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A MONTANHA MÁGICA / Thomas Mann
A MONTANHA MÁGICA / Thomas Mann

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A MONTANHA MÁGICA

Primeira Parte

 

Queremos narrar a vida de Hans Castorp – não por ele, a quem o leitor em breve conhecerá como um jovem singelo, ainda que simpático, mas por amor a esta narrativa, que nos parece em alto grau digna de ser relatada. A favor de Hans Castorp convém, entretanto, mencionar que esta é a sua história, e que há histórias que não acontecem a qualquer um. Os fatos aqui referidos passaram-se há muitos anos já. Estão, por assim dizer, recobertos pela pátina do tempo, e em absoluto não podem ser narrados senão na forma de um remoto passado.

Isso talvez não seja um inconveniente para uma obra deste gênero, mas antes uma vantagem; é necessário que as histórias já se tenham passado. Poderíamos até dizer que, quanto mais se distanciam do presente, melhor corresponderão à sua qualidade essencial e mais adequadas serão ao narrador, este mago que evoca o pretérito. Acontece, porém, com a história o que hoje em dia também acontece com os homens, e entre eles, não em último lugar, com os narradores de histórias: ela é muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida por dias, nem o tempo que sobre ela pesa, por revoluções em torno do Sol. Numa palavra, não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade – e com esta observação feita de passagem queremos aludir ao caráter problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso.

Mas, para não se obscurecer artificialmente um estudo de coisas claro em si, seja dito que a idade sumamente avançada de nossa história provém do fato de ela se desenrolar antes de determinada peripécia e de certo limite que abriram um sulco profundo na nossa vida e na nossa consciência... Desenrola-se – ou para evitarmos propositadamente qualquer forma de presente – desenrolou-se numa época transata, outrora, nos velhos tempos, naquele mundo de antes da Grande Guerra, cujo deflagrar marcou o começo de tantas coisas que ainda mal deixaram de começar. Passa-se, pois, antes desse período, se bem que não muito antes. No entanto, não será o caráter de antiguidade de uma história tanto mais profundo, perfeito e lendário, quanto mais próxima do presente ela se passar? Além disso, poderia ser que também sob outros aspectos a nossa história, pela sua natureza íntima, tenha isto e aquilo em comum com a lenda.

Narrá-la-emos pormenorizadamente, com exatidão e minúcia, já que a sua natureza cativante ou enfadonha jamais depende do espaço ou do tempo que ela exige. Sem medo de sermos acusados de meticulosidade, inclinamo-nos, pelo contrário, a opinar que realmente interessante só é aquilo que tem bases sólidas.

Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans Castorp. Não lhe bastarão para isso os sete dias de uma semana, nem tampouco sete meses. Melhor será que ele desista de computar o tempo que decorrerá sobre a Terra, enquanto esta tarefa o mantiver enredado. Decerto não chegará – Deus me livre – a sete anos.

Dito isto, comecemos...

  

         A Chegada

Um jovem singelo viajava, em pleno verão, de Hamburgo, sua cidade natal, a Davos-Platz, no cantão dos Grisões. Ia de visita, por três semanas.

Mas de Hamburgo até essas alturas a viagem é longa, demasiado longa, na verdade, para uma estada tão curta. É preciso atravessar diversos estados, subindo e descendo, do planalto da Alemanha meridional até a beira do lago de Constança, cujas ondas saltitantes são transpostas de navio, por sobre abismos outrora considerados insondáveis. A partir dali torna-se demorada a viagem que até esse ponto se realizava rapidamente, em linha quase reta. Há delongas e complicações. Na localidade de Rorschach, já em território suíço, voltamos a confiar-nos à viação férrea; mas, por enquanto não se progride além de Landquart, pequena estação alpina, onde se precisa fazer baldeação. É um trem de bitola estreita o que ali tomamos depois de prolongada espera numa paisagem varrida pelo vento e desprovida de encantos. No momento em que se põe em movimento a locomotiva de pequeno porte, mas evidentemente de extraordinária força de tração, começa a parte deveras aventurosa da viagem, uma escalada brusca e penosa que parece não ter fim. A estação de Landquart acha-se situada a uma altura relativamente moderada. A partir dela, porém, entra-se na própria montanha, por uma estrada rochosa, áspera, angustiante.

Hans Castorp – eis o nome do referido jovem – estava sozinho num pequeno compartimento forrado de cinza, onde também se encontravam sua maleta de couro de crocodilo (presente de seu tio e pai de criação, o cônsul Tienappel, cujo nome convém mencionar desde já), bem como o casaco de inverno, a balouçar suspenso num gancho, e o cobertor de viagem enrolado. Estava sentado junto à janela aberta, e como a tarde se vinha tornando cada vez mais fresca, levantara rapaz mimado e franzino que era a gola do sobretudo de verão, forrado de seda e de corte amplo e moderno. A seu lado, no assento, jazia uma brochura intitulada Ocean Steamships, na qual Hans Castorp, durante as primeiras horas de viagem, de vez em quando lançara um olhar; agora, porém, o livro permanecia ali abandonado, enquanto o hálito da locomotiva arquejante, ao entrar pela janela, salpicava-lhe a capa de partículas de carvão.

Dois dias de viagem apartam um homem e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava, enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se roja de permeio entre ele e seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido.

Hans Castorp ia passando por experiências análogas. Não tivera a intenção de levar essa viagem muito a sério e de entregar-se totalmente a ela. Propusera-se liquidá-la depressa, porque tinha que ser feita, depois regressar para casa tal como partira, e retomar a sua vida anterior exatamente no ponto em que a abandonara por um instante. Ainda ontem se movimentara dentro do costumeiro círculo de idéias; ocupara-se com os acontecimentos mais recentes – o seu exame final – e com o futuro imediato – sua entrada na vida prática, como funcionário da firma Tunder & Wilms (Estaleiros, Fábrica de Máquinas e Caldeiras). Com o máximo de impaciência que seu temperamento lhe permitia, procurara olhar para além das semanas vindouras. Nesse momento, porém, parecia-lhe que as circunstâncias exigiam dele plena atenção, não lhe sendo licito menosprezá-las. Essa sensação de ser alçado a regiões cujos ares nunca respirara, e onde, como sabia, reinavam condições de vida particularmente rarefeitas e reduzidas, a que em absoluto não estava acostumado – essa sensação começava a excitá-lo, a enchê-lo de certa angústia. O torrão natal e a rotina de sempre haviam ficado não somente para trás, muito para trás, mas sobretudo a grande profundidade abaixo dele; e a ascensão continuava a afastá-los mais ainda. Pairando entre eles e o desconhecido, Hans Castorp perguntava-se como passaria lá em cima. Talvez fosse imprudente e prejudicial para ele, que nascera a poucos metros acima do mar e se habituara ao ar da sua terra, deixar-se transportar tão subitamente a esses sítios extremos, sem pelo menos se demorar por alguns dias num lugar de altitude média. Ansiava por chegar ao fim da viagem; pois, uma vez lá em cima – pensava –, devia-se viver como em toda parte, sem que lhe fossem recordadas, como agora, durante a escalada, as esferas impróprias em que se encontrava. Hans Castorp olhou pela janela. O trem serpenteava, sinuoso, através de um desfiladeiro estreito. Viam-se os primeiros vagões, via-se a locomotiva vomitando, no seu esforço, golfadas de fumaça parda, esverdeada e negra que logo se dissipavam. Nas profundidades, à direita, murmuravam cursos d'água; à esquerda, pinheiros escuros buscavam por entre os rochedos as alturas de um céu cinzento como pedra. Túneis tenebrosos iam desfilando, e quando reaparecia a luz, rasgavam-se dilatados abismos com povoados no seu fundo. Logo se fechavam os abismos, seguidos por novos desfiladeiros com restos de neve nas gretas e fendas. Havia paradas diante das casinhas miseráveis de estações pequenas; surgiam desvios onde o trem dava marcha à ré, o que produzia um efeito desnorteante, já que era difícil saber em que direção se ia e recordar os pontos cardeais. Abriam-se grandiosos panoramas do universo de cumes alpinos, um amontoado solene e fantasmagórico, que o trem procurava alcançar e galgar; e logo no próximo meandro da estrada voltavam a subtrair-se ao olhar reverente. Hans Castorp notou que deixara para trás a zona das árvores frondosas e, se não se enganava, também a dos pássaros canoros. Esta idéia de cessação e empobrecimento fez com que ele, acometido de um ligeiro acesso de vertigem e mal-estar, cobrisse por dois segundos os olhos com a mão. Mas isso passou. Viu então que terminara a ascensão; estava vencido o ponto culminante do passo. O trem corria confortavelmente no fundo plano de um vale.

Eram aproximadamente oito horas. Ainda havia luz. Na paisagem longínqua apareceu um lago de águas cinzentas. Das suas margens subiam pinheirais negros pelas encostas das montanhas adjacentes, tornando-os mais ralos a maior altura, acabando-se aos poucos e dando lugar à rocha calva, envolta em brumas. O trem parou numa estaçãozinha; era Davos-Dorf, segundo Hans Castorp ouviu gritar. Dentro em pouco chegaria ao seu destino. De repente, porém, ressoou a seu lado a voz de Joachim Ziemssen, a voz displicente, hamburguesa, de seu primo, que dizia:

– Boa tarde! Pode descer, vamos. – Olhando pela janela, viu na plataforma Joachim em pessoa, trajando um sobretudo marrom, sem chapéu, e de um aspecto tão sadio como nunca lhe vira. Joachim riu-se e tornou: – Vamos, pode sair, não faça cerimônia.

– Mas se ainda nem cheguei! – exclamou Hans Castorp estupefato e permanecendo sentado.

– Não, senhor, já chegou. Estamos na aldeia. Daqui, o sanatório fica muito mais perto. Tomei um carro. Passe-me a bagagem.

Rindo, um tanto confuso pelo imprevisto da chegada e do encontro com o primo, Hans Castorp entregou-lhe a maleta e o casaco de inverno, o cobertor enrolado em volta da bengala e do guarda-chuva, e finalmente o Ocean Steamships. A seguir percorreu o estreito corredor do vagão e saltou para a plataforma, a fim de trocar com o primo saudações propriamente ditas, de caráter mais íntimo, que, entretanto, se efetuaram sem exuberância, como convém a pessoas de maneiras frias e reservadas. Parece estranho, mas desde cedo ambos haviam evitado chamar-se pelos prenomes, exclusivamente porque temiam uma cordialidade excessiva. Como, porém, não ficava bem tratarem-se pelo nome de família, limitavam-se ao você, e esse hábito se arraigara em ambos os primos.

Um homem de libré e boné agaloado observou como eles se apertavam as mãos – o jovem Ziemssen em atitude militar – depressa e com algum acanhamento. Aproximou-se então para pedir o certificado da bagagem de Hans Castorp. Era o porteiro do Sanatório Internacional Berghof. Prontificou-se a buscar na estação de Davos-Platz a mala do hóspede, enquanto os dois senhores com o carro se dirigissem diretamente ao sanatório, para jantar. O homem coxeava fortemente, de modo que a primeira pergunta que Hans Castorp fez a Joachim Ziemssen foi esta:

– É um veterano de guerra? Por que coxeia assim?

– É o que você pensa – retrucou Joachim com certa amargura. – Um veterano de guerra! O homem tem, ou pelo menos teve, o mal no joelho. Foi por isso que lhe extraíram a rótula.

Hans Castorp procurou refletir o mais rápido possível.

– Ah, sim – disse. Enquanto prosseguia no caminho, ergueu a cabeça e lançou um rápido olhar para trás. – Mas – acrescentou – você não me fará acreditar que ainda sofre daquela coisa. Até parece que já usa galões e acaba de voltar das manobras. – E olhou o primo de soslaio.

Joaquim era mais alto e mais espadaúdo do que ele, um modelo de força juvenil e como que talhado para a farda. Representava aquele tipo bem trigueiro que sua loura pátria não raro produz. Sua tez, já por natureza bastante morena, estava tostada pelo sol e adquirira uma cor quase brônzea. Com os grandes olhos negros e o bigodinho escuro sobre os lábios cheios, bem conformados, seria positivamente belo, não fossem as orelhas muito despegadas. Essas orelhas haviam sido seu único desgosto, a grande dor da sua vida até certo momento. Agora tinha outras preocupações. Hans Castorp continuou:

– Você vai regressar comigo, não é? Não vejo nada que o possa impedir.

– Regressar com você? – perguntou o primo, fitando-o com os olhos grandes que sempre haviam sido suaves, mas durante esses cinco meses tinham assumido uma expressão um tanto cansada, quase melancólica. – Com você? Quando?

– Ora, daqui a três semanas.

– Compreendo, você já pensa em regressar – respondeu Joachim. – Espere um pouco; mal acaba de chegar. Três semanas representam quase nada para nós aqui em cima, mas para você que vem de visita e tenciona demorar-se só três semanas, é uma porção de tempo. Trate de se aclimatar primeiro. Não tardará a notar que não é assim tão fácil. E o clima não é a única coisa estranha que existe aqui. Você encontrará muita coisa nova, sabe? Comigo, isso não vai tão depressa como você imagina. “Regressar daqui a três semanas” é uma idéia lá de baixo. Tenho a pele tostada, sim senhor, mas isto vem principalmente do sol refletido pela neve e não significa grande coisa, como Behrens sempre afirma. No último exame geral, ele disse ter quase certeza que eu teria de ficar ainda uns seis meses.

-seis meses? Está louco? – gritou Hans Castorp. Diante da estação que não era muito mais que uma espécie de telheiro, instalaram-se no cabriolé amarelo que os esperava numa praça pedregosa. Enquanto os dois baios se punham em movimento, Hans Castorp remexia-se, cheio de indignação, no assento mal estofado. -seis meses? Mas já faz quase seis meses que você está aqui. Não se tem tanto tempo assim...

– Pois é, o tempo... – disse Joachim, olhando para a frente e meneando a cabeça repetidas vezes, sem se preocupar com o sincero agastamento do primo. – Aqui não fazem muita cerimônia com o tempo da gente. Você não tem idéia. Três semanas são para eles como um dia, vai ver. Tudo isso se aprende e... – acrescentou – ...aqui se modificam todas as nossas concepções.

Hans Castorp não cessava de contemplar-lhe o perfil.

– Mas você se restabeleceu maravilhosamente – disse, dando de ombros.

– Acha? – respondeu Joachim. – Não é mesmo? Também o creio continuou, encostando-se no espaldar, para logo voltar à posição anterior. – Vou melhor sim – explicou –, mas ainda não estou bem. À esquerda, em cima, onde antes se ouviam estalidos, nota-se agora apenas uma respiração um pouco rude, que não inspira cuidados. Mas aqui, mais para baixo, percebe-se um ronco muito forte, e no segundo espaço intercostal há também ruídos.

– Que grande cientista se tornou você! – disse Hans Castorp.

– Pois é. Sabe Deus que é uma triste ciência. Quem me dera te-la esquecido no serviço militar – replicou Joachim. – Mas, por enquanto ainda expectoro esputo – acrescentou, dando de ombros, com um gesto ao mesmo tempo resignado e veemente que não lhe ficava bem. A seguir mostrou ao primo um objeto que tirou pela metade do bolso interior do sobretudo, para logo guardá-lo novamente; era um frasco chato, bojudo, de vidro azul, com um fecho de metal. – A maioria de nós, aqui em cima, usa isto. Batizaram-no até com um nome especial, um apelido bem engraçado. Está olhando a paisagem?

Era o que Hans Castorp fazia. Deu sua opinião:

– Magnífica.

– Acha? – perguntou Joachim.

Haviam seguido na direção do eixo do vale, por um trecho de caminho espaçadamente ladeado de habitações e paralelo ao leito da via férrea. Depois, dobrando à esquerda, tinham cruzado os trilhos de bitola estreita e atravessado um curso d'água. Nesse instante subiam a trote um atalho pouco íngreme, rumo a uma encosta coberta de bosques. Ali, numa meseta um tanto proeminente, de pouca altura, destacava-se um edifício comprido, encimado por uma torre em cúpula, com a fachada dirigida para sudeste. Numerosas varandas davam-lhe de longe um aspecto esburacado, poroso como uma esponja. As primeiras luzes acabavam de ser acesas, enquanto o crepúsculo avançava rapidamente. Já se esvaíra um suave arrebol, que durante algum tempo animara o céu toldado. Reinava na natureza aquele estado de transição, descolorido, melancólico, desprovido de vida, que precede imediatamente o anoitecer definitivo. O vale povoado, extenso e levemente sinuoso, iluminava-se em toda parte, tanto no fundo como nas bordas, sobretudo na direita que formava uma saliência, com os terraços da encosta salpicados de construções. A esquerda, algumas veredas subiam através dos prados, para se perderem na baça negrura dos pinheirais. Os bastidores mais distantes das montanhas, próximos da saída do vale, que ali se estreitava, exibiam-se num frio azul de ardósia. Com o vento que acabava de levantar-se, o frescor da noite começava a se fazer sentir.

– Não! Para falar com franqueza, não acho a paisagem assim tão formidável – disse Hans Castorp. – Onde estão as geleiras, os picos brancos e as cordilheiras gigantescas? Não me parece que essas montanhas aí sejam muito altas.

– Pelo contrário, são bem altas – retrucou Joachim. – Você nota quase em toda parte o limite das árvores. Ele se delineia com absoluta nitidez. Terminam os pinheiros, e com isso acaba-se toda a vegetação. Como você vê, é pura rocha. Por ali, à direita desse pico que é o Schwarzhorn, aparece até uma geleira. Você enxerga uma coisa azul? Não é lá muito grande, mas é uma geleira em regra, a Scaletta. O Pico Michel e o Tinzenhorn, naquela abertura (não se pode vê-los daqui), também ficam cobertos de neve durante o ano inteiro.

– De neve eterna – disse Hans Castorp.

– Pois é, neve eterna, se assim o quer. Não se pode negar que tudo isso é bastante alto. E não se esqueça que nós mesmos nos achamos a uma altura espantosa. Mil e seiscentos metros acima do nível do mar. Assim, as elevações não nos impressionam tanto.

– Sim senhor, que ascensão! Fiquei com uma angústia, que lhe conto! Mil e seiscentos metros! São mais ou menos cinco mil pés, se não me engano. Nunca na vida estive a tal altura. – E cheio de curiosidade, Hans Castorp aspirou profundamente aquele ar estranho, como que para prová-lo. Era fresco, e nada mais. Carecia de aroma, de sabor, de umidade. Tragava-se facilmente e nada dizia à alma.

– Ótimo! – exclamou Hans Castorp cortesmente.

– Sim, esse ar tem grande fama. De resto, a paisagem não se apresenta, esta noite, sob o seu aspecto mais favorável. Às vezes está muito mais bonita, sobretudo com neve. Mas a gente acaba por se cansar dela. Nós todos, aqui em cima, pode acreditar, estamos fartos dela, indizivelmente fartos – disse Joachim, e sua boca torceu-se numa expressão de nojo, que parecia exagerada e violenta, e novamente não lhe ficava bem.

– Você tem um jeito tão esquisito de falar! – disse Hans Castorp.

– Esquisito? – perguntou Joachim com certa apreensão, voltando-se para o primo.

– Não, não! Desculpe! Tive essa impressão só por um momento – apressou-se Hans Castorp a dizer. Ele se referira à expressão “Nós, aqui em cima”, que Joachim já empregara umas quatro ou cinco vezes, e que de certa forma lhe causava impressão deprimente e chocante.

– Como vê, o nosso sanatório está situado ainda mais alto que a aldeia – continuou Joachim. – Cinqüenta metros. O prospecto diz “cem”, mas são apenas cinqüenta. O sanatório que fica mais alto é o Schatzalp, lá do outro lado. Não se vê daqui. No inverno, eles têm de transportar os cadáveres em trenós, porque os caminhos se tornam impraticáveis...

– Os cadáveres? Ah sim!... Vejam só! – exclamou Hans Castorp, e de repente rebentou em riso, um riso violento, irreprimível, que lhe sacudia o peito e fez com que o rosto enrijecido pelo vento frio se contraísse num trejeito dolorido. – Em trenós? E você me conta essas coisas assim, sem mais nem menos? Parece que se tornou muito cínico nesses cinco meses.

– Qual cínico! – replicou Joachim, dando de ombros. – Que é que você quer? Os cadáveres pouco se importam com isso... De resto, pode ser que a gente chegue mesmo a ficar cínico, neste nosso meio. O próprio Behrens também é um velho cínico; um sujeito de classe, seja dito de passagem; na universidade pertencia a uma corporação das mais finas; e dizem que é ótimo cirurgião. Acho que ele vai agradar a você. Além dele há o Krokowski, seu assistente, um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade. E que ele pratica a dissecação psíquica dos pacientes.

– O quê? A dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo quanto ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto, que as lágrimas lhe brotavam por entre a mão, com a qual, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o humor dos dois jovens era excelente, ao descerem do carro, que terminara por conduzi-los lentamente através de uma rampa íngreme e serpeante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.

 

         Número 34

Logo à direita, entre o portão e o guarda-vento, achava-se a guarita do porteiro. Um criado de tipo francês, vestido com libré cinzenta igual à do homem coxo da estação, estava ali sentado em frente do telefone, lendo jornais. Saiu ao encontro dos recém-chegados e os conduziu através do vestíbulo bem iluminado, a cuja direita ficavam os salões. Ao passar, Hans Castorp lançou um olhar para dentro e notou que estavam vazios. Perguntou ao primo onde se encontravam os hóspedes.

– Estão fazendo repouso – respondeu o primo. – Eu bem estou de licença, porque queria receber você. Normalmente também me deito na sacada, depois do jantar.

Pouco faltou para que Hans Castorp voltasse a estourar de riso.

– Como? Em plena escuridão, vocês ainda se deitam na sacada? – indagou com voz vacilante.

– Sim senhor. Isso faz parte do regulamento. Das oito às dez. Mas venha agora ver seu quarto e lavar as mãos.

Entraram no elevador, cujo mecanismo elétrico foi posto em ação pelo criado francês. Enquanto subiam, Hans Castorp enxugou os olhos.

– Estou todo moído e exausto de tanto rir – disse, respirando pela boca. – Você me contou mil coisas estranhas... Aquela história da dissecação psíquica é o cúmulo; por esta não esperava. Estou aliás um pouco cansado pela viagem. Você sofre também de pés frios? Ao mesmo tempo sinto que me arde o rosto. E bem desagradável. A gente jantará logo, não é? Tenho a impressão de que estou com fome. Come-se bem aqui em cima, entre vocês?

A passo silencioso, andavam pela passadeira de fibra de coqueiro, que cobria o estreito corredor. Globos de vidro fosco difundiam uma luz pálida. As paredes resplandeciam, brancas e duras, revestidas de uma tinta a óleo com aparência de verniz. Surgiu uma enfermeira de touca branca, trazendo no nariz um pince-nez, cujo cordão lhe passava por trás da orelha. Era evidentemente uma irmã protestante, sem verdadeira dedicação ao oficio, curiosa e irritada de tanto tédio que pesava sobre ela. Em dois pontos do corredor, em frente das alvas portas numeradas, viam-se no chão uns recipientes grandes, bojudos, de gargalo curto, sobre cuja finalidade Hans Castorp se esqueceu de pedir explicações.

– Aqui está o seu quarto – disse Joachim. – Número 34. À direita fica o meu, e à esquerda mora um casal russo; gente um pouco relaxada e barulhenta, não posso negá-lo, mas não houve jeito de evitar isso. Bem! Que tal lhe parece?

Havia portas duplas, com cabides no espaço entre elas. Joachim acendera a lâmpada do teto, e à sua luz trêmula o quarto se apresentava alegre e quieto, com os móveis brancos e práticos, os papéis de parede igualmente brancos, resistentes e laváveis, o linóleo limpo, cobrindo o soalho, e as cortinas de linho, bordadas de maneira simples e graciosa, conforme o gosto moderno. A porta da sacada estava aberta. Enxergavam-se as luzes do vale e ouvia-se ao longe uma música de baile. O atencioso Joachim colocara algumas flores num pequeno vaso sobre a cômoda – o que a época oferecia, aquilégias e umas poucas campânulas, que ele mesmo colhera na encosta.

– Muito amável da sua parte – disse Hans Castorp. – Que quarto simpático! Num lugar destes dá prazer passar algumas semanas.

– Anteontem morreu aqui uma americana – disse Joachim. – Behrens achou logo que a coisa se acabaria antes da sua chegada, e que então você poderia ficar com o quarto. O noivo estava ao lado dela. Embora fosse oficial da marinha inglesa, não demonstrou muito valor. A cada instante saía ao corredor, para chorar que nem um menino. E depois esfregava as faces com cold cream, porque estava escanhoado e as lágrimas lhe ardiam na pele. Na noite de anteontem, a americana teve duas hemoptises de primeira, e com isso acabou-se a festa. Mas ela já se foi ontem de manhã. Claro que depois desinfetaram tudo a fundo, com formalina; não sabe? Dizem que é excelente nesses casos.

Hans Castorp ouviu essa história numa distração nervosa. Estava de mangas arregaçadas, à frente da ampla pia, cujas torneiras niqueladas cintilavam à luz elétrica. Mal lançou um olhar fugidio para a cama de metal branco, coberta de roupa limpa.

– Desinfetaram então? Está ótimo – disse ele, com certa loquacidade e sem muito propósito, enquanto lavava e enxugava as mãos. – Pois é, aldeído metílico; não há micróbio que resista a isso. H2CO, sim senhor! Mas tem um cheiro picante, não é? Naturalmente, a mais rigorosa limpeza é indispensável... – Sua pronúncia era mais acentuadamente hamburguesa do que a do primo, que desde os seus tempos de estudante perdera os vestígios do dialeto da sua terra. Hans Castorp continuou conversando com grande desembaraço: – Que queria eu dizer?... O oficial de marinha provavelmente se barbeava com aparelho de gilete, achou eu; esses troços esfolam a pele mais facilmente do que uma navalha bem afiada. Eu, pelo menos, fiz essa experiência, e por isso uso alternadamente uma e outra coisa... Ora, é lógico que a água salgada dói na pele irritada. E no serviço militar, quem sabe se o homem não se acostumou ao uso do cold cream; nisso não vejo nada de surpreendente... – E prosseguindo, acrescentou que tinha na maleta duzentos Maria Mancini, seu charuto preferido. A inspeção alfandegária fora muito condescendente. A seguir transmitiu as saudações de diversas pessoas de sua cidade natal. -será que não aquecem os quartos? – exclamou de repente, e correu aos radiadores, a fim de apalpá-los.

– Não, eles costumam manter-nos a uma temperatura fresca – respondeu Joachim. – É preciso um frio muito mais intenso, para que acendam a calefação central já em agosto.

– Agosto, qual agosto! – disse Hans Castorp. – Mas se estou com frio, um frio horroroso, ao menos no corpo, pois o resto me arde! Olhe, experimente, estou com o rosto em brasa.

Essa idéia de que alguém lhe tocasse o rosto absolutamente não condizia com a mentalidade de Hans Castorp, e a ele mesmo causou impressão penosa. Ademais, Joachim não correspondeu ao convite, limitando-se a dizer:

– É do ar. Não quer dizer nada. O próprio Behrens anda o dia inteiro com as faces azuladas. Há pessoas que nunca se habituam. Então, go on, senão nós não encontraremos mais nada para comer.

Quando saíram, a enfermeira voltou a aparecer, para examiná-los com olhares míopes e curiosos. No primeiro andar, Hans Castorp deteve-se de repente, imobilizado por um ruído simplesmente atroz, que se ouvia a pouca distância, por trás de uma volta do corredor; um ruído não muito forte, mas de som tão lúgubre, que o jovem fez uma careta e mirou o primo com os olhos arregalados. Era evidentemente uma tosse, a tosse de um homem, mas uma tosse em nada parecida com nenhuma outra que Hans Castorp jamais ouvira; sim, uma tosse em comparação com a qual todas as demais pareciam sinais de magnífica e sadia vitalidade; uma tosse inteiramente despida de prazer e alivio, que não se efetuava num acesso regular, mas que soava como se alguém chafurdasse débil e horripilantemente no lamaçal da podridão orgânica.

– Pois é – disse Joachim. – Este é um caso sério. Um aristocrata austríaco, homem elegante, como que feito para andar a cavalo. E agora vai desse jeito. Mas por enquanto ainda passeia.

Continuavam no caminho. Hans Castorp falou pormenorizadamente da tosse do cavaleiro.

– Você deve considerar – disse ele que nunca ouvi coisa semelhante; – tudo aqui é completamente novo para mim. É natural que me impressione com isso. Há muitas espécies de tosse, tosses secas e tosses soltas. Diz-se geralmente que as soltas são mais benignas do que aquelas que fazem a gente ladrar. Em minha juventude – ele disse mesmo “em minha juventude” – quando tive o crupe, ladrava como um lobo, e todo o mundo sentiu-se aliviado quando a tosse se tornou mais solta. Lembro-me ainda muito bem. Mas uma tosse como esta nunca se viu, pelo menos eu não tinha idéia de que existia uma coisa dessas. Já não é uma tosse viva. Não é seca, mas também não se pode chamar de solta. Não encontro, nem de longe, a palavra adequada. É como se se descortinasse o interior do homem, e tudo fosse lodo e pântano...

– Ora veja – disse Joachim –, ouço essas coisas todos os dias. Para mim, pode dispensar a descrição.

Mas Hans Castorp não conseguiu dominar-se. Afirmou repetidas vezes que para ele era como se tivesse lançado um olhar no interior do aristocrata. Quando entraram no restaurante, seus olhos fatigados da viagem mostravam um brilho exaltado.

 

         No restaurante

A sala do restaurante era clara, elegante e confortável. Estava situada logo à direita do vestíbulo, à frente dos salões, e conforme explicou Joachim, era freqüentada principalmente pelos hóspedes recém-chegados ou por quem tinha visitas. Mas também aniversários e partidas iminentes eram festejados ali, assim como os resultados favoráveis de exames gerais. Em certas ocasiões, o ambiente era de franca alegria no restaurante, dizia Joachim, e até se servia champanhe. Mas nesse momento apenas se achava ali uma senhora de aproximadamente trinta anos, que lia um livro e ao mesmo tempo cantarolava baixinho, tamborilando na toalha com o dedo médio da mão esquerda. Quando os dois jovens se sentaram, mudou de lugar, a fim de dar-lhes as costas. Era misantropa – explicou Joachim, abafando a voz –, comia sempre no restaurante lendo um livro. Afirmava-se que desde muito jovem passava a vida em sanatórios para doenças pulmonares e nunca mais convivera com o mundo de fora.

– Ora, comparado com ela, você é apenas um principiante, com seus cinco meses, e ainda o será quando tiver cumprido um ano – disse Hans Castorp ao primo. Joachim tomou o cardápio, dando de ombros com um gesto que antes não lhe era peculiar.

Haviam escolhido a mesa mais próxima da janela, e que ficava elevada sobre um estrado. Era o lugar mais agradável da sala. Achavam-se sentados junto à cortina creme, frente a frente, com os rostos abrasados pela luz da pequena lâmpada de mesa, de quebra-luz vermelho. Hans Castorp juntou as mãos recém-lavadas e esfregou-as uma na outra com uma sensação de conforto e expectativa, como era seu hábito ao sentar-se à mesa, talvez porque seus antepassados costumassem rezar antes de tomar a sopa. Servia-os uma criada amável, de fala gutural, que trajava vestido preto com avental branco e tinha um amplo rosto de cores sumamente sadias. Com grande hilaridade, Hans Castorp aprendeu que as criadas na Suíça se chamavam Saaltöchter, filhas de sala. Pediram uma garrafa de Gruaud Larose, que Hans Castorp devolveu porque estava fria demais. A comida era excelente. O cardápio constava de sopa de aspargos, tomates recheados, um assado com diversos legumes e saladas, uma sobremesa particularmente bem preparada, queijos variados e frutas. Hans Castorp comeu muito, se bem que o seu apetite se evidenciasse menos intenso do que lhe parecera. Mas uma espécie de consideração por si próprio fazia-o comer fartamente, mesmo não sentindo fome.

Joachim não fez muita honra aos quitutes.

– Estou cansado dessa cozinha – disse – e isto se dá com todos aqui em cima; é costume resmungar contra a comida, pois quem se acha amarrado neste lugar por toda uma eternidade... – Em compensação, bebeu o vinho com prazer e mesmo com certa paixão. Evitando cuidadosamente qualquer frase por demais sentimental, manifestou várias vezes a sua satisfação por ter com quem trocar palavras sensatas.

– Sim, senhor, você veio mesmo a calhar – disse ele, e sua voz pausada revelava emoção. – Posso lhe afirmar que para mim a sua chegada é um grande acontecimento. É pelo menos uma variação... Quero dizer que ela representa um marco, uma subdivisão, nesta eterna e infinita monotonia...

– Mas o tempo deve passar depressa para vocês aqui – opinou Hans Castorp.

– Depressa ou devagar, como quiser – respondeu Joachim. – Propriamente não passa de modo algum; sabe? Aqui não há tempo nem vida; não senhor, não há nada disso – acrescentou meneando a cabeça. E novamente levantou a taça.

Também Hans Castorp voltou a beber, embora o rosto lhe ardesse como fogo. Mas o seu corpo continuava frio, e nos seus membros havia um desassossego todo especial, ao mesmo tempo eufórico e um tanto penoso. Suas palavras precipitavam-se; freqüentemente se confundia, mas com um gesto displicente da mão passava por cima de tais incidentes. O próprio Joachim tornara-se mais animado também, e a conversa prosseguia ainda mais desembaraçada e alegre, quando a senhora da mesa vizinha, cessando subitamente de cantarolar e tamborilar, levantou-se e saiu. Comiam gesticulando com os garfos; davam-se ares de importância, com as bochechas túmidas de comida; riam-se, sacudiam a cabeça, encolhiam os ombros, e ainda com a boca cheia voltavam a palestrar. Joachim queria saber o que se passava em Hamburgo, e levou a conversa para o projeto da canalização do Elba.

– Fenomenal! – disse Hans Castorp. – É formidável para o desenvolvimento da nossa navegação. É de uma importância incalculável. No nosso orçamento, destinamos a essa obra cinqüenta milhões para as despesas mais imediatas, e você pode ter certeza de que sabemos o que estamos fazendo.

Apesar da importância que atribuía à canalização do Elba, abandonou, porém, imediatamente o assunto, para pedir que Joachim lhe contasse mais pormenores da vida “aqui em cima” e dos hóspedes. Este lhe fez a vontade com grande prazer, já que se sentia feliz por ter uma oportunidade de desafogar-se e abrir-se. Teve de repetir a história dos cadáveres que eram transportados pela pista de trenó, e de assegurar mais uma vez que se tratava da mais estrita verdade. Como Hans Castorp mais uma vez desatasse a rir, o primo riu-se também, parecendo gozar de todo o coração. Depois relatou outras coisas divertidas, a fim de manter vivo o bom humor reinante. Falou de uma senhora que se sentava à mesma mesa que ele, uma tal Srª. Stöhr, mulher bastante doente, aliás, casada com um músico de Cannstatt, e que era a criatura mais inculta que já encontrara. Dizia ela “desinfecar”, com toda a seriedade. E ao assistente Krokowski intitulava de “fómulo”. Era preciso ouvir tudo isso, sem pestanejar. Ademais, era mexeriqueira, como de resto a maioria dos hóspedes ali em cima, e costumava contar que uma companheira, a Srª. Iltis, trazia consigo um “esterilete”.

– Imagine, chama aquilo de “esterilete”! Não é impagável? – E semideitados, recostando-se no espaldar das cadeiras, riram-se tanto, que o corpo lhes estremecia e ambos terminaram por ser acometidos de soluço.

No meio dessas conversas, Joachim se entristeceu ao pensar no seu infortúnio.

– Pois e, aqui estamos e nos divertimos – disse com uma expressão dolorosa, ainda interrompido, de vez em vez, pelas trepidações de seu diafragma – e no entanto não posso prever, nem de longe, quando poderei sair daqui. Pois, quando o Behrens me diz: “Mais meio ano”, sei que preciso preparar-me para um prazo maior. É bem duro isso. Você deve compreender como é triste para mim. Já me haviam aceitado no exército, e no mês que vem poderia fazer exames para oficial. Agora vivo aqui vadiando, com o termômetro na boca, conto os erros dessa ignorantona da Srª. Stöhr e perco meu tempo. Um ano tem tanta importância na nossa idade, traz tantas alterações e tantos progressos na vida lá de baixo! E eu obrigado a estagnar aqui como uma poça d'água, sim senhor, como um charco apodrecido. Não há exagero nenhum nessa comparação...

Ao invés de responder, Hans Castorp limitou-se a perguntar se havia um jeito de se obter porter nesse sanatório. O primo olhou-o com certa surpresa e verificou que estava a ponto de adormecer ou até já cochilava.

– Mas você está com sono! – disse Joachim. – Vamos, está na hora da gente ir para a cama.

– Não! Não está na hora – disse Hans Castorp com a língua trôpega. Mesmo assim seguiu Joachim, caminhando um pouco curvado, com as pernas duras, como um homem literalmente prostrado de cansaço. Fez, porém, um violento esforço para se dominar quando, no vestíbulo fracamente iluminado, ouviu o primo dizer:

– Aí está Krokowski. Acho que temos de parar um instante, para que eu possa apresentar você.

Diante da lareira de uma das salas de recepção, ao lado da escancarada porta corrediça, o Dr. Krokowski estava sentado junto à fonte de luz e lia um jornal. Pôs-se de pé, quando os dois jovens se aproximaram dele, e Joachim, em atitude militar, disse:

– Permita-me, doutor, que lhe apresente meu primo Castorp, de Hamburgo, que acaba de chegar.

O Dr. Krokowski cumprimentou o novo pensionista com uma certa cordialidade jovial, robusta e confortante, como se quisesse dar a entender que no contato com ele todo acanhamento era supérfluo e somente deveria reinar a mais risonha confiança. Tinha aproximadamente trinta e cinco anos; era espadaúdo, obeso e muito mais baixo do que os dois, de maneira que, para encará-los, via-se obrigado a deitar a cabeça para trás. Além disso era extremamente pálido, de uma palidez translúcida e mesmo fosforescente, que ainda mais se intensificava pelo sombrio fulgor dos olhos, pela negrura das sobrancelhas e da barba comprida, que terminava em duas pontas e já mostrava alguns fios brancos. Trajava uma fatiota preta, um tanto surrada, bem como sapatos pretos, perfurados como sandálias, grossas meias de lã cinzenta e um amplo colarinho mole, de um tipo que Hans Castorp só conhecia num fotógrafo de Dantzig, e que de fato dava ao Dr. Krokowski um ar de artista. Com um sorriso afetuoso, que fez com que os dentes amarelos apontassem por entre a barba, apertou a mão do jovem e disse numa arrastada voz de barítono, com algum sotaque estrangeiro:

-seja bem-vindo, Sr. Castorp! Espero que o senhor se aclimate rapidamente e se sinta bem no nosso meio. Permita-me a pergunta: veio como paciente?

Era comovente ver como Hans Castorp se esforçava por mostrar-se cortês e dominar a sonolência. Sentia-se irritado pelo fato de estar tão pouco apresentável, e com a desconfiada soberba peculiar aos jovens, via no sorriso e na atitude confortante do médico apenas sinais de ironia indulgente. Respondeu que passaria três semanas ali, mencionou o seu exame e acrescentou que, graças a Deus, gozava a mais perfeita saúde.

-será? – perguntou o Dr. Krokowski, avançando a cabeça obliquamente, como para caçoar, enquanto o seu sorriso se acentuava. – Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem de perfeita saúde. Posso perguntar qual é o exame que prestou?

– Sou engenheiro, doutor – comunicou Hans Castorp com dignidade e modéstia.

– Ah, engenheiro! – E o sorriso do Dr. Krokowski por assim dizer se retraiu, diminuindo momentaneamente em força e cordialidade. – Uma profissão excelente! De maneira que o senhor não pretende receber aqui nenhuma assistência médica, nem de ordem física nem psíquica?

– Não, muito obrigado – disse Hans Castorp, a ponto de dar um passo para trás.

Eis que o sorriso do Dr. Krokowski reapareceu vitoriosamente, e enquanto tornava a apertar a mão do jovem, exclamou com ênfase: – Pois então, durma bem, Sr. Castorp, na plena convicção de sua saúde inatacável! Durma bem e até amanhã! – Com essas palavras despediu-se dos jovens e voltou ao seu jornal.

Não havendo mais ascensorista, àquela hora, subiram a pé pela escada, silenciosos e um tanto perturbados pelo encontro com o Dr. Krokowski. Joachim acompanhou Hans Castorp até o número 34, onde o criado coxo já depositara a bagagem do recém-chegado. Continuaram a conversar durante um quarto de hora, enquanto Hans Castorp tirava da mala o pijama e os objetos de toucador, fumando um charuto grosso, mas leve. Essa noite ainda não tivera oportunidade para fumar um charuto, o que lhe parecia estranho e extraordinário.

– Ele dá a impressão de ter muita personalidade – disse, expelindo a fumaça. – Mas é pálido como cera. E o calçado que usa! Que coisa horrorosa! Imaginem, meias de lã cinzenta e ainda aquelas sandálias! Você acha que no fim ele se ofendeu?

– Ele é um pouco suscetível – admitiu Joachim. – Você não deveria ter rejeitado tão bruscamente a assistência médica, pelo menos o tratamento psíquico. Ele não gosta que alguém se esquive a isso. Comigo também antipatiza, porque não me abro bastante. Mas, de vez em quando, conto-lhe um sonho, para que tenha alguma coisa que analisar.

– Pois então escandalizei-o? Que vou fazer? – disse Hans Castorp, agastado; estava pouco satisfeito consigo próprio, por ter melindrado alguém. Ao mesmo tempo o cansaço acometia-o com força redobrada. – Boa noite – disse. – Estou caindo de sono.

– Às oito virei buscar você para o café da manhã – prometeu Joachim ao sair.

Hans Castorp aprontou-se apenas ligeiramente para a noite. Foi dominado pelo sono, apenas apagada a lâmpada de cabeceira. Mas sobressaltou-se mais uma vez, ao recordar-se de que na antevéspera alguém morrera nessa mesma cama.

-sem dúvida não foi a primeira vez – disse de si para si, como se isso pudesse tranqüilizá-lo. – Afinal de contas, é um leito de morte, um simples leito de morte. – E adormeceu.

Logo, porém, começou a sonhar. Sonhou quase sem interrupção até a manhã do dia seguinte. Em primeiro lugar, apareceu-lhe Joachim Ziemssen, numa posição estranhamente desengonçada, a descer num trenó por uma pista inclinada. Era de um palor tão fosforescente quanto o do Dr. Krokowski, e à sua frente achava-se sentado o aristocrata austríaco, cuja imagem era um tanto vaga, como a de alguém que apenas ouvimos tossir. “Pouco se nos dá, aqui em cima”, disse o desengonçado Joachim, e logo era ele, e não o aristocrata, quem tossia daquela maneira horripilante e lamacenta. Ao ouvi-lo, Hans Castorp verteu lágrimas amargas e verificou que era preciso correr à farmácia para comprar cold cream. Mas à beira do caminho estava sentada a Srª. Iltis, de focinho pontiagudo, segurando na mão alguma coisa, que devia representar o seu “esterilete”, mas na realidade era apenas um aparelho de gilete. Essa visão, por sua vez, fez com que Hans Castorp desatasse a rir, e dessa forma passou pelas mais diferentes emoções, até que o despertou a manhã, despontando através da porta semi-aberta da sacada.

 

         Da pia batismal e dos dois aspectos do avô

Hans Castorp conservava apenas pálidas recordações da casa paterna. Mal chegara a conhecer o pai e a mãe. Morreram ambos no curto intervalo entre o seu quinto e sétimo ano de vida. Primeiro faleceu a mãe, de forma absolutamente inesperada, em vésperas de um parto, por causa de uma obstrução de vasos sanguíneos, conseqüência de uma neurite; segundo o diagnóstico do Dr. Heidekind, foi uma embolia que paralisou instantaneamente o coração: a mãe acabava de rir-se, sentada na cama, e parecia cair para trás de tanto riso, mas na realidade isso se deu porque morrera. O pai, Hans Hermann Castorp, era incapaz de compreender essas coisas; visto ter tido grande apego à esposa e não ser ele próprio de compleição muito robusta, não pôde conformar-se com o golpe. Seu espírito, desde aquele dia, tornou-se confuso e apoucado. Presa de uma espécie de torpor, cometeu uma série de erros nos negócios, de maneira que a firma Castorp & Filho sofreu prejuízos sensíveis. Na segunda primavera depois da morte da mulher, contraiu uma pneumonia durante uma inspeção dos depósitos do porto varrido pela ventania, e como o coração fatigado não resistiu à febre alta, faleceu ao cabo de cinco dias, não obstante todos os cuidados do Dr. Heidekind. Acompanhado de numeroso cortejo de concidadãos, foi unir-se à esposa no jazigo dos Castorps, muito bem situado no cemitério de Santa Catarina, com vista para o jardim Botânico.

O avô paterno, o senador, sobreviveu apenas pouco tempo ao pai; morreu também de uma pneumonia, porém depois de muita luta e longo sofrimento, pois, ao contrário de seu filho, era Hans Lorenz Castorp uma personalidade que dificilmente se deixava abater, e se arraigava com grande tenacidade na vida. Durante o breve período entre aqueles outros dois falecimentos – não ultrapassou um ano e meio – morava o órfão Hans Castorp na casa do avô, mansão ao gosto do Classicismo nórdico, edificada em princípios do século passado, sobre um terreno estreito, à Rua da Esplanada. Era pintada numa cor que lembrava um céu nublado. No meio do andar térreo, cinco degraus acima do chão, achava-se o portão de entrada, flanqueado por meias colunas. Existiam ainda dois pavimentos superiores, além do primeiro cujas janelas desciam até o chão e estavam defendidas por grades de ferro fundido.

Ali havia apenas as salas de recepção, inclusive a de jantar, clara, decorada com estuque e cujas três janelas guarnecidas de cortinas escarlates davam para o pequeno quintal. Era nesse aposento que, durante os referidos dezoito meses, o avô e o neto almoçavam todos os dias às quatro horas, servidos pelo velho Fiete, que trazia brincos nas orelhas, botões de prata na casaca e uma gravata de cambraia igual àquela do patrão, do qual também imitava o hábito de esconder na laçada o queixo escanhoado. O avô tratava-o por “tu” e falava com ele em dialeto baixo-alemão, não para pilheriar, pois que não tinham nenhum senso de humor, mas com toda a seriedade, e porque sempre o fazia no contato com gente do povo – estivadores, carteiros, carroceiros e criados. Hans Castorp escutava-o com gosto, e com o mesmo prazer escutava as respostas que dava Fiete, igualmente em baixo-alemão, quando servia o dono da casa e se curvava para falar-lhe junto à orelha direita, com a qual o senador ouvia muito melhor do que com a outra. O ancião compreendia, fazia que sim e continuava comendo, muito ereto entre a mesa e o alto espaldar da poltrona de acaju, e quase que sem se inclinar para o prato. O neto, sentado à sua frente, contemplava em silêncio, com atenção inconsciente e profunda, os gestos precisos e bem cuidados, mediante os quais as belas mãos alvas, magras e idosas do avô, com as unhas convexas, aparadas em ponta, e com o anel sinete de pedra verde no indicador direito, arranjavam na ponta do garfo um bocado de carne, legumes e batatas, e os conduziam à boca, enquanto a cabeça, levemente, ia a seu encontro. Hans Castorp olhava então suas próprias mãos, ainda desajeitadas, e sentia que nelas se preparava a capacidade de manejar mais tarde a faca e o garfo com a mesma perfeição do avô.

Mais problemática era, porém, a questão de saber se um dia chegaria a acomodar o queixo numa gravata como aquela que enchia a ampla abertura do colarinho singular do avô, cujas pontas afiadas roçavam as bochechas. Ora, para isso, era preciso ter a idade dele, pois, já naqueles dias, ninguém, com exceção do avô e do velho Fiete, usava tais colarinhos e gravatas. Era uma lástima, porquanto o pequeno Hans Castorp gostava imensamente de contemplar o queixo do avô, apoiado no alto nó da gravata branca como neve; ainda quando adulto, causava-lhe prazer essa reminiscência, que encerrava algo que ele aprovava no fundo de seu coração.

Terminada a refeição, os guardanapos eram dobrados, enrolados e enfiados nas argolas de prata – uma tarefa da qual Hans Castorp naquela época se desincumbia com grande dificuldade, visto esses guardanapos serem tão grandes como pequenas toalhas. A seguir, o senador levantava-se da poltrona, que Fiete puxava para trás, e ia, de passo arrastado, ao “gabinete”, em busca de um charuto. Às vezes, o neto o seguia ali.

Esse “gabinete” devia sua origem ao fato de a sala de jantar ocupar toda a largura da casa e ter três janelas, de modo que não restara espaço suficiente para três salas de recepção, como se costuma encontrar nas casas desse tipo, senão apenas duas, uma das quais formava um ângulo reto com a sala de jantar e tinha somente uma janela. Para evitar que essa sala ficasse excessivamente ampla, haviam feito uma subdivisão por meio de um tabique, aproximadamente na quarta parte do seu comprimento, formando-se assim o dito “gabinete”, uma peça estreita, que de uma clarabóia recebia uma luz crepuscular e continha apenas poucos móveis: uma estante, na qual se achavam as caixas de charutos do senador; uma mesa de jogo cuja gaveta abrigava objetos atraentes, como naipes de uíste, fichas, tabuletas de dentes móveis para marcar pontos, uma lousa com lápis de pedra, boquilhas de papel, e outras coisas; e finalmente no canto havia um armário de vidro, estilo rococó, de madeira de mogno, atrás de cujas vidraças se achavam cortinas de seda amarela.

Quando o pequeno Hans Castorp estava nesse gabinete, acontecia às vezes que se punha nas pontas dos pés, para aproximar-se do ouvido do ancião e pedir:

– Vovô, mostre-me, por favor, a pia batismal.

E o avô, que já afastara para trás a aba comprida da sobrecasaca de casimira macia e tirara do bolso da calça um molho de chaves, abria então o armário, de cujo interior emanava um aroma singularmente misterioso e agradável ao menino. Ali estava guardada toda espécie de objetos pouco usados e justamente por isso fascinantes: um par de candelabros de prata, um barômetro quebrado com figuras talhadas em madeira, um álbum de daguerreotipias, um licoreiro de madeira de cedro, um pequeno turco, duro ao tato, sob a roupagem de seda, e que tinha na barriga um mecanismo engenhoso, que outrora lhe permitira caminhar sobre a mesa, mas já não funcionava havia muito tempo, um modelo de navio antigo; e bem no fundo havia até uma ratoeira. O velho, porém, retirava da prateleira do centro uma bacia redonda de prata muito oxidada, que se encontrava sobre uma bandeja igualmente de prata, e mostrava ao menino ambos esses objetos, tirando um de cima do outro e exibindo-os de todos os lados, enquanto mais uma vez lhe dava as explicações já muitas vezes prestadas.

A bacia e a bandeja primitivamente não formavam um jogo, como se podia ver, e como o pequeno voltava a aprender; mas haviam sido usados como tal – dizia o avô – fazia uns cem anos, isto é, desde a compra da bacia. Esta era formosa, de linhas simples e nobres, com a marca do gosto austero que reinava em princípios do século passado. Polida e maciça, repousava sobre um pé redondo e era dourada no seu interior; mas desse ouro sobrara com o tempo somente um reflexo de amarelo pálido. Como único adorno, uma coroa de rosas e folhas denteadas, lavrada em relevo, cobria a borda superior. Quanto à bandeja, podia-se ler a data que lhe conferia uma antiguidade muito maior: “1650”, em números enfeitados de arabescos, emoldurados de toda espécie de desenhos distribuídos desordenadamente, à “maneira moderna” daquela época, mistura exuberante e arbitrária de escudos e rabiscos, metade flores metade estrelas. No reverso da bandeja, porém, estavam inscritos os nomes dos chefes de família que no decorrer dos anos a tinham possuído. Já havia ali sete nomes, cada qual com o ano da transmissão do objeto, e o ancião, com a ponta do dedo ornado de anel, recitava-os um a um, ao neto. Estava ali o nome do pai, assim como o do próprio avô, o do bisavô, e depois se dobrava, triplicava, quadruplicava o prefixo na boca do narrador. O menino, com a cabeça inclinada para o lado, ouvia tudo isso, cravando na bacia um olhar pensativo, sonhador ou abstrato, e abrindo a boca infantil, numa expressão entre respeitosa e sonolenta; ouvia esses “bis, tris, tetra”, sons obscuros de tumba e de tempos soterrados, que todavia expressavam uma ligação piedosamente mantida entre o presente – a sua própria vida – e aquele mundo submerso. Esses sons exerciam sobre ele um efeito esquisito, que se refletia no seu rosto. Ao ouvi-los, tinha a impressão de respirar um ar frio, bolorento, o ar da igreja de Santa Catarina ou da cripta de São Miguel; parecia-lhe sentir o sopro daqueles lugares onde as pessoas tiram os chapéus e avançam num andar reverente, cadenciado, na ponta dos pés; julgava ouvir até mesmo o silêncio remoto, pacato, desses lugares ecoantes; sensações devotas mesclavam-se com a idéia da morte e da história, ao som dessas sílabas surdas, e tudo isso impressionava o garoto simpaticamente; quem sabe se não era para ouvi-las e repeti-las mais uma vez, que ele gostava tanto de contemplar a pia batismal?

Depois, o avô repunha a bacia na bandeja e mostrava ao menino a concavidade lisa, levemente dourada, que resplandecia sob a luz vinda do teto.

– Já faz quase oito anos – dizia – que te levantamos sobre esta bacia, e que a água com que foste batizado caiu dentro dela. O sacristão Lassen da paróquia de São Jacó verteu-a na concha da mão do bom pastor Bugenhagen, e dali escorreu ela sobre a tua cabeça até a bacia. A água tinha sido amornada, para que não te assustasses e chorasses. E de fato não choraste nem um pouquinho, embora antes gritasses de tal maneira que Bugenhagen tinha dificuldades de fazer seu sermão. Mas quando sentiste a água, ficaste quietinho, e quero acreditar que foi por respeito ao Santo Sacramento. E por estes dias vai fazer quarenta e quatro anos que teu saudoso pai recebeu o batismo, e a água que escorreu da cabeça dele caiu nesta mesma bacia. Foi aqui, nesta casa, sua casa paterna, na sala ao lado, e quem o batizou foi ainda o velho pastor Hesekiel, o mesmo a quem os franceses quase que fuzilaram, quando jovem, porque pregara contra suas rapinagens e saques; esse pastor também já faz muito que está junto de Deus. E há setenta e cinco anos batizaram a mim. Foi também nesta mesma sala, e mantiveram a minha cabeça por cima da bacia, exatamente como a vês agora colocada sobre a bandeja; e o pastor pronunciou as mesmas palavras como no teu batizado e no de teu pai, e a água morna e límpida escorreu da mesma forma dos meus cabelos (não tinha muito mais do que tenho agora), e caiu aqui, nesta bacia dourada.

O pequeno levantava os olhos para a fina e comprida cabeça do ancião, que voltava a inclinar-se para a bacia, como fizera naquele momento já longínquo a que se referia. E se apoderava do menino uma sensação ia muitas vezes experimentada, a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era reiteração tanto como vertiginosa monotonia – impressão que ele conhecia de outras ocasiões, e cuja volta esperara e desejara. Era em parte pelo prazer de senti-la mais uma vez que pedia ao avô que lhe mostrasse a relíquia da família, na sua imutável progressão.

Quando, mais tarde, o jovem se examinava a si mesmo, verificava que a imagem do avô se lhe gravara na memória com muito maior nitidez, intensidade e significação do que a de seus próprios pais; isso talvez se devesse a alguma simpatia ou afinidade física particular, pois o neto se parecia com o avô, tanto quanto um fedelho de faces rosadas pode ter semelhança com um septuagenário encanecido e esclerótico. Mas, antes de tudo, esse fato falava em favor do ancião, que incontestavelmente fora a figura mais característica, a personalidade pitoresca da família. No que se refere aos assuntos públicos, o tempo, já muito antes do traspasse de Hans Lorenz Castorp, passara por cima da sua maneira de ser e pensar. Fora ele um homem profundamente cristão, membro da Igreja Reformista, e de opiniões rigorosamente tradicionalistas; empenhara-se em manter de pé a restrição aristocrática da única classe social capaz de produzir os futuros governantes, e o fizera com tamanha tenacidade como se vivesse no século XIV, quando o artesanato, vencendo a encarniçada resistência do patriciado livre, conquistara o direito de voto e assento no Conselho Municipal. O velho sentia grande dificuldade em adaptar-se a inovações. Sua vida coincidia com uma época de rápido desenvolvimento e múltiplas revoluções, com decênios de progresso em marcha forçada, que haviam exigido muita audácia e grande abnegação nos negócios públicos. Mas Deus sabe que não era culpa do velho Castorp que o espírito moderno obtivesse seus conhecidos e brilhantes triunfos. Ligara ele maior importância às tradições ancestrais e às instituições antigas do que às arriscadas ampliações do porto e outros arremedos ímpios de cidades grandes; refreara e se opusera, sempre que lhe era possível, e se fosse por ele, a administração seria ainda hoje tão idílica e antiquada como o seu próprio escritório.

Era assim que o ancião, em tempos de vida e mesmo depois, se apresentava aos olhos de seus concidadãos, e posto que o pequeno Hans Castorp nada entendesse de assuntos públicos, os olhares silenciosos e contemplativos da criança faziam pouco mais ou menos as mesmas observações; observações mudas, despidas de crítica, porém cheias de vida, e que mais tarde, como reminiscência consciente, conservavam o seu caráter de irrestrita aprovação, hostil a qualquer análise verbal. Como já dissemos, havia nisso um quê de simpatia, aquele laço íntimo, aquela afinidade de almas que não raras vezes salta uma geração. Os filhos e os netos olham para admirar, e admiram na intenção de aprender e aperfeiçoar, o que se acha preparado na sua massa hereditária.

O senador Castorp era alto e macilento. Os anos lhe haviam curvado os ombros e a nuca, mas ele fazia esforço intenso para compensar isso por uma postura muito ereta. Ao assumi-la, numa dignidade penosamente mantida, contraía-se-lhe a boca, cujos lábios já não se apoiavam em dentes, repousando sobre as gengivas vazias, uma vez que o ancião punha a dentadura postiça apenas para comer. E justamente esse esforço, aumentado talvez pelo empenho de esconder um incipiente tremor de cabeça, é que determinava aquela atitude austera e tesa, com o queixo escorado pelo nó da gravata, atitude que tanto agradava ao pequeno Hans Castorp.

O senador apreciava a caixinha de rapé – usava uma oblonga, de tartaruga, lavrada de ouro – e servia-se de lenços vermelhos, cujas pontas costumavam pender do bolso traseiro da sobrecasaca. Se bem que isso não deixasse de ser uma nota um tanto cômica da sua personalidade, parecia perfeitamente admissível em consideração à idade, como uma negligência que a velhice ora se pode permitir consciente e humoristicamente, ora acarreta sem que a vítima, numa ignorância respeitável, se dê conta dela. Seja como for, era esse o único sinal de fraqueza que o olhar arguto do pequeno Hans Castorp jamais observara na pessoa do avô. Mas, para o menino de sete anos tanto como para a recordação do adulto, a imagem cotidiana e familiar do ancião não constituía a genuína e verdadeira. Na sua realidade autêntica, o avô tinha aspecto diferente, muito mais belo e muito mais certo do que o de todos os dias: era assim como aparecia num retrato de tamanho natural, que antigamente estivera pendurado na sala de estar dos pais do menino, e depois emigrara com ele para a Rua da Esplanada, onde recebera o seu lugar por cima do sofá de seda vermelha, na sala de recepção.

O retrato mostrava Hans Lorenz Castorp vestido com os trajes oficiais de um vereador da cidade – trajes dos cidadãos austeros e até piedosos de uma era desaparecida, e que essa comunidade ao mesmo tempo conservadora e progressista levara consigo na sua marcha através das épocas, reservando-os ao uso festivo, a fim de confundir, dessa forma cerimoniosa, o passado com o presente, o presente com o passado, e de evidenciar a perpétua continuidade da sua história, como que confirmando a veneranda solidez da sua firma comercial. Sobre um chão coberto de lajes avermelhadas, diante de um fundo de pilares e arcos ogivais, o senador Castorp aparecia de pé, com o queixo inclinado e as comissuras da boca apontando para baixo, cravando nas lonjuras a mirada contemplativa dos olhos azuis, empapuçados. A veste talar, aberta na frente, exibia nas orlas um largo debrum de peles. De umas meias mangas amplas, estufadas e adornadas de galões, saíam outras mangas, mais justas, de pano liso. Punhos de renda cobriam as mãos até a metade. As pernas finas do ancião estavam revestidas de meias de seda preta, e os pés, calçados de sapatos com fivelas de prata. Rodeava-lhe o pescoço uma golilha larga como um prato, engomada e disposta em numerosas pregas, que o queixo aplanava na parte dianteira, e que se levantava de ambos os lados. Por baixo dela caía sobre o colete um folho pregueado de cambraia. Sob o braço levava o ancião o tradicional chapéu de aba larga, cuja copa terminava em ponta.

Era um excelente retrato, obra de um artista afamado, executada com ótimo gosto, no estilo dos mestres antigos, ao qual se prestava o tema. Trazia à lembrança de quem o contemplasse quadros espanhóis ou holandeses do fim da Idade Média. O pequeno Hans Castorp olhara-o freqüentemente, não como um perito de arte, é claro, mas com certa compreensão geral e até com muita perspicácia. Embora não tivesse visto o avô em pessoa tal como o representava a tela, senão uma única vez, – e assim mesmo durante um curto instante, por ocasião da chegada de um cortejo solene ao palácio da municipalidade – não deixava de considerar, como já dissemos, a aparência do retrato como a verdadeira e genuína, e de ver no avô de todos os dias apenas a forma interina, um substituto imperfeitamente adaptado ao seu papel. Pois, o que havia de diferente e esquisito no seu aspecto cotidiano tinha a sua origem, evidentemente, numa tal adaptação imperfeita e quiçá um tanto desajeitada; tratava-se de restos e vestígios da sua forma pura e autêntica, que não se tinham apagado por completo. Assim, estavam fora de moda o colarinho duro, pontudo, e o alto nó da gravata branca, mas era impossível aplicar o termo “fora de moda” àquela maravilhosa peça de vestuário, de que aqueles constituíam apenas alusão interina: a golilha espanhola. E o mesmo acontecia com a cartola de abas inusitadamente recurvas, que o avô usava na rua, e à qual, numa realidade superior, correspondia o feltro de aba larga, reproduzido no quadro; e ainda o mesmo se dava com a longa e ampla sobrecasaca, cujo modelo e essência era, aos olhos do pequeno Hans Castorp, a veste talar, agaloada e debruada de peles.

Assim o menino aprovara no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre. Era na sala de jantar, a mesma sala onde tantas vezes haviam feito as refeições, sentados um em frente do outro. No seu centro jazia agora Hans Lorenz Castorp, estendido no caixão enfeitado de prata, exposto numa essa rodeada de coroas. Lutara até o fim contra a pneumonia, lutara tenaz e demoradamente, se bem que antes tivesse dado a impressão de se acomodar à vida moderna apenas por meio de uma espécie de adaptação. E enquanto o ancião jazia ali, no seu leito de gala, não se sabia se era vencedor ou vencido. Em todo caso, exibia uma expressão severa e sossegada; a fisionomia, depois de todas essas lutas, aparecia mudada, e o nariz mais pontiagudo. A metade inferior do corpo estava escondida sob um cobertor, em cima do qual se achava um ramo de palmeira. A cabeça repousava erguida sobre um travesseiro de seda, de forma que o queixo se conchegava imponentemente à concavidade dianteira da golilha espanhola. Entre as mãos, meio ocultas pelos punhos de renda, e cujos dedos, embora imitando uma posição natural, não deixavam de revelar frieza e imobilidade, haviam introduzido um crucifixo de marfim, que o defunto, de sob as pálpebras abaixadas, parecia fitar incessantemente.

No princípio da enfermidade, Hans Castorp vira o avô algumas vezes; mas depois não tornara a vê-lo. Haviam evitado que ele assistisse ao espetáculo da luta, que na sua maior parte se desenrolara durante as horas noturnas. Só indiretamente sentira o menino as suas conseqüências, em virtude da atmosfera angustiada da casa, dos olhos avermelhados do velho Fiete, das idas e vindas dos médicos. O resultado final, porém, que agora presenciava na sala, resumia-se no fato de que o avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto. E esse resultado parecia ao pequeno Hans Castorp digno de aprovação, ainda que o velho Fiete vertesse lágrimas, meneando sem cessar a cabeça, e que ele mesmo chorasse, como o fizera quando da repentina morte da mãe, e pouco tempo depois em presença do pai, que também estivera estendido assim, não menos silencioso e estranho.

Não se esqueça que era a terceira vez, num curto lapso de tempo, e numa idade tão tenra, que a morte agia sobre o espírito e os sentidos ­– principalmente os sentidos – do menino. Esse quadro e essa impressão já não lhe eram novos, senão bastante familiares. Nas duas ocasiões anteriores já se mostrara comedido e dono de si, sem perder o domínio dos nervos, apesar da tristeza natural que sentia. E dessa vez aparentou ainda maior tranqüilidade do que das outras. Como ignorasse a significação prática que aqueles acontecimentos tinham para a sua existência, ou talvez os considerasse com certa indiferença pueril, confiante em que o mundo, deste ou daquele modo, cuidaria de seu bem-estar, manifestou em frente dos ataúdes certa frieza igualmente infantil, bem como uma atenção objetiva, à qual o terceiro enterro acrescentou um matiz especial de superioridade precoce, baseada na plenitude da experiência anteriormente adquirida, que o imunizava contra os freqüentes acessos de choro e o contágio do pranto dos demais, fazendo com que tudo isso se lhe afigurasse como uma reação normal. No decorrer de três ou quatro meses, após o falecimento do pai, esquecera-se da morte; agora se recordou, e todas as impressões antigas reavivaram-se exatamente, simultâneas e intensas, na sua peculiaridade incomparável.

Analisadas e resumidas, essas impressões seriam pouco mais ou menos as seguintes: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza, quer dizer, um aspecto religioso, e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, sequer de triste. A natureza solene e religiosa expressava-se no suntuoso ataúde do defunto, na magnificência das flores e no ramo de palmeira, que, como se sabe, simbolizavam a paz celestial; expressava-se além disso, e ainda mais nitidamente, no crucifixo entre os dedos exangues de quem outrora era o avô, bem como no Cristo abençoador, de Thorwaldsen, que se achava à cabeceira do féretro, e nos dois candelabros que se erguiam de ambos os lados e nessa ocasião haviam assumido um caráter igualmente eclesiástico. Todas essas disposições encontravam evidentemente o seu sentido preciso e próprio na idéia de que o avô se unira para sempre com sua verdadeira e genuína figura. Mas, além dessa razão de ser, existia – como o pequeno Hans Castorp bem notava, ainda que não se desse conta disso em palavras – mais uma outra, uma finalidade mais profana, a manifestar-se em tudo isso, principalmente naquela multidão de flores, e entre elas em especial nas tuberosas espalhadas por toda parte: cabia-lhes disfarçar, fazer esquecer e não admitir ao limiar da consciência o segundo aspecto da morte, que não era nem belo nem realmente triste, mas, a bem dizer, quase indecente e de um caráter baixo e carnal.

Era em virtude desse segundo aspecto que o avô defunto se afigurava tão estranho, que no fundo nem parecia o avô, senão um boneco de cera, de tamanho natural, que a morte pusera em seu lugar, e ao qual agora se dedicavam todas essas pompas piedosas e reverentes. Quem jazia ali, ou melhor, aquilo que ali se achava estendido, não era portanto o verdadeiro avô; não passava de um invólucro, que – Hans Castorp sabia-o muito bem – não constava de cera, mas de sua própria matéria; apenas de matéria, e precisamente nisso residia o indecente e a ausência de tristeza; aquilo era tão pouco triste como são as coisas que dizem respeito ao corpo e só a ele. O pequeno Hans Castorp contemplava essa matéria lisa, cor de cera, de uma consistência caseosa, de que estava feita aquela figura morta de tamanho natural, com o rosto e as mãos do ex-avô. Uma mosca acabava de pousar na testa imóvel e começava a mexer a probóscide. O velho Fiete espantou-a cautelosamente, evitando tocar a testa; ao fazê-lo, exibia uma fisionomia reservada e pudica, como se não devesse nem quisesse saber do ato que praticava; pudor que sem dúvida se devia ao fato de ser o avô, no atual estado, corpo e nada mais. Mas a mosca deu um vôo circular e aterrissou em seguida nos dedos do avô, perto da cruz de marfim. Enquanto isso sucedia, Hans Castorp percebeu, mais distintamente do que antes, aquela emanação leve apenas, mas de uma persistência singular, e que não lhe ficava estranha. Por vergonhoso que isso parecesse, lembrava-lhe ela um companheiro de escola, afetado de um mal desagradável e por isso evitado pelos colegas. E Hans Castorp compreendeu que o aroma das tuberosas tinha por objetivo abafar essa emanação, o que não conseguia, apesar da linda exuberância e austeridade.

Hans Castorp esteve diversas vezes diante do cadáver; uma vez a sós com o velho Fiete; outra, com seu tio-avô Tienappel, negociante de vinhos, e os dois tios James e Peter; depois uma terceira vez, quando um grupo de estivadores endomingados permaneceu durante alguns minutos perante o ataúde, para despedir-se do antigo chefe da casa Castorp & Filho. E chegou a hora do enterro. A sala estava cheia de gente e o pastor Bugenhagen, da igreja de São Miguel, o mesmo que batizara Hans Castorp, pronunciou, ornado de uma golilha espanhola, a oração fúnebre. No coche que seguia à frente de uma fila comprida, uma fila interminável, o pastor conversava muito amigavelmente com o pequeno. E assim terminou mais um capítulo da vida de Hans Castorp, que logo depois mudou de casa e de ambiente, pela segunda vez na sua curta existência.

 

         Da casa dos Tienappel e do estado moral de Hans Castorp

Não lhe redundou isso em desvantagem, pois o menino passou a morar na casa do cônsul Tienappel, seu tutor nomeado pelo tribunal. Nada lhe faltava ali, nem com respeito à sua pessoa, nem tampouco no referente à defesa dos seus interesses, dos quais ele ainda nada sabia. O cônsul Tienappel, tio da saudosa mãe de Hans, administrava os bens deixados pelos Castorps. Pôs à venda os imóveis, e também se encarregou de liquidar a firma Castorp & Filho, Importação e Exportação. O que conseguiu salvar eram uns quatrocentos mil marcos, que constituíam a herança de Hans Castorp. O cônsul Tienappel colocou-os em valores seguros, cobrando, não obstante os sentimentos de parente, trimestralmente, dois por cento de comissão legal sobre os juros vencidos.

A casa dos Tienappel, situada no fundo de um jardim, à Avenida de Harvestehude, dava para um gramado, no qual não se tolerava a mais mínima erva daninha. Atrás havia um roseiral público e o rio. Apesar de possuir uma bela carruagem, o cônsul caminhava todos os dias ao escritório, na cidade velha, a fim de fazer um pouco de exercício, pois às vezes sofria de ligeiras congestões cerebrais. Às cinco da tarde regressava da mesma maneira, e a seguir comia-se na casa dos Tienappel com todo o refinamento de gente culta. Era um homem cheio de corpo, que se vestia com os melhores tecidos ingleses. Tinha os olhos um tanto saltados, de um azul aquoso, que escondia atrás de óculos com aros de ouro; o nariz, de ordinário, estava coberto de espinhas. O cônsul usava barba grisalha de marinheiro e um diamante esplendoroso no curto mindinho da mão esquerda. Sua mulher já falecera havia muito tempo. Tinha dois filhos, Peter e James. O primeiro servia na marinha e passava apenas pouco tempo em casa do pai, ao passo que o outro trabalhava na firma paterna, uma casa de vinhos, sendo considerado como o futuro sucessor do chefe. A casa era dirigida desde muitos anos por Schalleen, filha de um ourives de Altona, que andava com alvos punhos engomados em volta dos pulsos roliços; cumpria a ela cuidar que na mesa de almoço e de jantar houvesse fartura de frios, camarões, salmão, enguia, peito de ganso, e tomato ketchup para o rosbife. Observava com olhos vigilantes os garçons contratados por ocasião dos banquetes, que o cônsul Tienappel dava aos seus amigos, e era ela que, na medida do possível, servia de mãe ao pequeno Hans Castorp.

Este se criou num clima abominável, entre vento e bruma. Ia crescendo, se assim se pode dizer, dentro de um impermeável amarelo. Contudo sentia-se perfeitamente bem. Desde cedo era um pouco anêmico, conforme verificou o Dr. Heidekind, que lhe prescreveu, para antes do almoço, após a aula, um volumoso copo de porter, bebida substancial, como se sabe, e considerada pelo doutor como altamente sanguificativa. Em todo caso, o porter tranqüilizava apreciavelmente a vitalidade de Hans Castorp e aumentava nele de modo benéfico uma determinada tendência para a “basbaquice”, como dizia seu tio Tienappel, ou seja, aquela sua inclinação para sonhar, de boca aberta, sem pensar, e com o olhar cravado no espaço. De resto era sadio e normal, um tenista regular e um bom remador, se bem que preferisse ao manejo dos remos instalar-se numa noite de verão no terraço do clube náutico de Uhlenhorst, diante de um copo cheio, para apreciar a música e contemplar os barcos iluminados, por entre os quais os cisnes sulcavam o irisado espelho das águas. Bastava ouvi-lo falar, calma e ponderadamente, sem grande profundidade e com alguma monotonia, numa voz levemente influenciada pelo dialeto hamburguês; bastava até examinar-lhe de relance a correção loura, o perfil finamente recortado, de certo cunho antigo, e no qual uma arrogância hereditária e inconsciente se manifestava sob a forma de uma indolência um tanto árida, para verificar que, indubitavelmente, esse Hans Castorp era um produto puro e autêntico daquele solo e se enquadrava com absoluta perfeição no ambiente. Ele próprio, se se tivesse estudado sob esse aspecto, não teria experimentado a mínima dúvida quanto a isso.

A úmida atmosfera da grande cidade marítima, mescla de vida farta e mercantilismo de envergadura mundial, esse ar que enchera de prazer a vida dos seus antepassados, Hans Castorp respirava-o com profunda aprovação, saboreando-o como uma coisa natural. Com o olfato penetrado pelas emanações da água, da hulha e do alcatrão e pelos acres odores de montões de produtos coloniais, via como no cais do porto os enormes guindastes a vapor imitavam a calma, a inteligência e a gigantesca força de elefantes a serviço do homem, transportando toneladas de sacos, fardos, caixas, barris e tambores, do bojo de transatlânticos ancorados até os armazéns das docas ou os vagões da via férrea. Via os comerciantes, com impermeáveis amarelos, tal qual o dele próprio, afluírem à Bolsa, por volta do meio-dia, onde, como ele sabia, se jogava alto, e facilmente acontecia que alguém se visse obrigado a distribuir convites apressados para um grande banquete, destinado a salvar-lhe o crédito. Via – e era este o campo em que mais tarde se concentraram os seus interesses – a multidão que fervilhava nos estaleiros; via os corpos de mamute, de vapores regressados da Ásia ou da África, do dique seco, altos como torres, com as quilhas e as hélices no ar, escorados em pontaletes grossos como árvores, monstruosos na sua paralisia, invadidos por exércitos de operários que pareciam pigmeus, ocupados em raspar, martelar e pintar; via nos picadeiros cobertos erguerem-se, envoltos numa cerração fumosa, os esqueletos de navios em construção, enquanto engenheiros, com os planos de construção e as tabelas de zonchadura na mão, davam ordens aos capatazes. Todas essas coisas eram familiares a Hans Castorp, desde a sua infância, e despertavam nele apenas a sensação confortável e habitual de fazer parte de tudo isso; impressão que culminava, quando, numa manhã de domingo, em companhia de James Tienappel ou de seu primo Ziemssen – Joachim Ziemssen – comia no Pavilhão do Alster pãezinhos quentes com carne defumada, regados por um copo de vinho velho do Porto, após o que se reclinava na poltrona, para aspirar com volúpia a fumaça de seu charuto. Pois era justamente neste ponto que Hans Castorp representava um produto genuíno da sua terra: gostava de viver bem, e apesar da sua aparência anêmica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, qual um lactente deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia.

Levava sobre os ombros, comodamente e com certa dignidade, a elevada civilização que a alta sociedade dessa democracia municipal de comerciantes transmite aos seus filhos. Ia lavadinho como um nenê e fazia-se vestir pelo alfaiate que gozava da confiança dos jovens da sua esfera social. O pequeno tesouro de roupa de dentro cuidadosamente marcada, que abrigavam as gavetas inglesas de seu armário, era lealmente administrado por Shalleen. Ainda quando Hans Castorp passou a estudar fora, continuava mandando regularmente a roupa branca para casa, a fim de que ali a lavassem e consertassem – afirmava ele que fora de Hamburgo ninguém sabia engomar. Um pedacinho puído no punho de uma das suas bonitas camisas de cor seria capaz de enchê-lo de violento mal-estar. Suas mãos, posto não fossem tipicamente aristocráticas, tinham a pele bem cuidada e macia, e eram adornadas pelo anel-sinete, herança do avô, e por outro anel de platina, em forma de corrente. Seus dentes, de consistência mole, haviam sofrido algumas avarias, reparadas por trabalhos de ouro.

Ao caminhar ou estar de pé, avançava um pouco o ventre, o que não dava propriamente uma impressão de energia marcial. Em compensação era impecável a sua postura à mesa. Voltava cortesmente o tronco muito teso para o vizinho com quem falava, pausadamente e com leve acento hamburguês. Os cotovelos achegavam-se ligeiramente do corpo, enquanto dissecava um pedaço de frango ou habilmente extraía, mediante o instrumento especial, a carne rosada de uma pinça de lavagante. Terminada a refeição, era sua primeira necessidade a tigelinha de água perfumada para lavar os dedos, e a segunda, o cigarro russo, sonegado ao imposto alfandegário, uma vez que Hans Castorp tinha uma fonte conveniente onde comprá-lo a contrabando. Ao cigarro seguia-se um charuto, de uma saborosa marca bremense, de nome Maria Mancini, do qual se falará mais adiante, e cujos tóxicos picantes se combinavam deliciosamente com os do café. Hans Castorp punha as suas provisões de fumo a salvo das influências prejudiciais da calefação a vapor, guardando-as no porão, aonde descia todas as manhãs, para abastecer a charuteira com a dose diária. Só com relutância teria comido manteiga que lhe servissem num bloco e não em forma de bolinhas estriadas.

Como se vê, empenhamo-nos em anotar tudo quanto possa prevenir o espírito do leitor a favor de Hans Castorp. Mas julgamo-lo sem exagero, e não o apresentamos nem melhor nem pior do que era. Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo “medíocre”, reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com a sua singela personalidade; fazemo-lo devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultra-individual. Seu cérebro satisfazia as exigências do curso científico do colégio, sem que tivesse de recorrer a excessivos esforços que decerto não teria realizado em nenhuma ocasião e por nenhum objetivo; menos por medo de se prejudicar do que por não ver nenhum motivo para empreendê-los; ou melhor: por não ver nenhum motivo absoluto. É precisamente por isso que não o chamamos de medíocre, já que ele percebia, desta ou daquela forma, a ausência de tais motivos.

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da vida de sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultra-pessoais da sua existência, e que da idéia de criticá-las permaneça tão distante quanto o bom Hans Castorp – até uma pessoa assim pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultra-pessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforço – então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta “Para quê?”, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente decoroso.

Tudo isso se refere à mentalidade do nosso jovem, não só durante a sua vida escolar, senão também durante os anos posteriores a ela, quando já escolhera a sua profissão civil. Quanto à sua carreira através do ginásio, cabe dizer que se viu obrigado a repetir um que outro ano. Mas, finalmente, a sua origem, a urbanidade de suas maneiras e também um belo talento, embora pouco apaixonado, pelas matemáticas, ajudaram-no a atravessar essas etapas. E concluído o curso ginasial, Hans Castorp decidiu cursar também o colégio por bem dizer, sobretudo a fim de prolongar uma situação habitual, provisória e indecisa e de ganhar tempo para refletir sobre o que desejava vir a ser; pois a princípio não o sabia com certeza, nem sequer no último ano do colégio chegou a formar uma opinião firme a esse respeito, e quando a coisa se decidiu -seria exagerado dizer que ele mesmo tomou essa decisão –, sentia o jovem muito bem que poderia ter escolhido, da mesma forma, um outro caminho.

Uma coisa, entretanto, era verdade: os navios sempre lhe haviam despertado grande interesse. Na meninice enchera as páginas das suas agendas com desenhos a lápis, de cúteres de pesca, chatas carregadas de legumes e veleiros de cinco mastros. Aos quinze anos, gozou do privilégio de assistir, de um lugar reservado, nos estaleiros de Blohm & Voss, ao lançamento de um novo paquete postal de duas hélices, o Hansa. Pintou então uma aquarela bem-feita e exata em todos os pormenores da esbelta nave. O cônsul Tienappel pendurou no seu escritório particular esse quadro, no qual o verde-garrafa transparente do mar revolto estava pintado com tanto amor e tamanha habilidade, que alguém disse ao cônsul Tienappel que nisso se revelava talento e que Hans Castorp poderia tornar-se um bom pintor de marinhas apreciação que o cônsul não se arrependeu de ter repetido ao pupilo, já que Hans Castorp a recebeu com uma boa risada, sem se preocupar um instante sequer com esse tipo de idéias excêntricas e perspectivas de vida boêmia.

– Você não tem muito dinheiro – dizia-lhe às vezes o tio Tienappel. – A parte principal de meus bens caberá um dia a James e Peter, quer dizer, fica na firma, e Peter vai receber os juros da sua quota. O que pertence a você está bem colocado e produz uma renda segura. Mas, hoje em dia, não tem graça viver de juros, a não ser que a gente possua cinco vezes mais que você. Para ser alguém nesta cidade e viver como você está acostumado, é preciso ganhar muito dinheiro. Tome nota disso, meu filho.

Hans Castorp tomou nota. Começou a procurar uma profissão que lhe permitisse sair-se airosamente perante si mesmo e aos olhos do mundo. E quando, finalmente, escolheu – obedecendo a uma sugestão do velho Wilms, da casa Tunder & Wilms, que numa noite de sábado, à mesa do uíste semanal, disse ao cônsul Tienappel: “Hans Castorp deveria estudar engenharia naval. É uma boa idéia. Então poderia entrar na minha firma, e eu cuidaria do rapaz” –, quando finalmente se decidiu, tinha a sua profissão em alto apreço e verificou que ela era complicada e trabalhosa como o diabo, mas também possuía seu aspecto nobre, importante e grandioso. Em todo caso achava-a infinitamente preferível, para o seu caráter pacífico, à do primo Ziemssen, filho duma meia-irmã de sua saudosa mãe, que queria a todo o transe tornar-se oficial. E todavia não tinha esse Joachim Ziemssen o peito muito sadio; podia ser que justamente por isso uma profissão exercida ao ar livre, e que não exigisse quase nenhuma atividade mental, fosse indicada para ele – assim pensava com leve desprezo Hans Castorp, que considerava o trabalho com o máximo respeito, ainda que a ele próprio o esforço fatigasse facilmente.

Nesse ponto insistimos sobre as reflexões que fizemos acima, sobre a questão de saber se um prejuízo que a época causa à vida individual do homem lhe pode diretamente influenciar o organismo físico. Hans Castorp respeitava o trabalho. Como poderia deixar de fazê-lo? Isto seria contrário à sua natureza. Tudo contribuía para que o trabalho se lhe apresentasse como digno do mais irrestrito respeito; no fundo não existia nada fora dele que merecesse tal respeito; o trabalho era o princípio em face do qual uma pessoa se saía bem ou malograva, era o que havia de absoluto na época, e trazia em si a sua justificativa. O respeito que Hans Castorp lhe devotava era portanto de caráter religioso e, conforme lhe parecia, indiscutível. Isso não quer, no entanto, dizer que ele amava o trabalho; disso não era capaz, por mais que o respeitasse, simplesmente pela razão de não se dar bem com ele. Um esforço intenso irritava-lhe os nervos e esgotava-o rapidamente. Com toda a franqueza Hans Castorp confessava que no seu íntimo gostava muito mais das horas de lazer, livres do lastro de chumbo das tarefas penosas, as horas que abertamente se estendiam diante dele, e não crivadas de obstáculos a serem vencidos a duras penas. Essa contradição na sua atitude perante o trabalho deveria, a bem dizer, ser resolvida. Talvez assim é que o seu corpo tanto como o seu espírito – em primeiro lugar o espírito e sob a sua influência também o corpo -se teriam dedicado ao trabalho com maior prazer e intensidade, se Hans Castorp, no âmago da sua alma, naquelas profundezas que ele mesmo ignorava, tivesse sido capaz de crer no trabalho como valor absoluto e princípio que se justificasse a si próprio, e de achar sossego nesse pensamento. Com isso chegaríamos mais uma vez à questão da sua mediocridade ou mais-do-que-mediocridade, à qual não tencionamos dar uma resposta precisa. Não nos consideramos, de forma alguma, encomiastas de Hans Castorp, e por isso não eliminamos a hipótese de que o trabalho, na sua vida, apenas estorvava um pouco o gozo perfeito do Maria Mancini.

Não foi convocado para o serviço militar. Aliás, no fundo do seu coração antipatizava com ele, e assim conseguiu evitar a convocação. Possivelmente, o médico militar, Dr. Eberding, que freqüentava a vila na Avenida de Harvestehude, tivesse ouvido do cônsul Tienappel, assim de passagem, que o jovem Castorp considerava a obrigação de vestir a farda como uma interrupção sensível dos seus estudos, havia pouco encetados numa universidade do Reich.

