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A ODISSÉIA DOS DEUSES / Erich von Däniken
A ODISSÉIA DOS DEUSES / Erich von Däniken

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ODISSÉIA DOS DEUSES

 

Você sabe o que é uma orgia? No registro original apresentado pelas enciclopédias define-se o termo como a celebração de ritos religiosos na antiga Grécia. Hoje em dia, a palavra se refere a um tipo de extravagância, na qual o sexo desempenha importante papel.

Mas, na verdade, esse também era o significado da palavra na antiga Grécia. Naquela época, os homens costumavam se reunir à tarde para debates filosóficos, seguidos algumas ho­ras mais tarde por um "simpósio" ou festa com bebidas — que freqüentemente terminava em uma orgia. As esposas não estavam presentes, mas meninos e jovens estavam. A Grécia era livre de tabus a esse respeito: as pessoas pensavam e sentiam de uma maneira diferente na antiga Hélade.

Todos sabem o que é uma história de ficção científica. Mas você provavelmente não sabe que histórias de ficção científi­ca também circulavam na antiga Grécia, embora fossem mui­to mais fantásticas do que as nossas. A diferença entre elas repousa no fato de que os gregos não consideravam suas his­tórias de ficção científica fantasias utópicas; eles acreditavam que as histórias relatavam eventos que haviam realmente acon­tecido. Havia ainda outra diferença. Nossas histórias de ficção científica – como as aventuras da "Nave Estelar Enterprise" – têm lugar no futuro, ao passo que os antigos gregos olhavam para um passado nebuloso e distante, para milênios antes da sua época.

Imagine apenas que a ilha de Creta está continuamente circundada por um guardião de metal, que possui a prodi­giosa habilidade de monitorar todos os navios que se diri­gem à ilha e fazê-los explodir na água. Nenhum estrangei­ro tem a chance de desembarcar contrariando a vontade dos governantes da ilha. Se um barco tenta furar esse blo­queio, o monstro de metal pode lançar contra ele um calor intenso e consumir o invasor. Não obstante, esse robô guardião tem um ponto fraco: se um determinado pino no seu corpo metálico for solto, seu espesso sangue jorra para fora e ele fica imobilizado. É claro que somente aqueles que o construíram, e seus sucessores, conhecem a localização exata desse ponto vital.

A história já existia há cerca de 2.500 anos e os gregos estavam convencidos de que ela contava a verdade sobre even­tos ocorridos muito antes da sua época. O robô que patrulha­va Creta era chamado de Talo, e os engenheiros que conheciam a posição exata do lugar onde o fluido hidráulico tinha de ser drenado, para tornar o monstro inativo, eram chamados de "deuses".

Este não é um livro de história(s) da Grécia antiga e sim um livro a respeito das suas histórias. A Grécia de antigamente está repleta de contos extraordinários. As peregrinações de Ulisses realmente aconteceram? O que estava acontecendo em Delfos? Havia lá realmente uma profetisa que previa os prin­cipais acontecimentos políticos? As intensas descrições de Tróia se fundamentam na verdade? E a Atlântida? Todas as infor­mações que temos sobre a Atlântida, às quais todos os que escrevem sobre o assunto se referem, procedem da Grécia. E quem eram os Argonautas que se propuseram roubar o Velocino de Ouro?

A Grécia merece uma viagem de sonho. Eu o convido a se juntar a mim em um tipo especial de aventura.

 

 

          AVENTURAS DA NAVE ESTELAR ENTERPRISE HÁ MUITOS MILÊNIOS

Era uma vez, há muito, muito tempo, um distante descendente dos deuses. Ninguém sabe seu nome original, mas os gre­gos o chamavam de Jasão. Terei de me arranjar com esse nome, visto que não conheço nenhum outro. Pois bem, Jasão não era um homem comum, porque em suas veias corria sangue azul. Seu pai era o Rei Esão de Iolco na Tessália. No entanto, como aconte­ce com extrema freqüência na mitologia, Jasão tinha um meio- irmão perverso que o destituiu do trono quando ele ainda era bebê. O pai de Jasão tomou as providências necessárias para que sua pequena prole fosse criada por um centauro. Outros dizem que foi sua mãe que o levou até o centauro, mas não é isso que importa aqui.1,2 Os centauros eram uma curiosa raça cruzada, com cabeça, tronco e braços de homem, mas com corpo de cavalo. Um fenômeno realmente impressionante. E Jasão deve ter tido um tipo de criação um tanto ou quanto incomum!

Jasão está relacionado com um oráculo, pois qualquer pessoa que era alguma coisa na Grécia antiga tinha alguma relação com o oráculo. Neste caso, a profecia fez uma ad­vertência a respeito de um homem com uma sandália só. Um dia, quando o infame rei, o meio-irmão de Jasão, ofere­cia um bufê de celebração na praia, um jovem alto e belo se aproximou andando pomposamente. Tratava-se de Jasão, e ele vestia apenas uma sandália porque havia perdido a ou­tra no lodo de um rio. Jasão vestia uma pele de leopardo e uma túnica de couro. O rei não reconheceu o desconheci­do e perguntou, irritado, quem ele era. Jasão, sorrindo, res­pondeu que seu pai de criação, o centauro, o chamava de Jasão, mas que seu verdadeiro nome era Diomedes e ele era filho do Rei Esão.

Jasão logo percebeu com quem estava falando e rapida­mente exigiu o trono de volta, que por direito era seu. Sur­preendentemente, o rei concordou, mas com uma condi­ção, a qual, ele imaginava, não poderia ser cumprida. Ele disse que Jasão teria de libertar seu reino de uma maldição cjue havia sido lançada sobre ele e sobre todo o país. Ele precisava ir buscar o Velocino de Ouro que era guardado por um dragão em um lugar distante. O dragão nunca dor­mia. Somente quando essa proeza fosse realizada, o rei re­nunciaria ao trono.

Jasão concordou, e assim teve início uma inacreditável história de ficção científica. Inicialmente, Jasão saiu em bus­ca de um extraordinário construtor de navios para pedir a ele que construísse o mais incrível navio de todos os tem­pos. Esse homem se chamava Argos, e os estudiosos divergem quanto à sua origem. O certo é que Argos deve ter sido um engenheiro excepcional, pois ele construiu para Jasão um navio como nunca tinha sido visto outro igual. Sem dúvida, Argos possuía ligações fora do comum, pois a própria Atena o instruiu, e sob a orientação dela ele construiu uma embar­cação com um tipo de madeira que "nunca apodrece".3 Não satisfeita com isso, Atena contribuiu pessoalmente com uma espécie de vau e o colocou na proa do navio. O vau deve ter sido uma peça de madeira impressionante, pois era capaz de falar. Quando o navio deixou o porto, o vau gritou de felici­dade porque a jornada estava começando, e mais tarde ele advertiu a tripulação do navio de muitos perigos. Argos, o construtor de navios, batizou o poderoso navio com o nome de Argo, que em grego antigo significa aproximadamente "rá­pido” ou "possuidor de pés velozes".4 Os tripulantes do na­vio foram, portanto, chamados de "Argonautas", e a histó­ria é chamada de Argonáutica. (Nossos astronautas e cosmonautas derivam indiretamente seu nome dos Argo­nautas gregos.)

O Argo tinha capacidade para abrigar cinqüenta homens, que devem ter sido especialistas em várias áreas. Foi por isso que Jasão havia enviado mensagens para todas as famílias reais quando procurava uma equipe de voluntários com habi­lidades particulares. E eles vieram, todos heróis e descen­dentes dos deuses. A lista da tripulação original está apenas parcialmente preservada, e os estudiosos afirmam que outros nomes foram acrescentados por autores posteriores.5, 6, 7 A tri­pulação deve ter sido extraordinária e incluía as seguintes pessoas:8, 9 Melampo, filho de Posídon; Anceu de Tegeg, também descendente de Posídon; Anfiarau, o vidente; Linceu o vigia; Castor de Esparta, um lutador; ífito, irmão do rei de Micenas; Augias, filho do rei de Forbas; Equíon, o emissário, filho de Hermes; Eufemo de Tainaron, o nadador; Héracles de Tirinta, o homem mais forte; Hilas, o amado de Héracles; ídmon, o Argivo, filho de Apoio; Acasto, filho do Rei Pélias; Cálais, o filho alado de Bóreas; Náuplio, o marujo; Polideuce, o pugilista de Esparta; Falero, o arqueiro; Fano, o filho cre­tense de Dionísio; Argos, o construtor do Argo e o próprio Jasão, líder da aventura.

Os diversos autores que descreveram a jornada do Argo há mais de 2.000 anos acrescentaram outros nomes à lista. Em diferentes pontos da história grega, escritores ou historiadores envolvidos com os Argonautas supuseram que este ou aquele personagem famoso também deve ter estado lá. A lista mais antiga encontra-se no Poema Pítico IV, re­gistrado por um escritor chamado Píndaro (aproxima­damente 520-446 a.C.). Essa lista contém apenas dez nomes:10, 11 Héracles, Castor, Polideuce, Eufemo, Periclí- meno, Orfeu, Equíon e Éurito (ambos filhos de Hermes, o mensageiro dos deuses), Cálais e Zetes. Píndaro enfatiza sis­tematicamente que todos esses heróis eram de descendên­cia divina.

A melhor e mais detalhada descrição de toda a jornada e dos heróis que dela participaram foi feita por Apolônio de Rodes. Ele viveu em um período entre o século III e o século IV a.C. Certamente Apolônio não foi o criador da Argonáutica. Vários estudiosos pressupõem que ele deve ter extraído a his­tória básica de fontes muito mais antigas.12, 13 O próprio Apolônio escreve em seu "Primeiro Canto" que poetas antes dele haviam contado de que maneira Argos, guiado por Palas (Atena), havia construído o navio. Fragmentos da Argonáutica remontam ao século VII a.C. Os estudiosos não excluem a possibilidade de que a história tenha na verdade se originado no antigo Egito.

A Argonáutica de Apolônio foi traduzida para o alemão em 1779. Ao fazer citações da história, recorrerei principalmente a essa tradução, hoje com mais de duzentos anos, e apresenta­rei todas as citações extraídas do texto de Apolônio em itálico. A tradução de 1779 ainda não está impregnada das nossas atitudes modernistas e reflete o estilo floreado original de Apolônio.14 Segue um excerto da lista de nomes, escrito apro­ximadamente há 2.400 anos:

 

...Polifemo, o Elátido, veio de Larissa. Muito tempo atrás ele fica­ra ombro a ombro com os Lápitas, travando uma batalha contra os selvagens centauros...

 

...Mopso também veio, o Titarésio, que havia aprendido com Apoio a interpretar o vôo dos pássaros...

...(fito e Clítias também faziam parte do seu grupo, os filhos do selvagem Éurito, para quem o deus que atira longe havia ofertado o arco...

 

...Álcon havia enviado seu filho, embora nenhum filho agora res­tasse na sua casa...

 

 

...Dos heróis que deixaram Argos 15 Ídmon foi o último. Ele apren­deu com o deus [Apolo] a arte de observar o vôo dos pássaros, da profecia e de ler o significado dos flamejantes meteoros...

 

...Linceu também veio... seus ollws eram inacreditavelmente agu­çados. Se os boatos são verdadeiros, ele era capaz de enxergar as profundezas da terra...

 

...Mais tarde veio Eufemo dos muros de Tenaros, o que tinha os pés mais velozes... dois outros filhos de Netuno também vieram...

 

Seja qual for a lista de nomes que se aproxime mais da origi­nal, os Argonautas eram, de qualquer modo, uma tripulação de filhos de deuses escolhidos a dedo, cada um com dons impressionantes e habilidades especiais. Esse grupo extraor­dinário se reuniu no porto de Pagasai na península da Magnésia, para partir com Jasão em busca do Velocino de Ouro.

Antes que a jornada tivesse início, eles deram uma festa em homenagem a Zeus, o pai dos deuses,16 e depois toda a equipe marchou em direção ao navio, passando através de uma multidão de milhares de curiosos. Eis como Apolônio descreve a cena:

 

Assim os heróis atravessaram a cidade e se dirigiram ao navio... junto com eles e ao redor deles corria uma enorme e tola multidão.

Os heróis reluziam como estrelas no céu entre as nuvens...

 

As pessoas aclamavam os bravos marinheiros e lhes deseja­vam sucesso em todos os seus empreendimentos e uma volta segura ao lar, enquanto mães ansiosas apertavam os filhos

contra o peito. A cidade inteira ficou em alvoroço até que o Argo finalmente zarpou e sumiu no horizonte.

E por que todo esse esforço? Por causa do Velocino de Ouro. Mas o que é efetivamente esse objeto de desejo um tanto ou quanto extravagante? A maioria das enciclopédias que consultei descrevem o Velocino de Ouro como o “velocino de um carneiro de ouro".171819-20 Assim sendo, a tripulação Argonauta supostamente fez-se ao mar por causa de um velocino? O maior navio da época foi supostamente construído, e os filhos de deuses e reis ofereceram de graça seus serviços, na tentativa de encontrar um ridículo pedaço de pele? E uma maldição, maldição esta que exigia um enor­me esforço para ser combatida, supostamente pairava sobre o país por causa disso? E um dragão que "nunca dorme" tinha como único objetivo guardar dia e noite esse desprezível velocino. É claro que não!

Não, definitivamente não, pois o Velocino de Ouro era uma pele muito particular com assombrosas propriedades. Podia voar!

Diz a lenda que Frixo, filho do Rei Átamas, havia sofri­do muito por causa da sua perversa madrasta, até que sua verdadeira mãe o raptou junto com sua irmã. Ela colocou as crianças nas costas de um cordeiro de ouro alado que lhe havia sido ofertado, certa vez, pelo deus Hermes, e sobre esse miraculoso animal os dois voaram através do ar sobre a terra e o mar, vindo finalmente aterrissar em Aia, capital da Cólquida. Tratava-se de um reino na extremidade orien­tal do Mar Negro. O rei da Cólquida é descrito como um violento tirano que facilmente faltava com sua palavra quando isso lhe era conveniente e que queria manter preso esse "cordeiro voador". O Velocino de Ouro foi assim firmemente pregado a uma árvore. Além disso, para guardá- lo, foram requisitados os serviços de um dragão que cuspia fogo e nunca dormia.

Desse modo, o Velocino de Ouro era um tipo de má­quina voadora que pertencera um dia ao deus Hermes. Ele não devia de modo nenhum permanecer nas mãos de um tirano, que pode tê-lo utilizado para seus torpes propósitos – daí a tripulação de alto nível com suas variadas habili­dades, e a ajuda dos descendentes dos deuses. Todos que­riam recuperar o que fora um dia propriedade dos olimpianos.

Mal zarparam, os Argonautas elegeram democraticamente um líder. Héracles, o mais forte dos homens, foi escolhido, mas recusou a oferta. Ele declarou que essa honra pertencia apenas a Jasão, aquele que iniciara a expedição. O navio pas­sou rapidamente ao largo do porto de Pagasai e contornou a península da Magnésia.

Após algumas inocentes aventuras, a tripulação chegou à península de Capidagi, que está ligada ao continente por uma faixa de terra. Ali morava o povo Dolion, cujo jovem rei Cízico pediu aos Argonautas que atracassem ao cais na baía de Citos — esquecendo-se de avisar a alguns dos gigan­tes de seis braços que ali viviam. Os inocentes Argonatuas subiram uma montanha próxima para determinar sua po­sição.

Somente Héracles e alguns homens permaneceram a bordo para proteger o Argo. Os monstros de seis braços imediatamente atacaram o navio — sem, no entanto, notar a presença de Héracles, que os viu chegar e matou alguns com suas setas antes que até mesmo a batalha começasse. Nesse ínterim, os outros Argonautas voltaram e, graças aos seus talentos espe­ciais, aniquilaram os atacantes. Eis o que Apolônio escreve a respeito desses gigantes:

 

O corpo deles têm três pares de vigorosas mãos, como se fossem patas. O primeiro par se apoia nos ombros retorcidos, o segundo e terceiro pares se encaixam nos horríveis quadris...

 

Gigantes? Nada mais do que a fantasia de um contador de histórias? Pelo menos na literatura antiga dos nossos ante­passados esses seres não são raros. Qualquer leitor da Bíblia certamente se lembrará da luta entre Davi e Golias. E no Gê­nese está escrito:21

 

Havia gigantes na terra nessa época; e também depois desse tempo, quando os filhos de Deus se uniram com as filhas dos homens e lhes geraram filhos...

 

Outras passagens da Bíblia que falam de gigantes são as se­guintes: Deuteronômio 3:3-11; Josué 12:4; 1 Crônicas 20:4-5; Samuel 21:16. E o livro do profeta Enoque contém uma ex­tensa descrição de gigantes. No capítulo 14 podemos ler: "Por que fizestes como os filhos da terra e destes origem a filhos de gigantes?"22

Nos livros apócrifos de Baruch, encontramos até mesmo números: "O Supremo trouxe o dilúvio sobre a terra e aniqui­lou toda a carne e também os 4.090.000 gigantes."23 Esse fato é confirmado no Kebra Negest, a história sobre os reis etíopes (capítulo 100):

 

As filhas de Caim, contudo, com quem os anjos haviam pra­ticado atos indecentes, ficaram grávidas, mas não puderem dar à luz, e morreram. E dos que se encontravam em seu úte­ro alguns morreram e outros saíram rompendo o corpo da mãe... quando ficaram mais velhos e cresceram, se tornaram gigantes.24

 

E os livros que contêm os "contos dos judeus nos tempos anti­gos"25 descrevem inclusive as diferentes raças desses gigantes. Havia os "Emitas" ou "Terríveis" e os "Refaítas" ou "Gargântuas"; havia os "Giborim" ou "Poderosos" e os "Samsunitas" ou "Astuciosos"; e finalmente os "Ávidas" ou Injustos" e os "Nefilim" ou "Corruptores". E o livro dos Esquimós é bem claro com rela­ção a esse ponto: "Naqueles dias viviam gigantes na Terra."26

Eu poderia continuar a citar essas passagens, mas prefiro não repetir dados apresentados em outros livros. Ossos de gigantes também foram encontrados, embora alguns antropólogos ain­da insistam em afirmar que se trata de ossos de gorilas.27 Em 1936, o antropólogo alemão Larson Kohl descobriu os ossos de seres humanos gigantes nas margens do lago Elyasi na África central. Os paleontólogos alemães Gustav von Kõningsberg e Franz Weidenreich ficaram impressionados ao encontrar vários ossos de gigantes nas farmácias em Hong Kong em 1941. A des­coberta foi publicada e cientificamente documentada no relató­rio anual de 1944 da American Ethnological Society.

A seis quilômetros de Safita na Síria, arqueólogos de­senterraram machados de mão que só podem ter sido usados por pessoas com mãos gigantescas. As ferramentas de pedra encontradas em Ain Fritissa (Marrocos oriental) que mediam 32 x 22cm também devem ter pertencido a pessoas bem gran­des. Se elas eram capazes de manejar essas ferramentas, que chegavam a pesar 4,3 quilos, deveriam ter tido mais de qua­tro metros de altura. As descobertas de esqueletos gigantes em Java, no sul da China e no Transval (África do Sul) são bastante conhecidas na literatura especializada. Tanto o Pro­fessor Weidenreich28 quanto o Professor Saurat29 documen­taram cuidadosamente sua pesquisa científica sobre os gigan­tes. E o antigo representante francês da Prehistorical Society, o l)r. Eouis Burkhalter, escreveu o seguinte na edição de 1950 da Revue du Musée de Beyrouth:

 

Queremos deixar claro que a existência de seres humanos gi­gantes [na antiguidade]... deve ser considerada como um fato cientificamente indiscutível.

 

A Epopéia de Gilgamesh da Suméria também fala de gigantes, como também o fazem os maias, do outro lado do mundo, em Popol Vuh. Os mitos nórdicos e germânicos também são povoados de gigantes. Por que teria o mundo antigo um nú­mero tão grande de histórias sobre seres que nunca existiram?

No mundo épico dos gregos, ouvimos falar em gigantes não apenas na Argonáutica como também no conto posterior de Ulisses, que os combateu. Essas figuras de constituição vigo­rosa supostamente são fruto da união entre homens e deuses. Tenho bons motivos para acreditar que esses mesmos gigan­tes foram responsáveis pelas enormes construções megalíticas que intrigam os arqueólogos, como as das pequenas ilhas de Malta e Gozo. As enormes ruínas de um templo lá existente ainda têm o nome de "Gigantia" (ver Fotos 1 e 2).

O Argo continuou sua jornada sem maiores contratem­pos, exceto quando um deus marinho chamado Glauco apa­receu de repente na superfície como um submarino vindo das profundezas. Ele trouxe aos Argonautas uma mensagem de Zeus, para Héracles e seu querido Hilas. Glauco submergiu então rapidamente e mergulhou nas profundezas do oceano. Ao redor dele, as ondas espumaram em círculos espiralados e se derramaram sobre o navio.

Em Salmydessos, os Argonautas encontraram um velho rei que além de feder muito também estava faminto. O infeliz se chamava Fineu. Ele possuía o dom da profecia e havia cla­ramente divulgado uma quantidade excessiva dos planos dos deuses. A punição que eles impuseram a Fineu foi muito es­quisita: sempre que Fineu queria comer alguma coisa, duas criaturas aladas desciam das nuvens e arrebatavam-lhe a co­mida. O que elas não tiravam cobriam de sujeira, de modo que o alimento fedia, se tornando impossível ingeri-lo. Quan­do os Argonautas chegaram, o velho mal tinha forças para se mover. Ele pediu aos Argonautas que o ajudassem e prometeu recompensá-los, avisando-os dos perigos iminentes. No en­tanto, ele não os avisou de todos os perigos, pois Fineu des­confiava de que era precisamente isso que os deuses não que­riam. Os Argonautas sentiram pena dele e prepararam para si mesmos e para o rei fedorento um suntuoso banquete. Quan­do o rei ia começar a comer, as criaturas aladas – as Harpias – se precipitaram do céu azul sobre a comida. Mas desta feita as coisas aconteceram de maneira diferente. Dois dos Argo­nautas tinham a habilidade de voar e perseguiram as Harpias no ar. Os Argonautas voadores logo voltaram e disseram ao rei que ele agora nada mais tinha a temer das Harpias. Eles havi­am perseguido violentamente as Harpias e teriam sido facil­mente capazes de matá-las, mas a deusa íris havia ordenado que eles as poupassem, pois elas eram os "cães de Zeus”.

