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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MULHER SABIA / Christian Jack
A MULHER SABIA / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Série A Pedra da Luz

Volume II

 

Depois da morte de Ramsés o Grande, os artesãos do Lugar de Verdade estão inquietos.

     Quem sabe se o novo Faraó desejará continuar a obra do pai e proteger por sua vez a prestigiosa aldeia, cujo futuro parece ameaçado?

     Porque a aldeia está em perigo, apesar da vigilância de Clara, tornada a Mulher Sábia da confraria. Néfer, dito o Silencioso, é acusado de fraude e atos tirânicos. Os alimentos e a água não são entregues, as ferramentas são sabotadas, apesar de rigorosamente guardadas, a reserva de metais preciosos diminui e, sobretudo, uma coligação de tropas inimigas agrupam-se nas fronteiras, enquanto em Pi-Ramsés, a capital das Duas Terras, as intrigas dos cortesãos enfraquecem o poder.

     Roubos, assassínios, inundações, sortilégios e traições, nada é poupado aos heróis desta aventura em que as conspirações se sucedem num Egito de lenda.

 

A mulher sábia

 

O perigo rondava, obsessivo.

Desde a morte de Ramsés o Grande, depois de sessenta e sete anos de reinado, o Lugar de Verdade vivia mergulhado na angústia. Situado na margem ocidental de Tebas, a aldeia secreta e fechada dos artesãos, cujo papel principal consistia em escavar e decorar os túmulos dos reis e rainhas, interrogava-se sobre a sua sorte.

  No final dos setenta dias de mumificação do ilustre defunto, que decisões tomaria o novo faraó, Merneptah, de sessenta e cinco anos? Filho de Ramsés, passava por ser um homem autoritário, justo e severo; mas saberia fazer abortar as inevitáveis conspirações e desembaraçar-se dos intrigantes que desejavam ocupar o trono dos vivos e apoderar-se das Duas Terras, o Alto e o Baixo Egito?

  Ramsés o Grande tinha sido o generoso protetor do Lugar de Verdade e da confraria dos artesãos, que dependia diretamente do rei e do primeiro-ministro, o vizir; possuía o seu próprio tribunal e dispunha de um fornecimento quotidiano de alimentos. Liberto de preocupações materiais, podia consagrar-se à sua obra vital para a sobrevivência espiritual do Pais.

  Encarregado da segurança da aldeia na qual não tinha o direito de penetrar, o chefe Sobek perdera o sono. Armado com uma espada, uma lança e um arco, percorria constantemente o território colocado sob a sua responsabilidade e verificava várias vezes por dia o dispositivo de vigilância que instalara.

  É certo que os dois guardas da grande porta da aldeia cumpriam a sua função habitual, um das quatro horas da manhã às quatro da tarde e o outro das quatro horas da tarde às quatro horas da manhã; vigorosos, bons manejadores dos cajados, impediam os profanos de penetrar no interior do recinto onde viviam os artesãos do Lugar de Verdade e as famílias. E havia também os cinco muros, ou seja, os fortins dispostos no caminho que conduzia à aldeia.

  Mas essas medidas habituais não bastavam a Sobek, um grande núbio atlético cujo rosto era marcado por uma cicatriz sob o olho esquerdo; ordenara aos seus homens que estivessem permanentemente de atalaia nas colinas dos arredores, que vigiassem os caminhos que conduziam ao Ramesseum, o Templo dos Milhões de Anos de Ramsés o Grande, e os carreiros que iam dar aos Vales dos Reis e das Rainhas.

  Se surgissem perturbações graves, os amotinados atacariam o Lugar de Verdade onde, segundo os rumores, os artesãos eram capazes de produzir fabulosas riquezas e mesmo de transformar cevada em ouro. Sem a proteção do Faraó, o que seria da modesta comunidade onde trabalhavam trinta e dois artesãos, distribuídos na "tripulação da direita" e na "tripulação da esquerda", do navio ao qual era comparada a aldeia? Sobek talvez fosse o seu último defensor, mas não fugiria e resistiria até ao fim.

  Embora sendo "do exterior", o guarda acabara por afeiçoar-se à maior parte dos habitantes que tinha o dever de proteger; sem ser ele próprio um artesão e sem conhecer os seus segredos, tinha no entanto o sentimento de participar na sua aventura e não conseguia imaginar a sua existência longe deles.

  Era por isso que o afligia um outro tormento: não se ocultaria um assassino no seio da confraria e não ameaçaria a existência do mestre-de-obras Néfer o Silencioso, outrora injustamente acusado por uma carta anônima e depois ilibado do crime cometido na pessoa de um guarda? O chefe Sobek não conseguira identificar nem o culpado nem o autor da missiva e perguntava a si mesmo se não se trataria de um colega de Néfer, ciumento da sua ascensão. Mas o guarda tinha outra pista a seguir, pois desconfiava que Abri, o administrador-principal da margem oeste de Tebas, estava metido numa conspiração que ameaçava destruir o Lugar de Verdade. Infelizmente, o desaparecimento de Ramsés o Grande arriscava-se a alterar a situação a ponto de a tornar incontrolável.

  Como chefe da equipe da direita, Néfer tinha o dever de "fazer o que é luminoso no lugar de luz", de traçar os planos e distribuir o trabalho em função das competências de cada um. E descansavam sobre os seus ombros responsabilidades ainda mais pesadas desde o recente desaparecimento de Kaha, o chefe da equipa da esquerda, ao qual sucederia o filho espiritual, Hai, sem experiência e grande admirador de Néfer, considerado como o verdadeiro chefe da confraria. Até mesmo Kenhir, o velho escriba do Túmulo, representante do poder central, o tratava com deferência; o alto funcionário encarregado de gerir corretamente a confraria que usava o nome simbólico de "Grande e Nobre Túmulo dos Milhões de Anos a Ocidente de Tebas", reconhecera em Néfer um mestre-de-obras excepcional, cuja autoridade era incontestável.

  Mas seria Néfer o Silencioso capaz de lutar contra as forças das trevas que atacavam o Lugar de Verdade? Saberia ele, o capitão da "equipa dos homens do interior", tomar consciência da gravidade do perigo e teria os meios para lhe fazer face? Preso à realização da obra segundo a regra que tinha sido aplicada pelos seus predecessores, Néfer talvez tivesse esquecido a crueldade e a avidez do mundo exterior. Bastaria a sua magia pessoal para afastar a desgraça?

  O guarda imobilizou-se diante de um nicho escavado na parede da cerca. Existia ali uma estatueta de Maet, a patrona da aldeia. Tendo sobre a cabeça a retriz, a pena que permite às aves orientarem-se, a frágil deusa encarnava o ideal da confraria, a sua aspiração à harmonia e à retidão, elementos indispensáveis da criação artística. Não se dizia que "cumprir Maet" era fazer o que Deus ama?

  Sobek respirava mal. O ar quente tornava-se cada vez mais opressivo, o perigo aproximava-se. Para tentar acalmar-se, contemplou a colina do Ocidente, ponto culminante da montanha tebana em forma de pirâmide. Segundo a lenda, tinham sido os primeiros talhadores de pedra da confraria que assim tinham modelado a rocha para fazer eco, no Sul, às pirâmides do Norte.

  Como todos, o guarda sabia que a colina sagrada abrigava uma terrível serpente fêmea, "A que ama o silêncio", e que uma barreira cada vez mais difícil de franquear impedia os profanos de perturbar a sua serenidade. Os faraós tinham colocado as respectivas Moradas de Eternidade sob a sua proteção e a ela tinham os aldeões confiado as suas esperanças.

  A colina, com quatrocentos e cinqüenta metros de altitude, ficava situada no eixo dos templos construídos pelos faraós para fazerem brilhar o ka, a energia inesgotável espalhada no universo; dispostos em leque em seu redor, prestavam-lhe uma homenagem permanente.

  Sobek gostava de a contemplar ao pôr do Sol, quando a penumbra cobria o deserto, os campos cultivados e o Nilo; apenas o cume permanecia iluminado, como se a noite não tivesse qualquer domínio sobre ele.

  Um vigia agitou os braços, outro gritou.

  Sobek correu imediatamente em direção ao primeiro fortim onde a barafunda atingia o auge; os guardas rodeavam uma dezena de condutores de burro, dominados pelo pânico, que protegiam a cabeça com as mãos para evitar as pancadas dos bastões, enquanto os animais se espalhavam em todas as direções.

  - Parem - ordenou Sobek - são auxiliares!

  Tomando consciência do seu erro, os guardas pararam de bater.

  - Tivemos medo, chefe - desculpou-se um deles. – Julgamos que queriam forçar a barragem.

  Como todos os dias, os auxiliares traziam água, peixe, legumes frescos, óleo e outros produtos de que os aldeões tinham necessidade. Os mais corajosos recuperaram os burros, os outros gemiam ou protestavam. O chefe Sobek teria de redigir um enorme relatório para explicar o incidente e justificar o comportamento dos seus subordinados.

  - Tratem dos feridos - ordenou - e mandem descarregar os burros.

  Quando o cortejo chegou à vista da porta principal da aldeia, esta entreabriu-se para deixar sair as esposas dos artesãos. Simultaneamente sacerdotisas de Hathor e donas de casa, recolheram os alimentos em silêncio.

  Antes da morte de Ramsés o Grande, aquele momento era ocasião para discutirem, se apostrofarem, rirem por qualquer coisa e altercarem, pelo menos aparentemente, para conseguirem a melhor carne, os melhores frutos ou o melhor queijo. Desde o desaparecimento do grande monarca, até mesmo as crianças permaneciam mudas e as mães não tinham vontade de brincar com elas. Acocoravam-se para executar o trabalho quotidiano por excelência, o amassar da pasta que serviria para fazer o pão e a cerveja. Quanto tempo ainda poderiam executar esses gestos simples, prelúdio da felicidade de uma refeição tomada em família?

  Um jovem guarda correu na direção de Sobek.

  - Chefe, chefe! Há outros a chegarem!

  - Mais auxiliares?

  - Não... Soldados com arcos e lanças!

 

     Mehi, tesoureiro-principal de Tebas, andava de um lado para o outro na sala de recepções da sua suntuosa mansão. Financeiro ímpar e grande manipulador de números, o senhor oculto da região era também o comandante muito apreciado das forças armadas, que beneficiavam das suas benesses.

  O rosto redondo, os cabelos muito negros colados ao crânio, os olhos de um castanho-escuro, os lábios grossos, as mãos e os pés gorduchos, o torso largo e poderoso, seguro de si e da sua capacidade de sedução, Mehi estava obcecado por um objetivo aparentemente inacessível: apoderar-se dos imensos tesouros do Lugar de Verdade. Sabia que os artesãos produziam incríveis riquezas na Morada do Ouro e vira a Pedra de Luz que lhes servia para se iluminarem quando penetravam nas trevas de um túmulo do Vale dos Reis.

  Para fugir sem ser identificado, Mehi desembaraçara-se de um guarda. A carta anônima enviada a Sobek a fim de acusar de assassínio Néfer o Silencioso não produzira infelizmente os efeitos desejados, visto que a intervenção da misteriosa Mulher Sábia do Lugar de Verdade e o inquérito do tribunal tinham ilibado o artesão. Mas o comandante permanecia inatacável e a sua ascensão continuara, à custa do desaparecimento do sogro, que organizara eficientemente, e da cumplicidade da sua deliciosa esposa, Serketa, tão encantadora como um escorpião, mas ambiciosa, ávida e impiedosa como ele.

  Rico, poderoso, gozando de excelente reputação, Mehi manobrava com prudência e paciência. Tendo sido recusado pelo tribunal de admissão do Lugar de Verdade, nunca aceitara essa afronta; o seu desejo de vingança associava-se a um desejo de transformar o velho Egito, mergulhado nas suas tradições e crenças, num Pais moderno e conquistador onde a ciência, encarnada pelo seu amigo Daktair, aberto a todas as invenções, abalaria uma sociedade adormecida.

  A realização desse grande objetive implicava penetrar nos segredos da confraria que os faraós protegiam ciosamente para melhor se assegurarem da sua exclusividade. O principal adversário de Mehi tinha sido Ramsés o Grande, e a sua única tentativa para suprimir o monarca, fazendo sabotar o seu carro cerimonial, traduzira-se por um fracasso. O comandante vira-se obrigado a reconhecer que o velho soberano gozava de uma sorte sobrenatural e contentara-se em suprimir o sabotador que podia dar com a língua nos dentes. Única estratégia possível: tecer a rede em torno da aldeia enquanto esperava a morte de Ramsés.

  Mehi estava finalmente livre do benfeitor do Lugar de Verdade! Sem Ramsés, os artesãos ficariam desamparados e não era certo que o novo rei, Merenptah, um homem do Norte, sentisse uma disposição tão favorável em relação à confraria como o seu predecessor. Mas o tesoureiro-principal de Tebas não conseguia obter notícias exatas de Pi-Ramsés, a capital onde Merenptah fora coroado. Diziam-no passadista, desprovido de qualquer intenção inovadora e decidido a seguir os passos de Ramsés o Grande; mas o poder supremo não modificaria o seu caráter?

  Quanto às intrigas, deviam crescer e florir! Alguns conformavam-se com um reinado de transição, que seria provavelmente breve, para melhor preparar um mundo novo. Um mundo no qual Mehi desempenharia um papel de primeiro plano se fosse detentor dos segredos do Lugar de Verdade.

  Durante o interminável período de mumificação podiam ocorrer acontecimentos inesperados. A morte brutal de Merenptah, por exemplo, e uma luta pelo trono. Mehi esperava que não acontecesse nada, porque não estava ainda pronto para participar. Sonhava manipular um monarca que apareceria na frente do palco enquanto ele, na sombra, seria o detentor do verdadeiro poder. O que conseguira com o senhor de Tebas, porque não o havia de reproduzir à escala suprema?

  Um Merenptah estático, ancorado em princípios ultrapassados e incapaz de detectar a evolução inevitável do Pais: não seria esse medíocre Faraó o seu melhor aliado?

  Para testar o estado de espírito e a capacidade de resistência dos artesãos, Mehi convencera o seu aliado Abri, administrador-principal da margem oeste, a enviar um esquadrão e um inspetor do fisco.

  Se conseguissem forçar a porta, Mehi penetraria pela brecha e reduziria a nada os privilégios da confraria.

  Desta vez, o caso era sério.

  O chefe Sobek constatou que se tratavam realmente de soldados, a maior parte de idade madura. Pela primeira vez desde que ocupava o posto de chefe da segurança do Lugar de Verdade, encontrava-se diretamente confrontado com a tropa.

  Dispostos em duas fileiras, os soldados tinham-se imobilizado em frente do primeiro fortim. Os guardas núbios, a maior parte dos quais eram potentes rapagões bem treinados, estavam armados com cacetes e espadas curtas. Obedeceriam a Sobek, considerado como um verdadeiro chefe de clã cujas ordens não eram discutidas.

  Este avançou.

  - Quem vos comanda?

  - Eu - respondeu um veterano, visivelmente impressionado pelo atleta negro que o olhava -, mas estou colocado sob as ordens do inspetor do fisco.

  Até então oculto pelos soldados, um homenzinho gorducho saiu das fileiras e dirigiu-se a Sobek com uma voz aflautada mas imperativa.

  - Tenho um mandato do administrador-principal da margem Oeste para fazer o recenseamento dos animais da aldeia e calcular os impostos que lhes são aplicáveis. Como não tenho registrada nenhuma declaração nos últimos anos, necessariamente os pagamentos devem estar atrasados. Vós, que representais a força pública, deveis colaborar e ajudar-me a executar a minha missão.

  O chefe Sobek não esperava um ataque daquele gênero.

  - Tendes a intenção... de penetrar na aldeia?

  - É indispensável.

  - As minhas ordens são formais: o acesso é interdito seja a quem for que não seja um artesão ou um membro da sua família e certificado como tal junto de mim.

  - Sede razoável: eu represento o poder administrativo.

  - Apenas o Faraó e o vizir são exceção à regra que acabo de vos recordar. E vós não sois nem um nem outro.

  - Face ao fisco, deveis inclinar-vos! Ide procurar o escriba do Túmulo, ele vos recordará a lei.

  Sobek hesitou. Afinal, não era má solução; tornava-se evidente que o inspetor não conhecia Kenhir o Rabugento.

  - Entendido, mas que os soldados não se mexam uma polegada! Se tentarem franquear este fortim, os meus homens repeli-los-ão sem considerações.

  - Não aprecio muito esse tom, chefe Sobek. Os vossos guardas são menos numerosos do que os meus soldados e tenho o direito por mim.

  - Se quereis tomar as coisas assim, não vou buscar ninguém e eu próprio resolvo este assunto.

  Os guardas núbios não tiveram necessidade de qualquer ordem para brandirem os cacetes. Mais jovens e mais rápidos do que os adversários, não receavam um confronto a um contra dois ou três.

  - Não nos enervemos - recomendou o inspetor do fisco. Eu estou aqui para fazer respeitar a ordem e vós também.

  - As minhas ordens são muito rigorosas e devo aplicá-las à letra.

  - Ide buscar o escriba do Túmulo!

  - Sobretudo, não avanceis!

  Crispado, o funcionário não retorquiu. Tinham-no prevenido que a sua missão não seria fácil, mas não esperava tal resistência. E aquele grande negro metia-lhe medo; se se desencadeasse a luta, não se arriscaria a ser ferido? Mais valia, para já, renunciar ao uso da força e discutir com o escriba do Túmulo, colocando-o perante o fato consumado.

  O chefe Sobek não se apressou para franquear os fortins. Não seria aquela molhada de soldados que daria cabo dos seus homens; mas depois daqueles viriam outros, mais numerosos e mais temíveis.

  Quem teria desencadeado aquela intervenção a não ser Abri, o administrador-principal da margem oeste? Sobek encontrava-o uma vez mais no seu caminho. O alto funcionário tentara em vão suborná-lo e depois fazê-lo transferir, como se quisesse afastar um guarda incômodo, capaz de o implicar no caso de assassínio que não deixava de preocupar o núbio.

  Pela terceira vez, Abri lançava um ataque contra ele e, mais diretamente ainda, contra o Lugar de Verdade.

  Porque agiria assim, a não ser porque era culpado, de uma maneira ou de outra, e queria desembaraçar-se dos seus acusadores?

  A urgência daquele dia era o funcionário do fisco. Talvez fosse impossível evitar um conflito, pois não seria suficiente prevenir Kenhir. Ainda era preciso que o escriba do Túmulo aceitasse deslocar-se.

 

     - Sobretudo - lembrou o escriba do Túmulo à criada Niut a Vigorosa - não passes a tua maldita vassoura na minha biblioteca! Eu encarrego-me de a limpar.

  A rapariga contentou-se em encolher os ombros. Todas as manhãs era o mesmo sermão.

  Com sessenta e dois anos, mais rabugento do que um velho bode solitário, Kenhir tinha um ar pesado e a corpulência de um escriba que desempenhasse uma função importante, mas também uns olhos maliciosos e vivos aos quais nada escapava.

  Graças a uma tisana de mandrágora, vencera a insônia que o afetava desde a morte de Ramsés o Grande. Sabia que, durante aquele período transitório, a pequena comunidade estava em perigo e que não sobreviveria à decisão de um faraó hostil ao seu modo de vida, mas continuava no entanto a desempenhar a sua função como se ela devesse durar eternamente.

  Antes do mais, o abastecimento da confraria em água, garantido de duas maneiras: por um lado, pelo poço muito profundo escavado a cerca de sessenta metros a nordeste do templo de Hathor; por outro, pelas incessantes entregas dos condutores de burros. O poço era uma espécie de obra-prima, com as paredes verticais talhadas em ângulo recto, as lajes de calcário e as soberbas escadas que permitiam aos ritualistas irem recolher água para as cerimônias, mas não bastava para os gastos domésticos, tanto mais que a higiene era uma das princiPais preocupações da aldeia.

  Era por isso que o escriba do Túmulo esperava todas as manhãs, não sem impaciência, a chegada dos transportadores de água cujos pesados potes permitiam encher as enormes ânforas de barro rosado, cozido de forma homogênea e recoberto com um vidrado amarelo-pálido ou vermelho-escuro, dispostas nas ruelas da aldeia. ao abrigo de proteções a fim de que a frescura do precioso líquido fosse preservada. Algumas dessas ânforas tinham inscritos os nomes de Amenhotep I, de Tutmés III ou da Rainha-Faraó Hatchepsut e serviam para recordar que os soberanos se preocupavam com o bem-estar dos habitantes do Lugar de Verdade.

  O regulamento era rigoroso: os carregadores despejavam a água pura, várias vezes por dia, em dois reservatórios, um a norte da aldeia e o outro a sul. Os aldeões vinham buscá-la com jarros para encherem as ânforas do interior cujo conteúdo utilizavam para beber, se lavarem ou cozinhar. Não havia penúria desde a criação da confraria mas, pelo contrário, uma abundância muito apreciada pela pequena comunidade que vivia numa zona desértica.

  Nomeado pelo vizir com a aprovação do Faraó, o escriba do Túmulo estava sobrecarregado de trabalho. Competia-lhe velar pela prosperidade da aldeia, preservar um bom entendimento entre os dois chefes de equipa, pagar ao pessoal, manter o Diário do Túmulo, no qual anotava cuidadosamente as ausências e os respectivos motivos, receber o material necessário aos trabalhos e distribuí-lo e continuar a Grande Obra iniciada pelos seus predecessores. Um trabalho assustador que não impedia Kenhir de se entregar à sua distração favorita: a escrita.

  Filho adotivo do ilustre Ramosé elevado à dignidade raríssima de "escriba de Maet" antes de morrer, Kenhir herdara a sua bela casa, o seu gabinete e, sobretudo, a sua rica biblioteca onde figuravam todos os grandes autores cujas obras copiara com a sua escrita desajeitada e quase ilegível. Amador da poesia épica, compusera uma nova versão de A Batalha de Kadesch que testemunhara a vitória de Ramsés sobre os hititas e da luz sobre as trevas e entregara-se depois a uma reconstituição romanesca da prestigiosa XVIII dinastia. Logo que se reformasse, Kenhir consagrar-se-ia à redação definitiva de uma "Chave dos sonhos", fruto de pesquisas de longo fôlego.

  - Um artesão procura-vos - avisou Niut a Vigorosa.

  - Não vês que estou ocupado? Quando poderei estar tranqüilo nesta aldeia!

  - Quereis vê-lo ou não?

  - Que entre - rosnou Kenhir.

  Ipui o Examinador, um escultor da equipa da direita, era franzino e nervoso mas de notável habilidade. Sabia domesticar a rocha mais renitente e nunca fazia má cara a um problema difícil.

  - Algum aborrecimento?

  - Um sonho mau - confessou Ipui. - Preciso de vos consultar.

  - Conte.

  - Em primeiro lugar, o deus carneiro Khnum apareceu-me e disse: «Os meus braços protegem-te, confio-te as pedras nascidas do ventre das montanhas para construir templos.» Era bastante assustador...

  - Enganas-te, é um excelente presságio. Eincarna em Khnum a energia da criação que constrói os homens e dá aos artesãos a capacidade de dominarem a sua força. E depois!

  - Depois... É mais delicado.

  - Não tenho tempo a perder, Ipui. Ou falas ou vais-te embora.

  O artesão parecia muito pouco à vontade.

  - Sonhei que fazia amor com uma mulher... que não era a minha mulher.

  - Muito mau! Uma única solução: mergulha na água fresca de um canal, de madrugada, e ficarás de novo em paz. Mas, diz-me... Porque permaneceste na aldeia em vez de ires trabalhar no Vale dos Reis com o resto da equipa?

  - Levei oferendas ao túmulo do meu pai e a minha mulher está doente.

  Kenhir anotou os dois motivos, considerados como válidos, no Diário do Túmulo. Ipui não merecia a terrível designação de preguiçoso que teria arrastado graves sanções. O escriba do Túmulo não deixaria no entanto de verificar as suas palavras, pois já não tinha confiança em ninguém desde que um artesão dera como razão para a sua ausência a morte da tia... morta pela segunda vez.

  Logo que o escultor saiu da sala de colunas que servia de gabinete a Kenhir, entrou Didia o Carpinteiro, um homem de elevada estatura e gestos lentos.

  - O chefe de equipa confiou-me um trabalho na oficina - explicou - e pediu-me para vos recordar que os salários deviam ser pagos amanhã de manhã.

  O pagamento dos salários... Verificava-se de vinte e oito em vinte e oito dias, inexoravelmente! O escriba do Túmulo e os dois chefes de equipa recebiam cada um cinco sacos de espelta e dois sacos de cevada, enquanto que cada artesão tinha direito a quatro sacos de espelta e um de cevada. A isso juntava-se carne, vestuário e sandálias. De dez em dez dias, Kenhir velava pela distribuição de óleo, ungüentos e perfumes; e quotidianamente cada aldeão era gratificado com cinco quilos de pão e de bolos, trezentos gramas de peixe, várias espécies de legumes e frutos, leite e cerveja. Os excedentes permitiam-lhes fazer trocas no mercado.

  - É necessário lembrarem-me os meus deveres, Didia?

  - Este período é angustiante e muitos se interrogam se estarão garantidas as entregas habituais.

  - Se assim não fosse, eu seria o primeiro a prevenir-vos!

Amanhã os salários serão pagos como habitualmente e não faltará nem um punhado de grãos!

  Reconfortado, o carpinteiro retirou-se.

  Kenhir não lhe podia confessar que os seus receios eram legítimos. Se o novo Faraó, que nunca viera à aldeia, cedesse a certas pressões, os abastecimentos cessariam. Restavam os silos pertencentes à confraria e que lhe permitiriam sobreviver algum tempo, mas com que futuro?

  O escriba do Túmulo que era um resmungão impenitente, queixava-se das condições de trabalho, evocava com freqüência a brilhante carreira que deveria ter seguido em Tebas, mas amava a aldeia mais do que a sua própria vida. Sem deixar de se queixar de tudo e de todos, sabia que ali acabaria os seus dias como o seu antecessor e pai adotivo, porque o Lugar de Verdade era para ele o coração do Egito, o lugar onde simples homens, com as suas qualidades e defeitos, realizavam todos os dias uma obra extraordinária ao serviço do divino.

  O aborrecimento é que era necessário fazê-los coabitar sem demasiados choques e que todas as preocupações recaíam sobre ele, Kenhir!

  - Já acabei de arrumar a casa - declarou Niut a Vigorosa. Vou preparar o almoço.

  - Nada de pepinos, não os digiro bem. E não ponhas muitas especiarias no meu peixe.

  Já há muito tempo que se devia ter desembaraçado daquela pequena peste que se apossara da sua casa, mas ela trabalhava de uma forma extraordinária e, além disso, suportava com um humor inalterável o seu mau feitio. 

- Há mais alguém que vos quer falar - disse a criada.

- Mas isto nunca mais acaba? Diz-lhe para voltar mais tarde.

- Parece que é grave e urgente.

- Está bem...

  A esposa de Paí o Bom pão, um desenhista da equipa da direita, apresentou-se diante do escriba do Túmulo. Tinha um ar assustado.

  Mais uma aborrecida história de casal, pensou Kenhir. Ele enganou-a, ela quer apresentar queixa e vai ser preciso reunir o tribunal da aldeia.

  - O guarda da porta fez chegar uma mensagem do chefe da segurança... É terrível!

  - Acalmai-vos e dizei-me o seu teor.

  - Soldados em frente do primeiro fortim... Querem invadir a aldeia!

 

  A grande porta abriu-se para dar passagem ao escriba do Túmulo, para quem o chefe Sobek se precipitou imediatamente.

  - O que se passa? - perguntou Kenhir.

  - Temos problemas com o fisco, que se fez acompanhar pelo exército. Esperam por vós no primeiro fortim.

  A marcha a pé não era o forte de Kenhir, que preferia a calma do seu gabinete à areia dos carreiros. No entanto, avançou corajosamente para enfrentar um funcionário muito irritado.

  - Sois o escriba do Túmulo?

  - O que quereis?

  - A aldeia não pagou o imposto sobre os animais. Devo penetrar no interior para identificar os infratores e fixar o montante das multas.

  - De que animais falais? - interrogou Kenhir.

  - Das vacas, dos carneiros, dos...

  O escriba do Túmulo desatou a rir.

  - A lei não tem nada de cômico! - protestou o seu interlocutor.

  - A lei não, mas vós sim! Com semelhante nível de incompetência, não sois digno de cumprir a vossa função e vou dirigir uma carta circunstanciada ao vizir para pedir a vossa demissão.

  O inspetor do fisco parecia perdido.

  - Não compreendo, eu...

  - Quando se ignora tudo de uma pasta, não se fazem ameaças! No interior da aldeia só há animais domésticos, gatos, cães e pequenos macacos. A presença dos outros animais é proibida por questões de higiene. Encontrareis burros, bois, vacas, carneiros e porcos no exterior da aldeia e nos domínios pertencentes aos artesãos. É evidente que todos esses animais foram declarados à vossa administração. Haveis-me incomodado por nada e detesto isso.

  O olhar irado de Kenhir fez compreender ao funcionário que só Lhe restava bater em retirada rapidamente e tentar fazer esquecer a sua infeliz atuação. A queixa de uma personagem tão importante como o escriba do Túmulo podia destruir a sua carreira.

  - Quando ficaremos finalmente livres deste gênero de percevejos! - resmungou Kenhir vendo o vencido afastar-se.

  Apesar daquela vitória, o chefe Sobek não exibia uma expressão triunfante.

  - O que é que há mais? - perguntou Kenhir.

  - Esqueci-me de vos falar num incidente perturbador...

  - Pois bem, fazei-o agora!

  - Os objetos do delito estão no meu gabinete.

  Os dois homens dirigiram-se para o feudo de Sobek, que apresentou a Kenhir diversos bocados de calcário cobertos por desenhos incríveis.

  Havia um gato que trazia flores a uma ratinha, uma ratazana envergando um vestido e tendo como toucado um macaco, uma raposa que tocava flauta dupla, uma cabra que dançava, um crocodilo erguido na cauda e tocando um bandolin, uma andorinha trepando a uma escada para atingir os ramos mais altos de uma árvore onde um hipopótamo instalara o seu trono, um rato conduzindo um carro e disparando flechas sobre um exército de roedores armados com escudos e um macaco sentado sobre um monte de trigo.

  A caricatura era notável, mas não divertiu Kenhir, porque reconheceu os traços estilizados de vários dos membros da confraria! Mais grave ainda, o rato arqueiro só podia ser o Faraó combatendo os seus inimigos. Quanto ao macaco, apresentava notáveis parecenças com o escriba do Túmulo!

  - Quem te trouxe estes horrores?

  - Deixaram-nos aqui na minha ausência.

  - Destrói-os imediatamente.

  - E se o culpado recomeça?...

  - Podes crer que isso não vai acontecer!

  Kenhir conhecia o culpado.

  O estilo, a precisão do desenho, a originalidade, a irreverência... Tudo traía Paneb o Ardente.

  O escriba do Túmulo mostrara-se muito favorável à entrada do jovem na confraria, mesmo sabendo que a disciplina não seria o seu forte. O Lugar de Verdade não podia excluir um talento daqueles mas, desta vez, ultrapassara os limites!

  No olhar do guarda núbio havia um brilho um pouco divertido demais.

  - Esta má partida não tem nada de engraçado, Sobek! É uma injúria à seriedade e ao rigor que devem reinar nesta aldeia.

  - Partilho a vossa opinião e sei que sabereis castigar. Mas não há coisas mais graves? Esse inspetor do fisco foi-nos enviado por Abri, o administrador-principal da margem Oeste, o mesmo que tentou subornar-me e fazer-me transferir.

  - Continuas a suspeitar que ele participa numa conspiração contra o Lugar de Verdade?

  - Mais do que nunca.

  Kenhir ficou carrancudo.

  - Gostaria tanto que estivesses enganado... Mas informei-me sobre ele e esse Abri aparece como um carreirista pronto a todos os compromissos. Nas presentes circunstâncias, é impossível levar o inquérito mais longe. Como podemos prever a sorte que o novo Faraó lhe reservará: demissão, promoção ou manutenção do seu atual estatuto?

  - O seu golpe de força falhou, mas Abri recomeçará, tenho a certeza! Visto que ele ameaça a segurança da aldeia, sou obrigado a intervir, seja qual for a sua posição.

  - Um pouco de paciência, Sobek! As primeiras decisões de Merenptah esclarecer-nos-ão sobre a conduta a seguir. Enquanto esperamos, não baixes a guarda.

  Embora se recusasse a confessá-lo com medo de assustar os aldeões, o escriba do Túmulo sentia-se cada vez mais inquieto. Se houvesse uma revolução palaciana e se intrigantes como Abri conseguissem mais poderes, o Lugar de Verdade não teria mais de algumas semanas de vida.

  Enquanto Kenhir se dirigia para a grande porta da aldeia, os auxiliares saíram das oficinas e casas para o rodearem, ameaçadores.

  O ferreiro, o carniceiro, os lavadeiros, o caldeireiro, o cervejeiro, o sapateiro, os tecelões, os pescadores, os cortadores de madeira e os jardineiros estavam excitadíssimos.

O chefe, o oleiro Beken, tomou a palavra.

  - Somos classificados como os que transportam - lembrou ele - mas temos direitos! E o primeiro consiste em saber se vamos ser comidos e com que molho!

  - Para já, nada mudou.

  - Não acabamos de ser vítimas de um ataque do exército?

  - Foi um ridículo erro administrativo. Resolveu-se tudo.

  - Vão fechar a aldeia?

  - Esses receios são completamente infundados.

  - Dizeis isso para nos sossegar!

  - O salário será normalmente distribuído, não foi suprimido nenhum posto... Que melhores garantias querem?

  A serenidade de Kenhir acalmou os auxiliares.

  - Regressemos ao trabalho - aconselhou o oleiro.

  Os vagos protestos do ferreiro perderam-se nos murmúrios do pequeno grupo que se dispersou arrastando os pés, enquanto o escriba do Túmulo penetrava na aldeia onde foi imediatamente assaltado pela esposa de Paí o Bom pão, visivelmente perturbada.

  - O meu gatinho desapareceu! Tenho a certeza que é a minha vizinha que o esconde em casa... Invejava-me, por causa do pêlo negro e luzidio e roubou-me! Têm que revistar-lhe a casa e fazer com que seja condenada!

  - Tenho outras preocupações e...

  - Caso contrário, apresento queixa ao tribunal da aldeia!

  Kenhir suspirou.

  - Está bem, vamos lá.

  O escriba do Túmulo imaginava já a terrível discussão entre as duas donas de casa, mas competia-lhe resolver aquele gênero de problemas para manter a harmonia reinante entre as famílias.

  Felizmente, o gato fugitivo saltou de um telhado para aterrar aos pés da dona, que o apertou nos braços e o cobriu de beijos, dirigindo-lhe meigas censuras.

  Perplexo pela inconseqüência feminina, Kenhir preferiu afastar-se sem dizer uma palavra. Quantas provações teria ainda de sofrer durante aquele maldito dia?

  - O almoço está pronto - anunciou Niut a Vigorosa logo que o escriba do Túmulo regressou a casa. - Como sobremesa, tendes bolo recheado com tâmaras.

  - Ao menos será mole? - Já vereis.

  Como se atrevia aquela pequena peste a mostrar-se tão insolente? Um dia Kenhir ia ter de metê-la na ordem, mas preocupavam-no outros problemas, muito mais sérios.

  O mestre-de-obras Néfer o Silencioso conseguiria terminar dentro do prazo a Morada de Eternidade de Ramsés o Grande, de acordo com as normas que lhe tinham sido impostas? O homem possuía excepcionais qualidades, é verdade, mas era o seu primeiro grande estaleiro e talvez lhe faltasse o gênio necessário para o levar a bom termo.

  E se Néfer falhasse, o Lugar de Verdade ficaria condenado a desaparecer.

 

  Paneb o Ardente estava louco de alegria.

  O colosso de olhos negros, com vinte e seis anos, tinha sido admitido dez anos antes na confraria do Lugar de Verdade para se tornar desenhista, o ideal da sua infância. O caminho fora duro, mas Paneb nunca se deixara desencorajar, alimentado pelo fogo que ardia nele e que nada nem ninguém podia extinguir.

  Atualmente, era o paraíso: o Vale dos Reis, aquele wadi desértico, esmagado de sol e interdito aos profanos. Aqui, sob a proteção da colina do Ocidente em forma de pirâmide, repousavam as múmias dos ilustres faraós do Império Novo cuja alma renascia todas as manhãs no segredo da sua Morada de Eternidade.

  Para a quase totalidade dos egípcios, penetrar no "grande vale" era um sonho impossível. E ele, Paneb, tinha essa sorte porque perseverara, vencera inúmeros obstáculos e conseguira tornar-se um dos membros da equipa da direita!

  Quem poderia acreditar, vendo o jovem atleta de estatura e envergadura impressionantes, que as suas enormes mãos eram capazes de executar desenhos de uma delicadeza e precisão extraordinárias? Conjugavam-se nele a força e a graça, mas não passava de um aprendiz e ainda tinha muito a aprender.

  Essa perspectiva entusiasmava Paneb, que não recuava perante nenhuma tarefa. Desde o início dos trabalhos de acabamento do túmulo de Ramsés o Grande, os seus colegas desenhistas e pintores tinham-no encarregado de transportar os pães de cores, os pincéis, as trinchas e o resto do seu material. O peso parecia-lhe leve como uma pluma, visto que podia admirar os altos rochedos verticais que formavam as paredes do vale interdito onde apenas a pedra aquecida sobrevivia. As falésias ocres destacavam-se cortantes sob o céu de um azul perfeito e, ao meio-dia, o Sol não deixava subsistir nenhuma zona de sombra naquele caldeirão sagrado onde se desenrolava o mistério supremo da morte e da vida.

  Era o momento preferido por Paneb o Ardente, aPaixonado pelos Verões implacáveis, sobretudo quando nenhum sopro de vento perturbava a canícula. Aqui, neste vale mineral, silencioso e calmo, sentia-se em casa.

  - Estás a sonhar, Paneb?

  O homem que interrogava o aprendiz de desenhista não era outro senão o chefe da equipa da direita, Néfer o Silencioso, mestre-de-obras da confraria. De estatura média, elegante, cabelos castanhos, olhos de um cinzento-verde, grande testa desanuviada, possuía um rosto grave e uma maneira de falar serena. Não precisara de mais de dez anos para se tornar o chefe incontestado dos artesãos, uma função que, no entanto, não procurara.

  Paneb e Néfer tinham-se encontrado antes da sua admissão no Lugar de Verdade e o primeiro salvara a vida do segundo, que nunca esqueceria a sua coragem. Seguindo o caminho dos escultores, Néfer atingira os graus superiores da hierarquia antes de ser admitido na Morada do Ouro onde se tornara depositário do segredo da Grande Obra que devia agora transmitir e encarnar na matéria.

  - Quando eu era garoto - respondeu Paneb - sonhei com um mundo perfeito, mas rapidamente choquei com os homens. Com eles não há tréguas: temos de nos bater a todo o momento. Ao menor sinal de fraqueza, espezinham o adversário. Mas hoje sei que esse mundo perfeito existe: este vale no qual a nossa confraria escava e decora as Moradas de eternidade dos faraós.

Aqui o homem não tem lugar, estamos apenas de passagem, e assim é que está certo. Apenas reina aqui um silêncio de fogo e agradeço-te por me teres permitido conhecê-lo.

  - Não tens que me agradecer. És meu amigo, mas eu sou o chefe desta equipa e não te concederei nenhum favor. Se te ordenei que viesses trabalhar para o Vale foi porque sei que és capaz.

  Até então, Paneb contentara-se em desempenhar funções de transportador e de guarda do túmulo de Ramsés o Grande, no interior do qual não fora autorizado a penetrar. Pelo tom de Néfer, sentiu que a situação ia evoluir.

  - O dia anuncia-se longo e difícil - anunciou este último. - O tempo começa a faltar-nos e temos de executar a decoração final de acordo com as instruções deixadas por Ramsés. Ched o Salvador vai confiar-te um novo trabalho de importância decisiva.   Ched o Salvador... O pintor da equipa, o chefe dos desenhistas e o desdém personificado! Durante vários anos, ignorara a presença de Paneb para lhe fazer compreender bem que a seus olhos não existia. Mas o Ardente dominara a sua vaidade, persuadido que Ched era um mestre excepcional, de talento inegável, visto que fora escolhido pela confraria para animar a decoração pintada dos túmulos reais.

  - Pareces muito preocupado, Néfer.

  - Para alguns, os setenta dias de mumificação parecem um período muito longo; para nós, é muito curto.

  - Não compreendo... O túmulo de Ramsés não está terminado há muito tempo?

  - No essencial, sim. Mas é de regra esperar a morte do rei para tornar vivas as paredes, traçar os últimos sinais e as últimas figuras e completar a Morada de Eternidade onde o seu corpo de luz permanecerá para sempre. Nenhum erro é permitido, não há nem que apressar-se nem que perder tempo.

  - Para o teu primeiro estaleiro como mestre-de-obras, o destino foi-te favorável! Teria podido oferecer-te um faraó menos gigantesco do que Ramsés o Grande... Mas todos temos confiança em ti.

  - Estou consciente de que é a própria sobrevivência do Lugar de Verdade que está em jogo. Se o novo Faraó ficasse descontente com a última morada do Pai, decretaria o nosso desaparecimento.

  - O que dizem desse Merenptah?

  - Não devemos dar ouvidos a nenhum boato mas sim realizar a nossa tarefa. Se trabalharmos com retidão, o que temos a recear?

  Aos trinta e seis anos, Néfer o Silencioso era um homem maduro, de autoridade tranqüila mas implacável. A sua simples presença, sem ter necessidade de elevar o tom da voz, fazia reinar uma coerência indispensável no seio da confraria e incitava os artesãos a darem o melhor de si mesmos. Nenhum sonharia discutir as suas diretivas, que iam sempre no sentido da obra a realizar e da harmonia comunitária. Mesmo Paneb, de natureza indisciplinada, apreciava a postura do seu amigo e felicitava-se por o Lugar de Verdade o ter colocado à sua frente. Com ele, nem a injustiça nem a corrupção teriam direito de cidadania.

  - Como reagirias se Merenptah decidisse suprimir a confraria?

  - Demonstrar-lhe-ia que cometeria um erro trágico e que colocaria em perigo a própria prosperidade do Egito.

  - E se ele se recusasse a dar-te ouvidos?

  - Nesse caso, não seria um faraó mas um tirano, e a aventura da nossa civilização não tardaria a chegar ao fim.

  Os três desenhistas, Gau o Ezato, Unesh o Chacal e Paí o Bom pão depositaram ao pé de Paneb uma boa quantidade de pães de cores vivas e de pequenos recipientes de terracota e cobre.

  - O que devo fazer disto?

  - Ched o Salvador indicar-te-á. O Sol está esmagador... Não te devias pôr à sombra? - perguntou Paí o Bom pão, que suportava mal o calor do Vale dos Reis.

  - Não me apetece apanhar frio! - troçou.

  Os três desenhistas dirigiram-se em passo lento para a entrada do túmulo de Ramsés o Grande. Até mesmo Paí o Bom pão, sempre pronto a rir e brincar, estava recolhido. Tal como os seus confrades, só pensava no trabalho minucioso que devia realizar.

  - E tu, Paneb, como reagirias? - perguntou o mestre-de-obras.

  - Se os belos discursos não servissem para nada, pegaria em armas e bater-me-ia.

  - Contra o Faraó, o seu exército e a sua guarda?

  - Contra quem quer que tentasse destruir a aldeia. Tornou-se a minha pátria e a minha alma. No entanto, o acolhimento não foi muito famoso e passei dez anos bastante duros.

  Néfer sorriu.

  - Não sofre cada um as provações que merece e que é capaz de suportar? Acabarás por fazer-me crer que a tua capacidade de resistência é verdadeiramente fora do vulgar.

  - Salvo o devido respeito, tenho por vezes a impressão que estás a gozar comigo!

  - Não seria isso indigno da minha função?

  A chegada de Ched o Salvador interrompeu os dois amigos.

  Com os cabelos e o pequeno bigode muito cuidados, elegante, de olhos cinzentos-claros, nariz direito e lábios finos, lançou um olhar irônico a Paneb e dirigiu-se ao mestre-de-obras.

  - Os meus desenhistas já estão a trabalhar?

  - Acabam de entrar no túmulo.

  - Os prazos parecem-me um pouco curtos...

  - Não temos o direito de os ultrapassar, Ched. Foi por isso que pus Paneb à tua disposição.

  O pintor ergueu os olhos ao céu.

  - Um aprendiz a quem é necessário ensinar tudo!

  - Sê um bom educador e vem comigo.

  Néfer dirigiu-se por sua vez para a Morada de Eternidade de Ramsés o Grande, enquanto Ched o Salvador segurava na mão uma espécie de tijolo vermelho.

  - Sabes o que é isto, Paneb?

  - Cor... Cor dura que não pode ser utilizada sob essa forma.

  O pintor pareceu aterrado.

  - É bem o que eu receava... Os teus olhos são incapazes de ver.

 

 Com um imenso esforço, Paneb o Ardente conseguiu manter a calma. Se Ched o Salvador decidira humilhá-lo, pois que lhe fizesse muito bom proveito!

  - A cor - declarou o pintor - não é apenas matéria. A palavra ioun, "cor", é sinônimo de "existência", de "pele" e de "cabelo". Graças a ela, revela-se uma vida secreta e toda a natureza se anima, desde o mineral de aparência inerte até ao homem, essa criatura muitas vezes agitada. Olhaste realmente o ocre da areia, o verde brilhante da palmeira, o verde suave dos campos na Primavera, o azul absoluto do céu, o azul fascinante do Nilo ou o ouro do Sol? Eles ensinam os segredos, mas ninguém presta atenção. E, no entanto, é o Faraó em pessoa que faz chegar as cores ao Lugar de Verdade, porque só ele sabe porque e como dão existência às figuras traçadas pelos desenhistas. O nosso deus protetor é Chu, "o ar luminoso", aquele que permite à criação exibir as suas maravilhas. A minha profissão torna-me parcial, mas o que há de mais importante do que a cor?

  Paneb observou com outros olhos o material do pintor espalhado à sua frente. Nunca Ched o Salvador lhe tinha falado daquela maneira.

  - Antes de pintar, vais fabricar cores. E vais precisar de muito talento, meu rapaz! Em condições normais, teríamos vários meses , mesmo vários anos à nossa frente. Mas Ramsés o Grande exigiu que o seu túmulo fulgurasse de vida e precisamos de grande quantidade de cores perfeitas. Vou mostrar-te como proceder e deverás produzir sem parar enquanto eu pinto. Se falhares, serás o principal responsável pelo nosso atraso, portanto da nossa derrota. Pega no material e segue-me.

  - Onde vamos?

  - Para a minha oficina privada.

  Ched o Salvador aproveitara uma profunda anfractuosidade da rocha para instalar pranchas, cavaletes e um caldeirão. Havia pelo menos uma centena de potes, de cadinhos e de vasos de múltiplos tamanhos protegidos por um pano branco estendido entre duas paredes grosseiramente talhadas a golpes de cinzel de cobre.

  - Senta-te no tamborete de três pés e abre as orelhas, Paneb. As nossas cores são obtidas a partir de minerais que é necessário esmagar o mais finamente possível até à obtenção de um pó que misturarás com água adicionada com uma substância de ligação de fortes capacidades adesivas. Aí reside o segredo principal do fabricante de cores. Utilizarás clara de ovo, cuja albumina não será afetada nem pela água quente nem pela água fria, e conseguirás um tipo de cor que preencherá bem os poros da pedra. A cola de peixe é outro agente de ligação de boa qualidade, tal como esta excelente cola.

  Enquanto falava, Ched o Salvador erguia as tampas dos potes contendo as substâncias que descrevia. Dir-se-ia um cozinheiro preparando-se para saborear os petiscos deliciosos que tinha preparado.

  - A minha cola é perfeita! Fiz ferver extratos de ossos, cartilagens, tendões e pele e deitei a mistura num recipiente onde, depois de arrefecer, se transformou numa massa compacta. E sem esquecer a minha bela resina, misturada com pó de calcário... Mas admira isto!

  O pintor fez deslizar a tampa de um pequeno cadinho em terracota de forma retangular.

  - Uma cera de abelhas de primeira qualidade que utilizo para a fusão das colas e que aplico sobre a superfície pintada a fim de a proteger. É evidente que um novato faria aderir diretamente o ocre vermelho sobre o gesso, mas apenas a utilização de um adesivo é a marca de um trabalho de qualidade. E vou agora mostrar-te o melhor, o meu preferido: a goma de acácia.

  Ched o Salvador abriu lentamente um vaso de alabastro.

  - A goma de acácia garante a duração de uma pintura... O tempo não tem qualquer poder sobre ela, torna a matéria estável e zomba das variações de temperatura. A palavra seped, espinho de acácia, significa também "ser exato, inteligente" e esse vegetal figura no número das forças luminosas graças às quais o Sol dá vida. Talvez um dia encontres a acácia.

  Durante alguns instantes, o espírito do pintor evadiu-se, como se mergulhasse em antigas recordações.

  - Onde ia eu... Ah, sim, os agentes de ligação! Bem, já sabes o essencial... Passemos às cores em si.

  Como teria Paneb podido imaginar tanta Paixão da parte daquele homem frio e distante? Os olhos brilhantes, as mãos constantemente em movimento, Ched o Salvador parecia feliz por abrir as portas do seu universo no qual o jovem colosso penetrava com deslumbramento.

  - Para obter preto, nada mais simples: recolherás a fuligem mais fina possível nas paredes dos grandes recipientes utilizados nas cozinhas e o negro de fumo pegado às lâmpadas.

O pó de carvão de madeira fornece um belo preto, mas tenho igualmente uma reserva de manganésio do Sinai. Sê prudente com essa cor: o seu nome, kem, .o realizado, a totalidade, significa que o preto é a soma das cores. Quando Osíris é preto, encarna a totalidade das forças de ressurreição.

  - Kemet, "a totalidade", não é esse o nome do Egito?

  - Sim, por causa da terra negra, do limo que contém todas as potencialidades de existência e de renascimento. Obterás o branco, que é alegria, pureza e brilho, esmagando o calcário da região. Misturando gesso com carvão de madeira e negro de fumo obterás o cinzento. Para o castanho, passarás uma camada de vermelho sobre o preto ou misturarás óxido de ferro natural com gesso. Quanto ao melhor ocre castanho, é o do oásis de Dakleh, do qual possuo uma pequena reserva.

  - E o vermelho? - interrogou Paneb.

  - Ah, o vermelho! Essa cor tão terrível como atraente... O vermelho do deserto, da violência, do sangue que transmite a vida. do fogo-celeste, da vela da barca que transporta as almas para o além, esse vermelho que enquadra as portas para que os demônios destruidores não as franqueiem, o vermelho que ilumina o olhar de Set quando ele combate Apopi... A tua cor preferida, não é verdade? Obtê-lo-ás recolhendo o ocre vermelho abundante no nosso Pais, o óxido natural de ferro, ou calcinando ocre amarelo que se tornará vermelho. Esse ocre amarelo, óxido de ferro mais ou menos hidratado, é também muito abundante. Encontra-lo-ás nos oásis do deserto do oeste e, sob a forma de pedra, nos gebels. Utilizo também auripigmento, um sulfato de arsênico natural que, sob essa forma de mineral, não é um veneno. Provém da Ásia Menor e ilhotas do Mar Vermelho e é ele que anima as paredes com um fulgor semelhante ao do ouro, a carne dos deuses.

  Num fragmento de calcário, Ched o Salvador desenhou uma admirável borboleta depois de ter mergulhado o pincel numa cor que surpreendeu Paneb.

  - Rosa - explicou o pintor. - Resulta de uma mistura de gesso e ocre vermelho e é capaz de traduzir a graça de uma mulher ou a elegância de um cavalo. Estás satisfeito?

  - Não - respondeu Paneb. - Porque não haveis falado nem do azul nem do verde?

  - Talvez sejas menos estúpido do que eu julgava... Há alguns que ainda pensam que para obter essas duas cores, evocadoras dos mistérios celestes e do dinamismo da vida, basta esmagar pigmentos minerais. Mas não é assim que se deve proceder quando se é pintor do Lugar de Verdade.

  Ched o Salvador acendeu o fogo por baixo do caldeirão.

  - A natureza oferece-nos esses pigmentos e a arte do pintor consiste primeiro em torná-los eficazes sob o aspecto de cores que permaneçam estáveis. No que diz respeito ao azul e ao verde, o processo é mais complexo. Observa cada um dos meus gestos e grava-os na tua memória.

  Num recipiente, Ched misturou areia siliciosa, calcário reduzido a pó, malaquite, azurite, natrão e cinzas vegetais.

  - Vou fazer cozer este recipiente a uma temperatura elevada, entre 850 e 1100 graus. Podes fazê-la variar regulando o lume e é graças a essa variação que poderás obter diferentes cambiantes de azul, entre o turquesa e o lápis-lazúli. Deverás igualmente ter cuidado com o esmagar: quanto mais pequeno for o tamanho dos grãos, mais a cor será clara. E se cozeres uma segunda vez os pigmentos reduzidos a pó e compactados, a cor intensificar-se-á.

  - E para o verde?

  - Servir-te-ás dos mesmos ingredientes que para o azul, mas em proporções diferentes, aumentando o cálcio e diminuindo o cobre. O azul far-te-á tomar consciência do imaterial, o verde da fecundidade espiritual. Quanto ao pó colorido, aglomera-lo-ás sob a forma de pães, uns alongados, outros em forma de discos, e eu irei diluindo parcelas à medida das necessidades. São estes os primeiros passos da nossa alquimia, Paneb; se compreenderes bem a arte, ela conduzir-te-á ao coração da nossa confraria.

  Concentrado na cozedura, Ched o Salvador dava a impressão de sentir as menores vibrações como se fosse ele próprio o recipiente. E o pintor mostrou ao seu aprendiz como ir de um azul-intenso a um verde-diáfano.

  - Sentes-te pronto para fabricar cores, Paneb?

  - Tenho alguma escolha?

  - Preciso de vermelho para a tarde e de azul para amanhã. Espero que não nos falte a matéria-prima, porque não é ainda certo se o novo Faraó aceitará fornecer-nos mais. Sem pigmentos coloridos, não há pintura...

  - Impossível!

  - Nem tu nem eu decidimos, meu rapaz. E tenho a impressão que os ventos não sopram do lado favorável.

  Paneb começava a manipular com interesse os potes cheios de cola e goma de acácia.

  - A vossa atitude surpreende-me... Até agora sempre me haveis desdenhado e hoje revelais-me vários segredos da profissão! Porquê tanta bondade súbita?

  - O chefe de equipa deu-me ordem para te instruir e eu obedeço. Mas não tens qualquer hipótese de conseguir.

 

     Cansada, a raposa da areia, de espessa cauda ruiva, refugiou-se no fundo de uma cavidade rochosa, na esperança de que os seus perseguidores lhe perdessem o rasto.

  Mas o comandante Mehi, à frente de um grupo de caçadores ferrenhos, era um predador bastante mais temível do que o pequeno carnívoro cuja pista seguia há várias horas através do deserto.

  Com os nervos à flor da pele, descontente por não poder obter informações fiáveis sobre as intenções do novo Faraó, Mehi tinha necessidade de matar. Exterminar codornizes e pardais já não lhe bastava. Por isso se aventurara a oeste de Tebas na esperança de descobrir caça mais interessante.

  Ofegante, a raposa viu o homem armado com um arco enfiar-se no estreito túnel que conduzia ao seu refúgio de acaso. As paredes eram demasiado abruptas para que pudesse trepar. Voltou a cabeça em todas as direções sem descobrir a mínima possibilidade de fuga.

  Excitado, Mehi retesou o arco. Não suara em vão naquele universo hostil e, uma vez mais, mostrava-se o mais forte.

  A raposa teria podido lançar-se sobre o seu agressor, mas preferiu olhar a morte de frente e fixou Mehi com a coragem dos seres que sabem enfrentar o seu destino. Perante aqueles olhos, muitos caçadores teriam renunciado a disparar para prestar homenagem à nobreza do animal. Mas Mehi era um matador e a sua flecha fendeu o ar ardente do deserto para se cravar no peito da sua infeliz vítima.

  - Dêem-me de beber - ordenou Mehi franqueando o limiar da sua suntuosa mansão - e desembaracem-me disto.

  O comandante atirou ao chão o cadáver ensangüentado da raposa, que um servidor se apressou a apanhar enquanto um outro lhe trazia cerveja fresca.

  - Onde está a minha esposa?

  - Junto do lago.

  Serketa estava estendida em cima de almofadas, à sombra de uma pérgola. Com o cabelo pintado de louro, um pouco gorda, peito opulento, olhos de um azul-deslavado, estava coberta com um fino véu de linho e protegia-se do sol para não ficar com a pele bronzeada como as raparigas do campo.

  Mehi deitou-lhe as mãos aos seios.

  - Estás a magoar-me, querido!

  Embora fosse um fraco amante, Serketa apreciava a brutalidade do marido, cujas princiPais qualidades eram uma ambição desenfreada e um desejo de posse sem limites. Graças aos dons de financeiro e gestor, aumentava constantemente a sua fortuna. Tão ávida como ele e não recuando perante nenhuma crueldade, Serketa pensara desembaraçar-se de Mehi, convencida que ele tinha pensado em suprimi-la; mas haviam preferido tornar-se cúmplices inseparáveis, ligados pelos seus crimes e a sua sede inextinguível de poder.

  - Boa caçada, meu doce amor?

  - Diverti-me bastante. Notícias da capital?

  - Infelizmente nada, mas tenho uma coisa interessante.

  Mehi estendeu-se ao lado da esposa. Ela tinha o encanto de um escorpião e a magia de uma víbora de cornos.

  - O nosso informador, esse homem maravilhoso que trai a sua confraria, acaba de fazer chegar às minhas mãos uma carta por intermédio do nosso dedicado Tran-Bel.

  Tran-Bel, um escroque medíocre mas complacente, com o qual o traidor da Lugar de Verdade ganhava lucros ilícitos vendendo às escondidas móveis de qualidade. Para poder continuar os seus pequenos tráficos, Tran-Bel tornara-se o fiel servidor de Mehi e do seu agente de ligação, Serketa, aos quais nada podia recusar.

  - Não me faças esperar, Serketa, ou violo-te...

  Ela beijou os joelhos do marido.

  - Porque não, meu doce querido? Mas ouve primeiro isto: o mestre-de-obras Néfer está com graves problemas devido à sua falta de experiência. O túmulo de Ramsés o Grande não está terminado e é provável que os prazos não sejam respeitados.

  - APaixonante... Por outras palavras, a confraria seria considerada incompetente e os seus chefes demitidos! Um acontecimento sem precedentes e um belo escândalo... O nosso amigo Abri emitirá um protesto oficial e os fornecimentos serão interrompidos. Talvez estejamos na véspera da morte da aldeia, Serketa! E apoderar-nos-emos dos seus segredos mais facilmente do que eu supunha. Escolhendo esse Néfer como chefe, os artesãos cometeram um pesado erro.

  A esposa de Mehi retirou o véu de linho, mas teve o cuidado de permanecer à sombra. Com o olhar vicioso, o comandante ia provar-lhe do que era capaz.

  Tendo em conta a urgência da situação, a equipa não regressava à aldeia e dormia em esteiras, ao ar livre, próximo da entrada do túmulo de Ramsés o Grande.

  Como Néfer julgara detectar uma fragilidade na rocha, pedira aos talhadores de pedra Fened o Nariz, Casa o Cordame, Karo o Mal-humorado e Nakht o Poderoso que procedessem a sondagens que, felizmente, não tinham revelado nada de alarmante. Os quatro homens haviam portanto prosseguido o seu trabalho, tentando recuperar o tempo perdido.

  O chefe escultor Userhat o Leão e os seus dois assistentes, Ipui o Examinador e Renupé o Jovial davam a última demão nas estátuas reais, de madeira e pedra, e nos "acólitos", as figurinhas de trabalhadores do Além que seriam depositadas na última morada do rei.

  O carpinteiro Didia o Generoso terminava os leitos funerários que Tuti o Sábio recobria com folha de ouro, enquanto os três desenhistas, Gau o Exato, Unesh o Chacal e Paí o Bom pão terminavam o desenho dos hieróglifos contendo as fórmulas de conhecimento indispensáveis ao ressuscitado para franquear as portas do Além e se deslocar à vontade nos belos caminhos da eternidade.

  E Ched o Salvador pintava ao seu ritmo, como se dispusesse de muitos meses. O seu gênio era tão fulgurante que Néfer quase tinha vergonha de lhe lembrar que a data dos funerais se aproximava.

  Felizmente, Paneb não fracassara.

  Fascinado pelas revelações de Ched das quais não esquecera o mínimo pormenor, o jovem colosso trabalhara sem parar. A sua mão repetira fielmente os gestos do mestre, mas Paneb em breve se apercebera que aquele método lhe proporcionava resultados satisfatórios mas insuficientes.

