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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS / Markus Zusak
A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS / Markus Zusak

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

 

Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

 

• REAÇÃO AO FATO SUPRACITADO •

Isso preocupa você?

Insisto — não tenha medo.

Sou tudo, menos injusta.

— É claro, uma apresentação.

Um começo.

Onde estão meus bons modos?

Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.

Nesse momento, você estará deitado(a). (Raras vezes encontro pessoas de pé.) Estará solidificado(a) em seu corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito pingará pelo ar. O único som que ouvirei depois disso será minha própria respiração, além do som do cheiro de meus passos.

A pergunta é: qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar você? Que dirá o céu?

Pessoalmente, gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que vejo o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.

 

• UMA PEQUENA TEORIA •

As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa.

Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.

Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.

No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.

 

Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a agüentar, considerando-se há quanto tempo venho executando este trabalho. O problema é: quem poderia me substituir? Quem tomaria meu lugar, enquanto eu tiro uma folga em seus destinos-padrão de férias, no estilo resort, seja ele tropical, seja da variedade estação de inverno? A resposta, é claro, é ninguém, o que me instigou a tomar uma decisão consciente e deliberada — fazer da distração minhas férias. Nem preciso dizer que tiro férias à prestação. Em cores.

Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela precisa de férias? De que precisa se distrair?

O que me traz à minha colocação seguinte.

São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm (orações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos uma especialista em ser deixada para trás.

 

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:

*          Uma menina

*          Algumas palavras

*          Um acordeonista

*          Uns alemães fanáticos

*          Um lutador judeu

*          E uma porção de roubos

Vi três vezes a menina que roubava livros.

 

AO LADO DA LINHA FÉRREA

Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante.

E muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.

 

• UM ANÚNCIO TRANQÜILIZADOR •

Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.

Sou só garganta...

Não sou violenta.

Não sou maldosa.

Sou um resultado.

 

Sim, era branco.

Era como se o globo inteiro estivesse vestido de neve. Como se houvesse enfiado aquilo, do jeito que se enfia um suéter. Junto à linha de trem, as pegadas afundavam até as canelas. As árvores usavam cobertores de gelo.

 

Não podiam simplesmente deixá-lo ali no chão. De momento, não era um problema tão grande, mas, logo, logo, a linha seria desobstruída mais adiante e o trem precisaria seguir viagem.

Havia dois guardas.

Havia uma mãe com sua filha.

Um cadáver.

A mãe, a menina e o cadáver continuaram obstinados e calados.

—        Bem, o que mais você quer que eu faça?

Os guardas eram um alto e um baixo. O alto sempre falava primeiro, embora não fosse o responsável. Olhava para o menor, mais rechonchudo. O do rosto vermelho e suculento.

— Bem — foi a resposta — não podemos só deixá-los assim, não é?

O alto estava perdendo a paciência. — Por que não?

E o baixote por pouco não explodiu. Ergueu os olhos para o queixo do altão e gritou:

—        Spinnst du?! Você está variando? — A aversão em suas bochechas adensava-se a cada momento. Sua pele foi-se alargando. — Vamos — disse, tropeçando na neve. — Levaremos todos os três de volta, se for preciso. Faremos a notificação na próxima parada.

Quanto a mim, eu já havia cometido o mais elementar dos erros. Não consigo lhe explicar a intensidade de minha decepção comigo mesma. Originalmente, eu tinha feito tudo certo:

Estudei o céu ofuscante, branco feito neve, que estava na janela do trem em movimento. Praticamente o inalei, mas, mesmo assim, titubeei. Cedi — fiquei interessada. Na menina. Fui vencida pela curiosidade e me resignei a ficar o tempo que meu horário permitisse, e observei.

Vinte e três minutos depois, quando o trem estava parado, desci com eles.

Havia uma alminha em meus braços.

Postei-me meio à direita.

A dupla dinâmica de guardas do trem voltou à mãe, à menina e ao corpinho masculino. Lembro-me claramente de que estava respirando alto nesse dia. Fiquei surpresa com o fato de os guardas não me notarem ao passarem por mim. Agora o mundo estava afundando, sob o peso de toda aquela neve.

Uns dez metros à minha esquerda, talvez, postava-se a menina pálida, de estômago vazio, enregelada.

Sua boca tremia.

Seus braços frios estavam cruzados.

Havia lágrimas cristalizadas no rosto da roubadora de livros.

 

O ECLIPSE

Depois vem uma assinatura preta, para mostrar os pólos da minha versatilidade, se assim lhe agrada. Foi no momento mais escuro antes do alvorecer.

Dessa vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e quatro anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avião ainda tossia. A fumaça vazava de seus dois pulmões.

Quando ele caiu, fez três sulcos profundos na terra. Agora suas asas eram braços serrados. Nada de bater, nunca mais. Não para aquele avezinha metálica.

 

• OUTROS PEQUENOS FATOS •

Às vezes eu chego cedo demais.

Apresso-me,

e algumas pessoas se agarram

por mais tempo à vida do que seria esperável

 

Após uma pequena coleção de minutos, a fumaça se esgotou. Na restava mais nada para acontecer.

Primeiro chegou um menino, com a respiração desordenada que parecia ser uma caixa de ferramentas. Com grande inquietação aproximou-se do cockpit e observou o piloto, avaliando se estava vivo o que, aliás, ainda estava, àquela altura. A roubadora de livros chegou talvez trinta segundos depois.

Anos se haviam passado, mas eu a reconheci.

Estava adiante.

 

Da caixa de ferramentas, o menino tirou, quem havia de imaginar, um ursinho de pelúcia.

Estendeu a mão pelo pára-brisa partido e o colocou no peito do piloto. O ursinho sorridente sentou-se, aninhado entre os destroços amontoados do homem e o sangue. Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo.

Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente.

Só restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaça e o ursinho de pelúcia sorridente.

Quando chegou toda a multidão, é claro que as coisas haviam mudado. O horizonte começava a se acinzentar. O que restava de negrume no alto já não passava de um rabisco, e desaparecia depressa.

O homem, em comparação, estava cor de osso. Pele cor de esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha os olhos frios e castanhos — feito manchas de café — e a última garatuja lá do alto formou o que me pareceu ser uma forma curiosa, mas conhecida. Uma assinatura.

A multidão fez o que fazem as multidões.

Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mãos, frases abafadas e guinadas mudas, constrangidas.

Quando me virei e olhei para o avião, a boca aberta do piloto parecia sorrir.

Uma última piada obscena.

Mais um final de piada humano.

Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz mais cinzenta fazia uma queda-de-braço no céu. Como acontecia com muitos outros, quando comecei a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra ligeira, um instante final de eclipse o reconhecimento da partida de outra alma.

Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que afetam e se atracam com o que vejo neste mundo, comigo é freqüente captar um eclipse quando morre um ser humano.

Já vi milhões deles.

Vi mais eclipses do que gosto de lembrar.

 

A BANDEIRA

Na última vez que a vi, estava vermelho. O céu parecia uma sopa, borbulhando e se mexendo. Queimado em alguns lugares. Havia migalhas pretas e pimenta riscando a vermelhidão.

Antes, houvera crianças pulando amarelinha ali, na rua que lembrava páginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era possível ouvir seu eco. Os pés batendo no chão. As vozes infantis rindo, e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa.

Depois, bombas.

Dessa vez, foi tudo tarde demais.

As sirenes. Os gritos malucos no rádio. Tudo muito tarde.

Em minutos, montes de concreto e terra se superpuseram e empilharam. As ruas eram veias rompidas. O sangue escorreu até secar no chão e os cadáveres ficaram presos ali, feito madeira boiando depois da enxurrada.

Estavam colados no chão, até o último deles. Um pacote de almas.

Seria o destino?

O azar?

Foi isso que os grudou assim?

E claro que não.

Não sejamos burros.

Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas, lançadas por seres humanos escondidos nas nuvens.

Sim, agora o céu era de um vermelho devastador, desses leitos em rasa, A cidadezinha alemã fora rasgada com violência, mais uma vez.

 

Flocos de neve feitos de cinzas caíam tão encantadoramente, que a gente ficava tentada a espichar a língua para pegá-los, prová-los. Só que eles queimariam os lábios. Cozinhariam a boca.

Claramente, eu vi.

Estava prestes a ir embora, quando a encontrei ajoelhada.

Uma cordilheira de escombros fora escrita, desenhada, erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um livro.

Afora todo o resto, a menina que roubava livros queria desesperadamente voltar para o porão, escrever ou ler sua história até o fim, uma última vez. Olhando para trás, vejo tudo muito óbvio em seu rosto. Ela morria de saudade daquilo — da segurança, da familiaridade —, mas não conseguiu se mexer. Além disso, o porão já nem existia. Era parte da paisagem mutilada.

Por favor, mais uma vez, peço-lhe que acredite em mim. Tive vontade de parar. Agachar-me. Tive vontade de dizer:

Sinto muito, menina. Mas isso não é permitido. Não me agachei. Não falei.

Em vez disso, observei-a por algum tempo. Quando ela conseguiu se mexer, acompanhei-a.

Ela deixou cair o livro.

Ajoelhou se.

A roubadora de livros uivou.

 

Seu livro o foi pisoteado várias vezes quando começaram a limpeza e, embora tivesse havido ordens de que se limpasse apenas a confusão de concreto, o objeto mais precioso da menina foi jogado num caminhão de lixo, e foi nesse ponto que me senti obrigada. Subi na caçamba e o peguei com minha mão, sem me dar conta de que o guardaria e o olharia milhares de vezes, ao longo dos anos. Observaria os lugares em que nos cruzássemos e me deslumbraria com o que a menina viu e a maneira como Sobreviveu. Isso e o melhor que posso fazer — ver aquilo se encaixar em tudo o mais de que fui espectadora naqueles tempos.

Quando me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas são as cores em que a vi em carne e osso que tem mais ressonância. Vez on outra, consigo flutuar muito acima daqueles três momentos. Fico suspensa, até que uma verdade séptica sangra para a claridade.

E aí que as vejo numa fórmula.

 

• AS CORES •

vermelho: branco: preto:

Elas caem umas sobre as outras. A assinatura rabiscada em preto sobre o branco global ofuscante, em cima do vermelho espesso de sopa.

Sim, lembro-me dela com freqüência e, num de meu vasto sortimento de bolsos, guardei sua história para contar. E uma dentre a pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa — uma tentativa que é um salto gigantesco — de me provar que você e a sua existência humana valem a pena.

Aqui está ela. Uma dentre um punhado.

A menina que roubava livros.

Se quiser, venha comigo. Vou lhe contar uma história.

Vou lhe mostrar uma coisa.

 

O MANUAL DO COVEIRO

APRESENTANDO:

a rua himmel

a arte de dizer saumensch

uma mulher de punhos de ferro

tentativa de um beijo

Jesse Owens

lixa de parede

o cheiro da amizade

uma campeã peso pesado

e a maior de todas as watschen

 

CHEGADA À RUA HIMMEL

Aquela última vez.

Aquele céu vermelho...

Como é que uma menina que rouba livros acaba ajoelhada, soltando uivos e ladeada por um monte de entulho ridículo, gordurento, inventado, feito pelo homem?

Anos antes, o começo foi a neve.

Tinha chegado a hora. Para um.

 

• UM MOMENTO ESPETACULARMENTE TRÁGICO •

Um trem se deslocava depressa.

Abarrotado de seres humanos.

Um menino de seis anos morreu no terceiro vagão.

 

A roubadora de livros e seu irmão estavam viajando para Munique, onde logo seriam entregues a pais de criação. Agora sabemos, é claro, que o menino não chegou lá.

 

• COMO ACONTECEU •

Houve um intenso acesso de tosse.

Um acesso quase inspirado.

E, logo depois — nada.

Quando a tosse parou, não restou outra coisa senão o nada da vida, seguindo em frente com um arrastar dos pés, ou um espasmo quase silencioso. Nessa hora, uma subtaneidade achou o caminho de seus lábios, que eram de um marrom corroído e descascado, feito tinta velha.

Precisando desesperadamente de reforma.

A mãe deles dormia.

Entrei no trem.

Meus pés passaram pelo corredor atravancado e minha palma lhe cobriu a boca num instante.

Ninguém notou.

O trem continuou em seu galope.

Menos a menina.

Com um olho aberto, outro ainda no sonho, a roubadora de livros — também conhecida como Liesel Meminger — pôde ver, sem sombra de dúvida, que seu irmão caçula, Werner, estava caído de lado e morto.

Seus olhos azuis fitavam o chão.

Sem nada ver.

Antes de acordar, a menina que roubava livros estivera sonhando com o Führer, Adolf Hitler. No sonho, ela participava de um comício em que ele fazia um discurso, e olhava para o repartido cor de crânio em seu cabelo e para o quadrado perfeito de seu bigode. Ouvia contente a enxurrada de palavras que jorrava da boca do homem. As frases dele rebrilhavam à luz. Num momento mais calmo, ele até se abaixara e sorrira para ela. Liesel retribuíra o sorriso, dizendo: "Guten Tag, Herr Führer. Wie geht's dir hent?" Ela não havia aprendido a falar muito bem, nem tampouco a ler, porque raras vezes freqüentara a escola. A razão disso ela descobriria no devido tempo.

Quando o Führer estava prestes a responder, a menina acordou.

Era janeiro de 1939. Liesel tinha nove anos, logo faria dez.

Seu irmão estava morto.

Um olho aberto.

Um ainda num sonho.

Seria melhor um sonho completo, eu acho, mas realmente não tenho controle sobre isso.

O segundo olho acordou de um salto e ela me flagrou, disso não tenho dúvida. Foi exatamente na hora em que me ajoelhei e extraí a alma do menino, segurando-a, amolecida, em meus braços inchados. Logo depois ele se aqueceu, mas, quando o peguei originalmente, o espírito do menino estava mole e frio, feito sorvete. Começou a derreter em meus braços. Depois, foi-se aquecendo completamente. Curando-se.

Para Liesel Meminger, houve a rigidez aprisionada dos movimentos e a invasão atordoante das idéias. Es stimmt nicht. Isso não está acontecendo. Não está acontecendo.

E os sacolejos.

Por que eles sempre os sacodem?

É, eu sei, eu sei, imagino que tenha algo a ver com o instinto. Para estancar o fluxo da verdade. O coração dela, naquele momento, estava escorregadio e quente, e alto, muito, muito alto.

Estupidamente, fiquei.

Observei.      

Depois disso, a mãe.

A menina a acordou com o mesmo sacolejo aflito.

Se você não consegue imaginar como é, pense num silêncio canhestro. Pense em cacos e pedaços de desespero flutuante. E em se afogar num trem.

A neve andara caindo ininterruptamente, e o serviço para Munique foi obrigado a parar, por causa do trabalho malfeito nos trilhos. Havia uma mulher chorando. E uma menina entorpecida, parada ao lado dela.

Em pânico, a mãe abriu a porta. 

Desceu para a neve, segurando o corpinho.    

Que podia fazer a menina senão segui-la?      

Como já lhe informei, dois guardas também desceram do trem. Conversaram e discutiram sobre o que fazer. Era uma situação desagradável, para dizer o mínimo Acabou sendo decidido que todos os três seriam levados para a estação seguinte e deixados lá, para resolver as coisas.

Dessa vez, o trem capengou pelo interior coberto de neve.

Chacoalhou e parou.

Eles desceram na plataforma, o corpo nos braços da mãe.

Pararam.

O menino estava ficando pesado.

Liesel não tinha idéia de onde estava. Era tudo branco e, enquanto ficaram na estação, ela só conseguiu olhar para as letras desbotadas da placa à sua frente. Para Liesel, a cidade não tinha nome, e foi lá que seu irmão, Werner, foi enterrado, dois dias depois. As testemunhas incluíram um padre e dois coveiros, trêmulos de frio.

 

• UMA OBSERVAÇÃO •

Um par de guardas do trem.

Um par de coveiros.

No frigir dos ovos, um deles dava as ordens.

O outro fazia o que lhe mandavam.

A pergunta é: e quando o outro é muito mais do que um?

Erros, erros,

às vezes parece que isso é tudo de que sou capaz.

 

Durante dois dias, cuidei do que é meu. Viajei pelo globo, como sempre, entregando almas à esteira rolante da eternidade. Vi-as serem passivamente levadas. Em vários momentos, avisei a mim mesma que deveria manter uma boa distância do enterro do irmão de Liesel Meminger. Não ouvi meus conselhos.

A quilômetros de distância, ao me aproximar, já pude ver o grupinho de humanos frigidamente parados em meio ao deserto de neve. O cemitério me acolheu como a uma amiga e, logo depois, eu estava com eles. Abaixei a cabeça.

Parados à esquerda de Liesel, os coveiros esfregavam as mãos e resmungavam sobre a neve e as condições de escavação do momento. "E muito difícil atravessar esse gelo todo", coisas assim. Um deles não podia ter mais de quatorze anos. Um aprendiz. Quando foi embora, depois de umas dezenas de passos, um livro preto caiu inocuamente do bolso de seu casaco, sem seu conhecimento.

Minutos depois, a mãe de Liesel começou a se afastar com o padre. Agradecia-lhe por ter oficiado a cerimônia.

Mas a menina ficou.

Seus joelhos afundaram no chão. Era chegada a sua hora.

Ainda incrédula, ela começou a cavar. Ele não podia estar morto. Ele não podia estar morto. Ele não podia...

Em segundos, havia neve trinchando sua pele.

O sangue congelado rachava em suas mãos.

Em algum lugar, em toda aquela neve, ela via seu coração partido em dois pedaços. Cada metade luzia e pulsava sob a imensa branquidão. A menina só percebeu que a mãe voltara para buscá-la quando sentiu a mão ossuda em seu ombro. Estava sendo arrastada para longe. Um grito quente encheu-lhe a garganta.

 

• UMA IMAGENZINHA, TALVEZ •

A VINTE METROS DE DISTÂNCIA

Terminado o arrastar, a mãe e a menina pararam e respiraram.

Havia uma coisa preta e retangular abrigada na neve.

Só a menina a viu.

Ela se curvou, apanhou-a e a segurou firme entre os dedos.

O livro tinha letras prateadas.

As duas deram as mãos.

 

Soltou-se um último adeus encharcado e elas fizeram meia-volta e saíram do cemitério, olhando várias vezes para trás. Quanto a mim, fiquei mais uns momentos. Acenei. Ninguém retribuiu o aceno.

Mãe e filha deixaram o cemitério e se dirigiram ao próximo trem para Munique.

As duas eram magras e pálidas.

As duas tinham machucados nos lábios.

Liesel percebeu isso na janela suja e embaçada do trem, quando elas embarcaram, pouco antes do meio-dia. Nas palavras escritas pela própria menina que roubava livros, a viagem prosseguiu, como se tudo houvesse acontecido.

Quando o trem parou na Bahnhof, em Munique, os passageiros saíram como que de um embrulho rasgado. Havia gente de todas as classes, mas, em meio a ela, os pobres eram os mais fáceis de reconhecer. Os empobrecidos sempre tentam continuar andando, como se a relocação ajudasse. Desconhecem a realidade de que uma nova versão do mesmo velho problema estará à sua espera no fim da viagem — aquele parente que a gente evita beijar.

Acho que a mãe sabia muito bem disso. Não entregaria os filhos aos escalões superiores de Munique, mas, aparentemente, um lar de criação fora encontrado e, que mais não fosse, ao menos a nova família poderia alimentar a menina e o menino um pouco melhor, e educá-los como convinha.

O menino.

Liesel tinha certeza de que a mãe carregava a lembrança dele, jogada sobre o ombro. Deixou-o cair. Viu seus pés, suas pernas e seu corpo baterem na plataforma.

Como é que aquela mulher podia andar?

Como podia mover-se?

Está aí uma coisa que nunca saberei nem compreenderei — do que os humanos são capazes.

Ela o apanhou e continuou a andar, com a menina agora agarrada à sua saia.

Encontraram-se autoridades e as perguntas sobre o atraso e o menino fizeram-nas levantar as cabeças vulneráveis. Liesel ficou num canto do escritório pequeno e empoeirado, enquanto a mãe se sentava numa cadeira muito dura, com os pensamentos apertados.

Houve o caos da despedida.

Foi uma despedida molhada, com a cabeça da menina enterrada nas depressões lanosas e gastas do casaco da mãe. Houve mais alguns arrastamentos.

Bem além dos arredores de Munique, havia uma cidade chamada Molching que se pronuncia melhor por gente como você e eu como "Molking". Era para lá que a levariam, para uma rua chamada Himmel.

 

UMA TRADUÇÃO

Himmel = Céu

 Quem quer que tenha dado nome à Rua Himmel tinha, sem dúvida, um saudável senso de ironia. Não que ela fosse um inferno na Terra. Não era. Mas com certeza também não era o paraíso.

Como quer que fosse, os pais de criação de Liesel estavam esperando.

Os Hubermann.

Haviam esperado um menino e uma menina, e receberiam uma pequena pensão por acolhê-los. Ninguém queria ser a pessoa a dizer a Rosa Hubermann que o garoto não sobrevivera à viagem. Na verdade, ninguém jamais queria mesmo dizer-lhe coisa alguma. Em matéria de temperamentos, o dela não era propriamente invejável, embora a mulher tivesse um bom histórico com filhos de criação no passado. Ao que parece, havia endireitado alguns.

Para Liesel, foi um passeio de carro.

Ela nunca andara em nenhum.

Houve a subida e a descida constantes do estômago, bem como a vã esperança de que eles se perdessem no caminho, ou mudassem de idéia. Em meio a tudo, seu pensamento não conseguia deixar de voltar para a mãe, lá na Bahnhof outra vez à espera de partir. Tremendo de frio. Embrulhada naquele casaco inútil. Ela havia roído as unhas enquanto esperava o trem. A plataforma era comprida e desconfortável — uma tira de cimento frio. Será que ela ficaria de olho no local aproximado do sepultamento do filho, na viagem de volta? Ou o sono seria pesado demais?

O carro seguiu em frente, com Liesel temendo a última curva letal.

Era um dia cinza, a cor da Europa. Cortinas de chuva fechadas ao redor do carro.

— Estamos quase chegando — disse a mulher do serviço de adoções, Frau Heinrich, virando-se com um sorriso. — "Dein neues Heim. Sua nova casa." Liesel limpou um círculo no vidro embaçado e respingado, e olhou para fora.

           

• UMA FOTOGRAFIA DA RUA HIMMEL •

As construções pareciam grudadas umas nas outras,

quase todas de casas pequenas e edifícios de ar nervoso.

Havia uma neve suja, estendida feito um tapete.

Havia concreto, árvores nuas que pareciam

porta-chapéus, e um ar cinzento.

 

Também havia um homem no carro. Ficou com a menina enquanto Frau Heinrich desapareceu lá dentro. Liesel presumiu que ele estivesse ali para se certificar de que ela não fugisse, ou para obrigá-la a entrar, se ela criasse problemas. Depois, no entanto, quando o problema começou de verdade, o homem simplesmente ficou sentado, olhando. Talvez, fosse apenas o último recurso, a solução final.

 Passados alguns minutos, um homem muito alto saiu da casa. Hans Hubermann, o pai de criação de Liesel De um lado dele estava Frau Heinrich, de estatura mediana. Do outro, a forma atarracada de Rosa Hubermann, que parecia um pequeno guarda-roupas com um casaco jogado por cima. Havia em seu andar um gingado muito distinto. Ela era quase engraçadinha, não fosse pelo rosto, que lembrava papelão amarrotado e aborrecido, como se ela meramente tolerasse aquilo tudo. O marido andava ereto, com um cigarro queimando entre os dedos. Ele mesmo os enrolava.

0 caso foi o seguinte:

Liesel se recusou a sair do carro.

— Was ist los mit dem Kind? — perguntou Rosa Hubermann. Repetiu a pergunta, — Qual é o problema da menina?

Enfiou a cabeça dentro do carro e disse: — Na, komm. Komm.

O banco da frente foi abaixado. Um corredor de luz fria a convidava a sair. Ela não se mexeu.

Do lado de fora, pelo círculo que tinha feito, Liesel via os dedos do homem alto, ainda segurando o cigarro. A cinza tombou de sua ponta, projetou-se e subiu no ar várias vezes, antes de cair no chão. Convencê-la a sair do carro levou quase quinze minutos. Foi o homem alto quem conseguiu.

Em silêncio.

Depois veio o portão, ao qual ela se agarrou.

Um bando de lágrimas lhe escorria dos olhos, enquanto ela ficava agarrada e se recusava a entrar. Começou a juntar gente na rua, até que Rosa Hubermann pôs-se a xingar as pessoas, ao que elas voltaram para o lugar de onde tinham vindo.

 

• TRADUÇÃO DO ANÚNCIO DE ROSA HUBERMANN •

"Pro que é que estão olhando, seus babacas?"

Liesel Meminger acabou entrando, cautelosamente. Hans Hubermann a levou por uma das mãos. Sua malinha a segurava na outra. Enterrado sob a camada de roupas dobradas nessa mala estava um livrinho preto, o qual, ao que saibamos, um coveiro sisudo de quatorze anos, numa cidade sem nome, devia ter passado as últimas horas procurando. "Eu juro", imagino o dizendo a seu patrão, "que Não faço idéia do que aconteceu com ele. Procurei por toda parte. Em tudo". Estou certa de que ele nunca suspeitaria da menina, e, no entanto, ali estava o objeto — um livro preto de letras prateadas, que tinha por teto as roupas de Liesel.

 

• O MANUAL DO COVEIRO •

Guia em doze passos

para o sucesso como coveiro

Publicado pela Associação Bávara de Cemitérios

A menina que roubava livros tinha atacado pela primeira vez — o começo de uma carreira ilustre.

 

CRESCENDO COMO SAUMENSCH

Sim, uma carreira ilustre.

Devo apressar-me a admitir, no entanto, que houve um hiato considerável entre o primeiro livro roubado e o segundo. Outro aspecto digno de nota é que o primeiro foi roubado da neve e o segundo, do fogo. Sem omitir que outros também lhe foram dados. No cômputo final, ela possuía quatorze livros, mas via sua história como predominantemente composta por dez deles. Desses dez, seis foram roubados, um apareceu na mesa da cozinha, dois foram feitos para ela por um judeu escondido, e um foi entregue por uma tarde suave, vestida de amarelo.

Quando viesse a escrever sua história, ela se perguntaria exatamente quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo. Teria sido ao pôr os olhos pela primeira vez na sala com estantes e mais estantes deles? Ou quando Max Vandenburg chegara à Rua Himmel, carregando as mãos cheias de sofrimento e o Mein Kampf de Hitler? Teria sido durante a leitura nos abrigos? Na última parada para Dachau? Teria sido A Sacudidora de Palavras? Talvez nunca houvesse uma resposta exata sobre onde e quando isso havia ocorrido. Seja como for, estou me adiantando. Antes de entrarmos em qualquer desses assuntos, primeiro precisamos dar uma volta pelos primórdios de Liesel Meminger na Rua Himmel e pela arte de saumenschiar.

Quando de sua chegada, ainda se podiam ver as marcas das mordidas da neve em suas mãos e o sangue enregelado em seus dedos. Tudo nela era subnutrido. Canelas que pareciam arame. Braços de cabide. A menina não o produzia com freqüência, mas, quando ele surgia, seu sorriso era faminto.

Seu cabelo era um tipo bem próximo do louro alemão, mas seus olhos eram perigosos. Castanhos escuros. Ninguém gostaria realmente de ter olhos castanhos escuros na Alemanha daquela época. Talvez ela os tivesse herdado do pai, mas não havia como saber, já que não se lembrava dele. Na verdade, só havia uma coisa que ela sabia do pai. Era um rótulo que Liesel não compreendia.

 

• UMA ESTRANHA PALAVRA •

Kommunist

Ela a ouvira várias vezes nos anos mais recentes.

"Comunista".

Havia pensões apinhadas de gente, salas repletas de perguntas. E aquela palavra. Aquela palavra estranha estava sempre presente em algum lugar, parada na esquina, espreitando no escuro. Usava ternos, uniformes. Onde quer que eles fossem, lá estava o termo, toda vez que seu pai era mencionado. Liesel era capaz de cheirá-lo e prová-lo. Só não conseguia soletrá-lo nem entendê-lo. Quando perguntara à mãe o que a palavra significava, ela lhe dissera que isso não tinha importância, que ela não devia se preocupar com essas coisas. Numa pensão, uma mulher mais sadia havia tentado ensinar as crianças a escrever, usando carvão na parede. Liesel ficara tentada a lhe perguntar o significado, mas isso nunca aconteceu. Um dia, a mulher foi levada para interrogatório. Não voltou.

Quando chegou a Molching, Liesel tinha ao menos uma vaga percepção de estar sendo salva, mas isso não servia de consolo. Se sua mãe a amava, por que deixá-la na porta de outra pessoa? Por quê? Por quê?

Por quê?

O fato de ela saber a resposta — nem que fosse no nível mais elementar — parecia não vir ao caso. Sua mãe estava sempre doente e nunca havia dinheiro para consertá-la. Liesel sabia. Mas isso não queria dizer que tivesse de aceitar. Por mais que lhe dissessem que a amavam, não havia nenhum reconhecimento de que a prova disso fosse o abandono. Nada alterava o fato de ela ser uma menina magrela e perdida em mais um lugar estranho, com mais gente estranha. Sozinha.

Os Hubermann moravam numa das casinhas com jeito de caixa na Rua Himmel. Alguns cômodos, uma cozinha e um banheiro dividido com os vizinhos. O telhado era plano e havia um porão baixo para guardar coisas. Era tido como não sendo um porão de profundidade suficiente. Em 1939, isso não era problema. Depois, em '42 e '43, passou a ser. Quando começaram os bombardeios aéreos, eles sempre tinham que correr pela rua para um abrigo melhor.

No começo, foi a linguagem desbocada que causou impacto imediato. Era muito veemente e prolixa. A cada duas palavras vinham Saumensch, ou Saukerl, ou Arschloch. Para quem não está familiarizado com esses termos, convém eu explicar. Sal, é claro, refere-se a porcos. No caso de Saumensch, serve para descompor, espinafrar ou simplesmente humilhar uma pessoa do sexo feminino. Saukerl (que se pronuncia "zaukerl") é para os homens. Arschloch pode ser diretamente traduzido por "babaca". Mas essa palavra não diferencia os sexos. E só assim.

— Saumensch, du dreckiges! — gritou a mãe de criação de Liesel naquela primeira noite, quando ela se recusou a tomar banho. — Sua porca imunda! Por que não quer tirar a roupa?

Ela era boa em matéria de se enfurecer. Na verdade, podia-se dizer que Rosa Hubermann tinha a face decorada por uma fúria constante. Era assim que os vincos tinham se transformado na textura de papelão de seu rosto.

Liesel, é natural, estava imersa em angústia. Não havia jeito de tomar banho nenhum, nem de ir dormir, aliás. Ficou contorcida num canto do banheiro, que mais parecia um armário, agarrada aos braços inexistentes da parede, em busca de algum nível de apoio. Não havia nada senão tinta seca, a respiração difícil e o dilúvio de impropérios de Rosa.

— Deixe-a em paz — disse Hans Hubermann, entrando na briga. Sua voz meiga entrou de mansinho, como quem se infiltrasse na multidão. — Deixe-a comigo.

Chegou mais perto e se sentou no chão, encostado na parede. Os ladrilhos eram frios e impiedosos.

— Sabe enrolar cigarros? — perguntou à menina, e, durante mais ou menos uma hora, os dois ficaram sentados no poço crescente de escuridão, brincando com o tabaco e os papéis dos cigarros, que Hans Hubermann ia fumando.

Terminada a hora, Liesel sabia enrolar moderadamente bem um cigarro. E ainda não havia tomado banho.

 

• ALGUNS DADOS SOBRE HANS HUBERMANN •

Ele adorava fumar.

O que mais gostava no fumo era de enrolar os cigarros.

Tinha o ofício de pintor de paredes e tocava acordeão.

Isso era uma mão na roda, especialmente no inverno, quando ele podia ganhar um dinheirinho tocando nos bares de Molching, como o Knoller.

Ele já me havia tapeado numa guerra mundial, mas depois seria posto em outra (como uma espécie perversa de recompensa), na qual daria um jeito de conseguir me evitar outra vez.

Para a maioria das pessoas, Hans Hubermann mal chegava a ser visível. Uma pessoa não especial. Com certeza, tinha excelentes habilidades como pintor. Sua habilidade musical era superior à média. Mas, de algum modo, e tenho certeza de que você deve ter conhecido gente assim, ele conseguia parecer uma simples parte do cenário, mesmo quando estava na frente de uma fila. Vivia apenas por ali, sempre. Indigno de nota. Não importante nem particularmente valioso.

O frustrante nessa aparência, como você pode imaginar, era ela ser completamente enganosa, digamos. Decididamente, havia valor nele, e isso não passou despercebido para Liesel Meminger. (A criança humana — tão mais arguta, às vezes, do que o adulto espantosamente grave!) Ela percebeu de imediato.

O jeito dele.

O ar tranqüilo perto dele.

Naquela noite, quando Hans acendeu a luz no banheirinho indiferente, Liesel observou a estranheza dos olhos de seu pai de criação. Eram feitos de bondade e prata. Como prata mole, derretida. Ao ver aqueles olhos, Liesel compreendeu que Hans Hubermann tinha muito valor.

 

• ALGUNS DADOS SOBRE ROSA HUBERMANN •

Rosa tinha um metro e cinqüenta e cinco de altura e prendia

os fios castanho-acinzentados do cabelo elástico num coque.

Para complementar a renda dos Hubermann,

lavava e passava roupa para

cinco das famílias mais ricas de Molching.

Sua comida era atroz.

Ela possuía a habilidade singular de irritar

quase todas as pessoas que encontrava.

Mas realmente amava Liesel Meminger.

Seu jeito de demonstrá-lo é que era estranho.

Implicava agredi-la com a colher de pau e com as palavras,

a intervalos variáveis.

Quando Liesel finalmente tomou banho, depois de morar duas semanas na Rua Himmel, Rosa deu-lhe um enorme abraço, daqueles de machucar. Quase sufocando-a, disse: — Saumensch, du dreckiges, já não é sem tempo!

Passados alguns meses, eles deixaram de ser o Sr. e a Sra. Hubermann. Num típico esmurrar de palavras, disse Rosa:

—        Escute aqui, Liesel: de agora em diante, você me chama de mamãe. Pensou por um momento e indagou:

—        Como você chamava sua mãe de verdade?

—        Auch Mama, também de mamãe — respondeu Liesel, baixinho.

—        Bom, então eu sou a mamãe número dois — fez Rosa.

— Olhou para o marido — E ele ali — e pareceu segurar as palavras na mão, amassá-las e jogá-las por cima da mesa: — Aquele Saukerl, aquele porco imundo, você o chama de papai, verstehst? Entendeu?

 — Sim — concordou Liesel, prontamente. Naquela casa se apreciavam respostas rápidas.

— Sim, mamãe — corrigiu-a Rosa. — Saumensch, me chame de mamãe quando falar comigo.

Nesse momento, Hans Hubermann havia acabado de enrolar um cigarro, lambendo o papel e colando tudo. Olhou para Liesel e deu uma piscadela. A menina não teria nenhuma dificuldade para chamá-lo de papai.

 

A MULHER DE PUNHO DE FERRO    

Os primeiros meses foram decididamente os mais difíceis.

Toda noite, Liesel tinha pesadelos.

O rosto do irmão.

De olhos fixos no chão.

Ela acordava nadando na cama, aos gritos, afogando-se no mar de lençóis. Do outro lado do quarto, a cama que fora destinada a seu irmão flutuava nas trevas feito um barco. Aos poucos, com a chegada da consciência, parecia afundar até o chão. Essa visão não ajudava em nada e, em geral, passava-se um bom tempo antes de os gritos pararem.

Possivelmente, a única coisa boa advinda desses pesadelos era que eles traziam ao quarto Hans Hubermann, seu novo papai, para acalmá-la, acarinhá-la.

Ele ia todas as noites e se sentava com a menina. Nas primeiras duas vezes, só fez ficar com ela — um estranho para matar a solidão. Noites depois, sussurrou: — Pssiu, eu estou aqui, está tudo bem.

Passadas três semanas, abraçou-a. A confiança se acumulava depressa, graças sobretudo à força bruta da delicadeza do homem, a seu estar ali. Desde o começo, a menina soube que Hans Hubermann sempre apareceria no meio do grito e não iria embora.

 

• UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO •

Não ir embora: ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças

Hans Hubermann sentava-se na cama, com o olhar ensonado, e Liesel chorava em suas mangas e o aspirava. Toda madrugada, logo depois das duas horas, ela tornava a dormir com o cheiro do pai. Era uma mescla de cigarros apagados, décadas de tintas e pele humana. No começo, ela sugava tudo, depois respirava o perfume, até tornar a mergulhar lentamente no sono. Toda manhã, lá estava Hans, a um metro e pouco da menina, amarfanhado na poltrona, quase dobrado ao meio. Ele nunca usava a outra cama. Liesel levantava, aplicava-lhe um beijo cauteloso no rosto, e ele acordava e sorria.

Havia dias em que o pai a mandava voltar para a cama e esperar um minuto, e retornava com o acordeão e tocava para ela. Liesel sentava-se na cama e cantarolava, cerrando os dedos dos pés de animação. Ninguém jamais lhe oferecera música, até aquele momento. Ela sorria tanto que parecia idiota, observando as rugas que se desenhavam no rosto do pai e o metal macio de seus olhos — até vir o xingamento da cozinha.

 

— PARE COM ESSE BARULHO, SAUKERL!

Papai tocava um pouquinho mais.

Piscava o olho para a menina e, sem jeito, ela retribuía a piscadela.

Às vezes, só para irritar mamãe um pouco mais, ele também levava o instrumento para a cozinha e tocava até o fim do café-da-manhã.

O pão com geléia de papai ficava meio comido em seu prato, enrolado no formato das dentadas, e a música olhava de frente para Liesel. Sei que soa estranho, mas era assim que ela a sentia. A mão direita de papai passeava pelas teclas cor de dente.

A esquerda apertava os botões. (A menina gostava especialmente de vê-lo apertar o botão prateado cintilante — o dó maior.) O exterior preto do acordeão, arranhado, mas reluzente, ia para um lado e para o outro, enquanto os braços de Hans apertavam os foles empoeirados, fazendo-os sugar o ar e tornar a expeli-lo. Na cozinha, nessas manhãs, papai dava vida ao acordeão. Acho que isso faz sentido, quando a gente realmente pára para pensar.     

Como é que a gente sabe se uma coisa está viva?

Verifica a respiração.

O som do acordeão, na verdade, era também o anúncio da segurança. Do dia. Durante o dia, era impossível ela sonhar com o irmão. Liesel sentia sua falta e, muitas vezes, chorava no banheiro minúsculo, o mais baixo possível, mas também ficava contente por estar acordada. Na primeira noite com os Hubermann, ela havia escondido seu último vínculo com o irmão — O Manual do Coveiro — embaixo do colchão, e vez por outra o tirava de lá e o segurava. Fitando as letras da capa e tocando o texto impresso na parte interna, ela não fazia a menor idéia do que o livro dizia. A questão é que o assunto do livro não tinha mesmo importância. O mais importante era o que ele significava.

 

• O SIGNIFICADO DO LIVRO •

1. A última vez que ela vira o irmão.

2. A última vez que ela vira a mãe.

De quando em quando, Liesel murmurava a palavra mamãe e via o rosto materno umas cem vezes, numa única tarde. Mas esses eram sofrimentos pequenos, comparados ao terror de seus sonhos. Nessas ocasiões, na imensa extensão do sono, ela nunca se sentia tão completamente só.

Como você certamente já notou, não havia outras crianças na casa.

Os Hubermann tinham dois filhos, mas eles eram mais velhos e tinham saído de casa. Hans Júnior trabalhava no centro de Munique, e Trudy tinha um emprego de doméstica e babá. Os dois logo entrariam na guerra. Uma faria projéteis. O outro os dispararia.

A escola, como você pode imaginar, foi um fracasso terrível.

Embora fosse estatal, sofria uma influência católica maciça, e Liesel era luterana. O que não era um começo dos mais auspiciosos. Depois, eles descobriram que a menina não sabia ler nem escrever.

De modo humilhante, ela foi jogada com as crianças menores, que mal começavam a aprender o alfabeto. Apesar de ser pele e osso e pálida, a menina sentia-se gigantesca entre a garotada nanica e, muitas vezes, desejava empalidecer até sumir por completo.

Mesmo em casa, não havia grande margem para orientação.

—        Não vá pedir ajuda a ele — assinalou mamãe. — Aquele Saukerl — apontou-o.

O pai olhava pela janela, como era seu hábito freqüente. — Ele saiu da escola na quarta série.

Sem se virar, papai respondeu calmamente, mas com veneno:

—        Bem, não a peça a ela também — disse, batendo a cinza do lado de fora. Ela saiu da escola na terceira série.

Não havia livros em casa (exceto o que a menina escondera embaixo do colchão), e o melhor que Liesel podia fazer era repetir baixinho o alfabeto, até receber ordens, em termos inequívocos, de calar a boca. Toda aquela resmungação. Só depois, quando houve um incidente de xixi na cama em meio a um pesadelo, foi que começou uma instrução extra na leitura. Era oficiosamente chamada de aula da meia-noite, embora costumasse começar por volta das duas da madrugada. Falarei mais disso daqui a pouco.

Em meados de fevereiro, quando tez dez anos, Liesel ganhou uma boneca usada, com uma perna faltando e o cabelo amarelo.

— Foi o melhor que pudemos fazer desculpou se o pai.

—        Do que você está falando? Ela tem sorte de ganhar tudo isso — corrigiu-o a mãe.

Hans continuou a examinar a perna restante, enquanto Liesel experimentava o novo uniforme. Dez anos significavam a Juventude Hitlerista. Juventude Hitlerista significava um uniformezinho marrom. Sendo menina, Liesel foi matriculada no que era chamado de BDM.

 

• EXPLICAÇÃO DA ABREVIATURA •

Ela significava Bund Deutscher Mädchen — Liga de Meninas Alemãs.

A primeira coisa que eles faziam por lá era certificar-se de que o seu "heil Hitler" funcionava corretamente. Depois, ensinavam a marchar direito, enrolar ataduras e costurar roupas. As meninas também eram levadas para caminhadas e outras atividades similares. Quartas e sábados eram os dias marcados para os encontros, das três às cinco da tarde.

Toda quarta e sábado, papai levava Liesel até lá e ia buscá-la duas horas depois. Os dois nunca falavam muito do assunto. Apenas andavam de mãos dadas e escutavam o som de seus passos, e o pai fumava um cigarro ou dois.

A única aflição que papai lhe causava era o fato de sair constantemente. Muitas noites, ele entrava na sala de estar (que também servia de quarto para os Hubermann), tirava o acordeão do armário velho e se espremia pela cozinha até a porta da frente.

Enquanto ele descia a Rua Himmel, mamãe abria a janela e gritava:

—        Não volte muito tarde!

—        Mais baixo! — respondia ele, virando-se para trás.

—        Saukerl! Vá tomar no cu! Eu falo alto o quanto quiser!

O eco de seus xingamentos o acompanhava pela rua. Hans nunca olhava para trás, ou, pelo menos, não até ter certeza de que sua mulher se afastara. Nessas noites, no fim da rua, com a caixa do acordeão na mão, ele virava para trás, pouco antes ela loja de Frau Diller, na esquina, e via a figura que substituíra sua mulher à janela. Por um breve instante, sua mão comprida e fantasmagórica se erguia, antes de ele tornar a virar para frente e seguir caminhando devagar. Liesel só tornava a vê-lo às duas da madrugada, quando ele a arrancava delicadamente do pesadelo.

As noites na pequena cozinha eram uma barulheira infalível. Rosa Hubermann estava sempre falando e, quando falava, isso assumia a forma do schimpfen. Ela brigava e reclamava constantemente. A rigor, não havia ninguém com quem brigar, mas a mãe era perita em fazê-lo, em toda oportunidade que tinha. Era capaz de brigar com o mundo inteiro naquela cozinha, e era isso que fazia quase todas as noites. Depois de comerem e de papai sair, Liesel e Rosa costumavam ficar lá, e Rosa passava roupa.

Algumas vezes por semana, Liesel voltava ela escola e percorria as ruas de Molching com a mãe, apanhando e entregando a roupa nas partes mais ricas da cidade. Knaupt Strasse, Heide Strasse. E umas outras. Mamãe entregava a roupa passada ou pegava a roupa por lavar com um sorriso respeitoso, mas, assim que fechavam a porta e ela se afastava, punha-se a xingar aquela gente rica, com todo o seu dinheiro e sua preguiça.

—        São g'schtinkerdt demais para lavar a própria roupa — dizia, apesar de depender deles.

—        Aquele — bufava, acusando Herr Vogel, da Rua Heide. — Ganhou do pai todo o dinheiro que tem. Desperdiça-o com mulheres e bebida. E mandando lavar e passar a roupa, é claro.

Era uma espécie de lista de chamada feita de desprezo.

Herr Vogel, Herr e Frau Pfaffelhürver, Helena Schmidt, os Weingartner. Todos tinham culpa de alguma coisa.

À parte a embriaguez e a libertinagem, Ernst Vogel, de acordo com Rosa, estava sempre coçando a cabeça piolhenta, lambendo os dedos e entregando o dinheiro.

—        Eu devia lavar o dinheiro antes de voltar para casa — resumia.

Os Pfaffelhürver examinavam minuciosamente o resultado.

— "Nem um único vinco nessas camisas, por favor" -— imitava-os Rosa. — "Nada de amassados neste terno" E depois, ficam lá inspecionando tudo, bem na minha cara. Bem embaixo do meu nariz! Que G'sindel, que lixo!

Os Weingartner, ao que parece, eram uns idiotas, com um Saumensch de um gato que estava sempre soltando pêlos.

—        Você sabe o tempo que demora para eu me livrar daquele pêlo todo? Ele se entranha em toda parte!

Helena Schmidt era uma viúva rica.

—        Aquela velha aleijada, sentada lá, só definhando. Nunca teve que enfrentar um dia de trabalho em sua vida inteira.

0 maior desdém de Rosa, porém, ficava reservado para o número 8 da Grande Strasse. Uma casa ampla, no alto de uma ladeira, na parte rica da cidade.

—        Essa aí —- apontou Rosa, mostrando-a a Liesel, na primeira vez que foram até lá — é a casa do prefeito. Aquele safado. A mulher fica sentada em casa o dia inteiro, tão mesquinha que nem acende a lareira; está sempre gelado lá dentro. E maluca — concluiu, pontuando as palavras. — Completamente. Maluca.

No portão, fez um gesto para a menina: — Vá você.

Liesel ficou apavorada. Uma gigantesca porta marrom, com uma aldraba de bronze, erguia-se acima de uma pequena escadaria.

—        O quê?

A mãe deu-lhe um empurrão.

—        Não me venha com "o quê", Saumensch. Ande logo.

Liesel andou. Percorreu a entrada, subiu os degraus, hesitou e bateu.

Um roupão de banho atendeu à porta.

Dentro dele, uma mulher de olhar assustado, cabelos que pareciam lanugem e uma postura de derrota postou-se diante da menina. Viu a mamãe no portão e entregou a Liesel uma trouxa de roupa suja.

 —       Obrigada — disse Liesel, mas não houve resposta. Só a porta. Fechada.

—        Viu? — disse a mãe, quando ela voltou ao portão. — E isso que eu tenho de agüentar. Esses ricaços cretinos, esses porcos preguiçosos...

Segurando a trouxa enquanto as duas se afastavam, Liesel olhou para trás. Da porta, a aldraba de bronze a fitava.

Quando terminava de descompor as pessoas para quem trabalhava, Rosa Hubermann costumava passar a seu outro tema favorito de impropérios. O marido. Olhando para os sacos de roupa suja e as casas acanhadas, ela falava, falava, falava.

—        Se o seu papai prestasse para alguma coisa — informava a Liesel, toda vez que andavam por Molching —, eu não teria que fazer isto.

E fungava de escárnio.

—        Pintor! Para que casar com aquele Arschloch? Era isso que me diziam... a minha família, digo.

Os passos das duas trituravam os caminhos.

—        E aqui estou eu, andando pelas ruas e me esfalfando feito escrava na cozinha, porque aquele Saukerl nunca tem emprego. Não um emprego de verdade, pelo menos. Só aquele acordeão ridículo naquelas espeluncas sujas, toda noite.

—        Sim, mamãe.

—        E só isso que você tem para dizer?

Os olhos da mãe pareciam recortes de azul pálido colados no rosto.

As duas continuavam andando.

Com Liesel carregando o saco.

Em casa, a roupa era lavada num tanque de água quente ao lado do fogão, pendurada para secar na lareira da sala e passada na cozinha. A cozinha era o local em que se dava a ação.

—        Ouviu isso? — perguntava mamãe, quase todas as noites, segurando o ferro aquecido no fogão. A luz era fraca na casa toda, e Liesel, sentada à mesa da cozinha, olhava para as fagulhas à sua frente.

—        O quê? — respondia. — Que foi?

—        Foi aquela tal da Holtzapfel — dizia a mãe, já levantando da cadeira. — Aquela Saumensch acabou de cuspir na porta de novo.

Era uma tradição de Frau Holtzapfel, uma das vizinhas, cuspir na porta dos Hubermann toda vez que passava por ela. A porta de entrada ficava a poucos metros do portão, e digamos que Frau Holtzapfel simplesmente era boa em distância — e linha precisão.

As cusparadas deviam-se ao fato de que ela e Rosa Hubermann travavam uma espécie de guerra verbal de uma década. Ninguém sabia a origem dessa hostilidade. Era provável que elas mesmas a tivessem esquecido.

Frau Holtzapfel era uma mulher magra e rija, além de obviamente rancorosa. Nunca se casara, mas tinha dois filhos homens, poucos anos mais velhos que os dos Hubermann. Ambos estavam no exército e ambos farão rápidas aparições aqui antes de terminarmos, eu lhe garanto.

Em matéria de rancor, convém ainda dizer que Frau Holtzapfel também era minuciosa com suas cusparadas. Nunca deixava de spuck na porta do número trinta e três e dizer "Schweinel", toda vez que passava. Essa é uma coisa que notei nos alemães:

Eles parecem gostar muito de porcos.

 

• UMA PERGUNTINHA E SUA RESPOSTA •

E quem você acha que era obrigada

a limpar a cusparada da porta, toda noite?

É — acertou.

Quando uma mulher de punhos de ferro manda você ir lá fora limpar o cuspe da porta, você vai. Principalmente quando o ferro está quente.

Era só parte da rotina, na verdade.

Toda noite, Liesel ia lá fora, limpava a porta e observava o céu. Em geral, ele parecia um transbordamento — frio e pesado, escorregadio e cinzento —, mas, vez por outra, algumas estrelas se atreviam a aparecer e flutuar, nem que fosse por uns minutos. Nessas noites, Liesel ficava um pouquinho mais e esperava.

— Oi, estrelas.

E esperava.

Pela voz proveniente da cozinha.

Ou até as estrelas serem novamente arrastadas para as águas do céu alemão.

 

O B E I J O

(Um tomador de decisões na infância)

Como a maioria das cidadezinhas, Molching era cheia de personagens singulares. Um punhado deles morava na Rua Himmel. Frau Holtzapfel era apenas um dos integrantes do elenco. Os outros incluíam tipos como:

*          Rudy Steiner — o garoto da casa ao lado, que era obcecado com o atleta negro norte-americano Jesse Owens.

*          Frau Diller — a ariana inflexível que era dona da loja da esquina.

*          Tommy Müller — um garoto cujas infecções crônicas nos ouvidos tinham resultado em diversas cirurgias, num rio de pele cor-de-rosa pintado no rosto e numa tendência a contrações espásticas.

*          Um homem inicialmente conhecido como "Pfiffikus", cuja vulgaridade fazia Rosa Hubermann parecer uma artífice das palavras e uma santa.

De modo geral, era uma rua cheia de gente relativamente pobre, a despeito da visível ascensão da economia alemã no governo de Hitler. Ainda existiam áreas pobres na cidade.

Como já foi mencionado, a casa vizinha à dos Hubermann era alugada por uma família de sobrenome Steiner. Os Steiner tinham seis filhos. Um deles, o famigerado Rudy, logo se tornaria o melhor amigo de Liesel e, tempos depois, seu parceiro e catalisador ocasional no crime. Ela o conheceu na rua.

Dias depois do primeiro banho de Liesel, a mãe a deixou sair para brincar com as outras crianças, na Rua Himmel, as amizades eram feitas do lado de fora, qualquer que fosse o tempo. As crianças raramente visitavam as casas umas das outras, porque estas eram pequenas e, em geral, tinham pouquíssima coisa. Além disso, a meninada praticava seu passatempo favorito, como profissionais, na rua. O futebol. Os times eram bem montados. Usavam-se latas de lixo para marcar as balizas.

Como a nova criança da cidade, Liesel foi imediatamente enfiada entre um par dessas latas. (Tommy Müller finalmente se libertou, embora fosse o mais inútil jogador de futebol que a Rua Himmel já vira.)

Correu tudo bem por algum tempo, até o momento fatídico em que Rudy Steiner virou de cabeça para baixo na neve, num trompaço cheio de frustração desferido por Tommy Müller.

—        Que foi?! — gritou Tommy. O rosto exibia espasmos de desespero. — Que foi que eu fiz?!

O pênalti foi marcado por todo o mundo no time de Rudy, e aí era Rudy Steiner contra a nova garota, Liesel Meminger.

Ele pôs a bola num imundo monte de neve, confiante no desfecho habitual. Afinal, fazia dezoito cobranças que Rudy não perdia um pênalti, mesmo quando a oposição fazia questão de tirar Tommy Müller do gol a pontapés. Não importava quem o substituísse, Rudy sempre marcava.

Nessa ocasião, tentaram obrigar Liesel a sair. Como você pode imaginar, ela protestou, e Rudy concordou.

—        Não, não — sorriu. — A deixemela ficar.

E esfregou as mãos.          

A neve tinha parado de cair na rua imunda e as pegadas enlameadas juntavam-se entre os dois. Rudy ajeitou os pés, disparou o tiro e Liesel mergulhou e, de algum modo, desviou a bola com o cotovelo. Levantou-se sorrindo, mas a primeira coisa que viu foi uma bola de neve arrebentando-lhe na cara. Metade dela era lama. Doeu como o diabo.

—        Que tal, gostou? — riu o menino e saiu correndo em busca da bola.

—        Saukerl — murmurou Liesel. O vocabulário de sua nova casa estava pegando depressa.

 

• ALGUNS DADOS SOBRE RUDY STEINER •

Ele era oito meses mais velho do que Liesel e tinha pernas ossudas,

dentes afiados, olhos azuis esbugalhados e cabelos cor de limão.

            Como um dos seis filhos dos Steiner,   

estava permanentemente com fome.

Na Rua Himmel, era considerado meio maluco.

