer no porta-bagagens do Rob Westerfield?

 

A Andrea foi assassinada na noite de quinta-feira. Encontraste o corpo dela na sexta-feira de manhã e o Rob só foi interrogado na tarde de sábado. Não figura nas transcrições do julgamento, mas, na sexta-feira, o Will Nebels estava a trabalhar em casa dos Westerfield. O carro do Rob estava estacionado no pátio e ele deixava sempre as chaves lá dentro. O Will poderia muito facilmente ter reposto o macaco no porta-bagagens nesse dia.

 

Como é que soubeste isso tudo, Joan?

 

O meu primo Andrew, o juiz, costumava trabalhar no gabinete do magistrado-federal. Encontrava-se lá quando o Rob Westerfield foi julgado e conhecia bem o caso. Sempre o achou agressivo e desagradável, mas, na sua opinião, ele era inocente.

 

O agente White considerava Paulie culpado da morte de Andrea e a Sra. Hilmer ainda duvidava da sua inocência. E, agora, Joan estava convencida de que o criminoso era Will Nebels.

 

No entanto, eu continuava a ter a certeza de que quem tinha assassinado a minha irmã fora Rob Westerfield.

 

Não acreditas em nada do que eu te disse, Ellie. A voz de Joan era calma, mas triste,

 

Não é bem isso. Como hipótese faz sentido, mas, Joan, o Rob Westerfield estava na garagem na manhã em que encontrei o corpo da Andrea. Ouvi a respiração dele... é tão difícil de explicar... e um riso, uma espécie de som arquejante. Já o tinha ouvido soltar esse som...

 

Quantas vezes é que estiveste com ele, Ellie?

 

Umas duas ou três vezes. Quando a Andrea e eu íamos dar uma volta na cidade depois da escola, ou aos sábados, ele aparecia de repente. O que é que a Andrea te contou acerca dele?

 

Não muito. A primeira vez que me lembro de o ter visto foi num jogo do liceu. A Andrea tocava com a banda e estava linda. O Westerfield veio vê-la depois do jogo, em princípios de Outubro. Eu estava ao lado dela. Atirou-se logo a ela, dizendo que ela era muito bonita e que não podia afastar os olhos dela... Esse género de coisas. Era mais velho e muito bem parecido, e, claro está, ela sentiu-se lisonjeada. E, além do mais, acho que a tua mãe lhe tinha dito uma data de vezes que a família Westerfield era muito distinta.

 

Sim.

 

Ele sabia que nós nos escondíamos às vezes na garagem da avó para fumar. Quer dizer, fumávamos cigarros de verdade e não drogas. Pensávamos que éramos sensacionais, mas não fazíamos nada ilegal. O Rob Westerfield disse-nos para considerar aquele lugar como o nosso clube, mas que o avisássemos quando planeássemos lá ir. E, então, ele pedia à Andrea para vir mais cedo. Sabes bem que eles eram amigos... se assim se pode dizer... há apenas um mês quando ela morreu.

 

Alguma vez tiveste a impressão que ela tinha medo dele?

 

Tive a impressão que se passava qualquer coisa errada, mas ela nunca me contou o que era. A última noite em que ela me telefonou a perguntar se podia passar para estudarmos juntas, devo dizer que a minha mãe não ficou lá muito entusiasmada. Eu estava atrasada em aritmética e ela queria que eu me concentrasse. Sabia que a Andrea e eu perdíamos imenso tempo a tagarelar em vez de estudar. E como ia jogar bridge com as amigas, não estaria por perto para nos obrigar a trabalhar.

 

Terminaram de estudar mais cedo ou achas que a Andrea te usou para sair de casa e encontrar-se com o Rob?

 

Julgo que ela tencionava sair mais cedo e, por isso, penso que ela me usou realmente como desculpa.

 

A seguir, fiz-lhe a pergunta crucial.

 

Sabes se o Rob alguma vez ofereceu um medalhão à Andrea?

 

Não, ela não me disse nada a esse respeito. E se ele lho deu de facto, então nunca o vi. Mas o teu pai ofereceu-lhe um medalhão que ela usava com frequência.

 

Andrea tinha vestido uma grossa camisola com decote em V nessa noite. Por isso é que eu estava certa de a ter visto pôr o medalhão à volta do pescoço. Estava pendurado num fio suficientemente longo para desaparecer por debaixo do decote.

 

Então, que te lembres, ela não usava nenhuma jóia quando saiu de tua casa?

 

Não disse isso. Tinha um fio de ouro, mas era curto e apertado à volta do pescoço.

 

Era isso mesmo, pensei, lembrando-me de repente outro episódio dessa noite. O casaco da minha irmã encontrava-se à entrada e a minha mãe estava à espera dela. Antes de sair do quarto, Andrea passou o medalhão para trás e deixou-o escorregar pelas costas abaixo, o que dava o efeito de ter apenas um fio apertado à volta do pescoço.

 

Tinha meticulosamente lido a descrição da roupa que Andrea usava quando foi assassinada. Não havia menção desse fio.

 

Saí de casa de Joan uns minutos mais tarde com a sincera promessa de telefonar-lhe breve. Não tentei dizer-lhe que ela tinha involuntariamente confirmado a minha recordação de Andrea a pôr o medalhão.

 

Rob Westerfield tinha voltado ao lugar do crime naquela manhã para o recuperar. Tinha agora a certeza de que aquele medalhão era demasiado importante para ele o deixar junto do corpo da minha irmã. No dia seguinte, iria descrevê-lo no meu Website como o tinha descrito a Marcus Longo há 22 anos.

 

Era outra linha a lançar, pensei ao passar novamente pelo mosteiro de Graymoor. Se Rob tinha ficado suficientemente inquieto para correr o risco de ir buscar o medalhão à garagem, alguém poderia estar interessado em explicar-me, em troca de uma recompensa, porque isso fora tão importante para ele.

 

Os sinos da capela de Graymoor começaram a tocar. Era meio-dia.

 

Escola primária. Rezar o ângelus. E o Anjo do Senhor anunciou a Maria... A resposta de Maria a Elizabeth. A minha alma engrandece o Senhor...E o meu espírito alegra-se...

 

Talvez, um dia, o meu espírito volte a alegrar-se, pensei, ligando o rádio.

 

Mas ainda não.

Do balcão de recepção da estalagem Parkinson podia ver o restaurante e reparar que, como sempre, estava cheio à hora do almoço nos fins-de-semana. O grupo de hoje parecia particularmente festivo. Perguntei-me se, após os dias sombrios do princípio da semana, esta tarde soalheira de Outono não teria um efeito benéfico sobre as pessoas.

 

Lamento, mas todos os nossos oito quartos já estão reservados para o fim-de-semana disse o empregado, Todos os fins-de-semana deste Outono têm sido a mesma coisa. E vai continuar assim até ao Natal.

 

Não valia a pena ficar aqui durante a semana e, depois, sair ao fim-de-semana. Tinha de encontrar outro lugar. No entanto, a ideia de guiar de uma estalagem, ou motel, para outra à procura de um quarto não me agradava nada. Decidi que seria melhor voltar ao apartamento e telefonar de lá para ver se conseguia arranjar alojamento para os próximos meses. E era preferível que encontrasse instalações que não me custassem os olhos da cara.

 

O pãozinho de milho que comera de manhã era tudo o que tinha ingerido até agora. Eram vinte para a uma e não me apetecia particularmente uma sanduíche de queijo, tomate e alface, o que, segundo me lembrava, era tudo o que iria encontrar no apartamento.

 

Entrei no restaurante e arranjaram-me prontamente mesa. Tecnicamente falando, tratava-se de uma mesa para dois, mas quem se sentasse no outro lugar teria de ser esquelético, pois a cadeira estava encostada a uma esquina e não havia muito espaço. A meu ] lado estava uma mesa para seis pessoas com o sinal de reservada.

 

Nas minhas vagueações nómadas tinha estado em Boston apenas uma vez, quando investigava uma história que andava a escrever. Essa breve visita tinha-me deixado permanentemente apaixonada pela sopa de amêijoas da Nova Inglaterra, a qual constava do menu.

 

Pedi uma juntamente com uma salada e uma garrafa de Perrier.

 

Gosto da sopa muito quente, por favor disse à empregada de mesa.

 

Mordisquei os bocadinhos de pão torrado enquanto esperava e pus-me a pensar porque me sentia inquieta e até mesmo deprimida.

 

Não era difícil de adivinhar, pensei. Há umas semanas, quando tinha aqui chegado, sentia-me como uma espécie de D. Quixote feminino a combater moinhos. Mas a verdade era que até mesmo as pessoas que eu julgava estarem tão convencidas como eu da culpabilidade de Rob não estavam a apoiar-me.

 

Conheciam-no. Sabiam quem ele era. E, contudo, pensavam que era possível ele ter sido injustamente condenado e ser ele mesmo vítima desse crime. Embora se mostrassem compadecidos, encaravam-me como uma mulher obcecada pela morte da irmã, irracional no melhor dos casos, e desequilibrada e maníaca no pior.

 

Sei que, às vezes, sou arrogante. Quando julgo ter razão, todas as forças do céu e do inferno não me fazem mudar de opinião. Talvez seja por isso que me considero uma boa jornalista. Tenho a reputação de cortar a direito, fazer pontaria ao que penso ser a verdade e, depois, provar que estou certa. Agora, sentada neste restaurante onde tinha estado muitas vezes em criança, tentei ser honesta comigo mesma. Seria possível, remotamente possível, que o mesmo impulso que me fazia uma boa jornalista estivesse agora a virar-se contra mim? Estaria eu a prejudicar não só pessoas como a Sra. Hilmer e Joan Lashley mas também o homem que eu desprezava, Rob Westerfield?

 

Estava tão concentrada nos meus pensamentos que tive um sobressalto quando uma mão me passou pela frente. Era a empregada com o prato da sopa a fumegar.

 

Tenha cuidado preveniu-me. Está a escaldar.

 

A minha mãe costumava dizer-nos que não se devia agradecer os empregados de mesa pelo serviço que prestavam, mas nunca aprendi essa lição. Dizer «obrigada» quando algo que desejo é colocado diante de mim sempre me pareceu correcto e ainda o é.

 

Peguei na colher, mas, antes de poder provar a sopa, o grupo destinado à mesa reservada ao meu lado chegou. Ergui a cabeça e quase me engasguei

 

Rob Westerfield estava de pé ao lado da minha cadeira.

 

Pousei a colher. Ele estendeu-me a mão, mas eu ignorei-a. Era um homem impressionantemente belo, ainda mais em pessoa do que na televisão, e possuía uma espécie de magnetismo animal que transmitia uma impressão de força e confiança, a marca registada de muita gente poderosa que eu tinha entrevistado.

 

Os seus olhos eram azuis-cobalto, o cabelo negro ligeiramente grisalho nas têmporas e a cor da sua pele surpreendentemente bronzeada. Conhecia a palidez da prisão e, por isso, cheguei à conclusão que, desde que fora libertado, ele devia ter passado muitas horas debaixo de uma lâmpada de bronzear.

 

A chefe de mesa disse-me quem tu eras, Ellie disse-me em tom caloroso como se nos encontrássemos de vez em quando.

 

Ah, sim?

 

Estava bastante preocupada. Não tinha outra mesa para seis pessoas e pensou que eu não me queria sentar ao pé de ti.

 

Vi, pelo canto do olho, os companheiros dele sentarem-se. Reconheci o pai, Vincent Westerfield, e o advogado, William Hamilton. Fitavam com ar agressivo.

 

E não lhe ocorreu que podia ser eu a não querer ficar ao teu lado? perguntei em voz calma.

 

Ellie, estás completamente enganada a meu respeito. Quero que o assassino da tua irmã seja apanhado e punido tanto como tu. Podemos encontrar-nos um dia para falar disso calmamente?

 

Hesitou uns instantes e, depois, acrescentou com um sorriso.

 

Por favor, Ellie.

 

Percebi que toda a gente na sala de jantar se calara subitamente. Todos pareciam querer participar na nossa conversa. Ergui deliberadamente a voz para pelo menos alguém me ouvir.

 

Teria muito prazer, Rob disse. Que tal encontrarmo-nos na garagem da tua avó? Era o teu sítio favorito, não era? Mas, se calhar, a lembrança de teres lá espancado uma rapariga de 15 anos até a matar é capaz de ser demasiado dolorosa até mesmo para um mentiroso como tu.

 

Atirei uma nota de vinte dólares para cima da mesa e levantei-me.

 

Sem a mais ligeira indicação de ter ficado perturbado com o que eu dissera, Rob pegou na nota e meteu-a no bolso do meu casaco.

 

Temos conta neste restaurante, Ellie. Sempre que cá vieres, serás nossa convidada. Traz quem quiseres.

 

Fez uma pausa, mas, desta vez, os seus olhos semicerraram-se. Tirei a nota do bolso, entreguei-a à empregada de mesa e fui-me embora.

 

Meia hora mais tarde, estava de volta ao apartamento. A chaleira chiava e eu fazia a sanduíche de queijo, alface e tomate previamente rejeitada. Nessa altura, a crise de tremeliques já me tinha passado e somente as minhas mãos, frias e húmidas, reflectiam o choque de ter visto Rob Westerfield cara a cara. Ao longo dessa meia hora, uma cena repetia-se obsessivamente na minha cabeça. Estou a prestar declarações no tribunal. Rob Westerfield, com o seu advogado ao lado, está sentado no banco dos réus. Fita-me com ar maldoso. Tenho a certeza de que, de um momento para o outro, ele vai lançar-se sobre mim e atacar-me.

 

A intensidade do seu olhar quando estava a centímetros de mim no restaurante era tão forte como durante o julgamento, e, por detrás dos seus olhos azuis-cobalto e o tom cortês, senti e vi o mesmo ódio.

 

Mas há uma diferença, repeti a mim mesma até me acalmar. Tenho 29 anos e não sete. E, de uma maneira ou de outra, hei-de fazer-lhe pior agora do que dantes. Depois do julgamento, um jornalista tinha escrito: «A triste e sincera criança que declarou no tribunal que a irmã tinha medo de Rob Westerfield influenciou imenso o júri.»

 

Levei a sanduíche e o chá para a mesa, abri a lista telefónica e liguei o telefone portátil. Decidi, enquanto comia, consultar as Páginas Amarelas e marcar os sítios onde poderia informar-me acerca de um alojamento para alugar ao mês.

 

Nesse preciso instante, a Sra. Hilmer telefonou. Tentei explicar-lhe que estava à procura de um sítio onde ficar, mas ela interrompeu-me.

 

Acabei de receber um telefonema da minha neta mais velha, Janey. Lembra-se de eu lhe ter contado que teve um bebé o mês passado?

 

Senti a voz da Sra. Hilmer tornar-se tensa.

 

Espero que o bebé esteja bem murmurei.

 

Está sim, está óptimo. Mas a Janey quebrou o pulso e pediu-me ajuda. Parto para Long Island esta tarde e vou lá permanecer uns dias. Reservou algum quarto na estalagem Parkinson?... Depois do que se passou, aflige-me a ideia de você ficar lá sozinha.

 

Fui, de facto, à Parkinson, mas já não têm lugar para este fim-de-semana nem para os seis ou sete fins-de-semana seguintes. Estou agora à procura de outra solução.

 

Ellie, espero que compreenda que a minha preocupação é por sua causa. Fique no apartamento até encontrar uma coisa adequada, mas, por amor de Deus, não se esqueça de trancar a porta.

 

Prometo. Por favor não se preocupe comigo.

 

Vou levar os jornais e as transcrições do tribunal. Assente o telefone da Janey em Garden City para o caso de querer falar comigo.

 

Anotei o número e, minutos mais tarde, ouvi o carro da Sra. Hilmer a arrancar. Confesso que, depois do choque que recebi ao ver Rob Westerfield, tinha muita pena que ela se fosse embora.

 

Vem aí o papão, vem aí o papão! Arreliava-me Andrea quando, na ausência dos nossos pais, víamos filmes de terror na televisão. Eu fechava sempre os olhos e encostava-me a ela nas cenas que metiam mais medo.

 

Para me vingar, lembro-me que, uma noite, me escondi debaixo da cama dela e, quando ela entrou, lhe agarrei uma perna. Vem aí o papão, vem aí o papão!, cantarolei quando ela desatou aos berros.

 

Mas Andrea já não estava aqui para eu me encostar a ela. E, agora, já sou uma rapariga crescida, habituada a tratar de mim. Encolhi mentalmente os ombros e comecei a marcar estalagens e pensões locais nas Páginas Amarelas.

 

A seguir, pus-me a telefonar, o que provou ser uma tarefa desanimadora. As poucas que pareciam interessantes eram bastante caras ao mês, sobretudo tendo também em conta o preço da comida.

 

Ao cabo de quase duas horas, tinha uma pequena lista de quatro residenciais. Percorri a secção de «Casas para Alugar» num jornal e encontrei alguns alugueres razoáveis.

 

Terminei a minha busca por volta das três e meia; tinha seis lugares para ver no dia seguinte. Estava contente por ter terminado porque queria ir para o computador escrever sobre o meu encontro com Rob Westerfield.

 

Havia uma ou duas estalagens na área com um quarto disponível imediatamente. Qualquer delas me convinha, mas a última coisa que agora me apetecia era começar a fazer as malas. E também não queria esfregar o frigorífico e arrumar o apartamento.

 

A Sra. Hilmer tinha tornado bem claro que a sua preocupação era a minha segurança e que eu poderia instalar-me aqui até encontrar algo adequado. Sabia que ela tinha partido pelo menos por três ou quatro dias e, assim, reflecti durante uns instantes e, depois, tomei uma decisão: por agora, deixar-me-ia ficar por aqui, provavelmente até segunda-feira.

 

Liguei o computador e redigi algumas notas, mas percebi que era difícil concentrar-me. A solução era ir ao cinema e, depois, jantar ali por perto. Consultei a página dos cinemas e reparei com ironia que o filme que queria ver estava a passar no cinema Globo, aquele onde Rob Westerfield tinha declarado encontrar-se quando Andrea fora assassinada.

 

O Globo tinha sido claramente ampliado e modernizado desde os meus tempos de criança. Exibia agora sete filmes diferentes. À entrada havia um grande balcão circular onde se vendiam chocolates, pipocas e refrigerantes.

 

Embora os primeiros espectadores estivessem a chegar, o chão já estava todo sujo de pipocas que tinham caído das embalagens de papel excessivamente cheias.

 

Comprei Peanut Chews a minha guloseima predilecta e entrei no cinema 3. O filme não foi tão sensacional como eu esperava. Contava a história um tanto ou quanto desinteressante de uma mulher que é caluniada e que, depois, claro está, acaba por ser bem sucedida e encontrar o verdadeiro amor e a felicidade no marido que tinha rejeitado três anos antes.

 

Se têm assim tão poucas ideias, talvez lhes possa vender a história da minha vida, pensei quando comecei a perder a paciência. A minha vida menos a parte amorosa, é evidente.

 

Estava sentada entre dois casais, pessoas de idade à minha direita e adolescentes à esquerda. Os adolescentes passavam as pipocas um ao outro e a rapariga comentava constantemente o filme.

 

Costumava ser a minha actriz favorita, mas, agora, não acho que seja tão boa como...

 

Não valia a pena prestar atenção ao que se estava a passar no ecrã. Não eram só os miúdos, as pipocas e os comentários, e nem sequer o ligeiro ressonar do homem sentado ao meu lado que, entretanto, tinha adormecido.

 

Estava distraída pelo facto de Rob Westerfield ter declarado há 22 anos encontrar-se neste cinema enquanto Andrea estava a ser assassinada e que ninguém pudesse verificar se ele tinha realmente assistido ao filme. Apesar de toda a publicidade dada ao caso, ninguém se apresentou e disse: «Ele estava sentado ao meu lado.»

 

Oldham era uma cidade pequena na altura e os Westerfield eram muito conhecidos. Certamente que Rob, com o seu belo aspecto e atitude de menino rico, era bastante conhecido na cidade. Enquanto estava ali sentada na escuridão do cinema, imaginei-o a estacionar o carro na estação de serviço ao lado.

 

Tinha afirmado que dissera a Paulie Stroebel que deixava ali o carro. Paulie negou que Rob tivesse falado com ele.

 

A seguir, Rob falou com a vendedora dos bilhetes e a arrumadora, dizendo-lhes que queria muito ver o filme.

 

Mostrou-se muito amigável testemunharam ambas em tribunal, um pouco surpreendidas.

 

Rob Westerfield não era uma pessoa amigável, sobretudo em relação aos subalternos.

 

Podia muito facilmente ter-se mostrado no cinema e, depois, sair à socapa. Tinha alugado o filme, O Senhor da Guerrilha da Selva, o qual ele assegurava ter visto nessa noite. As cenas ao princípio eram tão escuras que alguém já sentado podia facilmente esgueirar-se sem ser visto. Olhei à volta e reparei em várias saídas laterais que deveriam ser usadas apenas em casos de emergências e decidi experimentar uma coisa.

 

Levantei-me, murmurei uma desculpa por acordar o meu vizinho, trepei sobre a mulher dele e dirigi-me para a saída lateral perto do fundo da sala.

 

A porta abriu-se sem ruído e dei por mim numa espécie de viela entre um banco e o cinema. Anos atrás, era aqui que se encontrava a estação de serviço e não o banco. Tenho cópias dos diagramas e das fotografias que os jornais publicaram durante o julgamento e, por isso, lembro-me bem da localização da estação de serviço.

 

A garagem interior onde Paulie estava a trabalhar ficava por detrás da bomba de gasolina, diante da rua principal, e a área onde os carros a ser afinados eram guardados encontrava-se atrás da estação de serviço. Essa área era, agora, um parque de estacionamento para os clientes do banco.

 

Caminhei ao longo da viela, substituindo mentalmente o banco pela estação de serviço. Podia até visualizar o sítio onde Rob dizia ter estacionado o carro e onde supostamente ficara até o filme terminar às nove e meia.

 

Os meus passos tornaram-se os dele e eu estava dentro da sua mente zangado, maldisposto, contrariado porque uma rapariga que ele julgava manipular telefonara-lhe a dizer que tinha um encontro com outro.

 

Pouco importava que essa pessoa fosse Paulie Stroebel.

 

Vai ter com a Andrea. Mostra-lhe quem é que manda.

 

Por que é que ele levou o macaco para o esconderijo?, perguntei-me.

 

Havia dois motivos possíveis. Um porque receava que o meu pai soubesse que Andrea se ia encontrar com ele. Não duvidava que, na mente de Rob, a figura do meu pai surgisse de forma assustadora e terrível.

 

O outro motivo para Rob levar o macaco consigo era porque fazia tenção de matar Andrea.

 

Vem aí o papão, vem aí o papão! Oh, Deus meu, como a minha pobre irmã deve ter ficado aterrorizada quando o viu aproximar-se dela, erguer o braço com aquele instrumento na mão...

 

Virei-me e desatei a correr para onde a viela desembocava na rua. Engolindo o ar às golfadas pois, durante instantes, não conseguira literalmente respirar; tentei acalmar-me e dirigi-me para o meu carro. Tinha-o deixado no parque de estacionamento do outro lado do cinema.

 

A atmosfera ainda era límpida, mas, a noite passada, tinha havido vento e a temperatura baixava rapidamente. Tive um arrepio e acelerei o passo.

 

Quando tinha consultado o horário do filme, tinha reparado no anúncio de um restaurante, Villa Cesaere, que não ficava longe do cinema. Parecia o género de lugar que eu gostava e, assim, encaminhei-me para lá. Apetecia-me massa, quanto mais condimentada melhor. Talvez comesse camarões fra diavolo.

 

Tinha de me livrar do horrível frio interior que sentia.

 

Às nove e um quarto, alimentada e sentindo-me um pouco melhor, entrei de carro na propriedade da Sra. Hilmer. A casa dela estava às escuras e a luz da porta da garagem dava umas boas-vindas pouco acolhedoras.

 

Travei bruscamente. Algo me incitava a dar meia volta e ir passar a noite num motel. Não tinha imaginado como me sentiria insegura aqui esta noite.

 

Vou-me embora amanhã, pensei. Só mais uma noite aqui não é assim tão mau. Assim que chegar ao apartamento, estarei bem.

 

Aquela resolução não tinha evidentemente nenhum sentido. Na outra noite, enquanto estava a jantar com a Sra. Hilmer, alguém tinha penetrado no apartamento. Mas, sem saber bem porquê, achava que, agora, ninguém estaria à minha espera lá dentro. O meu sentimento de pânico provinha de estar sozinha cá fora e tão perto dos bosques.

 

Acendi os faróis no máximo e conduzi lentamente. Tinha trazido a sacola com as transcrições do julgamento, os jornais e as jóias da minha mãe no porta-bagagens durante todo o dia, mas, quando saíra do restaurante, pusera a sacola no banco da frente de modo a não ter de a ir buscar quando chegasse diante do apartamento.

 

Perscrutei cuidadosamente a área à volta da garagem. Não vi ninguém.

 

Respirei fundo, peguei na sacola, saí do carro e subi apressadamente os degraus até à porta.

 

Antes de ter tempo para meter a chave na fechadura, ouvi o roncar de um motor e um carro parou junto do apartamento com um guinchar de pneus. Um homem saltou lá de dentro e precipitou-se na minha direcção.

 

Fiquei sem pinga de sangue, certa de ver o rosto de Rob Westerfield e ouvir o riso que ele tinha soltado quando eu estava ajoelhada ao lado do corpo de Andrea.

 

Mas, então, uma lanterna iluminou-me e, quando ele se aproximou, distingui uma farda e vi que era o agente White.

 

Disseram-me que se tinha mudado, Ms. Cavanaugh disse ele em tom de poucos amigos. O que é que está aqui a fazer?

 

Após uns inconfortáveis momentos, durante os quais lhe expliquei que, de facto, ainda não tinha mudado, insisti para que ele entrasse e telefonasse para casa da neta da Sra. Hilmer. Tinha deixado o número numa folha de papel junto do computador. Ele fez o telefonema e, a seguir, passou-ma.

 

Lamento imenso, Ellie disse ela. Pedi ao agente White para manter um olho na casa enquanto eu estava fora e disse-lhe realmente que você se ia embora, mas ele devia ter acreditado em si e perceber que ainda era minha convidada.

 

Tem toda a razão, pensei, mas decidi não o dizer.

 

Ele fez muito bem, Sra. Hilmer.

 

Não lhe disse que, para dizer a verdade e embora ele se tivesse mostrado grosseiro, eu estava muito contente por ele se encontrar aqui. Não tivera de entrar no apartamento sozinha e, depois de ele se ir embora, trancaria a porta a sete chaves.

 

Perguntei-lhe pela neta, despedi-me e desliguei.

 

Vai então partir amanhã, Ms. Cavanaugh? perguntou White.

 

Pelo tom da sua voz, mais valia ter dito: «Aqui tem o seu chapéu e, agora, ponha-se a milhas.»

 

Vou, sim. Não se preocupe.

 

Já obteve alguma resposta ao pedido que fez à porta da penitenciária?

 

Obtive, sim respondi, lançando-lhe o que Pete Lawlor chama o meu sorriso auto-suficiente e misterioso.

 

Franziu o sobrolho. Tinha despertado a sua curiosidade, o que era exactamente o que eu queria fazer.

 

Toda a cidade sabe que, hoje, disse umas coisas bastante desagradáveis ao Rob Westerfield na estalagem Parkinson.

 

Não há nenhuma lei contra a sinceridade e não existe certamente nenhuma que diga que se tem de ser simpático com assassinos.

 

As suas faces avermelharam e ele levou a mão à maçaneta da porta.

 

Ms. Cavanaugh, deixe-me dar-lhe um conselho. Sei que o Rob Westerfield à custa do dinheiro da família conseguiu fazer muitas amizades na prisão e alguns desses tipos estão, agora, à solta. Sem mesmo dar contas ao Westerfield, um deles pode decidir fazer-lhe um favor e livrá-lo de alguém que o anda a chatear, prevendo, claro está, que o Rob demonstre adequadamente a sua gratidão.

 

E quem é que me irá defender da fúria desse padre? perguntei.

 

Do que é que está a falar?

 

Trata-se apenas de uma pergunta retórica, Sr. agente. No século XII, o rei Henrique fez esse comentário a um dos seus nobres e, pouco tempo depois, o arcebispo Thomas Beckett foi assassinado na sua catedral. Sabe uma coisa? Não tenho bem a certeza se me está a avisar ou a ameaçar.

 

Uma jornalista deveria reconhecer a diferença, Ms. Cavanaugh.

 

E, dizendo isto, foi-se embora. Os seus passos pareceram-me desnecessariamente pesados, como se ele quisesse que eu soubesse que ele estava a fazer uma espécie de saída final.

 

Tranquei a porta, aproximei-me da janela e viu-o meter-se no carro e partir.

 

Tomo normalmente duche de manhã e, se o dia correu particularmente bem, tomo outro duche antes de me meter na cama. Acho que é uma excelente maneira de descontrair os músculos das costas e do pescoço. Esta noite, decidi ir ainda mais longe e enchi a banheira de água quente com óleo de banho. Passados seis meses, o frasco ainda estava quase cheio, o que prova quantas vezes eu tenho a oportunidade de tomar um banho de imersão. Mas, esta noite, estava precisada, e ficar ali deitada imersa na banheira soube-me muito bem. Fiquei até a água esfriar.

 

Diverte-me ver anúncios de camisas de noite e roupões provocantes e sedutores. Eu cá uso apenas camisas de noite compradas por catálogo nos armazéns L.L. Bean. São largas e confortáveis e vêm acompanhadas por um roupão de flanela. Pantufas forradas de lã completam este requintado conjunto.

 

O toucador com um espelho lembrava-me aquele que a minha mãe tinha pintado de branco para o quarto de Andrea. Enquanto escovava o cabelo, pus-me a pensar no que teria sido feito dele. Quando a minha mãe e eu mudámos para a Florida, levámos pouca mobília connosco. Tenho a certeza de que nada pertencente ao adorável quarto de Andrea nos acompanhou. Nessa altura, o meu quarto também podia ser considerado giro, mas era de criança com bonecos animados pintados no papel de parede.