  Apoiando-se na base oferecida por Ched o Salvador, inovara a cada etapa da fabricação das cores, utilizara vários pilões para os diversos atos de esmagar e modificara as proporções dos adesivos em função das cores esperadas. Como sublinhara o pintor, o melhor agente de ligação era mesmo a goma de acácia.

  Tivera algumas tentativas falhadas, mas Paneb recolhera numerosos ensinamentos analisando os seus fracassos e evitara cometer de novo os mesmos erros.

  No primeiro dia, diante dos pães de vermelho, Ched o Salvador fizera uma expressão de desagrado, mas acedera no entanto a utilizá-los. Paneb permanecera impassível, embora sentisse vontade de gritar de alegria! Finalmente, depois de tantos anos de paciência e provações, trabalhava com as cores, sabia produzi-las e satisfazia o artesão encarregado de fazer viver as divindades nas paredes da Morada de Eternidade de Ramsés o Grande!

  O Ardente realizara mais do que o seu sonho de criança: entrara num mundo de riquezas ilimitadas e começava a aprender os rudimentos de uma linguagem que amanhã lhe permitiria pintar por  sua vez.

  Paneb tivera que baixar a grimpa no momento da cozedura da mistura destinada a tornar-se azul e verde. Embora tivesse respeitado os ingredientes e as proporções indicadas por Ched o Salvador, apenas conseguira cores abastardadas.

  Recomeçara então a tarefa até conseguir dominar as variações do calor. Uma vez mais inovou e deixou a mão encontrar o seu próprio método, que não correspondia exatamente ao de Ched.

  Quando, de madrugada, formara os pães de azul-claro, azul-médio e azul-escuro como o lápis-lazúli, e depois os pães de verde claro e escuro, Paneb teria gostado de verificar a sua qualidade, mas Ched o Salvador aparecera à sua frente, elegante, barbeado e perfumado como se acabasse de sair da sala de água da sua casa da aldeia.

  - A minha quantidade de azul está pronta?

  Paneb apresentou-lhe os pães coloridos.

  - Traz-me um prato de terracota e um jarro de água.

  O fabricante obedeceu.

  Com um raspador, o pintor retirou uns fragmentos de azul que misturou no prato deitando água gota a gota. Depois, utilizou um pincel extremamente fino, que molhou muito de leve no azul lápis-lazúli para desenhar, num fragmento de calcário, uma das coroas do Faraó que conferia ao seu pensamento uma dimensão celeste.

  Paneb estava tão nervoso como no dia em que tinha realizado a prova de admissão à confraria. Sabia que o pintor, tendo em vista as circunstâncias, não Lhe concederia uma segunda oportunidade. E mesmo Néfer seria obrigado a concordar com Ched o Salvador. Escoaram-se intermináveis segundos. O pintor fazia dançar a luz sobre a coroa e examinava-a sob múltiplos ângulos.

  - Há um grave defeito - concluiu. - O teu pão de azul tem um comprimento de pelo menos vinte e cinco centímetros e os que eu utilizo medem exatamente dezenove centímetros. Quanto ao  resto, contentar-me-ei.

 

     Eram quatro, um homem e três mulheres, e imobilizaram-se em frente de Paneb o Ardente.

  De estatura média, o homem parecia insignificante, com o seu pequeno bigode preto e o olhar de través. Chamava-se Imuni e pertencia à equipa da esquerda. Com prosápias de literato, adulava constantemente Kenhir, o escriba do Túmulo, que considerava um grande autor. Paneb não se dava com este Imuni, cujo comportamento inquietante detestava.

  Em contrapartida, e por razões diferentes, as três mulheres eram-lhe queridas.

  Alourada, pequena, discreta mas determinada, Uabet era a sua esposa legítima; tinha sido ela a decidir sê-lo e Paneb fora vencido pela teimosia de uma perfeita dona de casa que em breve lhe daria um filho. O ventre pouco aumentara e a sua gravidez, feliz e saudável, tornava-a cada dia mais bonita.

  Ruiva, alta e bem torneada, Turquesa era a amante de Paneb. Com ela, entregava-se aos mais loucos jogos de amor e essa Paixão ardente, que durava há vários anos, não arrefecia. Turquesa tinha feito o voto de não se casar, utilizava uma contracepção eficaz e levava uma existência de mulher livre, indiferente aos mexericos. Uabet a Pura tolerava a situação, desde que Paneb nunca passasse a noite em casa de Turquesa.

  A terceira mulher, bela e luminosa, era Clara, a esposa de Néfer o Silencioso, admitida ao mesmo tempo que ele no Lugar de Verdade. Esguia, leve, aérea, olhos azuis, voz doce e melodiosa, amada por todos os aldeões, tornara-se a assistente da misteriosa Mulher que lhe tinha transmitido o essencial dos seus segredos.

  Com perucas curtas e envergando vestidos vermelhos de alças, três sacerdotisas de Hathor traziam cofres de madeira de acácia.

  - Onde está o mestre-de-obras? - perguntou Imuni no tom meloso que lhe era habitual.

  - Na Morada de Eternidade de Ramsés o Grande.

  - Vai buscá-lo.

  - Em primeiro lugar, não estou autorizado a lá entrar; para além disso, não tens nada que me dar ordens.

  Os olhos baços de Imuni brilharam de satisfação.

  - Engana-te, Paneb! Kenhir acaba de me nomear escriba assistente. É nessa posição que transmito as suas diretivas aos artesãos que me devem portanto obediência, tu como os outros. Estas três sacerdotisas trazem provisões que devo entregar em mão própria a Néfer. Vai buscá-lo.

  - És surdo ou quê? Acabo de te dizer que não tenho o direito de penetrar no túmulo. Portanto, vais esperar que Néfer saia. É ele que manda neste estaleiro e mais ninguém.

  Irritado, Imuni coçou o bigodinho.

  - Em que consiste o teu trabalho, Paneb?

  - É curioso, não me parece que isso te diga respeito.

  - Um escriba assistente deve estar ao corrente de tudo!

  - Confia-me os cofres e eu entrego-os ao mestre-de-obras.

  - De maneira nenhuma!

  Imuni passeou o olhar inquisidor sobre os pães coloridos que Paneb tinha terminado.

  - Que ingredientes usaste e em que quantidades?

  - Aqui, temos muito trabalho. Devias voltar e ir dormir para o gabinete que te foi atribuído.

  Um sorriso maldoso fez estremecer os lábios finos de Imuni.

  - Tenho a impressão de que nem todos esses produtos foram corretamente registrados... Não se tratará de fraude e não desviarás preciosas cores em teu proveito pessoal?

  O jovem colosso agarrou Imuni pelas ancas e ergueu-o do chão.

  - Repete isso, aborto!

  - Eu... eu tenho a obrigação de fazer o relatório de tudo com minúcia e...

  - Se continuas a piar esmago-te de encontro à rocha!

  - Larga-o - ordenou Néfer que, alertado pelos ecos da discussão, saíra do túmulo de Ramsés.

  Visto que era o mestre-de-obras que lhe exigia, Paneb deixou cair Imuni que rolou na poeira.

  Furioso, o escriba levantou-se imediatamente.

  - Paneb agrediu-me!

  Néfer consultou com o olhar as três sacerdotisas de Hathor. Nenhuma apoiou a acusação e todas retiveram com dificuldade a vontade de rir.

  - O incidente está encerrado - decidiu o mestre-de-obras.Trazes-me mechas, Imuni? Deveria antes dizer: as sacerdotisas trazem-nas e tu vens de mãos a abanar.

  - De maneira nenhuma! Tenho o meu material de escriba e contarei as mechas segundo o regulamento!

  - Porque não está Kenhir aqui?

  - Sofre de uma crise de gota e escolheu-me como assistente.

  Clara, Uabet a Pura e Turquesa posaram os cofres sobre uma pedra quase lisa. Tinham sido elas que tinham fabricado os preciosos objetos.

  Cada cofre continha vinte mechas de linho torcido que Imuni contou uma a uma antes de redigir o seu relatório.

  - Podes ir embora - disse-lhe Néfer.

  - Mas... tenho de saber como será utilizado esse material!

  - Como escriba assistente, o teu papel é estritamente administrativo. Volta para a aldeia, Imuni, e não me obrigues a fazer Paneb intervir.

  O jovem colosso estava pronto para obedecer. Imuni lançou um olhar de ódio ao mestre-de-obras mas considerou preferível desandar.

  Cada uma das três sacerdotisas tinha igualmente trazido um pote de gordura formada por três substâncias: "a sã, a cremosa e a eterna", extraídas dos óleos de linho e sésamo.

  - E eu - perguntou Paneb - posso ficar?

  - Precisamos de um recipiente cheio de água e de boa quantidade de sal - respondeu Clara.

  Paneb o Ardente apressou-se a satisfazê-la; felizmente, o seu laboratório improvisado não tinha falta de recursos.

  Turquesa que deitou sal no recipiente até a água não o conseguir dissolver. Logo que a salmoura foi considerada satisfatória, as três sacerdotisas, uma de cada vez, mergulharam nela repetidamente cada mecha de linho, posta em seguida a secar ao sol.

  Clara deitou a água salgada numa ânfora à qual Uabet a Pura acrescentou igual quantidade de óleo de sésamo e Turquesa sacudiu a ânfora para misturar os líquidos. Depois de um tempo de repouso, a mistura oleosa ficou purificada e as três sacerdotisas sentaram-se em frente do mestre-de-obras.

  Começava a parte mais delicada da operação. A fim de obter mechas que não produzissem nenhum fumo, desastroso para as pinturas de um túmulo, era preciso simultaneamente oleá-las e engordurá-las com uma destreza que não suportava o mais ou menos.

  Paneb ignorava que a esposa tivesse acesso a um segredo de tal importância e admirou-a mais por isso, além de que se mostrava muito hábil, à semelhança das suas duas companheiras, visivelmente experientes.

  Néfer estava muito atento, como se a sorte do estaleiro dependesse das mechas fabricadas pelas sacerdotisas.

  - Elas conhecem o segredo do fogo - disse a Paneb - e uma das minhas obrigações consiste em verificar o seu trabalho sem tolerar a mínima imperfeição. Uma única má mecha e a obra dos escultores, dos desenhistas e dos pintores poderia ficar suja. Em geral, as sacerdotisas de Hathor preparam essas mechas numa oficina da aldeia e fornecem-nas pela manhã, sob o controlo do escriba do Túmulo, quando trabalhamos num lugar escuro. Tendo em conta a urgência, pedi-lhes que completassem o mais depressa possível o nosso material a fim de que dispuséssemos de iluminação intensa.

  Paneb não perdia um único dos gestos das fabricantes, consciente do novo tesouro que lhe era oferecido no seio daquele vale dos milagres em que os véus se rasgavam uns a seguir aos outros.

  - São necessárias três mechas para equipar uma lâmpada em forma de taça - revelou Néfer - e cada mecha dura cerca de quatro horas.

  - Quantas se utilizam num túmulo?

  - Depende do seu volume, da sua profundidade e da dimensão da obra a efetuar. Em geral, bastam umas trinta mechas por dia. No caso presente, queria muitas mais: cento e cinqüenta lâmpadas com quatrocentas mechas vão iluminar a Morada de Eternidade de Ramsés.

  Cento e cinqüenta lâmpadas!, imaginou o Ardente. Que espetáculo feérico deve ser.

  - Queres ver essa luz? - perguntou-lhe o mestre-de-obras.

      Paneb permaneceu silencioso um longo momento, como se vivesse um sonho acordado do qual não desejava sair. Mas a ilusão dissipou-se e compreendeu que tinha interpretado mal a pergunta feita pelo mestre-de-obras.

  - Ver acender esse tipo de lâmpada... Sim, gostava muito.

  - Exprimi-me mal - retificou Néfer. - Sentes-te preparado para penetrar na Morada de Eternidade de Ramsés o Grande?

  Não era um sonho...

  Ele, Paneb o Ardente, filho de camponês, simples aprendiz da equipa da direita, era autorizado a descobrir um dos locais mais secretos do Egito!

  - Hesitas?

  - Eu, hesitar? Posso jurar-te que o meu desejo de conhecer essa maravilha não está maculado de curiosidade e que não experimento nenhum medo, mas sinto uma espécie de estranho respeito, quase uma veneração, como se esse ato fosse alterar a minha vida uma vez mais.

  - Tens razão, Paneb; ninguém sai intacto de um universo como aquele.

  - Porque me concedes esse favor?

  - Repito que não te farei nenhum. O teu trabalho satisfez e abre-te as portas desse estaleiro no qual toda a equipa trabaLhou. É justo que, tal como os outros, contemples a obra realizada.

  Néfer o Silencioso dirigiu-se para o túmulo de Ramsés o Grande; Paneb seguiu-lhe as pisadas.

  Porque tinha querido ser desenhista, porque tinha recusado qualquer compromisso, porque tinha continuado a traçar o seu caminho sem dar ouvidos aos que lhe recomendavam uma existência baça e sem calor, o Ardente vira abrir-se as portas do Lugar de Verdade e, agora, as da morada de ressurreição do Faraó. i Com o torso nu, um saiote plissado preso por baixo do umbigo e descendo até à barriga das pernas, pulsos ornados de pulseiras, o mestre-de-obras imobilizou-se na entrada monumental do túmulo, como se verificasse as proporções da grande porta de acesso talhada na rocha.

  - Vais deixar o mundo dos humanos para entrar no da luz secreta que faz viver o universo - disse Néfer a Paneb. - Não procures nem analisar nem compreender, mas olha com todo o teu ser, vê com o coração e sente com o espírito.

  Logo que franquearam o limiar, que os textos designavam como a primeira passagem da luz divina, foi o deslumbramento.

  As cento e cinqüenta lâmpadas colocadas a intervalos regulares espalhavam uma luz simultaneamente doce e exata que fazia do túmulo de Ramsés um mundo fremente de vida. Tinha sido inteiramente adornado com hieróglifos e esculturas em baixo-relevo e o conjunto da decoração estava pintado com um gênio que fez Paneb ficar mudo de admiração.

  Graças aos ensinamentos dados por Kenhir, conseguiu ler os textos dos corredores que evocavam as mutações do Sol, correspondentes às fases de ressurreição da alma real.

  Com o comprimento de cerca de cento e vinte metros, a última morada de Ramsés penetrava em linha reta no coração da rocha até à sala de Maet onde se encontravam as cenas rituais da "abertura da boca" no decurso da qual a múmia, aparentemente inerte, regressava à vida. Depois, o caminho virava em ângulo reto para desembocar na sala do sarcófago com oito pilares que só esperava o corpo de luz do rei defunto.

  Ali se tinham reunido os membros da equipa da direita, sentados à maneira de escriba, com exceção de Ched o Salvador que acrescentava uma cambiante de ouro a um retrato do monarca fazendo oferenda a Osíris.

  - Bem-vindo entre nós, Paneb - disse Paí o Bom pão com um largo sorriso. - Agora fazes verdadeiramente parte da tripulação.

  Os irmãos em espírito abraçaram-se; consentindo finalmente em posar o pincel, Ched imitou-os.

  - Não tinha nenhuma confiança em ti - confessou - e provavelmente não me enganava, mas tu espantaste-me mostrando-te à altura da tarefa. Decididamente, esta confraria nunca deixará de me surpreender... Mas não te faças triunfalista por isto! O teu caminho apenas está a começar e não tenho a certeza se os esforços conjugados dos desenhistas conseguirão vencer a tua ignorância.

  O pintor dirigiu-se ao mestre-de-obras.

  - No que me diz respeito, está terminado. As vontades do Faraó foram respeitadas à letra e viverá eternamente em companhia das divindades pintadas nas paredes.

  - O trabalho dos escultores e dos talhadores de pedra está igualmente acabado - informou Userhat o Leão, cujo potente torso evocava o orgulhoso aspecto da fera.

  O carpinteiro Didia e o ourives Tuti também tinham levado a sua obra a bom termo.

  - Agradecimentos a todos pelo entusiasmo com que trabalharam - disse Néfer. - Graças a vós, o Lugar de Verdade não receberá nenhuma crítica e Ramsés repousará no santuário que ele próprio concebeu.

  - Não aceitamos quaisquer agradecimentos - objetou o escultor Renupé o Jovial. - Cumpriste a tua função organizando o estaleiro e orientando-nos e nós cumprimos a nossa seguindo as tuas diretivas.

  De acordo com o gesto ritual da confraria, braço esquerdo afastado do corpo para formar um esquadro e braço direito dobrado sobre o peito, os artesãos da equipa da direita aclamaram três vezes Néfer o Silencioso, que disfarçou mal a emoção.

  - A nossa confraria é um barco - lembrou - nós somos uma tripulação e cada um de nós tem um papel determinado a desempenhar, vital para a coerência do conjunto.

Sejam quais forem as provações que hão-de vir, respeitamos o nosso juramento e honramos os nossos compromissos.

  - Será este túmulo a nossa última obra? - interrogou Karo o Mal-humorado, cruzando os braços curtos e fortes.

  A inquietação tornou ainda mais rebarbativas as suas espessas sobrancelhas e o nariz quebrado.

  - Ignoro-o. Alguns estavam com certeza persuadidos que não o terminaríamos dentro do prazo e as suas reações podem ser violentas.

  - Sejam quais forem as decisões das autoridades - avançou Nakht o Poderoso - deveríamos permanecer unidos, formar jovens e transmitir-lhes os nossos segredos.

  - Seria uma insubordinação grave, passível de pesadas penas - objetou Gau o Exato, aprovado por Casa o Cordame. - O nosso superior é o Faraó; quem recusar a sua autoridade, torna-se um rebelde.

  - Não nos embrenhemos em discussões vãs - recomendou o mestre-de-obras. - Logo que o escriba do Túmulo, o chefe da equipa da esquerda e eu próprio conhecermos as vontades do novo rei, reuniremos os aldeões. Restam apenas três dias antes do fim do período de mumificação e este túmulo pode a partir de agora acolher os tesouros que rodearão a múmia de Ramsés.

Esta é a única realidade que conta. Até nova ordem, estão de folga.

  Paneb o Ardente deixava vaguear o olhar pelos pequenos compartimentos que rodeavam a vasta sala do sarcófago. Na altura dos funerais, receberiam mil e um objetos preciosos que favoreceriam a passagem da alma do Faraó para o Além.

  No coração do santuário ainda vazio, Paneb teve a sensação de viver a criação na sua origem, antes mesmo do pensamento divino ter tornado as estrelas visíveis. E não conseguia apartar o olhar do extraordinário sarcófago em calcite ao qual o escultor dera a forma da múmia de Osíris, o corpo de ressurreição por excelência. No interior e no exterior, hieróglifos esculpidos e pintados formavam passagens do Livro das Portas, cujo conhecimento permitiria ao ressuscitado atravessar sem perigo as Paisagens do outro mundo.

  O sarcófago tinha sido colocado sobre um suporte de pedra pintado de amarelo para simbolizar a carne dos deuses tornada indestrutível. Reconhecido "justo de voz", o Rei conheceria o seu último triunfo associando-se à sua imortalidade. Apesar da beleza da obra-prima criada pelos artesãos, Paneb tinha uma estranha sensação.

  - Tenho a impressão que é inerte, como um bloco não trabalhado - confiou a Néfer.

  - Que a pedra seja trazida e apaguem as lâmpadas - ordenou o mestre-de-obras.

  Nakht o Poderoso e Karo o Mal-humorado depositaram uma pedra cúbica no topo do sarcófago, enquanto os outros membros da equipa mergulhavam o túmulo na obscuridade.

  - A luz está oculta na matéria - afirmou Néfer. - Compete-nos libertá-la para vencer o caos. A nossa arte é a de mágicos que conseguem abolir o tempo a fim de recriar o primeiro instante de onde brotaram todas as formas. Compete à obra conservar a memória da luz, não ao indivíduo que a realiza.

  O mestre-de-obras posou as mãos sobre a pedra. Durante vários minutos reinaram as trevas e o silêncio. Depois, uma luz viva brotou das faces da pedra e iluminou a sala de ressurreição, cujas paredes se tingiram de ouro. Os raios concentraram-se sobre o sarcófago para penetrar no coração da calcite, animando cada parcela.

  - O nome secreto deste sarcófago é "o senhor da vida" - revelou o mestre-de-obras. - Tornou-se uma nova Pedra de Luz que manterá para sempre esta morada fora da morte.

  Guiados pela claridade mineral da pedra cúbica, a equipa saiu do túmulo e ele recolheu-se longamente sob a abóbada estrelada antes de, em silêncio, abandonar o Vale dos Reis.

 

      Logo que Néfer e Paneb franquearam a porta da aldeia, um cão negro saltou ao pescoço do mestre-de-obras e depois ao do aprendiz de desenhista. De cabeça alongada e forte, pêlo curto e sedoso, cauda longa e garbosa, olhos cor de avelãs muito vivos, lambeu conscienciosamente o rosto de Paneb e fê-lo assim sair do seu sonho acordado.

  Alimentado e tratado por Clara, que lhe tolerava alguns excessos, Trigueiro impusera-se como o cão fetiche da aldeia e o chefe do clã dos canídeos que respeitavam a sua autoridade.

Até os gatos e os macacos do Lugar de Verdade o viam passar com deferência, sabendo que velava pela integridade dos seus respectivos territórios.

  Paneb apreciava o vigor de Trigueiro, e Trigueiro a força do jovem colosso. acontecia-lhes muitas vezes travar lutas terríveis das quais o cão saía obrigatoriamente vencedor. E o Ardente era o único com o qual Trigueiro se podia divertir durante horas sem que o seu parceiro se cansasse.

  - Vi bem? - perguntou Paneb ao mestre-de-obras.

  - Como posso saber?

  - Foi da pedra cúbica que saiu a luz que penetrou no sarcófago e foi dessa mesma pedra, com certeza, que brotou a mesma luz, capaz de atravessar a porta de madeira do santuário, no nosso edifício da confraria... Ninguém acedia a falar-me nisso, mas eu tinha realmente visto!

- Disse-te o contrário?

  - Mereces bem o teu apelido de Silencioso! Quando voltarei a ver a pedra?

  - Quando a sua presença for necessária.

  - Talhaste-a com as tuas mãos?

  - Não me atribuas poderes que não possuo! Essa pedra é um dos tesouros essenciais da nossa confraria, transmitida de mestre-de-obras para mestre-de-obras no segredo da Morada do Ouro.

  - Portanto, a tua língua está selada e resta-me percorrer o caminho que conduz a essa pedra.

  - Bela prova de lucidez.

  Uabet a Pura correu para o marido. Ela, geralmente tão calma, parecia assustada.

  - Imuni veio a nossa casa para me avisar que o escriba do Túmulo exige ver-te com urgência.

  - Porquê? - perguntou Paneb.

  - Imuni recusou dizer-me, mas segundo ele é muito grave.

  - Com certeza um mal-entendido... Vou resolver isso imediatamente.

  Paneb avançou em passo acelerado até casa de Kenhir. Niut a Vigorosa varria a soleira.

  - Sou esperado, parece.

  - O meu patrão fala muito de ti - admitiu a criada.

  - Bem, tenho a certeza.

  Niut sorriu e afastou-se.

  Sentado num cadeirão baixo, com um papiro desenrolado nos joelhos, Kenhir redigia o relato das expedições do grande faraó Tutmés III na Ásia. Explicava que o exército egípcio tinha travado poucos combates e preocupara-se sobretudo em importar plantas exóticas que os laboratórios dos templos egípcios tinham estudado com minúcia antes de extraírem delas substâncias médicas. Apesar das dores da gota, embora grandemente atenuadas graças ao tratamento prescrito pela Mulher Sábia, o escriba do Túmulo dispunha finalmente de alguns momentos tranqüilos para se consagrar à sua obra literária.

  Desde que o mestre-de-obras lhe prometera a conclusão do túmulo de Ramsés dentro dos prazos impostos, Kenhir passava melhor as noites e enervava-se um pouco menos com as mil e uma preocupações quotidianas.

  - Desejáveis ver-me?

  - Ah, eis-te finalmente! Mas que demônio do deserto perverteu a tua mão, Paneb?

  - De que me acusais?

  Kenhir enrolou o papiro.

  - Foste tu o autor de desenhos escandalosos representando o Rei sob a forma de um rato que atira ao arco? E não falo das caricaturas dos membros da confraria e de mim próprio!

  Paneb não pareceu nada perturbado.

  - Sim, fui eu. Esses desenhos não vos divertiram?

  - Desta vez, meu rapaz, ultrapassaste os limites!

  - Não vejo porquê! Não tenho o direito de me distrair?

  - Daquela maneira, não!

  - Não mostrei esses desenhos a ninguém... Quem vos falou deles?

  - Sobek, o chefe da segurança. Alguém os colocou na sua secretária.

  Paneb refletiu.

  - Tinha-os deixado no atelier dos desenhistas, em cima de um monte de fragmentos de calcário destinados ao refugo.

  - Descansa, não restará qualquer vestígio daqueles horrores!

  Sobretudo, não recomeces.

  - Não posso prometer nada. É a minha maneira de me descontrair e não prejudico ninguém!

  - Essas extravagâncias são intoleráveis! São uma injúria à seriedade da nossa confraria.

  - Se não nos soubermos rir de nós mesmos e dos nossos defeitos, como poderemos ser dignos da obra a realizar? Até mesmo os sábios escreveram contos para troçar das manias dos humanos!

  - Talvez, talvez... Mas não posso apagar as tuas faltas e vou ser obrigado a convocar-te perante o tribunal da aldeia.

  - Julgar-me pelos meus desenhos? Isso não tem pés nem cabeça!

  - Um de nós viu as tuas caricaturas, considera-as irreverentes e decidiu apresentar queixa contra ti.

  - Quem?

  Kenhir pareceu aborrecido.

  - Imuni, o meu assistente.

  - Porque razão dar tanta importância a esse aborto? Devia ter permanecido um medíocre desenhista da equipa da esquerda.

  - Em primeiro lugar, conhece bem a sua profissão; depois, auxilia-me com eficácia. Que seja amável ou não, não tem qualquer importância. Afinal, não tenho que justificar as minhas decisões.

Prepara-te para ter sérios aborrecimentos.

  Paneb pareceu acabrunhado.

  - Finalmente, tomas consciência dos teus erros! Perante o tribunal, procura arrepender-te e suscitar assim a sua indulgência.

  O Ardente saiu da casa de Kenhir de cabeça baixa. Este sentia-se feliz por constatar que o jovem colosso já não reagia como um touro selvagem à mínima oportunidade. Com a maturidade, aprendia finalmente a controlar a sua fabulosa energia.

  Paneb regressou a casa onde a esposa o esperava com impaciência.

  - O que te censuram?

  - Descansa, não é nada de grave.

  - No entanto, Imuni afirmava que...

  - Ele vive na pequena casa do quarteirão oeste, ao lado da do chefe desenhista da equipa da esquerda?

  - Vive, mas...

  -  Prepara-me um bom almoço, morro de fome e vou ausentar-me por pouco tempo.

  Uabet a Pura agarrou-se ao braço do marido.

  - Não faças loucuras, suplico-te!

  - Vou só desfazer um mal-entendido.

  Imuni preparava a ata de acusação contra Paneb quando este forçou a sua porta com um golpe de ombro.

  - Sai imediatamente de minha casa! - ganiu o escriba assistente.

  O Ardente agarrou-o pelos ombros e ergueu-o do chão para ter o seu rosto de roedor exatamente à frente do seu.

60

  - Com que então tencionas apresentar queixa contra mim por causa das minhas caricaturas?

  - É... é o meu dever! - Quem tas mostrou? - Não tenho nada que te responder.

  - Entraste na oficina dos desenhistas da equipa da direita, revistaste-o e descobriste as minhas caricaturas. Não é verdade?

  - Executo o meu trabalho como muito bem entendo.

  - Acuso-te de roubo, Imuni, e serei eu a arrastar-te diante do tribunal da aldeia com a certeza que serás condenado.

  O escriba empalideceu. - Não te atreverias, tu...

  - Esquece os meus desenhos, Imuni. Senão, a tua reputação será destruída e serás expulso da aldeia.

  O escriba não precisou de refletir muito tempo. Paneb podia efetivamente causar-lhe graves aborrecimentos. - Está bem, entendi... O caso está encerrado. O Ardente posou brutalmente o escriba no chão.

  - Se recomeçares - preveniu-o - esborracho-te.

 

      Com exceção de Paneb o Ardente, que ignorava a fadiga e a doença, os outros artesãos vinham sempre consultar a Mulher Sábia e a sua assistente, Clara, quando terminava um período de trabalho intenso como o que se verificara com a conclusão do túmulo de Ramsés o Grande.

  Graças à utilização das substâncias extraídas da casca, dos ramos e das folhas de salgueiro, Clara curava as dores e os cansaços. Por precaução, procedia no entanto a um exame médico tomando o pulso para ouvir as diversas vozes do coração e saber se as energias circulavam corretamente nos diversos canais que percorriam o organismo. Em caso de dúvida, preocupava-se com a qualidade do sangue, cujo principal papel consistia em ligar as forças vitais entre si.

  A Fened o Nariz, que sofria de um princípio de abscesso na curva dos rins, Clara prescreveu uma decocção à base de tremoço que o libertaria daquele incômodo. Mas o estado de saúde de Gau o Exato, de grande corpo um pouco mole e rosto ingrato, desastradamente adornado com um nariz demasiado comprido, preocupava-a. Quando posara as mãos na nuca, ventre e pernas do paciente, Clara tinha detectado uma grave fraqueza do fígado, esse órgão essencial cujas falhas provocavam perturbações perigosas. Preparara portanto um remédio composto por folhas de lótus, figos, pó de madeira de jujubeira, bagas de zimbro, cerveja doce, leite e resina de terebinto; a poção, filtrada depois de ter repousado uma noite inteira e recebido orvalho, dissiparia as queixas de Gau o Exato que, além disso, devia beber muita chicória para melhorar o funcionamento da sua vesícula.

  O tratamento revelara-se eficaz desde o primeiro dia. Os outros artesãos da equipa da direita tinham recuperado também uma excelente condição física e estavam encantados com a esposa do mestre-de-obras, que alguns consideravam uma verdadeira mágica.

  Quando Clara arrumava num cofre de madeira os papiros médicos que tinha consultado durante o dia, a Mulher Sábia estendeu-lhe outro, enrolado e fechado com um selo de lama seca.

  - Não tenho mais nada a ensinar-te - disse-lhe a centenária de admirável cabeleira branca. - Falta-te apenas consultar esse velho texto do tempo das pirâmides para lutares melhor contra os males graves. Lembra-te que uma doença é desencadeada por uma força obscura e destruidora e que os medicamentos sozinhos não bastam para a vencer. É necessário também extirpar essa força nociva e reduzi-la a nada; caso contrário, desloca-se no interior do corpo e corrói-o, muitas vezes sem o paciente se aperceber. É por isso que não te deves limitar aos sintomas; compete-te despistar as perturbaÇões da energia antes que elas provoquem lesões incuráveis. Os antigos diziam: "um elemento nocivo entra pelo olho esquerdo e sai pelo umbigo se o tratamento for eficaz." A cada instante, forças opostas atravessam o corpo humano que não é uma entidade independente mas está ligado tanto à terra como ao céu.

  A Mulher Sábia quebrou o selo e desenrolou o papiro.

  - Anotei os ensinamentos da que me precedeu e acrescentei-lhe as minhas próprias observações depois de ter verificado várias vezes que estavam bem fundamentadas.

Desconfia das teorias e tem apenas uma preocupação: curar, mesmo se, por vezes, não compreenderes como o conseguiste.

  A escrita do papiro era fina e legível.

  - O corpo humano é o lugar de um mistério - continuou a Mulher Sábia. - Nele se trava um combate quotidiano entre forças harmoniosas e as suas contrárias, constantemente prontas a corromper e destruir. Estas últimas são sopros patogênicos que penetram no organismo de mil e uma maneiras para o imobilizar, o tornar inerte e o fazer morrer. A maior parte dos agentes nocivos encontram-se na alimentação; durante a putrefação, nos intestinos, tentam espalhar-se pelos vasos para provocarem inflamações, responsáveis pelo envelhecimento dos órgãos. A primeira chave da saúde é portanto a drenagem, a supressão das obstruções internas e o bom funcionamento do aparelho digestivo. Elaborei uma preparação com dosagens exatas que encontrarás no papiro. A segunda chave consiste em manter em bom estado as condutas e os canais pelos quais passam o sangue, a linfa e as outras formas de energia vital. Alguns são visíveis por baixo da pele; o conjunto forma uma rede que se assemelha à trama de um tecido graças ao qual é transmitida a vitalidade, desde que esses vasos permaneçam flexíveis. Quando endurecem, os fluidos deixam de circular corretamente. Por fim, a terceira chave é o bom funcionamento daquilo a que chamamos de “coração", isto é, o centro energético do ser de onde partem todos os canais.

Deves aguçar permanentemente as tuas percepções para captar essas mensagens.

  Cansada, a Mulher Sábia estendeu-se numa esteira.

  - Levantar-nos-emos antes da madrugada. Boa noite, Clara.

  A Mulher Sábia e Clara subiram a colina na noite moribunda, quando as serpentes regressavam às suas tocas. A centenária tinha abandonado a bengala no início da ascensão e avançava em passo regular.

  O nascer do dia era acompanhado por um vento leve e, pouco a pouco, os Templos dos Milhões de Anos saíam das trevas. Em breve, o azul do Nilo e o verde das culturas cintilariam sob os raios do Sol ressuscitado. No instante em que o cume se iluminou, a Mulher Sábia elevou as mãos para ele, num gesto de oração.

  - Deusa do silêncio, tu que me guiaste durante toda a minha vida, guia a minha discípula que sobe até ti. Que ela repouse na tua mão, tanto de noite como de dia, vem a ela quando ela te invocar, sê generosa e mostra-lhe a grandeza da tua força.

  No cume, escavado na pirâmide, um pequeno santuário.

  - Faz a oferenda - ordenou a Mulher Sábia.

  Clara depositou no solo o lótus colocado nos seus cabelos, o colar e as pulseiras.

  - Prepara-te para o combate supremo. A deusa que conhece os segredos propicia a vida ou a morte.

  De repente, saiu da gruta uma cobra real fêmea de olhos de fogo cujo tamanho espantou a jovem. A cólera inchava-lhe o pescoço, prova de que se preparava para atacar.

  - Dança, Clara, dança como a deusa!

  Morta de medo, a esposa de Néfer o Silencioso conseguiu no entanto seguir os movimentos do aterrador réptil. Inclinou-se da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda e da frente para trás, ao mesmo ritmo que a cobra, que pareceu desapontada.

  - Quando ela atacar, curva-te bem para mim, sem deixar de a fitar.

  Clara ultrapassava o limite do terror. Fascinada pela beleza da deusa, começava a detectar as suas intenções. E quando esta se lançou bruscamente em direção à sua garganta, a sacerdotisa de Hathor seguiu as instruções da Mulher Sábia.

  Tinha evitado a mordedura, mas o vestido ficara manchado com o veneno cuspido pela cobra, cujo furor era decuplicado pelo insucesso.

  - Mais dois ataques - preveniu a iniciadora.

  O réptil não parava de ondular e Clara imitava-o. E por duas vezes tentou em vão cravar os dentes na carne dela.

  - Agora, exerce o teu domínio! Beija-a na cabeça.

  Como se estivesse fatigada, a cobra movia-se com menos vivacidade. E, de forma quase imperceptível, recuou quando Clara avançou para ela.

  Embora invadida por uma onda de angústia, a jovem cravou profundamente os olhos nos do réptil e posou-lhe os lábios no cimo do crânio.

  Surpreendido, este não se afastou.

  - Receamos a tua severidade - disse a Mulher Sábia - mas esperamos a tua doçura. A que te venera é digna da tua confiança.

  Abre-lhe o espírito e permite-lhe curar os seres que tratará em teu nome.

  A serpente já quase não ondulava.

  - Recolhe a força da deusa, Clara. Que ela penetre no teu coração.

  Uma segunda vez, a esposa de Néfer beijou o monstro que parecia quase dócil.

  - Que a vossa comunhão seja selada por um terceiro e último beijo.

  Uma derradeira vez, a mulher e a cobra ficaram em estreito contato.

  - Afasta-te depressa! - ordenou a Mulher Sábia.

  Se não tivesse estado atenta, Clara teria sido surpreendida pelo brusco ataque do réptil. Mas soube esquivar-se para não receber mais do que um último jato de veneno.

  - O fogo secreto foi-te transmitido - afirmou a Mulher Sábia.

  Lentamente, a cobra fêmea reentrou no seu santuário.

  - Tira o vestido e purifica-te com o orvalho das pedras do cume.

  A Mulher Sábia estendeu a Clara um vestido branco que lhe teria servido de mortalha se não tivesse saído vitoriosa da prova.

  - Vou partir e tu sucedes-me. Não, não protestes! O meu tempo de vida foi longo, muito longo, e é bom que termine.

Lembra-te que as plantas nasceram das lágrimas e do sangue dos deuses e que assim adquiriram o poder de curar. Tudo está vivo, mas existem almas errantes e demônios destruidores que nunca deixarão que a paz se instale nesta terra. Graças à tua ciência, não deixarás de lutar contra eles. Deus cria tanto o que está no alto como o que está em baixo e virá a ti num sopro luminoso. Não tens que crer nele , mas sim que o conhecer e experimentar.

  - Porque recusas viver mais tempo?

  - Termina o meu centésimo décimo ano. Mesmo que o meu espírito esteja intacto, o meu corpo está gasto. Tem os canais endurecidos, a energia já não circula e nem o melhor remédio lhes devolverá a juventude. A tua formação está terminada e velarás com amor pela aldeia. Antes de partir, devo legar-te o meu último segredo. O corpo envelhece e degrada-se de maneira inevitável, mas o pensamento pode permanecer vivo e forte desde que saibamos regenerá-lo. Passa a mão pela pedra do cume e recolherás o orvalho que fez nascer as estrelas. É com ele que a deusa do céu lava o rosto do Sol mesmo antes do seu nascimento, é ele que o Faraó bebe todas as manhãs, no segredo do templo, quando faz oferenda a Maet. Quando o cansaço se apoderar da tua alma, sobe à colina, venera a deusa do silêncio e bebe o orvalho da pedra ?,sim, nunca o teu pensamento envelhecerá.

  - Ainda tenho tantas perguntas a fazer-vos!

  - Para ti, Clara, chegou a hora de dar respostas. Todos os dias virão interrogar-te e exigirão que alivies os sofrimentos. Torna-te a mãe da confraria e todos os aldeões são teus filhos.

  A jovem sentiu vontade de protestar e recusar a enorme carga que pesava sobre os seus ombros, mas a deslumbrante claridade da manhã ofuscou-a.

  A Mulher Sábia levantou-se.

  - Desçamos - exigiu. - Precede-me.

  Clara iniciou a descida pelo estreito carreiro, hesitando sobre o passo a adotar. Deveria avançar ao seu próprio ritmo ou caminhar lentamente para não obrigar a centenária a apressar-se?

  Indecisa, voltou-se depois da primeira passagem sinuosa.

  A Mulher Sábia tinha desaparecido.

  Clara subiu de novo até ao cimo, procurou a que tudo lhe dera, mas não a encontrou. A Mulher Sábia evaporara-se, desaparecendo sem dúvida numa caverna onde soltaria o último suspiro, no silêncio do cume.

  Clara recolheu-se, pensando nas horas maravilhosas passadas em companhia do ser que lhe abrira tantos caminhos que ela deveria prolongar, mas sozinha. E desceu passo-a-passo para a aldeia, saboreando aqueles últimos momentos de serenidade antes de se tornar a Mulher Sábia do Lugar de Verdade.

                              

      O artesão tomara o barco para se dirigir à margem este e, como de costume, não falara com ninguém, contentando-se com vagos cumprimentos. Àquela hora matinal, os camponeses dormitavam, sentados nas caixas que continham os legumes frescos destinados ao grande mercado organizado na margem.

Perdido numa multidão risonha e encantada com a idéia de se entregar aos prazeres subtis de regatear e fazer permutas, o homem da equipa da direita dirigiu-se ao armazém de Tran-Bel.

  É verdade que traía a sua confraria e o seu juramento, mas não teria inúmeras desculpas? Em primeiro lugar, ele é que devia ter sido designado como chefe de equipa em vez de Néfer o Silencioso; depois, merecia também fazer fortuna; por fim, apanhado na armadilha, não tinha outra solução senão colaborar. À medida que ia realizando os contatos com os que lhe pagavam as preciosas informações que destilava, os seus escrúpulos evaporavam-se. O Lugar de Verdade ensinara-lhe muita coisa, sem dúvida, transformando um operário medíocre num artesão de elite, mas preferia esquecer isso e pensar apenas no seu futuro, tomando as precauções indispensáveis para não se deixar apanhar. Suficientemente hábil e astuto para o conseguir, já não duvidava do seu êxito.

  Com os cabelos negros colados ao crânio redondo, enfiado num saiote demasiado comprido e numa camisa excessivamente larga, Tran-Bel recebeu o artesão no seu gabinete, ao fundo do armazém.

  - Tenho excelentes notícias - disse. - Os nossos móveis de luxo vendem-se muito bem e estou prestes a conseguir-te um belo pecúlio! Sobretudo, pensa em novos projetos.

  - Eu tratarei disso.

  De repente, o olhar do pequeno escroque imobilizou-se.

  - Ah... Eis a pessoa com quem te deves encontrar. Cedo-lhe o lugar... Quando acabarem, vai ter comigo ao atelier.

  Com a pesada peruca negra ocultando a testa e uma maquilagem extremamente cuidada, Serketa estava irreconhecível. Olhou o artesão com um sorriso vitorioso.

  - Novidades?

  - O túmulo de Ramsés o Grande está pronto para os funerais.

Tínhamos subestimado Néfer, soube dirigir a equipa de forma surpreendente e conquistou a estima de todos. Se continuar assim, tornar-se-á um grande mestre-de-obras.

  - Não tão grande como tu terias sido...

  - É verdade, mas saberá adquirir a experiência que ainda Lhe falta. Conduzindo a bom termo este estaleiro, permite ao Lugar de Verdade manter os seus compromissos e justificar a sua utilidade face ao novo Faraó.

  - Não conseguiste atrasar os trabalhos!

  - Era impossível. Toda a equipa estava no túmulo, cada um tinha uma tarefa determinada a realizar e Néfer encontrava-se sempre presente e atento.

  - Esperemos que Merenptah não lhe seja favorável... E que mais?

  O artesão hesitou. Não devia revelar todos os segredos da confraria sem uma séria contrapartida.

  Como uma víbora prestes a atacar, Serketa sentiu que o seu interlocutor se preparava para lhe ocultar o essencial.

  - Não te faças esperto comigo, caro aliado, e não esqueças que tenho a tua sorte entre as minhas mãos. O que descobriste?

  - O que me ofereces em troca?

  - Se colaborares de forma eficaz, tornar-te-ás um homem poderoso, com uma casa, campos e uma manada de vacas leiteiras. Terás criados para te tornarem fácil a existência e beberás todos os dias excelente vinho.

  - Simples promessas...

  Serketa mostrou ao artesão um pequeno papiro. - Este título de propriedade em teu nome é apenas uma promessa?

  O homem tentou apoderar-se dele, mas a mulher esquivou-se.

  - Calminha... Antes de te tornares proprietário do teu pequeno paraíso, ainda vais ter que trabalhar. Estou a ouvir-te.

  O traidor não hesitou mais.

  - Néfer é capaz de manejar a Pedra de Luz.

  - De que se trata? - interrogou Serketa com os olhos brilhantes.

  - Tudo o que sei é que ela provém da Morada do Ouro e que pode ao mesmo tempo espalhar uma luz intensa e tornar vivo tudo aquilo que toca. Mas apenas o mestre-de-obras, que recebeu uma iniciação especial, está apto a utilizá-la.

  Aquelas revelações excitaram Serketa. Assim, Mehi não se enganara: o Lugar de Verdade possuía realmente prodigiosos tesouros.

  - Onde está escondida essa pedra?

  - Não sei.

  - Trata de descobrir!

  - Será muito difícil, certamente impossível.

  - Então, esquece o teu paraíso!

  - Deves compreender que formamos uma comunidade e respeitamos uma regra de vida. Se eu a transgredir, serei excluído da aldeia e não disporás mais da mínima informação.

  Apesar da sua irritação, Serketa teve de admitir que o artesão tinha razão.

  - Também eu - continuou ele - gostaria de conhecer esse segredo. Apenas a paciência e uma extrema prudência me permitiu descobri-lo e fazer-te beneficiar dele.

   Quando Clara franqueara a cerca da aldeia, um grande íbis com plumagem de uma brancura deslumbrante desenhara vários círculos sobre ela.

  Uma garotinha alertara imediatamente os aldeões e Kenhir, esquecendo as dores da gota, comparecera como pudera perante a esposa do mestre-de-obras.

  - A Mulher Sábia desapareceu na montanha, não é verdade?

  - Achava que o seu tempo de vida se esgotara.

  - Agiu de acordo com a tradição... Segundo os arquivos, a que ia preceder tinha igualmente escolhido deixar-se absorver pela colina. E tu, Clara, és a nova mãe da aldeia. Que possas protegê-la e curá-la de todos os males que a venham a afetar.

  A miúda que fora a primeira a ver o íbis segurava nos braços um pequeno gato preto e branco.

  - Está doente - disse a Clara. - Podes curá-lo?

  Clara posou a mão sobre a cabeça do felino que parecia moribundo. Invadido por um suave calor, ronronou cada vez com mais força e depois, enervado, deitou as garras de fora. A garotinha largou-o.

  - Anda cá, mauzão! - gritou, correndo atrás dele.

  - A que partiu transmitiu-te os seus poderes - observou Kenhir. - Que sorte para nós! Desejas ocupar a casa dela?

  - Não - respondeu Clara. - Que ela seja oferecida à mais jovem mãe da aldeia. Instalarei em minha casa o meu laboratório e sala de consultas.

  - Nesse caso, poderás ocupar a casa do lado. Esta disposição está prevista no orçamento e terás necessidade de espaço. A função da Mulher Sábia é suficientemente importante para que a sua titular a exerça nas melhores condições. A propósito... A minha gota ainda me faz sofrer. Poderei consultar-te amanhã de manhã, à primeira hora?

  - A vossa tez parece-me bem. Até amanhã de manhã.

  Sob os olhares admirativos e um pouco assustados dos aldeões, Clara regressou a casa. Todos sabiam já que a nova Mulher Sábia tinha entrado em funções.

  Na porta, Néfer esperava-a.

  Tomou-a ternamente nos braços e ela posou a cabeça no seu ombro.

  - Ela usou as últimas forças para me transmitir a sua ciência e depois deixou-nos...

  - Não, Clara; ela permanecerá para sempre presente na colina que domina o Lugar de Verdade. E tu farás viver o seu pensamento e a sua luz.

  - E se eu não fosse capaz?

  - Ela escolheu-te, e tu já não tens outra opção.

  Abraçados, recordavam a sua chegada à aldeia, dez anos antes, com a angústia de serem rejeitados por ela. Como tinha sido breve o tempo quase descuidado da aprendizagem, como era repousante saber que outros detinham as mais altas responsabilidades e que bastava seguir as suas diretivas para avançar! Mas hoje Néfer era mestre-de-obras e chefe de equipa e Clara Mulher Sábia... Os seus gostos e preferências já não contavam, apenas interessavam o bem-estar da confraria e a harmonia da obra. E sabiam que, para preservar o seu poder de cura, Clara não teria filhos. Fosse qual fosse a sua idade, os habitantes da aldeia tornavam-se seus filhos e filhas que amaria. Aquele sacrifício era imenso e apenas o seu amor lhes permitiria assumi-lo.

  Na porta principal da aldeia havia uma agitação fora do habitual. As pessoas amontoavam-se, empurravam-se e gritavam.

  Receando um novo golpe de força, Néfer aproximou-se. Ao ver o mestre-de-obras, os aldeões afastaram-se para o deixar chegar junto do carteiro, Uputi, que quase morrera sufocado.

  Néfer levantou-o. O infeliz tinha dificuldade em recuperar o fôlego.

  - Tenho... tenho notícias... Uma carta com o selo do Faraó.

  O mestre-de-obras quebrou-o e leu um curto texto vindo do palácio de Pi-Ramsés. A aldeia inteira agrupara-se em seu redor.

  - A barca real e a sua escolta deixaram a capital há vários dias - anunciou. - O Faraó Merenptah vem a Tebas para dirigir os funerais de Ramsés o Grande e honrará com a sua presença o Lugar de Verdade.

                                

      A aldeia nunca tinha conhecido semelhante efervescência. Homens e mulheres manejavam vassouras, escovas e panos para realizar uma limpeza intensiva e tornar o Lugar de Verdade tão bonito quanto possível. Os auxiliares esforçavam-se igualmente e o escriba do Túmulo recorrera mesmo às empregadas domésticas, cujas tarifas eram elevadas mas que se encarregariam de múltiplas tarefas, como a preparação de pratos cozinhados, enquanto as sacerdotisas de Hathor se embelezariam para acolher o Faraó.

  O guarda da porta já não sabia para onde se voltar, perdido no meio de uma verdadeira colméia cuja desordem era no entanto apenas aparente. Turquesa tinha sido encarregada de coordenar aquela vasta operação e não autorizava sessões de conversa.

  Dois artesãos da equipa da esquerda tinham-se queixado de dores no cotovelo que os impediam de manejar uma vassoura, mas o bálsamo aplicado por Clara dissipara rapidamente o mal-estar para lhes permitir participar no trabalho comunitário. Até mesmo Ched o Salvador, embora com pouco entusiasmo, se vergara à disciplina.

  Quando Turquesa se apresentou à porta da casa de Paneb, constatou que a soleira estava imaculada. Devido à sua gravidez, Uabet a Pura fora dispensada de esforços intensos, mas realizara no entanto a fumigação de todos os compartimentos da sua casa, onde não subsistia nem um grão de poeira.

  - Onde está o teu marido?

  - Como podes constatar, desempenhou a sua parte de trabalho e foi nadar no Nilo.

  - É extremamente perigoso nesta época!

  Uabet estava preocupada.

  - Tentei demovê-lo... Mas quem é capaz de conter o entusiasmo de Paneb?

  - O Faraó estará aqui à tarde... É preciso pensar em prepararmo-nos e envergarmos os nossos trajes de festa! Que escândalo, se Paneb não estivesse de volta a tempo!

  - Avisei-o, mas nem sequer me ouviu.

  - Queres que previna o mestre-de-obras?

  - Creio que é indispensável.

 

   Começava a cheia.

  Uma cheia que os especialistas, depois de terem estudado os dados fornecidos pelos nilômetros, anunciavam excelente, mesmo excepcional. Não podia existir melhor presságio para o novo Faraó, o esposo do Egito e o garante da fecundidade das terras cultiváveis.

  O rio estava a ficar vermelho e, durante alguns dias, a sua água deixaria de ser potável. O curso de água era animado por correntes violentas e formavam-se turbilhões junto das ilhotas.

  Era o período preferido por Paneb para se atirar às águas tumultuosas, nadar até à margem este e voltar. O que havia de mais divertido do que as armadilhas proporcionadas pelo rio furioso?

  O Ardente não receava os caprichos do rio porque os pressentia, deslizava no sentido da corrente e sabia iludir as suas ciladas. Mas o exercício não era recomendável a um noviço que não teria qualquer hipótese de sobreviver.

  Quando atingiu a margem, apenas com o fôlego ligeiramente alterado, Paneb foi apostrofado por três jovens de cerca de vinte anos cujo olhar nada tinha de amistoso.

  - Achas-te muito forte - disse um latagão de cabelos ruivos.

  - Não vos pedi nada, rapazes. Portanto, ignorem-me.

  - Nado melhor do que tu... Aceitas o desafio?

  - Não tenho tempo.

  - Tem piada... Tinha apostado com os meus companheiros que não passavas de um cobarde.

  - Em que consiste o teu desafio?

  - Na ida e volta o mais depressa possível. Se perderes, deves-nos três sacos de cevada; se ganhares, deixamos-te ir embora sem te infligirmos um bom corretivo.

  - Parece-me justo - considerou Paneb. - Vamos, tenho pressa.

  Surpreendido pelo magnífico mergulho do desenhista aprendiz, o rufia lançou-se ao rio por sua vez, decidido a recuperar o atraso. Dezenas de vezes tinha conseguido dominar as correntes e sentia-se seguro da sua técnica. Inevitavelmente fatigado, o seu adversário não conseguiria vencer a distância.

  O ruivo em breve se desiludiu. Paneb nadava crawl a um ritmo louco que não esmorecia um segundo e obrigava o seu seguidor a correr riscos excessivos. Mas se o ruivo abrandasse, perderia qualquer esperança de ganhar a corrida.

  À custa de um esforço que quase lhe rasgava os pulmões, conseguiu manter-se em contato com o adversário. Quando Paneb atingiu a margem este, o ruivo esperou que ele descansasse alguns instantes, mas o colosso deu uma cambalhota na água e tornou a partir imediatamente para a outra margem.

  Renunciar era perder a face... Apesar da fadiga e dos músculos tensos, o ruivo retomou a corrida na esperança que o seu adversário fosse apanhado pelas ciladas do rio. Com gestos descontrolados e respiração acelerada, o rapaz cedia cada vez mais espaço.

  Detetou-o apenas pelo canto do olho, mas entrou imediatamente em pânico: um crocodilo avançava para ele.

  O crocodilo arrepiou caminho, mas não conseguiu evitar um turbilhão que o engoliu em segundos. O sáurio mergulhou nas profundezas, encantado com aquela presa fácil.

  Descontraído, Paneb pôs-se em pé na margem e voltou-se.

  - Para onde foi o vosso amigo? - perguntou aos dois rapazes cujo olhar se tornara furioso.

  - Acaba de se afogar - respondeu o mais velho.

  - Coitado... Não tinha noção dos seus limites.

  - Foi por tua causa que ele morreu!

  - Não digas disparates e vai antes prevenir a família.

  - É tudo culpa tua!

  O Ardente tentou manter a calma.

  - Dizem que o Nilo conduz diretamente os afogados ao reino de Osíris... Portanto, alegra-te pelo teu camarada e deixa-me em paz.

  Os dois rapazes agarraram cada um numa grande pedra e ameaçaram Paneb.

  - Vamos quebrar-te os ossos e atirar-te ao rio... Veremos se continuas a nadar tão depressa!

  - Se me atacarem, vou ser obrigado a defender-me e arriscam-se a sofrer um revés.

  - Julgas-te o mais forte!

  - Saiam do meu caminho.

  O mais novo atirou a sua pedra com tal rapidez que Paneb quase era surpreendido. Um reflexo salutar fê-lo desviar a cabeça no último instante, mas o projétil roçou-lhe a têmpora.

  Brotou sangue.

  - É o último aviso, desgraçados: afastem-se imediatamente!

  O outro tentou, por sua vez, atirar a sua pedra, mas o gesto foi demasiado lento. Paneb atingiu-o com um violento soco na face.

  Sem sentidos, o rapaz caiu no chão.

  O amigo atirou-se a Paneb que lhe bateu no peito com o cotovelo antes de o gratificar com um gancho de direita definitivo. Com o nariz partido, o vencido caiu de joelhos e desmaiou.

  - O mundo está povoado de imbecis - lamentou Paneb.

  Pelo caminho de terra, no topo do dique, aproximavam-se dois homens.

  “Se forem amigos destes, pensou o Ardente, as tréguas vão ser de curta duração.”

  Eram Nakht o Poderoso e Karo o Mal-humorado que acorriam com um ar furioso. Paneb já se batera com o primeiro e discutira com o segundo.

  - Vimos mandados pelo mestre-de-obras - disse Nakht. - Temos ordem de te levar de volta para a aldeia.

  - Ia já voltar... Porque vos foram incomodar?

  - O Faraó visita-nos esta tarde e as equipas devem estar completas.

  Karo viu os dois rapazes estendidos no chão, como fantoches caídos.

  - O que se passou aqui?

  - Esses dois cretinos agrediram-me porque o amigo deles se afogou. Fui obrigado a defender-me.

  - Arriscas-te a ter grandes aborrecimentos.

  - Não me podia deixar espancar!

  - Quando acordarem, vão apresentar queixa contra ti.

  - Não prestareis declarações a meu favor?

  - Não estávamos presentes quando a discussão teve lugar - objetou Nakht.

  - Temos de regressar à aldeia - lembrou Karo. - Quanto ao resto, veremos depois.

  Ser vítima de uma injustiça revoltava o Ardente. Felizmente, tinha ainda uma hipótese de escapar.

  Colocou um dos rapazes sobre o ombro direito e o outro no esquerdo. O duplo fardo pesava bastante, mas o jovem colosso aguentá-lo-ia até ao fim do caminho.

  - Vamos - disse para os dois artesãos. - Se bem compreendi, não temos tempo a perder.

 

      Paneb depositou os dois rapazes em frente dos guardas do primeiro fortim. Um gemia e o outro continuava desmaiado.

  - Descansem que não são candidatos. Vigiem-nos que eu volto.

  O Lugar de Verdade estava de uma limpeza perfeita, engalanado e florido. As casas brancas brilhavam em todo o seu esplendor e os aldeões tinham envergado trajes de festa com cores luminosas.

  Sem responder aos garotos que queriam brincar com ele, Paneb correu até casa do mestre-de-obras onde foi acolhido por Trigueiro. Cuidadosamente escovado, o cão negro brilhava.

  - Clara, preciso de ajuda!

  Néfer apareceu.

  - Estamos a vestir-nos... O Faraó já não demora.

  - Eu sei, mas trata-se de uma urgência. Se a Mulher Sábia não intervier, arrisco-me a ter graves aborrecimentos.

  - A tua urgência não pode esperar para amanhã?

  - Não pode mesmo... E seria bom se Clara viesse com material que eu transportarei, evidentemente.

  - Os dois rapazes que é preciso tratar estão bastante amolgados.

   O primeiro tinha uma ferida profunda a nível da sobrancelha. Clara sondou-a e verificou que o osso não fora gravemente atingido. Mantendo unidos os bordos da ferida, coseu com fio, colocou duas tiras adesivas e aplicou um penso embebido em mel e gordura. Para evitar conseqüências, prescreveu um bálsamo composto por leite de vaca e farinha de cevada, a aplicar várias vezes ao dia até completa recuperação.

  O segundo tinha fatura do nariz e perdera muito sangue. Com panos macios, a Mulher Sábia limpou-o, depois meteu-lhe um tampão de linho embebido em mel em cada narina e colocou duas talas cobertas de linho para apertar o nariz. Prescreveu um regime alimentar para apressar a cicatrização.

  Satisfeitos por terem sido bem tratados, os dois rapazes afastaram-se sem levantar mais problemas. Certos de recuperarem a saúde, não tinham o mínimo desejo de reencontrar no seu caminho o jovem colosso de punhos duros como pedra.

  - Obrigado, Clara. Sem ti...

  - Uma mãe tem por vezes filhos difíceis, Paneb, e tu sabes fazer com que ninguém te esqueça.

  - Apesar dos meus avisos, comportaram-se como dois imbecis.

Não sou responsável pela estupidez dos outros!

  - Vamos arranjar-nos. Não queres certamente perder a chegada do Faraó, pois não?

   Tebas das cem portas estava em efervescência. A flotilha real não tardaria a acostar no desembarcadouro principal e todos os notáveis assistiriam ao acontecimento. A população amontoara-se nas margens a fim de aclamar o par real em honra do qual seria organizada uma grande festa. Beberiam cerveja forte e consumiriam iguarias oferecidas pelo palácio. À tristeza de terem perdido um monarca da estatura de Ramsés o Grande sucedia a alegria de serem governados por Merenptah, cuja presença em Tebas era garante da continuidade do poder e da manutenção das tradições.

  Depois de ter sido recebido pelo sumo sacerdote de Amon, o par real receberia a homenagem do governador da capital do Sul e atravessaria o Nilo para atingir a margem oeste onde seria acoLhido pelas autoridades locais antes de se dirigir ao Lugar de Verdade e ao Vale dos Reis para aí presidir aos funerais de Ramsés. Esse belo programa não agradava ao comandante Mehi, que tinha vontade de roer as unhas.

  - Merenptah é mesmo o conservador que receávamos - disse à esposa Serketa, que hesitava entre diversos colares.

  - É para ti uma surpresa, meu doce querido?

  - Apesar de tudo, esperava melhor... O Rei teria podido fazer-se representar pelo sumo sacerdote de Amon, mas vem em pessoa, e até com a Rainha e toda a corte! E ainda se se contentasse em encontrar alguns velhos dignitários... Além disso, vai visitar essa maldita aldeia e reforçar os privilégios dos artesãos!

  - Não te desesperes e muda de camisa plissada. A que tens não é suficientemente luxuosa.

  - Encaras a situação com leviandade, Serketa!

  - De que serve lamentarmo-nos? Todos sabem que nenhum faraó igualará Ramsés. Teremos portanto perante nós um adversário muito menos poderoso, talvez manipulável.

  - Terás algum projeto?

