Criar uma Loja Virtual Grátis
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MORTE CHEGA À NOITE / Jack Higgins
A MORTE CHEGA À NOITE / Jack Higgins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Daniel Quinn era um bom nome do Ulster. Católico irlandês de Belfast, neto de um homem que, quando jovem, lutara com Michael Collins na Guerra Irlandesa da Independência e, na década de 1920, quando um prêmio foi oferecido por sua cabeça, fugira para os Estados Unidos. Tornara-se trabalhador da construção civil em Nova York e Boston e começou a ganhar poder de verdade ao entrar para a mais secreta das sociedades irlandesas — a Irmandade Republicana Irlandesa. Os empregadores aprenderam a temê-lo. Dentro de um ano, ele mesmo era patrão e estava a caminho de se tornar milionário.
Seu filho, Paul, nascera em 1921. Desde muito jovem, Paul era obcecado por voar. Em 1940, quando era estudante em Harvard, viajou para a Inglaterra num impulso e, usando o nome do pai, juntara-se à RAF como piloto de caça, um voluntário americano.
Seu pai, que era antibritânico, ficou horrorizado a princípio, mas acabou cheio de orgulho. Paul ganhou uma medalha Cruz por Serviços Louváveis na Batalha da Grã-Bretanha. Passou para a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, em 1943, e lá ganhou outra. Em 1944 Paul Quinn foi ferido gravemente num caça Mustang enquanto voava sobre a Alemanha. Os cirurgiões da Luftwaffe fizeram tudo o que podiam, mas Paul Quinn nunca mais seria o mesmo.
Libertado do campo de prisioneiros em 1945, foi para casa. Seu pai fizera milhões com a guerra, e Paul Quinn se casou e teve um filho, Daniel, nascido em 1948.
Infelizmente, a mãe de Daniel morreu ao dar à luz. Paul Quinn jamais recuperou a saúde, e se contentou com a posição de advogado no departamento jurídico da empresa da família, em Boston. Na verdade, o emprego era apenas uma sinecura. Daniel, acadêmico brilhante, também ingressou em Harvard para estudar economia e administração. Formou-se aos 21 anos. O passo lógico seguinte teria sido entrar nos negócios da família, que agora acumulavam centenas de milhões de dólares em propriedades, hotéis e firmas de lazer, mas seu avô tinha outros planos para ele: um doutorado, e depois um futuro brilhante na política.

 

 

 

 

 

 

É estranho como a vida frequentemente muda por coisas pequenas. Certa noite, enquanto assistia pela TV a violência e as matanças no Vietnã, o velho expressou sua reprovação.

— A gente nem devia estar lá.

— Mas essa não é a questão — replicou Daniel. — Nós estamos lá.

— Bem, graças a Deus você não está.

— Então vamos deixar que fiquem lá apenas os rapazes negros, que nunca tiveram uma chance, os operários, os hispânicos? Eles estão sendo chacinados aos milhares.

— Isso não é da nossa conta.

— Bem, talvez seja da minha.

— Seu imbecil! — disse o velho, o coração gelado de medo. — Não faça nada impensado, está ouvindo?


Na manhã seguinte, Daniel Quinn apresentou-se no escritório de recrutamento do Exército. Ele começou na infantaria, e então juntou-se à Divisão Aerotransportada como paraquedista. Sua primeira missão lhe valeu um Purple Heart por uma bala alojada no ombro esquerdo e uma Cruz de Coragem Vietnamita. Quando foi para casa de licença, seu avô viu o uniforme, as medalhas e chorou um pouco, mas acabou sobrepujado por seu orgulho irlandês.

— Ainda digo que não devíamos estar lá — insistiu, olhando o rosto bronzeado do neto, a pele esticada sobre os ossos malares. Havia alguma coisa naqueles olhos que o avô não tinha visto antes.

— E digo de novo que nós estamos, e por isso devemos fazer isso da maneira certa.

— E quanto a uma promoção?

— Não, vovô. A patente de sargento me basta.

— Você é maluco.

— Sou irlandês, não sou? Somos todos um pouco malucos.

O avô assentiu positivamente.

— Quanto tempo você tem em casa?

— Dez dias.

— E então volta direto para lá?

Daniel fez que não com a cabeça.

— Estou ingressando nas Forças Especiais.

— O que é isso? — perguntou o velho, uma expressão intrigada no rosto.

— Você não quer saber, vovô. Você não quer saber.

— Bem, tente se divertir enquanto está aqui. Saia com algumas garotas.

— Vou fazer isso, com certeza.


O que ele fez. Em seguida, voltou para o inferno verde do Vietnã, o estrondo contínuo dos rotores dos helicópteros, morte e destruição por toda parte, todas as estradas conduzindo inevitavelmente para Bo Din e seu encontro pessoal com o destino.


O Camp Four ficava nas profundezas da selva ao norte do Delta do Mekong, o rio serpenteando entre pântanos, grandes bancos de juncos e uma ou outra aldeia. Estava chovendo naquele dia, uma espécie de chuva de monção que pendia como uma cortina cinza, tornando difícil ver algo. Era um ponto de partida para as operações de penetração profunda das Forças Especiais, e Quinn fora mandado para lá assim que perderam seu primeiro sargento.

Como de costume, ele pegou uma carona em um helicóptero de resgate médico, mas, na verdade, levava apenas um piloto e um jovem artilheiro médico chamado Jackson, sentado atrás da metralhadora pesada e espiando pela porta aberta. O helicóptero desceu muito quando a visibilidade piorou na chuva. Havia arrozais abaixo, a linha marrom do rio, e Quinn se levantou, segurou-se e olhou para baixo.

Uma explosão repentina veio da direita, as chamas crescendo rapidamente e, quando o piloto fez uma curva, uma vila emergiu da chuva, algumas casas suspensas sobre palafitas no rio. Quinn viu canoas e jangadas de pescadores, cheias de pessoas. Também viu vietcongues com chapéus de palha e pijamas pretos, escutou o matraquear característico de AK47s, e abaixo dele as pessoas começaram a saltar dos barcos para a água.

Quando o helicóptero se aproximou mais, os vietcongues olharam para cima, alarmados; alguns ergueram seus fuzis e dispararam. Jackson reagiu com sua metralhadora.

— Meu Deus, não faça isso! — gritou Quinn. — Você vai pegar civis também.

O piloto gritou por sobre o ombro: — É melhor darmos o fora daqui! — Ele fez a aeronave subir quando duas balas atingiram a fuselagem. — Ali é Bo Din. Tem um monte de vietcongues na área.

Foi nesse momento que Quinn viu a missão na ponta da aldeia, a igrejinha, o pequeno grupo no pátio, e vietcongues avançando rua acima.

— Uma freira e uma dúzia de crianças! — gritou Jackson.

Quinn apertou o ombro do piloto.

— Precisamos descer e pegá-los!

— Teremos sorte se conseguirmos decolar de novo! — gritou o piloto. — Olha lá para a estrada!

Havia vietcongues em toda parte, pelo menos cinquenta, correndo para a missão.

— O pátio é pequeno demais. Vou precisar pousar na rua. Não vai dar certo.

— Muito bem, então apenas me deixe pular para o chão. Depois saia daqui a toda velocidade e traga a cavalaria pesada.

— Você é maluco!

Quinn olhou para a freira em seu hábito tropical branco.

— Não podemos abandonar aquela mulher e as crianças. Simplesmente faça como estou dizendo.

Quinn encheu os bolsos de sua jaqueta de camuflagem com sinalizadores e granadas, pendurou cintos de munição no pescoço, e encontrou seu M16. Jackson disparou na rua uma saraivada demorada que fez os vietcongues se espalharem e derrubou vários. O helicóptero pairou alguns metros acima do solo e Quinn saltou.

— Também acho que estou maluco! — disse Jackson. Ele seguiu Quinn, com um cinto de cartuchos pendurado no pescoço, uma bolsa de medicamentos no ombro e um M16 bem firme na mão. Houve uma tempestade de disparos quando os vietcongues começaram a marchar pela rua novamente, e os dois americanos correram para o pátio, onde a freira estava com as crianças.

— Recue, irmã! — gritou Quinn. — Recue! — Ele pegou duas granadas e jogou uma para Jackson. — Juntos!

Puxaram os pinos, contaram até três, lançaram e se agacharam. As explosões foram ensurdecedoras. Vários vietcongues caíram, e o resto recuou momentaneamente.

Quinn correu até a freira. Com pouco mais de vinte anos, tinha um rosto bonito e pálido. Quando falou, ficou claro que era inglesa.

— Graças a Deus vocês vieram. Sou a irmã Sarah Palmer. Padre da Silva está morto.

— Sinto muito, irmã. Somos apenas nós dois. O helicóptero foi buscar ajuda, mas sabe lá Deus quanto tempo isso vai levar.

Jackson disparou uma saraivada de balas pela rua e gritou: — O que vamos fazer? Não podemos tomar este lugar. Estamos completamente cercados.

O muro nos fundos tinha ruído com o peso dos anos. Além dele, grandes bancos de junco de pelo menos três metros de altura sumiam em meio à chuva.

Quinn disse a Jackson: — Leve-os para o pântano. Faça isso agora.

— E você?

— Vou segurar as coisas aqui, enquanto puder.

Jackson nem sequer discutiu.

— Vamos embora, irmã.

E ela também não apresentou qualquer resistência.


Quinn observou-os partir, as crianças extremamente abaladas, algumas gritando. Atravessaram as ruínas do muro, e Quinn tirou uma granada do bolso e puxou o pino. Ouviu um som de motor e quando deu as costas para o muro, avistou um jipe com a carroceria toda danificada subir velozmente a rua. Dois vietcongues estavam posicionados numa metralhadora atrás do motorista. Só Deus sabia onde eles tinham conseguido aquele veículo, mas havia mais vietcongues abrigados atrás. Eles começaram a disparar, e Quinn arremessou a granada no último momento possível. Ela caiu no interior do jipe, provocando uma grande explosão. Chamas e pedaços de veículo e homens foram lançados ao ar.

O restante dos vietcongues correu por suas vidas. O lugar foi dominado por um silêncio que seria absoluto, não fosse o chapinhar da chuva. Era hora de ir. Daniel Quinn virou-se, ultrapassou o muro em ruínas, rumo aos juncos. Parou apenas um instante para afixar sua baioneta no M16, e então desapareceu.

A irmã Sarah Palmer ia na frente, segurando a mão de uma criança e carregando a menor. As outras crianças corriam atrás dela. Baixinho, a freira pedia, em vietnamita, que ficassem quietas. Jackson protegia a retaguarda, M16 pronto para atirar.

Chegaram a um charco escuro, e a irmã entrou nele até ficar com água na altura das coxas, o hábito enrolado para cima e amarrado no cinto. A chuva caía estrepitosa, levantando no ar uma espécie de névoa branca. A irmã olhou por sobre o ombro para Jackson.

— Se me lembro bem, há uma estrada ali à direita.

— E de que isso nos adianta, irmã? Eles vão perseguir a gente, e, pra ser honesto, estou mais preocupado com o Quinn. Não ouvi um único tiro desde aquela explosão.

— Acha que ele morreu?

— Vamos torcer para que não.

Dos juncos atrás do grupo emergiu um jovem vietcongue, que com a baioneta encaixada na ponta do AK apunhalou as costas de Jackson embaixo da espádua esquerda, errando seu coração por uma questão de centímetros.

Jackson gritou e caiu de joelhos. No outro lado do charco, mais três vietcongues emergiram, entre eles uma garota. Eram todos muito jovens e brandiam AKs.

Jackson se levantou usando o M16 como bengala, enquanto o vietcongue o observava em silêncio. Um grito selvagem cortou a noite e Quinn aflorou dos juncos. Disparando da altura do quadril, abateu os três vietcongues numa espécie de câmera lenta. O quarto, aquele no fundo, investiu contra Quinn, só que tarde demais, porque o sargento americano se virou e trespassou o inimigo com a baioneta.

Quinn apoiou Jackson com um braço.

— Como você está?

— Dói pra cacete, mas ainda estou aqui — respondeu Jackson. — Tenho alguns kits de primeiros socorros na mochila, mas acho melhor a gente primeiro sair deste lugar.

— Certo — disse Quinn, virando-se para Sarah Palmer. — Vamos andando, irmã.

A freira seguiu os soldados com as crianças. Chegaram a uma parte mais rasa do charco. Um outeiro emergia da água. Havia espaço para todos. Jackson sentou-se ali. Quinn rasgou o tecido da camisa do companheiro, a partir do rasgo irregular aberto pela baioneta, expondo o ferimento.

— Kit de primeiros socorros na mochila?

A irmã Sarah Palmer pegou a mochila.

— Eu cuido disso, sargento.

— Tem certeza, irmã?

Ela sorriu pela primeira vez.

— Sou médica. Irmãs da Piedade é uma ordem religiosa de enfermagem.

De trás dos juncos soaram várias vozes, como raposas uivando.

— Eles estão vindo, sargento — disse Jackson, segurando seu rifle e deitando-se de bruços enquanto a irmã cuidava de seu ferimento.

— Estão sim. Vou precisar afugentá-los.

— Como vai fazer isso? — indagou a irmã Sarah.

— Matando alguns aleatoriamente. — Quinn pegou algumas pistolas sinalizadoras no bolso e as deu a Jackson.

— Se a cavalaria chegar e eu não tiver voltado, deem o fora daqui.

— Oh, não, sargento — disse a irmã Sarah.

— Oh, sim, irmã.

Quinn se virou e correu até os juncos.

Ele podia ter usado a baioneta, um assassinato silente, mas isso não teria causado o pânico de que precisava. Seu primeiro alvo foi providencial: dois vietcongues parados em pé para observar o charco, cabeças e ombros acima dos juncos. Acertou as cabeças de ambos a noventa metros.

Pássaros alçaram voo na chuva densa, e vozes gritaram umas para as outras de diversas áreas. Quinn escolheu uma e se moveu para ela, acertando outro homem que encontrou chapinhando em uma vala. Correu entre os juncos, agachou-se ao lado de outro charco e aguardou.

Tinha aprendido nas Forças Especiais um truque bem útil para essas situações: decorar frases em vietnamita com o máximo de fluência possível. Disparou um tiro e disse: — Aqui, camaradas, peguei ele.

Quinn aguardou pacientemente, e então gritou de novo. Momentos depois, três homens apareceram, caminhando com cautela através dos juncos.

— Onde você está, companheiro? — gritou um deles.

Quinn pegou sua última granada e puxou o pino.

— Estou aqui, seus sacanas! — gritou em sua própria língua enquanto arremessava a granada.

Os vietcongues gritaram e tentaram fugir, mas a granada explodiu.

Quinn ouviu gritos por toda parte; conseguira instaurar o pânico desejado. Enquanto avançava, viu uma estrada e vietcongues correndo para ela. Quinn recuou até os juncos para poder pensar melhor, e escutou um som de motores se aproximando, mas agora a luz tênue do fim de tarde estava sumindo e isso, combinado com a chuva tropical, reduzia a visibilidade ao mínimo. Uma pistola sinalizadora foi disparada ao ar, esvanecendo-se rápido na escuridão. Um helicóptero Cobra desceu a cerca de 250 metros, e Quinn podia ouvir outros pairando no ar. Infelizmente, o helicóptero estava longe demais. Quinn correu desesperado em sua direção, ciente de que já era tarde.

O sinalizador emitido por Jackson tinha funcionado, e dois tripulantes saltaram do helicóptero e levaram as crianças rápido para dentro, a irmã Sarah em seguida.

Um tripulante negro tomou Jackson nos braços.

— Vamos dar o fora daqui, companheiro.

— Mas o sargento ainda está lá fora, o sargento Quinn.

— Merda, eu conheço ele.

Novos tiros chegaram dos juncos e balas atingiram a fuselagem do helicóptero.

— Desculpe, amigo, mas temos que ir — disse o tripulante. — Vai escurecer daqui a pouco e precisamos pensar nas crianças.

Ele ergueu Jackson para dentro da aeronave e gritou para o piloto nos controles: — Vamos nessa!

O helicóptero alçou voo. Jackson estava chorando, e a irmã Sarah se debruçou sobre ele, ansiosa.

— Mas e o sargento? — perguntou ela.

— Não podemos fazer nada. Ele está morto, ele tem que estar morto. Você ouviu todos aqueles tiros e a granada explodindo. — As lágrimas corriam por suas faces. — Ele lutou contra todos aqueles desgraçados sozinho.

— Qual era o nome dele?

— Quinn, Daniel Quinn. — Jackson gemeu em agonia. — Deus, como isso dói, irmã! — reclamou, desmaiando em seguida.


Mas Quinn ainda estava inteiro, principalmente porque o inimigo presumiu que ele tinha escapado no helicóptero. Conseguiu chegar ao rio ao anoitecer, pensou no assunto e decidiu que se queria uma chance ela devia estar no outro lado. Aproximou-se de Bo Din cautelosamente, ciente do som das vozes, da luz nas fogueiras de acampamento. Pendurou o M16 no pescoço, entrou na água e com sua faca de combate cortou a corda que segurava uma das jangadas. Segurou-se o melhor que pôde enquanto a jangada descia na corrente e Bo Din desaparecia na escuridão. Chegou ao outro lado em dez minutos, entrou na floresta e se sentou embaixo de uma árvore, suportando a chuva pesada.

Quando clareou, Quinn saiu do esconderijo. Abriu uma lata de ração de campo e comeu enquanto andava. Esperava encontrar um barco de patrulha no rio, mas não deu essa sorte e continuou caminhando através da mata. Quatro dias depois, como se voltando dos mortos, chegou ao Campo Quatro com seus próprios pés.


Em Saigon, a reação geral era de descrença. Seu comandante de unidade, o coronel Harker, sorriu quando Quinn, liberado pela equipe médica e de uniforme novo, apresentou-se conforme as ordens.

— Sargento, estou sem palavras. Não sei o que é mais extraordinário: o seu heroísmo no campo de batalha ou o fato de que conseguiu voltar vivo.

— É muita gentileza sua, sir. Posso perguntar sobre Jackson?

— Ele está inteiro, embora tenha quase perdido um pulmão. Está no velho Hospital da Piedade francês. Agora é administrado pelo exército.

— Ele se comportou admiravelmente, sem qualquer consideração por sua própria segurança.

— Sabemos disso. Eu o recomendei para a Cruz por Serviços Louváveis.

— Isso é maravilhoso, sir. E a irmã Sarah Palmer?

— Ela está ajudando no hospital. Uma boa pessoa, assim como todas as crianças sob sua responsabilidade.

Harker estendeu a mão e acrescentou:

— Foi um privilégio trabalhar com você, filho. O general Lee quer vê-lo ao meio-dia no quartel-general.

— Posso saber o motivo, sir?

— Cabe ao general contar.


Mais tarde, no Hospital da cidade, Quinn visitou Jackson e o encontrou numa enfermaria iluminada e arejada, com a irmã Sarah sentada a seu lado. Ela contornou a cama e o beijou na face.

— É um milagre. E você perdeu peso — comentou a freira, bem-humorada.

— Bem, eu não recomendaria o meu regime. Como está nosso garoto?

— O pulmão esquerdo dele foi ferido seriamente pela baioneta, mas vai sarar com o tempo.

Acariciando a cabeça de Jackson, a freira completou: — Mas ele não pode mais ficar no Vietnã. Está indo para casa.

Jackson estava eufórico por ver Quinn.

— Deus do Céu, sargento, pensei que tinha passado desta para melhor.

— Daniel — disse-lhe Quinn. — Sempre me chame de Daniel. E se houver qualquer coisa que eu possa fazer por você lá nos Estados Unidos, simplesmente ligue para mim. Não esqueça disso. E parabéns por sua Cruz por Serviços Louváveis.

Jackson fitou-o, incrédulo.

— Minha o quê?

— O coronel Harker indicou você para isso. Vai conseguir.

A irmã Sarah beijou a fronte de Jackson.

— Meu herói! — disse ela.

— O herói é esse aqui, o Daniel. E quanto a você, sargento?

— Meu Deus, não quero medalhas. Agora descanse. Esta conversa toda faz mal ao seu pulmão. A gente se vê depois.

Quinn virou-se para a freira.

— Irmã — disse Quinn, cumprimentando-a com um aceno de cabeça. E se retirou.

Mas a irmã o alcançou na escada do terraço coberto. Quinn estava acendendo um cigarro, bonito em seu uniforme tropical.

— Primeiro-sargento Quinn.

— Você também pode me chamar de Daniel. O que posso fazer por você?

— E acha que já não fez o bastante? — Ela sorriu. — O coronel Harker teve a gentileza de me contar um pouco a seu respeito. Com tudo que você tem, por que escolheu vir para cá?

— A resposta é simples: senti vergonha. E quanto a você, irmã? É inglesa. Esta não é a sua guerra.

— Como lhe disse, pertenço a uma ordem religiosa de enfermagem. Vamos aonde somos necessárias... não importa de quem seja a guerra. Já esteve em Londres? Nossa sede é o Priorado de Santa Maria, Wapping High Street, em frente ao Tâmisa.

— Vou visitá-la da próxima vez em que estiver lá.

— Por favor, faça isso. Agora gostaria de me dizer o que o está atormentando? E não tente dizer que não tem problemas. Faz parte da minha profissão saber essas coisas.

Ele se encostou numa pilastra.

— Está bem. Eu já tinha matado antes, irmã, mas nunca como naquele pântano. Pelo menos dois inimigos que pude ver mais de perto eram mulheres jovens. Eu estava sozinho, não tinha escolha, mas ainda assim...

— Ainda assim...?

— Ainda assim me sinto culpado. Vi apenas assassinato, morte e destruição. Não vi equilíbrio ou ordem.

— Se isso o preocupa, faça suas pazes com Deus.

— Ah, se ao menos fosse assim tão simples! — Ele olhou o relógio. — Preciso ir. Generais não gostam de esperar. Posso lhe dar um beijo de adeus?

— Claro que pode.

Ele tocou a face da freira com seus lábios.

— Você é uma jovem notável — disse Quinn e então começou a descer os degraus.

A freira ficou parada alguns instantes, observando o sargento se afastar, e então voltou até Jackson.


No quartel-general, Quinn teve acesso ao general Lee com rapidez incomum, e logo um capitão sorridente o conduzia ao escritório do grande homem. Lee, grande e energético, levantou-se e contornou a mesa rapidamente. Quando Quinn tentou prestar continência, Lee o interrompeu.

— Não, esse é meu privilégio. É melhor eu me acostumar.

E então bateu com os calcanhares e saudou Quinn.

— General? — disse Quinn, estupefato.

— Recebi esta manhã uma mensagem do presidente. Primeiro-sargento Daniel Quinn, tenho a honra de informar que você recebeu a Medalha de Honra do Congresso.

E então o general saudou Quinn mais uma vez, solenemente.


E assim nasceu a lenda.

Quinn foi mandado para casa, deu muitas entrevistas e compareceu a um sem-número de cerimônias. Finalmente, sem nenhum interesse em seguir a carreira militar, deixou o exército. Voltou para Harvard e estudou filosofia durante três anos, como se tentasse exorcizar algum tipo de demônio. Teve a cautela de se manter afastado de bares para não se envolver em conflitos físicos, porque não confiava o bastante em si mesmo para isso.

Finalmente, concordou em ingressar nos negócios da família. Isso ao menos significava uma chance de ajudar seu velho amigo, Tom Jackson, que se formara em direito na Columbia University depois do Vietnã. Com o passar dos anos, Jackson ascendeu à direção do departamento jurídico na Quinn Industries.

Ele não se casou até estar na casa dos trinta. O nome dela era Monica, e pertencia a uma família amiga; um casamento de conveniência. A filha do casal, Helen, nasceu em 1979, e foi aproximadamente nessa época que Quinn decidiu seguir o sonho do avô e entrou na política. Colocou suas finanças num fundo de investimento e concorreu a uma vaga no Congresso, ganhou por uma margem estreita, e em seguida continuou ganhando por margens maiores, até finalmente desafiar o senador candidato à releição e também ser vitorioso. Mas depois de algum tempo começou a se cansar do Congresso e de toda aquela diplomacia, negociação e administração de pequenas crises que sua posição exigia. E então, quando seu avô morreu num acidente com seu avião particular, ele começou a repensar suas prioridades.

Decidiu que queria fazer alguma coisa mais importante com a vida. E foi nesse momento que seu velho amigo Jake Cazalet, veterano de guerra e agora presidente dos Estados Unidos, procurou Daniel e lhe disse que compreenderia se ele quisesse abrir mão do cargo, mas esperava que não deixasse a vida pública. Jake precisava de alguém como Daniel para ser um solucionador de problemas, uma espécie de embaixador itinerante, alguém em quem pudesse confiar sem restrições. E Daniel respondeu que sim. Daquele dia em diante, sempre que havia problema, do Extremo Oriente a Israel, na Bósnia e no Kosovo, ele estava lá.

Nesse ínterim, sua filha seguia a tradição da família, ingressando em Harvard, enquanto a esposa cuidava do lar. Quando foi diagnosticada com leucemia, Monica não contou a ele até que fosse tarde demais — não queria interromper seu trabalho. Quando ela morreu, Daniel foi tomado por uma culpa intolerável. Depois que os convidados deixaram o velório, em sua casa de Boston, ele e a filha caminharam nos jardins. Ela era baixa e magra, cabelos louros e olhos verdes, a alegria da vida de Daniel, tudo que lhe sobrara de algum valor.

— Você é um grande homem, papai — disse Helen. — Faz coisas grandes. Não se culpe.

— Abandonei Monica.

— Não, foi a mamãe quem escolheu jogar do jeito dela. — Ela enlaçou o braço do pai. — Sei de uma coisa. Você jamais me abandonou. Eu te amo papai, te amo muito.

No ano seguinte Helen obteve uma Bolsa Rhodes para dois anos na Oxford University, na St Hugh College, e Quinn partiu para o Kosovo a fim de trabalhar para a OTAN a serviço do presidente. E as coisas ficaram nesse pé, até um dia chuvoso de março em que o presidente convidou Quinn à Casa Branca, e Quinn compareceu...


2


WASHINGTON-LONDRES

 


Washington, começo da tarde, clima ruim de março, mas o Hay-Adams Hotel, onde Daniel Quinn estava hospedado, ficava a uma distância curta da Casa Branca, permitindo trajeto a pé.

Quinn gostava do Hay-Adams, das antiguidades maravilhosas, do interior acolhedor, do restaurante. Devido à localização do hotel, todos eles iam para lá, os grandes e os bons, os políticos e os poderosos. Daniel Quinn não sabia mais onde se encaixava nesse espectro, mas não se importava muito. Ele apenas gostava do lugar.

Quinn saiu do hotel e o porteiro disse: — Ouvi dizer que estava aqui, senador. Seja bem-vindo de volta. Quer que eu chame um táxi?

— Não, George, obrigado. A caminhada me fará bem.

— Pelo menos aceite um guarda-chuva. A chuva pode piorar. Eu insisto, sargento.

Quinn riu.

— Uma mãozinha de um veterano para outro?

George pegou seu guarda-chuva e o abriu.

— Já suportamos muito esse clima lá na selva, sir. Quem precisa disso agora?

— Foi há muito tempo, George. Completei cinquenta e dois anos no mês passado.

— Senador, pensei que tivesse quarenta anos.

Quinn riu, subitamente parecendo mesmo ser tão jovem assim.

— A gente se vê depois, seu pilantra.

Depois que cruzou a rua até a Lafayette Square, sentiu-se grato a George pelo guarda-chuva. A água se derramava dos galhos das árvores quando ele passou pela estátua de Andrew Jackson. Aquilo fez Quinn sentir novamente a velha sensação de clausura. O homem que possuía tudo — dinheiro, poder, uma filha a quem amava — em dias como estes sentia que não tinha nada. Estava chegando ao outro lado da praça, perdido em seus próprios pensamentos, quando ouviu as vozes. À luz difusa de um poste de iluminação ele os viu com clareza: dois mendigos agasalhados, encharcados com a chuva, falando alto um com o outro. Eram idênticos, exceto pelos cabelos. O de um caía até os ombros, o do outro era raspado, o escalpo à mostra. Bebiam de latas, e quando um deles chutou uma vazia para a calçada, viu Quinn e se pôs a caminhar em sua direção.

— Ei, babaca, para onde pensa que vai? Deixe-me ver sua carteira, homem.

Quinn o ignorou e continuou caminhando. O homem de cabelos compridos tirou um canivete do bolso e ejetou a lâmina.

Quinn fechou o guarda-chuva e sorriu.

— Posso ajudar você?

— Sim, pode me dar o seu dinheiro, bundão, a não ser que queira um pouco disso — disse o homem de cabelos longos, balançando o canivete no ar.

O Cabeça Raspada estava agora ao lado do Cabelos Longos e riu, um som feio. Usando o guarda-chuva como espada, Quinn desferiu um golpe no Cabeça Raspada, a ponta do guarda-chuva atingindo-o sob o queixo. O homem caiu de joelhos e Quinn o chutou no rosto. Subitamente sentia-se trinta anos mais jovem, um sargento das Forças Especiais no delta do Mekong. Ele se virou para o homem com o canivete.

— Tem certeza?

A lâmina varou o ar, mas Quinn agarrou o pulso, esticou o braço e o torceu com um golpe de cotovelo. O homem gritou, cambaleou para trás, e quando começou a se levantar, Quinn chutou novamente seu rosto.

— Esta não é sua noite, é?


Uma limusine freou abruptamente, o motorista saltou, tirando uma pistola Browning do coldre sob o braço esquerdo. Era grande, negro como a noite, e Quinn conhecia-o bem; Clancy Smith, ex-fuzileiro e o homem favorito do presidente no Serviço Secreto. Seu passageiro, que se juntou a ele, era igualmente familiar: um homem alto e bonito de cabelos pretos, aproximadamente da idade de Quinn, chamado Blake Johnson. Johnson era diretor do Departamento de Assuntos Gerais na Casa Branca, embora todos que soubessem a respeito desse setor — e não eram muitos — chamassem-no simplesmente de Porão.

— Daniel, você está bem? — indagou Blake.

— Nunca me senti melhor. Por que você está aqui?

— Decidimos pegar você, mas eu devia ter imaginado que preferiria vir a pé, mesmo numa noite como esta. No hotel nos disseram que você tinha acabado de sair.

Blake examinou a cena na sua frente e comentou: — Parece que você estava se divertindo um pouco.

Os homens agora estavam em pé e tinham buscado abrigo sob as árvores, uma visão lamentável.

— Vou chamar a polícia — disse Clancy.

— Não, não precisa — disse Quinn. — Acho que eles captaram a mensagem. Vamos embora.

Quinn se acomodou no banco traseiro da limusine e Blake sentou-se a seu lado. Clancy se posicionou atrás do volante e começou a dirigir.


O lugar ficou silencioso, exceto pelo gemido do Cabeça Raspada.

— Pelo amor de Deus, cale a boca — disse o outro.

— Ele quebrou meu nariz.

— E daí? Vai estragar sua carinha bonita? Me dá um cigarro.


A meio quarteirão dali, outra limusine estava parada sob a copa das árvores. O homem sentado atrás do volante era de estatura média, por volta dos trinta, bonito e de cabelos louros. Usava camisa branca, gravata preta e sobretudo de couro da Gucci. Sua passageira, uma mulher aproximadamente da mesma idade, bonita, cabelos negros lisos e feições ousadas e orgulhosas. Tinha aparência ligeiramente árabe, o que não era surpreendente, considerando que ela era meio árabe, meio inglesa.

— Foi um espetáculo fraco, Rupert. Acho que você tem funcionários de nível muito baixo.

— Sim, Kate, foi muito decepcionante. Mas preciso reconhecer que Quinn foi impressionante — disse Rupert Dauncey, calçando luvas de couro finas.

Lady Kate Rashid decidiu esquecer o assunto.

— É melhor irmos. Precisaremos tentar outra coisa.

— Que tipo de coisa?

— Sei que o presidente vai jantar esta noite no Lafayette Restaurant no Hay-Adams. Talvez ele goste de alguma companhia.

— Meu Deus, prima, você realmente gosta desse tipo de diversão. — A voz dele era muito agradável, com um sotaque forte de Boston. — Vou dar uma saidinha agora, mas volto já.

Enquanto ele saltava da limusine, ela disse: — Rupert, aonde você vai?

— Meu dinheiro, querida. Quero ele de volta.

— Mas você é cheio de dinheiro, Rupert.

— É o princípio da coisa.

Ele acendeu um cigarro enquanto atravessava a avenida até os dois homens sob as árvores.

— Ora, aquilo foi muito divertido.

— Você disse que ele era um coroa comum — protestou Cabeça Raspada.

— Bem, às vezes a vida surpreende a gente. Mas vocês fizeram uma droga de serviço. Quero meu dinheiro de volta.

— Vá se foder — disse Cabeça Raspada, virando-se para o amigo. — Não vou dar nada.

— Ai, meu Deus — disse o outro.

Rupert tinha sacado um Colt .25 do bolso direito, um silenciador bulboso na ponta. Encostou o cano na coxa direita de Cabeça Raspada e apertou o gatilho. O homem gritou e caiu no chão. Rupert estendeu a mão e o outro pegou as notas apressadamente.

— Quando nos encontramos mais cedo, notei que você tem um celular — disse Rupert. — Se fosse você, ligava para a polícia.

— Meu Deus! — disse o homem. — E o que vou dizer a eles?

— Diga apenas que vocês foram atacados por três homens negros muito grandes. Aqui é Washington, eles vão acreditar em vocês. É terrível a situação do crime nesta cidade, não é?

Rupert caminhou de volta até o carro. Quando ele se sentou atrás do volante, Kate Rashid disse: — E então, podemos ir agora?

— Seu desejo é uma ordem.


3

 

 

Quando eles pararam diante da Casa Branca, Blake desligou o celular.

— Nunca vi Cazalet ficar sem palavras, mas ele está agora. Ele está chocado.

— Eu estou chocado — disse Quinn. — Blake, tenho cinquenta e dois anos. O Vietnã foi há muito tempo.

— Foi há muito tempo para todos nós, Daniel.

— Mas, Blake, o que fiz com aqueles dois lá atrás... De onde veio tudo aquilo?

— A técnica nunca desaparece, senador — disse Clancy Smith. — É como ser marcado para o resto da vida.

— Com você é a mesma coisa? A Guerra do Golfo ainda o afeta hoje?

— Bem, nunca penso nisso — disse Smith. — Todos cortamos gargantas na ocasião certa, senador, só que você fez com estilo. É por isso que você é uma lenda.

— Bo Din? — Quinn balançou a cabeça. — Aquilo é uma maldição.

— Não, senador, é uma inspiração.


Dito isso, Smith liderou os três homens através do portão. Quando entraram no Salão Oval, o presidente Jake Cazalet estava à sua mesa, coberta de papéis na sala imersa em sombras, um abajur iluminando. Cazalet, como Blake e Quinn, estava no começo dos cinquenta, os cabelos ruivos salpicados de cinza. Ele se levantou e contornou a mesa.

— Daniel, que diabos de experiência! — disse o presidente. — O que aconteceu?

— Oh, Blake vai lhe contar. Posso tomar um uísque irlandês?

— Claro. Clancy, você providencia?

— Sim, sr. presidente.

Daniel seguiu-o até a antessala. Ele aguardou enquanto Clancy servia a bebida, ciente do murmúrio de vozes no Salão Oval. Quando voltou, Cazalet virou-se para saudá-lo.

— Que coisa incrível.

— O quê? O fato de que acabo de descobrir que ainda sou um assassino depois de trinta anos?

Cazalet apertou a mão dele.

— Não, Daniel, o fato de que você ainda tem o que é necessário para ser um herói. Aqueles dois vermes cometeram um erro. Eles não vão tentar isso novamente por algum tempo.

— Obrigado, sr. presidente. Espero que seja verdade. Agora... por que quis me ver?

— Vamos nos sentar.

Eles puxaram cadeiras até a mesa de centro. Clancy se encostou na parede, como sempre, sombrio, taciturno, vigilante.

O presidente disse: — Daniel, você fez um belo trabalho até agora no seu novo papel, especialmente na Bósnia e no Kosovo. Não consigo pensar em ninguém que pudesse ter se saído melhor no tempo em que você está aqui, e isso já tem cinco anos. Sei que você vai fazer em breve outra viagem ao Kosovo, mas depois disso... Será que você não gostaria de fincar raízes em Londres por algum tempo? Seria uma função completamente isolada da embaixada de Londres, apenas um pouco de... pesquisa que precisa ser realizada.

— Que tipo de pesquisa?

Cazalet se virou.

— Blake?

— A Europa mudou, Daniel — disse Blake Johnson. — Você sabe disso. Há grupos terroristas por toda parte, e não apenas fundamentalistas árabes. O problema emergente é anarquismo. Grupos com nomes como Liga Marxista, Exército de Libertação Nacional, um novo grupo chamado Sociedade de Estudos Bélicos.

— E daí? — perguntou Quinn.

— Antes de entrarmos em detalhes, devo lhe dizer que isto ultrapassa toda a classificação de segurança que você já teve. — Ele fez um documento deslizar sobre a mesa. — Esta é uma ordem presidencial, Daniel. Diz que você pertence a mim. Ela transcende todas as nossas leis. Você nem mesmo tem o direito de dizer não.

Quinn estudou o documento.

— Sempre achei que essas coisas eram um mito.

— Elas são reais, como pode ver. Você, porém, é um velho amigo. Não vou forçá-lo. Diga não agora e rasgamos este documento.

Quinn respirou fundo.

— Se precisa de mim, presidente, então estou sob suas ordens.

Cazalet fez que sim com a cabeça.

— Excelente. Agora... quanto você realmente sabe sobre o que Blake faz no Porão?

— Preciso confessar, presidente, que não sei muito. É algum tipo de esquadrão especial de investigação, mas a Casa Branca faz um trabalho muito bom de manter tudo em segredo.

— Estou feliz em ouvir isso. Sim, tem razão. Muitos anos atrás, quando enfrentamos a possibilidade de infiltração comunista em todos os níveis do governo, o presidente daquela época... nem preciso dizer quem foi... inventou o Porão como uma pequena operação respondível apenas a ele, totalmente separada da CIA, do FBI e do Serviço Secreto. Desde então, essa operação foi passada de um presidente ao seguinte, e certamente tem sido valiosíssima para mim.

Blake assumiu o relato: — Existe em Londres uma organização similar, da qual somos muito íntimos, gerida por um homem chamado general Charles Ferguson. Ele trabalha para o ministro da Defesa e responde apenas ao primeiro-ministro em exercício, a despeito da política. — Ele sorriu. — Eles são conhecidos como exército pessoal do primeiro-ministro.

— Posso entender por que gosta deles — disse Quinn.

— A principal assistente dele é a detetive-superintendente Hannah Bernstein, da Divisão Especial da Scotland Yard. Tremenda mulher. Inteligente como uma raposa, mas também matou vários homens e já levou vários tiros.

— Meu Deus.

— O melhor você ainda não ouviu — disse Cazalet a Quinn, dando-lhe uma pasta. — Este é Sean Dillon, durante anos o mais temido assassino do IRA.

Quinn abriu a pasta. As fotos mostraram um homem baixo, medindo não mais de um metro e sessenta e cinco, cabelos lisos quase brancos. Usava calça de veludo preto e uma velha jaqueta de aviador. Um cigarro pendia do canto da boca e ele exibia o tipo de sorriso que parecia dizer que não levava a vida a sério demais.

Quinn disse: — Ele parece perigoso.

— Você não sabe da missa a metade. Vários anos atrás, Ferguson salvou-o de um pelotão de fuzilamento sérvio, e então o chantageou para se juntar a seu grupo. Agora ele é o braço-direito de Ferguson.

Cazalet fez uma pausa antes de acrescentar: — Ele ajudou a salvar minha filha há alguns anos, quando ela foi sequestrada por terroristas. Ele e Blake juntos.

Quinn olhou de um homem para o outro.

— Sua filha? Sequestrada? Eu... nunca soube...

— Ninguém soube, Daniel — disse Cazalet. — Não quisemos que ninguém soubesse. E ele também salvou minha vida. — Ele levantou a mão, pedindo silêncio, quando Quinn ameaçou exclamar outra coisa. — E isso nos leva de volta ao nosso tópico original. Blake?

— Lembra do último Natal, quando você parou em Londres? — perguntou Blake.

— Claro. Foi uma oportunidade de visitar Helen em Oxford.

— Isso mesmo, e o presidente o convidou a comparecer, no lugar do embaixador, a uma ou duas recepções oferecidas por lady Kate Rashid, condessa de Loch Dhu.

— Isso mesmo, e me perguntei por quê. Não ficou muito claro para mim o que eu estava tentando descobrir, exceto que ia conhecê-la. Assim, encontrei a dama brevemente, fiz-lhe perguntas discretas e mandei meu pessoal fazer uma análise de computador sobre a organização Rashid.

— Então você sabe o quanto eles valem — disse Blake.

— Sei. A última estimativa, que inclui suas propriedades petrolíferas em Hazar, indica cerca de dez bilhões de dólares.

— E a presidente da companhia?

— A condessa de Loch Dhu.

Blake deu-lhe uma pasta.

— Este é o nosso arquivo sobre os Rashids. É muito interessante. Por exemplo, ele inclui uma lista das doações de caridade da família, que envolvem amplos donativos a diversos programas educacionais, incluindo o programa educacional da Sociedade de Estudos Bélicos, e o Fundo Infantil de Beirute.

— Lembro disso — disse Quinn. — Mas me pareceu inofensivo. Caridade educacional é comuns entre os muito ricos. É como dar agasalho aos pobres para diminuir a culpa de possuir roupas demais. Eu mesmo já fiz esse tipo de doação.

— E se eu lhe dissesse que o Fundo Infantil em Beirute é uma fachada do Hezbollah?

Daniel Quinn ficou chocado.

— Está sugerindo que essa mulher patrocina alguma coisa subversiva? Por que ela faria isso?

— Lembra de que mencionei que Dillon salvou minha vida? — disse Cazalet. — Bem, é aqui que isso entra.

Blake continuou: — Como você sabe, Kate Rashid é árabe beduína por parte de pai e inglesa por parte de mãe, que pertencia à família Dauncey. Foi da mãe que veio seu título. Ela tinha três irmãos, Paul, George e Michael.

— Tinha?

— Sim. No ano passado a mãe deles morreu num acidente de carro provocado por um diplomata bêbado da embaixada russa. Mas como um diplomata estrangeiro não pode ser julgado, os irmãos providenciaram sua própria punição, que era permanente. Ficaram ainda mais furiosos quando souberam que o diplomata vinha quebrando um acordo petrolífero em Hazar que nos envolvia e aos russos. Hazar era território deles. No que dizia respeito a eles, aqui estavam estes duas grandes potências desrespeitando não apenas seus poderes econômicos como dos árabes em geral: Ocidente desrespeitando Oriente. Assim, decidiram que precisávamos aprender uma lição.

— Paul Rashid mandou que me assassinassem em Nantucket — disse Cazalet. — Clancy levou uma bala nas costas que era destinada a mim. Blake acertou pessoalmente um dos assassinos.

— Sr. presidente, isto é... isto é estarrecedor — disse Quinn.

— Infelizmente, não acaba aqui — disse-lhe Blake. — Está tudo na pasta. Basta dizer que no fim todos os três irmãos Rashid pagaram o preço de seu fanatismo, deixando apenas a irmã, Kate. Provavelmente a mulher mais rica do mundo, uma mulher que tem tudo e perdeu tudo. Três irmãos a quem amava. Tenho certeza de que ela deseja vingança.

— Está dizendo que como ela não conseguiu pegar o presidente da última vez, pode tentar de novo?

— Acreditamos que ela seja capaz de qualquer coisa. Há mais um curinga. Os Daunceys tinham o que a aristocracia inglesa chama de um ramo menor, algumas pessoas que se mudaram para os Estados Unidos no século XVIII e se estabeleceram em Boston.

— Eles agora são advogados e juízes — relatou Cazalet. — Muito respeitáveis. Conheço a família.

— Há alguma coisa que eu deva saber a respeito deles? — perguntou Quinn.

Blake passou-lhe outra pasta.

— Rupert Dauncey... West Point, ilha Parris.

— Outro fuzileiro, hein?

— Sim, e danado de bom — disse Blake. Ele ganhou uma Estrela de Prata na Guerra do Golfo, e então serviu na Sérvia e na Bósnia. Houve uma denúncia de que matou sérvios de forma um tanto cruel, mas nada foi comprovado, e depois de uma emboscada terrível armada por muçulmanos, que ele frustrou, Dauncey recebeu uma Medalha por Serviços Louváveis. Ele foi elevado rapidamente ao posto de capitão...

— Que lhe valeu uma transferência para a Guarda dos Fuzileiros Navais da embaixada em Londres — disse o presidente.

— E posso presumir o que aconteceu em seguida — disse Quinn. — Uma vez em Londres, ele se apresentou à boa condessa, foi isso?

— Eles se afinaram imediatamente, e têm sido muito íntimos desde então — disse Blake. — Ele é um homem muito bonito, especialmente em seu uniforme de fuzileiro. Todas aquelas medalhas. Acredito que seja primo em terceiro grau de Kate Rashid.

— Ah, bem, isso torna a coisa legal.

— Bem, na verdade não. Para colocar delicadamente, Rupert Dauncey é de uma crença diferente — disse-lhe Blake.

— Está dizendo que ele é gay?

— Não tenho certeza. Ele não sai com mulheres, disso nós sabemos. Por outro lado, ele não anda em bares, e não há nenhum indício de que tenha um namorado. Em todo caso, mesmo desconsiderando esse ângulo, não podemos deixar de notar que está acontecendo alguma coisa entre eles. Lady Kate ainda guarda um rancor não apenas contra o presidente, como também contra mim, Sean Dillon e sua equipe, porque todos estivemos envolvidos nas mortes dos irmãos dela.

Jake Cazalet disse: — É por causa disso que quero que você vá a Londres. Vamos providenciar um encontro seu com o general Ferguson, Dillon e a superintendente Bernstein. Vou falar com o primeiro-ministro, que está ciente da situação.

— E então?

— Investigue, use seus contatos, veja o que consegue descobrir. Talvez estejamos errados. Talvez ela tenha mudado. Quem sabe?

— Eu sei — disse Blake. — Ela não mudou, nem vai mudar.

— Ótimo. Eu me curvo perante seu julgamento superior.

— Vou para lá assim que voltar de Kosovo — disse Quinn. — A Quinn Industries tem uma casa residencial em Londres. Ficarei lá. Inclusive, se a memória não me falha, fica perto da casa dos Rashid.

— Bom. — O presidente sorriu. — Agora, quanto ao futuro mais imediato, vamos discutir os planos para o jantar. Esta noite vou ao Lafayette. Por que não vem conosco?

— Eu adoraria.

— Especialmente porque, graças ao levantamento de informações feito por Blake, sei que a condessa de Loch Dhu e seu primo, Rupert Dauncey, também reservaram uma mesa para a noite.

— O quê?

— Você me conhece, Daniel, sempre coloco o carro adiante dos bois. Acho melhor começarmos a trabalhar o quanto antes. — Virou-se para Clancy. — Presumo que tenha feito os preparativos, não?

— Claro, presidente.

— Muito bem. Vamos nos encontrar às oito e meia. Por favor, leve o senador Quinn de volta ao hotel.

— Às ordens, presidente — disse Clancy.

— E Clancy, se Dauncey se meter a besta com você, não engula sapo. Ele pode ser major da marinha, mas se me lembro bem, você foi o mais jovem primeiro-sargento do regimento.

— O que é isso? — indagou Quinn. — A ilha Parris? Você espera que ele meta porrada no homem?

Jake Cazalet riu.

— Você faria isso, Clancy?

— Ora, claro que não, presidente. É mais provável que eu mandasse o major correr duzentos e cinquenta quilômetros com uma mochila carregada de chumbo nas costas.

— Adorei — disse Quinn. — Muito bem, a gente se encontra lá.

Ele saiu com Clancy.

Cazalet perguntou a Johnson: — Vai conversar com Ferguson?

— A primeira coisa que farei amanhã de manhã.


O escritório do general Charles Ferguson ficava no terceiro andar do Ministério da Defesa, com vista para a Horse Guards Avenue. No dia seguinte ele estava em sua mesa, o telefone de segurança vermelho na mão. Era um homem grande e desmazelado, cabelos grisalhos, terno marrom e gravata fina. Baixou o telefone e apertou o intercomunicador.

Uma mulher atendeu. — General?

— Dillon está aí?

— Sim, senhor.

— Quero falar com vocês dois agora.

A detetive-superintendente Hannah Bernstein entrou. Era uma mulher no começo dos trinta, jovem para seu posto, com cabelos ruivos cortados rentes e óculos com acabamento em chifre. Usava um terno feminino preto elegante que parecia caro demais para a maioria das agentes de polícia.

O homem baixo, de cabelos lisos, usava uma velha jaqueta preta de aviador. Sua presença parecia emanar força. Ele acendeu um cigarro com um velho isqueiro Zippo.

— Não faça cerimônia, Dillon — disse o general Ferguson.

— Ah, não vou fazer não, general. Sei que você é um sujeito bacana.

— Cale-se, Sean — ralhou Hannah Bernstein. — Queria nos ver, sir?

— Sim. Recebi notícias interessantes de Blake Johnson sobre a condessa de Loch Dhu.

— O que Kate anda aprontando? — perguntou Dillon.

— É mais uma questão de o que ela pode aprontar. Ficaram de nos enviar documentos por fax. Hannah, pode ver se já chegaram?

Ela se retirou da sala. Dillon serviu-se de um Bushmills.

— Ela está de volta, é isso, general?

— Ela prometeu se livrar de todos nós, não prometeu? Em pagamento pelos irmãos?

— Ela pode tentar comigo a hora que quiser. — Dillon secou seu copo e o encheu de novo. Levantou um brinde. — Deus a abençoe, Kate, mas não depois do que tentou fazer com Hannah Bernstein. Tente de novo e eu mesmo vou te matar.

Hannah entrou com folhas de fax.

— Primeiro ouçam o que Blake me disse. Em seguida quero que os dois leiam esses papéis.


Um pouco depois os dois estavam a par de tudo.

— Então ela arrumou um homem — comentou Hannah.

Dillon olhou a foto de Rupert Dauncey.

— Mais ou menos, né? — disse com um sorriso.

Ferguson comentou: — Vou lhes dizer o que me perturba. A informação que o pessoal de Daniel Quinn obteve sobre essas doações: o programa educacional da Sociedade de Estudos Bélicos, o Fundo Infantil de Beirute.

— Bem, ela é meio árabe, e líder beduína em Hazar — disse Dillon. — É natural que faça doações a causas árabes. Mas eu concordo. Há mais coisas aqui do que parece.

Ferguson fez que sim com a cabeça.

— E então, o que devemos fazer?

— Descobrir o que ela está aprontando? — Dillon virou se para Hannah. — Roper?

Ela sorriu e disse a Ferguson: — Major Roper, sir?

— O próprio — disse Ferguson.


4

 

 

Daniel Quinn estava esperando diante da entrada do Hay-Adams quando as limusines chegaram. Clancy Smith foi o primeiro a saltar, e em seguida três outros agentes do Serviço Secreto desceram de veículos de escolta. Clancy passou por Quinn e o cumprimentou com a cabeça enquanto entrava. Blake saiu e esperou o presidente, que subiu os degraus e apertou a mão de Quinn.

— Daniel.

Tudo aquilo era para as câmeras, claro. Como de costume, dois ou três fotógrafos tinham sido informados de que o presidente jantaria ali. Flashes espocaram, fotos foram tiradas. Cazalet apertou a mão de Quinn. Clancy apareceu na entrada. Os outros agentes do Serviço Secreto flanquearam o presidente e Blake enquanto os dois entravam.

Um maître conduziu Blake, Cazalet e Quinn a uma mesa redonda num canto, excelente de um ponto de vista da segurança. Ao redor deles, clientes deslumbrados fofocavam em voz baixa. Clancy organizou seus homens, que se posicionaram em pé ao longo de uma parede. O próprio Clancy se manteve a postos, sempre uma presença sombria.

— O que querem beber, senhores? — perguntou Cazalet. — Que tal um bom vinho francês? — Virou-se para o garçom. — Vamos tentar um Sancerre.

O garçom assentiu, animado. — Excelente escolha, sir.

— Vou dizer uma coisa, bem que estou precisando de uma bebida. — Cazalet virou-se para Quinn. — Tenho andado sobrecarregado com o problema energético. Preços subindo, a demanda por petróleo aumentando, aqueles malditos blecautes... Tenho a impressão de que há algum desastre pairando sobre nossas cabeças. E o povo está começando a perceber. Viram a pesquisa semana passada? “Por que o governo não faz alguma coisa a respeito?” Droga, estou tentando. Algumas pessoas estão começando a sentir cheiro de sangue na água... vocês sabem do que estou falando. Se não conseguir pensar numa maneira de abrandar a crise, as eleições do ano que vem vão ser um desastre, e então vou ter que desistir de levar meus programas até o fim. Posso ser até obrigado a abdicar da candidatura à reeleição.

Quinn começou a dizer alguma coisa, mas Cazalet fez um gesto para que ele não se preocupasse.

— Oh, não me leve a sério. Só estou desabafando. O motivo do jantar não é esse. — Ele sorriu. — Viemos aqui nos divertir um pouco. É como esperar o começo de uma peça da Broadway. — Ele olhou para a porta. — E acho que a cortina está prestes a ser levantada.


A condessa de Loch Dhu estava na porta. Os diamantes em seu pescoço eram deslumbrantes, e seu vestido negro uma verdadeira obra de arte. A seu lado, Rupert Dauncey usava um elegante blazer Brioni, com camisa branca e gravata escura. Os cabelos louros estavam penteados com perfeição.

O maître os atendeu rapidamente e começou a conduzi-los por entre as mesas. Enquanto o casal se aproximava, o presidente disse: — Fale com ela, Blake, é você quem a conhece.

Blake se levantou quando ela se aproximou e disse: — Kate. Ora, isso é que eu chamo de atirar no que se vê e acertar no que não se vê!

Ela parou, sorriu, e então inclinou-se para beijar a face de Blake.

— Ora, Blake, que surpresa agradável. — Ela se virou para o acompanhante. — Já conhece meu primo, Rupert Dauncey? Acredito que não. Vocês têm muito em comum, sabia?

— Ah, sim, a reputação de seu primo o precede — disse Blake.

Rupert Dauncey sorriu.

— Assim como a sua, sr. Johnson. E a do senador Quinn, também.

— Obrigado — disse Quinn. — É um prazer revê-la, condessa.

— Igualmente.

— Sr. presidente, tenho a honra de apresentar-lhe lady Kate Rashid, condessa de Loch Dhu.

Cazalet se levantou e segurou a mão de Kate.

— É um prazer, condessa. Gostariam de tomar um drinque conosco? Uma taça de champanhe, talvez?

— Como posso recusar?

Blake chamou o garçom e falou com ele. Rupert puxou uma cadeira para Kate e se virou para Clancy Smith.

— Da última vez que nos vimos, primeiro-sargento, estávamos numa tremenda enrascada dentro das linhas iraquianas.

— É verdade, major. Senti sua falta na Bósnia.

— Um bom lugar para sentir falta de alguém. — Dauncey sorriu e se posicionou em pé ao lado dele. — Mas estamos nos saindo bem.

O garçom serviu taças de Dom Pérignon. Cazalet levantou a sua.

— A lady Kate. Soube que a Rashid Investments está numa excelente fase. Fiquei particularmente impressionado com seus resultados em Hazar.

— Petróleo, presidente. Todo mundo precisa de petróleo. — Ela sorriu. — Sabe muito bem disso.

— Sim, mas as operações em Hazar geraram resultados admiráveis. E me pergunto por quê.

— Sabe a razão. Porque eu controlo os beduínos Rashid tanto em Hazar quanto no Território Desocupado. Sem mim, vocês e os russos não são nada. Eles são os mais cruéis habitantes do deserto em todo o mundo. — Ela se virou para Blake e sorriu. — Mas Blake sabe disso. Ele estava lá quando meu irmão George foi assassinado.

— Sim, eu estava — disse Blake. — Também estava lá na noite anterior, quando o cornet Bronsby foi assassinado.

Virou-se para o presidente, e disse a Cazalet o que ele já sabia.

— Bronsby estava comigo na patrulha de Hazar. Eles lá não têm um exército de verdade, apenas um regimento. Os beduínos Rashid fizeram um trabalho muito completo nele com suas facas.

Virou-se novamente para Kate com um sorriso, mas completamente desprovido de humor.

— E então, ao amanhecer, Sean Dillon fez sua vingança. Eram quatro de vocês, não eram? A quinhentos metros? Sean é um tremendo atirador.

— Um tremendo filho da puta — disse Kate Rashid.

— Porque um dos homens era seu irmão George? Ele devia ter pensado nisso antes de começar a assassinar pessoas.

A atmosfera da mesa ficou densa e fria. Então a condessa sorriu.

— Bem, sr. Johnson, sabe tudo sobre assassinatos, não sabe? E também do preço que se paga por eles. Às vezes um preço muito alto. — Ela se aproximou mais dele. — Por favor, compartilhe esse conhecimento com seus amigos, sim.

Blake segurou o pulso de Kate.