 

Veio-me de repente à memória que, um dia, tinha dito à minha mãe que o papel de parede era infantil e que ela me respondeu: «Mas é quase igual ao da Andrea quando ela tinha a tua idade. Adorava-o.»

 

Penso que já nesses tempos me dava conta de como éramos diferentes. Não gostava de coisas de meninas e nunca me importei com roupas finas. A exemplo da nossa mãe, Andrea era extremamente feminina.

 

«És a menina do papá para se ter e abraçar... És o espírito do Natal, a minha estrela no topo da árvore...E és a menina do papá.»

 

A letra daquela cantilena veio-me involuntariamente à cabeça e, mais uma vez, vi o papá agarrado à caixa de música e a chorar no quarto de Andrea.

 

Era uma recordação que eu tentava imediatamente esquecer.

 

Acaba lá de escovar esse cabelo, rapariga, e mete-te na cama ordenei a mim mesma em voz alta.

 

Examinei-me ao espelho com olho crítico. Uso normalmente o cabelo preso no alto da cabeça com uma travessa, mas, agora, reparei que estava bastante comprido. Tinha alourado muito no Verão e ainda se viam madeixas claras.

 

Lembrava-me muitas vezes do comentário que o inspector Longo tinha feito ao interrogar-me pela primeira vez. Dissera que o meu cabelo, assim como o do filho dele, parecia areia iluminada pelo sol. Era uma imagem tão terna e aplicava-se tão bem a como meu cabelo estava agora, que era bom pensar que talvez voltasse a ser novamente verdade.

 

Vi as informações das 11 apenas o tempo suficiente para me certificar de que o mundo fora de Oldham ainda estava mais ou menos a funcionar. A seguir, e depois de verificar a fechadura das janelas da sala, fui para o quarto. Como o vento soprava com força, entreabri as janelas apenas uns centímetros. O frio que entrou foi suficiente para ir refugiar-me a correr debaixo dos cobertores.

 

No meu apartamento, em Atlanta, adormecia sempre com facilidade, mas lá era obviamente diferente. Ouvia ruídos abafados vindos da rua e, por vezes, música hard rock que o meu vizinho do lado punha a tocar bem alto.

 

Uma amigável pancada na parede bastava para ele a baixar, mas, mesmo assim, adormecia meio consciente de vibrações metálicas.

 

Esta noite, não me importaria que houvesse algumas vibrações metálicas só para sentir a proximidade de outro ser humano, pensei enquanto reajustava a almofada. Parecia que todos os meus sentidos se encontravam em estado de alerta máxima provavelmente por causa do meu encontro com Rob Westerfield.

 

A irmã de Pete, Jan, vive perto de Atlanta numa cidadezinha chamada Peachtree e, aos domingos, Pete telefona-me às vezes e diz: «Vamos ver Jan, Bill e os miúdos.» Têm um pastor-alemão, Rocky, que é um cão de guarda maravilhoso. Assim que saímos do carro, ele desata a ladrar furiosamente para avisar a família inteira da nossa presença.

 

Quem dera que me viesses visitar agora mesmo, Rocky, meu velho amigo, pensei.

 

Acabei, finalmente, por cair num sono agitado, do género que nos faz desejar podermos acordar. Estava a sonhar que havia um sítio onde devia ir. Tinha de encontrar alguém antes que fosse demasiado tarde. Estava escuro e a minha lanterna não funcionava.

 

A seguir, vi-me no meio de um bosque. O cheiro de uma fogueira chegou-me às narinas. Tinha de encontrar um caminho através do bosque, mas não havia nenhum. Estava certa disso porque já estivera aqui.

 

Estava muito calor e eu comecei a tossir.

 

Não era nenhum sonho! Abri os olhos. O quarto estava completamente às escuras e cheirava a fumo. Sentia-me a asfixiar. Afastei os cobertores e sentei-me. O calor aumentava à minha volta. Se não saísse já dali, morreria queimada. Onde é que eu estava? Por uns instantes, não conseguia orientar-me.

 

Forcei-me a pensar antes de pôr os pés no chão. Encontrava-me no apartamento da Sra. Hilmer. A porta do quarto ficava à esquerda da cama, directamente em frente da cabeceira. Depois, havia um pequeno corredor e a porta do apartamento era ao fundo, à esquerda.

 

Levei provavelmente dez segundos a pensar. Levantei-me e soltei um gemido quando os pés tocaram no soalho a escaldar. Ouvi madeira a estalar por cima da minha cabeça. O telhado estava a arder. Sabia que restavam apenas uns segundos antes do prédio desmoronar.

 

Precipitei-me, a cambalear, em direcção da porta. Graças a Deus tinha-a deixado aberta. Percorri o corredor encostada à parede e passei a porta da casa de banho. O fumo não era tão denso, mas uma muralha de chamas ergueu-se de repente da área da cozinha da sala de estar. Iluminou a mesa e vi o computador, a impressora e o telefone portátil. A sacola estava caída no chão junto da mesa.

 

Não queria perdê-los. Destranquei a porta que dava para as escadas e, a seguir, mordendo os lábios por causa das bolhas nos pés, peguei no computador, na impressora e no telefone portátil com uma mão e na sacola com a outra. Fugi, depois, em direcção à porta.

 

Atrás de mim, as labaredas envolviam a mobília e, à minha frente, o fumo nas escadas era espesso e negro. Felizmente, as escadas eram a direito e eu desci-as aos tropeções. Ao princípio, a maçaneta da porta exterior parecia estar perra. Atirei com tudo que tinha nos braços para o chão e puxei-a e torcia-a com ambas as mãos.

 

Estou encurralada, estou encurralada, pensei, sentindo o cabelo começar a chamuscar. Dei um derradeiro e desesperado puxão e a porta abriu-se. Voltei a pegar nas minhas coisas e saí para o ar livre.

 

Vi um homem a correr na minha direcção. Agarrou-me antes de eu cair.

 

Há ainda alguém lá dentro? gritou.

 

A tremer e ao mesmo tempo sentindo a pele a arder, abanei a cabeça.

 

A minha mulher foi chamar os bombeiros disse ele, afastando-me da construção a arder.

 

Surgiu então um carro. Meio consciente, imaginei que devia ser a mulher dele porque o ouvi dizer-lhe: «Lynn, leva-a para casa. Ela não pode apanhar este frio. Eu fico aqui à espera dos bombeiros.»

 

Virou-se depois para mim.

 

Vá com a minha mulher. Moramos mesmo aqui ao lado. Cinco minutos mais tarde, e pela primeira vez após mais de 20 anos, estava sentada na cozinha da minha antiga casa, embrulhada num cobertor e com uma chávena de café diante de mim. Através das portas vidradas que davam para a sala de estar, via o adorado lustre da minha antiga casa suspenso no mesmo lugar.

 

E via Andrea e eu apormos a mesa para o jantar de domingo.

 

«Hoje, o nosso convidado de honra é o Lorde Malcolm Rabogrande.»

 

Fechei os olhos.

 

Faz bem chorar, sabe? disse gentilmente Lynn, a senhora que agora vive na minha antiga casa. Acabou de passar por uma experiência horrível.

 

Mas consegui reter as lágrimas. Sentia que, se começasse a chorar, nunca mais pararia.

 

O chefe dos bombeiros veio a casa dos Kelton e insistiu que eu fosse transportada para o hospital de ambulância.

 

Deve ter inalado bastante fumo, Ms. Cavanaugh disse ele. Precisa de ser observada, quanto mais não seja por precaução.

 

Fiquei no Hospital do Condado de Oldham durante a noite, o que mais valia pois não tinha outro lugar para onde ir. Quando me meteram finalmente na cama depois de me limparem o rosto e o corpo, e de me porem ligaduras nos pés aceitei tomar um comprimido para dormir com muito prazer. O quarto ficava perto da enfermaria e ouvia o murmúrio abafado de vozes e passos.

 

Pensei, ao adormecer, que há apenas uma hora tinha desejado companhia. Nunca esperei que o meu desejo fosse satisfeito daquela maneira.

 

Quando a ajudante de uma enfermeira me acordou às sete da manhã, todo o corpo me doía. Ela verificou o meu pulso e a minha tensão arterial e foi-se embora. Empurrei os cobertores para o lado, pus os pés no chão e, não sabendo bem o que iria acontecer, tentei levantar-me. A planta dos pés estava almofadada com ligaduras e andar era terrivelmente inconfortável, mas, à parte isso, sentia-me em forma.

 

Foi então que comecei a perceber que tinha tido muita sorte. Mais uns minutos e teria sido asfixiada pelo fumo. Na altura em que os Kelton chegaram, já teria sido impossível salvar-me, mesmo que eles soubessem que eu me encontrava lá dentro. ;

 

Tinha o incêndio sido um acidente? Sabia que não. Embora nunca tivesse lá entrado, a Sra. Hilmer dissera-me que a garagem por debaixo do apartamento continha apenas utensílios de jardinagem.

 

E os utensílios de jardinagem não se incendeiam.

 

O agente White tinha-me avisado que um antigo recluso poderia querer agradar a Rob Westerfield fazendo-lhe o favor de se desembaraçar de mim. Penso que White via a questão ao contrário. Não tinha a menor dúvida que fora Rob Westerfield quem mandara um antigo lacaio de Sing Sing pôr fogo ao apartamento. E não me surpreenderia nada que o incendiário fosse o tipo que me tinha dirigido a palavra no parque de estacionamento da estação de caminhos-de-ferro.

 

Tinha a certeza de que, por esta altura, a Sra. Hilmer já fora avisada do incêndio pelo agente White, pois tinha-lhe dado o número de telefone da neta dela em Long Island. Sabia que ela devia estar muito afectada por a garagem e o apartamento terem ardido. Fora originalmente um celeiro e tinha algum valor histórico.

 

A Sra. Hilmer tinha 72 anos e o apartamento por cima da garagem era a sua garantia de que, se um dia necessitasse de assistência, poderia lá alojar alguém em troca.

 

E também sabia que o acidente da neta a perturbara pois dava-se agora conta de como era fácil uma pessoa ficar incapacitada.

 

Poderia ela com o seguro reconstruir a garagem e o apartamento, ou teria até mesmo paciência para mandar refazer a obra? Agora mesmo, a Sra. Hilmer devia estar a pensar que as boas acções não eram retribuídas, pensei tristemente. Havia de lhe telefonar, mas ainda não. Como é que se pede desculpa por uma coisa destas? Veio-me de repente à cabeça a sacola, o computador, a impressora e o telefone portátil. Tinha-os trazido para o quarto do hospital comigo, mas lembrava-me que me disseram que os iriam guardar. Onde é que estavam?

 

Havia um armário no quarto. Aproximei-me a coxear, rezando para que estivessem lá dentro. Abri a porta e fiquei toda contente ao vê-los impecavelmente empilhados uns sobre os outros.

 

Também fiquei contente por ver um roupão pendurado num cabide. Estava vestida com uma daquelas miseráveis camisas de hospital. Era para uma pessoa com o tamanho de uma boneca Barbie e eu tenho 1,73 metros.

 

A primeira coisa que fiz foi abrir a sacola. A primeira página a desfazer-se do New York Post com a manchete «CULPADO» estava em cima, na mesma posição em que a tinha deixado da última vez que a abrira.

 

Estendi a mão e enfiei-a de lado, tacteando com os dedos. Soltei um suspiro de alívio ao encontrar a caixa de cabedal.

 

No dia anterior de manhã, no momento em que entrava no carro para ir a casa de Joan, tinha-me ocorrido que o próximo intruso poderia procurar objectos valiosos. Subi as escadas a correr, tirei a caixa das jóias da cómoda e meti-a na sacola que já se encontrava no porta-bagagens.

 

Abri-a. Estava lá tudo, os anéis de noivado e de casamento da minha mãe, os seus brincos de diamantes e a minha modesta colecção de jóias.

 

Voltei a metê-la na sacola e peguei no computador. Levei-o comigo para a única cadeira que se encontrava ao pé da janela. Passaria o tempo que tivesse de permanecer no hospital ali.

 

Liguei o computador e retive o fôlego, respirando apenas quando o ecrã se iluminou e fiquei segura de que não perdera o material que lá tinha armazenado.

 

Com a minha paz de espírito mais ou menos restaurada, voltei ao armário, tirei o roupão e fui à casa de banho. Havia um pequeno tubo de dentífríco, uma escova de dentes selada numa embalagem de plástico e um pente numa prateleira sobre o lavabo. Tentei arranjar-me.

 

Sei que, depois do incêndio, tinha ficado em estado de choque. Mas, agora, a minha cabeça estava a clarear, e eu comecei a dar-me conta da sorte que tinha tido em escapar não somente com vida mas sem queimaduras graves. Também percebia que tinha de ser mais vigilante quanto a futuras tentativas para dar cabo de mim. Uma coisa era certa: tinha de me instalar num lugar onde houvesse empregados e gente à minha volta.

 

Quando acabei por desistir de pentear o meu cabelo todo emaranhado, voltei ao quarto, sentei-me na cadeira e, como não tinha papel nem caneta, abri o computador para fazer uma lista das coisas que tinha de fazer imediatamente.

 

Não tinha dinheiro nem roupa, cartões de crédito, carta de condução tudo isso fora perdido no incêndio. Teria de pedir dinheiro emprestado até receber novos cartões de crédito. Quem seria o feliz contemplado do meu pedido de ajuda?

 

Tenho amigos em Atlanta e amigos dos tempos de escola espalhados por todo o país a quem podia telefonar a pedir auxílio e recebê-lo logo. Mas risquei-os da minha lista. Não queria ter de dar longas explicações para justificar o meu estado temporário de pobreza.

 

Pete era o único em Atlanta que estava a par do que acontecera a Andrea e que sabia porque eu me encontrava aqui. Quando tinha pedido licença para me ausentar, a minha única explicação a colegas e amigos fora: «É por motivos de ordem pessoal, malta.»

 

Tenho a certeza de que a impressão geral foi que Ellie, a qual anda sempre tão ocupada para ter encontros amorosos, envolveu-se com alguém especial e está a tratar do assunto.

 

Pete? A ideia de ter de representar o papel de mulher indefesa diante do seu herói irritava-me. Seria o meu último recurso.

 

Sabia que poderia contar com Joan Lashley St. Martin, mas o facto de ela acreditar que Rob Westerfield era inocente causava-me uma certa relutância.

 

Marcus Longo? É claro!, pensei. Seria ele o meu salvador e eu devolver-lhe-ia o dinheiro dentro de uma semana.

 

O tabuleiro com o pequeno-almoço chegou e vieram buscá-lo uma hora mais tarde, quase sem lhe ter tocado. Já alguma vez estiveram num hospital que servisse café quente?

 

O médico chegou, examinou as minhas queimaduras, disse-me que eu poderia ir para casa quando quisesse e foi-se embora. Imaginei-me a coxear à volta de Oldham a pedir esmola. Precisamente nesse momento de depressão, o agente White apareceu com um homem de feições angulosas que ele apresentou como sendo o inspector Charles Bannister do Departamento da Polícia de Oldham. Um servente do hospital estava atrás deles com um par de cadeiras e eu calculei assim que isto não iria ser nenhuma alegre e rápida visita à cabeceira do paciente.

 

Bannister exprimiu preocupação pelo meu bem-estar, esperando que, depois do que eu tinha passado, me sentisse o melhor possível.

 

Desconfiei imediatamente que, por detrás de tanta delicadeza, ele tinha qualquer coisa na manga que não devia ser lá muito boa.

 

Disse-lhe que estava bem e grata por estar viva, comentário que ele aceitou com um aceno de cabeça. Lembrou-me um professor que eu tive no curso de filosofia da universidade, o qual, após ouvir uma observação particularmente estúpida de um dos alunos, acenava gravemente a cabeça.

 

Isto significava: «Agora é que já ouvi tudo o que tinha para ouvir.»

 

Não levei muito tempo a compreender que o inspector Bannister tinha um objectivo em mente: estava resolvido a provar a sua teoria que eu inventara a história do intruso no apartamento. Não o disse de forma directa, mas o cenário que ele montou era mais ou menos o seguinte: depois de eu ter falado à Sra. Hilmer acerca do suposto intruso, ela ficara bastante nervosa, pondo-se a imaginar que alguém a andava a seguir, e, mais tarde, tinha-lhe telefonado disfarçando a voz para a avisar que eu era uma pessoa perturbada.

 

Franzi o sobrolho, mas não fiz qualquer comentário.

 

Segundo o inspector Bannister, fora ainda eu que provocara o incêndio para chamar a atenção, atrair a simpatia geral e, ao mesmo tempo, acusar publicamente Rob Westerfield de ter tentado matar-me.

 

Correu o risco de ser queimada viva, mas, na opinião do vizinho que a viu sair de casa, transportava consigo um computador, uma impressora, um telefone portátil e uma grande sacola. A maior parte das pessoas não se detém para fazer as malas durante um incêndio, Ms. Cavanaugh.

 

No momento em que alcancei a porta de saída, a parede do fundo da sala de estar transformou-se numa muralha de chamas que iluminou a mesa onde tinha deixado as minhas coisas. E, como essas coisas eram importantes para mim, fui buscá-las.

 

Por que é que são assim tão importantes, Ms. Cavanaugh?

 

Deixe-me mostrar-lhe porquê, inspector respondi, apontando para o computador portátil que tinha sobre os joelhos. O primeiro capítulo do livro que estou a escrever sobre o Rob Westerfield está neste computador. E páginas e páginas de apontamentos tirados das transcrições do julgamento, o Estado versus Rob Westerfield, também aqui se encontram. Não tenho disquetes nem mais cópias.

 

O rosto dele permaneceu impassível, mas reparei que a boca do agente White se contorcia de raiva.

 

Assentei o número do meu telefone portátil no cartaz que andei a exibir à porta da penitenciária... Tenho a certeza de que ele lhe contou esse episódio acrescentei, fazendo um gesto com a mão na direcção de White. Já recebi um telefonema de alguém que conheceu o Westerfield na prisão e este telefone é o único contacto que tenho com essa pessoa até comprar outro e transferir o número. Quanto à sacola, está naquele armário. Quer ver o que há lá dentro?

 

Quero, sim.

 

Coloquei o computador no chão e levantei-me.

 

Eu vou buscá-lo ofereceu-se.

 

Prefiro ser eu.

 

Abri o armário, peguei na sacola, deixei-a cair diante da minha cadeira, sentei-me e abri o fecho de correr.

 

Senti mais do que vi a espantada reacção dos dois homens ao ler a manchete «CULPADO».

 

Mais vale não lhes mostrar isto disse, cuspindo as palavras, enquanto ia tirando os jornais um a um da sacola e os atirava para o chão.

 

A minha mãe guardou estes jornais durante toda a vida continuei sem tentar esconder a minha fúria. São as notícias do assassínio da minha irmã, desde que o seu corpo foi descoberto até o Rob Westerfield ser condenado. Não constituem uma leitura muito agradável, mas são interessantes e não estou nada interessada em perdê-los.

 

Atirei o último jornal para o chão e, depois, tive de empregar ambas as mãos para tirar as transcrições do julgamento. Mostrei-lhes a capa.

 

Também é uma leitura interessante, inspector Bannister.

 

Estou certo disso concordou, impassível. Tem mais alguma coisa aí dentro, Ms. Cavanaugh?

 

Se está à espera de ver uma lata de gasolina e uma caixa de fósforos, não tem sorte nenhuma.

 

Tirei a caixa de jóias e entreguei-lha.

 

Examine isto, por favor.

 

Lançou-lhe um olhar e devolveu-me a caixa.

 

Anda sempre com as suas jóias juntamente com jornais dentro de uma sacola, Ms. Cavanaugh, ou só estão aí quando suspeita que possa haver um incêndio?

 

Levantou-se e White pôs-se de pé num pulo.

 

Há-de receber notícias nossas, Ms. Cavanaugh. Vai regressar a Atlanta ou permanecer nesta área?

 

Vou ficar e terei muito prazer em dar-lhe a minha morada. Talvez assim o departamento da polícia a vigie melhor do que fez com a casa da Sra. Hilmer. Acha que será possível?

 

As maçãs-do-rosto do agente White ruborizaram. Sabia que ele estava furioso e que eu estava a ser má, mas, nesta altura do campeonato, tanto me fazia.

 

Bannister não se deu ao trabalho de responder, mas virou-se bruscamente e saiu do quarto seguido de White.

 

Vi-os partir. O servente veio buscar as cadeiras e arregalou os olhos ao ver-me sentada com a transcrição em cima dos joelhos, a caixa das jóias numa mão e a sacola na outra, e os jornais todos espalhados no chão.

 

Quer que a ajude a apanhá-los, minha senhora? perguntou. Ou precisa de alguma coisa? Está com um ar muito aflito.

 

Estou, de facto, aflita concordei. E preciso realmente de uma coisa. Há alguma cafetaria neste hospital?

 

Há, sim. E é bastante boa.

 

Não se importa...

 

Detive-me porque estava à beira de uma crise de nervos.

 

Não se importa de me ir buscar uma chávena de café bem quente?

 

Meia hora mais tarde, estava eu saboreava a última gota do excelente café que o servente amavelmente me trouxera quando tive outra visita ainda mais inesperada. O meu pai.

 

A porta estava entreaberta, e ele bateu e entrou sem esperar uma resposta. Olhámos um para o outro e senti a garganta seca.

 

O seu cabelo preto estava agora prateado. Estava um pouco mais magro, mas mantinha-se tão direito como sempre. Tinha a testa coberta de rugas e os óculos acentuavam os seus penetrantes olhos azuis.

 

A minha mãe a ralhar-lhe: «Sei que não dás por isso, Ted, mas tens de deixar de franzir o sobrolho quando te concentras. Vais ficar como uma ameixa quando fores mais velho.»

 

Não se parecia nada como uma ameixa. Era ainda um homem bonito e não perdera aquela aura de força interior.

 

Olá, Ellie disse.

 

Olá, papá.

 

Podia apenas imaginar o que ele estava a pensar ao ver-me vestida com um reles roupão de hospital, o cabelo emaranhado e ligaduras nos pés. Não era certamente a brilhante estrela da caixa de música.

 

Como é que estás, Ellie?

 

Tinha-me esquecido do timbre profundo da sua voz. Tinha ° som de autoridade calma que Andrea e eu respeitávamos em criança. Sentíamo-nos protegidas e eu, pelo menos, admirava-a imenso.

 

Estou muito bem, obrigada.

 

Vim assim que soube do incêndio e que tu te encontravas lá.

 

Não era preciso incomodares-te.

 

Tinha-se mantido de pé no limiar da porta, mas agora aproximou-se. Ajoelhou diante de mim e tentou pegar-me nas mãos.

 

Ellie, por amor de Deus, és minha filha. Como é que achas que me senti quando me disseram que quase tinhas morrido?

 

Afastei as mãos.

 

Oh, essa história há-de acabar por ser contada de maneira diferente. Os chuis julgam que fui eu quem provocou o incêndio para armar. Segundo eles, quis chamar a atenção e atrair a simpatia geral.

 

Mostrou-se chocado.

 

Isso é ridículo.

 

Estava tão perto de mim que senti o ligeiro odor do creme de barbear. Enganava-me ou ainda era o mesmo cheiro? Estava vestido com um casaco azul-escuro, calças cinzentas, camisa e gravata. Lembrei-me, então, que era domingo e que ele já devia estar vestido para ir à missa quando ouvira falar do incêndio.

 

Sei que vieste ver-me por amabilidade disse eu. Mas preferia que me deixasses em paz. Não preciso de nada e não quero nada de ti.

 

Ellie, vi o teu Website. O Westerfield é perigoso e estou muito preocupado por tua causa.

 

Bem, pelo menos eu e o meu pai tínhamos uma coisa em comum. Ambos sabíamos que Rob Westerfield era um assassino.

 

Sei tomar conta de mim mesma. Há muito tempo que o faço. Ergueu-se.

 

A culpa não é minha, Ellie. Sempre te recusaste a visitar-me.

 

Acho que sim. Podes, portanto, ficar com a consciência tranquila. Agora já te podes ir embora.

 

Vim convidar-te, suplicar-te, para ficares connosco. Dessa maneira, poderei proteger-te. Lembra-te que pertenci durante 35 anos à guarda nacional.

 

Eu lembro-me. Ficavas muito bem de farda. Oh, escrevi-te a agradecer teres enterrado as cinzas da mãe na sepultura da Andrea, não escrevi?

 

Escreveste, sim.

 

Segundo a certidão de óbito, a causa da morte dela foi cirrose do fígado, mas acho que o diagnóstico mais acertado deveria ser «coração destroçado». E a morte da minha irmã não foi a única razão.

 

Foi a tua mãe que me deixou, Ellie.

 

A minha mãe adorava-te. Devias ter ficado com ela até ao fim. Podias tê-la seguido até à Florida e trazê-la para casa... trazer a nós as duas para casa. Mas não quiseste.

 

O meu pai meteu a mão na algibeira e tirou a carteira. Esperava que ele não se atrevesse a dar-me dinheiro. Tal não aconteceu. Puxou de um cartão-de-visita e colocou-o em cima da cama.

 

Podes-me chamar a qualquer hora, de dia ou de noite, Ellie.

 

E, a seguir, foi-se embora. Mas o ligeiro odor do creme de barbear pairava no quarto. Tinha-me esquecido de que, às vezes, me sentava na borda da banheira a falar com o meu pai enquanto ele se barbeava. Tinha-me esquecido de que, às vezes, ele se virava de repente, pegava-me ao colo e esfregava o rosto coberto de espuma ao meu.

 

Essa recordação era tão vívida que levei a mão à face, esperando quase sentir restos de espuma. Tinha a face molhada, mas era das lágrimas que, pelo menos durante uns instantes, eu não conseguira reter.

 

Tentei contactar Marcus Longo duas vezes durante uma hora, mas, depois, lembrei-me de que ele me tinha dito qualquer coisa sobre a mulher não gostar de andar de avião sozinha. Devia, por conseguinte, ter ido a Denver para a trazer para casa e rever o seu adorado primeiro neto.

 

A enfermeira enfiou a cabeça no quarto para me lembrar que eu tinha de sair do hospital ao meio-dia. Por volta das onze e meia, pensei em perguntar se havia um departamento de serviços sociais, mas, nesse momento, Joan telefonou.

 

Ellie, acabei de saber o que se passou. Valha-me Deus, como é que estás? O que é que posso fazer por ti?

 

O pudor que sentia em aceitar ajuda porque ela não acreditava que Rob Westerfield fosse um animal feroz evaporou-se. Precisava dela e sabia muito bem que Joan era tão sincera na sua convicção que ele era inocente como eu era na minha quanto à sua culpabilidade.

 

Para te ser franca, podes fazer uma data de coisas. respondi.

 

O alívio por ouvir uma voz amigável fez tremelicar a minha própria voz.

 

Arranja-me roupa. Vem buscar-me. Encontra um sítio onde eu ficar. Empresta-me dinheiro.

 

Ficas connosco...

 

Negativo interrompi-a. Não é uma ideia boa nem segura para nenhuma de nós. Não queres certamente que a tua casa arda...

 

Não me venhas dizer que julgas que alguém largou fogo com a intenção de te matar!

 

Julgo, pois.

 

Considerou a minha resposta durante uns instantes e tenho a certeza que pensou nos filhos.

 

Então onde é que podes ficar em segurança?

 

Numa estalagem, por exemplo. Não gosto da ideia de um motel porque os quartos têm porta para o exterior. Esquece a Parkinson, está cheia.

 

Além de ser um lugar frequentado pela família Westerfield, disse para comigo mesma.

 

Estou a pensar num sítio que talvez te convenha disse Joan. E também tenho uma amiga mais ou menos com o teu físico. Vou telefonar-lhe a pedir que me empreste alguma roupa. Que tamanho calças?

 

Nove, mas julgo que ainda não posso tirar as ligaduras dos pés.

 

O tamanho dos sapatos do Leo é dez. Se não te importas de usar os ténis dele, talvez dê.

 

Não me importava.

 

Joan chegou dentro de uma hora com uma mala cheia de roupa interior, meias, calças, uma camisola de gola alta, um casaco de Inverno, luvas, os ténis e alguns objectos de toilette. Vesti-me e a enfermeira trouxe-me uma bengala para eu usar até as bolhas nos meus pés sararem. À saída, a funcionária da administração concordou relutantemente adiar o pagamento até eu lhe enviar por fax uma cópia do meu seguro de saúde.

 

Entrámos, finalmente, no SUV de Joan. Tinha conseguido pentear o cabelo para trás e prendê-lo com um elástico. Um olhar casual para o retrovisor mostrava que não estava assim muito mal. As roupas serviam-me e, embora os ténis parecessem demasiado grandes e desajeitados, protegiam-me os pés doridos.

 

Reservei um quarto em teu nome na Estalagem do Vale do Hudson disse-me Joan. Fica a cerca de dois quilómetros daqui.

 

Gostaria de ir primeiro a casa da Sra. Hilmer, se não te importas. O meu carro ainda lá está... Ou, pelo menos, assim o espero.

 

Quem é que to roubaria?

 

Ninguém, mas estava estacionado junto da garagem. Faço figas para que ainda esteja intacto.

 

Não havia uma parede de pé. A área do alojamento que a Sra. Hilmer tão generosamente me tinha emprestado tinha um cordão à volta e um polícia de guarda. Três homens com pesadas botas de borracha examinavam os destroços para detectar a origem do incêndio. Ergueram a cabeça ao ver-nos, mas, depois, continuaram o seu trabalho.

 

Fiquei aliviada por ver que tinham afastado o meu carro. Encontrava-se, agora, perto da casa da Sra. Hilmer. Saímos. Era um BMW que eu tinha comprado em segunda mão há dois anos o primeiro carro decente que jamais tinha tido.

 

Claro que estava totalmente coberto de cinzas e a pintura do lado do volante tinha estalado, mas dei-me por satisfeita. Ainda tinha rodas.

 

O meu saco ficara no quarto de dormir, juntamente com tudo o mais, e a chave do carro estava lá dentro.

 

O polícia aproximou-se de nós. Era muito jovem e educado. Quando lhe expliquei que não tinha a chave e que teria de contactar a BMW para que me enviassem outra, ele assegurou-me que o carro seria bem guardado.

