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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A NÁUSEA / Jean Paul Sartre
A NÁUSEA / Jean Paul Sartre

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A NÁUSEA

 

                                         FOLHA   SEM DATA

O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. Fazer um diário para os considerar com clareza. Não deixar escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes, e sobretudo ordená-los. Tenho de dizer como é que vejo esta mesa, a rua, as pessoas, a minha bolsa de tabaco, visto que foi isso que mudou. Tenho de determinar exactamente a extensão e a natureza dessa mudança.

Por exemplo, tenho aqui uma caixa de cartolina que contém o meu frasco de tinta. Devia tentar dizer como é que a via antes e como é que agora a... * Pois bem! É um paralelepípedo recto, sobressai dum fundo... Que tolice! Não há nada a dizer dela. É isto que é preciso evitar; é preciso não achar estranho o que não tem estranheza nenhuma. É este o perigo, creio eu, quando se faz um diário: exagera-se tudo, espia-se de mais, excede-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, dum momento para o outro - e justamente a propósito desta caixa ou doutro objecto qualquer - sentir de novo aquela impressão de anteontem. Tenho de estar sempre pronto, senão mais uma vez ela me escaparia. É preciso não... 2 coisa nenhuma, mas registar cuidadosamente e com minúcias extremas tudo o que acontece.

Está claro que já não posso escrever nada com nitidez sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou

 

* Uma palavra deixada em branco.

Uma palavra riscada (talvez «forçar», ou «forjar»); está outra escrita por cima, mas ilegível.

 

muito longe delas; tudo quanto posso dizer é que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que geralmente se chama um acontecimento. Sábado, uns garotos estavam a atirar pedrinhas ao mar para as fazer saltar de ricochete, e pretendi atirar uma como eles. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui-me embora. Devia ir com uns ares de transviado, com certeza, porque os garotos desataram a rir quando voltei as costas.

Isto, quanto ao exterior. O que se passou em mim não deixou traços claros. Havia qualquer coisa que vi e que me repugnou, mas já não sei se estava a olhar para o mar ou para a pedra. A pedra era chata; dum lado estava inteiramente seca, húmida e enlodada do outro. Tinha-a agarrado pelas beiras, com os dedos muito afastados, para não me sujar.

Anteontem, foi muito mais complicado. E tinha havido também uma série de coincidências, de equívocos, que não consigo explicar. Mas não vou perder tempo a confiar tudo isso ao papel. Enfim, é certo que tive medo ou qualquer sentimento desse género. Se ao menos soubesse de que tive medo, já seria um grande passo em frente.

O que é curioso é que não estou disposto de modo algum a considerar-me louco. Vejo com evidência que não estou louco: 'estas mudanças ocorrem todas nos objectos. É disso, pelo menos, que queria ter a certeza.

 

                                     Dez horas e meia

Pode bem ser, afinal, que tenha sido uma pequena crise de loucura. Já não restam sinais dela. Os sentimentos esquisitos da semana passada parecem-me hoje bastante ridículos: não consigo revivê-los. Esta noite estou muito à vontade, muito burguêsmente instalado no mundo. Aqui é o meu quarto, virado para o nordeste. Lá em baixo, a Rua

dos Mutilados e a estação nova, em construção. Vejo da janela, à esquina do Boulevard Victor-Noir, as luzes vermelhas e brancas do Rendez-vous dos Ferroviários. Chegou neste momento o comboio de Paris. As pessoas saem da estação velha e disseminam-se pelas ruas. Ouço passos e vozes. Muitos esperam o último eléctrico. Vão apinhar-se num grupinho triste à roda do candeeiro a gás, precisamente por baixo da minha janela. Pois olhem, ainda têm de esperar alguns minutos: o eléctrico não passa antes das dez e quarenta e cinco. Oxalá que não cheguem caixeiros viajantes esta noite: tenho tanta vontade de dormir e tanto sono atrasado. Uma noite bem dormida, uma só, chegaria para me varrer da cabeça todas estas histórias.

Onze menos um quarto: já não há que temer. Se tivessem vindo, já cá estavam. A não ser que seja o dia do sujeito de Ruão. Vem todas as semanas, reservam-lhe o quarto n." 2, no 1.º andar, o que tem um bidé. Talvez venha ainda: às vezes vai beber uma cerveja ao Rendez-vous dos Ferroviários antes de se deitar. Mas é pessoa que faz pouco barulho. É muito baixo e muito limpo, com bigode preto engraxado e chinó. Ele aí vem.

Sim, senhor, quando o ouvi subir a escada, o coração deu-me um baque de contentamento, tão reconfortante era a sua chegada: de que há que ter receio num mundo tão regular? Creio que estou curado.

E lá vem o eléctrico da linha 7 (Matadouro-Docas Grandes). Chega com um grande ruído de ferros velhos. Põe-se outra vez em andamento carregado de malas e de crianças adormecidas; vai agora sumir-se no negrume de este. em direcção das Docas Grandes e das fábricas. É o penúltimo eléctrico. O último passa daqui a uma hora.

Vou-me deitar. Estou curado, renuncio a escrever as minhas impressões dia a dia, como as rapariguinhas num lindo caderno novo.

Num caso apenas poderia ser interessante fazer um diário: no caso de... *

 

*1 Da noite, evidentemente.

 

O parágrafo que se segue é muito posterior aos precedentes. Somos levados a pensar que foi escrito no dia seguinte; mais cedo não, em todo o caso.

O texto da folha sem data termina aqui.

 

                                                                               DIÁRIO

 

                                   SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JANEIRO DE 1932

A CONTECEU-ME qualquer coisa; já não posso duvidar. -Ti. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se.

Não acho que a profissão de historiador disponha para a análise psicológica. É um trabalho em que só se entra em jogo com sentimentos inteiros, aos quais se dão nomes genéricos, como Ambição, Interesse. Se eu tivesse, porém, uma sombra de conhecimento de mim próprio, era agora que devia utilizá-la.

Nas minhas mãos, por exemplo, há qualquer coisa de novo, certa maneira de agarrar no cachimbo ou no garfo. Ou então é o garfo que tem agora uma maneira diferente de se deixar agarrar; não sei. Há bocadinho, quando ia entrar no meu quarto, detive-me repentinamente, porque senti na mão um objecto frio que me chamava a atenção, como se possuísse uma espécie de personalidade. Abri a mão, olhei: era simplesmente o fecho da porta. Hoje de manhã, na Biblioteca, quando o Autodidacta, veio cumprimentar-me.

 

*1 Ogier P..., de quem muitas vezes se falará neste diário. Era um ajudante de tabelião. Roquentin travara conhecimento com ele, em 1930, na Biblioteca de Bouville.

 

precisei duns dez segundos para o reconhecer.   Via diante de mim uma cara desconhecida, apenas uma cara. E depois havia a mão dele, como um grande bicho branco na minha mão. Larguei-a logo, e o braço caiu molemente.

Nas ruas há também uma quantidade de ruídos equívocos que perpassa.

Produziu-se pois uma mudança durante estas últimas semanas. Mas onde? uma mudança que não se fixa em sítio nenhum. Fui eu que mudei? Se não fui, então foi este quarto, esta cidade, esta natureza; é preciso escolher.

Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. E mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raras vezes penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso. e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução. Foi o que deu à minha vida estes solavancos, este aspecto incoerente. Quando saí de França, por exemplo, muita gente começou a dizer que a minha partida fora uma leviandade. E, quando voltei, bruscamente, após seis anos de viagem, de novo se podia ter falado de leviandade. Ainda me estou a ver, com Mercier, no gabinete daquele funcionário francês que se demitiu o ano passado, em consequência do caso Pétrou. Mercier dirigia-se a Bengala com uma missão arqueológica. Eu desejara sempre ir a Bengala, e ele instara comigo para que fosse ter com ele. Agora pergunto a mim próprio porquê. Creio que Mercier não tinha muita confiança em Portal e que contava comigo para o trazer debaixo de olho. Eu não via motivo para recusar. E mesmo se tivesse pressentido, na altura, esse pequeno conluio contra Portal, mais uma razão teria visto nisso para aceitar com entusiasmo. Pois bem, senti-me como paralisado, não podia dizer uma palavra. Estava a olhar

para uma pequena estatueta khmeriana, assente numa toalha verde ao lado dum telefone. Parecia-me que estava cheio de linfa ou de leite morno. Mercier dizia-me com uma paciência angélica que velava uma ponta de irritação:

«Não é? Tenho necessidade de obter uma resposta definitiva. Sei bem que você acabará por dizer que sim: valia mais aceitar já.»

Mercier deixa crescer a barba, que é dum negro arruivado, e perfuma-a muito. A cada movimento da sua cabeça eu respirava uma baforada de perfume. E depois, bruscamente, acordei dum sono de seis anos.

A estátua pareceu-me desagradável e estúpida, e senti que me aborrecia profundamente. Não conseguia compreender porque é que estava na Indochina. Que estava eu ali a fazer? Porque estava a falar com aquelas pessoas? Porque estava vestido duma maneira tão exótica? Tinha morrido a paixão que me submergia e arrastara durante anos; naquela altura sentia-me vazio. Mas não era isso o pior: defronte de mim, instalada com uma espécie de indolência, havia uma ideia volumosa e insípida. Não sei exactamente o que era, mas não podia olhá-la, a tal ponto ela me repugnava. Tudo isso se confundia para mim com o perfume da barba de Mercier.

Reagi, num acesso de cólera contra ele; respondi secamente:

«Agradeço-lhe, mas penso que já viajei bastante: agora tenho de voltar a França.»

Dois dias depois tomava o barco para Marselha.

Se não me engano, se todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal da minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante, nem preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me... arrastar-me para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo em meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.

 

                                             TERÇA-FEIRA, 30 DE JANEIRO.

                                             Nada de novo.

Trabalhei das nove à uma na Biblioteca. Pus em ordem o capítulo XII e tudo quanto se prende com a estada de Rollebon na Rússia, até à morte de Paulo I. É trabalho acabado: não voltarei a mexer-lhe antes da passagem a limpo.

É uma e meia. Estou no Café Mably, a comer uma sanduíche; tudo parece mais ou menos normal. De resto, nos cafés tudo é sempre normal, e especialmente no Café Mably, por causa do gerente, o Sr. Fasquelle, que traz sempre pintada na cara uma expressão acanalhada muito positiva e reconfortante. Daqui a nada é a hora da sua sesta: já tem os olhos vermelhos, mas conserva o andar vivo e decidido. Passeia entre as mesas e aproxima-se, confidencialmente, dos fregueses:

«Está tudo à vontade de V. Ex.a?»

Sorrio de o ver tão vivo: à hora em que o estabelecimento se esvazia, esvazia-se também a cabeça dele. Das duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos como embrutecido, os criados apagam as luzes, e ele resvala pela inconsciência: este homem, assim que fica sozinho, adormece.

Ainda estão na casa uns vinte fregueses, rapazes solteiros, engenheiros modestos, empregados. Almoçam todos rapidamente em pensões de família, a que chamam o seu rancho, e, como têm necessidade dum pouco de luxo, vêm aqui, depois da refeição, tomar um café e jogar ao poker de ases; fazem um certo barulho inconsistente que não me incomoda. Também estes, para existir, precisam de se reunir uns com os outros.

Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém. O Autodidacta não conta. É verdade que há Françoise, a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Mas pode dizer-se que falo com ela? Às vezes, depois de jantar, quando vem servir-me uma cerveja, pergunto-lhe:

«Esta noite você tem tempo?»

Nunca diz que não, e então sigo-a a um dos quartos grandes do 1.º andar, que ela aluga à hora ou ao dia. Não lhe pago senão o quarto. Ela goza (precisa dum homem por dia, e, além de mim, tem muitos outros) e eu purgo-me assim de certas melancolias cuja causa conheço perfeitamente. Mas mal trocamos algumas palavras. Para quê? Cada um por si; aos olhos dela, de resto, continuo a ser, antes de mais nada, um freguês do café. Diz-me assim, ao despir o vestido:

«Ouça lá, você conhece um aperitivo chamado Bricot? É que houve dois fregueses, esta semana, que pediram. A rapariga não sabia, veio prevenir-me. Eram caixeiros viajantes; foi coisa que beberam em Paris, com certeza. Mas não gosto de comprar sem saber. Se não se importa, não tiro as meias.»

Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado-, Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso por ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem, e esqueço-me logo deles.

Estes rapazes fazem a minha admiração: contam, ao beber o seu café, histórias nítidas e verosímeis. Se lhes perguntarem o que fizeram ontem, não se perturbam: põem--nos ao corrente em duas palavras. No lugar deles, eu titubearia. É verdade que há muitíssimo tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verosimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se; vêem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos! Mas não se perde nada, em compensação, de quanto é inverosímil, de tudo em quanto, nos cafés, não se poderia acreditar. Por exemplo, sábado à tarde, eram umas quatro horas, pelas tábuas que servem de passeio nas obras da estação nova, uma mulherzinha vestida de azul-celeste corria às recuadas, a rir, dizendo adeus com um lenço. Ao mesmo tempo, um negro, de impermeável creme, sapatos amarelos e chapéu verde, dobrava a esquina da rua, a assobiar. A mulher, sempre às recuadas, veio esbarrar com ele, mesmo por baixo duma lanterna que está pendurada na paliçada e se acende de noite. Havia portanto ali, ao mesmo tempo, aquela paliçada que cheira tanto a madeira molhada, aquela lanterna, aquela mulher-zinha loura nos braços dum negro, sob um céu de fogo. Se estivessem comigo três ou quatro pessoas, suponho que teríamos reparado no choque, em todas essas cores desmaiadas, no belo casaco azul que parecia um edredão, no impermeável claro, nos vidros vermelhos da lanterna; teríamos rido da estupefacção que se desenhava naqueles dois rostos de criança.

É raro um homem só ter vontade de rir: aquele conjunto animou-se para mim dum sentido muito forte e até feroz, mas puro. Depois desmanchou-se; ficou só a lanterna, a paliçada e o céu: mas subsistia ainda uma certa beleza. Uma hora depois, a lanterna estava acesa, levantara-se vento, o céu escurecera; já nada restava do caso.

Nada disto é muito original; nunca recusei estas emoções inofensivas; pelo contrário. Para as sentir, basta ficar--se sozinho um momento, só o preciso para nos desembaraçarmos, na altura oportuna, da verosimilhança. Antes conservava-me muito perto das pessoas, à superfície da solidão, bem decidido, em caso de alarme, a refugiar-me no meio delas: no fundo, até aqui, era um amador.

Agora há em toda a parte coisas como aquele copo de cerveja, além, em cima da mesa. Quando o vejo, tenho vontade de dizer: «Ferrados! Não brinco mais.» Compreendo perfeitamente que fui longe de mais. Acho que não se pode manter a solidão quietinha no seu lugar. Não quer dizer que eu vá olhar para debaixo da cama antes de me deitar, nem que receie ver a porta do quarto abrir-se bruscamente ao meio da noite. Somente, apesar de tudo, estou inquieto: há talvez meia hora que evito olhar para aquele copo de cerveja. Olho para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Mas o copo, não quero vê-lo. E sei muito bem que nenhum destes homens que me cercam, solteiros como eu, pode prestar-me o menor auxílio: é tarde de mais, já não posso refugiar-me entre eles. Viriam dar-me palmadinhas nas costas, dir-me-iam: «Então, que é que tem este copo de cerveja? É como todos os outros. Biselado, com uma asa, tem gravado um escudozinho com uma pá, e por cima do escudo está escrito spatenbrüu.» Tudo isto eu sei, mas sei também que há outra coisa. Quase nada. Mas já não posso explicar o que vejo. A ninguém. É isso: vou deslizando suavemente para o fundo da água, direito ao medo.

Estou sozinho no meio desta? vozes alegres e razoáveis. Todos estes fulanos passam o seu tempo a explicar-se uns aos outros, a reconhecer com contentamento que são da mesma opinião. Que importância que ligam, meu Deus, ao facto de pensarem todos juntos as mesmas coisas. Basta ver a cara que fazem quando passa pelo meio deles um desses homens com olhos de paigo, que parece que andam a olhar para dentro, e com quem, de forma nenhuma, se pode chegar a acordo. Quando eu tinha oito anos, e brincava no Luxemburgo, havia um que vinha sentar-se numa guarita situada junto ao gradeamento que margina a Rua Auguste-Cornte. Não dizia nada, mas, de vez em quando, estendia uma perna e olhava para o pé com um ar de terror. Esse pé tinha calçada uma bota, mas o outro estava enfiado numa pantufa. O guarda disse ao meu tio que esse homem era um antigo censor. Tinham-no reformado, porque viera ler as notas do período, nas aulas, em trajo de académico. Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que estava sozinho. Um dia sorriu para Robert, estendendo os braços para ele, de longe: por um pouco, Robert não desmaiou. Não era o ar miserável do tipo que nos metia medo, nem o tumor que tinha no pescoço, e que constantemente esfregava na beira do colarinho: é que sentíamos que ele gerava na cabeça pensamentos de caranguejo ou de lagosta. E a nós aterrorizava-nos que se pudessem alimentar pensamentos de lagosta quanto à guarita, quanto aos nossos arcos, quanto aos tufos de arbustos.

É isso então o que me espera? Aborreço-me, pela primeira vez, de estar sozinho. Gostava de falar a alguém do que me está a acontecer, antes que seja tarde, antes de meter medo aos rapazes pequenos. Gostava que Annv. estivesse aqui.

É curioso: acabo de escrever dez páginas, e não disse a verdade -não disse, pelo menos, a verdade toda. Se escrevi, por baixo da data, «Nada de novo», foi com a consciência a protestar: com efeito, uma pequena história, que não é vergonhosa nem extraordinária, recusava-se a sair. «nada de novo.» Admiro-me de como se pode mentir com a verdade na mão. Evidentemente, não se produziu nada de novo. se assim quisermos: esta manhã, às oito e um quarto, ao sair do Hotel Printania para ir à Biblioteca, quis apanhar um papel que estava no chão, e não pude. É tudo; nem isso constitui um acontecimento. Sim, mas, para dizer a verdade toda, fiquei profundamente impressionado: pensei que deixara de ser livre. Na Biblioteca procurei libertar-me dessa ideia, e não consegui. Quis fugir-lhe indo para o Café Mably. Esperava que ela se dissipasse com as luzes. Mas a ideia ficou onde estava, em mim, pesada e dolorosa. Foi ela que me ditou as páginas precedentes. Porque é que não falei dela? Deve ter sido por orgulho, e também um pouco por inépcia. Não tenho o costume de contar a mim próprio o que me vai sucedendo; por isso não recordo bem a sucessão dos acontecimentos, não distingo o que é importante. Mas, agora, acabou-se: reli o que tinha escrito no Café Mably, e tive vergonha: não quero segredos, nem estados de alma, nem inefáveis; não sou virgem, nem padre, para brincar à vida interior.

Não há grande coisa a dizer: não pude apanhar o papel, mais nada.

Gosto   imenso   de   apanhar   do   chão   castanhas,   trapos já velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca, como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pi-eriço. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à teiia. Outras novinhas ou, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, alentam no chão como cisnes, mas já a terra por baixo a vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da Lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a talear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se- e«tão muito húmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore.

Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as- bolas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial. com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente dum caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefacções, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma humidade cor-de-rosa; em alguns sitios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas .. Não pude.

Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado -O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero.

Os objectos não deviam impressionar-nos u tacto, visto que não vivem. Servimo-nos deles, poino-los no seu lugar, vivemos no meio deles: são úteis, nada mais. E. a mim, os objectos tocam-me; é insuportável. Tenho medo de entrar em contacto com eles, como se fossem animais vivos.

Agora percebo; lembro-me melhor do que senti, no outro dia à beira-mar, quando tinha a pedra na mão. Era uma espécie de enjoo adocicado. Que desagradável que era! E a sensação vinha da pedra, tenho a certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim, é isso. Era exactamente isso: uma espécie de náusea nas mãos.

 

                               QUINTA-FEIRA,   DE MANHÃ,   NA   BIBLIOTECA

Há bocadinho, ao descer a escada do hotel, ouvi Lucie, pela centésima vez, queixar-se à patroa, enquanto encerava os degraus. A patroa falava com esforço e em frases curtas, porque ainda não tinha posto a dentadura; estava quase nua, de roupão e em chinelos. Lucie estava suja, como de costume; de vez em quando parava de encerar e endireitava-se sobre os joelhos a olhar para a patroa. Falava sem interrupção, num tom de pessoa ajuizada.

«Preferia cem vezes que ele andasse atrás de saias», dizia ela; «que me importava, desde que isso não lhe fizesse mal?»

Era do marido que falava: à beira dos quarenta anos, esta pequena negrucha pescou, com as suas economias, um bonito rapaz, ajustador de peças nas oficinas Lecointe. Mas não é feliz. O marido não lhe bate, não a engana: bebe; todas as noites chega a casa embriagado. Não vai por bom caminho; em três meses, vi-o tornar-se amarelo e ficar na espinha. Lucie pensa que é da bebida. Eu penso que seja da tuberculose.

«É preciso reagir», dizia Lucie.

A ideia vai-a roendo, tenho a certeza, mas com lentidão, com paciência: ela reage, mas não é capaz de se consolar, nem de se abandonar ao seu mal. Pensa no caso um bocadinho, um bocadinho pequenino, tira partido dele. Sobretudo quando está acompanhada, porque os outros a consolam, e também porque faz bem falar no assunto com um tom presumido, com ar de quem dá conselhos. Quando anda sozinha pêlos quartos, ouço-a cantarolar, para afugentar os pensamentos. Mas passa todo o dia cabisbaixa, cansa-se de-pressa e amua:

«É aqui», diz ela tocando na garganta, «trago aqui um nó.»

Há avareza na sua maneira de sofrer. Nos seus prazeres deve haver também. Admira-me que esta mulher não tenha vontade, às vez'es, de se 'libertar daquela dor monótona, daquele resmonear que volta a moer, assim que ela deixa de cantar; que não deseje sofrer por uma vez, afogar-se no desespero. Mas, mesmo que quisesse, não poderia: aquele nó veda-lhe a saída ao sofrimento.

 

                                                    QUINTA-FEIRA,   DE   TARDE

«O Sr. de Rollebon era muito feio. A rainha Maria Antonieta gostava de lhe chamar a 'sua macaquinha'. Apesar disso, tinha, na corte, as mulheres que queria, não que se desse a palhaçadas, como Voisenon, o estupor: graças a um magnetismo que levava as suas belas conquistas aos piores excessos da paixão. Tece intrigas, desempenha um papel bastante equívoco no caso do colar, e desaparece em 1790, depois de ter mantido relações assíduas com Mirabeau-Tonneau e Nerciat. Voltamos a encontrá-lo na Rússia, onde contribui um pouco para o assassínio de Paulo I, e, a partir da Rússia, viaja até aos países mais distantes, à índia, à China, ao Turquestão. Manobra, enreda, espia. Em 1813 volta a Paris. Em 1816 chegou à omnipotência: torna-se o único confidente da duquesa de Angoulême. Esta velha, caprichosa e dominada por terríveis recordações de infância, assim que o vê acalma-se e sorri. Graças a ela, o marquês dá bisca e sota na corte. Em Março de 1820 casa com Mlle de Roquelaure, que é muito bela e tem dezoito anos. Ele tem setenta; está no pináculo das honras, no apogeu da sua vida. Sete meses mais tarde, acusado de traição, é preso, encerrado numa masmorra, onde morre, após cinco anos de cativeiro, sem sequer ter sido instruído o seu processo.» 1

Reli com melancolia esta nota de Germain Berger. Foi por estas curtas linhas que travei conhecimento com o Sr. de Rollebon. Como a pessoa me pareceu sedutora, e como, imediatamente por estas poucas palavras, me pus a gostar dela! É por causa dela, por causa deste homenzinho, que estou aqui. Quando voltei do estrangeiro, podia muito bem ter-me instalado em Paris ou em Marselha. Mas a maior parte dos documentos que dizem respeito às longas estadas, em França, do marquês encontram-se na Biblioteca Municipal de Bouville. Rollebon era castelão de Marommes. Antes da guerra vivia ainda nessa aldeia um descendente

 

*1 Germain Berger: Mirabeau-Tonneau et sés amis, p. 406, nota 2, Champion, 1906.   (Nota do editor francês.)

 

seu, um arquitecto chamado Rollebon-Campouyré, e que legou, por sua morte, em 1912, uma colecção muito importante à Biblioteca de Bouville: cartas do marquês, um fragmento de diário, papéis de todas as espécies. Ainda não espiolhei tudo.

Estou contente por ter dado com as minhas notas. Há dez anos que não as relia. A minha letra mudou, tenho a impressão: antes escrevia mais miudinho. Como eu gostava do Sr. de Rollebon nesse ano! Lembro-me duma tarde - uma terça-feira, à tarde: tinha trabalhado todo o dia na Mazarine; acabava de adivinhar, examinando a sua correspondência de 1789-1790, a maneira magistral como o marquês tinha ludibriado Nerciat. Já escurecera; vinha a descer a Avenida do Maine e, à esquina da Rua da Gaite,! comprei castanhas. Que feliz que me sentia! Ria intima' mente a pensar na cara que certamente Nerciat fizera, acl voltar da Alemanha. A figura do marquês é como a tinta com que escrevo: empalideceu muito, desde que trabalho com ela.   

Antes de mais nada, a partir de 1801 deixo de lhe compreender os actos. Não são os documentos que faltam: cartas, fragmentos de memórias, relatórios secretos, arquivos! da polícia. Pelo contrário, tenho documentos de mais. O que falta, em todos estes testemunhos, é firmeza, consis tência. Não se contradizem, isso não, mas também não concordam; dir-se-ia que não se referem à mesma pessoa. E, todavia, os outros historiadores trabalham sobre informações da mesma espécie. Como é que fazem? Serei mais escrupuloso ou menos inteligente? Formulado assim, de resto, o problema deixa-me indiferente de todo. Afinal, ele que é que andou à procura? Não faço ideia. Durante muito tempo o homem, Rollebon. interessou-me mais que o livro a escrever. Mas, agora, o homem... o homem começa a aborrecer-me. É ao livro que me prendo, sinto uma necessidade cada vez mais forte de o escrever - à medida que vou envelhecendo, dir-se-ia.

Evidentemente, pode admitir-se que Rollebon tenha tomado parte activa no assassínio de Paulo I, que tenha aceitado em seguida uma missão de alta espionagem no Oriente, por conta do czar, e traído constantemente o czar em benefício de Napoleão. Pode ao mesmo tempo ter mantido uma correspondência activa com o conde de Artois e ter-lhe comunicado informações de pouca importância para o convencer da sua fidelidade. Nada disto é inverosímil; Fouché, na mesma altura, representava uma comédia muito mais complexa e perigosa. Talvez também o marquês fizesse por sua conta comércio de espingardas com os principados asiáticos.

Sim, é verdade: fez possivelmente tudo isso, mas nada está provado; começo a pensar que não se pode provar coisa nenhuma. São tudo hipóteses sustentáveis e capazes de explicar os factos: mas vejo distintamente que saem de mim próprio, que são apenas uma maneira de unificar os meus conhecimentos. Do lado de Rollebon não vem a mínima luz. Lentos, preguiçosos, enfadados, os factos conformam-se mais -ou menos com a ordem que entendo dar-lhes; mas o marquês permanece-lhes exterior. Fica-me a impressão de fazer um trabalho de imaginação pura. E, mesmo assim, tenho a certeza de que personagens de romance pareceriam mais verdadeiras: seriam, em todo o caso, mais divertidas.

 

                                         SEXTA-FEIRA

Três horas. Três horas é sempre tarde ou cedo para aquilo que queremos fazer. Um momento do dia, bem particular. Hoje, então, é intolerável.

Um sol frio branqueia a poeira dos vidros. Um céu pálido, mesclado de branco. De manhã, os regatos estavam gelados.

Estou perto do calorífero, a fazer uma digestão pesada; sei de antemão que o dia está perdido. Não farei nada que preste, excepto, talvez, à noitinha. É por causa do sol que apura vagamente umas brumas brancas, sujas, suspensas no ar por cima das obras; que entra pelo meu quarto, muito louro, muito pálido, e me expõe, em cima da mesa, quatro reflexos baços, e falsos.

O meu cachimbo é duma madeira sarapintada de verniz dourado que começa por atrair os olhos com uma aparência de alegria: atentamos nela, e o verniz derrete-se; fica apenas um grande rasto desmaiado sobre um pedaço de pau. E é assim com tudo, até com as minhas mãos. Quando está sol, como agora, o que eu devia fazer era ir-me deitar O pior é que dormi como um bruto a noite passada e não tenho sono.

Gostei tanto do céu de ontem, um céu estreito, negro de chuva, que vinha encostar-se aos vidros, como um rosto ridículo e comovente! Este sol que está não é ridículo antes pelo contrário. O que me agrada nele é sobretudo a claridade que desce sobre os ferros oxidados das obras sobre as tábuas podres da paliçada, luz avara e modesta semelhante ao olhar que se deita, depois duma noite sem dormir, às decisões tomadas no entusiasmo da véspera, às páginas escritas sem emendas, duma só penada. Os quatro cafés do Boulevard Victor-Noir, que brilham de noite, ao lado uns dos outros, e que são muito mais do que simples cafés - aquários, barcos, estrelas ou grandes olhos brancos, perderam a sua graça ambígua.

Um dia ideal para fazer um exame interior: esta claridade fria que o sol projecta, como uma sentença sem in dulgência, sobre as criaturas, entra em mim pêlos olhos, estou iluminado, por dentro, por uma luz depauperante Bastar-me-ia um quarto de hora, tenho a certeza, para chegar ao asco supremo por mim próprio. Muito obrigado não estou interessado. Também não vou reler o que escrevi ontem sobre a estada de Rollebon em S. Petersburgo. Deixo-me ficar sentado, de braços caídos, ou então traço algumas palavras, sem coragem, bocejo, espero que a tarde caia. Quando vier a noite, eu e os objectos sairemos deste estado vago.

Rollebon participou ou não no assassínio de Paulo 12 Eis a pergunta do dia: cheguei a este ponto, e não posso continuar sem ter decidido.

Segundo Tcherkoff, o marquês recebia dinheiro de conde de Pahlen. A maior parte dos conjurados, dia Tcherkoff, ter-se-iam contentado com destituir o czar e pren dê-lo (Alexandre parece, com efeito, ter sido partidário desta solução). Mas, possivelmente, Pahlen quis acaLar duma vez com o soberano. O Sr. de Rollebon teria sido

encarregado de compelir individualmente os conjurados ao assassínio.

«Foi visitar todos, um por um, e mimava a cena que ia desenrolar-se, com uma sugestão incomparável. Assim fez surgir ou desenvolveu neles a ideia louca do crime.»

Mas desconfio de Tcherkoff. Não é uma testemunha serena, é um mago sádico e um semilouco: leva tudo para o demoníaco. Não vejo, nem por sombras, o Sr. de Rollebon nesse papel melodramático. Mimar a cena do assassínio? Ora, ora! O marquês é uma pessoa fria, não arrasta geralmente os outros com ele: não faz ver, intima, e o seu método, discreto e sem cores, só resulta com homens da sua espécie, com intriguistas que ponderam os motivos, com políticos.

«Adhémar de Rollebon», escreve a Sr.* de Charrières, «não descrevia quando falava, não fazia gestos, não mudava de entoação. Conservava os olhos meio fechados, de modo que mal se lhe podia surpreender, entre as pestanas, a orla extrema das pupilas cinzentas. Há poucos anos que ouso confessar a mim própria quanto ele me aborrecia. Tinha uma maneira de falar que lembrava um pouco a maneira de escrever do padre Mably.»

E foi esse homem que, -com o seu talento para mimar... Mas então como seduzia ele as mulheres? E depois, há aquela anedota que refere Ségur e que me parece verdadeira:

Em 1787, numa estalagem perto de Moulins, estava a morrer um velho, amigo de Diderot, formado pêlos filósofos. Os padres das redondezas estavam extenuados: tinham tentado tudo em vão; o homenzinho recusava os últimos sacramentos: era panteísta. O Sr. de Rollebon, que passou por ali e que não acreditava em nada, apostou com o pároco de Moulins que, em menos de duas horas, seria capaz de converter o doente aos sentimentos cristãos. O pároco aceitou a aposta, e perdeu: atacado às três horas da manhã, o doente confessou-se às cinco e morreu às sete. «Sois, na verdade, muito forte na arte da controvérsia», reconheceu o pároco; «levais a palma aos nossos!» «Não controverti», respondeu o Sr. de Rollebon. «meti-lhe medo com o Inferno.»

Agora, tomou ele ou não parte activa no assassínio Nessa noite, pelas oito horas, um oficial, seu amigo, acompanhou-o até à porta de sua casa. Se voltou a sair, como é que pôde atravessar S. Petersburgo sem ser incomodado: Paulo, meio louco, dera ordem para deter, a partir daí nove da noite, todos os transeuntes, excepto as parteiras e os médicos. Vai-se acreditar na lenda absurda, segundo a qual Rollebon se teria mascarado de parteira para poder chegar ao palácio? No fim de contas, era bem capaz disso Seja como for, não estava em casa na noite do assassínio isso parece provado. Alexandre devia suspeitar bastante dele, visto que um dos primeiros actos do seu reinado foi afastar o marquês da corte, com o vago pretexto duma missão no Extremo Oriente.

O Sr. de Rollebon aborrece-me. Levanto-me, mexo-me sob esta luz pálida; vejo-a resvalar pelas minhas mãos e pelas mangas do meu casaco: não se imagina a que ponto ela me causa aversão. Bocejo. Acendo o candeeiro que está em cima da mesa: talvez a sua luz possa sobrepor-se à do dia. Não pode: o candeeiro mal consegue formar, à roda da base, uma poça desprezível. Apago; levanto-me. Na parede há um buraco branco, o espelho. É uma ratoeira. Sei que vou lá cair. Já está. A coisa cinzenta acaba de surgir no espelho. Aproximo-me e olho para ela; já não posso desviar-me.

É o reflexo da minha cara. Muitas vezes, nestes dias, perdidos, fico a contemplá-lo. Não percebo nada desta cara. As dos outros têm um sentido. A minha, não. Nem posso decidir se é bonita ou feia. Acho que é feia, porque mo disseram. Mas não é propriedade que me salte à vista. A bem dizer, até me surpreende' que se lhe possam atribuir qualidades desse género, como se se chamasse bonito ou feio a um bocado de terra ou a um bloco de rocha.

Há, todavia, uma coisa cuja vista dá prazer; por cima das regiões moles das faces, acima da testa: é esta bela labareda vermelha que me doura o crânio, são os meus cabelos. Isto sim, é agradável de se ver. É, pelo menos, uma cor nítida: estou contente por ser ruivo. Ali está ela, no espelho, salta aos olhos, irradia fogo. Muita sorte tenho eu: se a minha testa suportasse uma dessas cabeleiras sem brilho que não chegam a decidir-se entre castanho e louro, a minha expressão perder-se-ia no vago, dar-me-ia vertigens.

O meu olhar desce lentamente, com enfado, por esta testa, por estas faces: não encontra nada de firme, afoga-se. Evidentemente, aquilo é um nariz, aquilo são uns olhos, aquilo uma boca, mas nada disso tem sentido, nem sequer expressão humana. Todavia, Anny e Vélines achavam que eu tinha um ar de vivacidade; devo estar habituado de mais à minha cara. A minha tia Bigeois dizia-me, quando eu era pequeno: «Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.» Olhei muito, muito tempo, com certeza: o que lá vejo está muito abaixo do macaco, na fronteira do mundo vegetal, ao nível dos pólipos. Tem vida, não digo que não; mas não é nessa vida que Anny pensava: noto na imagem do espelho uns leves estremeções, vejo uma carne desenxabida que se distende e palpita com abandono. Os olhos, principalmente, de tão perto, são horríveis. São uma coisa vítrea, mole, cega, orlada de vermelho; parecem escamas de peixe.

Amparo-me, com todo o meu peso, à moldura de faiança, aproximo a minha cara do espelho até lhe tocar. Os olhos, o nariz e a boca desaparecem: já nada resta de humano. Rugas escuras de ambos os lados do inchaço febril dos lábios, gretas, montículos. Uma sedosa penugem branca corre sobre os grandes declives das bochechas; dois pêlos saem das narinas: é uma carta geológica em relevo. E, apesar de tudo, este mundo lunar é-me familiar. Não posso dizer que lhe reconheça os pormenores. Mas o conjunto produz-me uma impressão de coisa já vista que me entorpece: resvalo lentamente para o sono.

Tento reagir: uma sensação viva e brusca libertar-me-ia. Espalmo a mão esquerda na face, puxo pela pele; desenha-se no espelho uma careta. Uma metade inteira do meu rosto cede, o lado esquerdo da boca torce-se e incha, destapando um dente, a órbita abre-se sobre um globo branco, sobre uma carne cor-de-rosa e ensanguentada. Não é o que eu procurava: nada de forte, nada de novo; tudo doce, indeciso, já visto! Estou prestes a adormecer de olhos abertos; já a cara cresce, cresce no espelho, torna-se um imenso halo pálido a boiar na luz...

O que me faz acordar bruscamente é que estou a perder o equilíbrio. Dou por mim a cavalo numa cadeira, de frente para trás, ainda estonteado. Os outros homens terão tanta dificuldade como eu em julgar o seu rosto? Parece-me que vejo o meu, como sinto o corpo, numa sensação surda e orgânica. E os outros? Rollebon, por exemplo? Dar-lhe, -ia sono também olhar nos espelhos para o que a Sr.s de Genlis chama «a sua carinha enrugada, dum meticuloso asseio, mas toda picada das bexigas, onde havia uma malícia singular que saltava aos olhos, por mais que ele fizesse para a dissimular. O marquês dedicava», continua ela, «grandes cuidados ao penteado, e nunca o vi sem cabeleira, Mas as suas faces eram dum azul que atirava para o negro. porque tinha a barba espessa e queria barbear-se a si próprio, operação que fazia muito mal. Tinha o costume de se pintar com alvaiade, à maneira de Grimm. O Sr. de Dan-geville dizia dele que, com tanto branco e azul, parecia um queijo de Roquefort».

Acho que este marquês devia ser uma pessoa muito divertida. Mas afinal não foi assim que o viu a Sr.a de Charrières. Pelo contrário: ela achava-o, creio eu, bastante apagado. Talvez seja impossível cada um compreender a sua própria cara. Ou tudo vem talvez de que sou um homem sozinho... As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens.

Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite.

 

                                         Cinco e meia

Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir.

Vinha com ideias de ir para o quarto com a patroa, mas, mal tinha empurrado a porta, Madeleine, a criada, gritou-me:

«A patroa não está cá, foi dar umas voltas que tinha a dar.»

Senti uma viva decepção no sexo, um longo cocegar desagradável. Ao mesmo tempo, sentia a camisa roçar-me contra a ponta dos mamilos, e era cercado, arrastado, por um lento turbilhão colorido, um turbilhão de névoa, de luzes no fumo, nos espelhos, com os assentos que brilhavam ao fundo; e não via porque é que aquilo se passava ali, nem porque se passava assim. Estava no limiar da porta, hesitava; depois produziu-se um remoinho, uma sombra passou no tecto, e senti-me empurrado para diante. Era como se flutuasse, estava encadeado pelas brumas luminosas que, vindas de todos os lados, me penetravam ao mesmo tempo. Madeleine aproximou-se a boiar, despiu-me o sobretudo, e notei que ela tinha arrepiado os cabelos para trás e posto brincos: não a reconhecia. Olhava-lhe para as grandes bochechas que se chegavam cada vez mais para as orelhas. Na covinha das bochechas, abaixo das maçãs do rosto, havia duas manchas cor-de-rosa, bem isoladas, com ar de se aborrecerem no meio daquela carne pobre. As bochechas deslocavam-se, chegavam-se para as orelhas, e Madeleine sorria:

«Sr. Antoine, que é que toma?»

Então a Náusea acometeu-me, deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim.

Paguei. Madeleine levou-me o pires. O meu copo esmaga contra o mármore uma poça de cerveja amarela, onde flutua uma bolha. O assento está desencaixado, no sítio em que me sentei, e sou obrigado, para não escorregar, a fincar as solas dos sapatos no chão, com força. Está frio. À minha direita, uns sujeitos jogam às cartas sobre um pano de lã. Não os vi, ao entrar; senti simplesmente que estava ali uma trouxa morna, meio sobre o assento, meio sobre a mesa do fundo, com pares de braços a agitar-se. Pouco depois, Madelaine levou-lhe as cartas, o pano e as fichas numa tigela de madeira. São três ou cinco, não sei, não tenho coragem para os olhar. Partiu-se uma mola dentro de mim: posso mover os olhos, mas não a cabeça. A minha cabeça está mole, elástica, dir-se-ia que me assenta no pescoço, sem estar presa; se a virar, deixo-a cair. Mesmo assim, ouço uma respiração curta, e vejo, de vês em quando, com o ratinho do olho, um clarão rubicundo coberto de pêlos brancos. É a mão de alguém.

Quando a patroa não está, é o primo que toma o lugar dela ao balcão. Chama-se Adolphe. Comecei a olhar para ele quando me ia sentar, e continuei, porque não podia virar a cabeça. Está em camisa, com suspensórios cor de malva; tem as mangas arregaçadas até acima do cotovelo Os suspensórios destacam-se mal da camisa azul; estão apegados, enterrados no azul, mas a sua humildade é falsa: na verdade, não se deixam passar despercebidos; irritam-me com a sua obstinação de carneiros, como se, destinados a chegar ao roxo, tivessem parado a meio sem abandonar as suas pretensões. Tem-se vontade de lhes dizer: «Vá lá, façam-se roxos, e não se fale mais nisso.» Mas não, ficam na incerteza, teimando num esforço que não levam até ao fim. Àí às vezes, o azul que os cerca desbota sobre eles, e encobre-os inteiramente: fico um instante sem os ver. Mas é uma onda apenas; depressa o azul desmaia aqui e além, e vejo reaparecer uns ilhéus duma cor de malva, hesitante, que se dilatam, se reúnem e reconstituem os suspensórios. O primo Adolphe não tem olhos: as suas pálpebras, empapuçadas e reviradas à beira, mal deixam ver a esclerótica. Sorri com um ar sonolento; de vez em quando, assopra, gane e agita-se debilmente como um cão a sonhar.

A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.

À minha direita, a trouxa morna põe-se a fazer um barulho confuso, agita os seus pares de braços.

«Pronto, aí tens o teu trunfo. - Qual é o trunfo?» Uma grande coluna vertebral debruçada sobre o jogo: «Ah! Ah!» «O quê? É aquele o trunfo, foi ele que o jogou.» «Não sabia, não vi...» «Ah, bom, então o trunfo é copas.» O homenzinho trauteia: «Trunfo copas, trunfo copas, trunfo copas.» Falando: «Então que é isso, meu caro senhor? Então que é isso? A vaza é minha!»

Outra vez o silêncio - o gosto açucarado do ar no fundo da boca. Os cheiros. Os suspensórios.

O primo levantou-se, deu alguns passos, pôs as mãos atrás das costas; sorri, endireita a cabeça e dobra-se para trás, equilibrado na beira dos calcanhares. Nessa posição, chega a dormitar. Fica assim, oscilando, sempre a sorrir, de bochechas a tremer. Vai cair. Inclina-se para trás, inclina-se, inclina-se, já tem a cara completamente virada para o tecto, depois, no momento de cair, ampara-se destramente à beira do balcão e recupera o equilíbrio. Então, a cena recomeça. Estou farto; chamo a criada:

«Madeleine, ponha-me música no gramofone, faça favor. Aquela de que eu gosto, lembra-se? O Some of these days.»

«Eu punha, mas tenho medo de incomodar aqueles senhores; eles não gostam de música enquanto estão a jogar. Olhe, vou pedir-lhes.»

Faço um grande esforço e consigo virar a cabeça. Os jogadores são quatro. A criada debruça-se sobre um velho encarniçado que usa, na ponta do nariz, umas lunetas de aros pretos. O velho esconde o jogo contra o peito e deita-me uma olhadela por baixo das lentes. «Ora essa, faça favor.»

Sorrisos. A criatura tem os dentes podres. Não é a ela que pertence a mão vermelha, é ao vizinho, um tipo de bigodes pretos. Este tipo de bigodes tem umas narinas imensas, que podiam sorver ar que desse para uma casa de família o que lhe comem metade do rosto; mas, apesar disso, respira pela boca, ofegando um pouco. Há também com eles um homem novo com cabeça de cão. Não distingo o quarto parceiro.

As cartas caem, rodopiando, no pano de lã. Depois umas mãos, com anéis nos dedos, vêm apanhá-las, arranhando o pano com as unhas. As mãos fazem manchas brancas no pano, têm um aspecto assoprado e poeirento. As cartas continuam a cair, as mãos vão e vêm. Que ocupação esta! Não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que eles fazem isto simplesmente para encher as suas horas vagas. Mas o tempo é largo de mais, não se deixa encher. Tudo quanto mergulha nele amolece e dá de si. Por exemplo, este gesto da mão vermelha, que apanha as cartas a vacilar, é todo flacidez. Haveria que descosê-lo e transformá-lo.

Madeleine dá à manivela do gramofone. Oxalá que não se tenha enganado, que não tenha posto, como no outro dia, a ária da Cavalleria Rusticana. Não! É isto, é: reconheço a música aos primeiros compassos. É um velho rag-time com estribilho cantado. Em 1917 ouvi os soldados americanos assobiá-lo, nas ruas de La Rochelle. Deve ser anterior à guerra. Mas a gravação é muito mais recente. Em todo o caso, é o disco mais velho da colecção, nn disco Pathé para agulha de safira.

Daqui a nada chega o estribilho: é dele sobretudo que gosto, e da maneira abrupta como se lança para a frente, como arribas pelo mar. De momento é o jazz que está a tocar; não há melodia, só notas, uma miríade de breves sacudidelas: não têm descanso, uma ordem inflexível fá-las nascer e destrói-as, sem lhes deixar um momento para tomarem fôlego, para existirem por si. Elas correm, apressam-se, dão-me, ao passarem de fugida, uma pancada seca, e voltam ao nada. Gostava de as apanhar, mas sei que, se chegasse a agarrar uma, só me ficaria entre os dedos um som ordinário e sem vida. Tenho de aceitar que morram; essa morte, devo até querê-la: conheço poucas impressões mais ásperas e mais fortes.

Começo a reanimar-me, a sentir-me feliz. Por enquanto não é nada de extraordinário, é uma felicidade modesta uma felicidadezinha de Náusea: aparece no fundo da poeira viscosa no fundo do nosso tempo - o tempo dos suspensórios cor de malva e dos assentos desencaixados -, feita de instantes largos e moles, que alastram pelas beira

como uma nódoa de gordura. Mal tinha nascido, já estava velha; parece-me que a conheço há vinte anos.

Há ainda outra felicidade: fora de mim há aquela faixa de aço. a duração limitada da música que atravessa o nosso tempo de lado a lado, e o recusa, e o rasga com as suas pontas secas e agudas; há um tempo diferente.

«Sr. Kantlti joga copas, tu deitas o ás.»

A voz desliza e desaparece. Nada morde na faixa de aço, nem a porta que se abre, nem a lufada de ar fresco que me apanha os joelhos, nem a chegada do veterinário com a neta: a música penetra nestas formas vagas e atravessa-as. Mal se sentou, a criança foi arrebatada: ficou muito direita, de olhos muito abertos; está a ouvir, e vai esfregando na mesa com o punho.

Mais uns segundos, e a preta começará a cantar. Parece-me isso inevitável, tão forte é a necessidade desta música: nada pode interrompê-la, nada deste tempo em que o mundo se afundou; a música cessará por si própria, no momento preciso. Se gosto desta bela voz, é sobretudo por isso: não é pelo seu volume, nem pela sua tristeza, é que ela é o acontecimento que tantas notas preparara-mi, de tão longe, morrendo para que ele nascesse. E, todavia, estou, inquieto; bastaria tão pouca coisa para fazer parar o disco: uma peça que se quebrasse, um capricho do primo Adolphe. Como é estranho, como é comovedor que esta insensibilidade seja tão frágil! Nada pode interrompê-la e tudo pode quebrá-la.

Extinguiu-se o último acorde. No curto silêncio que segue sinto intensamente uma mudança, sinto que alguma coisa aconteceu.

Silêncio.

Some of these days You'll miss me honey.

O que acaba de suceder é que a Náusea desapareceu. Quando a voz se levantou, no silêncio, senti o meu corpo contrair-se, e a Náusea dissipou-se. Bruscamente: era quase penoso tornar-se assim duro, rutilante. Ao mesmo tempo a duração da música dilatava-se, inchava como uma trombí marinha. Enchia a sala com a sua transparência metálica esborrachando contra a parede o nosso tempo miserável Agora estou dentro da música. Nos espelhos rolam bolas de fogo; cercam-nos anéis de fumo, que giram, encobrindo e descobrindo o sorriso duro da luz. O meu copo de cerveja encolheu, está acalcado contra a mesa: tem um ar de coisa densa, indispensável. Quero agarrá-lo,, tomar-lhe o peso, estendo o braço... Meu Deus! Eis o que mudou foram sobretudo os meus gestos. O movimento do meu braço desenvolveu-se como um tema majestoso, insinuou-se ao longo da canção da preta; tive a impressão de dançar

O rosto de Adolphe está ali, projectado na parede coi de chocolate; dir-se-ia que está muito perto de mim. Vi-o no momento em que a minha mão se fechava: tinha a evidência, a necessidade duma conclusão. Aperto o copo na mão, olho para Adolphe: sou feliz.

«Jogo!»

Uma voz destaca-se dum rumor de fundo. É o meu vizinho que fala, o velho encarniçado. As bochechas dele põem uma mancha roxa no couro escuro do espaldar do assento. Atira dum rasgo uma carta para a mesa. A manilha de ouros.

Mas o homem novo da cabeça de cão sorri. O parceiro vermelhaço, debruçado sobre a mesa. espia-o de revés, pronto para o ataque.

«Jogo!»

A mão do mais novo surge da sombra, plana um i tante, branca, indolente, depois pica de súbito como um milhafre e, com o polegar e o indicador, preme uma carta contra o pano. O gordo vermelhaço dá um salto:

«Merda! O gajo corta.»

O perfil do rei de copas aparece entre uns dedos crispados, depois põe-no na mesa de cabeça para baixo, e o jogo continua. Belo rei, que veio de tão longe, cuja saída foi preparada por tantas combinações, por tantos gestos extintos. Ei-lo que desaparece por sua vez, para que nasçam outras combinações e outros gestos, ataques, réplicas,

vicissitudes da sorte, uma infinidade de pequenas aventuras.

Estou emocionado; sinto o meu corpo como uma máquina de precisão em descanso. Eu. sim, tive verdadeiras aventuras. Não me lembro dos pormenores, mas percebo o encadeamento rigoroso das circunstâncias. Atravessei os mares, deixei cidades ficar para trás, e subi os rios ou penetrei pelas florestas, e buscava sempre outras cidades. Possuí mulheres e joguei à pancada com homens; e nunca podia voltar atrás, como um disco não pode girar ao contrário. E tudo isso me levava aonde? A este minuto, a este assento, a esta bolha de claridade sussurrante de música.

And when you leave me.

Sim, eu, que gostava tanto, em Roma. de me sentar à beira do Tibre; em Barcelona, à noite, de subir e descer muitas vezes as Ramblas; eu, que. perto de Angkor, no ilhéu do Baray de Prah-Kan, vi. à roda da capela dos Nagas, as raízes entrelaçadas duma figueira-da-índia, estou aqui, a viver o mesmo segundo que estes jogadores de manilha, a ouvir uma preta cantar, enquanto lá fora erra a noite indecisa.

O disco parou.

A noite entrou, melíflua, hesitante. Não se vê. mas está presente; turba a luz dos candeeiros. Respira-se no ar qualquer coisa de espesso; é ela. Está frio. Um dos jogadores empurra as cartas em desordem para outro que as emaça. Houve uma que ficou para trás. Não a verão? É o nove de copas. Alguém por fim a apanhou e a dá ao homem da cara de cão.

«Ah! É o nove de copas!»

Bom, vou-me embora. O velho violáceo curva-se, sobre um papel a chupar na ponta dum lápis. Madeleine fita-o com um olhar claro e vazio. O mais novo, com o nove de paus na mão, vira-o e revira-o. Meu Deus!...

Levanto-me a custo; no espelho, por cima da cabeça do veterinário, vejo deslizar um rosto que não parece humano.

Daqui a pouco vou ao cinema.

O ar faz-me bem: não tem o gosto de açúcar, nem o cheiro avinhado do vermute. Mas, santo Deus, que frio que está!

São sete e meia, não tenho fome, e o cinema só começa às nove. Que hei-de fazer entretanto? É preciso andar depressa para aquecer. Hesito: por trás de mim o boulevard conduz ao coração da cidade, aos grandes ornamentos de fogo das ruas centrais, ao Palácio Paramount, ao Imperial, aos Armazéns Jahan. Nada disso me tenta: são horas do aperitivo; por agora, estou farto das coisas vivas, dos cães, dos homens, de todas as massas moles que se movem espontaneamente.

Viro à esquerda, vou mergulhar naquela boca, além, à ponta da fila dos candeeiros a gás: vou seguir pelo Boulevard Noir até à Avenida Galvani. Sopra dessa boca um vento glacial: lá ao fundo só há pedras e terra. As pedras , são duras e não se mexem.        

Há um bocado de caminho aborrecido: no passeio da direita, uma massa vaporosa, cinzenta, com rastos de fumo, faz um ruído como o duma concha aplicada à orelha; é a estação velha. A sua presença fecundou os cem primeiros metros do Boulevard Noir - desde a Avenida da Redoute até à Rua Paradis -, fez lá nascer uns dez candeeiros e, ao lado uns dos outros, quatro cafés, o Rendez-vous dos Ferroviários e mais três, que elanguescem todo o dia, mas se iluminam de noite, e projectam rectângulos luminosos no pavimento. Tomo mais três banhos de luz amarela, vejo sair da mercearia e retrosaria Rabache uma velha que cobre a cabeça com um lenço e se põe a correr: cheguei ao fim. Estou à beira do passeio da Rua Paradis, ao lado do último candeeiro. A tira de betume interrompe-se bruscamente. Do outro lado da rua é o negrume e a lama. Atravesso a Rua Paradis. O meu pé direito mergulha numa poça de água; encharquei a peúga; o passeio começa.

Ninguém habita esta região do Boulevard Noir. O clima é aqui muito frio, o solo muito ingrato para a vida se fixar nele e se desenvolver. As três oficinas de serração Jos irmãos Soleil (os irmãos Soleil forneceram a abóbada a lambril da Igreja de Santa Cecília do Mar, que custou cem mil francos) tão a oeste, com todas as portas e todas as janelas, para a doce Rua Jeanne-Berthe-Cceuroy, e enchem-na do seu ronronar. Para o Boulevard Victor-Noir viram, as três, as costas, onde vai dar a fila dos muros. Estes edifícios bordam o passeio da esquerda durante quatrocentos metros: nem uma janela, nem uma trapeira sequer.

Desta vez meti os dois pés na água. Atravesso a rua: no outro passeio, um único candeeiro a gás, como um farol na extrema língua da terra, ilumina uma paliçada desconjuntada, a que já faltam várias tábuas.