Isso se devia a um acontecimento raras vezes mencionado,

mas visto por todos como "O Incidente de Jesse Owens", no qual

ele se pintara de preto com carvão e correra os cem metros

do campo de futebol local numa noite.

 

Doido ou não, Rudy sempre esteve destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bolada de neve na cara é, com certeza, o começo perfeito de uma amizade duradoura.

Dias depois do início das aulas, Liesel começou a ir à escola com os Steiner. A mãe de Rudy, Barbara, o fez prometer andar junto com a menina nova, principal mente por ter ouvido falar da bolada de neve. A favor de Rudy, verdade seja dita, ele ficou feliz em obedecer. Não tinha nada daquele tipo de garotinho misógino

Gostava muito das meninas e gostava de Liesel (daí a bolada de neve). Na verdade, Rudy Steiner era um daqueles cretininhos audaciosos que gostam de se engraçar com as mocinhas. Toda infância parece ter exatamente um desses jovens em seu meio e suas brumas. E o garoto que se recusa a temer o sexo oposto, puramente porque todos os outros abraçam esse medo, e é o tipo que não teme tomar decisões. Nesse caso, Rudy já se decidira a respeito de Liesel Meminger.

A caminho da escola, ele procurava apontar alguns marcos territoriais da cidade ou, pelo menos, conseguia introduzir isso tudo, em algum ponto entre mandar os irmãos mais novos fecharem a matraca e os mais velhos o mandarem fechar a dele. Seu primeiro ponto de interesse foi uma janelinha no segundo andar de um prédio.

— É ali que mora o Tommy Müller — disse, e percebeu que Liesel não se lembrava do menino. — O careteiro, sabe? Quando tinha cinco anos, ele se perdeu na feira no dia mais frio do ano. Três horas depois, quando o acharam, estava duro de gelado e teve uma dor de ouvido horrível, por causa do frio. Depois de algum tempo, ficou com os ouvidos todos infeccionados por dentro e fez três ou quatro operações, e os médicos acabaram com os nervos dele. É por isso que ele faz caretas. Liesel fez coro:

—        E é ruim no futebol.

—        Péssimo.

Depois veio a loja da esquina no fim da Rua Himmel. A de Frau Diller.

 

• NOTA IMPORTANTE SOBRE FRAU DILLER •

A mulher tinha uma regra fundamental

Frau Diller era uma mulher irritadiça, de óculos grossos e olhar implacável Tinha criado esse olhar nefando para desestimular a própria idéia de alguém roubai sua loja, que ela ocupava com postura militar, voz gélida e até uma respiração que cheirava a "heil Hitler". A loja em si era branca e fria, completamente exangue. A casinha espremida ao seu lado tremia com um pouco mais de severidade do que as outras construções da Rua Himmel. Frau Diller administrava esse sentimento, servindo-o como o único produto grátis de suas instalações. Ela vivia para sua loja, e sua loja vivia para o Terceiro Reich. Mesmo quando começou o racionamento, mais para o fim do ano, sabia-se que ela vendia por baixo do pano algumas mercadorias difíceis de obter e doava o dinheiro para o Partido Nazista. Na parede, alias do lugar em que costumava ficar sentada, havia uma fotografia emoldurada do Führer.

Se você entrasse na loja dela e não dissesse "heil Hitler", não seria atendido. Quando os dois passaram, Rudy chamou a atenção de Liesel para os olhos a prova de bala que fitavam de soslaio pela vitrine da loja.

—        Diga "heil" quando entrar lá — advertiu-a Rudy, com ar tenso. — A não ser que queira andar um pouco mais.

Mesmo depois de terem passado muito da loja, Liesel virou para trás, e os olhos ampliados continuavam lá, grudados na vitrine.

Dobrada a esquina, a Rua Munique (a principal avenida para se entrar e sair de Molching) estava toda enlameada.

Como freqüentemente acontecia, algumas fileiras de soldados em treinamento passaram marchando. Seus uniformes andavam eretos e suas botas negras poluíam ainda mais a neve. Os rostos fixavam-se adiante, concentrados.

Depois de verem os soldados desaparecer, o grupo dos Steiner e Liesel passaram por algumas vitrines de lojas e pela imponente prefeitura, que, anos depois, seria retalhada pelos joelhos e enterrada. Algumas lojas estavam abandonadas e ainda marcadas por estrelas amarelas e estigmas anti-semitas. Mais adiante, a igreja apontava para o céu, com seu telhado que era um verdadeiro ensaio sobre a colaboração das telhas. No conjunto, a rua era um longo tubo cinzento — um corredor de umidade, gente agachada no frio e o som chapinhante de passos molhados.

A certa altura, Rudy saiu correndo, arrastando Liesel consigo.

Bateu na vitrine ela loja de um alfaiate.

Se tivesse conseguido ler a tabuleta, Liesel teria notado que ela pertencia ao pai de Rudy. A loja ainda não tinha aberto, mas, lá dentro, um homem arrumava peças de vestuário atrás do balcão. Olhou para cima e acenou.

—        Meu pai — informou Rudy, e, logo em seguida, eles estavam no meio de uma massa de Steiners de tamanhos variados, todos dando adeusinho ou jogando beijos para o pai, ou simplesmente parados e cumprimentando com um aceno de cabeça (no caso dos mais velhos), e então seguiram adiante, em direção ao último marco antes da escola.

 

• A ÚLTIMA PARADA •

A rua das estrelas amarelas

Era um lugar em que ninguém queria ficar e para o qual ninguém queria olhar, mas quase todos o faziam. No formato de um longo braço quebrado, a rua continha várias casas com janelas destroçadas e paredes machucadas. Nas portas estava pintada a estrela-de-davi. Essas casas eram quase como leprosos. No mínimo, eram pústulas infeccionadas no tecido alemão ferido.

—        Schiller Strasse — disse Rudy. — A rua das estrelas amarelas.

Ao fundo, algumas pessoas se deslocavam. A garoa as fazia parecerem fantasmas. Não seres humanos, mas formas, movendo-se sob as nuvens cor de chumbo.

—        Andem, vocês dois — chamou Kurt (o mais velho das crianças Steiner). Rudy e Liesel apertaram o passo em direção a ele.

Na escola, Rudy fazia questão de procurar Liesel nos horários de recreio. Não se incomodava com o fato de os outros murmurarem sobre a burrice da nova menina Esteve ao lado dela no começo e estaria a seu lado depois, quando a frustração de I Liesel explodisse. Mas não ia fazê-lo de graça.

 

• A ÚNICA COISA PIOR DO QUE UM MENINO QUE DETESTA A GENTE •

Um menino que ama a gente.

No fim de abril, quando voltavam da escola, Rudy e Liesel ficaram esperando na Rua Himmel pelo jogo habitual de futebol. Era meio cedo e nenhuma outra criança havia aparecido até então. A única pessoa que viram foi Pfiffikus, o desbocado.

—        Olha lá — apontou Rudy.

 

• RETRATO DE PFIFFIKUS •

Ele era uma estrutura delicada.

Era uma cabeleira branca.

Era uma capa de chuva preta, calças marrons,

sapatos decrépitos e uma boca — e que bocal

 

—        Ei, Pfiffikus!

Quando a figura distante se virou, Rudy começou a assobiar.

O velho empertigou-se ao mesmo tempo e começou a xingar com uma ferocidade que só se pode descrever como um talento. Ninguém parecia saber qual era seu verdadeiro nome, ou pelo menos, se sabia, nunca o usava. Ele só era chamado de Pfiffikus porque esse é o nome que se dá a quem gosta de assobiar, e Pfiffikus decididamente gostava. Vivia assobiando uma música chamada Marcha Radetzky e a garotada toda da cidade o chamava e reproduzia a melodia. Nesse exato momento, Pfiffikus abandonava seu jeito habitual de andar (curvado para frente, com passadas largas e desajeitadas e as mãos atrás das costas protegidas pela capa de chuva) e se empertigava para soltar impropérios. Era o momento em que a impressão de serenidade sofria uma interrupção violenta, porque a voz dele transbordava de ódio.

Nessa ocasião, Liesel acompanhou o motejo de Rudy, quase como um ato reflexo

—        Pfiffikus! — ecoou, adotando prontamente aquela crueldade apropriada que a infância parece exibir. Seu assobio era horroroso, mas não havia tempo para aperfeiçoá-lo.

O velho correu atrás deles, aos gritos. A coisa começou por "Geh' scheissen!" e, desse ponto em diante, deteriorou depressa. No começo, ele dirigiu os insultos apenas ao menino, mas não tardou a chegar a vez de Liesel.

—        Sua vadiazinha! — rugiu o homem. As palavras a atingiram como tijoladas nas costas. — Nunca vi você mais gorda! — continuou. Imagine chamar uma menina de dez anos de vadia. Pfiffikus era assim. Havia uma concordância geral em que ele e Frau Holtzapfel formariam um casal encantador. — Voltem aqui! — foram as últimas palavras ouvidas por Liesel e Rudy, enquanto continuavam correndo. Correram até chegar à Rua Munique.

—        Venha — disse Rudy, depois de recobrarem o fôlego. — Só mais um pouquinho, até ali.

Levou-a até o Oval Hubert, palco do incidente de Jesse Owens, onde os dois ficaram parados, com as mãos nos bolsos. A pista se estendia à sua frente. Só podia acontecer uma coisa. Rudy começou.

—        Cem metros — incitou-a. — Aposto que você não consegue me ganhar.

Liesel não estava disposta a engolir nada daquilo.

— Aposto que eu consigo.

— Você aposta o quê, Saumenschzinha? Tem algum dinheiro?

— É claro que não. Você tem?

— Não.

Mas Rudy teve uma idéia. Era o menino apaixonado vindo à tona.

—        Se eu ganhar, eu beijo você.

Abaixou-se e começou a dobrar a bainha das calças. Liesel ficou assustada, para dizer o mínimo.

—        Para que você quer me beijar? Eu estou imunda.

—        Eu também.

Era claro que Rudy não via razão para um pouquinho de sujeira atrapalhar as coisas. Já fazia algum tempo desde o último banho dos dois.

Ela pensou no assunto, enquanto examinava as pernas magricelas da oposição. Eram mais ou menos iguais às suas. Não tem jeito de ele me vencer, pensou com seus botões. Balançou afirmativamente a cabeça, com ar grave. Aquilo era para valer.

—        Você pode me dar um beijo, se ganhar. Mas, se eu ganhar, deixo de ser goleira no futebol.

Rudy refletiu.

—        Está valendo —, e os dois apertaram as mãos.

Tudo eram céus escuros e neblina, e começavam a cair umas gotinhas de chuva. A pista era mais lamacenta do que parecia. Os competidores se aprontaram.

Rudy jogaria uma pedra para cima, como se fosse o tiro da partida. Quando ela batesse no chão, os dois poderiam começar a correr.

— Nem consigo ver a linha de chegada - reclamou Liesel.

—        E eu consigo?

A pedra afundou feito cunha na terra.

Os dois correram lado a lado, trocando cotoveladas e procurando ficar na frente. O chão escorregadio sugava seus pés e acabou por derrubá-los, talvez a uns vinte metros do final.

—        Jesus, Maria e José! — gritou Rudy. — Estou coberto de cocô!

—        Não é cocô, é lama — corrigiu Liesel, embora tivesse suas dúvidas. Os dois se arrastaram mais cinco metros em direção à chegada.

—        Então, vamos considerar empate? — perguntou.

Rudy olhou-a, com seus dentes afiados e os olhos azuis botocudos. Metade de seu rosto estava pintada de lama.

—        Se der empate, ainda ganho meu beijo?

—        Nem num milhão de anos — disse Liesel, que se levantou e sacudiu um pouco de lama do capote.

—        Você deixa de ser goleira.

—        Dane-se a sua goleira.

Enquanto voltavam para a Rua Himmel, Rudy a advertiu:

—        Um dia, Liesel, você vai morrer de vontade de me beijar.

Mas Liesel sabia.

Jurou.

Enquanto ela e Rudy Steiner vivessem, jamais beijaria aquele Saukerl desgraçado e imundo, especialmente não nesse dia. Havia assuntos mais importantes de que cuidar. Liesel olhou para sua roupa de lama e declarou o óbvio.

—        Ela vai me matar.

Ela, é claro, era Rosa Hubermann, também conhecida como mamãe, e por pouco não a matou mesmo. A palavra Saumensch foi uma grande protagonista na administração do castigo. Rosa fez picadinho de Liesel.

 

O INCIDENTE DE JESSE OWENS

Como nós dois sabemos, Liesel não estava à mão na Rua Himmel quando Rudy praticou seu ato de infâmia infantil. Mas, quando rememorou o passado, foi como se tivesse estado presente. Em sua lembrança, de algum modo, tornara-se membro da platéia imaginária de Rudy. Ninguém mais o mencionou, mas Rudy com certeza compensou isso, tanto que, quando Liesel veio a recordar sua história, o incidente de Jesse Owens fez parte dela, tanto quanto tudo que a menina havia testemunhado em primeira mão.

Era 1936. A Olimpíada. Os jogos de Hitler.

Jesse Owens acabara de completar o revezamento 4 X 100 e conquistara sua quarta medalha de ouro. A história de que ele era subumano, por ser negro, e da recusa de Hitler a lhe apertar a mão foi alardeada pelo mundo afora. Até os alemães mais racistas ficaram admirados com os esforços de Owens, e a notícia de sua proeza vazou pelas brechas. Ninguém ficou mais impressionado do que Rudy Steiner.

Todos os seus familiares estavam amontoados na sala da família quando ele se esgueirou para a cozinha. Tirou um pouco de carvão do fogão e segurou as pedras nas mãozinhas miúdas. "É agora." Veio o sorriso. Ele estava pronto.

Esfregou bem o carvão no corpo, numa camada espessa, até ficar coberto de preto. Até no cabelo deu uma esfregada.

Na janela, o menino deu um sorriso quase maníaco para seu reflexo e, de short e camiseta, surrupiou silenciosamente a bicicleta do irmão mais velho e saiu pedalando pela rua, em direção ao Oval Hubert. Escondera num dos bolsos uns pedaços extras de carvão, para o caso de parte dele sair, mais tarde.

Na cabeça de Liesel, a Lua estava costurada no céu naquela noite. Com nuvens pespontadas em volta dela.

A bicicleta enferrujada parou com um tranco na cerca do Oval Hubert, que Rudy escalou. Desceu do outro lado e foi saltitando, desajeitado, até o começo dos cem metros. Com entusiasmo, fez uma série de alongamentos pavorosos. Cavou buracos para a partida na terra.

A espera de seu momento, andou de um lado para outro, reunindo a concentração sob o céu de trevas, com a Lua e as nuvens vigiando, tensas.

— Owens está com pinta de vencedor — começou a comentar. — Esta talvez seja sua maior vitória em todos os tempos...

Apertou as mãos imaginárias dos outros atletas e lhes desejou boa sorte, muito embora soubesse. Eles não tinham a menor chance.

O juiz da largada fez sinal para que os atletas avançassem. Uma multidão materializou-se em cada centímetro quadrado da circunferência do Oval Hubert. Todos gritavam uma coisa só. Entoavam o nome de Rudy Steiner — e seu nome era Jesse Owens.

Calaram-se todos.

Os pés descalços do menino agarraram o chão. Ele podia sentir a terra grudada entre os dedos.

Ao comando do juiz de largada, assumiu a posição — e a pistola abriu um buraco na noite.

No primeiro terço da corrida, foi tudo bastante equilibrado, mas era só uma questão de tempo para que o Owens encarvoado se livrasse e ampliasse a vantagem.

— Owens na frente — gritou a voz esganiçada do menino, enquanto ele corria pela pista deserta, diretamente em direção aos aplausos retumbantes da glória olímpica. Chegou até a sentir a fita romper-se em duas em seu peito, ao atravessá-la em primeiro lugar. O homem mais veloz da Terra.

Só na volta da vitória foi que as coisas azedaram. Em meio à multidão, seu pai estava parado na linha de chegada, que nem o bicho-papão. Ou, pelo menos, um bicho-papão de terno. (Como já foi mencionado, o pai de Rudy era alfaiate. Raras vezes era visto na rua sem estar de terno e gravata. Nessa ocasião, eram apenas o terno e uma camisa amarrotada).

— WAS IST LOS?  perguntou o Sr. Steiner ao filho, quando ele apareceu em toda a sua glória acarvoada. - Que diabo está acontecendo aqui?

A multidão desapareceu. Uma brisa agitou-se.

— Eu estava dormindo na minha poltrona quando o Kurt notou que você tinha sumido. Estão todos à sua procura.

Em circunstâncias normais, o Sr. Steiner era um homem admiravelmente bem educado. Descobrir que um de seus filhos se encarvoara até ficar preto, numa noite de verão, não era o que ele considerava circunstâncias normais.

— O menino é maluco — resmungou, embora admitisse que, com seis filhos, era fatal que acontecesse uma coisa dessas. Pelo menos um tinha que ser a maçã podre. Neste exato momento, ele a olhava, à espera de uma explicação.

— Bem?

Rudy arfou, dobrando-se e pondo as mãos nos joelhos.

— Eu estava sendo o Jesse Owens — respondeu, como se fosse a coisa mais natural do unindo para se fazer. Em seu tom havia até um quê implícito que sugeria alguma coisa do tipo "Que diabos isso parece ser?" Mas o tom se desfez quando ele viu a falta de sono recortada sob os olhos do pai.

— Jesse Owens? —- repetiu o Sr. Steiner. Ele era daquele tipo de homem muito rígido. Tinha a voz angulosa e franca. O corpo era alto e pesado, como um carvalho. O cabelo lembrava lascas de madeira. — O que tem ele?

— Você sabe, papai, o Mágico Negro.

— Vou mostrar a você o que é magia negra — e segurou a orelha do filho entre o polegar e o indicador.

Rudy estremeceu.

— Puxa, isso dói mesmo!

— Ah, é? — fez o pai, mais preocupado com a textura pegajosa do carvão a lhe contaminar os dedos. Ele cobriu o corpo todo, não foi?, pensou consigo mesmo, está até nas orelhas, pelo amor de Deus! — Vamos.

A caminho de casa, o Sr. Steiner resolveu conversar com o filho sobre política, da melhor maneira que pôde. Só anos depois é que Rudy entenderia tudo — quando já era tarde demais para se dar ao trabalho de entender o que quer que fosse.

 

• A POLÍTICA CONTRADITÓRIA DE ALEX STEINER •

Ponto Um: Ele era membro do Partido Nazista, mas não

odiava os judeus, nem qualquer outra pessoa, aliás.

Ponto Dois: Secretamente, no entanto, não conseguiu deixar

de sentir uma parcela de alívio (ou pior — alegria!) quando

os lojistas judeus foram à falência: a propaganda lhe

informara que era apenas uma questão de tempo

ama praga de alfaiates judeus aparecer e lhe roubar a clientela.

Ponto Três: Mas isso significava que eles Iodos

tinham que ser expulsos?

Ponto Quatro: A família. Com certeza, ele tinha que fazer

o que pudesse para sustentá-la.

Se isso significasse estar no partido,

significaria estar no partido.

Ponto Cinco: Em algum lugar, bem no fundo, havia uma comichão

em seu peito, mas ele fazia questão de não coçar.

Tinha medo do que pudesse vazar dela.

 

Os dois dobraram algumas esquinas até chegar à Rua Himmel, e Alex disse:

—        Filho, você não pode sair por aí se pintando de preto, escutou?

Rudy estava interessado e confuso. Agora a Lua se soltara, livre para se movimentar, subir, descer e pingar no rosto do menino, deixando-o escuro para valer, como seus pensamentos.

—        Por que não, papai?

—        Porque eles o levam embora.

—        Por quê?

—        Porque você não deve querer ser como os negros, nem os judeus, nem qualquer um que... que não seja nós.

—        Quem são os judeus?

—        Conhece aquele meu freguês mais antigo, o Sr. Kaufmann? Da loja onde compramos seus sapatos?

—        Sim.

—        Bom, ele é judeu.

—        Eu não sabia. A gente tem de pagar para ser judeu? Precisa de uma licença?

—        Não, Rudy.

O Sr. Steiner ia conduzindo a bicicleta com uma das mãos e Rudy com a outra. Estava tendo dificuldade era para conduzir a conversa. Ainda não havia soltado o lobo da orelha do filho. Esquecera-se dela.

—        E como ser alemão ou católico.

—        Ah. O Jesse Owens é católico?

—        E eu sei lá!

Nessa hora, tropeçou num pedal da bicicleta e soltou a orelha. Os dois andaram em silêncio por algum tempo, até Rudy dizer:

—        Eu só queria ser como o Jesse Owens, papai.

Dessa vez, o Sr. Steiner pôs a mão na cabeça do menino e explicou:

—        Eu sei, meu filho, mas você tem um lindo cabelo louro e olhos azuis grandes e seguros. Devia ficar feliz com isso, está claro?

Mas não havia nada claro.

Rudy não compreendeu coisa alguma, e essa noite foi o prelúdio do que estava por vir. Dois anos e meio depois, a Sapataria Kaufmann foi reduzida a vidros quebrados e todos os calçados foram jogados num caminhão, dentro de suas caixas.

 

O OUTRO LADO DA LIXA DE PAREDE

As pessoas têm momentos definidores, suponho, especialmente quando são crianças. Para umas, é um incidente de Jesse Owens. Para outras, um momento de histeria que faz urinar na cama.

Era o fim de maio de 1939, e a noite tinha sido como quase todas as outras. Mamãe sacudira seu punho de ferro. Papai havia saído. Liesel limpara a porta da frente e observara o céu da Rua Himmel.

Antes disso, tinha havido um desfile.

Os camisas-pardas que eram membros extremistas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, NSDAP (também conhecido como Partido Nazista), tinham marchado pela Rua Munique, exibindo orgulhosamente suas bandeiras, de queixo erguido, como que sustentado por um mastro. As vozes, cheias de melodia, haviam culminado numa tonitruante execução de "Deutschland über Alies" — "A Alemanha acima de tudo".

Como sempre, eles tinham sido aplaudidos.

Foram instigados a prosseguir, ao caminharem sabe-se lá para onde.

As pessoas da rua ficaram paradas, observando, algumas estendendo o braço em saudação, outras com as mãos ardendo de tanto aplaudir. Algumas exibiam rostos contorcidos de orgulho e arregimentação, como Frau Diller, mas aqui e ali também se espalhavam alguns homens atípicos, como Alex Steiner, que se postou como um bloco de madeira em forma humana, batendo palmas lentas e obedientes. E belas. Submissão.

 Na calçada, Liesel ficara ao lado do pai e de Rudy. O rosto de Hans Hubermann parecia ter as venezianas fechadas.

 

• ALGUNS NÚMEROS MASTIGADOS •

Em 1933, noventa por cento dos alemães manifestavam

um apoio resoluto a Adolf Hitler.

Isso deixa dez por cento que não o manifestavam.

Hans Hubermann fazia parte dos dez por cento.

Havia uma razão para isso.

 

Durante a noite, Liesel sonhou, como sempre sonhava. No começo, viu os camisas-pardas marchando, mas, logo depois, eles a levaram para um trem, onde a descoberta de praxe a esperava. Seu irmão tinha os olhos fixos de novo.

Quando acordou, aos gritos, Liesel soube de imediato que, nessa ocasião, alguma coisa havia mudado. Um cheiro vazava por baixo das cobertas, morno e doentio. A princípio, ela tentou se convencer de que não havia acontecido nada, mas, quando papai chegou mais perto e a abraçou, ela chorou e admitiu a verdade em seu ouvido.

—        Papai — murmurou. — Papai —, e foi só. Provavelmente, ele sentira o cheiro.

Hans tirou-a delicadamente da cama e a levou para o banheiro. O momento veio minutos depois.

—        A gente tira os lençóis — disse o papai, e, quando estendeu a mão por baixo e puxou o tecido, alguma coisa se soltou e caiu com um baque. Um livro preto, com letras prateadas na capa, que veio num tranco e despencou no chão, entre os pés do homem alto.

Ele baixou os olhos.

Olhou para a menina, que encolheu timidamente os ombros.

Em seguida, leu o título em voz alta, com concentração:

—        O Manual do Coveiro.

Então era esse o nome, pensou Liesel.

Uma nesga de silêncio infiltrou-se entre eles. O homem, a menina, o livro. Ele o pegou e falou, baixinho feito algodão.

 

• UMA CONVERSA ÀS DUAS DA MANHÃ •

— Isto é seu?

—        Sim, papai.

—        Quer lê-lo?

De novo: — Sim, papai.

Sorriso cansado.

Olhos metálicos, derretendo-se.

— Bem, então é melhor a gente ler.

 

Quatro anos depois, quando ela começou a escrever no porão, duas idéias ocorreram a Liesel a respeito do trauma de urinar na cama. Primeiro, ela achou que tivera uma sorte imensa por ter sido papai a descobrir o livro. (Felizmente, ao lavar os lençóis na vez anterior, Rosa mandara Liesel tirá-los da cama e refazê-la. — E trate de andar depressa, Saumensch! Está parecendo que eu tenho o dia inteiro?) Segundo, ela sentia um orgulho evidente do papel de Hans Hubermann em sua educação. Talvez você não imagine, escreveu, mas não foi tanto a escola que me ajudou a ler. Foi papai. As pessoas acham que ele não é inteligente, e é verdade que ele não lê muito depressa, mas eu não tardaria a saber que as palavras e a escrita tinham salvado sua vida, uma vez. Ou, pelo menos, as palavras e um homem que lhe ensinara o acordeão...

 

— Primeiro as coisas mais importantes — disse Hans Hubermann naquela noite. Lavou os lençóis e os pendurou. — Agora — disse, ao regressar — vamos dar início a esta aula da meia-noite.

A luz amarela estava viva, de tanta poeira.

Liesel sentou-se nos lençóis limpos e frios, envergonhada, radiante. A idéia de ter minado na cama a aguilhoava, mas ela ia ler. Leria o livro.

A empolgação pôs-se de pé dentro dela.

Acenderam-se visões de um gênio da leitura de dez anos de idade.

Que bom se fosse fácil assim!

—        Para lhe dizer a verdade — papai foi logo explicando —, eu mesmo não sou muito bom de leitura.

Mas não fazia mal ele ler devagar. Para dizer o mínimo, talvez fosse útil o seu ritmo de leitura ser mais lento do que a média. Talvez causasse menos frustração, ao lidar com a inabilidade da menina.

Ainda assim, a princípio, Hans pareceu meio constrangido ao segurar o livro e folheá-lo.

Quando se aproximou e sentou ao lado dela na cama, reclinou-se, com as pernas penduradas de lado. Tornou a examinar o livro e o deixou cair no cobertor.

—        Ora, por que uma boa menina como você quer ler uma coisa dessas?

Liesel tornou a encolher os ombros. Se o aprendiz andasse lendo a obra completa de Goethe, ou outro desses luminares, seria isso que estaria diante deles. Ela tentou explicar:

—        Eu... quando... Eu estava sentada na neve, e...

As palavras, ditas baixinho escorregaram pela lateral da cama e se esvaziaram no chão, feito pó.

Mas papai sabia o que dizer. Ele sempre sabia o que dizer. Passou a mão pelo cabelo sonolento e disse:

—        Bem, prometa-me uma coisa, Liesel. Se eu morrer dentro em breve, trate de fazer com que me enterrem direito.

Ela fez que sim com a cabeça, com grande sinceridade.

—        Nada de pular o capítulo seis nem a quarta etapa do capítulo nove. Ele riu, assim como a molhadora de cama.

—        Bom, fico contente por termos resolvido isso. Agora podemos ir em frente. Hans ajeitou o corpo e seus ossos rangeram como as tábuas invejosas do piso.

—        Vai começar a diversão.

Ampliada pela quietude da noite, abriu-se com o livro... uma rajada de vento.

Ao olhar para trás, Liesel era capaz de dizer exatamente em que seu pai estivera pensando ao vasculhar a primeira página do Manual do Coveiro. Percebendo a dificuldade do texto, ele tivera clara consciência de que aquele livro estava longe de ser o ideal. Havia palavras com que ele mesmo teria dificuldade. Para não falar da morbidez do assunto. Quanto à menina, ela sentira um desejo repentino de lê-lo, que nem sequer tentara entender. Qualquer que fosse a razão, sua ânsia de ler aquele livro era tão intensa quanto qualquer ser humano de dez anos seria capaz de vivenciar.

O capítulo um chamava-se "O primeiro passo: escolher o equipamento certo". Numa breve passagem introdutória, resumia o tipo de material a ser abordado nas vinte páginas seguintes. Tipos de pás, picaretas, luvas e similares foram discriminados, assim como a necessidade vital de fazer sua manutenção adequada. Esse negócio de cavar sepulturas era sério.

Enquanto o pai percorria o texto, com certeza sentia os olhos de Liesel fixados nele. Os olhos o alcançavam e agarravam, à espera de alguma coisa, de qualquer coisa que lhe saísse dos lábios.

— Pronto — disse o pai, tornando a se ajeitar e lhe entregando o livro. — Ollie para essa página e me diga quantas palavras você sabe ler.

Liesel a olhou — e mentiu.

—        Mais ou menos a metade.

—        Leia algumas para mim.

Mas é claro que ela não conseguiu. Quando Hans a fez apontar para qualquer palavra que soubesse ler e efetivamente pronunciá-la, houve apenas três: as três palavras principais em alemão que dão as formas do artigo "o". A página inteira devia ter umas duzentas palavras.

Isso talvez seja mais difícil do que eu imaginava.

Foi o que Liesel o apanhou pensando, só por um instante.

Hans se inclinou para frente, pôs-se de pé e saiu. Dessa vez, ao voltar, disse:

—        Na verdade, tenho uma idéia melhor.

Trazia na mão um lápis grosso de pintor e uma pilha de lixas de parede.

—        Vamos começar do zero.

Liesel não viu motivo para discutir.

No canto esquerdo de um pedaço de lixa virado pelo avesso, ele desenhou um quadrado de mais ou menos dois centímetros e meteu um A maiúsculo dentro dele. No canto oposto, botou um minúsculo. Até ali, tudo bem.

— "A" — disse Liesel.

— A de quê?

Ela sorriu: — Apfel.

Hans escreveu a palavra em letras grandes e desenhou embaixo uma maçã meio torta. Era pintor de paredes, não de quadros. Ao terminar, olhou para o papel e disse:

—        Agora, o B.

Enquanto os dois avançavam pelo alfabeto, os olhos de Liesel se arregalaram. Ela já fizera aquilo na escola, na aula do jardim-de-infância, mas dessa vez era melhor. Ela era a única presente e não era gigantesca. Era bom ver a mão do pai escrevendo as palavras e construindo devagar os esboços primitivos.

—        Ora, vamos, Liesel — disse-lhe Hans depois, quando ela lutava com a dificuldade. — Uma coisa que comece com S. É fácil. Estou muito decepcionado com você.

Ela não conseguia pensar.

—        Vamos! — veio o sussurro brincalhão. — Pense na mamãe.

Foi quando a palavra atingiu-a no rosto, feito uma bofetada. Um sorriso reflexo.

—        Saumensch! — exclamou a menina, e o pai caiu na gargalhada, depois ficou quieto.

—        Pssiu, não podemos fazer barulho.

Mas continuou a rolar de rir e escreveu a palavra, completando-a com um de seus esboços.

 

 

• UMA TÍPICA OBRA DE ARTE DE HANS HUBERMANN •

—        Papai! — sussurrou Liesel. — Eu não tenho olhos!

Hans fez um afago no cabelo da menina. Ela havia caído em sua armadilha.

—        Com um sorriso desses — disse Hans Hubermann —, você não precisa de olhos. Abraçou-a e tornou a olhar para o desenho, com um rosto de prata aquecida.

—        Agora, o T.

 Terminado e estudado o alfabeto umas dez vezes, papai se inclinou e disse:

—        Já chega por hoje?

—        Mais umas palavras?

Ele foi categórico:

—        Chega. Quando você acordar, eu lhe toco o acordeão.

—        Obrigada, papai.

—        Boa noite.

Um riso baixinho, de uma sílaba:

—        Boa noite, Saumensch.

—        Boa noite, papai.

Ele apagou a luz, voltou e se sentou na cadeira. Na escuridão, Liesel manteve os olhos abertos. Estava vendo as palavras.

 

O CHEIRO DA AMIZADE

Continuou.

Nas semanas seguintes e até entrar o verão, a aula da meia-noite começou no fim de cada pesadelo. Houve mais dois episódios de urinar na cama, porém Hans Hubermann só fez repetir sua heróica proeza anterior de limpeza e se dedicar à tarefa de ler, desenhar e recitar. Nas primeiras horas da madrugada, as vozes baixas eram altas.

Numa quinta-feira, pouco depois das três da tarde, a mamãe disse a Liesel que se aprontasse para ir com ela entregar umas roupas passadas. Papai tinha outras idéias.

Entrou na cozinha e disse:

—        Desculpe, mamãe, mas hoje ela não vai com você.

A mãe nem se deu ao trabalho de erguer os olhos da trouxa de lavagem:

—        Quem foi que lhe perguntou, Arschloch? Vamos, Liesel.

—        Ela vai ler — disse Hans. Ofereceu a Liesel um sorriso firme e uma piscadela. — Comigo. Estou ensinando a ela! Nós vamos ao Amper, à parte alta do rio, lá onde eu costumava treinar o acordeão.

Nessa hora, captou a atenção de Rosa.

A mãe pôs na mesa a roupa que estava lavando e se armou com todo o empenho para chegar ao nível adequado de cinismo.

—        Que foi que você disse?

—        Acho que você me ouviu, Rosa.

Mamãe deu uma risada.

—        E que diabo você pode ensinar a ela? — indagou. Um sorriso de papelão. Palavras que pareciam cruzados no queixo. — Como se você soubesse ler grande coisa, seu Saukerl.

 A cozinha esperou. Papai revidou o golpe. -— Levaremos sua roupa passada para você.

—        Seu porcaria de... — Mas Rosa se deteve. As palavras lhe ficaram na ponta da língua, enquanto ela pensava. — Voltem antes do anoitecer.

—        Não podemos ler no escuro, mamãe — disse Liesel.

—        Como é, Saumensch?

—        Nada, mamãe.

Papai sorriu e apontou para a menina.

—        Livro, lixa de parede, lápis — ordenou — e o acordeão! — quando ela já havia saído. Logo estavam na Rua Himmel, carregando as palavras, a música e a roupa lavada.

Enquanto andavam em direção à loja de Frau Diller, viraram-se algumas vezes para ver se mamãe ainda estava no portão a observá-los. Estava. A certa altura, ela gritou:

—        Liesel, segure direito essa roupa passada! Não a amarrote!

—        Sim, mamãe!

Mais uns passos adiante:

—        Liesel, você se agasalhou direito?

—        O que você disse?

—        Saumensch dreckiges, você nunca escuta nada? Está bem agasalhada? Pode esfriar mais tarde!

Ao dobrar a esquina, o pai abaixou-se para amarrar um cadarço do sapato.

—        Liesel — disse —, pode enrolar um cigarro para mim?

Nada lhe daria maior prazer.

Uma vez entregue a roupa passada, eles refizeram o percurso para o Rio Amper, que margeava a cidade. O rio serpenteava por ali, apontando na direção de Dachau, o campo de concentração.

Havia uma ponte de tábuas.

Os dois se sentaram na grama a uns trinta metros dela, talvez, escrevendo as palavras e lendo-as em voz alta, e, quando a escuridão se aproximou, Hans pegou o acordeão. Liesel o fitou e ouviu, embora não notasse de imediato a expressão perplexa no rosto do pai naquela noite, enquanto ele tocava.

 

• O ROSTO DE PAPAI •

Ele vagava e meditava,

mas sem revelar nenhuma resposta.

Ainda não.

Tinha havido uma mudança nele. Uma mudança ligeira.

 

Liesel a viu, mas só se deu conta depois, quando todas as histórias se juntaram. Não a viu ao observá-lo tocar, porque não tinha idéia de que o acordeão de Hans Hubermann era uma história. Em tempos vindouros, essa história chegaria ao número 33 da Rua Himmel nas primeiras horas da madrugada, usando ombros amarrotados e um paletó enregelado. Carregaria uma mala, um livro e duas perguntas. Uma história. Uma história depois da história. Uma história dentro da história.

Por enquanto, havia apenas a história que dizia respeito a Liesel, e dessa ela estava gostando.

Acomodou-se nos braços compridos da relva, deitada de costas.

Fechou os olhos, e seus ouvidos seguraram as notas.

Também havia alguns problemas, é claro. Às vezes, papai quase gritava com ela.

—        Ande, Liesel — dizia. — Você sabe essa palavra, você sabe!

Justo quando o progresso parecia correr bem, as coisas empacavam, de algum modo.

Quando fazia bom tempo, os dois iam ao Amper à tarde. Com tempo ruim, era o porão. Isso foi principalmente por causa da mãe. No começo, eles tentaram a cozinha, mas não houve jeito.

—        Rosa — Hans lhe disse, a horas tantas. Baixinho, suas palavras interromperam uma das frases dela. — Pode me fazer um favor?

Ela ergueu os olhos do fogão.

—        O que é?

—        Eu lhe peço, eu lhe imploro, será que você pode fazer o favor de calar a boca, só por cinco minutos?

A reação você pode imaginar. Os dois acabaram no porão.

Lá não havia luz, de modo que eles levavam uma lamparina de querosene, e aos poucos, entre a escola e a casa, do rio ao porão, dos dias bonitos aos de mau tempo, Liesel foi aprendendo a ler e escrever.

—        Dentro em breve — disse-lhe o pai —, você saberá ler aquele livro horroroso das sepulturas de olhos fechados.

—        E aí posso sair daquela turma de anões.

Proferiu essas palavras com uma espécie de jeito sombrio de posse.

Numa das aulas no porão, papai dispensou a lixa (que estava acabando depressa) e pegou um pincel. Eram poucos os luxos na casa dos Hubermann, mas havia um suprimento abundante de tinta, e ela foi mais do que útil para a aprendizagem de Liesel. Papai dizia uma palavra e a menina tinha que soletrá-la em voz alta e pintá-la na parede, desde que a acertasse. Depois de um mês, a parede era repintada. Uma nova página de cimento.

Certas noites, depois de trabalhar no porão, Liesel se agachava na banheira e ouvia os mesmos ditos provenientes da cozinha.

 

— Você está fedendo — dizia mamãe a Hans. — A cigarro e querosene.

Sentada na água, a menina imaginava aquele cheiro, mapeado nas roupas do pai. Mais do que tudo, era o cheiro da amizade, e ela também o sentia em si mesma. Liesel adorava aquele cheiro. Cheirava o próprio braço e sorria, enquanto a água esfriava a seu redor.

 

A CAMPEÃ PESO PESADO DO PÁTIO DA ESCOLA

O verão de 1939 estava com pressa, ou talvez Liesel estivesse. Ela passou o tempo jogando futebol com Rudy e os outros garotos da Rua Himmel (um passatempo do ano inteiro), carregando roupas pela cidade com a mãe e aprendendo palavras. Foi como se o verão acabasse dias depois de começar.

Na última parte do ano, aconteceram duas coisas.

 

• SETEMBRO-NOVEMBRO DE 1939 •

1. Começou a Segunda Guerra Mundial.

2. Liesel Meminger tornou-se a campeã

peso pesado do pátio da escola.

 

Início de setembro.

Fez um dia frio em Molching quando a guerra começou e minha carga de trabalho aumentou.

O mundo discutiu o assunto.

As manchetes dos jornais se deleitaram.

A voz do Führer rugia nos rádios alemães. Não desistiremos. Não descansaremos. Seremos vencedores. Chegou a nossa vez.

Começara a invasão da Polônia e havia gente reunida em toda parte, escutando as notícias. A Rua Munique, como todas as outras ruas principais ela Alemanha, ganhou vida com a guerra. O cheiro, a voz, O racionamento tinha começado dias antes — o sinal ela desgraça iminente — e agora era oficial. A Inglaterra e a França tinham feito sua declaração à Alemanha. Para roubar uma frase de Hans Hubermann,

Vai começar a diversão.

No dia do anúncio, papai tivera a sorte de ter trabalho. Na volta para casa, pegou um jornal que alguém jogara fora e, em vez de parar para metê-lo entre as latas de tinta de sua carroça, dobrou-o e o enfiou embaixo da camisa. Quando chegou em casa e o retirou, o suor havia puxado a tinta para sua pele. O jornal caiu na mesa, mas as notícias lhe ficaram gravadas no peito. Uma tatuagem. Mantendo a camisa aberta, ele olhou para baixo, na luz incerta da cozinha.

—        O que é que diz? — perguntou Liesel, que olhava para lá e para cá, dos contornos pretos na pele para o jornal.

— "Hitler toma a Polônia" — foi a resposta, e Hans Hubermann desabou numa cadeira. — "Deutschland über Alies" — murmurou, e sua voz não foi nem remotamente patriótica.

Lá estava o rosto de novo — o rosto do acordeão.

Foi o começo de uma guerra. Liesel logo estaria em outra.

Quase um mês depois do reinicio das aulas, ela foi transferida para a série do seu nível apropriado. Talvez você imagine que foi por causa de sua melhora na leitura, mas não foi. Apesar do avanço, ela continuava a ler com grande dificuldade. Havia frases espalhadas por toda parte. As palavras a ludibriavam. A razão de ela ter sido promovida teve mais a ver com o fato de Liesel ter-se tornado disruptiva na turma dos mais novos. Respondia a perguntas dirigidas a outras crianças e interrompia. Vez por outra, recebia o que era conhecido como uma Watschen (pronunciada "varchen") no corredor.

 

• UMA DEFINIÇÃO •

Watschen = uma boa sova

Ela era levantada, posta numa cadeira à parte e instruída pela professora a calar a boca; a professora, aliás, também era freira. Do outro lado da sala, Rudy a olhava e lhe dava adeusinhos. Liesel retribuía o aceno e procurava não sorrir.

Em casa, ela havia avançado bastante na leitura do Manual do Coveiro com o pai. Os dois circundavam as palavras que ela não conseguia compreender e as levavam para o porão no dia seguinte. Liesel achava que isso era o bastante. Não era.

Em algum ponto do início de novembro, houve provas de aproveitamento na escola. Uma delas era de leitura. Todas as crianças tinham que ficar de pé na frente da sala e ler um trecho que a professora lhes dava. Era uma manhã gelada, mas de sol brilhante. As crianças espremiam os olhos. Um halo circundava a ceifeira implacável, Irmã Maria. (A propósito, gosto dessa idéia humana da ceifeira implacável. Gosto da gadanha. Isso me diverte.)

Na sala banhada de sol, os nomes iam sendo chacoalhados ao acaso. - Waldenheim, Lehmann, Steiner.

Todos ficaram de pé e fizeram uma leitura, todos com níveis diferentes de capacidade. Rudy foi surpreendentemente bem.

Durante toda a prova, Liesel ficou sentada, com uma mescla de expectativa febril e medo excruciante. Queria desesperadamente ser avaliada, descobrir de uma vez POR TODAS se seu aprendizado vinha progredindo. Estaria à altura da prova? Poderia sequer, aproximar-se de Rudy e dos demais?

Toda vez que Irmã Maria olhava para a lista, um feixe de nervos comprimia as costelas de Liesel. Tinha começado no estômago, mas fora subindo. Logo, logo estaria em seu pescoço, grosso como uma corda.

Quando Tommy Müller terminou sua tentativa medíocre, Liesel correu os olhos pela sala. Todos já tinham lido. Ela era a única que faltava.

— Muito bem — disse Irmã Maria, balançando a cabeça enquanto examinava a lista — Estão todos aí. O que?

— Não! Uma voz praticamente apareceu do outro lado da sala. Preso a ela estava um pouco de cabelo cor de limão, cujos joelhos ossudos chocavam-se com suas calças debaixo da carteira. Ele levantou a mão e disse:

— Irmã Maria, acho que a senhora esqueceu a Liesel.

Irmã Maria.

Não se impressionou.

Bateu com a pasta na mesa à sua frente e inspecionou Rudy, com um suspiro de reprovação. Foi quase melancólico. Por quê, lamentava-se a freira, tinha ela que suportar Rudy Steiner? Ele simplesmente não conseguia ficar de boca fechada. Por quê, Senhor, por quê?

— Não — disse, em tom categórico. Sua barriguinha inclinou-se para a frente com o resto do corpo. — Receio que a Liesel não possa, Rudy — e olhou para a menina, em busca de confirmação. — Ela lerá para mim depois.

A menina pigarreou e falou, com sereno desafio: — Posso ler agora, Irmã. A maioria das outras crianças observava em silêncio. Algumas praticaram o belo ato infantil de dar risinhos abafados. Foi o bastante para a Irmã.

— Não, você não pode!... Que está fazendo?

É que Liesel saíra da cadeira e se dirigia lentamente, com andar duro, para a frente da sala. Pegou o livro e o abriu numa página qualquer.

—        Então, muito bem — disse Irmã Maria. — E o que você quer fazer? Pois leia.

—        Sim, Irmã.

Após uma rápida olhadela para Rudy, Liesel baixou os olhos e examinou a página.

Quando tornou a erguê-los, a sala desfez-se em pedaços, depois voltou a se amontoar numa só. Todas as crianças tinham virado uma pasta, bem diante dos seus olhos, e, num momento luminoso, ela se imaginou lendo a página inteira, num triunfo impecável de fluência.

 

• UMA PALAVRA-CHAVE •

Imaginou

—        Anda, Liesel!

Rudy quebrou o silêncio.

A menina que roubava livros tornou a baixar os olhos para as palavras.

Anda. Dessa vez, Rudy fez apenas os movimentos labiais. Anda, Liesel.

O sangue dela soou mais alto. As frases viraram um borrão.

Súbito, a página branca estava escrita em outra língua, e o fato de seus olhos se encherem de lágrimas não ajudou. Ela já nem conseguia enxergar as palavras.

E o sol. Aquele sol terrível. Explodia pela janela — havia vidro em toda parte — e brilhava diretamente sobre a menina inútil. Gritava em seu rosto. "Você é capaz de roubar um livro, mas não consegue lê-lo!"

Então lhe ocorreu. Uma solução.

Respirando, respirando fundo, ela começou a ler, mas não o livro à sua frente. Era alguma coisa do Manual do Coveiro. Capítulo três: ''Na eventualidade de nevar." Ela o havia decorado na voz do pai.

—        Na eventualidade de nevar — disse — você deve certificar-se de usar uma boa pá. Deve cavar fundo, não pode ter preguiça. Não pode economizar o trabalho! — prosseguiu, sugando mais um grande naco de ar. — É claro que é mais fácil esperar pela parte mais quente do dia, quando...          

Acabou-se.

O livro foi arrancado de sua mão e ela ouviu a ordem:

—        Liesel, para o corredor.

Enquanto recebia uma pequena Watschen, podia ouvir todos rindo na sala, entre um tapa e outro de Irmã Maria. Ela as via. Todas aquelas crianças misturadas. Arreganhando os dentes, gargalhando. Banhadas em sol. Todo o mundo ria, menos Rudy.

No recreio, fizeram chacota dela. Um menino chamado Ludwig Schmeikl aproximou-se, segurando um livro.

— Ei, Liesel disse-lhe —, estou com dificuldade com esta palavra. Pode lê-la para mim? — e riu, um riso presunçoso de garoto de dez anos. — Sua Dammkopf, sua idiota.

Agora as nuvens se enfileiravam, grandes e desajeitadas, e havia mais crianças chamando por ela, vendo-a fervilhar.

— Não dê ouvidos a eles — aconselhou Rudy.

— Para você é fácil falar. Não é você o idiota.

Quase no fim do recreio, a contagem dos comentários estava em dezenove. No vigésimo, ela perdeu a estribeira. Com Schmeikl, que voltou para implicar mais um pouco.

— Vamos, Liesel — e lhe enfiou o livro embaixo do nariz. — Me ajude, sim? E Liesel ajudou, pode crer.

Levantou-se, arrancou-lhe o livro e, enquanto ele sorria por cima do ombro para outras crianças, jogou longe o livro e lascou-lhe o pontapé mais forte que podia nas imediações da virilha. Bem, como você pode imaginar, Ludwig Schmeikl certamente dobrou-se e, caminho da descida, levou um soco no ouvido. Quando arriou no chão, foi atacado. Atacado, levou tapas e unhadas e foi obliterado por uma menina profundamente tomada pelo ódio. A pele de Ludwig era muito quente e macia. Os punhos e unhas Liesel eram assustadoramente brutos, apesar da pequenez.

— Seu Saukerl! — disse a voz dela, que também sabia arranhar. — Seu Arschloch. Sabe soletrar Arschloch para mim?

Ah, como as nuvens se atropelaram e se juntaram estupidamente no céu! Enormes nuvens obesas. Escuras e gorduchas.

Esbarrando umas nas outras. Pedindo desculpas. Continuando a se mover para arranjar espaço.

Viriam as crianças, tão rápido, bem, tão rápido quanto crianças gravitando para na briga. A misturada de braços e pernas, de gritos e vivas, engrossou em volta deles. Todas assistiam, enquanto Liesel Meminger dava em Ludwig Schmeikl a maior surra de sua vida.

— Jesus, Maria, José — comentou uma menina, soltando um grito —, ela vai matar ele.

Liesel não o matou. Mas chegou perto.

Provavelmente, na verdade, a única coisa que a deteve foi o rosto sorridente e cheio de tiques ridículos de Tommy Müller. Ainda locupletada de adrenalina, Liesel avistou, rindo de um jeito tão absurdo, que o puxou para baixo e começou a dar ele também.

— O que você está fazendo? — gemeu o menino, e só então, depois do terceiro ou quarto tapa e de surgir um filete de sangue vivo em seu nariz, foi que ela parou.

De joelhos, inspirou forte e ouviu os gemidos abaixo. Olhou para o remoinho de rostos à direita e à esquerda e anunciou:

—        Eu não sou burra.

Ninguém discordou.

Só depois que todos voltaram para dentro e Irmã Maria viu o estado de Ludwig Schmeikl foi que a briga recomeçou. Primeiro, o grosso da suspeita recaiu sobre Rudy e uns outros. Eles estavam sempre se pegando.

— Mãos — veio a ordem para cada menino, mas todos os pares estavam limpos.

— Não acredito — resmungou a freira. — Não pode ser — porque, é claro, quando Liesel deu um passo à frente para mostrar suas mãos, Ludwig Schmeikl estava em todas as partes delas, mais vermelhas a cada instante.

— Para o corredor — disse Irmã Maria, pela segunda vez naquele dia. Pela segunda vez naquela hora, a rigor.

Dessa vez, não foi uma Watschenzinha. Não foi nem uma Watschen média.

Dessa vez, foi a pior de todas as Watschens do corredor, uma fustigada da vara de marmelo após outra, a tal ponto que Liesel mal pôde sentar-se durante uma semana. E não houve risadas vindas da sala. Foi mais o medo silencioso de quem escuta.

No fim do dia de aulas, Liesel voltou para casa com Rudy e os outros filhos dos Steiner. Quando se aproximava da Rua Himmel, numa precipitação de idéias, uma culminação de sofrimentos tomou conta dela — o recital falho do Manual do Coveiro, a demolição de sua família, seus pesadelos, a humilhação do dia —, e Liesel se agachou na sarjeta e chorou. Tudo levava àquilo.

Rudy ficou parado junto dela.

Começou a chover, uma chuva muito forte.

Kurt Steiner chamou, mas nenhum dos dois se mexeu. Uma estava sofridamente sentada, em meio às bateladas de chuva que caíam, e o outro se postava de pé a seu lado, esperando.

—        Por que ele tinha que morrer? — perguntou Liesel, mas Rudy não fez nada, não disse nada.

Quando ela enfim terminou e se levantou, o menino pôs o braço em seus ombros, no estilo melhor amigo, e os dois seguiram caminho. Não houve pedidos de beijos. Nada disso. Você pode gostar do Rudy por isso, se quiser.

Só não me dê um pontapé nos ovos.

Foi o que ele pensou, mas não o disse a Liesel. Só quase quatro anos depois foi que lhe ofereceu essa informação.

Por ora, Rudy e Liesel caminharam para a Rua Himmel embaixo de chuva.

Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo inteiro.

Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras.

Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva.

 

UMA MENINA FEITA DE TREVAS

 

• ALGUNS DADOS ESTATÍSTICOS •

Primeiro livro furtado: 13 de janeiro de 1939

Segundo livro furtado: 20 de abril de 1940

Intervalo entre os citados livros furtados: 463 dias

 

Se você quisesse usar de insolência, diria que bastou um pouquinho de fogo, na verdade, com uma gritaria humana para acompanhar. Diria que isso foi tudo de que Liesel Meminger precisou para arrebatar seu segundo livro roubado, ainda que ele fumegasse em suas mãos. Ainda que lhe acendesse as costelas.

Mas o problema é este:

Não é hora de insolências.

Não é hora de atenção parcial, nem de virar as costas e ir dar uma olhada no fogão — porque, quando a menina que roubava livros roubou seu segundo livro, não só houve muitos fatores implicados em sua ânsia de fazê-lo, como o ato de furtá-lo desencadeou o ponto crucial do que estava por vir. Isso lhe proporcionaria uma abertura para o roubo contínuo de livros. Inspiraria Hans Hubermann a conceber um plano para ajudar o lutador judeu. E mostraria a mim, mais uma vez, que uma oportunidade conduz diretamente a outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte.

 

De certo modo, foi o destino.

Sabe, talvez lhe digam que a Alemanha nazista ergueu-se sobre o anti-semitismo, sobre um líder meio exagerado no entusiasmo e uma nação de fanáticos cheios de ódio, mas tudo teria dado em nada se os alemães não adorassem uma atividade em particular:

Queimar.

Os alemães adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichstags, casas, objetos pessoais, gente assassinada e, é claro, livros. Adoravam uma boa queima de livros, com certeza — o que dava às pessoas que tinham predileção por estes uma oportunidade de pôr as mãos em certas publicações que de outro modo não conseguiriam. Uma das pessoas que tinha essa inclinação, como sabemos, era uma garota ossuda chamada Liesel Meminger. Ela pode ter esperado 463 dias, mas valeu a pena. No fim de uma tarde em que houvera muita animação, muita maldade bonita, um tornozelo encharcado de sangue e um tapa vindo de uma mão que inspirava confiança, Liesel Meminger obteve sua segunda história de sucesso. O Dar de Ombros. Era um livro azul com letras vermelhas gravadas na capa, e havia um desenhinho de um cuco abaixo do título, também em vermelho. Quando olhou para trás, Liesel não se envergonhou de tê-lo roubado. Ao contrário, foi orgulho o que mais se assemelhou àquele bolinho de uma coisa sentida em seu estômago. E foram a raiva e um ódio tenebroso que alimentaram seu desejo de roubá-lo. Na verdade, em 20 de abril — o aniversário do Führer -—, quando surrupiou aquele livro debaixo de uma pilha fumegante de cinzas, Liesel era uma menina feita de trevas.