 

Eu ou um dos meus colegas estaremos por aqui no decorrer dos próximos dias.

 

Para ver se me põe as culpas em cima pelo incêndio?, perguntei-me enquanto lhe agradecia.

 

O pouco ânimo que tinha sentido quando me vesti e saí do hospital desapareceu quando voltámos para o SUVde Joan. Era um lindo dia de Outono, mas o cheiro a fumo pairava no ar à nossa volta. Esperava fervorosamente que se dissipasse antes de a Sra. Hilmer regressar. Outra coisa que eu tinha de fazer era telefonar-lhe e falar com ela.

 

Podia muito bem imaginar a conversa.

 

«Lamento imenso ser a causa do seu apartamento ter ardido. Garanto-lhe que não volta a acontecer.»

 

Ouvia o repicar dos sinos de uma igreja ao longe e perguntei a mim própria se o meu pai teria ido à missa depois de me visitar ele, a mulher e o filho, a estrela do basquetebol. Tinha atirado fora o cartão-de-visita quando estava a tirar as minhas coisas do quarto do hospital, mas reparara que ele continuava a viver em Irvington. Isso significava que ele ainda era um paroquiano da Imaculada Conceição, a igreja onde eu fora baptizada.

 

Os padrinhos que deviam assistir os meus pais para reforçar a minha educação religiosa e bem-estar espiritual eram amigos íntimos do meu pai, os Barry. Dave Barry pertencia igualmente à guarda nacional e provavelmente também se tinha reformado. Perguntei-me se ele ou a mulher, Nancy, alguma vez lhe perguntavam: «Oh, Ted, a propósito, já tiveste notícias da Ellie?»

 

Ou seria eu um assunto demasiado inconfortável para ser discutido? Uma pessoa a ser afastada com um aperto de mão e um suspiro. «É uma dessas coisas tristes que acontecem na vida. Temos de a esquecer e prosseguir o nosso caminho.»

 

Estás muito calada, Ellie disse Joan ao ligar o motor. Como é que realmente te sentes?

 

Muito melhor do que ousei pensar assegurei-a. És um anjo e, com o dinheiro que vais tão amavelmente emprestar-me, convido-te para almoçar.

 

Vi logo que a estalagem do Vale do Hudson ia ser o sítio ideal para mim. Era uma mansão cheia de enfeites em estilo vitoriano de três andares e uma ampla varanda. Assim que entrámos, a velha empregada da recepção mirou-nos atentamente de detrás do balcão.

 

Joan entregou-lhe o cartão de crédito dela para fazer uma cópia, explicando-lhe que eu tinha perdido o meu e que a emissão de um novo cartão levaria uns dias. Isso uniu a Sra. Willis à minha pessoa para o resto da vida. Depois de se apresentar, revelou-nos que há sete anos numa estação de comboio tinha colocado o saco num banco ao lado dela.

 

Virei a página do jornal recordou. E, nessa fracção de segundo, desapareceu. Foi um aborrecimento. Fiquei tão aflita que, quando finalmente recuperei a presença de espírito e telefonei ao banco, alguém já tinha levantado 300 dólares com o meu cartão de crédito...

 

Talvez por termos partilhado a mesma experiência, ela deu-me um quarto particularmente agradável.

 

Custa o preço de um quarto, mas é, na verdade, uma pequena suite. Tem uma sala de estar separada e uma pequena cozinha. E, ainda melhor, uma bela vista sobre o rio.

 

Se há alguma coisa que gosto é da vista de um rio. Não é difícil descobrir porquê. Fui concebida numa casa em Irvington à beira do Hudson e vivi lá cinco anos da minha vida. Lembro-me que, quando era pequenina, empurrava uma cadeira para junto da janela e punha-me de pé em cima dela para ver as águas do rio a cintilar lá em baixo.

 

Joan e eu subimos lentamente dois andares. Visitámos o quarto e concordámos que era exactamente o que eu precisava. Dirigimo-nos com a mesma lentidão para a elegante sala de jantar na parte de trás da estalagem, mas, por essa altura, as bolhas dos meus pés já tinham duplicado.

 

Um cocktail Bloody Mary e uma sanduíche fizeram maravilhas para restaurar a minha normalidade. E, a seguir, tomámos um café.

 

Detesto falar disto, Ellie, mas acho que é necessário. O Leo e eu fomos a uma festa a noite passada, e toda a gente estava a falar do teu Website.

 

Continua.

 

Algumas pessoas acham-no escandaloso disse francamente. Penso que é legal registá-lo em nome do Rob Westerfield, mas muita gente pensa que é injusto e totalmente desnecessário.

 

Não te preocupes disse eu. Não tenciono matar o mensageiro que me traz más notícias, mas estou interessada em provocar reacções. Que mais é que andam a dizer por aí?

 

Que não devias ter posto aquelas fotografias do cadastro dele no Website e que o depoimento do médico legista a descrever os ferimentos da Andrea é uma leitura bastante desagradável.

 

Foi um crime brutal!

 

Foste tu que me pediste para te contar o que as pessoas andam a dizer.

 

Joan fez uma expressão tão infeliz que tive vergonha de mim mesma.

 

Desculpa. Sei que isto te custa. Encolheu os ombros.

 

Penso que foi o Will Nebels quem matou a Andrea, Ellie. Meia cidade está convencida de que o culpado é o Paulie Stroebel. E uma data de outras pessoas acha que, mesmo que o Rob Westerfield não seja inocente, já cumpriu a pena e foi-lhe concedido liberdade condicional. Devias aceitar isso.

 

Joan, se o Rob tivesse confessado que era culpado e tivesse exprimido honestamente o seu pesar, eu cá continuaria a odiá-lo. Mas não haveria nenhum Website. Compreendo que as pessoas pensem dessa maneira, mas, agora, já não posso parar.

 

Joan estendeu o braço por cima da mesa e agarrou-me a mão.

 

As pessoas também manifestam a sua simpatia pela velha Sra. Westerfield. A governanta anda a contar a todos que lhe dão ouvidos que a patroa está muito preocupada por causa do Website e que, pelo menos, gostaria que parasses até o novo júri se debruçar sobre o caso.

 

Pensei em Dorothy Westerfield, essa mulher tão elegante, a dar os pêsames à minha mãe no dia do funeral e lembrei-me da cena com o meu pai a pô-la na rua. Nessa altura, ele não tinha podido tolerar a simpatia dela e eu, pelo meu lado, não podia agora permitir-me ter simpatia por ela.

 

É melhor mudarmos de assunto sugeri. Não vamos concordar uma com a outra.

 

Joan emprestou-me 300 dólares e conseguimos trocar um sorriso sincero entre nós enquanto eu pagava a conta.

 

É simbólico, mas faz-me sentir melhor disse eu. Despedimo-nos junto da porta principal.

 

Odeio pensar que ainda vais ter de subir essa escada disse ela com ar preocupado.

 

Só para lá chegar vai valer a pena. E tenho a bengala para me apoiar.

 

Bati ligeiramente com a bengala no chão para dar ênfase ao que dizia.

 

Telefona-me se precisares de alguma coisa. Senão, falo contigo amanhã.

 

Hesitei porque não queria levantar mais discussões, mas havia mais uma coisa que tinha de lhe dizer.

 

Joan, sei que nunca viste o medalhão que eu insisto que a Andrea usava naquela noite, mas ainda te dás com alguma das raparigas que andavam contigo e a Andrea na escola?

 

Claro. E aposto que, com tudo o que está a acontecer, elas vão telefonar-me dentro de pouco tempo.

 

Podias perguntar-lhes directamente se alguma delas viu a Andrea com o medalhão que eu te descrevi? É de ouro, tem a forma de um coração, pequenas pedras azuis no meio e um «A» e um «R», as iniciais da Andrea e do Rob, gravados atrás.

 

Ellie...

 

Quanto mais penso nisso, mais acredito que o único motivo que levou o Rob a voltar à garagem foi porque não podia correr o risco de o medalhão ser encontrado no corpo da Andrea. Preciso de saber porquê e seria uma grande ajuda se alguém confirmasse a sua existência.

 

Joan não fez mais comentários e prometeu que iria perguntar. Deixou-me a seguir para voltar à sua vida normal com o marido e os filhos. Apoiando-me pesadamente na bengala, subi até ao quarto. Tranquei a porta, tirei cuidadosamente os ténis e afundei-me na cama.

 

O telefone a tocar acordou-me. Fiquei admirada por o quarto estar às escuras. Encostei-me a um cotovelo e procurei a luz. Lancei um olhar ao relógio quando atendi.

 

Eram oito horas. Há seis horas que dormia.

 

Alo.

 

Sabia que a minha voz era pastosa.

 

É a Joan, Ellie. Aconteceu uma coisa horrível. A governanta da Sra. Westerfield foi à charcutaria dos Stroebel esta tarde e desatou a gritar com o Paulie. Disse-lhe que ele tinha de confessar que fora ele quem matou a Andrea e que, se a família Westerfield andava tão aflita, a culpa era dele.

 

Ellie, há coisa de uma hora, o Paulie trancou-se na casa de banho e cortou os pulsos. Encontra-se agora nos cuidados intensivos do hospital. Perdeu tanto sangue que acham que não vai sobreviver.

 

Fui dar com a Sra. Stroebel na sala de espera dos serviços de cuidados intensivos. Chorava em silêncio e grossas lágrimas rolavam pelas suas faces abaixo. Tinha os lábios comprimidos como se receasse abri-los e soltar uma gigantesca onda de dor.

 

Tinha um casaco pelos ombros e, embora a blusa e a saia fossem azuis-escuras, vi manchas que deviam ser provenientes do sangue de Paulie.

 

Uma mulher corpulenta de uns 50 anos e vestida simplesmente estava protectoramente sentada junto dela. Olhou-me com uma ponta de hostilidade.

 

Não sabia ao certo como a Sra. Stroebel reagiria. Fora o meu Website que tinha desencadeado a agressão verbal da governanta da Sra. Westerfield e a reacção desesperada de Paulie.

 

Mas a Sra. Stroebel levantou-se e veio ao meu encontro.

 

Tu compreendes, Ellie... soluçou. Tu compreendes o que fizeram ao meu filho.

 

Abracei-a.

 

Compreendo, sim, Sra. Stroebel.

 

Olhei por cima do ombro dela para a outra mulher que entendeu a pergunta que os meus olhos mudamente faziam e me acenou com a mão, um gesto que devia querer dizer que ainda era demasiado cedo para saber se Paulie sobreviveria.

 

Apresentou-se.

 

Chamo-me Greta Bergner. Trabalho com a Sra. Stroebel e o Paulie na charcutaria. Vi logo que a senhora devia ser a jornalista.

 

Ficámos ali sentadas durante 12 horas. De vez em quando, uma de nós levantava-se e ia pôr-se à porta do quarto onde Paulie se encontrava. Tinha uma máscara de oxigénio no rosto, tubos nos braços e ligaduras nos pulsos.

 

No decorrer dessa longa noite em que fui testemunha da agonia da Sra. Stroebel e vi os seus lábios a murmurar uma prece, dei por mim também a rezar. Ao princípio foi instintivo, mas depois tornou-se deliberado.

 

Se salvares o Paulie, Senhor, tentarei aceitar tudo o que aconteceu. Talvez não consiga, mas juro que hei-de tentar.

 

Raios de luz começaram a penetrar a escuridão lá fora. Às nove e um quarto, um médico veio à sala de estar.

 

O Paulie está fora de perigo anunciou. Por que é que não vão para casa dormir um pouco.

 

Tomei um táxi de volta à estalagem e, no caminho, comprei os jornais. Bastou-me lançar um olhar ao Westchester Post para dar graças a Deus não haver jornais no serviço de cuidados intensivos.

 

A manchete era «Suspeito Tenta Suicidar-se».

 

Os retratos de três pessoas figuravam na primeira página. Will Nebels a pousar para a máquina fotográfica com um sorriso de auto-satisfação nas feições moles, uma mulher na casa dos 70 com uma expressão preocupada que realçava os seus traços severos e Paulie, por detrás do balcão, com uma faca de cortar pão na mão.

 

A fotografia tinha sido cortada, a fim de mostrar apenas a mão a segurar a faca. Não se via o pão a ser cortado, para preparar uma sanduíche, e Paulie, de sobrolho franzido, olhava o leitor de frente.

 

A minha opinião é que fora apanhado de surpresa, mas o efeito era o de um homem com ar de poucos amigos e olhos que metiam medo a brandir uma arma.

 

As legendas eram citações. A de Nebels dizia: «Eu sabia que tinha sido ele.» A da mulher era: «Ele confessou.» E a de Paulie: «Lamento imenso.»

 

A reportagem vinha publicada na terceira página, mas tive de adiar a leitura porque o táxi parou diante da estalagem. Abri novamente o jornal assim que cheguei ao quarto.

 

A mulher na fotografia era Lillian Beckerson, governanta da Sra. Westerfield há 31 anos.

 

«A Sra. Westerfield é uma das melhores pessoas que jamais pisou esta terra», citava-a o jornal. «O marido foi senador dos EUA e o avô, governador do estado de Nova Iorque. Há 20 anos que vive com esta mácula no nome da sua família e, agora, que o seu único neto está a tentar provar a sua inocência, aquela mulher que mentiu no tribunal em miúda anda a tentar destruí-lo novamente na Internet.»

 

Esta aqui sou eu, pensei.

 

«Ontem à tarde, a Sra. Westerfield viu o Website dessa criatura e desatou a chorar. Não aguentei mais e fui direita à charcutaria falar com o Paulie e pedir-lhe para, por favor, confessar o que tinha feito. E sabem o que ele me disse? ”Lamento imenso.” Uma pessoa inocente não diria tal coisa.»

 

No caso de Paulie, diria. Fiz um esforço para continuar a ler. Sou jornalista e podia perceber que Colin Marsh, o tipo que escrevera o artigo, era um desses repórteres sensacionalistas conhecidos por manipular o que as pessoas diziam.

 

Também tinha entrevistado Emma Watkins, a conselheira escolar que, anos atrás, jurara ter ouvido Paulie soluçar: «Não julguei que ela estivesse morta.»

 

A Sra. Watkins tinha dito a Marsh que a condenação de Rob Westerfield sempre a perturbara e que se Paulie, o qual se enervava facilmente, soubesse que Andrea andava a troçar dele, seria bem capaz de fazer das suas.

 

Fazer das suas... Que maneira delicada de dizer as coisas, pensei.

 

Will Nebels, esse pobre pretexto de ser humano, esse desgraçado que gostava de abraçar meninas, era extensivamente citado e, ainda com mais floreados do que eu vira quando da sua entrevista na televisão, contava a Marsh ter visto Paulie entrar na garagem de macaco na mão na noite do crime. Terminava dizendo piamente que nunca poderia compensar a família Westerfield por não ter dito o que sabia mais cedo.

 

Depois de ler a reportagem, atirei o jornal para cima da cama. O caso estava a ser julgado na imprensa e cada vez mais gente havia de acreditar na inocência de Rob Westerfield. Percebi que, se tivesse lido aquela história a frio, também talvez pensasse que tinham condenado a pessoa errada.

 

Mas, se o meu Website preocupava a Sra. Westerfield, também afectava certamente outras pessoas. Liguei o computador e pus-me a escrever.

 

«Num deslocado gesto de lealdade, a governanta da Sra. Westerfield precipitou-se para a charcutaria dos Stroebel e atacou verbalmente Paulie Stroebel. Horas mais tarde, Paulie, pessoa frágil já sob pressão graças a mentiras compradas pelo dinheiro dos Westerfield, tentou suicidar-se.

 

«A minha simpatia vai para a Sra. Dorothy Westerfield, mulher realmente de grande carácter, pela dor que tem sofrido por causa do crime cometido pelo neto. Mas creio que, se ela se convencer de que o orgulhoso nome da sua família continuará a ser respeitado por gerações futuras, há-de encontrar paz de espírito.

 

«Tudo o que tem a fazer é deixar a sua imensa fortuna a obras de caridade e laboratórios de pesquisa médica para que inúmeras vidas humanas possam ser salvas. Deixar dinheiro a um criminoso perfaz a tragédia que, há 22 anos, tirou a vida à minha irmã e ontem quase matou Paulie.

 

«Sei que uma comissão para defender Rob Westerfield foi formada.

 

«Convido-os a todos para formar uma comissão em defesa de Paulie Stroebel.

 

«Sra. Dorothy Westerfield, deveria ser a primeira!»

 

Não estava mau, pensei, copiando o texto para o meu Website.

 

Quando estava a desligar o computador, o telefone portátil tocou.

 

Tenho lido os jornais.

 

Reconheci imediatamente a voz. Era a do homem que me telefonara a dizer que tinha estado na prisão com Rob Westerfield e que este lhe confessara ter morto mais outra pessoa.

 

Estava à espera que me telefonasse disse em tom neutro.

 

Pelos vistos, o Westerfield anda a fazer um lindo trabalho e a atirar as culpas para cima desse imbecil do Stroebel.

 

Ele não é nenhum imbecil retorqui.

 

Como queira. Mas, agora, vamos mas é falar de negócios. Quero cinco mil dólares e, em troca, dou-lhe o prenome do gajo que o Westerfield se gabou de ter morto.

 

O nome?

 

É tudo o que sei. Não conheço o apelido dele.

 

Não pode dar-me mais nada? Quando é que isso se passou e onde?

 

Só sei o nome próprio e preciso do dinheiro sexta-feira. Era uma segunda-feira e tinha três mil dólares numa conta de poupança em Atlanta. Apesar de não gostar lá muito da ideia, poderia pedir o resto do dinheiro a Pete se o adiantamento para o livro não chegasse na sexta.

 

Então?

 

A voz era impaciente.

 

Sabia que havia uma boa possibilidade de eu estar a ser vigarizada, mas decidi correr esse risco.

 

Terei o dinheiro na sexta-feira prometi.

 

Na quarta, já tudo voltara mais ou menos à normalidade. Tinha recebido os cartões de crédito, a carta de condução e o dinheiro. Um adiantamento para o livro tinha sido electronicamente transferido para um banco perto da estalagem. A mulher do porteiro do prédio onde morava em Atlanta fora ao meu apartamento e enviara-me umas roupas. As bolhas nos pés estavam a sarar e até tinha tido tempo para ir ao cabeleireiro.

 

O mais importante é que tinha um encontro marcado para quinta-feira com Christopher Cassidy, o aluno de Arbinger que, aos 14 anos, fora barbaramente espancado por Rob Westerfield.

 

Já tinha narrado no meu Website o episódio da Dra. Margaret Fisher a quem o pai de Rob dera 500 dólares, depois do filho ter-lhe torcido o braço, para ela não chamar a polícia.

 

Enviei-lhe o texto por correio e-mail e ela não só o aprovou como também deu a sua opinião profissional que a violenta reacção que Rob tinha tido com ela podia muito bem ter sido do mesmo género daquela que o levara a bater em Andrea até a matar.

 

Por outro lado, Joan tinha contactado com as amigas íntimas de Andrea no liceu e dissera-me que nenhuma delas a vira com outro medalhão que aquele que o meu pai lhe tinha oferecido.

 

Publicava todos os dias uma descrição do medalhão no Website e pedia informações, mas, até agora, não obtivera quaisquer resultados. Recebia muitos comentários por e-mail. Algumas pessoas felicitavam-me pelo o que eu andava a fazer e outras objectavam veementemente. Também recebi correio de gente esquisita. Dois indivíduos confessaram que eram assassinos, e outro disse que Andrea ainda estava viva e queria que eu a salvasse. Houve ainda cartas a ameaçar-me. Uma delas, que eu acreditei ser verdadeira, dizia ter muita pena por eu ter escapado com vida do incêndio. Acrescentava: «Tem uma camisa de noite muito gira. Comprou-a nos armazéns L.L. Bean, não foi?»

Tinha a pessoa que redigira a carta estado a observar-me do bosque ou tratava-se do intruso que entrara no apartamento e que, por acaso, reparara na camisa de noite? Qualquer das hipóteses metia medo e tinha de admitir que ambas eram realmente assustadoras. Falei com a Sra. Stroebel várias vezes por dia e, à medida que u Paulie se recompunha, sentia-se pelo tom da sua voz que estava cada vez mais aliviada. Mas também mais inquieta. Ellie, se há novo julgamento e o Paulie for chamado como testemunha, receio bem que ele tentará novamente suicidar-se. Já me disse: «Mamã, não consigo responder no tribunal de modo a que me compreendam. Preocupava-me porque a Andrea andava com o Rob. Não a ameacei.»E continuou. Recebi telefonemas de amigas que viram o teu Website. Dizem que toda a gente devia ter uma amiga como tu. Contei ao } Paulie e ele gostaria que o viesses visitar. Prometi que iria vê-los na sexta-feira.

 

Pedi que me servissem no quarto e passava a maior parte do tempo a trabalhar no livro. Mas na noite de quarta-feira, decidi ir jantar no restaurante da estalagem. As mesas eram afastadas umas das outras e as toalhas brancas. Ao contrário da Parkinson, havia um pequenino vaso de flores no centro da mesa e não uma grande vela festiva. Os clientes também eram mais idosos e não se viam grupos ruidosos. Mas a comida era igualmente boa e, depois de hesitar entre um assado de borrego e um espadarte, decidi-me pelo que realmente me apetecia e pedi o borrego.

Tirei do saco um livro que andava há muito para ler e, durante uma hora, desfrutei a minha combinação preferida uma boa refeição e um bom livro. Estava tão profundamente concentrada na leitura que tive um sobressalto quando a empregada de mesa veio buscar o meu prato e me dirigiu a palavra.

 

Disse sim ao café e não à sobremesa.

 

O senhor da mesa ao lado gostaria de lhe oferecer uma bebida.

 

Acho que sabia que era Rob Westerfield antes mesmo de virar a cabeça. Estava sentado a menos de dois metros de mim com um copo de vinho na mão. Ergueu-o num brinde trocista e sorriu.

 

Perguntou-me se sabia o seu nome. Disse-lho e ele mandou-lhe este recado.

 

Entregou-me um cartão-de-visita com o nome completo dele, Robson Parke Westerfield, gravado a relevo.

 

Meu Deus, ele trata-se muito bem, pensei, virando o cartão.

 

Tinha escrito- «A Andrea era gira, mas tu és linda.»

 

Levantei-me, aproximei-me dele, rasguei o cartão e atirei os pedaços para dentro do copo de vinho.

 

Talvez me queiras dar o medalhão que lhe tiraste depois de a teres morto sugeri.

 

As suas pupilas dilataram e a expressão trocista dos seus olhos de cobalto desapareceu. Por uns instantes julguei que ele ia atirar-se a mim como fizera com a Dra. Fisher.

 

Esse colar deu-te muitas dores de cabeça, não deu? perguntei.

 

A empregada estava especada entre as mesas de boca aberta. Não tinha obviamente reconhecido Westerfield, o que me fez pensar que ela não devia viver em Oldham há muito tempo.

 

Virei-me novamente para ele.

 

Traga, por favor, outro copo de vinho ao Sr. Westerfield e ponha-o na minha conta.

 

Durante a noite, alguém desactivou o alarme do meu carro e forçou a tampa do depósito de gasolina. Um modo muito eficaz de dar cabo de um carro é deitar areia no depósito de gasolina.

 

A polícia de Oldham sob a forma do agente White atendeu a minha queixa acerca do BMW danificado. Embora não me tivesse perguntado onde é que eu arranjara a areia, mencionou que o fogo na garagem da Sra. Hilmer tinha definitivamente sido posto. Também disse que os restos das toalhas empapadas em gasolina eram idênticas às que a Sra. Hilmer tinha deixado no armário do apartamento.

 

É uma grande coincidência, Ms. Cavanaugh disse. Ou será mesmo?

 

Aluguei um carro e fui a Boston encontrar-me com Christopher Cassidy. Estava furiosa por o meu carro estar destruído e preocupada porque sabia que tinha de enfrentar outro problema. Tinha pensado que a pessoa que entrara no apartamento andava provavelmente à procura de material que eu pudesse publicar no Website, mas, agora, perguntava-me se o motivo principal para ele lá se introduzir não teria sido para roubar coisas que, mais tarde, poderiam ser usadas para provocar o incêndio que quase me custara a vida.

 

Sabia, evidentemente, que Rob Westerfield estava por detrás daquilo e que ele tinha acólitos, como o que me tinha abordado no parque de estacionamento perto de Sing Sing, para fazer o trabalho sujo. O meu objectivo era provar que a investigação da vida dele indicaria um certo padrão de violência ao longo dos anos que tinha culminado com a morte da Andrea. E acreditava ainda que a próxima vítima de tal violência seria eu.

 

Mas isso, assim como os cinco mil dólares a serem pagos pelo prenome da anterior vítima de Westerfield, era mais um risco que eu tinha de correr.

 

Todos os bons jornalistas têm de ser pontuais. O facto de não ter podido usar o meu próprio carro e ser obrigada a aguardar o relatório da polícia e a alugar outra viatura, atrasara-me. E, ainda por cima, fazia mau tempo.

 

As previsões meteorológicas eram céu enevoado e talvez neve ligeira ao entardecer. A neve ligeira começou a 80 quilómetros de Boston, e as estradas tornaram-se escorregadias. Os minutos passavam e eu consultava ansiosamente o relógio, enervada pela lentidão do trânsito. A secretária de Christopher Cassidy prevenira-me para ser pontual, pois ele tinha um dia muito ocupado e partia à noite para a Europa.

 

Faltavam quatro minutos para as duas, a hora marcada, quando cheguei, esbaforida, ao seu escritório. Tive de fazer um esforço para me recompor durante os breves minutos que aguardei na elegante sala de espera. Sentia-me agitada, desorganizada e, ainda por cima, tinha dores de cabeça.

 

Às duas em ponto, a secretária de Cassidy levou-me ao gabinete dele. Enquanto a seguia, fazia uma revisão mental de todas as informações que obtivera sobre Cassidy. Sabia que ele tinha sido bolseiro na escola de Arbinger e que fundara esta firma. Quando me informei acerca dele na Internet, soube que se formara em Yale, onde tinha sido o aluno mais brilhante da sua classe, que se licenciara na Harvard Business School e que fazia generosas doações a muitas obras de caridade.

 

Tinha 42 anos, era casado, tinha uma filha de 15 anos e era um desportista entusiasta.

 

Um homem e pêras.

 

Assim que entrei no gabinete, ele ergueu-se de detrás da secretária e dirigiu-se a mim de mão estendida.

 

Prazer em conhecê-la, Ms. Cavanaugh. Posso tratá-la por Ellie? Tenho a impressão de que a conheço há já algum tempo. Por que é que não nos sentamos aqui? propôs, indicando uma área junto à janela.

 

Sentei-me no divã e ele sentou-se à beira de uma poltrona diante de mim.

 

Deseja café ou chá?

 

Café, por favor respondi com gratidão.

 

Uma chávena de café desanuviaria a minha cabeça e ajudar-me-ia a pensar.

 

Pegou no telefone pousado na mesinha a seu lado e, enquanto falava com a secretária, tive a oportunidade de o examinar melhor; gostei do que vi. O seu fato azul-escuro bem cortado e camisa branca eram de estilo conservador, mas a gravata vermelha com um pequenino estique de golfe sugeria um certo inconformismo. Possuía ombros largos, um corpo sólido mas esbelto, uma boa cabeça de cabelos castanhos-claros e profundos olhos cor de avelã.

 

Emanava energia trepidante e sentia-se que Christopher Gassidy nunca perdia um minuto.

 

Dirigiu-se imediatamente ao assunto que interessava.

 

O Craig Parshall telefonou-me e explicou-me a razão porque você queria falar comigo.

 

Então sabe que o Rob Westerfield foi solto e será, provavelmente, de novo julgado.

 

E que está a tentar inculpar outra pessoa pela morte da sua irmã. Sim, estou a par disso. Pôr as culpas em cima dos outros pelo que faz é um velho truque dele. Já o praticava aos 14 anos.

 

É exactamente esse género de informação que queria publicar no meu Website. Os Westerfield arranjaram uma presumível testemunha ocular e, se houver segundo julgamento, têm uma boa possibilidade de conseguir uma absolvição. O Rob ficará então com o registo criminal limpo e será visto como um mártir que passou mais de 20 anos na prisão por um crime cometido por outra pessoa. Não posso permitir que aconteça tal coisa.

 

O que é que quer que eu lhe conte?

 

Sr. Cassidy comecei.

 

Os inimigos do Rob Westerfield, tratam-me por Chris.

 

Chris, segundo o Craig Parshall, o Westerfield espancou-o brutalmente quando você e ele andavam no segundo ano da escola de Arbinger.

 

Éramos ambos bons atletas. Competimos numa corrida e eu ganhei. Dias mais tarde, ia eu da biblioteca para o dormitório com uma data de livros nos braços, quando ele veio por detrás de mim e deu-me um murro na nuca. Atirou-se a mim antes de eu ter tempo para reagir e partiu-me o nariz e os queixos.

 

Ninguém tentou detê-lo?

 

Ele escolheu bem a altura. Atacou-me quando não havia ninguém por perto e, depois, até disse que quem tinha começado a briga fora eu. Felizmente, um colega mais velho assistiu a tudo de uma janela. A escola não queria escândalos e os Westerfield há gerações que lhe faziam chorudas doações. O meu pai queria processá-los, mas a escola prometeu que, se ele reconsiderasse o caso, dariam uma bolsa ao meu irmão. Estou agora quase certo que quem pagou essa bolsa foram os Westerfield.

 

Serviram-nos o café. Nunca nada me tinha sabido tão bem. Ele retomou o fio à meada.

 

Para fazer justiça à escola, o Rob foi obrigado a demitir-se no fim do período.

 

Posso contar isso no Website? O seu nome daria muita credibilidade ao que ando a tentar fazer.

 

Certamente. Lembro-me da morte da sua irmã. Li tudo o que os jornais publicaram sobre o caso porque se tratava do Rob Westerfield. Quem dera que eu tivesse podido prestar declarações na altura para lhes explicar que género de animal feroz ele é. A minha filha tem a mesma idade que a sua irmã tinha quando morreu. Nem quero pensar no que o seu pai passou... no que toda a sua família deve ter passado.