Trabalhando com vagar e calma – até fora de Hamburgo, Hans Castorp conservava o hábito tranqüilizador de tomar já de manhã uma dose de porter – o seu cérebro ia se enchendo de geometria analítica, cálculo diferencial, mecânica, projetiva e grafostática; calculava o deslocamento de navios carregados e vazios, a estabilidade, a equilibragem e o metacentro, ainda que isso às vezes lhe fosse custoso. Seus desenhos técnicos – esses contornos no meio do navio, traçados de linhas de flutuação, e seções longitudinais – não alcançavam o nível da sua representação pictórica do Hansa em alto-mar; mas, quando se tratava de explicar uma idéia abstrata por meio de uma apresentação mais acessível aos sentidos, intensificando as sombras com tinta nanquim ou colorindo os cortes transversais com tintas alegres que indicassem os materiais, então Hans Castorp superava em habilidade a maioria dos seus colegas.

Durante as férias, costumava regressar muito asseado, muito bem vestido, com um bigodinho ruivo no sonolento rosto de jovem patrício, e evidentemente a caminho de uma posição respeitável. E as pessoas que se ocupavam de questões municipais e também eram entendidas em assuntos de família e de vida social – como é o caso de quase todos, numa cidade livre e autônoma –, esses seus concidadãos, examinando-o criticamente, perguntavam-se que papel oficial o jovem Hans Castorp chegaria a desempenhar no futuro. Havia uma tradição a seu favor; seu nome era antigo e de boa reputação; e mais cedo ou mais tarde – isto parecia quase certo -seria preciso contar com a sua pessoa como fator Político. Então teria um lugar na Assembléia ou no Conselho Municipal e influiria na legislação; no exercício de um cargo honorífico, participaria das preocupações que acarreta a soberania; pertenceria a alguma repartição administrativa, à comissão de finanças talvez ou à de obras públicas, e sua voz não deixaria de ser ouvida e levada em conta. Até seria interessante saber a que partido se filiaria, mais tarde, esse jovem Castorp. As aparências podiam enganar, mas ele não tinha, propriamente, a cara duma pessoa com a qual os democratas podem contar. Era evidente a semelhança com o avô. Quem sabe se não puxaria a este, tornando-se um travão, um elemento conservador? Era muito possível, como também era possível o contrário. Afinal de contas, tratava-se de um engenheiro, futuro construtor de navios, de um homem da técnica e do tráfego universal. Assim se ventilava a outra alternativa de Hans Castorp unir-se aos radicais, chegando a ser um homem de ação, destrutor profano de edifícios antigos e belas paisagens, sem raízes no solo pátrio, qual um judeu, e sem laços de tradição, qual um ianque; talvez preferisse romper desconsideradamente com aquilo que uma veneranda história nos transmitiu, e arrastar o Estado por um caminho de audaciosas experiências, em vez de promover o desenvolvimento circunspecto das condições naturais de vida. Também isso era admissível. Estaria no seu sangue a convicção de que Suas Excelências, prudentes e sábias, às quais a dupla sentinela da Municipalidade apresentava armas, administravam tudo da melhor maneira possível, ou se inclinaria a apoiar a oposição na Assembléia? Naqueles olhos azuis sob as sobrancelhas ruivas não se podia ler nenhuma resposta a essas perguntas que a curiosidade dos seus concidadãos fazia, e parece provável que nem o próprio Hans Castorp, uma folha em branco, teria sabido satisfazê-la.

Quando empreendeu a viagem, durante a qual travamos conhecimento com ele, ainda não completara vinte e três anos. Tinha atrás de si quatro semestres de estudos na Escola Politécnica de Dantzig, e outros quatro nas escolas congêneres de Brunswick e de Karlsruhe. Recentemente passara nos exames teóricos, sem distinção nem grandes aplausos, mas com dignidade, e a essa época dispunha-se a trabalhar como engenheiro voluntário, na casa Tunder & Wilms, a fim de conseguir nos estaleiros a necessária formação prática. No entanto, ao chegar a esse ponto, o seu caminho tomou outro rumo.

Para preparar-se para os exames, Hans Castorp tivera que estudar com intensidade e perseverança. Ao regressar para casa, parecia muito mais fatigado do que usualmente. O Dr. Heidekind ralhava com ele cada vez que o encontrava, e exigia uma mudança de ar, mas que fosse radical. Dessa vez, disse ele, não bastava Nordyrney, nem Werk, na ilha de Föhr. A seu ver, Hans Castorp deveria, antes de entrar nos estaleiros, passar algumas semanas nas altas montanhas.

– Muito bem – disse o cônsul Tienappel ao sobrinho-pupilo. Mas nesse caso, seria preciso veranearem em lugares diferentes, pois que nem quatro cavalos arrastariam a ele, cônsul, até às altas montanhas. Aquele ar da serra não lhe convinha; o que ele necessitava era uma pressão atmosférica razoável, para não sofrer algum ataque. Que Hans Castorp, por conseguinte, viajasse sozinho para as montanhas. Por que não visitar Joachim Ziemssen?

Era uma idéia natural. Joachim Ziemssen estava doente – não doente como Hans Castorp, mas de outro modo, realmente sério, que causara, mesmo, um grande susto a toda a família. Já antes sofria de catarros e acessos de febre, e um dia se pusera a escarrar sangue. Então partira a toda pressa para Davos, sumamente contrariado e abatido, já que acabava de atingir a meta dos seus desejos. Durante alguns semestres, a instâncias da família, estudara jurisprudência; mas, obedecendo a um impulso irresistível, mudara de profissão e se apresentara como aspirante a oficial. Já fora até admitido. E agora fazia cinco meses que se internara no Sanatório Internacional Berghof (médico diretor: Dr. Behrens, conselheiro áulico). Aborrecia-se mortalmente, conforme diziam seus cartões-postais. Se Hans Castorp, antes de assumir o seu cargo na casa Tunder & Wilms, quisesse fazer alguma coisa pela sua saúde, nada mais plausível do que ir a Davos, para visitar o coitado do primo, o que seria agradável para ambas as partes.

Era pleno verão quando Hans Castorp se decidiu a viajar. Já haviam chegado os últimos dias de julho.

Tencionava passar três semanas lá em cima.

 

         Ensombramento pudico

Estando muito cansado, Hans Castorp receara dormir além da hora. Mas levantou-se muito mais cedo do que era necessário, de maneira que teve tempo de sobra para observar com minúcia os seus hábitos matinais – hábitos sumamente civilizados, no meio dos quais desempenhavam papéis importantes uma baciazinha de borracha, um sabonete verde de alfazema, num receptáculo de madeira, e o indispensável pincel de palha – e também para combinar os cuidados de limpeza e de higiene com o trabalho de desemalar e arrumar os seus objetos. Ao passar o aparelho prateado pelas faces cobertas de perfumada espuma, lembrou-se dos seus sonhos confusos e maneou a cabeça, esboçando um sorriso indulgente ante tamanho desvario, com a sensação de superioridade que experimenta quem se barbeia à luz clara da razão. Não se sentia precisamente descansado, mas o dia incipiente dava-lhe boa disposição.

Com o rosto empoado, em ceroulas de fio de Escócia e chinelos de marroquim vermelho, e ainda enxugando as mãos, saiu à sacada, que corria ao longo do edifício, subdividida apenas por paredes de vidro fosco, que, embora sem avançarem até a balaustrada, formavam compartimentos correspondentes aos diversos quartos. A manhã estava fresca e nublada. Vastas massas de neblina jaziam imóveis diante das elevações laterais, enquanto volumosas nuvens brancas e cinzentas repousavam sobre a cordilheira mais distante. Pedaços e tiras de céu azul apareciam aqui e ali, e quando um raio de sol caía sobre o fundo do vale, a aldeia cintilava muito alva, contrastando com os sombrios pinheirais que cobriam as encostas. Em algum lugar se dava um concerto matinal, provavelmente no mesmo hotel donde viera, na noite anterior, o som de uma orquestra. Ouviam-se em surdina os acordes de um hino religioso; depois de uma pausa, seguiu-se uma marcha. Hans Castorp gostava da música, de todo o coração, porque ela produzia nele um efeito semelhante ao do porter matutino, efeito altamente calmante, entorpecente, que o induzia à “basbaquice”. Assim escutou-a satisfeito, com a cabeça levemente inclinada para o lado, com a boca aberta e os olhos um pouco avermelhados.

Lá de baixo subia, sinuoso, o caminho que conduzia ao sanatório, e pelo qual haviam chegado na véspera. Gencianas estreladas, de talo curto, cresciam na grama úmida da encosta. Parte do terraço estava cercada por uma sebe, para formar um jardim, onde havia veredas ensaibradas, canteiros de flores e uma gruta artificial de rochedos, junto a um esplêndido abeto. Para o sul abria-se um alpendre com telhado de zinco, onde se viam algumas espreguiçadeiras. Ao lado se erguia um mastro pintado de marrom avermelhado, em que às vezes tremulava uma bandeira; bandeira de fantasia, verde e branca, com o emblema da medicina, um caduceu, no centro.

Uma mulher passeava pelo jardim, uma senhora já de idade, de aspecto sombrio, quase trágico. Vestida completamente de preto, com um negro véu envolvendo os desgrenhados cabelos grisalhos, ia e vinha sem descanso pelas veredas, num passo monótono e rápido, de joelhos um tanto dobrados e de braços rígidos, caídos para a frente. Tinha a testa sulcada de rugas horizontais, e dirigia fixamente ao alto os olhos muito negros, sob os quais pendiam bolsas flácidas. Seu semblante envelhecido, de uma lividez meridional, com a grande e melancólica boca contraída para um lado, relembrou a Hans Castorp o retrato de uma famosa atriz trágica, que ele vira em alguma parte. Era sinistro observar como essa mulher enlutada, pálida, acertava, aparentemente sem sabê-lo, os passos longos, tristonhos, ao ritmo da marcha que ressoava de longe.

Pensativo, com uma simpatia compassiva, Hans Castorp contemplou-a do alto da sacada. Era-lhe como se aquela visão triste obscurecesse o sol da manhã. Mas, ao mesmo tempo, percebeu mais uma coisa, algo audível, ruídos que partiam do quarto dos vizinhos da esquerda – o casal russo, segundo as informações de Joachim. E esses ruídos igualmente não condiziam com aquela manhã clara e fresca; pelo contrário, pareciam poluí-la de certa forma viscosa. Hans Castorp recordou-se de que, já na noite anterior, ouvira qualquer coisa parecida, mas o cansaço impedira-o de prestar atenção. Era uma luta acompanhada de risinhos e arfadas, cuja natureza escabrosa não podia passar despercebida ao jovem, se bem que ele, por bondade, se esforçasse a princípio por interpretá-la de uma maneira inocente. Também poderíamos ter dado outras denominações a essa tal bondade, por exemplo, o nome um tanto insípido de pureza da alma, ou talvez o belo e austero nome de pudicícia, ou ainda os nomes depreciativos de temor à verdade ou de tartufice, ou até mesmo o de resguardo místico ou de piedade. Havia um pouco de tudo isso na atitude que Hans Castorp adotava em face dos rumores que vinham do quarto vizinho, e que se refletia na sua fisionomia através de um ensombramento pudico, como se não devesse nem quisesse saber nada daquilo que ouvia – expressão de inocência que não era precisamente original, mas que, em certas ocasiões, tinha o hábito de adotar.

Com a dita fisionomia retirou-se, pois, da sacada, para o quarto, na intenção de não assistir por mais tempo a acontecimentos que se lhe afiguravam graves e mesmo perturbadores, apesar de se manifestarem sob o acompanhamento de risinhos. Porém, no interior do quarto, fizeram-se ouvir ainda mais distintamente os atos praticados do outro lado da parede. Parecia uma perseguição em torno dos móveis; uma cadeira caiu estrondosamente uma pessoa apanhou a outra; davam-se palmadas e beijos, e a todos esses sons juntavam-se agora os acordes de uma valsa, as frases batidas e melodiosas de uma canção popular, acompanhando de longe a cena invisível. Hans Castorp, com a toalha na mão, sem querer, deteve-se a escutar. E de repente corou baixo da camada de pó-de-arroz: o que ele já previra claramente acabava de suceder: o brinquedo, sem dúvida alguma, tomara um rumo animalesco. “Grande Deus!”, pensou, virando as costas para terminar sua toilette com movimentos propositadamente ruidosos. “Ora, são marido e mulher, está bem, não há mal nenhum nisso. Mas, já de manhã, em pleno dia... É meio forte. E me parece que ontem à noite também quebraram a trégua. Afinal de contas, são enfermos, ou pelo menos um dos dois está doente, uma vez que estão aqui; seria indicada alguma moderação. Mas o mais escandaloso”, continuava raciocinando com grande irritação, são essas paredes tão finas que a gente ouve tudo. É insuportável! Construção barata, claro; é uma vergonha como economizaram nisso! Será que, mais tarde, verei esse casal e lhes serei apresentado? Seria bem penoso para mim.” Nesse momento Hans Castorp notou com admiração que o rubor que lhe subira às faces recém-barbeadas não queria absolutamente ceder. Pelo menos persistia a sensação de calor que o acompanhava e não era outra coisa senão aquele ardor seco de que padecera na noite anterior, e que, depois d se ter sumido durante o sono, reaparecera agora, reanimado por essas circunstâncias. Isso não o predispôs mais favoravelmente para com o casal vizinho. Pelo contrário, avançando os lábios, murmurou a seu respeito uma palavra altamente desrespeitosa. A seguir cometeu o erro de refrescar, uma vez mais, o rosto com água, o que agravou o mal consideravelmente. Assim sucedeu que sua voz vacilasse, mal-humorada, ao responder ao primo que batera para chamá-lo. E ainda quando Joachim entrou, Hans Castorp não dava a impressão de um homem refrescado, que com boa disposição encara a manhã.

 

         O café da manha

– ’dia – disse Joachim. – Que tal a sua primeira noite aqui em cima? Está satisfeito?

Já estava pronto para sair, num traje esporte e com botas de feitio sólido. Por cima do braço tinha o sobretudo, com o frasco chato a destacar-se à altura do bolso lateral. Como no dia anterior, não levava chapéu.

– Obrigado – respondeu Hans Castorp; – mais ou menos. Não quero formar uma opinião precipitada. Tive sonhos meio confusos, e além disso a casa possui um grande defeito: as paredes têm ouvidos, e isto e um pouco desagradável. Quem é aquela mulher de preto, lá no jardim?

Joachim percebeu imediatamente de quem se tratava.

– Ah, essa? É “Tous–les–deux” – disse. – Ela é chamada assim por todo o mundo, porque essas palavras são as únicas que se ouvem dela. É mexicana, sabe? Não fala alemão, e de francês só umas poucas frases estropiadas. Faz cinco semanas que está aqui, para visitar o filho mais velho, um caso totalmente desesperador, que em breve esticará as canelas. Já tem o mal em toda parte; todo o corpo está envenenado, pode-se dizer. Segundo Behrens, esse estado final se parece com o tifo. Em todo caso é horrível de se ver. E há uns quinze dias, chegou o caçula, para ver o irmão pela última vez. Aliás, um belo tipo, tal qual o outro. Ambos são bonitões, de olhos ardentes; as mulheres estavam entusiasmadas. Bem, o caçula já tinha tossido um pouco, antes de vir para cá, mas fora disso parecia completamente bom. E mal chega aqui, imagine, tem um acesso de febre, e logo 39,5! Febre muito alta, sabe? Puseram-no na cama, e se ainda chegar a levantar-se, terá uma bruta sorte, disse o Behrens. Há muito que já deveria estar internado aqui, acham os médicos... Pois é, desde então a mãe anda desse jeito, quando não se acha à cabeceira das duas camas, e cada vez que alguém lhe dirige a palavra, responde apenas: “Tous les deux”, pois não sabe dizer outra coisa, e no momento não há ninguém aqui que compreenda espanhol.

– Ah, então é por isso – disse Hans Castorp. – E você acha que ela me dirá a mesma coisa, quando lhe for apresentado? Seria esquisito, quero dizer que seria ao mesmo tempo cômico e sinistro – acrescentou, e seus olhos estavam como na véspera: davam-lhe a impressão de estarem quentes e pesados, como se tivesse chorado por muito tempo; e novamente havia neles aquele brilho que ali acendera a estranha tosse do aristocrata austríaco. De um modo geral parecia a Hans Castorp que só nesse instante acabava de estabelecer contato entre o presente e o dia de ontem, voltando a entender o nexo das coisas, o que não conseguira logo depois de despertar. Enquanto umedecia o lenço com algumas gotas de água de alfazema, para esfregar a testa e a região abaixo dos olhos, avisou ao primo que ele também estava pronto. -se você não tiver outros planos, podemos tomar café tous les deux – gracejou com uma sensação de descomedida leviandade. Joachim lançou-lhe um olhar indulgente, acompanhada de um sorriso estranho, entre melancólico e zombeteiro, conforme pareceu a Hans Castorp. Por quê? Isto era com ele...

Após ter verificado que levava consigo a necessária provisão de tabaco, Hans Castorp tomou a bengala, o sobretudo e o chapéu – sim, também o chapéu, como uma espécie de desafio, pois estava por demais seguro dos seus hábitos e de seu modo de viver, para sujeitar-se, tão rapidamente e por apenas três semanas, a costumes novos e estranhos. Assim saíram do quarto e desceram a escada. Nos corredores, Joachim apontava para uma que outra porta, mencionando os nomes dos ocupantes, nomes alemães e outros que revelavam toda espécie de origens estrangeiras, e acrescentando breves comentários quanto ao caráter e à gravidade do respectivo caso.

Encontraram, também, pessoas que já regressavam da sala de refeições, e cada vez que Joachim cumprimentava alguém, Hans Castorp, cortesmente, tirava o chapéu. Sentia-se curioso e impaciente como um jovem a ponto de ser apresentado a uma multidão de pessoas estranhas, e que ao mesmo tempo anda acossado pela sensação nítida de ter os olhos turvos e o rosto avermelhado – o que, aliás, só parcialmente era o seu caso; pois que, em realidade, estava pálido.

– Antes que me esqueça! – exclamou de repente, com certa ênfase incontida. – Você pode, tranqüilamente, apresentar-me àquela senhora do jardim, se por acaso houver uma oportunidade. Não tenho nada contra ela. Que ela me diga “tous les deux”; não faz mal, já estou preparado. Sei o que ela quer dizer, e farei uma fisionomia adequada. Mas não desejo absolutamente travar conhecimento com aquele casal russo; ouviu? Não tenho a mínima vontade. É gente de péssimas maneiras, e se devo morar durante três semanas lado a lado com eles e não for possível evitar essa vizinhança, pelo menos não quero conhecê-los. Tenho motivos de sobra para pedir isso do modo mais formal...

– Está bem! – disse Joachim. – Então incomodaram muito a você? Pois é, são uns bárbaros, gente sem civilização, numa palavra. Eu mesmo já lhe disse. Ele costuma sentar-se à mesa, numa jaqueta de couro, puída que só ela. Sempre me admira que Behrens tolere isso. E ela também não anda muito asseada, apesar do chapéu de plumas... Em todo caso, não se preocupe: eles têm seus lugares muito longe de nós, à mesa dos russos ordinários; pois, além desta, existe ainda uma mesa dos russos distintos. Há pouca probabilidade de você entrar em contato com eles, mesmo que o deseje. Em geral não é muito fácil travar conhecimento, já que há tantos estrangeiros entre os hóspedes. Eu mesmo só conheço pessoalmente umas poucas pessoas, apesar de estar aqui há tanto tempo.

– Qual dos dois está doente, ele ou ela? – perguntou Hans Castorp.

– Acho que é ele. Sim, é só ele – respondeu Joachim, visivelmente distraído, enquanto dependuravam os sobretudos nos cabides, à entrada da sala de refeições. Feito isso, entraram no recinto bem iluminado, de teto levemente abobadado, onde burburinhavam vozes, tiniam talheres e corriam criadas com bules fumegantes.

Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas transversalmente. Eram mesas bastante grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas. Alguns passos em diagonal através da sala bastaram para que Hans Castorp alcançasse o lugar que se encontrava preparado para ele no lado estreito da mesa central entre as duas transversais. De pé, atrás da sua cadeira, Hans Castorp inclinou-se numa mesura reservada e polida para os companheiros de mesa, a quais Joachim, cerimoniosamente, o apresentou. Mal os encarou, ainda menos chegou a gravar na memória os seus nomes. Unicamente o nome e a pessoa da Srª. Stöhr lhe chamaram a atenção, e também o fato de ela ter um rosto vermelho e cabelos gordurentos de um louro acinzentado. Sua fisionomia revelava tão obstinada ignorância, que facilmente se podiam esperar dela crassos disparates. A seguir, Hans Castorp sentou-se e notou com satisfação que o café da manhã era considerado ali como uma refeição importante.

Havia na mesa tigelas com geléias e com mel, pratos com arroz-doce e com mingau de aveia, travessas com ovos mexidos e com carne fria; a manteiga figurava em abundancia; alguém estava a levantar a redoma de vidro para cortar um pedaço de queijo suíço, úmido de gordura; e no centro da mesa via-se ainda uma fruteira com frutas, frescas e secas Uma criada vestida de preto e branco perguntou a Hans Castorp o que ele desejava beber: chocolate, café ou chá. Era baixinha como uma criança, e tinha um rosto oblongo, de velha. Como Hans Castorp constatou com espanto, era uma anã. Ele lançou um olhar ao primo, mas este se limitou a dar de ombros, franzindo as sobrancelhas, como para dizer: “E daí?” Assim, Hans Castorp, conformando-se com o fato estranho, pediu chá, com especial cortesia, por se tratar de uma anã. Pôs-se, então, a comer arroz-doce com canela, enquanto seus olhos vagavam por sobre os demais pratos, que ainda desejava provar, e estudavam os hóspedes distribuídos nas sete mesas – os colegas de Joachim, seus companheiros de destino, todos enfermos interiormente, e que ali, conversando, tomavam o café da manhã.

A sala estava decorada com aquele gosto moderno que sabe dar um cunho fantástico à mais singela objetividade. Não era muito larga em proporção a seu comprimento. Rodeava-a uma espécie de passeio onde se viam aparadores, e que se abria em amplas arcadas para o interior cheio de mesas. Os pilares revestidos, até meia altura, de madeira cujo lustro imitava sândalo, e dali em diante caiados, da mesma forma como a parte superior das paredes e o teto, ostentavam faixas multicores com motivos simples e alegres, que se repetiam nos vastos arcos da abóbada pouco acentuada. Guarneciam a sala alguns candelabros elétricos, de latão polido, compostos de três argolas superpostas, ligadas entre si por um entrelaçamento decorativo; em volta da argola inferior havia uma série de globos de vidro fosco, parecidos com pequenas luas. Existiam quatro portas envidraçadas, duas em frente de Hans Castorp, na largura da sala, que davam para um avarandado, uma terceira à esquerda, que conduzia diretamente ao vestíbulo de entrada, e finalmente aquela pela qual Hans Castorp entrara, vindo de um corredor, uma vez que Joachim o guiara por uma escada diferente da que haviam usado à noite passada.

À sua direita estava sentada uma criatura pouco vistosa, vestida de preto, de tez veludosa e faces levemente febris, que dava a Hans Castorp a impressão de ser costureira ou modista, sem dúvida porque ela tomava apenas café com pão e manteiga, e porque nele a idéia de uma costureirinha fazia tempo que se associara com esse tipo de refeição. O lugar à sua esquerda estava ocupado por uma senhorita inglesa, também já avançada em anos, muito feia, com dedos magros e enregelados; lia cartas da sua terra, escritas em letra redonda, enquanto bebia um chá cor de sangue. Depois vinha Joachim e, em seguida, a Srª. Stöhr, numa blusa de lã enxadrezada – ao comer, mantinha a mão esquerda firmemente cerrada nas proximidades da face. Era visível o seu esforço de proferir as palavras com um ar de distinção e cultura, mostrando uns grandes e estreitos dentes de lebre, sob o lábio superior. Um jovem de fino bigode, e com a cara de quem tem na boca qualquer coisa de gosto repugnante, sentou-se ao lado dela e tomou a refeição em completo silêncio. Entrou quando Hans Castorp já se instalara na cadeira; saudou os comensais com um rápido gesto de queixo, enquanto ainda caminhava, e ocupou o seu assento, demonstrando claramente que não tencionava travar conhecimento com o novo pensionista. Talvez estivesse demasiado enfermo para dar atenção a esse tipo de convenções e para se interessar pelo ambiente em geral. Durante um momento sentou-se à sua frente uma jovem extraordinariamente magra, de cabelos louro-claros, que esvaziou no prato uma garrafa de iogurte, tomou-o com a colher e sumiu imediatamente.

A conversação à mesa não era muito animada. Joachim palestra cerimoniosamente com a Srª. Stöhr, informando-se a respeito da sua saúde e inteirando-se com um pesar formal de que esta deixava muito a desejar. A Srª. Stöhr queixou-se de seu estado de “lassidão”.

– Sinto-me tão lassa! – disse, arrastando as sílabas com a afetação peculiar às pessoas pouco cultas. Já antes de se levantar tivera 37,3 e quanto não teria de tarde? A costureira, como comunicou, tinha a mesma temperatura, mas declarou sentir-se, pelo contrário muito agitada tomada de uma tensão íntima, desassossegada, como se se achasse às vésperas de um acontecimento singular e decisivo, o que em absoluto não era o caso, visto se tratar de uma excitação puramente física, sem motivos na alma. Já não parecia ser costureira, por quanto se expressava numa linguagem correta até erudita. A Hans Castorp, por sua vez, essa tal excitação ou pelo menos o fato de se falar dela, causou a impressão de uma coisa até certo ponto inconveniente e quase escandalosa, numa criatura tão insignificante e prosaica. Perguntou primeiro à costureira, e depois à Srª. Stöhr, há quanto tempo já se achavam no sanatório, e ficou sabendo que aquela vivia ali fazia cinco meses, e esta há sete. A seguir reuniu seus conhecimentos de inglês para interrogar a sua vizinha da direita acerca da qualidade de chá que ela tomava – era chá de roseira brava –, e se tinha um sabor agradável, o que a senhora confirmou quase impetuosamente. Feito isso, pôs-se a contemplar a sala, onde as pessoas iam e vinham, já que o café da manhã não constituía uma refeição que se fizesse rigorosamente em comum.

Receara um pouco receber impressões horrorosas, mas viu-se logrado; o ambiente nessa sala parecia bastante animado. Absolutamente não despertava a idéia de um lugar de sofrimentos. Jovens de ambos os sexos, tostados pelo sol, entravam cantarolando, conversavam com as criadas e atacavam a comida com vigoroso apetite. Havia também pessoas mais idosas: casais, uma família inteira, com crianças, que falavam russo, e até uns adolescentes. As mulheres vestiam, quase todas, casaquinhos muito justos, de lã ou seda, suéteres, como os chamavam, ora brancos ora à fantasia, com golas voltadas para fora e bolsos laterais. Era bonito ver como andavam ou palestravam com as mãos enterradas nesses bolsos. Em algumas mesas, eram exibidas fotografias, sem dúvida instantâneos recentes, tirados pelos próprios pensionistas. Numa outra mesa, trocavam selos. Falavam do tempo, de como haviam dormido, e da temperatura que tinham de manhã, tirada na boca. A maioria mostrava-se alegre, provavelmente sem motivo particular, apenas por não terem preocupações imediatas e estarem reunidos num grupo numeroso. Verdade é que alguns se achavam sentados à mesa, com a cabeça apoiada nas mãos e o olhar cravado à sua frente. Mas os outros deixavam-nos cismar, e ninguém lhes prestava atenção.

De repente, Hans Castorp sobressaltou-se, irritado e como que ferido. Uma porta acabava de bater violentamente, a porta da esquerda, que dava para o vestíbulo. Escapara às mãos de alguém, ou foi mesmo fechada com estrondo. Era esse um ruído que Castorp abominava, e que sempre o enfurecia. Talvez se baseasse essa animosidade na sua educação, talvez proviesse de uma idiossincrasia inata; em todo caso ele detestava as portas cerradas com estrondo e tinha vontade de esbofetear a quem cometesse esse crime na sua presença. No caso particular, tratava-se, além do mais, de uma porta envidraçada, o que, pelo tinir estridente, aumentava o choque. “Barbaridade!”, disse Hans Castorp de si para si, todo revoltado, “que falta de educação!” Mas, como no mesmo instante a costureira lhe dirigisse a palavra, não teve tempo para descobrir o culpado. Contudo, assomaram-lhe algumas rugas entre as sobrancelhas louras, enquanto respondia à interlocutora.

Joachim perguntou se os médicos já haviam passado. – Sim, fizeram a primeira ronda – respondeu alguém. Acabavam de sair precisamente no momento em que os primos tinham entrado. Nesse caso era melhor irem-se embora, sem esperar, opinou Joachim. Sem dúvida encontrariam, no decorrer do dia, outra oportunidade para apresentar Hans Castorp. Mas na porta quase esbarraram com o Dr. Behrens, que entrava a passo rapidíssimo, acompanhado do Dr. Krokowski.

– Epa! Cuidado cavalheiros! – exclamou Behrens – Este encontro poderia ter acabado num desastre para os nossos calos. – Falava com a pronúncia arrastada do noroeste da Alemanha e mastigava as palavras. – Então o senhor é o tal? – disse a Hans Castorp quando Joachim o apresentou, batendo os calcanhares – Muito prazer. – E estendeu ao jovem uma mão do tamanho de uma pá. Era um homem ossudo, muito mais alto do que o Dr. Krokowski, de cabelos completamente brancos, com a nuca saliente, grandes olhos azuis, proeminentes, injetados e lacrimosos, nariz arrebitado e um bigodinho curto, um tanto torto, em virtude de um franzimento unilateral do lábio superior. O que Joachim dissera das bochechas do médico era pura verdade: eram azuis, de maneira que a cabeça formava um berrante contraste com o jaleco branco de cirurgião que ele usava; jaleco cintado, que descia abaixo dos joelhos, deixando ver as calças listadas e uns pés colossais, calçados de botinas amarelas, bastante surradas. O Dr. Krokowski também andava de trajes profissionais, mas o seu jaleco era de lustrina preta com elásticos nos punhos, e que lhe realçava ainda mais a palidez. Limitando-se a um mero papel de assistente, não tomou parte na cena de apresentação, mas uma certa tensão crítica da sua boca demonstrou que ele julgava um tanto esquisita a sua posição de subalterno.

– Primos, hem? – perguntou o Dr. Behrens, apontando para os dois jovens. Fixava neles os olhos azuis, injetados de sangue. – E o outro também está apaixonado pelo rufar dos tambores? – indagou de Joachim, avançando a cabeça na direção de Hans Castorp. – Nunca na vida; não é? Eu vi logo – agora se dirigia a Hans Castorp – que o senhor tem qualquer coisa de paisano, de comodista. Não é marcial como esse guerreiro aí. Aposto como seria melhor paciente do que ele. Nota-se imediatamente se alguém tem ou não tem vocação para ser um paciente que preste. Para isso precisa-se talento, como, aliás, é necessário para tudo, e esse ajudante de cozinha aí não mostra nem a menor sombra disso. Pode ser até que sirva para o campo de manobras, mas não tem jeito para doente. A todo momento quer ir embora, imagine! Sempre quer ir embora, e não pára de insistir comigo e de me suplicar; simplesmente não pode esperar o dia em que comecem a judiar com ele, lá embaixo. Que excesso de entusiasmo! Não nos quer sacrificar nem meio ano. E contudo leva uma vida bonita aqui. Diga o senhor mesmo, Ziemssen, é ou não é uma vida bonita? Bem, o senhor seu primo saberá nos apreciar melhor; ele vai se divertir, tenho certeza. Mulheres não faltam aqui, e por sinal são encantadoras. Pelo menos, quando vistas de fora, há algumas muito pitorescas. Mas o senhor deveria era melhorar um pouco as suas cores, para não fazer um papel feio diante do belo sexo. Dizem que a árvore da vida é verde, muito bem, mas para a cútis, o verde não me parece indicado. Totalmente anêmico, claro constatou, aproximando-se sem mais aquela de Hans Castorp e baixando-lhe uma das pálpebras com o índice e o dedo médio. – Eu disse logo que o senhor está totalmente anêmico. Quer saber uma coisa? Não era má idéia abandonar por algum tempo a sua querida Hamburgo. Não nego que seja uma cidade à qual nós aqui devemos ficar muito gratos. Sempre nos manda um bom contingente, graças à sua meteorologia úmida. Mas permita-me que eu aproveite a ocasião para dar-lhe o meu despretensioso conselho, sine pecúnia, sabe? Enquanto estiver aqui, faça a mesma coisa que seu primo. Nada melhor, no seu caso, do que viver por algum tempo, como se tivesse uma ligeira tuberculosis pulmonum, e acumular algumas proteínas. É uma coisa curiosa, no nosso meio, esse metabolismo protéico... Embora fique aumentada a combustão geral, o corpo chega a fixar proteínas... Mas então, Ziemssen, dormiu bem? Lindo, não é? E agora um passeio, vamos! Mas só meia hora, e nada mais! E depois ponha na boca o charuto de mercúrio. Convém sempre tomar nota, Ziemssen minuciosamente! Sábado quero ver a sua curva. E seu primo pode também tomar a temperatura. Controlar não faz mal a ninguém. Passar bem, senhores. Divirtam-se. Adeusinho Adeusinho...

E o Dr. Krokowski acompanhou o chefe, que continuava cruzando a sala, balançando os braços, com as palmas das mãos voltadas para trás, e perguntando à direita e à esquerda se haviam dormido bem, que todos afirmavam.

 

         Brincadeira de mau gosto

         Viático. Hilaridade interrompida

– Homem muito simpático – disse Hans Castorp, enquanto atravessavam o portal, após terem cumprimentado amavelmente o porteiro coxo, que se achava na sua guarita classificando cartas. Saíram a ar livre. O portal encontrava-se na parte sudeste do edifício caiado de branco, cujo corpo central tinha um andar a mais que as duas alas e era encimado por uma pequena torre coberta de zinco e guarnecida de um relógio. Quem saia por esse portal, não entrava no jardim cercado, mas penetrava logo na natureza livre, com vista sobre prados que se estendiam pelas encostas das montanhas e estavam semeados de isolados abetos de pouca altura e de pinheiros tortos, agachados no chão. O caminho pelo qual trilhavam era na realidade o único que existia, com exceção da estrada que descia ao vale. Passava em ligeiro declive atrás do sanatório, rumo à esquerda, ladeando a cozinha e a despensa, onde se viam grandes recipientes de lixo ao longo das grades da escada que conduzia ao porão. O caminho seguia ainda alguns instantes a mesma direção, para, após uma volta brusca à direita, elevar-se numa subida íngreme ao longo da encosta escassamente arborizada. Era uma vereda de chão duro, avermelhado, ainda um tanto úmido, a cuja beira jaziam de quando em quando uns blocos de pedra. Os primos não eram os únicos a passear. Alguns hóspedes, que haviam terminado a refeição quase ao mesmo tempo que eles, seguiam-nos a curta distância, e outros grupos, já de regresso, vinham-lhes ao encontro, com o passo ruidoso de pessoas que descem.

– Homem muito simpático – repetiu Hans Castorp. – Tem um jeito tão desembaraçado de falar! Dá gosto ouvi-lo. Essa do charuto de mercúrio, para designar o termômetro, é mesmo muito boa. Compreendi logo... Mas agora vou acender um charuto de verdade – disse, estacando. – Já não agüento mais sem ele. Desde o meio-dia de ontem que não fumo nada que preste. Com licença! – Tirou da charuteira de couro de verniz, enfeitada com as suas iniciais em prata, um Maria Mancini, belo exemplar da camada superior da caixa, achatado de uma face, como ele gostava especialmente. Cortou a ponta com uma pequena guilhotina de corte angular, que trazia na corrente do relógio. Acendeu o isqueiro, pôs fogo ao charuto bastante comprido, de ponta vertical, e tirou algumas baforadas gostosas. – Muito bem – disse então – quanto a mim, podemos continuar o passeio. Você não fuma, claro, devido àquele excesso de entusiasmo.

– Nunca fumei – respondeu Joachim. – Para que fumaria justamente aqui?

– Não compreendo você – disse Hans Castorp. – Simplesmente não compreendo como alguém possa viver sem fumar. Priva-se, por assim dizer, do que há de melhor na vida. Em todo caso lhe escapa um prazer magnífico. Quando acordo pela manhã, já me alegro com a idéia de poder fumar durante o dia, e quando tomo uma refeição, já penso em fumar depois. Sim senhor, posso dizer, com um pouco de exagero, que como apenas para ter uma oportunidade de fumar. Um dia sem tabaco seria para mim o cúmulo da insipidez, um dia totalmente vazio, sem o mínimo atrativo, e se eu qualquer dia despertasse sabendo que não poderia fumar, acho que não teria coragem nem para me levantar. Francamente, eu ficaria na cama. Olhe, quando a gente fuma um charuto que puxa bem... claro que não deve estar furado, o que constitui um defeito muito desagradável... quero dizer, quando a gente fuma um charuto bom, sente-se garantido e nada lhe pode acontecer. É a mesma coisa como deixar-se ficar deitado numa praia de mar; fica-se deitado, não é? Não se tem a necessidade de nada, nem de trabalho nem de distrações... E fuma-se no mundo inteiro, graças a Deus! Ao que me parece, não existe nenhum lugar onde esse prazer seja desconhecido, por mais longe que arraste o destino Até os exploradores das regiões polares levam fumo em abundância, para que possam agüentar os esforços das suas viagens. Isto sempre me pareceu simpático. Pode acontecer que uma pessoa ande muito mal... Suponhamos, por exemplo, que eu me encontre num estado lamentável... mas, enquanto tiver o meu charuto agüentarei firme, disso tenho certeza. O charuto me faria vencer qualquer obstáculo.

– Contudo, é um sinal de fraqueza – objetou Joachim – depender do fumo até esse ponto. Behrens tem toda a razão: você um paisano Ele disse isto em sentido elogioso, mas você é mesmo um paisano incorrigível. Mas, afinal de contas, anda bem de saúde e pode fazer o que quiser – acrescentou, e seus olhos assumiram uma expressão cansada.

– Sim, com exceção desta anemia – disse Hans Castorp. – E não usou luvas de pelica para me falar à queima-roupa da minha cor verde. Mas é verdade, eu mesmo notei que em comparação com o pessoal daqui, meu rosto é quase verde. Lá em casa não tinha reparado nisso. E achei muito gentil da parte dele dar-me assim, sem mais aquela, uns conselhos desinteressados, sine pecunia, como disse. Tenho a intenção de fazer o que ele me recomendou, e de adaptar o meu estilo de vida ao seu... Que mais poderia fazer aqui em cima? E não me fará mal nenhum acumular algumas proteínas, embora essa expressão me soe meio repugnante Não acha também?

Enquanto caminhava, Joachim tossiu algumas vezes. Ao que parecia, cansava-o a subida. Quando pela terceira vez teve um acesso de tosse, estacou, franzindo a testa, e disse: “Toque para a frente!” Hans Castorp apressou-se em prosseguir no caminho, sem olhar para trás. Depois diminuiu o passo, até quase parar, porque tinha a impressão de se ter adiantado muito ao primo. Mas não voltou a cabeça.

Um grupo de pensionistas de ambos os sexos vinha se aproximando dele. Hans Castorp já os vira trilhar o caminho plano a meia altura da encosta. Agora se achavam na descida, indo a seu encontro, a passo barulhento, numa confusão de vozes. Eram seis ou sete pessoas de diferentes idades, umas muito jovens, outras um tanto avançadas em anos. Hans Castorp contemplou-as, com a cabeça inclinada para o lado, enquanto seus pensamentos se ocupavam com Joachim. Andavam sem chapéu, tostados pelo sol. As senhoras vestiam pulôveres de cor, ao passo que os homens, na sua maioria, iam sem sobretudo e mesmo sem bengala, como quem sai sem cerimônias, com as mãos nos bolsos, para dar uma voltinha. Achavam-se na descida, que não exige grande esforço muscular, mas apenas um ligeiro refreamento pelas pernas fincadas no chão, para evitar o excesso de velocidade e o conseqüente tropeção. Assim, seu modo de andar tinha algo de alado e leve, que se comunicava às suas fisionomias e à sua atitude em geral e inspirava a quem os via o desejo de fazer parte do grupo.

E já se encontravam próximos de Hans Castorp, que se pôs a examinar-lhes os rostos. Nem todos estavam queimados pelo sol. Duas senhoras destacavam-se até pela palidez, uma magrinha como um caniço, com uma tez de marfim, e a outra, mais baixa, gorducha, com a cara salpicada de lunares. Todos o fitaram com o mesmo sorriso petulante. Uma mocinha alta, de suéter verde, com cabelos desgrenhados e uns estúpidos olhos semicerrados, passou tão perto de Hans Castorp que quase lhe roçou o braço. E ao mesmo tempo assobiava... Mas, que coisa louca! Assobiava, porém não o fazia com a boca. Nem sequer contraía os lábios; pelo contrário, mantinha-os firmemente cerrados. Havia qualquer coisa que assobiava no seu interior, enquanto ela encarava Hans Castorp, com uma mirada tola dos olhos entreabertos. Era um assobio sumamente desagradável, agudo, penetrante e todavia oco, prolongado e que pelo fim baixava de tom, assim como fazem aqueles porquinhos de borracha que se compram nas feiras, e que deixam escapar, com um som gemebundo, o ar insuflado. Tal era o ruído que partia inexplicavelmente do peito da jovem, enquanto ela se afastava com o resto do grupo.

Hans Castorp quedou-se imóvel, olhando para longe. Então se virou bruscamente, percebendo que esse assobio atroz fora um trote, uma brincadeira de antemão preparada, pois viu pelos movimentos de ombro que aquela gente se ria dele. Um rapaz atarracado e beiçudo que, para andar com as mãos nos bolsos da calça, levantava o paletó de uma forma bastante inconveniente, virou-se descaradamente para ele e riu... Nesse meio tempo, Joachim se aproximara. Passou pelo grupo, cumprimentando-o na sua maneira militar, fazendo uma quase continência, e inclinando-se, de tacões unidos. Em seguida, voltou-se para o primo com um olhar interrogador.

– Que é que há com você? – perguntou.

– Ela assobiou! – respondeu Hans Castorp. – Assobiou com a barriga, ao passar junto de mim. Tenha a bondade de me explicar como isso se faz.

– Ora! – exclamou Joachim, com uma risada desdenhosa. – Não foi com a barriga. Bobagem! É a Kleefeld, Hermine Kleefeld. Assobia com o pneumotórax.

– Com quê? – gritou Hans Castorp, sumamente excitado, sem no entanto, saber em que sentido: vacilava entre o riso e o choro quando acrescentou: – Afinal de contas não se pode esperar de mim que eu compreenda a gíria de vocês.

– Vamos adiante – disse Joachim. – Posso lhe explicar tudo isso, enquanto a gente passeia. Parece mesmo que você criou raízes. Trata-se de um negócio de cirurgia, compreende? É uma intervenção que freqüentemente executam aqui. O Behrens tem grande prática nisso... Quando um pulmão está muito atacado, e o outro está bom, ou pelo menos relativamente bom, dispensa-se o lado enfermo por algum tempo de qualquer atividade, a fim de poupá-lo. Quer dizer, dão um talho nesta região, no flanco, não sei precisamente onde, mas o Behrens é um mestre nessas coisas. E depois enchem a gente de gás, de nitrogênio; sabe? E assim o pulmão carcomido é posto fora de ação. É claro que o gás introduzido no corpo não se conserva indefinidamente. Precisa ser renovado de quinze em quinze dias, mais ou menos. É a mesma coisa que reencher um balão; compreende? Ao cabo de um ano ou mais, se tudo for bem, pode o pulmão curar-se graças a esse completo descanso. Mas, nem sempre termina assim, e parece até que a intervenção é bastante arriscada. Contudo, dizem que já foram obtidos muitos bons resultados com esse pneumotórax. Toda aquela turma, que você acaba de encontrar, anda com ele. Havia lá a Srª. Iltis, aquela que tem os lunares, sabe? E a Srta. Levi, uma magrinha, se você se lembra; ela ficou de cama por muitíssimo tempo. Eles formaram um grupo, pois essa coisa do pneumotórax estabelece uma relação natural entre as pessoas. Chamam-se entre si a “Sociedade Meio-Pulmão”; são conhecidos por esse nome. Mas o orgulho da sociedade é a Hermine Kleefeld, porque sabe assobiar com o pneumotórax. É um talento especial que muito poucos têm. Como ela consegue fazê-lo, não lhe posso explicar; nem ela mesma sabe explicá-lo claramente. Depois de ter andado depressa, é capaz de assobiar interiormente, e disso se aproveita para dar um susto à gente, sobretudo aos doentes recém-chegados. Acho, aliás, que com isso perde nitrogênio, pois precisa reabastecer-se de oito em oito dias.

Agora, Hans Castorp desatou a rir. No decorrer das explicações de Joachim, a sua excitação tomara decididamente o rumo da hilaridade. Enquanto prosseguia no caminho, cobrindo os olhos com a mão e inclinando-se para a frente, sentiu os ombros sacudidos por uma rápida sucessão de risinhos silenciosos.

– É uma sociedade registrada? – perguntou, numa voz embargada, que, à força de conter o riso, soava chorona e levemente queixosa. – Tem estatutos? Que pena você não ser sócio. Olhe, nesse caso poderiam admitir-me como sócio honorário ou como... visitante. Você deveria pedir ao Behrens que lhe ponha parte dos pulmões fora de ação. Quem sabe se você não conseguiria também assobiar, se se esforçasse um pouco? Afinal de contas, isto se aprende... Em todo caso é a coisa mais engraçada que já vi – acrescentou, com um profundo suspiro. – Escute, não me leve a mal que eu fale desse jeito, mas eles mesmos andam tão bem-humorados, esses seus amigos pneumáticos. Quem vê como caminham assim, alegremente... E quando se pensa que essa era a “Sociedade Meio-Pulmão!” “Fiu-u”, sibilou ela... Que pequena! Mas isso é pura traquinice. Por que estão tão alegres, pode me explicar?

Joachim esforçou-se por encontrar uma resposta.

-meu Deus – disse enfim – eles estão tão livres... quero diz é gente moça, e o tempo não significa nada para eles. E quem sabe se não vão morrer! Para que então ficar com a cara triste? Às vezes vem a idéia de que essa coisa da doença e da morte no fundo não séria; é antes uma espécie de relaxamento. A seriedade existe somente na vida lá de baixo. Creio que você também compreenderá isso, quando estiver mais tempo aqui em cima.

-sem dúvida – confirmou Hans Castorp. – Tenho até certeza disso. Desde que estou aqui, comecei logo a me interessar pela vida de vocês, e quando a gente tem interesse por alguma coisa, não tarda compreendê-la, não é?... Mas, que se passa comigo? Não me agrada! – disse abruptamente, olhando o charuto. –Já faz tempo que pergunto o que é que me incomoda, e agora vejo que é o Maria que não tem sabor nenhum. Tem um gosto de papel mascado. Eu garanto que me sinto como se tivesse o estômago desarranjado. É mistério para mim. Não nego que hoje comi muita coisa, mas isso não pode ser o motivo, pois quanto mais se come, mais aroma tem charuto. Que acha você? Será porque tive uma noite muito agitada? Talvez seja isto... Não! Não há jeito! Vou jogá-lo fora – concluiu, após uma nova tentativa. – Cada tragada a mais aumenta a decepção. Não adianta forçar. – Depois de hesitar um momento, atirou o charuto encosta abaixo, por entre a brenha úmida. – Quer saber coisa? – perguntou então. – Estou convencido de que isso tem alguma relação com aquele maldito ardor no rosto, que está me incomodando outra vez, desde que me levantei. O diabo sabe por quê, mas tenho a impressão de estar todo corado... Você também sentiu isso, quando chegou aqui?

-senti, sim – disse Joachim. – No começo estranhei também muita coisa. Mas não se preocupe. Eu já lhe disse que não é tão fácil aclimatar-se aqui em cima. Tudo isso se arranja. Olhe esse banco aí tem uma vista bonita. Vamos sentar-nos um pouquinho e depois voltar. Está quase na hora do repouso.

O caminho tomara-se plano. Corria agora na direção de Davos-Platz, e oferecia, por entre altos e delgados pinheiros, dobrados pelo vento, o panorama do povoado que se estendia branco sob a luz clara. O banco de feitio tosco, em que se sentaram, encostava-se à vertente íngreme. A seu lado, um curso d'água corria rumo ao vale, gorgolejando e cachoando através de uma calha de madeira.

Com a ponta de seu bastão alpino, Joachim pôs-se a designar ao primo os nomes dos cumes envoltos em nuvens, que pareciam fechar o vale pelo lado sul. Mas Hans Castorp limitou-se a olhá-los de relance. Inclinado para a frente, desenhava na areia com a bengala fina guarnecida de prata. O que lhe interessava não era aquilo.

– Há uma coisa que eu queria lhe perguntar... – começou. – Aquela doente que ocupava o meu quarto acabava de “esticar as canelas”, quando cheguei. Já houve muitos outros óbitos, desde que você está aqui?

– Deve ter havido alguns – respondeu Joachim. – Mas são tratados com muita discrição, sabe? A gente não nota nada, ou apenas casualmente mais tarde. Quando alguém morre, passa-se tudo no mais estrito sigilo, em consideração aos outros pacientes, sobretudo às senhoras, que, sem isso, talvez teriam crises de nervos. Você nem percebe, quando alguém morre no quarto pegado ao seu. Trazem o caixão de madrugada, enquanto todos estão dormindo, e vão buscar a pessoa em questão somente em horas determinadas, por exemplo durante as refeições.

– Hum! – disse Hans Castorp, continuando a desenhar. – As coisas se passam então atrás dos bastidores.

– Sim, isto não é exagero. Mas recentemente... faz... espere um pouco, faz talvez umas oito semanas...

– Nesse caso não se pode dizer “recentemente” – objetou Hans Castorp, vigilante e crítico.

– Como? Ah, sim, então não foi recentemente. Como você é meticuloso! Eu disse o número apenas por dizer. Bem, faz pouco tem tive ocasião de lançar um olhar atrás dos bastidores, por mero acaso. Lembro-me daquele momento como se fosse hoje. Foi quando levaram o viático, o sacramento da extrema-unção, sabe? Os Santos Óleos, à pequena Hujus, Barbara Hujus, que era católica. Quando cheguei aqui, ela ainda não estava de cama, e fazia travessuras que nem uma colegial de quinze anos. Mas depois foi enfraquecendo rapidamente. Não se levantou mais. Seu quarto achava-se a três portas do meu. Por fim chegaram seus pais, e um dia, também o padre. Veio quando todo mundo estava tomando o chá da tarde e não havia ninguém nos corredores. Mas, imagine o que me aconteceu: adormeci durante o repouso geral, não ouvi o sinal do gongo e me atrasei uns quinze minutos. Assim se deu que no momento crítico, em vez de me achar entre os outros, me perdi atrás dos bastidores para usar a sua expressão. Eu estava a ponto de atravessar o corredor, quando apareceram e foram ao meu encontro, com camisas de renda e uma cruz à sua frente, uma cruz de ouro, com lanternas, como se fosse o estandarte da banda do regimento.

– É uma comparação pouco adequada – disse Hans Castorp com certa severidade.

– Ora, eu tive essa impressão. Foi sem querer que me lembrei disso. Mas ouça o que aconteceu então. Vinham em minha direção, passo apressado. Eram uns três, se não me engano; à frente o homem da cruz, depois o sacerdote, com óculos no nariz, e por fim um menino com o turíbulo. O padre levava à altura do peito o viático recoberto e mantinha a cabeça humildemente inclinada. Você compreende: era o Santo Sacramento.

– Justamente – disse Hans Castorp. – Por isso estranhei quando você falou da banda do regimento.

– Pois é. Mas espere um pouco. Se você tivesse assistido à cena, também não saberia o que pensar dessa recordação. Era uma coisa capaz de lhe causar um pesadelo...

– Por quê?...

– Bem, eu não sabia como me comportar numa circunstância dessas. Não andava de chapéu, para que o pudesse tirar...

– Está vendo? – interrompeu-o Hans Castorp mais uma vez. – Está vendo como é necessário levar chapéu? Notei naturalmente que aqui todos andam sem. Contudo, se deve usar um chapéu, para poder tirá-lo nas ocasiões oportunas... E que aconteceu então?

– Postei-me junto da parede – disse Joachim – numa atitude conveniente. Quando se aproximaram de mim, fiz uma leve mesura. Era precisamente em frente do quarto da pequena Hujus, número vinte e oito. Acho que o padre ficou satisfeito ao ver a minha reverência; agradeceu muito amavelmente, tirando o barrete. E no mesmo instante pararam. O menino com o turíbulo bateu à porta, abriu então e deu passagem ao superior. E agora imagine o meu espanto e veja se compreende o que senti! No momento em que o sacerdote atravessa o limiar do quarto, começa lá dentro um barulhão, uns berros como você nunca ouviu, umas três ou quatro vezes seguidas, e depois uma gritaria ininterrupta, contínua, gritos que pareciam sair de uma boca vastamente aberta, assim: aaaaah! Expressava-se nisso tanta desolação, tanto horror, tanto protesto, que é indescritível, e havia no meio umas súplicas tão pungentes!... E de repente tudo se torna cavo e surdo, como se a voz se tivesse sumido debaixo da terra e viesse das profundezas do porão.

Hans Castorp voltou-se bruscamente para o primo:

– Era a Hujus? – gritou, nervoso. – E por que parecia a voz vir do porão?

– Ela se tinha escondido sob os cobertores – explicou Joachim. – Imagine a impressão que eu tive! O sacerdote permanecia perto da entrada, pronunciando algumas palavras tranqüilizadoras. Parece-me que o vejo ainda. Ao falar, avançava um pouco a cabeça, e depois a retraía novamente. O homem com a cruz e o coroinha achavam-se ainda no limiar do quarto, sem poderem entrar. E por entre os dois, eu podia ver o interior do quarto. É igual aos nossos, com a cama à esquerda da porta, contra a parede. À cabeceira havia algumas pessoas, os pais naturalmente, que também se inclinavam para a cama, proferindo palavras de consolo, e na cama só se via uma massa informe, que suplicava, esperneava e protestava atrozmente.

– Esperneava mesmo?

– Com todas as forças. Mas de nada lhe adiantou. Era inevitável que ela recebesse a extrema-unção. O padre aproximou-se dela, os dois outros entraram também, e a porta fechou-se. Mas antes pude ainda enxergar a cabeça de Hujus, que apareceu por um segundo, com os cabelos louros totalmente revoltos. Ela cravou no sacerdote os olhos arregalados, uns olhos como que pálidos, completamente descorados e logo lançou uns gritos e voltou a esconder-se debaixo da colcha.

– E você me conta essa história só agora? – disse Hans Castorp depois de um silêncio. – Não compreendo por que deixou de fazê-lo ontem à noite... Mas, meu Deus, ela devia estar muito forte ainda para se defender desse jeito. Para isso precisa-se muita força. Só deveriam buscar o padre quando uma pessoa estivesse muito fraca.

– Estava fraca, sim – replicou Joachim. – Ora, não me faltam histórias para contar. O difícil é fazer a primeira seleção... Bem, e estava mesmo muito fraca. O que lhe dava tanta força era unicamente o medo. Sentia um pavor horrível, porque percebia que estava às portas da morte. Era uma mocinha, afinal, e isto justifica até certo ponto a sua conduta. Mas há também homens que se comportam assim, o que revela uma covardia imperdoável. O Behrens sabe, aliás, como lidar com esses tipos. Ele encontra o tom adequado.

– Que tom? – perguntou Hans Castorp, franzindo as sobrancelhas.

– “Não faça tanta fita!”, costuma dizer ele – respondeu Joachim. – Foi pelo menos o que disse recentemente numa ocasião dessas. Quem nos contou a história foi a enfermeira-chefe, que estava lá para segurar o agonizante. Era um daqueles que no leito de morte ainda fazem uma cena pavorosa e absolutamente não querem morrer. Então o Behrens ralhou com ele. “Deixe de fazer tanta fita!”, disse, e o paciente logo ficou quietinho e morreu com toda a calma.

Hans Castorp deu uma palmada na coxa, e reclinando-se no encosto do banco, dirigiu os olhos para o céu:

– Escute, essa é muito forte! – exclamou. – Ralhar com o doente e dizer-lhe simplesmente: “Não faça tanta fita!” A um moribundo! É demais. Afinal de contas, um moribundo merece algum respeito. Não se pode dizer-lhe sem mais aquela... Parece-me que um moribundo é, de certo modo, sagrado.

– Não digo o contrário – concedeu Joachim. – Mas quando alguém se comporta covardemente...

– Não senhor! – insistiu Hans Castorp, com uma violência que não estava proporcional à oposição que se lhe fazia. – Ninguém me tirará da cabeça que um moribundo é mais nobre do que um indivíduo qualquer que passeia e ri e ganha dinheiro e enche a pança. Não é possível... – Sua voz vacilou estranhamente. – Não é possível que se trate assim... – E de súbito suas palavras se afogaram numa gargalhada que se apoderou dele e o dominou; o mesmo riso da véspera, um riso que lhe brotava das entranhas, lhe sacudia todo o corpo e não tinha fim, que lhe cerrou os olhos e extraiu lágrimas por entre as pálpebras comprimidas.

– Psiu! – fez Joachim de repente. – Cale-se! – cochichou, dando uma cotovelada ao primo que ainda se ria a bandeiras despregadas. Hans Castorp ergueu os olhos, através das lágrimas.

Vindo da esquerda, aproximava-se um forasteiro, um senhor baixinho, moreno, com bigode preto elegantemente torcido, e com calças de xadrez claro. Trocou com Joachim um “Bom dia!” – sua saudação era nítida e sonora e deteve-se à frente dos dois jovens, numa atitude graciosa, cruzando os pés e apoiando-se na bengala.

 

         Satã

Seria difícil avaliar-lhe a idade. Devia ter entre trinta e quarenta anos, visto seus cabelos, nas fontes, se acharem entremeados de fios de prata e mais acima se tornarem bastante ralos, se bem que a aparência geral da sua pessoa desse a impressão de juventude. Duas entradas profundas ressaltavam ao lado da fina risca que repartia os escassos cabelos, e davam a impressão de aumentar a altura da fronte. Os trajes do forasteiro – amplas calças de xadrez amarelado e paletó muito comprido, de uma fazenda parecida com burel, com duas fileiras botões e lapelas largas –, esses trajes estavam longe de pretender elegância. O colarinho duro, de pontas arredondadas e viradas para baixo, já estava um tanto puído nas bordas, por ter sido lavado freqüentemente; a gravata preta estava gasta pelo uso. Além disso, notou Hans Castorp, pelo jeito frouxo como as mangas caíam sobre pulsos, que o desconhecido não usava punhos. Contudo, era visível tratar-se de um cavalheiro; a esse respeito não deixavam dúvidas cunho de cultura, que marcava o rosto do forasteiro, nem tampouco a sua atitude natural e quase nobre. Tal mescla de desalinho e graça, combinada com uns olhos negros e o bigode suavemente ondulado, fez Hans Castorp pensar em certos músicos estrangeiros que na época do Natal tocavam nos pátios de Hamburgo, e com os olhos aveludados dirigidos para cima estendiam os chapéus de aba larga, para que, das janelas, lhes lançassem moedas de dez Pfennige. “Um tocador de realejo”, pensou Hans Castorp, e assim não se admirou nem um pouquinho do nome que ouviu, quando Joachim se levantou do banco e, com algum acanhamento, fez a apresentação.

-meu primo Castorp... o Sr. Settembrini.

Também Hans Castorp se pusera de pé, para cumprimentar o cavalheiro. Seu rosto revelava ainda os traços daquele excesso de hilaridade. Mas o italiano, cortesmente, fez questão de que não se incomodassem, e obrigou-os a sentarem-se de novo, ao passo que ele mesmo permanecia em frente aos dois, na sua postura agradável. Esboçava um sorriso, ao manter-se assim, contemplando os primos, e principalmente a Hans Castorp; e essa expressão fina, um tanto zombeteira, que lhe aprofundava e encrespava uma das comissuras da boca, sob o espesso bigode, produzia um efeito singular, convidando, em certo sentido, à lucidez do espírito e à vigilância. Hans Castorp, de pronto sentindo-se como que desembriagado, envergonhou-se do seu anterior desenfreamento.

– Os senhores estão de bom humor. Têm motivo, têm toda a razão. Uma esplêndida manha! O azul do céu, o sol a sorrir... – E com um gesto rápido, e elegante do braço, ergueu para o céu a mãozinha amarela, enquanto enviava na mesma direção um relance alegre. – Realmente, falta pouco para esquecermos onde estamos.

Falava sem sotaque exótico, e somente a precisão da pronúncia poderia fazer adivinhar que se tratava de um estrangeiro. Seus lábios formavam as palavras com certa volúpia. Dava prazer ouvi-lo.

– E o senhor teve uma viagem agradável? – perguntou a Hans Castorp. – Já lhe comunicaram a sentença? Quero dizer: já se realizou a sinistra cerimônia do primeiro exame médico? – Aqui deveria ter calado e aguardado, se realmente desejasse obter uma resposta; pois fizera a pergunta, e Hans Castorp estava a ponto de responder. Mas o forasteiro continuou imediatamente: – Tudo decorreu bem? Da sua hilaridade... – Silenciou por um instante, enquanto se acentuava o encrespamento dos seus lábios – ...pode-se tirar conclusões muito diferentes. Quantos meses lhe pespegaram os nossos Minos e Radamanto? – A palavra “pespegaram” soava particularmente engraçada em sua boca. – Deixe-me adivinhar. Seis? Ou logo nove? Ora, aqui não há parcimônia...

Hans Castorp riu-se, cheio de surpresa, e ao mesmo tempo procurou recordar quem eram Minos e Radamanto. Respondeu então: – Desculpe, mas o senhor está enganado, Sr. Septem...

-settembrini – corrigiu o italiano, com nitidez e presteza, acrescentando uma reverência humorística.

– Sr. Settembrini, perdão! Mas, como já disse, há um equívoco da sua parte. Não estou doente. Faço apenas uma visita de algumas semanas ao meu primo Joachim e quero aproveitar esta ocasião para descansar um pouquinho...

– Vejam só! Então não é dos nossos. Goza boa saúde, está aqui apenas de passagem, como Ulisses no reino das sombras? Que audácia descer até estas profundezas, onde os mortos levam uma existência irreal, desprovida de sentido...

– Até estas profundezas, Sr. Settembrini? Não diga isso, que subi uns cinco mil pés para chegar aqui...

– É o que o senhor pensa. Palavra de honra, trata-se apenas uma ilusão – disse o italiano, com um gesto enérgico da mão. – Somos umas criaturas que caíram muito baixo; não é mesmo, tenente? – E com isso se voltou para Joachim, que se regozijou bastante ao ouvir o título, mas, esforçando-se por dissimular a sua satisfação, respondeu circunspectamente:

– Pode ser que a gente se tenha apatetado aqui. Mas, afinal de contas, há meios de se regenerar...

– Pois é, acho também que o senhor tem capacidade para isso; é um homem decente – disse Settembrini. – Sim, sim, sim! – acrescentou sibilando três vezes o “s” e fazendo estalar a língua outras tantas vezes contra o céu da boca. Depois, dirigindo-se a Hans Castorp exclamou: – Vejam só, vejam só, vejam só! – com a mesma pronúncia do “s” enquanto encarava o novato com tamanha intensidade, que seus olhos assumiam expressão fixa e cega. Por fim, reavivando o olhar prosseguiu:

– De modo que o senhor veio voluntariamente a estas alturas, para visitar esta nossa gente decaída! Quer nos conceder por algum tempo o prazer da sua companhia... Ora, é muito gentil da sua parte. E quanto tempo tenciona ficar aqui? Sou indiscreto. Mas eu gostaria de conhecer o prazo que uma pessoa se fixa a si própria, quando se decide livremente, sem depender da vontade de Radamanto.

– Três semanas – respondeu Hans Castorp, com um orgulho um tanto fátuo, ao notar que despertava inveja.

– O Dio! Três semanas! Ouviu, tenente? Não lhe parece mesmo um tanto atrevida essa maneira de dizer: “Vou passar aqui três semanas e depois partirei”? Fique sabendo, meu senhor, que nós aqui ignoramos uma medida de tempo que se chama semana. Para nós, a menor unidade é o mês. Fazemos as nossas contas em grande estilo, corno é o privilégio das sombras. Temos ainda outros privilégios, e todos eles são desse tipo. Posso perguntar que profissão o senhor exerce na vida lá de baixo, ou melhor, para que profissão se prepara? Como está vendo, não costumamos refrear a nossa curiosidade. Ela também faz parte dos nossos privilégios.

– Com o maior prazer – disse Hans Castorp, e deu a explicação desejada.

– Engenheiro naval? Magnífico! – gritou Settembrini. – Asseguro-lhe que essa profissão me parece magnífica, embora os meus próprios talentos sejam orientados num sentido diferente.

– O Sr. Settembrini é escritor – explicou Joachim com certo acanhamento. – Escreveu o necrológio de Carducci para algumas revistas alemãs. Você sabe, Carducci?... – E tornou-se ainda mais acanhado, quando o primo o olhou pasmado, como se quisesse dizer: “Que sabe você de Carducci? Não mais do que eu, se não me engano muito.”

– Exatamente – confirmou o italiano, sacudindo a cabeça. – Tive a honra de falar aos seus compatriotas da vida desse grande poeta e livre-pensador, quando essa vida tinha chegado ao fim. Conheci-o; posso chamar-me seu discípulo; em Bolonha, estive sentado aos seus pés. A ele devo o que possuo de cultura e de alegria de espírito... Mas estávamos falando do senhor. Engenheiro naval! Sabe o senhor que está subindo no meu conceito? De repente se me afigura como o representante de todo um universo de trabalho e de gênio prático.

– Ora, ora, Sr. Settembrini, por enquanto sou apenas um estudante e me acho bem no início.

– Pois é, e o primeiro passo custa. Como aliás é difícil todo trabalho que merece este nome, não é?

– Difícil como o diabo – disse Hans Castorp, e essas palavras lhe saíram do fundo do coração.

Rapidamente Settembrini franziu as sobrancelhas.

– O senhor invoca o próprio diabo para confirmar isso? – perguntou. – Satã em pessoa? Sabe talvez que meu grande mestre lhe dedicou um hino?

– Como? – admirou-se Hans Castorp. – Ao diabo?

– Em carne e osso. De vez em quando cantam esse hino na minha pátria, por ocasião de certas solenidades: O salute, o Satana, o Ribellione, o foza vindice della Ragione... Uma maravilha esse cântico! Contudo, me parece pouco provável que o senhor tenha pensado justamente nesse Diabo, que está em ótimas relações com o trabalho. O diabo ao qual se referiu o senhor, e que abomina o trabalho, porque tem motivos para temê-lo, deve ser aquele outro do qual dizem que com ele não se brinca...

Tudo isso causou uma impressão estranha ao bom Hans Castorp. Não compreendia o italiano, e o resto do que dizia Settembrini tampouco lhe inspirava muita confiança. Essas coisas cheiravam a sermão dominical, ainda que proferidas num tom de palestra leve e jocosa. Hans Castorp olhou o primo, que baixou os olhos, e depois disse:

– O senhor toma as minhas palavras muito ao pé da letra, Sr. Settembrini. O que eu disse do Diabo era apenas uma maneira de falar e nada mais.

– Deve haver uma pessoa com espírito – disse Settembrini, mirando o ar com uma expressão melancólica. Porém, reanimando-se imediatamente, e dando à conversa um caráter jovial, gracioso e conciliador continuou:

-seja como for, posso deduzir, com razão, das suas palavras que o senhor escolheu uma profissão tão cansativa quanto honrosa. Meu Deus, eu sou humanista, sou um homo humanus, e nada entendo dessas coisas engenhosas, por mais sincero que seja o respeito que lhes voto. Mas imagino que a teoria da sua disciplina deve requerer um cérebro claro, penetrante; e a sua prática, um homem na genuína acepção da palavra. Não é assim?

– Exatamente, é assim mesmo. Não posso deixar de concordar com o senhor – respondeu Hans Castorp, empenhando-se, mau grado seu, em falar com alguma eloqüência. – É enorme o que hoje em dia se exige de nós. Nem é bom pensar na extensão dessas exigências, pois do contrário arriscaríamos perder a coragem. Sim senhor, não é brinquedo. E quando uma pessoa não tem uma constituição muito robusta... Olhe, eu estou aqui apenas de visita, mas também não sou dos mais resistentes. Seria mentira se dissesse que me dou perfeitamente bem com o trabalho. Pelo contrário, devo confessar que o esforço me esgota bastante. No fundo, só me sinto à vontade quando nada faço...

– Como, por exemplo, neste momento?

– Neste momento? Ora, acabo de chegar aqui, e ando ainda meio tonto, como o senhor pode imaginar...

-meio tonto? Ah!...

– Pois é. Não dormi muito bem e, depois, o café da manhã foi muito reforçado... Estou acostumado a uma primeira refeição abundante, mas a de hoje parece que foi completa demais para mim, too rich, como dizem os ingleses. Numa palavra, eu me sinto um pouco angustiado. E ainda houve o charuto que, esta manhã, não me deu prazer nenhum. Imagine! Coisa que quase nunca me acontece, a não ser quando estou seriamente doente. E hoje o charuto estava com gosto de couro! Tive de jogá-lo fora, não adiantava forçar. O senhor fuma, se me posso permitir a pergunta? Não? Então não pode ter idéia do aborrecimento e da decepção que um caso desses provoca numa pessoa que desde a juventude gosta tanto de fumar, como eu...

– Não tenho nenhuma experiência nesse campo – replicou Settembrini –, e com essa inexperiência não me acho em má companhia. Grande número de espíritos nobres e esclarecidos detestaram o tabaco. O próprio Carducci antipatizava com ele. Mas nesse ponto o senhor encontrará plena compreensão por parte do nosso Radamanto, que é um partidário do seu vício.

-meu vício? Não diga isso, Sr. Settembrini.

– Por que não? É preciso chamar as coisas pelos seus nomes verdadeiros, e fazê-lo energicamente. Isto fortifica e eleva a vida. Também eu tenho vícios.

– O Dr. Behrens é, então, um apreciador de charutos? Que homem simpático!

– O senhor acha? De modo que já travou conhecimento com ele...

– Já. Faz pouco tempo, antes de sairmos. Foi quase uma consulta, mas sine pecunia, sabe? Ele notou imediatamente que estou bastante anêmico, e me deu o conselho de seguir, aqui, o mesmo regime que meu primo: passar muito tempo estendido na sacada e também tomar a minha temperatura. Assim me disse.

– Realmente? – gritou Settembrini. – Que maravilha! – exclamou então, rindo-se às gargalhadas, com o rosto levantado para céu. – Como se diz na ópera de seu mestre: “Sou caçador de pássaros, sempre risonho, sempre alegre!” Escute, essa é mesmo divertida. E o senhor seguirá o conselho? Claro! Por que deixaria de fazê-lo? É esperto como o diabo, esse Radamanto! Com efeito, “sempre alegre”, se bem que às vezes de uma alegria meio forçada. Tem tendência para a melancolia. Seu vício não lhe faz bem (se fizesse não seria um vício), e o tabaco torna-o merencório. É por isso que nossa reverenda superiora se encarregou da administração das suas provisões de fumo e lhe concede somente pequenas rações diárias. Dizem que de vez em quando ele sucumbe à tentação de lhe roubar uns charutos a mais, e nesse caso cai em melancolia. Numa palavra: uma alma atarantada. O senhor já conhece a nossa enfermeira-chefe? Não? Que lástima! Seria imperdoável da sua parte, se não solicitasse honra de lhe ser apresentado. Ela pertence à estirpe dos Von Mylendonk, prezado senhor! Da Vênus de Médicis distingue-se num único ponto: no lugar onde a deusa mostra os seios, costuma a enfermeira-chefe usar um crucifixo.

– Ah, ah, essa é boa! – riu-se Hans Castorp.

– E seu prenome é Adriática.

– Ainda isso? – exclamou Hans Castorp. – Francamente, extraordinário. Von Mylendonk e Adriática. É como se fosse uma pessoa morta há muito tempo. Parece até medieval.

-meu caro senhor – retrucou Settembrini –, aqui existe muita coisa que “parece medieval”, para usar a sua expressão. Tenho para mim que foi exclusivamente o seu senso de estilo que fez o nosso Radamanto nomear esse fóssil diretora do seu Museu de Horrores. Pois ele é artista. Não sabia disso? Pinta a óleo. Que quer? Não é proibido, não é? Cada um tem plena liberdade de fazê-lo... Dona Adriática diz a todos quantos querem ouvi-la, e também aos que não querem, que em meados do século XIII houve uma Mylendonk que era abadessa de um convento em Bonn, às margens do Reno. Ela mesma não pode ter nascido muito tempo depois dessa época...

– Ah, ah, ah! Acho que o senhor é muito irônico, Sr. Settembrini.

– Irônico? Quer dizer: malicioso. Sim, sou um pouco malicioso – disse Settembrini. – Lamento apenas que me tenham condenado a desperdiçar a minha malícia com assuntos tão miseráveis. Espero que o senhor não se oponha à malícia, meu caro engenheiro. A meu ver, é ela a mais esplêndida arma da razão na luta contra as potências das trevas e da fealdade. A malícia, senhor, é o espírito da crítica, e a crítica representa a origem do progresso e do esclarecimento. – E de súbito pôs-se a discorrer sobre Petrarca, a quem chamou de “pai dos tempos modernos”.

– Mas acho que está na hora do repouso – disse Joachim, ponderadamente.

O escritor acompanhara suas palavras de expressivos gestos da mão. Nesse momento concluiu a mímica, apontando para Joachim e dizendo:

– O nosso tenente dá o sinal do serviço. Vamo-nos, então! Temos o mesmo caminho, “à direita, aquele que busca os muros de Dis, o Poderoso”. Ah, Virgílio, Virgílio! Ninguém o superou, meus senhores! Acredito no progresso, certamente, mas Virgílio dispõe de adjetivos que nenhum moderno encontraria... – Enquanto regressavam, começou a recitar versos latinos com pronúncia italiana. Interrompeu-se, porém, quando se encontraram com uma mocinha qualquer, aparentemente uma aldeã, e de modo algum notável pela sua beleza. Abriu então um sorriso donjuanesco e meteu-se a cantarolar. – Ts, ts, ts – estalou a língua. – Ai, ai, ai! Oh la la! Moscazinha bonitinha, quer ser minha? Vejam só, “seus olhos brilham à luz furtiva” – citou sabe Deus que autor, e enviou um beijo em direção à jovem, que lá se ia, toda confusa.

“Que grande doidivanas!”, pensou Hans Castorp, e não mudou a sua opinião, quando Settembrini, após esse acesso de galantaria, voltou a dizer mal. Tinha uma birra especial contra o Dr. Behrens. Criticou-lhe o tamanho dos pés e ironizou o título de conselheiro áulico que recebera de um príncipe que sofria de tuberculose cerebral. A região inteira falava ainda da vida escandalosa que levara esse príncipe, Radamanto fizera vista grossa, à maneira mais perfeita de um cortesão. A propósito, sabiam os senhores que Behrens foi o inventor da temporada de verão? Ele e mais ninguém! Honra ao mérito! Antigam apenas os fiéis entre os mais fiéis passavam o estio nesse vale. Porém, “o nosso humorista”, na sua clarividência incorruptível, verificou que esse inconveniente era somente o resultado de um preconceito, e estabeleceu a teoria segundo a qual, pelo menos no que tocava ao sanatório, a cura de verão era não só recomendável, mas até sumamente eficaz e mesmo imprescindível. Soube lançar essa teoria, divulgou-a por meio de artigos de jornal e interessou a imprensa por ela. De então, os negócios marcharam igualmente bem no verão como inverno. – É um gênio – disse Settembrini. – In-tu-i-ção! – exclamou, e a seguir se pôs a achincalhar os demais estabelecimentos do lugar, elogiando, num tom cáustico, o espírito negocista dos seus donos. Havia lá o Professor Kafka... Todos os anos, na época crítica do degelo, quando grande número de pensionistas queria partir, o Professor Kafka via-se forçado a fazer uma viagem de oito dias, mas prometia outorgar as autorizações de alta logo após o seu regresso. Entretanto, permanecia ausente durante seis semanas, e os desgraçados a esperar, enquanto cresciam -seja dito entre parênteses – as suas contas. Certa vez, Kafka foi chamado a Fiume, para examinar um doente, mas não se pôs a caminho antes que lhe garantissem uns bons cinco mil francos suíços, e entre uma coisa e outra passaram-se quinze dias. E no seguinte ao da chegada do insigne mestre, faleceu o paciente. Quanto ao Dr. Salzmann, este dizia à boca pequena que o Professor Kafka mantinha limpas as suas seringas de injeção, a ponto de infeccionar os enfermos. “Ele usa pneumáticos nas rodas de seu coche”, afirmava Salzmann, “para que seus mortos não o ouçam.” Ao que Kafka replicava que no sanatório de Salzmann obrigavam os pacientes a um consumo muito intenso do “fruto consolador da vinha” (igualmente na intenção de lhes arredondarem as contas), de maneira que ali a gente morria como moscas, não de tísica, mas de cirrose do fígado...

Enquanto Settembrini prosseguia no mesmo tom, Hans Castorp ria-se jovialmente e sem malícia, ao ouvir essa catadupa de eloqüência blasfema. A linguagem do italiano tinha um som particularmente agradável, na sua absoluta pureza e correção, livres de qualquer sotaque. Dos seus lábios volúveis, as palavras brotavam cheias, distintas e como que recém-feitas. O próprio Settembrini gozava com as locuções e formas cultas, vivas e sardônicas, de que se servia; até mesmo a flexão e conjugação gramatical dos vocábulos causavam-lhe evidente prazer, que era ao mesmo tempo expansivo e contagioso. Seu espírito parecia por demais claro e concentrado, para que lhe pudesse ocorrer, uma vez sequer, perder o fio.

– O senhor fala com tanta graça, Sr. Settembrini – disse Hans Castorp – e com tamanha vivacidade... Não sei como chamar esse seu jeito de falar...

– Plástico, não é? – respondeu o italiano, abanando-se com o lenço, apesar da temperatura bastante fresca. – Esta deve ser a palavra que o senhor procura. Quer dizer que eu falo de um modo plástico... Mas que é isto? – exclamou. – Que é que estou vendo? Ali deambulam os nossos juízes do inferno. Que visão!

Os três já haviam dobrado a curva do caminho. Seria em virtude dos discursos de Settembrini? Ou por causa do declive? Ou talvez se tivessem afastado do sanatório menos do que parecera a Hans Castorp? (Todo caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já o conhecemos.) Fosse como fosse, o regresso realizara-se com uma rapidez surpreendente... Settembrini tinha razão. Os que ali caminhavam pelo largo que se estendia atrás do sanatório eram os dois médicos. O Dr. Behrens ia à frente – com o jaleco branco e a nuca saliente, agitando os braços como se fossem remos. O Dr. Krokowski seguia-lhe as pegadas, trajando o blusão preto e lançando em torno de si olhares tanto mais orgulhosos quanto mais a ética profissional o obrigava a manter-se atrás do chefe quando estava de serviço.

– Ah, Krokowski! – gritou Settembrini. – Lá vai ele conhece todos os segredos das nossas damas. Não deixem de reparar refinado simbolismo da sua vestimenta. Ele anda de preto para indicar que o seu peculiar campo de estudos são as trevas. Esse homem tem na cabeça um único pensamento, e esse pensamento é sórdido. Como é possível, prezado engenheiro, que ainda não tenhamos falado dele? O senhor já chegou a conhecê-lo?

Hans Castorp disse que sim.

– E agora? Estou disposto a acreditar que também ele lhe agrada.

– Francamente, Sr. Settembrini, não sei. Falei com ele apenas poucos instantes, e não tenho o hábito de formar uma opinião precipitada. Costumo olhar a gente e pensar: “Então és assim? Muito bem”.

– Isto é pura apatia – respondeu o italiano. – Por que não julga? É para esse fim que a natureza lhe deu os olhos e o cérebro. O senhor achou que eu era malicioso, mas quando eu falava assim talvez o fizesse com intenções pedagógicas. Nós, os humanistas temos todos uma veia pedagógica... Meus senhores, o laço histórico entre o humanismo e pedagogia é a prova do laço psicológico que existe entre ambos. Não convém privar os humanistas da sua função educadora... Não se lhes pode arrebatar essa função, porque só entre eles se encontra a tradição da dignidade e da beleza do Homem. Um dia, o humanista substituiu o sacerdote, que numa época sombria e misantrópica ousara arrogar-se a direção da juventude. Desde então, senhores não surgiu mais nenhum tipo novo de educador. O ginásio humanista – o senhor pode me chamar de reacionário, meu caro engenheiro, mas, por princípio, in abstracto, queira compreender-me bem, continuo seu adepto...

Ainda no elevador, o italiano prosseguiu no desenvolvimento do seu tema, e não se calou senão quando os primos, no segundo andar, se despediram dele. Settembrini ia até o terceiro, onde, como contou Joachim, habitava um quartinho situado na parte traseira do sanatório.

– Então não tem muito dinheiro? – perguntou Hans Castorp, que também entrara no quarto de Joachim, totalmente igual ao seu.

– Acho que não – respondeu o primo. – Ou pelo menos só o necessário para pagar a pensão. Seu pai já era escritor, sabe? e se não me engano, também o avô.

– Ora, nesse caso... – disse Hans Castorp. – E ele está seriamente doente?

– Ao que saiba, não é coisa perigosa. Mas é um mal persistente e volta uma e outra vez. Já sofre disso faz muitos anos. Uma vez partiu, mas teve que internar-se de novo.

– Coitado! Logo ele que tanto se entusiasma pelo trabalho... E com tudo isso é tão loquaz! Tem tanta facilidade em saltar de um assunto ao outro! Com aquela pequena mostrou-se bastante atrevido. Eu me senti até um pouco chocado. Mas o que disse depois sobre a dignidade humana foi mesmo notável. Tive a impressão de ouvir um discurso solene. Você se encontra freqüentemente com ele?

 

         Sutileza do pensamento

Mas Joachim já não podia responder senão com dificuldade e sem nitidez. Tirara um pequeno termômetro de um estojo de couro vermelho, forrado de veludo que se achava na mesa, e introduzira na boca a extremidade inferior cheia de mercúrio. Mantinha-o à esquerda, por baixo da língua, de maneira que o instrumento de vidro saía obliquamente da boca, apontando para cima. Depois, pôs-se à vontade, calçando sapatos e vestindo uma jaqueta agaloada; foi buscar na mesa uma tabela impressa e um lápis, bem como um livro uma gramática russa, já que estudava o russo, por esperar disso, segundo afirmava, certas vantagens no serviço. Assim equipado, saiu para a sacada, instalou-se na espreguiçadeira e atirou por cima dos pés um cobertor de lã de camelo.

Essa última precaução quase não era necessária. Havia um quarto de hora, a camada de nuvens tornara-se cada vez mais transparente, e o sol irrompeu com tamanho calor e brilho estival, que Joachim protegeu a cabeça com uma espécie de toldo de linho branco, que por meio de um pequeno mecanismo engenhoso, podia ser fixado no braço da cadeira e inclinado segundo a posição do sol. Hans Castorp elogiou esse invento. Ficou à espera do resultado da tomada de temperatura. Nesse ínterim, pôs-se a observar tudo quanto se fazia; também contemplou o saco de pele que se achava apoiado num canto loggia – Joachim servia-se dele nos dias frios –, e com os cotovelos fincados no parapeito olhou para o jardim, onde o alpendre comum estava a essa hora povoado de pacientes deitados, que liam, escreviam ou conversavam. Não se lograva ver, aliás, senão uma parte do interior, com talvez umas cinco espreguiçadeiras.

– Quanto tempo vai durar isto? – perguntou Hans Castorp voltando a cabeça.

Joachim levantou sete dedos.

– Mas já devem ter passado esses sete minutos.

Joachim fez que não. Depois de alguns instantes tirou o termômetro da boca, olhou-o e disse:

– Pois é, quando se presta atenção ao tempo, ele passa muito devagar. Eu realmente gosto de tomar a temperatura quatro vezes dia, porque assim se nota o que representa, propriamente, um minuto, ou até uns sete minutos, para gente que, como nós aqui, esbanja tão pavorosamente os sete dias da semana.

– Você diz: “propriamente”. Assim não se pode dizer – objetou Hans Castorp, que se sentara com uma coxa no parapeito. O branco dos seus olhos estava estriado de vermelho. – O tempo absolutamente não tem natureza própria. Quando nos parece longo, é longo e quando nos parece curto, é curto, mas ninguém sabe em realidade sua verdadeira extensão. – Não tinha o hábito de filosofar, mas nesse momento sentia-se impelido a fazê-lo.

Joachim replicou:

– Como não? Afinal de contas medimos o tempo. Temos relógios e calendários, e quando um mês se escoa, termina para mim, para você e para todos os outros.

– Espere um pouco – disse Hans Castorp, levantando o índice à altura dos olhos turvos. – Você acha então que um minuto é tão longo como lhe parece, quando toma a temperatura.

– Um minuto é tão longo... dura tanto tempo quanto necessita o ponteiro dos segundos para dar uma volta completa.

– Mas esse tempo é muito diferente, conforme a sensação que experimentamos. E na realidade... eu digo: na realidade ­– repetiu Hans Castorp, apertando o índice contra o nariz com tanta força que chegou a torcer a ponta – trata-se aí de um movimento no espaço, não é? Espere, não me interrompa. Medimos, portanto, o tempo por meio do espaço. Mas isto é a mesma coisa que medir o espaço com o auxílio do tempo... O que fazem somente pessoas sem espírito científico. De Hamburgo a Davo são vinte horas; sim senhor, de trem. Mas a pé, quantas horas são? E o meu cérebro? Nem um segundo!

– Escute – disse Joachim. – Que é que você tem? Parece que o ar, aqui em cima, lhe ataca o cérebro.

– Cale a boca, que estou pensando com grande sutileza. Que é o tempo, afinal? – perguntou Hans Castorp comprimindo o nariz com tamanha violência, que a ponta se tornou branca e exangue. – Quer me dizer isto? Percebemos o espaço com nossos sentidos, por meio da vista e do tato. Muito bem! Mas que órgão possuímos para perceber o tempo? Pode me responder a essa pergunta? Bem vê que não pode. Como é possível medir uma coisa da qual, no fundo, não sabemos nada, nada, nem sequer uma única das suas características? Dizemos que o tempo passa. Está bem, deixe-o passar. Mas para que possamos medi-lo... Espere um pouco! Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e quem lhe garante que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e as nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções...