Poderíamos ficar tentados a dizer que tudo não passa de pura invenção e de uma história inacreditável. Alguém surge na superfície do mar e faz a água girar, dois Argonautas deco­lam a uma incrível velocidade e Zeus, o pai dos deuses, possui cães voadores. Mas este é apenas o modesto início de uma desconcertante história de ficção científica dos tempos anti­gos. As coisas se tornam muito mais confusas!

O rei, que a essa altura tinha um cheiro perfeitamente nor­mal e pôde finalmente comer em paz, manteve sua promessa e mencionou aos Argonautas alguns perigos iminentes. Ele des­creveu a rota para a Cólquida que agora se apresentava diante deles e advertiu-os particularmente sobre as duas paredes de um rochedo que se abriam e fechavam como portas e esmagavam todas as embarcações que não conseguissem passar no lugar cer­to e no momento exato. O velho rei os aconselhou a levar uma pomba com eles e deixá-la voar diante deles através da abertura entre as paredes dos rochedos. Apolônio diz o seguinte:

 

...Eles agora tornaram o rumo do espumante estreito de Bósforo.

As ondas subiam como montanhas, ameaçando desabar sobre o navio, freqüentemente elevando-se acima das nuvens. Ninguém imaginava que eles escapariam com vida... mas por mais terríveis que sejam as ondas, elas se tornam dóceis quando um piloto hábil e experiente tem a cana do leme na mão...

 

A palavra "piloto" não é invenção minha. Ela aparece na tfa- dução de Apolônio feita em 1779. O rei havia descrito a rota dos Argonautas nos mínimos detalhes; ele conhecia claramen­te cada baía e cada montanha, bem como o nome dos países e dos seus governantes. É bastante estranho que o rei se refira duas vezes ao perigo das amazonas:


 

...Mais adiante vocês chegarão às terras cie Doati e às cidades das amazonas... Não pensem nern mesmo por um momento em atra­car em um local deserto, onde vocês terão problemas para afugen­tar os mais desavergonhados pássaros que atacam ao redor da illui em grandes bandos. É aqui que os governantes das amazo­nas... construíram um templo para os deuses delas...

 

O velho governante sabe inclusive tudo a respeito do Velocino de Ouro:

 

...Quando vocês passarem rio acima através do estuário, terão diante de si a torre de Esão, e o arvoredo umbroso de Marte, onde se encontra o Velocino... ele é guardado por um lindworm,* um assombro terrível. Nem de dia nem de noite o sono faz baixar suas pálpebras, em nenhum momento ele cessa sua constante vigi­lância...

 

Esse lindworm ou dragão me faz pensar em um tipo de robô com múltiplos sensores. Que espécie de animal é esse des­provido de necessidades físicas, que nunca dorme e que ob­serva permanentemente tudo que está ao seu redor? Criatu­ras semelhantes são descritas em outros textos da antiguidade, como a Epopéia cie Gilgamesh, encontrada na colina de Kujundshik, a antiga Nínive. As tabuinhas de argila nas quais ela estava escrita vieram da biblioteca do rei assírio Assurbanipal. Essa epopéia descreve de que maneira Gilgamesh e seu amigo Enkidu escalam a montanha dos deu­ses, em cujo topo se erguia a reluzente torre branca da deusa Irnini. Pouco antes de a alcançarem, o temível ser Chumbaba se aproxima deles. Chumbaba tinha patas de leão, o corpo coberto por escamas de ferro, os pés munidos de garras, chi­fres reluzentes na cabeça e uma cauda que terminava em uma boca de serpente. Ele deve ter sido um monstro apavo­rante. Os dois companheiros atiraram flechas e lanças nele, mas todos seus projéteis se desviaram. Relâmpagos chameja­ram vindos da montanha dos deuses: "um incêndio deflagrou, a morte se propagou. A luminosidade passou, o fogo se apagou. Tudo que fora atingido pelos relâmpagos se transformou em cinzas".30

Algum tempo depois, Enkidu morre de uma doença incu­rável. Terrivelmente preocupado, Gilgamesh pergunta: "Será que você foi envenenado pelo hálito da criatura celeste?" Seja lá o que tenha sido essa "criatura celeste", ela parece ter cau­sado a morte de Enkidu. Mais tarde, no decorrer da história, "uma porta fala como uma pessoa”. O vau falante no Argo faz a mesma coisa. Depois temos o "Parque dos Deuses", que é guardado por dois feios seres mestiços, gigantescos "seres humanos escorpiões”. Apenas o peito deles é visível na super­fície da terra, pois o restante do corpo está ancorado no chão. "Sua aparência é terrível e aterrorizante, e seu olhar significa a morte. O temível lampejar dos seus olhos faz montanhas rolarem sobre os vales."31

Não obstante, os seres humanos escorpiões da Epopéia de Gilgtimesh são inteligentes, mais inteligentes do que os lindworms e os dragões guardiães. Gilgamesh pode conversar com eles e eles o advertem dos perigos iminentes que estão para chegar por terra e por mar, exatamente como o Rei Fineu avisou aos Argonautas.

Fineu recomenda aos Argonautas que levem Eufemo com eles a bordo. Foi ele que fez a pomba voar entre as paredes dos rochedos e também foi capaz de correr sobre a água sem mo­lhar os pés.

Os Argonautas relaxaram no reino de Fineu durante quarenta dias. (Na Epopeia de Gilgamesh são necessárias quarenta horas para se chegar à "Montanha dos Cedros".) Um grupo de Argonautas dormiu a bordo do Argo e os outros no palácio do rei. Eles se reabasteceram de provisões e ergueram um altar em homenagem a Júpiter. No quadragésimo primeiro dia, o Argo partiu através de um rio ou canal sinuoso. Os Argonautas logo avistaram as "ilhas nadadoras” com os perigosos roche­dos e Eufemo entrou imediatamente em ação.32

 

...Eles navegaram lentamente e com muito cuidado. Seus ouvidos já estavam ensurdecidos a distância pelo choque das rochas que se fechavam acima. E o eco das margens que revolviam as ondas retumbou ruidosamente. Eufemo se dirigiu então à cumeeira do navio com a pomba na mão... Mas eles estavam com medo. Eufemo soltou a pomba e todos ergueram a cabeça /nua vê-la voar. Mas as paredes dos rochedos se chocaram uma vez mais causando um ruído ensurdecedor. Do mar, grandes ondas de rebentação espu­maram para cima e o ar zuniu repetidamente em círculos... a cor­renteza arrastou o navio para trás. As rochas escarpadas dos rochedos apenas tosquiaram as penas mais externas da pomba, mas ela conseguiu passar incólume. Os marujos gritaram de alegria... agora as paredes de pedra se abriram novamente de par em par... pois uma onda inesperada ergueu-se de repente... quando eles a viram temeram que ela pudesse afundar o barco. Mas Tifis os desembara­çou com um desvio rápido, de modo que a onda se precipitou sobre a boa figura de proa e depois o ergueu acima das rochas, fazendo com que ele flutuasse graciosamente no ar... Agora o navio ficou ali pendurado como um vau suspenso, mas Minerva pressionou a mão esquerda contra a rocha e cóm a direita deu um empurrão no navio. Veloz como uma flecha, o barco passou ligeiro pelos rochedos... Era para ser, foi o destino...

 

Tifis, o timoneiro do Argo, acalmou seus nervosos companhei­ros. Embora eles tivessem escapado do terrível perigo das pa­redes dos rochedos, esse milagre só fora possível com a ajuda dos deuses. Minerva tinha dado uma ajudazinha e a deusa Atena atuara como consultora durante a construção do barco, de modo que o Argo fora "aglutinado por fortes suportes e feito insubmergível".

Estava claro que os perigos não poderiam ter sido supera­dos sem a ajuda divina. De quando em quando, os olimpianos também se faziam presentes. Pouco depois da aventura com as paredes dos rochedos, os Argonautas viram o deus Apoio voando sobre o Argo quando vinha da Lícia. Isso aconteceu en route para a terra dos Hiperbóreos, que ficava do outro lado dos Ventos do Norte. Apoio estava visitando "povos de outra raça”, e as ilhas ecoaram ao som do seu barco voador. Uma vez mais os Argonautas ficaram profundamente comovidos, de modo que se viram impelidos a erguer um altar ao deus. Pouco depois desse evento, Tifis, o experiente piloto do Argo, caiu doente e morreu. Seus companheiros de viagem erigiram uma pirâmide sobre seu túmulo — o que é de fato impressio­nante, visto que as pirâmides de sepultura supostamente só surgiram no Egito dos faraós.

Nos dias que seguiram, os Argonautas navegaram ao redor das "inúmeras baías do cabo das Amazonas". Um pujante rio é descrito, diferente de todos os outros da terra, pois diz-se que uma centena de outros rios conein para ele. No entanto, esse rio flui a partir de uma única nascente, que desce das "monta­nhas amazônicas". É dito que o rio corre para trás e para a frente através de muitas províncias e (na versão de Apolônio):

 

...ninguém sabe ao certo quantos dos seus tributários deslizam através da terra... e se os nobres viajantes tivessem permanecido mais tempo às suas margens, eles deveriam ter de combater as mulheres, e sangue teria sido derramado, pois as amazonas são velozes e pouco consideram a justiça. Elas amam a guerra acima de tudo e sentem prazer em usar a força. Elas descendem de Marte e de Harmonia...

 

A tripulação não estava muito interessada em lutar contra es­sas amazonas, que correram armadas para a margem, total­mente equipadas para a guerra, no momento em que avista­ram o Argo. Os Argonautas não haviam esquecido as palavras do velho Rei Fineu, avisando-os das amazonas.

Quando eles atracaram em uma margem deserta, o Argo foi atacado repentinamente por pássaros, que lançaram flechas afiadas e mortíferas sobre os Argonautas. Estes últimos se de­fenderam erguendo seus escudos sobre a cabeça de modo a formar uma grande e única barreira protetora do comprimento do Argos. Outros membros da tripulação começaram a emitir um ruído terrível que irritou os pássaros e os afugentou.

Os Argonautas desembarcaram. Toda a região estava seca e não havia realmente nenhum motivo para ficarem ali. No entanto, de repente, surgiram quatro figuras emaciadas, com­pletamente nuas, famintas e sedentas, que só tinham forças para implorar a Jasão que as ajudasse. Eles disseram que eram irmãos, que seu barco tinha afundado, e que eles haviam se agarrado aos destroços até serem lançados naquela ilha na noite anterior. Os Argonautas se deram conta de que estavam diante dos quatro filhos de Frixo, que havia certa vez voado com a irmã no Velocino de Ouro. Eles representaram um magnífico acréscimo à tripulação do Argo, pois sabiam tudo a respeito do arvoredo onde estava o Velocino de Ouro e como chegar lá. Um dos quatro filhos de Frixo se chamava Argos, e foi ele que, na calada da noite, guiou o Argo até a costa da Cólquida e, a partir dali, até a foz do Rio Phasis. Às suas mar­gens, situava-se a cidade de Aia, com o palácio do rei e — a uma certa distância — o arvoredo onde se encontrava o Velocino de Ouro.

Qual a melhor maneira de proceder? Jasão achava que eles poderiam tentar primeiro uma abordagem suave e conversar com o tirano, o Rei Aietes, que governava a terra da Cólquida. Os Argonautas sabiam que o Rei Aietes era violento e não mantinha sua palavra, mas por outro lado eles haviam salvado a vida dos quatro filhos de Frixo, que eram sobrinhos dele. Os Argonautas erigiram um altar e pediram conselho aos deuses.

Alguns dos deuses, cujos nomes são confusos e irrelevantes neste caso, pediram ao jovem deus do amor, Eros, que provi­denciasse para que a filha do tirano, a bela Medéia, se apaixo­nasse perdidamente por Jasão. Isso a levaria a ajudar os Argo­nautas mesmo contra a vontade do seu perverso pai. A deusa Hera aliou-se a essa "conspiração divina” e ocultou os ho­mens que foram visitar o palácio em uma espécie de névoa. Isso tornou os heróis invisíveis, de modo que eles de repente se viram diante do palácio sem terem sido detectados pelos soldados e guardas. Os deuses também tomaram providên­cias para que Medéia fosse a primeira pessoa a pôr os olhos em Jasão. Nesse mesmo instante, Eros atirou sua flecha no coração da moça, de modo que ela não conseguiu afastar os olhos dele.

Que outra coisa poderia o Rei Aietes fazer a não ser dar as boas-vindas aos hóspedes? Afinal de contas, eles estavam tra­zendo de volta seus sobrinhos perdidos e sua própria filha estava lhe pedindo que os convidasse para uma refeição. Jasão tentou ser diplomático. Mencionou o fato de que todos esta­vam relacionados entre si pela raça dos deuses e que ele havia vindo pedir o Velocino de Ouro.

O Rei Aietes sem dúvida achou que tinha ouvido errado. Nunca, em nenhum momento, ele nem mesmo sonhara em colocar o Velocino de Ouro em exposição; e agora esse fedelho ousava pedir que ele entregasse o maior tesouro do seu reino. Aietes riu em voz alta e disse, astuciosamente, que Jasão poderia ter o Velocino de Ouro se passasse em três provas.

Do lado de fora do arvoredo onde o Velocino de Ouro estava pregado, disse o astuto Aietes, também havia grutas onde viviam touros que cuspiam fogo. Jasão teria de atrelar esses touros a um arado e lavrar o campo com eles. Depois, teria de plantar dentes de dragão nos sulcos, os quais cresceriam rapidamente transformando-se em seres terríveis que teriam de ser combatidos e conquistados, jasão também teria de enfrentar o dragão que cuspia fogo e nunca dor­mia.

O astuto governante sabia muito bem que ninguém era capaz de tal façanha. Ele não julgava correr o menor risco de perder o Velocino de Ouro. No entanto, ele não levara em conta a "conspiração divina". Depois da festa noturna, Jasão e seus amigos retornaram um tanto ou quanto deprimidos para o Argo. Eles também achavam que a tarefa estava além das suas possibilidades. Jasão se queixou amargamente para os companheiros das terríveis condições do rei:

 

...ele afirma possuir dois touros indomáveis no campo de Marte.

Os pés deles são de ferro, eles respiram chamas. Com esses touros eu preciso arar quatro acres de terra. Depois, ele quer me dar sementes da boca de um dragão. Dessas sementes, diz ele, nas­cerão homens encouraçados, os quais eu preciso matar antes do fim do dia...

 

Mas a nova amante de Jasão, Medéia, a filha do rei, sabia o que fazer para ajudar. Ela possuía um estranho unguento com um efeito fora do comum. Essa cura milagrosa derivava de uma erva medicinal que havia nascido do sangue do Titã Pro­meteu. Ela disse a Jasão que passasse o ungüento em todo o corpo e nas armas. Ele o protegeria do calor e do fogo, de modo que os touros que cuspiam fogo não lhe poderiam fazer mal. Suas armas também se tornariam fortes e invencíveis, conferindo-lhe poderes sobre-humanos.

Jasão passou uma noite tranqüila e depois tomou um banho, ofereceu um sacrifício aos deuses, besuntou-se todo com oungüento milagroso, fez o mesmo com suas armas e se vestiu. Logo depois teve início a mais estranha batalha já descrita na literatura dos tempos antigos:33

 

...De repente, da caverna secreta, do estábulo trancado, todo o ar estava repleto de uma acre fumaça. Os dois touros avança­ram, lançando fogo das narinas. Os heróis ficaram apavorados quando os viram, mas Jasão permaneceu fume, os pés bem apoiados no chão, esperando o ataque. Ele ergueu o escudo di­ante de si enquanto eles berravam e ao mesmo tempo o atin­giam com os fortes chifres. Mas os touros não conseguiram deslocá-lo nem mesmo uma polegada da sua posição. Assim como o fole no fogão do ferreiro faz bramir furiosamente o fogo com um terrível ímpeto e estrondo de calor, também os touros sopravam chamas da boca e berravam ao mesmo tempo. O ca­lor envolvia o herói como um relâmpago, mas o unguento da dama o protegia. E agora ele agarra o touro que está mais pró­ximo pela ponta dos chifres e o arrasta com força até o jugo de ferro. Depois, ele coloca o pé na frente do pé de ferro e derruba a besta...

 

Como exigira o Rei Aietes, Jasão arou o campo com esses indisciplinados animais que cuspiam fogo e depois lançou os dentes de dragão nos sulcos. Logo figuras terríveis brotaram por toda parte no campo de batalha, armadas com aguilhões de ferro e capacetes reluzentes, e o solo debaixo deles era bran­co de calor e iluminava a noite.

Jasão pegou um maciço bloco de pedra, tão grande que nem mesmo quatro homens teriam conseguido levantá-lo, e o lançou no meio das tropas de monstros que não paravam de crescer. Eles ficaram confusos e não sabiam de onde estava vindo o ataque. Isso deu a Jasão a oportunidade de causar destruição:

 

...Ele tirou a espada da bainha e trespassou tudo que vinha na sua direção. Muitos que estavam no chão imóveis até o umbigo e outros que estavam imóveis até os ombros. Havia outros, tam­bém, que tinham acabado de ficar em pé, e depois toda tuna mul­tidão que havia ingressado na batalha cedo demais. Eles lutaram e tombaram... Assim jasão os extermina... o sangue correu nos sulcos como correntes de água de fonte... alguns caíram de bruços e ficaram com a boca cheia de terra, outros de costas, outros de lado e sobre os braços. Eles eram muito grandes, monstruosos como baleias...

 

Jasão acabou completamente com eles, mas o pior ainda esta­va por vir: o dragão que nunca dormia, que guardava o Velocino de Ouro. Junto com a amada, Jasão dirigiu-se ao ar­voredo onde o Velocino de Ouro estava preso a uma faia:

 

...Eles procuraram então em volta a umbrosa faia com o Velocino preso a ela... ele brilhava como uma nuvem iluminada pelos raios do sol poente. Mas o dragão que nunca dorme na árvore esticou o longo pescoço. Ele deu um assobio horrível. As montanhas e o profundo arvoredo estremeceram com esse som... nuvens de fuma­ça se espalharam pela floresta em chamas, onda após onda de fumaça luminosa serpearam da terra e subiram para o ar, como a extensão de cauda nodosa do monstro, que estava coberta por duras escamas.

 

Jasão não conseguia imaginar como poderia passar por esse monstro, mas uma vez mais sua amada o ajudou. Ela besun­tou um galho velho com seu ungüento especial e o balançou diante dos olhos incandescentes do dragão. Ao mesmo tem­po, ela pronunciou palavras mágicas e o monstro foi ficando visivelmente cada vez mais lento e sonolento, até que final­mente deitou a cabeça no chão. Jasão subiu na árvore e soltou o Velocino de Ouro. O estranho objeto tinha uma cintilação vermelha e era grande demais para que Jasão o carregasse nos ombros. O solo debaixo do Velocino de Ouro também brilha­va o tempo todo que Jasão fugia com ele em direção ao Argo.

Quando Jasão chegou ao navio, todos queriam tocar o Velocino de Ouro, mas Jasão não deu permissão para isso e o cobriu com uma grande manta. Não havia tempo para festas e comemorações. Jasão e a filha do rei estavam justifica- damente com medo de que o Rei Aietes fosse fazer tudo que estivesse ao seu alcance para recuperar esse singular tesouro. Os Argonautas zarparam o mais rápido que puderam pelo rio e dirigiram-se para alto mar.

O Rei Aietes, que nunca tivera a intenção de manter sua pala­vra, reuniu uma grande esquadra, a qual dividiu para poder atacar Jasão e os Argonautas de ambos os lados. Os navios de Aietes chegaram a um país cujos habitantes nunca tinham vis­to viajantes desse tipo, achando portanto que estavam diante de monstros do mar. (O "Livro dos Reis" etíope contém uma história semelhante, a Kebra Negest, que conta como Baina- lehkem rouba o maior tesouro da época do seu pai Salomão: a Arca da Aliança. Salomão manda seus guerreiros recuperá-la. A perseguição é levada a cabo — parte em máquinas voadoras — de Jerusalém à cidade |atualj de Axum na Etiópia.)

Após algumas aventuras de somenos importância, descri­tas de maneiras diferentes nas diversas versões da Argonáutica, o Argo chegou às "ilhas de âmbar''. O vau falante da proa do navio advertiu a tripulação da ira de Zeus (...Nesse ínterim a quilha do navio começou a falar em voz audível...). O pai dos deu­ses estava furioso, porque Jasão havia conseguido matar o ir­mão do seu amado. Isso não aconteceu em decorrência do ciú­me e sim porque Medéia havia tecido uma intriga. Mais tarde, no decorrer da história, Jasão foi absolvido desse crime e Zeus ficou satisfeito. Os Argonautas erigiram altares e monumentos comemorativos. Em certa ocasião, o Argo navegou bem acima nos rios de Erídano... Assombrados, somos informados de que:

 

Foi aqui que Faetonte caiu do carro do sol e mergulhou nas profundezas do mar quando o raio flamejante de Jove* parcialmente o queimou. Esse mar ainda fede a enxofre... nenhum pás­saro abre as asas e voa sobre ele...

 

Trata-se de uma estranha referência. A história de Faetonte e do seu carro do sol é muito antiga, e não há uma data preci­sa. O poeta romano Ovídio a conta na íntegra em sua obra Metamorfose,34 embora tenha vivido cerca de quarenta anos antes de Cristo, quando a Argonáutica já existia havia séculos. Segundo essa narrativa, Faetonte era filho do deus sol Hélio. Certo dia, Faetonte visitou o pai no céu e lhe pediu para satis­fazer um desejo seu, visto que os habitantes da Terra não acre­ditavam que ele estava de fato relacionado com o deus sol. Ele pediu permissão para dirigir o carro do sol. Seu pai ficou hor­rorizado e pediu insistentemente ao filho que desistisse da idéia, dizendo-lhe que o ato de dirigir o carro do sol exigia um conhecimento bastante específico. Tipicamente, Faetonte não estava disposto a levar em conta esses conselhos. Seu pai inad­vertidamente havia prometido satisfazer todos os desejos do filho, e não tinha agora como se furtar ao combinado. Os fogosos cavalos foram portanto reabastecidos com doce de leite e atrelados ao coche.