  Serketa ronronou.

  - Muda primeiro de camisa. Quero que apareças como um dignitário elegante e rico que os homens admiram e por quem as mulheres se aPaixonam. Mas se alguma delas se aproximar de ti, furo-lhe os olhos!

  O comandante Mehi apertou os pulsos da esposa até a magoar.

  - Não é impossível...

  - Explica-te.

  - Explica-te e depressa!

  - Graças ao nosso informador, sabemos que Néfer se tornou o mestre-de-obras incontestado da confraria. Porque não arruinar a sua reputação? Se o Rei recebesse certos documentos que lhe provassem que o chefe dos artesãos é indigno da sua função, o Lugar de Verdade ver-se-ia desacreditado por ser incapaz de escolher um bom chefe. Merenptah poderia então pensar em desmantelá-lo ou em confiar a sua direção a mãos exteriores.

  - Por exemplo ao nosso amigo Abri, o administrador da margem oeste!

  Serketa estava radiante.

  - Não terá chegado o momento de utilizar plenamente os seus serviços?

  - Mas já não temos tempo para preparar uma pasta convincente...

  - Está pronta, meu doce querido. Imitei várias letras e redigi documentos de aparência oficial acusando Néfer de incompetência, de insubmissão às autoridades civis, de excessivo desejo de independência e, sobretudo, de prática tirânica do poder... Haverá um ou dois artesãos para montarem este cavalo e provocarem a destituição do mestre-de-obras. Em seguida, verificar-se-á um período de caos do qual tiraremos proveito.

  - Esse programa convém-me muito melhor.

  - Não estás satisfeito comigo, meu amorzinho?

  “É mais temível do que um escorpião, pensou Mehi, e tenho razão em fazer dela minha aliada.”

   Com as faces flácidas, os cabelos empapados em suor e o olhar vago, Abri escutara o comandante e tesoureiro-principal de Tebas com uma atenção inquieta.

  - É um plano tão contingente como arriscado, meu caro Mehi... Não creio que...

  - Nem contingência nem risco! Vais entregar esta pasta ao Rei quando ele posar o pé na margem oeste. Vindo de ti, este documento só pode ser sério. Merenptah terá tempo de o consultar antes de chegar ao Lugar de Verdade e ficará convencido da indignidade de Néfer. Nomear-te-á superior da confraria, tendo por missão pôr ordem nela. Não deixarás de lembrar que já tinhas alertado Ramsés a propósito dos privilégios insuportáveis de que gozam esses artesãos.

  - Obrigais-me assim a avançar na primeira linha.

  - Para o teu maior benefício, Abri! O Rei ficar-te-á grato pela tua lucidez.

  - Teria preferido permanecer na sombra e não intervir de forma tão direta.

  - Se esta pasta chegar ao Faraó de maneira anônima, e se Merenptah conservar a moral antiquada dos sábios que consiste em não prestar atenção a boatos, os nossos esforços terão sido vãos. É necessário portanto um gesto oficial que apenas tu podes levar a cabo.

  - De qualquer maneira, é muito delicado...

  - Não tens rigorosamente nada a perder e tudo a ganhar. Um pouco de coragem, Abri, e o Lugar de Verdade ficará a nossos pés!

  - Não conheço o Faraó Merenptah... Talvez se recuse a ouvir- me.

  - Recusar ouvir o administrador-principal da margem oeste, o mais alto dignitário da região? Divagas! Pelo contrário, felicitar-te-á por esta intervenção indispensável.

  - Seria mais prudente observar o comportamento do novo monarca e só agir depois de uma longa reflexão...

  - Vais entregar esta pasta a Merenptah, Abri, porque eu assim decidi. Prepara-te para a recepção oficial e não dês nenhum passo em falso. Até breve, fiel aliado.

  Abri desejava ser um alto funcionário modelar e tranqüilo.

Ao encontrar Mehi, julgara que o destino lhe permitia sair de uma rotina à qual não era capaz de se arrancar sozinho; e compreendera demasiado tarde que se tornava prisioneiro de um temível predador, capaz do pior.

  O comandante Mehi sempre metera medo a Abri. À sua frente Ficava atarantado e não via outra saída a não ser a obediência absoluta. Mesmo depois de partir, a sua sombra Pairava ainda.

Abri apressou-se portanto a consultar os documentos que o comandante lhe entregara.

  A calúnia estava destilada neles com uma habilidade consumada. Viciosas e venenosas, as acusações fariam soçobrar Néfer.

  Teria Abri, administrador-principal da margem oeste e portanto protetor teórico do Lugar de Verdade, o direito de arruinar assim a carreira de um mestre-de-obras? Aquela onda de escrúpulos dominou-o apenas um breve instante. Se não cumprisse a sua missão, Mehi reagiria com violência.

  Era a sua própria carreira que Abri devia salvar. Entregaria portanto a pasta ao Rei Merenptah.

 

      O cortejo real franqueou os "cinco muros" sob o olhar atento dos guardas encarregados da segurança da aldeia. É um fato que o Faraó era protegido pela sua guarda pessoal, mas o chefe Sobek tinha no entanto exigido dos seus homens a maior vigilância.

  Nem um auxiliar faltava na sua área de trabalho. Na primeira fila, o ferreiro e o oleiro tiveram a sorte de ver suficientemente de perto o novo monarca que tinha o pesado encargo de suceder a Ramsés o Grande.

  Merenptah tinha um rosto oval, uma testa ampla, grandes orelhas, um nariz longo, fino e direito, lábios espessos e usava uma peruca redonda adornada com o uraeus, a cobra de ouro encarregada de destruir os inimigos do monarca. Envergava um saiote plissado preso por um cinto cuja fivela tinha a forma de uma cabeça de pantera. Nos pulsos, pulseiras de ouro.

  Ao lado do Rei, com sessenta e cinco anos, a rainha Iset a Bela, que tinha o mesmo nome que a mãe do soberano, a segunda esposa de Ramsés o Grande. Dera dois filhos ao Faraó, um dos quais usava o nome temível de Seti, "o homem do deus Set", que um único faraó, o imenso Seti I, Pai de Ramsés, ousara adotar.

  Muito elegante no seu vestido de linho de excepcional leveza, a Rainha apresentava uns sessenta e tal anos bem conservados e segurava na mão direita uma cruz egípcia, símbolo da vida. O par real era acompanhado pelo vizir e por numerosos representantes da hierarquia civil e religiosa.

  Colocado diante da porta principal da aldeia, o guarda, barbeado e perfumado, não sabia como segurar na lança e na moca.

  O vizir deu ao Rei um estranho avental de ouro que continha o segredo das medidas e das proporções, permitindo traçar o plano de um templo. E a superiora das sacerdotisas de Luxor prendeu na extremidade do grande colar de ouro da Rainha uma figurinha da deusa Maet.

  - Guarda - declarou o Rei - tens perante ti o senhor do Lugar de Verdade e a representante terrestre da lei da harmonia. Que a porta dessa aldeia lhes seja aberta.

  Encantado por receber uma ordem exata, o guarda obedeceu e voltou a fechar imediatamente, deixando no exterior o cortejo oficial.

  Segurando um pesado cajado com a extremidade em forma de cabeça de carneiro coroado por um sol, Néfer o Silencioso destacou-se da massa dos aldeões, reunidos para receber o par real. Aquele símbolo evidenciava a presença de Amon, o deus oculto, no seio da pequena comunidade. Era para ele que se erguiam as preces e era a ele em primeiro lugar que deviam ser dirigidas as súplicas.

  A angústia apertava os corações. E o rosto austero, quase hostil de Merenptah ainda a fez aumentar mais.

  Ultrapassando a assistência bem uma cabeça, Paneb pensou que o novo Rei não devia ser uma personagem fácil de convencer.

  Com uma peruca de tranças dispostas em raios a partir do topo do crânio e segura por uma larga tira, o mestre-de-obras vestira um saiote de cerimônia e usava uma écharpe vermelha como cinturão. O chefe da equipa da esquerda e o escriba do Túmulo tinham-lhe dado a incumbência de preparar um discurso.

  - Majestade, a Morada de Eternidade de Ramsés o Grande está pronta para receber o seu corpo de luz e coloco o Lugar de Verdade nas vossas mãos.

  O discurso estava terminado. Apesar da gravidade do momento, Paneb não pôde impedir-se de sorrir. «Merece realmente o nome de Silencioso, considerou, mas está certamente errado; um Rei deve esperar mais lisonjas.”

  - Deus criou o céu, a terra, o sopro da vida, o fogo, as divindades, os animais e os homens que são apenas um dos elementos da criação e não o seu coroamento - disse o Faraó. - É o escultor que se modelou a si mesmo, o modelador que nunca foi modelado, o único que percorre a eternidade. O ouro mais puro não pode ser comparado ao seu fulgor. Tudo o que é medido é o seu cadastro e o côvado real mede as pedras dos seus templos. É Deus que coloca o cordão no solo e implanta com exatidão os edifícios.   Nenhuma das paredes erguidas nesta terra deve ser privada da Sua presença, porque só Ele exprime a verdadeira força. Criando os mundos, o arquiteto divino tornou-se perceptível e transmitiu o segredo da sua obra; aqui, no Lugar de Verdade, é ensinado que apenas se realiza o que Deus constrói. É realmente assim, mestre-de-obras, que vive e pensa esta confraria?

  - Juro-o pelo nome do Faraó.

  Kenhir estremeceu. As palavras pronunciadas pelo Rei provavam o seu conhecimento profundo da confraria, mas tinham obrigado Néfer a empenhar-se com gravidade, correndo o máximo de riscos. Se o monarca tivesse censuras exatas a dirigir-lhe, poderia chamar perjuro ao mestre-de-obras e condená-lo à pena capital.

  - Quer se trate de um Pais ou de uma confraria, só são dirigidos de uma maneira justa pelo dom e pela oferenda - continuou Merenptah. - Quanto mais rico se é, mais generosos nos devemos mostrar. O Faraó, a quem os deuses ofereceram as Duas Terras para que as tornasse prósperas, preocupa-se com o bem-estar de cada um dos seus súbditos. A vós, artesãos do Lugar de Verdade, continuarei a fornecer as ferramentas, os alimentos, os fatos e tudo o que é necessário para que possais realizar a obra de Maet vivendo felizes na vossa aldeia. A fim de festejar a minha coroação ser-vos-ão atribuídos nove mil peixes, nove mil pães, inúmeros quartos de carne, vinte grandes potes de azeite e cem de vinho.

  Paneb de bom grado deixaria explodir a sua alegria, mas a inquietação continuava a cerrar as bocas. Apesar daquelas excelentes notícias, que permitiam acreditar na sobrevivência da aldeia, os habitantes sentiam ainda pesar uma grande ameaça.

  - O papel desta confraria, a sua razão de existir - lembrou Merenptah - é encarnar na matéria o plano dos deuses. Para o conseguir, precisa de chefes capazes de dirigir e orientar. A eles compete abrir o papiro selado sem se esquecer de usar o cacete se necessário. Um verdadeiro chefe deve em primeiro lugar saber servir a obra e a sua confraria, pilotar o navio e dirigir o leme sem fraquejar, deve mostrar-se grande na sua função como um poço rico em água fresca e benéfica. Quem autorizasse o ignorante ou o imbecil a efetuar um trabalho para o qual são incompetentes não mereceria governar. Seria castigado com a mesma sanção o chefe de equipa que se comportasse como um tirano e outorgasse privilégios a si próprio.

  A tensão aumentara bruscamente.

  Todos compreenderam que os erros enunciados pelo Faraó  eram outras tantas acusações dirigidas a Néfer o Silencioso.

  Clara fixou o marido para lhe transmitir toda a intensidade do seu amor naquele instante onde se arriscava a ser aniquilado pelo fogo real.

  - O administrador-principal da margem oeste entregou-me um relatório muito severo a teu respeito, Néfer. Li-o com atenção e a sua conclusão é formal: devido aos teus erros, deves demitir-te.

  - Se é essa a vontade de Vossa Majestade, devo-lhe obediência. Mas poderei saber o que me censuram?

  - Em primeiro lugar, um enriquecimento pessoal em detrimento da confraria.

  Kenhir avançou.

  - Majestade, como escriba do Túmulo e responsável pela gestão do Lugar de Verdade posso apresentar a prova de que essa acusação é destituída de qualquer fundamento. De acordo com a nossa Regra, Néfer ocupa uma casa atribuída com a aprovação do vizir, à qual se juntam uma sala de consulta e um laboratório indispensáveis à Mulher Sábia, sua esposa. Como o nosso venerado escriba de Maet, Ramosé, o mestre-de-obras teria podido adquirir campos e rebanhos com absoluta legalidade, mas consagrou-se exclusivamente ao seu trabalho.

  - Não é tudo, escriba do Túmulo. Segundo os documentos que me foram entregues, Néfer não foi designado por unanimidade pelos artesãos e comporta-se como um déspota, sem hesitar em utilizar a força e a ameaça para assentar a sua tirania.

  - É completamente falso, Majestade! - insurgiu-se Paneb. - Todos os que aqui estamos presentes reconhecemos Néfer com o nosso coração como mestre-de-obras. O único a lamentar essa decisão foi ele!

  - Essa afirmação é insuficiente - considerou o monarca. - Que cada um se exprima com inteira liberdade sobre o comportamento do mestre-de-obras.

  Ched o Salvador foi o primeiro a tomar a palavra e confirmou as declarações inflamadas de Paneb, que jurara a si próprio castigar os eventuais mentirosos.

  Mas o colosso não teve esse trabalho, porque nem um só artesão nem uma sacerdotisa de Hathor emitiram a menor crítica contra Néfer o Silencioso. Até mesmo o traidor elogiara os méritos do mestre-de-obras, com medo de se individualizar e atrair a atenção sobre si. E Kenhir concluiu afirmando que a confraria soubera designar o homem justo e competente de que precisava.

  A decisão final, no entanto, competia ao Faraó e só a ele.

Não lhe era impossível desautorizar um dos seus altos funcionários?

  - O meu Pai, Ramsés o Grande, prevenira-me contra os ataques pérfidos que não deixariam de abater-se sobre o Lugar de Verdade - revelou o Rei. - Pressentia que o seu mestre-de-obras seria caluniado de forma a lançar o descrédito sobre toda a confraria e provocar o seu aniquilamento. Não fui portanto surpreendido pelo documento difamatório que me foi entregue justamente antes da minha visita, mas queria ouvir-vos a todos para ter a certeza da solidez dos laços que vos unem: eis-me descansado. Aproxima-te, Néfer.

  O Faraó cingiu o Silencioso com o avental de ouro.

  - Delego em ti a minha soberania sobre o Lugar de Verdade e confio-te duas tarefas prioritárias: escavar a minha Morada de Eternidade no Vale dos Reis e construir o meu Templo dos Milhões de a margem do Ocidente.

  Quando o Rei Merenptah abraçou Néfer, os gritos de alegria puderam finalmente brotar do coração dos artesãos.

                              

      Abri, o administrador da margem oeste, presente entre os dignitários que tinham ficado no exterior da aldeia, ouviu as aclamações. As primeiras foram em honra do Rei, mas depois foi repetido o nome de Néfer.

  O alto funcionário não precisava de ouvir mais. Era evidente que a sua manobra se saldava num fracasso completo e o mestre-de-obras conseguira rebater todas as acusações.

Confirmando-o no seu posto, Merenptah desautorizava Abri e dava força ao Lugar de Verdade.

  O administrador esmagou alguns pés para alcançar o seu carro.

  - Sentis-vos mal? - perguntou um dos seus colaboradores.

  - O calor, com certeza... Preciso de repouso.

  - Vinde estender-vos à sombra alguns instantes.

  - Não, prefiro regressar a casa.

  - Se o Rei constatar a vossa ausência pode ficar descontente.

  Abri não respondeu, subiu para o carro e deu o sinal de partida ao soldado que o conduzia.

  Vários notáveis repararam no incidente e ficaram espantados. Era preciso um motivo de excepcional gravidade para que o administrador se comportasse de forma tão estranha.

  A casa de Abri estava vazia. A mulher tinha sido convidada para o palácio real de Tebas, onde a Rainha recebia as grandes damas da província. Os filhos participavam nas festividades organizadas na margem do Nilo e os criados gozavam dois dias de licença.

  Desta vez, o abismo abria-se debaixo dos seus pés.

  Uma boa alma não deixaria certamente de recordar a Merenptah que Abri já tentara conseguir o desaparecimento do Lugar de Verdade e que apenas a benevolência de Ramsés lhe permitira conservar o lugar. O novo Faraó não demonstraria tanta clemência, tanto mais que tinha corrido o risco de cometer uma injustiça baseando-se em falsas informações transmitidas por Abri.

  Seria a desgraça, o descrédito público, na melhor das hipóteses o exílio, na pior uma condenação à pena capital... À idéia desses suplícios, Abri tremeu com todo o corpo, assaltado por dolorosas ondas de calor. Esperando gozar um pouco de frescura, saiu de casa para se sentar à sombra de um caramanchão florido, junto do lago de lótus azuis e brancos.

  E foi ali que tomou a decisão: não cairia sozinho no abismo. Devia aquele desastre ao comandante Mehi, manipulador e chantagista. Como não tinha qualquer hipótese de sair incólume daquela tragédia, Abri contaria tudo e o principal culpado seria castigado também. Uma fraca consolação, é verdade, mas a última oportunidade de praticar a justiça.

  - Abri... estais só?

  Como se fosse picado por um inseto, o administrador levantou-se de um salto e voltou-se vivamente para o maciço de loureiros rosa de onde provinha a voz feminina.

  - Sou eu, Serketa... É sobretudo preciso que ninguém nos veja.

  - Claro, claro... Podeis estar tranqüila, a casa está vazia.

  Serketa apareceu, irreconhecível. Peruca, maquiagem e vestido davam-lhe o aspecto de outra mulher.

  - Mehi mandou-me para vos ajudar.

  - Ah...

  - A situação é embaraçosa, mas ele encontrou o meio de resolver tudo.

  - É impossível!

  - Não sejas tão pessimista. Tenho aqui um documento que acalmará a cólera do Faraó.

  Incrédulo, Abri consultou o papiro que Serketa lhe apresentava.

  A sua leitura fê-lo ficar estupefato. Ele, o administrador-principal da margem oeste, explicava que tentara conspurcar o Lugar de Verdade e caluniar o seu mestre-de-obras porque detestava desde sempre aquela instituição que escapava ao seu controlo. Roído pelo remorso, não tivera outra solução a não ser o suicídio.

  Estupefato, Abri tomou consciência de uma outra realidade ao mesmo tempo que Serketa enrolava o papiro.

  - Dir-se-ia... que é a minha letra!

  - Não tenho qualquer dificuldade em imitá-la e colocarei o vosso selo, que autenticará este desolador testamento.

  - Não tenho intenção de me matar e vou denunciar-vos, a vós e ao vosso marido!

  - Era o que eu receava, meu querido Abri, e foi por isso que achei bom intervir o mais depressa possível.

  Dominada por uma cólera fria, Serketa empurrou violentamente o administrador que caiu no lago de lótus.

  Mau nadador, embaraçado pelos trajes de festa, sufocado pela água que tinha absorvido, Abri ofereceu uma fraca resistência a Serketa, que lhe manteve a cabeça debaixo de água até ele cessar de se agitar.

  Tranqüilizada, depositou o testamento sobre a secretária do dignitário que não tivera outra saída senão punir-se a si mesmo pelo seu crime de lesa-majestade.

 

   Para transportar o material funerário de Ramsés o Grande, não tinham sido necessários menos de cem soldados, oitenta transportadores de oferendas vindos dos templos vizinhos, quarenta marinheiros e duzentos dignitários, sem contar as duas equipas do Lugar de Verdade e as sacerdotisas de Hathor.

  Agindo como sacerdotes, os artesãos tinham envergado túnicas de linho novas e calçado sandálias de papiro. De acordo com a Regra, tinham-se abstido de relações sexuais na véspera dos funerais e tinham consumido alimentos requintados.

  O mais orgulhoso era Ipui o Examinador. Ele, que acabava de terminar a decoração do túmulo, uma grande parte da qual era consagrada às atividades quotidianas como a pesca ou a lavagem da roupa, tinha sido escolhido como porta-abano à direita do Faraó, envergando a túnica estrelada do sacerdote de ressurreição", encarregado de abrir a boca, os olhos e as orelhas da múmia para a transformar em suporte de uma regeneração quotidiana, no segredo da morada de eternidade.

  Carregado com um grande leito de madeira dourada, Paneb estava maravilhado com os tesouros fabulosos que acompanhariam o faraó defunto na sua viagem para o Além: estátuas de divindades em ouro, cofres contendo metais preciosos, perfumes, ungüentos, tecidos ou alimentos mumificados, cetros, coroas, capelas e naos de tamanhos diversos, barcas, espelhos, mesas de oferenda, arcos, bastões de madeira, papiros, carros em peças separadas e tantas outras obras-primas! Era o mundo de Ramsés que seria assim associado à transmutação da alma real.

  Os objetos foram depositados à entrada do túmulo, iluminado por uma centena de lâmpadas. Competiu aos Servidores do Lugar de Verdade, únicos habilitados a lá penetrar, colocá-los no seu lugar correto nas salas e capelas da última morada de Ramsés.

  Reinava um silêncio absoluto quando Merenptah procedeu aos rituais de ressurreição sobre a múmia que o mestre-de-obras, o chefe da equipa da esquerda e os talhadores de pedra instalaram no sarcófago. Néfer dirigiu a delicada manobra de colocação da tampa de pedra que selava o destino póstumo do Filho da luz.

  Merenptah ordenou aos artesãos que saíssem do túmulo, com exceção de Néfer. O Rei dirigiu-se para a extremidade do santuário, depois da sala do sarcófago, e constatou que a obra, de que o mínimo pormenor tinha no entanto sido estudado com grande cuidado, terminava na rocha bruta.

  - Para além do que podem conceber os humanos - disse o Faraó - há o desconhecido, a matriz da qual saímos e onde regressaremos, se tivermos levado uma existência em retidão. Animaste o sarcófago com a Pedra de Luz, mestre-de-obras?

  - O senhor da vida" tornou-se ele próprio uma Pedra de Luz que manterá intacto o ser de Ramsés pelos séculos dos séculos.

  Merenptah pensou no fiel Ameni, o secretário do defunto Faraó. O velho escriba retirara-se para Karnak a fim de escrever a vida de Ramsés que, espalhada em todos os Paises onde as pessoas sabiam ler, contribuiria para a sua glória.

  O Rei posou uma lâmpada na cabeceira do sarcófago. Brilhando com uma luz doce, permitiria à alma-pássaro alimentar-se antes de atravessar a prova da noite e se lançar rumo ao Sol.

  Quando brotou a chama, um halo luminoso rodeou a cabeceira do sarcófago. À medida que Néfer apagava as outras lâmpadas , a pedra do senhor da vida absorvia a sua energia para se tornar ela própria um foco emissor cada vez mais potente.

  Quando os dois homens saíram do túmulo, o sarcófago espaLhava o seu fulgor no santuário onde as trevas já não eram hostis mas fecundas.

  O mestre-de-obras fechou a porta da Morada de Eternidade onde, longe do olhar dos homens, os textos hieroglíficos e as cenas rituais viviam por si mesmas, permitindo a Ramsés continuar a reinar, no invisível, sobre o seu Pais e sobre o seu povo ao qual mostraria a partir de agora o caminho das estrelas.

  Por fim, Néfer colocou o selo da necrópole, formado por nove chacais sobre inimigos atados e decapitados. Graças à presença de Anúbis, nenhuma força nociva poderia franquear a porta fechada.

  - Fica a saber que nunca duvidei de ti, da tua probidade e da tua competência - confiou Merenptah ao mestre-de-obras. - Impus-te uma rude prova para que fosses considerado digno, por toda a confraria, de usar o avental de ouro.

                              

      Enraivecido, o chefe Sobek sentia dificuldade em encontrar as palavras.

  - Haveis ouvido o que disse o Rei, Kenhir! Foi Abri, o administrador-principal da margem oeste, que tentou destruir a reputação do nosso mestre-de-obras! Já não tenho necessidade de outra prova, não achas? É esse miserável que procura prejudicar-nos há tantos anos.

  O escriba do Túmulo estava aterrado.

  - Como pôde um alto funcionário daquela importância comportar-se de forma tão vil? Ele, que estava encarregado de proteger o Lugar de Verdade, apenas pensou em destruí-lo!

  - Redigi uma queixa oficial contra ele!

  - Não achas que a intervenção do Rei será suficientemente forte? Abri será acusado de mentira, de falsificação de documentos e, provavelmente, de lesa-majestade por ter tentado enganar o Faraó. Abri não tem qualquer hipótese de conservar o seu lugar e arrisca-se a uma severa condenação.

  - Quero aproveitar a situação para esclarecer o enigma que me persegue: foi ele o assassino do guarda colocado sob as minhas ordens ou tinha um cúmplice? Se interviermos no processo, poderei interrogá-lo e fazê-lo confessar.

  - Já sabia que me ias dizer isso... A queixa está pronta.

  - É preciso também que me autorizeis a investigar em nome do Lugar de Verdade fora do seu território.

  - O pedido acaba de ser enviado ao vizir.

  Sobek compreendeu por que razão, apesar do seu caráter difícil, fora nomeado escriba do Túmulo. Para ele, como para os chefes de equipa, a aldeia era o essencial.

  Devido à presença do rei na aldeia, Sobek não podia abandonar o seu posto para interrogar Abri, como morria de desejos de fazer. Fragilizado, desamparado, tinha a certeza que o bandido falaria.

  - Espero que não se encontre à cabeça de uma rede hostil ao Lugar de Verdade - disse Kenhir.

  - Infelizmente, estou convencido disso - objetou o guarda - e não tenho a certeza que a ameaça que pesava sobre nós tenha desaparecido.

  A chegada do carteiro Uputi, visivelmente nervoso, interrompeu a conversa.

  - Uma horrível notícia: Abri suicidou-se em casa, na ausência da família e dos criados!

  - Como sabem que se tratou de um suicídio - interrogou Sobek.

  - Abri deixou um texto no qual explica as razões do seu gesto. Confessa ter mentido ao Rei e receava uma pesada pena, ou seja, uma condenação à morte. Incapaz de suportar o seu fracasso Preferiu acabar consigo implorando o perdão para as suas faltas.

   O par real estava alojado no pequeno palácio edificado para Ramsés o Grande no interior do Lugar de Verdade e celebrava os rituais da manhã na capela anexa. No mesmo instante, em todos os templos do Egito, do mais pequeno ao mais gigantesco, a imagem do Faraó animava-se magicamente para pronunciar as mesmas palavras e realizar os mesmos gestos. Os celebrantes só podiam oficiar em nome do Faraó, preparado pelas divindades para manter a presença de Maet na terra.

  Depois, Merenptah e Néfer tinham-se dirigido à Casa de Vida situada ao lado do templo principal da aldeia. Kenhir esperava-os lá com as chaves dessa biblioteca sagrada que continha "as forças da luz", ou seja, os arquivos da confraria compostos pelos rituais e as obras escritas por Tot, o deus do conhecimento, e por Sia, o da sabedoria. Graças a eles, estava escrito, Osíris podia reviver e a ciência da ressurreição ser transmitida aos homens.

  Preciosos entre todos, um livro em ouro martelado e outro em prata preservavam os decretos de criação da confraria e do seu templo. Havia ainda os textos indispensáveis, como o Livro das Festas e das Horas Rituais, o Livro de Proteger a Barca Sagrada, o Livro de Oferendas e do Inventário dos Objetos Rituais, o Livro dos Astros, o Livro para Repelir o Mau Olhado, o Livro de Sair para a Luz, o livro da Magia Fulgurante e os manuais para a decoração simbólica dos santuários e dos túmulos.

  Mas era um outro documento que o monarca queria consultar.

  - Mostra-me o plano de Moradas de Eternidade do Vale dos Reis - ordenou a Kenhir, Até ao presente único depositário desse segredo inestimável que lhe fora legado pelo seu predecessor. Ramosé, o escriba do Túmulo revelou-o ao Rei e ao mestre-de-obras. O papiro tinha sido classificado com um falso título na categoria dos velhos arquivos. O escriba desenrolou-o sobre uma mesa baixa. Surgiram os planos dos túmulos dos Vales dos Reis e das Rainhas e a sua localização nos lugares. Os sucessivos mestres-de-obras podiam assim escavar num lugar virgem e não perfurar uma antiga cave.

  - No que diz respeito ao meu Templo dos Milhões de Anos - decretou o monarca - construi-lo-eis na orla das terras cultivadas, a noroeste do de Amenhotep III e a sul do Ramesseum. Para a minha Morada de Eternidade, qual é a vossa proposta?

  Néfer refletiu longamente, estudando o plano no qual figuravam numerosas indicações técnicas.

  - É preciso ter em conta a qualidade da rocha e as orientações pretendidas pelos faraós precedentes para compor uma harmonia... É por isso que eu proponho esta localização, a oeste do túmulo do vosso Pai Ramsés o Grande e bem acima dele, no flanco da montanha.

  - A tua escolha é excelente, mestre-de-obras. Mas tem bem consciência que vais tentar exprimir a Grande Obra e que não te é permitido fracassar.

  Tocar e ouvir música eram as distrações favoritas dos aldeões, Cada um tocava mais ou menos bem flauta, harpa portátil, alaúde , tamborete ou cítara, e ninguém podia conceber trabalhar sem ser embalado por uma melodia, ainda mais indispensável por altura das festas e dos banquetes.

  E como convinha festejar dignamente ao mesmo tempo a coroação de Merenptah e a do mestre-de-obras Néfer, as orquestras tocavam alegremente e a aldeia transformava-se em sala de concertos. Os homens revelavam-se menos talentosos do que as mulheres, visto que as sacerdotisas de Hathor eram depositárias da música sagrada, cuja prática fazia parte da sua iniciação. O melhor conjunto era formado por uma harpista, uma flautista e uma tocadora de tamborim cujos ritmos encantavam pequenos e grandes.

  Até mesmo Kenhir o Rabugento se sentia por vezes dominado por um desejo de dançar ao qual, bem entendido, a sua dignidade lhe entredizia que cedesse.

  Paneb deixou de ouvir a pequena orquestra quando uma área sensual lhe captou a atenção.

  Com os longos cabelos negros caindo sobre os ombros e ocultando a maior parte do rosto, os olhos maquiados de negro e verde, um cinto de pérolas separadas por cabeças de leopardo de ouro, pulseiras de tornozelo em forma de armadilha para pássaros de presa, um vestido curto e transparente, assim se apresentava a tocadora de lira cuja voz era doce como a brisa da tarde.

  Dedilhava com habilidade as oito cordas do seu instrumento presas por agrafes de cobre à caixa de ressonância oca e achatada , mantida por dois braços arqueados de comprimento desigual, passava de um pizzicato a um trêmulo sem esforço aparente e apertava a lira de encontro ao peito para deter as vibrações quando cantava pianíssimo a fim de expressar deliciosas cambiantes.

  Quando Paneb se aproximou, a tocadora recuou passo a passo, sem parar de tocar e de cantar, e arrastou-o para um canto sombrio.

  Imobilizou-se finalmente e ele aproximou-se dela até lhe tocar. Só então a reconheceu.

  - Turquesa!

  - Quando serás fiel à tua esposa, Paneb?

  - Nunca lho prometi, nem ela nunca mo exigiu.

  - Compreendes ao menos porque razão toco esta música?

  Ele beijou-a repentinamente com Paixão.

  - Para me atrair, e conseguiste!

  - Toco para esconjurar o perigo e o mal. A intervenção do Faraó não bastará para os afastar da aldeia. E tu, Paneb, tu és suficientemente louco para não os receares e os enfrentares sem precauções. Portanto, toco a música ensinada pelas sacerdotisas de Hathor a fim de dissipar as ondas maléficas e envolvo-te com a minha magia.

  - És realmente surpreendente!

  - Julgavas conhecer tudo de mim?

  - Claro que não! Mas apesar de tudo sei tocar o teu corpo como uma lira...

  Com uma inesperada delicadeza, Paneb posou o instrumento no chão.

  - Adquiri uma certeza que te diz respeito - afirmou com gravidade.

  - Qual?

  - O vestido que envergas é perfeitamente inútil.

  Turquesa não opôs resistência quando ele a despiu, depois a tomou nos seus braços e a levou até sua casa, onde fizeram cantar o seu desejo em uníssono.

                              

  - A minha patroa não recebe ninguém - disse o porteiro da casa do defunto Abri.

  - Sou o chefe Sobek, responsável pela segurança do Lugar de Verdade, e a minha vinda tem caráter oficial.

  - Nesse caso... Vou preveni-la.

  Com o acordo do escriba do Túmulo e depois de ter verificado que a proteção do Rei estava perfeitamente garantida, Sobek considerara indispensável ter uma conversa com a viúva o mais rapidamente possível.

  A grande mulher morena recebeu o núbio debaixo de uma palmeira, no jardim. Perdera toda a vitalidade e parecia à beira de uma depressão.

  - A guarda já me interrogou - informou ela com voz alquebrada. - Eu estava ausente quando se deu o drama e portanto não vos posso dizer nada. Tudo o que sei é que alguns colegas do meu defunto marido o viram abandonar precipitadamente o cortejo oficial quando se ergueram as aclamações no interior da aldeia. Porquê... porque razão se matou Abri?

  - Tentou conseguir a destituição do mestre-de-obras da confraria e fracassou.

  - Porque não deixou ele de se encarniçar contra o Lugar de Verdade? Deixa-me só, completamente só, com uma filha para criar mas também com a vergonha... Esta vergonha tão pesada de carregar... Não merecia um castigo destes!

  - Permiti que vos faça uma pergunta muito direta: vós, que conhecíeis o vosso marido melhor do que ninguém, consideráveis que ele era capaz de se suicidar?

  A grande mulher morena acusou o toque.

  - Com toda esta agitação, nem sequer me interroguei sobre... Mas tendes mil vezes razão em levantar esse problema! Não, Abri não era homem para acabar com a sua vida. Amava-se demasiado a si próprio e nunca teria certamente tido essa coragem!

  De repente, voltou à realidade.

  - No entanto, matou-se... E deixou mesmo um texto para explicar o seu gesto.

  Sobek preferiu mudar de assunto.

  - Nestes últimos tempos, o vosso marido tinha tido contatos que se pudessem classificar de... duvidosos?

  - Claro que não! Recebia todos os notáveis tebanos, como Lhe impunha a sua função, quer se tratasse do governador, dos altos funcionários, dos princiPais escribas... O que mais detesto é esse novo-rico, o comandante Mehi, mas só o via muito raramente. De fato, detesto-os a todos e a Abri mais do que a qualquer outro! Por causa da sua indolência e da sua preguiça, não subia na hierarquia. Devia ter obtido uma promoção em Pi-Ramsés e introduzir-nos na corte. Mas só tinha Tebas na cabeça...

  - Falara-vos de uma pasta que tencionava entregar ao Faraó?

  - Abri nunca me falava do seu trabalho. Que vergonha, mas que vergonha... Acabar assim...

  A viúva rebentou em soluços. Sobek retirou-se.

  Aquela breve conversa perturbara-o. Se o suicídio de Abri não passava de uma extremamente hábil maquiagem, quem o assassinara mostrando-se suficientemente astuto para o fazer cair numa armadilha demoníaca? O administrador defunto parecia ser um caráter fraco, influenciável, incapaz de realizar atos extremos. Teria sido realmente ele a preparar uma pasta mentirosa, susceptível de o fazer correr um risco enorme em caso de fracasso?

  Sobek não dispunha de qualquer prova concreta, mas o seu instinto orientava-o para uma conspiração da qual Abri não fora mais do que o instrumento e não a cabeça pensante.

  Se o guarda núbio não se enganava, sombrios dias se anunciavam e talvez nem o apoio de Merenptah fosse suficiente para salvar o Lugar de Verdade.

  Mas como encontrar a pista tão brutalmente cortada com a morte de Abri?

 

  O touro que investia contra o seu congênere de cornos em riste tinha o focinho preto e a pelagem escura. O outro não se voltara suficientemente depressa e, chifrado no ventre, oscilava com a cabeça para a frente e as patas traseiras levantadas, numa atitude de impotência e desespero.

  À tragédia sucedia-se a comédia, com um bando de gansos de cabeça branca ou cinzenta e bico pontiagudo avançando todos no mesmo sentido, com exceção de um indisciplinado que se voltava bruscamente e atraía assim os olhares.

  Quanto à graça, manifestava-se no desenho aéreo de uma gazela de cornos azulados, olhos negros e corpo de um cinza-rosado, com patas de uma delicadeza quase irreal.

  Assim se apresentavam as três primeiras pinturas de Paneb, em três grandes pedaços de calcário de primeira qualidade. Ched o Salvador examinava-os alternadamente há mais de um quarto de hora e o aprendiz não conseguia pressentir a sua sentença.

  De repente, o mestre abriu a porta da oficina.

  Sentado com nobreza, de olhar altivo, um gato negro e branco desafiava-o.

  - Olha bem esse felino, Paneb, observa-o com mais atenção do que jamais o fizeste. Quando o pintares na parede de um túmulo, não será mais um simples gato mas sim a encarnação da luz que manejará os seus raios, sob a forma de facas, para dilacerar o dragão Apopi, o gênio mau decidido a estancar o fluxo vital.

  - Isso significa... que me considerais capaz de pintar?

  - Saiamos daqui e olha o céu.

  Inúmeras andorinhas dançavam no azul.

  - A alma dos reis pode encarnar naquele pássaro. Quando representares uma andorinha empoleirada sobre o teto de uma capela, simbolizarás o triunfo da luz. Mas não conseguirás nada de bom sem a quadrícula.

  Paneb seguiu Ched o Salvador que o conduziu até um túmulo da necrópole do Oeste onde trabalhavam Gau o Exato e Paí o Bom pão.

  - O que pensas da qualidade da parede, Paneb? - interrogou Ched.

  O Ardente assegurou-se que ela tinha sido corretamente alisada com uma argamassa formada de limo e palha picada e depois coberta com uma camada de gesso para tapar os buracos. Em seguida, tinham sido aplicadas com cuidado duas camadas de reboco de dois milímetros, a segunda de excelente qualidade para servir de suporte à pintura.

  - Esta parede convém-me - avaliou Paneb.

  - Enganas-te - considerou Ched. - Mostrem-lhe - ordenou a Paí e a Gau.

  Paí o Bom pão subiu a uma escada. Segurava uma das extremidades de uma fina corda molhada em tinta vermelha e Gau a outra. A corda foi bem estendida ao longo da parede e Gau largou-a bruscamente a fim de que batesse na parede, imprimindo nela uma linha bem direita. Os dois desenhistas procederam assim por diversas vezes para obter uma quadrícula.

  - Esta grelha deve preceder o desenho e a pintura afim de que cada figura respeite um sistema de proporções harmônicas - explicou Ched. - Para uma personagem em pé, três filas de quadrados dos cabelos à base do pescoço, dez do pescoço aos joelhos, seis dos joelhos à planta dos pés, ou seja, dezanove no total. Para uma personagem sentada, quinze quadrados.

  Gau o Exato revelou a Paneb vários outros jogos de proporções relativas a diferentes temas, insistindo num princípio geral: quadrícula apertada para os motivos de pequeno tamanho, larga para os temas de grandes dimensões.

  - Adapta-te à parede - recomendou Ched - mas não te prendas com os cálculos. É a tua mão que deve captar as proporções, sem qualquer rigidez, porque só ela possui a liberdade de criação. Um dia, se te tornares um verdadeiro pintor, já nem sequer terás necessidade desta grelha. Entretanto, procura representar o corpo de mulher sem estragar esta parede.

  Sobrepor camadas de espessura variável exigia grande destreza, mas Paneb demorou o tempo necessário para obter uma subtil textura de vermelho e branco que representasse uma cabeça delicada, e sobrepôs-lhe um branco quase transparente para formar o tecido de um vestido leve. Depois, recobriu a sua obra com um verniz à base de resina de acácia, a fim de preservar o brilho das cores.

  Paí e Gau estavam mudos de admiração, mas Ched o Salvador parecia indiferente.

  - No canto superior esquerdo - ordenou - representa u falcão a levantar vôo.

  O exercício anunciava-se particularmente difícil, mas nas mãos do colosso os pincéis tornavam-se instrumentos de alta precisão. Utilizando um pincel para cada cor, criou uma ave de rapina com tal vida que parecia apertada no pequeno compartimento de teto demasiado baixo.

  - Não deves pintar a natureza - observou Ched - mas sim o que está para além da realidade, a vida oculta e sobrenatural. O túmulo é uma Morada de Eternidade onde os camponeses realizam gestos perfeitos e sem fadiga, onde nada murcha, onde frágeis barcas de papiro vogam sem perigo em canais tranqüilos, onde o par de bem-aventurados é sempre jovem... É um universo de luz que te compete recriar sem que as tuas preocupações pessoais o venham escurecer. Que cada uma das tuas pinturas esclareça um aspecto do mistério da vida. Caso contrário serão inúteis.

  Com tinta negra, Ched o Salvador corrigiu uma das patas do falcão que considerava pouco precisa. E Paneb, cujo coração começava a inflamar-se, compreendeu que não passava ainda de um debutante. O olhar do mestre tinha detectado o pormenor que impedia a ave de rapina de levantar realmente vôo.

  - Há ainda muito trabalho neste túmulo - declarou Ched -, mas não tenho a certeza que possuas as competências necessárias.

  O sangue de Paneb ferveu.

  - Sejam quais forem as técnicas a aprender, aprendê-las-ei! Não é essa a questão. O que devo fazer então? Responder a esta pergunta: aceitas tornar-te meu assistente?

                                 

  Por ocasião das festas da coroação, em Tebas, o vizir estava autorizado pelo Rei a condecorar aqueles e aquelas que tinham servido bem o seu Pais durante o reinado anterior e aproveitava para proceder a mudanças e nomeações.

  Embora não convivesse ainda com as personagens influentes da corte de Merenptah, Mehi não estava muito inquieto com a sua sorte. Soubera que homens do governo realizavam um inquérito a seu respeito no meio dos oficiais superiores onde o comandante gozava de grande popularidade; recolheriam apenas testemunhos positivos que se traduziriam inevitavelmente por uma promoção na hierarquia militar. Quanto à gestão de Mehi como tesoureiro principal de Tebas, não apresentava qualquer defeito. Graças a ele, a cidade e a província tinham enriquecido.

  Como o velho general chefe das forças tebanas acabava de se reformar, Mehi podia esperar conseguir esse posto, obrigatoriamente atribuído a um escriba que tivesse bom conhecimento do funcionamento do exército.

  O pequeno mundo dos dignitários desejosos de agradar ao novo poder só tinha duas preocupações: saber se o governador de Tebas seria substituído e quem seria nomeado administrador-principal da margem oeste em lugar de Abri?

  Quando o vizir surgiu na sala do conselho, as apostas iam animadas. Era evidente que o novo Faraó imprimiria a sua marca na região tebana impondo fiéis vindos do Norte, e que as ambições seriam esquecidas. A cidade do deus Amon sofreria profundas alterações que não deixariam de provocar graves rangeres de dentes e a formação de uma oposição mais ou menos febril, alimentada pelos ressentimentos dos despistados.

  O vizir começou pela entrega das condecorações, que iam do avental de ouro ao simples anel. Depois chamou o comandante Mehi, que se inclinou diante dele.

  - Mehi, sois nomeado general-chefe das tropas tebanas. Preocupar-vos-eis com o bem-estar das tropas, com o bom estado do material e ireis regularmente a Pi-Ramsés para entregar ao Rei um relatório pormenorizado.

  Ir à capital e aproximar-se do poder... Mehi estava encantado. Comprometeu-se sob juramento a preencher os deveres do seu Cargo e foi juntar-se às fileiras dos altos funcionários que lhe dirigiram sorrisos condescendentes. Como o Faraó era o chefe supremo dos exércitos e o vizir o seu braço direito, o título sonante de general, mascarava a sua pouca importância real. Mehi saía da esfera de influência para se tornar um dignitário bem pago e preguiçoso.

  Foi finalmente aberta a pasta do governo de Tebas e as decisões do executivo deixaram de boca aberta os cortesãos: o governador era mantido no seu posto, tal como o conjunto dos seus conselheiros, aos quais se juntava um novo tesoureiro-principal, um escriba tebano de atitudes conservadoras.

  Mehi apreciou a habilidade política de Merenptah. Evitando a temida alteração, atraía a simpatia da rica região tebana e não haveria qualquer convulsão a recear dali. Por outras palavras, estava suficientemente preocupado com os problemas que se levantavam no Norte para vir criar mais no Sul.

  Faltava ocupar o posto de administrador-principal da margem oeste, considerado como particularmente delicado depois do trágico desaparecimento do seu titular.

  - Chamo o general Mehi - disse o vizir com voz calma.

  Rumores estupefatos percorreram a assistência. O próprio Mehi hesitou um instante, julgando ter ouvido mal. Mas os olhares que convergiam para ele incitaram-no a apresentar-se diante do Primeiro-ministro do Egito. Este confiou-lhe a função do defunto Abri e o general promovido de fresco não teve outra solução senão aceitar.

  O vizir concedera a Mehi o privilégio de uma entrevista privada no jardim do palácio, à sombra das perséas e dos sicômoros.

  - Esperáveis a vossa nomeação como general, mas haveis sido surpreendido por vos ter sido atribuído o posto de administrador-principal da margem oeste, não é verdade?

  - São pesadas tarefas e julgava que seriam dissociadas.

  - Tanto o Rei como eu pensamos o contrário, tendo em conta os acontecimentos que acabam de verificar-se. Abri era um adversário declarado do Lugar de Verdade e tentou enganar o soberano fazendo falsas acusações e falsificando documentos. Será esse comportamento fruto de uma loucura individual ou de uma conspiração cujas ramificações ignoramos? Por enquanto, é impossível responder a esta pergunta, mas devemos encarar o pior e tomar as precauções necessárias. Durante os últimos anos do reinado de Ramsés haveis sabido reorganizar as tropas tebanas; os oficiais, tal como os soldados, estão-vos reconhecidos por isso. A vossa autoridade não será discutida e podereis portanto garantir a segurança da região seguindo as diretivas da capital.

  - Perdoai a minha curiosidade, mas receáveis perturbações em Tebas?

  - Em Tebas não, mas os líbios e os asiáticos continuam a ser potenciais agressores. E as tribos núbias do Grande Sul vêem por vezes despertar os seus instintos belicosos. É por isso que Tebas deve permanecer uma zona de estabilidade e de paz, que poderiam ser ameaçadas por agentes perturbadores como Abri. As riquezas da margem oeste são imensas... Quantos tesouros contidos nos túmulos reais e nos Templos dos Milhões de Anos! Se os malfeitores sonhassem em apoderar-se deles com a ajuda de altos funcionários corruptos e se o seu abominável intento fosse bem sucedido, o que aconteceria ao Egito? Competir-vos-á velar pelas riquezas da margem ocidental de Tebas, Mehi, e disporeis simultaneamente do poder administrativo e das forças armadas para o fazerdes. A nossos olhos, é uma missão essencial. Sabei que vos observaremos com a máxima atenção.

  - Tentarei mostrar-me digno da vossa confiança.

  - Tentar não bastará: exigimos que a margem oeste seja preservada de qualquer agressão, venha de onde vier. Faço-me compreender?

  - Podeis contar comigo.

  - À mínima suspeita, ao menor alerta, deveis prevenir imediatamente a capital. O caso Abri não se deve repetir.

  Enquanto via o vizir afastar-se, o general Mehi sentiu-se por instantes perturbado pelos caprichos do destino e quase teve vontade de rir. Ele, o principal adversário do Lugar de Verdade, estava mandado para o proteger melhor do que ninguém!

  Por um lado, recolhia os frutos de um trabalho de longo fôlego obtendo poderes alargados; por outro, encontrava-se atado de pés e mãos, incapaz de atacar de frente o bastião de que tanto desejava apoderar-se. Ver-se-ia forçado a renunciar aos seus grandes desígnios e a contentar-se em ser um notável tebano de ambições limitadas?

  A sua cúmplice Serketa não lho perdoaria e ele próprio tinha noção da magnitude das suas possibilidades, que não se resumiam a responsabilidades locais, por muito importantes que fossem. Devia simplesmente mudar de estratégia para atingir os seus fins e se apoderar da Pedra de Luz e dos outros segredos do Lugar de Verdade. Mas essa modificação exigia muita habilidade.

  A sorte sorria-lhe de forma quase miraculosa e o caminho abria-se à sua frente, mesmo que obstáculos de novo gênero se arriscassem a travar-lhe o avanço.

  - Desejais alguma coisa, general? - perguntou-lhe um soldado.

  Mehi saiu da meditação que o levara a caminhar ao acaso pelo jardim, até um dos postos de guarda.

  - Não, não...

  - Permiti que vos diga quanto os militares tebanos se sentem orgulhosos por servir sob as vossas ordens.

  - Obrigado, soldado. Graças a vós, continuaremos a fazer bom trabalho.

  Mehi sentia um desprezo soberano pelos militares mas, desde o início da sua carreira, sabia utilizá-los da melhor maneira, lisonjeando-os e proporcionando-lhes os privilégios que esperavam.

  Grande número de notáveis esperava o fim da entrevista do vizir com Mehi para felicitarem este e afirmar-lhe a sua completa dedicação. O general demorou-se a apreciar os seus cumprimentos ; quer os seus lábios fossem ou não mentirosos, pronunciavam palavras agradáveis que era bom saborear.

  De regresso à sua vasta e luxuosa mansão, Mehi recebeu as homenagens dos seus criados, orgulhosos por servirem um senhor tão poderoso.

  E o seu mais belo presente foi o olhar provocante da sua esposa Serketa, que o incitava a segui-la aos seus aposentos.

  - Não estás cansado de todas essas mundanidades, meu doce amor?

  - Divertem-me extraordinariamente! Não é agradável ver que reconhecem o nosso justo valor?

  Serketa estendeu-se nas almofadas e desnudou lentamente o peito.

  - Tiveste dificuldades para eliminar esse imbecil do Abri, minha doçura?

  - Nenhuma e tinha razão: preparava-se para nos denunciar. No futuro, na tua nova posição, devemos ser particularmente prudentes na escolha dos nossos aliados... Porque as tuas duas nomeações não te fizeram renunciar aos nossos grandes projetos, espero?

  - Claro que não... Mas acabas precisamente de evocar a necessidade da prudência. A primeira manobra em falso, com efeito, ser-nos-ia fatal.

  Oferecendo-se, Serketa alongou-se como um felino.

  - A aventura torna-se loucamente excitante... E nós dispomos de inúmeras armas!

  Sem se importar já com mais nada, Mehi abraçou a sua cúmplice com rudeza, mas tinha apenas um pensamento na cabeça: desde que nunca recuasse, nem mesmo perante o crime, o sucesso esperava-o no fim do caminho.

 

      Como não havia Clara de ficar maravilhada com os presentes que a confraria acabava de oferecer ao mestre-de-obras para festejar o seu reconhecimento pelo Rei? Tudo tinha sido preparado no maior segredo e Renupé o Jovial, com a sua cabeça de gênio malicioso e o seu volumoso ventre, fora designado para apresentar à dona de casa os objetos trazidos por Casa o Cordame, Nakht o Poderoso, Karo o Mal-humorado, Paí o Bom pão e Didia o Generoso. Começou por uma soberba cadeira de mestre-de-obras, com o encosto alto, os pés em forma de patas de leão repousando sobre cilindros, o empalhamento tão sólido que atravessaria os séculos e a decoração de espirais, losangos, lótus e romãs enquadrando um sol para simbolizar o perpétuo renascimento do pensamento do arquiteto. Complemento indispensável, um banco de dobrar cujas extremidades eram cabeças de pato; embutidos de marfim e ébano adornavam essa pequena obra-prima.

  Outra cadeira com encosto curvo e inclinado era composta por vinte e oito peças de madeira ligadas por cavilhas e entalhes; os pés eram patas de leão repousando em cascos de touro, para encarnar o fulgor e a força, e a decoração era composta por uma parreira e belos cachos de uva que evocavam os rituais do lagar no decurso dos quais era assimilado o vinho ao sangue de Osíris ressuscitado.

  Vários tamboretes com assento de cabedal, mesas baixas retangulares, várias estantes para flores compostas por uma placa circular colocada sobre um pé central que alargava na base, diversos cofres para arrumar a roupa, o vestuário e as ferramentas, corbelhas para pão, para bolos e para fruta, cestos ovais, oblongos e cilíndricos feitos com as nervuras de hastes de palmeira ou de junco, tão bem entrelaçadas que a sua solidez era a toda a prova... Clara assistia a uma verdadeira procissão!

  - É muita coisa, é demais, eu...

  - Ainda não terminou - disse Renupé o Jovial, enquanto Casa o Cordame trazia um soberbo armário pequeno de cedro do Líbano.

  Apoiado em quatro pés curtos, tinha a forma de um naos.

  - Poderás pôr aqui as tuas perucas - referiu Renupé levantando a tampa. - Olha: o interior está equipado com travessas para as segurar. O fecho é feito com um rabo de andorinha na parte de fora da tampa e uma barrinha na parte de trás; em torno das duas pegas que servem para puxar, atas um fio com um selo para teres a certeza que a tua criada não cederá à curiosidade. Ah, há ainda esta coisinha...

  Paí o Bom pão depositou sobre a mesa baixa uma caixa de jóias em cartonagem estucada e pintada. De forma cilíndrica e tapado com uma tampa cônica, o delicado cofre estava adornado com um lótus desabrochado.

  - É uma loucura! Eu não posso...

  - E eis o nosso último presente.

  Trazendo às costas uma soberba cama nova, Paneb entrou com um grande sorriso nos lábios.

  - Clara, solicito autorização excepcional para penetrar no teu quarto de dormir.

  O móvel era de tal qualidade que valia pelo menos cinco sacos de cereais. Do colchão ao engradado, passando pelos Painéis dos pés e da cabeceira, onde figuravam a face risonha de Bes, protetor do sono, os artesãos tinham atingido a perfeição.

  - O que se passa aqui? - interrogou Néfer, estacando no limiar da casa.

  - A confraria decidiu transformar a nossa casa em palácio - respondeu Clara, comovida. - Olha... Fomos inundados de presentes!

  Como a esposa, o mestre-de-obras ficou pasmado.

  - É assim e não é de outra forma - concluiu Renupé o Jovial.

  - O importante é respeitar a tradição: quando se tem um bom chefe devemos tratar bem dele porque pensa demasiado nos outros.

  - Aceitam pelo menos um copo de vinho!

  - Eis mais uma prova de que fizemos a escolha certa.

  Paneb serviu.

  - Merenptah aprovou definitivamente a localização do seu túmulo no Vale dos Reis, onde passamos a manhã - confiou Néfer a Clara. - Esta noite, o par real deseja ver-te.

  - A mim? Mas porquê...

  - Para coroar a Mulher Sábia.

  Clara teria gostado de se preparar calmamente para a cerimônia, mas não teve oportunidade para isso. Perdida naquela casa povoada por móveis novos, a criada fez-lhe perder um tempo precioso; vieram depois consultá-la uma garotinha que sofria de um princípio de bronquite, um talhador de pedra com dor de dentes e uma mãe de família que estava a perder o cabelo. A Mulher Sábia conseguiu acalmar os seus sofrimentos, que conhecia e havia de curar. Mas as horas tinham-se escoado e a noite não tardaria a cair.

  Clara pensou na que a precedera e que tanto lhe ensinara antes de desaparecer na montanha, unindo-se à deusa do silêncio. Sentia-a perto de si, exigente e protetora.

  Néfer regressava apressadamente da Casa de Vida onde tinha estudado os planos dos túmulos reais a fim de elaborar um projeto e de o propor a Merenptah. Absorvido pelas suas pesquisas, só parara no momento em que o clarão do poente iluminara os papiros.

  - Desculpa, estou atrasado!

  - E eu ainda pior!

  Mesmo assim, roubaram um momento para se beijarem antes de envergar os seus trajes de cerimônia.

  O par real recebeu a Mulher Sábia no templo do ka de Ramsés o Grande. Por respeito pelo Pai, cujo reinado durara sessenta e sete anos, Merenptah não construiria nenhum edifício semelhante no coração do Lugar de Verdade antes de ter enfrentado a prova do poder durante um longo período. Como a sua idade tornava pouco credível tal eventualidade, contentar-se-ia com aquele santuário, simultaneamente modesto e esplêndido para melhor se associar ao destino póstumo do imenso faraó.

  À esquerda do monarca, a Grande Esposa Real, Iset a Bela; à direita, o mestre-de-obras Néfer o Silencioso. Sentadas nos banquinhos de pedra que corriam ao longo das paredes, as sacerdotisas de Hathor, envergando longos vestidos brancos.

  - Vão buscar a Mulher Sábia - ordenou Merenptah.

  Turquesa inclinou-se diante do par real, saiu da sala de colunas e foi ter com Clara, que acabava de ser purificada por duas sacerdotisas. Vestiu-lhe um vestido de linho plissado branco e rosa que descia até aos tornozelos, adornou-a com um largo colar de ouro e com finas pulseiras do mesmo metal, e colocou-lhe uma peruca negra presa por uma tira encimada por um lótus.

  Depois, Turquesa introduziu Clara no local sagrado onde ficou em frente do Faraó e da Rainha, com as mãos cruzadas sobre o peito.

  - Chamam “Mulher" ao pai e à mãe das divindades, a matriz estelar de onde provêm todas as formas da vida - declarou Iset a Bela. - Sem ela, nem o Egito nem esta confraria existiriam.

O divino só encarna se a mulher das origens é capaz de o atrair e de o fixar. É o meu papel no topo do Estado e é o teu, Clara, no Lugar de Verdade. Se este último desaparecesse, o Pais ficaria em perigo. Compete-te a ti perpetuar a vida que corre nas veias desta comunidade, mantendo o fogo que lhe permite criar.

  Iset a Bela ergueu-se para posar sobre a peruca um fino círculo de ouro.

  - Graças à tua presença, Mulher-Sábia, o Sol ergue-se e a morte afasta-se. Que saibas ligar as palavras e os sons de maneira que os rituais sejam celebrados e as oferendas consagradas; que saibas ligar os seres para que eles formem um corpo cuja coerência seja inalterável.

  O mestre-de-obras entregou à Rainha uma cauda de andorinha de ouro que ela aplicou sobre o coração de Clara.

  - Sê a mãe da confraria, alimenta-a e trata-a. Mantém a paz e harmonia entre os humanos e os deuses, que estão prontos a ir contra as nossas fraquezas e sobrecarregar-nos com doenças e acidentes; sabe decifrar no momento certo as mensagens do invisível, identifica a origem dos males, prepara os remédios, domina os venenos, sê a que conhece e que sabe.

  Enquanto a Rainha regressava ao seu trono, Clara vacilou. A simples formulação dos seus deveres dava-lhes de repente uma dimensão de que não tinha ainda tomado consciência. Teve medo, estando a ponto de renunciar e confessar ao par real que era uma mulher simples, incapaz de desempenhar aquela função.

  Mas o seu olhar cruzou-se com o de Néfer que, naquele instante, não a contemplava apenas como um marido mas também como o mestre-de-obras do Lugar de Verdade. E descobriu nos seus olhos tanta confiança, amor e admiração que se quis mostrar digna dele.

  - Por recomendação da Grande Esposa Real e com o acordo unânime dos iniciados presentes neste templo - declarou o Faraó - nomeamos-te superiora da comunidade das sacerdotisas de Hathor do Lugar de Verdade.

                              

      Merenptah e Iset a Bela viviam momentos felizes no pequeno palácio do Lugar de Verdade. Longe da corte, dos lisonjeiros e dos pedinchões, o par real celebrava os rituais, visitava as oficinas, convidava para a sua mesa o mestre-de-obras, a Mulher-Sábia, o escriba do Túmulo e o chefe da equipa da esquerda para os ouvir falar dos trabalhos e dos dias da confraria.

  Kenhir mostrava-se inesgotável sobre a história da comunidade e por diversas vezes fez sorrir o Rei ao evocar as manias dos artesãos e o florescimento, em certas épocas do ano, dos motivos de ausência ao trabalho que examinava um a um com extrema severidade.

  As músicas de Hathor tocaram para o par real, que se interessou pelas técnicas dos especialistas e visitou o local onde seria edificado o Templo dos Milhões de Anos de Merenptah; Néfer conduziu Iset a Bela ao Vale das Rainhas para lhe mostrar a localização da sua Morada de Eternidade, magicamente ligada à do Faraó.

  Celebrava-se um banquete em memória dos reis que tinham protegido a confraria quando o vizir, com expressão sombria, se apresentou diante do monarca.

  - Posso falar-vos em particular, Majestade?

  - Não podes esperar pelo fim da refeição?

  - Gostaria de saber a vossa opinião o mais depressa possível para transmitir imediatamente as vossas instruções à capital.

  A entrevista demorou um longo momento. Quando Merenptah regressou, tinha uma expressão preocupada.

  - Amanhã parto para Pi-Ramsés - anunciou.