Pedaços de cartazes aderem ainda à madeira. Um belo rosto cheio de ódio faz esgares num fundo verde que, rasgado, tomou a forma duma estrela; por baixo do nariz, alguém sarapintou um bigode de pontas retorcidas. Noutro pedaço de papel pode-se ainda decifrar a palavra «noviço», em caracteres brancos, donde caem gotas vermelhas, talvez gotas de sangue. Pode ser que a cara e a palavra tenham feito parte do mesmo cartaz. Agora o cartaz está lacerado, desapareceram os laços simples e intencionais que os uniam, mas outra unidade se estabeleceu por si própria entre a boca torcida, as gotas de , a terminação «viço»: dir-se-ia que uma paixão criminosa e sem descanso procura exprimir-se por meio destes sinais misteriosos. Entre as tábuas podem ver-se brilhar as luzes da via férrea. Uma parede comprida continua a paliçada. Uma parede sem aberturas, sem portas, sem janelas, que, duzentos metros mais adiante, é interrompida por uma casa. Ultrapassei o campo de acção do candeeiro; entro na boca negra. Tenho a impressão, ao ver a minha sombra, a meus pés, fundir-se nas trevas, de mergulhar numa água gelada. Em frente de mim, muito ao fundo, através das camadas de negrume, distingo uma pálida mancha cor-de-rosa: é a Avenida Galvani. Volto-me; atrás do candeeiro a gás, muito ao longe, há um vago clarão: é a estação, com os quatro cafés. Atrás de mim, na minha frente, há pessoas a beber e a jogar às cartas nas cervejarias. Aqui há apenas negrume. O vento traz-me com intermitências um repique solitário que vem de longe. Os ruídos domésticos, o ronci dos automóveis, os gritos, os latidos, pouco se afastam das ruas iluminadas, ficam ao calor. Mas este repique rompi as trevas e chega até aqui: é mais duro, menos humamo que os outros ruídos.

Paro para o ouvir. Tenho frio, doem-me as orelhas devem estar todas encarnadas. Mas deixo de me sentir a mim próprio; ganha-me a pureza do que me cerca; na aqui vive; o vento sopra, fogem na noite linhas inflexível O Boulevard Noir não tem a cara indecente das ruas burguesas que se fazem galantes para os transeuntes. Ninguém pensou em enfeitá-lo: é apenas um reverso. O reverso Rua Jeanne-Berthe-Cceuroy. da Avenida Galvani. Nas proximidades da estação, ainda os Bouvillois cuidam dele u poucochinho; lavam-no uma vez por outra, por causa dos viajantes. Mas, logo adiante, abandonam-no, e ele escapa-se muito direito, cegamente, para ir esbarrar na Avenida Gavani. A cidade esqueceu-se dele. Às vezes, um grande camião cor de terra atravessa-o a toda a velocidade, com un ruído de trovoada. Nem assassínios se cometem aqui, pó faria de assassinos e de vítimas. O Boulevard Noir é desumano. Como um mineral. Como um triângulo. É uma sorte haver um boulevard assim em Bouviile.

Geralmente só encontramos destas artérias nas capitais, em Berlim, para os lados de NeuUIn ou então de Friedrischshain - em Londres. atrás de

Greenwich. Corredores direitos e sujos, em plena corrente de ar. com largos passeios sem árvores Ficam quase todos fora do perímetro, nesses estranhos bairros em que se fabricam as cidades, perto das estações de mercadorias, das estações de eléctricos, dos matadouros, dos gasómetros. Dois dias depois de ter chovido, quando toda a cidade, húmida, está ao sol, e irradia um calor rejante, estão ainda muito frios, conservam a sua lama i as suas poças. Têm mesmo poças de água que nunca secam excepto um mês por ano, em Agosto.

A Náusea ficou lá atrás, na luz amarela. Sou feliz este   frio é   tão   puro,   pura esta noite;   não   serei eu próprio uma onda de ar gelado? Não ter sangue, nem linfa, nem carne. Correr como um líquido por este longo canal, direito àquele clarão lá ao fundo. Não ser senão frio.

Vem gente. Duas sombras. Que precisão tinham de vir para aqui?

É uma mulher baixa a puxar um homem pela manga, fala com uma voz rápida e pequenina. Não percebo o que diz, por causa do vento.

«Calas a boca, ou não?», diz o homem.

Ela continua a falar. Bruscamente, o homem repele-a. Olham-se os dois, hesitantes, depois ele mete as mãos nas algibeiras e vai-se embora sem voltar a cabeça.

O homem desapareceu. Três metros apenas me separam agora da mulher. De súbito, rasgam-na, arrancam-se dela uns sons roucos e graves que enchem toda a rua com uma violência extraordinária:

«Charles, por favor, lembras-te do que eu te disse? Charles, anda cá, estou farta, não faças a minha desgraça!»

Passo tão perto dela que poderia tocar-lhe. É... Mas como acreditar que esta carne em fogo, este rosto impregnado de sofrimento... Todavia, reconheço o lenço, o casaco e o grande sinal cor de pé de vinho que tem na mão direita; é ela, é Lucie, a mulher a dias. Não ouso oferecer-lhe auxílio, mas é preciso que ela possa reclamá-lo, se precisar: passo lentamente pela frente dela, fitando-a. Os seus olhos fixam-se em mim, mas ela não parece ver-me; tem o ar de quem se perdeu no seu sofrimento. Dou alguns passos. Volto-me...

É ela, sim, é Lucie. Mas transfigurada, fora de si, sofrendo com uma louca generosidade, invejo-a. Está ali, muito direita, de braços abertos, como à espera dos estigmas; abre a boca, sufoca. Tenho a impressão de que as paredes cresceram, de ambos os lados da rua, que se aproximam, que ela está no fundo dum poço. Espero alguns instantes: tenho medo de que ela caia inanimada: é muito frágil para suportar esta dor insólita. Mas ela não se mexe, parece mineralizada como tudo o que a rodeia. Por um instante pergunto a mim próprio se não me tinha enganado com ela, se não é a sua verdadeira natureza que de súbito, me é revelada...

Lucie emite um pequeno gemido. Leva a mão à garganta, arregalando os olhos espantados. Não, não é a si própria que vai buscar força para sofrer tanto. A força vem-lhe do exterior... é este boulevard. Era preciso agarrá-la pêlos ombros, levá-la para as luzes, para o meio das pessoas, para as ruas doces e cor-de-rosa: aí não se pode sofrer tanto; ela amoleceria, recobraria o seu ar positivo e voltaria ao nível habitual dos seus sofrimentos.

Viro-lhe as costas. No fim de contas, ela tem sorte Eu, há três anos que estou muito calmo. Já não posso receber nada destas solidões trágicas, senão um pouco de pureza inútil. Vou-me embora.

 

                                     QUINTA-FEIRA,   ONZE   E MEIA

Trabalhei duas horas na sala de leitura. Saí depois, fui até ao Pátio das Hipotecas fumar uma cachimbada, na Praça calcetada a pedra cor-de-rosa. Os Bouvillois tên muito orgulho nela, por datar do século XVIII. À entrada da Rua Chamada, da Rua Suspédard, correntes antigas vedam o acesso aos carros. Senhoras de preto, que vên passear os seus cães, deslizam por baixo das arcadas, rentes à parede. Raras vezes avançam até aos sítios claros, mas deitam de viés uns olhares de menina, furtivos e satisfeitos, à estátua de Gustave Impétraz. Não devem saber o nome deste gigante de bronze, mas percebem, pela sobre casaca e pelo chapéu alto, que foi alguém da alta sociedade. A figura tem o chapéu na mão esquerda e a direita assente numa pilha de infólios: é um pouco como se o avô das senhoras estivesse ali, naquela peanha, moldada em bronze. Não precisam de o fitar muito tempo para compreender que a ilustre personagem pensava como elas exactamente como elas, sobre todos os assuntos. Foi ao serviço das ideias delas, das suas ideiazinhas estreitas e sólidas, que a ilustre personagem pôs a sua autoridade « a imensa erudição adquirida nos infólios que a sua pesada

mão comprime. As senhoras de preto sentem-se aliviadas; podem entregar-se tranquilamente ao arranjo da casa, vir passear o cãozinho: já nem são responsáveis pela defesa das santas ideias, das boas ideias que lhes legaram os pais: um homem de bronze vela por elas.

A Grande Enciclopédia consagra algumas linhas a esta personagem; li-as o ano passado. Tinha assente o volume no parapeito duma janela; pêlos vidros, podia ver a cabeça verde da estátua. Aprendi que Impétraz prosperava por alturas de 1890. Era inspector de academia. Pintava bagatelas com requinte e fez três livros: Da Popularidade entre os Gregos Antigos (1887), A Pedagogia de Rollin (1891) e um testamento poético em 1899. Morreu em 1902, deixando saudades cruciantes nos seus subordinados e nas pessoas de bom gosto.

Encostei-me de lado à fachada da Biblioteca. Chupo no cachimbo, que ameaça apagar-se. Vejo uma senhora de idade que sai a medo da galeria das arcadas e olha para Impétraz com um ar sagaz e obstinado. De súbito atreve-se, atravessa o largo a toda a pressa e pára um momento diante da estátua, mexendo as mandíbulas. Depois vai-se embora, negra sobre o empedrado cor-de-rosa, e desaparece numa fisga da parede.

Talvez esta praça fosse alegre, à roda de 1800, com as suas pedras cor-de-rosa e as suas casas. Agora tem qualquer coisa de seco e de mau, uma notazinha discreta de horror. É por causa do sujeito, lá em cima, na sua peanha. Modelado em bronze, este universitário parece um bruxo.

Olho para Impétraz de frente. Não tem olhos, o nariz mal se lhe vê e as barbas vão sendo roídas por aquela lepra estranha que ataca às vezes, como uma epidemia, todas as estátuas dum bairro. Está a cumprimentar; o seu colete, no sítio do coração, mostra uma grande nódoa verde-clara. Tem um ar doentio e mau. Não vive, decerto, mas também não está inanimado. Emana dele uma força surda: é como um vento que me afasta: Impétraz tenta expulsar-me do Pátio das Hipotecas. Não sairei daqui antes de ter acabado a cachimbada.

Uma grande sombra magra surge bruscamente por trás de mim. Estremeço.

«O senhor desculpe, eu não queria incomodá-lo. Vi seus lábios mexer. Estava com certeza a repetir frases do seu livro.» A pessoa ri. «Andava à procura de algum verso

Olho para o Autodidacta, estupefacto. Mas ele parece surpreendido com a minha surpresa:

«Sim... Não se deve evitar com cuidado que fique versos no meio da prosa?»

Baixei ligeiramente na sua estima. Pergunto-lhe o q faz ele aqui, a estas horas. Responde que o patrão lhe deu folga e que veio logo para a Biblioteca; que não vai almoçar, ficará a ler até à hora de fechar. Deixei de lhe prestar atenção, mas com certeza que ele se afastou do assunto primitivo, porque ouço de súbito:

«... ter a felicidade como o senhor de andar a escrever um livro.»

Tenho de responder alguma coisa.

«Felicidade...», digo eu num tom dubitativo.

Ele engana-se quanto ao sentido da resposta e corrige rapidamente:

«Talento, queria eu dizer, talento!»

Subimos ambos a escada. Não tenho vontade de trabalhar. Alguém deixou uma Eugénie Grandet em cima da mesa; o livro está aberto na página vinte e sete. Agarro nele maquinalmente, começo a ler a página vinte e sete depois a página vinte e oito: não tenho coragem para começar pelo princípio. O Autodidacta dirigiu-se para as prateleiras da sala, a passos apressados; volta com dois volumes que larga em cima da mesa, com um ar de cão que encontrou um osso.

«Que está o senhor a ler?»

Parece que sente relutância em mo dizer: hesita um pouco, rebola os grandes olhos espantados, depois mostrou-me os livros com um ar de constrangimento. São A Turfa e a Turfeira, de Larbalétrier, e Hitopadèsa ou a Instruçõ Util, de Lastex. E então? Não vejo o que o perturba: são leituras que me parecem muito decentes. Por descargo de consciência, folheio a Hitopadèsa, e não encontro lá nada que não seja elevado.

 

                                                             Três horas

Abandonei a Eugénie Grandet. Pus-me a trabalhar, mas sem coragem. O Autodidacta, ao ver que estou a escrever, observa-me com uma concupiscência respeitosa. De vez em quando levanto um pouco a cabeça, vejo o imenso colarinho postiço, alto e sem pontas, donde lhe sai o pescoço de frango. Traz um fato coçado, mas nem uma sombra lhe polui a alvura da roupa. Acaba de tirar da mesma prateleira outro volume, e consigo ler-lhe o título, mesmo de pernas para o ar: O Campanário de Caudebec, crónica normanda, por M11" Julie Lavergne. As leituras do Autodidacta desconcertam-me sempre.

De súbito, os nomes dos últimos autores cujas obras ele consultou vêm-me à memória: Lambert, Langlois, Larbalétrier, Lastex, Lavergne. É uma iluminação; acabo de perceber qual é o método do Autodidacta: vai-se instruindo por ordem alfabética.

Contemplo-o com uma espécie de admiração. Que vontade não lhe será precisa para realizar lenta, obstinadamente, um plano de tão vasta envergadura? Um dia, há sete anos (disse-me ele que já estudava havia sete anos), entrou com grande pompa nesta sala. Percorreu com o olhar os inumeráveis livros que cobrem as paredes e disse, provavelmente, mais ou menos como Rastignac: «Agora nós, Ciência humana.» Depois foi buscar o primeiro livro da primeira prateleira da extrema direita; abriu-o na primeira página, com um sentimento de respeito e de terror, unido a uma decisão inabalável. Vai agora na letra L. Do J passara ao K, do K passou ao L. Saltou biutalmente do estudo dos coleópteros para o estudo da teoria dos quanta, duma obra sobre Tamerlão para um panfleto católico contra o darwinismo: nunca se atrapalhou. Leu tudo; armazenou na cabeça metade do que se sabe sobre a parteno-genese, metade dos argumentos contra a vivissecção. Atrás dele, adiante dele, há um universo. E aproxima-se o dia em que dirá para consigo, fechando o último volume da ultima prateleira da extrema esquerda: «E agora?»

São horas do seu lanche: pão e uma tablette de Gala reter que vai comendo com um ar cândido. Como baixou as pálpebras, posso contemplar à vontade as suas pestanas recurvas‑umas pestanas de mulher. Exala cheiro a tabaco velho, a que se junta, quando ele expira

o doce perfume do chocolate.

 

                                               SEXTA‑FEIRA, TRÊS HORAS

Por um pouco não caí na armadilha do espelho. Evitei, mas é para tropeçar na armadilha do vidro: desocupado de mãos a abanar, aproximo‑me da janela. As obras,

A paliçada, a estação velha‑a estação velha, a paliçada, obras. Bocejo com tanta força que. me vem uma lágrima aos olhos. Tenho na mão direita o cachimbo e na esquerda a bolsa de tabaco. Era preciso encher o cachimbo. Mas falta‑me a coragem. Deixo cair os braços, encosto a testa ao vidro. Aquela velha, além, irrita‑me. Vai num choutozin teimoso, de olhos no'vago. Às vezes pára com um ar amedrontado, como se,um perigo invisível tivesse roçado por ela. Ei‑la por baixo da minha janela; o vento cola‑lhe as saias aos joelhos. Para, compõe o lenço. Tremem‑lhe as mãos. Lá vai outra vez: agora vejo‑a de costas. Vejo um bicho‑de‑conta. Suponho que vai virar à direita, para o Boulevard Noir. Tem ainda uns cem metros a percorrer para o que precisará, pelo andar com que vai, duns bons dez minutos; dez minutos durante os quais ficarei como estou, a olhar para ela, de testa colada ao vidro. Vai parar vinte vezes, retomar a marcha, parar outra vez...

Vejo o futuro. Está ali, pousado na rua, mais próximo um tudo nada que o presente. Que necessidade tem de

realizar? Que vantagem é que isso lhe dará? A velha afasta‑se, trôpega, pára, compõe uma madeixa que lhe saiu debaixo do 'lenço. Recomeça a andar: ainda agora estava além, agora está aqui... torna‑se‑me tudo confuso: eu vejo ou preveijo os gestos dela? Já não distingo o presente do futuro, e, todavia, há uma duração, uma realização, que opera pouco a pouco; a velha avança na rua deserta, desloca os seus grandes sapatos de homem. É isso o tempo, o tempo inteiramente nu, que acede lentamente à exístência que faz esperar, e que, quando chega, nos enfastia, porque conhecemos então que já estava ali havia muito. A velha aproxima‑se da esquina da rua; é apenas, agora, um montinho de pano preto. Pois bem, sim, concedo, há nisto algo novo: ela não estava ali há bocadinho. Mas é um' novo desbotado, sem viço, que nunca poderá surpreender. A velha vai dobrar‑ a esquina da rua, leva imenso tempo a dobrá‑la‑uma eternidade.

Tiro‑me da janela e percorro o quarto, titubeante; deixo‑me apanhar pelo espelho, olho para, mim, tenho nojo: mais uma eternidade. Finalmente, escapo à minha imagem atiro‑me para cima da cama. Olho para o tecto; queria dormir.

Calmo. Calmo. Deixei de sentir o deslizar, o roçar do tempo. Vejo imagens' no tecto. Primeiro, círculos de luz, depois cruzes... É um borboletear. E lá vem outra imagem a formar‑se; esta, no fundo dos meus olhos: um grande animal de joelhos. Vejo‑lhe as patas da frente, e como uma albarda. O resto está mal definido. Todavia, reconheço a figura: é um camelo que vi em Marráquexe, amarrado a uma pedra. Tinha‑se ajoelhado e levantado seis vezes a seguir; os garotos riam e excitavam‑no, com a voz.

Há dois anos era maravilhoso: bastava fechar os Olhos, logo a cabeça me zumbia como uma colmeia: revia caras, árvores, casas, uma japonesa de Kamaishi a lavar‑se, nua, uma barrica, um russo morto, com um largo ferimento na fronte e um charco vermelho ao lado que era todo o seu sangue. Sentia, por evocação, o gosto do cuscus, o cheiro a azeite que enche ao meio-dia, as ruas de Burgos, o aroma do funcho que flutua nas de Tetuão, o assobiar dos pastores gregos; ficava emocionado. Há muito tempo que essa alegria se gastou. Irá renascer hoje?

Um sol tórrido, na minha cabeça, desloca-se rigidamente como uma chapa de lanterna mágica. Segue-o um fragmento de céu azul; depois de alguns estremeções, o sol imobiliza-se, fico todo dourado por dentro. De que dia vivido em Marrocos (ou na Argélia?, ou na Síria?) se desligou, de súbito este brilho? Deixo-me afundar no passado.

Mequinez. Como era aquele serrano que nos meteu medo, numa viela, entre a mesquita Berdaine e aquêla praça encantadora que uma amoreira 'ensombra? Veio direito a nós...

Anny estava à minha direita. Ou à minha esquerda?

O sol e o céu azul eram uma burla. Já caí neste logro umas cem vezes. As minhas recordações são como as moedas na bolsa do Diao: quando a abriram, só lá estavam folhas secas.

Do serrano visiono apenas um olho furado, grande, leitoso. Mas esse olho é realmente dele? O médico que, em Bacu, me expunha o princípio dos sanatórios oficiais de abortamento era também zarolho, e, quando quero recordar-lhe a cara, é o mesmo globo esbranquiçado que me aparece. Estes dois homens, como as Nomes, têm apenas um olho que cedem um ao outro alternadamente.

Quanto à praça de Mequinez, onde eu ia todos os dias, as coisas são ainda mais simples: nem parcialmente consigo revê-la. Resta-me o vago sentimento de que era encantadora, e estas cinco palavras indissoluvelmente ligadas: «uma praça encantadora de Mequinez.» Sem dúvida, e fechar os olhos ou se fixar vagamente o tecto, posso reconstituir a

cena: uma árvore ao longe; uma forma escura e atarracada corre direita a mim. Mas tudo isso são invenções a que recorro para não ficar mal. O verdadeiro marroquino era alto e seco; de resto, apenas o vi quando esbarrou comigo. Ainda sei, portanto, que ele era alto e seco: conservam-se na minha memória certos conhecimentos abreviados. Mas deixe de ver seja

o que for: por mais que revolva o passado, só de lá extraio restos de imagens, e não sei muito bem o que representam, nem se são lembranças ou ficções.

Em muitos casos, para mim, esses próprios restos desapareceram; só ficaram palavras: poderia ainda contar as histórias, contá-las com excessiva perfeição (em matéria de anedotas ninguém me leva a palma, fora os oficiais de marinha e os profissionais), mas essas histórias não são mais do que esqueletos. Fala-se nelas, dum fulano que fez isto ou aquilo, mas não sou eu, não tenho nada de comum com ele. O fulano passeia por países de que não tenho mais informações que se nunca lá tivesse estado. Às vezes, na minha narração, acontece que pronuncio algum daqueles nomes sugestivos que se lêem nos atlas, Aranjuez ou Canterbury. Nascem então em mim imagens novas, como as que as pessoas que nunca viajaram formam depois das suas leituras: construo sonhos a partir de palavras, é o que é.

Por cada cem histórias mortas, sempre me ficam, porém, uma ou duas histórias vivas. Essas evoco-as com precaução, de vez em quando, poucas vezes, com medo de as gastar. Pesco uma, revejo o cenário, as personagens, as atitudes. Subitamente paro: senti um desgaste, vi uma palavra vir ao de cima da trama das sensações. Prevejo que essa palavra vai tomar o lugar, dentro em pouco, de várias imagens que amo. Imediatamente me detenho; penso depressa noutra coisa: não quero fatigar as minhas recordações. Em vão; da próxima vez que as evocar, parte delas terá coalhado.

Esboço um vago movimento para me levantar, para ir buscar as fotografias de Mequinez, à caixa que arrumei debaixo da mesa.

Para quê? São afrodisíacos que já pouco efeito têm sobre a minha memória. No outro dia encontrei, por baixo dum mata-borrão, uma fotografiazinha amarelecida. Uma mulher sorria ao pé dum tanque. Contemple um momento essa pessoa, sem a rconhecer. Depois, no verso, vi: «Anny. Portsmouth. 7 de Abril de 1927.»

Nunca tive tão nitidamente como hoje o sentimento de ser o meu corpo, sem dimensões secretas, de me reduzir aos pensamentos leves que sobem dele como bolhas. Construo as minhas recordações com o meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado lá. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir da minha prisão.

Batem à porta. É o Autodidacta. Tinha-me esquecido: prometi mostrar-lhe as fotografias das minhas viagens. Diabos o levem.

O Autodidacta senta-se; chega o rabo ao espaldar e inclina para diante o busto teso. Salto da cama, acendo a luz.

«Ora essa! Então não estávamos tão bem?»

«Para ver fotografias, não.»

Agarro-lhe no chapéu, a que ele não sabe o que há-de fazer.

«Mas realmente o senhor está disposto a mostrarmas? «Pois com certeza.»

É um cálculo: espero que ele esteja calado enquanto olhar para elas. Meto-me debaixo da mesa, empurro a caixa contra os seus sapatos de verniz, ponho-lhe nos joelhos um braçado de postais e de fotografias da Espanha e Marrocos Espanhol.

Mas vejo bem, pelo seu ar risonho e aberto, que me enganei redondamente, contando reduzi-lo ao silêncio. O homem deita uma olhadela a uma vista de S. Sebastião, tomada do monte Igueldo, assenta-a com precaução sobre a mesa e fica um instante silencioso. Depois suspira:

«Ah! O senhor é que tem sorte. Se é verdade o que se diz, a melhor escola são as viagens. Qual é a sua opinião?» Esboço um gesto vago. Felizmente, ele não acabou. «Deve ser uma transformação tão grande! Se um dia eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu carácter... E à volta compararia o que era antes com   o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto, física e moralmente, que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.»

Maneja distraïdamente um grande maço de fotografias. Agarra numa e põe-na em cima da mesa sem olhar para ela; depois fixa intensamente a fotografia seguinte, que representa um S. Jerónimo esculpido num púlpito da catedral de Burgos.

«O senhor viu o Cristo de pele de animal que está em Burgos? Há um livro muito curioso sobre as ebtátuas de pele de animal e até de pele humana. E a Virgem negra? Sim, mas essa não é em Burgos, é em Saragoça... A não ser que haja outra em Burgos. Os peregrinos beijam-na, não é verdade? - quero dizer: a de Saragoça. E numa laje ficou a marca do seu pé? E essa laje está num buraco, para onde as mães empurram os filhos?»

Muito direito, o Autodidacta empurra com as duas mãos uma criança imaginária. Dir-se-ia que está a recusar os presentes de Artaxerxes.

«Ah! Os hábitos são uma coisa... são uma coisa curiosa.»

Um pouco esbofado, aponta na minha direcção a «uma grande queixada de burro. Exala um cheiro a tabaco e a água estagnada. Os seus grandes olhos de transviado brilham como globos de fogo, e os raros cabelos que lhe restam nimbam-lhe a cabeça de névoa. Dentro desta cabeça. Samoiedos, Nians-Nians, Malgaxes, Fuegianos, celebram as solenidades mais estranhas, comem os seus pais velhos, os seus filhos, rodopiam ao som do tanta, até perderem os sentidos, entregam-se à frenesia do amok, queimam os seus mortos, expõem-nos nos telhados, abandonam-nos à flor da água numa barca iluminada por um archote, acasalam-se ao acaso, a mãe com o filho, o pai com a filha, o irmão com a irmã, mutilam-se, castram-se, esticam os lábios metendo-lhes discos de metal, esculpem na cintura animais monstruosos.

«Pode-se dizer, com Pascal, que o hábito é uma segunda natureza?»

O meu visitante pregou os olhos nos meus, implora uma resposta.

«Depende», respondo eu. Ele respira, aliviado.

«Era o que eu pensava. Mas desconfio tanto de mim próprio; era preciso ler tudo.»

Mas, ao ver a fotografia seguinte, delira. Solta um grito de alegria.

«Segóvia! Segóvia! Já li um livro sobre Segóvia.» Com uma certa nobreza, acrescenta: «Não me lembro   do nome do autor. Às vezes tenho esquecimentos. N... No...   Nod...»

«Impossível», digo-lhe eu com vivacidade. «O senhor vai ainda em Lavergne...»

Arrependo-me logo da minha frase: afinal ele nunca me falou do seu método de leitura; trata-se duma loucura secreta. Com efeito, o Autodidacta perde a presença de espírito e os seus lábios grossos avançam num jeito de lamúria. Depois baixa a cabeça e observa uns dez postais sem dizer palavra.

Mas noto, ao fim de trinta segundos, que ele incha ao sopro dum grande entusiasmo e que rebentaria se não falasse: «Quando tiver acabado a minha instrução (preciso de mais de seis anos para isso), juntar-me-ei, se mo permitirem, aos estudantes e aos professores que fazem um cruzeiro anual ao Próximo Oriente. Queria precisar certos conhecimentos», diz ele com unção, «e gostava também que me sucedessem coisas inesperadas, coisas novas, aventuras para falar com franqueza.»

Baixou a voz e tomou um modo maroto.

«Que espécie de aventuras?», pergunto-lhe surpreendido.

«De todas as espécies. Tomar um comboio que não é o nosso. Descer numa cidade desconhecida. Perder a carteira, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Acho que se podia definir a aventura assim: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser forçosamente extraordinário. Fala-se da magia das aventuras. O senhor acha a expressão adequada? Gostava de lhe fazer uma pergunta.»

«Diga.»

O Autodidacta cora e sorri:

«Não queria ser indiscreto...»

«Diga lá.»

Ele inclina-se para mim e pergunta, de olhos semicerrados:

«O senhor teve muitas aventuras?» «Algumas», respondo maquinalmente, inclinando-me para trás, para evitar o seu bafo empestado. Sim, disse aquilo maquinalmente, sem pensar. Geralmente, com efeito, sinto-me como orgulhoso por ter tido tantas aventuras. Mas agora,   assim   que   pronunciei   aquela palavra,   invadiu-me uma grande indignação contra mim próprio: parece-me que estou a mentir, que nunca tive a menor aventura na vida, e mesmo que já nem sei o que tal palavra quer dizer. Simultaneamente, pesa sobre os meus ombros o mesmo desalento que se apoderou de mim há quatro anos, em Hanói, quando Mercier insistia para que fosse com ele e eu fixava, sem responder, uma estatueta khmeriana. E cá está a IDEIA, aquela grande massa branca que então tanto me repugnara: não a via há quatro anos.

«Dá-me licença que lhe pergunte...», começa o Autodidacta.

Caramba! E se eu lhe contasse uma? Uma dessas famosas aventuras? Mas não quero dizer nem mais uma palavra sobre o assunto.

 

«Aqui», digo eu, inclinado por cima dos seus ombros estreitos e pondo o dedo numa fotografia, «aqui é Santi-Ihana, a aldeia mais bonita de Espanha.»

«A Santilhana de Gïl Brás? Não sabia que existia realmente. Ah! Como a sua conversa é proveitosa. Bem se vê que o senhor viajou.»

Pus o Autodidacta na rua, depois de lhe ter atafulhado as algibeiras de postais, de gravuras e de fotografias. Foi-se embora encantado, e eu apaguei a luz. Agora estou sozinho. Não completamente. Há ainda aquela ideia, à minha frente, à espera. A ideia fez-se numa bola, e deixa-se estar como um gato sonolento; não explica nada, não se mexe e contenta-se com dizer que não. Não, nunca tive aventuras.

Encho o cachimbo, acendo-o, e estendo-me em cima da cama com um casaco a agasalhar-me as pernas. O que me surpreende é sentir-me tão triste e tão cansado. Mesmo se fosse verdade que nunca tive aventuras, que importância teria isso para mim? Primeiro, parece-me que é uma pura questão de palavras. Aquele caso de Mequinez, por exemplo, em que ainda agora estava a pensar: um marroquino saltou-me em cima e quis ferir-me com um canivete muito grande. Mas eu atirei-lhe um murro que o apanhou abaixo duma têmpora... Então ele pôs-se a gritar em árabe, e apareceu logo um bando de piolhosos que nos perseguiram até ao soco Attarin. Muito bem, pode-se dar ao episódio o nome que se quiser, mas, de toda a maneira, foi um acontecimento que me sucedeu.

Está muito escuro já, e nem sei ao certo se o meu cachimbo está aceso. Passa um eléctrico: clarão vermelho no tecto. Depois, é um carro pesado que faz tremer a casa. Devem ser seis horas.

Não tive aventuras. Sucederam-me histórias, acontecimentos, incidentes, tudo o que se quiser. Mas aventuras, não. Não é uma questão de palavras; começo a compreender. Há qualquer coisa que eu prezava mais que tudo o resto - sem dar bem por isso. Não era o amor, oh, não!, nem a glória, nem a riqueza. Era... Enfim, tinha imaginado que, em certos momentos, a minha vida podia ganhar uma qualidade rara e preciosa. Não eram precisas circunstâncias extraordinárias: tudo quanto eu pedia era um pouco de rigor. A minha vida presente não tem nada de brilhante: mas, de tempos a tempos, por exemplo, quando, nos cafés, se ouvia música, eu revia o passado e dizia para comigo: «Outrora, em Londres, em Mequinez, em Tóquio, conheci momentos admiráveis, tive aventuras.» É esta possibilidade que agora me é negada. Acabo de descobrir, lentamente, sem razão aparente, que andei dez anos a mentir a mim próprio. As aventuras estão nos livros. E, bem entendido, tudo o que se conta nos livros pode suceder realmente, mas não da mesma maneira. Ora, é precisamente esta maneira de suceder que eu prezava tanto.

Seria preciso, antes de mais nada, que os começos fossem começos verdadeiros. Oh! Vejo tão claramente, agora, o que pretendia! Começos verdadeiros, aparecendo como um toque de trombeta, como as primeiras notas dum ritmo de jazz, bruscamente, cortando rente o aborrecimento, consolidando a duração; noites entre as outras noites, das quais se diz mais tarde: «Andava a passear, era uma noite de Maio...» anda uma pessoa a passear (a Lua acaba de nascer), ociosa, disponível, um pouco vazia. E depois, de súbito, pensa-se: «Aconteceu qualquer coisa.» O quê não importa: um ligeiro estalido na sombra, um vulto rápido a atravessar a rua. Mas esse acontecimento obscuro não é semelhante aos outros: percebe-se logo que vem à frente duma grande forma, cujo desenho se perde na bruma, e acrescenta-se: «É o começo de alguma coisa.»

Alguma coisa começa para acabar: a aventura não admite prolongamentos artificiais; só da sua morte lhe vem o sentido. Sem possibilidade de voltar atrás, sou arrastado para essa morte, que talvez seja também a minha. Cada instante só aparece para trazer os que se lhe seguem. Sinto-me ligado a cada um, do fundo do coração: sei que ele é único, insubstituível - e não faria, porém, um gesto para o impedir de voltar ao nada. Um último minuto que passo - em Berlim, em Londres- nos braços de certa mulher encontrada na antevéspera - minuto que amo com paixão, mulher que estou perto de amar -, esse minuto vai acabar, bem sei. Daqui a nada partirei para outra terra. Não voltarei a encontrar esta mulher, nem esta noite, nunca mais. Debruço-me sobre cada segundo, tento esgotá-lo; nada se passa que eu não note, que não fixe em mim para todo o sempre nem a ternura fugitiva destes lindos olhos, nem os ruídos da rua, nem a claridade dissimulada da manhãzinha: e entretanto o minuto corre, e não o retenho; gosto que passe.

E depois, bruscamente, parte-se qualquer coisa. A aventura acabou, o tempo retoma a sua moleza quotidiana. Viro-•me; atrás de mim, uma bela forma melódica mergulha inteira no passado: diminui, contrai-se ao declinar; já o fim se lhe confunde com o princípio. Ao seguir com os olhos esse ponto de ouro, penso que aceitaria -mesmo se tivesse estado em perigo de morrer, se tivesse perdido uma fortuna ou um amigo - reviver tudo, nas mesmas circunstâncias, dum extremo ao outro. Mas uma aventura não recomeça, nem se prolonga.

Sim, é isso que eu pretendia - ah!, é o que ainda pretendo. Experimento uma felicidade tão grande ao ouvir cantar uma preta: a que cumes não me alçaria se a minha própria vida constituísse a matéria da melodia?!

A Ideia ainda ali está, a inominável! À espera, tranquilamente. Agora tem um ar de quem diz:

«Sim? É isso que tu querias? Pois é precisamente o que nunca tiveste (lembra-te: enganavas-te a ti próprio com palavras, chamavas aventuras ao ouropel das viagens, a amor de mulheres, a brigas, a missanga) e o que não terás nunca - nem tu nem ninguém.»

Mas porquê? PORQUÊ?

 

                                              SÁBADO, MEIO-DIA

O Autodidacta não me viu entrar na sala de leitura. Estava sentado à ponta da mesa do fundo; tinha um livro aberto diante dele, mas não lia. Estava a olhar, sorrindo, para o vizinho da direita, um colegial muito sujo que vem muitas vezes à Biblioteca. O outro deixou-se contemplar um momento, depois deitou-lhe a língua de fora, fazendo uma horrível careta. O Autodidacta corou, voltou precipitadamente ao seu livro e ficou absorto na leitura.

Reconsiderei as minhas reflexões de ontem. Ontem estava seco de todo: era-me indiferente que não houvesse aventuras. O que eu queria saber era apenas se não podia haver.

Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

'Mas é preciso escolher: viver ou contar. Por exemplo, quando eu estava em Hamburgo, com uma tal Erna, que tinha medo de mim e em quem eu não depositava confiança, levava uma vida extravagante. Mas estava dentro dessa vida, não pensava nisso. E depois, uma noite, num pequeno café de San Pauli, a alemã deixou-me um momento para ir aos lavatórios. Fiquei sozinho; havia um gramofone que estava a tocar o Blue Sky. Comecei a contar a mim próprio o que se tinha passado depois do meu desembarque. Recapitulei: «Na terceira noite, ao entrar num dancing chamado A Gruta Azul, atraiu-me a atenção certa mulher alta meio embriagada. E é dessa mulher que estou à espera neste momento, a ouvir o Blue Sky; é ela que vai chegar, sentar-se à minha direita e envolver-me o pescoço nos seus braços.» Então senti com violência que vivia uma aventura. Mas 'Erna voltou, sentou-se a meu lado, envolveu-me o pescoço nos seus braços, e eu pus-me a detestá-la sem saber bem porquê. Sei agora: é que era preciso recomeçar a viver, e a impressão de aventura acabava de se dissipar.

Quando se vive, não sucede nada. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem; é tudo. Nunca há princípios. Os dias sucedem aos dias. sem tom nem som; é um alinhamento interminável e monótono. De vez em quando tira-se um total parcial; diz-se: «Há três anos que ando a viajar, há três anos que estou em Bouville.» E fins também não há: nunca se deixa uma mulher duma só vez, nem um amigo, nem uma cidade. E depois tudo se parece: Xangai, Moscovo, Argel, ao fim de quinze dias, é tudo o mesmo. Em certos momentos - raras vezes - deitam-se contas à vida, percebe-se que estamos ligados a uma mulher, que nos metemos num bom sarilho. Como um clarão, o momento passa. Então o desfile recomeça, voltamos a alinhar as horas e os dias. Segunda-feira, terça, quarta. Abril, Maio, Junho. 1924, 1925, 1926.

Viver é isto. Mas quando se conta a nossa vida, tudo muda; somente, é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se pudesse haver histórias verdadeiras! Os acontecimentos produzem-se num sentido e contamo-los no sentido inverso. Dir-se-ia que começamos pelo princípio. «Era numa linda tarde de Outono, em 1922.» E na realidade foi pelo fim que começámos. O fim já está nessas poucas palavras, invisível e presente; é ele que lhes dá a pompa e o valor dum princípio. «Andava a passear, tinha saído da vila sem dar por isso, a pensar nas minhas dificuldades de dinheiro.» Esta frase, tomada simplesmente pelo que é, quer dizer que o homenzinho estava absorto, deprimido, a cem léguas duma aventura, precisamente no género de humor, em que se deixam passar os acontecimentos sem lhes dar atenção. Mas o fim já está nela a transformar tudo. Para nós, o homenzinho é, desde já, o herói da história. A sua depressão, as suas dificuldades de dinheiro, são muito mais preciosas do que as nossas; doura-as a luz das paixões futuras. E a narração prossegue ao contrário: os instantes cessaram de se empilhar ao acaso uns por cima dos outros, morde-os o fim da história, que os atrai, e cada um deles atrai, por sua vez, o instante que o precede: «Estava escuro na rua deserta.» A frase é atirada com negligência, traz um jeito de supérflua; mas não caímos no logro e pomo-la de reserva: é uma informação, cujo valor aparecerá mais tarde. E temos o sentimento de que o herói viveu todos os pormenores dessa noite como anunciações, como promessas, ou até de que só vivia os que eram promessas, cego e surdo em relação a tudo quanto não anunciasse a aventura. Esquecemos que o futuro ainda não estava com ele; o homenzinho andava a passear numa noite sem presságios, que lhe oferecia à matroca as suas riquezas monótonas, e que ele não escolhia.

Quis que os momentos da minha vida se seguissem e se ordenassem como os duma vida que se rememora. O mesmo, ou quase, que tentar apanhar o tempo pelo rabo.

 

                                               DOMINGO

Tinha-me esquecido, esta manhã, de que era domingo. Saí e fui deambular pelas ruas como de costume. Tinha levado a Eugénie Grandet. E depois, subitamente, ao empurrar a grade do jardim público, tive a impressão de que alguma coisa me fazia sinal. O jardim estava deserto e nu. Mas... como direi? Não tinha o seu aspecto habitual, estava a sorrir para mim. Fiquei um momento apoiado à grade, e depois, bruscamente, compreendi que era domingo. Via-se nas árvores, na relva, como um ligeiro sorriso... Algo que não se podia descrever; seria preciso pronunciar muito depressa: «É um jardim público, no Inverno, numa manhã de domingo.»

Larguei a grade, voltei-me para o lado das casas e das ruas burguesas, e disse a meia voz: «É domingo.»

É domingo: atrás das docas, pela beira-mar fora, perto da estação de mercadorias, em volta da cidade, há barracões vazios e máquinas imóveis na escuridão. Barbeiam--se homens, em todas as casas, por trás dos vidros, de cabeça inclinada para trás, fixando ora o espelho, ora o céu frio, a ver se irá estar bom dia. Os bordéis abrem as portas aos primeiros fregueses: camponeses e soldados. Nas igrejas, à luz das velas, um homem bebe vinho diante das mulheres ajoelhadas. Nos subúrbios, entre os muros intermináveis das fábricas, formaram-se longas bichas negras que avançam lentamente para o centro da cidade. Para as receber, as ruas tomaram o seu aspecto dos dias de tumultos: todas as lojas, excepto as da Rua Tourne-tride, baixaram os taipais de ferro. Dentro em pouco, em silêncio, as colunas negras invadirão estas ruas que estão a fazer de mortas: primeiro chegarão os ferroviários de Tourville, com as mulheres empregadas nas saboarias de Saint-Syinphorin, depois os pequenos-burgueses, de Joux-tebouxille, depois os operários das fiações Pinot, depois todos os modestos trabalhadores do Bairro Saint-Maxence; e, finalmente, os homens de Thiérache pelo eléctrico das onze horas. Dentro em pouco, a multidão dos domingos ter-se-á formado, entre lojas aferrolhadas e portas fechadas.

Um relógio dá a badalada das dez e meia, e ponho-me a caminho: ao domingo, a esta hora, pode-se ver em Bou-ville um espectáculo de qualidade, mas é preciso não chegar muito depois da saída da missa das dez.

A .pequena Rua Joséphine-Soulary está deserta, tem um cheiro a cave. Mas, como todos os domingos, enche-a um ruído sumptuoso, uma espécie de marulhar. Viro para a Rua do Presidente Chamart, cujas casas têm três andares, com longas persianas brancas. Esta rua de notários foi possuída de ponta a . ponta pelo voluminoso rumor do domingo. Na galeria Gillet, o ruído aumenta ainda e torna-se-me conhecido: é um ruído feito por homens. Depois, de súbito, à minha esquerda, produz-se como uma explosão de luz e de sons. Cheguei: eis a Rua Tournebride; só me falta entrar na bicha dos meus semelhantes para poder ver os senhores respeitáveis trocarem chapeladas.

Há apenas sessenta anos ninguém ousaria prever o miraculoso destino da Rua Tournebride, que os habitantes de Bouville chamam hoje o Pequeno Prado. Vi um plano datado de 1847 em que ela nem sequer figurava. Devia ser por essa altura um caminho negro e malcheiroso, com uma única valeta a meio do empedrado, por onde se arrastavam cabeças e tripas de peixe. Mas, no fim de 1873, a Assembleia Nacional declarou de utilidade pública a construção duma igreja na colina Montmartre. Poucos meses depois a mulher do maire de Bouville teve uma aparição: Santa Cecília, a santa cujo nome recebera, veio repreendê-la. Era admissível que o escol da cidade se enlameasse todos os domingos para ir a S. Renato ou a S. Claudiano ouvir missa com os lojistas? Não dera o exemplo a Assembleia Nacional? Bouville gozava agora, graças à protecção do Céu, duma situação económica de primeira ordem; não conviria uma igreja para dar graças ao Senhor?

Estas visões foram   reconhecidas:   o   Conselho   Municipal reuniu-se numa sessão histórica, e o bispo acedeu a recolher as subscrições. Faltava escolher o local. As velhas famílias de negociantes e de armadores eram de opinião que se construísse o edifício no cume do Outeiro Verde, onde habitavam, «a fim de que Santa Cecília velasse por Bouville como o Sagrado Coração de Jesus sobre Paris». Os novos-ricos do Boulevard Marítimo, ainda pouco numerosos, mas de fortuna muito sólida, não queriam ceder: dariam o que fosse preciso, mas havia de se construir a igreja na Praça Marignan; se pagavam para uma igreja, era para lá poderem ir; não lhes desagradava fazerem sentir assim o seu poder a uma burguesia altiva que os tratava como adventícios. O bispo imaginou um compromisso: a igreja foi construída a meio caminho do Outeiro Verde e do Boulevard Marítimo, no Largo do Mercado do Bacalhau, que foi então baptizado Largo de Santa Cecília tio Mar. Esse monstruoso edifício, que ficou acabado em 1887, custou nada mais nada menos que catorze milhões de francos.

A Rua Tournebride, larga mas suja e mal frequentada, teve de ser inteiramente reconstruída e os seus habitantes foram repelidos com firmeza para trás do Largo de Santa Cecília ; o Pequeno Prado tornou-se - sobretudo aos domingos de manhã - o ponto de encontro dos elegantes e dos notáveis. Uma após outra foram abrindo belas lojas à passagem da elite. Ficam abertas na segunda-feira de Páscoa, na noite de Natal, e todos os domingos até ao meio--dia. Ao lado de Julien, o salsicheiro, cujos patês quentes têm fama, o pasteleiro Foulon expõe as suas especialidades reputadas, uns admiráveis bolinhos de chá cónicos, feitos com manteiga roxa e coroados por uma violeta de açúcar. Na montra da Livraria Dupaty vêem-se as novidades dos editores Plon, algumas obras técnicas, como uma teoria do navio ou um tratado do velame, uma grande história ilustrada de Bouville e várias edições de luxo dispostas com elegância: Koenigsmarck, numa encadernação de carneira azul, o Livro dos Meus Filhos, de Paul Doumer, numa encadernação de carneira beige com florinhas púrpura. Ghislaine, «Alta Costura, Modelos Parisienses», separa o florista Piégeois do antiquário Paquin. O cabeleireiro Gustave, que dá emprego a quatro manicuras, ocupa o 1.° andar dum prédio novo pintado de amarelo.

Há dois anos, à esquina do Beco dos Moulins-Gémeaux com a Rua Tournebride, uma imprudente lojeca ostentava ainda um reclame do Tu-pu-nez, produto insecticida. A sua fase de prosperidade fora o tempo em que se apregoava o bacalhau na Praça de Santa Cecília. Era uma loja centenária. Os vidros da frontaria raras vezes eram lavados: a custo se distinguia, através da poeira e do embaciado, uma quantidade de figurinhas de cera vestindo gibão cor de fogo, que representavam os ratos e as ratazanas. Estes animais tinham desembarcado duma nave de guerra amparados a bengalas; mal tinham posto pé em terra, uma camponesa, garridamente vestida, mas lívida e negra de sujidade, punha-os em fuga aspergindo-os com Tu-pu-nez. Era uma loja que me agradava muito: tinha um ar cínico e teimoso; lembrava com insolência os direitos da bicharia e da porcaria, a dois passos da igreja mais cara da França.

A velha ervanária morreu o ano passado, e o sobrinho vendeu a casa. Bastou abater algumas paredes: agora é uma sala de conferências, a Bonbonnière. Henry Bor-deaux, o ano passado, fez lá uma conferência sobre o alpinismo.

Na Rua Tournebride não se pode ter pressa: o andar das famílias é ragaroso. À? vezes pode-se avançar o espaço duma fila, porque uma família inteira entrou na pastelaria ou no florista. Mas noutras ocasiões temos de parar e marcar passo, porque duas famílias, pertencentes uma à coluna ascendente e outra à coluna descendente, se encontraram e se agarraram com força às mãos uns dos outros. Progrido a passos curtos. Sobrelevo-me às duas colunas a toda a altura da cabeça, e vejo os chapéus, um mar de chapéus. São quase todos pretos à diplomata. De vez em quando vê-se voar um na ponta dum braço, destapando o reflexo suave duma cabeça; depois, após alguns instantes dum voo pesado, volta a pousar. Na Rua Tournebride, n.º 16, o chapeleiro Urbain, especialista de bonés de pala militares, faz planar, como um símbolo, um imenso chapéu vermelho de arcebispo, cujas borlas de ouro pendem a dois metros do chão.

Pequena paragem: mesmo por baixo das borlas, acaba de se formar um grupo. O homem que está a meu lado, um velhinho pálido e frágil como uma porcelana, espera sem impaciência, de braços caídos: parece-me que é Coffier, o presidente da Junta do Comércio. Mora no alto do Outeiro Verde, numa grande casa de paredes de tijolo, cujas janelas estão sempre abertas de par em par. Acabou-se: o grupo desagregou-se, seguem todos o seu caminho. Agora mesmo se formou outro que ocupa, por|,>-,. menos lugar: mal se constituiu, afastou-se logo para a frontaria da loja de modas. A coluna nem se detém: «e desvia um poucochinho; vamos a desfilar à frente seis pessoas que estão a apertar as mãos umas às outras» «Bom dia, como está? Bom dia, meu caro amigo, como tem passado? Faça o favor de pôr o chapéu, ora essa! Veja lá se apanha frio; obrigado, minha senhora, realmente não está calor. Oh, filha, deixa-me apresentar-te o Dr. Lefrançois; muito prazer em conhecê-lo, doutor; o meu marido está sempre a falar-me do Dr. Lefrançois, que o tratou tão bem. Mas faça favor de pôr o chapéu, doutor, olhe que este frio pode fazer-lhe mal. É verdade que o doutor, com a sua ciência, depressa se curava. Talvez não, minha senhora, são sempre os médicos que têm menos assistência. Sabes que o doutor é um excelente músico? Ai, que graça, doutor, não sabia; é violino que toca? O doutor tem muito talento.»

O velhinho, a meu lado, é com certeza Coffier; uma mulher do grupo, a morena, come-o com os olhos, ao mesmo tempo que sorri para o médico. Talvez esteja a pensar: «Lá está o Sr. Coffier, presidente da Junta de Comércio; que aspecto intimidante que tem! Dizem que é uma pessoa tão fria!» Mas o Sr. Coffier não se dignou reparar: são pessoas do Boulevard Marítimo, não pertencem à sociedade. Já venho há tanto tempo a esta rua ver as chapeladas do domingo que aprendi a distinguir a gente do boulevard e a do Outeiro. Quando um sujeito traz casaco novo, chapéu de feltro, camisa impecável, quando vem a cortar água, não há engano possível: é alguém do Boulevard Marítimo. A gente do Outeiro Verde distin-gue-se por não sei quê de miserável e de acabrunhado. Tem os ombros estreitos e um jeito de insolência nos rostos gastos. Este senhor corpulento, que traz uma criança pela mão, aposto que é do Outeiro: tem uma cara cor de cinza e dá o nó da gravata como se ela fosse um cordel.

O senhor corpulento aproxima-se de nós: encara com insistência o Sr. Coffier. Mas, pouco antes de passar por ele desvia a cabeça e põe-se a gracejar paternalmente com o rapazinho. Dá mais alguns passos, inclinado para o filho, olhos mergulhados nos seus olhos, todo metido na sua felicidade   de   pai;   depois,   de súbito,   virando-se   rápidamente para nós, deita um olhar vivo ao velhinho e faz um cumprimento   amplo e seco,   descrevendo   uma   curva com o braço. O rapazinho, desconcertado, não se descobriu: é uma questão entre pessoas crescidas.

À esquina da Rua Basse-de-Vieille, a nossa coluna esbarra com uma coluna de fiéis que vêm a sair da missa: umas   dez   pessoas   vão   de   encontro   umas   às   outras   e cumprimentam-se   num   redemoinho,   mas   as   chapeladas são rápidas de mais para eu poder detalhá-las; acima desta multidão gordurosa e pálida, a   Igreja   de Santa   Cecília ergue a sua monstruosa massa branca: branca como giz num céu escuro; do outro lado das suas paredes resplandecentes está aprisionada uma porção da escuridão da noite. Numa ordem ligeiramente modificada, as pessoas retomam a marcha. O Sr. Coffier foi repelido para trás de mim.   Uma senhora de azul-escuro colou-se à minha ilharga esquerda. Vem   da missa.   Pisca os olhos,   um   pouco   deslumbrada de voltar à luz da manhã. O senhor, que vai adiante dela, e que tem uma nuca tão magra, é o marido, i       No outro passeio, um sujeito que leva a mulher pelo braço disse-lhe agora algumas palavras ao ouvido e pôs-se a sorrir. Imediatamente, ela despoja de toda a expressão e o seu rosto cheio de creme e dá alguns passos como cega. São sinais que não enganam: o parzinho vai cumprimentar. Com efeito, um instante depois, o sujeito deita a mão para o chapéu. Quando ela lhe chega ao nível da cabeça, os dedos hesitam um segundo antes de pousarem delicadamente no chapéu. Finalmente, enquanto o marido levanta o com meiguice, baixando um pouco a cabeça para ajudar a extracção, a mulher dá um pulinho, inscrevendo no rosto um sorriso jovem. Passa por eles uma sombra que se curva: mas os seus dois sorrisos gémeos não se apagam logo: conservam-se alguns instantes nos seus lábios, como remanescente. Quando o senhor e a senhora se cruzam comigo, já voltaram à sua impassibilidade, mas resta-lhes ainda um trejeito alegre à volta da boca.

Acabou-se: a aglomeração torna-se menos densa, as chapeladas fazem-se mais raras, as montras das lojas não têm já o mesmo encanto: estou no fim da Rua Tournebride. Vou ou não atravessar e subir a rua pelo outro passeio? Creio que estou farto, já vi de mais estes crânios rosados, estes rostos miudinhos, selectos, apagados. Vou atravessar a Praça Marignan. Ao separar-me com cuidado da coluna de gente, uma cabeça de verdadeiro cavalheiro irrompe, mesmo a meu lado, dum chapéu preto. É o marido da senhora de azul-escuro. Ah! Que belo crânio longo de dolicocéfalo, coberto de cabelos curtos e rijos! Que lindo bigode à americana, sulcado por fios de prata! E o sorriso, sobretudo, que admirável sorriso culto! Há também umas lunetas, algures, encavalitadas num nariz.

O cavalheiro, virando-se para a mulher, dizia:

«É um desenhador novo lá da fábrica. Pergunto a mim mesmo que terá ele vindo fazer aqui. É bom rapazinho, tímido... Acho-lhe graça.»

Em frente do vidro da Salsicharia Julien, o jovem desenhador, que acaba de pôr outra vez o chapéu na cabeça, ainda corado, de olhos no chão, com ar de teimoso, conserva todas as aparências duma intensa volúpia. É o primeiro domingo, sem dúvida, que ousa atravessar a Rua Tournebride. Tem o ar dum rapazinho no dia da primeira comunhão. Cruzou as mãos atrás das costas e virou a cara para a montra com um modo púdico realmente excitante; olha, sem as ver, para quatro linguiças brilhantes de geleia que ostentam os seus enfeites de salsa.

Uma mulher sai da salsicharia e trava-lhe o braço. É a mulher dele, muito nova, mas já com a pele roída. Por mais que venha rondar as imediações da Rua Tournebride, ninguém a tomará por uma senhora; traem-na o fulgor dos olhos, o seu ar sensato e prevenido. As verdadeiras senhoras não sabem o preço das coisas, gostam das belas loucuras; os seus olhos são lindas flores cândidas, flores de estufa.

Chego, ao bater da uma hora, à Cervejaria Vézelizc. Lá estão os velhos, como de costume. Dois deles começaram já a refeição. Há quatro a jogar a manilha, e que entretanto vão bebendo o seu aperitivo. Os outros estão de pé e observam a partida, enquanto a criada põe a mesa para eles. O mais alto, que tem uma barba imensa, é corretor de câmbios. Outro é comissário reformado da Capitania do Porto. Comem e bebem como se tivessem vinte anos. O seu prato dos domingos é a choucroutc. Os últimos a chegar interpelam os outros que já começaram a comer:

«Então, a choucroute dominical, como sempre?»

Sentam-se e suspiram de satisfação:

«Mariette, minha linda, um copo de cerveja bem cheiinho e uma choucroute.»