O carro do sol disparou em direção ao céu, mas os cava­los logo perceberam que o cocheiro não era capaz de controlá-los. Eles se afastaram do curso habitual, subiram bem alto no céu e depois mergulharam em direção à Terra a uma velocidade estonteante. Isso continuou durante algum tempo — para cima, para baixo e por toda parte — até que o carro do sol começou a se aproximar cada vez mais da terra. As nuvens começaram a fumegar e florestas inteiras e extensões de terra se incendiaram. Além disso, o ar no veí­culo celeste também foi ficando cada vez mais quente a ponto de Faetonte mal poder respirar. Quando o fogo en­volveu seu cabelo e sua pele, só lhe restou saltar do carro, e diz-se que seu corpo caiu no Rio Erídano. Suas irmãs, as Helíades, foram até lá e choraram durante tanto tempo que suas lágrimas se transformaram em âmbar, que até hoje é encontrado às margens do rio. O carro celeste caiu com uma chuva de centelhas dentro de um lago.

Hoje em dia, a história de Faetonte é vista como uma du­pla parábola. De um lado está o sol que tem o poder de quei­mar grandes extensões de terra e do outro o jovem que se julga capaz de fazer tudo que o pai faz. Duvido de que essa história tenha sido originalmente considerada uma simples parábola por aqueles que a narraram. Um número excessivo de seus elementos é por demais lógico e apresentam paralelos com a tecnologia moderna das viagens espaciais. Mas isso tam­bém é verdadeiro com relação a outras partes da Argonáutica.

Afinal de contas, não é por mero acaso que veículos anfí­bios aparecem em um conto que tem milhares de anos de idade. Apolônio nos diz o seguinte:

 

...Do mar saltou um cavalo de tamanho descomunal, e veio para terra. Sua crina era dourada, sua cabeça, altaneira e ele sacudiu a espuma salgada das suas ancas. Ele saiu então a galopar, mais veloz do que o vento.

 

Está subentendido que esse cavalo anfíbio é um dos cavalos de Posídon. Posídon era o deus do mar, mas também o deus da Atlântida. Mais tarde, veremos essa história. O que está então acontecendo aqui? Será o cavalo de Posídon um episó­dio isolado, algo que apenas os Argonautas viram? De jeito nenhum.

Na Bíblia, no livro do Profeta Jonas (capítulo 2), podemos ler o episódio no qual ele sobreviveu durante três dias e três noites no ventre de uma baleia. Os teólogos dizem que a his­tória encerra um significado profético, referindo-se aos três dias que se passaram entre a morte de Jesus e Sua Ressurrei­ção. Que idéia absurda! Temos informações melhores no vo­lume III do livro Die Sagen der Judeu [Contos dos judeus nos tempos antigos] .35 Nele lemos que Jonas entrou na boca do peixe como um "homem entra em uma sala". O peixe devia ser muito estranho porque seus olhos eram como "janelas e também brilhavam internamente". Jonas, é claro, foi capaz de conversar com o peixe e, através dos seus olhos – vigias! – ele pôde ver, "banhado em luz, como se estivesse ao sol do meio-dia", tudo que estava acontecendo nas águas e no fun­do do mar.

Existe um paralelo para esse submarino pré-histórico no Conto de Oannes da Babilônia. Por volta de 350 a.C., um sacerdote babilônio escreveu três obras. Ele se chamava Berossus e servia ao Rei Marduk (também chamado Bei ou Baal). O primeiro volume do seu livro, a Babylonica, trata da criação do mundo e do firmamento estrelado, o segundo volume, do reino da Babilônia e o terceiro trata de uma história propriamente dita. Apenas fragmentos dos livros de Berossus estão preservados, mas outros historiadores da antiguidade referem-se a eles, como o romano Sêneca e Flávio José, contemporâneo de Jesus. E, no século I depois de Cristo, Alexandre Polisto de Mileto escreveu sobre os babilônios. Desse modo, fragmentos da obra de Berossus sobreviveram aos milênios.

Esse sacerdote babilônio também descreveu um curioso ser, Oannes, que saiu do mar da Eritéia ao lado da Babilônia. Essa criatura, disse ele, tinha forma de peixe, cabeça humana, pés humanos e uma cauda, e falava como um ser humano. Durante o dia, Oannes havia conversado com as pessoas, sem comer nada. Além de transmitir a elas o conhecimento dos sinais escritos e das ciências, ele também as ensinou a cons­truir cidades e erigir templos, a introduzir leis e medir a terra, e tudo mais de que elas precisassem saber. Depois dessa épo­ca, ninguém mais inventara nada que excedesse os seus ensinamentos. Antes de partir, Oannes dera ao povo um livro que continha suas instruções.

Nada mau para um professor vindo das águas. É claro que podemos descartar a história de Oannes, considerando-a ape­nas uma fantasia, como todas as histórias incríveis, mas Oannes também faz parte das narrativas tradicionais de ou­tros povos da antiguidade. Os parsis chamam o professor das águas de "Yma",3b os fenícios de "Taut" e existe até um mons­tro com corpo de cavalo e cabeça de dragão que emerge das profundezas do oceano na época do imperador chinês Fuk- Ili. Essa criatura deve ter sido mesmo estranha, pois seu corpo estava adornado com sinais escritos.37

O cavalo anfíbio da Argonáutica também se revelou uma cria­tura falante. Os heróis e sua embarcação haviam chegado a um lago sem abertura para o mar. A equipe prosseguiu via­gem rebocando o Argo sobre a terra — provavelmente com a ajuda de rolos de madeira. Finalmente, eles ofereceram aos deuses uma trípode que Jasão supostamente teria recebido em Delfos, e a criatura anfíbia imediatamente reapareceu. Ela apa­rentemente se chamava Eurípilo, outro filho de Posídon. Eurípilo apareceu primeiro sob a forma de um belo e cordial jovem, com quem era possível manter excelentes conversas. Ele desejou boa sorte aos Argonautas em suas viagens, mos­trou a eles a direção do mar e entrou com a trípode na água fria. A seguir, ele agarrou a quilha do Argo e empurrou a em­barcação em direção à corrente:

 

...O deus ficou satisfeito com o culto que lhe foi oferecido, saiu das profundezas e apareceu com a forma de tini corpo que lhe era natural. Assim como um homem conduz um cavalo ao curso mais veloz... ele agarrou a quilha do Argo e o conduziu suavemente até o mar... Mas seus membros inferiores eram divididos em duas caudas de peixe separadas. Ele bateu na água com as extremidades pontiagudas, que tinham a fornia de meia-lua como as pontas de um crescente, e conduziu o Argo até chegarem a mar aberto. De repente então ele desapareceu nas profundezas. Os heróis gritaram em uníssono quando contemplaram essa maravilha...

O "grito" dos Argonautas era bastante compreensível. Quando as forças terrenas não ajudam, é preciso que as superterrenas o façam. Os amigos de Jasão continuaram a navegar e remar para casa, passando no caminho por muitos países. Eles qui­seram renovar sua provisão de água nas elevações de Creta, mas foram impedidos por Talo, que era dotado de um invulnerável corpo de metal. Ele é descrito como um "gigante de bronze",38 ou como um ser cujo "corpo era coberto de bronze".’9 Segundo Apolônio, Talos rodeava a ilha três vezes por ano, mas todos os outros autores da antiguidade mencio­nam "três vezes por dia".40 Com seu olho mágico, ele avistava todas as embarcações que se aproximavam de Creta e a seguir as atingia de uma grande distância, aparentemente com pe­dras, com grande precisão. Ele também tinha a capacidade de irradiar calor, atraindo os barcos na sua direção e depois incendiando-os. Diz-se que Talo foi construído pelo deus Hefesto, que era filho de Zeus. Os romanos o adoravam como o deus do fogo e o chamaram de Vulcano. Para os gregos, Hefesto, era ao mesmo tempo o deus do fogo e o protetor dos ferreiros.

Dizia-se que Zeus dera Talo de presente para sua antiga amada Europa, que certa vez vivera com esse pai dos deuses em Creta. O motivo pelo qual eles haviam ido até lá está oculto na mitologia. Os gregos pressupunham que Europa era filha do Rei Tiros. Zeus se aproximara dela quando ela era menina e brincava com seus animais e ficara encantado com ela. Zeus então se transformou em um jovem e belo touro, e Europa delicadamente montara em suas costas. O touro deve ter sido outro tipo de máquina anfíbia, pois, mal Europa se acomodara no dorso do animal, este mergulhou no mar e nadou até Creta com sua adorável carga. Lá, supo­nho eu, ele se transformou de novo em homem e possuiu Europa. Mas os deuses são inconstantes 110 amor; os assun­tos divinos exigiram que Zeus deixasse Creta e ele deu Ialo de presente à amada para que protegesse a ilha de visitantes indesejáveis.

Embora Talo fosse invulnerável, ele tinha um ponto fra­co. Havia em seu tornozelo um tendão coberto de pele bron­zeada e, debaixo dele, situava-se um cravo de bronze ou um parafuso de ouro. Se esse ferrolho fosse aberto, um sangue incolor — outros autores dizem que era branco ou supurado

se derramaria e Talo ficaria incapacitado.

Jasão e seus Argonautas tentaram se aproximar de Creta, mas Talo avistou o Argo e começou a atirar pedras nele. Uma vez mais foi Medéia, agora esposa de Jasão, que sugeriu que eles remassem para fora do alcance das pedras. Ela afirmou conhecer uma maneira mágica de colocá-lo fora de ação. Apolônio nos diz o seguinte:

 

...Eles teriam de boa vontade se aproximado de Creta, mas Talo, o homem de aço, impediu que os nobres que estavam atracados na praia com orvalho ainda no mastro cumprissem seu intento, ati­rando pedras contra eles. Talo era um espécime da raça de ferro dos seres terrestres... metade deus, metade homem. Júpiter o deu de presente a Europa para que defendesse a terra. Três vezes por ano rodeava Creta com pés de ferro. Coberto de ferro e invencível era seu corpo, mas ele tinha uma veia de sangue na sola do pé, debaixo do calcanhar, levemente coberta de pele. É ali que a morte se emboscava perto da sua vida...

 

Os Argonautas rapidamente se afastaram do bombardeio re­mando em direção ao mar alto. Medéia começou a recitar fór­mulas mágicas e a invocar os espíritos do abismo, os quais, uma vez invocados, fendem o ar... A seguir, ela lançou um feiti­ço nos olhos de Talo de modo que formas imaginárias invadi­ram seu olhar. Irritado, Talo bateu com o lugar sensível do tornozelo contra um rochedo e o sangue jorrou da ferida como chumbo derretido:

 

...Embora ele fosse feito de ferro, sucumbiu à magia... de modo que bateu com o tornozelo contra uma rocha afiada, e uma seiva, seme­lhante a chumbo derretido, jorrou para fora. Ele não mais conse­guiu ficar de pé e tombou, exatamente como um pinheiro que cai do topo de uma montanha... A seguir, ele conseguiu se levantar e se firmou novamente sobre os dois pés enormes — mas não por muito tempo, pois tombou de novo violentamente no chão...

 

Talos cambaleou impotente de um lado para o outro, tentan­do se equilibrar, mas acabou perdendo o equilíbrio e mergu­lhou no mar com um terrível estrondo.

O Argo pôde enfim se aproximar da costa de Creta e ancorar em segurança. Mas os Argonautas agora ansiavam para voltar para casa e, afinal de contas, tinham um troféu – o Velocino de Ouro. Após uma breve permanência em Creta, eles partiram de novo em direção ao mar, mas de repente tudo ao redor deles ficou escuro. Nenhuma estrela era visível e eles pareciam estar em uma espécie de mundo subterrâneo. O ar era negro como breu — não havia ne­nhuma centelha de luz ou lampejo de luar. Jasão implorou a Apoio que não os abandonasse naquele momento, tão próximos que estavam do seu destino; ele prometeu fazer muitas oferendas ao deus nos templos da sua terra natal. Apoio se arremessou do céu e iluminou toda a região com flechas luminosas. .4 luz delas, os Argonautas avistaram uma pequena ilha, perto da qual ancoraram. Eles erigiram um lugar sagrado em homenagem a Apoio e chamaram a ilhota de Anafe.

O restante da história é rapidamente narrado:

O Argo passou por várias ilhas gregas e chegou ao porto de Pagasai, onde sua jornada tivera início, sem maiores proble­mas. Jasão e sua tripulação foram recebidos como heróis. Se­guem-se então algumas intrigas de família. Correu o boato de que Jasão se interessara por uma jovem, comportamento este que desagradou Medéia. Ela envenenou os próprios filhos, lan­çou uma maldição na namorada de Jasão e o infeliz, desespera­do, se jogou sobre a própria espada. Desse modo, nosso herói divino se suicida, o que sem dúvida é um fim inadequado para a história.

E o que aconteceu com o Velocino de Ouro? Debaixo de que castelo ou fortaleza a pele do carneiro voador está enterrada? Quem a usou? Ela voltou a aparecer? Em que museu podemos admirá-la? A maior viagem da antiguidade aconteceu por cau­sa do Velocino de Ouro e este deve ter tido um valor enorme para seu novo dono. Porém nada mais é encontrado na lite­ratura antiga; os vestígios do Velocino de Ouro desaparecem na névoa do tempo.

Muitos autores e brilhantes historiadores contaram histó­rias sobre os Argonautas, e os historiadores e os exegéticos de hoje tentaram compreender a jornada do Argo. Que trajeto o navio percorreu? Onde ocorreram as aventuras? Em que cos­tas, ilhas e montanhas podemos encontrar os inúmeros alta­res e monumentos comemorativos construídos pelos Argo­nautas? Apolônio freqüentemente nos fornece locais geográ­ficos extremamente precisos em sua Argonáutica, com muitas descrições adicionais. Minha ênfase nos seguintes exemplos mostra como o relato de Apolônio é detalhado e como ele leva a sério sua geografia:

 

...Em Pytho, nos campos de Ortigern... eles zarparam com o vento pela popa e passaram pelo promontório mais afastado, o cabo Tisae... atrás deles desapareceu a escura terra das Pelasges...

Dali eles zarparam para Meliboa, e contemplaram o quebrar das ondas turbulentas na costa rochosa. E com o novo dia eles avista­ram Homola que é construída ao lado do mar. Eles a deixaram para trás e logo passaram a foz do rio que saía das águas de Amyrus. Eles avistaram então as planícies de Eurymenas, e as profundas dobras do Olimpo. Também Canastra... Na penumbra do anoitecer eles vislumbraram o pico do Monte Atlm, cuja som­bra cobre a ilha de Lemnos...

...até que chegaram mais uma vez às costas dos Dolions... onde avistaram as rochas Macriades, e diante de si a terra da Trácia. Também a foz etérea do Bósforo, o outeiro de Mysen, e na outra direção o Rio Aesaps e Nepeia...

...à foz bem-vinda do Rio Calichor. Foi aqui que Baco certa vez celebrou suas orgias, quando o herói voltou a Tebas depois de visitar os povos da índia...

...A seguir eles chegaram à terra da Assíria...

...os primeiros raios do amanhecer acariciaram os picos nevados do Cáucaso...

...Naqueles dias os Deucalides governavam a terra de 1’elasges. Mas o Egito, a mãe da raça mais antiga dos homens, já estava crescendo em notoriedade e fama...

...Eles navegaram para mais longe e a alvorada os encontrou na Terra dos Hyllers. Um grande número de ilhas se estendia diante deles e é perigoso para os navios passar através delas...

...íris desceu do Olimpo, avançando pelo ar de asas abertas e pou­sando no Mar Egeu...

...aqui subiu Cila das águas... ali rugia Caribde...

 

Esses são apenas alguns exemplos, que demonstram que Apolônio sabia muito bem em que parte do mundo os he­róis do Argo estavam praticando suas aventuras. Não apenas rios, ilhas ou regiões específicas são mencionados, como tam­bém mares ou cadeias de montanhas como o Cáucaso. Não


deveria ser muito fácil traçar a rota da jornada dos Argo­nautas?

É claro que isso foi feito — com resultados bastante variá­veis. Os dois professores franceses Emile Delage e Francis Vian elaboraram mapas claros,4142 segundo os quais Jasão e sua tripu­lação viajaram do Cáucaso na extremidade oriental do Mar Ne­gro ao longo do Rio Istros (o Danúbio) em direção ao Adriático, passando por outros tributários durante o percurso. No vale do Pó, havia muitos rios, pequenos e grandes, que os Argonautas de alguma maneira conseguiram usar para navegar ao redor dos Alpes e para chegar ao Reno e ao Ródano. Na região de Marselha, eles chegaram uma vez mais ao Mediterrâneo e passaram através dos estreitos de Messina — os supostos Cila e Caribde. Final­mente, eles se voltaram para o leste na direção das atuais Ilhas Jónicas, depois para o sul e avançaram diretamente para o Gran­de Syrtis da Líbia. Dali eles zarparam para casa pelo caminho de Creta. E onde fica o lugar onde o carro celeste de Faetonte caiu sobre a terra? Não muito distante da borda ocidental da Suíça, no "Marais de Phaéton" (Pântano de Faetonte).

Reinhold e Stephanie Glei43, 44 apresentaram mapas ainda mais exatos. Mas eu tenho problemas com eles; de que modo vamos do Rio Istros ou Danúbio para o Adriático, e dali atra­vés do rio Erídano no vale do Pó até os “mares Célticos" da França dos dias de hoje? Afinal de contas, o Argo não era um pequeno barco de borracha e sim o maior navio da sua época, com uma tripulação de cinqüenta pessoas. Não se pode negar que pode ter havido vias navegáveis naqueles tempos que hoje já não existem— o que uma vez mais traz à baila a questão da data da Argonáutica original. Em que eras geológicas havia vias navegáveis onde hoje só existe terra firme?

Um cônsul-geral da França, Monsieur R. Roux, compara as viagens de Ulisses, descritas detalhadamente pelo poeta grego Homero, com a Argonáutica.45

 

Não devemos jamais nos esquecer da grande precisão e dife­renciação de Estrabão: a Odisséia acontece no oceano ociden­tal, a Argósia no oriental.

 

Christine Pellech tem uma perspectiva bastante diferente.46 Seu estudo bastante completo também compara as viagens de Ulisses com a Argonáutica, chegando à conclusão de que "a Odisséia coincide em parte com a jornada dos Argonautas". Ela afirma que Ulisses efetivamente navegou ao redor do mundo — milênios antes de Colombo — e apresenta o pon­to de vista de que os egípcios haviam recorrido a fontes fenícias, e que foi essa "mistura fenícia-egípcia que fora to­mada em sua totalidade pelos gregos". Tanto o conteúdo da Argonáutica quanto o da Odisséia derivam do Egito, de acor­do com Pellech, e ela baseia essa afirmação no fato de que Apolônio de Rodes foi criado na Alexandria, visitou a biblio­teca local e só deixou o Egito depois de se desentender com seu professor.

Os argumentos de Christine Pellech dão a impressão de serem oriundos de uma pesquisa bem documentada e ela tam­bém consegue fazer corresponder muitos pontos da jornada com lugares concretos no planeta. No entanto, muitas per­guntas ainda permanecem.

Se o que ela diz é verdade, então a maioria das indica­ções geográficas fornecidas por Apolônio devem estar erra­das, e muitos estudiosos terão perdido seu tempo. Qual poderia ser a explicação? Vamos supor que Apolônio real­mente trouxe a essência da história dos Argonautas do Egito para a Grécia. Então, para criar para si mesmo uma imagem mais completa, ele pode muito bem tê-la adornado com detalhes geográficos da sua própria experiência. Para fazer isso, no entanto, ele teria de ter possuído um extenso co­nhecimento da vasta região do mundo grego daqueles dias, bem como de muitos rios, costas e montanhas além da Grécia. Mas, mesmo assim, ainda existem dificuldades; como, por exemplo, podemos explicar passagens de Apolônio como a seguinte:47

 

....À noite eles desembarcaram na ilha Atlantides. Orfeu implorou a eles i/tie não rejeitassem as solenidades da ilha, nem os segre­dos, as leis, os costumes, os ritos e serviços religiosos. Se eles os observassem, teriam garantido o amor do céu na continuação da sua viagem sobre o perigoso oceano. Mas falar mais sobre essas coisas eu não ouso...

 

Não devemos nos esquecer de que Atlântida era a ilha do deus Posídon, que se dizia que dois dos seus filhos viajaram no Argo e que os veículos anfíbios que haviam subido à superfí­cie do mar haviam sido obra de Posídon. Mas como Apolônio tem conhecimento da Atlântida — se é a isso que a palavra "Atlantides" está se referindo? Ele escreve pelo menos a res­peito de solenidades que não devem ser rejeitadas, mas tam­bém de segredos, leis e costumes. E embora em todos os ou­tros lugares ele forneça cada detalhe geográfico, ele agora se abstém de dar qualquer outra informação sobre essas coisas. Existe algo aqui que não se encaixa no contexto geral, e volta­rei mais tarde à história da Atlântida.

A história do Argo realmente aconteceu um dia? Uma vez que não existem fontes mais antigas a que possamos recor­rer do que as aqui citadas, provavelmente nunca saberemos. Mas tenho seguido o rasto dos deuses nos últimos quarenta anos, convencido de que muitos elementos da Argonáutica não podem simplesmente ter sido inventados. A fantasia é algo excelente e até mesmo milênios atrás as pessoas aprecia­vam os caprichos da sua imaginação. Mas a fantasia sempre se baseia em alguma coisa; ela tem seu ponto de partida em eventos que realmente aconteceram, em circunstâncias que não podem ser compreendidas, em enigmas que nossa razão não consegue claramente classificar. Tentamos hoje em dia arduamente atribuir uma tendência psicológica à "imagina­ção" dos povos de antigamente, empregando a concepção antiga e desgastada dos fenômenos naturais como o relâm­pago e o trovão, as estrelas, o silêncio e o infinito, as erup­ções vulcânicas e os terremotos. Mas como o demonstra a história da exegese ou dos comentários, cada estudioso só pensa levando em conta a própria experiência, condiciona­do pela época em que vive. Nosso chamado zeitgeist* torna nossa perspectiva mais estreita e determina o que é "razoá­vel" ou "científico". Minha eficiente secretária retirou da biblioteca da universidade de Berna 92 livros sobre o tema Argonáutica para meus estudos. Como de costume, quase nos afogamos nos quilômetros de comentários escritos por di­nâmicos acadêmicos em diferentes períodos — mas ninguém realmente sabe a verdade. E cada um deles apresenta um ar­gumento diferente.