A pergunta, é claro, seria: por quê?

Que razão havia para sentir raiva?

O que tinha acontecido, nos quatro ou cinco meses anteriores, para culminar nesse sentimento?

Em suma, a resposta ia da Rua Himmel para o Führer e para a localização inencontrável de sua mãe de verdade, e perfazia o caminho de volta.

Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade.

 

A ALEGRIA DOS CIGARROS

Ali pelo fim de 1939, Liesel se acomodara bastante bem na vida em Molching. Ainda tinha pesadelos com o irmão e sentia saudade da mãe, mas agora também havia alguns consolos.

Ela gostava muito do pai, Hans Hubermann, e até da mãe de criação, apesar das grosserias e das agressões verbais. Amava e odiava seu melhor amigo, Rudy Steiner, o que era perfeitamente normal. E gostava do fato de que, apesar do fracasso na sala de aulas, sua leitura e sua escrita vinham tendo uma melhora decisiva e logo estariam à beira de alguma coisa respeitável. Tudo isso resultava pelo menos numa certa forma de contentamento, e em pouco tempo se erigiria em algo próximo do conceito de Ser Feliz.

 

• AS CHAVES DA FELICIDADE •

1. Terminar O Manual do Coveiro.

2.         Escapar à ira de Irmã Maria.

3.         Ganhar dois livros no Natal.

17 de dezembro.

Ela se lembrava bem dessa data, por ter sido exatamente uma semana antes do Natal.

Como de praxe, seu pesadelo de todas as noites interrompeu-lhe o sono e ela foi acordada por Hans Hubermann. A mão dele segurou o tecido encharcado de seu pijama.

—        O trem? — murmurou o pai.

—        O trem — confirmou Liesel.

Engoliu ar até ficar pronta, e os dois começaram a ler o décimo primeiro capítulo do Manual do Coveiro. Terminaram pouco depois das três da manhã, e só ficou faltando o último capítulo, "O respeito ao cemitério". Papai, com os olhos de prata inchados de cansaço e o rosto coberto de pêlos de barba, fechou o livro e aguardou suas sobras de sono. Não as conseguiu.

Mal fazia um minuto que a luz fora apagada quando Liesel se dirigiu a ele, na escuridão.

—        Papai?

Ele apenas fez um ruído, em algum lugar da garganta.

—        Está acordado, papai?

—      Ja.

Apoiada num dos cotovelos:

—        Podemos terminar o livro, por favor?

Houve um longo suspiro, o raspar da mão coçando a barba e, em seguida, a luz. Ele abriu o livro e começou.

— “Capítulo Doze. O respeito ao cemitério."

Leram até ficar de manhãzinha, circundando e anotando as palavras que a menina não compreendia, e virando páginas em direção ao amanhecer. Em alguns momentos, o pai quase dormiu, sucumbindo à fadiga que lhe comichava os olhos e à inclinação da cabeça. Liesel o flagrou em todas as ocasiões, mas não teve o altruísmo de deixá-lo dormir nem o descaramento de ficar ofendida. Era uma menina com uma montanha para escalar.

Enfim, quando a escuridão lá fora começou a clarear um pouco, eles terminaram. O último trecho dizia assim:

Nós, da Associação Bávara de Cemitérios, esperamos ter informado e entretido o leitor quanto ao funcionamento, às medidas de segurança e aos deveres da escavação de túmulos. Desejamos extremo sucesso em sua carreira nas artes funerárias e esperamos que este livro tenha contribuído de algum modo.

Fechado o livro, os dois trocaram um olhar de viés. O pai falou.

—        Conseguimos, hein?

Liesel, meio enrolada no cobertor, estudou o livro preto em sua mão e as letras prateadas. Fez que sim com a cabeça, de boca seca e com a fome matinal. Foi um daqueles momentos de cansaço perfeito, de haver dominado não só o trabalho por fazer, mas também a noite que atrapalhava.

Papai se espreguiçou, com os punhos cerrados e os olhos arranhando para fechar, e a manhã não se atreveu a ser chuvosa. Os dois se puseram de pé, andaram até a cozinha e, através da neblina e dos cristais de gelo na janela, puderam ver as faixas róseas de luz sobre as camadas de neve nos telhados da Rua Himmel.

—        Veja as cores — disse o pai. E difícil não gostar de um homem que não apenas nota as cores, mas fala delas.

Liesel continuava segurando o livro. Apertou-o com mais força quando a neve se alaranjou. Num dos telhados, via um garotinho sentado, olhando para o céu.

—        O nome dele era Werner — mencionou. As palavras foram saindo, involuntariamente.

—        Sim — disse o pai.

Na escola, nessa época, não tinha havido outras provas de leitura em voz alta, mas, à medida que foi aos poucos ganhando mais confiança, certa manhã Liesel pegou um livro didático que estava por perto, para ver se conseguia lê-lo sem dificuldade. Conseguiu ler todas as palavras, mas continuou presa a um ritmo muito inferior ao dos colegas de turma. É muito mais fácil, percebeu, estar à beira de alguma coisa do que ser de fato aquilo. Isso ainda levaria tempo.

Uma tarde, ela se sentiu tentada a furtar um livro da estante da sala de aulas, mas, com franqueza, a perspectiva de outra Watschen no corredor, nas mãos de Irmã Maria, foi um fator de dissuasão suficientemente forte. Além disso, ela não tinha mesmo um desejo verdadeiro de tirar os livros da escola. O mais provável é que a intensidade de seu fracasso de novembro houvesse causado esse desinteresse, mas Liesel não tinha certeza. Só sabia que era assim.

Em aula, ela não falava.

Nem sequer olhava na direção errada.

Com a aproximação do inverno, deixou de ser vítima das frustrações de Irmã Maria, preferindo observar outros serem levados em marcha ao corredor para receber sua justa recompensa. O som de outro aluno debatendo-se no corredor não era particularmente agradável, mas o fato de se tratar de uma outra pessoa era, se não um consolo verdadeiro, ao menos um alívio.

Quando as aulas tiveram uma breve interrupção para a Weihnachten, Liesel até se permitiu dizer "Feliz Natal" à Irmã Maria, antes de ir embora. Ciente de que os Hubermann estavam essencialmente duros, ainda quitando dívidas e pagando o aluguel mais depressa do que o dinheiro conseguia entrar, ela não esperava nenhum tipo de presente. Talvez apenas uma comida melhor. Para sua surpresa, na noite de Natal, depois da missa da meia-noite com mamãe, papai, Hans Júnior e Trudy, ela voltou para casa e encontrou uma coisa embrulhada em papel de jornal embaixo da árvore de Natal.

—        Do Papai Noel — disse-lhe o pai, mas a menina não se deixou enganar. Abraçou os pais de criação, ainda com a neve espalhada nos ombros.

Ao desdobrar o papel, desembrulhou dois livrinhos. O primeiro, Fausto, o cachorro, fora escrito por um homem chamado Mattheus Ottleberg. Ao todo, ela o leria treze vezes. Na noite de Natal, leu as primeiras vinte páginas à mesa da cozinha, enquanto papai e Hans Júnior discutiam sobre uma coisa que ela não compreendia. Uma coisa chamada política. Depois, leu um pouco mais na cama, aderindo à tradição de circundar as palavras que não conhecia e escrevê-las. Fausto, o cachorro também tinha desenhos — curvas e orelhas e caricaturas encantadoras de um pastor alemão com um problema vexatório de babar e dotado da capacidade da fala.

O segundo livro chamava-se O Farol e fora escrito por uma mulher, Ingrid Rippinstein. Esse era um pouquinho mais longo, de modo que Liesel só conseguiu lê-lo até o fim nove vezes, aumentando ligeiramente o ritmo ao final dessas leituras prolíficas.

Foi dias depois do Natal que ela fez uma pergunta a respeito dos livros. A família fazia uma refeição na cozinha. Olhando para as colheradas de sopa de ervilha que entravam na boca da mãe, Liesel resolveu desviar o foco para o pai.

—        Preciso perguntar uma coisa.

A princípio, nada.

—        Então?

Foi a mãe, ainda com a boca meio cheia.

—        Eu só queria saber como vocês arranjaram o dinheiro para comprar meus livros. Um sorrisinho sorriu para a colher do pai.

—        Quer mesmo saber?

—        É claro.

Papai tirou do bolso o que restava de sua quota de fumo e começou a enrolar um cigarro, ao que Liesel se impacientou.

—        Vai me dizer ou não? O pai riu.

—        Mas já estou lhe dizendo, menina.

Concluiu a produção de um cigarro, bateu-o na mesa e começou a enrolar outro.

—        Foi exatamente assim.

Foi nessa hora que mamãe terminou a sopa com uma batida da colher, reprimiu um leve arroto e respondeu no lugar de Hans.

—        Esse Saukerl! — começou. — Sabe o que ele fez? Enrolou todos esses cigarros nojentos, foi à feira quando ela passou pela cidade, e os trocou com um cigano qualquer.

—        Oito cigarros por livro — disse o pai, pondo um na boca, com ar triunfal. Acendeu-o e tragou fumaça.

—        Louvado seja Deus pelos cigarros, hein, mamãe?

Ela só fez dirigir-lhe um dos olhares de nojo que eram sua marca registrada, seguido pela quota mais comum de seu vocabulário:

—- Saukerl.

Liesel trocou a piscadela costumeira com o pai e acabou de tomar a sopa. Como sempre, um dos livros estava a seu lado. Ela não pôde negar que a resposta à pergunta fora mais do que satisfatória. Não havia muita gente capaz de dizer que sua instrução tinha sido paga com cigarros.

A mãe, por outro lado, disse logo que, se Hans Hubermann prestasse para alguma coisa, trocaria um pouco do fumo pelo vestido novo de que ela precisava desesperadamente, ou por sapatos melhores.

— Mas não... — completou, esvaziando as palavras na pia. — Quando se trata de mim, você prefere fumar uma quota inteira, não é? E mais alguma do vizinho.

Algumas noites depois, entretanto, Hans Hubermann chegou em casa com uma caixa de ovos.

— Desculpe, mamãe — disse, colocando-a na mesa. — Eles não tinham sapatos.

Mamãe não reclamou.

Chegou até a cantarolar sozinha, enquanto cozinhava os ovos até quase queimarem. Parecia haver uma grande alegria nos cigarros, e foi um período feliz na casa dos Hubermann.

Acabou semanas depois.

 

A ANDARILHA DA CIDADE

O estrago começou com a roupa lavada e aumentou rapidamente.

Num dia em que Liesel acompanhava Rosa Hubermann em suas entregas por Molching, um de seus fregueses, Ernst Vogel, informou-lhes que não poderia mais pagar para mandar lavar e passar sua roupa.

—        São os tempos — desculpou-se —, como é que eu vou dizer? Estão ficando mais difíceis. A guerra está trazendo um aperto.

Olhou para a menina e completou:

—        Tenho certeza de que você recebe uma pensão para cuidar da garotinha, não é?

Para desolação de Liesel, a mãe ficou sem palavras.

Com um saco vazio a seu lado.

Vamos, Liesel.

As palavras não foram ditas. Foram arrastadas pela mão junto com ela, asperamente.

Vogel chamou-as da escada da frente. Teria talvez l,75m, e seus fiapos de cabelo untuosos pendiam sem vida pela testa.

—        Sinto muito, Frau Hubermann!

Liesel acenou para ele.

Vogel retribuiu o aceno. Mamãe praguejou.

—        Não dê adeusinho para esse Arschloch — disse. — E ande depressa.

Nessa noite, quando Liesel tomou banho, a mãe a esfregou com rispidez especial, o tempo todo resmungando sobre aquele Saukerl do Vogel e imitando-o a intervalos de dois minutos.

—        "A senhora deve receber uma pensão pela menina..."

Castigou o peito nu de Liesel com suas esfregadelas.

 —       Você não tem todo esse valor, Saumensch. Não está me deixando rica, sabe?

Liesel continuou sentada e agüentou.

Não mais de uma semana depois desse incidente específico, Rosa a rebocou para a cozinha.

—        Muito bem, Liesel — disse, fazendo-a sentar à mesa. — Já que você passa metade do tempo na rua, jogando futebol, pode muito bem tornar-se útil aqui. Para variar.

Liesel olhava apenas para as próprias mãos.

—        O que foi, mamãe?

—        De agora em diante, você vai buscar e entregar a roupa para mim. E menos provável que aqueles ricaços nos despeçam, se for você parada na frente deles. Se lhe perguntarem por mim, diga que estou doente. E faça uma cara triste quando disser isso. Você já é magrela e pálida o bastante para inspirar pena neles.

—        Herr Vogel não sentiu pena de mim.

—        Bem... — Era visível a agitação de Rosa. — Pode ser que os outros sintam. Por isso, não discuta.

—        Sim, mamãe.

Por um instante, a mãe adotiva pareceu prestes a consolá-la, ou a lhe dar um tapinha no ombro.

Boa menina, Liesel. Você é uma boa menina. Tape, tape, tape.

Mas ela não disse nada parecido.

Em vez disso, Rosa Hubermann levantou-se, escolheu uma colher de pau e a segurou embaixo do nariz da menina. Aquilo era uma necessidade, no que lhe dizia respeito.

—        Quando estiver na rua, você leva a sacola de roupa a cada lugar e a traz direto para casa, com o dinheiro, ainda que ele não seja quase nada. Nada de ir atrás do papai, se por acaso ele estiver trabalhando, para variar. Nada de fazer bagunça por aí com aquele Saukerlzinho do Rudy Steiner. Direto. Para casa.

—        Sim, mamãe.

—        E, quando segurar a sacola, segure direito. Nada de balançar, nem de deixá-la cair no chão, nem de amassá-la, nem de jogá-la no ombro.

—        Sim, mamãe.

—        Sim, mamãe — repetiu Rosa Hubermann, que era uma grande imitadora, e das mais fervorosas. — E melhor mesmo, Saumensch. Eu descubro, se você fizer uma dessas coisas. Sabe disso, não sabe?

—        Sim, mamãe.

Dizer essas duas palavras era, muitas vezes, a melhor maneira de sobreviver, assim como obedecer quando era mandada; e, a partir de então, Liesel passou a palmilhar as ruas de Molching, do bairro pobre para o rico, apanhando e entregando roupa. No começo, foi um trabalho solitário, do qual ela nunca se queixava. Afinal, na primeiríssima vez que carregou a sacola pela cidade, ela dobrou a esquina da Rua Munique. olhou para um lado e para o outro, e lhe deu uma enorme girada — uma revolução completa —, e depois verificou o conteúdo. Felizmente, não havia amassados. Nada de rugas. Só um sorriso, e a promessa de nunca mais balançá-la outra vez.

De modo geral, Liesel gostava da tarefa. Não havia participação no pagamento, mas ela ficava longe de casa, e andar pelas ruas sem a mãe já era, por si só, um paraíso. Nada de dedos apontados nem xingamentos. Ninguém olhando para as duas, enquanto ela era xingada por não carregar a sacola direito. Nada além de serenidade.

Liesel também passou a gostar das pessoas:

*          Os Pfaffelhürver, que inspecionavam a roupa e diziam: "ja, ja, sehrgut, sehrgut" Liesel imaginava que eles faziam tudo duas vezes.

*          A delicada Helena Schmidt, que entregava o dinheiro com um trejeito da mão artrítica.

*          Os Weingartner, cujo gato de bigodes tortos sempre atendia à porta com eles. Pequeno Goebbels, era assim que o chamavam, por causa do homem que era o braço-direito de Hitler.

*          E Frau Hermann, a mulher do prefeito, parada com seu cabelo fofo e toda trêmula no vão enorme e frio de sua porta de entrada. Sempre calada. Sempre sozinha. Nem uma palavra, nem uma vez.

De quando em quando, Rudy também ia.

—        Quanto dinheiro você tem aí? — perguntou ele, certa tarde. Já ia anoitecendo e os dois andavam em direção à Rua Himmel, passando pela loja. — Você já ouviu falar da Frau Diller, não foi? Dizem que ela tem balas escondidas em algum lugar e, pelo preço certo...

—        Nem pense nisso — disse Liesel. Como sempre, segurava o dinheiro com força. — Prá você não é muito ruim: você não tem que encarar a minha mãe.

Rudy deu de ombros.

—        Valeu a tentativa.

Em meados de janeiro, o trabalho escolar voltou a atenção para a redação de cartas. Depois de aprender os fundamentos, cada aluno tinha que escrever duas cartas, uma para um amigo, uma para alguém de outra turma.

A carta que Liesel recebeu de Rudy foi assim:

 

Cara Saumensch,

Você continua tão inútil no futebol quanto era da última vez que jogamos? Espero que sim. Isso significa que posso passar correndo por você, de novo, que nem o Jesse Owens na olimpíada...

Quando a Irmã Maria a encontrou, fez uma pergunta muito amável ao menino.

 

• O OFERECIMENTO DE IRMÃ MARIA •

— Está com vontade de visitar o corredor, Sr, Steiner?

 

Nem é preciso dizer que a resposta de Rudy foi negativa, o papel foi rasgado e ele recomeçou. A segunda tentativa foi escrita para uma pessoa chamada Liesel e indagou quais seriam os passatempos dela.

Em casa, enquanto terminava uma carta da tarefa escolar, Liesel resolveu que, na verdade, escrever para Rudy ou outro Saukerl parecido era ridículo. Não significava nada. Enquanto redigia no porão, ela falou com o pai, que repintava a parede mais uma vez. Ele e os vapores da tinta viraram-se.

—        Was wuistz?

Bom, essa era a mais grosseira forma de alemão que alguém podia falar, mas foi dita com ar de absoluta satisfação.

—        Que é?

—        Será que eu poderia escrever uma carta prá mamãe? Pausa.

—        Para que você quer lhe escrever uma carta? Já tem que agüentá-la todos os dias — disse papai, schmunzelando, com um sorriso maroto. — Isso já não é ruim o bastante?

—        Não é essa mamãe — disse Liesel, engolindo em seco.

—        Ah.

O pai voltou-se para a parede e continuou a pintar.

—        Bem, acho que sim. Você poderia mandá-la para a... como é mesmo o nome? Aquela que trouxe você para cá e veio visitar algumas vezes, a do pessoal da adoção.

—        Frau Heinrich.

—        Isso mesmo. Mande-a para ela. Talvez ela possa mandá-la para sua mãe.

Já nessa hora ele não soou convincente, como se deixasse de dizer alguma coisa a Liesel. As notícias sobre sua mãe também tinham sido silenciadas nas breves visitas de Frau Heinrich.

Em vez de perguntar qual era o problema, Liesel começou a escrever na mesma hora, optando por ignorar a sensação de mau presságio que se acumulava rapidamente em seu peito. Precisou de três horas e seis rascunhos para aperfeiçoar a carta, contando à mãe tudo sobre Molching, seu papai e o acordeão dele, o jeito estranho, mas sincero, de Rudy Steiner, e as façanhas de Rosa Hubermann. Também explicou como estava orgulhosa por saber ler e escrever um pouquinho, agora. No dia seguinte, despachou a carta na loja de Frau Diller, com um selo tirado da gaveta da cozinha. E começou a esperar.

Na noite em que escreveu a carta, ela entreouviu uma conversa entre Hans e Rosa.

—        Para que ela está escrevendo para a mãe? — perguntou mamãe. Sua voz era surpreendentemente calma e atenciosa.

Como você pode imaginar, isso deixou a menina preocupadíssima. Ela preferiria ouvi-los brigando. Adultos aos cochichos dificilmente inspiravam confiança.

—        Ela me pediu — respondeu o pai —, e não consegui dizer não. Como poderia?

— Jesus, Maria, José — de novo, o cochicho. — Ela devia mesmo era esquecê-la; quem sabe por onde ela anda? Quem sabe o que fizeram com ela? Na cama, Liesel se abraçou, apertado. Enroscou-se feito uma bola. Pensou na mãe e repetiu as perguntas de Rosa Hubermann. Onde estava ela? O que eles teriam feito com ela? E na verdade, de uma vez por todas, quem eram eles?

 

CARTAS MORTAS

Avanço rápido para o porão, setembro de 1943.

Uma menina de quatorze anos escreve num caderninho de capa escura. É ossuda, mas forte, e já viu muita coisa. Papai está sentado com o acordeão junto aos pés.

Diz ele:

—        Sabe, Liesel? Quase lhe escrevi uma resposta e assinei o nome da sua mãe — e coçou a perna, onde tinha estado o gesso. — Mas não pude. Não consegui fazer isso.

Em várias ocasiões, durante o resto de janeiro e todo o mês de fevereiro de 1940, quando Liesel vasculhava a caixa do correio em busca de uma resposta à sua carta, aquilo claramente partia o coração de seu pai adotivo. "Sinto muito", ele lhe dizia. "Nada hoje, hein?" Olhando para trás, ela percebeu que aquilo tudo fora inútil. Se sua mãe estivesse em condições de fazê-lo, já teria entrado em contato com o pessoal da agência de lares de criação, ou diretamente com ela, ou então com os Hubermann. Mas não houvera nada.

Para piorar as coisas, em meados de fevereiro, Liesel recebeu uma carta de outro freguês da lavagem de roupa — os Pfaffelhürver, da Heide Strasse. O casal postou-se com grande altivez na porta, dando-lhe um olhar melancólico.

— É para sua mamãe — disse o homem, entregando-lhe o envelope.

— Diga a ela que sentimos muito. Diga-lhe que lamentamos.

Não foi uma noite muito boa na residência dos Hubermann. Mesmo quando se recolheu ao porão, para escrever sua quinta carta à mãe (todas ainda por enviar, exceto a primeira), Liesel pôde ouvir Rosa praguejando e xingando aqueles Arschlöcher dos Pfaffelhürver e aquele nojento do Ernst Vogel.

—        Feuer soll'n's brunzen für einen Monatl!— ouviu-a gritar. Tradução: "Eles todos deviam urinar fogo durante um mês!"

Liesel escreveu.

Quando chegou seu aniversário, não houve presente. Não houve presente porque não havia dinheiro e, na ocasião, papai estava sem fumo.

—        Eu disse a você — acusou a mãe, apontando-lhe o dedo. — Eu lhe disse para não dar os dois livros a ela no Natal. Mas não. Você escutou? É claro que não!

—        Já sei! — disse Hans, voltando-se para a menina, em voz baixa: — Desculpe, Liesel. Não podemos arcar com a despesa.

Liesel não se importou. Não resmungou nem gemeu nem bateu com os pés. Simplesmente engoliu a decepção e optou por um risco calculado — um presente dela para si mesma. Juntaria todas as cartas acumuladas para a mãe, poria tudo num envelope e usaria só um tiquinho do dinheiro da roupa lavada e passada para enviá-lo pelo correio. Depois, é claro, levaria a Watschen, muito provavelmente na cozinha, e não emitiria um som.

Três dias depois, o plano foi posto em prática.

—        Está faltando um pouco — disse a mãe, contando o dinheiro pela quarta vez, com Liesel parada junto ao fogão. Estava quentinho ali, e cozinhava o fluxo acelerado de seu sangue. — Que aconteceu, Liesel?

Ela mentiu:

—        Devem ter-me dado menos que de costume.

—        Você contou o dinheiro? Liesel rendeu-se:

—        Eu o gastei; mamãe.

Rosa aproximou-se. Aquilo não era bom sinal. Ficou muito perto das colheres de pau.

— Você o quê?

Antes que houvesse possibilidade de resposta, a colher de pau baixou sobre o corpo de Liesel Meminger feito os passos de Deus. Marcas vermelhas, como pegadas, e ardiam. Do chão, quando a surra acabou, a menina olhou para cima e se explicou.

Havia a pulsação e a luz amarela, tudo junto. Seus olhos piscavam.

—        Eu mandei minhas cartas.

O que lhe ocorreu nesse momento foi o empoeirado do chão, a sensação de que sua roupa estava mais junto dela do que nela, e o súbito reconhecimento de que tudo aquilo não adiantaria nada — sua mãe nunca responderia às cartas e ela nunca mais a veria. A realidade disso foi uma segunda Watschen. Foi como uma ferroada, e durou vários minutos até parar.

Acima dela, Rosa parecia um borrão, mas logo ficou nítida, quando seu rosto encarquilhado chegou mais perto. Desalentada, ela ficou parada ali, com todas as suas formas roliças, segurando a colher de pau junto ao corpo, como um porrete. Estendeu a mão e se deixou extravasar um pouco.

— Desculpe, Liesel.

Liesel a conhecia bem o bastante para compreender que não era pela surra.

As marcas vermelhas estenderam-se em tiras sobre sua pele, enquanto a menina continuava deitada no pó, na sujeira e na luz mortiça. Sua respiração se acalmou e uma lágrima amarela e perdida escorreu-lhe pelo rosto. Ela voltou a sentir o próprio corpo junto ao chão. Um braço, um joelho. Um cotovelo. Uma bochecha. Um músculo da panturrilha.

O chão era frio, especialmente a parte encostada no rosto, mas ela não conseguia se mexer.

Nunca mais voltaria a ver sua mãe.

Durante quase uma hora, ficou ali, estirada embaixo da mesa da cozinha, até papai chegar em casa e tocar o acordeão. Só então foi que ela se sentou e começou a se recuperar.

Quando escreveu sobre essa noite, não guardava nenhum rancor de Rosa Hubermann, nem de sua mãe, aliás. Para Liesel, as duas eram apenas vítimas das circunstâncias. A única idéia que lhe voltou continuamente foi a da lágrima amarela. Se estivesse escuro, percebeu, a lágrima teria sido preta.

Mas estava escuro, disse a si mesma.

Não importa quantas vezes tentasse imaginar a cena, com a luz amarela que ela sabia ter estado presente, precisava se esforçar para visualizá-la. Levara uma surra no escuro e havia permanecido lá, num piso frio e enegrecido de cozinha. Até a música de papai tinha sido da cor da escuridão.

Até a música de papai.

O mais estranho era que ela se sentia vagamente consolada por essa idéia, em vez de aflita.

A escuridão, a luz.

Qual era a diferença?

Os pesadelos reforçaram-se nas duas, quando a menina que roubava livros começou realmente a compreender como eram as coisas e como sempre seriam. Pelo menos, ela poderia se preparar. Talvez tenha sido por isso que, no aniversário do Führer, quando a resposta à pergunta referente ao sofrimento de sua mãe evidenciou-se por completo, ela pôde reagir, a despeito de sua perplexidade e sua raiva.

Liesel Meminger estava pronta.

Feliz aniversário, Herr Hitler.

Muitos anos de vida.

 

O ANIVERSÁRIO DE HITLER, 1940

Contra toda a desesperança, Liesel continuou a examinar a caixa do correio todas as tardes, durante o mês inteiro de março e boa parte de abril. E isso, apesar de uma visita (pedida por Hans) de Frau Heinrich, que explicou aos Hubermann que o escritório da agência de adoção perdera completamente o contato com Paula Meminger. Mesmo assim, a menina persistiu e, como você poderia esperar, a cada dia que ela examinava a correspondência, não havia nada.

Molching, como o resto da Alemanha, estava em plenos preparativos para o aniversário do Führer. Nesse ano, em particular, com o desenrolar da guerra e a posição então vitoriosa de Hitler, os partidários dos nazistas em Molching queriam que a comemoração fosse especialmente adequada. Haveria um desfile. Gente marchando. Música. Cantoria. E haveria uma fogueira.

Enquanto Liesel andava pelas ruas de Molching, recolhendo e entregando roupa para lavar e passar, os membros do Partido Nazista acumulavam combustível. Umas duas vezes, Liesel foi testemunha de homens e mulheres que batiam às portas, perguntando às pessoas se elas possuíam alguma coisa que achassem que devia ser jogada fora ou destruída. O exemplar do Expresso de Molching de papai anunciou que haveria uma fogueira comemorativa na praça central, junto à qual estariam presentes todas as divisões locais da Juventude Hitlerista. Ela celebraria não apenas o aniversário do Führer, mas também a vitória sobre seus inimigos e sobre as restrições que haviam mantido a Alemanha atrasada desde o fim da Primeira Guerra Mundial.

 "Qualquer material daquela época", pedia o jornal — "jornais, cartazes, livros, bandeiras —, assim como qualquer propaganda de nossos inimigos que seja encontrada, deve ser levado ao escritório do Partido Nazista, na Rua Munique." Até a Schiller Strasse — a rua das estrelas amarelas —, que ainda estava à espera de uma reforma, foi saqueada pela última vez, a fim de se encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse ser queimada em nome da glória do Führer. Não seria surpresa se alguns membros do partido se afastassem e publicassem uns mil livros ou cartazes de material moral venenoso, simplesmente para incinerá-los.

Estava tudo preparado para produzir um magnífico 20 de abril. Seria um dia repleto de queimação e vivas.

E furto de livros.

Naquela manha, na casa dos Hubermann, foi tudo típico.

—        Aquele Saukerl está de novo na janela — praguejou Rosa Hubermann. — Todo dia — continuou. — Que é que você está olhando, desta vez?    —        Ahhhh — suspirou papai, encantado. A bandeira lhe cobria as costas, pendendo do alto da janela. — Você devia dar uma olhada na mulher que estou vendo! — disse. Olhou por cima do ombro e sorriu para Liesel. —-. Eu seria capaz de sair correndo atrás dela. Dá de dez a zero em você, mamãe.

—        Schwein! — e Rosa sacudiu a colher de pau para o marido.

Papai continuou a olhar pela janela para a mulher imaginária, e para um corredor muito real de bandeiras alemãs.

Nas ruas de Molching, nesse dia, todas as janelas estavam decoradas para o Führer. Em alguns lugares, como na loja de Frau Diller, os vidros tinham sido vigorosamente lavados e a suástica parecia uma jóia, deitada sobre um cobertor vermelho e branco. Noutros, a bandeira tremulava nos beirais feito roupa pendurada para secar.

Um pouco antes, tinha havido uma pequena calamidade. Os Hubermann não conseguiam encontrar sua bandeira.      

—        Eles virão nos buscar — Rosa alertara o marido. — Virão para nos levar embora Eles.

—        Temos que achá-la!

A horas tantas, achou-se que o pai teria que descer ao porão e pintar uma bandeira numa das mantas que usava para proteger os móveis dos respingos de tinta!; Felizmente, descobriu-se que ela estava enfiada atrás do acordeão, no armário.

—        Esse acordeão infernal, estava tapando minha visão! — exclamou a mãe girando-o. — Liesel!

A menina teve a honra de prender a bandeira no caixilho da janela.

Hans Júnior e Trudy chegaram para a refeição vespertina, como faziam no Natal e na Páscoa. Este parece ser um bom momento para apresentá-los com mais detalhes.

Hans Júnior tinha os olhos e a altura do pai. Mas o prateado de seus olhos não era teimoso como o do pai — tinha sido Führerizado. Havia também um pouco mais de carne sobre seus ossos, e ele tinha cabelos louros espetados e uma pele feito tinta cor de pérola.

Trudy, ou Trudel, como muitas vezes era conhecida, era poucos centímetros mais alta que a mãe. Havia clonado o andar lamentável e meio gingado de Rosa Hubermann, mas o resto era muito mais suave. Como doméstica residente num bairro rico de Munique, o mais provável era que estivesse farta de crianças, mas sempre conseguia produzir ao menos algumas palavras risonhas em direção a Liesel. Tinha lábios macios. E falava baixo.

Os dois chegaram juntos no trem de Munique, e não demorou para que surgissem as antigas tensões.

 

• BREVE HISTÓRIA DE HANS HUBERMANN VERSUS SEU FILHO •

O rapaz era nazista, o pai, não.

Na opinião de Hans Júnior, seu pai fazia parte de

uma Alemanha velha e decrépita —

que havia deixado o mundo inteiro lhe passar o

proverbial conto-do-vigário, enquanto seu povo sofria.

Quando adolescente, ele tomara conhecimento de que

o pai era chamado de "Der Juden Maler" —

o pintor dos judeus —, por pintar casas de judeus.

Depois tinha havido um incidente, que lhe exporei na íntegra

daqui a pouco — no dia em que Hans estragou tudo,

quando estava prestes a se filiar ao partido.

Todo o mundo sabia que ninguém devia cobrir de tinta

os insultos escritos na fachada de uma loja judaica.

Esse comportamento era ruim para a Alemanha

e era ruim para o transgressor.

 

— E então, eles já o deixaram entrar? — perguntou Hans Júnior, retomando o assunto onde ele havia parado no Natal.

— Onde?

—        Adivinhe. No partido.

— Não, acho que se esqueceram de mim.

—        Bem, você pelo menos fez outra tentativa? Não pode ficar aí sentado, esperando que o novo mundo venha buscá-lo. Você tem que sair para fazer parte dele... apesar de seus erros do passado.

O pai ergueu os olhos.

 

SUOR ALEMÃO CEM POR CENTO PURO

As pessoas perfilaram-se nas ruas enquanto a juventude da Alemanha marchava para a prefeitura e a praça. Num bom número de ocasiões, Liesel esqueceu-se da mãe e de qualquer outro problema de que detivesse a posse naquele momento. Havia um inchaço em seu peito, enquanto as pessoas aplaudiam. Algumas crianças acenaram para os pais, porém muito rapidamente — havia uma instrução explícita de que marchassem em frente e não olhassem nem acenassem para a multidão.

Quando o grupo de Rudy entrou na praça e recebeu a ordem de fazer alto, houve uma discrepância. Tommy Müller. O resto do regimento parou de marchar e Tommy trombou diretamente com o menino à sua frente.

—        Dummkopf! — cuspiu o garoto, antes de se virar para trás.

—        Desculpe — disse Tommy, com os braços arrependidamente estendidos. Seu rosto tropeçou nele mesmo. — Eu não ouvi.

Foi só um breve momento, mas foi também uma prévia dos problemas que viriam. Para Tommy. Para Rudy.

Terminada a marcha, as divisões da Juventude Hitlerista tiveram permissão de se dispersar. Teria sido quase impossível mantê-los todos juntos, enquanto a fogueira ardia em seus olhos e os deixava alvoroçados. Juntos, eles gritaram um "heil Hitler" em uníssono e ficaram livres para perambular. Liesel procurou Rudy, mas, uma vez espalhada a multidão de crianças, ela se viu presa numa confusão de uniformes e palavras estridentes. Crianças chamando outras crianças.

Por volta das quatro e meia, o ar havia esfriado consideravelmente.

As pessoas brincavam, dizendo que precisavam se aquecer. É para isso que serve toda essa porcaria, afinal.

Usaram-se carroças para transportar tudo. A tralha foi jogada no meio da praça central e encharcada de um líquido doce. Os livros, papeis e outros materiais escorregavam ou despencavam, mas eram atirados de novo na pilha. De uma distância maior, aquilo parecia uma coisa vulcânica. Ou algo grotesco e estranho que, de algum modo, tivesse sido milagrosamente descarregado no meio da cidade e precisasse ser destruído com um atiçador, e rápido.

O cheiro aplicado aos papéis inclinou-se para a multidão, mantida a uma boa distância. Havia bem mais de mil pessoas, no chão, na escadaria da prefeitura e nos telhados que cercavam a praça.

Quando Liesel tentou passar, um som estralejante a fez supor que a fogueira já tinha começado a arder. Não tinha. O som era da cinética humana, fluindo, arremetendo.

Começaram sem mim!

Embora alguma coisa dentro dela lhe dissesse que aquilo era um crime — afinal, seus três livros eram os bens mais preciosos que possuía —, a menina sentiu-se impelida a ver a coisa acesa. Não pôde evitá-lo. Acho que os seres humanos gostam de assistir a uma destruiçãozinha. Castelos de areia, castelos de cartas, é por aí que começam. Sua grande aptidão está em sua capacidade de promover a escalada.

A idéia de perder o espetáculo diminuiu quando ela achou uma brecha entre os corpos e pôde ver a montanha de culpa, ainda intacta. A coisa foi cutucada e borrifada, e até cuspiram nela. Aquilo fez Liesel pensar numa criança impopular, desamparada e perplexa, impotente para modificar seu destino. Ninguém gostava dela. Cabeça baixa. Mãos nos bolsos. Para sempre. Amém.

Pedaços soltos continuavam a despencar pelos lados, enquanto Liesel caçava Rudy. Onde estava aquele Saukerl?

Quando ela levantou os olhos, o céu se agachava.

Um horizonte de bandeiras e uniformes nazistas se erguia, barrando-lhe a visão, toda vez que ela tentava enxergar acima da cabeça de uma criança pequena. Era inútil. A multidão era uma coisa com vida própria. Não havia como controlá-la, espremer-se por ela ou ponderar com ela. A pessoa respirava com ela e entoava seus cânticos. Aguardava sua fogueira.

Um homem num pódio pediu silêncio. Seu uniforme era marrom reluzente. O ferro praticamente permanecera nele. Começou o silêncio. Suas primeiras palavras: — Heil Hitler! Seu primeiro ato: a saudação ao Führer.

— Hoje é um lindo dia — prosseguiu. — Não só é o aniversário de nosso líder, como também detivemos nossos inimigos mais uma vez. Impedimos que chegassem a nossas mentes...

Liesel continuava tentando abrir caminho, nos trancos.

— Pusemos fim à doença que se espalhou pela Alemanha nos últimos vinte anos, ou até mais até!

Afora ele apresentava o que se chama de Schreierei — uma exibição completa de gritaria apaixonada —, alertando a multidão a ser atenta, vigilante, a desvendar e destruir as maquinações maléficas que conspiravam para infectar a pátria com seus costumes deploráveis.

— Os imorais! Os Kommunisten! Aquela palavra de novo.

Aquela velha palavra. Salas escuras. Homens de terno.

— Die Juden, os judeus!

Na metade do discurso, Liesel desistiu. Enquanto a palavra comunistas se apoderava dela, o resto do recital nazista foi passando pelos dois lados, perdido em algum ponto dos pés alemães que a cercavam. Cascatas de palavras. Uma menina tentando não perder pé. Pensou naquilo de novo. Kommunisten.

Até essa ocasião, na BDM, tinham-lhes dito que a Alemanha era a raça superior, porém ninguém mais, em particular, fora mencionado. E claro que todos sabiam dos judeus, já que eles eram o principal infrator, no que dizia respeito a violar o ideal alemão. Nem uma vez, entretanto, os comunistas tinham sido mencionados até esse dia, a despeito do fato de que as pessoas desse credo político também deviam ser punidas.

Liesel tinha que sair.

A sua frente, uma cabeça com o cabelo louro repartido e trancinhas apoiava-se sobre os ombros, absolutamente imóvel. Fixando os olhos nela, Liesel revisitou aqueles cômodos escuros do passado e sua mãe respondendo a perguntas feitas de uma palavra só.

Enxergou tudo com perfeita clareza.

Sua mãe passando fome, seu pai desaparecido. Kommunisten.

Seu irmão morto.

—        E agora, vamos dizer adeus a esse lixo, a esse veneno.

Pouco antes de Liesel Meminger rodopiar de náusea para sair da multidão, a criatura reluzente de camisa marrom desceu do pódio. Recebeu uma tocha de um cúmplice e acendeu a pilha, que o apequenava com toda a sua culpa.

— Heil Hitler!

E a platéia:

—        Heil Hitler!

Um batalhão de homens desceu de uma plataforma e circundou a pilha, acendendo-a, para a enorme aprovação de todos. As vozes se elevaram acima dos ombros e o cheiro de puro suor alemão lutou para se soltar, a princípio, depois desprendeu-se. Contornou esquina após esquina, até todos nadarem nele. Nas palavras, no suor. E no riso. Não esqueçamos o riso.

Seguiram-se muitos comentários jocosos, assim como outra investida furiosa de gritos de "heil Hitler". Sabe, realmente me pergunto se algum dia alguém perdeu um olho, ou machucou a mão ou o pulso com todos aqueles gestos. Era só estar olhando na direção errada na hora errada, ou estar ligeiramente perto demais de outra pessoa. Talvez alguém se machucasse, sim. Pessoalmente, só posso lhe dizer que ninguém morreu disso, ou, pelo menos, não fisicamente. Houve, é claro, a questão dos quarenta milhões de pessoas que peguei, quando a coisa toda acabou, mas isso está ficando muito metafórico. Deixe-me devolver-nos à fogueira.

As labaredas cor de laranja acenavam para a multidão, à medida que papel e tinta se dissolviam dentro delas. Palavras em chamas eram arrancadas de suas frases.

Do outro lado, para além do calor das formas indistintas, era possível ver as camisas pardas e as suásticas dando as mãos. Não se via gente. Apenas uniformes e símbolos.

No alto, os pássaros davam voltas.

Descreviam círculos, atraídos de algum modo pelo brilho — até chegarem perto demais do calor. Ou seriam os seres humanos? Com certeza, o calor não era nada.

Em sua tentativa de fugir, uma voz a encontrou.

—        Liesel!

Abriu caminho e a menina a reconheceu. Não era Rudy, mas ela conhecia aquela voz.

Liesel contorceu-se para se libertar e achou o rosto ligado à voz. Ah, não. Ludwig Schmeikl. Ele não deu risinhos de mofa nem fez piadas, como a menina esperava, nem entabulou nenhuma conversa. Tudo que conseguiu fazer foi puxá-la para si e apontar para o próprio tornozelo. Ele fora esmagado, em meio à empolgação, e sangrava, escuro e ominoso, pela meia. O rosto de Ludwig exibia uma expressão de desamparo, abaixo do cabelo louro embaraçado. Um bicho. Não um cervo assustado. Nada tão típico nem específico. Ele era apenas um animal, ferido na confusão de sua própria espécie, prestes a ser pisoteado por ela.

De algum modo, Liesel o ajudou a ficar de pé e o arrastou para os fundos. Ar puro.

Cambalearam até a escadaria na lateral da igreja. Ali havia algum espaço e os dois descansaram, ambos aliviados.

A respiração despencava da boca de Schmeikl. Escorregou, desceu-lhe pela garganta. Ele conseguiu falar.

Sentado, segurou o tornozelo e encontrou o rosto de Liesel Meminger.

— Obrigado — disse, dirigindo-se mais à boca do que aos olhos da menina.

Novas golfadas de ar.

— E... — o menino viu imagens de travessuras escolares, seguidas por uma surra no pátio da escola. — Sinto muito por... você sabe.

Liesel tornou a escutar a palavra.

Kommunisten.

Mas optou por se concentrar em Ludwig Schmeikl:

— Eu também.

Depois disso, ambos se concentraram em respirar, porque não havia mais nada a fazer nem dizer. Seu assunto tinha chegado ao fim.

O sangue aumentou no tornozelo de Ludwig Schmeikl.

Uma única palavra encostava-se na menina.

A esquerda dos dois, as labaredas e os livros em chamas eram saudados como heróis.

 

OS PORTÕES DO FURTO

Ela continuou na escada, à espera do pai, observando as cinzas que se espalhavam e o cadáver dos livros reunidos. Tudo muito triste. Brasas alaranjadas e vermelhas pareciam balinhas recusadas, e quase toda a multidão havia sumido. Liesel vira Frau Diller ir embora (muito satisfeita) e Pfiffikus (cabeleira branca, uniforme nazista, os mesmos sapatos dilapidados e um assobio triunfal). Agora, não faltava nada além da limpeza e, em pouco tempo, ninguém sequer imaginaria que aquilo tinha acontecido.

Mas era possível sentir o cheiro.

— Que está fazendo?

Hans Hubermann chegou à escadaria da igreja.

—        Oi, papai.

—        Era para você estar em frente à prefeitura.

—        Desculpe, papai.

Hans sentou-se a seu lado, reduzindo sua altura pela metade no concreto e segurando uma mecha do cabelo de Liesel. Seus dedos a ajeitaram com delicadeza atrás da orelha da menina.

—        Liesel, o que foi?

Por algum tempo ela não disse nada. Estava fazendo contas, embora já soubesse. Uma menina de onze anos pode ser muitas coisas, mas burra não é.

• UMA SOMINHA •

A palavra comunista + uma grande fogueira

+ uma coleção de cartas mortas + o sofrimento da mãe

+ a morte do irmão = o Führer

 

O Führer.

Era ele o eles de quem Hans e Rosa Hubermann haviam falado, na noite em que Liesel escrevera sua primeira carta à mãe. Ela sabia, mas tinha que perguntar.

—        Minha mãe é comunista? — indagou. Olhando fixo. Para frente. — Estavam sempre perguntando coisas a ela, antes de eu vir para cá.

Hans chegou um pouquinho para a beirada do degrau, compondo o começo de uma mentira.

—        Não faço idéia... nunca a conheci.

—        O Führer levou ela embora?

A pergunta surpreendeu os dois e obrigou o pai a ficar de pé. Ele olhou para os homens de camisas pardas que remexiam a pilha de cinzas com pás. Podia ouvi-los a escavá-la. Outra mentira crescia em sua boca, mas foi impossível soltá-la.

—        Acho que ele pode tê-la levado, sim.

—        Eu sabia.

As palavras foram jogadas nos degraus e Liesel sentiu a lama de raiva quente que se agitava em sua barriga.

—        Odeio o Führer — disse. — Odeio ele.

E Hans Hubermann?

Que foi que ele fez?

O que disse?

Porventura se curvou e abraçou a filha de criação, como teve vontade de fazer? Disse-lhe que sentia muito pelo que estava acontecendo com ela, com sua mãe, e pelo que havia acontecido com seu irmão?

Não exatamente.

Fechou os olhos com força. Tornou a abri-los. Plantou uma sólida bofetada no rosto de Liesel Meminger.

—        Nunca mais diga isso!

Sua voz foi baixa, mas contundente.

Enquanto a menina tremia e se arqueava na escada, Hans sentou-se a seu lado e cobriu o rosto com as mãos. Seria fácil dizer que ele era só um homem alto, sentado com uma postura precária e abalada numa escadaria de igreja. Mas não era. Naquele momento, Liesel não fazia idéia de que seu pai de criação, Hans Hubermann, enfrentava um dos dilemas mais perigosos que um cidadão alemão podia encarar. E não apenas isso, mas o vinha encarando fazia quase um ano.

—        Papai?

A surpresa em sua própria voz a apressava, mas também a deixou sem ação. Ela teve vontade de correr, mas não pôde. Podia levar uma Watschen de freiras e de Rosas, mas doía muito mais quando vinha do papai. Agora as mãos tinham saído do rosto dele, que encontrou forças para falar de novo.

—        Você pode dizer isso na nossa casa — autorizou, com um olhar grave para a face de Liesel. — Mas nunca o diga na rua, na escola, na BDM, nunca!

Pôs-se de pé diante dela e a levantou pelos tríceps. Sacudiu-a.

— Está me ouvindo?

Com os olhos arregalados, aprisionados, Liesel acenou sua concordância com um gesto da cabeça.

Na verdade, isso foi um ensaio para uma preleção futura, quando todos os piores temores de Hans Hubermann chegassem à Rua Himmel, no fim do ano, nas primeiras horas de uma madrugada de novembro.

— Ótimo — e a repôs no chão. — Agora, vamos tentar... Na base da escadaria, o pai empertigou-se numa postura ereta e estendeu o braço. Quarenta e cinco graus.

—        Heil Hitler.

Liesel levantou-se e também esticou o braço. Com absoluta infelicidade, repetiu:

—        Heil Hitler.

Foi uma visão e tanto: uma menina de onze anos, esforçando-se para não chorar na escadaria da igreja, fazendo a saudação ao Führer, enquanto as vozes atrás dos ombros do pai picotavam e surravam a forma escura ao fundo.

—        Ainda somos amigos?

Passados quinze minutos, talvez, o pai estendeu uma oferta de paz, sob a forma de cigarros na palma da mão — o papel e o fumo que havia acabado de receber. Sem dizer palavra, Liesel estendeu tristonhamente a mão e começou a enrolá-lo.

Por um bom tempo, ficaram sentados juntos.

A fumaça ergueu-se sobre os ombros do pai.

Passados mais dez minutos, os portões do furto se abririam só uma frestinha, e Liesel Meminger os abriria um pouco mais e se espremeria para atravessá-los.

 

• DUAS PERGUNTAS •

Os portões se fechariam atrás dela?

Ou teriam a boa vontade de deixá-la sair de costas?

 

Como Liesel descobriria, um bom ladrão precisa de muitas coisas.

Movimentos furtivos. Coragem. Velocidade.

Mais importante que qualquer dessas coisas, no entanto, era um último requisito.

Sorte.

De verdade.

Esqueça os dez minutos.

Os portões se abrem agora.

 

UM LIVRO DE FOGO

A escuridão chegou aos pedaços e, terminado o cigarro, Liesel e Hans Hubermann começaram a caminhar para casa. Para sair da praça, teriam que passar pelo local ela fogueira e por uma ruazinha que dava na Rua Munique. Não chegaram tão longe.

Um carpinteiro de meia-idade, de nome Wolfgang Edel, chamou. Havia construído as plataformas em que os figurões nazistas ficariam durante a fogueira e estava no processo de desmontá-las.

—        Hans Hubermann? — disse. Tinha longas costeletas que apontavam para a boca e uma voz soturna. — Hansi!

—        Olá, Wolfal — respondeu Hans. Houve uma apresentação à menina e um "heil Hitler".

—        Muito bem, Liesel.

Nos minutos seguintes, Liesel ficou num raio de cinco metros da conversa. Alguns fragmentos passaram por ela, mas a menina não prestou muita atenção.

—        Tem arranjado muito trabalho?

—        Não, está tudo mais difícil agora. Você sabe como é, especialmente quando o sujeito não é filiado.

—        Você me disse que ia se filiar, Hansi.

—        Tentei, mas cometi um erro... Acho que eles ainda estão considerando.

Liesel perambulou até a montanha de cinzas. Parecia um imã, uma anomalia, Irresistível para os olhos, semelhante à rua das estrelas amarelas.

Como em sua ânsia anterior de ver a pilha se acender, ela não conseguia desviar os olhos. Inteiramente só, não tinha disciplina para se manter a uma distância segura. A pilha a sugava, e Liesel começou a circundá-la.

Acima dela, o céu concluía sua rotina de escurecer, mas ao longe, acima do ombro da montanha, havia um vestígio opaco de luz.

—        Pass auf, Kind — disse-lhe um uniforme, a certa altura. "Cuidado, menina", enquanto jogava mais umas pás de cinza numa carroça.

Mais perto da prefeitura, embaixo de uma lâmpada, algumas sombras conversavam de pé, provavelmente exultando pelo sucesso da fogueira. Da posição em que estava Liesel, suas vozes eram apenas sons. Nada de palavras.

Durante alguns minutos, ela observou os homens que removiam a pilha com pás, primeiro reduzindo-a dos lados, para deixar que uma parte maior desmoronasse. Iam e voltavam de um caminhão e, depois de três viagens, quando a pilha estava quase reduzida à base, um pedacinho de material vivo escorregou do interior das cinzas.

 

• O MATERIAL •

Meia bandeira vermelha, dois cartazes anunciando

um poeta judeu, três livros e uma placa de madeira,

com uma inscrição em hebraico.

Talvez estivessem molhados. Talvez a fogueira não tivesse ardido por tempo suficiente para atingir as profundezas em que se encontravam. Qualquer que fosse a razão, estavam aninhados entre as cinzas, abalados. Sobreviventes.

—        Três livros — disse Liesel, baixinho, olhando para as costas dos homens.

—        Vamos — disse um deles. — Ande logo, sim? Estou morto de fome.

Dirigiram-se ao caminhão.

O trio de livros espichou o nariz para fora. Liesel aproximou-se.

O calor ainda era forte o bastante para aquecê-la, quando parou ao pé da pilha de cinzas. Quando estendeu a mão, levou uma mordida, mas, na segunda tentativa, ela se certificou de ser bem rápida. Fisgou o livro mais próximo. Estava quente, mas também molhado, queimado apenas nas bordas, mas, afora isso, intacto.

Era azul.

A capa dava a sensação de ter sido feita de centenas de cordas firmemente esticadas e presas. Havia letras vermelhas impressas nessas fibras. A única palavra que Liesel teve tempo de ler foi ombros. Não sobrou muito tempo para o resto, e havia um problema. A fumaça.

A fumaça erguia-se da capa do livro, quando ela o pegou num passe de mágica e se afastou depressa. Manteve a cabeça baixa, e a beleza doentia do nervosismo revelou-se de maneira mais horripilante a cada passo. Foram quatorze passos até a voz.

 Voz que se perfilou atrás dela.

— Ei!

Foi quando ela quase voltou correndo e atirou o livro na pilha, mas não conseguiu. O único movimento de que dispunha era o gesto de se virar.

—        Tem uns troços aqui que não queimaram!

Era um dos homens da limpeza. Não olhava para a menina, mas para as pessoas paradas junto ao prédio da prefeitura.

—        Bom, então queime de novo — veio a resposta. — E fique olhando até queimarem.

—        Acho que estão molhados!

—        Jesus, Maria, José, será que eu tenho que fazer tudo sozinho?

O som das passadas ladeou-a. Era o prefeito, usando um sobretudo preto por cima do uniforme nazista. Não notou a menina, parada absolutamente imóvel, a uma pequena distância.

• UMA PERCEPÇÃO •  

Havia uma estátua da roubadora

de livros na praça...

É muito raro, não acha?,

uma estátua aparecer antes de o

 homenageado ter-se tornado famoso.

 

Liesel desabou.

A emoção de ser ignorada!

Agora o livro parecia frio o bastante para que ela o enfiasse dentro do uniforme. No começo, fez um calorzinho gostoso em seu peito. Mas, quando a menina começou a andar, ele tornou a se aquecer.

Quando Liesel voltou para junto do pai e de Wolfgang Edel, o livro começava a queimá-la. Parecia estar pegando fogo.

Os dois homens a olharam.

Ela sorriu.

Imediatamente, quando o sorriso encolheu em seus lábios, sentiu uma outra coisa. Ou, para falar com mais exatidão, outra pessoa. Não havia como confundir a sensação de estar sendo observada. Ela a invadiu por inteiro, e foi confirmada quando a menina se atreveu a virar de frente para as sombras junto à prefeitura. Ao lado da coletânea de silhuetas havia uma outra, a alguns metros de distância, e Liesel percebeu duas coisas.

 

• PEDACINHOS DE RECONHECIMENTO •

1. A identidade da sombra e

2. O fato de que ela vira tudo.

 

As mãos da sombra estavam nos bolsos do casaco.

O cabelo dela era fofo.

Se ela tivesse rosto, sua expressão seria de mágoa.

— Goltverdammt — disse Liesel, baixinho, só para ela mesma. "Que diabo!"

— Estamos prontos para ir? Nos instantes anteriores de perigo estupendo, o pai se despedira de Wolfgang Edel e estava pronto para acompanhar Liesel até em casa.

— Pronta — respondeu ela.

Começaram a deixar a cena do crime, e agora o livro a queimava para valer. O Dar de Ombros estava grudado em sua caixa torácica.

Quando os dois passaram pelas sombras incertas junto à prefeitura, a menina que roubava livros estremeceu. 

— O que foi? — perguntou o pai.

— Nada.