Esta Mariette é uma brejeira. Ao sentar-me a uma mesa do fundo, um velho escarlate põe-se a tossir de fúria, enquanto ela lhe serve um vermute.

«Deite mais, que diabo!», diz ele a tossir.

Mas ela zanga-se por sua vez: ainda não tinha acabado de deitar:

«Eu já me fui embora? Ora esta! Alguém lhe disse que eu não queria deitar mais? Veja lá se se zanga antes de tempo.»

Os outros põem-se a rir.

«Apanha!»

O corretor de câmbios, quando vai para se sentar, cinge Mariette pêlos ombros:

«Hoje é domingo, Mariette. Não quer ir esta tarde ao cinema cá com o seu homenzinho?»

«É domingo, é. É o dia da saída da Antoinette. Já que fala de homenzinho, sempre lhe digo que sou eu que vou trabalhar como um homem todo o dia.»

O corretor de câmbios sentou-se em frente dum velho de cara rapada que tem um ar de infeliz. O velho de cara rapada começa logo um animado discurso. O corretor não o ouve: faz contas e puxa pela barba. Estes dois nunca se ouvem um ao outro.

Reconheço os meus vizinhos: são pequenos comerciantes dos arredores. Ao domingo dão folga à criada. É por isso que vêm aqui, onde se instalam sempre à mesma mesa. O marido está a comer uma bela costeleta de vaca, cor-•de-rosa. Examina-a de perto e, de vez em quando, cheira. A mulher tasquinha com negligência. É uma loura forte, duns quarenta anos, faces vermelhas e penugentas. Pressentem-se-lhe os belos seios duros, através duma blusa de cetim. A cada refeição emborca, como um homem, a sua garrafa de bordéus tinto.

Vou ler Eugénie Grandet. Não que isso me dê muito prazer; mas alguma coisa se há-de fazer. Abro o livro ao acaso: a mãe e a filha falam do amor nascente de Eugénie:

Eugénie beijou-lhe a mão, disendo:

- Que bondosa que és, mãezinha querida! Estas palavras iluminaram o velho rosto maternal mirrado por longas dores.

- Como é que o achas? - perguntou Eugénie. A Sr.a Grandet respondeu apenas com um sorriso; depois, após um momento de silêncio, disse em voz baixa:

- Já gostarás dele? Mau seria.

- Mau - retorquiu Eugénie - porquê? O rapaz agradou-te, agrada a Nanon, porque não me agradaria a mim? Olha, mãe, vamos pôr a mesa para o almoço dele.

A rapariga pôs de lado a sua costura, a mãe fez o mesmo, dizendo:

- Estás doida!

Mas, consigo mesma, sentiu prazer em justificar, partilhando-a, a loucura da filha. Eugénie chamou Nanon.

- Que é? Que quer outra vez a menina?

- Nanon, o creme estará pronto para o almoço?

- Ah! Para o almoço está - respondeu a velha criada.

- Olha, serve-lhe o café muito forte; ouvi dizer ao Sr. dês Grassins que o café se fazia muito forte em Paris. Põe muito.

- E onde quer a menina que o vá buscar?

- Compra.

- E se o patrão me encontra?

- O Sr. Grandet anda na horta.

Desde que cheguei, os meus vizinhos tinham-se conservado calados, mas, dfi súbito, a voz do marido arranca-me à leitura.

O marido, com um ar divertido e misterioso:

«Olha lá, não reparaste?»

A mulher estremece e olha para ele, como saindo dum sonho. Ele come, bebe, depois continua, com o mesmo ar malicioso:

«Hum, hum!»

Um silêncio. A mulher voltou a afundar-se no seu sonho.

De súbito tem como um arrepio, e pergunta:

«Que estás tu a dizer?»

«Suzanne...   ontem...»

«Ah, sim!», diz a mulher, «tinha estado com o Victor.»

«Eu não te dizia?»

A mulher afasta o prato com um modo de impaciência.

«Não está bom.»

A beira do seu prato está cheia de bolinhas de carne escuras que ela deitou da boca. O marido desenvolve a sua ideia:

«Aquela   mulherzinha...»

Cala-se e sorri vagamente. Em frente de nós, o velho corretor faz festas no braço de Mariette, respirando com ruído. Daí a um momento:

«Eu bem te tinha dito, no outro dia...»

«Que é que tu me tinhas dito?»

«Do Victor... que ela ia ter com ele. Que é que tens?», pergunta de súbito, num tom mais neutro, «não gostas disto?»

«Não está bom.»

«Já não é a mesma coisa», diz ele com importância, «já não é como no tempo do Hécart. Sabes o que é feito dele, do Hécart?»

«Está em Domremy, não?»

«Está, sim, quem te disse?»

«Tu; disseste-me no domingo passado.»

A mulher come uma migalha de pão que tinha ficado em cima da toalha de papel. Depois, alisando com a mão o papel, na ponta da mesa, com hesitação:

«Enganas-te, sabes? Suzanne é mais...»

«Talvez seja, filha», respondeu ele distraidamente. Procura com os olhos Mariette, faz-lhe um sinal.

«Está calor.»

Mariette encosta-se familiarmente à beira da mesa.

«Se está», diz a mulher num gemido, «a gente aqui abafa e ainda por cima a carne não presta; hei-de dizer ao patrão... Já não é a mesma coisa. Abra ali o postigo um bocadinho, menina Mariette.»

O marido retoma o seu ar divertido:

«Outra coisa:   não viste os olhos dela?»

«Os olhos dela, quando, meu chochinha?»

O marido imita-a com impaciência:

«Os olhos dela, quando, meu chochinha? Essa é mesmo tua. No tempo em que os animais falavam.»

«Ontem, queres tu dizer? Ah, bem!»

O homem ri, olha para longe e recita muito depressa, com uma certa aplicação:

«Olhos de gato a fazer nas cinzas.»

Fica tão satisfeito que parece ter esquecido o que queria dizer. Ela ri, por sua vez, sem segunda intenção.

«Ah! Ah! Má-língua!»

Dá-lhe palmadinhas nos ombros. «má-língua! Grande má-língua!»

O marido   repete com maior   segurança:

«De gato a fazer nas cinzas.»

Mas ela deixa de rir:

«Não, a falar verdade, sabes? Suzanne é séria.»

O homem inclina-se, conta-lhe ao ouvido uma longa história. Ela espera um momento de boca aberta, de expressão atenta e risonha, como alguém que vai rebentar a rir, depois, bruscamente, deita-se para trás e arranha--lhe as mãos:

«Não é verdade, não é verdade.»

Mas o marido insiste num tom judicioso e presumido:

«Ouve lá, filha, se ele próprio o disse... Se não fosse verdade, porque o teria ele dito?»

«Não, não.»

«Mas se ele o disse! Ouve lá: supõe que...»

Ela põe-se a rir:

«O que me faz rir é pensar em René.»

«Também a mim.»

O homem ri-se também. Ela continua, numa voz baixa e importante:

«Então é porque ele deu por isso na terça-feira.»

«Quinta.»

«Não, terça! Por causa do...»

Dizendo isto,   desenha no ar uma   espécie de   elipse.

Longo silêncio. O marido ensopa miolo de pão no molho. Mariette muda os pratos e traz-lhes bolos de fruta. Também, daqui a pouco, terei o meu bolo. De súbito, a mulher, um pouco abstracta, com um sorriso altivo e algo escandalizado nos lábios, articula, numa voz arrastada:

«Olha,   tu...   sabes?   Bem te conheço.»

Há tanta sensualidade na sua voz que o marido, contagiado, se põe a acariciar-lhe a nuca com a mão gorda.

«Charles, está quieto, filho, que me perturbas», murmura ela a sorrir, de boca cheia.

Tento retomar a leitura.

- E onde quer a menina que o vá buscar?

- Compra.

- E se o patrão me encontra?

Mas ouço ainda a mulher dizer:

«Quem vai achar graça, sabes?, é Marthe. Vou contar-lhe...»

Os meus vizinhos calaram-se. Depois do bolo. Mariette trouxe-lhes ameixas secas, e a mulher está muito ocupada a depositar graciosamente os caroços na colher. O marido, de olhos no tecto, tamborila na mesa um ritmo de marcha. Dir-se-ia que o estado natural de ambos é o silêncio, e a palavra uma febre benigna que às vezes lhes dá.

- E onde quer a menina que o vá buscar?

- Compra.

Fecho o livro e vou passear.

Quando saí da Cervejaria Vézelize eram quase três horas: sentia a tarde em todo o meu corpo, que ela tornava mais pesado. Não a minha tarde: a deles, aquela que cem mil bouvillois iam viver em comum. A essa mesma hora, depois do copioso e demorado almoço do domingo, iam-se eles a levantar da mesa, e, para eles, alguma coisa tinha morrido. O domingo tinha gasto a sua leve carga de mocidade. Havia que digerir o frango e o bolo, tinham de se arranjar para sair.

A campainha do Cinema Eldorado retinia no ar límpido. É um ruído familiar do domingo esta campainha em pleno dia. Mais de cem pessoas faziam bicha, ao longo da parede verde. Esperavam avidamente a hora das doces trevas, do repouso, do abandono, a hora em que a tela, brilhando como uma pedra branca debaixo de água, falaria e sonharia por elas. Vão desejo: qualquer coisa dentro delas ficaria contraída: todas essas pessoas tinham demasiado medo de que lhes estragassem o seu belo domingo; iam sofrer uma decepção: a fita não prestaria, o vizinho do lado fumaria cachimbo e cuspiria por entre os joelhos, ou então Lucien seria tão desagradável! Não teria uma palavra amável. Ou ainda, como de propósito, precisamente hoje, logo no dia em que iam ao cinema, ia dar-lhes outra vez a dor nas costas. Daí a pouco, como todos os domingos, surdas còlerazinhas cresceriam na sala escura.

Segui pela calma Rua Bressan. O sol tinha dissipado as nuvens, estava bom tempo. Vinha uma família a sair da vivenda A Onda. A filha ia pelo passeio a abotoar as luvas. Teria talvez uns trinta anos. A mãe, especada no primeiro degrau da escadaria, olhava em frente, com um ar de confiança, respirando fundo. Do pai, eu via apenas as costas enormes. Curvado sobre a fechadura, estava a dar a volta à chave. A casa ficaria vazia e escura até voltarem. Nas casas vizinhas, já fechadas e desertas, os móveis e os sobrados estalavam docemente. Antes de saírem, os moradores tinham apagado o lume na chaminé da casa de jantar. O pai pôs-se ao lado das duas mulheres, e a família, sem uma palavra, começou o passeio. Aonde iriam? Ao domingo vai-se ao Cemitério Monumental, fazem-se visitas aos parentes, ou então, quando se está inteiramente livre, vai-se passear para o molhe. Eu estava livre: segui pela Rua Bressan, que vai dar ao Passeio do Molhe.

O céu estava azul-claro; algumas manchas de fumo, alguns penachos; de vez em quando, uma nuvem à deriva passava diante do Sol. Via-se, ao longe, a balaustrada de cimento branco que margina o passeio; o mar brilhava através dos vãos. A família virou à direita para a Rua do Capelão Hilaire, que sobe o Outeiro Verde. Vi-os subir a passos lentos, pondo três manchas negras no brilho do asfalto, voltei à esquerda e penetrei na multidão que desfilava à beira-mar.

Multidão mais misturada que de manhã. Parecia que todos aqueles homens já não tinham força para sustentar a bela hierarquia social em que, antes de almoço, tinham tanto orgulho. Os negociantes e os funcionários caminhavam lado a lado; deixavam-se tocar e até empurrar ou desviar por empregadinhos de aparência pobre. As aristocracias, as elites, os agrupamentos profissionais, tinham-se fundido ao calor da multidão. Restavam apenas homens quase sós, que tinham deixado de representar.

Uma poça de luz ao longe era o mar em maré baixa. Alguns escolhos à flor da água furavam com os cumes essa superfície clara. Na areia jaziam barcos de pesca, não longe dos blocos de pedra viscosos arremessados sem ordem contra a base do molhe para o proteger das ondas, e que deixavam entre si buracos fervilhantes. À entrada do anteporto, sobressaindo do céu branqueado pelo sol, uma draga recortava a sua sombra. Todas as noites, até à meia-•noite, ela guincha e geme e faz uma barulheira de seiscentos diabos. Mas ao domingo os operários passeiam em terra, fica só um guarda a bordo, e a draga cala-se.

O sol estava claro e diáfano: um vinho branco comum. V sua luz apenas aflorava os corpos, não lhes dava sombras, nem relevo: os rostos e as mãos formavam manchas de ouro-pálido. Todos aqueles homens de sobretudo

pareciam flutuar docemente a algumas polegadas do solo. De vez em quando, o vento empurrava contra nós sombras que tremiam como água; os rostos apagavam-se um instante, ficavam cor de giz.

Era domingo; encaixada entre a balaustrada e o gradeamento das moradias de férias, a multidão derramava-se em pequenas ondas e ia-se perder em mil riachos por trás do grande edifício da Companhia Transatlântica. Tantas crianças! Crianças em carrinhos, ao colo, pela mão ou caminhando às duas e às três diante dos pais, com um ar de gravidade. Todos esses rostos tinha-os eu visto poucas horas antes, quase triunfante na mocidade duma manhã de domingo. Agora banhados pelo sol, exprimem simplesmente a calma, o repouso, uma espécie de obstinação.

Poucos gestos: davam-se ainda, é certo, algumas chapeladas, mas sem a largueza, sem a alegria nervosa da manhã. As pessoas deixavam-se ficar para trás, de cabeça levantada, de olhar distante, abandonadas ao vento que as empurrava, inchando-lhes os casacos. De vez em quando, um riso seco, depressa abafado; um grito de mãe: «Jeannot, Jeannot, fazes favor...» E depois o silêncio. Odor ligeiro de tabaco louro: são os empregados a fumar. Salambô, Aïcha, cigarros do domingo. Em alguns rostos, mais abandonados, julguei ler um pouco de tristeza: mas não, aquela gente não estava triste, nem alegre: repousava. Os seus olhos muito abertos e fixos reflectiam passivamente o mar e o céu. Daí a pouco iriam para casa, beberiam uma chávena de chá, em família, na mesa da casa de jantar. De momento pretendiam viver sem se gastar, economizar os gestos, as palavras, os pensamentos, boiar: tinham apenas um dia para apagar as suas rugas, os seus pés-de-galinha, os vincos amargos que dá o trabalho da semana. Apenas um dia. Sentiam os minutos esgueirar-se-lhes por entre os dedos; teriam tempo para acumular mocidade bastante para recomeçar tudo na segunda-feira de manhã? Dilatavam os pulmões, porque o ar do mar vivifica: só o seu respirar, regular e profundo como o de quem dorme, dava sinal de viverem. Eu caminhava na ponta dos pés, não sabia o que fazer do meu corpo duro e fresco, no meio daquela multidão trágica que repousava.

O mar tinha ganho uma cor de ardósia; subia lentamente. À noite estaria a maré cheia; nessa noite o Passeio do Molhe ficaria mais deserto que o Boulevard Victor-Noir. Lá adiante, à esquerda, uma luz vermelha brilharia no canal.

O Sol descia lentamente sobre o mar. Incendiava, de passagem, a janela duma moradia de estilo normando. Uma mulher, ofuscada por ele, levou a mão aos olhos com um modo de enfado, e agitou a cabeça.

«Gaston, estou encandeada», disse ela com um riso hesitante.

«É que está um bom solinho», disse o marido; «não aquece, mas sempre é agradável.»

A mulher acrescentou, voltando-se para o mar:

«Julgava que pudéssemos vê-la.»

«Não se pode», respondeu o homem, «está do lado do Sol.»

Falavam certamente da ilha Caillebotte, cuja ponta meridional devia aparecer entre a draga e o cais do anteporto.

A luz suavizou-se. Àquela hora instável, algo anunciava a noite. Já aquele domingo tinha um passado. As moradias e a balaustrada cinzenta pareciam recordações muito próximas. Um a um, os rostos iam perdendo o seu ar de descanso, alguns tornaram-se quase enternecedores.

Uma mulher grávida amparava-se a um homem novo, louro, com um aspecto abrutado.

«Ali, olha ali», disse ela.

«O   quê?»

«Ali, as gaivotas.»

Ele encolheu os ombros; não havia gaivotas. O céu tinha-se tornado quase puro, atirando para cor-de-rosa no horizonte.

«Sim, eu ouvi-as. Olha, lá estão a gritar.»

O homem respondeu:

«Foi   qualquer   coisa   que   rangeu.»

Um candeeiro a gás brilhou. Julguei que o empregado que acende os candeeiros já tivesse passado. As crianças esperam por ele. porque é quem assinala a hora de voltar a casa. Mas era um último reflexo do Sol. O céu estava ainda claro, mas a terra banhava na penumbra. A multidão ia-se desbastando; ouvia-se distintamente o marulhar das águas. Uma mulher nova, com ambas as mãos apoiadas à balaustrada, voltou para o céu o seu rosto azul, riscado de sombra pela pintura dos lábios. Houve um instante em que perguntei a mim próprio se ia pôr-me a gostar dessa gente, de toda a gente. Mas afinal o domingo era deles, e não meu.

A primeira luz que se acendeu foi a do farol Caille-botte; um rapazinho parou ao pé de mim e murmurou num tom de êxtase: «Oh!, o farol!»

Então senti que me enchia o coração um grande sentimento de aventura.

Viro à esquerda, e, pela Rua dos Veleiros, vou dar ao Pequeno Prado. As cortinas de ferro das montras estão corridas. A Rua Tournebride, clara ainda, ficou deserta, perdeu a sua breve glória da manhã; já nada a distingue, a esta hora, das ruas vizinhas. Levantou-se um vento muito forte. Ouço ranger o chapéu de folha do arcebispo.

Estou sozinho; as pessoas voltaram quase todas a casa; estão a ler o jornal da noite, ao som da telefonia. O domingo que findou deixou-lhes um gosto de cinza, e já o pensamento se lhes vira para a segunda-feira. Mas, para mim, não há segunda-feira, nem domingo: há dias que se empurram uns aos outros em desordem, e depois, bruscamente, iluminações como esta.

Nada mudou e, entretanto, tudo existe de outra maneira. Não posso descrever; é como a Náusea, e afinal é exactamente o contrário: enfim, sucede-me uma aventura, e. quando me interrogo, vejo que me sucede que sou eu o que estou aqui; sou eu que fendo a noite: sou feliz como um herói de romance.

Algo se vai produzir: na sombra da Rua Basse-de-Vieille há qualquer coisa à minha espera; é além, precisamente à esquina desta rua calma, que a minha vida vai começar. Vejo-me avançar, com o sentimento da fatalidade. À esquina da rua há uma espécie de marco branco. Ao longe parece todo negro e a cada passada fica um pouco mais branco. Esse corpo escuro que se ilumina pouco a pouco faz-me uma impressão extraordinária: quando ficar todo claro, todo branco, deter-me-ei precisamente a seu lado, e então a aventura começará. Está agora tão claro esse farol branco a sair da sombra que quase tenho medo: penso um instante em voltar atrás. Mas não é possível quebrar o encanto. Avanço, estendo a mão, toco no marco.

Eis a Rua Basse-de-Vieille e a enorme massa de Santa Cecília acaçapada na sombra, e cujos vitrais brilham. O chapéu de folha range. Não sei se o mundo se comprimiu subitamente, ou se sou eu que ponho entre os sons e as formas uma unidade tão forte: não posso sequer conceber que algo do que me rodeia seja diferente do que é.

Paro um momento, espero, sinto bater o coração; esquadrinho com o olhar a praça deserta. Não vejo nada. Levantou-se um vento bastante forte. Enganei-me; na Rua Basse-de-Vieille fica apenas o ponto de escala: a coisa está à minha espera ao fundo da Praça Ducoton.

Não tenho pressa de voltar a andar. Tenho a impressão de que atingi o cume da minha felicidade. Quanto não fiz. em Marselha, em Xangai, em Mcquinez, para ganhar um sentimento tão pleno? Hoje, já não espero mais nada, volto a casa ao fim dum domingo vazio: tenho-o diante dos olhos.

Parto. O vento traz-me o grito duma sereia. Estou sozinho, mas caminho como um rancho que descesse sobre uma cidade. Há, neste instante, navios cheios de música sobre o mar; acendem-se luzes em todas as cidades da Europa; comunistas e nazis andam aos tiros nas ruas de Berlim; os desempregados palmilham o asfalto de Nova Iorque; diante dos seus toucadores, num quarto quente, mulheres pintam de rimmel as pestanas. E eu estou aqui, nesta rua deserta, e cada tiro disparado duma janela de Neukolln, cada soluço sangrento dos feridos que são levados, cada gesto preciso e miúdo das mulheres que se enfeitam, corresponde a um passo meu, a uma pulsação do meu coração.

Diante da Galeria Gillet perco a noção do que hei-de fazer. Não estarão à minha espera ao fundo da galeria?

Mas há também, na Praça Ducoton, ao cabo da Rua Tour-nebride, certa coisa que tem necessidade de mim para nascer. Estou cheio de angústia: o menor gesto me compromete. Não posso adivinhar o que querem de mim. Todavia, é preciso escolher: sacrifico a Galeria Gillet; ignorarei sempre o que ela me reservava.

A Praça Ducoton está vazia. Ter-me-ei enganado? Parece-me que não o suportaria. Será verdade que nada vai acontecer? Aproximo-me das luzes do Café Mably. Estou desorientado, não sei se vou entrar: deito uma olhadela através dos grandes vidros embaciados.

A sala está à cunha. O ar ficou azul com o fumo dos cigarros e com o vapor que exalam os fatos húmidos. A empregada da caixa está no seu posto. Bem a conheço: é ruiva como eu; tem uma doença má na barriga. Vai apodrecendo lentamente por baixo das saias com um sorriso melancólico, semelhante ao cheiro de violeta que emana às vezes dos corpos em decomposição. Percorre-me um arrepio da cabeça aos pés; era... era ela que estava à minha espera. Estava ali, erguendo o busto imóvel acima do balcão, a sorrir. Do fundo deste café qualquer coisa volta para trás, na direcção dos momentos esparsos deste domingo, e solda-os uns aos outros, dá-lhes um sentido: atravessei todo o dia para chegar a este momento, apoiar a testa contra este vidro, contemplar este rosto delicado que avulta sobre o fundo cor de romã dum cortinado. Tudo parou; a minha vida parou: este grande vidro, este ar pesado, azul como a água, aquela planta carnuda e branca no fundo da água, e eu próprio, formamos um todo imóvel e cheio: sou feliz.

Quando passei de novo pelo Boulevard da Redoute restava-me apenas uma saudade amarga. Dizia para comigo: «Talvez não preze nada no mundo como o sentimento de aventura. Mas ele vem quando quer; e abandona-me tão depressa! E fico tão seco quando se vai embora. Far-me-á ele estas curtas visitas irónicas para me mostrar que falhei na vida?»

Atrás de mim, na cidade, pelas grandes ruas direitas, à luz fria dos candeeiros, um formidável acontecimento social agonizava: era o fim do domingo.

 

                                           SEGUNDA-FEIRA

Como pude eu escrever ontem esta frase absurda e pomposa: «Estava sozinho, mas caminhava como um rancho que descesse sobre uma cidade»?

Não tenho necessidade de fazer frases. Escrevo para aclarar certas circunstâncias. Desconfiar da literatura! É preciso escrever ao correr da pena, sem procurar as palavras.

No fundo, o que me repugna é ter sido sublime ontem à noite. Quando tinha vinte anos, embebedava-me e, em seguida, explicava que era um tipo no género de Descartes. Sentia perfeitamente que me atochava de heroísmo, mas não reagia: esse estado agradava-me. Mas depois, no dia seguinte, sentia-me tão enjoado como se tivesse acordado numa cama cheia de vómitos. Não vomito quando estou bêbado, mas mais valia. Ontem nem sequer tinha a desculpa da embriaguez. Entusiasmei-me como um imbecil. Tenho necessidade de me lavar com pensamentos abstractos, transparentes como água.

Decididamente, o sentimento de aventura não vem dos acontecimentos: a prova está tirada. É antes a maneira como os instantes se encadeiam. Eis, creio eu, o que se passa: bruscamente sente-se que o tempo corre, que cada instante conduz a outro instante, esse outro a um terceiro, e assim sucessivamente; que todos os instantes se aniquilam, que é inútil tentar reter algum, etc., etc. E então atribui-se essa propriedade aos acontecimentos que nos aparecem dentro dos instantes; o que pertence à forma é trasladado para o conteúdo. Em suma, esse famoso correr do tempo, fala-se muito dele, mas quase não se vê. Vê-se uma mulher, pensa-se que ela será velha um dia, somente não a vemos envelhecer. Mas em certos instantes parece que a vemos envelhecer e que nos sentimos envelhecer com ela: é o sentimento de aventura.

Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo. O sentimento de aventura seria, muito simplesmente, o da irreversibilidade do tempo. Mas porque é que não o temos constantemente? O tempo não será constantemente irreversível? Há momentos em que podemos fazer o que queremos - ir para diante ou voltar para trás, que tanto faz uma coisa como outra; e há outros em que se diria que as malhas se apertaram, e, nesse caso, impõe-se não falhar a cartada, porque a ocasião não se repetiria.

Anny fazia o tempo dar tudo quanto podia. Na época em que ela estava em Jibuti e eu em Adem, quando ia passar vinte e quatro horas com ela, esforçava-se por multiplicar os mal-entendidos entre nós, até não faltarem senão sessenta minutos, exactamente, para a minha partida; sessenta minutos, nem mais nem menos do que é preciso para se sentirem passar os segundos um a um. Lembro-me duma dessas noites terríveis. Eu tinha de partir à meia-noite. Tínhamos ido ao cinema ao ar livre; estávamos desesperados, tanto um como o outro. Somente, era ela que dirigia o jogo. Às onze horas, ao começar a fita de fundo, agarrou-me na mão e apertou-a nas dela sem uma palavra. Senti-me invadido por uma alegria acre e percebi, sem precisar de olhar para o relógio, que eram onze horas. A partir desse instante, começámos a sentir os minutos passar. Dessa vez íamo-nos separar por três meses. A dado momento, projectou-se na tela uma imagem muito branca, a escuridão diminuiu, e vi que Anny estava a chorar. Enfim, à meia-noite largou a minha mão, depois de a ter apertado com violência; levantei-me e saí sem lhe dizer uma única palavra. Era trabalho bem feito.

Sete horas da tarde.

Dia de trabalho: vá lá que não me correu mal; escrevi seis páginas com certo prazer. Tanto mais que eram considerações abstractas sobre o reinado de Paulo I. Depois da orgia de ontem, conservei-me todo o dia cuidadosamente abotoado. Não era altura para apelos ao coração! Mas sentia-me muito à vontade a desmontar as molas da autocracia russa.

Somente este Rollebon irrita-me. Faz de misterioso nas mais pequenas coisas. Que terá ele ido fazer à Ucrânia no mês de Agosto de 1804?

É em termos velados que fala da viagem:

«A posteridade julgará se os meus esforços, que o êxito não podia recompensar, não mereciam mais que uma renegação brutal e tantas humilhações que tive de suportar calado, quando sabia o meio de reduzir os trocistas ao silêncio e de os precipitar no medo.»

Caí na armadilha uma vez: Rollebon mostrava-se cheio-de reticências pomposas relativamente a uma viagenzinha que tinha feito a Bouville em 1790. Perdi um mês a verificar todos os seus actos. No fim de contas, tinha emprenhado a filha dum rendeiro seu. Não se tratará simplesmente dum cabotino?

Sinto-me cheio de má vontade contra essa criaturinha presumida e mentirosa; talvez seja despeito: encantava-me que ela mentisse aos outros, mas gostava que abrisse uma excepção para mim; julgava que nos entendíamos ambos, como companheiros de malefícios, nas barbas de todos os mortos, vítimas do marquês, que a mim, e só a mim, diria um dia a verdade. Mas o marquês não ma disse; não me disse nada; nada que não tenha dito a Alexandre ou a Luís XVIII. a quem enganava. É muito importante, para mim, que Rollebon tenha sido uma pessoa interessante. Patife, sem dúvida: quem não o é? Mas grande patife ou pequeno? Não considero bastante as pesquisas históricas para perder o meu tempo com um morto, cuja mão não me baixaria a apertar, se ele fosse vivo. Que sei eu dele? Não se pode sonhar vida mais bela que a sua: mas teve-a lealmente? Se ao menos as suas cartas não fossem tão afectadas... Ah! Seria preciso conhecer-lhe o olhar... talvez ele tivesse uma maneira deliciosa de inclinar a cabeça sobre o ombro, ou de espetar o indicador, com um ar astuto, ao lado do nariz, ou talvez mostrasse, entre duas mentiras amáveis, uma breve violência que logo abafava. Mas está morto: restam dele um Tratado de Estratégia e umas Reflexões sobre a Virtude.

Se não me vigiasse, imaginá-lo-ia tão bem! Por baixo da sua ironia brilhante, e que fez tantas vítimas, é um simples, quase um ingénuo. Pensa pouco, mas, em qualquer ocasião, por uma graça profunda, faz exactamente o que convém. A sua maroteira é cândida, espontânea, toda generosidade, tão sincera como o seu amor pela virtude. E quando traiu, bem traídos, benfeitores e amigos, volta-se para os acontecimentos com gravidade para tirar deles uma moral. Nunca pensou ter o menor direito sobre os outros, nem que os outros o tivessem sobre ele: os dons que lhe faz a vida considera-os injustificados e gratuitos. Afeiçoa-se fortemente a qualquer coisa, mas desliga-se dela com facilidade. E nunca foi ele próprio que escreveu as suas cartas, as suas obras: deu-as a redigir a um escrevente profissional.

Somente, se era para chegar a este ponto, mais me valia escrever um romance sobre o marquês de Rollebon.

Onze horas da noite.

Jantei no Rendez-vous dos Ferroviários. Como a patroa lá estava, tive de ir para a cama com ela, mas fi-lo por delicadeza. Sinto uma certa repugnância por ela: é branca de mais e, além disso, deita um cheiro de recém-nascido. Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporto de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu. Estava a pensar no Sr. de Rollebon: afinal, porque não hei-de escrever um romance sobre a sua vida? Deixei deslizar o meu braço pelo quadril da patroa e vi de súbito um jardinzinho com árvores baixas e largas das quais pendiam imensas folhas cobertas de pêlos. Corriam por toda a parte formigas, centopeias, traças. Havia bichos mais horríveis: o seu corpo era feito duma fatia de pão torrado como as que servem de canapé por baixo de pombos guisados; andavam de lado com patas de caranguejo. As largas folhas estavam todas presas de bichos. Por trás dos cactos e dos nopais, a Véleda do jardim público apontava para o próprio sexo. «Este jardim cheira a vomitado», gritei eu.

«Não queria acordá-lo», disse a patroa, «mas tinha uma dobra do lençol debaixo do rabo, e, além disso, tenho de descer por causa dos fregueses do comboio de Paris.»

 

                                                 TERÇA-FEIRA GORDA

Dei açoites a Maurice Barres. Éramos três soldados, e um de nós tinha um buraco no meio do rosto. Maurice Barres aproximou-se e disse-nos: «Estou contente com vocês!», e deu um raminho de violetas a cada um. «Não sei onde hei-de metê-lo», disse o soldado da cara furada. Então Maurice Barres disse: «Há-de metê-lo no meio do buraco que tem na cara.» O soldado respondeu: «Vou metê-lo mas é no teu -rabo.» E então virámos de bruços Maurice Barres e tirámos-lhe as calças. Tinha por baixo uma túnica vermelha de cardeal. Arregaçámos a túnica, e Maurice Barres pôs-se a gritar: «Cuidado, que tenho calças de passadeiras!» Mas demos-lhe açoites até fazer sangue, e, no traseiro, desenhámos-lhe, com as pétalas das violetas, a cara de Déroulède.

De há um tempo para cá lembro-me demasiadas vezes dos meus sonhos. De resto, com certeza que me mexo muito enquanto durmo, porque todas as manhãs acordo com os cobertores no chão. Hoje é Terça-Feira Gorda, mas em Bouville isso pouco significa; mal haverá, em toda a cidade, umas cem pessoas que se mascarem.

Quando ia a descer a escada, a patroa chamou-me:

«Há uma carta para o senhor.»

Uma carta: a última que recebi era do conservador da Biblioteca de Ruão, em' Maio do ano passado. A patroa conduz-me ao compartimento dos registos; estende-me um comprido envelope amarelo e cheio: Anny escreveu-me. Há cinco anos que não tinha notícias dela. A carta foi procurar-me à minha antiga morada de Paris; no carimbo traz a data de 1 de Fevereiro.

Saio; levo o envelope na mão, não me atrevo a abri-lo; Anny não mudou de papel de carta. Gostava de saber se ainda o vai comprar à pequena papelaria de Picadilly. Imagino que conservou também o mesmo penteado, aqueles cabelos louros e pesados que não queria cortar. Deve lutar pacientemente em frente dos espelhos para salvar o seu rosto: não é garridice nem medo de envelhecer; quer ficar como é, exactamente como é. O que eu preferia nela era talvez essa fidelidade severa e eficiente ao menor traço da sua imagem.

A letra firme da morada, traçada a tinta roxa (também não mudou de tinta), tem ainda um certo brilho:

«Ex.mo Sr. Antoine Roquentin.»

Gosto tanto de ler o meu nome nos envelopes! Visionei, numa bruma, um sorriso de Anny, adivinhei-lhe os olhos, a cabeça inclinada: quando eu estava sentado, ela vinha postar-se em frente de mim a sorrir. Sobrelevava-se-me de toda a altura do busto, agarrava-me pêlos ombros e sacudia-me com os braços estendidos.

O envelope é pesado; deve conter, pelo menos, seis páginas. A cavalo naquela letra bonita vêem-se as garatujas da minha antiga porteira:

«Hotel Printania - Bouville.»

Estas letras miudinhas não têm brilho.

Quando abro a carta, a minha decepção rejuvenesce-me seis anos:

«Não sei como é que faz Anny para encher assim os envelopes: nunca há nada dentro.»

Disse mais de cem vezes esta frase na Primavera de 1924, enquanto lutava, como hoje, para extrair do forro dum envelope um pedaço de papel quadriculado. O forro é uma beleza: verde-escuro com estrelas de ouro; dir-se-ia um pano pesado saído da goma. Tem bem, por si só, três quartos do peso do envelope.

Anny escreveu a lápis:

«Daqui a dias passo por Paris. Vem ver-me ao Hotel de Espanha no dia 20 de Fevereiro. É um favor que te peço ( «é um favor que te peço» está escrito por cima da linha e ligado a «vem ver-me» por uma curiosa espiral). Preciso de te ver. Anny.»

Em Mequinez, em Tânger, quando voltava a casa, à tardinha, encontrava às vezes um bilhete em cima da minha cama: «Quero ver-te imediatamente.» Ia ter com Anny, a correr, ela abria-me a porta, repuxando para cima as sobrancelhas, num ar de admiração: já não tinha nada a dizer-me: queria-me um pouco mal por ter vindo. Irei; talvez ela se recuse a receber-me. Ou então vão-me dizer ao balcão do hotel: «Não temos aqui pessoa nenhuma com esse nome.» Não a julgo capaz de fazer isso. Somente, tpode ainda escrever-me, daqui a oito dias, que mudou de opinião, e que fica para outra vez.

As pessoas estão no seu trabalho. A Terça-Feira Gorda anuncia-se bastante sensaborona. A Rua dos Mutilados cheira fortemente a madeira húmida, como todas as vezes que está para chover. Não gosto destes dias excepcionais: os cinemas dão matinées, os meninos das escolas têm feriado; hár-nas ruas um vago arzinho de festa que não cessa de solicitar a atenção e se dissipa assim que atentamos nele.

Vou, sem dúvida, voltar a ver Anny, mas não posso dizer que esta ideia me faça precisamente feliz. Desde que recebi a carta, sinto-me desocupado. Felizmente, é meio-dia; não tenho fome, mas vou comer, para passar o tempo. Entro no Camille, uma casa de pasto na Rua dos Relojoeiros.

É uma casa bem fechada; serve toda a noite choucroute e carne guisada com feijões. À saída do teatro é aqui que se vem cear; os polícias orientam para aqui os viajantes que chegam de noite e que têm fome. Oito mesas de mármore. Um assento de couro ladeia as paredes. Dois espelhos comidos por manchas ruças. As duas janelas e a porta são de vidro fosco. O balcão fica num recôncavo. Há outra divisão dum dos lados. Mas nunca lá entrei; é para os parzinhos.

«Traga-me uma omeleta com presunto.»

A criada, uma enorme rapariga de faces vermelhas, ri-se cada vez que fala com um homem.

«Não posso. Quer antes uma omeleta com batatas? O presunto está fechado: só quem o corta é o patrão.»

Mando vir carne com feijões. O patrão chama-se Camille e não é para brincadeiras.

A criada desaparece. Fico sozinho nesta sala escura. Tenho na carteira uma carta de Anny. Uma falsa vergonha impede-me de a ler. Tento lembrar-me das frases uma a uma.

«Meu querido Antoine.»

Sorrio: não, decerto. Anny, decerto, não escreveu «meu querido Antoine».

Há seis anos -acabávamos de nos separar de comum acordo - decidi partir para Tóquio. Escrevi-lhe algumas palavras. Já não podia chamar-lhe «meu querido amor»; comecei, muito inocentemente, por «minha querida Anny».

«Fiquei admirada com o teu à-vontade», respondeu-me ela; «nunca fui, nem sou, a tua querida Anny. E tu, peço-te que acredites que não és o meu querido Antoine. Se não sabes como me hás-de chamar, não me chames coisa nenhuma. Mais vale assim.»

Tiro a carta da carteira. Anny não escreveu «meu querido Antoine». No fim da carta também não há nenhuma despedida delicada: «Preciso de te ver.» Nada que possa fixar-me quanto aos seus sentimentos. Não posso queixar-me: reconheço nestes modos o seu amor pelo perfeito. Ela queria sempre realizar «momentos perfeitos». Se o instante não se prestava a isso, deixava de se interessar pelo que quer que fosse, a vida desaparecia dos seus olhos; deixava-se andar preguiçosamente, com uns modos de grande rapariga na idade ingrata. Ou então provocava uma discussão:

«Já reparaste que te assoas como um burguês, solenemente, e que te dá satisfação tossicar para o lenço?»

Era preciso não responder, era preciso esperar: de súbito, a algum sinal que me escapava, ela estremecia, tornava duras as suas belas feições lânguidas, e começava o trabalho de formiga. Tinha uma magia imperiosa e encantadora; cantarolava por entre dentes, olhando para todos os lados, depois endireitava-se com um sorriso, vinha sacudir-me pêlos ombros e, durante alguns instantes, parecia dar ordens aos objectos que a rodeavam. Explicava-me, numa voz baixa e rápida, o que esperava de mim.

«Ouve, estás disposto a fazer um esforço, não é verdade? Foste tão tolo da última vez! Vês como este momento podia ser belo? Olha para o céu, olha para a cor do sol no tapete. Vesti precisamente o vestido verde e não estou pintada... Não vês como estou pálida? Anda, recua, vai-te sentar na sombra;   percebes o   que tens a fazer? Knlão? Vá lá! Que tolo que és! Fala comigo.»

Eu sentia que o sucesso da empresa estava na minha mão: o instante tinha um sentido obscuro que era preciso destacar e perfazer; deviam ser feitos certos gestos, certas palavras deviam ser ditas: sentia-me oprimido pelo peso da responsabilidade, arregalava os olhos e não via nada, debatia-me no meio de ritos que Anny inventava na ocasião, e rasgava-os com os meus grandes braços, como teias de aranha. Nesses momentos, ela odiava-me.

Irei vê-la decerto. Estimo-a e gosto ainda dela do fundo do coração. Faço votos por que outro tenha mais sorte e mais habilidade que eu no jogo dos momentos perfeitos.

«Os teus malditos cabelos estragam tudo», dizia ela. «Nunca se fará nada de um homem ruivo.»

Sorria. Perdi primeiro a lembrança dos seus olhos, depois a do seu longo corpo. Retive, o mais tempo que pude, o seu sorriso, e finalmente, há três anos, perdi-o também. Há bocadinho, bruscamente, quando recebi a carta das mãos da patroa, essa imagem voltou; julguei ver Anny a sorrir. Tento recordá-la novamente: tenho necessidade de sentir toda a ternura que Anny me inspira; já a pressinto, essa ternura: está muito perto, desejosa de renascer. Mas o sorriso não volta: acabou-se. Fico vazio e seco.

Um homem entrou com modos friorentos.

«Ora então, bons dias.»

Senta-se sem tirar o sobretudo esverdeado. Esfrega as mãos compridas, entrelaçando os dedos.

«Que deseja tomar?»

O recém-chegado estremece, de olhos inquietos:

«Hum... Traga-me um Byrrh com água.»

A criada não se mexe. O seu rosto, no espelho, parece dormir. Na realidade, os seus olhos estão abertos, mas não são mais que fendas. Esta rapariga é assim; não tem pressa de servir os fregueses. Quando eles dizem o que querem fica sempre um momento abstracta, a considerar. Pensa talvez na garrafa que irá buscar acima do balcão, no rótulo branco com letras vermelhas, no espesso xarope negro que vai deitar: é um pouco como se ela própria bebesse.

Meto a carta de Anny na carteira: já tirei dela tudo quanto podia; não posso chegar à mulher que a teve nas mãos, que a dobrou e meteu no envelope. Será possível, de resto, pensar em alguém no passado? Enquanto nos amámos não permitimos que o mais ínfimo dos nossos instantes, a mais leve das nossas dores, se desligasse de nós e ficasse para trás. Os sons, os odores, os matizes do dia, até os pensamentos que não tínhamos confessado, levávamos tudo e tudo ficava ao vivo; não cessavam de nos fazer gozar ou sofrer no presente. Recordações, nenhuma: um amor implacável e tórrido, sem sombras, sem recuo, sem refúgio. Três anos presentes ao mesmo tempo. Foi por isso que nos separámos: não tínhamos bastante força para suportar tal fardo. E então, quando Anny me deixou, duma só vez, todos juntos, os três anos desmoronaram-se e caíram no passado. Nem sequer sofri: sentia-me vazio. Depois o tempo pôs-se de novo a correr, e o vazio aumentou. Em seguida, em Saigão, quando decidi voltar para França, tudo o que se conservava ainda-rostos estranhos, praças, cais à beira de longos rios - aniquilou-se completamente. E pronto; o meu passado é apenas um buraco enorme. O meu presente, esta criada de corpete azul, aquele homenzinho que está a sonhar ao pé do balcão. Tenho a impressão de ter aprendido nos livros tudo o que sei da minha vida. Os palácios de Benares, o terraço do rei Leproso, os templos de Java com as suas grandes escadarias quebradas, reflectiram-se um instante nos meus olhos, mas ficaram lá longe, onde estavam. O eléctrico que passa diante do Hotel Printania não leva, à noite, nas janelas, o reflexo das letras de néon; inflama-se um instante e afasta-se com os vidros negros.

O homem não pára de olhar para mim: aborrece-me. Faz-se importante de mais para o tamanho que tem. A criada decide-se enfim a servi-lo. Alça preguiçosamente o seu grande braço escuro, apanha a garrafa e trá-la com um copo.

«Aqui tem   o   senhor.»

«Achille, Sr. Achille», diz ele com urbanidade.

A rapariga deita o aperitivo sem responder; o Sr. Achille tira rapidamente o dedo do nariz e espalma as mãos na mesa. Deitou a cabeça para trás e os seus olhos brilham. Diz com uma voz fraca:

«Pobre rapariga.»

A criada estremece e eu também: o homem está com uma expressão indefinível, de espanto talvez, como se fosse outro que acabasse de falar. Estamos os três incomodados.

A gorda criada é a primeira a recuperar a presença de espírito: não tem imaginação. Mede de alto a baixo o Sr. Achille, com dignidade: bem sabe que seria capaz só com uma mão de o arrancar do seu lugar e de o pôr na rua.

«Em que é que eu sou uma pobre rapariga, diga lá?!»

Ele hesita. Olha para ela, embaraçado, depois ri. Mil pregas enrugam-lhe a cara; esboça gestos leves, rodando a mão sobre o punho:

«Ofendeu-se. É uma expressão que se diz por dizer; diz-se: pobre rapariga. Não é por mal.»

Mas ela vira-lhe as costas e vai para trás do balcão: está ofendida de verdade. O homem ri outra vez:

«Ah! Ah! Foi uma expressão que me escapou. É caso para zanga? Mas ela zangou-se», diz ele dirigindo-se vagamente a mim.

Viro a cara. O homem levanta um pouco o copo, mas não pensa em beber: pisca os olhos com um ar surpreendido e intimidado; dir-se-ia que procura lembrar-se de alguma coisa. A criada sentou-se no banco da caixa; agarra na sua costura. Tudo voltou ao silêncio: mas já não é o mesmo silêncio. Começou a chover: a água bate ao de leve nos vidros foscos; se ainda há na rua crianças mascaradas, vai amolecer-lhes e enlambuzar-lhes as caraças de cartão.

A criada acende a luz: pouco passa das duas horas, mas o céu está todo escuro; não se vê para coser. Suave luz; as pessoas estão em casa; também a acenderam com certeza. Estão a ler, a olhar o céu pela janela. Para elas... é outra coisa. Envelheceram de outra maneira. Vivem no meio de bens herdados, de presentes, cada móvel delas é um presente. Relógios de sala, medalhas, retratos, conchas, pesa-papéis, biombos, xailes. Têm armários cheios de garrafas, de panos, de roupa velha, de jornais; guardaram tudo. O passado é um luxo de proprietário.

Onde havia eu de conservar o meu? Não se mete o passado na algibeira; é preciso ter casa para o arrumar. Possuo apenas o meu corpo; um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações; elas passam através dele. Não devia queixar-me: tudo quanto quis foi ser livre.

O homenzinho agita-se e suspira. Abafou-se melhor no sobretudo, mas, de vez em quando, endireita-se e toma um modo altivo. "É outro que não tem passado. Procurando bem, encontrar-se-ia, sem dúvida, na casa duns primos que deixaram de se dar com ele, uma fotografia que o representa num casamento com colarinho de pontas quebradas, uma camisa de peitilho rijo e uns bigodes tesos de rapaz. De mim, creio bem que nem isso resta.

Lá está outra vez a olhar para mim. Desta vez vai-me falar; contraio-me todo. Não é simpatia que há entre nós: somos parecidos, é o que é. O homem está sozinho como eu, mas mais enterrado que eu na solidão. Deve estar à espera da sua Náusea ou de qualquer coisa nesse género. Há agora, portanto, pessoas que me reconhecem, que pensam, depois de me ter encarado: «Aquele é dos nossos.» E então? Que é que ele quer? Deve saber bem que não podemos prestar nenhum socorro um ao outro. As famílias estão nas suas casas, no meio das suas recordações. E nós aqui, dois destroços sem passado. Se, de repente, ele se levantasse, se me dirigisse a palavra, eu dava um pulo.

A porta abre-se com estrépito: é o Dr. Rogé, o médico.

«Bom dia a todos.»

Entra, arisco e desconfiado, vacilando um pouco sobre as pernas altas que a custo lhe sustentam o torso. Vejo-o muitas vezes, ao domingo, na Cervejaria Vézelize, mas não me conhece. Tem o físico dum antigo monitor de Joinville: braços que parecem coxas, cento e dez centímetros de perímetro torácico, e afinal mal se tem nas pernas.

«Jeanne, ó pequena!»

Caminha apressado, a passos miudinhos, até ao cabide e pendura no gancho o largo chapéu de feltro. A criada dobrou o que estava a coser e vem sem pressa, a dormir, extrair o médico do impermeável.

«Que é que toma, doutor?»

Ele considera-a gravemente. Eis o que chamo um belo rosto de homem. Gasto, cavado pela vida e pelas paixões. Mas o doutor compreendeu depressa, dominou as suas paixões.

«Não tenho ideia nenhuma do que quero», disse ele com uma voz profunda.

Deixou-se cair no assento em frente de mim; enxuga a testa. Assim que deixa de se firmar nas pernas, fica à vontade. Os olhos dele intimidam, uns grandes olhos negros e imperiosos.

«Venha lá... venha lá, deixe ver... Venha um Calvados velho, minha filha.»

A criada, sem fazer um movimento, contempla aquela enorme cara cheia de rugas. Está pensativa. O homenzinho levantou a cabeça com um sorriso de libertação. E é verdade: aquele colosso libertou-nos. Havia aqui qualquer coisa de horrível que ia apoderar-se de nós. Respiro com força: agora estamos entre homens.

«Então o meu Calvados, quando é que vem?»

A criada tem um sobressalto e vai-se embora. O médico estendeu os seus grandes braços e agarrou na mesa pelas bordas. O Sr. Achille está todo contente; gostava de chamar a atenção do doutor. Mas, ipor mais que balance as pernas e dê saltinhos no assento, é tão miúdo que não faz barulho.

A criada traz o Calvados. Com um movimento da cabeça, indica ao médico o seu vizinho. O Dr. Rogé roda o busto com lentidão: não pode mexer o pescoço.

«Ah, és tu, velho imundo!», grita ele. «Ainda não morreste?»

Dirige-se à criada:

«Você deixa isto entrar na casa?»

Olha para o homenzinho com os seus olhos ferozes. Um olhar directo, que põe as coisas no seu lugar. Explica:

«Um velho tarado, é o que ele é.»

Nem se dá ao trabalho de mostrar que está a brincar Sabe que o velho tarado não Se zanga, que lhe vai sorrir. Aí está: o outro sorri com humildade. Um tarado: o velho descontrai-se, sente-se protegido contra si próprio; hoje não lhe acontecerá nada. O mais curioso é que também eu fiquei mais tranquilo. Um velho tarado: era então isso, era apenas isso.

O médico ri, deita-me um olhar insinuante e cúmplice: em virtude do meu tamanho, sem dúvida - e também porque trago uma camisa limpa-, consente em associai-me à sua brincadeira.

Não me rio, não respondo aos seils convites: então, sem parar de rir, ele dardeja sobre mim o fogo terrível das suas pupilas. Fitamo-nos em silêncio durante alguns segundos; ele mede-me de alto a baixo, fazendo de míope, classificando-me. Na categoria dos tarados? Na dos vadios?

É ele, apesar de tudo, quem desvia a cara: uma pequena cobardia diante dum tipo sozinho, sem importância social nem merece que se fale dela, esquece-se logo. O médico faz um cigarro e acende-o; depois fica imóvel, com olhos fixos e duros, à maneira dos velhos.

Que belas rugas! Ele tem-nas todas: os riscos transversais na testa, os pés-de-galinha, as pregas amargas de ambos os lados da boca. os sulcos amarelos que lhe partem do queixo e pautam o pescoço. Aqui está um homem com sorte: por mais de longe que o vejamos, diz-se que sofreu muito com certeza, que é pessoa que viveu. Merece, de resto, o rosto que tem, porque não se iludiu um momento quanto à maneira de reter e de utilizar o seu passado: empalhou-o, muito simplesmente, converteu-o em experiência para uso das mulheres e dos jovens.

O Sr. Achille é feliz, como não era decerto há muito tempo. Abre a boca de admiração; vai bebendo o seu Byrrh a pequenos tragos, inchando as bochechas. Muito bem! O doutor soube levá-lo! Não era ele que se deixaria fascinar por um velho tarado prestes a ter a sua crise; um bom encontrão, umas palavras bruscas e que dão uma chicotada, é o que é preciso. O doutor tem experiência. É um profissional da experiência: os médicos, os padres, os magistrados e os oficiais conhecem o homem como se o tivessem feito.

Tenho vergonha pelo Sr. Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar um bloco contra eles. Mas o Sr. Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do Dr. Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o Dr. Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O Sr. Achille é um caso, simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns.

Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhados por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pêlos quarenta anos, baptizam as suas obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo. Também eu, pelo mesmo processo, poderia fazer que os outros me convidassem, e os outros diriam entre eles que sou um grande viajante diante do Eterno. Sim: os Muçulmanos urinam agachados, as parteiras indianas utilizam, à maneira de ergotina, o vidro moído na bosta de vaca; em Bornéu, quando uma rapariga está com o menstruo, passa três dias e três noites em cima do telhado da casa. Vi em Veneza enterros em gôndola, em Sevilha as festas da Semana Santa; vi a paixão de Oberammegau. E. bem entendido, tudo isso é uma amostra apenas do meu saber:   poderia   recostar-me   numa   cadeira   e   principiar, divertido:

«A senhora conhece Jihlava? É uma curiosa cidadezinha da Morávia, onde passei algum tempo em 1924...»

E o presidente do tribunal, que presenciou tantos casos, tomaria a palavra no fim da minha história:

«Que verdadeiro que isso é, meu caro senhor, que humano! Vi um caso semelhante no princípio da minha carreira. Passou-se em 1902. Era eu juiz substituto em Limo-gês...»

Sucede, porém, que me aborreceram de mais com tais histórias na minha mocidade. Decerto, eu não pertencia a uma família de profissionais. Mas há também os amadores. São   os secretários,   o empregado,   o comerciante,   os que ouvem os outros no café: sentem-se inchados, por altura? dos quarenta anos, por uma experiência a que não podem dar saída. Felizmente, fizeram filhos, e obrigam-nos a consumi-la em casa. Gostariam de nos fazer crer que o seu passado não se perdeu, que as suas recordações se condensaram, suavemente convertidas em sabedoria. Cómodo passado! Passado de algibeira, livrinho dourado, cheio de belas máximas. «Acredite-me;   digo-lhe isto por experiência própria: tudo quanto sei foi a vida que mo ensinou.» Ter-se-i, a Vida encarregado de pensar por eles? Explicam o novo pelo antigo - e o antigo explicaram-no por acontecimento mais antigos ainda, como aqueles historiadores que fazem de Lenine um Robespierre russo e de Robespierre um Cromwei francês: no fim de contas, não perceberam nada de nada.. Por trás da sua importância adivinha-se uma preguiça tristonha: vêem desfilar as aparências, bocejam, pensam que não há nada de novo debaixo do Sol. «Um velho tarado» - e o Dr. Rogé pensava vagamente em outros velhos tarados não se lembrando de nenhum em particular. Agora, nada de do que o Sr. Achille fizer poderá surpreender-nos: pois se ele é um «velho tarado»!

Não é um velho tarado: é um homem com medo. Medr de quê? Quando uma pessoa quer compreender uma coisa coloca-se em frente dela, sozinha, sem auxílio; de nada ser viria todo o passado do mundo. E depois a coisa desaparece e o que se tinha compreendido desaparece com ela.

As ideias gerais são mais reconfortantes. Os profissionais e até os amadores acabam sempre por ter razão. A sua sabedoria recomenda que façamos o menos barulho possível, que vivamos o menos possível, que nos deixemos esquecer. As suas melhores histórias são as de imprudentes, de originais que foram castigados. Pois muito bem: é assim que se passam as coisas, e ninguém dirá o contrário. Talvez o Sr. Achille não tenha a consciência muito tranquila. Diz provavelmente consigo próprio que não estaria como está se tivesse seguido os conselhos do pai ou da irmã mais velha. O médico tem o direito de falar: não falhou na vida; soube tornar-se útil. Ergue-se, calmo e poderoso, acima daquele destroço: é uma rocha.