— Não faça isso, Kate. Seja lá o que esteja planejando, não faça.

— Blake, posso fazer qualquer coisa que eu quiser — disse ela. — Rupert?

Rupert puxou a cadeira de Kate para que ela se levantasse.

— Sr. presidente, foi uma honra. — Ela se virou e assentiu para Dauncey.

— Cavalheiros — disse Dauncey e então seguiu Kate.

Houve silêncio na mesa por algum tempo. Finalmente, Quinn perguntou: — Que diabos foi isso?

— Apenas leia os arquivos, Daniel — disse Cazalet. — E vá para Londres assim que puder. — Ele olhou na direção de Kate. — Algo me diz que temos menos tempo do que imaginamos.


Kate Rashid e seu primo se sentaram em outro canto do restaurante.

— Cigarro, Rupert.

Ele lhe deu um Marlboro e acendeu um isqueiro de cobre feito com um cartucho de AK.

— Aqui, querida.

Ela se inclinou até o isqueiro.

— Onde conseguiu esse isqueiro, Rupert? Nunca lhe perguntei.

— É um suvenir da Guerra do Golfo. Estava emboscado, numa situação danada de ruim, e peguei um AK iraquiano. Ele me salvou a pele até que a ajuda chegou... por mais engraçado que pareça, na pessoa do primeiro-sargento Clancy Smith. Depois disso, chequei o fuzil e vi que só me restava um cartucho no pente.

— Foi por pouco.

— Foi mesmo. Meti o cartucho no bolso e mandei um joalheiro da Bond Street transformá-lo em isqueiro. — Ele o apagou. — Conhece aquela expressão, Kate? Memento mori?

— Claro, Rupert, querido. Lembrança da morte.

— Exatamente. — Ele acendeu e apagou o isqueiro novamente. — Eu devia ter morrido umas três ou quatro vezes, Kate, mas não morri. Por quê? — Ele sorriu. — Não sei, mas isso me faz lembrar.

— Você ainda vai à igreja, ainda se confessa?

— Não. Mas Deus sabe e entende tudo. Não é isso que dizem, Kate? Que Ele tem uma capacidade infinita de perdão? — Ele sorriu novamente. — E se alguém precisa de perdão infinito, sou eu. Mas você sabe disso. Provavelmente sabe tudo sobre mim. Aposto que meia hora depois de nos conhecermos naquela recepção em Londres você mandou seu pessoal de segurança fazer um levantamento completo a meu respeito.

— Vinte minutos, querido. Você era bom demais para ser verdade. Uma bênção de Alá. Eu tinha perdido minha mãe e meus três irmãos, e então lá estava você, um Dauncey que eu nem sabia que existia. E graças a Deus por isso.

Rupert Dauncey sentiu um aperto no coração e segurou a mão de Kate.

— Você sabe que eu mataria por você, Kate.

— Sim, sei, querido. Talvez já tenha até feito.

Ele sorriu e colocou o cigarro na boca.

— Eu te amo dos pés à cabeça.

— Mas não há espaço para mulheres na sua vida, Rupert.

— Sim, eu sei. Não é uma pena? Mas ainda assim te amo. — Ele se aprumou. — E então, em que pé estamos?

— Olhe para o senador Quinn. É muito interessante como ele parece desconfortável com Cazalet. Antes, quando eu o queria morto, era porque o pessoal dele estava descobrindo coisas demais sobre minhas atividades. Agora estou me perguntando se ele não está envolvido em algo ainda maior.

— Como?

— Não sei. Mas acho que seria interessante descobrir. Rupert, sabia que ele tem uma filha? O nome dela é Helen. É aluna de Oxford.

— Sim? E?

— Quero que você a cultive.

— Não estou entendendo.

— Bem, você sabe de meus pequenos trabalhos de caridade, não sabe? Acredito em apoiar grupos minoritários oprimidos. Como a Sociedade de Estudos Bélicos, a Frente Unida Anárquica, o Exército de Libertação Nacional de Beirute. Eles são um tanto selvagens, mas... bem-intencionados.

— Bem-intencionados o cacete.

— Rupert, não seja grosseiro. Bem, em todo caso o programa educativo da Sociedade de Estudos Bélicos opera em meu castelo, Loch Dhu, no leste da Escócia, uma construção muito antiga, mas agradável e remota. O programa oferece cursos de aventura para jovens. Ensina a eles como se protegerem. E para alguns dos mais velhos... o programa ensina um pouco mais.

— Como em Hazar?

— Muito bom, Rupert. O Fundo Infantil do Exército de Libertação Árabe já é um assunto mais sério. Ele oferece treinamento paramilitar completo, gerido por mercenários. Alguns deles são irlandeses, como você. Muitos deles estão por aí desde que o processo de paz começou.

— Então o que você quer de mim?

— Quero que supervisione Loch Dhu. Fique de olho no lugar, certifique-se de que ninguém está espionando. E quero que mantenha contato direto com a Sociedade de Estudos Bélicos.

— Por quê?

— Porque tenho a sensação de que veremos o senador Quinn novamente, e mais cedo do que imaginamos. Rupert, você sabia que a Sociedade de Estudos Bélicos tem filiais em quase todas as universidades? E que seus integrantes são filhos de afluentes que querem destruir o capitalismo? — Ela riu.

— E o que isso tem a ver com Quinn?

— Porque, meu querido Rupert... Helen Quinn é integrante da filial de Oxford.


Na manhã seguinte, em Londres, o major Roper apareceu no chalé de Sean Dillon em Stable Mews. Roper era um jovem estranho numa cadeira de rodas automática que era a última palavra em tecnologia. Usava uma jaqueta comprida, os cabelos desciam até os ombros, e seu rosto era uma máscara dura com o tipo de tecido cicatrizado que só é formado por queimaduras. Importante especialista antibombas nos Royal Engineers, condecorado com a Cruz de São Jorge, sua carreira extraordinária fora terminada pelo que ele chamava de “uma bombinha boba” num pequeno carro familiar em Belfast, cortesia do PIRA, o IRA Provisório.

Ele sobreviveu e descobriu uma carreira inteiramente nova na informática. Agora, se alguém quisesse qualquer informação no ciberespaço, por mais enterrada que estivesse, era a Roper que recorria.

Ferguson e Dillon estavam lá para recebê-lo.

— Sean, seu sacana! — cumprimentou Roper.

Dillon sorriu e o ajudou a subir o degrau.

— Você parece ótimo.

— Hannah não disse muita coisa. Mas me mandou um arquivo. Vamos entrar em guerra novamente?

— Diria que é uma possibilidade.

Ele acompanhou Roper ao longo do corredor e eles acharam Ferguson ao telefone. Ferguson colocou o fone no gancho. — Major, como vão as coisas?

— Vão bem, general. Tem trabalho para mim?

Ferguson fez que sim com a cabeça.

— Se temos!


Durante meia hora Roper ouviu atentamente os antecedentes do caso, até que Dillon finalmente disse: — E o que queremos que você faça é checar esses grupos para quem ela está doando dinheiro. Se ela tem um ponto fraco, pode ser isso. Não sei exatamente o que estamos procurando... — ele sorriu — ... mas saberemos quando você encontrar.

Roper disse: — Vocês acham que ela sabe que o pessoal de Quinn a checou meses atrás. Isso significa que ela teve tempo de tentar cobrir seus rastros.

— Está dizendo que não sabe se vai achar alguma coisa? — perguntou Ferguson.

O tecido cicatrizado no rosto de Roper se moveu para formar alguma coisa semelhante a um sorriso.

— Eu disse que ela teve tempo de tentar cobrir seus rastros. Não disse que ela conseguiu.


5


LONDRES-OXFORD-HAZAR

 


O apartamento de Roper na Regency Square ficava no térreo, com entrada particular e uma rampa na porta para facilitar a movimentação de de sua cadeira de rodas. O lugar inteiro, incluindo a cozinha e o banheiro, com seu um sistema especial de banho e toalete, fora projetado não apenas para uma pessoa paraplégica, como também para alguém determinado a se virar sozinho. No que deveria ser uma sala de estar havia um laboratório de informática e uma bancada de trabalho, e o equipamento ali era de ponta, parte dele secreto, obtido não apenas porque ele era major na lista de reservistas do Exército, mas porque Ferguson mexera os pauzinhos para ele.

Três dias depois que Quinn encontrara o presidente, a campainha da porta tocou às dez da manhã. Roper apertou um botão e, momentos depois, Ferguson, Dillon e Hannah Bernstein entraram.

— E então, o que você conseguiu? — perguntou Ferguson a Roper.

— Bem, como você disse, o Fundo Educacional Rashid derrama dinheiro numa variedade incrível de causas. A lista é tão longa quanto seu braço. A maioria dessas atividades parece legítima, mas não todas. O Fundo Infantil em Beirute, por exemplo, é definitivamente terrorista. E ela tem outros fundos espalhados por Síria, Iraque, Kuwait e Omã. Ainda estou trabalhando neles, mas aposto qualquer coisa com você que alguns também são fachadas terroristas.

— O que diabos ela está fazendo? — perguntou Ferguson.

— Ela está consolidando seu poder — disse Dillon. Estabelecendo elos com todos os principais líderes árabes. Obtendo influência pela paz ou pela violência, dependendo do que convier melhor a suas necessidades particulares.

Roper fez que sim com a cabeça.

— E não esqueça do tamanho dos bens dela tem no Oriente Médio. A Rashid Investments controla um terço de toda a produção de lá.

— Deus do céu — grunhiu Ferguson. — Um terço da produção do Oriente Médio...

Dillon perguntou a Roper.

— E aqui em casa? Ela não fez acordos com o IRA Provisório, os Combatentes da Liberdade de Ulster ou qualquer coisa assim?

— Não, mas há muitas organizações subalternas, como o Exército do Povo, a Liga Marxista-Socialista, o Grupo de Libertação Nacional, os Anarquistas Unidos, e assim por diante... e todas as contribuições são apresentadas como doações educacionais.

— E no próximo distúrbio em Londres, quantos dos membros estarão lá? — perguntou Hannah.

Roper encolheu os ombros.

— Ela é muito esperta. Tudo é feito aberta e legalmente. Muita gente até aplaudiria o que ela está fazendo.

— Na superfície, talvez — disse Ferguson. — Mas sei, ela é esperta. E quanto à Sociedade de Estudos Bélicos?

— A despeito do nome, parece inócuo. Sua maior característica é um tipo de programa de educação no campo para crianças de doze a dezoito anos. Cavalgada, canoagem, caminhada, alpinismo.

— Gostaria de saber o que eles fazem quando ficam um pouco mais velhos — disse Dillon.

— Seu QG fica no leste da Escócia, numa cidade chamada Moidart, no Castelo Loch Dhu. Sim, pertence à condessa.

Ferguson ficou pasmo.

— Mas já estive lá. Todos nós estivemos.

Até Roper estava surpreso.

— O que quer dizer?

Foi Dillon quem respondeu: — Anos atrás precisamos lidar com um sujeito muito mau chamado Carl Morgan, que alugou esse castelo por algumas semanas. O general, Hannah e eu o tiramos de Ardmurchan Lodge, no outro lado do lago.

Hannah virou-se para Ferguson. — Mas lady Katherine é a dona.

— Na verdade, é um pouco mais complicado que isso — disse Roper. — Quando sir Paul Dauncey recebeu o título de conde de Loch Dhu de James I, o castelo já era velho. Foi reconstruído em estilo vitoriano por um dos condes posteriores, começando em 1850, mas a família quase não o usava. Eles preferiam o Solar Dauncey. Mais recentemente eles o alugaram à família Campbell por cinquenta anos. Por ocasião da morte de lady Katherine Rose, cinco anos atrás, a propriedade reverteu para os Daunceys.

— Ou, desde o casamento da mãe da Kate, para os Rashids — disse Dillon.

— Carl Jung disse certa vez que existe uma coisa chamada sincronismo — disse Hannah. — Um evento que ultrapassa a mera coincidência e faz você achar que um sentido mais profundo está envolvido.

— Sim. Arrepiante, não é? — disse Dillon. — Kate Rashid esperando que aparecêssemos até agora.

— Não diga bobagem! — A exclamação veio de Ferguson. — Mas, vocês sabem, acho que é hora de mexermos um pouco o caldo.

— Como assim, sir? — indagou Hannah.

Ferguson disse a Dillon:

— Sean, acho que é hora de “nós sabemos que eles sabem e eles sabem que nós sabemos”.

— E o que conseguiríamos com isso? — indagou Dillon.

— Muito bem. Agora, isto é superconfidencial e apenas para seus ouvidos. Whitehall provavelmente me comeria vivo por contar a vocês, mas nos últimos anos Kate Rashid realizou... algum trabalho para o governo. Ela tem sido emissária secreta do Foreign Office e do primeiro-ministro.

— O quê?!? — exclamou Hannah. — Não posso acreditar!

— Podemos saber quem está no outro lado? — indagou Dillon.

— Saddam Hussein.

— Deus todo-poderoso... — gemeu Hannah.

— Ela conhece bem Saddam, e ele é um grande admirador dela.

— Ela não dá ponto sem nó, não é verdade? — comentou Roper. — O que você está dizendo é que Kate tem protetores, e que teríamos dificuldade em fazer com que certas pessoas nos altos escalões do governo pensem mal dela.

— Sim, é exatamente isso que estou dizendo — admitiu Ferguson.

— E você gostaria de que Kate Rashid soubesse que você está no caso?

— Exato. — Ele se virou para Hannah Bernstein. — Você e Dillon: quero que vão ao Castelo Loch Dhu, e vejam o que podem descobrir.

— Quando, sir?

— Agora mesmo. Telefone para Camp Farley. Diga a Lacey e Parry para preparar o Gulfstream. Se bem me lembro, há uma pista abandonada da RAF perto do lago. Fica a apenas setecentos e vinte quilômetros daqui, vocês podem estar lá em uma hora e meia.

— Precisaremos de transporte, sir.

— Então telefonem para a base de resgate aeronaval em Oban. Digam para mandarem um carro de placa não registrada. Superintendente, pode usar seu celular do carro.

Ele quase os empurrou para fora da sala.

Dillon sorriu para Roper: — Agora você sabe como ganhamos a guerra.

— Que guerra? — perguntou Roper.


No Camp Farley, a pequena instalação da RAF usada para operações secretas, foram recebidos pelo líder de esquadrão Lacey e pelo tenente de voo Parry. Os dois eram detentores da Cruz da Força Aérea, devido a operações arriscadas em várias partes do mundo em benefício de Ferguson. Ambos usavam sobretudos azuis de aviador sem identificação de posto.

— Que bom ver você, Sean — disse Lacey. — Vai ser agitado?

— Provavelmente não. Mas nunca se sabe, não é?

— Superintendente, vamos usar o Lear, porque ele não tem o símbolo da RAF. Você disse que queria o máximo de discrição.

— Certo. Vamos andando.

Ela subiu a escada, Dillon atrás dela, e os pilotos os acompanharam. Lacey entrou na cabine e Parry fechou a porta. Um minuto depois, corriam pela pista e decolavam, subindo rápido a dez mil metros.

— Por que a ênfase no anonimato quando Ferguson quer que Kate saiba que somos nós? — perguntou Dillon.

— Somos uma organização secreta e queremos continuar assim. Um avião com o símbolo da RAF e dois oficiais de uniforme podem formar a base de uma queixa formal por parte da condessa.

— Ah, Kate jamais faria isso. Há regras, mesmo no nosso ramo.

— Você nunca obedeceu a uma única regra em sua vida.

Ele acendeu um cigarro.

— As que me agradam eu obedeço. Como está se sentindo ultimamente, Hannah?

No ano anterior, no conflito com os Rashids, um atirador árabe acertara três tiros em Hannah.

— Não venha com frescura, Dillon. Estou aqui, não estou?

— Ah, que mulher durona que você é.

— Oh, cale a boca.

Parry tinha deixado alguns jornais nas poltronas. Ela pegou o Times e começou a ler.


Ao mesmo tempo, outras coisas aconteciam no mundo. No Kosovo, Daniel Quinn entrava na aldeia de Leci num Land Rover de propriedade do regimento de cavalaria britânico. Um soldado estava em pé atrás de uma metralhadora montada num tripé e outro dirigia, enquanto Quinn, em jaqueta de combate, estava no banco traseiro ao lado de um cabo do regimento — o equivalente a sargento em outras unidades — chamado Varley.

Começou a chover. Havia fumaça no ar, levantada pelas casas que ainda ardiam. Não havia nenhum sinal da população.

— Parece que aquela mesma coluna albanesa esteve aqui também — disse Varley.

— Será que estamos com problemas?

— Provavelmente não, enquanto exibirmos a Union Jack — disse Varley, apontando com a cabeça a bandeira inglesa, pendurada na lateral do veículo.

— Notei que não exibem o símbolo das Nações Unidas nem suas boinas azuis.

— Temos nosso próprio estilo. Funciona melhor. Eles não pensam em nós como partidários de algum lado.

— Faz sentido.

Ele escutou o som das hélices de um helicóptero acima de sua cabeça, invisível em meio à névoa e à chuva. Aquilo o fez lembrar do Vietnã, e trouxe de volta o cheiro inconfundível da carne queimada que, uma vez experimentado, jamais era esquecido. Uma centena de lembranças, adormecidas há anos, começou a aflorar à mente de Quinn, causando-lhe uma angústia quase insuportável.

O motorista freou e desligou o motor. Os únicos sons que se ouviam agora eram o da chuva e o do helicóptero se afastando.

— Corpos, cabo.

Varley se levantou, e Quinn também. Havia meia dúzia deles: um homem, uma mulher e três crianças, e outro cadáver de bruços a alguns metros de distância.

— Parece uma família metralhada junta. — Varley balançou a cabeça. — Desgraçados. Achei que já tinha visto coisas ruins na vida até conhecer este lugar maldito.

Ele se virou para o soldado diante da metralhadora e disse: — Cubra-nos enquanto os movemos. Não podemos passar por cima deles.

— Eu ajudo — disse Quinn.

Ele, Varley e o motorista caminharam até os corpos. Para Quinn agora aquilo era o Vietnã todo de novo, como se nada tivesse acontecido nesse meio tempo.

Ele pegou uma das crianças, um menino que aparentava oito anos, e o levou até o lado da rua, deitando-o encostado num muro. Varley e o soldado o seguiram, cada um carregando uma criança.

Varley e o soldado pegaram juntos o homem, carregaram-no até a parede, e então voltaram até a mulher.

Ele respirou fundo e caminhou até o outro cadáver, que usava botas, calça larga, uma velha jaqueta de combate e um gorro de lã. Ele virou o cadáver e recuou com horror ao fitar o rosto enlameado de uma jovem. Os olhos estavam abertos, fixos na morte. Ela talvez tivesse 21 ou 22 anos. Podia ser sua própria filha.

— Precisa de ajuda, senador? — perguntou Varley.

— Não, eu me viro sozinho.

Quinn se ajoelhou, tomou a garota nos braços e se levantou. Caminhou até o muro e a sentou, apoiando suas costas na parede. Pegou um lenço no bolso e cuidadosamente limpou a lama do rosto da jovem, fechou suas pálpebras, levantou-se e se afastou a passos trôpegos, apoiou-se no muro e vomitou violentamente.

O soldado com Varley disse: — Malditos políticos. Talvez lhes faça bem ver um pouco de merda de verdade para variar.

Varley agarrou o braço do soldado e apertou com força. — Trinta anos atrás, enquanto servia com as Forças Especiais no Vietnã, aquele “maldito político” ganhou a Medalha de Honra do Congresso. Por que não cala a boca e nos tira daqui?

O soldado se sentou atrás do volante, Varley e Quinn se acomodaram no banco traseiro e o veículo começou a andar. O cabo do regimento de cavalaria disse: — Sabe o que a gente faz em Londres, não sabe, senador? A cavalaria britânica? Nós cavalgamos usando armaduras, elmos com plumas e empunhamos sabres, e os turistas nos adoram. O público inglês também. Eles acham que somos soldadinhos de brinquedo. Então por que servi nas Malvinas aos dezenove anos, e depois na Guerra do Golfo e na Bósnia, e agora estou nesta pilha de merda?

— Então o público britânico está mal informado. — Varley tirou do bolso uma meia garrafa de conhaque. — Quer um pouco, senador? É estritamente contra o regulamento, mas às vezes tem valor medicinal. É bom até para o estômago.

A bebida o queimou todo por dentro. Quinn tossiu e devolveu a garrafa.

— Desculpe o que aconteceu lá atrás — disse Quinn. — Acho que decepcionei vocês.

— Acontece com todos nós, sir. Não se preocupe com isso.

— É que tenho uma filha, Helen. Aquela moça tinha mais ou menos a idade dela.

— Então acho que merece mais um gole — disse Varley e passou-lhe a garrafa de volta.

Quinn tomou mais um gole e pensou na filha.


Que nesse momento estava sentada num pub em Oxford, o Lion. O pub, muito popular entre estudantes, ficava na mesma rua da velha escola onde a Sociedade de Estudos Bélicos mantinha seu QG em Oxford. Helen estava sentada num canto com um estudante jovem, de cabelos compridos, chamado Alan Grant, tomando vinho branco seco e rindo muito. Grant estava fazendo um truque para ela. O irmão dele era especialista em segurança e lhe mandara um novo brinquedo: uma caneta que funcionava também como minigravador. Grant vinha se divertindo gravando pedacinhos de conversa e tocando-os, com comentários apropriadamente cáusticos. Helen achou hilário.

No outro lado do bar, Rupert Dauncey estava sentado com um professor pouco importante em Oxford chamado Henry Percy, indivíduo volúvel, capaz de abraçar praticamente qualquer tipo de causa.

— Obrigado pelo cheque, sr. Dauncey. Nós na Sociedade de Estudos Bélicos estamos muitíssimo gratos pelo apoio contínuo oferecido pelo Fundo Educacional Rashid.

Rupert Dauncey achava que esse homem era um hipócrita e que boa parte do dinheiro ficava em seu bolso, mas decidiu continuar o jogo.

— Estamos contentes por ser úteis. Mas me diga, o que acontecerá no sábado? Algum tipo de manifestação em Londres? Ouvi dizer que vocês vão participar.

— Vamos, com certeza. Dia da Liberdade na Europa! A Frente Unida Anarquista organizou a manifestação.

— Verdade? Pensei que já houvesse liberdade na Europa. Então seus alunos de bochechas rosadas vão participar.

— É claro.

— Você sabe que a polícia não gosta de manifestações em Whitehall. Elas se transformam em tumultos com muita facilidade.

— A polícia não vai nos deter. A voz do povo será ouvida!

— Sim, claro — concordou Rupert, secamente. — Vai liderar essa coisa ou apenas participar da marcha?

Peter mexeu-se na cadeira, subitamente desconfortável. — Na verdade, bem, não posso estar aqui no sábado... Tenho um compromisso anterior.

Aposto que você tem, pensou Rupert Dauncey, mas sorriu.

— Me faça um favor. Aquela moça bonita ali... eu a ouvi falando quando passei. Acho que é americana. É uma ativista?

— Sim, Helen Quinn. Aluna de Rhodes. Mocinha encantadora. O pai dela é senador.

Rupert sabia muito bem quem era ela, sabia até o nome do rapaz. Ele disse: — Quando estivermos saindo, apresente-me a ela, sim? Adoro encontrar conterrâneos no exterior.

— É claro.

Percy se levantou e caminhou na frente até a mesa dos dois jovens.

— Olá, Helen, quero que conheça Rupert Dauncey, conterrâneo seu.

Ela sorriu.

— Oi, de onde você é?

— Boston.

— Eu também, que legal. Este é Alan Grant.

Grant, que obviamente viu a coisa toda como uma intrusão, agora estava emburrado. Ele ignorou Dauncey.

Rupert continuou: — Você estuda aqui?

— Na St. Hugh's.

— Uma faculdade excelente, pelo que me disseram. O professor Percy me disse que vai participar da manifestação no sábado.

— Com toda certeza — disse, cheia de entusiasmo.

— Bem, tome cuidado, sim? Odiaria que alguma coisa acontecesse com você lá. Bem, até a vista. Espero vê-la de novo.

Rupert saiu com Percy, e Grant disse a Helen, a voz carregada do sotaque cockney: — Mas que sujeito metido! Quem ele pensa que é?

— Eu o achei agradável.

— Quem achou isso foi a mulher em você. — Ele tocou um botão no bolso e a voz de Rupert soou: — Odiaria que alguma coisa acontecesse com você lá. Eu sei o que ele gostaria que acontecesse com você — ele resmungou. — Queria é dar um soco no nariz dele.

— Ah, Alan, pare com isso.

Francamente, às vezes o Alan passa das medidas, pensou Helen.


Voando para Moidart, Hannah Bernstein e Dillon sobrevoaram o Lake District, o estuário Solway e os montes Grampian, e logo podiam ver as ilhas Eigg e Rum e, pelas janelas, a ilha Skye ao norte. Desceram até um velho aeroporto da Segunda Guerra Mundial, com alguns hangares deteriorados e uma torre de controle.

Um carro federal estava parado diante da torre, um homem de boné e terno de tweed em pé ao lado. Lacey taxiou o Lear na direção dele e desligou os motores.

Parry abriu a porta, baixou a escadinha e Lacey desceu na frente. O homem se apresentou.

— Líder de Esquadrão Lacey, sir?

— Sou eu.

— Sargento Fogarty. Mandaram-me de Oban.

— Bom homem. A dama é a detetive-superintendente Bernstein, da Scotland Yard. Ela e o sr. Dillon têm assuntos importantes para cuidar no Castelo de Loch Dhu. Leve-os até lá e siga as instruções da superintendente ao pé da letra. Depois traga-os de volta para cá.

— Claro, sir.

Lacey virou-se para os dois. — Vejo vocês mais tarde.

Chegaram às imediações do castelo em vinte minutos. A construção ainda era uma visão tão imponente quanto eles lembravam, e ficava bem afastado da estrada. Os muros tinham três metros de altura, e fumaça subia coleante da chaminé da cabana. Os portões estavam fechados. Dillon e Hannah procuraram, mas não encontraram maçanetas, e quando empurraram os portões, nada aconteceu.

— Eletrônico. Um aperfeiçoamento moderno.

A porta da frente se abriu e um homem de rosto duro e ossudo apareceu. Usava jaqueta de caça e carregava uma escopeta de cano serrado embaixo do braço esquerdo.

— Boa tarde — disse Hannah.

O homem, decididamente inamistoso, disse num sotaque escocês rude: — Querem o quê?

— Modere seu tom — disse-lhe Dillon. — Tenho uma dama comigo. E você, filho, quem é?

O homem se empertigou, como que sentindo problemas. — Meu nome é Brown. Sou o caseiro. Então, querem o quê?

— O sr. Dillon e eu visitamos esta região alguns anos atrás, para caçar — disse-lhe Hannah. — Alugamos a cabana Ardmurchan.

— Sabemos que agora estão promovendo cursos de aventura para jovens — disse Dillon. — Mas estávamos pensando se a cabana Ardmurchan ainda está disponível. Meu patrão, o general Ferguson, adoraria alugá-la novamente para caçar.

— Bem, a cabana não está disponível para aluguel, e a temporada de caça já acabou.

— Não o tipo de caça que nos interessa — disse Dillon amistosamente.

Brown tirou a escopeta de sob o braço.

— Acho melhor vocês irem embora.

— Se eu fosse você, tomaria cuidado com esse troço — disse Hannah. — Sou agente de polícia.

— Agente de polícia, o caralho. Vão embora.

Ele armou o cão da escopeta.

Dillon levantou a mão.

— Não queremos problemas. Obviamente, a cabana não está disponível. Vamos embora, Hannah.

Voltaram para o carro.

— Dirija até sair do campo de visão do portão — instruiu Dillon a Fogarty.

— O que aconteceu lá é assunto sigiloso, entendeu, sargento? — disse Hannah.

— Claro, ma'am.

— Ótimo. Então ande com o carro — disse Dillon. Vou pular o muro e você pode me ajudar.

O carro parou e saltaram. Fogarty juntou as mãos e Dillon apoiou o pé esquerdo nelas. O sargento era forte e levantou Dillon com facilidade. Dillon segurou-se no muro e o escalou. Caiu sobre as árvores no outro lado, desceu para o chão e se moveu até a cabana.


Brown estava na cozinha, escopeta na mesa, discando um número num telefone embutido na parede, quando ouviu um crepitar baixo e sentiu uma corrente de vento. Soltou o fone, esticou o braço até a escopeta e então viu a Walther na mão direita de Dillon.

— Largue isso — instruiu Dillon. — Eu podia ter atirado em você, se quisesse.

— O que quer? — perguntou Brown.

— Estava telefonando para a condessa de Loch Dhu em Londres, não estava?

— Não sei do que está falando.

Dillon golpeou violentamente o rosto do homem com a pistola.

— Não estava? — repetiu.

Brown cambaleou para trás, sangue no rosto.

— Sim, porra, eu estava. O que você quer?

— Informação. Sociedade de Estudos Bélicos. Grupos escolares, certo? Garotos passando uma semana agradável no campo, fazendo alpinismo, canoagem no lago, caminhadas ecológicas. É isso que vocês oferecem?

— Exatamente.

Brown tirou um lenço do bolso e limpou o sangue no rosto. — E quanto aos outros cursos para os mais velhos?

— Não sei do que está falando.

— Os rapazes e moças que escondem os rostos com capuzes de tricô e tomam parte em tumultos. Deixe-me adivinhar, vocês lhes ensinam coisas interessantes, como fazer bombas caseiras e atacar policiais montados.

— Você está maluco.

Dillon golpeou-o de novo.

— Não posso ajudar! — gritou Brown, o rosto inchado. — Minha vida está em jogo!

— Mesmo?

Dillon agarrou-o pela garganta, empurrou-o sobre a mesa e encostou o cano da Walther na lateral de seu joelho direito.

— Que tal jogar com seu joelho? Você tem dez segundos para decidir.

— Não, não. Está bem. Vou dizer. É verdade. Eles fazem cursos de treinamento, exatamente como você disse. Eles vêm de todas as partes do país, às vezes do exterior. Mas tudo o que eu faço é cuidar da casa e do terreno. É tudo o que sei, eu juro!

— Ah, duvido muito. Mas está bem. Tudo de que precisava era de sua confirmação. Não foi tão ruim, foi? Agora, se você fizer a gentileza de abrir o portão para mim, vou embora.

Dillon pegou a escopeta e a jogou pela porta aberta, em alguns arbustos.

— Sugiro que depois você dê aquele telefonema para a condessa — continuou Dillon. — Tenho certeza de que ela vai ficar muito interessada.

Brown capengou até a porta da frente, apertou um botão numa caixa preta, e abriu a porta. Lá fora, os portões principais começaram a se abrir. Dillon parou e se virou.

— Não se esqueça. Dillon esteve aqui, e mandou um beijo para ela.

Saiu do castelo e correu até o carro. Sentou-se ao lado de Hannah e disse a Fogarty: — Vamos voltar para o avião.

O carro começou a andar e Hannah perguntou: — Não deixou ninguém morto lá atrás, deixou?

— E eu lá seria capaz de uma coisa dessas? Nosso caseiro acabou se revelando um homem muito razoável. Vou contar tudo no avião.


Brown, entre a cruz e a caldeirinha, seguiu o conselho de Dillon e telefonou para Kate Rashid em sua casa de Londres, mas descobriu que ela tinha saído, o que o fez se sentir ainda pior. Desesperado, o rosto doendo, tentou o número do celular que recebera para emergências. Kate e Rupert estavam jantando no The Ivy. Ela ouviu o relato nervoso de Brown.

— Você ficou muito machucado? — perguntou Kate, bem calma.

— Vou precisar de pontos. O filho da puta amassou minha cara com uma Walther.

— Bem, isso é típico dele. Repita o que ele disse.

— Alguma coisa como... diga que Dillon esteve aqui e mandou um beijo para ela.

— Esse é o meu Dillon. Vá a um médico, Brown. Mais tarde nos falamos. — Ela pousou o celular na mesa.

O garçom estivera aguardando em pé, respeitosamente. Quando Rupert meneou a cabeça, ele serviu champanhe nas suas taças e se retirou.

— Aos seus olhos brilhantes, prima — brindou Rupert. — Por que, pelo pouco que ouvi, já estou farejando problemas?

— O que você está farejando é Sean Dillon — disse Kate. Ela tomou um pouco de champanhe e contou o relato de Brown. — Qual é a sua opinião, querido?

— Bem, obviamente, estavam lá a mando de Charles Ferguson. Nem tentaram dissimular. Seu único motivo para visitar Loch Dhu foi nos deixar saber que eles sabem.

— Que menino esperto você é. Mais alguma coisa?

— Sim. De certa forma, ele está chamando você para brigar.

— Claro que está. Ah, claro, é o general Ferguson quem está no comando, mas tudo sempre acaba nas mãos de Dillon. Ele passou todos aqueles anos no IRA, e o exército e a RUC1 jamais conseguiram botar as mãos no desgraçado.

— Ele é muito esperto. E agora, o que fazemos?

— Vamos visitá-lo esta noite. É hora de vocês dois se conhecerem.

— E como vamos fazer isso?

— Como você disse, ele está me chamando para brigar. É um convite, e sei exatamente onde encontrá-lo.

 

________________

1 Royal Ulster Constabulary (RUC), força policial da Irlanda do Norte, criada em 1922. A RUC teve caráter paramilitar até 1970, quando foi remodelada segundo as linhas das forças policiais da Grã-Bretanha.


6

 

 

Naquela tarde, no apartamento de Ferguson, o general estava sentado diante da lareira, ouvindo o relatório de Hannah Bernstein sobre a viagem.

— Excelente — avaliou. — Você parece ter se comportado com sua eficiência rude de sempre, Sean.

— Bem, o homem pediu.

— E então, o que acontece agora?

— Ela não vai deixar isso barato. É como num daqueles velhos filmes de faroeste. O vilão sai do salão para encontrar o herói em um duelo na rua.

— Paralelo interessante.

— Ela não vai resistir a um encontro cara a cara.

— No lugar onde nos encontramos tantas vezes antes: o piano-bar no Dorchester.

— Quando?

— Esta noite. Ela vai estar lá, me esperando.

Ferguson assentiu positivamente e disse: — Você pode estar certo. É melhor eu ir com você.

— E quanto a mim, sir? — indagou Hannah.

— Não desta vez, superintendente. Você teve um dia estafante. Pode tirar uma noite de folga.

Ela olhou de cara feia para o chefe.

— Passei por um exame médico muito exigente antes da Divisão Especial permitir que eu voltasse ao trabalho. Estou bem, sir, realmente estou.

— Sim, mas eu ainda prefiro que você tire a noite de folga.

— Muito bem, sir — disse, relutante. — Se não vai precisar mais de mim, vou voltar ao escritório e cuidar de algumas coisas pendentes. Está de saída, Sean?

— Sim, e você pode me dar uma carona até Stable Mews.

Ferguson disse: — Que tal às sete, Sean?

— Por mim está ótimo.

Hannah o deixou no chalé, mas Dillon não entrou. Aguardou até que o Daimler dobrasse a esquina, levantou a porta da garagem, entrou no velho Mini Cooper que mantinha como carro de passeio, ligou a ignição e saiu.

Estava pensando em Harry Salter. Salter era um gângster da velha guarda, agora razoavelmente respeitável, mas não completamente, e ele e seu sobrinho, Billy, tinham estado tão envolvidos quanto todo mundo no conflito que levara à morte dos irmãos de Kate Rashid.


O tráfego de Londres estava tão ruim sempre, mas Dillon finalmente chegou à Wapping High Street, entrou numa alameda estreita entre armazéns e saiu num cais à beira do Tâmisa. Estacionou diante do Dark Man, o pub de Salter, o letreiro exibindo um indivíduo sinistro num sobretudo negro.

O bar principal era bem ao estilo vitoriano, com espelhos de molduras douradas atrás do balcão de mogno, e bicas de cerveja em porcelana. As garrafas dispostas contra o espelho pareciam cobrir todas as escolhas concebíveis mesmo para o alcoólatra mais irremediável. Dora, a atendente principal, estava sentada numa banqueta lendo o Evening Standard de Londres.

Àquela hora da tarde, antes que o movimento esquentasse, o bar estava vazio, exceto pelos quatro homens que jogavam pôquer numa mesa de canto. Eram Harry Salter, seu sobrinho, Billy, Joe Baxter e Sam Hall.

Harry Salter baixou suas cartas.

— Não estão nada boas para mim — disse ele, então levantou os olhos, viu Dillon e sorriu.

— Seu sacana irlandês! Que bons ventos o trazem?

Billy se virou na cadeira e um sorriso iluminou seu rosto.

— Oi, Dillon. Que bom te ver. — E então parou de sorrir. — Problemas?

— Como adivinhou?

— Porque você e eu já fomos ao inferno e voltamos tantas vezes que perdi a conta. Agora já vejo os sinais. O que há?

Percebendo o ânimo na voz do rapaz, Dillon disse: — Ainda vou ser sua desgraça, Billy. Você nunca esteve tão animado para se colocar em perigo. Lembra quando citei seu filósofo favorito? “A vida sem ação e paixão não vale a pena de ser vivida”?

— Eu disse que para mim isso significava que não vale a pena viver sem correr riscos. E então, o que está havendo?

— Kate Rashid.

Billy parou de sorrir. Todos eles pararam.

— Acho que isso pede uma bebida — disse Harry. — Dora, Bushmills.

Dillon acendeu um cigarro e Billy disse: — Vamos ouvir.

— Lembra do funeral de Paul Rashid, Billy?

— Claro. Como esquecer?

— Lembra que você perguntou “e então, acabou?”, e eu respondi “acho que não”. E então, quando esbarramos com Kate Rashid no Dorchester, ela sentenciou todos nós à morte.

— Bom, ela pode tentar — disse Harry. — Como eu disse a ela naquele dia, tem gente tentando me apagar há quarenta anos e ainda estou aqui.

Billy perguntou: — O que aconteceu, Dillon? Conte tudo.

Dillon engoliu seu uísque e contou tudo a eles. Tinham todos trabalhado com Blake Johnson no passado, sabiam tudo sobre o Porão, de modo que não havia motivo para esconder nada. Terminou contando o que acontecera em Loch Dhu e o que pretendia fazer.

— E você acha que ela estará lá esta noite? — perguntou Harry Salter.

— Tenho certeza absoluta.

— Então eu e Billy também estaremos lá. E vamos tomar mais uma bebida por causa disso — acrescentou e chamou Dora.


Um pouco mais tarde, Dillon tocou a campainha na casa de Roper. O major disse pela caixa de voz: — Quem é?

— É Sean, seu velho camarada.

A tranca eletrônica zumbiu, e Dillon empurrou a porta.

Roper estava em sua cadeira de rodas diante dos computadores.

— Ferguson telefonou. Contou tudo sobre Loch Dhu, mas eu queria ouvir de você.

Dillon acendeu um cigarro e lhe disse: — A situação é bem parecida com o que achávamos.

— Imaginei.

— Descobriu alguma coisa nova?

— Bem, tentei determinar os padrões de viagem de Kate Rashid. Foi fácil. Ela usa um Gulfstream da companhia, e todo tráfego aéreo precisa ser registrado. Além disso, através do Controle de Passaportes e da Divisão Especial, tive como verificar quando ela esteve a bordo do Gulfstream.

— Algum padrão significativo?

— Não muito. Esteve em Loch Dhu apenas uma vez recentemente. Usou o mesmo aeroporto velho que vocês. Mas aqui tem uma coisa que pode lhe interessar: ela foi a Belfast no mês passado.

— Isso é interessante. Alguma ideia de aonde ela foi?

— Sim. Ela pousou no fim da tarde e reservou uma aterrissagem em Heathrow na tarde seguinte. Portanto, isso parecia indicar que ela passou a noite num hotel. Assim, comecei com o Hotel Europa, acessei todos os registros de reserva deles e encontrei o de Kate.

— E por que ela estava lá?

Roper meneou a cabeça.

— Isso eu não sei. Mas se ela for para lá de novo, avisarei. Você poderia segui-la. É claro que pode ser alguma coisa completamente legal. A Rashid Investments tem feito muitos negócios no Ulster desde o começo da paz.

— Paz? — Dillon riu alto. — Se você acredita nisso, acredita em qualquer coisa.

— Concordo. Afinal, eu mesmo desarmei cento e duas bombas. É uma pena que não tenham sido cento e três — acrescentou, dando um tapinha no braço da cadeira de rodas.

— Eu sei — disse Dillon. — Sabe, considerando que eu estava no outro lado, às vezes me pergunto por que você não guarda rancor de mim.

— Você nunca foi um bombista, Sean. E, em todo caso, gosto de você. — Deu de ombros. — A propósito, se quiser beber alguma coisa, tem uma garrafa de vinho branco na geladeira. É a única bebida que o médico permite que eu tome.

— Deus me perdoe, mas vou aceitar. — Ele tirou a garrafa da geladeira. — Deus do céu, Roper! O vinho é tão vagabundo que tem rosca no gargalo.

— Não reclame, sirva-se. Sou um oficial da reserva que vive de pensão.

Dillon obedeceu e colocou um cálice na mão direita de Roper enquanto o paraplégico digitava. Dillon tomou um gole e fez uma careta.

— Acho que esse troço foi feito num fundo de quintal. O que você está procurando agora?

— Rupert Dauncey. É uma figura e tanto, mas ainda não sabemos nada de concreto sobre ele. Tem uma espécie de rudeza, parece estar sempre tenso. Esse sujeito tem um lado escuro.

— Ah, todos temos um lado escuro. Tem como saber se ele estava com Kate na viagem à Irlanda?

— Há regras da Divisão Especial sobre passageiros de jatos executivos. Ele não estava a bordo. Não esqueça de que ele é relativamente novo no séquito de Kate.

— Acho que é, sim.

Roper bebeu um pouco de vinho.

— Em todo caso, ele estará a bordo amanhã às dez, com a condessa. Quer saber para onde estão indo?

— Para onde?

— Hazar.

— Hazar, hein? Isso significa aeroporto Haman. Sabe, é um velho aeroporto da RAF. Ele só tem uma pista, mas pode comportar qualquer aeronave, até um Hercules. Cheque uma coisa para mim. Na última vez em que estive lá, usamos uma empresa chamada Carver Air Transport. Veja se ainda estão operando.

Os dedos de Roper dançaram no teclado.

— Sim, estão. Ben Carver? Ex-líder de esquadrão da RAF?

— Esse sacana mesmo — confirmou Dillon. — E então, o que será que Kate está aprontando?

— Foi o que Ferguson perguntou quando contei a ele. Claro, ela pode ter uma dúzia de motivos diferentes para ir lá, mas Ferguson disse que ia contatar Tony Villiers e pedir que fique de olho nela.

O coronel Tony Villiers era o comandante da Patrulha Hazar.

— Isso deve ajudar. Villiers é bom, e ele não morre de amores pelos Rashids desde que esfolaram seu segundo em comando, Bronsby.

— É impressionante como essa gente toda se conhece. Agora vá embora, Dillon. Tenho trabalho a fazer.


Naquele momento, na fronteira entre Hazar e o Território Desocupado1, Tony Villiers estava acampado com uma dúzia de seus patrulheiros em três Land Rover. Uma fogueirinha feita com esterco seco de camelo aquecia uma panela de água.

Seus homens eram todos beduínos Rashid e todos aceitavam Kate Rashid como líder de sua tribo, mas o clã também vazava através da fronteira. Havia homens bons lá no Território Desocupado, mas também gente ruim, bandidos que cruzavam para Hazar por sua própria conta e risco, porque os patrulheiros tinham feito um juramento de sangue a Villiers. A honra era de suprema importância para eles — para não violar seu juramento, cada um mataria seu próprio irmão, se necessário.

Estavam sentados em torno do fogo, fuzis de assalto AK à mão, usando robes brancos sujos e bandoleiras cruzadas. Alguns fumavam e bebiam café, outros comiam tâmaras e carne seca.

Tony Villiers usava turbante e uniforme cáqui amarrotado, uma pistola Browning no coldre. Ele jamais se acostumara com tâmaras e comera apenas o conteúdo frio de uma lata grande de feijão. Um dos homens se aproximou com um copo de latão.

— Chá, Sahb?

— Obrigado — respondeu Villiers em árabe.

Recostou-se numa pedra, bebeu o chá preto amargo, fumou um cigarro e olhou para o Território Desocupado. Era uma faixa de terra disputada e absolutamente sem lei. Como alguém dissera uma vez, você podia matar o papa ali e ninguém poderia fazer nada. Por isso ele se mantinha em seu lado da fronteira sempre que possível.

Villiers, agora perto dos cinquenta, servira nas Malvinas e em cada guerrinha intermediária até Golfo e Saddam, e então fora destacado para Hazar. Era exatamente como nos velhos tempos, um oficial britânico comandando soldados nativos. Ele estava começando a ficar cansado daquilo.

— Hora de ir embora — disse baixinho.

Enquanto acendia outro cigarro, o celular no bolso esquerdo de sua camisa tocou.


O Codex Quatro não estava disponível no mercado. Fora desenvolvido para fins de espionagem em lugares onde era necessário segurança absoluta, e Villiers recebera o seu como um presente de Ferguson.

— É você, Tony? Aqui é Ferguson.

— Charles! Como estão as coisinhas na Defesa?

— Ligue o codificador.

Villiers apertou um botão vermelho.

— Pronto.

— Onde você está? — perguntou Ferguson.

— Não vai significar nada para você, Charles. Rochas Marama, bem na fronteira com o Território Desocupado. Estou patrulhando aqui com alguns homens.

— Soube que você tem um novo segundo em comando.

— Sim, mais um cornet, desta vez dos Life Guards. O nome dele é Bobby Hawk. Está com a patrulha dele agora, seguindo em outra direção. A que devo o prazer?

— Acabo de saber que Kate Rashid vai voar para aí amanhã.

— Bem, isso não é incomum. Ela está sempre vindo para cá.

— Eu sei, mas aconteceram algumas coisas engraçadas aqui. Estou com um pressentimento. Para onde ela costuma ir?

— Para terras em Haman, e em seguida segue de helicóptero para o oásis Shabwa no Território Desocupado. Mas você sabe disso. Você mesmo já esteve aqui.

— Está acontecendo alguma coisa aí, Tony?

— Eu não teria como saber. Ultimamente estou proibido por decreto do sultão de atravessar a fronteira para o Território Desocupado.

— Não acha isso estranho?

— Na verdade, não. Tudo bem, sei que Kate Rashid tem o sultão sob cabresto curto, e portanto presumo que foi ordem dela, não dele. Mas ela é a líder dos beduínos Rashid e aquilo é território Rashid. Fim de papo.

— É possível que esteja acontecendo alguma coisa lá?

— Preparação para uma revolução, você quer dizer? Ora, Charles, para que ela precisa de uma revolução? Ela tem tudo o que quer.

— Tudo bem, tudo bem, mas seja um bom camarada. Investigue para mim.

— Se eu fizer isso, Kate Rashid ficará sabendo em cinco minutos, mas tudo bem, farei o que puder. Estou indo mesmo para o porto amanhã.

— Obrigado, Tony. Mantenha contato.


Durante algum tempo, Villiers ficou sentado ali pensando no assunto, e então chamou: — Selim!

Quando seu sargento apareceu, ele disse: — O Território Desocupado é um lugar grande.

— Imenso, Sahb.

— Um homem poderia se esconder lá para sempre.

— É verdade, Sahb.

— Muitos homens?

Selim pareceu se sentir um pouco pressionado.

— É possível, Sahb.

— O Shabwa não é o único oásis que seu povo usa. Há outros.

— Todos Rashid, Sahb.

— Então, se viessem outros, de outra tribo, por exemplo, vocês saberiam.

— Nós os mataríamos, Sahb. Todos os oásis são nossos, todos os poços são nossos.

— Mas e se essas pessoas tivessem permissão, digamos, da condessa?

Selim agora parecia terrivelmente constrangido.

— Sim, Sahb, isso seria diferente — respondeu, o rosto pálido.

— É, foi o que pensei. — Villiers deu um tapinha no ombro dele. — Levantamos acampamento em dez minutos.

Villiers olhou para o Território Desocupado. Alguma coisa estava acontecendo lá. O palpite de Ferguson estava certo. Pobre velho Selim, tão transparente.

Mas o que podia ser? Não havia como saber. Se ele atravessasse a fronteira, não sobreviveria um dia. Os beduínos saberiam. Assim como sabiam onde ele estava agora. Ele suspirou, pegou o Codex Quatro e ligou novamente para Charles Ferguson, bem mais cedo do que planejara.


Dillon chegou ao Dorchester pouco antes das sete, num terno Brioni preto, camisa branca e gravata preta. Chamava essa roupa de disfarce de empresário, que era apropriado, considerando que carregava uma Walther num bolso especial sob o braço esquerdo. Foi recebido por Giuliano, o gerente.

— Bushmills — disse Dillon. — O general Ferguson vem se juntar a mim, então vamos querer também uma garrafa de Cristal.

— Vou providenciar pessoalmente.

Não havia muitas pessoas lá dentro. Era cedo demais para o rush noturno e, afinal de contas, era noite de segunda-feira. Giuliano trouxe o Bushmills; minutos depois, Ferguson juntou-se a Dillon.

— E aí, algum sinal da oposição?

— Ainda não. Champanhe?

— Acho que sim.

Dillon fez sinal com a cabeça para Giuliano, que sorriu e falou com um garçom que trouxe a Cristal num balde. Giuliano abriu a garrafa, Ferguson fez a prova.

— Ótimo. — Ele se virou para Dillon. — Falei com Tony Villiers duas vezes pelo telefone. Vou contar.

Quando Ferguson terminou, Dillon disse:

— Nada de concreto, mas Tony também fareja alguma coisa. Isso basta para mim.

Ferguson olhou em torno.

— Ainda nenhum sinal dela. Você pode estar errado, Sean.

— Já aconteceu antes. Mas acho que não esta noite. — Ele sorriu. — Eu sei o que vai atraí-la.

Caminhou até o orgulho do bar, o extraordinário piano de cauda espelhado que um dia pertencera a Liberace, sentou-se e levantou o tampo do teclado. Giuliano aproximou se com sua taça de champanhe Cristal.

— Importa-se? — perguntou Dillon.

— Claro que não. É sempre um prazer ouvi-lo tocar. O pianista só chega às oito.


Dillon iniciou uma melodia de Gershwin, no momento exato em que Harry e Billy Salter apareceram na entrada do bar. Harry, num terno Savile Row da estação, vestia azul-claro risca de giz, o tipo de roupa adorado por presidentes de banco. Billy vestia jaqueta de aparência cara e calça preta. Caminharam até o bar e Ferguson disse: — Santo Deus, o que estão fazendo aqui, seus bandidos?

— Ideia minha — disse Dillon, alto.

— E minha, general. — Harry se sentou. — Dillon nos contou tudo.

— Sacanagem, Sean. Isso é totalmente contra as regras — disse Ferguson.

— Calma, general. No que diz respeito à condessa de Loch Dhu, estamos todos juntos nisso, nós quatro.

— Exatamente — disse Harry. — Assim, vou tomar uma taça de champanhe com vocês e aguardar os eventos.

— Conte a eles sobre Tony Villiers — disse Dillon, alto.

— Está bem — disse Ferguson. E contou.

Mais pessoas haviam chegado e se espalhado pelo salão em mesas diversas. Billy caminhou até o piano e se curvou sobre ele. Dillon estava tocando A Foggy Day in London Town.

— Gosto disso — disse Billy. — Eu era um estranho na cidade.

— Fora da cidade estavam as pessoas que eu conhecia... — Dillon sorriu. — Você está elegante, Billy.

— Sem gracinhas, hein? O que você acha que a Kate está aprontando?

— Não faço a menor ideia. Por que não pergunta a ela? Kate acaba de entrar.

Billy se virou e viu Kate Rashid parada no alto da escada, Rupert Dauncey a seu lado. Ela usava terno feminino escuro, os cabelos amarrados num coque com um prendedor cravejado de dois diamantes enormes e mais nenhuma joia. Rupert vestia blazer azul-marinho e calça cinza, uma echarpe no pescoço.

Billy se virou de novo.

— Vê-la me lembra de uma coisa, Dillon. Você nunca se casou. É veado ou alguma coisa assim?

Dillon soltou uma gargalhada. Quando reassumiu o controle, disse: — É simples, Billy. Sempre me senti atraído pelas mulheres erradas.

— Pelas más, você quer dizer.

— E as Hannah Bernsteins deste mundo não me tocariam nem com um remo, não com o meu passado sombrio. Mas acho melhor deixarmos o debate sobre minhas inclinações sexuais para outra hora, porque lá vem ela.

Kate Rashid se aproximou e Billy caminhou até o tio, posicionando-se atrás dele. Ela passou pelo grupo na mesa e foi até o piano. Rupert acendeu um cigarro.

— Você toca muito bem, Dillon — elogiou ela.

— Já lhe disse uma vez, Kate, o segredo é um bom piano de bar. Presumo que esse seja o famoso Rupert Dauncey.

— É claro. Rupert, o famoso Sean Dillon.

Eles trocaram um aceno de cabeças. Dillon sacudiu um maço de Marlboro e colocou um cigarro na boca com apenas uma das mãos. Dauncey ofereceu-lhe fogo e Dillon iniciou outra canção.

— Reconhece esta, Kate?

— É claro. Our Love is Here to Stay.

— Eu queria que você se sentisse em casa. Por que não diz olá aos rapazes?

— Realmente, por que não? — Ela se virou para a mesa. — Ora, general Ferguson, que surpresa agradável. Acho que não conhece meu primo, Rupert Dauncey.

— Não, mas sinto como se o conhecesse muito bem — disse Ferguson e apertou a mão de Dauncey.

— É um prazer, general.

— Tome uma taça de champanhe com a gente.

— Obrigada — disse Kate Rashid e Dauncey puxou uma cadeira para que ela se sentasse. — Você vai ficar fascinado com os amigos do general, Rupert. O sr. Salter aqui é um gângster, mas não é um gângster comum. Durante anos ele foi um dos “funcionários” mais importantes do governo no East End de Londres. Não é verdade, sr. Salter? Billy é o sobrinho dele, outro gângster.

Rosto lívido, Billy não disse uma palavra, limitando-se a olhar para ela. Preferiu deixar a situação aos cuidados do tio.

— Se você está dizendo, condessa... — disse Harry e se virou para Rupert. — Sabemos tudo de você, filho. É bom no que faz.

— Vindo de você, vou tomar como um cumprimento.

Rupert bebeu um pouco de champanhe. Dillon voltou e se juntou a eles.

— Então, Kate, o que você quer?

— Ora, Dillon, não quero nada. Absolutamente nada. Achei que você é que queria me ver. Afinal, deixou seu cartão de visitas, e eu não queria desapontá-lo. — Pegou sua taça de champanhe Cristal e a esvaziou num único gole. — Mas estou faminta, e não quero comer aqui. Aonde devemos ir, Rupert?

— Não me pergunte, querida. Londres é sua cidade.

— Um pouco de novidade cairia bem. Sim, um lugar novo. — Ela se virou para Salter. — Falando nisso, eu não li numa das colunas de mexericos que abriu um novo restaurante, sr. Salter? Harry's Place? Fica em Hangman's Wharf, não é?

— Está sendo um estouro — acrescentou. — Nossas reservas estão esgotadas por semanas.

— Que pena, Rupert. Eu sempre quis experimentar a comida do sr. Salter.

— Podemos encontrar espaço — disse Harry. — Billy, telefone para o restaurante.

O rosto de Billy estava agora praticamente cor de osso. Olhou para Dillon, que meneou a cabeça levemente. Billy tirou um celular do bolso e digitou um número.

Alguns momentos depois, ele disse: — Tudo bem, está arranjado.

— Quanta gentileza — disse Kate Rashid. — Então vamos indo, Rupert. — Ele puxou a cadeira para que ela se levantasse. — Encontraremos os senhores lá.

— Pode contar com isso — confirmou Dillon.

Ela o beijou na face.

— Então até logo, Dillon.

Ela se virou e saiu. Rupert disse “cavalheiros” e a seguiu.

— Tem alguma coisa naquele filho da puta que não gosto — disse Billy.

— É porque você tem bom gosto — comentou Dillon. Ele acabou de beber seu champanhe. — Vamos nessa.


Enquanto o Bentley se afastava do Dorchester, Kate Rashid fechou a divisória de vidro.

— Telefone agora.

Rupert digitou um número no celular e disse: — Em andamento. — Ele franziu o cenho. — Como vou saber a que hora? Você aguarda, certo?

Rupert desligou o telefone, meneou a cabeça e se queixou a Kate: — Digo e repito: é difícil encontrar bons ajudantes hoje em dia.

— Pobre Rupert...

Kate pegou um cigarro, Rupert o acendeu e ela se recostou na poltrona.


O Harry's Place era mais uma conversão de armazém que Salter fizera em Hangman's Wharf. O terreno fora transformado em estacionamento. O armazém tinha novas molduras de janela em mogno, o exterior fora limpo e alguns degraus acrescentados para tornar a fachada mais imponente. Ao seu lado fluía o Tâmisa, o rio com seu tráfego intenso, as luzes piscando no outro lado à medida que anoitecia.

Havia uma fila diante na porta, principalmente jovens torcendo por um cancelamento de reserva ou admissão ao bar.