Mas uma porção de coisas estava decididamente errada: Havia fumaça saindo da gola de Liesel. Um colar de suor formara-se em torno de sua garganta. Embaixo da blusa, um livro a estava devorando.

 

A VOLTA PARA CASA

Mein Kampf.

O livro escrito pelo próprio Führer.

Foi o terceiro livro de grande importância a chegar a Liesel Meminger; só que, dessa vez, ela não o furtou. O livro apareceu na Rua Himmel, 33, talvez uma hora depois de Liesel ter mergulhado de novo no sono, após seu pesadelo obrigatório.

Alguns diriam que foi um milagre a menina ter chegado a possuir esse livro.

A viagem dele começou no trajeto para casa, na noite da fogueira.

Eles haviam percorrido metade do caminho de volta à Rua Himmel quando Liesel não agüentou mais. Curvou o corpo e puxou o livro fumegante, deixando-o saltar, envergonhado, de uma das mãos para a outra.

Depois que ele esfriou o suficiente, os dois o fitaram por um instante, à espera das palavras.

—        De que diabo você chama isso? — perguntou o pai.

Estendeu a mão e pegou O Dar de Ombros. Não havia necessidade de explicação. Era óbvio que a menina o furtara da fogueira. O livro estava quente e molhado, azul e vermelho — sem graça —, e Hans Hubermann o abriu. Páginas trinta e oito e trinta e nove.

—        Mais um?

Liesel esfregou as costelas.

Sim.

Mais um.

— Parece — sugeriu o papai — que não preciso mais trocar cigarros, não é? Não quando você furta essas coisas tão depressa quanto eu consigo comprá-las.

Liesel, em comparação, não falou. Talvez tenha sido seu primeiro reconhecimento de que a criminalidade falava melhor por si. Irrefutável.

O pai estudou o título, provavelmente se perguntando que tipo exato de ameaça aquele livro representaria para os corações e mentes do povo alemão. Devolveu-o. Havia acontecido alguma coisa.

—        Minha Santíssima Trindade!

Cada palavra foi escorregando pelas bordas. Interrompia-se e formava a seguinte. A criminosa não pôde mais resistir.

—        O que foi, papai? O que é?

—        É claro!

Como a maioria dos seres humanos tomados por uma revelação, Hans Hubermann ficou com um certo torpor. As palavras seguintes seriam gritadas, ou então não chegariam a passar de seus dentes. Além disso, o mais provável é que fossem uma repetição da última coisa que ele dissera, momentos antes.

—        É claro!

Dessa vez, sua voz foi como um murro recém-desferido na mesa.

O homem estava tendo uma visão. Observava-a depressa, de uma ponta à outra, feito uma corrida, mas a coisa era grande demais e estava longe demais para Liesel enxergá-la. A menina lhe implorou:

—        Anda, papai, o que foi?

Teve medo de que ele contasse à mãe sobre o livro. Como acontece com os humanos, tudo tinha a ver com ela.

—        Você vai contar?

—        Perdão?

—        Você sabe. Vai contar à mamãe?

Hans Hubermann continuava a observar sua visão, alto e distante.

—        Contar o quê? Ela ergueu o livro:

—        Isto — e o brandiu no ar, como se balançasse uma arma.

O pai ficou perplexo:

—        Por que contaria?

Liesel detestava essas perguntas. Elas a obrigavam a admitir uma verdade feia, a revelar sua natureza imunda de ladra.

—        Porque eu tornei a roubar.

O pai curvou-se até se agachar, depois levantou-se e pôs a mão na cabeça da menina. Afagou-lhe o cabelo com os dedos longos e rudes e disse:

—        É claro que não, Liesel. Você está a salvo.

—        Então, o que você vai fazer? Essa era a questão.

Que ato maravilhoso Hans Hubermann estaria prestes a praticar, tirando-o da brisa da Rua Munique?

 Antes de eu mostrá-lo a você, acho que devemos dar uma olhada no que ele estava vendo, antes de tomar sua decisão.

 

• AS VISÕES ACELERADAS DE PAPAI •

Primeiro, ele viu os livros da menina:

O Manual do Coveiro, Fausto, o Cachorro,

O Farol e, agora, O Dar de Ombros.

Depois, uma cozinha e um Hans Júnior volátil,

vendo esses livros na mesa, onde a menina costumava ler.

Ele dissera: "E qual é a porcaria que essa menina anda lendo?"

O filho repetira a pergunta três vezes, e depois fizera

sua sugestão de um material de leitura mais apropriado.

 

—        Escute, Liesel — disse o pai, abraçando-a e fazendo-a recomeçar a andar. — Este é o nosso segredo, esse livro. Vamos lê-lo à noite no porão, tal como os outros... mas você tem que me prometer uma coisa.

—        Qualquer coisa, papai.

A noite estava suave e quieta. Tudo ouvia.

—        Se algum dia eu lhe pedir para guardar um segredo para mim, você o guardará.

—        Prometo.

—        Ótimo. Agora, vamos. Se demorarmos mais, a mamãe vai nos matar, e nós não queremos isso, não é? E nada de roubar mais livros, hein?

Liesel sorriu.

O que ela só veio a saber depois foi que, nos dias que se seguiram, seu pai de criação conseguiu trocar uns cigarros por outro livro, embora este não fosse para ela. Bateu na porta do escritório do Partido Nazista em Molching e aproveitou o ensejo para indagar sobre seu pedido de filiação. Discutido esse assunto, tratou de dar ao pessoal de lá seus últimos trocados e uma dúzia de cigarros. Em troca, recebeu um exemplar usado de Mein Kampf.

—        Boa leitura — disse um membro do partido.

—        Obrigado — fez Hans, assentindo com a cabeça.

Na rua, ainda pôde ouvir os homens lá dentro. Uma das vozes foi especialmente clara.

—        Ele nunca será aprovado — dizia — mesmo que compre cem exemplares de Mein Kampf.

Houve uma concordância unânime com essa afirmação.

Hans segurou o livro na mão direita, pensando no dinheiro dos selos, numa vida sem cigarros e na filha de criação que lhe dera essa idéia brilhante.

—        Obrigado — repetiu, ao que um transeunte perguntou o que ele tinha dito.

Com típica afabilidade, Hans respondeu:

—        Nada, meu bom homem, absolutamente nada. Heil Hitler — e seguiu pela Rua Munique, segurando as páginas do Führer.

 

Deve ler havido uma boa dose de sentimentos confusos naquele momento, porque a idéia de Hans Hubermann brotara não apenas de Liesel, mas também de seu filho. Será que ele já temia nunca mais voltar a vê-lo? Por outro lado, ele também se comprazia com o êxtase de uma idéia, ainda sem se atrever a pensar em suas complicações, perigos e absurdos perversos. Por ora, a idéia bastava. Era indestrutível. Transformá-la em realidade, bem, isso era outra história completamente diferente. Mas, por enquanto, deixemos que ele a desfrute.

Vamos dar-lhe sete meses.

Depois, chegaremos a ele.

Ah, e como chegaremos.

 

A BIBLIOTECA DO PREFEITO

Com certeza, algo de grande magnitude se aproximava do número 33 ela Rua Himmel, algo a que Liesel ainda não dava atenção. Para distorcer uma expressão humana muito batida, a menina tinha mais — e mais depressa — o que fazer:

Havia furtado um livro.

Alguém a vira.

A roubadora de livros reagiu. Apropriadamente.

A cada minuto, a cada hora, havia uma preocupação, ou, para ser mais exata, uma paranóia. A atividade criminosa faz isso com as pessoas, especialmente com uma criança. Elas imaginam um sortimento prolífico de maneiras de serem flagradas. Eis alguns exemplos: gente pulando de becos. Professores que, de repente, descobrem todos os pecados que você já cometeu. A polícia parada na porta, toda vez que uma página é virada ou que se ouve um portão bater ao longe.

Para Liesel, a paranóia em si tornou-se o castigo, assim como o pavor de entregar outros sacos de roupa lavada e passada na casa do prefeito. Não foi por engano que, como você certamente pode imaginar, quando chegou o momento, Liesel esqueceu-se convenientemente da casa da Grande Strasse. Fez a entrega à artrítica Helena Schmidt e pegou a roupa na residência dos Weingartner, os que gostavam de gatos, mas ignorou a casa pertencente ao Bürgermeister Heinz Hermann e sua mulher, Ilsa.

 

• OUTRA TRADUÇÃO RÁPIDA •

Bürgermeister = prefeito

 

Na primeira ocasião, ela afirmou ler simplesmente esquecido daquele lugar — a desculpa mais fajuta de que já ouvi falar, uma vez que a casa ficava em cima da colina, com vista para a cidade, e era inesquecível. Quando ela foi de novo e tornou a voltar e mãos vazias, mentiu, dizendo que não havia ninguém em casa.

—        Ninguém em casa? — disse a mãe, cética. O ceticismo lhe dava uma comichão de pegar a colher de pau. Ela a brandiu para Liesel e disse:

—        Volte lá agora e, se não chegar em casa com a roupa para lavar, nem precisa voltar.

—        É mesmo?

Foi essa a reação de Rudy, quando Liesel lhe contou o que a mãe dissera.

—        Quer fugir comigo?

—        A gente morreria de fome.

—        Eu estou passando fome mesmo!

Os dois riram.

—        Não — disse a menina. — Eu tenho que ir.

Percorreram a cidade como costumavam fazer, quando Rudy ia junto. Ele sempre tentava ser cavalheiresco e carregar a sacola, mas, em todas as ocasiões, Liesel recusava. ') ela estava com a ameaça de uma Watschen pairando sobre a cabeça e, por isso, só a a podia ser confiada a tarefa de carregar corretamente a sacola. Qualquer outra pessoa teria mais tendência a não segurá-la direito, torcê-la ou maltratá-la, nem que fosse a maneira mais ínfima, e o risco não valia a pena. Além disso, era provável que, se Liesel deixasse Rudy carregar a sacola, ele esperasse um beijo por seus serviços, e essa alternativa era inviável. Depois, ela já estava acostumada com o peso. Passava a sacola de um ombro para outro, aliviando cada lado a cada cem passos, mais ou menos.

Liesel foi andando à esquerda, Rudy, à direita. Rudy falou quase o tempo todo, sobre o último jogo de futebol na Rua Himmel, sobre trabalhar na loja do pai e sobre que mais lhe veio à cabeça. Liesel procurou escutar, mas não conseguiu. O que havia era o pavor zumbindo em seus ouvidos, e ficando mais alto quanto mais perto eles chegavam da Grande Strasse.

—        O que você está fazendo? Não é aqui?

Liesel fez um aceno de cabeça, indicando que Rudy tinha razão, porque havia tentado passar direto pela casa do prefeito, para ganhar tempo.

—        Bom, vai logo — apressou-a o menino. Escurecia em Molching. O frio começava subir do chão. — Anda logo, Saumensch — e parou no portão.

Depois da alameda, havia oito degraus para a entrada principal da casa, e a porta enorme parecia um monstro. Liesel franziu o cenho para a aldraba de bronze.

—        Que está esperando? — gritou Rudy.

Liesel virou-se de frente para a rua. Haveria algum jeito, um jeitinho qualquer, escapar daquilo? Haveria outra história, ou, sejamos francos, outra mentira em que ela não tivesse pensado?

 —       A gente não tem o dia inteiro — disse de novo a voz distante de Rudy. — Que droga você está esperando?

—        Quer fechar a matraca, Steiner? — foi o grito de Liesel, emitido como um cochicho.

—        O quê?

—        Eu disse prá calar a boca, seu Saukerl idiota...

E com isso, virou-se novamente para a porta, levantou a aldraba de bronze e bateu três vezes, devagar. Pés se aproximaram do outro lado.

No começo, ela não olhou para a mulher, mas se concentrou no saco de roupa que tinha nas mãos. Examinou o cordão que o fechava ao entregá-lo. O dinheiro lhe foi entregue e, em seguida, nada. A mulher do prefeito, que nunca falava, apenas ficou parada, com seu roupão de banho, o cabelo macio e fofo preso num rabo-de-cavalo curto. Uma corrente de ar se fez sentir. Algo assim como a respiração imaginária de um cadáver. Mesmo então não houve palavras e, quando Liesel encontrou coragem para encará-la, a mulher não exibia uma expressão de censura, mas de profunda distância. Por um instante, olhou para o menino, por cima do ombro de Liesel, depois fez um aceno com a cabeça e deu um passo atrás, fechando a porta.

Durante um bom tempo, Liesel ficou parada, de frente para a manta de madeira vertical.

—        Ei, Saumensch! Nenhuma resposta.

—        Liesel!

A menina recuou.

Cautelosamente.

Desceu os primeiros degraus de costas, contando.

Talvez a mulher não a tivesse visto roubar o livro, afinal. Estava escurecendo. Talvez tivesse sido uma daquelas ocasiões em que uma pessoa parece estar olhando diretamente para a gente, quando, na verdade, está feliz da vida prestando atenção em outra coisa, ou só devaneando. Qualquer que fosse a resposta, Liesel não tentou nenhuma análise adicional. Tinha-se safado, e isso era o bastante.

Virou-se e cuidou normalmente dos degraus que restavam, saltando os últimos três de uma vez só.

—        Vamos, Saukerl — disse. Chegou até a se permitir uma risada. A paranóia aos onze anos é poderosa. O alívio aos onze anos é eufórico.

 

• UMA COISINHA PARA BAIXAR A EUFORIA

Ela não se safara de coisa alguma.

A mulher do prefeito a vira, sim.

Só estava esperando o momento certo.

 

Passaram-se algumas semanas.

Futebol na Rua Himmel.

Leitura de O Dar de Ombros entre as duas e as três de todas as madrugadas, pós-pesadelo, ou durante a tarde, no porão.

Outra visita sem incidentes à casa do prefeito. Estava tudo um encanto. Até que.

Na visita seguinte de Liesel, sem Rudy, apresentou-se a oportunidade.

Era dia de buscar a roupa suja.

A mulher do prefeito abriu a porta e não estava segurando o saco de roupas, como normalmente faria. Em vez disso, deu um passo para o lado e fez sinal, com a mão e o pulso alvos feito giz, para que a menina entrasse.

—        Só vim buscar a roupa suja — disse Liesel, com o sangue empedrado nas veias. Ele desmoronou. A menina quase se desfez em pedaços na escada.

Foi quando a mulher lhe disse as primeiras palavras. Estendeu a mão, com os dedos frios, e disse:

—        Warte. Espere.

Quando teve certeza de que a menina se reequilibrara, virou-se e voltou às pressas para dentro.

—        Graças a Deus — exalou Liesel. — Ela foi buscá-la.

O “la” era a roupa suja.

Mas a coisa com que a mulher voltou não foi nada desse gênero.

Quando voltou e parou, com uma firmeza incrivelmente frágil, ela segurava uma torre de livros encostados na barriga, do umbigo até o começo dos seios. Parecia muito vulnerável no monstruoso vão da porta. Cílios compridos e claros, e o mais ínfimo toque de expressividade. Uma sugestão.

Que dizia: entre e olhe.

Ela vai me torturar, decidiu Liesel. Vai me levar para dentro, acender a lareira e me jogar lá dentro, com os livros e tudo. Ou então, vai me trancar no porão, sem comida.

Por alguma razão, porém — mais provavelmente, a atração dos livros —, ela se descobriu entrando. O guinchar de seus sapatos nas tábuas de madeira a fez encolher-se e, ao atingir um ponto sensível, que induziu a madeira a gemer, a menina quase parou. A mulher do prefeito não se deteve. Só deu uma rápida olhada para trás e continuou andando, até uma porta de cor castanha. Foi quando seu rosto formulou uma pergunta.

Está pronta?

Liesel inclinou um pouco o pescoço, como se pudesse enxergar por cima da porta em seu caminho. Claramente, foi a dica para que ela se abrisse.

— Jesus, Maria...

 Ela o disse em voz alta, com as palavras distribuídas por uma sala repleta de ar frio e livros. Livros por toda parte! Cada parede era provida de estantes apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver a tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger já tinha visto.

Deslumbrada, ela sorriu.

A existência de uma sala daquelas!

Mesmo quando tentou apagar o sorriso com o braço, percebeu no mesmo instante que era um exercício inútil. A menina sentiu os olhos da mulher percorrendo seu corpo e, quando olhou para ela, haviam pousado em seu rosto.

O silêncio foi maior do que Liesel jamais imaginara possível. Esticou-se como um elástico, prestes a se romper. A menina o quebrou.

—        Posso?

A palavra ecoou entre acres e acres de terra deserta, com um piso de madeira. Os livros estavam a quilômetros de distância. A mulher fez que sim com a cabeça. Sim, pode.

 

A sala foi encolhendo sem parar, até que a menina que roubava livros pôde tocar nas estantes, a poucos passinhos de distância. Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada em outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras.

Em quantos livros tinha tocado?

Quantos havia sentido?

Andou até o começo e fez tudo de novo, dessa vez muito mais devagar, com a mão virada para frente, deixando a palma sentir o pequeno obstáculo de cada livro. Parecia magia, parecia beleza, enquanto as linhas vivas de luz brilhavam de um lustre. Em vários momentos, Liesel quase puxou um título do lugar, mas não se atreveu a perturbá-los. Eram perfeitos demais.

A sua esquerda, tornou a ver a mulher, parada junto a uma grande escrivaninha, ainda segurando a torrezinha contra o tronco. Estava entortada de um jeito encantador. Um sorriso parecia ter-lhe paralisado os lábios.

—        A senhora quer que eu..,?

Não terminou a pergunta, mas fez efetivamente o que ia perguntar, aproximando-se e tirando delicadamente os livros dos braços da mulher. Em seguida, colocou-os no pedaço que faltava numa prateleira, perto da janela entreaberta. O frio lá de fora escoava para dentro.

Por um momento, Liesel considerou a idéia de fechá-la, mas pensou melhor. Não era a sua casa, e não se podia brincar com aquela situação. Em vez disso, retornou à mulher às suas costas, cujo sorriso tinha agora a aparência de um machucado e cujos braços pendiam, magros, dos lados do corpo. Feito braços de menina.

E agora?

Um constrangimento infiltrou-se na sala e Liesel deu uma última olhadela fugaz nas paredes de livros. Na boca, as palavras ficaram irrequietas, mas saíram numa correria.

—        Tenho que ir embora.

Precisou de três tentativas para sair.

Esperou uns minutos no corredor, mas a mulher não veio e, ao voltar à entrada da sala, Liesel a viu sentada à escrivaninha, olhando fixamente para um dos livros. Optou por não perturbá-la. No corredor, pegou a roupa para lavar.

Dessa vez, evitou o ponto sensível nas tábuas do piso, ao andar pela longa extensão do corredor, preferindo a parede da esquerda. Quando fechou a porta atrás de si, um tilintar de bronze soou em seus ouvidos e, com o saco de roupas do lado, ela afagou a carne da madeira.

—        Trate de andar — disse a si mesma.

No começo, foi andando zonza para casa.

A experiência surreal da sala repleta de livros, com a mulher perplexa e alquebrada, caminhou a seu lado. Liesel podia vê-la nos prédios, como uma brincadeira. Talvez fosse algo parecido com a maneira como papai tivera sua revelação sobre o Mein Kampf. Para onde quer que olhasse, Liesel via a mulher do prefeito com os livros empilhados nos braços. Ao dobrar as esquinas, ouvia o tamborilar de suas próprias mãos, perturbando as estantes. Via a janela aberta, o lustre com a luz encantadora, e via a si mesma indo embora, sem sequer uma palavra de agradecimento.

Em pouco tempo, seu estado de sedação transformou-se em tormentos e autodepreciação. Ela começou a se repreender.

—        Você não disse nada — e sacudia vigorosamente a cabeça, em meio aos passos apressados. — Nem um "até logo". Nem um "obrigada". Nem um "isso é a coisa mais linda que eu já vi". Nada!

Não há dúvida de que ela era uma roubadora de livros, mas isso não queria dizer que não devesse ter modos. Não significava que não pudesse ser educada.

Andou por uns bons minutos, lutando com a indecisão.

Na Rua Munique, a dúvida chegou ao fim.

No exato momento em que pôde discernir a tabuleta que dizia STEINER — SCHNEIDERMEISTER, a Alfaiataria Steiner, deu meia-volta e saiu correndo.

Dessa vez, não houve hesitação.

Bateu com força na porta, mandando um eco de bronze pela madeira,

 — Scheisse! Não foi a mulher do prefeito, mas o próprio prefeito quem se postou diante dela. Na pressa, Liesel não havia reparado no carro parado em frente, na rua. De bigode e terno preto, o homem falou.

—        Em que posso ajudá-la?

Liesel não conseguiu dizer nada. Ainda não. Estava dobrada para frente, sem fôlego, e, por sorte, a mulher chegou quando ela se havia recuperado, pelo menos em parte. Ilsa Hermann parou atrás do marido, meio de lado.

—        Eu me esqueci — disse Liesel. Levantou o saco de roupas e se dirigiu à mulher do prefeito. Apesar do grande esforço de respiração, conseguiu inserir as palavras pela brecha do vão da porta — entre o prefeito e a moldura — em direção à mulher. Tamanho era seu esforço para respirar, que as palavras só escaparam aos pouquinhos de cada vez:

—        Esqueci... quero dizer, eu só... queria... lhe agradecer — soltou.

A mulher do prefeito assumiu de novo o sorriso machucado. Avançando, ficou ao lado do marido, fez um aceno levíssimo com a cabeça, esperou e fechou a porta. Liesel precisou de mais ou menos um minuto para ir embora. Sorriu para a escada.

 

ENTRA O LUTADOR

Agora, uma mudança de cena.

Foi tudo muito fácil para nós dois até aqui, meu amigo ou amiga, não acha? Que tal esquecermos de Molching por um ou dois minutos?

Isso nos fará bem.

Além disso, é importante para a história.

Viajaremos um pouquinho até um depósito secreto, e veremos o que virmos.

 

• UMA TURNÊ GUIADA PELO SOFRIMENTO •

À sua esquerda,

talvez à sua direita,

ou até direto em frente,

você encontrará um quartinho escuro.

Nele está sentado um judeu.

Ele é a escória.

Está morrendo de fome.

Sente medo.

Por favor, procure não desviar os olhos.

Algumas centenas de quilômetros a noroeste, em Stuttgart, longe de ladrões de livros, de mulheres de prefeitos e da Rua Himmel, havia um homem sentado no escuro. Era o melhor lugar, tinham resolvido. É mais difícil achar um judeu no escuro.

Ele estava sentado em sua mala, esperando. Quantos dias já fazia?

 Só havia comido o gosto fétido de seu próprio hálito faminto, no que pareciam ter sido semanas, e, mesmo assim, nada. De quando em quando, vozes passavam vagando, e às vezes ele desejava que batessem na porta, abrissem-na e o arrastassem para fora, para a luz insuportável. Por ora, só lhe restava sentar-se em sua mala-sofá, com as mãos embaixo do queixo e os cotovelos a lhe queimar as coxas.

Havia o sono, o sono esfaimado, e a irritação de ficar semi-adormecido, e o castigo do chão.

Esqueça a comichão nos pés.

Não coce as solas.

E não se mexa muito.

Só deixe tudo como está, haja o que houver. Pode ser que logo chegue a hora de ir embora. Leve como uma arma. Explosiva nos olhos. Talvez esteja na hora de ir. Talvez esteja na hora, portanto, acorde. Acorde agora, diabos! Acorde.

A porta abriu e fechou, e havia uma figura agachada, curvando-se sobre ele. A mão espalmada sobre as ondas de frio de sua roupa e as correntes imundas por baixo. Detrás dela desceu uma voz.

—        Max — sussurrou. — Max, acorde.

Seus olhos não fizeram nada do que o susto normalmente descreve. Nada de fechar bruscamente, nada de pálpebras batendo, nenhum sobressalto. Essas coisas acontecem quando se acorda de um sonho ruim, não quando se acorda dentro dele. Não, seus olhos abriram-se num movimento arrastado, da escuridão para a penumbra. Seu corpo foi que reagiu, levantando-se encolhido e estendendo um braço para agarrar o ar.

A voz o acalmou.

—        Desculpe ter demorado tanto. Acho que havia gente me vigiando. E o homem da carteira de identidade demorou mais do que eu imaginava, mas... — houve uma pausa — agora ela é sua. Não tem grande qualidade, mas esperemos que seja boa o bastante para levá-lo até lá, se a coisa chegar a esse ponto.

O homem se agachou e acenou para a mala. Na outra mão, segurava alguma coisa pesada e chata.

—        Ande, vamos.

Max obedeceu, ficando de pé e se coçando. Sentia os ossos se apertarem.

—        A carteira está aí dentro — apontou. Era um livro. — Você deve pôr o mapa aí dentro também, e as instruções sobre o caminho. E há uma chave... está colada com fita adesiva na parte interna da capa.

Destrancou a caixa o mais silenciosamente que pôde, e plantou o livro como uma bomba.

—        Volto daqui a uns dias.

Deixou um saquinho cheio de pão, gordura e três cenouras pequenas. Ao lado havia uma garrafa d'água. Nenhum pedido de desculpas.

—        Foi o melhor que consegui arranjar.

Porta aberta, porta fechada.

Sozinho outra vez.

O que lhe chegou de imediato, nesse momento, foi o som.

Era tudo desesperadamente ruidoso no escuro, quando ele ficava só. Toda vez que Max se mexia, vinha o som de uma dobra. Ele se sentia como um homem usando um terno de papel.

A comida.

Max dividiu o pão em três partes e pôs duas de lado. Mergulhou na que estava em sua mão, mastigando e engolindo, empurrando-a para baixo pelo corredor ressequido da garganta. A gordura estava dura e fria, descendo em etapas, às vezes ficando presa. Os goles grandes arrancavam tudo e o empurravam para baixo.

Depois, as cenouras.

Mais uma vez, pôs duas de lado e devorou a terceira. O barulho foi estarrecedor. Sem dúvida, o próprio Führer poderia ouvir o som da trituração alaranjada em sua boca. Ela lhe quebrava os dentes a cada mordida. Quando bebeu água, Max teve certeza de que os estava engolindo. Da próxima vez, aconselhou a si mesmo, beba primeiro.

Depois, para seu alívio, quando os ecos o abandonaram e ele arranjou coragem para fazer uma verificação com os dedos, descobriu que todos os dentes ainda estavam lá, intactos. Tentou um sorriso, mas ele não veio. Só conseguia imaginar uma tentativa mansa e uma boca cheia de dentes quebrados. Passou horas a apalpá-los.

Abriu a mala e pegou o livro.

Não conseguiu ler o título no escuro, e o perigo de riscar um fósforo pareceu-lhe grande demais nesse momento.

Quando falou, teve um gosto de sussurro.

—        Por favor — disse. — Por favor.

Dirigia-se a um homem que nunca tinha visto. Além de alguns outros detalhes importantes, sabia o nome dele. Hans Hubermann. Mais uma vez, dirigiu-se a ele, ao estranho distante. Implorou.

—        Por favor.

 

OS ATRIBUTOS DO VERÃO

Portanto, é isso aí.

Você já sabe muito bem o que estava prestes a chegar à Rua Himmel no fim de 1940.

Eu sei.

Você sabe.

Liesel Meminger, no entanto, não pode ser incluída nessa categoria.

Para a menina que roubava livros, o verão daquele ano tinha sido simples. Compunha-se de quatro elementos ou atributos principais. De vez em quando, ela se perguntava qual deles era o mais poderoso.

 

• E OS INDICADOS SÃO... •

1. Avançar por O Dar de Ombros todas as noites.

2. Ler no chão da biblioteca do prefeito.

3. Jogar futebol na Rua Himmel.

4. Aproveitar uma oportunidade diferente de roubar.

 

O Dar de Ombros, ela decidiu, era excelente. Toda noite, quando se acalmava do pesadelo, logo se sentia contente por estar acordada e poder ler. "Algumas páginas?", perguntava papai, e Liesel fazia que sim. Às vezes, eles terminavam um capítulo na tarde seguinte, no porão.

O problema das autoridades com o livro era óbvio. O protagonista era judeu, e era apresentado sob um prisma favorável. Imperdoável. Era um homem rico que se cansara de deixar a vida passar — cansara-se daquilo a que se referia com O Dar de Ombros para os problemas e prazeres do tempo de uma pessoa na Terra.

Na primeira parte do verão, em Molching, enquanto Liesel e o pai avançavam pelo livro, esse homem viajava a negócios para Amsterdã e a neve era arrepiante lá fora. A menina adorou isso — a neve arrepiante. "É exatamente o que ela faz quando cai", disse a Hans Hubermann. Sentados juntos na cama, o pai semi-adormecido, a menina inteiramente desperta.

De quando em quando, ela observava o pai dormindo, sabendo mais e menos sobre ele do que qualquer dos dois se apercebia. Muitas vezes, ouvia o pai e a mãe discutindo sobre o desemprego dele, ou falando com desânimo sobre Hans ter procurado ver o filho, só para descobrir que o rapaz já saíra de seu alojamento e, muito provavelmente, já estava a caminho da guerra.

—        Schlaf gut, papai — dizia a menina, nessas ocasiões. "Durma bem", e deslizava em volta dele, saindo da cama para apagar a luz.

O atributo seguinte, como já mencionei, era a biblioteca do prefeito.

Para exemplificar essa situação específica, podemos considerar um dia fresco no fim de junho. Rudy, para usar de um eufemismo, estava enfurecido.

Quem é que Liesel Meminger pensava que era, a lhe dizer que tinha que ir sozinha levar a roupa lavada e passada nesse dia? Ele não era bom o bastante para andar na rua com ela?

—        Pare de reclamar, Saukerl — repreendeu a menina. — É só que eu me sinto mal.

— Você vai perder o jogo.

Ele olhou por cima do ombro.

—        Bom, se é assim que você diz — e veio um Schmunzel, um sorriso. — Dane-se a sua roupa lavada.

Saiu correndo e não tardou a se juntar a um time. Quando Liesel chegou ao alto da Rua Himmel, olhou para trás, bem a tempo de vê-lo parado em frente à baliza improvisada mais próxima. Estava acenando.

—        Saukerl — riu a menina, e, ao levantar a mão, soube perfeitamente que, ao mesmo tempo, ele a chamava de Saumensch. Acho que isso é o máximo que as crianças de onze anos podem se aproximar do amor.

Liesel começou a correr, em direção à Grande Strasse e à casa do prefeito.

E claro que havia suor e arquejos amarfanhados de respiração estendidos diante dela.

Mas Liesel estava lendo.

A mulher do prefeito, depois de deixar a menina entrar pela quarta vez, sentou-se à escrivaninha, simplesmente olhando para os livros. Na segunda visita, dera permissão para que Liesel tirasse um deles da estante e o folheasse, o que levara a outro e mais outros, até que havia uma dúzia de livros grudados nela, ou presos embaixo de um braço, ou na pilha que subia cada vez mais na mão restante.

Nessa ocasião, enquanto Liesel estava parada no ambiente frio da sala, seu estômago roncou, mas não houve nenhuma reação da mulher muda e avariada. Ela estava outra vez de roupão de banho e, embora observasse a menina várias vezes nunca era por muito tempo. Costumava prestar mais atenção ao que estava junto dela, a alguma coisa que faltava. A janela continuava escancarada — uma boca quadrada e fresca, com baforadas de vento ocasionais.

Liesel sentou-se no chão. Os livros espalharam-se à sua volta.

Passados quarenta minutos, foi embora. Todos os livros foram devolvidos a seus lugares.

—        Até logo, Frau Hermann — disse. As palavras sempre vinham como um choque. — Obrigada.

Depois disso, a mulher lhe pagou e ela se foi. Cada movimento seu tinha que ser explicado, e a menina que roubava livros correu para casa.

A medida que o verão se instalou, a sala repleta de livros foi ficando mais quente e, a cada busca ou entrega da roupa, o chão se tornava menos incômodo. Liesel sentava-se com uma pequena pilha de livros a seu lado e lia alguns parágrafos de cada um, tentando decorar as palavras que não conhecia, para perguntar ao pai quando chegasse em casa. Mais tarde, quando adolescente, ao escrever sobre esses livros, Liesel já não se lembraria dos títulos. Nem mesmo de um. Talvez, se os houvesse roubado, tivesse ficado mais bem equipada.

O que recordou foi que um dos livros ilustrados tinha um nome, escrito com letra desajeitada, na parte interna da capa.

 

• O NOME DE UM MENINO •

Johann Hermann

Liesel mordeu o lábio, mas não pôde resistir por muito tempo. Do chão, virou-se e olhou para a mulher de roupão, e soltou a pergunta:

—        Johann Hermann — disse. — Quem é esse?

A mulher olhou para seu lado, em algum ponto próximo dos joelhos da menina. Liesel se desculpou.

—        Sinto muito. Eu não devia perguntar essas coisas...

Deixou a frase morrer de morte natural.

O rosto da mulher não se alterou, mas, de algum modo, ela conseguiu falar.

—        Agora ele não é mais nada neste mundo — explicou. — Era meu...

 

• OS ARQUIVOS DA MEMÓRIA •

Ah, sim, decididamente, eu me lembro dele.

O céu estava pesado e fundo feito areia movediça.

Havia um rapaz embrulhado em arame farpado,

como uma gigantesca coroa de espinhos. Desenredei-o

e o levei embora. Bem acima da terra, caímos juntos de joelhos.

 

—        Afora todo o resto, ele morreu congelado — disse ela. Brincou com as mãos por um momento e repetiu: — Morreu congelado, tenho certeza.

A mulher do prefeito era apenas uma numa brigada mundial. Você já a viu antes, tenho certeza. Em suas histórias, seus poemas, nos filmes a que gosta de assistir. Elas estão em toda parte, então, por que não aqui? Por que não numa bela colina de uma cidadezinha alemã? E um lugar tão bom quanto qualquer outro para sofrer.

A questão é que Ilsa Hermann tinha resolvido fazer do sofrimento sua vitória. Quando a dor se recusou a largá-la, a mulher sucumbiu a ela. Abraçou-a.

Podia ter-se matado com um tiro, ter-se arranhado ou se entregado a outras formas de automutilação, mas escolheu a que provavelmente achava ser a opção mais fraca — ao menos suportar o desconforto do clima. Ao que Liesel soubesse, ela rezava por dias de verão que fossem frios e úmidos. Na maior parte do tempo, morava no lugar certo.

Quando Liesel se foi nesse dia, disse uma coisa com grande constrangimento. Na tradução, lutou com duas palavras gigantescas, carregou-as no ombro e as largou como um par atamancado aos pés de Ilsa Hermann. Elas caíram de banda, quando a menina deu uma guinada e não pôde mais suportar o peso. Juntas, as duas ficaram no chão, grandes, altas e canhestras.

 

• DUAS PALAVRAS GIGANTESCAS •

Sinto muito.

De novo, a mulher do prefeito olhou para o espaço a seu lado. Um rosto de página em branco.

—        Por quê? — perguntou, mas o momento já havia passado. A menina já estava longe da sala. Quase chegara à porta da frente. Ao ouvir a pergunta, parou, mas optou por não voltar, preferindo sair da casa e descer a escada sem fazer barulho.

Olhou para a paisagem de Molching, antes de descer e desaparecer nela, e sentiu pena da mulher do prefeito por um bom tempo.

Vez ou outra Liesel se perguntava se deveria simplesmente deixar a mulher em paz, mas Ilsa Hermann era muito interessante e a atração dos livros era forte demais. Um dia, as palavras haviam inutilizado Liesel, mas agora, quando se sentava no chão, com a mulher do prefeito sentada à escrivaninha do marido, ela experimentava uma sensação inata de poder. Acontecia toda vez que decifrava uma palavra nova ou formava uma frase.

Ela era uma menina.

Na Alemanha nazista.

Como era apropriado que descobrisse o poder das palavras!

 E como seria terrível (mas revigorante!), muitos meses depois, o momento em que ela desencadearia o poder dessa descoberta recente, no instante exato em que a mulher do prefeito a decepcionasse. Com que rapidez a compaixão a deixaria, e com que rapidez espirraria para uma coisa completamente diferente...

Nesse momento, porém, no verão de 1940, Liesel não tinha como saber o que o futuro reservava, em mais de um sentido. Era apenas testemunha de uma mulher pesarosa, com uma sala cheia de livros que ela gostava de visitar. Apenas isso. Era a parte dois de sua vida naquele verão.

A parte três, graças a Deus, era um pouco mais despreocupada — o futebol na Rua Himmel.

Deixe-me pintar-lhe um quadro:

Pés roçando o chão.

O ímpeto do fôlego juvenil.

Palavras gritadas: "Prá cá! Por aqui! Scheisse!"

O quicar rude da bola na rua.

Estavam todos presentes na Rua Himmel, além do som dos pedidos de desculpas, enquanto o verão se intensificava ainda mais.

As desculpas eram de Liesel Meminger.

Dirigiram-se a Tommy Müller.

No começo de julho, ela finalmente conseguiu convencê-lo de que não o mataria. Desde a surra que lhe dera, em novembro do ano anterior, Tommy ainda tinha pavor de ficar perto dela. Nas reuniões do futebol da Rua Himmel, mantinha-se bem afastado.

—        A gente nunca sabe quando ela pode perder a estribeira — confidenciou a Rudy, meio fazendo caretas espásticas, meio falando.

Em defesa de Liesel, cabe dizer que ela nunca desistiu de tentar deixá-lo à vontade. Para a menina, era uma decepção ter feito as pazes tão bem com Ludwig Schmeikl e não com o inocente Tommy Müller, que ainda se encolhia ligeiramente toda vez que a via.

—        Como é que eu podia saber que você estava sorrindo prá mim naquele dia? — perguntava, repetidamente.

Chegou inclusive a passar uns períodos servindo de goleira para ele, até todos os outros jogadores do time implorarem para Tommy voltar.

—        Volte prá lá! — finalmente ordenou-lhe um garoto chamado Harald Mollenhauer.

—        Você é um inútil.

Isso foi depois de Tommy derrubá-lo quando ele estava prestes a marcar um gol. Harald teria conseguido um pênalti a seu favor, não fosse o fato de os dois estarem no mesmo time, Liesel saiu do gol e, de algum modo, sempre acabava jogando contra Rudy. Os dois driblavam e derrubavam um ao outro, trocando xingamentos. Rudy comentava:

—        Ela não vai conseguir passar por ele desta vez, aquela Saumensch Arschgrobbler  idiota. Não tem a menor chance.

Rudy parecia gostar de chamar Liesel de coçadora de bunda. Era uma das alegrias da infância.

Outra alegria, é claro, era roubar. Parte quatro, verão de 1940.

Para ser imparcial, eram muitas as coisas que uniam Rudy e Liesel, mas foi o roubo que cimentou por completo sua amizade. Ele foi trazido por uma oportunidade e movido por uma força inescapável — a fome de Rudy. O menino vivia permanentemente morto de vontade de comer alguma coisa.

Além da situação de racionamento, o negócio de seu pai não ia muito bem nos últimos tempos (a ameaça da concorrência judaica tinha sido afastada, mas o mesmo se dera com os clientes judeus). Os Steiner andavam raspando o fundo do tacho para se arranjar. Como muitas outras pessoas do lado da cidade em que ficava a Rua Himmel, precisavam do comércio. De bom grado Liesel daria a Rudy um pouco de comida de sua casa, mas lá também não havia uma abundância. Em geral, Rosa fazia sopa de ervilha. Cozinhava-a nas noites de domingo — e não só o bastante para uma ou duas repetições. Preparava sopa de ervilha suficiente para durar até o sábado seguinte. Depois, no domingo, fazia outra. Sopa de ervilha, pão, às vezes uma pequena porção de batata ou carne. A pessoa comia e não pedia mais, e não reclamava.

No começo, os dois faziam coisas para tentar esquecer.

Rudy não sentia fome quando eles jogavam futebol na rua. Ou quando pegavam as bicicletas do irmão e da irmã dele e iam à loja de Alex Steiner, ou visitavam o pai de Liesel, se ele estivesse trabalhando nesse dia. Hans Hubermann sentava-se com eles e contava piadas à última luz do entardecer.

Com a chegada de uns dias de calor, outra distração era aprender a nadar no Rio Amper. A água ainda estava meio fria demais, mas eles iam assim mesmo.

—        Vem — persuadiu-a Rudy. — só até aqui. Aqui não é muito fundo.

Liesel não viu o buraco gigantesco em que estava entrando e foi direto para o fundo. Nadar cachorrinho salvou-lhe a vida, embora ela quase sufocasse com o tanto de água que engoliu.

—        Seu Saukerl — acusou-o, ao desabar na margem do rio.

Rudy certificou-se de ficar bem longe. Tinha visto o que ela fizera com Ludwig Schmeikl.

—        Agora você sabe nadar, não é?

O que não a animou particularmente enquanto se afastava, pisando duro. Tinha o cabelo grudado num lado do rosto e muco escorrendo do nariz. Rudy gritou de longe:

—        Isso quer dizer que eu não ganho um beijo por lhe ensinar a nadar?

Que petulância dele!

       

Foi inevitável.

A deprimente sopa de ervilha e a fome de Rudy acabaram por impeli-los ao furto. Isso inspirou sua ligação com um grupo de meninos mais velhos que roubavam dos lavradores. Ladrões de frutas. Depois de um jogo de futebol, Liesel e Rudy aprenderam as vantagens de ficar de olho aberto. Sentados na escada frontal da casa de Rudy, notaram Fritz Hammer — um de seus colegas mais antigos — comendo uma maçã. Era do tipo Klar, que amadurece em julho e agosto, e parecia magnífica na mão dele. Outras três ou quatro formavam claras protuberâncias nos bolsos de seu casaco. Rudy e Liesel foram chegando mais perto.

— Onde você arranjou isso? — perguntou Rudy.

No começo, o menino apenas sorriu. — Pssiu — e parou. Depois, tirou uma maçã do bolso e começou a jogá-la. — Só olhem pra ela — advertiu-os. — Não comam.

Na vez seguinte em que viram o mesmo menino, usando o mesmo casaco, num dia quente demais para ele, resolveram segui-lo. Ele os levou para a parte alta do Rio Amper. Perto de onde Liesel às vezes lia com o pai, nos primeiros tempos de aprendizagem.

Um grupo de cinco meninos, uns altos, magros e desengonçados, outros baixotes e magrelas, estava esperando.

Havia um punhado desses grupos em Molching, na época, alguns com membros de apenas seis anos. O líder dessa organização específica era um agradável criminoso de quinze anos, chamado Arthur Berg. Ele deu uma olhada em volta e viu as duas crianças de onze anos rondando ao fundo.

— Und? — perguntou. "E aí?"

— Estou morrendo de fome — respondeu Rudy.

— E ele é rápido — disse Liesel. Berg olhou para a menina.

— Não me lembro de ter pedido sua opinião.

Era um adolescente alto, de pescoço comprido. Havia espinhas reunidas em grupos de pares em seu rosto.

— Mas gosto de você — acrescentou. Era amistoso, com um jeito adolescente atrevido. — Não foi essa que bateu no seu irmão, Anderl?

A notícia com certeza havia circulado. Uma boa surra transcende as divisões etárias. Outro menino — um dos baixos e magros —, de cabelo louro desabado e pele cor de gelo, deu uma olhadela.

— Acho que sim. Rudy confirmou:

— É ela.

Andy Schmeikl aproximou-se e estudou-a, de cima a baixo, com ar pensativo, antes de abrir um largo sorriso.

—        Grande trabalho, garota — comentou. Chegou até a lhe dar um tapinha entre os ossos das costas, batendo numa omoplata pontiaguda. — Eu teria levado uma surra de chicote se fizesse aquilo.

Arthur tinha-se aproximado de Rudy.

—        E você é o tal do Jesse Owens, não é? Rudy fez que sim.

—        E claro que é um idiota — disse Arthur —, mas é o nosso tipo de idiota. Vamos. Estavam aceitos.

Quando chegaram à fazenda, alguém jogou uma saca para Liesel e Rudy. Arthur Berg segurou seu próprio saco de aniagem. Passou a mão pelos fios macios do cabelo.

—        Algum de vocês já roubou?

—        É claro — atestou Rudy. — O tempo todo. Não soou muito convincente.

Liesel foi mais específica: — Roubei dois livros —, ao que Arthur riu, em três roncos breves. Suas espinhas mudaram de lugar.

—        Não se pode comer livro, benzinho.

Dali, todos examinaram as macieiras, perfiladas em fileiras compridas e tortas. Arthur Berg deu as ordens:

—        Um — disse. — Não fiquem presos na cerca. Quem ficar preso na cerca vai ser deixado prá trás. Entendido?

Todos assentiram com a cabeça ou disseram que sim.

—        Dois. E um na árvore, um embaixo. Alguém tem que recolher — e esfregou as mãos. Estava gostando daquilo. — Três. Se virem alguém chegando, vocês gritam numa altura que dê para acordar os mortos, e todo o mundo sai correndo. Richtig?

—        Richtig — veio o coro.

 

• DOIS DEBUTANTES NO FURTO DE MAÇÃS COCHICHANDO •

—        Liesel, tem certeza? Ainda quer fazer isso?

— Olhe pro arame farpado, Rudy. E muito alto.

— Não, não, olhe: você joga o saco em cima. Está vendo? Como eles.

— Está bem. — Então, vamos!

—        Não posso! — hesitou ela. — Rudy, eu...

— Anda logo, Saumensch!

Empurrou-a para a cerca, jogou o saco vazio no arame e os dois pularam, correndo em direção aos outros. Rudy abriu caminho para a árvore mais próxima e começou a derrubar as maçãs. Liesel ficou embaixo, pondo-as no saco. Quando ele ficou cheio, houve um outro problema.

— Como é que vamos pular a cerca de volta?

A resposta veio quando notaram que Arthur Berg a escalava o mais perto possível de uma estaca.

— Ali o arame é mais forte — apontou Rudy.

Jogou o saco por cima da cerca, fez Liesel subir primeiro e, em seguida, desceu junto dela do outro lado, entre as frutas que tinham rolado do saco.

Perto deles, as pernas compridas de Arthur Berg vigiavam, divertidas.

— Nada mau — veio a voz lá de cima. — Nada mau mesmo.

Quando regressaram ao rio, escondendo-se entre as árvores, Arthur pegou o saco e deu a Liesel e Rudy uma dúzia de maçãs, ao todo.

—        Bom trabalho — foi seu último comentário.

Naquela tarde, antes de voltarem para casa, Liesel e Rudy comeram seis maçãs cada um, no intervalo de meia hora. No começo, pensaram em dividir as frutas em suas respectivas casas, mas isso implicava um perigo considerável. Os dois não ficaram especialmente encantados com a oportunidade de explicar exatamente de onde tinham vindo as frutas. Liesel chegou até a pensar que talvez se safasse, se contasse apenas ao pai, mas não queria que ele achasse que tinha uma criminosa compulsiva nas mãos. Assim, comeu.

Na margem do rio em que ela aprendera a nadar, todas as maçãs foram consumidas. Pouco acostumados a esses luxos, eles sabiam ser provável que ficassem enjoados.

Mas comeram assim mesmo.

—        Saumensch! — xingou sua mãe naquela noite. — Por que está vomitando tanto?

—        Vai ver que é a sopa de ervilha — sugeriu Liesel.

—        É isso — ecoou o pai, de novo debruçado à janela. — Deve ser. Eu mesmo ando meio enjoado.

—        Quem foi que lhe perguntou, Saukerl? — e se virou depressa para a Saumensch que vomitava. — E então? O que há? O que foi, sua porca imunda?

E Liesel?

Não disse palavra.

As maçãs, pensou, alegremente. As maçãs; e vomitou mais uma vez, para dar sorte.

 

A LOJISTA ARIANA

Pararam do lado de fora da loja de Frau Diller, encostados na parede caiada.

Havia um pedaço de bala na boca de Liesel.

O sol batia em seus olhos.

Apesar dessas dificuldades, ela ainda conseguiu falar e discutir.

• OUTRA CONVERSA •

ENTRE RUDY E LIESEL

— Ande logo, Saumensch, já foram dez.

— Não foram, foram só oito, ainda tenho mais duas.

— Bom, então ande depressa.

Eu disse que a gente devia ter pegado uma faca e cortado ela ao meio...

Ande, já foram duas.

— Está bem. Tome. E não engula.

— Eu lhe pareço idiota?

[Uma pequena pausa]

— E o máximo, não é?

— Com certeza, Saumensch.

No fim de agosto e do verão, eles acharam um fênigue no chão. Pura empolgação.

Estava caído na terra, meio estragado, no trajeto da roupa para lavar e passar. Uma moeda solitária e corroída.

— Olhe só prá isso!

Rudy a arrebatou. A animação chegou quase a espetar, enquanto os dois voltaram correndo para a loja de Frau Diller, sem sequer considerar que um único fênigue talvez não fosse o preço certo. Irromperam porta adentro e pararam diante da lojista ariana, que os olhou com desdém.

—        Estou esperando — disse ela. Usava o cabelo preso para trás e um vestido preto que lhe sufocava o corpo. A foto emoldurada do Führer vigiava na parede.

—        Heil Hitler - fez Rudy.

—        Heil Hitler — ela respondeu, empertigando-se mais, atrás do balcão. — E você? — disse, lançando um olhar furioso para Liesel, que lhe ofereceu prontamente seu "heil Hitler".

Rudy não demorou a tirar a moeda do bolso e colocá-la com firmeza no balcão. Olhou diretamente para os olhos de Frau Diller, cobertos pelos óculos, e disse:

—        Balas mistas, por favor.

Frau Diller sorriu. Seus dentes se acotovelavam para arranjar espaço na boca, e sua gentileza inesperada fez com que Rudy e Liesel também sorrissem. Por pouco tempo. Ela se inclinou, procurou alguma coisa e reergueu o corpo.

—        Pronto — disse, jogando uma única bala no balcão. — Misture você.

Do lado de fora, eles a desembrulharam e tentaram parti-la ao meio com os dentes, mas o açúcar estava duro feito vidro. Duro demais, até para as presas animalescas de Rudy. Em vez disso, tiveram que alternar chupadelas até a bala acabar. Dez chupadelas para Rudy. Dez para Liesel. Para lá e para cá.

—        Isso é que é boa vida — anunciou Rudy, a horas tantas, com um sorriso de apreciador de doces — e Liesel não discordou. Quando terminaram, os dois tinham um tom vermelho exagerado na boca e, ao caminharem para casa, lembraram um ao outro de ficar de olho aberto, para o caso de acharem mais uma moeda.

Naturalmente, não acharam nada. Não se pode ter uma sorte dessas duas vezes num ano, que dirá numa única tarde.

Mesmo assim, de línguas e dentes vermelhos, os dois desceram a Rua Himmel, vasculhando alegremente o chão na passagem.

Tinha sido um dia genial, e a Alemanha nazista era um lugar maravilhoso.

 

O LUTADOR, CONTINUAÇÃO

Agora vamos adiante, até uma luta numa noite fria. Deixaremos que a roubadora de livros nos alcance depois.

Era dia 3 de novembro, e o piso do trem grudava-se a seus pés. Segurando o livro diante dó rosto, ele lia o exemplar de Mein Kampf. Seu salvador. O suor lhe brotava das mãos. As marcas dos dedos agarravam o livro.

• A PRODUTORA ROUBADORA DE LIVROS •

apresenta oficialmente

Mein Kampf

(Minha luta)

de Adolf Hitler

Atrás de Max Vandenburg, a cidade de Stuttgart abria os braços, zombeteira.

O rapaz não era bem-vindo nela e procurou não olhar para trás enquanto o pão dormido se desintegrava em seu estômago. Em alguns momentos, tornou a mudar de posição e viu as luzes se transformarem num simples punhado, depois desaparecerem por completo.

— Assuma um ar orgulhoso, aconselhou-se. Você não pode parecer amedrontado. Leia o livro. Sorria para ele. É um grande livro — o melhor que você já leu. Ignore a mulher do outro lado. Ela está dormindo; de qualquer modo. Vamos, Max, faltam apenas algumas horas.

Como se constatou, a nova visita prometida ao quarto das trevas não tinha levado dias, mas uma semana e meia. Depois, outra semana até a seguinte, e mais outra, até ele perder toda a noção da passagem dos dias e das horas. Max fora deslocado mais uma vez, para outro pequeno depósito em que houvera mais luz, mais visitas e mais comida. O tempo, entretanto, ia-se esgotando.

—        Logo estarei de partida — disse seu amigo Walter Kugler. — Sabe como é, o exercito.

—        Sinto muito, Walter.

Walter Kugler, amigo de infância de Max, pôs a mão no ombro do judeu.

—        Podia ser pior — e olhou o amigo nos olhos judaicos. — Podia ser você.

Era o último encontro dos dois. Um derradeiro pacote foi deixado num canto e, dessa vez, havia um bilhete. Walter abriu o Mein Kampf e o enfiou lá dentro, junto com o mapa que ele mesmo trouxera com o livro.

—        Página treze — sorriu.— Para dar sorte, sim?

—        Para dar sorte — e os dois se abraçaram.

Quando a porta se fechou, Max abriu o livro e examinou o bilhete. Stuttgart-Munique-Pasing. Partiria em dois dias, à noite, bem a tempo de fazer a última conexão. De lá, seguiria a pé. O mapa já estava em sua cabeça, dobrado em quatro. A chave continuava presa com fita adesiva à parte interna da capa.

Max passou meia hora sentado, antes de andar até a mala e abri-la. Afora a comida, havia alguns outros objetos lá dentro.

• O CONTEÚDO ADICIONAL DO PRESENTE DE WALTER KUGLER •

Uma lâmina pequena,

Uma colher — o que havia de mais próximo de um espelho.

Creme de barbear.

Uma tesoura.

Quando Max o deixou, o depósito estava vazio, a não ser pelo chão.

—        Adeus — murmurou.

A última coisa que viu foi o montinho de cabelo, descuidadamente encostado na parede.

Adeus.

Com o rosto escanhoado e o cabelo meio torto, mas bem penteado, ele saiu do prédio como um novo homem. Na verdade, saiu alemão. Espere um minuto, ele era alemão. Ou, melhor dizendo, tinha sido.

No estômago havia uma combinação elétrica de comida e náusea,

Dirigiu-se à estação,

 Mostrou o bilhete e a carteira de identidade, e agora estava sentado numa pequena cabine do trem, diretamente sob o refletor do perigo.

— Documentos.

Era o que ele temia ouvir.

Já fora ruim o bastante ao parar na plataforma. Ele sabia que não suportaria aquilo duas vezes.

As mãos trêmulas.

O cheiro — não, o fedor — da culpa.

Simplesmente não o suportaria de novo.

Por sorte, eles passaram cedo e só pediram o bilhete, e agora restavam apenas uma janela de cidadezinhas, os aglomerados de luz e a mulher que roncava no outro banco da cabine.

Durante a maior parte da viagem, ele avançou pelo livro, procurando nunca erguer os olhos.

As palavras refestelavam-se em sua boca, à medida que as lia.

Estranhamente, ao virar as páginas e progredir na leitura dos capítulos, foram só duas as palavras que Max provou.