O Dr. Rogé bebeu o seu Calvados. Aquieta-se-lhe o grande corpo e as pálpebras descaem-lhe pesadamente. Pela primeira vez, vejo-lhe a cara sem os olhos: dir-se-ia uma caraça de cartão, como as que hoje estão à venda nas lojas. As suas faces têm uma horrível cor rosada... Aparece-me a verdade bruscamente: este homem vai morrer em breve. Sabe-o com certeza; basta que se tenha visto a um espelho: todos os dias se parece um pouco mais com o cadáver que vai dar. Eis o que é a experiência deles, eis porque eu disse para comigo, tantas vezes, que essa experiência cheira a morte: é a última defesa. O médico bem queria acreditar nela, disfarçar a realidade insustentável: que está sozinho, sem aquisições, sem passado, com uma inteligência que se vai embotando, um corpo que se vai desfazendo. Por isso construiu muito bem, arrumou muito bem, estofou com cuidado a sua maniazinha das compensações: diz a si próprio que vai progredindo. Tem furos na memória? Momentos em que os pensamentos lhe remoinham sem proveito? É que o seu espírito já não tem a precipitação da mocidade. Deixou de compreender o que lê nos livros? É que vive agora tão afastado dos livros! Já não pode amar? Mas pôde antigamente. Ter amado é muito melhor que amar ainda: graças ao recuo, ajuíza-se, compara-se, reflecte-se. E aquele terrível rosto de cadáver, para poder suportar a sua imagem nos espelhos, faz o possível por acreditar que as lições da experiência se gravaram nele.

O médico vira um pouco a cabeça. Entreabrem-se-lhe as pálpebras, fita-me com uns olhos, vermelhos de sono. Sorrio para ele. Queria que este sorriso lhe revelasse tudo o que ele procura esconder. O que o despertaria era reconhecer: «AH está um que sabe que vou esticar o pernil!» Mas já, de novo, as pálpebras lhe descaem: adormece. Vou-me embora, deixo o Sr. Achille velar-lhe o sono.

A chuva parou, está um ar suave; no céu desenrolam-se sucessivamente belas imagens negras: nem é preciso tanto para formar o quadro dum momento perfeito; para reflectir essas imagens, Anny faria nascer, nos nossos corações, marèzinhas sombrias. Mas eu não sei aproveitar a ocasião: vou ao acaso, vazio e calmo, sob este céu inutilizado.

É preciso não ter medo.

 

                                          QUARTA-FEIRA

Escrevi quatro páginas. Em seguida, um longo momento de felicidade. Não reflecti de mais sobre o valor da História. Corre-se o risco de perder o gosto por ela. Não proclamar que o Sr. de Rollebon representa, nesta altura, a única justificação da minha existência.

De hoje a oito dias vou ver Anny.

 

                                           SEXTA-FEIRA

O nevoeiro era tão denso no Boulevard da Redoute que achei prudente ir andando a rasar os muros do quartel; à minha direita, os faróis dos automóveis impeliam diante deles uma luz molhada, e era impossível saber onde acabava o passeio. Havia gente à minha volta; chegava-me aos ouvidos o ruído dos seus passos ou. às vezes, o leve zumbido das suas palavras, mas não via ninguém, definiu-se uma cara de mulher à altura do meu ombro, mas a bruma tragou-a logo, doutra vez, alguém roçou por mim, a assoprar com força. Não sabia onde ia, estava demasiado absorto: era preciso avançar com precaução, tactear o chão com a ponta do pé e até levar os braços estendidos para a frente. Este exercício não me dava, de resto, nenhum prazer. Entretanto, não pensava em voltar a casa; estava seduzido. Enfim, meia hora depois distingui ao longe um vapor azulado. Guiando-me por ele, cheguei à beira dum grande clarão; ao centro, traspassando a bruma com as luzes, reconheci o Café Mably.

O Café Mably tem doze lâmpadas eléctricas; mas só tinha duas acesas, uma por cima da caixa, outra no candeeiro do tecto. O único criado empurrou-me à força para um canto escuro.

«Aqui não, desculpe... Ando a limpar.»

Estava de casaco, sem colete nem colarinho postiço, com uma camisa branca de riscas roxas. Bocejava, olhava para mim com um ar aborrecido, passando os dedos pelo cabelo.

«Um café e croissans.»

O criado esfregou os olhos sem responder e afastou-se. A sombra dava-me pêlos olhos, uma antipática sombra glacial. Com certeza que o radiador não estava aceso.

Não estava sozinho. Uma mulher de pele de cor de cera estava sentada na minha frente e agitava as mãos sem cessar, ora para fazer festas na blusa, ora para compor o chapéu. O seu par era um louro, alto, que comia um brioche sem dizer palavra. O silêncio pareceu-me pesado. Tinha vontade de acender o cachimbo, mas ter-me-ia sido desagradável chamar a atenção do parzinho com o estalido do fósforo.

Uma campainha de telefone. O criado não era para pressas. Acabou de varrer calmamente, antes de ir levantar o auscultador. «Está lá? É o Sr. Georges? Bom dia, Sr. Georges... Sim, Sr. Georges... O patrão não está... Sim, já devia ter descido... Ah, com um nevoeiro destes... Geralmente desce às oito horas... Sim, Sr. Georges, eu lhe darei o recado. Adeus, Sr. Georges.»

O nevoeiro fazia pressão nas janelas como uma pesada cortina de veludo cinzento. Uma face colou-se num instante ao vidro e desapareceu.

A mulher disse queixosamente:

«Ata-me o sapato.»

«Não está desatado», respondeu o homem sem olhar. Ela enervou-se. As suas mãos corriam pela blusa e pelo pescoço como grandes aranhas.

«Vá lá, ata-me o sapato.»

O homem baixou-se, com um ar irritado, e tocou-lhe levemente no pé por baixo da mesa:

«Já está.»

Ela sorri com satisfação. O homem chamou o criado.

«Quanto é?»

«Quantos brioches foram?», perguntou o criado.

Eu tinha baixado os olhos para não parecer que os observava. Alguns instantes depois ouvi uns estalidos e vi aparecer a fímbria duma saia e duas botinas manchadas de lama seca. Vieram a seguir os botins do homem, envernizados e de biqueira. Avançaram para mim, imobilizaram-se e deram meia volta: o tempo de vestir o sobretudo. Nesse momento, pela saia abaixo, pôs-se a descer uma mão, na ponta dum braço inteiriçado; a mão hesitou um pouco, estava a coçar a saia.

«Estás pronta?», perguntou o homem.

A mão abriu-se e veio tocar numa larga estrela de lama sobre a botina do pé direito; depois desapareceu.

«Ufa!», disse o homem.

Tinha pegado numa mala que estava ao pé do cabide. Saíram ambos, vi-os afundar-se no nevoeiro.

«São artistas», disse-me o criado ao trazer-me o café; «são eles que fazem o número de intermédio no Cinema Palace. A mulher venda os olhos e lê o nome e a idade dos espectadores. Vão-se embora hoje, porque é sexta-feira, e e os programas mudam.»

Foi buscar um prato de croissants acima da mesa a que tinham estado os artistas.

«Não vale a pena.»

Não tinha vontade nenhuma de comer aqueles croissants.

«Tenho de apagar a luz. Duas lâmpadas para um cliente só, às nove horas da manhã: o patrão tinha que dizer.»

A penumbra invadiu o café. Uma fraca claridade, enlambuzada de cinzento e de castanho, descia então dos vidros altos.

«Desejava falar com o Sr. Fasquelle.»

Não tinha visto entrar esta velha. Uma lufada de ar gelado fez-me arrepiar.

«O Sr. Fasquelle ainda não desceu.»

«Venho da parte da Sr.a Florent», retorquiu ela; «a Sr.a Florent não está bem. Não vem hoje.»

«Este tempo», diz a velha, «complica-lhe com a barriga.*

A Sr.a Florent é a empregada da caixa, a ruiva.

O criado tomou um ar importante,.

«É o nevoeiro», respondeu ele; «é como o Sr. Fasquelle; admiro-me de que ainda não tenha descido. Chamaram-no ao telefone. De costume, desce às oito horas.»

Maquinalmente, a velha olhou para o tecto:

«Está lá em cima?»

«Está; é lá em cima o quarto dele.»

A velha disse, com uma voz arrastada, como se falasse a si própria:

«Quem sabe se morreu...»

«Olha agora!» O rosto do criado exprimiu a mais viva indignação. «Obrigado pela lembrança.»

Quem sabe se morreu... O mesmo pensamento me tinha passado pela cabeça. É precisamente o género de ideias que dão estes tempos de nevoeiro.

A velha foi-se embora. Devia ter-lhe seguido o exemplo: estava frio e escuro. O nevoeiro infiltrava-se por baixo da porta; ia subir lentamente e afogar tudo. Na Biblioteca Municipal teria encontrado luz e calor.

De novo um rosto veio achatar-se contra o vidro; pôs-se a fazer caretas.

«Espera aí», disse o criado, furioso, e saiu a correr. A cara desapareceu; fiquei sozinho. Arrependi-me amargamente de ter saído do meu quarto. Agora já certamente a bruma o invadiu; teria medo de lá entrar.

Por trás da caixa, na sombra, alguma coisa estalou. O ruído vinha da escada particular: era, enfim, o gerente

a descer? Não: ninguém apareceu; os degraus estalavam sozinhos. O Sr. Fasquelle dormia ainda. Ou então estava morto por cima da minha cabeça. Encontrado morto na cama, numa manhã de nevoeiro. - Como subtítulo: no café, os clientes consumiam sem suspeitar de nada...

Mas estaria ainda na cama? Não teria caído, arrastando os lençóis consigo, e batendo Com a cabeça no sobrado? Conheço muito bem o Sr. Fasquelle; muitas vezes perguntou pela minha saúde. É um gorducho folgazão, com uma barba muito cuidada: se morreu, foi dum ataque. Estará com uma cor de beringela, com a língua de fora. De barba eriçada; de pescoço roxo sob a ondulação dos pêlos.

A escada particular perdia-se no escuro. Mal podia distinguir a maçaneta do corrimão. Seria preciso atravessar essa sombra. A escada estalaria. Em cima encontraria a porta do quarto...

O corpo está ali, por cima da minha cabeça. Ligaria o interruptor: tocaria naquela pele morna, para ver. Não posso mais, levanto-me. Se o criado me apanha na escada, digo-lhe que ouvi barulho.

O   criado voltou   à   sala,   bruscamente,   esbofado.

«Lá vai!», gritou ele.

Que   imbecil!   Veio   na   minha   direcção.

«São   dois francos.»

«Ouvi barulho lá em cima»,   disse-lhe eu.

«Já   não "é cedo!»

«Sim, mas acho que aconteceu qualquer coisa: parecia um estertor, e depois houve um ruído surdo.»

Naquela sala escura, com aquele nevoeiro por trás dos vidros, as minhas palavras pareciam naturalíssimas. Não esquecerei os olhos que ele fez.

«Você devia subir para ver», acrescentei perfidamente.

«Isso não!», disse ele; «tenho medo de que ele me repreenda. Que horas são?»

«Dez.»

«Vou às dez e meia, se ele não tiver descido.»

Dei um   passo   para   a   porta.

«O senhor vai-se embora? Não fica mais um pouco?»

«Não.»

«Era realmente um estertor?»

«Não sei», disse-Jhe ao sair. «Talvez eu estivesse com disposição para as ideias negras.»

O nevoeiro tinha-se dissipado um pouco. Apressei-me a chegar à Rua Tournebride: tinha necessidade da sua claridade. Foi um decepção: luz, decerto, havia: as montras das lojas reflectiam-lhe o fulgor. Mas não era uma luz alegre: estava tudo branco por causa do nevoeiro, e essa luz branca caía-nos sobre os ombros como um duche. Muita gente, sobretudo mulheres: criadas, mulheres a dias, senhoras também, daquelas que dizem: «Eu mesma é que vou às compras; não se pode ter confiança.» Farejavam um pouco as frontarias das lojas e acabavam por entrar.

Parei em frente da Salsicharia Julien. De vez em quando via através do vidro uma mão que mostrava os pés trufados e as linguiças. Então uma robusta rapariga loura inclinava-se, descobrindo o seio, e pegava com os dedos no pedaço de carne morta. No seu quarto estava morto, havia cinco minutos, o Sr. Fasquelle.

Procurei à minha volta um apoio sólido, uma defesa contra os meus pensamentos. Não havia: pouco a pouco, o nevoeiro tinha-se rasgado, mas qualquer coisa de inquietante continuava a vagabundear pela lua. Talvez não fosse uma verdadeira ameaça: era algo de apagado, de transparente, mas que por isso mesmo acabava por meter medo. Encostei a testa à montra. Sobre a maionese dum ovo à russa notei uma gota dum vermelho escuro: era sangue. Aquele vermelho sobre aquele amarelo dava-me volta ao estômago.

Bruscamente, tive uma visão: alguém tinha caído de cabeça para baixo e escorria sangue sobre os pratos. O ovo tinha rebolado no sangue; a roda de tomate que o coroava tinha-se desligado, tinha caído de chapa, vermelho sobre •vermelho. A maionese escorrera um pouco: um charco de creme amarelo dividindo o rego de sangue em dois braços.

«Que estupidez! Tenho de reagir. Vou trabalhar para a Biblioteca.»

Trabalhar? Sabia bem que não ia escrever uma linha. Mais um dia perdido. Ao atravessar o jardim público, vi, no banco onde geralmente me   sento, uma capa azul de militar, imóvel. Ali está um que não tem frio.

Quando entrei na sala de leitura, o Autodidacta ia a sair. Precipitou-se sobre mim:

«Tenho de lhe agradecer. As suas fotografias fizeram--me passar algumas horas inesquecíveis.»

Ao vê-lo tive um momento de esperança: a dois, talvez fosse mais fácil atravessar aquele dia. Mas, com semelhante criatura, só aparentemente é que se vive a dois.

O Autodidacta bateu num in-quarto. Era uma História das Religiões.

«Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese. O senhor não acha?»

Tinha um ar cansado e tremiam-lhe as mãos.

«O senhor está com má cara», disse-lhe eu.

«Não admira! É que estou metido numa história abominável.»

O fiscal veio na nossa direcção: é um corso baixinho, irascível, com um bigode desmedido. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo com os calcanhares. No Inverno, cospe nos lenços e põe-nos a secar sobre o fogão de aquecimento.

O Autodidacta aproximou-se tanto que senti na cara o sopro da sua respiração.

«Não quero dizer-lhe diante deste homem», preveniu num jeito de confidência. «Se o senhor quisesse...»

«O quê?»

Corou e ondearam-lhe as ancas graciosamente:

«É muito atrevimento da minha parte. Mas... o senhor aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?»

«Com muito gosto.»

Tinha tanta vontade de ir almoçar com ele como de me enforcar.

«Dá-me muito prazer em aceitar», disse o Autodidacta. Acrescentou rapidamente: «Se não se importa, vou buscá-lo a casa», e desapareceu, com medo, certamente, de que, se me desse tempo, eu mudasse de opinião.

Eram onze e meia. Trabalhei até às duas menos um quarto. Trabalho mal feito: tinha um livro debaixo dos olhos, mas o meu pensamento voltava continuamente ao Café Mably. O Sr. Fasquelle já teria descido? Na realidade, eu não acreditava muito na sua morte, e era precisamente isso que me irritava! Era uma ideia flutuante, de que não podia nem persuadir-me nem libertar-me. Os sapatos do corso rangiam ao dobrar. Várias vezes, ele veio postar-se em frente de mim, com ar de me querer falar. Mas reconsiderava e afastava-se.

À volta da uma saíram os últimos leitores. Não tinha fome; sobretudo, não queria ir-me embora. Trabalhei mais um momento, depois estremeci: sentia-me amortalhado no silêncio.

Ergui a cabeça: estava sozinho. O corso, certamente, já tinha ido ter com a mulher, que é porteira da Biblioteca; eu tinha vontade do ruído dos seus passos. Ouvi apenas, no fogão, o de algumas pedras de carvão que caíam. O nevoeiro tinha invadido a sala: não o verdadeiro nevoeiro, que se dissipara havia muito tempo - o outro, de que as ruas estavam ainda cheias, que saía das paredes, do empedrado. Uma espécie de inconsistência das coisas. Os livros continuavam no mesmo sítio, arrumados por ordem alfabética nas prateleiras, com as suas lombadas pretas ou escuras e as suas etiquetas UP If. 7996 (Uso público - literatura francesa) ou UP cn. (Uso público - Ciências naturais). Mas... como dizer? Geralmente, poderosos e atarracados, com o fogão, os candeeiros verdes, as grandes janelas, as escadas, esses volumes opõem um dique ao futuro. Enquanto se ficar entre estas paredes, o que suceder sucederá à direita ou à esquerda do fogão. Se viesse aqui o próprio S. Dinis, trazendo a cabeça nas mãos, teria de entrar pela direita, de avançar entre as prateleiras consagradas à literatura francesa e a mesa reservada às leitoras. E, se não tocar no chão, se flutuar a vinte centímetros do sobrado, o seu pescoço ensanguentado chegará exactamente à altura da terceira prateleira de livros. Assim, estes objectos servem pelo menos para fixar os limites do verosímil.

Ora, hoje, tinham deixado de fixar o que quer que fosse: parecia que a sua própria existência era discutível, que lhes custava imenso passar dum instante ao seguinte. Apertei com força nas mãos o volume que estava a ler: mas as sensações mais violentas tinham-se embotado. Nada parecia verdadeiro: sentia-se rodeado por um cenário de cartão que podia ser arrancado bruscamente. O mundo esperava, retendo a respiração, fazendo-se pequeno - esperava a sua crise, a sua Náusea, como o Sr. Achille no outro dia.

Levantei-me. Não podia estar quieto no meio daquelas coisas desmaiadas. Fui deitar uma olhadela, pela janela, à cabeça de Impétraz. Murmurei. Tudo pode produzir-se, tudo pode acontecer. Não, evidentemente, o género de horrível que os homens inventaram; Impétraz não ia pôr-se a dançar no seu pedestal: seria outra coisa.

Olhei com terror para aqueles seres instáveis que, dentro de uma hora, iriam talvez desabar. Pois muito bem! Eu estava ali, vivia no meio daqueles livros cheiinhos de conhecimentos, alguns dos quais descreviam as formas invariáveis das espécies animais, e outros explicavam que a quantidade de energia se conserva integralmente no universo; estava ali, em pé diante duma janela, cujos vidros tinham um índice de refracção determinado. Mas que débeis barreiras! K por preguiça, creio eu, que o mundo se parece dum dia para o outro. Hoje tinha ares de querer mudar. E então tudo, tudo podia acontecer.

Não tenho tempo a perder: na origem desta indisposição está a história do Café Mably. Tenho de lá voltar, tenho de ver o Sr. Fasquelle vivo, tocar-lhe, se for preciso, na barba ou nas mãos. Talvez isso me liberte.

Agarrei à pressa o meu sobretudo e deitei-o pelas costas, sem o enfiar; fujo. Ao atravessar o jardim, encontrei outra •vez no mesmo sítio o homenzinho da capa; parecia enorme a sua cara lívida, entre as duas orelhas escarlates de frio.

O Café Mably cintilava ao longe: desta vez deviam estar acesas as doze lâmpadas. Estuguei o passo: era preciso acabar com aquilo. Deitei primeiro uma olhadela através da parede de vidro: a sala estava deserta. Não vi a empregada da caixa, nem o criado - nem o Sr. Fasquelle.

Tive de fazer um grande esforço para entrar; não me sentei. Gritei:   «Criado!»   Ninguém   respondeu. Uma   chávena vazia em cima duma mesa. Um cubo de açúcar no pires. «Não está cá ninguém?»

Um sobretudo pendia dum gancho. Em cima duma mesa pé-de-galo estavam empilhadas revistas em caixas de papelão preto. Espiei o menor ruído, contendo a respiração. Fora, o apito dum barco. Saí às recuadas, sem despregar os olhos da escada.

Bem sei: às duas da tarde, os fregueses são raros. O Sr. Fasquelle estava engripado; tinha certamente mandado o criado fazer recados - chamar um médico, talvez. Sim, mas acontecia que eu precisava de ver o Sr. Fasquelle. Ao começo da Rua Tournebride voltei-me, contemplei com asco o café cintilante e deserto. No 1.º andar, as persianas estavam corridas.

Apoderou-se de mim um verdadeiro pânico. Já não sabia aonde ia. Corri pelas docas fora, meti pelas ruas desertas do Bairro Beauvoisis: as casas viam-me fugir com os seus olhos sem brilho. Repetia para mim mesmo com angústia: para onde é que hei-de ir? para onde é que hei-de ir? Tudo pode acontecer. De vez em quando, com o coração a bater, dava bruscamente meia volta: que se passava nas minhas costas? Talvez a coisa começasse por trás de mim, e, quando me voltasse, fosse já tarde. Enquanto pudesse fixar os objectos, nada se passaria: olhava todos os que podia, pedras do chão, casas, candeeiros a gás; os meus olhos iam rapidamente de uns para os outros para os surpreender e os deter a meio da sua metamorfose. Não estavam com um ar inteiramente natural, mas eu dizia com força, para comigo: é um candeeiro, é um marco fontanário, e tentava, pelo poder do meu olhar, reduzi-los ao seu aspecto quotidiano. Várias vezes encontrei bares no meu caminho: o Café dos Bretões, o Bar da Marinha. Parava, hesitava diante das suas cortinas de tule cor-de-rosa: talvez essas salas bem calafetadas tivessem sido poupadas, talvez contivessem ainda uma parcela do mundo de ontem, isolada, esquecida. Mas era preciso empurrar a porta, entrar. Não me atrevia; e continuava a corrida. As portas das casas, sobretudo, metiam-me medo. Receava que se abrissem sozinhas. Acabei por andar pelo meio da rua.

Desemboquei bruscamente no cais das Docas do Norte. Barcos de pesca, pequenos iates. Pisei uma argola incrustada na pedra. Ali, longe das casas, longe das portas, ia conhecer um instante de trégua. Na água, calma e ponteada de grãos pretos, boiava uma rolha.

«E debaixo de água? Não pensaste no que pode estar debaixo de água?»

Um animal? Uma grande carapaça meio enterrada na lama? Doze pares de patas rasgam lentamente o lodo. O animal levanta-se um pouco, de vez em quando. No fundo da água. Aproximei-me, espiando o menor remoinho, a mais fraca ondulação. A rolha continuava imóvel, entre os grãos pretos.

Nesse momento ouvi vozes. Era tempo. Dei uma volta sobre mim mesmo e continuei a correr.

Alcancei os dois homens que falavam na Rua de Castiglione. Ao ruído dos meus passos, estremeceram com violência e voltaram-se ao mesmo tempo. Vi-lhes os olhos inquietos dirigirem-se para mim, depois para trás de mim, para ver se não vinha lá outra coisa. Estavam então como eu, tinham então medo? Quando os ultrapassei, olhámo-nos: por um pouco não nos dirigíamos mutuamente a palavra. Mas os olhares exprimiram de súbito a desconfiança: num dia como este não se fala a uma pessoa qualquer.

Dei por mim na Rua Boulibet, sem fôlego. Pois bem, estavam lançadas as sortes: ia voltar à Biblioteca, pegar num romance, tentar ler. Seguindo o gradeamento do jardim público, distingui o homenzinho da capa. Lá estava ainda, no jardim deserto; o nariz tinha-se-lhe tornado tão vermelho como as orelhas.

Ia empurrar a cancela, mas a expressão do seu rosto fez-me estacar: tinha um ar estúpido e enjoativo, com os cantos dos olhos franzidos e uma espécie de sorriso amarelo. Mas, ao mesmo tempo, tinha a vista pregada em qualquer coisa, que estava diante dele e que eu não podia ver, com um olhar tão duro e duma intensidade tal que voltei as costas bruscamente.

Em frente do homem, com um pé no ar e a boca entreaberta, uma rapariga de uns dez anos, fascinada, considerava-o, puxando nervosamente pelo lenço que lhe cobria a cabeça e espetando para diante a cara afilada.

O homenzinho sorria para si mesmo, como alguém que vai pregar uma boa partida. Levantou-se dum rasgo, com as mãos nas algibeiras da capa, que lhe chegava aos pés. Deu dois passos e reviraram-se-lhe os olhos. Julguei que ia cair. Mas ele continuava a sorrir num jeito sonolento.

De súbito, compreendi: a capa! Quis impedir a manobra. Bastava-me tossir ou empurrar a cancela. Mas estava, por minha vez, fascinado pela cara da rapariguita, que tinha as feições vincadas pelo medo: o coração devia-lhe bater 'horrivelmente: somente, lia-se também sobre aquele focinho de rato algo de forte e de mau. Não era curiosidade, era antes uma espécie de expectativa atrevida. Senti-me impotente: estava de fora, à margem do jardim, à margem do pequeno drama daquelas duas pessoas; mas elas estavam pregadas uma à outra pelo poder obscuro dos seus desejos, formavam um par. Contive a respiração, queria ver que expressão se estamparia naquele rosto de menina velha quando o homenzinho, nas minhas costas, afastasse as abas da capa.

Mas, de súbito, libertada, a rapariga abanou a cabeça e pôs-se a correr. O sujeito da capa tinha-me visto: era o que o tinha detido. Ficou imóvel um segundo, no meio da álea, depois foi-se embora, de costas arqueadas. A capa batia-lhe na barriga das pernas.

Empurrei a cancela e, num salto, alcancei-o.

«Olhe lá!», gritei.

Ele pôs-se a tremer.

«Pesa sobre a cidade uma grande ameaça», disse-lhe eu delicadamente ao passar por ele.

Entrei na sala de leitura e tirei de cima duma mesa A Cartuxa de Parma. Tentei absorver-me na leitura, encontrar um refúgio na clara Itália de Stendhal. Conseguia-o de vez em quando, em alucinações curtas, depois voltava a cair no dia ameaçador, em frente dum velhote que pigarreava, dum rapaz que parecia sonhar, reclinado na sua cadeira.

As horas passavam, as janelas tinham escurecido. Éramos quatro, sem contar o corso, que, à secretária, carimbava as últimas aquisições da Biblioteca. Havia esse velhote, o rapaz louro, uma rapariga que anda a preparar a licenciatura - e eu. De vez em quando, um de nós levantava a cabeça, deitava uma olhadela rápida e desconfiada aos outros três, como se tivesse medo deles. A dado momento, o velhote pôs-se a rir: vi a rapariga estremecer da cabeça aos pés. Mas eu tinha decifrado, de pés para o ar, o título do livro que ele estava a ler: era um romance òómico.

Sete menos dez. Pensei bruscamente que a Biblioteca fechava às sete. Ia ser, mais uma vez, repelido para a cidade. Para onde havia de ir? Que é que havia de fazer?

O velho tinha acabado o romance. Mas não se ia embora. Batia, com um dedo na mesa, pancadinhas secas e regulares.

«Meus senhores», disse o corso, «estamos quase a fechar.»

O rapaz estremeceu e deitou-me uma olhadela rápida. A rapariga tinha-se virado para o corso, depois tornou a pegar no livro e pareceu mergulhar na leitura.

«Está na hora», disse o corso cinco minutos mais tarde.

O velho meneou a cabeça com um ar indeciso. A rapariga afastou o livro, mas sem se levantar.

O corso estava admirado. Deu alguns passos hesitantes, depois desligou um interruptor. Nas mesas de leitura, os candeeiros apagaram-se Só a lâmpada central continuava acesa.

«Temos de nos ir embora?», perguntou o velho, baixinho.

O rapaz, lentamente, contra vontade, levantou-se. Cada qual levava o mais tempo que podia a enfiar o sobretudo. Quando saí, ainda a mulher estava sentada, com uma das mãos espalmada sobre o livro.

Em baixo, a porta de entrada escancarava-se para a noite. O rapaz, que ia à frente, voltou-se, desceu lentamente a escada, atravessou o vestíbulo; no limiar demorou-se um instante, depois precipitou-se na noite e desapareceu.

Ao chegar ao fim da escada, levantei a cabeça. Um momento depois, o velhinho saiu da sala de leitura a abotoar o sobretudo. Mal ele tinha descido os três primeiros degraus, tomei balanço e mergulhei no escuro de olhos fechados.

Senti na cara uma leve carícia fresca. Ao longe, alguém assobiava. Descerrei as pálpebras: estava a chover. Uma chuva doce e calma. A praça estava pacificamente iluminada pêlos seus quatro candeeiros. Uma praça de província, debaixo de chuva. O rapaz afastava-se a grandes passadas: era ele que assobiava: tive vontade de gritar aos outros dois - eles ainda não o   sabiam - que podiam   sair sem receio, que a ameaça se tinha dissipado.

O velhinho apareceu no limiar. Coçou a bochecha com um ar embaraçado, depois teve um sorriso largo e abriu o guarda-chuva.

 

                                              SÁBADO DE MANHÃ

Um sol delicioso, com uma bruma leve anunciadora dum dia de bom tempo. Tomei o pequeno almoço no Café Mably.

A Sr.ª Florent, a empregada da caixa, fez-me um sorriso gracioso. Gritei da minha mesa:

«O Sr. Fasquelle está doente?»

«Está, está; uma gripe violenta: terá de ficar alguns dias de cama. A filha chegou esta manhã de Dunquerque. Vem instalar-se aqui para tratar dele.»

Pela primeira vez depois de ter recebido a carta, sinto-me francamente feliz por voltar a ver Anny. Que terá ela feito de há seis anos para cá? Ficaremos constrangidos quando nos virmos? Anny não sabe o que seja constrangimento. Vai receber-me como se me tivesse separado dela ontem. Oxalá que eu não comece a fazer de parvo, que não a indisponha logo de começo. Lembrar-me bem de não lhe estender a mão, ao chegar: é coisa que ela detesta.

Quantos dias ficaremos juntos? Talvez a traga para Bouville. Bastaria que ela vivesse aqui algumas horas, que dormisse uma noite no Hotel Printania. Depois tudo seria diferente; já o medo não poderia atormentar-me.

De tarde.

O ano passado, quando visitei pela primeira vez o Museu de Bouville, impressionou-me o retrato de Olivier Blévigne. Defeito de proporções? De perspectiva? Não podia dizer, mas qualquer coisa me embaraçava: o deputado não parecia firme na sua tela.

Vim vê-lo depois muitas vezes. Mas o embaraço persistia. Recusava-me a admitir que Bordurin, que tinha ganho um prémio de Roma e seis medalhas, tivesse cometido um erro de desenho.

Ora, esta tarde, ao folhear uma velha colecção do Bou-villois Satírico, folha de chantagem, cujo proprietário foi acusado, durante a guerra, de alta traição, entrevi a verdade. Saí imediatamente da Biblioteca e fui dar uma volta pelo Museu.

Atravessei rapidamente a penumbra do vestíbulo. Os meus passos não faziam nenhum ruído sobre as lajes brancas e negras. À minha roda torcia os braços todo um povo de gesso. Entrevi, de caminho, através de duas grandes aberturas, vasos de esmalte raiado, pratos, um sátiro azul e amarelo sobre um pedestal. Era a Sala Bernard-Palissy, consagrada à cerâmica e às artes menores. Mas a cerâmica não me diverte. Um senhor e uma senhora de luto contemplavam respeitosamente esses objectos cozidos.

Por cima da entrada da sala principal - ou Sala Bor-durin-Renaudas - tinha sido pendurada, havia pouco, certamente, uma grande tela que eu não conhecia. Estava assinada Richard Séverand e chamava-se A Morte do Celibatário. Era um dom do Estado.

Nu até à cintura, de torso um tanto verde, como convém aos mortos, o celibatário jazia numa cama desmanchada. Os lençóis e os cobertores em desordem atestavam uma longa agonia. Sorri pensando no Sr. Fasquelle. Esse não estava sozinho: a filha tratava dele. Na tela, já a criada, uma serva patroa de feições marcadas pelo vício, tinha aberto a gaveta duma cómoda e contava uns escudos. Uma porta aberta deixava ver, na penumbra, um homem de boné, à espera, com um cigarro colado ao lábio inferior. Junto à parede, um gato bebia leite, com indiferença.

Este homem tinha vivido apenas para si próprio. Para castigo, severo e merecido, ninguém viera, ao seu leito de morte, fechar-lhe os olhos. O quadro dirigia-me um último aviso: era ainda tempo, era-me possível arrepiar carreira. Mas, se eu não fizesse caso, que atentasse bem nisto: na sala principal, onde ia entrar, estavam pendurados nas paredes mais de cento e cinquenta retratos; exceptuando algumas pessoas de pouca idade, arrebatadas prematuramente às suas famílias e a madre superiora dum orfanato, nenhum dos que ali estavam representados tinha morrido solteiro, nenhum tinha morrido sem filhos nem sem testamento, nenhum sem os últimos sacramentos. Em regra com Deus e com o mundo, nesse dia como nos outros dias, esses homens tinham resvalado docemente para a morte, a fim de irem reclamar o quinhão de vida eterna a que tinham direito.

Porque tinham tido direito a tudo: à vida, ao trabalho, à riqueza, ao casamento, ao respeito, e, para terminar, à imortalidade.

Recolhi-me um instante e entrei. Um guarda dormia ao pé duma janela. Uma luz dourada, que caía das janelas, punha manchas nos quadros. Nada de vivo nesta grande sala rectangular, excepto um gato, que, à minha entrada, teve medo e fugiu. Mas senti sobre mim o olhar de cento e cinquenta pares de olhos.

Todos os que fizeram parte do escol bouvillois entre 1875 e 1910 estavam ali, homens e mulheres, pintados com escrúpulo por Renaudas e por Bordurin.

Os homens construíram Santa Cecília do Mar. Fundaram, em 1882, a Federação dos Armadores e dos Negociantes de Bouville, «para reunir num feixe poderoso todas as boas vontades, cooperar na obra do ressurgimento nacional e conter em respeito os partidos da desordem...». Fizeram de Bouville o porto comercial francês melhor apetrechado para a descarga dos carvões e das madeiras. O prolongamento e o alargamento dos cais foi obra deles. Deram toda a extensão desejável à estação marítima e aumentaram para 10,70 m, graças a dragagens perseverantes, a profundidade do ancoradouro em baixa-mar. Em vinte anos, a tonelagem de barcos de pesca, que era de 5000 t em 1869, elevou-se, graças a eles, a 18 0001. 'Não recuando diante de nenhum sacrifício para facilitar a ascensão da classe laboriosa, criaram, por sua própria iniciativa, diversos centros de ensino técnico e profissional que prosperaram debaixo da sua alta protecção. Dominaram a famosa greve das docas em 1898 e deram os seus filhos à Pátria em 1914.

As mulheres, dignas companheiras destes lutadores fundaram a maior parte dos Patronatos, das Creches, das Casas de Lavores. Mas foram, antes de tudo, esposas e mães. Criaram filhos perfeitos, ensinaram-lhes os seus deveres e os seus direitos, a religião, o respeito das tradições que fizeram a França.

A cor geral dos retratos atirava para castanho-escuro. As cores vivas tinham sido banidas, por uma preocupação de decência. Todavia, nos retratos de Renaudas, que eram velhos o que ipintava com mais gosto, a neve dos cabelos e das suíças sobressaía dos fundos negros; este homem era extraordinário a desenhar mãos. Nos quadros de Bordurin, que tinha menos método, as mãos eram um pouco sacrificadas, mas os colarinhos postiços brilhavam como mármore branco.

Estava muito calor e o guarda ressonava suavemente. Deitei uma vista de olhos circular às paredes: vi mãos e olhos; aqui e além uma mancha de luz comia um rosto. Ao dirigir-me para o retrato de Olivier Blévigne, qualquer coisa me reteve: do cimácio, o negociante Pacôme fazia cair sobre mim um olhar claro.

Estava representado de pé, de cabeça levemente deitada para trás; tinha numa das mãos, contra as calças cinzento--pérola, um chapéu alto e umas luvas. Não pude furtar-me a uma certa admiração; não via nele nada de medíocre, nada que merecesse reparo: pé pequeno, mãos finas, ombros largos de lutador, elegância discreta, com uma pontinha de fantasia. A figura oferecia cortesmente aos visitantes o brilho sem rugas do seu rosto; aflorava-lhe mesmo aos lábios a sombra dum sorriso. Mas os seus olhos cinzentos não sorriam. O homem teria uns cinquenta anos: parecia jovem e fresco como aos trinta. Era belo.

Desisti de o apanhar em falta. Mas ele não me largou. Li-lhe nos olhos uma sentença calma e implacável.

Compreendi então tudo o que nos separava: o que eu pudesse pensar sobre ele não o atingia; não passava de psicologia, como a que se faz nos romances. Mas o seu juízo traspassava-me como um gládio e punha em discussão até o meu direito de existir. E era verdade, sempre me tinha parecido: eu não tinha o direito de existir. Tinha aparecido por acaso; existia como uma pedra, uma planta, um micróbio.

A minha vida crescia à sorte e em todos os sentidos. Enviava-me às vezes sinais vagos, outras vezes eu sentia apenas um zumbido sem importância.

Mas com aquele belo homem sem defeitos, falecido hoje, com Jean Pacôme, filho do Pacôme da Defesa Nacional, tudo tinha sido diferente: as pulsações do seu coração e os rumores surdos dos seus órgãos chegavam-lhe sob a forma de pequenos direitos instantâneos e puros. Durante sessenta anos, sem desfalecimento, ele tinha usado do direito à vida. Que magníficos olhos cinzentos! Nunca a menor dúvida os tinha atravessado. Nunca, também, Pacôme se tinha enganado.

Tinha feito sempre o seu dever, todos os seus deveres, o seu dever de filho, de marido, de chefe. Tinha, em contrapartida, reclamado sem fraqueza os seus direitos: em criança, o direito de ser bem criado, numa família unida, o de herdar um nome sem mácula, um negócio próspero; como marido, o direito de ser bem tratado, cercado de terna afeição; como pai, o de ser venerado; como chefe, o de ser obedecido sem murmúrio. Porque um direito nunca é mais que o reverso dum dever. O triunfo extraordinário deste Pacôme (a sua família é hoje a mais rica de Bouville) nunca o espantara, certamente. Nunca tinha dito para consigo que era feliz, e, quando se entregava a um prazer, devia fazê-lo com moderação, pensando: «É o meu recreio.» Assim o prazer, revestindo a dignidade dum direito, perdia a sua agressiva futilidade. À esquerda da figura, um pouco acima dos seus cabelos, dum cinzento azulado, reparei nuns livros em cima duma prateleira. Lindas encadernações: eram certamente clássicos. Pacôme, sem dúvida, lia à noite, antes de adormecer, algumas páginas do «seu velho Montaigne» ou uma ode de Horácio no texto latino. Devia ler também, às vezes, para se informar, uma obra contemporânea. Era assim que tinha conhecido Barres e Bourget. Um momento depois largava o livro. A sorrir. O seu olhar, perdendo a admirável vigilância que o caracterizava, tornava-se quase sonhador. Dizia ele: «Como é mais simples e mais difícil fazer o nosso dever!»

Nunca tinha feito mais séria reflexão sobre a sua conduta: era um chefe.

Havia outros chefes pendurados nas paredes: não havia mesmo outra coisa. Era um chefe aquele grande velho cor de verdete, sentado na sua poltrona. O colete branco que trazia constituía uma evocação feliz dos seus cabelos prateados. (Estes retratos, pintados sobretudo num intuito de edificação moral, e cuja exactidão era levada até ao escrúpulo, não excluíam a preocupação artística.) A mão do velho assentava na cabeça dum rapazinho. Um livro aberto repousava-lhe nos joelhos, embrulhados numa manta. Mas o seu olhar perdia-se nos longes. Via todas essas coisas que são invisíveis aos jovens. Tinham-lhe escrito o nome no losango de madeira dourada que está por baixo do retrato: devia chamar-se Pacôme, ou Parrottin, ou Chaigneau. Não me veio à ideia ir ver: para os seus parentes, para aquela criança, para si próprio, era simplesmente o Avô; dali a pouco, se ele julgasse chegada a hora de fazer entrever ao seu neto a extensão dos seus futuros deveres, falaria de si próprio na terceira pessoa.

«Vais prometer ao teu avô ter muito juízo, meu filhinho, estudar muito no ano que vem. Talvez no ano que vem o teu avô já não esteja neste mundo.»

Ao anoitecer da vida, este homem derramava sobre cada qual a sua indulgente bondade. Até eu, se ele me visse - mas eu era transparente ao seu olhar -, mereceria a sua benevolência: ele lembrar-se-ia de que também tive avós, outrora. Era pessoa que não reclamava nada: já não se têm desejos naquela idade. Nada, excepto que se baixasse ligeiramente a voz quando ele entrava; excepto que houvesse à sua passagem um tom de ternura e de respeito nos sorrisos; excepto que a sua nora dissesse algumas vezes: «O pai é extraordinário ; é o mais novo de todos nós»; excepto ser o único capaz de acalmar as birras do neto, pondo-lhe as mãos na cabeça, e poder dizer em seguida: «Desgostos daqueles é o avô quem os sabe consolar»; excepto que o filho, várias vezes por ano, viesse solicitar os seus conselhos sobre questões delicadas; nada, enfim, excepto sentir-se sereno, apa ziguado, infinitamente sabedor. A mão do digno velho pesava sobre os caracóis do neto: era quase uma bênção Em que estaria a pensar? No seu passado honrado, que lhe conferia o direito de falar sobre tudo e de pronunciar sobre tudo a última palavra. Eu não tinha ido bastante longe no utro dia: a Experiência era muito mais que uma defesa contra a morte; era um direito: o direito dos velhos.

O general Aubry,   pendurado no   cimácio,   com   o   seu grande   sabre,   era   um   chefe.   Outro   chefe,   o   Presidente lébert, distinto letrado, amigo de Impétraz. A sua cara era comprida e simétrica, com um interminável queixo, sublinhado, exactamente abaixo do lábio, por uma pêra; o homem avançava um pouco a queixada, com o ar divertido de quem atalha com um distinguo, de quem forma uma objecção de princípio, como um pequeno arroto. Estava a meditar, tinha na mão uma pena de pato: também este, pois então?, se recreava, e era a fazer versos. Mas tinha o olho de águia dos chefes.

E os soldados? Encontrava-me no centro da sala. ponto de mira de todos aqueles olhos graves. Não era um avô, nem um pai, nem sequer um marido. Não votava; o mais que fazia era pagar alguns impostos: não podia gabar-me de me assistirem os direitos do contribuinte, nem os do eleitor, nem sequer o humilde direito à honorabilidade que .ante anos de obediência conferem ao empregado. A minha existência começava a espantar-me seriamente. Não seria eu uma simples aparência?

«Eh!», disse, de súbito, para comigo. «Sou eu o soldado!» O pensamento fez-me rir, sem despeito.

Um quinquagenário roliço pagou-me delicadamente com um lindo sorriso. Renaudas tinha-o pintado com amor; nenhumas tintas lhe tinham parecido demasiado meigas para as orelhinhas carnudas e buriladas, para as mãos sobretudo, compridas, nervosas, com os dedos delgados: verdadeiras mãos de sábio ou de artista. Era-me desconhecido o seu rosto: devia ter passado muitas vezes, diante do quadro sem reparar nele. Aproximei-me, li: «Rémy Parrottin, nascido em Bouville, em 1849, professor na Faculdade de Medicina de Paris.»

Parrottin: o Dr. Wakefield tinha-me falado dele: «Encontrei, uma vez na vida, um grande homem. Era Rémy Parrottin. Segui as aulas dele durante o Inverno de 1904 (passei dois anos em Paris, como sabe, a estudar obstetrícia). Foi quem me fez compreender o que é um chefe. Tinha como um fluido, garanto-lhe, helectrificava-nos; com ele teríamos ido até ao fim do mundo. E, a par disso, era um gentleman: tinha uma imensa fortuna, de que consagrava Uma boa parte a ajudar os estudantes pobres.»

Fora assim que esse príncipe da ciência, a primeira vez que ouvi falar dele, me tinha inspirado alguns sentimentos fortes. Agora estava diante dele e ele sorria para mim. Quanta inteligência e afabilidade, nesse sorriso! O seu corpo anafado repousava molemente no côncavo duma grande poltrona de couro. Era um sábio sem pretensões, que punha logo as pessoas à vontade. Tomá-lo-iam até por um sujeito qualquer, se não fosse a espiritualidade do seu olhar.

Não era preciso muito tempo para adivinhar a razão do seu prestígio: era amado porque compreendia tudo; podia dizer-se-lhe tudo. Parecia-se um pouco com Renan, em suma, com mais distinção. Era daqueles que dizem: «Os socialistas? Muito bem, eu, por minha parte, vou mais longe que eles!» Quem o seguia por esse caminho perigoso depressa tinha de abandonar, a tremer, a família, a Pátria, o direito à propriedade, os valores mais sagrados. Duvidava até, um segundo, do direito ao comando, que tem a elite da burguesia. Um passo mais e, de súbito, tudo ficava restabelecido, maravilhosamente fundado em sólidas razões, à antiga. O interlocutor de Parrottin voltava-se e distinguia atrás de si os socialistas, muito pequeninos, a agitarem o lenço e a gritarem: «Esperem por nós.»

Eu sabia, aliás, por Wakefield, que o Mestre gostava, como ele próprio dizia, de «levar as almas a parir». Tendo-se conservado moço, rodeava-se de mocidade: recebia muitas vezes rapazes de boas famílias que se destinavam à medicina. Wakefield tinha ido, várias vezes, almoçar a casa dele. Depois da refeição, passava-se à sala de fumo. O Clínico tratava como homens esses estudantes que ainda não estavam muito longe dos seus primeiros cigarros: oferecia-lhes charutos. Estirava--se num divã e falava demoradamente, de olhos semicerrados, rodeado da multidão sôfrega dos seus discípulos. Evocava recordações, contava anedotas, tirava delas uma moralidade picante e profunda. E, se entre esses jovens bem-educados aparecia algum a fazer-se forte, Parrottin interessava-se muito especialmente por ele. Fazia-o falar, ouvia-o atentamente, fornecia-lhe ideias, temas de meditação. Sucedia forçosamente que, um dia, o rapaz, a trasbordar de ideias generosas, excitado pela hostilidade dos seus, cansado de pensar isoladamente e ao contrário de toda a gente, pedia ao Clínico que o recebesse a sós, e, balbuciante de timidez, contava-lhe os seus mais íntimos pensamentos, as suas indignações, as suas esperanças. Parrottin apertava-o contra o peito. Dizia: «Compreendo tudo isso, compreendi desde o primeiro dia.» Falavam. Parrottin ia longe, tão longe que o rapaz tinha dificuldade em acompanhá-lo. Depois de algumas conversas desta espécie, podia-se constatar, no jovem revoltado, uma melhoria sensível. Via claro em si próprio, aprendia a conhecer os laços profundos que o prendiam à sua família, ao seu meio; compreendia, enfim, o papel admirável da elite. E, para terminar, como por encanto, a ovelha tresmalhada, que seguira Parrottin passo a passo. dava por si no Redil, esclarecida, arrependida. «Esse homem curou mais almas», concluía Wakefiehl, «que eu curei corpos.»

Rémy Parrottin sorria-me afàvelmente. Hesitava, procurava compreender a minha posição, para a contornar suavemente e me levar para o aprisco. Mas não me metia medo: eu não era uma ovelha. Olhei para a sua bela testa calma e sem rugas, para o seu ventre discretamente saliente, para a sua mão espalmada sobre um joelho. Correspondi ao seu sorriso e passei adiante.

Jean Parrottin, seu irmão, presidente da S. A. B., amparava-se com ambas as mãos à beira duma mesa carregada de papéis; com a sua atitude, fazia compreender ao visitante que a audiência estava terminada. O seu olhar era extraordinário; era como abstracto e tinha o fulgor da consciência pura dos direitos. Os seus olhos deslumbrantes devoravam-lhe toda a cara. Abaixo deste incêndio distingui dois lábios estreitos e cerrados de místico. «Tem graça», pensei, «parece-se com Rémy Parrottin.» Virei-me para o Grande Clínico: ao examiná-lo à luz desta parecença, fazia-se bruscamente surgir no seu rosto doce um não sei quê de árido e de desolado, o ar de família. Voltei a Jean Parrottin.

Este homem tinha a simplicidade duma ideia. Só restavam nele ossos, carnes mortas e o Direito Puro. Um verdadeiro caso de possessão, pensei. Uma vez que o Direito se apodera dum homem, não há exorcismo que possa expulsá-lo; Jean Parrottin tinha consagrado toda a vida a pensar no seu Direito: nada mais. Em lugar da ligeira dor de cabeça que eu sentia despontar, como todas as vezes que visito um museu, teria ele sentido nas fontes o direito doloroso de ser tratado. Era preciso não o fazerem pensar de mais, não lhe chamarem a atenção para realidades desagradáveis, para a morte possível, para os sofrimentos de outrem. Sem dúvida, no seu leito de morte, nessa hora em que os homens se consideram obrigados, de Sócrates para cá, a pronunciar algumas palavras elevadas, tinha dito à sua mulher, como um tio meu à dele, que passara doze noites em claro à sua cabeceira: «A ti, Thérèse, não te agradeço; não fizeste mais que o teu dever.» Quando um homem chega a este ponto, há que lhe tirarmos o chapéu.

Os olhos dele, que eu fixava com assombro, indicavam-me que era tempo de me retirar. Não o fiz, fui deliberadamente indiscreto. Sabia, por ter contemplado muito tempo, na biblioteca do Escurial, certo retrato de Filipe H, que, quando se contempla de frente um rosto resplandecente de direitos, um momento depois esse brilho se extingue e fica apenas um resíduo como cinza: era esse resíduo que me interessava.

Parrottin oferecia uma bela resistência. Mas, subitamente, apagou-se-lhe o olhar, o quadro tornou-se baço. Que restava? Unns olhos cegos, a boca estreita como uma serpente morta e as bochechas. Bochechas pálidas e rechonchudas de criança, em exposição na tela. Os empregados da S. A. B. nunca tinham dado por elas: não ficavam tempo bastante no gabinete de Parrotin. Quando entravam, esbarravam naquele terrível olhar como num muro. Por trás, as bochechas estavam ao abrigo, brancas e moles. Ao cabo de quantos anos teria a sua mulher reparado nelas? Dois? Cinco? Um dia, imagino, quando o marido dormia a seu lado e um raio de luar lhe acariciava o nariz, ou então alguma vez que ele fazia com dificuldade a digestão, à hora do calor, reclinado numa poltrona, de olhos semicerrados, com uma poça de sol no queixo, ela tinha ousado olhá-lo de frente: toda aquela carne tinha aparecido sem defesa, assoprada, esponjosa, vagamente obscena. A partir desse dia. sem dúvida, a Sr.a Parrottin tinha tomado o comando.

Dei alguns passos à retaguarda, abrangi no mesmo olhar todas aquelas grandes personagens: Pacôme, o Presidente Hébert, os dois Parrottin, o general Aubry. Tinham todos usado, em vida, chapéu alto; ao domingo encontravam, na Rua Tournebride, a Sr.a Gratien, esposa do maire, que viu Santa Cecília em sonhos. Dirigiam-lhe grandes cumprimentos cerimoniosos, cujo segredo se perdeu.

Tinham-nos pintado com uma grande exactidão; e, todavia, fixadas pelo pincel, as suas caras tinham largado a misteriosa fraqueza dos rostos humanos. As suas faces, mesmo as mais moles, apresentavam-se nítidas como faianças: era em vão que eu procurava nelas algum parentesco com as árvores e os animais, com os pensamentos da terra ou da água. É claro que eles não tinham tido, em vida, este carácter de necessidade. Mas, no momento de passarem à posteridade, tinham-se confiado a um pintor de renome para que este operasse discretamente nas suas caras as mesmas dragagens, as mesmas escavações, as mesmas irrigações, graças às quais, a toda a volta de Bouville, eles tinham transformado o mar e os campos. Assim, com o concurso de Renaudas e de Bordurin, tinham sujeitado toda a Natureza: fora deles e em si próprios. O que aquelas telas escuras ofereciam aos meus olhos era o homem reconsiderado pelo homem, e com a mais bela conquista do homem por adorno único: o ramo dos Direitos do Homem e do Cidadão. Admirei, em segunda intenção, o reino humano.

Tinham entrado um senhor e uma senhora. Vinham vestidos de preto e procuravam fazer-se pequeninos. Pararam, extasiados, no limiar, e o senhor descobriu-se maquinalmente.

«Ena!», disse a senhora vivamente emocionada.

O senhor recuperou mais depressa o sangue-frio. Disse num tom respeitoso:

«É uma época inteira!»

«Pois é», disse a senhora. «É a época da minha avó.»

Deram alguns passos e encontraram o olhar de Jean Parrottin. A senhora ficava de boca aberta, mas o senhor parecia constrangido: tinha um ar de humildade; devia conhecer bem os olhares intimidantes e as audiências abreviadas. Puxou a mulher pelo braço com jeitinho.

«Olha para este», disse ele.

O sorriso de Reny Parrottin tinha sempre posto os humildes à vontade. A mulher aproximou-se e leu com aplicação: «Retrato de Rémy Parrottin, nascido em Bouville, em 1849, professor da Faculdade de Medicina de Paris, por Renaudas.»

«Parrottin, da Academia de Ciências», disse o marido, «por Renaudas, do Instituto. É uma lição de história !

A senhora fez que sim com a cabeça, depois olhou para o Grande Clínico.

«Que distinto que ele é!», disse ela. «Que ar de inteligência que tem!»

O marido teve um gesto largo.

«Foram estes todos que fizeram Bouville», disse com simplicidade.

«Foi boa ideia terem-nos posto aqui, todos reunidos», disse a senhora, enternecida.

Éramos como três soldados a fazer evoluções naquela sala imensa. O marido, que ria de respeito, silenciosamente, deitou-me um olhar inquieto e parou bruscamente de rir. Voltei-me para outro lado e fui postar-me em frente do retrato de Olivier Blévigne. Invadia-me um suave regozijo: sim, senhor!, eu tinha razão. Era realmente engraçadíssimo!

A mulher aproximou-se de mim.

«Gaston», disse ela, num atrevimento brusco, «anda cá!»

O marido veio na nossa direcção.

«Olha», prosseguiu ela, «este tem uma rua com o nome dele: Olivier Blévigne. Não te lembras? A ruazinha que sobe ao Outeiio Verde, a última antes de chegar a Jouxlebouville.»

Um inslanle depois acrescenlou:

«Não devia ser lá muilo acomodatício.»

«Não! Os respingões deviam ter ali com quem conversar.»

A frase era-me dirigida. O senhor olhou-me de viés e pôs-se a rir algo ruidosamenle, desla vez, e com um modo presumido de pessoa minuciosa, como se fosse o próprio Olivier Blévigne.

Olivier Blévigne não se ria. Espetava na nossa direcção a queixada conlraída, e sobressaía-lhe a maçã-de-adão.

Houve um momento de silêncio e de êxtase.

«Parece que vai mexer», disse a senhora.

O marido explicou amavelmente:

«Era um negociante de algodão por grosso. Mais tarde meteu-se na política, foi deputado.»

Eu sabia. Há dois anos consultei, a respeito dele, o Pequeno Dicionário dos Grandes Homens de Bouville, do padre Morellet. Copiei o artigo.