Joe Baxter e Sam Hall estavam em pé diante da porta, muito bem vestidos em black-tie.

O Bentley parou. Rupert desceu do carro e abriu a porta para Kate.

— É ela — disse Baxter a Hall. E foi receber o casal.

— Condessa, é um prazer vê-la novamente.

— Rupert, estes são o sr. Baxter e o sr. Hall. Tenho fotos muito boas dos dois no meu computador.

Havia dois rapazes na frente da fila usando jaquetas de seda, as costas decoradas com um dragão escarlate sobre ideogramas chineses. Ambos usavam brincos de ouro, e tinham os cabelos negros e compridos. O que falou tinha sotaque cockney: — Ei, como é que eles estão entrando e a gente não pode nem chegar ao bar?

— Vocês dois vão para o fim da fila se não calarem a boca — disse Baxter.

O homem recuou, resmungou alguma coisa baixinho, e Hall abriu a porta para deixar os convidados passarem, entrando em seguida. Escoltou o casal pela antessala até o balcão atrás do qual estava o maître, um português alto e moreno num smoking branco.

— Fernando, são os convidados do sr. Salter.

Fernando sorriu.

— É um prazer.

E conduziu o casal ao restaurante, que era belissimamente decorado em estilo art déco com uma pequena pista de dança circundada por mesas e, mais atrás, reservados com poltronas estofadas. Havia um bar de coquetéis que parecia saído da década de 1930, e um trio executava dance music. Todos os garçons usavam ternos brancos.

Fernando conduziu-os até um reservado amplo, e dois garçons puxaram a mesa para que eles pudessem se sentar na poltrona estofada.

— O que posso lhes oferecer para beber?

— Para mim, Jack Daniel's com água mineral — disse-lhe Rupert. — Para ela, um coquetel de champanhe. Para quando estão esperando o sr. Salter?

— Já está vindo.

— Então ainda não queremos fazer o pedido — disse Kate. — Apenas as bebidas.

Rupert tirou um maço de Marlboro do bolso e o sacudiu, expelindo dois cigarros. Acendeu ambos e ofereceu um a Kate.

— Igualzinho nos filmes.

Ela riu.

— Seja o que você for, querido, não é Paul Henreid.

— Embora Bette Davis tenha interpretado algumas damas que me lembram você.

— Ora, Rupert, que elogio!

Os drinques chegaram.

— Você está se divertindo com isso, não está?

— Cada segundo — disse ela e levantou sua taça num brinde. — Saúde, meu bem.

Logo depois, Harry Salter e os outros chegaram.

— Estão sendo bem atendidos?

— Perfeitamente — disse Kate Rashid.

— Bom. Vamos nos juntar a vocês.


Joe Baxter os havia seguido e agora estava em pé, encostado na parede, braços dobrados, Billy estava a seu lado com expressão muito séria. Dillon sentou-se na ponta do reservado, um cigarro fumegando do canto direito da boca. Ferguson e Harry ficaram de frente um para o outro.

— Como o lugar é meu, tomarei a liberdade de fazer o pedido por todos nós — disse Harry e se virou para Fernando. — Champanhe Cristal o tempo todo, água mineral sem gás, ovos mexidos, salmão defumado, cebolas na chapa e salada.

Fernando se retirou apressadamente e Kate disse: — Um homem que sabe o que quer.

— É por isso que estou aqui e muitos outros já se foram.

Ferguson disse: — E então, querida, o que está acontecendo?

— Lá vamos nós, Rupert. O general começou a bancar o cavalheiro inglês franco e direto. O que está acontecendo, general, é que quero vocês fora do meu caso. Sei que têm ficado de olho em mim. Daniel Quinn também tem feito isso. E sei que vocês não estariam sentados aqui comigo se tivessem descoberto alguma coisa de valor. Tive um encontro interessante naquela noite em Washington. Palavras fortes foram trocadas, opiniões foram exprimidas. Tenho certeza de que Blake relatou tudo a você.

— Mas é claro — confirmou Dillon. — Foi logo depois que dois sujeitos tentaram assaltar Quinn enquanto ele estava ia para a Casa Branca.

— Mesmo? Lastimável. Tenho certeza de que ele lidou bem com a situação. Mas falando em assaltos... e quanto a você e seu pequeno passeio a Loch Dhu?

— Bem, apenas um pouco de recreação. Anos trás, nós nos hospedamos na cabana Ardmurchan, e queríamos fazer isso de novo. Tivemos uma temporada muito agradável lá. Ferguson e eu caçamos um pouco.

— Imagino — disse Kate.

— Cervos — contou Dillon e sorriu. — Apenas cervos.

— Brown precisou de nove pontos no rosto. Não gosto de saber que meus funcionários foram atacados à mão armada, Dillon. Tente de novo e vai se arrepender. — O rosto de Kate era uma máscara de raiva contida. — E quanto ao propósito de viajar até lá apenas para que eu soubesse que tinha aparecido? Podia ter telefonado para mim.

— Para ouvir a versão oficial sobre as atividades das crianças do programa educacional da sua Sociedade de Estudos Bélicos? — indagou Ferguson. — Aquela balela toda sobre passeios no campo para grupos escolares? Vocês não estão ensinando essas crianças a amar a natureza...

— Não temos nada a esconder, general, e sabe muito bem que nada pode provar.

— E todas aquelas suas organizações no Oriente Médio? — indagou Ferguson.

— Sou uma árabe muito rica. Sinto-me privilegiada por ser capaz de ajudar meu povo. Algumas organizações têm objetivos políticos, mas estamos interessados em programas sociais e educacionais. Pagamos salários de professores e patrocinamos a construção de escolas e pequenos hospitais por toda a Arábia, do Iraque a Hazar.

— E Beirute? — perguntou Dillon.

— Beirute também, claro.

— O Fundo Infantil, fachada do Hezbollah — disse-lhe Ferguson.

Ela suspirou.

— Prove isso, general. Repito: prove isso. Tudo que meu Fundo Infantil faz está dentro da lei.

— E quanto a sua viagem de amanhã para Hazar? Ela também está dentro da lei?

Kate meneou a cabeça.

— Já chega, general. Como vocês sabem, a Rashid Investments obtém a maior parte de seus bilhões do petróleo no sul da Arábia, no Território Desocupado e Hazar. Vou lá o tempo todo. Estou cansada disso, Rupert, e de repente vi que perdi meu apetite. Vamos.

Ela se levantou.

— Muito obrigada pela hospitalidade, cavalheiros. Mas estejam avisados: fiquem longe dos meus assuntos, ou vão se arrepender.

— Pode tentar — disse Billy, olhos ardendo. — Vamos, pode tentar. A qualquer hora que quiser.

— Esfrie, Billy — disse-lhe o tio.

— Boa noite.

Ela fez um aceno com a cabeça para Rupert, e ele a seguiu para a saída.

Nesse momento, Fernando e um pelotão de garçons chegaram com os ovos mexidos e o salmão defumado.

— Ora, está parecendo delicioso — disse Harry. — Vamos comer. Já estou de saco cheio daquela mulher.


A fila diante do restaurante tinha desaparecido. Rupert e Kate Rashid entraram no Bentley e começaram a andar, mas quando se aproximaram do fim do porto, Rupert disse ao motorista: — Pare.

— O que está tramando? — perguntou Kate.

— Acho que vou ficar por aqui para assistir a diversão. Encontro você mais tarde.

Ele saltou.

— Cuidado, querido — disse ela, enquanto ele fechava a porta e se afastava.

Quando eles terminaram de comer, Harry Salter pediu conhaque para todos e disse a Billy para se animar.

— Você está com cara de enterro, Billy! Não se preocupe, vamos cuidar dela.

— Ela é doida. Quem sabe o que fará em seguida? Aposto que nem ela sabe.

— Entendo o que está dizendo — assegurou Dillon.

— Mas ela tem um plano e nós fazemos parte dele.

— Eu disse que vamos cuidar dela — disse o tio. — Confie em mim.

— Eu confiaria, Billy — recomendou Dillon. — Ele disse a mesma coisa antes de vocês dois cuidarem dos gêmeos Falconi no ano passado. Segundo os rumores, eles fazem parte do cimento da North Circular Road.

— Sim, mas, bem, eram negócios — disse Salter. Você sabe o que aconteceu lá, não sabe? Mandaram um especialista em explosivos do IRA enfiar uma bomba embaixo do meu Jaguar. Por sorte, para mim e para o Billy, ele ajustou mal o timer e o carro explodiu um pouquinho antes de entrarmos nele.

Os conhaques chegaram e ele balançou a cabeça.

— Vivemos tempos terríveis, general — continuou. — Em todo caso, um brinde a todos nós, porque ainda estamos aqui. — Tomou seu Hennessy num só gole. — Vamos, Billy, vamos acompanhá-los até a porta.


Saíram pela porta da frente. Rupert Dauncey observou-os da escuridão enquanto alcançavam o carro de Ferguson, seu chofer ao volante. De repente, ouviu-se um grito agudo e cinco homens emergiram dos carros, segurando bastões de beisebol. Eram todos chineses, todos usando jaquetas de seda preta com a insígnia do Dragão Vermelho, e os dois na frente eram aqueles da fila.

Um deles avançou brandindo o bastão para Billy, mas o rapaz levantou o pé direto até a virilha do homem. Dillon evitou um golpe semelhante, agarrou um punho, e arremessou seu atacante de cabeça contra um Volvo. Os outros recuaram e armaram um círculo.

O de sotaque cockney disse: — Te pegamos agora, companheiro. Vai levar o que merece.

Harry Salter não demonstrou o menor medo.

— Dragões Vermelhos? De onde vocês vieram? Algum baile à fantasia com tema de Hong Kong?

O que Billy chutou havia largado o bastão de beisebol. Billy o pegou.

— Pode vir, bacana! — disse Billy.

O líder gritou: — Ele é meu!

E avançou contra Billy, brandindo o bastão. Billy se esquivou do golpe, deixou que ele se aproximasse, deu-lhe uma rasteira e enfiou um pé em seu peito. Os outros começaram a avançar. Dillon sacou a Walther e disparou para o ar.

— Está ficando chato. Vão embora, seus babacas, e larguem aí os bastões.

Mas os agressores ainda demonstravam hesitação nos rostos. Dillon atirou no segundo homem da fila, arrancando com a bala o lóbulo de sua orelha esquerda.

O homem gritou e soltou o bastão. Os outros seguiram seu exemplo.

— Agora vão embora — ordenou Salter.

Os homens saíram correndo. Apontando com a cabeça o homem no chão, Salter disse a Billy: — Esse não. Quero trocar uma palavrinha com ele. — Virou-se para Ferguson. — Pode não querer ver isso, general.

— Faço um relatório mais tarde — prometeu Dillon.

— Aguardarei ansiosamente — replicou Ferguson.

Entrou no Daimler e deu a partida, enquanto Joe Baxter e Sam Hall chegavam correndo. Billy ainda estava com um pé em cima do chinês, e Joe disse: — Ouvimos tiros?

— Ouviram sim, filho — disse-lhe Harry. — Bruce Lee e seu bando alegre tentaram baixar o sarrafo na gente. — Com o pé, cutucou o homem. — Levantem ele, rapazes.

Billy removeu o pé. Baxter e Hall levantaram o homem, cada um segurando um braço. Ele não pareceu sentir medo; simplesmente fitou Harry enquanto ele se aproximava.

— Você é grandão — rosnou o atacante. — Como você é no mano a mano? — E cuspiu no rosto de Salter.

— Sua mãe não lhe ensinou boas maneiras? — Harry pegou um lenço e se limpou. — Precisa de uma lição. Billy?

Billy socou o estômago do homem até que ele se dobrou em dois, e em seguida acertou seu rosto com o joelho. Salter agarrou o rapaz pelos cabelos e levantou sua cabeça.

— Agora seja um bom menino e me diga quem mandou você me pegar.

O homem balançou a cabeça, mas agora parecia menos durão. — Não, não posso.

— Tudo bem. Billy, vire o rapaz de bruços e pise na tíbia dele. Ele vai usar muletas por seis meses.

O homem resmungou e então disse: — Não! Tudo bem... foi um homem chamado Dauncey. É tudo que sei. Ele me deu mil libras pra dar um jeito em você.

— Onde está o dinheiro?

— Bolso interno.

Billy encontrou um maço de notas de dez libras amarradas com um elástico. Passou o maço a Salter, que o guardou num bolso.

— Não foi difícil, foi? Só que você me deixou muito puto, e só isso não vai bastar. — Pegou um bastão de beisebol e disse: — Braço direito, Billy.

O homem tentou resistir, mas Baxter e Hall o seguraram com força enquanto Billy esticava o braço dele. O bastão de beisebol subiu e desceu. Ouviu-se um crepitar, e o homem caiu de joelhos.

Salter se agachou.

— Tem um hospital a um quilômetro e meio estrada acima. Você merecia ir para o necrotério, mas vamos ser bonzinhos. Apenas não dê as caras aqui de novo. Porque se eu o vir novamente, te mato. — Ele se levantou. — Acho que outro conhaque cairia bem.

Ele se afastou. Os outros o seguiram, mas Dillon parou para dar um telefonema para Ferguson. O general ainda estava no Daimler.

— Que surpresa... foram contratados por Rupert Dauncey.

— Bem, pelo menos sabemos em que pé estamos. O que aconteceu com o cavalheiro chinês? Não está no rio, está?

— Está ferido, mas andando. Nos vemos amanhã.

Dillon fechou o celular e entrou no carro.


Estava silencioso lá fora. Ouvia-se apenas o som do homem ferido se levantando devagar. Rupert Dauncey emergiu das sombras.

— Você está bem, companheiro?

— Ele quebrou meu braço.

— Pois digo que você teve sorte por ele não quebrar seu pescoço. — Pegou um cigarro e o acendeu com seu isqueiro de AK. — Na verdade, você tem sorte por eu também não fazer isso, seu idiota. — Ele soprou fumaça no homem. — Vou deixar você com este pensamento. Saia da linha, abra a boca uma só vez e eu mesmo te mato. Entendeu?

— Sim — gemeu o homem.

— Excelente.

Rupert Dauncey se afastou lentamente e, depois de algum tempo, o homem começou a capengar rua acima.

 

________________

1 O Rub'al Khali ou Território Desocupado é o deserto de areia que abrange a maior parte do terço meridional da Península Arábica.


7


HAZAR

 


Northolt, na periferia de Londres, era uma base aérea da RAF muito usada pela família real, o primeiro-ministro e políticos importantes. Por causa disso, ficou popular entre usuários de aviões executivos e se tornou fonte de renda marginal muito lucrativa para a Royal Air Force.

Eram dez horas da manhã seguinte quando Kate Rashid e Rupert Dauncey passaram de carro pela segurança e contornaram até o local onde o Gulfstream os esperava com os motores funcionando. Alguns minutos depois, já subiam a quinze mil metros.

Quando o avião nivelou, uma jovem em uniforme azul foi falar com eles.

— Chá, como sempre, condessa?

— Obrigada, Molly.

— Café para o sr. Dauncey? Temos um americano na família agora! — disse Molly indo para a cozinha.

— Dê-me um cigarro e conte-me tudo de novo, Rupert — disse Kate.

Ele descreveu os eventos da noite anterior.

— Não consigo entender — disse, balançando a cabeça. — Os Dragões Vermelhos me foram altamente recomendados.

— Aqueles incompetentes de Washington também foram altamente recomendados.

— Sim. É óbvio que preciso procurar fontes melhores. Agora, qual é nossa programação para hoje?

— Pousaremos em Haman e então tomaremos um helicóptero até o oásis Shabwa no Território Desocupado. Depois seguiremos ainda mais para dentro do Rub'al Khali, para o oásis em Fuad. Tenho um campo lá. Quero que você conheça.

— O que acontece lá?

— Você vai ver.

— Mistério por cima de mistério, hein? Vamos a Hazar Town?

— Ah, sim. Eu gostaria de ver Tony Villiers.

— Vai expulsá-lo?

— Não quero fazer isso. Gosto de Tony. É um comandante soberbo, e como o sultão o proíbe de entrar no Território Desocupado, não representa uma ameaça grande. — Ela deu de ombros. — Veremos. Já tomei algumas providências que devem lhe dar uma pausa para pensar.

— Que providências?

— Vamos deixar que isso seja mais um mistério por enquanto. Passe-me o Times.

Kate abriu o caderno de economia do jornal.


Villiers deixara a maior parte dos patrulheiros nas mãos do cornet Bobby Hawk e estava percorrendo a estrada do deserto até a cidade de Hazar. Havia muitas colinas na região, cheias de desfiladeiros rochosos e grandes penhascos de ocre. Não havia tráfego, nenhum sinal de outro ser humano, nem mesmo um pastor de cabras.

Ele tinha dois Land Rover com oito homens, incluindo ele próprio, uma metralhadora leve montada em cada veículo. Fazia um calor insuportável e Villiers estava pensando na hora em que voltaria para seu quarto no Hotel Excelsior, tomaria um banho e vestiria um uniforme limpo.

Pararam diante de um lago num lugar chamado Hama, no sopé de algumas colinas. A água era profunda e fria, e um dos homens ficou a postos atrás de uma metralhadora enquanto os outros iam até o lago e jogavam água uns nos outros, como crianças. Villiers acendeu um cigarro e observou a cena, achando graça. Mas o sorriso se apagou quando ele viu pedras deslizando do penhasco. Olhou para cima e seus homens começaram a correr pela água até suas armas. Um tiro ecoou e o homem na frente caiu, uma bala na cabeça.

O homem da metralhadora cobriu o penhasco com uma saraivada de balas durante um minuto inteiro, enquanto os companheiros alcançavam suas armas e começavam a disparar também.

Mas não houve resposta. Villiers mandou que parassem. Agora o lugar estava silencioso.

Selim engatinhou até onde ele estava ao lado de um Land Rover. Villiers esperou alguns instantes, e então se levantou.

— Não, Sahb — disse o sargento.

O silêncio era sepulcral.

— Está tudo bem. Seja lá quem estava lá em cima, já foi embora. Não sei o motivo, mas foi um ataque-e-fuga.

— Talvez bandoleiros Adoo, do Iêmen, Sahb. Ou talvez Omar tenha ofendido alguém? — sugeriu, olhando para o corpo que flutuava na água.

— Não, podia ter sido qualquer um de vocês. — Ele se virou para seus homens. — Vão, tirem-no da água.

Três deles chapinharam pela água e tiraram o cadáver. Tinham sacos para corpos nos carros, entre os suprimentos gerais, e enfiaram Omar num deles.

— Ponha no capô do Land Rover número 2 — ordenou Villiers. — E amarre-o com força. O terreno nos próximos quilômetros é muito acidentado.

Alguém trouxe uma corda e eles ajeitaram o cadáver conforme as instruções, passando a corda por cima e por dentro do veículo. Os outros patrulheiros observaram tudo em silêncio.

— Muito bem, vamos seguir em frente — ordenou Villiers.

Selim sentou-se ao lado dele, parecendo atormentado.

— Sahb, uma coisa me intriga. Se o homem que fez isso simplesmente queria matar um de nós, por que não o Sahb, por que não o mais importante de nós?

— Porque não me queriam morto — disse-lhe Villiers. Queriam apenas mandar um aviso, Selim.

Isso pareceu perturbar Selim ainda mais.

— Será, Sahb? Quem quereria isso?

— Alguém do Território Desocupado. Uma daquelas pessoas que não deviam estar aqui e talvez não devessem estar lá, Selim. Vamos descobrir muito em breve. — Ele sorriu. Se Alá quiser.

Selim, profundamente preocupado, se afastou enquanto Villiers acendia um cigarro e se recostava.


O porto de Hazar era pequeno, com casinhas brancas, becos estreitos e dois bazares, mas a área do cais estava movimentada, cheia de navios costeiros, barcaças árabes e barcos pesqueiros. Os dois Land Rover pararam na mesquita maior, onde Villiers entregou o corpo de Omar ao imã.

Depois, seguiram até o Hotel Excelsior, onde ele disse a Selim e aos outros cinco patrulheiros que tirassem alguns dias de folga e lhes deu vinte dólares em notas de cinco. Eram dólares americanos, um velho costume que os deliciava, porque essa moeda era muito apreciada em Hazar. Disse que sabia onde encontrá-los, se precisasse deles, e os dispensou.

O Excelsior remontava aos dias coloniais e ainda tinha uma certa atmosfera de império britânico. O bar tinha a aparência de um velho filme, com mobília de junco, ventiladores girando no teto e um balcão com tampo de mármore diante de uma estante repleta de garrafas. O barman, Abdul, usava a casaca branca de seus dias de garçom em navios de cruzeiro.

— Cerveja Lager — disse-lhe Villiers. — E o mais gelada possível.

Ele se sentou numa cadeira grande de junco, onde se deixou refrescar pelo ventilador girando gentilmente sobre sua cabeça. Abdul trouxe a bebida. Villiers correu um dedo pelo vidro úmido e então bebeu devagar, mas sem parar, lavando a areia e o calor da fronteira.

Abdul ficou esperando, um antigo ritual. — Mais uma, Sahb?

— Sim, Abdul. Obrigado.

Villiers acendeu um cigarro e olhou para o horizonte, deprimido. Talvez fosse a morte de Omar, e o enigma de ter sido poupado. Por outro lado, talvez estivesse em Hazar há tempo demais. Já fora casado, e nem queria calcular há quanto tempo: Gabrielle, dos cabelos louros e olhos verdes, o amor de sua vida.

Mas ele ficara afastado de casa tempo demais, e os dois se distanciaram e acabaram se separando pouco antes da Guerra das Malvinas. O que tornara a situação ainda pior foi o fato de que ela se casara com o inimigo, um piloto da Força Aérea Argentina que mais tarde se tornou general.

Ninguém poderia substituí-la. Teve mulheres, obviamente, mas nenhuma acendera nele a vontade de se casar de novo. A vida de Villiers era marcada por guerras em lugares estranhos. Sua única âncora era a velha casa de família em West Sussex, e a fazenda, administrada por seu sobrinho, que era casado e tinha dois filhos.

Eles sempre estavam lhe implorando que desistisse da vida de soldado e voltasse para casa enquanto estava inteiro.


Abdul interrompeu seus devaneios ao trazer a segunda cerveja. Alguém disse “Vou tomar uma dessas”, e Villiers se virou para ver Ben Carver se aproximar num macacão de aviador e um chapéu panamá na cabeça. Deixou-se cair na cadeira em frente a Villiers e se pôs a abanar o rosto com o chapéu de aba larga.

— Deus, que calor!

— Como vão os negócios de táxi aéreo?

— Lucrativos, com todos esses poços de petróleo na fronteira. Já substituí o 310 que seu amigo Dillon arruinou no ano passado.

— Quem arruinou seu avião foram os beduínos que dispararam nele, e não Dillon.

— OK, ele foi abatido. Ainda tenho o Golden Eagle, e dois rapazes sul-africanos estão pilotando meu novo Beechcraft. Bem, ele não é exatamente novo, mas dá pro gasto.

— Eles vão ficar?

— Eles prometeram ficar seis meses. Preciso de alguém. Há muito trabalho a fazer para os Rashid.

— Soube que ela está vindo hoje.

— A condessa? É, ela vai chegar com um tal de Dauncey. Mas não vai ficar muito tempo. Tem pouso marcado em Londres depois de amanhã.

— Dauncey é o primo dela. Diga-me, Ben, quando voa para as cidades velhas lá no Território Desocupado você vê muita ação?

— Ação? Como assim?

— Bem, como o sultão não deixa mais os patrulheiros cruzarem a fronteira, não sou mais tão bem informado como antes. Quem você vê?

Carver não estava sorrindo agora.

— Algumas caravanas, e só. — Ele engoliu a cerveja. — Não vejo nada, Tony.

— E é pago para não ver nada?

— Sou pago para voar para poços petrolíferos, terras no deserto, e então voltar para cá. — Ele caminhou até a porta e então se virou. — E sou pago para cuidar da minha vida. Você devia experimentar também.

— Então isso significa que você não pilota aquele brinquedo dela, o Scorpion? Já vi esse helicóptero cruzar a linha dúzias de vezes nas minhas patrulhas. Não é você nos controles?

Carver fulminou-o com o olhar enquanto se afastava. Então, Villiers percebeu que Abdul estivera limpando cuidadosamente uma mesa com tampo de vidro perto da sua. Ele obviamente escutara cada palavra.

— Outra cerveja, coronel?

— Não, obrigado. — Villiers sorriu. — Volto mais tarde para jantar.

E saiu.


Tomou uma ducha longa para ficar realmente limpo, e então relaxou num banho morno por meia hora, para pensar nas coisas, particularmente em seu encontro com Ben Carver. Um bom homem, Ben, agraciado com a Cruz por Serviços Louváveis na Guerra do Golfo, mas com um olho na conta bancária. Não queria matar a galinha dos ovos de ouro, especialmente a Rashid. Contudo, havia certas coisas que Villiers podia tomar como garantido sobre a condessa. Ela ficaria na Vila Rashid no território velho, um palácio mouro. Em algum momento, seguiria para o oásis Shabwa de helicóptero. E jantaria no restaurante Excelsior naquela noite, porque era o que sempre fazia.

Anoitecia, e manchas alaranjadas coloriam o horizonte além do porto. Enxugou vigorosamente os cabelos longos, lembrando seus anos no SAS1, quando nunca sabia ao certo o que aconteceria em seguida, se teria de assumir uma identidade civil, o que seria prejudicado por um corte ao estilo do Exército.

Ao se pentear diante do espelho, pensou no que faria no jantar. Finalmente, decidiu que ia até o fim. Nada de terno de linho esta noite; precisava de alguma coisa que impressionasse. Pegou no armário um uniforme tropical, calça cáqui curta e camisa verde, e as medalhas para ostentar sua bravura. Admirou-se no espelho e sorriu. Sim, isso daria conta do recado.


Rupert estava muito impressionado com a Vila Rashid. Parou no grande salão e olhou para o teto abaulado. Tapetes maravilhosos cobriam o piso de mármore, antiguidades árabes decoravam o ambiente, as paredes pintadas com afrescos.

— Isto é realmente espetacular.

— Obrigada, querido. Lá nos fundos temos escritórios com computadores e tudo mais. Este é o QG da Rashid Investments em Hazar e em todo o sul da Arábia.

O criado principal, que os tinha recebido na porta grande de cobre, disse:

— Abdul, do Excelsior, está esperando para vê-la, condessa.

— Onde ele está?

— Com Abu.

Abu era seu guarda-costas, um feroz guerreiro beduíno do oásis Shabwa. Sempre estava lá para recebê-la quando ela chegava a Hazar e ficava a seu lado por toda a estadia.

— Tomaremos chá e café no terraço. Leve-o para lá.

Ela subiu a escadaria de mármore, seguida por Rupert, atravessou um corredor arejado e saiu num terraço amplo, o toldo adejando à brisa do começo da tarde. A vista era estupenda, porque eles estavam bem acima dos telhados.

— Magnífico — disse Rupert enquanto se sentava e lhe oferecia um cigarro.

— Vai escurecer daqui a pouco. Aqui o crepúsculo é sempre rápido — disse Kate.

Abdul chegou, trazido por Abu, que era alto, barbudo, rosto pétreo, de robe e turbante brancos.

Ele sorriu, coisa que raramente fazia, e a cumprimentou com um salaam.

— Vê-la, condessa, é sempre uma bênção para mim. Esta criatura deseja falar com a senhora.

— Deixe que fale. — Ela disse a Rupert: — Abdul é barman no Excelsior.

— Condessa, trago novidades — disse Abdul em árabe.

— Em inglês, por favor. Meu primo não entende árabe.

— O coronel Villiers chegou da fronteira no começo desta tarde. Dois Land Rover e seis patrulheiros. Ele sofreu uma emboscada, quando eles pararam no lago em Hama. Um dos homens dele foi morto com um tiro. Omar. Havia um atirador no alto do penhasco.

O criado chegou com chá e café. Serviu sem dizer uma palavra e se retirou.

— Como sabe disso? — inquiriu Kate Rashid.

Abdul deu de ombros.

— Os patrulheiros estão no bazar e falam.

Ela meneou a cabeça.

— Villiers Sahb vai jantar no hotel esta noite?

— Sim, condessa, mas tenho ainda outras notícias. O coronel estava tomando cerveja no terraço e o sr. Carver juntou-se a ele. Consegui ouvir a conversa.

Ela se virou para Rupert.

— Ben Carver é um ex-oficial da RAF que agora tem um negócio de táxi aéreo em Haman. Presta muitos serviços aos Rashid. — Ela acenou com a cabeça para Abdul. — Prossiga.

Abdul contou tudo a ela, porque tinha memória excelente e se orgulhava disso. Quando terminou, ela abriu a bolsa, tirou uma nota de cinquenta e deu a ele.

— Você fez um bom trabalho.

Ele recuou e levantou a mão.

— Não, condessa, isso é para a senhora. Um presente.

— Pelo qual quero agradecer a você, mas não me desonre recusando o meu. — Abdul fez uma mesura e sorriu, pegou a nota apressadamente, virou-se e saiu.

Rupert disse: — Então Villiers está tentando extrair informações das pessoas?

— A mando de Ferguson, certamente.

— Quem armou a emboscada para ele?

— Quem você acha? — Ela falou com Abu. — Você fez um ótimo trabalho. Esse que você matou, esse Omar, quem era?

A resposta era importante. Como os patrulheiros eram todos beduínos Rashid, os elos familiares com os do Rub'al Khali eram imensamente fortes.

— Meu primo de segundo grau.

— Não quero disputa de sangue por causa disso.

— Não haverá, condessa.

— E Villiers Sahb não será tocado até que eu dê ordem em contrário.

— Como quiser, condessa. Só gostaria de matá-lo cara a cara. Ele é um grande guerreiro.

— Bom. Meu primo aqui é um grande guerreiro, também. Travou muitas batalhas com os fuzileiros americanos e é precioso para mim. Guarde-o com sua vida.

— Como quiser, condessa.

Ele se retirou.


Ela explicou a Rupert o que Abu lhe contara, e subitamente era noite. O criado entrou e acendeu as luzes. Moscas juntaram-se instantaneamente em torno delas.

— E agora, prima? — perguntou Rupert.

— Acho que uma taça de champanhe.

Acenou com a cabeça para o criado, que estava a postos ali perto, e deu a ordem. Um momento depois, Abu apareceu.

— Sinto muito perturbá-la, condessa, mas Selim pede para vê-la.

— Selim? Mesmo? Como isso é interessante! Bem, traga-o. — Ela disse a Rupert: — Outro homem quer falar comigo, e este é sargento dos patrulheiros.

— E, obviamente, um Rashid. Ainda me intriga como tudo isso funciona, como ambos os lados podem ser compostos das mesmas pessoas.

— Isso é porque você é um ianque e não compreende a mente árabe.

O criado apareceu com uma garrafa de champanhe Bollinger num balde de gelo e duas taças. Tirou a rolha com perícia e serviu a bebida.

— Achei que álcool era proibido nos países árabes.

— Varia. Hazar sempre teve uma atitude bem liberal.

— E você concorda com isso? Afinal, é uma muçulmana.

— Não uso chador, uso? — disse, referindo-se ao adereço obrigatório para mulheres muçulmanas. — Também sou meio inglesa, Rupert. Sirvo a ambos os lados da moeda.


Enquanto Kate tomava champanhe, Abu entrou com Selim.

O sargento parecia muito preocupado.

— Você fala bem inglês, Selim. Vamos usar essa língua. Villiers sabe que você está aqui?

— Não, condessa. — Selim ficou subitamente alarmado. — Estou aqui porque julguei que devia lhe falar.

— Por quê?

— Nós patrulheiros estávamos na fronteira, com o coronel. Não atravessamos mais para o Território Desocupado.

— Sei disso.

— Villiers Sahb me fez muitas perguntas. Quis saber se está acontecendo alguma coisa do outro lado da fronteira.

— E o que você disse a ele?

— Que não sei de nada. Mas ele me deixou sem jeito. Não sei se acreditou em mim.

— O que demonstra a inteligência dele. Porque você estava mentindo para ele, não estava?

— Condessa, por favor.

— Acenda um cigarro para mim, Rupert. — Ele fez isso e passou o cigarro a ela. — Mas você não deve mentir para mim, Selim. — Ela se inclinou à frente. — Assim, conte os sussurros que tem ouvido.

— O acampamento, condessa, o acampamento no oásis Fuad. Estrangeiros vêm e vão, e ocasionalmente ouvimos muitos tiros. Os homens que perambulam pelo deserto, os bandoleiros Adoo, ouvimos demais sobre essas coisas.

— Muitas pessoas gostam de falar sobre mistérios, muitas pessoas têm línguas soltas. Mas essas línguas podem ser cortadas, Selim. Por que veio me contar isso? Você é homem do coronel.

— Mas também sou Rashid — disse Selim, pasmo. — Minha primeira lealdade é com a condessa, nossa líder, todos os Rashids concordam com isso.

— Até os patrulheiros de Hazar?

— Bem, há alguns conservadores que respeitam mais o coronel.

— Homens que mantêm seu juramento, ao contrário de você? Você também fez o juramento. Você provou sal com o coronel Villiers, comeu seu pão. Há nisso uma questão de honra, de lealdade. Você diz que é leal a mim, mas posso depender da lealdade e da honra de um homem que não tem nenhuma?

— Condessa... por favor! — disse Selim, quase em desespero.

— Saia da minha vista. E jamais volte.

Abu agarrou o braço de Selim e o puxou do terraço.

Rupert disse: — O que foi isso?

— Honra é tudo para meu povo. Homens morrem pela honra... e Selim morrerá por sua falta.

Abu retornou e, para surpresa absoluta de Rupert, disse em inglês perfeito: — Aquele homem é um cão, condessa. O que deseja que eu faça?

— Vá visitá-lo, Abu.

— Às ordens.


Ele saiu e Kate esboçou um leve sorriso para Rupert. — Quando Abu tinha dezoito anos, o tio dele, um mercador rico, mandou-o para a London University. Ele se formou em economia, mas quando voltou descobriu que preferia ser guerreiro. E é um guerreiro muito bom.

— Então que Deus ajude Selim.

Kate terminou de beber seu champanhe e se levantou. — É hora de tomar um banho e mudar de roupa. Vou mostrar sua suíte.


Selim corria de uma viela estreita para outra, querendo fugir do território velho, mas na verdade sem a mínima ideia de para onde ir. Quis cair nas boas graças da condessa. Em vez disso, recebera uma sentença de morte. Nada era mais certo. Parou diante de uma porta para considerar a situação.

Não tinha onde se esconder, não em Hazar, não no país alto da fronteira ou no Rub'al Khali. A notícia se espalharia entre seu povo, e cada mão se levantaria contra ele. Sua mente correu e chegou a uma única solução possível: o cais. Havia barcos que seguiam de lá para cada porto ao sul da Arábia. Talvez conseguisse chegar a Aden ou mesmo a Mombaça, na costa leste da África. Lá havia uma população árabe maior, e ficava mais distante do território Rashid.

Voltou a correr, agora tomando direção diferente, e chegou ao cais. Estava muito escuro, mas algumas embarcações eram iluminadas. Se conseguisse embarcar clandestinamente num dos antigos barcos costeiros a vapor, ficaria seguro.

Chegou a um píer com vários barcos amarrados. Fazia um silêncio profundo, e ele ouvia apenas um som de gargalhadas distantes. Então, uma tábua rangeu atrás dele, Selim se virou e se deparou com Abu. Selim correu, mas Abu era mais rápido. Ele o agarrou pelo robe, uma faca na mão, puxou a cabeça de Selim e deslizou a faca pela garganta dele. Selim caiu de joelhos, sentindo a vida escorrer. Abu limpou a faca no robe do homem e o empurrou do píer. O corpo caiu uns quinze metros antes de bater na água. E então a noite estava silenciosa novamente.

Abu pôs-se a caminhar a passos largos. Quando tinha se afastado, outro árabe emergiu das sombras usando as bandoleiras cruzadas dos patrulheiros, uma AK pendurada do ombro esquerdo. Olhou pela borda do píer e viu o cadáver de Selim boiando de bruços à luz suave de um vapor costeiro. Depois de um momento, virou-se e foi embora.


Villiers fazia uma figura impressionante em seu uniforme tropical ao entrar no bar do Excelsior. Ali havia apenas meia dúzia de pessoas, todas sozinhas, todas europeias, emanando ar executivo. Uma ou duas olharam para ele, curiosas. Não havia sinal de Kate Rashid ou Rupert Dauncey. Villiers caminhou até o bar, onde Abdul polia copos.

— Pensei que a condessa viria esta noite. Sei que ela está na cidade.

— Mais tarde, Sahb, ela virá mais tarde.

— Ela lhe disse isso?

Abdul pareceu nervoso.

— Quer uma cerveja, coronel Sahb?

— Agora não.

Ele se afastou, acendeu um cigarro e parou no patamar superior da escadaria que descia para o jardim. Um de seus homens estava acocorado a um canto dos degraus, seu AK apoiado nos joelhos.

Villiers disse, em árabe: — Vejo você, Achmed.

— E eu vejo você, coronel Sahb.

— Então, por que está aqui?

— Selim está morto. Flutuando no porto.

— Conte-me — disse Villiers, oferecendo-lhe cigarro e fogo.

— Fomos visitar as mulheres no bazar, beber uísque. Sabe que podemos fazer isso lá.

— E?

— Selim estava atormentado, não era ele mesmo. Disse que precisava ver uma amiga. Achei isso estranho e o segui.

— E para onde ele foi?

— Para a Vila Rashid. Estava quase escuro. Fiquei entre as palmeiras no outro lado da rua e olhei para o terraço lá em cima. A condessa estava com um homem, inglês, acho.

— Não, americano. Sei quem é.

— Então Abu levou Selim até o terraço, e ele e a condessa conversaram. Algum tempo depois, Selim saiu. Ficou parado algum tempo, parecendo muito preocupado, como se não soubesse para onde ir.

— Como assim, preocupado?

— Ele exalava o odor do medo, Sahb. Começou a descer a rua, e eu ia começar a segui-lo quando Abu saiu e foi atrás dele.

— E você seguiu os dois.

— Sim, Sahb, até o porto. Ele foi a um píer. Parecia estar examinando os navios, e então Abu correu até ele, cortou-lhe a garganta e o empurrou para a água.

— Por que Abu faria uma coisa dessas?

— Para a condessa, Sahb.

— Mas qual seria o motivo dela?

— Só Alá sabe.

Villiers ofereceu-lhe outro cigarro.

— Achmed, estou muito grato por ter me contado isso, mas por quê? Você também é Rashid. A condessa é sua líder.

Ele sabia a resposta antes que fosse dita.

— Mas Sahb, eu provei seu sal, fiz o juramento, e agora sou seu seguidor. A condessa concordaria com isso. É uma questão de honra.

— E talvez Selim não tivesse nenhuma.

Achmed deu de ombros.

— Ele era um homem fraco.

— Mas um bom sargento.

— Eu seria um sargento melhor, Sahb.

Villiers sorriu.

— Bem, você precisa me provar isso. — Ele tirou seu maço de cigarros do bolso e deu a ele. — Vá, seu safado, mas não mencione nada disso aos outros.

— Vai vazar, Sahb. Essas coisas sempre vazam.

— Que seja em seu próprio tempo.

Quando Achmed desapareceu na escuridão, Villiers entrou e caminhou até o bar.

Uma questão de honra, pensou. Isso era de importância suprema para os beduínos, e talvez Kate Rashid também pensasse assim.

— Cigarros, Abdul — disse ele. — Marlboro.

Abdul deslizou um maço sobre o balcão para ele.

— Uma cerveja agora, coronel?

Antes que pudesse responder, uma voz disse: — Ora, Tony, que grata surpresa.


E ele se virou para ver Kate Rashid entrando no bar, Dauncey a seu lado. Ela usava um vestido branco simples, brincos e colar de diamantes magníficos. Ele vestia terno de linho e camisa azul-claro.

— Condessa.

Antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, ela o beijou no rosto.

— Já lhe disse antes, meus amigos me chamam de Kate. Este é o meu primo, major Rupert Dauncey, dos Fuzileiros Navais. E este, Rupert, é o famoso coronel Tony Villiers.

Eles trocaram um aperto de mãos.

— Muito prazer, major — disse Villiers.

— É todo meu. Ouvi falar muito de você.

— Champanhe no terraço, Abdul. Você precisa se juntar a nós, Tony, e para jantar — disse Kate.

— Como posso recusar?

Os olhos de Kate brilharam e havia excitação neles, porque Abu aparecera enquanto ela e Rupert saíam da vila.

— Correu tudo bem? — perguntara Kate.

— Consumado, condessa.

— Bom. É uma noite agradável para uma caminhada. Venha conosco.

Ele os acompanhara, mão no cabo da jambiya, a faca curva no cinto, embora nenhuma alma em Hazar ousasse levantar a mão contra ele.

— O cão morreu, é isso? — Rupert balançou a cabeça. — Deus do céu. Você é uma mulher cruel, Kate, mais do que eu imaginava.

— Esta é uma terra cruel, meu querido, e ser cruel é a única forma de sobreviver nela. — Ela passou a mão pelo braço do primo. — Mas nada de canções tristes.

Quero me divertir esta noite.

 

________________

1 Special Air Service (SAS) é uma unidade de forças especiais do Exército Britânico, fundado em 1941 como regimento e em 1950 reconstituído como corpo de elite. Desempenha uma série de funções, incluindo reconhecimento secreto, contraterrorismo, ação direta e resgate de reféns.


8

 

 

O vento noturno que vinha do mar era cálido e perfumado. Kate estava sentada numa cadeira giratória, com Rupert e Villiers no outro lado de uma mesa de junco. Abdul servia champanhe.

— Você está esplêndido, Tony, todas essas medalhas. Rupert, ele tem tudo, menos a Cruz da Vitória.

— Estou vendo.

— Você e Rupert têm muito em comum — disse Kate a Villiers. — Guerra do Golfo, Sérvia e Bósnia.

— É mesmo? — disse Rupert. — Isso é muito interessante. Qual unidade?

— SAS. — Villiers decidiu pressioná-lo. — Estou surpreso por você não saber. Kate certamente sabe tudo a meu respeito.

— Ora, Tony, não seja rabugento. Por outro lado, sei que você teve um dia horrível. Para citar Oscar Wilde, perder um homem pode ser considerado um descuido, mas perder dois...

Villiers se virou para Rupert.

— Uma coisa que você vai descobrir sobre este lugar é que as notícias viajam depressa. Nada permanece em segredo por muito tempo. Perdi um homem quando paramos num lago em Hama, ao vir para cá.

— Teve azar, o coitado — comentou Rupert.

— Sim, mas o segundo, meu sargento, Selim, foi assassinado ainda há pouco, lá no porto. — Ele sorriu para Kate. — Você deve ter fontes extraordinárias.

— É o segredo do meu sucesso, Tony. Mas chega disso. Vamos fazer o pedido.


A refeição foi excelente, porque o chef tinha mãe francesa e havia treinado em Paris. Rupert Dauncey e Villiers, como fazem os soldados, discutiram suas experiências pessoais na Guerra do Golfo e na antiga Iugoslávia.

— Então esteve atrás das linhas do Iraque com o SAS? — perguntou Rupert. — Por quanto tempo?

— Ah, isso foi antes da guerra começar. Sabíamos o que estava para acontecer e exatamente o que Saddam Hussein queria. — Villiers deu de ombros. — Pessoas como eu, com um conhecimento funcional de árabe, eram valiosas. Como Paul, o irmão de Kate.

— Você o conhecia?

— Servimos no mesmo regimento, a Guarda de Granadeiros... ele esteve lá muito depois da minha época, mas eu o conheci lá. Fez seus homens matarem meu segundo em comando, o cornet James Bronsby. Os Rashids têm uma técnica muito eficaz. Esfolam a pele a partir do peito. Demora muito. A perda da masculinidade é o toque final, mas Kate deve ter contado tudo isso.

— Na verdade, não.

— Por quê? Ficou envergonhada?

— Não. Meu povo espera isso. É seu estilo. — Ela deu de ombros. — E você teve sua vingança, Tony. Dillon matou quatro dos meus homens na manhã seguinte. E um deles foi meu irmão George.

— Ele não teria se alistado se não estivesse disposto a arcar com as consequências.

Abdul apareceu com três copos de conhaque na bandeja.

Kate bebericou o dela.

— Ouvi dizer que você tem um novo segundo em comando, outro da Household Cavalry?

— Não, este é do Lifeguards. Cornet Bobby Hawk. Bom rapaz. Você gostaria dele.

— Talvez ele não devesse ter se alistado.

A ameaça era implícita e ele agora estava zangado, cansado dos jogos. Tomou seu conhaque de uma só vez.

— Ora, você pode fazer melhor que isso, Kate. Diga-me, por que Abu não acertou um tiro na minha cabeça lá em Hama?

— Ora, Tony, estou chocada. Você é importante demais, não apenas para Hazar, mas para mim. Você é o melhor comandante que os patrulheiros já tiveram. E estava seguindo as instruções do sultão.

— Ou seja, as suas.

— Eu governo o Território Desocupado, Tony, e não preciso dos patrulheiros lá. Não os quero. Policiem a fronteira, o território elevado, mas fiquem do seu lado da linha.

— Por quê? Você tem alguma coisa para esconder lá?

— Isso é apenas da minha conta. Na próxima vez que falar com Charles Ferguson, diga a ele para não se meter onde não é chamado. — Ela olhou para Rupert. — Vamos agora. Precisamos acordar cedo amanhã de manhã.

Ele puxou a cadeira de Kate e disse a Villiers: — Foi uma noite muito interessante, coronel.

Villiers se levantou.

— E como. Boa noite, Kate.

Ela sorriu e os dois se retiraram.

— Outro conhaque, Abdul — disse Villiers e foi até a beira do terraço para meditar um pouco.


Kate Rashid e Rupert caminharam até a vila, Abu atrás deles.

— Um homem e tanto — disse Rupert. — Mas ele tem razão. Por que não mandou matá-lo?

— Pode acontecer mais tarde, mas não por enquanto. Como disse, o trabalho que ele faz na fronteira com os patrulheiros é útil, e é bom para Hazar.

— Mas e quanto à ligação dele com Ferguson?

— Villiers não pode contar nada se não sabe de nada. Isso é tudo que importa.

— Bem, a especialista é você. A que horas saímos amanhã?

— O helicóptero estará preparado às sete. Passaremos em Shabwa, porque eles me esperam lá. Depois voaremos para o lago Fuad.

— Muito longe?

— Mais cento e cinquenta quilômetros deserto adentro. — Eles tinham alcançado a escadaria que levava até a porta da vila. Ela se virou para Abu e perguntou: — Onde estão os patrulheiros neste momento?

— Estão operando a partir de El Hajiz. Lá tem água boa, mas eles podem ter se mudado.

Eles estavam falando em inglês.

— Villiers Sahb vai se reunir logo a eles, creio. Observe-o. Quando ele partir, siga-o. Leve um dos nossos Land Rover.

— Quais são suas ordens?

— Acho que ele precisa de outra lição. Anda arranjando problemas.

— O novo oficial?

— Talvez um susto seja o bastante. É tudo que Alá deseja. Deixo a seu encargo. Boa noite.

A porta de cobre se abriu como num passe de mágica, o criado apareceu e ela se retirou, seguida por Rupert.

— Lembre-me de nunca lhe dar motivo para ficar zangada comigo — disse ele.

— Mesmo se desse, estaria perfeitamente seguro, querido. — Ela sorriu. — Afinal de contas, é um Dauncey.


Abu desceu direto até o bazar, um cachecol cobrindo metade de seu rosto, e seguiu até o café que ele sabia ser usado regularmente pelos patrulheiros quando em Hazar.

Eles estavam sentados a uma mesa tomando café, Achmed e seus quatro companheiros. Havia gente por toda parte, algumas acocoradas, as costas apoiadas na parede.

Abu puxou o pano mais para cima, tapando quase todo o rosto, e se acocorou lá, cabeça baixa, atento à conversa de Achmed e seus amigos.

Achmed não lhes contou sobre a morte de Selim, nem fez qualquer alusão a ela. Por enquanto, ele lhes disse que Selim recebera uma mensagem sobre algum problema de família e decidira ir para casa.

Nesse momento, Villiers apareceu e todos se levantaram.

Achmed disse: — Selim estava transtornado. Acho que recebeu notícias ruins da família. Ele não está por perto, Sahb. Deve ter ido embora.

— Então você agora é sargento — disse Villiers. — Partimos ao amanhecer para El Hajiz. Apronte os Land Rover e pegue-me no hotel.

— Como o Sahb quiser.

Villiers saiu. Achmed e seus companheiros se retiraram também. Só então Abu se levantou e foi embora.


Ciente do destino dos patrulheiros, Abu deixou a vila antes do alvorecer num Land Rover. Kate Rashid e Rupert foram conduzidos pelo criado até um pequeno heliporto que ela construíra nas cercanias de Hazar, e ali os aguardava um helicóptero Scorpion, com capacidade para oito passageiros. O piloto era Ben Carver, que estava acocorado ao lado da aeronave vestido num macacão da RAF.

— Bom dia, Ben — disse ela. — Este é meu primo, Rupert Dauncey. Como está o tempo?

— Bem, vai ficar muito quente, mas isso não é novidade. Shabwa está bem, mas há uma chance de uma tempestade de areia na área de Fuad.

— Teremos de correr o risco. Vamos andando.

Havia um aeroporto em Shabwa, oásis imenso com palmeiras e um lago grande para os padrões do deserto, mais uma profusão de tendas, cavalos, camelos, rebanhos de cabras, além de vários Land Rover. O Scorpion pousou, e quando Kate Rashid saltou, as pessoas se aglomeraram ao redor dela, não apenas guerreiros com fuzis, mas mulheres e crianças. Vários tiros foram disparados para o ar, crianças gritaram de alegria, e a multidão seguiu Kate, todos esperando uma oportunidade para tocá-la.

Os guerreiros obrigaram as pessoas a se afastar e a formar duas filas. Dois meninos se aproximaram correndo, cada um com um robe, e ajudaram Kate e Rupert a vesti-los.

Ela levantou um braço para os guerreiros, punho cerrado. — Meus irmãos!

Eles bradaram sua aprovação e mais tiros foram disparados ao ar. Kate caminhou na frente até uma grande tenda que tinha sido preparada, com tapete e almofadas para eles se sentarem. Dois dos subchefes de tribo se sentaram de pernas cruzadas ao lado de Kate e iniciaram uma conversa animada em árabe. Rupert acendeu um cigarro e foi servido de café forte e doce numa xícara de metal, e bolos de semente. Os dois chefes velhos também beberam café, e muitas pessoas se sentaram para observá-los.

— Inacreditável — disse Rupert. — Nunca vi nada parecido.

— Eles são o meu povo, Rupert.

— E, ainda assim, isso é apenas metade de você. Quando me levou para Dauncey no outro mês, os aldeões se comportaram praticamente da mesma forma. Quando fomos tomar uma bebida no Dauncey Arms, todo mundo que estava sentado se levantou.

— Isso porque também são meu povo, e são tão carinhosos comigo quanto as pessoas daqui. As raízes dos Dauncey são profundas, Rupert, e são suas raízes também.

— É o tipo de coisa que faz valer a pena viver — disse Rupert e, um tanto para sua própria surpresa, percebeu que falava sério.

Mulheres apareceram com pratos variados: arroz, lentilhas, muito pão sem fermento e um assado.

— Que diabo é isso? — indagou Rupert.

— Bode, meu querido, e não recuse ou eles ficarão ofendidos.

— Deus do céu — disse Rupert.

— Nada de facas ou garfos. Nós comemos com a mão, e procure usar a mão esquerda. — Ela sorriu. — Agora coma como um bom menino, e então seguiremos para Fuad.

Uma hora e meia depois, partiram.


— O que vou encontrar em Fuad? — perguntou Rupert.

— Para todos os efeitos, um acampamento militar. Temos jovens de todos os estados árabes principais. Nós os treinamos em habilidades bélicas básicas com fuzis e metralhadoras, e no uso de armas mais sofisticadas, como lançadores portáteis de mísseis.

— E fabricação de bombas e explosivos?

— Sim, isso também, embora seja muito básico. Principalmente como usar explosivos com eficácia usando bastões temporizadores. Há um limite no que podemos fazer. Não estamos exatamente no nível do IRA. Geralmente temos cinquenta pessoas no acampamento, na maioria homens, mas também temos algumas mulheres. Eles passam oito semanas aqui e então voltam para casa e passam seu conhecimento adiante.

— Quem são os instrutores?

— Palestinos, na maioria.

— Eles são bons?

— É difícil encontrar bons profissionais hoje em dia. Mas o instrutor principal é de primeira. Seu nome é Colum McGee. Foi do IRA muitos anos.

— Então, qual é o propósito de tudo?

— Ter muitos jovens revolucionários razoavelmente espalhados pelo Oriente Médio, jovens que teriam a maior satisfação em derrubar seus governos, jovens que odeiam os capitalistas e os ricos.

— Mas, Kate, você é uma capitalista e é inacreditavelmente rica. E mesmo assim quer desestabilizar tudo isso? Não faz sentido.

— Faz se você quiser vingança, querido. Faz se você quiser vingança.

— E como vai conseguir?

— Mais tarde, Rupert. Quando for a hora. — Ela olhou para baixo, onde a areia se levantava numa grande nuvem. Então Ben Carver tinha razão. Uma tempestade do deserto estava se formando.


Villiers e seus homens estavam no território das colinas, passando entre os grandes penhascos ocre, seguindo para o lago de Hama. Por algum tempo, à medida que o vento aumentava de força, Villiers notara que ele carregava finas partículas de areia. Para se proteger, Villiers e seus homens cobriram nariz e boca com o keffiyeh.

Enquanto se aproximavam do lago, ele disse a Achmed: — Vamos parar e reabastecer as bolsas de água.

— Como o Sahb quiser.

Achmed saiu com dois patrulheiros, mas Villiers permaneceu em seu banco, protegendo-se atrás do para-brisa, acendendo um cigarro dentro das mãos em concha.

Achmed e os dois patrulheiros encheram bolsas de pele de bode e estavam se virando para voltar aos Land Rover, cada homem carregando duas, quando se ouviu um tiro e uma bala apareceu na bolsa que Achmed carregava na mão esquerda, começando logo a vazar água. Os três homens largaram as bolsas e correram para buscar abrigo nos Land Rover e se agacharam, armas prontas.

— Não respondam ao fogo! — ordenou Villiers.

O vento gemeu e trouxe mais areia.

— Veja, Sahb — disse Achmed. — Há marcas de pneus na areia: um Land Rover, com certeza. Alguém passou por aqui antes de nós. Talvez Abu. — Villiers começou a se levantar e Achmed puxou-o de volta. — Não, Sahb. Você não.

— Acho que é Abu, mas se ele pôde atingir a bolsa, podia ter atingido você. Ele não pode atirar em mim porque a condessa me quer vivo. Isso significa que só está brincando conosco. Vou provar a você.

Ele se levantou e gritou em árabe: — Abu, você não tem honra? Está com medo de me ver cara a cara? — Ele caminhou até campo aberto. — Aqui estou eu. Onde está você?

A visibilidade tinha sido imensamente reduzida agora. Eles escutaram o som de um motor sendo ligado e um veículo se afastando.

— Ele foi embora, Sahb — disse Achmed.

— E nós devemos ir também, e procurar abrigo. Essa tempestade pode durar um bom tempo.

No final da passagem havia um forte em ruínas, remanescente dos velhos tempos. Os estábulos ainda tinham teto; os Land Rover estacionaram e seus ocupantes desceram.

Villiers disse a Achmed: — Acenda o fogão. Café para vocês e chá para mim. Uma lata de comida para cada homem. Eles podem escolher o que quiserem.

— Como o Sahb ordenar.

Villiers olhou pela janela, viu a areia coleando furiosa e se perguntou como Abu estava se saindo lá fora. Mas o que ele queria realmente saber era o que esse homem pretendia.


O Scorpion chegou a Fuad antes da tempestade alcançar sua intensidade total. Rupert conseguiu divisar as palmeiras do oásis lá embaixo e sua visão treinada percebeu o fortim, a galeria de tiro adiante, e muitas tendas beduínas do tipo que tinham evoluído durante os séculos para proteger as pessoas das intempéries no Rub'al Khali, incluindo tempestades de areia.

Havia muitos homens esperando lá embaixo, rostos protegidos contra a areia. Kate se virou para Rupert e disse: — O hálito de Alá, como chamam os beduínos.

— Então hoje ele está com mau hálito.

Carver pousou entre dois bosques de palmeiras. Homens apareceram com cordas, que passaram em torno dos trenós do helicóptero, amarrando as pontas nas árvores.

Ben Carver desligou o aparelho.

— Meu Deus, essa foi das brabas — desabafou.

— Você se saiu bem — elogiou Kate.

Carver saltou primeiro e segurou a porta. Kate envolveu o rosto com uma echarpe e fez menção de descer da aeronave. Alguém lhe ofereceu a mão, um homem grande, vestindo jeans e jaqueta de couro, o keffiyeh cobrindo seu rosto. Rupert desceu em seguida e eles correram para as tendas.