Eu ainda me atenho à minha convicção básica, a qual desenvolvi em 24 livros a partir de 1968. Tudo que tento fazer é relacionar novos argumentos à teoria original, e du­rante esse processo as lacunas no mosaico vão ficando cada vez menores e a imagem global se torna progressivamente mais convincente. No entanto, admito que minha teoria possui seus defeitos e que parte do que apresento poderia ser explicado de um modo diferente. Vias, ao final do dia, qual é a verdade? As análises realizadas pelos comentadores nos últimos cem anos são corretas? Suas conclusões são con­vincentes? Eles fornecem — como a comunidade científica simplesmente supõe — um corpo de conhecimento com­provado? Ou o que eles consideram cientificamente corre­to é apenas uma interpretação ditada por perspectivas con­temporâneas?

É claro que, neste caso, torno-me diretamente vulnerável a um ataque direto. Que outra coisa, dirão as pessoas, o que está Erich von Dãniken fazendo senão interpretar as coisas a partir da sua perspectiva contemporânea? Isso é verdade. Mas já não deveríamos ter aprendido que somos apenas um grão de poeira que vive nas profundezas do universo? Que o mun­do e o cosmo são muito mais fantásticos do que aprendemos na escola? Já não está na hora, tendo em vista a abundância de elementos disponíveis, de admitirmos que algo não está certo na nossa visão do início da história da humanidade? E que as opiniões que recebemos estão erradas porque varrem para baixo do tapete milhares de indicações e referências, re­cusando-se até mesmo a aceitá-las como possibilidades? Eu tenho uma vantagem sobre os comentadores. Conheço osargumentos deles, mas eles não conhecem (não estão interes­sados em conhecer) os meus.

Os novos leitores precisam tomar conhecimento das minhas antigas teorias, de modo que apresentarei um breve resumo delas. Certa ocasião, milênios atrás, uma população alienígena desembarcou na terra. Nossos antepassados não tinham a me­nor idéia do que estava acontecendo; eles nada sabiam sobre tecnologia, muito menos sobre viagens espaciais. Sua mente simples deve ter achado que os alienígenas eram "deuses" — embora nós saibamos que não existem deuses. Os alienígenas estudaram primeiro pequenos grupos e tribos de seres huma­nos, exatamente como os etnólogos fazem hoje em dia. Aqui e ali eles deram conselhos para a criação de uma civilização organizada. Não havia nenhum problema de comunicação entre as pessoas e os "deuses", não apenas porque a nossa civilização sempre conseguiu assimilar com facilidade idio­mas totalmente estranhos, mas também porque o primeiro Homo sapiens sapiens provavelmente aprendeu sua língua com os "deuses."

Um dia, finalmente, uma cisão e até mesmo uma revolta ocorreu entre os alienígenas. Eles violaram as leis do seu mun­do de origem e as determinações dos seus superiores do co­mando espacial, e tiveram relações sexuais com as belas filhas dos homens. Essas uniões deram origem a mutantes: mons­tros enormes, os Titãs da antiguidade. Outro grupo de extra­terrestres dedicou-se à engenharia genética, criando os mais variados tipos de mutantes. O resultado deve ter sido um ver­dadeiro cenário de Frankenstein. A nave mãe então partiu com os "bons" alienígenas, regressando às profundezas do cosmo – mas não sem primeiro prometer voltar em algum ponto do futuro.

Os "deuses" que ficaram para trás na Terra brigaram en­tre si. Eles ainda possuíam fragmentos da sua tecnologia ori­ginal e, sem dúvida, conservavam seus conhecimentos. Eles sabiam, por exemplo, como trabalhar o ferro, fazer ligas e criar armas e robôs terríveis. Mas eles também sabiam como fazer voar um balão de ar quente ou carregar uma bateria solar. Esses "deuses" geraram filhos e, naturalmente, ensina­ram parte do seu conhecimento tecnológico aos seus des­cendentes.

Estes últimos se espalharam pela terra, habitando diferen­tes regiões que eram governadas, em cada caso, por um único governante ou por uma dinastia familiar. Eles seviciaram seus súditos, os seres humanos, utilizando-os como burros de car­ga, produtores de alimentos e serviçais idiotas. Mas também ensinaram muitas coisas aos súditos, nomeando os melhores como administradores, os chamados reis.

Os "deuses" basicamente vigiavam seus súditos com ciú­mes; "Não tereis outros deuses antes de mim" era uma das suas leis. E, na hora das batalhas e golpes, os "deuses" freqüen­temente apoiavam seus súditos com armas terríveis. Os filhos dos deuses e seus descendentes de terceira e quarta gerações com freqüência brigavam entre si.

Essa é, portanto, a minha teoria, que se baseia em um tão grande número de fontes de informações que somente as re­missões recíprocas se transformaram em um livro,48 e todos os meus livros juntos se transformaram não apenas em uma enciclopédia,49 como também em um CD-ROM.50, 51 Isso tudo sem mencionar as centenas de livros que outros autores publicaram sobre o mesmo tema em todo o planeta. É, por­tanto, bastante natural que eu esteja familiarizado com todos os contra-argumentos possíveis e imagináveis, e que há mui­to tempo já tenha lidado com eles de uma maneira que me foi satisfatória.

Qual a possível relação entre a Argonáutica e os extraterres­tres? Quais os elementos componentes que dificilmente po­dem ter apenas surgido da imaginação de um grupo de pes­soas que viveram há milênios de anos? E eu quero ser bem claro a respeito deste ponto: não estamos falando da imagi­nação de um Apolônio, ou de qualquer outro poeta grego, que tenha escrito seus relatos há 2.500 anos. A essência da história da Argonáutica tem origem em uma época da qual não temos registros históricos — simplesmente porque as bibliotecas realmente antigas foram destruídas. A não ser, é claro, que alguma inesperada câmara de tesouro esteja para ser aberta no Egito.

O que então nos chama a atenção na Argonáutica?

Muitos viajantes são descendentes dos deuses, da tercei­ra e quarta gerações. Eles possuem características sobre­humanas.

"Seres mistos" são descritos, como os centauros, gigantes com seis braços ou os "cães alados" de Zeus.

Uma deusa torna o Argo insubmergível.

A mesma deusa coloca no navio um "vau falante". Esse pedaço de madeira que fala deve ter um canal direto de comunicação com alguém, porque avisa os tripulantes de perigos iminentes.

Um ser chamado Glauco surge na superfície da água como um submarino, trazendo uma mensagem dos deuses.

Paredes de rochedo se abrem como na história de Ali Babá e os quarenta ladrões ("Abre-te, Sésamo").

O Rei Fineu sabe tudo a respeito dos perigos que os argonautas encontrarão em sua rota. Como ele sabe disso?

A torre de Aietes perto da cidade de Aia.

Um deus (Apoio) voa ruidosamente sobre o navio. Ele está a caminho da terra dos "Hiperbóreos" e visita "pessoas de outra raça”.

Pássaros lançam flechas mortíferas, mas ficam irritados com barulho.

Uma deusa usa uma "névoa" para tornar os homens invisíveis.

Um certo ungüento confere às pessoas poderes sobre-hu- manos e cria um escudo resistente ao calor.

Um dragão que nunca dorme e tudo observa, destituído de necessidades físicas, capaz de cuspir fogo e nunca morre.

Touros com pernas de metal que cospem fogo.

Um veículo dos deuses que precisa ser conduzido por uma pessoa com grande experiência e controle. Ao cair, ele in- cendeia grandes extensões de terra e o "piloto" precisa sair por causa do calor insuportável no interior do veículo.

Vários seres anfíbios falantes.

Um deus que ilumina a noite por meio de "flechas lu­minosas".

Um robô metálico que dá a volta em uma ilha. Seus olhos avistam os navios que se aproximam e ele lança projé­teis, põe fogo nos agressores e seu sangue parece chumbo derretido.

Uma mulher da raça dos deuses que consegue confundir esse robô com "imagens de sonho".

Mesmo que suponhamos que tudo não passa de uma história extravagante engendrada na cabeça de um sonhador e mais tarde expandida e aumentada por poetas das eras subseqüen­tes, isso significa que todas as perguntas estranhas devam ser silenciadas? Não existe então nenhum mistério a ser resolvido?

Até mesmo uma história extravagante encerra um con­teúdo. Seif inventor original teria de ter tido pelo menos uma história parcialmente plausível, porque as coisas precisam apre­sentar uma certa coesão e bom senso. A estrutura básica da história é simples: uma ou várias pessoas partem em busca de um objeto único e extremamente valioso. Esse objeto é guar­dado por um monstro incompreensível e tudo isso tem uma certa relação com os deuses.

É irrelevante se o poeta também insere uma história de amor em algum lugar, que tem um final feliz. Mas qual a origem do monstro de metal, que ataca navios, derruba coisas com seus projéteis, irradia calor e tem o sangue feito de chumbo? E de onde esses poetas tiraram a idéia do dragão que cospe fogo? Esse tipo de criatura nunca existiu na evolução do planeta. Nin­guém poderia simplesmente tê-la inventado. Não existem, por­tanto, nem explicações "arquetípicas", nem “memórias" antigas e nebulosas em ação neste caso. E por que essa raça de dragões aparece repetidamente nas histórias dos povos da antiguidade? Os mais antigos contos chineses falam dos reis dragões que desceram dos céus para a Terra no início dos tempos. Eles não são produto da fantasia ou de histórias absurdas, pois os reis dragões fundaram a primeira dinastia chinesa. Nenhuma arma humana era capaz de lhes ferir, e eles dominavam os céus com seus dragões que cuspiam fogo. As máquinas voadoras dos reis dragões faziam um barulho terrível e o fundador da primeira dinastia tinha o nome de "Filho do Dragão Vermelho".52

Nada disso é mitologia porque, afinal de contas, o tema do dragão que cuspia fogo influenciou toda a arte chinesa durante milhares de anos, até a nossa época. E quem quer que argu­mente que essas coisas não podem ter sido verdadeiras e que o dragão precisa ser compreendido a partir de uma perspectiva psicológica talvez deva fazer uma viagem a Beijing e dar uma olhada na Praça Vermelha. O que pode ser visto ao longo de um dos lados da praça? O templo do imperador celestial!

Não lhe ocorre, pouco a pouco, que existe algo estranho nisso tudo? Que os relatos da antiguidade não são apenas len­das, mitos ou histórias imaginárias, e sim uma antiga realida­de? Essa longínqua realidade, contudo, também pode ser de­monstrada de outra maneira: seguindo a trilha do tempo.

 

NOTAS

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                    EM NOME DE ZEUS

A região que hoje chamamos Olímpia já era habitada no terceiro milênio a.C. O primeiro local sagrado naquela parte da Peloponésia ocidental foi dedicado à deusa Ge. Muito mais tarde, Olímpia se transformou na cidade-templo de Zeus. No ano de 776 a.C., ocorreram as primeiras competições em Olímpia, e temos um registro escrito com o nome do vencedor – "Coroibos de Elis”. As competições atléticas ocorriam a cada quatro anos durante um período de 1.168 anos, de 776 a.C. a 393 d.C. Regras rígidas foram estabelecidas, tanto para os com­petidores quanto para a audiência. Os atletas deveriam treinar pelo menos durante dez meses; eles também deveriam ser gre­gos livres que não tivessem cometido assassinato nem se com­portado de uma maneira indecente em um local sagrado. Trin­ta dias antes do início dos jogos, os atletas se reuniam no cam­po de treinamento em Elis, a 57 quilômetros de Olímpia, onde ficavam morando juntos em habitações simples e recebendo a mesma comida.


Os Jogos Olímpicos eram apenas para os homens; as mu­lheres e os escravos não tinham permissão nem mesmo para assistir, havendo até mesmo uma lei que dizia que qualquer mulher que fosse surpreendida assistindo aos jogos seria ati­rada do Monte Typaion. Por que essa implicância com as mulheres? Todos os participantes tinham de competir nus e, mais tarde, os organizadores os obrigaram também a treinar sem roupa. Por que tudo isso?

Tanto os juizes das competições quanto o público tinham de ter certeza absoluta de que os atletas participantes eram seres humanos normais, que não haveria trapaça e que todos teriam a mesma oportunidade. A palavra "atleta" na verdade deriva da palavra grega athlos e significa prêmio ou honra. E qual a relação de tudo isso com a história da Argonáutica? Fi­que um pouco mais comigo.

Até o 13° Jogo Olímpico em 728 a.C., uma única compe­tição ocorria: a corrida de velocidade em um percurso de um estádio, uma distância de mais ou menos 200 metros. Foi somente em 720 a.C. que uma corrida mais longa foi acres­centada, em um percurso de dois estádios, cerca de 400 metros. O primeiro vencedor olímpico dessa corrida foi Acanto de Esparta. A partir de então, novos esportes foram incluídos em cada um dos Jogos Olímpicos. A história dos jogos foi minuciosamente pesquisada por vários historiado­res. Heródoto, o "pai dos historiadores" (490-426 a.C.), lia pessoalmente trechos das suas obras em voz alta no Olímpia, e foi assim que ele se tornou conhecido dos seus compatrio­tas. O historiador grego Diodoro (cerca de 100 a.C.), autor de quarenta volumes de livros de história, visitou os 180 Jogos Olímpicos.

É fácil para mim utilizar a história dos Jogos Olímpicos para demonstrar que monstros, Titãs, "seres mistos" ou outros se­res estranhos não participavam deles. Os competidores fica­vam nus e nenhum ser híbrido ou hermafrodita jamais teria tido permissão para assistir aos jogos. Nenhum robô à la Ta­los tinha sido programado para proteger os inúmeros tem­plos olímpicos que continham ouro e prata. Nenhum dragão que cuspia fogo guardava com olhos incansáveis as valiosas oferendas feitas aos deuses e nenhuma descendência "divina" corrompia os jogos. Pelo menos podemos ter certeza disso a partir de 776 a.C. Competições eram realizadas em Olímpia antes disso, mas não estão incluídas em nenhum registro histórico.

A mais antiga referência conhecida à Argonáutica encon- tra-se no quarto poema de Píndaro, que escreveu a história por volta de 500 a.C. Certamente não havia gigantes, Titãs ou outros descendentes dos deuses à solta naqueles dias, caso contrário teriam sido mencionados nos registros históricos de Olímpia. Eles também não existiam um quarto de milênio antes disso, nos primeiros Jogos Olímpicos. Não obstante, a história faz referência a deuses, robôs, ao Velocino de Ouro e a um dragão que nunca dorme. Por conseguinte, as primeiras pessoas que contaram a história da Argonáutica inventaram seus monstros ou os extraíram de fontes bem mais antigas. Não vejo nenhuma outra alternativa.

A invenção fantástica de um "vau falante" ou de um "ho­mem de metal" não se encaixa facilmente na época de Píndaro e nem mesmo na de Apolônio. O mesmo podemos dizer do dragão que nunca dorme e que não tem necessidades físicas, cospe fogo e é imortal. Se essas figuras tivessem sido inventadas nas histórias fantásticas da época, nós teríamos conhecimen­to desse fato. Afinal de contas, na Grécia antiga, havia uma enorme quantidade de poetas e sonhadores. Um grande nú­mero das suas histórias resistiu aos milênios, mas nenhum deles menospreza as mentiras inventadas pelos outros. Assim sendo, certamente essas histórias precisam ser mais antigas do que os primeiros Jogos Olímpicos.

Quanto mais nos aprofundamos no nevoeiro da história humana, mais improváveis se tornam as invenções tecno­lógicas, como as mencionadas na Argonáutica. Nosso modelo evolucionário nos levaria a concluii que quanto mais recuás­semos no tempo, mais simples seria o pensamento humano. Ou será que existe alguém que seriamente deseje propor a idéia de que os contadores de histórias pegaram suas tabuinhas de argila no instante em que a primeira escrita foi inventada?

Acompanhe-me em uma viagem mental, que nos fará recuar 4.000 anos. Estamos na cidade de Assur, que existiu cerca de 2.000 a.C. O desenvolvimento da escrita encontrava-se a todo vapor e as pessoas já tentavam riscar em tabuinhas de argila algumas leis decretadas pelo nosso hábil governante. Este exi­ge de cada um dos seus subordinados que implemente de ime­diato as leis, em vez de julgar as coisas de acordo com o capri­cho do momento. A elaboração dessas "tabuinhas da lei" é muito difícil. Primeiro, a mistura correta de argila precisa ser comprimida em armações de madeira, e depois amassada e alisada. A seguir, o escriba traça linhas finas na argila com uma pedra afiada. Todo o processo já foi testado durante se­manas, com a argila mole sendo gravada repetidamente com os sinais em forma de cunha. Às vezes, a ferramenta de pedra risca muito profundamente e a impressão fica muito larga na parte superior; outras vezes, uma pressão excessiva é aplicada. Ou então a mão do escriba treme. Com freqüência, a argila mole cede no lugar errado, ocultando um traço importante que transforma uma palavra em seu oposto — como "injusto" em "justo". Finalmente, as armações de madeira são coloca­das ao sol para secar. Após algumas horas, podemos ver que a escrita já não parece correta porque o calor empena a arma­ção. Além disso, muitas tabuinhas se quebram quando são removidas da armação.

Você pode ver, portanto, que em 2.000 a.C. escrever era ao mesmo tempo um processo exaustivo e uma séria responsabilida­de. Poucos dominavam essa nova arte. Imagine então que aparece um sonhador que só tem uma coisa em mente: ele exige 5.000 tabuinhas para poder gravar nelas uma história inventada, um sonho, digamos — ou, como ela seria chamada um milênio mais tarde, um conto de fadas! Os sacerdotes, a tribo, o governante só permitirão tal coisa se a considerarem extremamente im­portante. E que tipo de história poderia ser importante a pon­to de exigir que alguém passasse anos gravando-a na argila?

 

Apenas uma, sem dúvida, que descreva uma série de eventos antigos, poderosos e, é claro, verdadeiros, que preci­sam ser conservados para a posteridade. As mentiras e as in­venções não são gravadas na argila — e os sonhos definitiva­mente também não.

E foi isso que aconteceu. Depois que a humanidade final­mente inventou a escrita, ou melhor, a aprendeu com os deu­ses, os textos registrados eram acordos comerciais e, mais tar­de, decretos reais ou relatórios sobre guerras e batalhas. Os poucos especialistas que sabiam escrever, escolhidos a dedo, não usavam esse conhecimento para registrar tolices. As tabuinhas de argila não existiam para imortalizar as fantasias de qualquer sonhador. As únicas coisas escritas eram aquelas realmente importantes — inclusive as histórias a respeito dos deuses, das suas armas sobre-humanas e poder sobrenatural. Essas histórias já existiam e não foram inventadas de repente. Não havia lugar para uma literatura trivial ou escapista nos textos sagrados. Tanto os governantes quanto os sacerdotes se teriam recusado categoricamente a dar sua aprovação.

Por que então as descrições de uma misteriosa tecnologia dos deuses são encontradas entre os mais antigos registros es­critos? O que tornou essas coisas tão importantes a ponto de serem escritas? A Epopéia de Gilgamesh foi escrita milhares de anos antes de Cristo, bem como as histórias dos primeiros im­peradores chineses e seus dragões celestes. E, na versão mais antiga da história de Gilgamesh, escrita em tabuinhas de argila há 5.000 ou 6.000 anos, encontramos o robô Chumbaba, a "torre dos deuses", a "porta que fala como uma pessoa" e os projéteis dos deuses, rápidos como o relâmpago. É claro que também ouvimos falar em uma jornada espacial, pois Gilgamesh é levado da terra e descreve o que vê de uma grande altitude.

Acho melhor parar por aqui; já explorei essas histórias em outros livros, que podem ser examinados por aqueles que de­sejem se aprofundar no assunto.1, 2

Há cento e noventa anos, o historiador Professor Dr. Ernst Curtius escreveu o seguinte:3 "A história não conhece a infância de nenhuma raça." Isso é verdade, pois cada povo só começa a fazer um registro histórico depois de formar uma comunidade a respeito da qual algo pode ser escrito. Heródoto certamente não foi o primeiro historiador do planeta; a história foi escrita séculos e milênios antes dele. Heródoto foi uma pessoa erudi­ta. Ele pesquisou meticulosamente as bibliotecas da sua época, pois sua curiosidade e interesse eram sempre crescentes, e ele queria descobrir a verdade a respeito dos deuses gregos.

Por sua cuidadosa pesquisa, ele descobriu as origens dos deuses gregos no Egito. Descobriu que os egípcios foram o primeiro povo a manter registros precisos a respeito dos seus deuses e reis, e que eles tinham conhecimento de festivais muito antigos que "apenas recentemente começaram a ser celebrados na Grécia”.4

Heródoto descobre no antigo Egito seus deuses gregos, jun­to com todos os ritos que lhes são dedicados, e não se sente nem um pouco culpado por ter-se aberto com relação a isso, embora seus devotos compatriotas facilmente pudessem ficar ofendidos. Heródoto declara com bastante naturalidade que ísis nada mais é do que o nome egípcio para Deméter. A deusa Atena e os deuses Hélio, Ares e muitos outros têm sua origem no Egito. No segundo livro das Histórias, a partir do capítulo 60, Heródoto descreve diversos festivais em homenagem a es­ses deuses e como eram celebrados no Egito. Ele sempre man­tém uma perspectiva crítica, fazendo uma distinção entre suas experiências pessoais e as coisas que lhe foram contadas por terceiros. Ele também registra meticulosamente as coisas sobre as quais não quer escrever, seja por serem sexualmente ofensi­vas, seja por não acreditar no que lhe foi contado. Heródoto até mesmo explora a questão sobre o motivo pelo qual esses seres sobre-humanos são chamados de "deuses". A resposta a que ele chega não dá margem a dúvidas: porque eles foram os primeiros mestres da humanidade e também porque "determi­navam todas as coisas e dividiam tudo entre si".