  - Terei tempo de vos mostrar o primeiro plano que preparei para o vosso túmulo, Majestade?

  O Rei, Néfer e Kenhir consultaram o documento depositado na Casa de Vida. O mestre-de-obras mantivera-se de acordo com as regras em vigor durante a x dinastia, a de Seti e de Ramsés.

  - Este plano convém-me e não desejo nenhuma inovação - afirmou o monarca. - No que diz respeito à escolha dos textos e às figuras e à sua distribuição nas paredes, enviar-me-ás outros planos, mais pormenorizados. E não esqueças, mestre-de-obras: nem um erro. Que cada elemento esteja no seu lugar correto.

  Néfer sabia que um túmulo real não se assemelhava a nenhum outro monumento e que devia ser concebido como um forno alquímico cujo fogo produziria a eternidade. Inspirando-se no exemplo dos seus predecessores e assimilando todas as dimensões da ciência sagrada. o Silencioso deveria compor uma partitura sem qualquer desarmonia.

  Entrevendo as dificuldades extremas de tal obra, Néfer foi dominado por uma vertigem. A fim de dissipar essa sensação, pôs-se ao trabalho consultando os papiros onde tinham sido conservadas as palavras dos deuses.

   Sobrecarregado de trabalho, Mehi tinha de partilhar o seu tempo entre os dois gabinetes: o do quartel general das forças armadas, na margem este, e o da administração principal, na margem oeste. Tanto num caso como no outro, exigira que os compartimentos fossem pintados de novo e mobiliados de forma luxuosa. Como os trabalhos não avançassem suficientemente depressa, exigira e conseguira mais operários.

  Essa existência trepidante, feita de deslocações de uma margem para outra, de entrevistas, de estudos de pastas, de tomadas de decisão, convinha perfeitamente a Mehi, cuja energia parecia inesgotável. Embora fossem apenas locais, as suas responsabilidades eram exercidas no quadro de uma região tão rica como prestigiosa e permitir-lhe-iam tornar-se uma das personagens importantes do Pais, sobretudo se conseguisse fazer com que o admitissem na corte de Pi-Ramsés.

  Condenado a ter êxito nas suas funções oficiais a fim de adquirir uma estatura de homem de Estado, Mehi surgiria como um desses altos dignitários satisfeitos consigo mesmos e com a sua fortuna. Quem duvidaria do seu verdadeiro objetivo?

  Um oficial superior saudou-o.

  - General, é chamado com urgência ao embarcadouro.

  - Algum incidente?

  - Parece-me que o Rei se prepara para abandonar Tebas. Todas as forças de segurança devem ser postas em ação.

  - Trato disso imediatamente.

  De fato, a flotilha real já não tardaria a levantar âncora; Mehi tomou as disposições necessárias para manter os vadios afastados.

  Inclinou-se diante do Rei quando este embarcou, com ar preocupado. O vizir esperava-o na ponte e os dois homens isolaram-se de imediato na cabina central.

  Mehi conversou com vários dignitários tebanos para tentar obter informações, mas ninguém sabia nada e todos se interrogavam com ansiedade sobre as causas daquela precipitada partida. Apenas um velho apoiado a uma bengala lançou um aviso que pareceu digno de interesse:

  - Ou uma facção que se opõe a Merenptah tenta tomar o poder na capital, ou prepara-se uma tentativa de invasão. Seja qual for a verdade, o céu do Egito escureceu.

   Paneb tinha assimilado o ensinamento de Gau o Exato e já não cometia erros na quadrícula, sem no entanto ser escravo de uma geometria rígida que lhe teria secado a mão.

  Por diversas vezes, no entanto, Gau corrigira pormenores e censurara ao jovem pintor os seus cálculos aproximados. Paneb tinha discutido, curvara-se por vezes, mas muitas vezes provara a correção do seu ponto de vista depois do motivo ser colorido.

  Se Paí o Bom pão aceitava de bom grado ver Paneb tornar-se o assistente de Ched o Salvador, que seguia passo a passo os progressos do discípulo e não tolerava qualquer imperfeição, o mesmo não se passava com Unesh o Chacal. Há muito que reconhecera o gênio de Ched e a sua superioridade sobre os desenhistas que Lhe preparavam o trabalho, mas não estava preparado para obedecer ao jovem Paneb, fossem quais fossem os seus dons.

  Antes de levar Paneb para o Vale dos Reis para lá trabalhar na decoração do túmulo de Merenptah, Ched o Salvador queria fazer que ele ultrapassasse uma etapa decisiva. Se falhasse, não seria nunca um verdadeiro pintor. Pedira portanto aos três desenhistas que preparassem o canto de uma parede, no vasto túmulo que Kenhir ocuparia. Paneb estava encarregado de representar ali um artesão vestido com a sua túnica branca de sacerdote puro e fazendo oferenda de incenso ao deus Ptah.

  Quando chegou, com os seus pincéis, trinchas e cores, a parede não estava preparada. Encostado ao muro, Unesh trincava uma cebola. As suas feições evocavam mais do que nunca as de um chacal.

  - Onde estão os outros?

  - Gau o Exato está mal do estômago e Paí o Bom pão tem uma forte constipação. Eu, cortei estupidamente um dedo ao cozinhar. Há dias assim, em que tudo corre mal. E, infelizmente para ti, Ched virá em breve examinar a tua pintura que nem sequer começada estará...

  - És muito gentil por me teres esperado aqui para me prevenires. Devias voltar para casa.

  - Tens razão, o meu ferimento pode infectar. Vou-me tratar.

  Paneb devia ter-se resignado e admitir a sua derrota, mas preferiu bater-se, mesmo vencido de antemão. Ele próprio efetuou a quadrícula depois de ter verificado a boa qualidade do revestimento, preparou as cores e pintou diretamente a personagem sem desenho preliminar, violando as regras. O tempo deixara de contar e mesmo que Ched surgisse para constatar o fracasso do seu discípulo, este último teria lutado até ao esgotamento das suas possibilidades.

  A manhã escoou-se, depois o início da tarde e sempre sem sinal de Ched! Paneb teve tempo de aperfeiçoar a sua obra, corrigir um pormenor ou outro e verificar o equilíbrio da cena.

  De repente, saltaram-lhe aos olhos mil defeitos.

  - Estás contente contigo - interrogou Ched, com os braços cruzados.

  - Não, não passa de um esboço.

  - Quando pintas, deves situar-te ao mesmo tempo de frente, de perfil e a três-quartos; suprime as perspectivas enganadoras que roubam a força vital, exclui o claro-escuro, associa múltiplos pontos de vista insistindo nos traços essenciais, o rosto de perfil, o olhar de frente, o torso de frente em toda a sua largura, a bacia a três-quartos com o umbigo visível, os braços e as pernas de perfil... Constitui um espaço que não existe e faz-nos ver a realidade oculta. Quando crias um falcão, reúne numa única imagem vários momentos do seu vôo; quando se trata de uma figura humana que o conjunto das suas características seja revelado. E não esqueças que a nossa obra não se inscreve no tempo; são instantes eternos que somos encarregados de encarnar. Nunca evocamos uma hora do dia em particular porque é o dia que conta, como fruto da luz. Compete-te a ti viver no movimento imóvel, seja qual for o eixo da tua mão. E respeita a hierarquia dos seres: o Faraó é de mais elevada estatura do que os homens porque é o grande templo que abriga o seu povo; um senhor de uma propriedade é maior do que  seus servidores porque exerce mais responsabilidades do que eles e deve assegurar o seu bem-estar. Quanto a um sacerdote como o que vejo na parede, deveria ter o olhar ligeiramente erguido para o céu.

  Paneb bebia as palavras de Ched o Salvador.

  - Para uma pintura executada tão depressa, já vi pior... Mas tens de mostrar-te capaz de a corrigir. Senão, imagina a cara de Kenhir!

  Tudo o que tinha fervilhado no coração de Paneb desde a sua adolescência ia finalmente poder exprimir-se, visto que o pintor acabava de lhe abrir os olhos para outra realidade, mais intensa , mais bela e mais vital do que o mundo aparente.

  Paí o Bom pão irrompeu no túmulo.

  - Paneb, vem depressa... A tua mulher vai dar à luz!

                              

      A Mulher Sábia requisitara seis sacerdotisas de Hathor para ajudarem Uabet a Pura a dar à luz em casa. Os rostos estavam graves, porque todos sabiam que a vinda ao mundo de uma criança era uma passagem perigosa. Era necessário conseguir separá-la do corpo da mãe sem que qualquer malefício a atingisse, na esperança de que as forças criadoras a animassem e não abandonassem o seu espírito no instante do nascimento.

  Clara lançara gordura de ave e incenso no fogo e depois preparara duas pedras cobertas com textos mágicos segundo os quais Tot fixava a duração da vida e o destino do recém-nascido. Quanto às suas assistentes, tinham atenuado a dor da parturiente introduzindo-lhe na vagina uma pasta composta por leite, funcho, resina de terebintina, cebola e sal.

  A frágil Uabet, cujo ventre se dilatara de forma espetacular nos últimos dias, não dissimulava a sua inquietação.

  - Está tudo normal?

  - Acalma-te - disse Clara - o parto está iminente e nem sequer vais ter necessidade de absorver drogas para atenuar o sofrimento. A criança apresenta-se da melhor forma.

  - Tenho a impressão que o meu bebê é enorme... Não irá rasgar-me?

  - Não, deixa-te de receios. Apesar da tua baixa estatura, tens uma bacia feita para parir.

  As contrações aceleraram-se. As sacerdotisas despiram Uabet e ajudaram-na a acocorar-se, mantendo-lhe o busto direito.

  Tal como Clara predissera, a criança veio ao mundo sem complicações. O grito que lançou era tão forte que alertou boa parte da população da aldeia.

  - Porque não me deixam entrar? - insurgiu-se Paneb.

  - Porque o ritual do nascimento é um assunto de mulheres, respondeu Paí o Bom pão. - A tua presença seria inútil e perigosa.

  - É o meu filho que vai nascer!

  - Deixa trabalhar a Mulher Sábia e as suas assistentes.

  - Como se educa um filho, Pai?

  - Seja como for, uma criança é uma vara torta com dois defeitos, a surdez e a ingratidão. É preciso, o mais depressa possível, abrir-lhe a orelha que tem nas costas, falar-lhe dos seus deveres, fazê-la compreender tudo o que deve aos Pais e ensinar-lhe o respeito pelos outros. Então, começará a ser como deve ser e poderá ser educado.

  - Se o meu filho se parecer comigo, vou ter que me ver com ele.

  A porta abriu-se. Clara surgiu, radiosa.

  - Um rapaz... Um magnífico rapaz que pesa pelo menos seis quilos!

  Paneb precipitou-se no compartimento perfumado com jasmim onde a esposa repousava numa cama confortável, segurando o seu enorme bebê nos braços. Tinha um lindo tufo de cabelos negros e dois dentes sobre os quais o Pai passou o indicador estupefato.

  - Nunca vi nada assim - confessou a mais velha das parteiras. - O cordão umbilical era tão grosso que tivemos dificuldade em cortá-lo.

  Paneb estava maravilhado. Era evidente que o seu colossal filho não pertenceria à categoria dos raquíticos e achacados.

  - Estás contente comigo? - perguntou-lhe Uabet com uma vozinha fatigada.

  O Ardente beijou a esposa na têmpora.

  - Posso pegar nele?

  - Tem cuidado!

  - Vai ser um lutador, tenho a certeza!

  A mãe dava a carne da criança, o Pai a ossatura; e era nos ossos de um rapaz que se formava o seu esperma. Tendo em conta o peso dos do recém-nascido, Paneb sentiu-se descansado quanto às faculdades de progenitor.

  Clara ofereceu à jovem mamã mel e um bolo de parto, o "doce de Hórus". Uma sacerdotisa esmagou minuciosamente as extremidades de caules de papiro para obter um pó que misturou com leite da parturiente; daria a beber a mistura ao bebê antes de ser amamentado por uma ama de seios generosos.

  - Foram tomadas todas as precauções? - perguntou Paneb.

  Clara passou em torno do pescoço do recém-nascido um fino fio de linho com sete nós ao qual estavam presos um bocadinho de papiro dobrado contendo as fórmulas de proteção contra as forças obscuras, um minúsculo dente de alho e uma cebola.

  - Só a luz salvará esta criança da morte que vem como uma ave - afirmou. - Nenhum demônio surgirá das trevas para o levar, pois manteremos uma lâmpada acesa durante toda a noite e velaremos por ela.

  Tranqüilizado, Paneb abordou um assunto essencial.

  - Que nome lhe daremos, Uabet?

  Competia à mãe escolher. Podia atribuir-lhe um que seria utilizado durante os primeiros anos da sua existência e manter outro secreto; este só seria revelado no momento em que a criança pusesse em ação a qualidade de que era portador.

  - Bastará um único nome - decidiu Uabet a Pura. - O nosso filho chamar-se-á Aperti, "o que tem muita força".

 

   A barulheira começou a meio da noite. Primeiro foi apenas uma voz grave de homem embriagado, depois uma segunda mais hesitante e por fim uma terceira que tentava retomar, para pior, a cantilena licenciosa dos companheiros.

  Os três pândegos berraram com tanta força o seu amor pelo vinho, as mulheres e a liberdade que despertaram a aldeia. Chegaram crianças, ladraram cães.

  Furiosa, a esposa de Paí o Bom pão saiu para identificar os causadores de tal perturbação e ordenar-lhes que se calassem.

  Qual não foi a sua surpresa ao descobrir o marido titubeante agarrado a um braço de Paneb, enquanto com o outro, o jovem colosso segurava o escultor Renupé o Jovial, incapaz de se manter em pé sozinho. Entrando em pânico ao ver a mulher, Paí caiu pesadamente no chão.

  - Posso explicar... Festejamos o nascimento do filho de Paneb e eu...

  - Entra imediatamente em casa!

  - Somos homens livres - proclamou orgulhosamente Renupé o Jovial - e ainda não acabamos de festejar!

  A matrona esbofeteou o escultor, que foi incapaz de retorquir, e puxou o marido pela pele do pescoço, a ponto de lhe arrancar um grito de dor.

  Paneb rebentou a rir e recomeçou a cantar, ao mesmo tempo que bebia outra bilha de vinho, e imobilizou-se em frente da fachada da casa de Turquesa.

  Uma idéia divertida atravessou-lhe o espírito. Deslumbraria a aldeia, provando o seu talento.

  Quando, de manhã, a bela Turquesa abriu a porta, havia uma multidão em frente da casa. Admiravam o retrato em pé que Paneb, adormecido no meio da ruela, fizera da amante. Representara-a nua e tocando alaúde. A sua única indumentária era um delicado cinto de pérolas cuja finura só servia para sublinhar as formas admiráveis da jovem.

  Os comentários brotavam de todos os lados e não eram elogiosos. Nakht o Poderoso começava já a apagar aquela obra escandalosa e acusavam Paneb de ter a boca em fogo e o coração demasiado ardente.

  - Sabeis que proeza ousou cometer para ficar neste estado? - clamou uma sacerdotisa. - Roubou vinho das mesas de oferendas destinadas aos mortos!

  - Cessai de inventar idiotices - interveio Turquesa. - Tudo o que Paneb bebeu provém da minha cave. Só há uma pessoa que pode estar ofendida com a sua pintura: eu própria. E não estou. É um delito festejar?

  - Fazê-lo desta maneira, sim! - objetou a esposa de Paí o Bom pão. - Até agora, esta aldeia viveu com tranqüilidade e não será este exaltado do Paneb que vai alterar isso!

  - Não foste jovem? - perguntou-lhe Turquesa.

  - Nunca me embebedei até perder a consciência e orgulho-me disso! Este vadio não merece qualquer indulgência.

  Ched o Salvador aproximou-se. Como sempre, estava perfumado e impecavelmente barbeado.

  - Não esqueçam que é meu assistente e que o espera um trabalho importante. Pela minha parte, considero necessário esquecer este incidente.

  Iniciou-se um animado debate entre os aldeões. E a conclusão impôs-se por si mesma, proclamada por Casa o Cordame.

  - Façamos apelo ao mestre-de-obras! Ele encontrará a solução.

  Néfer o Silencioso, que nessa noite tinha trabalhado até tarde no plano do túmulo de Merenptah, acabava precisamente de chegar ao lugar da barafunda.

  Face à acumulação de testemunhos contraditórios, o mestre-de-obras teve alguma dificuldade em formar uma opinião. Breve e precisa, a intervenção de Turquesa esclareceu-o melhor.

  - Dispersai - ordenou - e deixem-me só com Paneb.

  Perante o rosto severo do Silencioso, a esposa de Paí o Bom pão teve a certeza que o brincalhão ia passar um mau quarto de hora.

  Com uma taça de terracota, o mestre-de-obras retirou um pouco de água de um grande pote e aspergiu com ela o rosto de Paneb, cujo sono não tinha sido perturbado pela gritaria.

  O Ardente despertou imediatamente e endireitou-se, pronto para se defender.

  - Quem se atreveu...

  - O teu chefe de equipa, Paneb. Aquele a quem deves respeito e obediência.

                              

      Apesar da dor de cabeça, Paneb levantou-se e encostou-se à parede da casa de Turquesa.

  - Porque apagaram o retrato? - indignou-se.

  - Porque as fachadas das nossas casas devem permanecer brancas. Lembra-te: foste tu próprio que as restauraste. Não podes admitir que sejam conspurcadas por pinturas.

  Paneb atirou o pincel ao ar.

  - Quero conquistar o céu, as estrelas e a terra inteira, capturá-las na minha pintura, fazer aparecer a realidade mais secreta, torná-la vibrante e quente como um corpo aPaixonado de mulher! E pintá-lo-ei onde me apetecer, mesmo na parede de uma casa!

  - Não, Paneb.

  O olhar ainda vacilante do jovem colosso ousou no entanto desafiar o do Silencioso.

  - Como não? Não vais ser tu a ditar a minha conduta!

  - Sou o teu chefe de equipa e tenho o poder de te excluir da confraria por falta grave. Recusar obedecer ao mestre-de-obras seria uma...

  A ameaça fez desaparecer de imediato a embriaguez do Ardente.

  - Não estás a falar a sério...

  - Muito a sério. Sejam quais forem os acontecimentos que nos afetem, felizes ou infelizes, não temos o direito de nos comportarmos como profanos e devemos mostrar-nos dignos da confraria. É por isso que a tua atitude é inaceitável.

  - Por outras palavras, já não és meu amigo...

  - A colméia é mais importante do que a abelha, Paneb. É igualmente mais importante do que as relações de amizade e as preferências pessoais. És tu que me levas a agir como mestre-de-obras e, por muito que me custe, não fugirei a esse dever.

  O Ardente cerrou os punhos.

  - A figura da música nua foi apagada, a parede da casa torna ainda a ser branca... Que tens ainda para me censurar?

  - Embriaguez, barulho e falta de autocontrole. Quando compreenderás finalmente que trabalhas na Grande Obra?

  - Isso é assunto teu! Eu sou apenas o assistente de Ched o Salvador.

  - Engana-te, Paneb. Todos os habitantes desta aldeia, em diferentes graus, vivem a mesma aventura. Sejam quais forem os teus dons, não te autorizarei a utilizá-los solitariamente.

  O Ardente sentiu que o Silencioso não estava a brincar.

  - Sabes pelo menos o que ferve no meu íntimo? Pintaria dezenas de Moradas de Eternidade sem me esgotar!

  - Assim o desejo. Entretanto, ou aceitas a sanção ou deixas o Lugar de Verdade.

  Paneb voltou as costas ao seu juiz.

  - Será uma sanção infamante?

  - Conheces-me mal, pintor-assistente. Até mesmo uma sanção deve ser útil à confraria.

   Mehi trabalhava depressa e bem. Graças ao seu profundo conhecimento do exército e da administração, instalava redes de comunicação muito eficazes a fim de obter um máximo de informações confidenciais e poder assim apreciar a evolução da situação sem excessivos erros.

  O general exigia uma disciplina muito rigorosa e rodeava-se de subordinados sem problemas de consciência, aos quais prometia vantagens substanciais se o satisfizessem. Prometer, não cumprir, explicar por que razão o compromisso não fora mantido, e prometer outra vez: Mehi era mestre nessa arte subtil, à qual se juntava a calúnia destilada dia-a-dia. Isto permitia-lhe voltar os seus colaboradores uns contra os outros e manter um clima de desconfiança muito útil quando se tratava de fazer cair o peso de um fracasso ou de uma manobra errada sobre os ombros deste ou daquele.

  O general mentia com uma segurança e uma força de convicção que provocavam a adesão dos seus interlocutores. Como trabalhava muito, ao contrário da maior parte dos dignitários, tinha um conhecimento exato das pastas e não receava qualquer crítica.

  Em alguns oficiais superiores surgiam ainda surtos de integridade, ou seja, de lucidez, que poderiam revelar-se ameaçadores.

  Mehi vigiava-os de perto e convidava-os mesmo para jantar a fim de ter a opinião de Serketa, a sua doce e terna esposa. Sentira tanto prazer em matar que não hesitaria um instante em recomeçar, se necessário. Tendo uma aliada com este talento, muitos problemas seriam resolvidos antes mesmo de surgirem.

  De regresso da capital, Pi-Ramsés, o chefe da escolta tebana que acompanhara a guarda real, apresentou-se ao seu superior.

  - Boa viagem?

  - Excelente, general. Nenhum incidente a assinalar. O Pais está calmo, a flotilha do Faraó foi aclamada ao longo de todo o percurso e Merenptah chegou a Pi-Ramsés em excelente forma.

  - Como achaste a grande cidade do Norte?

  - Para ser franco, general, menos impressionante do que Tebas. Os templos e os palácios são grandiosos, é verdade, mas falta-lhes ainda a antiguidade que faz a glória da nossa cidade. E nada pode igualar Karnak.

  - Conseguiste informar-te sobre o clima político?

  - Está bastante conturbado. Ninguém contesta a capacidade de Merenptah para governar, mas há já ambições que se chocam tendo em vista uma sucessão que não deverá tardar, tendo em vista a idade do Rei.

  - Esquecem que é filho de Ramsés o Grande e que pode viver até ser tão velho como ele?

  - Com efeito, esquecem. E há dois candidatos sérios que começam a trocar golpes: Seti, o filho de Merenptah, e Amenmés, o turbulento filho de Seti que o próprio Pai parece incapaz de controlar.

  - Preciso do máximo de informações sobre essas duas personagens - exigiu Mehi.

  - Temos alguns bons amigos em Pi-Ramsés, oficiais de origem tebana.

  - O regresso precipitado do Rei foi provocado por uma tentativa de golpe de Estado?

  - Espalhou-se um falso rumor em Pi-Ramsés: o da morte de Merenptah em Tebas. Imediatamente, Amenmés andou a dizer que o Pai estava tão afetado que não teria coragem de subir ao trono. Chegaram vários desmentidos por correios oficiais, mas o rumor persistiu e foi preciso que o Rei regressasse a toda a pressa para mostrar que estava bem vivo. Parece ter reentrado tudo na ordem, mas Merenptah vai ter grandes dificuldades em impor a sua autoridade e desfazer as intrigas.

  Eis porque ele faz tanta questão da submissão absoluta da região tebana, pensou Mehi; se esta se revoltasse, teria meios para restabelecer a ordem?

  - Outro pormenor, general: todas as guarnições das fronteiras do oeste e do nordeste foram colocadas em estado de alerta.

  Mehi fulminou o outro.

  - Mas isso é uma informação essencial! Porque não começaste por ela?

  - Porque, tendo em conta os esclarecimentos que consegui, tratava-se apenas de um exercício. Merenptah queria assegurar-se que as suas ordens seriam corretamente transmitidas e executadas. Não houve qualquer falha no sistema, ao que parece.

  - Mesmo assim... Esse exercício não ocultará uma ameaça de invasão?

  - Não, porque a situação é calma, sem quaisquer confrontos no horizonte. No entanto, alguns graduados consideram que o material envelheceu, que o número de bons soldados diminuiu e que longos anos de paz fizeram o exército egípcio perder a noção do combate.

  - Foi por isso que realizei numerosas reformas nas tropas tebanas!

  - Embora os regimentos de elite, encarregados de defender as Fronteiras em caso de ataque, se encontrem em Pi-Ramsés, é provável que o seu treino não seja suficientemente intenso. Mas não pesa sobre o Egito nenhuma ameaça séria e a paz instaurada por Ramsés o Grande deverá perdurar.

  Não era essa a opinião de Mehi: Ramsés estava morto e com ele a sua magia. Em breve, as intenções belicosas dos líbios, dos sírios e dos asiáticos despertariam e não era um Merenptah envelhecido que seria capaz de travar as manobras belicosas e vingativas desses povos doentes de guerra que Ramsés tão bem soubera colocar sob o seu jugo.

  Competia a Mehi saber utilizar da melhor forma os últimos anos de paz para tornar o exército tebano ainda mais poderoso; amanhã, não seria o último recurso e ele o salvador?

  - O que dizem da Rainha? - perguntou o general.

  - É fiel ao marido e não tem qualquer motivo de discórdia com ele. Formam um casal muito sólido e Merenptah nunca manifestou o menor interesse pelas jovens beldades que se pavoneiam na corte. A sua austeridade natural levou-o para um trabalho assíduo e raramente honra um banquete com a sua presença. Agora que é Rei e que o peso das suas responsabilidades aumentou, é fácil imaginar que nem sequer concede a si próprio o prazer de um passeio de barco pelos pântanos.

  É pena, considerou Mehi; uma rainha medíocre e pérfida poderia ser manipulada com algum proveito.

  - E a Casa da Rainha?

  - Iset a Bela dirige o seu pessoal com pulso de ferro. Na realidade, controlava essa Casa há já vários anos, com a aprovação de Ramsés, e há muito tempo que não estala qualquer escândalo na corte. A esposa de Merenptah tem reputação de ser uma excelente gestora e ninguém tentaria enganá-la.

  Aos olhos de Mehi, aquele relatório tinha muitos pontos positivos que devia estar preparado para explorar em função dos acontecimentos; mas esperar não era uma solução. Competia-lhe detectar novas falhas ou alargar as que já existiam, respondendo a uma pergunta muito delicada: que atitude adotar em relação ao Lugar de Verdade?

                              

      O chefe Sobek gostava da sua profissão e era um bom guarda. E, como todo o bom guarda, tinha um agudo sentido do perigo. Ora o fato é que o sentia muito perto de si, no próprio interior do Lugar de Verdade. Dez anos de vãs investigações não tinham abalado o seu desejo de descobrir o assassino do guarda núbio e o homem que queria prejudicar Néfer o Silencioso. Obsessiva, a mesma hipótese voltava constantemente: aquele monstro ocultava-se na aldeia e pertencia à equipa da qual Néfer era o chefe.

  Com o desaparecimento de Ramsés e a nomeação do Silencioso como mestre-de-obras, teria o criminoso decidido manter-se sossegado para sempre? Sobek não acreditava nisso. Paciente e determinado, esse demônio continuava a visar um objetivo preciso.

  Mais do que nunca, Néfer estava exposto.

  E o traidor tinha seguramente cúmplices no exterior, como esse Abri que não se suicidara mas que tinha sido suprimido para o impedirem de falar. Abri, administrador-principal da margem oeste, protetor designado do Lugar de Verdade! Que melhor para sublinhar a gravidade do mal? O seu desaparecimento cortava uma pista principal, mas Sobek talvez conseguisse tornar a ligar os fios da conspiração identificando o artesão que traíra o seu juramento.

  O núbio acabava de tomar uma decisão que não comunicaria a ninguém: utilizando todos os meios de que dispunha, ia seguir passo-a-passo cada um dos membros da equipa da direita. Se uma besta imunda se aninhava no seu seio, acabaria por cometer um erro.

  Era a única hipótese de conseguir descobrir e não a desperdiçaria.

  - Chefe - avisou-o um dos seus homens - o burro chegou.

  - O burro... Que burro?

  - Bem... Aquele que haveis encomendado, segundo parece.

  - Ah, sim, é verdade! Diz ao mercador que lhe pagarei para a semana.

  Sobek ouviu os relatórios dos guardas núbios, que não lhe referiram qualquer incidente. O Vale dos Reis estava bem guardado e nenhum suspeito havia tentado aproximar-se. Mas a tropa queixava-se do número de horas de vigilância que era obrigada a efetuar quando a situação parecia calma. Para mais, esse trabalho extraordinário era muito mal pago.

  O chefe Sobek foi dominado por uma violenta cólera.

  - Onde julgam vocês que estão, bando de imbecis? Vocês não são encarregados de assegurar a vigilância de um armazém de cereais, mas sim de garantir a proteção do Lugar de Verdade! Servir aqui é uma honra e quem não o compreende pode entregar-me o seu pedido de demissão imediatamente.

  As carrancas desapareceram e todos regressaram ao seu posto, enquanto Sobek examinava o seu burro.

  - Quanto pede o mercador?

  - Uma peça de tecido, um par de sandálias, um saco de centeio e outro de farinha - respondeu o guarda de plantão.

  - Está a fazer troça de mim! Este pobre animal é velho e doente, incapaz de percorrer os caminhos da montanha. Levem-no para um palmar onde terminará em paz os seus dias.

  O mercador de burros inclinou-se diante de Mehi.

  - Agi de acordo com as vossas instruções.

  - Entregaste um animal velho ao chefe Sobek?

  - Tão velho que mal pode andar.

  - Pediste um bom preço?

  - O de um burro de boa saúde.

  - A guia de entrega foi registrada?

  - Com certeza, mas com a descrição de um animal vigoroso, visto por várias testemunhas quando saiu da minha estrebaria.

  - Perfeito... Sobek é portanto obrigado a pagar-te. Sobretudo, não o apresses e deixa o tempo passar. Tenho uma boa notícia para ti, mercador: a administração encomenda-te uma centena de burros. Vela para que os teus animais sejam resistentes e de preço moderado, porque tenho o maior cuidado com as finanças públicas.

  Paneb trabalhara dia e noite a fim de se desembaraçar o mais depressa possível da tarefa que lhe fora imposta pelo mestre-de-obras. Afinal, tivera ocasião de aprender uma nova técnica, a da escultura das estelas, e de aperfeiçoar um tipo de desenho que pouco praticara até àquela altura. Como o vinho de Turquesa era excelente, a dor de cabeça do jovem colosso não durara muito tempo; e como Aperti estava muito bem, tal como a mãe, Paneb não lamentara um só instante a pequena festa que continuava a suscitar a reprovação da aldeia. Isolado na sua oficina, o prevaricador tinha a sorte de não ouvir os comentários. Quando Néfer o Silencioso apareceu, o pintor-assistente dava uma última camada de verde na orelha de um Osíris.  Fizera mais de uma centena de orelhas: negras, com as da ilustre rainha Ahmès-Néfertari, fundadora da confraria feminina do Lugar de Verdade; amarelas, como as do seu real filho, Amenhotep I, venerado pelos construtores; azuis-escuros para evocar o céu e onde circulava o ar criado pelos deuses; orelhas de calcário, com sete centímetros de comprimento, quatro de largura e dois de espessura; outras esculpidas em alto-relevo ou em baixo-relevo sobre estelas que seriam colocadas nas capelas.

  - Só te exigira uma dezena de pares de orelhas como oferenda ao templo - disse o mestre-de-obras.

  - Tomei-lhe o gosto... Com este conjunto, os deuses deveriam ouvir as orações da aldeia inteira.

  - A magia deve funcionar nos dois sentidos, Paneb; possam eles, com efeito, ouvir-nos, mas possamos nós sobretudo ouvi-los eles, e tu em especial. Esqueceste que um servidor do Lugar de Verdade é "aquele que ouve o apelo?" Ouvindo-te apenas a ti próprio arriscas-te a tornar-te surdo ao espírito da aldeia.

  - Ouvir é o melhor de tudo. Mas há dez anos que não faço mais do que isso!

  - Em primeiro lugar, exageras; depois, achas que um artesão terá algum dia acabado de ouvir?

  - Pára de me pregar moral! Devo ir pessoalmente distribuir estas orelhas?

  - Duvidavas?

  Nakht o Poderoso interrompeu os dois homens.

  - Uma tragédia - articulou com dificuldade - uma horrível tragédia... A criança... Não sobreviveu!

  Paneb saiu da oficina como uma flecha e correu até casa.

  Porque razão o destino o feria assim de forma tão cruel? Embebedar-se não era apesar de tudo uma falta assim tão grave contra os deuses! É verdade, ele era demasiado orgulhoso do seu talento e andara todo inchado naquelas últimas semanas, mas a criança não era responsável.

  Uabet a Pura repousava no primeiro compartimento.

  - Paneb... Tens um ar perturbado!

  - Como aconteceu?

  - De que estás a falar?

  Agarrou-a pelos ombros.

  - Diz-me, Uabet, quero saber!

  - Mas... o quê?

  - O meu filho... Como morreu ele?

  - O que estás tu para aí a dizer? A ama está a amamentá-lo!

  Paneb precipitou-se para o quarto. Aperti mamava com avidez , sem tomar fôlego.

  - Já ganhou peso - disse a ama. - Tendes aqui realmente um belo rapaz.

  Uabet a Pura apostrofou o marido.

  - Falavas de uma criança morta...

  - Foi Nakht que me avisou.

  Aflitos, os aldeões reuniam-se no local do drama. Chamada de urgência, a Mulher Sábia não pudera fazer mais do que constatar a morte de um rapazinho que quisera fazer de equilibrista na borda de um terraço para encantar uma garotinha e caíra de cabeça. Quisera a sorte que fosse bater nos degraus de uma escada.

  Ninguém ousava tocar no cadáver. Foi Paneb que ergueu docemente o pequeno corpo desarticulado e o segurou contra o peito como se o pequenito dormisse.

  Um homem destacou-se da assistência com o rosto cavado pelo sofrimento.

  - É o meu filho - disse o ourives Tuti. - O meu segundo filho... Só tinha cinco anos.

  - Queres pegar nele?

  - Não, Paneb, não tenho coragem... Obrigado pela tua ajuda, obrigado de todo o meu coração.

  A mãe desmaiara e a Mulher Sábia tratava dela. O mestre-de-obras envergara a indumentária estrelada do sacerdote de ressurreição e pedira a diversos artesãos que se purificassem para o assistirem durante os rituais funerários.

  Em estado de choque, os aldeões dirigiram-se em procissão para o cemitério de este onde, na parte de baixo, eram inumadas as crianças mortas em tenra idade. Havia ânforas que continham os fetos e os bebês nados-mortos e cestos redondos ou ovais para os bebês de colo que a morte roubara iludindo as proteções mágicas.

  Para o filho do ourives, Didia o Generoso oferecera um pequeno cofre retangular em sicômoro, de tampa direita, que tinha de reserva na sua oficina.

  Enquanto Néfer o Silencioso celebrava um breve ritual anunciando o regresso da criança ao corpo imenso da sua mãe celeste, Paneb envolvia o pequeno cadáver num tecido de linho e deitava-o no sarcófago onde Turquesa depositara dois vasos contendo pão, uvas e tâmaras que lhe serviriam de provisões no caminho do além.

  Depois o caixão foi metido numa cova e o deus da terra absorveu-o para o transformar numa barca que vogaria nas grandes extensões de água do cosmos.

  De acordo com a Regra, os artesãos do Lugar de Verdade eram os seus próprios sacerdotes e não precisavam de nenhum auxílio externo. Toda a aldeia usaria luto e ninguém esqueceria as lágrimas de Paneb que, até ao momento em que fora obrigado a separar-se do rapazinho, quisera acreditar que o seu calor e a sua energia o trariam de novo à vida.

                              

      - Desta vez, Mehi, a minha paciência esgotou-se e não conseguireis encontrar nenhuma boa razão para me obrigar a esperar mais!

  O homenzinho gordo e barbudo que assim ousava apostrofar o general chamava-se Daktair, filho de um matemático grego e de uma química persa. Com os agressivos olhos negros, o cabelo ruivo e as pernas demasiado curtas, não apresentava bom aspecto e nada tinha de sedutor. Colocado à frente do laboratório central de Tebas instalado na margem oeste, não longe do Lugar de Verdade, Daktair concebera um grande projeto: fazer entrar o velho Egito na era da ciência e do progresso, arrancá-lo às suas crenças ultrapassadas e utilizar finalmente o seu formidável potencial. Depois de ter pilhado as idéias de outro para se tornar um sábio reconhecido e escutado, Daktair queria impor os seus pontos de vista e colocar por fim a natureza ao serviço do homem. Para o conseguir, faltavam-lhe ainda dois elementos decisivos: o apoio de um homem político de primeiro plano e o conhecimento dos segredos do Lugar de Verdade. Ora Mehi era o único egípcio capaz de lhe proporcionar plena e inteira satisfação. À sua espetacular ascensão correspondia o desejo de se apoderar dos tesouros da confraria, que afirmava não serem uma lenda por já os ter visto. No entanto, esse protetor e aliado deixara Daktair estiolar numa existência banal onde, apesar da sua posição, não pudera dar largas aos seus talentos.

  Mehi fitava Daktair, sorrindo.

  - Sentiste-te esquecido, não é verdade?

  - É um fato!

  - Enganaste-te. Simplesmente, eu tinha outras prioridades.

  - Mas a ciência...

  - A ciência não é independente do poder nem nunca o será!

  Estás a ver, o desaparecimento de Ramsés e as respectivas conseqüências parecem-me muito mais importantes do que os teus desideratos.

  - Posso admitir isso, mas neste momento sois general e administrador-principal da margem oeste... O que vos impede de agir?

  - És uma espécie de gênio, Daktair, e realizaremos os teus grandiosos projetos, mas conheces mal o Egito. É verdade que sou o senhor oculto da rica e poderosa região tebana, mas também o protetor designado do Lugar de Verdade. E o próprio Faraó em pessoa me pedirá contas.

  - Isso significa... que estamos de pés e mãos atados?

  - De maneira nenhuma, meu caro Daktair! Mas temos de nos mostrar prudentes e manhosos como feras.

  Despeitado, o sábio encolheu-se.

  - Então os segredos dessa maldita confraria estão fora do nosso alcance...

  - Para um homem que se mostrou tão paciente, desesperas depressa!

  - Sou lúcido... As vossas nomeações reduzem-vos à impotência!

  - Fica a saber que eu nunca renuncio e que utilizo as circunstâncias melhor do que qualquer pessoa. Os poderes de que disponho são vantagens, não inconvenientes.

  - Mas... como tencionais agir?

  - Em primeiro lugar, desembaraçar-me de uma personagem incômoda, o chefe Sobek, que não consegui subornar; um procedimento legal conduzirá à sua destituição e privará finalmente a aldeia do seu inultrapassável cordão de segurança. Em seguida, forçar o escriba do Túmulo e o mestre-de-obras a cumprirem as suas obrigações. Não me falaste de uma expedição muito especial que deve ser organizada a intervalos regulares?

  - Sim, e ignoro por que razão os artesãos da confraria lhe estão sempre associados.

  - O fim do reinado de Ramsés e o início do de Merenptah alteraram os hábitos, mas compete-me a mim restabelecê-los.

Como diretor do laboratório central, suponho que tenhas falta de galena e betume, não?

  O rosto antipático de Daktair desanuviou-se.

  - Tereis um relatório circunstanciado a partir de amanhã e um pedido urgente de abastecimento.

  - Gostas de viagens, meu amigo?

  - Não me assustam.

  - Serás o chefe dessa expedição, Daktair. Dessa forma, poderás controlar tudo.

 

  Os artesãos do Lugar de Verdade estavam divididos em duas categorias: os que praticavam uma técnica levada à perfeição sem serem introduzidos junto de Deus e os que, como Néfer o Silencioso, tinham vivido os mistérios da Morada de Ouro e podiam portanto oficiar como os sumos sacerdotes de Karnak.

  Simultaneamente artesão e ritualista, o mestre-de-obras dirigia-se todos os dias ao templo para ali efetuar o trabalho primordial, ou seja, a revelação da luz divina que tornava vivos a madeira, a pedra e os outros materiais.

  Enquanto se purificava antes de entrar no santuário, Néfer pensava nas qualidades exigidas a um sábio: fazer o que é correto e justo, ser coerente, silencioso e calmo, ter um caráter firme capaz de suportar tanto a felicidade como a desgraça, um coração vigilante e uma língua capaz de ser afiada. Como estava longe de possuir todas essas virtudes, embora fossem necessárias para desempenhar a sua função sem fraquejar!

  Não tinha outra solução a não ser avançar, dia após dia, preocupando-se mais com a confraria do que consigo próprio. A celebração dos rituais da manhã dava-lhe energia, enquanto se interrogava sobre a melhor forma de assumir os seus múltiplos cargos.

  Envergando o avental de ouro concedido pelo Faraó, Néfer penetrou no templo principal do Lugar de Verdade, dedicado a Maet, a Regra eterna do universo, e a Hathor, o amor criador. Dois caminhos que formavam apenas um, dois rostos de uma mesma força divina.

  Primeira ilhota emersa do oceano dos possíveis, o santuário era o olho de Deus a olhar o mundo. Ser vivo em perpétua metamorfose, alimentava-se da sua própria substância, a luz oculta nas pedras.

  Aqui tudo era ressonância, música celeste, números e proporções harmônicas; aqui tinham sido abolidos o acaso e o destino para dar lugar a uma vida sublimada que nenhuma imperfeição manchava. Semelhante ao céu em todas as suas partes, o templo era a morada da Mãe dos construtores, quer se chamasse Maet, Hathor ou deusa do silêncio. Ali fazia renascer os seus filhos espirituais.

  Depois de ter realizado a oferenda de Maet a ela própria, no momento em que o Faraó celebrava o mesmo ritual no grande templo de Pi-Ramsés, Néfer dirigiu-se à sala da barca que, naquele local, tinha uma importância particular. Não era o Lugar de Verdade comparado a uma grande embarcação onde estavam instaladas as duas tripulações?

  Naquele dia de luto para o ourives Tuti, seu companheiro de aventura, o mestre-de-obras desejava associar o filho à grande viagem da confraria. Traçou portanto um sol sobre uma taça nova que depositou na frente da barca sagrada cujos remadores eram as estrelas eternas. Elas conduziriam consigo a alma do rapazinho.

 Quando o mestre-de-obras saiu do templo, o Sol da manhã nascente brilhava já com generosidade. As sacerdotisas de Hathor guarneciam de flores os altares dos antepassados, as donas de casa iam buscar água fresca e ouviam-se os risos das crianças que apagavam o drama e traçavam o futuro.

  De um lado e de outro da porta aberta na cerca, encontravam-se duas estelas com orelhas instaladas por Paneb. A sua presença provocou um sorriso a Néfer, que se dirigiu à oficina de escultura.

  Para sua grande surpresa, encontrou a porta fechada.

  Acorreu Renupé o Jovial.

  - Não te inquietes! Está tudo bem.

  - Porque não está aberta esta oficina?

  - Um simples contratempo.

  - Estará Userhat o Leão doente?

  - Ele, doente? Não, não creio.

  - Não te deveria ter confiado a chave?

  - Sim, com certeza, mas... Mas ele perdeu-a! Portanto, com certeza, anda à sua procura e por isso está atrasado. Logo que a encontre, vai abrir a porta e pôr-nos-emos a trabalhar.

  - Mentes muito mal, Renupé. Porque não me dizes a verdade?

  O escultor forçou a sua natural jovialidade.

  - Não há nada de realmente grave, garanto-te... Um simples mal-entendido que muito rapidamente se dissipará, tenho a certeza.

  - Podes ser mais claro?

  - Conheces Userhat, não tem um caráter fácil... De tempos a tempos, é dominado por uma cólera impressionante.

  - Qual é a causa do seu descontentamento?

  - Digamos... Uma ligeira diferença com o nosso colega Ipui o Examinador. Mas não é dramático, posso-te garantir!

  - E porque impede essa querela que Userhat abra a oficina de escultura?

  Renupé não se atreveu a olhar de frente o mestre-de-obras.

  - Bem... Userhat recusa-se a retomar o trabalho.

                              

      No primeiro compartimento da sua confortável moradia, Userhat o Leão prestara homenagem aos antepassados depositando flores na mesa de oferendas e divertia-se a transformar um pedaço de sicômoro num pato de asas articuladas com o qual as duas filhas brincariam durante horas.

  - Esperava a tua visita - disse ele ao mestre-de-obras.

  - E eu espero as tuas explicações.

  Userhat posou o cinzel e o pato inacabado e depois enfrentou Néfer o Silencioso. O torso poderoso do artesão fremia de indignação.

  - Sou o chefe-escultor da equipa da direita e até mesmo os meus confrades da equipa da esquerda me consideram como seu mestre. Não é exato isto?

  - É exato.

  - Nesse caso, não posso admitir o comportamento injurioso de Ipui o Examinador a meu respeito! Desde que segurou num leque para fazer sombra ao Faraó, esse pretensioso julga que tudo Lhe é permitido. Nessas condições, a minha decisão está tomada: enquanto ele não for excluído da confraria, não retomarei o trabalho e a oficina de escultura ficará fechada.

  O mestre-de-obras teria podido indignar-se também de forma veemente e lembrar a Userhat que a sua atitude não estava de acordo com a Regra da confraria e que não era de forma alguma melhor do que a de Paneb. Mas teria sido lançar óleo sobre o fogo e arriscar-se a agravar a situação no momento em que o Silencioso tinha necessidade de uma equipa coerente para iniciar dois importantes estaleiros.

  Néfer preferiu portanto sentar-se num tamborete e tentar esvaziar o abcesso.

  - O que censuras a Ipui?

  O chefe-escultor sentou-se também.

  - Sabes o preço de um bom porco?

  - Cerca de dois cestos vulgares - calculou o mestre-de-obras.

  - Tencionava comprar três e estava a oferecer um excelente cesto: um cesto de luxo! O negócio parecia concluído, mas o vendedor informou-me que tinha um cliente melhor que lhe oferecia uma cama! Uma cama simples, mas mesmo assim... Uma oferta exorbitante sem relação com o valor real de três porcos! E sabes quem é o desonesto que se diverte a provocar essa inflação? Ipui o Examinador, o meu colega escultor. Sabia muito bem que esses porcos me eram destinados, mas comprou-os por não importa que preço para troçar de mim!

  - Admitamos... Mas qual a razão dessa rivalidade?

  - Porque não estamos de acordo quanto ao preço de venda de uma estátua em calcário que temos de entregar ao superior dos celeiros de Karnak. Ipui exige demasiado, para o meu gosto, e recusa-se a admitir o meu ponto de vista. Se sou seu superior, deve obedecer-me! Senão, não há escultura.

  - Tens razão.

  O rosto de Userhat iluminou-se.

  - Sempre te apoiei, Néfer, e não me arrependo! Quando vais reunir o tribunal para pronunciar a exclusão de Ipui?

  - Há coisas mais urgentes.

  - Ah... O quê?

  - Prevenir o vendedor de porcos que não efetuará mais nenhuma transação em bases insensatas. Se persistir, mais ninguém Lhe comprará os animais; e se for Ipui apenas a persistir, arruinar-se-á.

  - Bem, bem... Mas quanto ao preço da estátua?

  - Já disse, tens razão: não há escultura para ninguém. A encomenda é anulada, não vão entregar nenhuma estátua ao intendente dos celeiros. Ipui terá perdido tudo e a tua honra será salva.

  - É verdade, mas é uma grande perda de dinheiro... Talvez pudéssemos transigir.

  - Tu, transigir com Ipui?

  - Não, claro, mas apesar disso... Com a tua autoridade, podias falar com ele e fazê-lo admitir o seu erro. Acabaríamos a estátua e vendê-la-íamos ao preço que determinasses.

  - Nessas condições, aceitarias reconciliar-te com Ipui?

  Userhat o Leão ofereceu uma taça de água fresca ao mestre-de-obras.

  - No fundo, não é mau fulano... Mas o chefe-escultor sou eu!

  - Se fôssemos abrir a oficina?

  Userhat encheu o peito.

  - É o meu dever e tenho orgulho em realizá-lo. Diz-me uma coisa, Néfer... Não me achas também um pouco pretensioso e talvez mais estúpido do que Ipui?

  - O importante é a obra que temos que realizar. Não desejo julgar-vos, nem a um nem a outro.

   Sob o olhar de Néfer o Silencioso, Renupé o Jovial cortava madeira enquanto Ipui o Examinador alisava um pilar de estabilidade com uma enxó. Num canto da oficina, uma máscara funerária e um sarcófago.

  Userhat o Leão terminara o esboço da estátua representando um dignitário ajoelhado, com as mãos apoiadas nas coxas e o olhar erguido para o céu. Terminava o primeiro polimento com pasta abrasiva à base de pó de quartzo que aplicava com delicadeza.

  Era fascinante vê-lo trabalhar: acariciava a estátua, murmurava-lhe confidências sobre a forma como a ia tornar viva e mantinha um ritmo tão regular que exigia um total controlo da respiração e da mão.

  Userhat estendeu uma serra a Ipui.

  - É a tua vez.

  Os olhares enfrentaram-se. No de Userhat, um rigor desprovido de animosidade; no de Ipui, respeito e amizade.  Examinador observou as linhas vermelhas que Userhat tinha traçado no calcário para definir os contornos da estátua.

  Com incrível segurança de execução, cortou os pedaços de pedra a fim de obter a silhueta desejada pelo chefe-escultor.

  A figura do homem em oração começava a nascer.

  Foi Renupé o Jovial que se encarregou com entusiasmo do seu polimento, feliz por ver os colegas reconciliados.

  - Quando terminares - anunciou Userhat - perfurarei as orelhas, os olhos e as mãos com uma broca de sílex; Ipui separará as pernas com o auxílio de um tubo de cobre oco que fará girar entre as mãos, e eu próprio realizarei o último polimento, o mais delicado, pois fixará para sempre o modelado do rosto e do corpo.

  - Será uma bela estátua, companheiros, prometo!

  - Apressai-vos a terminá-la - exigiu o mestre-de-obras - porque trabalho não vos vai faltar nos próximos meses. Teremos necessidade de novas estátuas de madeira para a festa de Amenhotep I, nosso fundador, e de várias estátuas de culto do Faraó Merenptah.

  Os três escultores deveriam ter contado com aquela decisão, mas ouvi-la da própria boca do mestre-de-obras dava-lhe uma outra dimensão. De repente, o tamanho e a dificuldade da obra a realizar saltava-lhes à cara.

  - Vamos precisar de uma grande quantidade de pedras de primeira qualidade - preveniu Userhat o Leão.

  - Vou já a partir de hoje enviar mensagens às princiPais pedreiras - prometeu Néfer. - Disporão igualmente de ferramentas novas e de todo o material necessário.

  - Teremos de encurtar os nossos dias de férias?

  - Para ser franco, isso não é impossível. O Lugar de Verdade deverá mostrar-se à altura da sua reputação e tenho a sensação que vai ser necessário evitar qualquer perda de tempo.

  - Não corremos o risco de nos aborrecermos - constatou o Jovial, coçando a cabeça. - Quando disporemos de um retrato oficial do Rei?

  - Ei-lo - disse o mestre-de-obras destapando um modelo de gesso que representava um Merenptah austero, cuja nobreza de traços era digna da de Ramsés o Grande.

  - Não perdeste a mão - constatou Userhat. - O verdadeiro mestre-escultor és tu.

  - Ensinaste-me tudo... Conto convosco para criarem colossos, estátuas em pé à maneira de Osíris, estátuas sentadas e outras em postura de oferenda.

  Ched o Salvador entrou na oficina e lançou um olhar interessado aos trabalhos em curso.

  - É agradável ter colegas competentes - reconheceu com um ligeiro desdém. - Posso roubar-vos o mestre-de-obras por uns instantes?

  Pela maneira de falar do pintor, tratava-se de uma urgência. Mas, No entanto, Ched não abandonou o seu aspecto elegante para trepar até ao túmulo de Kenhir.

  - Era preciso que eu te mostrasse o mais depressa possível a nova façanha de Paneb o Ardente.

  Mais uma preocupação... O mestre-de-obras interrogava-se sobre quantas surpresas lhe reservava ainda aquele dia arrasador.

  Ched o Salvador imobilizou-se diante da parede sobre a qual Paneb retomara e modificara a representação do sacerdote fazendo oferenda ao deus Ptah. Estava iluminada por uma luz doce que valorizava a delicadeza do traço e a beleza das cores.

  - Mas... É esplêndido! - considerou Néfer.

  - Não é verdade? Nasceu um grande pintor.

                             

      A ação da vassoura de Niut a Vigorosa não esmorecia e por diversas vezes tentara tomar de assalto o gabinete de Kenhir, que tinha cada vez mais dificuldade em preservar os seus domínios. A pequena peste ia ganhando confiança, discutia as ordens e por vezes só fazia o que muito bem entendia. Mas como a sua cozinha continuava a ser excelente, o escriba do Túmulo já não via maneira de passar sem ela.

  - O carteiro acaba de trazer esta carta para vós - disse ela, entregando-lhe um papiro marcado com o selo de Mehi, administrador-principal da margem oeste.

  Kenhir leu-o imediatamente.

  Embora formulado em termos delicados, não deixava de ser uma convocatória imperativa para o dia seguinte.

  - Tenho de sair - disse o escriba à criada.

  - O almoço está quase pronto.

  - Não me demorarei.

   Kenhir encontrou o mestre-de-obras na oficina de escultura onde estudava os modelos de estátuas propostos por Userhat o Leão.

  - Fui convocado por Mehi - informou-o.

  - Isso não é normal? - perguntou Néfer.

  - Não, está a proceder de acordo com os deveres do seu cargo. Que deseje ter uma conversa comigo não tem nada de ilegal, mas não sou obrigado a corresponder ao seu pedido.

  - Recusando-vos a comparecer perante esse Mehi, não receias criar inúteis tensões?

  - É de recear. Segundo as minhas informações, essa personagem exerce as suas funções com grande competência e seriedade. Além disso, devia ser o nosso principal protetor contra eventuais problemas administrativos e mais vale atrair as suas boas graças.

  - No entanto, não me pareceis nada desejoso de o encontrar.

  - É verdade - reconheceu Kenhir - porque receio eventuais exigências da sua parte. Como a maior parte dos altos funcionários, não pode compreender o papel da nossa confraria e quererá sem dúvida restringir o que considera privilégios. Nesse caso, interromperei a nossa conversa de forma radical. Esse Mehi terá de admitir que não possui qualquer poder sobre nós e que não obterá nenhuma concessão.

   O porteiro da suntuosa mansão de Mehi inclinou-se perante o escriba do Túmulo e mandou chamar o intendente, que acorreu de imediato.

  - O meu senhor espera-vos - disse, curvando-se por sua vez.

  - Se quereis ter a bondade de me seguir...

  O intendente deixou à direita a entrada dos criados e avançou por uma álea de ladrilhos ladeada por alfarrobeiras. Prolongava-se por um grande jardim no centro do qual fora criado um lago.

  Logo que franqueou o limiar da imponente moradia, Kenhir foi convidado por dois servidores a sentar-se num assento baixo. Lavaram-lhe as mãos e os pés, enxugaram-nos com toalhas perfumadas e ofereceram-lhe um belo par de sandálias.

  Depois, o intendente fez o escriba do Túmulo atravessar uma antecâmara cujo teto, adornado com motivos vegetais, era suportado por duas colunas de pórfiro, e introduziu-o numa vasta sala de quatro colunas cuja decoração era consagrada a cenas de caça e pesca nos pântanos.

  - Senhor, o vosso convidado.

  Envergando uma camisa plissada à última moda e um saiote comprido seguro por um cinto de cabedal, Mehi posou a sua tábua de escrever e veio ao encontro do seu convidado.

  - Meu caro Kenhir, que prazer encontrar-vos! Preferi que falássemos privadamente, em minha casa, em vez de no ambiente formal dos meus gabinetes. E reservei-vos uma pequena surpresa...

  Sobre uma mesa baixa, uma ânfora vermelha com a seguinte inscrição. Vinho branco do oásis de Kharga. Ramsés, ano 5".

  O escanção encheu duas taças e eclipsou-se.

  - Um vinho excepcional, do ano em que Ramsés o Grande venceu os hititas em Kadech! Aqui entre nós, já só me restam três jarras... Sabore-ê-mo-lo, se estais de acordo.

  Kenhir instalou-se num cadeirão com patas de leão de excepcional confecção, tal como todo o conjunto do mobiliário. O novo general amava a riqueza e não se privava de o demonstrar. Agradável, caloroso, sabia pôr os seus convidados à vontade. Mas o seu encanto não funcionava com Kenhir o Rabugento que, no entanto, apreciou devidamente o excepcional vinho branco cujo aroma fino era digno de admiração.

  - Desejais frutos ou bolos?

  - Contentar-me-ei com este grande vinho. É realmente uma maravilha.

  - Agradar a um amigo é uma das alegrias da existência! Por sorte, vivemos num Pais onde sabem produzir vinhos desta qualidade. Permitis que vos interrogue sobre a vossa saúde?

  - Já não sou um jovem, mas o animal é sólido e nenhum mal grave me afeta.

  - Bebamos à vossa longevidade!

  A segunda taça era tão deliciosa como a primeira.

  Se ele está a tentar embebedar-me, pensou Kenhir, arrisca-se a ter uma desilusão, a menos que esvazie uma boa parte da sua cave. E não será a vil ameaça da gota que me fará recuar.

  - Sabeis provavelmente que o Faraó me confiou duas funções, a de general das forças armadas tebanas e a de administrador-principal da margem oeste. No seu espírito, essas funções estão ligadas, pois tenho o dever de garantir a segurança desta região de inúmeras riquezas. E tenho a intenção de cumprir a minha missão sem fraquejar. Aliás, ela diz-vos diretamente respeito, visto que o Lugar de Verdade faz parte das entidades administrativas do meu território.

  - Situa-se realmente na margem oeste - retificou Kenhir em tom altivo - mas depende apenas do Faraó.

  - Com certeza, meu caro, e é essa a regra desde a sua fundação! O meu papel consiste simplesmente em protegê-lo de qualquer ataque, juntando as minhas competências à de Sobek, o chefe da segurança da aldeia. Ficai sabendo que o Rei Merenptah, tal como os seus predecessores, tem a vossa confraria em elevada estima e deseja vê-la funcionar com toda a serenidade.

  - Enquanto o Egito for Egito, assim será - disse Kenhir.

  Mehi não conseguia descontrair aquele velho escriba cuja resistência ao vinho branco dos oásis era surpreendente. Iria ser sem dúvida um adversário mais difícil do que tinha suposto.

  - Devo fazer-vos uma pergunta indiscreta, meu caro.

  - Em tudo o que diz respeito às atividades do Lugar de Verdade, estou obrigado a segredo absoluto.

  - É evidente que não se trata disso, mas do meu predecessor, Abri. O seu horrível fim perturba-me muito, devo confessar-vos. Ele, que estava encarregado de velar pela tranqüilidade da confraria, apenas pensou em combatê-la e chegou ao ponto de redigir um relatório mentiroso para enganar o Rei! Depois de semelhante façanha, nada mais lhe restava, com efeito, senão suprimir-se, mas desse drama retenho uma lição: poderia existir um grupo de dignitários mais ou menos influentes que procurassem prejudicar-vos.

  A hipótese não pareceu perturbar o escriba do Túmulo.

  - Isso não é novidade - afirmou - e torna-se inevitável. Como os segredos do Lugar de Verdade são bem guardados desde a sua origem, as imaginações voam e as cobiças alimentam-se dessas ilusões.

  - Poderá ser um grave perigo!

  - Não deveis subestimar-vos, Mehi. Graças a vós, dormiremos tranqüilos.

  - Podeis contar comigo, com efeito; e eu gostaria de poder contar com o vosso auxílio.

  - Uma vez mais, eu só presto contas da minha gestão ao Faraó ou ao seu representante, o vizir.

  - Compreendo isso muito bem, mas refiro-me ao nosso bom entendimento para lutar contra qualquer perigo que ameace a confraria. É por isso que vos faço estas perguntas: haveis encontrado Abri muitas vezes, haveis desconfiado dele e acreditais que agiu sozinho ou que fazia parte de uma conspiração?

  - Encontrei-o raramente mas, na última vez, ele tentou mais ou menos subornar-me.

  - Triste personagem... O que pretendia ele, afinal?

  - Abri era um fraco e um oportunista, acreditava nas virtudes de um aumento constante dos impostos e do poder coercivo da administração. A noção de liberdade era-lhe estranha e não suportava que o Lugar de Verdade escapasse ao seu controlo. Quanto ao resto, sou incapaz de vos responder. O chefe Sobek acredita na existência de uma conspiração e não baixará a guarda tão facilmente. Nem eu, aliás.

  - Esperava palavras mais tranqüilizadoras... Compreendo melhor, agora, a inquietação que julgara pressentir no Rei. Felizmente, um fato novo modifica a situação de forma radical: Abri morreu e sou eu que o substituo. Quem tentar atacar a confraria esbarrará inevitavelmente comigo. Convosco e com o chefe Sobek, formaremos uma barreira eficaz.

  - Possam os deuses ouvir-vos, Mehi.