A tenda na qual entraram era grande e bem mobiliada, com tapetes no chão, almofadas e uma mesa baixa. Podia ser considerada luxuosa. As cortinas que cobriam as paredes da tenda mexiam-se um pouco quando um vento mais forte soprava, mas mesmo assim o som chegava baixo ali dentro e parecia um tanto distante.

O homem com a jaqueta de couro removeu seu keffiyeh, revelando uma barba de pelos emaranhados salpicados de cinza. Era Colum McGee, e estava sorrindo.

— Que bom vê-la, condessa.

Kate apresentou Rupert e, um momento depois, Carver chegou.

— Quanto tempo a tempestade vai durar? — inquiriu Kate.

— Chequei os relatórios de clima com o aeroporto de Hama. Deve diminuir em duas ou três horas.

Ela olhou o relógio.

— Onze horas. Isso nos daria tempo para uma inspeção e ainda assim conseguiríamos chegar a Hazar ao anoitecer. Colum, também precisamos comer alguma coisa decente.

— Bem, não posso oferecer um desjejum irlandês completo, condessa, mas as mulheres na cozinha fazem um pão muito bom, embora seja sem fermento. Se quiser assado de cordeiro ou bode, tudo bem. Se não, posso oferecer vários alimentos enlatados. Bife, batata, cenoura, ervilha...

— Acho que ficaremos satisfeitos com isso. Trouxe a caixa térmica, Ben?

— Pedi a um dos homens que a levasse para a cozinha.

— Ótimo. Vamos tomar um drinque.


Carver atravessou uma tenda em forma de túnel e entrou na cozinha. Havia uma lareira de pedra redonda na entrada, três panelas penduradas em ganchos, meia dúzia de mulheres trabalhando em atividades variadas. A caixa térmica de plástico azul estava em cima de uma mesinha.

Na tenda principal, Kate Rashid disse: — Colum, tudo que Ben Carver sabe é o que ele vê: o acampamento e o treinamento ocasional. Não quero que ele veja nada mais. Vamos deixar os assuntos sérios para depois da refeição.

— Como queira. Vou até a cozinha passar as instruções às mulheres, mas não acho que muita coisa passe despercebida a um veterano da RAF como Ben.

Enquanto saía, Ben chegou com a caixa. Ao abri-la, havia três garrafas de champanhe e várias taças plásticas.

Tirou a rolha de uma garrafa e começou a servir.

— Quatro taças, Ben.

— Todo o conforto do lar — disse Rupert.

— Faça de conta que é um piquenique — disse ela quando o irlandês retornou. — E então, Colum, como está o programa de treinamento?

— Bem como sempre. — Sentaram-se em almofadas com suas bebidas. Colum prosseguiu: — Aqueles garotos palestinos são cheios de fogo, mas não durariam muito contra tropas israelenses.

— Tenho certeza de que você está fazendo o melhor possível. Mas vamos comer e discutir o assunto depois.


No velho forte, a tempestade já estava suavizando. Villiers e seus homens aguardaram, e finalmente ele sacou seu Codex Quatro e ligou para Bobby Hawk.

— Onde você está?

— Uns trinta e dois quilômetros a leste do oásis El Hajiz. E você?

Villiers lhe disse.

— Está em movimento?

— Não. Abrigado numa caverna.

— Bom. A tempestade vai sumir em mais ou menos uma hora. Vamos nos encontrar em El Hajiz. A propósito, perdemos dois homens: Omar e Selim.

— Meu Deus! Como foi isso?

— Conto quando nos encontrarmos.

Villiers desligou o celular, gritou “mais chá” para Achmed, e voltou a telefonar, desta fez para Londres. Precisava colocar Ferguson a par dos acontecimentos.


Depois da refeição, Kate disse: — Já comi coisas piores. Obrigada, Colum.

— Nosso objetivo é agradá-la.

— Fico feliz em ouvir isso. Vamos conversar. — Virou-se para Carver. — Se puder nos desculpar, Ben, vamos falar de negócios.

Carver saiu o mais rápido que pôde. O dinheiro que ela pagava por seus serviços era suficiente para satisfazer sua ganância. Não podia deixar de saber da existência do Fuad, mas preferia que tudo permanecesse um mistério.

Lá dentro, Kate estava dizendo: — Então você está se relacionando bem com os instrutores palestinos?

— Diria que sim.

— Então, se eu quiser que um projeto sério seja realizado, um que demande perícia no departamento de bombas, aonde eu iria? Eu lhe perguntei isso na última vez em que nos encontramos, lembra? E pedi que você pensasse no assunto.

— Internacionalmente, o melhor ainda é o IRA, embora o IRA Provisório esteja entrando no mercado. E quanto àquelas pessoas que você contratou quando quis atacar o Conselho de Anciãos em sua viagem aos Poços Sagrados? Foi Aidan Bell, não foi? Com Tony Brosnan e Jack O'Hara?

— Já não estão mais entre nós. Sean Dillon matou Aidan.

— Sean foi um bom companheiro nos velhos tempos. — Ele sorriu. — Mas agora o filho da puta está trabalhando para os britânicos.

— E então, quem você sugere?

— Por mais estranho que possa parecer, o primo de Aidan pelo lado materno, Barry Keenan. Está baseado em Drumcree. Ele não gosta dos Provisórios; acha que são um bando de velhas. Os Provos agora estão associados ao IRA Real, que voltou a um republicanismo antiquado. Esta é a opinião de um irlandês, que traduzida rudemente significa que esse tipo de gente mataria o papa se achasse que ajudaria à causa.

— Meu tipo de gente. Pode me providenciar um encontro com Keenan?

— Não na Inglaterra. Ele é procurado lá.

— Irlanda?

— Ah, sim, não tocariam nele nem no norte da Irlanda, principalmente desde que o processo de paz começou.

— Vou encontrá-lo em Drumcree. Providencie isso para mim.

— Vai demorar.

— Não estou com pressa. — Ela se levantou. — Vamos ver se a tempestade baixou o bastante para Rupert dar uma olhada no acampamento.

Colum perguntou, curioso: — Conhece este tipo de negócio, sr. Dauncey?

— Pode-se dizer que sim — respondeu Dauncey com um sorriso preguiçoso.


Foram conduzidos a uma tenda grande nas cercanias do acampamento. Havia meia dúzia de jovens árabes ali, atentos ao instrutor atrás de duas mesas dobráveis, sobre as quais tinham sido dispostos vários itens necessários ao ramo de explosivos. Havia bastões temporizadores, outros tipos de fusíveis, mecanismos, cronômetros e várias amostras de explosivos. Tudo era muito básico, e Rupert não ficou impressionado.

— Vamos continuar antes que eu perca meu entusiasmo — disse a McGee.

Seguiram para a galeria de tiro, onde recrutas estavam deitados, apoiados nos cotovelos, apontando para alvos em forma de silhuetas masculinas posicionados a quatrocentos metros.

— Passe-me seu binóculo — disse Rupert a McGee e focou nos alvos. — Nada bom. Alguns acertos aleatórios, mas a maioria de seus homens está errando.

— E você pode fazer melhor? Se está familiarizado com o AK, sabe que é a melhor arma automática de curta distância do mundo. Agora, quatrocentos metros é uma distância exigente para qualquer um. — Ele tentou conter o sarcasmo, mas não conseguiu. — Mas suponho que você conheça intimamente o AK.

— Bem, já fui atingido no ombro por um, mas por sorte isso foi na última semana da Guerra do Golfo. — Rupert caminhou à frente. — Pessoalmente, sempre a considerei uma arma muito apropriada a situações que permitem um único disparo.

Colum McGee pegou um AK numa estante de madeira, injetou um pente e armou a arma. Ele a ofereceu a Rupert.

— Mostre.

— Com todo o prazer. — Rupert passou os binóculos para Kate. — Vou acertar os primeiros cinco da esquerda e os últimos cinco da direita.

Colum assobiou e fez um sinal. Todos ali pararam de atirar, descarregaram e se levantaram. O instrutor gritou para recuarem. Rupert foi à frente.

Ele nem se deitou; ficou em pé. Levou o AK ao ombro e começou a disparar lenta e cuidadosamente. Um gemido de surpresa se elevou da turma quando ele acabou.


Kate baixou os binóculos e se virou para McGee.

— Dez acertos nas cabeças. Só conheço um outro homem tão bom assim, e ele matou meu irmão George e outros três homens a quatrocentos metros: Sean Dillon.

— Nunca vi nada parecido — admitiu Colum.

— Bem, você não veria mesmo — disse-lhe Kate. — O que temos agora?

— Combate desarmado. Eles costumam ser muito bons nisso. Afinal, a maioria veio das ruas.

A área requerida ficava no outro lado do oásis, atrás das palmeiras, onde a areia era macia. Pares de jovens enfrentavam um ao outro. O instrutor era um homem musculoso, com a cabeça completamente lisa e um bigode cheio. Falava um inglês razoável, e seu nome era Hamid.

Kate disse: — Meu primo gostaria de ver um pouco do seu trabalho.

Ele olhou para Rupert e não ficou impressionado.

— Ah, algo para turistas. — Ele fez sinal para que dois rapazes caminhassem à frente e disse: — Tentem me pegar. — Eles pareceram nitidamente preocupados e Hamid gritou: — Não ouviram? Tentem me pegar!

Correram juntos contra ele. Hamid evitou o soco do primeiro oponente com facilidade, agarrou-o pela jaqueta, plantou um pé em seu estômago e, jogando-se de costas para trás, lançou o garoto para o alto. O jovem caiu no chão. Hamid se pôs de bruços e desferiu um chute para trás contra o outro jovem. A rótula do rapaz foi deslocada e ele caiu gritando no chão.

Hamid virou-se para Kate, Rupert e McGee, mãos nos quadris, sorrindo triunfante.

— Basta? — Havia um certo desdém em sua voz.

— Caramba, você é bom demais pra mim — disse Rupert, levantando uma mão em sinal de paz. — Eu passo.

Hamid riu, jogando a cabeça para trás e abrindo as pernas. Rupert chutou entre elas, precisamente no centro. Hamid rolou para trás e começou a assumir a posição fetal. Rupert posicionou um pé em seu pescoço.

— Cuidado, camarada. Eu podia quebrar seu pescoço com facilidade, mas não vou, porque imagino que seja difícil encontrar funcionários na sua área. — Ele se virou para Kate. — É só isso? Podemos ir agora?

— Seu sacana! — disse Kate, mas ela estava rindo.

Carver estava fazendo alguma coisa dentro do Scorpion.

Quando os viu se aproximar, ele saltou.

— Prontos para ir?

— Passaremos a noite em Hazar. Partimos amanhã às sete para Northolt. — Ela se virou para McGee. — Deixo Keenan e Drumcree a seu encargo.

Ela embarcou, seguida por Rupert. Alguns momentos depois, estavam no ar.


Quando Villiers e seus homens alcançaram El Hajiz, Bobby Hawk e seus patrulheiros já estavam lá com três Land Rover.

— É bom ver você — Villiers estendeu a mão. — Fez boa viagem?

— Melhor que a sua, em todos os sentidos. O que aconteceu?

— Conto depois. Vamos armar acampamento.

Posicionaram os cinco Land Rover num semicírculo contra um outeiro, cercados pelas palmeiras do oásis. Alguns homens usaram suas jambiyas para cortar pedaços de arbustos e usá-los para acender uma fogueira. Logo a água estava fervendo em duas panelas, e Villiers falava aos homens reunidos.

— Para aqueles de vocês que não estavam lá, Omar foi abatido por um atirador no lago de Hama.

Um burburinho enraivecido se elevou dos homens reunidos.

— Acalmem-se. Depois, Selim foi assassinado em Hazar. Cortaram sua garganta. Eu sei quem fez essas coisas. Foi Abu, o guarda-costas da condessa. Ele podia ter me matado também, mas preferiu não fazê-lo. Eu me expus e o chamei para me enfrentar. Mais uma vez, ele podia ter me atingido, mas não o fez, porque a condessa me quer vivo. Só morrerei se nos aventurarmos além da linha. Portanto, ficaremos provisoriamente em Hazar. Eu só queria que todos vocês soubessem dessas coisas.

Ele se virou para Achmed.

— Posicione três homens nas metralhadoras. Todos os outros podem comer.

Mais tarde, Villiers e Bobby foram presenteados com um cozido de feijões e frango, acompanhado de muito pão sírio.

— Não é exatamente o refeitório dos oficiais em Windsor — disse Villiers.

— Mas não está nada mal — disse Bobby Hawk. — Todos esses alimentos enlatados me deixaram com desejo de comida caseira.

Ele tinha apenas 22 anos, e já fizera um tour pelo Kosovo com os Lifeguards em tanques Challenger e carros blindados. Não tinha resistido à chance de um posto na Patrulha de Hazar, embora isso tivesse adiado sua promoção a segundo-tenente. Villiers, claro, poderia ter sugerido o oposto. Um período na Patrulha de Hazar contaria muito para sua futura carreira militar.

Terminaram de comer, e um dos homens recolheu seus pratos de lata enquanto outro trazia-lhes xícaras de porcelana e uma chaleira de chá preto amargo de que até Bobby começava a gostar. A escuridão estava se adensando e os homens acocoraram-se por trás dos Land Rover, onde poderiam desfrutar do calor da fogueira com maior segurança.

— Acha que ele está lá fora... Abu?

— Tenho certeza.

— Acha que fará outro ataque?

— Sim, mas não creio que tenha planos para matar mais alguém. Será apenas mais um aviso. Uma lembrança de que Kate Rashid está com a mão no meu pescoço.

— Espero que esteja certo — disse Bobby, sinceramente.

Sentaram-se e conversaram durante uma hora. Um patrulheiro jogou mais galhos espinhentos na fogueira, reabasteceu a chaleira com chá fresco e água fervente e colocou-a perto deles.


Bobby segurava a garrafa para servir o chá, quando um único tiro se ouviu, um buraco apareceu do nada, e o líquido quente jorrou da chaleira para a mão de Bobby.

— Meu Deus! — Bobby se levantou num pulo e sacou a Browning do coldre.

Ficou em pé ali, arma estendida.

— Não! — gritou Villiers. — É Abu de novo. Se ele conseguiu acertar a chaleira, podia ter acertado você.

Os patrulheiros pegaram seus rifles e uma das metralhadoras cuspiu uma saraivada de balas na escuridão. Villiers se levantou e acenou.

— Parem de atirar. Ele não vai disparar de novo.

Fez-se silêncio. Bobby enfiou sua Browning no coldre e soltou uma risada trêmula.

— Espero que tenha razão.

E então houve um segundo tiro, um disparo que levantou o rapaz do chão, jogando-o para trás. Os patrulheiros rugiram de ódio e começaram a atirar indiscriminadamente na escuridão. Villiers acocorou-se ao lado de Bobby, que estremeceu convulsivamente e morreu.

Villiers nunca tinha sentido tanta raiva em sua vida.

— Parem de atirar agora! — gritou para seus homens, que baixaram as armas relutantemente. Ele se virou, de costas para a fogueira, e abriu os braços.

— Abu, estou aqui. Onde você está? Agora você mata meninos? Venha tentar um homem!

Mas a única resposta foi o som de um Land Rover sendo ligado e então se afastando.


Abu dirigia com uma só mão, para segurar o keffiyeh na face direita. Escapara por sorte. Uma bala perdida de metralhadora, parte do disparo de resposta a seu tiro na chaleira, atravessara sua bochecha direita. Ele estava com raiva de si mesmo por ter feito uma coisa desnecessária. Sua estratégia de atirar em Achmed em Hama e no jovem oficial tinha sido sensata; ele quisera apenas mostrar que poderia tê-los matado. O segundo tiro em Bobby Hawk não podia ser justificado como ação reflexa. Ele deixara passar algum tempo e hesitara, mas tinha sido vencido pela raiva e pela dor. Poderia ter atingido Villiers, mas ao menos fora são o bastante para não fazer isso. Encostou na beira da estrada de terra, abriu a caixa de primeiros socorros e encontrou ataduras para cobrir o ferimento. Em seguida, tornou a dirigir através da noite, rumo a Hazar.


Os homens estavam colocando Bobby Hawk num saco plástico. Villiers estava sentado perto do fogo, bebendo de uma meia garrafa de uísque, mantida na caixa de primeiros socorros para propósitos medicinais. Bebeu do gargalo e fumou um cigarro.

Ele tinha perguntado a Kate Rashid por que Abu não o tinha acertado na cabeça, e ela respondera que ele era importante demais. Ele permitiu que isso anuviasse seu julgamento e entendeu errado, total e lamentavelmente errado. E Bobby Hawk pagara por esse erro com a vida.

Achmed se aproximou e disse: — Quer ver o cornet, Sahb?

— Sim, quero.

Ele caminhou até o saco plástico, cujo zíper estava aberto até o em cima, de modo a expor o rosto de Bobby, olhos fechados pela morte. Com o calor do dia, o apodrecimento aconteceria rápido, e lembrar disso foi quase insuportável.

E então um pensamento lhe ocorreu e ele se virou para Achmed.

— Feche o saco, e então amarre o Sahb ao capô do Land Rover, como fizemos com Omar. Partiremos em dez minutos. Seguiremos até Hazar durante a noite.

— Como o coronel Sahb ordenar.


Villiers sentou-se novamente e ligou seu Codex. Tentou Ferguson na linha especial do Ministério da Defesa e o encontrou no escritório.

— Sou eu de novo, Charles. Aconteceu uma coisa ruim.

Por acaso, Hannah Bernstein e Dillon estavam no escritório, e Ferguson colocou seu telefone no viva voz.

— Pode falar, Tony.

O que Villiers fez.

— Entendi errado e agora o garoto está morto.

— A culpa não é sua, Tony. É de Kate Rashid.

— Você tem de falar com o oficial comandante do Lifeguards. Bobby tem mãe viúva e duas irmãs na universidade. Elas precisam ser informadas.

— Acho que o Lifeguards se incumbirá disso.

— Você sabe quanto tempo um corpo dura aqui, Charles. É por causa disso que vou lhe pedir um favor.

— Qual é?

— Se vocês mandarem Lacey e Parry para cá no Gulfstream e conseguirem tirá-los de Farley na próxima hora, aproximadamente, eles poderão fazer o voo em, digamos, dez horas. Em Hazar vou conseguir o tipo ideal de caixão. Se eu conseguir burlar a burocracia, eles podem levar o corpo de volta para Londres.

— Você não precisa pedir, Tony. — Ele meneou com a cabeça para Hannah. — Cuide disso o quanto antes, superintendente.

Hannah se retirou, apressada, e Ferguson disse a Tony: — Mais alguma coisa?

— Sim. Quero que você saiba que pode contar comigo a partir de agora. Há alguma coisa lá fora e vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para descobrir o que é. O que eu puder fazer para acabar com a raça dessa mulher, eu farei.

— Bom ouvir isso. Mais tarde ligo para informar a hora da saída de Lacey e Parry.

Villiers desligou. Os homens estavam esperando.

— Muito bem. Vamos levantar acampamento.

Tony acomodou-se em seu Land Rover ao lado de Achmed e a caravana partiu.


Abu alcançou a Vila Rashid às cinco da manhã. O criado disse que a condessa estava acordada e tomando banho. Ele deu café a Abu e saiu para anunciar que ele havia chegado. Ela apareceu de robe no alto da escadaria, e enquanto Abu se levantava, Rupert, usando calça e camisa cáqui, juntou-se à prima.

Ela desceu a escada, Rupert atrás.

— Você está com uma cara horrível. É ruim?

— O beijo de uma bala, nada mais.

— Como aconteceu?

Ele contou, sem omitir nada.

— Causei problemas à condessa. O coronel não deixará isso passar em brancas nuvens.

— O que está feito, está feito — disse ela, testa franzida de preocupação. — Mas Villiers virá direto a Hazar com o cadáver. Quero que você saia daqui agora. Quando estiver saindo da cidade, passe no dr. Yolpi para ele cuidar de você. Depois siga direto para Shabwa. Espere lá até segunda ordem.

Ela levantou a mão, ele a beijou e então saiu sem dizer uma palavra.

— E agora? — indagou Rupert.

— Vou me vestir. Faça sua mala. Vamos para o aeroporto o mais rápido que pudermos. — Ela se virou para o criado, que estava a postos. — Traga a limusine.

Enquanto eles voltavam para o andar superior, Rupert perguntou: — Mas por que a pressa?

— Tenho um pressentimento ruim em relação a Tony Villiers. Prefiro não vê-lo neste momento.

— O quê? A mulher cruel está com medo?

— Vá pro inferno, querido.


Quinze minutos depois, desceram novamente a escada, Rupert carregando duas malas. O criado abriu a porta, eles saíram e encontraram os cinco Land Rover da Patrulha de Hazar enfileirados na rua, um homem em cada metralhadora.

Braços dobrados, Tony Villiers estava parado ao lado do Land Rover da frente.

Ela hesitou e então desceu os degraus, Rupert atrás. — Ora, Tony, mas que surpresa.

Sem disposição para conversa fiada, Tony apontou o saco de corpo.

— Tenho certeza de que Abu chegou aqui antes de nós. Bobby Hawk está dentro do saco. Mas na verdade não foi Abu quem o matou. Foi você, Kate.

— Verdade? E o que pretende fazer a respeito?

— Kate Rashid, eu declaro jihad a você, a guerra da faca. E pretendo atravessar a linha para o Rub'al Khali quando bem entender.

— Estarei esperando.

— Bom. Agora dê o fora daqui antes que eu mesmo atire em você.

Kate hesitou, e então entrou na limusine com Rupert.

Villiers observou o veículo se afastar, e então se sentou no banco traseiro do primeiro Land Rover, ao lado de Achmed.

— Agora, meu amigo, me leve até o papa-defunto.

Achmed deu a ordem e o comboio seguiu em frente.


9


OXFORD-LONDRES

 


Kate Rashid estava sentada na poltrona do Gulfstream, pensativa, enquanto Rupert tomava café preto.

— É uma lástima que Abu tenha se deixado levar pelo entusiasmo — disse Rupert.

— Realmente. Agora preciso lidar com Villiers de uma forma que não pretendia.

— Quer dizer, se ele atravessar a linha para o Território Desocupado?

— Sim. Eu precisaria declarar aberta a temporada de caça a ele e aos patrulheiros.

— Por que você simplesmente não ordena que todos o abandonem no meio da noite? Afinal, eles são Rashid e você é a chefe.

— Você ainda não entendeu como a coisa funciona, Rupert. Eles fizeram o juramento. Eles pertencem a Tony. Até a morte, se necessário.

— Merda, jamais vou entender a mente árabe.

— Você já disse isso antes. Agora vamos nos concentrar em outras coisas. Estive pensando sobre esse Dia da Liberdade na Europa.

— É no sábado. O que tem?

— Tenho pensado que pode não ser uma ideia muito boa sermos vistos associados muito intimamente a ele, não agora, enquanto estamos sendo investigados. Precisamos manter nossa fachada não-violenta. Quando cabeças começarem a ser rachadas, quero que sejamos vistos como a voz da razão. Assim, quero que você faça o seguinte: que vá a Oxford visitar o professor Percy. Deixe claro que o Fundo Educacional Rashid está interessado apenas em questões de bem-estar e educação, e que somos completamente contrários a qualquer tipo de protesto violento, e que esperamos que ele diga isso aos estudantes.

— Você sabe como eles são. Eles vão agir violentamente de qualquer modo.

— Mas é claro que vão! Mas teremos registrado nossa oposição quanto a isso. E caso você tenha problemas com ele, por acaso sei que existe uma discrepância de cerca de cinquenta mil libras nas contas da Sociedade de Estudos Bélicos em Oxford. Portanto, Percy tem algumas coisas a explicar.

— Você realmente acha que cabeças serão rachadas?

— Meu bem, estou contando com isso, especialmente com a pequena Helen Quinn andando com eles como boa diletantezinha que é. Se tivermos sorte, ela será presa. Isso realmente gerará uma publicidade ruim. As colunas de fofocas vão adorar: a revolucionária que é filha de um senador.

— Sua sacana. Você não perde mesmo um só detalhe, não é?

— Não, querido. E procure não perder também.


Na manhã de sábado ele estava no Lion, em Oxford. O pub estava cheio de estudantes, e Percy já estava lá, uma caneca de cerveja à sua frente.

Rupert parou ao lado dele.

— Só vou tomar uma bebida.

Ele abriu caminho através da multidão e viu Helen Quinn e o jovem Grant no fundo do bar. Ele sorriu e caminhou até eles para pedir ao barman um Jack Daniel's.

— Oi! — disse ele. — Então, vão à manifestação?

Grant parou de sorrir e ficou agressivo.

— E o que você tem a ver com isso?

— Alan, cale a boca — disse Helen. Sorriu para Dauncey.

— Sim, nós vamos no ônibus.

— Gostaria que não fossem, a situação pode ficar preta. Quanto mais leio a respeito, mais tenho a impressão de que haverá violência, e simplesmente não podemos compactuar com nada assim.

Os estudantes próximos estavam ouvindo, e Percy, que também ouviu, se aproximou.

— Você não aprova? — perguntou Grant.

— Não aprovo tumultos. Não aprovo que a polícia rache as cabeças de vocês com porretes.

— Está com medo? Um veadinho como você deve estar. Rupert Dauncey. Que tipo de nome é esse?

Os estudantes ao redor riram e Helen disse: — Pare com isso, Alan.

Ele a ignorou.

— Sei que tipo de nome é. É nome de veado.

Rupert sorriu gentilmente.

— Se você está dizendo...

Ele pegou sua bebida e retornou até Percy.

— Sinto muito sobre isso — disse o professor.

— Tudo bem. Ele é jovem. Mas fui sincero. Acho que isso tudo é perigoso demais. Quero que você entre naquele ônibus e diga a eles para não irem.

— Entrar no ônibus? Mas já lhe disse. Tenho outros planos. Eu...

— Você pode esquecer seus planos. Ouça-me. A condessa e o Fundo Educacional Rashid agiram de boa-fé no apoio à Sociedade de Estudos Bélicos. Acreditamos em sua filosofia... mas não acreditamos em protestos violentos.

— Mas não posso controlar o comportamento deles.

— Entendo isso. Mas depois que eles estiverem no ônibus, você pode dizer a eles qual é sua opinião.

— Não, eu...

— Professor, nós investimos muita confiança em você. — Dauncey se inclinou para perto dele. — E dinheiro também. Não seria uma pena se viesse à tona que a discrepância de cinquenta mil libras na conta da Sociedade de Estudos Bélicos?

Percy pareceu encolher.

— Não sei nada sobre isso — sussurrou.

— Ah, sim, você sabe. Imagino o que seria de alguém como você em Wandsworth, compartilhando o chuveiro com assassinos e tarados sexuais. Não é um quadro bonito, professor.

Percy estava branco.

— Pelo amor de Deus, não.

— Nós também não apreciaríamos o escândalo. Ele poderia macular nossa reputação. Mas macularia muito mais você, não é?

— Muito bem — gemeu Percy. — Como quiser. Mas eles vão de qualquer jeito, não importa o que eu diga.

— Vou apoiar você. Pode me apresentar como representante da Rashid. Depois ninguém poderá dizer que não fizemos tudo que estava ao nosso alcance. — Ele olhou para o outro lado da sala, viu Grant caminhando para o banheiro masculino e se levantou. — Volto já.


Quando ele entrou no banheiro, Grant se preparava para sair. Ele se virou, fechando o zíper. Naquele instante, estavam sozinhos.

— O que você quer, veado?

Rupert chutou sua canela direita e o fez se curvar com um soco no estômago. Por fim, agarrou o punho esquerdo do rapaz e torceu seu braço. Levantou um punho cerrado.

— Como você quer que eu o quebre para você?

— Não, por favor, pare.

Rupert exerceu mais pressão. Grant gritou. Rupert o fez girar e o esbofeteou no rosto.

— Agora ouça com atenção. Por acaso sei que você está aqui em Oxford apenas porque as suas despesas são pagas por um programa educacional. Você sabe quem está por trás desse programa educacional? Sabe?

Grant gemeu novamente e fez que não com a cabeça.

— Nós. O Fundo Educacional Rashid. E podemos tomar a bolsa tão rápido que você ficaria tonto. Assim, saia da linha comigo de novo e vai deixar Oxford para trabalhar num McDonald's. Entendeu?

— Entendi. — Grant esfregou o braço, lágrimas nos olhos.

Rupert acendeu um Marlboro.

— Então ouça o que quero que você faça.


Quando Alan Grant enfiou a mão no bolso para pegar um lenço, seus dedos roçaram na caneta que seu irmão lhe dera. Alguma coisa, um pressentimento ruim, o fez ligar o aparelho.

Rupert tirou um saco de papel do bolso.

— Tem três doces aqui dentro, chocolates. Cada um deles contém um tablete de Ecstasy. Quero que você ofereça um à garota durante a manifestação.

— Por que... por que devo fazer isso?

— Por que há uma boa chance de que vocês sejam presos pela polícia. Se um exame atestar que Helen havia consumido drogas... bem, isso será embaraçoso para o pai dela, entendeu?

— E se a merda não atingir o ventilador? E se ela tomar a pílula e não for presa?

— Outras oportunidades surgirão. Apenas a leve de volta para o ônibus inteira.

— Não vamos voltar esta noite.

— Por quê?

— Meu irmão viajou para a Alemanha a negócios. Ele tem um apartamento em Wapping. Ele disse que posso passar o fim de semana lá.

— E ela concordou?

— Sim.

Rupert balançou a cabeça.

— Desinibida, essa garota. Qual é o endereço?

— Rua do Canal, número dez. É logo depois do Canal Wharf, no Tâmisa.

— Você tem celular?

— Não, só tenho telefone em casa.

Rupert pegou seu diário e um lápis.

— Dê-me o número. — Grant obedeceu. — Muito bem, agora cuide dela. Ligo para você à noite. Lembre-se: dê a ela a pílula durante a manifestação. E certifique-se de que ela não a misture com álcool. Não quero que ela adoeça, Grant, apenas que fique alta. Estamos entendidos?

Grant resmungou um sim.

— E se você contar alguma coisa... qualquer coisa... a respeito disso a alguém, vai se arrepender muito. Isso também está claro?

Grant fez que sim com a cabeça.

— Muito bem. Pode ir agora.

Ele deu tempo para Grant sair, e então o seguiu. A maior parte dos estudantes já tinha saído, mas Percy ainda aguardava na cabine.

— Venha — disse Rupert. — Prepare-se para fazer seu discurso. — E começou a caminhar na frente.


O ônibus estava parado diante do pátio da faculdade. Cerca de quarenta pessoas já tinham subido a bordo, e meia dúzia de alunos permanecia na calçada, conversando animadamente. Rupert e Percy entraram no ônibus.

— Então vem conosco, sir? — perguntou alguém.

— Sim, contra a minha vontade. Acredito que esta coisa possa esquentar muito — disse Percy.

— Tomara! — gritou alguém.

— Não, é sério. A Sociedade de Estudos Bélicos não defende a violência. Defende a mudança, mudança pacífica. Temo que isto seja um erro terrível. Não devíamos ir. Nenhum de nós deveria ir.

Rupert o interrompeu.

— Ouçam, meu nome é Dauncey, e represento o Fundo Educacional Rashid. Como alguns de vocês sabem, ajudamos a patrocinar a Sociedade de Estudos Bélicos, mas não podemos compactuar com nenhum tipo de violência. E, creiam em mim, haverá violência hoje. O professor Percy tem razão. A causa é certa, mas o tempo e o lugar são errados.

A reação foi exatamente a que ele esperava. Um coro de “O que estamos esperando?” se elevou do fundo do ônibus e Rupert deu de ombros.

— Então é por sua própria conta e risco.


Ele se sentou ao lado de Percy. Helen estava na poltrona no outro lado do corredor. Grant evitou olhar para Rupert, fingindo admirar a paisagem. A garota sorriu.

— Na verdade, é emocionante — disse a Rupert.

— Seu primeiro tumulto.

— Não acredito que chegue a isso. Será uma boa experiência. Tenho certeza disso.

— Vamos torcer para que esteja certa.

Helen se virou, não querendo que ele visse sua expressão preocupada.


O enterro de Bobby Hawk fora marcado para as onze horas daquela mesma manhã, numa cidadezinha de Kent chamada Pool Bridge, a uma hora de Londres. Ferguson e Dillon estavam viajando para lá, ainda sob o clima melancólico de março, embora a primavera já se avizinhasse.

Dillon acendeu um cigarro e abriu sua janela.

— Bela paisagem de campo.

Começou a chuviscar. Ferguson comentou: — Fico pensando no que ela e o primo estarão fazendo desde que voltaram.

— Não faço a menor ideia. Mas os eventos em Hazar nos últimos dias deram alguma coisa para ocupar suas cabeças.

— Alguma novidade de Roper?

— Nenhuma. Ele disse que já seguiu todas as pistas disponíveis. Ele não pode ler a mente de Kate. Tudo que pode fazer é procurar um padrão em suas ações, o que significa que ela precisa fazer a próxima jogada.

— O que é preocupante.

— Em todo caso, vou vê-lo esta tarde.

— Bom. — Ferguson recostou-se na poltrona. — Como será que Tony está?

— Kate não devia ter pisado no calo dele — comentou Dillon. — Foi um erro muito grave. Ela ainda vai se arrepender.

— Vamos torcer por isso — disse Ferguson e eles entraram em Pool Bridge.

A cidade seguia o antigo estilo inglês, com chalés, uma igreja antiga, um pub e um hotel que parecia georgiano. Havia uma fileira de carros estacionados diante da igreja. Ferguson xingou baixinho.

— Merda, estamos atrasados. Vamos, Dillon. — Ele saltou e correu até a enorme porta de carvalho.


A cerimônia tinha começado e a igreja estava tão cheia que tiveram de permanecer em pé, no fundo. Eles viram o caixão, e diante dele, no altar, um padre episcopal.

A sra. Hawk e as duas filhas, todas de preto, ocupavam o banco da frente. O comandante do Lifeguards estava lá, assim como o do Blues and Royals; como sempre, as corporações apoiavam uma à outra.

No final da cerimônia, o coronel do Life Guards juntou-se ao padre no altar, e descreveu a carreira curta de Bobby Hawk, elogiando-o por seus serviços e seu caráter.

Sim, mas o que tudo isso significa?, perguntou Dillon a si mesmo. Qual é a moral desta história? O garoto tinha apenas vinte e dois anos, e então o órgão começou a tocar e os hinos começaram.

No cemitério, o chuvisco cedeu lugar a uma chuva pesada e o chofer do general apareceu para discretamente oferecer-lhe um guarda-chuva.

— Por que sempre chove em enterros? — perguntou Dillon.

— Algum tipo de tradição, suponho — conjeturou Ferguson.

E então acabou, e a multidão começou a se dirigir ao hotel. Foi oferecida uma seleção de vinhos, um bufê. A maioria das pessoas parecia se conhecer. Dillon pediu a um garçom que lhe trouxesse um Bushmills e recuou para a parede.

A sra. Hawk se aproximou de Ferguson e o beijou no rosto.

— Que bom que você veio, Charles.

— Estou surpreso por você estar falando comigo. De certa forma, seu filho estava trabalhando para mim.

— Ele estava cumprindo seu dever, Charles, e isso é tudo que importa.

A sra. Hawk se afastou, e agora foi o coronel do Life Guards que veio falar com Ferguson.

— É bom ver você, Charles. É um ramo cruel, o nosso. Com este, Tony Villiers já perdeu dois cornets lá fora.

— Acha que ele terá dificuldade em substituir o jovem Hawk?

— Não enquanto houver um suprimento abundante de jovens loucos em Sandhurst.

Ele olhou com curiosidade para Dillon e Ferguson disse: — Sean Dillon. Ele trabalha para mim.

Os olhos do coronel se arregalaram.

— Deus do céu, o Sean Dillon? Faz tantos anos que nem lembro quando estava tentando capturar você em Armagh.

— E graças a Deus não conseguiu, coronel. — Dillon virou-se para Ferguson. — Nos vemos no carro.


Passava um pouco das três da tarde quando o ônibus parou em frente ao rio e os passageiros desembarcaram. Os estudantes se juntaram ao fluxo crescente de pessoas que caminhavam pela Horse Guards Avenue rumo a Whitehall. Rupert e Percy acompanharam o grupo de longe e, sem saber, passaram pela esquina onde, durante a Guerra do Golfo, um profissional do IRA chamado Sean Dillon disparara, de um Ford Transit branco, um tiro de morteiro contra o número dez da Downing Street.

Eles ouviram muito barulho, uma mistura de vozes, e quando dobraram a esquina para Whitehall, depararam-se com uma multidão imensa. Uma fileira de carros da polícia estendia-se ao longo da rua para impedir o acesso aos portões do número dez. Todos os policiais vestiam trajes antimotim, e alguns estavam a cavalo.

A multidão avançava, porque cada vez mais gente chegava e pressionava os já aglomerados. O contingente de Oxford já estava se dividindo, espalhando-se entre a multidão. Helen Quinn e Grant foram engolidos pela multidão, enquanto Rupert e Percy eram empurrados para outro canto.

Lá na frente, rostos ocultos por capacetes ou máscaras de esqui, rapazes acrescentavam um elemento novo e sinistro. E então, aconteceu. Um coquetel molotov voou de algum lugar para dentro da turba, atingiu o chão bem na frente da fileira de policiais e explodiu em chamas. E então apareceu outra bomba, e outra, obrigando a polícia a recuar alguns metros.


A multidão rugiu quando mais dois coquetéis molotov foram arremessados. Já havia ali um elemento de pânico, com muita gente compreendendo que estava metida em alguma coisa bem pior do que tinha imaginado. Alguns tentaram encontrar uma forma de recuar. Nesse momento, a polícia montada avançou.

Os policiais a cavalo foram recebidos com uma saraivada de projéteis, mas continuaram avançando contra as fileiras da frente, porretes subindo e descendo. Agora reinava um pânico absoluto, homens e mulheres gritando.

Henry Percy virou-se, aterrorizado.

— Não vou conseguir ficar aqui. Preciso fugir.

O próprio Rupert não tinha a menor intenção de ficar. Afinal de contas, a polícia não fazia perguntas em situações como aquela. O fato de estar ali já era suficiente. Ele tinha a mesma chance de levar uma cacetada na cabeça e ser jogado no fundo de um furgão quanto qualquer um dos manifestantes, e não queria isso.

Ele disse a Percy: — Não entre em pânico. Apenas me siga.

E Rupert começou a recuar, abrindo caminho a socos.


Conseguiram chegar à Horse Guards Avenue. Ali se juntaram a um grupo que também recuava, a maioria correndo. Finalmente, deram na rua principal, ao lado do Tâmisa, e chegaram ao ônibus.

Não foram os primeiros; pelo menos meia dúzia de estudantes já estava lá. Percy entrou correndo no ônibus, e Rupert o seguiu. Dois estudantes eram moças e estavam chorando. A bem da verdade, os garotos também não pareciam felizes.

Percy se sentou, rosto nas mãos.

Rupert disse aos alunos: — Eu avisei, e vocês não escutaram. — Virou-se para Percy. — Só Deus sabe o que aconteceu com os outros. Mas isso é problema seu, não meu.

Rupert desceu do ônibus, caminhou pelo dique na direção da Ponte Vauxhall, conseguiu parar um táxi, e disse ao motorista para levá-lo à South Audley Street. Kate ficaria feliz em saber que tudo estava funcionando tão bem.


Eram quatro e meia em Whitehall. As pessoas já corriam em todas as direções, e Alan e Helen, com muitos outros, tinham sido forçados a buscar abrigo numa varanda. Ele ainda não lhe dera a droga... não tivera tempo.

Além disso, ele tinha outras coisas em mente. Helen estava com medo, mas ao mesmo tempo, excitada. Ela segurava firme o braço de Grant, e ele tirou do bolso uma meia garrafa de vodca e desenroscou a tampa. Ele tomou um gole grande. A polícia estava investindo novamente e Helen apertou o braço de Grant mais forte. Grant estava excitado, certo de que hoje ia conseguir traçar Helen... mas ele precisava garantir isso.

— Acalme-se. Tome um gole.

— Você sabe que só consigo beber vinho branco.

— Vamos, vai relaxar você.

Relutante, ela pegou a garrafa e tomou um gole. O líquido desceu queimando suas entranhas.

— Nossa, como é forte.

— Na verdade, o teor alcoólico não é tão alto assim. É apenas o sabor que é forte. Vamos, tome outro gole.

— Não, Alan, eu realmente não gosto.

— Não seja boba. Vamos, você vai se sentir melhor.

Ela fez o que ele disse.

Mais gritos se elevaram da multidão; a polícia estava abrindo caminho a golpes de cassetete, e agora muitas pessoas fugiam.

— Hora de irmos — disse Grant.

Ele pegou a mão de Helen e a puxou através da multidão.

Desceram a Horse Guards Avenue e chegaram ao dique. O ônibus já estava lá no outro lado da rua, aguardando estudantes desgarrados.

— Talvez devêssemos voltar a Oxford — disse ela, sentindo-se tonta com a bebida.

Grant abraçou Helen para confortá-la.

— Vamos, querida, vai ficar tudo bem. Certo, aquilo lá foi uma merda, mas não é motivo para estragarmos o fim de semana.

— Tudo bem. — Mas havia relutância em sua voz. — Vamos pegar um táxi.

E foi o que eles fizeram alguns minutos depois.


Na South Audley Street, Rupert Dauncey desligou a cobertura ao vivo na TV e se virou para Kate.

— Lá estão eles, correndo como coelhinhos assustados.

— O que será que aconteceu com a filha do Quinn?

— Vou ligar para a casa em que Grant está e perguntar.

Rupert ligou, mas o telefone simplesmente tocou e tocou.

Ele colocou o fone no gancho. De cenho franzido, olhou pela janela para a paisagem escurecendo com o fim da tarde. Sentia-se inquieto, mas não sabia ao certo o motivo.

— Kate, acho que vou descer até Canal Street e ver se eles estão lá. Posso usar seu Porsche?

— Querido, você está tornando nosso relacionamento muito pessoal.

— Eu também te amo — disse a ela e saiu.


No táxi, Grant lembrou dos chocolates com Ecstasy e deu um a ela. Ele sabia que era tarde demais para os propósitos de Dauncey, mas, diabos, com isso ela ficaria realmente pronta. Ele queria trepar com essa garota até cansar. Além disso, não estava nem aí para o tal Dauncey. Não sentia medo dele — afinal, tinha todas as ameaças daquele babaca gravadas em fita! E no caminho até o ônibus, depois de deixar Dauncey, ele esbarrara com um amigo que não estava indo para a manifestação. Aquela tinha sido a oportunidade perfeita. Dera a caneta ao amigo e lhe pedira para deixá-la em sua caixa postal. Assim, não corria o risco de perdê-la em meio à confusão.

Sr. Dauncey, nós vamos ver quem ainda vai se arrepender muito, pensou Grant, sorrindo para si mesmo.

Na casa em Canal Street, ele começou a se agarrar a Helen Quinn no sofá. Ela agora estava completamente bêbada, mas ainda assim resistia a seus beijos.

— Não, Alan. Eu me sinto péssima. Minha cabeça está latejando de dor.

— Você já vai melhorar. Volto num instante.

Ele subiu até o banheiro, trêmulo de excitação. Jogou água no rosto, secou-o e penteou o cabelo. Estava descendo a escada quando ouviu um grito repentino. Desceu correndo o restante dos degraus e chegou à sala de estar.

Helen estava se contorcendo convulsivamente no sofá. Seu corpo inteiro tremia.

— O que é? — perguntou Grant.

Quando ele encostou a mão no rosto de Helen, viu que ela ardia em febre. Os olhos da garota estavam arregalados, e espuma começava a sair de sua boca. Aquilo batia com todas as histórias de horror que ouvira sobre reação adversa ao Ecstasy.

Ele não podia fugir. Todos sabiam que estavam juntos.

Havia apenas uma coisa a fazer, e o St Mark's Hospital ficava a um quilômetro, subindo a High Street. Se ele conseguisse levá-la até lá, os médicos dariam um jeito nela. Correu até a porta da frente, saiu e abriu a porta da garagem.

Entrou no Escort do irmão e engrenou uma ré. Voltou para dentro da casa, ajudou-a a se levantar e pendurou a bolsa de Helen no pescoço dela. Estranhamente, ela foi capaz de caminhar com ele e logo saíram da casa, com Helen deitada no banco traseiro do Escort.


Rupert, no Porsche, tinha acabado de virar na Canal Street. Viu Grant sair com a garota, e pela forma como caminhavam, soube instantaneamente que alguma coisa estava errada. Ele passou diante do Escort e virou o Porsche. Quando Grant saiu, Rupert o seguiu. Chegaram ao hospital em minutos.

Rupert seguiu-os até o estacionamento principal e observou Grant tirar a garota do carro. Ela estava realmente sofrendo, caminhando como um zumbi, enquanto Grant a fazia subir os degraus da entrada até o setor de emergência. Rupert saltou do Porsche e os seguiu.


O setor de emergência estava lotado, como era típico na maioria dos hospitais da rede pública. Todos os lugares para sentar estavam ocupados, e algumas pessoas esperavam em pé. Rupert permaneceu no fundo, perto da entrada. Grant olhou em torno, perguntando-se o que fazer. Helen soltou um grito e começou a se debater. Grant não conseguiu segurá-la e a garota caiu no chão. Algumas pessoas se levantaram, assustadas.

Uma enfermeira correu até eles e se ajoelhou ao lado da garota. Agora havia muita espuma saindo de sua boca.

A enfermeira olhou para Grant.

— O que foi?

Agora completamente tomado pelo pânico, Grant mentiu: — Não me pergunte. Eu estava apenas de passagem lá fora. Vi que ela estava passando mal e tentando subir os degraus. Achei que estava drogada. Então corri para tentar ajudá-la.

A enfermeira gritou para suas colegas: — Emergência!

Quando duas outras enfermeiras chegaram correndo, os calcanhares de Helen começaram a tamborilar no piso, e seu corpo tremeu muito até parar de repente. Uma enfermeira colocou um dedo no pescoço da moça para sentir a pulsação, e então olhou para cima.

— Ela se foi.

Grant disse, estupidamente: — Ela não pode ter ido.

Um enfermeiro pousou a mão no ombro do rapaz. — Ela está morta, filho.

— Ai, meu Deus! — Grant virou-se e saiu correndo.

Rupert o seguiu.


Grant estava quase perdendo a razão. Ele não sabia o que fazer. Quando voltou à casa na Canal Street, já estava quase escuro. Estacionou o Escort, encontrou a garrafinha de vodca, e sentou à mesa da cozinha para tomar um gole depois do outro, muito depressa. Quando a campainha da frente tocou, ele já estava bêbado. Ignorou a campainha, mas ela voltou a tocar. Zangado, foi abrir a porta. Ficou parado ali, cambaleante, e Rupert o empurrou para trás.

— Segui vocês até o hospital. — Ele virou Grant e o empurrou até a cozinha. — Vi o que aconteceu. Ela está morta.

— Não tive nada a ver com isso.

— Você teve tudo a ver com isso. — Rupert agarrou o rapaz pela gravata, sacou o Colt .25 do bolso interno e o encostou na têmpora esquerda de Grant. — Deu a pílula a ela?

Grant estava tremendo muito, em grande parte devido à grande quantidade de vodca que bebera.

— Fiz exatamente como você mandou. Não consigo entender. Já tomei Ecstasy. Nunca tive uma reação como aquela.

— Algumas pessoas têm. É uma espécie de alergia — disse Rupert, olhando fixamente para Grant. — Mas não foi isso que causou a reação dela. Você está completamente bêbado, Grant. — Ele viu a garrafa vazia na mesa. Você deu vodca a ela, não deu? Você embebedou a garota e então deu a droga a ela, e isso depois que avisei para não misturar as coisas. Você fez uma grande merda desta vez, sabia?

Grant começou a chorar.

— Não queria isso. Foi ela que pegou a garrafa. Não consegui detê-la. Além disso, você me deu o Ecstasy. É tão culpado quanto eu.

O rapaz evidentemente estava racionalizando, mas tudo que Rupert fez foi endireitar o colarinho de Grant.

— Sabe de uma coisa, Alan? Você tem razão. Mas está com uma aparência horrível. Acho que está precisando de um pouco de ar.

E o empurrou da cozinha até a porta da frente.

— Onde dá esta rua? — perguntou Rupert.

— No cais.

— Por que as outras casas estão fechadas com sarrafos?

— Vão ser reformadas. Todas menos a do meu irmão. O conselho vai arranjar outra casa para ele quando voltar da Alemanha.


Agora já estava quase completamente escuro. Os dois seguiram até o cais, passando debaixo da única lâmpada acesa na rua. Havia postes acesos no outro lado do rio.

Um iate passou pelo rio, emanando música.

Grant parou na borda do cais, agora se sentindo nostálgico. — Quando a maré baixa, uma praia aparece aqui. Eu costumava brincar nela quando era garoto. Todos os meus amigos nadavam, mas eu não. Nunca aprendi a nadar.

— Isso é bom — disse Rupert, dando um passo para trás e se posicionando atrás de Grant.

Então, com duas mãos, Rupert empurrou com força, e Grant caiu na água.

Ele aflorou à superfície, gritando e agitando os braços. — Socorro! — gritou e afundou de novo.

Ele pareceu ter sumido, mas então voltou à superfície, agora se mexendo muito pouco. Rupert forçou a vista para enxergá-lo.

— Está se sentindo bem, meu amigo?

Um som de engasgo e Grant afundou pela última vez. — Sim, achei que estava. — Rupert meneou a cabeça e disse baixinho: — Era uma garota simpática. Você não devia ter feito aquilo.

Ele se virou e caminhou de volta para o Porsche.


Quando Rupert voltou à South Audley Street, Kate Rashid ainda estava sentada diante da lareira; era como se nada tivesse acontecido desde que ele saíra.

— Encontrou os dois?

Ele não precisava de uma bebida. Simplesmente abriu a janela da varanda e acendeu um cigarro.

— Acho que uma vez, num excesso de entusiasmo, eu disse que faria qualquer coisa por você. Que até mataria por você.

— Eu lembro, querido.

— Bem, acabo de fazer isso.

Ela pareceu chocada, mas então começou a sorrir.

— O que aconteceu?

E ele contou.


A enfermeira de plantão no St. Mark que recebera o corpo de Helen Quinn examinou a bolsa da garota e encontrou nela muitos objetos que estabeleceram sua identidade, o mais óbvio sendo seu passaporte americano. Também havia uma carteirinha da União Nacional dos Estudantes, e outra da faculdade de St. Hugh.

Os exames de sangue no hospital tinham detectado a presença não apenas de álcool, como também de Ecstasy. Como era a prática usual, o administrador do hospital informou a polícia e então telefonou para o diretor da faculdade St. Hugh para dar as más notícias. Ele falou com outros alunos no dormitório e descobriu que alguns deles haviam estado no ônibus com ela e Alan Grant. Então o diretor telefonou para a embaixada americana em Grosvenor Square, e foi o embaixador americano que, devido à posição de Daniel Quinn, teve a infeliz tarefa de telefonar para a linha direta do presidente.


Na Casa Branca, Jake Cazalet estava no Salão Oval.

Ele ouviu a notícia horrorizado, e desligou o telefone. Em seguida, ligou para Blake Johnson no Porão, e mandou que ele subisse imediatamente.

Blake chegou em mangas de camisa, com um bolo de papéis nas mãos.

— Eu vinha mesmo trazer uns documentos...

— Esqueça disso por enquanto — disse Cazalet.

E então o presidente contou as más notícias.

Blake ficou chocado.

— Não consigo acreditar, especialmente na sugestão de consumo de drogas. Estive com Helen várias vezes. Ela não pareceu esse tipo de garota.

— Não posso arriscar nenhum palpite — disse Cazalet. — Estudantes de folga... qualquer coisa pode acontecer. — Ele suspirou. — As drogas são a maldição da vida moderna. Onde Daniel está agora?

— Ele reportou ontem de um lugar chamado Prizren. É um setor multinacional de Kosovo. Como você estava ocupado, falei com ele.

— O que ele está fazendo nesse tal Prizren?

— Houve uma eclosão de combates. Os albaneses foram emboscados pelos sérvios, ou alguma coisa assim.

— Eu mesmo contarei a ele — prontificou-se Cazalet. — É o mínimo que posso fazer.

— Graças a Deus que não serei eu. Como vamos lidar com isso?

— Ele vai querer estar em Londres o mais depressa possível. Isso pode ser providenciado, usando a autoridade presidencial?

— Um helicóptero para o norte, de Prizren a Pristina. Então um voo direto para a Inglaterra. Acho que pode ser feito em uma hora.

— Faça então. Mas primeiro coloque-o ao telefone comigo.


Quinn estava nas cercanias de Prizren com um pequeno destacamento de paraquedistas franceses, parte da força multinacional. Quatro sérvios tinham sido mortos, e eles estavam em seus sacos plásticos na praça da aldeia, aguardando um helicóptero chegar.

Um dos homens deu a Quinn uma xícara de café, e seu capitão, chamado Michel, estava falando a um celular. Quinn tomava café quando seu próprio celular tocou e ele o atendeu.

— Quinn.

— Daniel? Jake Cazalet.

Quinn ficou pasmo.

— O que posso fazer pelo senhor, presidente?

Cazalet hesitou.

— O que está fazendo agora?

— Estou abrigado de uma chuva pesada neste cu do mundo na periferia de Prizren. Estou com os franceses. Temos alguns sérvios em sacos para tirar daqui, e estamos esperando um helicóptero. Do que se trata, sir?

— Daniel, tenho notícias terríveis para você — disse Cazalet.

— E quais são essas notícias, presidente?

E Cazalet lhe contou.


Quinn desligou o telefone com uma sensação que jamais sentira em sua vida.

Michel desligou seu celular e se aproximou.

— Ei, mon ami, acabo de saber que estão desviando outro helicóptero para cá apenas para pegar você. Vão levá-lo a Pristina. Você realmente deve ter as costas quentes, hein?

— Não. É uma coisa pessoal. — Ele fitou o francês com olhos fixos, como se estivesse cego. — Minha filha, Helen. Acabo de saber que ela está morta.

— Mon Dieu — disse Michel.

— Vinte e dois anos, Michel. Quem morre com vinte e dois anos? — Ele enterrou o rosto nas mãos e chorou.

Michel estalou os dedos para seu sargento e pediu conhaque. Dali a pouco, estava desenroscando a tampa.

— É melhor você tomar um gole grande, e outro se precisar, mon ami. Não precisa se apressar. — E então um helicóptero soou ao longe. — Eles estão vindo buscar você — disse Michel.


O presidente falava com o chefe de gabinete da embaixada em Londres, que se mostrou muito disposto a ajudar. Eles falaram por teleconferência, Blake ouvindo.

— Você é um velho companheiro em Londres, além de advogado, Frobisher — disse o presidente. — Está ciente dos fatos. Sabe como será conduzido?

— É assunto de polícia, presidente, devido à conexão com drogas e ao fato de o rapaz que a deixou no hospital ter fugido. Mas alguém anotou o número do carro dele... uma enfermeira que o seguiu até lá fora.

— Então a polícia vai atrás dele?

— Claro. A placa indicará o endereço do proprietário.

— E depois?

— Haverá autópsia, seguida do relatório do legista. Depois disso, o corpo será liberado.

— Certo — disse Cazalet. — Já providenciei para que levem o senador Quinn à Inglaterra o mais rápido possível. Blake Johnson vai trabalhar com você nisso. O senador deve ter tudo que quiser. Se a polícia ou o sistema legal britânico oferecer algum obstáculo, usem todos os recursos da embaixada para superá-los.

— Às ordens, presidente.

— Muito bem. Sei que vocês farão tudo que estiver a seu alcance.

— Obviamente, sir.

Blake entrou na conversa: — Mark, aqui é Blake. Vou notificar vocês quando e onde Daniel vai chegar, para que possam providenciar a recepção.

— Eu mesmo vou buscá-lo. Deixe comigo, Blake.

A linha ficou muda e Cazalet tamborilou os dedos na mesa, pensando. Finalmente, disse:

— Escutem, qualquer coisa que Frobisher possa fazer, ele continuará em desvantagem. O país, os procedimentos policiais, o sistema legal... tudo é diferente.

— O que está sugerindo?

— Acho que podemos precisar de Charles Ferguson nisso.

— Vou falar com ele imediatamente.


Quando recebeu a notícia, Henry Percy ficou horrorizado. A acusação de Dauncey sobre os fundos eram fundadas. Ele ficara mesmerizado com as somas que passavam por suas mãos, e acabara sucumbindo à tentação. Alguns milhares aqui, alguns milhares ali. Quem iria notar? Mas ele acabara sendo descoberto. E agora... isto.

Ele telefonou para Rupert Dauncey em Londres.

— Graças a Deus achei você. Aconteceu uma coisa terrível.

— O quê? — perguntou Dauncey, fingindo ignorância.

Percy contou.

— Uma menina tão agradável! Jamais desconfiaria que ela estava envolvida com drogas. Além disso, também me preocupa a posição de nossa organização. Aquele tumulto terrível... aquela explosão de violência!

— Sim, isso estraga todo o nosso bom trabalho — disse Rupert. — Mas ninguém pode culpar o Fundo, professor. Você se comportou com grande responsabilidade quando alertou os estudantes no ônibus e tentou dissuadi-los.