Heródoto também extrai contagens de anos das suas fon­tes egípcias capazes de nos causar uma grande surpresa. No capítulo 43 do seu segundo livro, ele escreve que Héracles era conhecido pelos egípcios como um deus muito antigo. Ele diz que 17.000 anos se passaram entre a época de Héracles e o reino de Amasis. A seguir, ele fornece dois números que per­turbam a cabeça dos nossos especialistas. Para o Heródoto itinerante — e tudo isso, é claro, aconteceu por volta de 450 a.C. — os sacerdotes de Tebas mencionaram o nome de 341 gerações de governantes que eles haviam cuidadosamente re­gistrado. De acordo com Heródoto, essas 341 gerações cor­respondem a 11.340 anos, e a partir de então "não houve mais deuses com forma humana" no Egito. Heródoto não estava meramente batendo papo com simples pedreiros ou comercian­tes fofoqueiros. As pessoas com quem ele falou eram sacerdotes instruídos e quando, impressionado, ele perguntou a eles se suas afirmações eram verdadeiras, essa elite de sacerdotes con­firmou que os 341 reis tinham sido pessoas "bem diferentes dos deuses'' e, que antes deles, deuses haviam governado o Egito e vivido entre os seres humanos. (Quem quiser verificar essas afirmações pode ler o livro 2, capítulos 142 a 145, das Histórias de Heródoto.) E uma vez mais I leródoto nos garante que os egípcios sabiam de tudo isso "com certeza, porque eles continuamente computam os anos e os registram”. Os mes­mos sacerdotes também leram para Heródoto, a partir de um livro, o nome dos 330 reis, junto com os períodos em que governaram, que se seguiram ao reinado do Faraó VIenes.

Os perspicazes exegetas, filólogos, arqueólogos e historia­dores religiosos dos dias de hoje não conseguem aceitar a idéia desses enormes períodos de tempo. Antes do início da história escrita, eles só têm conhecimento do grande buraco negro da Idade da Pedra, durante a qual os seres humanos que descen­diam dos macacos lenta e infalivelmente expandiram seu co­nhecimento. Eles aprenderam a usar instrumentos de pedra e pouco a pouco desenvolveram a linguagem. Eles formaram tribos para sua segurança, inventaram a ponta de flecha, a lança e finalmente o arco, e a certa altura descobriram como extrair o ferro da rocha. Nessa mesma época, eles ergueram gigantescas construções megalíticas. E, quando finalmente inventaram a escrita, imediatamente usaram estiletes de pe­dra para imprimir nas tabuinhas de argila histórias fantásti­cas com uma tendência tecnológica!

Nossos especialistas, que confinam o cérebro em intermi­náveis conferências e discussões, e que citam o tempo todo as obras uns dos outros a fim de "permanecer científicos", não conseguem propor uma explicação melhor do que a psicoló­gica. Eles escrevem frases como:5 "Colocar antes de meados do quarto milênio a cronologia das dinastias mais antigas é ridículo e claramente uma óbvia invenção." Ou: "Um total absurdo", ou: "Podemos deixar sem problemas esta passagem de fora, pois ela nada contém além de disparates absurdos." Este tipo de ponto de vista defende com segurança a idéia de que "a história do antigo Egito só começou realmente por volta de 3.000 a.C."6 Qualquer outra versão da história da humanidade é inconcebível, mesmo que os historiógrafos dos mais diversos povos forneçam datas concretas. O dogma sa­grado da evolução não admite nenhuma outra alternativa.

A fim de explicar todas as incongruências, as pessoas in­ventam "anos lunares", acusam os historiadores e historiógrafos de cometer erros com os números, de exagerar a natureza gran­diosa dos seus reis ou de inventar tipos de calendário que na verdade nunca existiram — como o calendário Sothis ou Sirius para os reinos faraônicos. E o que acontece à nossa tão elogiada "abordagem científica” se simplesmente desprezarmos todas as datas que um tão grande número de escribas e historiógrafos registrou com tanto cuidado? Heródoto está longe de ser o úni­co a incluir datas e períodos nas suas histórias. No meu livro anterior,7 apresentei números comparativos dos mais diversos lugares. A conclusão a ser tirada não é que os antigos tivessem problemas para contar e sim que simplesmente não queremos reconhecer a realidade daquela época.

Os filósofos gregos Platão (427-347 a.C.) e Sócrates (470-399 a.C.) ainda são considerados, inclusive pela nossa cultura ex­tremamente adiantada, como pensadores ilustres e perspica­zes. Seus tratados enchem milhares de páginas e eles se esforça­vam o tempo todo para chegar à verdade. Quem quer que leia os Diálogos de Platão descobrirá o verdadeiro significado da filosofia e da dialética. Em seu diálogo intitulado As Leis, Platão inicia uma conversa com um hóspede vindo de Atenas, com Cleinas de Creta e o lacedemônio Megillos. Esses homens tam­bém discutem os tempos antigos e o ateniense diz o seguinte:8

 

Se fizermos um exame mais atento, descobriremos que as pin­turas e esculturas criadas há dez mil anos — e estou me refe­rindo a um período de tempo preciso e não usando o termo no sentido vago que geralmente lhe é conferido — não são nem mais belas nem mais feias...

 

Por que o grego enfatiza o fato de estar se referindo a um pe­ríodo específico de tempo de dez mil anos? Porque os gregos consideravam todos os números acima de dez mil algo que podia variar entre "grande" e "infinito”. No livro 3 do mesmo Diálogo, os homens falam abertamente a respeito da destruição de culturas anteriores. Está claro que o conhecimento dessas civilizações extintas era evidente por si mesmo naqueles dias e não apenas com relação a pequenas nações dizimadas em um ou outro momento pela guerra ou desastre natural. De modo nenhum. As pessoas tinham conhecimento de uma catástrofe global causada por um grande dilúvio. Podemos ler com deta­lhes na obra de Platão a respeito da erradicação de cidades e países inteiros e dos pequenos grupos que sobreviveram nas regiões montanhosas. Esses sobreviventes, diz ele, haviam pre­servado a arte da cerâmica, viviam da caça e eram capazes de fabricar cobertores e armas simples, pois podiam confeccioná- los sem o uso do ferro. Por outro lado, diz ele, o uso dos metais lhes foi ensinado pelos deuses "para que a raça humana, no meio das dificuldades que estavam passando, obtivesse uma força e um ímpeto renovado para se desenvolver".9

Podemos ler a respeito da maneira pela qual as cidades das planícies e à beira-mar foram destruídas e as minas de metal ficaram submersas, o que tornou impossível a obtenção de minérios. Todas as ferramentas também foram perdidas, bem como uma grande parte do conhecimento, inclusive a "arte da política”. As gerações seguintes, escreve Platão, logo esquece­ram de que modo muitos milênios haviam se passado.

Muitas pessoas interpretam esse Diálogo como uma espé­cie de suposição, como se Platão estivesse dizendo: "Vamos supor que isso aconteceu, que o mundo foi arruinado e as pessoas tiveram de recomeçar do início, como isso seria." No entanto, esse ponto de vista não tem muita utilidade, visto que a menção a culturas extintas não se restringe a As Leis. E o ateniense afirma explicitamente que se está referindo a um número exato de "dez mil anos".

Mas por que tal catástrofe teria ocorrido? Em a Política de Platão lemos assombrados a respeito de:10

 

...o milagre da inversão do nascer e do pôr do sol e dos outros corpos celestes. Onde hoje eles se levantam, eles uma vez se punham, e nasciam do outro lado...

 

Isso parece absurdo, mas na nossa época adquire outra di­mensão. Simplesmente imagine um globo e faça-o girar sobre o próprio eixo para obter nossos dias e noites. Agora incline o eixo e deixe o globo continuar com a mesma rotação anterior – em outras palavras, sem parar o giro e invertê-lo. O que acontece? Os habitantes da terra têm a impressão de que o sol mudou seu trajeto. É claro que isso não aconteceu, mas o fato de o eixo da terra ter mudado de direção faz com que as pes­soas tenham essa impressão. Além disso, uma mudança no eixo da terra também provocará inevitavelmente terríveis inundações. Desde que aprendemos que o campo magnético do nosso planeta se modifica, uma mudança no eixo da terra tem estado dentro dos limites da possibilidade.

O poeta Hesíodo viveu na Grécia séculos antes de Platão. Várias epopéias, poemas e fragmentos de seus trabalhos sobre­viveram aos milênios. Sua obra mais conhecida é Teogonia, que foi escrita entre 650 e 750 a.C.11 Nela ele menciona seres terrí­veis que certa vez habitaram a terra. Os próprios deuses os ha­viam criado: figuras pavorosas "com cinqüenta cabeças com enormes membros pendurados nos ombros."12 O dragão que cuspia fogo também já faz parte da coleção de seres estranhos de Hesíodo. Apolônio, que viveu trezentos anos mais tarde, não pode, por conseguinte, ter inventado o dragão na Argonáutica.

 

...dos ombros do horrível e serpeante dragão saíam cem ca­beças, cujas línguas escuras estremeciam e se lançavam eni todas as direções. De cada par de olhos das cem cabeças a luz cintila e arde... quando ele fixa os olhos, seu olhar quei­ma como fogo. E cada uma das aterradoras cabeças tem sua própria voz retumbante, uma assombrosa multiplicidade de sons...13

 

Também podemos ler na Teogonia de Hesíodo a respeito de como a deusa Quimera, de quem obtivemos a palavra "qui­mera" ou "ser misto”, deu à luz "um monstro que resfolegava fogo".14 O monstro possuía três cabeças, a de um leão, a de uma cabra e a de um dragão. A cabeça de dragão "resfolegava o ardor terrível de um fogo que fulgia intensamente".

Uma vez mais não está claro de onde Hesíodo obteve essa informação. Supõe-se que ele também tenha usado fontes egíp­cias originais. Seus relatos são por demais vívidos e precisos, e seu caráter excessivamente tecnológico, para que eles tenham surgido na sua época. Em seu livro Works and Days15 ele escre­ve que os deuses criaram quatro raças antes de criar a raça humana:

 

...Primeiro os deuses, os que vivem nas alturas do Olimpo, criaram uma raça de ouro de homens muito discursadores...

 

A citação anterior foi traduzida de uma versão alemã de 1817. O professor Voss traduziu a frase do grego como "os que vivem nas alturas do Olimpo”. Em versões mais recentes da mesma passagem, encontramos uma perspectiva levemente diferente: "... [deuses] que vivem em casas celestes".16

Vou colocar lado a lado essas duas traduções, separadas uma da outra por apenas 150 anos, para que você possa compará-las e tirar suas conclusões:

 

1817

Primeiro os deuses, os que vivem nas alturas do Olimpo, criaram uma raça de ouro de homens muito discursa- dores. Estes eram governa­dos por Crono, que na época reinava no céu. E eles vive­ram como os deuses, com suas almas recebendo constantes cuidados...

 

1970

Deuses imortais que vivem em casas celestes primeiro criaram a raça de ouro de frágeis seres humanos. Foi na época de Crono, quando ele ainda reinava nos céus. Eeles viveram como deuses, sem ter nenhuma preocupação no coração...


O grego antigo que alguns de nós talvez tenhamos aprendido com dificuldade no colégio não é suficiente para julgar qual das versões é mais precisa. Embora o sentido geral das duas traduções seja de um modo geral o mesmo, existe uma diferen­ça fundamental entre "alturas do Olimpo" e "casas celestes", e entre "governados por Crono" e "na época de Crono". Como será a tradução no ano 2100? Depois da "raça de ouro" os deu­ses criaram uma segunda raça, uma raça inferior, uma "raça de prata". Esta raça ainda foi criada pelos mesmos deuses, os que "moram nas alturas do Olimpo", ou, quem sabe, "moram em casas celestes". Essa "raça de prata" era de uma ordem inferior à raça de ouro, tanto na forma quanto na atitude mental, e era formada por ''molengões" mimados pelas mães.

Depois então veio:17 "...uma terceira raça de pessoas baru­lhentas". Elas tinham "uma grande força" e "dos seus ombros saíam grandes membros". Supõe-se que essa raça era empeder­nida e obstinada, e suas ferramentas de agricultura eram feitas de metal. Mas parece que essa raça também desapontou, de modo que Crono criou uma quarta raça: a dos heróis ou semideuses.

Segundo Hesíodo, nós, modernos, pertencemos à quinta raça, a raça de ferro. Somos uma mistura do "bem com o mal" e sentimos alegria e dor. Mas quando as coisas degenerarem a ponto de crianças não mais se parecerem com os pais, anfitriões não mais acolherem com prazer os hóspedes e irmãos não mais amarem uns aos outros, nossa raça também será destruída em nome de Zeus.

Hesíodo apresenta uma descrição vívida e detalhada da ba­talha travada entre deuses e Titãs, inclusive dos pormenores das armas envolvidas. Embora os Titãs tivessem sido criados pelos deuses, tiveram de desaparecer da face da Terra. Uma ter­rível luta ocorreu, na qual até mesmo o deus Zeus esteve envol­vido, lançando dos céus grandes relâmpagos explosivos, projé­teis que fizeram os mares ferver, incendiaram extensas regiões e subjugaram a Terra. A descrição do massacre feita por Hesíodo cobre muitas páginas, mas vou transcrever apenas um trecho da tradução de 1817:

 

Também em cima, os Titãs consolidaram seus esquadrões... ruidosamente a terra estremeceu e a abóbada celeste retum­bou... e diretamente do céu e do Olimpo investiu subitamente, com um raio, o Trovejador. Golpes desceram em sucessão, re­tumbando e lançando fogo... chamas sagradas se entrelaçaram...

a terra fértil que brotava se incendiou e as grandes florestas tombaram diante da fúria do fogo... depois, os ventos sagra­dos também se incendiaram e até os olhos dos mais fortes foram cegados... como se a abóbada celeste descesse e se apro­ximasse da terra, o ruído mais alto e retumbante se manifes­tou... os deuses enfurecidos avançaram em direção à desordem, os ventos rodopiaram e sopraram turbulentos, espalhando poeira e destruição... Zeus então enviou seu sublime míssil... e um terrível clamor se levantou...

 

Essa batalha não foi travada com recursos terrestres. A epopéia indiana O Mahabharata18 descreve um episódio bastante seme­lhante, mas que conta com armas ainda mais terríveis. Tam­bém nela, duas raças diferentes de deuses travam uma batalha entre si:

 

A arma desconhecida é um relâmpago reluzente, um terrível mensageiro da morte, que transforma em cinzas todos aqueles que pertencem ao Vrishni e ao Andhaka. Os corpos consumi­dos pelo fogo ficaram irreconhecíveis. Os que conseguiram escapar com vida perderam o cabelo e as unhas. Potes de bar­ro se quebraram sem motivo, os pássaros ficaram brancos.

Em pouco tempo a comida se tornou venenosa. O relâmpago tombou na Terra e se transformou em fina poeira.

 

E o que disse Gilgamesh, quando seu amigo Enkidu morreu com muito sofrimento depois do encontro com o monstro divino Chumbaba? "Terá sido o hálito venenoso da besta ce­leste que o atingiu?"

Todas as versões de O Mahabharata disponíveis em ale­mão são editoradas e mutiladas. Como não sou capaz de ler sânscrito, tenho de recorrer às versões em inglês em muitos volumes. As semelhanças com Hesíodo são por demais mar­cantes e simplesmente não podem ser desprezadas.

 

Foi como se os elementos tivessem sido libertados. O sol gira­va em círculos e, ardendo com o calor da arma, o mundo cambaleou em chamas. Os elefantes, chamuscados pelo fogo, corriam desvairados de um lado para o outro... a água ficou quente, as bestas morreram... o ribombar das chamas fez com que as árvores caíssem uma após a outra como em um incên­dio na floresta... Cavalos e carruagens romperam em chamas... milhares de carruagens foram destruídas e depois um pro­fundo silêncio caiu sobre a Terra... um terrível espetáculo se apresentou aos olhos. Os cadáveres dos que tombaram esta­vam desfigurados pelo insuportável calor... nunca antes vi­mos arma tão terrível, nunca antes ouvimos falar em tal arma.

 

Este também é o lugar ideal para mencionar outra remissão recíproca a Gilgamesh:

 

Os céus bradejaram, a terra clamou em resposta. O relâmpa­go se acendeu, o fogo subiu flamejante, choveu a morte. A luminosidade desapareceu, o fogo foi extinto. Tudo que fora atingido pelo relâmpago se transformou em cinzas.

 

Todas essas armas de destruição em massa — quer descritas por Hesíodo, em O Mahabharata ou na Epopéia de Gilgamesh – foram usadas em épocas anteriores ao início da história escrita. Se as batalhas dos deuses tivessem ocorrido em uma "época histórica", teríamos relatos precisos com datas. Como este claramente não é o caso, elas devem ter ocorrido nos tem­pos pré-históricos — ou na imaginação. Eu entendo o ponto de vista dos especialistas que fizeram comentários sobre esses antigos textos antes de 1945. Mas depois do final da Segunda Guerra Mundial, depois de Hiroshima e Nagasaki, deveríamos ter um pouco mais de sabedoria. Hoje sabemos do que os "deu­ses" são capazes.

Os 24.000 dísticos de O Ramayana também representam um tesouro para a revelação das atividades e habilidades tecnológicas pré-históricas dos deuses. Embora a versão escri­ta de O Ramayana date do século 111 ou IV a.C., seu conteúdo procede de fontes desconhecidas. O herói da história é Rama, o filho do rei, cuja esposa Sita é raptada pelo demoníaco gi­gante Ravana e levada para a ilha de Lanka — uma reminis­cência da causa da Guerra de Tróia. Com a ajuda do rei dos macacos (e muito apoio tecnológico), Rama consegue recupe­rar a esposa.19

Um maravilhoso veículo que sobe no ar é detalhadamente descrito. Ele parecia uma pirâmide voadora e decolava na ver­tical. Ele tinha a altura de um prédio de três andares e voou de Lanka (Sri Lanka ou Ceilão) para a índia. A máquina voadora percorreu, portanto, mais de 3.200 quilômetros. Havia espa­ço dentro dessa pirâmide voadora para vários passageiros e ela continha algumas câmaras secretas. Quando ela subiu do chão conduzindo Rama e Sita, ouviu-se um terrível ruído. E feita uma descrição de como a máquina faz as montanhas estremecerem e trepidarem, e toma o rumo do céu ao som de trovões, mas também incendeia edificações, campos e flores­tas. Em 1893, décadas antes de Hiroshima, o Professor Hermann Jacobi fez o seguinte comentário:20 "Não existe ne­nhuma dúvida de que essa descrição se refere simplesmente a uma tempestade tropical."


Como afirmei anteriormente, deveríamos ser um pouco mais sábios depois de Hiroshima. No entanto, os comen­tários que os especialistas ainda fazem a respeito desses tex­tos antigos me fazem sentir como se estivéssemos presos na época errada. Está claro para mim que grande parte do que os historiógrafos da antiguidade registraram não teve origem na sua macabra imaginação, tendo certa vez sido realidade — mesmo que esses horríveis eventos não tenham ocorrido na ocasião em que os poetas e historiadores os descreveram. Se eles tivessem efetivamente testemunhado de perto esses acontecimentos, de qualquer modo, prova­velmente não teriam sido capazes de escrever a respeito deles, pois todos estariam mortos. Os historiógrafos não eram testemunhas oculares; eles descreviam coisas que ou­tros haviam visto, ou das quais haviam ouvido falar, de lu­gares distantes, e depois contavam para seus descendentes, talvez depois de visitar as regiões incendiadas e as cidades atingidas pela devastação. Ou talvez depois de sobreviventes da periferia da batalha terem narrado suas aterradoras ex­periências a outros que não estiveram envolvidos nos acon­tecimentos.

Esse tipo de informação, passada adiante à moda chinesa, por meio de sussurros, nunca pode ser exata. Esse fato é ainda mais verdadeiro se levarmos em consideração que nem as teste­munhas oculares nem os historiógrafos posteriores tinham a menor idéia a respeito dos modernos sistemas de armamen­tos. O que mais poderiam eles fazer além de atribuir o que não entendiam a divindades sobrenaturais? Afinal de contas, aos olhos deles, esses seres eram “deuses'' — pois o que mais poderiam ser? Existe também uma clara distinção em toda a literatura da antiguidade entre os fenômenos naturais e as ar­mas dos deuses.

Em sua Teogonia, Hesíodo também volta a atenção para os Ciclopes. Imaginava-se que sua estatura fosse semelhante à dos deuses, mas eles só tinham um olho no meio da testa, o que lhes conferiu o nome de "olho redondo": "O único olho deles era redondo como um círculo e era encravado no meio da face."21

Poderíamos pensar que os Ciclopes devem ter realmente sido produto da imaginação, visto que nunca houve criaturas com um só olho, mas não estou tão certo disso. Desde o sécu­lo XVII, existem casos documentados de abortos fortuitos de fetos com um único olho. Além disso, a genética moderna verificou que um único gene é responsável pelos nossos dois olhos. No primeiro estágio fetal dos vertebrados, classe a que pertencemos, desenvolve-se inicialmente uma espécie de fai­xa de células sensíveis à luz. Se a função do gene "Pax-6" não fosse ativada, essa conglomeração sensível à luz deixaria de se dividir em duas áreas separadas e todos seríamos ciclopes. Só Deus sabe que tipo de experiências genéticas os deuses imagi­naram — e de onde os historiógrafos tiraram a idéia dos ciclopes.

O grego Hesíodo também menciona carros voadores em várias passagens, como em Fragmento 30, no qual Zeus desce do firmamento acompanhado por relâmpagos e trovões. Diz- se também que o antigo governante da Lídia tinha acesso a uma impressionante tecnologia. Ele se chamava Gyges e era originalmente um pastor. Heródoto escreve que Gyges viera, ainda jovem, para o palácio de Candaules e se tornara amigo


do governante. Certo dia, Candaules insistiu com Gyges para que se escondesse no seu quarto de dormir para admirar a bele­za da sua esposa quando ela se despisse. Gyges fez o que foi pedido, mas a esposa do governante notou o voyeur e no dia seguinte exigiu que ele matasse seu marido, caso contrário ela revelaria a todo mundo o ocorrido, e Gyges perderia a vida. Se ele matasse Candaules, ela o tornaria rei da Lídia — e foi isso que aconteceu. Dizem que Gyges possuía uma máquina que o tornava invisível. Platão escreve a respeito disso em seu diálo­go O Estado. Certo dia, quando Gyges ainda era pastor, ocorre­ram uma grande tempestade e um terremoto, e a terra se abriu. Assombrado, o jovem Gyges espiou dentro do grande buraco que se abrira no chão diante dele. Ele entrou em depressão e:22

 

...viu, além de outras coisas maravilhosas, um cavalo de ferro oco com janelas. Gyges olhou para dentro e viu um cadáver, aparentemente maior que o de um ser humano. Ele nada ves­tia além de um anel de ouro em uma das mãos. Gyges então tirou o anel do dedo do cadáver e saiu do buraco...