 

Acenei com a cabeça.

 

Destruiu toda a minha família.

 

Não me surpreende nada.

 

Antes de o ter atacado, dava-se muito com ele na escola?

 

Eu era filho do cozinheiro de um restaurante barato e ele era um Westerfield. Só perdeu tempo comigo porque me meti no seu caminho.

 

Cassidy lançou um olhar discreto ao relógio. Chegara a altura de lhe agradecer e partir. Mas ainda tinha mais uma pergunta a fazer.

 

E como é que se passou o seu primeiro ano em Arbinger? Teve muitos contactos com ele?

 

Não muitos. Seguíamos actividades diferentes. Ele fazia parte do grupo teatral e actuou em várias peças. Devo confessar que era muito bom actor. Nunca representou o papel principal, mas até chegou a ganhar um prémio. Penso, por isso, que ele gostava daquilo.

 

Cassidy levantou-se e, relutantemente, eu fiz o mesmo.

 

Foi muito amável em me ter recebido... agradeci-lhe. Mas ele, então, interrompeu-me.

 

Acabei de pensar numa coisa. O Westerfield gostava obviamente das luzes da ribalta e de armar em vedeta. Na peça de que lhe falei em que ele teve muito êxito, o Rob usava uma peruca loura. Lembro-me de que, a partir dessa altura e se calhar para não nos deixar esquecer que excelente actor ele era, costumava às vezes pô-la, comportando-se então com os maneirismos do papel que representara e chegando até a enviar recados a colegas com o nome da personagem.

 

A exibição de Rob Westerfield na estalagem a noite anterior, dando a impressão de estar a namoriscar comigo à empregada de mesa, veio-me à cabeça.

 

Ele continua a actuar disse eu a Cassidy.

 

Almocei rapidamente e voltei para o carro às três e meia. A neve continuava a cair e o trajecto até Boston pareceu-me um piquenique comparado com a minha viagem de regresso a Oldham. Pus o telefone portátil à mão para não perder o telefonema do tipo que estivera com Rob Westerfield na prisão.

 

Tinha insistido que queria o dinheiro na sexta-feira. Tinha o pressentimento que essa informação iria ser valiosa e pedia a todos os santos que ele não tivesse mudado de ideias.

 

Consegui, finalmente, chegar à estalagem às onze e meia. Tinha acabado de entrar no quarto quando o telefone portátil começou a tocar. Era a chamada que esperava, mas, desta vez, a voz do tipo parecia agitada.

 

Acho que caí numa armadilha e sou bem capaz de não sair daqui.

 

Onde é que está?

 

Se lhe der o nome, posso confiar em si que me pagará mais tarde?

 

Pode, sim.

 

O Westerfield deve ter adivinhado que eu ia dar bronca. Nasceu podre de rico, enquanto eu cá não tenho nada. Se conseguir safar-me desta alhada e você me pagar, ficarei com umas massas. Mas, se não o conseguir, talvez você possa acusar o Westerfield, em meu nome, de assassínio.

 

Comecei a ficar convencida de que ele estava a falar a sério.

 

Juro-lhe que hei-de apanhar o Westerfield.

 

O Rob contou-me que tinha espancado um tal Phil até à morte e que nunca se sentira melhor. Ouviu-me bem? O nome é Phil...

 

A linha foi cortada.

 

Rob Westerfield tinha 19 anos quando matara Andrea. Tinha sido preso oito meses mais tarde, condenado e mandado para a prisão. Embora tivesse pago uma caução para ficar em liberdade antes de ser condenado, era difícil de acreditar que, durante esse tempo, ele tivesse corrido o risco de matar outra pessoa.

 

Isso significava portanto que esse primeiro crime fora cometido entre os 13 e os 19 anos. Tive de me informar sobre esses anos da sua vida para tentar encontrar uma conexão entre ele e uma pessoa assassinada cujo prenome fosse Phil.

 

Era inacreditável pensar que aos 13, ou 14, Rob já tivesse morto alguém. Ou não era? Tinha apenas 14 anos quando atacara brutalmente Christopher Cassidy.

 

Calculei que, ao longo desses anos, ele tinha passado ano e meio em Arbinger, seis meses na escola particular em Bath, na Inglaterra, dois anos na Academia Carrington, no estado de Maine, e mais ou menos um semestre em Willow, um colégio impossível de descrever perto de Buffalo.

 

Os Westerfield possuem uma casa em Vail e outra em Palm Beach, o que tornava bastante provável que Rob conhecesse esses lugares E também devia ter feito viagens escolares ao estrangeiro.

 

Era um vasto território a cobrir e sabia que iria precisar de ajuda.

 

Marcus Longo fora polícia do gabinete do magistrado-federal do condado de Westchester durante 25 anos. Se havia alguém que podia obter informações sobre o homicídio de um homem apenas com um prenome como pista, a minha aposta era ele.

 

Encontrei-o felizmente quando lhe telefonei. Como tinha desconfiado, ele fora de avião buscar a mulher ao Colorado.

 

Ficámos mais uns dias à procura de casa explicou-me. Acho que encontrámos uma.

 

O tom da voz dele mudou bruscamente.

 

Ia contar-lhe tudo sobre o bebé, mas isso pode esperar. Pelos vistos, aconteceram uma data de coisas durante a minha ausência.

 

Pode crer, Marcus. Posso convidá-lo para almoçar? Preciso que me dê uns conselhos.

 

Os meus conselhos são gratuitos. Quem paga o almoço sou eu.

 

Encontrámo-nos no restaurante The Depot, em Cold Springs. Contei-lhe o que se passara durante a minha agitada semana enquanto comíamos umas sanduíches e bebíamos café.

 

Interrompeu-me várias vezes para fazer perguntas.

 

Acha que o fogo foi posto para a assustar ou realmente para dar cabo de si? perguntou.

 

Fiquei mais do que assustada. Pensei que não saía dali com vida.

 

E está a dizer-me que a polícia de Oldham pensa que foi você quem provocou o incêndio?

 

O agente White já fez tudo, menos algemar-me.

 

Um primo dele costumava também trabalhar no gabinete do magistrado-federal no meu tempo. É agora juiz e pertence ao mesmo clube que o pai do Rob. Para ser justo, ele sempre pensou que o Paulie Stroebel fosse o culpado. Aposto que foi ele quem mandou o White chateá-la. O seu Website irrita todos os que se dão bem com os Westerfield.

 

Quer dizer, então, que é um sucesso.

 

Olhei à minha volta para me certificar de que ninguém nos estava a ouvir.

 

Marcus...

 

Ellie, já se deu conta que passa o tempo a olhar à sua volta? Quem, ou o quê, a anda a pôr nesse estado?

 

Contei-lhe que Rob Westerfield tinha aparecido na estalagem onde eu vivia.

 

Só lá entrou quando eu tinha quase acabado de jantar expliquei-lhe. Tenho a certeza de que alguém lhe telefonou a dizer que eu estava lá.

 

Sabia que, a seguir, Marcus iria dizer-me para ter cautela ou pedir para que deixasse de publicar material provocador no Website.

 

Recebi um telefonema de alguém que esteve na prisão juntamente com o Rob.

 

Falei-lhe da combinação que fizera para comprar a informação e do telefonema que recebera na noite anterior. Escutou em silêncio, observando o meu rosto.

 

Acredita nesse tipo, não acredita? perguntou-me depois.

 

Sabia que ele poderia vigarizar-me, Marcus, mas isto é diferente. Este tipo estava com medo. Queria que eu soubesse desse Phil para se vingar do Westerfield.

 

E referiu-se ao cartaz com que você andou à porta de Sing Sing?

 

Sim.

 

Como está a assumir que se trata de um preso, deve ter sido solto nesse mesmo dia. Só lá foi uma vez, não foi?

 

Foi.

 

Esse tipo também pode ser um funcionário da penitenciária, Ellie. Podia ir a entrar ou a sair quando você lá se encontrava. O dinheiro tanto compra guardas como outros reclusos.

 

Não tinha pensado nisso.

 

Tinha esperanças que você me pudesse arranjar a lista dos presos que foram soltos no dia a seguir à saída de Rob Westerfield. E, depois, poderia ver se tinha acontecido qualquer coisa a algum deles.

 

Posso fazer isso, mas também pode tratar-se apenas da brincadeira de um maluco.

 

Eu sei, mas acho que não.

 

Abri a minha agenda.

 

Fiz uma lista das escolas que o Rob Westerfield frequentou, tanto aqui como em Inglaterra, e dos sítios onde a família tem casas. Há ficheiros que dão informações sobre crimes não solucionados que tiveram lugar entre há 27 e 22 anos?

 

Claro.

 

O condado de Westchester tem um desses ficheiros?

 

Tem.

 

Tem acesso a ele ou conhece alguém que faça isso por si?

 

Claro.

 

Então não deve ser muito difícil saber se um homem chamado Phil foi assassinado nessa altura, pois não?

 

Não, não deve ser.

 

Que tal verificar se houve algum crime não solucionado nas áreas à volta das escolas e casas onde o Rob esteve?

 

Examinou a lista.

 

Massachusetts, Maine, Florida, Colorado, Nova Iorque, Inglaterra.

 

Soltou um assobio.

 

É uma área muito vasta, mas vou ver o que posso fazer.

 

Mais uma coisa. Sabendo o modo como o Rob Westerfield opera, há algum ficheiro de crimes solucionados que dê, por exemplo, o nome de Phil como vítima e alguém que tenha sido condenado, mas que insista não ter cometido tal crime?

 

Ellie, 90 por cento das pessoas condenadas e que se encontram agora atrás das grades dizem que estão inocentes. Vamos começar pelos homicídios não solucionados primeiro e ver onde vamos parar.

 

Amanhã, vou contar a história do Christopher Cassidy sobre o Rob Westerfield no Website. Ninguém pode questionar a integridade do Cassidy e, por isso, o seu relato vai ter um certo peso. Ainda não fui à Academia Carrington, mas vou marcar um encontro para segunda ou terça-feira.

 

Verifique a lista dos alunos que frequentaram a escola nos anos em que o Westerfield lá esteve disse Marcus, fazendo sinal à empregada de mesa para lhe trazer a conta.

 

Também pensei nisso. Uma das escolas pode ter tido um aluno chamado Phil que teve uma rixa com o Rob.

 

Isso abre imensas perspectivas preveniu-me Marcus. Os alunos das escolas preparatórias vêm de todos os estados do país e o Westerfield pode ter seguido um deles até casa para ajustar contas.

 

Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

Quais seriam as pessoas que tinham gostado de Phil?, perguntei-me. Ainda o chorariam? Claro que sim

 

A empregada de mesa colocou a conta diante de Marcus. Esperei até ela se afastar.

 

Posso telefonar à pessoa que conheço em Arbinger. Ajudou-me imenso. E, quando for a Carrington e ao colégio de Willow, vou informar-me sobre os alunos que lá estiveram no tempo do Westerfield. Phil não é um nome próprio muito comum...

 

Não me contou que, na outra noite, alguém tinha informado o Rob Westerfield que você se encontrava a jantar na estalagem?

 

Contei.

 

E também não me disse que o seu informador estava com medo de ser morto?

 

Disse.

 

O Rob Westerfield receia que o seu Website influencie a avó e que ela deixe o dinheiro a obras de caridade. Ele deve andar agora aterrorizado que você descubra outro crime que o possa mandar de volta à prisão. Não percebe como a sua situação é perigosa, Ellie?

 

Para ser franca, percebo. Mas não há nada que eu possa fazer.

 

Bolas, Ellie! Claro que pode. O seu pai era da guarda nacional. Está agora reformado e você poderia instalar-se em casa dele. Seria o seu guarda-costas. Acredite que vai precisar de um. Outra coisa: se a história desse tipo é verdadeira, ajudar o Westerfield a regressar à prisão, ajudaria igualmente o seu pai. Acho que você compreende como isto tem sido duro para ele.

 

Ele tem falado consigo?

 

Tem, sim.

 

Sei que julga que é para meu bem disse-lhe, levantando-me. Mas penso que não percebe uma coisa. O meu pai deixou-nos partir e nem sequer levantou um dedo para que regressássemos. A minha mãe fartou-se de esperar, precisava dele, mas o meu pai nada fez. Da próxima vez que falar com ele, diga-lhe para continuar a ir assistir aos jogos de basquetebol do filho e para me deixar em paz.

 

Marcus deu-me um abraço quando nos separámos no parque de estacionamento.

 

Telefono-lhe assim que tiver respostas prometeu. Voltei de carro para a estalagem. A Sra. Willis encontrava-se ao balcão da recepção.

 

O seu irmão está à sua espera disse-me.

 

Ele estava de pé a contemplar a vista diante da janela, de costas viradas para mim. Tinha bem quase dois metros. Era mais alto do que eu imaginara quando o tinha visto na televisão. Estava vestido com calças cor de caqui, blusão e sapatos de ténis. Tinha as mãos metidas nos bolsos e batia com o pé direito no chão. Deu-me a impressão de estar nervoso.

 

Ouviu os meus passos e virou-se. Olhámos um para o outro.

 

Nunca poderás dizer que não é a tua filha costumava dizer a brincar a minha avó à minha mãe a propósito de Andrea. Vai ser igualzinha a ti.

 

Se a avó estivesse agora aqui, ter-nos-ia dito exactamente a mesma coisa. Pelo menos quanto à aparência física, nós dois nunca poderíamos dizer que não éramos irmãos.

 

Olá, Ellie. Sou o teu irmão, Teddy. Aproximou-se, estendendo-me a mão. Ignorei-a.

 

Não podemos falar apenas durante cinco minutos?

 

A sua voz ainda não era completamente adulta, mas era bem timbrada. Parecia inquieto, mas determinado. Abanei a cabeça e virei-me para me ir embora.

 

És minha irmã prosseguiu. Podias conceder-me, pelo menos, cinco minutos. Se me conheceres, poderás até vir a gostar de mim.

 

Encarei-o.

 

Teddy, pareces um rapaz simpático, mas tenho a certeza de que tens coisas melhores para fazer do que estar aqui a falar comigo. Sei que foi o teu pai que te mandou vir ver-me. Ele não parece entender que nunca mais quero voltar a vê-lo nem ouvir falar dele.

 

Também é teu pai e, quer acredites ou não, nunca deixou de o ser. Outra coisa, não foi ele quem me mandou. Vim porque queria conhecer-te. Sempre tive vontade de te conhecer.

 

Havia um apelo na sua voz.

 

Por que é que não vamos tomar qualquer coisa? Abanei novamente a cabeça.

 

Por favor, Ellie.

 

Talvez tenha sido a maneira como ele pronunciou o meu nome ou, se calhar, sou eu que não consigo ser cem por cento grosseira. Este miúdo não me tinha feito mal nenhum.

 

Há uma máquina de refrigerantes no corredor ouvi-me eu dizer, metendo a mão na bolsa à procura de moedas.

 

Eu tenho moedas. O que é que queres beber?

 

Água.

 

Eu também. Volto já.

 

O sorriso dele era tímido e, ao mesmo tempo, de alívio.

 

Sentei-me num sofá de vime garridamente estofado a magicar uma maneira de me desembaraçar dele. Não queria ter de o ouvir a explicar que tínhamos um pai formidável e que eu devia esquecer-me do passado.

 

Talvez ele fosse um pai formidável para dois dos seus filhos, Andrea e Teddy, mas, a mim, não me ligava nenhuma.

 

Voltou com duas garrafas de água. Quando o vi a olhar para o sofá e, depois, para uma cadeira, percebi logo o que lhe estava a passar pela cabeça. Mas fez a escolha acertada e acabou por se sentar na cadeira. Não o queria ao meu lado.

 

Carne da minha carne, sangue do meu sangue, pensei. Nem pensar. Isso tinha a ver com Adão e Eva, não com irmãos.

 

Meios-irmãos.

 

Queres vir ver-me jogar basquetebol um destes dias, Ellie? Não estava à espera daquela.

 

Quer dizer, não podemos, pelo menos, ser amigos? Sempre esperei que nos viesses visitar, mas se isso não te agrada, talvez tu e eu nos possamos encontrar de vez em quando. O ano passado, li o teu livro sobre os casos que investigaste. Gostaria de falar contigo sobre isso.

 

Teddy, ando terrivelmente ocupada nesta altura e... Interrompeu-me.

 

Vou ver o teu Website todos os dias. O modo como falas do Westerfield deve estar a dar com ele em doido. És minha irmã, Ellie, e não quero que te aconteça nada de mal.

 

«Por favor, não me chames de tua irmã», queria eu dizer-lhe, mas as palavras morreram-me nos lábios.

 

Por favor, não te preocupes comigo contentei-me em dizer. Sei tomar conta de mim mesma.

 

Não te posso ajudar? Li esta manhã no jornal o que aconteceu ao teu carro. Supõe que, a seguir, alguém desaparafusa uma roda ou prende o travão? Sei muito de carros. Podia verificar o teu antes de saíres com ele. Podia até levar-te onde quisesses no meu.

 

Estava a falar de modo tão sério e aflito que não pude impedir-me de sorrir.

 

Tens de estudar e de ir aos treinos de basquetebol, Teddy. Vais-me desculpar, mas, agora, tenho de ir realmente trabalhar.

 

Levantou-se ao mesmo tempo que eu.

 

Somos muito parecidos comentou.

 

Eu sei.

 

Ainda bem. Agora vou-me embora, Ellie, mas hei-de voltar. Quem me dera que o teu pai tivesse sido tão persistente como tu, pensei.

 

Mas compreendi que, nesse caso, este rapaz nunca teria nascido.

 

Trabalhei durante umas duas horas, aperfeiçoando o modo como apresentaria a história de Christopher Cassidy no Website, e, depois, enviei-o para o escritório dele por e-mail a fim de ser aprovado.

 

Às quatro da tarde, Marcus Longo telefonou.

 

Ellíe, os Westerfield tiraram uma página do teu livro. Têm um website: comjus-rob.com.

 

Deixe-me adivinhar o que quer dizer... Comité Justiça para Rob.

 

É isso mesmo. Vem anunciado em todos os jornais de Westchester. A estratégia básica deles é apresentar histórias comovedoras de pessoas injustamente condenadas por crimes.

 

Para associá-las com a do Rob Westerfield, o indivíduo mais inocente de todos.

 

Certo. Mas também andam a fazer investigações sobre si e descobriram um episódio bastante desagradável.

 

O quê?

 

O Centro Fromme, uma clínica psiquiátrica.

 

Escrevi um artigo sobre eles. Eram uns vigaristas. O estado da Georgia pagava-lhes uma fortuna e a clínica nem sequer possuía psiquiatras ou psicólogos de jeito.

 

Esteve lá internada?

 

Perdeu a cabeça ou quê, Marcus? Claro que não.

 

Tiraram alguma fotografia no Centro Fromme consigo deitada numa cama com as pernas e os braços amarrados?

 

Tiraram, pois. Para ilustrar o que lá se passava. Depois de o Governo ter fechado a Fromme e transferir os pacientes para outras instalações, escrevemos um artigo a descrever como eles mantinham os doentes amarrados durante, por vezes, dias seguidos. Por que é que está a fazer-me essas perguntas?

 

Os Westerfield publicaram isso no website deles.

 

Sem dar explicações?

 

Insinuando que você tinha lá estado. Fez uma pausa.

 

Surpreende-a que esta gente faça um jogo sujo, Ellie?

 

Ficaria surpreendida se eles não o fizessem. Vou publicar todo o artigo, com as fotografias e o texto, no meu website. Com uma nova manchete: «A Última Mentira dos Westerfield». Mas é claro que há muitas pessoas que vêem o website deles e não vêem o meu.

 

E vice-versa. É isso que me preocupa. Está a pensar publicar no website alguma coisa sobre o outro eventual homicídio?

 

Ainda não sei. Por um lado, quem o vir pode estar disposto a fornecer informações, mas, por outro, também pode dar uma dica ao Rob Westerfield e ajudá-lo a despistar-nos.

 

Ou a livrar-se de alguém que possa testemunhar contra ele. Tem de ter muito cuidado, Ellie.

 

Isso pode muito bem já ter acontecido.

 

Exactamente. Ponha-me ao corrente da sua decisão.

 

Liguei a Internet e encontrei o novo website: Comité Justiça para Rob Westerfield.

 

Tinha sido lindamente concebido e era acompanhado por uma citação de Voltaire: «Mais vale correr o risco de salvar uma pessoa culpada do que condenar um inocente.»

 

A imagem de uma sepultura e um Rob Westerfield com ar contemplativo encontrava-se sob essa citação. Havia várias histórias, bem escritas e comovedoras, de gente presa por crimes que não cometera. Não era preciso ser muito esperto para perceber que o autor fora Jake Bern.

 

A família Westerfield era apresentada como sendo realeza americana: fotografias de Rob em bebé com o avô, o senador dos EUA, e aos nove ou dez anos com a avó, a ajudá-la a cortar a fita que inaugurava um novo centro infantil doado pelos Westerfield. Também havia fotografias de Rob com os pais a bordo do paquete Queen Elizabeth II, e vestidos com equipamento de ténis no The Everglades Club.

 

Julgo que a tentativa era transmitir a ideia que tirar a vida a alguém estava abaixo da dignidade deste jovem privilegiado.

 

Eu era a vedeta da página seguinte. Mostrava-me estendida numa cama da clínica Fromme com as pernas e os braços amarrados. Estava vestida com uma dessas túnicas distribuídas aos pacientes e parcialmente coberta por um miserável cobertor.

 

A legenda era: «A testemunha cujo depoimento condenou Rob Westerfield.»

 

Fiquei furiosa. Tenho um tique que herdei do meu pai. Quando ele estava realmente irritado com qualquer coisa, tinha a mania de morder o canto direito do lábio.

 

Dei por mim a fazer exactamente o mesmo.

 

Fiquei sentada uma meia hora a tentar acalmar-me enquanto passava em revista os prós e os contras, e a pensar no modo como anunciaria a alegada confissão de outro crime por parte de Rob Westerfield.

 

Marcus Longo tinha mencionado o problema de seguir a pista de um homicídio não solucionado numa área tão vasta.

 

Ora o website era internacional.

 

Estaria a expor alguém se publicasse o prenome da suposta vítima?

 

O indivíduo anónimo que me tinha telefonado correra um risco, e estava ciente disso.

 

Acabei por redigir apenas uma pequena notícia.

 

«Segundo consta, entre há 27 e 22 anos, Rob Westerfield cometeu outro crime. Conta-se que, intoxicado por drogas, disse um dia na prisão: «Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.»

 

«Quem tiver informações quanto a este homicídio, por favor envie-as por e-mail a ellie 1234 at mediaone, net. Confidencialidade e recompensa.»

 

Rob Westerfield leria certamente esta notícia, pensei. E se ele souber que há alguém, além da pessoa desconhecida que me telefonou, que tem informação que o poderá prejudicar?

 

Há duas coisas que um jornalista que se dedica à investigação não deve fazer: revelar as suas fontes de informação e colocar pessoas inocentes em perigo.

 

Retive a publicação da notícia.

 

Não resisti e, sexta-feira à noite, telefonei a Pete Lawlor.

 

O seu telefonema vai ser dirigido a um serviço de atendimento de chamadas...

 

Fala a tua antiga colega que se interessa suficientemente pelo teu bem-estar para querer saber do teu estado de espírito, da tua saúde e oportunidades quanto a emprego disse eu. Uma resposta seria bastante apreciada.

 

Telefonou-me uma hora mais tarde.

 

Deves ter muita vontade de falar com alguém.

 

Pois tenho. Foi por isso que me lembrei de ti.

 

Obrigado.

 

Posso perguntar-te onde estás neste momento?

 

Em Atlanta. A fazer as malas.

 

Calculo que tomaste uma decisão.

 

Tomei, sim. Um trabalho de sonho. Baseado em Nova Iorque, mas com a possibilidade de viajar por todo o mundo um número razoável de vezes para fazer reportagens onde quer que haja sarilhos.

 

Que jornal é que é?

 

Negativo. Vou ser uma vedeta da televisão.

 

Tiveste de perder cinco quilos antes de ser contratado?

 

Já não me lembrava que eras muito cruel.

 

Ri-me. Falar com Pete dava uma ponta de realidade quotidiana divertida à minha vida cada vez mais surrealista.

 

Estás a brincar ou arranjaste realmente um emprego na televisão?

 

É verdade. Vou trabalhar para a Packard Cable.

 

Packard? Boa!

 

É uma das novas redes por cabo que está rapidamente a desenvolver-se. Estava quase a aceitar o emprego em Los Angeles, muito embora não fosse exactamente o que queria, mas, então, a Packard convidou-me.

 

Quando é que começas?

 

Quarta-feira. Estou neste momento a meter coisas no carro e, depois, vou tentar subalugar o apartamento. Parto domingo à tarde. Queres jantar comigo terça-feira?

 

Claro. É bom ouvir essa tua voz melodiosa...

 

Não desligues ainda, Ellie. Tenho visto o teu website.

 

Está porreiro, não achas?

 

Se esse tipo é o que tu dizes, andas a brincar com o fogo. Pois ando, pensei.

 

Promete que não me vais dizer para ter cuidado.

 

Prometo. Falo contigo na segunda-feira.

 

Voltei a sentar-me diante do computador. Eram quase oito horas e eu tinha estado a trabalhar sem parar. Liguei para o serviço de quarto e, enquanto esperava, desenhei uns bonecos e fartei-me de pensar.

 

Falar com Pete tinha-me, pelo menos por agora, tirado as vendas dos olhos. Nestas duas últimas semanas, tinha vivido num mundo onde Rob Westerfield era a figura principal. Mas, agora, olhava para além desse tempo, para além do seu segundo julgamento e a minha capacidade de provar perante o mundo a profundidade do seu temperamento violento.

 

Podia procurar e tornar público todas as coisas horríveis que ele tinha feito. Talvez pudesse até seguir a pista de um crime por esclarecer que ele cometera. Podia contar a sua história lamentável e suja no livro. E, depois, seria a altura de recomeçar a viver o resto da minha vida.

 

Pete já estava a recomeçar a dele baseado em Nova Iorque com um novo emprego num meio de comunicação diferente.

 

Entrelacei as mãos atrás da cabeça e comecei a balançar-me de um lado para o outro. Os músculos do pescoço estavam tensos, e distendê-los fazia-me sentir bem. O que já não era tão bom era dar-me consternadamente conta de que tinha muitas saudades de Pete e que não queria regressar a Atlanta se ele já lá não estivesse.

 

No sábado de manhã falei com a Sra. Stroebel. Disse-me que Paulie já não se encontrava nos cuidados intensivos e que lhe dariam provavelmente alta depois do fim-de-semana.

 

Prometi ir visitá-lo mais tarde, por volta das três horas. Quando cheguei, a Sra. Stroebel estava sentada à cabeceira de Paulie. Assim que ela me olhou, percebi pela expressão do seu rosto que havia um problema qualquer.

 

A febre subiu à hora do almoço. Tem um dos braços infectados. O médico disse-me que está tudo bem, mas estou preocupada. Aflijo-me tanto, Ellie.

 

Olhei para Paulie. Tinha ainda ligaduras à volta dos braços e estava ligado a vários aparelhos de soro intravenoso. Estava muito pálido e remexia a cabeça de um lado para o outro.

 

Estão a administrar-lhe um antibiótico, mais um medicamento para o acalmar disse a Sra. Stroebel. A febre torna-o inquieto.

 

Puxei de uma cadeira e sentei-me ao lado dela. Paulie começou a murmurar. Abriu os olhos.

 

Estou aqui, Paulie disse-lhe ternamente a Sra. Stroebel. A Ellie Cavanaugh está aqui comigo. Veio fazer-te uma visita.

 

Olá, Paulie disse, levantando-me e debruçando-me sobre a cama para ele me ver.

 

Tinha os olhos vidrados de febre, mas tentou sorrir.

 

A minha amiga Ellie!

 

Podes crer.

 

Fechou novamente os olhos, mas, uns instantes mais tarde, recomeçou a dizer palavras incoerentes. Ouviu-o murmurar o nome de Andrea.

 

A Sra. Stroebel retorcia as mãos.

 

É tudo o que diz. Tem tanto medo que o obriguem a ir outra vez ao tribunal. Ficou tão assustado da última vez...

 

O tom da voz dela elevou-se e percebi que Paulie estava cada vez mais agitado. Apertei a mão dela e fiz sinal com a cabeça em direcção à cama. Percebeu o que eu queria dizer.

 

Graças a ti, Ellie, tudo correrá bem disse-me em voz baixa. O Paulie sabe isso. As pessoas que vêm à loja contaram-me que viram o website onde tu mostras que o Rob Westerfield é realmente má rês. O Paulie e eu vimo-lo a semana passada e ficámos muito satisfeitos.

 

Paulie parecia um pouco mais calmo.

 

Mas, mamã... supõe que me esqueço e... murmurou. A Sra. Stroebel ficou, de repente, muito perturbada.

 

Não fales mais, Paulie disse com brusquidão. Dorme. Tens de melhorar.

 

Mamã...

 

Agora, cala-te, Paulie interrompeu-o ela, tapando-lhe meiga mas resolutamente a boca com a mão.

 

Tive a nítida impressão de que a Sra. Stroebel se sentia pouco à vontade e queria que eu me fosse embora. Levantei-me.

 

Mamã...

 

A Sra. Stroebel ergueu-se de um pulo, interpondo-se entre mim e a cama como se receasse que eu me chegasse demasiado perto de Paulie.

 

Não percebia o que estava a perturbá-la.

 

Diga adeus ao Paulie por mim, Sra. Stroebel disse apressadamente. Telefono amanhã para saber como é que ele está.

 

Paulie tentava novamente falar, remexendo a cabeça e soltando murmúrios incoerentes.

 

Obrigada, Ellie. Adeus.

 

E a Sra. Stroebel pôs-se literalmente a empurrar-me em direcção à porta.

 

Andrea... gritou Paulie. Não saias com ele! Virei-me.

 

A voz de Paulie ainda era clara, mas o tom era assustado e suplicante.