– Bem – disse Joachim. – Nesse caso é também uma mera convenção o fato de eu ter, neste termômetro, cinco décimos a mais. Mas é por causa desses cinco décimos que preciso cruzar os braços em vez de seguir a carreira militar. Que coisa nojenta!

– Você tem 37,5?

– A temperatura está baixando outra vez – respondeu Joachim, completando a curva na papeleta. – Ontem à noite, eu tinha quase 38. Foi por causa da sua chegada. Aqui, quem recebe visitas costuma sofrer uma elevação de temperatura. Mas, mesmo assim, é um alívio.

– Agora vou deixá-lo sozinho – disse Hans Castorp. – Minha cabeça está ainda cheia de idéias sobre o tempo... É um vasto complexo, posso lhe afirmar. Mas não quero excitar você, que já tem alguns décimos a mais. Vou ver se guardo tudo na cabeça, e mais tarde voltaremos a falar nisso, mas talvez depois do almoço. Quando for hora de almoçar, você me chama, não é? Eu também vou fazer uma sessão de repouso. Isso não dói, graças a Deus. – Com essas palavras contornou a vidraça de separação e entrou no seu próprio compartimento, onde a espreguiçadeira e a mesinha se achavam também preparadas. Foi buscar, no quarto cuidadosamente arrumado, o Ocean Steamships, bem como o belo e macio cobertor, enxadrezado de verde e carmesim. A seguir, estirou-se na cadeira.

Depois de pouco tempo, também ele viu-se obrigado a baixar o toldo. Para quem se encontrava assim deitado, o calor do sol fazia-se insuportável. Mas Hans Castorp verificou imediatamente e com satisfação que a sua posição era muito cômoda; não se recordava de ter visto, jamais, uma espreguiçadeira tão confortável. A armação, de linhas um tanto antiquadas – o que, evidentemente, era apenas um capricho estético, visto a cadeira estar novinha –, era feita de madeira lustrosa, entre marrom e vermelho. Um colchão forrado de chitão macio era, em realidade, composto de três almofadões altos e estendia-se desde os pés até a cabeceira. Havia ainda uma almofada em forma de rolo, nem muito dura nem muito mole, presa à altura da nuca por meio de um cordão, revestida de uma capa bordada, e que produzia um efeito sumamente agradável. Hans Castorp apoiou o cotovelo sobre a larga superfície do braço da cadeira e com as pálpebras semicerradas entregou-se ao repouso, sem recorrer ao Ocean Steamships para a sua distração. Vista através dos arcos da loggia, a paisagem áspera e pobre, mas iluminada pelo sol, assemelhava-se a um quadro dentro de uma moldura. Hans Castorp contemplou-a, pensativo. De repente lembrou-se de um outro assunto e interrompeu o silêncio, dizendo em voz alta:

– A moça que nos serviu o café é uma anã; não é?

– Psiu! – fez Joachim. – Fale baixinho. Sim, é uma anã. E daí?

– Nada. Ainda não tínhamos comentado esse fato.

E com isso tornou a devanear. Já passava das dez horas, quando se deitou. Decorreu uma hora. Uma hora comum, nem longa, nem curta. Quando ela chegou ao fim, ressoou um gongo através da casa e do jardim, primeiro à distância, depois pertinho, e por fim cada vez mais longe.

– O segundo café da manhã ­– disse Joachim. Ouviu-se que ele se levantava.

Também Hans Castorp terminou o repouso e entrou no quarto, para se arrumar. Os primos encontraram-se no corredor e desceram juntos.

– Sabe que o repouso estava ótimo? – disse Hans Castorp. – Que cadeiras são essas? Se houver uma delas à venda, vou levá-la para Hamburgo. Deitado assim, sinto-me como no céu. Que acha você: será que o Behrens mandou fazê-las especialmente, segundo as suas indicações?

Joachim não sabia. Após terem deixado os sobretudos no vestiário entraram pela segunda vez na sala de refeições, onde o segundo café da manhã já estava sendo servido.

A sala cintilava de tanto leite. Em cada lugar via-se um copo grande, de meio litro pelo menos.

– Não é comigo! – disse Hans Castorp, voltando a sentar na extremidade da mesa, entre a costureira e a inglesa, e desdobrou resignadamente o guardanapo, embora ainda se sentisse abarrotado do café da manhã. – Não senhor, não é comigo – repetiu. – Deus me livre! Nunca tomo leite, e ainda menos a esta hora. Não poderia arranjar alguma porter? – dirigiu-se à anã, com toda a amabilidade e delicadeza. Infelizmente não havia. Mas a criada prometeu trazer-lhe cerveja de Kulmbach, e de fato voltou ela pouco depois. Era uma cerveja preta, espessa, com uma espuma parda, e substituía perfeitamente a porter. Hans Castorp bebeu com avidez, de um alto de meio litro. Acompanhou a bebida de presunto com pão torrado. Novamente foi servido mingau de aveia, e novamente muita manteiga e fruta. Ele limitou-se a contemplar tudo isso, já que não se sentia capaz de comer mais. Pôs-se a estudar os pensionistas, e aos poucos a multidão começou a subdividir-se em grupos, salientando-se até algumas individualidades.

A sua própria mesa estava completa, com exceção do lugar que se achava à sua frente, na extremidade oposta. Segundo ficou sabendo, era o “lugar do doutor”. Pois os médicos participavam das refeições comuns, quando as suas ocupações lhes deixavam o tempo necessário, e costumavam comer numa e noutra mesa, alternadamente. Por isso se reservava à extremidade de todas elas um “lugar do doutor”. No momento, nenhum dos dois se encontrava presente. Dizia-se que estavam operando. De novo entrou o jovem bigodudo, abaixou uma só vez o queixo na direção do peito e sentou-se com uma fisionomia desassossegada e hermética. Também a magrinha de cabelos louros estava no seu lugar, engolindo colheradas de iogurte, como se fosse o seu único alimento. A seu lado, instalara-se desta vez uma senhora de idade, baixinha e alegre, a qual dirigia uma torrente de palavras russas ao jovem taciturno, que a olhava com uma expressão preocupada, limitando-se a sacudir a cabeça, ostentando a expressão de quem tem na boca qualquer coisa de gosto repugnante. À sua frente, do outro lado da senhora de idade, achava-se mais uma mocinha, aliás muito bonita, com uma tez rosada e seios rijos; tinha cabelos castanhos agradavelmente ondulados, olhos redondos e pueris, da mesma cor, e um pequeno rubi na mão bem-formada. Ria muito, e também falava russo, só russo. Chamava-se Marusja, segundo Hans Castorp pôde ouvir. Além disso, observou ele de passagem que Joachim baixava os olhos com ar severo cada vez que a moça ria ou falava.

Settembrini apareceu na porta lateral e, cofiando o bigode, encaminhou-se para o seu lugar, na extremidade da mesa colocada obliquamente diante de Hans Castorp. Apenas sentou-se, os comensais desataram a rir. Sem dúvida, acabava de dizer alguma coisa maliciosa. Hans Castorp também conseguiu identificar os membros da “Sociedade Meio-Pulmão”. Hermine Kleefeld, com seus olhos estúpidos, foi arrastando o passo, até a mesa mais próxima da porta do avarandado, e cumprimentou o jovem beiçudo que, no passeio da manhã, levantara o paletó daquele jeito inconveniente. A Srta. Levi, com a cútis de marfim, estava sentada junto da Srª. Iltis, gorda e salpicada de lunares, à mesa transversal, à direita de Hans Castorp, onde, além delas, só se encontravam pessoas desconhecidas.

– Lá vêm os seus vizinhos – murmurou Joachim ao primo, inclinando-se para a frente. O casal passou perto de Hans Castorp, rumo à mesa dos “russos ordinários”, a última à direita, onde já se achava uma família com um menino de cara feia, a devorarem enormes montões de porridge. O homem era de constituição débil e tinha as faces cavas e cinzentas. Trajava uma jaqueta de couro marrom e calçava toscas botinas de feltro, fechadas a fivela. Sua esposa, também baixinha e delgada, exibia um chapéu enfeitado de penas, que a cada passo se balouçavam, um boá pouco limpo, igualmente de penas, e minúsculos sapatos de couro da Rússia, cujos tacões excessivamente altos a obrigavam a um passo saltitante. Hans Castorp examinou os dois com uma falta de consideração que não lhe era habitual e cuja brutalidade ele mesmo sentiu; mas foi justamente o caráter brutal da sua conduta o que, de repente, lhe causou certo prazer. A expressão de seus olhos era ao mesmo tempo obtusa e indiscreta. Quando, nesse momento a porta envidraçada da esquerda se fechou, tinindo estrepitosamente, como acontecera na hora do café, Hans Castorp não tornou a sobressaltar-se, mas limitou-se a uma careta fleumática. Empenhou-se então em voltar a cabeça para aquele lado; no entanto, verificou que esforço era excessivo e não valia a pena. Aconteceu que mais uma vez não logrou averiguar quem manejava a porta daquela maneira relaxada.

Essa indiferença provinha do fato de o ter atordoado e paralisado completamente a cerveja matinal, que em outras ocasiões exercia sobre ele apenas um efeito levemente inebriante. Dessa vez, porém produziu em Hans Castorp as mesmas conseqüências de um golpe na testa. As pálpebras pesavam-lhe como chumbo. A língua já não obedecia aos mais simples pensamentos, quando por cortesia procurou palestrar com a inglesa. Até a tentativa de mudar a direção do olhar lhe custava um imenso esforço. E a isso acrescia aquele horroroso ardor no rosto que reaparecera com a mesma intensidade da véspera; sentia as faces como que túmidas de calor. Respirava com dificuldade e o coração batia qual um martelo envolto num pano. Se todas sensações não o incomodavam grandemente, era porque sua cabeça encontrava no estado de quem fez duas ou três inalações de clorofórmio. Que o Dr. Krokowski finalmente surgira na sala e se sentara no lugar à sua frente, Hans Castorp notou-o apenas como num sonho, não obstante o médico o fixar diversas vezes, ao conversar em com as senhoras à sua direita, enquanto as mocinhas – a exuberante Marusja e a macilenta comedora de iogurte – baixavam humilde e pudicamente os olhos. Hans Castorp, aliás, não deixou de se comportar convenientemente – é escusado dizê-lo; visto a sua língua mostrar recalcitrante, preferiu permanecer calado, mas conseguiu manejar com uma correção toda especial a faca e o garfo. Quando primo lhe deu um sinal com a cabeça e se levantou, pôs-se também pé, inclinou-se vagamente em direção aos companheiros de mesa e seguiu com passo firme atrás de Joachim.

– Qual é a hora do próximo repouso? – perguntou, ao saírem da casa. – A meu ver, é a melhor coisa que existe por aqui. Quem me dera estar deitado na minha magnífica espreguiçadeira! Vamos muito longe?

 

         Uma palavra indevida

– Não – respondeu Joachim. – Nem posso ir longe. A esta hora costumo descer à aldeia e dar um passeio até Davos-Platz, quando tenho bastante tempo. A gente olha as lojas e o movimento na rua, e compra o que precisa. Antes do almoço há mais uma hora de repouso, e depois fica-se outra vez deitado até as quatro. Não se preocupe.

Desceram em pleno sol pela rampa da estrada. Atravessaram o curso d'água e as trilhas estreitas, tendo diante de si os vultos das montanhas que ladeavam o vale à direita: a Kleine Schiahorn, as Grüne Türme e o Dorfberg, conforme Joachim foi explicando. Lá, mais adiante, a certa altura, via-se o cemitério de Davos-Dorf, cercado de um muro; também para ele apontou Joachim com a bengala. E chegaram à estrada principal, que, um pouco acima do fundo do vale, se estendia ao longo da vertente composta de terraços.

Não se podia falar, propriamente, de aldeia, da qual apenas sobrava o nome “Dorf”. Devorara-a a estação climatológica, ao prolongar-se mais e mais em direção à entrada do vale, de modo que a parte do conjunto que se chamava “Dorf” se confundia, insensivelmente, e sem solução de continuidade, com a outra, chamada “Davos-Platz”. Hotéis e pensões, todos eles abundantemente providos de avarandados cobertos, sacadas e alpendres de repouso, achavam-se dispersos por ambos os lados bem como casinhas particulares nas quais se alugavam cômodos; de vez em quando viam-se casas em construção; havia também alguns terrenos baldios, onde a estrada permitia ver os prados abertos do vale...

Hans Castorp, tomado pelo desejo de se proporcionar o costumeiro e querido estímulo, acendera novamente o charuto. Provavelmente foi graças à cerveja que acabava de beber que redescobriu, com indizível satisfação, alguns vestígios do almejado aroma, se bem que este aparecesse apenas em raros momentos e sem grande intensidade. Custou-lhe um certo esforço nervoso alcançar uma idéia daquele antigo prazer, e o repugnante sabor de couro continuava predominando. Incapaz de conformar-se, lutou algum tempo pela obtenção do gozo que ora se lhe esquivava, ora assomava a muita distância, como que zombando dele. Finalmente, fatigado e aborrecido, jogou fora o charuto. Apesar do seu atordoamento, sentiu que a cortesia o obrigava a entabular uma conversa. Para esse fim, procurou lembrar-se das coisas interessantes que, havia pouco, tencionara dizer acerca do tempo. Mas constatou que se esquecera por completo de todo esse “vasto complexo”, a ponto de não abrigar na sua cabeça o mínimo pensamento a esse respeito. Em compensação, meteu-se a falar de assuntos referentes ao corpo, e isso de maneira bastante esquisita.

– Quando é que você vai tirar novamente a temperatura? – perguntou. – Depois da refeição? Assim está bem. A essa hora acha-se o organismo em pleno funcionamento; aí deve aparecer a verdade. Mas diga, você não acha que o Behrens brincou comigo, quando sugeriu que eu também tomasse a temperatura? Settembrini riu-se gargalhadas, quando ouviu a história. E realmente seria absurdo. Além disso, nem termômetro tenho.

– Ora – disse Joachim. – Isso é o de menos. Basta comprar um. Aqui se encontram termômetros em toda parte. Qualquer loja tem.

– Para quê? Não senhor o repouso, vá lá; mas tomar a temperatura, isso seria exigir muito de um visitante. É uma ocupação e que deixo para vocês. Se eu ao menos soubesse – continuou Hans Castorp, pondo as mãos sobre o coração, como um jovem apaixonado – que tenho a toda hora estas palpitações! Elas me inquietam, e já faz tempo que estou refletindo sobre isso. Olhe, a gente sofre de palpitações quando se acha em vésperas de uma alegria extraordinária, ou quando está com medo; em poucas palavras, quando experimenta uma emoção, não é? Mas, sentir que o coração bate gratuitamente, sem motivo nem sentido, por assim dizer por conta própria – acho isso misterioso, compreende? É como se o corpo seguisse o seu próprio caminho e se tivesse desligado da alma. De certo modo é semelhante a um cadáver que também, na realidade, não está completamente morto... Isto não existe... Mas ainda leva uma vida bastante ativa e independente: os cabelos e as unhas continuam crescendo, e como me explicaram, reina nele, sob todos os aspectos, físicos e químicos, a mais franca animação.

– Que maneira de falar é essa? – disse Joachim num tom de ponderada censura. – Franca animação! – Talvez quisesse, dessa forma, vingar-se um pouco da observação que o primo fizera, de manhã, sobre a banda do regimento.

– Mas é mesmo! Reina a mais franca animação. Por que é que você se escandaliza? – perguntou Hans Castorp. – De resto, mencionei isso apenas de passagem. Eu queria somente dizer que é uma coisa sinistra e penosa ver o corpo levar uma existência própria, independente da alma, e dar-se ares de importância, como no caso dessas palpitações sem motivo. E a gente se esforça por encontrar um sentido nessa coisa; procura-se a emoção indispensável, um sentimento de alegria ou de medo, que as justifique de certo modo – pelo menos eu faço isso, pois só posso falar de mim.

– Sim senhor – disse Joachim, suspirando. – É mais ou menos a mesma coisa que estar com febre. Nesse caso também reina no corpo “a mais franca animação”, para empregar a sua expressão. Então acontece facilmente que, sem querer, a gente ande à cata de uma emoção, como você diz, para que essa animação receba um sentido mais ou menos plausível... Mas estamos falando de coisas tão desagradáveis! – acrescentou em voz trêmula, e cortou a conversa. Hans Castorp limitou-se a dar de ombros, da mesma forma como vira Joachim fazer na véspera.

Durante algum tempo caminharam em silêncio. Depois Joachim perguntou:

– E que tal acha você acha as pessoas aqui em cima? Quero dizer, os nossos companheiros de mesa.

Hans Castorp assumiu um ar indiferente, pensativo.

-meu Deus! – disse. – Não me parecem grande coisa. Tenho a impressão de que em outras mesas há pessoas mais interessantes, pode ser que me engane. A Srª. Stöhr deveria lavar os cabelos, estão muito ensebados. E aquela Mazurca, ou como se chama?, parece-me um pouco fútil. A toda hora bota o lenço na boca, de tanto rir.

Joachim achou graça nessa deformação do nome.

– Mazurca? É boa! – exclamou. – Ela se chama Marusja, sabe? É o mesmo que Maria. Pois é – acrescentou – ela é mesmo estouvada, e contudo teria motivos de sobra para ficar mais quieta. Está bastante doente.

– Ninguém pensaria isso – disse Hans Castorp. – Tem uma aparência tão sadia! Uma doença do peito é a última coisa que eu atribuiria. – Tentou trocar com o primo um olhar atrevido, mas verificou que o rosto de Joachim, apesar de tostado pelo sol, mostrava uma cor terrosa, como a adquire a pele queimada, quando o sangue retira, e que sua boca se crispara de um modo particularmente doloroso, adotando uma expressão que despertou no jovem Hans Castorp um vago pavor e fez com que ele, mudando imediatamente de assunto, fosse informar-se sobre outras pessoas, na intenção de esquecer o mais depressa possível Marusja e a expressão de Joachim, o que, aliás, conseguiu sem dificuldade.

A inglesa do chá de roseira-brava chamava-se Miss Robinson. A costureira não era costureira, mas uma professora do Liceu Estadual Königsberg, e por isso se expressava com tanta correção. Seu nome era Engelhart. Quanto à velhota jovial, nem o próprio Joachim sabia como se chamava, apesar de viver há muito tempo ali em cima. Em todo caso era a tia-avó da comedora de iogurte, com a qual morava constantemente no sanatório. Mas quem estava mais doente, dentre todos os que comiam à mesa, era o Dr. Blumenkohl, Leo Blumenkohl, de Odessa, aquele moço bigodudo de cara fechada. Já havia anos que se achava internado...

Estavam passando por uma verdadeira rua de cidade, a rua principal de um centro internacional, como logo se via. Vinham-lhes ao encontro veranistas que flanavam por ali, jovens na maioria, os homens em traje esporte e sem chapéu, as senhoras também sem chapéu e com saias brancas. Ouvia-se falar russo e inglês. À direita e à esquerda havia lojas com elegantes vitrines, e Hans Castorp, cuja curiosidade travava uma luta violenta com a ardente fadiga, obrigou os olhos a verem, detendo-se durante muito tempo diante da loja de um camiseiro, para constatar que a vitrine estava mesmo “à altura”.

Depois surgiu uma rotunda, com uma galeria coberta, onde uma orquestra dava um concerto. Era o cassino. Em algumas quadras de tênis jogavam-se partidas. Jovens escanhoados, de pernas compridas, trajando calças de flanela cuidadosamente passadas, exibiam os antebraços desnudos e os sapatos com solas de borracha. À sua frente jogavam mocinhas tostadas, vestidas de branco, que em plena corrida se estiravam alto no ar iluminado pelo sol, a fim de rebaterem, no vôlei, a bola alvacenta. Um como que um pó de farinha pairava sobre as quadras bem cuidadas. Os primos sentaram-se num banco vazio, para olhar e criticar o jogo.

– Você não joga aqui? – perguntou Hans Castorp.

– Não me deixam – respondeu Joachim. – Nós temos de ficar deitados, sempre deitados... Settembrini costuma dizer que vivemos uma vida horizontal, que somos uns horizontais. É uma das suas piadas sarcásticas... Aquela gente que ali joga não está doente, ou então joga apesar da proibição. De resto, eles não jogam muito seriamente; é mais para mostrar os trajes... E quanto às proibições, existem por aqui outras coisas proibidas que se jogam, como o pôquer, sabe? e neste ou naquele hotel, também os petits chevaux. Entre nós, isto se pune com expulsão, porque o jogo de azar é considerado a infração mais prejudicial. Contudo, há quem saia ainda depois da revista noturna, para entrar na jogatina. O príncipe que deu o título ao Behrens também costumava escapulir de noite.

Hans Castorp mal o ouvia. Andava com a boca entreaberta; embora não estivesse resfriado, tinha dificuldade em respirar pelo nariz. Seu coração martelava num ritmo contrário à música, o que lhe causava impressão vagamente penosa. Tomado dessa sensação de desordem e contrariedade, estava a ponto de cochilar, quando Joachim o avisou de que eram horas de voltar.

Percorreram o caminho em silêncio. Hans Castorp até chego tropeçar diversas vezes na estrada plana, e, ao dar-se conta disso, esboçou um sorriso melancólico, sacudindo a cabeça. O porteiro coxo conduziu-os no elevador até o seu pavimento. Separaram-se em frente do número 34, com um breve “Até logo”. Hans Castorp rumou, através do quarto e saiu para a sacada, onde, sem mais nem menos, se deixou cair na espreguiçadeira. Nem sequer mudou de posição, mergulhou numa pesada modorra, que as rápidas pulsações do coração animavam desagradavelmente.

 

         Uma fêmea, naturalmente!

Não se deu conta do tempo que passou nesse estado. Chegada a hora ressoou o gongo. Mas, como Hans Castorp sabia, isso não representava o chamado imediato à refeição. Era, apenas, o sinal para os hóspedes se aprontarem. Assim, permaneceu deitado até que o estrondo metálico se intensificasse e depois se afastasse pela segunda vez. Quando Joachim atravessou o quarto, para buscá-lo, Hans Castorp quis mudar de roupa. Joachim, entretanto, não permitiu. Detestava e desdenhava a falta de pontualidade. Como era possível progredir na vida e recuperar a saúde, para voltar ao serviço – perguntou –, aquele que se mostrava por demais relaxado até para observar o horário das refeições? Nesse ponto, indiscutivelmente, tinha razão, e Hans Castorp limitou-se a observar que não estava doente, rias apenas se sentia sumamente sonolento. A toda pressa lavou as mãos, e em seguida desceram ao salão, pela terceira vez nesse dia.

Os hóspedes vinham afluindo por ambas as entradas. Entravam também pelas portas do avarandado, que estavam abertas. Dentro de pouco tempo, todos se encontravam sentados em torno das sete mesas, como se nunca se tivessem levantado. Tal era, pelo menos, a impressão de Hans Castorp – impressão puramente fantástica e irracional, mas que seu cérebro enevoado não logrou rechaçar por alguns instantes, e na qual encontrou mesmo algum prazer; pois, no decorrer da refeição, tentou repetidamente evocá-la, obtendo cada vez uma ilusão perfeita. A velhota jovial estava novamente a dirigir uma torrente de palavras, no seu linguajar indistinto, ao Dr. Blumenkohl, sentado do lado oposto da mesa, e que a ouvia com um ar preocupado. Sua sobrinha macilenta comia, finalmente, outra coisa que não o iogurte: o espesso crême d'orge, que as criadas serviam em pratos; mas ela não foi além de umas poucas colheradas. A bela Marusja, para abafar o riso, apertava contra a boca o lencinho, que exalava perfume de flor de laranjeira. Miss Robinson lia as mesmas cartas escritas em letra redonda que já lera de manhã. Evidentemente não sabia nem uma única palavra de alemão e fazia até questão de não saber. Joachim, em atitude diferente, proferiu algumas frases inglesas sobre o tempo, às quais ela respondeu mastigando uns monossílabos, para logo recair no silêncio. Quanto à Srª. Stöhr, com a sua blusa de padrão escocês – submetera-se ela, essa manhã, ao exame médico, cujos pormenores relatou com afetação vulgar, descortinando os seus dentes de lebre. Lamentou-se de que em cima, à direita, houvesse ainda ruídos; além disso, tinha uma diminuição do murmúrio abaixo da axila esquerda; era preciso ficar mais cinco meses, conforme lhe dissera “o Velho”. Em sua linguagem ordinária, chamava o Dr. Behrens de “o Velho”. Mostrou-se, de resto, muito indignada pelo fato de não estar “o Velho” presente à mesa. Segundo a “toumée” queria dizer: segundo o turno era hoje a vez da sua mesa, ao passo que “o Velho” novamente se sentara à mesa próxima da esquerda (onde, com efeito, se via o Dr. Behrens juntando as manzorras diante do prato). Mas, claro continuou a Srª. Stöhr –, ali tinha o lugar a gorda Srª. Salomon, de Amsterdã, que todo santo dia se apresentava às refeições num vestido muito decotado, e tal aspecto parecia que era do agrado do “Velho”, se bem que ela, a Srª. Stöhr, não soubesse explicar por que razão, uma vez que nos exames médicos ele tinha ensejo para ver o quanto queria dessa dama. Mais tarde contou, cochichando exaltadamente, que à noite anterior, no avarandado de repouso localizado no sótão, alguém apagara a luz, e isso para fins que a Srª. Stöhr qualificava de “manifestos”. “O Velho” notara o incidente e praguejara de tal maneira, que todo o sanatório o ouvira. Mas naturalmente, mais uma vez não conseguira descobrir o culpado, e entanto não era preciso ter estudado na universidade para adivinhar que fora aquele capitão Miklosich, de Bucareste para quem nunca havia escuridão suficiente em companhia de senhoras; um homem sem a mínima cultura, embora usasse espartilho, e por natureza uma fera, sim, uma fera, repetiu a Srª. Stöhr numa voz afogada, enquanto o suor lhe perlava a testa e o lábio superior. Todo o mundo em Davos sabia das relações que existiam entre ele e a esposa do Cônsul-Geral Wurmbrand, de Viena, e não podiam se chamar de “secretas”. Não somente entrava o capitão, às vezes já de manhã cedo no quarto da mulher do cônsul–geral, quando esta se encontrava ainda deitada, e assistia então a sua toilette; mas, na terça-feira passada, saíra do quarto Wurmbrand às quatro da madrugada... A enfermeira do jovem Franz do número 19, aquele que tivera recentemente o pneumotórax fracassado... essa enfermeira, pois, apanhara o capitão em flagrante delito, de tanta vergonha enganara-se na porta, de modo que se vira, de repente, no quarto do Sr. Paravant, promotor público de Dortmund... Por fim, a Srª. Stöhr entregou-se a considerações pormenorizadas sobre um instituto “cósmico” da aldeia, onde ela costumava comprar seu dentifrício. Joachim cravava os olhos no prato.

A comida era tão boa quanto abundante. Incluindo a sopa, constava de nada menos que seis pratos. Depois do peixe vinha uma sólida iguaria de carne com verduras; a seguir, ainda outro prato de legumes; fritura de aves, uma sobremesa austríaca, em nada inferior à da véspera, por fim queijo e frutas. Cada prato era servido duas vezes, e não inutilmente. Em toda parte, nas sete mesas, viam-se pratos cheios; reinava naquela sala um apetite voraz, uma fome de lobo, que seria um prazer observar, se ela não produzisse, ao mesmo tempo, uma impressão de certo modo sinistra e até repulsiva. Não somente as pessoas bem-humoradas manifestavam esse apetite, aquelas que tagarelavam e se atiravam bolinhas de pão, mas também as taciturnas e sombrias, que, nos intervalos entre os diferentes pratos, apoiavam a cabeça nas mãos e fitavam o ar. Um adolescente, na mesa vizinha da esquerda, um colegial, segundo parecia, com mangas muito curtas e óculos redondos de grossas lentes, cortava em pedacinhos tudo quanto se amontoava no seu prato, transformando-o numa papa informe; depois se inclinava para a frente e devorava a comida, passando, de vez em vez, o guardanapo por baixo dos óculos, para enxugar não se sabia o quê, lágrimas ou gotas de suor.

Dois incidentes ocorreram durante o almoço, despertando a atenção de Hans Castorp, na medida em que seu estado permitia. Primeiramente, a porta envidraçada tornou a fechar-se com estrondo; foi quando comiam o peixe. Hans Castorp sobressaltou-se, irritado, e na sua cólera veemente disse de si para si que desta vez era necessário descobrir o culpado. Não se limitou a pensar nisso intimamente, mas também formou as palavras com os lábios, por tomar muito a sério o incidente. – É preciso encontrá-lo! – murmurou com uma indignação de tal modo exagerada, que tanto Miss Robinson como a professora o olharam, pasmadas. Com essas palavras voltou-se para a esquerda e arregalou os olhos injetados.

Era uma senhora que atravessava a sala, ou melhor, uma moça, de estatura média vestida de pulôver branco e saia a fantasia, com cabelos ruivos, que ela usava numa trança enrolada em volta da cabeça. Hans Castorp mal pôde entrever-lhe uma parte do perfil. Andava sem fazer ruído, o que formava um contraste estranho com a sua entrada barulhenta; caminhando de um modo singularmente furtivo, cabeça levemente avançada, dirigiu-se à mesa situada na extrema direita da sala, perpendicular ao avarandado, a mesa dos “russos distintos”. Uma das mãos achava-se enterrada no bolso do pulôver justo, ao passo que a outra, levantada à altura da nuca, segurava e arranjava o penteado. Hans Castorp olhou essa mão – entendia de mãos e lhes devotava atenção muito crítica, tendo o hábito de examinar, antes de mais nada, essa parte do corpo das pessoas com quem travava conhecimento. Aquela mão que ali arrumava os cabelos era propriamente a mão de uma senhora distinta; não oferecia aquele aspecto cuidado e refinado que costumavam ter as mãos das esfera social de Hans Castorp. Bastante larga, de dedos curtos, tinha algo de primitivo, de infantil, que lembrava a mão de uma colegial. As unhas, evidentemente, ignoravam a manicura; estavam aparadas de maneira tosca, também de colegial, e a pele, nas bordas, parecia tanto áspera, como a de quem tivesse o vício de roer as unhas. Hans Castorp notou tudo isso mais por adivinhação do que pelos olhos, pois a distância era demasiadamente grande. A moça retardatária cumprimentou com um aceno de cabeça os companheiros de mesa e sentou-se, dando as costas à sala, ao lado do Dr. Krokowski, que presidia àquela mesa. Depois, ainda segurando os cabelos com a mão, lançou por sobre o ombro um olhar ao público, o que permiti Hans Castorp vislumbrar-lhe as maçãs salientes e os olhos rasgados... Uma recordação vaga, ele não sabia de que nem de quem, assaltou-o leve e passageiramente ao ver esse rosto.

– Uma fêmea, naturalmente! – pensou Hans Castorp, e, mais uma vez lhe aconteceu articular as palavras, de modo que a professora, Srta. Engelhart, pôde ouvir o que dizia. A insignificante solteirona deu um sorriso indulgente.

– É Mme... Chauchat – disse. – Ela é tão relaxada! Uma mulher encantadora! – Ao mesmo tempo intensificou-se o rubor aveludado das faces da Srta. Engelhart, coisa que sempre se dava quando ela abria a boca.

– Francesa? – perguntou Hans Castorp com severidade.

– Não, russa – respondeu a Srta. Engelhart. – Pode ser que o marido seja francês ou de origem francesa. Não tenho certeza.

– É aquele? – indagou Hans Castorp, ainda irritado, apontando para um senhor de ombros caídos, que se achava à mesa dos “russos distintos”.

– Não, senhor – tornou a professora. – Ele nunca esteve aqui. Ninguém o conhece.

– Ela deveria fechar a porta com mais cuidado – disse Hans Castorp. -sempre bate com a porta. É uma falta de educação.

A professora aceitou a censura com um sorriso humilde, como se ela própria fosse a culpada, e assim deixaram de falar em Mme... Chauchat. O segundo incidente consistia na temporária ausência do Dr. Blumenkohl. Era só isso e nada mais. De repente, acentuou-se a expressão levemente enojada do seu rosto, enquanto mais preocupadamente do que em geral cravava o olhar no vazio. Depois, com um movimento discreto, afastou a cadeira e saiu. Foi quando a imensa vulgaridade da Srª. Stöhr se manifestou em toda a sua crueza. Provavelmente, a baixa satisfação que lhe causava o fato de estar menos enferma do que Blumenkohl, fez com que lhe acompanhasse a saída com comentários mesclados de compaixão e desdém.

– Coitado! – disse ela. – Está com os pés na cova. Outra vez precisa conversar com o Joãozinho Azul. – Arvorando uma fisionomia de obstinada tolice, proferiu, sem o menor asco, a denominação burlesca “Joãozinho Azul”. Ao ouvi-la, Hans Castorp experimentou ao mesmo tempo horror e vontade de rir. Pouco tempo depois, voltou o Dr. Blumenkohl, do mesmo modo discreto. Sentou-se novamente e prosseguiu na refeição. Também ele comia muito; servia-se duas vezes de cada prato, taciturno, com expressão tristonha e fechada.

Finalmente, o almoço chegou ao fim. Graças ao serviço atencioso – a anã movimentava-se de maneira particularmente rápida –, durara apenas uma hora. Ofegante, sem saber como subira, Hans Castorp jazia mais uma vez na magnífica espreguiçadeira da sua sacada. O repouso após o almoço prolongava-se até a hora do chá, sendo considerado como o mais importante e por isso observado com todo o rigor. Entre as divisões de vidro opaco que o separavam, de um lado, de Joachim, e do casal russo, do outro, permanecia Hans Castorp estendido, modorrando, a respirar pela boca, enquanto o seu coração martelava. Quando fez uso do lenço, notou nele manchas de sangue, mas não teve forças para refletir a esse respeito, apesar de ser muito impressionável e se inclinar, por natureza, para preocupações hipocondríacas. Tornara a acender um Maria Mancini, e dessa vez fumou o charuto até o fim, fosse qual fosse o seu sabor. Entretanto, angustiado e cismarento, analisava as coisas estranhas que lhe aconteciam ali. Duas ou três vezes, seu peito foi sacudido por uma risada interior, ao relembrar a expressão abominável que empregara, na sua vulgaridade a Srª. Stöhr.

 

         O Sr. Albin

No jardim, lá embaixo, a brisa levantava de vez em quando a bandeira adornada de um caduceu. O céu voltara a nublar-se em toda parte. Desapareceu o sol, e quase imediatamente surgiu um frio pouco hospitaleiro. O alpendre de repouso parecia estar cheio; ouviam-se conversas e risos abafados.

– Por amor de Deus, Sr. Albin, guarde essa faca. Pode acontecer uma desgraça! – lamentava-se uma voz aguda, suplicante, de mulher.

-meu caro Sr. Albin, por favor, tenha consideração pelos nos nervos e afaste essa arma homicida – interveio outra. E um jovem louro, que com um cigarro na boca estava sentado na borda da primeira espreguiçadeira, retrucou num tom insolente:

– Nem penso nisso! Será que as senhoras não me permitem brincar com a minha faca? Não nego que é uma faca muito bem afiada. Comprei-a em Calcutá, de um faquir cego. O homem era capaz de a engolir, e logo depois o seu menino ia desenterrá-la a uns cinqüenta passos de distância... Querem ver? Corta melhor que uma navalha. Baste tocar no gume, e a carne se abre que nem manteiga. Esperem, vou mostrá-la de perto... – O Sr. Albin levantou-se. Houve gritos estridentes. – Não? Nesse caso vou buscar meu revólver – continuou ele. – Talvez seja mais interessante para as senhoras. É formidável. Tem uma força de percussão que nem imaginam... Vou buscá-lo no meu quarto.

– Sr. Albin, Sr. Albin, não faça isso! – imploravam várias vozes. Mas o Sr. Albin já saíra do alpendre para subir ao quarto. Era muito jovem, com movimentos desengonçados, e tinha uma cara rosada, de criança, ornada de pequenas suíças.

– Sr. Albin! – gritou uma senhora atrás dele. -seria melhor buscar um sobretudo. Ponha um sobretudo, faça o favor! O senhor passou seis semanas na cama, com pneumonia, e agora fica sentado aqui, sem se agasalhar, e ainda fuma cigarros! Palavra de honra, Sr. Albin, isso é tentar a Deus.

Mas ele se limitou a um riso sarcástico e foi-se embora. Poucos minutos após, já estava de volta com o revólver na mão, para desenfrear uma gritaria ainda mais idiota que a anterior. Ouviu-se perfeitamente como algumas dentre as senhoras, levantando-se de um pulo, tropeçavam no cobertor e caíam no chão.

– Vejam só como ele é pequeno e lustroso – disse o Sr. Albin. – Mas ele morde, quando aperto aqui... – Nova gritaria. – Claro que está carregado – acrescentou o Sr. Albin. – Há seis balas no cilindro, que gira a cada disparo... Aliás, não comprei este negócio para brincadeira – concluiu, ao notar que o efeito das suas palavras diminuía. Enfiou o revólver no bolso do paletó, tornou a sentar-se, cruzando as pernas, e acendeu novo cigarro. – Absolutamente não é para brincadeira – repetiu, cerrando os lábios.

– Mas, para quê? Para que, então? – perguntaram algumas vozes trêmulas de pressentimento. – Que horror! – exclamou de repente uma das senhoras, e o Sr. Albin sacudiu a cabeça afirmativamente.

– Vejo que as senhoras começam a compreender – disse – Com efeito, é para isso que ando com ele – continuou num tom displicente, depois de ter tirado uma longa tragada do cigarro, não obstante a pneumonia recém-vencida. – Conservo-o preparado para o dia em que esta coisa aqui começar a me aborrecer muito, e terei a honra de me despedir respeitosamente. É muito simples. Gastei algum tempo em estudar o assunto e sei como melhor se liquida. A palavra “liquida” provocou um grito de susto. – O coração interessa. E um alvo incômodo... Além disso prefiro extinguir a consciência no seu próprio centro, enxertando um corpo estranho engraçadinho neste órgão interessante... – E o Sr. Albin mostrou com o indicador o crânio coberto de cabelos louros, aparados rente – Deve-se apontar aqui – com essas palavras, o Sr. Albin voltou a tirar do bolso o revólver niquelado e bateu com o cano na fronte – aqui, em cima da artéria... É um processo facílimo, até sem espelho...

Ouviram-se muitas vozes de insistente protesto, às quais se misturou ainda um violento soluço.

– Sr. Albin, Sr. Albin, tire esse revólver da fronte, guarde o revólver! Não posso ver uma coisa dessas! Sr. Albin, o senhor é moço, vai recuperar a saúde, voltará à vida e terá uma grande carreira pela frente; garanto-lhe! Bote o sobretudo, deite-se na espreguiçadeira, agasalhe-se bem e continue com o seu tratamento! Não mande o massagista embora, como fez da outra vez, quando ele veio esfregá-lo com álcool. E por amor à sua vida, sua jovem e preciosa vida, Sr. Albin atenda ao nosso conselho: abandone os cigarros!

Mas o Sr. Albin mostrava-se inexorável:

– Não e não! – disse ele. – Não insistam comigo. Está bem. Agradeço-lhes a sua bondade. Nunca neguei nada a uma senhora, mas deve-se compreender que é inútil procurar deter a roda do destino. Faz mais de dois anos que vivo aqui... Estou farto e vou sair do jogo. Que mal há nisso? Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável. O próprio Behrens já não disfarça essa sua opinião, nem para guardar as aparências. Então me concedam a pequena liberdade que para mim resulta desse fato! É como no ginásio, quando se decidia que alguém levava bomba e tinha que repetir o ano. Deixavam então de examiná-lo, e ele não precisava mais trabalhar. Eu cheguei definitivamente a essa situação feliz. Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo... Querem chocolate? Sirvam-se. Não, minhas senhoras, não me privem de nada. Tenho montões de chocolate no meu quarto; oito caixas de bombons, cinco barras de Gala-Peter e quatro libras de chocolate Lindt. Tudo isto me mandaram as senhoras do sanatório durante a minha pneumonia...

Em algum lugar, uma voz de contrabaixo reclamou silêncio. O Sr. Albin deu uma rápida risada; era um riso trêmulo, abrupto... Depois se fez silêncio no alpendre de repouso, um silêncio tão completo, como se se tivesse sumido uma miragem ou uma fantasmagoria. De um modo estranho pareciam ecoar as palavras que haviam sido pronunciadas. Hans Castorp ficou a escutar, até que o último ruído houvesse cessado, e conquanto tivesse a impressão de que o Sr. Albin era um fantoche, não pôde deixar de sentir uma certa inveja. Principalmente aquela comparação tirada da vida escolar causara-lhe viva impressão, já que ele mesmo tivera que repetir o quinto ano do ginásio e ainda se lembrava muito bem daquela situação decerto um pouco ignominiosa, mas também cômica e agradavelmente desembaraçada, que desfrutara durante o último trimestre, quando deixara de se esforçar e pudera “rir-se de tudo”. Não é fácil precisar seus pensamentos, visto serem obscuros e confusos, mas parecia-lhe, em suma, que a honra oferecia consideráveis vantagens, mas que a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas. Enquanto, a título de experiência, representava no seu espírito o papel do Sr. Albin e imaginava o que significaria ver-se definitivamente livre da pressão da honra e gozar para sempre as imensas vantagens da vergonha, assustou-se o jovem diante de uma sensação de gozo dissoluto, que lhe imprimiu às batidas do coração, por alguns instantes, um ritmo ainda mais acelerado.

 

         Satã faz propostas desonrosas

Depois perdeu a consciência. De acordo com o seu relógio de bolso eram três e meia quando o despertou uma conversa atrás da divisão de vidro do lado esquerdo. O Dr. Krokowski, que a essa hora fazia a ronda sem o acompanhamento do conselheiro áulico, falava em russo com o casal mal-educado. Informava-se, como parecia, a respeito do estado do marido e pediu que lhe mostrassem a papeleta da temperatura. Depois prosseguiu na ronda, sem, no entanto, tomar o caminho ao longo da sacada, evitando o compartimento de Hans Castorp e dando uma volta pelo corredor, a fim de entrar pela porta no quarto de Joachim. Hans Castorp sentiu-se um tanto melindrado pelo fato se ver contornado dessa maneira, se bem que não desejasse de modo algum uma entrevista a sós com o Dr. Krokowski. Sem dúvida, estava bem de saúde e não entrava em conta; pois, aqui em cima – pensou ele – estabelecera-se o princípio de não se ver considerado nem despertar interesse quem tivesse a honra de estar são; isso não deixou de agastar o jovem Castorp.

Após ter passado uns dois ou três minutos no quarto de Joachim, o Dr. Krokowski continuou seu caminho, ao longo da sacada. H Castorp ouviu o primo dizer-lhe que estava na hora de se levantar e de preparar-se para o chá da tarde. – Está bem – respondeu e ergueu-se. Mas sentiu-se tonto, por ter permanecido deitado durante tanto tempo. Ao invés de refrescá-lo, a modorra de novo lhe provocara aquele ardor penoso das faces, ao passo que o resto do corpo estava arrepiado, talvez porque não se agasalhara suficientemente.

Lavou os olhos e as mãos; pôs em ordem os cabelos e as roupas, foi encontrar-se com Joachim, no corredor.

– Você ouviu esse Sr. Albin? – perguntou, enquanto desciam pela escada.

– Claro! – replicou Joachim. – Deveriam ensinar disciplina a esse sujeito. Perturbou o repouso da tarde com o seu palavrório e excitou as senhoras de tal maneira, que lhes retardou a cura por semanas inteiras. É caso muito grave de insubordinação. Mas quem vai denunciá-lo? Ademais, esse tipo de conversa costuma ser bem recebido pela maioria, pois serve de distração.

– Você acha possível – indagou Hans Castorp – que ele ponha em prática aquele “processo facílimo”, como o chama, e enxerte no corpo um “corpo estranho”?

– Por que não? – respondeu Joachim. – Impossível não é. Essas coisas acontecem aqui. Dois meses antes da minha chegada, um estudante, que estava no sanatório havia muito tempo, enforcou-se no mato, logo depois de um exame geral. Nos primeiros dias da minha estada, falavam muito do incidente.

Hans Castorp bocejou nervosamente.

– Hum! Não me sinto bem entre vocês – declarou. – Francamente, talvez nem possa ficar aqui, sabe? e me veja obrigado a partir. Você não me levaria a mal?

– Partir? Que idéia é essa? – gritou Joachim. – Tolice! Mal acaba de chegar. Como quer formar uma opinião logo no primeiro dia?

-meu Deus! É ainda o primeiro dia? Já me parece que estou aqui há muito, muito tempo...

– Por favor, não volte a filosofar sobre o tempo! – disse Joachim. – Hoje de manhã me deixou todo confuso.

– Não se preocupe, já esqueci tudo isso – tornou Hans Castorp. – Todo o vasto complexo. Não tenho mais nenhuma sutileza na cabeça. Aquilo passou... Então, haverá chá agora?

– Sim, e depois caminharemos até o mesmo banco da manhã.

-se Deus quiser. Tomara que a gente não encontre o Settembrini. Sou incapaz de tomar parte numa conversa erudita; isso lhe digo desde já.

Na sala de refeições, serviam-se todas as bebidas adequadas a essa hora. Miss Robinson tomava novamente o seu chá de roseira brava, vermelho como sangue, enquanto a sobrinha engolia colheradas de iogurte. Além disso havia leite, chá, café, chocolate e mesmo caldo de carne. Por toda parte, os hóspedes, que haviam passado deitados as duas horas após o reforçado almoço, achavam-se ocupados em passar manteiga em grandes fatias de cuca entremeada de passas.

Hans Castorp pediu chá e embebeu um biscoito nele. Experimentou também um pouco de geléia. Examinou atentamente a cuca com passas, mas estremeceu diante da idéia de comer aquilo. Mais uma vez – a quarta – achava-se sentado no seu lugar, na sala das sete mesas, com a abóbada singelamente pintada. E um pouco mais tarde, às horas, encontrava-se ali pela quinta vez, por ocasião do jantar. O intervalo, curto e insignificante, fora preenchido por um passeio até aquele banco encostado na vertente da montanha, próximo do curso d'água, pelo caminho que a essa hora estava muito freqüentado por pensionistas, de maneira que os dois primos tiveram de cumprimentar muita gente. Seguira-se ainda um repouso na sacada, de uns noventa minutos, fugazes e pouco substanciais.

Para o jantar, mudou cerimoniosamente de traje. Comeu então -sentado entre Miss Robinson e a professora – sopa Julienne, carne frita com legumes, dois pedaços de uma torta que continha simplesmente tudo – amêndoa, creme de manteiga, chocolate, confeitos e maçapão –, bem como um excelente queijo acompanhado de pão integral. Novamente mandou vir uma garrafa de cerveja de Kulmbach. Mas, após ter bebido metade do alto copo, percebeu nitidamente que o lugar que lhe convinha era a cama. A cabeça lhe zunia; suas pálpebras pesavam feito chumbo; o coração batia qual um pequeno timbale e para aumentar a sua tortura, imaginava que a bela Marusja, que inclinando-se para a frente, escondia o rosto na mão adornada com rubi, estava se rindo à sua custa, se bem que ele tivesse feito todos esforços possíveis para não lhe dar motivos. De muitíssima distância ouviu também a Srª. Stöhr contar ou afirmar alguma coisa, que parecia a tal ponto disparatada, que já não atinava com certeza se o seu ouvido o enganava ou se, porventura, as palavras da Srª. Stöhr convertiam em absurdos no seu próprio cérebro. Afirmava ela saber preparar vinte e oito diferentes espécies de molhos para peixe, e ter coragem de se gabar desses conhecimentos, ainda que seu marido lhe tivesse desaconselhado mencioná-los. “Ninguém vai acreditar, e quem acreditar achará a coisa ridícula”. E no entanto queria quebrar o silêncio e professar abertamente que era de fato capaz de preparar vinte e oito espécies de molhos para peixe. Isso pareceu pavoroso ao pobre Hans Castorp. Espantou-se, levou a mão à testa e esqueceu-se por completo de mastigar e deglutir um bocado de queijo Chester com pão integral que tinha na boca. Ainda não o engolira, nem quando se levantou da mesa.

Saíram pela porta envidraçada da esquerda, aquela porta infeliz que sempre se fechava com estrondo e dava diretamente para o vestíbulo. Quase todos os pensionistas tomaram esse caminho. Parecia que era costume realizar, após o jantar, uma espécie de reunião no vestíbulo e nos salões adjacentes. A maioria dos pacientes mantinha-se de pé, conversando em pequenos grupos. Jogava-se em torno de duas mesas dobráveis, forradas de verde, numa o dominó noutra o bridge; desse último jogo participavam somente pessoas jovens, entre elas o Sr. Albin e Hermine Kleefeld. No primeiro salão havia alguns aparelhos ópticos, destinados a divertir os hóspedes: um estereoscópio, através de cujas lentes se enxergavam fotografias colocadas no seu interior, como, por exemplo, um gondoleiro veneziano de uma plasticidade rígida e sem vida. Em segundo lugar existia ali um caleidoscópio em forma de óculo, a cuja lente se apoiava a vista, enquanto se acionava devagar uma roda denteada, a fim de desencadear uma fantasmagoria multicor e sempre variada de estrelas e arabescos. E finalmente, um tambor giratório, no qual eram introduzidas fitas cinematográficas, e por cujas fendas, abertas dos lados, podia-se ver um moleiro brigando com um limpa-chaminés, um mestre-escola a castigar um menino, um funâmbulo que dava saltos, e um casal de camponeses a dançar uma tirolesa. Hans Castorp, com as mãos frias repousando nas coxas, olhou demoradamente todos esses aparelhos. Também se deteve por alguns instantes na proximidade da mesa de bridge, onde o incurável Sr. Albin, crispando desdenhosamente os lábios, manejava as cartas com os movimentos displicentes de um homem mundano. Num ângulo da sala estava sentado o Dr. Krokowski, a dirigir palavras animadas e cordiais a um semicírculo de senhoras, do qual faziam parte a Srª. Stöhr, a Srª. Iltis e a Srta. Levi. O pessoal da mesa dos “russos distintos” retirara-se ao pequeno salão adjacente, separado da sala de jogo por uma simples cortina, e ali constituía espécie de grupo íntimo. Além de Mme... Chauchat havia ali um cavalheiro lasso, de barba loura, tórax côncavo e olhos esbugalhados, e uma jovem muito morena, de um tipo original e humorístico, com brincos de ouro e cabelos lanosos despenteados. O Dr. Blumenkohl, bem como dois rapazes de ombros caídos, uniram-se a eles. Mme... Chauchat trajava vestido azul com gola de renda branca. Sentada no sofá, atrás da mesa redonda, no fundo do pequeno aposento, formava o centro do grupo. Tinha o rosto voltado para a sala de jogo. Incapaz de contemplar sem reprovação aquela mulher mal-educada, Hans Castorp pensava de si para si: “Ela me lembra qualquer coisa, mas não sei dizer o quê...” Um indivíduo alto, de uns trinta anos, e cujos cabelos já começavam a tornar-se ralos, tocou três vezes seguidas no pequeno piano castanho a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão, e a pedido de algumas senhoras reiniciou pela quarta vez a peça melodiosa, depois de ter fitado profunda e silenciosamente os olhos de cada uma delas.

– É permitido perguntar como se sente o senhor, meu caro engenheiro? – perguntou Settembrini, o qual, mãos nos bolsos, flanara por entre os hóspedes e agora se aproximava de Hans Castorp. Trazia ainda aquele paletó de fazenda cinzenta parecida com burel, e as calças, claras, enxadrezadas. Sorriu ao dirigir-se a Hans Castorp, que de novo se sentiu como que desembriagado à vista desses lábios finos, contraídos numa expressão zombeteira, sob a curva do negro bigode. Mesmo assim tinha a boca semi-aberta, enquanto os seus olhos injetados fixavam o italiano com um olhar bastante estúpido.

– Ah! É o senhor? – disse. – O senhor do passeio da manhã, aquele do banco lá em cima, perto da fonte... Claro, logo o reconheci. Quer acreditar – continuou, embora sabendo que não devia dizer uma coisa dessas – que no primeiro momento tomei o senhor por um tocador de realejo?... Foi uma idéia absurda, naturalmente – acrescentou, ao notar que o olhar de Settembrini assumira um caráter frio e perscrutador –, uma rematada bobagem, numa palavra. Ainda não posso compreender por que cargas d'água eu...

– Não faz mal; fique tranqüilo – replicou Settembrini, após um instante de silêncio, durante o qual apenas contemplara o jovem. – E como passou o senhor o dia de hoje, o primeiro dia da sua estada neste sítio de prazeres?

– Dentro do regulamento, obrigado – respondeu Hans Castorp. – Sobretudo à maneira horizontal, como o senhor costuma dizer.

Settembrini esboçou um sorriso.

– Pode ser que em certa ocasião me tenha expressado dessa forma – disse então. – Pois é, e achou divertido esse modo de viver?

– Divertido ou aborrecido, conforme... – tornou Hans Castorp. – Isto às vezes é difícil de distinguir, sabe? Absolutamente não cheguei a me aborrecer; para isso o ambiente aqui é animado demais. A gente vê e ouve tanta coisa nova e estranha! Contudo, tenho a impressão de não estar aqui apenas há um dia, mas há muito tempo já... e até me parece que fiquei mais velho e mais inteligente...

– Mais inteligente também? – perguntou Settembrini, alçando os sobrolhos. – Permita a pergunta: quantos anos tem o senhor?

Imaginem! Hans Castorp não sabia. Não podia, nesse instante, recordar a sua idade, apesar de esforços violentos, quase desesperados que fazia para se lembrar. A fim de ganhar tempo, esperou até que a pergunta fosse repetida, e depois respondeu:

– Eu? Quantos anos? Estou no vigésimo quarto ano da... Em breve vou fazer vinte e quatro. Mas desculpe, que estou cansadíssimo – acrescentou. – Cansado é um termo muito eufemístico, quando me refiro ao meu estado. Conhece o senhor essa sensação de sonhar e de saber que se sonha, de querer despertar e não conseguir? É justamente o que se passa comigo. Tenho certeza de ter febre. Não há nenhuma outra explicação. Quer acreditar que ando com os pés frios até os joelhos? Se bem que os joelhos não façam parte dos pés... Perdão, estou totalmente confuso, e isso não é de admirar, quando a gente já de manhã cedo ouve assobios do... do pneumotórax e depois escutar o palavrório do Sr. Albin, e ainda numa posição horizontal. Imagine, não posso me livrar da idéia de que os meus cinco sentidos não merecem confiança, e isto me incomoda ainda mais que o do rosto e os pés frios. O senhor me diga com toda a franqueza: acha possível que a Srª. Stöhr saiba preparar vinte e oito molhos para peixe? Não quero saber se ela é de fato capaz de prepará-los – isto me parece completamente impossível –, mas apenas se realmente afirmou coisa dessas durante o jantar, ou se aquilo é alucinação minha...

Settembrini olhou-o. Parecia não ter prestado atenção. Novamente seus olhos haviam-se cravado no vazio, tomando rumo fixo e cego. Como fizera durante o passeio da manhã, disse três vezes, num tom irônico e pensativo, “sim, sim, sim” e “vejam só, vejam só, vejam só”, sempre sibilando o “s”.

– Vinte e quatro, disse o senhor? – perguntou então.

– Não, vinte e oito – insistiu Hans Castorp. – Vinte e oito molhos para peixe! Não molhos quaisquer, mas justamente molhos para peixe; é o que me parece fantástico.

-meu caro engenheiro – disse Settembrini, entre irado e exortador –, trate de se dominar, e me deixe em paz com essas bobagens absurdas. Nada sei dessas coisas, nem quero saber. Vai fazer e quatro, disse o senhor? Hum... Permita-me mais uma pergunta ou talvez uma sugestão despretensiosa, se quer considerar assim. Uma vez que a estadia aqui parece que não lhe convém, uma vez que não se sente bem no nosso meio, nem física nem, se não me engano muito, psiquicamente... que acha o senhor de renunciar à oportunidade envelhecer aqui? Numa palavra, que tal se ainda esta noite preparasse as suas malas e aproveitasse amanhã o trem para ir-se embora?

– O senhor pensa que eu deva partir? – perguntou Hans Castorp. – Ora, mal acabo de chegar. Não, senhor, como posso formar uma opinião logo no primeiro dia?

Ao proferir essas palavras, lançou casualmente um olhar para a sala vizinha, onde viu Mme. Chauchat pela frente, com os olhos oblíquos e as largas maçãs. “Que me recorda ela, meu Deus, e a quem?”, pensou, mas apesar de todo o esforço, sua cabeça exausta foi incapaz de encontrar a resposta.

– Naturalmente, não é fácil aclimatar-se aqui em cima – continuou. –– Mas isto era de prever. Se eu logo desistisse, só por sentir durante alguns dias um pouco de calor e de tonturas, teria vergonha de mim e me julgaria covarde. Isto será contrário a toda razão... Não! Diga o senhor mesmo...

De repente começou a falar com grande ênfase, acompanhando as palavras de vivos movimentos dos ombros. Parecia insistir com o italiano para que este retirasse formalmente a sugestão.

– Inclino-me diante da razão – respondeu Settembrini. – Inclino-me também diante da coragem. O que o senhor disse não soa mal. Seria difícil opor-lhe um argumento sólido. Além disso, já observei uns belíssimos casos de aclimatação. Houve, por exemplo, no ano passado, a Srta. Kneifer, Ottilie Kneifer, moça de boa família, filha de um alto funcionário do Estado. Esteve aqui cerca de um ano e meio e habituara-se de tal modo ao ambiente, que por coisa alguma quis ir embora quando a sua saúde ficou restabelecida por completo. (Ora, também isto acontece, há gente que fica boa aqui.) Bem, ela suplicou ao Dr. Behrens, fervorosamente, que lhe permitisse ficar. Não queria nem podia voltar para a sua terra. Aqui se sentia em casa, aqui estava feliz. Mas, como houvesse muitos pedidos e se precisasse do quarto dela, seus rogos foram em vão, e insistiram em dar-lhe alta como curada. E Ottilie começou a ter muita febre. Sua curva subiu consideravelmente. Contudo, foi desmascarada quando lhe substituíram o termômetro por uma “irmã muda”. O senhor ainda não sabe o que isso significa? É um termômetro sem escala que o médico controla pessoalmente, medindo a coluna de mercúrio e inscrevendo a temperatura na papeleta. Ottilie tinha 36,9; sim senhor, não tinha febre. Então tomou um banho no lago; era em princípios de maio, e de noite havia temperaturas abaixo de zero. A água do lago não estava propriamente gelada, mas ainda muitíssimo fria. Ottilie passo bom tempo na água, para contrair esta ou aquela doença. Mas, e o resultado? Continuou perfeitamente boa. Despediu-se desolada, inacessível ao consolo dos pais. “Que vou fazer lá embaixo?” gritou uma e outra vez. “Meu lar é aqui!” Não sei que fim ela levou... Mas tenho a impressão de que o senhor não me presta atenção, meu caro engenheiro. Parece que lhe custa manter-se de pé, se não me engano. Tenente, aqui lhe entrego seu primo – disse voltando-se para Joachim, que nesse instante se aproximava. – Ponha-o na cama. Reúne em si razão e coragem, mas esta noite anda meio débil.

– Não, senhor, entendi tudo, realmente – afirmou Hans Castorp – A “irmã muda” é apenas uma coluna de mercúrio, totalmente sem escala. Está vendo que compreendi muito bem. -mesmo assim entrou no elevador, com Joachim e mais alguns outros pensionistas. Terminara a reunião e o pessoal dispersava-se em busca das sacadas ou dos alpendres para o repouso noturno. Hans Castorp acompanhou Joachim até o quarto. O chão do corredor, com a passadeira de palha de coqueiro, executava sob os seus pés movimentos suavemente ondulantes, mas que não o incomodavam. Sentou-se na grande poltrona de forro florido do quarto de Joachim – outra igual achava-se no seu próprio aposento e acendeu um Maria Mancini. Achou-o sabor de cola, de carvão e outras coisas, menos o que deveria Apesar disso, continuou a fumá-lo, enquanto observava como Joachim se arrumava para o repouso, vestindo o fumoir e, por cima, um velho sobretudo, para depois ir à sacada, com a lâmpada do criado mudo e o manual de russo na mão. Lá fora, o primo acendeu a lâmpada e, com o termômetro na boca, deitou-se na espreguiçadeira, onde com surpreendente habilidade começou a envolver-se em dois grandes cobertores de lã de camelo, que se achavam estendidos na cadeira. Hans Castorp contemplou com sincera admiração aqueles movimentos destros. Joachim jogou os cobertores, um após outro, por cima de si, primeiro pela esquerda, cobrindo-se até a axila, depois por baixo, sobre os pés, e por fim pela direita, até formar uma espécie de pacote perfeitamente simétrico e liso, do qual saíam apenas a cabeça, os ombros e os braços.

– É formidável como você faz isso! – disse Hans Castorp.

É questão de prática – respondeu Joachim, falando com o termômetro preso entre os dentes. – Você também vai aprender. Amanhã, sem falta, teremos de comprar alguns cobertores para você. Serão úteis também lá embaixo, e aqui são indispensáveis, sobretudo para você que não tem saco de peles.

– Mas não tenciono deitar-me na sacada de noite – declarou Hans Castorp. – Não farei isto, posso garantir. Acho que me sentiria ridículo. Tudo tem limites, afinal. Além disso me parece preciso acentuar, num ou noutro ponto, que estou apenas de visita aqui em cima. Vou ficar ainda alguns instantes com você e fumar um charuto, como de costume. Ele tem um sabor infame, mas eu sei que é de boa qualidade; é o que me basta por enquanto. Daqui a pouco serão nove horas. Infelizmente faltam ainda alguns minutos. Mas, nove e meia já será uma hora mais ou menos normal para a gente se recolher.

De repente sentiu um calafrio, primeiro um, e logo depois diversos outros, em rápida seqüência. Hans Castorp levantou-se de um pulo e correu para o termômetro suspenso na parede, como se se tratasse de apanhá-lo em flagrante delito. Segundo a escala de Réaumur havia nove graus no quarto. Hans Castorp apalpou o radiador e verificou que estava frio e apagado. Resmungou algumas palavras confusas, significando aproximadamente que, embora estivessem em agosto, era uma vergonha não se acender a calefação; pois o que importava não era o nome do mês, mas a temperatura reinante, e esta era de um frio de rachar. Mas nas suas faces continuava o referido ardor. Hans Castorp voltou a sentar-se. Pôs-se novamente de pé, e em voz baixa pediu licença para tomar o cobertor da cama de Joachim. Instalado na poltrona, cobriu-se com ele, dos quadris para baixo. Assim permaneceu, ao mesmo tempo ardendo e tiritando, a torturar-se com o charuto de gosto asqueroso. Invadiu-o uma intensa sensação de miséria, como se nunca na vida ele se tivesse sentido tão mal quanto nesse momento. – Que horror! – murmurou. Em seguida, porém, achou-se de repente tomado por uma estranha e exuberante sensação de alegria e esperança, e depois de tê-la experimentado, ficou-se esperando que ela se reproduzisse. Mas isto não se deu, e o que lhe restava então era apenas a miséria. Finalmente se levantou, atirou o cobertor de Joachim sobre a cama, cochichou, de boca crispada, qualquer coisa parecida com “Boa noite!” e “Veja se não morre de frio!” e “Trate de me buscar na hora do café!”. Depois, cambaleando, atravessou o corredor, em busca do seu quarto.

Ao despir-se, começou a cantarolar, mas não de alegria. Mecanicamente, sem prestar atenção, desempenhou-se das pequenas funções e obrigações da higiene noturna de um homem civilizado; pingo copo umas gotas de um dentifrício vermelho, contido num frasco de viagem, e gargarejou discretamente; lavou as mãos com um sabonete de violeta, suave e de excelente qualidade, e pôs a camisola de cambraia, em cujo bolsinho se viam bordadas as iniciais H.C. Feito isso, meteu-se na cama e apagou a luz, enquanto deixava cair a cabeça quente e agitada sobre o travesseiro de agonia da americana.

Esperara com a mais absoluta certeza mergulhar sem demora no sono, mas verificou que se enganara, e as mesmas pálpebras que pouco antes tivera tanto trabalho de manter abertas, não queriam agora permanecer fechadas e abriam-se, latejando irrequietamente, logo tentava cerrá-las. “Ainda não é a hora em que costumo dormir”, disse de si para si. “Além disso passei muito tempo deitado durante o dia”. Lá fora, alguém parecia bater um tapete – coisa pouco verossímil, e que em realidade não se dava; evidenciou-se que eram as palpitações do seu próprio coração, que Hans Castorp ouvia fora de si, ao longe, exatamente como se um tapete fosse tratado com um batedor de junco.

O quarto não estava completamente escuro. Pela porta aberta da sacada entrava a luz das lampadazinhas acesas nos compartimentos de Joachim e do casal da mesa dos “russos ordinários”. E enquanto Hans Castorp estava assim de costas, com as pálpebras a piscar, sentiu renovar-se nele uma impressão toda especial que recebera durante o dia, uma observação que logo procurara esquecer, por terror e delicadeza. Tornou a ver aquela expressão que assumira o rosto de Joachim quando se falava de Marusja e das suas qualidades físicas – essa contração particularmente dolorosa da boca acompanhada do palor como que salpicado de manchas das faces tostadas pelo sol. Hans Castorp compreendia o que aquilo significava; compreendia-o e penetrava-o de uma forma nova, tão profunda e tão íntima, que o batedor de junco, lá fora, redobrava a velocidade e o vigor dos seus golpes e quase que abafava os sons de uma serenata que vinham de Davos-Platz. Pois havia outro concerto naquele hotel. Uma melodia simétrica e barata de opereta ressoava através das trevas, e Hans Castorp pôs-se a assobiá-la num cicio – pode-se muito bem assobiar num cicio –, enquanto marcava o ritmo com os pés frios debaixo do acolchoado de penas.

Está visto que este não é um método apropriado para adormecer, e ademais, Hans Castorp já não tinha vontade alguma de fazê-lo. Desde que compreendera, de uma forma tão inédita e viva, por que Joachim empalidecera, o mundo parecia-lhe renovado, e aquela sensação de exuberante alegria e esperança tornou a comovê-lo no seu íntimo. De resto, aguardava mais alguma coisa, sem saber claramente o que era. Mas, quando notou que os vizinhos da direita e da esquerda haviam terminado o repouso e entravam nos quartos, para trocar a posição horizontal na sacada pela mesma posição no interior do aposento, expressou de si para si a convicção de que o casal bárbaro, dessa vez, observaria a trégua. “Posso dormir tranqüilamente”, pensou. “Esta noite, eles vão se comportar bem, disso tenho certeza.” No entanto, tal não aconteceu. O próprio Hans Castorp não acreditara seriamente nessa possibilidade e, para dizer a verdade, teria ficado grandemente surpreendido se não tivessem aberto as hostilidades. Mesmo assim soltou grande número de exclamações silenciosas do mais veemente espanto, diante dos ruídos que ouvia. – É incrível! – gritou, sem voz. – Que coisa impressionante! Quem teria pensado que isto fosse possível! – E, de quando em vez, voltou a acompanhar, ciciando, a melodia de opereta barata, que obstinadamente chegava até ele.

Depois veio o sono. Mas, junto com ele, surgiram fantásticas imagens de sonhos, mais fantásticas ainda do que as da primeira noite no meio das quais diversas vezes se sobressaltou, assustado ou entregue à perseguição de uma idéia confusa. Sonhava que via o Dr. Behrens passear pelas alamedas do jardim, caminhando de joelhos dobrados com os braços pendendo, rijos, para a frente, e acertando os passos longos, como que monótonos, ao ritmo de uma marcha que ressoava ao longe. Quando o conselheiro áulico estacou diante de Hans Castorp, usava óculos com grossas lentes redondas e dizia coisas sem nexo: “Paisano, naturalmente”, observou, e sem pedir licença abaixou a pálpebra de Hans Castorp com os dedos indicador e médio da mão enorme. “Um paisano decente, como notei logo. Mas não lhe falta talento, absolutamente não lhe falta talento para uma intensa combustão geral. Não se incomodaria em gastar conosco alguns anos, alguns anos alegres de serviço aqui em cima? Pois então, cavalheiros, e agora um passeio, vamos!”, exclamou, metade na boca os dois índices enormes e dando assobios tão estranhamente melodiosos, que de diversos lados e em miniatura surgiram, voando através dos ares, a professora e Miss Robinson, para lhe pousarem nos ombros, à direita e à esquerda, assim como na sala de refeições ficavam sentadas ao lado de Hans Castorp. E assim o médico se foi, a passo saltitante, esfregado um guardanapo por trás das lentes dos óculos, a fim de enxugar olhos e secar não se sabia o quê, suor ou lágrimas.

Depois, Hans Castorp sonhou que se encontrava no pátio do ginásio, onde durante tantos anos passara os intervalos entre as aulas, e que estava a ponto de pedir emprestado um lápis a Mme... Chauchat, que igualmente estava presente. Ela deu-lhe uma lapiseira de prata, que continha um lápis pintado de vermelho, gasto até a metade, e recomendou a Hans Castorp, numa voz agradavelmente velada, que devolvesse sem falta depois da aula. E quando o olhou, com seus olhos rasgados, de um azul esverdeado, por cima das maçãs salientes, ele fez um esforço violento para se desprender do sonho; pois agora já sabia e queria gravar na memória que acontecimento e que pessoa ela lhe recordava com tamanha intensidade. A toda pressa, pôs-se a guardar essa percepção num lugar seguro, já que sentia como o sono e o sonho novamente se apoderavam dele. Com efeito, viu-se logo na contingência de procurar um refúgio para se abrigar contra a perseguição do Dr. Krokowski, que lhe quis dissecar a alma, o que provocou em Hans Castorp um medo louco que realmente não tinha limites. Fugiu a passo trôpego, diante do doutor, passando pelas divisões de vidro que separavam os compartimentos das sacadas, e com perigo de vida saltou ao jardim. Em último recurso, tentou trepar no mastro pardo da bandeira. Despertou, banhado em suor, quando o perseguidor lhe agarrava a perna da calça.

Apenas se acalmou um pouco e voltou a adormecer, os acontecimentos tomaram o seguinte rumo: ele se encontrou empenhado em arredar com o ombro o Sr. Settembrini, que ali se achava, de pé, sorrindo – um sorriso fino, seco, zombeteiro, sob o espesso bigode negro, e que se esboçava justamente no ponto em que esse bigode se erguia numa bela curva; um sorriso que melindrava Hans Castorp. “O senhor é demais aqui”, ouviu-se distintamente dizer. “Vá-se embora! É apenas um tocador de realejo e é demais aqui!” Mas Settembrini não deixou que o afastasse do lugar e Hans Castorp estava ainda a perguntar-se o que deveria fazer, quando, de chofre e por sorte, lhe ocorreu uma excelente idéia a respeito da natureza do tempo: evidenciou-se que o tempo nada mais era senão uma “irmã muda”, uma coluna de mercúrio totalmente desprovida de escala, para aqueles que quisessem trapacear. Em seguida, acordou com a firme intenção de comunicar, no dia seguinte, essa descoberta a seu primo Joachim.

No meio de tais aventuras e achados decorreu a noite, e também Hermine Kleefeld, assim como o Sr. Albin e o Capitão Miklosich, desempenharam papéis complicados. Este último carregava nas suas fauces a Srª. Stöhr e era trespassado com uma lançada pelo promotor Público, Sr. Paravant. Houve ainda um sonho que Hans Castorp teve duas vezes durante essa noite, e ambas as vezes exatamente do mesmo modo, a segunda já de madrugada. Achava-se sentado na sala das sete mesas, quando a porta envidraçada se fechou com enorme estrondo. Entrara Mme... Chauchat, no seu suéter branco, com uma mão no bolso e a outra na nuca. Porém, ao invés de se dirigir à mesa dos “russos distintos”, a mulher mal-educada aproximou-se a passo cioso de Hans Castorp e, sem dizer palavra, estendeu-lhe a mão para beijar – não as costas, mas sim a palma. E Hans Castorp beijou o interior dessa mão; beijou essa mão pouco cuidada, um tanto larga, de dedos curtos, com a pele áspera nas bordas das unhas. Novamente o invadiu então, dos pés à cabeça, aquela sensação de gozo dissoluto por que passara, quando, a título de experiência, se sentira livre da pressão da honra e desfrutara as ilimitadas vantagens que acarreta a vergonha. Foi essa a sensação que ele tornou a encontrar no sonho, mas com uma intensidade mil vezes maior.

 

         Compra necessária

– E agora? Já terminou o verão de vocês? – pergun­tou Hans Castorp ironicamente, no terceiro dia, ao primo.

O tempo mudara de modo assustador.

O segundo dia completo que o visitante passara no sanatório fora de magnífico esplendor estival. O azul pro­fundo do céu luzia por cima das copas pontiagudas dos pi­nheiros, enquanto a aldeia, no fundo do vale, fulgia deslum­brante em meio ao calor. O ar estava cheio do tilintar alegre e calmo dos cincerros das vacas que aqui e ali, nas encostas, pastavam o capim curto e cálido dos prados. Já à hora do café da manhã, as senhoras haviam exibido levíssimas blusas de fazendas laváveis, algumas até com mangas de broderie, o que não ficava igualmente bem a todas; para a Srª. Stöhr, por exemplo, esse traje era pouco vantajoso, visto ela ter os braços demasiado balofos para usar vestimenta vaporosa. Também o sexo forte levara em conta o tempo esplêndido, no que se referia à escolha dos trajes. Surgiram jaquetas de alpaca e ternos de linho. Joachim ostentara calças de flanela cor de marfim, sob o costumeiro paletó azul, combinação que lhe dava um ar tipicamente militar. Quanto a Settembrini, também ele manifestara repetidas vezes a intenção de mudar de roupa. – Que diabo! – dissera, enquanto, depois do café da manhã, passeava em companhia dos dois primos, em direção à aldeia. – Como está quente o sol! Já vejo que terei de pôr roupa mais leve. – Mas, apesar dessa de­claração expressa, continuara trajando o casaco espesso e comprido, com as largas lapelas, e as calças enxadrezadas, que provavelmente representavam tudo quanto possuía de vestuário.

No terceiro dia, porém, parecia transtornada a natureza e posta às avessas a ordem das coisas. Hans Castorp mal dava crédito aos próprios olhos. Era depois do almoço, e o pessoal, fazia vinte minutos, entregava-se ao repouso, quando o sol se escondeu rapidamente. Nuvens feias, pardas como turfa, surgiram por cima da cordilheira ao sudeste, e um vento glacial, estranho, que penetrava até a medula dos ossos, como se viesse de desconhecidas regiões geladas, co­meçou subitamente a varrer o vale, provocando uma brusca queda de temperatura e encetando um regime completamente novo.

– Vem neve – ressoou a voz de Joachim por trás da divisão de vidro.

– Que é que você quer dizer com “neve”? – per­guntou Hans Castorp. – Não pensa seriamente que vai nevar?!

– Claro! – respondeu Joachim. – Já conhecemos esse vento. Quando ele vem, traz consigo passeios de trenó.

– Bobagem! – retrucou Hans Castorp. -se não me engano muito, estamos em princípios de agosto.

No entanto, Joachim, como conhecedor do clima, disse­ra a verdade. Dentro de poucos instantes, começou a desabar formidável nevada, com acompanhamento de incessantes tro­vões. Era um torvelinho tão denso, que tudo parecia envolto num vapor branco e quase nada se enxergava da aldeia e do fundo do vale.

A neve continuou caindo durante toda a tarde. Puseram a funcionar a calefação central. Enquanto Joachim recorria ao saco de peles e não admitia nenhuma interrupção do seu tratamento, Hans Castorp refugiou-se no interior do quarto, aproximou a cadeira do radiador aquecido e, meneando fre­qüentemente a cabeça, contemplava as monstruosidades que por lá se passavam.

Na manhã do dia seguinte, já não nevava. Mas, con­quanto o termômetro de fora marcasse alguns graus acima de zero, o solo permanecia coberto com neve de um pé de altura, de modo que, ante os olhos pasmados de Hans Cas­torp, se desdobrava uma perfeita paisagem hibernal. Volta­ram a desligar a calefação. A temperatura nos quartos era de seis graus acima de zero.

– E agora? Já terminou o verão de vocês? – per­guntou Hans Castorp ao primo, com amarga ironia.

– É difícil prever – respondeu Joachim, na sua ma­neira objetiva. -se Deus quiser, haverá ainda uns belos dias de verão. Mesmo em setembro, não é impossível. Mas o caso é que aqui não existe diferença acentuada entre as esta­ções, sabe? Elas se misturam, por assim dizer, e não ligam ao calendário. No inverno, há dias em que o sol está tão forte, que a gente sua e tira o paletó durante o passeio, e no verão. . . Bem, você está vendo o que às vezes acontece no verão. E ainda a neve, esta então põe tudo em desordem. Cai neve em janeiro, mas em maio não cai muito menos, e em agosto também está nevando. Generalizando, posso dizer que não se passa nenhum mês sem que haja neve; nisso a gente pode se fiar. Numa palavra, temos dias de verão e dias de inverno, dias de primavera e dias de outono, mas não há propriamente estações aqui em cima.

– É uma bela confusão – disse Hans Castorp. Em companhia do primo, foi à aldeia, com galochas e sobretudo de inverno, a fim de comprar uns cobertores para cura de repouso, visto ser evidente que, num tempo desses, não lhe bastaria o cobertor de viagem. Chegou até a ventilar a idéia da compra de um saco de peles, porém abandonou-a e mes­mo se assustou diante dela.

– Não, senhor – disse. – Vamos limitar-nos aos cobertores. Lá embaixo ainda me prestarão serviços. Cober­tores usam-se em toda parte. Nisso não há nada de particular e estranho. Mas um saco de peles é uma coisa toda especial. Se eu comprasse um saco de peles – compreenda-me bem –, teria a impressão de me domiciliar aqui e de tornar-me, em certo sentido, um de vocês. . . Bem, só quero dizer que absolutamente não vale a pena adquirir um saco de peles só para essas poucas semanas.

Joachim concordou. Numa bela e bem-sortida loja do bairro inglês, compraram dois cobertores de lã de camelo, do mesmo tipo que possuía Joachim, particularmente com­pridos e largos, muito macios e de cor natural. Deram ordem de mandá-los sem demora ao sanatório, o Sanatório Interna­cional Berghof, quarto 34. Hans Castorp tencionava estreá-los já de tarde.

Haviam descido à aldeia depois do café da manhã – naturalmente, uma vez que o horário habitual não oferecia nenhuma outra ocasião para esse passeio. Chovia, e a neve depositada nas ruas já se transformara numa espécie de pas­ta gélida que lhes enlameava as calças. Ao regressarem, en­contraram-se com Settembrini, que, sem chapéu, mas com um guarda-chuva, também se encaminhava ao sanatório. O ita­liano tinha a cara amarelada e andava visivelmente possuído de um humor elegíaco. Num estilo puro e com palavras bem escolhidas, lamentava-se do frio e da umidade que tanto o faziam sofrer. Se, pelo menos, ligassem a calefação! Mas aqueles miseráveis potentados mandavam desligá-la tão logo parava a nevada. Era uma regra estúpida, um insulto a toda inteligência! E quando Hans Castorp objetou que uma tem­peratura moderada, sem dúvida, fazia parte integrante do regime, talvez para evitar que os pacientes se tornassem amimalhados, Settembrini respondeu com o mais veemente sarcasmo:

– Pois sim, o regime! Os princípios sagrados, intan­gíveis, do regime! Com efeito, o senhor fala deles no tom que convém; o tom de disciplina e submissão. Há apenas uma coisa surpreendente, embora num sentido perfeitamente favorável; é que, entre esses princípios, gozam de respeito ilimitado justamente aqueles que coincidem com os interes­ses financeiros dos potentados, ao passo que se faz vista grossa diante da violação de outros princípios menos dispen­diosos... – Enquanto os primos desatavam a rir, Settem­brini, em conexão com o almejado calor, passou a falar de seu saudoso pai.

-meu pai – disse pausada e fervorosamente –, meu pai era homem muito fino. Tinha o corpo e a alma igualmente sensíveis. Como adorava, no inverno, o seu bem aquecido gabinete de estudo! Adorava-o e fazia questão que mantivessem ali uma temperatura constante de vinte graus Réaumur. Isto se conseguia por meio de uma pequena estufa vermelha de tanto calor, e quando, em dias de chuva fria ou de tempestade glacial, uma pessoa passava pelo vestíbulo e entrava no gabinete, sentia o calor lhe envolver os ombros como um manto macio, e os olhos enchiam-se-lhe de lágri­mas de bem-estar. A pequena peça estava abarrotada de li­vros e manuscritos, entre os quais se achavam muitas pre­ciosidades. E no meio desses tesouros do espírito, estava ele, de pé, com seu roupão de flanela azul, diante da estreita escrivaninha, onde se dedicava à literatura. Era baixinho e delgado; media mais de uma cabeça menos do que eu, ima­ginem! Nas frontes tinha uns espessos tufos de cabelo gri­salho, e seu nariz era muito longo e fino... Que romanista, senhores! Um dos mais eminentes da sua época! Conhecedor da nossa língua como poucos houve! Estilista latino como mais ninguém! Um uomo letterato, segundo a concepção de Boccaccio!... Os sábios vinham de longe para falar com ele, um de Haparanda, outro de Cracóvia. Vinham especial­mente à nossa cidade de Pádua para lhe demonstrar a sua estima, e ele recebia-os com afável dignidade. Era também poeta emérito, que nas suas horas de lazer compunha novelas na mais elegante prosa toscana. Um mestre do idioma gentile – sintetizou Settembrini com extrema satisfação, saborean­do os sons da língua pátria e meneando a cabeça. – Culti­vava seu jardim, segundo o exemplo de Virgílio – continuou –, e tudo quanto dizia era belo e sadio. Mas era preciso que fizesse calor, muito calor, no seu gabinete; senão, tremia de indignação e era capaz de verter lágrimas, porque o dei­xavam padecer frio. E agora imagine, meu caro engenheiro, e o senhor, tenente, o quanto eu, filho de meu pai, sofro neste maldito e bárbaro lugar, onde o corpo, em pleno verão, tirita de frio e as mais humilhantes impressões constante­mente atormentam a alma... Ah! É duro! Que tipos esses que nos rodeiam! Esse conselheiro áulico, escravo maluco do Demônio! E Krokowski -settembrini fez como se o nome lhe quebrasse a língua –, Krokowski, o confessor impudico, que me odeia, porque a minha dignidade humana proíbe entregar-me às suas práticas papistas... E meus comensais! Com que companhia estou condenado a tomar as refeições! À minha direita fica um cervejeiro de Halle – chama-se Magnus –, com um bigode que parece um feixe de feno. “Deixe-me em paz com a literatura”, diz ele. “Que é que ela me oferece? Belos caracteres? Que me adiantam belos caracteres? Sou um homem prático, e na vida quase nunca se encontram belos caracteres.” É esta a idéia que ele faz da literatura. Belos caracteres, o madre de Dio! Sua mulher, que costuma sentar-se à sua frente, deixa-se ficar ali, perde proteínas e afunda-se cada vez mais na estupidez. Que sórdida miséria!...

Sem que houvessem tido ensejo de trocar opiniões a respeito das palavras de Settembrini, Hans Castorp e Joachim as julgavam do mesmo modo: achavam-nas choramingueiras e desagradavelmente sediciosas, se bem que divertidas e até instrutivas, na sua animosidade atrevida e precisa. Hans Castorp riu-se gostosamente da comparação com o “feixe de feno” e também dos “belos caracteres”, ou melhor, do deses­pero cômico que Settembrini manifestava. Em seguida disse:

– Ora, meu Deus, pode ser que a companhia não seja muito seleta num estabelecimento destes. Nem sempre se pode escolher os vizinhos de mesa. Isso iria longe. À mi­nha mesa há também uma senhora desse tipo, a Srª. Stöhr... Creio que o senhor a conhece. É de uma ignorância pavo­rosa, não há dúvida, e às vezes a gente não sabe para onde olhar, quando ela se mete a tagarelar. Contudo, lamenta-se essa mulher da sua temperatura e de se sentir tão lassa. Parece, infelizmente, que não se trata de um caso benigno. E isto é estranho, estupidez e doença, não sei se me expresso claramente, mas tenho uma impressão tão esquisita ao ver uma pessoa estúpida que ainda por cima está doente! Essas duas coisas reunidas, acho que são o que há de mais triste neste mundo. Não se sabe como comportar-se, pois todos gostam, afinal, de tratar um enfermo com seriedade e res­peito, não é? A doença é, por assim dizer, uma coisa digna de reverência. Mas quando a estupidez, a cada instante, se intromete, dizendo “fómulo” ou “estabelecimento cósmi­co”, ou outras asneiras do mesmo quilate – francamente, então não sei se devo rir ou chorar. É um dilema para o sentimento humano, e uma situação tão lamentável que nem posso dizer. Na minha opinião, não há coerência nessas duas coisas; elas não combinam; a gente é incapaz de imaginá-las reunidas. Sempre se pensa que uma pessoa estúpida deve ser normalmente sadia; e que a doença torna as criaturas finas e cultas e diferentes. É assim que se pensa em geral, não é? Pode ser que eu diga mais do que posso justificar – con­cluiu. – É apenas porque, casualmente, tocamos no assun­to... – E estacou, confuso.