«BLÉVIGNE, Olivier Martial, filho do precedente, nascido e falecido em Bouville (1849-1908), seguiu o curso de Direito em Paris e obteve o grau de licenciado em 1872. Fortemente impressionado pela insurreição da Comuna, que o tinha obrigado, como a tantos parisienses, a refugiar-se em Versalhes sob a protecção da Assembleia Nacional, jurou a si próprio, na idade em que os jovens só pensam no prazer, «consagrar a sua vida ao restabelecimento da Ordem». Cumpriu a palavra: assim que regressou à nossa cidade, fundou o famoso Clube da Ordem, onde se reuniram todas as noites, durante longos anos, os principais negociantes e armadores de Bouville. Esse círculo aristocrático, do qual se chegou a dizer, por graça, que era mais fechado que o Jóquei, exerceu, até 1908, uma influência salutar sobre o destino do nosso grande porto comercial. Olivier Blévigne desposou, em 1880, Marie-Louise Pacôme, a filha mais nova do negociante Charles Pacôme (ver este nome), e fundou, por morte deste, a casa Pacôme-Blévigne & Filhos. Pouco depois dedicou-se à política activa e candidatou-se à dignidade de deputado.

«O País», disse ele num discurso célebre, «sofre da mais grave doença: a classe dirigente já não quer mandar. E quem mandará então, meus senhores, se aqueles que a hereditariedade, a educação, a experiência, tornaram mais aptos para o exercício do poder se afastam dele por resignação ou cansaço? Muitas vezes o disse: mandar não é um direito da elite; é o seu principal dever. Meus senhores, conjuro-vos: restauremos o princípio da autoridade!»

Eleito, na primeira volta, a 4 de Outubro de 1885, foi depois constantemente reeleito. De uma eloquência enérgica e rude, pronunciou numerosos e brilhantes discursos. Estava em Paris, em 1898, quando rebentou a terrível greve. Transportou-se com urgência para Bouville, onde foi o animador da resistência. Tomou a iniciativa de negociar com os grevistas. Estas negociações, animadas por um espírito de larga conciliação, foram interrompidas pelo tumulto de Jouxte-bouville. Como se sabe, uma intervenção discreta da tropa acalmou os ânimos.

A morte prematura do seu filho Octave, que entrara, muito novo, para a Escola Politécnica, e de quem ele projectara «fazer um chefe», foi para Olivier Blévigne um golpe terrível: nunca mais ele se havia de restabelecer, e morreu, dois anos mais tarde, em Fevereiro de 1908.

Compilações de discursos: as Forças Morais (1894. Esgotado), O Dever de Punir (1900. Os discursos desta colectânea foram todos pronunciados a propósito do caso Dreyfus. Esgotado), Vontade (1902. Esgotado). Reuniram-se, depois da sua morte, os seus últimos discursos e algumas cartas aos seus íntimos sob o título Labor improbus (Livraria Plon, 1910). Iconografia: existe no Museu de Bouviíle um excelente retrato de Blévigne, pintado por Bordurin.

Um excelente retrato, seja! Olivier Blévigne usava um bigode pequeno, negro, e o seu rosto azeitona parecia-se um pouco com o de Maurice Barres. Os dois homens haviam-se certamente conhecido: tinham assento nas mesmas bancadas. Mas o deputado de Bouviíle não tinha a negligência do presidente da Liga dos Palriotas. Era teso como um pau e irrompia da tela como um diabo de mola duma caixa carnavalesca. Os olhos dele cintilavam: a pupila era negra, a córnea avermelhada. Mordia os pequenos lábios carnudos e apertava a mão direita contra o peito.

Que zanga que me fizera este retrato! Umas vezes Blévigne parecera-me muito alto, e outras vezes muito baixo. Mas hoje compreendia porquê.

Soube a verdade ao folhear o Bouvillols Satírico. O número de 6 de Novembro de 1905 era inteiramente consagrado a Blévigne. Representavam-no na capa, minúsculo, agarrado à juba do pai Combes, com esta legenda: «O Piolho do Leão». E logo na primeira página tudo se explicava: Olivier Blévigne media um metro e cinquenta e três. O jornal escarnecia da sua reduzida estatura e da sua voz de rã, que, mais duma vez, tinha feito rebentar a rir a Câmara inteira. Acusava-o de meter calcanheiras de borracha nas botas. Em contraposição, a Sr.a Blévigne, nome de solteira Pacôme, era um cavalo. «É caso para dizer», acrescentava o cronista, «que este homem tem o seu dobro por metade.»

Um metro e cinquenta e três! Sim, senhor, Bordurin, com um cuidado meticuloso, tinha cercado o seu modelo de objectos que não denunciam a pequenez; um coxim, uma poltrona baixa, uma prateleira com alguns livros de formato doze, uma mesinha de pé-de-galo, persa. Somente, tinha-o feito do mesmo tamanho que o seu vizinho Jean Parrottin e as duas telas tinham as mesmas dimensões. Resultava daqui que a mesa de pé-de-galo de uma era quase tão grande como a imensa mesa da outra e que o coxim teria chegado ao ombro de Parrottin. O olhar fazia instintivamente a comparação entre os dois retratos: daí viera o meu embaraço.

Nesse momento tive vontade de rir: um metro e cinquenta e três! Se eu tivesse querido falar a Blévigne, teria sido obrigado a curvar-me ou a flectir os joelhos. Já não me admirava que ele espetasse o nariz para o ar tão imperiosamente: o destino dos homens daquela altura joga-se sempre umas polegadas acima da sua cabeça.

Admirável poder da arte! Deste homenzinho de voz sobreaguda nada passaria à posteridade, senão uma cara ameaçadora, um gesto soberbo e uns olhos sanguinolentos de touro. O estudante aterrorizado pela Comuna, o deputado minúsculo e irascível, eis o que a morte levara. Mas, graças a Bordurin, o presidente do Clube da Ordem, o orador das Forças Morais, era imortal.

«Oh! Pobre Pipo, coitadinho.»

A senhora tinha soltado um grito abafado: por baixo do retrato de Octave Blévigne, «filho do precedente», mão compadecida traçara estas palavras: «Falecido na Escola Politécnica em 1904.»

«Olha, morreu! Foi como o filho do Arondel. Tinha cara de inteligente. Faço ideia do desgosto que a mãe teve! Também, nestas escolas superiores trabalha-se de mais. O cérebro não pára nem durante o sono. Eu gosto é destes bicornes, acho chique. Chamam-se casuares, não é?»

«Não; os casuares é em Saint-Cyr.»

Contemplei, por minha vez, o retrato do rapaz que morrera em estudante. A sua tez de cera e o seu bigode pitrício teriam bastado para despertar a ideia duma morte próxima. Aliás, ele previra o seu destino: lia-se-lhe nos olhos claros, que viam longe, uma certa resignação. Mas, ao mesmo tempo, levantava alto a cabeça: é que, naquele uniforme, representava o exército francês.

Tu Marcellus eris! Manibus date lilia plenis...

Uma rosa cortada, um estudante da Politécnica morto: que haverá de mais triste?

Segui lentamente pela comprida galeria, cumprimentando de passagem, sem me deter, as caras selectas que saíam da penumbra: o Sr. Bossoire, presidente do Tribunal do Comércio, o Sr. Faby, presidente do conselho de administração do porto autónomo de Bouville, o Sr. Boulange, negociante, com a sua família, o Sr. Rannequin, maire de Bouville, o Sr. Lucien, nascido em Bouville, embaixador da França nos Estados Unidos e poeta, um desconhecido em trajos de prefeito, a Madre Santa Marie-Louise, superiora do Grand e Orfanato, o Sr. Théréson e esposa, o Sr. Thiboust-Gouron, presidente-geral do conselho de conciliação, o Sr. Bobot, administrador piincipal da Capitania do Porto, os Srs. Brion, Minette, Grelot, Lefèbvre, o médico Dr. Pain e esposa, o próprio Bordurin, pintado pelo filho, Pierre Bordurin. Olhares claros e frios, feições finas, bocas estreitas; o Sr. Boulange parecia enorme e paciente, a Madre Santa Marie-Louise duma devoção industriosa, o Sr. Thiboust-Gouron era duro para si próprio, como para os outros. A Sr.a Théréson lutava sem descanso com um mal profundo. A boca, infinitamente cansada, indicava bem o seu sofrimento. Mas nunca essa mulher de fé tinha dito: «sofro.» Reagia: destinava as refeições e presidia a sociedades de beneficência. Às vezes, no meio duma frase, descia lentamente as pálpebras, e a vida abandonava-lhe o rosto. Fraqueza que duraria pouco mais dum segundo; depressa a Sr." Théréson reabria os olhos, completava a sua frase. E murmurava-se na Casa de Lavores: «Coitada da Sr.a Théréson! Nunca se queixa.»

Entretanto eu chegara ao fim da Sala Bordurin-Renaudas. que percorrera de ponta a ponta. Virei-me. Adeus, belas açucenas, de contorno finíssimo, expostas em pequenos santuários pintados, adeus belas açucenas, nosso orgulho e nossa razão de ser. Adeus. Safados.

 

                                           SEGUNDA-FEIRA.

Abandonei o livro sobre Rollebon; acabou-se, não posso continuá-lo. Que é que hei-de fazer da minha vida?

Eram três horas. Estava sentado à minha mesa; tinha posto a meu lado, em pilha, as cartas que roubara em Moscovo; escrevia:

«Tinham-se espalhado, de propósito, os rumores mais sinistros. O Sr. de Rollebon foi vítima, com certeza, desta manobra, visto ter comunicado ao sobrinho, em carta de 13 de Setembro, que acabava de redigir o seu testamento.»

O marquês estava presente: enquanto não o tivesse instalado definitivamente na existência histórica, emprestava-•Lhe a minha vida. Sentia-o como um leve calor no côncavo do estômago.

Veio-me de súbito à ideia uma objecção que não deixariam de me fazer: Rollebon estava longe de ser franco com o sobrinho, de quem se queria servir, se o golpe falhasse, como duma testemunha de defesa junto de Paulo I. Era muito possível que tivesse inventado a história do testamento para se dar ares de ingénuo.

Era uma objecção sem importância; eu seria culpado, na pior das hipóteses, dum erro de pormenor. Tanto bastou, porém, para me mergulhar numa divagação soturna. Revi, de súbito, a robusta criada do Restaurante Camille, a cara esgazeada do Sr. Achille, a sala onde tinha sentido tão nitidamente que estava esquecido, abandonado no presente. Disse para mim mesmo com lassidão: «Como é que eu, que não tive forças para reter o meu próprio passado, posso ter esperanças de salvar o de outro?»

Peguei na caneta e tentei pôr-me de novo a trabalhar; estava farto, até à raiz dos cabelos, de meditações sobre o passado, sobre o presente, sobre o mundo. Só pedia uma coisa: que me deixassem acabar o meu livro em paz.

Mas, quando o meu olhar incidia sobre o caderno de folhas brancas, impressionou-me o seu aspecto e fiquei, de caneta no ar, a contemplar esse papel deslumbrante: como era rijo e vistoso, como estava presente! Não havia nada nele que não fosse presente. As letras, que eu acabava de lá traçar, ainda não tinham secado e já não me pertenciam.

«Tinham-se espalhado, de propósito, os rumores mais sinistros...»

Eu tinha pensado esta frase: ela fora, primeiro, um pouco de mim próprio. Agora tinha-se gravado no papel, entrava na coligação contra mim. Já não a reconhecia. Nem sequer podia repensá-la. A frase estava ali, em frente de mim; em vão teria procurado nela uma marca de origem. Qualquer outra pessoa a podia ter escrito. Não tinha a certeza de ter sido eu. Já as letras tinham deixado de brilhar, estavam secas. Também isso tinha desaparecido: nada restava já do seu efémero brilho.

Deitei um olhar ansioso à minha roda: presente, nada mais que o presente. Móveis leves e sólidos, encrostados no seu presente, uma mesa, uma cama, um guarda-fato - e eu próprio. Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe, e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia. De modo nenhum. Nem as coisas, nem sequer no meu pensamento. Decerto, havia muito tempo que eu tinha compreendido que o meu me tinha escapado. Mas julgava, até então, que se tinha simplesmente retirado do meu alcance. Para mim, o passado era apenas uma entrada na reforma: era outra maneira de existir, um estado de férias e de inacção; cada acontecimento, quando findara o seu papel, se arrumava atinadamente, por si próprio, numa caixa, e se tornava acontecimento honorário: tal é a dificuldade que se tem em imaginar o nada. Agora compreendia: as coisas são inteiramente o que parecem - e por trás delas... não há nada.

Durante mais alguns minutos este pensamento absorveu-me. Depois fiz um movimento de ombros para me libertar e puxei para mim o caderno de papel.

«... que acabava de redigir o seu testamento.»

Invadiu-me de súbito uma imensa repulsa, e a caneta caiu-me da mão, cuspindo tinta. Que se tinha passado? Estava com a Náusea? Não, não era isso; o quarto tinha o seu aspecto protector de todos os dias. Mal podia dizer que a mesa me parecia mais pesada, mais espessa, e a caneta mais compacta. Somente, o Sr. de Rollebon acabava de morrer pela segunda vez.

Um momento antes, ainda ele ali estava, em mim, tranquilo e quente, e, de vez em quando, sentia-o mexer. Estava bem vivo, mais vivo para mim que o Autodidacta ou a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Tinha, sem dúvida, os seus caprichos; podia ficar vários dias sem aparecer; mas muitas vezes, quando, misteriosamente, os dias se apresentavam bonitos, punha a cabeça de fora, como o capuchinho higrométrico, e eu distinguia-lhe a cara sem cor e as bochechas azuis. E. mesmo quando não se mostrava, fazia um grande peso no meu coração e eu sentia-me cheio.

Agora já não restava. Como também não restava, sobre os traços de tinta seca, a lembrança do seu fresco brilho. A culpa era minha: tinha pronunciado as únicas palavras que era preciso calar: tinha dito que o passado não existia. E. num repente, sem ruído, o Sr. de Rollebon tinha voltado ao seu nada.

Peguei nas cartas dele, apalpei-as com uma espécie de desespero:

«Foi ele», disse para comigo, «foi ele, porém, quem traçou estes sinais um por um. Apoiou-se neste papel, assentou os dedos nas folhas, para as impedir de rodar sob a caneta.»

Tarde de mais: essas palavras já não tinham sentido. Já nada existia senão uma pilha de folhas amarelas, que eu apertava nas mãos. Havia, sim, uma história complicada: o sobrinho de Rollebon assassinado em 1810 pela polícia do czar, os seus papéis confiscados e transportados aos arquivos secretos, depois, cento e dez anos mais tarde, depositados pêlos Sovietes, que conquistaram o Poder, na biblioteca do Estado, donde os roubo em 1923. Mas nada disso parecia verdadeiro, e do roubo que eu próprio cometi não me restava nenhuma verdadeira lembrança. Para explicar a presença de tais papéis no meu quarto não teria sido difícil encontrar cem histórias diferentes e mais críveis: todas, perante estas folhas enrugadas, pareceriam vazias e leves como bolas de sabão. Em vez de contar com elas para entrar em comunicação com Rollebon, mais valia recorrer imediatamente às mesas dos espiritas. Rollebon já não existia. Não existia mesmo. Se restavam dele ainda alguns ossos, existiam por si próprios, em completa independência; não eram mais que um pouco de fosfato e de carbonato de cálcio com sais e água.

Fiz uma derradeira tentativa: repeti para comigo as palavras da Sr.a de Genlis com as quais - geralmente - evoco o marquês: «a sua carinha enrugada, muito limpa, mas toda picada das bexigas, onde havia uma malícia singular que saltava aos olhos, por mais que ele fizesse para a dissimular.»

A cara dele apareceu-me docilmente; o nariz afilado, as bochechas azuis, o sorriso. Era-me possível formar-lhe à vontade as feições, talvez até com mais facilidade que antes. Somente, esse rosto não era mais que uma imagem dentro de mim, uma ficção. Suspirei, deixei-me cair para trás contra o espaldar da cadeira, com a impressão intolerável de que me faltava qualquer coisa.

Dão quatro horas. Há uma hora que estou aqui, nesta cadeira, de braços caídos. Começa a estar escuro. À parte a ausência do marquês, nada mudou neste quarto: o papel branco continua em cima da mesa, ao lado da caneta e do tinteiro... Mas nunca mais escreverei na folha começada. Nunca mais, seguindo pela Rua dos Mutilados e pelo Bou-levard da Redoute, me dirigirei à Biblioteca para consultar os arquivos. Tenho vontade de pôr-me aos saltos no mesmo sítio e de sair, de fazer qualquer coisa para me atordoar. Mas, se levantar um dedo, se não me deixar estar absolutamente quieto, sei bem o que me sucederá. Não quero que isso me torne a suceder. Enquanto puder, hei-de evitá-lo. Não me mexo; leio maquinalmente, na folha do caderno, o parágrafo que deixei incompleto:

«Tinham-se espalhado de propósito os rumores mais sinistros. O Sr. de Rollebon foi vítima, com certeza, desta manobra, visto ter comunicado ao sobrinho, em carta de 13 de Setembro, que acabava de redigir o seu testamento.»

O grande caso Rollebon acabou, como uma grande paixão. É preciso descobrir outra coisa. Há alguns anos, em Xangai, no gabinete de Mercier, saí de súbito dum sonho, despertei. Em seguida tive outro sonho: vivia na corte dos czares, em velhos palácios tão frios que se formavam estalactites de gelo, no Inverno, por cima das portas. Hoje acordo em frente dum caderno de papel branco. Desapareceram os archotes, as festas glaciais, os uniformes, os belos ombros friorentos. Em seu lugar, qualquer coisa resta no quarto morno, qualquer coisa que não quero ver.

O Sr. de Rollebon era o meu sócio: tinha precisão de mim para ser, e eu tinha precisão dele para não sentir o meu ser. Eu fornecia a matéria bruta, essa matéria de que tinha para dar e vender, e da qual ignorava o que havia de fazer: a existência, a minha existência. Quanto a ele, a sua contribuição consistia em representar. Punha-se em frente de mim e tinha-se apoderado da minha vida para me representar a dele. E eu já não dava porque existia, já não existia em mim. mas nele; era para ele que comia, para ele que respirava; o sentido dos meus movimentos era-me exterior, estava ali, precisamente em frente de mim - nele; deixara de ver a minha mão traçar letras no papel, e até a frase que escrevera - mas, por trás, para além do papel, via o marquês que reclamara esse gesto, e cuja existência o mesmo gesto prolongava, consolidava. Eu era apenas um meio de o fazer viver, a minha razão de ser era ele: o marquês libertar-se de mim. Que hei-de fazer agora?

Sobretudo não me mexer, não me mexer... Ah!

Este movimento dos ombros não pude retê-lo...

A coisa, que estava à espera, deu o alerta, precipitou-se sobre mim, vaza-se em mim, estou cheio dela. - Não é nada: a Coisa sou eu. A existência, liberta, despida, reflui sobre mim. Eu existo.

Estou a existir. É suave, tão suave, tão lento! E leve: como algo que se mantivesse no ar em suspensão. Sinto mexer: impressões levíssimas por todo o corpo, que fundem e se desvanecem. Suavemente, suavemente. Há na minha boca uma água espumosa. Engulo-a: resvala-me pela garganta, numa carícia - e já outra me cresce na boca; tenho na boca perpetuamente uma poçazinha de água esbranquiçada - discreta - a roçar-me a língua. E essa poça também sou eu. E a língua também. E a garganta sou eu.

Vejo a minha mão assente na mesa. A minha mão vive - sou eu. Abre-se, os dedos estendem-se, ficam assestados. Está de costas: mostra-me a barriga papuda. Parece um animal de pernas para o ar. Os dedos são as patas. Entretenho-me a fazê-los mexer muito depressa, como as patas dum caranguejo caído de costas. O caranguejo morreu: as patas descem-me sobre a palma da mão. Vejo as unhas-o único fragmento de mim que não vive.., e mesmo assim! A minha mão volta-se, instala-se de barriga para baixo, oferece-me agora as suas costas. Um dorso prateado, um pouco brilhante - dir-se-ia um peixe, se não tivesse os pêlos ruivos na base das falanges. Sinto a minha mão. Sou eu estes dois bichos que se agitam na ponta dos meus braços. A minha mão coça uma das suas patas com a unha de outra pata; sinto-a pesar sobre a mesa que não sou eu. Persiste esta impressão de peso, persiste, não passa. Não há razão para passar. Com a continuação torna-se intolerável... Retiro a mão, meto-a na algibeira. Mas sinto logo, através da fazenda, o calor da coxa. Faço saltar imediatamente a mão da algibeira; deixo-a cair paralelamente ao espaldar da cadeira. Agora sinto-lhe o peso na ponta do braço. Um puxar fraco, que mal se sente, mole, macio: é a mão a existir: Não insisto; onde quer que a ponha, continuará a existir, e eu continuarei a sentir que existe; não posso suprimi-la, nem suprimir o resto do meu corpo, o calor húmido que me enxovalha a camisa, nem toda esta banha quente que se move preguiçosamente, como se estivessem a mexê-la com uma colher, nem todas as sensações que me passeiam pelo interior do corpo, que vão e vêm, sobem da ilharga ao sovaco, ou que vegetam discretamente, de manhã à noite, no seu cantinho costumado.

Levanto-me de repelão: se ao menos pudesse parar de pensar, já não seria mau. Os pensamentos são o que há de mais enjoativo. Mais enjoativos ainda que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito.

E depois há as palavras no interior dos pensamentos, as palavras incompletas, os embriões de frase que reaparecem constantemente: «Tenho de acab... Eu exis... Morr... O Sr. de Roll morreu... Não sou... Exis...» É algo que anda, anda, e nunca acaba. É pior que o resto, porque disso sinto-me responsável e cúmplice. Por exempo, esta espécie de ruminação dolorosa: eu existo, sou eu que a. alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento sou eu que o continuo, que o desenrolo. Existo. Penso que existo. Oh, que comprida serpentina, este sentimento de existir - e eu, muito devagarinho, a desenrolá-la... Se pudesse fazer com que não pensasse! Tento, consigo: tenho a impressão de que a cabeça se me enche de fumo... mas eis que tudo recomeça: «Fumo... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar. Não posso pensar que não quero pensar. Porque isso mesmo é um pensamento.» Então isto nunca mais acaba?

O meu pensamento sou eu: por isso é que não posso deter-me. Existo porque penso... e não posso deixar de pensar. Neste momento preciso - é odioso -, se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio à existência, a repulsa pela existência, são outras tantas maneiras de a cumprir, de mergulhar nela. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer por trás da minha cabeça... se ceder, virão pôr-se à minha frente, entre os olhos - e cedo sempre, o pensamento avoluma-se, avoluma, e fica enorme, a encher-me todo, a renovar-me a existência.

A minha saliva tem um sabor açucarado, o meu corpo está morno; sinto-me desenxabido. O meu canivete está em cima da mesa. Abro-o. Porque não? De toda a maneira, sempre seria uma mudança. Assento a mão esquerda no caderno, e mando-lhe uma boa facada à palma. Gesto muito nervoso; a lâmina escorrega, o ferimento é superficial. Está a deitar sangue. E afinal? Alguma coisa mudou? Ainda assim, olho com satisfação para aquele charcozinho de sangue no papel branco, por entre as linhas que tracei há bocado; para aquele charcozinho que deixou, enfim, de ser eu. Quatro linhas numa folha branca, uma mancha de sangue, é assim que se formam as belas recordações. Hei-de escrever por baixo: «Neste dia desisti de fazer o meu livro sobre o marquês de Rollebon.»

Trato desta mão ou não trato? Hesito. Olho para o veiozinho monótono de sangue. Lá está ele precisamente a coagular. Acabou-se. A minha pele, em volta do golpe, parece que criou ferrugem. Debaixo da pele resta apenas uma sensação ténue, semelhante às outras, talvez mais insípida ainda.

Está a dar a meia hora das cinco. Levanto-me; cola-•se-me à carne a camisa fria. Saio. Porquê? Bem, porque também não tenho razão para não sair. Mesmo que fique em casa, mesmo que vá pôr-me a um canto, encolhido e calado, não me esquecerei de mim. Lá ficarei a pesar no sobrado. Eu sou.

Passo por um vendedor de jornais e compro-lhe um. Sensacional. Foi encontrado o corpo da pequena Lucienne! Um cheiro a tinta; o papel amarrota-se-me entre os dedos O ignóbil indivíduo anda a monte. A criança foi violada. Encontraram o corpo, de dedos crispados na lama. Faço o jornal numa bola, crispando os dedos nele; cheiro a tinta: santo Deus, como as coisas estão hoje a existir com força! A pequena Lucienne foi violada. Estrangulada. Existe ainda o seu corpo, a sua carne contusa. Ela já não existe. As suas mãos. Ela já não existe. As casas. Caminho entre as casas, estou entre as casas, no meio da rua, muito direito: sou. Por baixo dos meus pés a rua existe, as casas voltam a fechar-se sobre mim, como a água se fecha sobre mim, sobre o papel em montanha de cisne, sou. Sou, existo, penso logo sou, sou porque penso, porque é que penso? Não quero pensar mais, eu sou porque penso que não quero ser, penso que eu... porque... Safa! Fujo, o ignóbil indivíduo anda a monte, o corpo violado. A criança sentiu uma carne alheia a escorregar pela dela. Eu... eis que eu... Violada. Um suave desejo sangrento de estupro apanha-me pelas costas, sem ruído, por trás das orelhas, as orelhas desatam a correr atrás de mim. Os cabelos ruivos... na minha cabeça ruivos, uma erva molhada, uma erva ruiva: estes cabelos sou eu ainda?

E o jornal também sou eu? Segurar no jornal, existência contra existência... As coisas existem encostadas umas às outras; largo o jornal. Aparece-me uma casa, como um jacto, a casa existe; na minha frente... vou andando ao rés do muro, existo ao longo do muro longo, em frente do muro, um passo, o muro existe na minha frente, um, dois, por trás de mim, um dedo a roçar-me nas cuecas, roça, raspa e tira o dedo da criança maculado de lama, a lama no meu dedo que saía do regato lodoso e volta a cair, lentamente, lentamente, amolecia, roçava com menos força que os dedos da criança ao ser estrangulada, ignóbil indivíduo, raspavam a lama, a terra com menos força, o dedo desliza suavemente, cai de cabeça para baixo e acaricia-me rolo quente encostado à coxa; a existência é mole e rola e anda aos bordos, eu ando aos bordos entre as casas, sou, existo, penso logo ando aos bordos, sou, a existência é uma queda caída, não cairá, cairá, à janela o dedo roça, a existência é uma imperfeição. Um senhor. O bonito senhor existe. O senhor sabe que existe. Não, o bonito senhor que ali vai, altivo e manso como uma corriola, não sente que existe. Expandir-me; dói-me a mão golpeada, existe, existe, existe. O bonito senhor existe Legião de Honra, existe bigode, mais nada; como se deve ser feliz de se ser apenas uma Legião de Honra e um bigode, e o resto ninguém vê, o senhor vê as duas pontas aguçadas do bigode, uma de cada lado do nariz; não penso. logo sou um bigode. O seu corpo magro, os seus pés grandes, não os vê; vasculhando-se, bem no fundo das calças, sempre se encontraria um par de borrachinhas cinzentas. Tem a Legião de Honra, os Safados têm o direito de existir: «existo porque tenho esse direito.» Tenho o direito de existir, logo tenho o direito de não pensar: ergue-se o dedo. E se eu fosse...? afagar no desdobramento dos lençóis brancos a carne branca em flor que cai doce, tocar nas lenturas floridas das axilas, nos elixires e nos licores e nas florescências de carne, entrar na existência de outrem, nas mucosas vermelhas do pesado, doce, doce cheiro a existência, sentir-me existir entre os doces lábios molhados, os lábios vermelhos de sangue pálido, lábios palpitantes que bocejam todos molhados de existência, todos molhados dum pus claro, entre esses lábios molhados açucarados que lagrimejam como olhos? O meu corpo de carne que vive, a carne que fervilha e mexe devagarinho licores, fica creme, mexe, mexe, mexe, a água doce e açucarada da minha carne, o sangue da minha mão, dói-me, enfada a minha carne contusa, que mexe, anda, vou a andar, a fugir, sou um ignóbil indivíduo de carne contusa, contusa de existir contra estas paredes. Tenho frio, dou um passo, tenho frio, mais um passo, viro à esquerda, vira à esquerda, pensa que vira à esquerda, doido, estarei doido? Ele disse que tem medo de estar doido, a existência, vês a existência com vista curta, pára, o corpo pára, pensa que pára, donde vem? Que está a fazer? Lá vai outra vez, tem medo, muito medo, ignóbil indivíduo, o desejo como uma névoa, o desejo, o fartum, diz que está farto de existir, está farto? Cansado de farto de existir. Corre. Porque espera ele? Corre para fugir a si próprio, para se deitar à doca? Corre, o coração, o coração a bater, é uma festa. O coração existe, as pernas existem, a respiração existe, existem a correr, a assoprar, a bater molemente, lentamente perde o fôlego, perco o fôlego, diz que perde o fôlego; a existência agarra-me os pensamentos pelas costas, e lentamente desenvolve-os pelas costas; agarram-me pelas costas, obrigam-me por trás de mim a pensar, portanto a ser qualquer coisa, por trás de mim que ofegando formo bolas leves de existência, ele é bola de bruma de desejo, que pálido que fica no espelho, pálido como um morto, Rollebon morreu,, Antoine Roquentin não morreu, desmaiar; diz que queria desmaiar, vai a correr os cavalos a correr (pelas costas) pelas costas pelas costas, a pequena Lucile atacada pelas costas, violada pela existência pelas costas, ele pede misericórdia, tem vergonha de pedir misericórdia, piedade, ó da guarda ó da guarda logo existo, entra no Bar da Marinha, os espelhinhos do bordelzinho que pálido que fica nos espelhinhos do bordelzinho o ruivo alto mole que se deixa cair no assento, o pick-up está a tocar, existe, tudo gira, existe o pick-up, o coração bate: girai, girai, humores da vida, girai gelados, xaropes da minha carne, doces sucos... o pick-up.

When the low moon begins to beam Every night I dream a litlle dream.

A voz, grave e roufenha, aparece bruscamente e o mundo evapora-se, o mundo das existências. Uma mulher de carne e osso teve esta voz, cantou diante dum disco, com o vestido melhor que tinha, e iam-lhe gravando a voz. A mulher: ora! Ela existia como eu, como Rolleboii, não tenho vontade de a conhecer. Mas há esta coisa. Não se pode dizer que exista. Existe o disco que gira, o ar, ferido pela voz, que vibra, existe, a voz que impressionou o disco existiu. Eu que ouço existo. Tudo está cheio: existência por todos os lados, densa e pesada e suave. Mas, para além de toda esta suavidade, inacessível, tão próximo, tão longe infelizmente, jovem, impiedoso e sereno, há este... este rigor.

 

                                   TERÇA-FEIRA

Nada Existi

 

                                   QUARTA-FEIRA

Há um círculo de sol sobre a toalha de papel. Dentro do círculo arrasta-se uma mosca, entorpecida, aqueceii-do-se e esfregando uma na outra as patas da frente. Vou fazer-lhe o favor de a esborrachar. A mosca não vê surgir este indicador gigante, cujos pêlos dourados brilham ao sol.

«Não a mate!», grita o Autodidacta.

A mosca rebenta, saem-lhe da barriga as tripazinhas brancas; desembaracei-a da existência. Digo secamente ao Autodidacta:

«Era um favor a prestar-lhe.»

Porque estou eu aqui? - E porque é que não havia de estar? É meio-dia, espero que sejam horas de ir dormir. (Felizmente, o sono não me evita.) Dentro de quatro dias voltarei a ver Anny: é esta, por agora, a minha única razão para viver. E depois? Quando Anny me tiver deitado? Vejo bem que, pela calada, vou esperando: vou esperando que ela nunca mais me deixe. Devia saber muito bem, entretanto, que Anny nunca se sujeitará a envelhecer diante de mim. Sou fraco e sozinho, tenho precisão dela. Gostava de estar em forma, quando a vir: Anny não tem piedade dos destroços.

«O senhor está bem? Sente-se bem?»

O Autodidacta olha-me de lado com uns olhos risonhos. Arqueja um pouco, de boca aberta, como um cão esbofado. Confesso: esta manhã sentia-me quase feliz por ir vê-lo, tinha necessidade de falar.

«É um grande prazer ter o senhor aqui, à minha mesa», disse ele. «Se tem frio, podemos instalar-nos ao pé do calorífero. Aqueles senhores vão levantar-se, já pediram a conta.»

Alguém se preocupa comigo, deseja saber se tenho frio; falo a outro homem: há anos que isto não me acontecia.

«Lá se vão embora. Quer mudar de lugar?»

Os dois sujeitos acenderam cigarros. Saem, ei-los ao ar puro, ao sol. Passam paralelamente às grandes montras, segurando os chapéus com ambas as mãos. Riem; o vento incha-lhes os sobretudos. Não, não quero mudar de lugar. Para quê? E depois, através dos vidros, entre os tectos brancos das cabinas para banhistas, vejo o mar, verde e compacto.

Ô Autodidacta tirou da carteira dois rectângulos de cartolina cor de violeta. Daqui a pouco vai-os dar à caixa. Decifro num deles, ao contrário:

«Restaurante Bottanet, comida caseira.

Almoço a preço fixo: 8 francos.

Hors-d'öeuvre à escolha.

Carne e acompanhamento.

Queijo ou sobremesa.

20 talões de almoço: 140 francos.»

Reconheço agora o sujeito que está a comer à mesa redonda, ao pé da porta; vai ficar muitas vezes ao Hotel Printania, é caixeiro viajante. De vez em quando pousa em mim   o   seu   olhar atento   e sorridente;   mas não me vê; absorve-o de mais o cuidado em espiar o que leva à boca. Do outro lado da caixa, dois homens vermelhos e atarracados comem   com   delícia mexilhões,   e   acompanham-nos a vinho branco. O mais baixo, com um bigode fino e amarelo, está a contar uma história que faz as suas próprias delícias. Marca pausas e ri, mostrando uns dentes deslumbrantes. O outro não se ri; tem um olhar duro. Mas faz muitas vezes que sim com a cabeça. Junto à janela, um homem magro e moreno, de feições distintas, lê um jornal,   pensativo. No assento, a seu lado, pôs uma pasta de cabedal. Bebe água de   Vichy.   Todas   estas   pessoas   sairão   dentro   em   pouco apesentadas pela comida, acariciadas pela brisa, de sobre tudo todo aberto, de cabeça um pouco quente, um pouco rumorosa, seguirão ao rés da balaustrada, olhando para as crianças na praia e para os barcos no mar; irão para o seu trabalho. Eu não irei a parte nenhuma, não tenho trabalho

O Autodidacta ri com inocência, e o sol brinca-lhe nos cabelos raros.

«Quer escolher o seu almoço?»

Estende-me a lista: tenho direito a um hors-d'asuvre à escolha: cinco fatias de salpicão ou rabanetes ou camarões miúdos ou um pratinho de aipos com molho. Os caracóis de Borgonha são considerados extraordinários.

«Traga-me salpicão», digo eu para a criada.

O meu companheiro arranca-me a lista das mãos:

«Não   há   nada   melhor?   Há,   sim,   olhe:   caracóis   de Borgonha.»

«É que não gosto muito de caracóis.»

«Ah! Ostras, então?»

«São mais quatro francos», diz a criada.

«Pois venham as ostras, menina-e, para mim, rabanetes. Gosto imenso de rabanetes», explica-me ele, corando.

Eu também.

«E a seguir?», pergunta ele.

Passo em revista os pratos de carne. Tenta-me o guisado de vaca. Mas sei de antemão que vou comer frango à caçadora: é o único prato da série considerado extraordinário.

«Traga um frango à caçadora», diz ele, «para este senhor. E, para mim, um guisado de vaca.»

Vira a lista: o rol dos vinhos está do outro lado.

«Vamos beber vinho», diz ele com certa solenidade.

«Sim, senhor», diz a criada, «hoje é dia grande. Nunca o vi beber.»

«Mas posso bem suportar um copinho, quando calha. Venha lá uma garrafa de rose de Anjou.»

O Autodidacta larga a lista, faz o pão em bocados pequenos e limpa os talheres ao guardanapo. Deita um olhar ao homem de cabelos brancos, depois sorri para mim:

«De costume, trago para aqui um livro, embora um médico mo tenha desaconselhado: come-se muito depressa, não se mastiga. Mas eu tenho um estômago de avestruz, posso engolir seja o que for. Durante o Inverno de 1917, quando estava prisioneiro, a comida era tão má que toda a gente adoeceu. Está claro que dei parte de doente, como os outros, mas não tinha nada.»

Este homem foi prisioneiro de guerra... É a primeira vez que me fala disso; custa-me a acreditar: não posso imaginá-lo senão como autodidacta.

«Onde é que esteve prisioneiro?»

Não responde. Pousou o garfo e olha-me com uma intensidade prodigiosa. Vai contar-me os seus aborrecimentos: lembro-me agora de que na Biblioteca havia qualquer coisa que o contrariava. Sou todo ouvidos: não peço mais que compadecer-me com os aborrecimentos dos outros; sempre é uma mudança. Quanto a mim, não tenho aborrecimentos, não me falta dinheiro, não tenho patrão, nem mulher, nem filhos; existo, e pronto. E o aborrecimento com a existência é tão vago, tão metafísico, que tenho vergonha dele.

Não parece que o Autodidacta vá falar. Que curioso olhar que me deita: não é um olhar de ver, mas antes de comunhão de almas. A alma do Autodidacta subiu-lhe aos magníficos olhos de cego e emerge à superfície. Faça a minha outro tanto, venha achatar o nariz nos vidros, e começarão ambas a fazer vénias uma à outra.

Não quero cá comunhão de almas, ainda não cheguei tão abaixo. Recuo. Mas o Autodidacta avança o busto por cima da mesa, sem tirar os olhos de mim. Felizmente, a criada traz-lhe os rabanetes. Ele volta a descair sobre a cadeira e, desaparecendo-lhe a alma dos olhos, põe-se a comer docilmente.

«Como vão as suas preocupações?»

O meu companheiro estremece:

«Que preocupações?» pergunta como aterrorizado.

«No outro dia, o senhor bem sabe, tinha-me falado...»

Ele cora intensamente.

«Ah!», diz com uma voz seca. «Ah, sim!, no outro dia. Sabe? É aquele corso, o fiscal da Biblioteca.»

Hesita pela segunda vez, com um ar teimoso de carneiro.

«São mexericos, não quero maçá-lo com essas histórias.»

Não insisto. Ele come, embora não pareça, com uma rapidez extraordinária. Já acabou os rabanetes quando me trazem as ostras. No prato restam-lhe apenas uma manchinha de pés verdes e uns pós de sal molhado.

Na rua pararam duas pessoas em frente da ementa que lhes apresenta, na mão esquerda, um cozinheiro de cartão (que, na direita, tem uma frigideira). A mulher tem frio, protege o queixo com a gola de peles. O homem é o primeiro a decidir-se; abre a porta e afasta-se para dar passagem à companheira.

Ela entra. Olha em redor, num jeito amável, e tem um pequeno arrepio:

«Está calor», diz com uma voz grave.

O rapaz fecha a porta.

«Bom dia, meus senhores», diz ele.

O Autodidacta vira-se e responde cortesmente:

«Bom dia.»

Os outros fregueses não respondem, mas o senhor distinto baixa um pouco o jornal e escuta os recém-chegados com um olhar profundo.

«Obrigado, não vale a pena.»

Antes que a criada, que tinha acorrido para o ajudar, tivesse tido tempo de esboçar um gesto, já ele se desembaraçara agilmente do impermeável. Traz vestido, à laia de casaco, um blusão de cabedal com fecho éclair. A criada, algo desiludida, virou-se para a rapariga. Mas o rapaz antecipa-se outra vez e ajuda o seu par, com gestos suaves e precisos, a tirar o casaco. Sentam-se os dois ao pé de nós, encostados um ao outro. Não se devem conhecer há muito tempo. A rapariga tem uma expressão cansada e pura, um pouco amuada. De súbito tira o chapéu e ajeita os cabelos pretos com um sorriso.

O Autodidacta contempla-os demoradamente, com bondade; depois vira-se para mim e pisca-me o olho, enternecido, como se quisesse dizer: «Que lindo par!»

E o par, realmente, não é feio. Estão ambos calados, felizes por estarem juntos, felizes por os verem juntos. Às vezes, quando entrávamos, Anny e eu, num restaurante de de Piccadilly, sentíamo-nos objecto de contemplações enternecidas. Anny irritava-se, mas eu, confesso, sentia certo orgulho. Sobretudo espanto: nunca tive a aparência desenxovalhada que fica tão bem a este rapaz, e nem mesmo se pode dizer que a minha fealdade seja comovente. Somente, éramos novos: agora cheguei à idade de me enternecer com a juventude dos outros. Não me enterneço. A mulher tem uns olhos escuros e doces; o rapaz uma pele alaranjada, um tanto granulosa e um encantador queixoziriho voluntarioso. Sensibilizam-me, é verdade, mas também me repugnam um pouco. Sinto-os tão longe de mim: o calor torna-os lânguidos; alimentam no coração o mesmo sonho, tão doce, tão débil! Estão à vontade, olham com confiança para as paredes amarelas, para as pessoas, acham que o mundo está bem como é, exactamente como é, e cada um deles colhe provisoriamente, na do outro, o sentido da sua vida. Dentro em pouco, reunidos ambos, constituirão apenas uma só vida, uma vida lenta e morna que deixará de ter qualquer sentido - mas disso não se aperceberão eles.

Parece que estão intimidados um com o outro. Para atalhar, o rapaz, com um modo desajeitado e resoluto, agarra com a ponta dos dedos na mão da companheira. Ela respira fundo e debruçam-se ambos sobre a ementa. Sim, são felizes. Bem, e depois?

O Autodidacta toma um modo divertido, um pouco misterioso:

«Vi-o anteontem.»

«Onde?»

«Ah!... Ah!...», excita-me ele, respeitosamente brincalhão.

Faz-me esperar um momento; e depois:

«Ia o senhor a sair do Museu.»

«Ah, sim», digo eu. «Não foi anteontem então, foi no sábado.»

Anteontem não estava certamente com disposição para andar a correr museus.

«Viu a famosa reprodução em talha do atentado de Orsini?»

«Não. Não conheço.»

«Não é possível. Está numa salinha à esquerda, à entrada. É obra dum insurrecto da Comuna que viveu em Bouville, até à amnistia, escondido num sótão. Tinha tentado embarcar para a América, mas aqui a polícia do porto está bem organizada. Um homem admirável. Empregou os seus ócios forçados a esculpir um grande painel em madeira de carvalho. Todos os instrumentos que tinha eram um canivete e uma lima de unhas. Os fragmentos delicados - mãos, olhos, fazia-os à lima. O painel tem um metro e cinquenta de comprido e um de largo: o trabalho é todo numa só peça; tem setenta personagens, cada uma do tamanho da minha mão, sem contar os dois cavalos que puxam o carro do imperador. E as caras, meu caro senhor, aquelas caras feitas à lima, tém todas fisionomia, uma expressão humana. É uma obra, se me dá licença, que merece ser vista.»

Não quero comprometer-me:

«A minha intenção era simplesmente voltar a ver os quadros de Bordurin.»

O Autodidacta entristece bruscamente:

«Os retratos do salão grande? Ah», suspira ele com um sorriso trémulo, «de pintura não percebo nada. Compreendo, é claro, que Bordurin é um grande pintor, vejo bem que não lhe falta o sentido da cor, a habilidade da mão; é assim que se diz? Mas falta-me o prazer, meu caro senhor, o prazer estético.»

Digo-lhe com simpatia:

«Passa-se o mesmo comigo a respeito da escultura.»

«Da escultura? Também comigo. E a respeito da música, e da dança. Todavia, sempre tenho alguns conhecimentos. Pois bem, é inconcebível: vi pessoas que não sabiam metade do que eu sei e que, paradas em frente dum quadro, pareciam experimentar prazer.»

«Naturalmente era a fingir», disse eu para lhe dar coragem.

«Talvez...»

O Autodidacta devaneia um momento:

«O que me desola não é tanto estar privado duma certa espécie de prazer, mas constatar que me permanece alheio todo um ramo da actividade humana... Afinal sou um homem, e foram homens que pintaram aqueles quadros...»

De súbito acrescenta, com a voz alterada:

«Uma vez cheguei a pensar que o belo é uma questão de gosto. Não é verdade que há regras diferentes para cada época? Se o senhor dá licença...»

Vejo-o, com surpresa, tirar da algibeira um canhenho de carneira preta. Fica um momento a folheá-lo: muitas páginas brancas e, de longe em longe, algumas linhas traçadas a tinta vermelha. Fez-se muito pálido. Pôs o canhenho aberto em cima da toalha e assenta a grande mão na página de cima. Pigarreia com embaraço:

«Vêm-me às vezes à cabeça - não me atrevo a dizer pensamentos. É curiosíssimo: estou em qualquer sítio, a ler, e, de súbito, tenho como uma iluminação que me vem não sei donde. A princípio não fazia caso, depois resolvi comprar um canhenho.»

Pára e olha para mim: está à espera.

«Sim, senhor», digo eu.

«Estas máximas são, evidentemente, provisórias a minha instrução ainda não está concluída.»

Agarra no canhenho com as mãos trémulas, e, muito emocionado:

«Aqui está precisamente uma coisa sobre a pintura Seria para mim uma grande satisfação que me desse licença para lha ler.»

«Com muito prazer», digo eu.

O Autodidacta lê:

«Hoje já ninguém acredita no que o século XVIII considerava verdade. Porque deveríamos então sentir prazer com as obras que essa época julgava belas?»

Olha para mim, num ar de súplica:

«Que é que o senhor acha? É talvez um pouco paradoxal... É que me pareceu poder dar à minha ideia uma forma de dito espirituoso.»

«Bem, eu... acho muito interessante.»

«Não terá já lido isso em qualquer parte?»

«Não, claro que não.»

«Tem a certeza? Em parte nenhuma? Então, meu caro senhor», diz ele contristado, «é porque não é verdade. Se fosse verdade, já alguém o teria pensado.»

«Espere aí», digo-lhe eu; «reflectindo melhor, creio que já li qualquer coisa nesse género.»

Os olhos dele brilham; puxa do lápis.

«Em que autor?», pergunta-me ele num tom de quem estima a precisão.

«Em... em Renan.»

O meu companheiro fica extasiado.

«Quer ter a bondade de me citar a passagem exacta?», diz ele, chupando na ponta do lápis.

«Sabe? Foi coisa que já li há muito tempo.»

«Oh! Não faz mal, não faz mal.»

Escreve o nome de Renan no canhenho, por baixo da máxima.

«Encontrei-me com Renan! Tracei o nome a lápis», explica-me, com um modo arrebatado, «mas esta noite hei-de passá-lo a tinta.»

Olha um momento para o caderno, num transporte, enquanto espero que me leia outras máximas. Mas fecha-o com precaução e enterra-o na algibeira. Acha, sem dúvida, que já é bastante felicidade para uma só vez.

«Que agradável que é», diz num tom de intimidade, «poder às vezes conversar assim, com abandono.»

Este pedregulho, como era fácil de adivinhar, esborracha a nossa frouxa conversa. Segue-se um longo silêncio.

Depois da chegada dos namorados, a atmosfera do restaurante transformou-se. Calaram-se os dois homens vermelhaços; examinam minuciosamente, sem cerimónia, os encantos da rapariga. O senhor distinto pousou o jornal e olha para o rapazinho com complacência, quase com cumplicidade. Pensa que a velhice é atilada, que a mocidade é bela, meneia a cabeça com certa tafularia: sabe muito bem que ainda é belo, que está admiravelmente conservado, que, com a sua tez morena e o seu corpo esbelto, ainda pode seduzir. Representa o papel dos sentimentos paternais. Os da criada parecem mais simples: postou-se em frente dos namorados e contempla-os de boca aberta.

Falam os dois em voz baixa. Serviram-lhes os hors-d’asuvre, mas eles não lhes tocam. Apurando o ouvido, consigo apanhar fragmentos da conversa. Percebo melhor o que diz a mulher, com a sua voz rica e velada.

«Não, Jean, não.»

«Não, porquê?», murmurou o rapaz com uma vivacidade apaixonada.

«Já lhe disse.»

«Mas isso não é razão.»

Há algumas palavras que me escapam, depois a rapariga desenha um encantador gesto de cansaço.

«Tentei demasiadas vezes. Já passei a idade em que se pode recomeçar a vida. Estou velha, sabe?»

O rapaz ri com ironia. Ela prossegue:

«Ser-me-ia insuportável uma... decepção.»

«É preciso ter confiança», diz o rapaz; «assim, como você anda agora, nem é viver.»

Ela suspira:

«Bem sei!»

«Veja lá a Jeannette.»

«Hum...», faz ela, estendendo o beiço.

«Pois olhe, cá por mim, aprovo inteiramente o que ela fez. Teve coragem.»

«Sabe?», diz a rapariga. «Eu acho é que ela aproveitou a ocasião. Digo-lhe que, se eu tivesse querido, não me tinham faltado oportunidades do mesmo género. Preferi esperar.»

«Fez bem», diz ele com ternura, «fez bem em esperar por mim.»

Ela ri por sua vez:

«Que toleima! Não foi isso que eu disse.»

Deixo de os ouvir: irritam-me. Vão dormir juntos. Sabem-no muito bem. Cada um deles sabe que o outro também sabe. Mas, como são novos, castos e decentes, como cada um quer conservar a sua estima por si próprio e a estima do outro, como o amor é uma giande coisa poética que é preciso não amedrontar, vão juntos, várias vezes por semana, aos bailes e aos restaurantes oferecer o espectáculo das suas dançazinhas rituais e mecânicas...

No fim de contas, é preciso matar o tempo. São os dois jovens e de boa compleição: ainda têm diante deles uns trinta anos. Por isso não se apressam, saboreiam o seu vagar, e não deixam de ter razão. Quando tiverem dormido juntos, precisarão de encontrar outra coisa para encobrir o enorme absurdo da sua existência. Embora... Será absolutamente necessário mentirmos a nós próprios?

Percorro a sala com os olhos. É uma farsa! Todas estas pessoas estão sentadas com uns modos sérios. A comer. Não, não estão a comer: estão a recobrar forças para levar a bom termo a tarefa que lhes incumbe. Cada um tem a sua porfiazinha pessoal que o impede de se aperceber de que existe; não há nenhum que não se julgue indispensável a alguém ou a alguma coisa. O Autodidacta não me dizia no outro dia: «Ninguém mais indicado que Nouçapié para se lançar nesta vasta síntese»? Cada um deles se lança numa empresazinha, e ninguém era mais indicado que ele para o seu trabalho. Ninguém mais indicado que aquele caixeiro viajante, além, para dar saída à pasta dentífrica Swan. Ninguém mais indicado que aquele interessante rapaz para meter a mão por baixo das saias da vizinha. E eu aqui estou no meio deles, e, se eles olham para mim, devem pensar que ninguém era mais indicado que eu para fazer o que faço. Sim, mas eu sei. Ninguém diria, mas sei que existo e que os outros existem. E, se conhecesse a arte de persuadir, iria sentar-me ao pé do belo senhor de cabelos brancos e explicar--Lhe-ia o que é a existência. Só de pensar na cara que ele faria rebento a rir. O Autodidacta encara-me com surpresa. Gostava de parar, mas não posso: rio até às lágrimas.

«O senhor está alegre», diz-me o Autodidacta com muita circunspecção.

«É de pensar», digo-lhe a rir, «que estamos aqui, tantas pessoas, a comer e a beber para conservar a nossa preciosa existência, e que não há nada, nada, nenhuma razão para existir.»

O Autodidacta tornou-se grave, faz um esforço para me perceber. Ri-me alto de mais: vi voltarem-se para mim várias caras. E depois arrependo-me de ter dito tanto. No fim de contas, ninguém tem nada com isso.

O meu companheiro repete lentamente:

«Nenhuma razão para existir... O senhor quer dizer, sem dúvida, que a vida não tem finalidade? Não é a essa opinião que se chama o pessimismo?»

Reflecte um momento mais;   depois diz, com doçura:

«Aqui há uns anos, li um livro dum autor americano... chamava-se A Vida Vale a Pena Ser Vivida? Não é a mesma pergunta que o senhor faz?»

É claro que não, não é a pergunta que faço. Mas não quero explicar nada.

«O autor concluía», informa-me o Autodidacta num tom de consolação, «optando por um optimismo voluntário. A vida tem sentido, desde que lho queiramos dar. É preciso, antes de mais nada, agir, deitarmos braços a uma empresa. Se em seguida se reflecte, a sorte está lançada, estamos comprometidos. Não sei o que o senhor pensa da questão...»

«Nada», digo eu.

Ou, antes, penso que é exactamente essa a espécie de mentira que andam perpetuamente a pregar a si próprios o caixeiro viajante, os dois namorados o o senhor de cabelos brancos.

O Autodidata sorri com alguma malícia e muita solenidade:

«Também não sou dessa opinião. Acho que não temos de ir buscar tão longe o sentido da vida.»

«Hem?»

«Há uma finalidade, meu caro senhor, há uma finalidade... há os homens.»

É verdade: já me esquecia de que ele é humanista. Fica um momento silencioso, o tempo de fazer desaparecer limpamente, inexoravelmente, metade do seu guisado e uma fatia inteira de pão. «Há os homens.» Este homem sensível acaba de pintar um auto-retrato perfeito. - Sim, mas não sabe dizer bem a sua frase. Tem os olhos a trasbordar de alma, é indiscutível, mas a alma não basta. Em tempos que já lá vão dei-me com humanistas parisienses, ouvi-os dizer cem vezes «há os homens», e era outra coisa! Nenhum chegava a Virgan. Esse tirava os 'óculos, como para se mostrar nu na sua carne de homem, fixava-me com os seus olhos comoventes, com um pesado olhar de cansaço, que parecia despir-me para atingir a minha essência humana, e então murmurava melodiosamente: «Há os homens, meu amigo, há os homens», dando a este «há» uma espécie de força canhestra, como se o seu amor pela humanidade, perpetuamente novo e admirado, se enredasse nas próprias asas gigantescas.

A mímica do Autodidacta não adquiriu esse aveludado; o seu amor pela humanidade é ingénuo e bárbaro: um humanista da província.

«Os homens», digo-lhe eu, «os homens... em todo o caso, o senhor não parece ipreocupar-se muito com eles: está sempre sozinho, sempre às voltas com os livros.»

O Autodidacta bate palmas, põe-se a rir maliciosamente :

«Engana-se. Ah, dê-me licença que lhe diga: o senhor está muito enganado!»

Recolhe-se um instante e acaba, com discrição, de deglutir. A cara pôs-se-lhe radiosa como uma aurora. Por trás dele, a rapariga solta uma leve gargalhada. O seu companheiro inclinou-se para ela e está-lhe a falar ao ouvido.

«Nada mais natural que o seu erro», diz o Autodidacta; «já há muito tempo que lhe devia ter dito... Mas sou tão tímido... Estava à espera de ocasião.»

«Pois agora encontrou», digo-lhe eu delicadamente.

«Também acho. Também acho! O que lhe vou dizer...» Interrompe-se, corando: «Mas naturalmente estou a incomodá-lo?»

Dissipo-lhe as apreensões. Ele solta um suspiro de felicidade.

«Não é todos os dias que se encontra um homem como o senhor, em quem a largueza de vistas se reúne à penetração da inteligência. Há meses que ando com vontade de lhe explicar, explicar-lhe o que fui, no que me tornei...»

O prato dele está vazio e limpo como se agora mesmo lho tivessem posto à frente. Descubro, subitamente, ao lado do meu, uma travessinha de lata, onde uma perna de frango nada num molho escuro. É o que tenho de comer.