 

Mamã, supõe que me esqueço e lhes falo do medalhão que ela usava? Vou tentar não falar disso, mas, se me esquecer, não vais deixar que me metam na prisão, pois não?

 

Há uma explicação. Tens de me acreditar. Não é o que estás a pensar soluçou a Sra. Stroebel.

 

Estávamos no corredor diante da porta do quarto de Paulie.

 

Temos de falar e a senhora tem de ser muito franca comigo disse eu.

 

Mas não pudémos fazê-lo na altura porque o médico de Paulie se aproximava de nós.

 

Telefono-lhe amanhã de manhã prometeu ela. Agora, estou demasiado aflita.

 

E afastou-se abanando a cabeça e tentando recompor-se.

 

Guiei com o piloto automático ligado até à estalagem. Seria possível, remotamente possível, que me tivesse enganado durante todo este tempo? Tinha Rob Westerfield e toda a sua família sido vítima de um terrível erro da justiça?

 

Torceu-me o braço... Veio por detrás de mim e deu-me um murro na nuca... Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

A reacção de Paulie ao ataque verbal da governanta da Sra. Westerfield tinha sido tentar suicidar-se e não fazer mal a alguém.

 

Não podia acreditar que Paulie fosse o assassino de Andrea, mas tinha a certeza de que a Sra. Stroebel o tinha impedido de contar algo que ele sabia.

 

O medalhão.

 

Quando entrei no parque de estacionamento da estalagem, sentia-me esmagada pela ironia do que estava a acontecer. Ninguém, absolutamente ninguém, acreditava que Rob Westerfield tinha oferecido um medalhão a Andrea e que ela o usava na noite em que fora assassinada.

 

Mas, agora, a existência do medalhão tinha sido provada pela única pessoa que receava admitir publicamente tê-lo visto.

 

Olhei à minha volta ao sair do carro. Eram quatro e um quarto e o dia já estava sombrio. O que restava do Sol estava encoberto pelas nuvens, e um vento ligeiro arrancava as folhas das árvores. Restolhavam no chão e, no estado de nervos em que me encontrava, soavam como passos.

 

O parque de estacionamento estava quase cheio e lembrei-me, então, que tinha reparado nos preparativos para uma festa de casamento quando, esta tarde, fora ao hospital. Tinha sido forçada a estacionar na área mais distante da estalagem. A sensação de que alguém andava a espiar-me estava a tornar-se num estado de espírito crónico.

 

Não corri, mas atravessei a passo apressado uma fila de carros em direcção à segurança da estalagem. Ao passar por uma velha carrinha, a porta abriu-se de repente e um homem saltou lá de dentro tentando agarrar-me.

 

Desatei a correr, mas, depois, tropecei no sapato demasiado grande que tinha comprado para acomodar os meus pés cobertos de ligaduras.

 

Quando o sapato saltou do meu pé, caí para a frente e tentei freneticamente recuperar o equilíbrio, mas era tarde de mais. As palmas das mãos e o corpo embateram no solo e fiquei sem fôlego.

 

O homem ajoelhou-se imediatamente ao meu lado.

 

Não grite disse, alarmado. Não vou fazer-lhe mal. Por favor, não grite.

 

Mesmo que quisesse, não poderia ter gritado. Nem poderia ter escapado dele e fugido para a estalagem. Todo o corpo tremia e a boca abria-se para sorver o ar aos tragos.

 

O que é... que quer... de mim? consegui, finalmente, articular.

 

Falar consigo. Ia enviar-lhe um e-mail, mas receei que a pessoa errada o recebesse. Quero dar-lhe uma informação sobre o Rob Westerfield.

 

Fitei-o. O rosto dele estava muito perto do meu. Era um homem de quarenta e poucos anos com cabelos um pouco sujos. Tinha uma maneira nervosa de olhar à volta dele de soslaio como quem se prepara para fugir a qualquer momento. Estava vestido com um blusão aos quadrados e jeans.

 

Quando me levantei, ele foi buscar o meu sapato.

 

Não vou fazer-lhe mal repetiu. Mas não posso correr o risco de ser visto consigo. Ouça cá, se não está interessada no que tenho para lhe dizer, piro-me já daqui.

 

Não era lá muito racional, mas, por qualquer motivo, acreditei nele. Se ele tivesse querido matar-me, já o teria feito há muito tempo.

 

Está disposta a ouvir-me? perguntou impacientemente.

 

Conte lá.

 

Não se importa de se sentar na minha carrinha durante uns minutos? Não quero que me vejam. Há Westerfields por toda a parte nesta cidade.

 

Estava de acordo com ele, mas não estava disposta a entrar na carrinha.

 

Diga-me o que tem para me dizer cá fora.

 

Tenho uma informação que pode implicar o Westerfield num crime que ele cometeu há anos.

 

Quanto é que quer?

 

Mil dólares.

 

E o que é que tem para me dar em troca?

 

Como deve saber, pois escreveu sobre isso no seu website, a avó do Rob levou um tiro e quase morreu há 25 anos...

 

Continue.

 

O meu irmão, o Skip, foi preso por causa disso. Apanhou

20 anos de cadeia, mas morreu depois de ter cumprido metade da sentença. Não aguentou. Andava sempre meio adoentado.

 

Foi o seu irmão que assaltou a casa e disparou contra a Sra. Westerfield?

 

Foi, sim, mas o Westerfield é que planeou o roubo e nos contratou, a mim e ao Skip, para fazer o trabalhinho.

 

Porquê?

 

Devia muito dinheiro. Andava metido em drogas. Foi por isso que abandonou a universidade... Mas tinha visto o testamento da avó. A velha deixava-lhe directamente cem mil dólares. Assim que ela esticasse o pernil, ele embolsaria o cacau. Prometeu-nos dez mil dólares para dar cabo dela.

 

E acompanhou-os nessa noite?

 

Está a reinar ou quê? Tinha ido jantar com os pais a Nova Iorque. Sabia como arranjar álibis.

 

Pagou ao seu irmão ou a si?

 

Deu o Rolex dele ao meu irmão como garantia antes do trabalho ser feito. Mas, depois, disse que lho tinham roubado.

 

Porquê?

 

Porque, depois de o meu irmão ser preso, encontraram o relógio no bolso dele. O Westerfield declarou à polícia que nos tinha conhecido a jogar bowling na noite antes da senhora ter sido ferida. Disse que, como o Skip não tirava os olhos do relógio, o metera no saco quando tinha começado a jogar e que, depois do jogo, o fora buscar ao saco, mas que já lá não estava. E que nós também nos tínhamos pisgado. Jurou que tinha sido a única vez que nos tinha visto.

 

Como é que podiam ter sabido da avó sem ele ter falado dela?

 

Tinham escrito um grande artigo sobre ela no jornal. Fizera uma doação qualquer a um hospital.

 

Como é que você e o seu irmão foram apanhados?

 

Eu cá não fui, mas o meu irmão foi preso no dia seguinte. Tinha cadastro e estava muito nervoso por ter de dar um tiro na velhota. O Westerfield queria que aquilo tudo parecesse um roubo. Não nos deu o segredo do cofre porque só a família dele o conhecia e isso denunciá-lo-ia. Mandou o Skip trazer ferramentas para forçar o cofre, como se tivesse tentado abri-lo sem o conseguir. Mas o Skip cortou a mão e tirou as luvas para a limpar. Deve ter tocado no cofre pois, mais tarde, encontraram as impressões digitais dele.

 

E, a seguir, ele foi ao andar de cima e disparou contra a Sra. Westerfield.

 

Pois. Mas a polícia não conseguiu saber que eu tinha lá estado. Fiquei de vigia e conduzi o carro. O Skip disse para eu me calar e pagou as favas sozinho enquanto o Westerfield se safou.

 

E você também. Encolheu os ombros.

 

Pois, eu sei.

 

Que idade tinha nessa altura?

 

Dezasseis.

 

E que idade tinha o Rob?

 

Dezassete.

 

O seu irmão não tentou implicar o Westerfield?

 

Claro, mas ninguém acreditou nele.

 

Não estou assim tão certa disso. A avó dele alterou o testamento e anulou os cem mil dólares que passariam directamente para o neto.

 

Boa! O Skip foi condenado a 20 anos. Podia ter apanhado 30, mas, como confessou, o promotor da justiça concordou com a sentença a fim de a Sra. Westerfield não ter de ir testemunhar ao tribunal.

 

O Sol tinha desaparecido completamente por detrás das nuvens. Ainda me sentia perturbada por causa da queda e, agora, também estava com frio.

 

Como é que se chama? perguntei-lhe.

 

Alfie. Alfie Leeds.

 

Acredito na sua história, Alfie, mas não percebo porque é que me está a contar isso agora. Nunca se conseguiu provar que o Rob Westerfield esteve envolvido no caso.

 

Eu cá tenho provas.

 

Meteu a mão no bolso e tirou uma folha de papel dobrada.

 

Isto é uma cópia do diagrama que o Rob nos deu para que o meu irmão pudesse entrar dentro da casa sem desencadear o alarme.

 

Tirou uma pequena lanterna do outro bolso.

 

O parque de estacionamento, varrido pelo vento, não era o local indicado para examinar um diagrama. Lancei de novo um olhar ao tipo. Era uns centímetros mais baixo do que eu e não parecia ser particularmente forte. Decidi correr o risco.

 

Concordo em entrarmos para a sua carrinha na condição de eu me sentar no banco do condutor.

 

Como quiser.

 

Abri a porta e examinei o interior da carrinha. Não havia ninguém lá dentro. O banco de trás tinha sido baixado e tudo o que vi foram latas de tinta, uns trapos e uma escada. Alfie deu a volta para se sentar a meu lado. Sentei-me diante do volante sem fechar totalmente a porta. Se fosse uma armadilha, poderia sair rapidamente.

 

No meu trabalho de jornalista, tive de encontrar uma data de personagens desagradáveis em lugares onde, normalmente, não iria, e, assim, julgo que desenvolvi o meu instinto de sobrevivência. Tendo em conta o facto de estar ali fechada com o cúmplice de um crime, sentia-me tão segura quanto possível.

 

Uma vez sentados na carrinha, ele passou-me a folha de papel para as mãos. O feixe de luz da lanterna era suficiente para eu reconhecer a casa dos Westerfield. Até mesmo a garagem-esconderijo tinha sido desenhada. A planta do interior da mansão era bastante precisa.

 

Está a ver... Mostra onde se encontrava o sistema de alarme e indica o código para o desactivar. O Rob achava que isso não o denunciaria, pois muita gente que trabalhava lá em casa também o conhecia. Aqui está o diagrama do rés-do-chão, a biblioteca com o cofre, as escadas que conduziam ao quarto da Sra. Westerfield e o alojamento da criada ao lado da cozinha.

 

Havia um nome escrito no fundo da folha.

 

Quem é o Jim? perguntei.

 

É o gajo que desenhou esta planta. O Rob contou-nos que ele costumava trabalhar lá, mas nunca o conhecemos.

 

O seu irmão não mostrou isto à polícia?

 

Ele queria, mas o advogado que lhe deram aconselhou-o a não o fazer. Disse que o Skip não tinha nenhuma prova que fora Rob quem lho dera e o simples facto de ele ter a planta em seu poder só o prejudicaria. Como o cofre era no andar de baixo e as escadas para o quarto da Sra. Westerfield estavam tão nitidamente desenhados, isso provava que o Skip fazia tenção de a matar.

 

O Jim poderia ter confirmado a história do seu irmão. Ninguém procurou saber quem era esse tipo?

 

Julgo que não. Guardei a planta da casa ao longo de todos estes anos e, quando vi o seu website, pensei que era mais uma coisa que você poderia investigar para comprometer o Westerfield. Estamos conversados ou quê? Vai ou não dar-me mil dólares por isto?

 

Como é que posso saber se não foi você mesmo quem desenhou esta planta para me sacar dinheiro?

 

Então está bem. Passe-me para cá isso.

 

Alfie, se o advogado tivesse procurado esse Jim e falado ao promotor de justiça sobre ele, a polícia teria levado a investigação mais a sério. O seu irmão apanharia uma sentença mais leve e o Westerfield também seria inculpado.

 

Havia outro problema. O Westerfield tinha-nos contratado, a mim e ao meu irmão, para assaltar a casa, e o advogado disse ao Skip que, se os chuis viessem a prender o Rob, este poderia contar ao promotor de justiça que eu também estava envolvido. O Skip era cinco anos mais velho do que eu e queria proteger-me.

 

Bem, este caso já prescreveu e tanto você como o Rob estão safos. Mas, espere aí... Se isto é uma cópia, onde é que está o original?

 

O advogado rasgou-o. Disse que não queria que ele caísse em mãos erradas.

 

Rasgou-o!

 

Não sabia que o Skip tinha feito uma cópia e ma dera.

 

Vou ficar com esta planta disse eu. Dou-lhe o dinheiro amanhã de manhã.

 

Demos um aperto de mão. A palma da mão dele era calosa, o que sugeria que Alfie se dedicava a um trabalho duro e pesado.

 

Com uma prova dessas não pude deixar de lhe dizer enquanto ele dobrava cuidadosamente o papel e o guardava de novo no bolso. Não consigo perceber por que é que o advogado do seu irmão não chegou a um acordo com o promotor de justiça. Não teria sido muito difícil encontrar esse tal Jim que desenhou o diagrama. Os chuis poderiam depois interrogá-lo e convencê-lo a denunciar o Rob, e você seria julgado num tribunal juvenil. Tenho cá a impressão que o advogado do seu irmão foi comprado pelos Westerfield.

 

Sorriu, arreganhando os dentes amarelados.

 

Ele ainda trabalha para eles. É esse Hamilton, o tipo que apareceu na televisão a dizer que vai pedir um novo julgamento e a absolvição do Rob.

 

Quando voltei para o quarto, tinha uma mensagem para telefonar à Sra. Hilmer. Tinha falado várias vezes com ela depois do incêndio e ela comportara-se maravilhosamente comigo. A sua única preocupação era que eu estivesse bem e, ao saber que eu quase tinha morrido queimada, ficara muito aflita. Parecia até que me devia um favor pelo facto da garagem e do apartamento terem sido reduzidos a cinza por minha culpa. Aceitei o convite dela para jantarmos juntas no domingo.

 

Mal tinha desligado quando Joan telefonou. Também tinha falado regularmente com ela, mas não nos tínhamos visto durante a semana e eu estava ansiosa para lhe devolver o dinheiro e a roupa que ela me tinha emprestado. Tinha mandado limpar as calças, a camisola e o casaco, e comprara duas garrafas de champanhe, uma para Joan e Leo, e a outra para a amiga que tinha o meu tamanho.

 

É evidente que não era por esse motivo que Joan me telefonava. Ela, Leo e os filhos iam jantar ao restaurante II Palazzo e queriam que eu me juntasse a eles.

 

Os pratos de massa e a pizza são formidáveis e o sítio é divertido garantiu-me ela. Acho que vais adorar.

 

Não tens de promover o raio do restaurante. Gostaria muito de estar com vocês.

 

A verdade é que também precisava de me divertir. Depois do meu encontro com Alfie, só pensava em todas as pessoas cuja vida fora dramaticamente mudada, ou destruída, por Rob Westerfield e a fortuna da sua família.

 

Primeiro, Andrea, claro está. A seguir, a minha mãe. Depois Paulie, que receava tanto ser levado a revelar que sabia algo sobre o medalhão. Independentemente do que ele sabia, tinha a certeza de que ele nada tinha a ver com a morte de Andrea.

 

A Sra. Stroebel, trabalhadora e honesta, também fora apanhada na teia da família Westerfield. Deve ter sofrido horrores quando o filho testemunhou durante o julgamento. Suponhamos que, pelo menos, uma pessoa tivesse acreditado em mim quanto ao facto de Rob ter oferecido um medalhão a Andrea e que, depois, Paulie fosse interrogado a esse respeito no tribunal. Poderia, muito facilmente, ter-se incriminado a si mesmo.

 

Acreditava em tudo o que Alfie me tinha contado. Não duvidava de que o irmão dele fosse um criminoso em potência. Tinha aceite matar a Sra. Westerfield. Mas, apesar de ser um assassino, tivera o direito a advogado, mas este tinha sido subornado pelos Westerfield.

 

Podia imaginar William Hamilton, juris doctor, encarar o caso como uma oportunidade única. Tinha provavelmente ido ter com o pai de Rob, mostrara-lhe o diagrama e fora adequadamente recompensado pela sua cooperação.

 

Alfie também era uma vítima. O irmão mais velho protegera-o e ele agora sentia-se culpado por não conseguir arranjar uma maneira de inculpar Rob Westerfield. Tinha passado todos aqueles anos com uma prova que não ousava mostrar.

 

O que me era mais difícil de engolir era saber que, se Rob tivesse sido condenado por ter planeado matar a avó, nunca teria conhecido Andrea.

 

Tinha agora outra pessoa na minha lista: William Hamilton.

 

Era nisto que estava a pensar quando Joan me telefonou. Precisava de uma folga. Combinámos encontrar-nos às sete no II Palazzo.

 

Ando a atacar moinhos de vento, disse para comigo mesmo enquanto percorria de carro o curto trajecto até ao centro da cidade. Tinha a sensação de estar a ser seguida. Devia, talvez, avisar o agente White, pensei sarcasticamente. Preocupa-se tanto por minha causa que virá salvar-me a toque de caixa.

 

Oh, deixa-te disso, disse para com os meus botões. Ele crê honestamente que eu voltei a esta cidade para provocar sarilhos e que não consigo suportar a ideia de Rob Westerfield ter sido libertado.

 

Muito bem, agente White, posso estar obcecada por isso, mas não queimei os pés nem arruinei o carro para provar que tinha razão.

 

Joan, Leo e os três filhos estavam sentados numa mesa a um canto quando entrei no II Palazzo. Lembrava-me vagamente de Leo. Andava no último ano do liceu quando Andrea e Joan ainda frequentavam o segundo.

 

Quando pessoas daqueles tempos me voltam a ver, pensam inevitavelmente na morte de Andrea e, ou comentam o sucedido, ou fazem um esforço para o ignorar.

 

Apreciei a maneira como Leo me saudou.

 

Claro que me lembro de ti, Ellie. Foste várias vezes com a Andrea a casa da Joan quando eu lá estava. Eras uma miúda com ar muito solene.

 

E, agora, sou uma mulher com ar muito solene!

 

Gostei imediatamente dele. Era alto cerca de dois metros de altura e bem constituído, e tinha cabelo castanho-claro e inteligentes olhos negros. O seu sorriso era como o de Joan, amável e caloroso. Transmitia logo confiança. Sabia que ele era agente da bolsa e, por isso, disse para comigo mesma que, se algum dia tivesse dinheiro, iria falar com ele. Tenho a certeza de que me sentiria à vontade ouvindo os seus conselhos e investindo onde ele dizia.

 

Os miúdos tinham dez, 14 e 17 anos. O mais velho, Billy, andava no último ano do liceu e contou-me logo que a equipa de basquetebol dele tinha jogado contra a de Teddy.

 

O Teddy e eu falamos muito das universidades para onde queremos entrar, Ellie disse-me. Ambos estamos a tentar ser admitidos na Dartmouth e na Brown e esperamos acabar juntos na mesma. É um tipo porreiro.

 

Pois é concordei.

 

Não me contaste que te tinhas encontrado com ele atalhou Joan.

 

Passou na estalagem para me ver durante uns instantes. Vi um sorriso satisfeito reflectido nos seus olhos. Tive vontade de lhe dizer para não marcar a data de uma grande reunião dos Cavanaugh, mas trouxeram-nos o menu nesse momento e Leo foi suficientemente esperto para mudar de assunto.

 

Cuidei um razoável número de vezes de miúdos quando era adolescente e gosto de os ter à minha volta. Mas há muito que não contactava com eles, pois o meu emprego em Atlanta não me dava certamente essa oportunidade. Foi divertido falar com os três rapazes. Dentro do pouco tempo, e enquanto comíamos massa e mexilhões, contaram-me as suas actividades e eu prometi a Sean, o de dez anos, que, um dia, haveríamos de jogar xadrez.

 

Jogo muito bem preveni-o.

 

Eu cá sou melhor assegurou-me.

 

Havemos de ver isso.

 

Que tal amanhã? É domingo e vamos ficar em casa.

 

Tenho muita pena, mas já tenho planos para amanhã. Mas em breve.

 

Lembrei-me então de uma coisa e olhei para Joan.

 

Não pus a mala que te queria devolver no carro.

 

Podes trazê-la amanhã. Faremos, assim, o nosso jogo de xadrez insistiu Sean.

 

Vem tomar o brunch lá a casa disse-me Joan. Por volta das onze e meia?Boa ideia!

 

O bar do II Palazzo era uma área rodeada de vidro da sala de jantar directamente em frente da entrada. Ao entrar, não tinha prestado atenção a quem lá se encontrava, mas reparei que, durante o OT Combinação de breakfast (pequeno-almoço) e lunch (almoço) feita geralmente aos domingos por volta da hora mencionada no texto.

 

Jantar, Joan olhava às vezes por cima do meu ombro com uma expressão aflita.

 

Estávamos a tomar café quando compreendi o motivo.

 

Ellie, o Will Nebels está ali no bar explicou-me finalmente ela. Entrou ainda tu não tinhas chegado. Alguém deve ter-lhe dito quem tu és e, agora, ele vem aí. Pelo ar dele, aposto que está bêbedo

 

O aviso não foi suficientemente rápido. Senti um par de braços à volta do meu pescoço e um beijo molhado na face.

 

A pequenina Ellie! Valha-me Deus! A pequenina Ellie Cavanaugh! Lembras-te que eu consertei o teu baloiço, minha linda? O teu papá não era lá muito bom a consertar coisas e a tua mamã estava sempre a chamar-me.

 

Agora, beijava-me a orelha e a nuca.

 

Tira as mãos de cima dela disse secamente Leo, levantando-se.

 

Eu estava literalmente esmagada sob o peso de Nebels. Tinha as mãos nos meus ombros e as mãos deslizavam apalpando a minha camisola.

 

É a linda Andrea. Vi com os meus próprios olhos esse atrasado mental entrar na garagem de macaco na mão...

 

Um criado de mesa puxava Nebels de um lado enquanto Leo e Billy o puxavam do outro. Tentava afastar o rosto dele do meu, mas não havia nada a fazer. Beijava-me os olhos e a sua boca repelente procurava os meus lábios. No meio daquela confusão, a minha cadeira começou a inclinar-se para trás. Receava bater com a cabeça no chão e acabar com ele estendido em cima de mim.

 

Mas clientes vindos de outras mesas aproximaram-se, agarrando na vacilante cadeira antes desta cair no chão.

 

Nebels foi então afastado à força. Escondi o rosto nas mãos e, pela segunda vez em seis horas, comecei a tremer tão violentamente que não conseguia responder às perguntas inquietas que me faziam de todos os lados. Os ganchos tinham-se soltado e o cabelo caía por cima dos meus ombros. Senti Joan a fazer-lhe féstas e queria suplicar-lhe que parasse, a compaixão nessa altura era-me intolerável. Mas talvez ela tivesse percebido o que eu sentia porque retirou a mão.

 

Ouvi o gerente desfazer-se em desculpas.

 

Bem podes pedir desculpa, pensei. Já devias ter recusado servir esse bêbedo há muito tempo.

 

A fúria que, de repente, senti foi o necessário para me recompor. Levantei a cabeça e comecei a pentear o cabelo. Olhei à volta da mesa para o rosto inquieto dos meus amigos e encolhi os ombros.

 

Já estou bem.

 

Fitei Joan e dei-me imediatamente conta do que ela estava a pensar. Era como se ela mo estivesse a gritar.

 

Ellie, compreendes agora o que eu te disse sobre o Will Nebels? Confessou que tinha estado em casa da Sra. Westerfield naquela noite e é provável que também estivesse bêbedo. O que é que achas que ele teria feito se visse a Andrea a entrar na garagem sozinha?

 

Meia hora mais tarde, e depois de ter bebido uma nova chávena de café, insisti em regressar à estalagem sozinha. Mas, a meio do caminho, perguntei-me se não teria sido parva. Tinha agora a certeza que estava a ser seguida e não queria voltar a ser apanhada sozinha no parque de estacionamento. Passei pela estalagem sem parar e telefonei à polícia do meu telefone portátil.

 

Vamos enviar imediatamente um carro patrulha disse o polícia de serviço. Onde é que está?

 

Expliquei-lhe.

 

Muito bem. Dê meia volta e vire no caminho que leva à estalagem, mas não saia do carro em nenhumas circunstâncias até nós chegarmos.

 

Abrandei a velocidade e o carro que vinha atrás de mim também. Agora que sabia que vinha aí um carro-patrulha, desejava que aquela perseguição continuasse. Queria que a polícia descobrisse de quem se tratava e porque eu estava a ser seguida.

 

Dirigi-me novamente para a estalagem. Virei, mas o carro que vinha atrás de mim continuou. Pouco tempo depois, avistei uma luz a cintilar e ouvi a sirena da polícia.

 

Parei na berma da estrada e, dois minutos mais tarde, um carro-patrulha de luz apagada travou atrás de mim. Um polícia saiu e aproximou-se do meu carro. Quando desci o vidro da janela, notei que ele estava a sorrir.

 

Estava a ser seguida, sim senhora, Ms. Cavanaugh. O miúdo diz que é seu irmão e que queria certificar-se de que a senhora chegava a casa sã e salva.

 

Oh, por amor de Deus, mandem-no embora! disse eu, mas apressei-me a acrescentar. Mas, por favor, agradeçam-lhe por mim.

 

Fazia tenção de telefonar a Marcus Longo domingo de manhã, mas ele antecipou-se. Quando o telefone tocou às nove horas, eu estava diante do computador com uma chávena de café ao lado.

 

Sempre pensei que se levantasse cedo, Ellie disse ele. Espero não me ter enganado.

 

Para dizer a verdade, até acordei tarde esta manhã. Aí por volta das sete.

 

É mais ou menos o que eu esperava de si. Contactei com a administração de Sing Sing.

 

Para ver se eles sabem de algum recluso recentemente solto, ou de um guarda da prisão, que possa ter sido vítima de um acidente fatal?

 

Exacto.

 

Disseram-lhe alguma coisa?

 

Você esteve em Sing Sing no dia 1 de Novembro. Herb Coril, um preso que, a certa altura, esteve no mesmo bloco celular que o Rob Westerfield, foi libertado precisamente nessa manhã. A morada dele é na zona baixa de Manhattan, mas desde a noite de sexta-feira que ninguém o vê.

 

Recebi o último telefonema de que lhe falei na sexta-feira à noite. Cerca das dez e meia. E quem quer que me telefonou receava perder a vida.

 

Não sabemos ao certo se se trata da mesma pessoa ou se este Herb Corel não deu muito simplesmente à sola.

 

O que é que acha? perguntei.

 

Nunca acreditei muito em coincidências, sobretudo uma como esta.

 

Nem eu.

 

Falei a Marcus do meu encontro com Alfie.

 

Só espero que nada aconteça ao Alfie antes de você lhe apanhar o diagrama disse lugubremente Marcus. Não me surpreende nada. Sempre pensámos que o Rob Westerfield tinha planeado o roubo. Sei o que você deve estar a pensar...

 

Se o Rob tivesse sido preso nessa altura, não teria conhecido a Andrea, não é? É tudo o que consigo pensar e tem sido uma tortura.

 

Mas compreende que mesmo com a cópia da planta da casa e uma declaração do Alfie ao magistrado-federal, nunca conseguirá que o Rob seja condenado. O próprio Alfie esteve envolvido e o diagrama está assinado por alguém chamado Jim que ninguém conhece.

 

Eu cá sei quem é.

 

O caso prescreveu para todos eles: o Westerfield, o Alfie e esse tal Jim...

 

Jim Hamilton. Se eu conseguisse provar que ele destruiu provas que poderiam diminuir a pena do seu cliente caso este incriminasse o Westerfield, a Ordem de Advogados saltar-lhe-ia em cima.

 

Prometi mostrar-lhe o diagrama assim que Alfie mo entregasse. A seguir despedi-me e tentei voltar ao meu trabalho. Mas avançava lentamente e, depois de ter escrito apenas mais um pouquinho, deduzi que estava na hora de ir ao brunch em casa de Joan.

 

Desta vez, lembrei-me da mala e do saco da lavandaria com a roupa.

 

Antes mesmo de chegar ao mosteiro dos frades franciscanos, sabia que iria deter-me lá por uns minutos. Tinha sentido, durante toda a semana, uma recordação emergir lentamente do meu subconsciente. Fora visitar aquele lugar com a minha mãe depois da morte de Andrea. Ela tinha telefonado a um padre que conhecia, o irmão Emil, e, como este ia à estalagem de São Cristóvão naquele dia, combinaram encontrar-se lá.

 

A estalagem de São Cristóvão, localizada na área do mosteiro, é o lar dos frades para pobres que são alcoólicos ou drogados. Tinha a vaga recordação de estar sentada com uma senhora, provavelmente uma secretária, enquanto a minha mãe se encontrava no gabinete do irmão Emil. Mais tarde, o irmão Emil levou-nos a visitar a capela.

 

Lembro-me de que havia uma espécie de registo onde as pessoas redigiam pedidos. A minha mãe escreveu qualquer coisa e, depois, passou-me a caneta.

 

Tinha vontade de lá voltar. O padre que veio à porta apresentou-se como sendo o irmão Bob e não questionou o meu pedido. A capela estava vazia e ele ficou à porta enquanto eu me ajoelhei durante uns instantes. A seguir, olhei à minha volta e vi o registo.

 

Aproximei-me e peguei na caneta.

 

E, de repente, lembrei-me do que tinha escrito da última vez: Por favor deixa que a Andrea volte para junto de nós,

 

Não consegui reter as lágrimas.

 

Foram derramadas muitas lágrimas nesta capela disse o irmão Bob ao meu lado.

 

Conversámos durante uma hora e, quando cheguei a casa de Joan, já me entendia novamente com Deus.

 

Joan e eu discordámos respeitosamente uma com a outra acerca do espectáculo que Nebels dera na noite anterior.