Também Joachim estava um pouco perplexo, e Settembrini permaneceu calado, apenas alçando os sobrolhos, como quem, por cortesia, aguarda o fim da fala de um interlo­cutor. Na realidade, porém, tinha a intenção de deixar che­gar o momento em que Hans Castorp se atrapalhasse todo. Por fim respondeu:

– Sapristi, meu caro engenheiro! O senhor acaba de manifestar qualidades filosóficas que eu não esperava da sua parte. De acordo com a sua teoria, deveria estar menos sadio do que aparenta, porque, evidentemente, possui espírito. Permita-me, no entanto, observar que não pude acompanhar as suas deduções, que as rejeito e me oponho a elas com ver­dadeira hostilidade. Tal como o senhor me vê, sou um pouco intolerante em assuntos espirituais e prefiro ser tachado de pedante a deixar de combater opiniões que me parecem tão censuráveis como essas que o senhor nos apresentou... Per... mita-me... Já sei o que o senhor tenciona replicar. Quer dizer que não falou muito a sério, que os pontos de vista que acaba de expor não são propriamente os seus, que apenas apanhou uma opinião dentre as muitas possíveis que flutuam no ar, e que o fez a fim de se exercitar um pouco, sem assumir nenhuma responsabilidade. É o que está em harmonia com a sua idade, que ainda se compraz em dis­pensar a resolução viril e em tentar, provisoriamente, toda espécie de teorias. Placet experiri – acrescentou, pronun­ciando o “c” de placet brandamente, à italiana. – Uma ex­celente máxima. O que me deixa pasmado é apenas o fato de ver as suas experiências tomarem justamente este rumo. Não me parece tratar-se de um mero acaso. Receio que exista no senhor uma tendência capaz de se arraigar no seu caráter, se não for combatida a tempo. Por isso me creio na obri­gação de corrigi-lo. O senhor opinou que a doença reunida à estupidez era a coisa mais triste que havia no mundo. Es­tou de acordo. Também eu prefiro um doente espirituoso a um bobalhão tísico, porém não posso deixar de protestar, quando o senhor se mete a considerar a combinação de enfer­midade e tolice como uma espécie de falta de estilo, um ato de mau gosto praticado pela Natureza, e um dilema para o sentimento humano, conforme lhe aprouve expressar-se. E quando o senhor julga a doença tão nobre e – como dizia? – tão digna de reverência, que simplesmente não se pode harmonizar com a estupidez. É outra expressão sua. Pois bem, eu não concordo com isso. A doença absolutamente não é nobre, e nem um pouquinho digna de reverência. Essa concepção é por si mesma mórbida ou leva à morbidez. O método mais acertado de despertar no senhor repugnância contra ela talvez seja dizer-lhe que é velha e feia. Tem ela a sua origem em épocas supersticiosas, acossadas de remor­sos, e nas quais a idéia do humano, privada de toda digni­dade, degenerara a ponto de se tornar uma caricatura, épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar coisas suspeitas, diabólicas, ao passo que a debilidade equivalia a um passaporte para o Céu. Mas a Razão e o Iluminismo dissiparam essas sombras que pairavam sobre a alma da humanidade; verdade é que ainda não terminaram a sua obra, e a luta continua. Esta luta, meu caro senhor, chama-se trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da humanidade. E tempe­radas, dia a dia, por essa luta, aquelas forças acabarão por libertar o Homem e por guiá-lo pelos caminhos do progresso e da civilização, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais sua e mais pura.

“Puxa!”, pensou Hans Castorp, espantado e confuso. “Mas isto soa como uma ária de ópera! Como é que provoquei esse discurso? Ele me parece, aliás, um pouco árido. Por que fala o homem constantemente do trabalho? Sempre insiste no trabalho, embora aqui em cima isto venha um pouco fora de propósito.” Finalmente respondeu:

– Muito bem, Sr. Settembrini. É mesmo notável como o senhor sabe falar. Essas coisas não poderiam ser ditas de um modo... de um modo mais plástico...

– Um retrocesso – prosseguiu Settembrini, enquanto erguia o guarda-chuva por cima da cabeça de um transeunte –, um retrocesso espiritual em direção aos conceitos desses tempos tenebrosos, atormentados... Creia-me, meu caro engenheiro, que isso é uma doença; uma doença explorada a fundo, para a qual a ciência conhece diversas denomina­ções; uma deriva da terminologia estética e psicológica, e a outra, da política. São termos escolares, que nada têm a ver com o nosso tema, e dos quais o senhor pode perfeitamente prescindir. Mas, como tudo se encadeia na vida espiritual, e uma coisa se depreende da outra, como não se pode estender ao Diabo nem sequer o dedo mínimo, sem que ele logo agarre a mão inteira e com ela todo o homem... Como, por outro lado, um princípio são somente pode gerar efeitos sadios, sendo indiferente qual o ponto de partida – queira, pois, o senhor gravar na memória que a doença, longe de ser nobre e por demais digna de reverência para ser compatível com a estupidez, representa, pelo contrário, uma humilhação... Sim, senhor, uma humilhação dolorosa do Homem, um insulto à idéia, um rebaixamento que no caso individual pode merecer tolerância e cuidado, mas que seria uma aberração homenagear espiritualmente – grave isto na memória! –, uma aberração e o início de todas as demais aberrações espirituais. Aquela mulher que o senhor mencionou... Nem quero me lembrar do nome dela... Ah, sim, a Srª. Stöhr, muito obrigado... Bem, não é, ao que me parece, o caso dessa criatura ridícula o que coloca o sentimento humano diante de um dilema, para usar as suas palavras. Estúpido e doente -meu Deus, isto são as peculiaridades da própria miséria; o caso é simples, e nada nos resta a fazer senão sentir compaixão e encolher os ombros. O dilema, meu caro senhor, a tragédia começa onde a Natureza se mostrou bastante cruel para destruir, ou para tornar de antemão impossível, a harmonia da personalidade, associando um espírito nobre e cheio de vitalidade a um corpo pouco apto para a vida. O senhor conhece Leopardi, meu caro engenheiro? Ou o senhor, tenente? Um poeta infeliz da minha terra, um corcunda enfermiço, com uma alma primitivamen­te grande, mas rebaixada sem cessar pela miséria do seu corpo e arrastada aos abismos da ironia, uma alma cujas la­mentações dilaceram o coração. Ouçam isto!

E Settembrini pôs-se a recitar em italiano, deixando as sílabas se derreterem na língua, agitando a cabeça e às vezes cerrando os olhos, sem se preocupar com o fato de que seus companheiros não entendiam uma só palavra. O que lhe importava era visivelmente saborear a beleza da sua prosódia e a força da sua memória, e exibi-las diante do auditório. Finalmente disse:

– Mas os senhores não compreendem. Estão ouvindo sem perceber o sentido doloroso dos versos. O aleijado Leopardi – é preciso sentir essa desgraça na sua plenitude, cavalheiros – carecia sobretudo do amor das mulheres, e foi isso, antes de mais nada, que o tornou incapaz de im­pedir o definhamento da sua alma. O esplendor da glória e da virtude empalidecia ante seus olhos; a Natureza afigurava-se-lhe malvada – ela é realmente malvada, estúpida e malvada; neste ponto concordo com ele – e ele caiu no desespero. É horrível dizê-lo: ele desesperou da ciência e do progresso. Eis, meu caro engenheiro, um exemplo de autên­tica tragédia. Aqui o senhor encontra o seu “dilema para o sentimento humano”, e não no caso daquela mulher, de cujo nome recuso terminantemente carregar a minha memória... Não me fale da “espiritualização” que pode resultar da en­fermidade; por amor de Deus, não faça isto! Uma alma sem corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma. A primeira é, aliás, uma rara exceção, e o segundo, o mais comum. Via de regra é o corpo que exubera, açambarca toda a vida e toda a importância, e se emancipa da maneira mais asquerosa. Um homem que vive enfermo é corpo e nada mais, e nisto está o anti-humano, o aviltante... Na maioria das vezes não vale mais que um cadáver...

– Engraçado! – exclamou Joachim de súbito, inclinando-se para a frente, a fim de olhar o primo, que cami­nhava do outro lado de Settembrini. – Não faz muito, você disse uma coisa bem parecida.

-será? – tornou Hans Castorp. – Bem, pode ser que uma idéia semelhante me tenha passado pela cabeça.

Settembrini permaneceu calado durante alguns momen­tos, antes de dizer:

– Tanto melhor, meus senhores. Tanto melhor se assim é. Longe de mim a intenção de lhes expor uma filo­sofia original. Não é isto o que me cabe fazer. Se o nosso en­genheiro, espontaneamente, já chegou a observações análo­gas, confirma-se a minha opinião segundo a qual ele é um diletante do espírito e simplesmente se entrega, à maneira dos jovens talentosos, a experiências com toda espécie de conceitos possível. Um jovem de talento não é uma folha em branco, senão uma folha sobre a qual tudo já foi escrito, com tinta simpática, por assim dizer, tudo, tanto o bem como o mal, e cumpre ao educador desenvolver decididamen­te o bem e apagar, mediante uma influência adequada, o mal que deseja manifestar-se... Os senhores fizeram compras? – perguntou então num tom diferente.

– Não, senhor, nada de especial – respondeu Hans Castorp. – Quer dizer...

– Compramos alguns cobertores para meu primo – respondeu Joachim displicentemente.

– É para o repouso... Com esse frio de rachar... Dizem que devo observar o regime durante as semanas da minha estadia – explicou Hans Castorp, rindo e baixando os olhos.

– Ah? Cobertores! Repouso! – exclamou Settembrini. – Sim, sim, sim! Com efeito: placet experiri – re­petiu, com pronúncia italiana. Depois se despediu, pois, cum­primentados pelo porteiro coxo, acabavam de entrar no sa­natório. No vestíbulo, Settembrini tomou o caminho para os salões, a fim de ler os jornais antes do almoço, segundo disse. Parecia querer gazear o segundo repouso.

– Deus me livre! – desabafou Hans Castorp, quando estava com Joachim no elevador. – É mesmo um pedagogo. Ele já nos disse outro dia que tinha uma veia pedagógica. E a gente deve cuidar-se na presença dele e não dizer uma palavra indevida, senão segue logo uma preleção que não acaba nunca. Mas vale a pena ouvi-lo falar. Cada palavra lhe sai da boca tão arredondada e apetitosa, que sempre me faz lembrar pãezinhos frescos.

Joachim deu uma risada.

– Não lhe diga isso. Creio que ele ficaria decepcio­nado se soubesse que você pensa em pãezinhos ao escutar as suas teorias.

– Acha mesmo? Ora, não tenho tanta certeza disso. Sempre me parece que ele não se preocupa exclusivamente com as suas teorias, e que estas desempenham um papel secundário. O que lhe interessa mais é o falar em si, o seu modo peculiar de fazer as palavras saltar e rolar... tão elásticas como bolas de borracha... Tenho a impressão de que não lhe é desagradável verificar que os outros notam o efeito. O cervejeiro Magnus disse, indubitavelmente, uma asneira, quando falou dos “belos caracteres”, mas Settembrini nos deveria ter dito o que é, em realidade, o objetivo da literatura. Eu não quis perguntar, para não mostrar a minha ignorância. Não sou nada competente nessas coisas, e até agora nunca vi um literato. Contudo, se o que importa não são os belos caracteres, devem ser as belas palavras. Tal a minha impressão, quando me acho em companhia de Settembrini. Que palavras usa esse homem! Sem o mínimo acanhamento fala de “virtude”, ora essa! Nunca na vida em­preguei esse vocábulo. Até mesmo na escola, dizíamos “co­ragem”, quando líamos “virtus” nos livros. Naquele momen­to senti um choque; não posso negá-lo. E depois, fico ner­voso quando ele se mete a resmungar sobre o frio e sobre Behrens e sobre a Srª. Magnus, porque ela perde proteínas, sobre tudo o que existe, enfim. É um homem de oposição, como logo percebi. Investe contra qualquer coisa, e uma atitude dessas sempre me dá a impressão de negligência. Não posso evitá-lo.

– É o que você pensa – disse Joachim ponderadamente. – Mas, por outro lado, tal atitude revela um certo orgulho que nada tem de negligente. Pelo contrário, Settembrini é um homem que se respeita a si mesmo, ou respeita os homens em geral. E isso me agrada nele, porque, a meu ver, é um sinal de decência.

– Tem razão – concordou Hans Castorp. – Ele até me parece um tanto severo. A gente, às vezes, fica cons­trangido diante dele, porque se sente... como dizer?... controlado. Sim, senhor, é isso mesmo. Você quer acreditar que tenho a impressão de que ele não aprovava a compra dos cobertores para o repouso, que se opunha a ela e até estava escandalizado?

– Não – disse Joachim, circunspecto e admirado. – Por que razão? Não posso imaginar... – E com isso se foi, metendo o termômetro na boca e levando todos os seus apetrechos para o repouso, enquanto Hans Castorp começou logo a mudar de roupa e a arrumar-se para o almoço, do qual os separava nem sequer uma hora.

 

       Digressão sobre o sentido do tempo

Quando voltaram ao quarto de Hans Castorp, depois do almoço, já se encontrava ali, numa cadeira, o embrulho dos cobertores; e nesse dia o jovem serviu-se deles pela pri­meira vez. Joachim, mais experiente na arte de se agasalhar, que todos exerciam ali em cima e os recém-chegados tinham de aprender, mostrou-lhe como fazê-lo. Os cobertores de­viam ser estendidos, um após outro, sobre a espreguiçadeira, de maneira que um bom pedaço deles sobrasse no lugar dos pés. A seguir, a gente sentava-se na cadeira e começava a envolver-se no cobertor superior, primeiro de um lado em todo o comprimento, até as axilas, depois na parte de baixo, por cima dos pés, o que requeria que a pessoa se soerguesse, se inclinasse para a frente e apanhasse as camadas da extre­midade dobrada, e por fim do outro lado, sendo importante ajustar cuidadosamente a ponta dupla às bordas da cadeira, a fim de se conseguir um máximo de lisura e regularidade. Em seguida, procedia-se da mesma forma com o cobertor de baixo, que era um pouco mais difícil de manejar, Hans Cas­torp, como noviço desajeitado, não cessava de gemer, enquanto, ora curvado, ora reclinado, treinava os movimentos que Joachim lhe ensinara.

– Só mesmo alguns veteranos – disse o primo – sabem jogar simultaneamente os dois cobertores por cima do corpo, com apenas três manobras precisas. É uma habi­lidade rara e invejada, que exige não somente anos de prá­tica mas também um talento natural. – Essas últimas pala­vras fizeram com que Hans Castorp estourasse de riso, deixando-se cair para trás, sobre as costas doloridas. Joa­chim, que no primeiro instante não compreendera o que havia nisso de cômico, olhou-o com um ar incerto, e depois também desatou a rir.

– Feito! – disse quando Hans Castorp, exausto de toda essa ginástica, arrumado em forma de cilindro, e como que sem membros, estava estendido na espreguiçadeira, com o rolo elástico por baixo da nuca. -mesmo que fizesse uns vinte graus abaixo de zero, nada lhe poderia acontecer ago­ra. – Com isso desapareceu atrás da divisão de vidro, para se agasalhar a si próprio.

Essa coisa dos vinte graus abaixo de zero parecia bas­tante duvidosa a Hans Castorp, que se ressentia muito do frio. Repetidas vezes, calafrios lhe passaram pelo corpo, enquanto contemplava, através das arcadas de madeira, a umi­dade que lá fora caía, pingando, garoando, e dando a im­pressão de estar a ponto de se transformar, de um momento para outro, em nova nevada. Era, porém, estranho que, não obstante o tempo úmido, ele continuasse com o rosto seco e ardente, como se se achasse num quarto superaquecido. Ademais, sentia-se ridiculamente cansado em virtude dos exer­cícios realizados para envolver-se nos cobertores. Com efeito, o Ocean steamships tremia-lhe nas mãos quando o aproxima­va dos olhos. Era evidente que a sua saúde não era lá muito boa – “totalmente anêmico”, dissera o Dr. Behrens –, e por isso incomodava-se tanto com o frio. Mas essas sensa­ções desagradáveis eram compensadas pela grande comodida­de da sua posição, pelas qualidades insondáveis e quase misteriosas dessa espreguiçadeira, que Hans Castorp já des­cobrira, entusiasmado, quando da estréia, e que voltavam a comprovar-se de modo sumamente ameno. Fosse devido ao tipo das almofadas, à inclinação conveniente do encosto, à altura e largura acertadas dos braços, ou talvez à consistência apropriada do rolo atrás da nuca – em todo caso era impossível imaginar um método mais humano para garantir o bem-estar de membros em repouso do que os serviços dessa cadeira perfeita. E grande satisfação invadia a alma de Hans Castorp, ao pensar nas duas horas vazias, cheias de paz assegurada, que tinha à sua frente, essas horas sagra­das que o regulamento da casa destinava ao repouso princi­pal, e que ele, apesar de ser um simples visitante, aprovava como uma instituição inteiramente adequada ao seu caráter. Pois Hans Castorp era paciente por natureza, e bem capaz de passar muito tempo sem nada fazer. Conforme nos recor­damos, adorava esse lazer que nenhuma atividade atordoadora ousa obliterar, consumir, afugentar. Às quatro horas iria tomar o chá da tarde, com bolo e confeitos; depois ha­veria um novo repouso na espreguiçadeira; às sete, vinha o jantar, que, como todas as refeições, ofereceria algumas sen­sações e certos aspectos curiosos, dignos de serem aguardados com prazer; depois, alguns olhares no interior da caixa estereoscópica, no caleidoscópio em forma de luneta, e no tambor cinematográfico... Hans Castorp já sabia de cor o programa do dia, ainda que fosse exagero dizer que já se “aclimatara” perfeitamente.

No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal pro­cesso como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de “restabelecimento”, quer dizer, para exercitar, renovar e revolucionar o organis­mo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira. Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina? Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida – para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte –, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à pró­pria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também. Com respeito à natu­reza do tédio encontram-se freqüentemente conceitos errô­neos. Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas res­trições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem “tediosos” o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tem­po, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fe­char de olhos. O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato de os anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeita­mente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, um retardamento da nos­sa experiência do tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se “aclimata”, começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua sus­pensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital –, volta a ador­mecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu am­biente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite.

Inserimos aqui essas observações porque o jovem Hans Castorp tinha em mente idéias análogas, quando, depois de alguns dias, disse ao primo, fixando nele os olhos estriados de sangue:

– É mesmo curioso como o tempo, no começo, pa­rece longo a quem se encontra num lugar estranho. Quer dizer... Absolutamente não me aborreço; nada disso! Ao contrário, posso afirmar que me divirto esplendidamente. Mas quando olho para trás – em retrospectiva, sabe? – tenho a impressão de estar aqui há não sei quanto tempo já. E de agora até aquele momento em que cheguei a Davos-Dorf e não compreendi que já estava no fim da minha via­gem e você me disse: “Pode descer” – lembra-se ainda? –, isto me parece toda uma eternidade. Essas coisas nada têm a ver com medidas e raciocínios. São puramente ques­tão de sentimentos. Claro que seria tolice dizer: “Tenho a impressão de estar aqui há dois meses”; isto seria um absur­do. Só posso dizer: “Há muito tempo já”.

– Pois é – disse Joachim, com o termômetro na boca. – Eu também me aproveito disso. De certo modo, posso me segurar em você, desde que está aqui. – E Hans Castorp riu-se de que o primo dissesse isso assim tão sim­plesmente, sem acrescentar nenhuma explicação.

 

         Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês

Não, absolutamente não se aclimatara ainda, nem no que se referia ao conhecimento da vida no sanatório em todas as suas particularidades – conhecimento que seria impossível adquirir em tão poucos dias e (como ele dizia de si para si, e também explicou a Joachim) infelizmente não lhe seria dado adquirir tampouco em três semanas –, nem quanto à adaptação do seu organismo às condições atmosféricas tão peculiares que reinavam “aqui em cima”; pois essa adaptação lhe custava esforços, tremendos esfor­ços, e, como lhe parecia, não estava disposta a realizar-se.

O dia normal achava-se claramente subdividido e cuida­dosamente organizado. A gente logo chegava a acompanhar-lhe o ritmo e se afazia à rotina, quando se ajustava à engre­nagem. Mas, no conjunto da semana e das unidades mais vultosas do tempo, esse dia estava submetido a certas varia­ções regulares que se apresentavam apenas pouco a pouco; uma não aparecia antes da outra já se ter repetido; e tam­bém no que dizia respeito à sucessão diária de objetos e vultos individuais, Hans Castorp tinha que aprender a cada passo, observando mais de perto as coisas que antes só olha­ra superficialmente, e assimilando impressões novas com receptividade juvenil.

Aqueles recipientes bojudos, de gargalo curto, por exemplo, que se achavam nos corredores, diante de algumas portas, e nos quais Hans Castorp reparara logo na noite da sua chegada, continham oxigênio, conforme Joachim lhe ex­plicou, em resposta à sua pergunta. Era oxigênio puro, a seis francos o balão, e esse gás vivificante era ministrado aos agonizantes, para lhes dar um derradeiro estímulo e prolongar a duração das suas forças. Sorviam-no por meio de um tubo. Atrás das portas perto das quais se encontra­vam tais balões havia agonizantes, ou moribundi, como se expressou o Dr. Behrens, certo dia, quando Hans Castorp topou com ele no primeiro andar. Remando com os braços, o conselheiro áulico, de avental branco e faces azuladas, vinha atravessando o corredor, e juntos subiram a escada.

– Que tal, meu caro espectador desinteressado? – disse Behrens. – Que é que anda fazendo? Será que a gente pode esperar alguma aprovação de seu olhar crítico? Obri­gado, muita honra para nós! Pois é, a nossa temporada de verão está mesmo um bocado boa. É formidável mesmo! Verdade é que não poupei dinheiro para torná-la cada vez mais brilhante. Contudo, é uma lástima que o senhor não queira passar o inverno conosco. Ouvi dizer que tenciona ficar oito semanas apenas. Como? Só três? Ora bolas, três semanas são como uma visita de médico; nem vale a pena tirar o casaco por tão pouco tempo. Bem, isso não é comigo. Mas, realmente, é uma pena que o senhor não esteja aqui durante o inverno. Olhe, a gente da alta, sabe? – disse com uma careta cômica –, a alta-roda internacional só vem a Davos no inverno. O senhor deveria mesmo ver essa tur­ma. Seria muito instrutivo. Quando esses camaradas dão saltos de esqui, que coisa mais gozada! E ainda as damas, Deus meu! Aquelas mulheres multicores como uma ave-do-paraíso, lhe digo! E como são galantes!... Bem, está na hora de ver meu moribundus – acrescentou. – É aqui, no 27. Etapa final, compreende? Saída pelo centro. Ontem e ainda hoje se embriagou com cinco dúzias de frascos de oxigênio, esse guloso! Mas acho que até o meio-dia se recolherá ad penates... Pois então, meu caro Reuter – disse ao entrar no quarto. – Que tal se a gente emborcasse mais um?... – Fechou a porta, e as demais palavras perderam-se atrás dela. Por um instante, porém, Hans Castorp enxer­gara no fundo do quarto, sobre o travesseiro, o perfil de cera de um jovem de barba rala, que lentamente volvia para a porta os grandes olhos esgazeados.

Era o primeiro moribundo com que Hans Castorp deparava em sua vida, visto os pais e o avô terem morrido, por assim dizer, pelas suas costas. Quanta dignidade não se expressava na cabeça do jovem que ali jazia sobre o travesseiro, com a barba apontando para cima! Como era significativo o olhar que se via naqueles olhos dilatados, quando, vagarosamente, os dirigiu para a porta! Hans Castorp, ainda absorto na reminiscência daquela visão fugaz, tentou involuntariamente imitar os olhos arregalados, significativos e lentos, do moribundo, enquanto se encaminhava para a escada. Foi com esses olhos que encarou uma senhora que atrás dele abrira uma porta e o alcançou no patamar. Não reconheceu imediatamente Mme.. Chauchat. Ela esboçou um leve sorriso ao ver aqueles olhos e, segurando com a mão a trança que lhe cercava a cabeça levemente caída para a frente, desceu à sua frente pela escada, a passo elástico e silencioso.

Durante esses primeiros dias, e mesmo muito tempo após, Hans Castorp não chegou a travar conhecimento com outras pessoas. O programa do dia, no seu conjunto, não favorecia isso. Ademais, Hans Castorp era reservado por natureza e sentia-se ali em cima no papel de um visitante e “espectador desinteressado”, como o chamara o Dr. Behrens. Bastavam-lhe amplamente a conversa e a companhia de Joachim. É verdade que aquela enfermeira do corredor espichava de tal maneira o pescoço atrás deles, cada vez que passavam por ela, que Joachim, que já em outras ocasiões lhe concedera alguns momentos de conversa, não pôde deixar de lhe apresentar o primo. Com o cordão do pincenê atrás da orelha, falava ela não somente de forma rebuscada, mas até com uma afetação penosa. Quem a examinasse mais de perto devia ter a impressão de que a tortura do tédio lhe afetara a inteligência. Era muito difícil desembaraçar-se dela, porque manifestava um medo doentio do fim da palestra, e logo que os jovens se dispunham a prosseguir no caminho, agarrava-se a eles com palavras e miradas pressurosas, e mesmo com um sorriso tão desesperado que, por misericórdia, eles se detinham outra vez. Falava prolixamente do pai, que era jurisconsulto, e do primo, que era médico, na intenção evidente de brilhar e de sublinhar o fato de se ter criado num ambiente culto. Quanto ao seu paciente, lá atrás daquela porta, era o filho de um fabricante de bonecos, de Coburgo, e chamava-se Rotbein. Recentemente, o mal atacara os intestinos do jovem Fritz, e isso era duro para todos os que se interessavam pelo caso, como “os senhores” sem dúvida compreendiam. Era especialmente duro para uma pessoa que descendia de uma família de acadêmicos e possuía a sensibilidade peculiar às classes superiores. E não se podia deixá-lo só, nem um minuto... Fazia alguns dias – era quase incrível! – voltara ela de uma saidinha (apenas fora comprar um pouco de pó dentifrício) e viera encontrar o doente sentado na cama, tendo diante de si um copo de espessa cerveja preta, um salame, um enorme pedaço de pão de centeio e um pepino. Sua família mandara-lhe todas essas especialidades da sua terra, na idéia de fortificá-lo. Claro que no dia seguinte o homem estava mais morto do que vivo. Ele mesmo precipitava o fim. Mas este significaria uma redenção somente para o jovem Fritz, e não para ela. Aproveitou a ocasião para dizer que a chamavam Irmã Berta, se bem que seu verdadeiro nome fosse Alfreda Schildknecht, e acrescentou que ela teria então de cuidar de outro doente, num estado mais ou menos avançado, naquele ou em outro sanatório. Era essa a única perspectiva que se lhe abria, e outra, infelizmente, não existia para ela.

– Pois é – disse Castorp, e observou que a profissão de uma enfermeira lhe parecia difícil, sim, mas também bastante honrosa.

– Honrosa é, indubitavelmente, mas muito difícil.

– Bem, façamos votos pelo restabelecimento do Sr. Rotbein. – E com isso os primos trataram de se afastar.

Mas, nesse instante, ela voltou a agarrar-se a eles com palavras e olhares, e seus esforços de cativar a atenção dos dois jovens por mais alguns instantes ofereciam um espetáculo tão lamentável, que teria sido cruel não lhe conceder mais um pequeno prazo.

– Ele está dormindo – disse. – Não precisa de mim. Por isso saí ao corredor, só por alguns minutos... – E começou a se queixar do Dr. Behrens e do tom que ele usava ao falar com ela, um tom por demais familiar, se se levava em conta a sua origem. Agradava-lhe muito mais o Dr. Krokowski, a quem qualificava de cheio de alma. Depois tornou a tratar do pai e do primo. Seu cérebro não produzia mais nada. Em vão se empenhava ela em reter os dois jovens por mais alguns instantes, elevando a voz subitamente até quase gritar, cada vez que faziam menção de ir adiante. Mesmo assim, finalmente lhe escaparam. Mas, algum tempo ainda, a enfermeira seguiu-os com olhares ávidos, inclinando o tronco para a frente, como se quisesse segurá-los com a força dos olhos. Depois, com um suspiro que lhe irrompeu do peito, voltou ao quarto do seu paciente.

A única outra pessoa que Hans Castorp chegou a conhecer nesses primeiros dias foi aquela pálida senhora enlutada, a mexicana alcunhada de “Tous-les-deux”, que ele vira no jardim. E realmente lhe aconteceu ouvir da boca dessa senhora aquela expressão lúgubre que se transformara em apelido. Mas, como já estava prevenido, conseguiu manter uma atitude correta e teve motivos para ficar satisfeito consigo próprio. Os dois primos encontraram a mexicana em frente ao portão principal, quando, após o café da manhã, encetavam o passeio matinal previsto no regulamento. Envolta num xale de lã preta, caminhava ela de joelhos dobrados, a passo longo e irrequieto. Sob o véu negro, enrolado em torno dos cabelos entremeados de fios de prata e amarrado por baixo do queixo, luzia num branco baço o rosto envelhecido, com a boca grande, marcada pelo sofrimento. Joachim, sem chapéu, como de costume, cumprimentou-a com uma mesura, à qual ela respondeu lentamente, enquanto as rugas transversais da sua testa estreita se acentuavam em virtude do esforço de olhar. Ao deparar com um rosto desconhecido, estacou e, meneando levemente a cabeça, aguardou que os dois jovens se aproximassem. Evidentemente lhe parecia necessário saber se o moço estranho lhe conhecia o caso e queria expressar-lhe o seu pesar. Joachim apresentou o primo. Por baixo da mantilha, ela estendeu a mão ao visitante, mão magra, amarelada, de veias salientes, e adornada de anéis. Continuou olhando-o, sacudindo a cabeça. Então veio o inevitável.

– Tous les dê, monsieur – disse ela. – Tous les dê, vous savez...

– Je le sais, madame – respondeu Hans Castorp, numa voz abafada. – Et je le regrette beaucoup.

As bolsas flácidas sob os olhos negros como azeviche eram tão grandes e tão pesadas como Hans Castorp nunca vira iguais. Um perfume suave, murcho, emanava dela. O jovem sentiu uma emoção meiga e grave invadir-lhe o coração.

-merci – disse ela com um sotaque rangente, que se harmonizava de modo estranho com o alquebrado da sua aparência, e uma das comissuras da boca pendeu tragicamente. A seguir, tornou a esconder a mão sob a mantilha, inclinou a cabeça e pôs-se a caminhar de novo. Hans Castorp, porém, disse, enquanto prosseguiam no passeio:

– Está vendo? Tudo saiu bem. Eu soube lidar com ela. Em geral me parece que me dou bem com esse tipo de pessoas. Sei, por instinto, como tratá-las. Você não acha também? Tenho até a impressão de que, na maioria dos casos, me entendo melhor com gente triste do que com gente alegre; sabe Deus por quê! Talvez seja porque sou órfão e perdi meus pais muito cedo. Mas, quando as pessoas estão sérias e tristes e a morte entra em jogo, não me sinto propriamente deprimido nem acanhado; pelo contrário, tenho a sensação de estar no meu elemento, e em todo caso passo melhor do que num ambiente de festa barulhenta. Isso não suporto. Pensei nesses dias que é uma bobagem da parte daquelas senhoras essa coisa de terem tanto pavor da morte e de tudo o que se relaciona com ela, a ponto de se tornar preciso escondê-la e administrar o Santo Sacramento enquanto a gente está comendo. Isso é ridículo, ora bolas! Você não gosta de ver um caixão? Eu gosto, de vez em quando. Acho que um caixão é um móvel bonito, quando vazio. Mas, quando há alguém dentro, torna-se mesmo solene, a meu ver. Os enterros têm qualquer coisa de edificante. Às vezes tenho matutado que, em vez de irmos à igreja, deveríamos ir a um enterro, para nos edificar. As pessoas vestem-se com boas roupas pretas, tiram os chapéus, olham o féretro e mantêm uma atitude grave e piedosa. Ninguém se atreve a dizer piadas, como em outras circunstâncias. A mim me agrada muito ver pessoas devotas. Freqüentemente já me perguntei a mim mesmo se não deveria ter-me tornado pastor. Creio que, em certo sentido, isso me ficaria bem... Tomara que eu não tenha cometido nenhum erro de francês, naquelas frases que falei com ela.

– Não – disse Joachim. – “Je le regrette beaucoup” é para lá de correto.

 

         Politicamente suspeita!

Surgiam modificações periódicas no programa normal: em primeiro lugar um domingo, e até um domingo com concerto no terraço do sanatório, como só havia de quinze em quinze dias. Tratava-se, pois, do fim da quinzena em cuja segunda metade Hans Castorp chegara. Chegara ele numa terça-feira, de modo que fazia cinco dias que estava hospedado ali. Era um dia de aspecto primaveril, depois daquela fantástica queda de temperatura e recaída no inverno; um dia ameno e fresquinho, com nuvens limpas num céu azul e claro, e com um sol moderado sobre as encostas e o vale, que novamente haviam assumido o verde regulamentar do verão, já que a neve recente estava condenada a derreter-se depressa.

Era visível que todo mundo se esforçava por dignificar e distinguir o domingo. A administração e os hóspedes ajudavam-se mutuamente nesse sentido. Logo com o café da manhã já se serviu cuca de amêndoas; junto de cada lugar à mesa havia um pequeno vaso com algumas flores, cravos da montanha e rosas alpinas, que os cavalheiros prendiam à lapela. O Sr. Paravant, promotor público de Dortmund, até vestira para essa ocasião um fraque preto com colete a fantasia. Os vestidos das senhoras tinham caráter festivo e vaporoso. Mme... Chauchat apareceu à hora do café, trajando um amplo robe de rendas com mangas japonesas. Após ter fechado estrondosamente a porta envidraçada, fez uma espécie de continência, para apresentar-se com graça a toda a sala, e só então encaminhou-se, a passo silencioso, para a sua mesa. Esse robe assentava-lhe tão magnificamente, que a vizinha de Hans Castorp, a professora de Königsberg, se mostrava toda entusiasmada. Até mesmo o casal bárbaro da mesa dos “russos ordinários” levava em conta o dia do Senhor; o marido substituíra a jaqueta de couro por uma sobrecasaca curta e as botinas de feltro por sapatos de couro; a esposa, embora usasse também dessa vez o boá de penas pouco limpo, exibia uma blusa de seda verde, com gola pregueada. Ao vê-los, Hans Castorp, de cenho carregado, mudou de cor, o que, nos últimos tempos, lhe acontecia com certa freqüência.

Logo depois do café da manhã começou o concerto no terraço. Reuniam-se ali instrumentos de sopro de toda espécie, para tocar alternadamente músicas alegres e solenes, até quase a hora do almoço. Durante o concerto, o repouso não era estritamente obrigatório. Se bem que alguns pensionistas desfrutassem o deleite musical do alto das sacadas e também no alpendre houvesse algumas espreguiçadeiras ocupadas, achava-se a maioria dos hóspedes em torno das mesinhas brancas, na plataforma coberta. Uma turma de alegres vivedores, julgando por demais correto sentar-se numa cadeira, instalara-se nos degraus de pedra da escadaria que conduzia ao jardim, e ali manifestava muita animação. Eram jovens enfermos de ambos os sexos, que Hans Castorp já conhecia em grande parte, ou de nome ou de vista. Hermine Kleefeld pertencia a essa roda, bem como o Sr. Albin, que fazia circular uma grande caixa florida com chocolates, e convidava a todos, enquanto ele próprio nada comia, limitando-se a fumar com ar paternal numerosos cigarros de ponta dourada. Além do rapaz beiçudo da “Sociedade Meio-Pulmão”, viam-se ainda a Srta. Levi, magra e de cor de marfim como sempre, um moço louro, de nome Rasmussen, que deixava pender frouxamente as mãos, quais barbatanas, à altura do peito, e a Srª. Salomon, de Amsterdam, matrona opulenta, de vestido vermelho, e que igualmente se unira à mocidade. Aquele moço alto, de cabelos ralos, que sabia tocar a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão, estava sentado atrás dela, cingindo-a com os braços pontudos e cravando-lhe na nuca trigueira o olhar melancólico. Havia ainda uma mocinha ruiva, de nacionalidade grega; outra, de origem desconhecida, com um perfil de anta; o garoto guloso com os óculos de lentes grossas; outro rapazote de quinze ou dezesseis anos, com um monóculo fincado no olho e que, ao tossir, levava à boca a unha comprida do dedo mindinho, da forma duma colherinha para sal, dando a impressão de ser um perfeito imbecil, e outras pessoas mais.

O rapaz de unha comprida – contou Joachim em voz baixa – estava pouco doente ao chegar. Não tivera febre, e seu pai, um médico, mandara-o por mera precaução ao sanatório, onde, segundo a opinião do Dr. Behrens, deveria ficar uns três meses. Agora, porém, decorrido esse prazo, tinha 37,8 a 38 e ia bastante mal. Verdade é que se comportava de modo tão insensato, que merecia umas bofetadas.

Os dois primos tinham só para si uma mesinha um pouco distante das demais, visto Hans Castorp fumar um charuto, para acompanhar a cerveja preta que levara consigo depois do café da manhã. De tempo em tempo conseguia achar gosto no tabaco. Um pouco tonto pela cerveja e a música, que, como sempre, fazia com que entreabrisse a boca e inclinasse a cabeça para o lado, contemplava, com os olhos avermelhados, a vida despreocupada de estação de cura que o rodeava. Absolutamente não o incomodava a consciência do fato de que toda essa gente escondia no seu interior um processo de decomposição, com pouca probabilidade de se deter, e que a maioria se achava num estado levemente febril; pelo contrário, esta consciência contribuía para aumentar a singularidade do ambiente e emprestar-lhe um certo encanto intelectual... Bebia-se limonada gasosa em torno das mesinhas. Na escadaria tiravam-se fotografias.

Alguns permutavam selos, e a grega ruiva desenhava a lápis, num bloco, o retrato do Sr. Rasmussen; depois, não quis mostrar-lhe o desenho; rindo-se e exibindo os grandes dentes separados, esquivava-se de um para outro lado, de maneira que ele levou muito tempo antes de lhe arrancar o bloco. Hermine Kleefeld, com os olhos semicerrados, quedava-se no seu degrau, batendo, com um jornal enrolado, o compasso da música, enquanto o Sr. Albin lhe prendia na blusa um ramalhete de flores silvestres. O rapaz beiçudo, sentado ao pé da Srª. Salomon, conversava com ela, voltando a cabeça para trás, ao passo que o pianista de cabelos ralos não cessava de fitar a nuca da matrona.

Chegaram os médicos e meteram-se entre os hóspedes, o Dr. Behrens no jaleco branco, e o Dr. Krokowski com a sua peculiar blusa preta. Passaram ao longo da fileira de mesinhas, e a cada grupo de hóspedes o conselheiro áulico dizia jovialmente uma pilhéria qualquer, de forma que uma esteira de hilaridade lhe marcava o caminho. A seguir, desceram pela escada, rumo à mocidade, cuja parte feminina, requebrando-se e lançando olhares de soslaio, logo se agrupou em torno do Dr. Krokowski, ao passo que o médico-chefe, em homenagem ao domingo, exibia ao sexo forte o seu truque dos cordões de botina: colocou o pé enorme num degrau superior, desatou a laçada, apanhou os cordões com uma mão só, empregando nisso uma técnica especial, e conseguiu, sem se servir da outra, prendê-lo novamente aos ganchinhos, de forma cruzada; habilidade que despertou a admiração de todos, e que alguns, em vão, tentaram imitar.

Mais tarde apareceu também Settembrini no terraço. Apoiando-se na bengala, saiu da sala de refeições. Como sempre, trajava o paletó comprido e as calças amareladas. Com um ar distinto, vivo e crítico, olhou em torno e aproximou-se então da mesa dos primos.

– Ah, bravo! – exclamou e pediu licença para sentar-se.

– Cerveja, tabaco e música – disse. – Eis a sua pátria! Vejo que o senhor acompanha o espírito nacional, meu caro engenheiro. Folgo em ver que está no seu elemento. Deixe que eu participe do seu harmonioso bem-estar.

Hans Castorp corrigiu as feições, o que, aliás, já procurara fazer logo que avistara o italiano. Em seguida respondeu:

– O senhor chega tarde ao concerto, Sr. Settembrini. Já está quase no fim. Não gosta de música?

– Por ordem superior, não – replicou Settembrini. – Nem quando é ditada pelo calendário. Não simpatizo com ela, quando tem um cheiro de farmácia e me é ministrada pelas autoridades para fins sanitários. Estimo ainda um pouco a minha liberdade, ou pelo menos aquele restinho de liberdade e dignidade humana que sobra a gente como nós. Em ocasiões como esta, costumo comparecer como visitante, assim como o senhor faz aqui em cima. Fico durante um quarto de hora e depois vou-me embora. Isso me dá a ilusão de independência... Não digo que seja mais do que uma simples ilusão; seja como for, a mim causa certa satisfação. Com seu primo, o caso é diferente. Para ele, isto aqui é serviço. Não é, tenente? O senhor considera o concerto como parte dos seus deveres. Ah! Sim, eu sei que o senhor conhece o truque de conservar o seu orgulho em plena escravidão. É um truque desconcertante. Não há muitos na Europa que entendam disso. E a música? O senhor não me perguntou se eu era amante da música? Bem, se o senhor usou a palavra “amante” – Hans Castorp absolutamente não se lembrava de tê-la empregado –, não escolheu mal a expressão, porque ela tem um quê de frivolidade afetuosa. Pois é, estou de acordo. Sim, senhor, sou amante da música, o que não significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio e o resplandecente arado do progresso... A música? Representa ela tudo o que existe de semi-articulado, de duvidoso, de irresponsável, de indiferente. O senhor talvez me objete que ela pode ser clara. Mas também a Natureza pode ser clara; também um arroio o pode ser, e de que nos adianta isso? Não é essa a clareza verdadeira; é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga nem chega a ter conseqüências; é perigosa porque induz a gente à complacência satisfeita... Suponhamos que a música tome uma atitude de magnanimidade. Bem, nesse caso, ela inflamará os nossos sentimentos. No entanto, o que importa é inflamar a nossa razão. Aparentemente a música é toda movimento, e contudo suspeito nela o quietismo. Permita que eu leve a minha tese ao exemplo: tenho contra a música uma antipatia de caráter político.

A essa altura da conversa, Hans Castorp não pôde deixar de bater com a mão sobre o joelho e de exclamar que nunca na vida ouvira coisa semelhante.

-mesmo assim, convém ponderar a idéia – disse Settembrini sorrindo. – A música é inestimável como meio supremo de produzir entusiasmo, como força que faz avançar e subir, mas só para pessoas cujos espíritos já estejam preparados para os seus efeitos. Porém, é indispensável que a literatura a preceda. Sozinha, a música não é capaz de levar o mundo avante. Para a sua pessoa, meu caro engenheiro, ela representa indubitavelmente um perigo. Isto verifiquei logo ao chegar, na sua fisionomia.

Hans Castorp começou a rir.

– Ora, não olhe o meu rosto, Sr. Settembrini! O senhor não imagina até que ponto me incomoda o ar aqui em cima. Aclimatar-me custa-me muito mais do que eu pensava.

– Creio que o senhor se engana.

– Mas por quê? Ainda, me sinto cansado e quente como o diabo.

– No entanto, me parece que devemos ficar gratos à direção por estes concertos – disse Joachim circunspectamente. – O senhor considera o assunto de um ponto de vista superior, Sr. Settembrini, por assim dizer, como escritor, e nesse sentido não quero contradizê-lo. Mas tenho a impressão de que nós aqui deveríamos aceitar com gratidão um pouquinho de música. Absolutamente não sou um entendido em música, e aquilo que tocam para nós não é grande coisa. As peças não são nem clássicas nem modernas. É uma charanga e nada mais. Mesmo assim, representa uma variação agradável que enche de uma forma decente algumas horas; quero dizer que as assinala e as ocupa, de modo que elas tenham algum valor próprio, ao passo que em geral se desperdiçam aqui horas e dias e semanas de um modo simplesmente pavoroso. Olhe, essas pecinhas insignificantes duram sete minutos, em média, não é? E esses sete minutos têm alguma coisa em particular, têm princípio e têm fim, destacam-se e são, de certo modo, preservados da ameaça de se perderem sem mais nem menos na monotonia geral. Além disso, são ainda muitas vezes subdivididos pelas partes da peça, e estas, por sua vez, se compõem de compassos, de maneira que sempre acontece alguma coisa e cada instante recebe um certo -sentido, ao qual alguém se pode agarrar, ao passo que normalmente... Não sei se me expressei...

– Bravo! – gritou Settembrini. – Bravo, tenente!

O senhor definiu muito bem um fator incontestavelmente moral na natureza da música; a saber, que ela mede o curso do tempo de uma forma especial e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta... e portanto é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede quando ela faz o contrário? Quando entorpece, adormenta, estorva a atividade e o progresso? Também disso a música é capaz; sabe perfeitamente agir como ópio. Uma influência diabólica, meus senhores! O ópio é uma obra do Diabo, porque causa apatia, estagnação, passividade, inatividade servil... Há na música um elemento perigoso, senhores. Insisto no fato da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.

Settembrini continuou externando idéias desse gênero, e Hans Castorp escutava, sem, no entanto, compreendê-lo perfeitamente, em primeiro lugar por causa do cansaço, e em segundo porque se sentia distraído pela animada atividade dos jovens alegres espalhados pela escadaria. Não o enganavam seus olhos? Que era isso? A senhorita de cara de anta estava ocupada em pregar um botão na presilha de joelho, nos calções de golfe do jovem de monóculo. A asma embargava a respiração da mocinha, enquanto o rapaz tossia, cobrindo a boca com a unha comprida semelhante a uma colherinha de sal. Verdade era que ambos estavam doentes, e todavia essa conduta não deixava de pôr em evidência os costumes estranhos que ali em cima reinavam entre a mocidade. A banda de música tocava uma polca...

 

       Hippe

Dessa forma se destacou o domingo. Sua tarde foi, além disso, assinalada por excursões de coche que realizaram vários grupos de hóspedes. Depois do chá, diversas parelhas subiram laboriosamente a rampa do sanatório e pararam em frente ao portão principal, para recolher os pensionistas que haviam encomendado os carros. Eram na maioria russos, sobretudo senhoras russas.

– Os russos gostam de passear de carro – disse Joachim a Hans Castorp. Os primos estavam diante da entrada e divertiam-se a presenciar a partida das carruagens. – Vão a Clavadell ou ao lago ou ao vale de Flüela ou a Klosters. São esses os passeios que se costuma fazer. Qualquer dia poderíamos também passear de carro, se quiser. Mas acho que por enquanto você terá bastante trabalho para se aclimatar, e não tem necessidade de aventuras.

Hans Castorp concordou. Tinha um cigarro na boca e as mãos nos bolsos da calça. Viu como a jovial velhota russa com a sobrinha magra e mais duas outras senhoras – Marusja e Mme.. Chauchat – tomavam assento num coche. Mme.. Chauchat trazia um guarda-pó leve, cinturado, mas não usava chapéu. Sentou-se ao lado da senhora idosa, no fundo do carro, ao passo que as senhoritas ocuparam os assentos da frente. As quatro estavam alegres, e suas bocas não paravam nem um segundo. Tagarelavam naquele seu idioma brando, como que desprovido de ossos. Falavam e riam-se do cobertor de viagem, muito pequeno e que com dificuldade bastava para quatro pessoas, bem como dos bombons russos que a velha tia levava como merenda, numa caixinha de madeira, forrada de algodão e papel rendado, e que já antes da partida fazia circular... Hans Castorp distinguiu com interesse a voz velada de Mme.. Chauchat. Como sempre, quando avistava essa mulher negligente, sentia reafirmar-se aquela semelhança que andara procurando por tanto tempo e finalmente descobrira num dos seus sonhos... O riso de Marusja, porém, o aspecto dos seus olhos redondos e castanhos que vagavam com uma expressão infantil por cima do lencinho que cobria a boca, e seus seios rijos, que interiormente estavam bastante doentes – tudo isso lhe recordava outra coisa, uma visão comovente que tivera havia pouco tempo. Cautelosamente, sem mover a cabeça, olhou para Joachim, a seu lado. Não! Graças a Deus, o seu rosto não tinha a cor terrosa do outro dia, e os lábios também não se crispavam daquele modo doloroso. Mas o primo estava com os olhos fixos em Marusja, numa atitude e com uma fisionomia que seria impossível qualificar de militares, e que, bem ao contrário, pareciam tão tristonhas e descontroladas que era inelutável tachá-las de perfeitamente civis. No entanto, não tardou a dominar-se e lançou um olhar tão rápido a Hans Castorp, que este mal teve tempo para desviar os olhos e dirigi-los para qualquer ponto no ar. Sentiu, simultaneamente, como o seu coração se punha a bater, sem motivo nenhum e por iniciativa própria, como às vezes fazia ali em cima.

O resto do domingo não ofereceu mais nada de extraordinário, a não ser a comida, que, embora não pudesse ser mais farta do que de costume, distinguia-se ao menos por um maior requinte nos pratos. (No cardápio do almoço figurava um chaud-froid de galinha, guarnecido de caranguejos e meias cerejas; os sorvetes vieram acompanhados de filhoses, em cestinhos tecidos de fios de açúcar, e por fim surgiram até fatias de abacaxi fresco.) Pela noite, depois de tomar a sua cerveja, Hans Castorp sentiu-se esgotado, com frio e com uma lassidão nos membros ainda maior do que nos dias anteriores. Já às nove horas disse “Boa noite” ao primo, cobriu-se apressadamente com o acolchoado de penas e adormeceu como um fulminado.

Mas o dia seguinte, isto é, a primeira segunda-feira que o visitante passou no sanatório, trouxe outra dentre as modificações periódicas do programa normal: uma daquelas conferências que o Dr. Krokowski fazia de quinze em quinze dias na sala de refeições para todos os pensionistas adultos do Berghof que dominassem o idioma alemão. Tratava-se, segundo Hans Castorp soube de Joachim, de uma série de preleções contínuas, espécie de curso científico-popular, sob o título geral de “O amor como fator patogênico”. A palestra didática realizava-se depois do café da manhã, e, também segundo a informação de Joachim, não era lícito, ou pelo menos era muito malvisto, que alguém deixasse de assistir a ela. Por isso considerava-se uma ousadia pasmosa a atitude de Settembrini, que, embora dominando o alemão melhor do que ninguém, não somente nunca comparecia a essas conferências, mas até as criticava em termos sumamente depreciativos. Quanto a Hans Castorp, estava disposto a ir, em primeiro lugar por cortesia, como também por uma curiosidade não dissimulada. Antes, porém, fez uma coisa completamente errada e prejudicial: deu-lhe na veneta empreender, por conta própria, um extenso passeio, de que se saiu sobremodo mal.

– Escute – foram as suas primeiras palavras, quando Joachim, pela manhã, entrou no seu quarto. – Eu vejo que não posso continuar desse jeito. Estou farto da vida horizontal. Com esse regime, o sangue adormece nas veias da gente. O seu caso é diferente, claro! Absolutamente não quero tentar você. Mas tenho a intenção de dar, logo depois do café, um bom passeio, se você não me leva a mal essa idéia. Caminharei assim, sem destino, durante algumas horas. Vamos ver se não me sentirei outro homem quando regressar.

– Está bem – disse Joachim, ao notar que o outro levava a sério o projeto. – Mas não exagere, ouviu? Aqui as coisas não são como lá embaixo. E procure estar de volta na hora da conferência.

Na realidade, as razões que haviam levado o jovem Hans Castorp ao projeto desse passeio não se relacionavam somente com o seu bem-estar físico. Parecia-lhe que sua cabeça quente, o gosto ruim que ele amiúde tinha na boca, e as pulsações caprichosas do seu coração se deviam menos às dificuldades da aclimatação do que a certos fatores, como, por exemplo, as atividades do casal russo no quarto vizinho, a lengalenga que a estúpida e doente Srª. Stöhr proferia durante as refeições, a tosse lamacenta do aristocrata austríaco, que todos os dias se ouvia no corredor, as palavras do Sr. Albin, as impressões que os costumes sociais da mocidade enferma lhe haviam causado, a fisionomia de Joachim quando olhava para Marusja, e outras observações desse tipo. Pensava então que deveria ser saudável subtrair-se ao círculo mágico do Berghof, respirar profundamente ao ar livre e fazer algum exercício, a fim de saber, de noite, por que se sentia tão cansado. E assim se separou de Joachim, quando este, após o café da manhã, começava o seu passeio delimitado pelo regulamento, em direção ao banco junto da calha. Brandindo a bengala, desceu pela estrada de rodagem, para seguir caminhos independentes.

Era uma manhã fresquinha e nublada, pelas oito e meia. Tal e qual se propusera, Hans Castorp aspirava profundamente o puríssimo ar matutino, uma atmosfera fresca e leve que se deixava sorver sem esforço, atmosfera sem umidade nem conteúdo nem recordações... Transpôs o curso d'água e os trilhos de bitola estreita, alcançou a rua principal, aqui e ali ladeada de casas, mas logo a abandonou, para tomar um atalho através dos prados, que, depois de um curto trajeto plano, subia, num curso oblíquo e bastante íngreme, a encosta à direita. Essa subida alegrou Hans Castorp. Dilatou-se-lhe o peito. Com o castão da bengala empurrou o chapéu para trás, e quando, de certa altura, lançou um olhar sobre a paisagem e avistou ao longe o espelho do lago, pôs-se até a cantar.

Cantou as canções que lhe ocorriam, toda espécie de cantigas sentimentais e populares, como figuram nas antologias para ginasianos. Uma, por exemplo, continha os versos:

 

         “Que os bardos cantem o amor e o vinho,

           Mas antes cantem a virtude...”

 

Começou cantarolando baixinho, mas logo aumentou o volume e por fim cantava com toda a força que tinha. Sua voz de barítono era áspera, mas, nesse momento, pareceu-lhe bonita. Entusiasmava-se cada vez mais, à medida que ia cantando. Quando chegava a notas excessivamente altas, recorria ao falsete, e também este lhe agradava. Às vezes falhava a sua memória, e nesses casos saía-se bem entoando a melodia com quaisquer palavras e sílabas absurdas que no momento lhe ocorriam, e que ele, à maneira dos cantores de ópera, proferia modulando-as com os lábios e carregando nos “r”. Finalmente passou a improvisar tanto o texto como a melodia, acompanhando sua apresentação com gestos teatrais dos braços. Já que é muito cansativo subir e cantar ao mesmo tempo, Hans Castorp em breve perdeu o fôlego. Mas, por idealismo, em prol da beleza do canto, venceu a emergência e, por entre numerosos suspiros, deu tudo o que tinha. Por fim, completamente sem alento, quase cego, com olhos que enxergavam apenas faíscas coloridas, e com o pulso a martelar, deixou-se cair ao pé de um enorme pinheiro. Depois de tamanha emoção, sentiu-se tomado de uma sensação de intenso mal-estar, de uma ressaca que tocava as raias do desespero.

Quando, com os nervos mais ou menos tranqüilizados, animou-se a prosseguir o passeio, tremia-lhe veementemente a nuca, de modo que, apesar da sua juventude, sacudia a cabeça da mesma forma como outrora fizera o velho Hans Lorenz Castorp. Ele mesmo sentiu que esse fenômeno lhe recordava simpaticamente o falecido avô, e sem experimentar repugnância, divertiu-se com a imitação daquele gesto de apoiar o queixo sobre o nó da gravata, gesto com o qual o velho procurava evitar o tremor da cabeça, e que tanto agradava ao menino.

Subiu ainda mais, em ziguezague. Atraía-o o tilintar dos cincerros das vacas. Passado pouco tempo, avistou um rebanho a pastar nas proximidades de um chalé, cujo telhado estava consolidado com pedras. Dois homens barbudos, com machados no ombro, vinham a seu encontro. Perto dele, despediram-se um do outro. – Pois então, passe bem, e muito agradecido! – disse um dos homens, numa voz profunda, gutural e, mudando o machado de um ombro para o outro, dirigiu-se ao vale, abrindo caminho, a passo ruidoso, por entre os pinheiros. Aquele “Passe bem, e muito agradecido”, que soara estranhamente através da solidão, fez sonhar o espírito de Hans Castorp, ainda tonto pela subida e pelo canto. Repetiu as palavras em voz baixa, procurando arremedar o dialeto gutural, singelo e solene do montanhês. Subiu um bom pedaço além da choça, na intenção de alcançar o limite das árvores. Mas um olhar ao relógio fez com que desistisse do projeto.

Dobrou para a esquerda, rumo à aldeia, seguindo uma vereda que começava plana e depois descia. Acolheu-o um bosque de altas coníferas. Ao atravessá-lo, Hans Castorp voltou a cantar um pouco, ainda que cautelosamente. Mesmo assim tremiam-lhe os joelhos durante a descida ainda mais do que antes. Quando saiu do bosque, deteve-se, surpreso, diante de um quadro magnífico que se lhe descortinava, uma paisagem íntima e fechada, de plasticidade tranqüila e grandiosa.

Por um leito pedregoso, pouco profundo, precipitava-se um curso d'água pela encosta direita abaixo; saltava, escumando, os rochedos dispostos como que em terraços, e em seguida corria, num fluxo mais calmo, em direção ao vale, passando por baixo de uma pitoresca pontezinha, com um tosco parapeito de madeira. O solo parecia azul pelas flores campanuláceas de um arbusto que crescia em toda parte. Pinheiros sombrios, de troncos gigantescos e bem-proporcionados, viam-se ora isolados, ora em grupos, no fundo do desfiladeiro e nas encostas. Um deles, arraigado obliquamente no alcantil à beira do arroio torrentoso, atravessava o panorama numa diagonal torta e excêntrica. Uma solidão cheia de rumores pairava sobre esse sítio isolado e formoso. Do outro lado do regato, Hans Castorp viu um banco que convidava ao repouso.

Transpôs a pontezinha e sentou-se, a fim de se divertir com o aspecto da cachoeira de águas espumantes e de lhes escutar o ruído idilicamente palrador, uniforme e todavia cheio de variação íntima. O murmúrio das águas – Hans Castorp adorava-o tanto quanto a música, e talvez ainda mais. Mas, apenas se pusera à vontade, começou a sangrar-lhe o nariz, tão de repente que não pôde evitar que se manchasse a sua roupa. A hemorragia era violenta e obstinada; durante meia hora, pouco mais ou menos, não parou de incomodá-lo, obrigando-o a ir e vir, sem cessar, entre o regato e o banco, para lavar o lenço, aspergir água e voltar a estender-se nas tábuas do assento, com o nariz coberto pelo lenço úmido. Quando finalmente o sangue estancou, permaneceu assim deitado, imóvel, com as mãos presas atrás da cabeça, e com os joelhos fletidos. Tinha os olhos cerrados e os ouvidos cheios de zoadas. Contudo, não se sentia mal, antes acalmado pela copiosa sangria. Achava-se num estado de vitalidade singularmente diminuída; pois, cada vez que expelia o ar, durante algum tempo não experimentava nenhuma necessidade de aspirar outra vez; com o corpo em suspenso, deixava, com toda a calma, que seu coração palpitasse diversas vezes, antes que, tardia e indolentemente, voltasse a tomar fôlego.

Eis que, de súbito, se sentiu transportado para aquela fase remota da sua vida, em que se passara a cena original de um sonho remodelado em conformidade com impressões mais recentes, e que tivera poucas noites atrás... Vigorosa, irrestritamente, a ponto de olvidar o espaço e o tempo, sentiu-se ele arrebatado para aquela hora e aquele lugar, com tanta intensidade que se poderia dizer que no banco, junto da cachoeira, jazia um corpo inânime, ao passo que o verdadeiro Hans Castorp se encontrava longe dali, num ambiente e numa época muito distantes – e ainda numa situação que, apesar da sua simplicidade, era para ele arriscada e lhe inebriava o coração.

Tinha então treze anos; era aluno do quarto ano do ginásio, um rapazote de calças curtas. Achava-se no pátio da escola, a conversar com outro garoto, aproximadamente da mesma idade, mas que pertencia a outra série. Era por motivos bastante gratuitos que Hans Castorp entabulara essa conversa, que o alegrava sobremodo, posto que seu assunto objetivo e claramente delimitado a obrigasse a um máximo de brevidade. Isso se passava durante o recreio entre a penúltima e a última aula, aulas de história e de desenho, respectivamente, para a série de Hans Castorp. No pátio pavimentado de ladrilhos vermelhos e separado da rua por um muro coberto de telhas e provido de dois portões, os alunos passeavam em filas ou formavam grupos, encostando-se semi-sentados às saliências azulejadas do edifício. Entrecortavam-se numerosas vozes. Um professor, com um chapéu de abas largas, vigiava a rapaziada, enquanto comia um sanduíche de presunto.

O garoto com o qual Hans Castorp conversava chamava-se Hippe, e seu prenome era Pribislav. Acrescia a isso, como detalhe curioso, que o “r” desse prenome se pronunciava como “ch”: dizia-se Pchibislav, e esse nome pouco comum condizia bem com o aspecto do rapaz, cujo tipo, longe de ser normal, era antes bastante exótico. Hippe, filho de um historiador e professor de ginásio, e por conseguinte um aluno modelar, já freqüentava a classe imediatamente acima da de Hans Castorp, se bem que fosse quase da mesma idade. Provinha de Mecklenburg, e sua pessoa constituía, evidentemente, o produto de uma antiga mistura de raças, com uma dose de sangue eslavo num recipiente germânico, ou vice-versa. Seus cabelos, aparados rente ao crânio redondo, eram louros, mas seus olhos, de uma cor entre o azul e o cinzento – era uma cor incerta, ambígua, qual a de uma cordilheira longínqua –, mostravam uma forma singular, estreita e, a rigor, até um pouco oblíqua; e sob esses olhos destacavam-se as maçãs, salientes e fortemente acentuadas. Essas feições, nada feias e mesmo bastante simpáticas, haviam valido a Hippe, entre os colegas, o apelido de “o Quirguiz”[1]. Hippe já usava calças compridas e uma jaqueta azul, cinturada nas costas e fechada até o pescoço, sobre cuja gola se percebiam habitualmente alguns vestígios de caspa.

Acontecia que Hans Castorp, desde muito tempo, fixara a sua atenção nesse Pribislav; escolhera-o em meio ao formigueiro de rostos conhecidos e desconhecidos que enchia o pátio; interessava-se por ele, acompanhava-o com os olhos e -será lícito dizer que o admirava? Em todo caso devotava-lhe um interesse especial e, ao dirigir-se à escola, já se regozijava com a idéia de observá-lo no trato com os companheiros de curso, de vê-lo falar e rir-se, e de distinguir-lhe de longe a voz no meio das outras, aquela voz agradável, velada e um tanto rouca. É forçoso admitir que não havia razão suficiente para essa simpatia, a não ser que se queira considerar como tal o prenome pagão, a qualidade de aluno modelar – cuja influência podemos excluir – ou finalmente os olhos quirguizes, olhos que às vezes (por ocasião de certos relances para o lado, que não se fixavam em nada) eram capazes de se envolver languidamente em trevas misteriosas. Fosse como fosse, Hans Castorp pouco se preocupava com a justificação intelectual dos seus sentimentos e ainda menos com o problema de encontrar uma denominação para eles. Indubitavelmente não se podia falar de amizade, já que ele nem sequer “conhecia” Hippe. Mas, em primeiro lugar, não havia a mínima necessidade de uma denominação, porquanto nem se pensava em falar de um assunto que não se prestava para isso nem requeria palavras. E em segundo lugar, uma denominação representa, se não uma crítica, ao menos uma definição, isto é, uma classificação na ordem das coisas conhecidas e habituais, ao passo que Hans Castorp estava compenetrado da convicção inconsciente de que um tesouro íntimo como esse devia ser preservado para sempre de tal definição e classificação.

Bem ou mal justificados, e em todo caso impróprios para qualquer denominação ou expressão verbal, eram esses sentimentos de tanta força vital, que Hans Castorp, já fazia um ano – pouco mais ou menos, por ser impossível fixar a data do começo –, alimentava-os em silêncio, o que revelava, pelo menos, a fidelidade e a constância do seu caráter, levando-se em conta o lapso enorme de tempo que nessa idade representa um ano. Infelizmente as designações de qualidades de caráter contêm, via de regra, um julgamento moral, quer no sentido de um elogio, quer de uma censura, se bem que todas elas tenham dois aspectos. Quando examinamos, sem emitir nenhuma opinião acerca do seu valor, a tal “fidelidade” de Hans Castorp – da qual ele mesmo não se gabava absolutamente –, consistia ela em certa morosidade, lentidão e persistência do seu espírito, numa mentalidade fundamentalmente conservadora, que lhe afigurava as situações e as circunstâncias da vida tanto mais dignas de estabilidade e de simpatia quanto maior era a sua duração. Também se inclinava a crer na eternidade do estado particular e da disposição de alma em que se achava em determinado momento, e justamente por isso os apreciava, sem almejar nenhuma modificação. Assim se acostumara, no seu íntimo, a essa longínqua e silenciosa relação que o ligava a Pribislav Hippe, tomando-a no fundo por uma instituição permanente da sua vida. Adorava as emoções que ela acarretava, a curiosidade de saber se neste ou naquele dia o outro iria ou não a seu encontro, se passaria perto dele, ou talvez se lhe dirigiria um olhar; adorava essas satisfações tácitas e delicadas com que o brindava o seu segredo; adorava até mesmo as decepções inerentes ao caso, e dentre as quais a maior era verificar que Pribislav faltava à aula; então, o pátio parecia ermo; o dia, privado de todo sabor; e entretanto permanecia viva a esperança no futuro.

Isso durou um ano, até alcançar aquele apogeu crítico. Depois, continuou por mais um ano, graças à fidelidade conservadora de Hans Castorp, e por fim terminou, sem que ele notasse mais do afrouxamento e da dissolução dos laços que o ligavam a Pribislav Hippe do que notara da sua formação. Ademais, Pribislav abandonou o ginásio e a cidade, devido a uma transferência de seu pai; mas esse fato, Hans Castorp mal o percebeu. Pode-se dizer que o vulto do “Quirguiz”, desprendendo-se imperceptivelmente de uma névoa, entrou na sua vida, onde ia adquirindo uma nitidez e um relevo cada vez mais intensos, até aquele instante no pátio, que representava o máximo de clareza e de corporeidade; que durante algum tempo se conservou assim no primeiro plano, e por fim, aos poucos, recuou, desaparecendo nas brumas, sem despertar nenhuma tristeza de despedida.

Esse instante, porém, a situação arriscada, cheia de aventuras, pela qual Hans Castorp novamente passava neste momento, a conversa, uma verdadeira conversa com Pribislav Hippe, produziu-se da seguinte forma: era antes da aula de desenho, e Hans Castorp verificou que não tinha lápis. Dos seus companheiros de curso, nenhum podia dispensar o seu. Mas, entre os alunos de outras séries, Hans Castorp tinha este ou aquele conhecido que lhe poderia suprir a falta. Dentre todos – achava ele – era Pribislav Hippe quem ele conhecia melhor; era-lhe mais familiar do que os outros esse rapaz com o qual, em silêncio, já se preocupara tantas vezes. E com um impulso alegre de todo o seu ser, resolveu aproveitar a oportunidade – chamava a isso de oportunidade – e pedir a Pribislav Hippe que lhe emprestasse um lápis. Não percebeu que esse ato seria um tanto estranho, visto ele não conhecer Hippe em realidade; pelo menos não se importou com isso, obcecado por uma desconsideração singular. E assim aconteceu que, no meio da azáfama do pátio ladrilhado, se plantou diante de Pribislav Hippe e lhe disse:

– Perdão, você poderia emprestar-me um lápis?

E Pribislav fitou-o com seus olhos quirguizes, por cima das maçãs salientes. Respondeu-lhe então na sua voz simpática e velada, falando sem a mínima surpresa, ou, ao menos, sem manifestá-la.

– Com muito prazer – disse. – Mas você deve devolvê-lo sem falta depois da aula. – Com essas palavras tirou do bolso uma lapiseira prateada, com um anel que se devia empurrar para cima, para que o lápis vermelho apontasse do tubo metálico. Hippe explicou o mecanismo simples, enquanto as duas cabeças se inclinavam sobre o objeto.

– Cuidado para não quebrá-lo! – acrescentou.

Que idéia! Como se Hans Castorp pretendesse não devolver a lapiseira ou até tratá-la com descuido.

Depois, olharam-se sorrindo e, como nada mais restasse a dizer, deram lentamente meia-volta e separaram-se.

Foi tudo. Mas nunca na vida Hans Castorp sentira-se mais satisfeito do que naquela aula de desenho, ao trabalhar com o lápis de Pribislav Hippe, e com a perspectiva de entregá-lo, mais tarde, ao seu dono, como conseqüência natural e espontânea daquilo que haviam combinado. Tomou a liberdade de apontar o lápis, e das lasquinhas vermelhas que sobraram, guardou três ou quatro durante quase um ano numa gaveta da sua carteira. Ninguém que as visse suspeitaria da sua importância. A devolução realizou-se, de resto, da forma mais simples possível, em perfeita conformidade com as intenções de Hans Castorp, que até se orgulhava um pouco desse fato, displicente e pretensioso que se tornara pela intimidade com Hippe.

– Tome – disse. – E muito obrigado.

Pribislav não respondeu nada; limitou-se a verificar rapidamente o mecanismo e meteu a lapiseira no bolso.

Depois disso, nunca mais voltaram a se falar. De qualquer maneira, porém, haviam se falado uma vez, graças ao espírito empreendedor de Hans Castorp...

Abriu os olhos, ainda confuso pela intensidade do seu arrebatamento. “Parece que sonhei!”, pensou. “Pois é, era Pribislav. Faz tempo que não lembro dele. Onde é que foram parar aquelas lasquinhas? A carteira está no sótão, na casa do tio Tienappel. Devem ainda estar na gavetinha esquerda. Não as tirei. Nem sequer lhes prestei a atenção suficiente para jogá-las fora... Era Pribislav, em carne e osso. Eu nunca teria pensado que tornaria a vê-lo tão nitidamente. Como se parecia com ela, com aquela mulher, ali do sanatório. Quem sabe se não é por isso que eu me interesso tanto por ela? Bobagem! Pura bobagem! Em todo caso está na hora de voltar, e bem depressa.” Ainda assim, permaneceu deitado por mais alguns instantes, cismando, absorto em recordações. “Pois então, passe bem, e muito agradecido”, disse e sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. A seguir fez uma tentativa de se pôr a caminho. Mas logo tornou a sentar-se, com o chapéu e a bengala na mão, pois verificou que os joelhos não o sustentavam com firmeza. “Epa!”, pensou. “Parece que não dá. Contudo, é preciso que eu esteja às onze em ponto na sala de refeições, para assistir à conferência. Os passeios aqui têm seus atrativos, mas têm também as suas dificuldades. Seja como for, não posso ficar aqui. Estou apenas com as pernas duras por ter ficado deitado durante tanto tempo! Com o movimento, isso vai melhorar.” Tentou mais uma vez pôr-se de pé e, com um sério esforço, conseguiu fazê-lo.

Mas, comparado com a partida briosa, o regresso não deixava de ser lamentável. Repetidas vezes, Hans Castorp teve que descansar à beira do caminho, por sentir que seu rosto de súbito empalidecera, que sua testa estava banhada em suor frio, e que as palpitações desregradas do coração lhe tolhiam o fôlego. Penosamente se esfalfou na descida em ziguezague, e quando chegou ao vale, nas proximidades da estância, compreendeu com toda a clareza que lhe seria impossível percorrer com suas próprias forças o extenso trajeto até o Berghof. Como não houvesse condução coletiva, nem se enxergasse nenhum carro de aluguel, fez parar um carroceiro que conduzia rumo à aldeia uma carreta, cheia de caixotes vazios, e pediu-lhe que o deixasse subir. Sentou-se de costas para o homem, com as pernas pendendo para fora do veículo. Os transeuntes contemplavam-no com surpresa e compaixão, enquanto assim se deixava transportar, oscilando sob o efeito das sacudidelas, com a cabeça a balançar de sonolência. Perto da passagem de nível, desembarcou, deu ao carroceiro algumas moedas, sem reparar se eram muitas ou poucas, e galgou apressadamente a rampa sinuosa.

– Dépêchez-vous, monsieur – disse o porteiro francês. – La conférence de M. Krokowski vient de commencer. – Hans Castorp atirou o chapéu e a bengala ao moço encarregado do vestiário e, com a língua entre os dentes, esgueirou-se depressa, e todavia cautelosamente, pela porta entreaberta da sala de refeições, onde os pensionistas se haviam agrupado em cadeiras dispostas em filas, enquanto à direita, atrás de uma mesa guarnecida de uma garrafa de água, o Dr. Krokowski, vestido de sobrecasaca, já começara a falar.

 

         Análise

Perto da porta havia, felizmente, uma vaga no último lugar de uma fila. Sentou-se discretamente e procurou fingir ter ocupado essa cadeira desde o princípio. O público, bebendo as palavras do Dr. Krokowski com a intensa atenção dos primeiros instantes, mal reparou no jovem; ainda bem, porque Hans Castorp oferecia um aspecto terrível. Seu rosto estava lívido como linho, e suas roupas, manchadas de sangue, de modo que ele parecia um assassino que acabara de cometer um crime. A senhora sentada à sua frente voltou, entretanto, a cabeça e examinou-o com uns olhos rasgados. Era Mme.. Chauchat, como Hans Castorp reconheceu com uma espécie de enfado. Com a breca! Não o podiam deixar em paz? Tencionara sentar-se sossegadamente, uma vez o objetivo alcançado, e refazer-se um pouquinho; e agora lhe acontecia estar face a face justamente com essa mulher. Tal casualidade, em outra ocasião, talvez lhe causasse satisfação; mas, exausto e derreado como se sentia, que lhe importava o fato, que apenas fazia novas exigências ao seu coração e o irritaria durante toda a conferência? E os olhos com que ela o olhara eram exatamente os de Pribislav; contemplara-lhe o rosto e as manchas de sangue no casaco, e fizera-o com uma insistência bastante indiscreta e petulante, que se harmonizava bem com as maneiras de uma pessoa que batia a porta com estrondo. Como era desajeitada a postura dela! Completamente diversa daquela que guardavam as senhoras da esfera familiar a Hans Castorp; estas se mantinham eretas na cadeira e dirigiam a cabeça para o vizinho de mesa, enquanto falavam com as pontas dos lábios. Mme.. Chauchat, porém, estava sentada numa atitude lassa, relaxada, com as costas redondas e os ombros caídos, e ainda pendia a cabeça para a frente, a ponto de deixar saliente a vértebra da nuca, por cima do decote da blusa branca. Também Pribislav mantinha a cabeça da mesma forma, mas ele era um aluno modelar que se conduzia com todas as honras – muito embora não fosse este o motivo por que Hans Castorp lhe pedira o lápis –, ao passo que era claro e evidente que a postura negligente de Mme.. Chauchat, o seu jeito de bater a porta e a indiscrição do seu olhar, tinham relação com a sua enfermidade; até mesmo se expressavam em tudo isso aquele desembaraço e aquelas vantagens, talvez pouco honrosas, mas deveras ilimitadas, de que se ufanara o jovem Sr. Albin...

Perturbaram-se os pensamentos de Hans Castorp, enquanto fitava as costas indolentes de Mme.. Chauchat. Cessando de ser pensamentos, transformaram-se em devaneios, nos quais penetrava como de longe o barítono arrastado do Dr. Krokowski, com os “r” brandos, pronunciados em surdina. Mas o silêncio que reinava na sala, a profunda atenção que parecia enfeitiçar a todos em redor, exerceram seus efeitos sobre ele e como que o despertaram da sua modorra. Olhou em torno de si... A seu lado achava-se o pianista de cabelos ralos, com a cabeça inclinada para trás, escutando de boca entreaberta e de braços cruzados. A Srta. Engelhart, a professora, sentada a alguma distância, tinha nos olhos uma expressão de avidez, e em ambas as faces manchas avermelhadas – fenômeno que se repetia nos rostos das demais senhoras que Hans Castorp observou. Notou-o nos semblantes da Srª. Salomon, ali, ao lado do Sr. Albin, e da mulher do cervejeiro, Srª. Magnus, aquela que perdia proteínas. Sobre a fisionomia da Srª. Stöhr, um pouco mais para trás, refletia-se um êxtase tão cheio de ignorância que até causava dó, enquanto a Srta. Levi, a da pele de marfim, recostando-se no espaldar, com os olhos semicerrados e as mãos espalmadas no regaço, pareceria uma defunta, não fosse o movimento de vaivém, forte e rítmico, do seu peito, o que lembrava a Hans Castorp uma figura de cera que ele vira tempos atrás num museu, e que tinha um mecanismo interior. Alguns pensionistas punham a mão em concha contra o ouvido, ou, pelo menos, fingiam esse gesto, ficando com a destra erguida em sua direção, como se a atenção os tivesse paralisado no meio do movimento. O Sr. Paravant, promotor público, um homem trigueiro de aparência sumamente robusta, até coçou a orelha com o dedo indicador, para fazer com que ouvisse melhor, e logo voltou a submetê-la à verborréia do Dr. Krokowski.

De que falava, afinal, o Dr. Krokowski? Que tema estava desenvolvendo? Hans Castorp procurou concentrar seu espírito, a fim de apanhar o fio da palestra, porém não o conseguiu imediatamente, visto não ter ouvido o princípio e ter perdido ainda outras passagens, depois, ao refletir acerca das costas lassas de Mme.. Chauchat. Tratava-se de uma potência... daquela potência... Numa palavra, tratava-se da potência do amor, “Liebe”. Claro! O assunto estava indicado pelo título geral do ciclo de conferências, e de que mais poderia falar o Dr. Krokowski, desde que esta era a sua especialidade? Verdade é que parecia um tanto estranho a Hans Castorp assistir, assim subitamente, a uma preleção sobre o amor, já que os cursos que ele seguira antes haviam-se ocupado apenas de assuntos como a transmissão de rodas denteadas nas construções náuticas. Como se arranjava o conferencista para expor em pleno dia, a um público de cavalheiros e senhoras, um assunto de natureza tão confidencial e espinhosa? O Dr. Krokowski expunha-o num linguajar misto, entre poético e erudito, rigorosamente científico e, ao mesmo tempo, vibrante como um hino. Esse tom despertava no jovem Hans Castorp a impressão de uma certa falta de ordem, mas talvez fosse justamente ele o que esquentava as faces das damas e fazia os senhores cocarem as orelhas. Em particular, o orador empregava o termo “Liebe” num sentido levemente ambíguo, de modo que nunca ficava claro o que se devia pensar das suas palavras, nem se elas se referiam a um sentimento piedoso ou a uma paixão carnal; vacilação que produzia uma espécie de enjôo. Nunca na vida ouvira Hans Castorp pronunciar esse vocábulo tantas vezes seguidas como nessa hora e nesse lugar, e ao refletir sobre esse fato, até achava que ele próprio jamais se servira dessa palavra e nem a ouvira de boca estranha. Talvez estivesse errado, mas, em todo caso, não lhe parecia que o vocábulo “Liebe” ganhasse com tanta repetição. Pelo contrário, essa sílaba e meia, já em si um tanto escabrosa, com as consoantes lingual e labial, e com a vogal balante no meio, acabou por se lhe tornar bastante repelente. Ligava-se a ela uma representação parecida com leite aguado, qualquer coisa entre branco e azulado, tanto mais insípida em comparação com todas as idéias vigorosas que o Dr. Krokowski estava apresentando a seu respeito. Pois era evidente que, na forma que ele usava, podiam-se dizer coisas bem fortes sem que o público saísse da sala. Absolutamente não se limitava a discutir, com uma espécie de tato inebriante, assuntos comumente conhecidos, mas nos quais a maioria das pessoas prefere não tocar. Destruía ilusões; implacavelmente fazia prevalecer o conhecimento; não deixava espaço para a fé sentimental na dignidade dos cabelos prateados ou na pureza angélica da criança tenra. Trazia, aliás, com a sobrecasaca, o mesmo tipo de colarinho amplo e as sandálias por cima das meias cinzentas, o que dava uma impressão de idealismo e princípios firmes, se bem que Hans Castorp se assustasse um pouco com esse aspecto. Valendo-se de livros e folhas soltas, espalhadas sobre a mesa, documentava o Dr. Krokowski as suas exposições por meio de toda espécie de paradigmas e anedotas, chegando até, às vezes, a recitar versos. Discursava acerca das formas tenebrosas do amor e das variedades excêntricas, dolorosas e sinistras, da sua índole e da sua onipotência. Entre todos os instintos existentes na natureza – disse ele – era o amor o mais vacilante e o mais ameaçado, fundamentalmente propenso à aberração e à perversão fatal. Nesse fato não havia nada de surpreendente, uma vez que esse impulso poderoso não era uma coisa simples, senão que infinitamente composta por natureza. Por mais legítimo que ele parecesse no seu conjunto, o que o compunha era justamente uma série de perversões. Mas, desde que acertadamente – assim continuou o conferencista –, desde que com muita razão se negava que do absurdo das partes fosse deduzido o absurdo do todo, era inevitável a conclusão que atribuía parte daquela legitimidade do todo, senão toda ela, também à perversão que compunha esse todo. Era isso uma exigência da lógica, da qual, segundo o orador, os ouvintes deviam compenetrar-se. Havia resistências íntimas e corretivos psíquicos, instintos decentes e coordenadores, de um caráter que o Dr. Krokowski quase se sentia tentado a qualificar de burguês, e sob o efeito compensador e restritivo desses instintos as partes perversas eram fundidas num todo útil e irrepreensível; processo freqüente e simpático, cujo resultado, porém (como o orador acrescentou com certo desdém), não tinha nenhuma importância para o médico e o filósofo. Em outros casos, entretanto, malograva o referido processo; não havia jeito de levá-lo a bom termo. E quem – assim perguntou o Dr. Krokowski -seria capaz de dizer se esses últimos casos não eram os mais nobres, os psicologicamente mais valiosos? Existia então uma tensão extraordinária, uma paixão que ultrapassava as medidas habituais, burguesas, e essa tensão se fazia sentir entre os dois grupos de forças que eram a necessidade de amor e os impulsos contrários, dentre os quais cumpria mencionar a vergonha e o asco. Travada nos abismos da alma, essa luta impedia, nos ditos casos, que os instintos extraviados chegassem a ser abrigados, protegidos e moralizados, daquele modo que conduzia à harmonia usual e à vida erótica regular. E como terminava esse combate – pois tratava-se de um combate – entre as potências da castidade e do amor? Terminava, aparentemente, com a vitória da castidade. O medo, as conveniências, a repugnância pudica, o trêmulo desejo de pureza – todos eles oprimiam o amor, mantinham-no agriIhoado, nas trevas, davam acesso à consciência e à atividade, quando muito a uma parte, jamais, porém, ao todo múltiplo e vigoroso das suas reivindicações confusas. No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Assim perguntou o Dr. Krokowski, e deixou o seu olhar passar ao longo das filas, como se esperasse seriamente uma resposta dos seus ouvintes. Ora, essa resposta teria de ser dada por ele mesmo, que já dissera tantas outras coisas. Ninguém, exceto ele, sabia-a; mas ele não falharia, isso se notava na sua expressão. Com os seus olhos ardentes, sua palidez de cera, sua barba negra, e as sandálias de monge por cima das meias de lã cinzenta, parecia simbolizar, na sua própria pessoa, aquela luta entre a castidade e a paixão de que acabava de falar. Ao menos era essa a impressão de Hans Castorp, enquanto, como todos os demais, esperava com suma curiosidade ficar sabendo sob que forma voltava o amor rechaçado. As mulheres mal se atreviam a respirar. O Promotor Paravant mais uma vez cocou a orelha, para que, no instante decisivo, ela se tornasse aberta e acolhedora. Eis o que disse o Dr. Krokowski:

– Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado.

Agora sabiam o segredo, se bem que nem todos fossem capazes de apreciá-lo devidamente. Um suspiro percorreu a sala, e o Promotor Paravant meneou a cabeça num gesto significativo de aprovação, enquanto o Dr. Krokowski prosseguia desenvolvendo a sua tese. Hans Castorp, por sua vez, baixou a cabeça, a fim de refletir sobre o que ouvira e de perguntar-se a si próprio se compreendera. Mas ele tinha pouca prática nesse tipo de exercícios mentais e, além disso, pouca presença de espírito, devido àquele passeio infeliz. Assim, sua atenção distraía-se facilmente, e de fato se concentrou logo nas costas de Mme.. Chauchat, que ele via à sua frente, bem como no braço que se elevava e inclinava para trás, para que a mão, diante dos olhos de Hans Castorp, sustentasse, de baixo, os cabelos em trança.

Era angustiante ter essa mão tão perto dos olhos. Quisesse ele ou não, tinha de olhá-la, estudá-la com todos os defeitos e particularidades humanas que lhe eram inerentes, como se ela estivesse sob uma lente. Não, não havia nada de aristocrático nessa curta mão de colegial, com as unhas aparadas de qualquer jeito. Nem sequer se tinha certeza de que estivesse perfeitamente limpa nos nós dos dedos, e a pele ao lado das unhas estava roída – a esse respeito não existia a menor dúvida. Hans Castorp fez uma careta, e todavia os seus olhos continuaram fixos na mão de Mme.. Chauchat. Passou-lhe pelo cérebro uma vaga e incompleta lembrança daquilo que dissera o Dr. Krokowski sobre as resistências burguesas que se opunham ao amor... O braço era mais belo, esse braço suavemente dobrado atrás da cabeça, e quase desnudo, já que a fazenda das mangas, uma levíssima cambraia, era mais fina do que a da blusa, de maneira que apenas propiciava uma espécie de vaporosa auréola ao braço, que sem ela talvez fosse menos gracioso. Era ele ao mesmo tempo delicado, gordo e -segundo todas as probabilidades – frio ao tato. No que lhe dizia respeito, absolutamente não entravam em ação as referidas resistências burguesas.

Hans Castorp sonhava, os olhos fitos no braço de Mme.. Chauchat. Como se vestiam essas mulheres! Mostravam isso e aquilo da nuca e do peito; glorificavam os braços por meio de gaze transparente... Agiam assim em todo o mundo para excitar o desejo ansioso dos homens. Deus do Céu, que bela era a vida! Era bela justamente pela naturalidade com que as mulheres se vestiam de um modo tão sedutor; pois isso era mesmo natural e de tal forma comum, tão geralmente admitido, que a gente mal o notava e o tolerava inconscientemente, sem fazer grande caso. Mas cumpria pensar nisso – ponderou Hans Castorp – para encontrar um genuíno prazer na vida e não se esquecer que tal modo de trajar era uma instituição deliciosa e, no fundo, quase feérica. Claro que havia uma finalidade definida no fato de as mulheres terem o direito de se vestir dessa forma maravilhosa e mágica, sem que, com isso, infringissem as regras da decência: tratava-se da próxima geração, da procriação da raça humana; sim, senhor! Mas quando a mulher estava interiormente enferma, quando não era, de maneira alguma, apta para a maternidade – que dizer então? Haveria ainda algum sentido no uso de mangas de gaze que despertassem a curiosidade dos homens quanto a um corpo interiormente carcomido? Era evidente que isso era absurdo e deveria ser considerado pouco correto e até mesmo proibido. Pois no interesse de um homem por uma mulher enferma havia tão pouco sentido quanto... bem, quanto houvera naquele interesse silencioso que Hans Castorp sentira por Pribislav Hippe. Essa comparação não deixava de ser estúpida, e a reminiscência, um tanto penosa. Mas elas se haviam apresentado espontaneamente, sem que ninguém as chamasse. De resto, os seus sonhos foram interrompidos nesse ponto, sobretudo porque a sua atenção se sentiu novamente atraída pelo Dr. Krokowski, cuja voz se elevara de forma impressionante. Realmente, lá atrás da mesinha estava ele, com os braços abertos e a cabeça obliquamente inclinada, e apesar da sobrecasaca parecia-se com um Cristo na cruz!