— Isso é verdade. — Percy hesitou. — E, obviamente, você também se comportou perfeitamente, sr. Dauncey. Ninguém podia ter feito mais.

— Sim, e se o assunto for aventado no inquérito, todos os estudantes interrogados terão que confirmar o que nós dois dissemos.

Subitamente, Percy se sentia mais animado.

— É claro!

— Você tem meu apoio pessoal. Quanto ao outro assunto, já falei com a condessa, e ela acredita que pode ter havido um erro genuíno da sua parte.

— É muita gentileza dela — disse Percy, eufórico.

— Depois voltamos a conversar — e Rupert sorriu enquanto punha o telefone no gancho.


Um carro da polícia estava estacionado diante da casa na Canal Street. Dois policiais, um homem e uma mulher, vistoriaram o Escort e encontraram as chaves na ignição.

— Impressionante como alguém pode ser descuidado assim nos dias de hoje — disse a mulher.

— Mas é o carro certo — disse seu colega, enquanto checava a placa.

Uma lâmpada fraca estava acesa na varanda. Eles tocaram a campainha, e quando ninguém atendeu, seguiram um corredor externo estreito até os fundos da casa, e ali descobriram que as luzes da cozinha estavam acesas. O homem tentou abrir a porta, mas estava trancada.

Dois rapazes dobraram a esquina que dava no cais, pararam na borda do ancoradouro para urinar, e no mesmo momento olharam para baixo, onde a maré começava a recuar, e viram o corpo de Alan Grant, metade dentro, metade fora da água.

— Deus do céu! — exclamou um deles, justamente quando os dois policiais retornavam ao carro. O rapaz os viu. — Ali embaixo! — gritou. — Tem um corpo na praia!

E os policiais correram para o ancoradouro.


Em Pristina, o primeiro avião para Londres era um Hercules da RAF, decolando de Transport Command. Ciente do acontecimento, a tripulação estava disposta a satisfazer todas as necessidades de Quinn. Ele foi sensato o bastante para comer um pouco, tomar duas xícaras de café, e permitir que o sargento da RAF que estava cuidando dele pusesse um pouco de conhaque em cada uma delas.

O comissário de bordo — que parecia absurdamente jovem, embora líder de esquadrão — foi falar com ele.

— Sinto muitíssimo por sua grande perda, sir. Qualquer coisa que precisar, basta pedir.

— É muita gentileza.

Quinn acendeu um cigarro e pensou no assunto. Sua grande perda. Como isso era doloroso. A morte era absolutamente final, e era uma coisa que ele aprendera ainda muito jovem, com as barbaridades no Vietnã.

A única coisa que não lhe parecia natural era a sugestão de que sua filha estava envolvida com drogas. Isso não podia ser verdade. Não era a Helen que ele conhecera e amara.

Recostou-se na poltrona, esticou as pernas, entrelaçou os dedos, e dormiu o sono dos exaustos.


10

 

 

Na manhã seguinte, Charles Ferguson estava fazendo o desjejum diante da lareira na Cavendish Square quando Blake Johnson chegou. Ferguson ouviu tudo, uma expressão de pesar profundo no rosto.

— Que coisa horrível, Blake. O que você quer que eu faça?

— Daniel Quinn vai querer respostas. O presidente acha que você pode ajudar a encontrá-las.

— Então não acredita na explicação mais óbvia? Uma jovem desregrada que bebeu demais e tomou a pílula errada?

— Não. E acho que Daniel também terá dificuldade em acreditar. Faça o que puder, Charles. Hannah pode ajudar Daniel a lidar com a Scotland Yard e o legista. E a criatividade de Dillon pode ser muito útil nessas horas.

— Essa é uma forma incomum de descrever nossos métodos, mas sim, acho que podemos fazer alguma coisa. Deixe Comigo, Blake.

Ele ligou para o celular de Hannah Bernstein. Ela estava a caminho do escritório.

— Ouça atentamente. — E contou a ela o que tinha acontecido.

— Que coisa terrível — disse Hannah. — O que quer que eu faça?

— Fale com seus amigos na Divisão Especial. Use sua força. Descubra o que a polícia está fazendo e o que descobriu até agora.

— Perfeitamente, sir.

Ele desligou, e em seguida ligou para Dillon, que estava correndo nos arredores de Stable Mews de jogging e toalha no pescoço. Seu celular zumbiu e ele diminuiu o passo para atender.

— Onde você está? — indagou Ferguson.

— Fazendo a corrida matinal. E você?

— Em casa. Quero que você vá ver Roper.

— Por quê?

Ferguson lhe contou.


Na Regency Square, a campainha tocou, a porta abriu e Dillon entrou. Roper estava em sua cadeira de rodas, trabalhando no computador. Ele se virou.

— Você quer alguma coisa, aposto.

— Acertou. A filha de Daniel Quinn, Helen, está morta. Aparentemente, a morte está relacionada a consumo de drogas. Ela foi admitida no setor de emergência do St. Mark's Hospital na noite passada e morreu lá.

— Puxa vida — disse Roper.

Usando a internet, Roper entrou no computador do hospital e conseguiu mais detalhes.

— Helen Quinn, vinte e dois anos, cidadã americana. Endereço: Faculdade St. Hugh, Oxford. Exames de sangue preliminares atestam conteúdo elevado de álcool e resíduos de Ecstasy. Farão autópsia ao meio-dia.

— Mas que merda! — exclamou Dillon. — Então é verdade. O pai dela não vai gostar disso. O que mais você conseguiu?

— Posso acessar os registros pessoais dela em Oxford.

— Faça isso.

Dillon acendeu um cigarro enquanto Roper digitava. — Lá vamos nós. Detalhes usuais de antecedentes. Estuda política, filosofia e economia. É sócia da União dos Estudantes de Oxford, da Sociedade Musical, da Oficina Literária de Oxford. — Ele franziu a testa. — Raios me partam, Oxford tem uma filial da Sociedade de Estudos Bélicos. Ela é sócia.

— Helen Quinn é sócia da Sociedade de Estudos Bélicos?

— Vou ver se eles têm site. Sim, aqui está. Bem, agora sabemos por que ela estava em Londres ontem. Eles enviaram uma delegação à manifestação Liberdade na Europa, a tal que acabou em violência.

— Faz sentido — disse Dillon.

Roper se recostou.

— É. Engraçado, não é? Daniel Quinn mantém um arquivo sobre Kate Rashid. A Rashid patrocina um punhado de organizações questionáveis. Uma delas é a Sociedade de Estudos Bélicos. E adivinha quem é sócia? A filha de Daniel Quinn.

— Está sugerindo que Kate Rashid tem alguma relação com a morte da garota?

— Não, não, mas ainda assim... é coincidência demais. E abomino coincidências. Gosto que a vida faça sentido. Um mais um sempre tem que dar dois.

— Isso dito por um homem que passou sete horas desarmando a maior bomba do IRA Provisório, e depois acabou numa cadeira de rodas ao desarmar uma bombinha de São João.

— Tá legal. — Roper deu de ombros. — Às vezes um mais um dá três. Precisa de mais alguma coisa?

— Dessa autópsia de meio-dia, assim que você puder.

— Combinado. Quer que eu veja o que a polícia está fazendo?

— Hannah está trabalhando nisso, mas acho que não faria mal se você averiguasse também. Preciso ir agora. Avise-me se descobrir algo.


Depois que Dillon saiu, Roper invadiu os computadores da Scotland Yard. Examinou o que havia ali com uma expressão preocupada. O caso de Helen estava relacionado ao de um certo Alan Grant, de Canal Street, Wapping, que aparentemente morrera afogado. Acreditava-se que Grant deixara Helen Quinn no hospital. Roper se recostou na cadeira, ainda de testa franzida. O nome Alan Grant parecia familiar, e então ele se lembrou de onde o vira. Voltou ao site da Sociedade de Estudos Bélicos, e ali estava: Oxford, também aluno do segundo ano na faculdade St. Hugh, aluno de física.

Outra coincidência na qual ele não acreditava. Pegou o telefone e ligou para Ferguson.


Na Cavendish Square, Dillon estava olhando pela janela da sala. Ferguson estava sentado diante da lareira.

— Então, não apenas sabemos por que ela foi para Londres, como sabemos que esse tal Grant a deixou no hospital, fugiu e acabou morrendo afogado.

— E ainda há mais. — Hannah Bernstein disse, entrando. — Tanto Quinn quanto Grant foram a Londres num ônibus especial alugado por um professor chamado Henry Percy. E adivinhem quem também estava no ônibus?

— Quem? — perguntou brandamente Ferguson.

— Acreditaria se eu dissesse Rupert Dauncey?

Dillon soltou uma risada rude e Ferguson perguntou: — Mas que diabos ele estava fazendo lá?

— Percy deu à Scotland Yard o que costuma ser considerada uma declaração completa e franca. Como sabemos, a Rashid patrocina a Sociedade de Estudos Bélicos. Dauncey foi falar com os estudantes para tentar convencê-los a desistir de participar da manifestação. Disse que era perigoso demais. Tanto ele quanto Percy fizeram discursos dentro do ônibus, frisando os perigos da manifestação.

— Dauncey acabou indo?

— Junto com Percy, mas eles saíram quando a coisa ficou preta. Percy voltou para o ônibus e Dauncey disse que ia para casa.

— Muito conveniente Dauncey aparecer dessa maneira — disse Dillon. — Fazendo discursos nobres.

— Calma, ainda não acabei — disse Bernstein. — Percy apresentou Dauncey a Helen Quinn. Ele disse a Dauncey que queria conhecer uma conterrânea. Percy disse que o ouviu tentando convencê-la a não participar da manifestação, mas que o namorado dela, esse tal Alan Grant, fez ele de palhaço na frente de todo mundo. Acabaram indo à manifestação, mas então as pessoas se perderam de vista, e essa foi a última vez que Percy viu os dois.

— Hum... — fez Ferguson. — Então, a julgar pelas aparências, eles foram à Canal Street depois da manifestação, provavelmente para transar, beberam um pouco, tomaram drogas, e ela teve uma reação adversa. Grant a levou ao hospital, ela morreu na sala de emergência, ele fugiu sem saber o que fazer... e cometeu suicídio.

— O que seria completamente crível... se a coisa toda não estivesse impregnada com o cheiro dos Rashids.


O telefone tocou. Hannah atendeu e descobriu Roper do outro lado.

— Estou passando a vocês um fax da autópsia. Eles agora vão fazer a do Grant. Mando mais detalhes depois que tiverem acabado.

Hannah pegou o fax no escritório de Ferguson e o leu enquanto voltava para a sala de estar. Ela levantou os olhos do documento e disse: — Sir, confirmado. Ela passou da conta no álcool, e certamente ingeriu Ecstasy. Fora isso era saudável e bem nutrida. Não era virgem, mas não foram encontrados indícios de sexo antes da morte.

Ela passou o fax a Ferguson, que o leu inteiramente. — Pobre menina. Só Deus sabe como o pai dela vai reagir a isso. — Ele olhou para as outras pessoas na sala. — Eu mesmo não sei como reagir.

— Bem, eu sei — afirmou Dillon. — Se me dão licença, tenho coisas a fazer.

— Que coisas? — inquiriu Hannah.

— Isso é da minha conta. Falamos depois, Charles.

Ele saiu, pegou um táxi até o Ministério da Defesa, pediu uma limusine e disse ao motorista que o levasse a Oxford. Havia uma coisa que queria checar lá.


O tráfego estava tranquilo e eles chegaram a Oxford em uma hora e meia. Enquanto entravam no campus, ele usou seu celular para ligar para Roper.

— Pode me conseguir o endereço de Henry Percy? Talvez naqueles relatórios da polícia?

— Já te ligo.

E realmente ligou, dois minutos depois.

— Ele tem um apartamento no 10B da Kaiser Lane. O que você vai fazer?

— Conto depois.


Não teve nenhum problema para encontrar a Kaiser Lane. O 10B era uma casa em estilo vitoriano no alto de uma escadaria sombreada. Dillon puxou a cordinha de uma antiquada campainha de sino, e Percy apareceu. Tinha olheiras profundas e parecia ter sido acordado.

— Professor Percy?

— Sim.

— Pediram que eu viesse lhe falar sobre Rupert Dauncey.

Percy forçou um sorriso.

— Entendo. É melhor entrar. — Ele conduziu Dillon por um corredor até a sala de estar.

— Em que posso ajudar?

— Em primeiro lugar, deixe-me apresentá-lo a uma amiga, a minha Walther PPK. — Ele a tirou do bolso especial. — E este é o namorado dela, um silenciador Carswell. — Ele o enroscou no cano da Walther. — Agora posso atirar no seu joelho e ninguém vai ouvir nada.

Percy ficou aterrorizado.

— Quem é você? O que quer?

— Vi sua declaração à polícia sobre a morte de Helen Quinn. Você disse que Rupert Dauncey era contra os estudantes comparecerem à manifestação porque ele previa uma explosão de violência?

— Sim.

— E que vocês dois deixaram bem claro no ônibus que eram contra a participação dos estudantes?

— Sim, sim. Havia mais de quarenta alunos lá. Eles podem confirmar. A polícia de Oxford já interrogou alguns deles.

Dillon agarrou o homem, empurrou-o de costas sobre uma mesa e encostou o cano da Walther em seu joelho.

— Então está me dizendo que Dauncey é puro como a neve caindo do céu? É isso?

Percy entrou em pânico.

— Não, não, não. Quero dizer, sim... o único problema é que ele mudou de atitude.

— Como assim?

— No começo, ele era favorável a uma ação positiva. Achava isso bom para os estudantes. — Ele hesitou um pouco antes de continuar: — Ele providenciou para que alguns deles fossem a cursos de treinamento na Escócia.

— Helen Quinn foi a um desses cursos?

— Não, mas o namorado dela foi. Alan Grant.

— Você sabe que ele está morto?

— Sim, a polícia entrou em contato comigo. Disseram que cometeu suicídio.

Dillon recuou.

— Não acredite em tudo que lhe dizem. Então isso é tudo que você pode me dizer? Que Dauncey era sedento de sangue, mas agora mudou.

— Isso mesmo.

Dillon espetou novamente o cano da arma no homem. — E você espera que eu acredite nesse conto de fadas? Quando o viu pela última vez?

— Falamos ao telefone ontem à noite.

— O que ele disse?

— Que foi muito bom termos feito aquele discurso aos estudantes, porque provavelmente seríamos chamados para testemunhar no inquérito.

— Sim, isso foi muito conveniente, não foi, Henry?

Dillon ficou parado ali por um momento, olhando para ele, e então começou a desenroscar o silenciador.

— Não está deixando nada de fora, está, Henry? Alguma coisa que possa mudar esse seu continho de fadas?

Percy pensou nos cinquenta mil, mas decidiu ficar calado.

— Contei a verdade, juro por Deus — disse com um ar pio.

— Certo. Mas eu não recorreria a Deus se fosse você, professor. Eu o vejo no inquérito. E na próxima vez em que falar com Dauncey... diga a ele que Sean Dillon esteve aqui.

Ele saiu para o corredor. Percy hesitou e então pegou o telefone.

— Dauncey? É Percy.

Sean Dillon abriu a porta da saída com um sorriso no rosto.


Daniel Quinn fez Frobisher levá-lo primeiro até a embaixada americana, e esperar. Ele subiu a escada e se identificou aos guardas de segurança. Em dois minutos, um capitão da Marinha o estava saudando.

— Senador, meu nome é Davies. É um privilégio conhecê-lo. O embaixador Begley está esperando.

Quinn, com o rosto por barbear e ainda em roupas de combate, apertou a mão dele.

— Se me permite dizer, está parecendo que teve uma temporada muito difícil lá.

— Bem, capitão, eu não recomendaria que passasse as suas próximas férias em Kosovo.

— Venha comigo, senador.

Alguns minutos depois, ele abriu a porta do gabinete do embaixador e convidou Quinn a entrar.

— Olá, Elmer.


Begley usava paletó Savile Row, seus cabelos grisalhos penteados perfeitamente. Não podia haver um contraste maior. Ele contornou a mesa e apertou a mão de Quinn.

— Daniel, sinto muito. Se houver alguma coisa que possamos fazer... qualquer coisa... Bem, os recursos da embaixada estão à sua disposição. Sente-se.

— Se você não se importa, Elmer, não vou sentar. Queria apenas me apresentar à base. Agora quero ir até em casa, tomar um banho e trocar de roupa. Depois, tenho um compromisso com o general Ferguson.

— Charles? É amigo meu. Você estará em boas mãos lá. Mas lembre-se: qualquer coisa que pudermos fazer...

— Obrigado, Elmer.


A casa de Quinn em Park Place ficava numa esquina da South Audley Street, um prédio agradável com um pátio pequeno. Luke Cornwall, seu chofer, um homem negro e grande de Nova York, estava lavando um Mercedes. Ele parou imediatamente, rosto solene.

— Senador, o que posso dizer?

— Não há nada que possa ser dito, Luke, mas obrigado. Mas no momento me sinto um bagaço. Quero tomar banho e trocar de roupa. Depois quero que você me leve até Cavendish Square.

— Combinado, senador.

Quinn subiu a escada. A porta abriu e Mary Cornwall apareceu. Ela tinha sido sua empregada durante anos na casa de Boston, e vira Helen crescer. Havia lágrimas em seus olhos. Quinn beijou seu rosto.

— Às vezes me pergunto se existe um Deus no céu — desabafou Mary.

— Há sim, Mary. Jamais duvide disso.

— Quer que eu faça alguma coisa para comer?

— Agora não. Vou trocar de roupa. Tenho um compromisso.

Atravessou a sala com paredes revestidas em madeira, subiu as escadas e abriu a porta para sua suíte. Era iluminada e arejada, com painéis em bordo, suas pinturas favoritas nas paredes e tapete turco no chão. Sempre que voltava para casa sentia um prazer consciente ao entrar neste cômodo, mas agora isso não significava nada.

No banheiro, ele se despiu, deixando todas as roupas caírem no chão, entrou no chuveiro e se ensaboou todo, tentando lavar o fedor de Kosovo e da morte. Meia hora depois, desceu, perfeitamente arrumado, vestindo terno Armani marrom e sapatos de couro. Mary estava na cozinha e ele não queria incomodá-la.

Simplesmente abriu a porta da frente e desceu os degraus até onde Luke, em uniforme azul de chofer, o esperava.


Rupert Dauncey também o esperava. Havia acalmado Henry Percy quando o professor telefonara para ele em pânico, mas não gostara da ideia de que Dillon ainda estivesse no caso. Curioso a respeito de onde Daniel Quinn estava, telefonara para um amigo na embaixada e descobrira que estava indo para Park Place.

Park Place! Isso exigira um pouco de sorte. Dauncey dobrara a esquina sem saber o número da casa, mas então viu Luke parado diante do Mercedes de Quinn. Rupert dirigiu lentamente pela rua e viu Quinn emergir da casa. Quando o Mercedes começou a andar, Rupert virou o carro e o seguiu.


Hannah Bernstein atendeu à porta na Cavendish Square e encontrou Quinn parado ali. Ela o reconheceu da foto em seu arquivo, assim como ele a reconheceu do material que Blake Johnson lhe mostrara em Washington.

— Superintendente Bernstein.

— Senador Quinn. Por favor, entre.

Ela caminhou na frente até a sala de estar. Dillon tomava Bushmills diante das janelas e Ferguson se levantou.

— Gostaria de poder dizer que é um prazer, Daniel, mas isso não parece apropriado. Todos sentimos muito.

— Agradeço por isso.

— Conhece Sean Dillon?

— Apenas de reputação. — Quinn apertou a mão dele.

— Se tem alguma informação a meu respeito, sabe que meu avô nasceu em Belfast e lutou com Michael Collins. Fugiu para os Estados Unidos em 1920.

— Então ele pertencia à Fraternidade Republicana — concluiu Dillon. — Eram piores que uma turba.

Quinn conseguiu sorrir.

— Acho que sim.

— Toma um Bushmills comigo? — ofereceu Dillon. E diante da hesitação de Quinn, ele sugeriu: — Recomendo uma dose grande. A superintendente montou uma ficha que não vai animar você.

— Então seguirei seu conselho.

Dillon deu-lhe um copo de uísque e Quinn bebeu num único gole. Pousou o copo e pegou o arquivo oferecido por Hannah.

Ferguson disse: — Esse arquivo contém um histórico completo de nossas atividades envolvendo os Rashids, e tudo que sabemos até agora sobre a morte de sua filha, inclusive os detalhes post mortem e o inquérito policial. Também acabamos de acrescentar detalhes da autópsia do namorado dela, Alan Grant.

Quinn ficou estarrecido.

— Quem? Nunca ouvi falar que ela tivesse um namorado.

— Temo que tivesse — disse Hannah Bernstein.

— Teme?

— Está tudo aí, senador — disse Hannah gentilmente.

— Leve o senador ao meu escritório — instruiu Ferguson. — Lá ele pode ler a pasta em paz.


Depois que ela saiu com Quinn, Dillon comentou: — Que situação desagradável.

— Concordo, e nem quero ver quando ele tiver acabado de ler. É melhor você me dar uma bebida também.

Vinte minutos depois, Quinn voltou para a sala. Tinha o rosto muito pálido, e sua mão direita tremia um pouco quando ele levantou a pasta.

— Posso ficar com isso?

— Claro — respondeu Ferguson.

— Muito bem — disse Quinn. — Agora vou ao necrotério. Preciso identificá-la.

— Então beba isto — sugeriu Dillon, servindo mais uma dose de Bushmills. — Vai precisar. Aliás, vou com você.

— É muita gentileza sua. — Quinn virou-se para Hannah. — E quanto ao inquérito?

— Será amanhã de manhã. Conseguimos fazer com que adiantassem o processo.

— Bom. Quanto mais cedo melhor. — Bebeu o uísque e disse a Dillon: — Vamos nessa.


Rupert aguardava-os pacientemente no Mercedes estacionado no outro lado da rua. Finalmente, Quinn e Dillon saíram do prédio e embarcaram na limusine.

— Dillon — disse Rupert baixinho. — Ora, isso é interessante.

Um momento depois, começou a segui-los.


O necrotério era o tipo de edifício velho que, do lado de fora, parecia mais um armazém do que qualquer outra coisa. Mas dentro era diferente. Tinha área de recepção agradável e bem decorada. Ao vê-los chegar, a jovem recepcionista sorriu.

— Em que posso ajudá-los?

— Meu nome é Quinn. Creio que minha filha está aqui.

Ela parou de sorrir, — Sim, sinto muito. Acabamos de ser informados de que estava vindo identificar o corpo. Já notifiquei a delegacia local. Fica apenas a cinco minutos daqui.

— Obrigado.

— E já notifiquei o professor George Langley. Ele é o nosso patologista de confiança e, felizmente, está no prédio neste momento. Presumi que gostaria de falar com ele.

— Obrigado. Vamos esperar.

Ele e Dillon se sentaram, mas, poucos minutos depois, um homem baixo e grisalho entrou. A garota sussurrou alguma coisa para o homem, que caminhou até eles.

— George Langley.

— Daniel Quinn. Este é Sean Dillon, um amigo.

— Minhas mais profundas condolências.

— Posso ver minha filha?

— É claro. — Ele disse à mulher: — Quando o policial chegar, mande-o entrar.


A sala à qual os conduziu, com paredes cobertas de azulejos brancos e iluminada por lâmpadas fluorescentes, abrigava uma fileira de mesas metálicas, de aparência moderna. Dois corpos estavam cobertos com um tipo de lençol de borracha branca.

— Está pronto? — indagou Langley.

— Na verdade, nunca estarei.

Helen Quinn parecia muito calma, olhos fechados. Tinha uma espécie de capuz plástico na cabeça, do qual escapara um filete de sangue. Quinn inclinou-se e a beijou na fronte.

— Obrigado.

Langley cobriu-a com o lençol e Quinn disse: — Vi seu relatório ao juiz de instrução. O álcool, a droga? Não existe nenhuma dúvida?

— Sinto dizer que não.

— Isso é tão estranho. Não condiz com a garota que eu conhecia.

— Às vezes é assim — disse Langley gentilmente.

— E o rapaz? É ele? — disse, apontando com a cabeça para o outro corpo. — Eu nem sabia que ele existia.

— Bem, sim, este é Alan Grant. — Langley hesitou antes de dizer: — Eu não devia fazer isso, mas é um assunto incomum.

Ele levantou o lençol e Quinn olhou para Grant, que morto parecia ainda mais jovem.

— Obrigado — disse a Langley, que tornou a cobrir o rapaz. — E você acha que ele cometeu suicídio, como a polícia está insinuando?

— Lido apenas com certezas, sir. Ele tinha consumido uma quantidade grande de vodca, mas não encontrei traço de Ecstasy. Não vi nenhum sinal de ferimento. Será que ele caiu por acidente do ancoradouro ou será que pulou? Isso não posso dizer.

Ouviram uma batida na porta e então um policial uniformizado entrou.

— Ah, aí está, professor.

O sargento trazia um formulário numa prancheta.

— Lamento as circunstâncias, senador, mas poderia identificar formalmente a falecida?

— É minha filha, Helen Quinn.

— Obrigado, sir. Por favor, assine o formulário. — Ele acenou com a cabeça para Dillon. — Talvez possa fazer a gentileza de assinar como testemunha.

Eles fizeram o que foi pedido e o policial se retirou.

— Eu os vejo no inquérito — disse Langley.

— É claro. Muito obrigado — disse Quinn e caminhou para a saída.


Entraram no Mercedes e, enquanto Luke ligava o veículo, Dillon desabafou: — Essa é uma profissão que eu não gostaria de ter.

— Luke, leve nosso amigo aonde ele quiser ir — disse Quinn, fechando os olhos.

E Dauncey os seguiu.


11

 

 

Na manhã seguinte, Quinn chegou à sala de inquérito do instituto médico-legal às dez em ponto. Havia apenas algumas pessoas no recinto, mais o policial que andava de um lado para o outro. Um rapaz de casaco comprido, estava sentado num dos bancos, a mala de viagem pousada a seu lado, no chão. Tinha a barba por fazer e parecia muito cansado.

Quinn tirou um cigarro do maço de Marlboro e o acendeu. O rapaz pareceu estremecer. Quinn lhe ofereceu o maço.

— Aceita um?

— Eu tinha parado, mas que se dane. — Ele pegou um cigarro, dedos tremendo, e aceitou o fogo. — Estou em frangalhos. Acabo de chegar de Berlim e houve um atraso em Tempelhof. Sabe como é ficar sentado num aeroporto durante quatro ou cinco horas. Achei que nem ia conseguir chegar a tempo de assistir ao inquérito.

E Quinn, já tendo lido várias vezes a ficha que lhe fora entregue por Hannah Bernstein, soube instantaneamente quem ele era.

— Seu nome é Grant?

— Isso mesmo. Fergus Grant.

— Irmão de Alan Grant.

Grant pareceu desnorteado.

— Quem é você?

— Daniel Quinn. Pai de Helen Quinn.

— Ai, meu Deus — disse Grant. — Olhe, não sei praticamente nada sobre isso, exceto que os dois estão mortos. A polícia falou comigo por telefone e me deu apenas informações gerais. Que ele foi achado afogado, que a namorada dele estava morta. Eu nem sabia que ele tinha uma namorada.

— E eu não sabia que ela tinha um namorado. E quanto aos pais de vocês?

— Meu pai sumiu quando eu tinha doze anos e mamãe morreu de câncer há cinco anos.

— Sinto muito.

Grant deu de ombros e amassou o cigarro.

— Eles não me disseram quase nada.

— Bem, este inquérito deve cobrir tudo.

Nesse momento, Hannah Bernstein entrou, seguida de Ferguson e Dillon.

— Com licença — disse Quinn a Grant e foi se juntar a eles.

— O homem com quem eu estava falando é Fergus, irmão do rapaz. — Acaba de chegar de Berlim.

— Sim — disse Hannah. — Soube esta manhã que seria um inquérito conjunto.

Antes que ela pudesse entrar em detalhes, as portas se abriram e um oficial de justiça apareceu.

— O Terceiro Tribunal está em sessão.

Eles assinaram a ata, seguidos por Grant e meia dúzia de membros do público, o tipo de gente que vinha mais pelo entretenimento do que por outra coisa. Havia também alguns funcionários, um sargento de polícia uniformizado, e o escrevente do tribunal. Hannah falou com ele, e em seguida se sentou com os outros.

Um momento depois, George Langley entrou e assinou a ata.

— O patologista — esclareceu Dillon a Ferguson.

Rupert Dauncey e Henry Percy chegaram em seguida, sendo conduzidos diretamente ao escrevente. Quando se viraram, Dauncey olhou diretamente para Quinn e seus amigos, abriu um leve sorriso e se sentou com Percy no outro lado da passagem central.


O escrevente da corte deu início aos procedimentos.

— A corte deve se levantar para o juiz de instrução de Sua Majestade.

O juiz era um homem de cabelos brancos, e ocupou a cadeira mais alta, entre os oficiais. Uma porta lateral se abriu e um oficial de justiça entrou com os jurados, que se espremeram em seus bancos. O escrevente administrou o juramento e os procedimentos começaram.

O juiz tinha uma voz seca e precisa.

— Antes de começarmos, quero fazer uma declaração — disse ele. — Segundo as presentes circunstâncias, e com a permissão do gabinete do chanceler, este inquérito considerará os fatos concernentes às mortes tanto de Helen Quinn quanto de Alan Grant, cada qual aparentando relação com a outra. — Ele fez um aceno de cabeça para o escrevente. — Vamos começar com as provas da polícia.

O sargento uniformizado rapidamente expôs os fatos básicos, como Helen Quinn foi levada ao hospital, como foi determinado o endereço de Alan Grant em Canal Street, como seu corpo foi descoberto. O sargento terminou e o escrevente convocou Henry Percy, que caminhou até a tribuna e, visivelmente nervoso, confirmou sua identidade.

O juiz pegou um papel na pilha à sua frente.

— Então, professor, conhecia bem Helen Quinn e Alan Grant?

— Conhecia.

— E pode confirmar se tinham um relacionamento?

— Era de conhecimento comum entre os outros estudantes.

— Percebiam algum mal-estar entre eles?

— Pelo contrário. Eles viviam grudados.

— No dia em questão, a viagem até a manifestação em Whitehall, estava no ônibus?

— Sim. Soubemos que a manifestação poderia se tornar violenta, e temíamos que os estudantes ficassem feridos. Assim, fomos recomendar que não fossem ao protesto. Na verdade, fomos implorar que não fizessem isso.

— Eles lhes deram ouvidos?

— Apenas meia dúzia deles.

— Disse “nós”?

— Rupert Dauncey estava comigo, representando o Fundo Educacional Rashid. Eles patrocinam a Sociedade de Estudos Bélicos, o grupo ao qual pertenço.

— Um nome curioso. O que significa?

— Um descontentamento com o capitalismo. Nosso propósito é reeducar as pessoas, mudar sua forma de pensar.

— Quer dizer, pegá-los enquanto são jovens? — disse secamente o juiz. A plateia riu. — Prossiga.

O escrevente convocou Rupert Dauncey, que caminhou até a tribuna. Rupert estava impressionante num excelente terno azul. O juiz lhe disse, sem delongas: — Li a lista que a corporação enviou, com as obras de caridade apoiadas por seu Fundo, sr. Dauncey. Tudo muito louvável, creio.

— A condessa de Loch Dhu e a Rashid Investments gastaram milhões de dólares nesses projetos.

— Mas não aprovava a viagem a Londres.

— Nem um pouco. Quando ouvi que a Frente Anárquica Unida estava por trás da manifestação, fiquei horrorizado. Fui a Oxford apoiar o professor Percy em seu apelo aos estudantes.

— E viu Helen Quinn e Alan Grant lá.

— Sentei-me ao lado deles. Eu tinha sido apresentado à moça numa visita anterior ao professor Percy. Roguei a ela que não comparecesse ao protesto. Grant me disse que iam passar o fim de semana na casa do irmão em Londres, de modo que supus que eles tinham, afinal, outra razão para viajar até lá. Contudo, lamento profundamente não ter conseguido persuadir Helen a me ouvir.

— Não pode ser responsabilizado pessoalmente pelos acontecimentos, sr. Dauncey.

— Sim, mas ela viajou a Londres no ônibus de uma organização financiada pela Rashid. Se ela não tivesse ido a Londres, a situação podia ter sido completamente diferente.

— Duvido disso, mas seu dilema pessoal fala em seu benefício. Pode se retirar da tribuna.

Rupert retornou a sua cadeira, tendo obviamente passado uma impressão excelente. Então o professor George Langley foi chamado.

O juiz de instrução disse: — Tenho diante de mim relatos das autópsias dos falecidos. O senhor mesmo realizou as autópsias?

— Sim.

O escrevente da corte estava distribuindo cópias para o júri.

O juiz disse: — Sugiro, senhoras e senhores, que deem uma passada de olhos no documento, para se familiarizarem com o material. Eu lhes dou cinco minutos.

— Quanta gentileza dele — murmurou Dillon.

— Comporte-se — disse-lhe Hannah.

— E não me comporto sempre? — Virou-se para Quinn. — Você está bem?

— Até agora.

Esperaram enquanto o juiz examinava mais documentos.

Finalmente, ele disse: — Vamos começar, professor Langley. Quais são os fatos essenciais aqui?

— Que Helen Quinn bebeu uma quantidade considerável de vodca e que, num estágio posterior, ingeriu um tablete de Ecstasy.

— Não num primeiro estágio?

— Oh, não, o colapso químico teria sido diferente se ela tivesse ingerido o tablete antes da vodca.

— Não está dizendo álcool, e sim vodca.

— Sim. Podemos diferenciar. Podemos determinar a marca, o tipo.

— E isso é importante neste caso?

— Muito. Isso associa Helen Quinn a Alan Grant.

— Então, passemos a ele. Mais uma vez, quais são os fatos essenciais?

— Que Alan Grant bebeu uma quantidade muito grande da mesma vodca consumida por Helen Quinn. Identifiquei a marca e pedi à polícia que procurasse uma garrafa vazia na casa em Canal Street. Eles a encontraram.

— E o Ecstasy?

— Uma bolsa de papel encontrada no bolso esquerdo da jaqueta de Grant continha dois chocolates, cada um contendo um tablete de Ecstasy. Mandei fazer um teste de laboratório.

— E?

— A composição química dos tabletes de Ecstasy era exatamente a mesma da droga consumida por Helen Quinn. Não há dúvida.

— Agora passemos à questão da morte do rapaz.

— Afogamento. Não há indícios de briga, não há ferimentos. Visitei a cena e examinei o ancoradouro.

— E qual foi sua conclusão?

— A beirada não tem balaustrada. Se tivesse, e estivesse quebrada, poderíamos suspeitar de um acidente causado pela condição alcoolizada do indivíduo. Ainda pode ter sido um acidente, porque um homem tão bêbado quanto Grant podia ter tropeçado e caído pela beirada aberta. — Ele deu de ombros. — Ou...

— Ou o que, professor?

— Ou ele pode ter pulado deliberadamente, bêbado, talvez se sentindo culpado pela morte da moça.

— Mas isso, obviamente, é uma conjectura de sua parte, professor, e esta corte deve concentrar-se em fatos. Pode descer.

— Como quiser, sir.

Langley obedeceu e o juiz se virou para os jurados.

— Senhoras e senhores, esta é uma questão realmente trágica. Dois jovens no apogeu, membros de uma sociedade antiga e honrada, tiveram suas vidas cortadas subitamente. Contudo, conforme acabei de lembrar ao professor Langley, precisamos nos ater aos fatos conhecidos, não a suposições. Portanto, permitam-me lembrá-los do que parecem ser os fatos fundamentais.

Todos na corte esperaram em silêncio enquanto o juiz ordenava os pensamentos.

— Que é inegável que ambos beberam grandes quantidades da mesma vodca. Que é inegável que Alan Grant, para ser franco, largou a jovem à morte no St. Mark's Hospital. Quanto ao Ecstasy, há questões que devem se formular. Por que ele não ingeriu um? Por que apenas a garota? Vocês podem conjecturar que esconder um tablete de Ecstasy num chocolate foi um estratagema para drogar a moça, mas devo alertá-los de que não há qualquer prova disso. Talvez a garota tenha obtido os tabletes e os escondido nos chocolates por questão de segurança. É perfeitamente razoável argumentar que sua ação de fuga foi motivada por pânico, mesmo se a garota tiver ingerido o tablete por sua livre e espontânea vontade.

Ele olhou para o teto, as pontas dos dedos umas contra as outras.

— Quanto à questão da morte de Grant, foi morte por afogamento, sabemos disso, mas se ele próprio a causou por medo ou culpa, jamais saberemos, e isto torna um veredicto de morte acidental inadmissível. “Um ponto final nesta questão lamentável. O sr. Dauncey, em nome da organização Rashid, pareceu sentir alguma culpa sobre os acontecimentos, porque os estudantes estavam em Londres devido à manifestação em Whitehall. Minha própria opinião é bem diferente. Pode-se consumir vodca facilmente em Oxford, e decerto isso também se aplica ao Ecstasy. Não consigo ver como atribuir a culpa desses eventos à viagem de ônibus para Londres. Contudo, a preocupação do sr. Dauncey fala em seu benefício.”

Ele arrumou seus papéis numa pilha ordenada e girou na cadeira para olhar diretamente para o júri.

— Portanto, como posso aconselhá-los num caso como este, que não conta com testemunhas? Será que Alan Grant deu o tablete de Ecstasy à garota como subterfúgio ou ela o fez por conta própria? Não sabemos e jamais saberemos. Ele caiu do ancoradouro alcoolizado ou, em desespero, tirou a própria vida? Mais uma vez, não sabemos e jamais saberemos. Sob as circunstâncias, posso sugerir um veredicto aberto, que é tanto legal quanto apropriado. Vocês podem, obviamente, se retirar para considerar seu veredicto.

Mas eles não se deram a esse trabalho. Todos se curvaram uns para os outros, conversaram um pouco, e então voltaram a se endireitar nas cadeiras. O representante se levantou.

— O veredicto aberto nos parece sensato.

— Obrigado — disse o juiz. — Então que isso conste dos autos. — Ele se virou para a corte. — Agora quero falar aos parentes. Se Fergus Grant se encontra presente, por favor, levante-se.

Grant fez isso, parecendo constrangido.

— Emitirei para o senhor, como irmão de Alan Grant, uma ordem de sepultamento — disse o juiz. — Pode retirar o corpo de seu irmão conforme sua conveniência. Queira aceitar minhas condolências.

— Obrigado, sir — disse Grant, sentando.

— Senador Daniel Quinn.

Quinn se levantou.

— Emitirei para o senhor uma ordem de sepultamento. Queira aceitar minhas condolências.

— Obrigado, sir — disse Quinn.

O escrevente bradou: — A corte deve se levantar para o juiz de instrução de Sua Majestade.


E então estava tudo terminado. O júri se desfez e as pessoas começaram a sair do tribunal. Enquanto passava, Rupert Dauncey acenou com a cabeça para Quinn e disse: — Queira aceitar minhas condolências também, senador.

Hannah foi até a mesa do escrevente da corte, diante da qual Grant estava em pé. O escrevente deu a cada um sua ordem de sepultamento. Grant atravessou a corte com ela e Quinn os deteve.

— Ouça, eu realmente sinto muito. O juiz tem razão. Jamais saberemos a verdade. Como não podemos voltar atrás, devemos seguir em frente.

Grant estava chorando e pareceu se conter para não abraçar o senador.

— Deus me ajude.

— Talvez ele faça isso.

Eles observaram Grant se retirar da corte e atravessar o saguão até a saída. Ferguson disse a Quinn: — E agora?

— Bem, agradeço se puder me dar o endereço de um crematório. Eu gostaria de levar as cinzas dela para casa. Se tiver alguma influência nessa área, general, eu apreciaria.

— Superintendente? — indagou Ferguson.

— Deixe comigo, senador.

— Por que não vai comigo no meu carro, superintendente, para providenciarmos isso? Não quero um funeral... tratarei disso em casa... mas um padre católico seria apreciado.

— Considere feito — disse Hannah.

— Também vou com vocês. — Dillon se virou para Ferguson. — Nos vemos depois.

— Está tramando alguma coisa, não está? — perguntou Ferguson.

— Não é o que eu faço o tempo todo?

Eles seguiram de carro até Park Place, Hannah encolhida num canto, dando um telefonema atrás do outro. Ela ainda estava ocupada com isso quando chegaram. Mary abriu a porta e Quinn caminhou na frente até a sala.

— Café, Mary.

— E chá para mim — pediu Dillon.

Ela saiu e Quinn disse a Dillon: — Nosso camarada Dauncey se saiu bem, muito bem.

— É verdade — concordou Dillon. — Mas ele ainda vai meter os pés pelas mãos. Alguma coisa está cheirando mal ali. Só temos que descobrir o quê.

Hannah desligou o telefone.

— Acertei com uma firma funerária. Eles vão pegar sua filha. A cerimônia será no Crematório North Hill às duas da tarde. Um padre chamado Cohan o encontrará lá.

— Vai nos encontrar — frisou Dillon. — Vou com o senador.

— Eu também vou — disse Hannah. — Se não se importar.

— Claro que não me importo — disse Quinn. — Ficarei muito grato.

— É para isso que servem os amigos, Daniel — disse Dillon.


O padre Cohan era um irlandês londrino e foi a única coisa boa no Crematório North Hill. A coisa toda foi uma experiência ruim, e o coro celestial gravado em fita, que serviu como música de fundo, não ajudou, mas Cohan foi tão forte e sincero quanto se poderia querer.

— Sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor. Aquele que crê em mim, apesar de morto, viverá.

Será mesmo?, perguntou-se Quinn. Um desperdício absoluto de uma vida jovem e com que fim, com que propósito? Não, não posso acreditar, não mais. Deixe quem quiser acreditar nisso, mas não eu.

E ainda assim, por alguma estranha razão, ele pensava na irmã Sarah Palmer e em Bo Din todos aqueles anos, desde o Vietnã.

O padre Cohan benzeu o caixão, que se moveu na esteira automática até o forno crematório, e então tudo acabou.

Um dos agentes funerários disse: — Entregaremos as cinzas no fim da tarde, senador. Park Place, é isso?

— Número oito. — Quinn apertou a mão dele. — Ficarei muito grato.

Eles saíram e o padre Cohan foi com eles.

— Está de carro, padre? — perguntou Hannah.

— Estou, não se preocupe comigo. — Ele apertou a mão de Quinn. — Dê tempo ao tempo, senador. Sempre há um motivo. Descobrirá qual um dia.

Caminharam até o Mercedes, na qual Luke os esperava.

— Então acabou — comentou Dillon.

Quinn meneou a cabeça negativamente.

— Não, há mais uma coisa que quero fazer antes de partir. Vou passar em Oxford para pegar as coisas de Helen em seu quarto na St. Hugh. Deixo vocês no meio do caminho.

— O quarto dela? — Dillon acendeu um cigarro e pensou. — Sabe, eu gostaria de ver o quarto dela e o de Grant. Se importa se eu for com você?


Uma hora e meia depois estavam em Oxford. Quinn instruiu Luke sobre como chegar, e eles pararam no portão da St. Hugh. Um porteiro emergiu do posto de guarda.

— Em que posso ser útil?

— Lembra de mim, Daniel Quinn? Vim pegar as coisas de minha filha.

O porteiro parou de sorrir.

— É claro, sir. Posso lhe dizer o quanto lamento sua perda? Ela era uma mocinha adorável. Vou telefonar para o diretor e dizer-lhe que está aqui.

— É muita gentileza sua.

Eles entraram e Luke deixou-os na porta do prédio. Quinn caminhou na frente até o saguão.

— Vamos nos apresentar ao diretor antes de ir ao quarto de minha filha. O escritório dele fica nesta direção, logo depois da sala de recreação. É lá que a garotada se reúne.


Na entrada havia fileiras de caixas de correio, todas com uma placa com o nome de um aluno sobre a fenda. As caixas estavam dispostas em ordem alfabética. Eles pararam e Quinn encontrou a da filha. Havia três cartas. Ele as examinou e suspirou, levantando uma das delas.

— Minha última carta para ela, de Kosovo.

Dillon correu o dedo ao longo dos nomes e encontrou a caixa de Alan Grant. Não havia correspondências nela, mas a caixa não estava vazia. Dillon enfiou a mão e puxou uma caneta. Olhou com curiosidade o objeto, e então guardou no bolso. Havia alguma coisa familiar na caneta...

A porta para a sala do diretor se abriu.

— Aí está o senador — disse o diretor, estendendo a mão. — Não tenho como lhe dizer o quanto todos estamos abalados.

Eles trocaram um aperto de mão.

— Veio pegar os pertences de sua filha. Pedi a alguns serventes que fizessem as malas dela. Espero ter agido bem.

— Foi gentileza sua.

— Quer que eu o acompanhe?

— Isso não será necessário.

— Aqui está a chave do quarto dela. — O diretor a entregou, hesitou, e então disse: — Sua filha era uma jovem maravilhosa. A equipe e os estudantes gostavam muito dela. O que ouvi sobre as circunstâncias é inacreditável. Simplesmente não combina com a personalidade dela, não faz o menor sentido.

— Também não faz para mim, mas estou satisfeito por ouvir isso.

Quinn se virou e Dillon o seguiu.


O quarto ficava no primeiro andar. Ao lado da cama de solteiro havia duas valises. Uma mala com rodízios estava aberta em cima da cama, vazia. O quarto também era mobiliado com armário, mesa, cadeira e duas estantes com livros. Sobre a mesa havia uma moldura com uma foto de Quinn abraçado a Helen. O quarto era muito discreto, muito simples, e mesmo assim estava cheio da presença da moça. Quinn se debruçou sobre a mesa e deixou escapar um soluço seco.

Dillon pousou a mão no ombro de Quinn.

— Calma. Respire lentamente.

— Eu sei. Vou ficar bem. Vou colocar os livros e os objetos dela na mala.

Enquanto Quinn começava a recolher as coisas, Dillon caminhou até a janela, tirou a caneta do bolso e a examinou.

— O que você tem aí?

— Encontrei esta caneta na caixa de correio de Alan Grant. Ela me parece familiar, como se eu... — Estalou os dedos. — Mas é claro!

— O quê?

— Já vi uma dessas antes. Não é uma caneta comum. É um dispositivo de gravação.

Quinn parou enquanto colocava os livros na mala.

— Como é? Tem certeza?

— Basta torcer a caneta e baixar o topo. O volume com que ela toca é impressionante.

— Mas o que Alan Grant estava fazendo com isso?

— Vamos descobrir.

E Dillon ligou o aparelho. Ele tinha razão. O som foi particularmente claro quando Rupert Dauncey disse: — Tem três doces aqui dentro, chocolates. O interior de cada um deles contém um tablete de Ecstasy. Quero que você ofereça um à garota...

Dillon apertou a caneta com o polegar. Fez-se silêncio. Quinn o fitou, o rosto lívido, a pele esticada fortemente sobre os malares.

— Conheço essa voz — sussurrou.

— Rupert Dauncey.

Quinn se sentou na ponta da cama.

— Vamos ouvir o resto.

E depois que tinham acabado de ouvir, Quinn continuou sentado algum tempo, rosto afundado nas mãos. Finalmente, olhou para Dillon:

— Aquele filho da puta foi o responsável pela morte da minha filha.

— Temo que sim.

— Mas por que Grant cooperou com ele?

— Não sei. Dauncey pode ter feito alguma coisa com ele. A gravação deixa claro que estava sob pressão. E ele pode ter achado que a droga não faria mal a ela. Muitos estudantes experimentam essa coisa. Não duvidaria que ele mesmo já tivesse experimentado. — Dillon balançou a cabeça. — Ele não queria que Helen morresse.

— Então por que cometeu suicídio?

— Se cometeu suicídio. Quanto mais observo o assunto, mais vejo as digitais de Dauncey. Tenho a impressão de que ainda vamos descobrir mais. Dauncey é capaz de qualquer coisa.

— Bem, eu também sou. — Quinn se levantou. — Vamos voltar para Londres, Sean. A gravação na fita pode ser copiada?

— Creio que sim. Tenho um amigo que provavelmente pode nos ajudar.

— Então vamos andando.

Ele pegou as duas valises, Dillon pegou a mala de viagem e eles saíram.


Na Regency Square, Dillon fez as apresentações e Roper examinou a caneta.

— Sim, sei como estas coisas funcionam. Posso passar a gravação para uma fita comum. Isso vai melhorar o som.

— Apenas uma fita — disse Quinn. — Não quero outras cópias.

— Como você quiser. Primeiro vou precisar examiná-la. — Ele apontou para a cozinha. — Depois dos seus comentários sobre o meu vinho, Sean, comprei uma garrafa de uísque irlandês. Não é Bushmills, mas presumo que dará conta do recado. Está na estante ao lado da geladeira.


Roper rolou sua cadeira até uma bancada cheia de instrumentos eletrônicos e se pôs a trabalhar. Dillon achou a garrafa de uísque e duas taças, e serviu uma para ele e outra para Quinn. Sentaram-se lado a lado no sofá diante da janela.

— O que pretende fazer? — perguntou Dillon.

— Pretendo me encontrar com Rashid e Dauncey.

— Tem certeza disso?

— Ah, claro. — Quinn estava calmo. — Não se preocupe, Sean. Não tenho uma arma no bolso, por mais que gostasse disso. Há outras maneiras.

Roper virou sua cadeira de rodas.

— Uma caneta e uma fita.

Antes que Dillon pudesse se mexer, Quinn as pegou. — Minhas, eu acho. Muito obrigado, major.

— O prazer foi meu. — Ele disse a Dillon: — Mantenha-me a par dos acontecimentos, certo?

Encontraram Ferguson na Cavendish Square, e quando entraram, Hannah estava sentada ao lado dele, folheando papéis.

— As coisas foram bem em Oxford? — perguntou Ferguson.

— Bem, você pode dizer que foi uma experiência reveladora — contou Dillon.

Hannah franziu o cenho e perguntou: — O que quer dizer com isso?

— Vou deixar o senador explicar.

Foi a vez de Ferguson franzir o cenho. — Quinn?

— Antes que eu explique, gostaria de levantar uma questão. Superintendente, você é uma agente de polícia da ativa. O que vai ouvir agora é uma prova de conduta criminosa, mas é da minha conta. Se não puder considerar isto uma confidência, então prefiro que se retire... e que, por favor, não se sinta ofendida.

Hannah pareceu chocada, mas Ferguson ficou calmo.

— A superintendente foi designada ao meu departamento e está sujeita às restrições do Ato dos Oficiais Secretos. O que for dito aqui, permanece aqui. — Ele se virou para Hannah. — Por favor, confirme isso.

Hannah pareceu perturbada, mas disse: — É claro, sir.

Ferguson falou novamente com Quinn.

— E então, o que descobriram?

— Encontramos uma caneta na caixa de correio de Alan Grant.

— Uma caneta-gravador — explicou Dillon.

Quinn mostrou a fita.

— O major Roper acaba de fazer uma cópia que melhorou a qualidade do som. Vocês vão achar muito interessante.

Ferguson disse: — Superintendente?

Hannah se levantou, pegou a fita com Quinn e inseriu a fita num aparelho de som. Quando ela ligou, o som saiu alto e claro.

— Tem três doces aqui dentro, chocolates — disse Rupert Dauncey. — O interior de cada um deles contém um tablete de Ecstasy...

Depois que a fita parou de tocar, Hannah disse: — Essa foi uma das ordens mais frias que já ouvi.

— Um filho da puta de primeira grandeza — disse Ferguson.

Hannah acrescentou: — Com essa prova, a polícia pode prendê-lo imediatamente.

— E acusá-lo de quê? Assassinato? Não. Homicídio culposo? Não. Um bom advogado alegaria que tudo que Dauncey queria era colocar minha filha em apuros para me embaraçar. Na pior das hipóteses, ele pode ser acusado de contribuir para a morte dela, mas não tenho certeza nem disso.

— Mas há muito mais coisas envolvidas, senador. Sabe disso.

— É óbvio que sei. Mas com os recursos da Rashid, como vou saber se ele não vai levar apenas uma palmada na mão? Dauncey pode dizer que sente muito, que levou sua antipatia pessoal por mim longe demais. E que tipo de sentença ele pode receber? Vamos, digam-me.

Foi Dillon quem respondeu: — Você tem razão. A fita é danosa para ele, mas não o bastante.

— E eu não poderia acrescentar nada do que sabemos sobre ele às provas, nada sobre a história dos Rashids e do presidente. Todos os eventos envolvendo vocês são sigilosos.

Hannah perguntou: — Então Dauncey e Rashid vão se safar?

— Eu não diria isso. Se necessário, não hesitarei em tirar eu mesmo a vida de Rupert Dauncey. — A sala ficou em silêncio, e então ele acrescentou: — Mas tenho outras ideias. Estou indo para a South Audley Street encontrá-los cara a cara. Dillon, você vem comigo?

— Sou o seu homem — respondeu Dillon.

Ferguson suspirou e se levantou.

— Então suponho que é melhor eu ir também, como a voz da sanidade. — Ele se virou para Hannah: — Mas você não, superintendente. Tenho o palpite de que será melhor não estar lá, com ou sem Ato dos Oficiais Secretos.


Luke deixou-os na casa dos Rashids, onde uma empregada em vestido preto e avental branco atendeu à porta.

— A condessa está? — indagou Ferguson.

— Sim, senhor.

— Por favor, faça a gentileza de comunicar à condessa que o general Ferguson, o senador Quinn e o sr. Dillon querem ter uma palavrinha com ela.

Eles aguardaram no salão enquanto a empregada subia até o andar superior. Ela voltou dali a pouco, parou no topo das escadas e disse: — Por favor, cavalheiros, subam.

Ela os conduziu até a sala de estar. Kate Rashid estava sentada diante da lareira, Dauncey em pé atrás dela.

— Ora, ora — disse ela. — O que temos aqui? Os Três Mosqueteiros? Um por todos e todos por um?

— Isso não é engraçado, Kate — disse Dillon. — E não creio que você achará graça depois de ouvir o que trouxemos.

Quinn pegou a caneta.

— Encontramos isto em Oxford. Pertencia a Alan Grant. Eu sei que vocês sabem quem ele é, portanto não finjam que não sabem.

— É claro que sabemos — disse Kate Rashid. — Não seja melodramático, senador.

— Bem, isto é o que você não sabe. Esta caneta na verdade é um instrumento de gravação. E Alan Grant a ligou quando seu primo começou a ameaçá-lo.

Kate Rashid pareceu estupefata. Então esbravejou: — Bobagem. Onde alguém como ele ia conseguir esse tipo de coisa?

— O irmão dele é do ramo de segurança — esclareceu Dillon. — Foi um presente.

Quinn tirou a fita do bolso e a mostrou. — Tomamos a liberdade de fazer uma cópia. A qualidade é bem melhor que a original. Vocês verão.

Havia um aparelho de som no canto da sala. Ele o ligou e colocou a fita. Houve um momento de silêncio, e então Rupert Dauncey começou a falar...

Depois, Dillon disse: — Qualquer coisa que tente fazer para se defender será ruim para você, Kate. — Ele olhou para Dauncey. — E para você.

— Pena de prisão garantida, eu diria — comentou Ferguson.

Mas, notavelmente, Rupert não pareceu abalado. Ele acendeu um cigarro, o rosto muito calmo.

— Façam o que quiserem. Vocês não vão chegar longe. Precisa compreender isso, Ferguson.

— Não, essa é a forma errada de colocar a questão — disse Quinn. — Você quer dizer que não vamos chegar longe o bastante. Vai receber alguma sentença ínfima, e só cumprirá metade da pena. E sabe de uma coisa? Você está certo. Sabe o que isto vale? — Ele levantou a caneta. — Nada. Sua única função útil é que me diz que você foi responsável pela morte da minha filha.

E jogou a caneta e a fita no fogo.

— Pelo amor de Deus! — disse Ferguson, enquanto a fita queimava e a caneta derretia.

Até Dillon pareceu surpreso.

Quinn prosseguiu: — Vou voar para Boston amanhã com as cinzas de minha filha. Depois que ela estiver descansando, eu voltarei. Então nós vamos começar.

— E o que você quer dizer com isso? — perguntou Kate Rashid, visivelmente abalada.

— Condessa, pretendo abrir guerra contra você e sua companhia. Pretendo arruiná-la. E vou arruiná-la, nem que seja a última coisa que faça. — Virando-se para Rupert Dauncey, disse: — E você é um morto que caminha.

Deu as costas aos dois e saiu, seguido pelos amigos.


Depois que tinham ido embora, Kate Rashid disse: — Bem, querido, esta foi uma situação muito grosseira, não acha? Embora deva dizer que admirei aquele gesto. Você acha que foi verdade, que aquelas eram as únicas cópias em fita?

— Nunca tive tanta certeza de uma coisa em toda a minha vida. — Ele acendeu outro cigarro. — Vou mandar vigiar esta casa. Assim, saberemos quando ele voltar.

— E então o quê?

— Então vou lidar com a situação. — Ele sorriu. — Talvez ele faça “a última coisa” bem antes do que espera. — Ele se virou. — E quanto a você? E quanto àquele seu plano bombástico?

— Ainda estou esperando notícias de Colum McGee. Depois que ele tiver arranjado as coisas com Barry Keenan, voaremos para Belfast e vamos por terra até Drumcree.