 

O anel podia se mover, e Gyges o girou. Ao se encontrar de novo com seus companheiros pastores, ele de repente perce­beu que eles não o viam. Dependendo da maneira como ele girava o anel, ele ficava visível ou invisível, mas mesmo quando invisível, ele conseguia ouvir e ver tudo o que se passava ao seu redor. Esse incrível anel deve ter feito com que ele se sen­tisse extremamente tentado a inspecionar os aposentos da sua rainha. Mas ele deve ter feito algo errado, do contrário ela não o teria notado. E alguém que podia ficar invisível ao seu bel-prazer não deve ter tido muita dificuldade em se tornar o governante da Lídia.

O conto de Gyges é a mais velha história conhecida sobre um voyeur. Ele pode ser pura fantasia, pois quem não gostaria ocasionalmente de poder se tornar invisível? Mas por que toda aquela descrição de uma cavidade subterrânea que continha o esqueleto de um gigante e um cavalo de metal com janelas? De certo modo, essa história lembra a de Aladim, que precisa­va apenas esfregar sua lâmpada maravilhosa a fim de obter tudo que quisesse.

Os contos de fadas são assim denominados porque coisas fictícias acontecem neles. Os relatos de armas aterradoras uti­lizadas nos tempos pré-históricos não se parecem nem um pouco com eles. Em primeiro lugar, porque eles descrevem uma tecnologia que somente agora reconhecemos; em segun­do lugar, porque contos de fadas não teriam sido gravados em tabuinhas de argila milênios atrás, por razões que já apresen­tei; e terceiro, porque as armas dos deuses não aparecem nas narrações de um único povo ou nação.

Existe ainda outro motivo pelo qual a essência da história Argonáutica não tem sua origem na Grécia: as constelações.

A leste da constelação do Cão Maior — fácil de achar no céu noturno porque a brilhante estrela Sirius pertence a ela — também encontramos o aglomerado de Argo, ou "nave celeste", que é relativamente difícil de ser percebido, porque se situa muito baixo ao sul, e na primavera volta a desapare­cer à noite. Dizem que o Argo foi colocado no firmamento pela deusa Atena, que também tornou o navio insubmergível e equipado com o vau falante. Mas essa constelação já era conhecida como "nave celeste" pelos antigos babilónios.2* O mesmo é verdadeiro com relação a Áries. Os gregos derivaram a constelação de Áries do Velocino de Ouro. Eles acreditavam que Frixo e sua irmã Hele haviam certa vez voado da Europa para a Ásia no Velocino de Ouro. Hele caiu do Velocino e mergulhou no mar, e é por isso que o canal ali existente é chamado de Helesponto. O carneiro (Áries), contudo, havia se libertado da sua pele de ouro e voara para o firmamento, onde se tornou uma constelação. No entanto, de forma aná­loga, há muito Áries já era conhecida dos babilônios.

Segundo a lenda, Pégaso, o cavalo grego alado, carregou nas costas a demoníaca Quimera, que tinha cabeças de leão, cabra e dragão. No entanto, essa constelação também já existia milênios antes de Apolônio. O mesmo é verdadeiro com relação à constelação de Touro e ao aglomerado das Plêiades. É fácil demonstrar que os poetas gregos derivaram suas constelações de povos mais antigos e apenas posterior­mente revestiram-nas com seus próprios heróis. Podemos ter certeza disso simplesmente porque algumas coisas que os gregos adotaram não eram mais aplicáveis nem mesmo na época deles. Por exemplo, em seu livro Works and Days, Hesíodo avisou que nos quarenta dias nos quais as Plêiades não são visíveis as viagens de navio deviam ser evitadas. Ele diz que o período no qual elas desaparecem é sempre marca­do na região do Mediterrâneo por violentas tempestades no mar (as chamadas tempestades de equinócio). No entanto, de um ponto de vista astronômico, essa afirmação já não era mais correta na época de Hesíodo. Na verdade, ela "fora aplicável de 4.000 a 2000 a.C., em uma época na qual o pôr helíaco das Plêiades caía aproximadamente nas semanas que se seguiam ao equinócio da primavera''.24 Assim sendo, Hesíodo tinha necessariamente de estar recorrendo a fontes mais antigas.

Os heróis da Argonáutica navegam o Rio Erídano, que os es­pecialistas modernos tentam situar no norte da Itália. Mas os textos gregos continuamente relacionam esse Erídano com as constelações de Aquário e de Órion. Os astrônomos da antiga Babilônia o viam da mesma maneira, o que é demonstrado por uma tabela astronômica descoberta na biblioteca de tabuinhas de argila de Assurbanipal. E de onde vem o dragão, que tam­bém era admirado no firmamento muitas eras antes de os poe­tas gregos entrarem em cena? Ele aparece nas tabuinhas sume- rianas. Dizem que um ou outro deus mostrou as constelações a um sacerdote e até mesmo as desenhou em uma tabuinha. Entre elas estava o dragão celeste de muitas cabeças. Isso me faz lem­brar de imediato as chamadas "jornadas celestes" empreendi­das pelo profeta antediluviano Enoque. Neste caso, também foi um "anjo" que fez para ele o mapa do firmamento:25

 

Vi as estrelas do céu e vi como ele chamava todas pelo nome.

Vi como elas eram avaliadas em uma escala precisa de acordo com a força da sua luz, devido à sua amplitude e ao dia em que aparecem.

 

O mundo das lendas gregas estava sempre relacionado com as estrelas fixas, mas as constelações estelares, aliadas às histórias e idéias enigmáticas a elas associadas, já existiam milênios antes disso. Dizia-se que Prometeu ensinara a humanidade a observar o nascer e o pôr das estrelas. Ele também ensinou aos homens a escrita e diversos ramos do conhecimento e da ciência. Já descrevi a criatura marítima Oannes, que fez exa­tamente a mesma coisa. Diodoro da Sicília narra algo bas­tante semelhante em seu primeiro livro, ou seja, que os pri­meiros seres humanos aprenderam sua linguagem, a escrita e seu conhecimento com os deuses.26 Encontramos exatamente a mesma coisa entre os antigos egípcios,27 japoneses,28 tibe- tanos,29 maias, incas...

Apenas a nossa cultura não se interessa por essas antigas tradições e relatos. É claro que estamos acima dessas bobagens!

Não existe a menor dúvida de que os poetas e historiado­res gregos tomavam como base antigas histórias e narravam as versões que criavam a partir delas na sua terra para "torná- las suas", revestindo-as com deuses e paisagens gregas. Mas a essência dessas histórias, seja em a Argonáutica, seja nos rela­tos feitos por Hesíodo da batalha entre deuses e Titãs, não se reporta de modo algum à Grécia. Não obstante, acredito que os descendentes dos deuses efetivamente deixaram seus vestí­gios na região geográfica da Grécia antiga. Vamos ver agora que vestígios poderiam ser esses.

 

NOTAS

Daniken, Erich von, Der Götter-Schock, Munique, 1992.

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Feix, Josef (ed.), HerodotHistorien, Vol. II, Munique, 1988.

Rostovzeff, Michael, Geschichte der Alten Welt, Wiesbaden, 1941.

Bengtson, Hermann, Griechsiche Geschichte von den Anfängen bis in die römische Kaiserzeit, Munique, 1950.

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Ibid.

West, L. M., Hesiod's Theogony, Oxford, 1966.

Voss, Heinrich, Hesiod's Werke und Orpheus der Argonaut, Viena, 1817.

Ibid.

Schirnding, Albert von, Hesiod — Theogonie, Werke und Tage, Munique e Zurique, 1991.

Ver nota 12.

Marg, Walter, HesiodSämtliche Werke/ Theogonie, Erga Frauenkataloge, Zurique e Stuttgart, 1970.

Ver nota 12.

Roy Potrap, Chandra, Tlie Mahabharata, Drona Parva, Calcutá, 1888.

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The Book of Enoch (traduzido por M. Barton).

Wahrmund, Adolf, Diodor von Sizilien, Geschichts Bibliothek, Livro 1, Stuttgart, 1866.

Daniken, Erich von, Die Augen der Sphingx, Munique, 1991.

Florenz, Karl, Japanische Mythologie, Tóquio, 1901.

Feer, Léon, Annales du Musée Guirnet, extraits ilu Kandjour, Paris, 1883.

 

A REDE GEOMÉTRICA DOS DEUSES

A egiptologia nos diz que os egípcios foram o primeiro povo a construir pirâmides. Dizem que o mais antigo tipo de pirâmide é a pirâmide com degraus de Sakkara, construída para o Faraó Djoser (2609-2590 a.C.). Mas será que essa informação é de fato correta?

Pausânias foi uin escritor grego itinerante que viveu há cerca de 1.800 anos. Ele percorreu sua terra natal e fez vívidas descrições, freqüentemente floreadas, da Grécia da sua época. Certo dia, ele se pôs a caminho de Epidauro, partindo de Argos, uma cidade não muito distante da Baía de Nauplia, onde ele viu uma pequena pirâmide à direita da estrada (a antiga estra­da que ligava Argos a Tegea). Um pouco mais adiante, não mais do que 800 metros a oeste do atual lugarejo de Ligurio, no sopé do Monte Aracneu, situava-se uma segunda pirâmi­de. Pausânias examinou o exterior dessas pirâmides. Fias ha­viam sido construídas com pesados blocos de pedra com apro­ximadamente um metro e meio de comprimento (ver Foto 7). Alguns blocos maiores jaziam no chão, e Pausânias imaginou que deveriam ser pirâmides sepulcrais.1

Foi somente em 1936 e 1937 que os arqueólogos seguiram o rastro de Pausânias e encontraram as pirâmides, hoje cha­madas de "pirâmides da Argólida". Não muito longe, uma estrutura megalítica também foi descoberta, a qual é leviana­mente chamada de "blocausse". Trata-se de uma estrutura quadrada, construída com vigas de pedra adornadas. Partes da construção lembram as gigantescas muralhas encontradas no distante Peru. Em ambos os lugares, o trabalho em pedra não é formado por monólitos cortados em ângulo reto e sim por blocos interligados de uma maneira complicada, com muitos ângulos — protegidos contra terremotos.

As medidas externas das pirâmides em Ligurio são as se­guintes: no lado norte, 14 metros; no lado oeste, 12,5 metros; no lado sul, 12 metros; e no lado leste, 12,75 metros. A altura é de aproximadamente dez metros, mas o vértice está ausente. Em seu interior não foram encontrados túmulos nem indícios deles e sim um labirinto de paredes com pequenos cômodos, além do que eram claramente tanques de água. Não é possível provar se esses reservatórios funcionavam como banheiras e nem mesmo se algum dia encerraram água. Os arqueólogos da década de 1940 dataram as duas pirâmides por volta de 400 a.C.,2 e chegaram à conclusão de que elas não podem ter sido nem túmulos nem torres de sinalização. Talvez tenham sido uma espécie de guarita da qual alguns soldados podiam esprei­tar a rua. Vias por que a forma piramidal? Isso não faz muito sentido, visto que os soldados certamente teriam preferido uma plataforma da qual pudessem observar a região.

Em 1997, uma equipe greco-britânica uma vez mais ocu­pou-se das pirâmides de Argolis. Desta feita, elas foram data­das por meio da termoluminescência. (O quartzo, a calcita e o feldspato irradiam luz quando aquecidos, o que permite que as impurezas radioativas existentes no cristal sejam registradas e datadas.) O resultado assombrou os especialistas. As pirâmi­des tinham pelo menos 4.700 anos de idade — e poderiam ser até mais antigas.3 Até mesmo o limite inferior de 2.700 a.C. faria com que essas pirâmides fossem mais antigas do que a de Sakkara.

 

Nesse ínterim, arqueólogos gregos encontraram uma pi­râmide bem maior não muito longe de Micenas. Imagina-se que ela seja milênios mais antiga do que a pirâmide de Sakkara. Lamentavelmente, o Ministério da Cultura de Atenas não per­mite que essa pirâmide seja examinada mais minuciosamen­te e muito menos autoriza a realização de escavações no local. Assim sendo, tudo que temos são informações confidenciais

de uma fonte altamente confiável — que não temos per­missão para revelar.

Pausânias estava a caminho de Epidauro, que fora certa vez um magnífico santuário para Asclépio (ver Foto 8). Embora Epidauro esteja situada apenas a alguns quilômetros do Mar Egeu, nada pode ser visto da costa porque a cidade está no meio de morros arborizados. A região de Epidauro era venera­da como solo sagrado por 4.000 anos. Arqueólogos encontra­ram as ruínas de templos dedicados ao deus Maleatas, que dizem ter curado a doença das pessoas. No local também fo­ram encontradas ruínas de antigas estruturas megalíticas. Uma vez que todos os diferentes santuários e antigos locais de ado­ração que quero discutir aqui estão de algum modo relacionados uns com os outros, e como meu trabalho de detetive co­meça com a estrutura das pedras da construção, gostaria de pedir aos meus leitores que se lembrassem do seguinte: a re­gião na qual Epidauro se desenvolveu, em homenagem a Asdépio, já era um local sagrado na da Idade da Pedra.

Por volta do século VII a.C., depois que um número cada vez maior de pessoas havia começado a fazer peregrinações a Epidauro, o local foi dedicado a Asclépio (ver Foto 9). Ele era filho de Apoio, o descendente dos deuses cuja nave voadora havia surpreendido o Argo quando este estava a caminho da terra dos Hiperbóreos. Dizia-se que o próprio Asclépio havia sido morto em nome de Zeus, por um relâmpago. Que coisa horrível teria ele feito? Não obstante, ele ainda era filho de Apoio, que por sua vez era filho de Zeus, o que tornava este último seu avô. Diz a lenda que, por ter curado milhares de pessoas, Asclépio se tornou excessivamente confiante e co­meçou a ressuscitar seres humanos. Esse fato deixou Zeus tão irado que ordenou que Asclépio fosse assassinado. Existem outras versões da morte de Asclépio, mas os autores gregos concordam unanimemente com uma coisa: Asclépio foi cria­do pelo centauro Quíron. Trata-se do mesmo "cavalo-homem" com quem Jasão dos Argonautas passou a juventude.

O símbolo de Asclépio era uma serpente enrolada em um bastão, que ainda hoje é o símbolo dos médicos e químicos (mais conhecido como bastão de Mercúrio).

Também vale a pena visitar a Epidauro de hoje. É verdade que a maioria das ruínas remontam ao século IV a.C., mas o viajante também pode encontrar vestígios de edificações me­galíticas. As grandes lajes jazem discretamente na área adja­cente ou se incorporaram ao terreno. Na parte central, encontram-se as ruínas de uma edificação redonda, cuja fina­lidade original é desconhecida. Na antiguidade, o buraco cir­cular e as lajes de pedra polida que o cercavam eram chama­dos de o "túmulo de Asclépio". Dizem que mais tarde as "ser­pentes sagradas" de Asclépio ali foram aninhadas; e hoje em dia guias turísticos um tanto ou quanto desesperados falam de um labirinto, algo que certamente o local não foi. Atual­mente, Epidauro está sendo restaurada e reformada e, quando esse tipo de trabalho é concluído, é sempre difícil detectar o que existia anteriormente.

O que se supõe então ter ocorrido em Epidauro milênios atrás? Uma procissão de enfermos, ou vítimas de acidentes ou de guerra, fazia uma peregrinação, semana após semana, a esse antigo local de cura. Lá chegando, encontravam uma pousada com 150 quartos, além de vários templos, banhos públicos, um campo de esportes e, mais tarde, uni teatro com vinte mil lugares. Hoje, esse teatro foi restaurado (ver Foto 11) e sua acústica ainda é tão perfeita que os turistas senta­dos na fila mais alta conseguem ouvir cada palavra pronun­ciada pelo guia (em um tom normal de voz) que se encontra embaixo no "palco". O lugar central, onde aconteciam as curas, se chamava Abaton ("o lugar onde não se pode en­trar"4). Depois de os pacientes entregarem suas oferendas aos sacerdotes e participarem de uma cerimônia, eles recebiam ordens para entrar no "sono de cura". Isso acontecia no Abaton, um salão com 80 metros de comprimento, onde curas milagrosas aconteciam regularmente. E como temos conhecimento desse fato 2.500 anos depois? As pessoas que tinham sido curadas incumbiam escribas de imortalizar o evento e seus agradecimentos aos deuses em pedra e tabuinhas de mármore. Muitas destas ainda estão pendura­das em sua posição original, enquanto outras podem ser vis­tas no pequeno museu de Epidauro. Várias foram encontra­das no chão do Abaton durante as escavações de 1882 e 1928. Que tipo de cura ou milagre imagina-se ter acontecido ali? Eis alguns fragmentos das inscrições:

 

Ambrosia de Atenas, com um só olho. Veio pedir ajuda ao deus. Enquanto andava de um lado para o outro no templo, ela ria e achava impossível que os cegos e os mancos pudes­sem ser curados. Depois de dormir na sala de cura, ela saiu com dois olhos em perfeito estado.

Euhippos carregou no joelho durante seis anos uma ponta de lança... ao raiar do dia, ele estava curado.

Hermodicos de Lampsacos, manco. Asclépio o curou enquanto ele dormia na sala de cura. Quando ele saiu, o deus lhe orde­nou que levasse até o templo a maior pedra que conseguisse encontrar. Ele levou a que agora jaz diante do templo.

Alcetas de Halieis. Ele era cego e dormiu no templo. Quando amanheceu, ele estava curado.

Arates da Laconia, hidrópica. Sua mãe dormiu na sala de cura em nome da filha enquanto esta ainda estava em Lacede- mônia, e teve um sonho... Quando voltou para Lacedemônia, sua filha estava curada. Ela também havia tido o mesmo sonho...

Eufanes, uma criança de Epidauro, sofria com uma pedra. En­quanto ela dormia, o deus lhe perguntou em sonho: "O que você me dará se eu o curar?” A criança respondeu: "Dez boli­nhas de mármore.”* O deus riu e prometeu curá-lo." No dia seguinte, Eufanes estava curado.

Aishines subiu em uma árvore para olhar para o Abaton atra­vés da janela. Ele caiu sobre um cepo afiado e teve os olhos destruídos. Cego, ele correu para o Abaton e implorou a aju­da do deus. Ele foi curado.

Aristocritos de Halieis. Seu filho tinha ido nadar no mar e não conseguiu voltar. Seu pai, que não conseguia encontrar o me­nino, dormiu na sala de cura de Asclépio. Ao sair, encontrou o filho são e salvo.

 

Aproximadamente setenta curas sobrenaturais estão registradas nessas tabuinhas em Epidauro. Alguém poderia dizer que não há nada especial nesse fato, pois esse tipo de cura também acon­tece hoje em dia — em lugares católicos de peregrinação como Lurdes na França ou Fátima em Portugal, por exemplo. As pes­soas curadas hoje em dia por esses milagres não se comportam de uma maneira diferente das pessoas de milênios atrás. A gra­tidão delas adquire a mesma forma e possui a mesma qualida­de, como é demonstrado pelas milhares de tabuinhas votivas encontradas em todos os lugares de peregrinação do mundo.

Mas existe uma diferença entre as curas milagrosas ocorridas antes de Cristo e as de hoje. Qualquer pessoa que seja milagro­samente curada hoje em dia fica convencida de que Jesus, Maria ou pelo menos um santo cristão influenciou de alguma forma o ocorrido. Eni Epidauro, não havia figuras cristãs a quem as pes­soas pudessem pedir ajuda. Então, quem ou o quê realizou a cura? Está claro que a fé cristã não é necessária para que uma cura espontânea e milagrosa aconteça. Em Epidauro, as pessoas acreditavam em Apoio e .Asclépio e mesmo assim ficavam curadas.

Assim sendo, o que resta é a crença, a profunda convicção interior, que favorece a cura. Em todos os locais de cura, em todas as épocas, a auto-sugestão é essencial, mas o mesmo se aplica à hipnose em massa. Hoje em dia, as pessoas rezam juntas, participam de uma procissão e comparecem em grupo a um serviço religioso. Antigamente, elas realizavam ritos sacrificais em conjunto, inalavam perfumes (hoje, incenso), tocavam flauta (hoje, o órgão da igreja) ou participavam jun­tas de algum tipo de culto. O importante é que os pensamen­tos se concentrem em um único ponto, para que a consciên­cia deixe de perceber o ambiente imediato ou se envolver com as preocupações cotidianas. Hoje em dia, essa técnica é cha­mada de treinamento autógeno ou meditação, mas o proces­so da regulação dos pensamentos é muito antigo e difundido, sendo praticado em muitas religiões.

Em todos os lugares onde há essa atividade hoje em dia, as multidões de adoradores se concentram em um único ponto o altar ou a estátua da Madona. O nível global de consciência diminui e as pessoas entram em uma espécie de "ausência hip­nótica". Essa experiência em grupo pode ser sentida por todos. O anseio de milagres faz com que pessoas completamente dife­rentes sob outros aspectos se relacionem umas com as outras, mesmo aquelas que se preocupam em não chorar ou gritar em público; todas as inibições desaparecem. Observei com freqüên­cia o seguinte: as pessoas que participam da procissão diária a Lurdes se abrem a um profundo sentimento de confiança. Ali, no final da jornada, no lugar que ansiavam por alcançar, elas desejam ficar livres do sofrimento. Em todas as religiões, essas emoções quase extáticas fornecem a sementeira sobre a qual o impensável pode lançar raízes e se tornar possível.

 


Em Epidauro, ele efetivamente se tornou possível, o que é demonstrado pelas tabuinhas votivas. Os sacerdotes-médicos estavam familiarizados com o poder de sugestão do subcons­ciente. No entanto, não foram os sacerdotes os primeiros a fazer a peregrinação a Epidauro, e sim seres humanos. Seu número cada vez maior fez de Epidauro um local de peregri­nação, e os sacerdotes só chegaram depois de essa afluência adquirir grandes proporções. Eis como vejo a coisa: algo inacreditável aconteceu na região de Epidauro em um deter­minado momento. Um "deus" desceu dos céus. Apenas algu­mas pessoas observaram esse evento e tiveram medo. No en­tanto, o "deus" as viu e, sem assustá-las mais, colocou peque­nos presentes na orla da clareira. Depois de hesitar um pouco, as pessoas foram buscar os presentes e retribuíram a gentileza com presentes para o "deus". Posteriormente, esses presentes vieram a ser conhecidos como "oferendas".