«Falei-lhe ainda agora de ter estado prisioneiro na Alemanha. Foi lá que tudo começou. Antes da guerra estava sozinho e não sabia que estava; vivia com os meus pais, que eram umas santas pessoas, mas não me entendia com eles. Quando penso nesses anos... Mas como pude eu viver assim? Estava morto, meu caro senhor, e não dava por isso: tinha uma colecção de selos.»

Encara-me e interrompe-se:

«O senhor está pálido, está com um ar de cansaço. Não ebtarei a aborrecê-lo?»

«Não, não. Interessa-me muito o que está a dizer.»

«Veio a guerra e alistei-me, sem saber porquê. Fiquei dois anos sem compreender, porque a vida da frente deixava pouco tempo para reflectir, e depois os soldados eram muito ordinários. No fim de 1917 fui feito prisioneiro. Disseram--me mais tarde que muitos soldados têm recobrado, no cativeiro, a fé da sua infância. Eu», disse o Autodidacta baixando as pálpebras sobre as pupilas inflamadas, «não creio em Deus; a sua existência é desmentida pela Ciência. Mas. no campo de concentração, aprendi a crer nos homens.»

«Via-os suportar com coragem a sua sorte?»

«Sim», disse ele dum modo vago, «também havia >sso. De resto, éramos bem tratados. Mas queria-lhe falar doutra coisa; nos últimos meses de guerra, já pouco trabalho nos davam. Quando estava a chover, mandavam-nos entrar para um grande barracão de madeira, onde. apertando-nos, cabíamos quase duzentos. Fechavam a porta, e deixavam-nos ali, comprimidos uns contra os outros, numa escuridão quase total.»

Hesitou um instante:

«Não sei explicar. Todos aqueles homens estavam ali, mal se viam, mas eu sentia-os contra o corpo, ouvia-lhes o ruído da respiração... Uma das primeiras vezes que noa fecharam no barracão, o aperto era tal que ao princípio julguei que ia sufocar; depois, subitamente, uma poderosa alegria ergueu-se dentro de mim, quase desfaleci: então senti que amava aqueles homens como irmãos, tive vontade de os beijar a todos. A partir desse momento, cada vez que lá voltava sentia a mesma alegria.»

Tenho de comer o meu frango, que já deve estar frio. Já há tempo que o Autodidacta se calou, e a criada está à espera para mudar os pratos.

«Esse barracão tinha revestido, a meus olhos, um carácter sagrado. Algumas vezes consegui iludir a vigilância dos guardas e penetrei lá sozinho. Nesse lugar, na escuridão, à lembrança das alegrias que ali conhecera, caía numa espécie de êxtase. As horas passavam sem eu dar por isso. Cheguei às vezes a soluçar.»

Com certeza que estou doente: não há outra explicação para esta formidável cólera que por um momento me possuiu. Sim, uma cólera de doente: as minhas mãos tremiam, o sangue subiu-me à cabeça e, para cúmulo, também os lábios se me puseram a tremer. Tudo isto unicamente porque o frango estava frio. Também eu, aliás, estava frio, e era isso o mais penoso: quero dizer que o fundo tinha ficado como está há trinta e seis horas, absolutamente frio, gelado. A cólera atravessou-me revoluteando; era qualquer coisa como um arrepio, um esforço da minha consciência para provocar uma reacção, para lutar contra este abaixamento de temperatura. Esforço vão: é certo que teria sido capaz, por um motivo fútil, de espancar o Autodidacta ou a criada, cobrindo-os de injúrias. Mas não teria entrado no jogo inteiramente. A minha raiva fervia à superfície, e, durante um momento, tive a impressão desagradável de ser um bloco de gelo enrodilhado em fogo, um lago quieto sob uma toalha de petróleo a arder. Essa agitação superficial dissipou-se, e ouvi o Autodidacta dizer:

«Ia à missa todos os domingos. Nunca fui crente. Mas não se poderia dizer que o verdadeiro mistério da missa é a comunhão entre os homens? Um capelão francês, que perdera um braço, celebrava o ofício. Tínhamos um harmónio. Ouvíamos em pé, de cabeça descoberta, e, enquanto os sons do harrrtónio me transportavam, eu sentia que formava um todo com os homens que me cercavam. Ah, meu caro senhor, o que eu gostava daquelas missas! Ainda hoje, para recordar, vou às vezes à igreja, ao domingo de manhã. Temos, em Santa Cecília, um organista notável.»

«Com certeza que teve muitas vezes saudades dessa vida?»

«Tive... em 1919. foi o ano em que me puseram em liberdade. Passei uns meses muito difíceis. Não sabia o que havia de fazer, ia definhando. Em toda a parte onde via homens reunidos intrometia-me no grupo. Cheguei a acompanhar», acrescenta ele a sorrir, «o enterro dum desconhecido. Um dia, desesperado, deitei ao fogo a minha colecção de selos... Mas encontrei o meu caminho.»

«Ah, sim?»

«Alguém me aconselhou... O senhor... bem sei que posso contar com a sua discrição. Sou... talvez as suas ideias não sejam as mesmas, mas o senhor tem uma tal largueza de espírito — sou socialista.»

Baixou os olhos e as suas longas pestanas palpitam:

«Desde o mês de Setembro de 1921 que estou inscrito no partido socialista S. F. I. O'. É isto que lhe queria dizer.»

O Autodidacta está radiante de orgulho. Fita-me, de cabeça deitada para trás, de olhos semicerrados, de boca entreaberta: tem um ar de mártir.

«Muito bem», digo eu, «belo procedimento.»

«Eu sabia que o senhor me havia de aprovar. E como se poderia censurar uma pessoa que confessa: dispus da minha vida de tal e tal maneira e agora sou perfeitamente feliz?»

Tem os braços abertos e vira para mim a palma das mãos, como se fosse receber os estigmas. Os olhos dele estão vítreos; na boca vejo-lhe rolar uma massa escura e cor--de-rosa.

«Muito bem», digo eu, «desde que o senhor é feliz...»

«Feliz?» O olhar dele incomoda: voltou a erguer as pálpebras e fixa-me com um modo duro. «O senhor poderá julgar. Antes de tomar essa decisão, sentia-me numa solidão tão horrível que pensei no suicídio. O que me reteve foi a ideia de que ninguém, absolutamente ninguém, se comoveria com a minha morte, que ficaria mais sozinho ainda na morte que na vida.»

Endireita-se, enchem-se-lhe as bochechas.

«Nunca mais estarei sozinho, meu caro senhor, nunca mais.»

«Ah, conhece então muita gente?», digo eu.

Ele sorri, e imediatamente me apercebo da minha ingenuidade:

«Quero dizer que deixei de me sentir sozinho. Mas é claro, meu caro senhor, que não é necessário, para isso, estar acompanhado.»

«Entretanto», digo eu, «na secção socialista...» «Ah! Conheço lá toda a gente. Mas a maior parte só de nome. Ouça», diz ele com esperteza, «seremos obrigados a escolher os nossos companheiros de maneira tão estreita? Os meus amigos são todos os homens. Quando vou para o escritório, de manhã, há, diante de mim, atrás de mim, outros homens que vão para o seu trabalho. Vejo-os; se ousasse, sorriria

para eles. Penso que sou socialista, que são eles todos a finalidade da minha vida. dos meus esforços, e que não o sabem ainda. É uma festa para mim.»

Interroga-me com os olhos; eu aprovo fazendo que sim com a cabeça, mas sinto que ele está um pouco desiludido, que pedia mais entusiasmo. Que lhe hei-de fazer? Será culpa minha se, em tudo quanto ele disse, reconheço incidentalmente as ideias dos outros, as citações? Se vejo reaparecer, enquanto ele fala, todos os humanistas que conheci? Ah, conheci tantos! O humanista radical é amigo especialmente dos funcionários. O humanista dito «da esquerda» tem como preocupação principal a de conservar os valores humanos; não adere a nenhum partido para não trair o humano, mas as suas simpatias vão para os humildes; é aos humildes que consagra a sua bela cultura clássica. Em geral é viúvo e tem uns bonitos olhos sempre húmidos de lágrimas: nos aniversários chora. Gosta também dos gatos, dos cães e de todos os mamíferos superiores. O escritor comunista gosta dos homens desde o segundo plano quinquenal: castiga porque ama. Púdico, como todos os fortes, sabe esconder os seus sentimentos, mas sabe também, com um olhar, com uma inflexão da voz, fazer pressentir por trás das suas rudes palavras de justiceiro   uma   paixão   ríspida   e doce pêlos seus irmãos. O humanista católico, o que chegou atrasado, o benjamim, fala dos homens com um ar maravilhado. «Que belo conto de fadas», diz ele, «que é a vida mais humilde, a dum estivador londrino, a duma operária que passa a vida a pespontar calçado!» Escolheu o humanismo dos anjos; escreve, para edificação dos anjos, longos romances tristes e belos, que obtêm frequentemente o prémio Fémina.

São estes os papéis grandes, os principais. Mas há outros, uma quantidade de outros: o filósofo humanista, que olha pêlos seus irmãos como um irmão mais velho e que tem o sentido das responsabilidades: o humanista que ama os homens tais-quais são; o que os ama tais como deviam ser; o que quer salvá-los com o seu consentimento, e o que decide salvá-los mesmo contra vontade deles; o que tenta criar mitos novos, e o que se contenta com os antigos; o que, no homem, ama a sua morte; o que, no homem, ama a sua vida; o humanista alegre que traz sempre uma graça engatilhada; o humanista sombrio, que se encontra sobretudo em velas a mortos. Odeiam-se todos uns aos outros: como indivíduos, evidentemente - não como homens. Mas o Auto-didacta não sabe: fechou-os em si próprio, como gatos num saco de cabedal, e os humanistas vão-se dilacerando mutuamente, sem ele dar por isso.

Já está a olhar   para mim   com menos confiança.

«O senhor não partilha os meus sentimentos?»

«Bem...»

Em face da sua expressão inquieta, um pouco rancorosa, arrependo-me um momento de o ter desiludido. Mas ele reata amavelmente:

«Eu sei: o senhor tem as suas pesquisas, os seus livros... Serve a mesma causa doutra maneira.»

Os meus livros, as minhas pesquisas... Que imbecil! Não podia ter dito uma inépcia maior.

«Não é esse o motivo por que escrevo.»

No mesmo instante, a cara do Autodidacta transforma-se: dir-se-ia que farejou o inimigo. Nunca lhe tinha visto esta expressão. Qualquer coisa acaba de morrer entre nós.

Fingindo-se surpreendido, pergunta:

«Mas... se não sou indiscreto, então porque é que escreve?»

«Bem... não sei: por nada, por escrever.»

Não lhe custa esboçar um sorriso: pensa que me desconcertou :

«O senhor escreveria se estivesse numa ilha deserta? Não é sempre para ser lido que se escreve?»

Foi por hábito que ele deu à sua frase uma entoação interrogativa. Na realidade, tratava-se duma afirmação. O seu verniz de doçura e de timidez foi estalando: mal o reconheço. As suas feições deixam transparecer uma pesada obstinação: é um muro de suficiência. Ainda não me refiz da minha admiração, já o ouço dizer:

«Que me respondam: escrevo para certa categoria social, para um grupo de amigos. Muito bem. Talvez o senhor escreva para a posteridade... Mas, queira ou não queira, para alguém escreve.»

Espera uma resposta. Como ela não vem, sorri discretamente.

«Talvez o senhor seja um misantropo?»

Eu sei o que este falacioso esforço de conciliação dissimula. É pouco, afinal, o que me pedem: simplesmente que aceite um rótulo. Mas é uma cilada: se consinto, o Autodidacta triunfa, e sou imediatamente contornado, reivindicado, ultrapassado, porque o humanismo toma à sua conta, e funde na mesma massa, todas as atitudes humanas. Se nos opomos a ele de frente, caímos no seu jogo; ele tira forças do que lhe é adverso. Existe uma raça de pessoas teimosas e curtas de vista, de salteadores, que perde com ele, a cada jogada: o humanismo digere todas as violências, os piores excessos dessa gente, fá-los numa linfa branca e espumosa. Digeriu o anti-intelectualismo, o maniqueísmo, o misticismo, o pessimismo, o anarquismo, o egotismo; correntes que já só aparecem como etapas, como pensamentos incompletos que só nele encontram a sua justificação. A misantropia tem também o seu lugar neste concerto: não passa duma dissonância necessária à harmonia do conjunto. O misantropo é homem: logo, é preciso que o humanista seja, em certa medida, misantropo. Mas é um misantropo científico, que soube dosear o seu ódio, que, se começa por odiar os homens, é apenas para, mais tarde, poder amá-los melhor.

Não quero que me integrem, nem que o meu belo sangue vermelho vá engordar esse animal linfático: não vou cometer a tolice de me declarar «anti-humanista». Não sou humanista, eis tudo. «Acho», digo eu ao Autodidacta, «que é tão impossível odiar os homens como amá-los.»

O Autodidacta olha-me com um ar protector e distante. Murmura, como se não prestasse atenção às próprias palavras:

«É preciso amá-los, é preciso amá-los...»

«Amar quem? As pessoas que estão aqui?»

«Estas também. Todas.»

Nisto, volta-se para o par de radiosa juventude: ali está o que é preciso amar. Contempla um momento o senhor de cabelos brancos. Depois dirige novamente para mim o seu olhar: leio-lhe na cara uma interrogação muda. Faço que não com a cabeça. Ele parece ter dó de mim.

«Mas o senhor», digo-lhe eu, irritado, «o senhor também não os ama.»

«Julga isso? Dê-me licença para não partilhar a sua opinião.»

De novo se tornou respeitoso, dos pés à cabeça; mas adopta a expressão irónica de alguém que estivesse imensamente divertido. Odeia-me. Bem mal teria eu feito em me comover com este maníaco. Interrogo-o por minha vez:

«Então o senhor ama os dois namorados que estão ali, por trás de si?»

Ele olha-os outra vez; reflecte:

«O senhor quer levar-me a dizer», replica ele, desconfiado, «que os amo sem os conhecer. Pois bem, confesso, não os conheço... A não ser, justamente, que o amor seja o verdadeiro conhecimento», acrescentou como uma expressão fátua.

«Mas de que é que gosta neles?»

«Vejo que são novos, e é essa mocidade que aprecio. Entre outras coisas...»

Interrompeu-se e pôs-se à escuta:

«Percebe o que estão a dizer?»

Se percebo! O rapaz, encorajado pela simpatia que o rodeia, conta, com uma voz cheia, um desafio de futebol que o seu grupo ganhou, o ano passado, contra um clube do Havre.

«Está-lhe a contar uma história», digo eu ao Autodidacta.

«Ah! Não percebo bem. Mas ouço as vozes; uma voz doce e uma voz grave, alternadamente. É... é tão simpático.»

«Sim, mas eu, infelizmente, ouço também o que dizem.»

«E então?»

«E então, estão a representar uma comédia.»

«Sério? A comédia da mocidade, talvez?», sugere ele com ironia. «Permita-me que a considere muito proveitosa. Bastará representá-la para voltar à idade deles?»

Permaneço insensível à sua ironia; continuo:

«O senhor está de costas voltadas, escapa-lhe o que eles dizem... De que cor são os cabelos da rapariga?»

Ele perturba-se:

«São... bem...» Relanceia um olhar aos namorados e retoma a sua segurança. «São pretos!»

«Já vê!»

«Como?»

«Já vê que não os ama, àqueles dois. Quando passasse por eles na rua, talvez nem os reconhecesse. São apenas símbolos, para si. Não é com eles, de modo algum, que o senhor está a enternecer-se; estava-se a enternecer era com a Juventude do Homem, com o Amor do Homem e da Mulher, com a Voz humana.»

«E então? Serão coisas que não existem?»

«Claro que não, não existem! Nem a Mocidade, nem a Maturidade, nem a Velhice, nem a Morte...»

A cara do Autodidacta, amarela e dura como um marmelo, cristalizou-se num tétano reprovador. Não obstante, prossigo:

«É como o sujeito já de certa idade que está atrás de si, a beber água de Vichy. Nesse, é o Homem maduro, creio eu, que o senhor ama; o Homem maduro que caminha corajosamente para o declínio, e cuida do seu trajo porque não quer abandonar-se?»

«Exactamente»,   responde-me ele num tom   de desafio.

«E o senhor não vê que ele é um safado?»

O meu companheiro ri, acha-me um doidivanas, deita um rápido olhar ao belo rosto emoldurado de cabelos brancos:

«Mas, admitindo que aquele homem pareça o que o senhor diz, como pode o senhor julgá-lo pela cara? Uma cara em repouso não exprime coisa nenhuma.»

Ah, cegos humanistas! Aquela cara é tão eloquente, tão clara - mas nunca a alma deles, sensível e abstracta, se-deixou impressionar pelo sentido duma cara.

«Como pode o senhor», diz o Autodidacta, «reter um homem, dizer este homem é isto ou aquilo? Quem poderá esgotar um homem? Conhecer-lhe todos os recursos?»

Esgotar um homem! Cumprimento de passagem o humanismo católico, donde o Autodidacta, sem saber, tirou esta fórmula.

«Bem sei», digo-lhe eu, «bem sei que todos os homens são admiráveis. O senhor é admirável. Eu sou admirável. Enquanto criaturas de Deus, bem entendido.»

Ele olha para mim sem compreender; depois, com um sorriso ténue:

«O senhor está com certeza a brincar, mas é verdade que todos os homens têm direito à nossa admiração. É difícil, é muito difícil ser um homem.»

Sem dar por isso, acaba de abandonar o amor dos homens em Cristo; meneia a cabeça e, por um curioso fenómeno de mimetismo, parece-se com o pobre Guéhenno.

«Desculpe», digo-lhe eu, «mas então não tenho bem a certeza de ser um homem: nunca tinha achado isso muito difícil. Parecia-me que bastava deixar andar.»

O Autodidacta ri francamente, mas permanece-lhe nos olhos um mau fulgor:

«O senhor é demasiado modesto. Para suportar a sua condição, a condição humana, precisa, como toda a gente, de muita coragem. O instante que vai chegar pode ser o da sua morte; o senhor sabe-o, e pode sorrir: vejamos! Não é admirável? Na mais insignificante das suas acções», acrescenta com azedume, «há um heroísmo imenso.»

«Que sobremesa desejam os senhores?», diz a criada.

O Autodidacta está branco, tem as pálpebras meio descidas sobre uns olhos de pedra. Faz um gesto fraco com a mão, como para me convidar a escolher.

«Queijo», digo eu com heroísmo.

«E o senhor?»

Ele estremece.

«Hem? Ah, sim: olhe, não quero nada, já acabei.»

«Louise!»

Os dois homens corpulentos pagam e vão-se embora. Um deles coxeia. O patrão acompanha-os à porta: são fregueses importantes, serviram-lhes uma garrafa de vinho num balde com gelo.

Contemplo o Autodidacta com um certo remorso: andou a semana inteira a antegozar este almoço, no decurso do qual poderia comunicar a outro homem o seu amor pela humanidade. É tão raro que ele tenha uma ocasião para falar. E, vejam lá! desmanchei-lhe o seu prazer. No fundo, está tão sozinho como eu: ninguém se preocupa com ele. Somente, não dá pela sua solidão. Sim, mas não era a mim que competia abrir-lhe os olhos. Sinto-me pouco à vontade: estou furioso, é certo, mas não com ele, com os Virgan e os outros, todos os que envenenaram aqueles pobres miolos. Se pudesse tê-los aqui, na minha frente, teria tanta coisa a dizer-lhes! Ao Autodidacta não vou dizer nada; só me merece simpatia: é uma pessoa no género do Sr. Achille, que estava do meu lado, e traiu por ignorância, por boa vontade!

Uma gargalhada do Autodidacta arranca-me aos meus devaneios sombrios:

«O senhor desculpe, mas quando penso na profundeza do meu amor pêlos homens, na força dos impulsos que me atraem para eles, e quando vejo que estamos aqui a raciocinar, a argumentar... dá-me vontade de rir.»

Calo-me, esboço um sorriso constrangido. A criada põe--me na frente um prato com um bocado de camembert amarelento... Percorro a sala com o olhar e invade-me um asco violento. Que estou aqui a fazer? Porque me fui meter em discussões sobre o humanismo? Porque é que esta gente está aqui? Porque é que estão a comer? São pessoas, é verdade, que não sabem que existem. Tenho vontade de me ir embora, de ir para qualquer parte onde estivesse realmente no meu lugar, onde me encaixasse... Mas o meu lugar não é em parte nenhuma; sou de mais.

O Autodidacta apazigua-se. Tinha receado uma resistência mais forte da minha parte. Está pronto a passar a esponja sobre tudo quanto eu disse. Inclina-se para mim num ar de confidência:

«No fundo, o senhor ama-os, ama-os como eu: só estamos separados por palavras.»

Já não posso falar, inclino a cabeça. O rosto do Auto-didacta está à beira do meu. Vejo-o sorrir com uma expressão fátua, muito chegado à minha cara, como nos pesadelos. Mastigo a custo um bocado de pão que não me decido a engolir. Os homens. Tenho de amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar - e, bruscamente, ela chega. Cá está ela: a Náusea.

Uma bela crise. Sou sacudido de alto a baixo. Há uma hora que a sentia aproximar-se; somente, não queria confessá-lo a mim próprio. Este sabor de queijo na minha boca... O Autodidacta vai pairando, e a voz dele zumbe suavemente aos meus ouvidos. Mas já não faço a mínima ideia do que está a dizer. Aprovo maquinalmente com a cabeça. A minha mão está crispada no cabo da faca de sobremesa. Sinto este cabo de pau preto. É a minha mão que está a segurar nele. A minha mão. Por mim, estaria pronto a deixar a faca em paz: para que se há-de estar sempre a mexer em qualquer coisa? Os objectos não são feitos para mexermos neles. Vale muito mais esgueirarmo-nos por entre eles, evitando-os o mais possível. Às vezes agarra-se num com a mão e é-se obrigado a largá-lo logo. A faca cai no prato. Ao ruído, o sujeito dos cabelos brancos estremece e olha para mim. Volto a agarrar na faca, encosto a folha à mesa e faço-a dobrar.

É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça. Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja. Foi a partir do célebre dia em que quis fazer ricochete com uma pedra na água. Ia lançá-la, olhei para ela, e foi então que tudo começou: senti que a pedra existia. E depois, a partir de então, houve outras Náuseas; de vez em quando os objectos põem-se a existir na nossa mão. Houve a Náusea do Rendez-vous dos Ferroviários, e ainda outra, antes, uma noite em que eu estava à janela; e outra ainda no jardim, num domingo, e outras mais. Mas nenhuma tão forte como a de hoje.

«... o senhor da Roma antiga?

Creio que o Autodidacta me está a interrogar. Viro-me para ele e sorrio-lhe. Mas... Que é que ele tem? Porque é que se encolhe assim na cadeira ? Meto-lhe medo agora? Isto tinha de acabar assim. De resto, tanto me faz. Eles não deixam de ter certa razão para terem medo: sinto bem que era capaz de fazer fosse o que fosse. Por exemplo: espetar esta faca de queijo num olho do Autodidacta. Feito isso, esta gente viria toda acalcanhar-me, quebrar-me os dentes às sapatadas. Mas não é isso que me detém: um sabor de sangue na boca, em vez deste sabor de queijo, não faz diferença. Somente, era preciso realizar um gesto, fazer surgir um acontecimento supérfluo: o grilo que soltaria o Autodidacta, o sangue que lhe escorreria da cara e o sobressalto de toda esta gente seriam de mais. Sem isso, já existem bastantes coisas.

Está toda a gente a olhar para mim: os dois representantes da mocidade interromperam o seu doce diálogo. A mulher faz boquinhas, avançando e retesando os lábios. Deviam, porém, compreender que sou inofensivo.

Levanto-me. À minha volta, tudo anda à roda. O Autodidacta fixa-me com aqueles grandes olhos que renuncio a furar.

«Já se vai embora?», murmura ele.

«Estou um bocado cansado. Agradeço-lhe muito ter-me convidado. Adeus.»

Ao partir, verifico que conservei na mão esquerda a faca de sobremesa. Deito-a para o meu prato, que se põe a tinir. Atravesso a sala no meio do silêncio. As pessoas pararam de comer: olham para mim, com o apetite perdido. Se eu caminhasse direito à rapariga e fizesse «Uu», ela punha-se a berrar, com certeza. Não vale a pena.

Mas, antes de sair, sempre me volto e lhes mostro bem a minha cara, para eles a poderem gravar na memória.

«Boa tarde, meus senhores.»

Ninguém responde. Vou-me embora. As faces vão recuperar as suas cores, vão pôr-se todos a tagarelar.

Não sei para onde hei-de ir, fico especado ao pé do cozinheiro de cartão. Não preciso de me voltar para saber que estão a olhar para mim através dos vidros: a olhar-me para as costas com surpresa e repugnância; julgavam que eu era como eles, que era um homem, e eu enganei-os. Num repente, perdi a minha aparência de homem, eles viram um caranguejo escapulir-se às recuadas daquela sala tão humana. Agora já o intruso desmascarado fugiu: a sessão continua. Irrita-me sentir nas minhas costas este formigueiro de olhares e de pensamentos atemorizados. Atravesso a rua. O outro passeio margina a praia e as cabinas de banho. Há muitas pessoas a passear à beira-mar, virando para a água as caras, que ganharam uma expressão primaveril, poética: é por causa do sol; estão em festa. Há mulheres de claro que vestiram o seu vestido da última Primavera; passam longas e brancas como luvas de pele de cabrito lustradas; há também rapazelhos que andam no liceu, na escola comercial, velhos condecorados. Não se conhecem uns aos outros, mas olham-se com um ar de conivência, porque está um lindo dia, e são todos homens. Os homens abraçam-se sem se conhecer nos dias de declaração de guerra; à chegada àa. Primavera sorriem-se mutuamente. Um padre avança a passos lentos, lendo   o breviário.   Em   certos momentos levanta a cabeça e olha para o mar com sinais de aprovação: o mar é também um breviário, também fala de Deus. Cores claras, perfumes leves, almas de Primavera. «Que lindo dia, que verde que está o mar; prefiro este frio seco à humidade.» Poetas! Se eu agarrasse num pela banda do casaco e lhe dissesse: «Vem socorrer-me», ele pensaria: «Mas que diabo me quer este caranguejo?», e fugiria, deixando-me o casaco nas mãos.

Viro-lhes as costas, amparo-me com ambas as mãos à balaustrada. O verdadeiro mar é frio e negro, cheio de animais; roja-se por baixo daquela delgada película verde feita para enganar as pessoas. Os silfos que me cercam caíram no logro: vêem apenas a película delgada; é ela que prova a existência de Deus. Eu vejo o que está por baixo! Os vernizes derretem-se, as brilhantes pelezinhas aveludadas, as casquinhas de pêssego de Nosso Senhor estalam por todos os lados sob o meu olhar, abrindo fendas, mostrando o interior. Lá vem o eléctrico de Saint-Élémir; rodo sobre mim próprio e as coisas rodam comigo, esbranquiçadas e verdes como ostras. Porquê? Por que razão saltei para o carro, uma vez que não quero ir a parte nenhuma?

Vejo, pêlos vidros, desfilar objectos azulados, tesos e arrogantes, aos sacões. Pessoas, paredes; uma casa oferece-me, pelas janelas abertas, o seu coração negro; e os vidros tornam pálido, azulado, tudo o que é negro; sarapintam de azul aquele grande edifício de tijolos amarelos que avança para mim, hesitante, estremecendo, e de repente estaca, assestado contra o carro. Um sujeito sobe e senta-se na minha frente. O edifício amarelo põe-se de novo em movimento; vem, num salto, rasar as janelas; está tão perto que já só se lhe vê uma parte; fez-se escuro. O vidros tremem. O edifício eleva-se, esmagador, muito mais alto do que se pode ver, com centenas de janelas abertas sobre interiores negros; passa resvés pelo carro, roça por ele; pôs-se escuro entre os vidros, que tremem. O casarão desliza interminavelmente, amarelo como lama, e os vidros tornam-se azul--celeste. E de repente já lá não está, ficou para trás; uma viva claridade cinzenta invade o eléctrico e espalha-se por toda a parte com uma inexorável justiça; é o céu; pêlos vidros vêem-se agora camadas e camadas de céu, porque vamos a subir a colina Eliphar e se vê claramente dos dois lados, à direita até ao mar. à esquerda até ao campo de aviação. Proibição de fumar mesmo o mais reles cigarro. Finco a mão no assento, mas retiro-a precipitadamente: aquilo existe. Esta coisa sobre a qual estou sentado, na qual finquei a mão, chama-se um banco. Fizeram-na de propósito para nos podermos sentar nela; foram buscar couro, molas, pano; puseram-se a trabalhar com a ideia de fazer um banco, e, quando acabaram, era isto que tinham feito. Trouxeram a coisa para aqui, para este eléctrico, para esta caixa, e a caixa anda e agora vai aos solavancos, com os vidros a tremer, e leva nas ilhargas esta coisa vermelha. Murmuro: «É um banco.» Um pouco à maneira dum exorcismo. Mas o nome fica-me nos lábios: recusa-se a ir pousar no nomeado. A coisa permanece o que é, com a sua pelúcia vermelha, cuja felpa são milhares de minúsculas patinhas, apontadas para o ar e tesas, minúsculas patinhas mortas. Esta enorme barriga virada para cima, ensanguentada, inchada - engrossada por todas estas patinhas mortas, barriga a boiar nesta caixa, sob o céu cinzento, não é um banco. Podia muito bem ser, igualmente, um burro morto, por exemplo, inchado pela água e a boiar à deriva, de pernas para o ar, um grande rio cinzento, um rio de inundação; e eu iria sentado na barriga do burro e os meus pés mergulhariam na água clara. As coisas libertaram-se do« seus nomes. Estão presentes, grotescas, teimosas, gigantes, e parece idiota chamá-las bancos, ou dizer seja o que foi acerca delas: estou no meio das coisas, das inomináveis. Sozinho, sem palavras, sem defesas; e as coisas cercam-me: por baixo de mim, por trás, por cima. Não exigem nada, não se impõem: estão presentes. Por baixo da almofada do banco, ao rés do tabique de madeira em que ela se encaixa, há uma pequena linha de sombra, uma estreita linha preta que corre paralelamente ao banco, misteriosa e maliciosamente, dir-se-ia, quase como um sorriso. Sei muito bem que não é um sorriso, e entretanto é algo que existe, que corre por baixo dos vidros esbranquiçados, sob o barulho dos vidros que se obstina, por baixo das imagens azuis que desfilam do outro lado dos vidros e param e voltam a andar, que se obstina, como a recordação imprecisa dum sorriso, como uma palavra meio esquecida, cuja primeira sílaba é a única que nos lembra, de tal maneira que o melhor que há a fazer é desviar os olhos e pensar noutra coisa, naquele homem meio deitado por cima do banco na minha frente, pronto! Tem uma cabeça de terracota com olhos azuis. A direita do corpo descaiu-lhe toda, o braço direito está pregado ao flanco; essa metade do homem vive imperceptivelmente, a custo, com avareza, como se estivesse paralisada: mas por todo o lado esquerdo há uma existênciazinha parasita a proliferar, uma úlcera: o braço pôs-se a tremer e depois levantou-se, e a mão estava tesa na ponta. E depois a mão pôs-se a tremer também, e, quando chegou à altura do crânio, um dedo estendeu-se e pôs-se a coçar no couro cabeludo com a unha. Uma espécie de careta voluptuosa veio habitar o lado direito da boca, e o lado esquerdo continuava morto. Os vidros tremem, o braço treme, a unha coça, coça, a boca sorri por baixo dos olhos fixos, e o homem suporta sem dar por isso essa existênciazinha que lhe vai entumecendo o lado direito, que se serviu do seu braço direito e da sua face direita para se realizar. O condutor barra-me o caminho. «Espere pela paragem.»

Mas eu afasto-o e salto para fora do carro. Não aguentava mais que as coisas estivessem tão próximas. Empurro uma cancela, entro, existências leves formam salto e empoleiram-se nos cumes. Agora percebo, vejo onde estou: no jardim. Deixo-me cair num banco entre os grandes troncos negros, entre as mãos negras e nodosas que se erguem para o céu. Uma árvore raspa a terra por baixo dos meus pés com uma unha negra. Gostava tanto de me abandonar, de me esquecer de mim, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pêlos olhos, pelo nariz, pela boca...

E bruscamente, num repente, rasga-se o véu; compreendi, vi.

Seis horas da tarde.

Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; pelo contrário, estou esmagado. Somente, atingi o meu fito: sei o que queria saber; compreendi finalmente tudo o que me vem sucedendo desde o mês de Janeiro. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a Náusea sou eu.

Estava então há bocadinho no jardim. A raiz do castanheiro mergulhava na terra, mesmo por baixo do meu banco. Não me lembrava, porém, que era uma raiz. As palavras tinham-se evaporado, e, com elas, o significado das coisas, os seus modos de emprego, os pálidos pontos de referência que os homens lhes traçaram à superfície. Estava sentado, um pouco curvado, cabisbaixo, sozinho em frente daquela massa negra e nodosa, completamente em bruto e que metia medo. E depois tive aquela iluminação.

Fiquei sem respiração. Nunca, antes destes últimos dias. eu tinha pressentido o que queria dizer «existir». Era como os outros, como os que passeiam à beira-mar nos seus trajos de Primavera. Dizia, como eles: «O mar é verde: aquele ponto branco, acolá, é uma gaivota»; mas não sentia que essas coisas existiam, que a gaivota era uma «gaiata existente»; geralmente a existência esconde-se. Está presente à nossa volta, em nós, somos nós; não se podem dizer duas palavras sem falar dela, e afinal não lhe tocamos. Quando eu julgava pensar nela, é de crer que não pensava em nada, tinha a cabeça vazia, ou quando muito uma palavra na cabeça, a palavra «ser». Ou então pensava... como dizer? Pensava na filiação; dizia para comigo que o mar pertencia à classe dos objectos verdes, ou que o verde fazia parte das qualidades do mar. Mesmo quando olhava para as coisas, estava a cem léguas de sonhar que elas existiam: as coisas apareciam-me como um cenário. Pegava nelas, elas serviam-me de utensílios, previa-lhes a resistência. Mas tudo isso se passava à superfície. Se me tivessem perguntado o que era a existência, teria respondido de boa fé que não era nada, que era apenas uma forma vazia que vinha juntar-se às coisas por fora, sem lhes modificar em nada a natureza. E depois sucedeu aquilo: de repente, ali estava, ali estava, era claro como a água: a existência dera-se subitamente a conhecer. Perdera o seu aspecto inofensivo de categoria abstracta: era a própria massa das coisas; aquela raiz estava amassada em existência. Ou antes, a raiz, o gradeamento do jardim, o banco, a relva rala do tabuleiro, tudo se tinha evaporado: a diversidade das coisas, a sua individualidade, já não era mais que uma aparência, um verniz. Esse verniz derretera-se; restavam massas monstruosas e moles, em desordem - nuas, duma medonha e obscena nudez.

Eu fugia a fazer o menor movimento, mas não precisava de me mexer para ver, por trás das árvores, as colunas azuis e o lampadário do coreto, e a Véleda, no meio dum tufo de loureiros. Todos aqueles objectos - como dizer?-me incomodavam; teria desejado que existissem com menos intensidade, duma maneira mais seca, mais abstracta, com mais recato. O castanheiro metia-se-me pêlos olhos dentro. Cobria-o até meia altura uma ferrugem verde; a casca, negra e empolada, parecia de couro fervido. O leve ruído da água da fonte Masqueret escorria-me pêlos ouvidos e fazia neles um ninho, enchia-os de suspiros; as narinas trasbordavam-me dum odor verde e pútrido. Todas as coisas, suave, ternamente, se entregavam à existência como essas mulheres cansadas que se abandonam ao riso, dizendo com uma voz molhada: «Rir faz bem»; exibiam-se umas em frente das outras, faziam umas à outras a confidência abjecta da sua existência. Percebi que não havia meio termo entre a inexistência e aquela abundância extática. A existir-se, era necessário existir até àquele ponto, ale ao bolor, à tumidez, à obscenidade. Num outro mundo, os círculos, as melodias, conservam as suas linhas puras e rígidas. Mas a existência é um aviltamento. Árvores, pilares tingindo-se de azul ao crepúsculo, o estertor feliz duma fonte, odores que tinham vida, nevoeirozinhos de calor que boiavam no ar frio, um homem ruivo a fazer a digestão sentado num banco: todas essas sonolências, todas essas digestões, consideradas juntamente, ofereciam um aspecto vagamente cómico. Cómico... não: não chegava a ser cómico; nada do que existe pode sê-lo; era como uma analogia indecisa, quase imperceptível com certas situações de raudeville. Éramos um montão de existentes incómodos, embaraçados com nós mesmos; não tínhamos a menor razão para estar ali, nem uns nem outros; cada existente, confuso, vagamente inquieto, se sentia de mais em relação aos outros. De mais: era a única relação que eu podia estabelecer entre aquelas árvores, aquelas grades, aquelas pedras. Em vão procurava contar os castanheiros, situá-los em relação à Véleda, comparar-lhes a altura com a dos plátanos: cada um deles fugia às relações em que eu procurava encerrá-los, se isolava, trasbordava. Essas relações (que eu teimava em manter para adiar o desabamento do inundo humano, das medidas, das quantidades, das direcções), bem lhes sentia o arbitrário; tinham deixado de morder nas coisas. De mais, o castanheiro, ali, na minha frente, um nadinha à esquerda, De mais, a Véleda...

E ca - molenga, langue, obsceno, digerindo, chocalhando pensamentos sombrios -, eu também era ali de mais. Felizmente não o sentia, compreendia-o sobretudo, mas não estava à vontade, porque tinha medo de passar a senti-lo (ainda neste momento tenho medo; tenho medo de que esse sentimento se aproxime por trás de mim, e me apanhe à traição, e me levante como uma onda submarina). Pensava vagamente em suprimir-me, para aniquilar ao menos uma daquelas existências supérfluas. Mas até a minha morte teria sido de mais. De mais, o meu cadáver, o meu sangue tingindo aquelas pedras, ao fundo daquele jardim risonho. E a carne roída teria sido de mais no seio da terra que a tivesse recebido, e os meus ossos, enfim, destacados, descarnados, limpos e polidos como dentes, ainda teriam sido de mais: continuarei eternamente a ser de mais.

Vem-me agora à pena a palavra «absurdo»; há bocadinho, no jardim, não a encontrei, mas também não a procurava, não precisava dela: ia pensando sem palavras, sobre as coisas, com as coisas. O absurdo não era uma ideia na minha cabeça, nem um sopro da voz, mas aquela longa serpente morta a meus pés, aquela serpente de madeira. Serpente ou unha de carnívoro ou raiz ou garra de abutre, pouco importa. E sem formular claramente nenhum pensamento, eu compreendia que tinha encontrado a chave da Existência, a chave das minhas Náuseas, da minha própria vida. De facto, tudo quanto pude alcançar em seguida me fez voltar à noção desse absurdo fundamental. Absurdo: outra palavra, afinal; debato-me com palavras; no jardim cheguei a atingir as coisas. Mas gostava de fixar aqui o carácter absoluto daquele absurdo. Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens nunca é absurdo senão relativamente: em relação às circunstâncias que o acompanham. As palavras dum doido, por exemplo, são absurdas em relação à situação em que ele se encontra, mas não em relação ao seu delírio. Mas eu, ainda agora, tive a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo. Aquela raiz, não havia nada em relação a que ela não fosse absurda. Oh! Como poderei fixar isso com palavras? Absurda: em relação às pedras, aos tufos de erva amarela, à lama seca, à árvore, ao céu, aos bancos verdes. Absurda, irredutível; nada - nem sequer um delírio profundo e secreto da natureza - podia explicá-la. É claro que eu não sabia tudo, não tinha visto a semente germinar nem a árvore crescer. Mas, diante daquela espessa massa rugosa, nem a ignorância nem o saber tinham importância: o mundo das explicações e das razões não é o da existência. Um cíiculo não é absurdo; explica-se muito bem pela rotação dum segmento de recta em torno de uma das suas extremidades. Mas também um círculo não existe. Aquela raiz, pelo contrário, existia na medida em que eu não podia explicá-la. Nodosa, inerte, sem nome, fascinava-me, enchia-me os olhos, chamava-me constantemente a atenção para a sua própria existência. Por mais que eu repetisse: «É uma raiz» - o artifício não surtia efeito. Eu via bem que não se podia passar da sua função de raiz, de bomba aspirante, àquilo, àquela pele dura e compacta de foca, àquele aspecto oleoso, caloso, pertinaz. A função não explicava nada: permitia que se soubesse por alto o que era uma raiz, mas não aquela raiz. Aquela, com a sua cor, a sua forma, o seu movimento petrificado, estava... abaixo de qualquer explicação. Cada uma das suas qualidades lhe escapava um pouco, escorria para fora dela, se tornava meio sólida, uma coisa quase; cada uma era de mais na raiz, e o cepo inleho dava-me então a impressão de sair um pouco para fora de si próprio, de se negar, de se perder num estranho excesso. Raspei com o calcanhar aquela garra preta: tinha vontade de a esfolar um poucochinho. Por nada, por desafio, para fazer surgir no couro curtido o cor-de-rosa absurdo duma escoriação. Para brincar com o absurdo do mundo. Mas quando afastei o pé vi que a casca tinha permanecido preta.

Preta? Senti a palavra esvaziar-se, despojar-se do seu sentido com uma rapidez extraordinária. Preta? A raiz. não era preta, não era a cor preta que havia sobre aquele pedaço de madeira - era... outra coisa: o preto, como o círculo, não existia. Olhava para a raiz: era mais que preta ou quase preta? Mas depressa cessei de me interrogar, porque tinha a impressão de estar em terra conhecida. Sim, já tinha escrutado, com aquela inquietação, objectos inomináveis, já tinha procurado - em vão - pensar alguma coisa acerca deles: e já lhes tinha sentido as qualidades, frias e inertes, esquivarem-se, esgueirarem-se-me por entre os dedos. Os suspensórios de Adolphe, no outro dia, no Rendez-vous dos Ferroviários. Não eram roxos. Revi as duas manchas indefiníveis sobre a camisa. E a pedra, a famosa pedra que eu quisera deitar à água, a origem de toda esta história: não era... não me lembrava bem, ao certo, do que ela recusava ser. Mas não me tinha esquecido da sua resistência passiva. E a mão do Autodidacta... tinha-a encontrado e apertado, um dia, na Biblioteca, e depois tinha tido a impressão de que não era exactamente uma mão. Tinha-me lembrado dum grande verme branco, inas também não era isso. E a transparência equívoca do copo   de cerveja   no   Café Mably.   Equívocos:   eis   o   que eram os sons, os perfumes, os sabores. Quando nos passavam rapidamente pelo nariz, como lebres acorrentadas, e não lhes prestávamos demasiada atenção, podiam-se achar naturalíssimos e tranquilizadores; podia-se pensar que havia no mundo azul verdadeiro, vermelho verdadeiro, verdadeiro odor de amêndoa ou de violeta. Mas, assim que os retínhamos um instante, esse sentimento de naturalidade e de segurança era substituído por uma profunda indisposição: as cores, os sabores, os cheiros, nunca eram verdadeiros, nunca eram simplesmente eles próprios e apenas eles próprios. A qualidade mais simples, a mais indecomponível, continha exageros em si própria, em relação a ela própria, na sua alma.   Aquele   preto,   ali,   junto   ao   meu   pé,   não tinha um ar de ser preto, mas de ser antes o esforço confuso de alguém, que nunca a tivesse visto, para imaginar a cor preta;   de alguém que não tivesse sabido deter-se e tivesse   imaginado um ser ambíguo para além   das cores. Parecia-se com uma cor, mas também... com uma pisadura ou ainda com uma secreção, com uma suarda - e com outra coisa, com um odor por exemplo; era algo que se fundia num odor de terra molhada, de madeira morna e molhada, num odor negro estendido como um verniz por sobre aquela madeira nervada, num sabor de fibra mascada, adocicada. Aquele preto, eu não me limitava a vê-lo: a vista é uma invenção abstracta, uma ideia descarnada, simplificada, uma ideia de homem, aquele preto, presença amorfa e titia, excedia, de longe, a vista, o olfacto e o gosto. Mas essa riqueza descambava em confusão, e finalmente a qualidade que a determinava deixava de se identificar com o que quer que fosse, porque era o que era exageradamente.

Esse momento foi extraordinário. Eu estava ali, imóvel e gelado, mergulhado num êxtase horrível. Mas, no próprio seio desse êxtase, qualquer coisa de novo acabava de aparecer; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não formulava intimamente as minhas descobertas. Mas creio que me seria fácil, agora, traduzi-las em palavras. O essencial é a contigência. Quero dizer que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é estar presente, simplesmente; os existentes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca se podem deduzir. Há pessoas, creio eu, que perceberam isto. Somente, tentaram dominar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão de óptica, uma aparência que se possa dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuitidade perfeita. Tudo é gratuito, este jardim, esta cidade e eu mesmo. É o sentimento disso, quando acontece que ele entra em nós, que nos dá volta ao estômago, e então começa tudo a andar à roda como da outra vez no Rendez-vous dos Ferroviários: aí está a Náusea; aí está o que os safados - os do Outeiro Verde- tentam esconder a si próprios com a sua ideia dos direitos. Mas a mentira é pobre: ninguém existe por direito; os burgueses de Bouville são inteiramente gratuitos, como os outros homens; não conseguem deixar de se sentir de mais. E, no seu íntimo, em segredo, transbordam do que são, existem exageradamente, isto é, duma maneira amorfa e vaga; tristes.

Quanto tempo durou aquela fascinação? Tinha-me tornado na raiz do castanheiro. Ou, melhor, reduzira-me inteiramente à consciência da sua existência. Permanecia ainda separado da raiz - visto que tinha consciência dela, e. todavia, estava perdido nela, não era senão ela. Uma consciência pouco à vontade, que, porém, se abandonava com todo o seu peso, sem que algo a retivesse sobre aquele pedaço de madeira inerte. O tempo tinha parado: uma poça-zinha negra a meus pés; era impossível que alguma coisa viesse após aquele momento. Poderia ter tentado arrancar-me àquela atroz volúpia, mas nem sequer me passava pela cabeça que isso fosse possível; estava metido nela; o cepo negro não ia para baixo, continuava ali, a encher-me os olhos, como um bocado maior se atravessa numa garganta. Não me era possível aceitá-lo, nem recusá-lo. À custa de que esforço não levantei os olhos? E será exacto que os levantei? Não me teria antes reduzido ao nada, durante um momento, para renascer no momento seguinte com a cabeça deitada para trás e os olhos vidrados para o alto? De facto, não tive consciência duma transição. Mas, de repente, tornou-se-me impossível conceber a existência da raiz. A raiz tinha-se apagado; ipor mais que eu repetisse intimamente: «A raiz existe, ainda ali está, por baixo do banco, junto do meu pé direito», estas palavras já não tinham o menor sentido. A existência não é qualquer coisa que se deixe conceber de longe: é preciso que o sentimento dela nos invada repentinamente, se detenha em cima de nós, nos ponha um peso intenso no coração, como um grande animal imóvel - porque, a não ser assim, nunca se saberá o que ela é.

Tinha-se acabado; os meus olhos estavam vazios, e eu encantado com a minha libertação. Depois, bruscamente, pôs-se tudo a abanar diante dos meus olhos, com movimentos leves e incertos: o vento agitava o cimo da árvore.

Não me desagradava ver qualquer coisa mexer; varriam--se-me assim da cabeça todas aquelas existências imóveis que olhavam para mim como olhos inalteráveis. Ia dizendo para comigo, enquanto seguia o balanço dos ramos: os movimentos nunca existem completamente, são passagens, intermédios entre duas existências, tempos fracos. E estava à espera de ver os ramos sair do nada, amadurecerem pouco a pouco, desabrocharem: ia, enfim, surpreender existências no acto de nascerem.

Bastaram três segundos para serem varridas todas essas esperanças. Não conseguia, fitando aqueles ramos que tacteavam em sua volta como cegos, ter a percepção duma transição para a existência. Essa ideia de transição, de passagem, era outra invenção dos homens. Uma ideia clara de mais. Todas aquelas pequeninas agitações se isolavam, se erigiam em seres autónomos. Trasbordavam por todos os lados da folhagem e dos ramos. remoinhavam à roda dessas mãos secas, envolviam-nas em pequenos ciclones. Decerto um movimento era uma coisa diferente duma árvore. Mas era, não obstante, um absoluto. Uma coisa. Nunca os meus olhos encontravam senão plenitudes. Na ponta dos ramos pululavam existências, existências que se renovavam sem cessar e não nasciam nunca. O vento existente vinha pousar na árvore como uma mosca imensa; e a árvore arrepiava-se. Mas o arrepio não era uma qualidade nascente, uma passagem, da potência ao acto; era uma coisa; uma coisa-arrepio corria pela árvore, tomava conta dela, sacudia-a, e, de súbito, abandonava-a, ia para outro lado rodopiar sozinha. Tudo estava cheio, tudo era em acto, não havia tempos fracos: tudo, até o mais imperceptível estremeção, era feito com existência. E esses existentes, que andavam numa roda-viva em torno da árvore, todos esses existentes, não vinham de parte nenhuma e não iam para nenhuma parte. Punham-se repentinamente a existir, e, pouco depois, repentinamente, deixavam de existir: a existência não tem memória; não conserva nada dos desaparecidos - nem sequer uma saudade. Em toda a parte existência, até ao infinito, de mais, sempre e em toda a parte; existência - nunca limitada senão pela existência. Deixei-me ficar no meu banco, sem resistência, aturdido, confundido por aquela profusão de seres sem origem: de todos os lados eclosões, desabrochamentos; a existência zumbia-me aos ouvidos, a minha própria carne era sensível à sua pressão, e entreabria-se, abandonava-se à germinação universal; era repugnante. «Mas porquê?, pensei eu, porquê tantas existências, já que todas se parecem?» Para que servirão tantas árvores todas semelhantes? Tantas existências falhadas e teimosamente recomeçadas e outra vez falhadas - como os esforços desajeitados dum insecto de pernas para o ar? (Eu era um desses esforços.) Essa abundância não dava uma impressão de generosidade, antes pelo contrário. Parecia abatida, miserável, embaraçada consigo própria. Aquelas árvores, aqueles grandes corpos desengraçados... Pus-me a rir, porque me tinham lembrado de repente as Primaveras formidáveis que vêm descritas nos livros, cheias do estalar dos ramos, do desabrochar dos botões, de eclosões gigantes. Havia imbecis que nos vinham falar da vontade de dominar e da luta pela vida. Nunca teriam, então, olhado para um animal ou para uma árvore? Queriam que eu tomasse por forças jovens e rudes, elevando-se impetuosamente para o céu, aquele plátano com as suas clareiras de pelada, aquele carvalho meio podre? E aquela raiz? Era preciso, certamente, que eu a visse como uma garra voraz, rasgando a terra, arrancando-lhe o alimento...

Impossível ver as coisas dessa maneira. Molezas, fraquezas, sim. As árvores boiavam. Uma elevação pujante para o céu? Antes um abatimento; a cada instante eu esperava ver os troncos engelharem-se como membros cansados, encolherem-se e caírem no chão num monte negro e mole cheio de rugas. Eles não tinham vontade de existir; somente, não tinham outro remédio, era o que era. Por isso é que iam fazendo as suas pequenas traficâncias, discretamente, sem entusiasmo; a seiva ia subindo lentamente pêlos veios, contra vontade, e as raízes metendo-se pela terra, pouco a pouco. Mas a cada momento esses troncos pareciam prestes a deitar o jogo abaixo e a resolver-se no nada. Cansados e velhos, continuavam, porém, a existir, de má vontade só porque eram demasiado fracos para morrer, porque a morte não podia dar neles senão vindo do exterior: só as melodias é que podem trazer consigo, orgulhosamente, a sua própria morte, como uma necessidade interna; também as melodias não existem. Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto. Deixei-me ir para trás e, encostado, cerrei as pálpebras. Mas as imagens, logo alvoraçadas, vieram, num salto, encher-me de existências os olhos fechados: a existência é uma plenitude que o homem não pode abandonar.

Estranhas imagens. Representavam uma imensidão de coisas. Não coisas verdadeiras: outras parecidas com elas. Objectos de madeira que se pareciam com cadeiras, com tamancos, outros que se pareciam com plantas. E depois duas caras: era o par que tinha almoçado ao pé de mim, no domingo passado, na Cervejaria Vézelize. Gordas, quentes, sensuais, absurdas, com as orelhas encarnadas. Via os ombros e a garganta da mulher. Existência nua. Aqueles dois - isso bruscamente horrorizou-me -, aqueles dois continuavam a existir algures em Bouville; algures - no meio de quo cheiros? -, aquele peito doce continuava a procurar a carícia de roupas frescas, a esconder-se nas rendas, a mulher continuava a sentir o peito existindo no corpete, e pensava: «As minhas catarinas, os meus lindos frutos», a sorrir misteriosamente, atenta ao esplendor dos seios que lhe faziam cócegas... Nessa altura gritei e dei por mim de olhos arregalados.

Terá sido em sonho que vi aquela enorme presença? Ela estava ali, pousada no jardim, caída sobre as árvores, muito mole, lambuzando tudo, pastosa: uma compota. E eu não estava dentro dela, eu e todo o jardim? Tinha medo, mas estava, sobretudo, irritado; achava aquilo tão estúpido, tão despropositado! Sentia ódio por aquela ignóbil geleia. Havia tanta, tanta! Chegava ao céu, alastrava por todos os lados, enchia tudo com o seu abandono gelatinoso, e eu via-a em profundidade, em profundidade, ultrapassando os limites do jardim e as casas de Bouville; já não era em Bouville que eu estava, nem em parte nenhuma: ia boiando. Não estava surpreendido, bem sabia que aquilo era o Mundo, o Mundo que, de repente, se mostrava todo nu; e sufocava-me a cólera contra esse ser largo e absurdo. Nem ao menos se podia perguntar donde é que aquilo saía, tudo aquilo, nem por que diabo havia um mundo, em vez de coisa nenhuma. Interrogações sem sentido: o mundo estava presente em toda a parte, à frente, atrás. Não houvera nada antes dele. Nada. Não houvera momento em que ele tivesse podido não existir. Era isso mesmo que me irritava: decerto não havia razão nenhuma para existir essa larva pegajosa. Mas que não existisse não era possível... Era impensável: para imaginar o nada era preciso estar já ali, em pleno mundo, vivo, e de olhos bem abertos; o nada era apenas uma ideia na minha cabeça, uma ideia existente, boiando naquela imensidão: o nada não surgira antes da existência, era uma existência como outra qualquer, e que aparecera depois de muitas outras. Gritei: «Que porcaria, que porcaria!» e sacudi-me para me libertar dessa porcaria peganhenta, mas ela resistia, e era tanta! Toneladas e toneladas de existência, indefinidamente: no fundo desse tédio imenso, eu abafava. E então, de repente, o jardim esvaziou-se como por um grande buraco, o mundo desapareceu da mesma maneira que surgira, ou então fui eu que despertei - em todo o caso, não o vi mais; restava, em minha volta, uma terra amarela, da qual saíamos ramos mortos apontando para o ar.