— E finalmente vou saber por quê?

— É claro. Só que ainda não. — E, parecendo ter recuperado o bom humor, acrescentou: — O apressado come cru.

— Então o que você gostaria de fazer enquanto esperamos?

— Bem, vamos nos divertir um pouco. Eu estava pensando em ir até o Solar Dauncey. Mantenho meu avião, um Black Eagle, lá no aeroclube. Estava pensando em voar até a ilha de Wight e fazer um piquenique.

— Mas e quanto a Ferguson e sua equipe?

— Meu querido Rupert, a questão é justamente essa. Eles jamais acreditarão que fomos até lá apenas para um piquenique. Isso vai deixá-los malucos!


Por sugestão de Ferguson, Luke levou-os até o Dorchester. Entraram e se sentaram num canto.

— Champanhe não parece apropriado — disse Ferguson.

— Não, mas um conhaque cairia bem — disse Quinn e levantou a mão direita, que tremia um pouco. — Preciso aprender a me controlar daqui em diante.

— Achei que você fez um trabalho notável precisamente nisso — disse Ferguson. — Mas veja, senador, estamos pisando em ovos aqui. Antes da morte de sua filha, não tínhamos nada concreto, nada que a lei pudesse nos permitir usar contra Kate Rashid e sua organização. Aquela gravação nos deu uma vantagem, mas optou por destruí-la, o que nos deixa de volta ao ponto em que começamos.

— Foi minha decisão — disse Quinn, engolindo seu conhaque.

— Mas uma decisão insensata, se queria uma reação violenta.

— Não, general. Não entendeu. A minha ação me deixou com um leque de opções. E pretendo dar uma resposta violenta.

— Nesse caso, pode contar comigo — declarou Dillon.

— Dillon, não esqueça de para quem você trabalha.

— Isso pode ser remediado, general — disse Dillon tranquilamente.

Ferguson dirigiu-lhe um olhar demorado.

— Eu sentiria muito ouvir isso. — Ele se virou para Quinn. — Mas estou preocupado é com sua segurança.

— Sei disso. — Quinn se levantou. — Preciso ir. Tenho coisas a fazer.

— Precisa falar com Blake Johnson. O presidente tem interesse nisso — lembrou-lhe Ferguson.

— Pode me ajudar nesse ponto — disse Quinn. — Coloque Blake a par dos acontecimentos, general. Conte tudo a ele. — E com um sorriso: — Obrigado, Sean.

O senador se retirou.

— Debaixo da calma, ele é um homem enfurecido — disse Ferguson, preocupado. — Isso não é bom.

— Nunca é — argumentou Dillon, e então eles terminaram seus conhaques.


12


LONDRES-BOSTON-WASHINGTON-LONDRES

 


Na manhã seguinte, Kate Rashid e Rupert Dauncey saíram da casa num Bentley marrom. Dillon estava parado um pouco atrás na rua, de capacete e luvas pretas, fingindo trabalhar em sua motocicleta Suzuki. Montou na moto e seguiu os dois.

Não havia nenhum motivo particular para a iniciativa, e ele não tinha dito a Ferguson ou a Hannah que não se apresentaria. Era uma bela manhã de sol com muito tráfego, e como o Bentley se destaca facilmente na paisagem, Dillon pôde permanecer afastado. Eles se mantiveram na pista expressa na maior parte do tempo até Hampshire, e então pegaram estradas secundárias, onde Dillon precisou tomar mais cuidado.

Ficou surpreso quando eles não fizeram a curva para o Solar Dauncey. Ele conseguiu ficar atrás de dois caminhões de fazenda, e então, quando o Bentley dobrou à esquerda, Dillon viu a placa AEROCLUBE DAUNCEY.

O lugar provavelmente fora um posto da RAF na Segunda Guerra Mundial, e então se desenvolvera com o passar dos anos. Ele viu um edifício central, uma torre de controle, e uns trinta aviões estacionados na ponta de duas pistas gramadas. Ali também havia diversos automóveis, e o Bentley era um deles.

Dillon estacionou perto da primeira pista e pegou seus binóculos. Como Ferguson adorava se gabar, Dillon era capaz de pilotar qualquer coisa, e conhecia a maioria dos aviões.

Havia um Black Eagle muito razoável taxiando na pista mais próxima. Parou não muito longe e dele saltou um homem de macacão branco. Rupert Dauncey e Kate Rashid saíram do prédio principal e caminharam até ele. Kate usava roupa preta de paraquedismo e óculos escuros. Rupert vestia calça e jaqueta de couro. Pararam para conversar com o outro homem, e então entraram no Eagle. Ele taxiou até a extremidade mais distante da pista, fez a curva e decolou.

Dillon foi até a grade enquanto o homem de macacão branco se aproximava.

— Belo Eagle, uma verdadeira beleza — comentou Dillon, animadamente. — Hoje em dia um avião como esse é peça de colecionador.

— Pertence à condessa de Loch Dhu — esclareceu o homem. — Ela mesma pilota o avião, e é muito boa.

— Aonde foram hoje? — indagou Dillon e lhe ofereceu um cigarro. O homem aceitou.

— Às vezes gosta de passar um dia na França, mas ela disse que estava indo para a ilha de Wight. Primeiro, vai parar na casa grande, o Solar Dauncey. Ela tem um campo de pouso lá.

— Isso é legal?

— É, se você for dono de metade do país. — O homem riu. — Se você quiser alguma coisa, tenho café lá dentro.

— Não, muito obrigado. É melhor eu ir.

Dillon montou na Suzuki e saiu. Pilotou a moto de volta para Londres, pensando.


A vez seguinte em que estacionou foi no Dark Man, no ancoradouro de Wapping. Harry Salter, Billy, Baxter e Hall estavam comendo torta salgada, e todos, menos Billy, bebiam cerveja.

Salter dirigiu um olhar desconfiado ao visitante.

— Ei, o que é isso?

Dillon tirou o capacete.

— Caramba, é você, Dillon! — exclamou Salter e deu uma gargalhada. — Está trabalhando como figurante num road movie ou alguma coisa assim?

— Não. Estive passeando pelo campo, mais precisamente pelas propriedades Rashid. Dauncey Village e além.

Harry parou de sorrir.

— Encrencas?

— Das grossas.

— Então venha tomar um trago e conte pra gente.

Fez um sinal de cabeça para Billy, que foi até o bar e voltou com meia garrafa de Bollinger e uma taça.

Dillon tirou a rolha e serviu.

— O que você acha, Billy? Há um aeroclube a dez quilômetros da casa de Kate, e ela decola de lá num Black Eagle, parecido com o avião que Carver pilotou quando você e eu fomos a Hazar naquela vez.

— Você está dizendo que ela mesma pilota?

— Isso é novidade para mim, Billy. Nunca imaginei que ela pilotasse.

— Bem, vivendo e aprendendo — disse Harry. — Mas não foi isso que você veio contar pra gente, foi?

— Não, não foi.


E Dillon contou tudo: Quinn, a filha, Alan Grant, tudo. Quando ele terminou, os homens continuaram em silêncio por alguns instantes, até que Billy finalmente disse:

— Que filho da puta.

— Isso nem mesmo começa a descrevê-lo — disse Harry. — Eu soube no momento em que pus os olhos nele. E agora?

— Quinn vai voltar em alguns dias. Então veremos.

— Ele não devia ter destruído a caneta e a fita — disse Harry. — Dauncey teria sido preso pelo que fez.

— Mas por quanto tempo? — inquiriu Billy. — Não, Quinn fez bem. Ele quer mais do que a lei pode dar a esse sujeito, e acho que ele tem esse direito.

— Então você vai ajudá-lo a guerrear quando voltar? — perguntou Harry a Dillon.

— É mais ou menos isso.

— E o general?

— Não aprova.

Billy disse: — De que diabos estamos falando aqui? Kate Rashid sentenciou todos nós à morte, não foi? E ela incluiu Ferguson nessa sentença. Acho que estamos juntos nisso.

— E eu também. — Harry levantou a mão. — Conte com a gente, Dillon, não importa o que Ferguson diga.


Antes de sair de Londres, Daniel Quinn tinha falado com seu velho amigo dos tempos do Vietnã, Tom Jackson, na Quinn Industries em Boston, chocando-o imensamente com a notícia da morte de Helen. Quinn não entrou em detalhes sobre o que realmente aconteceu. Não viu motivo para isso.

— Alguma coisa que eu possa fazer? — indagou Jackson.

— Sim. Estou levando as cinzas de Helen comigo. Quero que você entre em contato com monsenhor Walsh. Quero um funeral amanhã, e quero muito discreto, com pouquíssimas pessoas. Quero ficar o mais longe possível de jornais que possam fazer alguma sugestão de envolvimento de drogas na morte dela.

— Compreendo.

— Por causa disso, não vou informar aos parentes mais distantes. Quero que você compareça, Frank, mas vou ser sincero: é principalmente porque preciso dos seus bons serviços.

— O que quiser.

— Telefone para Blake Johnson na Casa Branca. Conte a ele o que está acontecendo. Ele tem minha permissão para informar o presidente. Vou deixar isso com você.

Tom Jackson, um advogado astuto e inteligente, disse: — Daniel, há mais alguma coisa que você não está me dizendo?

— Eu lhe conto um dia desses, meu velho.


Na tarde seguinte, ele se sentou na igreja no Cemitério Lavery, onde a família de Quinn tinha um mausoléu. Ali estava monsenhor Walsh, que era padre da família há tantos anos que tinha batizado Helen. Era assistido por um padre bem mais jovem, padre Doyle. Dois funcionários do cemitério, em ternos pretos, aguardavam no fundo da igreja.

Monsenhor Walsh estava fazendo o melhor que podia sob circunstâncias difíceis. De certa forma, o lugar lembrava o crematório em Londres, e Quinn deixou as palavras familiares flutuarem através de sua cabeça. Sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor.

Mas isso não é verdade, pensou Quinn. Não há ressurreição aqui, apenas morte.

Atrás dele, a porta da igreja se abriu, passos soaram ao longo do corredor central, e ele sentiu uma mão pousar em seu ombro. Olhou para cima e viu Blake Johnson, que forçou um sorriso e se sentou no banco no outro lado do corredor.

Eles se levantaram para rezar o pai-nosso e Walsh benzeu o receptáculo que continha as cinzas. A música de órgão gravada em fita agora estava baixa. O padre jovem pegou a urna e fez um aceno de cabeça para Quinn, que caminhou à frente e a recebeu.

Uma procissão se formou, os dois funcionários do cemitério na frente, e então os dois padres, Quinn atrás com as cinzas, Tom Jackson e Blake Johnson por último.

Fiel às convenções, a chuva começou assim que eles saíram. Os dois funcionários levaram guarda-chuvas, um para Blake e Jackson, outro para Quinn, o terceiro para os padres.

A pequena procissão serpenteou através do cemitério, que era muito antigo. Havia pinheiros e ciprestes, anjos alados e monumentos góticos, os sentimentos inscritos nas lápides reportando uma fé implacável na possibilidade de vida no além.

Os funcionários pararam diante de um mausoléu grande, com anjos ladeando a porta de bronze. Um deles pegou uma chave e abriu a porta.

Quinn caminhou entre os dois padres.

— Se não se importam, gostaria de fazer isso sozinho.

Lá dentro havia vários caixões ornados: sua mãe, seu pai, sua esposa, e três outros parentes distantes. Flores tinham sido colocadas no fundo de um nicho na parede.

A urna com as cinzas de Helen se encaixou perfeitamente ali. Quinn sabia, porque Jackson lhe dissera, que o nome dela seria cinzelado no granito embaixo do nicho e realçado em dourado.

Quinn ficou parado, silenciosamente, mas sua cabeça não estava curvada numa prece, porque ele não era mais capaz de rezar.

— Adeus, querida — disse baixinho e saiu.

Um dos funcionários trancou a porta. Monsenhor Walsh se aproximou.

— Daniel, não se isole do mundo, não se isole de Deus. Tudo na vida tem um propósito.

— Bem, me desculpe por não estar receptivo hoje, monsenhor, mas obrigado por ter vindo. Ela sempre gostou muito do senhor. Com sua licença...

E Quinn se afastou, seguido por Jackson e Blake.

Quando alcançaram o carro estacionado diante da igreja, Quinn parou.

— Desculpe, Blake, não estou nos meus melhores dias. Estou feliz por você ter vindo.

— O próprio presidente quis comparecer, Daniel, mas isso teria transformado o funeral num circo. Ele sabia que era a última coisa que você queria.

— Aprecio a compreensão dele.

— Vai voltar para Londres?

— Assim que possível.

— O presidente quer falar com você.

— Por quê?

— O general Ferguson falou conosco. Ele está preocupado. Todos estamos. Sinto muito precisar lembrar que você está ligado ao presidente pela Ordem Presidencial. Você não pode dizer não.

— Ordem Presidencial? Pensei que isso era um conto da carochinha.

— Bem, não é — disse Blake.

Quinn disse: — Muito bem, vou para casa fazer a mala para a jornada de volta, e então me encontre no aeroporto. Você pode dar uma carona ao Tom.

— Pelo amor de Deus, Daniel, o que está acontecendo? — perguntou Jackson.

Quinn disse a Blake: — Ferguson lhe contou tudo?

— Sim.

— Bom. Você pode contar a Tom no caminho de volta. Como eu disse, encontrem-me no aeroporto.

Ele se sentou ao lado do chofer, deu-lhe uma ordem e o carro saiu.


Blake tinha chegado num Gulfstream presidencial. Quinn falou com seus próprios pilotos, instruiu-os a seguir para Washington e marcar um pouso em Londres. Jackson estava presente para ver a decolagem.

— Daniel, se você quer aquele desgraçado morto, deixe-me fazer isso. Mas você não. Ele não vale isso.

— O assunto é meu, Tom. Não fique preocupado comigo. A propósito, estou chutando você do departamento jurídico.

Jackson pareceu chocado.

— Mas, Daniel, o que foi que eu fiz?

— Nada além de um bom trabalho em tudo que caiu em suas mãos. Bert Hanley falou comigo. O coração dele anda pior do que nunca. Os médicos querem que se aposente. Sendo assim, você é o presidente, assumindo imediatamente. Permanecerei por perto como diretor executivo, mas você vai conduzir o barco bem melhor do que eu. — Ele abraçou Jackson. — Deus o abençoe, Tom, mas tenho coisas para fazer. — Ele esboçou um sorriso triste. Bo Din tudo de novo.

— Não, Daniel — rogou Tom Jackson.

Mas Quinn já tinha passado pela segurança.


Mais tarde, no avião, Blake disse: — Ele venera você.

— Ele é um grande sujeito e eu iria ao inferno por ele, mas o que tenho para fazer é tarefa minha, e só minha. Nada me fará mudar de ideia.

Ele recostou na poltrona e fechou os olhos.


Clancy Smith abriu a porta e eles entraram no Salão Oval. Cazalet, em mangas de camisa, estava usando óculos de leitura, assinando uma carta depois da outra. Ergueu os olhos para ver quem tinha chegado, levantou-se e contornou a mesa.

— Daniel. Eu gostaria de dizer que é bom vê-lo.

— Presidente, vamos fazer de conta que este é um dia normal. O que posso fazer por você?

— Sentem-se.

O que eles fizeram, e então Cazalet prosseguiu: — O general Ferguson falou comigo e com Blake em teleconferência. Fiquei realmente chocado com o que ele me disse sobre a conduta de Rupert Dauncey neste assunto.

— Entenda, Dauncey não queria matar minha filha. Queria apenas que ela estivesse drogada naquela manifestação, na esperança de que ela fosse presa e isso se tornasse um embaraço político para mim e você.

— E a coisa toda saiu terrivelmente errada — disse Blake.

— Ferguson explicou seus motivos para destruir a fita — disse Cazalet. — Preciso ser honesto e dizer que não gostei disso. Você podia ter ferrado Dauncey no tribunal.

— Ele sairia com facilidade. Não acho que seria o bastante. Ele não matou minha filha, mas foi responsável pela morte dela, não aquele rapaz infeliz, e pretendo fazer com que ele pague.

— Mas legal e apropriadamente, Daniel. Precisamos operar dentro dos limites da lei.

— Isso nem mesmo faria um risco na casca do império Rashid. E diga-me uma coisa: o que acontecerá se a lei não funcionar? Não tenho direito à justiça?

— Não — disse o presidente. — Porque a justiça não é nada sem a lei. A lei nos une a todos, a lei é a moldura de nossas vidas. Sem a lei nada somos.

— Que é precisamente o motivo pelo qual há tantos bandidos. Estou cansado, presidente, e muitas outras pessoas diriam a mesma coisa. Estamos cansados de ver as pessoas más se safarem.

— O que eu disse ainda é verdadeiro.

— Então, neste assunto, devemos concordar em discordar.

Ele se levantou e Cazalet disse: — Daniel, se está determinado a seguir esse curso, não posso protegê-lo. Compreende isso, não compreende?

— Era o que eu esperava, sir.

— Então preciso lhe dizer que você não está mais a meu serviço em Londres. A embaixada não oferecerá mais nenhuma assistência.

— E não estou mais limitado pela Ordem Presidencial?

— Suponho que não.

— Posso ir agora? Preciso pegar um voo para Londres.

— Só mais uma coisa. O general Ferguson pensa o mesmo que eu. Ele não quer envolver a si mesmo ou aos seus homens nesse curso de ação. Isso significa que você não pode contar com a assistência de Sean Dillon.

— O sr. Dillon insinuou outra coisa, e ele me parece um homem de opiniões muito fortes.

— Lamento ouvir isso. Adeus, senador.

Blake conduziu Quinn até a porta.

— Espero que você saiba o que está fazendo.

— Nunca soube tanto.

Quinn se retirou e Blake voltou ao Salão Oval. Cazalet estava novamente atrás da mesa.

— Acha que agi errado?

— Não, sir. agiu bem. Mas ele tem razão numa coisa. Ninguém vai derrotar Kate Rashid e sua organização usando a lei ou qualquer outro método transparente. Esta é uma daquelas situações que requerem os Dillons do mundo.

— Mas Daniel Quinn não é um Dillon. Ele não tem um único osso maligno no corpo.

— Talvez ele consiga aprender rápido, presidente.


Naquela noite em Londres, Rupert Dauncey recebeu um telefonema de um segurança que ele posicionara diante da casa de Daniel Quinn, dentro de um furgão da companhia telefônica. Havia dois agentes no furgão, Newton e Cook, ambos ex-oficiais do SAS.

— Ele voltou, sir — informou Cook.

— Quando chegou?

— Há uma hora. Tentei avisar antes, mas seu telefone estava desligado.

— Estava fazendo meu cooper — disse Dauncey.

— Bem, achei que você gostaria de saber que aquele chofer dele saiu completamente uniformizado e está parado ao lado do Mercedes. Parece que Quinn está prestes a agir.

— Estarei aí em três minutos.

Dauncey bateu o telefone, pegou seu celular e saiu do apartamento numa questão de segundos. Um momento depois, ele saía da garagem no Porsche de Kate. Enquanto se aproximava da esquina da Park Place, o Mercedes passou e ele teve um rápido lampejo de Quinn sentado ao lado de Luke. Ele seguiu o veículo e ligou para Newton e Cook.

— Estou na cola dele. Permaneçam onde estão.


O tráfego estava leve devido à hora. Quinn acendeu um cigarro e se recostou no banco. Ele sempre gostara de cidades à noite, particularmente tarde da noite. Ruas desertas lavadas pela chuva, aquela sensação de solidão.

Que diabos estou fazendo?, perguntou-se e o pensamento o deixou imediatamente transtornado.

Seguiram rumo ao rio, à Torre de Londres, à doca St. Katharine, e finalmente chegaram à Wapping High Street e pararam no Priorado de St. Mary. Fazia um ano desde que estivera ali pela última vez, numa de suas viagens a Londres a serviço do presidente. Era um prédio de aparência sombria em pedra cinza e uma porta de carvalho imensa e desgastada que sempre permanecia aberta. Por trás dos muros altos se podia ver uma torre do sino e o teto de uma capela.

— Não vou demorar — disse Quinn a Luke e, saindo do carro, atravessou a rua.

Um letreiro dizia: PRIORADO DE SANTA MARIA, IRMÃS DA PIEDADE: MADRE SUPERIORA, IRMÃ SARAH PALMER.

— Nunca fechamos — disse Quinn baixinho e entrou. Num cubículo, o porteiro da noite estava bebendo chá e lendo o Evening Standard. Ele levantou os olhos e os viu.

— Bom dia.

Uma placa na parede dizia: A capela está aberta a todos para suas preces particulares.

— A madre superiora está?

— Eu a vi indo para a capela ainda há pouco, sir.

— Obrigado.

Quinn caminhou até a porta da capela aberta e entrou.


Rupert, estacionado a uma certa distância do Mercedes, vira-o atravessar a rua e o seguira, parando apenas para ler o letreiro antes de entrar.

Ele adotou a abordagem simples e disse ao porteiro: — Aonde meu amigo foi?

— À capela, senhor. Estava procurando a madre superiora.

— Obrigado.

Rupert caminhou até a porta aberta da capela e conseguiu escutar vozes. Ele olhou para dentro. Estava muito escuro; as únicas luzes vinham das velas no altar. Ele se escondeu atrás de uma pilastra e não teve dificuldade em ouvir o que estava sendo dito.

Quando entrou na capela, Quinn parou e olhou para a imagem da Virgem. As velas ardiam de uma maneira que ela parecia flutuar na escuridão, ao lado do altar. A irmã Sarah Palmer estava ajoelhada esfregando o chão, uma tarefa doméstica geralmente executada por noviças, mas que em seu caso tinha o propósito de ensinar-lhe humildade, apesar de ser madre superiora. Estava frio e úmido ali, e o lugar tinha o aroma inconfundível de capela.

— Velas, incenso e água benta — disse baixinho. — Assim vou sentir vontade de me benzer.

Ela parou e olhou para cima, fitando calmamente o visitante.

— Ora, Daniel, mas que surpresa. De onde você veio?

— De Kosovo.

— As coisas lá estavam ruins?

— Muitos corpos nas ruas.

Ela guardou o esfregão no balde e se pôs a esfregar o chão com um pano.

— Tão ruim quanto em Bo Din?

— Diferente, mas igualmente ruim a seu próprio modo.

Ela espremeu o pano de modo a fazer a água cair no balde. — O que aconteceu, Daniel?

— Helen está morta.

Ela ficou parada ali de joelhos, olhando para ele. — Deus Todo Poderoso! — Ela se levantou enquanto Quinn se sentava num banco. Ela se sentou no da frente, meio virada para ele, e indagou: — O que aconteceu?

Ele contou tudo.

— Deus colocou um fardo em suas costas, Daniel — disse a madre superiora. — O que aconteceu foi uma coisa terrível, mas você não deve permitir que o destrua.

— E como posso fazer isso?

— Buscando refúgio na oração, procurando o apoio de Deus...

— Em vez de buscar vingança? — Quinn balançou a cabeça. — Mas isso é tudo que quero. O sofrimento é uma coisa estranha. Descobri que existe uma possibilidade de conforto quando se faz outra pessoa sofrer. Quando deixei Rupert Dauncey escapar do anzol, estendi o seu sofrimento, a sua punição.

— Esses pensamentos vão destruir você.

— Se for o preço, pagarei.

Ele se levantou, e ela também.

— Por que veio aqui, Daniel? Sabia que eu não aprovaria seus intentos.

— Sim, mas é importante para mim que você ouça os fatos, porque assim talvez entenda minha conduta no futuro.

— Então o que quer, uma bênção?

Havia uma frieza cortante na voz dela, uma espécie de raiva, e por um momento ela pareceu novamente a jovem freira em Bo Din.

— Mal não vai fazer — respondeu Quinn.

E então ela fez a coisa mais difícil que já fizera na vida.

Disse: — Parta deste mundo, alma cristã, em nome de Deus Pai, que te criou.

— Ah, muito adequado. — Quinn sorriu gentilmente. — Adeus, Sarah. E que Deus a abençoe.

Ele se virou e saiu.


Com o coração carregado de desespero, a irmã se ajoelhou e começou a rezar. Houve um movimento ali perto, e ela abriu os olhos, virou-se e encontrou um homem acocorado a seu lado. Os cabelos louros, o rosto bonito. Era o rosto do diabo, e ela o reconheceu imediatamente.

— Está tudo bem, irmã, não quero lhe fazer mal. Eu o segui até aqui e, claro, vi seu nome na porta. Sei quem você é. É a notável freirinha de Bo Din.

— E quem é você?

— Muitas coisas. Um mau católico, para citar uma. Mas não se preocupe. Eu jamais faria mal a você. Deus não me perdoaria por isso.

— Você é louco.

— Possivelmente. Também sou o homem que ele culpa pela morte da filha.

— Rupert Dauncey — sussurrou.

— Sou eu. — Ele se levantou. — Gostei da sua ideia para uma bênção. Uma extrema-unção. Isso seria bem apropriado. — Ele sorriu. — Não esqueça de telefonar para ele. Diga que estive aqui.

Seus passos ecoaram pela capela. A freira se levantou e sentou-se no banco, sentindo mais medo do que nunca em sua vida.


De volta a Park Place, Newton e Cook viram o Mercedes entrar no jardim. Quinn e Luke saltaram, e Quinn disse: — Não vou precisar de você hoje, Luke. Amanhã vou correr no Hyde Park por volta das sete e trinta. Assim, diga a Mary que faremos o desjejum às nove.

Os dois homens no outro lado da rua ouviram a conversa e Cook telefonou para Dauncey, que tinha acabado de chegar, e repassou a informação.

— Muito bem — disse Rupert. — Vão para casa, mas voltem de manhã, vestidos para cooper. Quando ele sair da casa, sigam-no até o parque.

— E então, fazemos o quê?

— Façam o que precisam fazer.

Ele não tinha ido visitar a prima para colocá-la a par dos acontecimentos. A irmã Sarah Palmer era pessoal demais, e Kate jamais entenderia os sentimentos dele.

Serviu-se de uma dose de Jack Daniel's, encontrou o jornal vespertino, e se sentou para ler. Um momento depois, seu telefone tocou e ele atendeu.

— É Quinn. Falei com a irmã Sarah Palmer pelo telefone. Juro por Deus, se você fizer qualquer mal a...

— Não seja estúpido, senador. Ela é a última pessoa no mundo a quem eu faria mal, uma mulher maravilhosa como aquela. Assim, boa noite e durma com os anjos.

Ele desligou.


Quinn colocou o fone no gancho, consciente de que realmente acreditara em Dauncey. Ele ficou parado ali, pensando no assunto e, por impulso, ligou para Sean Dillon em Stable Mews.

— É Quinn. — E lhe contou a história. — Acredito quando ele diz que não vai machucá-la. Não sei por que, mas acredito.

— Muito bem. O mais importante é que ele seguiu você até o Priorado de Santa Maria, obviamente a partir de sua casa. Eu diria que você está sendo vigiado. Alguma coisa incomum na sua rua?

— Espere um minuto. — Quinn caminhou até a janela e olhou para fora. — Um furgão da British Telecom.

— Telecom o cacete.

— Obrigado pela dica.

— Como foram as coisas em Boston?

— Como esperado. Washington é que foi uma decepção. — Ele lhe contou tudo, terminando: — E ele deixou claro que Ferguson concorda com ele.

— Bem, vamos ver se isso é verdade. Ele é um amigo do peito, sempre foi. Amanhã de manhã passo na sua casa para conversarmos sobre o assunto.

— Vou correr no Hyde Park às sete e meia. Passe aqui em casa para tomarmos um café às nove.

— Está marcado — disse Dillon e desligou o telefone.


Dillon acordou cedo na manhã seguinte e, olhando o relógio, viu que tinha tempo para acompanhar Quinn na corrida. Levantou, vestiu jogging, desceu, pegou seu capacete, abriu a garagem e saiu na Suzuki.

No caminho para Park Place, pensou no furgão da British Telecom que Quinn tinha mencionado e se perguntou qual seria a melhor maneira de lidar com ele. Possivelmente uma ligação anônima para a polícia. Simples e direto.

Ele saiu da Grosvenor Square para a South Audley Street, e enquanto seguia para Park Place, Quinn saiu de casa e atravessou a rua. Um momento depois, Cook e Newton, em joggings, saíram do furgão e o seguiram. Dillon praguejou, desviou para Park Place e entrou no terreno da casa de Quinn. Parou a Suzuki diante da garagem, enfiou a mão no alforge direito da moto e pegou sua Walther. Guardou-a no bolso direito do jogging e saiu correndo atrás deles.


Quinn atravessou Park Lane usando a passarela subterrânea, subiu correndo os degraus até o outro lado, e entrou no Hyde Park, seguido por Newton e Cook. Dillon, esforçando-se ao máximo, não estava muito atrás.

Era uma manhã enevoada, e chuviscava um pouco. Quinn se deparou com meia dúzia de soldados da Cavalaria Real, exercitando suas montarias. Querendo ficar sozinho, resolveu atravessar o gramado na direção das árvores. A névoa estava mais densa ali, e não havia ninguém por perto.

Ouviu um farfalhar repentino às suas costas e, quando se virou, viu Newton se projetando em sua direção. O homem atingiu Quinn com o ombro, fazendo com que ele cambaleasse e caísse. Cook chutou o peito de Quinn, que rolou no chão, conseguiu pôr-se em pé e viu Cook investir novamente. Tudo voltou rápido, todos os truques da profissão, e ele bloqueou os socos de Cook, engalfinhou-se com ele e o empurrou para trás, batendo o quadril dolorosamente no chão. Newton veio correndo por trás e passou um braço em torno de seu pescoço. Quinn se ajoelhou, jogando Newton por sobre a cabeça.

E então eles estavam em pé, ambos o encarando.

— Muito bem, bacana — disse Cook. — É aqui que você se ferra.

Então ouviu-se um tiro, um som surdo no ar úmido, e Dillon chegou, Walther na mão.

— Acho que não. — Ele se aproximou. — Quem mandou fazerem isso? Dauncey?

— Não enche — disse Cook.

Dillon chutou-o entre as pernas, derrubando-o. Virou para Newton, agarrou-o pela gola do jogging e encostou o cano da Walther em sua orelha esquerda.

— Você tem duas escolhas. Primeira, arranco a sua orelha com um tiro. Segunda, você me diz quem mandou vocês.

Newton entrou em pânico.

— Tá certo, tá certo. Foi Dauncey.

— Pronto. Não foi fácil? Se eu fosse você, ia cuidar do seu amigo, e depois dizer ao chefe que Dillon mandou lembranças. — Ele riu. — Embora eu admita que não ia querer estar no seu lugar quando ele souber que melaram tudo. — Ele acenou com a cabeça para Quinn. — Vamos embora.


E os dois se afastaram correndo em velocidade de exercício. Aproximadamente ao mesmo tempo em que Newton e Cook davam as más notícias a Dauncey, Quinn e Dillon confrontaram Ferguson na Cavendish Square. Hannah acabara de chegar, em resposta a uma ligação de Ferguson, a tempo de ouvir o que tinha acontecido tanto no priorado quanto no parque.

Dillon terminou sua história e sorriu.

— Então sabemos em que pé estamos. Em pé de guerra.

— É o que parece — disse Ferguson. — Mas não podemos provar nada. Dauncey negará qualquer relacionamento com esses homens.

— Não estou nem aí — disse Quinn. — Não tem nada a ver com a lei, Charles. Tem a ver com o que sabemos e o que faremos a respeito.

— O presidente falou comigo, você sabe — disse Ferguson. — Você está sozinho nisso.

— Não, ele não está — garantiu Dillon. — Ele está comigo.

— Então você não trabalha mais para mim — disse-lhe Ferguson calmamente. — Se eu fosse você, pensaria melhor no assunto.

— Já pensei. — Dillon virou-se para Quinn. — Vamos embora, senador.

Depois, Hannah disse: — Tem certeza quanto a isso, sir?

— Apenas de que Dillon vai agir com sua rudeza habitual.

— E isso condiz com os seus propósitos?

Ele sorriu para ela.

— Completamente.


13

 

 

Mais tarde, Dauncey almoçou com Kate Rashid e, irritado, contou sobre os eventos da manhã.

Ela meneou a cabeça.

— Isso é o que, Rupert? A terceira vez? Ou Quinn tem corpo fechado ou precisamos seriamente reexaminar a forma como conduzimos nossos negócios. — Ela o fitou com severidade, mas então sorriu. — Mas neste momento não me importo. Quinn é apenas o evento paralelo. O show principal está prestes a começar.

— Como assim?

— Recebi notícias de Barry Keenan. Colum McGee marcou um encontro.

— Onde?

— Drumcree, daqui a três dias. Vamos para lá na tarde de quinta-feira. Vamos nos hospedar no Europa, e então vamos de carro até Drumcree na manhã de sexta-feira. Se as coisas correrem bem, podemos voltar de Aldergrove à noite.

— Então na sexta-feira você finalmente vai me dizer o que está aprontando?

— Mas é claro, meu bem.


Enquanto isso, Dillon e Quinn estavam tocando a campainha da Regency Square. A porta se abriu automaticamente e eles encontraram Roper trabalhando, como de costume.

— Já ia telefonar para você — disse a Dillon. — Rashid e Dauncey vão voar para Belfast na tarde de quinta. Vão ficar no Europa, e voltam sexta à noite.

— Acha que é importante? — perguntou Quinn a Dillon.

— Não sei. Podem ser apenas negócios, mas na última vez em que estive na Irlanda com Kate Rashid, ela estava contratando o IRA. Vamos voar para lá antes dela e ver o que vai fazer. Talvez eu até mostre a você os deleites de Belfast.

— Agora que já combinaram seu programa, posso ter uma palavrinha com vocês? — disse Roper.

— Sobre o quê?

— Acontece que sei para onde ela está indo. Sei que sou uma alma simples, mas achei lógico que eles alugassem um carro e descobri uma reserva no banco de dados de uma locadora. O chofer deles vai ser um cara chamado Hennessy, que dirige um Volvo.

— Seu sacana esperto.

— Não, eu sou um sacana brilhante. Lembrei do seu envolvimento com os Rashids, Aidan Bell e o IRA no ano passado... e que o nome Drumcree aparecia muito.

— Meu Deus! — exclamou Dillon. — Não me diga...

— Sim, estou dizendo. Hennessy vai pegar Kate e Dauncey no Europa às nove e meia da manhã de sexta e seguir para o Royal George, em Drumcree. É um nome engraçado para um pub no coração do IRA.

— Bem, eu mesmo sou de County Down, e de onde venho as pessoas têm um senso histórico muito forte. Ele sempre foi chamado assim. Mais alguma coisa?

— Claro. Como você deve lembrar, Drumcree originalmente era território de Aidan Bell, antes que você o matasse e aos seus dois guarda-costas, Tony Brosnan e Jack O'Hara.

— Para ser preciso, eu matei Aidan e Jack. Billy Salter acertou Brosnan.

— Correção aceita. Em todo caso, achei melhor acessar os computadores tanto da RUC quanto do departamento de espionagem do Exército em Lisburn, apenas para checar a situação de Drumcree no momento.

Quinn, que até aqui estivera ouvindo a conversa em silêncio, perguntou: — Você consegue entrar nos computadores deles?

— Consigo entrar em qualquer computador — disse Roper e sorriu. — Até nos da Casa Branca.

— Tudo bem, hoje não vamos precisar — disse Dillon. — Drumcree?

— Ah, sim. Bem, de acordo com Lisburn, um camarada chamado Barry Keenan é quem comanda as coisas lá agora. Você o conhece?

— Nós nos conhecemos há muito tempo. É sobrinho de Aidan Bell.

— Ele tem dois guarda-costas, chamados Sean Casey e Frank Kelly. Mas eles não estão mais no IRA Provisório. Estão com o RIRA Real, outra dissidência.

— Barry sempre foi um dos maiorais do ramo de explosivos. Grande especialista com bombas — explicou Dillon e então, meneando a cabeça: — Ela está fazendo de novo.

— Fazendo o quê? — perguntou Quinn.

— Eu diria que ela está contratando Keenan para fazer o que ele faz melhor: explodir alguma coisa. Só que não é apenas alguma coisa velha, do contrário por que se dar ao trabalho de contratar o homem que muitos consideram o melhor fabricante de bombas do IRA?

— Como vamos descobrir qual é o alvo? — indagou Quinn.

— Se ela seguir o mesmo padrão da última vez, encontrará Keenan na sala privativa do Royal George. É uma espécie de quartinho dos fundos. Ela não falaria com ele no bar — explicou Dillon a Roper. — Um dispositivo de escuta, de preferência com gravador. Precisamos instalá-lo em algum lugar na sala privativa.

— Vamos ter tempo para plantá-lo?

— Eles devem estar lá às onze, certamente não mais cedo. Se sairmos às sete e meia, estaremos lá às nove. Eles vão tomar o café da manhã no pub. Um de nós pode plantar o gravador na sala privativa. — Virou-se para Roper.

— Mas você pode nos fornecer o equipamento certo?

— Não pode ser nenhum aparelho convencional, porque eles certamente vão falar por muito tempo. Mas tenho um que pode dar conta do recado. Pode gravar durante duas horas.

Ele lhes mostrou um aparelhinho prateado que cabia na palma da mão.

— A partir de quando? — perguntou Dillon.

— A partir de quando você o ligar. — Ele mostrou uma caixa preta com um botão escarlate. — Controle remoto. Aperte o botão quando a vir entrando no pub.

— Isso vai dar certo mesmo?

— Contanto que consigamos recuperar o gravador depois — disse Quinn.

— Desta vez precisamos cruzar bem os dedos — comentou Dillon.

Ele pegou os dispositivos e os colocou no bolso.

— Só tem uma coisinha, Dillon — disse Roper. — Seu rosto não é exatamente desconhecido pelo IRA, e certamente é muito familiar em Drumcree, onde já foi visto antes.

— É verdade, mas o Exército britânico também conhecia meu rosto, e não me pegou por trinta anos. — Virou-se para Daniel Quinn. — Trabalhei um pouco como ator de teatro antes de atender ao chamado da causa gloriosa. — Ele riu. — Certa vez, caminhei por Falls Road vestido de mendiga e ninguém suspeitou. Sei me disfarçar.

— Vão no Gulfstream? — perguntou Roper.

— Não. Desta vez eu mesmo vou pilotar.

Roper olhou desconfiado para ele.

— Explico depois, meu velho. Vamos nessa, Daniel.

De volta ao Mercedes, Dillon explicou: — Há um aeroclube em Brancaster, perto de Kent. Eles têm um belo Beechcraft lá.

— Vamos ter algum problema?

— Não. Ainda tenho autorização máxima para assuntos de segurança.

— Ainda que Ferguson tenha exonerado você?

— Não se preocupe com Ferguson. Ele está brincando de teatrinho. Não envolvimento significa simplesmente que ele vai poder negar saber de qualquer coisa. Ele ainda quer os resultados.

— Tem certeza disso?

— Absoluta. Vamos reservar aquele Beechcraft.


Não houve problema com o avião, exceto que o único horário disponível para decolagem era depois do almoço no dia seguinte, mais tarde do que Dillon queria.

Na volta, comeram alguma coisa numa lanchonete e Luke o levou a Stable Mews.

Dillon foi até a cozinha, serviu-se de uma dose de Bushmills e se sentou para pensar. Tudo estava em andamento agora; ele podia sentir. Não sabia exatamente o que Rashid estava aprontando, mas a espera tinha acabado, e era uma sensação boa. Apenas uma coisa o incomodava. Afinal de contas, a Irlanda era a Irlanda. Se as coisas fugissem ao controle, será que Quinn conseguiria fazer o necessário? Será que ele apertaria o gatilho sem questionar? Ele tinha se saído muito bem até aqui, mas matar um homem era diferente de espancar alguns bandidos.

Dillon suspirou. Ele precisava de alguém para proteger seu couro, e isso só podia significar uma pessoa.

Dirigiu até Park Place, e quando Quinn abriu a porta, disse: — Preciso ver alguns amigos meus. Venha comigo. Isso vai completar sua educação.

Seguiram até Wapping e estacionaram diante do Dark Man. Dora estava atrás do bar, polindo copos. Não havia sinal de Harry ou Billy.

— Estão no barco — explicou Dora.

Começou a chover um pouco enquanto Dillon conduzia Quinn através do ancoradouro.

— Entre outros negócios, Harry tem alguns barcos fluviais. Ele mandou reformar um dos menores, o Lynda Jones. É a menina-dos-olhos dele. Espere só para ver.


No local onde estavam agora, o rio tinha um ar desolado, mas estranhamente fascinante, alguns barcos decadentes, duas barcas meio afundadas. O Lynda Jones estava afastado, mas podia ser alcançado por um passadiço. Baxter e Hall conversavam na proa, enquanto Harry e Billy estavam sentados a uma mesa sob o toldo da popa, lendo: Harry um jornal, e Billy um livro.

— Filosofia, Billy?

Ambos levantaram os olhos da leitura e Harry disse: — Ora, quem é vivo sempre aparece.

— Harry, Billy, eu queria que vocês conhecessem um amigo, o senador Daniel Quinn.

Cenho franzido, Harry levantou-se e estendeu a mão. — Sabemos tudo sobre você, senador. Por favor, sente-se. — Ele se virou para Dillon. — Então esta não é uma visita social. O que está acontecendo?

— Num minuto, Harry. Primeiro... Billy, por que não me mostra o novo revestimento de madeira que você colocou no salão?

Eles saíram, deixando Harry e Quinn na mesa. Billy entrou primeiro no salão. Quando Dillon fechou a porta, Billy se virou.

— O que é?

— Kate Rashid está indo para Belfast, e eu vou segui-la. Quinn vem comigo porque ele está movido por um tipo de desejo de vingança pelo que aconteceu com a filha. Mas o caso é o seguinte: ele foi um grande herói no Vietnã, mas isso foi há muito tempo. Muita gente lá me conhece, Billy. Preciso de alguém para cuidar de mim.

— Bem, você encontrou esse alguém. Ando mesmo entediado. E sair com você sempre é divertido, Dillon. Vamos lá dar a notícia a Harry.


Quando contara, a reação de Harry foi imediata: — Acho que devo ir também.

— Não é preciso — disse Dillon. — Com sorte, vamos entrar e sair de Drumcree em uma ou duas horas.

— E com sorte descobrir o que aquela puta está tramando — disse Harry.

— Deve ser alguma coisa especial — concordou Dillon.

— Mas se ela vir você, o jogo vai acabar, Dillon. E, pensando melhor, ela também conhece o senador.

— E Billy. Assim, ele e Quinn terão que tomar cuidado para que ela não os veja. Mas comigo vai ser diferente. Esperem.

Dillon entrou no salão e fechou a porta. Quando a abriu novamente, saiu arrastando os pés, cabeça ligeiramente curvada para um lado, braço esquerdo endurecido, ombros arqueados. O rosto parecia contorcido, a linguagem corporal inteira havia mudado.

Harry se remexeu na cadeira.

— Inacreditável.

Dillon se endireitou e disse secamente: — Sim, fui uma grande perda para o teatro. Mas há mais uma coisa que vocês dois devem saber. Por vários motivos, a viagem não será sancionada por Ferguson. Estou indo para lá por conta própria. Assim, qualquer coisa que você fizer, Billy, você fará por mim.

— Então como você vai se aparelhar? Não é nada fácil contrabandear armas para dentro de Belfast — argumentou Harry.

— Ainda tenho meus contatos lá, Harry. Vou precisar apenas de um telefonema.

— Bem, traga esse veadinho de volta inteiro — disse Harry. — Me dói dizer isso, Dillon, mas desde que conheceu você, ele adquiriu um gosto por esse tipo de aventura.

E Billy Salter, um gângster londrino, quatro vezes na prisão, um homem que já tinha matado, um amante de filosofia moral, sorriu friamente.

— Bem, você sabe o que Heidegger disse: Para viver realmente, um homem precisa confrontar resolutamente a morte.

— Você deve ter pirado — disse Harry.

— Digamos apenas que tenho mais chance de encontrar o que é preciso em Belfast do que numa noite de sábado no Flamingo Club em Wapping.


Vinte e quatro horas depois, com Joe Baxter ao volante do Jaguar, Harry deixou Billy no aeroclube Brancaster. Billy estava usando jaqueta de couro preta e Joe Baxter carregava sua bolsa de viagem. Billy se debruçou na balaustrada para olhar os aviões.

— Qual será o nosso?

Um homem baixo também olhava os aviões perto deles. Tinha uma bolsa a seus pés e usava jaqueta e chapéu, do qual escapavam cabelos negros. Seus óculos eram escuros e ele tinha um bigode preto.

O homem disse num sotaque perfeito de classe alta inglesa: — O de vocês é aquele ali, meu velho. Um Beechcraft. Um avião fantástico. O pintado em vermelho e creme.

— Para mim parece bom — disse Harry.

— Se está bom para você, está bom para mim. — Dillon se virou para cumprimentar Daniel Quinn. — Bom dia, senador. Se está pronto, vamos picar a mula.

— Eu não teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos — disse Harry.

Dillon pegou sua bolsa de viagem.

— Muito bem, senhores, vamos indo.

Ele passou pelo portão na cerca, liderando o grupo até o Beechcraft.


O voo até o aeroporto de Aldergrove, na periferia de Belfast, foi suave e sem incidentes. Passaram pela alfândega e pela segurança, e Dillon conduziu seus amigos até o edifício-garagem, onde os veículos podiam ser mantidos por prazo indefinido.

— Shogun quatro portas, verde-escuro — disse aos outros dois e lhe deu o número. — Em algum lugar no quarto andar.


Foi Billy quem encontrou o carro. Dillon procurou embaixo do carro e achou uma chave magnetizada, com a qual abriu a porta do bagageiro. Levantou o fundo falso, onde se guardavam ferramentas e outros bricabraques.

Ali havia uma caixa de lata, e Dillon a abriu, revelando seu conteúdo: três Walther PPK, cada uma com um silenciador Carswell e um cartucho sobressalente. Havia também um kit de primeiros socorros com o selo do Royal Army Medical Corps na tampa.

Ele pegou uma Walther e disse aos outros: — Sirvam-se.

Billy pesou a sua na mão.

— Dá uma sensação boa, não dá, senador?

Quinn olhou para sua Walther e disse: — Dá uma sensação estranha, Billy. Muito estranha.

— Onde vamos ficar? — perguntou Billy enquanto saíam com o carro do estacionamento.

— Bem, não no Europa. Mas há um hotelzinho bem simpático na mesma rua, o Towley. Se quiserem, posso mostrar um pouco a região para vocês. Mas nunca se esqueça, senador, que você é um honesto turista ianque. Quanto a você, Billy, se formos a Falls Road, fique de bico fechado. Não é bom que saibam que você é inglês.

— Você conhece bem a cidade? — perguntou Quinn.

— Especialmente o esgoto. Costumava brincar de esconde-esconde lá com os paraquedistas ingleses.

— Bom, esse é um ponto turístico que não quero conhecer — disse Billy.


Mais tarde, Dillon estava dirigindo pela Falls Road. Eles tinham comido num restaurantezinho numa rua lateral, visitado alguns bares, e então Dillon levara os amigos para uma turnê pela cidade.

— Então esta é a famosa Falls Road. Droga, tudo aqui parece tão normal. É apenas outra rua de cidade — disse Quinn.

— Bom, esta aqui já viu muito sangue derramado — contou Dillon. — Já houve muita guerra aqui entre o IRA Provisório e os soldados ingleses. — Ficou calado por um momento. — Era uma vida dura.

— Então por que você vivia assim? — indagou Quinn — O que ganhava com ela?

Dillon acendeu um cigarro com uma só mão, e não respondeu.

Billy recomendou: — Deixa pra lá, senador?

— Por quê?

Billy inclinou-se para ele.

— Digamos que você é um ator em Londres. Recebe um telefonema dizendo que seu pai morreu, apanhado no fogo cruzado entre os paraquedistas britânicos e o IRA. O que você faz? Vai para casa enterrá-lo, e então se junta à causa gloriosa. É o tipo de coisa que você faz quando tem dezenove anos.

Houve silêncio, e então Quinn disse: — Sinto muito.

Mas antes que recebesse qualquer resposta, o Codex de Dillon tocou.

— Quem é?

— Ferguson. Roper me disse que você foi para Belfast, o que eu já presumia que ia fazer. Onde está?

— Falls Road.

— O lugar certo para você. Em todo caso, assim que souber o que ela está tramando, ligue para mim.

— Ora, Charles, pensei que estava sozinho agora. Pensei que não trabalhava mais para você. Não foi o que disse?

— Deixa de sacanagem, Dillon. Você sabe muito bem o que está acontecendo.

— Bem, e se eu não quiser trabalhar mais para você?

— Não seja idiota. Onde mais você acharia emprego?

E Ferguson desligou o telefone.

— Quem era? — inquiriu Billy. — Ferguson?

— Ligou para me desejar boa sorte agora que voltei ao meu território.

— Mas que sacana capcioso.

— Ora, Billy, vejo que você continua enriquecendo seu vocabulário com os livros. Na volta, vamos parar num autêntico bar irlandês para celebrar, e então vamos pra cama cedo.


Drumcree era uma cidade típica da costa de Down. Porto pequeno, casas de pedra cinza, barcos de pesca... e só. Pararam diante do Royal George, uma estalagem do século XVIII, bem mobiliada, cujo letreiro, um retrato do rei George III, obviamente fora repintado recentemente.

— Estou morto de fome — disse Dillon enquanto saltava do carro, seguido pelos outros. Ele disse por sobre o ombro para Quinn: — Não esqueça: você é turista americano.

Um sino repicou quando eles entraram. Três rapazes, um num casaco simples e os outros dois em sobretudos, estavam sentados à mesa da janela, tomando cafés imensos. Não havia ninguém atrás do bar.

Dillon assumiu sua versão de sotaque sulista e disse: — Ei, o que vocês rapazes estão comendo parece muito bom. Como é que um homem é atendido aqui?

Os três pararam de falar entre si, e um deles, um rapaz de feições duras e cabelo ruivo cortado rente, olhou para Dillon e seus amigos com certo desprezo.

— São turistas?

— Isso mesmo — confirmou Dillon e apontou para Quinn. — O avô do meu amigo aqui nasceu em Belfast e emigrou para a boa e velha América há um tempão.

— Bem, isso deve ter sido bom pra ele — disse o ruivo. — Toque a sineta no bar.

Dillon o fez e, um momento depois, o barman apareceu, um certo Patrick Murphy, de cuja última visita Dillon se lembrava bem. Ele não reconheceu Dillon por um momento, mas ficou obviamente surpreso em vê-lo.

— Posso ser útil?

— Pode sim. Uma garrafa grande de Bushmills, uma de Guinness e um suco de laranja.

Um dos três homens, o que usava barba decorada com contas, soltou uma gargalhada.

— Já ouviu uma dessas? Suco de laranja!

Dillon pousou a mão no braço de Billy para acalmá-lo e ignorou os homens. Murphy voltou com as bebidas e perguntou: — Mais alguma coisa?

— Sim. Queremos um café da manhã. E onde fica o banheiro?

— Siga o corredor.

Dillon sabia muito bem onde ficava o banheiro: ao lado da sala privativa, mas, obviamente, não era esperado que soubesse disso. Levou as bebidas até a mesa.

— Vou ao banheiro — anunciou. — Mais alguém?

— Não estou precisando — disse Quinn.

Dillon seguiu o corredor, passou diante do banheiro, atento para os sons vindos da cozinha, e então abriu a porta da sala privativa e entrou. A lareira estava acesa, com cadeiras e uma mesinha de centro. O odor de polidor de madeira e um cheiro geral de limpeza indicava que Murphy fizera um esforço especial. Havia uma fileira de livros na soleira da janela, ao lado do fogo. Dillon colocou o gravador atrás deles, virou-se e saiu.

O café da manhã estava excelente e Dillon continuou sua atuação: — Ei, isto está danado de bom.

— Está mesmo — concordou Quinn. — Foi uma tremenda ideia vir aqui.

Murphy apareceu com um bule grande de café, leite e três xícaras.

— Fantástico. Há algum lugar aqui perto que valha a pena visitar? Aquele velho castelo em cima da colina, por exemplo?

— Não tem muita coisa aqui — disse Murphy. — Mas o Solar Drumcree fica a um quilômetro daqui, subindo a estrada. É tombado pelo Patrimônio Nacional e abre às dez da manhã. Vale a pena dar uma olhada, porque é o tipo de coisa que estimula a imaginação da gente.

— Valeu a dica. Vem cá, você serve almoço?

— Sirvo.

— Bem, vamos dar um passeio por aí e depois voltamos.

Os três homens na janela sussurraram novamente entre si e se levantaram. O barbudo pagou Murphy no bar e seguiu os outros até a saída.

Quinn comentou: — Não são exatamente amistosos.

— Isso é normal. Em áreas como esta, todos os desconhecidos são suspeitos. É por isso que é essencial manter o toque americano. Vou pagar a conta, e então vamos sair e agir como turistas.

Eles exploraram a aldeia — havia muito pouco a explorar — e pararam no Shogun, onde Dillon pegou um par de binóculos. Foram até a borda do píer e revezaram os binóculos para olhar os barcos no mar. Em seguida, escalaram a colina até o castelo. Não havia muito para admirar ali além da vista. E então, o Volvo que estavam aguardando apareceu na estrada, entrou na aldeia e parou diante do bar.

— E aqui estão eles, bem na hora — anunciou Dillon, enquanto Hennessy saltava do carro e abria a porta para Kate Rashid. Rupert saiu do Volvo e o contornou para juntar-se à prima.

— E agora? — perguntou Billy.

— Paciência. Ainda não temos nenhum sinal de Keenan.

Mas quase imediatamente uma velha perua Ford com laterais decoradas em madeira emergiu de um beco e parou atrás do Volvo. Dillon focou os binóculos: — E ali estão eles: Barry Keenan, Sean Casey, Frank Kelly.

Eles observaram os três homens entrando no pub.

— E então, o que vamos fazer? — insistiu Billy.

— Eles vão ficar muito tempo lá dentro. Vamos dar bandeira se ficarmos aqui em cima, observando. Então, vamos subir a estrada mais ou menos por uma hora e depois dar uma olhada no Solar Drumcree. Voltamos mais tarde.


Barry Keenan tinha aparência de acadêmico: estatura mediana, terno de tweed, cabelos negros salpicados de fios grisalhos. Ainda assim, era responsável por muitas mortes. Casey e Kelly eram soldados típicos do IRA, recém-saídos de um campo de treinamento.

Murphy já conduzira Kate e Rupert à sala privativa, e agora os três homens se juntaram a eles. No lado de fora, Dillon e seus amigos estavam caminhando para o Shogun. Ele operou o controle remoto e uma lâmpada diminuta se acendeu.

— Estamos no jogo. — Ele sorriu e abriu a porta do Shogun. — Vamos nessa.


— É um prazer conhecer a condessa — disse Keenan. — Como devo chamá-la?

— Condessa basta...

— Então será condessa. E seu amigo?

— Meu primo, Rupert Dauncey.

— Certo, condessa, vamos começar. O que quer de mim?

— O que Colum disse a você?

— Que precisa de um especialista em bombas e que o destino é Hazar. Era tudo que ele sabia, exceto que os honorários seriam bem altos.

— Ele está certo nesse tocante. — Ela pegou a pasta que trouxera e a empurrou sobre a mesinha de centro. Cem mil libras, prova de minha boa-fé.

Keenan abriu a pasta, expondo os maços de cédulas.

— Meu Deus... — sussurrou Sean Casey.

Sem demonstrar qualquer emoção, Keenan fechou a pasta.

— Isto é um adiantamento contra um milhão de libras — disse Kate.

Kelly e Casey se entreolharam, pasmos.

— E o que espera que eu faça em troca de tanto dinheiro? — perguntou Keenan.

— Explodir uma ponte.

— Em Hazar?

— Não, no Território Desocupado. Fica ao norte de Hazar.

É uma região contestada, de modo que, mesmo que o capturem, não pode ser julgado num tribunal. Isso facilita algumas... atividades.

— Sei tudo sobre o lugar — disse Keenan. — Sei que no ano passado a senhora e o seu irmão contrataram meu tio, Aidan Bell, para ele explodir umas pessoas. Mas tudo deu errado, e os três homens que trabalhavam para meu tio morreram. Até sei quem os matou: Sean Dillon e aquele veado velho do Ferguson.

Kelly disse: — Um traidor filho da puta, esse Sean. Agora trabalha para os ingleses.

— Diga-me uma coisa. De vez em quando eu recebia notícias do Aidan, mas agora ele anda sumido. Sabe como ele está?

— Como ele está, sr. Keenan? Morto. Dillon atirou nele.

— Mas nós teríamos sabido disso — disse Kelly.

— Ferguson tinha uma equipe de limpeza. O corpo foi cremado imediatamente. A equipe de Ferguson sempre age assim.

Keenan permaneceu calmo, mas seu rosto se contraiu e seus olhos pareceram escurecer.

— Tem mais alguma boa notícia para mim?

— Sobre Dillon? — Balançando a cabeça, disse com pesar: — Ele também matou meus três irmãos.

Houve um silêncio longo.

— Ele estará envolvido neste negócio?

— Não que eu saiba. Isso faz diferença?

Ele balançou a cabeça.

— Vou acertar as contas com ele depois que cuidar desta ponte. Conte-me a respeito.