Patenteou-se que o Dr. Krokowski, pelo fim da sua conferência, fazia intensa propaganda a favor da dissecação das almas, e com os braços abertos convidava todo mundo para vir a ele. Vinde a mim todos os que estão aflitos e carregados de culpa, disse o orador, embora com outras palavras. E não deixou nenhuma dúvida quanto à sua convicção conforme a qual todos, sem exceção, estavam nessas condições. Falou ainda do sofrimento oculto, do pudor e da mágoa, e dos efeitos benfazejos da análise; celebrou a iluminação do inconsciente, preconizou a reconversão da doença em um sentimento consciente, exortou à confiança e prometeu a cura. A seguir deixou cair os braços, ergueu a cabeça, juntou a papelada de que se servira durante a conferência, apanhou a pilha com a mão esquerda, e apertando-a ao ombro direito, com um gesto tipicamente professoral, afastou-se pelo corredor.

Todos se levantaram, empurrando as cadeiras para trás, e começaram a dirigir-se lentamente para a mesma saída pela qual o doutor abandonara a sala. Era como se todos, num movimento concêntrico, convergissem para ele, de todos os lados, hesitantes, involuntariamente, e todavia numa unanimidade surda, como a multidão que seguia atrás do flautista de Hamelin. Hans Castorp permaneceu parado no meio da torrente, agarrando com a mão o espaldar da sua cadeira. “Estou aqui só de visita”, pensou. “Ando bem de saúde e, graças a Deus, essas coisas não me dizem respeito. Quando se realizar a próxima conferência, já não estarei aqui...” Viu como Mme.. Chauchat saía a passo arrastado, com a cabeça caída para a frente. “Será que ela também se submete ao bisturi do analista?”, pensou, enquanto o seu coração se punha a martelar... Com isso, nem notou que Joachim se aproximava dele através das cadeiras, de modo que estremeceu nervosamente quando o primo lhe dirigiu a palavra.

– Você chegou no último instante – disse Joachim. – Foi muito longe? Que tal o passeio?

– Oh, bonzinho – respondeu Hans Castorp. – Caminhei bastante longe, sim senhor! Mas devo confessar que o passeio me trouxe menos do que eu esperava. Talvez fosse prematuro ou até prejudicial para mim. Por enquanto não farei outro.

Joachim não perguntou se a conferência lhe agradara ou não. Hans Castorp também não emitiu a sua opinião sobre esse ponto. Como por acordo tácito, nem então nem depois aludiram à conferência.

 

         Dúvidas e ponderações

Na terça-feira já fazia uma semana que o nosso herói se achava ali em cima. Por isso encontrou uma conta no seu quarto, ao regressar do passeio matinal; a conta do sanatório, relativa à sua primeira semana, um documento comercial de execução cuidadosa, apresentado num envelope verde, e cujo cabeçalho era enfeitado com uma vista sedutora do edifício do Berghof, ao passo que à esquerda uma coluna estreita apresentava um pequeno excerto do prospecto, destacando-se em negrito a referência ao “tratamento psíquico segundo os princípios mais modernos”. Os itens, redigidos caligraficamente, davam um total de cento e oitenta francos redondos: doze francos por dia pela pensão e os cuidados médicos, e oito pelo quarto; acresciam a isso vinte francos de “entrada” e dez pela desinfecção do quarto; outras despesas menores, referentes a roupa, cerveja e ao vinho tomado por ocasião do primeiro jantar, arredondavam a soma. Ao conferir a conta em companhia de Joachim, Hans Castorp não encontrou nada de que reclamar.

– É verdade que não faço uso dos cuidados médicos – disse. – Mas isso é comigo. Estão compreendidos no preço da pensão e não posso exigir que os descontem. Como poderiam fazê-lo?... Quanto à desinfecção, são meio careiros. Não é possível que tenham gasto dez francos de H2CO, para fumigar os vestígios da americana. Mas, em geral, acho que é antes barato do que caro, em consideração ao que oferecem. – Foram, pois, antes do café da manhã, à “administração”, a fim de liquidar a conta.

A “administração” achava-se no rés-do-chão. Quem seguia além do vestíbulo o corredor que passava ao lado do vestiário, das cozinhas e das despensas, não se podia enganar de porta, tanto mais que esta se distinguia por uma placa de porcelana. Com grande interesse, Hans Castorp travou ali conhecimento com o centro comercial da empresa. Era um verdadeiro pequeno escritório. Uma datilógrafa se achava em plena atividade, e três funcionários estavam inclinados sobre as escrivaninhas, enquanto na saleta ao lado um senhor que devia ocupar o posto de chefe ou gerente traba­lhava numa secretária colocada no meio da peça, limitando-se a lançar por cima dos óculos um olhar frio e calculista sobre os pensionistas. Estes foram despachados num guichê, onde um funcionário trocou uma nota, pôs o dinheiro na caixa e passou o recibo. Enquanto isso, os primos guardavam aquela atitude séria e modesta, silenciosa e até submissa, que convém a jovens alemães, acostumados a testemunhar a qualquer escritório o respeito devido a autoridades e repartições. Mas, depois de terem saído da “administração” a caminho do café da manhã, e mais tarde, no decorrer do dia, conversaram um pouco sobre a organização da empresa Berghof. Joachim, na sua qualidade de “indígena” in­formado, soube responder às perguntas de Hans Castorp.

O Dr. Behrens não era de maneira alguma proprietário nem arrendatário do estabelecimento, se bem que à primeira vista se pudesse ter essa impressão. Acima e atrás dele havia potências invisíveis que se manifestavam somente até certo ponto, sob a forma do escritório. Existia um conselho fiscal, uma sociedade anônima, da qual seria alto negócio fazer parte, uma vez que, segundo a informação fidedigna de Joachim, distribuía anualmente polpudos dividendos aos acionistas, e isso apesar dos salários muito altos dos médicos e dos princípios bastante liberais de administração. O conselheiro áulico não era, por conseguinte, autônomo; não passava de um agente, de um funcionário, de um “parente” das potências superiores, embora sendo o primeiro e o supremo; era a alma do estabelecimento e exercia uma influência decisiva sobre toda a organização, inclusive a intendência, ainda que, na função de médico-diretor, ficasse isento de qualquer ocupação com a parte comercial do sanatório. Natural do noroeste da Alemanha, chegara, fazia anos, a essa posição, contra o seu gosto e plano de vida. Fora levado para Davos por sua mulher, cujos restos mortais havia muito repousavam no cemitério da aldeia, aquele cemitério pitoresco de Davos-Dorf, situado na encosta da direita, ali, mais atrás, perto da entrada do vale. Devia ter sido uma mulher encantadora, ainda que astênica e com olhos excessivamente grandes, a julgar pelas fotografias que se encontravam em toda parte na moradia do médico, e pelos retratos a óleo, devidos ao pincel diletante do marido e espalhados pelas paredes. Depois de lhe ter dado um casal de filhos, seu corpo franzino, acossado pela febre, sentira-se atraído para essas regiões, onde, dentro de poucos meses, sucumbira à consunção. Dizia-se que Behrens, que a adorara, fora de tal forma ferido por esse golpe que, durante algum tempo, tomado de melancolia e esquisitice, chamara a atenção do público na rua pelos seus risinhos, monólogos e gestos descontrolados. Nunca mais regressara ao seu ambiente primitivo, mas ficara ali, decerto porque não queria afastar-se do túmulo. Mas talvez a razão determinante fosse de caráter menos sentimental: a enfermidade atacara a ele próprio, e segundo a sua convicção científica, o lugar que lhe cabia era ali mesmo. Por isso instalara-se em Davos, como um daqueles médicos que são companheiros do infortúnio de quem recebe os seus cuidados, que não combatem a enfermidade, independentes dela, na plenitude da sua liberdade e inteireza pessoal, embora estejam, eles mesmos, marcados pela doença; caso estranho, sem dúvida, mas que não é muito raro e tem inegavelmente suas vantagens e seus inconvenientes. A camaradagem entre o médico e o enfermo merece plena aprovação, e pode-se admitir que só quem sofre é capaz de ser salvador e guia dos que sofrem também. Mas será possível um verdadeiro domínio espiritual sobre uma potência, exercido por uma pessoa que, ela própria, se conta entre os seus escravos? Pode dar liberdade quem está avassalado? Para o sentimento ingênuo, o médico enfermo não deixa de ser um paradoxo, um fenômeno problemático. Quem sabe se a experiência pessoal não lhe turva e confunde o conhecimento científico da doença, tanto quanto o enriquece e firma moralmente? Não encara a enfermidade face a face, com o olhar franco de um adversário; vê-se coibido, não toma uma posição clara, e, com toda a cautela que o tema exige, deve-se ventilar a questão de saber se uma pessoa que pertence ao mundo da doença pode interessar-se pela cura ou ao menos pela conservação de outrem na mesma medida que um homem sadio...

Foi uma parte dessas dúvidas e ponderações que Hans Castorp externou à sua maneira, enquanto conversava com Joachim acerca do Berghof e do seu diretor-médico. Mas Joachim objetou que não se sabia se o Dr. Behrens ainda estava enfermo; provavelmente já se curara. Havia muito tempo que começara a clinicar ali; no início como médico particular, adquirindo logo boa reputação como auscultador de ouvido fino e especialista muito seguro de pneumotomia. Depois, o Berghof procurara a sua colaboração: o estabelecimento ao qual o Dr. Behrens se ligara estreitamente fazia mais de um decênio... Ali, nos fundos, ao extremo da ala noroeste do sanatório, ficava situada a sua habitação – o Dr. Krokowski residia não longe dele – e aquela senhora da antiga nobreza, a enfermeira-chefe, à qual Settembrini se referira daquela forma sarcástica, e que Hans Castorp só conhecia de vista, dirigia a casa do viúvo. De resto, o conselheiro áulico vivia sozinho, pois o filho estudava em universidades alemãs, e a filha casara-se com um advogado, na parte francesa da Suíça. O jovem Behrens vinha às vezes de visita durante as férias, o que já ocorrera uma vez desde a chegada de Joachim ao sanatório. O primo contou que, quan­do isso acontecia, havia grande agitação entre as damas do estabelecimento; as temperaturas subiam; ciumeiras provocavam disputas e querelas nos alpendres de repouso, e na ficha especial do Dr. Krokowski aumentava a freqüência...

Para a sua clínica particular, o assistente recebera uma peça especial, que se encontrava – como a grande sala de consulta, o laboratório, a sala de operações e o serviço de radiografia – no bem iluminado subsolo do edifício. Fala­mos de subsolo, porque a escada de pedra que conduzia do rés-do-chão para ali despertava realmente a idéia de que se descia a uma espécie de porão, o que, no entanto, era um engano, pois, em primeiro lugar, o rés-do-chão estava situado bastante alto, e ademais o Berghof estava construído num terreno em declive, na encosta da montanha; assim, as peças que compunham esse porão davam para o jardim e o vale. Essas circunstâncias contradiziam e compensavam, em certo modo, o efeito e o sentido daquela escada: quem pensava descer pelos seus degraus, para um lugar mais baixo do que o nível do solo, encontrava-se depois da descida ainda ao nível da terra ou, quando muito, alguns pés abaixo dele – impressão que divertiu Hans Castorp, quando, certa tarde, em que seu primo quis fazer-se pesar pelo massagista, acompanhou-o a essa esfera “subterrânea”. Reinava ali uma claridade e um asseio de hospital; tudo era branco sobre branco, e as portas cintilavam com a alvura do esmalte, inclusive a que conduzia ao gabinete de consultas do Dr. Krokowski, na qual o cartão de visita do sábio se achava fixado por meio de um percevejo. Para chegar a essa porta, era preciso descer mais dois degraus, a partir do corredor, de maneira que a peça situada atrás dela tinha um caráter de calabouço. Ficava ela à direita da escada, na extremidade do corredor, e Hans Castorp observava-a com atenção especial, enquanto ia de cá para lá, esperando por Joachim. Viu sair uma pessoa. Era uma senhora, chegada recentemente, cujo nome ele ainda não conhecia, mulher baixinha, graciosa, com franjas na testa e com brincos de ouro. Ao subir os dois degraus, inclinou-se profundamente, arregaçando a saia, ao passo que a outra mão, adornada de anéis, apertava contra a boca um lencinho. Os olhos grandes, turvos, assustados, olhavam para cima, sem nada ver. Assim se dirigiu apressadamente para a escada, a passos curtos, com a saia a farfalhar. De repente estacou, como se se lembrasse de alguma coisa. A seguir pôs-se novamente a andar e desapareceu na escadaria, sempre inclinada para a frente e sem tirar o lencinho dos lábios.

Quando a porta se abriu, tornou-se patente que a peça, atrás dela, estava muito mais escura do que o corredor branco. A luminosidade de hospital, evidentemente, não chegava até ali. Conforme Hans Castorp verificou, reinava no gabinete analítico do Dr. Krokowski uma meia-luz velada, um profundo crepúsculo.

 

         Conversas à mesa

Durante as refeições, na sala pintalgada, o jovem Castorp sentiu certo embaraço ao notar que daquele passeio, realizado por conta própria, lhe ficara o referido tremor de cabeça peculiar ao avô. Justamente à mesa, esse tique se produzia com certa regularidade; não havia jeito de impedi-lo, e era difícil ocultá-lo. Além do recurso de apoiar o queixo dignamente na gravata, do qual afinal não se podia servir a todo instante, Hans Castorp inventou todo tipo de meios de disfarçar esse seu fraco. Por exemplo, mantinha a cabeça em constante movimento, conversando com as vizinhas ora da direita ora da esquerda; ou, quando levava a colher à boca, fincava o antebraço esquerdo na mesa, a fim de firmar a sua postura; também apoiava o cotovelo na mesa, nos intervalos entre os pratos, e escorava a cabeça com a mão, se bem que a ele mesmo essa atitude se afigurasse como uma falta de educação, admissível, apenas e a rigor, num ambiente desregrado de enfermos. Mas tudo isso não deixava de ser penoso, e pouco faltava para que lhe tirasse por completo o gosto das refeições, que ele normalmente apreciava muito, em virtude das sensações e coisas notáveis que acarretavam.

No entanto, esse fenômeno ignominioso contra o qual Hans Castorp tanto lutava, não era – ele mesmo o sabia bem – de origem simplesmente física; não o provocara apenas o ar alpino, nem o esforço de aclimatação; ele expressava uma agitação íntima e estava ligado, de um modo direto, a certas sensações e episódios marcantes.

Mme.. Chauchat chegava quase sempre com atraso à mesa, e enquanto ela não estava presente, Hans Castorp não podia ficar sentado e manter os pés tranqüilos, porque esperava o estrondo da porta de vidro, que invariavelmente acompanhava a entrada da moça, e não ignorava que naquele momento se sobressaltaria e sentiria seu rosto gelar-se, como de fato acontecia com a mais absoluta regularidade. No começo, nunca deixara de voltar furiosamente a cabeça; seguia com olhares irados o caminho da desleixada retardatária até a mesa dos “russos distintos”; às vezes também murmurava, entre dentes, qualquer praga ou exclamação indignada. A essa altura dos acontecimentos já não fazia nada disso; limitava-se a inclinar a cabeça sobre o prato, mordendo os lábios, ou com um movimento propositado e artificial voltava-a para outro lado, pois parecia-lhe que já não tinha direito de encolerizar-se; não se sentia bastante livre para censurar; pelo contrário, tinha a impressão de ser cúmplice da conduta escandalosa, de participar da responsabilidade perante os demais – em poucas palavras: estava com vergonha; teria sido inexato dizer que se envergonhava do comportamento de Mme.. Chauchat; não, ele, individualmente, sentia vergonha perante as outras pessoas, o que, aliás, era mais que desnecessário, visto ninguém na sala se preocupar com o relaxamento de Mme.. Chauchat, nem tampouco com a vergonha de Hans Castorp, com exceção, talvez, da professora, a Srta. Engelhart, sua vizinha da direita.

Essa criaturinha ridícula compreendera que, graças à sensibilidade de Hans Castorp relativa a portas fechadas com estrondo, se originara uma certa relação afetiva entre o seu jovem companheiro de mesa e aquela russa; sabia, além disso, que pouco importava o caráter de tal relação, contanto que ela existisse, e que a indiferença fingida de Hans Castorp – bastante mal fingida por falta de prática e talento de ator – não significava um enfraquecimento, senão um reforço dos laços, uma fase mais avançada dessa relação. Sem ter, para a sua própria pessoa, as mínimas pretensões ou esperanças, a Srta. Engelhart expandia-se incessantemente em encômios desinteressados a Mme.. Chauchat. O estranho era que Hans Castorp perfeitamente notou e reconheceu, senão logo, ao menos com o tempo, o caráter atiçador dessa insistência, que até lhe causava repulsa; mas, apesar disso, deixava-se docilmente influenciar e seduzir por ela.

– Pronto! – disse a solteirona. – Aí está ela. Nem é preciso levantar os olhos para saber quem entrou. Claro, ali vai ela. Que jeito engraçado de andar! Exatamente como um gato que se encaminha para o prato de leite! Eu gostaria de trocar de lugar com o senhor, para que lhe fosse possível contemplá-la tão desembaraçada e comodamente como eu. Compreendo que o senhor não pode virar a cabeça a cada instante para olhá-la. Deus sabe o que ela acabaria imaginando se o notasse... Agora cumprimenta a sua gente... O senhor deveria ver isso; é delicioso observá-la. Quando ela sorri e conversa como neste momento, tem uma covinha na face, mas só quando ela quer. Sim, senhor, é mesmo um encanto de mulher, uma criaturinha muito mimada, e isso explica seu relaxamento. A gente tem de adorar pessoas assim, queira-se ou não. Mesmo que nos aborreçam pelo seu desleixo, a própria irritação é um motivo a mais para simpatizarmos com elas. É uma grande felicidade, essa de exasperar-se e de se ver forçado a amar, apesar de tudo...

Assim murmurava a professora, tapando a boca com a mão, para que os outros não pudessem ouvi-la, e o rubor héctico das suas bochechas de solteirona manifestava a temperatura anormal de seu corpo. O palavrório excitante penetrava o pobre Hans Castorp até a medula. Uma certa falta de iniciativa, que lhe era peculiar, criava nele a necessidade de ouvir confirmar por um terceiro que Mme.. Chauchat era uma mulher sedutora. Ademais, desejava o jovem ser animado, da parte de uma pessoa estranha, a entregar-se a sentimentos aos quais a sua razão e a sua consciência opunham uma resistência incômoda.

Por outro lado, essas conversas eram pouco fecundas em informações positivas. Conquanto tivesse as melhores intenções do mundo, a Srta. Engelhart era incapaz de contar pormenores exatos a respeito de Mme.. Chauchat; não sabia mais do que todos os outros no sanatório; não a conhecia, nem sequer tinha amigos em comum com ela, e a única coisa que lhe poderia dar vantagem aos olhos de Hans Castorp era ser natural de Königsberg, perto da fronteira russa, e entender algumas palavras de russo – méritos insignificantes, mas que Hans Castorp estava disposto a considerar como uma espécie de relação longínqua com Mme.. Chauchat.

– Ela não usa anel – disse ele. – Não usa aliança, como vejo. A senhora me explique isso. Não me disse que é casada?

A professora parecia em apuros, como se estivesse metida num beco sem saída e precisasse desculpar-se. Tão responsável se sentia por Mme.. Chauchat perante Hans Castorp!

– O senhor não deve ligar a isso – disse então. -sei de boa fonte que ela é casada. A esse respeito não pode haver a mínima dúvida. Se ela se faz tratar por madame, não é para se dar ares de importância, como é hábito de certas senhoritas estrangeiras, quando já passaram da primeira juventude. Nós todos sabemos positivamente que ela tem um marido em algum lugar da Rússia. É fato conhecido em toda parte. Seu nome de solteira é diferente, é um nome russo e não francês, qualquer coisa em anov ou ukov. Já me disseram, mas me esqueci. Se o senhor quiser, vou me informar. Com certeza há pessoas por aqui que sabem. Uma aliança? Não, ela não usa aliança; eu também já reparei nisso. Meu Deus, talvez não lhe assente bem, talvez lhe faça a mão larga demais. Ou pode ser que ela julgue o uso da aliança costume muito burguês. Andar assim com uma argola lisa no dedo – só falta o molho de chaves num cestinho... Não, senhor, ela é muito moderna para isso. Eu sei positivamente que todas as mulheres russas têm no seu modo de ser qualquer coisa de liberdade e desembaraço. E esse tipo de anel é tão prosaico, tão negativo! É, por assim dizer, um símbolo da servidão. Dá às mulheres um quê de freira, faz delas umas florzinhas não-me-toques. Não me admiro de que Mme.. Chauchat não queira ser assim... Uma mulher encantadora, na flor da idade!... Provavelmente não tem vontade nem vê motivos para mostrar os seus laços conjugais a todo cavalheiro que lhe aperte a mão...

Deus do céu! Com que ardor defendia a professora a causa de Mme.. Chauchat! Hans Castorp olhou-a assustado, mas ela lhe sustentou o olhar, entre acanhada e teimosa. Depois, ambos permaneceram calados durante alguns momentos, como para se refazerem. Hans Castorp comia, procurando reprimir o tremor da cabeça. Finalmente disse:

– E o marido? Não se preocupa com ela? Não vem nunca visitá-la? Que é que ele faz?

– É funcionário público, na administração russa, e vive numa região perdida, em Daghestan, sabe? Fica muito para o leste, além do Cáucaso. Foi mandado para lá. Não, senhor, eu já lhe disse que ninguém jamais o viu aqui em cima, e já faz três meses desde que ela voltou para cá.

– Não é então a primeira vez que ela está aqui?

– Oh, não! É a terceira. E nos intervalos vai a lugares semelhantes... Não, o que se dá é justamente o contrário: às vezes ela faz uma visita ao marido; não com muita freqüência; só uma vez por ano passa algum tempo com ele. Pode-se dizer que vivem separados, e que ela apenas o visita de vez em quando.

– Claro, se ela está doente...

– Está doente, sim. Mas não a tal ponto que haja necessidade de viver constantemente em sanatórios e separada do marido. Devem existir outras razões mais decisivas. Pode ser que ela não goste de Daghestan, um ermo selvagem e distante, para lá do Cáucaso. Nisso não há nada de surpreendente. Mas também o marido deve ter alguma culpa por ela não se sentir bem a seu lado. Embora tenha um nome francês, é um funcionário público russo, e esses funcionários russos, o senhor pode acreditar, são uns tipos bastante rudes. Certa vez encontrei um deles, que tinha suíças grisalhas e uma cara bem vermelha... São venais ao extremo, e todos eles têm um fraco pela vodca, aquela aguardente deles, sabe? ... A fim de guardar as aparências fazem-se servir qualquer coisinha para comer, uns cogumelos avinagrados ou um pedacinho de esturjão, e acompanham isso com imensas quantidades de bebidas alcoólicas. É o que chamam de “colação”...

– A senhora descarrega toda a culpa sobre ele – disse Hans Castorp. – Mas nós aqui ignoramos se não é também devido a ela que os dois não se acertam. Temos que ser justos. Quando a vejo aí e me lembro daquele hábito de bater a porta... Ora, ela não me parece ser um anjinho. Não me leve a mal essa opinião, mas desconfio dela. A senhora não é imparcial. Está cheia até aqui de preconceitos a favor dessa mulher...

De vez em quando, ele expressava-se dessa maneira. Com uma astúcia no fundo alheia à sua natureza, fingia crer que o entusiasmo que a Srta. Engelhart manifestava por Mme.. Chauchat não era o que era em realidade, embora soubesse muito bem o contrário; fazia como se esse entusiasmo constituísse um fato engraçado, sui generis, do qual ele mesmo, o independente Hans Castorp, pudesse servir-se para mexer com a pobre solteirona, a uma distância fria e humorística. E como tivesse certeza de que a sua cúmplice admitiria e toleraria essa atrevida desfiguração das coisas, não se arriscava demais.

– Bom dia, senhorita – dizia, por exemplo. – Passou bem a noite? Espero que tenha sonhado com a sua bela Minka... Vejam só, basta mencionar esse nome e logo a senhorita está toda corada. Está completamente caidinha por ela; não vale a pena negá-lo...

E a professora, realmente ruborizada, inclinava-se profundamente sobre a xícara e cochichava com o canto esquerdo da boca:

– Não, senhor, isso não se faz, Sr. Castorp! Realmente não é gentil da sua parte embaraçar-me desse jeito com as suas alusões. Todo mundo já repara que estamos falando dela e que o senhor me diz coisas que me fazem corar.

Que jogo estranho, esse ao qual se entregavam os dois vizinhos de mesa! Ambos sabiam que estavam mentindo dupla e triplamente, que Hans Castorp caçoava da professora só para poder falar de Mme.. Chauchat, e no entanto encontrava um prazer mórbido e indireto nas gracinhas que dirigia à solteirona; esta, por sua vez, admitia-as, primeiro por um instinto de medianeira, segundo porque, para agradar ao jovem, de fato se apaixonara um pouco por Mme.. Chauchat, e finalmente porque sentia uma satisfação mesquinha quando Hans Castorp mexia com ela e a fazia corar. Ambos sabiam disso, sabiam um do outro, sabiam também que nenhum deles ignorava os pensamentos do outro; e tudo isso era complexo e pouco limpo. Mas, embora Hans Castorp em geral sentisse repugnância de coisas complexas e pouco limpas, e a sentisse também nesse caso particular, continuava, sem embargo, a chafurdar nesse elemento turvo, tranqüilizando-se com a idéia de estar ali em cima de visita e de partir dentro em breve. Com uma objetividade afetada, falava, à maneira de um conhecedor, sobre o físico da mulher “negligente”, constatando que ela era muito mais bonita e mais jovem vista de frente do que de perfil; que seus olhos estavam demasiado distantes entre si, e que a sua postura deixava muito a desejar, ao passo que seus braços eram realmente formosos e de “linhas suaves”. E ao dizer essas coisas, procurava disfarçar o tremor da cabeça e verificava ao mesmo tempo que a professora se dava conta dos seus esforços vãos. Teve até o máximo desgosto de notar que ela também ficava com a cabeça a tremer. Fora por mera política, por uma astúcia pouco natural, que ele chamara Mme.. Chauchat de “bela Minka”, pois que assim tinha uma oportunidade para fazer novas perguntas:

– Eu disse “Minka”, mas como se chama ela em realidade? Quero dizer, qual é o primeiro nome? A senhorita, que está apaixonada por ela, deveria sabê-lo.

A professora pôs-se a refletir.

– Espere um pouco – disse. – Eu sabia o nome. Não era Tatiana? Não, não era, e Natacha tampouco. Natacha Chauchat? Não, não foi isso que me disseram. Agora sei! Ela se chama Avdótia, e se não é assim, é qualquer coisa parecida. Tenho certeza de que não é nem Kátienka nem Ninotchka. Francamente, não me lembro mais. Mas será fácil eu me informar, se o senhor fizer questão...

Com efeito, no dia seguinte ela sabia o nome. Pronunciou-o na hora do almoço, quando a porta envidraçada se fechou com estrondo. A Srª. Chauchat chamava-se Clávdia.

Hans Castorp não compreendeu imediatamente. Fez repetir e soletrar o nome, antes de gravá-lo na memória. Depois repetiu-o diversas vezes, enquanto fitava Mme.. Chauchat com os olhos injetados, como para ver se lhe ficava bem.

– Clávdia? – disse ele. – Sim, sim, é bem possível que ela se chame assim. O nome combina com ela. – Não dissimulou o prazer que lhe causava essa informação de caráter íntimo. Dali por diante só falava de “Clávdia” ao referir-se a Mme.. Chauchat. – Parece-me que a sua “Clávdia” faz bolinhos de pão. Não acho isso muito distinto – dizia então, e a professora respondia: – Depende de quem os faz. Em Clávdia fica bem.

Sim, essas refeições na sala das sete mesas tinham um extraordinário encanto para Hans Castorp. Lastimava quando terminava uma delas, mas consolava-se com o pensamento de que em breve, dentro de duas horas ou pouco mais, voltaria a esse mesmo lugar, e quando se via novamente sentado, era como se nunca se tivesse levantado. Que acontecia no intervalo? Nada. Um rápido passeio até o curso d'água ou ao bairro inglês, e algum repouso na espreguiçadeira. Isso não representava nenhuma interrupção séria, nenhum obstáculo que fosse difícil vencer. Seria diferente se se interpusessem trabalhos ou preocupações ou dificuldades que não se deixassem menosprezar nem afastar do pensamento. Mas nada disso existia no plano inteligente e feliz da vida no Berghof. Ao levantar-se de uma refeição tomada em comum, Hans Castorp já se podia alegrar imediatamente com o antegozo da próxima – contanto que seja próprio o verbo “alegrar-se” para aquele tipo de expectativa com que ele sempre aguardava o novo encontro com Mme.. Chauchat, e não se lhe dê um sentido por demais leviano, jovial, ingênuo e vulgar. Talvez o leitor se incline a admitir e a julgar adequadas unicamente expressões de caráter jovial e vulgar, quando se trata da pessoa de Hans Castorp e da sua vida íntima; lembramos-lhe, porém, que o nosso herói, como jovem sensato e consciencioso, não podia simplesmente “alegrar-se” com a vista e a proximidade de Mme.. Chauchat. Sabendo desse fato, constatamos que, se alguém tivesse formulado essa idéia na sua presença, ele, dando de ombros, teria rejeitado o referido verbo.

Há ainda um pormenor digno de menção: ele começou a tratar com desdém certos meios de expressão. Com as faces ardendo, andava a cantar; cantarolava de si para si, pois o seu estado de alma era sensitivo e musical. Trauteava uma cançãozinha que ouvira, Deus sabe onde, numa reunião social ou num concerto de beneficência, cantada por uma voz de soprano pouco volumosa. Era uma terna ninharia que começava assim:

 

         “No fundo de minha alma ecoa

           A mais milagrosa canção...”

 

E ele já estava a ponto de acrescentar:

 

         “De teus lábios ela voa

           E entra em meu coração”

 

quando, subitamente, encolhia os ombros, dizendo: – Ridículo! – Chamando a delicada canção de insípida, piegas e adocicada, condenava-a com certa severidade mesclada de melancolia. Em tal cantiga cheia de ternura podia encontrar satisfação e prazer qualquer rapaz que, após ter “dado” – como se costuma dizer – “o seu coração”, num impulso lícito, sossegado e esperançoso, a uma pequena sadia, lá de baixo, se abandonasse, dali por diante, a sentimentos igualmente lícitos, futurosos, razoáveis e, no fundo, bem alegres. Quanto a ele, porém, e à sua relação com Mme.. Chauchat – a palavra “relação” vai por conta de Hans Castorp, e declinamos de toda responsabilidade – decididamente não lhes convinha uma cantiga dessas. Estendido na sua cadeira, sentia-se disposto a sentenciá-la com o veredicto estético de “Bobagem!” No meio da canção cessava de cantar, torcendo o nariz, se bem que não soubesse outra melhor.

Mas havia uma coisa que lhe proporcionava prazer, quando se achava assim deitado e observava o seu coração, o coração corporal, que palpitava rápida e audivelmente através do silêncio, esse silêncio regulamentar que reinava em todas as dependências do Berghof durante o repouso principal. Seu coração batia com tenacidade e indiscrição, como sucedia quase sempre, desde que ele se encontrava ali em cima. Mas Hans Castorp deixara de ligar a esse fato tamanha importância como nos primeiros dias. Já não se podia dizer que o coração batia à toa, sem motivo e sem relação com a alma. Tal relação existia ou, pelo menos, não era difícil estabelecê-la. A atividade exaltada do corpo justificava-se facilmente por meio de uma emoção correspondente. Bastava que Hans Castorp pensasse em Mme.. Chauchat – e pensava nela – para encontrar o sentimento que lhe explicasse o martelar do coração.

 

         Temor nascente

         Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo

O tempo era horrível. Neste ponto, Hans Castorp não teve sorte durante os poucos dias da sua permanência nessa região. Não caía neve, propriamente, mas chovia dias a fio, uma chuva pesada e feia; nuvens espessas cobriam o vale, e com estrondos arrastados e retumbantes descarregavam-se trovoadas ridiculamente supérfluas, dado o frio, tão intenso, que se fez necessário acender a calefação da sala de refeições.

– Que lástima! – disse Joachim. – Eu pensava que a gente pudesse um dia levar uma merenda e ir a Schatzalp, ou fazer qualquer outra excursão. Mas parece que não será possível. Espero somente que sua última semana seja melhor.

No entanto, Hans Castorp respondeu:

– Deixe disso. Não estou com ânimo empreendedor. A minha primeira aventura não me saiu muito bem. Descanso melhor, quando vivo assim calmamente, sem muitas distrações. Distrações são para os veteranos, mas eu, com minhas três semanas, para que preciso de distrações?

Com efeito, ele sentia-se ocupado e absorto com o que havia no lugar onde estava. Se abrigava esperanças, tanto a sua realização como uma possível decepção aguardavam-no aqui e não num Schatzalp qualquer. O que o atormentava não era tédio; pelo contrário, começava a recear que o fim da sua estadia chegasse com demasiada pressa. A. segunda semana já estava avançada; dois terços do seu tempo em breve teriam passado, e quando começasse o último terço, já seria tempo de arrumar as malas. Aquela primeira revitalização do senso de tempo de Hans Castorp havia muito que se passara; os dias já começavam a voar, e isso conquanto cada um deles se estirasse sob o efeito de uma expectativa sempre renovada e abundasse de experiências silenciosas e secretas... Sim, o tempo é um enigma singular, difícil de resolver.

Será necessário pormenorizar aquelas experiências secretas que, ao mesmo tempo, retardavam e aceleravam o curso dos dias de Hans Castorp? Mas ninguém as ignora; tratava-se de experiências absolutamente comuns, na sua insignificância sentimental; e num caso mais razoável e mais futuroso, que permitisse a aplicação daquela cançãozinha “No fundo de minha alma ecoa...”, tampouco se teriam desenrolado de outra forma.

Era impossível que Mme. Chauchat nada percebesse dos fios que se estendiam entre determinada mesa e a sua. E era justamente intenção desenfreada de Hans Castorp que ela notasse alguma coisa e até o máximo possível desses fios. Dizemos “desenfreada”, porque ele próprio estava perfeitamente a par da insensatez de seu caso. Mas quem se encontra no estado a que ele chegara, ou melhor, em que estava a ponto de entrar, deseja que a outra parte tome conhecimento desse estado, ainda que a coisa não tenha nem pé nem cabeça. Isso é apenas humano.

Mme. Chauchat voltara-se duas ou três vezes, durante as refeições, para aquela mesa, ou por casualidade ou sob o efeito de algum magnetismo, e sempre dera com os olhos de Hans Castorp. Na quarta vez, fê-lo com premeditação, e de novo os encontrou atentos. Na quinta ocasião, não lhe surpreendeu o olhar, porque ele abandonara o seu posto de vigia. Mas Hans Castorp sentiu imediatamente que ela o observava, e seus olhos lhe responderam tão fervorosamente, que Mme. Chauchat, sorrindo, desviou o olhar. Se ela o julgava pueril, estava enganada. Sua necessidade de refinamento era considerável. Assim, na sexta vez, quando pressentiu, adivinhou, recebeu uma mensagem íntima de que ela o contemplava, fingiu examinar com insistente desgosto a cara pustulosa de uma senhora que se aproximara da sua mesa para falar com a tia-avó, e não desistiu disso antes de ter certeza de que os olhos “quirguizes”, lá do outro lado da sala, se haviam desviado dele – estranha comédia que Mme. Chauchat não somente podia mas até devia perceber, para que a sutileza e o autodomínio de Hans Castorp a fizessem refletir... E as coisas se adiantaram até o seguinte episódio: num intervalo entre dois pratos, Mme. Chauchat virou-se indolentemente e inspecionou a sala. Hans Castorp estava no seu posto de vigia, e seus olhares entrechocaram-se. Enquanto se encaravam – a enferma de um modo vagamente escrutador e irônico, e Hans Castorp com uma firmeza excitada, que o fez cerrar os dentes, a fim de sustentar os olhos da mulher –, o guardanapo de Mme. Chauchat começou a deslizar e já estava a ponto de cair ao chão. Estremecendo nervosamente, ela procurou agarrá-lo; mas o jovem também se sobressaltou, levantou-se da cadeira e fez menção de se precipitar cegamente em seu socorro, através do espaço de oito metros que os separava, e contornando uma mesa que estava de permeio, como se fosse uma catástrofe se o guardanapo chegasse a tocar o chão... Ela conseguiu ainda apanhá-lo, a poucos centímetros acima do assoalho. Mas nessa posição oblíqua, agachada, com a ponta do guardanapo entre os dedos e com o rosto anuviado, visivelmente aborrecida por aquele pequeno pânico absurdo que acabava de invadi-la, e do qual ela parecia culpar Hans Castorp – nessa atitude, pois, lançou ao jovem mais um olhar, observou como ele, com as sobrancelhas cerradas, se dispunha a atirar-se numa corrida, e esboçando um sorriso, virou-lhe as costas. Hans Castorp abandonou-se todo à sensação de triunfo que esse incidente originara nele. Mas a reação não se fez esperar, já que, no decorrer dos dois dias seguintes, quer dizer, durante dez refeições, Mme. Chauchat não se voltou para olhar a sala e até renunciou ao seu hábito de “apresentar-se” ao público no momento da entrada. Era duro. Como, porém, essas modificações na sua conduta indubitavelmente se endereçavam a ele, era evidente a existência de uma relação entre ambos, se bem que de forma negativa; e isto era o que lhe bastava.

Hans Castorp compreendia bem que Joachim tivera toda a razão ao observar que ali não era fácil travar conhecimento com outras pessoas, com exceção dos comensais. Pois, durante a escassa hora depois do jantar – a única que dava regularmente ocasião a uma espécie de vida social, mas amiúde se reduzia a uns vinte minutos – Mme. Chauchat achava-se sempre em companhia dos membros de seu círculo habitual, o cavalheiro de tórax côncavo, a mocinha humorística, com os cabelos lanosos, o taciturno Dr. Blumenkohl e os jovens de ombros caídos. Todos eles ocupavam o fundo do pequeno salão que parecia reservado à mesa dos “russos distintos”. Acrescia a isso que Joachim nunca deixava de ter pressa de sair do salão, a fim de não abreviar o repouso, como dizia, e talvez também por outros motivos dietéticos que não mencionava, mas que Hans Castorp adivinhava e respeitava. Acabamos de tachar de “desenfreados” os seus desejos, mas qualquer que fosse o seu rumo, o que ele almejava não eram relações sociais com Mme. Chauchat, e no fundo estava de acordo com as circunstâncias que se lhes opunham. As relações vagamente tensas que seus olhares e gestos haviam estabelecido entre ele e a russa não tinham caráter social, não obrigavam a nada e não deviam, de modo algum, obrigar. Era perfeitamente compatível com elas uma vasta série de argumentos reprovadores, da sua parte, e o fato de seu coração palpitar com o pensamento em “Clávdia” não era nem de longe suficiente para abalar no neto de Hans Lorenz Castorp a convicção de que entre ele e aquela estrangeira, que passava a vida separada do marido e sem aliança no dedo, em toda espécie de estações de cura, cuja postura deixava a desejar, que batia estrondosamente as portas, fazia bolinhas de migalhas de pão, e sem dúvida roia as unhas – a convicção, pois, de que entre ele e Mme. Chauchat não podia em realidade – isto é, fora dessas suas relações secretas – haver nada em comum; abismos profundos separavam a sua existência da dela, e ele sentia-se incapaz de enfrentar, ao lado de “Clávdia”, qualquer das autoridades que reconhecia. Hans Castorp era por demais sensato para ter a mínima presunção pessoal; mas uma altivez de natureza mais geral e de origem mais longínqua achava-se gravada na sua fronte e em torno dos olhos um tanto sonolentos, e o resultado dessa altivez era aquele sentimento de superioridade do qual o jovem não podia nem queria desfazer-se em presença do ser e do jeito de Mme. Chauchat. É estranho que esse sentimento de proveniência tão afastada se lhe tenha tornado consciente com uma intensidade particular, e possivelmente pela primeira vez, quando, um belo dia, ouviu Mme. Chauchat falar em alemão. Achava-se ela na sala, depois do fim de uma refeição; estava de pé, com as mãos nos bolsos do suéter, e conversava com outra enferma, provavelmente uma companheira do alpendre de repouso. Ao passar por ela Hans Castorp percebeu os esforços, aliás encantadores, que ela fazia para lidar com o idioma alemão, a sua própria língua materna, como ele de repente notou com um orgulho nunca antes experimentado, embora ao mesmo tempo se sentisse inclinado a sacrificar esse orgulho ao deleite que lhe inspiravam aquelas palavras graciosamente desfiguradas.

Numa palavra: na sua relação muda com esse membro negligente da sociedade do Berghof, não via Hans Castorp senão uma aventura de férias, que, perante o tribunal da Razão – da sua própria consciência raciocinadora –, não podia reclamar nenhuma aprovação; antes de tudo, porque Mme. Chauchat estava enferma, lassa, febril e interiormente carcomida, circunstância estreitamente relacionada com o caráter duvidoso de toda a sua existência, e que também contribuía muito para inspirar a Hans Castorp certos sentimentos de distância e de reserva... Não, pretender seriamente entabular com ela relações reais era uma idéia que não lhe ocorria, e quanto àquela relação muda – ela acabaria, bem ou mal, dentro de semana e meia, quando começasse o seu estágio na Casa Tunder & Wilms.

Verdade é que por enquanto se acostumara a considerar como o autêntico objetivo e o genuíno conteúdo das suas férias todas essas emoções, tensões, satisfações, decepções, provenientes da sua delicada relação com a enferma; habituara-se a entregar-se totalmente a elas e a deixar depender o seu humor do seu desenvolvimento próspero ou não. As circunstâncias favoreciam o seu culto com a maior benevolência, uma vez que viviam um perto do outro, num espaço limitado, e com um programa do dia preestabelecido e obrigatório para todo mundo. Ainda que Mme. Chauchat morasse num outro andar, o primeiro, e fizesse a cura de repouso no terraço do sótão, o mesmo onde o Capitão Miklosich havia pouco apagara a luz, existia contudo a possibilidade e até a inevitabilidade de constantes encontros, da manhã à noite, pelo simples fato de haver cinco refeições. E isso, tanto quanto a ausência de preocupações e dificuldades, parecia sumamente simpático a Hans Castorp, ainda que lhe causasse certa angústia a sensação de estar preso na mesma cela com a quase-oportunidade favorável.

Mesmo assim, ele acelerava ainda um pouco a marcha dos acontecimentos; fazia cálculos e punha o seu cérebro a serviço da causa da sua felicidade. Visto Mme. Chauchat chegar habitualmente atrasada à mesa, Hans Castorp esforçou-se por se atrasar também, a fim de encontrá-la no caminho. Vestia-se com vagar, de modo que não estava pronto quando Joachim vinha buscá-lo, pedia ao primo que descesse sem ele e dizia que o seguiria imediatamente. Dirigido pelo instinto peculiar ao seu estado de alma, aguardava determinado momento que lhe parecia indicado. Então descia correndo ao primeiro piso; a partir dali, não continuava a servir-se da mesma escada pela qual chegara, mas percorria quase toda a extensão do corredor até o patamar da outra escada, passando por uma porta que havia muito conhecia, a do quarto número 7. Durante esse caminho, ao longo do corredor, de uma escada à outra, cada passo oferecia, por assim dizer, uma probabilidade, pois a qualquer instante podia abrir-se a referida porta, e repetidas vezes isto se deu de fato. Estrondosamente fechava-se ela atrás de Mme. Chauchat, que, por sua vez, saía silenciosamente, e silenciosamente se encaminhava para a escada... E logo descia diante dele, segurando a trança com a mão, ou Hans Castorp ia à sua frente, sentindo-lhe o olhar na nuca e experimentando nos membros como que uma cãibra e nas costas a sensação de um formigueiro. Mas, no desejo de fingir que lhe ignorava a presença e vivia uma vida individual vigorosamente independente, enterrava as mãos nos bolsos do paletó, encolhia os ombros ou pigarreava sem necessidade, batendo no peito com o punho – tudo isso para patentear a sua indiferença.

Em duas ocasiões, levou a manha ainda mais longe. Quando já se achava sentado à mesa, disse, entre perplexo e irritado, apalpando os bolsos com as mãos: – Ora essa, esqueci o meu lenço! Preciso subir outra vez. – E subiu, para que ele e “Clávdia” se encontrassem, o que constituiria um acontecimento diferente, mais perigoso, cheio de atrativos mais picantes do que ir à frente ou atrás dela. A primeira vez que realizou essa façanha, Mme. Chauchat mediu-o com os olhos, de cima a baixo, a certa distância, e de modo bastante atrevido, livre de qualquer acanhamento; mas quando foram se aproximando, desviou o rosto com displicência e passou por ele de tal maneira, que ao resultado desse episódio não merecia ser atribuído grande valor. Da segunda vez, porém, encarou-o, e não só de longe; encarou-o durante todo o tempo com ar firme e até um pouco sombrio, e quando seus caminhos se encontraram, chegou mesmo a virar a cabeça para ele. O pobre Hans Castorp sentiu-se penetrado até a medula. Por outro lado não convém lastimá-lo, já que fora ele próprio que quisera tudo isso. Esse encontro causou-lhe, todavia, um veemente abalo, enquanto ocorria e sobretudo posteriormente; pois, quando tudo já pertencia ao passado, foi que percebeu com precisão o que se dera. Nunca antes tivera o rosto de Mme. Chauchat tão perto dele, tão nitidamente distinto em todos os seus pormenores. Pudera divisar os cabelinhos curtos que se desprendiam do emaranhado da trança loura, de um tom metálico, arruivado, e que estava simplesmente enrolada em volta da cabeça. Houvera apenas uns poucos palmos de distância entre o seu próprio rosto e o dela, rosto de feições esquisitas e todavia tão familiares, que lhe agradavam como mais nada no mundo; feições estranhas e cheias de caráter – pois só o estranho nos parece ter caráter –, de um exotismo nórdico misterioso, que induzia à análise, visto suas particularidades e proporções não serem fáceis de determinar. A característica essencial eram, sem dúvida, as maçãs salientes, altas e acentuadas que comprimiam os olhos descomunalmente distantes entre si e situados quase à flor do rosto; até lhes impunham uma certa obliqüidade e ao mesmo tempo originavam o suave côncavo das faces, que, por sua vez, e indiretamente, causava a exuberância dos lábios um tanto grossos. Mas antes de tudo havia os próprios olhos – esses olhos quirguizes, de corte estreito e, conforme a opinião de Hans Castorp, simplesmente mágico, olhos cuja cor cambiava entre azul e cinzento, qual a de uma cordilheira longínqua, e que às vezes, por ocasião de certos relances para o lado, que não se fixavam em nada, eram capazes de se envolver, languidamente, em trevas misteriosas – os olhos de Clávdia, afinal, que o haviam contemplado atrevida e um tanto sombriamente, de muito perto, e que, na sua posição, cor e expressão, se pareciam de modo surpreendente e mesmo assustador com os de Pribislav Hippe. “Pareciam” nem é sequer a expressão adequada; não!, eram os mesmos olhos, e também a largura da parte superior do rosto, o nariz levemente achatado, tudo, até a brancura rosada da pele e a tez sadia, que em Mme. Chauchat apenas dava a ilusão de saúde, e, como nos casos dos demais pensionistas, não passava de um resultado superficial do repouso ao ar livre – tudo isso era tal qual o rosto de Pribislav, e o olhar com que este o contemplava no pátio da escola, quando um passava perto do outro, tampouco era diferente.

Era inquietante sob todos os aspectos. Hans Castorp estava entusiasmado pelo encontro que acabava de ter, e ao mesmo tempo sentia qualquer coisa como um temor nascente, uma angústia semelhante àquela que lhe causava a sensação de estar preso na mesma cela com a quase-oportunidade favorável: também o fato de Pribislav, havia muito olvidado, vir-lhe ao encontro ali em cima, na pessoa de Mme. Chauchat, fitando-o com aqueles olhos quirguizes, também isso fazia com que Hans Castorp se sentisse preso em companhia do inevitável e do irremovível – irremovível num sentido venturoso e atemorizador. Era um fato auspicioso, mas ao mesmo tempo fatídico, apavorante mesmo, e o jovem Hans Castorp sentiu algo como uma necessidade de socorro. No seu íntimo operavam-se movimentos vagos e instintivos que poderíamos qualificar de olhares, tateios e gestos em busca de apoio, conselho e ajuda. Sucessivamente, pensou em diversas pessoas, das quais, talvez, lhe fosse útil recordar-se.

Havia ali, a seu lado, Joachim, o bondoso e honrado Joachim, cujos olhos, no decorrer desses últimos meses, tinham assumido uma expressão melancólica, e que às vezes encolhia os ombros daquele jeito desdenhoso e violento que em outros tempos não lhe fora peculiar; Joachim, com o “Joãozinho Azul” no bolso, para empregarmos o termo com que esse recipiente era designado pela Srª. Stöhr, cuja fisionomia obstinadamente descarada nunca deixava de causar horror a Hans Castorp... Havia, pois, o brioso Joachim, atormentando e maçando o Dr. Behrens, a fim de obter a licença de partir e de fazer o almejado serviço na “planície”, na “baixada”, como os que viviam aqui em cima chamavam, com leve mas nítido desprezo, o mundo das pessoas sadias. Para que chegasse mais rapidamente ali e poupasse um pouquinho daquele tempo que aqui se gastava tão generosamente, dedicava-se com o máximo rigor à cura regulamentada; fazia-o para recuperar a saúde, sem dúvida, mas também, como Hans Castorp adivinhava de vez em quando, por amor ao próprio regime, que, afinal de contas, era um serviço como qualquer outro, e cumprir esse dever era cumprir seu dever. Por isso acontecia todas as noites que Joachim, ao cabo de um quarto de hora, já insistia com ele em que abandonassem a reunião dos pensionistas e se recolhessem ao repouso noturno, e isso tinha as suas vantagens, pois a pontualidade militar do primo acudia ao espírito civil de Hans Castorp, que sem ela talvez preferisse demorar-se por muito tempo a contemplar, sem proveito nem esperança, a saleta ocupada pelos russos. No entanto, o fato de Joachim ter tanta pressa de abreviar a vida social no salão era também devido a outro motivo de natureza secreta, mas que Hans Castorp compreendia perfeitamente, desde que conhecia tão bem aquela palidez terrosa de Joachim e o modo particularmente doloroso com que a boca do primo se crispava em determinados momentos. Ora, Marusja, a sempre risonha Marusja com o pequeno rubi no formoso dedo, com o perfume de flor de laranjeira e com os seios opulentos, mas carcomidos, também costumava estar presente às reuniões sociais, e Hans Castorp percebeu que essa circunstância afugentava Joachim, precisamente porque o atraía em excesso, de uma forma pavorosa. Joachim também se sentia “preso numa cela”, e de modo ainda mais opressivo e angustiante do que ele próprio, pois Marusja, com seu lencinho perfumado, não comia cinco vezes por dia à mesma mesa que eles? Em todo caso achava-se Joachim por demais ocupado consigo mesmo para que a sua existência pudesse significar uma ajuda íntima para Hans Castorp. Sua fuga da sala de reuniões, que se repetia diariamente, sem dúvida o honrava, mas o seu efeito era pouco tranqüilizador para Hans Castorp, que por momentos tinha a impressão de descobrir aspectos perigosos no bom exemplo que lhe oferecia Joachim quanto ao cumprimento rigoroso dos deveres do regime, e nas instruções de perito que o primo lhe dava.

Não fazia ainda nem sequer duas semanas que Hans Castorp estava no Berghof, mas parecia-lhe muito mais tempo, e o programa do dia, ali em cima, esse programa que ele via Joachim observar com tanto zelo piedoso, começara a adquirir a seus próprios olhos um quê de intangibilidade sagrada e natural, tanto assim que a vida lá de baixo, na baixada, vista assim de cima, se lhe afigurava quase anormal e errada. Já chegara a um alto grau de habilidade no manejo dos dois cobertores, mediante os quais a gente, nos dias frios, se transformava, por ocasião do repouso, num pacote simétrico, parecido com uma verdadeira múmia; pouco faltava para que igualasse a destreza de Joachim na arte de envolver-se segundo as regras; quase que se admirava ao pensar que lá embaixo, na planície, ninguém sabia dessa arte. Pois é, isso era estranho, mas ao mesmo tempo Hans Castorp sentia estranheza diante do fato de que assim lhe parecia, e novamente nascia nele o desassossego que o fazia perscrutar o seu íntimo em busca de um conselho ou de um apoio.

E ele pensou no Dr. Behrens e no seu conselho, oferecido sine pecunia, de viver exatamente como os pacientes e até de tomar a temperatura; lembrou-se também de Settembrini, que desatara a rir às gargalhadas ao ficar sabendo desse conselho, e depois citara qualquer coisa da Flauta mágica. Sim, nesses dois também pensou a título de experiência, para ver se essa recordação lhe trazia algum proveito. O Dr. Behrens era um homem de cabelos brancos, poderia ser o pai de Hans Castorp. Além disso, era o diretor do estabelecimento, a mais alta autoridade que existia por ali, e era justamente de autoridade paterna que o coração do jovem Hans Castorp, na sua inquietude, sentia necessidade. E todavia, por mais que tentasse, não conseguia recordar-se do conselheiro áulico com confiança filial. O médico enterrara ali a esposa, sofrendo um golpe que passageiramente o tornara um tanto esquisito. Depois permanecera em Davos, porque o túmulo o retinha, e também por estar ele mesmo atacado pela enfermidade. Quem sabia se isso já passara? Gozava o Dr. Behrens de boa saúde, e estava sinceramente decidido a curar as pessoas para que pudessem sem demora regressar à planície e voltar ao serviço? Suas faces estavam sempre azuis, e ele dava a impressão de estar febril. Mas talvez fosse isso apenas uma ilusão, e a cor do seu rosto se devesse ao ar das alturas. O próprio Hans Castorp experimentava todos os dias um ardor seco, sem que tivesse febre, ao menos pelo que se podia julgar sem termômetro. Mas, quando se ouvia o conselheiro falar, tinha-se, às vezes, novamente a impressão de ele estar com temperatura elevada; alguma coisa não parecia certa na sua maneira de expressar-se; embora as suas palavras soassem enérgicas, corretas e joviais, havia nelas qualquer coisa singular, exaltada, sobretudo para quem observava ao mesmo tempo as faces azuis e os olhos lacrimosos que faziam acreditar que ele ainda chorava a mulher. Hans Castorp lembrou-se do que Settembrini dissera da “melancolia” e dos “vícios” do conselheiro áulico, a quem chamara de “alma atarantada”. Nisso podia haver malícia ou leviandade, e contudo Hans Castorp achava muito pouco reconfortante a recordação do Dr. Behrens.

Mas havia ainda esse Settembrini, o oposicionista doidivanas e “homo humanus”, como se definia a si próprio, o homem que o censurara com abundantes palavras enfáticas, porque qualificara a combinação de estupidez e enfermidade, de contradição e de dilema para o sentimento humano. Que tal era ele? Era proveitoso ocupar-se com esse homem? Hans Castorp sabia ainda muito bem o quanto, em diversos daqueles sonhos excessivamente agitados que aqui em cima lhe enchiam as noites, exasperara-se por causa do sorriso fino e seco do italiano, que se esboçava sob a bonita curva do bigode; recordava-se de o ter tratado de tocador de realejo e de haver procurado afastá-lo do lugar, porque lhe parecia demais ali. Mas isso se passara num sonho, e Hans Castorp acordado era diferente, menos livre de inibições do que quando sonhava. Em estado de vigília, tudo isso podia ser de outro modo; talvez fizesse bem tentando conformar-se intimamente com essa maneira de ser, completamente nova para ele, que representava Settembrini; quem sabia se não eram dignas de ser estudadas sua rebeldia e sua crítica, posto fossem choramingueiras e gárrulas? O próprio Settembrini chamara-se de pedagogo. Evidentemente desejava exercer influência, e o jovem Hans Castorp anelava por alguém que o influenciasse. Naturalmente não era preciso levar a docilidade a ponto de se deixar induzir por Settembrini a arrumar as malas e a partir antes do tempo, conforme a sugestão que este lhe dera recentemente com toda a seriedade.

Placet experiri, pensou sorrindo: pois, para isso, sabia bastante latim, ainda que não se pudesse qualificar de homo humanus. Assim, não perdia Settembrini de vista e escutava com gosto, embora com atenção crítica, tudo quanto o italiano produzia no decorrer das entrevistas que se realizavam ocasionalmente, durante os comedidos passeios prescritos pelo regime, até o banco na encosta da montanha ou até Davos-Platz. Havia também outras oportunidades para fazê-lo, quando Settembrini, após a refeição, era o primeiro a levantar-se e, com as suas calças xadrez e com um palito entre os dentes, atravessava indolentemente a sala, a fim de fazer, em completo desacordo com o regulamento e os costumes, uma visitinha à mesa dos dois primos. Postava-se então diante deles, numa atitude graciosa, com os pés cruzados, e palestrava gesticulando com o palito. Ou talvez puxasse uma cadeira, para instalar-se num canto entre Hans Castorp e a professora, ou então entre o jovem e Miss Robinson, e para observar como os nove comensais comiam a sobremesa à qual ele mesmo parecia ter renunciado.

– Peço que me admitam nesta roda ilustre – dizia, apertando as mãos dos primos e abrangendo as demais pessoas numa única reverência. – Esse cervejeiro aí... para nem mencionar o aspecto desolador da senhora cervejeira... Mas esse Sr. Magnus acaba de fazer uma conferência etnopsicológica. Querem saber pormenores? “Nossa querida Alemanha é um grande quartel; não há dúvida. Mas ela encerra muita energia, e eu não trocaria as nossas sólidas virtudes pela cortesia dos outros. Que me adianta a cortesia, se me enganam pela frente e por trás?” E outras coisinhas nesse estilo, que simplesmente não agüento mais. Além disso, tenho à minha frente uma pobre criatura com rosas de cemitério nas faces, uma solteirona da Transilvânia, que não pára de falar de seu “cunhado”, um homem do qual ninguém sabe nada nem quer saber. Numa palavra, não agüentei mais. Preferi bater em retirada.

– Pois é, em debandada, o senhor se pôs a fugir – disse a Srª. Stöhr. – Posso imaginar.

– Exatamente! – exclamou Settembrini. – Fugi! Estou vendo que aqui sopram outros ventos. Não há dúvida, cheguei a bom porto. Sim, senhora, em debandada... Ah, se todos soubessem cunhar frases assim!... Posso informar-me dos progressos da saúde da prezada senhora?

Era horroroso observar a afetação da Srª. Stöhr. – Ah, meu Deus! – disse ela. – É sempre a mesma coisa; o senhor sabe muito bem. Damos dois passos para a frente e três para trás. Cada vez que a gente acaba de cumprir cinco meses da pena, vem o velho acrescentar mais meio ano. Ai de mim, são verdadeiros suplícios de Tântalo! Vai-se empurrando, empurrando, e quando se pensa que a pedra está em cima...

– Ah, como a senhora é gentil! Concede a esse coitado do Tântalo uma pequena mudança de ocupação. Para variar, deixa-o rolar o famoso bloco de mármore. É o que se pode chamar de genuína bondade da alma... Bem, talvez me possa explicar uma coisa: passam-se histórias misteriosas em torno da senhora. Já ouvi falar de sósias, de corpos astrais, mas nunca acreditei nessas coisas. No entanto, o caso da senhora me faz duvidar...

– Parece-me que o senhor quer se divertir à minha custa.

– Nem um pouquinho. Não penso nisso. A senhora me tranqüilize, antes de mais nada, quanto a certas facetas obscuras da sua existência e logo poderemos pensar em diversões. Ontem à noite, entre as nove e meia e dez horas, saí ao jardim, para fazer um pouco de exercício. Meus olhos vagaram ao longo da fachada, e notei que a lampadazinha elétrica na sacada da senhora luzia através da escuridão. Concluí que a senhora estava observando o repouso, como ordenam o dever, a razão e o regulamento. “Ali jaz a nossa bela doente”, disse eu de mim para mim, “obedecendo fielmente às prescrições, para que possa o mais depressa possível voltar aos braços do Sr. Stöhr.” E, faz poucos minutos, que ouço? Que àquela mesma hora e senhora foi vista no cinematógrafo – o Sr. Settembrini pronunciava essa palavra à italiana, com o acento na quarta sílaba – no cinematógrafo da colunata do estabelecimento termal, e depois na confeitaria, com vinho doce e merengues, e dizem...

A Srª. Stöhr retorcia os ombros de tanto rir; afogava risinhos no guardanapo; dava cotoveladas em Joachim Ziemssen e no taciturno Dr. Blumenkohl; piscava um olho de modo entre astucioso e petulante, e demonstrava de todas as formas possíveis a mais idiota satisfação consigo própria. Para esquivar-se do controle, costumava colocar na sacada a lampadazinha acesa. Então fugia em busca de algumas distrações no bairro inglês. Enquanto isso, seu marido, em Cannstatt, estava à sua espera. Por outro lado, não era ela a única paciente que tinha esse hábito.

– ... e dizem – continuou Settembrini – que a senhora saboreava esses merengues em companhia... de quem? Em companhia do Capitão Miklosich, de Bucareste. Há quem afirme que ele usa espartilho, mas, meu Deus, que importância pode ter isto, no nosso caso? Por amor de Deus, madame, onde estava a senhora? É acaso capaz de se desdobrar? Sem dúvida, achava-se dormindo, e enquanto a parte terrestre da sua existência se entregava ao repouso solitário, a parte espiritual espairecia em companhia do Capitão Miklosich e de outras coisas doces...

A Srª. Stöhr requebrava-se e gesticulava como se alguém lhe fizesse cócegas.

– Não se sabe se convém desejar o contrário – acrescentou Settembrini –, quer dizer, que a senhora tivesse saboreado sozinha aquelas coisas doces e feito o repouso com a assistência do Capitão Miklosich...

– Hi, hi, hi...

– Conhecem os senhores a história de anteontem? – perguntou o italiano, sem transição. – Alguém foi raptado, levado pelo Diabo, ou mais precisamente pela senhora sua mãe, uma dama muito enérgica, que me agradou bastante. Trata-se do jovem Schneermann, Anton Schneermann, que tinha o seu lugar ali na mesa da Srta. Kleefeld. Como os senhores vêem, está vazio. Será preenchido daqui a pouco; não me preocupo com esse problema. Mas Anton desapareceu nas asas da tempestade, num abrir e fechar de olhos e bem de repente. Achava-se aqui havia um ano e meio, com as suas dezesseis primaveras, e justamente agora acabavam de impor-lhe mais seis meses. E que aconteceu então? Não sei quem teria dado certas informações à Srª. Schneermann. Em todo caso, ela ficou sabendo das relações de seu filhinho com Baco et cceteris. Sem aviso prévio entra em cena uma matrona, três palmos mais alta do que eu, encanecida e furiosa. Administra, sem dizer nada, uma porção de bofetadas ao Sr. Anton, segura-o pelo pescoço e mete-o no trem. “Se ele deve ir a pique”, grita ela, “pode muito bem fazê-lo na planície.” E lá se vão...

Riram-se todos os que podiam ouvir o Sr. Settembrini, pois contara a história com muita graça. Manifestou-se que o italiano andava bem informado sobre as últimas notícias, ainda que considerasse com crítico sarcasmo a vida coletiva dali de cima. Estava a par de tudo. Conhecia os nomes e grande parte do passado dos recém-chegados. Relatou que ontem Fulano ou Fulana sofrerá uma ressecção de costelas. Sabia de fonte fidedigna que a partir do outono próximo já não seriam admitidos doentes que tivessem temperaturas acima de 38,5°. Segundo a sua afirmação, dera-se à noite passada o seguinte incidente: o cachorrinho da Srª. Kapatsoulias, de Mitilene, sentara-se sobre o botão do sinal luminoso no criado-mudo da sua dona. Desse fato haviam resultado muitas correrias e grande tumulto, tanto mais que a Srª. Kapatsoulias não fora encontrada sozinha, mas sim em companhia do assessor Düstmund, de Friedrichshagen. Nem sequer o Dr. Blumenkohl pôde deixar de sorrir ao escutar essa história. A bela Marusja esteve a ponto de se asfixiar com o seu lencinho perfumado de flor de laranjeira, e a Srª. Stöhr soltou uns gritos estridentes, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos.

Mas, aos dois primos, Lodovico Settembrini falava bem de si próprio e da sua origem, quer nos passeios, quer por ocasião das reuniões noturnas ou depois do almoço, quando a maioria dos pensionistas já saíra da sala e os três cavalheiros permaneciam ainda sentados por alguns instantes à extremidade da mesa, enquanto as criadas tiravam os pratos e Hans Castorp fumava o Maria Mancini, cujo sabor, no decorrer da terceira semana, tornara a agradar-lhe um pouco. Com atenção crítica e freqüentemente com estranheza, embora disposto a aceitar a influência do italiano, escutava o jovem essas palavras que lhe abriam um mundo singular, completamente novo.

Settembrini falava de seu avô, que fora advogado em Milão, mas antes de tudo grande patriota, uma mistura de agitador público, orador e publicista. Também ele pertencera à oposição, tal qual o neto, mas praticara a coisa num estilo mais elevado, mais audacioso. Ao passo que Lodovico, como ele mesmo observava com amargura, via-se reduzido a escarnecer a vida e a condição do pessoal do Sanatório Internacional Berghof, a castigá-las com críticas zombeteiras e protestar contra elas em nome de uma humanidade bela e cheia de atividade, dera o avô muito que fazer aos governos, conspirando contra a Áustria e a Santa Aliança, que naquela época haviam oprimido a sua despedaçada pátria, reduzindo-a a uma pesada servidão. Fora ele membro fervoroso de certas sociedades secretas, difundidas na Itália – um carbonário, como explicou Settembrini, abaixando de repente a voz, como se ainda fosse perigoso falar dessas coisas. Numa palavra, segundo os relatos do neto, afigurava-se esse Giuseppe Settembrini aos dois ouvintes como um indivíduo sombrio, apaixonado, insurgente, um rebelde e um conjurado. Não obstante o respeito que os primos, por motivos de cortesia, procuravam sentir, não conseguiram apagar por completo das suas feições uma expressão de antipatia desconfiada e até de repugnância. Verdade é que se tratava de um caso especial: o que ouviam passara-se numa época remota, fazia quase cem anos, pertencia à história, e do ensino de história, sobretudo da antiga, era-lhes teoricamente familiar a mentalidade em questão, o fenômeno do apego desesperado à liberdade e do ódio inflexível à tirania, se bem que nunca esperassem entrar em contato tão direto com esse espírito. Além disso houvera, como ficaram sabendo, na natureza revolucionária e conspiradora desse avô, um grande amor à pátria, que ele desejava ver livre e unida. Com efeito, a sua atividade sediciosa fora o fruto e a emanação desse sentimento respeitável, e por estranha que parecesse a cada um dos primos essa mistura de rebeldia e patriotismo – já que estavam acostumados a identificar o espírito patriótico com um senso de ordem conservador –, tinham de admitir, no seu íntimo, que, sob as circunstâncias especiais daquela época e daquele país, podia ter havido identidade entre insurreição e dever cívico, de um lado, e do outro entre comedimento leal e indiferença preguiçosa, quanto à causa pública.

Mas o avô de Settembrini não fora somente um patriota italiano, senão também um concidadão e um irmão em armas de todos os povos sedentos de liberdade. Pois, após o malogro de certa tentativa de golpe de mão e de golpe de Estado, empreendida em Turim, e da qual ele participara com palavras e ações, escapando só por milagre aos esbirros do Príncipe Metternich, empregara seus anos de desterro a lutar e derramar seu sangue, ora na Espanha, em prol da Constituição, ora na Grécia, para a independência do povo helênico. Ali é que viera ao mundo o pai de Settembrini – talvez fosse por isso que ele chegara a ser um grande humanista e adorador da Antigüidade clássica. Nascera, aliás, de mãe de sangue alemão, pois Giuseppe casara-se com uma moça suíça e levara-a consigo em todas as suas andanças ulteriores. Mais tarde, depois de dez anos de exílio, pudera regressar à sua terra. Exercera em Milão a profissão de advogado, mas absolutamente não renunciara ao direito de concitar a nação pela palavra falada e escrita, em versos e em prosa, à liberdade e à instauração da república unida, de esboçar, com um brio passional e imperioso, programas revolucionários, e de proclamar, num estilo claro, a unificação dos povos libertados em prol da felicidade universal. Um pormenor mencionado por Settembrini, o neto, impressionou sobremaneira o jovem Hans Castorp: durante toda a sua vida, o avô Giuseppe mostrara-se aos seus compatriotas vestido de preto, alegando que usava luto pela Itália, sua pátria, que definhava na miséria e na escravidão. Ao ouvir isso, Hans Castorp voltou a fazer uma comparação que já fizera diversas vezes mentalmente: lembrou-se de seu próprio avô, que também, durante todo o tempo em que o neto o conhecera, sempre usara roupas pretas, mas com um espírito totalmente diferente do que animara esse outro avô; recordou os trajes fora de moda, mediante os quais a natureza genuína de Hans Lorenz Castorp, aquela que pertencia a uma época remota, se adaptara ao presente, a título provisório e com acentuação da antipatia que os tempos modernos lhe inspiravam, até o dia em que, no seu leito de morte, assumira solenemente a sua forma verdadeira e própria, com a golilha pregueada do tamanho de um prato. Havia deveras uma profunda diferença na maneira de ser dos dois avôs. Hans Castorp refletia sobre ela, enquanto o seu olhar se fixava no vazio, e meneava a cabeça de uma forma cautelosa que tanto podia significar um sinal de admiração por Giuseppe Settembrini quanto uma manifestação de surpresa e desgosto. Por outro lado, esforçava-se lealmente para não condenar o que lhe parecia estranho, procurando não ir além da comparação e do exame dos fatos. Diante dele, na sala, surgia o rosto comprido do velho Hans Lorenz, que, pensativo, se inclinava sobre a concavidade redonda, levemente dourada, da pia batismal, a relíquia da família na sua progressão imutável; e a boca do avô formara as sílabas “bis, tris, tetra”, esses sons surdos e piedosos que evocavam a lembrança de lugares onde as pessoas avançavam num andar reverente, cadenciado. E ao mesmo tempo via Hans Castorp como Giuseppe Settembrini, segurando a bandeira tricolor numa das mãos e brandindo um sabre na outra, erguia, num juramento sagrado, os olhos negros ao céu e se lançava à frente de um grupo de defensores da liberdade contra a falange do despotismo. Ambas essas atitudes tinham, sem dúvida, sua beleza e seu valor, pensava Hans Castorp, empenhando-se em ser justo, tanto mais que, pessoalmente, ou com parte do seu ser, se sentia um pouco parcial. Pois o avô de Settembrini combatera com o fim de obter direitos políticos, ao passo que a seu próprio avô ou, pelo menos, aos antepassados dele, haviam pertencido, originariamente, todos os direitos, e fora a canalha que lhos arrancara no decorrer de quatro séculos, por meio da violência e de chavões... Eis que um e outro tinham andado vestidos de preto, o avô do norte e o do sul, cada qual com o objetivo de interpor uma rigorosa distância entre si mesmo e o malvado presente. Mas um agira assim por piedade, em homenagem ao passado e à morte, para os quais pendia a sua natureza; o outro, ao contrário, por rebeldia, a fim de honrar um progresso inimigo da piedade. “Certamente, isto são dois mundos, dois pontos cardeais”, disse Hans Castorp de si para si, e enquanto o Sr. Settembrini prosseguia contando, o jovem viu-se, por assim dizer, colocado entre eles, lançando olhares examinadores ora a um ora a outro. Parecia-lhe então que uma coisa semelhante já lhe ocorrera antes. Recordou um solitário passeio de barca, ao crepúsculo, num lago de Holstein, passeio que fizera em fins de verão, alguns anos atrás. Fora perto das sete horas; o sol já se pusera e a lua quase cheia se elevara a leste, por cima das margens do lago cobertas de arbustos. E durante dez minutos, enquanto Hans Castorp sulcava, remando, as águas silenciosas, reinara uma constelação perturbadora, fantástica qual um sonho. A oeste resplandecera, como em pleno dia, uma luz vítrea, prosaica, decidida; mas bastara voltar a cabeça para deparar com uma paisagem de luar, igualmente típica, entremeada de brumas úmidas e cheia de mágico encanto, Esse contraste esquisito durara um quarto de hora, pouco mais ou menos, antes de se completar o triunfo da noite e da lua. Com um pasmo alegre, os olhos deslumbrados e confundidos de Hans Castorp haviam passado de uma iluminação e de uma paisagem à outra, do dia para a noite e da noite para o dia. E nesse instante, ao comparar os dois avôs, não pôde deixar de se lembrar daquela impressão.

Fosse como fosse – continuou ele na marcha dos seus pensamentos –, era impossível que o advogado Settembrini, ao levar uma vida dessas e em face de tão vastas atividades, houvesse chegado a ser um grande jurisconsulto. Mas, segundo as afirmações plausíveis de seu neto, fora o princípio geral da justiça o que o animara desde a infância até o fim da vida. Hans Castorp, embora não tivesse, nesse momento particular, a cabeça sobremodo lúcida e sentisse o seu organismo ocupado com a digestão dos seis pratos de uma refeição do Berghof, procurou compreender o que Settembrini queria dizer ao chamar esse princípio de “fonte da liberdade e do progresso”. Essa última palavra significara para Hans Castorp, até então, qualquer coisa parecida com o desenvolvimento dos guindastes no decorrer do século XIX. Agora verificava que o Sr. Settembrini não desprezava essas coisas, seguindo nesse ponto, evidentemente, o exemplo do avô. O italiano rendia à pátria dos seus dois ouvintes uma grande homenagem em vista do fato de terem sido inventados ali a pólvora, que fizera ferro-velho das armaduras do feudalismo, e o prelo, que possibilitara a difusão democrática das idéias, quer dizer, a difusão das idéias democráticas. Quanto a isso, elogiava a Alemanha, e também pelo que se referia ao passado dela, se bem que lhe parecesse de justiça conceder a palma ao seu próprio país, uma vez que este fora o primeiro a desfraldar a bandeira do esclarecimento, da cultura e da liberdade, enquanto os demais povos ainda vegetavam presos na superstição e na servidão. Porém, se Settembrini tratava a técnica e o tráfego – o campo de trabalho propriamente dito de Hans Castorp – com tanta reverência como já demonstrara por ocasião do primeiro encontro com os primos, junto ao banco na encosta da montanha, aparentemente não o fazia por amor a essas forças, senão por causa da importância que elas tinham para o aperfeiçoamento moral dos homens, e que ele constatava com satisfação. A técnica – expôs Settembrini – subjugava cada vez mais a natureza, pelas comunicações que criava, pelas redes de estradas e telégrafos que construía, e pelas vitórias que conquistava sobre as diferenças de clima; dessa forma apresentava-se como o meio mais seguro para aproximar os povos, para favorecer o contato entre eles, para levá-los a acordos humanos, para destruir os preconceitos existentes, e, finalmente, para estabelecer a união universal. A raça humana tinha a sua origem na escuridão, no medo e no ódio, mas avançava e subia por um caminho brilhante, rumo a um estado terminal de simpatia, luminosidade íntima, bondade e felicidade. O veículo mais apropriado para transpor esse caminho era a técnica, declarou Settembrini. Mas, ao falar assim, associava, num abrir e fechar de olhos, categorias que Hans Castorp até então imaginara separadas por um largo abismo. “Técnica e moral”, disse o italiano, e a seguir entrou mesmo a falar do Salvador cristão, que fora o primeiro a revelar o princípio da igualdade e da união; depois, o prelo viera favorecer poderosamente a divulgação desse princípio, e por fim a grande Revolução Francesa fizera dele uma lei. Por razões pouco definíveis, mas muito reais, parecia isso sumamente confuso ao jovem Hans Castorp, se bem que o Sr. Settembrini o formulasse em palavras tão claras e tão belas. Uma vez – contou o italiano – uma única vez na vida, ao começo da sua maturidade, o avô sentira-se plenamente feliz: foi ao receber a notícia da Revolução de Julho em Paris. Em altos brados e publicamente proclamara então que todos os homens, um dia, equiparariam aqueles três dias de Paris aos seis dias da Criação. Nesse instante, Hans Castorp não pôde evitar bater com o punho na mesa e experimentar uma surpresa extraordinária. Achava um pouco forte colocar os três dias de verão do ano de 1830, durante os quais os parisienses haviam dado a si próprios uma nova Constituição, ao lado dos seis dias no decorrer dos quais Deus, Nosso Senhor, separara a terra firme da água e criara as luzes eternas do firmamento, bem como as flores, as árvores, as aves, os peixes e tudo quanto vive; e ainda mais tarde, ao conversar a sós com seu primo Joachim, disse expressamente que essa afirmação lhe parecia muito forte e até mesmo chocante.

Mas estava disposto a deixar-se influenciar, no sentido do provérbio segundo o qual era agradável experimentar. Assim refreou o protesto que sua piedade e seu bom gosto faziam contra a concepção settembriniana das coisas, ponderando que aquilo que se lhe afigurava blasfêmia podia ser qualificado de audácia, e que as aparentes banalidades talvez tivessem sido manifestações de generosidade e nobre entusiasmo, pelo menos naquele país e naquela época, como, por exemplo, quando o avô de Settembrini chamara as barricadas “o trono do povo” e declarara que cumpria “consagrar a lança do cidadão sobre o altar da humanidade”.

Hans Castorp sabia por que escutava os discursos do Sr. Settembrini; não que fosse capaz de explicar os motivos com clareza, mas sabia-os. Havia entre eles uma espécie de senso do dever, além daquela ausência de responsabilidade, peculiar às férias de um viageiro e visitante, que não se fecha a nenhuma impressão e deixa as coisas se aproximarem, na certeza de que amanhã ou depois abrirá as asas e voltará à ordem habitual. Era, por conseguinte, como que uma voz da consciência, e para ser exato, o preceito e a exortação da sua consciência pesada, o que o induzia a prestar atenção ao italiano -sentado de pernas cruzadas, a fumar o Maria Mancini, ou subindo com ele e o primo pela estrada que conduzia do bairro inglês ao Berghof.

Segundo as digressões de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a.posse do mundo: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, o princípio da estagnação e o do movimento efervescente, do progresso. Podia-se chamar a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da atividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso inerte. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da luz, a do aperfeiçoamento guiado pela razão. Pois a humanidade arrastava mais e mais povos pelo seu caminho brilhante; ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões também naqueles países que na verdade nunca tinham gozado o seu século XVIII nem seu ano de 1789.

Mas esse dia haveria de chegar, disse Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegasse pelos pés das pombas, chegaria sobre as asas das águias. Nasceria como a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da razão, da ciência e do direito. Acarretaria a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal foi o avô Giuseppe; numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objetivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio servil da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para encaminhar o reino da justiça e da felicidade sobre a terra.

Esse último rumo e essa conclusão das altissonantes expansões de Settembrini já não interessavam a Hans Castorp. Causavam-lhe desagrado e até o chocavam porque via neles a expressão de um rancor pessoal ou nacional, cada vez que se repetiam. No que tocava a Joachim Ziemssen – quando ele ouvia o italiano discorrer dessa forma, voltava mesmo a cabeça, de cenho carregado, e cessava de escutar; às vezes também dizia que estava na hora do repouso ou tentava mudar de assunto. Hans Castorp tampouco se sentia obrigado a prestar atenção a idéias tão extravagantes, que, evidentemente, ultrapassavam os limites das influências que a voz da sua consciência lhe aconselhava admitir, a título de experiência; e essa voz era todavia tão forte que ele próprio se punha a pedir ao Sr. Settembrini lhe explanasse as suas idéias, sempre que o italiano ia sentar-se à mesa dos primos ou os acompanhava durante um passeio.

Essas idéias, esses ideais e essas aspirações, observou Settembrini, faziam parte das tradições da sua família. Pois os três lhe haviam consagrado a vida e as forças do espírito: o avô, o pai e o neto, cada qual à sua maneira, o pai não menos que o avô, se bem que não tivesse sido, como este, um agitador político e um paladino da liberdade, senão um sábio quieto e delicado, um humanista que vivia amarrado à sua escrivaninha. Mas, que era afinal o humanismo? Era o amor aos homens, nada mais, nada menos, e por isso mesmo implicava também a política, a insurreição contra tudo quanto mancha e desonra a dignidade humana. .Haviam censurado ao humanismo o apreço exagerado da forma; mas ele cultivara a bela forma unicamente por amor à dignidade humana, em esplêndida oposição à Idade Média, que vivia não só entregue à misantropia e à superstição, como também enfeada por uma ignominiosa falta de forma. Desde os seus inícios, defendera a causa do homem, os interesses terrenos, a liberdade do pensamento e o prazer de viver, opinando que o céu, por motivos de eqüidade, pertencia aos pardais. Ah, Prometeu! Fora ele o primeiro humanista e idêntico àquele Satã, ao qual Carducci dedicara o seu hino... Oh, meu Deus, se os primos pudessem ouvir como o velho inimigo da Igreja, em Bolonha, maldizia e zombava da sensibilidade cristã do Romantismo! Dos hinos sacros de Manzoni! Da poesia de sombras e luares dos românticos, que ele comparava à “Lua, a pálida monja celeste!” Per Bacco, que prazer sublime, escutar esse homem! E também deveriam ter ouvido Carducci interpretando Dante: celebrara-o como cidadão de uma metrópole, que defendia, contra a ascese e a negação do mundo, a força ativa que revolucionava e melhorava o mundo. Ora vejam, não era a sombra enfermiça e mística de Beatriz a quem o poeta honrava sob o nome de “donna gentile e pietosa”; pelo contrário, assim designava a esposa que no poema representava o princípio do conhecimento das coisas deste mundo e da atividade prática na vida.

Dessa maneira, Hans Castorp aprendia isto e aquilo sobre Dante, e da melhor das fontes. Não se fiava irrestritamente nesses seus novos conhecimentos, dado o espírito estouvado de quem lhe servia de intermediário. Mesmo assim, valia a pena saber que Dante fora um cidadão de uma metrópole e tivera um espírito vivaz. E a seguir, Hans Castorp prestava atenção ao que Settembrini contava de si próprio. Declarava o italiano que no neto Lodovico, isto é, em sua pessoa, se haviam combinado as tendências dos seus ascendentes imediatos, a cívica do avô e a humanística do pai. Assim ele se tornara um literato, um escritor livre. Pois a literatura não era outra coisa senão isto: a associação de humanismo e política, associação que se realizava com a maior naturalidade, visto o próprio humanismo ser política e a política significar humanismo... A essa altura das explanações, Hans Castorp escutava com grande atenção, esforçando-se por compreender tudo direitinho; pois esperava aprender finalmente em que consistia a crassa ignorância do cervejeiro Magnus e ficar sabendo por que a literatura era outra coisa que não “belos caracteres”. Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar de Brunetto, Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre as virtudes e os vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar-lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloqüência, que qualificou de humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e só ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura... (– Está vendo? – disse Hans Castorp mais tarde ao primo. – Está vendo que na literatura o que importa são as belas palavras? Eu percebi logo...) – E dessa forma, prosseguiu o italiano, achava-se também a política ligada à literatura, ou melhor, tinha a sua origem na aliança, na fusão de humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. Faz dois séculos, disse Settembrini, vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conservador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Devia ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. Pois escrever bem já era quase pensar bem, e daí a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e idéia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde.

O jovem Hans Castorp achava tudo isso digno de ser escutado -sem compromisso e a título de experiência apenas, mas em todo caso digno de atenção. Foi nesse sentido que falou com Joachim Ziemssen, o qual, porém, por andar com o termômetro na boca, não podia responder senão indistintamente, e que a seguir se mostrou por demais ocupado em decifrar os graus e inscrevê-los na papeleta, para que pudesse formular uma opinião acerca dos pontos de vista de Settembrini. Hans Castorp, porém, inteirava-se, cheio de boa vontade, dessas opiniões e abria-lhes o seu íntimo, a fim de estudá-las; o que deixa ver quanta vantagem leva o homem acordado sobre o homem que dorme estupidamente – pois, nos seus sonhos, já acontecera diversas vezes a Hans Castorp tratar o Sr. Settembrini, à queima-roupa, de tocador de realejo, e procurar empurrá-lo com toda a força, porque “era demais ali”. Mas, como homem acordado, ouvia-o atenta e cortesmente e esforçava-se com muita imparcialidade por suavizar e diminuir a oposição que nele desejava levantar-se contra as idéias e as exposições do seu mentor. Não se pode negar que tal oposição existia na sua alma; baseava-se em resistências antigas que sempre haviam operado ali e também em outras, resultantes da situação presente, das experiências ora indiretas ora secretas que Hans Castorp fazia ali em cima.