Levantei-me, saí. Ao chegar à cancela, voltei-me. O jardim, então, sorriu para mim. Encostei-me à grade e olhei para ele longamente. O sorriso das árvores, do tufo de loureiros, queria dizer alguma coisa; era isso o verdadeiro segredo da existência. Lembrei-me de que, um domingo, não há mais de três semanas, tinha já ipercebido, sobre as coisas, uma espécie de ar de cumplicidade. Era a mim que se dirigia? Sentia, com aborrecimento, que não tinha meio nenhum de compreender. Meio nenhum. Todavia, esse jeito estava ali, à espera, parecia um olhar. Estava ali, no tronco do castanheiro... era o castanheiro. As coisas, dir-se-iam pensamentos que paravam no caminho, esquecidos, esquecidos do que tinham querido pensar, e que assim ficavam, a baloiçar, com um sentidozinho pândego que os ultrapassava. Senti-dozinho que me irritava: não poderia compreendê-lo, mesmo que ficasse cento e sete anos encostado à grade; tinha sabido da existência tudo quanto podia saber. Fui-me embora, voltei ao hotel e pronto, pus-me a escrever.

À noite.

Tomei uma decisão: já não tenho razão para ficar em Bouville, visto que abandonei o meu livro. Sexta-feira tomo o comboio das cinco, sábado vejo Anny; penso que passaremos juntos alguns dias. Em seguida voltarei aqui para pôr umas coisas em ordem e fazer as malas. No dia 1 de Março, o mais tardar, estarei definitivamente instalado em Paris.

 

                                       SEXTA-FEIRA

No Rendez-vous dos Ferroviários. Daqui a vinte minutos parte o comboio. O gramofone. Forte impressão de aventura.

 

                                       SÁBADO

Anny vem à poitd, com o vestido preto, comprido. Bem entendido, não me estende a mão, não me pergunta como estou. Conservei a mão direita na algibeira do sobretudo. Ela diz, num tom de amuo e muito depressa, para se desembaraçar das formalidades:

«Entra o senta-te onde quiseres, fora na poltrona ao pé da janela.»

É ela, é realmente ela. Tem os braços caídos, a cara bisonha que dantes lhe dava um ar de rapariguita na idade ingrata. Mas agora já não se parece com uma rapariga. Está gorda, tem um peito robusto.

Fecha a porta, diz para si própria em tom de meditação:

«Não sei se me hei-de sentar em cima da cama...»

Finalmente, deixa-se cair numa espécie de caixa tapada por uma coberta. O andar dela já não é o mesmo: desloca-se agora com uma gravidade majestosa e não sem graça: parece embaraçada com a sua nediez recente. Entretanto é realmente ela, apesar de tudo: é Anny.

Solta uma gargalhada.

«Porque estás tu a rir?»

Não responde logo, como é seu costume, e adopta uma expressão zombeteira.

«Porquê? Diz...»

«Por causa desse sorriso largo que arvoras desde que entraste. Tens um ar de pai que acaba de casar a filha. Então? Não fiques em pé. Pousa o sobretudo e senta-te. Sim, aí, se queres.»

Segue-se um silêncio que Anny não procura interromper. Como este quarto parece nu! Antigamente, Anny levava em todas as suas viagens uma enorme mala cheia de xailes, de turbantes, de mantilhas, de máscaras japonesas, de imagens de Épinal. Mal chegava ao hotel - e mesmo que fosse lá ficar sló uma noite - o seu primeiro cuidado era abrir essa mala e tirar para fora todas as suas riquezas, que pregava nas paredes, pendurava nos candeeiros, espalhava por cima das mesas ou pelo chão, segundo uma ordem variável e complicada ; em menos de meia hora, o quarto mais banal revés-tia-se duma personalidade pesada e sensual, quase intolerável.

Talvez a mala se tivesse extraviado, talvez tivesse ficado na estação, no depósito de bagagens... Aquela divisão fria com a porta, que dá para a casa de banho, entreaberta, tem algo de sinistro. Faz lembrar, com mais luxo e mais tristeza, o meu quarto de Bouville.

Anny ri outra vez. Reconheço perfeitamente este risinho muito agudo e um pouco fanhoso.

«Sim senhor, não mudaste. De que andas tu à procura com esse modo de pavor?»

Ela sorri, mas os seus olhos fitam-me com uma curiosidade quase hostil.

«Estava só a pensar que este quarto não parece habitado por ti.»

«Ah, não?», pergunta ela num tom vago.

Novo silêncio. Está agora sentada à beira da cama, muito pálida no seu vestido preto. Não cortou os cabelos. Continua a olhar para mim, calmamente, erguendo um pouco as sobrancelhas. Não terá então nada a dizer-me? Porque 6 que me disse que viesse? Este silêncio é insuportável.

De súbito, exclamou, lamentavelmente:

«Estou contente por te ver.»

A última palavra perde-se na garganta: para dizer aquilo era melhor ter ficado calado. Ela vai zangar-se com certeza. Bem me parecia que o primeiro quarto de hora havia de ser penoso. Dantes, quando voltava a ver Anny, mesmo que fosse após uma ausência de vinte e quatro horas, mesmo que fosse de manhã, ao acordar, nunca sabia encontrar as palavras por que ela esperava, as que convinham ao seu vestido, ao tempo, às últimas palavras que tínhamos pronunciado na véspera. Mas que quer ela? Não posso adivinhar.

Soergo os olhos. Anny fita-me com uma e«pécie de ternura.

«Tu então não mudaste nada? Continuas tão tolo como antes?»

O seu rosto exprime a satisfação. Mas que ar de cansaço que ela tem!

«Tu és um marco», diz ela, «um marco à beira duma estrada. Explicas imperturbavelmente e explicarás toda a vida que Melun fica a vinte e sete quilómetros, e Montargis a quarenta e dois. É por isso que preciso tanto de ti.»

«Precisas de mim? Precisaste alguma vez de mim durante estes quatro anos que não te vi? Nesse caso, foste duma discrição a toda a prova.»

Falei com um sorriso: ela poderia julgar que estou ressentido. Sinto na minha boca esse sorriso, muito falso; estou pouco à vontade.

«Que tolo que és! É claro que não tive precisão de te ver, se é isso que queres dizer. Sabes bem que não tens nada de particularmente agradável à vista. Preciso de que existas e de que não mudes. És como o metro de platina que está guardado não sei onde em Paris, ou nos arredores. Acho que ninguém deve ter tido nunca vontade de o ver.»

«Enganas-te muito.»

«Enfim, pouco importa. Eu nunca tive. E entretanto faz--me bem saber que ele existe, que mede exactamente a décima milionésima parte do quarto do meridiano terrestre. Penso nele todas as vezes que vejo tomar medidas numa casa ou que me vendem pano a metro.»

«Ah. sim?», digo eu friamente.

«Mas, sabes? Podia muito bem só pensar em ti como numa virtude abstracta, uma espécie de limite. Podes agradecer-me que, de cada vez, me lembre da tua cara.»

Lá estão outra vez aquelas discussões alexandrinas que nos obrigávamos antigamente a sustentar, quando eu tinha no coração vontades simples e triviais, como dizer-lhe que a amava, toma-la nos meus braços. Hoje não sinto vontade nenhuma. Fora, talvez, a de ficar calado e olhar para ela. de realizar em silêncio toda a importância deste acontecimento extraordinário: a presença de Anny defronte de mim. E, para ela, será este dia semelhante aos outros? As mãos dela não tremem. Devia ter qualquer coisa a dizer-me no dia em que me escreveu - ou talvez se tratasse simplesmente dum capricho. O que quer que fosse já passou há muito tempo.

Anny sorri, de súbito, para mim, com uma ternura tão visível que me vêm lágrimas aos olhos.

«Pensei em ti muito mais vezes que no metro de platina. Não houve dia em que não pensasse em ti. E lembrava-me distintamente até do mais pequeno pormenor da tua pessoa.»

Levanta-se e vem-me apoiar as mãos nos ombros.

«Atreve-te a dizer que te lembravas da minha cara, tu, que te queixas.»

«Que esperteza!» digo eu. «Sabes muito bem que tenho má memória.»

«Quer dizer que confessas: tinhas-te esquecido de mim, completamente. Ter-me-ias reconhecido, se me tivesses cruzado na rua?»

«Com certeza. Não é disso que se trata.»

«Lembravas-te ao menos da cor dos meus cabelos?»

«Claro que sim! São louros.»

Põe-se a rir.

«Com que orgulho o dizes! Agora, que os tens na frente, o problema não é difícil.»

Varre-me os cabelos com um movimento da mão.

«E tu tens os cabelos ruivos», diz ela imitando-me; «a primeira vez que te vi trazias, nunca o esquecerei, um chapéu de feltro dum tom de malva que contrastava horrivelmente com os teus cabelos ruivos. Era desagradabilíssimo à vista. Onde é que puseste o teu chapéu? Quero ver se ainda tens tão mau gosto como dantes.»

«Já não uso.»

Ela assobia baixinho, arregalando os olhos.

«Não foste tu que tiveste a ideia! Foste? Pois felicito-te. Não era nada do arco-da-velha. mas sempre era preciso reconhecer: esses cabelos não suportavam coisa nenhuma; dizem mal com os chapéus, com as almofadas das poltronas, até com a tapeçaria das paredes que lhes serve de fundo. Ou então havias de enterrar o chapéu até às orelhas como aquele feltro inglês que tinhas comprado em Londres. Até a melena tapavas com ele, de maneira que nem sabia se ainda tinhas cabelo.»

Finalmente acrescenta, com o tom decidido com que se terminam as velhas querelas:

«Não te ficava nada bem.»

Já não sei de que chapéu se trata.

«E eu dizia que ficava?»

«Ai, não, não dizias! Até nem falavas de outra coisa. E miravas-te sub-repticiamente nos espelhos, quando julgavas que eu não te via.»

Este conhecimento do passado confunde-me. Anny nem sequer parece evocar recordações; a voz dela não tem aquele tom comovido e distante que convém a tal género de ocupação. Dir-se-ia que está a falar do dia de hoje, quando muito do de ontem; conservou com todo o viço as suas opiniões, as suas teimosias, os seus rancores de antigamente. Quanto a mim, pelo contrário, tudo se afogou numa bruma poética; estou pronto para todas as concessões.

Bruscamente, ela diz-me, com uma voz sem expressão:

«Bem vês, eu engordei, envelheci, preciso de tratar de mim.»

É verdade. E que ar de cansaço que ela tem! Eu ia falar, mas acrescenta ainda:

«Sabes que representei, em Londres?»

«Com o Candler?»

«Não, com o Candler não. Essa é mesmo tua. Tinhas metido na cabeça que eu havia de representar com o Candler. Quantas vezes será preciso dizer-te que o Candler é um maestro? Num teatrinho de Soho Square. Montámos o Emperor Jones, peças de Sean O' Casey, de Synge, e o Britannicus.»

«O Britannicus?-», digo eu. espantado.

«Sim, senhor, o Britannicus. Foi por causa disso que abandonei o grupo. Eu é que lhes tinha dado a ideia de montar o Britannicus; e eles quiseram que eu fizesse o papel de Junie.»

«Ah, sim?»

«Ora, é claro que eu só podia representar o de Agripina.»

«E agora, que é que fazes?»

Foi um erro perguntar isto. A vida retira-se-lhe completamente da cara. Todavia, responde-me imediatamente:

«Deixei de representar. Viajo. Tenho um tipo que me sustenta.»

E com um sorriso:

«Oh! Não olhes para mim com essa solicitude; não é tragédia nenhuma. Sempre te disse que não me custaria recorrer a tais expedientes. De resto, o tipo em questão é um velho, maça pouco.»

«Um inglês?»

«Em que é que isso te pode interessar?», diz ela, irritada. «Não vamos pôr-nos a falar desse sujeito. É pessoa que não tem nenhuma importância nem para ti, nem para mim. Queres chá?»

Vejo-a entrar na casa de banho. Ouço-a andar para trás e para diante, mexer em caçarolas e falar sozinha; um murmúrio agudo e ininteligível. Em cima da mesinha de cabeceira, ao lado da cama dela, há, como sempre, um tomo da História de França de Michelet. Noto agora que, por cima da cama, ela pregou uma fotografia, uma só: uma reprodução do retrato de Emily BrontÉ pelo irmão.

Anny volta e diz-me bruscamente:

«Agora fala-me de ti.»

Depois desaparece outra vez na casa de banho. Duma coisa me lembro, apesar da minha má memória: ela fazia assim perguntas directas como esta, que me constrangiam muitíssimo, porque eu sentia nelas, simultaneamente, um interesse sincero e o desejo de acabar depressa com o assunto. Em todo o caso, após esta pergunta, já não resta dúvida: ela quer alguma coisa de mim. Por agora estamos apenas nos preliminares: libertação do que poderia importunar, arrumação definitiva das questões secundárias: «Agora fala-me de ti.» Daqui a nada vai ela falar-me dela. Só por isso perco a vontade de lhe contar seja o que for. Para quê? A Náusea, o medo, a existência... É melhor guardar essas coisas para mim.

«Vá lá, despacha-te», grita ela do outro lado do tabique.

Volta com um bule na mão.

«Que fazes tu? Vives em Paris?»

«Em Bouville.»

«Em Bouville? Porquê? Não estás casado, espero?»

«Casado?» digo eu num sobressalto.

É-me muito agradável que Anny tenha podido pensar isso. Digo-lho.

«Que absurdo. É exactamente o género de invenções naturalistas que antigamente me censuravas. Lembras-te? Quando te imaginavas viúva e mãe de dois rapazes. E todas as histórias que te contava sobre o que viria a acontecer-nos. Tu detestavas isso.»

«E tu adoravas», responde ela sem se perturbar. «Dizias essas coisas para te fazeres forte. De resto, indignas-te, como agora, em conversa, mas és falso bastante para te casares um dia, à socapa. Durante um ano protestaste com indignação que não irias ver as Violetas Imperiais. E afinal um dia, em que me apanhaste doente, foste ver a fita sozinho a um cinemazito do bairro.»

«Fui para Bouville», digo com dignidade, «porque estou a escrever um livro sobre o Sr. de Rollebon.»

Anny empenha-se em fitar-me com interesse.

«O Sr. de Rollebon? Viveu no século XVIII, não foi?»

«Foi.»

«Tinhas-me falado dele, de facto», diz vagamente. «É um livro de história, então?»

«É.»

«Muito bem.»

Se ela me fizer mais alguma pergunta, conto-lhe tudo. Mas não me pergunta mais nada. Deve pensar que sobre mim já sabe o suficiente. Anny sabe muito bem ouvir, mas só quando quer. Olho para ela: baixou as pálpebras, medita no que vai dizer-me, na maneira como há-de começar. Deverei, por minha vez, interrogá-la? Não creio que ela o deseje. Falará, quando entender que chegou a altura de o fazer. O meu coração bate com força.

Bruscamente, diz:

«Quanto a mim, estou muito mudada.»

É o começo. Mas, após este preâmbulo, cala-se. Põe-se a deitar o chá nas chávenas de porcelana branca. Está à espera de que eu fale: tenho de dizer qualquer coisa... Qualquer, não: a coisa de que ela está à espera. É um suplício. Ela terá realmente mudado? Engordou, tem um ar de cansaço: mas não é a isso que se refere.

«Não sei, acho que não. O teu riso é o mesmo; não perdeste a tua maneira de te levantar e de pôr as mãos nos meus ombros, nem a mania de falar sozinha. Continuas a ler a História de Michelet. E imensas outras coisas...»

O interesse profundo que ela dedica à minha essência eterna e a sua indiferença total por tudo quanto possa suceder-me na vida - e depois aquele preciosismo extravagante, ao mesmo tempo pedante e encantador - e ainda aquela maneira de suprimir, logo aos primeiros contactos, todas as fórmulas mecânicas da civilidade, da amizade, tudo quanto facilita as relações entre os homens; de obrigar os seus interlocutores a uma perpétua invenção.

Encolhe os ombros:

«Mudei, sim», diz secamente, «mudei de ponta a ponta. Já não sou a mesma pessoa. Julgava que desses por isso à primeira vista. E vens agora falar-me da História de Mi-chelet.»

Vem postar-se na minha frente:

«Vamos lá ver se este senhor é tão esperto como pretende. Procura: em que é que eu mudei?»

Hesito; ela bate com o pé no chão, sorridente ainda, mas sinceramente irritada.

«Havia uma coisa que antigamente te punha sobre brasas. Era, pelo menos, o que dizias. E agora acabou-se, desapareceu. Devias dar por isso. Não te sentes mais à vontade?»

Não ouso responder que não: estou, exactamente como antes, sentado na beirinha da cadeira, ocupadíssimo em evitar ciladas, em esconjurar inexplicáveis cóleras.

Sentou-se.

«Pois bem», diz ela fazendo que sim com a cabeça, «se não entendes, é porque te esqueceste de muitas coisas. Mais ainda do que eu pensava. Vejamos: já não te lembras das tuas proezas de antigamente? Chegavas, falavas, ias-te embora: tudo inoportunamente. Imagina que nada tivesse mudado: tinhas entrado; nas paredes havia máscaras e xailes; eu estava sentada à beira da cama e tinha-te dito (deita a cabeça para trás, dilata as narinas e fala com uma voz teatral, como para fazer troça de si própria): «Então? De que estás tu à espera? Senta-te.» E é claro que teria evitado cuidadosamente dizer-te: «fora na poltrona ao pé da janela.»

«Armavas-me ratoeiras.»

«Não eram ratoeiras... De maneira que, é claro, terias ido direitinho sentar-te nela.»

«E que me teria sucedido?», digo eu, voltando-me e considerando a poltrona com curiosidade.

É um móvel muito comum, de aparência protectora e confortável.

«Várias coisas más», responde Anny com secura.

Não insisto: Anny rodeou-se sempre de objectos tabos.

«Creio», digo-lhe de repente, «que não estou longe de adivinhar. Mas seria tão extraordinário! Espera lá. Deixa--me procurar: realmente este quarto está quase vazio, aliás deves-me fazer justiça, hás-de reconhecer que dei por isso imediatamente. Bem... Eu teria então entrado, teria visto, de facto, as tais máscaras nas paredes, os xailes e o resto. O hotel acabava sempre à tua porta. teu quarto era outra coisa... Não terias vindo abrir a porta. Teria dado por si encolhida a um canto, talvez sentada no chão, em cima daquela alcatifa vermelha de que nunca te separavas, olhando para mim sem indulgência, à espera... Mal tivesse pronunciado uma palavra, feito um gesto, tomado fôlego, terias começado a franzir as sobrancelhas, e eu ter-me-ia sentido profundamente culpado sem saber porquê. Depois, de minuto para minuto, teria acumulado as inépcia*, ter-me-ia enterrado no meu erro...»

«Quantas vezes isso não sucedeu?»

«Cem vezes.»

«Pelo menos! Estás agora mais habilidoso, mais esperto?»

«Não!»

« ainda bem que reconheces. E afinal?»

«Afinal sucede que se acabaram...»

«Ah! Ah!», grita ela com uma voz teatral, «ainda lhe custa acreditar!»

E, com suavidade, acrescenta:

«Pois, podes acreditar: acabaram-se.»

«Acabaram-se os momentos perfeitos?»

«É verdade.»

Estou abismado. Insisto.

«Quer dizer que já não... que se acabaram aquelas... tragédias, aquelas tragédias instantâneas em que as máscaras, os xailes, os móveis e eu próprio representávamos cada um o seu papel pequeno - e tu um grande papel?»

Ela sorri:

«Que ingrato! Cheguei a dar-lhe, algumas vezes, papéis mais importantes do que o meu: e ele não deu por nada. Pois bem, é verdade. Acabaram-se os momentos perfeitos. Estás realmente espantado?»

«Se estou! Julgava que era uma coisa que fizesse parte de ti própria; que, se ta tirassem, fosse como se te arrancassem o coração.»

«Também eu julgava», diz ela com um ar de quem não tem saudades. E acrescenta com uma espécie de ironia que me produz uma impressão desagradabilíssima:

«Mas bem vês que posso viver sem isso.»

Cruzou os dedos e trava um dos joelhos com as mãos. Olha para o ar com um sorriso vago que lhe rejuvenesce a cara toda. Dir-se-ia uma menina gorda, misteriosa e satisfeita.

«Sim, estou contente por seres ainda o mesmo. Se te tivessem arrancado, pintado de novo, enterrado à beira de outra estrada, não me restaria nada de fixo para me orientar. És-me indispensável: eu mudo; tu, é sabido que permaneces imutável, e é em relação a ti que meço as minhas mudanças.»

Sinto-me, ainda assim, um tanto vexado.

«Pois olha, não é verdade o que pensas», digo com vivacidade. «Pelo contrário: evoluí muito nestes últimos tempos, e, no fundo...»

«Ora», diz ela com um desprezo esmagador, «mudanças intelectuais Eu mudei dos pés à cabeça.»

Dos pés à cabeça... Que foi, realmente, que, na voz dela, me surpreendeu tanto? A verdade é que, bruscamente, dei um salto! Deixo de procurar uma Anny desaparecida. É aquela rapariga, ali, aquela rapariga gorda, de aspecto arruinado, que me toca e que eu amo.

«Tenho uma espécie de certeza... física. Sinto que não há momentos perfeitos. Sinto-o até nas pernas, quando vou a andar. Sinto-o constantemente, até quando estou a dormir. Não posso esquecê-lo. Não se passou nada que se parecesse com uma revelação; não posso dizer: a partir de tal dia, de tal hora, a minha vida transformou-se. Mas todos os dias me sinto um pouco, como se a coisa me tivesse sido revelada, bruscamente, na véspera. Ando deslumbrada, pouco à vontade; não me habituo.»

Pronuncia estas palavras com uma voz calma, na qual perpassa um vislumbre de orgulho por ter mudado tanto. Baloiça-se, sobre a caixa em que está sentada, com uma graça extraordinária. Desde que entrei, ainda não se tinha parecido tanto com a Anny de antigamente, de Marselha. Reconquistou-me: voltei a mergulhar no seu estranho universo, para além do ridículo, do preciosismo, da subtileza. Voltei mesmo a encontrar aquela febrezinha que sempre me agitava em presença dela e o mesmo travo amargo no fundo da minha boca.

Anny descruza as mãos e liberta o joelho. Cala-se. É um silêncio planeado: como quando, na ópera, o palco fica deserto, durante sete compassos de orquestra, exactamente. Bebe o seu chá. Depois pousa a chávena e fica muito direita, firmando, na beira da caixa, as duas mãos fechadas.

De súbito faz aparecer, sobre a outra, a sua soberba cara de Medusa, que eu tanto amava, inchada pelo ódio, tortuosa, envenenada. Não se pode dizer que Anny mude de expressão; muda de cara, como os actores antigos mudavam de máscara: duma só vez. E cada máscara dessas se destina a criar a atmosfera, a dar o tom do que se vai seguir. Aparece e mantém-se sem se modificar, enquanto Anny fala. Depois desliga--se dela e cai.

Anny fixa-me, sem parecer ver-me. Vai falar. É de esperar um discurso trágico, guindado à dignidade da máscara, um canto fúnebre.

Sai apenas uma frase curtíssima:

«Vou sobrevivendo a mim própria.»

A entoação está longe de condizer com a máscara. Não é trágica, é... horrível: exprime um desespero seco, sem lágrimas, sem piedade. Sim, há nela algo de irremediavelmente ressequido.

A máscara cai; ela sorri.

«Não estou nada triste. Ao constatá-lo, muitas vezes fiquei surpreendida, mas sem razão: porque havia de estar triste? Antigamente, era acessível a paixões duma grande beleza. Odiei com paixão a minha mãe. E mesmo tu», diz ela num desafio, «amei-te apaixonadamente.»

Fica à espera da réplica. Não digo palavra.

«É claro que tudo isso acabou.»

«Como é que podes saber?»

«Sei. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter uma energia, uma generosidade... É preciso uma cegueira... Há até um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflecte não salta. E eu sei que nunca mais saltarei.»

«Porquê?»

Deita-me um olhar irónico e não responde.

«Agora», diz ela, «vivo rodeada pelas minhas paixões defuntas. Faço o possível por voltar a sentir aquele esplêndido furor que me precipitou dum terceiro andar abaixo, um dia em que a minha mãe me tinha chicoteado.»

Acrescenta, sem ligação aparente, com um ar distante:

«É melhor, por outro lado, abster-me de fixar demoradamente os objectos. Olho para eles, para os identificar, mas tenho de desviar logo a vista.»

«Mas porquê?»

«Repugnam-me.»

Mas não parece que...? É certo, em todo o caso, que há semelhanças. Já uma vez, em Londres, sucedeu que pensámos ambos, cada um por seu lado, as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos, mais ou menos na mesma altura. Seria tão bom para mim que... Mas o pensamento de Anny embrenha-se por múltiplos desvios; nunca se pode estar certo de o ter compreendido inteiramente. Preciso de saber a verdade.

«Ouve, queria dizer-te uma coisa: sabes que nunca compreendi muito bem o que eram os tais momentos perfeitos; nunca me explicaste.»

«Bem sei. Nunca fizeste o menor esforço. Eras uma estaca, a meu lado.»

«Sim, mas paguei caro por isso.»

«Mereceste bem tudo o que te sucedeu; tinhas muitas culpas; irritavas-me com o teu ar sólido. Parecia que estavas sempre a dizer: cá por mim, eu sou normal; e aplicavas-te a respirar saúde, escorrias saúde moral.»

«Não negas que, mais de cem vezes, te pedi que me explicasses o que era um...»

«Sim, mas em que tom», diz ela encolerizada: «condescendias em informar-te, era o que era. Fazias a pergunta com uma amabilidade discreta, como as senhoras de idade que. na minha infância, me perguntavam a que é que e estava a brincar. No fim de contas», diz ela em ar de meditação, «pergunto a mim própria se não foste tu quem mais odiei.»

Faz um esforço para se dominar; consegue-o e sorri de faces ainda enrubescidas. Está muito bela.

«Vou então explicar-te de que se trata. Já sou suficientemente velha para falar sem cólera, às boas velhotas como tu, das brincadeiras da minha infância. Anda, fala. Que é que queres saber?»

«O que eram os momentos perfeitos.»

«Já me ouviste falar das situações privilegiadas, não é verdade?»

«Não creio.»

«Já, sim», diz ela com segurança. «Estávamos em Aix, naquela praça de cujo nome não me lembro. Tinhamo-nos sentado no jardim dum café debaixo de pára-sóis alaranjados, à torreira do sol. Não te lembras: tínhamos mandado vir limonadas, e eu encontrei moscas mortas no açucareiro.»

«Ah, sim, talvez...»

«Pois bem, foi nesse café que te falei das situações privilegiadas. A propósito, por sinal, da edição grande da História de Michelet, a que eu tinha quando era pequena. Era muito maior que esta e as folhas eram duma cor muito pálida, como o interior dum cogumelo, e tinham também um cheiro de cogumelo. Por morte do meu pai, o meu tio Joseph deitou-lhe a mão e levou todos os volumes. Foi nesse dia que lhe chamei porco sujo, que a minha mãe me chicoteou e que saltei pela janela.»

«Sim, sim... tenho uma ideia de me teres falado dessa História de França... Não ias lê-la para um sótão? Vês que me lembro? Vês que eras injusta, há bocadinho, quando me acusavas de ter esquecido tudo?»

«Cala-te. Eu levava então, como muito bem te lembraste, esses enormes volumes para o sótão. Tinham muito poucas figuras, talvez três ou quatro cada um. Mas cada figura ocupava, sozinha, uma página inteira, e cujo verso, de resto fora deixado em branco. Isso ainda mais me impressionava, porque, nas outras folhas, o texto fora disposto em duas colunas para ganhar espaço. Tinha por essas gravuras um amor extraordinário; conhecia-as todas de cor, e, quando relia um livro de Michelet, começava a esperar por elas cinquenta páginas antes; parecia-me sempre um milagre voltar a encontrá-las. E depois havia um requinte: a cena que representavam nunca se referia ao texto das páginas vizinhas; era preciso ir procurar o acontecimento umas trinta páginas mais adiante.»

«Por favor, fala-me dos momentos perfeitos.»

«Estou a falar-te das situações privilegiadas. Eram as que estavam representadas nas gravuras. Eu é que lhes chamava privilegiadas; pensava que deviam ter uma importância muito especial para terem merecido que as tomassem para assunto dumas imagens tão raras. Tinham-nas escolhido entre todas, percebes?, e havia, entretanto, muitos episódios que tinham um valor plástico maior, outros que tinham mais interesse histórico. Por exemplo, para todo o século XVI havia só três imagens: uma representando a morte de Henrique II, outra o assassínio do duque de Guise e outra a entrada de Henrique IV em Paris. Imaginei assim que esses acontecimentos eram duma natureza particular. Para mais, as gravuras confirmavam a minha ideia: o desenho era tosco, os braços e as pernas não estavam nunca bem ligados aos troncos. Mas havia nelas uma notável grandeza. Quando o duque de Guise é assassinado, por exemplo, os espectadores manifestam o seu assombro e a sua indignação estendendo todas as palmas das mãos para diante e desviando a cabeça; é soberbo, dir-se-ia um coro. E não julgues que tivessem ficado esquecidos os pormenores engraçados ou anedóticos. Viam-se pajens cair no chão, cãezinhos a fugir e bobos sentados nos degraus do trono. Mas todos esses pormenores tinham sido tratados com tanta grandeza e tanta inépcia que estavam em harmonia perfeita com o resto da imagem: não me lembro de ter encontrado quadros cuja unidade fosse tão rigorosa. Pois bem, foi daqui que tudo saiu.»

«As situações privilegiadas?»

«Enfim... a ideia que eu fazia delas. Eram situações que tinham uma qualidade muitíssimo rara e preciosa, que tinham estilo, se preferes. Ser rei, por exemplo, quando eu tinha oito anos, parecia-me uma situação privilegiada. Ou então morrer. Tu ris-te, mas havia tantas pessoas desenhadas no momento da morte, e há tantas que pronunciaram palavras sublimes nessa altura, que eu julgava de boa fé... enfim, pensava que uma pessoa, ao entrar na agonia, era transportada acima de si própria. Bastava, de resto, estar no quarto dum morto. Sendo a morte uma situação privilegiada, qualquer coisa emanava dela, e se comunicava a todos os presentes. Uma espécie de grandeza. Quando o meu pai morreu, mandaram-me ir ao quarto dele, para o ver pela última vez. Ao subir a escada sentia-me infelicíssima, mas ia também como que embriagada por uma espécie de alegria religiosa; entrava finalmente numa situação privilegiada. Encostei-me à parede, tentei fazer os gestos que se impunham. Mas a minha tia e a minha mãe, que estavam ajoelhadas à beira da cama, estragavam tudo com os seus soluços.»

Anny diz estas últimas palavras com azedume, como se a recordação lhe fosse ainda pungente. Interrompe-se; com o olhar fixo, de sobrancelhas levantadas, aproveita a ocasião para reviver mais uma vez a cena.

«Mais tarde alarguei tudo isso: juntei-lhe primeiro uma situação nova, o amor (quero dizer, o próprio acto do amor). Olha, se nunca percebeste porque é que me recusava a... a certos pedidos teus, tens agora uma ocasião para compreender: para mim havia qualquer coisa a salvar. E, um belo dia, pensei que devia haver muito mais situações privilegiadas que eu poderia considerar; acabei por admitir uma infinidade delas.»

«Sim, mas, afinal, que eram?»   

«Essa agora! Já to disse», responde ela, admirada, «há um quarto de hora que to estou a explicar.»

«Afinal era preciso principalmente que as pessoas estivessem muito apaixonadas, arrebatadas, por exemplo, pelo ódio ou pelo amor, ou que fosse grande o aspecto exterior do acontecimento, quero dizer, o que se pode ver...?»

«As duas coisas... era conforme», responde ela com repugnância.

«E os momentos perfeitos? Qual é o papel deles nisso tudo?»

«Os momentos perfeitos chegam posteriormente. Há primeiro sinais que os anunciam. Depois a situação privilegiada entra lenta, majestosamente, na vida das pessoas.

É então que se põe a questão de saber se se quer ou não transformá-la num momento perfeito.»

«Sim», digo eu, «já percebo. Em cada situação privilegiada há certos actos que é preciso fazer, certas atitudes que é preciso tomar, palavras que é preciso dizer - e são estritamente proibidas outras atitudes, outras palavras. É isso?»

«Mais ou menos...»

«Em suma, a situação é matéria: exige que a trabalhem.»

«É isso», diz ela: «era preciso, primeiro, estar mergulhado em qualquer coisa de excepcional e sentir que a punham em ordem. Se todas essas condições tivessem sido realizadas, o momento teria sido perfeito.»

«Em suma, era uma espécie de obra de arte.»

«Não é a primeira vez que me dizes isso», responde ela com irritação. «Mas não: era... um dever. Era preciso transformar as situações privilegiadas em momentos perfeitos. Era uma questão de moral. Pois sim, ri-te à vontade: de moral.»

Não tenho nenhuma vontade de rir.

«Ouve», digo-lhe espontaneamente, «vou também reconhecer os meus erros. Nunca te compreendi bem, nunca tentei sinceramente ajudar-te. Se tivesse sabido...»

«Obrigada, muito obrigada», diz ela ironicamente. «Não esperas, suponho, que te fique reconhecida por esses remorsos tardios. De resto, não te quero mal por isso: nunca te expliquei nada claramente, andava embuchada, não podia falar daquilo a ninguém - e muito menos a ti. Havia sempre, nesses momentos, qualquer coisa que soava a falso. E então eu ficava como perdida. Tinha a impressão, porém, de fazer tudo quanto estava ao meu alcance.»

«Mas que é que era preciso fazer? Que acções?»

«Que parvo que és! Não se podem dar exemplos. É conforme.»

«Mas conta-me o que tu tentavas fazer.»

«Não, prefiro não falar nisso. Mas, se quiseres, ouve esta história que me tinha impressionado muito quando eu andava na escola. Era uma vez um rei que tinha perdido uma batalha e sido aprisionado. Vivia a um canto, nos acampamentos do vencedor. Um dia vê passar, agrilhoados, o seu filho e a sua filha. Não chorou, não disse nada. Em seguida vê passar, agrilhoado também, um servo seu. Então pôs-se a gemer e a arrancar os cabelos. Tu próprio podes inventar os exemplos. Bem vês: há casos em que não se deve chorar - ou então é-se imundo. Mas, se deixarmos cair uma cavaca em cima dum pé podemos fazer o que quisermos, gemer, soluçar, saltar ao pé-coxinho. O que seria tolice seria ser estóico constantemente: era esgotarmo-nos sem proveito.»

Anny sorri:

«Outras vezes era preciso ser mais que estóico. Não te lembras, é claro, da primeira vez que te beijei?»

«Lembro-me muito bem», respondo eu triunfante, «foi nos jardins de Kiew, à beira do Tamisa.»

«Mas o que nunca soubeste foi que eu me tinha sentado num tufo de ortigas: o vestido tinha-se-me levantado, as minhas coxas estavam cobertas de picadas, e, ao menor movimento, recebia picadas novas. Pois bem, nesse caso o estoicismo não teria bastado. Não me perturbavas nada, não sentia nenhum desejo particular dos teus lábios; o beijo que ia dar-te era duma importância muito maior, era um compromisso, um pacto. Percebes agora? Aquela dor era impertinente, mas não me era permitido pensar nas minhas coxas em semelhante momento. Não bastava não dar sinais de sofrimento: era preciso não sofrer.»

Encara-me com orgulho, ainda muito admirada com o que fez:

«Durante mais de vinte minutos, todo o tempo que lutaste para conseguir esse beijo, e eu estava bem decidida a dar-to, todo o tempo em que me fiz rogada - porque era preciso dar-to nas devidas formas -, consegui anestesiar-me completamente. Sabe Deus, porém, como é sensível a minha pele; pois não senti nada, até nos termos levantado.»

É isto, é isto, exactamente. Não há aventuras - não há momentos perfeitos... Perdemos ambos as mesmas ilusões, seguimos pêlos mesmos caminhos. Adivinho o resto - posso até tomar a palavra em lugar de Anny e dizer eu próprio o que lhe falta dizer.

«E foi então que reparaste que havia sempre mulherzinhas a chorar, ou um fulano ruivo, ou outra coisa qualquer para te estragar os teus efeitos?»

«Pois claro», diz ela sem entusiasmo.

«Não é isso?»

«As inépcias do fulano ruivo, sabes?, poderia, com a continuação, ter-me conformado com elas. No fim de contas, muito boa era eu em me interessar pela maneira como os outros desempenhavam o seu papel... Não, o que é, é que...»

«Que não há situações privilegiadas?»

«Pois não. Eu julgava que o ódio, o amor ou a morte desciam sobre nós como as línguas de fogo da Sexta-Feira Santa. Julgava que se podia resplandecer de ódio ou de morte. Que engano! É verdade, sim, pensava que isso existia - 'o Ódio' -, que vinha pousar nas pessoas e elevá-las acima de si próprias. Afinal, sou eu apenas, eu a odiar, eu a amar. E essa coisa - eu - é sempre a mesma coisa, uma pasta a estirar-se, a estirar-se... sempre tão semelhante a si mesma que admira como é que as pessoas tiveram a ideia de inventar nomes, de fazer distinções.»

Anny pensa como eu. Parece que nunca me separei dela.   .-:

«Ouve lá», digo eu: «há um momento que estou a pensar numa coisa que me agrada muito mais que o papel de marco que, generosamente, me distribuíste: é que mudámos ambos, e da mesma maneira. Prefiro isso, sabes?, a ver-te afastares-te cada vez mais e a ficar eu condenado a marcar eternamente o teu ponto de partida. Tudo o que me contaste tinha eu vindo para to contar - por outras palavras, é certo. Encontramo-nos à chegada. Não posso dizer-te o prazer que isso me dá.»

«Sim?», diz ela baixinho mas num tom de teimosia. «Pois olha, apesar de tudo, preferia que não tivesses mudado; era mais cómodo assim. Não sou como tu: não me é agradável saber que alguém pensou as mesmas coisas que eu. De resto, deves estar enganado.»

Conto-lhe as minhas aventuras, falo-lhe da existência - falo talvez tempo de mais. Ela ouve com aplicação, de olhos muito abertos, de sobrancelhas levantadas.

Quando acabo, vejo-lhe um ar de alívio.

«Afinal, não pensas, nem de longe, o mesmo que eu. Queixas-te, porque as coisas não se dispõem à tua roda como um ramo de flores, sem te dares ao trabalho de fazer seja o que for. Mas nunca eu pedi tanto: queria agir. Lembras-te de quando brincávamos ao aventureiro e à aventureira? Tu eras aquele a quem sucedem aventuras, eu aquela que as fazia suceder. Dizia eu: “Sou um homem de acção.” Lembras-te? Pois bem, agora digo simplesmente: “Não se pode ser um homem de acção.”»

É de crer que não estou com ar de convencido, porque ela anima-se e recomeça com mais força:

«E depois há uma quantidade de outras coisas que não te disse, porque levaria muitíssimo tempo a explicar-te. Seria preciso, por exemplo, poder dizer, no momento em que agia, que o que estava a fazer teria consequências... fatais. Não posso explicar-te bem...»

«Mas é perfeitamente inútil», digo eu com um ar bastante pedante; «tambén isso eu pensei.»

Ela olha-me com desconfiança.

«A julgar pelo que dizes, terias pensado tudo da mesma maneira que eu: muito me espanta.»

Não posso convencê-la; não conseguiria mais do que irritá-la. Calo-me. Tenho vontade de a cingir nos meus braços.

De súbito, ela olha para mim com uma expressão de ansiedade.

«E então, já que pensaste nisso tudo, que nos resta agora fazer?»

Baixo a cabeça.

«Vou... vou sobrevivendo a mim própria», repete ela, pesadamente.

Que poderei dizer-lhe? Conheço eu algumas razões para viver? Não estou, como ela, desesperado, porque nunca tinha esperado grande coisa. Estou é... espantado diante desta vida que me é dada... dada para nada. Conservo a cabeça baixa, não quero ver o rosto de Anny neste momento.

«Faço viagens», prossegue ela com   uma   voz abatida; vim agora da Suécia. Fiquei oito dias em Berlim. Há o tal fulano que me dá dinheiro...»

Cingi-la nos meus braços... Para quê? Que poderei eu fazer por ela? Anny está sozinha como eu.

Diz-me assim, com uma voz mais alegre:

«Que estás tu a resmungar?...»

Ergo os olhos. Ela está a olhar para mim com ternura.

«Nada. Estava apenas a pensar numa coisa.»

«Olhem para esta personagem misteriosa. Pois então fala, ou fica calado, mas decide-te.» .

Falo-lhe no Rendez-vous dos Ferroviários do velho rag-time que mando tocar no gramofone, da estranha felicidade que ele me dá.

«Andava a pensar se. por esse lado. não se podia achar, ou enfim, procurar...»

Ela não responde: acho que não se interessou muito pelo que eu lhe disse.

Em todo o caso, reata um instante depois - e não sei se prossegue os seus pensamentos ou se é uma resposta ao que acabo de dizer.

«Os quadros, as estátuas, tudo isso é inutilizável: é algo de belo em frente de mim. A música...»

«Mas no teatro...»

«No teatro, o quê? Vais pôr-te a enumerar as belas--artes todas?»

«Dizias antigamente que querias fazer teatro, porque se deviam, no palco, realizar momentos perfeitos!»

«E realizei-os: mas para os outros. Estava na poeira, na corrente de ar, sob as luzes cruas, entre armações de cartão. Em geral contracenava com Thorndyke. Parece-me que o viste representar, no Convent Garden. Tinha sempre medo de desatar a rir-lhe na cara.»

«Mas o teu papel nunca te arrebatava?»

«Um pouco, sim, às vezes; nunca inteiramente. O essencial, para nós, era aquela boca negra, mesmo à nossa frente, ao fundo da qual havia pessoas que não víamos; a elas, evidentemente, era apresentado um momento perfeito. Mas, sabes?, elas não viviam dentro dele: o momento desenrolava-se diante dessas pessoas. E nós. os actores, achas que vivíamos dentro dele? Era um momento, afinal, que não estava em parte nenhuma, nem dum lado, nem do outro da ribalta: não existia; e, entretanto, toda a gente pensava nele. Percebes, filho? Foi por isso», diz ela num tom arrastado, acanalhado quase, «que mandei tudo passear.»

«Eu tinha tentado escrever o tal livro...»

Ela interrompe-me:

«Vivo no passado. Agarro em tudo quanto me sucedeu, e componho-o. De longe, assim, as lembranças não nos doem. e por um pouco não nos deixamos enganar. A nossa história é toda bastante bela. Dou-lhe uns jeitinhos. E pronto!, fica uma sequência de momentos perfeitos. Nessa altura fecho os olhos e tento imaginar que estou a viver ainda dentro deles. Disponho também doutras personagens É preciso sabermos concentrar-nos. Queres saber o que li? Os Exercícios Espirituais, de Loyola. Foram-me muito úteis. Há uma maneira de colocar primeiro o cenário e de fazer aparecer depois as personagens. Consegue-se ver», acrescentou ela com um ar mágico.

«Sim, mas, a mim, isso não me satisfaria nada», digo eu.

«E pensas que, a mim, me satisfaz?»

Ficamos um momento silenciosos. A tarde cai; mal distingo a mancha pálida do rosto de Anny. O seu vestido preto confunde-se com a sombra que invadiu a casa. Maquinalmente, agarro na chávena, onde há ainda um resto de chá, e levo-a aos lábios. O chá está frio. Sinto vontade de fumar, mas não me atrevo. Tenho a impressão penosa de não termos mais nada a dizer um ao outro. Ainda ontem pensava em tantas perguntas a fazer-lhe: onde tinha ela estado, que tinha feito, quem tinha encontrado... Mas isso só me interessava na medida em que Anny se tivesse entregado com todas as veras do coração. Agora, nenhuma curiosidade me resta: todos os países, todas as cidades por que ela passou, todos os homens que a cortejaram e que ela talvez tenha amado, tudo isso era inconsistente, tudo isso, no fim de contas, lhe era tão indiferente! Pequenos clarões de sol à superfície dum mar escuro e frio. Anny está à minha frente, há quatro anos que não nos víamos, e não temos mais nada a dizer um ao outro.

«Agora», diz ela subitamente, «tens de te ir embora. Estou à espera duma pessoa.»

«Estás à espera de...?»

«Não! Estou à espera dum alemão, dum pintor.»

Põe-se a rir. .Esse riso soa duma maneira estranha na sala escura.

«Olha, aquele é que é uma pessoa diferente de nós - por enquanto. Uma pessoa que age, que se pródiga.»

Levanto-me contra vontade.

«Quando é que volto a ver-te?»

«Não sei. Parto para Londres amanhã à noite.»

«Vais por Dieppe?»

«Vou, e acho que, depois de Londres, irei ao Egipto. Talvez passe por Paris no próximo Inverno... Depois te escrevo.»

«Amanhã estou livre todo o dia», digo-lhe eu timidamente.

«Sim, mas amanhã tenho muito que fazer», responde ela com uma voz seca. «Não, não posso estar contigo. Escrevo-te do Egipto. Basta que me dês a tua morada.»

«Pois sim.»

Garatujo a morada num pedaço de envelope, na penumbra. Terei de dizer no Hotel Printania que me remetam as minhas cartas quando sair de Bouville. Afinal, sei muito bem que ela não me escreve. Voltarei talvez a vê-la daqui a dez anos. Ou talvez seja esta a última vez que a vejo. Não é apenas que eu esteja sucumbido por a deixar; tenho um medo pavoroso de voltar à minha solidão.

Ela levanta-se; à porta, beija-me na boca, ao de leve.

«É para me recordar dos teus lábios» diz a sorrir. «Preciso de remoçar as minhas lembranças, para os meus Exercícios Espirituais.»

Puxo-a pelo braço e aproximo-a de mim. Ela não resiste, mas faz que não com a cabeça.

«Não. Isso já não me interessa. Sabes que nunca se recomeça... E depois, por outro lado, para aquilo que as pessoas servem, o primeiro rapaz bonitote a vir à rede vale tanto como tu.»

«Mas então que vais tu fazer?»

«Já te disse: vou para Inglaterra.»

«Bom, mas quero eu dizer...»

«Ah! Não vou fazer nada.»

Não lhe larguei os braços. Digo-lhe baixinho:

«Tenho então de me separar outra vez de ti, mal te encontrei?»

Agora distingo-lhe nitidamente a cara. Vejo-a de súbito ficar lívida e carregada. Um rosto de velha, positivamente medonho; aquele, tenho a certeza que não foi ela que o chamou: veio sem ela dar por isso, ou talvez contra vontade dela.

«Não», diz ela lentamente, «não. Não foi a mesma pessoa que encontraste.»

Liberta os braços. Abre a porta. O corredor está inundado de luz.

Anny põe-se a rir.

«Coitado do rapaz! Não tem sorte nenhuma. É a primeira vez que desempenha bem o seu papel, e nem por isso lhe agradecem. Vá, vai-te embora.»

Ouço   a   porta   fechar-se   nas minhas   costas.

 

                                             DOMINGO

Esta manhã consultei o Guia dos Caminhos de Ferro: supondo que Anny não me tenha mentido, tomaria o comboio de Dieppe às cinto e trinta e oito. A não ser que o tipo dela a levasse de automóvel... Errei toda a manhã pelas ruas de Ménilmontant e depois, de tarde, pêlos cais do Sena. Separavam-me de Anny poucos passos, poucas barreiras. Às cinco horas e trinta e oito, a nossa entrevista de ontem tornar-se-ia uma recordação; a mulher opulenta, cujos lábios tinham roçado pêlos meus, iria ter, ao passado, com a rapariguinha magra de Mequinez, de Londres. Mas nada passara ainda, visto que ela ainda estava ali, visto que era ainda possível voltar a vê-la, convencê-la, levá-la   comigo   para   sempre.

Ainda não   me   sentia sozinho.

Quis desviar o pensamento de Anny, porque, à força de lhe imaginar o corpo e rosto, tinha caído num extremo enervamento: as minhas mãos tremiam, e percorriam-me o corpo arrepios gelados. Pus-me a folhear os livros, nos mostruários dos revendedores, e especialmente os obscenos, porque, apesar de tudo, essas publicações ocupam o espírito.

Quando deram cinco horas no relógio da estação de Orsay, estava a olhar para as gravuras duma obra intitulada O Médico do Chicote. Eram pouco variadas: na maior parte delas, um matulão de barbas brandia uma chibata contra monstruosos traseiros nus. Mal me apercebi de que eram cinco horas, deitei o livro para o meio dos outros e saltei para um táxi, que me conduziu à estação de S. Lázaro.

Deambulei uns vinte minutos pelo passeio da via, depois avistei-os. Anny levava um espesso casaco de peles que lhe dava o ar duma senhora. E um véu. Ele vestia um sobretudo de pêlo de camelo. Era um tipo bronzeado, ainda novo, muito alto, bastante belo. Um estrangeiro, decerto, mas não um inglês; um egípcio, talvez. Subiram ambos para o comboio, sem me verem. Não se falavam. Em seguida, o fulano desceu e foi comprar jornais. Ela baixou o vidro do compartimento; viu-me. Olhou-me demoradamente, sem cólera, com uns olhos inexpressivos. Depois o tipo voltou a subir para a carruagem e o comboio partiu. Nesse momento vi distintamente o restaurante de Picaddilly, onde, antigamente, íamos os dois almoçar; depois tudo ruiu. Andei. Quando me senti cansado, entrei neste café e adormeci. Mesmo agora um criado me acordou, e estou a escrever estas linhas na penumbra do sono.

Regressarei a Bouville amanhã, no comboio do meio-dia. Basta-me lá ficar dois dias: para fazer as malas e pôr as minhas coisas em ordem, no banco. Naturalmente, no Hotel Printania vão pedir que lhes pague quinze dias mais, por não os ter prevenido. Preciso também de ir à Biblioteca restituir os livros que me emprestaram. Em qualquer caso, estarei de volta a Paris antes do fim da semana.

E que ganharei eu com a mudança? Saio duma cidade para outra: esta é fendida por um rio, a outra é bordada pelo mar; à parte isso, são parecidas. Escolhe-se uma terra escalvada, estéril, e empurram-se para lá grandes pedras ocas. Nessas pedras ficam odores prisioneiros, odores mais pesados que o ar. Algumas vezes deitam-nos à rua, pela janela, e eles lá ficam, até os ventos os rasgarem. Com tempo claro, os ruídos entram por uma ponta da cidade e saem pela outra, depois de terem atravessado todas as paredes; outras vezes ficam a andar à roda. entre essas pedras que o sol coze, que o gelo fende.

Tenho medo das cidades. Mas não posso abandoná-las. Se nos aventuramos a ir muito longe, encontramos o círculo da Vegetação. A Vegetação tem rastejado quilómetros e quilómetros em direcção às cidades. Está à espera. Quando a cidade tiver morrido, a Vegetação vai invadi-la, trepar-lhe pelas pedras, encerrá-las, esquadrinhá-la, fazê-las estalar com as suas longas pinças negras; obstruir os buracos, fazer pender, de toda a parte, patas verdes. É de ficar nas cidades, enquanto estão vivas; e nunca penetrar sozinho por aquela grande cabeleira que está às suas portas: deixemo-la ondular e estralejar sem testemunhas. Nas cidades, quem souber fazer as coisas, escolher as horas em que os bichos digerem ou dormem, nas suas tocas, por trás dos amontoados de detritos orgânicos, quase só encontra minerais, os menos pavorosos dos existentes.

Vou voltar a Bouville. A Vegetação cerca Bouville apenas por três lados. Do quarto lado há um grande buraco, cheio duma água preta que mexe sozinha. O vento assobia entre as casas. Os odores conservam-se menos tempo que nos outros sítios: enxotados contra o mar pelo vento, correm rés à água negra com pequenos nevoeiros extravagantes. está a chover. Entre quatro grades deixaram crescer plantas. Plantas castradas, domesticadas, inofensivas de carnudas que são. Têm enormes folhas esbranquiçadas, que pendem como orelhas. Ao contacto, dir-se-iam cartilagens Tudo é gordo e branco em Bouville, por causa de toda aquela água que cai do céu. Vou voltar a Bouville. Que horror!

Acordo em sobressalto. É meia-noite. Há seis horas que Anny saiu de Paris. Já o barco levantou ferro. Ela vai a dormir num beliche, e, na coberta, o belo sujeito bronzeado fuma cigarros.

 

                                         TERÇA-FEIRA, EM BOUVILLE

É isto a liberdade? Por baixo de mim, os jardins descem molemente para a cidade e em cada jardim ergue-se uma casa. Vejo o mar, pesado, imóvel, vejo Bouville. Está um dia bonito.

Sou livre: já não me resta nenhuma razão para viver; todas as que experimentei cederam, e já não posso imaginar outras. Estou ainda bastante novo, tenho ainda forças suficientes para recomeçar. Mas recomeçar o quê? Só agora percebo até que ponto, no auge dos meus terrores, das minhas náuseas, tinha contado com Anny para me salvar. O meu passado morreu, morreu o Sr. de Rollebon; Anny, se voltou, foi só para me tirar toda a esperança. Estou sozinho nesta rua branca, bordada por jardins. Só e livre. Mas esta liberdade parece-se um pouco com a morte.

Hoje chega ao fim a minha vida. Amanhã terei abandonado esta cidade, que se estende a meus pés e onde vivi tanto tempo. Bouville não será então mais do que um nome, atarracado, burguês, bem francês, um nome na minha memória, menos rico que os de Florença ou de Bagdade. Uma época virá em que perguntarei a mim próprio: «Mas afinal, quando estava em Bouville, que diabo fazia eu durante todo o dia?» E deste sol, desta tarde, nada restará, nem sequer uma recordação.

A minha vida está toda atrás de mim. Vejo-a inteira, vejo-lhe a forma e os lentos movimentos que me trouxeram até aqui. Pouco há a dizer dela: é uma partida perdida, eis tudo. Há três anos que entrei em Bouville, solenemente. Tinha perdido o primeiro jogo. Quis jogar o segundo, e perdi também: perdi a partida. Ao mesmo tempo, aprendi que se perde sempre. Só os safados é que julgam ganhar. Agora vou fazer como Anny, vou sobreviver. Comer, dormir. Dormir, comer. Existir lentamente, suavemente, como aquelas árvores, como uma poça de água, como o assento vermelho do eléctrico.

A Náusea concede-me uma trégua curta. Mas sei que voltará: é o meu estado normal. Somente, hoje o meu corpo está cansado de mais para a suportar. Também os doentes têm fraquezas bem-vindas que lhes tiram, algumas horas, a consciência do seu mal. Aborreço-me, é tudo. De vez em quando bocejo com tanta força que as lágrimas me correm pelas faces. É um aborrecimento profundo, profundo, o coração profundo da existência, a própria matéria de que sou feito. Não ando desmazelado, pelo contrário: tomei banho, esta manhã, barbeei-me. Mas quando considero todos esses pequenos actos de zelo não percebo como pude realizá-los: são tão vãos! Foram os hábitos, sem dúvida, que os realizaram por mim. Os hábitos, esses não morreram; continuam a apressar-se, a tecer devagarinho, insidiosamente, as suas tramas, a lavarem-me, a limparem-me, a vestirem-me, como amas. Terão sido eles também que me conduziram ao alto deste outeiro? Já não me lembro como é que vim. Pelas escadinhas Dautry, sem dúvida: subi realmente um a um os seus cento e dez degraus? O que é ainda mais difícil de imaginar é que, daqui a bocadinho, vou descê-los. E, entretanto, eu sei: dentro dum momento estarei de novo no sopé ao Outeiro Verde, poderei, ao levantar a cabeça, ver iluminarem-se ao longe as janelas destas casas que agora estão tão próximas. Ao longe. Por cima da minha cabeça. E este instante, de que não posso sair, que me encerra e me limita por todos os lados, este instante de que sou feito, não será mais que um sonho indistinto.