Kate abriu a valise e pegou uma pasta de cartolina.

— Está tudo aqui. Fotos da ponte, especificações, tudo.

— Olho depois. Prefiro ouvir diretamente da senhora.

— A ponte em Bacu cobre uma garganta de cento e cinquenta metros de comprimento e trezentos e sessenta e cinco de largura. Foi construída na Segunda Guerra Mundial para propósitos militares, mas jamais foi necessária. Ela suporta um trilho de trem. O trem que passa por ela é indiano, e muito antiquado. A locomotiva ainda é a vapor.

— Mais alguma coisa?

— Oleodutos também passam pela ponte, vindos de campos no sul da Arábia. Os oleodutos são controlados por minha companhia. Eles fazem parte do contrato original com os governos russo e americano. Colocando simplesmente, os oleodutos são meus. Se essa ponte explodir e meus oleodutos forem com ela, o mercado internacional de petróleo entrará em caos. Eles representam um terço do suprimento mundial. Recebi relatórios de engenheiros afirmando que serão necessários dois anos para substituir a ponte de Bacu.

— E por que quer explodir seus próprios oleodutos?

— Eu já disse: para criar caos. Entenda uma coisa, sr. Keenan. Tenho mais dinheiro agora do que posso precisar algum dia. O que não tenho é minha mãe e meus três irmãos. Considero Dillon responsável por isso, assim como Ferguson e alguns outros. Mas o homem que mais julgo responsável é o presidente dos Estados Unidos. Vou me vingar dele, se não matando-o diretamente, ao menos lançando os Estados Unidos da América na pior depressão econômica das últimas décadas. A presidência de Cazalet será arruinada. Ela ficará na história como um fracasso... e isso, para um homem como Cazalet, é muito pior do que a morte. Sim, acho que essa será uma vingança razoável. Você vai fazer sua parte?

Keenan assobiou.

— Condessa, lembre-me de jamais dar motivo para que se zangue comigo. Sim, vou fazer.

— Tem certeza, Barry? — perguntou Kelly. — Pode ser muito difícil.

— E desde quando tenho medo de trabalho difícil? O que somos, um bando de velhas desejosas da paz, como o IRA Provisório?

— Quero ação rápida aqui. Você pode estar no aeroporto de Dublin amanhã, às nove da manhã? Mandarei um avião pegar seus homens e levá-los direto até Hazar.

— Meu Deus! Não perde tempo, condessa.

— É assim que gosto de trabalhar. Além disso, acabo de ser notificada de que um trem está deixando nosso campo de carga em Al Mukalli em Omã para o norte, passando pelo Território Desocupado através da ponte de Bacu. Ele está carregando quarenta toneladas de explosivos para uso em obras de exploração nos campos de petróleo americanos.

— Nossa! — exclamou Keenan. — Isso pode fazer uma explosão e tanto, especialmente se o trem estiver na ponte no momento e for ajudado por um toque de Semtex. Quando o trem parte?

— Dentro de três dias. No dia 7. Você terá dois dias inteiros na cidade de Hazar para se preparar, e meu helicóptero pode levá-lo a Al Mukalli para pegar o trem. Ele parte às quatro da manhã. Você terá quatro horas antes de alcançar a ponte de Bacu, tempo mais que suficiente para fazer o que precisa. Na frente da locomotiva haverá apenas o maquinista e um foguista, e atrás haverá um guarda. Depois que terminar o serviço em Bacu, pego você de helicóptero.

— Está ótimo para mim. Lerei a pasta e farei uma lista do que preciso. — Ele se virou para seus homens. — Então nos encontramos no aeroporto de Dublin de manhã.

Kate e Keenan se levantaram.

— Decolaremos de Aldergrove esta tarde. Depois vamos reabastecer em Hazar. Estaremos esperando vocês quando chegarem. O número do meu celular codificado está na pasta.

— Tenho certeza de que será emocionante, condessa.


Lá fora, ele e seus homens observaram o Volvo se afastar.

— Mas que mulher gostosa! — disse Casey. — Adoraria dar um trato nela.

— Sabe qual é o seu problema, Sean? — perguntou Keenan. — Você não reconhece uma grande dama quando vê uma. — E lhe deu um chute na nádega direita. — Agora vamos conversar sobre esse trabalho.


14

 

 

Os dois veículos tinham saído quando Dillon e os outros dois voltaram ao pub.

— Vamos entrar agora — disse Dillon. — E vamos tomar pelo menos um drinque.

Quatro velhos estavam sentados a um canto tomando Guinness e rindo. O rapaz ruivo do café da manhã estava novamente sentado à janela, também bebendo Guinness enquanto lia um jornal.

Murphy estava no bar.

— O que querem, senhores?

— O mesmo que antes — respondeu Dillon. — Volto já.

Ele atravessou o corredor, abriu a porta da sala privativa, e numa questão de segundos estava novamente no lado de fora, retornando ao bar. Sentaram-se e Murphy levou as bebidas.

— Vão almoçar?

— Não, obrigado — respondeu Dillon. — Decidimos voltar a Belfast.

O ruivo engoliu o que restava de sua Guinness e saiu.

— Pegou o gravador? — perguntou Quinn.

— Sim, está tudo bem.

— Ótimo. Podemos ouvir no Shogun.

— Se tivermos chance.

— O que quer dizer? — perguntou Billy.

— Fique preparado para atirar, é isso que quero dizer. E você, senador, acabe de beber para irmos embora.

Dillon pagou a conta e disse a Murphy: — Obrigado, meu chapa. Até outra vez.


Enquanto se sentava atrás do volante, Billy perguntou: — O que faz você pensar que estamos em apuros?

— Apenas um mau pressentimento sobre aqueles três camaradas que encontramos antes. Posso estar errado, mas, como já disse antes, este é um território selvagem.

Billy estava a seu lado e Quinn no banco traseiro.

— O que faremos?

— Se formos detidos, manterei as mãos no volante para deixá-los à vontade. Você e Billy mantenham as armas preparadas embaixo dos casacos, e saiam pelo lado do passageiro, para fazer com que o Shogun fique entre vocês e eles.


Um Ford preto apareceu atrás deles, o ruivo ao volante.

— Por que eu sempre tenho razão? — perguntou Dillon.

Nesse momento, um Toyota vermelho saiu derrapando de uma estrada de barro paralela e freou abruptamente para bloquear a estrada. Dillon deixou que se aproximassem do carro enquanto freava. O barbudo saiu de trás do volante, e seu passageiro, de casaco de couro, sacou uma Smith and Wesson.38.

— Posso ajudar vocês? — perguntou Dillon.

— Sim, esvaziando seus bolsos e nos dando carteiras recheadas. Esta é uma região do IRA Real, meu camarada. Como membros entusiásticos, estamos sempre à procura de fundos para a organização.

— Ora, para mim isso parece um assalto de estrada — acusou Dillon.

— Exato. Saia do carro.

O ruivo tinha saído do Ford e sacado uma velha pistola Webley. — Vamos! — instigou.

Billy e Quinn saltaram, as mãos sob o casaco.

— Mãos nas cabeças! — gritou o barbudo.

— Agora! — comandou Dillon, esticando o braço para trás até a Walther nas costas, sob do casaco. Sacou a arma, encostou o cano na orelha direita do barbudo e atirou.

A mão de Billy subiu, seu braço estendido, e ele atirou na mão esquerda do homem de casaco de couro. O homem gritou, largando sua Smith and Wesson. O ruivo, pasmo diante da Walther de Quinn, recuou alarmado, baixando a arma.

Quinn ficou sem ação e sua mão — junto com a Walther — tremeu. Aproveitando a oportunidade, o ruivo levantou a mão e atirou em Quinn no ombro direito, fazendo com que ele recuasse capengando. Billy girou o tronco, a Walther estendida, e disparou na coxa direita do homem. Ele cambaleou para trás e caiu.

Dillon saiu de trás do volante, contornou o Shogun, apoiou Quinn com um braço, pegou a Walther que ele deixara cair e a colocou no bolso.

— Você dirige, Billy. Deixe que eu cuido do senador.

Abriu o bagageiro do Shogun, pegou o estojo de primeiros socorros do Exército e o colocou ao lado de Quinn, que segurava o ombro.

Dillon se acocorou ao lado do barbudo, que segurava com um lenço a orelha dilacerada, rosto contorcido em agonia.

— Acho que você e seus amigos precisam de cuidados médicos, companheiro — disse ele, ainda mantendo seu personagem americano. — Eu podia chamar a RUC para vir cuidar de vocês, mas acho que não iam gostar.

Ele se sentou no banco traseiro do Shogun.

— Vamos, Billy, e não pare.

Tirou a jaqueta de Quinn e em seguida desabotoou a blusa e enrolou a manga para cima, para checar o ferimento. — Como está? — indagou Quinn.

— A bala ainda está aí. Não atravessou. Não se preocupe. Este é um estojo do Exército, tem tudo que é preciso para tratar um ferimento de bala.

— O que ele precisa é de um hospital — contestou Billy.

— Não, Billy, o que ele precisa é dar o fora da Irlanda do Norte.

Encontrou um bisturi no estojo e o usou para cortar a manga da blusa. Era surpreendente como havia pouco sangue. Pegou uma ampola de antibiótico e a injetou em Quinn; em seguida, fez o mesmo com uma ampola de morfina.

Por fim, aplicou uma atadura no ferimento.

Dillon tirou de Quinn o que restou da camisa, e então se inclinou sobre o banco traseiro. Agradecendo a Deus por terem fechado a conta do hotel, abriu a mala de Quinn e tirou uma camisa polo, que o ajudou a vestir.

Depois, tirou uma tipoia no estojo de primeiros socorros, colocou-a no braço direito de Quinn e o fez vestir a jaqueta por cima. Quase não era possível notar o rasgo na manga, e ele poderia vestir seu sobretudo quando estivessem no avião.

Dillon acomodou Quinn numa posição mais confortável e perguntou: — Está bem, senador?

— Deixei vocês na mão — disse Quinn. — Não consigo acreditar. Eu simplesmente não consegui apertar aquele gatilho. Um homem como eu... não entendo.

— Eu já disse antes, o Vietnã foi muito tempo atrás. Agora relaxe.


Ele pegou seu Codex e ligou para Ferguson no ministério. — Tenho uma história assombrosa.

— Conte. — Dillon fez isso, restringindo-se ao fatos principais. — O que você quer que eu faça? — perguntou Ferguson.

— Consiga-nos uma autorização para decolar de Aldergrove. Chegaremos lá daqui a uma hora. O Beechcraft que usaremos para voar até Brancaster está registrado no meu nome. Serão duas horas até Brancaster. Assim, deixe uma ambulância pronta para pegar Quinn às três da tarde e levá-lo a Rosedene. Se eu fosse você, também contataria Harry Bellamy.

— Volto a entrar em contato.

Quinn perguntou: — Rosedene?

— Um hospitalzinho especial que nós usamos.

— E Henry Bellamy?

— Professor de cirurgia no Guy's Hospital. Muita gente o considera o melhor cirurgião de Londres.

Quinn fechou os olhos e os abriu de novo.

— E quanto à gravação?

— Bem lembrado. Vamos ouvi-la.

Ele ligou o gravador e o som soou, claro como um sino:

— É um prazer conhecer a senhora — disse Keenan. — Como devo chamá-la?

Depois, Quinn disse, a voz saindo fraca: — Ela está louca.

— De pedra — disse Billy. — Só pode.

Dillon fez que sim com a cabeça.

— Ela nunca bateu muito bem da bola, Billy.

O Codex de Dillon tocou. Era Ferguson, que disse: — Seu pouso já está marcado, e a ambulância estará à espera em Brancaster. E já falei com Henry Bellamy. Tem certeza de que o senador está bem o bastante para viajar de avião?

— Ele precisa estar. Se eu o deixar no Royal Victoria Hospital, em Belfast, os médicos vão chamar a RUC. Será que ele precisa desse tipo de publicidade? Eu acho que não, e os três espécimes bem danificados que deixamos na estrada, perto de Drumcree, iam concordar.

— Muito bem. Vamos cruzar os dedos. Então Kate Rashid teve uma reunião com Barry Keenan? Como vocês descobriram?

— Graças às artimanhas de Roper. Não vou entediar você com os detalhes. A única coisa importante é que sei que ela ia ao Royal George em Drumcree, e que Roper descobriu que aquele é um território do IRA Real, e que Keenan dá as ordens por lá. Lembra o que tornou Keenan famoso? Ele é um dos melhores especialistas em bombas no ramo. Pareceu lógico deduzir que Kate estava aprontando alguma.

— E ela está?

— Com toda certeza. Plantamos um gravador na sala privativa no George e o retiramos depois. A reunião inteira está gravada em fita. Mas agora preciso desligar. Estamos chegando a Aldergrove.

— Apenas me conte qual é o alvo de Kate.

— A ponte em Bacu, no Território Desocupado. Ela atravessa uma garganta imensa. Possui uma velha ferrovia e os oleodutos principais ligam os campos de petróleo do interior até a costa. Keenan aceitou explodir a ponte para ela.

Ferguson ficou horrorizado.

— Ela não pode fazer isso. Prejudicaria imensamente o suprimento de petróleo do mundo inteiro.

— Charles, é justamente isso que Kate quer.


O voo foi tranquilo. Quinn, entorpecido pela morfina, dormiu a maior parte do tempo e chegou em segurança a Brancaster. Dillon e Billy o acompanharam na ambulância até Rosedene, onde encontraram Henry Bellamy esperando na recepção, tomando uma xícara de chá com uma mulher de meia-idade, muito bonita, vestida num hábito de freira.

Dillon tinha removido o bigode e os óculos escuros.

Ela o beijou na face e disse em sotaque do Ulster: — Seu cabelo está horrível. Aposto que andou praticando seus jogos novamente.

— Andei sim, Martha.

A maca de rodas chegou, empurrada por dois enfermeiros.

— Cuide bem desse aí, professor — disse Dillon a Bellamy. — Ele foi condecorado com uma Medalha de Honra. Recebeu um tiro no ombro direito há mais ou menos quatro horas.

— Que tratamento ele recebeu?

Dillon contou e Bellamy assentiu lentamente.

— Irmã, prepare-o para a cirurgia — disse à freira. E para Dillon: — E você e seu amigo podem passar aqui mais tarde. — Ele sorriu. — E Dillon, por favor: lave esse cabelo com xampu.


Dillon e Billy fizeram sinal para um táxi, que dividiram até Stable Mews.

— Alguém precisa deter essa mulher, não precisa? — disse Billy.

— Eu diria que sim.

— E isso significa a gente?

— Eu diria que sim, de novo, Billy. Se você estiver dentro.

— Você sabe que estou, Dillon. Mas quero contar a Harry apenas na hora agá. Ele ficaria preocupado. Quando você acha que será?

— Bem, você ouviu ela mandar Keenan e seus garotos estarem em Dublin amanhã de manhã. O trabalho em si está marcado para daqui a três dias.

Billy fez que sim com a cabeça.

— Isso é bom. Vou poder me preparar.

O táxi parou em Stable Mews e Dillon saltou com sua bolsa.

— Ah, Billy — ele murmurou. — Eu não contaria a Harry que você andou atirando por aí. Como você disse, ele ficaria preocupado.

— Ele vai adivinhar — disse Billy, taciturno, e saiu.

Poucos minutos depois, Dillon estava no chuveiro, passando xampu vigorosamente no cabelo. Tinta preta escorria por seu corpo até o chão. Só depois que seus cabelos estavam novamente louros, ele saiu do chuveiro e se enxugou.

Calçou sapatos pretos, vestiu camisa Armani preta e sua velha jaqueta de aviador, penteou os cabelos e se olhou no espelho.

— Nada mal, companheiro — disse baixinho.

O Codex tocou. Ferguson disse: — Onde você está?

— Em Stable Mews.

— Passe no Roper, eu te encontro lá. Já mandei checar esse lugar, Bacu. Ah, não esqueça do gravador.

Dillon colocou o gravador no bolso, saiu do chalé, caminhou até o final da rua e fez sinal para um táxi.


Dillon encontrou Roper diante de seus computadores, mas Ferguson ainda não estava lá. Roper estava digitando freneticamente em seu teclado e baixando uma massa de material. Ele parou e olhou para Dillon.

— Você está com ótima aparência, mas suponho que ação e paixão lhe façam bem. Ferguson me contou sobre o tiroteio. E quanto ao Quinn?

— Henry Bellamy o está operando neste momento, em Rosedene. Uma bala no ombro direito, disparada por um revólver um tanto antiquado, um Webley calibre 38.

— Um Webley... Nossa, eles estão precisando renovar sua artilharia. O que saiu errado?

— Quinn simplesmente congelou quando se viu cara a cara com eles. Ele podia ter atirado no homem, mas não conseguiu apertar o gatilho. Billy teve que fazer isso por ele.

— Imagino que ele não deve ter reagido bem.

— Imaginou certo. Especialmente porque a situação não foi realmente tão difícil. Eles eram três e não eram muito bons. Billy pegou dois, eu cuidei de um. Amadores, na verdade. Nós os deixamos feridos, não mortos.

— Mesmo assim, foi uma viagem bem-sucedida.

Dillon tirou o gravador do bolso.

— Graças a você. Temos em fita tudo que Keenan e Kate disseram um ao outro.

— Estou ansioso para ouvir. Ferguson me contou do alvo, e chequei os projetos da Rashid Investments para Hazar e o Território Desocupado.

A campainha tocou. Roper apertou um botão e um momento depois Ferguson e Hannah entraram.

— Aí está você — disse Ferguson.

— Firme e forte — respondeu Dillon, que em seguida sorriu para Hannah e a beijou no rosto. — Deus a abençoe, Hannah.

— Você esteve guerreando novamente, Sean.

— Por uma boa causa. — Ele mostrou o gravador. — Quer ouvir, general?

— Claro que quero.

Ferguson se sentou e Dillon ligou o aparelho.


Depois que acabou de ouvir a conversa gravada, Ferguson disse: — É ainda pior do que pensei. Como vamos lidar com isso?

— Por que não telefona para ela? — sugeriu Dillon, de brincadeira. — Diga: “Olá, condessa, tenho uma fita de uma certa conversa entre você e um bombista do IRA. Sabemos quais são seus planos.”

— Sim, mas quais são os planos dela? — perguntou Roper.

— Explodir uma ponte de trem... que pertence a ela mesma... num território disputado onde nenhuma lei internacional se aplica. E, a propósito, ela também é proprietária da locomotiva indiana que é quase uma antiguidade, da ferrovia, e até da continuação dela, depois que sai do Território Desocupado e desce através de Omã até a costa. Ela é dona até dos oleodutos.

Ferguson olhou para Hannah.

— Que raios de caso jurídico seria esse, superintendente?

— Não seria grande coisa... mesmo que houvesse um sistema jurídico nessa parte do Território Desocupado.

— Pensando melhor, general, você nem pode telefonar para ela — acrescentou Dillon. — Pelo que Kate disse, ela está indo imediatamente para Hazar. Keenan e seus rapazes chegarão amanhã. A detonação da bomba está marcada para o dia 7. Isso mal dá tempo de enviar o SAS ou os fuzileiros.

— Então, qual é a solução?

— Dê-me um momento. — Dillon virou-se para Roper. — Mostre-me o que você conseguiu sobre a ponte e a área em volta.

— Posso mostrar na tela.

Ele fez isso. Dillon estreitou os olhos e fincou um dedo num ponto a cerca de 25 quilômetros ao sul de Bacu.

— Tanque Cinco, o que é isso? Há uma legendinha ao lado dele.

— Não esqueça de que este é um trem a vapor. Com o calor que faz nessa região, eles precisam de muita água. Em geral precisam parar ao longo do caminho, para abastecer. De acordo com este mapa, é um declive escarpado — acrescentou Roper.

— É isso — disse Sean Dillon com um aceno de cabeça. — Um local muito bom para subir a bordo do trem.

— Quem vai subir a bordo do trem? — perguntou Ferguson, pasmo.

— Eu. Essa é a única solução. Subir a bordo do trem em Tanque Cinco e eliminar Keenan e seus dois amigos.

— Você sozinho? Deve estar maluco.

— Na verdade, Billy já ofereceu ajuda. É claro, isso significa que você precisa botar seus músculos para funcionar, entrar em contato com Lacey e Parry e mandar que preparem nosso avião para decolar imediatamente rumo a Hazar.

— Mas, Dillon, como você vai conseguir entrar em Tanque Cinco? — questionou Roper. — Há beduínos Rashid espalhados pelo lugar. Além de pastores de ovelhas, ciganos, sabe lá Deus mais o quê.

— Billy e eu saltaremos de paraquedas, no começo da manhã, quando ainda estiver um pouco escuro. Já fizemos isso.

— Sean, você tem certeza? — indagou Hannah.

— Não temos tempo para mais nada. Não temos nenhuma outra saída. Faça um favor para mim, sim? Além de Lacey e Parry, fale com o oficial de intendência em Camp Farley. Diga a ele que estou indo para lá e que preciso do equipamento usual.

Ela se virou para Ferguson e disse: — Sir?

Ferguson respirou fundo.

— Faça isso, superintendente.

— Perfeito — avaliou Dillon. — Mais uma coisa. Fale com Tony Villiers. A ajuda dele pode ser crucial. Vou para casa fazer as malas. — Ele sorriu para Roper. — Se eu precisar de você, telefono.

— Vou acompanhá-lo até a porta — disse Ferguson, e eles saíram, seguidos por Hannah.


Billy estava sentado na mesa costumeira no Dark Man quando seu celular tocou.

— Apenas ouça — disse Dillon. — Quando terminou, ele acrescentou: — Está dentro ou fora?

— Não tenho tempo para jogar fora, Dillon. Preciso fazer minhas malas. Te vejo em Farley.

Harry disse: — Farley? Malas? Que diabos está havendo?

Billy contou a ele.


Em Hazar, Villiers estava acampado com cinco Land Rover e dezenove patrulheiros no oásis em El Hajiz, onde Bobby Hawk tinha sido morto. A linha ficava apenas a um quilômetro e meio de distância e ele estava determinado a atravessá-la e dirigir até Fuad sob a cobertura da escuridão.

Achmed, que tinha se revelado um sargento excelente, havia se oferecido para ir com ele, a intenção sendo explodir o depósito de armas e munições em Fuad, auxiliado por um enorme bloco de Semtex e um bastão temporizador.

Ele atendeu ao Codex e descobriu Ferguson no outro lado da linha.

— Charles, o que posso fazer por você?

— Apenas escute.

O que Villiers fez, enquanto o general repassava tudo que eles tinham descoberto.

— O que você quer de mim?

— Toda informação que achar que seja útil. Você não parece surpreso.

— Nada que Kate Rashid faça me surpreende. Quanto a informações, a ideia de Dillon de saltar de paraquedas no Tanque Cinco faz sentido, considerando que ele e o rapaz Salter já fizeram esse tipo de coisa. Contudo, digamos que funcione, que eles consigam eliminar Keenan e seus homens e arruinar o plano de Kate. Eles ainda estarão com um problema. Sair de lá inteiros. Aquele é um lugar hostil, território de beduínos, e principalmente de beduínos Rashid, o povo de Kate. Também imagino que o helicóptero dela estará sobrevoando a área para pegar Keenan e seus homens.

— Tem alguma sugestão?

— Suponho que terei que resgatar Dillon e Billy pessoalmente. Na verdade, foi muito bom você ter telefonado.

— Por quê?

— Ia dirigir até Fuad com meu sargento durante a noite. Queria explodir o depósito de munição e explosivos deles, mas não posso fazer isso com essa outra coisa pendente, porque isso deixaria Kate Rashid em alerta.

— Você tem razão.

— Vou checar os movimentos dela. O outro problema é a possibilidade de que Dillon e Salter sejam reconhecidos por causa da última vez em que estiveram aqui, e a notícia de sua presença seja repassada a ela. Mas ela pode estar no outro lado do país. Vou informar a vocês.

— E se ela não estiver?

— Bem, agora temos uma instalação da RAF no aeroporto. Ponha símbolos da RAF no seu avião, e mande a tripulação usar uniformes. Posso pegar Dillon e Salter. Em roupas árabes, e com o keffiyeh cobrindo o rosto, podem passar por patrulheiros pelo tempo necessário. Você vem?

— Não pensei nisso ainda.

— Porque eu precisaria de robes maiores para você. Nos falamos depois, Charles.


Em Camp Farley, Dillon chegou enquanto o Gulfstream estava taxiando e notou imediatamente os símbolos da RAF. Os motores foram desligados, a porta abriu, a escada foi baixada e um sargento de voo emergiu em uniforme da RAF. Era um homem chamado Pound, a quem Dillon conhecia bem.

— Olá, sr. Dillon. Vejo que viajaremos juntos de novo para o exterior.

— E numa situação danada de quente.

Lacey desceu os degraus, também de uniforme completo.

— Você está muito bonito — brincou Dillon. — É a primeira vez que te vejo usando essa medalha por serviços à Força Aérea.

— Foi ideia do general. Funcionaremos como uma cortina de fumaça em Hazar. Você e Billy terão que vestir mantos árabes. O coronel Villiers vai transformá-los em patrulheiros.

— Sr. Dillon — disse uma voz.

Dillon se virou para se deparar com o oficial de intendência parado diante da entrada do bloco administrativo. — Já preparei suas coisas.

Dillon entrou com ele no bloco administrativo e encontrou vários objetos dispostos sobre uma mesa metálica: duas metralhadoras AK-47 munidas de silenciador; duas pistolas Browning com silenciadores Carswell e coletes de titânio à prova de balas. Em último lugar, mas não menos importante, os paraquedas.

— Mais alguma coisa, sir? — indagou o oficial.

— Não. Com essas coisinhas acho que já dá para começar a Terceira Guerra Mundial.

O oficial de intendência bradou: — Sargento, ajude-me.

Pound e o oficial de intendência transferiram tudo para dois baús da RAF e os carregaram até o avião. Dillon acendeu um cigarro e foi até a escada. Um Daimler parou diante do avião e Ferguson saltou. Seu chofer veio atrás, carregando uma valise.

— Ponha minha bagagem no avião — instruiu Ferguson.

— O que é tudo isso? — perguntou Dillon.

— Vou com vocês. Sem discussões.

— Você vai ficar muito bem traje de beduíno.

Nesse momento, o Jaguar de Harry Salter, com Baxter ao volante, freou diante deles. Harry e Billy saltaram, Baxter abriu o bagageiro e tirou duas malas.

— Você é um sacana, Dillon — disse Harry. — Se o Billy vai, eu vou junto.

Dillon sorriu para Ferguson.

— Algo contra?

— Ora, vamos subir logo a bordo.

Todos se instalaram. Lacey e Parry já estavam na cabine de comando. Pound trancou a porta. Os motores foram acionados, o Gulfstream começou a correr pela pista, virou e decolou, subindo até nivelar a quinze mil metros.

— Falei com Tony — disse Ferguson. Ele repetiu o que Villiers lhe dissera.

— É bom saber que ele está no nosso caso. — Dillon acendeu um cigarro. — E Quinn?

— Vai ficar bom. Não vai morrer nem nada assim, mas Bellamy disse que ele vai ficar de cama algum tempo. Ah, sim. Tentei contatar a Casa Branca, mas o presidente embarcou para uma visita oficial à Argentina, de modo que precisei tratar com Blake Johnson. Ele ficou horrorizado ao saber de Quinn e ouvir os planos de Kate Rashid.

— O que ele disse?

— Que informaria o presidente.

— Ele ficou adequadamente alarmado?

— O que ele disse foi: “Diga a Dillon e Billy para irem até lá e chutar as bundas deles.”

Dillon virou-se para Billy.

— Isso é o que chamo de cumprimento. Então lá vamos nós de novo.

— Salvar o mundo livre. Por que precisa ser sempre a gente?

— Somos bons demais nisso, esse é o problema. — E Dillon gritou para o sargento Pound: — Vou tomar o meu Bushmills agora.


15


HAZAR

 


Quando o avião dos Rashids pousou no aeroporto na periferia de Hazar, o Scorpion aguardava no fundo da pista, com Ben Carver ao lado. Kate, Rupert e os três irlandeses subiram a bordo, e dois carregadores transferiram a bagagem. Minutos depois, o Scorpion estava decolando e, uma hora mais tarde, à medida que a tarde caía, pousava na pista de Fuad.

Ali, a multidão usual de beduínos — mulheres, crianças e alguns jovens em treinamento — se reuniu para ver o que estava acontecendo, e Colum McGee caminhou até eles para cumprimentá-los.

— É bom ver você, Barry.

— E é bom te ver também, seu velho sacana.

McGee apontou com a cabeça para Casey e Kelly.

— Deus, Barry deve estar com problemas, se vocês dois são o melhor que ele conseguiu.

— Vá se danar — disse Casey.

McGee virou-se para Kate.

— O jantar está esperando.

— Podem ir na frente. Quero trocar uma palavrinha com Ben.

Os irlandeses se retiraram juntos e ela se virou para Carver. — Vá embora agora. Vamos ficar aqui. Retorne amanhã à noite. Quero que você leve nossos amigos irlandeses até Al Mukalli. Quanto tempo isso vai levar?

— Uma hora e quinze minutos.

— Bom. Volte aqui amanhã, digamos, à uma e meia da manhã, deixe-os no campo em Al Mukalli, e volte aqui de novo. Pela manhã você vai levar a mim, ao major e a três homens até a Ponte Bacu, onde pegaremos o sr. Keenan e os amigos dele. Quanto tempo isso vai levar?

— Mais ou menos o mesmo tempo da outra viagem. É apenas numa direção diferente.

— Bom. Partiremos às seis e trinta.

— Combustível será um problema?

— Não. Temos pilhas de latas de combustível aqui.

Carver suava muito. Estava preocupado. Ele fazia vista grossa para as atividades em Fuad, mas Keenan e seus homens o deixavam nervoso.

— Olhe, estou me envolvendo em alguma coisa que não deveria? — disse, desajeitadamente.

— Sim — respondeu Kate com muita calma. — Vai pilotar o meu helicóptero quando eu quiser, e será muitíssimo bem recompensado por isso. É claro que se isso for um problema para você, posso mandar transferir para outra pessoa a licença da Carver Air Transport para operar em Hazar.

Rupert disse gentilmente: — Acho que ela está falando sério, meu amigo. Você não acha?

— Não tem problema. Eu só estava perguntando.

— Então vá andando, Ben — disse Kate e, dando-lhe as costas, caminhou até as tendas, Dauncey ao seu lado. Carver usou um lenço para enxugar o suor do rosto.

— Estou ficando velho demais para isso — disse baixinho.

Embarcou no Scorpion e decolou.


Kate Rashid e seu primo juntaram-se aos outros, que já estavam sentados de pernas cruzadas na grande tenda, a refeição noturna já posta à sua frente. Na hora só havia seis deles, e as mulheres tinham trazido cozido de bode para acompanhar frutas, tâmaras e pão sírio.

Casey e Kelly olharam desconfiados para o cozido.

— O que é isso? — perguntou Casey.

— É comida — respondeu Keenan. — Comam enquanto está quente.

— Mas onde estão os garfos e as facas?

— Usem apenas as mãos — disse-lhes Colum McGee e mergulhou um pedaço de pão em seu cozido.

Kate Rashid perguntou: — Tudo que o sr. Keenan pediu já foi providenciado?

— Claro. Muito Semtex e temporizadores, tanto mecânicos quanto em bastão. Quilômetros daquela corda explosiva. Juntando isso com as quarenta toneladas de explosivos que o trem está carregando, a explosão vai ser ouvida em Viena.

— Excelente — avaliou Kate Rashid. — O que você acha, Rupert?

— A maior virtude é a simplicidade da coisa.

Ela sorriu.

— Sim. Bem, eu sempre gostei das coisas simples.

— Só tem uma coisa, condessa — disse Keenan. — O que vai acontecer depois? Como vai explicar isso?

— Bem, que culpa tenho eu se terroristas árabes decidiram explodir a Ponte de Bacu?

— É claro. — Keenan sorriu. — Por que não pensei nisso?


Quando o Gulfstream da RAF estava a meio caminho de Hazar, Ferguson falou com Villiers em seu Codex e explicou a situação.

— Então, como Harry e eu decidimos nos juntar ao passeio, agora nós somos quatro. Isso vai ser um problema?

— Não para mim. A propósito, Kate Rashid chegou com Dauncey e os três irlandeses. Mandei um patrulheiro ficar de vigília no aeroporto. Eles tomaram o Scorpion, pilotado por Ben Carver, e decolaram rumo ao norte.

— Shabwa?

— Eu diria que Fuad, para que Keenan possa pegar seus suprimentos.

— Então podemos ficar no Excelsior?

— Eu não recomendaria. Até o barman e o gerente estão na folha de pagamento de Kate. Estou acampado a uns vinte quilômetros da cidade. Vou pegar vocês no aeroporto da RAF com roupas adequadas.

— O que ele disse? — perguntou Dillon quando Ferguson desligou o telefone.

Ferguson explicou e Harry Salter comentou: — Então vamos parecer o elenco do London Palladium de Ali Babá e os quarenta ladrões.

— Você vai adorar, Harry, você e o general lá com os patrulheiros, sentados diante de uma fogueira de bosta seca de camelo, dormindo sob as estrelas.

— Bem, se você quiser, pode curtir esse prazer. Eu vou simplesmente suportar.


O Gulfstream pousou, Lacey nos controles, e taxiou até o complexo da RAF e direto para o interior de um hangar, onde encontraram Villiers encostado num dos dois Land Rover, fumando um cigarro. Ele mesmo dirigira um enquanto Achmed viera ao volante do outro.

— É bom ver vocês — disse ele e apertou as mãos de todos.

— Coronel, está com um belo bronzeado — disse Billy. — Esteve de férias?

— Olha o respeito com os mais velhos, moleque — disse Villiers. — Vocês vão encontrar robes e turbantes no fundo. Peguem o que quiserem e vamos andando.

Eles fizeram isso.

— Meu Deus! — exclamou Harry. — Eu pareço tão mal quanto vocês?

— Pior — garantiu Dillon. — Acredite em mim, Harry. Pior.

— General, vou levar você e Harry — disse Villiers. — Vocês dois vão com Achmed.

O acampamento ficava ao lado de uma poça sombreada por um rochedo, e algumas palmeiras espalhadas. Havia três tendas militares ao lado de uma fogueira, e um total de cinco Land Rover.

Eles jantaram sopa enlatada, arroz, batatas mergulhadas num tipo de cozido e pão sírio.

Billy limpou seu prato com um pedaço de pão.

— Estava muito gostoso. Achei que vocês iam servir bode.

— Para vocês, só o melhor. — Villiers chamou Achmed e disse: — Uma de minhas garrafas de uísque e xícaras de lata. Escocês, receio, Dillon.

— Dá pro gasto.

A bebida chegou. Villiers desenroscou a tampa e serviu uma medida generosa em cada xícara, com Billy declinando, como de costume. Villiers devolveu a garrafa a Achmed.

— A noite está fria, mas se você for tomar uma xícara de uísque, faça isso na minha tenda, para que os outros não vejam.

— Alá é misericordioso e você também, Sahb.

Achmed se retirou e Villiers disse: — Então lá vamos nós de novo. Barry Keenan, o grande bombista, e seus amigos Kelly e Casey, chegarão a Al Mukalli para embarcar no trem às quatro da manhã. Ele seguirá para o norte e chegará ao Território Desocupado aproximadamente às oito da manhã. Presumo que até lá Keenan terá feito tudo o que precisa com os explosivos.

— É o que acho — concordou Dillon.

— Então, nós estaremos no Tanque Cinco, onde você e Billy embarcarão e terão vinte e quatro quilômetros até Bacu para fazer seu serviço. Depois disso, o trem ainda funcionará, a ponte estará intacta, e o Scorpion de Kate Rashid estará pairando por perto, esperando para pegar Keenan e companhia.

— Com o caminho de volta a Hazar e o aeroporto cheio de beduínos Rashid — acrescentou Dillon.

— Eu sei. É por isso que vou até lá pegá-los com meus patrulheiros. Isso deve levar cerca de quatro horas. Não posso fazer promessas. Essas estradas podem ser um inferno e este é um país de desertos.

— É, Billy, nós vamos ficar no suspense — disse Dillon com um sorriso.


Na tarde seguinte, em Londres, Hannah passou em Rosedene, porque Henry Bellamy lhe dissera que pretendia estar lá. Ela esperou na recepção, conversando com Martha, e finalmente Bellamy apareceu.

— Como ele está? — perguntou Hannah.

— Mal, febril e nada feliz consigo mesmo. Olhe, não conheço os detalhes do que aconteceu, nem quero conhecer, mas deixou Quinn bem deprimido.

— Posso vê-lo?

— É claro. Mas não fique muito tempo.


Quinn estava deitado, encostado em travesseiros altos, uma coberta sobre os curativos. Estava de olhos fechados, mas os abriu quando Hannah puxou uma cadeira.

— Superintendente. Que bom que veio.

— Como está se sentindo?

— Mal.

— Posso imaginar. Uma vez levei três tiros. Dói como o diabo, mas passa.

— Não o que está acontecendo no meu cérebro. Deixei Dillon e Billy na mão. Encarei aquele sujeito e congelei. A arma tremeu na minha mão e não consegui apertar o gatilho. Ele provavelmente teria me matado se Billy não o tivesse acertado.

— Bem, Billy o acertaria sob qualquer circunstância. Ele e Dillon têm pelo menos uma coisa em comum. São assassinos por natureza.

— E eu não sou?

— Não, apesar do seu currículo de guerra. Não deve se sentir envergonhado de nada, senador.

— Eu não vi mais Dillon. Ele vem me visitar?

— Não. Ele está em Hazar.

— Droga, eu devia estar lá com ele — disse Quinn. — Conte-me o que Dillon está fazendo lá.


Em Fuad, Keenan e seus homens passaram o dia checando meticulosamente o material fornecido por Colum McGee. Keenan até os fez desenroscar várias vezes os invólucros para checar os conteúdos.

— Deus do céu, Barry! Isto é mesmo necessário? — perguntou Casey.

— Apenas se quisermos parecer ocupados. Quero que a condessa saiba que o dinheiro que ela paga está valendo a pena. Já chequei novamente as especificações da ponte. Acho que com quarenta toneladas de explosivos a bordo do trem, tudo que preciso usar é um grande bloco de Semtex como um deflagrador ligado ao outro material com corda explosiva.

— O método antiquado? — indagou Kelly.

— O método antiquado e simples. — Keenan sorriu. — Eu sempre prefiro assim.


No campo dos patrulheiros, a noite tinha chegado cedo. Villiers apareceu com Lacey e Parry e todos se sentaram ao redor da fogueira.

— Calculei que podemos chegar à área do Tanque Cinco em trinta minutos. Acho que devemos sair às seis. Vocês devem querer se estabelecer no Tanque, talvez fazer um reconhecimento do terreno.

— Me parece muito bom — comentou Dillon.

— O único problema é que terei de partir com meus homens por volta das três e meia — disse Villiers. — Vamos deixá-los na base da RAF e então vocês terão que esperar até sua decolagem, às seis da manhã.

Dillon se virou para Lacey.

— Vamos encontrar você lá.

Ferguson disse: — Eu também. Além de Dillon e Billy, você terá dois passageiros, líder de esquadrão.

Lacey sorriu.

— É claro, general.

Ele e Parry entraram num Land Rover e, com Villiers ao volante, o veículo se afastou.


Depois da meia-noite, em Fuad, Carver fez uma vistoria completa no Scorpion e, com a ajuda de dois beduínos, encheu os tanques com combustível enlatado. Em caixas de ferramentas, Keenan e seus homens guardaram cuidadosamente Semtex, temporizadores e corda explosiva. Em seguida, empilharam as caixas com mais cuidado ainda, e então voltaram ao fortim, que era o armazém de comunicações, armas e explosivos.

— Em que posso servi-lo? — perguntou Colum McGee. Keenan olhou para os armeiros de fuzis e disse: — Uma AK-47 bastará para cada um de nós, e uma bolsa de pentes de balas.

— Não vai querer pistolas?

— Tá certo, três Browning.

McGee dispôs os armamentos na mesa metálica. Os três homens se armaram e em seguida retornaram ao Scorpion. Kate Rashid tinha aparecido com Rupert e estava conversando com Carver. Ele olhou seu relógio de pulso.

— Uma e dez. Precisamos ir. A previsão do tempo é boa. Não haverá vento. Vai ser um voo suave.

Kate Rashid disse: — Então, a caminho, homens. Façam história.

— Não, obrigado — disse Keenan. — Passei anos na Irlanda fazendo isso. Desta vez prefiro fazer uns trocados. Nos vemos em Bacu.

Carver já estava nos controles. Keenan subiu depois de Casey e Kelly e fechou a porta. Um momento depois, começaram a decolar.


O voo foi tão suave quanto Carver predissera, e o céu estava iluminado por estrelas espalhadas como diamantes em torno de uma lua minguante. Como cidade, Al Mukalli não era grande coisa. Parecia mais uma parada de trem. Casas de teto chato, uma pequena teia de trilhos ferroviários, vagões estacionados a um lado e duas locomotivas, uma delas ligada a uma linha comprida de carros de frete, alguns abertos para o céu.

Quando o Scorpion começou a descer, dois homens saltaram da locomotiva e olharam para cima, enquanto outro homem desceu do vagão de guarda, no fundo. O Scorpion pousou, e Keenan abriu a porta e saltou com Casey. Kelly passou os fuzis e as caixas de ferramentas com os explosivos.

Carver gritou: — Muito bem, estou indo embora. Vejo vocês em Bacu.

E conduziu o Scorpion para o alto e avante.


Os três árabes estavam parados em pé, esperando, quando Keenan e seus homens se aproximaram. Usavam os turbantes usuais, mas apenas um deles vestia robe. Os outros vestiam macacões brancos manchados de óleo.

— Vocês estavam nos esperando — disse Keenan, à guisa de cumprimento.

O homem de robe disse: — Sim, Sahb. Sou Yusuf, o guarda. — Ele apontou o homem barbado, o mais velho. — Este é Ali, o condutor do trem.

O inglês dele era bom. Keenan apontou com a cabeça o homem mais jovem, que era extremamente musculoso. — Quem é ele?

— Halim, o foguista. Eles não falam inglês.

— Todos são Rashid?

Ele pôde ver o orgulho no rosto de Yusuf.

— Sim, Sahb. Somos do clã.

— E a condessa?

— Nossa líder, a abençoada. Louvado seja Alá.

— Explicaram o que é esperado de você?

— Sim, Sahb.

— Bom. — Keenan caminhou até a locomotiva, ciente do zumbido suave do escape de vapor, do cheiro inconfundível. Ele olhou para o interior da locomotiva.

— Meu avô conduzia uma destas lá na minha terra. Quando eu tinha cinco anos, ele me levou para um passeio. Lembro do foguista alimentando a caldeira.

— Um fedor horrível — disse Kelly.

— Você não tem alma, não tem poesia — disse-lhe Keenan.

E para Yusuf: — Leve-nos até sua cabine.

Yusuf mostrou o caminho, galgando os degraus de ferro na traseira do trem até uma plataforma com balaustrada. A cabine ocupava uma parte da plataforma; Yusuf abriu a porta e entrou primeiro. Duas lamparinas a óleo pendiam do teto. Havia uma escrivaninha, bancos de couro compridos, um pequeno fogão com uma chaleira em cima e um bujão de gás embaixo. No outro lado, a pia, uma porta estreita a seu lado rotulada Toalete e outra porta. Casey e Kelly pousaram no chão as caixas de ferramentas com o Semtex e os temporizadores.

— Alguma coisa para comer? — perguntou Casey.

— Tâmaras, Sahb. Carne seca, pão.

— Credo! — exclamou Casey.

Yusuf acrescentou: — Tenho chá na despensa, Sahb. Chá inglês.

Keenan se virou enquanto Kelly tirava de uma bolsa meia garrafa de uísque.

— Antes de comer essa gororoba, vamos tomar um trago.

Kelly desenroscou a tampa e ofereceu a garrafa a Keenan.

Ele tomou um gole generoso e devolveu a garrafa.

Keenan perguntou a Yusuf: — Ainda partiremos às quatro?

— Sim, Sahb.

Keenan olhou a hora.

— Quarenta e cinco minutos. Certo, vamos checar os vagões de carga e você pode me mostrar onde os explosivos estão.

Os vagões abertos estavam abarrotados de tambores de óleo. Os explosivos ficavam em dois carros fechados no centro do trem, empilhados em caixas e claramente visíveis quando Yusuf abriu as portas. Escadas davam acesso aos tetos de cada vagão, e se podia entrar neles por alçapões.

— Está ótimo — disse Keenan. — Posso fazer os preparativos enquanto estivermos viajando. — Ele se virou para Yusuf. — Diga-me, o que acontecerá com vocês no outro lado de Bacu? Depois, quero dizer?

— Temos amigos nas colinas, Sahb. Estaremos seguros.

— Então está bem. Vamos voltar e provar aquele seu chá.


Às seis da tarde, quando o Gulfstream taxiou para fora do hangar na base da RAF, Dillon e Billy já estavam em trajes de paraquedismo e coletes de titânio. Os paraquedas e as armas estavam no chão, perto da porta. Parry fechou a porta, e então retornou à cabine.

Dillon e Billy se sentaram em frente a Harry e Ferguson, enquanto o Gulfstream virava no fim da pista e aguardava instruções de decolagem. Já estava menos escuro, mas a lua ainda proporcionava um belo espetáculo.

Harry parecia muito tenso.

— Isso é loucura. Como vocês podem saltar de uma coisa como esta? É suicídio.

— Fizemos isso na Cornualha, dois anos atrás — disse Billy. — Meu primeiro salto. Ainda estou aqui, não estou? Você se preocupa demais.


No aeroporto às seis e meia, Kate Rashid, Dauncey, Abu e os dois beduínos, armados com AKs, embarcaram no Scorpion. Carver, na carlinga, olhou por sobre o ombro.

— O tempo mudou. Agora está ventando um pouco contra nós. Isso pode fazer a viagem demorar um pouco mais.

— Apenas garanta que cheguemos lá — disse Rupert Dauncey e se virou para Kate. — Lá vamos nós, prima. Que comentário foi aquele seu? Fazer história?

Ela estava usando malha preta de paraquedismo e albornoz.

— Sou favorável a isso, querido. Dê-me um cigarro.

Ele acendeu dois e passou um para ela enquanto o helicóptero começava a subir.


Nesse momento, o Gulfstream se aproximava da área-alvo, descendo de cinco mil para mil pés. Parry chegou da cabine, usando fones de ouvido com um dos lados recuado para dar liberdade à orelha esquerda.

— Quatro minutos, senhores.

Dillon e Billy vestiram seus paraquedas e penduraram os AKs no peito. Dillon pendurou no pescoço seus óculos de visão noturna. Eles agora estavam em pé, aguardando. Lacey começou a reduzir a força.

— Abra a porta — disse Lacey a Parry pelos fones de ouvido.

Parry fez como ele mandou e baixou os degraus. Uma rajada forte de vento entrou pela porta enquanto Lacey diminuía a velocidade.

— Agora! — gritou Lacey. — Mil pés.

Dillon saiu para o primeiro degrau e saltou, Billy bem atrás dele. Parry lutou para fechar a porta e Ferguson se virou para ajudá-lo. Lacey aumentou a velocidade e fez a curva, subindo para retornar a Hazar. O interior do helicóptero ficou silencioso novamente.

Ferguson voltou a seu assento e Harry disse: — Que Deus os ajude.


À luz da lua minguante, com o alvorecer tocando o horizonte, o deserto e sua miríade de dunas estavam claramente visíveis lá embaixo, assim como a linha férrea, e os imensos oleodutos correndo em ambas as direções. O vento estava mais forte agora e Dillon se descobriu carregado por ele. Billy estava perto dele, um pouco mais alto.

Dillon colocou os óculos de visão noturna e checou o horizonte à direita, mas não viu nada. Olhou para a esquerda e ali estava Tanque Cinco, a um quilômetro e meio de distância: algum tipo de fortim e uma torre d'água.

O chão estava subindo rápido e, um momento depois, ele pousou na areia macia entre duas dunas imensas e rolou pelo chão. Ele se livrou do paraquedas e começou a cobri-lo, quando ouviu seu nome ser gritado. Virou-se e encontrou Billy, não muito longe, ao lado de uma duna.

Dillon terminou de enterrar seu paraquedas. Billy acabou de fazer o mesmo, e então começou a caminhar até seu companheiro.

— Sopa no mel — disse Billy quando chegou. — Mas não consegui ver nenhum sinal do alvo.

— Eu vi, graças aos óculos de visão noturna. A um quilômetro e meio daqui, seguindo a linha do trem naquela direção. — Ele olhou seu relógio. — Quinze para as sete. É melhor irmos.

Eles começaram a caminhar, ladeando a linha do trem.


Estava bem mais claro quando eles alcançaram Tanque Cinco, a viagem tendo levado uma boa meia hora devido à dificuldade de caminhar em areia fofa, que estava sendo levantada pelo vento, cada vez mais forte.

Quando alcançaram o fortim, viram que era uma construção vagabunda, feita com blocos de concreto. Havia algumas janelas, cujas molduras tinham sumido há muito tempo, e uma porta de madeira que se abriu com dificuldade, emperrada pela areia. Lá dentro, a bomba hidráulica estava enferrujada pelo tempo.

— Isso aqui não funciona há anos — avaliou Billy. — De onde tiram a água? Talvez estejamos errados, Dillon. Talvez aqui não seja mais uma parada de água.

Eles saíram e olharam para o tanque, alto sobre quatro pernas de ferro enferrujadas. Um tubo de lona estava suspenso da parte inferior do tanque, pendendo ao lado de uma escada de ferro. Havia algum tipo de armação de bronze na extremidade e Dillon a examinou.

— Está úmida, com certeza. Há um pequeno vazamento. Vou dar uma olhada.

Ele subiu a escada e alcançou o alto do tanque, que estava coberto, mas ali havia uma escotilha de inspeção. Ela abriu com um rangido, e quando ele olhou para dentro, verificou que a água estava quase no topo. Desceu a escada.

— Está cheio. Obviamente, a bomba não está funcionando. Talvez o poço tenha secado. Eles devem engatar um tanque de água ao trem de vez em quando, para reabastecer esta caixa-d'água.

— Então o plano ainda está funcionando. Graças a Deus. E agora?

— Vou checar com Tony Villiers.


Que estava em dificuldades, sentado no banco da frente do primeiro Land Rover, os outros quatro em fila atrás dele. Estavam numa pequena tempestade de areia, que poderia ser bem pior, mas era suficientemente ruim, porque ele e seus homens precisavam cobrir os rostos. Na verdade, ele teve sorte de ouvir seu Codex tocar no bolso esquerdo de sua camisa.

— Aqui é Dillon. Acabo de chegar à base. Billy e eu conseguimos alcançar o Tanque Cinco. E vocês?

— Devemos chegar ao outro lado da ponte de Bacu às oito e meia, mas não posso garantir. Demos de cara com uma tempestade de areia.

— Aqui também está ventando um pouco — relatou Dillon. — Faça o que puder. Telefono de novo para confirmar a chegada do trem.

— Boa caçada — desejou Villiers.

Em seguida, Dillon tentou falar com Ferguson, mas deu sinal de ocupado. Ele fez tudo isso abrigado com Billy dentro do fortim.

— O que vai acontecer quando o trem chegar? — indagou Billy. — Vamos continuar aqui dentro?

— Acho que é melhor não. Alguém pode decidir vir dar uma olhada.

Dillon saiu e examinou o terreno atrás da torre. Havia uma ladeira escarpada, pedras e rochas aqui e ali, com areia sendo soprada contra elas.

— Vamos nos esconder ali em cima — decidiu. — Quando o trem começar a se mover novamente, o fortim e a torre vão nos dar alguma cobertura enquanto descemos a ladeira.

— Temos que ser rápidos pra diabo. Como vamos subir a bordo?

— O vagão da guarda, no fundo.

— E se não houver um?

— Sempre há, Billy. — Dillon consultou o relógio. Quinze para as oito. Hora da verdade.

Houve um som, uma espécie de chiado distante, e então um apito longo.

— Lá vem ela, Billy. A locomotiva. Vamos nos esconder.

Começaram a subir a colina.


A porta ao lado do toalete no vagão da guarda abria para um ressalto metálico. Havia uma conexão com um dos carros abertos, carregado com canos de oleoduto, e um passadiço de madeira que dava acesso através de, ao todo, quatro vagões abertos. Então vinham os carros fechados, que continham os explosivos; a escada para cada um deles conduzia até o teto. Finalmente, o tanque de água e o tênder de carvão. Dali era fácil chegar à locomotiva, e havia pequenas portas de acesso na extremidade de cada vagão fechado.

Tudo isso atendia perfeitamente aos propósitos de Keenan.

Durante a viagem de Al Mukalli, ele, Casey e Kelly tinham plantado as cargas e aberto as portas de acesso entre os dois vagões, ligando-os com a corda explosiva.

Não demorara muito. Afinal, ele se decidira por apenas alguns bastões temporizadores. Eram programados para dez minutos e já estavam instalados no bloco de Semtex, prontos para quebrar no momento apropriado, quando o trem fosse parado na ponte.

Na verdade, há anos Keenan não se divertia tanto quanto na última hora. Casey e Kelly tinham retornado ao vagão da guarda e à garrafa de uísque, mas Keenan fora até a locomotiva e se juntara a Ali e Halim na caldeira.

Ali permitiu que ele manuseasse os controles, dirigindo a velha locomotiva, saboreando o vento no rosto, o cheiro de vapor. Keenan achara maravilhoso. Quando o trem começou a subir o aclive escarpado até Tanque Cinco, ele soou o apito. Yusuf explicara a necessidade da parada, e agora Ali cutucou seu braço e assumiu os controles.

Ele começou a reduzir a velocidade do trem para parar no Tanque Cinco.

Acocorados atrás das rochas na metade da ladeira, Dillon e Billy aguardavam, e subitamente o Codex de Dillon tocou.

Ele atendeu instintivamente.

— Quem é?

— Ferguson. Queria saber o que está acontecendo.

— Estamos no Tanque Cinco e o trem está subindo a ladeira, é isso que está acontecendo, então, se eu fosse você, não ligaria mais para cá, general.

O trem parou em meio a uma nuvem de vapor. Ali e Halim saltaram da locomotiva, seguidos por Keenan.

— O homem, em carne e osso — sussurrou Dillon. — Billy, aquele é Barry Keenan. E os outros são Kelly e Casey — acrescentou, enquanto eles chegavam, cada um com um AK pendurado do ombro. Yusuf vinha logo atrás.

Enquanto Dillon e Billy observavam, as vozes lá embaixo se calaram, e Halim trouxe uma extensão de tubo de lona ligada ao trem, que prendeu na extremidade do tubo de saída no fundo do tanque. Começou a manipular uma alavanca, que obviamente era uma bomba manual. Dillon se perguntou se devia ligar para Villiers e decidiu esperar até que eles estivessem no trem. Kelly e Casey estavam rindo de alguma coisa.

— Podíamos abatê-los daqui — sussurrou Billy. — Por que não o fazemos?

— Porque não temos certeza do que Keenan fez no trem. Ele deve ter tudo preparado para explodir. Provavelmente instalou temporizadores. Suspeito que os explosivos devem estar nos vagões de frete fechados, mas precisamos que um desses veados nos mostre.

— Entendo.


Nesse momento, Halim desengatou o tubo de lona, Keenan voltou para a locomotiva e Kelly escalou uma escada até o teto do vagão da frente e acocorou-se lá. Casey fez o mesmo, sentado atrás dele no carro traseiro. Halim e Ali seguiram Keenan e Yusuf foi para a traseira do trem.

— O guarda — disse Dillon.

Eles o observaram entrar no vagão da guarda e fechar a porta. Keenan, sob a supervisão de Ali, estava nos controles. Ele soou o apito, o trem sacolejou e soltou uma grande nuvem de fumaça.

— Vamos andando, Billy — disse Dillon, e seguiu na frente, escorregando pelo declive nos fundos do fortim.

O trem agora estava se movendo, sacolejando muito, e, enquanto passava, eles correram até o trilho, alcançaram a balaustrada da plataforma para o vagão da guarda, e subiram a bordo. Keenan continuou puxando a corda do apito. Billy e Dillon, AKs em punho, posicionaram-se de cada lado da porta.

Dillon pegou seu Codex e ligou para Villiers. Recebeu uma resposta quase imediata.

— É você, Dillon?

— Até aqui tudo bem. Eles se abasteceram de água. Billy e eu estamos na plataforma na traseira do vagão da guarda. Vamos entrar com violência. Faça tudo que puder para avisar Ferguson.

Ele desligou, guardou o Codex no bolso e sorriu para Billy. — Como sou o mais velho, você pode ter a honra.

— Sacana.

Dillon girou a maçaneta de bronze e abriu a porta. Billy passou por ela num segundo, o AK preparado. À mesa, Yusuf virou-se alarmado quando os dois demônios vestidos de negro apareceram. Enfiando o cano do AK debaixo do queixo de Yusuf, Billy o fez ficar de costas na mesa.

— Ele vai matá-lo sem hesitar — disse Dillon em árabe.

— E a arma está silenciada. Ninguém ficará sabendo.

Yusuf estava aterrorizado.