 

Ele estava apenas bêbedo, Ellie. Há imensa gente que fala demais quando está com os copos. O que eu quero dizer é que isso não acontece quando mentem. É mais quando bebem que a língua deles se solta.

 

Tinha de admitir que Joan tinha razão quanto a isso. Escrevera sobre dois casos em que o assassino nunca teria sido preso se não tivesse apanhado uma bebedeira de uísque, ou vodca, e contado tudo a alguém que chamara a polícia.

 

Eu, no entanto, não vejo a coisa assim expliquei a Joan e a Leo. Para mim, o Will Nebels é um desgraçado, um pobre diabo. É como gelatina, pode-se dar-lhe a forma que se quer. Não estava assim tão bêbedo... Lembrou-se de que tinha consertado o meu baloiço e que o meu pai não tinha lá muito jeito para essas coisas.

 

Concordo com a Ellie - disse Leo. O Nebels é mais complexo do que aparenta.

 

Fez uma pausa.

 

Isso, claro está, não significa que a Joan esteja errada acrescentou. Se o Nebels viu de facto o Paulie Stroebel entrar na garagem naquela noite, foi suficientemente esperto para perceber que o caso tinha prescrito e que podia ganhar umas massas sem correr riscos.

 

Mas não percebeu isso sozinho disse eu. Vieram ter com ele. E, depois, o Nebels concordou contar a história que eles queriam e foi pago para a contar.

 

Empurrei a cadeira para trás.

 

O brunch estava óptimo. Mas, agora, tenho de ganhar um jogo de xadrez ao Sean.

 

Detive-me por uns instantes para contemplar a paisagem que se desfrutava da janela. Era a segunda bela tarde de domingo que me encontrava nesta sala exactamente à mesma hora. Admirei de novo a espectacular vista do rio e das montanhas.

 

No meu mundo, o qual estava tão longe de ser tranquilo, viver uma tal experiência era como estar num oásis.

 

Ganhei o primeiro jogo, mas Sean ganhou o segundo. Concordámos jogar o terceiro «muito em breve».

 

Antes de regressar à estalagem, telefonei para o hospital e falei com a Sra. Stroebel. A febre de Paulie tinha baixado e ele sentia-se muito melhor.

 

Quer falar consigo, Ellie.

 

Quarenta minutos mais tarde, encontrava-me à sua cabeceira.

 

Estás com muito melhor aspecto do que ontem disse-lhe.

 

Ainda estava pálido, mas já não tinha o olhar baço. Estava sentado na cama, encostado a duas almofadas. Sorriu timidamente.

 

A mamã disse-me que tu sabes que eu vi o medalhão.

 

Quando é que o viste, Paulie?

 

Trabalhava na estação de serviço. O meu primeiro emprego lá era lavar e limpar os carros depois de eles serem consertados. Um dia, encontrei o medalhão entalado no banco da frente do carro do Rob. O fio estava partido.

 

Isso foi no dia em que eu encontrei o corpo da Andrea, Paulie? Não fazia sentido, pensei. Se o Rob tinha voltado naquela manhã para recuperar o medalhão, nunca o teria deixado no carro. Ou era assim tão estúpido? Paulie lançou um olhar à mãe.

 

Mamã! suplicou.

 

Está tudo bem, Paulie disse ela ternamente. Tomaste muitos remédios e é difícil lembrares-te de tudo. Contaste-me que tinhas visto o medalhão duas vezes.

 

Fitei duramente a Sra. Stroebel, tentando perceber se ela estava a incitar. Mas Paulie acenou a cabeça.

 

Tens razão, mamã. Encontrei-o com o fio partido no carro. Dei-o ao Rob e ele deu-me uma gorjeta de dez dólares. Juntei-o ao dinheiro que andava a poupar para te oferecer um presente no dia em que fizeste 50 anos.

 

Lembro-me muito bem.

 

Quando é que a senhora fez 50 anos? perguntei.

 

No dia 1 de Maio. O mês de Maio antes da Andrea morrer.

 

O mês de Maio antes da Andrea morrer! repeti, incrédula.

 

Estava perplexa. Queria dizer então que ele não tinha comprado o medalhão para a minha irmã, pensei. Devia ter sido um medalhão que alguma rapariga tinha perdido no carro dele. Rob, então, mandara gravar as iniciais e oferecera-o a Andrea.

 

Lembras-te bem do medalhão, Paulie? perguntei.

 

Lembro-me. Era de ouro, tinha a forma de um coração e pedrinhas azuis incrustadas.

 

Era exactamente assim que eu o tinha descrito no tribunal.

 

E voltaste a ver esse medalhão?

 

Voltei. A Andrea era tão simpática comigo. Disse-me que eu jogava muito bem râguebi e que, graças a mim, a nossa equipa tinha ganho o jogo. Foi então que decidi convidá-la para ir à festa comigo.

 

Fui a tua casa e vi-a a atravessar o bosque. Apanhei-a perto da casa da Sra. Westerfield. Reparei que tinha o medalhão à volta do pescoço e calculei que o Rob lho tivesse dado. Ele é mau. Deu-me uma boa gorjeta, mas é ruim. O carro dele anda sempre amolgado porque ele guia muito depressa.

 

Viste-o nesse dia?

 

Perguntei a Andrea se podia falar com ela, mas ela respondeu que nessa altura não porque estava com muita pressa. Fui-me embora, mas vi-a entrar na garagem. E, uns minutos mais tarde, o Rob também lá entrou.

 

Diz à Ellie quando foi, Paulie.

 

Foi uma semana antes da Andrea morrer nessa garagem. Uma semana antes...

 

Depois, uns dois dias antes de ela morrer, voltei a falar com a Andrea. Disse-lhe que o Rob era má pessoa e que ela não devia encontrar-se na garagem com ele. Sabia que o teu pai ficaria muito zangado se soubesse.

 

Paulie olhou-me de frente.

 

O teu pai sempre foi muito bom comigo, Ellie. Dava-me gorjetas para eu encher de gasolina o depósito do carro dele e falava comigo sobre râguebi. Era muito amável.

 

Preveniste a Andrea acerca do Rob na mesma altura em que lhe pediste para ir à festa contigo?

 

Sim. E ela respondeu que iria, mas pediu-me para não falar do Rob ao pai.

 

E nunca mais voltaste a ver o medalhão?

 

Não, Ellie.

 

E nunca mais foste outra vez à garagem?

 

Não, Ellie.

 

Paulie fechou os olhos e percebi que ele estava a ficar muito cansado. Pus a minha mão em cima da dele.

 

Paulie, não quero causar-te mais preocupações. Prometo que vai tudo correr bem e toda a gente há-de saber como tu és bom e simpático. E também esperto. Ainda eras um miúdo, mas percebeste logo que o Rob não prestava. Há uma data de gente por estas bandas que ainda não compreendeu isso.

 

O Paulie pensa com o coração disse baixinho a Sra. Stroebel.

 

Paulie abriu os olhos.

 

Tenho muito sono. Falei-te do medalhão?

 

Falaste, sim.

 

A Sra. Stroebel acompanhou-me até ao elevador.

 

Tentaram tanto culpar o Paulie pela morte da Andrea durante o julgamento. Fiquei cheia de medo. Foi por isso que lhe disse para nunca falar do medalhão.

 

Compreendo.

 

Espero que sim. Uma criança especial precisa sempre de ser protegida, até mesmo depois de ser adulta. Ouviste o advogado do Westerfield a dizer a toda gente que, se houvesse um novo julgamento, ele provaria que foi o Paulie quem matou a Andrea. Consegues imaginar o Paulie no banco das testemunhas com esse homem a interrogá-lo?

 

Esse homem. William Hamilton.

 

Não, não consigo. Dei-lhe um beijo na face.

 

O Paulie tem sorte de a ter a si, Sra. Stroebel. Ela baixou os olhos para encontrar os meus.

 

Ele tem sorte de ter a ti, Ellie.

 

Às sete horas pus-me a caminho para ir jantar com a Sra. Hilmer, e é evidente que tive de passar pela nossa antiga casa. Estava profusamente iluminada e, com a Lua a brilhar por detrás dela, parecia a capa de uma revista de decoração. Era a casa que a minha mãe tinha imaginado, exemplo perfeito de uma casa de campo lindamente aumentada e restaurada.

 

As janelas do meu quarto davam para a fachada frontal e vi a silhueta de uma pessoa a mover-se por detrás delas. Os Kelton, a quem agora a casa pertencia, eram um casal de cinquenta e poucos anos. Tinham sido as únicas pessoas que vira na noite do incêndio, mas podiam ter filhos adolescentes, os quais, apesar do barulho das sirenas da polícia e dos carros de bombeiros, tinham continuado a dormir. Perguntei a mim própria se quem agora estava no meu antigo quarto gostaria de acordar cedo e permanecer na cama a contemplar o nascer do Sol como eu gostava.

 

A casa da Sra. Hilmer também se encontrava bem iluminada. Os faróis do meu carro iluminaram os destroços carbonizados da garagem e do apartamento. Os candelabros e a fruteira que decoravam a mesa da sala de jantar vieram-me absurdamente à cabeça. Não possuíam qualquer valor, mas tinham sido escolhidos com cuidado e gosto.

 

Tudo no apartamento por cima da garagem fora escolhido com cuidado e, se a Sra. Hilmer decidisse reconstruí-lo, os candelabros e a fruteira eram o género de objectos que necessitariam de tempo e esforço para ser substituídos.

 

Entrei a pensar nisso em casa dela pronta a reiterar as minhas desculpas, mas ela não me quis ouvir.

 

Deixe de se preocupar com a garagem, Ellie! suspirou, dando-me um beijo. Alguém a incendiou deliberadamente.

 

Eu sei. Mas não acha que a culpa é minha?

 

É evidente que não, Ellie. Quando voltei e o Brian White entrou cá em casa acusando-a praticamente de ser uma pirómana, disse-lhe das boas. Caso isso a faça sentir melhor, lembre-se de que ele até me disse que eu estava a imaginar coisas quando o avisei que andava a ser seguida. Também o esclareci quanto a esse assunto. É incrível pensar que quem quer que, na outra noite, tenha entrado no apartamento enquanto você estava aqui a jantar chegasse ao ponto de roubar premeditadamente as toalhas só para a incriminar.

 

Como tirava toalhas de banho do armário todos os dias, nunca reparei que faltavam cinco ou seis.

 

E como é que podia ter reparado em tal coisa? Havia imensas. Atravessei uma fase em que não resistia a saldos e, agora, tenho toalhas que me vão durar até ao dia do Juízo Final. Bem, o jantar já está pronto e deve estar com fome. Vamos para a mesa.

 

O jantar foi camarões fritos acompanhados por uma salada. Estava delicioso.

 

Duas excelentes refeições num só dia comentei. Estou a ser estragada com mimos.

 

Perguntei-lhe pela neta e soube que estava melhor do pulso partido.

 

Foi maravilhoso passar algum tempo com a Janey, e o bebé é adorável. Mas deixe que lhe diga, Ellie, após uma semana já estava pronta para voltar para casa. Há muito tempo que não tinha de me levantar às cinco da manhã para aquecer um biberão.

 

Disse-me que via regularmente o meu website e apercebi-me de que a sua simpatia por Rob Westerfield estava a esmorecer.

 

Quando li a declaração da psicóloga a dizer que o Rob lhe tinha torcido o braço, fiquei muito chocada. A Janey também trabalhou como empregada de mesa quando andava na universidade e a ideia de ela poder ter sido brutalizada daquela maneira indignou-me.

 

Espere até ver o que vou tornar público a seguir. Também espancou brutalmente um colega quando andava na escola preparatória.

 

A situação está cada vez pior. O que se passou com o Paulie também me afligiu. Como é que ele está?

 

Está a melhorar. Fui visitá-lo esta tarde.

 

Hesitei. Não tinha a certeza de querer partilhar com ela o que Paulie me dissera sobre o medalhão. Mas, por fim, decidi contar-lhe. A Sra. Hilmer era de confiança e um óptimo barómetro da opinião local. Sabia que ela sempre acreditara firmemente que o medalhão era fruto da minha imaginação. Seria interessante e útil observar, agora, a sua reacção.

 

Deixou o chá dela arrefecer enquanto me escutava e a sua expressão tornou-se grave.

 

Não admira que a Sra. Stroebel não tenha querido que o Paulie falasse do medalhão, Ellie. Essa história poderia muito bem virar-se contra o filho.

 

Eu sei. O Paulie admitiu ter descoberto o medalhão, entregá-lo depois ao Rob e ficar preocupado ao ver a Andrea entrar na garagem com ele ao pescoço.

 

Fiz uma pausa e fitei-a.

 

Acha que foi realmente isso que aconteceu, Sra. Hilmer?

 

O que eu acho é que, apesar de todo o dinheiro dos Westerfield, o Rob se portou de forma reles e viciosa. Deu à Andrea o que provavelmente outra rapariga perdeu no carro dele. Aposto que gastou apenas uns dois dólares para mandar gravar as iniciais dele e da Andrea e que, depois, se armou em generoso.

 

Pensei em tentar encontrar quem fez a gravação, mas, passados tantos anos, é quase impossível...

 

Quer dizer, então, que não sabe o que há-de fazer quanto a essa nova informação?

 

Não, não sei. Fiquei tão contente por ver a minha recordação do medalhão confirmada que nem sequer pensei mais nisso. O medalhão é uma espada de dois gumes e, caso haja outro julgamento, o Paulie pode vir a ser incriminado.

 

Falei à Sra. Hilmer de Alfie e da planta da casa dos Westerfield.

 

Todos nós desconfiámos que se tratava de um plano concebido por alguém da casa comentou ela. A Sra. Dorothy Westerfield é uma pessoa amável e delicada. Pensar que o único neto dela pudesse planear matá-la é inconcebível. Vi-a muitas vezes com o Rob antes de ele ser preso. Ele mostrava-se sempre tão atencioso com ela.

 

Se o Alfie mo permitir, vou publicar essa história na Internet disse eu. Talvez a Sra. Westerfield fique convencida ao ver o diagrama.

 

A descrição de Will Nebels a apalpar-me e a beijocar-me no restaurante deixou durante uns instantes a Sra. Hilmer muda de indignação.

 

E um homem como esse seria considerado uma testemunha de confiança num novo julgamento? articulou finalmente.

 

Não necessariamente, mas podia causar imensos estragos e fazer com que a opinião pública se virasse contra o Paulie.

 

Apesar dos protestos dela, ajudei-a levantar a mesa e a arrumar a cozinha.

 

Está a pensar reconstruir a garagem e o apartamento? perguntei-lhe.

 

Sorriu enquanto metia os pratos dentro da máquina de lavar a louça.

 

Não quero que a companhia de seguros me ouça, mas o incêndio foi uma boa coisa. Tenho um bom seguro e, agora, tenho um lote vazio onde posso construir o que quiser. A Janey adoraria vir viver para cá. Acha que é um sítio magnífico para criar uma criança. Se eu lhe oferecer esse lote, ela vai construir uma casa e eu terei a minha família a morar mesmo ao meu lado.

 

Soltei uma gargalhada.

 

Está a fazer sentir-me muito melhor. Dobrei o pano de limpar os pratos.

 

Tenho, agora, de me pôr a caminho. Amanhã vou à Academia Carrington para descobrir mais coisas sobre o passado glorioso do Rob Westerfield.

 

A Janey e eu lemos os recortes de jornais e as transcrições do julgamento. Trouxe-me à memória os horríveis momentos que todos vocês devem ter vivido.

 

A Sra. Hilmer foi buscar o meu casaco de cabedal. Enquanto o abotoava, lembrei-me de que não lhe tinha perguntado se o nome «Phil» lhe dizia alguma coisa.

 

Na prisão, e sob o efeito de drogas, o Rob Westerfield contou a um companheiro de cela ter morto à pancada um homem chamado Phil. Alguma vez ouviu falar de alguém com esse nome que tenha desaparecido ou sido vítima de homicídio por estas bandas?

 

Phil... repetiu fazendo um esforço para se concentrar. Houve um Phil Oliver que teve uma desavença terrível com os Westerfield porque eles não lhe renovaram o aluguer de uma propriedade qualquer. Mas ele foi-se embora.

 

Sabe o que é que lhe aconteceu depois?

 

Não, mas posso informar-me. Ele e a família tinham aqui bons amigos e, se calhar, ainda mantêm relações.

 

Não se importa de lhes perguntar?

 

Claro que não.

 

Abriu hesitantemente a porta.

 

Li qualquer coisa sobre um jovem chamado Phil que morreu há uns tempos... Não me lembro bem, mas era bastante triste.

 

Veja lá se se recorda, Sra. Hilmer. É muito importante.

 

Phil... Phil... Oh, Ellie, não consigo lembrar-me.

 

É evidente que tive de me conformar. Mas, ao despedir-me da Sra. Hilmer uns minutos mais tarde, insisti para ela não pensar mais no assunto e deixar o subconsciente funcionar.

 

Sentia no fundo de mim que estava quase a apanhar Rob Westerfield.

 

O carro que esta noite me seguia era muito mais discreto do que o de Teddy. Tinha os faróis apagados. Só reparei na sua presença quando tive de me deter num semáforo antes de entrar no parque de estacionamento da estalagem e ele teve de parar mesmo atrás de mim.

 

Virei-me para tentar ver quem era. O interior do carro estava escuro, mas percebi que não se tratava de Teddy.

 

Surgiu então outro carro vindo da estalagem e os seus faróis iluminaram o rosto do motorista.

 

Hoje era o meu pai que queria certificar-se de que eu chegava sã e salva à estalagem. Fitámo-nos durante uma fracção de segundo e, depois, eu virei à esquerda e ele seguiu em frente.

 

Alfie telefonou-me na segunda-feira de manhã.

 

Ainda está interessada?

 

Estou, sim. O meu banco fica em Oldham-Hudson, na rua principal. Podemos encontrar-nos no parque de estacionamento às nove e cinco.

 

Está bem.

 

Ao sair do banco, vi-o estacionar junto do meu carro. Da rua, ninguém podia aperceber-se do que se estava a passar. Abriu a janela.

 

Passe para cá o dinheiro. Entreguei-lho.

 

Tome lá a planta da casa disse-me depois de o ter contado.

 

Examinei-a atentamente. À luz do dia, e tomando em consideração que tinha sido desenhada pelo neto de 17 anos da vítima potencial, parecia ainda mais arrepiante. Estava disposta a pagar o que Alfie pedisse para ele me autorizar a publicá-la no meu website.

 

Sabe que o caso prescreveu, Alfie, e que, mesmo que os chuis viessem a saber que foi você quem me passou este diagrama, não poderiam comprometê-lo. Mas, se eu a mostrar no meu website e escrever sobre o que me contou, a Sra. Westerfield poderá muito bem deserdar o Rob e deixar o seu dinheiro a obras de caridade.

 

Mantinha-me de pé ao lado da carrinha enquanto Alfie estava sentado lá dentro com as mãos no volante. Ele tinha exactamente o aspecto da pessoa em que se tinha tornado: um tipo trabalhador que nunca tivera muitas oportunidades.

 

Prefiro correr o risco do Westerfield vir atrás de mim do que o ver a viver à grande. Faça o que quiser.

 

Tem a certeza?

 

Absoluta. É de certo modo uma compensação pelo o que Skip sofreu.

 

Depois da experiência de ter guiado até Boston no meio de um tráfego intenso, dei-me bastante tempo para me deslocar a Maine ao marcar um novo encontro com Jane Bostrom, a directora do departamento de admissões da Academia Carrington.

 

Foi por isso que cheguei a Rockport com tempo suficiente para comer uma tosta de queijo e beber uma coca-cola num café a quilómetro e meio da escola o que me fez sentir preparada para ter uma conversa com ela.

 

Recebeu-me de forma cordial, mas reservada, quando me introduziram no seu gabinete. Tive logo a impressão de que ela não iria mostrar-se muito cooperativa e dar-me a informação que eu necessitava. Convidou-me a sentar na cadeira diante da sua secretária. Como muitos executivos, tinha uma área reservada a visitas com um sofá e várias poltronas, mas não insinuou que nos fôssemos lá sentar.

 

Era mais jovem do que eu esperava. Tinha cerca de 35 anos, cabelo escuro e grandes olhos cinzentos que lhe davam uma expressão atenta. Pela conversa que tínhamos tido ao telefone, era óbvio que ela se orgulhava da reputação da escola e não admitiria que uma jornalista a destruísse por causa de um aluno.

 

Permita-me que lhe fale com toda a franqueza, Dra. Bostrom disse eu. O Rob Westerfiel passou dois anos em Carrington. Veio para cá depois de ser expulso, aos 14 anos, de outra escola preparatória por ter espancado brutalmente um colega.

 

Aos 17, planeou assassinar a avó. A pobre senhora levou três tiros e é um milagre ela ter sobrevivido. Aos 19, matou a minha irmã à pancada. Estou actualmente a investigar a possibilidade de ele ter morto outra pessoa.

 

Vi a consternação estampar-se no rosto dela. Demorou um certo tempo a recuperar a fala.

 

O que me está a dizer sobre o Rob Westerfield é horroroso, Ms. Cavanaugh. Peço-lhe, por favor, para compreender uma coisa. Tenho a ficha do Rob diante de mim e não existe absolutamente nada nela que indique ter havido qualquer problema de comportamento grave enquanto ele cá esteve.

 

Acho difícil de acreditar que, com todos os episódios violentos que tenho vindo a descobrir, ele tenha passado aqui dois anos sem cometer algo de grave. Posso perguntar-lhe há quanto tempo trabalha nesta academia, Dra. Bostrom?

 

Há cinco anos.

 

Então, claro está, a única coisa em que se baseia é um registo que pode ter sido manipulado.

 

Tenho-o aqui à minha frente.

 

Posso perguntar-lhe se os Westerfield fizeram alguma doação significativa à Academia Carrington?

 

Na altura em que o Rob estudava aqui, ajudaram a renovar e a equipar o centro de atletismo.

 

Estou a ver.

 

Não percebo o que está a ver, Ms. Cavanaugh. Tente, por favor, compreender que muitos dos nossos alunos passaram emocionalmente por maus momentos e precisam de compaixão e orientação. Foram, umas vezes, meros peões em desagradáveis processos de divórcio e, outras, um dos pais abandonou-os pura e simplesmente. Ficaria espantada com o que isso pode causar a uma criança.

 

Oh, não, não ficaria nada espantada, pensei. Para dizer a verdade, até compreendo perfeitamente.

 

Alguns deles não conseguem dar-se bem nem com os colegas nem com os adultos.

 

Parece ter sido esse o caso do Rob Westerfield comentei. Mas, infelizmente para nós, a família dele tentou sempre protegê-lo à custa de dinheiro.

 

Tem de entender que dirigimos esta escola com firmeza. Acreditamos que um passo importante para curar problemas emocionais é ajudar a construir um sentimento de auto-estima. Esperamos que os nossos alunos mantenham boas notas, participem em desportos ou outras actividades e se ofereçam, como voluntários, para programas comunitários patrocinados pela nossa escola.

 

E está a querer dizer-me que o Rob Westerfield cumpriu de boa vontade e alegremente todos esses objectivos?

 

Quase mordi a língua. Jane Bostrom tinha tido a amabilidade de me conceder uma entrevista e estava a responder sinceramente às minhas perguntas. Era óbvio que quaisquer incidentes graves causados por Rob Westerfield na escola não constavam da ficha que ela tinha em sua posse.

 

Aparentemente, o Rob Westerfield cumpriu de forma satisfatória para a nossa escola tais objectivos.

 

Tem uma lista dos alunos que frequentaram a escola enquanto ele cá esteve?

 

Evidentemente.

 

Posso vê-la?

 

Para que propósito?

 

Quando estava na prisão, e sob o efeito de drogas, o Rob declarou a outro recluso ter morto à pancada um certo Phil e que isso o tinha feito sentir-se muito bem. É provável que tenha conhecido aqui um aluno chamado Phil, ou Philip.

 

Os olhos dela assombraram-se e a expressão do seu rosto tornou-se progressivamente mais preocupada à medida que absorvia as implicações do que eu tinha dito. Levantou-se.

 

O Dr. Douglas Dittrick é professor da Carrington há 40 anos. Vou convidá-lo a juntar-se a nós e pedir igualmente que me enviem as listas dos alunos que aqui se encontravam durante esses anos. Penso que é melhor irmos para a sala de conferências pois teremos assim mais espaço para examinar as listas.

 

O Dr. Dittrick mandou dizer que estava a meio de uma palestra e que viria ter connosco dentro de um quarto de hora.

 

É um excelente professor disse-me Jane Bostrom enquanto desdobrávamos as listas. Acho que ele não se mexeria até terminar a palestra mesmo que o tecto estivesse a cair.

 

Parecia, agora, sentir-se mais à vontade comigo e via-se que estava a querer ajudar.

 

Temos muitos alunos que são conhecidos pelo segundo nome e não pelo primeiro preveniu-me.

 

Na altura em que Rob tinha estado em Carríngton, o número de estudantes totalizava os seiscentos. Percebi rapidamente que não havia muitos Philip. Os nomes mais comuns, James, John, Mark e Michael, apareciam regularmente nas listas.

 

E muitos outros: William, Hugo, Charles, Richard. Henry, Walter, Howard, Lee, Peter, George, Paul, Lester, Ezekiel, Francis, Donald, Alexander...

 

E, a seguir, Philip.

 

Aqui está um disse eu. Era aluno do primeiro ano quando o Rob andava no segundo

 

Jane Bostrom levantou-se e veio espreitar por cima do meu ombro.

 

Faz parte do nosso conselho de administração disse ela. Continuei à procura.

 

O professor Dittrick veio, finalmente, ter connosco.

 

O que é que há assim de tão urgente, Jane? perguntou. Ela apresentou-me e explicou-lhe o que se passava. Dittrick

 

tinha cerca de 70 anos, altura média, um rosto erudito e um firme aperto de mão.

 

Claro que me lembro do Westerfield. Formou-se dois anos antes de ter morto aquela rapariga.

 

Era a irmã da Ms. Cavanaugh interrompeu a Dra. Bostrom.

 

Lamento imenso, Ms. Cavanaugh. Foi uma tragédia horrível. E, agora, está a ver se encontra alguém chamado Phil que tenha sido vítima de homicídio?

 

Estou. Dou-me conta de que possa ser um bocado difícil, mas tenho de explorar essa possibilidade.

 

Claro.

 

Virou-se para Bostrom.

 

Jane, por que é que não vai ver se a Corinne está livre? Se assim for, peça-lhe para vir até cá. Há 25 anos, ela não era a directora do teatro, mas fazia parte do pessoal. Peça-lhe para trazer os programas dos espectáculos em que o Westerfield entrou. Parece que havia algo de esquisito na forma como ele era apresentado no programa.

 

Corinne Barsky chegou 20 minutos mais tarde. Era uma mulher esbelta e animada com cerca de 60 anos, olhos negros vivos e uma voz calorosa e sonora. Trazia os programas que tinham sido solicitados.

 

Por essa altura, já tínhamos dois alunos cujo primeiro nome era Philip e outro com Philip como segundo nome.

 

Um deles, como Jane Bostrom me tinha informado, pertencia ao conselho de administração da escola, e o Dr. Dittrick lembrava-se que o que tinha o segundo nome de Philip assistira ao vigésimo aniversário do curso há dois anos.

 

Restava apenas um a verificar e a secretária do professor consultou o computador. Vivia em Portland, Oregon, e contribuía anualmente para o fundo escolar. A última contribuição tinha tido lugar em Junho passado.

 

Lamento tê-los feito perder tempo para nada desculpei-me. Deixem-me dar uma rápida olhadela aos programas e prometo que me vou logo embora.

 

Rob representava o papel masculino principal.

 

Lembro-me bem dele disse Corinne Barsky. Era bom a valer. Muito cheio de si mesmo e extremamente arrogante em relação aos outros alunos, mas um óptimo actor.

 

Quer dizer, então, que não teve quaisquer problemas com ele? perguntei-lhe.

 

Oh, recordo-me de que ele armou uma grande zaragata com o director. Queria usar o seu nome artístico em vez do nome do protagonista. Mas o director recusou.

 

E que nome era esse?

 

Só um minuto. Vou tentar lembrar-me.

 

Não se passou qualquer coisa com o Rob Westerfield e uma peruca, Corinne? perguntou o Dr. Dittrick. Lembro-me de algo assim.

 

Queria pôr uma peruca que tinha usado durante um espectáculo na escola onde dantes andara, mas o director também não permitiu isso. O Rob saiu do camarim com a peruca dele e só a trocou pela que tinha de usar na peça no último segundo. Ouvi dizer que também costumava andar por aí com essa peruca enfiada na cabeça. Foi repreendido inúmeras vezes por causa disso, mas continuou a fazê-lo.

 

A Dra. Bostrom olhou para mim.

 

Isso não consta da ficha dele disse-me.

 

É evidente que a ficha do Westerfield foi limpa disse impacientemente o Dr. Dittrick. Por que é que acham que o centro de atletismo foi completamente renovado nessa altura? Bastou o Egan, o presidente da administração, sugerir ao pai que o Rob talvez se sentisse melhor noutra escola.

 

A Dra. Bostrom voltou a olhar para mim com ar alarmado.

 

Não se preocupe. Não vou publicar isso sosseguei-a. Fui buscar o telefone portátil à bolsa.

 

Vou-me já embora, mas tenho de fazer um telefonema antes de partir. Tenho estado em contacto com o Christopher Cassidy, a pessoa em quem o Westerfield bateu quando ambos estudavam em Arbinger. O Sr. Cassidy contou-me que o Westerfield usava por vezes o nome de uma personagem que tinha representado no palco. Prometeu que ia tentar descobrir de que nome se tratava.

 

Marquei o número.

 

Companhia de Investimentos Cassidy disse energicamente a telefonista.

 

Estava com sorte. Christopher Cassidy tinha regressado da viagem à Europa e passaram-mo imediatamente.

 

Fartei-me de procurar, mas acabei por descobrir o nome que o Westerfield usava disse-me em tom triunfante. É de uma personagem de uma das peças que ele representou.

 

Já me lembro do nome estava Corinne Barsky a dizer, toda excitada.