  - Não devemos desiludir nem o Rei nem o Egito. À mínima suspeita, ao menor alerta, não hesiteis em prevenir-me e eu intervirei.

  Kenhir preferia aquele discurso ao de Abri. Era evidente que o general levava as suas funções a sério e que o Lugar de Verdade não perdera com a troca.

  - Tenho de vos pedir um favor, Kenhir.

  O escriba do Túmulo ficou tenso.

  - Oh, descansai, não se trata de um favor pessoal, mas de uma obrigação administrativa que desejo resolver da melhor maneira.

  - Escuto-vos.

  - Podeis fazer com que eu me encontre com o mestre-de-obras da confraria?

                               

      O olhar do escriba do Túmulo tornou-se francamente hostil.

  - É completamente impossível, tanto mais que a identidade do mestre-de-obras deve permanecer desconhecida.

  Mehi chamou o escanção para lhe pedir uma segunda ânfora de vinho branco de Kharga, do mesmo Milésimo.

  - Em teoria, é verdade. Mas quando da visita do Rei ao Lugar de Verdade, todos os membros da delegação oficial que permaneceram no exterior da cerca ouviram aclamar os nomes de Merenptah e de... Néfer. Todos sabem que este foi consagrado como mestre-de-obras pelo par real e que é o verdadeiro senhor da confraria cuja gestão vós assegurais. Deixo-vos de imediato descansado: são os dois únicos pequenos segredos que franquearam os muros da aldeia, cuja segurança não põem em causa.

  - Porque desejais encontrar-vos com o mestre-de-obras?

  - Pode ajudar-me a resolver um problema administrativo.

  - Não serei melhor interlocutor?

  - Receio que não, meu caro Kenhir, porque existe um aspecto técnico neste assunto urgente e apenas o mestre-de-obras do Lugar de Verdade poderá tomar a decisão que lhe convém. É-me infelizmente impossível dizer-vos mais, porque se trata de uma pasta confidencial. Se Néfer desejar informar-vos, é livre de o fazer.

  - Sabeis que ele pode recusar o vosso... convite.

  - Sei, mas peço-vos que defendeis a minha causa com convicção. Se me fosse impossível ter a sua opinião, encontrar-me-ia numa situação embaraçosa. Ignoro tudo das soluções a preconizar e é provável que ele as conheça. Aceitais fazer-lhe o pedido?

  - Aceito, mas não vos posso prometer nada. A decisão é dele.

  - Considero-me vosso devedor, Kenhir.

  - Tenho a sensação que esta segunda ânfora ainda é melhor do que a primeira...

  - Pois bem, terminemo-la juntos pela glória da confraria.

  Logo a seguir à partida do escriba do Túmulo, Serketa veio sentar-se nos joelhos do marido.

  - Não perdi uma palavra da vossa aPaixonante conversa.

  - O que pensas deste Kenhir, meu doce amor?

  - É um velho astuto, teimoso, desconfiado e difícil de subornar. O imbecil do Abri não tinha capacidade para isso.

  - Achas que o convenci?

  - Convenceste e... inquietaste. E tiveste a inteligência de não lhe oferecer uma jarra desse vinho que ele aprecia tanto. Armava-te uma ratoeira para ver se também tu ias tentar suborná-lo. Não creio que Kenhir seja detentor de grandes segredos, mas defenderá a confraria com unhas e dentes.

  - Inquietei, disseste tu?

  - Sentiu que não serias tão passivo como Abri, embora não possuas oficialmente nenhum poder sobre o Lugar de Verdade. Mas creio que a firmeza do teu empenhamento o tranqüilizou; quem não apreciaria um protetor da tua têmpera?

  - Sê sincera, doce amor: consideras necessário que nos desembaracemos deste velho escriba?

  - De maneira nenhuma! Vamos aprender a conhecê-lo bem e aconselho-te a manobrar de forma que ele permaneça no seu lugar o máximo de tempo possível. Se o suprimisse, o que aliás não ia ser fácil, seria imediatamente substituído e poderíamos esbarrar com um homem mais intratável. Estou persuadida que Kenhir tem falhas e que estas nos serão úteis.

  Mehi agarrou a mulher pelos cabelos.

  - Convenceste-me. Sem o saber, o escriba do Túmulo tornar-se-á nosso aliado.

 

  Casá o Cordame ausentara-se para ir ver o seu boi doente, Fened o Nariz fabricava um tamborete para os sogros, Karo o Mal-humorado uma arca para roupa destinada à avó, Didia o Generoso uma cabeceira de cama para a sobrinha, enquanto os outros membros da equipa da direita se ocupavam igualmente com trabalhos diversos destinados ao exterior.

  Convocados pelo mestre-de-obras para o edifício da confraria, no sopé da colina do Norte, no limite da necrópole, tinham-se purificado antes de se instalarem nos bancos de pedra.

  A oriente, Néfer sentou-se na cadeira que antes dele tinham ocupado os chefes da equipa da direita. O seu olhar pousou na cadeira para sempre vazia de qualquer presença humana por ser reservada ao ka, à força criadora que animava o coração e a mão dos artesãos.

  - Tenho uma proposta a fazer-vos - anunciou o mestre-de-obras. - É possível que vos desagrade, mas sublinho a vastidão dos dois estaleiros que vamos abrir, a escavação da Morada de Eternidade do Faraó Merenptah no Vale dos Reis e a construção do seu Templo dos Milhões de Anos. Como todas as nossas energias se devem concentrar para a realização destas duas tarefas prioritárias Peço-vos que interrompam os trabalhos para o exterior.

  Um pesado silêncio sucedeu a esta declaração. Karo o Mal-humorado foi o primeiro a ousar rompê-lo.

  - É um antigo costume que nunca foi posto em questão... Esses trabalhos permitem-nos completar os nossos salários e proporcionar às nossas famílias um certo bem-estar.

  - Tenho consciência disso, mas deveis compreender que não é possível continuarmos a dispersar os nossos esforços.

  - Porquê tantas exigências? - perguntou Casa o Cordame. - Avancemos tranqüilamente nesses dois estaleiros e prossigamos com as nossas atividades complementares.

  - Impossível por duas razões - explicou o mestre-de-obras. - Em primeiro lugar, tenho a certeza que não temos tempo a perder.

  - Por causa da idade do Rei? - inquiriu Nakht o Poderoso.

  - É uma grande preocupação, com efeito. Não vale a pena taparmos a cara: a sucessão de Merenptah anuncia-se difícil, podem surgir perturbações e devemos avançar como se os prazos impostos fossem curtos.

  - Tens informações precisas sobre o que se passa na corte de Pi-Ramsés? - interrogou Gau o Exato.

  - Infelizmente, não, mas peço-vos que confieis em mim. Em geral não gosto de me apressar e teria preferido demorar bastante tempo a conceber e realizar o túmulo e o templo; mas tenho a convicção que não nos é permitido esse luxo. Quanto à segunda razão; tem a ver com a própria natureza da nossa missão. A nossa equipa participou no acabamento do túmulo de Ramsés o Grande, que tinha sido deixado quase pronto há já muito tempo. O de Meremptah será a nossa Grande Obra, o primeiro túmulo real que vamos criar juntos para que produza eternidade, como os seus predecessores. Quanto ao templo, preservará o ka do Rei e necessitará portanto da nossa parte de um trabalho de alta precisão. A aventura é exaltante mas não será fácil. É por isso que solicito da vossa parte esforços excepcionais. Compete-nos a nós ultrapassarmos os limites dos nossos respectivos talentos a fim de justificarmos uma vez mais a existência do Lugar de Verdade.

  - Há um rumor que pretende que os nossos períodos de descanso poderiam ser diminuídos - avançou Paí o Bom pão. - Se fosse esse o caso, as nossas esposas ficariam muito descontentes.

  - A necessidade fará a lei - respondeu o mestre-de-obras.

  - Se temos de recusar o trabalho para o exterior e, ainda por cima, reduzir os nossos dias de descanso - protestou Unesh o Chacal - a existência vai tornar-se impossível!

  - O escriba do Túmulo deu-me o seu acordo para vos atribuir prêmios correspondentes às horas suplementares.

  - Menos tempo livre - insistiu Unesh - é menos descanso, menos momentos agradáveis em família, menos visitas ao exterior.

  Os dois outros desenhistas aprovaram, assim como Renupé o Jovial e Karo o Mal-humorado.

  - É lamentável! - explodiu Paneb. - O mestre-de-obras convida-vos a participar numa aventura entusiasmante, na obra mais essencial que se executa no solo do Egito, e vocês põem-se a gemer sobre as vossas regalias adquiridas, sem se preocuparem com a vossa mediocridade e preguiça! Que bela tripulação, na verdade... Terá verdadeiramente desejo de navegar ou preferirão permanecer no porto para sempre, dormitando sob um vento morno? Se o barco está a tal ponto decrépito, gasto e sem alma, mais vale que vá ao fundo!

  A maior parte dos membros da equipa da direita estava pálida, com exceção de Paí o Bom pão e de Renupé o Jovial, cujo rosto se tornara de um vermelho vivo.

  - Não tens o direito de nos falar nesse tom - considerou Userhat o Leão.

  - E vocês têm o direito de se comportar como operários do Estado, mais preocupados em contar as horas do que em trabalhar e cuja única ambição é ampliar o tamanho da vossa sesta? Se assim é, o Lugar de Verdade não tardará a desaparecer.

  Ched o Salvador pediu a palavra.

  - O meu assistente não tem nenhum sentido de diplomacia, com efeito, a sua forma de se exprimir tem falta de cambiantes, mas no fundo não está enganado. Devido ao longo e feliz reinado de Ramsés o Grande, e sobretudo por causa do nosso gosto inato para a facilidade, habituamo-nos a viver à sombra da nossa técnica e conhecimentos. A criação de um túmulo real e de um Templo dos Milhões de Anos são empreendimentos perigosos que, hoje em dia, nos fazem medo porque estamos embrenhados na rotina. No entanto, temos a inestimável sorte de podermos participar juntos na Grande Obra. Face a um tal horizonte, atrever-nos-emos a colocar condições indignas do espírito da confraria e dos antepassados que nos vêem agir? Que o mestre-de-obras decida e nós obedeceremos.

  Por unanimidade, a equipa aprovou a posição do pintor.

 

  Clara e Néfer tinham-se amado como no primeiro dia, com o mesmo entusiasmo, agora matizado com uma ternura e uma cumplicidade que cresciam dia-a-dia. O desgaste do tempo não tinha qualquer influência sobre a sua união, como se esta existisse desde a eternidade sem ter nada a ver com os acasos dos sentimentos.

  Nua e aPaixonada, Clara não perdia essa nobreza inata que conquistara o coração de todos os aldeões. O mestre-de-obras adorava a Mulher Sábia, o marido a esposa.

  - Estás preocupado, não é verdade?

  - A equipa aceitou as minhas propostas, mas as línguas serão sinceras?

  - A perfeição não se encontra nos homens, Néfer, mas na obra. Se lhes deres um ideal e se lhes permitires que o realizem, ultrapassarão as suas fraquezas.

  - Ultrapassarei eu as minhas? Não sou feito para esta função, Clara. Bastava-me ser escultor... E como era bom seguir as diretivas do chefe de equipa!

  - Esqueces quem te escolheu? Escoicear como um cavalo fogoso é inútil, interrogarmo-nos sobre nós mesmos ainda mais. Sou a primeira a saber que nem tu nem eu estamos à altura das tarefas a executar, mas é necessário no entanto levá-las a cabo e, todos os dias, recomeçar a subir a montanha.

  - Tanta confusão, tantos pequenos aborrecimentos, tantas reclamações irrisórias da parte de uns e de outros... É isso que me esgota, mais do que a vastidão da obra!

  - Achas que estou mais bem servida? Há a pedra e a madeira eternamente prontas para receber a luz, mas há também os humanos, sempre prontos a mentir, a preguiçar e a rivalizar em maldade e egoísmo. É assim, e nunca será de outra maneira, mas o Lugar de Verdade possui uma tripulação capaz de navegar rumo a Paisagens que nenhum deles, se tivesse viajado solitariamente teria podido descobrir.

  Néfer beijou a esposa com Paixão.

  - Sou toda tua - concedeu ela - mas não esqueças que temos um convidado.

   Kenhir comia com apetite uns suculentos rins em vinho branco, acompanhados por lentilhas com alho e caviar de berinjelas.

  - É uma refeição muito simples - reconheceu Clara. - A rapariga que me ajuda em casa está de folga e não tenho tempo para fazer grandes cozinhados.

  - És dotada para tudo, Clara... Graças a ti, a minha gota quase desapareceu.

  - Talvez fosse aconselhável beber menos vinho e mais água - sugeriu a Mulher Sábia.

  - Na minha idade, é mau mudar de hábitos.

  - Estais satisfeito com Niut a Vigorosa?

  - É uma pequena peste, insolente e teimosa... mas eficaz.

Persegue a poeira, não altera muito a posição dos móveis e cozinha bastante bem. Vou ser obrigado a aumentá-la... O que receio é a sua intrusão na minha biblioteca! Aproveita com certeza a minha ausência para lá fazer limpezas. Se tornar a colocar cada pincel no seu lugar e não tocar em nenhum papiro...

  - Como decorreu a vossa entrevista com Mehi? - perguntou Néfer.

  - Bastante bem. É um homem dinâmico, firmemente decidido a cumprir a sua função e, sobretudo, muito ambicioso. É por isso que deveria ser um excelente protetor do Lugar de Verdade. É essa a missão que lhe foi confiada pelo Faraó e ele não tem intenção de falhar. Para mais, não tentou subornar-me, nem mesmo da maneira mais superficial... Mas fez-me um curioso pedido.

  - Qual?

  - Deseja ver-te, Néfer?

  - Por que razão?

  - Segundo Mehi, apenas o mestre-de-obras o pode ajudar a ver um problema administrativo urgente.

  - Isso não é da vossa competência, Kenhir?

  - Neste caso não, porque parece que há também um aspecto único que tem a ver com a tua. Invoquei o segredo, mas o teu conhecimento oficial pelo par real fez circular o teu nome. Que hoje se saiba quem tu és não tem grande importância e tu não és obrigado a fazer-lhe a vontade.

  - Visto que ele nos é favorável, porque me hei-de recusar?

  - Partilho o teu ponto de vista.

  - Encontrar-me-ei com ele no primeiro fortim. E se puder realmente ajudá-lo, fá-lo-ei.

   O artesão da equipa de direita que traía a confraria tinha tomado múltiplas precauções para se dirigir ao armazém de Tran-Bel. Por sorte, diversos colegas tinham aproveitado a semana de descanso excepcional concedido pelo mestre-de-obras antes do início dos grandes estaleiros para abandonar a aldeia. Uns ocupavam-se dos seus campos e dos seus rebanhos, outros visitavam parentes numa ou noutra margem, outros ainda faziam compras.

  No olhar atento do chefe Sobek, o traidor sentira que o guarda se tornava cada vez mais desconfiado. Tranqüilizou-se pensando que o núbio, se dispusesse de indícios seguros, não teria hesitado em prendê-lo e interrogá-lo. No entanto, a sua atitude modificara-se, como se desconfiasse de um homem do interior.

  O artesão tinha portanto que redobrar de prudência, sobretudo se Sobek tivesse mandado seguir os artesãos. Nesse caso, arriscava-se a conduzir o seu seguidor ao armazém e provocar a sua própria queda. Deveria sem dúvida ter permanecido na aldeia e não correr qualquer risco, mas tinha de falar urgentemente com a mulher que o tornaria rico.

  Assim, não apanhou o barco, onde se poderia encontrar um guarda a soldo de Sobek e alugou os serviços de um pescador que o atravessou em troca de um pão redondo. Para o regresso escolheria outro.

  Nenhum barco o seguira.

  Depois de ter acostado num lugar deserto, longe do desembarcadouro principal, o artesão permanecera oculto nos juncos durante uma boa hora.

  Ninguém se aproximou do seu esconderijo.

  Mais descansado, escalou a margem e dirigiu-se para a cidade sem deixar de se voltar com freqüência.

  Por duas vezes meteu por becos sem saída e voltou para trás a fim de surpreender um eventual seguidor, sem qualquer resultado. Se tinha havido perseguição, fora anulada.

  O artesão entrou em passo apressado no armazém e penetrou no gabinete onde Tran-Bel fazia as suas contas.

  - Ah, és tu! Fico contente por te ver. Os nossos assuntos avançam às mil maravilhas.

  - Previne quem tu sabes que estou aqui.

  - Imediatamente, imediatamente... Inventaste novos modelos de cadeiras?

  - Sim, mas vais ser obrigado a ter paciência antes de as receberes.

  - É aborrecido, muito aborrecido... A clientela exige.

  - A minha segurança antes de tudo. Previne-a depressa!

  - Já vou, já vou...

  Tran-Bel pensava já em fabricar imitações, mas teriam defeitos. Ser-lhe-ia necessário, pelo menos durante algum tempo, limitar-se aos novos-ricos.

  - Fizeste progressos? - perguntou Serketa, irreconhecível, ao seu informador.

  - O mestre-de-obras tomou a decisão de escavar o túmulo do Rei e construir o seu Templo dos Milhões de Anos mobilizando todas as energias.

  - Medíocre informação... Descobriste o esconderijo da Pedra de Luz?

  - No momento, é impossível.

  - Desiludes-me.

  - Não disponho de nenhuma informação séria e não posso andar a meter o nariz por todo o lado sem ser descoberto.

  - Não és livre para ir onde queres, no interior da aldeia?

  - Alguns locais estão fechados à chave e apenas o escriba do túmulo e o mestre-de-obras os podem abrir. Qualquer tentativa de arrombamento estaria condenada ao fracasso.

  - De qualquer maneira, vais ter de descobrir uma solução!

  - A minha equipa vai trabalhar de forma intensa e, durante longo período, não terei possibilidade de entrar em contato com o exterior.

  O olhar de Serketa tornou-se feroz.

  - Estás a tentar fugir, refugiando-te na tua maldita aldeia?

  - Não compreendeis! Os estaleiros que vão abrir empenham o futuro da confraria e o mestre-de-obras mostrar-se-á intransigente. Vamos ter de fazer horas extraordinárias e aceitar a redução dos nossos períodos de descanso se surgirem dificuldades técnicas. E não é tudo: o chefe Sobek mostra-se cada vez mais desconfiado.

  - Por que razão?

  - Estou convencido que ele desconfia que um de nós está ligado a uma conspiração contra o Lugar de Verdade, talvez mesmo de ter assassinado um guarda. Esse Sobek é temível, é capaz de mandar seguir pessoas e estar permanentemente à espreita de qualquer falta. Foi por isso que tomei múltiplas precauções para vir até aqui.

  - Judiciosa iniciativa... Mas não estarás a tornar-te demasiado medroso?

  - Não creio.

  Serketa girou lentamente em redor do artesão.

  - Só me trazes más notícias. Que pena... Eu, tinha excelentes notícias para ti! Enquanto tu vegetas na tua confraria, o teu patrimônio aumenta. Uma vaca leiteira a mais, um terreno na beira do Nilo, um campo... Quando te reformares, serás um homem rico. Mas antes, terás de te tornar um informador melhor.

  O artesão imaginava-se já estendido em almofadas, na sala fresca de uma bela moradia onde passaria o tempo a enumerar os seus bens e a voltar a enumerá-los.

  Mas ainda havia grande distância entre o sonho e a realidade... E o traidor não estava decidido a entregar todos os segredos que possuía sem ter a certeza que gozaria sem perigo os frutos das suas manobras.

  - Não mudei de opinião - afirmou - mas vou ser reduzido ao silêncio até que os estaleiros estejam suficientemente adiantados.

  - Não esqueças que a nossa aliança não pode ser quebrada - avisou Serketa. - Quando tornarmos a ver-nos, tenho a certeza que vais ter muitas coisas a dizer.

                              

Clara fora chamada de urgência à cabeceira da mulher de Userhat o Leão que se queixava de violentas dores no peito.

Depois de um exame demorado, a Mulher Sábia afastara a hipótese de uma crise cardíaca e prescrevera um tratamento para regularizar o sistema neuro-vegetativo, não sem ter procedido a uma manipulação vertebral, porque o mau estado das costas da sua paciente estava na origem de numerosos problemas.

  Quando regressou a casa, a meio da manhã, Clara encontrou no limiar da porta um Paneb inquieto.

  - Queria falar a Néfer de um problema de fornecimentos para a oficina de pintura, mas ninguém sabe onde ele está. Viram-no sair do templo depois do ritual da manhã, mas para onde foi depois?

  - Ele devia ir a casa dos escultores.

  - Passei por lá, não receberam a sua visita.

  - Não estará à conversa com Ched o Salvador?

  - Não, venho de lá.

  Clara e Paneb interrogaram os vizinhos, sem resultado. Algumas crianças deram informações contraditórias, a maior parte convencida que se tratava de um novo jogo durante o qual era preciso demonstrar o máximo de imaginação.

  Todos os aldeões tomaram rapidamente parte no debate e tiveram que se render à evidência: o mestre-de-obras desaparecera.

  Como começava a soprar um vento de pânico, Clara recolheu-se para não ouvir mais nada. O seu espírito encheu-se com o rosto de NéfEr o Silencioso a fim de o tornar tão presente como se to casse o seu.

  - Não estejam inquietos - disse em voz tranqüilizadora. - Sei onde foi.

   Muitas palmeiras-tamareiras gostavam de viver com a cabeça ao sol e os pés na água. Formando muros vegetais contra o vento, tornavam-se com freqüência centenárias e, no Outono, ofereciam com generosidade os seus frutos com sabor a mel. Algumas agrupavam-se no meio dos olivais e das vinhas. outras formavam pequenos bosques afastados dos caminhos, mas eram todas modelos de generosidade, pois todas as partes da árvore eram úteis. Pois não fornecia madeira para a construção e para o mobiliário, fibras para fabricar sandálias e cestos, enquanto as suas palmas cobriam as ruelas para manter a frescura?

  Mas fora à sombra das palmas de uma velha palmeira solitária, na orla do deserto, que Néfer escolhera meditar.

Contava a lenda que Tot, o deus do conhecimento, escrevera naquele lugar palavras de sabedoria e que o faraó Amenhotep I, o fundador da confraria, viera recolhê-las. Não bebia a árvore a sua seiva no oceano de energia que banhava o universo onde, na primeira vez, a terra surgira como uma ilhota?

  O mestre-de-obras viera implorar o auxílio do deus para acalmar o fogo que o devorava. Se o Ardente era capaz de lutar contra as chamas, ele com certeza que não o conseguiria. E aquele braseiro doloroso tomara a forma de uma interrogação tão arrasadora como um ácido: seria capaz de conduzir a confraria ao sucesso?

  Realizar a Grande Obra parecia-lhe atualmente um objetivo inatingível e não tinha o direito de mentir aos que o tinham escolhido como guia.

  O verdadeiro silencioso, diziam os sábios, assemelhava-se a uma árvore de folhagem abundante e frutos doces que avançava serenamente para o seu fim num jardim bem tratado. O coração de Néfer era apenas uma Paisagem árida onde a angústia e a incerteza tinham feito crescer ervas loucas.

Vinha portanto pedir a Tot que o preservasse de palavras inúteis e lhe oferecesse água do seu poço, selado para os faladores. Se o seu apelo permanecesse sem resposta, morreria de sede e a confraria arranjaria um mestre melhor.

  - Descobriste a nascente? - perguntou uma voz de mulher de maravilhosa doçura.

  - Clara!, Conhecias este lugar?

  - Vi-o e vi-te prosternado diante desta palmeira.

  - O deus cala-se e eu não tenho a força necessária para continuar a minha tarefa.

  - Escuta melhor, Néfer, e cria o que te falta.

  A Mulher Sábia ajoelhou e escavou a areia com as mãos. Surgiu o bordo de um pequeno poço circular. O marido ajudou-a e atingiu a terra úmida.

  - Junto de uma palmeira de Tot - referiu ela - há sempre uma nascente oculta. Manda libertar este poço e bebe a sua água que provém das estrelas. Extinguirá o fogo que te queima e revelará a energia que possuis sem saber. Nada te desviará da tua tarefa de mestre-de-obras porque o teu caminho foi traçado pelos deuses.

  Enlaçados, ofereceram a si próprios o luxo inaudito de uma tarde de meditação e silêncio à sombra das palmas. E o mestre-de-obras compreendeu que, sem a Mulher Sábia, a confraria não passaria de um grupo de homens estéreis, incapazes de realizar a Grande Obra.

   Um vento forte varria o posto de guarda, levantando nuvens de areia que atacavam os olhos dos guardas núbios. No entanto, viram chegar um carro lançado a grande velocidade e de imediato apontaram as lanças enquanto o chefe do posto retesava o arco. O carro travou bruscamente e os dois cavalos empinaram-se, relinchando. Do veículo desceu um homem robusto, de torso largo. Seguro de si, avançou em direção aos guardas como se as armas deles não existissem.

  - Sou o general Mehi, administrador-principal da margem oeste. Previnam o mestre-de-obras que cheguei ao nosso ponto de encontro.

  Um núbio correu até ao quinto fortim para alertar Sobek que decidiria a conduta a adotar.

  O chefe da segurança ordenou ao guarda da porta que informasse Néfer, que abandonou o traçado do plano do túmulo de Merenptah para ir ao encontro desse visitante de peso.

  Acompanhado por Trigueiro, encantado por aquele passeio imprevisto, o mestre-de-obras não se preocupara com a indumentária. Com a cabeça e os pés nus, envergava apenas um simples saiote e parecia um modesto operário em face de Mehi, cuja elegância ostentatória traduzia riqueza.

  - Obrigado por terdes aceite esta entrevista, Néfer.

  - O que quereis?

  - Poderemos falar ao abrigo de orelhas indiscretas?

  - Segui-me.

  O mestre-de-obras afastou-se do posto de guarda e percorreu uma centena de metros no leito seco de um wed. Mehi, que detestava o deserto, teve o cuidado de não estragar as suas belas sandálias de cabedal. Quanto ao cão negro, geralmente tão exuberante, mantinha-se a boa distância do general que observava com desconfiança.

  - Aqui - disse Néfer - estaremos completamente tranqüilos, mas não tenho outro assento a oferecer-vos senão um bloco de pedra.

  - Contentar-me-ei com ele... Encontrar-vos é um tal privilégio que as condições materiais importam pouco.

  - O vosso tempo é tão escasso como o meu, Mehi. E se dissésseis o que pretendeis?

  - Trata-se de uma pasta delicada e confidencial que sou incapaz de tratar sem o vosso auxílio... Daktair, o diretor do laboratório central, acaba de estabelecer uma lista de produtos de que tem necessidade. Para a maior parte deles, não há qualquer dificuldade. Mas o mesmo não acontece com o betume e a galena que reclama com a maior urgência, porque as reservas estão esgotadas. Segundo ele, esta penúria é explicada pela ausência de uma expedição que deveria ter sido organizada se Ramsés o Grande não nos tivesse deixado.

  - Supondo que eu disponha desses produtos, seriam exclusivamente reservados ao Lugar de Verdade.

  - É claro que estamos totalmente de acordo a esse respeito!

  - Nesse caso, a entrevista terminou.

  - Não andeis tão depressa! Sabeis certamente que, quando tinham lugar essas expedições, um artesão do Lugar de Verdade era sempre associado aos mineiros para fornecer indicações técnicas e reter a parte reservada à confraria.

  - Estais bem informado.

  - Consultei simplesmente os relatórios oficiais e eis-nos no coração do problema: Daktair pede-me autorização para conduzir um destacamento de soldados e mineiros até aos lugares onde são obtidos esses produtos e não vejo nenhuma razão para lha recusar. Mas é impossível levar essa empresa a bom termo sem a presença de um membro da confraria que só vós podeis designar.

  Enquanto o mestre-de-obras refletia, Mehi observava-o com atenção, tentando avaliá-lo. Não havia dúvida que o homem era da raça dos grandes. Gravidade do rosto, profundidade do olhar, força de personalidade, determinação de caráter, rigor da palavra... A confraria colocara à frente um verdadeiro chefe que seria um temível adversário.

  Foi naquele instante, naquele deserto hostil, face ao mestre-de-obras que via pela primeira vez, que Mehi tomou plenamente consciência do combate a travar. Perante a idéia de conseguir uma vitória sobre um inimigo digno dele e dominar assim essa orgulhosa confraria que ousara rejeitá-lo, o general sentiu as forças decuplicar.

  - Não é possível atrasar essa expedição? - perguntou Néfer.

  - Segundo Daktair, não; mas submeter-me-ei à vossa decisão.

  O mestre-de-obras não podia privar a região tebana daqueles produtos e ele próprio precisava deles para uma utilização muito particular.

  - Designarei um artesão - anunciou. - Que a expedição esteja pronta para partir dentro de cinco dias. Arranjem numerosos e sólidos burros.

  - Tirais-me um peso de cima!

  - Desejo que a duração do trabalho nos locais de exploração seja reduzida ao mínimo e que o artesão regresse o mais depressa possível.

  - Darei diretivas nesse sentido. Uma vez mais, obrigado... Dar-me-eis a honra de aceitar um convite para jantar?

  - Lamento, mas bani da minha existência quaisquer atividades mundanas.

  Tão ágil como um cabrito montês, Trigueiro saltou de pedra em pedra para alcançar a aldeia. Néfer seguiu-o.

  Se estivesse armado com um arco e certo de poder agir com impunidade, Mehi de boa vontade teria abatido o mestre-de-obras com uma flecha nas costas. Era preferível não enfrentar cara-a-cara um guerreiro daquela têmpera.

                               

  Às quatro da tarde, um guarda da porta substituiu o outro, que estava no seu posto desde as quatro horas da manhã. Instalou-se na cabana construída perto da entrada principal do Lugar de Verdade.

  O trabalho não se revelava demasiado difícil e o salário era completado por entregas da madeira para aquecimento, da responsabilidade dos dois guardas. Recebiam também uma pequena remuneração quando serviam de testemunhas no decurso de transações comerciais entre artesãos ou na conclusão de contratos.

  Aproximou-se um homem baixinho.

  - Sou mercador de burros.

  - Tanto melhor para ti, amigo.

  - Os auxiliares disseram-me que podias desempenhar o papel de oficial de justiça e reclamar as quantias em dívida.

  - De que artesão te queixas?

  - Não se trata de um artesão.

  - Então vai andando!

  - Mesmo assim, deves poder ajudar-me... Quero apresentar queixa contra o chefe Sobek.

  - O chefe Sobek! Por que razão?

  - Porque não me dá o que me deve.

  - Tens a certeza do que afirmas?

  - Tenho todas as provas necessárias e peço-te que apresentes a minha queixa ao tribunal da aldeia.

  - Mas Sobek é o chefe da segurança!

  - Sabes como se reconhece um guarda? Por nunca pagar as suas dívidas, quer se trate de um pote de gordura ou de um burro.

   O tribunal do Lugar de Verdade tinha o nome simbólico de "assembléia do esquadro e do ângulo reto" e podia reunir-se em qualquer momento, incluindo um dia feriado, se o caso fosse urgente. Compunha-se geralmente de oito membros, um dos dois chefes de equipa, o escriba do Túmulo, o chefe da segurança, um guarda, dois artesãos veteranos e duas mulheres. Tratando igualmente dos assuntos privados e dos públicos, esta assembléia registrava tanto as declarações de sucessão e as aquisições como as vendas das propriedades imobiliárias.

  Totalmente independente, o tribunal tinha o poder de ordenar inquéritos mais pormenorizados e pronunciava condenações, fosse qual fosse a falta cometida. Se considerava o caso demasiado complexo, transmitia-o diretamente à mais alta instância jurídica do Pais, o tribunal do vizir.

  Não podendo ignorar a queixa do vendedor de burros, Kenhir recebeu-o no exterior da aldeia, no pequeno gabinete que mandara arranjar na zona dos auxiliares.

  - Fazer uma acusação contra o chefe da segurança é muito grave - afirmou ele ao mercador. - A sua reputação de probidade é bem conhecida por todos.

  - A reputação é uma coisa e os fatos outra. Eu tenho a prova que Sobek é um ladrão e quero que seja condenado.

  - Sabes ao que te arriscas... Se essa prova não for válida, tu é que serás pesadamente condenado.

  - Quando estamos dentro da razão, nada temos a recear da  justiça.

  - Manténs portanto a tua queixa?

  O mercador abanou a cabeça afirmativamente.

  Sob a presidência do escriba do Túmulo, o mestre-de-obras, o guarda que recebera a queixa, a Mulher-Sábia, Uabet a Pura, um guarda núbio, Tuti o Sábio e Userhat o Leão formaram o tribunal que, excepcionalmente, se reuniu em frente da porta grande da cerca. Em geral, instalava-se no pátio do templo principal do Lugar de Verdade para ouvir o acusador e o acusado quando pertenciam à confraria.

  No caso presente, tanto um como outro eram do exterior e não podiam portanto ser recebidos no seio da aldeia. Como a função de chefe da segurança estava colocada sob a autoridade do escriba do Túmulo, Sobek devia no entanto ser julgado pelo tribunal local.

  Para a circunstância, os jurados tinham envergado pesados vestidos engomados e traziam grandes perucas que modificavam o seu aspecto e fisionomia. Se o queixoso esperava identificar um artesão, ia ver-se bem atrapalhado.

  De acordo com o sistema judiciário em vigor, o acusado e o acusador deviam comparecer pessoalmente perante o tribunal e apresentar o seu ponto de vista, demorando o tempo que fosse necessário. Sentados em tamboretes, o mercador e o chefe da segurança evitavam olhar-se. Tanto um como outro pareciam confiantes.

  - A parcialidade é a abominação de Deus - declarou Kenhir. - Este tribunal agirá para com aquele que lhe é próximo da mesma maneira que para com o que não conhece. Não se mostrará injusto para um fraco para beneficiar um poderoso e saberá proteger o fraco do forte, distinguindo a verdade da mentira. Imploremos ao deus oculto que intervém a favor do infeliz na sua desgraça, a fim de que ilumine este tribunal e o torne capaz de pronunciar a sentença correta por unanimidade.

  O escriba do Túmulo fitou o acusador e depois o acusado.

  - Exijo uma linguagem clara, compreensível para todos, sem argumentos específicos nem explicações confusas. Formula a tua acusação, mercador.

  - O chefe Sobek encomendou-me um burro. Chegamos a acordo sobre o preço e o burro foi-lhe entregue. No entanto, ele recusa-se a pagar a soma combinada, ou seja, uma peça de tecido, um par de sandálias, um saco de centeio e um saco de farinha. A fatura foi devidamente registrada e não pode portanto ser contestada.

   - O que tens a responder a isto, Sobek? - interrogou Kenhir.

  - Esse mercador é um ladrão e um mentiroso. É verdade que me foi entregue um burro, mas tratava-se de um velho burro doente! Não tinha portanto nada a pagar e eu é que devia apresentar queixa.

  - É falso - retorquiu o mercador. - O burro que entreguei era um jovem macho vigoroso, de perfeita saúde. Aqui está, aliás, um documento assinado por testemunhas no momento em que fiz a fatura.

  O mercador entregou ao presidente do tribunal uma tabuinha de madeira sobre a qual uma inscrição em caracteres cursivos descrevia o burro e indicava o seu preço. Figuravam lá os nomes de três testemunhas que certificavam a validade dessas referências.

  - Eu também tenho uma testemunha - objetou Sobek. - O guarda que viu esse velho animal e a quem ordenei que o levasse para um palmar para que aí terminasse calmamente os seus dias.

  - Tens um documento escrito?

  - Claro que não! Porque havia de ter tomado essa precaução?

  - Que Userhat o Leão vá buscar esse guarda para ele testemunhar - exigiu o escriba do Túmulo.

  O subordinado de Sobek compareceu diante do tribunal. Muito impressionado, tinha dificuldade em encontrar as palavras.

  - Lembras-te de um burro que foi entregue ao chefe Sobek e a propósito do qual ele te teria dado uma ordem?

  - Ah, sim, sim... Era mesmo um burro.

  - Novo ou velho?

  - Muito velho... Tinha dificuldade em andar.

  - O que te ordenou o chefe Sobek?

  - Não estava contente, porque tinha encomendado um animal jovem e vigoroso. Ordenou-me portanto que o levasse para um palmar. Depois de ter seguido o regulamento de saída, cumpri a ordem.

  O presidente do tribunal voltou-se para a Mulher Sábia cuja intervenção esperava, mas ela permaneceu muda. Kenhir continuou:

  - A verdade será portanto fácil de determinar. Vai imediatamente buscar esse burro e trá-lo até nós.

  Graças à proteção dos guarda-sóis e das bebidas frescas, não tinha sido uma grave provação esperar. O mercador evidenciava um perfeito otimismo, como se nada tivesse a recear daquela iniciativa decisiva. A sua segurança começava a perturbar Sobek, que estava no entanto certo de conseguir a absolvição e uma severa condenação do mentiroso. Era preciso ser inconsciente para troçar assim do tribunal!

  Foi um guarda sem fôlego que se apresentou de novo perante Kenhir.

  - Onde está o burro?

  - Eu... Eu procurei-o mas não o encontrei.

  - Não te enganaste no palmar?

  - Ah, isso não, escolhi o mais próximo! E depois, o seu proprietário possui vários burros... Mas o velho não estava lá onde eu o tinha deixado.

  O mercador mostrava-se triunfante.

  - É evidente que o chefe Sobek e o seu subordinado inventaram esta história para não pagarem um burro de boa saúde que esconderam em qualquer parte. O chefe Sobek pensava que um modesto comerciante como eu não se atreveria nunca a acusá-lo perante a justiça e que poderia em breve gozar o seu roubo com toda a impunidade. Mas a verdade acaba sempre por ser descoberta e eu exijo simultaneamente reparação, indenização, penalidades e demissão desse guarda desonesto.

  - O que tens a responder em tua defesa? - perguntou Kenhir ao núbio.

  - Esse mercador é um mentiroso!

  - Às minhas acusações - acrescentou o vendedor de burros - adiciono a difamação, de que todos os membros deste tribunal são testemunhas.

  - Têm os dois alguma coisa a acrescentar?

  - Que seja feita justiça! - exigiu o mercador.

  - Estou inocente e sou vítima de uma maquinação! - protestou Sobek, furioso. - Deixai-me interrogar esse bandido e ele dir-vos-á a verdade!

  - Basta, chefe Sobek! Os guardas vão acompanhar-vos a um fortim onde aguardareis o nosso veredicto.

                              

  Prisioneiro nas suas próprias instalações, Sobek estava deprimido. Caíra numa armadilha tão simples como diabólica e não tinha qualquer hipótese de lhe escapar. Reconhecido culpado de roubo e mentira, seria condenado a vários meses de prisão e perderia o seu posto. Tendo em conta as responsabilidades que pesavam sobre os seus ombros, o tribunal mostrar-se-ia de uma severidade exemplar; não deveria um chefe da segurança mostrar-se de uma honestidade acima de qualquer suspeita?

  A verdade era realmente essa, mas o garrote apertava-se sobre o seu pescoço e acabaria por ser estrangulado! A cólera não o impedia de ver as coisas com clareza: os que pretendiam a destruição do Lugar de Verdade tinham subornado o vendedor de burros e organizado aquela maquinação, destinada a afastar Sobek e os seus núbios de forma definitiva. Fariam nomear outro chefe da segurança, outra equipa de guardas e, sem desconfiar, a aldeia deixaria de estar protegida.

  Não podiam permitir-se recorrer ao crime porque a morte brutal de Sobek teria desencadeado um inquérito e feito desconfiar da presença de uma conspiração. Nesse caso, o escriba do Túmulo teria exigido um reforço dos efetivos e aferrolhado ainda mais a área sagrada. O método ideal consistia portanto em desacreditá-lo, a ele, o guarda íntegro e incômodo.

  - O tribunal vai dar a sua sentença - anunciou-lhe um dos seus homens, atrapalhado.

  Era um fim de tarde doce e tranqüilo. Sobek avançava em passo lento para apreciar melhor os seus últimos instantes naquele lugar de aparência tão austera mas que tanto amara. O Lugar de Verdade tornara-se a sua pátria, um espaço de harmonia que soubera preservar permanecendo sempre alerta. E fracassava por causa de um burro velho...

  O mercador estava já sentado no seu tamborete com o sorriso nos lábios. Sobek notou que a Mulher-Sábia não reocupara o seu lugar.

  - Prefiro permanecer em pé para ouvir a sentença.

  - Ei-la - disse Kenhir.

  O núbio fechou os olhos.

  A um longo silêncio sucedeu-se um ruído de ferraduras batendo no chão, como se um burro se aproximasse lentamente do tribunal.

  Sobek abriu os olhos, voltou-se e viu a Mulher Sábia que conduzia um velho quadrúpede de pêlo gasto, acariciando-lhe a cabeça.

  - É... É ele! - exclamou Sobek. - Pedi o testemunho do meu subordinado, que o reconhecerá como eu!

  - Isso já foi feito - explicou Clara.

  - Como o haveis encontrado?

  - Fui ao palmar e interroguei os camponeses com pouca esperança, pois receava que este velho burro tivesse sido suprimido. Felizmente para ti, a miragem do lucro foi mais forte. O cúmplice do mercador guardara o animal para tentar armar uma cilada a um novo comprador.

  O escriba do Túmulo fitou o acusador com severidade.

  - O que tens a responder?

  - Qual é a prova de que esse velho burro foi entregue ao chefe Sobek? Podeis ter ido buscá-lo seja onde for!

  - De maneira nenhuma - retorquiu a Mulher Sábia. - Teria podido explicar o caso de acordo com testemunhos contraditórios , mas era preferível guardar essa informação até agora.

  A voz do mercador tornou-se menos firme.

  - O que quereis dizer?

  - Em que data exata foi entregue o burro que haveis vendido ao chefe Sobek?

  - Há exatamente dezoito dias.

  - O burro é um animal indispensável - lembrou a Mulher Sábia. - Sem ele, o Egito não se teria tornado um Pais rico. Mas por vezes é animado pela exaltação de Set; é por isso que qualquer burro que penetra no domínio do Lugar de Verdade deve ser magicamente acalmado. Como é hábito, o guarda solicitou a intervenção de uma sacerdotisa de Hathor para lhe pintar um hieróglifo na parte interior da coxa esquerda da frente e só o conduziu ao palmar depois da realização dessa exigência ritual. Esse hieróglifo varia em função das estações e das festas. Há dezoito dias, como toda a confraria pode testemunhar, o sinal escolhido era uma madeixa encaracolada de cabelos. O tribunal pode verificá-lo.

  Userhat o Leão ergueu delicadamente a pata do velho burro e mostrou ao mercador o sinal, pintado a tinta vermelha.

  - Tinha-te prevenido - lembrou-lhe Kenhir. - Fizeste uma falsa acusação contra o chefe da segurança da aldeia e acumulaste mentiras para o fazer condenar. Reconheces os fatos?

  - Não, não... Eu não sou responsável...

  - Ainda ousas negar?

  O vendedor de burros baixou a cabeça.

  - Não, imploro o vosso perdão... Pretendia simplesmente obter lucros fáceis.

  - Para já, o tribunal condena-te a oferecer cinco burros ao chefe Sobek.

  - Cinco! É demais, eu...

  - Não é tudo. Oferecer-lhe-ás igualmente dois dias de trabalho por semana durante cinco anos; se falhares uma única vez a este dever, a tua pena será imediatamente duplicada. Desejas apelar para o tribunal do vizir?

  - Não, não...

  - Então, jura respeitar este julgamento.

  O condenado prestou juramento com voz quase extinta.

  - Vai-te embora e traz os cinco burros a partir de amanhã de manhã.

  Alquebrado, o mercador afastou-se.

  - Devia ser preso! - considerou Sobek.

  - Se tens outros motivos de acusação, organizaremos um novo processo.

  - Não haveis compreendido que os inimigos da confraria tentaram eliminar-me?

  - Apercebes-te da gravidade das tuas afirmações e do que elas implicam?

  - Abramos os olhos! Se eu fosse demitido, quem teriam nomeado para vos proteger?

  - Acalma-te, Sobek. Esqueces que é o vizir que nomeia o chefe da segurança?

  - E porque não havia também ele de ser manipulado?

  - Este processo esgotou-te e precisas de serenar. Vai repousar e faremos mais tarde o ponto da situação.

  Enquanto o núbio, despeitado, regressava aos seus aposentos , Kenhir fez à Mulher Sábia a pergunta que lhe queimava os lábios.

  - Nunca tinha ouvido falar desse costume mágico...

  - Consultai Uabet a Pura - respondeu Clara sorrindo. - Foi ela que teve a idéia. Mas o importante não era encontrar o burro e obter a confissão do cúmplice do vendedor?

  - Bem jogado... Mas deveremos acreditar nas obsessões de Sobek?

  A Mulher Sábia pegou na mão do mestre-de-obras.

  - O céu cobrir-se-á de sombrias nuvens e o raio poderia bem cair sobre nós... Mas não serão as sacerdotisas do Lugar de Verdade capazes de esconjurar a má-sorte?

  O vendedor de burros não conseguia adormecer. Acabava de viver o dia mais aflitivo da sua existência quando esperava triunfar sem dificuldade.

  Nessa mesma noite, aguardava o emissário do general Mehi que lhe pagaria o que lhe era devido, mas seria uma fraca compensação face aos seus aborrecimentos. A severa sentença do tribunal não só o ia empobrecer como também arruinar-lhe a reputação.

  Mehi devia indenizá-lo e impedir qualquer outra condenação que o chefe Sobek não deixaria de exigir. Ressentido, este havia de encarniçar-se sobre o seu acusador e, se conseguisse mandá-lo prender, interrogá-lo-ia sem delicadezas e acabaria por obter as suas confissões.

  Pensando bem, devia dirigir-se imediatamente a casa do general e colocar-se sob a sua proteção.

  Ao sair da cabana que ficava ao lado da estrebaria, o mercador esbarrou com uma camponesa.

  - O que fazes aqui?

  - Sou a esposa de Mehi.

  - Mas... Estais vestida como uma pobretanas!

 - Não queria ser reconhecida.

  - Sois... Sois a emissária?

  - Trabalhaste para nós e deves ser recompensado como estava previsto.

  - O tribunal não condenou Sobek! O velho burro foi encontrado e os juízes desmontaram toda a maquinação... Atualmente, tendes de proteger-me.

  - Falaste de Mehi?

 - Não, julgam que sou o único responsável... Mas se Sobek me prender, confessarei tudo para salvar a pele!

 - Ainda não chegamos a isso - tranqüilizou-o Serketa. - Este fracasso é lamentável, mas todo o esforço merece salário. Por isso receberás o que te estava prometido.

  - Depois, proteger-me-eis?

  - Para onde vais, nada mais terás a recear do chefe Sobek.

  Mais descansado, o vendedor de burros admirou as duas placas de prata que a mulher acabava de colocar sobre uma arca de roupa. Uma verdadeira pequena fortuna! Apesar dos aborrecimentos sofridos, tivera razão em aceitar a proposta do general.

  Enquanto o mercador deliciava o olhar, Serketa colocou-se atrás dele.

  Tirando do bolso interior do vestido grosseiro uma longa e fina agulha, enfiou-a com um golpe seco na nuca do covarde, exatamente entre duas vértebras. Depois de se ter exercitado em animais e num modelo de cabeça humana, Serketa conseguira executar maravilhosamente a sua primeira experiência no terreno.

  O vendedor de burros esticou a língua, emitiu uma espécie de estertor, estendeu os braços para agarrar apenas o vazio e caiu morto.

  Serketa retirou a agulha que fizera brotar uma gota de sangue. Limpou-o com cuidado, de forma a não deixar qualquer vestígio do seu crime. Como a sua vítima não beneficiaria de uma mumificaÇão de primeira classe, ninguém notaria o minúsculo orifício.

  Depois desamarrou os burros e, com uma das cordas, enforcou o vendedor numa extremidade da trave central da estrebaria. O mercador não pesava mais morto do que vivo.

  Antes de desaparecer na noite, Serketa não se esqueceu de recuperar as duas placas de prata.

                              

  O escriba do Túmulo lembrou à equipa da direita reunida no edifício da confraria que esta tinha necessidade de produtos raros como a galena ou o betume e o mestre-de-obras precisou que pelo menos um artesão deveria fazer parte da expedição. Dotado de instruções exatas, traria para a aldeia as quantidades necessárias para a realização de um trabalho secreto.

  Em geral, era Tuti o Sábio que se encarregava desta tarefa; mas tendo em conta o seu luto recente, o mestre-de-obras não lha podia impor. Fazia portanto apelo a um voluntário que estivesse pronto para partir no dia seguinte de manhã.

  De regresso ao seu gabinete onde, como receava, Niut a Vigorosa tinha passado a vassoura, Kenhir não teve tempo de se enfurecer porque uma mensagem do chefe da segurança chamava-o de urgência ao quinto bastião. Embora detestasse ser assim incomodado, o escriba do Túmulo não teve outro remédio senão abandonar os seus queridos papiros.

  O chefe da segurança controlava mal os nervos.

  - Já sabeis a novidade, Kenhir?

  - Estou aqui para ficar a saber.

  - O mercador de burros...

  - Ter-se-á atrevido a desrespeitar o tribunal não te trazendo os cinco animais que te deve?

  - Acabam de o encontrar morto, em casa. Enforcou-se.

  - Esse lamentável mentiroso não suportou a sua derrota.

  - Um novo suicídio, depois do de Abri! - exclamou o núbio.

  - Como podes comparar um administrador-principal da margem oeste com um vendedor de burros? Este teve medo de ti e de eventuais represálias.

  - Estou convencido que o assassinaram para o impedir de falar. Exatamente como Abri.

  - Possuis provas, tanto num caso como no outro? - interrogou Kenhir, irritado.

  - Infelizmente não.

  - Que vejas conspirações por todo o lado não é mau, Sobek, porque essa deformação profissional mantém a tua vigilância. Mas que não te obceque a ponto de te perturbar a razão! Poderás pelo menos recuperar os burros?

  - Alguém os desamarrou e debandaram.

  - Porque não terá sido o próprio mercador que os pôs em liberdade antes de se matar?

  - Seria muito simples, com efeito.

  - E é, Sobek! Não tens direito a uns dias de descanso?

  - Desisti deles.

  - Fazes mal. Algum repouso far-te-ia muito bem.

  - A segurança da aldeia é a minha única preocupação. E esses que se encarniçaram contra mim fizeram mal em falhar.

 

  A página do Diário do Túmulo que Kenhir tinha que redigir seria tão longa como excepcional. Casa o Cordame não se podia oferecer como voluntário porque sofria de perturbações oculares; Fened o Nariz, porque levava oferendas ao túmulo dos Pais; Karo o Mal-humorado, porque estava a reparar a porta da sua casa; Nakht o Poderoso, porque estava a fabricar cerveja para a próxima festa ; Userhat o Leão, porque tinha sido picado por um pequeno escorpião; e todos os outros tinham igualmente bons motivos para não abandonar a aldeia e partir à aventura.

  Todos, exceto Paneb.

  - És Pai de uma criança recém-nascida - lembrou-lhe Kenhir.

  - Engorda a olhos vistos e Uabet trata muito bem dele. Mas... não sou o único voluntário, pois não?

  - Receio bem que sim. Vamos ter com o mestre-de-obras.

  Néfer o Silencioso não dissimulou o seu embaraço.

  - Obrigado pela tua coragem, Paneb, mas não pensava em ti... Não conheces nem os locais nem os produtos a trazer.

  - Quem os conhece?

  - O mais competente seria o ourives Tuti, mas o seu luto...

  - Ele faz ou não parte da confraria? Quando uma missão nos é confiada, é necessário saber esquecer alegrias e desgostos. Participei na sua infelicidade, mas hoje temos necessidade dele. Porque suponho que não se trata de um simples passeio no deserto... Os produtos a trazer são-nos indispensáveis, não é verdade?

  - Mesmo que o laboratório e a administração da margem oeste não tivessem solicitado esta expedição, teríamos sido obrigados a organizá-la. A Morada do Ouro utiliza o betume e a galena para objetivos precisos que não te posso revelar.

  - Vou ver Tuti e convencê-lo-ei a partir. A dois, a viagem será menos penosa.

   Daktair não conseguia estar parado. Cofiando sem cessar os pêlos da barba, contava e tornava a contar os duzentos burros e os cem mineiros prontos para partir, enquadrados por cerca de trinta prospectores especializados na procura de minerais e pedras preciosas. Habituados ao perigo, endurecidos perante a dor, tinham traçado os seus próprios mapas e desempenhavam igualmente o papel de protetores contra eventuais ataques dos corredores da areia, nômades cruéis e ladrões. Como Daktair exigira o máximo de segurança, em caso de agressão seriam auxiliados por vinte soldados experientes.

  A pista estava semeada de poços, mas as reservas de água e alimentos tinham sido generosamente calculadas. O estado de saúde de cada burro fora examinado cuidadosamente, os cestos eram novos e os arreios também.

  Faltava apenas o artesão do Lugar de Verdade.

  - Quanto tempo vai ele ainda fazer-nos perder! - indignou-se Daktair. - Não vamos passar o dia todo à espera!

  - Desejais que vá à aldeia? - perguntou um dos prospectores.

  Os olhares fixaram-se num pequeno barco que tentava acostar.

  Manobrado de forma hesitante, falhou por duas vezes antes de atingir por fim a margem.

  Da embarcação saltaram dois passageiros muito diferentes, um jovem colosso e um homem sem idade quase enfezado que parecia extremamente frágil.

  Os soldados rodearam-nos de imediato e ameaçaram-nos com os cacetes.

  - Quem sois vós? - interrogou Daktair, agressivo.

  - Não se vê? - espantou-se o jovem colosso. - Um marinheiro amador que aprende a navegar... Para a minha primeira travessia, não me saí assim muito mal.

  - Regressa para onde vieste, meu rapaz. Aqui é uma zona militar.

  - Não é o ponto de partida de uma expedição?

  Daktair ficou perturbado.

  - Estás bem elucidado... Quem te informou?

  - O mestre-de-obras do Lugar de Verdade.

  - Esperava um artesão, não dois!

  - Chamo-me Paneb e eis o meu companheiro Tuti.

  - Preciso de saber mais sobre os vossos graus e competências.

  - Vais ter no entanto que te contentar com isto.

  - Sabes a quem te estás a dirigir? Sou Daktair, o diretor do laboratório central de Tebas e o chefe desta expedição! Deves-me total obediência e exijo-te portanto que satisfaças as minhas exigências.

  Paneb encarou os soldados um a um. Tuti compreendeu que o seu companheiro se preparava para mergulhar na molhada e que não seria inevitavelmente vencido.

  - Paneb, não... - murmurou-lhe. - Lembra-te que temos uma missão.

  - É verdade, não tenho o direito de me deixar levar. Bom... Não nos resta outra solução senão voltarmos para casa.

  O jovem colosso deu meia volta na direção do pequeno barco.

  Daktair precipitou-se para Paneb e agarrou-lhe num pulso.

  - Onde vais?

  - Deixa-me imediatamente ou não respondo por nada.

  O olhar ameaçador de Paneb forçou o sábio a obedecer.

  - Tuti e eu regressamos à aldeia.

  - Mas... Não deveis partir conosco?

 - Contigo, mas não sob as tuas ordens. Somos homens livres e sabemos o que temos de fazer.

  Daktair ficou congestionado.

  - Lembro-te que sou o chefe desta expedição e que ela não poderá resultar se não houver uma disciplina muito rigorosa.

  - Aplica-a aos teus subordinados; nós só dependemos do Lugar de Verdade. Se não és capaz de compreender isto, serás responsável pelo fracasso.

  - Revelar-me-ás pelo menos o nosso destino?

  - Vais conhecê-lo muito em breve. Estamos portanto de acordo: Tuti irá à frente e indicará o caminho.

  - Escarneces da minha autoridade, Paneb!

  - As coisas que tu vais imaginar! Não me preocupo com ela, é tudo.

  - Não estou habituado a que me falem nesse tom. Quer queiras ou não, esta expedição está colocada sob a minha responsabilidade e não posso tolerar a tua atitude.

  - Então, parte sem mim.

  Daktair voltou-se para Tuti.

  - Espero que sejas mais razoável.

  - De acordo com a vontade do nosso mestre-de-obras - disse o ourives com voz tranqüila - guiarei esta expedição até às minas, mas com uma condição não negociável: aplicar as diretivas que recebi. Sejam quais forem os teus títulos e as tuas prerrogativas, ou aceitas ou ficas em Tebas.

  Estupefato, Daktair compreendeu por que razão era tão difícil lutar contra aquela confraria.

  - Acabemos com estas vãs discussões - decretou Paneb - e partamos.

                              

      A expedição desceu o Nilo de Tebas até à altura de Coptos, onde animais e homens desembarcaram para enveredar pela pista do deserto que conduzia ao Mar Vermelho e à península do Sinai , rica em minas de turquesa e de cobre, exploradas desde o Império Antigo. Sob a direção de Tuti, que conhecia bem a zona, abandonaram a pista que conduzia a uma pedreira de granito e dirigiram-se para Guebel el-Zeit.

  Embora quase nunca chovesse naquela região, beneficiava no entanto de uma certa umidade devido ao Mar Vermelho e surgiam ilhotas de verdura aqui e além, principalmente na base de uma impressionante cadeia de montanhas cujos cumes atingiam a altitude de mil metros.

  A maior parte dos egípcios receava o deserto, povoado de criaturas estranhas e perigosas; mas todos sabiam que ele preservava os corpos para a eternidade e que continha imensos tesouros de ouro, de prata e de todas “as pedras puras engendradas no ventre das montanhas". Era possível atravessar o deserto, não viver lá Porque ele era o Além presente na terra. E eram necessários guias experientes para não cair nas suas múltiplas armadilhas.

  Paneb seguia ao lado de Tuti que, apesar da sua frágil constituição, imprimia um bom ritmo ao grupo.

  - Tenho a impressão que te está a agradar esta viagem.

  - Ainda mais do que possas supor! - exclamou o Ardente. - Que magníficas Paisagens... A areia assemelha-se ao fogo e é doce sob os meus pés.

Felizmente, a nossa aldeia está situada no deserto; é necessária a sua força para sacudir os homens e os libertar da sua moleza.

  - O que pensas deste Daktair?

 - Para mim, não existe. É um pequeno funcionário demasiado gordo cujos privilégios o tornam ébrio de vaidade.

  - Mesmo assim, desconfia dele. Quando eu trabalhava em Karnak, cruzei-me com indivíduos desse gênero, mas menos perigosos. Que ele não goste de nós, não é nada de espantar, mas tenho a sensação que talvez haja algo mais grave.

  Paneb olhou Tuti com espanto.

  - Viveste no domínio de Amon?

  - Aí aprendi a trabalhar a madeira preciosa, o ouro e o electrum, a cinzelar decorações, a revestir de ouro portas, estátuas e barcas, e teria atingido um elevado grau na hierarquia se Kenhir não tivesse apelado para mim. O Lugar de Verdade precisava de um ourives experiente e eu era o terceiro na lista porque o tribunal de admissão rejeitara os dois primeiros.

  - Porque não ficaste em Karnak?

 - Nunca ousara bater à porta da confraria, mas sabia que ela possuía segredos da profissão que não eram revelados em mais nenhum lado. Ter acesso a eles parecia-me impossível. Portanto, quando surgiu a ocasião, tentei a minha sorte.

  - Terás ouvido o apelo?

  - Desde o primeiro instante em que tive o ouro nas minhas mãos... Mas ignorava que era isso e que me tornava diferente dos outros ourives. A confraria assim o reconheceu e admitiu-me na equipa da direita. Que dia maravilhoso... Agora, devo suportar o sofrimento.

  - Podias ter outro filho.

  - Não, prefiro manter intacta a recordação do meu filho, da sua infância risonha, dos seus olhos, dessa felicidade que não soube reter... E agradeço-te que me tivesses feito sair do meu torpor para tomar parte nesta expedição. Sozinho, sentir-me-ia desamparado; contigo, será possível cumprir esta difícil missão.

  - Porque receias Daktair?

  - Porque vamos recolher um produto perigoso cuja utilização é fixada por rigorosas regras. Como diretor do laboratório central Podia ter intenção de as violar.

  - Não estamos encarregados de as fazer respeitar?

  - É por essa razão que poderemos ser incômodos. A priori, esta expedição nada tem de perigoso; desde que encontrei Daktair, já não estou tão seguro disso.

  Paneb esboçou um sorriso guloso.

  - Ele que tenha a feliz idéia de se meter conosco!

  - Somos apenas dois, Paneb.

  - Pelo que pude compreender, não te faltam amigos entre os mineiros e os pesquisadores de minerais.

  - Ter atravessado várias vezes este deserto com os mesmos homens cria laços, é um fato. A maior parte deles não se voltarão contra nós.

  - Está descansado, Daktair não tem qualquer hipótese.

  Daktair era o único a deslocar-se no dorso de um burro robusto e, apesar desse privilégio devido ao seu posto, bebia bastante mais do que os que caminhavam. Desconfiando que esta viagem não seria um prazer, não previra no entanto que essas extensões desérticas o horrorizassem a tal ponto.