Que é o homem, e com quanta facilidade pode ser ludibriada a sua consciência! Como é perito na arte de perceber na própria voz do dever a licença para se entregar à paixão! Era por um senso de dever, por eqüidade, pela necessidade de um contrapeso, que Hans Castorp escutava os discursos do Sr. Settembrini, examinando, com muita complacência, as suas considerações quanto à razão, à república e à beleza do estilo, e dispondo-se a deixar-se influenciar por elas. Tanto mais lícito lhe parecia depois dar livre curso aos seus pensamentos e aos seus sonhos, a fim de que rumassem numa direção diferente e até oposta – e para formularmos desde já o resultado total do que suspeitamos ou adivinhamos, seja dito que escutava o Sr. Settembrini com a finalidade exclusiva de obter da sua consciência plenos poderes que esta primitivamente não lhe quisera outorgar. Mas, o que ou quem é que se encontrava do lado oposto ao patriotismo, à dignidade humana e às belas-letras, desse lado onde Hans Castorp pensava ter reconquistado o direito de dirigir seus pensamentos e seus atos? Ali se achava Clávdia Chauchat, indolente, carcomida, com seus olhos de quirguiz, e enquanto Hans refletia sobre ela – a palavra “refletir” é, aliás, muito mansa para expressar o modo como, no seu íntimo, se ocupava com ela –, era novamente como se andasse de barca por aquele lago de Holstein e dirigisse os olhos deslumbrados e confundidos pela luminosidade vítrea da margem ocidental, para a noite de luar, entremeada de brumas, dos céus do Oriente.

 

         O termômetro

A semana de Hans Castorp ia de terça a terça-feira, visto ele ter chegado numa terça-feira. Já fazia alguns dias que liquidara a conta da segunda semana – com a importância modesta de uns cento e sessenta francos, razoável e justificada segundo a sua própria opinião, mesmo que deixassem de ser consideradas as vantagens impagáveis da estadia ali, justamente por ser impossível pagar por elas, e embora figurassem nela certos suplementos que poderiam ser faturados, se assim o quisessem, como, por exemplo, o concerto bimensal e as conferências do Dr. Krokowski. O total de cento e sessenta francos referia-se exclusivamente à pensão propriamente dita, ao que oferecia o hotel como tal, à hospedagem confortável e às cinco refeições reforçadíssimas.

– Não é caro, não; é até barato, e você não pode se queixar de ser explorado aqui em cima – disse o visitante ao morador antigo. – Você gasta, em média, uns seiscentos e cinqüenta francos por mês com o quarto e a comida, e nisso já está incluído o tratamento médico. Muito bem! Admitamos que você gaste ainda uns trinta francos por mês em gorjetas, porque quer mostrar-se generoso e faz questão de ver em toda parte caras sorridentes. Temos então seiscentos e oitenta francos. Você vai me dizer que existem ainda extras e despesas por fora. Vai-se algum dinheiro para bebidas, para cosméticos e charutos; de vez em quando se faz uma excursão, um passeio de carro, e um dia vem a conta do alfaiate ou do sapateiro. Perfeitamente! Mas com tudo isso, você não consegue, nem querendo, ir além de mil francos por mês. Não são nem sequer oitocentos! O total não chega a dez mil francos por ano. Disso não passa. É o que você gasta...

– Grau dez em cálculo mental – disse Joachim. – Eu nem sabia que você era tão forte nisso. E acho mesmo generoso da sua parte fazer logo a conta do ano inteiro. Mas você exagerou a despesa. Eu não fumo charutos e não tenciono chegar à situação de precisar de roupas novas aqui; não, senhor!

– Bem, então é ainda menos – disse Hans Castorp um tanto confuso. Mas, fossem quais fossem os motivos que o haviam induzido a incluir na conta do primo charutos e roupas novas, a rapidez do seu cálculo mental não passava de uma ilusão, e Joachim se enganara a respeito dos dons naturais do primo. Pois, nesse terreno como em todos os outros, Hans Castorp era antes lerdo e pouco inspirado. No caso em apreço, não se tratava de uma improvisação, realizada com tamanha facilidade, senão do produto de um trabalho executado por escrito: uma noite, durante o repouso – pois também ele acabara por deitar-se depois do jantar, já que todo mundo o fazia –, levantara-se especialmente da sua magnífica espreguiçadeira e, obedecendo a um súbito impulso, fora ao quarto buscar papel e um lápis para calcular. Dessa forma verificara que seu primo – ou melhor, que um pensionista do sanatório – precisava, tudo incluído, de uns doze mil francos por ano, e convencera-se, assim por brincadeira, de que ele próprio estava financeiramente mais do que à altura das despesas exigidas ali em cima, uma vez que dispunha de dezoito a dezenove mil francos por ano.

Sua segunda conta semanal fora, portanto, liquidada havia três dias, e ele recebera o devido recibo e agradecimento. Significava isso que Hans Castorp alcançara a metade da terceira e, segundo os seus planos, da última semana da sua estadia. No domingo próximo assistiria a mais um dos concertos quinzenais; na segunda-feira escutaria outra das conferências igualmente bimensais do Dr. Krokowski – assim disse de si para si e também o declarou a Joachim. Mas na terça ou quarta-feira partiria e deixaria o primo sozinho, o pobre do Joachim, a cuja pena Radamanto voltara a acrescentar sabe Deus quantos meses, e cujos olhos meigos e negros se cobriam de um véu melancólico, cada vez que se falava da partida iminente de Hans Castorp. Cruzes! Como tinham corrido essas férias! Haviam voado, fugido, evaporado – não se podia dizer como. Eram, afinal de contas, vinte e um dias que os dois primos deviam passar em companhia um do outro, uma longa série cujo fim, no início, parecia muito distante. E agora, de repente, não sobravam mais que três ou quatro míseros dias, um resto insignificante, que, na verdade, se tornava um pouco mais importante pelas duas variantes periódicas do programa habitual, mas sobre o qual já pesava o pressentimento da arrumação das malas e da despedida. Três semanas não representavam quase nada ali em cima – todos o haviam prevenido desse fato. A menor unidade de tempo era ali o mês – dissera Settembrini, e como a estadia de Hans Castorp no Berghof não chegasse a tanto, era uma permanência de nada; não passava de uma visita de médico, como a qualificara o Dr. Behrens. Talvez fosse devido ao aumento da combustão geral que o tempo corria ali tão vertiginosamente? Tal rapidez de vida podia, afinal, servir de consolo a Joachim, quando ele pensava nos cinco meses que tinha à sua frente, contando que não houvesse mais do que isso. Mas, durante essas três semanas deveria ter prestado maior atenção ao curso do tempo, assim como se fazia ao tomar-se a temperatura, quando os sete minutos regulamentares se convertiam num lapso de tempo considerável... Hans Castorp sentia sincera compaixão pelo primo, em cujos olhos se podia ler a mágoa de perder em breve o companheiro; com efeito, experimentava a mais viva compaixão, pensando em que o coitado permaneceria dali por diante sem ele, que tornaria a viver na planície e trabalharia a serviço da técnica das comunicações que ligavam os países. Era uma compaixão tão ardente que em certos momentos lhe doía o coração, e tão viva que às vezes o fazia perguntar seriamente a si mesmo se teria a coragem de deixar Joachim sozinho ali em cima. E justamente por ser esse sentimento tão ardente, Hans Castorp evitava o mais possível falar da sua partida. Era Joachim quem de vez em quando dirigia a conversa para ela, pois Hans Castorp, como já acabamos de dizer, pareceu, por tato e delicadeza naturais, esquivar-se a esse assunto até o último instante.

– Tomara – disse Joachim – que você ao menos tenha descansado aqui, e que lá embaixo se sinta mais forte.

– Sim, vou dar lembranças a todo mundo – respondeu Hans Castorp – e dizer que você voltará daqui a cinco meses, o mais tardar. Você disse “descansado”? Se eu descansei bem nestes poucos dias? Acho que sim. Creio que mesmo um tempo tão curto deve fazer bem à gente. É verdade que as impressões que recebi aqui foram muito estranhas, estranhas sob todos os pontos de vista, e assim lhes devo grande número de idéias novas; mas também foram fatigantes, tanto para o corpo como para o espírito. Não me parece que já digeri tudo isso e que me aclimatei, o que seria a base de todo descanso. O Maria, graças a Deus, voltou a ter o mesmo sabor de antes. Faz alguns dias que gosto dele novamente. Mas acontece ainda às vezes, quando me assôo, que meu lenço se tinja de vermelho, e este maldito ardor do rosto junto com aquelas absurdas palpitações não me abandonarão, ao que penso, até o fim da minha estadia. Não, senhor! Não se pode falar, no meu caso, de aclimatação. E nem é possível com tão pouco tempo! Seria preciso uma permanência mais longa para a gente se adaptar e assimilar as impressões novas, antes que se possa começar com o descanso e o tal acúmulo de proteínas. É uma lástima! Digo “lástima”, porque certamente foi um erro da minha parte não ter reservado mais tempo para esta viagem, porque era fácil consegui-lo. Assim me parece que lá em casa, na planície, terei antes de mais nada de descansar deste descanso. Vou dormir três semanas a fio, tão esgotado estou. E infelizmente tenho ainda este catarro...

Com efeito, Hans Castorp parecia fadado a regressar à planície com um resfriado de primeira classe. Constipara-se, provavelmente durante o repouso, e para fazermos uma segunda conjetura, durante o repouso noturno, do qual participava havia uma semana, apesar do tempo frio e úmido, que não dava mostras de melhorar antes da sua partida. Mas ficara sabendo que esse tempo não era considerado mau. O conceito de mau tempo não existia, propriamente, ali em cima; não se temia tempo nenhum; mal se preocupavam com a sua qualidade; e com a docilidade elástica peculiar à juventude, com toda a sua facilidade de adaptação às idéias e aos hábitos do ambiente ao qual se achava transferido, Hans Castorp pusera-se a imitar essa indiferença. Quando chovia a cântaros, não se devia pensar que por isso o ar fosse menos seco. E não parecia mesmo sê-lo, pois a gente continuava a ter a cabeça em brasa, como se se achasse numa peça superaquecida ou tivesse tomado muito vinho. No que se refere ao frio, que era forte, teria sido insensato refugiar-se no quarto para escapar dele. Enquanto não nevasse, não se acendia a calefação central, e sentar-se no quarto não era mais confortável do que ficar deitado no compartimento da sacada, agasalhado com um sobretudo de inverno e envolto, conforme as regras, em dois bons cobertores de pêlo de camelo. Bem ao contrário, essa última posição era infinitamente mais cômoda; era, nem mais nem menos, a posição mais prazenteira que Hans Castorp se recordava já ter experimentado – opinião que não mudaria pelo fato de um literato e carbonário a qualificar, com uma segunda intenção equívoca e maliciosa, de posição “horizontal”. Principalmente à noite, ela lhe agradava muito, quando a lampadazinha acesa luzia na mesinha a seu lado, e Hans Castorp, bem embrulhado nos cobertores cálidos, tendo entre os dentes o Maria Mancini, de sabor reencontrado, entregava-se ao gozo das vantagens dificilmente definíveis que oferecia esse tipo de cadeira; gozava-as, embora com a ponta do nariz gelada e as mãos que seguravam um livro – ainda o Ocean steamships – rígidas e avermelhadas pelo frio, olhando através dos arcos da loggia para o vale cada vez mais escuro, com as luzes ora dispersas ora aglomeradas, e escutando a música que dali vinha quase todas as noites durante uma hora, sons agradavelmente abafados, familiares e melodiosos: fragmentos de óperas – trechos de Carmen, do Trovador, do Freischütz –, valsas ligeiras, marchas que faziam com que a gente marcasse o ritmo com a cabeça, e alegres mazurcas. Mazurca? Em realidade ela se chamava Marusja, a mocinha com o pequeno rubi, e no compartimento vizinho, atrás da espessa parede de vidro opaco, jazia Joachim. De vez em quando, Hans Castorp trocava com ele algumas palavras em voz baixa, procurando não incomodar os outros “horizontais”. No seu compartimento, Joachim achava-se tão bem instalado quanto Hans Castorp, se bem que não entendesse de música e não soubesse achar prazer nos concertos noturnos. Tanto pior para ele! Em vez disso, lia provavelmente a sua gramática russa. Hans Castorp, porém, deixava o Ocean steamships descansar sobre o cobertor e saboreava com sincera simpatia os sons da música, sondando completamente a profundeza translúcida do seu feitio e encontrando tão franco deleite em determinada invenção musical cheia de caráter e de graça, que só com hostilidade recordava as coisas que Settembrini dissera a respeito da música, considerações irritantes, no sentido de ser ela politicamente suspeita, e que, realmente, não valiam mais do que o dito do avô Giuseppe sobre a Revolução de Julho e os seis dias do Gênese...

Joachim não participava, portanto, do gozo musical e ignorava também a distração aromática do tabaco. Mas, fora isso, estava no seu compartimento igualmente agasalhado, estendido num abrigo pacato. Terminara o dia, terminara tudo por essa vez, e podia-se ter certeza de que nada mais se produziria, que já não haveria emoções, que mais nenhum esforço se exigiria do músculo cardíaco. Mas ao mesmo tempo não havia dúvida de que no dia seguinte tudo voltaria a repetir-se e recomeçaria, com toda a probabilidade que acarretava essa existência monótona, garantida e regular. E essa dupla segurança era sumamente reconfortante; unida à música e ao sabor ressuscitado do Maria, fazia com que o repouso da noite representasse para Hans Castorp um estado de verdadeira felicidade.

Mas tudo isso não impedira que o visitante e noviço pouco resistente se houvesse gripado violentamente durante o repouso ou em qualquer outra ocasião. Anunciava-se um intenso resfriado, que se instalara na cavidade frontal, comprimindo-a. A úvula estava irritada e dolorida. O ar não passava normalmente pelo canal que a natureza destinava a esse fim; atravessava-o, frio, com dificuldade, provocando incessantes acessos de tosse. A voz de Hans Castorp adquirira de um dia para outro a tonalidade de um contrabaixo surdo, como que macerado por bebidas fortes. Segundo ele dizia, não pregara olho durante a noite, porque uma secura sufocante da garganta o sobressaltara de quando em quando.

– É bem desagradável – disse Joachim. – É quase escandaloso. Você deve saber que aqui em cima os resfriados não são permitidos, que se nega a sua existência. Oficialmente, são impossíveis, com esse ar seco, e um paciente que se apresentasse ao Behrens como gripado seria muito mal recebido. Bem, com você o caso é diferente. Você, afinal, pode se permitir uma coisa dessas. Seria bom se conseguíssemos cortar a gripe. Lá na planície há métodos de fazê-lo, mas aqui... Não acho que o seu caso vá despertar grande interesse. É preferível não adoecer aqui, porque ninguém se preocupa com a gente. Isto é uma velha regra que você pode aprender ainda antes de partir. Quando cheguei aqui, havia uma senhora que durante uma semana a fio tapou a orelha com a mão e gemeu de dor. Finalmente, o Behrens foi examiná-la. “A senhora pode ficar completamente tranqüila”, disse ele. “Isso não vem da tuberculose.” E nisso ficou a coisa. Sim, senhor! Temos que dar um jeito. Amanhã falarei com o massagista, quando ele vier ao meu quarto. Com ele começa a via hierárquica, e dali o caso passará pelos canais regulamentares. E, talvez, acabem fazendo qualquer coisa por você.

Assim falou Joachim, e a via hierárquica foi brilhantemente posta à prova. Na sexta-feira, quando Hans Castorp regressou do passeio matinal, bateram à sua porta, e daí resultou uma oportunidade para travar conhecimento pessoal com a enfermeira-chefe, Srta. von Mylendonk, ou Superiora, como a chamavam. Até então, enxergara apenas de longe essa personagem aparentemente muito ocupada; vira-a sair do quarto de um enfermo, para atravessar o corredor e entrar em outro quarto do lado oposto; ou ouvira-lhe a voz coaxante, durante uma das suas rápidas passagens pela sala de refeições. Desta vez, porém, a visita destinava-se a ele próprio. Atraída pela sua gripe, dera com os ossudos dedos rápidas batidas à porta do aposento. Transpôs o limiar, ainda antes de ele dizer “Entre”, e deteve-se por um instante, para certificar-se do número do quarto.

– Trinta e quatro – coaxou sem abafar a voz. – Está certo. Escute, rapaz, on me dit que vous avez pris froid. I hear you have caught a cold. Wy, cajetsia, prostudilisj – e continuou em alemão: – Ouvi dizer que está resfriado. Qual é a língua que compreende? Ah, já vejo que é alemão. Pois é, a visita do jovem Ziemssen, já sei. Estão esperando por mim na sala de operações, por causa de um indivíduo que será anestesiado e acaba de comer salada de feijão. Quando a gente não tem os olhos em toda parte... Então, rapaz, acha mesmo que se resfriou aqui?

Hans Castorp ficou perplexo ante esse linguajar de uma senhora da alta aristocracia. Enquanto ela falava, parecia passar por cima das suas próprias palavras, voltando a cabeça de cá para lá, num movimento irrequieto, circular, e erguendo o nariz, como para farejar, assim como fazem as feras na jaula. A mão direita sardenta, apenas cerrada, com o polegar levantado, bamboleava no punho, como para dizer: “Depressa, depressa! Não escute o que eu digo! Fale, afinal, para que eu possa sair”. Era uma quarentona, de reduzida estatura, sem formas atraentes, vestida de jaleco branco, cinturado, de hospital, e trazia sobre o peito uma cruz adornada de granadas. Sob a touca de enfermeira apareciam uns escassos cabelos arruivados; o olhar parecia inseguro, e num dos olhos congestionados, de um azul aquoso, havia um terçol bastante adiantado. O nariz era arrebitado, e a boca tinha algo de sapo, enquanto o lábio inferior avançava obliquamente e fazia, ao falar, um movimento de pá. Hans Castorp, não obstante, contemplou a Srta. von Mylendonk com toda a afabilidade singela, cheia de indulgência e confiança, que lhe era peculiar.

– Que tipo de resfriado é esse? – voltou a enfermeira-chefe a perguntar, esforçando-se por dar a seus olhos uma insistência penetrante, o que no entanto não conseguiu, porque seu olhar se desviava logo. – Não gostamos de resfriados. Resfria-se com freqüência? Seu primo também se resfria a cada instante, não é? Que idade tem o senhor? Vinte e quatro? É uma idade perigosa. Só agora chegou aqui e já se resfriou? Num caso desses não convém falar de resfriado, meu prezado rapaz. Isto é lero-lero lá embaixo. – A palavra “lero-lero” soava horrorosa e extravagante na sua boca, proferida com aquele movimento de pá do lábio inferior. – O senhor tem um belíssimo catarro nas vias respiratórias; isso não se discute, basta ver os seus olhos. – E de novo ela fez a estranha tentativa de encará-lo com um olhar penetrante, sem que dessa vez tivesse melhor êxito. – Mas catarros não vêm do frio. Eles vêm é de uma infecção para a qual a gente está predisposta. Agora resta apenas saber se se trata ou não de uma infecção inofensiva. Todo o resto é lero-lero. – Mais uma vez essa palavra repugnante! – É bem possível que no seu caso a predisposição tenha caráter inócuo – acrescentou fitando-o de um modo inexplicável, com o terçol adiantado. – Aqui tenho um simples anti-séptico, pode ser que lhe faça bem. – Com isso tirou da bolsa de couro negro, que lhe pendia do cinturão, um pequeno embrulho que colocou na mesa. Era Formaminto. – Mas o senhor me parece corado, como se tivesse febre. – Ela não parava de fitá-lo, com um olhar que sempre se afastava do seu alvo. – Já tomou a temperatura?

Hans Castorp disse que não.

– Por que não? – perguntou, e o lábio inferior, avançado obliquamente, permaneceu nessa posição...

Ele não respondeu. O bom Hans Castorp era ainda muito jovem e conservara o hábito do silêncio, próprio dos colegiais que se plantam na carteira, nada sabem e por isso se calam.

– O senhor não toma nunca a sua temperatura?

– Tomo, Srª. Superiora; quando estou com febre, tomo.

– Olhe, meu rapaz, a gente toma a temperatura justamente para ver se tem ou não tem febre. E segundo a sua opinião não está com febre, no momento?

– Não sei, Srª. Superiora. Não tenho certeza. Desde que cheguei aqui já sinto ao mesmo tempo calor e frio.

– Hum, hum! E onde está o seu termômetro?

– Não trouxe nenhum comigo, Srª. Superiora. Para quê? Eu vim aqui apenas de visita. Estou bem de saúde.

– Lero-lero! O senhor me mandou chamar porque está bem de saúde?

– Não, senhora – riu-se ele cortesmente. – Mas porque estou um pouco...

– ...resfriado. Já vi muito resfriado desses. Aqui, tome! – disse ela e pôs-se novamente a mexer na bolsa. Por fim retirou dois estojos alongados, de couro, um preto e outro vermelho, que colocou igualmente na mesa. – Este custa três francos e este custa cinco. Claro que o senhor fica melhor servido com o de cinco. É para toda a vida, se o manejar com cuidado.

Sorrindo, Hans Castorp tirou da mesa o estojo vermelho.

Abriu-o. Faceiro como uma jóia, jazia o utensílio de vidro na concavidade exatamente adaptada à sua forma e forrada de veludo encarnado. Os graus completos eram marcados com riscas vermelhas, e os décimos, com riscas pretas. Os números eram vermelhos. A parte inferior, que ia se adelgaçando, estava cheia de cintilante mercúrio. A coluna aparecia baixa, marcando uma temperatura muito inferior ao grau normal do calor animal.

Hans Castorp não ignorava o que devia a si mesmo e ao seu prestígio.

– Vou comprar este – disse, sem prestar a mínima atenção ao outro. – O de cinco. Será que lhe posso...

– Feito! – coaxou a enfermeira-chefe. – Não convém fazer economias quando se trata de compras importantes. Não há pressa, que vão pô-lo na conta. Deixe-me vê-lo. Para começar, vamos fazê-lo descer completamente, assim. – Tirou-lhe o termômetro da mão e agitou-o repetidas vezes no ar, fazendo com que a coluna de mercúrio parasse abaixo de 35. – Já vai subir, o mercúrio, já vai subir – acrescentou. – E agora tome a sua aquisição. Sem dúvida já sabe como se procede aqui. Debaixo da sua prezada língua, durante sete minutos, quatro vezes por dia, e mantenha bem fechadinhos os seus simpáticos lábios. Adeusinho, meu rapaz. Desejo-lhe um bom resultado. – E saiu do quarto.

Hans Castorp, que fizera uma mesura, quedava-se junto à mesinha, e seu olhar passava da porta pela qual saíra a enfermeira-chefe ao instrumento que ela deixara. “Então é essa a Srta. von Mylendonk”, disse de si para si. “Settembrini não gosta dela, e realmente ela tem seus lados ruins. O terçol não é nada bonito, mas isso, com certeza, não é permanente. Mas por que me chama sempre de ‘rapaz’? Que rudeza estranha! E logo me vendeu um termômetro. Anda sempre com alguns na bolsa. Parece que aqui há termômetros em toda parte, em qualquer loja, inclusive nos lugares onde ninguém os esperaria encontrar, segundo afirma Joachim. Ora, eu nem tive o trabalho de procurar um, pois já me caiu nas mãos.” Tirou do estojo o frágil objeto, contemplou-o e pôs-se a andar nervosamente pelo quarto. Seu coração batia depressa e violentamente. Lançou um olhar para a porta aberta da sacada. A seguir fez menção de se encaminhar à do quarto, na intenção de ir ter com Joachim. Mas desistiu disso e deixou-se ficar de pé, perto da mesa, pigarreando, para verificar a rouquidão. Depois tossiu francamente. “Pois é, agora vou ver se o resfriado me deu febre”, falou com os seus botões, enquanto introduzia, num movimento rápido, o termômetro na boca, com a ponta de mercúrio sob a língua, de modo que o instrumento, apontando obliquamente para cima, saía por entre os lábios que ele cerrava bem para não dar entrada ao ar. Feito isso, olhou o relógio de pulso. Eram nove e trinta e seis. E começou a esperar que decorressem sete minutos.

“Nem um segundo a mais”, pensou, “nem um a menos. Em mim podem ter confiança, nas duas direções. Não há necessidade de me dar uma ‘irmã muda’, como àquela criatura de que falou Settembrini, a tal Ottilie Kneifer.” A seguir pôs-se a passear pelo quarto, comprimindo o instrumento com a língua.

O tempo ia se arrastando. O prazo parecia infinito. Somente dois minutos e meio haviam passado quando ele olhou os ponteiros, receando ter ultrapassado o momento marcado. Fez então um sem-número de coisas: agarrou objetos e os recolocou no lugar, saiu à sacada, procurando esquivar-se à atenção do primo, deixou que os olhos vagassem por sobre a paisagem, esse vale situado a grande altura, já profundamente familiar ao seu espírito, em todas as suas formas, com seus picos, cordilheiras e paredes rochosas, onde, do lado esquerdo, avançava o platô de Brämenbühl, cuja encosta se inclinava para a aldeia e cujos flancos eram cobertos pelo matagal agreste dos prados alpinos, com as formações das montanhas, à direita, cujos nomes aprendera também, e com a Alteinwand que, vista do lugar onde se achava Hans Castorp, parecia fechar o vale do lado do sul. E seu olhar passava por sobre as veredas e os canteiros do terraço ajardinado, com a gruta rupestre e o abeto. Escutava um murmúrio que subia do alpendre, onde alguns pensionistas se entregavam ao repouso. Voltou então ao quarto, enquanto procurava melhorar a posição do instrumento na boca. A seguir avançou o braço, para afastar a manga do pulso e aproximar o relógio do rosto. Com muito trabalho e esforço, por assim dizer sob o efeito de empurrões, golpes e pontapés, haviam decorrido seis minutos. Mas, como então se deixasse estar no quarto e se abandonasse a devaneios, dando livre curso aos seus pensamentos, passou despercebido o último minuto, como nas patas silenciosas de um gato até que um novo movimento do braço lhe revelasse a sua fuga clandestina. E já era um pouco tarde; a terça parte do oitavo minuto já se escoara, quando Hans Castorp, dizendo consigo que isso não tinha importância, não fazia mal nem modificava o resultado, tirou o termômetro da boca e cravou nele os olhos desorientados.

Não conseguiu decifrar imediatamente a indicação do instrumento. O brilho do mercúrio confundia-se com o reflexo luminoso do achatado tubo de vidro. A coluna parecia ora ter subido muito ora não existir de todo. Hans Castorp achegou o termômetro aos olhos, virou-o de um lado para outro e não distinguiu nada. Finalmente, depois de um movimento feliz, a imagem tornou-se nítida; ele reteve-a e submeteu-a depressa ao trabalho da sua inteligência. Com efeito, o mercúrio dilatara-se, dilatara-se consideravelmente. A coluna subira bastante alto e parará a vários décimos acima do limite normal. Hans Castorp tinha 37,6.

Em pleno dia, entre as dez e as dez e meia, 37,6 era demais; era temperatura elevada, era uma febre que resultava de uma infecção à qual estava predisposto, e restava apenas saber de que tipo de infecção se tratava. 37,6! O próprio Joachim não tinha mais; ninguém ali tinha mais, com exceção daqueles que se achavam acamados por estarem gravemente enfermos ou até moribundos; nem a Kleefeld, com o seu pneumotórax, nem... nem tampouco Mme. Chauchat. Naturalmente, no seu caso particular não era a mesma coisa; ele tinha o que lá embaixo chamava de uma simples gripezinha. Mas seria difícil estabelecer uma diferença clara. Hans Castorp não sabia com certeza desde quando andava com essa temperatura, e se era somente desde que se resfriara. Lamentou não ter interrogado o mercúrio mais cedo, logo no início da sua estadia ali, como lhe aconselhara o Dr. Behrens. Era um conselho bem sensato, como se manifestava agora, e Settembrini fizera muito mal ao rir-se dele daquele modo ruidoso e zombeteiro – aquele Settembrini com sua república e seu belo estilo! Hans Castorp desprezava a república e o belo estilo, enquanto examinava uma e outra vez a indicação do termômetro, que não raro se lhe esquivava, em virtude dos reflexos, e que então ele voltava a apanhar, virando e revirando fervorosamente o instrumento. Eram 37,6, e isso de manhã!

Experimentou uma violenta emoção. Pôs-se a atravessar o quarto de um lado para outro, com o termômetro na mão, que mantinha horizontalmente, a fim de evitar o mínimo abalo por uma sacudidela em sentido vertical. Depois colocou-o com todo o cuidado no anteparo do lavatório e, pegando o sobretudo e os cobertores, foi entregar-se ao repouso. Sentado, envolveu-se nos cobertores, assim como aprendera, pelos dois lados e por baixo, manejando-os um após outro com a habilidade já adquirida. A seguir permaneceu imóvel até a hora do café da manhã, à espera da entrada de Joachim. Às vezes sorria, e era como se sorrisse a alguém. Às vezes levantava-se-lhe o peito num tremor angustiado, o que o fazia tossir, com o peito opresso pelo catarro.

Joachim encontrou-o ainda deitado, quando, às onze horas, depois das badaladas do gongo, foi buscá-lo para a refeição.

– Então? – perguntou admirado, aproximando-se da espreguiçadeira.

Hans Castorp permaneceu calado durante um momento, olhando apenas para a frente. Por fim respondeu:

– Quer saber da última? Estou com uma temperatura um pouco elevada.

– Que significa isso? – perguntou Joachim. – Você tem a impressão de estar com febre?

Hans Castorp mais uma vez demorou um pouco a dar a resposta, antes de replicar com certa indolência:

– Olhe, meu caro, já faz tempo que me sinto febril, desde que estou aqui. Desta vez não se trata de impressões subjetivas, mas de uma verificação exata. Tirei a temperatura.

– Você tirou a temperatura? Com quê? – gritou Joachim, assustado.

– Com um termômetro, ora essa – respondeu Hans Castorp, com um ar irônico e severo. – Comprei um da enfermeira-chefe. O que não sei é por que ela trata a gente de “rapaz”. Pelo menos não acho isso muito correto. Mas me vendeu a toda pressa um ótimo termômetro, e se você quiser convencer-se da temperatura que ele indica, pode ver ali dentro, no lavatório. É uma elevação insignificante.

Joachim deu bruscamente meia-volta e entrou no quarto. Quando saiu outra vez, disse num tom hesitante:

– Pois é, são 37,5.

– Nesse caso baixou um pouco – tornou Hans Castorp imediatamente. – Eram 37,6.

– Não se pode dizer que isso seja insignificante, já pela manhã – opinou Joachim. – É uma bonita surpresa – acrescentou, plantando-se em frente da espreguiçadeira do primo, como para admirar a “bonita surpresa”, com as mãos à cintura, e com a cabeça baixa. – Você terá de ficar na cama.

Hans Castorp já estava com a resposta preparada.

– Não vejo nenhum motivo – retrucou – para ficar deitado com 37,6 quando você e tantos outros que têm a mesma temperatura andam passeando livremente.

– Mas isso é diferente – disse Joachim. – No seu caso trata-se de uma coisa aguda e inofensiva. Você tem febre porque está resfriado.

– Primeiro – replicou Hans Castorp, subdividindo o seu discurso em “primeiro” e “segundo” –, não compreendo por que com uma febre inofensiva – admitamos que exista uma coisa dessas – por que com uma febre inofensiva a gente deva ficar na cama, e com outra febre não. E segundo, já lhe disse que o resfriado não me fez mais quente do que eu estava antes. Na minha opinião – concluiu – 37,6 é igual a 37,6. Se vocês podem passear com uma temperatura dessas, eu também posso.

– Mas quando cheguei aqui tive que permanecer deitado durante quatro semanas – objetou Joachim. – E só quando verificaram que a cama não fazia desaparecer a febre foi que me deram licença para levantar-me.

Hans Castorp sorriu.

– E daí? – perguntou. – Eu pensava que o seu caso fosse diferente. Tenho a impressão de que você se contradiz a si mesmo. Primeiro estabelece uma diferença e logo depois equipara. Isto é lero-lero...

Joachim deu meia-volta sobre os calcanhares, e quando novamente se dirigiu ao primo, viu que seu rosto trigueiro se tornara ainda mais escuro.

– Não, senhor – disse ele. – Não equiparo nada. Quem faz confusão é você. Eu acho apenas que você anda resfriadíssimo. Basta ouvir a sua voz. E você deveria meter-se na cama para abreviar a coisa, uma vez que tenciona partir na semana que vem. Mas, se não quiser... quer dizer, se não tiver vontade de ficar na cama, deixe. Eu não lhe dou ordens. Em todo caso está na hora do segundo café da manhã. Ligeiro, já estamos atrasados.

– Perfeitamente. Vamos então – disse Hans Castorp, afastando os cobertores. Entrou no quarto, para arrumar o penteado com a escova. Enquanto o fazia, Joachim foi ao lavatório a fim de olhar mais uma vez o termômetro, como Hans Castorp observou de longe. Depois desceram, sem falar, e voltaram a instalar-se nos seus lugares, na sala de refeições, que, como sempre a essa hora, resplandecia branca de tanto leite.

Quando a anã levou a Hans Castorp a cerveja Kulmbach, este a recusou com um ar de grave renúncia. Preferia hoje não tomar cerveja; não beberia nada, obrigado; quando muito, um copo d'água. Isso causou surpresa a seu redor. Mas como? Que novidades eram aquelas? Por que não queria cerveja?

– Tenho uma temperatura levemente elevada – disse Hans Castorp displicentemente. – 37,6. Coisa insignificante.

Eis que todos o advertiram com o dedo. Era estranho de ver. Tornavam-se engraçadinhos, inclinavam a cabeça para o lado, piscavam um olho e coçavam a orelha com o indicador, como para ouvirem melhor as coisas escabrosas, picantes, a respeito de alguém que até então se fingira inocente.

– Ora, ora, meu amigo! – disse a professora, e suas faces ruborizaram-se, enquanto o advertia sorrindo. – Ouve-se cada coisa! Vejam só!

– Imaginem! – gritou a Srª. Stöhr, enquanto erguia o curto dedo avermelhado à altura do nariz. – Ele tem tempus, o nosso visitante. Essa é boa! Que grande gozador!

A própria tia-avó, na outra extremidade da mesa, advertiu-o com o dedo, irônica e manhosamente, quando a novidade chegou até ela. A bela Marusja, que até então mal prestara atenção a ele, inclinou-se para enxergá-lo melhor e olhou-o com seus grandes olhos redondos, apertando contra os lábios o lencinho perfumado de flor de laranjeira. Também o Dr. Blumenkohl, ao qual a Srª. Stöhr acabava de comunicar o fato, não pôde deixar de fazer o gesto que todos faziam. Unicamente Miss Robinson mostrou-se indiferente e reservada como sempre. Joachim, numa atitude muito correta, mantinha os olhos baixos.

Hans Castorp, satisfeito pelo interesse que despertava, acreditou ser do seu dever desmenti-los modestamente.

– Não, senhores – disse –, estão enganados. A minha febre é a coisa mais inofensiva que se pode imaginar. Estou apenas resfriado. Estão vendo: meus olhos lacrimejam, tenho o peito opresso, e ando tossindo a noite toda. É bastante desagradável. – Mas eles não aceitaram as suas desculpas; riam-se, e com a mão faziam-lhe sinais, para que deixasse de insistir, enquanto gritavam: – Sim, sim, sim! É conversa fiada! Já se conhece essa do resfriado, já se conhece! – E todos exigiram subitamente que Hans Castorp se apresentasse sem demora a um exame médico. Essa notícia excitara-os. Dentre as sete mesas foi esta, durante o café da manhã, a mais animada. Sobretudo a Srª. Stöhr, com o estúpido rosto todo vermelho por cima do jabô, e com pequenas gretas na pele das faces, demonstrou uma loquacidade quase frenética. Pôs-se a fazer digressões a respeito da natureza fascinante da tosse. Sim, era mesmo uma distração e um prazer sentir como no fundo do peito se intensificava e crescia o prurido, que as pessoas procuravam, por assim dizer, pegar, esforçando-se convulsivamente e comprimindo-se para acalmar a irritação. E um divertimento análogo era oferecido pelo espirro, quando o desejo de soltá-lo aumentava poderosamente e se tornava irresistível, a ponto de a gente, como que inebriada, fazer algumas respirações violentas, antes de se entregar com delícia, esquecendo o resto do mundo ante a felicidade da explosão. E essa delícia podia produzir-se duas ou três vezes seguidas. Eram esses os prazeres gratuitos da vida, entre os quais também figurava o de coçar as frieiras, na primavera, quando elas picavam tão docemente – coçar-se com um fervor cruel, até sair sangue, abandonando-se à raiva e ao gozo, e quem, por acaso, se olhasse no espelho, num momento desses, depararia com uma careta diabólica. Com essa minúcia horrorosa, a inculta Srª. Stöhr discursou até o fim da curta mas substanciosa refeição intermediária. Então, os dois primos começaram o seu segundo passeio matinal, que os levaria a Davos-Platz. Joachim andava meio absorto e Hans Castorp, gemendo de tão resfriado que estava, dava pigarros do fundo do peito enferrujado. Ao regressarem, Joachim disse:

– Vou lhe fazer uma proposta. Hoje é sexta-feira. Amanhã, depois do almoço, tenho o meu exame mensal. Não se trata de um exame geral; o Behrens percute um pouquinho e manda o Krokowski tomar notas. Você poderia me acompanhar e pedir que aproveitem a ocasião para auscultá-lo rapidamente. É mesmo ridículo... Se isso lhe acontecesse em casa, mandaria chamar o Heidekind. E aqui onde temos dois especialistas, você dá passeios, sem ter idéia a quantas anda nem a que ponto vai a infecção; nem sequer sabe se não seria melhor meter-se na cama.

– Ótimo! – disse Hans Castorp. – Boa idéia! Claro que posso fazer isso. Será até interessante para mim assistir a um exame médico.

Estava, pois, tudo combinado, e, quando chegaram ao sanatório, quis o acaso que encontrassem o Dr. Behrens em pessoa. Assim tinham uma oportunidade favorável para formular imediatamente o seu pedido.

Da ala avançada do edifício saía o alto vulto de Behrens, com o pescoço vigoroso, as faces azuladas e os olhos saltados. Tinha o chapéu-coco atirado para trás e um charuto na boca. Parecia em plena atividade, a ponto de se dirigir para a aldeia, a fim de visitar sua clientela particular. Segundo declarou, acabava de trabalhar na sala de operações.

– Salve, cavalheiros! – exclamou. -sempre passeando, hein? Que tal o mundo grã-fino? Eu volto justamente de um duelo desigual, a faca e serra. Um caso sério, sabem? Ressecção de costelas. Antigamente ficavam na mesa uns cinqüenta por cento. Agora temos mais jeito, mas ainda acontece que o prazer se acabe antes do fim, mortis causa. Bem, o de hoje não era nenhum desmancha-prazeres. Por enquanto agüenta firme... Uma coisa louca, um tórax humano que já se foi todo. É uma pasta mole, sabem? Nada bonito! Por assim dizer, uma leve adulteração da idéia!... Bem, e os senhores? Como vai a prezada constituição? A existência é mais divertida a dois; não é, Ziemssen, velha raposa? Mas, por que está chorando, senhor turista? – acrescentou, dirigindo-se de repente a Hans Castorp. – É proibido chorar em público. É contra o regulamento da casa. Se todo mundo fizesse isso...

– É por causa do meu resfriado, doutor – respondeu Hans Castorp. – Não sei onde o peguei, mas estou com uma gripe terrível. Tenho também tosse, e meu peito está opresso...

– Vejam só! – exclamou Behrens. – Nesse caso, talvez fosse conveniente consultar um bom médico.

Os dois desataram a rir, e Joachim explicou, juntando os calcanhares:

– É o que tencionávamos fazer, senhor conselheiro. Amanhã é o dia do meu exame, e queríamos justamente pedir-lhe que tivesse a bondade de auscultar meu primo na mesma ocasião. Trata-se. de saber se ele poderá partir na terça-feira.

– S.a.o. – disse Behrens. -sempre às ordens! Com o maior prazer. Já deveríamos ter feito isso há muito tempo. Quem está aqui em cima não deve deixar de aproveitar a oportunidade. Mas, afinal de contas, a gente não quer insistir. Pois então, amanhã às duas, logo depois da bóia.

– É que tenho também um pouco de febre – recomeçou Hans Castorp.

– Não diga! – gritou Behrens. – O senhor me conta uma grande novidade. Pensa que não tenho olhos para ver? – E com o formidável indicador apontou para os dois bugalhos injetados, lacrimosos, de um azul úmido. – A propósito, qual é a sua temperatura?

Hans Castorp disse-a timidamente.

– Já de manhã? Nada mau! Para um principiante não lhe falta talento. Pois é, está combinado, amanhã às duas apareçam os dois. Será uma grande honra para mim. Boa digestão! – E com os joelhos dobrados, remando com as mãos, pôs-se a descer pelo caminho íngreme, enquanto a fumaça do charuto se desfraldava atrás dele.

– Está tudo arranjado como você desejava – disse Hans Castorp. – Não podia, ser melhor. Agora tenho hora marcada. No meu caso, ele não poderá fazer grande coisa. O máximo que me prescreverá será um xarope ou um peitoral, mas de qualquer jeito é agradável receber um pouco de reconforto por parte de um médico, para quem se sente tão mal como eu. Só queria saber por que ele usa essa linguagem exagerada e cínica. No começo me diverti com isso, mas agora não acho mais graça nenhuma. “Boa digestão!” Horrível! Pode-se dizer: “Bom proveito!” “Proveito” é uma palavra de certo cunho poético, assim como “o pão nosso de cada dia”, e se harmoniza bem com o adjetivo “bom”. Mas “digestão” é termo puramente fisiológico, e fazer votos pelo seu desenvolvimento feliz parece-me pura blasfêmia. Também não me agrada ver como ele fuma. Isso me deixa nervoso, porque sei que o charuto não lhe faz bem e o põe melancólico. Settembrini diz que a jovialidade de Behrens é forçada, e Settembrini é, indiscutivelmente, um homem crítico, de juízo seguro. Eu mesmo deveria, talvez, formar com mais freqüência uma opinião própria, em vez de aceitar as coisas como se apresentam. Nesse ponto, ele tem toda a razão. Mas acontece, então, que enquanto se está disposto a julgar, a criticar, a escandalizar-se, de repente se intromete qualquer coisa completamente diversa, que nada tem a ver com o juízo, e logo se acaba a indignação moral, e a república e o belo estilo só nos parecem insípidos...

Murmurou ainda algumas palavras indistintas. Tinha-se a impressão de que ele mesmo não sabia com clareza o que queria dizer. O primo limitou-se a olhá-lo de lado e disse:

– Até logo. – E ambos se dirigiram aos seus quartos e às respectivas espreguiçadeiras.

– Quanto? – perguntou Joachim depois de algum tempo, em voz abafada, apesar de não ter observado como Hans Castorp tornara a consultar o termômetro. Este respondeu num tom indiferente:

– Nada de novo.

Com efeito, apenas entrara no quarto, tirara de cima do lavatório a elegante aquisição da manhã; por meio de sacudidelas verticais apagara os 37,6 que já haviam desempenhado seu papel, e qual um veterano iniciara o repouso com o charuto de vidro na boca. Mas, contrariando todas as expectativas ambiciosas, e embora ele conservasse o instrumento sob a língua durante oito minutos inteiros, o mercúrio não se dilatara além dos mesmos 37,6 – o que, afinal, era febre, se bem que não mais alta do que a que tivera pela manhã. Depois do almoço, a coluna cintilante subiu a 37,7. À noite, quando o paciente estava muito cansado depois das sensações e emoções do dia, parou em 37,5, e na madrugada do dia seguinte marcou apenas 37, para alcançar novamente a posição do dia anterior, por volta do meio-dia. Com tudo isso chegou o almoço do sábado, e, ao seu fim, a hora marcada para o exame.

Mais tarde, Hans Castorp recordou-se de que Mme. Chauchat usara, durante essa refeição, um suéter amarelo-dourado com grandes botões e bolsos bordados, e que era novo, pelo menos para ele. Quando ela chegara, um pouco atrasada como sempre, apresentara-se na sala daquele modo que Hans Castorp bem conhecia. Depois encaminhara-se a passo silencioso para a sua mesa, como sucedia cinco vezes por dia; instalara-se na cadeira com movimentos lânguidos e, palestrando, começara a comer. Como todos os dias, mas dessa vez com uma atenção particular, Hans Castorp vira-a mover a cabeça, enquanto ela falava, e novamente notara-lhe a curva da nuca e a postura lassa das costas, quando seu olhar buscava a mesa dos “russos distintos”, por sobre o ombro de Settembrini, que estava sentado na mesa colocada transversalmente entre eles. Mme. Chauchat, porém, não se voltara durante o almoço nem uma única vez para a sala. Mas, depois da sobremesa, quando o grande relógio de pêndulo, colocado no lado estreito da sala, à direita, junto da mesa dos “russos ordinários”, dera as duas horas, acontecera o seguinte, causando uma emoção misteriosa a Hans Castorp: enquanto ressoavam as duas badaladas – uma e duas – a graciosa enferma virara lentamente a cabeça e também parte do tronco; por cima do ombro olhara clara e abertamente para a mesa de Hans Castorp, e não somente para essa mesa em geral; não, de um modo inequívoco e cruel fixara o olhar nele pessoalmente, esboçando um sorriso em torno dos lábios cerrados e nos olhos rasgados, semelhantes aos de Pribislav, como se quisesse dizer: “Pois então? Está na hora. Você vai ou não vai?” (Pois, quando os olhos falam, tratam-nos por “você”, ainda que a boca não tenha jamais empregado a terceira pessoa.) Fora esse um incidente que transtornara e enchera de espanto o âmago do coração de Hans Castorp. Mal confiara nos seus sentidos. Consternado fitara o rosto de Mme. Chauchat, e depois, levantando os olhos, acima da sua testa e dos seus cabelos, encarara o vazio. Sabia ela que às duas horas ele devia ir ao exame? Assim parecia, e entretanto isso era quase tão pouco provável como se ela soubesse que nesse mesmo instante, no minuto que acabava de escoar, ele se perguntara a si próprio se não deveria mandar Joachim dizer ao Dr. Behrens que seu resfriado já ia melhor, e que ele considerava o exame supérfluo; idéia cujas vantagens acabavam de definhar sob esse sorriso perscrutador, para transformarem-se em puro tédio dos mais repulsivos. Um segundo após, Joachim já pusera na mesa o guardanapo enrolado, e com as sobrancelhas alçadas dera-lhe um sinal. Inclinara-se então para os vizinhos e se afastara da mesa. E Hans Castorp, vacilando interiormente, se bem que de passo firme, e com a sensação de que aquele olhar e aquele sorriso continuavam pousados nele, seguira atrás do primo, em direção à saída.

Desde a manhã do dia anterior, não haviam voltado a falar do projeto, e ainda nesse instante caminhavam um ao lado do outro, num acordo tácito. Joachim apressava-se. Já passara a hora marcada, e o conselheiro áulico exigia pontualidade. O seu caminho conduzia-os da sala de refeições, pelo corredor do rés-do-chão, passando ao lado da administração e descendo pela escada limpa, coberta de linóleo, até o porão. Joachim bateu à porta fronteira à escada, porta que uma placa de porcelana indicava ser a entrada do consultório.

– Entre! – gritou Behrens, arrastando fortemente a primeira sílaba. Achava-se no centro da peça, vestido de avental, e tinha na mão direita o estetoscópio preto com o qual dava umas palmadinhas na perna.

– Vamos, vamos! – disse, com os olhos esbugalhados fitos no relógio de parede. – Un poco più presto, signori! Não estamos aqui ao serviço exclusivo de Vossas Senhorias.

O Dr. Krokowski estava sentado diante da dupla escrivaninha, junto à janela, pálido, com sua blusa de alpaca preta, apoiando os cotovelos na tábua da mesa; numa das mãos tinha a caneta e com a outra cofiava a barba; à sua frente jaziam papéis, provavelmente as fichas do paciente. Olhou os jovens que entravam com a expressão vaga de uma pessoa que se acha presente apenas para ajudar.

– Então, deixe ver o boletim – disse o conselheiro áulico, em resposta às desculpas de Joachim. Tirou-lhe da mão a papeleta de temperatura, para examiná-la, enquanto o enfermo se apressava a desnudar o tronco, suspendendo as roupas despidas no cabide ao lado da porta. Ninguém se ocupava de Hans Castorp. Durante algum tempo, ele permaneceu de pé, contemplando os outros. Depois, sentou-se numa poltrona de estilo antigo, guarnecida de borlas nos braços, e que se encontrava ao lado de uma mesinha com uma garrafa de água. Estantes carregadas de volumosas obras de medicina e de pastas cheias de documentos de casos estendiam-se ao longo das paredes. Fora disso, a mobília constava só de uma chaise longue, revestida de branco, que podia ser levantada e baixada mediante uma manivela, e cuja cabeceira estava coberta com um guardanapo de papel.

– Vírgula 7, vírgula 9, vírgula 8 – disse Behrens, folheando as fichas semanais, onde Joachim registrara fielmente as temperaturas tomadas cinco vezes por dia. – Ainda um pequeno excesso de animação, meu caro Ziemssen. O senhor não pode pretender que ficou mais calmo, desde o outro dia. (O “outro dia” fora quatro semanas atrás.) Não está desintoxicado, não, senhor! – acrescentou. – Ora, isto não se consegue de um dia para outro. Afinal de contas, não somos feiticeiros.

Joachim fez que sim com um gesto de cabeça e encolheu os ombros desnudos, se bem que pudesse objetar que não se achava no sanatório precisamente desde a véspera.

– E como vão aquelas pontadas no hilo direito, onde sempre havia anomalias? Melhor? Bem, venha cá! Vamos bater humildemente à sua porta. – E com isso começou o exame.

O Dr. Behrens, com as pernas separadas e o tronco inclinado para trás, meteu o estetoscópio sob o braço e começou a percutir a parte superior do ombro direito de Joachim; batia servindo-se do poderoso dedo médio da mão direita como martelo e apoiando-se na mão esquerda. Depois desceu pela omoplata e apalpou lateralmente a parte central e inferior das costas, feito o quê, Joachim, bem amestrado, levantou o braço para que o médico pudesse explorar também a região axilar. Tudo isso se repetiu então no lado esquerdo. A seguir, o conselheiro áulico deu ordem de meia-volta, para examinar o peito. Percutiu a zona logo abaixo do pescoço, junto à clavícula, bateu acima e abaixo do peito, primeiro à direita e depois à esquerda. Após ter percutido suficientemente, pôs-se a auscultar, colocando o estetoscópio nas costas e no peito de Joachim e apertando a orelha contra a concha; dessa forma foi percorrendo todas as regiões anteriormente apalpadas. Ao mesmo tempo era preciso que Joachim ora respirasse com vigor ora tossisse artificialmente, o que parecia fatigá-lo muito, pois ofegava e seus olhos enchiam-se de lágrimas. O Dr. Behrens, porém, comunicava tudo quanto ouvia em palavras breves e precisas ao assistente sentado à escrivaninha, de modo que Hans Castorp não pôde deixar de pensar numa sessão no alfaiate, quando o elegante artífice toma as medidas para um traje e, numa ordem tradicional, vai colocando a fita métrica aqui e ali em volta do corpo e dos membros do freguês, para então ditar as cifras assim obtidas ao oficial que, de costas encurvadas, se empenha em anotá-las. “Sopróide”, “diminuído”, ditava o Dr. Behrens. “Vesicular”, dizia, e outra vez “vesicular” – parecia que isso era um bom sinal. “Rude”, continuava, fazendo uma careta. “Muito rude.” “Estalido.” E o Dr. Krokowski ia tomando nota, como um aprendiz faz com os centímetros ditados pelo alfaiate.

Hans Castorp, com a cabeça inclinada para o lado, acompanhava os acontecimentos, perdendo-se numa contemplação pensativa do torso de Joachim, cujas costelas – graças a Deus não faltava ainda nenhuma – levantavam-se com as arfadas sob a pele tesa e ressaltavam alto por cima do estômago reentrante. Estudava esse corpo esbelto, de efebo, com a epiderme trigueiro-amarelada e os pêlos negros na zona do esterno e nos braços musculosos, um dos quais exibia em volta do pulso uma corrente de ouro. “São braços de ginasta”, pensava Hans Castorp. “Ele sempre gostou de cultura física, ao passo que eu nunca achei graça nisso. Era devido à sua predileção pelas armas. Sempre se preocupou com o corpo, muito mais do que eu, ou pelo menos de outra forma; pois eu nunca deixei de ser civil, e mais me importavam banhos quentes e boas comidas e bebidas, enquanto ele se dedicava a esforços e exercícios viris. E agora o seu corpo passou para o primeiro plano, mas de um modo muito diverso; tornou-se independente e tomou ares de importância, em virtude da doença. Está ‘animado’ e não quer ‘desintoxicar-se’ e ficar ‘calmo’, por mais que o pobre Joachim deseje ser soldado, lá na planície. Imaginem! Ele tem uma compleição perfeita, tal qual o Apolo de Belvedere, com exceção dos pêlos. Mas interiormente está enfermo e por fora demasiado aquecido pela doença. Pois a doença faz o homem mais corporal, torna-o corpo e nada mais...” E ao ventilar essas idéias, assustou-se e enviou um olhar rápido e perscrutador do tronco nu de Joachim para os seus olhos negros e meigos, que a respiração forçada e a tosse artificial haviam enchido de lágrimas, e que durante o exame olhavam, melancólicos, por cima do espectador, perdendo-se no vazio.

Nesse ínterim, o Dr. Behrens terminara o seu trabalho.

– Está bem, Ziemssen – disse. – Tudo em ordem, dentro das possibilidades. Na próxima vez (era dentro de quatro semanas) acho que estará um pouco melhor.

– Quanto tempo pensa o senhor conselheiro que...

– Tem pressa, outra vez? Nesse estado de intoxicação, o senhor não pode brincar com os seus bichinhos. Meio ano, foi o que lhe disse naquele dia. Quanto a mim, pode contar a partir de então, mas considere isso como o mínimo. Afinal de contas, pode-se viver aqui, tenha paciência. Isso não é nenhum calabouço, não é uma... uma mina siberiana. Ou quer o senhor pretender que o nosso estabelecimento se pareça com uma coisa dessas? Está bem, Ziemssen. Pode ir. O seguinte, faz favor, se mais alguém tiver vontade... – exclamou, olhando para o teto. Estendendo o braço, passou o estetoscópio ao Dr. Krokowski, que se levantou e o apanhou, a fim de proceder com Joachim a um pequeno exame de assistente.

Também Hans Castorp erguera-se de um pulo, e fixando os olhos no conselheiro áulico, que, com as pernas separadas e a boca aberta, se quedava absorto pelos próprios pensamentos, aprontou-se a toda a pressa. Precipitava-se; não conseguiu imediatamente sair da camisa pontilhada, quando a tirava pela cabeça. E finalmente encontrou-se à frente do Dr. Behrens, branco, louro e delgado – visivelmente de um tipo mais civil do que Joachim Ziemssen.

Mas o conselheiro, continuando abstrato, deixou-o esperar. O Dr. Krokowski já voltara a sentar-se, e Joachim começara a se vestir, quando Behrens resolveu, finalmente, reparar na pessoa que “ainda tinha vontade”.

– Ah! Sim, é o senhor – disse então, agarrando o braço de Hans Castorp com a gigantesca manzorra. Afastou-o um pouquinho de si e passou por ele um olhar penetrante. Não lhe estudava o rosto, assim como se faz com um ser humano, senão o corpo. Virou-o como se vira um corpo, e contemplou-lhe também as costas. – Hum! – murmurou. – É isso. Vamos ver o que o senhor vai revelar aos meus dedos. – E começou a percuti-lo, procedendo da mesma forma que antes.

Explorou os mesmos lugares como no exame de Joachim Ziemssen, repetindo a percussão em diferentes pontos. Durante certo tempo insistiu, para fins de comparação, em golpear alternadamente em cima, junto da clavícula esquerda, e um pouco mais abaixo.

– Está ouvindo? – perguntou, dirigindo-se ao Dr. Krokowski... Este, sentado em frente da escrivaninha, a cinco passos de distância, confirmou por um movimento de cabeça que estava ouvindo: com ar grave inclinou o queixo para o peito, de tal modo que a barba se comprimiu e as pontinhas se levantaram.

– Respire profundamente! Agora tussa! – ordenou o conselheiro, que tornara a pegar o estetoscópio, e Hans Castorp esfalfou-se, durante uns oito ou dez minutos, enquanto o médico escutava sem proferir nenhuma palavra, não fazendo mais do que colocar o instrumento aqui e ali e auscultar, cuidadosa e repetidamente, vários lugares nos quais já insistira quando da percussão. A seguir enfiou o estetoscópio por baixo do braço, juntou as mãos nas costas e olhou o chão entre si e Hans Castorp.

– Pois é, Castorp – disse enfim, e era a primeira vez que chamava o jovem simplesmente pelo sobrenome. – O resultado é praeter-propter, como eu esperava desde o princípio. Observei o senhor com um olho vigilante, Castorp (agora posso dizê-lo), desde o dia em que tive a imerecida honra de conhecê-lo, e cheguei à opinião bastante firme de que o senhor era, clandestinamente, um dos nossos e acabaria por perceber esse fato, como fizeram tantos outros que vieram aqui para divertir-se, estudaram o ambiente, torcendo o nariz, e um belo dia ficaram sabendo que seria conveniente para eles, e não apenas conveniente – o senhor entenda-me bem! –, abandonar a atitude de curiosidade displicente e passar aqui uma temporada extensa.

Hans Castorp empalideceu e Joachim, a ponto de abotoar os suspensórios, imobilizou-se e escutou...

– O senhor tem aí um primo tão bonzinho e tão simpático – prosseguiu o conselheiro, com um gesto de cabeça em direção a Joachim, enquanto se balançava alternadamente nos calcanhares e nas pontas dos pés –, um primo do qual espero que possa dizer, daqui a pouco, que um dia “esteve” doente. Ora, mesmo que chegássemos a esse ponto, não deixaria de ser uma realidade que o senhor seu primo irmão teve uma vez uma doença, e isso lança a priori, como dizem os filósofos, uma certa luz sobre o senhor, meu caro Castorp...

– Mas ele não é meu primo irmão, senhor conselheiro.

-será possível que o senhor queira renegar seu primo? Primo irmão ou não, em todo caso é um consangüíneo. Por que lado?

– Pelo lado de minha mãe, senhor conselheiro. Ele é filho de um meia ir...

– E a senhora sua mãe anda bem de saúde?

– Não, senhor. Ela não vive mais. Morreu quando eu ainda era menino.

– Ah! sim? De quê?

– De uma embolia, senhor conselheiro.

– Embolia? Bem, isso aconteceu faz muito tempo. E o senhor seu pai?

– Morreu de pneumonia – disse Hans Castorp. – E meu avô também – acrescentou.

– Ah, o avô também? Hum, deixemos então os seus ascendentes. Quanto ao senhor, creio que foi sempre meio anêmico, não é? Mas, e o trabalho físico ou intelectual nunca o cansou? Pelo contrário? E o senhor costuma ter palpitações? Só recentemente? Muito bem, e além disso parece existir uma decidida tendência para catarros nas vias respiratórias. O senhor sabe que já esteve enfermo?

– Eu?

– Sim, é à sua prezada pessoa que me refiro. Pode ouvir a diferença? – E o conselheiro áulico pôs-se a percutir a região esquerda do peito, ora em cima, ora mais embaixo.

– Ali, o som é um pouco mais surdo do que aqui – disse Hans Castorp.

– Ótimo! O senhor deveria tornar-se especialista. Ali há portanto uma maciez, e tal maciez tem sua origem em focos antigos que já se esclerosaram, ou se assim lhe agrada melhor, já cicatrizaram. O senhor é um doente veterano, Castorp, mas não convém censurar ninguém por não lhe ter comunicado esse fato. O diagnóstico na fase precoce é muito difícil, sobretudo para os senhores nossos colegas na planície. Eu nem quero dizer, precisamente, que nós aqui temos ouvidos mais finos, embora a especialização e a prática influam bastante. É o ar que nos ajuda a ouvir, sabe? Esse ar rarefeito e seco das alturas.

– Claro, compreendo – disse Hans Castorp.

– Muito bem, Castorp! E agora preste atenção, meu filho. Vou lhe dizer algumas palavras de ouro. Se no seu caso houvesse apenas isso (o senhor me entenda bem!) e tudo se limitasse àquela maciez e cicatrizes no interior do seu odre de Éolo e a esses corpos estranhos de substâncias calcáreas, eu mandaria o senhor para seus lares e penates e não me preocuparia nem um pouquinho com a sua saúde, compreende? Mas, assim sendo, e em face dos fatos que verifiquei além disso, e considerando que o senhor já se encontra aqui entre nós, não vale a pena regressar, Hans Castorp, pois dentro em breve teria de apresentar-se novamente.

Hans Castorp voltou a sentir o sangue lhe afluir ao coração, fazendo com que ele martelasse violentamente. Joachim continuava de pé, com as mãos nos botões traseiros da calça, e tinha os olhos baixos.

– Olhe, além da maciez – disse o conselheiro áulico –, tem o senhor à esquerda, bem em cima, uma respiração rude que toca as raias de um ruído bolhoso e provém, indubitavelmente, de um lugar novo. Não quero dizer que já se trata de um estado de fusão, mas não há dúvida nenhuma de que é um lugar úmido, e se o senhor continuasse a viver daquele jeito na planície, então lhe garanto, meu caro amigo, que mais dia menos dia todo o lóbulo iria água abaixo.

Hans Castorp quedava-se imóvel; sua boca estremecia singularmente, e via-se com absoluta nitidez como o seu coração batia contra as costelas. Seu olhar vagou até Joachim, cujos olhos, no entanto, não encontrou, e dali novamente ao rosto do Dr. Behrens, com os esbugalhados olhos azuis, as faces azuladas e a boca com o bigodinho torto de um lado.

– Como confirmação objetiva – continuou o conselheiro – temos ainda a sua temperatura: 37,6 às dez da manhã, o que corresponde, pouco mais ou menos, às observações acústicas.

– Eu pensei – disse Hans Castorp – que essa febre viesse simplesmente do catarro.

– E o catarro? – retrucou o médico. – De onde vem? Permita-me que lhe diga uma coisa, Castorp, e abra os ouvidos. Ao que saiba, o senhor dispõe de circunvoluções cerebrais em número suficiente. Bem, o ar que temos aqui é bom contra a enfermidade. Não é isso o que o senhor pensa? E com razão. Mas, ao mesmo tempo, este ar é bom para a enfermidade; compreende? No começo acelera o seu curso, revoluciona o corpo, fomenta a irrupção da doença latente, e tal irrupção é, com a sua licença, o seu catarro. Eu não sei se o senhor na planície já era propenso a febres, mas aqui, em todo caso, o senhor está febril desde o primeiro dia da sua permanência, e não somente em virtude desse seu catarro, se quiser ouvir a minha opinião.

– Sim, sim – disse Hans Castorp –, é o que acho também.

– Provavelmente sentiu-se logo estonteado – confirmou o conselheiro. – É a obra dos venenos solúveis que os micróbios produzem. Eles têm efeito inebriante sobre o sistema nervoso central, compreende o senhor? E daí vêm as bochechas alegremente rosadas. Bem, Castorp, o senhor vai se meter na cama; assim podemos ver se algumas semanas de repouso total bastam para desembriagá-lo. Então se falará sobre o resto. Tiraremos uma vista bonita do seu interior; o senhor gostará de espiar para dentro da sua própria pessoa. Mas já lhe digo uma coisa: um caso como o seu não se cura de hoje para depois de amanhã. Não há lugar para êxitos de propaganda e curas milagrosas. Eu tive logo a impressão de que o senhor seria um paciente melhor e teria mais talento para a doença do que esse general-de-brigada que deseja safar-se cada vez que tem uns décimos a menos. Como se “descansar armas” não fosse um comando tão bonito quanto “ombro armas”. A calma é o primeiro dever do cidadão, e a impaciência apenas o prejudica. Trate de não me decepcionar, Castorp, e eu faço questão que não desminta os meus conhecimentos psicológicos! E agora, marche-marche, para o estábulo.

Com essas palavras, o conselheiro áulico deu por terminada a entrevista e sentou-se à escrivaninha, a fim de aproveitar, como homem atarefado que era, o intervalo até o próximo exame, para fazer alguns trabalhos escritos. O Dr. Krokowski, porém, ergueu-se do seu lugar, aproximou-se de Hans Castorp e, com a cabeça inclinada para trás, esboçou um sorriso cordial que descortinava no meio da barba os dentes amarelados. Pôs a mão esquerda no ombro do jovem e apertou energicamente a mão direita de Hans Castorp.

 

         Sopa eterna e clareza repentina

Achamo-nos à frente de um fenômeno a cujo respeito o narrador faz bem expressando a sua própria surpresa, para evitar que o leitor, por sua vez, o estranhe excessivamente. Com efeito, ao passo que o nosso relatório referente às três primeiras semanas da permanência de Hans Castorp ali em cima – vinte e um dias de verão a que esta, segundo todas as previsões, devia limitar-se – requereu uma extensão no espaço e no tempo que confirmava bastante bem a nossa própria maldisfarçada expectativa, a descrição das próximas três semanas da sua visita a esse lugar apenas exigirá tantas linhas, tantas palavras e tantos momentos quantas folhas, páginas, horas e jornadas aquele relatório ocupou; num abrir e fechar de olhos – como já se pode prever – liquidaremos e sepultaremos esse segundo lapso de tempo.

Talvez isso pareça surpreendente; e todavia está bem assim, corresponde às leis que vigoram para quem narra e para quem escuta. Está bem e corresponde às ditas leis que o tempo se torne para nós tão longo ou tão curto, que se afigure à nossa experiência tão vasto ou tão reduzido como apareceu ao herói da nossa história, o jovem Hans Castorp, que o destino requisitou de modo inesperado. E pode ser proveitoso prepararmos o leitor, em presença do mistério que constitui o tempo, para outros milagres e fenômenos que iremos encontrar em companhia de Hans Castorp. Por enquanto, basta que todos se lembrem da rapidez com que decorre uma “longa” série de dias para o doente que os passa acamado. É o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas, justamente por se tratar sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo “repetição”. Melhor seria falar de invariabilidade, de um presente parado ou de eternidade. Trazem-te a sopa à hora do almoço, assim como a trouxeram ontem e a trarão amanhã. E ao mesmo tempo te sentes presa de uma sensação singular que vem não sabes de onde nem por quê: és invadido por uma espécie de vertigem, enquanto a sopa se aproxima de ti; os tempos confundem-se, misturam-se no teu espírito, e o que se te revela como verdadeira forma da existência é um presente sem extensão, no qual eternamente te trazem a sopa. Seria, entretanto, paradoxal falar de fastio, quando se trata de eternidade, e queremos evitar quaisquer paradoxos, sobretudo em companhia desse nosso herói.

Achava-se, pois, Hans Castorp acamado desde a tarde de sábado, porque o Dr. Behrens, a autoridade suprema do mundo que nos encerra, assim decidira. Jazia ali, com o monograma no bolsinho da camisola, as mãos juntas atrás da cabeça, na sua cama branca e limpinha, leito de morte da americana e, provavelmente, de muitas outras pessoas. Com olhos ingênuos, azuis, turvos pelo resfriado, fixava o teto do quarto, meditando sobre a singularidade da sua situação. Por outro lado, não cabe admitir que sem o resfriado os seus olhos tivessem lançado olhares claros, luzentes e inequívocos, visto que o aspecto do seu interior, por singela que fosse a sua natureza, não se apresentava dessa forma, senão muito pelo contrário, bastante perturbado, confuso, indistinto, semi-sincero e cheio de dúvidas. Às vezes, um riso louco de triunfo subia-lhe do fundo da alma e lhe sacudia o peito, enquanto seu coração estacava, dolorido, sob o efeito de uma desmedida e até então ignorada alegria e esperança; outras vezes, porém, empalidecia de susto e desassossego, e eram os golpes da sua própria consciência que o coração, numa cadência acelerada, errática, repetia, batendo-lhe nas costelas.

No primeiro dia, Joachim deixou-o em completa paz, evitando qualquer discussão. Discretamente, entrou algumas vezes no quarto do doente, saudou-o com um aceno da cabeça e perguntou, por mera cortesia, se lhe faltava alguma coisa. Era-lhe, aliás, muito fácil compreender e respeitar o temor que Hans Castorp sentia por qualquer controvérsia, uma vez que ele próprio o compartilhava e, na sua opinião, até se achava numa situação mais penosa do que o primo.

Mas, na manhã de domingo, ao regressar do passeio matinal que fizera sozinho, como antigamente, já não adiou por mais tempo a conversa com Hans Castorp, destinada a resolver os assuntos mais urgentes e mais necessários. Postando-se ao pé da cama, disse com um suspiro:

– Pois é, não adianta fugir à realidade. É preciso tomar algumas resoluções. Estão esperando você lá em casa.

– Ainda não – respondeu Hans Castorp.

– Hoje talvez não, mas nos próximos dias, na quarta ou na quinta-feira.

– Olhe – tornou Hans Castorp –, eles não contam comigo num dia certo. Têm mais que fazer do que aguardar-me e contar os dias até a minha volta. Quando chegar, muito bem, tio Tienappel vai dizer: “Pois então, já voltou?” E tio James dirá: “Como foi de viagem?” E se eu não regressar, levará muito tempo antes que alguém dê pela minha ausência; isso lhe garanto. Claro que qualquer dia devo avisá-los...

– Você pode acreditar – continuou Joachim, dando mais um suspiro – que essa história é sumamente desagradável para mim. Que é que vai acontecer agora? Naturalmente me sinto um pouco responsável. Você vem aqui, para me visitar, é introduzido por mim, e agora está preso e não sabemos quando poderá partir e ocupar o seu lugar. Você deve compreender que isso é sumamente penoso para mim.

– Perdão! – disse Hans Castorp, sempre com as mãos atrás da cabeça. – Por que você se preocupa assim? É absurdo. Será que vim aqui para lhe fazer uma visita? Foi também por isso, mas em primeiro lugar para descansar, a conselho de Heidekind. Bem, e agora se torna manifesto que necessito de muito mais descanso do que eu e todos nós tínhamos imaginado. Acho que não sou o primeiro que pensava passar aqui um fim de semana, e para quem as coisas saíram de outro modo. Lembre-se, por exemplo, do segundo filho de “Tous-les-deux”, que levou aqui um golpe muito mais forte. Eu nem sei dizer se ele vive ainda; talvez já o tenham levado durante uma refeição. Verdade é que o fato de eu estar um pouco doente constitui para mim uma surpresa. Ainda preciso familiarizar-me com a idéia de ser paciente e pertencer à roda de vocês, em vez de me sentir apenas como visitante. Mas, por outro lado, a surpresa não é tão grande assim, pois nunca tive a impressão de gozar de saúde esplêndida, e quando penso nos meus pais que morreram ambos muito jovens... donde viria afinal o esplendor? Não há como negar que você tem uma pequena lesão, embora ela esteja mais ou menos boa agora, e me parece bem possível que haja na nossa família uma tendência para isso. Behrens fez uma alusão nesse sentido. Seja como for, desde ontem estou deitado aqui e me ocupo em analisar os sentimentos que tive o tempo todo, e a atitude que tomei em relação às coisas, sabe?, em face da vida e das suas exigências. Na minha natureza houve sempre certa inclinação para a seriedade e uma determinada antipatia contra manifestações robustas e barulhentas. Faz pouco tempo que falamos a esse respeito, e eu mencionei que às vezes quase tive vontade de ser pastor, por gosto pelas coisas tristes e edificantes... Por exemplo, um pano preto, sabe?, com uma cruz de prata em cima ou com as letras R.I.P.... “Requiescat in pace” é no fundo uma bela frase e me parece infinitamente mais simpática do que “Vivat, crescat, floreat”, com sua alegria ruidosa. Creio que tudo isso se deve ao fato de que eu mesmo ando atacado pela doença e tenho, desde o começo, familiaridade com ela, como agora se torna evidente. Mas, se realmente é assim, posso dizer que fiz muito bem em ter vindo para cá e em submeter-me a um exame. Você absolutamente não precisa ter remorsos por causa disso. Não ouviu que, se eu tivesse continuado por mais algum tempo com aquela minha vida na planície, poderia ter acontecido que todo o lóbulo do pulmão fosse por água abaixo?

– Disso ninguém pode ter certeza – disse Joachim. – É justamente isso o que não se sabe. Dizem que você já teve em outras ocasiões focos com os quais nunca ninguém se preocupou, e que se curaram por si mesmos, de maneira que nada deles sobrou a não ser um incômodo respiratório sem importância. É bem possível que o mesmo se teria dado com aquele lugar úmido do qual eles falam agora, se você não me tivesse visitado casualmente aqui em cima. É disso que não se pode ter certeza.

– Não, a gente não pode ter certeza de nada – respondeu Hans Castorp. – E por essa razão não temos o direito de supor o pior, tampouco no que se refere ao tempo que terei de permanecer aqui como paciente. Você diz que ninguém sabe quando poderei partir, para começar a trabalhar nos estaleiros, mas disse essas palavras num sentido pessimista, e isso me parece precipitado, justamente porque não se pode saber nada. O Behrens não fixou nenhum prazo; é um homem circunspecto e não faz o papel de um adivinho. Ainda não foram feitas a radioscopia e as chapas radiográficas que lhe permitirão tirar conclusões objetivas. Quem sabe se elas apresentarão um resultado importante! Pode ser que até então eu já esteja sem febre e diga adeus a vocês. Creio que não convém dar o alarme antes do tempo e contar ao pessoal lá em casa, sem mais nem menos, histórias da carochinha. Basta escrevermos qualquer dia – eu mesmo posso fazê-lo, com a caneta-tinteiro, me soerguendo um pouco – para avisá-los de que estou fortemente resfriado, com febre e acamado, e que no momento ainda não posso viajar. Quanto ao resto, veremos depois.

– Está bem – disse Joachim. – Por enquanto é suficiente. Nesse caso poderemos esperar algum tempo também com respeito às outras disposições.

– Que outras disposições?

– Não seja tão imprevidente! Você se preparou apenas para uma estadia de três semanas, com essa sua maleta. Vai precisar de roupas, roupa-branca, casacos de inverno, e de calçados. E afinal de contas será necessário que lhe mandem dinheiro.

-se... – disse Hans Castorp -se eu precisar de tudo isso.

– Bem, aguardemos os resultados. Mas convém... Não! – prosseguiu Joachim, caminhando nervosamente pelo quarto. – Não deveríamos iludir-nos. Há bastante tempo que estou aqui e entendo disso. Quando o Behrens diz que você tem um lugar com uma respiração rude que toca as raias de um ruído bolhoso... Contudo, podemos esperar, naturalmente...

E assim ficou, por enquanto. As variantes semanais e quinzenais do dia normal recuperaram os seus direitos, e Hans Castorp participava delas, também na sua situação atual, desfrutando-as, senão diretamente, pelo menos através das informações que lhe dava Joachim, quando ia vê-lo e se sentava por um quarto de hora na beira da cama.

A bandeja com a qual na manhã de domingo lhe apresentaram o café estava ornada com um pequeno vaso de flores, e não haviam esquecido de lhe enviar alguns dos biscoitos finos que nesse dia eram servidos na sala. Mais tarde, animava-se o movimento no jardim e no terraço, quando se iniciava, com o alarido dos clarins e o som fanhoso das clarinetas, o concerto bimensal, durante o qual Joachim permaneceu ao lado do primo. Assistia ao programa no compartimento da sacada, cuja porta ficava aberta, enquanto Hans Castorp, semi-sentado na cama, com a cabeça inclinada para um lado e com um olhar abandonado a uma sensação entre terna e fervorosa, escutava as harmonias que se arrojavam sobre ele e o faziam recordar, com um certo desdém íntimo, os discursos de Settembrini acerca da música “politicamente suspeita”.

De resto, como já dissemos, inteirava-se por intermédio de Joachim dos acontecimentos e dos aspectos desses dias. Interrogou-o sobre se no domingo haviam aparecido vestidos elegantes, robes de renda ou coisa que o valha (mas fazia frio excessivo para robes de renda). Quis também saber se, pela tarde, haviam feito excursões de coche (com efeito, a Sociedade Meio-Pulmão fora in corpore até Clavadel). Na segunda-feira quis ser informado sobre a conferência do Dr. Krokowski, quando Joachim voltou dela, e, antes de começar o repouso da tarde, foi ter com ele. Joachim mostrou-se taciturno e pouco disposto a relatar pormenores da conferência, como tampouco haviam discutido a anterior. Mas Hans Castorp insistiu em conhecê-los.

– Fico aqui no meu quarto e pago o preço integral – disse. – Quero também participar do que oferecem. – Relembrou a segunda-feira de duas semanas atrás, com aquele passeio que dera por conta própria e de que não se saíra muito bem. Formulou a hipótese de que fora, no fundo, esse passeio o que provocara a revolução no seu corpo e causara a irrupção da enfermidade latente.

– Mas como fala o pessoal daqui! – exclamou. – A gente do povo! Com quanta dignidade e solenidade! Às vezes soa como poesia. “Pois então, passe bem, e muito agradecido!” – repetiu, procurando imitar a fala do lenhador. – Foi o que ouvi no mato e em toda a minha vida não o esquecerei. Tais coisas associam-se a outras impressões e reminiscências, sabe?, e guardam-se no ouvido até o fim dos nossos dias... O Krokowski falou outra vez do “amor”? – perguntou, fazendo uma careta ao pronunciar essa palavra.

– Lógico – respondeu Joachim. – De que mais falaria? Este é, afinal, seu tema.

– E que disse hoje?

– Ora, nada de especial. Você já ficou sabendo, da outra vez, como ele costuma expressar-se.

– Mas que novidades contou?

– Nada de especialmente novo... Pois é; o que ele contou hoje foi química pura – relatou Joachim de má vontade. “Aquilo” representava uma espécie de intoxicação, de auto-intoxicação do organismo, segundo a opinião do Dr. Krokowski, tendo a sua origem na decomposição de uma substância ainda desconhecida, espalhada por todo o corpo. Os produtos dessa decomposição exerciam um efeito inebriante sobre certos centros da medula espinhal, o mesmo que sucederia no caso do consumo habitual de tóxicos, como cocaína ou morfina.

– E daí vêm as tais “bochechas alegremente rosadas” – disse Hans Castorp. – Vejam só! Isso é notável! Quanta coisa não sabe aquele sujeito! É para lá de sábio, esse doutor. Espere um pouco, que qualquer dia ele acabará descobrindo a tal substância desconhecida que está espalhada por todo o corpo, e se mete a fabricar os tóxicos solúveis que embriagam o centro, para que possa embriagar a gente de um modo todo especial. Quem sabe se em outros tempos não se conseguiu isso? Ao ouvir essas coisas, pode-se acreditar que haja alguma verdade nas histórias de filtros de amor e em outras fábulas semelhantes que se encontram nos livros de lendas antigas... Você já vai?

– Sim, senhor – disse Joachim. – É absolutamente necessário que me deite um pouco. Minha curva anda subindo desde ontem. O seu caso parece que mexeu com meus nervos...

Assim se passaram o domingo e a segunda-feira. E fez-se manhã e tarde, e foi o terceiro dia da permanência de Hans Castorp no “estábulo”, um dia de semana sem distinção nenhuma, a terça-feira. Era, entretanto, o dia da sua chegada ali em cima, de maneira que estava em Davos havia três semanas. Assim, sentiu-se obrigado a redigir a referida carta para casa e a informar seus tios, pelo menos superficial e provisoriamente, a respeito da sua situação. Recostado no travesseiro de plumas, escreveu sobre uma folha de papel com o cabeçalho do estabelecimento, comunicando que sua partida, contra toda expectativa, seria atrasada. Contou que estava acamado com uma gripe e com febre, e que o Dr. Behrens, em virtude de um excesso de cuidado, insistia em levar a coisa a sério, já que a relacionava com a constituição geral do paciente. Pois, desde a sua primeira entrevista, o médico-chefe achara-o muito anêmico. Em suma, o prazo que ele, Hans Castorp, preestabelecera para o seu descanso, não fora julgado suficiente por essa autoridade. Acrescentou que outros pormenores seguiriam em breve... “Assim está bem”, pensou Hans Castorp. “Não há nenhuma palavra a mais e basta por algum tempo.” A carta foi entregue ao criado, que a levou diretamente ao trem, evitando a demora da caixa do correio.

Com isso, as coisas essenciais pareciam bem arranjadas ao nosso herói aventuroso. De espírito tranqüilo, ainda que atormentado pela tosse e pelo nariz entupido por causa do resfriado, começou a viver do dia para o dia, acomodando-se a esse programa multiplamente subdividido em numerosos pedacinhos, do dia normal, nem fastidioso nem interessante, que era sempre o mesmo, na sua monotonia prefixada. Pela manhã, após ter batido vigorosamente à porta, entrava o massagista, um indivíduo musculoso de nome Turnher: com as mangas da camisa arregaçadas, exibia as veias avultadas dos antebraços; expressando-se com dificuldade numa linguagem gutural, friccionava Hans Castorp com álcool e tratava-o, como todos os demais enfermos, pelo número do quarto. Logo depois da sua saída aparecia Joachim, já completamente vestido, para dar o bom-dia ao primo, para inteirar-se da temperatura das sete da manhã e para comunicar a sua própria. Enquanto Joachim tomava o café lá embaixo, fazia Hans Castorp o mesmo, com o travesseiro de plumas nas costas e com o apetite voraz que uma mudança de situação costuma provocar. Mal o incomodava a irrupção pressurosa e puramente profissional dos médicos, que a essa hora já haviam atravessado a sala de refeições e se desempenhavam, a passo acelerado, da sua ronda pelos quartos dos acamados e dos moribundos. Com a boca repleta de geléia, Hans Castorp afirmava ter dormido muito bem, observava por cima da borda da xícara como o conselheiro, as mãos apoiadas na mesa central, examinava depressa a folha de temperatura, ali preparada, e com uma voz displicentemente arrastada retribuía a saudação de despedida. Depois acendia um cigarro e apenas começava a pensar que Joachim devia ter iniciado o passeio obrigatório da manhã, quando já o via voltar. Novamente conversavam sobre isto e aquilo, e o lapso de tempo até o segundo café da manhã – Joachim, nesse ínterim, entregava-se ao repouso – era tão curto que mesmo um perfeito cretino ou débil mental não chegaria a aborrecer-se. E muito menos ocorria isso a Hans Castorp, bastante ocupado com a digestão das impressões que lhe haviam trazido as três primeiras semanas da sua estadia ali em cima, e que além disso tinha muito que meditar acerca da sua situação presente e sobre o fim a que ela iria levar. Assim, sequer tinha necessitado dos dois grossos volumes de uma revista ilustrada que pertenciam à biblioteca do sanatório e jaziam no seu criado-mudo.

E o mesmo se aplica ao intervalo durante o qual Joachim ia dar o seu segundo passeio a Davos-Platz, intervalo de uma hora, quando muito. Depois, o primo entrava de novo no quarto de Hans Castorp, para contar algumas coisinhas que lhe tinham despertado o interesse durante a caminhada, e permanecia algum tempo de pé ou sentado junto da cama, antes de se recolher ao repouso do meio-dia. E quanto tempo durava essa parte do programa? Apenas uma hora. A gente mal chegava a juntar as mãos atrás da cabeça e a mirar um pouquinho o teto do quarto, entregando-se aos seus pensamentos, e já ressoava o gongo convidando todos que não estivessem nem acamados nem moribundos a se prepararem para a refeição principal.

Ia-se Joachim e vinha a “sopa do almoço”. Era essa uma denominação de simbolismo ingênuo, em consideração àquilo que traziam. Pois Hans Castorp não fora sujeito a um regime de enfermo. Para que serviria tal regime? Uma alimentação parca, de doente, não era de maneira alguma indicada para o seu caso. O que lhe serviam ali, na eternidade parada dessa hora, não era uma simples “sopa de almoço”, mas sim o cardápio do Berghof com seus seis pratos, completo e sem a mínima restrição, uma refeição opulenta nos dias de semana, e nos domingos um festim de gala, de luxo e de espetáculo, preparado por um chefe de cozinha de formação européia. A criada cuja função era atender os doentes acamados trazia-o sobre travessas niqueladas e em apetitosas caçarolas. Empurrava até ele a mesa de doente, essa maravilha unipedal de construção bem-equilibrada, que também chegara recentemente a seu quarto; colocava-a por cima da cama, e Hans Castorp regalava-se como no conto de fadas o filho do alfaiate diante da mesinha mágica.

Apenas terminada a refeição, Joachim aparecia de novo, e até que este se encaminhasse ao seu compartimento na sacada e o silêncio do grande repouso começasse a pairar sobre o Berghof, já eram aproximadamente duas e meia. Talvez faltasse ainda um pouquinho; para sermos exatos, eram apenas duas horas e quinze minutos. Mas não convém levar em conta tais quartos de hora supranumerários que ultrapassam as unidades redondas; são absorvidos despercebidamente, sobretudo num ambiente generoso em matéria de tempo, como, por exemplo, em viagem, ao passarmos muitas horas no trem, ou em outras ocasiões que acarretam um estado vazio de prolongada espera, fazendo com que todos os nossos esforços e toda a nossa existência fiquem reduzidos à tarefa de vencer o tempo. Duas e quinze equivalem então a duas e meia; equivalem até mesmo a três horas, pelo fato de estarem bem encaminhadas. Os trinta minutos, considerados como um prelúdio à hora que vai das três às quatro, são descontados intimamente, como se costuma fazer nessas circunstâncias. E dessa forma a duração do grande repouso reduzia-se, afinal de contas e em definitivo, a uma hora apenas, que, além do mais, se via diminuída, aparada e, por assim dizer, apostrofada pouco antes do seu fim. O apóstrofo era o Dr. Krokowski.

Sim; durante a ronda que o Dr. Krokowski fazia sozinho à tarde, já não contornava o quarto de Hans Castorp. O jovem figurava agora no balanço; deixara de ser intervalo e hiato; fazia parte dos pacientes; era preciso interrogá-lo, em vez de negligenciá-lo, como lhe acontecera durante tanto tempo, para o seu descontentamento ligeiro e secreto, mas quotidiano e sensível. Fora na segunda-feira que o Dr. Krokowski aparecera pela primeira vez no quarto do nosso herói. Usamos o termo “aparecer” como adequado, dada a impressão estranha e mesmo um tanto horrível que Hans Castorp não pôde evitar naquela ocasião. Abandonara-se ele a um cochilo, ou meio cochilo, quando, num sobressalto, deu pela presença do assistente, que se achava no quarto sem ter entrado pela porta, e se aproximava dele, vindo de fora. Pois o médico tomara o caminho, não pelo corredor, mas sim pela sacada, entrando pela porta aberta, de maneira que dava a idéia de ter chegado pelos ares. Em todo caso, surgira de repente ao pé da cama de Hans Castorp, pálido, vestido de preto, espadaúdo e atarracado, o apóstrofo da hora, e por entre a barba bipartida haviam-se exibido, num sorriso enérgico, os dentes amarelados.