Algumas pessoas ficavam doentes e o "deus" percebeu esse fato. Nesse ínterim, as pessoas haviam se tornado mais confiantes e o "deus" começou a curar os doentes. A notícia logo se espa­lhou, correndo de boca em boca, de modo que mesmo muito tempo depois de o "deus" ter partido novamente, os enfermos continuaram a afluir a esse lugar extraordinário. Templos foram constmídos — e a auto-sugestão desempenhou seu papel. Não é impossível que, ao partir, o "deus" tenha deixado no local um dispositivo técnico, ou o enterrado no chão, para poder obser­var as coisas a distância e talvez até influenciar os acontecimentos.


Também parece que esse "deus" conhecia o funcionamento do cérebro humano, assim como a capacidade da consciência.

Hoje em dia, Epidauro ainda é um lugar curioso. Os telefo­nes celulares funcionam precariamente no local ou simples­mente não funcionam e a companhia de televisão estatal teve de instalar um grande número de amplificadores na região para poder garantir uma boa recepção. Hotéis foram construídos além da zona arqueológica para aqueles que desejam ficar curados, e até mesmo o falecido presidente François Mitterrand empreen­deu uma peregrinação secreta a Epidauro para pedir pela sua saúde. Não sabemos para que deus ele dirigiu suas preces.

O próximo local de atividade dos descendentes dos deuses que eu gostaria de examinar sucintamente é Creta. A história dessa ilha do Mediterrâneo tem alguma ligação com a tecnologia e foi a sede de várias invenções. Descrevi anterior­mente que dizem que Europa, a filha do rei, apaixonou-se por um touro, que era na verdade Zeus, e que nadou com a prin­cesa diretamente para Creta. Lá, Zeus teve três filhos com a amada, um dos quais se chamou Minos. Este se tornou rei de Creta e a cada nove anos recebia novas leis do pai Zeus — uma excelente maneira de acompanhar o progresso e ser um modelo para outras nações. Minos ordenou a construção de um imponente palácio, o maior que o mundo já vira. Além disso, é claro, por ser filho dos deuses, tomou como esposa uma mulher da raça dos deuses: a filha do deus sol Hélio.

Certo dia, Minos decidiu fazer uma oferenda e o deus do mar Posídon enviou um belo e jovem touro que estava desti­nado ao sacrifício. Mas Minos ficou com o touro e abateu outro. Posídon ficou furioso e quis se vingar — porque nem todos os descendentes dos deuses eram amigos uns dos outros. De alguma maneira, Posídon fez com que a esposa de Minos se apaixonasse pelo touro — uma idéia aterradora.5 É bastan­te compreensível que a mulher de Minos tivesse de manter silêncio a respeito do seu amor pervertido, e foi por isso que ela incumbiu um brilhante engenheiro que vivia em Creta de fabricar uma vaca artificial. O engenheiro se chamava Dédalo e construiu uma vaca tão perfeita que o touro não percebia que a rainha estava dentro dela. O touro cruzou com a vaca e pouco depois a rainha começou a sentir muitas dores. Ela deu à luz um híbrido, uma criatura com corpo humano e cabeça de touro, e como a mãe era a esposa do Rei Minos, a criatura foi chamada de Minotauro (literalmente "touro de Minos").

Minos deve ter ficado extremamente desgostoso, pois or­denou a Dédalo que construísse uma gigantesca prisão para o Minotauro, um labirinto dotado de tal complexidade que nin­guém conseguiria sair dele. Mas esse monstro metade touro metade humano tinha terríveis desejos. A cada ano, sete rapa­zes e sete donzelas eram enviados ao labirinto para que o Minotauro pudesse comê-los. Finalmente Teseu, filho do rei de Atenas, decidiu matar o monstro e dar um fim a esse sacrifício humano. Ele se ofereceu voluntariamente como um dos sete rapazes e viajou para Creta, onde se apaixonou por Ariadne, filha de Minos. Ela também pediu ajuda a Dédalo, para que seu amado pudesse encontrar a saída do labirinto depois de matar o Minotauro. Dédalo, que tinha uma solução para cada proble­ma, mostrou a saída do labirinto para a filha do rei e deu a ela um novelo de linha, o famoso "fio de Ariadne". Teseu deveria amarrar uma das extremidades da linha à entrada do labirinto e ir desenrolando-a à medida que fosse avançando, para que pudesse depois encontrar o caminho de volta.

O restante da história é rapidamente narrado. Teseu matou o Minotauro. O Rei Minos naturalmente tornou conhecimen­to do papel que Dédalo havia desempenhado na questão, colo­cando, portanto, Dédalo e o filho deste, ícaro, na cadeia. Dédalo construiu duas engenhocas feitas de madeira, penas, resina e outros materiais. Dédalo e o filho levantaram vôo e planaram alegremente sobre Creta, mas infelizmente o filho se esqueceu da recomendação do pai de que não deveria voar muito perto do sol, porque a resina se derreteria e as penas se queimariam. Foi exatamente isso que aconteceu — o rapaz despencou de grande altura e o mar onde ele caiu passou a ser chamado de Mar de ícaro. A ilha contra a qual seu corpo foi posteriormente arremessado pelo mar se chama Içaria.

Dédalo seguiu voando em direção à Sicília, onde o rei lo­cal adotou com entusiasmo esse gênio da engenharia. Afinal de contas, todo governante deseja ter uma vantagem tecnoló­gica sobre outros países. No entanto, Minos estava furioso porque Dédalo havia partido. Ele fez uma busca com sua frota em todo o Mediterrâneo e finalmente encontrou Dédalo na Sicília, mas o rei da Sicília não quis entregá-lo. Em vez disso, as filhas do rei ferveram Minos vivo em uma banheira. Algu­mas lendas gregas dizem que o corpo do Rei Minos foi levado de volta para Creta e enterrado lá.

É claro que as coisas não aconteceram exatamente como conta o mito. A arqueóloga grega Anna Michailidou acredita ter se libertado dessa idéia:6 “O mito decididamente não tem ne­nhum fundamento na realidade histórica.” Iodos os famosos poetas e historiadores da antiga Grécia escreveram a respeito dos mitos cretenses: Homero, Hesíodo, Tucídides, Píndaro, Plutarco, Diodoro da Sicília e, é claro, Heródoto. Cada um apresenta variações e ângulos diferentes, de modo que somente a história básica permanece a mesma.

Nenhum labirinto foi encontrado em Creta, a não ser que o próprio palácio do Rei Minos estivesse subentendido, por­que a "Casa de Minos" em Cnosso era maior do que o Palácio de Buckingham e continha aproximadamente 1.400 aposen­tos distribuídos por vários andares. Uma pessoa facilmente poderia perder-se ali.

Em meados do século XIX, esse gigantesco complexo era apenas uma colina de aparência insignificante. Foi somente em 1878 que um grego, Minos Kalokairinis, iniciou algumas modestas escavações em Cnosso. Mais tarde, em 1894, o ar­queólogo inglês Arthur Evans (1851-1941) foi para Creta. À semelhança de Heinrich Schiliemann, ele acreditava na reali­dade do que Homero escreveu. Homero havia apresentado relatos extremamente detalhados das lendas cretenses e for­neceu claras descrições do palácio de Cnosso.

Inicialmente, Arthur Evans voltou à Inglaterra e foi promo­vido a diretor do Ashmolean Museum em Oxford. Ali, ele anga­riou fundos e patrocinadores para poder fazer escavações em Creta. Finalmente ele começou a escavar com uma equipe de trinta pessoas no dia 23 de março de 1900, e gradualmente co­meçaram a surgir as camadas do legendário palácio do Rei Minos.

Uma coisa se tornou imediatamente clara: certamente houvera no local um culto do touro. Imagens desse animal foram encontradas em murais e em fragmentos de argila, é havia chifres de touro retratados por toda parte. Nada de na­tureza técnica foi encontrado — nenhuma oficina do brilhante Dédalo, nenhum osso de Minotauro e, lamentavelmente, nenhuma peça de metal do robô Talos da Argonáutica. Este último está provavelmente sendo destruído debaixo da água, pela ferrugem, em uma das milhares de baías de Creta.

A ilha era desprovida de qualquer defesa — não havia ci­dades e castelos cercados por muros, nem muros defensivos contra invasores do mar. Será que eles contavam com o robô Talos? Apesar disso, Arthur Evans foi capaz de demonstrar que as descrições de Homero haviam sido bastante precisas. O que mais surpreendeu os escavadores foi a idade dos achados. O palácio de Cnosso fora destruído e reconstruído diversas ve­zes, mas mesmo o mais antigo era do mesmo tamanho do mais recente. As ruínas do palácio mais antigo datavam de 3.(XX) a.C. (ver Foto 15) e cada nova camada a ser exposta recuava cada vez mais em direção à Idade da Pedra. Finalmen­te ficou claro que pessoas haviam vivido no local oito mil anos atrás, antes de o palácio de Cnosso ser construído. O que havia de tão especial a respeito desse lugar? Ruínas megalíticas também foram descobertas — não apenas em Cnosso, mas também espalhadas entre os diversos complexos de templos.

As construções do palácio de Cnosso se revelaram um complexo interligado de pátios internos, quartos, salas, pe­quenos aposentos e portas baixas. Havia também tanques com formato de banheira providos de ralos, mas estes não esta­vam ligados a nenhum cano. Finalmente, havia um número impressionante de degraus e escadas: três delas, na mesma ala, distavam apenas dez metros uma das outras e conduzi­am a um grande terraço no telhado. Haveria alguma razão pela qual todos os habitantes talvez precisassem chegar ao telhado ao mesmo tempo? Arthur Evans encontrou muitas despensas e depósitos de mercadorias, repletos de vasos de barro do tamanho de dois homens (ver Fotos 12, 13 e 14).

Eis o que o Professor Dr. H. G. Wunderlich escreveu sobre o assunto:7

 

Mesmo no caso dos recipientes de "tamanho normal" te­mos de nos perguntar de que modo eles eram esvaziados e limpos de vez em quando, visto que dificilmente alguém seria capaz de alcançar o fundo mesmo com conchas muito longas e até subindo em uma cadeira ou banco. Os gigantes­cos Pithoi [recipientes de pedra) nos apresentam um pro­blema insolúvel sob esse aspecto: eles nem mesmo podem ser inclinados para o lado... Vasos para armazenagem desse tamanho precisam necessariamente ter sido trazidos e le­vantados antes da construção dos muros que os rodeavam e não podem ter sido substituídos mais tarde por outros reci­pientes. Enchê-los e esvaziá-los se faria através de tubos, junto com princípios de "tubos comunicantes". No entan­to, como era pouco prático guardar esses recipientes em um lugar de tão difícil acesso! Nós nos afastamos um tanto ou quanto irritados...

 

Alguém calculou que esses monstruosos vasos de barro tinham uma capacidade média de 586 litros:8 "O número de recipien­tes existentes apenas na ala ocidental do palácio de Cnosso chega a 420, o que significa uma capacidade de armazenagem de 246.120 litros."

Além desses vasos de barro na ala ocidental, também ha­via "recipientes de óleo" em todo o complexo, freqüentemente chamados de "cisternas" pelos arqueólogos. Sua capacidade de armazenagem era enorme. E por que motivo? Uma das teorias defende que os minóicos haviam feito provisões para épocas de crise, mas essa hipótese é pouco convincente. Cnosso não parece ter temido nenhum perigo, visto que a ilha não era defendida. O governante era filho de um deus e poderia lidar com qualquer eventualidade; além disso, havia também o robô Talos que protegia a ilha. For que então teriam eles desejado armazenar quantidades tão absur­das de óleo comestível, que logo iria deteriorar no calor do Mediterrâneo?

Tudo que podemos fazer é especular e tentar encontrar uma possível solução. Há alguns anos, voltei a atenção para o Rei Salomão e a Rainha de Sabá.9 Acontece que Salomão usou uma máquina voadora "que ele havia construído de acordo com a sabedoria que lhe fora concedida por Deus".10 Ele tam­bém deu de presente à sua rainha um "carro que voava atra­vés do ar”.

Não se tratava de algum tipo de veículo extraterrestre, mas provavelmente de uma construção relativamente sim­ples sob a forma de um balão de ar quente. Não nos esque­çamos de que na mitologia os filhos dos deuses recebiam todo tipo de ensinamento tecnológico dos seus pais, o que os colocavam em vantagem com relação aos seres huma­nos comuns.

Nos relatos sobre o carro voador de Salomão, feitos há milhares de anos, também ouvimos dizer que esse tipo de veículo precisava de "fogo e água". E, de fato, curiosas estru­turas dedicadas a Salomão foram encontradas no topo de várias montanhas. O mundo árabe chama o pico dessas mon­tanhas de "Takt-I-Suleiman" ou "Trono de Salomão”, e eles podem ser encontrados nos dias de hoje em Cachemira, no Irã e no Iraque, e na península árabe até o lêmen. Todas essas estruturas bem como os templos no pico das monta­nhas eram dedicados ao culto da água e do fogo, e locais para a armazenagem de óleo foram encontrados em todos eles. Se o veículo voador de Salomão tivesse sido propelido por uma primitiva máquina a vapor, água e fogo teriam sido necessários. Mas de que modo teria Salomão aquecido a água no seu barco voador? Por meio de óleo inflamável, de uma maneira semelhante à que se acende o pavio em uma lâmpa­da a óleo.

Assim sendo, tenho bons motivos para fazer a provocante pergunta: as reservas de óleo no palácio de Cnosso seriam depósitos de óleo combustível? Todo mundo correria ao mes­mo tempo para os telhados por causa da chegada de um veí­culo voador? Existem indícios que apóiam essa idéia; no sex­to livro da sua obra História Natural, o historiador romano Plínio o Velho, que perdeu a vida na erupção do Vesúvio no ano 79 d.C., faz o seguinte relato a respeito dos povos que viviam na Arábia":

 

Não obstante a residência [mais] real de todas é Mariaba12...

No interior do país, os minenses formam fronteira com os atramitas. Imagina-se que os primeiros descendam de Minos, o rei de Creta...

 

E no décimo segundo livro, Plínio se volta para as variedades de árvores da Arábia e, em particular, para a "árvore de incenso":

 

...ela é limitada por outra região na qual vivem os minenses, através da qual as pessoas passam em uma estrada estreita para pegar incenso. F.ssas pessoas iniciaram esse comércio e ainda se dedicam a ele com bastante intensidade, e é por isso que ele tem o nome de "Minaee”. Nenhum outro árabe, além dos minenses, vê a árvore de incenso, e nem mesmo todos os ininenses a vêem. Dizem que seu número não ultrapassa três mil famílias, que tomam providências seguras para que esse direito seja passado através das gerações...

 

As coisas pouco a pouco se tornaram mais claras. O palácio de Cnosso foi continuamente destruído e reconstruído no decorrer de um longo período, mas por volta de 1.5(X) a.C. os "minóicos" desaparecem como por encanto, e suas edificações em Creta são tragadas em uma catástrofe. Até essa época, havia gigantescos depósitos de óleo no palácio. Simultaneamente, uma ramifica­ção do povo minóico aparece no distante Iêmen e começa a comercializar o incenso. Este último era tratado como ouro na­queles dias — do qual os descendentes dos deuses não conseguiam obter o suficiente. Mesmo nos primeiros dias da permuta e da troca, artistas e operários tinham de ser pagos, pois ninguém podia simplesmente viver na miséria. A Rainha de Sabá ordenou que a maior e tecnologicamente mais brilhante represa da anti­guidade fosse construída em Marib no Iêmen (ver Foto 20) e seus parentes em Creta tinham de manter um gigantesco palá­cio, que freqüentemente desmoronava em conseqüência de ter­remotos. Nada disso poderia ter acontecido sem um incentivo financeiro. Segundo Plínio, os "minenses" começaram a comercializar o incenso, e por esse motivo esse comércio é chama­do "Minaee". Plínio não encara esses minenses corno comercian­tes de Creta, e sim como árabes, pois ele diz: "Além dos minenses, nenhum outro árabe vê a árvore de incenso..."

A Rainha de Sabá era sucessora do Rei Minos de Creta. Por sua vez, este descendia dos deuses, com todo o conhecimento técnico que seus pais lhe haviam transmitido. Salomão per­tencia ao mesmo elevado círculo dos sábios, e esse é o motivo, o que está bem claro na literatura árabe, pelo qual o governante bíblico tinha à sua disposição um nível de tecnologia bem diferente do que é descrito em outras partes do Antigo Testa­mento.1114 Afinal de contas, sua amante era a Rainha de Sabá, que ele visitava freqüentemente em sua máquina voadora. Re­sumindo, tudo isso significa que o mítico Rei Minos era, como diz a lenda, filho de um "deus", casado com a filha do deus sol Hélio — o mesmo que entregara de má vontade as rédeas do seu carro do sol (ou deveríamos dizer os controles?) para seu filho Faetonte.

A família deve ser encarada como possuidora de um conhe­cimento técnico. Em Creta, seus membros consolidaram seu poder e se permitiam ser paparicados pelos seres humanos. Eles construíram o robô Talos, que defendia a ilha, e ensinaram aos habitantes a produzir as grandes quantidades de óleo necessá­rias para as máquinas voadoras reais. Um dos descendentes de Minos governava a Arábia e começou a comercializar o incen­so. No reino de Sabá, quantidades de óleo maiores do que a média também eram produzidas. É portanto, bastante viável que durante muitas gerações grandes somas tenham transita­do de um lado para o outro entre os parentes minóicos. Eles garantiram a si mesmos um estilo de vida real, até que, final­mente, o ramo cretense da família se separou do resto. O mes­mo aconteceu no reino de Sabá. Até mesmo o "sangue real" dos "deuses" acabou por degenerar, o mesmo acontecendo com o conhecimento secreto sobre as tecnologias anteriores.

Não é possível determinar quando tudo isso teve início, nem o momento em que as pessoas começaram a fazer peregrinações ao deus da cura em Epidauro. O importante, na minha opi­nião, é que os "deuses" já eram efetivamente adorados seis mil anos atrás, no mesmo sítio geográfico onde Cnosso foi mais tarde construída, ou seja, cinco quilômetros a sudeste da atual cidade de Iraklion em Creta (ver Fotos 16 e 17). Esse fato está associado aos enigmas que estou tentando decifrar.

A norte de Creta situa-se o Canal de Anticythera, que tem esse nome por causa das ilhas Cythera e Anticythera. Nos tem­pos antigos, quando por questões de segurança os marinheiros preferiam navegar perto da costa em vez de avançar pelo meio do oceano, os naufrágios eram freqüentes. Às vezes os barcos se chocavam no escuro, às vezes o fogo irrompia a bordo, às vezes piratas ou navios de guerra pegavam o que conseguiam pilhar ou embarcações afundavam nas profundezas sem deixar vestí­gios. Um desses navios naufragados foi descoberto, por acaso, por um navio repleto de marinheiros gregos, que haviam se protegido de uma tempestade em uma baía no lado oriental de Anticythera. Na verdade, eles estavam na ocasião mergulhan­do em busca de esponjas, conchas e pérolas, e como iam passar a noite acampados na praia de Anticythera, resolveram mergu­lhar um pouco no dia seguinte. Na maré baixa, a uma profun­didade de trinta metros, Elias Stadiatis deparou com um mas­tro de madeira e depois com o corpo de um navio. Alvoroçado, ele chamou os companheiros, e todos mergulharam na água para ver a embarcação. Faltavam dois dias para a Páscoa do ano de 1.900. Nos dias seguintes, os homens trouxeram à superfí­cie um número cada vez maior de objetos e, finalmente, notifi­caram as autoridades da sua descoberta.

 


As condições de mergulho eram perigosas, considerando- se a profundidade da água, o que significava que ninguém podia mergulhar mais de duas vezes por dia. Os mergulhado­res não tinham tanques de oxigênio, de modo que só tinham tempo para fazer o esforço de chegar ao navio, enfiar algum objeto em uma cesta que estava suspensa em uma corda e ser rapidamente puxados para cima de novo. Não é de causar surpresa, portanto, que duas pessoas tenham perdido a vida durante os mergulhos e duas outras tenham ficado gravemente doentes.

Durante vários meses, estatuetas, moedas, duas armas de bronze, vasos azuis e até mesmo estatuetas de mármore (pos­teriormente datadas de 80 a.C.) foram trazidas à tona. Final­mente, um dos homens vislumbrou na água escura algo que parecia um objeto quadrado, coberto de conchas, calcário e pedaços de metal oxidado. O mergulhador não tinha a me­nor idéia do que havia encontrado. Nos dias seguintes, outros fragmentos desse objeto foram trazidos à superfície, mas mes­mo o arqueólogo que estava a bordo não reconheceu de ime­diato a importância desse achado excepcional.

A estrutura informe foi tratada quimicamente no Museu Nacional da Grécia em Atenas para que fosse revelado o que jazia debaixo das camadas de sedimento. Os conservadores ficaram impressionados ao ver três engrenagens, unidas por duas tiras de metal em forma de cruz. A seguir, uma minúscu­la engrenagem com apenas dois milímetros de espessura esfa- celou-se debaixo do pincel de um dos conservadores. Nesse momento, eles se deram conta de que estavam diante de al­gum tipo de dispositivo técnico e que precisavam de ajuda especializada.

Um dos estudantes que manipulou com pinças as engrena­gens separadas, colocou-as para secar e tratou-as com agentes químicos de limpeza se chamava Valerio Stais. Mais tarde, ele se tornou arqueólogo e foi o primeiro a começar a entender o que se encontrava diante dele nas salas parcialmente escurecidas do Museu Nacional da Grécia. Naquela ocasião, mais de trinta pequenas engrenagens de tamanhos variados haviam sido encontradas, além de algumas cartas escritas em grego antigo. () dispositivo tinha claramente alguma relação com a astrono­mia. Valerio Stais chegou a comentar esse fato com um jorna­lista, o que fez com que ele fosse severamente repreendido pe­los especialistas.