  Com uma disposição horrorosa, o sábio tentara em vão elaborar um plano para se desembaraçar do jovem colosso.

Sentia-o mais desconfiado do que um animal selvagem e capaz de reagir com violência. E como eliminá-lo sem atrair as suspeitas do ourives? Se Paneb se recusasse a continuar, Daktair não deitaria a mão a um dos segredos princiPais da confraria.

  Teria portanto de esperar que os produtos fossem recolhidos. Em seguida, trataria disso.

  À sua frente, os mineiros abrandaram.

  - Não dei ordem para parar!

  - Não se pode avançar.

  Enervado, Daktair adiantou-se até à cabeça da coluna.

  Lá à frente, Tuti sentara-se sobre uma pedra, de costas para o Sol. Os homens e os animais bebiam em pequenos goles.

  - O que se passa?

  - Uma paragem imprevista - respondeu o ourives. - Não deve demorar muito e um pouco de repouso não fará mal a ninguém.

  - Onde está o teu companheiro?

  - Partiu para a colina, além, com dois pesquisadores de pedras preciosas.

  - Mas... Não é esse o objetivo da expedição!

  - Vai dormir um pouco.

  - Chama esses homens imediatamente.

  - Esperemos tranqüilamente o seu regresso. Quanto mais te agitares, mais sede terás.

  Tuti ofereceu um figo a Daktair que o recusou e ocupou o seu lugar na parte de trás do grupo. Nenhum mineiro lhe demonstrava simpatia, enquanto muitos deles vinham partilhar com o ourives as recordações de expedições anteriores.

  - Fabuloso! - exclamou Paneb ao regressar da colina. - Olha o que os prospectores permitiram que eu apanhasse.

  Espalhou sob os olhos de Tuti, exibiu cristais em forma de dodecaedros que escondiam cornalinas, jaspes vermelhos e granadas. Algumas grandes granadas estavam já libertas da sua ganga e apresentavam-se como rosários de esferas.

  - Não brincaram contigo - afirmou o ourives.

  - Os nossos amigos consideram que não é necessário mostrar estas pedras a Daktair ou fazê-las registrar por um escriba. Afinal, não passam de pedras.

  - De um ponto de vista profano, é verdade. E há já tantas papeladas a preencher...

  - Podíamos voltar a partir, não? Daktair pode impacientar-se.

  Um soldado dirigiu-se aos dois artesãos.

  - Detectamos três corredores da areia na colina... Observaram-nos durante alguns instantes antes de desaparecerem. Eram com certeza batedores.

  - Devemos prever um ataque? - perguntou Paneb.

  - Não obrigatoriamente... Esses ladrões são cobardes e só atacam caravanas mal protegidas. No entanto, vamos tomar as precauções necessárias. Os arqueiros vão permanecer a vosso lado e , à noite, faremos turnos de guarda.

  Recomeçaram a andar com um passo mais vagaroso, não sem observar os arredores com medo de ver surgir um bando armado.

  Com o correr das horas, o receio foi desaparecendo, tanto mais que nenhum dos poços que balizavam a pista tinha sido obstruído ou conspurcado.

  A direção do grupo era bem-feita e a moral excelente. Paneb que carregara às costas um jovem mineiro vítima de uma insolação, conquistara todas as simpatias e ninguém se queixava do andamento imprimido por Tuti.

  Os prospectores verificavam os seus mapas e enchiam as bolsas de cabedal com amostras de minerais que etiquetavam cuidadosamente.

  - Será o nosso último acampamento antes da chegada ao local, amanhã, no fim da manhã - anunciou Tuti. - Esta noite, há festa para todos: carne seca e vinho tinto.

  Enquanto os mineiros entoavam cânticos à glória do Faraó e da deusa Hathor, soberana dos metais preciosos, Daktair aproximou-se dos dois artesãos.

  - Não tocamos uma única palavra durante esta viagem... Talvez fosse altura de fazermos as pazes - sugeriu o sábio.

  - Porque não? - respondeu Tuti. - Senta-te e bebe.

  - Álcool nunca, obrigado.

  - Isso far-te-ia ficar de melhor humor - sugeriu Paneb.

  - Começaremos a trabalhar a partir de amanhã, não é verdade?

  - Exato - confirmou o ourives.

  - Não será altura de me revelarem como tencionam proceder? Estou aqui para vos ajudar e fazer com que possam aproveitar da minha ciência.

  - Não duvidamos. Daktair, mas é melhor que te preocupes com a nossa segurança.

  - Os soldados encarregam-se disso! O que me interessa é a natureza e a quantidade dos materiais que levaremos para Tebas.

  - São horas de dormir - decidiu Tuti.

                              

   O Guebel Zeit era um pequeno maciço montanhoso afastado das pistas das caravanas. A trezentos quilômetros de Tebas, dominando o aceso ao Golfo de Suez, muito isolado, o local só muito raramente era explorado, quando as necessidades de galena se faziam sentir. Daktair ouvira alguns mineiros afirmar que esta era tão preciosa como o ouro e essa perspectiva fazia-lhe crescer água na boca. Compreendia agora a razão pela qual o ourives Tuti viera várias vezes àquele lugar perdido, mas ignorava ainda o uso que a confraria fazia desse material raro.

  - Prestemos em primeiro lugar homenagem à deusa Hathor e imploremos a sua proteção - ordenou Tuti.

  Daktair irritou-se com aquela perda de tempo, mas sabia que não seria um empreendimento fácil erradicar as antigas superstições. Todos os membros da expedição se recolheram perante sóbrias estelas erguidas diante de pequenos santuários de pedra solta edificados entre as habitações sumárias ocupadas pelos mineiros durante a sua estadia em Guebel Zeit. Todos fizeram uma oferenda à deusa, quer um amuleto, quer um escaravelho de faiança, quer uma estatueta de mulher em terracota, quer um pedaço de tecido de linho, e veneraram também os deuses Min, protetor dos exploradores do deserto, e Ptah, o patrono dos artesãos.

  Terminado o ritual, Tuti distribuiu as tarefas. Mandou cinco prospectores caçar uma gazela, cinco outros pescar e apanhar moluscos, e designou dois intendentes que formaram equipas de limpeza enquanto os restantes começavam a descarregar os burros e os soldados que se colocavam em posição de garantir a proteção do local.

  Paneb foi encarregado de distribuir as ferramentas de pedra, picaretas e percussores, a maior parte de basalto, e de escolher uma vintena de mineiros, cuja energia não fora abalada pela viagem, para se dirigirem à mina que distava cerca de três quilômetros das habitações e dos santuários.

  Surpreendido pela eficácia dos dois artesãos, Daktair não sabia para onde se virar de forma a não perder nenhum dos seus movimentos. A qualquer momento deveriam revelar o objetivo da sua missão e, dessa forma, o segredo de que o sábio tanto desejava apoderar-se.

  - Vamos - decidiu Tuti. - O jantar deve estar pronto quando regressarmos.

  Daktair juntou-se ao grupo que se dirigiu para a mina; nem Tuti nem Paneb lhe prestaram atenção.

  Quanto mais se aproximavam da meta mais o sábio notava a abundância de minerais estranhos, uns de um cinzento-azulado , outros mais escuros. Nunca vira nada de semelhante e teve outra surpresa ao descobrir a mina, uma parte da qual era a céu aberto e a outra subterrânea. Com orientação norte-sul, os filões de galena tinham sido detectados à superfície e depois as galerias tinham sido escavadas até trinta metros de profundidade. Um dos pontos de ataque de um filão particularmente rico ficava mesmo cem metros abaixo da superfície e apresentava-se sob a forma de uma estreita passagem por onde apenas um mineiro pouco corpulento podia avançar.

  Daktair estava excitado como se se encontrasse no limiar de uma grande descoberta.

  - Estas rochas... é isto a galena?

  - A galena é um sulfureto de chumbo cinzento-azulado - explicou Tuti. - As rochas que variam do castanho-escuro ao negro são betume. Queres visitar uma galeria?

  - Claro que sim!

  - Arriscas-te a ficar sujo... Tendo em vista a tua corpulência só podemos entrar numa sala suficientemente larga.

  Fascinado, Daktair teria seguido o artesão até ao fim do mundo, mas a descida não foi fácil e Paneb teve mesmo que o agarrar pela cintura quando estava prestes a iniciar uma escorregadela perigosa.

  A expedição anterior tinha trabalhado bem, criando salas suficientemente altas para que pudessem permanecer em pé. Os orifícios de ventilação, com cerca de trinta centímetros de diâmetro, estavam dispostos de maneira a provocar uma permanente corrente de ar.

  Com uma picareta, um mineiro arrancou um bocado de minério que desfez para extrair da sua ganga pepitas de galena.

  - É isto que levaremos para Tebas - revelou Tuti.

  - Com que finalidade?

  - O betume serve para impermeabilizar os silos, calafetar certos tipos de barcos, selar as tampas dos potes e pôr cabos em ferramentas. Aplicado em cataplasma, revela-se eficaz contra a tosse.

  Quanto à galena, oferece um produto dos mais preciosos de todos:   o cosmético que permite às nossas elegantes maquiarem os olhos. As nossas esposas adoram-na e bastaria isso para justificar a  nossa viagem.

  Tantos segredos por tão-pouco... Daktair estava cruelmente desiludido. Mas não podia pôr de parte a hipótese mais verossímil: os dois artesãos troçavam dele e mentiam-lhe de forma descarada.

  Evitando o mais possível manifestar a sua desconfiança, assistiu ao trabalho dos mineiros, deslocou-se livremente pelas galerias acessíveis e arriscou-se mesmo numa passagem estreita que acabava de ser escavada para tentar descobrir qualquer coisa de insólito.

  Desinteressando-se das horrorosas pepitas de galena, espiou as atividades e gestos do ourives e do seu companheiro que, infelizmente, dividiam as tarefas e só se encontravam ao cair da noite para dormir na sua pequena cabana em duas sólidas esteiras de viagem. Como saber o que fazia Paneb quando Daktair observava Tuti e vice-versa? O sábio conseguira subornar dois mineiros, mas apenas lhe forneciam informações sem interesse.

  Sob a direção de Tuti, era extraída a galena; sob a de Paneb , inventariavam as pepitas, arrumavam-nas em cestos para o transporte e limpavam e reparavam as ferramentas.

  Os dois servidores do Lugar de Verdade utilizavam constantemente a sua experiência de homens de estaleiro.

Organizavam o trabalho adaptando-se às condições particulares de cada dia e economizando ao máximo os esforços dos ourives, o que lhes granjeavam uma popularidade crescente.

  Se o segredo apenas dizia respeito a um produto de beleza e a uma substância adesiva de uso restrito, não seriam irrisórios os esforços despendidos? Daktair recusava-se a admitir que se tinha enganado. O Lugar de Verdade era uma instituição demasiado importante para se dedicar a atividades tão superficiais. Se os dois artesãos integravam aquela expedição com instruções precisas do seu mestre-de-obras, se tinham abandonado a sua aldeia sabendo que o seu rosto e o seu nome seriam conhecidos a partir de agora, isso não podia deixar de ter uma razão séria.

  Daktair mudou portanto de estratégia. Durante o dia, concedia a si próprio longos períodos de repouso; à noite, permanecia acordado para espiar a cabana dos dois artesãos, na esperança de que acabassem por trair-se.

  Depois de três vigílias intermináveis, a sua paciência foi recompensada.

  Quando o acampamento estava mergulhado no sono, Paneb e Tuti afastaram-se sem ruído e tomaram a direção da mina.

  Daktair seguiu-os.

  Contornaram um dos postos de guarda e bifurcaram na direção de uma colina que não se encontrava na zona explorada.

  Daktair hesitou. Arriscava-se a tropeçar e a revelar a sua presença. Incapaz de se defender contra o jovem colosso, o sábio seria uma presa fácil. Mas era a única hipótese de descobrir o que os artesãos tramavam.

  Por sorte, não aceleravam o passo, como se hesitassem no caminho a seguir. Na realidade, tinham que evitar as sentinelas. Os dois homens passaram a certa distância por trás da última, que não se apercebeu da sua presença, e começaram a ascensão da colina.

  Daktair imitou-os.

  De repente, imobilizaram-se como se esbarrassem com um adversário invisível. Paneb afastou-se de Tuti e apanhou uma pedra. Quando ergueu o braço, Daktair julgou que o jovem colosso ia atacar o companheiro. Teria decidido desembaraçar-se dele para se apoderar sozinho do tesouro?

  Paneb atirou com violência a pedra em frente de si e os dois homens continuaram.

  Quando o sábio passou no local onde o incidente se tinha verificado, viu o cadáver de uma cobra negra com a cabeça esmagada. O medo apertou-lhe a garganta. Em geral, ninguém se deslocava de noite no deserto, domínio dos répteis e dos escorpiões.

  Os pés transportavam Daktair contra sua vontade. Se persistia era porque se sentia incapaz de reencontrar o caminho até ao acampamento. Já não se atrevia a olhar em redor e fixava as costas dos artesãos, receando ouvir um silvo sinistro.

  A ascensão da colina foi penosa. Por duas vezes Daktair esteve prestes a escorregar nas rochas úmidas.

  Uma vez atingido o cume, os dois homens desapareceram.

  A entrada de uma mina, pensou o sábio; devem ter penetrado numa galeria onde está oculto o tesouro que devem levar à confraria.

  Esquecendo as serpentes, as pedras escorregadias e o deserto hostil, Daktair trepou até ao cimo.

  Deitado de barriga para baixo, viu-os.

  Não havia qualquer entrada de mina mas sim uma espécie de cratera que Tuti e Paneb observavam. Mas o que havia para ver?

  Daktair franzia inutilmente os olhos. Não se teriam os dois homens perdido?

  Não foi um silvo de serpente que gelou o sangue do sábio, mas o de uma flecha que lhe roçou a têmpora, deixando um sulco sangrento.

  Logo que se voltou, Daktair viu precipitarem-se para ele três homens armados com punhais.

  - Socorro! - berrou.

 

  Paneb deu um salto.

  Chegando à beira da cratera, viu os agressores iluminados pela luz da Lua. Três hirsutos corredores da areia acabavam de deitar ao chão um Daktair que berrava sem cessar.

  - Virem-se para mim, bando de cobardes!

  Os malfeitores largaram a sua primeira presa para atacarem Paneb.

  Em vez de se separarem, cometeram o erro de avançar em conjunto na direção do insensato que os desafiava persuadidos de poderem cravar-lhe os punhais no peito sem qualquer dificuldade.

  No derradeiro momento, Paneb baixou-se para dar uma cabeçada no baixo-ventre do assaltante do centro e erguer os outros dois agarrando-os pelos testículos.

  Sem dar tempo aos adversários para se levantarem e tomarem fôlego, o Ardente atacou a fundo. Estourou o crânio do primeiro com uma pedra, quebrou a nuca do segundo e cortou a garganta do terceiro com o seu próprio punhal.

  - Não me faças mal! - suplicou Daktair, levantando-se.

  - O que fazes tu aqui?

  - Não sou cúmplice deles... Eu... Eu perdi-me.

  - Confessa que nos seguias.

  O sábio levou a mão à têmpora.

  - Sangue... Estou ferido, gravemente ferido!

  - Tratamos de ti se nos disseres a verdade.

  - Não têm o direito de me tratar assim! Se não for imediatamente tratado, vou morrer.

  - Vamos levá-lo para o acampamento - disse Tuti a Paneb. - Se Daktair se queixasse de ti, terias graves problemas.

  Contra vontade, o jovem colosso ergueu Daktair com uma mão e pô-lo ao ombro como uma saca de cereal.

  O sábio repousava numa tenda. Embora espetacular, o ferimento era apenas superficial e não punha a sua vida em perigo. Quanto aos três homens abatidos por Paneb, tratavam-se de temíveis bandidos; um soldado reconheceu dois deles, acusados de diversos crimes. Atacavam os acampamentos a meio da noite, matavam, violavam e pilhavam. Os seus cadáveres foram abandonados aos chacais.

  O incidente tinha ensombrado a atmosfera e os mineiros estavam com pressa de regressar ao Egito. Quando Tuti anunciou que já só faltavam dois dias de trabalho, todos se sentiram reconfortados.

  - A tua artimanha foi muito eficaz - disse Paneb a Tuti. - Daktair seguiu-nos julgando que o íamos conduzir a um tesouro. Visto que estamos livres desse hipócrita, sê sincero: existe realmente esse tesouro?

  - A galena e o betume são na verdade indispensáveis para nós, mas não apenas para as utilizações que revelei a Daktair. Tenho de levar uma certa quantidade ao mestre-de-obras.

  - Está relacionado com a Pedra de Luz?

  - Não é impossível... Não sei mais nada.

  Ou Tuti mentia, ou o respeito pelo segredo selava-lhe os lábios.

  - A cratera onde conduzimos Daktair não passava de um logro - continuou o ourives - e poderá lá voltar cem vezes sem encontrar nada; mas há outro lugar que te devo mostrar.

  Os dois homens andaram até depois das instalações mineiras e verificaram se não eram seguidos. Paneb notou que as rochas se tornavam cada vez mais escuras.

  - Avança com prudência - recomendou Tuti. - O solo é escorregadio.

  - Parece que a pedra é oleosa!

  - E é. Estamos no monte do óleo de pedra, o petróleo, que brota das fendas. Observa esta nascente de perto.

  Paneb notou à superfície a presença de uma película de gordura flutuando sobre a água e que não se misturava com ela.

  - Para que serve esta estranha substância?

  - É animada de uma perigosa energia que os Antigos nos proibiram de utilizar. Esse petróleo arde facilmente mas suja e empesta.

  Nos túmulos, escureceria as paredes e os tetos. Por causa da força de destruição que tem em si, só pode ser transformado em ungüento ritual em certas mumificações e na preparação da pedra misteriosa do Lugar de Verdade, onde sofre uma tal transformação que toda a nocividade é afastada. Se ambiciosos e cúpidos como Daktair conseguissem explorar o petróleo e difundir o seu uso, abater-se-iam sobre o nosso Pais terríveis desgraças. Os homens enlouqueceriam , até talvez mesmo os corredores da areia se abatessem sobre o Egito e os Paises vizinhos para tomarem o poder, acumular riquezas e dominar a humanidade. Na sua sabedoria, o Faraó ordenou que nenhum técnico profano fosse autorizado a utilizar essa substância, um temível veneno. Agora, Paneb, fazes parte dos que sabem.

   Queixando-se de dores na cabeça, Daktair era transportado numa padiola por quatro soldados. A expedição avançava o mais depressa que podia no caminho do regresso, desejosa de reencontrar as margens do Nilo e as suas Paisagens verdejantes depois de terem saído da zona perigosa onde, a qualquer momento podia surgir um bando de corredores da areia decididos a vingar os seus mortos.

  Naquele Pais hostil e desolado, Paneb sentira aumentar a sua força. Os gênios que habitavam a areia e as rochas queimadas pelo sol apagavam nele toda a fadiga e decuplicavam o seu ardor. Pensava nos primeiros construtores que tinham ousado aventurar-se no deserto para dominar o fogo das pedras. Não era o Egito um milagre realizado dia após dia porque sabia celebrar as núpcias da terra negra, fértil e generosa com a força do deserto?

  - Daktair deseja falar conosco - anunciou Tuti.

  Os dois artesãos colocaram-se ao lado da padiola.

  - Haveis-me salvado a vida... Queria agradecer-vos. Sem a intervenção de Paneb, esses bandidos ter-me-iam morto.

  - Porque nos seguias? - perguntou Tuti.

  - Estava convencido que havia um tesouro escondido neste local e que a vossa missão era trazê-lo para a aldeia. A minha intenção não era de forma alguma apoderar-me dele, mas apenas satisfazer a minha curiosidade.

  - Quando chegarmos, manda revistar todos os cestos reservados ao Lugar de Verdade; encontrarás apenas bolas de betume. É isso o tesouro: um material raro, difícil de explorar e que os técnicos utilizarão para isolar os silos onde conservamos os cereais prevendo os anos maus. Repito-te que garantirá uma melhor fixação dos cabos de algumas ferramentas. E claro que guardaremos a quantidade necessária de galena para a fabricação da maquiagem que o Faraó oferece generosamente às nossas esposas e filhas.

  - Mas... A vossa presença nesta expedição de rotina...

  - Um decreto real torna-a obrigatória.

  - Não compreendo porquê.

  Tuti sorriu.

  - Oh, é muito simples! Temos uma confiança muito limitada na administração que tu representas. É essa a razão pela qual é preferível que um de nós verifique a quantidade de galena à qual temos direito. E como tu certamente notaste, sabemos organizar e dirigir um estaleiro.

  O sábio sentia-se perdido.

  Os argumentos que Tuti apresentava pareciam coerentes e não deixavam subsistir qualquer zona de sombra. No entanto, bem no fundo de si, Daktair sentia-se enganado.

  - Perdoais-me a minha atitude?

  - Com certeza - respondeu o ourives. - Contam-se tantas histórias absurdas a respeito da nossa aldeia... Se fossem a acreditar nesses arautos, as pessoas acabariam por ficar convencidas que somos detentores de todos os segredos da criação! A realidade é muito mais simples: pertencemos a uma confraria ao serviço do Faraó e é esse o nosso orgulho e a nossa razão de existir.

  Convencido, Daktair bebeu um gole de água e adormeceu.

  Apagavam-se os fogos do último acampamento acesos na zona de risco e todos se preparavam para iniciar a grande pista, na direção de Coptos. Desde a véspera, Tuti reencontrara um pouco de apetite e, apesar da fadiga da viagem, tinha o rosto menos emaciado.

  - Esta viagem foi-me benéfica - confiou a Paneb. - O sofrimento não desaparecerá nunca mas sinto-me mais forte para o suportar. É a ti que devo isto, como se me tivesses dado um pouco da tua força. Agradeço-te do fundo do coração.

  - Entre irmãos não há nada a agradecer. Quando um membro da tripulação está em dificuldades não devem os outros ajudá-lo  , para que o barco não fique em perigo? O mestre-de-obras repete isso constantemente e pergunto a mim mesmo se esse segredo não é tão importante como o da Morada do Ouro.

  Uma sentinela soprou na sua trombeta de alarme.

  - Os corredores da areia! - gritou um mineiro, aterrado.

  - Calma! - ordenou a voz potente de Paneb. - Os soldados e os prospectores vão formar um círculo no interior do qual estareis protegidos. Temos armas e saberemos defender-nos.

  A segurança de Paneb acalmou as angústias e a manobra foi prontamente executada, sem pânico. Paneb quebrou o círculo para ver o inimigo.

  Eram uma centena, armados com arcos e punhais, e o chefe montava uma mula negra. Barbudos, cabeludos, envergando fatos de cores gritantes, estavam prontos a combater.

  Haveria numerosas vítimas de parte a parte e o resultado do combate anunciava-se desfavorável aos egípcios.

  Paneb avançou com uma pedra em cada mão.

  Um arqueiro lançou uma flecha. O Ardente esperou que ela mergulhasse na sua direção para lançar a sua primeira pedra e quebrá-la a meio; depois, atirou a segunda na direção do cavaleiro.

  Àquela distância, o malfeitor não se arriscava a ser atingido e os seus homens divertiram-se com a bazófia do egípcio.

  A pedra elevou-se muito alto no céu sem perder velocidade e abateu-se sobre o crânio do chefe dos corredores da areia, que caiu por terra.

Como não se levantasse, um deles apoderou-se das suas armas e da mula e fugiu, imediatamente imitado pelos camaradas.

  A proeza de Paneb foi saudada com hurras.

 

   Daktair era massageado por uma jovem síria de mãos muito doces quando Mehi irrompeu no seu quarto.

  - Quando voltaste?

  - Ontem à noite... e em mau estado.

  O general fez sinal à massagista para desaparecer. O sábio voltou-se de lado com dificuldade e sentou-se gemendo.

  - Quase fui morto por um corredor da areia durante esta horrível viagem. O calor, o deserto, os bandidos que rondam... Não conteis mais comigo para participar neste gênero de expedições!

  Da próxima vez, enviarei um dos meus adjuntos.

  O penso que cobria a têmpora direita de Daktair confirmava as suas palavras.

  - Estás bem vivo e vais recompor-te dessa aventura... Passemos ao essencial: o que descobriste?

  - Nada.

  - Como nada? Detesto que brinquem comigo, meu amigo!

  - Longe de mim essa intenção... Mas penso que não havia nada a descobrir. O Guebel Zeit não passa de um posto mineiro onde é extraída a galena e o betume de que conheço atualmente as utilizações. Trouxe a mesma quantidade que os meus antecessores e conseguirei um bom preço com a venda aos mercadores de maquiagens. Não há lá nem tesouro nem segredo, podeis crer!

  - Então, porque motivo está o Lugar de Verdade associado a essa expedição?

  - Por uma razão que nem vós nem eu consideramos: obter um produto fixador para os cabos das ferramentas. Essas pessoas são mais simples do que nós supúnhamos. Por ter estado lado a lado com eles posso afirmar que o seu único horizonte é o bom andamento de um estaleiro e o bem-estar dos operários.

  Mehi esbofeteou Daktair com toda a força. Semi desmaiado, o sábio demorou muito tempo a voltar a si. A bochecha esquerda estava em fogo e a cabeça vibrava.

  - O que vos deu, general?

  - Raciocinas como um imbecil e perdeste a memória! Embrulharam-te, meu pobre Daktair, tentaram adormecer-te e eu acordo-te! Esqueces que eu, Mehi, vi a Pedra de Luz? Os segredos que devemos descobrir encontram-se no Lugar de Verdade e não em qualquer outro lugar. Os nossos adversários não são nem imbecis nem seres simples, mas sim pessoas ardilosas que se sabem defender. Os que te manipularam obedeceram às ordens do seu mestre-de-obras. E esse não deixa nada ao acaso.

   Os burros imobilizaram-se em frente da grande porta do Lugar de Verdade. Assistido por alguns auxiliares, Paneb descarregou os cestos cheios de pepitas de galena que Tuti contou uma a uma para indicar o número exato no relatório pormenorizado que entregaria ao escriba do Túmulo. A seguir, o precioso carregamento foi transportado para o interior da aldeia por Nakht o Poderoso e Karo o Mal-humorado, depois de longos e calorosos cumprimentos com os dois viajantes.

  - Como velavas pelo nosso ourives, não estávamos muito inquietos - disse Karo a Paneb. - Mas, de qualquer forma... preferimos que tenham regressado.

  - Não houve problemas na aldeia?

  - Não temos tempo para nos aborrecermos, garanto-te! O mestre-de-obras fez-nos consertar as ferramentas tendo em vista a abertura dos estaleiros e os escultores já estão a trabalhar.

  Néfer o Silencioso veio ao encontro dos que chegavam e abraçou-os.

  - Correu tudo bem?

  - Mais ou menos - respondeu Tuti. - Os corredores da areia atacaram-nos por duas vezes mas as intervenções de Paneb foram decisivas. E depois Daktair tentou compreender o nosso papel exato nesta expedição, mas conseguimos enganá-lo.

  - Tens a certeza?

  - Mostrar-me demasiado confiante seria certamente um erro...

  Aquele fulano não gosta de nós e parece-me particularmente astuto. Devemos desconfiar das suas iniciativas.

  - Trouxeste o necessário?

  - A recolha foi excelente... Vais ficar mesmo com reservas.

  - Paneb foi informado?

  - Mostrei-lhe o petróleo e conhece os seus perigos. Faço questão de sublinhar na presença dele que o seu comportamento foi notável sob todos os pontos de vista.

  Tuti foi ter com a esposa.

  - Se bem compreendi - disse Néfer a Paneb - o deserto continua a ser teu aliado.

  - Ele e eu somos parecidos e compreendemo-nos; e, sem ele , a nossa aldeia não existiria. Quando vamos atacar os grandes estaleiros?

  - Depois de amanhã.

  - Tanto melhor! Faço parte da equipa da partida?

  - Eu não era favorável a isso, mas Tuti fez-me mudar de opinião.

  Paneb saltou de alegria.

  - Vou a correr beijar a minha mulher e o meu filho.

  O jovem colosso partiu mas não foi longe.

  Encantadora no seu curto vestido vermelho, adornada com um fino colar de pérolas, Turquesa penteava os longos cabelos na soleira da sua porta.

  - A esposa que governa bem a casa é uma riqueza insubstituível - murmurou ela. - Não tens mais do que admirá-la e felicitá-la pelas múltiplas tarefas que desempenha sem fraquejar. Porque paras diante da minha casa?

  - Deixas-me entrar?

  - Tens consciência do perigo?

  - Imaginas a sorte de um infeliz privado de mulher no coração de um deserto tórrido?

  Turquesa afastou-se. Paneb agarrou-a pela cintura e ergueu-a delicadamente para a ir depositar sobre a cama de amor do primeiro compartimento. Nunca conseguia resistir ao seu encanto e à sua beleza, nem tinha vontade de o fazer.

  Quando ela ficou nua, ele desatou o cordão que fechava um saco de cabedal, retirou as granadas que o ourives Tuti tinha taLhado e posou-as sobre o ventre da amante.

  - Não são soberbas?

  - Estarás a tornar-te delicado, Paneb?

  - Claro que não!

  Sem dar a Turquesa tempo para admirar as maravilhas, beijou-a com o entusiasmo de um jovem macho privado de amor há muito tempo. Também ela não tinha desejo de resistir e ofereceu ao amante esplendores mais deslumbrantes do que as pedras preciosas do deserto.

  Sentada numa cadeira alta com almofada, Uabet a Pura repousava um pouco. Uma criada massageava-lhe os pés, enquanto um macaquinho que elegera a aldeia como domicílio saboreava um figo na cozinha. Saltava de casa em casa, permanecia alguns dias numa ou noutra e ninguém o expulsava porque brincava com as crianças que gostavam mais dele do que de qualquer outro brinquedo.

  Em frente da jovem, uma opulenta ama dava o seio ao enorme rebento de Paneb que mamava com sofreguidão.

  - Nunca vi uma coisa assim - confessou a ama. - Em breve terás dois colossos debaixo do teu teto!

  A ama bebia suco de figueira e comia muito peixe fresco para garantir a subida de leite com doce odor de farinha de alfarroba, mas aquele alimento de base já não bastava para saciar a fome de Aperti, que começara a ingerir alimentos sólidos.

  Por vezes, Uabet perguntava a si mesma se teria energia suficiente para cumprir os seus deveres de sacerdotisa, tratar da casa e educar aquela criança.

Mas tranqüilizava-se pensando que o garoto passaria a maior parte do tempo no exterior e que o Pai não deixaria de o treinar em lutas e atividades similares.

  - A minha vizinha afirma que viu Paneb na porta grande - disse Uabet. - Sabes se ele regressou realmente, ama?

  Pouco à-vontade, a interpelada evitou olhar a jovem mamã.

  - Não passei por lá esta manhã.

  - Portanto foi ver a Turquesa - concluiu Uabet - e é melhor assim. Quando vier para casa, antes do cair da noite, o seu fogo devorador ter-se-á acalmado.

  O macaquinho saiu da cozinha e saltou para o ombro de Paneb, que acabava de franquear o limiar da porta de sua casa.

  Agarrado ao gigante, o animal parecia minúsculo.

  - Espero que todos estejam bem... Vem saudar-me, meu filho!

  A ama estendeu Aperti ao Pai que o embalou com delicadeza , ao mesmo tempo que o macaquinho lhe tocava na cabeleira negra com um dedo hesitante.

  - Que belo rapagão! - exclamou Paneb. - O mérito é todo teu, Uabet. Mas, diz lá... estás com uma carinha abatida.

  - Estou fatigada, tens razão.

  O jovem colosso devolveu o filho à ama e depositou um saco de cabedal nos joelhos da esposa.

  - O que é?

 - Abre.

  Uabet desatou o cordão e olhou para dentro.

  - Cornalinas... e jaspe vermelho!

  - Conto contigo para usares colares que farão empalidecer de ciúme muitas mulheres.

  - Tenho algo de menos dispendioso a pedir-te: precisávamos de mais peixe fresco para a ama. Por causa da voracidade do teu filho, ela tem que comer mais e a sua ração já não lhe basta.

  - Eu trato disso.

  Paneb beijava a esposa na testa quando o escriba assistente Imuni bateu à porta que ficara aberta.

  - Lamento interromper o reencontro familiar... O escriba do túmulo quer ver Paneb urgentemente.

                              

  Paneb de boa vontade espancaria o aborto, mas não podia ignorar as ordens de Kenhir, além de que esta convocatória imprevista o intrigava. Seguiu portanto Imuni, cujo andamento compassado o exasperava.

  - Previno-te, Paneb, que o escriba do Túmulo está de muito mau humor.

  - Isso não altera nada.

  - Se for por tua casa, não gostava de estar no teu lugar.

  - Não há perigo, Imuni.

  O Ardente apressou o passo e o escriba assistente foi obrigado  a correr.

  Niut a Vigorosa varria a entrada da bela casa de Kenhir.

  - Está à tua espera - disse a rapariga a Paneb.

  Imuni tentou segui-lo, mas Niut pôs a vassoura a barrar a porta.

  - Tu, não. Ele disse: "Paneb e mais ninguém".

  Vexado, Imuni deu meia volta enquanto o Ardente entrava no gabinete onde se encontrava o escriba do Túmulo, o mestre-de-obras e a Mulher Sábia.

  - Estou convocado perante um tribunal?

  - Em vez de dizeres parvoíces - respondeu Kenhir - senta-te e presta atenção.

  Desta vez, o escriba do Túmulo parecia realmente preocupado.

  - Devo informar-vos de uma catástrofe e pedir-vos o compromisso formal de manter silêncio sobre o que vos vou revelar. Néfer, Clara e Paneb deram a sua palavra.

  - As ferramentas mais preciosas são conservadas numa casa forte de que o mestre-de-obras e eu próprio possuímos uma chave - precisou Kenhir. - Para evitar os roubos, mantivemos um sistema de fecho elaborado por um mestre-carpinteiro durante o reinado de Amenhotep III.

  - Roubos? - espantou-se Paneb. - Roubos, aqui, na aldeia?

  - Os homens são apenas homens e acabo de ter a prova disso: alguém tentou penetrar na nossa casa-forte.

  - Não posso acreditar...

  - Mas é verdade! O ladrão quebrou o selo de argila no qual eu imprimira o sinete da necrópole e depois tentou serrar a primeira barra de madeira. Nessa altura, apercebeu-se que desencadeava um segundo dispositivo de fecho e deve ter receado a existência de um terceiro. Temendo ser surpreendido, desistiu. Mas os vestígios da sua passagem eram bem visíveis.

  - Se não fosse o escriba do Túmulo a fazer semelhante acusação - declarou o mestre-de-obras - não acreditaria. Já que nos temos de render à evidência, há um artesão desonesto entre nós. Ou, pelo menos, alguém suficientemente ambicioso para admitir apropriar-se dos bens da confraria.

  - É um delito muito grave - considerou Kenhir. - Não deveríamos alertar o chefe Sobek?

  - Este assunto só a nós diz respeito! - protestou Paneb. Resolvamo-lo sem intervenção externa.

  - Só tenho confiança em vocês três - confessou o escriba do Túmulo. - O mestre-de-obras e a Mulher Sábia são o Pai e a mãe desta confraria e tu, Paneb, estavas ausente da aldeia quando ocorreu esta tentativa de assalto.

  - Tuti também...

  - É verdade, mas podia ser cúmplice do ladrão.

  - Eu não?

  - Tu nunca ajudarias um malfeitor.

  - Talvez não devamos dramatizar este incidente - considerou Néfer. - Não há dúvida que tenha havido tentação e falta, mas o culpado não se atreverá a recomeçar.

  - Não estás a ser demasiado otimista? - perguntou Kenhir.

  - Amanhã reúno todos os membros da equipa da direita, depois de ter consultado o chefe de equipa da esquerda para distribuir as tarefas nos nossos dois estaleiros e quero crer que a grandeza da obra à qual somos chamados elevará o espírito de todos.

  São necessários homens como Néfer para tocar o céu, pensou Kenhir, e são necessários outros como eu para manter os pés na terra.

  - Qual é a opinião da Mulher Sábia? - perguntou.

  - Confiança na obra e vigilância face aos homens.

   Paneb dirigiu-se primeiro ao viveiro arranjado num lago onde os especialistas criavam percas, tainhas, lúcios, carpas e barbos reservados à confraria que, fossem quais fossem as condições de pesca no Nilo, tinham sempre a certeza de poder saborear peixe fresco. Bordado de salgueiros e sicômoros que mantinham a frescura em todas as estações, o viveiro do Lugar de Verdade era severamente controlado pela administração da margem oeste.

  Ao lado do lago, encontrava-se um armazém de sal utilizado pelos peixeiros, que abriam os belos peixes pelas costas a todo o comprimento, esvaziavam-nos e punham-nos a secar ao sol antes de os salgarem. Os peixes médios e pequenos eram arrumados em cestos, enquanto os grandes eram pendurados em paus transportados por dois carregadores.

  Paneb dirigiu-se a um peixeiro que, com uma grande faca afiada, atacava uma enorme perca enquanto um dos seus colegas preparava butarga, um prato delicioso composto por ovas de sargo salgadas.

  - Olá, amigo. Sou Paneb, o marido de Uabet a Pura. Precisava de um cesto de peixe fresco e um pote de peixe seco para a ama do meu filho.

  - Sejas quem fores, não terás nada. Nós temos ordens rigorosas: entregar os peixes do viveiro na aldeia e fazer anotar as quantidades exatas pelo assistente do escriba do Túmulo. É proibido fornecer alimento diretamente a um artesão.

  - Não há exceção para uma ama?

  - Nenhuma exceção.

  Paneb era capaz de dar cabo do peixeiro e dos seus colegas, mas achou preferível não estabelecer a perturbação naquela tranqüila assembléia que apresentava a vantagem de trabalhar bem para a aldeia.

  - Vai até ao rio - aconselhou-lhe o seu interlocutor. - Lá, os pescadores mostrar-se-ão mais compreensíveis.

  Sentado à sombra de um sicômoro, um velho pescador reparava as malhas da rede, enquanto os seus colegas utilizavam diversas técnicas para capturar os peixes de tão saborosa carne . Alguns serviam-se de um grande aparelho composto por duas hastes cruzadas e reforçadas por uma travessa; era fácil de manobrar mas quando estava cheio de peixe, exigia braços musculados para ser retirado da água.

  - Diz lá, avozinho, aqui vendem peixe?

  - Aqui, não; os meus rapazes trabalham para os sacerdotes do templo de Ramsés o Grande.

  - Onde posso encontrar os que pescam para o Lugar de Verdade?

  - No canal, cerca de cem metros para norte.

  Seis homens, divididos em duas equipas, uma na margem e a outra num barco, tinham estendido através do canal cheio de peixe uma longa rede terminada em ponta de cada lado e prolongada nas duas extremidades por um sólido cabo.

  - Apertem com força, mandriões! - ordenou o patrão, um barbudo de grande barriga.

  - Achas que estamos a brincar? - retorquiu um colega ainda mais feio.

  - Vá, vamos recolher!

  Sargos, enguias, carpas brancas e oxirrincos: a operação foi uma bela colheita.

  - Esvaziem a rede, matem os peixes que ainda mexem e metam-nos nos cestos que coloquei ao pé do salgueiro. E não demorem!

  O jovem colosso aproximou-se.

  - Chamo-me Paneb e queria comprar peixe fresco.

  O patrão olhou-o de baixo.

  - O meu nome é Nia... E que preço estás decidido a pagar?

  - O preço normal: um amuleto por um cesto de tainhas pescadas hoje.

  Nia apalpou o ventre.

  - Correto... Tens esse amuleto contigo?

  - Ei-lo.

  Talhado numa cornalina que Paneb trouxera do deserto, a figurinha representava uma haste de papiro bem desenvolvida, símbolo da prosperidade.

  Nia sopesou-o e fechou a mão sobre ele.

  - Soberbo, verdadeiramente soberbo... O teu amuleto merece realmente um cesto de tainhas.

  - Então, dá-mo.

  - Bem gostaria, mas não é possível. Tens que ter uma razão, meu rapaz... Não vendo os meus peixes a qualquer um. Mas o que está dado, dado está. E depois, todos os meus empregados são testemunhas: tu nunca me deste nenhum amuleto. Desaparece, é melhor.

  Os cinco pescadores reuniram-se atrás do patrão.

  - É assim que tratais um artesão do Lugar de Verdade?

  Nia rebentou a rir.

  - Desaparece, é o que te digo... Se não, vamos fazer-te ficar com o gosto do peixe.

  O punho de Paneb enfiou-se com tal violência no ventre de Nia que este foi projetado para trás e embateu nos seus aliados. Os dois primeiros a levantarem-se foram esmurrados pelo jovem colosso, os outros fugiram.

  Paneb enfiou um cesto vazio na cabeça do patrão e deu-lhe um pontapé no traseiro.

  - Levo os meus peixes frescos e deixo-te o amuleto, Nia. Que ele possa ensinar-te a seres menos desonesto.

                              

  Durante a viagem de Paneb e Tuti, os artesãos da equipa da direita tinham renovado o edifício da confraria. Quando o jovem colosso entrou, depois do ritual de purificação, notou as duas ânforas novas fixas ao solo, o belo reboco do teto e paredes e respirou o doce odor do incenso.

  O mestre-de-obras invocou os antepassados, instalou-se no seu assento e convidou os irmãos a sentarem-se.

  - Paneb e Tuti trouxeram do Guebel Zeit materiais indispensáveis à elaboração da pedra divina - revelou. - A obra secreta da Morada do Ouro poderá portanto prosseguir e ser levada a bom termo e a sua luz continuará a iluminar o nosso caminho. Chegou o momento de escavar a Morada de Eternidade do Faraó Merenptah e construir o seu Templo dos Milhões de Anos. De acordo com o chefe da equipa da esquerda, decidi confiar-vos a primeira das tarefas enquanto estiverem a ser terminados os trabalhos em curso.

  Durante alguns instantes, todos os artesãos retiveram a respiração. Finalmente, a grande prova!

  - A localização definitiva do túmulo foi decidida? - perguntou Unesh o Chacal.

  - O Rei deu o seu acordo à nossa proposta.

  - Para trabalho excepcional, ferramentas excepcionais - sublinhou Gau o Exato com a sua voz rouca. - Disporemos realmente do que é necessário?

  - O escriba do Túmulo garantiu-me que sim - afirmou o mestre-de-obras.

  - Deveremos prever várias estadias no desfiladeiro, longe das nossas famílias?

  - Serão efetivamente indispensáveis para podermos executar rapidamente o trabalho poupando as forças.

  - Não é um lugar tão agradável como a aldeia.

  - Lamento, Paneb, mas a realização da obra está antes de tudo.

  - Suponho que a minha presença não é necessária logo desde o início do estaleiro - avançou Ched o Salvador desdenhosamente.

  - Toda a equipa deve estar reunida no local desde o primeiro instante para que a conjugação dos nossos talentos se transforme numa força mágica. E bem precisaremos dela para conseguirmos triunfar.

  - Quanto tempo durará o estaleiro do Vale dos Reis? - inquiriu Renupé o Jovial.

  - Não sei. Tratar-se-á de um túmulo de grandes dimensões, comparável ao de Ramsés.

  - Anos de trabalho em perspectiva - resmungou Karo o Mal-humorado. - E não tolerarão a mínima imperfeição, suponho.

  Néfer sorriu.

  - Podes contar comigo.

  - Há notícias da capital? - interrogou Didia o Generoso.

  - Nada de novo - respondeu o mestre-de-obras - mas o Rei Merenptah confirmou por decreto o papel e os deveres do Lugar de Verdade.

  - Temos portanto a eternidade à nossa frente - concluiu Userhat o Leão.

  - Agiremos como se tivéssemos, mas também como se cada instante devesse ser o último. Não bastará dar o melhor de nós mesmos; ao criar este monumento, será necessário revelar o mistério sem o trair.

   Paneb saía de casa de Turquesa quando esbarrou com Ched o Salvador.

  - Continuas ainda aPaixonado?

  - Turquesa não é a mais bela mulher da aldeia?

  - Esperemos que essa beleza te inspire. Mas achas realmente que é o melhor método para preparar a tua estadia no Vale dos Reis?

  - Para ser honesto, Ched, nem pensei nisso!

  - É por essa razão que não passas ainda de um noviço inconsciente do perigo.

  - Visto que sois o meu mestre, qual é a vossa sugestão?

  - Vem à oficina comigo.

  Os dois homens seguiram lentamente pela ruela principal da aldeia. Ched o Salvador estava mais grave e menos irônico do que era costume, como se se preparasse para viver um momento especial.

  - Talvez saibas que possuo uma cabana próxima do Nilo, uma pequena propriedade, um armazém para os potes de azeite, um celeiro, um estábulo e algumas cabeças de gado. Não se trata de uma enorme fortuna, mas proporciona-me um rendimento regular suficiente para viver com um certo à-vontade e comprar as minhas próprias cores. Se aceitares, lego-te os meus bens.

  - Isso está fora de questão.

  - Qual a razão dessa recusa?

  - Os vossos ensinamentos bastam-me. O resto, quero adquirir por mim próprio.

  - A minha proposta permitir-te-ia ganhar tempo.

  - Não tenho medo do tempo... Em vez de me desgastar, dá-me mais força. Além disso, detesto presentes.

  - Não pensas com certeza que estou a tentar subornar-te?

  - A minha resposta é não, e é tudo. Legai os bens à vossa família e não falemos mais disso.

  Ched empurrou a porta da oficina.

  Reinava nele uma estranha luz que parecia emanar dos pincéis e das broxas, tão limpas que pareciam novas. Encostados às paredes, esboços bem alinhados.

  - Adquire uma técnica perfeita, Paneb, mas não julgues que equivale ao conhecimento. Ora, o que há de mais importante do que tornar-se um homem de conhecimento? Abrir-te-á as portas da magia das formas e das cores, revelar-te-á o caráter sagrado da profissão, será a tua única verdadeira fonte de alegria e ditar-te-á um comportamento justo. Viver Maet é passar da ignorância ao conhecimento e, sobretudo, saber no coração e pelo coração.

  Ched diluiu um pão de tinta vermelha, molhou um pincel muito fino e com um gesto leve, desenhou um olho de falcão.

  - O que vês tu, Paneb?

  - O olho de uma ave de rapina.

  - És realmente capaz de ver, pintor-assistente? Quando compreenderás que a nossa arte tem necessidade de videntes e não de imitadores estéreis? O olho está presente por todo o lado, nas paredes dos templos, nos sarcófagos, nas estelas, nos barcos... Nem por um segundo o olho do Além deixa de nos olhar e competir-te-á a ti, o pintor, partilhar esse olhar. Mas deseja-lo realmente?

 - Põe-me à prova.

  - Que o teu coração não seja vaidoso daquilo que conheceres, aconselha-te tanto com um servo como com um grande, porque ninguém atinge os limites da arte. Não esqueças que mesmo o ligeiro orvalho faz prosperar o campo. Estás realmente preparado para ver, Paneb, sabendo que descobrirás uma infinidade de mundos novos, sem poderes voltar para trás?

  - De cobardia nunca ninguém me acusou.

  - Então, toma isto e nunca mais o tires.

  Ched o Salvador tirou o amuleto que trazia ao pescoço e deu-o a Paneb. Tratava-se de um olho em esteatite onde, de forma simbólica, estavam encarnadas todas as medidas do mundo.

  - Íris, pupila, canal lacrimal, córnea... Cada parte desse olho equivale a uma fração da unidade. Se adicionares todas as partes, não obterás mais de 63/64. Como falta 1/64, será a tua mão de pintor a permitir-te descobri-lo, se te tornares um autêntico vidente. Porque ver é criar.

  Fascinado, Paneb contemplava a pequena obra-prima que, a partir de agora, o protegeria.

  - Eu queria...

  - Não digas nada e prepara-te.

  Ched o Salvador saiu da oficina. Como teria podido confessar ao discípulo que estava a perder a vista?

 

  Envergando um avental de ouro, com a peruca de cerimônia , o mestre-de-obras, seguido pelos artesãos da direita, apresentou-se diante do escriba do Túmulo, portador de uma pesada chave de madeira.

  - Aceitas abrir-nos a porta da casa forte e confiar-nos as ferramentas do Faraó?

  - Dá-me a palavra de passe.

  - O amor da obra.

  Kenhir utilizou a chave para desbloquear o primeiro sistema de fecho e inverteu-a para anular o segundo.

  Depois, abriu a porta da casa forte que continha quinhentos cinzéis de cobre de tamanho vulgar, cinqüenta de grandes dimensões, trinta enxadas e vinte e cinco enxós do mesmo metal, proveniente do Sinai. Néfer verificou a qualidade antes de fazer uma pergunta ritual ao escriba do Túmulo.

  - Este tesouro contém o metal celeste?

  - Que o mestre-de-obras identifique as ferramentas que tornarão eficientes os trabalhos de eternidade.

  Néfer encontrou um esquadro e um nível em metal celeste e ergueu-os perante os artesãos.

  Sob o olhar de Kenhir, iniciou-se a distribuição das ferramentas que cada um recebeu com emoção e respeito. De repente, Unesh o Chacal lançou o seu cinzel ao chão.

  - Esta ferramenta não está utilizável... Vejam, está fendida a todo o comprimento!

  - A minha também - constatou o carpinteiro Didia com aflição.

  - Fomos feridos pelo mau-olhado! - exclamou Paí o Bom pão. E inútil começar a escavar o túmulo, seria um terrível fracasso!

  Nem o mestre-de-obras nem o escriba do Túmulo podiam pôr de Parte o argumento. Só o mau-olhado, com efeito podia ter deteriorado assim os cinzéis conservados na casa forte.

  - Apelemos à Mulher Sábia - decidiu Kenhir. - Só ela é capaz de vencer este malefício.

                              

  Envergando vestidos direitos vermelhos com alças, as sacerdotisas de Hathor tinham-se reunido diante do templo principal da aldeia. Algumas cantavam um hino à deusa, outras tocavam um tambor comparado ao sol, enquanto sete delas formavam um círculo no interior do qual se encontrava Clara, a Mulher Sábia.

  Depois, fez-se um longo e profundo silêncio durante o qual as sacerdotisas se afastaram enquanto a decana da confraria surgia no limiar do templo.

  - Quando a luz criou a vida - declarou - tomou a forma de um sol cujos olhos se abriram para o interior do lótus. Quando a água do olho caiu sobre a terra, metamorfoseou-se numa mulher de sublime beleza à qual foi dado o nome de “ouro dos deuses".

Ela, o Sol feminino, ilumina o mundo; tu, Mulher-Sábia, és sua filha. Mas terás a coragem de arriscar a tua vida para executar o trabalho de um homem, tornares-te a mestra-de-obras dos artesãos e a venerável da confraria, capaz de vencer o mau-olhado?

  - O Lugar de Verdade dá-me a vida, eu dou-lhe a minha vida.

  - Tu que és a viva da cidade do Túmulo, penetra neste santuário e enfrenta o teu destino.

  Com uma flor de lótus presa na peruca de cerimônia, Clara avançou sem hesitar.

  Sobre uma base de granito imperava uma estátua de babuíno, encarnação de Tot; na mão esquerda, segurava um estojo contendo um papiro. Os olhos vermelhos fixavam a jovem que lhe sustentou o olhar para recolher as fórmulas de conhecimento que o deus desejava transmitir-lhe. A mão de pedra pareceu animar-se para oferecer o documento a Clara, que o recebeu prostrando-se.

  - Vem a mim - disse uma voz feminina de uma calma inquietante - e franqueia a minha porta.

  A seguir ao babuíno de Tot, uma segunda base de pedra. Clara teve de habituar-se à penumbra para distinguir a pequena estátua em ouro de um falcão coroado por um sol do mesmo metal, junto ao qual se erguia uma cobra, de pescoço intumescido como o uraeus presente na fronte dos faraós.

  Pela sua atitude, Clara soube que ia atacar, mas não recuou. Fortalecida com a sua experiência do cume, não deixou de fixar o réptil, pronta a imitar a menor das suas ondulações. 

  Mas o monstro permanecia imóvel.

  Intrigada, aproximou-se.

  A cobra tinha sido feita na pedra com tal gênio que parecia viva. E foi com prudência que Clara lhe tocou docemente na cabeça.

  - Pega no disco de ouro - disse a voz tranqüila - e coloca-o sobre o teu peito. Assim, verás nas trevas.

  Clara adornou-se com o precioso símbolo de onde emanava um suave calor. A sala escura iluminou-se e descobriu sete manejadores de facas com máscaras horríveis de quem o papiro dava os nomes: Face ao contrário, Incendiário, Caluniador, Ladrador, Rosto severo, Uivador e Comedor de vermes.

  Em conjunto, avançaram um passo na direção da Mulher Sábia a fim de a cercarem. Ela opôs-lhes as únicas armas de punho: o sol e o papiro. Os sete demônios recuaram e desapareceram, cedendo o lugar a um ritualista com a máscara do chacal Anúbis.

  - Avança comigo sobre a água divina - propôs-lhe ele.

  Clara seguiu-o e caminhou sobre um chão de prata que evocava a extensão aquática onde tinham surgido as primeiras formas de vida. Anúbis lavou os pés da Mulher Sábia e depois vestiu-a com o vestido branco da ressurreição, tão apertado que mal lhe permitia mover-se.

Conduziu-a ao limiar de uma capela escura.

  - Neste lugar realiza-se a transfiguração do espírito que surge para o dia entre os vivos, mas ousarás receber a energia graças à qual poderias repelir o mau-olhado?

 - Aceito a prova.

  - Tem cuidado: esta energia pode destruir-te. Os antigos souberam captá-la e preservá-la no interior dos templos, mas poucos corpos mortais estão aptos a recebê-la. E ninguém sabe se a suportarás.

  - Permite que a enfrente, visto que nela beberei a força necessária para auxiliar a confraria.

  - Entra nessa capela, Mulher Sábia, e que a deusa decida.

  Avançando com dificuldade, Clara enfrentou uma estátua de Neit cujas sete palavras tinham criado o mundo. Da mesma estatura que a mulher do mestre-de-obras, os olhos de pedra pareciam vivos. Brilhando como estrelas, fixaram a intrusa que se imobilizou a menos de um metro da estátua cujas mãos, de palmas abertas para o céu, estavam estendidas para ela.

  De repente, Clara viu os dois traços de luz que brotavam das mãos de pedra, dirigidos para o seu coração. Duas linhas onduladas que fizeram vacilar a jovem. Aquela energia circulava nos canais que formavam o seu ser, mas era tão intensa e tão ardente que não conseguiria suportá-la durante muito tempo.

  Competia à deusa interromper a prova e a Mulher Sábia não devia esquivar-se. Não era necessário que fosse animada por aquela força para vencer o mau-olhado?

  Kenhir nada escondera a Néfer o Silencioso.

  Mais cedo ou mais tarde, uma Mulher Sábia teria de enfrentar Neit para saber se a sua energia vital era da mesma natureza que a da deusa. Mas, em geral, preparava-se para essa prova graças a longos períodos de meditação e não encontrava a estátua numa situação de urgência.

  - Alguém tentou penetrar na casa-forte - disse Kenhir a Néfer - mas fracassou. É o mau-olhado o responsável pela deterioração das ferramentas. Se a sua ação não for dissipada, não conseguirás escavar o túmulo do Rei.

  - Porque não fazer apelo a um mágico da corte?

  - Quem teria mais hipóteses de conseguir do que a Mulher Sábia? Como mãe da confraria, lutará até às suas últimas forças para a socorrer.

  - Ninguém duvida disso, Kenhir, mas ela é minha esposa, o ser que me é mais querido, que haveis colocado voluntariamente em perigo sem me terdes avisado.

  - Admito-o, mas era esse o meu dever. Quando as circunstâncias o exigem, o escriba do Túmulo esquece os indivíduos para apenas pensar na confraria. O único objetivo de todos nós é criar a Morada de Eternidade do Faraó; enquanto o mau-olhado entravar a mão dos artesãos, o Lugar de Verdade permanecerá estéril.

  Aos olhos de Néfer, o escriba do Túmulo adquiriu a sua verdadeira dimensão. Não era um simples gestor da aldeia mas também, tal como os dois chefes de equipa, o garante dos seus compromissos essenciais.

  - Mesmo que a vossa decisão me tenha mergulhado na angústia, Kenhir, nada fiz para me opor a ela.

  - E fizeste bem, mestre-de-obras. Caso contrário, Clara ter-te-ia desaprovado e tu bem o sabes.

  Néfer olhou o templo onde a esposa era submetida a uma irradiação de energia que poucos seres podiam suportar. Reveria viva essa mulher de doce sorriso, olhar tranqüilo e amor sem limites?

  - Estou tão inquieto como tu - murmurou Kenhir - e penso que a lei à qual estamos submetidos é por vezes muito dura.

   Turquesa e Uabet a Pura saíram do santuário amparando Clara, que trocara o estreito vestido branco por um mais largo, preso na cintura por um cinto vermelho. Com os olhos semi-cerrados, parecia incapaz de se manter em pé sem a ajuda das duas sacerdotisas.

  Néfer quis lançar-se para ela, mas Kenhir reteve-o.

  - Espera um pouco... É necessário que ela absorva a luz.

  A Mulher Sábia abriu os olhos, como um ser que nascesse para uma nova realidade. Contemplou o Sol alguns instantes e recuperou o equilíbrio. As duas sacerdotisas afastaram-se e Clara viu Néfer que, desta vez, correu a tomá-la nos braços.

  - Julguei morrer - disse-lhe ela - de tal forma era intensa a energia da deusa, mas salvou-me das trevas.

  - Vem descansar.

  - Mais tarde... Vamos à casa-forte.

  - Estás esgotada!

  - Devo restituir sem demora o que me foi oferecido.

  Cheios de esperança, os artesãos viram passar a Mulher Sábia cuja serenidade os tranqüilizava.

  As ferramentas tinham sido dispostas no chão, em frente da casa-forte. Mais ninguém se tinha atrevido a tocar-lhes, com medo de as estragar mais, atraindo a energia negativa do mau-olhado.

  Clara fez queimar incenso no compartimento fechado afim de o purificar e expulsar qualquer força de destruição, depois magnetizou as ferramentas uma a uma, demorando nas que apresentavam qualquer defeito, mesmo mínimo. As fissuras fecharam-se, o cobre brilhou com novo fulgor.

  - O mau-olhado está aniquilado - afirmou ela - e não entravará os trabalhos da confraria.

  Aclamada pelos artesãos, Clara aninhou-se de encontro ao mestre-de-obras que, entre a admiração e o amor, já não sabia que sentimento o dominava.

                              

   - Eis o culpado - disse Kenhir a Néfer o Silencioso.

  O mestre-de-obras examinou um pequeno retângulo de cobre coberto de azinhavre que dissimulava parte das fórmulas gravadas profundamente no metal.

  - Conheço estes textos - continuou o escriba do Túmulo , raspando com a unha. - São provenientes de um manual de magia negra e provocam a decomposição dos objetos que um ambicioso não pode conseguir e prefere destruir.

  - Onde estava este malefício?

  - Tinha sido inserido na parede do fundo da casa-forte, que examinei até à mais ínfima parcela. Graças à energia desencadeada pela Mulher Sábia, este pedaço de metal tornou-se visível e, portanto, inofensivo.

  - Um de nós tem então a alma suficientemente perversa para cometer um delito desses... E se recomeçar?

  - Com certeza que tem intenção de o fazer - concordou Kenhir - mas a sua tarefa fracassará. A Mulher Sábia e as sacerdotisas de Hathor vão estabelecer uma rede protetora sobre todos os edifícios do Lugar de Verdade e o nosso homem não terá capacidade para a ultrapassar.

  - Não, é impossível... Este ataque só pode vir do exterior.

  - Esperemos que sim, Néfer, mas a verdade é com certeza mais cruel. Tens consciência que a escavação do túmulo real vai ser um empreendimento perigoso?

  - Julgais-me menos corajoso do que a minha esposa?

  - O escriba do Túmulo vela pela segurança do mestre-de-obras e exige que sejam tomadas medidas para a garantir.

  - Bastar-vos-á a presença de Paneb?

 - É o mínimo... Preferia mais.

  - Devo pensar em construir, não em me proteger.

  Se pesasse sobre ele a mínima suspeita, Kenhir e o chefe Sobek já teriam intervindo. Portanto, o traidor não sentia qualquer angústia; continuaria a trabalhar no seio da sua equipa, respeitando escrupulosamente as indicações do mestre-de-obras e fortalecendo os laços de amizade com os colegas.

  No entanto, correra muitos riscos ao inserir o retângulo de cobre maléfico entre duas pedras da casa-forte a fim de tornar as ferramentas inutilizáveis, espalhar a perturbação entre os artesãos e atrasar a abertura do estaleiro. Receando ser surpreendido, não conseguira dissimular o mau-olhado, com todo o cuidado que desejaria; fora por essa razão que a sua manobra fracassara. O escriba do Túmulo e a Mulher Sábia tinham conjugado os seus esforços para repelir aquele assalto e o traidor não repetiria uma tentativa idêntica com medo de ser desmascarado.