– O senhor parece surpreendido em me ver aqui, Sr. Castorp – dissera o Dr. Krokowski com uma brandura de barítono, arrastando as palavras e falando, inegavelmente, de modo um tanto afetado, com um erre exótico, palatal, no qual não carregava, mas que emitia com um simples golpe de língua logo atrás dos incisivos superiores. – Limito-me a cumprir um dever agradável, verificando se tudo vai bem por aqui. Suas relações conosco entraram numa nova fase. Da noite para o dia, o visitante transformou-se num camarada. – A palavra “camarada” causara em Hans Castorp uma leve inquietação. – Quem teria pensado... – gracejou o Dr. Krokowski jovialmente – quem teria pensado nisso, da primeira vez que tive a honra de saudá-lo e o senhor corrigiu minha opinião errônea – era, então, errônea –, dizendo que gozava a mais perfeita saúde! Acho que, naquela ocasião, manifestei qualquer coisa parecida com uma dúvida, mas asseguro-lhe que não quis aludir a uma coisa dessas. Não desejo fazer-me mais clarividente do que sou. Não tinha em mente nenhum lugar úmido; falava num sentido diferente, mais geral, mais filosófico. Expressei as minhas dúvidas quanto à possibilidade de serem compatíveis os conceitos “homem” e “saúde perfeita”. E ainda hoje, mesmo após o resultado do seu exame, não posso, segundo as minhas opiniões, e discordando do meu prezado chefe, conceder a esse lugar úmido aí – e tocou com a ponta do dedo levemente o ombro de Hans Castorp – o primeiro plano do nosso interesse. Para mim, ele não passa de um fenômeno secundário... O que é orgânico é sempre secundário...

Hans Castorp estremecera.

– ...e por isso é a sua gripe, aos meus olhos, um fenômeno de terceira ordem – acrescentou o Dr. Krokowski com muita displicência. – Como vai ela? O descanso na cama terá, certamente, um efeito rápido e benéfico. Quais são as suas temperaturas de hoje? – E dali em diante, a visita do Dr. Krokowski assumira o caráter de uma simples e inofensiva formalidade, caráter que guardaram todas as demais visitas, nos dias e nas semanas que a seguiram. O Dr. Krokowski chegava faltando quinze para as quatro ou um pouquinho mais cedo, entrava pela sacada, cumprimentava à sua maneira enérgica e jovial o paciente acamado, fazia as mais rudimentares perguntas profissionais, entabulava, às vezes, uma breve conversa de natureza mais pessoal, largava algumas pilhérias cheias de camaradagem – e embora tudo isso não deixasse de encerrar uma certa dose de algo problemático, terminamos por nos acostumar, quando se mantém nos limites convenientes. Assim, Hans Castorp dentro em breve não encontrava mais nada a objetar às aparições periódicas do Dr. Krokowski, uma vez que faziam parte do dia normal e apostrofavam a hora do grande repouso.

Eram, pois, quatro horas, quando o assistente se retirava pela sacada; quatro horas, isto é, plena tarde. De súbito, achava-se Hans Castorp em plena tarde, que, por sua vez, não se demorava em avizinhar-se da quase noite: quando acabavam de tomar o chá, na sala de refeições e no quarto 34, já eram perto de cinco horas, e até que Joachim voltasse do seu terceiro passeio obrigatório, e fosse novamente ter com o primo, já seria tão próximo das seis, que, numa conta redonda, o repouso até o jantar se limitaria, mais uma vez, a uma hora apenas, de forma que o tempo constituía um adversário facílimo de vencer, para quem tivesse a cabeça repleta de pensamento e dispusesse, além disso, de todo um Orbis pictus na mesinha-de-cabeceira.

Joachim despedia-se para ir comer. Traziam o jantar. O vale, havia muito, enchera-se de sombras, e enquanto Hans Castorp comia, espalhava-se a olhos vistos a escuridão pelo quarto branco. Terminada a refeição, permanecia ele recostado no travesseiro, diante da mesinha de conto de fadas, então vazia, e contemplava o crepúsculo que se acentuava rapidamente, o crepúsculo desse dia que dificilmente se deixava distinguir do da véspera e do de oito dias atrás. Já era noite, e mal passara a manhã. O dia subdividido, artificialmente abreviado, desagregara-se, desvanecera-se à vista dele, conforme verificava, cheio de agradável surpresa, ou talvez um tanto pensativo; pois ainda não se achava na idade em que a gente se horroriza ante essa descoberta. Para ele era apenas como se nunca tivesse deixado de contemplar esse mesmo crepúsculo.

Um dia – podia ser o décimo ou o décimo segundo, desde que Hans Castorp se deitara na cama –, a essa hora, isto é, antes que Joachim tivesse voltado do jantar e da reunião, bateram à porta do quarto. À ordem de “Entre!”, que Hans Castorp deu em voz curiosa, surgiu no limiar Lodovico Settembrini, e de golpe se fez no quarto uma claridade deslumbrante. Pois o primeiro movimento do visitante, ainda antes de fechar a porta, fora acender a luz do teto, que, refletida pelo branco das paredes e dos móveis, envolvia imediatamente o aposento numa luminosidade trêmula.

Dentre todos os pensionistas, o italiano era o único de quem Hans Castorp, nesses dias, pedira especial e expressamente notícias a Joachim. Este não deixava de lhe relatar as pequenas ocorrências e modificações da vida quotidiana do estabelecimento, cada vez que se sentava, por dez minutos, na beira da cama, o que se dava dez vezes por dia. As perguntas que Hans Castorp lhe fizera haviam sido de caráter geral e impessoal. A curiosidade de jovem solitário levava-o a perguntar se, porventura, tinham chegado novos hóspedes, ou se partira uma das fisionomias conhecidas; parecia satisfazê-lo a resposta de que só aquilo sucedera. Chegara um “novo”, um moço de rosto esverdeado e cavo, que recebera um lugar à mesa da Srª. Iltis e da Srta. Levi, aquela da tez de marfim, logo à direita da mesa dos primos. Ora, Hans Castorp esperaria pacientemente a oportunidade para vê-lo. Então, não se fora ninguém? Joachim disse que não, baixando os olhos. Mas teve que responder a essa pergunta repetidas vezes, de dois em dois dias, pouco mais ou menos, e isso apesar de ter acabado por constatar, de uma vez por todas, e com alguma impaciência na voz, que segundo estava informado ninguém tencionava partir, e que não era costume ali partir assim sem mais nem menos.

No que tocava a Settembrini, porém, Hans Castorp solicitara informações especiais. Desejara saber o que ele “dissera disso”. Disso o quê? “De eu estar deitado aqui e ser tratado como doente, ora essa!” Com efeito, Settembrini manifestara uma opinião, ainda que laconicamente. Logo no dia do desaparecimento de Hans Castorp, aproximara-se de Joachim, a fim de saber onde se achava o visitante; parecera disposto a receber a notícia da sua partida. Ao ouvir as explicações de Joachim, proferira apenas duas palavras italianas; dissera primeiro “Ecco!” e depois “Poveretto!”, o que significava “Está vendo?”e “Coitadinho!” (não eram precisos maiores conhecimentos de italiano do que possuíam os dois jovens para compreender o sentido dessas exclamações). “Por que poveretto?”, perguntara Hans Castorp. “Afinal, ele também se acha amarrado aqui em cima, com a sua literatura que consta de humanismo e de política, e pouca coisa pode fazer em prol dos interesses da vida terrena. Que ele deixe de se compadecer de mim do alto da sua importância. Voltarei à planície ainda antes dele.”

E agora achava-se o Sr. Settembrini no quarto bruscamente iluminado. Hans Castorp, que se apoiara sobre um cotovelo e se virará em direção à porta, reconheceu-o, piscando os olhos, e corou ao fazê-lo. Como sempre, Settembrini usava o seu espesso paletó com as grandes lapelas, um colarinho meio puído, e as calças de tecido xadrez. Tendo apenas terminado a refeição, trazia, conforme o seu hábito, um palito entre os dentes. As comissuras da boca, por baixo da bela curva do bigode, entesaram-se, exibindo o conhecido sorriso fino, seco e crítico.

– Boa noite, engenheiro! O senhor me dá licença para visitá-lo? Sim? Nesse caso é indispensável a luz... Desculpe a minha arbitrariedade! – disse apontando para a lâmpada do teto com um gesto elegante da mãozinha. – O senhor estava meditando? Absolutamente não lhe quero perturbar os pensamentos. Acho mesmo uma tendência para a reflexão plenamente justificada no seu caso, e para conversar o senhor dispõe, afinal de contas, do seu primo. Bem vê que tenho perfeita consciência da minha superfluidade. Contudo, estamos convivendo aqui num espaço exíguo, e assim se cria uma simpatia de homem para homem, uma simpatia espiritual, uma simpatia do coração... Já faz uma semana inteira que não o vejo. Realmente, eu já pensava que o senhor tivesse partido, quando vi o seu lugar vazio, lá embaixo, no refeitório. O tenente me informou melhor – ou devo dizer pior, sem pecar pela falta de cortesia... Numa palavra, como vai o senhor? Que anda fazendo? Como se sente? Espero que não esteja muito abatido.

– Ah! Sr. Settembrini, é o senhor? É muito amável da sua parte. “No refeitório”? Ah, ah! Já está gracejando outra vez. Sente-se, por favor. Absolutamente não me incomoda. Eu estava deitado assim e me deixara levar pelos pensamentos – talvez seja até exagerado falar de pensamentos. Era simples preguiça o que me impedia de acender a luz. Muito obrigado, subjetivamente sinto-me mais ou menos bem. O repouso na cama curou-me quase completamente aquele resfriado, mas, conforme todos me dizem, isso era apenas um fenômeno secundário. A temperatura, por sua vez, ainda não é normal, às vezes 37,5, outras 37,7. Nesse ponto, nada se modificou nos últimos dias.

– O senhor mede regularmente a temperatura?

– Sim, senhor. Seis vezes por dia, como todos aqui em cima. Ah, ah! O senhor me desculpe, mas eu me rio ainda da denominação de “refeitório” que deu à nossa sala de refeições. Assim a chamam nos conventos, não é? Com efeito, isto aqui tem qualquer coisa de um convento. Nunca estive num convento, mas creio que deve ser bastante parecido. Também já sei as “regras” de cor e observo-as minuciosamente...

– Como um frade piedoso. Pode-se dizer que o senhor terminou o noviciado e acaba de professar. Meus mais solenes votos de felicidade! O senhor já fala de “nossa sala de refeições”! Aliás, não quero ferir sua dignidade de homem, mas o senhor me lembra antes uma freirazinha do que um monge, uma pequena noiva de Cristo, recém-tonsurada, inocentinha, com os grandes olhos de uma vítima imolada. Em outros tempos já vi esse tipo de ovelhinhas, e nunca... nunca sem me entregar a um certo sentimentalismo. Ah, sim, sim! O senhor seu primo me contou. O senhor se fez examinar no último instante.

– Porque me sentia febril... Veja, Sr. Settembrini, com um catarro destes, eu teria chamado o nosso médico, lá na planície. E aqui, onde a gente se acha por assim dizer na fonte, onde há dois especialistas na casa... teria sido ridículo...

– Claro, claro! E o senhor já tinha tomado a temperatura antes que recebesse ordem de fazê-lo. De resto já lhe haviam dado um conselho nesse sentido logo depois da sua chegada. Foi a Mylendonk quem lhe impingiu o termômetro?

– Impingiu, como? Já que eu tinha necessidade de termômetro, comprei um.

– Compreendo. Um negócio absolutamente correto. E quantos meses lhe pespegou o chefe?... Grande Deus, esta pergunta já lhe fiz uma vez! O senhor se lembra? Acabava de chegar. Respondeu-me com tanta segurança...

– Claro que me lembro, Sr. Settembrini. Depois, passei por muitas experiências novas, mas ainda me lembro como se fosse hoje. O senhor estava tão divertido... Nomeou o Dr. Behrens juiz do inferno... Radamés... Não, espere! o nome era diferente...

– Radamanto? Pode ser que, de passagem, o tenha chamado assim. Não me lembro de tudo o que em determinada ocasião brota da minha cabeça.

– Radamanto, isso mesmo! Minos e Radamanto! Aquela vez também nos falou em Carducci...

– Perdão, meu caro amigo, deixemos este nome de lado. No momento, ele soa muito estranho na sua boca.

– Como quiser – riu-se Hans Castorp. – Em todo caso foi por seu intermédio que aprendi muita coisa a respeito dele. Sim, então eu não suspeitava ainda de nada, e respondi ao senhor que tencionava passar três semanas aqui; não tinha nenhuma idéia do resto. A Kleefeld acabava de me assobiar com o pneumotórax, e eu estava boquiaberto. E logo naquele primeiro dia já tinha a impressão de estar com febre, pois o ar daqui é bom não somente contra a doença, mas também para ela. Às vezes precipita a sua irrupção, e quem sabe se isso não é necessário para que se realize a cura.

– Uma hipótese fascinante! Será que o Dr. Behrens também lhe falou daquela teuto-russa que tivemos aqui durante cinco meses no ano passado... não, no ano retrasado? Não? É o que deveria ter feito. Uma senhora simpática, de origem teuto-russa, casada, jovem mãe. Vinha do leste, linfática, anêmica, e parece que havia também qualquer coisa mais grave. Bem, ela passa aqui um mês e logo começa a lamentar-se de que se sente mal. Paciência, paciência! Decorre outro mês, e ela continua afirmando que, longe de estar melhor, anda cada vez pior. Explicaram-lhe que unicamente o médico era capaz de julgar como o paciente anda; ela só podia dizer como se sentia, e isso tinha pouca importância. E quanto ao seu pulmão, os doutores disseram estar satisfeitos. Ora, ela se cala, prossegue com o tratamento, e perde peso, semana após semana. No quarto mês desmaia durante os exames. “Não faz mal”, declara Behrens. “Estou muito contente com o estado do pulmão.” Mas, no quinto mês, ela se sente incapaz de caminhar, e escreve uma carta ao marido, lá longe no leste, e Behrens recebe uma carta dele, com as palavras “pessoal” e “urgente” no envelope, numa letra enérgica. Eu mesmo vi. “Pois é”, diz o Behrens então, dando de ombros, “parece que ela não suporta o nosso clima.” A mulher ficou fora de si. “O senhor deveria ter-me dito isso antes”, gritou. “Sempre tive essa impressão. Eu me arruinei aqui!” Esperemos que em companhia do marido, lá no leste, ela tenha recobrado as forças.

– Que maravilha! O senhor narra admiravelmente bem, Sr. Settembrini. Cada palavra é mesmo plástica. Também ri muitas vezes a sós da história que nos contou sobre aquela mocinha que tomou um banho no lago, e à qual tinham que dar a “irmã muda”. Sim, senhor, acontece muita coisa neste mundo! A gente nunca pára de aprender. Quanto ao meu próprio caso, não existe ainda nenhuma certeza. O conselheiro diz que encontrou uma coisinha no meu pulmão. Eu mesmo ouvi, quando me percutiu, os lugares antigos onde estive enfermo sem saber. E agora parece que descobriu outro foco fresco, não sei onde... Acho, aliás, que a palavra “fresco” soa meio esquisita com relação a essas coisas. Mas, por enquanto, só se trata de observações acústicas, e não chegaremos a um diagnóstico seguro antes que eu volte a levantar-me e se proceda à radioscopia e à radiografia. Então, sim, teremos um resultado definitivo.

– Acha mesmo? O senhor sabe que a chapa fotográfica apresenta, freqüentemente, manchas que são interpretadas como cavernas, embora sejam apenas sombras, e que em lugares onde há alguma coisa às vezes não mostra mancha nenhuma? Madonna, a chapa fotográfica! Esteve aqui um jovem numismata que tinha febre, e como tivesse febre, foram vistas, nitidamente, umas cavernas na chapa fotográfica. Pretenderam até tê-las ouvido. Trataram-no como se tivesse tísica, e no decorrer do tratamento, morreu. A autópsia demonstrou que seu pulmão estava intacto, e que falecera não sei de quê.

– Ora veja, Sr. Settembrini, o senhor fala logo de autópsia. Espero que eu ainda não tenha chegado a esse ponto.

-meu caro engenheiro, o senhor é um pândego!

– E o senhor é muito crítico e muito cético, isto não se discute! Não acredita nem sequer na ciência exata. E a sua própria chapa mostra manchas?

– Mostra, sim.

– E o senhor está realmente um pouco enfermo?

– Sim, infelizmente ando bastante enfermo – tornou o Sr. Settembrini, baixando a cabeça. Fez-se uma pausa, durante a qual tossiu levemente. Hans Castorp, da sua posição de repouso, contemplou o visitante reduzido ao silêncio. Era como se, com aquelas perguntas muito simples, tivesse refutado e silenciado muita coisa, inclusive a República e o belo estilo. Da sua parte, não fez nada para reavivar a conversa.

Depois de algum tempo, o Sr. Settembrini ergueu-se de novo, sorrindo.

– Diga-me, engenheiro – perguntou –, como é que a sua família recebeu a notícia?

– Que notícia? A do adiamento do meu regresso? Ora, minha família, sabe?, minha família, lá em casa, consta de três tios, um tio-avô e seus dois filhos, cujas relações comigo são, antes, de primos. Outra família não tenho. Sou órfão de pai e mãe desde muito cedo. Como receberam a notícia? Bem, ainda não sabem muita coisa, não sabem mais do que eu mesmo. Logo no começo, quando tive de me meter na cama, escrevi-lhes uma carta, dizendo que estava fortemente resfriado e não podia viajar. E ontem, como já tivesse passado um certo tempo, escrevi outra vez, avisando que a minha gripe despertou a atenção do Dr. Behrens a respeito do meu pulmão, e que ele insistia em que eu prolongasse a minha estadia até que se esclarecesse o caso. Acho que eles se inteiraram de tudo isso com a mais completa calma.

– E o seu emprego? O senhor me falou de um campo de atividades práticas ao qual tencionava dedicar-se em breve.

– Sim, como voluntário. Pedi que por enquanto me desculpassem lá nos estaleiros. O senhor compreende que ninguém vai se desesperar por causa disso. Eles podem muito bem arranjar-se sem um voluntário.

– Ótimo! Sob esse ponto de vista, tudo está em perfeita ordem. Fleuma em toda a linha! Em geral são muito fleumáticos, lá no seu país, não é? Mas também enérgicos.

– Ah, sim, enérgicos também, muito enérgicos – confirmou Hans Castorp. Examinou, à distância, a mentalidade da sua terra e verificou que o seu interlocutor a qualificara com acerto. – Fleumáticos e enérgicos, isso mesmo.

– Bem! – continuou Settembrini. – No caso de o senhor permanecer aqui por mais tempo, não nos faltará uma oportunidade para conhecer o senhor seu tio, quer dizer, o tio-avô. Sem dúvida ele virá certificar-se do seu estado.

– Nem pense nisso! – exclamou Hans Castorp. – Nunca na vida! Nem dez cavalos conseguiriam arrastá-lo até aqui em cima. Meu tio é de constituição muito apoplética e quase não tem pescoço. Não, senhor! Ele precisa de uma pressão atmosférica razoável. Aqui se sentiria ainda muito pior do que aquela sua senhora teuto-russa; teria toda espécie de chiliques.

– Isso me decepciona. Apoplético, foi o que disse o senhor? Que adiantam então a fleuma e a energia?... Seu tio é rico, não é? O senhor é rico também? Todos são ricos na sua terra.

Hans Castorp sorriu diante dessa generalização do Sr. Settembrini. A seguir tornou a contemplar, da sua posição de repouso, aquele mundo distante, a esfera familiar à qual fora arrebatado. Recordava, esforçava-se por formar uma opinião imparcial, e a isso a distância animava-o e o tornava capaz. Por fim respondeu:

– Ou se é rico, ou não se é. Tanto pior para os que não o são. Eu? Não sou milionário, mas o que possuo está garantido. Sou independente e tenho de que viver. Mas deixemos de falar de mim. Se o senhor tivesse dito: “É preciso ser rico, lá embaixo”, eu estaria de acordo. Pois quando alguém não é rico ou deixa de sê-lo... ai dele! “Aquele sujeito? Será que ainda tem dinheiro?”, perguntam então, textualmente e com essa mesma cara. Ouvi essas palavras umas quantas vezes, e vejo que se gravaram na minha memória. Agora vejo que as estranhei, embora me fossem familiares, pois do contrário não as recordaria. Que acha o senhor? Não, não creio que, por exemplo, o senhor, um homo humanus, se sentisse bem entre nós. Até eu, que, afinal de contas, me criei ali, fiquei às vezes chocado, como percebo agora, apesar de pessoalmente não ter sofrido com isso. Quem não faz servir nos seus banquetes os mais seletos e os mais caros vinhos não vê a sua casa freqüentada e não consegue casar suas filhas. Aquele pessoal é assim. Deitado aqui como estou, e observando as coisas de certa distância, fico mesmo chocado. Que palavras usou o senhor? Fleumáticos e...? Enérgicos. Sim, senhor, mas que significa isso? Isso significa duro, frio. E que significa duro e frio? Significa cruel. A atmosfera, lá embaixo, é cruel, é inexorável. Quando alguém está deitado como eu, e olha as coisas de longe, sente-se horrorizado.

Settembrini ouviu-o, meneando a cabeça. Continuou assim, até que Hans Castorp chegasse a um término provisório da sua crítica e cessasse de falar. Depois disse com um suspiro:

– Não quero disfarçar as formas particulares que a crueldade natural da vida assume no seio da sociedade do seu país. Seja como for, a acusação de crueldade é uma acusação bastante sentimental. Lá embaixo, o senhor dificilmente a teria empregado, por receio de parecer ridículo perante si mesmo. Com toda a razão abandonou o seu uso aos covardes da vida. Que o senhor se sirva dela agora revela esta desambientação que eu não gostaria de ver intensificar-se, pois quem se habitua ao emprego de tais qualificativos pode facilmente acabar ficando perdido para a vida e para a forma de existência que lhe é inata. Sabe o senhor, meu caro engenheiro, o que quer dizer “estar perdido para a vida”? Eu, sim, sei. Vejo isso todos os dias aqui. Ao cabo de seis meses, o mais tardar, o jovem que chega aqui (e são quase sempre jovens os que chegam) já não tem outra coisa na cabeça que não o flerte e a temperatura. E depois de um ano, quando muito, nunca mais será capaz de pensar em outra coisa e julgará “cruel”, ou melhor, defeituoso e ignorante qualquer outro pensamento. O senhor gosta de histórias. Eu poderia contar-lhe algumas. Poderia falar-lhe de certo filho e marido que passou onze meses aqui, e a quem conheci. Era um pouco mais velho que o senhor, acho eu, talvez até bastante mais velho. Como ele melhorasse aqui, deram-lhe alta, a título de experiência, e o homem voltou aos braços dos seus. Não eram tios; eram a mãe e a esposa. Durante todo santo dia ficava deitado com o termômetro na boca, e não sabia falar de outra coisa. “Vocês não compreendem isso”, dizia. “É preciso ter vivido lá em cima para saber como as coisas devem ser. Aqui embaixo não existem os conceitos básicos.” Essas queixas só terminaram quando a mãe decidiu o caso. “Volte lá para cima”, disse ela. “Você não presta para mais nada.” E ele voltou mesmo, regressou à “sua terra”. Pois o senhor deve saber que chamam isso aqui de “nossa terra”, os que viveram algum tempo aqui. O homem alienara-se completamente da esposa. Ela não tinha os “conceitos básicos” e preferiu renunciar. Entendeu que ele encontraria na “sua terra” uma companheira com os mesmos “conceitos básicos” e lá ficaria.

Hans Castorp escutara distraidamente. Tinha ainda o olhar cravado na lâmpada cintilante no quarto branco, como em busca da distância. Riu-se um tanto atrasado e disse:

– Ele falou da “sua terra”? Realmente, isso é mesmo um pouco sentimental, como o senhor o qualificou. Pois é, o senhor conhece inúmeras historietas. Eu continuava pensando naquilo que dizíamos, pouco atrás, sobre a dureza e a crueldade. São coisas que, nesses últimos dias, me passaram pela cabeça diversas vezes. Veja, a gente precisa ter uma pele bastante grossa para concordar completamente com a mentalidade do pessoal lá de baixo, na planície, e com perguntas como “Será que ele ainda tem dinheiro?” e com a cara que as acompanha. Quanto a mim, nunca deixei de achar isso pouco natural, embora não seja, propriamente, um homo humanus. Percebo agora que sempre impliquei com esse comportamento. Talvez haja uma relação entre essa minha atitude e a minha tendência inconsciente para a doença. Eu mesmo ouvi como o Behrens percutiu os lugares antigos, e agora afirma ele ter encontrado um pequeno foco recente. Essa descoberta surpreendeu-me um pouco, não há como negá-lo, e todavia não posso dizer que me espantei muito. Nunca me senti firme como um rochedo, e como meus pais morreram tão cedo... Sou órfão de pai e mãe, desde criança, sabe?

A cabeça, os ombros e as mãos do Sr. Settembrini esboçaram um gesto contínuo, que, de uma forma jovial e polida, devia representar a pergunta: “Pois então? E daí?”

– O senhor é escritor – prosseguiu Hans Castorp –, é literato. Deve, portanto, ter experiência disso e compreender que, sob essas circunstâncias, não se pode ter um espírito muito bruto e achar perfeitamente natural a crueldade da gente – das pessoas comuns, sabe?, que passeiam e riem e ganham dinheiro e enchem a pança... Não sei se me expressei...

Settembrini fez uma reverência.

– O senhor quer dizer – explanou – que o contato prematuro e repetido com a morte produz uma disposição fundamental da alma que nos torna sensíveis e melindrosos no que se refere às durezas e às crueldades da indiferente vida coletiva, ou, digamos, ao seu cinismo.

– Exatamente! – gritou Hans Castorp com sincero entusiasmo. – Uma formulação admirável! O senhor pôs os pontos nos ii, Sr. Settembrini. “Com a morte...” Eu sabia que o senhor, como literato...

Settembrini estendeu o braço, inclinando a cabeça para um lado e fechando os olhos, num gesto belo e suave, destinado a interromper o jovem e a pedir-lhe mais uns instantes de atenção. Manteve-se durante vários segundos assim, mesmo depois de Hans Castorp já se ter calado. Este aguardava com certo acanhamento o que aconteceria. Finalmente reabriu os olhos negros, os olhos de tocador de realejo, e disse:

–          Permita-me. Permita-me, engenheiro, que lhe diga e inculque que a única maneira sadia e nobre, aliás, também, como acrescento expressamente, a única maneira religiosa de encarar a morte é compreendê-la e senti-la como uma parte, como um complemento, como uma condição inviolável da vida, ao invés de – o que seria o contrário de sadio, nobre, sensato e religioso -separá-la espiritualmente da vida, de pô-la em oposição a ela e de usá-la como argumento contra ela. Os antigos adornavam os seus sarcófagos de símbolos da vida e da procriação, e até de símbolos obscenos. Para religiosidade antiga freqüentemente coincidiam o sagrado e o obsceno. Esses homens sabiam honrar a morte. A morte é venerável como berço da vida, como regaço da renovação. Mas, separada da vida, torna-se um fantasma, um bicho-papão, e coisa pior ainda. Pois a morte como potência espiritual independente é sumamente devassa, seu atrativo perverso é, sem dúvida, muito forte, e seria, também sem a mínima dúvida, a mais horrorosa aberração do espírito humano querer simpatizar com ela.

Nesse ponto calou-se o Sr. Settembrini. Parou ao chegar a essa generalização e terminou num tom decidido. Levava o assunto a sério, e não falara só para manter a conversação. Evitara dar ao interlocutor uma oportunidade para apanhar o fio e replicar, e, baixando a voz ao fim das suas afirmações, fizera um ponto final. Permanecia sentado, a boca fechada, as mãos postas no colo, mantendo cruzadas as pernas revestidas com a calça de tecido xadrez, e limitando-se a fazer bambolear o pé de cima, que fitava com um olhar severo.

Diante disso, Hans Castorp ficou calado também. Recostando-se no travesseiro de plumas, voltou a cabeça para a parede e tamborilou levemente as pontas dos dedos sobre o acolchoado. Era como se tivesse recebido uma lição, como se o houvessem chamado à ordem e mesmo repreendido. No seu silêncio havia qualquer coisa de obstinação pueril. A interrupção da conversa estendeu-se por bastante tempo.

Finalmente, o Sr. Settembrini reergueu a cabeça e disse com um sorriso:

– O senhor se lembra, engenheiro, de que já tivemos uma discussão semelhante, ou até a mesma? Naquela ocasião – acho que foi durante um passeio – falávamos sobre a doença e a estupidez, cuja combinação o senhor considerava paradoxal, e isso devido ao respeito que devotava à doença. Eu qualifiquei esse respeito de desatino sinistro, com o qual se desonra o pensamento humano, e para grande prazer meu, o senhor não me pareceria totalmente avesso a levar em conta as minhas objeções. Tratamos também da neutralidade e da incerteza intelectual da mocidade, da sua liberdade de escolha, da sua tendência para fazer experiências com todo tipo de pontos de vista, e constatamos que não era nem lícito nem necessário considerar tais experiências opções definitivas, válidas para o resto da vida. Quer o senhor... – e o Sr. Settembrini, com um sorriso, inclinou-se para a frente, na cadeira, com os pés juntos no chão e com as mãos comprimidas entre os joelhos, avançando levemente a cabeça, numa posição oblíqua... – quer o senhor permitir-me também no futuro... – prosseguiu, e na sua voz vibrava uma ligeira emoção – que o auxilie um pouco nas suas tentativas e experiências e que exerça uma função de corretivo, quando porventura houver o perigo de determinações funestas?

– Mas como não, Sr. Settembrini! – respondeu Hans Castorp, apressando-se a abandonar a sua atitude tímida e um tanto recalcitrante. Cessou de tamborilar sobre o acolchoado e dirigiu-se ao visitante com amabilidade um tanto perplexa: – Acho sumamente gentil da sua parte... Pergunto-me, de fato, se eu... Quer dizer, se no meu caso...

– Sine pecunia, sabe? – citou o Sr. Settembrini, levantando-se. – Não quero ser menos generoso do que os outros. – Riram-se ambos. Ouviu-se abrir a porta de fora, e um momento após girou a maçaneta da porta interior. Era Joachim que voltava da reunião da noite. Ao ver o italiano, corou, como acontecera a Hans Castorp pouco antes, e a pele tostada do seu rosto adquiriu um matiz mais escuro.

– Ah, tem visita – disse. – Que bom para você! Fiquei retido lá embaixo. Obrigaram-me a jogar uma partida de bridge. É o que chamam de bridge, oficialmente – acrescentou, dando de ombros. – Em realidade era outra coisa. Ganhei cinco marcos...

– Tomara que você não pegue esse vício! – disse Hans Castorp. – Hum, hum... O Sr. Settembrini fez-me passar o tempo agradavelmente, enquanto eu esperava pela sua volta. “Agradavelmente” é aliás uma expressão pouco própria que, a rigor, se pode aplicar ao seu falso bridge. Não, o Sr. Settembrini ocupou-me o tempo de um modo muito mais elevado... Uma criatura decente deveria fazer todos os esforços para sair daqui o mais depressa possível, mesmo porque vocês já começaram a entregar-se à jogatina... Mas, a fim de ter oportunidade de ouvir o Sr. Settembrini com mais freqüência, e para deixar-me ajudar pela sua conversa, quase desejaria ter febre por um tempo indefinido e ficar preso aqui... Qualquer dia acabarão por dar-me uma irmã muda, para que eu não possa enganá-los.

– Eu repito, engenheiro, que o senhor é um pândego – disse o italiano. Despediu-se do modo mais cortês. Ficando a sós com o primo, Hans Castorp deu um suspiro.

– Que mestre-escola! –- exclamou... – Um mestre-escola humanista, não há como negar. A cada instante me corrige, ora por meio de historietas, ora de forma abstrata. E a conversa com ele leva a tantos assuntos diferentes! Eu nunca teria pensado que se pudesse falar sobre eles ou mesmo compreendê-los. E se o tivesse encontrado lá embaixo, na planície, tenho certeza de que não os compreenderia – acrescentou.

Àquela hora, Joachim costumava permanecer algum tempo em companhia do primo. Sacrificava para isso dois ou três quartos de hora do seu repouso noturno. Às vezes jogavam xadrez na mesinha de Hans Castorp; Joachim trouxera um jogo e um tabuleiro. Depois, ia buscar seus apetrechos e, com o termômetro na boca, instalava-se na sacada, enquanto também Hans Castorp tomava a temperatura pela última vez, ao acompanhamento de música ligeira, cujos sons subiam de longe ou de perto através do vale perdido na noite. Às dez horas terminava o repouso. Ouvia-se Joachim; ouvia-se também o casal da mesa dos “russos ordinários”... E Hans Castorp deitava-se de lado, à espera do sono.

A noite representava a metade mais difícil da jornada, pois Hans Castorp despertava freqüentemente e não raras vezes permanecia acordado durante longas horas, fosse porque o calor anormal de seu sangue o impedia de dormir, fosse porque sua disposição e sua capacidade para o adormecimento eram diminuídas devido à sua existência constantemente horizontal. Em compensação, as horas de sono vinham animadas por sonhos variados e cheios de vida, sonhos nos quais podia continuar devaneando depois de desperto. Se o dia se tornava breve pela múltipla subdivisão, à noite era a monotonia amorfa do progresso das horas o que produzia o mesmo efeito. Quando chegava a manhã, constituía uma distração observar como o quarto pouco a pouco se tornava cinzento e se revelava, como os objetos se salientavam e depunham o véu que os envolvera, e como a luz lá fora se acendia com um esplendor ora alegre ora avermelhado e turvo. E assim, inopinadamente, vinha outra vez o momento em que o massagista, batendo à porta com seu enérgico punho, anunciava o reinicio do programa do dia.

Hans Castorp não levara um calendário na viagem, e por isso nem sempre tinha noção exata das respectivas datas. De tempos em tempos pedia ao primo informações a esse respeito, mas Joachim tampouco andava bem orientado nesse sentido. Os domingos, principalmente o do concerto bimensal, o segundo que Hans Castorp passava ali em cima, constituíam, todavia, pontos de referência. Uma coisa era certa: que nesse ínterim o mês de setembro avançara consideravelmente e estava próximo do meio. Desde que Hans Castorp se achava na cama, o tempo frio e nublado dera lugar, lá fora no vale, a uns belos dias de fim de verão, inúmeros dias desses, uma série inteira, de modo que Joachim entrava todas as manhãs de calças brancas no quarto do primo, que não podia reprimir uma sensação de sincera contrariedade, uma contrariedade de sua alma e de seus jovens músculos, diante do fato de se ver impedido de desfrutar um tempo maravilhoso assim. A meia voz dizia até que era uma vergonha deixá-lo inaproveitado. Mas, para acalmar-se, raciocinava então que, mesmo que se levantasse, não poderia passar esse tempo de modo mais prazenteiro, visto a experiência lhe proibir excesso de movimento. E a ampla e escancarada porta da sacada oferecia-lhe, pelo menos, um sabor do brilho quente do ar livre.

No entanto, ao final do prazo que lhe fora imposto, o tempo mudou novamente. Do dia para a noite tornou-se brumoso e frio. O vale desapareceu numa nevada úmida, e o hálito seco da calefação a vapor encheu o quarto. Assim estava o dia em que Hans Castorp, à visita matinal dos médicos, lembrou o conselheiro áulico de que fazia três semanas desde que se acamara, e pediu licença para levantar-se.

– Puxa! Já terminou? – disse Behrens. – Deixe ver! Realmente é exato. Meu Deus, como a gente envelhece! Bem, durante todo esse tempo o senhor não fez grandes progressos. Como? Ontem esteve normal? Sim, com exceção da temperatura das seis da tarde. Pois então, Castorp, não quero ser cruel. Vou devolvê-lo à sociedade humana. Levante-se e passeie, meu amigo. Dentro dos limites indicados, naturalmente! Dentro em breve faremos um retrato do seu interior. Tome nota! – acrescentou ao sair, dirigindo-se ao Dr. Krokowski, enquanto com o polegar enorme apontava por cima do ombro para Hans Castorp e fitava o assistente pálido, com os olhos azuis, injetados e lacrimosos... E Hans Castorp abandonou o “estábulo”.

Com a gola do sobretudo levantada e com galochas nos pés, voltou a acompanhar o primo até o banco ao lado do curso de água, e no regresso, não sem ventilar o problema de saber por quanto tempo o Dr. Behrens o teria deixado na cama, se ele mesmo não o tivesse avisado do fim do prazo. E Joachim, com olhar melancólico, abriu a boca como para proferir um lamento desesperado, e fez no ar um gesto indefinido.

 

         “Deus meu, eu vejo!”

Passou-se uma semana antes que Hans Castorp fosse convidado, por intermédio da Superiora, a Srta. von Mylendonk, a apresentar-se no gabinete de radiologia. Não quisera apressar o curso das coisas. Reinava grande azáfama no Berghof. Os médicos e o pessoal tinham, evidentemente, muito que fazer. Nos últimos dias haviam chegado novos pensionistas: dois estudantes russos com bastas cabeleiras e com camisas negras, fechadas, que não deixavam a descoberto a menor parte da roupa-branca; um casal holandês, que recebera lugares à mesa de Settembrini; um mexicano corcunda, que assustava os comensais com seus espantosos ataques de dispnéia, durante os quais se agarrava, com mãos de ferro, aos vizinhos, homem ou mulher, forçando-os, apesar de toda a resistência horripilada que lhe opusessem, e dos gritos de socorro que lançassem, a participarem da sua própria angústia. Numa palavra, a sala de refeições estava quase repleta, se bem que a temporada de inverno não começasse antes de outubro. E a pouca gravidade do caso de Hans Castorp, seu grau de enfermidade, mal lhe davam o direito de exigir atenção especial. A Srª. Stöhr, por exemplo, por mais estúpida e inculta que fosse, estava indubitavelmente muito mais enferma do que ele, e nem era bom falar do Dr. Blumenkohl. Seria faltar a todo senso de hierarquia e de distância não observar, no caso de Hans Castorp, uma reserva modesta, tendo-se ainda em conta que tal mentalidade estava de acordo com o espírito da casa. Os doentes leves não gozavam de muita consideração, como Hans Castorp deduzira de conversas que ouvira. Falava-se deles com desdém, conforme a escala de valores ali usada; eram olhados de través, não só por parte dos doentes graves e gravíssimos, senão também por aqueles que eram igualmente “leves”. Agindo assim, menosprezavam na verdade a si próprios, mas ao mesmo tempo salvaguardavam sua dignidade, por se submeterem à referida escala de valores. Isso é apenas humano. “Bah, esse sujeito!”, diziam um do outro. “Ele não sofre de nada, no fundo. Mal tem o direito de achar-se aqui. Não tem sequer uma caverna...” Tal era o espírito que reinava no sanatório; era, em certo sentido, aristocrático, e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza. Cada terra com seu uso, reza o provérbio. Manifestam pouca cultura os viajantes que zombam dos costumes e dos conceitos dos povos que os acolhem; há muitos tipos de qualidades suscetíveis de conferir honra a quem as possui. Mesmo em relação a Joachim, Hans Castorp observava um certo respeito e um quê de cerimônia, não só por ser o primo paciente mais antigo e seu guia e cicerone nesse mundo novo, mas antes de tudo por se tratar, sem a menor dúvida, do caso mais grave. Assim sendo, era compreensível a tendência de todos de tirar o maior efeito possível das particularidades do seu caso, até mesmo exagerando sua gravidade, na intenção de pertencer à aristocracia ou de se avizinhar dela. O próprio Hans Castorp, quando interrogado à mesa, acrescentava alguns décimos à temperatura verificada”, e não deixava de se sentir lisonjeado quando o advertiam com o dedo, como a um grande espertalhão. Mas, não obstante essa pequena gabolice, ainda continuava sendo personagem secundária, de maneira que paciência e discrição constituíam a atitude que lhe convinha.

Reassumira, ao lado de Joachim, o estilo de vida das três primeiras semanas, aquele estilo já familiar, monótono e estritamente regulamentado; e tudo corria à maravilha desde o primeiro dia, como se jamais tivesse sofrido uma interrupção. Com efeito, esta fora insignificante, como Hans Castorp notou logo por ocasião do seu reaparecimento à mesa. Verdade é que Joachim, ligando deliberadamente uma importância especial a esse tipo de fatos marcantes, empenhara-se em adornar com algumas flores a mesa do primo ressuscitado. Mas a recepção por parte dos comensais foi pouco festiva e não se distinguiu quase em nada de outras, anteriores, precedidas de uma separação de três horas e não de outras tantas semanas. Não porque sentissem indiferença para com a sua pessoa singela e simpática, nem porque estivessem por demais ocupados consigo próprios, isto é, com seus tão interessantes corpos, mas somente pelo fato de não terem consciência do intervalo. E Hans Castorp podia segui-los sem esforço por esse caminho, já que se encontrava no seu lugar à extremidade da mesa, entre a professora e Miss Robinson, da mesma forma como se aí tivesse comido pela última vez na véspera.

Se em sua própria mesa não se fazia grande caso do fim do seu retiro, como poderia preocupar-se com ele o resto da sala? Ali absolutamente ninguém o percebera, com a única exceção de Settembrini, que ao final da refeição se aproximara para uma saudação amistosa e brincalhona. Hans Castorp sentia-se, na verdade, inclinado a ver ainda uma exceção, a cujo respeito não nos arriscamos a opinar. Afirmava de si para si que Clávdia Chauchat dera pelo seu reaparecimento, logo quando entrara, atrasada como sempre, após ter batido a porta envidraçada; tinha certeza de que os olhos estreitos da russa o haviam fitado com um olhar ao qual ele respondera com outro; apenas se sentara, Mme. Chauchat voltara-se de novo para o lado dele, sorrindo por cima do ombro, como fizera três semanas atrás, antes de ele ter ido ao exame médico. E esse gesto fora tão pouco dissimulado, tão desprovido de consideração – tanto de consideração para com ele quanto para com os demais pensionistas –, que Hans Castorp vacilava sobre se devia sentir-se deliciado ou tomar essa atitude por um sinal de desprezo e irritar-se por causa dela. Fosse como fosse, seu coração contraíra-se convulsivamente sob a influência desses olhares, que de um modo fantástico e inebriante tinham negado e desmentido as conveniências segundo as quais se ignoravam mutuamente; contraíra-se quase que dolorosamente, já no momento em que se fechara com estrondo a porta envidraçada, momento esse que Hans Castorp aguardara com respiração ofegante.

Para completarmos o nosso relato, convém acrescentar que as relações interiores entre Hans Castorp e a enferma da mesa dos “russos distintos”, a parte que seus sentidos e seu espírito modesto tomavam nessa pessoa de estatura média, de andar felino e de olhos de quirguiz, numa palavra, sua paixão -seja permitido o emprego dessa palavra, embora ela constitua um termo lá de baixo, da planície, e possa despertar a idéia de ser aplicável ao nosso caso aquela cançãozinha “No fundo de minha alma ecoa...” –, convém acrescentar, pois, que as referidas relações haviam feito grandes progressos durante o seu retiro. A imagem de Mme. Chauchat pairara diante dos olhos do jovem, quando, acordado de madrugada, contemplara o quarto que lentamente se delineava, ou quando, de tardezinha, fixara o olhar no crepúsculo cada vez mais denso – no próprio momento em que Settembrini entrara ali, acendendo subitamente a luz, flutuara essa imagem à sua frente com a mais absoluta nitidez, e fora por isso que Hans Castorp corara ao ver o humanista. Durante as diversas horas do dia subdividido, os pensamentos do enfermo haviam girado em torno da boca de Mme. Chauchat, das maçãs de seu rosto, de seus olhos, cuja cor, forma e posição lhe laceravam a alma, de suas costas lânguidas, da vértebra da nuca, que ressaltava no decote da blusa, dos braços aureolados pela finíssima gaze – e se silenciamos sobre o fato de ele se ter servido desse meio para fazer as horas passar tão depressa, foi porque participamos, simpaticamente, do desassossego de consciência que assomava em meio à assustadora felicidade causada por essas imagens e visões. Sim, existiam mesclados com ela o susto, o abalo psíquico, a esperança que se perdia no infinito, no vago, na mera aventura, existiam alegria e medo, um medo indefinível, mas que, às vezes, comprimia o coração do jovem – o coração no sentido próprio e fisiológico –, fazendo com que ele levasse uma das mãos à altura desse órgão e a outra à testa, qual,uma viseira por cima dos olhos, e murmurasse:

– Deus meu!

Pois, por trás da fronte havia pensamentos ou semi-pensamentos, aos quais as ditas imagens e visões deviam, na realidade, sua excessiva doçura, e que se referiam à negligência e à desconsideração de Mme. Chauchat, à sua situação de enferma, ao relevo e à acentuação que seu corpo recebia em virtude da doença, à corporificação de todo o seu ser, igualmente produzida pela enfermidade. E Hans Castorp, por decisão do médico, ia daí em diante participar desse efeito corporificador. Compreendia, por trás de sua fronte, a liberdade aventurosa com que Mme. Chauchat, ao voltar-se e sorrir para ele, ignorava o fato de eles não terem sido apresentados um ao outro, segundo as conveniências sociais, como se ambos não fossem seres sociais e não sentissem necessidade de se falar... Era precisamente isso que o assustava, que o apavorava da mesma forma como naquele instante quando, no gabinete de consultas, tirara os olhos do torso de Joachim e buscara os do primo; mas então foram a compaixão e a solicitude que lhe haviam causado esse susto, ao passo que agora experimentava emoções muito diferentes.

Assim, a vida do Berghof, tão confortável e tão bem regulamentada, recobrara o seu curso monótono, em seus estreitos limites. Hans Castorp, à espera da radiografia, continuava compartilhando-a com o bom Joachim e fazendo, hora por hora, as mesmas coisas que o primo, cuja vizinhança poderia ser considerada favorável ao nosso herói. Pois, embora se tratasse apenas de uma afinidade de enfermos, havia nela uma boa parte de honradez militar; uma honradez, na verdade, que despercebidamente já estava a ponto de achar satisfação no serviço representado pelo tratamento, de modo que esse serviço se tornava, por assim dizer, um sucedâneo do cumprimento do dever lá de baixo, e uma profissão substituta. Hans Castorp não era tão estúpido que não notasse claramente essa evolução. Mas sentia muito bem o efeito refreador que ela exercia sobre sua mentalidade de civil. Talvez fosse até essa vizinhança – o exemplo que dava e o controle que exercia – o que o livrava de passos imprudentes e de empresas precipitadas. Não lhe escapava o quanto o correto Joachim sofria por causa de determinado perfume de flor de laranjeira que o envolvia diariamente, e cuja atmosfera abrangia um par de olhos castanhos, redondinhos, um pequeno rubi, muita alegria risonha, pouco justificada, e uns seios exteriormente bem-formados. E a preocupação da honra e da razão, que fazia com que Joachim temesse e evitasse a influência dessa atmosfera, comovia Hans Castorp, impunha-lhe certa disciplina e certa ordem, e impedia-o, por assim dizer, de pedir à mulher de olhos estreitos que “lhe emprestasse um lápis”. Sem o corretivo dessa vizinhança – assim o indica a experiência – talvez se houvesse disposto a fazer o contrário.

Joachim nunca falava da risonha Marusja, e esse fato proibia a Hans Castorp falar de Clávdia Chauchat na presença dele. Achava compensação à mesa, trocando secretamente opiniões com a professora sentada à sua direita; esforçava-se por corar as faces da solteirona, mediante algumas piadas a respeito do seu fraco pela graciosa enferma, e ao fazê-lo imitava aquela atitude com que o velho Castorp apoiava dignamente o queixo no nó da gravata. Insistia também com ela para que o inteirasse de novos e interessantes pormenores relativos à situação particular de Mme. Chauchat, à sua origem, ao seu marido, à sua idade e ao caráter da sua doença. Queria saber se ela tinha filhos. Não, senhor, não tinha. Que faria com filhos uma mulher como essa? Provavelmente estava proibida de tê-los, e por outro lado, que espécie de filhos teria? Hans Castorp teve que lhe dar razão. Opinou com uma objetividade forçada que agora já era um pouco tarde. Às vezes, o perfil de Mme. Chauchat lhe parecia um pouco rígido. Já teria ela passado dos trinta anos? A Srta. Engelhart protestou violentamente. Clávdia, trinta anos? Quando muito, vinte e oito. E no que se referia a seu perfil, como podia o vizinho dizer uma coisa dessas? O perfil de Clávdia era de uma delicadeza e de uma suavidade puramente juvenis, se bem que fosse um perfil interessante e não o de qualquer pequena sadia. E para castigá-lo, a Srta. Engelhart acrescentou sem transição que Mme. Chauchat recebia freqüentemente visitas de senhores, em particular de um patrício dela que morava em Davos-Platz e entrava à tarde no quarto dela.

Essas palavras acertaram no alvo. O rosto de Hans Castorp crispou-se apesar de todo o seu esforço, e também era forçada a maneira como proferiu as frases “Imaginem” e “Vejam só”, para passar por cima da novidade. Incapaz de dar pouca importância à existência desse compatriota, como fingira no começo, voltou a falar dele sem cessar, de lábios trêmulos. Era um homem moço?

– Moço e bem-apessoado, segundo ouvi dizer – respondeu a professora. – Não tive ocasião de julgar com meus próprios olhos.

– Doente?

– Quando muito, ligeiramente.

– Tomara –disse Hans Castorp sarcasticamente – que ele mostre um pouco mais da roupa-branca do que os seus patrícios da mesa dos “russos ordinários”. – E a Srta. Engelhart, ainda para castigá-lo, respondeu que podia garantir o contrário. Hans Castorp, terminando por admitir que esse era um assunto que merecia exame cuidadoso, encarregou-a seriamente de se informar sobre aquele compatriota que com tanta freqüência visitava Mme. Chauchat. Mas, ao invés de trazer notícias a respeito desse ponto, ela comunicou-lhe alguns dias após um fato completamente diverso.

Havia a Srta. Engelhart descoberto que alguém pintava Cláudia Chauchat, que ela se deixava retratar, e perguntou a Hans Castorp se ele sabia. Podia estar certo de que a notícia procedia de fonte fidedigna. Desde algum tempo já, Mme. Chauchat posava no próprio Berghof, e quem era que lhe fazia o retrato? O conselheiro áulico! O Dr. Behrens recebia-a, para esse fim, quase diariamente no seu apartamento particular.

Essa novidade emocionou Hans Castorp ainda mais que as anteriores. Daí por diante passou a fazer a seu respeito uma porção de pilhérias forçadas. Ora, ninguém ignorava que o doutor pintava a óleo. Que queria a professora? Não era coisa proibida, e todo mundo podia fazê-lo. E isso se passava nos aposentos do viúvo? Era de esperar que, pelo menos, a Srta. von Mylendonk assistisse às sessões.

– Ela não tem tempo para isso.

– Mas o Behrens não deveria ter mais tempo que a Superiora – ponderou Hans Castorp com severidade. Essa observação soava definitiva, mas ele estava longe de abandonar o assunto. Fez toda uma série de perguntas, para saber pormenores acerca do retrato. Quis saber-lhe as dimensões, se era de meio corpo ou de corpo inteiro. A que horas posava Mme. Chauchat? Também nesse ponto a Srta. Engelhart mostrou-se incapaz de lhe oferecer outras particularidades e pediu-lhe que esperasse com paciência os resultados das investigações ulteriores.

Depois de se ter inteirado dessa notícia, Hans Castorp teve 37,7. Muito mais do que as visitas que Mme. Chauchat recebia, atormentavam-no e inquietavam-no as que ela fazia. A própria existência particular e pessoal de Mme. Chauchat, independentemente do seu conteúdo, já começara a causar-lhe sofrimento e desassossego, e quanto não se intensificariam essas sensações no momento em que ficasse sabendo de circunstâncias duvidosas relacionadas com esse conteúdo? Ainda que parecesse perfeitamente possível que as relações entre o visitante russo e a sua compatriota fossem de natureza banal e inocente, Hans Castorp sentia-se desde algum tempo inclinado a considerar a banalidade e a inocência como “lero-lero”. E tampouco podia decidir-se a formar uma opinião diferente quanto à pintura a óleo como base de relação entre um viúvo de vocabulário robusto e uma moça de olhos rasgados e andar felino. O gosto que o médico manifestara na escolha do seu modelo correspondia por demais ao seu próprio para que pudesse acreditar no caráter desinteressado da relação, e a recordação das faces azuladas e dos olhos proeminentes, estriados de vermelho, do conselheiro áulico, nada contribuía para diminuir o seu ceticismo.

Um fato que Hans Castorp observou nesses dias, casualmente e por conta própria, exerceu sobre ele um efeito diferente, posto que novamente se tratasse de uma confirmação do seu gosto. À mesa colocada transversalmente à da Srª. Salomon e do colegial voraz de óculos, à esquerda da mesa dos primos e nas proximidades da porta lateral, havia um enfermo natural de Mannheim, como Hans Castorp ouvira dizer. Era um moço de trinta anos mais ou menos, com cabelos ralos e dentadura cariada, e que falava acanhadamente, o mesmo que de vez em quando tocava piano durante a reunião noturna, e quase sempre a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão. Diziam que era muito devoto – espírito que, por motivos óbvios, se encontrava freqüentemente ali em cima. Hans Castorp soubera também que o moço assistia todos os domingos ao serviço religioso em Davos-Platz e lia durante o repouso livros edificantes, com um cálice ou um ramo de palmeira na capa. E esse rapaz – foi o que Hans Castorp notou um belo dia – dirigia seus olhares ao mesmo ponto que ele próprio; cravava-os na pessoa flexível de Mme. Chauchat, e isso de um modo entre tímido e indiscreto que tocava as raias do canino. Hans Castorp, após ter observado essa atitude pela primeira vez, não pôde deixar de verificá-la com muita freqüência. Via o moço pela noite, na sala de jogo, entre os pensionistas, melancólico e absorto pelo aspecto da mulher formosa, apesar de contaminada, que se achava sentada ali, no sofá do pequeno salão, a conversar com Tamara (assim se chamava a moça extravagante de cabelos lanosos), com o Dr. Blumenkohl e com os cavalheiros de peito para dentro e ombros caídos da sua mesa. Via-o voltar-se, ir à toa de cá para lá, e virar de novo a cabeça lentamente por cima do ombro, em direção a Mme. Chauchat, olhando-a de esguelha, com uma contração lamentável do lábio superior. Via-o empalidecer e baixar os olhos, que imediatamente depois levantava outra vez, sempre que se cerrava a porta envidraçada e Mme. Chauchat deslizava até seu lugar. E observou diversas vezes como o coitado se plantava, após a refeição, entre a saída e a mesa dos “russos distintos”, para deixar que Mme. Chauchat passasse bem perto dele e para devorar, com os olhos cheios de tristeza até o fundo da alma, a mulher que nem dava pela sua presença.

Também essa descoberta impressionou consideravelmente o jovem Hans Castorp, embora a mísera indiscrição do rapaz de Mannheim não o pudesse inquietar da mesma forma como as relações particulares entre Clávdia Chauchat e o Dr. Behrens, esse homem que lhe era tão claramente superior em anos, em personalidade e na posição que ocupava na vida. Clávdia absolutamente não se preocupava com o moço de Mannheim. Se fosse diferente, o fato não teria escapado à atenção aguçada de Hans Castorp. Não era, portanto, a pontada antipática do ciúme que ele sentia no coração. Mas o jovem experimentava todas as sensações que costuma experimentar um homem ébrio e apaixonado quando descobre no mundo exterior sua própria imagem, sentimento que formam a estranha mescla de repugnância e solidariedade. É impossível analisar e estudar tudo isso, se é que desejamos levar avante a nossa narrativa. Seja como for, aquilo que a observação do moço de Mannheim dava a pensar ao pobre Hans Castorp era muito forte para o seu estado de alma.

Assim se passaram os oito dias até o da radioscopia de Hans Castorp. Ele não soubera que este seria o prazo, mas quando, certa manhã, na hora do café, a Superiora – ela outra vez tinha um terçol, que não podia ser o mesmo; parecia que esse mal inofensivo, mas desfigurador, tinha origem na sua constituição – deu-lhe ordem de se apresentar à tarde no laboratório, haviam decorrido precisamente oito dias. Hans Castorp devia comparecer em companhia do primo, meia hora antes do chá, pois ao mesmo tempo se tiraria um novo retrato do interior de Joachim, visto a última radiografia dele ter sido tirada havia muito tempo.

Cortaram, pois, nesse dia, uns trinta minutos do repouso principal e desceram às três e meia em ponto pela escadaria de pedra até o porão fictício. Lado a lado, estavam sentados na pequena sala de espera que separava o gabinete de consultas do laboratório de radioscopia. Joachim, para quem essas coisas não representavam nada de novo, parecia completamente calmo; Hans Castorp, porém, achava-se numa expectativa um tanto febril, já que, até esse momento, nunca haviam lançado olhares à vida interior do seu organismo. Não estavam sós. Quando entraram, já se encontravam na peça alguns pensionistas, com revistas surradas sobre os joelhos, e que esperavam como eles; havia lá um jovem gigante sueco, que na sala de refeições tinha o seu lugar à mesa de Settembrini, e do qual se dizia que, na época da sua chegada, em abril, estivera tão doente que haviam hesitado em admiti-lo; desde então, porém, engordara trinta e seis quilos e estava a ponto de receber alta como totalmente curado; além dele, estava lá uma senhora da mesa dos “russos ordinários”, uma mãe de mísero aspecto, com seu filho ainda mais mísero, um garoto feio e narigudo de nome Sacha. Essas pessoas esperavam havia mais tempo do que os primos. Evidentemente, entrariam antes deles. Decerto se produzira algum atraso no gabinete de radioscopia, e disso resultaria chá frio para os primos.

No gabinete estavam ocupados. Ouvia-se a voz do Dr. Behrens, que dava ordens. Já haviam passado as três e meia, quando a porta foi aberta – quem a abriu foi um assistente técnico que trabalhava nessa seção. Mandaram entrar o gigante sueco, aquele felizardo. Sem dúvida, seu antecessor fora-se por outra porta. Desse momento em diante, as coisas desenrolaram-se mais depressa. Ao cabo de dez minutos já se ouviam os vigorosos passos do escandinavo completamente curado, essa publicidade ambulante do lugar e do sanatório, que se afastava pelo corredor. Foi, então, recebida a mãe russa com Sacha. Mais uma vez, como por ocasião da entrada do sueco, notou Hans Castorp que na sala de radioscopia reinava penumbra, isto é, uma meia-luz artificial, exatamente como do outro lado, no gabinete analítico do Dr. Krokowski. As janelas estavam cobertas de cortinas; a luz do dia estava excluída, e luziam apenas algumas lâmpadas elétricas. Enquanto eram introduzidos Sacha e sua mãe e Hans Castorp os acompanhava com os olhos, descerrou-se, nesse preciso momento, a porta do corredor, e o enfermo seguinte entrou na sala de espera. Chegava muito cedo, em vista do atraso dos exames. Era Mme. Chauchat.

Era mesmo Clávdia Chauchat que, de repente, se achava na exígua peça. Hans Castorp, de olhos arregalados, reconheceu-a, e sentiu perfeitamente como o sangue lhe fugia do rosto e o maxilar inferior se lhe afrouxava, a ponto de forçá-lo a abrir a boca. A entrada de Clávdia efetuara-se de modo despercebido, inopinado, e de chofre compartilhava ela com os primos aquele recinto, onde um segundo antes não estivera ainda. Joachim lançou um olhar rápido para Hans Castorp, e logo após não somente baixou os olhos, mas tornou a tirar da mesa a revista ilustrada que depusera ali pouco antes, e escondeu o rosto atrás das folhas desdobradas. Hans Castorp não teve bastante energia para fazer o mesmo. Depois de empalidecer, corou violentamente, e o coração pulsava-lhe descompassado.

Mme. Chauchat sentou-se junto à porta do laboratório, numa poltronazinha redonda, de braços um tanto estropiados, como que rudimentares. Recostando-se, cruzou ligeiramente as pernas e olhou para o vazio, enquanto seus olhos de quirguiz, nervosamente desviados pela sensação de ser observada, pareciam quase vesgos. Usava suéter branco e saia azul e tinha sobre os joelhos um livro da biblioteca do estabelecimento. Batia levemente no chão com os pés.

Já depois de um minuto e meio mudou de atitude. Olhou em redor de si. Levantou-se com a expressão de quem está indeciso e não sabe aonde dirigir-se. E começou a falar. Perguntou alguma coisa. Dirigiu a palavra a Joachim, muito embora este parecesse absorto na leitura da revista, ao passo que Hans Castorp ali se achava sem nada fazer. Formava palavras na boca, emprestando-lhes a voz que saía da garganta branca. Era aquela voz pouco grave, um tanto áspera, agradavelmente velada, que Hans Castorp conhecia – conhecia desde muito tempo e já ouvira uma vez, a seu lado, no dia em que lhe dissera: “Com muito prazer. Mas você deve devolvê-lo sem falta depois da aula”. Mas aquelas frases haviam sido proferidas com mais fluência e com maior decisão. Desta vez, porém, chegavam as palavras um pouco arrastadas e trôpegas. A que falava não tinha um direito natural de usá-las; tomava-as apenas de empréstimo, como Hans Castorp já diversas vezes a ouvira fazer, experimentando um certo sentimento de superioridade, envolvido em humilíssimo deleite. Com uma das mãos no bolso do casaquinho de lã e a outra na nuca, perguntou Mme. Chauchat:

– Por favor, qual é a hora que marcaram para o senhor?

E Joachim, após ter relanceado os olhos para o primo, respondeu, juntando os calcanhares, mas permanecendo sentado:

– Três e meia.

Ela voltou a falar:

– A minha hora é três e quarenta e cinco. Que é que há? São quase quatro horas. Alguém entrou agora, não é?

– Sim, duas pessoas – explicou Joachim. – As que estavam à nossa frente. O serviço está atrasado. Parece que o atraso é de meia hora.

– Isto é desagradável – disse ela, apalpando o penteado num gesto nervoso.

– Bastante – tornou Joachim. – Nós também já esperamos há quase meia hora.

Assim conversaram, e Hans Castorp escutava-os como que num sonho. Que Joachim falasse com Mme. Chauchat era quase como se ele mesmo o fizesse -se bem que, por outro lado, fosse muito diferente. Aquele “bastante” chocara Hans Castorp; a resposta parecia-lhe petulante ou pelo menos estranhamente fria, em vista das circunstâncias. Mas, afinal, Joachim podia falar assim – podia, em geral, falar com ela, e talvez até se gabasse desse atrevido “bastante”, com o mesmo ar de importância que assumira Hans Castorp perante Joachim e Settembrini, quando, ao lhe perguntarem quanto tempo pretendia permanecer em Davos, respondera: “Três semanas”. Dirigira ela a palavra a Joachim, ainda que este escondesse o rosto atrás do jornal. Sem dúvida fizera-o por ser o primo o pensionista mais antigo, a quem conhecia de vista havia mais tempo. Mas também por outra razão: entre ela e Joachim tinham cabimento relações civilizadas e uma troca de palavras articuladas; nada de selvagem, profundo, terrível e misterioso existia entre eles. Se uma certa pessoa de olhos castanhos, com um anel de rubi e com um perfume de flor de laranjeira houvesse esperado ali, perto deles, teria cabido a Hans Castorp tomar as rédeas da conversa e dizer “bastante”, independente e puro como se sentia em relação a ela. “Com efeito, bastante desagradável, senhorita”, teria dito e talvez, com um gesto desenvolto, tivesse tirado o lenço do bolso do paletó a fim de se assoar. “Tenha paciência, por favor. Estamos todos no mesmo barco.” E Joachim teria admirado sua leviandade – provavelmente sem experimentar o desejo sério de substituí-lo. Não, dada a situação, Hans Castorp tampouco tinha ciúmes de Joachim, não obstante ser o primo quem teve oportunidade de falar com Mme. Chauchat. Estava de acordo com o fato de ela se ter dirigido a Joachim. Assim fazendo, ela levara em conta as circunstâncias e demonstrara ter consciência delas... E o coração do jovem martelava.

Após o tratamento displicente que Mme. Chauchat recebera da parte de Joachim, e no qual Hans Castorp até notara certa hostilidade contra a companheira de enfermidade, hostilidade que o fez sorrir apesar de toda a sua emoção, “Clávdia” tentou dar um passeio pela peça. Mas como faltasse espaço para isso, aproximou-se também da mesa, tirou dela uma revista ilustrada e voltou à poltrona dos braços rudimentares. Hans Castorp permanecia sentado, a contemplá-la, imitando o jeito do avô de apoiar o queixo na gravata, a ponto de se parecer ridiculamente com o velho. Mme. Chauchat tornara a cruzar as pernas, de maneira que a esbeltez das linhas, do joelho para baixo, tornava-se nítida sob a saia de tecido azul. Era de estatura apenas mediana, uma estatura agradável e harmoniosa aos olhos de Hans Castorp, mas tinha as pernas relativamente compridas e as cadeiras pouco largas. Já não se recostava na poltrona, mas, fincando na coxa mais elevada os antebraços cruzados, inclinava-se para a frente, com as costas convexas e os ombros tão avançados, que se salientavam as vértebras da nuca e quase se delineava, sob o suéter muito justo, a espinha dorsal, ficando comprimidos, de ambos os lados, os seios, que não eram opulentos e altos como os de Marusja, mas pequenos como os de uma menina. De súbito Hans Castorp lembrou-se de que também ela se achava à espera da radioscopia. O conselheiro áulico pintava-a, reproduzia sobre uma tela, por meio de óleo e corantes, sua aparência exterior. Dentro em breve, porém, dirigiria na penumbra sobre ela os raios que lhe revelariam o interior do corpo. E ao pensar nisso Hans Castorp voltou a cabeça com um ensombramento pudico da sua fisionomia e com aquele ar de discrição e reserva que lhe parecia adequado a essa visão.

Não permaneceram os três reunidos por muito tempo na salinha de espera. Lá dentro, evidentemente, não haviam feito grandes cerimônias para liquidar os casos de Sacha e de sua mãe. Apressavam-se para recuperar o tempo perdido. Novamente a porta foi aberta pelo técnico de jaleco branco. Levantando-se, Joachim atirou a revista sobre a mesa, e Hans Castorp seguiu-o em direção à porta, não sem uma hesitação íntima. Despertaram nele escrúpulos cavalheirescos, bem como a tentação de dirigir, apesar de tudo, uma palavra convencional a Mme. Chauchat e de lhe oferecer a precedência, talvez até em francês, se isso fosse realizável. Apressadamente procurou os vocábulos e ponderou a sintaxe. Mas ignorava se esse tipo de galanteria estava em uso ali. Era possível que a ordem estabelecida ficasse acima de todo cavalheirismo. Joachim devia sabê-lo, e como não fizesse menção de ceder o seu lugar à senhora presente, apesar dos olhares comovidos e insistentes de Hans Castorp, este seguiu os passos do primo e atravessou a porta do laboratório, depois de ter passado por Mme. Chauchat, que continuava na sua posição inclinada e mal levantara os olhos. Estava ele por demais atordoado pelo que deixava atrás de si e pelas aventuras dos dez últimos minutos, para que a transferência do seu corpo ao gabinete de radioscopia pudesse produzir também uma modificação imediata do seu estado de alma. Não via nada ou apenas tinha percepções muito vagas nessa meia-luz artificial. Ouvia ainda a voz agradavelmente velada de Mme. Chauchat, quando dissera: “Que é que há?... Alguém entrou agora, não é?... Isto é desagradável...” E o som dessa voz lhe descia docemente pelas costas, fazendo-o estremecer. Via o joelho delineado sob o pano da saia; via as vértebras do pescoço salientarem-se na nuca curvada, por baixo dos curtos cabelos arruivados que nesse lugar pendiam frouxos, sem terem sido presos na trança, e um novo tremor passou-lhe pelo corpo. Deparou com o Dr. Behrens, de costas para os recém-entrados, de pé diante de um armário ou de uma estante saliente, ocupado em examinar uma chapa escura que mantinha, com o braço estendido, nas proximidades da fosca lâmpada do teto. Passando ao lado dele, chegaram ao fundo da sala, precedidos pelo técnico que fazia os preparativos para o exame. Pairava ali um cheiro esquisito. Uma espécie de ozônio deteriorado enchia a atmosfera. Entre as janelas vendadas de preto, a estante dividia o gabinete em duas partes desiguais. Distinguiam-se aparelhos de física, lentes côncavas, quadros de distribuição, instrumentos para medir, mas também uma caixa parecida com uma máquina fotográfica sobre uma armação de rodas, e dispositivos de vidro, embutidos em fileiras na parede. Não se sabia onde se estava, se no ateliê de um fotógrafo, se numa câmara escura, se na oficina de um inventor ou na cozinha de um bruxo tecnológico.

Sem perder tempo, Joachim começou a desnudar-se até a cintura. O técnico, um jovem suíço atarracado, de faces rosadas, pediu a Hans Castorp que fizesse o mesmo. Acrescentou que os exames eram feitos rapidamente e que logo a seguir seria a vez dele... Enquanto Hans Castorp despia o colete, Behrens saiu da parte menor do recinto e foi ter com eles, na outra, mais espaçosa.

– Olá! – disse. – Vejam só os nossos Dióscuros! Castor e Pólux!... Rogo-lhes a fineza de suprimirem quaisquer gritos lancinantes! Esperem um pouco, num instante vamos passar luz através dos dois. Parece, Castorp, que o senhor tem medo de nos revelar o seu interior. Fique tranqüilo, que tudo se passará segundo as regras da estética. Olhe aí, já viu a minha galeria particular? – E tomando Hans Castorp pelo braço, conduziu-o àquelas fileiras de vidros escuros, e dando volta a um comutador, acendeu a luz atrás delas. Eis que os vidros, iluminando-se, mostraram as suas imagens. Hans Castorp viu membros – mãos, pés, rótulas, pernas, coxas, braços e partes de bacias. Mas a forma viva, arredondada, daqueles fragmentos do corpo humano era fantasmagórica e de contornos vagos; circundava, como uma névoa ou uma aura pálida, o núcleo que ressaltava clara, minuciosa e decididamente: o esqueleto.

– Muito interessante – disse Hans Castorp.

– É de fato interessante – retrucou o conselheiro áulico. – Uma lição prática sumamente útil para a rapaziada. Anatomia de raios X, compreende? Um triunfo dos tempos modernos. Isto aqui é um braço de mulher, como o senhor pode perceber pela sua delicadeza. É com isso quê nos cingem nas horas de amor, sabe? – E pôs-se a rir, o que fazia levantar-se de um lado o lábio superior com o bigodinho aparado. Em seguida apagaram-se as chapas. Hans Castorp dirigiu-se para onde estavam preparando a radiografia de Joachim.

Isso se dava à frente daquela saliência a cujo outro lado se achara momentos antes o Dr. Behrens. Joachim sentara-se numa espécie de tamborete de carpinteiro, diante de uma tábua contra a qual apertava o peito, e que ao mesmo tempo abraçava. O técnico corrigiu-lhe a posição com movimentos moldadores, avançando ainda mais as espáduas de Joachim e fazendo-lhe massagem nas costas. Depois, encaminhou-se para trás da máquina fotográfica, para focalizar, encurvado e de pernas separadas, como um fotógrafo qualquer, a vista a tirar; expressou então a sua satisfação e, afastando-se, recomendou a Joachim que inalasse o ar profundamente e prendesse a respiração até que a chapa fosse batida. Dilataram-se e a seguir imobilizaram-se as costas arredondadas de Joachim. Nesse momento, o técnico fez a manobra adequada no quadro de distribuição. Durante dois segundos operaram energias terríveis cujo esforço era necessário para atravessar a matéria, correntes de milhares de volts, de cem mil, como Hans Castorp julgava lembrar-se. Apenas dominadas, em prol do seu objetivo, as forças procuraram escapar por um desvio. Descargas estouravam como disparos. Chispas azuis dançavam num aparelho de medição. Relâmpagos compridos passavam, crepitando, pela parede. Em qualquer parte, uma luz vermelha, semelhante a um olho, mirava o recinto, impassível e ameaçadora. Um frasco, nas costas de Joachim, enchia-se de qualquer substância verde. Depois, tudo sossegou. Desapareceram os fenômenos luminosos, e com um suspiro Joachim soltou o ar retido nos seus pulmões. Estava tudo terminado.

– O próximo réu! – chamou Behrens, dando uma cotovelada em Hans Castorp. – Não faça cera! O senhor vai ganhar uma cópia gratuita, Castorp. Assim poderá projetar os segredos do seu peito na parede, para divertir seus filhos e netos.

Joachim retirara-se, e o técnico já estava mudando a chapa. O conselheiro instruiu pessoalmente o novato acerca do modo de se sentar e se agarrar. – Abraçar! – disse. – Dê um abraço à tábua! Quanto a mim pode imaginar qualquer coisa diferente. E aperte o peito firmemente contra ela, como se experimentasse sensações voluptuosas! Muito bem! Respire! Não se mexa! – ordenou. – E agora sorria! – Hans Castorp esperava de olhos piscos, com os pulmões repletos de ar. Atrás dele irrompeu a tempestade, estourando, pipocando, crepitando e amainando. A objetiva contemplara o seu interior.

Ergueu-se, perturbado e aturdido pelo que acabava de lhe acontecer, ainda que a penetração nem de leve se lhe tivesse tornado sensível. – Ótimo! – elogiou o conselheiro áulico. – Agora vamos ver com os nossos próprios olhos. – E Joachim, como homem experimentado, já se encaminhara mais ao fundo da sala, para se colocar nas proximidades da porta de saída, junto a uma armação. Tinha às costas o volumoso aparelho, em cuja parte traseira se notava uma ampola de vidro, semicheia de água, com um tubo de evaporação. Diante dela, à altura do peito, achava-se um anteparo emoldurado, suspenso em roldanas. À sua esquerda, no meio de um quadro de distribuição e de outro instrumental, elevava-se um globo vermelho com uma lâmpada, que foi acesa pelo Dr. Behrens, a cavaleiro sobre o tamborete à frente do anteparo. Apagou-se a luz do teto, e somente a vermelha iluminava a cena. Com um rápido gesto, o mestre fez desaparecer também esta, e profundas trevas envolveram as pessoas presentes.

– Antes de tudo os olhos têm de se adaptar – ouviu-se a voz do conselheiro áulico através da escuridão. – É preciso que nossas pupilas se alarguem imensamente, como as dos gatos, para que possamos enxergar o que queremos descobrir. Os senhores compreendem que não poderíamos ver bem nitidamente com os nossos olhos ordinários, habituados à luz. Antes de começarmos, devemos esquecer o dia claro com suas imagens alegres.

– Lógico – disse Hans Castorp, que se achava de pé atrás do médico. Fechou os olhos, pois tanto fazia tê-los abertos ou cerrados, tão negra era a noite. – É necessário que os olhos tomem um banho de escuridão, para que possam enxergar uma coisa dessas. Entende-se. Acho até conveniente e indicado que a gente aproveite esse tempo para se concentrar um pouco, por assim dizer, numa prece silenciosa. Estou aqui de olhos fechados e sinto uma sonolência agradável. Mas que cheiro é esse?

– Oxigênio – explicou o conselheiro; – é o oxigênio que o senhor sente no ar. O produto atmosférico da nossa tempestade particular, compreende?... E agora abra os olhos! – acrescentou. – Já vai começar a evocação. – Hans Castorp obedeceu depressa.

Ouviu-se a mudança de uma alavanca de lingüeta. Um motor sobressaltou-se, pôs-se a cantar furiosos agudos, mas foi logo regulado por uma segunda manobra. O chão vibrava ritmicamente. A luzinha vermelha, oblonga e vertical, encarava-os, como uma ameaça muda. Em qualquer parte crepitou um relâmpago. E lentamente, com um brilho leitoso, qual uma janela que se iluminasse, ressaltou das trevas o pálido retângulo do anteparo luminoso, diante do qual o Dr. Behrens cavalgava o seu tamborete de sapateiro, com as coxas escancaradas, e com os punhos fincados nelas, apertando o nariz achatado contra a vidraça que lhe permitia a visão interior de um organismo humano.

– Está vendo, rapaz? – perguntou... Hans Castorp inclinou-se por cima do ombro dele, mas tornou a levantar a cabeça para olhar na direção onde supunha estarem, no meio da escuridão, os olhos de Joachim, que provavelmente tinham aquela mesma expressão meiga e triste do último exame. E perguntou ao primo:

– Você permite?

– Pois não – respondeu Joachim generosamente de dentro das trevas. O chão continuava vibrando, e as energias em ação estalavam e rumorejavam, enquanto Hans Castorp, curvado, espiava pela lívida janela, espiava através da ossatura vazia de Joachim Ziemssen. O esterno confundia-se com a espinha dorsal numa espécie de coluna escura, cartilaginosa. A fileira anterior das costelas estava entremeada pela das costas, que parecia mais pálida. As clavículas, em elegante curva, bifurcavam-se mais acima, para ambos os lados, e na suave auréola dos contornos da carne exibia-se, seco e nítido, o esqueleto dos ombros, a juntura dos úmeros de Joachim. Era muito clara a cavidade do peito, mas distinguia-se um sistema de veias, manchas escuras, uma negrejante aspereza.

– Imagem clara – disse o conselheiro áulico. – É a magreza decente da mocidade militar. Já tive aqui panças impenetráveis. Não havia meio de distinguir a menor coisa que fosse. Seria preciso descobrir antes os raios capazes de atravessar tal camada de banha... Este aqui, sim, é um trabalho limpo. Pode ver o diafragma? – perguntou, apontando com o dedo para o arco escuro que subia e descia na parte inferior da janela... – Está vendo, à esquerda, essas bossas, essas protuberâncias? É a pleurisia que ele teve faz quinze anos... Respire profundamente! – ordenou. – Mais! Eu disse: “Profundamente!” – E o diafragma de Joachim erguia-se, trêmulo, o mais alto que podia. Notava-se um clareamento nas regiões superiores do pulmão, mas o conselheiro não estava satisfeito. – Insuficiente – observou. – O senhor vê os hilos? Veja as aderências! Está vendo as cavernas? É daí que vêm os tóxicos que o: embriagam. – Mas a atenção de Hans Castorp achava-se toda absorvida por alguma coisa parecida com um saco, qualquer massa estranha, como que animalesca, que aparecia, escura, atrás da coluna central, na sua maior parte à direita do espectador – massa que regularmente se dilatava e se contraía, um pouco à maneira de uma medusa a nadar.

– O senhor vê o coração? – perguntou o conselheiro, desprendendo novamente a manzorra da coxa e designando com o indicador aquele saco palpitante... Grande Deus! Era o coração o que Hans Castorp contemplava, o orgulhoso coração de Joachim.

– Estou vendo o seu coração – disse com voz estrangulada.

– Pois não – tornou Joachim, e sem dúvida sorria, resignado, ali na escuridão. Mas o médico mandou-os calar-se e deixar de trocar sentimentalismos. Estudou as manchas e as linhas, aspereza preta na cavidade interior do peito, e enquanto isso, Hans Castorp tampouco se cansava de olhar a forma sepulcral de Joachim, o seu esqueleto, essa armação descarnada, esse escanifrado memento. Sentia-se cheio de devoção e de terror. – Sim, sim, eu vejo – disse diversas vezes. – Deus meu! Eu vejo! – Ouvira falar de uma mulher, uma parenta, havia muito falecida, da família Tienappel, distinguida pelo dom, ou talvez pela desgraça, de uma visão sinistra, que suportara com toda a humildade: as pessoas que morreriam em breve apareciam-lhe sob a forma de esqueletos. Deste modo é que Hans Castorp via o bom Joachim, embora com a ajuda e por meio da aparelhagem da ciência física e óptica, de maneira que isso não queria dizer grande coisa e nada havia de sobrenatural, tratando-se ainda de um espetáculo que o primo lhe permitira expressamente. Sem embargo, sentiu-se de repente tomado de uma profunda compreensão do destino melancólico daquela tia visionária. Violentamente emocionado pelo que via, ou, no fundo, pelo fato de o ver, tinha a alma acossada por secretas dúvidas, a ponto de se perguntar se tudo aquilo se passava de forma lícita, se sua visão, naquelas trevas vibrantes e chispantes, era de fato inocente; e no seu peito mesclava-se o angustiante prazer da indiscrição com os sentimentos de comoção e de piedade.

Mas, poucos minutos após, ele mesmo se achava no pelourinho, em plena tempestade, enquanto Joachim vestia o seu corpo que tornara a ser opaco. De novo olhava o conselheiro áulico através da vidraça leitosa; dessa vez esquadrinhava o interior de Hans Castorp, e das suas observações feitas à meia voz, de certos resmungos abruptos e de algumas expressões vagas, parecia deduzir-se que o resultado correspondia às suas expectativas. Terminada a radioscopia, teve ainda a amabilidade de permitir que o paciente, a seus rogos insistentes, contemplasse a própria mão através do anteparo luminoso. E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, no meio da qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular pairava, preto e frouxo, o anel-sinete que o avô lhe legara, um objeto duro desta terra, com o qual os homens adornam o seu corpo destinado a desfazer-se por baixo dele, para que fique novamente livre e se possa enfiar em outra mão que o use durante algum tempo. Com os olhos daquela parenta da família Tienappel, contemplou uma parte familiar do seu corpo, estudou-a com olhos videntes e penetrantes, e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer. Enquanto isso, sua fisionomia tomou aquela expressão que costumava assumir quando ouvia música – expressão bastante tola, sonolenta e piedosa, com a boca entreaberta e a cabeça inclinada para um ombro. O conselheiro disse:

– Fantasmagórico, hein? Sim, senhor, inegavelmente há nisso qualquer coisa de fantasmagoria.

E mandou sustar a energia. O chão serenou; esvaíram-se os fenômenos luminosos; a janela mágica voltou a envolver-se em trevas. A luz do teto foi acesa. E enquanto também Hans Castorp se vestia, Behrens dava aos jovens alguns esclarecimentos a respeito das suas observações, levando em conta os reduzidos conhecimentos de leigos dos dois. No que se referia a Hans Castorp, o resultado óptico confirmou o acústico com toda a precisão que a honra da ciência podia exigir. Haviam sido visíveis os lugares antigos tanto como outros, recentes, e partindo dos brônquios estendiam-se cordões muito adentro do órgão – cordões com nozinhos. Hans Castorp poderia verificá-los com seus próprios olhos no pequeno diapositivo que lhe seria entregue em breve. – Por conseguinte, calma, paciência, disciplina de homem! Comer, tirar a temperatura, repousar, esperar, não ter pressa. – Com isso voltou-lhes as costas. Foram-se os primos. Hans Castorp, ao sair atrás de Joachim, olhou por cima do ombro. Introduzida pelo técnico, Mme. Chauchat entrou no laboratório.

 

         Liberdade

Quais eram, afinal, as impressões do jovem Hans Castorp? Parecia-lhe que as sete semanas que ele, comprovada e indubitavelmente, acabava de passar ali em cima não eram mais que sete dias? Ou parecia-lhe, pelo contrário, que já vivia nesse lugar havia muito, mas muito mais tempo do que em realidade se passara? Ele mesmo ventilava esse problema, tanto de si para si, como também interpelando Joachim, sem, no entanto, chegar a resolver a questão. Uma coisa e outra, provavelmente, eram verdade: ao seu olhar retrospectivo, o tempo ali passado afigurava-se tanto excessivamente longo como excessivamente breve. Um único aspecto desse tempo, entretanto, escapava-lhe sempre: sua duração real – admitindo-se ser o tempo um fenômeno natural e ser lícito relacionar com ele o conceito da realidade.

Fosse como fosse, o mês de outubro estava prestes a começar; podia chegar a qualquer instante. Era fácil para Hans Castorp fazer as contas; além do mais, as conversas dos seus companheiros de enfermidade, que escutava por acaso, chamavam-lhe a atenção sobre esse fato. – Vocês sabem que daqui a cinco dias será novamente o fim do mês? – ouviu Hermine Kleefeld dizer, dirigindo-se a dois rapazes da sua turma, o estudante Rasmussen e aquele indivíduo beiçudo, de nome Gänser. Estavam tagarelando depois da refeição principal, entre as mesas, por cima das quais pairava um cheiro de comida. Ainda hesitavam em se recolher e em começar o repouso. – Primeiro de outubro – continuou a moça. – Eu mesma vi na folhinha do escritório. É o segundo da mesma espécie que passo neste oásis de prazer. Bem, acabou-se o verão, se é que tivemos verão. A gente sente-se roubada, como nos roubaram a vida, sob todos os pontos de vista. – E soltou um suspiro do seu meio pulmão, sacudindo a cabeça e fitando o teto com os olhos velados pela estupidez. – Ânimo, Rasmussen! – acrescentou, dando uma palmada no ombro caído do companheiro. – Conte-nos algumas anedotas!

-sei muito poucas – replicou Rasmussen, com as mãos pendentes como barbatanas, à altura do peito. – E não consigo contá-las bem, estou sempre muito cansado.

– Nem um cachorro – murmurou Gänser entre dentes – gostaria de viver assim, ou de um modo semelhante, por muito tempo. – E todos riram, dando de ombros.

Também Settembrini, com seu palito entre os lábios, andava por perto, e ao saírem disse a Hans Castorp:

– Não lhes dê crédito, engenheiro. Nunca lhes dê crédito quando resmungam. Todos o fazem, sem exceção, se bem que se sintam aqui como em casa, mais do que em casa, mais do que lhes convém. Levam uma vida de vadios e ainda exigem compaixão. Julgam-se com o direito de serem amargos, irônicos, cínicos. “Neste oásis de prazer!” Acaso não é isto um oásis de prazer? A mim, parece-me que é, e isso no sentido mais equívoco da palavra. “Roubada”, disse essa fêmea, “roubaram-me a vida neste oásis de prazer!” Mas dê-lhe alta e mande-a para a planície, e a vida que ela levará lá embaixo manifestará apenas uma única coisa: seu ardente desejo de voltar para cá o mais depressa possível. Sim, senhor, a ironia! Acautele-se com o tipo de ironia que cultivam aqui, meu caro engenheiro! Acautele-se, em geral, com essa atitude de espírito! Onde ela não é um meio correto e clássico da eloqüência, perfeitamente compreensível a qualquer intelecto sadio, chega a ser licenciosidade, torna-se um obstáculo à civilização, um namorico escabroso com a estagnação, com o vício, com o oposto do espírito. Uma vez que a atmosfera em que vivemos favorece altamente o desenvolvimento dessa flor dos pântanos, posso esperar ou devo até temer que o senhor me compreenda.