Mein Kampf, Minha luta...

O título, que se repetia sem parar enquanto o trem balbuciava adiante, de uma cidade alemã para outra.

Mein Kampf.

Justo essa, de todas as coisas que poderiam salvá-lo.

 

TRAPACEIROS

Você poderia dizer que as coisas foram fáceis para Liesel Meminger. E foram mesmo, em comparação com Max Vandenburg. É claro, o irmão praticamente morrera em seus braços. A mãe a havia abandonado. Mas qualquer coisa era melhor do que ser judeu.

No período que antecedeu a chegada de Max, perdeu-se mais um freguês da lavagem de roupas, dessa vez os Weingartner. O Schimpferei, o xingamento obrigatório, ocorreu na cozinha, e Liesel se acalmou com o fato de ainda restarem dois e, melhor ainda, de um deles ser o prefeito, a mulher, os livros.

Quanto às demais atividades de Liesel, ela continuava a fazer estragos com Rudy Steiner. Eu sugeriria até que os dois estavam aprimorando suas travessuras.

Fizeram mais umas saídas com Arthur Berg e seus amigos, ansiosos por provar seu valor e ampliar seu repertório de furtos. Tiraram batatas de uma fazenda e cebolas de outra. Sua maior vitória, porém, eles obtiveram sozinhos.

Como já foi testemunhado, uma das vantagens de andar pela cidade era a perspectiva de achar coisas no chão. Outra era observar pessoas, ou, mais importante, as mesmas pessoas, fazendo coisas idênticas, semana após semana.

Um garoto da escola, Otto Sturm, era uma dessas pessoas. Toda sexta-feira, à tarde, ele ia de bicicleta até a igreja, levando mantimentos para os padres.

Durante um mês os dois o observaram, enquanto o bom tempo ia ficando ruim, e Rudy, em particular, tinha resolvido que, numa sexta-feira, numa semana anormalmente fria de outubro, Otto não chegaria a seu destino.

—        Aqueles padres todos — explicou Rudy, enquanto andavam pela cidade.

— Estão todos muito gordos, de qualquer jeito. Podem ficar sem comida por uma semana, ou coisa assim.

Liesel só podia concordar. Para começar, não era católica. Segundo, ela mesma andava com muita fome. Como sempre, estava carregando a roupa. Rudy levava dois baldes de água fria, ou, como disse, dois baldes de gelo futuro.

Pouco antes das duas horas, ele se dedicou ao trabalho.

Sem a menor hesitação, derramou a água na rua, no ponto exato em que Otto pedalaria ao dobrar a esquina.

Liesel teve que admitir.

No começo, houve uma parcelinha de culpa, mas o plano era perfeito, ou, pelo menos, tão próximo da perfeição quanto possível. Pouco depois das duas horas, toda sexta-feira, Otto Sturm virava na Rua Munique com os mantimentos na cesta da frente, presa ao guidom. Nessa sexta-feira específica, seria só a esse ponto que ele chegaria.

A rua já estava mesmo gelada, mas Rudy pôs a camada extra, mal conseguindo conter o sorriso. Ele lhe atravessava o rosto feito um patim.

—        Vamos para aquela moita ali — disse.

Passados aproximadamente quinze minutos, o plano diabólico deu frutos, por assim dizer.

Rudy apontou o dedo para uma abertura na moita:

—        Lá vem ele.

Otto dobrou a esquina, bobo feito um carneiro.

Não demorou a perder o controle da bicicleta, derrapando no gelo e caindo de cara no chão.

Quando não se mexeu, Rudy olhou para Liesel, assustado.

—        Jesus crucificado — disse —, acho que é capaz de a gente ter matado ele! Esgueirou-se para fora da moita, pegou a cesta e os dois partiram em fuga.

—        Ele estava respirando? — perguntou Liesel, mais adiante na rua.

—        Keine Ahnung — respondeu Rudy, agarrado à cesta. Não fazia idéia.

De longe, ladeira abaixo, os dois viram Otto levantar-se, coçar a cabeça, coçar a virilha e procurar a cesta em toda parte.

— Scheisskopf idiota — riu Rudy, e ambos examinaram o butim. Pão, ovos quebrados e o melhor de tudo, Speck. Rudy levou o presunto gorduroso ao nariz e inalou o perfume glorioso. — Beleza!

Por maior que fosse a tentação de guardar a vitória para si, eles foram dominados pelo sentimento de lealdade a Arthur Berg. Andaram até suas acomodações miseráveis na Kempf Strasse e lhe mostraram os mantimentos. Arthur mal pôde conter a aprovação.

— De quem vocês roubaram isso?

Foi Rudy quem respondeu:

—        De Otto Sturm.

—        Bem — fez Arthur, balançando a cabeça — seja ele quem for, tem minha gratidão.

Entrou e voltou com uma faca de pão, uma frigideira e um paletó, e os três ladrões andaram pelo corredor de apartamentos.

—        Vamos chamar os outros — declarou Arthur Berg, ao chegarem do lado de fora. — Podemos ser criminosos, mas não somos totalmente imorais.

Assim como a menina que roubava livros, pelo menos ele traçava um limite em ALGUM lugar.

Bateram em mais algumas portas. Nomes foram chamados da rua para os apartamentos e, em pouco tempo, todo o conglomerado do bando de ladrões de frutas de Arthur Berg pôs-se a caminho do Amper. Na clareira do lado oposto, acendeu-se uma fogueira e o que restara dos ovos foi resgatado e frito. O pão e o Speck foram cortados. Com mãos e facas, toda a entrega de Otto Sturm foi devorada até o último pedaço. Nenhum padre à vista.

Só no fim é que surgiu uma discussão, concernente à cesta. A maioria da garotada queria queimá-la. Fritz Hammer e Andy Schmeikl queriam guardá-la, mas Arthur Berg, mostrando sua incongruente aptidão moral, teve uma idéia melhor.

—        Vocês dois — disse a Rudy e Liesel. — Talvez vocês devam levá-la de volta para o tal de Sturm. Eu diria que o pobre coitado provavelmente o merece.

—        Ora, vamos, Arthur.

—        Não quero saber, Andy.

—        Cristo!

—        Ele também não quer saber.

O grupo riu e Rudy Steiner pegou a cesta.

—        Vou levar de volta e penduro na caixa do correio deles.

Só tinha andado uns vinte metros quando a menina o alcançou. Chegaria em casa tarde demais para o que lhe convinha, mas estava perfeitamente cônscia de que tinha que acompanhar Rudy Steiner pela cidade, até a fazenda de Sturm, lá do outro lado.

Durante muito tempo, os dois caminharam em silêncio.

— Você se sentiu mal? — acabou perguntando Liesel. Já estavam no trajeto de casa.

— Com quê?

— Você sabe.

— É claro que sim, mas não estou mais com fome, e aposto que ele também não está com fome. Não pense nem por um segundo que os padres ganhariam comida, se eles não tivessem o suficiente em casa.

—        É só que ele bateu no chão com muita força.

 

—        Nem me lembre.

Mas Rudy Steiner não pôde resistir a um sorriso. Em anos vindouros, ele seria um doador de pão, não um ladrão — mais uma prova de como o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. E só misturar com água.

Cinco dias depois da pequena vitória agridoce, Arthur Berg tornou a aparecer e os convidou para seu projeto seguinte de furto. Os dois esbarraram nele na Rua Munique, ao voltarem da escola numa quarta-feira. Arthur já estava de uniforme da Juventude Hitlerista.

—        Vamos de novo amanhã à tarde. Estão interessados? Eles não conseguiam evitar.

—        Onde?

—        Ao lugar das batatas.

Vinte e quatro horas depois, Liesel e Rudy enfrentaram mais uma vez a cerca de arame farpado e encheram o saco de aniagem.

O problema surgiu quando iam fugindo.

— Nossa! — gritou Arthur. — O fazendeiro!

Porém o que mais assustou foi sua palavra seguinte. Arthur a gritou como se ela já o tivesse atacado. Sua boca escancarou-se. A palavra saiu voando, e a palavra era machado.

E com certeza, quando eles viraram para trás, o fazendeiro vinha correndo em sua direção, erguendo a arma acima da cabeça.

O grupo todo correu para a cerca e a pulou. Rudy, o que estava mais longe, alcançou-os depressa, mas não depressa o bastante para deixar de ser o último. Quando levantou a perna, ficou preso.

— Ei!

O som dos enrascados.

O grupo parou.

Instintivamente, Liesel voltou correndo.

—        Depressa! — gritou Arthur. Sua voz estava muito longe, como se ele a houvesse engolido antes de ela lhe sair da boca.

Céu branco. Os outros correram.

Liesel chegou e começou a puxar o tecido das calças de Rudy. Ele tinha os olhos arregalados de medo.

—        Depressa — disse — ele está vindo.

Ao longe, os dois ainda ouviam os pés em fuga, quando uma outra mão agarrou o arame e o arrancou das calças de Rudy Steiner. Ficou um pedaço no nó metálico.

— Agora, mexam-se — recomendou Arthur, não muito antes de o fazendeiro chegar, xingando e lutando para recobrar o fôlego. O machado pendia com força nesse momento, junto a sua perna, E o homem gritou as palavras inúteis dos roubados:

—        Vou mandar prender vocês! Eu os encontro! Vou descobrir quem vocês são!

Foi nessa hora que Arthur Berg respondeu.

—        O nome é Owens! — e saiu andando a passos largos, até alcançar Liesel e Rudy. — Jesse Owens!

Ao chegarem a um local seguro, lutando para inalar o ar e levá-lo aos pulmões, os dois se sentaram e Arthur Berg se aproximou. Rudy não queria olhar para ele.

—        Já aconteceu com todos nós — disse Arthur, intuindo a decepção.

Estaria mentindo? Eles não podiam ter certeza, e nunca descobririam.

Semanas depois, Arthur Berg mudou-se para Colônia.

Os dois o viram mais uma vez, numa das rondas de Liesel para entregar a roupa. Numa viela que saía da Rua Munique, o rapazinho entregou a Liesel um saco de papel pardo com uma dúzia de castanhas. Deu um riso maroto:

—        Um contato na indústria de torrefação.

Depois de informá-los de sua partida, conseguiu oferecer um último sorriso espinhento e dar um tapinha na testa de cada um.

—        Tratem de não comer esses troços todos de uma vez — e os dois nunca mais viram Arthur Berg.

Quanto a mim, posso lhe dizer que definitivamente o vi.

 

• UM PEQUENO TRIBUTO A ARTHUR BERG •

AINDA VIVO

O céu de Colônia estava amarelo e pútrido,

descascando nas bordas.

Ele se sentou, encostado numa parede, com

uma criança no colo. Sua irmã.

Quando a menina parou de respirar, ele ficou a seu lado,

e senti que a seguraria durante horas.

Havia duas maçãs roubadas em seu bolso.

 

Dessa vez, eles foram mais espertos. Cada um comeu uma castanha, depois venderam o resto de porta em porta.

—        Se a senhora puder dispensar uns fênigues — dizia Liesel em cada casa —, eu tenho castanhas.

Acabaram com dezesseis moedas.

—        E agora — sorriu Rudy — a vingança.

 —       Balas mistas de novo? — schmunzelou a mulher, ao que os dois fizeram que sim. O dinheiro espalhou-se sobre o balcão, e o sorriso de Frau Diller ficou ligeiramente boquiaberto.

—        Sim, Frau Diller — disseram em uníssono. — Balas mistas, por favor.

O Führer emoldurado olhou-os com orgulho.

A vitória antes da tempestade.

 

O LUTADOR, CONCLUSÃO

Agora os malabarismos chegam ao fim, mas não a luta. Tenho Liesel Meminger numa das mãos e Max Vandenburg na outra. Daqui a pouco, baterei palmas com eles. E só me dar umas páginas.

O lutador:

Se o matassem nessa noite, pelo menos ele morreria vivo.

A viagem de trem já ia muito longe, e a roncadora provavelmente se encolhia no vagão que transformara em sua cama, seguindo viagem. Agora só havia passos entre Max e a sobrevivência. Passos e pensamentos, e dúvidas.

Ele seguiu o mapa que levava na cabeça, de Pasing a Molching. Era tarde quando avistou a cidade. Suas pernas doíam terrivelmente, mas ele estava quase lá — o lugar mais perigoso para estar. Tão perto que seria possível tocá-lo.

Tal como lhe fora descrita, ele encontrou a Rua Munique e seguiu pela calçada.

Tudo se enrijeceu.

Poças reluzentes dos postes de iluminação.

Prédios escuros, passivos.

O edifício da prefeitura erguia-se como um jovem gigantesco e sem graça, grande demais para a idade. A igreja desaparecia na escuridão, quanto mais os olhos subiam pela torre.

Tudo o vigiava.

Max estremeceu,

Avisou a si mesmo:

— Fique de olhos abertos.

(Havia crianças alemãs à procura de moedas perdidas. Os judeus alemães atentavam para a possível captura.)

Em consonância com o uso do treze para dar sorte, Max contou os passos em grupos desse número. Só treze passos, dizia a si mesmo. Vamos, só mais treze. Numa estimativa, completou noventa conjuntos, até parar na esquina da Rua Himmel.

Numa das mãos segurava a mala.

A outra continuava segurando Mein Kampf.

Os dois eram pesados, e ambos eram manejados com uma delicada secreção de suor.

Max entrou na minha, dirigindo-se ao número 33 e resistindo à ânsia de sorrir, resistindo à ânsia de soluçar, ou até de imaginar a segurança que talvez o aguardasse. Lembrou a si mesmo que não era hora de esperança. Sem dúvida, quase podia tocá-la. Podia senti-la em algum lugar, ligeiramente fora do alcance. Em vez de reconhecê-la, tratou de decidir mais uma vez o que faria, se fosse apanhado no último instante, ou se, por mero acaso, a pessoa errada o esperasse lá dentro.

E claro, havia também a sensação pruriente de pecado.

Como podia fazer uma coisa dessas?

Como podia aparecer e pedir a pessoas que arriscassem suas vidas por ele? Como podia ser tão egoísta?

Trinta e três. Entreolharam-se.

A casa era pálida, de aparência quase doentia, com um portão de ferro e uma porta marrom, manchada de cuspe.

Do bolso ele tirou a chave. Que não reluziu, mas ficou em sua mão, opaca e, frouxa. Por um instante, Max a apertou, como que esperando vê-la vazar para seu pulso. Não vazou. O metal era duro e plano, com um conjunto saudável de dentes, e ele o apertou até que lhe perfurasse a mão.

E então, devagar, o lutador inclinou-se, encostou o rosto na madeira e tirou a chave do punho cerrado.

 

O ACORDEONISTA

(A vida secreta de Hans Hubermann)

Havia um rapaz parado na cozinha. A chave em sua mão parecia enferrujar-se em sua palma. Ele não disse nada parecido com olá, nem por favor, me ajude, nem qualquer outra dessas frases esperáveis. Fez duas perguntas.

 

• PERGUNTA UM •

Hans Hubermann?

• PERGUNTA DOIS •

O senhor ainda toca acordeão?

Enquanto o rapaz olhava, constrangido, para a forma humana à sua frente, sua voz foi raspada e entregue na escuridão, como se fosse tudo que restava dele.

O pai, atento e consternado, aproximou-se mais.

Dirigindo-se à cozinha, murmurou:

— É claro que sim.

Tudo remontava a muitos anos antes, à Primeira Guerra Mundial.

São estranhas essas guerras.

Cheias de sangue e violência — mas também cheias de histórias igualmente difíceis de esquadrinhar. "É verdade", murmuram as pessoas. "Não me importa se você não acreditar. Foi aquela raposa que me salvou a vida", ou, então, "Eles dois morreram, um de cada lado de mim, e fiquei lá de pé, o único que não levou um tiro entre os olhos. Por que eu? Por que eu e não eles?".

A história de Hans Hubermann era desse tipo. Quando a achei, nas palavras da menina que roubava livros, percebi que ele e eu já nos tínhamos cruzado, aqui e ali, durante aquele período, embora nenhum de nós houvesse marcado um encontro. Pessoalmente, eu tinha muito trabalho a fazer. Quanto a Hans, acho que ele fazia todo o possível para me evitar.

A primeira vez que estivemos nas imediações um do outro, Hans tinha vinte e dois anos e combatia na França. A maioria dos rapazes de seu pelotão estava ansiosa por lutar. Hans não tinha tanta certeza. Eu tinha levado alguns deles pelo caminho, mas pode-se dizer que nunca chegara nem perto de encostar em Hans Hubermann. Ou ele tinha muita sorte, ou merecia viver, ou havia uma boa razão para que vivesse.

No exército, ele não se destacava num extremo nem no outro. Corria medianamente, escalava medianamente e era capaz de atirar com pontaria suficiente para não afrontar seus superiores. E não se destacava o bastante para ser um dos primeiros escolhidos a correr direto para mim.

 

• UMA OBSERVAÇÃO PEQUENA •

PORÉM DIGNA DE NOTA

Ao longo dos anos,

vi inúmeros rapazes que pensam

estar correndo para outros rapazes.

Não estão.

Eles correm para mim.

Fazia quase seis meses que ele estava na guerra quando foi parar na França, onde, à primeira vista, um estranho acontecimento salvou sua vida. Outra perspectiva sugeriria que, no contra-senso da guerra, aquilo fez perfeito sentido.

Grosso modo, seu período na Grande Guerra o deixara atônito, desde o momento em que entrara no exército. Parecia um seriado. Dia após dia após dia. Após dia.

A conversa dos projéteis.

Homens descansando.

As melhores piadas obscenas do mundo.

Suor frio — o amiguinho maligno — ultrapassando os limites da hospitalidade, nas axilas e nas calças.

O que ele mais gostava era dos jogos de baralho, seguidos pelas poucas partidas de xadrez, embora fosse absolutamente ridículo em todos. E da música. Sempre a música.

Foi um homem um ano mais velho que ele — um judeu alemão chamado Erik Vandenburg — quem lhe ensinou a tocar acordeão. Aos poucos, os dois tornaram-se amigos, graças ao fato de que nenhum deles estava terrivelmente interessado em combater. Preferiam enrolar cigarros a se enrolar na neve e na lama. Preferiam lançar dados a lançar projéteis. Uma sólida amizade alicerçou-se no jogo, no fumo e na música, para não falar no desejo comum de sobrevivência. O único problema foi que, mais tarde, Erik Vandenburg seria encontrado em vários pedaços numa colina cheia de relva. Tinha os olhos abertos e sua aliança de casamento fora roubada. Recolhi sua alma junto com as outras e fomos embora. O horizonte estava cor de leite. Frio e fresco. Derramado entre os corpos.

Tudo que restou de Erik Vandenburg, na verdade, foram alguns objetos pessoais e o acordeão muito manuseado. Tudo, menos o instrumento, foi mandado para sua casa. O acordeão foi considerado grande demais. Quase com autocensura, ficou parado na cama improvisada do dono, no acampamento da base, e foi dado ao amigo dele, Hans Hubermann, que aliás foi o único a sobreviver.

 

• ELE SOBREVIVEU ASSIM •

Não entrou em combate nesse dia.

E tinha que agradecer a Erik Vandenburg por isso. Ou, para ser mais exata, a Erik Vandenburg e à escova de dentes do sargento.

Naquela manhã em particular, não muito antes de eles saírem, o sargento Stephan Schneider entrou no dormitório e pôs todos em posição de sentido. Era benquisto entre os soldados, por seu senso de humor e pelas peças que pregava, mas principalmente pelo fato de nunca ir atrás de ninguém para a linha de fogo. Sempre ia na frente.

Em certos dias, ele tendia a entrar no cômodo em que os homens descansavam e dizer alguma coisa do tipo "Quem é de Pasing?", ou "Quem é bom em matemática?", ou então, no caso fatídico de Hans Hubermann, "Quem tem a letra bonita?".

Ninguém jamais se oferecia como voluntário, não depois da primeira vez em que o sargento fez isso. Nesse dia, um jovem soldado ansioso, de nome Philipp Schlink, levantou-se orgulhosamente e disse:

—        Sim, senhor, eu sou de Pasing.

Recebeu na mesma hora uma escova de dentes e a ordem de limpar as latrinas.

Quando o sargento perguntou quem tinha a melhor caligrafia, você com certeza há de entender porque ninguém fez questão de se apresentar. Cada um achou que poderia ser o primeiro a receber uma inspeção higiênica completa, ou a lustrar as bolas sujas de cocô de um tenente excêntrico, antes de sair.

—        Ora, vamos — Schneider brincou. Achatado de óleo, seu cabelo brilhava, embora uma pequena mecha ficasse sempre em pé e vigilante no cocuruto. — Pelo menos um de vocês, seus cretinos inúteis, deve saber escrever direito.

À distância, ouvia-se o tiroteio. Aquilo desencadeou uma reação.

—        Olhem — disse Schneider — desta vez não é como nas outras. Levará a manhã inteira, talvez mais — e não pôde resistir a um sorriso. — O Schlink ficou polindo aquela latrina enquanto o resto de vocês jogava cartas, mas, desta vez, vocês estarão lá fora.

A vida ou o orgulho.

Ele claramente esperava que um de seus homens tivesse a inteligência de escolher a vida.

Erik Vandenburg e Hans Hubermann se entreolharam. Se alguém desse um passo à frente naquele momento, o pelotão lhe transformaria a vida num inferno pelo resto do tempo que passassem juntos. Ninguém gosta de covardes. Por outro lado, se alguém fosse indicado...

Nada ainda de voluntários, mas uma voz saiu agachada e se encaminhou a furta-passo para o sargento. Sentou-se a seus pés, à espera de um bom chute. A voz disse:

—        Hubermann, senhor.

A voz pertencia a Erik Vandenburg. Obviamente, ele achou que esse dia não era o momento apropriado para seu amigo morrer.

O sargento andou de um lado para outro pelo corredor entre os soldados,

—        Quem disse isso?

Era soberbo para andar, esse Stephan Schneider — um homem miúdo, que falava, se deslocava e agia às pressas. Enquanto ele percorria as duas fileiras, para lá e para cá, Hans observou, à espera da notícia. Talvez uma das enfermeiras estivesse doente e eles precisassem de alguém para cortar e substituir ataduras nos membros infeccionados dos soldados feridos. Talvez fosse preciso lamber e selar mil envelopes, e mandá-los para casa com notícias de falecimento.

Nesse momento, a voz se manifestou de novo, levando algumas outras a se fazerem ouvir.

—        Hubermann — disseram em eco. Erik chegou até a dizer: — Uma caligrafia impecável, senhor, impecável.

—        Então, está resolvido — disse o sargento. Houve um sorriso circular na boca pequena. —- Hubermann, é você.

O soldado jovem e desengonçado deu um passo à frente e perguntou qual seria sua tarefa.

O sargento suspirou.

—        O capitão precisa que umas doze cartas sejam escritas por ele. Está com um reumatismo terrível nos dedos. Ou artrite. Você as escreverá para ele.

Não era hora de discutir, principalmente quando Schlink tivera ordens de limpar as privadas e o outro, Pflegger, quase se matara de tanto lamber envelopes. Sua língua ficara azul-infecção.

 — Sim, senhor — assentiu Hans, e acabou-se a história. Sua capacidade de redação era dúbia, para dizer o mínimo, mas ele se considerou afortunado. Escreveu as cartas o melhor que pôde, enquanto o resto dos homens entrava em combate. Nenhum deles voltou.

Essa foi a primeira vez que Hans escapou de mim. Na Grande Guerra.

Uma segunda fuga ainda estava por vir, em 1943, em Essen.

Duas guerras para duas fugas.

Uma vez jovem, outra na meia-idade.

Não são muitos os homens que têm a sorte de me tapear duas vezes.

Ele carregou consigo o acordeão durante toda a guerra.

Quando localizou a família de Erik Vandenburg em Stuttgart, ao regressar, a viúva lhe informou que ele podia ficar com o instrumento. Seu apartamento estava cheio deles, e a mulher ficava perturbada demais ao olhar especificamente para aquele. Os outros já eram um lembrete suficiente, assim como sua profissão, antes compartilhada com o marido, de ensiná-lo.

— Ele me ensinou a tocar — informou-lhe Hans, como se isso ajudasse.

Talvez tenha ajudado, porque a mulher arrasada perguntou se ele tocaria para ele, e chorou em silêncio enquanto Hans apertava os botões e as teclas de uma desabalada "Valsa do Danúbio Azul". Era a favorita de seu marido.

— Sabe — explicou-lhe Hans —, ele salvou minha vida.

A luz do cômodo era fraca e o ar, restrito.

— Ele... se algum dia houver alguma coisa de que a senhora precise... — e fez deslizar pela mesa um pedaço de papel com seu nome e endereço. — Sou pintor profissional. Pinto o seu apartamento de graça, quando a senhora quiser.

Sabia que era uma compensação inútil, mas ofereceu, assim mesmo.

A mulher pegou o papel e, não muito depois, um garotinho entrou e se sentou em seu colo.

—        Este é o Max — fez ela, mas o menino era pequeno e tímido demais para dizer alguma coisa. Era magrelo, de cabelo macio, e seus olhos densos e escuros observaram enquanto o estranho tocava mais uma canção na sala pesada. De um rosto para outro, ficou olhando enquanto o homem tocava e a mulher chorava. As diferentes notas mexiam com os olhos dela. Muita tristeza.

Hans se foi.

—        Você nunca me contou — censurou ele, dirigindo-se a um Erik Vandenburg morto e à silhueta dos prédios de Stuttgart. — Nunca me disse que tinha um filho.

Depois de uma parada momentânea, com a cabeça abalada, Hans regressou a Munique, esperando nunca mais ouvir falar daquelas pessoas. O que não sabia é que sua ajuda seria definitivamente necessária, mas não pela pintura, e não por mais uns vinte anos.

 Passaram-se algumas semanas antes de ele começar a pintar. Nos meses de bom tempo, trabalhava com vigor e, mesmo no inverno, muitas vezes dizia a Rosa que talvez não chovesse trabalho, mas pelo menos haveria uma garoa de vez em quando.

Durante mais de uma década, tudo funcionou.

Nasceram Hans Júnior e Trudy. Que cresceram fazendo visitas ao pai no trabalho, jogando tinta nas paredes e limpando pincéis.

Quando Hitler chegou ao poder, no entanto, em 1933, o trabalho de pintura deu ligeiramente errado. Hans não se filiou ao NSDAP, como fez a maioria das pessoas. Pensou muito nessa decisão.

 

• O PROCESSO DE RACIOCÍNIO •

DE HANS HUBERMANN

Ele não era muito instruído nem politizado,

porém, que mais não fosse, era um homem

que apreciava a justiça. Um judeu salvara sua

vida, uma vez, e ele não podia esquecer isso.

Não podia filiar-se a um partido que antagonizava

as pessoas daquele jeito. Além disso, tal como

Alex Steiner, alguns de seus fregueses mais fiéis

eram judeus. Como muitos judeus acreditavam,

Hans achava que o ódio não podia durar, e a

decisão de não seguir Hitler foi consciente.

Em muitos níveis, foi desastrosa.

 

Uma vez iniciada a perseguição, seu trabalho esgotou-se aos poucos. No começo não foi muito ruim, mas ele logo começou a perder clientela. Punhados de pedidos de orçamento pareceram desaparecer no crescente ar nazista.

Hans abordou um antigo cliente fiel, chamado Herbert Bollinger — um homem de cintura hemisférica que falava Hochdeutsch (era de Hamburgo) —, ao vê-lo na Rua Munique. A princípio, o homem olhou para baixo, para o chão, passando pela barriga, mas, quando seus olhos voltaram ao pintor, a pergunta claramente o constrangeu. Não havia razão para Hans perguntar, mas ele perguntou.

—        Que está havendo, Herbert? Tenho perdido fregueses mais depressa do que consigo contar.

Bollinger não tornou a se encolher. Empertigando-se, expôs o fato como uma Pergunta de sua própria lavra.

—        Bem, Hans, você é membro?

—        De quê?

Mas Hans Hubermann sabia exatamente de que o homem estava falando.

—        Ora, vamos, Hansi — insistiu Bollinger. — Não me faça soletrar.

O pintor alto acenou-lhe um adeus e seguiu em frente.

 Com o correr dos anos, os judeus passaram a ser aleatoriamente aterrorizados en todo o país e, na primavera de 1937, quase envergonhado, Hans Hubermann final mente se submeteu. Fez umas indagações e pediu para se filiar ao Partido.

Depois de entregar seu formulário na sede do Partido Nazista, na Rua Munique, Viu quatro homens atirarem vários tijolos numa loja de roupas chamada Kleinmann. Era uma das poucas lojas judaicas ainda em funcionamento em Molching. Lá dentro, um homem miúdo gaguejava de um lado para outro, esmagando vidro quebrado com os pés enquanto fazia a limpeza. Havia uma estrela cor de mostarda borrada na porta. Com letra desleixada, as palavras IMUNDÍCIE JUDAICA escorriam pelas bordas. O movimento no interior da loja minguou de apressado para melancólico, depois cessou por completo.

Hans aproximou-se e enfiou a cabeça do lado de dentro.

— Precisa de ajuda?

O Sr. Kleinmann ergueu os olhos. Uma vassoura prendia-se, impotente, a sua mão.

— Não, Hans. Por favor. Vá embora.

Hans tinha pintado a casa de Joel Kleinmann no ano anterior. Lembrava-se de seus três filhos. Via seus rostos, embora não conseguisse lembrar de seus nomes.

— Eu venho amanhã — insistiu — para repintar a sua porta.

Dito e feito.

Foi o segundo de dois erros.

O primeiro ocorreu imediatamente após o incidente.

Ele retornou ao local de onde viera e deu um murro na porta e, em seguida, na Janela do NSDAP. A vidraça chacoalhou, mas ninguém respondeu. Todos tinham encerrado o expediente e ido para casa. Um último membro andava na direção oposta. Quando ouviu o chacoalhar do vidro, notou o pintor.

Voltou e perguntou qual era o problema.

— Não posso mais me filiar — declarou Hans.

O homem ficou chocado.

— Por que não?

Hans olhou para os nós dos dedos da mão direita e engoliu em seco. Já sentia o gosto do erro, como um comprimido de metal na boca.

—        Deixe para lá.

Deu meia-volta e foi para casa. Ás palavras o seguiram.

—        Pense nisso, Herr Hubermann. E nos informe a sua decisão.

Ele fingiu não ter ouvido.

Na manhã seguinte, conforme o prometido, levantou-se mais cedo que de hábito. Mas não cedo o bastante. A porta da Roupas Kleinmann ainda estava úmida de orvalho. Hans secou-a. Conseguiu igualar a cor, tanto quanto era humanamente possível, e lhe aplicou uma sólida demão.

Inocuamente, um homem passou.

—        Heil Hitler — disse.

—        Heil Hitler — respondeu Hans.

 

• TRÊS FATOS PEQUENOS •

MAS IMPORTANTES

1. O homem que passou era Rolf Fischer, um dos maiores nazistas de Molching.

2.         Uma nova afronta foi pintada na porta,

em menos de dezesseis horas.

3.         Não se concedeu a Hans Hubermann a

filiação no Partido Nazista.

Pelo menos, ainda não.

Durante o ano seguinte, Hans teve sorte de não haver cancelado oficialmente seu pedido de filiação. Enquanto muitas pessoas eram instantaneamente aprovadas, ele foi acrescentado a uma lista de espera, visto com desconfiança. No fim de 1938, quando os judeus foram completamente expulsos, depois da Noite dos Cristais, a Gestapo fez-lhe uma visita. Revistou a casa e, quando não se encontrou nada nem ninguém suspeito, Hans Hubermann foi um dos afortunados.

Permitiram-lhe que ficasse.

Provavelmente, o que o salvou foi que as pessoas sabiam que, pelo menos, ele estava à espera da aprovação de seu pedido. Por isso foi tolerado, embora não endossado como o pintor competente que era.

Depois, havia seu outro salvador.

Foi o acordeão, muito provavelmente, que o salvou do ostracismo total. Pintores havia, provenientes de todas as partes de Munique, mas, depois dos breves ensinamentos de Erik Vandenburg e de quase duas décadas de sua própria prática sistemática, não havia em Molching ninguém capaz de tocar exatamente como Hans. Não era um estilo de perfeição, mas de calor humano. Até nos erros havia uma sensação agradável.

Ele dizia "heil Hitler" quando lhe pediam e tremulava a bandeira nos dias certos. Não havia nenhum problema visível.

Depois, no dia 16 de junho de 1939 (a data parecia cimento, àquela altura), decorridos pouco mais de seis meses desde a chegada de Liesel à Rua Himmel, houve um acontecimento que alterou irreversivelmente a vida de Hans Hubermann.

Foi num dia em que ele teve trabalho.

Saiu de casa às sete da manhã, em ponto.

Foi puxando sua carroça de tintas, sem se dar conta de estar sendo seguido.

Quando chegou ao local da obra, um jovem estranho aproximou-se. Era louro, alto e sério.

O par se entreolhou.

—        O senhor seria Hans Hubermann?

Hans deu-lhe um simples aceno de cabeça. Procurava uma broxa.

—        Sim, seria.

—        O senhor por acaso toca acordeão?

Dessa vez, Hans parou, deixando o pincel onde estava. Tornou a fazer um aceno. O estranho esfregou o queixo, olhou em volta e disse, com grande calma, porém com toda a clareza:

—        O senhor é um homem que goste de cumprir promessas?

Hans pegou duas latas de tinta e o convidou a sentar numa delas. Antes de aceitar o convite, o rapaz lhe estendeu a mão e se apresentou.

—        Meu nome é Kugler. Walter. Venho de Stuttgart.

Sentaram-se e passaram uns quinze minutos conversando baixinho, combinando um encontro para mais tarde, à noite.

 

UMA BOA MENINA

Em novembro de 1940, quando Max Vandenburg chegou à cozinha da Rua Himmel, número 33, tinha vinte e quatro anos. Sua roupa parecia vergá-lo com o peso e seu cansaço era tamanho, que uma coceira poderia parti-lo ao meio. Ele parou no vão da porta, trêmulo e abalado.

—        O senhor ainda toca acordeão?

É claro que a pergunta, na verdade, era: — O senhor ainda está disposto a me ajudar?

O pai de Liesel andou até a porta da frente e a abriu. Com cautela, olhou para fora, de um lado e do outro, e voltou. O veredicto foi "nada".

Max Vandenburg, o judeu, fechou os olhos e se curvou um pouco mais para a segurança. A própria idéia era ridícula, mas ele a aceitou assim mesmo.

Hans certificou-se de que as cortinas estavam bem fechadas. Não poderia aparecer nem uma fresta. Enquanto ele o fazia, Max não agüentou mais. Agachou-se e cruzou as mãos.

A escuridão o atingiu.

Seus dedos cheiravam a mala, metal, Mein Kampf e sobrevivência.

Só quando ergueu a cabeça foi que a luz tênue do corredor chegou a seus olhos. Notou a menina de pijama, parada ali, em plena vista.

—        Papai?

Max levantou-se, como um fósforo riscado. A escuridão inflou-se a seu redor.

—        Está tudo bem, Liesel — disse o pai. — Volte para a cama.

 Quando parou e furtou uma última olhadela para o estranho na cozinha, decifrou o contorno de um livro sobre a mesa.

— Não tenha medo — ouviu o pai cochichar. — Ela é uma boa menina.

Durante a hora seguinte, a boa menina ficou acordada na cama, escutando o gaguejar baixinho de frases na cozinha.

Ainda faltava jogar um curinga.

 

BREVE HISTÓRIA DO LUTADOR JUDEU

Max Vandenburg nasceu em 1916.

Cresceu em Stuttgart.

Quando era garoto, passou a gostar, mais do que tudo, de uma boa troca de socos.

Teve sua primeira briga quando era um menino de onze anos, e magro como um cabo de vassoura.

Wenzel Gruber.

Foi com esse que ele brigou.

Tinha a boca suja, o tal garoto Gruber, e o cabelo encaracolado feito arame. O parquinho local exigiu que eles brigassem, e nenhum dos dois estava disposto a discutir.

Lutaram feito campeões.

Por um minuto.

Justo quando ia ficando interessante, ambos foram afastados pelo colarinho. Um pai vigilante.

Um filete de sangue pingava da boca de Max.

Ele o provou, e o gosto era bom.

 

Não muita gente vinda do seu bairro era de briga e, quando era, não o fazia com os punhos. Naqueles tempos, diziam que os judeus preferiam simplesmente ficar parados e agüentar as coisas. Suportar calados as ofensas e, em seguida, trabalhar até voltar ao topo. Obviamente, nem todo judeu é igual.

Ele tinha quase dois anos quando seu pai morreu, despedaçado pelos tiros numa colina relvada.

Quando chegou aos nove, sua mãe estava completamente falida. Ela vendeu o estúdio musical que também lhes servia de apartamento, e os dois se mudaram para a casa do tio. Lá ele cresceu com seis primos, que o surravam, chateavam e amavam. As brigas com o mais velho, Isaac, foram o campo de treinamento para suas lutas de socos. Max levava uma esfrega quase todas as noites.

Aos treze anos, a tragédia voltou a se abater, com a morte de seu tio.

Como sugeririam as percentagens, o tio não era esquentado como Max. Era o tipo de pessoa que trabalhava em silêncio, por uma recompensa muito pequena. Vivia no seu canto e sacrificava tudo pela família — e morreu de uma coisa que lhe cresceu na barriga. Uma coisa parecida com uma bola de boliche envenenada.

Como muitas vezes acontece, a família postou-se ao redor da cama e assistiu à sua capitulação.

De alguma forma, entre a tristeza e o luto, Max Vandenburg, já então um adolescente de mãos duras, olhos escuros e dor de dente, também ficou meio decepcionado. Até desgostoso. Ao ver o tio afundar lentamente na cama, decidiu que nunca se permitiria morrer daquele jeito.

O rosto do homem era resignado demais.

Muito amarelo e tranqüilo, apesar da arquitetura violenta de seu crânio — do queixo interminável, que se estendia por milhas, das maçãs do rosto protuberantes e dos olhos encovados. Tão sereno, que deu no menino a vontade de perguntar uma coisa.

— Cadê a briga?, matutou.

— Cadê a vontade de persistir?

É claro que, aos treze anos, ele era meio exagerado em seu rigor. Não tinha ficado cara a cara com uma coisa como eu. Ainda não.

Junto com os outros, ficou em volta da cama e viu o homem morrer — uma fusão sem riscos entre a vida e a morte. A luz na janela era cinza e laranja, da cor da pele do verão, e seu tio pareceu aliviado quando sua respiração desapareceu por completo.

— Quando a morte me pegar — jurou o menino —, vai sentir meu punho na cara.

Pessoalmente, gosto disso. Desse heroísmo idiota.

É.

Gosto muito disso.

Daquele momento em diante, ele começou a lutar com mais regularidade. Um grupo de amigos e inimigos fanáticos juntava-se num terreninho baldio da Rua Steber e lutava ao cair da noite. Alemães arquetípicos, o judeu inusitado, os garotos da zona leste. Não tinha importância. Não havia nada como uma boa briga para soltar n energia adolescente. Até os inimigos ficavam a um centímetro da amizade.

Ele gostava dos círculos compactos e do desconhecido.

Da agridoçura da incerteza.

De ganhar ou perder.

Era uma sensação na barriga, que se agitava até ele achar que não podia mais tolerá-la. O único remédio era dar um passo à frente e soltar murros. Max não era o tipo de menino dado a morrer pensando no assunto.

 

Sua briga favorita, agora que pensava nisso, fora a Luta Número Cinco, contra um garoto alto, durão e esguio, chamado Walter Kugler. Os dois tinham quinze anos. Walter vencera todos os quatro embates anteriores, mas, dessa vez, Max sentia uma coisa diferente. Havia nele um sangue novo — o sangue da vitória — que tinha a capacidade de assustar e empolgar.

Como sempre, havia um círculo compacto ao redor deles. Havia o terreno sujo. Havia sorrisos, praticamente amarrados nos rostos dos espectadores. O dinheiro era segurado em dedos imundos, e os gritos e exclamações eram cheios de tamanha vitalidade, que não havia nada melhor do que aquilo.

Nossa, era tanta alegria e medo ali, tanta comoção brilhante!

Os dois contendores agarraram-se com a intensidade do momento, os rostos carregados de expressão, exagerada pela tensão da coisa. Aquela concentração de olhos arregalados.

Depois de mais ou menos um minuto testando um ao outro, começaram a se aproximar e a se arriscar mais. Afinal, era uma briga de rua, não uma luta de uma hora pelo título. Eles não tinham o dia inteiro.

— Anda, Max! — gritou um de seus amigos. Não houve respiração entre as palavras. — Anda, Máxi Táxi, agora você pegou ele, você pegou ele, judeuzinho, você pegou ele, pegou ele!

Miúdo, com mechas macias de cabelo, nariz quebrado e olhos alagadiços, Max era uma boa cabeça menor do que o adversário. Seu estilo de combate era sumamente desgracioso, todo recurvado, avançando aos bocadinhos, desferindo socos rápidos no rosto de Kugler. O outro menino, claramente mais forte e mais habilidoso, mantinha-se erecto, lançando jabes que desciam constantemente sobre as faces e o queixo de Max.

Max continuou a avançar.

Mesmo com a absorção pesada dos murros e do castigo, continuou a avançar. O sangue descoloria seus lábios. Não tardaria a secar em seus dentes.

Houve um grande rugido quando ele foi derrubado. O dinheiro quase trocou de mãos.

 Foi derrubado mais uma vez antes de mudar de tática, atraindo Walter Kugler para um pouco mais perto do que ele queria chegar. Quando Walter ficou nessa posição, Max pôde desferir um jabe curto e contundente em seu rosto. Pegou. Exatamente no nariz.

Subitamente cego, Kugler recuou e Max aproveitou a chance. Seguiu-o pela direita, deu-lhe outro jabe e abriu sua guarda com um soco que o atingiu nas costelas. A direita que acabou com ele aterrissou em seu queixo. Walter Kugler ficou no chão, com o cabelo louro salpicado de terra. As pernas afastaram-se num V. Lágrimas parecidas com cristal escorriam por sua pele, apesar de ele não estar chorando. As lágrimas tinham-lhe sido arrancadas a socos.

O círculo fez a contagem.

Sempre contava, pelo sim, pelo não. Vozes e números.

O costume, depois de uma luta, era o perdedor levantar a mão do vencedor. Quando Kugler finalmente se pôs de pé, dirigiu-se emburrado a Max Vandenburg e ergueu seu braço no ar.

—        Obrigado — disse Max. Kugler deu um aviso:

—        Da próxima vez, eu mato você.

Ao todo, nos anos seguintes, Max Vandenburg e Walter Kugler lutaram treze vezes. Walter estava sempre procurando vingar-se daquela primeira vitória que Max lhe arrancara, e Max procurava reproduzir seu momento de glória. No fim, o escore ficou em 10 X 3 para Walter.

Os dois se enfrentaram até 1933, quando chegaram aos dezessete anos. O respeito relutante transformou-se numa amizade sincera, e a ânsia de lutar os abandonou. Os dois se empregaram na Fábrica de Máquinas Jedermann até Max ser despedido, junto com o resto dos judeus, em 1935. Isso foi pouco depois de entrarem em vigor as Leis de Nuremberg, que proibiram os judeus de ter a cidadania alemã e proibiram o casamento entre alemães e judeus.

—        Nossa! — exclamou Walter, uma noite, quando os dois se encontraram no terreninho de esquina em que costumavam lutar. — Bons tempos aqueles, não é?

— Não havia nada disso — e deu um tapinha com o dorso da mão na estrela da manga de Max. — Nunca poderíamos lutar daquele jeito agora.

Max discordou:

—        Poderíamos, sim. Não se pode casar com um judeu, mas não há nenhuma lei contra lutar com um.

Walter sorriu.           

—        Provavelmente, há uma lei que recompensa isso... desde que você vença.

Nos anos seguintes, os dois se viram esporadicamente, se tanto. Max, com o resto dos judeus, foi sistematicamente rejeitado e repetidamente humilhado, enquanto Walter desapareceu em seu emprego. Uma gráfica.

Se você é do tipo que se interessa, sim, houve algumas garotas naqueles anos. Uma chamada Tânia, outra, Hildi. Nenhuma das duas durou. Não havia tempo, muito provavelmente por causa da insegurança e da pressão crescente. Max tinha que batalhar por trabalho. Que poderia oferecer àquelas moças? Em 1938, era difícil imaginar que a vida pudesse tornar-se mais difícil.

E então veio o dia 9 de novembro. Kristallnacht. A noite das vidraças quebradas.

Foi justamente esse incidente que destruiu inúmeros de seus conterrâneos judeus, mas se revelou o momento de fuga de Max Vandenburg. Ele tinha vinte e dois anos.

Muitos estabelecimentos judaicos estavam sendo cirurgicamente destroçados e saqueados, quando houve um bater de nós dos dedos na porta do apartamento. Com a tia, a mãe, os primos e os filhos destes, Max estava amontoado na sala de visitas.

—        Aufmachen!

A família se entreolhou. Houve uma grande tentação de se dispersarem pelos outros cômodos, mas a apreensão é o que existe de mais esquisito. Ninguém conseguiu se mexer.

De novo:

—        Abram!

Isaac levantou-se e foi até a porta. A madeira estava viva, ainda ressoando com as pancadas que acabara de receber. Ele se virou, olhou para os rostos carregados de medo, girou a chave e abriu a porta.

Como se esperava, era um nazista. De uniforme.

—        Nunca.

Foi a primeira resposta de Max.

Agarrou-se à mão da mãe e à de Sarah, a mais próxima das primas.

—        Não vou embora. Se não pudermos ir todos, também não irei.

Estava mentindo.

Ao ser empurrado pelo resto da família, o alívio debatia-se dentro dele como uma obscenidade. Era algo que ele não queria sentir, mas, ainda assim, sentia-o com tanta intensidade que tinha vontade de vomitar. Como poderia? Como poderia?

Mas pôde.

—        Não traga nada — disse-lhe Walter. — só a roupa do corpo. Eu lhe dou o resto.

—        Max — era a mãe chamando.

De uma gaveta, ela tirou um antigo pedaço de papel e o enfiou no bolso do paletó do filho.

—        Se um dia... — e o segurou pela última vez, pelos cotovelos. — Essa pode ser a sua última esperança.

Max olhou para o rosto envelhecido da mãe e a beijou, com muita força, nos lábios.

—        Vamos — puxou-o Walter, enquanto o resto da família se despedia e lhe dava dinheiro.

 Saíram sem olhar para trás. Aquilo o torturou.

Se ao menos tivesse olhado para trás, para ver sua família pela última vez, ao sair do apartamento. Talvez, então, a culpa não fosse tão pesada. Nem um último adeus. Nenhum reter final dos olhos. Nada senão a partida.

Nos dois anos seguintes, Max permaneceu escondido, num depósito vazio. Ficava num prédio em que Walter havia trabalhado em anos anteriores. A comida era pouquíssima. Havia muita desconfiança. Os judeus endinheirados que restavam no bairro estavam emigrando. Os judeus sem dinheiro também tentavam fazê-lo, mas sem grande sucesso. A família de Max incluía-se nesta última categoria. Walter ia vê-los ocasionalmente, da maneira mais inconspícua possível. Uma tarde, quando foi visitá-los, outra pessoa abriu a porta.

Quando Max ouviu a notícia, foi como se seu corpo se enroscasse numa bola, feito uma página cheia de erros. Feito lixo.

No entanto, dia após dia, ele conseguia se desamassar e se esticar, enojado e agradecido. Arrasado, mas, de algum modo, não desfeito em pedaços.

Em meados de 1939, pouco mais de seis meses depois de iniciado seu período de escondimento, os dois resolveram que era preciso adotar outro curso de ação. Examinaram o pedaço de papel que Max havia recebido ao desertar. Isso mesmo

—        Desertar, não apenas fugir. Era assim que ele via a coisa, em meio ao caráter grotesco de seu alívio. Já sabemos o que estava escrito no pedaço de papel:

UM NOME, UM ENDEREÇO

Hans Hubermann Rua Himmel 33, Molching

—        A coisa está piorando — disse Walter a Max. — Agora, eles podem nos descobrir a qualquer momento — completou. Havia muitos gestos encurvados na escuridão.

—        Não sabemos o que pode acontecer. Posso ser apanhado. Talvez você precise encontrar aquele lugar... Tenho medo demais para pedir ajuda a alguém daqui. Pode ser que me prendam — fez Walter. Só havia uma solução. — Vou até lá procurar esse homem. Se ele tiver virado nazista, o que é muito provável, dou meia-volta e pronto. Pelo menos ficaremos sabendo, richtig?

Max deu-lhe até seu último fênigue para a viagem e, dias depois, quando Walter regressou, os dois se abraçaram e ele prendeu o fôlego:

—        E então?

 —       O cara é bom. Ainda toca aquele acordeão de que a sua mãe lhe falou, o do seu pai. Não é filiado ao partido. Ele me deu dinheiro.

Nessa etapa, Hans Hubermann era apenas um registro.

—        Ele é bem pobre, é casado, e há uma criança. Isso despertou ainda mais a atenção de Max.

—        De quantos anos?

—        Dez. Não se pode ter tudo.

—        Sim. As crianças são boquirrotas.

—        Já temos sorte do jeito que está.

Sentaram-se em silêncio por um tempo. Foi Max quem o quebrou.

—        Ele já deve me odiar, hein?

—        Acho que não. Ele me deu o dinheiro, não foi? Disse que promessa é dívida. Uma semana depois, chegou uma carta. Hans informou a Walter Kugler que tentaria mandar coisas para ajudar, sempre que possível. Havia um mapa composto de uma página, mostrando Molching e a Grande Munique, além de uma rota direta de Pasing (a estação de trem mais confiável) até sua porta. Na carta, suas últimas palavras foram óbvias. Tome cuidado.

Em meados de maio de 1940, chegou Mein Kampf, com uma chave presa com fita adesiva à parte interna da capa.

O homem é um gênio, decidiu Max, mas ainda houve um calafrio quando pensou na viagem para Munique. Claramente, junto com as outras partes implicadas, desejava que ela não tivesse que ser feita.

Nem sempre se consegue o que se deseja.

Especialmente na Alemanha nazista.

De novo, o tempo passou.

A guerra expandiu-se.

Max continuou escondido do mundo, em mais um cômodo vazio.

Até o inevitável. Walter foi informado de que seria enviado à Polônia, para dar continuidade à afirmação da autoridade nazista, tanto sobre os poloneses quanto sobre os judeus. Um não era muito melhor do que outro. Era chegado o momento.

Max seguiu para Munique e Molching, e agora estava sentado na cozinha de um estranho, pedindo a ajuda por que ansiava e sofrendo a condenação que sentia merecer.

Hans Hubermann apertou-lhe a mão e se apresentou.

Fez café para ele no escuro.

Fazia algum tempo que a menina se fora, mas outros passos aproximaram-se da chegada. O curinga.

Na escuridão, os três estavam completamente isolados. Todos olhavam fixo. Só.

 

A IRA DE ROSA

Liesel tornara a mergulhar no sono quando a voz inconfundível de Rosa Hubermann entrou na cozinha. Acordou-a num susto.

—        Was ist los?

Nessa hora, ela foi vencida pela curiosidade, ao imaginar uma descompostura proferida pela ira de Rosa. Houve um movimento claro e um arrastar de cadeiras.

Após dez minutos de excruciante disciplina, Liesel esgueirou-se até o corredor, e o que viu deixou-a francamente admirada, porque Rosa Hubermann estava junto ao ombro de Max Vandenburg, vendo-o engolir sua famigerada sopa de ervilha.

Mamãe tinha um ar grave.

Seu corpo gorducho luzia de preocupação.

Mas, de algum modo, havia também um ar de triunfo em seu rosto, e não era o triunfo por ter salvo outro ser humano da perseguição, Era algo mais nos moldes de "Viu só? Pelo menos, ele não está reclamando". Ela olhava da sopa para o judeu para a sopa.

Quando tornou a falar, perguntou apenas se ele queria mais.

Max declinou, preferindo, em vez disso, correr para a pia e vomitar. Com as costas convulsas e os braços bem afastados. Seus dedos agarravam o metal.

—        Jesus, Maria, José — resmungou Rosa. — Mais um.

Virando-se para ela, Max pediu desculpas. Suas palavras eram escorregadias e miúdas, subjugadas pela acidez.

—        Sinto muito. Acho que comi demais. Meu estômago, sabe, faz tanto tempo que... Acho que não consigo segurar tanta...

—        Saia — ordenou-lhe Rosa. E começou a limpar.

 Quando terminou, ela deparou com o rapaz à mesa da cozinha, profundamente taciturno. Hans sentava-se em frente a ele, com as mãos recurvadas sobre a lâmina de madeira.

Do corredor, Liesel viu o rosto contraído do estranho e, atrás dele, a expressão inquieta que se rabiscava confusamente na mãe.

Olhou para seus pais de criação.

Quem era aquela gente?

 

UMA PRELEÇÃO PARA LIESEL

Exatamente que tipo de gente eram Hans e Rosa Hubermann não era o problema mais simples de resolver. Gente boa? Gente ridiculamente ignorante? Gente de sanidade questionável?

O mais fácil de definir era o apuro em que estavam.

 

• A SITUAÇÃO DE HANS E •

ROSA HUBERMANN

Aflitiva como o quê. Na verdade, assustadoramente aflitiva.

Quando um judeu aparece no seu local de residência nas primeiras horas da madrugada, bem na pátria do nazismo, é provável que você experimente níveis extremos de incômodo. Angústia, incredulidade, paranóia. Cada uma desempenha seu papel, e cada uma leva a suspeita furtiva de que uma conseqüência não propriamente paradisíaca lhe está reservada no futuro. O medo reluz. Implacável, nos olhos.

O surpreendente a assinalar é que, apesar desse medo iridescente, brilhando como brilhava na escuridão, de algum modo eles resistiram à ânsia da histeria.

A mãe mandou Liesel embora.

—        Bett, Saumensch.

A voz foi calma, porém firme. Sumamente incomum.

O pai entrou, minutos depois, e tirou as cobertas da cama vazia.

—        Alles gut, Liesel? Tudo bem?

—        Sim, papai,

—        Como você pode ver, temos visita.

Ela mal conseguia discernir a silhueta de Hans Hubermann no escuro.

—        Ele dormirá aqui esta noite.

— Sim, papai.

Minutos depois, Max Vandenburg estava no quarto, silencioso e opaco. O homem não respirava. Não se mexia. Mas, de algum modo, deslocou-se da porta para a cama e ficou embaixo das cobertas.

—        Tudo bem?

Era o pai outra vez, agora falando com Max.

A resposta saiu flutuando de sua boca e se moldou no teto feito mancha, tamanha era sua sensação de vergonha.

—        Sim. Obrigado.

Disse-o de novo, quando papai assumiu sua posição costumeira na poltrona ao lado da cama de Liesel: — Obrigado.

Passou-se mais uma hora antes de Liesel adormecer. Dormiu pesado, por muito tempo.