  A criação de uma Morada de Eternidade no Vale dos Reis ia impor-lhe não apenas um aumento de trabalho como ainda o deferimento do instante em que tomaria posse da fortuna que o esperava no exterior da aldeia, sem contar com a importância que adquiriria Néfer o Silencioso em caso de êxito.

  De início, o traidor só pensara em si mesmo e na sua futura abastança, esperando não ter de lutar contra a confraria. Mas à medida que a sua deriva se verificava, compreendia que o confronto seria inevitável. De qualquer forma, teria de ajudar os que queriam aniquilar o Lugar de Verdade a fim de que este não se erguesse contra ele como acusador implacável.

  Depois de terem beijado as mulheres e os filhos, os artesãos da equipa da direita tinham atado largas tiras de tecido em torno dos rins e envergado um saiote de cabedal. Era a hora da partida para o Vale dos Reis, passando pelo desfiladeiro onde a equipa dormiria durante nove noites antes de regressar à aldeia.

  Guiados por Néfer o Silencioso, os artesãos recolheram-se diante do túmulo do mestre-de-obras Sen-nedjem e depois atravessaram a necrópole para enveredarem por um caminho estreito e rochoso que conduzia ao cimo da colina do oeste.

Tiveram de caminhar pelo rebordo de uma falésia abrupta, tendo cuidado com o lugar onde punham os pés. Para Kenhir, a prova era penosa, mas dispunha de uma bengala sólida e, embora não parasse de praguejar contra a montanha, avançava.

  À esquerda, a oeste, impunha-se a montanha e a sua enorme massa piramidal; à direita, a este, estendia-se uma Paisagem magnífica, com os túmulos dos nobres, os Templos dos Milhões de Anos e os campos cultivados que se estendiam até ao Nilo.

  Néfer encheu os olhos com aquela visão sublime que esperava embelezar acrescentando-lhe o santuário de Merenptah. Também Paneb estava deslumbrado; poderia acaso agradecer suficientemente aos deuses por lhe concederem uma existência tão exaltante, povoada por tantas maravilhas?

  Quando o mestre-de-obras ia avançar no carreiro, Nakht o Poderoso agarrou-lhe o braço.

  - Toma cuidado, arriscas-te a escorregar pelo despenhadeiro! Esta passagem é particularmente perigosa e já houve acidentes. Deixa-me passar à frente.

  - Descansa, não cometerei imprudências.

  Nakht pareceu despeitado, mas voltou ao seu lugar e a procissão continuou o caminho até ao desfiladeiro, o local de repouso entre a aldeia e o Vale dos Reis. Ali fora instalado um acampamento composto por setenta e oito cabanas, construídas com grandes blocos de calcário ligados por argamassa, e cerca de cinqüenta pequenos oratórios encostados à falésia.

  O escriba do Túmulo conduziu a equipa até à capela dedicada a "Amon do bom encontro", a quem foram dirigidas preces mudas pelo bom êxito dos artesãos.

 

  Paneb descobria com espanto aquele lugar estranho, povoado de estelas sobre as quais se viam os seguidores do Lugar de Verdade venerar as divindades; era evidente que o desfiladeiro não se destinava apenas ao repouso, mas sobretudo à meditação e ao contato com as forças invisíveis que ali reinavam.

  - O vento está a soprar com força e a voz de Amon torna-se mais perceptível - disse-lhe Kenhir. - Se não nos permitisse encontrá-lo, seríamos incapazes de achar o nosso caminho. Vamos instalar-nos.

  Cada cabana, com telhado formado por pedras achatadas e ramagens, tinha dois pequenos compartimentos. No primeiro havia um banco de pedra onde estava talhado um assento em forma de U, por vezes com o nome do seu proprietário inscrito; no segundo, sem janela, um estrado de pedra sobre o qual o ocupante estendia uma esteira.

  O escriba do Túmulo tinha direito à cabana maior e mais confortável, visto que englobava um compartimento suplementar que servia de gabinete. Situada na parte este do acampamento, estava bem abrigada do vento e do sol.

  - Alguém pode ter a gentileza de varrer a minha cabana? - pediu Kenhir.

  - Às vossas ordens! - respondeu Paneb.

  Paí o Bom pão, Renupé o Jovial, Casa o Cordame, Nakht o Poderoso e Unesh o Chacal depositaram nas suas cabanas as provisões que tinham trazido para dois dias. A partir do dia seguinte, auxiliares sob vigilância policial trar-lhes-iam o necessário e assim aconteceria quotidianamente até ao fim do seu período de trabalho.

  Karo o Mal-humorado e Gau o Exato distribuíram jarros de água, enquanto Didia o Generoso e Tuti o Sábio dispunham pão, cebolas, peixe seco e figos sobre uma grande pedra lisa que serviria de mesa comum. Era proibido ao acampamento do desfiladeiro cozer alimentos e fazer fogo. Muito mais duras do que na aldeia, as condições de existência faziam sentir a falta e apreciar melhor o conforto de uma casa e o calor de uma lareira.

  Fened o Nariz, Userhat o Leão e Ipui o Examinador penetraram nas suas modestas oficinas da garganta para fazerem estatuetas de artesãos em oração que seriam depositadas nos oratórios, e amuletos em forma de ferramentas, como o nível, a enxada ou o esquadro, que cada artesão transportaria ao pescoÇo a fim de se proteger dos gênios maus que girassem pela montanha.

  Apenas Ched o Salvador não procurava tornar-se útil. Sentado no limiar da sua cabana, desenhava uma tábua de oferendas carregada de vitualhas.

  O mestre-de-obras aproximou-se.

  - Sei o que estás a pensar - disse o pintor - mas estás enganado. É bom que um de nós não esteja ocupado em tarefas baixas para manter o espírito livre.

  - Supondo que eu admito o teu ponto de vista, não me competirá a mim designar esse homem?

  - Não sou o melhor observador da equipa? Enquanto desenho, vigio.

  - Pensas que nos ameaça um perigo?

  - Esta montanha não é favorável à presença humana... Mais vale estarmos atentos.

   Paneb acabara de limpar a cabana do escriba do Túmulo e começava a tratar da que lhe fora atribuída.

  - Aqui - disse ao mestre-de-obras - deve-se dormir maravilhosamente! Mas vou passar a minha primeira noite a contemplar o céu. Que lugar fabuloso... Sente-se a presença dos que nos precederam. Meditaram neste ponto antes de criarem as suas obras-primas, alimentaram-se do silêncio e da grandeza da montanha do Ocidente. Gostaria de nunca mais abandonar este acampamento.

  - É um mundo intermédio, Paneb, e ninguém aqui poderia viver permanentemente.

  - Para a mesa! - gritou Paí o Bom pão.

  Os artesãos restauraram-se mas, com exceção de Paneb, não manifestaram grande apetite. Todos tinham consciência da pesada tarefa que os esperava, porque trabalhar no Vale dos Reis não se assemelhava a nenhum outro trabalho. Os humanos não tinham ali o seu lugar e era necessária toda a magia da iniciação vivida no Lugar de Verdade para ousar aventurar-se ali e, mais ainda, escavar a rocha sem importunar as forças do Além. E cada artesão sabia que um fracasso arruinaria a sua carreira e poria em questão a própria existência da aldeia.

  - Porque estão com essa cara de enterro? - indignou-se Paneb. - Quase se poderia jurar que vão morrer em breve com uma morte indigna!

  - Tu não tens noção das provas que estão para vir - retorquiu Gau o Exato.

  - Que provas? Estamos juntos, vivemos com o mesmo coração e participamos numa aventura que nos fará tocar com os dedos a eternidade! Quem pode pedir mais?

  - O meu discípulo não deixa de ter humor - fez notar Ched o Salvador - e não erra ao fustigar os nossos receios.

  - Porque tu, tu não receias nada! - insurgiu-se Casa o Cordame.

  - Talvez seja o mais inquieto de todos nós, mas de que serviria mostrá-lo?

  - Continuo a não vos compreender - prosseguiu Paneb. Inquietação, medo, receio... Como podeis ser dominados por semelhantes sentimentos? O desconhecido é tão forte como o amor e é preciso investir nele com todas as forças.

  - Em vez de estarem a falar em vão - considerou Kenhir - é melhor irem descansar. Daqui a quatro horas, partida para o Vale dos Reis.

 

      Tanto quanto era dura a subida para o desfiladeiro, assim era fácil a descida para o Vale dos Reis. O mestre-de-obras seguia à frente, seguido por um Paneb louco de alegria por penetrar na "grande planície" onde não podiam entrar os que tinham cometido quaisquer faltas. E era um dos motivos de inquietação de Néfer o Silencioso: se um dos membros da sua equipa tinha efetivamente tentado lançar sobre ela o mau-olhado, ia introduzir um malfeitor naquele lugar sagrado. Mas não possuía nem uma certeza nem um meio fiável de identificar o eventual culpado e precisava de avançar carregando esse peso suplementar sobre os ombros.

  - A violência da luz faz brotar um fogo das pedras... Só eu é que o vejo? - perguntou Paneb ao mestre-de-obras.

  - Todos o sentimos, em graus diversos, e sabemos que nos destruirá se não formos dignos da obra a realizar. Possa a montanha do Ocidente proteger-nos.

  - Também tu vais ceder à tristeza ambiente?

  - Tranqüiliza-te, Paneb, tenho demasiado que fazer.

  - Não é a dimensão da tarefa que receias, não é verdade?

  - Pelo contrário, exalta-me... Mas talvez se dissimule um traidor entre nós com a intenção de nos fazer fracassar.

  - Acreditas realmente nisso?

  - Ainda não pus essa hipótese de parte.

  - Se esse monstro existe, aplicará uma estratégia simples mas eficaz: atacar-te a ti. Sem capitão, a tripulação ficaria desamparada.

 - Mas essa serpente esqueceu a minha presença. Comigo vivo, não conseguirá nada.

  - Queria dizer-te...

  - Não esqueças que o teu apelido é o Silencioso.

   A entrada do Vale dos Reis era uma passagem bastante estreita aberta na rocha e guardada permanentemente por guardas do chefe Sobek, que se dirigira ao local para acolher a equipa. Ele então cumprimentou o escriba do Túmulo e o mestre-de-obras, em seguida identificou cada um dos artesãos.

  - Nenhum incidente a assinalar? - perguntou Kenhir.

  - Nenhum. Todos os meus efetivos estão em estado de alerta; nenhum intruso se poderá aventurar nestas paragens sem ser imediatamente detectado.

  - Preciso dos teus dois melhores homens para guardarem a oficina e o estaleiro.

  - Penbu e Tusa... As suas folhas de serviço são excelentes e ninguém os apanhará de surpresa.

  Os dois núbios apresentaram-se ao escriba do Túmulo; tinham um olhar franco e respiravam saúde.

  - Vamos - ordenou o mestre-de-obras.

  Um a um, os artesãos franquearam a passagem que separava a grande planície do resto do mundo. Aqui, o reinado da luz e do mineral eram absolutos e o efémero cedia lugar ao eterno. As falésias verticais criavam um silêncio do além alimentado pelo azul do céu.

  - Tu, Penbu - decretou o escriba do Túmulo - guardarás o armazém de material. Apenas o mestre-de-obras e eu possuímos a chave e nós é que procederemos à distribuição das ferramentas. Se faltasse nem que fosse uma só, serias considerado responsável.

  Kenhir abriu a porta do armazém e verificou o número de picaretas, de cinzéis, de pães de cor e de mechas para as lâmpadas. Correspondia exatamente ao inventário que ele próprio fizera durante a sua última estadia no Vale. Desconfiado, tornou a contar e verificou o bom estado das picaretas e dos cinzéis. Com os que a equipa da direita tinha trazido, a quantidade era suficiente para iniciar os trabalhos.

  A distribuição das ferramentas foi realizada em silêncio e Kenhir anotou sobre uma tabuinha de madeira o tipo de material entregue a cada artesão que, ao cair da noite, o devia restituir. Não seria possível qualquer roubo e as ferramentas estragadas seriam levadas para a aldeia para serem reparadas.

  - Tu, Tusa - ordenou o escriba do Túmulo ao guarda núbio  - guardarás o estaleiro desde que o deixarmos até ao nosso regresso. Se, extraordinariamente, alguém tivesse conseguido ultrapassar todas as barreiras e iludir o sistema de segurança criado por Sobek, ataca esse intruso sem hesitação, seja ele quem for. E insisto neste ponto: seja ele quem for.

  Ao lado da porta do depósito de material, o chefe-escultor Userhat o Leão depositou uma estela sobre a qual tinham sido gravadas sete orelhas que permitiriam aos guardas ouvir o menor ruído suspeito.

  Guiada por Néfer o Silencioso, a equipa da direita dirigiu-se ao local escolhido para a escavação da Morada de Eternidade do Faraó Merenptah, a oeste do túmulo de Ramsés o Grande.

  Fened o Nariz e Ipui o Examinador perscrutaram demoradamente a rocha.

  - Não vai ser fácil - considerou Ipui. - Não podíamos começar um pouco mais adiante?

  - A decisão do Faraó e a minha são definitivas - precisou Néfer.

  - Vamos obedecer... Mas vai ser precisa tanta precisão como força. A rocha é caprichosa neste ponto e vai armar-nos ciladas.

  Fened o Nariz posou a mão sobre uma excrescência da pedra.

  - O primeiro golpe de picareta deve ser dado aqui. A sua ressonância modificará a resistência da parede e seguiremos mais facilmente as linhas de fratura.

  O escriba do Túmulo entregou ao mestre-de-obras uma picareta de ouro e prata que, desde a criação do Vale dos Reis, servia para dar o impulso ritual. Néfer ergueu-a e enterrou a ponta alguns milímetros no local indicado por Fened. Depois, com um cinzel de prata, alargou o orifício.

  A rocha emitiu um som estranho, semelhante a um canto simultaneamente de lamento e esperança.

  Fened sorriu; uma vez mais, tivera nariz.

  Manejando uma picareta de pedra dura, Nakht o Poderoso iniciou o primeiro verdadeiro ataque. De todos os colegas, apenas Paneb se mostrou tão eficaz como ele. Vexado, Nakht bateu com mais força, mas o Ardente não teve qualquer dificuldade em igualá-lo. A competição durou um longo momento e foi Nakht que primeiro se cansou.

  - Vocês os dois, repouso - ordenou o mestre-de-obras.Os outros, utilizem as picaretas mais leves.

  Pesando de um a três quilos, estas últimas possuíam um núcleo de bronze num invólucro de cobre que amortecia os choques e impedia o metal de se fraturar.

  E os dias de trabalho sucederam-se, exaltantes; os talhadores de pedra utilizaram pesadas raspadeiras com cabo de madeira e cinzéis de cobre para ir destacando a rocha em pequenos fragmentos. Surgiram pouco a pouco os estratos brancos de calcário sobrepostos, estriados pelas camadas de sílex mais escuras e essa visão alegrou Néfer: a rocha era de boa qualidade e seria um excelente suporte para a escultura e a pintura.

  À esquerda da entrada do túmulo, Kenhir mandara escavar um nicho com uma inscrição desprovida de ambigüidade: assento do escriba Kenhir,. Sentado à sombra, podia assim observar o avanço dos trabalhos.

  - Com exceção de Ched o Salvador- disse a Néfer - todos os membros da equipa trabalham com grande entusiasmo; a entrada monumental começa a tomar forma e não tardarás já a atacar o início da galeria.

  - Não quero qualquer precipitação - anunciou Néfer - para que a rocha não seja ferida. Perderemos com certeza tempo, mas evitaremos graves erros. E Ched não está inativo: prepara a futura decoração do túmulo e realiza numerosos esboços.

  - Sempre assim procedeu... E quando se apresenta diante da parede, não tem qualquer hesitação. Mas que caráter danado!

  - Ched não executa a sua tarefa sem falhar?

  - Claro, claro... Mas é um original e não aprecio o seu comportamento.

  - Tendes algo de determinado a censurar-lhe?

  - Não... ainda não.

  - Por outras palavras, desconfiais que possa prejudicar a confraria.

  - Não passa de uma impressão muito vaga... Talvez não te devesse ter falado nela.

  - Pelo contrário, não me oculteis nada. Mesmo se o que devo saber me rasga o coração, será sempre melhor do que a ignorância.

  - De acordo, Néfer... Mas deves por certo preparar-te para cruéis desilusões. Os homens, mesmo os do Lugar de Verdade, não estão obrigatoriamente à altura do que deles esperas.

  - Que importância tem isso, se a obra se realizar?

  - E se não se realizasse?

  - Pensais portanto que vou fracassar?

  - Honestamente, não sei... Mas tive maus sonhos e receio um fim trágico para este estaleiro, sejam quais forem as tuas competências. E a agressão do mau-olhado confirma os meus receios.

  - A Mulher Sábia não o anulou?

  - Gostaria bem de acreditar que sim.

  - Permanecei céptico, desconfiado e pessimista, Kenhir; dessa forma, não terei melhor aliado.

  O escriba do Túmulo resmungou algumas palavras incompreensíveis, encaixando-se melhor no seu assento de pedra. Graças à sua vigilância, não desaparecera nenhuma ferramenta e as amoladuras tinham sido efetuadas sem a mínima demora.

  O seu verdadeiro motivo de esperança era Néfer o Silencioso: como não admirar o seu rigor e paciência, acompanhados por um punho de verdadeiro chefe?

  A perfuração da rocha avançava ao ritmo que ele decidira e examinava cada polegada como se a sua existência dependesse disso. Os artesãos eram sensíveis à sua calma e, sabendo que não admitiria nenhuma negligência, davam o melhor de si mesmos.

  Com uma palavra, com um gesto, Néfer resolvia uma dificuldade ou evitava um impasse. Os talhadores de pedra constatavam que o seu mestre-de-obras tinha o sentido daquela rocha por vezes tão caprichosa, que detectava as suas respirações e sabia vergá-la ao seu plano sem a humilhar.

  Tinham sido escavados mais de cinco metros. Era a vez de Paneb e Unesh o Chacal apanharem os estilhaços para encherem com eles sacos de cabedal que carregariam às costas ou em trenós montados sobre patins de madeira e puxados por cabos, enquanto Karo o Mal-humorado e Nakht o Poderoso manejavam a picareta.

  Levado pelo seu entusiasmo, Nakht quase perdeu o equilíbrio e a ponta da sua ferramenta roçou a têmpora do Mal-humorado.

  - Podias ter-me morto, imbecil!

  Furioso, o Mal-humorado ameaçou o Poderoso com a sua picareta. Paneb mergulhou na direção das suas pernas para o impedir de cometer o irremediável, enquanto Néfer empurrava Nakht de encontro à parede.

  - Ousarias erguer a mão contra o teu mestre-de-obras?

  Nakht acalmou-se e Paneb permitiu que Karo se levantasse.

  - Reconciliem-se imediatamente - ordenou Néfer. - O incidente está encerrado e não se repetirá nunca mais.

                                

  A cor de cabelo acaju admiravelmente conseguida, o opulento seio mais atraente do que nunca, envolta apenas num véu de linho, Serketa provocava o marido que acabava de regressar a casa.

  - Como me achas esta tarde?

  Mehi atirou para longe os papiros de contabilidade.

  - És uma verdadeira fêmea - disse, esmagando-lhe os seios.

  - Tiveste um bom dia, meu doce amor?

  - Excelente!

  - O poder fica-te tão bem...

  Como habitualmente, ele rasgou o véu de linho e comportou-se como um bode com cio. Era assim que ela gostava dele, brutal e insaciável. A vida não era mais do que violência e era preciso mostrar-se sempre o mais forte; graças a essa total cumplicidade, Mehi e Serketa não receavam qualquer adversário.

  - Não dispomos de qualquer informação fiável sobre o Lugar de Verdade - lamentou ela.

  - Mesmo assim, sabemos que a confraria começou a escavação do túmulo de Merenptah no Vale dos Reis.

  - De que nos serve isso? Nenhum dos seus segredos nos caiu nas mãos.

  - Tem paciência, minha leoa... Sabes bem que a nossa posição oficial proibe qualquer manobra falsa. Não desespero de obter confidências mas, para o conseguir, é necessário que o escriba do Túmulo e o mestre-de-obras tenham verdadeiramente confiança em mim.

  - Tens uma idéia, não é verdade?

  - Uma idéia muito astuciosa, vais ver.

   Com o filho nos braços e o pequeno macaquinho verde empoleirado no ombro, Paneb via dançar as sacerdotisas de Hathor que regulavam os seus movimentos por Turquesa, deslumbrante de graça e elegância.

  Considerado como um gênio bom, livre para andar de casa em casa, onde saboreava os melhores petiscos, o pequeno macaco gostava de brincar com as crianças. Escolhera aquele novo poleiro para poder examinar de perto o bebê e tocar-lhe delicadamente na cabeça com um dedo malicioso. Como Aperti reagia sorrindo e dando gritinhos de satisfação, o seu novo companheiro de brincadeira insistia, sem ultrapassar os limites e provocar a intervenção do Pai.

  Trazendo ao pescoço o amuleto que Ched o Salvador lhe dera, Paneb tinha a sensação de ver a realidade com mais amplitude e precisão, como se a abordasse sob diversos ângulos ao mesmo tempo. Desta forma, apreciava melhor a dança das sete sacerdotisas destinada a proteger magicamente a aldeia e o trabalho dos artesãos.

  Revelando o segredo das mulheres do interior, apenas aos membros da confraria, as sete dançarinas, vestindo saiotes curtos e recortados à frente, usavam perucas de longas tranças às quais tinham preso um globo de faiança evocando o Sol.

  Manejando um bastão terminado por uma mão que segurava um espelho, Turquesa girou sobre si mesma e enfrentou as outras dançarinas. Uma delas estendeu a perna esquerda e contemplou-se no espelho que outra sacerdotisa veio tapar com as duas mãos. Turquesa orientou então a superfície refletora para o céu, a fim de que recebesse os raios do Sol e os propagasse em torno dela.

  - Não nos contemplemos a nós mesmas - salmodiou a bela sacerdotisa - e voltemos o nosso espelho para a luz. Assim seremos protegidos do mal.

  Depois de ter examinado durante muito tempo o pequeno Aperti, Clara entregou-o ao Pai.

  - O teu filho está de excelente saúde, Paneb.

  - Tens a certeza?

  - Não há o menor indício de doença e tem uma energia no mínimo igual à tua. Entre as crianças da aldeia, não há nenhum outro caso semelhante.

  - Tanto melhor! Logo que se consiga manter bem em pé vou ensinar-lhe os rudimentos da luta.

  Clara não teve tempo de manifestar a sua opinião sobre aquele programa educativo porque Unesh o Chacal entrou no seu gabinete com má cara.

  - Tenho dores na parte superior das costas - explicou. - À força de manejar a picareta, devo ter afetado um músculo.

  A Mulher Sábia posou a mão direita sobre o local doloroso.

  - Uma das tuas vértebras não está em harmonia com o resto da coluna - diagnosticou. - Vou manipular-te.

  Seguindo as instruções da terapeuta, Unesh cruzou as mãos atrás da nuca. Clara passou os braços por baixo dos do paciente e, fazendo de alavanca ao mesmo tempo que o puxava para si, provocou um estalo libertador.

  - Sinto uma impressão de calor no pescoço todo - constatou Unesh.

  - Excelente.

  - Esta técnica interessa-me - declarou Paneb. - Não ma queres ensinar?

  - Para ser franca, pensava em arranjar um assistente, porque os teus colegas são demasiado fortes para mim! A Mulher Sábia que me precedeu ensinou-me os gestos certos, mas não tenho força para os fazer. Se queres que te ensine as manipulações que libertam as costas de dores, preciso de uma cobaia.

  Unesh tentou eclipsar-se, mas Paneb agarrou-o por um ombro.

  - Tenho a certeza que tens dores noutro lugar e que queres ser voluntário.

  - Não, não, sinto-me muito bem!

  - Devemos sacrificar-nos pelo bem da comunidade. Não tens confiança em mim?

  - Como hei-de dizer...

  - Obrigado pela tua cooperação, Unesh - disse Clara com um lindo sorriso e uma gentileza que tornava impossível uma recusa.

  A Mulher Sábia ensinou a Paneb como tratar as más posturas e os desvios da coluna vertebral, quer fossem de origem cervical, dorsal ou lombar. Ensinou-lhe os gestos eficazes para curar um lumbago ou um torcicolo, revelou-lhe que cada vértebra correspondia a um órgão e podia causar múltiplos problemas, que iam da arritmia cardíaca à acidez de estômago.

  Manifestando um dom excepcional, Paneb assimilou os ensinamentos de Clara com facilidade e conseguiu mesmo devolver a posição correta à bacia de Unesh, que sofria das ancas há muito tempo.

  - Pelos deuses - exclamou o seu primeiro paciente - devolveste-me a juventude! Vais ser-nos muito útil nos estaleiros. Bem, vou para casa.

  Depois da saída de um Unesh fresco como nunca, CLara revelou a Paneb outros segredos da profissão.

  - Vamos precisar de várias sessões de aperfeiçoamento. Durante os teus dias de descanso, far-te-ei tratar os pacientes e depois serás autorizado a manipulá-los sem ser na minha presença.

  - Estou tão feliz por poder ajudar-te!

  - A tua potência é um dom do céu, Paneb, mas nunca te imponhas pela força. Caso contrário, impor-se-ão a ti pela força.

  Clara ia fechar o gabinete quando Ched o Salvador saiu da sombra.

  - Podes conceder-me alguns instantes? Com certeza.

  O pintor esgueirou-se para o interior, como se receasse ser visto.

  - O que tens, Ched?

  - Nada grave... Sofro um pouco dos olhos e as minhas pálpebras estão doridas.

  Depois do exame, a Mulher Sábia deu ao pintor um pequeno boião contendo uma pomada composta por folhas de acácia esmagadas, serradura de madeira, galena e gordura de pato.

  - À noite - disse-lhe - aplicarás isto sobre as pálpebras, cobri-las-ás com um penso. Além disso, com uma pena de abut oca, deitarás em cada olho três gotas, três vezes por dia, de um colírio de aloés e sulfato de cobre. Abrandará a irritação mas não faz milagres... Porque tu não me disseste tudo.

  Ched fitou Clara como se nunca a tivesse visto. Tinha um porte de rainha.

  - A Mulher Sábia concede-me a possibilidade de mentir?

  - Não sabes a resposta à tua pergunta?

  - Gostaria que as lâmpadas fossem apagadas.

  Clara fez reinar a escuridão.

  - É assim toda a existência - disse Ched o Salvador com voz cansada. - Nasce do invisível, alimenta-se de luz e regressa às trevas onde se dissolvem as formas, quer se trate do mais duro granito ou do mais terno sentimento. O meu discípulo Paneb ainda o ignora, porque está persuadido que a sua força será inesgotável e lhe permitirá travar qualquer combate.

Engana-se, mas de que lhe serviria ser lúcido? Mais vale que destrua os obstáculos uns a seguir aos outros até ao dia em que a sua vontade e os seus punhos se revelarem inúteis. Só então compreenderá que se agitou sem agir e que a morte é a mais acolhedora das amantes. Mas deve primeiro abrir novos caminhos, pintar como nunca ninguém pintou e acreditar que o homem pode ser criador! É necessário ajudá-lo, Clara, não deixar que os seus demônios o dominem, porque o Lugar de Verdade terá necessidade de Paneb.

  - Estás a perder a vista, não é verdade?

  - Tornaste-te a nossa mãe e deves amar cada um dos teus filhos, mesmo quando um deles perde toda a esperança. A menos que me possas dar uma...

  - Não tenho o direito de te mentir: é uma doença que conheço mas que não sei curar. A evolução será lenta, conseguirei mesmo travá-la, mas nada mais.

  - Que deus é tão cruel para infligir um tal castigo a um pintor? Com certeza não venerei suficientemente a montanha do Ocidente, mas é tarde demais para lamentos. Sobretudo, que ninguém saiba nada. Chamo-me Ched o Salvador e não quero ser socorrido.

  - Deverias consultar oftalmologistas em Tebas e Mênfis.

  - Para quê?... Não possuiriam a tua magia. Suportarei a minha sorte enquanto não fizer de mim um enfermo e não aceitarei quaisquer cuidados a não ser que sejas tu a prodigalizá-los no maior segredo. Ninguém deve saber.

  - Só há um ser a quem eu não posso ocultar nada.

  - O teu marido, o nosso mestre-de-obras... É o Silencioso e tenho confiança nele.

  - Neste momento não tenho maneira de te curar, Ched. Mas ainda não me dei por vencida.

 

  A boa cozinha de Niut a Vigorosa, que sabia assar aves com uma habilidade inigualável, devolvia a vitalidade a Kenhir. Desde que ela se ocupava da sua casa, dispunha de energia suficiente para manter o Diário do Túmulo, vigiar o estaleiro do Vale dos Reis e prosseguir a sua obra literária. Depois de ter terminado uma nova versão de A Batalha de Kadech, na qual engrandecia o papel sobrenatural de Ramsés o Grande, estava a fazer uma lista dos reis que tinham mandado construir um templo na margem oeste e dava a última volta a uma história da XVIII dinastia. Misturando poesia, erudição e simbólico, tentava dar vida às múltiplas dimensões da extraordinária civilização de que tinha a sorte de ser filho.

  - Tendes um visitante - anunciou a criadinha.

  - Ah não, agora não! Não vês que estou a escrever?

  - Devo mandar embora Néfer o Silencioso?

  - Não, claro que não! Ele que entre.

  Em geral tão calmo, o mestre-de-obras parecia irritado.

  - O cortejo de burros encarregado de nos trazer cobre para a fabricação dos cinzéis acaba de chegar - informou.

  - Excelente notícia! Só os esperávamos amanhã.

  - Há os burros, mas o cobre não.

  - Impossível!

  - Vinde verificar.

  O escriba do Túmulo abandonou a sua obra para se dirigir à grande porta da aldeia em companhia de Néfer.

  Sentado na esteira de viagem, o chefe dos condutores de burros discutia com Obed o Ferreiro, reduzido à inação.

  - O que fizeste do cobre que nos deverias entregar? - perguntou Kenhir.

  - O cortejo foi revistado pela guarda de Coptos que considerou que o carregamento não estava conforme. Como tinha ordem para vir até aqui, vim. Não quero saber de histórias... Assinam-me a minha ordem de missão e regresso a Tebas.

  - Não estava conforme... Mas conforme com quê?

  - Eu disso não sei nada! Vá, assina ou não?

  Kenhir assinou e o cortejo abandonou a zona dos auxiliares para ir tomar o barco.

  - E eu, o que é que eu faço? - interrogou o ferreiro, com os punhos nas ancas. - Sem matéria-prima, resta-me girar os polegares.

  - Há picaretas e cinzéis velhos para afiar - respondeu Néfer. - Os talhadores de pedra entregar-tos-ão.

  O escriba do Túmulo e o mestre-de-obras afastaram-se.

  - Se a quantidade de cobre prevista não for fornecida antes de dois meses - preVeniu o Silencioso - não disporemos de ferramentas de precisão suficientes e serei obrigado a interromper o estaleiro.

  - Não é a primeira vez que se verifica um incidente deste gênero - lembrou Kenhir - mas desta vez surge no pior momento. Só vejo uma solução: alertar Mehi.

  Os gabinetes da administração central da margem oeste eram um verdadeiro formigueiro. Entravam escribas, transportadores de mensagens urgentes, outros saíam a correr para transmitir aos interessados as ordens da hierarquia, outros ainda recebiam contribuintes descontentes, camponeses que contestavam o cadastro ou portadores de produtos diversos para controlar.

  Armado com um cacete, um guarda interpelou Kenhir.

  - Quem és tu?

  - O escriba do Túmulo. Quero ver imediatamente o administrador-principal.

  Não faltavam audaciosos que solicitavam aquele privilégio e o guarda orientava-os para um escriba que os fazia esperar mais ou menos demoradamente antes de os receber. Mas esta personagem merecia toda a atenção.

  - Segui-me, por favor.

  O guarda conduziu Kenhir ao edifício central onde o administrador-principal recebia os seus convidados de peso. O secretário avisado da presença do escriba do Túmulo preveniu imediatamente o patrão e este foi ao encontro do seu visitante.

  - Meu caro Kenhir, que prazer em receber-vos! Tendes necessidade dos meus serviços?

  - É bem possível.

  - Entrai, peço-vos.

  Mobiliário de madeira preciosa, numerosas lâmpadas de óleo, armários e prateleiras para os papiros e as tabuinhas de madeira para as ânforas de água e de cerveja... O gabinete de Mehi era luxuoso e confortável.

  - Sentai-vos então.

  - Estou com pressa e vamos direitos ao assunto.

  - Um problema grave?

  - O carregamento de cobre que o Lugar de Verdade devia receber foi bloqueado em Coptos.

  - Porque razão? - perguntou Mehi, espantado.

  - Não estava em conformidade.

  - Não tendes outras informações?

  - Infelizmente não. Esse cobre é indispensável à confraria para executar certas ferramentas e continuar o trabalho.

  - Compreendo, compreendo... Mas deviam ter-me informado do incidente!

  - Então não estáveis ao corrente?

  - Se isso tivesse acontecido, meu caro Kenhir, teria intervindo sem demora! Receio que um dos meus subordinados tenha cometido uma falta grave. Podeis conceder-me alguns instantes? Vou pôr este assunto a limpo.

  O escriba do Túmulo compreendeu, pelo olhar furibundo de que este não gostava nada de ter sido apanhado em falta. A sombra invadia o pátio quando Mehi regressou ao gabinete como um furacão com um papiro na mão.

  - O documento fora-me realmente enviado para referir uma diferença relativa ao vosso carregamento de cobre, mas o responsável pelas relações com a região de Coptos tinha-o classificado na categoria não-urgente! É inútil dizer-vos que este funcionário já não faz parte dos meus serviços. Irá reaprender o seu ofício para um serviço de província e velarei pessoalmente para impedir que receba qualquer promoção durante vários anos. Apresento-vos as minhas desculpas, Kenhir; sejam quais forem as faltas dos meus empregados, considero-me responsável.

  - Sabeis por que razão o carregamento foi declarado não conforme?

  - Um estúpido erro administrativo... O chefe da exploração mineira não preencheu corretamente a guia de transporte e a guarda de Coptos julgou tratar-se de uma fraude. Abriu um inquérito que se arrisca a demorar vários meses.

  - Vários meses! Seria uma catástrofe... O que podeis fazer?

  - Redigir uma queixa em termos bem sentidos e ordenar à guarda de Coptos que envie imediatamente para Tebas o carregamento de cobre.

  - Essa diligência tem alguma hipótese de dar resultado?

  Mehi fez má cara.

  - Talvez, mas não é certo... E, sobretudo, não impedirá o inquérito de seguir o seu curso.

  - Podeis obter um novo carregamento de cobre?

  - É impossível. Foi aquela a quantidade que vos foi atribuída e não outra. As quotas estão fixadas de maneira bastante rígida e não tenho poder para as modificar.

  - É o Lugar de Verdade que está em causa - lembrou Kenhir.  - Não seria possível encarar uma exceção?

  - Se só dependesse de mim, estaria já resolvido! Mas a decisão depende de um sistema administrativo cuja complexidade conheceis.

  - Vou então ser obrigado a dar uma má notícia ao mestre-de-obras - lamentou Kenhir.

  - Talvez haja uma solução - insinuou Mehi.

  - Qual?

 - Ir pessoalmente a Coptos. Encontrar-me-ei com as autoridades e expor-lhes-ei o nosso ponto de vista. O êxito não é garantido, mas podeis contar comigo para ser convincente.

  Mehi enrolou o papiro onde estava referido o motivo do litígio e dirigiu-se em passo marcial para a porta do gabinete.

  - Parto imediatamente - decidiu - e espero não regressar de mãos vazias.

  - Aconteça o que acontecer, Mehi, a confraria ficar-vos-á reconhecida.

  - Não é meu dever protegê-la? Perdoai que encurte assim o nosso encontro, mas não tenho um minuto a perder.

  Saindo como uma tromba para o pátio, Mehi chamou o condutor do seu carro e fez-se imediatamente ao caminho, muito satisfeito com o seu estratagema levado a cabo com requinte. Não teve qualquer dificuldade em resolver um problema que ele próprio criara e surgiria como o salvador dos artesãos. Era evidente que Kenhir não desconfiava de nada. Mehi desempenhara o seu papel com tal talento que o escriba do Túmulo caíra na esparrela. Apresentaria o general ao mestre-de-obras como o melhor defensor do Lugar de Verdade, capaz de abandonar o gabinete e fazer parar todos os assuntos pendentes para voar em seu socorro. E quando regressasse a Tebas, à frente do cortejo com o indispensável cobre, Mehi adquiriria a estatura de um herói.

                              

  O mestre-de-obras tinha decidido prosseguir com a escavação do túmulo de Merenptah com as ferramentas que lhe restavam. Explicara a situação à equipa e alguns membros, como Gau o Exato ou Fened o Nariz, teriam cedido ao desencorajamento sem a intervenção de Paneb, certo de que Néfer conseguiria tirá-los daquele buraco. O ritmo de trabalho não chegara portanto a abrandar.

  Sete semanas mais tarde, a atmosfera começava a ficar carregada. Ao descer do desfiladeiro para a aldeia a fim de gozar dois dias de descanso, a equipa interrogava-se se regressaria tão cedo ao Vale dos Reis.

  - Com as ferramentas gastas fazemos maus trabalhos - lamentava Karo o Mal-humorado.

  - Descansa, o mestre-de-obras não permitirá que isso aconteça - considerou Nakht o Poderoso. - Por outras palavras, o estaleiro será interrompido.

  - Não gosto disso - disse Fened o Nariz. - Havemos de reiniciá-lo mais cedo ou mais tarde, mas teremos perdido o ritmo. Um incidente como este é mau sinal... Há magia negativa no ar.

  - Se essa remessa de cobre não chegar - adiantou Gau o Exato - talvez haja um motivo grave. Sem metal, não há ferramentas nem trabalho... E se as autoridades tivessem decidido encerrar a aldeia?

  - Tenham confiança - recomendou Paneb. - Vai resolver-se tudo.

  - Porque tens tanta certeza? - interrogou Paí o Bom pão.

  - Porque não pode ser de outra forma. O Faraó veio à aldeia e ele tem uma só palavra.

  - És ingênuo - objetou Casa o Cordame. - Se houver problemas na corte, Merenptah preocupar-se-á em manter o seu poder e esquecer-nos-á.

  - E tu esqueces que o Faraó não pode viver sem uma Morada de Eternidade.

  A discussão continuou durante todo o caminho. Quando se aproximaram da aldeia, foi Paneb que os viu primeiro.

  - Olhem, burros.

  - Não te iludas - interveio Didia o Generoso. - É com certeza um simples cortejo de alimentos.

  - Ora, ao fim da tarde, não me parece!

  O jovem colosso desceu a encosta correndo e por pouco não derrubou Obed o Ferreiro, que carregava uma pesada caixa de madeira.

  - É cobre?

  - Com que fabricar centenas de cinzéis, podes crer! Vou começar imediatamente.

  O general Mehi mantinha-se modestamente na retaguarda, atrás do último burro que os assistentes do ferreiro descarregavam.

  O escriba do Túmulo e o mestre-de-obras vieram ao seu encontro.

  - Obrigado pelo vosso auxílio tão precioso - disse Kenhir.

  - Este carregamento chega precisamente na altura certa.

  - Tenho uma boa surpresa: a quantidade é muito maior do que estava previsto. Referi que estavam previstos grandes estaleiros e que o Lugar de Verdade não podia, em nenhum momento, ter falta de material. As autoridades de Coptos tentaram fazer oreLhas moucas, mas ameacei-as de continuar o meu caminho até Pi-Ramsés e entregar um relatório pormenorizado sobre a sua forma de agir. Os meus interlocutores compreenderam que eu não estava a brincar e a sua atitude tornou-se conciliatória. Aproveitei para exigir a reparação do prejuízo sofrido, e eis o resultado. Os vossos agradecimentos comovem-me, mas são supérfluos porque não fiz mais do que o meu dever.

  - Escreverei ao vizir para sublinhar a qualidade da vossa intervenção em nosso favor - prometeu Kenhir - e o Faraó será devidamente informado. Ficai a saber que haveis cooperado de forma eficaz para a realização do túmulo real.

  - Será um dos meus mais belos títulos de glória - afirmou Mehi - e terei sem dúvida a fraqueza de me gabar disso. Desejais examinar de imediato a guia de entrega?

  - É preferível.

  Enquanto Mehi entregava o documento a Kenhir, Néfer o Silencioso afastou-se sem ter dito uma só palavra.

  Mau sinal, considerou o general. Este mestre-de-obras parece ainda mais desconfiado do que o escriba e é muito difícil saber o que pensa. Vai exigir um novo esforço fazê-lo admitir que sou um aliado incondicional.

   - O carteiro Utupi trouxe uma mensagem marcada com o selo do Rei - disse Niut a Vigorosa a Kenhir.

  - Podias ter-me avisado mais cedo!

  - Acabais de chegar-lembrou-lhe a rapariga sem se perturbar.

  O escriba do Túmulo resmungou enquanto quebrava o selo. A leitura do documento deixou-o estupefato.

  - Vou a casa de Néfer - informou.

  - O jantar estava pronto - lamentou Niut.

  - Mantém os pratos quentes até eu voltar.

  A criada encolheu os ombros, Kenhir preferiu ignorá-la. Apesar da fadiga, apressou o andamento, ritmando os passos com pancadas da bengala.

  Quando entrou em casa de Néfer, este saía da sala dos duches. Quanto a Clara, esgotada por uma longa série de consultas, estendera-se sobre a cama do primeiro compartimento.

  - Lamento incomodar-vos, mas trata-se de uma urgência: uma mensagem do Rei!

  - Sentai-vos - disse Néfer - e vou servir-vos qualquer coisa para beber.

  - Tenho a garganta seca, tens razão... Mas quem podia imaginar uma ordem destas? Merenptah exige que comece imediatamente a construção do seu Templo dos Milhões de Anos, seja qual for o estado de avanço do túmulo, mas nem ele nem a Rainha podem abandonar a capital para sacralizar o início dos trabalhos.

  - Nesse caso, como podemos executar essa ordem? - perguntou a Mulher Sábia.

  - Visto que está investido de uma função religiosa, o mestre-de-obras representará o Faraó. E a Mulher-Sábia, superiora das sacerdotisas de Hathor, agirá em nome da Rainha.

  - Haveis lido bem? - inquietou-se Néfer.

  - O texto não apresenta qualquer ambigüidade.

  - Dispomos do ritual necessário?

  - É o nosso documento mais antigo. A pressa do Rei parece indicar que tem necessidade da energia que diariamente produzirá esse templo logo que funcione. Deve por certo travar um rude combate para preservar a herança de Ramsés.

  - Avisemos imediatamente o chefe da equipa da esquerda - decidiu Néfer - e tomemos as disposições que se impõem.

   Paneb embalava o filho, rabugento com um dente a nascer. A ama nunca vira crescimento tão rápido e caráter tão impetuoso, só o Pai conseguia acalmar Aperti.

  - Passa-se qualquer coisa de estranho - considerou Uabet a Pura ao regressar do templo de Hathor. - A Mulher Sábia convocou-nos a todas para esta noite e os teus colegas discutem em pequenos grupos.

  - Logo que Aperti se acalmar, irei saber notícias.

  Mesmo tendo de partilhar o marido com Turquesa, Uabet sentia-se feliz. Era aqui, no seu lar, que Paneb encontrava repouso. Turquesa oferecia-lhe uma embriaguez dos sentidos de que só ela conhecia o segredo e Uabet renunciara a lutar com ela nesse campo. Fossem quais fossem as vagabundagens de Paneb, regressaria sempre àquela casa serena que ela soubera tornar graciosa e ente.

  Poucas mulheres teriam consentido em semelhantes sacrifícios, mas Uabet amava o homem que lhe dera um filho tão excepcional como ele próprio. Não estava convencida que com a idade ele se tornasse menos fogoso e mais razoável; não Lhe competia a ela. com o seu amor tranqüilo e sem explosões, impedir que o fogo que animava Paneb o queimasse?

  - Estás com uns olhos estranhos - notou ele.

  - Olhava para vocês, para ti e para o teu filho...

  - Puseste no mundo um belo rapagão, Uabet. mas ele não é fácil de adormecer!

  - Terás encontrado alguém mais forte do que tu?

  - Veremos mais tarde. Ah... Consegui finalmente.

  A criança adormecera. Docemente, Paneb depositou-o nos braços da mãe e depois saiu de casa.

  Paí o Bom pão interpelou-o.

  - Acabei agora de fazer a sesta... Parece que temos aborrecimentos?

  - Não sei nada.

  - Com esta história do cobre, esperava que estivéssemos finalmente tranqüilos!

   A maior parte dos membros da equipa da direita estava unida em frente da casa de Néfer e Nakht o Poderoso não ocultava o  seu descontentamento.

  - Parece que temos que escavar vários túmulos de nobres! Quando teremos dias de descanso? O túmulo real bastava perfeitamente. Porque razão não fazem mais apelo à equipa da esquerda?

  - Quem te disse isso? - perguntou Casa o Cordame.

  Nakht refletiu.  Bem... Já não sei. É um rumor...

  - Pois eu ouvi outro - disse Unesh o Chacal. - Que o Rei chamaria alguns de nós à capital para construir um novo templo de Amon.

  - Isso então, de maneira nenhuma! - cortou Userhat o Leão. - Nasci em Tebas e aí morrerei.

  - Penso como tu - aprovou Didia o Generoso. - Ninguém me fará deixar esta aldeia.

  - E se esperássemos as instruções do mestre-de-obras? - propôs Paneb.

  A evidência surpreendeu os artesãos.

  - Não sabemos onde está - disse Renupé o Jovial. - Isso prova que qualquer coisa não corre bem!

  - Está em casa do chefe da equipa da esquerda - avançou Karo o Mal-humorado. - Devem estar a combinar antes de nos  anunciarem uma má notícia.

  - Pois bem, vamos lá! - decidiu Paneb.

  O pequeno grupo não teve que percorrer um longo caminho, porque Néfer o Silencioso veio ao seu encontro.

  - Queremos saber tudo - exigiu Casa o Cordame, enervado. - Vão interromper o estaleiro do Vale dos Reis e mandar-nos para outro lado?

  - Os sábios não recomendam que não se dêem ouvidos a nenhum rumor?

  - Então, qual é a verdade?

  - O Faraó dá-nos ordem para começarmos sem demora a construção do seu Templo dos Milhões de Anos. Por essa razão, as duas equipas vão ser reunidas no local para a inauguração do estaleiro. Em seguida, regressaremos ao túmulo.

  - Qual o motivo desta precipitação? - inquietou-se Tuti. Implica perturbações na corte?

  - Como qualquer Faraó, Merenptah tem necessidade da energia que o templo lhe proporcionará, e compete-nos a nós tornar vivo o edifício.

  - O Rei virá a Tebas?

  - A Mulher Sábia e eu próprio estamos encarregados de representar o par real.

                              

  O artesão que traía a confraria tinha uma certeza: quando se inaugurava um estaleiro tão importante como o de um Templo dos Milhões de Anos, era necessário utilizar a Pedra de Luz. O mestre-de-obras ia tirá-la do seu esconderijo e era a ocasião esperada para descobrir onde se localizava.

  Se o projeto parecia sedutor, a sua realização anunciava-se difícil. A manipulação teria inevitavelmente lugar de noite, com certeza pouco antes do nascer do Sol e do despertar dos artesãos. O traidor teria de sair de casa sem alertar a esposa e, sobretudo, sem ser detectado por Néfer o Silencioso.

  Para resolver o primeiro problema, o traidor tinha primeiro pensado em deitar um sonífero à base de hipericão no leite quente que a esposa bebia ao jantar, mas não sabia a dosagem certa e receava falhar. Tudo bem pesado, decidira revelar-lhe os seus intentos.

  - Tens confiança em mim?

  - Porque me fazes essa pergunta? - espantou-se ela.

  - Porque decidi tornar-me rico.

  - Tanto melhor... Mas de que maneira?

  - Não como os meus colegas, que se contentam com muito pouco. Não te posso dizer mais nada e não me farás nenhuma pergunta sobre as minhas ações. Não acabaremos os nossos dias nesta aldeia onde se recusam a reconhecer os meus méritos. Visto que a paciência não conduz a nada, vou meter por outros caminhos.

  - Não corres demasiados riscos?

  - Conheces a minha prudência. Um dia, viveremos numa bela moradia, teremos criados, terras e rebanhos e tu não terás nem de cozinhar nem de tratar da casa.

  - Julgava que a fortuna não te interessava e que apenas te aPaixonava a tua profissão.

  - É preciso que a aldeia inteira continue a acreditar nisso.

  Ela refletiu demoradamente.

  O traidor fitava-a. Se a esposa formulasse a mínima reticência , tornar-se-ia para ele um perigo imediato e inaceitável.

  - Nunca imaginaria que te irias comportar assim, mas compreendo-te - disse ela. - melhor, aprovo-te. Também eu desejo ser rica.

  A esposa não era nem bela nem inteligente, mas tornava-se a sua cúmplice e cedia, como ele, a uma pulsão muito tempo contida: a atração do lucro. O traidor não lhe falara senão de projetos de futuro e dos bens já adquiridos, sem evocar os seus comanditários.

  Quanto menos a esposa soubesse, melhor seria, mas tinha a certeza, atualmente, que ela se calaria e que lhe deixaria as mãos livres.

  Por sorte, a noite estava escura. Oculto por trás de um enorme pote de água, o traidor tinha os olhos fixos na porta de casa do mestre-de-obras. Se o seu raciocínio estivesse correto, Néfer iria pessoalmente buscar a Pedra de Luz e levá-la-ia até à entrada principal da aldeia antes de despertar os artesãos.

  Se não estivesse muito atento, o traidor não teria dado pela saída furtiva do seu chefe de equipa, que tomara o cuidado de não fazer nenhum ruído.

  Seguindo rente às fachadas das casas, o mestre-de-obras dirigiu-se para o edifício de reunião. Voltou-se por duas vezes e o seu Perseguidor por pouco não foi surpreendido.

  Mas Néfer continuou o seu caminho.

  O edifício de reunião.., O traidor pensara nisso visto que, quando os artesãos estavam reunidos, a Pedra devia estar colocada no naos e por vezes, o seu fulgor era perceptível.

Mas o artesão pusera de parte esse esconderijo, demasiado previsível. Enganara-se.

  Utilizando uma chave de madeira, Néfer abriu a porta do edifício e permaneceu longos minutos no interior. Quando voltou a sair, trazia um pesado objeto oculto sob um véu.

  O traidor sentiu um profundo sentimento de satisfação. Agora, sabia.

  Uma idéia louca atravessou-lhe o espírito: e se matasse o mestre-de-obras para Lhe roubar a Pedra e fugir com esse tesouro inestimável?

  Infelizmente, não possuía nem arma nem ferramenta; mais, o oriente começava a clarear e em breve a noite recuaria. Se não conseguisse derrubar Néfer com um único soco e estrangulá-lo, este defender-se-ia e chamaria por socorro.

  Demasiado arriscado.

  O traidor seguiu o mestre-de-obras para saber o que faria da Pedra. Talvez a dissimulasse noutro lugar mais acessível que o edifício de reunião antes de juntar os artesãos. Mas seguia a passo rápido em direção à porta principal.

  Ali estava já o escriba do Túmulo e a Mulher Sábia. A seus pés, uma forma cúbica envolta num tecido ocre que deixava filtrar uma estranha luminosidade.

  A Pedra... Tinha sido com certeza Kenhir a trazê-la!

  O mestre-de-obras destapou o seu fardo: um cofre de madeira de onde retirou algumas plaquinhas de metal que examinou antes de as tornar a guardar no mesmo lugar.

  O traidor enganara-se na pista, mas outras ocasiões surgiriam.

  - Foste seguido? - perguntou Kenhir a Néfer.

  - É possível, mas não tenho a certeza.

  - Continuo persuadido que quem lançou o mau-olhado sobre as ferramentas tentará descobrir o esconderijo da Pedra de Luz.

  - Supondo que o consegue, de que lhe servirá essa descoberta? Não poderá fugir com ela.

  - Tentará - afirmou Kenhir - e devemos redobrar de precauções. Se te seguiu, verificou que estava enganado na presa e depressa compreenderá que o iludimos porque estamos desconfiados.

  - Mais uma razão para que não faça outra Tentativa que lhes permitiria identificá-lo! Admitindo que um «engolidor de sombras", um criminoso, se oculta nesta aldeia, mas creio que está reduzido à inércia.

  - És demasiado otimista - considerou Kenhir.

 - Esqueceis a irradiação da Mulher Sábia? Ela saberá proteger-nos de qualquer ataque, quer venha do interior ou do exterior.

  Uma série de violentas pancadas quebrou a tranqüilidade da madrugada. Paneb percorria a aldeia batendo a todas as portas para despertar os que ainda dormiam.

 - Partida iminente - berrava o jovem colosso. - Eu próprio irei buscar os retardatários.

  Depois de ter engolido um enorme pequeno-almoço composto por pãezinhos quentes, leite fresco, queijo e um patê de ganso, Paneb beijara a esposa e o filho. De excelente humor, estava decidido a dar energia aos que a sentissem esmorecer. Ao iniciar a sua ronda, notara alguém a correr a toda a velocidade, como se lhe quisesse escapar. Um marido infiel com pressa de regressar a casa ou o bruxo que vagueava pela aldeia para espalhar malefícios?

   Durante um jantar, a Mulher Sábia e o mestre-de-obras não tinham deixado de lhe recordar a triste realidade que era necessário encarar: havia um traidor oculto na aldeia e decidido a prejudicá-la.

  Amargurado, chocado, Paneb aceitara finalmente abrir os olhos. Mesmo no seio de uma elite como a do Lugar de Verdade, os homens nunca deixariam de ser homens e alguns esqueceriam mesmo os seus deveres sagrados. Essa tomada de consciência não afetara minimamente o entusiasmo de Paneb, porque nenhum traidor, por muito hábil que fosse, conseguiria impedir a realização da obra enquanto brilhasse a Pedra de Luz. E essa Pedra estava ali, diante dele.

  - Se alguém ainda dorme nesta aldeia, prometo nunca mais beber uma gota de vinho!

  - Devias ser mais prudente, Paneb - recomendou a Mulher Sábia. - Supõe que administrei um poderoso sonífero a um dos meus pacientes...

  - A minha promessa deixaria de ter valor, porque eu não tinha conhecimento do fato.

  - As tuas análises jurídicas deixam muito a desejar - considerou Kenhir.

  - Acho que o vi - disse o jovem colosso com uma súbita gravidade.

  - Estás a falar do traidor? - perguntou Néfer.

  - Sim, creio que era ele.

  A garganta do mestre-de-obras contraiu-se.

  - Identificaste-o?

  - Não, apenas vi uma forma indistinta. No entanto, quanto mais penso nisso, mais tenho a certeza que era ele.

  Clara tentou ler na mente de Paneb a fim de detectar o que ele não poderia ter deixado de notar, mas não havia quaisquer vestígios desse fantasma.

  - Portanto, ele seguiu mesmo o mestre-de-obras - concluiu Kenhir.

  - É extremamente perigoso! - protestou Paneb. - Porque não me chamaram para proteger Néfer?

  - Porque eu decidira servir de isco - explicou este.

  - É uma loucura! Nestas condições, como posso velar por ti?

  - Não estou em perigo. O único objetivo dessa triste personagem é roubar os nossos tesouros e, possivelmente, prejudicar os nossos trabalhos. .

  - Sempre o teu otimismo - lamentou Kenhir.

  Os artesãos iam-se juntando. Com a sua frieza habitual, o chefe Hai pedira aos da equipa da esquerda para trazerem os objetos indispensáveis para a cerimônia de inauguração do estaleiro e a procissão organizou-se com o mestre-de-obras à frente.

  O dia anunciava-se quente. Carregado com uma dezena de volumosos odres, Paneb lamentava que avançassem tão lentamente, enquanto aquele ritmo sereno agradava a Paí o Bom pão e Renupé o Jovial, a quem a gordura tornava pesados.

  - A noite foi curta - queixou-se Renupé.

  - Andaste na farra? - perguntou Paneb.

  - Eu e a minha mulher bebemos um bocado e comemos... Esta manhã estou com enxaquecas. É por causa desse trabalho todo que nos espera. Tu, com a tua força, nem dás conta.

  - Esforçares-te vai fazer com que fiques em forma.

  - Parece que vamos utilizar a Pedra de Luz - adiantou Renupé.

  - Parece que sim.

  - Nunca perguntaste a ti mesmo onde era guardada?

  - Nunca.

  - Não és curioso, Paneb.

  - E tu?

  - No fundo eu também não. Tudo isso só diz respeito ao mestre-de-obras.

                              

Daktair tinha sido humilhado pelo general Mehi, mas não ficara com ressentimento porque as suas censuras eram fundadas. Ele, um homem de ciência com espírito crítico sempre alerta, deixara-se enganar por dois artesãos do Lugar de Verdade! Ferido no mais profundo de si mesmo, Daktair cada vez detestava mais aquela instituição que combateria por todos os meios, incluindo os mais ignóbeis, até à sua completa destruição. Antes, no entanto, seria necessário apoderar-se dos seus segredos e técnicas, tão ciosamente guardadas que, apesar da sua obstinação e múltiplos contatos oficiais, Daktair esbarrara sempre com um muro de silêncio impenetrável.

  Galena e betume não lhe davam um ponto de partida? Estava convencido que os produtos que Paneb e Tuti tinham trazido não serviam apenas para calafetar barcos, para fixar os cabos das ferramentas ou para fabricar produtos de beleza; quanto às utilizações rituais, não passavam de costumes ultrapassados destinados a desaparecer. De acordo com o regulamento em vigor, Daktair deveria ter entregue aos templos a totalidade do carregamento proveniente do Guebel Zeit, do qual fora apenas o transportador e o depositário temporário; mas, falsificando o relatório e modificando ligeiramente as quantidades para não chamar a atenção, conseguira subtrair algumas bolas de betume, com as quais realizara numerosas experiências.

  Desiludido com os primeiros resultados, não se desencorajara e acabara por fazer uma descoberta extraordinária de cujo conteúdo o general Mehi devia ter imediato conhecimento.

  - Quando estará de regresso? - perguntou Daktair ao secretário particular.

  - Ao fim da tarde, depois de ter terminado a inspeção da caserna principal de Tebas.

  - Posso esperá-lo aqui?

  - Como quiserdes.

  Daktair não tinha tomado nenhumas notas. Apenas Mehi e ele deviam estar ao corrente, sem que qualquer vestígio escrito mencionasse a sua descoberta.

  Caía a noite quando o carro do general se imobilizou no pátio. Daktair correu ao seu encontro.  Preciso de falar-vos imediatamente! Tenho correio a ditar. Volta amanhã. Quando souberdes, agradecer-me-eis por ter interrompido as vossas atividades.  Intrigado, o general fez Daktair subir ao seu gabinete, fechando ele mesmo a porta.

  - Explica-te. - Esta manhã, declarou-se um incêndio no meu laboratório. Os prejuízos são importantes, mas não há vítimas.

  - Qual foi a causa do sinistro?

  - Eu.

  - O que significa isso, Daktair?

  - Que descobri o segredo do betume! É uma substância inflamável que espalha calor e luz.

  - Trata-se de uma luz própria ou deposita fuligem?

  - É verdade que suja, mas...

  - Imaginas as pinturas dos túmulos e dos templos manchadas por essa substância?

  - Claro que não, mas os artesãos descobriram uma utilização para ela!

  Mehi pensou na Pedra de Luz, mas galena e betume não podiam passar de ingredientes secundários.

  - O óleo de pedra ser-nos-á muito útil - insistiu Daktair. - Permitir-nos-á queimar qualquer edifício, incluindo os fortins, e espalhar o terror num exército adversário.

  - Renuncia a essa idéia.

  O sábio ficou crispado.

  - Garanto-vos que...

  - O Faraó acaba de ordenar o encerramento das minas de Guebel Zeit. O local será guardado permanentemente e ninguém se aproximará sem autorização do palácio.

  - Aposto que foi o Lugar de Verdade que inspirou essa decisão!

  - Sem dúvida alguma, Daktair. Os artesãos compreenderam que tu não porias limites às tuas investigações, o escriba do Túmulo alertou o vizir e conseguiu proibir a utilização desse perigoso óleo.

  - Há que intervir e pedir ao Rei que modifique o seu decreto.

  - Não contes comigo para tomar uma iniciativa tão estúpida. Não chegou ainda o momento de enfrentar Merenptah e fazer com que nos acusem de rebelião.

  - Com o petróleo, general, disporemos de uma arma nova!

  - Para o obter, devemos conquistar o poder supremo, pois só ele nos permitirá utilizar à nossa vontade todos os recursos naturais do Pais.

  - Apesar de tudo, descobri um dos segredos do Lugar de Verdade!