Olho, a meus pés, para as cintilações cinzentas de Bou-ville. Dir-se-iam, ao sol, montículos de conchinhas de escama, de esquírolas de ossos, de saibro. Perdidos entre estes destroços, minúsculos estilhaços de vidro ou de mica emitem, intermitentemente, luzes fracas. As regueiras, as valas, os sulcos estreitos que correm por entre as conchas, daqui a uma hora serão ruas, e eu caminharei por essas ruas, entre duas paredes. Aqueles homenzinhos negros que enxergo na Rua Boulibet, daqui a uma hora serei um deles.

Como me sinto longe deles, do alto deste outeiro! Parece--me que pertenço a outra espécie. Vão a sair dos escritórios, depois de um dia de trabalho; olham para as casas, para os jardins dos largos, com um ar de satisfação; pensam que estão na «sua» cidade, uma «bela urbe burguesa». Não têm medo, sentem-se em sua casa. Nunca viram senão a água domesticada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas, quando se carrega no interruptor, árvores mestiças, bastardas, amparadas a espeques. Têm a prova, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismo, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem todos à mesma velocidade, o jardim público fecha todos os dias às dezasseis horas no Inverno, às dezoito horas no Verão, o chumbo funde a 335°, o último eléctrico sai às vinte e três horas e cinco do Largo da Câmara Municipal. É gente sossegada, um pouco taciturna; pensa no dia de amanhã, isto é, simplesmente num novo hoje; as cidades só dispõem de um único dia que volta igualzinho todas as manhãs. Aos domingos é que o enfeitam um pouco mais. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou voltar a ver-lhes as caras espessas e aquietadas. Pessoas que legislam, que escrevem romances populistas, que se casam, que cometem a extrema tolice de fazer filhos. Entretanto, a grande natureza penetrou-lhes sub-reptïciamente na cidade, infiltrou-se em toda a parte, na casa deles, nos escritórios, nelas próprias. Não se mexe, deixa-se estar quieta, e as pessoas estão todas metidas nela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade. Eu vejo-a, essa natureza, eu então vejo-a... Sei que a sua submissão é preguiça, sei que ela não tem leis: o que as pessoas tomam pela sua constância... Ela também tem apenas hábitos, e pode mudar de hábitos amanhã.

Se acontecesse alguma coisa? Se bruscamente ela se pusesse a palpitar? As pessoas dariam então porque ela está presente e julgariam que lhes fosse estalar o coração. Para que lhes serviriam então os seus diques e as suas muralhas e as suas centrais eléctricas e os seus altos fornos e os seus martelos-pilões? E isso pode suceder em qualquer altura, talvez já: os presságios estão à vista. Por exemplo, um pai de família em passeio verá avançar para ele, através da rua, um trapo vermelho como levado pelo vento. E, quando o trapo estiver muito perto dele, verá que se trata dum pedaço de carne podre, maculado de poeira, que se desloca a rastejar, a saltitar, um bocado de carne torturada que rebola pêlos ribeiros, projectando aos espasmos jactos de sangue. Os então uma mãe olhará para a face do seu filho e perguntar-lhe-á: «Que é que tens aí? É uma borbulha?», e verá a carne empolar um pouco, esgarçar, entreabrir-se ao longo da abertura, aparecer outro olho, um olho risonho. Ou então as pessoas sentirão por todo o corpo doces contactos, como as carícias que, nas ribeiras, os juncos fazem aos banhistas. E perceberão que os seus vestuários se tornam coisas vivas. Outro sentirá que tem qualquer coisa na boca que lhe faz comichão. E aproximar-se-á dum espelho, abrirá a boca: e a sua língua ter-se-á tornado uma enorme centopeia viva, que remexerá as patas e lhe raspará no céu da boca. Tentará cuspi-la, mas a centopeia será uma parte de si próprio e terá de arrancá-la com as mãos. E aparecerão imensas coisas, para as quais será preciso encontrar novos nomes, o olho de pedra, o grande braço tricorne, o dedo-de-pé muleta, a aranha-maxila. E quem tiver adormecido na sua boa cama, no seu doce quarto quente, acordará todo nu estendido num chão azulado, numa floresta de membros rumorosos, apontados, vermelhos e brancos, para o céu, como as chaminés de Jouxtebouville, com volumosos companhões meio saídos da terra, peludos e bulbosos, como cebolas. E à roda desses membros esvoaçarão pássaros, que os picarão com os bicos e os farão sangrar. Lenta, suavemente, correrá esperma desses ferimentos, esperma misturado com sangue, vítreo e morno, com pequenas bolhas. Ou então não acontecerá nada disso, não se produzirá nenhuma mudança apreciável, mas as pessoas, certa manhã, ao abrirem as suas persianas, ficarão espantadas com uma espécie de sentido terrível, pesadamente pousado nas coisas, e que terá um ar de quem está à espera. Apenas isso: mas, por muito pouco tempo que isso dure, haverá suicídios às centenas. Pois muito bem! Que isto mude um pouco, só para ver; não peço outra coisa. Quantos se verão, então, mergulhados bruscamente na solidão! Homens sós, absolutamente sós, com horríveis monstruosidades, correrão pelas ruas, passarão pesadamente diante de mim, de olhos fixos, fugindo aos seus males e levando-os consigo, de boca aberta, com a sua língua-insecto a bater as asas. Então é que eu rebentarei a rir, mesmo se o meu corpo estiver coberto de nojentas crostas suspeitas que se abram, como flores de carne, em violetas, em ranúnculos. Encostar-me-ei a uma parede e, ao vê-los passar, gritar--lhes-ei: «Que é feito da vossa ciência? Que é feito do vosso humanismo? Onde está a vossa dignidade de cana pensante?» Não terei medo - ou, pelo menos, não terei mais medo do que neste momento. Não será tudo isso existência, sempre existência, variações sobre a existência? Todos esses olhos que comerão lentamente um rosto serão de mais, sem dúvida, mas não mais que os dois primeiros. É da existência que tenho medo.

Cai a tarde, acendem-se, na cidade, as primeiras luzes. Santo Deus! Como a cidade parece natural, apesar de todas as suas geometrias, como parece prostrada pela tardinha! É tão... tão evidente, daqui! Serei acaso o único a percebê-lo? Não haverá em mais parte nenhuma outra Cassandra, no cume dum outeiro, olhando para uma cidade a seus pés, sumida ao fundo da natureza? De resto, que me importa? Que poderia eu dizer-lhe?

O meu corpo, muito brandamente, vira-se para leste, oscila um pouco, e põe-se a caminho.

 

                                         QUARTA-FEIRA

                                           (o meu último dia em Bouville)

Corri a cidade inteira para encontrar o Autodidacta. Com certeza que não foi para casa. Deve andar por aí ao acaso, confundido de vergonha e de horror, pobre humanista que os homens já não aceitam. A bem dizer, não fiquei muito surpreendido quando a coisa aconteceu: já sentia há muito tempo que a sua cara doce e medrosa chamava o escândalo a si. Eram tão leves as suas culpas! Mal se pode chamar sensualidade ao seu humilde amor contemplativo pêlos rapazinhos - é antes uma forma de humanismo. Mas, um dia, ele tinha de se encontrar sozinho. Como o Sr. Achille, como eu: o Autodidacta é da minha raça, tem boa vontade. Agora entrou na solidão - e para sempre. Desabou tudo duma vez: os seus sonhos de cultura, os seus sonhos de boa harmonia com os homens. Primeiro virão o medo, o horror e as noites sem sono, e mais tarde, depois disso, a longa sequência dos dias de exílio. À tarde virá ele vaguear para o Pátio das Hipotecas; olhará de longe para as janelas cintilantes da Biblioteca e faltar-lhe-á o ânimo, quando se lembrar das longas filas de livros, das encadernações a carneira, do cheiro das páginas. Tenho pena de não o ter acompanhado, mas ele não quis; foi ele que me suplicou que o deixasse sozinho: estava a começar a sua aprendizagem de olidão. Escrevo isto no Café Mably. Entrei aqui cerimoniosamente; queria contemplar o gerente, a empregada da caixa, e sentir com força que era a última vez que os via. Mas não posso desviar o pensamento do Autodidacta: tenho continuamente diante dos olhos a sua cara descomposta, cheia de censura, e o seu comprido pescoço ensanguentado. Por isso pedi que me trouxessem papel, e vou contar o que lhe sucedeu.

Cheguei à Biblioteca pelas duas horas da tarde. Vinha a pensar: «A Biblioteca. É a última vez que entro aqui.

A sala estava quase deserta. Custava-me reconhecê-la, porque sabia que nunca lá voltaria. Parecia-me leve como um vapor, quase irreal, toda ruiva; o sol poente matizava de ruivo a mesa reservada às leitoras, a porta, a lombada dos livros. Tive, um segundo, a impressão deliciosa de penetrar sob as copas entrançadas dum bosque cheio de folhas douradas: sorri. Pensei: «Há tanto tempo que não sorria!» O corso olhava pela janela, de mãos atrás das costas. Que estaria ele a ver? A cabeça de Impétraz? «Eu é que não verei mais a cabeça de Impétraz, nem o seu chapéu alto, nem a sua sobrecasaca. Daqui a seis horas já não estarei em Bouville.» Depus na secretária do subdirector da Biblioteca os dois volumes que requisitara no mês passado. Ele rasgou uma ficha verde e entregou-me os pedaços:

«Pronto, Sr. Roquentin.»

«Obrigado.»

Pensei: «Agora já não lhes devo nada. Já não devo nada a ninguém daqui. Daqui a bocadinho irei dizer adeus à patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Sou livre.» Hesitei alguns instantes: ia empregar aqueles últimos momentos em dar um longo passeio por Bouville, em ver mais uma vez o Boulevard Vítor Hugo, a Avenida Galvani, a Rua Tourne-bride? Mas aquele troço de bosque era tão calmo, tão puro: parecia-me que quase não existia e que a Náusea o tinha poupado. Fui sentar-me ao pé do fogão. Em cima da mesa estava abandonado o Diário de Bouville. Estendi a mão, agarrei nele.

«Salvo pelo seu cão.

«Quando, ontem à noite, o Sr. Dubosc, proprietário eni Remiredon, voltava a casa em bicicleta, de regresso da feira de Naugis...»

Uma senhora forte veio sentar-se à minha direita. Arrumou ao lado dela o seu chapéu de feltro. Tinha o nariz plantado na cara como uma faca numa maçã. Abaixo do nariz, um buraquinho obsceno franzia-se desdenhosamente. Vi-a tirar do seu saco um livro encadernado, fincar os cotovelos na mesa, amparando a cara nas mãos gordas. Na minha frente dormia um velhote. Eu conhecia-o: estava na Biblioteca na tarde em que eu tivera tanto medo. Ele tivera medo também, como eu. Pensei: «Como tudo isso já vai longe!»

Às quatro e meia, o Autodidacta entrou. Tinha vontade de lhe apertar a mão e de lhe dizer adeus. Mas é de crer que o nosso último encontro lhe deixara uma recordação desagradável: ele fez-me um cumprimento distante e foi depositar bastante longe de mim um embrulhinho branco que devia conter, como de costume, uma fatia de pão e uma tablette de chocolate. Um momento depois voltou com um livro ilustrado, que pousou ao pé do embrulho. Pensei: «É a última vez que o vejo.» Amanhã à tarde, depois de amanhã à tarde, ele tornaria a vir ler para esta mesa, comendo pão e chocolate, prosseguiria com paciência o seu tasquinhar de ratazana, leria obras de Nabaud. Naudeau, Nodier, Nys, interrompendo-se de vez em quando para copiar uma máxima para o seu canhenho. E eu andaria em Paris, pelas ruas de Paris; veria caras novas. Que viria a suceder--me, enquanto ele estivesse aqui e o candeeiro lhe iluminasse o gordo rosto circunspecto? Senti, no último momento, que ia outra vez ser vítima da miragem da aventura. Encolhi os ombros e continuei a leitura.

«Bouville e seu termo.

«Monistiers:

«Actividade da brigada de gendarmaria durante o ano de 1932. O sargento de cavalaria chefe Gaspard, comandando a brigada de Monistiers, e os seus quatro gendarmes, Srs. Lagoutte, Nizan, Pierpont e Ghil, não tiveram mãos a medir durante o ano de 1932. Com efeito, os nossos gendarmes tiveram de constatar 7 crimes, 82 delitos, 159 contravenções, 6 suicídios e 15 desastres de automóvel, 3 dos quais mortais.»

«Jouxtebouville :

«Grupo Amigável dos Trombeteiros de Jouxtebouville.

«Hoje, ensaio geral, entrega dos convites para o concerto anual.»

«Composlel:

«Entrega da Legião de Honra ao maire.»

«O turista bouvillois (Fundação do Escuteiio Bou-villois 1924):

«Hoje à noite, às 20.45, reunião mensal na sede, Rua Ferdinand-Byron, sala A. Ordem do dia: leitura da última acta. Correspondência, banquete anual, quotização de 1932, programa das excursões para o mês de Março; questões diversas; adesões.»

«Protecção aos animais (Sociedade Bouvilloise):

«Na próxima quinta-feira, das 15 h às 17 h, na sala C, Rua Ferdinand-Byron, 10. em Bouville, serviço público permanente. Dirigir a correspondência ao presidente para a sede ou para a Avenida Galvani, 154.»

«Clube Bouvillois do Cão de Guarda... Associação Bouvilloise dos Doentes de Guerra... Câmara Sindical dos Patrões de Táxis... Comissão Bouvilloise dos amigos das Escolas Normais...»

Entraram agora dois rapazinhos, de pasta. Alunos do liceu. O corso gosta muito dos alunos do liceu, porque pode exercer sobre eles uma vigilância paternal. Deixa-os muitas vezes, por gosto, agitar-se nas cadeiras e tagarelar; depois, subitamente, vai, na ponta dos pés, colocar-se por trás deles, e ralha: «Isto são maneiras de rapazes crescidos? Se vocês não mudam de conduta, o Sr. Director está resolvido a fazer queixa ao Sr. Reitor.» E, se eles protestam, fita-os com uns olhos terríveis: «Digam-me os vossos nomes.» É ele que lhes dirige as leituras: na Biblioteca, certos volumes estão marcados com uma cruz vermelha; é o Inferno: obras de Gide, de Diderot, de Baudelaire, tratados de medicina. Quando um aluno pede para consultar um desses livros, o corso faz um sinal, chama-o para um canto e interroga-o. Um momento depois explode, e a sua voz enche a sala de leitura: «Afinal, há livros mais interessantes, quando se tem a sua idade. Livros instrutivos. E antes de mais nada: já preparou as suas lições? Em que ano anda? No sexto ano? E depois das quatro horas não tem nada que fazer? O seu professor vem aqui muitas vezes, eu lhe falarei de si.»

Os dois rapazes estavam especados ao pé do fogão. O mais novo tinha uns belos cabelos escuros, a pele quase fina de mais e uma boca muito pequena, má e arrogante. O companheiro, robusto e espadaúdo, com uma sombra de bigode, tocou-lhe no cotovelo e murmurou algumas palavras. O moreno não respondeu, mas teve um sorriso imperceptível, cheio de soberba e de suficiência. Depois foram ambos, despreocupadamente, escolher um dicionário a uma prateleira e aproximaram-se do Autodidacta, que fitava neles um olhar cansado. Os rapazes fingiam ignorar-lhe a existência, mas sentaram-se mesmo ao pé dele, o moreno à sua esquerda e o mais forte à esquerda do moreno. Começaram logo a folhear o dicionário. O Autodidacta deixou errar os olhos através da sala, depois voltou à sua leitura. Nunca uma sala de biblioteca ofereceu espectáculo mais tranquilizador: não me chegava um ruído, salvo a respiração curta da senhora forte; só via cabeças inclinadas sobre os seus in-octavo. Todavia, a partir desse momento, tive a impressão de que um acontecimento desagradável ia produzir-se. Todas aquelas pessoas, que baixavam os olhos com um ar de aplicação, pareciam estar a representar: eu sentira, alguns instantes antes, passar sobre nós como um sopro de crueldade.

Tinha acabado a minha leitura, mas não me decidia a ir-me embora: estava à espera, fingindo ler o meu jornal. O que aumentava a minha curiosidade e o meu embaraço era que os outros estavam à espera também. Parecia-me que a minha vizinha voltava mais rapidamente as páginas do seu livro. Passaram alguns minutos, depois ouvi um cochichar. Levantei a cabeça com prudência. Os dois garotos tinham fechado o dicionário. O mais novo não falava, tinha a cara virada para a direita, exprimindo deferência e interesse. Meio escondido por trás do ombro dele, o louro aguçava a orelha e ria-se em silêncio. «Mas quem é que está a falar?», pensei eu.

Era o Autodidacta. Estava inclinado para o rapaz que tinha à sua esquerda, de olhos nos olhos dele, sorrindo-lhe; eu via-o mexer os lábios, e de vez em quando, as suas longas pestanas palpitavam. Não lhe conhecia aquele ar de juventude; achava-o quase encantador. Mas, por instantes, interrompia-se e deitava para trás dele uma olhadela inquieta. O rapazinho parecia beber-lhe as palavras. Esta pequena cena não tinha nada de extraordinário, e ia voltar à minha leitura quando vi o garoto esgueirar lentamente a sua mão por trás das costas e pela beira da mesa. Assim escondida aos olhos do Autodidacta, a mão caminhou um instante e pôs-se a tactear à volta dela; depois, tendo encontrado o braço do rapagão louro, beliscou-o com força O outro, muito absorvido em gozar silenciosamente as palavras do Autodidacta, não a tinha visto aproximar-se. Deu um salto para o ar e abriu-se-lhe desmedidamente a boca, sob o efeito da surpresa e da admiração. O garoto moreno tinha conservado a sua expressão de interesse respeitoso. Podia ter-se duvidado de que aquela mão marota lhe pertencesse. «Que é que eles lhe irão fazer?», pensei. Percebia claramente que algo de ignóbil se ia produzir, via" claramente também que estava ainda a tempo de evitar que se produzisse. Mas não conseguia adivinhar o que é que era preciso evitar. A dado instante, tive a ideia de me levantar, de ir bater nas costas do Autodidacta e de travar conversa com ele. Mas, nesse momento preciso, ele surprendeu o meu olhar. Parou abruptamente de falar e franziu os'lábios com um ar de irritação. Desanimado, desviei rapidamente os olhos e peguei outra vez no jornal, para disfarçar. Entretanto, a senhora forte tinha afastado o seu livro e levantado a cabeça. Parecia fascinada. Senti perfeitamente que a senhora ia rebentar; todos queriam que algo rebentasse. Que havia eu de fazer? Deitei uma olhadela ao corso: o homenzinho deixara de olhar pela janela, estava meio voltado para nós.

Passou-se um quarto de hora. O Autodidacta recomeçara o seu cochichar. Já não ousava olhar para ele, mas imaginava muito bem a sua expressão jovem e terna e os olhares pesados que o cobriam sem ele saber. A dado momento ouvi-lhe o riso, um risinho aflautado e gaiato. Apertou-se-me o coração: tinha a impressão de que uns imundos rapazolas iam afogar um gato. Depois, subitamente, o cochichar cessou. Esse silêncio pareceu-me trágico: era o fim. a entrada a matar. Eu baixava a cabeça para o meu jornal e fingia ler, mas não lia: alterava as sobrancelhas e levantava os olhos o mais para cima que podia, para tentar surpreender o que se estava a passar naquele silêncio em frente de mim. Virando ligeiramente a cabeça, consegui distinguir qualquer coisa com o rabinho do olho: era uma mão, a pequena mão branca que, havia um momento, deslizara pela mesa fora. Agora descansava de costas, descontraída, doce e sensual; tinha a indolente nudez duma banhista nua a aquecer-se ao sol. Um objecto escuro e peludo aproximou-se dela, hesitante. Era um grande dedo amarelecido pelo tabaco e que tinha, ao pé daquela mão, toda a desgraciosidade dum sexo macho. O dedo parou um momento, rígido, apontado para a frágil palma; depois, num repente, pôs-se a afagá-la. Eu não estava admirado, estava sobretudo furioso com o Autodidacta: não poderia ele conter-se, o grande imbecil? Não percebia o perigo que corria? Restava-lhe uma frágil possibilidade de salvação, uma só: se assentasse ambas as mãos na mesa, uma de cada lado do livro, se se deixasse estar absolutamente calado, talvez escapasse daquela vez ao seu destino. Mas eu sabia que ele ia perder a sua oportunidade: o dedo passava meigamente, humildemente, pela carne inerte; mal lhe tocava, sem ousar tornar-se pesado: dir-se-ia que tinha consciência da sua fealdade. Ergui bruscamente a cabeça, não podia suportar mais aquele pequeno vaivém teimoso: procurava os olhos do Autodidacta e tossi com força, para o avisar. Mas ele cerrara as pálpebras, sorria. A outra mão dele tinha desaparecido por baixo da mesa. Os dois rapazes já não riam, tinham-se feito muito pálidos. O mais novo franzia os lábios, tinha medo, dir-se-ia que se sentia ultrapassado pêlos acontecimentos. Todavia, não retirava a mão, deixava-a estar em cima da mesa, imóvel, um tudo nada crispada. O companheiro abrira a boca num ar de estupefacção e de horror.

Foi então que o corso se pôs a berrar. Tinha vindo, sem que o ouvissem, postar-se atrás da cadeira do Autodidacta. Estava carmesim e tinha uma expressão de riso, mas os seus olhos faiscavam. Dei um salto na minha cadeira, mas senti--me quase aliviado: a espera fora demasiado penosa. Queria que aquilo acabasse o mais depressa possível, que o pusessem na rua, se quisessem, mas que acabassem com aquilo. Os dois rapazes, brancos como a cal, agarraram nas pastas, num abrir e fechar de olhos, e desapareceram.

«Bem o vi», gritava o corso, ébrio de cólera, «bem o vi; desta vez não irá vossemecè dizer que não é verdade. Ou vai? Atrever-se a dizer, desta feita, que não é verdade? Julga que eu não estava a toscar o seu manejo? Não tenho cataratas nos olhos, meu amigo. 'Paciência!' dizia eu cá para comigo; 'paciência! Mas quando o apanhar, há-de sair-lhe caro. Ah!, sim, há-de sair-lhe caro. Sei muito bem o seu nome, sei a sua morada, informei-me, está a perceber? E conheço o seu patrão, o Sr. Chuillier. Ele é que vai ficar admirado, amanhã de manhã, quando receber uma carta do nosso director. Hem? Esteja calado», disse-lhe ele rebolando os olhos. «Primeiro, não vá imaginar que isto fica assim. Em França há tribunais para os indivíduos da sua espécie. Sua Excelência andava a instruir-se! Sua Excelência andava a completar a sua cultura! Sua Excelência importunava-me constantemente a pedir informações ou a requisitar livros. Nunca vossemecè me enganou, está a ouvir?»

O Autodidacta não parecia surpreendido. Havia anos, certamente, que esperava aquele desenlace. Devia ter imaginado mais de cem vezes o que se passaria no dia em que o corso viesse, pé ante pé, pôr-se atrás dele, e, de repente, retumbasse aos seus ouvidos, uma voz furiosa. E entretanto voltava todas as tardes, prosseguia febrilmente as suas leituras e, além disso, quando calhava, como um ladrão, afagava a mão branca ou talvez a perna dum rapazinho. Era resignação, antes, o que eu lhe lia na cara.

«Não sei o que o senhor quer dizer», balbuciou. «Há anos que venho aqui...»

Simulava a indignação, a surpresa, mas sem convicção. Bem sabia que o acontecimento estava ali e que já nada poderia detê-lo, que era preciso viver-lhe os minutos um a um.

«Não lhe dêem ouvidos; eu também vi», disse a minha vizinha. Tinha-me levantado a custo: «E já não é a primeira vez; na segunda-feira passada, olhem que não foi há muito tempo, vi-o fazer o mesmo manejo, e não quis dizer nada, porque não acreditava nos meus olhos, e não julgaria que, numa biblioteca, um lugar sério, onde as pessoas vêm para se instruir, se passassem coisas de fazer corar. Eu não tenho filhos, mas lamento as mães que mandam os delas trabalhar para aqui e os julgam muito sossegados, ao abrigo, enquanto há monstros que não respeitam nada e os impedem de fazer os seus trabalhos.»

O corso aproximou-se do Autodidacta:

«Vossemecê está a ouvir o que diz esta senhora?», gritou-lhe ele na cara. «É escusado estar com comédias. A gente bem viu, suja criatura!»

«O senhor faça o favor de ser mais delicado», disse o Autodidacta com dignidade. Era o seu papel. Talvez tivesse querido confessar, fugir, mas era preciso representar o seu papel até ao fim. Não olhava para o corso, tinha os olhos quase fechados. Tinha os braços caídos; estava horrivelmente pálido. E então, de súbito, uma onda de sangue subiu-lhe à cara.

O corso sufocava de furor.

«Delicado? Seu porco! Julga talvez que a gente não o viu?... Eu andava à coca, estou-lhe a dizer. Há meses que andava à coca.»

O Autodidacta encolheu os ombros e fingiu mergulhar de novo na leitura. Escarlate, com os othos cheios de lágrimas, tomara um ar de extremo interesse e olhava com atenção para a reprodução dum mosaico bizantino.

«E continua a ler! Descaramento não lhe falta», disse a senhora, olhando para o corso.

Este estava indeciso. Ao mesmo tempo, o subdirector, homem novo, tímido e duma correcção burguesa, a quem o corso infunde pavor, tinha-se levantado lentamente por trás da sua secretária e gritava: «Paoli, que é que foi?» Houve um segundo de hesitação, e ainda esperei que o caso não fosse mais longe. Mas o corso deve ter considerado rapidamente a sua conduta e ter-se sentido ridículo. Enervado, sem saber o que havia de dizer mais à sua vítima muda, endireitou-se todo e atirou um grande murro para o ar. O Autodidacta virou-se, espavorido. Fitava o corso, de boca aberta; havia nos seus olhos um medo horrível.

«Se o senhor me toca, faço queixa», disse ele a custo. «Vou-me embora, sim, mas por minha própria vontade.»

Também eu, por minha vez, me tinha levantado, mas era tarde de mais: o corso emitiu um gemidozinho voluptuoso e, num repente, atirou o punho ao nariz do Autodidacta. Por um momento não vi senão os olhos deste, os seus magníficos olhos arregalados de dor e de vergonha, acima duma manga e dum punho escuro. Quando o corso retirou o punho, o nariz do Autodidacta começava a espirrar sangue. O pobre homem quis tapar a cara com as mãos, mas o corso deu-lhe outro murro ao canto dos lábios. O Autodidacta deixou-se cair na cadeira e olhou para a frente com uns olhos tímidos e meigos. O sangue escorria-lhe do nariz sobre o fato. A sua mão direita pôs-se a tactear, para encontrar o embrulho, enquanto a esquerda, teimosamente, tentava enxugar as narinas inundadas.

«Vou-me embora», disse ele como para consigo.

A mulher do meu lado estava pálida, e brilhavam-lhe os olhos.

«Abjecto indivíduo», disse ela. «É bem feito.»

Eu tremia de cólera. Dei a volta à mesa, agarrei no corso pela garganta e levantei-o ao ar, a espernear: tinha vontade de o esborrachar sobre a mesa. Ele fizera-se azul e debatia-se, tentava arranhar-me; mas os braços dele, curtos, não atingiam a minha cara. Eu não dizia palavra, mas queria dar-lhe nas ventas e desfigurá-lo. Ele percebeu, ergueu o cotovelo para proteger a face: sentia-me contente por ver que ele tinha medo. De repente pôs-se a gaguejar:

«Largue-me lá, seu bruto! Querem ver que você também é maricas?»

Ainda não sei bem porque é que o larguei. Terei tido medo das complicações? Terei enferrujado depois destes anos de ócio em Bouville? Se fosse dantes, não o tinha deixado sem lhe quebrar os dentes. Virei-me para o Autodidacta, que se tinha, enfim, levantado. Mas ele evitava o meu olhar; ia, cabisbaixo, tirar o sobretudo do cabide. Passava constantemente a mão esquerda pelo nariz, como para estancar o sangue. Mas o sangue continuava a esguichar, e eu tinha medo de que o caso fosse sério. Ainda resmungou, sem olhar para ninguém:

«Há tantos anos que venho aqui...»

Mas, mal se sentira livre, o homenzinho voltara a ser senhor da situação.

«Desampare-me a loja», disse ele ao Autodidacta, «e não volte a pôr os pés aqui, senão então chamo a polícia para o pôr na rua.»

Alcancei o Autodidacta ao fim da escada. Sentia-me constrangido, envergonhado com a vergonha dele, não sabia que lhe dizer. Ele não mostrou dar pela minha presença. Tinha finalmente tirado um lenço da algibeira e cuspinhava qualquer coisa. O nariz dele sangrava um pouco menos.

«Venha comigo à farmácia», disse-lhe eu desajeitadamente.

Ele não respondeu. Chegava-nos, da sala de leitura, um forte rumor. Toda aquela gente devia lá estar a falar ao mesmo tempo. A mulher soltou uma gargalhada aguda.

«Nunca mais posso voltar aqui», disse o Autodidacta. Virou-se e olhou, com um ar perplexo, para a escada, para a entrada da sala de leitura. Este movimento fez-lhe escorrer sangue entre o colarinho postiço e o pescoço. Tinha a boca e as bochechas borradas de sangue.

«Ande», disse-lhe eu, agarrando-lhe num braço.

Ele estremeceu e libertou-se com violência.

«Deixe-me!»

«Mas o senhor não pode ficar sozinho. Precisa que lhe lavem a cara, que tratem de si.»

Ele repetia:

«Deixe-me, Sr. Roquentin, deixe-me, por favor.»

Estava à beira da crise de nervos: deixei-o afastar-se. O sol poente iluminou-lhe um momento as costas arqueadas, depois o Autodidacta desapareceu. No limiar da porta havia uma nódoa de sangue, em forma de estrela.

Uma hora mais tarde.

Está cinzento, põe-se o Sol; daqui a duas horas parte o comboio. Atravessei pela primeira vez o jardim público e ando a passear pela Rua Boulibet. Sei que é a Rua Bou-libet, mas não a reconheço. Geralmente, quando metia por ela, parecia-me que atravessava uma profunda espessura de bom senso: pesadona e possante, a Rua Boulibet assemelhava-se, com a sua seriedade tão desgraciosa, o seu pavimento arqueado e alcatroado, às estradas nacionais, quando estas atravessam povoados ricos e as flanqueiam, por mais de um quilómetro, grandes casas de dois andares; chamava-lhe eu uma rua de camponeses, e ela encantava-me, por estar tão deslocada, por ser tão paradoxal num porto comercial. Hoje, as casas estão no mesmo sítio, mas perderam o seu aspecto rural: são prédios e mais nada. No jardim público tive, ainda agora, uma impressão do mesmo género: as plantas, os relvados, a fonte de Olivier Masqueret, tinham um ar de teimosia, de tão inexpressivas que eram. Percebo: é a cidade que primeiro me abandona. Ainda não saí de Bouville e já lá não estou. Bouville cala-se. Acho estranho ter de ficar mais duas horas nesta cidade, que, sem se preocupar mais comigo, arruma os seus trastes e os protege com coberturas, para poder descobri-los em toda a sua frescura, esta noite, amanhã, diante dos recém-chegados. Sinto-me mais esquecido que nunca.

Dou alguns passos e paro. Saboreio este esquecimento total em que caí. Estou entre duas cidades: uma ignora-me, outra já não me conhece. Quem se lembra de mim? Talvez uma mulher nova e já pesada, em Londres... E, mesmo essa, será realmente em mim que pensa? Para mais, há esse fulano, o tal egípcio. Talvez tenha entrado mesmo agora no quarto dela, talvez a tenha tomado nos seus braços. Não tenho ciúmes; sei bem que ela anda a sobreviver a si própria. Mesmo que o amasse de todo o coração, nem por isso lhe daria mais que um amor de morta. Fui eu que tive o seu último amor vivo. Mas sempre há uma coisa que o egípcio lhe pode dar: o prazer. E se ela está agora a desfalecer e a naufragar na turvação, nada mais há nela que a prenda em mim. Ela goza, e, para ela, eu existo tanto como se nunca a tivesse encontrado; Anny esvaziou-se de mim duma vez, e todas as outras consciências do mundo estão também vazias de mim. Parece-me isto esquisito. Todavia, sei muito bem que existo, que eu estou aqui.

Quando agora digo «eu», parece-me essa palavra oca. Já não chego lá muito bem a sentir-me, a tal ponto me esqueceram. Tudo quanto resta de real em mim é existência que se sente existir. Bocejo devagar, demoradamente. Ninguém. Antoine Roquentin não existe para ninguém. "É engraçado. E que vem a ser isso, essa coisa chamada Antoine Roquentin? É algo de abstracto. Uma pálida recordaçãozinha de mim vacila na minha consciência. Antoine Roquentin... E, de súbito, o Eu enfraquece, enfraquece e, zás!, apaga-se.

Lúcida, imóvel, deserta, a consciência encontra-se entre as paredes; perpetua-se. Já ninguém a habita. Há bocadinho ainda alguém dizia eu, dizia a minha consciência. Quem? Por fora havia ruas falantes, com cores e cheiros conhecidos. Restam paredes anónimas, uma consciência anónima. Eis o o que é: paredes e, entre as paredes, uma transparênciazinha viva e impessoal. A consciência existe como uma árvore, como um pedacinho de erva. Tem sono, aborrece-se. Pequenas existências fugitivas povoam-na como aves nos ramos. Povoam-na e desaparecem. Consciência esquecida, abandonada entre estas paredes, sob o céu cinzento. E eis o sentido da sua existência: é que essa consciência é consciência de ser de mais. Dilui-se, dispersa-se, procura perder-se na parede escura, ao largo daquele candeeiro, ou além, nos fumos da tarde. Mas nunca se esquece de si mesma; é consciência de ser uma consciência a esquecer-se de si. O seu destino é esse. Há uma voz abafada que diz: «O comboio parte daqui a duas horas», e há a consciência dessa voz. Há também consciência duma cara. Cara que passa lentamente, cheia de sangue, toda suja, e os seus olhos lagrimejam. Não está entre as paredes, não está em parte nenhuma. Desaparece; substitui-a um corpo arqueado com uma cabeça ensanguentada, que se afasta a passos lentos, parece deter-se a cada passo e não pára nunca. Há consciência desse corpo que caminha lentamente por uma rua escura. Caminha, mas não se afasta. A rua escura não acaba, perde-se no nada. Não está em parte nenhuma. E há consciência duma voz abafada que diz: «O Autodidacta erra pela cidade.»

Não na mesma cidade, não entre estas paredes sem expressão. O Autodidacta caminha numa cidade feroz que não se esquece dele. Há pessoas que pensam nele, o corso, a senhora forte; talvez toda a gente, na cidade. Ele ainda não perdeu, não pode perder o seu Eu, esse Eu supliciado, escorrendo sangue, de que os outros não quiseram dar cabo. Os seus lábios, as suas narinas, fazem-lhe doer; pensa: «Estou a sofrer.» Caminha, precisa de caminhar. Se parasse um só instante, as altas paredes da Biblioteca erguer-se-iam bruscamente à roda dele, encerrá-lo-iam; o corso surgiria a seu lado, e a cena recomeçaria, exactamente a mesma, com todos os pormenores, e a mulher cachinaria: «Indivíduos desta laia mereciam era trabalhos forçados.» Caminha, não quer (voltar para casa: o corso está à espera no quarto dele, com mulher forte e os dois rapazes: «Não vale a pena negar, Ique eu bem vi.» E a cena recomeçaria. O Autodidacta pensa: «Meu Deus, se eu não tivesse feito aquilo, se eu pudesse não ter feito aquilo, se tudo pudesse não ser verdade!»

O rosto inquieto passa e torna a passar diante da consciência: «Quem sabe se vai matar-se.» Mas não: aquela alma meiga e acossada não pode pensar na morte.

Há conhecimento da consciência. Ela vê-se duma ponta à outra, pacífica e vazia entre as paredes, libertada do homem que a habitava, monstruosa, porque não é ninguém. A voz diz: «As malas estão despachadas. O comboio parte daqui a duas horas.» As paredes deslizam à esquerda e à direita. Há consciência do macadame, consciência da loja de ferragens, das seteiras do quartel, e a voz diz: «Pela última vez.» Consciência de Anny, da gorda Anny, da velha amiga Anny no seu quarto de hotel; há consciência do sofrimento. O sofrimento está consciente entre as compridas paredes que se vão embora e não voltarão mais: «Então isto nunca mais acaba?» A voz canta entre as paredes uma música de jazz, «Some of these days»; nunca mais acaba?, e a música, devagarinho, pelas costas, insidiosamente, volta a apoderar-se da voz, e a voz canta sem poder parar, e o corpo anda, e há consciência de tudo isto, e consciência, meu Deus!, da consciência. Mas ninguém lá está para sofrer e contorcer as mãos e ter piedade de si mesmo. Ninguém; é um puro sofrimento das ruas, um sofrimento esquecido - que não pode esquecer-se a si mesmo. E a voz diz: «Eis o Rendez-vous dos Ferroviários», e o Eu irrompe na consciência: sou eu, Antoine Roquentin, parto para Paris daqui a bocadinho; venho dizer adeus à patroa.

«Venho despedir-me.»

«O Sr. Antoine vai-se embora?»

«Vou instalar-me em Paris, para variar.»

«Que sorte!»

Como pude eu premir os lábios sobre aquele rosto largo? O corpo dela deixou de me pertencer. Ainda ontem eu o teria adivinhado através do vestido preto de lã. Hoje, o vestido tornou-se impenetrável. Aquele corpo branco, com as veias à flor da pele, teria sido um sonho?

«Vamos ter saudades de si», disse a patroa. «Não quer tomar nada? Sou eu que ofereço.»

Sentamo-nos, fazemos uma saúde. Ela baixa um pouco a voz.

«Estava muito habituada a si», diz ela com uma pena delicada; «entendíamo-nos bem.»

«Eu virei fazer-lhe uma visita, de vez em quando.»

«Venha, sim, Sr. Antoine. Quando passar por Bouville, venha estar connosco um bocadinho. Diga lá com os seus botões: “Vou cumprimentar a Sr.a Jeanne, ela há-de ficar contente.” É verdade, a gente gosta sempre de saber o que é feito das pessoas. De resto, aqui, os fregueses voltam sempre. Olhe, marinheiros, por exemplo... Empregados na Companhia Transatlântica... Às vezes estou dois anos sem os ver. Duma vez, porque estão no Brasil, outra vez em Nova Iorque, ou então quando vão para Bordéus trabalhar nalgum barco de carga. E depois, um belo dia, aparecem-me aqui. “Como passou a Sr.a Jeanne?” Bebemos um copo juntos. Acredite, se quiser: não me esqueço do que costumavam tomar. A dois anos de distância! Digo à Madeleine: “Sirva um vermute seco ao Sr. Pierre, um Cinzano Noilly ao Sr. Léon.” Dizem-me eles: “Como é que se lembra disso, patroa?” 'É a minha profissão”, digo-lhes eu.»

Ao fundo da sala há um homenzarrão que dorme com ela há pouco tempo. Chama por ela:

«Ó patroazinha!»

Ela levanta-se:

«O Sr. Antoine desculpe.»

A criada aproxima-se de mim:

«Então, assim nos vai deixar?»

«Vou para Paris.»

«Já morei em Paris», diz ela com orgulho. «Dois anos. Trabalhava na Casa Siméon. Mas tinha saudades daqui.»

Hesita um segundo, depois compreende que não tem mais nada a dizer-me:

«Bem, então adeus, Sr. Antoine.»

Limpa a mão ao avental e estende-ma.

«Adeus, Madeleine.»

Vai-se embora. Puxo para mim o Diário de Bouville e depois afasto-o: há bocadinho, na Biblioteca, li-o da primeira à última linha.

A patroa não volta: abandona ao amigo as suas mãos rechonchudas, e ele amassa-as com paixão.

O comboio parte daqui a três quartos de hora.

Faço contas, para me distrair.

Mil e duzentos francos por mês não é ucharia nenhuma. Todavia, se me restringir um pouco, deve chegar. Hotel, trezentos francos; quinze francos por dia para a alimentação: restam quatrocentos francos para a lavadeira, as despesas pequenas e o cinema. Quanto a roupas, estou servido por muito tempo. Os meus dois fatos estão bons, embora tenham certo lustro nos cotovelos: ainda me fazem três ou quatro anos, se os tratar com cuidado.

Santo Deus! Sou eu que vou levar essa existência de cogumelo? Que hei-de fazer dos meus dias? Irei passear. Irei sentar-me nas Tulherias numa cadeira de ferro - ou num banco antes, por economia. Irei ler para as bibliotecas. E mais? Uma vez por semana, cinema. E mais? Dar-me-ei ao luxo, aos domingos, de fumar um charuto? E mais? Irei jogar ao croquet com os reformados do Luxemburgo? Aos trinta anos! Tenho piedade de mim. Há momentos em que pergunto a mim mesmo se não faria melhor em gastar num ano os trezentos mil francos que me restam - e depois... Mas que é que isso me daria? Fatos novos? Mulheres? Viagens? Tudo isso eu tive, e agora acabou-se, já nada me causa inveja: pelo que ficaria disso tudo!... Daí a um ano encontrar-me-ia novamente tão vazio como hoje, sem uma recordação sequer, e cobarde diante da morte.

Trinta anos! E catorze mil e quatrocentos francos de rendimento. Cupões a receber todos os meses. Não sou, porém, um velho! Dêem-me qualquer coisa para fazer, um trabalho qualquer... Valia mais pensar noutra coisa, porque, neste momento, estou a representar para mim próprio. Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer seja o que for é criar existência - e, sem isso, já há existência que chegue, A verdade é que não posso largar a minha caneta: acho que vou ter a Náusea, e tenho a impressão de a demorar, ao escrever. Por isso é que vou escrevendo o que me passa pela cabeça.

Madeleine, que quer ser amável para mim, grita-me de longe, mostrando-me um disco:

«O seu disco, Sr. Antoine, aquele de que o senhor gosta; quer ouvi-lo pela última vez?» «Pois sim, se faz favor.»

Disse isto por delicadeza, mas não me sinto lá com muito boa disposição para ouvir música de jazz. Apesar de tudo, vou prestar atenção, porque, como diz Madeleine, é a última vez que a ouço: é gravação muito antiga; muito antiga mesmo para a província; não é em Paris que a poderia encontrar. Madeleine põe o disco no prato do fonógrafo, o disco vai girar; as ranhuras, a agulha de aço vai pôr-se a saltar e a crepitar, e depois, quando eles a tiverem guiado em espiral até ao centro do disco, acabar-se-á, a voz roufenha que canta «Some of these days» ter-se-á calado para sempre.

Lá começa.

Pensar que há imbecis que tiram consolações das belas--artes! Como a minha tia Bigeois: «Por morte do teu tio, coitado, os Prelúdios de Chopin foram para mim um bálsamo tão poderoso !» E as salas de concerto estão cheias de humilhados, de ofendidos que, de olhos fechados, procuram transformar as suas pálidas caras em antenas receptoras. Imaginam que os sons captados circulam neles, suaves e nutritivos, e que os seus sofrimentos se fazem música, como os do jovem Werther; julgam que a beleza é compassiva para com eles. Estupores!

Gostava que me dissessem se acham compassiva esta música que estou a ouvir. Há bocadinho estava decerto muito longe de nadar na beatitude. À superfície, fazia as minhas contas, mecanicamente. Por baixo estavam estagnados todos aqueles pensamentos desagradáveis que tomaram a forma de interrogações por formular, de espantos mudos, e que não me abandonam nem de noite nem de dia. Pensamentos sobre Anny, sobre a minha vida estragada. E depois, mais baixo ainda, a Náusea, tímida como uma aurora. Mas, nesse momento, não havia música, estava eu melancólico e sossegado. Todos os objectos que me cercavam pareciam feitos da mesma matéria que eu, duma espécie de sofrimento ruim. O mundo era tão feio, fora de mim, tão feios aqueles copos sujos em cima das mesas, e as manchas escuras no espelho, e o avental da Madeleine, e o ar solícito do gordo amásio da patroa, tão feia a própria existência do mundo, que me sentia à vontade, em família.

Agora há este canto de saxofone. E tenho vergonha. Um glorioso sofrimentozinho acaba de nascer, um sofrimento modelo. Quatro notas de saxofone. Notas que vão e vêm, que parece que dizem: «É preciso fazer como nós, sofrer a compasso.» Pois muito bem! É claro que eu gostava imenso de sofrer dessa maneira, a compasso, sem condescendência, sem piedade de mim mesmo, com uma pureza árida. Mas será culpa minha se a cerveja está morna no fundo do meu copo, se há manchas escuras no espelho, se sou de mais, se o mais sincero sofrimento meu, o mais seco, se arrasta e apresenta, com carne de mais e, ao mesmo tempo, a pele demasiado larga, como as morsas, com uns grandes olhos húmidos e comoventes mas tão desengraçados? Não, não se pode dizer, com certeza, que esta dor seja compassiva, esta dor de diamante, que anda à roda ao de cima do disco e me deslumbra. Nem sequer irónica: ela gira com vivacidade, toda acupada consigo mesma; cortou com uma foice a insulsa intimidade do mundo, e agora gira, depois de nos ter surpreendido a todos no desalinho, no descuido quotidiano, a Madeleine, ao homem gordo, à patroa, a mim próprio e às mesas, aos assentos, ao espelho manchado, aos copos, a todos tfós que nos abandonávamos à existência, porque estávamos entre nós, simplesmente entre nós. Tenho vergonha por mim mesmo e pelo que existe diante dela.

Ela não existe. É até irritante; se me levantasse, se arrancasse o disco do prato que o sustenta, e se o partisse em dois, não a atingiria a ela. Ela está para além - sempre para além de qualquer coisa, duma voz, duma nota de violino. Aparece, delgada e firme, através de camadas e camadas de existência, e, quando queremos agarrar nela, encontramos apenas existentes, esbarramos com existentes desprovidos de sentido. Não existe, porque, nela, nada é de mais: é tudo o resto que é de mais em relação a ela. Ela é.

E eu também quis ser. Não quis mesmo outra coisa; eis a última palavra sobre a minha vida: no fundo de todas aquelas tentativas que pareciam desligadas encontro sempre o mesmo desejo: expulsar a existência para fora de mim, esvaziar os instantes da sua banha, torcê-los, secá-los, purificar-me, endurecer, para produzir, enfim, o som nítido e preciso duma nota de saxofone. Teria aqui, até, matéria para um apólogo: era uma vez um pobre diabo que se tinha enganado de mundo. Existia, como as outras pessoas, no mundo dos jardins públicos, dos cafés, das cidades comerciais, e queria persuadir-se de que vivia noutro sítio, por trás da tela dos quadros, com os doges de Tintoreto, com os bons florentinos de Gozzoli, por trás das páginas dos livros, com Fabrice dei Dongo e Julien Sorel, por trás dos discos de gramofone, com as longas queixas secas dos conjuntos de jazz. E um dia, depois de ter feito muito tempo de imbecil, percebeu, abriu os olhos, viu que as cartas estavam mal dadas: estava precisamente num café, diante de um copo de cerveja morna. Ficou prostrado, no assento; pensou: «Sou um imbecil.» E, nesse momento preciso, do outro lado da existência, nesse outro mundo que se pode ver de longe, mas sem nunca lá chegarmos, uma melodiazinha pôs-se a dançar e a cantar: «É como eu que se deve ser; é preciso sofrer a compasso.»

A voz canta:

Some of these days You'll miss me honey.

Devem ter riscado o disco neste sítio, porque se está a ouvir um barulho esquisito. E há qualquer coisa que aperta o coração: é que a melodia não é afectada, nem ao de leve, por este pequeno tossicar da agulha sobre o disco. A melodia está lá tão longe - lá tão atrás! Também isso eu compreendo: o disco risca-se e gasta-se, a cantora já morreu talvez; eu vou partir, vou tomar o comboio. Mas, por trás do existente que cai dum presente para o outro, sem passado, sem futuro, por trás destes sons que, dia a dia, se decompõem, se desbagoam e resvalam para a morte, a melodia permanece a mesma, jovem e firme, como uma testemunha sem piedade.

A voz calou-se. Ouve-se arranhar um momento, depois o disco pára. Libertado dum sonho importuno, o café rumina, remasca o prazer de existir. Subiu o sangue à cara da patroa, que está a dar bofetadas nas gordas bochechas brancas do seu novo amigo, mas sem conseguir colori-las. Bochechas de morto. Eu, como que apodreço, estou quase a adormecer. Dentro de um quarto de hora estarei no comboio, mas não penso nisso. Penso num americano escanhoado, de espessos sobrolhos negros, que sufoca de calor no vigésimo andar dum prédio de Nova Iorque. Por cima de Nova Iorque, o céu arde, inflama-se o azul do céu, enormes chamas amarelas vêm lamber os tectos; os garotos de Brooklyn, em calção de banho, vão pôr-se por baixo das agulhetas de rega. No quarto escuro do vigésimo andar está um calor de fornalha. O americano dos sobrolhos pretos suspira, ofega, e escorre-lhe o suor pelas faces. Está sentado, em mangas de camisa, diante do piano; tem um gosto de fumo na boca, e, vagamente, um fantasma de vento na cabeça. «Some of these days.» Dentro de uma hora vai aparecer Tom com o seu cantil achatado preso à anca; então afundar-se-ão ambos nas poltronas de couro, e beberão álcool a grandes tragos, e o fogo do céu virá flamejar-lhes nas gargantas, e sentirão o peso dum imenso sono tórrido. Mas é preciso primeiro registar as notas desta música. «Some of these days.» A mão húmida agarra no lápis que estava em cima do piano. «Some of these days, you'll miss me honey.»

Foi assim que a coisa se passou. Assim ou doutra maneira, mas pouco importa. Foi assim que esta música nasceu. Foi o corpo gasto do tal judeu dos sobrolhos de carvão que ela escolheu para nascer. O homem segurava molemente no seu lápis, e dos seus dedos com anéis caíam gotas de suor sobre o papel. E porque não eu? Porque é que era preciso exactamente aquele bezerro gordo, cheio de imunda cerveja e de álcool, para se produzir o milagre?

«Madeleine, não se importa de pôr o disco outra vez? Só mais uma vez, antes de me ir embora.»

Madeleine põe-se a rir. Dá à manivela, e a música recomeça. Mas já não penso em mim. Penso no fulano de lá longe que a compôs, num dia de Julho, no calor negro do seu quarto. Tento pensar nele através da melodia, através dos sons brancos e acidulados do saxofone. Foi ele que fez isto. Tinha aborrecimentos, nem tudo corria, para ele, como devia correr: contas a pagar -e devia também haver, algures, uma mulher que não pensava nele como ele queria - e havia também aquela terrível vaga de calor que transformava os homens em charcos de banha a derreter-se. Nada disso tem o que quer que seja de muito bonito nem de muito glorioso. Mas, quando ouço a canção e penso que foi esse tipo que a fez, acho o seu sofrimento e a sua transpiração... comoventes. Ele teve sorte. Aliás, nem deve ter dado por isso. Deve ter pensado: com um bocado de sorte, esta história há-de render bem uns cinquenta dólares! Sim, senhor!, é a primeira vez, de há anos para cá, que um homem me parece comovente. Gostava de saber qualquer coisa desse fulano. Interessava-me conhecer o género de desgostos que ele tinha, se tinha mulher ou se vivia sozinho. Mas não por humanismo, nem por sombras: pelo contrário. Só porque ele fez isto. Não tenho vontade de o conhecer - de resto, talvez ele já tenha morrido. Apenas de obter algumas informações sobre ele e de poder pensar nele, de vez em quando, a ouvir este disco. Eis tudo. Acho que, se fossem dizer a esse fulano que há, na sétima cidade de França, nas proximidades da estação, alguém a pensar nele, tanto se lhe dava como se lhe deu. Mas, no lugar dele, eu sentir-me-ia feliz; envejo-o. Tenho de me ir embora. Levanto-me, mas fico um momento hesitante; gostava de ouvir a negra cantar. Pela última vez.

Ela canta. Eis dois que estão salvos: o Judeu e a Negra. Salvos. Julgaram-se talvez perdidos de todo, afogados na existência. E, todavia, ninguém podia pensar em mim como eu penso neles, com esta doçura. Ninguém, nem mesmo Anny. Eles são um pouco, para mim, como mortos, um pouco como heróis de romance; lavaram-se do pecado de existir. Não completamente, bem entendido - mas tanto quanto pode fazê-lo um homem. Esta ideia revoluciona-me subitamente, porque já nem isso esperava. Sinto qualquer coisa que timidamente roça por mim, e não ouso mexer-me, porque tenho medo de a afugentar. Qualquer coisa de que já não me lembrava: uma espécie de alegria.

A negra canta. Pode-se então justificar a nossa existência? Um poucochinho, muito pouco? Sinto-me extraordinariamente intimidado. Não é que tenha muita esperança. Mas sou como uma pessoa completamente gelada, depois duma viagem na neve, que entrasse de chofre num quarto morno. Penso que essa pessoa ficaria imóvel ao pé da porta, ainda fria, e que lentos arrepios lhe percorreriam todo o corpo.

Some of these days. You'll miss me honey.

Não poderia eu tentar... É claro que não se trataria de compor uma música... mas não poderia, num género diferente?... Tinha de ser um livro: não sei fazer outra coisa. Mas não um livro de história: a história fala do que existiu - nunca um existente pode justificar a existência de outro existente. O meu erro era quer ressuscitar o Sr. de Rollebon. Outra espécie de livro. Não sei muito bem qual - mas era preciso que se adivinhasse nele, por trás das palavras impressas, por trás das páginas, alguma coisa que não existisse, que estivesse acima da existência. Uma história, por exemplo, como não pode suceder, uma aventura. Era preciso que fosse bela e dura como aço e que fizesse vergonha às pessoas da sua existência.

Vou-me embora, sinto-me vago. Não me atrevo a tomar uma decisão. Se tivesse a certeza de ter talento... Mas nunca - nunca escrevi nada nesse género; artigos sobre história, sim- e mesmo esses...! Um livro. Um romance. E haveria pessoas que leriam esse romance e que diriam: «Foi o Antoine Roquentin quem o escreveu; era um fulano ruivo que andava sempre pêlos cafés»; e pensariam na minha vida como eu penso na da tal negra: como em qualquer coisa de precioso e de meio lendário. Um livro. É claro que, ao começo, seria trabalho aborrecido e fatigante; escrevê-lo não me impediria de existir, nem de sentir que existo. Mas lá chegaria o momento em que o livro estivesse escrito, ficasse atrás de mim, e acho que um pouco da sua claridade cairia sobre o meu passado. Talvez então eu pudesse, através dele, recordar a minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando precisamente nesta hora, nesta hora sombria em que estou à espera, de costas curvadas, que sejam horas de saltar para o comboio, talvez sentisse bater-me mais depressa o coração e dissesse para comigo: «Foi nesse dia, a essa hora, que tudo começou.» E assim chegaria a aceitar-me - no passado, apenas no passado.

Cai a noite. No 1º andar do Hotel Printania acabam de se iluminar duas janelas. Das obras da estação nova sai um cheiro intenso a madeira húmida: amanhã vai chover sobre Bouville.

 

                                                                                Jean Paul Sartre  

 

                      

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