A mão a despertou pouco depois das oito e meia da manhã seguinte.

A voz na ponta da mão informou-lhe que ela não iria à escola nesse dia. Ao que parece, estava doente.

Quando despertou por completo, a menina observou o estranho na cama em frente. O cobertor mostrava só um ninho de cabelo meio inclinado no alto, e não havia nenhum som, como se ele se houvesse treinado até mesmo a dormir mais silenciosamente. Com enorme cuidado, Liesel passou ao longo do corpo do homem, acompanhando o pai em direção ao corredor.

Pela primeira vez na vida, a cozinha e a mãe dormiam. Era uma espécie de silêncio inaugural perplexo. Para alívio de Liesel, só durou alguns minutos.

Vieram a comida e o som da mastigação.

A mãe anunciou a prioridade do dia. Sentou-se à mesa e disse:

—        Agora escute, Liesel. Hoje o papai vai lhe dizer uma coisa.

Aquilo era sério — ela nem sequer dissera Saumensch. Era uma façanha pessoal de abstinência.

—        Ele vai falar com você e você tem que ouvir. Está claro? A menina continuava a engolir em seco.

—        Está claro, Saumensch?

Desse jeito era melhor.

Liesel fez que sim com a cabeça.

Quando entrou novamente no quarto para buscar a roupa, o corpo na cama em frente tinha-se virado e enroscado. Já não era uma tora comprida, mas uma espécie de Z, que se estendia em diagonal de um canto ao outro. Zigue-zagueando a cama.

Nessa hora ela pôde ver-lhe o rosto, sob a luz cansada. A boca estava aberta e a pele era cor de casca de ovo. Havia pêlos cobrindo os maxilares e o queixo, e as orelhas eram duras e achatadas. Ele tinha o nariz pequeno, mas meio torto.

—        Liesel!

Ela se virou.

—        Ande logo!

Andou, em direção ao banheiro.

Depois de trocar a roupa e chegar ao corredor, ela percebeu que não iria longe. O pai estava parado em frente à porta do porão. Deu um sorriso muito leve, acendeu a lâmpada e a conduziu para baixo.

Em meio às pilhas de mantas para proteger dos respingos e ao cheiro de tinta, o pai lhe disse que se pusesse à vontade. Acenderam-se nas paredes as palavras pintadas, aprendidas no passado.

—        Preciso lhe dizer umas coisas.

Liesel sentou-se no topo de uma pilha de mantas de um metro de altura, e o pai, muna lata de tinta de quinze litros. Por alguns minutos, ele procurou as palavras. Quando as encontrou, levantou-se para entregá-las. Esfregou os olhos.

—        Liesel — disse, baixinho — nunca tive muita certeza de que isso viesse a acontecer, de modo que nunca lhe contei. Sobre mim. Sobre o homem que está lá em cima.

Andou de uma ponta à outra do porão, com a luz da lâmpada ampliando sua sombra. Ela o transformava num gigante na parede, andando para lá e para cá.

Quando Hans parou de andar, a sombra ficou pairando às suas costas, observando. Havia sempre alguém observando.

—        Sabe o meu acordeão? — perguntou o pai, e ali começou a história.

Hans explicou a Primeira Guerra Mundial e Erik Vandenburg, e depois a visita à viúva do soldado caído.

 — O menino que entrou na sala naquele dia é o homem que está lá em cima. Verstehst? Entendeu?

A roubadora de livros ficou sentada, ouvindo a história de Hans Hubermann. Durou uma boa hora, até o momento da verdade, que implicou uma preleção muito óbvia e necessária.

—        Liesel, você precisa escutar.

O pai a fez ficar de pé e lhe segurou a mão.

Estavam de frente para a parede. Sombras escuras e o exercício das palavras.

—        Lembra-se do aniversário do Führer, quando voltamos para casa naquela noite, depois da fogueira? Lembra-se do que você me prometeu?

A menina fez que sim. Fitando a parede, disse:

—        Que eu guardaria um segredo.

—        Isso mesmo.

Entre as sombras de mãos dadas, as palavras pintadas se espalhavam, empoleiradas em seus ombros, apoiadas em suas cabeças e penduradas em seus braços.

—        Liesel, se você falar com alguém sobre o homem que está lá em cima, estaremos todos muito encrencados.

Hans percorreu a linha delicada entre apavorá-la a ponto de deixá-la insensível e relaxá-la o bastante para deixá-la calma. Servia-lhe as frases e observava, com seus olhos metálicos. Desespero e placidez.

—        No mínimo, mamãe e eu seremos levados embora.

Ele tinha a clara preocupação de estar prestes a assustá-la em demasia, mas calculou o risco, preferindo errar pelo excesso de medo que pelo medo insuficiente. A obediência da menina tinha que ser uma realidade absoluta, imutável.

Já no final, Hans Hubermann olhou para Liesel Meminger e se certificou de que ela estava concentrada.

Deu-lhe uma lista de conseqüências.

—        Se você falar com alguém sobre esse homem...

Com a professora.

Com Rudy.

Não importava com quem.

O importante era que todos seriam passíveis de castigo.

—        Para começar, pegarei cada um dos seus livros, todos eles, e porei fogo — disse o pai. Impassível. — Vou jogá-los no fogão ou na lareira — continuou. Certamente agia como um tirano, mas era necessário. — Entendeu?

O susto cavou um buraco em Liesel, muito nítido, muito preciso. Os olhos encheram-se de lágrimas.

—        Sim, papai.

—        Próxima: — ele tinha que se manter duro, e precisou se esforçar para isso — Tirarão você de mim. Você quer isso?

Agora Liesel chorava, aflita.

—        Nein.

—        Ótimo — e aumentou o aperto nas mãos da menina. — Eles levarão aquele homem para longe daqui, e talvez mamãe e eu também, e nunca mais, nunca mais voltaremos.

E foi o quanto bastou.

A menina começou a soluçar de um modo tão incontrolável, que o pai morreu de vontade de puxá-la para si e abraçá-la apertado. Não o fez. Em vez disso, agachou-se e a fitou diretamente nos olhos. Soltou suas palavras mais mansas até então:

—        Verstehst du mich? Está me entendendo?

A menina fez que sim. Chorou e, nessa hora, derrotado, abatido, o pai a abraçou em meio ao ar de tinta e à luz de querosene.

—        Eu entendo, papai, entendo.

Sua voz foi abafada contra o corpo do pai, e os dois ficaram assim por alguns minutos, Liesel com a respiração achatada e o pai a lhe afagar as costas.

Lá em cima, ao voltarem, encontraram a mãe sentada na cozinha, só e pensativa. Ao vê-los, ela se levantou e fez sinal para que Liesel se aproximasse, notando as lágrimas secas que lhe riscavam o rosto. Puxou a menina para si e lhe plantou um abraço tipicamente rude em torno do corpo.

—        Alies gut, Saumensch?

Não precisou de resposta.

Estava tudo bem.

Mas também era terrível.

 

O DORMINHOCO

Max Vandenburg dormiu três dias.

Em alguns trechos desse sono, Liesel o observou. Pode-se dizer que, no terceiro dia, tornou-se uma obsessão examiná-lo, ver se ele ainda respirava. Agora a menina já sabia interpretar seus sinais de vida, desde o movimento dos lábios até a barba crescida e os tufos de cabelo que se mexiam muito de leve, quando a cabeça estremecia no estado onírico.

Muitas vezes, quando o velava, vinha-lhe a idéia mortificante de que ele teria acabado de acordar e abriria os olhos para ela — e então a espiaria espiando. A idéia de ser flagrada a atormentava e entusiasmava ao mesmo tempo. Liesel a temia. E a convidava. Só quando a mãe a chamava é que conseguia arrastar-se dali, simultaneamente calma e decepcionada, por talvez não estar presente quando ele acordasse.

Em alguns momentos, quase no fim da maratona de sono, ele falou.

Foi um recital de nomes murmurados. Uma lista de verificação.

Isaac. Tia Ruth. Sarah. Mamãe. Walter. Hitler.

Família, amigo, inimigo.

Estavam todos embaixo das cobertas com ele e, a certa altura, Max pareceu lutar consigo mesmo. "Nein", murmurou. Aquilo foi repetido sete vezes. "Não."

Liesel, no ato de observar, já notava as semelhanças entre esse estranho e ela. Ambos haviam chegado em estado de agitação à Rua Himmel. Ambos tinham pesadelos.

Quando chegou a hora, ele acordou com o alvoroço incômodo da desorientação, Sua boca abriu-se, um instante depois dos olhos, e ele se sentou, em angulo reto.

— Ai!

Um fio de voz escapou-lhe da boca.

Ao ver o rosto invertido de uma menina acima dele, vieram o momento inquieto da falta de familiaridade e o esforço de recordar — de decodificar exatamente onde e quando ele estava sentado. Após alguns segundos, Max conseguiu coçar a cabeça (um farfalhar de gravetos) e olhou para Liesel. Seus gestos eram fragmentados e, agora que estavam abertos, os olhos eram úmidos e castanhos. Densos e pesados.

Num ato reflexo, Liesel recuou.

Foi lenta demais.

O estranho estendeu a mão quente da cama e a segurou pelo braço.

—        Por favor.

A voz também a segurou, como se tivesse unhas. Ele a enfiou em sua carne.

—        Papai! — alto.

— Por favor! — baixinho.

Era um fim de tarde cinzento e reluzente, mas só uma luz de cor suja tinha permissão de entrar no quarto. Era tudo que o tecido das cortinas permitia. Se você for otimista, pense nela como bronze.

Quando o pai entrou, parou primeiro no vão da porta e notou os dedos apertados de Max Vandenburg e seu rosto desesperado. Os dois se agarravam ao braço de Liesel.

—        Vejo que vocês já se conheceram — disse.

Os dedos de Max começaram a esfriar.

 

A TROCA DE PESADELOS

Max Vandenburg prometeu que nunca mais dormiria no quarto de Liesel. Que é que estava pensando naquela primeira noite? A simples idéia o mortificou.

Racionalizou que, na chegada, sua perplexidade fora tanta que ele havia permitido uma coisa dessas. O porão era o único lugar apropriado para ele, no que lhe dizia respeito. Nem pensar em frio e solidão. Ele era judeu e, se havia um lugar em que estava destinado a existir, tratava-se de um porão, ou qualquer outro desses lugares ocultos de sobrevivência.

—        Sinto muito — confessou a Hans e Rosa na escada do porão.

— De agora em diante, ficarei aqui embaixo. Vocês não me escutarão. Não farei o menor som.

Hans e Rosa, imbuídos do desespero da situação, não argumentaram, nem mesmo em relação ao frio. Carregaram cobertores para baixo e encheram a lamparina de querosene. Rosa admitiu que não poderia haver muita comida, ao que Max lhe pediu fervorosamente que só lhe levasse sobras, mesmo assim só quando ninguém mais as quisesse.

—        Na, na — assegurou-lhe Rosa. — Você será alimentado, da melhor maneira que eu puder.

Também levaram para baixo o colchão da cama sobressalente do quarto de Liesel, substituindo-o por mantas de proteção contra respingos de tinta — uma excelente troca.

 

No porão, Hans e Max puseram o colchão embaixo da escada e construíram do lado uma parede de mantas de proteção. As mantas eram tão altas que cobriam toda a entrada triangular e, que mais não fosse, eram fáceis de mover, se Max tivesse uma necessidade aflitiva de mais ar. O pai se desculpou:

—        É mesmo lamentável, eu reconheço.

—        É melhor do que nada — assegurou-lhe Max. — Melhor do que eu mereço, obrigado.

Com algumas latas de tinta bem posicionadas, Hans teve de admitir que aquilo parecia simplesmente uma coleção de tralhas reunidas num canto, de qualquer jeito, para ficar fora do caminho. O único problema era que bastaria uma pessoa afastar algumas latas e tirar uma ou duas mantas para farejar o judeu.

—        Esperemos que seja suficiente — disse Hans.

—        Tem que ser — respondeu Max, rastejando para dentro. E, mais uma vez, repetiu: — Obrigado.

Obrigado.

Para Max Vandenburg, essa era a palavra mais lastimável que ele podia dizer, só encontrando rival em Desculpe. Havia uma ânsia constante de proferir as duas, instigada pela aflição da culpa.

Quantas vezes, nessas primeiras horas desperto, ele sentiu vontade de sair do porão e se retirar completamente da casa? Devem ter sido centenas.

A cada vez, porém, era só uma ferroada.

O que tornava a coisa ainda pior.

Ele queria sair — santo Deus, como queria (ou, pelo menos, queria querer)! —, mas sabia que não o faria. Era exatamente como no dia em que deixara a família em Stuttgart, sob um véu de falsa lealdade.

Viver.

Viver era ficar vivo.

O preço era a culpa, aliada à vergonha.

 

Nos primeiros dias no porão, Liesel não quis nada com ele. Negou sua existência. Seu cabelo farfalhante, seus dedos frios e escorregadios. Sua presença torturada.

Mamãe e papai.

Havia um enorme peso entre os dois, e uma porção de decisões fracassadas.

Eles consideraram se poderiam mudá-lo de lugar.

—        Mas para onde?

Sem resposta.

Nessa situação, estavam sem amigos e paralisados. Não havia outro lugar para onde Max Vandenburg pudesse ir. Eram eles. Hans e Rosa Hubermann. Liesel nunca os vira olharem tanto um para o outro, nem com tanta solenidade.

 Eram eles que levavam a comida lá embaixo, e separaram uma lata vazia de tinta para os excrementos de Max. O conteúdo seria despejado por Hans, com toda a prudência possível. Rosa também lhe levou uns baldes de água quente para se lavar. O judeu estava imundo.

Do lado de fora, uma montanha do frio ar de novembro esperava à porta de entrada, toda vez que Liesel saía de casa. A chuva fina caía às bateladas. Havia folhas mortas derrubadas na rua.

Em pouco tempo, chegou a vez de a roubadora de livros visitar o porão. Eles a obrigaram.

A menina desceu hesitantemente a escada, sabendo que não havia necessidade de palavras. O arrastar de seus pés era o bastante para despertá-lo.

No meio do porão, ela parou e esperou, sentindo-se mais como se estivesse no centro de um grande campo ensombrecido. O sol se punha atrás de uma safra de mantas de proteção colhidas.

Quando Max saiu, segurava o Mein Kampf. Na chegada, oferecera-o de volta a Hans Hubermann, mas ouvira que podia ficar com ele.

Naturalmente, enquanto segurava o jantar, Liesel não conseguia tirar os olhos do livro. Já o vira algumas vezes na BDM, mas ele não fora lido nem diretamente usado nas atividades das meninas. Houvera referências ocasionais a sua grandeza, além de promessas de que haveria uma oportunidade de estudá-lo em anos vindouros, à medida que elas avançassem para uma divisão mais velha da Juventude Hitlerista.

Max, seguindo a atenção de Liesel, também examinou o livro.

—        É? — sussurrou a menina.

Havia um filamento curioso em sua voz, aplainado e enroscado em sua boca. O judeu apenas aproximou um pouco mais a cabeça.

—        Bitte? Como?

Liesel entregou-lhe a sopa de ervilha e voltou para cima, vermelha, apressada e boba.

—        É bom esse livro?

Ficou praticando no banheiro o que queria dizer, diante do espelhinho. O cheiro de urina ainda a envolvia, visto que Max tinha acabado de usar a lata de tinta antes de ela descer. Só ein G'schtank, pensara Liesel. Que fedor.

Nenhuma urina tem um cheiro tão bom quanto a nossa.

Os dias foram manquejando.

Toda noite, antes de cair no sono, Liesel ouvia a mãe e o pai na cozinha, discutindo o que fora feito, o que eles estavam criavam fazendo e o que precisava acontecer a seguir.

O tempo todo, uma imagem de Max pairava junto dela. Eram sempre a expressão ferida e grata de seu rosto e os olhos alagadiços.

Só uma vez houve uma explosão na cozinha.

Papai.

—        Eu sei!

Sua voz era abrasiva, mas ele a reconduziu às pressas a um sussurro abafado.

—        Mas tenho que continuar a ir, pelo menos algumas vezes por semana. Não posso ficar aqui o tempo todo. Precisamos do dinheiro e, se eu parar de tocar lá, vão ficar desconfiados. Talvez se perguntem por que parei. Eu disse a eles que você estava doente, na semana passada, mas agora temos que fazer tudo como sempre fizemos.

Era aí que residia o problema.

A vida se alterara da maneira mais louca possível, porém era imperativo que eles agissem como se não tivesse acontecido absolutamente nada.

Imagine sorrir depois de levar um tapa na cara. Agora, imagine fazê-lo vinte e quatro horas por dia.

Era essa a tarefa de esconder um judeu.

À medida que os dias se transformaram em semanas, passou a haver, que mais não fosse, uma aceitação sitiada do ocorrido — tudo resultante da guerra, de um cumpridor de promessas e de um acordeão. Além disso, no espaço de pouco mais de um semestre, os Hubermann tinham perdido um filho e ganhado um substituto de proporções epicamente perigosas.

O que mais chocava Liesel era a mudança em sua mamãe. Fosse na maneira calculada pela qual ela dividia a comida, fosse no considerável amordaçamento de sua boca famigerada, ou até na expressão mais delicada de seu rosto de papelão, uma coisa ia ficando clara.

• UM ATRIBUTO DE ROSA HUBERMANN •

Ela era uma boa mulher nas horas de crise.

Mesmo quando a artrítica Helena Schmidt cancelou o serviço de lavagem e passagem de roupa, um mês depois de Max debutar na Rua Himmel, ela simplesmente sentou-se à mesa e aproximou de si a tigela.

—        Hoje a sopa está boa.

A sopa estava terrível.

Toda manhã, quando Liesel saía para a escola, ou nos dias em que se aventurava a jogar futebol, ou a completar o que restava da ronda da roupa lavada, Rosa lhe falava baixinho.

—        E lembre-se, Liesel... — apontando para a boca, mais nada. Quando a menina acenava que sim, Rosa dizia: — Você é uma boa menina, Saumensch. Agora, vá andando.

 

Fiel às palavras do pai, e até às da mãe, nesse momento, ela era uma boa menina. Ficava de boca fechada em todos os lugares aonde ia. O segredo estava profundamente enterrado.

Liesel andava pela cidade com Rudy, como sempre fizera, e ouvia sua tagarelice. Vez por outra, eles comparavam observações sobre suas respectivas divisões da Juventude Hitlerista, e Rudy mencionou pela primeira vez um jovem líder sádico, chamado Franz Deutscher. Quando não falava do jeito entusiástico de Deutscher, Rudy tocava seu disco quebrado de praxe, oferecendo traduções e recriações do último gol que havia marcado no estádio de futebol da Rua Himmel.

—        Eu sei — assegurava Liesel. — Eu estava lá.

— E daí?

— Daí que eu vi, Saukerl.

—        Como é que eu vou saber? Ao que eu saiba, provavelmente você estava em algum lugar do chão, lambendo a lama que deixei pra trás quando fiz o gol.

Talvez fosse Rudy quem a mantinha sã, com a idiotice de sua falação, seu cabelo encharcado no limão e sua presunção insolente.

Ele parecia reverberar uma espécie de confiança em que a vida continuava a não passar de uma piada — uma sucessão interminável de gols e trapaças, e um repertório constante de tagarelice sem sentido.

E havia também a mulher do prefeito, e a leitura na biblioteca de seu marido. Agora fazia frio lá, mais frio a cada visita, mas Liesel continuava incapaz de se afastar. Escolhia um punhado de livros e lia pequenos segmentos de cada um, até que, uma tarde, encontrou um que não conseguiu pôr de lado. Chamava-se O Assobiador. Originalmente, sentira-se atraída por ele por ver esporadicamente o assobiador da Rua Himmel — Pfiffikus. Havia a lembrança dele, recurvado com seu casacão, e seu aparecimento na fogueira no aniversário de Hitler.

O primeiro acontecimento do livro era um assassinato. Um esfaqueamento. Uma rua de Viena. Não muito longe do Stephansdom — a catedral da praça principal.

 

• UM PEQUENO EXCERTO DE •

 O ASSOBIADOR

Ela ficou lá, assustada, numa poça de sangue,

com uma estranha melodia a lhe soar no ouvido.

Relembrou a faca, entrando e saindo, e um sorriso.

Como sempre, o assobiador sorrira,

ao fugir para a noite escura e homicida...

Liesel não soube ao certo se tinham sido as palavras ou a janela aberta que a fizeram tremer. Toda vez que buscava ou entregava roupa na casa do prefeito, ela lia três páginas e estremecia, mas não podia ficar lá para sempre.

Similarmente, Max Vandenburg não poderia suportar muito mais o porão. Não se queixava — não tinha esse direito —, mas, aos poucos, sentiu que deteriorava no frio. Como se veio a constatar, sua salvação deveu-se a um pouco de leitura e redação, e a um livro chamado O Dar de Ombros.

—        Liesel — disse Hans, uma noite. — Venha.

Desde a chegada de Max, tinha havido um hiato considerável nos exercícios de leitura de Liesel e seu papai. Claramente, ele achou que esse era um bom momento para recomeçar.

—        Na, komm — disse-lhe. — Não quero que você relaxe. Vá buscar um de seus livros. Que tal O Dar de Ombros?

O fator inquietante nisso tudo foi que, quando ela voltou, com o livro na mão, o pai fez sinal para que o acompanhasse à antiga sala de exercícios dos dois. O porão.

—        Mas, papai — tentou dizer Liesel. — A gente não pode...

—        O que é? Há algum monstro lá embaixo?

Era começo de dezembro e o dia tinha sido gelado. O porão tornava-se mais inóspito a cada degrau de concreto.

—        Está muito frio, papai.

—        Isso nunca a incomodou antes.

—        É, mas nunca ficou frio assim...

Quando os dois chegaram lá embaixo, o pai sussurrou para Max:

—        Podemos pegar emprestada a lamparina, por favor?

Com apreensão, as mantas e latas foram afastadas e a luz foi entregue, trocando de mãos. Olhando para a chama, Hans balançou a cabeça e acompanhou o gesto com algumas palavras.

—        Es ist já Wahnsinn, net? Isto é maluquice, não?

Antes que a mão do lado de dentro reposicionasse as mantas, Hans a pegou.

—        Venha você também. Por favor, Max.

Aos poucos, as mantas foram arrastadas para um lado e o corpo e o rosto emaciados de Max Vandenburg apareceram. A luz úmida, ele ficou imóvel, com um incômodo mágico. Estremeceu.

Hans tocou-lhe o braço, para fazê-lo aproximar-se mais.

—        Jesus, Maria e José! Você não pode ficar aqui embaixo. Vai morrer congelado.

Voltou-se para a menina:

—        Liesel, encha a banheira. Não muito quente. Deixe assim como quando a água começa a esfriar.

Liesel subiu correndo.

—        Jesus, Maria e José.

Foi o que ela tornou a ouvir, ao chegar ao corredor.

Enquanto Max estava na banheira mínima, Liesel ficou escutando à porta do banheiro, imaginando a água morna a se transformar em vapor, ao aquecer o corpo de iceberg do rapaz. Mamãe e papai estavam no auge do debate no cômodo que combinava o quarto e a sala, com suas vozes baixas aprisionadas entre as paredes do corredor.

—        Ele vai morrer lá embaixo, eu juro.

—        Mas, e se alguém olhar cá para dentro?

—        Não, não, ele sobe só à noite. De dia, deixamos tudo aberto. Nada a esconder. E usamos este cômodo, em vez da cozinha. É melhor ficar longe da porta de entrada.

Silêncio. Depois, a mãe:

—        Está bem... É, você tem razão.

—        Se vamos apostar num judeu — disse o pai, logo depois —, prefiro apostar num judeu vivo.

E, desse momento em diante, nasceu uma nova rotina.

Toda noite, acendia-se a lareira no quarto de mamãe e papai, e Max aparecia silenciosamente. Sentava-se num canto, encolhido e perplexo, muito provavelmente com a bondade daquelas pessoas, a tortura da sobrevivência e, superando aquilo tudo, o brilho do calor.

Com as cortinas bem cerradas, ele dormia no chão, com uma almofada sob a cabeça, enquanto o fogo ia apagando e se transformava em cinzas.

De manhã, voltava para o porão.

Um ser humano sem voz.

O rato judeu, de volta a sua toca.

O Natal veio e se foi, com o cheiro de um perigo a mais. Como se esperava, Hans Júnior não apareceu em casa (uma bênção e uma ominosa decepção), mas Trudy chegou como de hábito e, felizmente, as coisas correram com serenidade.

 

• AS QUALIDADES DA SERENIDADE •

Max ficou no porão. Trudy veio e se foi sem nenhuma suspeita.

Resolveu-se que, apesar de sua índole gentil, não se podia confiar em Trudy.

—        Só confiamos nas pessoas em quem temos de confiar — afirmou o pai — e isso somos nós três.

Houve comida extra e um pedido de desculpas a Max por essa não ser a sua religião, mas era um ritual, de qualquer modo. Ele não se queixou, Que base tinha para reclamar?

 Explicou que era judeu por criação e pelo sangue, mas também que o judaísmo, agora, era mais do que nunca um rótulo — um exemplo desastroso do azar mais idiota que havia.

Foi nesse momento que também aproveitou o ensejo para dizer que lamentava que o filho dos Hubermann não tivessem ido para casa. Em resposta, Hans lhe disse que essas coisas fugiam ao controle deles.

—        Afinal — comentou — você mesmo deve saber: um rapaz ainda é um menino, e os meninos às vezes têm o direito de ser teimosos.

Deixaram o assunto nesse pé.

Nas primeiras semanas em frente à lareira, Max ficou mudo. Agora que vinha tomando um banho adequado uma vez por semana, Liesel notou que seu cabelo já não era um ninho de gravetos, mas uma coletânea de plumas que se agitavam em volta de sua cabeça. Ainda tímida diante do estranho, ela cochichou com o pai:

—        O cabelo dele parece de penas.

—        Como? — fez o pai. A lareira havia distorcido as palavras.

—        Eu disse — voltou ela a cochichar, chegando mais perto — que o cabelo dele parece ser de penas...

Hans Hubermann olhou e fez um aceno de cabeça, concordando. Tenho certeza de que gostaria de ter os olhos da menina. Eles não perceberam que Max tinha ouvido tudo.

Ocasionalmente, o rapaz levava o exemplar de Mein Kampf e o lia junto às chamas, enfurecido com o conteúdo. Na terceira vez que o levou, Liesel enfim tomou coragem para fazer sua pergunta.

—        Ele é... bom?

Max ergueu os olhos das páginas, fechou os punhos e tornou a abrir os dedos. Afastando a raiva, sorriu para a menina. Levantou a franja emplumada e deixou-a cair nos olhos.

—        É o melhor livro que existe — disse. Olhou para Hans, depois novamente para Liesel. —Salvou minha vida.

A menina remexeu-se um pouco e cruzou as pernas. Baixinho, perguntou.

—        Como?

Assim começou uma espécie de fase de contar histórias na sala, todas as noites. Eram narradas num tom que mal se fazia ouvir. Os pedaços de um quebra-cabeça judaico de lutas foram-se montando diante de todos.

Vez por outra, havia humor na voz de Max Vandenburg, embora sua qualidade física lembrasse o atrito — como uma pedra delicadamente esfregada numa rocha grande. Era profunda em alguns pontos e arranhada em outros, às vezes se interrompendo por completo. Atingia sua gravidade máxima no arrependimento e se interrompia ao final de uma pilhéria ou de uma afirmação autodepreciativa.

 "Cristo crucificado!", era essa a reação mais comum às histórias de Max Vandenburg, em geral seguida por uma pergunta.

 

• PERGUNTAS DO TIPO •

Quanto tempo você ficou naquele quarto?

Onde está Walter Kugler agora?

Você sabe o que aconteceu com a sua família?

Para onde estava viajando a roncadora?

Um escore de derrotas de 10X3!

Por que você quis continuar lutando com ele?

Quando Liesel rememorou os acontecimentos de sua vida, aquelas noites na sala foram algumas de suas lembranças mais vividas. Ela reviu a luz ardente no rosto de casca de ovo de Max e chegou até a provar o sabor humano de suas palavras. O curso da sobrevivência do rapaz foi relatado aos bocadinhos, como se ele recortasse de si cada pedaço e o oferecesse numa bandeja.

—        Sou muito egoísta.

Ao dizê-lo, ele usou o braço para proteger o rosto.

—        Deixar as pessoas para trás. Vir para cá. Pôr todos vocês em perigo...

Foi tudo saindo dele, e o rapaz começou a lhes fazer súplicas. O arrependimento e a desolação esbofeteavam-lhe o rosto.

—        Eu lamento. Acreditam em mim? Eu sinto muito, sinto muito, sinto...

Seu braço encostou no fogo e ele o afastou num reflexo.

Todos o fitaram, em silêncio, até que o pai levantou e se aproximou. Sentou-se ao lado de Max.

—        Queimou o cotovelo?

Uma noite, Hans, Max e Liesel sentavam-se diante da lareira. A mãe estava na cozinha. Max lia Mein Kampf outra vez.

—        Sabe de uma coisa? — disse Hans. Inclinou-se para o fogo. — A Liesel aqui é mesmo uma boa leitorinha - ao que Max baixou o livro. — E tem mais coisas em comum com você do que se poderia supor. E — certificou-se de que Rosa não estava chegando — ela também gosta de uma boa briga.

—        Papai!

Liesel, quase chegando aos doze anos e ainda magra feito um ancinho, encostada na parede, sentiu-se arrasada.

—        Nunca entrei numa brigai

—        Psssiu! — riu o pai, Fez sinal para que ela falasse baixo e tornou a se inclinar, dessa vez em direção à menina. — Bem, que tal a surra que você deu no Ludwig Schmeikl, hein?

 —       Eu nunca... — mas ela fora apanhada. Continuar negando seria inútil.

— Como foi que você descobriu isso?

— Estive com o pai dele no Knoller.

Liesel cobriu o rosto com as mãos. Quando o descobriu, foi para fazer a pergunta crucial:

—        Contou à mamãe?

—        Está brincando? — fez Hans. Piscou para Max e segredou para a menina: — Você ainda está viva, não é?

Aquela noite também foi a primeira vez em meses que o pai tocou seu acordeão em casa. Durou mais ou menos meia hora, até ele fazer uma pergunta a Max:

—        Você o estudou?

O rosto no canto observava as chamas.

—        Estudei — e fez uma pausa considerável. — Até os nove anos. Nessa idade, mamãe vendeu o estúdio de música e parou de lecionar. Só guardou um instrumento, mas desistiu de mim, não muito depois de eu resistir a estudar. Foi uma bobagem.

—        Não — disse Hans. — Você era menino.

Durante as madrugadas, Liesel Meminger e Max Vandenburg lidavam com sua outra semelhança. Em cômodos separados, tinham seus pesadelos e acordavam, uma com um grito em meio a lençóis sufocantes, outro com a respiração ofegante junto a uma lareira fumarenta.

Às vezes, quando Liesel lia com o pai, perto das três horas da manhã, os dois ouviam o momento de despertar de Max. "Ele sonha como você", dizia o pai, e, numa ocasião, agitada com o som da angústia de Max, Liesel resolveu sair da cama. Por ter ouvido a história dele, a menina fazia uma boa idéia do que o rapaz via naqueles sonhos, se não a parte exata da história que o visitava a cada noite.

Andou em silêncio pelo corredor e entrou na sala-e-quarto.

—        Max?

O murmúrio foi baixinho, envolto pela garganta do sono. No começo, não houve som de resposta, mas ele logo se sentou e perscrutou a escuridão.

Com o pai ainda na cama, Liesel sentou-se do outro lado da lareira, em frente a Max. Atrás deles, Rosa dormia ruidosamente. Superava de longe a roncadora do trem.

Agora o fogo já não passava de um funeral de fumaça, a um tempo morto e agonizante. Nessa madrugada específica, também houve vozes.

 

• A TROCA DE PESADELOS •

A menina: Diga, o que você vê quando sonha assim?

O judeu: ...Eu me vejo virando as costas e dando adeus,

A menina: Também tenho pesadelos.

O judeu: O que você vê?

A menina: Um trem, e meu irmão morto.

O judeu: Seu irmão?

A menina: Ele morreu quando eu me mudei para cá, no caminho.

A menina e o judeu, juntos: Ja — sim.

Seria bom dizer que, depois desse pequeno avanço, nem Liesel nem Max Voltaram a sonhar com suas visões ruins. Seria bom, mas falso. Os pesadelos continuaram a chegar como sempre, como faz o melhor jogador do time adversário, quando a gente ouve boatos de que estaria machucado ou doente — mas lá está ele, fazendo o aquecimento com todos os demais, pronto para entrar em campo. Ou como um trem de hora marcada que chega toda noite a uma plataforma, rebocando as lembranças numa corda. Muito arrastar. Muitos rebotes desajeitados.

A única coisa a mudar foi que Liesel disse ao pai que agora já devia ter idade suficiente para enfrentar os sonhos sozinha. Por um momento, ele pareceu meio magoado, mas, como sempre acontecia com o pai, fez o melhor possível para dizer a coisa certa.

—        Bem, graças a Deus — com um meio sorriso. — Pelo menos agora posso dormir direito. Aquela cadeira estava me matando.

Pôs o braço nos ombros da menina e os dois foram para a cozinha.

Com o correr do tempo, desenvolveu-se uma clara distinção entre dois mundos — o mundo no interior do número 33 da Rua Himmel e o que residia e girava em torno deste. O xis da questão era mantê-los separados.

No mundo externo, Liesel vinha aprendendo a descobrir mais algumas utilidades. Uma tarde, quando voltava para casa com um saco de roupas vazio, notou um jornal que ressaía de uma lata de lixo. A edição semanal do Expresso de Molching, tirou-o da lata e o levou para casa, onde o deu de presente a Max.

—        Achei que você gostaria de fazer as palavras cruzadas para passar o tempo — disse.

Max agradeceu o gesto e, para justificar o fato de Liesel o ter levado para casa, leu o jornal de ponta a ponta e, horas depois, mostrou-lhe as palavras cruzadas completas, faltando só uma palavra.

—        Miserável esse dezessete vertical — disse.

Em fevereiro de 1941, em seu décimo segundo aniversário, Liesel ganhou outro livro usado e ficou grata. Chamava-se Os homens de Lama e era sobre um pai e um filho muito estranhos. Ela abraçou a mãe e o pai, enquanto Max ficava constrangido num canto.

—        Alies gute zum Geburtstag — sorriu ele, timidamente. "Tudo de bom no seu aniversário." Estava com as mãos nos bolsos. — Eu não sabia, senão teria dado alguma coisa a você.

Era uma mentira flagrante — Max não tinha nada para dar, exceto, talvez, o Mein Kampf, e de jeito nenhum daria aquela propaganda a uma menininha alemã. Seria como o cordeiro entregando uma faca ao açougueiro.

Houve um silêncio incômodo.

Ela havia abraçado mamãe e papai.

Max parecia muito sozinho.

Liesel engoliu em seco.

E foi até ele e o abraçou pela primeira vez.

— Obrigada, Max.

A princípio, ele apenas ficou parado, mas, enquanto ela o abraçava, aos poucos levantou as mãos e as pressionou delicadamente sobre as omoplatas da menina.

Só depois ela descobriria o sentido da expressão de desamparo no rosto de Max Vandenburg. Descobriria também que, naquele momento, ele havia decidido retribuir-lhe alguma coisa. Muitas vezes o imagino deitado, acordado durante aquela noite inteira, ponderando sobre o que poderia oferecer.

Como se constatou, o presente foi entregue em papel, pouco mais de uma semana depois.

Max o levaria à menina nas primeiras horas da manhã, antes de tornar a descer a escada de concreto para o que agora gostava de chamar de sua casa.

 

PÁGINAS DO PORÃO

Durante uma semana, Liesel foi impedida a todo custo de descer ao porão. Mamãe e papai é que se certificavam de levar a comida de Max.

— Não, Saumensch — dizia a mãe, toda vez que ela se oferecia. Havia sempre um novo pretexto. — Que tal você fazer alguma coisa de útil aqui, para variar, como acabar de passar a roupa? Você acha que carregá-la pela cidade é muito especial? Experimente passá-la!

Pode-se fazer toda sorte de coisas boas disfarçadas, quando se tem uma reputação cáustica. Funcionou.

Nessa semana, Max recortou uma coletânea de páginas de Mein Kampf e as pintou de branco. Depois, pendurou-as com pregadores numa corda, de uma ponta à outra do porão. Quando estavam todas secas, começou a parte difícil. Ele tinha instrução suficiente para se arranjar, mas com certeza não era escritor nem pintor de quadros. Apesar disso, formulou as palavras na cabeça até conseguir contá-las sem erro. Só então, no papel empolado e arqueado pela pressão da tinta ao secar, começou a escrever a história. O que fez com um pincelzinho preto.

O Vigiador.

Max calculou que precisaria de treze páginas, e por isso pintou quarenta, na expectativa de pelo menos duas vezes mais erros que acertos, Houve versões de exercício nas páginas do Expresso de Molching, até ele aperfeiçoar seu trabalho artístico elementar e desajeitado num nível que lhe parecesse aceitável. Enquanto trabalhava, ele ouvia as palavras sussurradas de uma menina. "O cabelo dele", dissera Liesel, "parece ser de penas."

Ao terminar, Max usou uma faca para furar as páginas e amarrá-las com barbante. O resultado foi um livreto de treze páginas, que dizia assim:

 

 

 

“toda minha vida tive medo de homens velando sobre mim.

 

Suponho que o primeiro homem a velar sobre mim foi meu pai

Mas ele sumiu antes que eu pudesse recordá-Los.

 

Por alguma razão, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes eu perdia. Outro menino, às vezes com sangue pingando do nariz, erguia-se acima de mim.

 

Muitos anos depois precisei me esconder. Procurei não dormir porque tinha medo de quem estaria lá quando acordasse.

Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.

 

 Quando estava escondido, eu sonhava com um certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ao encontro dele.

 

Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui.

 

Fiquei dormindo lá por muito tempo. Três dias, disseram-me..

E o que eu encontrei ao acordar? Não um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar.

 

Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tínhamos coisas em comum.

Trem

Sonhos

Punhos

 

Mas há uma coisa estranha.        

A menina diz que eu pareço outra coisa.

 

Agora moro num porão.

Os sonhos ruins ainda vivem no meu sonho.

Uma noite, após meu pesadelo habitual, uma sombra ergueu-se sobre mim. — Conte-me o que você sonha. E eu contei.

 

Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus próprios sonhos.


 

Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversário, foi ela quem deu um presente a mim.

Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci não é um homem...

 

Valioso

Valioso

Valioso (desenho do abraço no “o”)

Movimento da água

Luz do dia

Luz do dia

 

No fim de fevereiro, quando Liesel acordou nas primeiras horas da manhã, uma figura entrou em seu quarto. Como era típico de Max, foi o mais próximo possível de uma sombra sem som.

Perscrutando a escuridão, Liesel só pôde sentir vagamente o homem que se aproximava.

—        Olá?

Nenhuma resposta.

Nada além do quase silêncio de seus pés, quando ele chegou mais perto da caiu e pôs as páginas no chão, junto as meias da menina. As páginas estalaram. Só um pouquinho. Uma de suas bordas recurvou-se no chão.

— Olá?

Dessa vez, houve uma resposta.

Liesel não soube dizer exatamente de onde vinham as palavras. O importante foi que chegaram até ela. Chegaram e se ajoelharam junto à cama.

—        Um presente de aniversário atrasado. Olhe de manhã. Boa noite.

Por algum tempo, ela vagou para dentro e para fora do sono, já não sabendo ao certo se havia sonhado com a entrada de Max.

De manhã, ao acordar e se virar na cama, viu as páginas descansando no chão. Estendeu a mão e pegou-as, escutando o papel encrespar-se em suas mãos de manhãzinha.

Toda a minha vida, tive medo de homens velando sobre mim...

Ao virá-las, as páginas eram barulhentas, feito estática em volta da história escrita.

Três dias, disseram-me... E o que encontrei ao acordar?

Lá estavam as páginas apagadas de Mein Kampf, amordaçadas, sufocando sob a tinta enquanto eram viradas.

Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci...

Liesel leu e examinou o presente de Max Vandenburg três vezes, notando um traço ou uma palavra diferente do pincel a cada uma. Terminada a terceira leitura, saiu da cama, da maneira mais silenciosa que pôde, e foi ao quarto de papai e mamãe. O espaço reservado junto à lareira estava vazio.

Pensando bem, ela se deu conta de que seria mesmo apropriado — ou, melhor até, perfeito — que lhe agradecesse onde as páginas tinham sido produzidas.

Desceu a escada do porão. Viu uma fotografia emoldurada imaginária infiltrar-se na parede — um segredo silenciosamente risonho.

Embora não passasse de alguns metros, foi uma longa caminhada até as mantas de proteção contra respingos e o sortimento de latas de tinta que escudavam Max Vandenburg. Ela afastou as mantas mais próximas da parede, até haver um pequeno corredor por onde olhar.

 A primeira parte que viu dele foi o ombro e, pela fenda estreita, devagarzinho, dolorosamente, enfiou a mão até apoiá-la nele. A roupa estava fria. Max não acordou.

A menina sentiu a respiração e o ombro dele, movendo-se bem de leve, para cima e para baixo. Observou-o por algum tempo. Depois, sentou-se e se reclinou.

O ar sonolento parecia tê-la seguido.

As palavras rabiscadas dos exercícios expunham-se magnificamente na parede ao lado da escada, irregulares, infantis e doces. Ficaram olhando enquanto os dois dormiam, o judeu escondido e a menina, mão e ombro.

Os dois respiravam.

Pulmões alemães e judeus.

Junto à parede ficou O Vigiador, entorpecido e satisfeito, como um belo anseio aos pés de Liesel Meminger.

 

O LIVRO FLUTUANTE (Parte I)

Um livro desceu flutuando pelo Rio Amper.

Um menino pulou na água, alcançou-o e o segurou com a mão direita. Sorriu.

Estava afundado até a cintura na gélida água dezembrina.

— Que tal um beijo, Saumensch?, —- disse.

O ar em volta era de um frio encantador, fantástico, nauseante, para não falar na dor concreta da água, que o endurecia dos pés aos quadris.

Que tal um beijo?

Que tal um beijo?

Pobre Rudy.

 

• PEQUENO AVISO •

SOBRE RUDY STEINER

Ele não merecia morrer como morreu.

Em suas visões, você vê as bordas empapadas do papel, ainda grudadas em seus dedos. Vê uma franja loura tremendo. E conclui antecipadamente, como faria eu, que Rudy morreu nesse mesmo dia, de hipotermia. Pois não morreu. Esse tipo de recordação só me faz lembrar que ele não merecia o destino que teve, pouco menos de dois anos depois.

Em muitos sentidos, levar um menino como Rudy foi um roubo — tanta vida, tanta coisa por que viver —, mas, de algum modo, tenho certeza de que ele teria adorado ver os escombros assustadores e a inclinação do céu na noite em que se foi. Teria gritado, rodopiado e sorrido, se ao menos pudesse ver a roubadora de livros apoiada nas mãos e nos joelhos, junto a seu corpo dizimado. Teria ficado contente em vê-la beijar seus lábios poeirentos, atingidos pela bomba.

E, eu sei.

Na escuridão de meu coração tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza.

Viu?

Até a morte tem coração.

 

OS JOGADORES

(um dado de sete lados)

É claro que estou sendo grosseira. Estragando o fim não apenas do livro inteiro, mas desse seu pedaço em particular. Dei a você dois acontecimentos de antemão porque não tenho muito interesse em construir mistérios. O mistério me entedia. Dá trabalho. Sei o que acontece, e você também. As maquinações que nos levam até lá é que me irritam, me deixam perplexa, me interessam e me estarrecem.

Há muitas coisas em que pensar.

Muitas histórias.

Há, com certeza, um livro chamado O Assobiador, que realmente precisamos discutir, além de saber exatamente como ele veio a flutuar rio abaixo no Amper, no período que conduziu ao Natal de 1941, Devemos lidar com tudo isso primeiro, não acha?

Então, está resolvido. Lidaremos.

Começou com um jogo. Role um dado, escondendo um judeu, e é assim que você vive. É desse jeito.

 

O CORTE DE CABELO: MEADOS DE ABRIL DE 1941

A vida ao menos começava a imitar a normalidade com mais força: Hans e Rosa Hubermann discutiam na sala, ainda que a briga fosse muito mais sussurrada do que costumava ser. Liesel, como era típico, fazia a espectadora.

A briga se originara na noite anterior, no porão, onde Hans e Max sentavam-se com latas de tinta, palavras e mantas de proteção contra respingos. Max havia perguntado se, em algum momento, Rosa poderia cortar-lhe o cabelo. "Está entrando em meus olhos", dissera, ao que Hans tinha respondido: "Verei o que posso fazer."

Agora, Rosa vasculhava as gavetas. Suas palavras eram jogadas no marido, junto com o resto da tralha.

—        Onde está aquela maldita tesoura?

—        Não está na gaveta de baixo?

—        Essa eu já examinei.

—        Talvez você não a tenha visto.

—        Eu tenho cara de cega? — disse Rosa, que levantou a cabeça e gritou: — Liesel!

— Estou bem aqui.

Hans se encolheu:

—        Droga, mulher, por que não me deixa logo surdo?

—        Calado, Saukerl — e Rosa continuou a vasculhar, dirigindo-se à menina: — Liesel, onde está a tesoura?

Mas Liesel também não fazia idéia.

—        Saumensch, você é mesmo uma inútil, não?

—        Deixe-a fora disso.

Mais palavras foram trocadas de um lado para outro, da mulher de cabelos de elástico para o homem de olhos prateados, até Rosa bater a gaveta com força.

—        O provável é que eu faça mesmo tudo errado com ele.

—        Errado?

0 pai, àquela altura, parecia prestes a arrancar os próprios cabelos, mas manteve a voz num sussurro quase inaudível.

—        E quem é que vai vê-lo?

Ele fez que ia falar de novo, mas foi distraído pelo aparecimento plumoso de Max Vandenburg, que, constrangido, parou educadamente no vão da porta. Trazia sua própria tesoura e se aproximou, entregando-a não a Hans nem a Rosa, mas à menina de doze anos. Ela era a opção mais calma. Sua boca tremeu por um instante, antes de ele dizer:

—        Você pode?

Liesel pegou a tesoura e a abriu. Estava enferrujada e brilhosa em áreas diferentes. Ela se virou para o pai e, quando este acenou que sim, acompanhou Max até o porão.

O judeu sentou-se numa lata de tinta. Pôs-se uma pequena manta de proteção contra respingos em seu ombro.

—        Cometa quantos erros quiser — disse ele.

0 pai acomodou-se na escada.

Liesel levantou os primeiros tufos do cabelo de Max Vandenburg.

Enquanto ia cortando os fios plumosos, estranhou o som da tesoura. Não o barulho do corte, mas o rangido de cada lâmina de metal ao desbastar cada grupo de fibras.

 Terminado o trabalho, meio drástico nuns pontos, meio torto em outros, ela subiu com o cabelo nas mãos e o jogou no fogão. Riscou um fósforo e observou o montinho encolher-se e afundar, laranja e vermelho.

Max estava de novo à porta, dessa vez no alto da escada do porão.

—        Obrigado, Liesel.

Sua voz soou alta e rouca, trazendo como que embutido um sorriso oculto. Mal falou, ele tornou a desaparecer, de volta ao subterrâneo.

 

O JORNAL: INÍCIO DE MAIO

—        Há um judeu no meu porão.

—        Há um judeu. No meu porão.

Sentada no piso da sala repleta de livros do prefeito, Liesel Meminger ouviu essas palavras. A seu lado havia um saco de roupa para lavar, e a figura fantasmagórica da mulher do prefeito sentava-se à escrivaninha, recurvada como um bêbado. A sua frente, Liesel lia O Assobiador, páginas 22 e 23. Olhou para cima. Imaginou-se andando até lá, afastando delicadamente para o lado o cabelo fofo e murmurando no ouvido da mulher:

— Há um judeu no meu porão.

Enquanto o livro tremia em seu colo, o segredo sentou-se em sua boca. Acomodou-se. Cruzou as pernas.

—        Está na hora de eu ir para casa.

Dessa vez, ela falou de verdade. Suas mãos tremiam. Apesar de um vestígio de sol ao longe, uma brisa suave soprava pela janela aberta, aliada à chuva, que entrava feito serragem.

Quando Liesel repôs o livro em seu lugar, a cadeira da mulher arranhou o chão e ela se aproximou. Era sempre assim, no final. Os anéis delicados de rugas pesarosas alargaram-se por um instante, quando ela estendeu a mão e tornou a pegar o livro.

Ofereceu-o à menina.

Liesel recuou, tímida.

—        Não, obrigada — disse. — Tenho livros que cheguem em casa. Talvez noutra ocasião. Estou relendo uma coisa com meu pai. A senhora sabe, o que roubei da fogueira naquela noite.

A mulher do prefeito assentiu com a cabeça. Se havia uma coisa a dizer sobre Liesel Meminger, era que seus roubos não eram gratuitos. Ela só furtava livros com base no que sentia ser uma necessidade de tê-los. Nessa ocasião, tinha um número suficiente. Já lera quatro vezes Os homens de lama e vinha desfrutando de seu reencontro com O Dar de Ombros. Além disso, toda noite, antes de dormir, abria um guia infalível para a escavação de sepulturas. Enterrado em suas profundezas residia O Vigiador. Liesel enunciava as palavras em silêncio e tocava nos pássaros. Virava as páginas barulhentas, devagar.

—        Até logo, Frau Hermann.

Saiu da biblioteca, percorreu o corredor de tábuas e cruzou a monstruosa porta de entrada. Como era seu hábito, deteve-se por alguns momentos nos degraus, olhando para Molching, lá embaixo. Nessa tarde, a cidade estava coberta de uma neblina amarela, que afagava os telhados como se fossem animais de estimação e enchia as ruas feito um banho.

Ao chegar à Rua Munique, a menina que roubava livros desviou-se dos homens e mulheres de guarda-chuvas — uma garota de capa de chuva que abria caminho de uma lata de lixo para outra, sem a menor vergonha. Com a regularidade de um relógio.

—        Achei!

Riu para as nuvens acobreadas, comemorando, antes de estender a mão e pegar o jornal mutilado. Embora a primeira e a última páginas estivessem riscadas de negras lágrimas de tinta, ela o dobrou ao meio com cuidado e o enfiou embaixo do braço. Tinha sido assim toda quinta-feira, nos últimos meses.

Agora, a quinta-feira era o único dia de entrega que restava a Liesel Meminger e, em geral, ele fornecia algum tipo de dividendo. Ela não conseguia empanar a sensação de vitória, toda vez que encontrava um Expresso de Molching, ou qualquer outra publicação. Achar um jornal era um bom dia. Se era um jornal em que não tinham feito as palavras cruzadas, era um grande dia. A menina voltava para casa, fechava a porta e o levava lá embaixo para Max Vandenburg.

—        E as palavras cruzadas? — perguntava ele.

—        Vazias.

—        Excelente.

O judeu sorria ao aceitar o pacote de papel e começava a lê-lo, à luz racionada do porão. Muitas vezes, Liesel o observava concentrado na leitura do jornal, fazendo as palavras cruzadas e começando a relê-lo, de trás para frente.

Com o tempo mais quente, Max ficava no subsolo o tempo todo. Durante o dia, a porta do porão ficava aberta, para que a pequena réstia de luz do corredor pudesse alcançá-lo. O corredor em si não era exatamente ensolarado, mas, em certas situações, a gente aceita o que consegue. A luz tristonha era melhor do que nenhuma, e eles precisavam ser frugais. O querosene ainda não se aproximara de um nível perigosamente baixo, mas era melhor reduzir seu uso ao mínimo.

Liesel costumava sentar-se em mantas de proteção. Ficava lendo enquanto Max terminava as palavras cruzadas. Sentavam-se a poucos metros de distância, falando muito raramente, e só havia mesmo o barulho das páginas virando. Muitas vezes, ela também deixava seus livros para Max ler, no horário em que ia à escola. Enquanto, em última instância, Hans Hubermann e Erik Vandenburg tinham-se unido pela música, Max e Liesel eram unidos pela reunião silenciosa de palavras.

—        Oi, Max.

—        Oi, Liesel,

Eles sentavam e liam.

Vez por outra, ela o observava. Decidiu que a melhor maneira de resumi-lo era como uma imagem de pálida concentração. Pele de tom bege. Um pântano em cada olho. E respirava feito um fugitivo. Desesperado, mas mudo. Só o peito é que o denunciava como um ser vivo.

Cada vez mais, Liesel fechava os olhos e pedia a Max que lhe fizesse perguntas sobre as palavras que ela errava continuamente, e xingava quando estas ainda lhe escapavam. Depois, punha-se de pé e pintava essas palavras na parede, em qualquer lugar, até doze vezes. Juntos, Max Vandenburg e Liesel Meminger aspiravam o odor de tinta e cimento.

—        Tchau, Max.

—        Tchau, Liesel.

Na cama, ela ficava acordada, a imaginá-lo lá embaixo no porão. Em suas visões noturnas, ele sempre estava inteiramente vestido, inclusive de sapatos, para o caso de precisar fugir de novo. Dormia com um olho aberto.

 

A METEOROLOGISTA: MEADOS DE MAIO

Liesel abriu a porta e a boca, simultaneamente.

Na Rua Himmel, seu time havia arrasado o de Rudy por 6 X 1 e, triunfante, ela irrompeu na cozinha, contando tudo à mãe e ao pai sobre o gol que havia marcado. Em seguida, desceu correndo ao porão para descrevê-lo passe a passe a Max, que baixou o jornal, ouviu atentamente e riu com a menina.

Concluída a história do gol, fez-se silêncio por uns bons minutos, até Max levantar lentamente os olhos.

—        Quer fazer uma coisa para mim, Liesel?

Ainda empolgada com seu gol na Rua Himmel, a menina pulou das mantas de proteção. Não o disse, mas seu movimento deixou clara a sua intenção de fornecer exatamente o que ele quisesse.

—        Você me contou tudo sobre o gol — disse Max — mas não sei que tipo de dia está fazendo lá em cima. Não sei se você fez o gol ao sol, ou se as nuvens cobriam tudo.

Passou a mão pelo cabelo à escovinha, e seus olhos alagadiços imploraram a mais simples das coisas:

—        Você pode subir e me dizer como está o tempo?

Naturalmente, Liesel subiu a escada correndo. Parou perto da porta manchada de cuspe e se virou ali mesmo, observando o céu. Ao voltar para o porão, contou-lhe:

—        Hoje o céu está azul, Max, e tem uma nuvem grande e comprida, espichada feito uma corda. Na ponta dela, o sol parece um buraco amarelo...