 

Cassidy encontrava-se em Boston e Barsky estava a poucos metros de mim no estado de Maine. Mas ambos pronunciaram o mesmo nome.

 

Jim Wilding.

 

Jim! pensei. Fora Rob quem desenhara a planta da casa.

 

Tenho de atender outra chamada, Ellie desculpou-se Cassidy.

 

Faça favor. Era tudo o que precisava de saber.

 

O que escreveu no seu website sobre o que lhe contei é formidável. Tem todo o meu apoio.

 

Desligou.

 

Corinne Barsky tinha aberto um dos programas.

 

Isto deve interessá-la, Ms. Cavanaugh. O director costumava pedir a todos os membros do elenco para assinar os programas.

 

Estendeu-mo e apontou com um dedo.

 

Com desafiadora arrogância, Rob Westerfield tinha assinado, não o nome dele mas o de Jim Wilding.

 

Fiquei a olhar para a assinatura durante um longo minuto.

 

Preciso de fazer uma cópia disse. Cuidem bem do original, por favor. Até gostaria de lhes pedir que o guardassem num cofre.

 

Vinte minutos mais tarde, estava sentada no meu carro a comparar a assinatura na planta da casa e a do programa.

 

Não sou perita em grafologia, mas, ao comparar a maneira como o nome «Jim» estava assinada em ambos os documentos, pareceu-me que as assinaturas eram iguais.

 

Regressei a Oldham exultante perante a perspectiva de as mostrar lado a lado na Internet.

 

A Sra. Dorothy Westerfield seria obrigada a encarar a verdade. O neto tinha planeado assassiná-la.

 

Devo confessar que desfrutei o benevolente sentimento de estar prestes a dar grandes alegrias a um dado número de obras de caridades, hospitais, bibliotecas e universidades.

 

Quando me deito, tenho o hábito de colocar o telefone portátil na almofada ao lado da minha. Desatou a tocar na terça-feira de manhã e acordou-me. Enquanto articulava um sonolento «Alo», lancei um olhar ao relógio e fiquei chocada ao ver que eram nove horas.

 

Deves ter feito uma noitada.

 

Era Pete.

 

Vamos lá a ver disse eu. Guiei de Maine a Massachusetts e atravessei o estado de Nova Iorque. Foi a noite mais excitante de toda a minha vida.

 

Talvez estejas demasiado cansada para vires até Manhattan.

 

Talvez estejas a tentar safar-te do convite para eu ir a Manhattan insinuei.

 

Por esta altura já estava completamente acordada e à beira de ficar desapontada e zangada.

 

A minha sugestão era eu ir buscar-te a Oldham e, depois, descobrirmos um sítio onde jantarmos juntos.

 

Isso é diferente disse alegremente. Estou a pensar num lugar óptimo a apenas 15 minutos da estalagem.

 

Assim é que é falar. Dá-me as direcções. Foi o que fiz e ele felicitou-me.

 

És uma das poucas mulheres que conheço que sabe dar direcções precisas. Fui eu que te ensinei? Não vale a pena responderes. Chego aí por volta das sete.

 

Clique.

 

Chamei o serviço de quartos, tomei um duche, lavei o cabelo e marquei lugar num salão de pedicura perto da estalagem para as quatro horas. Partira várias unhas quando tinha caído no parque de estacionamento e queria tratar do assunto.

 

Até demorei a examinar o meu reduzido guarda-roupa e acabei por escolher as calças e o casaco castanho com punhos e gola de caracul. O fato comprado impulsivamente no fim da estação do ano passado e, mesmo a metade do preço, tinha sido caro e eu ainda não o usara.

 

Exibi-lo diante de Pete pareceu-me uma boa ideia.

 

Era confortável antecipar algo ao fim do dia. Sabia que não ia ser fácil passar a tarde a escrever a história de Alfie sobre o assalto e associar o diagrama incriminatório à utilização do nome de Jim por Rob Westerfield.

 

Quando digo não ser fácil refiro-me à parte emocional, por causa da insuportável certeza de que, se Rob Westerfield tivesse sido condenado por esse crime, Andrea nunca o teria conhecido.

 

Estaria na prisão. E ela teria crescido e ido para a universidade, como Joan; talvez mesmo se casasse e tivesse filhos. Os meus pais ainda viveriam naquela casa maravilhosa; o papá acabaria por gostar de lá morar tanto como ela e, por esta altura, já se teria dado conta da boa compra que fizera.

 

Eu teria crescido num lar feliz e ido igualmente para a universidade. Ter escolhido a carreira de jornalista nada tinha a ver com a morte de Andrea, e, assim, eu trabalharia provavelmente no mesmo género de emprego. Era uma profissão que naturalmente me atraía. Continuaria solteira. Penso que sempre preferi uma carreira a um compromisso.

 

Se Rob tivesse sido condenado, eu não teria passado a vida a lamentar a morte da minha irmã e a ansiar o que perdera.

 

Agora, mesmo que consiga convencer a avó de Rob e o resto do mundo da sua culpabilidade, ele ainda pode escapar pois o crime de que ele é acusado já prescreveu.

 

E, mesmo que a avó altere o testamento, o pai é rico e, assim, Rob há-de viver bem.

 

Mentiroso como ele é, a história que Will Nebels irá contar num segundo julgamento pode criar suficientes dúvidas no espírito dos jurados para que estes absolvam Westerfield.

 

E, então, o seu cadastro criminal ficará limpo.

 

Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

Havia apenas uma maneira de voltar a pôr Rob Westerfield atrás das grades: seguir a pista de Phil, essa outra pessoa a quem ele tirara a vida. Felizmente, os casos de homicídio não prescreviam.

 

Estava pronta a transferir tudo para o website por volta das três e meia: o espancamento de Christopher Cassidy na escola preparatória; a mania de Rob usar o nome de Jim por causa da personagem que ele representara no palco; o papel dele no plano para matar a avó.

 

Expliquei que William Hamilton, o advogado nomeado pelo tribunal, tinha destruído o diagrama original que implicava Westerfield e terminei o artigo mostrando a planta da casa e o programa lado a lado. No ecrã, a semelhança entre as duas assinaturas de «Jim» era impressionante.

 

Beijei a ponta dos dedos para me despedir do artigo, carreguei na tecla adequada do computador e, instantes mais tarde, a história que tinha escrito encontrava-se no meu website.

 

Era um quarto para as cinco quando regressei à estalagem. A indústria de cosméticos iria à falência se dependesse de pessoas como eu. O pouco de maquilhagem que possuía perdera-se no incêndio. Um dia ou dois mais tarde, tinha comprado uma caixa de pó-de-arroz e baton, mas chegara a altura de passar meia hora a substituir produtos tais como máscara e rouge.

 

Apesar de, nessa manhã, ter dormido até às nove, ainda tinha sono e queria fazer uma sesta antes de me vestir para ir encontrar-me com Pete.

 

Perguntei a mim própria se um maratonista se sentiria assim ao ver a meta final. Um corredor sabe que o fim da corrida está próximo. Ouvi dizer que há um momento, que dura fracções de segundo, em que o atleta abranda, toma fôlego e lança-se a toda a velocidade a caminho da vitória.

 

Era assim que eu me sentia. Tinha encostado Rob Westerfield às cordas e estava convencida de estar quase a saber a verdade do que ele fizera a Phil e onde isso tinha acontecido. Se eu estivesse certa, mandá-lo-ia de novo para a prisão.

 

Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

E, a seguir, quando fosse feita justiça de verdade, quando o comité a favor de Rob Westerfield tivesse sido dissolvido e esquecido, só então eu daria os meus próprios passos hesitantes rumo ao futuro como um pintainho acabado de nascer.

 

Esta noite, iria encontrar-me com alguém que eu desejava ver e que também queria ver-me. Onde iríamos? Não sabia e não procurava tão longe, mas, pela primeira vez na minha vida, antecipava o futuro com a minha dívida em relação ao passado quase paga. Era um sentimento cheio de esperança e gratificante.

 

Entrei na estalagem e o meu meio-irmão, Teddy, estava à minha espera.

 

Desta vez, não sorria. Parecia sentir-se pouco à vontade, mas determinado e cumprimentou-me abruptamente.

 

Temos de falar, Ellie.

 

Convidei o seu irmão a esperar por si na sala de visitas, mas ele teve receio de não a ver passar disse a Sra. Willis.

 

Tem toda a razão, eu cá não o teria visto, pensei. Teria subido as escadas como um relâmpago se soubesse que ele estava à minha espera.

 

Não queria que ela ouvisse o que quer que ele me tinha a dizer e, assim, dirigi-me para a sala de visitas. Ele fechou a porta e ficámos a olhar um para o outro.

 

Tens de me ouvir, Teddy comecei. Sei que tu e o teu pai não fazem isto por mal, mas não podem andar constantemente a seguir-me. Estou bem e sei tomar conta de mim mesma.

 

Não sabes, não.

 

Os seus olhos cintilavam e, naquele momento, parecia-se tanto com o meu pai que senti ser transportada para a sala de jantar da nossa antiga casa. O papá dizia a Andrea que estava proibida de ter alguma coisa a ver com o Rob Westerfield.

 

Vimos o que escreveste esta tarde no website. O papá está muito preocupado. Explicou-me que, agora, os Westerfield têm de pôr termo a esta situação e que hão-de fazê-lo. Disse que te tornaste uma ameaça para eles e que corres um grande perigo. Não podes fazer isso ao papá nem a ti mesma, Ellie. Nem a mim.

 

Mostrava-se tão aflito, tão veemente, que tive pena dele. Pousei a mão no seu braço.

 

Não quero afligi-los, Teddy. Estou a fazer o que tenho de fazer. Não sei como dizer-te, mas, por favor, deixa-me em paz. Viveste toda a tua vida sem mim e o teu pai viveu sem mim desde que eu era pequenina. O que é que se passa? Tentei explicar-te o outro dia... Não me conheces. Não deves preocupar-te por minha causa. És um miúdo simpático, mas deixemos as coisas como estão.

 

Não sou apenas um miúdo simpático. Sou o teu irmão. Quer queiras ou não, sou teu irmão. E pára de dizer «o teu pai». Pensas que sabes tudo, mas não sabes, Ellie. O papá nunca deixou de ser o teu pai. Falou sempre de ti e eu sempre quis ouvir o que ele tinha para dizer a teu respeito. Contou-me que eras uma miúda formidável. Nem sequer deste por isso, mas ele foi assistir à cerimónia da entrega de diplomas quando te formaste. Passou a assinar o Atlanta News quando lá começaste a trabalhar e leu todos os artigos que escreveste. Por isso deixa de dizer que ele não é teu pai.

 

Recusava-me ouvir e abanava a cabeça.

 

Não percebes nada, Teddy. Quando a minha mãe e eu fomos para a Florida, ele deixou-nos partir.

 

Ele contou-me que é isso que tu julgas, mas não é verdade. Não as deixou partir. Queria que voltassem. Tentou reavê-las. As raras vezes em que o visitaste quando a tua mãe se separou dele, não lhe dirigias uma palavra e nem sequer comias. O que é que ele deveria ter feito? A tua mãe disse-lhe que havia demasiado pesar debaixo do mesmo tecto, que ela só queria lembrar-se dos bons momentos e seguir uma nova vida. E foi o que fez.

 

Como é que sabes isso tudo?

 

Porque lhe perguntei. Porque julguei que ele ia ter um ataque cardíaco quando viu o último artigo que escreveste no website. Tem 67 anos, Ellie, e pressão arterial muito elevada.

 

Ele sabe que estás aqui?

 

Disse-lhe que vinha ver-te. Peço-te que venhas para casa comigo, mas, se não quiseres, sai pelo menos daqui e vai para um sítio onde ninguém, a não ser nós, saiba onde estás.

 

Era tão sincero e carinhoso que quase o abracei.

 

Há coisas que não compreendes, Teddy. Eu sabia que a Andrea talvez fosse encontrar-se com o Rob naquela noite, mas não disse nada. Tenho carregado essa culpa toda a minha vida. E, agora, se for novamente julgado, o Westerfield vai convencer uma data de gente que quem matou a Andrea foi o Paulie Stroebel. Não salvei a Andrea, mas tenho de tentar salvar o Paulie.

 

O papá disse-me que o culpado por a Andrea ter morrido era ele. Chegou tarde a casa. Um dos tipos com quem trabalhava ia-se casar e o papá foi tomar uma cerveja com ele. Andava preocupado porque desconfiava que a Andrea continuava a ver o Westerfield às escondidas. Contou-me que, se tivesse chegado a casa mais cedo, nunca a teria deixado ir estudar a casa da Joan naquela noite... Em vez de ir à garagem, a Andrea ficaria sã e salva em casa.

 

Via-se que acreditava plenamente no que estava a dizer-me. Estava a minha memória assim tão distorcida? Não totalmente. Não era assim tão simples. Mas era o meu constante sentimento de culpa «Se pelo menos a Ellie nos tivesse dito» apenas parte de um todo? A minha mãe deixava a Andrea sair depois do anoitecer e o meu pai suspeitava que a minha irmã continuava a ver Rob Westerfield, mas ainda não tinha tido uma conversa a sério com ela. A minha mãe tinha insistido para que nos mudássemos para o que era então uma comunidade rural e isolada. O meu pai pode ter sido demasiado rigoroso com Andrea; a sua necessidade de a proteger pode tê-la feito revoltar-se. Eu era a confidente que estava a par dos encontros em segredo.

 

Tínhamos nós os três escolhido viver com a culpa e a dor dentro das nossas próprias almas ou tínhamos tido outra escolha?

 

A minha mãe é uma mulher muito simpática, Ellie. Era viúva quando conheceu o papá. Sabe o que significa perder um ente querido. Quer conhecer-te e tu vais gostar dela.

 

Prometo que, um dia, hei-de conhecê-la, Teddy.

 

Em breve.

 

Quando isto tudo acabar. Não vai demorar muito mais tempo.

 

E vais falar com o papá? Dás-lhe uma oportunidade?

 

Quando isto acabar repeti. Iremos almoçar juntos ou uma coisa assim. Prometo. Hoje à noite vou sair com o Pete Lawlor, uma pessoa com quem trabalhei em Atlanta. Não quero que nenhum de vocês me siga. Ele vem buscar-me e, depois, vem cá trazer-me novamente.

 

O papá vai ficar aliviado por ouvir isso.

 

Agora, tenho de ir ao meu quarto, Teddy. Tenho de fazer uns telefonemas antes de sair.

 

Já disse o que queria dizer. Ou talvez não. Há mais uma coisa que o papá me disse que tu devias saber... Perdi uma menina, não posso perder outra.

 

Se estava à espera de um toque romanesco no nosso encontro, tinha-me enganado redondamente.

 

Estás com óptimo aspecto saudou-me Pete, dando-me um rápido beijo na face.

 

E tu estás tão bem vestido que até parece que ganhaste um concurso para fazer compras no Bloomimgdale’s durante 15 minutos. Vinte minutos corrigiu ele. Estou a morrer de fome, tu não?

 

Tinha reservado uma mesa no Cathryn’s.

 

Tenho um grande pedido a fazer-te disse-lhe quando íamos a caminho do restaurante.

 

Força.

 

Esta noite, não me apetece falar do que tenho feito nestas últimas semanas. Como tens visto o meu website, estás de qualquer modo ao corrente do que se passa. Mas preciso de me desligar de tudo isso durante umas horas. Esta noite é tua. Fala-me de todos os sítios por onde tens andado desde que te vi em Atlanta. Quero saber todos os pormenores da entrevista que tiveste. E, a seguir, explica-me por que é que estás tão contente com o emprego que arranjaste. Podes até dizer-me se te foi difícil escolher essa tua bela e obviamente nova gravata.

 

Pete tem uma maneira muito especial de erguer a sobrancelha. E foi o que fez.

 

Estás a falar a sério?

 

Absolutamente.

 

No minuto que vi esta gravata, soube logo que tinha de ser minha.

 

Muito bem encorajei-o. Quero que me contes mais.

 

No restaurante, percorremos o menu e pedimos salmão fumado, esparguete com mariscos e concordámos beber uma garrafa de Pinot Grigio.

 

Dá jeito o facto de ambos gostarmos das mesmas entradas comentou Pete. Torna a escolha do vinho mais fácil.

 

A última vez que aqui estive, comi uma espetada de cordeiro disse-lhe.

 

Fitou-me.

 

Adoro irritar-te admiti. Vê-se.

 

Abriu-se mais comigo durante o jantar.

 

Sabia que o jornal estava nas últimas, Ellie. É o que acontece a maior parte das vezes com negócios de família. As novas gerações só estão interessadas em dólares. Para te ser franco, estava a ficar nervoso. Na nossa profissão, e a não ser que se tenha um bom motivo para ficar numa empresa deste género, tem de se andar à coca de outras oportunidades.

 

Então por que é que não te foste embora mais cedo? Olhou para mim.

 

Sem comentários. Fiquei ciente de duas coisas quando tudo se tornou inevitável. Queria ir trabalhar para um bom jornal... The New York Times, o L.A. Times, o Chicago Tribou o Houston Chronicle... ou tentar algo completamente diferente. Podia arranjar emprego num jornal, mas foi então que surgiu «esse algo completamente diferente» e eu atirei-me de cabeça.

 

Uma nova estação de notícias por cabo.

 

Exactamente. Estou a começar do zero. Tem riscos, claro está, mas grandes investidores estão empenhados no seu sucesso.

 

Disseste que vais ter de viajar muito...

 

Muito, quer dizer, tantas viagens quantas um coordenador de notícias tem de fazer para seguir uma história importante.

 

Vais ser coordenador de notícias?

 

Talvez isso soe demasiado grandioso. Estou no serviço de informações. Breves e incisivas. Talvez dê resultado e talvez não.

 

Reflecti sobre o que ele acabava de me dizer. Pete era esperto, veemente perspicaz.

 

Acho que te vais sair muito bem disse-lhe.

 

A tua maneira de me elogiar é tão enternecedora, Ellie. Não exageres, por favor. Pode dar-me voltas à cabeça.

 

Não fiz caso.

 

Quer dizer, então, que a tua base será em Nova Iorque e que te vais mudar para lá?

 

Já mudei. Encontrei um apartamento no Soho. Não é grande coisa, mas é um começo.

 

Não vai ser uma grande mudança para ti? Toda a tua família vive em Atlanta.

 

Os meus avós, de ambos os lados, são nova-iorquinos. Costumava visitá-los imenso em miúdo.

 

Estou a perceber.

 

Calámo-nos enquanto o empregado limpava a mesa e, depois, pedimos dois expressos.

 

Acabou-se a brincadeira, Ellie. Já jogámos o jogo segundo as tuas regras. Agora, quero saber tudo o que tens andado a fazer.

 

Por esta altura eu já estava disposta a falar e, assim, contei-lhe tudo, incluindo a visita de Teddy.

 

O teu pai tem razão disse Pete quando terminei. Tens de ir para casa dele ou, pelo menos, desapareceres de Oldham.

 

Talvez ele tenha, de facto, razão admiti com relutância.

 

Tenho de ir a Chicago amanhã de manhã para me encontrar com o conselho da administração da Packard Cable. Vou estar ausente até domingo. Vai, por favor, para Nova Iorque e fica no meu apartamento. Podes manter-te em contacto com o Marcus Longo, a Sra. Hilmer e a Sra. Stroebel de lá e continuar a enviar material através do teu website. Mas estarás em segurança. Fazes-me esse favor?

 

Sabia que ele tinha razão.

 

Está bem. Mas só durante uns dias. Até decidir para onde vou. Quando voltámos para a estalagem, Pete deixou o carro à porta e acompanhou-me até lá dentro.

 

Alguém veio à procura da Ms. Cavanaugh? perguntou Pete ao empregado da recepção.

 

Não, senhor.

 

E também não há nenhum recado para ela?

 

O Sr. Longo e a Sra. Hilmer telefonaram.

 

Obrigado.

 

Ao pé das escadas, ele pôs as mãos nos meus ombros.

 

Sei que tinhas de ir ao fundo disto tudo, Ellie, e compreendo. Mas, agora, já não podes continuar sozinha. Precisas de nós.

 

Nós?

 

Sim. Do teu pai, do Teddy e de mim.

 

Tens falado com o meu pai, não tens? Fez-me uma festa no rosto.

 

Claro que tenho.

 

Sonhei imenso naquela noite. Sonhos ansiosos. Andrea a correr pelo bosque fora. Tentei chamá-la, mas não conseguia que me ouvisse e, desesperada, vi-a passar pela casa da Sra. Westerfield e entrar na garagem. Tentei avisá-la aos gritos, mas, então, Rob Westerfield apareceu e fez-me sinal para eu me ir embora.

 

Acordei ao som da minha própria voz a tentar pedir socorro. Rompia a madrugada e vi que iria ser mais outro daqueles dias cinzentos e frios de princípios de Novembro.

 

Já em criança achava as duas primeiras semanas de Novembro tristes, mas, a meio do mês, o ambiente festivo do dia de Acção de Graças pairava no ar. Só aquelas duas semanas me pareciam longas e lúgubres. Após a morte de Andrea, tal época ficou para sempre associada com a recordação dos últimos dias que passámos juntas. O aniversário da sua morte era dentro de uns dias.

 

Era nisso que pensava deitada na cama e a querer dormir mais uma hora ou duas. O sonho não era difícil de analisar. O aniversário iminente da morte de Andrea e o facto de eu saber que Rob Westerfield deveria estar furioso pelas últimas informações no meu website perturbavam o meu espírito.

 

Tinha de ter muita cautela.

 

Telefonei para o serviço de quartos às sete horas e, a seguir, pus-me a trabalhar no livro. Às nove tomei um duche, vesti-me e telefonei à Sra. Hilmer.

 

Esperava que ela me tivesse telefonado para me dizer que se lembrava porque é que o nome de Phil lhe era familiar. Mas, ao fazer-lhe a pergunta, imaginei que era pouco provável que algo relacionado com Rob Westerfield lhe viesse à cabeça.

 

Esse nome é a única coisa em que consigo pensar, Ellie disse ela com um suspiro. Telefonei-lhe ontem à noite para lhe dizer que falei com o amigo que está em contacto com o Phil Oliver, o homem que teve uma grande desavença com o pai do Rob. O meu amigo contou-me que ele continua a viver na Florida, mas que ainda está muito zangado pela maneira como foi tratado pelos Westerfield. Adora o seu website. Disse que, se quiser apregoar aos quatro ventos no seu website dados sobre o mau carácter do filho da Sra. Westerfield, terá muito prazer em falar consigo.

 

Interessante, pensei, mas, de momento, não tinha qualquer utilidade.

 

A única coisa que tenho a certeza é que o que ouvi, ou li, sobre esse Phil é bastante recente. E, se isso a ajuda, lembro-me de que fiquei triste.

 

Triste?

 

Sei que estou a dizer disparates, mas vou concentrar-me mais. Assim que me lembrar, telefono-lhe.

 

A Sra. Hilmer telefonava-me para a estalagem, mas eu não queria explicar-lhe que ia sair de lá nem entrar em pormenores sobre Pete e o apartamento dele em Nova Iorque.

 

Tem o número do meu telefone portátil, não tem, Sra. Hilmer?

 

Tenho, sim.

 

Como vou andar num rodopio, peço-lhe que me telefone antes para esse número.

 

Está bem.

 

A seguir, telefonei a Marcus Longo. Achei que tinha uma voz inquieta e tinha razão.

 

O que você pôs no seu website é um convite para que o Westerfield e o advogado dele, o William Hamilton, a processem.

 

Óptimo. Deixe-os lá fazer-me um processo.

 

Ter razão nem sempre é uma defesa legal com muito sucesso. A lei pode ser muito complicada. A planta da casa que você diz ser prova da cumplicidade do Rob Westerfield na tentativa para assassinar a avó foi-lhe dada pelo irmão do homem que disparou contra ela. E ele mesmo confessou que tinha guiado o carro até à casa dessa senhora. Esse tipo não é lá uma grande testemunha. Quanto é que lhe pagou pela informação?

 

Mil dólares.

 

Sabe como é que isso seria considerado em tribunal, não sabe? Caso não saiba, deixe que eu lhe explique. Andou com um cartaz na mão à porta da penitenciária a pedir informações e chegou até a pôr anúncios no seu website que diziam mais ou menos assim: «Quem tiver conhecimento de algum crime que Rob Westerfield possa ter cometido será devidamente recompensado.» O tipo que lhe passou o diagrama pode ser um grande aldrabão.

 

Acha que sim?

 

O que eu acho não interessa.

 

Interessa, pois, Marcus. Acredita, ou não, que o Rob Westerfield planeou assassinar a avó?

 

Acredito, mas sempre pensei que tinha sido ele. Isso nada tem a ver com o processo por difamação que lhe podem instaurar...

 

Quem dera que o façam. Tenho uns dois mil dólares no banco e um carro com areia no depósito de gasolina que, muito provavelmente, vai precisar de um motor novo, e posso ganhar uma boa maquia com o meu livro.

 

É lá consigo, Ellie.

 

Tenho duas coisas para lhe dizer, Marcus. Saio daqui hoje e vou-me instalar no apartamento de um amigo.

 

Espero que não seja por estas bandas.

 

Não, é em Manhattan.

 

Isso alivia-me imenso. O seu pai está a par disso? Caso contrário, aposto que lhe vai dizer, pensei.

 

Quantos dos meus amigos em Oldham estariam em contacto com o meu pai?, perguntei-me.

 

Não sei disse sinceramente.

 

Que eu soubesse, Pete podia ter-lhe telefonado ontem à noite logo que me deixou.

 

Ia perguntar a Marcus se ele tinha descoberto alguma vítima de homicídio chamada Phil, mas ele antecipou-se.

 

Até agora não encontrei nada que comprometa o Westerfield noutro crime disse. Mas ainda há muito a fazer. Também estamos a seguir a pista daquele nome que o Rob usava na escola.

 

Jim Wildinng?

 

Sim.

 

Concordámos manter-nos em contacto.

 

Não falava com a Sra. Stroebel desde domingo à tarde. Telefonei para o hospital esperando que me dissessem que Paulie tinha tido alta, mas ele ainda lá se encontrava.

 

A Sra. Stroebel estava a fazer-lhe companhia no quarto.

 

Está muito melhor, Ellie. Passo por aqui por volta desta hora todos os dias. Vou depois para a charcutaria e volto ao meio-dia. Abençoada seja a Greta. Conheceste-a no dia em que trouxeram o Paulie para o hospital. É tão boa... Tem-me ajudado imenso.

 

Quando é que o Paulie regressa a casa?

 

Penso que amanhã. Ele quer ver-te outra vez, Ellie. Está a tentar lembrar-se de uma coisa que lhe disseste e que ele acha que não é assim. Quer explicar-te, mas não consegue lembrar-se. Deram-lhe tantos remédios, estás a perceber...

 

O coração caiu-me aos pés. Algo que eu tinha dito? Valha-me Deus! Estava Paulie novamente confuso ou ia negar o que me tinha dito? Ainda bem que não tinha publicado a história dele relacionando Rob Westerfield com o medalhão no website.

 

Posso ir vê-lo agora propus.

 

Por que é que não vens à uma hora? Estarei aqui e julgo que isso o faz sentir-se mais à vontade.

 

Mais â vontade... pensei. Ou quer certificar-se de que ele nada dirá que o incrimine? Não, não era isso.

 

Muito bem, Sra. Stroebel. Se chegar antes da senhora, esperarei por si.

 

Obrigada, Ellie.

 

Parecia tão agradecida que tive vergonha de mim mesma por pensar que ela estava a tentar impedir Paulie de me contar a verdade. A vida dela estava agora dividida entre a charcutaria e as visitas ao filho convalescente. Deus ameniza o vento para que este não fustigue os cordeiros tosquiados. E dá a alguém como Paulie uma mãe como Anja Stroebel.

 

Consegui trabalhar durante duas horas e, depois, fui ver o website de Rob Westerfield. Ainda tinha a fotografia da minha pessoa amarrada à cama e, no comité de apoio a Rob Westerfield, figuravam mais nomes. Mas não havia nenhuma refutação à história do seu envolvimento na tentativa para matar a avó.

 

Interpretei isso como sinal de consternação geral. Ainda estavam a discutir o que haviam de fazer.

 

O telefone tocou às onze horas. Era Joan.

 

Queres almoçar rapidamente comigo à uma hora? perguntou-me. Tenho coisas para fazer e dei-me conta de que vou para os teus lados.

 

Não posso. Prometi ir visitar o Paulie ao hospital à uma disse, mas, a seguir, hesitei. Joan...

 

O que é, Ellie? Estás bem?

 

Estou óptima. Disseste-me que tinhas um recorte com a notícia necrológica que o meu pai mandou publicar no jornal...

 

Pois tenho. Até quis mostrar-ta.

 

Achas que a podes encontrar com facilidade?

 

Certamente.

 

Então, se passares pela estalagem, não te importas de a deixar na recepção?

 

Com certeza.

 

Havia uma grande actividade à entrada do hospital quando lá cheguei. Vi repórteres e operadores de câmara agrupados ao fundo da sala e virei-lhes rapidamente as costas.

 

A mulher que estava ao meu lado na bicha para obter um passe de visitante contou-me o que acontecera. A Sra. Dorohty Westerfield, a avó de Rob, tivera um ataque cardíaco e fora transportada de urgência para o hospital.

 

A noite passada, o seu advogado tinha declarado à imprensa que, em memória do falecido marido, o senador Pearson Westerfield, a Sra. Westerfield mudara o seu testamento e deixava a sua fortuna a uma fundação encarregada de a distribuir por obras de caridade e outras instituições ao longo de um período de dez anos.

 

A declaração dizia ainda que as únicas excepções seriam pequenas somas ao filho, alguns amigos e empregados antigos. O neto receberia apenas um dólar.

 

Ela foi muito esperta, está a perceber confiou-me a mulher. Ouvi jornalistas dizer que, além do advogado, ela mudou o testamento na presença de um padre protestante, um juiz amigo e um psiquiatra para servirem de testemunha que ela estava em seu perfeito juízo e sabia perfeitamente o que estava a fazer.