Com efeito, as palavras do italiano eram de tal gênero que, se Hans Castorp as tivesse ouvido seis semanas antes na “planície”, teriam representado para ele sons vazios de significado. Mas a permanência ali em cima fizera-lhe o espírito mais receptivo; receptivo no sentido de uma compreensão intelectual, sem implicar ao mesmo tempo o da simpatia, o que talvez seja ainda mais significativo. Sentia-se intimamente satisfeito, porque Settembrini, depois de tudo o que acontecera, ainda continuava falando com ele à sua maneira, continuava dando-lhe instruções e advertências e procurava influenciá-lo; e todavia a sua receptividade intelectual se refinara de tal modo, que era capaz de formar uma opinião acerca das palavras do italiano e negar-lhes, pelo menos até certo ponto, a sua aprovação. “Imaginem”, disse de si para si, “ele fala da ironia quase da mesma forma como da música. Só falta que a chame de ‘politicamente suspeita’, a partir do momento em que ela deixe de ser ‘um meio de ensino correto e clássico’. Mas uma ironia que em nenhum instante desse lugar e equívocos – que ironia seria essa? – pergunto eu, uma vez que se trata de dar a minha opinião. Seria árida e cheiraria a mestre-escola!” Eis a ingratidão da juventude em formação! Aceita presentes, para logo criticar-lhes os defeitos.

No entanto, achava muito arriscado expressar essas suas idéias recalcitrantes. Limitou suas objeções ao juízo que o Sr. Settembrini fizera de Hermine Kleefeld, juízo que lhe parecia injusto ou que, por certos motivos, queria que fosse tal.

– Mas essa moça está enferma – disse –, está, realmente e fora de dúvida, muito doente e tem toda a razão de se desesperar. Que quer o senhor que ela faça?

– A doença e o desespero – retrucou Settembrini – são muitas vezes apenas formas da licenciosidade.

“E Leopardi?”, pensou Hans Castorp. “Ele desesperou abertamente da ciência e do progresso. E o nosso próprio mestre-escola? Não está também enfermo e volta para cá uma e outra vez? Carducci gostaria muito pouco da vida que ele leva.” Em voz alta, porém, disse:

– Essa é boa! Qualquer dia destes aquela moça pode bater as botas, e o senhor fala de licenciosidade! Precisa me explicar isso um pouco mais claramente! Se o senhor afirmasse que a doença é às vezes uma conseqüência da licenciosidade, seria plausível...

– Muito plausível – aparteou Settembrini. – Ora bolas! Será que o senhor se daria por satisfeito se eu não fosse além dessa afirmação?

– ...ou se dissesse que a doença muitas vezes serve de pretexto à licenciosidade, eu aceitaria também isso.

– Grazie tanto!

– Mas a doença como forma da licenciosidade? Quer dizer que ela não é um produto da licenciosidade, mas é, ela própria, licenciosidade? Isso me parece paradoxal

– Por favor, engenheiro, nada de imputações levianas! Desprezo os paradoxos, detesto-os! Tome nota de que tudo quanto lhe disse sobre a ironia se aplica também ao paradoxo, e ainda outras coisas mais! O paradoxo é a erva venenosa do quietismo, a irisação do espírito apodrecido, a maior licenciosidade de todas! Verifico, aliás, que o senhor volta a defender a enfermidade...

– Não, o que o senhor diz me interessa muito. Está me trazendo à memória certas idéias que o Dr. Krokowski explana nas suas conferências de segunda-feira. Ele também considera a doença orgânica um fenômeno secundário.

– Um idealista pouco limpo.

– Que tem o senhor contra ele?

– Justamente isto.

– O senhor não gosta da análise?

– Depende. Gosto dela muito ou pouco, alternadamente, meu caro engenheiro.

– Como devo compreender o que o senhor disse agora?

– A análise é boa como instrumento do esclarecimento e da civilização; é boa, quando abala convicções estúpidas, dissipa preconceitos naturais e solapa a autoridade; é boa, em outros termos, enquanto liberta, refina, humaniza e prepara os escravos para a liberdade. É má, muito má mesmo, quando estorva a ação, quando prejudica as raízes da vida e se mostra incapaz de lhe dar forma. A análise pode ser uma coisa pouco apetitosa, repugnante como a morte, à qual talvez pertença, afinal de contas, sendo afim do túmulo e da sua anatomia mal-afamada...

“Bem urrado, Leão!”, não pôde Hans Castorp deixar de pensar, como sempre quando o Sr. Settembrini explanava um assunto pedagógico. Mas limitou-se a dizer:

– Recentemente estudamos anatomia de raios, lá no subsolo. É o termo que Behrens empregou, quando fez a nossa radioscopia.

– Ah, o senhor já passou por essa etapa também? E então?

– Vi o esqueleto de minha mão – disse Hans Castorp, procurando evocar as sensações que lhe despertara aquele espetáculo. – O senhor também pediu que lhe mostrassem a sua?

– Não, senhor. Não me interessa nem um pouquinho ver o meu esqueleto. E qual é o diagnóstico médico?

– Ele encontrou cordões. Cordões com pequenos nós.

– Que sujeito diabólico!

– Não é a primeira vez que o senhor chama assim o Dr. Behrens. Que quer dizer com isso?

– Fique certo que se trata de um termo eufemístico.

– Não, Sr. Settembrini, o senhor é injusto. Admito que o homem tenha seus defeitos. Sua maneira de falar, com o tempo, foi se tornando desagradável para mim. Tem qualquer coisa de forçado, principalmente para quem se recorda de que ele teve aqui o grande desgosto de perder sua mulher. Mas, afinal de contas, o Dr. Behrens é homem de méritos e digno de respeito. Trata-se de um benfeitor da humanidade sofredora! Faz poucos dias encontrei-o, quando ele acabava de operar; vinha de uma ressecção de costelas, uma intervenção durante a qual a vida do enfermo estava por um fio. Causou-me profunda impressão vê-lo voltar do seu trabalho complicado e útil, de que entende com tanta perfeição. Parecia ainda muito excitado, e como prêmio do seu esforço acendeu um charuto. Tive inveja dele.

– Muito bonito da sua parte! Mas qual é a pena que impôs ao senhor?

– Ele não estabeleceu nenhum prazo fixo.

– Nada mal! Pois então, engenheiro, vamos deitar-nos. Ocupemos os nossos postos.

Separaram-se diante do número 34.

– E o senhor sobe ao telhado, Sr. Settembrini? Deve ser mais divertido ficar deitado em companhia do que estar a sós. A gente conversa lá em cima? Há pessoas interessantes entre os seus companheiros de repouso?

– Oh, há apenas partos e citas.

– Quer dizer russos?

– E russas – tornou o Sr. Settembrini, enquanto se entesava uma das comissuras da sua boca. – Adeusinho, engenheiro.

Indubitavelmente, essas palavras tinham sido ditas de propósito. Hans Castorp estava confuso quando entrou no quarto. Sabia Settembrini o que se passava com ele? Provavelmente o espiara com intenções pedagógicas, e lhe seguira a direção dos olhos. Hans Castorp encolerizava-se contra o italiano e contra si próprio, porque, não sabendo dominar-se, provocara a alfinetada. Enquanto procurava pena e papel, a fim de levá-los consigo ao repouso – pois já não era conveniente esperar e tinha de ser escrita uma terceira carta para casa-–, continuava a exasperar-se. Murmurou qualquer coisa contra aquele doidivanas e criticastro, que se intrometia no que não era da sua conta, e todavia assobiava, ele mesmo, para as moças na rua. Hans Castorp não se sentia disposto a escrever. Esse tocador de realejo, com suas indiretas, estragara-lhe todo o bom humor. Mas, fosse como fosse, era preciso ter trajes de inverno, dinheiro, roupa-branca, calçados – em suma, tudo o que Hans Castorp teria trazido se tivesse imaginado que passaria ali não somente umas três semanas de pleno verão, mas um prazo... um prazo ainda indeterminado, que, em todo caso, ocuparia boa parte do inverno, ou, tendo-se em conta as idéias que “entre nós, aqui em cima” vigoravam a respeito do tempo, se prolongaria até o seu fim. Era justamente isso que urgia comunicar à família, pelo menos como possibilidade. Era necessário fazer, desta vez, um trabalho completo, dizer ao pessoal de casa a verdade nua e crua, e não manter neles possíveis ilusões...

Assim disposto, começou a escrever, servindo-se da técnica que diversas vezes vira Joachim empregar: deitado na espreguiçadeira com a caneta-tinteiro na mão e a pasta de viagem sobre os joelhos dobrados. Utilizou uma folha de papel de cartas do estabelecimento, das quais havia uma boa provisão na gaveta da sua mesa. Dirigiu a carta a James Tienappel, que lhe era o mais íntimo dentre os seus três tios. Pediu-lhe informasse o cônsul. Falou de um contratempo desagradável, de receios que se haviam confirmado, da necessidade, verificada pelos médicos, de permanecer ali em cima durante parte do inverno, ou mesmo durante toda a estação fria, visto casos como o seu serem freqüentemente mais persistentes do que outros de aparência mais impressionante. Afirmou tratar-se de intervir com energia e precaver-se em tempo. Sob esse ponto de vista – opinou –, era uma verdadeira sorte e um acaso feliz ter ele subido e aproveitado o ensejo de se submeter a um exame; caso contrário, poderia ter acontecido que ignorasse, por muito tempo ainda, o seu estado, e mais tarde, talvez, ficasse sabendo dele de uma forma mais penosa. Quanto à duração provável do tratamento, não seria de estranhar se tivesse de desperdiçar com ele o inverno todo e não voltasse à planície antes de Joachim. Os conceitos de tempo eram ali diferentes dos que se aplicavam à permanência normal numa estação balneária. O mês era, por assim dizer, a menor unidade de tempo, e um só não seria absolutamente levado em conta...

Fazia frio, e Hans Castorp escrevia agasalhado com o sobretudo e envolto num cobertor. De vez em quando tirava os olhos do papel que se ia enchendo de frases razoáveis e convincentes, e levantava-os para contemplar a paisagem familiar, cuja presença já quase deixara de perceber, aquele vale alongado, com a cordilheira de cumes – nesse dia de uma palidez vítrea – à sua saída, com o fundo claro, salpicado de casas, que às vezes resplandecia ao sol, e com as encostas cobertas de mato ou de pradaria, de onde vinha o tilintar de cincerros de vacas. Hans Castorp escrevia com uma facilidade cada vez maior, e não compreendia como pudera ter receio da redação dessa carta. Enquanto a redigia, persuadia-se a si próprio de que não podia haver coisa mais concludente do que as suas explicações, as quais sem dúvida encontrariam em casa a mais completa aprovação da parte dos seus tios. Jovens da sua classe e da sua situação financeira cuidavam da saúde, quando isso lhes parecia conveniente, e aproveitavam as comodidades especialmente preparadas para pessoas da sua condição. Se tivesse partido para casa, era certo que o teriam mandado de volta, ao ouvirem o que ele tinha que contar. Hans Castorp pediu que lhe enviassem as coisas de que necessitava. Terminou solicitando a remessa regular do dinheiro de que precisava; oitocentos marcos por mês seriam suficientes para cobrir todas as despesas.

Assinou. Estava feito o trabalho. Essa terceira carta esgotava o assunto e teria um efeito duradouro – não segundo os conceitos de tempo que reinavam lá embaixo, mas segundo os dali de cima. Consolidaria a liberdade de Hans Castorp. Era essa a palavra que ele empregava, não expressamente, e nem sequer formando as sílabas no seu íntimo, mas sentindo-lhe o significado mais amplo, assim como o aprendera ali, significado que pouco tinha que ver com aquele que Settembrini dava à palavra. A isso, uma onda de espanto e de emoção, sentimento já conhecido dele, percorreu-lhe o interior, arrancou-lhe um suspiro e lhe fez estremecer o peito.

Sentia a cabeça congestionada de tanto escrever, e suas faces ardiam. Tirou o termômetro da mesinha com a lâmpada e mediu a temperatura, como para aproveitar uma ocasião. O mercúrio subia a 37,8.

“Estão vendo?”, pensou Hans Castorp. Acrescentou o seguinte pós-escrito: “Esta carta me cansou. A minha temperatura é 37,8, neste momento. Vejo que, por enquanto, devo levar uma vida muito quieta. Desculpem se escrever só raras vezes!” Feito isso, permaneceu deitado e elevou a mão contra o céu, com a palma para fora, assim como fizera diante do anteparo luminoso. Mas a luz celeste deixou intacto o seu aspecto de vida. Diante da sua clareza, a matéria da mão até se tornou mais opaca e mais escura, e somente os contornos afiguravam-se numa vaga iluminação vermelha. Era a mão viva, que Hans Castorp estava habituado a ver, a lavar, a usar, e não aquela armação estranha com que se defrontara através do anteparo. A cova analítica, que então vira aberta, voltara a se fechar.

 

          Caprichos do mercúrio

Começou outubro como costumam começar os meses. Sua entrada é, no fundo, bem discreta e completamente silenciosa, sem sinais nem fogueiras; os meses insinuam-se sem fazer ruído, de um modo que facilmente escapa à atenção de quem não esteja muito alerta. Em realidade, o tempo não tem marcas; não há trovões nem trombetas ao início de um novo mês ou de um novo ano; e na própria estréia de um novo século somos unicamente nós, os homens, que soltamos foguetes e repicamos os sinos.

No caso de Hans Castorp, o primeiro dia de outubro não diferiu em nada do último de setembro. Estava igualmente frio e desabrido, e os dias seguintes passaram-se da mesma forma. No repouso eram necessários o sobretudo de inverno e os cobertores de lã de camelo, não só à noite, mas também durante o dia. Os dedos com que Hans Castorp segurava o livro estavam úmidos e enregelados, se bem que as faces lhe ardessem num calor seco. Joachim sentia-se tentado a recorrer ao saco de peles, mas desistiu, para não se mimar antes do tempo.

Alguns dias mais tarde, porém, ainda no decorrer da primeira quinzena do mês, mudou tudo e irrompeu um veranico atrasado de tamanho esplendor, que o espanto foi geral. Com muita razão ouvira Hans Castorp elogiar o mês de outubro dessas paragens. Durante duas semanas e meia, aproximadamente, um céu magnífico estendeu-se por cima do vale; cada dia ultrapassava o anterior na pureza do azul, e o sol irradiava com uma intensidade, tão veemente, que todos se viram induzidos a ir buscar os trajes mais leves de verão, já relegados às malas; ressurgiram, pois, os vestidos de musselina e as calças de linho, e nem sequer o grande guarda-sol de lona, que, mediante um engenhoso mecanismo – um sarrafo de diferentes furos –, se fixava no braço da espreguiçadeira, oferecia ao meio-dia um abrigo suficiente contra o astro abrasador.

– Que sorte eu poder ainda desfrutar este tempo – disse Hans Castorp ao primo. – Tivemos às vezes dias tão ruins! E agora quase parece que o inverno já passou e se aproxima a boa estação. –- Tinha razão. Poucos sinais indicavam a verdadeira época do ano, e também estes eram insignificantes. Excetuando-se alguns bordos plantados em Davos-Platz, onde levavam uma existência penosa, e que fazia muito tempo haviam desoladamente deixado cair as suas folhas, não existiam por ali árvores frondosas, cujo estado imprimisse à paisagem o cunho da estação. Somente o alno alpestre, árvore híbrida, de agulhas macias, que as perde como se fossem folhas, mostrava a calvície outonal. As demais árvores da região, as altas tanto como as mirradas, eram coníferas sempre verdes, resistentes ao inverno, que, na falta de limites distintos, pode distribuir as suas nevadas pelo ano inteiro. Eram apenas os diversos matizes de um vermelho ferrugíneo, nas copas da floresta, que, apesar do ardor estivai do céu, revelavam o declínio do ano. Verdade é que, para o olhar mais atento, havia ainda as flores dos prados a anunciar o mesmo fato, na sua linguagem suave. Já não se viam o salepo, parente das orquídeas, e os arbustos da aqüilégia, que na época da chegada do visitante tinham adornado as encostas; também o cravo silvestre desaparecera. Unicamente a genciana e os caules curtos do lírio verde eram visíveis e testemunhavam certa frescura íntima da atmosfera superficialmente aquecida, um frio capaz de penetrar de súbito a própria medula do homem deitado, quase que tostado exteriormente, assaltando-o tal como um calafrio ataca o enfermo abrasado pela febre.

Quanto a Hans Castorp, não observara interiormente aquela ordem com que o homem, ao lidar com o tempo, controla o seu curso, dividindo, contando e denominando as suas unidades. Não prestara atenção ao silencioso início do décimo mês. Somente o impressionava o que lhe feria os sentidos, o ardor do sol que ocultava uma secreta frescura e lhe causava uma sensação nova na sua intensidade, e que o induzia a uma comparação culinária: fazia-o pensar, conforme disse a Joachim, numa “omelette surprise” que continha quaisquer coisas geladas sob a espuma quente dos ovos. Externava freqüentemente idéias desse gênero, falando com rapidez e fluência, numa voz emocionada, como faz quem treme de frio apesar de ter a pele ardente. Verdade é que houve também intervalos durante os quais se mostrava taciturno, para não dizer ensimesmado, pois sua atenção continuava dirigida para fora, concentrada embora num único ponto, ao passo que tudo o mais – pessoas tanto como objetos -se diluía numa espécie de bruma, originária do seu próprio cérebro, e que os doutores Behrens e Krokowski sem dúvida alguma teriam qualificado de “produto de venenos solúveis”, como o jovem repetia a si mesmo, sem que essa percepção lhe proporcionasse a capacidade, e nem sequer o desejo, de se libertar da sua embriaguez.

Tratava-se de uma ebriedade que tinha o seu objetivo em si mesma e à qual nada se afigurava mais odioso e menos almejável do que o desembriagamento. Esse estado defendia-se também contra quaisquer impressões que lhe pudessem enfraquecer a força; não as admitia, a fim de se conservar intacto. Hans Castorp sabia e mencionara, ele mesmo, em outras ocasiões, que Mme. Chauchat não era favorecida quando vista de perfil. Seu rosto parecia então um tanto rígido e muito menos jovem. E a conseqüência? Evitava olhá-la de perfil. Cerrava literalmente os olhos, quando, porventura, ela oferecia esse aspecto que o magoava. Por quê? Sua razão deveria ter exultado por ter uma oportunidade para impor-se. Que querem? Hans Castorp empalideceu de encanto quando Clávdia, num desses dias radiosos, na hora do café da manhã, voltou a apresentar-se com seu rolo de rendas, que usava em dias de calor, e no qual ficava extraordinariamente graciosa – quando assim entrou, atrasada, batendo a porta com estrondo, e risonha, com os braços ligeiramente erguidos a alturas desiguais, enfrentou a sala, para se exibir. Mas o que o encantava era menos o fato de ela aparecer tão bonita, do que a sensação de que isso reforçava a doce névoa que pairava na sua cabeça, aquela ebriedade que se bastava a si mesma e desejava ser justificada e alimentada.

Um perito da mentalidade de Lodovico Settembrini, à vista de tamanha falta de boa vontade, teria talvez falado de licenciosidade, ou de uma de suas formas. Hans Castorp recordava às vezes as idéias literárias que o italiano expressara acerca “da enfermidade e do desespero”, e que ele mesmo achara ou fingira achar incompreensíveis. Contemplava Clávdia Chauchat, a lassidão das suas costas, a posição avançada da sua cabeça; via como ela chegava atrasada à mesa, sem razão nem desculpa, exclusivamente por falta de ordem e de energia civilizada; via como, em virtude dessa mesma falta, batia atrás de si cada porta por que entrava ou saía; via como formava bolinhas de miolo de pão e roia de vez em quando os lados das pontas dos dedos e surgia nele um pressentimento tácito: se ela estava doente – o que ela estava sem dúvida, e quiçá sem esperança, já que se vira forçada a viver ali em cima repetidas vezes e por muito tempo –, sua doença era, senão toda, ao menos em grande parte de natureza moral, e efetivamente, como dissera Settembrini, não se tratava nem da causa nem do efeito da sua “negligência”, senão de uma coisa inerente a ela. Hans Castorp relembrava também o gesto desdenhoso que fizera o humanista ao falar dos “partos e citas”, cuja companhia tinha de suportar durante o repouso; um gesto de desprezo e de repúdio naturais e espontâneos, que não necessitavam de justificativa, e eram muito familiares a Hans Castorp, em outros tempos, quando ele, que à mesa mantinha uma postura bem tesa, odiava as portas fechadas com estrondo, e jamais se sentia tentado a roer as unhas (por dispor, em vez disso, do recurso do Maria Mancini), se escandalizara gravemente com a má educação de Mme. Chauchat e não pudera evitar uma sensação de superioridade, ao ouvir a forasteira de olhos rasgados procurar expressar-se na sua própria língua natal.

Mas, a essa altura dos acontecimentos, Hans Castorp, devido ao estado íntimo do seu espírito, abandonara quase totalmente esse modo de sentir. Era antes o italiano que o irritava, por ter falado, na sua sobranceria, de “partos e citas”, sem sequer se referir a pessoas da mesa dos “russos ordinários”, onde os estudantes de cabelos extraordinariamente bastos e de roupa-branca invisível discutiam sem cessar no seu idioma exótico, o único evidentemente que conheciam, e cujo caráter desprovido de ossos fazia pensar num tórax sem costelas, como aquele que o Dr. Behrens acabava de descrever. Era inegável que os hábitos dessa gente eram capazes de despertar num humanista vivos sentimentos de distância. Comiam com a faca e sujavam a privada de forma inenarrável. Settembrini afirmava que um dos membros dessa roda, um acadêmico já adiantado no curso de medicina, mostrara-se absolutamente ignorante em matéria de latim; nem soubera, por exemplo, o que era um vacuum. E segundo a própria experiência diária de Hans Castorp, não mentia a Srª. Stöhr quando contava, à mesa, que o casal do número 32 recebia o massagista, quando de manhã este se apresentava para ministrar a fricção, ambos deitados na mesma cama.

Tudo isso podia ser verdade, e não fora inutilmente que se instituíra a separação manifesta entre os “distintos” e os “ordinários”. Hans Castorp afirmava a si próprio que apenas o fazia dar de ombros aquele propagandista da república e do belo estilo, que altiva e prosaicamente – sobretudo prosaicamente, embora também ele andasse febril e embriagado – abarcava o pessoal das duas mesas sob a denominação de “partos e citas”. O jovem Hans Castorp compreendia muito bem em que sentido Settembrini usara essas palavras. Não começara ele também a compreender a relação existente entre a enfermidade de Mme. Chauchat e a sua “negligência”? Mas dera-se o que ele próprio descrevera, certo dia, a Joachim: no início a gente se escandaliza e experimenta sentimentos de distância, mas de repente “intromete-se qualquer coisa completamente diversa”, que “nada tem que ver com o juízo”, e logo se acaba a indignação moral, a ponto de as pessoas se tornarem quase inacessíveis a influências pedagógicas de natureza republicana ou eloqüente. Mas que é isso? – perguntamos, provavelmente de acordo com a mentalidade de Lodovico Settembrini. Qual é essa coisa duvidosa que, intrometendo-se, paralisa e elimina o juízo dos homens, privando-os do direito de o usarem, ou melhor, fazendo com que renunciem ao seu uso com um entusiasmo insensato? Não perguntamos pelo nome dessa coisa, porquanto todos o conhecem. Indagamos acerca da sua índole moral e – confessamo-lo francamente – não esperamos resposta muito otimista. No caso de Hans Castorp, essa índole manifestou-se de tal maneira, que ele não somente deixou de usar o seu juízo, mas também se pôs a experimentar, ele próprio, aquele gênero de vida que o preocupava. Tentou saber que tal era a sensação de quem, à mesa, ficava sentado relaxadamente, com as costas lassas, e verificou que isso constituía grande alívio para os músculos da bacia. Além disso, procurou não fechar, meticulosamente, a porta que atravessava, mas batê-la atrás de si, e também esse método mostrou-se bastante cômodo e adequado, expressando, mais ou menos, a mesma coisa que aquele hábito de dar de ombros que ele notara em Joachim, logo da sua chegada, na estação, e que reencontrara muitas vezes entre as pessoas dali de cima.

Para empregarmos palavras simples – o nosso herói estava agora apaixonado até a raiz dos cabelos por Clávdia Chauchat. Usamos novamente esse termo, uma vez que pensamos ter feito o necessário para evitar o mal-entendido que ele poderia originar. Não era, portanto, uma melancolia amavelmente sentimental, no sentido da já referida cançãozinha, o que constituía a essência da sua paixão. Era antes uma variante bem perigosa e erradia daquela fascinação, mescla de frio e calor, qual o estado de um homem febril ou um dia de outubro nas regiões elevadas; e o que lhe faltava era precisamente um elemento sentimental que ligasse os componentes extremos. Por um lado, referia-se, com um imediatismo que fazia o jovem empalidecer e lhe crispava as feições, ao joelho de Mme. Chauchat, às suas costas, às vértebras da sua nuca e aos seus braços que comprimiam os pequenos seios – referia-se, numa palavra, ao seu corpo, esse corpo lânguido e intensificado, ao qual a doença dava uma acentuação exagerada, convertendo-o duplamente em corpo. E por outro lado, era essa paixão algo sumamente volátil e vasto, uma idéia, não, um sonho, o sonho temeroso e infinitamente sedutor de um jovem, cujas perguntas precisas, embora não formuladas de maneira consciente, haviam sido respondidas apenas por um silêncio vazio. Como todo mundo, reivindicamos também nós o direito de fazer, no decorrer da presente narrativa, as nossas próprias conjecturas, e chegamos a supor que Hans Castorp não teria ultrapassado o prazo preestabelecido para a sua estadia ali em cima e nem sequer teria alcançado, nesse ambiente, o dia em que paramos, se sua alma singela houvesse encontrado, nas profundezas do tempo, uma informação satisfatória quanto ao sentido e à finalidade desse serviço que é a vida.

De resto, sua paixão infligia-lhe todas as dores e proporcionava-lhe todas as alegrias que esse estado acarreta em toda parte e em todas as circunstâncias. A dor é pungente; contém um elemento degradante, como toda dor, e representa tamanho abalo do sistema nervoso que embarga a respiração e é capaz de arrancar a um homem adulto lágrimas amargas. Para também fazermos justiça às alegrias – estas eram numerosas e, ainda que nascessem de motivos insignificantes, não menos intensas que as mágoas. Por exemplo: prestes a entrar na sala de refeições, Hans Castorp nota atrás de si o objeto dos seus sonhos. O resultado é conhecido de antemão e de suma simplicidade, mas arrebata-lhe a alma com aquela força que faz brotar as lágrimas. Os olhos encontram-se de perto, os seus próprios e os glaucos olhos dela, cuja forma e posição levemente asiáticas o encantam até a medula. Ele já não tem consciência, mas, mesmo assim, dá um passo para o lado, a fim de deixar livre a passagem pela porta. Com um meio sorriso e um merci pronunciado em voz baixa aceita ela esse seu oferecimento apenas cortês, passa por ele e atravessa o limiar. Ei-lo na aura da personalidade que acaba de roçá-lo, louco da felicidade que lhe causam a coincidência e o fato de uma palavra da sua boca, esse merci, ter-se dirigido direta e pessoalmente a ele. Segue-a; a passo vacilante encaminha-se à direita, para a sua mesa, e enquanto se deixa cair na cadeira pode verificar que Clávdia, sentando-se igualmente, se vira para ele com ar pensativo, motivado, como parece a Hans Castorp, pelo encontro junto à porta. Ó ventura assombrosa! Ó júbilo, triunfo, exultação sem limites! Não, Hans Castorp jamais teria experimentado essa embriaguez de fantástica satisfação, ao receber um olhar de alguma pequena sadia, lá embaixo, na planície, à qual tivesse “dado o seu coração”, num impulso lícito, sossegado e esperançoso em conformidade com aquela cançãozinha. Com uma jovialidade febril cumprimenta a professora, que observou tudo e ficou com a pele veludosa corada; a seguir assalta Miss Robinson, com uma tentativa tão absurda de conversação inglesa que a senhorita, não habituada a êxtases, recua violentamente e o mede com um olhar cheio de temor.

Outra vez, durante o jantar, os raios de um esplêndido pôr-do-sol caem sobre a mesa dos “russos distintos”. Haviam corrido as cortinas das portas do avarandado e das janelas, mas em alguma parte sobrou uma fresta, através da qual um clarão vermelho, deslumbrante, apesar de frio, abre caminho e fere justamente a cabeça de Mme. Chauchat, de maneira que, na conversa com o compatriota de peito sumido à sua direita, ela tem de resguardar os olhos com a mão. É um incômodo, mas tão pouco grave que ninguém se preocupa. A própria interessada nem sequer parece reparar na pequena contrariedade. Mas Hans Castorp descobre-a através de toda a sala. Observa-a durante alguns instantes, examinando a situação, acompanhando o caminho dos raios e fixando o ponto de onde incidem. É da janela ogival, lá atrás, à direita, no canto entre uma das portas do avarandado e a mesa dos “russos ordinários”, muito distante do lugar de Mme. Chauchat e quase igualmente afastado do de Hans Castorp. E ele toma as suas decisões. Sem proferir nenhuma palavra, levanta-se, passa, com o guardanapo na mão, diagonalmente, por entre as mesas, atravessa a sala, une cuidadosamente as cortinas creme, certifica-se, com um olhar por cima do ombro, de que o clarão vesperal já não pode mais entrar e que Mme. Chauchat está livre daquele inconveniente, e, esforçando-se por parecer indiferente, volta à sua mesa. Um jovem atencioso que faz o necessário, já que mais ninguém se lembra de fazê-lo. Muito poucos notaram a sua intervenção; Mme. Chauchat, porém, sentiu-se imediatamente aliviada e virou-se em direção a ele, conservando essa posição até que Hans Castorp alcançou o seu lugar e, sentando-se, olhou para ela, que, com um sorriso entre amável e surpreendido, agradeceu, avançando um pouco a cabeça, sem propriamente incliná-la. Ele retribuiu com uma mesura correta. Seu coração quedou-se imóvel, parecendo ter deixado de pulsar. Somente mais tarde, quando tudo terminara, pôs-se a martelar, e foi então que Hans Castorp percebeu que Joachim tinha os olhos discretamente cravados no prato. Ao mesmo tempo observou que a Srª. Stöhr dava uma cotovelada no Dr. Blumenkohl e, com um risinho afogado, procurava olhares cúmplices em toda parte, na sua própria mesa tanto como nas demais...

Relatamos um acontecimento cotidiano, mas o cotidiano torna-se estranho quando se desenvolve em terreno estranho. Havia tensões e soluções benéficas entre eles, ou quando não entre eles – pois deixamos em suspenso até que ponto Mme. Chauchat participava delas –, ao menos existiam para a imaginação e para a sensibilidade de Hans Castorp. Naqueles belos dias, muitos pensionistas tinham o costume de ir, depois do almoço, ao avarandado situado à frente da sala de refeições, onde, durante um quarto de hora, permaneciam em grupos, expondo-se ao sol. Aquilo oferecia um aspecto semelhante ao das reuniões dominicais por ocasião do concerto bimensal da charanga. Os jovens absolutamente ociosos, supersaturados de iguarias de carne e de guloseimas, e todos ligeiramente febris, falavam, pilheriavam e trocavam olhares. A Srª. Salomon, de Amsterdam, ia sentar-se rente à balaustrada, enquanto a acossavam com os joelhos o beiçudo Gänser e, do outro lado, o gigante sueco, que, embora totalmente restabelecido, ainda prolongava a sua estadia em prol de uma pequena cura suplementar. A Srª. Iltis parecia ser viúva, pois que, desde há pouco, regozijava-se com a companhia de um “noivo”, aliás de aparência melancólica e subalterna, e cuja presença não a impedia de aceitar, simultaneamente, as homenagens do Capitão Miklosich, homem de nariz adunco, bigode untado de pomada, peito saliente e olhos ameaçadores. Havia lá as damas do alpendre, de diferentes nacionalidades, entre elas algumas figuras novas, aparecidas desde 1.° de outubro, e cujos nomes Hans Castorp ainda ignorava. No meio delas achavam-se cavalheiros da laia do Sr. Albin, jovens de dezessete anos, guarnecidos de monóculo; um rapaz holandês de cara rosada, com óculos e com uma paixão monomaníaca pelo intercâmbio de selos; diversos gregos, de olhos amendoados, recendendo a brilhantina e inclinados a desrespeitar, quando à mesa, os direitos dos comensais; dois peralvilhos inseparáveis, apelidados de “Max” e “Moritz”[2], e que tinham a fama de dar numerosas escapadelas... O mexicano corcunda, cuja ignorância dos idiomas ali representados lhe imprimia expressão de surdo, tirava sem cessar fotografias, arrastando consigo, com uma agilidade engraçada, o tripé de um lado para outro do terraço. Às vezes aparecia também o conselheiro áulico para exibir o truque dos cordões de sapato. Em alguma parte, solitário, o devoto de Mannheim abria caminho por entre a multidão, e seus olhos tristes até o fundo seguiam, para viva repugnância de Hans Castorp, determinados rumos secretos.

Para nos ocuparmos, uma vez mais, daquelas “tensões e soluções”, podia acontecer numa dessas conjunturas que Hans Castorp, instalado numa cadeira laqueada de jardim, rente ao muro da casa, conversasse animadamente com Joachim, a quem, apesar da sua relutância, obrigara a sair com ele, e visse como à sua frente Mme. Chauchat se mantinha junto à balaustrada, fumando um cigarro em companhia dos seus comensais. E o jovem falava alto para que ela o ouvisse. Mas Mme. Chauchat lhe virava as costas... Como se vê, aludimos agora a um caso determinado. A palestra do primo não bastara para alimentar-lhe a loquacidade afetada, de modo que, intencionalmente, travara conhecimento com uma pessoa estranha. Quem era? Hermine Kleefeld. Como por acaso, Hans Castorp dirigira a palavra à mocinha, apresentando-se formalmente a si mesmo e a Joachim, e puxara uma cadeira laqueada também para ela, a fim de desempenhar papel de destaque numa cena de três. Será que ela se lembrava ainda – perguntou – de que maneira diabólica o assustara naquele dia, quando do seu primeiro encontro, durante o passeio matutino? Sim, fora ele que recebera aquelas boas-vindas cordiais, dadas por meio de um assobio animador. E realmente, ela conseguira o que queria, pois – Hans Castorp confessava-o francamente – ele sentira-se como que fulminado. Que a senhorita perguntasse ao primo se isso não era verdade, Ah, ah! assobiar com o pneumotórax para espantar os transeuntes inofensivos! Isso era um jogo ímpio, um abuso pecaminoso – assim o classificava ele com toda a sinceridade e com justa cólera... E enquanto Joachim, ciente do seu papel de mero instrumento, continuava sentado com os olhos baixos e a Kleefeld também aos poucos chegava a deduzir, dos olhares cegos e erráticos de Hans Castorp, o fato humilhante de que sua pessoa servia apenas de meio para determinado fim, Hans Castorp prosseguia amuando-se, tomando ares afetados, expressando-se em termos rebuscados e procurando dar à sua voz uma bela sonoridade, até que enfim conseguiu que Mme. Chauchat se voltasse para ver quem falava tão espalhafatosamente, e o encarasse, por um instante apenas. Deu-se então o seguinte: seus olhos de quirguiz resvalaram rapidamente pelo corpo de Hans Castorp, que se achava sentado com as pernas cruzadas, e com uma expressão de indiferença proposital, que chegava às raias do desdém – precisamente do desdém! –, fitaram por algum tempo os sapatos amarelos do jovem, antes de se retirar de novo, fleumaticamente, e quiçá ocultando um sorriso encoberto...

Uma calamidade grave, muito grave! Hans Castorp continuou ainda algum tempo falando febrilmente. Depois, quando no seu foro íntimo se dera conta daquele olhar lançado aos seus sapatos, silenciou, quase no meio da palavra, e entregou-se à sua mágoa. A Kleefeld, aborrecida e melindrada, desapareceu. Com certo agastamento na voz, propôs Joachim que agora bem poderiam recolher-se ao repouso. E um homem prostrado, de lábios pálidos, concordou com ele.

Durante dois dias, Hans Castorp sofreu amargamente sob os efeitos desse incidente, pois nada ocorreu nesse meio tempo que lhe derramasse algum bálsamo na ferida ardente. Por que o olhara daquele modo? Por que, em nome de Deus e da Trindade, sentia esse desdém para com ele? Considerava-o um palerma sadio lá de baixo, cuja receptividade não ia além do inocente? Um ingênuo da planície, por assim dizer, um tipo vulgar que passeava e ria e enchia a pança e ganhava dinheiro – um aluno modelo que nada entendia da vida a não ser as enfadonhas vantagens da honra? Era ele apenas um fútil visitante, vindo por três semanas, incapaz de participar da sua esfera? Não professara votos em virtude de ter uma região pulmonar úmida? Não fora incluído nas fileiras da Ordem, não fazia parte do “nós aqui em cima”, já com dois meses completos atrás de si? Não subira o mercúrio, ainda ontem, a 37,8?... . Mas era justamente isso o que enchia as medidas do seu sofrimento. O mercúrio deixara de subir! A terrível prostração desses últimos dias esfriara, desembriagara, desentesara a natureza de Hans Castorp – fato esse que, para a sua maior vergonha, se manifestava por temperaturas muito baixas, pouco acima da normal. Era-lhe cruel verificar que sua mágoa e sua contrariedade tinham o único efeito de afastá-lo cada vez mais da existência e dos sentimentos de Clávdia.

O terceiro dia trouxe a doce redenção; trouxe-a já de manhã. Era um maravilhoso dia de outono, ensolarado e fresquinho, com os prados cobertos de teias prateadas. O sol e a lua minguante achavam-se simultaneamente no céu puro. Os primos tinham-se levantado mais cedo do que de costume, a fim de homenagear o belo dia e prolongar o passeio matinal um pouco além do limite regulamentar, passando pelo banco vizinho ao curso de água e avançando pelo caminho do bosque. Joachim, cuja curva também marcava, por aqueles dias, uma baixa simpática, propusera essa infração refrescante, e Hans Castorp não se opusera. – Somos gente curada – dissera ele –, sem febre e livres de venenos; quase estamos maduros para a planície. Nada nos impede de dar nossas cabriolas. – Caminhavam de cabeça descoberta; pois, desde que “professara”, Hans Castorp adaptara-se, por bem ou por mal, ao costume reinante de andar sem chapéu, não obstante a firmeza com que, no começo, defendera contra esse hábito seu próprio estilo de vida e sua boa educação. Fincavam no chão as suas bengalas. Ainda não haviam vencido a subida do caminho avermelhado e mal tinham alcançado o ponto onde, aquela vez, o grupo dos “pneumáticos” encontrara o novato, quando divisaram, a alguma distância, Mme. Chauchat, que subia devagar – Mme. Chauchat, de suéter branco, saia de flanela branca e sapatos igualmente brancos, com a cabeleira ruiva batida pelo sol da manhã. Para falar com maior precisão: quem a reconheceu foi Hans Castorp. A atenção de Joachim não despertou antes de a sensação desagradável de se ver instigado e aguilhoado indicar-lhe o que se passava. Essa sensação teve a sua origem na marcha acelerada que seu companheiro de súbito acabava de iniciar, após ter antes interrompido, bruscamente, a caminhada e quase parado por alguns instantes. Tal precipitação parecia sumamente prejudicial e irritante a Joachim, que perdeu o fôlego e começou a tossir. Mas Hans Castorp, seguro do seu objetivo, e com os órgãos funcionando às mil maravilhas, pouco se preocupou com isso, e como o primo compreendesse a situação, limitou-se a cerrar o cenho, sem dizer nada, e a acompanhar o passo do companheiro, visto não ser possível que este avançasse sozinho.

A bela manhã animava o jovem Hans Castorp. Acrescia isso que, durante a depressão, as forças da sua alma haviam descansado furtivamente, e no seu espírito luzia a certeza de que chegara o momento em que se desvaneceria o encantamento que pairara em torno dele. Assim estugou o passo, arrastando consigo Joachim, que ofegava e também por outros motivos se mostrava recalcitrante. Antes da curva, a partir da qual o caminho se tornava plano e corria ao longo do flanco direito do morro coberto de mato, quase alcançaram Mme. Chauchat. Eis que Hans Castorp voltou então a diminuir a velocidade da marcha, para não realizar o seu propósito num estado de respiração curta que revelasse o seu esforço. E pouco além da referida curva, entre a encosta e a parede rochosa, no meio dos pinheiros tingidos de cor de ferrugem, e através de cujos ramos incidiam feixes de raios de sol, ocorreu, sim, realizou-se o fato maravilhoso: que Hans Castorp, caminhando à esquerda de Joachim, alcançasse a graciosa enferma, passasse por ela a passo enérgico e, no momento em que se achava à sua direita, fizesse uma mesura justificada pela falta de um chapéu, cumprimentando-a respeitosamente – afinal de contas, por que respeitosamente? – com um bom-dia pronunciado a meia voz e que obteve resposta. Com uma amável inclinação da cabeça, que revelava pouca surpresa, Mme. Chauchat agradeceu, dizendo igualmente “bom dia” na língua de Hans Castorp, enquanto seus olhos sorriam. Tudo isso constituía coisa muito diferente, profunda e deliciosamente oposta àquele olhar lançado aos seus sapatos; era um acaso feliz, uma modificação do estado das coisas para melhor; um acontecimento sem igual, que quase ultrapassava a capacidade receptiva de Hans Castorp; era a redenção!

Com pés alados, deslumbrado por uma insensata alegria, graças ao cumprimento, à palavra, ao sorriso, Hans Castorp prosseguiu na sua marcha acelerada ao lado de Joachim, de quem tanto abusara e que em silêncio, contemplava a encosta, mantendo o olhar afastado do primo. Hans Castorp pregara-lhe uma peça bastante forte, que aos olhos de Joachim se afigurava como uma espécie de ardil e de traição, como o jovem muito bem sabia. Não era bem a mesma coisa que se tivesse pedido emprestado um lápis a alguma pessoa completamente desconhecida; pelo contrário, seria quase uma falta de educação passar rigidamente e sem cumprimentar ao lado de uma senhora com quem fazia meses se vivia sob o mesmo teto. Não entabulara Clávdia, dias atrás, na sala de espera, uma conversa com eles? Joachim, por conseguinte, era obrigado a calar-se. Mas Hans Castorp compreendia perfeitamente por que outras razões o orgulhoso Joachim permanecia calado e desviara o olhar, ao passo que ele próprio se sentia tão exuberante e frivolamente arrebatado pela manobra bem-sucedida. Não podia ser mais feliz quem, lá na planície, “desse o seu coração”, lícita, esperançosa e, no fundo, alegremente, a qualquer pequena sadia e obtivesse brilhante êxito – não! tal indivíduo jamais podia ser tão feliz como era Hans Castorp, com o pouco que acabava de conseguir e assegurar-se numa hora ditosa... Por isso deu, depois de algum tempo, uma vigorosa palmada no ombro do primo e disse:

– Escute, que é que você tem? O dia está tão lindo! Que tal lhe parece irmos até a estância balneária? Provavelmente há um concerto lá, não acha? Talvez toquem da Carmem “La fleur que tu m’avais jetée, dans ma prison m’était restée...” Mas que é que há? Será que está com uma pedra no sapato?

– Não há nada – respondeu Joachim. – Mas você parece tão excitado! Receio que sua baixa de temperatura já tenha terminado.

Terminara, de fato. A depressão humilhante da natureza de Hans Castorp estava superada, devido ao cumprimento que trocara com Clávdia Chauchat, e propriamente falando, devia-se a sua satisfação à consciência que tinha desse efeito do encontro. Sim, Joachim tinha razão. O mercúrio tornava a subir. Quando consultado por Hans Castorp, após o passeio, subiu aproximadamente a 38 graus.

 

         Enciclopédia

Se certas alusões de Settembrini haviam exasperado Hans Castorp, este não se devia admirar nem acusar o humanista de o ter espionado por motivos pedagógicos. Até um cego teria notado a quantas o jovem andava. Ele mesmo não fazia nada para ocultá-lo. Uma certa exaltação e alguma ingenuidade nobre impediam-no de disfarçar o seu estado de alma. Nesse ponto distinguia-se – com vantagem sua talvez – daquele apaixonado de cabelos ralos, o rapaz de Mannheim, e da sua conduta dissimulada. Recordamos e repetimos que a situação em que Hans Castorp se encontrava acarreta geralmente um impulso e uma necessidade de abrir-se, uma tendência para o desabafo e a confissão, uma cega preocupação consigo próprio e a mania de encher o mundo com os seus assuntos – manifestações tanto mais estranhas para nós, seres prosaicos, quanto menos lógica, menos razão e esperança o caso implica. É difícil precisar o que faz essa gente para se trair; parece que são incapazes de dizer ou fazer qualquer coisa que não os traia; e ainda numa sociedade que, segundo a observação de um espírito crítico, tinha só duas coisas na cabeça: em primeiro lugar, a temperatura, e depois – outra espécie de temperatura, isto é, por exemplo, a preocupação com o problema de saber quem indenizava a Srª. Wurmbrand, esposa de um cônsul-geral de Viena, pela volubilidade do Capitão Miklosich, se era o gigante sueco, ora completamente curado, ou o Sr. Paravant, promotor público de Dortmund, ou talvez ambos. Pois era notório e indiscutível que os laços que haviam unido, durante alguns meses, o promotor e a Srª. Salomon, de Amsterdam, tinham sido dissolvidos em virtude de um amistoso acordo, e que a Srª. Salomon, seguindo as propensões da sua idade, inclinara-se para as classes mais tenras, tomando sob as suas asas o beiçudo Gänser, da mesa da Kleefeld, ou, como o expressava a Srª. Stöhr, num estilo como que jurídico e com certa plasticidade, “requisitando-o”; assim, o promotor público tinha plena liberdade de se bater com o sueco em duelo pela posse da consulesa-geral, ou de pactuar com ele a esse respeito.

Eram estes os processos que estavam pendentes na sociedade do Berghof, e particularmente na mocidade febril, processos em que a passagem pela sacada, ao longo da balaustrada, e contornando as divisões de vidro, desempenhava papel saliente. Tais ocorrências ocupavam os pensamentos dos enfermos e formavam uma parte importante da atmosfera local. Mas nem isso exprime com absoluta certeza o que temos em mente. Com efeito, Hans Castorp tinha a impressão esquisita de que um assunto fundamental, ao qual em toda parte do mundo se atribui importância considerável, e que forma um tema constante de alusões sérias ou brincalhonas, era aqui acentuado, valorizado, ressaltado de um modo tão grave e – em virtude dessa gravidade – tão novo, que a coisa em si se apresentava sob aspecto nunca visto, se não terrível, ao menos assustador pela novidade. Ao enunciarmos isso, mudamos a expressão do nosso rosto e assinalamos que, se nos ocorreu até agora falar das relações em apreço num tom leve e chistoso, fizemo-lo pelos mesmos motivos secretos que freqüentemente prevalecem, sem que isso enuncie coisa alguma acerca da natureza leve ou chistosa do próprio assunto. No ambiente onde nos encontramos, esse tom seria, de fato, ainda menos indicado do que em outra parte. Hans Castorp pensara ser entendido, dentro dos limites normais, nesse assunto fundamental, alvo de tantas pilhérias, e tinha, sem dúvida, razões para supô-lo. Mas agora verificou que, na planície, não chegara além de um conhecimento pouco suficiente e no fundo andara na mais cândida ignorância a esse respeito, ao passo que na montanha certas experiências pessoais, a cujo caráter aludimos repetidas vezes, e que em determinados momentos lhe arrancavam a exclamação “Deus meu!”, deveras o capacitavam interiormente para notar e compreender o forte acento do inédito, do perigoso, do inominável, que o assunto, para todos ali em cima, tinha em geral e em particular. Não que ali não se pilheriasse também sobre ele. Mas, ainda mais do que na planície, esse tom parecia impróprio nas alturas; havia nele um quê de arrepio e de respiração embargada, que deixava perceber com sobeja nitidez que ele era apenas um véu transparente em volta da angústia que procurava (e inutilmente) disfarçar-se por meio dele. Hans Castorp recordava a palidez terrosa que reparara em Joachim, quando pela primeira e última vez aludira ao físico de Marusja, naquela forma de brincadeira inocente que se usa na planície. Recordava também a lividez fria que se espalhara pelo seu próprio rosto, quando desembaraçara Mme. Chauchat do clarão do sol poente – e recordava o fato de que, antes e depois, em diversas ocasiões, encontrara essa lividez em muitos rostos estranhos, via de regra em dois ao mesmo tempo, como, por exemplo, nos da Srª. Salomon e do jovem Gänser, quando se formara entre eles o que a Srª. Stöhr qualificava com aquele termo jurídico. Dissemos que se recordava disso e compreendia que, sob essas circunstâncias, não somente seria muito difícil não “trair-se”, mas também não valeria a pena. Em outras palavras: não era apenas certa exaltação e certa ingenuidade, senão também um determinado estímulo da parte do ambiente o que fazia com que Hans Castorp se sentisse pouco animado a coibir-se e a dissimular o seu estado de alma.

Logo à chegada de Hans Castorp, Joachim mencionara a dificuldade de travar conhecimento com outros pensionistas, dificuldade que resultava sobretudo de duas circunstâncias: os primos formavam, dentro da sociedade do sanatório, uma espécie de partido ou de grupo em miniatura, e o marcial Joachim, preocupado exclusivamente com sua cura rápida, mostrava-se, por princípio, avesso a contactos e relações mais íntimas com os companheiros de sofrimento. Não fosse assim, Hans Castorp teria encontrado e aproveitado muito mais oportunidades para divulgar os seus sentimentos com desenfreada espontaneidade. Sem embargo, chegou Joachim a apanhá-lo, certa noite, durante a reunião, em companhia de Hermine Kleefeld, dos dois comensais dela, os senhores Gänser e Rasmussen, e do rapaz de monóculo, com a desmesurada unha; ouviu então como Hans Castorp, de olhos excessivamente brilhantes, e numa voz emocionada, improvisava um discurso sobre as formas singulares e estranhas do rosto de Mme. Chauchat, enquanto os seus ouvintes trocavam olhares, acotovelavam-se e soltavam risinhos afogados.

Era penoso para Joachim, mas o causador de tal hilaridade permanecia insensível à revelação do seu estado, quiçá opinando que não faria justiça a este, se o deixasse despercebido e oculto. Podia ter certeza de ser compreendido por todos, e conformava-se com os sorrisos maliciosos que acompanhavam essa compreensão. Não somente na sua própria mesa, mas, com o tempo, também nas mesas vizinhas, olhavam-no para pilheriar de suas faces ora pálidas ora ruborizadas, cada vez que, após o começo de uma refeição, a porta envidraçada se fechava com estrondo. E também isso o satisfazia, já que lhe causava a impressão de que a sua ebriedade, ao despertar atenção, era em certo sentido reconhecida e corroborada pelos demais, de uma forma capaz de favorecer sua causa e de lhe animar as esperanças vagas e insensatas; sensação que o tornava mesmo feliz. As coisas iam tão longe que o pessoal, literalmente, se aglomerava para observar o moço obcecado. Dava-se isso, por exemplo, no terraço depois do almoço, ou à frente da portaria nas manhãs de domingo, quando os pensionistas iam lá receber a correspondência, que nesse dia não era distribuída pelos quartos. Muitas pessoas sabiam que haveria por ali um indivíduo intoxicado e excitadíssimo que exibiria abertamente os seus sentimentos. Assim, se agrupavam nas proximidades a Srª. Stöhr, a Srta. Engelhart, a Kleefeld com a sua amiga de cara de anta, o incurável Sr. Albin, o rapaz com a unha comprida, e ainda outros membros da companhia dos enfermos; ficavam parados, contraindo ironicamente as comissuras da boca, sufocando o riso no lenço e olhando o jovem que sorria com ar ausente e apaixonado e, com as faces abrasadas daquele ardor que o incomodava desde a noite da sua chegada, fixando em determinado ponto os olhos luzentes com aquele brilho que neles acendera a tosse do aristocrata austríaco...

Era, no fundo, muito gentil da parte do Sr. Settembrini aproximar-se, em tais circunstâncias, de Hans Castorp, para entabular uma conversa com ele e informar-se sobre o seu estado de saúde. Mas é duvidoso que seu interlocutor soubesse apreciar com a devida gratidão a atitude filantrópica e a liberdade de preconceitos que nisso se manifestavam. Assim se deu, certa vez, no vestíbulo, numa tarde de domingo. Em torno do porteiro comprimiam-se os pensionistas, estendendo as mãos para agarrar a correspondência. Também Joachim achava-se ali. Seu primo ficara para trás, procurando obter, na referida postura, um olhar de Clávdia Chauchat, que se encontrava perto dele, com seus companheiros de mesa, esperando que se dispersasse a multidão que cercava a portaria. Era essa uma hora em que se misturavam os hóspedes, hora prenhe de oportunidades, e por isso querida e almejada pelo jovem Hans Castorp. Havia oito dias, ele roçara em Mme. Chauchat diante do guichê, de modo que ela até o empurrara levemente e dissera “Perdão!”, com uma ligeira inclinação da cabeça, ao que ele respondera, com uma presença de espírito febril, que agora lhe parecia uma bênção do Céu:

– Pas de quoi, madame!

“Que sorte”, pensava, “que nas tardes de domingo sempre se distribua a correspondência no vestíbulo!” Pode-se dizer que ele gastava a semana aguardando durante sete dias a volta de uma mesma hora – e aguardar significa adiantar-se, significa sentir o tempo e o presente não como uma dádiva, mas como mero obstáculo, significa negar e aniquilar o seu valor intrínseco e saltá-los espiritualmente. Dizem que é enfadonho esperar. Mas ao mesmo tempo, e mais propriamente, é divertido, porque assim devoramos quantidades de tempo sem as viver e explorar como tais. Poder-se-ia dizer que o homem que apenas espera se parece com um comilão cujo aparelho digestivo deixa passar as massas de comida sem lhes assimilar os valores nutritivos e proveitosos. Indo mais longe, diríamos: como os alimentos não digeridos não fortificam o homem, o tempo desperdiçado na espera não faz envelhecer. Verdade é que praticamente não existe a espera pura, não misturada.

Fora, pois, devorada uma semana, e novamente chegara a hora dominical do correio, exatamente como se fosse ainda a mesma de oito dias atrás. Continuava, de forma sumamente excitante, a criar oportunidades. Cada minuto encerrava e oferecia a possibilidade que apertava e acossava o coração de Hans Castorp, sem que este lhe permitisse realizar-se. A isso opunham-se inibições de natureza ora militar ora civil: em parte estavam ligadas à presença do honrado Joachim e ao próprio senso de honra e de dever de Hans Castorp; em parte, porém, baseava-se na sensação de que relações de cortesia com Clávdia Chauchat, relações cerimoniosas, que obrigassem a gente a dizer “senhora”, a fazer mesuras e, se possível, a falar francês, não eram nem necessárias nem desejáveis, nem adequadas... Ele deixava-se estar, observando o jeito com que ela falava e ria, exatamente como fizera Pribislav Hippe outrora, lá no pátio da escola. Os lábios de Clávdia Chauchat abriam-se largamente, e os olhos oblíquos e glaucos, por cima das maçãs do rosto, contraíam-se formando estreitas fendas. Isto não era precisamente “belo”. Era apenas como era, e em face da paixão amorosa, o raciocínio estético consegue impor-se tão pouco quanto o raciocínio moral.

– O senhor também espera cartas, engenheiro?

Havia uma única pessoa capaz de falar assim, um desmancha-prazeres. Hans Castorp, num sobressalto, voltou-se para o Sr. Settembrini, que, sorrindo, se achava à sua frente. Era o mesmo sorriso fino e humanístico com que saudara o recém-chegado por ocasião do primeiro encontro, perto do banco, à margem do curso de água. E, como então, Hans Castorp corou ao deparar com ele. Mas, embora nos seus sonhos freqüentemente lhe ocorresse empurrar o “tocador de realejo”, porque “era demais ali”, evidenciou-se que o homem acordado é melhor do que o cismarento, e Hans Castorp avistou esse sorriso com sentimentos, não só de vergonha e de desembriagamento, senão também de gratidão e de necessidade.

– Cartas? Ora veja, Sr. Settembrini! – respondeu. – Eu não sou embaixador. Talvez haja um cartão-postal para um de nós dois. Meu primo já foi ver.

– A mim, aquele diabo coxo ali na frente já me entregou a minha pequena correspondência – disse Settembrini, levando a mão ao bolso do infalível paletó de fazenda espessa. – Coisas interessantes, coisas de grande envergadura literária e social, inegavelmente! Trata-se de uma obra enciclopédica, para cuja colaboração um instituto humanitário me dá a honra de me convidar... Numa palavra, um belo trabalho... -settembrini interrompeu-se. – Mas e os seus próprios assuntos? – perguntou. – Como vão eles? Até que ponto progrediu, por exemplo, seu processo de aclimatação? Fazendo as contas, o senhor ainda não está entre nós há tanto tempo que essa pergunta venha fora de propósito.

– Obrigado, Sr. Settembrini. Por enquanto continuo tendo algumas dificuldades. Acho possível que isso vá assim até o último dia. Há quem nunca se habitue, como me disse meu primo logo que cheguei. Mas a gente se habitua ao fato de não se habituar.

– Um processo meio complicado – zombou o italiano. – Um modo um tanto estranho de se assimilar. Naturalmente, a juventude é capaz de tudo. Não se habitua, mas se arraiga.

– E, afinal, isto aqui não é uma mina siberiana...

– Não, não é mesmo. Mas vejo que o senhor prefere comparações orientais. É compreensível. A Ásia nos devora. Aonde quer que se olhe, só se vêem caras tártaras. – E o Sr. Settembrini voltou discretamente a cabeça por cima do ombro. – Gengis Khan – acrescentou. – Olhos de lobo de estepe, neve e aguardente, o cnute, o Schlüsselburg, e o cristianismo. Deveriam erguer, aqui no vestíbulo, um altar a Palas Atena, como medida de defesa. O senhor está vendo? Lá na frente, um desses Ivan Ivánovitch, sem roupa-branca, começou a discutir com o promotor Paravant. Cada um diz que é a sua vez de receber a correspondência. Não sei quem tem razão, mas, a meu ver, o promotor acha-se sob a proteção da deusa. É um burro, sem dúvida, mas ao menos sabe latim.

Hans Castorp riu-se – o que o Sr. Settembrini nunca fazia. Era impossível imaginá-lo rindo à vontade. Não ia além da contração fina e seca de uma das comissuras da boca. Após ter contemplado o riso do jovem, perguntou:

– Já lhe entregaram a sua chapa?

– Entregaram, sim, senhor – confirmou Hans Castorp, dando-se ares de importância. – Já faz algum tempo. Aqui está.

– Ah, o senhor leva-a consigo na carteira? Como uma espécie de documento, um passaporte ou uma carteira de sócio. Ótimo! Deixe ver. – E erguendo a chapinha de vidro tarjada de preto, segurou-a contra a luz, entre o polegar e o indicador da mão esquerda, gesto muito comum, freqüentemente visto ali em cima. O rosto com os olhos negros, amendoados, torceu-se numa leve careta, enquanto examinava a fotografia fúnebre, sem deixar perceber claramente se isso era para ver melhor ou por outros motivos.

– Pois é – disse então. – Aqui tem o senhor o seu passaporte. Muito agradecido. – Com isso devolveu a chapa ao proprietário, passando-a por cima do próprio braço, e desviando o olhar.

– Viu os cordões? – perguntou Hans Castorp. – E os pequenos nós?

– O senhor já sabe – replicou o Sr. Settembrini devagar – o que penso a respeito da importância desses produtos. Sabe também que as manchas e as sombras aí dentro são, na maioria, de origem fisiológica. Vi centenas de radiografias que tinham, pouco mais ou menos, o aspecto da sua, e deixavam ao critério de quem as examinasse toda a liberdade de considerá-las ou não como “passaporte”. Eu falo aqui como leigo, mas ao menos como leigo veterano.

– E seu próprio passaporte é pior?

– Sim, um pouco pior... Por outro lado sei que os nossos mestres e superiores não fundam nenhum diagnóstico exclusivamente nesse brinquedo... E então, o senhor pretende passar o inverno conosco?

– Que vou fazer?... Começo a me familiarizar com a idéia de que só descerei em companhia do meu primo.

– Quer dizer que o senhor se habitua a não se... Formulou isso muito espirituosamente. Espero que já tenha recebido a sua bagagem, roupas quentes, calçados resistentes?

– Recebi, sim, senhor. Está tudo em perfeita ordem. Informei os meus parentes, e a nossa governanta me enviou as coisas por expresso. Agora estou preparado.

– Isso me tranqüiliza. Mas, escute! O senhor vai precisar de um saco de peles. Agora é que me lembro! Esse veranico é traiçoeiro. De um momento para outro podemos estar em pleno inverno. O senhor passará aqui os meses mais frios...

– Pois é, o saco de repouso – disse Hans Castorp. – É indubitavelmente uma peça necessária. Também já ventilei vagamente o projeto de ir à aldeia, nos próximos dias, junto com meu primo, para comprar um. Lá embaixo nunca mais precisarei dele, mas para quatro ou seis meses já vale a pena.

– Vale, engenheiro, vale mesmo – disse o Sr. Settembrini baixinho, aproximando-se um pouco mais do jovem. – Sabe o senhor que é horroroso ouvir com que leviandade fala de meses? É horroroso porque é antinatural e contrário ao seu caráter, e porque isso provém unicamente da docilidade dos seus anos. Ai dessa excessiva docilidade da juventude! A juventude é o desespero dos educadores, por estar disposta a aceitar sobretudo as coisas ruins. Não fale como se costuma falar aqui, meu rapaz, mas como convém à sua maneira européia de viver! Neste ar aqui há muita coisa da Ásia, principalmente. Não é sem motivo que esses tipos da Mongólia moscovita andam pululando por aí. Esse pessoal – e o Sr. Settembrini fez um movimento com o queixo, apontando por cima do ombro – não lhe deve servir de modelo. Não se deixe contagiar pelos conceitos deles. Pelo contrário, oponha-lhes a própria natureza, a sua natureza superior, e mantenha sagrado o que, pela sua índole e pela sua origem, deve ser sagrado ao senhor, filho do Ocidente, do divino Ocidente, filho da civilização; o tempo, por exemplo. Esse procedimento generoso, essa prodigalidade bárbara no emprego do tempo é de estilo asiático. Pode ser que esse seja o motivo por que os filhos do Oriente se dão bem aqui. O senhor nunca notou que, quando um russo fala em “quatro horas”, é como se nós disséssemos “uma hora”? É fácil chegar à conclusão de que o pouco-caso que essa gente faz do tempo está relacionado com a vastidão selvagem do seu país. Onde há muito espaço há muito tempo. Diz-se que eles são o povo que tem tempo e pode esperar. Nós, os europeus, não o podemos. O tempo que temos é tão exíguo quanto o espaço do nosso continente nobre e delicado nos seus contornos. É preciso que administremos economicamente o nosso tempo e o nosso espaço, que tiremos proveito deles, engenheiro, muito proveito! Tome como símbolo as nossas cidades grandes, esses centros, esses focos da civilização, esses cadinhos do pensamento! À medida que sobe ali o preço do solo e se torna impossível o desperdício de espaço, o tempo – repare bem nisso! – também chega a ter um valor cada vez mais elevado. Carpe diem! Quem cantava assim era um homem da metrópole. O tempo é um dom divino, outorgado ao homem para que o explore, sim, meu caro engenheiro, para que o explore a serviço do progresso da humanidade.

Por maiores que fossem os obstáculos que essas últimas palavras, na sua forma alemã, oferecessem à língua mediterrânea do Sr. Settembrini, ele conseguiu proferi-las de um modo agradável, claro, sonoro e – inegavelmente – plástico. Hans Castorp limitou a sua resposta àquele tipo de reverência breve, rígida e acanhada com que um aluno recebe uma lição que encerra uma censura. Que mais poderia replicar? Essa preleção altamente pessoal que o Sr. Settembrini acabava de lhe fazer, secretamente, quase cochichando, e com as costas voltadas aos outros pensionistas, tinha caráter muito objetivo, era muito pouco social, e afastava-se por demais de uma simples conversa, para que o tato permitisse uma manifestação de aplauso. Não se responde a um professor: “Como o senhor falou bem!” Em outras ocasiões, Hans Castorp, às vezes, fizera-o, por assim dizer, para se manter num plano de igualdade social com o humanista. Mas este nunca lhe dirigira palavras tão insistentemente pedagógicas, que não deixavam lugar para outra atitude senão a de engolir a reprimenda, aturdido qual um escolar em face de tanta moral.

Via-se, de resto, na expressão do Sr. Settembrini, que, apesar do seu silêncio, continuava a atividade do seu espírito. Ainda se encontrava bem perto de Hans Castorp, tanto que este até se viu forçado a reclinar o corpo um pouquinho para trás. Os olhos negros do italiano fitavam o rosto do jovem com a fixidez cega de um homem absorto pelas suas idéias.

– O senhor sofre, engenheiro – prosseguiu. – Sofre como quem anda desnorteado. É o que se pode ler na sua fisionomia. Mas também a sua conduta em face do sofrimento deveria ser uma conduta européia, e não a do Oriente, que povoa tão abundantemente esta região, justamente por ser efeminado e ter uma inclinação para a enfermidade... A compaixão e a paciência infinita – eis a maneira oriental de enfrentar o sofrimento. Não pode, não deve ser a nossa, não convém ao senhor!... Acabamos de falar da minha correspondência... Veja, aqui... Ou melhor, venha comigo! Aqui não se pode conversar... Vamos retirar-nos e entrar nesta salinha. Quero fazer-lhe algumas confidencias que... Venha! – E dando meia-volta arrastou Hans Castorp para fora do vestíbulo até a primeira saleta, a mais próxima do portão, mobiliada como sala de leitura, e onde a essa hora não havia pensionistas. Sob a abóbada branca, nas paredes revestidas de painéis claros, viam-se estantes de livros, uma mesa central, rodeada de cadeiras e coberta de jornais fixos em pregadores, e escrivaninhas sob as arcadas das janelas. O Sr. Settembrini avançou até uma dessas janelas, seguido de Hans Castorp. A porta permanecia aberta.

– Estes papéis – disse o italiano, tirando com mão pressurosa do bolso do paletó espesso um fascículo contendo um envelope volumoso com diversos folhetos e uma carta, que fez resvalar entre os dedos, para que Hans Castorp os pudesse ver –, estes papéis têm o cabeçalho em francês: “Liga Internacional para a Organização do Progresso”. Recebo-os de Lugano, onde existe uma seção filiada à liga. O senhor quer conhecer os seus princípios, os seus objetivos? Vou indicá-los em duas palavras. A Liga para a Organização do Progresso deriva da doutrina evolucionista de Darwin, concepção filosófica segundo a qual a vocação natural mais profunda da humanidade é o seu próprio aperfeiçoamento. Por conseguinte, constitui dever de cada indivíduo desejoso de corresponder a essa vocação natural colaborar ativamente para o progresso da humanidade. Muitos acudiram ao chamado da liga. É considerável o número dos seus sócios na França, Itália, Espanha, Turquia e até na Alemanha. Também eu tenho a honra de figurar como tal nas listas da liga. Foi esboçado um amplo programa de reformas, baseado em princípios científicos, um programa que abrange todas as possibilidades atuais de aperfeiçoamento do organismo humano. Estuda-se o problema da saúde da nossa raça; são examinados todos os métodos para combater a degenerescência, que é, sem dúvida, uma conseqüência inquietante da progressiva industrialização. Além disso, promove a liga a fundação de universidades populares, empenha-se na supressão da luta de classes, por meio de todos os melhoramentos sociais que possam contribuir para esse fim, e preocupa-se com a abolição das lutas entre os povos e da guerra, mediante o desenvolvimento do direito internacional. Como o senhor vê, os esforços da liga são generosos e vastíssimos. Diversas revistas internacionais testemunham as suas atividades, revistas mensais, redigidas em três ou quatro idiomas importantes e que relatam de forma vívida a evolução progressista da humanidade civilizada. Foram fundados numerosos grupos locais nos diferentes países, que devem realizar discussões noturnas e solenidades dominicais, com a finalidade de esclarecer e de edificar o público no sentido do ideal do progresso humano. Mas antes de tudo dedica-se a liga a ajudar, por meio da sua documentação, os partidos políticos progressistas de todos os países... O senhor está seguindo as minhas palavras, engenheiro?

– Perfeitamente! – respondeu Hans Castorp com uma veemência precipitada. Ao proferir essa palavra tinha a sensação de quem escorrega, mas ainda consegue, mal e mal, manter-se de pé.

O Sr. Settembrini pareceu satisfeito.

– Creio que lhe abri perspectivas novas e surpreendentes.

– Sim, senhor, confesso que é a primeira vez que ouço falar dessas... dessas atividades.

– Que pena! – exclamou Settembrini em voz abafada. – Que pena que ninguém lhe tenha falado delas antes. Mas talvez ainda não seja tarde. Olhe estes folhetos... O senhor deseja saber do que eles tratam? Pois então escute! Esta primavera foi convocada em Barcelona uma solene assembléia geral da liga. Como sabe, essa cidade ufana-se de manter relações particulares com a idéia progressista. O congresso realizou-se durante uma semana, com banquetes e solenidades de toda espécie. Meu Deus! Eu tencionava seguir para lá, tinha o mais ardente desejo de participar das deliberações. Mas esse patife do conselheiro proibiu a viagem, ameaçando-me de morte. Que quer o senhor? Eu receei a morte e não fui. Estava desesperado, como pode imaginar, por causa da peça que me pregou a minha saúde precária. Não há nada mais doloroso do que ver como a nossa parte orgânica, a parte animal do nosso ser, nos impede de servir à razão. Tanto mais viva é a satisfação que me causa esta carta que recebi da secretaria da liga em Lugano. O senhor está curioso de saber o seu conteúdo? Não duvido. Vou lhe dar algumas informações rápidas... A Liga para a Organização do Progresso, consciente do fato de que a sua tarefa consiste em promover a felicidade dos homens, ou, em outros termos, em lutar contra o sofrimento humano por meio de um adequado trabalho social, e com o fim de exterminá-lo por completo; considerando, ademais, que essa tarefa suprema só pode ser executada com o auxílio da ciência sociológica, cujo objetivo final é o Estado perfeito – a liga, pois, resolveu, em Barcelona, a publicação de uma obra em numerosos volumes que levará o título Sociologia dos males, e na qual serão estudados, de uma forma sistemática e completa, os males humanos, segundo as suas categorias e espécies. O senhor vai objetar: que adiantam categorias, espécies e sistemas? Respondo-lhe: a ordem e a classificação formam o começo do domínio, e o inimigo mais perigoso é o inimigo desconhecido. É necessário arrancar o gênero humano dos estados primitivos do medo e da apatia passiva e conduzi-lo rumo à fase da atividade consciente do seu objetivo. É mister ensinar-lhe que desaparecem os efeitos cujas causas primeiro reconhecemos e depois abolimos, e que quase todos os males do indivíduo são enfermidades do organismo social. Muito bem! É esta a intenção da “patologia sociológica”. Em aproximadamente vinte volumes de tipo enciclopédico, serão enumerados e tratados todos os males imagináveis dos homens, desde os males mais pessoais e mais íntimos até os grandes conflitos coletivos, os males que têm a sua origem nas inimizades de classes e nos entrechoques internacionais; numa palavra, a obra mostrará os elementos químicos que, em múltipla mistura e combinação, compõem todos os sofrimentos humanos, e, tomando por diretriz a dignidade e a felicidade dos homens, indicará para cada caso os remédios e as medidas que lhe parecem apropriados para eliminar a causa do mal. Destacados especialistas dentre os sábios europeus, médicos, economistas e psicólogos, repartirão entre si a redação dessa enciclopédia dos sofrimentos, e a secretaria central em Lugano será o estuário para onde confluirão os rios de artigos. Vejo que seus olhos me perguntam qual será o papel que desempenharei em tudo isso. Deixe que eu termine! Nesta grande obra também não devem ser omitidas as belas-letras, na medida em que estas tiverem por assunto o sofrimento humano. Por isso foi previsto um volume especial que, para consolo e instrução dos que sofrem, deve conter uma compilação e uma breve análise de todas as obras-primas da literatura universal que se refiram ao respectivo conflito. E precisamente essa é a tarefa da qual foi incumbido, na carta que o senhor vê aqui, este seu humilde criado.

– Não diga, Sr. Settembrini! Permita que o felicite de todo o coração! É uma incumbência formidável e que, como creio, vem a talho de foice para o senhor. Não me surpreende nem um pouquinho que a liga tenha pensado no senhor. Como não deve estar satisfeito, agora que pode contribuir para o extermínio do sofrimento humano!

– É um trabalho enorme – disse o Sr. Settembrini, pensativo –, que requer muito tino e muita leitura. Tanto mais – acrescentou, enquanto o seu olhar parecia perder-se na multiplicidade de suas tarefas –, tanto mais que as belas-letras quase sempre têm por assunto o sofrimento, e até obras-primas de segunda ou terceira categoria se preocupam de alguma forma com ele. Não faz mal ou, antes, tanto melhor! Por vasta que seja a tarefa, em todo caso é das que é possível executar neste lugar maldito, ainda que eu espere não ser obrigado a terminá-la aqui. O mesmo não se pode dizer – continuou, aproximando-se novamente de Hans Castorp e baixando a voz até quase cochichar –, o mesmo não se pode dizer dos deveres que a natureza impõe ao senhor, engenheiro. Eis o ponto a que eu tencionava chegar, e nesse sentido desejava exortá-lo. O senhor sabe quanto admiro a sua profissão; mas, como é uma profissão prática e não uma profissão literária, o senhor não pode exercê-la aqui, bem ao contrário da minha. Só na planície pode ser europeu, só ali pode combater o sofrimento ativamente, à sua maneira, só ali pode promover o progresso e aproveitar o tempo. Falei-lhe da tarefa que me coube, apenas para lhe recordar isso, para chamá-lo à razão, para corrigir os seus conceitos que, aparentemente, começam a perturbar-se sob a influência da atmosfera. Insisto com o senhor: vele pela sua dignidade! Seja orgulhoso e não se perca no ambiente estranho! Evite este atoleiro, esta ilha de Circe. O senhor não é bastante Ulisses para habitá-la impunemente. Acabará andando de quatro patas. Já está a ponto de se apoiar nas extremidades dianteiras. Daqui a pouco começará a grunhir. Cuidado!

Ao proferir em voz abafada as suas exortações, o humanista sacudira a cabeça com insistência. A seguir, permaneceu calado, com os olhos baixos e o cenho carregado. Era impossível responder-lhe com brincadeiras ou evasivas, como era costume de Hans Castorp, e como, por um instante, pensou fazer novamente. Também ele baixara as pálpebras. Por fim, encolhendo os ombros, disse, também em voz baixa:

– Que devo fazer?

– O que eu lhe disse.

– Isso significa: partir?

O Sr. Settembrini ficou calado.

– Quer o senhor dizer que eu devo regressar para casa?

– É o que lhe aconselhei logo na primeira noite, engenheiro.

– Sim, senhor, e naquela ocasião eu tinha plena liberdade de fazê-lo, embora achasse pouco razoável fugir daqui, só porque o ar das alturas me incomodava um pouco. Mas, desde então, a situação mudou bastante. Nesse ínterim houve o exame médico, depois do qual o Dr. Behrens me disse claramente que não valia a pena regressar, pois dentro de pouco tempo me veria obrigado a voltar para cá e, se continuasse a viver daquele jeito na planície, me arriscaria a que dentro de pouco tempo todo o lóbulo do pulmão fosse por água abaixo.

– Eu sei. Agora o senhor tem seu passaporte no bolso.

– Sim. O senhor diz isso ironicamente... com aquela ironia justa, perfeitamente compreensível, que é um meio clássico e correto de eloqüência... Está vendo como gravei na memória as suas próprias palavras? Mas pode o senhor assumir a responsabilidade de me dar o conselho de regressar, apesar dessa fotografia e do resultado da radioscopia e do diagnóstico do Dr. Behrens?

Settembrini hesitou um momento. Depois, endireitou-se, abriu os olhos, fixou-os em Hans Castorp, firmes e negros, e replicou com uma ênfase que não deixava de encerrar um quê de teatral e de exagerado:

– Sim, engenheiro, assumo esta responsabilidade.

Mas também Hans Castorp entesara a sua postura. Mantinha os tacões juntos e encarava o Sr. Settembrini. Desta vez tratava-se de um duelo. Hans Castorp não arredava pé. Existiam influências próximas a fortificá-lo. De um lado havia um pedagogo, e do outro, lá fora, uma mulher de olhos rasgados. Hans Castorp nem sequer se desculpou pelo que diria; não acrescentou: “Não leve a mal as minhas palavras!” Limitou-se a retrucar:

– Nesse caso, o senhor é mais prudente quando se trata de si próprio do que em relação a outros. O senhor não viajou para o congresso da liga em Barcelona, contra a proibição do médico. Tinha medo da morte e ficou aqui.

Até certo ponto estava desfeita, indubitavelmente, a pose do Sr. Settembrini. Esboçando um sorriso um tanto forçado, respondeu ele:

–          Sei apreciar uma resposta incisiva, mesmo que a sua lógica não se distancie muito do sofisma. Repugna-me entrar naquela odiosa competição que está na moda aqui; do contrário lhe responderia que ando muito mais doente do que o senhor. Desgraçadamente estou, sem exagero, tão enfermo que mantenho apenas artificialmente, na intenção de me iludir a mim mesmo, a esperança de abandonar este lugar e voltar ao mundo lá de baixo. No momento em que se tornar evidente a indecência dessa atitude, virarei as costas a este estabelecimento e ocuparei, para o resto dos meus dias, um quarto numa casa particular em qualquer lugar do vale. Será triste, mas, como a esfera do meu trabalho é a mais livre e a mais espiritual de todas, isso não me impedirá de servir até o meu último suspiro a causa da humanidade e de fazer frente ao espírito da doença. Já chamei a atenção do senhor para a diferença que nesse ponto existe entre nós. Meu caro engenheiro, o senhor não é um homem capaz de defender aqui o que há de melhor na sua natureza. Verifico isso desde o nosso primeiro encontro. O senhor me objeta que não fui a Barcelona. Submeti-me à proibição do médico para não me destruir antes do tempo. Mas fiz isso com as mais enérgicas reservas, sob o mais altivo e doloroso protesto do meu espírito contra a pressão do meu corpo miserável. Será que esse protesto está vivo também no senhor, quando se sujeita aos preceitos das potências daqui? Não serão apenas o corpo e a sua tendência nefasta aquilo que o faz obedecer com demasiada espontaneidade?...

– Que tem o senhor contra o corpo? – interrompeu-o rapidamente Hans Castorp, fixando no italiano os olhos arregalados, cuja esclerótica estava estriada de veias vermelhas. Sua audácia entontecia-o visivelmente. “De que falo?”, pensou. “É incrível como isso vai longe. Mas, uma vez que me pus em pé de guerra contra ele, vou fazer o possível para não lhe deixar a última palavra. Naturalmente ele acabará triunfando; não faz mal, porque sempre tirarei disso algum proveito. Vou provocá-lo.” E completou a sua objeção, dizendo:

– O senhor não é humanista? Como pode falar mal do corpo?

Settembrini sorriu, dessa vez sem esforço, seguro de si.

– “Que tem o senhor contra a análise?” – citou, com a cabeça inclinada em direção do ombro. – “Não gosta da análise?” O senhor sempre me encontrará disposto a responder às suas perguntas, engenheiro – continuou com uma reverência, esboçando com a mão um gesto de saudação que descia até o soalho –, sobretudo quando os seus argumentos dão prova de espírito. O senhor riposta com elegância... Humanista? Claro que o sou. O senhor nunca me apanhará manifestando tendências ascéticas. Digo “sim” ao corpo, honro-o e sinto amor por ele, assim como faço em face da forma, da beleza, da liberdade, da alegria e do gozo, assim como tomo o partido das coisas mundanas, dos interesses da vida, contra a aversão sentimental ao mundo; represento o Classicismo contra o Romantismo. Acho que a minha posição é inequívoca. Mas existe um poder, um princípio ao qual dedico a minha mais fervorosa aprovação, meu supremo respeito e amor, e esse poder, esse princípio é o espírito. Por mais que eu abomine ver como alguns procuram opor ao corpo qualquer fantasmagoria suspeita que chamam de “alma”, não ignoro que, dentro da antítese de corpo e espírito, o primeiro representa o princípio mau e diabólico; pois o corpo é natureza, e a natureza – repito que se trata da sua oposição ao espírito, à razão – é má; mística e má! “O senhor é humanista!” Indiscutivelmente sou humanista, por ser amigo do homem, como o era Prometeu, um enamorado da humanidade e da sua nobreza. Mas essa nobreza acha-se encerrada no espírito, na razão, e por isso será inútil o senhor me acusar de obscurantismo cristão...

Hans Castorp defendeu-se com um gesto.

– ... será absolutamente inútil o senhor me acusar disso – insistiu Settembrini – só porque um belo dia o humanismo no seu nobre orgulho chegou a se dar conta da humilhação, da ignomínia que reside no fato de o espírito estar ligado ao corpo, à natureza. Sabe o senhor que nos foi transmitido um dito do grande Plotino, segundo o qual “ele sentia vergonha de ter um corpo”? – perguntou Settembrini, de uma forma que tão seriamente exigia uma resposta, que Hans Castorp se viu obrigado a confessar que ouvia isso pela primeira vez. – Quem nos transmitiu essas palavras foi Porfírio. É uma sentença absurda, se assim quiser. Mas o absurdo é a honestidade espiritual, e no fundo não há nada mais nobre do que a objeção do absurdo, nos casos em que o espírito procura manter a sua dignidade em face da natureza e recusa abdicar em favor dela... O senhor ouviu falar do terremoto de Lisboa?

– Não, houve um terremoto? Aqui não leio jornais.

– O senhor me entendeu mal. Seja dito de passagem que é lastimável – e característico deste lugar – que o senhor se descuide aqui da leitura da imprensa. Mas o senhor não me compreendeu bem. O fenômeno natural a que aludi não é recente; passou-se faz aproximadamente cento e cinqüenta anos...

– Ah, sim! Espere um pouco. É verdade. Li que Goethe recebeu a notícia em Weimar, no seu quarto, à noite, e disse ao criado...

– Ora, não era disso que queria falar – interrompeu-o Settembrini, fechando os olhos e agitando no ar a mãozinha trigueira. – O senhor aliás confunde as catástrofes. Pensa no terremoto de Messina. Eu me refiro ao abalo sísmico que sofreu Lisboa em 1755.

– Perdão.

– Bem, Voltaire revoltou-se contra ele.

– Quer dizer... Mas como? Ele se revoltou?

– Pois é, rebelou-se. Não admitiu aquele fado ou fato brutal. Negou-se a abdicar perante ele. Protestou em nome do espírito e da razão contra esse escandaloso excesso da natureza que vitimou três quartas partes de uma florescente cidade e milhares de vidas humanas... O senhor fica pasmado? Sorri? Que pasme, mas, quanto ao sorriso, tomo a liberdade de censurá-lo. A atitude de Voltaire era a de um autêntico descendente daqueles antigos gauleses que atiravam as suas flechas contra o céu. Olhe, engenheiro, aí vê o senhor a hostilidade do espírito em face da natureza, a orgulhosa desconfiança com que a encara, a maneira nobre pela qual se obstina no direito de criticar a ela e a seu poder maligno e insensato. Pois a natureza é o poder, e aceitar o poder, conformar-se com ele – repare bem: conformar-se intimamente com ele, é servil! E com isso o senhor chega àquele humanismo que absolutamente não se deixa cair em nenhuma contradição e que não se torna culpado de nenhuma recaída na hipocrisia cristã, ao decidir-se a ver no corpo o princípio mau e antagônico. A contradição que o senhor pensa encontrar é, no fundo, sempre a mesma. “Que tem o senhor contra a análise?” Nada... quando ela se empenha em instruir, em libertar, em promover o progresso; Tudo... quando traz consigo o asqueroso olor faisandé do túmulo. E o mesmo se dá com o corpo. É preciso honrá-lo e defendê-lo onde se trata da sua emancipação e da sua beleza, da liberdade dos sentidos, da felicidade, do prazer. É mister desprezá-lo, cada vez que se opuser, como princípio da gravidade e da inércia, ao movimento rumo à luz. Convém detestá-lo quando chega a representar o princípio da doença e da morte, quando o seu espírito específico se torna o espírito da perversidade, o espírito da decomposição, da volúpia e da vergonha...

Essas últimas palavras, Settembrini as proferira muito perto de Hans Castorp, falando quase sem voz e com muita velocidade, como para terminar depressa. Chegou socorro a Hans Castorp: Joachim, com dois cartões-postais na mão, entrou na sala de leitura. Ficou interrompido o discurso do literato, e a habilidade com que a sua fisionomia passou a assumir uma expressão leve e mundana não deixou de impressionar o seu aluno -se é que podemos chamar assim a Hans Castorp.

– Olá, tenente! O senhor deve ter andado à procura do seu primo. Desculpe! Entabulamos uma conversa – e se não me engano, tivemos até uma pequena discussão. Ele não é nada mau como argumentador, o senhor seu primo, um adversário bastante perigoso num debate, quando dá importância ao assunto.

 

[1] Indivíduo dos quirguizes, povo de origem turca que habita a Rússia asiática. (N. do E.)

[2] Personagens de Wilhelm Busch (1832-1908), autor de obras infantis muito divulgadas na Alemanha. No Brasil, são conhecidos como ]uca e Chico, na tradução de Olavo Bilac. (N. do E.)

 

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