Naquele momento, Max soube que só uma criança seria capaz de lhe fornecer um boletim meteorológico desses. Na parede, pintou uma corda comprida e cheia de nós, com um sol amarelo e gotejante na ponta, como se fosse possível mergulhar dentro dele. Na nuvem encordoada, desenhou duas figuras — uma menina magra e um judeu murcho —, e os dois caminhavam, equilibrando os braços, em direção ao sol gotejante. Sob o desenho, Max escreveu esta frase:

• AS PALAVRAS DE MAX VANDENBURG •

ESCRITAS NA PAREDE

Era segunda-feira, e eles andavam na corda bamba em direção ao sol.

 

O BOXEADOR: FIM DE MAIO

Para Max Vandenburg, havia o cimento frio e muito tempo para passar com ele.

Os minutos eram cruéis.

As horas eram um castigo.

Erguendo-se sobre ele, em todos os momentos de vigília, havia a mão do tempo, que não hesitava em atormentá-lo. Sorria, apertava e o deixava viver. Que grande maldade podia haver em se deixar uma coisa viva!

Pelo menos uma vez por dia, Hans Hubermann descia a escada do porão e partilhava uma conversa. Vez por outra, Rosa levava uma sobra de crosta de pão. Mas era na hora que Liesel descia que Max tornava a se descobrir mais interessado na vida. A princípio, tentou resistir, mas foi ficando mais difícil a cada dia que a menina aparecia, sempre com um novo boletim meteorológico, fosse de céu azul puro e nuvens de papelão, fosse de um sol que havia irrompido como Deus empanzinado, sentando-se depois de ter comido demais no jantar.

Quando Max ficava só, sua sensação mais clara era a de estar desaparecendo. Todas as suas roupas eram cinzentas — houvessem ou não começado assim —, desde as calças até o suéter de lã e o paletó, que agora escorria dele feito água. O rapaz verificava com freqüência se sua pele estava escamando, pois era como se ele estivesse em processo de dissolução.

O que precisava era de uma série de projetos novos. O primeiro foi o exercício. Ele começou pelas flexões, deitando de bruços no piso frio do porão e içando o corpo para cima. Seus braços pareciam estalar em cada cotovelo, e ele imaginou o coração a lhe escoar do corpo e cair pateticamente no chão. Quando adolescente, em Stuttgart, Max era capaz de fazer cinqüenta flexões de cada vez. Agora, aos vinte e quatro anos e talvez uns sete quilos abaixo de seu peso normal, mal conseguia chegar a dez. Passada uma semana, já completava três conjuntos de dezesseis flexões e vinte e duas abdominais. Ao terminar, sentava-se encostado na parede do porão, com seus amigos feitos de latas de tinta, sentindo a pulsação nos dentes. Seus músculos pareciam uma crosta.

 Às vezes ele se perguntava se valia mesmo a pena forçar-se daquela maneira. Noutras, porém, quando seus batimentos cardíacos se normalizavam e seu corpo voltava a ser funcional, ele apagava a lamparina e ficava de pé nas brumas do porão.

Max tinha vinte e quatro anos, mas ainda era capaz de fantasiar.

—        No canto azul — comentava baixinho —, temos o campeão do mundo, a obra-prima ariana: o Führer.

Respirava fundo e se virava.

—        E, no canto vermelho, temos o desafiante judeu com cara de rato: Max Vandenburg.

A sua volta, tudo se materializava.

A luz branca baixava sobre o ringue de boxe e a multidão se punha a murmurar — aquele som mágico de muitas pessoas, todas falando ao mesmo tempo. Como podiam as pessoas ter tanto a dizer ao mesmo tempo? O ringue em si era perfeito.

Lona perfeita, cordas encantadoras. Até os fios soltos de cada corda grossa eram impecáveis, cintilando à luz branca e dura. O salão cheirava a cigarros e cerveja.

Na diagonal, Adolf Hitler postou-se num canto com seus auxiliares. Suas pernas protuberavam de um roupão vermelho e branco, com uma suástica negra gravada nas costas. O bigode era bordado em seu rosto. Algumas palavras lhe foram murmuradas por seu treinador, Goebbels. Ele saltitou de um pé para o outro e sorriu. Sorriu ainda mais quando o locutor do ringue listou suas muitas realizações, todas vociferantemente aplaudidas pela multidão adoradora.

—        Invicto! — proclamou o mestre-de-cerimônias no ringue. — Contra muitos judeus e contra qualquer outra ameaça ao ideal alemão! Herr Führer, nós o saudamos! — concluiu. Na multidão: tumulto.

Em seguida, quando todos se haviam acalmado, veio o desafiante.

O apresentador virou-se para Max, sozinho no canto do desafiante. Nada de roupão. Nada de auxiliares. Apenas um jovem judeu solitário de respiração maculada, peito nu, pés e mãos cansados. Naturalmente, seu calção era cinza. Também ele se mexeu de um pé para o outro, mas o mínimo possível, para conservar a energia. Havia suado muito no ginásio para chegar ao peso certo.

—        O desafiante! — disse o mestre-de-cerimônias. — De — e fez uma pausa, para dar mais efeito — sangue judaico.

A multidão apupou, como vampiros humanos.

—        Pesando...

O resto da fala não se fez ouvir. Foi abafado pelos insultos da platéia, e Max viu seu adversário tirar o roupão e se encaminhar para o centro do ringue, para ouvir as regras e trocar um aperto de mãos.

—        Guten Tag, Herr Hitler — disse Max, com um aceno de cabeça, mas o Führer apenas lhe mostrou os cientes amarelos, depois tornou a cobri-los com os lábios.

—        Senhores — começou um árbitro robusto, de calças pretas e camisa azul. Uma gravata-borboleta grudava-se em sua garganta. — Em primeiro lugar, queremos uma luta boa e limpa — e se dirigiu ao Führer. — A menos, é claro, Herr Hitler, que o senhor comece a perder. Caso isso ocorra, estarei perfeitamente disposto a fechar os olhos para qualquer tática inescrupulosa que o senhor queira empregar para triturar na lona esse fedor e imundície judaicos — e baixou a cabeça, com grande cortesia. — Está claro?

O Führer disse então sua primeira palavra. - Cristalino.

A Max o árbitro fez uma advertência:

— Quanto a você, meu amiguinho judeu, eu agiria com muita cautela, no seu lugar. Muita cautela mesmo — e os dois foram mandados de volta para seus respectivos cantos.

Seguiu-se um breve silêncio.

O gongo.

O primeiro a avançar foi o Führer, de pernas desajeitadas e ossudo, correndo para Max e dando-lhe um jabe firme no rosto. A multidão vibrou, com o gongo ainda soando em seus ouvidos, e seus sorrisos satisfeitos pularam as cordas. O hálito enfumaçado de Hitler saiu em vapor de sua boca, enquanto suas mãos esmurravam o rosto de Max, atingindo-o várias vezes, na boca, no nariz, no queixo — e Max ainda nem se arriscara a sair de seu canto. Para absorver o castigo, ele levantou as mãos, mas então o Führer mirou em suas costelas, seus rins, seus pulmões. Ah, os olhos, os olhos do Führer. Eram tão deliciosamente castanhos — como olhos de judeus — e tão determinados, que até Max ficou hipnotizado por um instante, ao avistá-los por entre o borrão saudável das luvas que batiam.

Houve apenas um assalto, que durou horas, e, em sua maior parte, nada mudou.

0 Führer foi esmurrando o judeu-saco-de-pancada.

Havia sangue judaico em toda parte.

Como nuvens vermelhas de chuva sobre a lona branco-celeste a seus pés.

Por fim, os joelhos de Max começaram a dobrar-se, suas maçãs do rosto gemeram em silêncio, e o rosto encantado do Führer continuou a triturar, triturar, até que, esgotado, surrado e alquebrado, o judeu desabou no chão.

Primeiro, um bramido. I Depois, silêncio.  O árbitro contou. Tinha um dente de ouro e uma pletora de pêlos no nariz.

Aos poucos, Max Vandenburg, o judeu, pôs-se de pé e ficou ereto. Sua voz vacilou. Um convite. — Venha, Führer — disse, e, dessa vez, quando Adolf Hitler partiu para seu adversário judaico, Max se esquivou e o fez mergulhar no canto. Esmurrou-o várias vezes, sempre visando uma coisa só.

O bigode.

No sétimo soco, errou. Foi o queixo do Führer que recebeu o golpe. No mesmo instante, Hitler bateu nas cordas e vergou o corpo, arriando de joelhos. Dessa vez, não houve contagem. O árbitro encolheu-se num canto. A platéia desanimou-se, voltando para sua cerveja. De joelhos, o Führer verificou se estava sangrando e endireitou o cabelo, da direita para a esquerda. Quando se repôs de pé, para grande aprovação da multidão de milhares de pessoas, deu um passinho à frente e fez uma coisa muito estranha. Virou de costas para o judeu e tirou as luvas dos punhos.

O público ficou perplexo.

—        Ele desistiu — murmurou alguém, mas, momentos depois, Adolf Hitler estava em pé nas cordas, dirigindo-se à platéia.

—        Meus compatriotas — chamou — vocês estão vendo algo aqui esta noite, não é?

De peito à mostra e vitória no olhar, apontou para Max.

—        Estão vendo que enfrentamos algo muito mais sinistro e poderoso do que jamais imaginamos. Vocês enxergam isso?

—        Sim, Führer — veio a resposta.

—        Percebem que esse inimigo encontrou maneiras, suas maneiras desprezíveis, de penetrar em nossa couraça, e que obviamente não posso ficar aqui e combatê-lo sozinho?

As palavras eram visíveis. Caíam de sua boca feito pedras preciosas.

—        Olhem para ele! Dêem uma boa olhada! — e todos olharam. Para o ensangüentado Max Vandenburg. — Enquanto falamos, ele arquiteta planos para entrar em seu bairro. Muda-se para a casa ao lado. Infesta vocês com a família dele e está prestes a dominá-los. Ele — e Hitler o fitou por um instante, enojado — ele logo será dono de vocês, até ser ele a ficar não no balcão de sua mercearia, mas sentado nos fundos, fumando seu cachimbo. Quando menos esperarem, vocês estarão trabalhando para ele pelo salário mínimo, enquanto ele mal conseguirá andar, por causa do peso nos bolsos. Vocês vão ficar parados aí, simplesmente, e deixar que ele faça isso? Ficarão olhando, como fizeram seus líderes no passado, quando deram as terras de vocês a todo o mundo, quando venderam seu país por um punhado de assinaturas? Vocês vão ficar aí, impotentes? Ou — e, nesse momento, subiu para uma corda mais alta — entrarão aqui neste ringue comigo?

Max estremeceu. O horror gaguejou em seu estômago. Adolf acabou com ele.

—        Vão subir aqui, para podermos derrotar juntos esse inimigo?

No porão do número 33 da Rua Himmel, Max Vandenburg sentiu os punhos de uma nação inteira. Um por um, eles subiram no ringue e o espancaram. Fizeram-no sangrar. Deixaram que sofresse. Milhões deles — até que, pela última vez, quando juntou forças para ficar de pé...

Viu a pessoa seguinte atravessar as cordas. Era uma menina, e, quando ela cruzou devagar a lona, Max notou uma lágrima a lhe rasgar a face esquerda. Na mão direita havia um jornal.

—        As palavras cruzadas — disse ela, delicadamente: — estão em branco — e estendeu o jornal a Max.

Escuridão.

Agora, nada além de escuridão.

Apenas porão. Apenas judeu,

 

O NOVO SONHO: ALGUMAS NOITES DEPOIS

Era de tarde. Liesel desceu a escada do porão. Max já fizera metade de suas flexões. Ela observou um pouco, sem que ele soubesse, e, quando se aproximou e sentou a seu lado, o rapaz se levantou e se encostou na parede.

—        Já lhe contei — perguntou ele — que tenho tido um novo sonho, ultimamente?

Liesel mudou um pouco de posição, para ver o rosto de Max.

- Mas esse eu sonho quando estou acordado — e fez sinal para a lamparina de querosene sem brilho. — Às vezes, apago a luz. E então fico aqui e espero.

—        O quê? Max a corrigiu.

—        Não o quê. Quem.

Por alguns instantes, Liesel ficou calada. Era uma daquelas conversas que precisam que um tempo se escoe entre um dito e outro.

—        Quem você espera? Max não se mexeu.

—        O Führer — disse, em tom muito displicente. — E para isso que estou treinando.

—        As flexões?

—        Isso mesmo.

Andou até a escada de concreto.

—        Toda noite, espero no escuro e o Führer desce essa escada. Vem até aqui, e ele e eu lutamos por horas.

Agora Liesel estava de pé.

— Quem ganha?

Primeiro, ele ia dizer que ninguém ganhava, mas então notou as latas de tinta, as mantas de proteção contra respingos e a pilha crescente de jornais na periferia de sua visão. Observou as palavras, a nuvem comprida e os desenhos na parede.

—        Sou eu — disse.

Voltou como se lhe tivesse aberto a palma da mão, posto as palavras dentro dela e tornado a fechá-la.

No subsolo, em Molching, na Alemanha, duas pessoas paradas conversavam num porão. Parece o começo de uma piada:

—        Um judeu e uma alemã estão parados num porão, certo?...

Mas aquilo não era piada.

 

OS PINTORES: COMEÇO DE JUNHO

Outro projeto de Max era o restante de Mein Kampf. Cada página era delicadamente arrancada do livro e estendida no chão, para receber uma camada de tinta. Depois, era pendurada para secar e reposta entre a primeira e a última capas. Um dia, quando desceu ao voltar da escola, Liesel encontrou Max, Rosa e o pai, todos pintando várias páginas. Muitas delas já estavam penduradas numa corda esticada, presas por pregadores, como devia ter acontecido com O Vigiador. Os três levantaram os olhos e falaram.

—        Oi, Liesel.

—        Tome um pincel, Liesel.

—        Já estava na hora, Saumensch. Onde foi que demorou tanto?

Ao começar a pintar, Liesel pensou em Max Vandenburg lutando com o Führer, exatamente como ele havia explicado.

 

• VISÕES DO PORÃO, JUNHO DE 1941 •

Desferem-se socos, a multidão salta das paredes.

Max e o Führer lutam pela vida, ambos recuando da escada.

Há sangue no bigode do Führer, assim como

no repartido do cabelo, do lado direito da cabeça.

— Venha, Führer — diz o judeu. Faz sinal para que ele avance. — Venha, Führer.

Quando as visões se dissiparam e ela terminou a primeira página, o pai deu-lhe uma piscadela. A mãe a repreendeu por ter exagerado na tinta. Max examinou cada uma das páginas, talvez observando o que planejava produzir nelas. Passados muitos meses, também pintaria a capa do livro e lhe daria um novo título, baseado numa das histórias que escreveria e ilustraria nele.

Nessa tarde, no piso secreto abaixo do número 33 da Rua Himmel, os Hubermann, Liesel Meminger e Max Vandenburg prepararam as páginas de A Sacudidora de Palavras.

Era bom ser pintor.

 

A HORA DA VERDADE: 24 DE JUNHO

Então veio a sétima face do dado. Dois dias depois de a Alemanha invadir a Rússia. Três dias antes de a Grã-Bretanha e os soviéticos unirem forças.

Sete.

Você o joga e o vê chegando, e percebe com clareza que não se trata de um dado comum. Diz que foi azar, mas sabia o tempo todo que ele teria que vir. Você o introduziu na sala. A mesa farejou-o em seu hálito. O judeu projetava-se de seu bolso desde o começo. Sujou sua lapela e, no momento de jogar, você sabe que é um sete — a única coisa que, de algum modo, encontra um jeito de feri-lo. O dado cai. Fita você nos dois olhos,, miraculoso e repugnante, e você desvia o olhar enquanto ele lhe devora o peito.

Um simples azar.

 É o que você diz.

Sem a menor importância.

É nisso que você se faz acreditar — porque, no fundo, sabe que essa pequena mudança da sorte é um sinal das coisas que estão por vir. Você esconde um judeu. Você paga. De um modo ou de outro, tem que pagar.

Olhando para trás, Liesel disse a si mesma que não foi tão importante assim. Talvez tenha sido porque aconteceram muitas outras coisas na época em que ela escreveu sua história no porão. No esquema geral das coisas, ela ponderou que o fato de Rosa ser despedida pelo prefeito e sua mulher não teve nada de azar. Não teve nada a ver com esconder judeus. Teve tudo a ver com o contexto maior da guerra. Na época, entretanto, decididamente houve uma sensação de castigo.

O começo, na verdade, foi cerca de uma semana antes de 24 de junho. Liesel catou um jornal para Max Vandenburg, como sempre fazia. Vasculhou uma lata de lixo pertinho da Rua Munique e o enfiou embaixo do braço. Depois que o entregou a Max e ele iniciou sua primeira leitura, o rapaz a olhou e apontou para uma fotografia na primeira página.

—        Não é para esse que você entrega a roupa lavada e passada?

Liesel afastou-se da parede. Estivera escrevendo seis vezes a palavra argumento, ao lado do desenho que Max fizera da nuvem encordoada e do sol gotejante. Max entregou-lhe o jornal e a menina confirmou.

—        É ele.

Quando ela leu o artigo, o texto informava que Heinz Hermann, o prefeito, tinha dito que, embora a guerra estivesse progredindo esplendidamente, o povo de Molching, como todos os alemães responsáveis, devia tomar providências adequadas e se preparar para a possibilidade de tempos mais difíceis. "Nunca se sabe", declarou ele, "o que nossos inimigos estão pensando, ou como tentarão nos debilitar."

Uma semana depois, as palavras do prefeito frutificaram de forma execrável. Como sempre fazia, Liesel apareceu na Grande Strasse e leu O Assobiador no chão da biblioteca do prefeito. A mulher do prefeito não deu nenhum sinal de anormalidade (ou, sejamos francos, nenhum sinal a mais), até a hora da partida.

Dessa vez, ao oferecer O Assobiador a Liesel, insistiu em que a menina o aceitasse.

—        Por favor.

Quase implorou. O livro era segurado por um punho apertado, comedido.

—        Leve-o. Por favor, leve-o.

Comovida pela estranheza da mulher, Liesel não suportou decepcioná-la mais uma vez. O livro de capa cinza e páginas amareladas passou para sua mão, e ela começou a percorrer o corredor. Quando estava prestes a perguntar pela roupa suja, a mulher do prefeito deu-lhe um último olhar de arrependimento envolto em roupão. Abriu uma gaveta da cômoda e tirou um envelope. Sua voz, encaroçada pela falta de uso, tossiu as palavras.

—        Sinto muito. É para a sua mamãe.

Liesel parou de respirar.

Súbito, percebeu a sensação de vazio em seus pés, dentro das meias. Alguma coisa expôs sua garganta ao ridículo. Ela tremeu. Quando enfim estendeu a mão e apossou da carta, notou o som do relógio da biblioteca. Sombriamente, apercebeu de que os relógios nem de longe produziam um som que se assemelhasse a um tique-taque. Era mais um som de martelo invertido, batendo metodicamente na terra. Um som de sepultura. Ah, se a minha estivesse pronta agora!, pensou — porque, nesse momento, Liesel Meminger teve vontade de morrer. Quando os outros haviam cancelado o serviço, não tinha doído tanto. Ainda restavam o prefeito, sua biblioteca e ligação de Liesel com a mulher dele. Além disso, esse era o último freguês, a última esperança, acabada. Dessa vez, a sensação foi a da pior das traições.

Como é que ela iria enfrentar a mãe?

Para Rosa, aqueles poucos retalhos de dinheiro ainda haviam ajudado em vários apertos. Um punhado a mais de farinha. Um pedaço de gordura.

Agora, a própria Ilsa Hermann morria... de vontade de se livrar dela. Liesel sentiu isso em algum lugar, no modo como a mulher apertou um pouco mais o roupão. O acanhamento do pesar ainda a mantinha a uma pequena distância, mas estava claro que ela queria acabar com aquilo.

—        Diga a sua mamãe — tornou a falar. Agora sua voz se adaptava, à medida que uma frase se transformava em duas — que nós lamentamos.

E começou a conduzir a menina até a porta.

Foi quando Liesel a sentiu nos ombros.

A dor, o impacto da rejeição final.

É assim?, perguntou-se, internamente. A senhora só me dá um pontapé?

Com vagar, pegou o saco vazio e andou lentamente para a porta. Do lado de for; virou-se e fitou a mulher do prefeito pela penúltima vez naquele dia. Olhou-a nos olhos, com um jeito quase selvagem de orgulho.

—        Danke schön — disse, e Ilsa Hermann deu-lhe um sorriso inútil, desolado.

—        Se um dia você quiser vir aqui só para ler — mentiu a mulher (ou, pelo menos em seu estado de choque e tristeza, a menina o percebeu como uma mentira) —, será muito bem-vinda.

Nesse momento, Liesel admirou-se com a largura do vão da porta. Um espaço enorme me. Por que as pessoas precisavam de tanto espaço para cruzar uma porta? Se Rudy estivesse ali, tê-la-ia chamado de idiota — era para levar todas as coisas deles para dentro.

—        Adeus — disse a menina, e devagar, com grande tristeza, a porta se fechou.

Liesel não foi embora.

Durante muito tempo, sentou-se num degrau da escada e observou Molching.

 Não fazia calor nem frio, e a cidade estava límpida e imóvel. Molching jazia dentro de um frasco.

A menina abriu a carta. Nela, o prefeito Heinz Hermann resumia, em termos diplomáticos, a razão exata por que tinha de dispensar os serviços de Rosa Hubermann. Basicamente, explicou que ele seria hipócrita se mantivesse seus próprios pequenos luxos, enquanto aconselhava os outros a se prepararem para tempos mais difíceis.

Quando enfim Liesel se levantou e foi andando para casa, seu momento de reação veio mais uma vez, ao ver a tabuleta STEINER - SCHNEIDERMEISTER na Rua Munique. A tristeza a abandonou e ela foi tomada de raiva.

—        Aquele prefeito patife — resmungou. — Aquela mulher patética.

A aproximação de tempos difíceis era, com certeza, a melhor razão para manter Rosa empregada, mas não, eles a haviam despedido. De qualquer modo, decidiu Liesel, eles que lavassem e passassem a porcaria da sua roupa, feito as pessoas normais. Feito os pobres.

Em sua mão, O Assobiador ficou mais apertado.

—        Quer dizer que a senhora me dá o livro — disse a menina — por pena, para se sentir melhor...

O fato de o livro também ter-lhe sido oferecido antes tinha pouca importância.

Ela fez meia-volta, como já acontecera uma vez, e marchou para o número 8 da Grande Strasse. A tentação de correr era imensa, mas Liesel se conteve, para ter bastante fôlego de reserva para as palavras.

Quando chegou, decepcionou-se com o fato de o próprio prefeito não estar em casa. Não havia um carro cuidadosamente estacionado no acostamento, o que talvez tenha sido bom. Se estivesse ali, não há como dizer o que Liesel teria feito com ele, nesse momento de ricos contra pobres.

Dois degraus de cada vez, ela chegou à porta e bateu com tanta força que chegou a doer. E gostou dos pequenos fragmentos de dor.

E evidente que a mulher do prefeito ficou chocada ao revê-la. Seu cabelo fofo estava ligeiramente molhado e suas rugas se alargaram, quando ela notou a fúria óbvia no rosto comumente pálido de Liesel. Ilsa Hermann abriu a boca, porém não saiu nada, o que foi conveniente, na verdade, porque a fala era de Liesel.

—        A senhora acha que pode me comprar com este livro? -— disse a menina. Sua voz, embora abalada, agarrou-se ao pescoço da mulher. A raiva cintilante era espessa e desanimadora, mas Liesel batalhou. Agitou-se ainda mais, a ponto de precisar enxugar as lágrimas dos olhos.

—        A senhora me dá essa Saumensch de livro e acha que ficará tudo bem, quando eu disser a minha mãe que acabamos de perder nossa última freguesa? Enquanto a senhora fica aqui sentada na sua mansão?

Os braços da mulher do prefeito.

Penderam.

Seu rosto despencou.

Mas Liesel não se curvou. Borrifou as palavras diretamente nos olhos da mulher.

—        A senhora e seu marido. Sentados aqui no alto.

Nessa hora, tornou-se vingativa. Mais vingativa e perversa do que se imaginava capaz. A ofensa das palavras. Sim, a brutalidade das palavras.

Ela as pegou de algum lugar que só nesse momento reconheceu e atirou-as em Ilsa Hermann.

—        Já está mesmo na hora — informou-a — de a senhora lavar a porcaria da sua roupa. Está na hora de enfrentar o fato de que o seu filho está morto. Ele morreu! Foi estrangulado e retalhado há mais de vinte anos! Ou será que morreu congelado? De qualquer jeito, ele está morto! Está morto e é ridículo a senhora ficar aqui sentada, tremendo dentro de casa, para sofrer por causa disso. A senhora pensa que é a única?

Imediatamente.

O irmão postou-se ao lado dela.

Sussurrou para que Liesel parasse, mas também ele estava morto, e não valia a pena dar-lhe ouvidos. Ele morreu num trem. Foi enterrado na neve.

Liesel deu-lhe uma olhadela, mas não conseguiu fazer-se parar. Ainda não.

—        Este livro — continuou. Empurrou o menino escada abaixo, fazendo-o cair. — Não o quero.

As palavras estavam mais baixas, mas ainda acaloradas como antes. Liesel atirou O Assobiador nos pés da mulher, metidos em chinelas, e ouviu seu baque quando ele bateu no cimento.

—        Não quero o infeliz do seu livro...

E então conseguiu. Calou-se.

Agora, tinha a garganta estéril. Sem nenhuma palavra em quilômetros.

Seu irmão, segurando o joelho, desapareceu.

Após uma pausa abortada, a mulher do prefeito deu um passinho à frente e apanhou o livro. Estava machucada e abatida, e não por sorrir, dessa vez. Liesel pôde vê-lo em seu rosto. Havia sangue a lhe escorrer do nariz e lhe empastar os lábios. Seus olhos tinham-se arroxeado. Cortes se abriram e uma série de ferimentos aflorou à superfície da pele. Tudo por causa das palavras. Das palavras de Liesel.

De livro na mão e levantando do agachamento para uma postura encurvada, Ilsa Hermann reiniciou o processo de pedir desculpas, mas a frase não conseguiu sair.

Bata-me, pensou Liesel. Ande, me dê uma bofetada.

Ilsa Hermann não a esbofeteou. Meramente recuou para o ar pesado de sua linda casa, e Liesel, mais uma vez, ficou sozinha, agarrada aos degraus. Sentiu medo de se virar, porque sabia que, quando o fizesse, a redoma de Molching estaria estilhaçada, e ela se alegraria com isso,

 

Como sua última tarefa, ela leu a carta mais uma vez e, ao chegar perto do portão, amassou-a com toda a força que tinha e a atirou na porta, como se fosse uma pedra. Não faço idéia do que esperava a menina que roubava livros, mas a bola de papel atingiu a sólida folha de madeira e voltou tremelicando escada abaixo. Parou a seus pés.

—        É típico — disse Liesel, chutando-a na grama. — Inútil.

A caminho de casa, dessa vez, imaginou o destino daquele papel na próxima chuva, quando a estufa remendada de Molching virasse de pernas para o ar. Já podia ver as palavras se dissolvendo, letra a letra, até não sobrar mais nada. Só papel. Apenas terra.

Em casa, quis a sorte que, quando Liesel cruzou a porta, Rosa estivesse na cozinha.

—        E então? — perguntou. — Onde está a roupa?

—        Hoje não tem roupa — disse Liesel.

Rosa foi sentar-se à mesa da cozinha. Ela sabia. De repente, pareceu muito mais velha. Liesel imaginou que aparência teria se soltasse o coque e deixasse o cabelo cair sobre os ombros. Uma toalha cinzenta de cabelo elástico.

—        Que foi que você fez lá, sua Saumenschzinha?

A frase soou desanimada. Rosa não conseguiu temperá-la com o veneno habitual.

—        Foi minha culpa — respondeu Liesel. — Completamente. Insultei a mulher do prefeito e mandei ela parar de chorar o filho morto. Chamei-a de ridícula. Foi nessa hora que eles despediram você. Tome — acrescentou. Dirigiu-se às colheres de pau, pegou um punhado delas e as colocou diante de Rosa. — E só escolher.

Rosa pegou uma delas, mas não a brandiu.

—        Não acredito em você.

Liesel sentiu-se dilacerar entre a aflição e a completa perplexidade. Na única vez em que queria desesperadamente uma Watschen, não a conseguia!

—        A culpa é minha.

—        Não é sua culpa — disse a mãe, que até se levantou e afagou o cabelo lustroso e sem lavar de Liesel. — Sei que você não diria essas coisas.

—        Mas eu disse!

—        Está bem, você disse.

Ao sair da cozinha, Liesel ouviu as colheres de pau clicarem de volta no lugar, no pote de metal que as guardava. Quando chegou ao quarto, o lote inteiro, inclusive o pote, foi atirado no chão.

Mais tarde, ela desceu ao porão, onde Max estava de pé no escuro, provavelmente boxeando com o Führer.

—        Max?

A luz aumentou um pouco — uma moeda vermelha flutuando no canto. -— Pode me ensinar a fazer flexões?

Max mostrou-lhe como era e, em alguns momentos, levantou o tronco de Liesel para ajudar, mas, apesar da aparência ossuda, ela era forte e sustentava bem o peso do corpo. Não contou quantas conseguiu fazer, mas, naquela noite, na luz pálida de porão, a roubadora de livros fez flexões suficientes para ficar dolorida por vários dias Mesmo quando Max lhe avisou que ela já fizera demais, a menina continuou.

Na cama, leu com o pai, que percebeu haver algo errado. Era a primeira vez que se sentava com ela em um mês, e isso a consolou, nem que fosse um tantinho. De algum modo, Hans Hubermann sempre sabia o que dizer, quando ficar e quando deixá-la sozinha. Talvez Liesel fosse a única coisa em que ele era realmente perito.

—        Foi a roupa para lavar? — perguntou Hans.

Liesel balançou a cabeça.

Fazia alguns dias que o pai não se barbeava, e a cada dois ou três minutos esfregava os pêlos prudentes. Seus olhos de prata estavam foscos e calmos, levemente calorosos, como sempre ficavam quando se tratava de Liesel.

Terminada a leitura, o pai adormeceu. Foi então que Liesel falou o que Tivera vontade de dizer o tempo todo.

—        Papai — murmurou -—, acho que eu vou para o inferno.

As pernas dela estavam quentes. Os joelhos, frios.

Ela se lembrou das noites em que havia urinado na cama e o pai lavara os lençóis e lhe ensinara as letras do alfabeto. Agora, a respiração dele soprava o cobertor e a menina beijou-lhe o rosto que arranhava.

—        Você precisa fazer a barba — disse-lhe.

—        E você não vai para o inferno — respondeu o pai.

Por alguns momentos, ela observou seu rosto. Depois, tornou a se deitar, encostou-se nele e, juntos, os dois dormiram, bem nos arredores de Munique, mas em algum ponto da sétima face do dado da Alemanha.

 

A JUVENTUDE DE RUDY

No fim, ela teve que dar a mão à palmatória. Ele sabia representar.

RETRATO DE RUDY STEINER:

JULHO DE 1941

Fios de lama grudam-se em seu rosto.

Sua gravata é um pêndulo, morto há muito no relógio.

Seu cabelo cor de limão, iluminado pela lamparina,

é desgrenhado, e ele exibe um absurdo sorriso tristonho.

O menino parou a alguns metros do degrau e falou com grande convicção, grande alegria.

— Alies ist Scheisse — anunciou. É tudo uma merda.

No primeiro semestre de 1941, enquanto Liesel tratava de esconder Max Vandenburg, furtar jornais e desancar mulheres de prefeitos, Rudy suportava sua própria vida nova na Juventude Hitlerista. Desde o começo de fevereiro, voltava das reuniões em estado consideravelmente pior do que havia entrado. Em muitos desses trajetos de volta, Tommy Müller vinha a seu lado, nas mesmas condições. O problema tinha três componentes.

 

• UM PROBLEMA TRÍPLICE •

1. Os ouvidos de Tommy Müller.

2. Franz Deutscher, o irado guia da Juventude Hitlerista.

3. A incapacidade de Rudy de ficar fora das confusões.

Ah, se Tommy Müller não tivesse sumido por sete horas num dos dias mais frios da história de Munique, seis anos antes! Suas infecções auditivas e sua lesão no nervo continuavam a deturpar o padrão de marcha da Juventude Hitlerista, o que, posso lhe assegurar, não era uma coisa positiva.

A princípio, o declínio do entusiasmo foi gradativo, mas, com o correr dos meses, Tommy passou a colher sistematicamente a ira dos guias da Juventude Hitlerista, especialmente quando se tratava de marchar. Lembra-se do aniversário de Hitler no ano anterior? Por algum tempo, as infecções no ouvido pioraram. Chegaram a um ponto em que Tommy ficou com autênticos problemas auditivos. Não conseguia entender os comandos gritados para o grupo, ao marchar enfileirado. Não fazia diferença se era no salão ou ao ar livre, na neve ou na lama, ou sob a fustigação da chuva.

O objetivo era sempre o de todos fazerem alto ao mesmo tempo.

—        Um único clique! — diziam-lhes. — E só isso que o Führer quer ouvir. Todos unidos. Todos juntos, como um só!

E Tommy.

Era seu ouvido esquerdo, eu acho. Esse era o mais problemático dos dois e, quando o grito penetrante de "Alto!" feria os ouvidos de todos os demais, Tommy continuava a marchar, cômica e desatentamente. Era capaz de transformar uma fileira em marcha numa barafunda, num piscar de olhos.

Em determinado sábado, no começo de julho, pouco depois das três e meia e de uma sucessão de tentativas fracassadas de marchar, inspiradas em Tommy, Franz Deutscher (o supremo sobrenome para o supremo adolescente nazista) perdeu completamente a paciência.           — Müller, du Affe!— gritou. Sua densa cabeleira loura massageava-lhe a cabeça, enquanto suas palavras manipulavam o rosto de Tommy. — Seu macaco, qual é o seu problema?

Tommy encurvou-se, temeroso, mas sua bochecha esquerda ainda conseguiu repuxar-se numa contorção maníaca e animada. Ele parecia não apenas rir um risinho triunfal de chacota, como aceitar o carão com alegria. E Franz Deutscher não estava disposto a nada daquilo. Seus olhos pálidos estraçalharam Tommy.

—        Bem? — perguntou. — O que você tem a dizer a seu favor?

O tique de Tommy só fez aumentar, em rapidez e profundidade.

—        Está zombando de mim?

—        Heil — contorceu-se Tommy, numa tentativa desesperada de obter aprovação, mas não conseguiu chegar ao "Hitler".

Foi então que Rudy se adiantou. Enfrentou Franz Deutscher, erguendo os olhos para ele.

—        Ele tem um problema, senhor...

—        Isso eu estou vendo!

—        ...nos ouvidos — concluiu Rudy. — Ele não...

—        Está bem, já chega — fez Deutscher, esfregando as mãos. — Vocês dois: seis voltas no campo.

Eles obedeceram, mas não com rapidez suficiente.

—        Schnell! — perseguiu-os a voz de Deutscher.

Completadas as seis voltas, os dois receberam ordens de fazer uma série de exercícios, do tipo correr, agachar, levantar e agachar de novo e, após quinze longuíssimos minutos, ouviram a ordem de ir para o chão, pelo que deveria ser a última vez.

Rudy olhou para baixo.

Um círculo torto de lama lhe sorriu.

Para que é que está olhando?, parecia perguntar.

—        No chão! — ordenou Franz.

Naturalmente, Rudy saltou por cima dela e caiu de bruços.

—        De pé! — sorriu Franz. — Um passo atrás — e obedeceram. — No chão!

Agora a mensagem estava clara, e Rudy a aceitou. Mergulhou na lama e prendeu, respiração e, nesse momento, com a orelha na terra encharcada, o exercício acabou;

—        Vielen Dank, meine Herren — disse Franz Deutscher, polidamente. Muito obrigado, meus senhores.

Rudy pôs-se de joelhos, escavacou um pouco a orelha e olhou para Tommy. Tommy fechou os olhos e careteou.

Quando os dois voltaram para a Rua Himmel nesse dia, Liesel pulava amarelinha com algumas crianças menores, ainda usando seu uniforme da BDM. Pelo canto do olho, ela viu as duas figuras melancólicas andando em sua direção. Uma delas a chamou.

Encontraram-se na escada da frente da casa dos Steiner, aquela caixa de sapatos de concreto, e Rudy lhe contou tudo sobre o episódio do dia.

Após dez minutos, Liesel sentou-se.

Após onze minutos, sentado ao lado dela, Tommy disse:

—        Foi tudo culpa minha — mas Rudy descartou-o com um gesto, num ponto qualquer entre a frase e o sorriso, cortando pela metade uma tira de lama. — Foi mi... — tentou Tommy outra vez, mas Rudy interrompeu a frase por completo e lhe apontou um dedo.

—        Tommy, por favor.

Havia uma expressão peculiar de contentamento no rosto de Rudy. Liesel Nunca tinha visto ninguém tão infeliz, mas tão completamente vivo.

—        Fique sentadinho aí e... faça uma careta ou qualquer coisa — e continuou a história.

Andou de um lado para outro.

Brigou com a gravata,

As palavras foram lançadas em Liesel, caindo em algum ponto do degrau de concreto.

—        Aquele tal de Deutscher — resumiu, animado. — Ele nos pegou, hein. Tommy?

Tommy assentiu com a cabeça, fez outro espasmo e falou, não necessariamente nessa ordem:

—        Foi por minha causa.

—        Tommy, que foi que eu disse?

—        Quando?

—        Agora! Fique quieto.

—        É claro, Rudy.

Quando Tommy voltou sorumbático para casa, um pouco depois, Rudy experimentou o que parecia ser uma nova tática magistral.

A piedade.

Na escada, investigou a lama que secara como uma crosta sobre o uniforme e lançou um olhar desamparado a Liesel.

—        Que tal, Saumensch?

—        Que tal o quê?

—        Você sabe...

Liesel reagiu da maneira usual.

—        Saukerl — riu, e percorreu o pequeno trajeto para casa. Uma mescla desconcertante de lama e piedade era uma coisa, mas beijar Rudy Steiner era outra, inteiramente diferente.

Com um sorriso tristonho na escada, ele gritou para a menina, enfiando a mão pelo cabelo:

—        Um dia — alertou-a. — Um dia, Liesel!

No porão, pouco mais de dois anos depois, às vezes Liesel doía de vontade de ir à casa ao lado e vê-lo, mesmo quando escrevia nas primeiras horas da madrugada. Também se deu conta de que, provavelmente, aqueles dias encharcados na Juventude Hitlerista é que haviam alimentado o desejo de cometer crimes de Rudy e, posteriormente, o dela.

Por fim, a despeito das chuvaradas de praxe, o verão começou a chegar como convinha. As maçãs Klar deviam estar amadurecendo. Havia mais furtos a praticar.

 

OS AZARADOS

Em matéria de furto, Liesel e Rudy encasquetaram primeiro a idéia de que a segurança estava na quantidade. Andy Schmeikl os convidou para uma reunião à margem do rio. Entre outras coisas, estaria em pauta uma estratégia para roubar frutas.

—        Quer dizer que, agora, é você o chefe? — perguntou Rudy, mas Andy abanou a cabeça, carregado de decepção. Estava claro que gostaria de ter cacife para isso.

—        Não — disse, e sua voz fria tinha um calor inusitado. Mal pensado. — Há uma outra pessoa.

 

• O NOVO ARTHUR BERG •

Ele tinha cabelos esvoaçantes e olhos enevoados,

e era o tipo de delinqüente que

não tinha outra razão para roubar,

exceto o fato de que gostava disso.

Seu nome era Viktor Chemmel.

Ao contrário da maioria das pessoas dedicadas às várias artes da ladroagem, Viktor Chemmel tinha tudo. Morava na melhor parte de Molching, no alto, numa mansão que fora fumigada depois de os judeus serem expulsos. Tinha dinheiro. Tinha cigarros. Porém, o que queria era mais.

—        Não é crime querer um pouquinho mais — afirmava, deitado de costas na grama, com uma patota de meninos a seu redor. — Querer mais é nosso direito fundamental, como alemães. Que diz o nosso Führer? perguntava, e respondia a sua própria retórica: — Devemos tomar o que é nosso por direito.

A primeira vista, Viktor Chemmel era, claramente, o típico adolescente cheio de conversa fiada. Infelizmente, quando se dispunha a revelá-lo, possuía também um certo carisma, uma espécie de siga-me.

Quando Liesel e Rudy se aproximaram do grupo à margem do rio, ela o ouviu fazer outra pergunta:

—        E onde estão os dois desviantes de que você anda se gabando? Já são quatro e dez.

—        Não no meu relógio — respondeu Rudy.

Viktor Chemmel apoiou-se num dos cotovelos.

—        Você não está de relógio.

—        Eu estaria aqui, se fosse rico o bastante pra ter um relógio?

O novo chefe acabou de sentar-se e sorriu, com uma fileira de dentes brancos. Em seguida, voltou seu foco displicente para a menina.

—        E quem é a putinha?

Muito acostumada aos insultos verbais, Liesel apenas observou a textura nublada dos olhos de Viktor.

—        Ano passado — listou ela — roubei pelo menos trezentas maçãs e dezenas de batatas. Não tenho dificuldade com cercas de arame farpado e posso ficar à altura de qualquer um aqui.

—        É mesmo?

—        É.

Ela não se encolheu nem se afastou.

—        Só peço uma pequena parte do que pegarmos. Uma dúzia de maçãs aqui ou ali. Umas sobras para mim e meu amigo.

—        Bem, acho que isso pode se arranjar — disse Viktor. Acendeu um cigarro e o levou à boca. Fez um esforço deliberado para soprar a tragada seguinte no rosto de Liesel.

Ela não tossiu.

Era o mesmo grupo do ano anterior, com a única exceção do chefe. Liesel se perguntou por que nenhum dos outros meninos havia assumido o comando, mas, olhando de um rosto para outro, percebeu que nenhum deles levava jeito. Eles não tinham escrúpulos de roubar, mas precisavam ser mandados. Gostavam de ser mandados, e Viktor Chemmel gostava de mandar. Era um belo microcosmo.

Por um momento, Liesel ansiou pelo ressurgimento de Arthur Berg. Ou será que também ele se submeteria à liderança de Chemmel? Não tinha importância. Liesel só sabia é que não havia um único osso tirânico no corpo de Arthur Berg, ao passo que o novo chefe tinha centenas deles. No ano anterior, ela soubera que, se ficasse presa numa árvore, Arthur voltaria para buscá-la, mesmo dizendo que não. Nesse ano, em comparação, soube instantaneamente que Viktor Chemmel nem se incomodaria em olhar para trás.

 Chemmel ficou ali, olhando para o menino desengonçado e a menina de aparência desnutrida.

—        Quer dizer que vocês querem roubar comigo?

Que tinham a perder? Fizeram que sim.

Ele chegou mais perto e segurou o cabelo de Rudy:

—        Eu quero ouvir.

—        Decididamente — disse Rudy, antes de ser empurrado de volta pela franja.

—        E você?

—        É claro.

Liesel foi rápida o bastante para evitar o mesmo tratamento. Viktor sorriu. Pisoteou o cigarro, respirou fundo e coçou o peito.

—        Meus senhores, minha cadela, parece que é hora de irmos às compras.

Quando o grupo saiu andando, Liesel e Rudy ficaram para trás, como sempre tinham feito no passado.

—        Você gostou dele? — murmurou Rudy.

—        E você?

Rudy fez uma breve pausa.

—        Acho que ele é um perfeito cretino.

—        Eu também.

O grupo já se afastava.

—        Vamos — disse Rudy. — Estamos ficando para trás.

Após alguns quilômetros, chegaram à primeira fazenda. O que os recebeu foi um choque. As árvores, que eles haviam imaginado carregadas de frutas, eram frágeis e tinham uma aparência machucada, apenas com um punhadinho de maçãs miseráveis pendendo de cada galho. A fazenda seguinte foi a mesma coisa. Talvez fosse uma estação ruim, ou eles não tivessem acertado o momento.

No fim da tarde, ao ser distribuído o produto do roubo, Liesel e Rudy receberam uma maçã diminuta para dividir. Com toda a justiça, os lucros tinham sido incrivelmente precários, mas Viktor Chemmel também tinha a mão mais fechada.

—        Que nome eu dou a isso? — perguntou Rudy, com a maçã pousada na palma da mão.

Viktor nem se virou.

—        O que lhe parece?

As palavras foram jogadas por cima do ombro.

—        Uma porcaria de maçã?

—        Tome — e outra maçã, parcialmente comida, também foi jogada na direção deles, caindo na terra com a parte comida para baixo. — Vocês também podem ficar com essa.

Rudy enfureceu-se.

—        Pro diabo com isso! Não andamos quinze quilômetros por uma maçã esquelética e meia, não é, Liesel?

Liesel não respondeu.

Não teve tempo, porque Viktor Chemmel montou em Rudy antes que ela conseguisse proferir uma palavra. Seus joelhos imobilizaram os braços do menino e ele lhe pôs as mãos no pescoço. As maçãs foram catadas por ninguém menos do que Andy Schmeikl, a pedido de Viktor.

—        Você está machucando ele — disse Liesel.

—        Estou? — e Viktor voltou a sorrir.

Ela odiava aquele sorriso.

—        Ele não está me machucando — precipitaram-se as palavras de Rudy, cujo rosto se avermelhava com o esforço. Seu nariz começou a sangrar.

Após um ou dois instantes de aumento da pressão, Viktor o soltou e saiu de cima dele, dando alguns passos descuidados.

—        Levante, garoto — disse, e Rudy, fazendo a opção sensata, obedeceu.

Viktor aproximou-se de novo, com displicência, e o encarou. Deu-lhe uma esfregada de leve no braço. E um sussurro:

—        A não ser que queira que eu transforme esse sangue numa fonte, sugiro que você vá embora, garotinho.

Olhou para Liesel:

—        E leve a putinha com você. Ninguém se mexeu.

—        Bom, o que estão esperando?

Liesel pegou a mão de Rudy e os dois se foram, não sem que Rudy se virasse pela última vez e cuspisse sangue e saliva nos pés de Viktor Chemmel. O que provocou um último comentário.

 

• UMA PEQUENA AMEAÇA DE •

VIKTOR CHEMMEL A RUDY STEINER

— Você pagará por isso depois, meu amigo.

Digam o que disserem de Viktor Chemmel, ele com certeza tinha paciência e boa memória. Levou aproximadamente cinco meses para transformar sua afirmação em realidade.

 

DESENHOS

Se o verão de 1941 estava erigindo muros ao redor de gente como Rudy e Liesel, ele se escreveu e se pintou na vida de Max Vandenburg. Em seus momentos mais solitários no porão, as palavras começaram a se amontoar a seu redor. As visões começaram a jorrar e cair e, vez por outra, a sair coxeando de suas mãos.

Max dispunha do que chamava de apenas uma raçãozinha de instrumentos:

Um livro pintado

Um punhado de lápis.

Uma cabeça cheia de idéias.

Como um simples quebra-cabeça, juntou-as.

Originalmente, Max havia pretendido escrever sua história.

A idéia era escrever sobre tudo que lhe acontecera — tudo que o tinha levado a um porão na Rua Himmel —, mas não foi isso que saiu. O exílio de Max produziu algo inteiramente diverso. Era uma coleção de idéias ao acaso, e ele escolheu abraçá-las. Soavam verdadeiras. Eram mais reais do que as cartas que ele escrevia aos familiares e a seu amigo Walter Kugler, sabendo perfeitamente que nunca poderia enviá-las. As páginas profanadas de Mein Kampf foram-se transformando numa série de desenhos, página após página, que resumiam, para ele, os acontecimentos que haviam trocado sua vida anterior por outra. Alguns levaram minutos. Outros, horas. Ele resolveu que, quando terminasse o livro, iria dá-lo a Liesel, quando ela tivesse idade suficiente e quando, ao que Max esperava, todo aquele absurdo houvesse acabado.

 A partir do momento em que testou os lápis na primeira página pintada, o judeu manteve o livro permanentemente fechado. Muitas vezes, ele ficava junto de Max, ou ainda em suas mãos quando o rapaz dormia.

Uma tarde, depois das flexões e abdominais, ele adormeceu, encostado na parede do porão. Quando Liesel desceu, encontrou o livro pousado ao lado dele, inclinado sobre sua coxa esquerda, e foi vencida pela curiosidade. Inclinou-se e o pegou, esperando que Max se mexesse. Não se mexeu. Estava sentado com a cabeça e os ombros encostados na parede. Liesel mal pôde discernir o som de sua respiração, deslizando para dentro e para fora dele, quando abriu o livro e vislumbrou algumas páginas ao acaso...

Assustada com o que viu, Liesel repôs o livro no lugar, exatamente como o encontrara, encostado na perna de Max. Uma voz a assustou.

—        Danke schön — disse a voz, e, quando a menina olhou, seguindo o rastro do som até seu dono, havia um pequeno toque de satisfação nos lábios do judeu.

—        Nossa! — arquejou a menina. — Você me assustou, Max.

Ele voltou a dormir e, ao subir a escada, Liesel arrastou consigo a mesma idéia. Você me assustou, Max.

 

O ASSOBIADOR E  OS  SAPATOS

O mesmo padrão se manteve até o fim do verão e em boa parte do outono. Rudy fez o melhor que pôde para sobreviver à Juventude Hitlerista. Max fez flexões e desenhos. Liesel encontrou jornais e escreveu palavras na parede do porão.

Também vale a pena mencionar que todo padrão tem ao menos um pequeno viés, que um dia se inclina ou cai de uma página para outra. Nesse caso, o fator dominante foi Rudy. Ou, pelo menos, Rudy e um campo de esportes recém-adubado.

No fim de outubro, tudo parecia o de praxe. Um menino imundo descia a Rua Himmel. Em poucos minutos, a família aguardaria a sua chegada e ele mentiria, dizendo que todos em sua divisão da Juventude Hitlerista tinham feito exercícios extras no campo. Seus pais até esperariam algumas risadas. Que não viriam.

Nesse dia, Rudy havia esgotado inteiramente os risos e mentiras.

Nessa exata quarta-feira, ao olhar mais de perto, Liesel percebeu que Rudy Steiner estava sem camisa. E furioso.

—        Que aconteceu? — perguntou-lhe, quando ele passou se arrastando. Rudy retrocedeu e lhe estendeu a camisa.

—        Cheire — disse.

—        O quê?

—        Você está surda? Eu disse para cheirar.

Relutante, Liesel se inclinou e captou um bafejo pavoroso cla camisa parda.

—        Jesus, Maria e José! Isso é...?

O menino acenou que sim,

 —       Também está no meu queixo. No meu queixo! Foi sorte eu não tê-lo engolido!

—        Jesus, Maria e José.

—        O campo da Juventude Hitlerista acabou de ser adubado.

Rudy fez outra avaliação desanimada e enojada da camisa:

—        É estrume de boi, eu acho.

—        Aquele tal de, como se chama, Deutscher, sabia do estrume?

—        Disse que não. Mas estava rindo.

—        Jesus, Maria e...

—        Quer parar de dizer isso?!

O que Rudy precisava, àquela altura, era de uma vitória. Saíra perdendo no trato com Viktor Chemmel. Suportara um problema após outro na Juventude Hitlerista. Tudo que queria era uma nesguinha de triunfo, e estava determinado a consegui-la.

Continuou a andar para casa, mas, ao chegar ao degrau de concreto, mudou de idéia e voltou para a menina, devagar e deliberadamente.

Com cuidado e baixinho, falou:

—        Sabe o que me animaria?

Liesel encolheu-se.

—        Se está pensando que eu vou... nesse estado...

Rudy pareceu desapontado com ela.

—        Não, não é isso — suspirou, chegando mais perto. — É outra coisa.

Após um momento de reflexão, levantou a cabeça, só um tantinho.

—        Olhe para mim. Estou imundo. Fedendo a cocô de boi, ou cocô de cachorro, conforme a sua opinião, e, como de praxe, estou absolutamente morto de fome — e fez uma pausa. — Preciso de uma vitória, Liesel. Sinceramente.

Liesel sabia.

Teria chegado mais perto, não fosse o cheiro dele.

Roubar.

Eles tinham que roubar alguma coisa.

Não.

Tinham que roubar de volta alguma coisa. Não importava o quê. Mas precisava ser logo.

—        Só você e eu, desta vez — sugeriu Rudy. — Nada de Chemmels nem Schmeikls. Só você e eu.

A menina não pôde resistir.

Suas mãos comichavam, seu pulso disparou e sua boca sorriu, tudo ao mesmo tempo.

—        Boa idéia.

—        Então, está combinado — e, embora tentasse evitar, Rudy não conseguiu esconder o sorriso adubado que se alargou em seu rosto. — Amanhã?

Liesel fez que sim.

—        Amanhã.

O plano era perfeito, exceto por um detalhe:

Eles não tinham idéia de onde começar.

As frutas estavam fora de questão. Rudy torceu o nariz para as cebolas e as batatas, e os dois barraram a idéia de outro assalto a Otto Sturm e sua bicicleta de mantimentos. Uma vez era imoral. Duas eram uma completa canalhice.

—        Então, prá onde diabos nós vamos? — perguntou Rudy.

—        Como é que eu vou saber? A idéia foi sua, não foi?

—        Isso não significa que você também não deva pensar um pouquinho. Não posso pensar em tudo.

—        Você mal consegue pensar em alguma coisa...

Os dois continuaram a discutir enquanto percorriam a cidade. Nos arredores, observaram a primeira fazenda e as árvores que pareciam estátuas emaciadas. Os galhos eram cinzentos e, quando eles olharam para cima, não havia nada além de membros esfarrapados e um céu vazio.

Rudy cuspiu.

Tornaram a cruzar Molching, fazendo sugestões:

—        Que tal Frau Diller?

—        O que tem ela?

—        Talvez, se dissermos "heil Hitler" e aí roubarmos alguma coisa, dê tudo certo.

Depois de vagarem pela Rua Munique durante cerca de uma hora, a luz do dia começou a esmaecer e eles estavam prestes a desistir.

—        Não adianta — disse Rudy — e estou com mais fome do que nunca. Estou morrendo de fome, pelo amor de Deus.

Deu mais doze passos antes de parar e virar para trás.

—        Que há com você?

É que Liesel estava completamente imóvel, e havia um instante de reconhecimento amarrado em seu rosto.

Por que não havia pensado nisso antes?

—        O que foi? — insistiu Rudy, impacientando-se. — Saumensch, que está havendo?

Nesse exato momento, Liesel viu-se diante de uma decisão. Poderia de fato levar a cabo aquilo em que estava pensando? Seria mesmo capaz de se vingar de uma pessoa desse jeito? Era possível que desprezasse alguém tanto assim?

Começou a andar na direção oposta. Quando Rudy a alcançou, ela diminuiu um pouco o passo, na vã esperança de enxergar comum pouco mais de clareza. Afinal, a culpa já estava presente. Era úmida. A semente já desabrochava numa flor de folhas escuras. Ela ponderou se realmente conseguiria levar aquilo a cabo. Num cruzamento, parou.