  - Apenas o afloraste... O mestre-de-obras necessita sem dúvida de uma pequena quantidade de betume para preparar a Pedra de Luz, mas não passa possivelmente de um ingrediente entre muitos outros. Falaste da tua descoberta aos teus subordinados?

  O barbudo indignou-se.

  - Apenas vós haveis sido informado e nem sequer tomei notas.

  - Muito bem, Daktair, a tua inteligência levar-te-á longe. De forma completamente oficial, vou dar-te ordem para trabalhares na melhoria do armamento das forças armadas tebanas. Preciso de melhores espadas, de melhores lanças, de melhores pontas de flechas. Terás todo o cobre que for necessário e mesmo ferro. Logo que tiveres resultados interessantes, guarda segredo e informa-me.

 

  Em companhia do mestre-de-obras e da Mulher Sábia, Tuti o Sábio observava o céu. Em noites sucessivas tinham assinalado a posição de Mercúrio, colocado sob a proteção de Set, de Vênus, ligada ao renascimento da Fênix, de Marte, o Hórus vermelho, de Júpiter, encarregado de iluminar as Duas Terras e abrir a porta dos mistérios, e de Saturno, o touro do céu. Tuti consultara os livros de astronomia e astrologia onde eram estudadas as estrelas imortais e as que surgiam e desapareciam no horizonte, formando a faixa zodiacal dividida em trinta e seis decanos. De dez em dez dias erguia-se um novo decano que, depois de ter passado pela oficina de ressurreição do céu, se tornava visível.

  - A hora é favorável - declarou Tuti.

  Depois da mira corretamente efetuada, a implantação terrestre do templo de Merenptah estaria em perfeita correspondência com a harmonia do céu que o edifício, quando terminado, refletiria em todas as suas partes.

  O mestre-de-obras colocara a Pedra de Luz, tapada, na localização do futuro naos, e depois confiara ao chefe da equipa da esquerda o plano inscrito num rolo de couro que, terminados os trabalhos, seria dissimulado numa cripta.

  Néfer verificou que os ângulos estavam em esquadria. Traçou no solo um ângulo reto com uma corda dividida em doze partes iguais por nós e depois formou um triângulo de 3/4/5 simbolizando o tríade Osíris o Pai, Ísis a Mãe e Hórus o Filho.

  Manejando a enxada, o mestre-de-obras cavou a trincheira de fundação que colocava o templo em contato com o Nun, o oceano de energia primordial. Depois moldou o tijolo mãe de onde nasceriam as pedras de cantaria.

  Paneb observava os rituais de longe. Não se sentia tranqüilo, como se um perigo girasse em torno das duas equipas reunidas no local. Graças ao amuleto de Ched, o jovem colosso tinha a impressão de ver na noite como um felino à espreita.

  No entanto, a cerimónia desenrolava-se sem incidentes e numa profunda paz que impregnava a alma dos artesãos, conscientes de participarem num ato fundamental que desafiava o desgaste do tempo.

  Com um maço na mão, Néfer e Clara apresentaram-se em frente de duas estacas colocadas ao longo da trincheira de fundação e entre as quais tinha sido estendido o cordão que dava as medidas do templo. Desempenhando a função de Faraó e da Grande ESposa Real, bateram uma pancada seca no topo da estaca para a enterrar mais.

  A partir desse instante, a chama do olho divino, a Pedra de Luz começava a criar o templo.

  - Como esta morada é bela! - disse Néfer. - Nada existe de semelhante, todas as suas formas são realizadas em todas as suas formas são realizadas em alegria com que o plano foi concebido. A festa presidiu ao seu nascimento, será em júbilo que o terminaremos. Que a sua duração seja igual à do céu.

  - Que a obra brilhe e irradie no Pais inteiro - desejou Clara. - Que a luz lhe dê a felicidade e este templo esteja em perpétuo crescimento para exprimir a vida do universo.

  Nos alicerces o mestre-de-obras depositou plaquinhas de metais preciosos e modelos reduzidos de ferramentas: um esquadro, um nível e o côvado sobre o qual fora gravado o jogo de proporções específicas do templo de Merenptah. Uma laje recobriu esse tesouro, a partir de então invisível.

  Néfer purificou o local com uma fumigação de incenso, abriu a boca do templo com um cetro, tocou-lhe os pontos nevrálgicos e, de acordo com a antiga fórmula, entregou a morada ao seu senhor,, o princípio criador que aceitara encarnar naquele lugar.

  Paneb fixava um montículo, persuadido que alguém os observava, mas não detectou nenhum movimento suspeito. A cerimônia terminava e, muito recolhidas, as duas equipas do Lugar de Verdade retomaram o caminho da aldeia.

  O jovem colosso voltou-se. Ninguém os seguia. Daktair estava desiludido.

  Apesar do vidro de aumentar importado da Fenícia cujo uso reservava só para si, nada vira de interessante. No entanto, escolhera uma localização ideal para observar as diferentes fases do ritual, mas este não passava de uma seqüência de costumes ancestrais sem qualquer interesse científico.

  Ninguém tinha tocado na Pedra de Luz, constantemente tapada. No final da inauguração, o mestre-de-obras tornara a pegar nela para colocar no seu lugar a primeira pedra do naos, o centro vital do edifício que seria construído em primeiro lugar, a fim de que os rituais da manhã fossem ali celebrados o mais cedo possível.

  Protocolo, apenas protocolo ultrapassado, pensou Daktair, os verdadeiros segredos permanecem ocultos no interior da aldeia.

                              

  Um acontecimento tão importante como a sacralização de um local onde se ergueria um Templo dos Milhões de Anos era necessariamente acompanhado por uma grande festa que se adicionaria ao calendário ritual dos festejos em honra dos deuses. A pedido do mestre-de-obras, o escriba do Túmulo tinha portanto concedido às duas equipas uma semana de descanso no decurso da qual seria consumido o suplemento de carnes, legumes, pastelarias e vinho entregue pelo vizir, satisfeito com o trabalho do Lugar de Verdade.

  O traidor não podia aproveitar este período de repouso para se eclipsar, porque se tratava de uma festa de família que nenhum habitante da aldeia queria perder. As casas eram enfeitadas com flores, coziam-se os alimentos, punham-se as mesas ao ar livre, enchiam-se os jarros de vinho fresco e ninguém se esquecia de depositar oferendas nos altares dos antepassados, associados às festividades. Não eram os risos dos homens, mulheres e crianças a melhor prova de que a obra continuaria?

  Até mesmo o Trigueiro fizera uma trégua com os gatos. Empanturrado de carne de vaca e legumes frescos, o cão não tinha vontade de se lançar em perseguição dessas criaturas impossíveis de apanhar. Quanto ao pequeno macaco verde, continuava a fazer a felicidade das crianças que Paneb reunira para lhes ensinar os rudimentos da luta com mãos nuas e com o auxílio de pequenos paus.

  - Não arranjaste adversários mais temíveis? - invectivou-o Nakht o Poderoso.

  - Ainda andas à procura de confusão?

  - Uma festa sem concurso de luta não é uma festa..

  - Toda a gente sabe que somos os mais fortes, tu e eu. Então, passamos diretamente à final esta noite, ao lado da forja?

  - Isso não me interessa.

  - Eu estarei lá. Mas tu tens com certeza razões para hesitar... Compreendeste finalmente que não estás à minha altura? O medo é bom conselheiro e, em certas circunstâncias, a cobardia é a única solução.

  Se Paneb não estivesse rodeado de crianças, Nakht não o teria insultado mais.

  - Mas tem cuidado. um destes miúdos pode magoar-te - recomendou o Poderoso. - Não gostaria de vencer um adversário diminuído.

  Turquesa acariciou os cabelos de Paneb que a amara como se se unissem pela primeira vez.

  - Que arrebatamento! Acalmar-te-ás algum dia?

  - Deixarás algum dia de ser tão bela?

  - Certamente... Os anos não me pouparão.

  Paneb contemplou-a, nua sobre a cama perfumada, sensual como nunca fora.

  - Enganas-te, Turquesa. Há em ti uma beleza especial que o tempo não poderá atacar.

  - Quem se engana és tu porque esse milagre só diz respeito i , Mulher Sábia.

  - O meu instinto não me engana... E sei que os nossos desejos serão sempre tão intensos como agora.

  Acreditar nas palavras dele divertia a soberba ruiva à qual o amante dava tanto prazer como o que fruía. Era excessivo e insuportável, mas generoso e de tal forma aPaixonado  pela vida que era agradável queimar-se no seu fogo.

- Vou bater-me contra Nakht e dar-lhe uma boa lição. Depois disso, creio deixar-me-á finalmente em paz.

  Depois Turquesa parou de acariciar Paneb.

  - Devias renunciar a esse combate.

  - Porquê?

  - Faz-me medo.

  - Tu és como eu, Turquesa, não tens medo de nada!

  - Aceita o meu conselho.

  - Se não enfrentar Nakht a equipa considerar-me-á um cobarde e deixarei de ter nela o meu lugar. Descansa, o Poderoso não tem qualquer hipótese de me vencer.

   No calor da noite, a festa atingia o seu auge. Sentado numa cadeira de juncos entrançados presa por correias, o filho de Paneb não perdia pitada. Uabet a Pura tinha renunciado a deitá-lo para não desencadear uma nova crise de berros.

  - Não sabia que eras astrônomo - disse Paneb a Tuti, que exagerara um pouco no vinho tinto de Khargeh.

  - Para ser franco, foi a Mulher Sábia que me ensinou a observar o que vive no céu e a conhecer as estrelas entre as quais não há falta nem erro". Fui nomeado para o serviço das horas a fim de fazer começar os rituais no momento certo, observar de dez em dez dias o erguer helíaco de um novo decano e assinalar a sua influência ao mestre-de-obras. O Lugar de Verdade deve estar constantemente ligado aos movimentos do céu para não perder a sua integridade. Sabes que as estrelas imortais giram em torno de um centro invisível e que esse conjunto, por sua vez, se move por causa da precessão do eixo do mundo? Conhecer os movimentos das estrelas e dos planetas, compreender como se deslocam no corpo imenso da deusa Nut, não será compreender a maneira como o arquiteto do universo o modela?

  Paneb sentiu um olhar pesar sobre os seus ombros. Voltou-se e viu Clara que não participava no beberete geral e se dirigia para o templo de Hathor.

  - Fica aqui - propôs Tuti - o banquete ainda não terminou.

  O jovem colosso levantou-se e seguiu a Mulher Sábia. Sentia um apelo irresistível, como se tivesse a oportunidade de abrir uma porta até então hermeticamente fechada.

  Não viu Ched o Salvador, encostado a uma parede, com os lábios iluminados por um ligeiro sorriso.

  Clara franqueou o limiar do templo, atravessou o pátio a céu aberto, entrou na primeira sala coberta iluminada por lâmpadas cujas mechas não faziam fumo e meteu por uma escada estreita de pequenos degraus que tornavam a subida fácil.

  Paneb juntou-se-lhe no telhado do santuário de onde contemplava a lua cheia.

  - É o universo que é inteligente - afirmou ela - é ele que nos cria e nos pensa. A vida provém desse espaço sem limites e nós somos os filhos das estrelas. Olha com atenção o Sol da noite, o olho de Hórus que Set tenta em vão quebrar em mil pedaços. Julgamos que a Lua vai morrer, mas renasce para iluminar as trevas. Quando está cheia, encarna o Egito à imagem do céu, com todas as suas províncias, é o olho completo que permite a Osíris regressar viva de entre os mortos. Tu, o pintor, acalma este olho e reconstitui-o pelas tuas obras para que elas se tornem olhares capazes de iluminar o nosso caminho. Por três vezes, todos os anos, Tot reencontra o olho perdido, reúne-o e torna a colocá-lo no seu lugar e estamos precisamente nessa terceira vez. Doravante, o amuleto que Ched o Salvador te deu ligar-te-á aos desenhos gravados no céu e tornará a tua mão vidente.

  Paneb ficara só no telhado do templo, banhado pela luz da Lua cheia, surdo ao ruído das festividades que subia da aldeia. Por conselho de Clara, expusera o amuleto ao Sol da noite.

  Nesses instantes em que a lua cheia de Tot abria o seu olhar de pintor, Paneb não sonhava com um mundo maravilhoso; ele seria capaz de trazer esse mundo para a realidade. Às técnicas aprendidas juntava-se o essencial: uma visão interior que as mãos saberiam traduzir.

  Os responsáveis por essa nova metamorfose eram Ched o Salvador-e a Mulher-Sábia.

  Ele, o cínico, mostrara-se de uma generosidade sem igual oferecendo ao seu discípulo esse sinal de força que ainda Lhe faltava, esse modesto amuleto do qual a Mulher Sábia revelara o significado.

  Ela, a mãe espiritual da confraria, acabava de conceder-lhe um novo nascimento.

  Regressando a casa em passo lento, pensava nas centenas de figuras que em breve brotariam dos seus pincéis e tinha pressa de falar delas a Ched. E teria sem dúvida a hipótese de as estender sobre as paredes de um túmulo real!

  - Esqueceste o nosso encontro, Paneb?

  A voz de Nakht o Poderoso estava tão avinhada como agressiva.

  - Vai-te deitar, estás bêbado.

  - Agüento melhor a bebida do que tu, garoto! E apostei um tamborete como te pregaria os ombros ao chão.

  Uabet a Pura desejava precisamente adquirir um para posar os pés quando embalava Aperti. Mas Paneb lembrou-se do aviso de Turquesa.

  - Não vamos estragar esta festa, Nakht. Não tenho vontade de te fazer mal.

  - Não passas de um cobarde... À força de desenhar, os teus músculos tornaram-se brandos. Eu sou um talhador de pedra, não uma fêmea!

  - És sobretudo um cretino que me vai apresentar desculpas.

  O pintor não teve direito a mais do que uma gargalhada gutural.

  - De acordo, Nakht. Regulemos imediatamente esta diferença.

  Perto da forja, com um copo na mão, estavam sentados os outros talhadores de pedra, Casá o Cordame, Fened o Nariz e Karo o Mal-humorado.

  - Eis-vos, até que enfim! - exclamou Casa. - Nós três seremos os juízes do combate... Leal, hem, sem golpes baixos!

  As pálpebras dos três artesãos tinham tendência a fechar-se, mas o primeiro ataque desferido por Nakht, sem qualquer aviso, despertou-os.

  Com um salto para o lado, Paneb esquivou-se aos punhos unidos do adversário.

  - Foges, fêmea, tens medo de mim! Vem, aproxima-te se te atreves!

  A massa muscular de Nakht era impressionante, mas faltava-lhe agilidade. Paneb decidiu portanto desequilibrá-lo lançando-se-lhe às pernas para o erguer. Mas as mãos escorregaram sobre a pele do adversário e foi ele que se encontrou no chão.

  Apesar da rapidez em afastar-se, apanhou um violento pontapé nas costelas, pontuado por uma gargalhada.

  - Oleei o corpo e não me conseguirás agarrar... Sou invulnerável e tu vais sofrer!

  Se Nakht tivesse podido detectar a raiva nos olhos de Paneb, teria interrompido o combate. E não compreendeu como o ariete que Lhe bateu em pleno peito podia ser tão violento. O talhador de pedra caiu de costas, com os braços em cruz, e Paneb encostou-lhe os ombros ao chão.

  - Que o tamborete esteja em minha casa amanhã de manhã - atirou o jovem colosso aos espectadores. - Caso contrário, vou demolir a casa de Nakht tijolo por tijolo.

                              

  Didia o Generoso bateu à porta da casa de Paneb. Foi Uabet a Pura que abriu, com o filho nos braços.

  - Trago o tamborete - declarou o carpinteiro.

  - Mas... Não te encomendei nada!

  - Os talhadores de pedra afirmaram-me que era muito urgente. Foi por isso que escolhi este que tinha já pronto. Lá sólido, podes crer que é!

  - Paneb ainda está a dormir, vou acordá-lo.

  O jovem colosso saiu de um sonho sublime durante o qual cobrira paredes inteiras com pinturas representando Turquesa que adorava o Sol e a Lua.

  Regressando à realidade, sentiu uma ligeira dor no lado esquerdo. Aquele bruto do Nakht tinha-lhe partido uma costela.

  - Didia pergunta por ti - disse-lhe Uabet com doçura.

  - Porque nos vem incomodar tão cedo num dia de descanso?

  - Por causa de um tamborete.

  O espírito enevoado de Paneb recordou-se e riu com vontade, apertando a si a mulher e o filho.

  - Um presente para ti, Uabet!

  - Eu desejava um, mas não era assim tão urgente.

  - Não se devem perder as boas ocasiões. Tenho fome! Convidamos Didia a comer conosco para festejar o teu tamborete?

  Da ruela chegaram os ecos de uma altercação. Paneb precipitou-se e descobriu Imuni que discutia com Didia.

 Pequeno e grosseiro, o escriba-assistente não parecia recear o carpinteiro de grande envergadura.

  - Dás-me cabo dos ouvidos, Imuni. Volta para o teu gabinete e deixa o meu colega em paz.

  Furibundo, o escriba apostrofou Paneb.

  - Há uma lei nesta aldeia e nem tu nem ele têm o direito de a violar!

  - O que inventaste agora?

 Imuni posou um pé conquistador sobre o tamborete.

  - E este móvel, estou a inventar?

  - É um bem meu e tu não tens nada com isso.

  - Justamente, tenho! Devo saber se pertence a um mobiliário funerário previsto para um túmulo e se tu e o carpinteiro não se dedicam a um tráfico condenável.

  Paneb cruzou os braços e observou Imuni com um olhar curioso.

  - Que tu digas parvoíces não é nada de espantar, mas que te encontres aqui no momento exato da entrega surpreende-me... Não te terão informado, por acaso?

  - Pouco importa. Didia tem que dar-me imediatamente a prova que este tamborete não é um objeto desviado, senão apresento queixa contra os dois!

  - Antes da minha ducha - confessou Paneb - estou de um humor terrível... E esta manhã não tive tempo de a tomar. Quem te informou, Imuni?

  Com a mudança de tom do colosso, o escriba-assistente compreendeu que era melhor não brincar muito com o fogo.

  - Foi Nakht... Avisou-me que tinhas obrigado Didia a dar-te um tamborete e que eu ia poder acusar-te de roubo e de chantagem.

  - Conhecendo-te como te conheço, suponho que a acta de acusação já está pronta, não?

  Imuni baixou os olhos para o saco de cabedal contendo um papiro.

  - Os fatos parecem-me bem claros.

  - A mim também - concluiu Paneb com uma calma inquietante.

  - Então, confessas?

  - Não deviam permitir-te escrever mentiras, Imuni. Se continuas por esse caminho, podes vir a tornar-te francamente pernicioso. Devo ajudar-te a regressar ao bom caminho.

  Paneb arrancou ao escriba o material que este trazia, rasgou o saco e o papiro e quebrou os pincéis, os pães de tinta e o pote da água.

  Receando sofrer tão atroz sorte, Imuni fugiu.

  Paneb pegou no tamborete.

  - Uabet ficará encantada - disse a Didia. - Vem tomar o pequeno-almoço conosco.

  - Tenho a garganta em fogo - queixou-se Ipui o Examinador, ainda mais nervoso do que o habitual. - A minha esposa acha que tenho o pescoço inchado e que emagreci. Creio que a febre está a subir e não sei se serei capaz de voltar a trabalhar no Vale no fim do período de festas...

  Clara tomou o pulso a Ipui em vários pontos. O Examinador não pertencia ao grupo dos piegas que, à mínima dor, tentavam obter da Mulher Sábia dias de repouso suplementares.

  - A palavra do coração está perturbada - concluiu ela. Deverias ter vindo mais cedo consultar-me.

  - É grave?

  - Abre a boca e inclina a cabeça para trás.

  A terapeuta já esperava aquilo que descobriu.

  - É uma doença que conheço e curar-te-ei - afirmou - mas sofreste em silêncio demasiado tempo. Esse gênero de coragem não tem qualquer valor, Ipui. A tua infecção teria podido degenerar e provocar um tumor irreversível.

  A Mulher Sábia preparou uma mistura composta por alho, ervilhas, cominhos, sal marinho, levedura, farinha fina, grãos de píretro, mel, óleo e vinho de tâmaras, seguindo as proporções que a sua predecessora tinha deixado anotadas no seu livro sobre as doenças infecciosas.

  - Vais tomar esta medicação sob a forma de bolinhas - prescreveu a Ipui. - Serão necessárias vinte por dia durante uma semana. O pus desaparecerá rapidamente e sentir te-ás melhor. Em seguida reduzirás as doses até ao completo desaparecimento da doença.

  Pedidos de socorro perturbaram o fim da consulta. O escriba assistente Imuni esganiçava-se para alertar os aldeões.

  Néfer o Silencioso conseguira restabelecer a calma e obter acusações claras da parte de Imuni que não parava de tremer, sob o ar espantado dos artesãos.

  - Quebrou o meu material... É um louco, um vândalo!

  - De quem estás a falar?

  - De Paneb! É preciso chamar a guarda e prendê-lo, senão vai destruir a aldeia.

  Com exceção de Nakht, que estava de cama, os talhadores de pedra morriam de riso. Imuni caíra na cilada por eles preparada e as reações de Paneb tinham ultrapassado as suas esperanças.

  - Vai buscar Paneb - ordenou o mestre-de-obras a Tuti o Sábio.

  Este regressou em companhia do jovem colosso e de Didia, que mastigava um pãozinho cheio de favas quentes.

  - Protejam-me! - berrou Imuni, refugiando-se junto dos talhadores de pedra.

  - Quebraste o material do escriba assistente? - perguntou Néfer a Paneb.

  - Apaguei simplesmente as suas mentiras e considero que prestei um serviço à confraria. Se não tivesse dado uma boa lição em Imuni teria acabado por considerar-se todo-poderoso. Ele que fique no seu lugar executando as ordens do escriba do Túmulo e tudo correrá bem.

  Rubro de cólera, Imuni atacou.

  - Paneb é um ladrão, um chantagista e destruiu provas que se encontravam na minha ata de acusação!

  - Desta vez, basta! - rugiu o acusado.

  O mestre-de-obras interpôs-se.

  - Nada de violência, Paneb! O que tens tu a responder?

  - Tu, tu obrigas-me a responder a esse nojento?

  - Só me interessa a verdade.

  - Vou contar-te a verdade - interveio Didia. - O grupo dos talhadores de pedra pediu-me para entregar com toda a urgência um tamborete a Paneb e eu levei-lhe um móvel que tinha feito para vender no exterior. Não houve nem roubo nem chantagem e gostava de saber quem me vai pagar!

  - Nakht o Poderoso - respondeu Paneb, revelando o que estava por trás do caso.

  - Mesmo assim, isso é muito confuso - considerou Unesh o Chacal. - Não deveríamos convocar o tribunal?

  - Bastará o bastão do deus Amon - cortou o mestre-de-obras - porque o caso parece muito mais claro do que tu pensas.

  Paneb estava magoado.

  - Tenho uma testemunha, Imuni acusa-me sem razão e os talhadores de pedra tentaram vingar-se da derrota de Nakht... E tu queres mesmo assim julgar-me?

  - Cometeste uma falta ao quebrar o material do escriba assistente - recordou-lhe Néfer. - O Lugar de Verdade ensina-nos a construir, não a destruir. Lembra-te sempre disso, sejam quais forem as circunstâncias.

  Foi o chefe da equipa da esquerda, severo como um guarda de porta do outro mundo, que se apresentou em frente do jovem colosso segurando um pesado bastão terminado por uma cabeça de carneiro esculpida de forma admirável e coroada por um .sol pintado de vermelho-vivo.

  A Mulher Sábia colocou-se ao lado do símbolo.

  - Paneb, ousarias enfrentar o olhar do carneiro divino afirmando que não mentiste?

  - Confio em ti.

  O colosso fixou a cabeça de madeira dourada, cujos olhos de jaspe negro pareciam vivos. Era ao carneiro de Amon que os aldeões se dirigiam para lhe orar ou formular reclamações e era à sua força oculta que o mestre-de-obras confiava o encargo de julgar o amigo perante a comunidade reunida e silenciosa.

  Paneb sentiu imediatamente que o mágico que criara aquela efígie, a quando do nascimento da aldeia, Lhe conferira um poder capaz de quebrar a vontade de um humano.

  Para evitar a chama invisível daquele olhar implacável, sentiu vontade de baixar os olhos e suplicar ao deus que se mostrasse indulgente.

  Mas a Força da sua verdade permitiu-lhe manter a cabeça erguida e não ceder ao carneiro sagrado.

  O disco solar pareceu de repente menos vivo e o pesado bastão afastou-se.

  - Paneb não cometeu qualquer falta grave contra a comunidade - decretou a Mulher Sábia -, e não incorre na cólera do deus.

  - Exijo no entanto que ele ofereça a Imuni um material novo - ordenou o mestre-de-obras.

  O jovem colosso permaneceu silencioso.

  Oculto por trás dos talhadores de pedra, o escriba assistente pensou que a amizade entre Néfer e Paneb não seria eterna.

                              

      O escriba do Túmulo tinha reunido em casa a Mulher Sábia e os dois chefes de equipa. O período de descanso estava a terminar e era necessário tomar decisões.

  - A equipa da esquerda iniciará a construção do Templo dos Milhões de Anos seguindo o plano traçado pelo mestre-de-obras e aprovado pelo Rei. Tens observações a fazer, Hai?

  - Nenhuma.

  - O estaleiro será fechado e guardado pela guarda. Ao mínimo incidente, avisa o chefe Sobek.

  O chefe da equipa da esquerda abanou a cabeça afirmativamente.

  - Os dois outros pontos a apresentar-vos são mais delicados: será oportuno retomar os trabalhos no Vale dos Reis e confiar a Sobek aquilo que descobrimos?

  - É essencial escavar o túmulo real - cortou Néfer. - Sejam quais forem os riscos, continuarei.

  - Nesse caso, confiemos a Sobek que há um traidor oculto entre nós.

  - Oponho-me a isso - declarou secamente o chefe da equipa da esquerda. - São problemas nossos e só a nós dizem respeito.

  - Compreendo a tua reação - disse Clara - mas Sobek não é nosso inimigo. Gosta da aldeia, deseja a sua sobrevivência e precisamos da sua ajuda.

  - Que vergonha para nós! Não será quebrar a unidade da confraria?

  - Quem tenta quebrá-la é o miserável que traiu o seu juramento. E só devemos essa vergonha à nossa falta de vigilância.

  - Ponho uma condição - exigiu Hai: - que Sobek mantenha segredo absoluto sobre aquilo que vai saber.

 

  Sentado numa esteira em frente de Kenhir que ocupava o único assento confortável do quinto fortim, Sobek estava perplexo.

   - As vossas revelações não me surpreendem - confessou ao escriba do Túmulo. - Há mais de dez anos que em vão procuro o assassino de um dos meus homens e adquiri a certeza que se ocultava na aldeia. Que melhor esconderijo teria podido arranjar? E agora, esse engolidor de sombras procura prejudicar-vos, mesmo no interior da confraria. Rendei-vos à evidência, Kenhir: trata-se de uma conspiração preparada de longa data. Como não estou autorizado a investigar no Lugar de Verdade, é a vós que compete essa tarefa. Sede muito prudente... O engolidor de sombras já matou e não hesitará em recomeçar se sentir a sua segurança e o seu anonimato ameaçados.

  - Por teu lado, como tencionas agir?

 - O nosso homem é obrigado a ter contatos com os seus cúmplices no exterior e acabará por cometer um erro.

  - Até agora, não foi o caso.

  - Eu sei, Kenhir, eu sei... Poder-se-ia jurar que não é possível apanhá-lo e perdi o sono por causa disso. Mas é a minha única esperança.

  - Tens de prometer-me guardar silêncio.

  - Deveria redigir relatórios dirigidos aos meus superiores e...

  - Os teus únicos superiores são o Faraó, o vizir e eu próprio. Dou-te cobertura Sobek e, se necessário, darei explicações ao Rei. Mas está fora de questão que outros corpos de guarda sejam informados do que se passa na aldeia. Só temos confiança em ti.

  O núbio pareceu impressionado.

  - Pelo nome do Faraó, juro calar-me.

  Alguém se aproximava.

  O guarda Tusa, encarregado de guardar o túmulo de Merenptah, tinha a certeza: alguém se aproximava. Os pés descalços sobre a areia não faziam ruído quase nenhum, mas o núbio tinha o ouvido suficientemente aguado para detectar o perigo.

  Tusa tirou o punhal da bainha e encostou-se à rocha para ferir o intruso com um golpe decisivo.

  Paneb, que era o primeiro a chegar ao estaleiro, ficou espantado por não ver o guarda.

  Conhecendo a seriedade dos homens de Sobek, só podia chegar a uma conclusão: Tusa fora suprimido.

  Se o agressor se encontrasse ainda no local, Paneb não o deixaria fugir. E se o outro o ouvira aproximar, dissimulava-se de encontro à parede, junto da entrada do túmulo.

  O artesão agachou-se e avanÇou silenciosamente ao longo da rocha.

  O outro estava lá, sentia-o. Detectava simultaneamente o seu medo e o seu desejo de matar.

  Paneb desembocou à entrada do túmulo atirando-se ao chão e rolando sobre si mesmo. Surpreendido, o núbio atacou no vazio. O jovem colosso agarrou-lhe as pernas e deu-lhe uma pancada tão violenta no pulso que o fez largar a arma.

  - Mas... tu és o guarda!

  - E tu pertences à equipa!

  - Fazes bem o teu trabalho, amigo.

  - Se quiseres mudar de profissão, Sobek contratar-te-á de boa vontade.

  - Muito me espantaria.

  O mestre-de-obras e os outros artesãos chegaram ao local. O núbio e Paneb levantaram-se.

  - O que aconteceu - perguntou Néfer.

  - Um exercício para testar as medidas de segurança - respondeu Paneb. - Graças a Tusa, o túmulo não corre qualquer perigo.

  Kenhir instalou-se no seu assento escavado na rocha, abrigado do sol, e vigiou a distribuição do material. Os membros da equipa da direita continuariam a escavar sob a direção do mestre-de-obras, com exceção de Ched o Salvador e de Paneb, que recebeu os cinzéis de cobre.

  - Para nós - revelou Ched - começa o trabalho de precisão. Uma parte já escavada, prepararemos uma parede tão lisa quanto possível. Sem um excelente suporte, o que seria a pintura?

  Paneb tocou o amuleto que trazia ao pescoço.

  - Mudaste - notou o Salvador -, Continuas a ter o mesmo entusiasmo mas muito mais força.

  - Abriste-me os olhos, Ched. Como poderei agradecer-te?

  - Tornando-te melhor pintor do que eu. Os outros desenhistas executarão as minhas ordens; de ti, espero mais.

  - Tenho centenas de esboços a propor-te.

  - Provavelmente não aceitarei nenhum a fim de que sejas mais inventivo, ao mesmo tempo que segues o programa simbólico que exige um túmulo real. Se lhe fores fiel, mais nenhum dos segredos da nossa arte estará fora do teu alcance.

  Durante a noite passada no desfiladeiro, Paneb observara as estrelas e a Lua. Carregado de energia, o amuleto do olho tirava-lhe toda a fadiga e foi com energia que utilizou uma enxó curta para raspar as últimas excrescências de pedra antes de se servir de seixos para polir a superfície. Ele, o especialista do gesso, teria em seguida que aplicar uma fina camada de gesso e de cola transparente. Depois, os desenhistas procederiam à realização da quadrícula na parede a fim de que cada figura estivesse no seu lugar e vivesse em harmonia com o conjunto da cena.

  Os escultores terminavam o lintel da porta monumental. Aí se viam um escaravelho e um carneiro que evocavam a ressurreição de um sol com que se identificava a alma do Faraó sobre a qual velavam Ísis e Néftis.

  E a equipa avançava, enquanto Ched o Salvador começava a revelar ao seu discípulo o tema das pinturas que animariam as   paredes.

   Serketa tirou o vestido verde com franjas púrpura e, com uma calculada lentidão, vestiu outro, de um amarelo agressivo, que lhe deixava os seios nus.

  - Sou bela, meu doce amor?

  - Soberba - considerou Mehi que tinha prazer no espetáculo depois de um duro dia de trabalho durante o qual, graças ao seu inato sentido da corrupção, arranjara novos devedores. Tanto na margem oeste de Tebas como na de este, contava cada vez mais com fervorosos partidários que gabavam o seu dinamismo e excelente gestão. E como a sua encantadora esposa sabia insinuar-se aos notáveis durante os banquetes, atraía-lhe os favores de alguns velhos jarretas que apreciavam aquele casal rico e influente.

  Mehi continuava assim a tecer a sua teia para que nenhuma personagem influente da grande província do Sul lhe escapasse. Que melhor terreno de experiência podia esperar antes de visar o Pais inteiro?

  Quando Serketa se despia uma vez mais, adotando poses lascivas, o intendente, com os olhos baixos, foi obrigado a vir avisar Mehi.

  - Um oficial vindo da capital desejaria ver-vos.

  - Manda-o entrar para a sala de recepções e dá-lhe de beber.

  Serketa esfregou-se de encontro ao marido.

  - Posso escutar a vossa entrevista, escondida por trás de uma tapeçaria?

  - É conveniente.

  - Não deveríamos desembaraçar-nos desse militar? - sussurrou ela.

  - Provavelmente, mas ainda é muito cedo.

  Serketa ficou tão excitada com a idéia de cometer um novo assassínio que não deixou a Mehi a possibilidade de o ignorar. O oficial esperaria.

  - Que novidades há? - perguntou o general.

  - Merenptah reina com pulso de ferro - respondeu o oficial - , murmura-se que a sua saúde não parece ser excelente.

  - Quem é o mais bem colocado para lhe suceder?

  - O filho Seti, mas há algo mais sério: nas casernas, os exercícios intensificam-se e o Rei ordenou às armarias de Pi-Ramsés e de Mênfis para fabricarem grande quantidade de espadas, lanças e escudos.

  - Manobras em vista?

  - É a hipótese mais provável. Uma demonstração de força na Palestina acalmaria eventuais rebeliões. Os chefes de tribo poderiam acreditar que Merenptah é mais fraco do que Ramsés e fomentar graves perturbações.

  - Tens indícios formais?

  - Nada mais, general. Na minha opinião, devíeis ir a Pi-Ramsés para apreciar melhor a situação. Permanecer isolado em Tebas não vos convém, tanto mais que o vosso renome cresce e que diversos dignitários próximos do Rei gostariam de vos encontrar.

  O oficial tinha razão, mas era necessário um bom pretexto para efetuar essa viagem. Esse pretexto, seria o Lugar de Verdade a proporcioná-lo a Mehi.

                              

  Depois de oito dias de trabalho intenso, os artesãos da equipa da direita saboreavam as suas quarenta e oito horas de descanso na aldeia antes de regressarem ao Vale dos Reis.

  A sua tranqüilidade foi brutalmente perturbada pelas vociferações de um casal que lançava mutuamente à cara injúrias e peças de louça.

  - Dir-se-ia que isto vem de casa de Fened - disse Uabet a Pura ao marido, que se divertia a atirar Aperti ao ar e apanhá-lo no último momento, o que provocava as gargalhadas do garoto.

  - Uma pequena disputa com a mulher... Parece que ela não é de trato fácil.

  - Parece mais um pugilato. Não devias intervir?

  Como Paneb gostava muito de Fened o Nariz, entregou o filho a Uabet, saiu de casa e meteu pela ruela até casa do talhador de pedra cuja porta estava aberta.

  Um belo prato de alabastro raspou a têmpora do jovem colosso.

  - Acalmem-se! - ordenou.

  Fened saiu da pequena casa branca e esbarrou em Paneb.

  - Fujamos - recomendou - que a minha mulher enlouqueceu!

  Considerando a abundância de projéteis, Paneb seguiu o colega que corria sem se voltar.

  Já fora de alcance, retomou fôlego.

  - Obrigado pela tua ajuda, mas até um exército de gigantes seria impotente face a uma esposa fora de si. Desta vez, foi longe demais... Vou pedir o divórcio.

  - Reflete bem... O que lhe censuras?

 - Não estamos de acordo em nada, mais vale separarmo-nos.

  - É uma decisão grave, Fened; talvez se possam reconciliar.

  - Ela já não me compreende, nem eu a compreendo a ela.

  Em passo decidido, Fened o Nariz penetrou na sala de audiências de Kenhir, ocupado em redigir o Diário do Túmulo.

  - Quero divorciar-me.

  O escriba do Túmulo não levantou os olhos.

  - Estás consciente que te vai ser necessário mudar de domicíLio e deixar pelo menos um terço dos teus bens à tua esposa, que sem dúvida reclamará mais?

  - É uma questão de vida ou de morte.

  - Se o caso é assim... O meu assistente preparará a pasta  necessária.

  Kenhir chamou Imuni que classificava os papiros. Para surpresa de Fened, o escriba assistente mostrou-se delicado e compreensivo: graças a ele, o talhador de pedra enfrentou a prova com um certo otimismo. Competiria ao tribunal da aldeia tentar uma última reconciliação, ouvir os antigos esposos e repartir os bens adquiridos. Enquanto esperava, Imuni alojaria Fened o Nariz em  sua casa.

  Foi um Paneb pensativo que voltou para junto da mulher e do filho.

  - Nada sério? - perguntou Uabet.

  - Fened vai divorciar-se.

  - é terrível!

  - E...

  - Quem o visse, não acreditaria. É bizarro... Tenho mesmo a impressão que estava a representar.

  - Os divórcios são mais raros aqui do que nas outras aldeias, porque os artesãos previnem as futuras esposas do que as espera e elas conhecem a dimensão das suas tarefas materiais e rituais. Mas porque tentaria Fened enganar os outros?

  - Para fazer crer que está em desacordo com a mulher.

  - Com que intenção?

  - Não faço a mínima idéia.

  - Intrigas-me, Paneb. Vou tentar saber a verdade falando com ela.

  Paneb fora buscar água para a cozinha e acendia as lâmpadas, ao cair da noite, quando Userhat o Leão e Ipui o Examinador bateram à porta.

  - O mestre-de-obras pergunta por ti.

  Era a última noite de descanso antes de regressar ao Vale dos Reis e Uabet preparara um saboroso jantar.

  - É uma ordem?

  - És livre de recusar - respondeu Userhat.

  A resposta intrigou Paneb que se voltou para a esposa. Uabet a Pura sorriu-lhe.

  - Jantaremos mais tarde - disse numa voz estranha, como se fosse cúmplice dos visitantes.

  - O que quer Néfer?

  Userhat encolheu os ombros.

  - Nós não sabemos nada. Qual é a tua resposta?

  - Vamos lá.

  - Boa sorte - murmurou Uabet.

  O trio tomou a direção do grande templo, cuja entrada era guardada por Nakht o Poderoso.

  Se se tratava de um ajuste de contas diante da equipa, Paneb sentia-se pronto.

  - Acompanhamos um artesão desejoso de percorrer os dois caminhos - declarou Userhat. - Deixai-nos passar.

  Nakht afastou-se e o trio penetrou no pátio a céu aberto onde fora instalada uma tina cheia de água.

  - Despoja-te das tuas roupas - exigiu Ipui - e mergulha nesse líquido para te purificares.

  Depois de se ter imergido completamente, Paneb saiu da tina e foi convidado a franquear o limiar da primeira sala do templo.

  Na penumbra, sentados nos bancos de pedra ao longo das paredes, estavam os membros da equipa da direita.

  De repente, brotou uma chama.

  - Ousarias ultrapassar este obstáculo e entrar no círculo de fogo? - interrogou Userhat.

  Paneb ia lançar-se, Ipui reteve-o.

  - Toma este ramo sobre o qual foi desenhado um olho. Não arde nas chamas e os nossos antepassados utilizaram-no para percorrer os caminhos da água e do fogo.

  Erguendo o ramo à sua frente como um escudo, Paneb atravessou a cortina de chamas.

  Os artesãos ergueram-se e formaram um círculo em torno dele.

  No solo do templo tinham sido traçados dois caminhos sinuosos, um azul e o outro negro. Entre eles, um recipiente de onde saíam mais chamas.

  - Dois caminhos difíceis conduzem ao vaso sagrado de Osíris - declarou o mestre-de-obras. - O caminho da água é azul, o caminho de terra é preto e estão separados por um lago de fogo onde o Sol e o espírito do iniciado se regeneram. Esses dois caminhos opõem-se um ao outro e só os poderás percorrer pelo Verbo e a intuição das causas. Mas desejas ver o segredo do conhecimento.

  - Desejo-o de todo o meu coração.

  - Que a corda das metamorfoses seja desenrolada e que o ser justo siga o caminho de Maet.

  Userhat recuperou o ramo, Gau o Exato e Unesh o Chacal ajustaram um cordão sobre os dois caminhos.

  - Segue-me, Paneb - pediu Néfer o Silencioso.

  Os dois homens penetraram nas trevas de uma sala que terminava em três capelas fechadas por portas.

  - Vou correr o ferrolho - anunciou Néfer. - Nunca mais poderás esquecer o que verás e o teu olhar será transformado. Ainda é tempo, podes retirar-te depois de teres ouvido a voz do fogo.

  - Corre o ferrolho.

  O mestre-de-obras abriu a porta da capela do centro.

  Sobre a Pedra de Luz, coberta por um véu, encontrava-se um vaso de ouro selado, com a altura de um côvado.

  - O fogo protege o vaso do conhecimento no coração do silêncio e da obscuridade. Nele foram depositadas as linfas de Osíris, para sempre inacessíveis aos profanos. Nenhum ser que contemple este mistério morrerá da segunda morte, porque se tornará portador das fórmulas de conhecimento graÇas às quais não se decomporá no Ocidente.

  Néfer aproximou-se do vaso do qual Paneb julgou ver brotar clarões agressivos e apresentou-lhe uma estatueta de Maet.

  - Somos os filhos do Lugar de Verdade e oferecemos-te a deusa da retidão, a única que dissipa as trevas. Que a alma de Paneb suba ao céu, atravesse o firmamento e confraternize com os astros.

  A capela iluminou-se.

  No seu frontão, Paneb distinguiu um sol alado cuja luz era tão viva como a do meio-dia.

  - Ilumina os caminhos para o servidor do Lugar de Verdade - implorou o mestre-de-obras - que ele possa ir e vir sem ser impedido pelas trevas.

  Néfer retirou o selo que fechava o vaso e o véu que cobria a Pedra. O seu fulgor obrigou Paneb a fechar os olhos, mas reabriu-os rapidamente, protegendo-se com o antebraço.

  - Esta Pedra é o indomável que não pode ser subjugado - revelou o mestre-de-obras. - Nela estão talhados os escaravelhos encarregados de substituir o coração humano para a viagem do Além, mas não perde nenhuma parcela da sua substância porque a sua luz permanece eternamente semelhante a si mesma. Fica a saber que o céu é a nossa pedreira e a nossa mina de onde retiramos os materiais da obra.

  Néfer inclinou o vaso para a Pedra. Do seu gargalo saiu uma chama dourada de incrível beleza.

  Quando se voltou para Paneb, o mestre-de-obras segurava nas mãos um pequeno escaravelho talhado numa pedra verde de excepcional dureza.

  - Possuías o olho, eis o teu coração.

                              

  Instalados no primeiro corredor aberto com cuidado, Ched o Salvador e os seus desenhistas estudavam as representações do Faraó e dos deuses que figurariam nas paredes, bem como os textos hieroglíficos que traçariam signo por signo. Começariam pelas Litanias do Sol cujas fórmulas enigmáticas revelavam as múltiplas formas da luz divina.

  - Chefe, esbarramos numa encrenca! - clamou a voz angustiada de Karo o Mal-humorado.

  Néfer, que falava com os escultores no exterior do túmulo, entrou imediatamente para se juntar aos talhadores de pedra.

  - Olha para isto! - lamentou Karo. - Um enorme bloco de sílex! Se continuarmos a avançar em linha reta, de acordo com o teu plano, vai ser necessário escavar um sulco em toda a volta para o separar da massa e isso vai levar-nos muito tempo.

  O mestre-de-obras observou o bloco.

  - É magnífico.

  - Estou de acordo contigo - aprovou Fened o Nariz. - Não há nenhum tão belo em todo o vale, sem dúvida nenhuma.

  - Deixamo-lo aí e continuamos a direito - decidiu Néfer. - Essa rocha pertencerá ao túmulo e protegê-lo-á.

   Quando a equipa da direita se aproximou da aldeia para saborear dois dias de descanso, ouviu latidos e gritos de indignação.

  Néfer viu mulheres correndo na rua principal e nas ruelas secundárias.

  Por um instante, julgou que o Lugar de Verdade fora atacado e invadido, mas não detectou qualquer homem armado.

  Foi a bela Turquesa que surgiu na frente dos artesãos.

  - Vinde depressa... Há tantos macacos que não os conseguimos controlar! Pilham as cozinhas e brincam com a louça!

  A perseguição durou uma boa meia hora e terminou pela captura de uns vinte babuínos fêmeas. Assustadas, emitindo gritinhos lamentosos, foram reunidas em frente da casa de Nakht o Poderoso, sob a ameaça dos cães que obedeciam a Trigueiro e dos bastões que os artesãos brandiam, apertavam-se umas de encontro às outras.

  - Exterminemos estes animais! - propôs Casa o Cordame. Caso contrário, vão recomeçar!

  O talhador de pedra, bem firme sobre as enormes pernas, com o rosto quadrado e os grandes olhos transbordantes de fúria, aterrorizaria um animal selvagem.

  O pequeno macaco verde saltou-lhe para o ombro, como se implorasse clemência. A mão de Casa apertou o pescoço do animal, cujos olhos se encheram de terror.

  - Não lhe faças mal! - exigiu Paneb. - Ignoras que é o nosso gênio bom?

  - Um gênio bom que atrai as suas congêneres para espalhar a confusão na aldeia! Livra-nos destes macacos antes que firam as nossas crianças.

  A Mulher Sábia interveio.

  - Não vêem que estes animais são colhedoras de figos? É muito fácil acalmá-las! Pega nesta flauta, Turquesa, e toca.

  Logo a partir das primeiras notas da melodia que era tocada ao pé de uma figueira quando os babuínos trepavam para colher os frutos e depositá-los em cestos, os babuínos fêmeas acalmaram-se e olharam os humanos com olhos doces.

  Embaraçado, Casa o Cordame entrou em casa. O pequeno macaco verde refugiou-se no ombro de Paneb.

  - Qual a razão deste golpe de loucura? - perguntou este ao endiabrado que atraíra os babuínos para lhes mostrar um novo terreno de jogos.

  O acusado estava bem arrependido.

  - Não recomeces - avisou-o Paneb. - Aqui não gostamos de desordem.

  Clara designou quatro mulheres para conduzirem os babuínos fêmeas aos respectivos proprietários. Tiras de pano serviram de trelas e o cortejo partiu em grande brincadeira.

  - A agitação terminou finalmente? - perguntou Kenhir ao seu escriba assistente.

  - As macacas partiram - respondeu Imuni.

  - Não posso preocupar-me com tudo! Se continuarmos por este andar, em breve reinará a anarquia.

  - Garanto-vos que está tudo resolvido... Posso informar-vos que acabamos de receber um correio do general Mehi que pede para vos ver, bem como ao mestre-de-obras?

  - Quando ficarei finalmente tranqüilo?

  - E depois...

  - E depois mais o quê?

  - Niut a Vigorosa insiste em fazer a limpeza do vosso gabinete.

  Sucumbido, o escriba do Túmulo preferiu sair de casa e ir procurar Néfer o Silencioso para o levar a casa do administrador-principal da margem oeste.

  Mehi fechou as persianas de madeira para impedir o Sol de entrar na sala de audiências onde recebia Kenhir e Néfer.

  - Hoje o calor está insuportável; espero que não vos afete  muito.

  - Qual a razão desta conversa? - perguntou Kenhir.

  - Tenho de ir a Pi-Ramsés para apresentar ao Rei um relatório sobre as minhas atividades. No primeiro lugar figura a proteção do Lugar de Verdade e gostaria de saber se estais satisfeitos com o comportamento da minha administração em relação a isso.

  - Estamos - reconheceu Kenhir. - Suponho que desejais um testemunho escrito, não?

  - Se não for pedir-vos muito... E gostaria também de poder dar ao Faraó notícias em relação aos estaleiros em curso.

  - Compete-nos a nós, e só a nós, comunicar-lhe essas informações.

  - Tenho consciência disso, mas não poderia servir-vos de mensageiro?

  Kenhir consultou com o olhar o mestre-de-obras que não opôs qualquer objeção.

  - Quando tencionais partir, Mehi?

  - Logo que me entregardes o vosso relatório.

  - Tê-lo-eis depois de amanhã.

   À luz de uma grande lâmpada, o escriba do Túmulo acabava de redigir o relatório que confiaria a Mehi.

  - Continuas a parecer desconfiado em relação ao nosso protetor - disse a Néfer que verificava o plano do Templo dos Milhões de Anos de Merenptah.

  - Mantenho-me prudente.

  - O administrador-principal da margem oeste e general das forças armadas tebanas está devorado pela ambição, é um fato, mas no caso da entrega do cobre, ajudou-nos de forma decisiva.

  - Admito que sim.

  - Julgo ter compreendido aquilo que Mehi verdadeiramente pretende: conquistar a confiança do Faraó e pertencer ao círculo dos cortesãos e talvez ao dos conselheiros do Rei.

Mesmo que não deixe de nos dar graxa, está-se perfeitamente borrifando para o Lugar de Verdade e só pensa na capital, onde se decide a política do Pais.

  - É possível, mas não é imprudente confiar-lhe um relatório pormenorizado sobre os estaleiros? O procedimento habitual consiste em enviá-lo ao Faraó por correio especial.

  - Receias que a curiosidade de Mehi o leve a tirar o selo do papiro e a lê-lo, não é verdade?

  - Com efeito.

  - Conheces muito mal o velho Kenhir! Sei que a administração central está cheia de armadilhas e povoada de ambiciosos peritos na arte dos golpes baixos e das rasteiras para garantirem a respectiva promoção. Para permanecer em boas relações com Mehi, aceitei a sua proposta; mas se ele cometer o erro de ler o meu texto, arrisca-se a ter uma desagradável surpresa. O relatório pormenorizado será encaminhado pela via habitual quando tivermos ultrapassado o bloco de sílex e terminado o santuário do Templo dos Milhões de Anos.

 

  Impulsionado por uma forte corrente, o confortável barco de Mehi conduzi-lo-ia à capital em cerca de dez dias, se o capitão da tripulação de trinta marinheiros muito experientes cumprisse a promessa feita.

  No interior de uma confortável cabina de teto de correr, Serketa saboreava uvas ao mesmo tempo que bebia vinho branco fresco de Sais, leve e frutado. Aquela viagem encantava-a e não deixava de aparecer na ponte em trajes ligeiros para provocar o desejo dos marinheiros, na proximidade de uma fêmea inacessível.

  Aquele pequeno jogo divertia o marido, que a possuía com a brutalidade habitual e se congratulava com o efeito produzido pelos gritos de êxtase de Serketa sobre a tripulação.

  - Néfer o Silencioso não tem realmente ar de me apreciar muito e merece bem o seu apelido - confiou à esposa, enquanto esta refazia a maquiagem.

  - É uma estratégia - considerou ela. - Enquanto o escriba do Túmulo conversa contigo, o mestre-de-obras observa-te para melhor te poder avaliar. O importante é que eles aceitaram entregar-te um documento confidencial destinado ao Rei.

  Mehi apalpava o papiro enrolado e selado.

  - Devíamos lê-lo, meu doce amor. O Pai ensinou-me a imitar os selos de forma tão perfeita que ninguém se aperceberá. Não corres portanto qualquer risco se tomares conhecimento dessa mensagem e utilizares as informações que contém.

  O general hesitava.

  - Entregaram-ma com demasiada facilidade...

  - Não lhes demonstraste a tua incontestável amizade.

  - Sinto que eles desconfiam! E depois são artesãos, habituados a manipular qualquer material. Supõe que me prepararam uma armadilha e que ao quebrar esse selo lhes forneço a prova da despropositada curiosidade... Nunca mais me concederiam confiança.

  Serketa sentou-se nos joelhos do marido e apalpou por si o documento.

  - Considera-los assim tão manhosos para terem imaginado um ardil desses? Como seria excitante! Tens razão, meu doce amor, não toques nesse papiro. Quando o Rei o ler, saberemos se tomamos a decisão certa. Enquanto esperamos, divirtamo-nos!

  Serketa fez Mehi cair sobre o leito e colocou-se a cavalo nele.

                               

  Mehi e Serketa não ficaram desiludidos com Pi-Ramsés, a "cidade de turquesa" edificada no Delta por Ramsés o Grande. A nova capital ficava próximo dos turbulentos protetorados da Siro-Palestina e albergava uma enorme guarnição pronta a intervir rapidamente no caso de surgirem problemas. O defunto Faraó compreendera que o flanco nordeste do Pais proporcionava um corredor para a invasão aos povos da Ásia que há séculos sonhavam apoderar-se das riquezas do Egito.

  O Sol fazia brilhar os mosaicos envernizados de azul que adornavam as fachadas das casas e o palácio real tinha um maravilhoso aspecto, rodeado de jardins onde cresciam oliveiras, romãzeiras, figueiras e macieiras. ".Que alegria viver em Pi-Ramsés, afirmava uma canção popular, lá o pequeno é tão considerado como o grande, a acácia e o sicômoro espalham as suas sombras, o vento é suave e as aves brincam em torno dos lagos".

  Servida por dois braços do Nilo, as águas de "Ré e as águas de uaris", a capital possuía quatro templos dedicados a Amon, Set, Jadjit a verdejante" e Astarté, a deusa síria, e quatro casernas onde os soldados se encontravam bem alojados. Amplos armazéns recebiam as mercadorias trazidas pelo rio e a administração dispunha de imponentes edifícios.

  Um oficial introduziu o administrador-principal da margem oeste de Tebas na sala de audiências real à qual dava acesso uma escadaria monumental ornada de figuras de inimigos vencidos, símbolos das trevas contra as quais o Faraó devia lutar incessantemente.

  Mehi admirou as representações de jardins floridos e lagos povoados de peixes de cores vivas e sobrevoados por pássaros, mas o seu olhar rapidamente foi atraído pelo do senhor do Egito.

  De cabeça descoberta, com as feições vincadas, Meremptah dava uma impressão de força e gravidade.

  - Permiti, Majestade, que vos felicite pelo primeiro aniversário da vossa coroação e vos deseje numerosos anos de reinado.

  - Compete aos deuses decidir, Mehi. Adivinhaste as minhas intenções ao fazeres-me esta visita: ia ordenar-te que viesses a Pi-Ramsés para me prestares contas da situação em Tebas.

  - É excelente, Majestade. A prosperidade mantém-se e os vossos súbditos servem-vos fielmente.

  - O exército?

  - Sabeis a atenção especial que lhe concedo, Majestade. As tropas estão bem treinadas e dispõem de material em bom estado. Os oficiais são competentes e a segurança da região está garantida.

  - A frota de transporte?

  - Está pronta a partir por ordem vossa.

  - Tens confiança nos teus subordinados?

  - São bons profissionais, empenhados, como eu próprio, na grandeza e salvaguarda do nosso Pais.

  - Quando regressares a Tebas, vais intensificar os exercícios. Soldados de infantaria e dos transportes devem estar preparados para intervir.

  - Devo compreender, Majestade, que se anuncia um conflito?

  - Se houver problemas nas fronteiras, saberemos fazer-lhes frente.

  - Posso entregar-vos uma missiva da parte do escriba do Túmulo?

  Merenptah pareceu admirado.

  - É um procedimento pouco habitual.

  Mehi entregou o papiro ao monarca, que quebrou o selo, desenrolou e leu.

  - Kenhir felicita-te pelo teu comportamento em relação ao Lugar de Verdade e está convencido da tua absoluta lealdade, visto que me entregaste este documento intacto. Quem tivesse tentado consultá-lo teria feito os hieróglifos ficarem verdes em contato com o ar, devido à tinta especial que o escriba utilizou. Contata com os teus homólogos na caserna principal e está presente no meu próximo conselho de guerra, depois de amanhã.

  O general inclinou-se diante do seu soberano e retirou-se, com as costas alagadas em suor.

   A recepção era brilhante, as iguarias suculentas. Graças à sua eloqüência, Mehi conquistara dois generais, um dos transportes e um outro da infantaria. Quanto a Serketa, os requebros que fazia divertiam o diretor do armamento, que se deixava envolver nos seus caprichos de mulher-criança.

  O casal exultava com aquele convite para um faustoso serão que lhe permitia privar pela primeira vez com a alta sociedade de Pi-Ramsés e encontrar notáveis civis e militares.

  No fim do banquete, os servidores trouxeram taças de calcário cheias de água perfumada nas quais os convidados lavaram as mãos antes de passearem pelos jardins onde deliciosos aromas aumentavam a doçura da noite.

  Um rapaz de cerca de vinte anos, elegante e orgulhoso, aproximou-se do par.

  - Sou Amenmés. Sois o general Mehi?

 - Para vos servir... Esta é a minha esposa, Serketa.

  - Não tendes que servir-me, meu caro! Sou apenas o filho de Seti, filho e sucessor designado do nosso bem-amado Faraó. Contaram-me que fazíeis excelente trabalho em Tebas, a cidade onde nasci e que continua a ser querida ao meu coração.

  - Faço o melhor que posso.

  - As vossas forças armadas são efetivamente as mais bem equipadas do Sul, como pretendem os vossos amigos?

  - Velo para que nada lhes falte.

  - Gostaria tanto de voltar a Tebas... Aqui, a atmosfera é demasiado séria. A segurança das nossas fronteiras, o arsenal, as casernas... Que aborrecimento!

  - Receiam um conflito? - perguntou Serketa em tom inocente.

  - Há oficiais que não param de ir e vir entre a capital e as guarnições encarregadas de velar pelo nordeste. Por mais que interrogue o meu Pai sobre as razões desta agitação, ele recusa-se a responder-me porque me considera um jovem ocioso, incapaz de se interessar pelos assuntos de Estado.

  - Estou certa que se engana - sussurrou Serketa.

  - Claro que se engana! Mas não o conheceis... Não foi por acaso que ficou com o nome de Seti! Tem um caráter desconfiado e é dominado por cóleras violentas se a sua autoridade é ignorada. Sufoco em Pi-Ramsés!

  - Gostais de cavalos? - perguntou Mehi.

  - Galopar é a minha distração preferida!

  - Permitis que vos convide para Tebas, onde montareis um soberbo animal de rapidez inigualável?

  - Que projeto maravilhoso, Mehi! Finalmente, o futuro torna-se interessante... Vinde, vou apresentar-vos a alguns amigos.

  O general e a esposa travaram conhecimento com os princiPais membros do clã do jovem Amenmés, a maior parte dos quais eram filhos de dignitários que tinham servido fielmente Ramsés o Grande. Serketa fez gala dos seus encantos e Mehi explicou a sua gestão a fim de demonstrar competência.

  Quando terminou a recepção, Amenmés parecia encantado com aquela nova amizade.

  Mehi e a esposa estavam alojados num vasto apartamento reservado aos notáveis da província em visita a Pi-Ramsés. Serketa estendeu-se sobre a cama.

  - Estou estafada, mas que fabulosa estadia! Vimos o Rei e já és aceite na alta sociedade da capital!

  - Não nos alegremos demasiado cedo e desconfiemos da hipocrisia dos mundanos... Além disso, o dia ainda não acabou.

  Serketa ficou intrigada.

  - O que há mais?

  - Espero uma visita.

  O informador de Mehi, um oficial de posto superior em Per- Ramsés, bateu à porta.

  - Ninguém te seguiu?

  - Fui muito prudente e sairei pelo jardim.

  - Há realmente perigo de guerra?

  - É impossível afirmá-lo. É um fato que as tropas da capital foram colocadas em estado de alerta e as da fronteira noroeste reforçadas, mas pode tratar-se de uma simples demonstração de força habitual no início de um reinado. Merenptah quer mostrar aos eventuais agitadores que governará com o mesmo pulso que Ramsés e que não tolerará qualquer revolta na Siro-Palestina. Na minha opinião, a situação não é alarmante e, se se tornasse, não seríamos apanhados de surpresa.

  - Merenptah consolida portanto o seu poder...

  - É inegável. Os que o julgavam fraco enganaram-se.

  - De qualquer maneira, tem sessenta e seis anos - lembrou Serketa. - A corte deve fervilhar de rumores referentes à sua sucessão.

  - Merenptah tentou dissipá-los designando de forma oficiosa o filho Seti como futuro faraó. Este, aos quarenta e seis anos, é um homem maduro, experiente, hábil na arte de dirigir mas dotado de um caráter difícil.

  - Há alguma oposição séria?

  - Contra Merenptah, mais nenhuma. Contra Seti, é diferente... e bastante inesperado. O seu principal adversário é o filho, Amenmés. Odeia o Pai.

  - Por que razões?

  - Depois da morte da mãe de Amenmés, Seti voltou a casar com uma mulher tão bela como inteligente, Tausert. O filho não lhe perdoou o que considera uma traição. Além disso, o jovem sente-se magoado por ser