— Sahb, por favor, não faça isso.

— Você fala inglês?

— Falo.

— Então fale agora, porque meu companheiro não entende árabe. Responda a minhas perguntas e continuará vivo. Onde estão os explosivos que vocês estão transportando?

— Nos dois vagões fechados no centro do trem.

— Os três homens, os irlandeses, o que eles fizeram desde que você saiu de Al Mukalli?

— Não sei, Sahb.

— Você mente. Mate-o, Billy.

Billy recuou um passo e mirou.

— Não, Sahb! — gritou Yusuf, apavorado. — Falo a verdade.

— Você ainda está mentindo. Você é beduíno Rashid, e o condutor e o foguista também. Eu sei porque a condessa se vangloriou dizendo que vocês eram o povo dela. Assim, você deve saber que o trem vai parar na Ponte Bacu, onde os irlandeses vão explodi-lo. Não é isso?

— Sim, Sahb.

— Então diga a verdade. O que os irlandeses fizeram desde que saíram de Al Mukalli?

Yusuf estava desesperado.

— Só sei que eles trabalharam nos vagões com explosivos durante quase o tempo todo da viagem, mas fui instruído a permanecer aqui, Sahb. Não vi o que eles fizeram.

Isso obviamente era a verdade, e Dillon acendeu um cigarro e o passou a ele.

— É fácil chegar até aqueles carros?

— Sim, Sahb, pela porta, e há passadiços através dos carros abertos.

— Então é possível caminhar pelo trem inteiro até a locomotiva?

— Sim, Sahb.

Dillon ficou ameaçador.

— Há mais alguma coisa para me dizer ou você já me contou tudo?

— Juro pela vida do meu primogênito. — Ele estava obviamente nervoso, o rosto coberto de suor. — Eles trabalharam no vagão durante uma hora, uma hora e meia. Depois, dois deles sentaram aqui e beberam uísque. O líder se juntou a Ali e Halim na locomotiva. Ele está conduzindo o trem.

— Conduzindo?

— Sim, Sahb. Quando paramos para abastecer com água, Ali me contou que o líder parece um menininho. Ele adora trens.

— Ele disse isso a Ali?

— Não, Sahb. Ele não fala árabe e Ali não fala inglês. É apenas a forma como ele se comporta.

Billy perguntou: — E isso é importante, Dillon?

— É importante porque ele está ocupado lá na frente, Billy. E isso é bom.

Dillon segurou Yusuf pelo braço e o empurrou até o fundo do vagão. Nesse momento, subindo o aclive, o trem estava fazendo talvez uns quarenta quilômetros por hora.

— Vou manter minha palavra — disse a Yusuf. — Prometi que se você me dissesse a verdade, ia sobreviver.

Dillon abriu a porta traseira.

— Mas, Sahb...

— Não me vem com essa de Sahb. Pule e talvez você sobreviva. Fique e certamente vai morrer.

Yusuf desceu os degraus de metal e pulou para um lado do trilho, onde bancos de areia cobriam os oleodutos. Yusuf rolou várias vezes e então o trem fez uma curva e ele sumiu de vista.

— E agora? — disse Billy.

— Precisamos ou de Casey ou de Kelly. Qualquer um dos dois será suficiente. É por causa disso que é útil que Keenan esteja ocupado na locomotiva. Vamos nessa.

Abriu a porta e olhou através dos carros abertos, divisando Kelly em cima do vagão de explosivos da frente e Casey no de trás. O trem estava andando mais depressa agora, soprando areia e emitindo nuvens de vapor.

— E agora? — inquiriu Billy.

— Vou seguir até o vagão traseiro e você fica aqui. Quando eu chegar lá, atiro em Casey na cabeça. Faça com que ele caia do teto. Kelly está olhando para o outro lado. Não vai ver.

— E então?

— Vou fazer Kelly descer. Precisamos correr o risco de que ele agirá conforme esperamos.

— Certo, você é o chefe.


Dillon saiu para o passadiço, caminhou até os carros e alcançou a porta traseira do carro de explosivos, com a escada subindo pelo lado até o teto. Ele se virou e acenou para Billy. Casey estava sentado, o AK deitado nos joelhos, tentando acender um cigarro. Billy mirou cuidadosamente e o acertou na cabeça. O estampido rouco do AK silenciado foi absorvido pelo ruído do trem. Casey dobrou o tronco, tombou para a frente, deslizou pelo teto levemente curvado e caiu pela beirada, com fuzil e tudo.

Dillon se virou para olhar o cadáver no lado do trilho, esperou até o trem contornar outra curva, e então subiu a escada e espiou. Kelly estava acocorado, sem saber que Casey fora abatido.

Billy tinha entrado novamente no vagão da guarda, estando agora fora de vista. Dillon baixou levemente a escada e gritou: — Kelly, socorro!

Ele desceu a escada toda e se pôs em pé, esperando com o AK preparado.

A voz, abafada pelos ruídos do trem, era difícil de ser ouvida, mas Kelly olhou em torno. Billy estava atento, preparado para atirar nele, se necessário. Kelly se levantou, pendurou o rifle no ombro, caminhou até a borda do vagão da frente e saltou para o segundo. Ficou ali, esforçando-se para manter o equilíbrio.

— Casey, onde você está? — gritou enquanto caminhava até a beirada.

— Morto, mas você pode desfrutar da companhia de seu velho amigo Sean Dillon. — Dillon apontou o AK para ele. — Desça ou será um homem morto também. Porque se eu não acertar você, meu amigo acerta.

E Billy saiu do vagão da guarda.

— Santa Mãe de Deus, Dillon! Não pode ser.

— Mandei descer.

Kelly obedeceu. Dillon tomou o AK dele e o jogou para fora do trem. Ele abriu a porta para o interior do carro enquanto Billy se reunia a eles.

— Entre aí. — E ele empurrou Kelly. — Abra a porta externa, Billy.

Billy fez o que ele mandou, e o interior se inundou de luz.

— Muito bem, mostre o que Keenan fez.

— Pelo amor de Deus, Dillon, ele vai me matar — foi a resposta instintiva e estúpida.

Billy decidiu ajudar, bancando o homem mau.

— É perda de tempo, Dillon. É melhor jogá-lo pra fora do trem.

— Mas ele vai quebrar o pescoço — argumentou Dillon. — Estamos a quase setenta quilômetros por hora.

— E daí?

Billy empurrou o cano do AK no estômago de Kelly, forçando-o a recuar até a porta aberta. E então, ele se rendeu.

— Não, Dillon! Eu mostro!

— Então faça logo.

Kelly virou-se para a caixa de explosivos.

— Barry colocou detonadores químicos neste grupo. Eles estão ligados com corda explosiva até o próximo vagão.

— E o que tem nele?

— Semtex. Estão ligados a bastões temporizadores de dez minutos.

— Bom. Agora pegue essa corda explosiva e puxe os detonadores.

Kelly obedeceu.

— Isso — disse Dillon. — Foi fácil, não foi? Agora vamos para a próxima porta e você pode desarmar o Semtex.


Foi nesse exato momento que Keenan por acaso se virou e, para sua surpresa, não viu sinal de seus homens. O trem agora estava muito perto da ponte. Ele podia vê-la a um quilômetro e meio à frente, à medida que a garganta através da qual o trem corria se alargava. Inquieto, subiu para o passadiço sobre o tênder de carvão e o tanque d'água e caminhou até o primeiro vagão. A portinhola no teto estava aberta. Ele a deixara assim deliberadamente para amenizar o calor lá dentro — temperaturas altas não faziam bem ao Semtex, que tendia a ficar instável. Escutando vozes, espiou pela portinhola.

Billy tinha aberto a porta de correr e Kelly, que arrancara os detonadores químicos e a corda explosiva, estava removendo os bastões temporizadores do Semtex.

Ele se virou para jogá-los pela porta aberta, e Keenan, cego de fúria, sacou a pistola Browning.

— Seu babaca!

Ele acertou dois tiros nas costas de Kelly, que caiu pela porta aberta.

Billy atirou nele e Keenan recuou.

— Continue atirando, Billy! — gritou Dillon, que se curvou e começou a subir a escada até o teto.

O trem estava sacolejando muito, dificultando o equilíbrio de Keenan. Ele disparou sem pensar, e a bala passou a vários metros de Dillon. Keenan tentou mirar de novo e então uma expressão de pasmo cruzou seu rosto.

— Meu Deus! É você, Dillon!

— Deus abençoe a todos nós, Barry — disse Dillon.

E disparou o AK no modo automático, empurrando-o de costas para a frente do vagão, caindo sob as rodas do trem. Um momento depois, Billy se aproximou.

— Dillon, conseguimos.

— Salvamos o mundo de novo, Billy. — Dillon sacou seu Codex e ligou para Villiers. — Missão cumprida, Tony. Keenan e seus amigos passaram desta para melhor e todas as cargas explosivas foram desarmadas. Estamos quase na ponte. Onde você está?

— A três quilômetros no outro lado, mas é melhor você continuar alerta. Pode ter mais problemas. O Scorpion de Rashid acaba de passar sobre mim.

— É mesmo? Obrigado pelo aviso. Vamos parar o trem assim que virmos você.

— E agora? — perguntou Billy.

— Tony disse que acaba de ver o helicóptero dos Rashids. É melhor ficarmos de olho aberto até cruzarmos com eles. Desça até a locomotiva com o maquinista e o foguista e mantenha-os lá. Vou falar com eles. Vá agora.

Billy obedeceu e pulou diante de Ali e Halim, que pareceram chocados. Dillon gritou em seu árabe ruim: — Todos os outros estão mortos. Se quiserem ficar vivos, mantenham o trem em movimento e façam o que estamos mandando. Do contrário, meu amigo vai atirar em vocês.

Ali fitou Billy com expressão resignada, mas Halim parecia cada vez mais zangado. Dillon voltou para o teto do primeiro vagão, sacou o Codex e telefonou para Ferguson. A resposta foi quase instantânea.

— Ferguson.

— Dillon. Estou em pé em cima de um trem prestes a cruzar a Ponte de Bacu. Não houve explosões, de modo que o petróleo poderá continuar fluindo para um mundo ingrato, que jamais saberá o quanto esteve perto do desastre.

— E Keenan e companhia?

— Mortos. Foram para aquela grande casa de repouso do IRA no céu.

— Como sempre, você me surpreende.

— Deus nos ajude, general, porque até eu me surpreendo às vezes. Mas preciso desligar. Acho que ouvi o helicóptero Rashid se aproximando.

Estavam se aproximando da ponte, o Scorpion a duzentos metros de altura, quando Rupert Dauncey viu a coluna de Land Rover à esquerda. Kate Rashid pegou os binóculos e focou neles.

— É Tony Villiers e os patrulheiros. O que ele está fazendo aqui?

— Mais importante, como sabia que deveria estar aqui? — perguntou a prima.


A Ponte de Bacu avultava-se à frente, uma visão extraordinária. E o trem começou a atravessá-la.

— Que diabos está acontecendo? — inquiriu Kate. — O trem não está parando.

Dauncey tinha pego os binóculos de Kate e os focara.

— Mais interessante ainda é que um velho amigo seu está lá embaixo, metido num uniforme de combate.

Quando o Scorpion sobrevoou o trem, Dillon acenou alegremente.

— Filho da puta! — disse ela.

O trem continuou a atravessar a ponte, Dillon ainda acenando. Quando ele alcançou o outro lado, Kate ordenou: — Abu, atire nele!

— É perda de tempo, meu bem — disse-lhe Rupert. — Não é assim que esta coisa funciona.

Abu abriu a porta, inclinou-se para fora e disparou, mas o helicóptero pinoteou e ele largou o fuzil para se agarrar a um cinto de segurança, quase caindo de cabeça através da porta.


Na locomotiva, Billy olhou para cima ao escutar o tiro. Halim aproveitou o momento para agarrar o AK de Dillon, forçando-o a apontar o cano para cima. Billy disparou, alertando Dillon, mas enquanto fazia isso o atirador, com sua grande força, empurrou Billy de costas para fora da locomotiva.

Enquanto Dillon, tarde demais, acertava Halim nas costas, empurrando-o também para os trilhos, Dauncey pegou os binóculos e focou Billy.

— É aquele garoto, Salter.

Kate Rashid gritou para Carver: — Aterrisse ao lado dele. Vamos, faça isso. — Ela se virou para Rupert e disse: — Me dê sua Walther.

— Olhe, Kate, Villiers chegará a qualquer momento. Vamos dar o fora daqui.

— Me dê sua Walther!

Abu fitou Dauncey e preparou seu AK. Rupert suspirou, pegou a arma e deu a ela.

— Como quiser, prima.


O Scorpion deu a volta, pairou e desceu.

Dillon saltou para dento da locomotiva e encostou o AK na costela de Ali.

— Pare o trem! — ordenou em árabe. — Agora.

Ali fez o que ele mandou. Dillon saltou para o chão, virou se e correu de volta.

Billy, tonto, foi obrigado, por Abu e os dois beduínos, a se levantar. Seu rosto estava ensanguentado devido a um corte profundo.

— Filho da puta! — xingou Kate. — Seu porco cockney! Eu lhe disse que todos vocês iam morrer quando eu estivesse pronta. Bem, sua hora chegou. Vamos, corra por sua vida.

Kate se virou para Abu e disse em árabe: — Faça ele correr.

Abu empurrou Billy, fazendo-o cambalear para a frente.

Kate atirou em Billy repetidamente; a maioria das balas atingiu o colete de titânio, mas duas acertaram a parte superior de sua coxa direita, enquanto outra atravessou o lado esquerdo de seu pescoço.

Dillon se agachou sobre um joelho e disparou, acertando um dos beduínos, e então girou o tronco enquanto Rupert empurrava Kate para dentro. Abu tentou seguir seus mestres, mas Dillon o acertou na nuca. Os outros beduínos simplesmente saíram correndo, buscando proteção em meio às dunas.

Enquanto Carver subia com o Scorpion, Dillon correu até Billy e caiu de joelhos a seu lado. E foi nesse momento que Tony Villiers e os patrulheiros chegaram.

Eles deitaram Billy no banco traseiro de um Land Rover enquanto Villiers o examinava, um kit de primeiros socorros do Exército aberto a poltrona do motorista.

Eles haviam tirado o colete de titânio, que tinha quatro balas alojadas.

— Ele vai sobreviver? — inquiriu Dillon.

— Bem, não sou médico, mas já tratei vários ferimentos de bala. Olhe, a bala passou direto através do pescoço. Se ela tivesse danificado uma artéria haveria sangue jorrando para fora, mas não há. Assim, podemos fazer um trabalho temporário com as ataduras de primeiros socorros. Dê-me uma.

Ele passou as bandagens em torno do pescoço de Billy, que gemeu baixinho, olhos fixos.

— Graças a Deus pelo titânio — disse Dillon.

— Sim, mas ele levou dois tiros na coxa direita.

Villiers pegou um bisturi em seu estojo de primeiros socorros e cortou o material, expondo os dois ferimentos de bala. Havia muito pouco sangue, e ele sentiu um calombo no outro lado.

— As balas ainda estão dentro. Só Deus sabe quanto dano causaram. Tudo o que posso fazer é cobrir novamente com bandagem e lhe dar morfina. Tenho algumas garrafas de soro nos estojos de primeiros socorros de todos os Land Rover. Alguém precisa sentar ao lado do garoto e segurar uma garrafa para ele.

— Eu faço — prontificou-se Dillon.

Ele ajudou Billy a sentar enquanto Villiers cobria o ferimento com uma bandagem, amarrando-a firmemente em torno da cintura. Finalmente, cobriu o rasgo no rosto com uma atadura grande e cuidadosamente inseriu a agulha de uma das garrafas de morfina no braço esquerdo do rapaz. Os beduínos tinham assistido impassíveis, e Achmed se aproximou e segurou a garrafa plástica bem alto.

— Quatro horas até Hazar e um hospital, nesta estrada. Será que ele tem alguma chance? — perguntou Dillon.

— Não sei, mas posso aumentar as chances dele. Vou ligar para Ferguson.

Ele o encontrou desfrutando dos confortos do Excelsior, não havendo mais nenhum motivo para manter em segredo sua presença em Hazar.

— Onde você está? — perguntou Villiers.

— No bar no Excelsior, celebrando com Harry. Já falei com Blake Johnson. Ele está eufórico.

— Bem, é melhor adiar a celebração. Billy está gravemente ferido. Kate Rashid disparou vários tiros nas costas dele.

— Meu Deus!

— Precisamos levá-lo ao Hospital de Hazar assim que possível. Não adianta ir de trem. Ele segue para o norte, rumo ao Território Desocupado, o que nos deixa com uma viagem de quatro horas pela estrada.

— Mas o garoto vai conseguir sobreviver a isso?

— Bem, as chances dele vão aumentar se você mandar uma ambulância vir nos encontrar no meio do caminho. O chefe da cirurgia no hospital é um homem chamado Daz, um indiano. Ele já fez muita coisa para mim no passado. Entre em contato com ele e providencie a ambulância. Eles não têm como não nos encontrar. É a única estrada.

— Deixe isso comigo.

— Vamos sair daqui — convocou Villiers. — Dillon, sente-se ao lado do Billy. Vou na frente com Achmed. — Ele se virou para seus homens e disse em árabe: — Vamos andando. Precisamos chegar a Hazar o mais depressa possível.


No Scorpion, Kate Rashid telefonou para o celular do capitão Black e o encontrou no aeroporto.

— O que posso fazer pela condessa?

— Aterrissaremos em cerca de uma hora. Quero autorização para decolar imediatamente para a Inglaterra. Cuide disso.

— Claro, condessa. Seu criado deixou uma mensagem. Ele soube que o general Ferguson e um certo sr. Salter se hospedaram no Excelsior.

— Obrigada.

Ela desligou e passou a informação a Dauncey.

— É muito bom termos nossas bagagens pessoais a bordo. Podemos partir imediatamente.

— Kate, estamos fugindo?

— Não seja tolo. Fugindo do quê? A Ponte de Bacu ainda está inteira, e o trem também. Todos os envolvidos no atentado estão mortos. Eles não podem provar nada.

— Mas é interessante que estejam todos aqui. Como será que ficaram sabendo dos planos?

— Tem o dedo do Dillon nessa história. Sempre tem. Só Deus sabe como ele descobriu, mas isso não importa agora. Pelo menos acertei as contas com um deles.

— Mas não com Dillon.

— Meu dia chegará, meu querido. Espere e verá.


Uma hora e meia depois de deixar a ponte, Villiers recebeu um telefonema de Daz.

— Tony, o general explicou seu problema. Descreva os sintomas do rapaz.

Villiers contou rapidamente o que havia acontecido e o que ele tinha feito.

— E como ele está agora?

— Inconsciente, mas vivo. O problema é que nosso caminho para casa é muito duro.

— Eu sei. Decidi ir pessoalmente até vocês. Isso pode fazer uma grande diferença. Não demoraremos muito, coronel.

Villiers repassou a conversa a Dillon, que disse: — Graças a Deus. Porque ele está sem cor nenhuma no rosto.

— Não perca a fé — recomendou Villiers. — Isso é tudo que podemos fazer.


O vento voltou a soprar forte, espalhando areia por toda parte, e Dillon se inclinou sobre Billy, tentando protegê-lo, o coração carregado de desespero. Meu irmão mais novo, era assim que ele gostava de se descrever, pensou Dillon.

— Kate, sua maldita — sussurrou Dillon. — Se ele morrer, não haverá lugar no mundo onde você possa se esconder de mim.

Um momento depois, uma ambulância grande emergiu da nuvem de areia à frente deles. Daz, um indiano alto e cadavérico usando um albornoz, saltou da ambulância com dois enfermeiros carregando uma maca. Eles pegaram Billy rapidamente e voltaram para a ambulância.

— Vamos voltar direto — anunciou Daz. — Não quero perder tempo.

Villiers disse: — Vá com ele, Dillon. Nos vemos logo.

Dillon seguiu Daz e embarcou na traseira da ambulância. Subitamente estava num mundo mais calmo, mais ordenado, o sibilar do vento e da tempestade de areia soando remotos. Ficou sentado ali, observando Daz e os enfermeiros trabalharem em seu amigo.


No saguão do hospital, três horas depois, Dillon e Harry Salter estavam sentados, tomando uísque de uma meia garrafa comprada no bar do Excelsior.

— Que filha da puta — disse Harry.

Dillon fez que sim com a cabeça e acrescentou: — Você não imagina o quanto eu sinto.

— Imagino sim. A culpa não é sua, Dillon. — Ele balançou a cabeça. — Eu não poderia amar mais aquele garoto se ele fosse meu próprio filho. — Subitamente, ele estendeu seu copo de papel. — Me dê outra. — Sua mão tremia um pouco. — Ele pode morrer, Dillon, e foi aquela puta que atirou nas costas dele.

— Você sabe o que dizem sobre o poder, Harry. E poder absoluto corrompe absolutamente. Dá a algumas pessoas a ideia de que podem fazer qualquer coisa e se safar. Kate Rashid é assim, mas o que acontece quando você descobre que não pode ter o que quer, que as coisas não saíram como você esperava? Isso é o bastante para enlouquecer, se você já não estiver suficientemente louco.

— Bem, ela com toda certeza é louca. Se eu botar as mãos nela...

Ele não terminou, porque Tony Villiers e Ferguson entraram.

— Alguma notícia? — indagou Ferguson.

Dillon balançou a cabeça negativamente.

— Ainda não.

— Bem, eu tenho. Acabo de falar com Lacey, que está no aeroporto. Aparentemente, Kate Rashid e seu primo partiram para Londres há mais de duas horas.

— Fugiu do local do crime, a desgraçada — disse Dillon.

— Sim, podemos dizer que ela fugiu — retrucou Ferguson. — Mas olhe de outra forma. O que temos realmente contra ela? A Ponte de Bacu não explodiu. Ela ainda é a líder dos beduínos Rashid, a pessoa mais poderosa no sul da Arábia.

— E quanto à fita... a gravação?

— Ela não significa nada, porque nada daquilo aconteceu. O que você pediria à promotoria pública? Que tentasse condenar a mulher mais rica do mundo por ter tido uma fantasia? Não, os promotores não a tocariam nem com uma vara de pescar, e se tentassem, uma junta formada pelos melhores advogados de defesa de Londres faria picadinho deles.

— Então ela vai se safar desta? — indagou Harry.

Nesse momento, Daz entrou no saguão, ainda em suas roupas de cirurgia. Harry se levantou em segundos.

— Como ele está?

— Fiz tudo o que podia aqui. Ele teve sorte porque a bala que penetrou no pescoço não atingiu nenhuma artéria principal. Se isso tivesse acontecido, o rapaz teria sangrado até morrer. Dezenove pontos no rosto vão deixá-lo com uma cicatriz interessante, mas o problema reside nas outras duas balas. Elas fraturaram a cinta pélvica. Ele vai precisar de um excelente cirurgião ortopédico quando voltar a Londres, mas, na minha opinião, não é nada que não possa ser consertado.

— Onde ele está agora? — perguntou Harry. — Posso vê-lo?

— É melhor não. Ele está sob cuidados intensivos. Acho melhor vocês esperarem até amanhã.

— Quando ele estará apto a fazer uma viagem para Londres? — indagou Ferguson.

— Eu diria que daqui a quatro dias, considerando que não ocorram complicações.

— Excelente. — Ferguson virou-se para Harry. — Você vai ficar com ele?

— Com toda certeza.

— Bom, preciso voltar a Londres, mas vamos ficar em contato. Mandarei o Gulfstream vir pegar você daqui a quatro dias, e discutirei o caso com Henry Bellamy. Se alguém sabe quem é o melhor cirurgião ortopédico de Londres, é ele.

— Ótimo — disse Harry.

— Precisamos começar o dia bem cedo amanhã, Dillon — recomendou Ferguson. — A não ser que queira ficar com Harry.

— Não. É melhor eu ir com você também. Tenho coisas a fazer em Londres.

— Certo. Podemos jantar no Excelsior. Vem conosco, coronel?

Tony Villiers disse:

— Obrigado, general, mas não posso. Também tenho coisas a fazer.


Na manhã seguinte, antes de partirem, Ferguson e Dillon passaram no hospital para ver Billy. Harry já estava sentado no saguão, tendo dormido num quarto de acompanhante.

Uma enfermeira plantonista foi checar se eles podiam visitar o paciente. Nesse momento, Tony Villiers entrou. Usava turbante e uniforme tropical, uma pistola Browning enfiada no cinto. Parecia cansado, o rosto desabado e coberto de poeira, assim como seu uniforme.

— Deus do céu, Tony! — exclamou Ferguson. — Onde você esteve?

— Num caos total. Já viram Billy?

— Estamos esperando a permissão.

Salter foi o primeiro a entrar no quarto. O encosto da cama tinha sido erguido; Billy estava entubado e com as pernas presas em armações metálicas. Obviamente estava muito fraco, mas ainda assim conseguiu esboçar um sorriso.

Salter se inclinou sobre a cama e beijou a testa do rapaz.

— Que é isso, está me estranhando? — disse Billy a Harry, de brincadeira. E olhando para Dillon: — Deixamos eles emputecidos, não deixamos? E mesmo quando tentou, aquela piranha não conseguiu me matar.

— Graças à Wilkinson Sword Company e seus coletes de titânio.

— É verdade. Vamos investir neles. Harry, precisamos comprar umas ações.

Dillon cortou: — Ela já partiu, Billy. Ela e Dauncey voltaram para Londres.

— Que vão com as pulgas. — Billy gemeu de dor. — Esqueça essa mulher, Dillon. Ela não vale o sacrifício.

A enfermeira plantonista, que estava em pé atrás dos visitantes, disse a eles: — Senhores, acho melhor saírem agora.

— Só mais um segundinho — pediu Villiers. Ele caminhou até perto de Billy. — Eu tenho um presente para você.

— E o que é?

— Ontem à noite não pude jantar com nossos amigos porque fui encontrar meus patrulheiros, que estavam acampados em El Hajiz. Levei algumas bolsas de Semtex comigo, deixei meus homens e atravessei até o Território Desocupado. Só eu e Achmed, meu sargento. As condições eram terríveis, devido à tempestade, mas à uma da manhã invadimos o campo terrorista de Kate Rashid em Fuad, espalhamos alguns blocos de Semtex com bastões temporizadores de dez minutos, e então mandamos para o inferno a maior parte do acampamento: veículos e os armazéns de munição e explosivos. Tudo.

— Seu sacana — disse Billy. — Seu sacana maravilhoso. Eu daria uma gargalhada, se isso não fosse arrebentar meus pontos. Ah, isso vai dar à Sua Alteza um bom assunto para meditar.


Mais tarde, enquanto o Gulfstream ascendia a quinze mil metros, Dillon pediu ao sargento Pound uma xícara de chá. Eles ficaram algum tempo sentados em silêncio.

Finalmente, Ferguson disse: — Você estava certo desta vez. Absolutamente certo.

— Como assim?

— Quando você disse que não havia tempo para enviar os fuzileiros ou o SAS. Esta situação requeria o estilo Dillon.

— Sim, funcionou, mas foi porque demos sorte. Pode não funcionar da próxima vez.

— Sobre isso, Sean, tenho um favor a lhe pedir.

— Deus me ajude quando você me chama de Sean. Que favor é esse?

— Deixe as coisas correrem seu curso agora. Vi sua cara lá no deserto com o Billy. Não quero nenhuma atividade vigilante. Não lucramos nada com esse tipo de coisa.

— Você está falando comigo em charadas, e estou sendo apenas um garoto irlandês simples.

Dillon se virou e disse a Pound: — Traga um Bushmills pra gente, sargento. Para que eu possa beber à saúde do diabo!


16


LONDRES-SOLAR DAUNCEY

 


Eram sete da noite, hora de Londres, quando o Gulfstream pousou no aeródromo Farley, e eles encontraram o Daimler à espera. Dillon e Ferguson despediram-se de Lacey e Parry e saíram com o carro.

— Deixo você em casa? — indagou Ferguson.

— Sim. Quero visitar Daniel Quinn.

— Encontro você lá, depois que tiver uma reunião com Hannah, lá na base.

Dillon olhou a hora.

— Certo. Digamos... nove horas?

— Está ótimo pra mim.

Ele deixou Dillon em sua casa e o Daimler se afastou. O irlandês encontrou a porta da frente aberta. Ele tinha notado o furgão da companhia telefônica estacionado um pouco acima na rua. Assim, pegou seus óculos de visão noturna, subiu até seu quarto no segundo andar e focou as lentes no para-brisa do carro. Newton e Cook estavam claramente visíveis.

— Deus todo-poderoso — disse baixinho. — Será que eles não vão aprender nunca? Você nunca desiste, Kate?

Por telefone, Kate fora informada do ataque a Fuad e a partida do avião de Hazar. Assim, ela dera suas instruções a Dauncey, que ouvira atentamente.

— Tem certeza disso? Não acha melhor deixar as coisas esfriarem um pouco?

— Muito pelo contrário. Matei Billy Salter e Dillon me viu fazer isso. Cedo ou tarde ele virá atrás de mim, mas prefiro ir atrás dele primeiro. Quero pegá-lo de guarda baixa.

— Pegar Dillon de guarda baixa? — Rupert riu. — Seria a primeira vez.

Kate estava zangada, não que isso o surpreendesse. Desde os eventos na ponte uma mudança se operara nela. Não estava mais controlada como de costume, emanando aquela calma fria; estava agitada, e seus olhos irradiavam um sentimento que perturbava Rupert.

— Você está comigo nisso ou não está? — inquiriu Kate.

— Claro que estou com você. Quer ele morto. Vou ajudar você.

— Sim, quero que ele morra, mas apenas se eu mesma fizer o serviço. Ele matou meus irmãos, arruinou tudo que era importante para mim. Já é hora d ele pagar. Vamos para Dauncey esta noite, só eu e você. Você pode dirigir. Vou ligar antes e dar a noite de folga aos criados. Aqueles dois brutamontes que trabalham para você, os que se dizem agentes de segurança. Eles são ex-oficiais do SAS, não são?

— São sim.

— Então eles devem ser capazes de realizar um sequestro simples.

— Eles não se saíram bem no Hyde Park.

Kate estava quase espumando de raiva.

— Bem, diga a eles que deem o melhor de si, senão, vou arruiná-los. Está me entendendo? Eles jamais vão trabalhar de novo. Eu tenho esse poder, Rupert, você sabe que tenho.

De uma forma estranha, era como se Kate estivesse exigindo que ele concordasse, e ele levantou uma mão, defensivamente.

— Claro que você tem esse poder. Deixe comigo que providenciarei tudo.

— Bom. Agora me traga uma bebida.


Dillon tomou uma ducha e trocou de roupa. Vestiu calça e camisa preta, sua velha jaqueta de aviador e botas de caminhada.

Uma faca de arremesso de sete centímetros estava oculta numa bainha no interior da bota direita. Tirou a faca e a checou. Ambos os gumes estavam afiadíssimos, e ele a repôs na bainha com todo o cuidado.

Desceu até a sala e abriu uma porta secreta sob a escada, que cedeu a seu toque. Ali havia um estoque variado de pistolas: uma Browning, duas Walther, um Colt .25 de cano serrado para caber num coldre de tornozelo. Pegou uma Walther, a com silenciador na ponta, colocou-a no coldre especial sob o braço esquerdo, e foi até a garagem pela porta interna da cozinha. Entrou no Mini Cooper, abriu a porta com o controle remoto, e saiu da garagem imediatamente.

Um timer fechava a garagem se fosse deixada aberta, de modo que ele não parou, ciente de que as luzes do furgão da telefônica o seguiam. Todas as precauções haviam tido como propósito impedir um confronto imediato. Isso aconteceria mais tarde, no momento que ele escolhesse.

Ferguson e Hannah já estavam na recepção em Rosedene, conversando com Martha, quando ele entrou.

— Como ele está? — indagou Dillon.

— Não muito bem. Sofreu algum tipo de infecção, que está prejudicando a recuperação.

— Estive com ele esta manhã — disse Hannah. — Estava falando em ir para casa.

— Ele sabe o que aconteceu em Bacu? — perguntou Dillon.

— Ainda não. O general só me contou quando lhe telefonei para perguntar a que horas vocês iam chegar. Eu sabia que você ia ver o senador, e achei melhor deixar que você contasse.

Ferguson disse: — Muito bem, vamos entrar.

Quinn estava sentado na cama, ainda usando a tipoia e lendo um livro.

— Você voltou — disse ele, fechando o livro. — O que aconteceu? Boas notícias, espero.

— Boas e más notícias — disse Dillon e lhe contou. Depois, Quinn disse: — Sinto realmente por Billy. Mas vocês deram conta do recado; Kate Rashid deve estar puta dentro da roupa.

— Imagino que esteja. Acabamos com o grande plano dela. E você? Como está se sentindo? — perguntou Dillon.

— A minha saúde ou a minha cabeça?

— Ambas — disse Ferguson.

— Bellamy é um cirurgião excelente. Cedo ou tarde estarei curado. Não estou preocupado com isso. Mas tenho pensando muito enquanto estou trancado neste quarto e cheguei a uma decisão. Não sirvo mais para esse tipo de jogo bruto.

— E quanto àquele papo de “a vingança é minha, disse o Senhor”? — indagou Dillon.

Quinn meneou a cabeça negativamente.

— Passei muito tempo pensando nisso. Decidi que Helen valia mais que isso. E sua memória também.

Foi Hannah quem falou, gentilmente: — E quanto a Kate Rashid e Rupert Dauncey?

— Bem, eles terão o destino que merecem. E pelo que vocês me contaram, esse destino não está distante. Daqui para a frente eles vão cair no abismo e se destruir. Exatamente como eu quase me destruí. A vingança é uma droga poderosa, e também é mortal.

— Fico feliz em ouvir isso, pelo seu bem — disse Ferguson. — Tente descansar um pouco agora.

— Só mais uma coisa. Não quero que nenhum de meus amigos pensem que estarão me fazendo um favor vingando-se por mim.

Ele olhou diretamente para Dillon, que retrucou: — Ora, e eu pareço esse tipo de sujeito? Por outro lado, Kate Rashid atirou em Billy pelas costas sete vezes. Se não estivesse protegido pelo colete à prova de balas, o garoto agora seria um cadáver.

— Então agora é você quem está pensando em vingança?

— Não, sou eu que estou sob sentença de morte suspensa, junto com o general e Harry Salter. Você pode dizer que estou preocupado a ponto de pensar em usar meu colete de titânio noite e dia. Boa noite, senador.

Ferguson e Hannah o seguiram.

— Sean — disse Hannah —, você não vai fazer nada impensado, vai?

— E você já me viu fazer alguma coisa impensada? Vocês dois andam muito preocupados... fiquem calmos.

— Quero você no meu escritório às nove da manhã. Enquanto isso, não faça bobagens, e isso é uma ordem — disse Ferguson, antes que ele e Hannah saíssem.

Eles desceram os degraus até o Daimler.

— Por que Dillon faz esse tipo de coisa? — perguntou Ferguson a Hannah. — É como se ele estivesse caçando a morte.

— Não, sir, não é isso — replicou Hannah. — Na verdade, ele não se importa mais se vive ou morre.

— Então, que Deus o ajude.

Dillon parou no degrau superior e observou o carro se afastar. O furgão da telefônica estava no outro lado da rua. Ele desceu os degraus até seu Mini Cooper, sentou atrás do volante e pôs rapidamente o carro para andar.


Newton estava no banco do passageiro, enquanto Cook dirigia. Ele pegou uma escopeta de cano serrado debaixo do assento, abriu-a para verificar os cartuchos, e a fechou.

— Quando vamos atacar? — indagou Cook.

— Cedo ou tarde ele terá de ir para casa. Vamos tentar tirá-lo do carro. — Ele deu um tapinha carinhoso na escopeta. — Dillon pode ser durão, mas não com uma destas apontando entre os olhos dele. É isso que separa os homens dos menininhos.

Não muito longe de Stable Mews, e no outro lado da praça, ficava o pub preferido de Dillon naquela região, o Black House. Havia vários veículos estacionados ali àquela hora da noite. Dillon virou, estacionou no fim da fileira de carros e entrou no bar. Não pediu um drinque; simplesmente ficou parado diante da janela, observando para ver se o furgão da companhia telefônica estava entrando de ré no estacionamento.

Saiu do bar, caminhou até o lounge, que estava repleto de gente, e saiu por uma porta lateral. Seguiu a fileira de carros estacionados, o corpo curvado para que não o vissem, e alcançou a traseira do furgão. Newton estava fumando, e tinha deixado a janela aberta para que a fumaça escapasse.

Cook comentou: — Será que não seria melhor se um de nós entrasse para ver o que ele está fazendo?

— Não seja idiota. Ele nos reconheceria. E a única coisa que ele está fazendo é tomando um trago.

— Na verdade, não. — Dillon sacou sua Walther e tocou a têmpora de Newton com o cano. — O que ele está fazendo é decidindo se explode seus miolos, porque esta tem silenciador. Ficariam sentados aí por um bom tempo até que alguém descobrisse que acolheram chumbo em seus corações e mentes. Poético, não? É que sou irlandês.

A voz de Newton saiu rouca: — O que você quer?

— Isso aí, para começar. — Dillon esticou o braço e pegou a escopeta, colocando-a em seguida sobre o teto. — Agora a sua arma — disse a Cook. — Você deve ter alguma coisa.

Cook hesitou, e então tirou sua Smith & Wesson .38 de um bolso interno e a ofereceu, segurando-a pelo cano.

— É estranho como as pessoas estão sempre me dando armas — comentou Dillon.

— Podemos ir agora? — indagou Newton.

— Não sem antes me dizer o que Dauncey queria. O que ia acontecer comigo? Uma bala na cabeça e um mergulho no Tâmisa?

— Não, não seria isso.

Dillon abriu a porta violentamente e empurrou a Walther para o joelho de Newton.

— Como eu disse, esta arma tem silenciador. Ninguém vai me ouvir aleijar você. Como você deve saber, fui do IRA anos a fio. Não vou sentir o menor remorso em fazer você andar de muletas.

— Não, isso não. Vou contar. Dauncey disse que a condessa mandou a gente pegar você e o prender no bagageiro do furgão. Depois teríamos de levá-lo até o Solar Dauncey. Ele foi muito específico. A condessa queria você inteiro.

— Pronto. Não foi difícil, foi? — Dillon fechou a porta e recuou. — Se vocês dois fossem do SAS, o país estaria em apuros. Se querem um conselho, precisam arranjar outro tipo de trabalho.

Dillon disparou no pneu frontal direito, que arriou imediatamente.

— Por que não tentam a vida como borracheiros? Podem ir treinando com esse pneu aí. Assim terão o que fazer por enquanto. Por favor, mandem lembranças a Dauncey. Diga a ele que vamos nos ver muito em breve.

Dillon pegou a escopeta e o revólver no teto do furgão e caminhou até seu Mini Cooper. Enquanto o carro dele se afastava, Newton saltou do furgão.

— Muito bem, vamos trocar a merda do pneu.

— E quanto a Dauncey?

— Por mim, ele pode ir pra puta que o pariu. Mas vou telefonar para ele, mesmo assim. Talvez ele mesmo acabe com esse tal de Dillon quando for visitá-lo.

— E o que vamos fazer depois?

— Você ouviu o homem. Vamos encontrar outro tipo de trabalho.


Dillon estacionou o Mini Cooper diante do chalé e entrou. Não estava zangado; na verdade, sentia-se notavelmente calmo. Não era mais uma questão de esquecer o assunto, como queriam Ferguson, Hannah, o senador e até Billy. Dillon tinha certeza absoluta de uma coisa: Kate Rashid jamais esqueceria o assunto, pelo menos não a parte que dizia respeito a ele.

Mas na verdade ele estava um trapo. Começava a sentir os efeitos da loucura que tinham sido os últimos dias, e para agir, precisava estar na melhor forma possível. Ativou o sistema de segurança na porta da frente e subiu até o seu quarto. Despiu-se, colocou a Walther na mesinha de cabeceira ao lado da cama, deitou-se e deixou as luzes acesas. Apesar disso, mergulhou prontamente num sono profundo.

Algum tempo depois, acordou sobressaltado, checou a hora e constatou que eram três e meia. Sentia-se bem, o pensamento claro, o cérebro aguçado. Levantou, vestiu calça comprida preta e o colete de titânio, colocando a camisa sobre ele e, finalmente, a jaqueta de aviador. Encontrou um velho cachecol branco que era um de seus favoritos e o enrolou no pescoço. Então desceu a escada e abriu novamente a porta secreta. Pegou o Colt calibre 25 e o checou. Uma arma leve, mas não com os cartuchos de ponta oca com os quais estava carregada.

Recolocou-o no coldre de tornozelo, enrolou a perna da calça e afivelou o coldre imediatamente acima da bota esquerda. Ele já estava com sua Walther munida de silenciador debaixo do braço esquerdo, e agora tirou a velha Walther e a enfiou nas costas.

Ele procurou e achou sua cigarreira de prata, encheu-a com o conteúdo de um maço, deixou-a cair no bolso direito e pegou seu velho isqueiro Zippo. Tudo isso ele fez calma, meticulosamente. Era como se preparar para a guerra.

Havia um espelho na sala, ao lado da porta. Abriu a cigarreira, tirou um cigarro, acendeu-o e sorriu para si mesmo.

— Bem, lá vamos nós de novo, velho companheiro — disse, e saiu.


— Quanta maldade, querida. — Ele se serviu de uma dose grande, voltou até a mesa, e derramou o conhaque em seu café. — Seus diamantes estão deslumbrantes esta noite. Por que os está usando?

— Eu não gostaria de desapontar Dillon — disse Kate, e mais uma vez ali estava o sorriso de lado, o brilho nos olhos.

Santo Deus, ela é mesmo doida.

Rupert Dauncey engoliu o café com conhaque e olhou a hora em seu relógio de pulso.

— Quase seis. Ele realmente não está com pressa.

Caminhou até as portas envidraçadas, abriu-as, e olhou através da varanda e sobre o muro, fixando-se nas árvores. Começava a alvorecer, mas como chovia torrencialmente, ainda estava escuro.

— Merda de clima.

Acendeu um cigarro e voltou até a lareira.


Na biblioteca do Solar Dauncey, Kate Rashid estava sentada diante da lareira, um doberman preto chamado Carl no chão, a seu lado. A chama que ardia nos cepos iluminava as joias de Kate, que usava sua costumeira malha preta. Ela e Rupert não tinham ido dormir; simplesmente haviam se sentado para esperar. A porta se abriu e Rupert entrou trazendo o café numa bandeja de prata, que ele colocou numa mesa perto dela.

— Acho que ele não vem, querida.

— Mas seu empregado, Newton, disse que ele viria.

Ela serviu café em duas xícaras.

— Não foi exatamente assim. O que ele realmente disse foi que Dillon avisou que me veria em breve. Significa que ele viria esta noite?

— Sei o que significa, porque conheço Dillon melhor que ninguém — disse Kate, serena. — Ele virá.

— Para quê? Tomar café da manhã com a gente?

Ele caminhou até o aparador e pegou uma garrafa de Rémy Martin.

— Quer um?

— Não preciso. Talvez você precise.


Depois de um percurso de duas horas, Dillon alcançou o vilarejo, passou diante dos portões imensos para o Solar Dauncey e parou o carro no estacionamento da igreja, a cerca de cem metros da estrada. Havia uma dúzia de veículos ali, provavelmente dos aldeões que moravam nos chalés que ladeavam a estrada estreita. Abriu o bagageiro do Mini Cooper, pegou uma velha capa impermeável e um chapéu de chuva e os vestiu.

Não tinha planos determinados. Alguma coisa estava em andamento e ele pretendia simplesmente seguir o fluxo. Lembrou daquele pensamento de Heidegger: Para viver realmente, um homem precisa confrontar resolutamente a morte.

Era isso o que ele sempre tinha feito? Um jogo louco, uma busca constante pela morte? Qualquer psiquiatra de meia tigela poderia lhe dizer isso. Ele atravessou os portões e iniciou o longo percurso debaixo da chuva pesada. A escuridão esvanecia perceptivelmente e no meio da trilha ele viu — uns noventa metros à direita, por trás de algumas faias — uma coisa que o surpreendeu. Hesitou e então foi até lá investigar.

Era o Black Eagle de Kate Rashid, que ele vira no aeroclube Dauncey.

— Isso é interessante — disse com seus botões.

Então virou-se e voltou à trilha, prosseguindo a jornada até a casa grande. Ao ver a luz acesa na biblioteca, saiu da trilha e se pôs a caminhar pelo jardim, mantendo-se sob a cobertura das árvores, até alcançar o gramado.

Viu Rupert abrir as janelas e ficar em pé diante da varanda por alguns momentos, antes de voltar para a sala. Dillon deixou-o ir e então recomeçou sua jornada.


Na biblioteca, Carl ganiu e então rosnou alto.

— Vá, rapaz, procure por ele — ordenou Kate Rashid, e o cachorro desapareceu através das portas envidraçadas. Virando-se para Rupert, Kate disse: — Você sabe o que fazer.

Ele sacou uma Walther, caminhou até um lado da lareira e puxou a tapeçaria pesada, revelando uma porta. Quando a abriu, havia um toalete ali dentro. Ele entrou, deixando a porta ligeiramente aberta, e largou a tapeçaria.

O doberman correu através do gramado, latindo. Dillon emitiu um assobio, um som estranho e sobrenatural, e o doberman parou repentinamente. Dillon assobiou de novo, carregando nesse som toda a solidão do mundo; o doberman ganiu e se aproximou de Dillon com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas.

— Ora, ora, no fundo você é apenas um gatinho. Você não sabia que eu tinha esse dom, sabia? Nem sua dona. Seja um bom menino e venha visitá-la comigo.

E começou a atravessar o gramado, o cachorro o seguindo de perto.


Na biblioteca, Rupert disse baixinho, a voz abafada pela tapeçaria: — Que diabos aconteceu com Carl?

— Não faço a menor ideia — respondeu Kate.

Dillon entrou pelas portas envidraçadas, o doberman a seu lado.

— Deus abençoe a todos aqui. Nossa, está chovendo canivete. — Ele tirou a capa impermeável e o chapéu. — Qual é o nome dele?

— Carl — respondeu Kate com calma.

— Não o culpe, Kate. Eu tenho um jeitinho com cães. Sempre tive, desde menino. Será que tem uma bebida neste lugar?

— No aparador. Mas não posso garantir que tenhamos uísque irlandês.

— Não se preocupe. Acharei alguma coisa.

Serviu-se de uísque escocês enquanto Carl se sentava a seu lado, diante do aparador.

— Impressionante — comentou Kate. — Essas coisas deviam ser os cães de guarda mais ferozes do mundo.

— Deve ser meu carisma. Onde está nosso amigo Rupert?

— Por aí.

— Ele contrata funcionários muito ruins. Newton e Cook. — Ele deu de ombros. — Puro lixo.

— Concordo.

— Vi que você está com seu Eagle estacionado aqui.

— Sabe disso?

— Você costuma guardá-lo no aeroclube Dauncey, a dez quilômetros daqui, mas usa seu próprio campo de pouso quando necessário.

— Exatamente. Ontem mandei um dos empregados trazer o Eagle para cá.

— Onde esteve desta vez? Ilha de Wight novamente?

— Há alguma coisa que você não saiba? Por exemplo, onde está Rupert?

— Tenho certeza de que ele me dirá no momento certo.

A tapeçaria se abriu e Rupert emergiu, arma na mão.

— Que é agora.

Carl se posicionou ao lado de Dillon, seu rosnado infinitamente ameaçador. Dauncey apontou a Walther para ele e Dillon levantou a mão.

— Atire no cachorro e eu mesmo mato você.

— Deixe-o, Rupert — ordenou Kate.

Dillon acariciou a cabeça de Carl.

— Você é um bom menino.

O cachorro se esfregou em Dillon.

— Pronto, vá ficar com a sua dona agora.

Ele apontou e Carl caminhou até Kate e se sentou ao lado dela.

— E agora? — perguntou Dillon.

— Alguma coisa especial, acho. Tiros são benevolentes demais. — Ela sorriu. — Isso é para gente como Billy Salter.

— Lamento ser portador de más notícias, mas Billy está vivo. Sinto muito, Kate. Está tudo dando errado, não é?

Uma espécie de fúria ardeu nos olhos de Kate, mas apenas por um momento.

— Então preciso atirar nele de novo.

Ela enfiou a mão entre as almofadas do sofá e tirou uma velha pistola alemã Luger.

— Isso está na família desde a Primeira Guerra Mundial. Paul me ensinou como atirar com ela na floresta, quando eu era muito pequena.


Dillon estava com as mãos na cintura. Podia alcançar a Walther no cinto e acertar Rupert Dauncey naquele instante, e Kate também, porque sua arma estava com a trava de segurança, mas ainda assim esperou. De certa maneira, era hipnótico estar cara a cara com a mulher mais bonita que ele já tinha visto, uma mulher que agora ele percebia ser completamente desequilibrada. E ainda assim, como num pesadelo, ele tinha um papel a desempenhar, e precisava desempenhá-lo até o fim.

— Você me deve, Dillon, me deve pelos meus três irmãos que matou.

— Bem, eu sempre pago minhas dívidas. — Ele agora também estava um pouco louco. — A propósito, sua arma está travada. — Ela examinou a Luger e a destravou.

— Vai atirar agora? — perguntou Dillon.

— Na verdade, não. Rupert?

Rupert pousou a arma na mesa da biblioteca, abriu uma penteadeira e tirou uma fita adesiva.

— Vire-se — ordenou.

Dillon fez como ela mandou e Rupert amarrou seus punhos atrás dele.

— Pegue a arma dele — disse Kate Rashid.

Rupert tirou a arma do coldre embaixo do braço esquerdo de Dillon e a pousou no chão.

— Assim é melhor — avaliou Kate.

— Não se ele estiver com outra. Onde será que está? — Ele revistou a jaqueta de aviador de Dillon e achou a segunda Walther. — Aqui está você, lindeza.

— E agora? — perguntou Dillon.

— Acho que vou levar você para um passeio de avião — disse ela. — Quero lhe mostrar que grande piloto eu sou.

— Isso vai ser interessante — comentou Dillon. — Também sou um excelente piloto, mas sempre estou disposto a aprender. Vamos almoçar na França?

— Rupert e eu, talvez, mas para você o voo vai ser um pouco mais curto.

— Ah, vai ser assim, então?

— Exatamente. Vamos andando.

Ela deixou a Luger na mesinha de centro e Rupert empurrou Dillon pelas costas.

— Faça como mandamos e prometo que faremos com que seja indolor.

Saíram e Kate Rashid colocou a capa impermeável de Dillon nos ombros, pôs na cabeça o chapéu de chuva dele, fechou as portas envidraçadas para impedir que Carl saísse e seguiu os dois homens.


Agora era dia, embora o céu estivesse carregado de nuvens densas e escuras, dificultando a visibilidade. A chuva continuou caindo implacável enquanto eles seguiam a trilha através do jardim. Finalmente, saíram na ravina diante do Black Eagle.

— Tempo horrível para voar — avaliou Dillon. — Têm certeza de que querem fazer isso?

— Claro que temos. — Kate tirou as chaves do bolso, destrancou a porta escopeta da aeronave e a abriu. A escada desceu e Kate subiu os degraus. Rupert empurrou Dillon para a frente.

— Vamos, suba.

Dillon moveu-se trôpego porque suas mãos estavam atadas. Rupert empurrou-o até o fundo do corredor e o fez se sentar numa poltrona traseira, no lado da janela.

Atrás dele havia um toalete e o compartimento de carga, assim como um bote salva-vidas inflável.

— Agora se comporte.

Rupert caminhou até a porta Airstar e a fechou com uma só mão enquanto fitava Dillon e ainda o ameaçava com sua arma. Ao mesmo tempo, o motor de bordo rugiu, seguido um instante depois pelo de estibordo. O avião começou a andar. Kate Rashid aumentou a velocidade, e decolou a menos de quinze metros das faias e do fim da pista.


O avião subiu depressa até mil metros. Eles sobrevoaram nuvens cinzentas, algumas negras e cheias de mais chuva e névoa, enquanto percorriam uma área de pântanos e praias costeiras, rumo ao mar.

Dillon pôde ver tudo isso pela janela ao mesmo tempo em que extraía a faca do interior de sua bota direita. Ele segurou o cabo, posicionou a faca, e a lâmina afiada cortou a fita adesiva imediatamente. Guardou novamente a faca na bota, descartou a fita adesiva e ficou sentado, aguardando.

Kate se virou e disse por sobre o ombro: — Rupert, agora.

E então desceu até aproximadamente 600 metros e reduziu a velocidade.

Rupert levantou a trava e abriu a porta Airstar. Um pé de vento invadiu a cabine. Ele se inclinou sobre Dillon, a Walther na mão esquerda, e forçou-o a se levantar e caminhar à frente.

Kate Rashid olhou mais uma vez por sobre o ombro, e agora estava rindo.

— Apodreça no inferno, Dillon!

— Pelo amor de Deus, não! — rogou Dillon, enquanto escorregava e caía no chão.

— Não seja tolo, velho amigo. Facilite as coisas para si mesmo. Vamos, levante.

O que Dillon fez, ao mesmo tempo em que sacava o Colt do coldre do tornozelo, empurrava o cano contra a têmpora de Rupert Dauncey e apertava o gatilho.

Houve uma explosão de fragmentos de osso e sangue, a ponta oca da bala fazendo seu serviço. Dauncey largou a Walther e bateu de costas na parede ao lado da porta. Dillon empurrou o corpo dele e o mandou para o espaço. Em seguida, agarrou a porta Airstar e a fechou.

Virou-se para descobrir que Kate Rashid acionara o piloto automático do Eagle e estava abrindo a bolsa. Ela sacou uma pistola pequena, mas Dillon investiu, tomou a arma e a jogou ao fundo do avião. Histérica de ódio, Kate tentou arranhar Dillon, que reagiu desferindo um tapa em seu rosto.

— Pare! Componha-se! Acabou tudo.

Kate estava no banco esquerdo do avião de controle dual, e Dillon caminhou até o direito.

— Leve-nos de volta — ordenou Dillon.

— Vá pro inferno!

— Muito bem, então eu o farei.

Dillon tirou o avião do piloto automático, deu meia-volta e começou a seguir na direção da costa, que estava a três ou quatro quilômetros de distância.

Ao contrário da maioria dos aviões, o Black Eagle tem chave de ignição. Kate esticou o braço até o painel, desligou os motores e puxou a chave. As hélices gaguejaram, começando a parar. Kate empurrou a janelinha do seu lado e jogou a chave no vazio.

— Pronto, Dillon. Agora nós vamos para o inferno juntos.

— Isso foi muito estúpido. Mas é surpreendente como podemos planar numa coisa dessas.

Kate olhou para a névoa enquanto eles desciam até a praia distante.

— Nunca vamos conseguir. Vamos cair na água, e mesmo se você conseguir pousar, uma aeronave como essa vai flutuar apenas por um minuto, um minuto e meio.

— É verdade, mas nós temos um salva-vidas lá atrás. E eu, por acaso, sei como pousar na água. Você sabe?

— Filho da puta!

Eles agora tinham descido a duzentos metros, e ele disse: — Deixe que eu ensino a você. Mantenha os trens de pouso recolhidos, e acione os flapes ao máximo. Se o vento for suave e as ondas pequenas, aterrisse contra o vento. Se o vento for forte e as ondas grandes, aterrisse paralelo às cristas.

E agora a aeronave estava bem baixa, as ondas eram pequenas, e ele aterrissou contra o vento. O Black Eagle quicou nas ondas até parar.

— Vamos! — ordenou Dillon.

Ele se levantou do banco, caminhou com dificuldade até a porta e a abriu. Em seguida foi até o compartimento de carga, pegou o salva-vidas e o jogou para fora.

Ele começou a inflar quase automaticamente.

Ele se virou para chamá-la novamente, e a viu agachada para pegar a Walther de Rupert Dauncey, que tinha escorregado pela lateral devido à inclinação da aeronave.

— Eu disse que íamos nos encontrar no inferno! — gritou Kate.

Dillon se jogou no chão no momento em que Kate disparou. A bala perfurou sua manga direita, e Dillon se atirou da porta para a água, cuja temperatura era tão gélida que podia entorpecer a mente, e nadou até conseguir agarrar a corda do salva-vidas. Segurou a corda com força e se virou. O Eagle tinha inclinado mais agora, a cauda levantada para cima, a asa de bordo já debaixo d'água.

Kate ainda estava na cabine de comando, gritando para ele, uma das mãos segurando a porta; então a cauda delineou um ângulo de noventa graus com a água e o Eagle simplesmente escorregou para o fundo do mar.

Dillon conseguiu alcançar o salva-vidas e escalar a borda, caindo de bruços no interior. Ali havia dois remos e alguns kits de sobrevivência que ele não se deu ao trabalho de abrir. Quando segurou os remos, nenhuma emoção restava em seu íntimo, além de uma necessidade teimosa de sobreviver.

Começou a remar até a praia envolta em névoa e chuva. O percurso seria longo, mas o local de destino não era tão distante quanto o que aguardava Kate Rashid.

 

 

                                                                  Jack Higgins

 

 

              Voltar à “Página do Autor"

 

 

 

 

      

 

 

O melhor da literatura para todos os gostos e idades