—        Sei de um lugar.

Encaminharam-se para o rio e subiram a colina.

Na Grande Strasse, absorveram o esplendor das casas. As portas de entrada reluziam, polidas, e as telhas nos telhados acomodavam-se feito perucas, penteadas à perfeição. As paredes e janelas eram manicuradas, e as chaminés quase exalavam anéis de fumaça. Rudy fincou os pés.

—        A casa do prefeito?

Liesel acenou com a cabeça, a sério. Pausa.

—        Eles despediram minha mãe.

Ao dobrarem a esquina em direção à casa, Rudy perguntou como iriam entrar, em nome de Deus, mas Liesel sabia.

—        Conhecimento do local — respondeu ela. — Conhec...

Mas então conseguiram enxergar a janela da biblioteca, no extremo oposto da casa, e Liesel foi saudada por um choque. A janela estava fechada.

—        E aí? — perguntou Rudy.

Liesel fez meia-volta devagar e saiu correndo.

—        Hoje não — disse. Rudy riu.

—        Eu sabia — comentou, alcançando-a. — Eu sabia, sua Saumensch nojenta. Você não conseguiria entrar lá nem que tivesse a chave.

—        Quer dar licença? — disse ela. Apertou ainda mais o passo e descartou o comentário de Rudy. — Só temos que esperar a oportunidade certa.

Internamente, procurou livrar-se de uma espécie de alegria pelo fato de a janela estar fechada. Censurou-se com aspereza. Por quê, Liesel?, perguntou a si mesma. Por que você tinha que explodir quando despediram a mamãe? Por que não podia ficar com essa sua matraca fechada? Ao que você saiba, agora a mulher do prefeito está completamente reformada, depois de você gritar e berrar com ela. Talvez tenha se aprumado, tenha se recuperado. Pode ser que nunca mais se permita ficar tremendo naquela casa e que a janela permaneça fechada para sempre... Sua Saumensch idiota!

Uma semana depois, entretanto, na quinta visita à parte alta de Molching, lá estava ela.

A janela aberta, inspirando uma fatia de ar fresco. Era o quanto bastava.

Foi Rudy quem parou primeiro. Cutucou Liesel nas costelas, com o dorso da mão.

—        Aquela janela está aberta? — murmurou. A ansiedade em sua voz pendeu-lhe da boca, como um braço no ombro de Liesel.

—        Jawohl — respondeu. Com certeza.

E como seu coração começou a esquentar!

 

Em cada uma das ocasiões anteriores, ao depararem com a janela firmemente trancada, a decepção aparente de Liesel havia mascarado um alívio feroz. Teria mesmo peito para entrar? E para quem e por que entraria, na verdade? Para Rudy? Para procurar comida?

Não. A verdade repugnante era esta:

Liesel não se incomodava com a comida. Rudy, por mais que ela tentasse resistir à idéia, era secundário em seu plano. Era o livro que ela queria. O Assobiador. Não suportaria que ele lhe fosse dado por uma velha solitária e patética. Roubá-lo, por outro lado, parecia um pouco mais aceitável. Roubá-lo, em certo sentido doentio, era como merecê-lo.

A luz ia mudando em blocos de sombras.

O par se aproximou da casa maciça e imaculada. Sussurrou seus pensamentos.

—        Está com fome? — perguntou Rudy.

—        Faminta — fez Liesel. Por um livro.

—        Olhe, acabou de acender uma luz lá em cima.

—        Estou vendo.

—        Continua faminta, Saumensch?

Deram uma risada nervosa por um instante, antes de entrarem na discussão sobre quem deveria entrar e quem deveria vigiar. Como homem da operação, Rudy claramente achava que devia ser ele o agressor, mas era óbvio que Liesel conhecia o lugar. Ela é que entraria. Sabia o que havia do outro lado da janela.

E foi o que disse.

—        Tenho que ser eu.

Liesel fechou os olhos. Com força.

Obrigou-se a lembrar, a visualizar o prefeito e sua mulher. Fitou a amizade feita com Ilsa Hermann e se certificou de lhe dar um chute nas canelas e deixá-la à beira da estrada. Funcionou. Ela detestava os dois.

Eles examinaram a rua e atravessaram o pátio em silêncio. Agacharam-se embaixo da fresta da janela do térreo. O som de sua respiração aumentou.

—        Dê seus sapatos aqui — disse Rudy. — Você fará menos barulho.

Sem reclamar, Liesel desatou os surrados cadarços pretos e deixou os sapatos no chão. Levantou-se e Rudy abriu suavemente a janela, apenas o bastante para que a menina a pulasse. O barulho passou sobre suas cabeças como um avião voando baixo.

Liesel soergueu-se no parapeito e pelejou até conseguir entrar. Tirar os sapatos, percebeu, tinha sido uma idéia brilhante, já que ela aterrissou no piso de madeira com muito mais peso do que havia previsto. As solas dos pés expandiram-se dolorosamente, pressionando as bordas internas das meias.

A sala em si estava como sempre fora.

Na penumbra empoeirada, Liesel pôs de lado o sentimento de saudade. Avançou furtivamente e deixou seus olhos se adaptarem.

—        Que está havendo? — veio o sussurro forte de Rudy do lado de fora, mas ela o descartou com um gesto que significava Halt's Maul. Cale a boca.

—        A comida — lembrou-lhe o menino. — Ache a comida. E cigarros, se puder.

Mas esses dois artigos eram as últimas coisas na cabeça de Liesel. Ela estava à vontade, entre os livros de toda cor e descrição pertencentes ao prefeito, com suas letras prateadas e douradas. Sentia o cheiro das páginas. Quase conseguia provar as palavras empilhadas a seu redor. Seus pés a levaram à parede da direita. Ela sabia qual livro queria — sua posição exata —, mas, ao chegar ao lugar costumeiro do Assobiador na prateleira, ele não estava lá. Em seu lugar havia um espaço estreito.

Lá em cima, Liesel ouviu passos.

—        A luz! — sussurrou Rudy. As palavras foram atiradas pela janela aberta. — Apagou!

—        Scheisse.

—        Estão descendo.

Veio então a duração gigantesca de um momento, a eternidade de uma decisão em fração de segundo. Os olhos da menina vasculharam a sala e ela viu O Assobiador, descansando pacientemente na escrivaninha do prefeito.

—        Depressa! — alertou Rudy. Com muita calma e precisão, no entanto, Liesel foi até a escrivaninha, pegou o livro e se encaminhou com cautela para a saída. De ponta-cabeça, pulou a janela e conseguiu novamente aterrissar de pé, voltando a sentir a pontada de dor, dessa vez nos tornozelos.

— Ande — implorou Rudy. — Corra, corra. Schnell!

Uma vez dobrada a esquina, na estrada que descia em direção ao rio e à Rua Munique, ela parou para se curvar e recobrar o fôlego. Ficou com o corpo dobrado ao meio, o ar semicongelado na boca e o coração badalando nos ouvidos.

Foi o mesmo com Rudy.

Ao olhá-la, ele viu o livro embaixo do braço de Liesel. Esforçou-se para falar.

—        Qual é — perguntou, lutando com as palavras — a do livro?

Agora a escuridão se adensava de verdade. Liesel arfou, enquanto o ar em sua garganta descongelava.

—        Foi só o que eu consegui achar.

Infelizmente, Rudy farejou tudo. A mentira. Inclinou a cabeça e declarou o que julgava ser a realidade.

—        Você não entrou para pegar comida, não foi? Conseguiu o que queria...

Liesel endireitou o corpo e se sentiu tomada pelo mal-estar de outra descoberta.

Os sapatos.

Olhou para os pés de Rudy, depois para suas mãos e para o chão em volta dele.

—        O quê? — perguntou ele. — O que foi?

—        Saukerl! — acusou-o Liesel. — Cadê meus sapatos?

O rosto de Rudy empalideceu, o que não lhe deixou nenhuma dúvida.

—        Ficaram na casa — sugeriu a menina —, não foi?

Rudy procurou desesperadamente a seu redor, implorando, contra toda a realidade, que os tivesse carregado. Imaginou-se apanhando-os, torcendo para que fosse verdade — mas os sapatos não estavam lá. Descansavam inutilmente — ou, o que cru muito pior, incriminadoramente — junto à parede do número 8 da Grande Strasse.

—        Dummkopf! — repreendeu-se o menino, dando um tapa no ouvido. Baixou os olhos, envergonhado, à visão soturna das meias de Liesel. — Idiota! — e não levou muito tempo para tomar a decisão de consertar as coisas. Compenetrado, disse: — Espere aí — e voltou correndo, dobrando a esquina.

—        Não se deixe apanhar! — gritou Liesel, mas ele não ouviu.

Foram pesados os minutos de sua ausência.

A escuridão já era completa e Liesel teve certeza da grande probabilidade de uma Watschen, reservada para quando chegasse em casa. — Depressa — murmurou, mas nada ainda de Rudy. Imaginou o som de uma sirene da polícia lançando-se no ar e se puxando de volta. Recolhendo-se.

E nada.

Só quando ela voltou para o cruzamento das duas ruas, com suas meias úmidas e sujas, foi que o viu. O rosto triunfante de Rudy estava bem erguido, enquanto ele avançava com passos saltitantes em sua direção. Os dentes rangiam num sorriso e os sapatos lhe pendiam da mão.

—        Quase me mataram — disse Rudy —, mas consegui.

Depois que os dois atravessaram o rio, entregou os sapatos a Liesel, que os deixou cair.

Sentando-se no chão, ergueu os olhos para seu melhor amigo.

—        Danke —- disse. Obrigada.

Rudy fez uma mesura: — O prazer é meu — e arriscou um pouco mais: — Nem adianta perguntar se ganho um beijo por isso, não é?

—        Por buscar meus sapatos, que você largou lá?

—        É justo — assentiu ele. Levantou as mãos e continuou a falar enquanto caminhavam, e Liesel fez um esforço deliberado para ignorá-lo. Só ouviu a última parte.

—        Provavelmente, eu não ia mesmo querer beijar você, não se o seu hálito for parecido com os seus sapatos.

—        Você me enoja — informou-lhe a menina, e torceu para que ele não visse os primórdios fugidios de um sorriso que lhe caía da boca.

Na Rua Himmel, Rudy pegou o livro. Sob um poste de luz, leu o título em voz, alta e perguntou sobre que seria.

Com ar sonhador, Liesel respondeu.

—        É só um assassino.

—        Só isso?

—        Tem também um policial que tenta pegá-lo.

Rudy devolveu o livro.

 —       Por falar nisso, acho que nós dois estamos meio fritos quando chegarmos em casa. Especialmente você.

—        Por que eu?

—        Você sabe... a sua mãe.

—  Que é que tem ela?

Liesel exercia o direito flagrante da pessoa que um dia fez parte de uma família. Está muito bem que essa pessoa resmungue e se lamurie e critique seus familiares, mas não permite que ninguém mais o faça. E nessa hora que você empertiga a coluna e demonstra lealdade.

—        Por acaso tem alguma coisa errada com ela?

Rudy recuou.

—        Desculpe, Saumensch. Não tive a intenção de ofender.

Mesmo à noite, Liesel podia perceber que Rudy estava crescendo. O rosto ia ficando mais comprido. A cabeleira loura escurecia só um tantinho e as feições pareciam estar mudando de forma. Porém havia uma coisa que nunca mudaria. Era impossível ficar zangada com ele por muito tempo.

— Alguma coisa boa pra comer na sua casa, hoje? — perguntou Rudy.

—        Duvido.

—        Eu também. É uma pena a gente não poder comer livros. O Arthur Berg disse uma coisa assim daquela vez. Lembra-se?

Os dois rememoraram os bons tempos no resto do caminho, e Liesel olhou várias vezes para O Assobiador, com sua capa cinza e o título impresso em tinta preta.

Antes que entrassem em suas respectivas casas, Rudy parou por um instante e disse:

—        Até logo, Saumensch — e riu. — Boa noite, roubadora de livros.

Era a primeira vez que Liesel se via marcada por seu título, e não pôde esconder que isso lhe agradou muito. Como nós dois sabemos, ela já tinha furtado livros, mas, no fim de outubro de 1941, a coisa se tornou oficial. Nessa noite, Liesel Meminger transformou-se verdadeiramente na menina que roubava livros.

 

TRÊS ATOS DE ESTUPIDEZ DE RUDY STEINER

• RUDY STEINER, PURO GÊNIO •

1. Roubou a maior batata da loja de Mamer, o merceeiro local.

2. Enfrentou Franz Deutscher

na Rua Munique.

3. Faltou a todas as reuniões

da Juventude Hitlerista.

O problema do primeiro ato de Rudy foi a gula. Era uma tarde tipicamente enfadonha de meados de novembro de 1941.

Mais cedo, ele havia costurado brilhantemente por entre as mulheres com seus cupons, eu quase diria que com um toque de genialidade criminal. Por pouco não passou inteiramente despercebido.

Por mais inconspícuo que fosse, no entanto, conseguiu apoderar-se da maior batata do lote — a mesmíssima que várias pessoas na fila andavam vigiando. Todas viram quando um punho de treze anos se ergueu e a agarrou. Um coro de Helgas pesadonas apontou para ele, e Thomas Mamer partiu esbaforido em direção ao fruto maculado.

—        Meine Erdäpfel — disse ele. Minhas batatas.

A batata ainda estava nas mãos de Rudy (que não conseguia segurá-la com uma só) e as mulheres juntaram-se em volta dele como um bando de lutadores. Fazia-se necessária uma fala rápida.

—        Minha família — Explicou Rudy. Um fluxo conveniente de líquido transparente começou a lhe escorrer do nariz. Ele fez questão de não secá-lo. — Estamos todos passando fome. Minha irmã precisa de um casaco novo. O último foi roubado.

Mamer não era bobo. Ainda segurando Rudy pelo colarinho, perguntou:

—        E você está planejando vesti-la com uma batata?

— Não, senhor — disse o menino, olhando em diagonal para o olho que conseguia ver de seu captor. Mamer era uma pipa de gordo, com dois buraquinhos de bala por onde enxergar. Tinha os dentes feito uma platéia de futebol, apinhados na boca. — Nós trocamos todos os cupons que tínhamos pelo casaco, há três semanas, e agora não temos nada para comer.

O merceeiro segurava Rudy com uma das mãos e a batata com a outra. Disse a palavra temida à sua mulher:

—        Polizei.

—        Não, por favor — implorou Rudy. Mais tarde, diria a Liesel que não sentira o menor medo, mas, naquele momento, tenho certeza de que seu coração estava prestes a explodir. — A polícia, não. Por favor, a polícia, não.

—        Polizei — repetiu Mamer, sem se deixar comover, enquanto o menino se debatia e dava socos no ar.

Quem também estava na fila nessa tarde era um professor, Herr Link. Fazia parte da percentagem de professores da escola que não eram padres nem freiras. Rudy o localizou e o abordou com o olhar.

—        Herr Link — chamou. Era sua última chance. — Herr Link, conte a ele, por favor. Diga a ele como sou pobre.

O merceeiro olhou para o professor com ar indagativo. Herr Link aproximou-se e disse:

—        Sim, Herr Mamer. Esse menino é pobre. É da Rua Himmel.

Nesse momento, a multidão, predominantemente composta de mulheres, conferenciou, ciente de que a Rua Himmel não era exatamente o epítome da vida idílica em Molching. Era bem conhecida como de um bairro relativamente pobre.

—        Ele tem oito irmãos.

Oito!

Rudy teve que prender o riso, embora ainda não estivesse livre. Pelo menos, agora fizera o professor mentir. De algum modo, Herr Link havia conseguido acrescentar mais três filhos à família Steiner.

—        Muitas vezes, ele chega à escola sem o café-da-manhã — prosseguiu, e a multidão de mulheres voltou a conferenciar. Parecia uma demão de tinta sobre a situação, acrescentando um pouquinho mais de potência e clima.

—        E isso significa que ele deve ter permissão para roubar minhas batatas?

—        A maior de todas! — exclamou uma das mulheres.

—        Fique quieta, Frau Metzing — alertou-a Mamer, e ela se acalmou rapidamente.

No começo, todas as atenções concentraram-se em Rudy e seu cangote. Em seguida, deslocaram se de um lado para outro, do menino para a batata e para Mamer — da aparência melhor para a pior — e exatamente o que foi que levou o merceeiro a decidir a favor de Rudy ficaria para sempre sem resposta.

Teria sido a natureza patética do menino?

A dignidade de Herr Link?

A chatice de Frau Metzing?

Fosse o que fosse, Mamer repôs a batata na pilha e arrastou Rudy para fora de sua loja. Deu-lhe um bom pontapé com a bota direita e disse:

—        Não volte aqui.

De fora, Rudy ficou observando Mamer voltar ao balcão e servir mantimentos e sarcasmo a sua freguesa seguinte:

—        Eu me pergunto que batata a senhora vai pedir — disse ele, ainda com um olho no menino.

Para Rudy, foi mais um fracasso.

 

O segundo ato de estupidez foi igualmente perigoso, mas por razões diferentes.

Rudy terminaria essa altercação específica com um olho roxo, umas costelas quebradas e um corte de cabelo.

Mais uma vez, nas reuniões da Juventude Hitlerista, Tommy Müller vinha tendo seus problemas, e Franz Deutscher só estava à espera de que Rudy se metesse. Não demorou muito.

Rudy e Tommy receberam outra sessão completa de exercícios, enquanto os demais entravam para aprender tática. Ao correrem na friagem, eles viam pelas janelas as cabeças e ombros aquecidos. Mesmo quando se juntaram ao resto do grupo, os exercícios não acabaram propriamente. Assim que Rudy desabou num canto e salpicou lama de sua manga na janela, Franz disparou-lhe a pergunta predileta da Juventude Hitlerista.

—        Em que dia nasceu o nosso Führer, Adolf Hitler? Rudy ergueu os olhos:

—        Perdão?

A pergunta foi repetida e o estupidíssimo Rudy Steiner, que sabia perfeitamente que tinha sido em 20 de abril de 1889, respondeu com a data de nascimento de Cristo. Incluiu até Belém, de quebra, como uma informação adicional.

Franz esfregou as mãos.

Péssimo sinal.

Aproximou-se de Rudy e o mandou de volta lá para fora, para mais algumas voltas ao redor do campo.

Rudy as deu sozinha e, após cada volta, foi-lhe indagada novamente a data de aniversário do Führer. Ele deu sete voltas antes de acertar a resposta.

 O problema principal ocorreu dias depois da reunião.

Na Rua Munique, Rudy avistou Deutscher andando pela calçada com uns amigos e sentiu necessidade de lhe atirar uma pedra. Você pode muito bem perguntar que diabo ele estava pensando. A resposta é: provavelmente, nada. Provavelmente, ele diria que estava exercendo seu sagrado direito à estupidez. Ou isso, ou a simples visão de Franz Deutscher provocou-lhe uma ânsia de se destruir.

A pedra atingiu o alvo na espinha, embora não com tanta força quanto Rudy teria esperado. Franz Deutscher girou nos calcanhares e fez uma expressão satisfeita ao vê-lo parado lá, com Liesel, Tommy e a irmãzinha de Tommy, Kristina.

—        Vamos correr — recomendou Liesel, com insistência, mas Rudy não arredou pé.

—        Não estamos na Juventude Hitlerista — informou-lhe. Os meninos maiores já tinham chegado. Liesel ficou parada ao lado do amigo, assim como o careteiro Tommy e a delicada Kristina.

—        Sr. Steiner — declarou Franz, antes de levantá-lo e atirá-lo na calçada.

Quando Rudy se levantou, isso só serviu para enfurecer Deutscher ainda mais.

Ele o derrubou no chão pela segunda vez, acompanhando o gesto com uma joelhada na caixa torácica.

Mais uma vez, Rudy levantou-se e, nessa hora, o grupo de meninos mais velhos riu para o amigo. Aquilo não era a melhor notícia para Rudy.

—        Você não consegue fazê-lo sentir nada? — perguntou o mais alto. Seus olhos eram azuis e frios como o céu, e as palavras foram todo o incentivo de que Franz precisava. Ele estava determinado a derrubar Rudy no chão e fazê-lo ficar lá.

Uma multidão maior os cercou quando Rudy desferiu um murro na barriga de Deutscher, errando completamente o alvo. No mesmo instante, experimentou a sensação ardente de um punho em seu olho esquerdo. Ela chegou acompanhada de faíscas, e o menino prostrou-se no chão antes mesmo que se desse conta disso. Tornou a levar um murro no mesmo lugar e sentiu o machucado ficar amarelo, azul e roxo, tudo ao mesmo tempo. Três camadas de dor revigorante.

A multidão que crescia aproximou-se e espiou, para ver se Rudy se levantaria de novo. Não se levantou. Dessa vez, permaneceu no chão frio e úmido, sentindo-o subir por sua roupa e se espalhar.

As fagulhas continuavam em seus olhos e era tarde demais quando Rudy notou que agora Franz se erguia sobre ele, com um canivete novo em folha, prestes a se abaixar e cortá-lo.

—        Não! — protestou Liesel, mas o garoto alto a segurou. No ouvido da menina, as palavras dele foram graves e antigas.

—        Não se preocupe — garantiu o garoto. — Ele não vai fazer isso. Não tem peito.

Estava errado.

Franz pôs-se de joelhos, inclinou-se mais para Rudy e sussurrou:

—        Em que dia nasceu o nosso Führer?

Cada palavra foi cuidadosamente fabricada e introduzida no ouvido do menino.

—        Vamos, Rudy, em que dia ele nasceu? Você pode me dizer, está tudo bem, não tenha medo.

E Rudy?

Que resposta deu ele?

Será que respondeu com prudência, ou deixou sua estupidez afundá-lo ai mais na lama?

Ele fitou alegremente os pálidos olhos azuis de Franz Deutscher e murmuro

—        Na segunda-feira de Páscoa.

Em poucos segundos, o canivete foi aplicado a seu cabelo. Foi o corte de cabelo número dois nesse trecho da vida de Liesel. O cabelo de um judeu fora cortado e uma tesoura enferrujada. O de seu melhor amigo foi ceifado com uma lâmina reluzente. Ela não conhecia ninguém que realmente pagasse por um corte de cabelo

Quanto a Rudy, até ali, nesse ano, ele havia engolido lama, tomado banho de fertilizante, sido parcialmente estrangulado por um criminoso em desenvolvimento agora recebia algo que pelo menos se aproximava da chave de ouro — a humilhai, pública na Rua Munique.

Em sua maior parte, a franja foi livremente fatiada, mas, a cada golpe, sempre havia uns fios de cabelo que lutavam pela vida e eram completamente arrancado Ao arrancar de cada um deles, Rudy estremecia, com o olho roxo latejando e costelas dando fisgadas de dor.

—        Vinte de abril de mil oitocentos e oitenta e nove! — ensinou-lhe Franz, quando se afastou, liderando seus comandados, a platéia se dispersou, deixando apenas Liesel, Tommy e Kristina com o amigo.

Isso nos deixa apenas o ato de estupidez número três — faltar às reuniões Juventude Hitlerista.

Rudy não parou de freqüentá-las de imediato, só para mostrar a Deutscher que não tinha medo dele, mas, passadas algumas semanas, abandonou por completo o seu envolvimento.

Orgulhosamente trajado com seu uniforme, ele saía da Rua Himmel e ia andando tendo ao lado seu súdito leal, Tommy.

Em vez de irem para a Juventude Hitlerista, os dois saíam da cidade e margeavam o Rio Amper, saltando pedras, atirando outras enormes na água e, de um modo geral, não fazendo nada que prestasse. Rudy certificava-se de sujar bastante o uniforme, para enganar a mãe, pelo menos até a chegada da primeira carta. Foi quando ele ouviu o chamado temível da cozinha.

Primeiro, os pais o ameaçaram. Ele não compareceu.

Imploraram-lhe que fosse. Ele se recusou.

No fim, foi a oportunidade de se ligar a uma divisão diferente que pôs Rudy no caminho certo. E foi seu não-comparecimento. Seu irmão mais velho, Kurt, fez indagações para saber se Rudy poderia entrar na Flieger, que se especializara no ensino sobre aeronaves e pilotagem. Basicamente, os meninos construíam aeromodelos, e não havia nenhum Franz Deutscher. Rudy aceitou e Tommy também se inscreveu. Foi a única vez na vida em que seu comportamento idiota lhe trouxe resultados benéficos.

Na nova divisão, toda vez que lhe faziam a famosa pergunta sobre o Führer, ele sorria e respondia "20 de abril de 1889", e depois, dirigindo-se a Tommy, murmurava uma data diferente, como o aniversário de Beethoven, Mozart ou Strauss. Os dois estavam estudando os compositores na escola, onde, apesar de sua evidente burrice, Rudy se destacava.

 

O LIVRO FLUTUANTE (Parte II)

No início de dezembro, a vitória finalmente chegou para Rudy Steiner, embora não de maneira típica.

Era um dia frio, mas muito sereno. Quase havia nevado.

Depois da escola, Rudy e Liesel pararam na loja de Alex Steiner e, quando andavam para casa, viram o velho amigo de Rudy, Franz Deutscher, dobrando a esquina. Liesel, como era seu hábito nesses dias, carregava O Assobiador. Gostava de senti-lo em suas mãos. Ou a lombada macia, ou as bordas ásperas do papel. Foi ela a primeira a ver Franz.

—        Olhe — apontou. Deutscher marchava pomposamente na direção deles, em companhia de outro guia da Juventude Hitlerista.

Rudy encolheu-se. Apalpou o olho cicatrizado.

—        Dessa vez, não — disse. Vasculhou as ruas. — Se passarmos pela igreja, podemos seguir o rio e voltar por lá.

Sem outras palavras, Liesel o acompanhou e os dois evitaram com êxito o torturador de Rudy — para cair direto no caminho de outro.

No começo, eles não deram importância.

O grupo que atravessava a ponte e fumava cigarros podia ser qualquer um, e foi tarde demais para dar meia-volta quando os dois se reconheceram.

—        Ah, não, eles nos viram.

Viktor Chemmel sorriu.

Falou com muita amabilidade. O que só podia significar que estava no auge de sua periculosidade.

 —       Ora, ora, se não são Rudy Steiner e sua putinha — e, muito afável, aproximou-se e arrancou O Assobiador da mão de Liesel. — Que é que você está lendo?

—        Isto é entre nós dois — tentou ponderar Rudy. — Não tem nada a ver com ela. Ande, devolva o livro.

—        O Assobiador — dirigiu-se Viktor a Liesel. — É bom?

Ela pigarreou.

—        Nada mau.

Infelizmente, a menina se entregou. Pelos olhos. Eles estavam agitados. Liesel percebeu o momento exato em que Viktor Chemmel determinou que o livro era um bem precioso.

—        É o seguinte — disse ele: — Por cinqüenta marcos, você pode tê-lo de volta.

—        Cinqüenta marcos! — foi a exclamação de Andy Schmeikl. — Ora, Viktor, você pode comprar mil livros com isso!

—        Eu lhe pedi para falar?

Andy calou-se. Sua boca pareceu trancar-se de repente. Liesel tentou fazer uma expressão de pôquer.

—        Então, pode ficar com ele. Eu já li.

—        E o que acontece no fim?

Droga!

Ela ainda não havia chegado a esse pedaço.

Hesitou, e Viktor Chemmel decifrou o blefe no mesmo instante.

Nessa hora, Rudy precipitou-se para ele.

—        Ande, Viktor, não faça isso com ela. É atrás de mim que você está. Eu faço o que você quiser.

O garoto mais velho apenas o afastou com um tapa, segurando o livro no alto. E o corrigiu.

—        Não — disse. — Eu é que farei o que eu quiser — e se encaminhou para o rio. Todos o seguiram, acelerando para alcançá-lo. Meio andando, meio correndo.

Alguns protestaram. Outros o instigaram a ir em frente.

Foi muito rápido e tranqüilo. Houve uma pergunta e uma voz amistosa e zombeteira.

—        Digam-me — disse Viktor. — Quem foi o último campeão olímpico do disco em Berlim? — e se virou para encará-los. Aqueceu o braço. — Quem foi? Droga, estou com o nome na ponta da língua. Foi aquele americano, não foi? Carpenter, ou coisa parecida...

—        Por favor! — fez Rudy.

A água foi abaixo.

Viktor Chemmel fez o arremesso.

O livro soltou-se gloriosamente de sua mão. Abriu-se e esvoaçou, com as páginas chacoalhando enquanto ele perfazia a distância no ar, Mais abruptamente do que seria esperável, parou e pareceu ser sugado pela água. Fechou-se ao bater na superfície e começou a flutuar correnteza abaixo. Viktor abanou a cabeça.

—        Sem altura suficiente. Um arremesso ruim — e tornou a sorrir. — Mas ainda foi bom o bastante para ganhar, hein?

Liesel e Rudy não ficaram por perto para ouvir as risadas.

Rudy, em particular, havia partido pela margem do rio, tentando localizar o livro.

—        Você consegue vê-lo? — gritou Liesel.

Rudy correu.

Continuou descendo à beira da água, mostrando a localização do livro.

—        Está ali!

Parou, apontou e correu mais, para ultrapassá-lo. Logo em seguida, tirou o casaco e pulou na água, chapinhando até o meio do rio.

Liesel, que reduzira a velocidade à marcha, sentia a dor de cada passo. O frio doloroso.

Quando se aproximou o bastante, viu o livro passar por Rudy, mas ele logo o alcançou. Sua mão se esticou e pegou o que era, àquela altura, um bloco encharcado de papelão e papel.

—        O Assobiador! — gritou o menino. Era o único livro flutuando no Rio Amper naquele dia, mas, mesmo assim, ele sentiu necessidade de anunciá-lo.

Outra nota interessante é que Rudy não tentou sair da água, devastadoramente fria, assim que pegou o livro. Por um bom minuto, mais ou menos, ficou lá dentro. Nunca explicou isso a Liesel, mas acho que ela soube muito bem que as razões eram duas.

 

• OS MOTIVOS CONGELADOS •

DE RUDY STEINER

1. Após meses de fracasso, esse momento era

sua única chance de se comprazer com uma vitória.

2. Essa postura de desprendimento era uma

boa ocasião para pedir a Liesel o favor habitual

Como é que ela poderia recusá-lo?

—        Que tal um beijo, Saumensch?

Ficou parado mais alguns instantes, com água pela cintura, antes de sair do rio e lhe entregar o livro. Tinha as calças grudadas no corpo e não parou de andar. Na verdade, acho que ele sentiu medo. Rudy Steiner ficou com medo do beijo da menina que roubava livros. Devia ter ansiado muito por ele. Devia amá-la com uma intensidade incrível. Tanto que nunca mais tornaria a lhe pedir seus lábios, e iria para sua sepultura sem eles.

 

DIÁRIO DA MORTE: 1942

Foi um ano para ficar na história, como 79 ou 1346, para citar apenas alguns. Esqueça a foice, diabos, eu precisava era de uma vassoura ou um rodo. E precisava de umas férias.

• UMA VERDADEZINHA •

Eu não carrego gadanha nem foice.

só uso um manto preto com capuz quando faz frio.

E não tenho aquelas feições de caveira que vocês

parecem gostar de me atribuir à distância.

Quer saber a minha verdadeira aparência?

Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.

 

Na verdade, sinto-me muito complacente comigo mesma neste momento, a lhe contar tudo a respeito de mim, mim, mim. Minhas viagens, o que eu vi em '42. Por outro lado, você é um ser humano — deve entender dessa obsessão consigo mesmo. A questão é que há uma razão para eu explicar o que vi naquela época. Muito daquilo teria repercussões para Liesel Meminger. Fez a guerra chegar mais perto Da Rua Himmel, e me arrastou de carona.

Certamente houve muitas rondas a fazer naquele ano, da Polônia à Rússia à África, ida e volta. Talvez você argumente que eu faço a ronda em qualquer ano, mas às vezes a raça humana gosta de acelerar um pouquinho as coisas. Aumenta a produção de corpos e das almas que escapam. Umas tantas bombas costumam resolver a questão. Ou umas câmaras de gás ou a conversinha de canhões distantes. Quando nada disso conclui os procedimentos, pelo menos despoja as pessoas de seus meios de subsistência, e passo a ver gente sem teto por toda parte. E comum eles virem atrás de mim quando vago pelas ruas das cidades violentadas. Imploram que eu os leve, sem perceber que já estou atarefada demais. "A sua hora chegará", eu os convenço, e procuro não olhar para trás. Vez por outra, gostaria de dizer algo como "Não vê que já estou com as mãos cheias?", mas nunca o faço. Reclamo internamente enquanto vou fazendo meu trabalho, e há anos em que as almas e os corpos não se somam, multiplicam-se.

• CHAMADA ABREVIADA DE 1942 •

1. Os judeus desesperados — seus espíritos no meu colo,

ao nos sentarmos no telhado, junto às chaminés fumegantes.

2. Os soldados russos — que só carregam pequenas quantidades

de munição, contando com os tombados para arranjar o resto.

3. Os corpos encharcados de um litoral francês

— encalhados nos seixos e na areia.

 

Eu poderia prosseguir, mas resolvi que, por ora, esses três exemplos bastam. Três exemplos, que mais não seja, deixarão em sua boca o gosto de cinza que definiu minha existência durante aquele ano.

Muitos seres humanos. Muitas cores.

São disparadores dentro de mim. Torturam minha memória. Vejo-os em suas pilhas altas, todos trepados uns por cima dos outros. O ar parece feito de plástico, um horizonte como cola poente.. Existem céus fabricados pelas pessoas, perfurados e vazantes, e há nuvens macias, cor de carvão, que pulsam como corações negros.

E depois.

Vem a morte.

Abrindo caminho por aquilo tudo.

Na superfície, imperturbável, resoluta.

Por baixo, abatida, desatada, desfeita.

Com toda a franqueza (e sei que agora estou reclamando demais), eu ainda estava me refazendo de Stalin, na Rússia. Da chamada segunda revolução — o assassinato de seu próprio povo.

E então veio Hitler.

Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra é como aquele novo chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: "Apronte logo isso, apronte logo isso." E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Pede mais.

Muitas vezes, tento lembrar-me dos retalhos de beleza que também vi naqueles tempos. Revolvo minha biblioteca de histórias.

Na verdade, estou pegando uma agora.

Creio que você já sabe metade dela e, se vier comigo, eu lhe mostro o resto. Mostro-lhe a segunda metade de uma menina que roubava livros.

Sem saber, ela aguarda inúmeras coisas a que aludi há pouco, mas também espera por você.

Está carregando neve para um porão, imagine só.

Punhados de neve congelada são capazes de fazer quase qualquer um sorrir, mas não nos podem fazer esquecer.

Lá vem ela.

 

O BONECO DE NEVE

Para Liesel Meminger, os primeiros estágios de 1942 poderiam ser resumidos assim:

Ela completou treze anos. Ainda tinha o peito chato. Não havia menstruado. O rapaz do porão estava agora em sua cama.

 

• PERGUNTA/RESPOSTA •

Como é que Max Vandenburg

foi parar na cama de Liesel?

Ele caiu.

As opiniões variaram, mas Rosa Hubermann afirmou que as sementes tinham sido plantadas no Natal do ano anterior.

O dia 24 de dezembro fora de fome e frio, mas houve uma grande vantagem — nada de visitas prolongadas. Hans Júnior estava simultaneamente atirando nos russos e dando continuidade a sua greve de interações familiares. Trudy só poderia dar uma passada no fim de semana anterior ao Natal, por algumas horas. Ia viajar com a família para a qual trabalhava. Férias para uma classe muito diferente da Alemanha.

Na noite de Natal, Liesel levou de presente para Max um punhado duplo de neve.

—        Feche os olhos — disse. — Estenda as mãos.

Assim que a neve foi transferida, Max estremeceu e riu, mas continuou sem abrir os olhos. Só fez dar uma provadinha rápida na neve, deixando-a derreter em seus lábios.

—        Este é o boletim meteorológico de hoje?

Liesel parou a seu lado. Tocou-lhe delicadamente o braço. Ele tornou a levar a neve à boca.

—        Obrigado, Liesel.

Foi o começo do melhor de todos os Natais. Pouca comida. Nenhum presente. Mas houve um boneco de neve no porão.

Depois de entregar os primeiros punhados de neve, Liesel se certificou de que não havia ninguém do lado de fora e tratou de levar para lá todos os baldes e panelas que pôde. Encheu-os com os montes de neve e gelo que cobriam a pequena tira de mundo que era a Rua Himmel. Depois de cheios, levou-os para dentro e os carregou para o porão.

A bem da justiça, primeiro ela jogou uma bola de neve em Max e recebeu o troco na barriga. Max chegou até a atirar uma em Hans Hubermann quando ele descia a escada do porão.

—        Arschloch! — gritou o pai. — Liesel, me dê um bocado dessa neve. Um balde inteiro!

Durante alguns minutos, todos se esqueceram. Não houve mais gritos nem nomes sendo chamados, mas eles não puderam conter os pequenos frouxos de riso. Eram apenas humanos, brincando na neve dentro de casa.

O pai olhou para as panelas cheias de neve.

—        Que vamos fazer com o resto?

—        Um boneco de neve — respondeu Liesel. — Temos que fazer um boneco de neve.

O pai chamou Rosa.

A voz distante de praxe arremessou-se de volta.

—        O que é agora, Saukerl?

—        Venha aqui embaixo, sim?

Quando sua mulher apareceu, Hans Hubermann pôs a vida em risco, atirando-lhe uma esplêndida bolada de neve. Errando por pouco, a bola desintegrou-se ao bater na parede, e a mãe teve uma desculpa para xingar por um longo tempo, sem nem parar para respirar. Depois que se recuperou, desceu para ajudá-los. Foi inclusive buscar botões para os olhos e o nariz e um pedaço de barbante para fazer um sorriso de boneco de neve. E até um cachecol e um chapéu foram providenciados para o que era, na verdade, apenas um homem de neve de sessenta centímetros.

—        Um anão — disse Max.

—        O que a gente faz quando ele derreter? — perguntou Liesel. Rosa tinha a resposta.

—        Você seca com o esfregão, Saumensch, e depressa.

O pai discordou.

—        Não vai derreter — e esfregou as mãos, soprando-as. — Está de enregelar aqui embaixo.

Derreter, derreteu, mas, em algum lugar dentro deles, aquele homem de neve continuou de pé. Deve ler sido a última coisa que eles viram naquela véspera Natal, quando enfim adormeceram. Tinham um acordeão nos ouvidos, um boneco de neve nos olhos e, para Liesel, a lembrança das últimas palavras de Max, antes de ela o deixar junto à lareira.

 

• AS SAUDAÇÕES NATALINAS DE •

MAX VANDENBURG

— Muitas vezes, Liesel, eu gostaria que isso

 tudo acabasse, mas aí, de algum modo,

você faz uma coisa como descer ao

porão carregando um boneco de neve.

 

Infelizmente, essa noite assinalou um severo declínio da saúde de Max. Os primeiros sinais foram bastante inocentes, e típicos. O frio constante. As mãos nadando em suor. O aumento das visões do boxe com o Führer. Só quando ele não conseguiu mais se aquecer, depois das flexões e das abdominais, foi que a coisa começou realmente a preocupá-lo. Por mais perto do fogo que se sentasse, ele não consegui; elevar-se a nenhum grau de saúde relativa. Dia após dia, o peso começou a IHE despencar do corpo. Seu regime de exercícios cambaleou e se desfez, com o rosto encostado no piso áspero do porão.

Durante todo o mês de janeiro, ele conseguiu se agüentar, mas, no começo de fevereiro, Max estava numa forma preocupante. Fazia força para acordar junto à lareira, mas, em vez disso, dormia boa parte da manhã, com a boca torta e as maçãs do rosto começando a inchar. Quando lhe perguntavam, dizia que estava ótimo.

Em meados de fevereiro, dias antes de Liesel fazer treze anos, ele se aproximou da lareira, à beira do colapso. Quase caiu no fogo.

—        Hans — murmurou, e seu rosto pareceu contorcer-se. As pernas cederam e a cabeça bateu na caixa do acordeão.

No mesmo instante, uma colher de pau caiu na sopa e Rosa Hubermann pôs-se ao lado dele. Segurou a cabeça de Max e berrou para Liesel, do outro lado do cômodo:

—        Não fique aí parada, vá buscar mais cobertores. Leve-os para sua cama. E você — era a vez do marido — me ajude a pegá-lo e carregá-lo para o quarto de Liesel. Schnell!

O rosto de Hans ficou tenso de apreensão. Seus olhos cinzentos tilintaram e ele pegou Max sozinho. O rapaz era leve como uma criança.

—        Não podemos deixá-lo aqui, na nossa cama?

Rosa já havia considerado a idéia.

—        Não. Nós temos que deixar essas cortinas abertas de dia, senão fica parecendo suspeito.

—        Bem pensado — disse Hans, e carregou o rapaz.

Com os cobertores na mão, Liesel observava.

 Pés moles e cabelos pendentes no corredor. Um sapato caído do pé.

—        Mexa-se.

A mãe marchou atrás deles, com seu gingado de pata.

Uma vez posto Max na cama, os cobertores foram empilhados sobre ele e presos em volta de seu corpo.

—        Mamãe?

Liesel não conseguiu dizer mais nada.

—        Que foi?

O coque no cabelo de Rosa Hubermann estava tão apertado que, por trás, chegava a assustar. Pareceu apertar-se ainda mais quando ela repetiu a pergunta.

—        Que é, Liesel?

A menina se aproximou, com medo da resposta.

—        Ele está vivo?

O coque fez que sim.

Então, Rosa virou-se e falou com grande segurança.

—        Escute aqui, Liesel. Não recebi esse homem na minha casa para vê-lo morrer. Entendeu?

Liesel acenou com a cabeça.

—        Agora, vá embora.

No corredor, o pai a abraçou.

Liesel precisava disso, desesperadamente.

Mais tarde, ouviu Hans e Rosa conversarem na madrugada. Rosa a fizera dormir no quarto dos dois, e ela estava ao lado da cama, no chão, no colchão que tinham trazido do porão. (Houvera uma certa preocupação de que ele pudesse estar infectado, mas os dois concluíram que essas idéias não tinham fundamento. Não era de nenhum vírus que Max estava sofrendo, de modo que eles subiram o colchão e trocaram o lençol.)

Imaginando que a menina dormia, a mãe externou sua opinião.

—        Aquela droga de boneco de neve — sussurrou. — Aposto que começou com o boneco de neve... brincar com gelo e neve, naquele frio lá embaixo.

O pai foi mais filosófico.

—        Rosa, começou com Adolf — e se levantou. — Precisamos ficar de olho nele.

No decorrer daquela noite, Max recebeu sete visitas.

 

• A FOLHA DE VISITANTES •

E MAX VANDENBURG

Hans Hubermann: 2

Rosa Hubermann: 2

Liesel Meminger: 3

 

Pela manhã, Liesel levou-lhe o caderno de desenhos do porão e o colocou na mesa de cabeceira. Sentia-se péssima por tê-lo olhado no ano anterior e, dessa vez, manteve-o firmemente fechado, por respeito.

Quando o pai entrou, ela não se virou para olhá-lo, mas dirigiu-se à parede, por cima de Max Vandenburg.

—Por que é que eu tinha que levar toda aquela neve lá para baixo? — perguntou.

—        Eu comecei tudo isso, não foi, papai? — e juntou as mãos, como quem rezasse.

—        Por que é que eu tinha de construir aquele boneco de neve?

O pai, reconheça-se o seu mérito permanente, foi categórico: — Liesel, você tinha que fazer aquilo.

Durante horas, a menina sentava-se ao lado de Max, enquanto ele tremia e dormia. — Não morra — segredava. — Por favor, Max, não morra. Ele era o segundo boneco de neve a derreter diante de seus olhos, só que esse era diferente. Era um paradoxo.

Quanto mais frio ficava, mais derretia.

 

TREZE PRESENTES

Foi a chegada de Max revisitada.

As plumas voltaram a se transformar em gravetos. O rosto liso tornou-se áspero. A prova de que Liesel precisava era aquela. Ele estava vivo.

Nos primeiros dias, ela se sentou e conversou com Max. No dia do aniversário, contou-lhe que havia um bolo enorme esperando na cozinha, se ele quisesse acordar.

Não houve acordar.

Nem havia bolo.

 

• UM EXCERTO DE ALTA MADRUGADA •

Muito tempo depois, dei-me conta de que havia

realmente visitado a Rua Himmel, 33, durante aquele

período. Deve ter sido num dos poucos momentos

em que a menina não estava com ele, pois só o que

vi foi um homem na cama. Preparei-me para enfiar

as mãos por dentro dos cobertores. Então, houve uma

ressurgência — uma luta imensa contra o meu peso.

Recuei e, com tanto trabalho pela frente, foi bom

que me combatessem naquele quartinho escuro.

Cheguei até a conseguir uma breve pausa de serenidade,

de olhos fechados, antes de me retirar.

No quinto dia, houve um grande alvoroço quando Max abriu os olhos, mesmo por apenas alguns instantes. O que ele viu, predominantemente (e que versão assustadora deve ter sido, vista de perto), foi Rosa Hubermann, praticamente a lhe enfiar uma braçada de sopa boca adentro.

—        Engula — aconselhou-o. — Não pense. Só engula.

Assim que a mãe lhe devolveu a tigela, Liesel tentou rever o rosto dele, mas lá estavam as costas de uma doadora de sopa no caminho.

—        Ele ainda está acordado?

Quando se virou, Rosa não precisou responder.

Após quase uma semana, Max acordou pela segunda vez, agora com Liesel e o pai no quarto. Os dois observavam o corpo estirado na cama quando houve um pequeno grunhido. Se é que isso é possível, o pai caiu para o alto, saltando da cadeira.

—        Olhe — disse Liesel, com a voz entrecortada. — Fique acordado, Max, fique acordado.

O rapaz a olhou brevemente, mas não houve reconhecimento. Os olhos a estudaram como se ela fosse um enigma. E depois se foram outra vez.

—        Papai, que aconteceu?

Hans desabou, voltando à cadeira.

Mas tarde, sugeriu que talvez ela devesse ler para Max.

—        Vamos, Liesel, você lê tão bem hoje em dia... mesmo que seja um mistério para todos nós de onde veio aquele livro.

—        Eu lhe disse, papai. Foi uma das freiras da escola que me deu.

O pai levantou as mãos, num simulacro de protesto.

—        Eu sei, eu sei — disse das alturas. — só... — e escolheu aos poucos as palavras — não se deixe apanhar.

Isso dito por um homem que havia roubado um judeu.

Desse dia em diante, Liesel leu O Assobiador para Max em voz alta, durante o tempo em que ele ocupou sua cama. A única frustração era ser forçada a pular capítulos inteiros, porque muitas páginas tinham ficado grudadas. O livro não havia secado bem. Mesmo assim, ela ia batalhando, a ponto de já ter percorrido quase três quartos do texto. O livro tinha 396 páginas.

No mundo externo, Liesel voltava apressada da escola todos os dias, na esperança de que Max houvesse melhorado.

—        Ele acordou? Ele comeu?

—        Volte lá para fora — implorava-lhe a mãe. — Você está cavando um buraco no meu estômago com toda essa falação. Vá. Saia e vá jogar futebol, pelo amor de Deus.

—        Sim, mamãe.

Liesel estava prestes a abrir a porta:

—        Mas você vai me buscar se ele acordar, não vai? Invente qualquer coisa. Grite, como se eu tivesse feito alguma coisa errada. Comece a me xingar. Todo o mundo vai acreditar, não se preocupe.

 Até Rosa teve que sorrir diante disso. Pôs as mãos nas cadeiras e explicou que Liesel ainda não estava velha demais para evitar uma Watschen, por falar daquele jeito.

—        E trate de fazer um gol — ameaçou —, senão é melhor não vir para casa.

—        É claro, mamãe.

—        Faça dois gols, Saumensch!

—        Sim, mamãe.

—        E pare de me responder!

Liesel considerou, mas saiu correndo lá para fora, para ser adversária de Rudy na rua enlameada e escorregadia.

—        Já era hora, sua coçadora de rabo — acolheu-a Rudy, no jeito costumeiro de os dois disputarem a bola. — Onde é que você andava?

Meia hora depois, quando a bola foi esborrachada pela rara passagem de um carro na Rua Himmel, Liesel descobriu seu primeiro presente para Max Vandenburg. Depois de julgá-la sem conserto, a garotada toda foi embora, desgostosa, e deixou a bola estrebuchando na rua fria e embolotada. Liesel e Rudy ficaram agachados sobre a carcaça. Havia um enorme buraco numa parte da bola, feito uma boca.

—        Você quer ela? — perguntou Liesel.

Rudy encolheu os ombros.

—        Prá que é que eu quero essa titica de monte esborrachado de bola? Não tem mais jeito de enchê-la de ar, tem?

—        Você quer ou não quer?

—        Não, obrigado.

Rudy cutucou a bola cautelosamente com o pé, como se fosse um animal morto. Ou um animal que talvez estivesse morto.

Quando Rudy voltou para casa, Liesel pegou a bola e a pôs embaixo do braço. Ainda o ouviu chamar.

—        Ei, Saumensch! Esperou.

—        Saumensch! Ela cedeu.

—        Que é?

—        Aqui também tem uma bicicleta sem rodas, se você quiser.

—        Enfie a sua bicicleta...

Do lugar em que estava na rua, a última coisa que Liesel ouviu foi a risada daquele Saukerl do Rudy Steiner.

Em casa, ela se dirigiu ao quarto. Levou a bola para Max e a colocou na extremidade da cama.

—        Desculpe — disse-lhe — não é grande coisa. Mas, quando você acordar, eu lhe conto tudo sobre ela. Eu conto que foi a tarde mais cinzenta que você pode imaginar, e aí um carro com os faróis apagados passou bem em cima da bola. E aí o homem desceu e gritou com a gente. E depois pediu informações sobre o caminho. Que descaramento...!

Acorde!, ela queria gritar.

Ou então sacudi-lo.

Não fez uma coisa nem outra.

Tudo que Liesel conseguiu foi ficar olhando para a bola, com sua pele pisoteada e descascada. Era o primeiro de muitos presentes.

 

•          PRESENTES 2 A 5 •

Uma fita, uma pinha. Um botão, uma pedra.

A bola de futebol lhe dera uma idéia.

Agora, toda vez que ia e voltava da escola, Liesel ficava à procura de objetos descartados que pudessem ser valiosos para um homem agonizante. No começo, perguntou-se por que aquilo tinha tanta importância. Como podia uma coisa aparentemente tão insignificante consolar alguém? Uma fita na sarjeta. Uma pinha na rua. Um botão descuidadamente encostado numa parede da sala de aulas. Uma pedrinha chata e redonda do rio. Que mais não fosse, isso mostrava que ela se importava, e talvez lhes desse um assunto para conversar quando Max acordasse.

Quando se achava só, ela conduzia essas conversas.

—        E o que é isso tudo? — diria Max. — Que é toda essa porcaria?

—        Porcaria? — retrucaria Liesel. Mentalmente, estaria sentada ao lado da cama. — Não é só porcaria, Max. Foi isso que fez você acordar.

 

•          PRESENTES 6 A 9 •

Uma pena, dois jornais. Um invólucro de bala.

Uma nuvem.

A pena era linda e estava presa na dobradiça da porta da igreja, na Rua Munique. Projetava-se para fora, meio torta, e Liesel se apressou a resgatá-la. As fibras estavam achatadas do lado esquerdo, mas o direito era feito de bordas delicadas e setores de triângulos irregulares. Não havia outro jeito de descrevê-la.

Os jornais saíram das profundezas frias de uma lata de lixo (é o quanto basta dizer) e o invólucro de bala era liso e desbotado. Ela o achou perto da escola e o segurou contra a luz. Continha uma colagem de marcas de sapatos.

Depois, a nuvem.

Como se dá a alguém um pedaço de céu?

No fim de fevereiro, ela parou na Rua Munique e observou uma nuvem gigantesca aproximar-se por sobre as colinas, como um monstro branco. Escalou as montanhas. O sol foi eclipsado e, em lugar dele, uma fera branca de coração cinzento vigiou a cidade.

—        Ollie só para aquilo! — disse ela ao pai.

Hans inclinou a cabeça e declarou o que lhe pareceu óbvio.

—        Você devia dá-la ao Max, Liesel. Veja se consegue deixá-la na mesa de cabeceira, como todas as outras coisas.

Liesel o fitou como se ele houvesse enlouquecido.

—        Mas como?

Ele lhe deu um piparote de leve na cabeça.

—        Decore-a. Depois, escreva-a para ele.

—        ...parecia uma grande fera branca —disse a menina, em sua vigília seguinte junto ao leito — e veio por cima das montanhas.

Quando a frase foi concluída, com vários ajustes e acréscimos diferentes, Liesel achou que havia conseguido. Imaginou a visão da nuvem passando de sua mão para ele, através dos cobertores, e a escreveu num pedaço de papel, colocando a pedrinha em cima.

 

• PRESENTES 10 A 13 •

Um soldadinho de brinquedo.

Uma folha milagrosa.

Um assobiador terminado.

Uma nesga de tristeza.

O soldado estava enterrado no chão, não muito longe da casa de Tommy Müller. Estava arranhado e pisoteado, o que, para Liesel, era justamente o importante. Mesmo machucado, ele ainda conseguia ficar de pé.

A folha era de bordo e ela a encontrou no armário de vassouras da escola, entre os baldes e os espanadores. A porta estava entreaberta. A folha era seca e dura, feito pão torrado, e havia colinas e vales em toda a sua pele. Não se sabe como, havia percorrido o corredor da escola e entrado naquele armário. Como metade de uma estrela com um cabo. Liesel a pegou e a girou entre os dedos.

Ao contrário dos outros objetos, ela não pôs a folha na mesa de cabeceira. Prendeu-a na cortina fechada, pouco antes de ler as últimas trinta e quatro páginas de O Assobiador.

Nesse fim de tarde, não jantou nem foi ao banheiro. Não bebeu nada. Durante o dia inteiro, na escola, prometera a si mesma que terminaria de ler o livro nesse dia, e Max Vandenburg escutaria. Ele ia acordar.

Papai sentou-se no chão, num canto, desempregado como sempre. Por sorte, logo iria para o Knoller com seu acordeão. Com o queixo apoiado nos joelhos, ouviu a menina a quem lutara para ensinar o alfabeto. Lendo orgulhosamente, ela despejou as ultimas palavras aterradoras do livro em Max Vandenburg.

 

• OS ÚLTIMOS RESTOS DE •

 O ASSOBIADOR

...O ar vienense embaçava as janelas do trem naquela manhã e,

enquanto as pessoas seguiam distraídas para o trabalho, um

assassino assobiava sua alegre melodia. Comprou o bilhete.

Houve trocas educadas de cumprimentos com outros passageiros

e com o condutor. Ele até ofereceu seu lugar a uma senhora

idosa, e conversou polidamente com um jogador que lhe falou de

cavalos nor