 

Fora provavelmente o meu website que tinha provocado o ataque de coração e a mudança do testamento. Era uma falsa vitória. Lembrei-me daquela elegante e imponente mulher a dar os pêsames à minha mãe no dia de funeral de Andrea.

 

Um jornalista reconheceu-me, mas consegui escapar pelo elevador.

 

A Sra. Stroebel encontrava-se no corredor à minha espera. Entrámos juntas no quarto de Paulie. As ligaduras à volta dos pulsos eram agora muito menos espessas. Os seus olhos eram vivos e o sorriso doce e caloroso.

 

A minha amiga Ellie! exclamou. Posso sempre contar contigo.

 

Podes crer.

 

Quero ir para casa. Estou farto daqui estar.

 

Isso é bom sinal, Paulie.

 

Quero voltar ao meu trabalho. Havia muitos clientes para almoçar quando saíste, mamã?

 

Bastantes respondeu ela com um sorriso satisfeito.

 

Não devias vir visitar-me tantas vezes, mamã.

 

Agora já não porque em breve estarás em casa, Paulie. Olhou para mim.

 

Temos um pequeno quarto na charcutaria ao lado da cozinha. A Greta instalou lá um divã e uma televisão para o Paulie. Assim, ele vai poder trabalhar, se lhe apetecer, e descansar quando quiser.

 

Parece-me uma boa ideia comentei.

 

Paulie, explica agora o que te preocupa acerca do medalhão que encontraste no carro do Rob Westerfield encorajou a mãe.

 

Eu cá não sabia o que esperar.

 

Encontrei o medalhão e entreguei-o ao Rob disse lentamente Paulie. Contei-te isso, não contei, Ellie?

 

Contaste, sim.

 

O fio estava partido.

 

Também já me tinhas dito, Paulie.

 

O Rob deu-me uma gorjeta de dez dólares e eu juntei-o ao dinheiro que andava a poupar para comprar um presente à mamã no dia dos seus anos.

 

Exactamente, Paulie. Isso foi em Maio, quando fiz 50 anos, seis meses antes da Andrea morrer.

 

Pois. O medalhão era de ouro e tinha a forma de um coração com pedrinhas azuis no meio.

 

Sim disse eu para o encorajar.

 

Vi a Andrea com ele ao pescoço. Segui-a até à garagem e vi o Rob ir atrás dela. Mais tarde, preveni a Andrea que o pai dela iria ficar muito zangado com aquilo e, a seguir, pedi-lhe para vir à festa comigo.

 

Foi isso mesmo que me contaste, Paulie. Foi assim que aconteceu, não foi?

 

Foi, mas há qualquer coisa de errado. Ellie, tu disseste uma coisa errada.

 

Deixa-me cá pensar disse-lhe.

 

Tentei reconstituir a conversa que tinha tido com ele.

 

A única coisa que me lembro e que tu não mencionaste é que eu disse que o Rob nem sequer tinha oferecido à Andrea um medalhão novo. Limitara-se a mandar gravar as iniciais dele e dela num medalhão que outra rapariga tinha deixado no carro. Paulie sorriu.

 

É isso mesmo, Ellie. Era disso que eu precisava lembrar-me. O Rob não mandou nada gravar as iniciais no medalhão. Já lá estavam quando o encontrei.

 

É impossível, Paulie. Tenho a certeza que a Andrea só conheceu o Rob em Outubro e tu encontraste o medalhão em Maio.

 

Paulie fez uma expressão contrariada.

 

Eu lembro-me, Ellie. Tenho a certeza. Vi bem que já haviam iniciais gravadas no medalhão. Não era um R e um A, era A e R. A R em letras muito bonitas.

 

Deixei o hospital com a sensação de que estava a perder o controlo dos acontecimentos. A história de Alfie e a planta da casa que tinha publicado no meu website tinham tido o efeito desejado: Rob Westerfield fora deserdado pela avó. Tal gesto correspondia a ela dizer alto e bom som: «Acredito que o meu único neto planeou matar-me.»

 

A dor sentida e a decisão que fora obrigada a tomar tinham-lhe sem dúvida provocado o ataque de coração. Aos 92 anos, parecia-me pouco provável que ela sobrevivesse.

 

Voltei a lembrar-me da calma dignidade com que ela tinha saído depois que o meu pai a pusera fora de nossa casa. Ele fora a primeira pessoa a humilhá-la por causa do neto. Ou não era bem assim?

 

O marido, o senador, tinha frequentado a escola de Arbinger e parecia-me duvidoso que ela desconhecesse a razão pela qual o neto fora expulso de lá.

 

O facto de ter alterado o testamento e tomado todas as precauções para que ele não fosse legalmente contestado significava, a meu ver, que ela não só acreditava que ele tinha planeado matá-la como também estava convencida de que Rob era responsável pela morte de Andrea.

 

Isto fez-me evidentemente voltar a pensar no medalhão.

 

O medalhão já tinha as iniciais «A» e «R» gravadas antes de Rob ter conhecido Andrea.

 

Esse facto era tão espantoso, tão exasperantemente fora de contexto com o meu raciocínio, que, depois de sair do hospital, tive de o deixar assentar no meu espírito até me habituar.

 

A manhã cinzenta tinha-se transformado numa tarde igualmente parda. O meu carro encontrava-se no fundo do parque de estacionamento do hospital e caminhei na sua direcção a passos rápidos com a gola do casaco levantada para me proteger do vento frio e húmido.

 

Meti-me no carro e arranquei, sentindo que tinha o princípio de dor de cabeça causada pelo facto de ser uma e meia e eu não ter comido desde as sete e um quarto da manhã.

 

Enquanto conduzia olhava para todos os lados para ver se descobria um café ou um restaurante. Vi vários que me pareceram bastante bons. O motivo de eu não me deter tornou-se evidente quando rejeitei mais um. Ir a um lugar público em Oldham fazia-me sentir vulnerável.

 

Voltei à estalagem, satisfeita por ali estar e também ansiosa por me encontrar no anonimato de Manhattan. A Sra. Willis estava na recepção e entregou-me um envelope. Sabia que era a notícia necrológica que Joan me deixara.

 

Levei-a para o meu quarto, pedi uma sanduíche e chá, e, depois, sentei-me numa cadeira diante da janela que dava para o rio Hudson. Era o género de paisagem que a minha mãe teria adorado, com falésias elevando-se na neblina e a água pardacenta e irrequieta.

 

O envelope estava fechado. Abri-o.

 

Cavanaugh: Genine (Reid, nome de solteira). Nascida em Los Angeles, Califórnia, 51 anos de idade. Ex-mulher amada de Edward e carinhosa mãe de Gabrielle (Ellie) e da falecida Andrea. Participava nas actividades da igreja e da comunidade e criou um lar feliz e maravilhoso para a sua família. Sentiremos sempre a sua falta e será sempre amada e lembrada.

 

Queria dizer então que a minha mãe não fora a única a lembrar-se dos anos felizes que tínhamos passado, pensei. Escrevera a meu pai uma carta impertinente para o informar da morte de minha mãe e para lhe pedir que as suas cinzas fossem enterradas na sepultura de Andrea.

 

Estava tão envolvida no meu próprio pesar que nunca me passou pela cabeça que a notícia da morte dela o poderia afectar profundamente.

 

Decidi que iria almoçar com o meu pai, conforme prometera a Teddy, quanto antes. Guardei o recorte. Queria começar a fazer as malas imediatamente e partir o mais depressa possível. Foi então que o telefone tocou.

 

Era a Sra. Hilmer.

 

Ellie, não sei se a informação que tenho é útil, mas já sei onde li a referência a uma pessoa chamada Phil.

 

Onde foi, Sra. Hilmer? Onde é que a viu?

 

Num dos jornais que me passou.

 

Tem a certeza?

 

Absoluta. Lembro-me de que a li quando me encontrava em casa da minha neta. O bebé estava a dormir e eu percorria os jornais à procura de nomes de pessoas que ainda viviam por estas lados e com quem você poderia desejar falar. Como lhe disse quando jantámos juntas, ler as transcrições do julgamento trouxe-me tantas recordações que desatei a chorar. A seguir, li algo sobre esse tal Phil que também era muito triste.

 

Mas não se lembra do que dizia?

 

É por isso que, mesmo que volte a encontrar a notícia, pode ser que tenha a pessoa errada em mente.

 

O que é que a leva a pensar isso?

 

Porque você anda à procura de um homem chamado Phil e eu li uma coisa sobre uma menina que morreu a quem a família tratava por Phil.

 

Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

Queria dizer, então, que ele estava a falar de uma rapariga?

 

A vítima era uma menina.

 

Vou reler todos esses jornais linha a linha, Sra. Hilmer.

 

É o que estou a fazer neste momento, Ellie. Telefono-lhe assim que encontrar a notícia.

 

E eu faço a mesma coisa.

 

Desliguei, pousei o telefone sobre a mesinha-de-cabeceira e peguei na sacola. Abri-a, virei-a ao contrário e as páginas amarelas e meio desfeitas dos jornais caíram em cima da cama.

 

Peguei na primeira que me veio à mão, sentei-me na janela diante do rio e comecei a ler.

 

As horas passavam e, de vez em quando, levantava-me para me espreguiçar. Às quatro, telefonei ao serviço de quarto para me trazer chá. O chá espevita. Não era esse o slogan publicitário de uma marca de chá?

 

E, de facto, espevitou-me, ajudando-me a concentrar-me.

 

Li os jornais linha a linha e voltei a ler os horríveis pormenores da morte de Andrea e o julgamento de Rob Westerfield.

 

«A R» eram, afinal de contas, as iniciais do medalhão assim tão pouco importantes? Não. Claro que não. Se o fossem, Rob nunca se arriscaria a voltar à cena do crime para o ir buscar.

 

Eram «A R» as iniciais da dona do lindo medalhão e teria sido ela mais uma vítima das fúrias assassinas de Rob?

 

Às seis horas, larguei os jornais e liguei o noticiário. A Sra. Dorothy Westerfield tinha morrido às três e meia. Nem o filho nem o neto tinham aparecido.

 

Voltei à minha leitura dos jornais. Às sete, descobri a notícia. Encontrava-se na página necrológica do jornal publicado no dia do funeral de Andrea. Dizia o seguinte:

 

Rayburn, Amy P.

 

Recordamos-te hoje e todos os dias. Feliz 18.° aniversário no céu, querida Phil.

 

A tua mamã e o teu papá.

 

«A R». Seriam as iniciais do medalhão as de Amy Rayburn? A inicial do meio era P. Poderia ser Phillys, ou Philomena, abreviada para Phil?

 

Paulie tinha encontrado o medalhão em princípios de Maio. Andrea estava morta há 23 anos. Se a dona do medalhão era Amy Rayburn, teria morrido há vinte e três anos e meio?

 

Telefonei a Marcus Longo, mas ninguém respondeu. Estava em pulgas para que ele procurasse o nome de Amy Rayburn nos relatórios de homicídio desse ano.

 

Sabia que havia uma lista telefónica de Westechester na gaveta da mesinha-de-cabeceira. Tirei-a e abri-a na página R.

 

Havia apenas dois Rayburn. Um vivia em Larchmont e o outro em Rye Brook.

 

Marquei o número do que morava em Larchmont. A voz modulada de um homem de idade respondeu. Tinha de falar de forma directa.

 

O meu nome é Ellie Cavanaugh disse. Preciso de falar com alguém da família da Amy Rayburn, a rapariga que morreu há vinte e três anos.

 

Porque motivo?

 

A voz tornou-se bruscamente ríspida. Tive a sensação de que estava a falar pelo menos com um parente da rapariga morta.

 

Por favor, responda-me a uma só pergunta disse eu. Responderei depois a todas as suas perguntas. A Amy foi assassinada?

 

Se já não sabe isso, não devia incomodar-nos. Desligou brutalmente.

 

Voltei a telefonar, mas, desta vez, foi o atendedor de chamadas que respondeu.

 

Chamo-me Ellie Cavanaugh repeti. Há vinte e três anos, a minha irmã foi morta à pancada. Creio que posso provar que o homem que a matou é também responsável pela morte da Phil. Por favor, telefone-me.

 

No momento em que ia deixar o número do meu telefone portátil, o auscultador foi levantado do outro lado.

 

Sou tio da Amy Rayburn disse-me. O que é que está para aí a dizer?... O homem que a assassinou passou 18 anos na cadeia.

 

A pessoa a quem tinha telefonado, David Rayburn, era tio da rapariga de 17 anos, Amy Rayburn, que fora assassinada seis meses antes de Andrea. Falei-lhe da minha irmã, da confissão de Rob Westerfield a outro recluso, da descoberta do medalhão feita por Paulie no carro de Rob e do facto de o medalhão ter sido tirado do corpo de Andrea.

 

Ele ouviu-me, e depois interrogou-me.

 

O meu irmão era pai da Phil, o diminutivo por quem a família e os amigos íntimos a tratavam. Vou agora telefonar-lhe e dar-lhe o seu número de telefone. Ele vai certamente querer falar consigo.

 

E, a seguir, acrescentou.

 

A Phil estava prestes a terminar o liceu e ia estudar para a universidade. O namorado dela, Dan Mayotte, sempre clamou a sua inocência e, em vez de ir para a universidade de Yale, passou

18 anos na prisão.

 

O meu telefone tocou 15 minutos mais tarde. Era Michael Rayburn, o pai de Phil.

 

O meu irmão disse-me para lhe telefonar. Não vou tentar descrever a emoção que eu e a minha mulher sentimos neste momento. O Dan Mayotte frequentava a nossa casa desde o jardim-de-infância. Confiávamos nele como num filho. Tivemos de nos resignar com a morte da nossa única filha, mas pensar que o Dan foi injustamente condenado pela morte dela é mais do que podemos suportar. Sou advogado, Ms. Cavanaugh. Que prova é que tem? O David falou-me de um medalhão...

 

Sr. Rayburn, a sua filha tinha um medalhão em forma de coração com pedrinhas azuis no meio e as iniciais dela gravadas atrás?

 

Vou passar-lhe a minha mulher.

 

Admirei o domínio cheio de dignidade da mãe de Phil assim que ela começou a falar.

 

Lembro-me da morte da sua irmã, Ellie. Tínhamos perdido a nossa filha há somente seis meses.

 

Descrevi-lhe o medalhão.

 

Tem de ser o da Phil. Era um desses berloques baratos que se compram nos centros comerciais. Ela adorava esse género de bugigangas e tinha várias. Costumava usar duas ou três coisas dessas ao mesmo tempo. Mas não sei se usava o medalhão na noite em que foi morta.

 

É possível que tenha uma fotografia da Phil com ele ao pescoço?

 

Era a nossa única filha e, por isso, estávamos sempre a tirar-lhe fotografias disse a Sra. Rayburn com voz embargada pelas lágrimas. Gostava muito desse medalhão e foi por isso que mandou gravar as suas iniciais. Tenho a certeza que posso encontrar uma fotografia dela com o medalhão ao pescoço.

 

O marido voltou a pegar no telefone.

 

Pelo o que você disse ao meu irmão, desconhece-se o paradeiro do recluso que garante ter ouvido o Rob Westerfield confessar que matou a minha filha.

 

Correcto.

 

Nunca acreditei que o Dan pudesse ter atacado de forma tão brutal a Phil. Não era uma pessoa violenta e eu sei que ele a amava. Mas não há nenhuma prova concreta que relacione o Westerfield com a morte da Phil.

 

Não, não há. Pelo menos, ainda não. Talvez seja demasiado cedo para participar ao magistrado federal que sabemos, mas, se me contar as circunstâncias do assassínio da sua filha e por que é que o Dan Mayotte foi acusado e condenado, posso publicar isso no meu website para ver se arranjamos mais informação. Não se importa de me dizer tudo o que sabe.

 

Há 23 anos que vivemos esse pesadelo, Ellie. Posso recapitular todos os pormenores.

 

Pode crer que eu compreendo. O pesadelo que a minha família teve de viver destruiu o casamento dos meus pais, acabando por matar a minha mãe de desgosto, e há 23 anos que me tortura. Sei muito bem que o senhor e a sua mulher continuam a viver um verdadeiro inferno.

 

Tenho a certeza que o sabe. O Dan e a Phil tinham-se zangado e não se viam há uma semana. Ele era ciumento e a Phil contou-nos que, na semana anterior, um tipo tinha metido conversa com ela à porta do cinema e que o Dan ficara furioso. Ela nunca nos descreveu esse tipo nem mencionou o nome dele.

 

Ela e o Dan não se falaram durante uma semana. Um dia, a Phil estava a comer uma pizza com umas amigas quando apareceu o Dan e se aproximou dela. Falaram, e acho que acabaram por fazer as pazes. Eram loucos um pelo outro.

 

Nessa altura, o Dan viu o tal tipo que se tinha metido com a Phil no cinema. Estava de pé encostado ao balcão.

 

O Dan descreveu-o?

 

Sim... Um rapaz bonito com cerca de 20 anos e cabelo castanho-escuro. Contou-me que, no cinema, tinha-o ouvido dizer à Phil que se chamava Jim.

 

Jim f, pensei. Devia ter sido numa dessas alturas em que Rob Westerfield usava uma peruca castanha escura e se fazia passar por Jim.

 

Ver esse tipo na pizzaria enraiveceu novamente o Dan. Acusou Phil de ter combinado encontrar-se com esse tal Jim, mas ela negou e disse que nem sequer tinha reparado que ele se encontrava lá. E, depois, levantou-se e foi-se embora. Toda a gente notou que se tinham zangado de novo.

 

Quando o cadáver da Phil foi descoberto, a polícia encontrou pêlos do cão do Dan, um setter irlandês, no casaco novo que ela usava naquela noite. Claro que ela tinha estado no carro dele muitas vezes, mas, como o casaco tinha sido acabado de comprar, os pêlos constituíam prova de que ela tinha entrado no carro do Dan depois de sair da pizzaria.

 

E o Dan negou que ela tivesse estado no carro dele?

 

Nunca. Disse que a convenceu a entrar para falarem calmamente da situação, mas que, quando comentou que achava uma grande coincidência que esse Jim tivesse aparecido na pizzaria por acaso, ela se zangou novamente e saiu do carro, mandando-o à fava. Segundo o Dan, a Phil bateu com a porta e encaminhou-se para o restaurante. Dan admitiu que ficou furioso e que arrancou a toda a velocidade.

 

A Phil nunca chegou a esse restaurante. Quando começou a fazer-se tarde e ela ainda não tinha chegado a casa, telefonámos às amigas com quem saíra.

 

A mamã e o papá tinham telefonado às amigas de Andrea...

 

Disseram-nos que ela estava com o Dan. Ao princípio, ficámos descansados, claro. Gostávamos muito dele e estávamos satisfeitos por terem feito as pazes. Mas as horas foram passando e, quando o Dan finalmente chegou a casa, disse-nos que tinha deixado a Phil no parque de estacionamento e que ela voltara para o restaurante. No dia seguinte encontraram o corpo dela.

 

A voz de Michael Rayburn embargou-se.

 

Morreu de múltiplas fracturas no crânio. O rosto dela ficou irreconhecível.

 

Matei Phil à pancada e senti-me lindamente.

 

O Dan admitiu que tinha ficado furioso e perturbado quando ela saíra do carro. Disse que andou às voltas de carro durante uma hora e que, depois, estacionou à beira do lago e permaneceu lá imenso tempo. Mas ninguém confirmou a sua história. Ninguém o vira e o corpo da Phil foi encontrado no bosque a cerca de dois quilómetros do lago.

 

Mais alguém viu o Jim na pizzaria?

 

Houve pessoas que se lembravam de ter visto um tipo com cabelo castanho-escuro, mas, aparentemente, ele não falou com ninguém e ninguém notou quando se foi embora. O Dan foi preso, o que deu cabo da mãe dele. Tinha-o criado sozinha e, infelizmente, morreu ainda muito jovem e não teve a felicidade de o ver de novo em liberdade.

 

A minha mãe também tinha morrido demasiado jovem, pensei.

 

Onde é que o Dan está agora? perguntei.

 

Formou-se na prisão em vez de ter sido na universidade de Yale. Ouvi dizer que trabalha como conselheiro de antigos reclusos. Nunca acreditei realmente que ele tivesse morto a Phil. Se a sua teoria estiver certa, devo as minhas mais profundas desculpas ao Dan.

 

Rob Westerfield deve-lhe muito mais do que desculpas, pensei. Deve-lhe 18 anos e a vida que ele deveria ter vivido.

 

Quando é que vai publicar o que lhe contei no seu website, Ellie? perguntou-me Michael Rayburn.

 

Assim que o escrever. Cerca de uma hora.

 

Então não a vou demorar mais. Avise-me se receber alguma informação.

 

Sabia que a minha vida estava em perigo e que este novo assalto contra os Westerfield era imprudente, mas não me importei.

 

Quando pensava em todas as vítimas de Rob Westerfield ficava furiosa.

 

Phil, filha única.

 

Dan, a vida destruída.

 

Os Rayburn.

 

A mãe de Dan.

 

A avó de Rob.

 

A minha família.

 

Dei o seguinte título à história de Phil: «PROMOTOR DA JUSTIÇA DE WESTCHESTER, PRESTE ATENÇÃO!»

 

Os meus dedos voaram sobre o teclado e, às nove horas, tinha terminado. Reli-o e, com triste satisfação, publiquei-o no website.

 

Tinha de abandonar a estalagem. Fechei o computador, fiz as malas em cinco minutos e desci.

 

Estava a pagar a conta na recepção quando o meu telefone portátil tocou.

 

Pensei que fosse Marcus Longo, mas era uma mulher com sotaque hispânico.

 

Ms. Cavanaugh?

 

Sim.

 

Tenho visto o seu website. Chamo-me Rosita Juarez. Fui governanta dos pais do Rob Westerfield. Desde o tempo em que ele tinha dez anos até ir parar à prisão. É um indivíduo muito mau.

 

Apertei o telefone e encostei-o ainda mais ao ouvido. Esta mulher trabalhava em casa dos Westerfield na altura em que Rob tinha cometido ambos os crimes. O que é que ela teria para me contar? Parecia assustada. Deus permita que não desligue supliquei.

 

Tentei acalmar a voz.

 

Sim, o Rob é realmente um indivíduo muito mau.

 

Tratava-me mal. Troçava do meu sotaque. Portou-se sempre de forma desagradável e grosseira comigo. É por isso que quero ajudá-la.

 

E como é que me pode ajudar, Rosita?

 

Você tem razão. O Rob costumava usar uma peruca castanha-escura. Quando a punha, dizia-me: «Chamo-me Jim, Rosita. Esse nome não deve ser muito difícil mesmo para uma pessoa como tu...»

 

Viu-o pôr a peruca?

 

Essa peruca está em meu poder.

 

Havia um tom matreiro e triunfante na sua voz.

 

A mãe do Rob ficava muito aflita quando ele punha a peruca e dizia que se chamava Jim, e, um dia, atirou-a para o caixote do lixo. Guardei-a. Sabia que tinha sido cara e pensei que a poderia vender. Metia-a dentro de uma caixa e esqueci-me dela até ver o que você tinha escrito no website.

 

Gostaria de ter essa peruca, Rosita. Terei muito prazer em comprá-la.

 

Não, não tem de ma comprar. Vai ajudar a fazer com que as pessoas acreditem que ele matou essa rapariga, a Phil?

 

Creio que sim. Onde é que mora, Rosita?

 

Em Phillipstown.

 

Phillipstown fazia parte de Cold Springs, a 16 quilómetros de distância.

 

Posso ir buscar a peruca a sua casa agora, Rosita?

 

Não tenho bem a certeza. Estava a começar a ficar inquieta.

 

Porquê, Rosita?

 

Porque o meu apartamento é num prédio de dois andares e a senhoria está sempre à espreita. Não quero que ninguém a veja por aqui. Tenho medo do Rob Westerfield.

 

De momento, tudo o que eu queria era pôr as mãos naquela peruca. Mais tarde, e caso Rob fosse acusado de ter morto Phil Rayburn, tentaria convencer Rosita a testemunhar.

 

Vivo perto do hotel Phillipstwon disse ela antes de eu ter tempo para tentar fazê-la mudar de opinião. Se quiser, posso guiar até lá e encontrar-me consigo na porta das traseiras.

 

Posso lá chegar dentro de 20 minutos disse-lhe. Não, digamos antes meia hora.

 

Lá estarei. A peruca vai ajudar a meter o Rob na prisão?

 

Tenho a certeza que sim.

 

Óptimo!

 

Rosita soltou um suspiro de satisfação. Tinha arranjado maneira de se vingar do adolescente desagradável cujos insultos tinha suportado durante quase dez anos.

 

Apressei-me a pagar a conta e meti as malas no carro.

 

Seis minutos mais tarde, estava a caminho da prova tangível que Rob Westerfield costumava usar uma peruca castanha escura.

 

Esperava que ainda se pudessem detectar vestígios do ADN de Rob. Isso seria a prova definitiva que a peruca lhe pertencia.

 

Pouco depois de escurecer, a ligeira neblina tinha-se transformado numa forte chuva fria. Os limpa pára-brisas do carro que tinha alugado precisavam de ser substituídos e, antes de eu ter percorrido um quilómetro, quase não via a estrada.

 

O tráfego tornou-se menos denso quanto mais subia a estrada

9 rumo a norte. Podia ver pelo mostrador no tablier que a temperatura exterior baixava e, dentro de poucos minutos, via a chuva transformar-se em granizo. À medida que o gelo se ia amontoando, era cada vez mais difícil distinguir mais do que alguns metros da estrada. Fui obrigada a manter-me na pista da direita e a guiar lentamente.

 

O tempo passava e eu tinha medo de perder Rosita. Ela parecia tão nervosa que tinha a certeza de que não iria esperar por mim se não chegasse a horas.

 

Despendia toda a minha energia para me concentrar na estrada diante de mim e só gradualmente imaginei que subia uma colina. Dei-me conta de que há já bastante tempo não via faróis vindos em sentido contrário.

 

O hotel Phillipstown não ficava a mais de 16 quilómetros da estalagem do Vale do Hudson, mas eu já percorrera 12 e ainda não o via. Tinha obviamente saído da estrada 9- Onde eu me encontrava não era nenhuma auto-estrada e estava a ficar cada vez mais estreita.

 

Lancei um olhar ao retrovisor para ver se via faróis. Nada. Frustrada e exasperada comigo mesma, travei gesto estúpido pois o carro começou a derrapar. Consegui endireitá-lo e comecei cuidadosamente a dar meia volta. Nesse preciso instante, uma luz vermelha surgiu atrás de mim, encandeando-me. Parei o carro e o que parecia um veículo da polícia parou ao meu lado.

 

Graças a Deus!, pensei. Baixei o vidro da janela a fim de pedir direcções para o hotel Phillipstown.

 

O condutor da carrinha também baixou o vidro e o homem sentado ao lado dele virou-se para mim.

 

Embora não visse o rosto dele, imaginei imediatamente que era Rob Westerfield com uma peruca castanha-escura na cabeça.

 

Era muito desagradável comigo. Troçava do meu sotaque e dizia para eu o tratar por Jim disse-me em tom trocista com perfeito sotaque hispânico e esganiçando a voz como uma mulher.

 

O meu coração quase parou de bater. Horrorizada, percebi que Rob fizera-se passar por Rosita e tinha-me preparado uma armadilha. Distingui com dificuldade o rosto do condutor era o homem que me tinha ameaçado no parque de estacionamento da estação de caminho-de-ferro perto da prisão de Sing Sing.

 

Olhei à minha volta procurando freneticamente um meio de escapar. A carrinha barrava-me o caminho. A minha única esperança era conseguir endireitar o carro, carregar no acelerador e continuar a guiar em frente às cegas. Acelerei e vi que havia arvoredo de ambos os lados e que a estrada estreitava cada vez mais. Os pneus derrapavam.

 

Sabia que não podia distanciar-me deles. A única coisa a fazer era rezar para que este caminho tivesse saída e me conduzisse a uma auto-estrada qualquer. Tinham apagado a luz do tejadilho, mas os seus possantes faróis continuavam a brilhar em cheio no meu retrovisor. E, depois, começaram a brincar comigo.

 

Encostaram-se à minha esquerda e embateram de lado contra o meu carro. Ouvi o barulho de metal a ser esmagado. O meu carro deu um pulo para a frente e eu bati com a cabeça no volante.

 

Abrandaram enquanto eu derrapava de um lado para o outro, tentando manter-me no meio da estrada. Sangrava de um corte na testa, mas consegui segurar o volante e equilibrar o carro.

 

De repente, ultrapassaram-me e meteram-se diante de mim arrancando-me o pára-choques. Ouví-o a arrastar no chão enquanto me debatia para não sair da estrada, rezando para chegar a uma intersecção ou, pelo menos, ver outro carro.

 

Mas não havia outros carros. Aguardei o terceiro assalto. Era óbvio que iriam fazer para que fosse o golpe final. Abrandaram a velocidade numa curva da estrada e passaram para a pista da esquerda. Hesitei uns segundos e, depois, acelerei esperando passar-lhes à frente. Mas eles apanharam-me facilmente e puseram-se outra vez a meu lado.

 

Lancei-lhes um breve olhar. A luz do interior estava acesa e vi Rob a acenar-me com qualquer coisa na mão.

 

Era um macaco.

 

O carro deles abalroou-me novamente, obrigando-me a sair da estrada. Tentei virar o volante, mas os pneus já não obedeciam. O carro deu uma reviravolta e rolou pela berma da estrada abaixo direito a uma muralha de árvores a uns dez metros de distância.

 

Agarrei-me ao volante. O carro capotou várias vezes enquanto eu protegia o rosto com as mãos e foi embater contra as árvores. O pára-brisas estilhaçou-se.

 

O som de metal a retorcer-se e de vidro a partir-se tinha sido ensurdecedor, mas o silêncio que se seguiu era fantasmagórico.

 

Tinha uma dor num ombro e as mãos cheias de sangue. A cabeça latejava. Mas sentia que, por milagre, não estava gravemente ferida.

 

O choque final tinha aberto a porta do lado do condutor e o granizo batia-me no rosto. O frio ajudou-me a não perder os sentidos. Tudo à minha volta estava completamente às escuras e, de repente, senti um alívio extraordinário. Pensei que, ao verem