Nos anos seguintes, vários "especialistas" — quer genuí­nos, quer auto-intitulados — voltaram a atenção para o “meca­nismo Anticythera", que é como ele se tornara conhecido. Como de hábito, todos chegaram a diferentes resultados. No verão de 1958, 55 anos depois da sua descoberta, o jovem matemático inglês Dr. DerekJ. Solla Price recebeu permissão para examinar essa controvertida peça da antiguidade. Finalmente, um mate­mático que havia estudado astronomia teve consentimento para aplicar seus conhecimentos ao dispositivo. O Dr. Solla Price tornou-se mais tarde professor de História da Ciência na Yale University. Ele publicou o único estudo completo a respeito dessa máquina e não disfarçou seu assombro.15

As partes de metal eram feitas de puro bronze ou de ligas de cobre e estanho em diversas composições. Havia também pe­quenas quantidades de ouro, níquel, arsênico, sódio, ferro e antimônio. As letras gregas gravadas, que eram apenas parcial­mente decifráveis, forneceram provas absolutas de que o estra­nho dispositivo encontrado tinha um objetivo astronômico.

Havia frases como “...à noite o Touro..."; "...Vega mergulha na noite... "; "... Plêiades aparecem de manhã". Havia tam­bém nomes de estrelas e constelações como "Gêmeos, Altair, Arcturus" . O texto estava entremeado com números isolados gravados. Por fim, era possível distinguir três réguas de medi­ção circulares, com linhas milimétricas, semelhantes a uma régua de cálculo. Mais de trinta engrenagens de tamanhos diferentes estavam interligadas e presas a uma placa de cobre por meio de pequenos eixos. O mecanismo possuía inclusive rodas diferenciais, que obviamente possibilitavam que o rela­cionamento entre as diferentes posições das estrelas fosse lido na escala. Tudo isso parece complicado, mas não é necessaria­mente o caso — por exemplo, quando as Plêiades aparecem, onde está a estrela Altair? O mecanismo também possibilita­va que a posição da lua em relação ao sol e à Terra fosse calcu­lada, ou a ascensão ou o descenso da estrela Sírio em compa­ração com a estrela Vega.

O mecanismo Anticythera havia sido obviamente fabrica­do algumas centenas de anos antes de Cristo. No entanto, deve ter sido construído em um laboratório secreto, pois o conhecimento necessário à sua fabricação era desconhecido naquela época. O mesmo se aplica ao sofisticado nível da tecnologia e da mecânica envolvido no processo. O Professor Solla Price estudou essa máquina durante anos e declarou cer­ta vez em uma palestra que deu em Washington que tudo aquilo lhe causava tanta estranheza quanto causaria o fato de um abridor de latas ser encontrado entre os tesouros de Tutankâmon. No entanto, é claro, Solla Price estava totalmente informado a respeito dos grandes matemáticos e filósofos gre­gos da antiguidade, como Aristóteles (nascido em 384 a.C.) ou Arquimedes (nascido em 285 a.C.). Também é de conheci­mento geral que os árabes possuíam eminentes astrônomos e construíram calendários de funcionamento mecânico, cha­mados astrolábios, por volta do ano 1.000 d.C. Mas nada dis­so poderia explicar o conhecimento necessário à construção do mecanismo Anticythera. Transcrevo a seguir uma passa­gem de Solla Price.16

 

Ou o mecanismo Anticythera representa uma seqüência ex­tremamente avançada do desenvolvimento científico sobre a qual ninguém escreveu, ou ela é fruto da imaginação de um extraordinário gênio desconhecido... Mesmo que façamos enormes concessões à época dessa máquina, deve estar claro que estamos diante de algo muito mais complicado do que jamais foi mencionado na literatura da antiguidade.

 

O Professor Solla Price foi a única pessoa a dedicar anos de estudo a essa máquina extraordinária e, durante esse proces­so, ele investigou todos os antigos documentos sobre mecâni­ca, matemática e astronomia. No final da sua investigação, ele escreveu o seguinte:

 

O  mecanismo Anticythera nos coloca diante de um fenôme­no de ordem bastante diferente: ele é Alta Tecnologia, termo que usamos para descrever avanços especiais da ciência.

 

O mecanismo Anticythera foi mantido longe dos olhos do pú­blico por quase noventa anos. Recentemente, várias partes sepa­radas dele foram colocadas em exposição dentro de uma caixa de vidro no Museu Nacional da Grécia (ver Fotos 22, 23 e 24).

Esse dispositivo, hoje iluminado por projetores, nos faz ver como sabemos pouco a respeito da sabedoria que os deuses sussur­ravam nos ouvidos dos seus favoritos. Ele também demonstra os hábitos de pensamento obtusos e preguiçosos da mentali­dade de rebanho da nossa sociedade. Estamos diante de um dispositivo de alta tecnologia dotado de engrenagens, com até 240 dentes, capaz de medir um centésimo de milímetro. Se os diferenciais fossem maiores, a escala de medidas seria imprecisa ou errada. Esse milagre técnico não é mencionado em nenhum lugar na literatura da antiguidade, embora deva ter sido o assunto do dia quando surgiu pela primeira vez. Onde estão seus precursores? Certamente eles existiram, por­que nem mesmo o gênio mais magnífico da mecânica de pre­cisão poderia ter construído uma coisa assim a partir do zero. E, se havia modelos anteriores, por que não são mencionados por nenhum poeta ou historiador da época, que tanto se es­forçavam para registrar todas as outras coisas? (Houve versões posteriores desse tipo de máquina, mas com uma construção mecânica muito mais simples — mas essa é outra história.) E de onde veio o conhecimento astronômico que corrobora esse milagre? As pessoas espiam dentro da caixa de vidro no Mu­seu Nacional da Grécia em Atenas e pensam: "Bem, essas pes­soas de antigamente devem tê-lo feito de alguma maneira. Os gênios simplesmente não caem do céu.''

O mecanismo Anticythera era portátil, mais ou menos do tamanho de uma máquina de escrever. Ele pode facilmente ter sido transportado do palácio de um dos "deuses" para ou­tro. Também pode ter tido várias utilidades a bordo de uma das máquinas voadoras da pré-história. Tanto o Salomão voador quanto as famílias reais indianas que dominavam as viagens aéreas17 sem dúvida precisavam de instrumentos de na­vegação. Assim sendo, não é de causar surpresa que os historia­dores árabes nos contem que no seu "carro que voava através do ar", Salomão usou um "espelho mágico que lhe revelava todos os lugares da Terra.”18 Esse milagroso objeto era "forma­do por várias substâncias" e possibilitava que do seu tapete voador o rei "tivesse conhecimento dos sete climas". E Abdul Al-Mas'udi (895-956), o geógrafo e historiador mais importan­te do mundo árabe, escreveu em sua obra Histórias19 que, no topo das montanhas onde Salomão claramente reabastecia seu veículo, havia muros maravilhosos que mostravam a Salomão os "corpos celestes, as estrelas, a Terra com seus continentes e mares, as regiões desabitadas, as plantas e os animais e muitas coisas impressionantes".20 Elas eram sem dúvida pelo menos tão impressionantes quanto o mecanismo Anticythera.

Ao norte das ilhas de Anticythera e Cythera encontra-se o Peloponeso, a maior península grega com 21.410 quilôme­tros quadrados. Lá estão as cidades de Argos, Epidauro e Neméia, e, entre elas, a antiqüíssima Micenas. Como em to­dos os outros locais da Grécia, Micenas é inseparável da mito­logia. Diz-se que o lugar foi fundado por Perseu, cuja mãe afirmava que era filho de Zeus — que parece ter sido respon­sável por todos os filhos estranhos. A grande fama de Perseu se baseia na sua vitória sobre as Górgonas, terríveis monstros femininos com várias cabeças. Acreditava-se que elas tinham mãos de bronze e asas de ouro, e qualquer um que as olhasse diretamente no rosto se transformava imediatamente em pe­dra. Uma dessas Górgonas era Medusa, que ainda personifica o aspecto feminino mais horrendo e foi nela que Perseu usou um ou dois ardis divinos para poder matá-la. Ele recebeu das ninfas uma bolsa especial, que jogou sobre o ombro, um par de sandálias voadoras e um elmo que o tornava invisível. A seguir, o deus Hermes apareceu e entregou a Perseu a arma suprema: uma foice de diamante. Armado dessa maneira, Perseu voou para a cidadela das Górgonas, olhando o tempo todo apenas para seu escudo polido que reluzia como um es­pelho. Ao fazer isso, ele evitou todo contato visual direto com as Górgonas e escapou de ser transformado em pedra. Como ele estava invisível, os terríveis monstros não o perceberam e nosso bravo herói decepou a cabeça de Medusa.

 

Levando consigo a cabeça dessa coisa horrível, Perseu voou primeiro para o Egito, onde moravam dois de seus parentes mais velhos e depois para a Etiópia. Um dos reis desse país fora obrigado a sacrificar sua encantadora filha Andrômeda a um monstro marinho. Naturalmente, Perseu logo lidou com essa besta submarina e, depois de uma ou duas intrigas, final­mente conseguiu sua Andrômeda. Nesse ínterim, seus amigos na Etiópia estavam sendo atacados por uma grande potência. "Logo resolverei isso", disse Perseu com seus botões, e dizen­do aos amigos que cobrissem os olhos, lirou a cabeça de Me­dusa de dentro da sua mochila especial e a virou na direção dos seus inimigos, o que fez com que todos se transformas­sem em pedra. Perseu usou novamente essa arma secreta em outra ocasião. (Talvez seja interessante comparar essa história com o relato existente na Kebra Negest, a história da família real da Etiópia, na qual milhares de soldados morrem de uma maneira misteriosa por terem olhado para a Arca da Aliança, que o filho de Salomão havia roubado em Jerusalém e trans­portado para a Etiópia.) Mais tarde, Perseu voltou com Andrô- meda para seu território natal, a Argólida, fundando posterior­mente a cidade de Micenas. Mas é claro que também existem outras histórias a respeito de Perseu.

Ninguém sabe exatamente quando Micenas foi habitada pela primeira vez, mas de uma coisa estamos certos: foi em algum período da Idade da Pedra. A paisagem circunjacente é mon­tanhosa, e logo teve início a mineração do cobre nas monta­nhas da Argólida. Jamais saberemos se as pessoas foram viver na região por causa do cobre ou se havia uma razão "sagra­da”. O que foi demonstrado arqueologicamente é que estru­turas megalíticas foram construídas no local já em 2.500 a.C. e que mil anos mais tarde Micenas era poderosamente defen­dida por grandes muralhas de seis metros de espessura.

Micenas também desempenha um importante papel na história de Tróia de Homero, embora ainda não saibamos de onde o poeta obteve suas informações. Segundo ele, os heróis da Guerra de Tróia, Agamêmnon e seus companheiros, estão supostamente enterrados em Micenas. É por isso que Heinrich Schliemann fez escavações em Micenas. Em quatro câmaras sepulcrais, ele encontrou o esqueleto de 12 homens, três mu­lheres e duas crianças e, como os túmulos estavam repletos de ouro, Schliemann enviou imediatamente um telegrama ao rei da Grécia em Atenas afirmando que esses tesouros seriam su­ficientes para encher um grande museu. Essa declaração foi exageradamente otimista: seus achados podem hoje ser ad­mirados em uma única sala do Museu Nacional da Grécia.

Micenas também merece ser visitada pelos turistas (ver Fotos 25 e 28). Podemos ver o Paredão dos Ciclopes, assim chamado porque, de acordo com a lenda, foi construído pe­los monstros de um só olho. No meio da extensão do muro, sobre três monólitos, jaz a Porta do Leão. E todo visitante que sentar e comer seus sanduíches à sombra dos paredões prova­velmente irá perceber algo estranho: muitas das pedras empre­gadas na construção do Paredão dos Ciclopes não podem ser |X‘dras puramente naturais, porque são constituídas por uma variedade de materiais. É como se concreto não refinado tivesse sido certa vez ali misturado. Esse paredão ciclópico tem cerca de novecentos metros de extensão e acima e embaixo dele exis­tem muros menores que datam de um período posterior.

Alguns metros mais abaixo, situa-se o chamado Tesouro de Atreu, uma edificação verdadeiramente impressionante (ver Fotos 30 e 31) que se imagina ter um dia servido como um monumento, embora eu tenha minhas dúvidas com relação ao fato de esse ter isso realmente seu objetivo original. A impo­nente estrutura abobadada, situada debaixo de uma colina, possui um diâmetro de 15 metros e uma altura de 13,3 metros. O arco da cúpula foi construído em 33 camadas sobrepostas, com cada camada sucessiva se projetando um pouco mais do que a imediatamente abaixo, até que um enorme bloco de pe­dra cerra a abertura no topo da cúpula. A pedra da entrada pesa 12().(XM) quilos e os estatísticos calcularam que a cúpula pode­ria facilmente suportar um peso de 140 toneladas. Lamentavel­mente, ninguém sabe o que pode originalmente ter estado den­tro desse enorme salão; os ladrões há muito já tinham feito seu trabalho quando os arqueólogos chegaram.

Micenas esteve fortemente ligada a Creta em um estágio bem incipiente. Esse fato é demonstrado pelas pinturas e jóias minóicas encontradas em Micenas. Os descendentes dos deu­ses originários de Creta tomavam parte nos assuntos de Micenas; não estou me referindo às posteriores influências minóicas, realizadas por intercâmbio cultural, e sim do povoa­mento original de Micenas. Esse fato desempenhou um papel particular na rede geométrica cujos fios estou lentamente tecendo.

 

Os locais gregos de culto fazem parte de uma estrutura única e impressionante. Para tornar essa afirmação completa­mente clara, eu teria de descrever com detalhes muitos desses lugares e atribuí-los aos seus deuses, mas isso estaria além do escopo deste livro. Até aqui, tratamos de quatro principais lugares: Cnosso, Epidauro, Micenas e Olímpia. O deus deste último ainda não lhe foi atribuído. Ainda precisamos mencio­nar pelo menos dois locais sagrados para completar o quadro: Atenas e Delfos.

Mencionei brevemente que havia competições em Olím­pia antes do advento dos primeiros jogos olímpicos. À seme­lhança de todos os outros lugares, a região de Olímpia já estava povoada na Idade da Pedra. As ruínas dos templos e as arenas esportivas que vemos hoje foram amplamente res­tauradas, mas ruínas de um estilo de construção megalítica anterior ainda podem ser encontradas. Este é um ponto que preciso enfatizar repetidamente: quanto mais recuamos no passado, maiores são as pedras usadas nas construções — megalithos significa “pedra grande” — como se não fosse mais fácil construir com pedras menores. Isso é verdade no mun­do inteiro. É evidente que as pessoas da Idade da Pedra apre­ciavam particularmente estar rodeadas por blocos gigantes­cos, embora eles não pareçam ter possuído a tecnologia para fazer isso. Nas épocas posteriores, as pessoas tinham aspira­ções mais humildes e não sentiam a necessidade de fazer tanto esforço.

Zeus era o deus principal de Olímpia. Volumes inteiros fo­ram escritos sobre ele, de modo que me limitarei a um exame relâmpago.

A palavra Zeus — Júpiter para os romanos, Tor para as tribos germânicas — contém o radical indo-europeu "dei" ou "brilhante."21 Nem mesmo Zeus era considerado pelos gregos como tendo surgido do nada; ele era filho de Crono. Hesíodo nos diz que o Caos reinou originalmente, uma condição ori­ginal a partir da qual a Terra, ou Gaia, se formou. A Terra deu origem a Urano, os céus, e da união entre Gaia e Urano surgi­ram tanto os Titãs quanto Crono. Este último engravidou a irmã e Zeus foi um dos descendentes desse par extraordinário.

Quanto mais Zeus envelhecia, mais ele odiava o pai Crono, e finalmente acabou lutando contra o pai e os Titãs. Essa ba­talha dos deuses fez Zeus descer do Olimpo, sair das alturas e ir para outros mundos. Zeus venceu a batalha, matou os Titãs, mas deixou vivo o pai, Crono, que era imortal. Restaram três dos filhos de Crono: Zeus, Posídon e Hades. Eles dividiram entre si seu território: Zeus ficou com os céus; Posídon, com os mares e Hades com o mundo subterrâneo.

Esses são os fundamentos da origem de Zeus, embora eles na verdade não nos digam muita coisa. O animal que é o sím­bolo de Zeus é a águia. As pessoas o chamavam de o "Zeus Tonante", o "Lançador de Raios", o "Presciente" ou o "Modifi­cador de Formas". Este último nome se referia ao seu talento de assumir a aparência de diferentes criaturas, talento esse que ele usava amplamente para conseguir o que queria com relação a uma série de encantadoras damas. Para Leda, ele apareceu sob a forma de um cisne; para Europa, como um touro; para Calisto, como o jovem Apoio ou, o que é ainda

mais exótico, para Dânae como chuva dourada. Não obstante, ele também sentia muita atração por rapazes e se apaixonou pelo Príncipe Ganimedes, que ele imediatamente raptou e le­vou para seu reino celeste no Olimpo. Certamente esse não foi um comportamento divino muito delicado!

Esses atributos pertencem a um ser excepcional que podia fazer tudo, a quem era permitido fazer qualquer coisa e que ninguém compreendia. Particularmente enigmático é o nas­cimento de Atena, filha de Zeus. Ela não surge através do tra­jeto normal de um corpo materno, tendo saltado, completa­mente armada, diretamente da testa de Zeus. (Também exis­tem outras versões do seu nascimento.) Na mitologia, ela tam­bém recebe o nome de Parteno, a virgem. Muito antes do nas­cimento da virgem cristã, dizia-se que Atena havia nascido de uma maneira semelhante. Atena, como nos diz o nome, é a deusa protetora de Atenas.

Ela é a mesma deusa que ajudou a construir o Argo e o equipou com o vau falante. Ela também ajudou Perseu no seu empenho em decepar a terrível cabeça da Medusa. A lenda grega nos fala do famoso cavalo voador Pégaso que, como o carro do sol de Faetonte, precisa ser conduzido ou, podería­mos dizer, pilotado. Atena também resolveu esse problema fornecendo "rédeas mágicas" ao condutor. F.la era uma deusa extremamente prestativa e foi logo promovida a protetora das artes, da sabedoria, da retórica, da paz e também da poesia. Talvez eu devesse invocá-la! Foi também Atena que deu o ara­do aos agricultores para facilitar o trabalho deles, o tear às mulheres e o alfabeto aos estudiosos.

Houve um momento em que Hefesto, o deus do fogo, to­mou-se de encantos pela virginal Atena e tentou dominá-la por todos os meios possíveis. Finalmente, os dois lutaram en­tre si e Hefesto, excitado, perdeu esperma, que caiu sobre o solo de uma colina em Atenas. Esse evento teve uma impor­tância suficiente para que os seres humanos considerassem o lugar solo sagrado e lá construíssem um enorme templo: a Acrópole (ver Fotos 32 e 34).

As atuais ruínas da Acrópole datam do período compreen­dido entre os séculos VI e IV a.C., mas na época da Idade da Pedra — seja lá quando isso tenha sido — as pessoas já adora­vam seus deuses naquele lugar. Esse fato foi demonstrado por arqueólogos, pois havia estruturas megalíticas nas colinas pró­ximas a Atenas muito antes de as edificações do templo serem construídas. Tanto na encosta setentrional quanto na meridio­nal foram localizadas ruínas de construções do período neolítico (ver Foto 33). Dois desses antigos locais de culto foram integra­dos aos templos posteriores. O monumento mais imponente da Acrópole é o Partenon, construído sobre as fundações de uma estrutura anterior. Até mesmo hoje em dia os turistas fi­cam literalmente sem fôlego quando chegam a esse templo com suas colunas de mármore de 12 metros de altura, depois de uma subida exaustiva com degraus aparentemente interminá­veis. Partenon significa "câmara virgem", pois o templo era dedicado à virginal Atena. A edificação tem 67 metros de ex­tensão, 23,5 metros de largura e 12 metros de altura. Podemos ver representado no frontão restaurado o nascimento de Atena, bem como sua briga com Posídon, que quis certa vez pegar para si os paredões da Acrópole. Finalmente, existem relevos das batalhas dos deuses com os Titãs, das batalhas contra os centauros, da batalha de Tróia e — surpreendentemente — da batalha dos atenienses contra as amazonas.

Hoje em dia, o mundo inteiro se queixa do nevoeiro de Ate­nas que corrói o magnífico templo na Acrópole. E isso está cor­reto. Mas quem sabe por que o Partenon foi destruído no século XVII? Depois do reinado do Imperador Justiniano (527-565 d.C.), o cristianismo se espalhou pela Grécia e os antigos templos na Acrópole foram transformados em igrejas. Mais tarde os turcos chegaram para lutar contra os cristãos e armazenaram sua pól­vora no Partenon. No dia 26 de setembro de 1687, um certo tenente Lüneburg que servia nas forças venezianas fez explodir esse depósito de pólvora. A explosão destruiu os frisos e as colu­nas. Sem dúvida os últimos deuses remanescentes devem ter fu­gido diante desse bárbaro tratamento.

Cnosso, Epidauro, Micenas, Olímpia, a Acrópole — todos eram considerados lugares sagrados muito antes de existir uma "Grécia clássica" e milênios antes de a história grega ter sido escrita. No entanto, ainda não encontramos a "estação cen­tral" dessa rede geométrica, e ele está mais relacionado com os deuses e a história da Grécia do que todos os outros locais de devoção. Além disso, naturalmente, esse ponto nodal na rede geométrica não surgiu por acaso, visto que no mito tudo possui uma causa e um motivo.

Certo dia, Zeus mandou que duas águias voassem ao re­dor da Terra a fim de medi-la. O ponto central da Terra seria aquele em que as águias se encontrassem depois da sua circu- navegação. As criaturas simbólicas de Zeus voltaram a se en­contrar nas íngremes encostas de uma montanha — que era o "Ônfalo", o umbigo do mundo. E ao lado das encostas da montanha que mais tarde veio a se chamar Parnaso, surgiu o centro misterioso do mundo grego, Delfos. A etimologia da palavra "Delfos" é controversa. Ela pode derivar de Delphinios porque dizem que o deus Apoio lá esteve sob a forma de urn delfim [golfinho]; pode se originar também de Delphys, que significa "útero".

Delfos é bastante conhecido por seus notórios "oráculos", profecias proferidas por uma sacerdotisa, a Pythia [pitonisa]. Até mesmo a pequena palavra "Pythia" não é acidental. Nos tempos pré-históricos, dizia-se que um dragão-serpente — ou­tro! — vivia nas grutas de Delfos, e foi destruído por Apoio, que também viajou para Delfos em uma "nave celeste". O terrível dragão foi mais tarde chamado de "Python" [Píton], palavra derivada do verbo pythein que significa decompor e dissolver. Apoio matou o monstro e o empurrou de volta para uma ca­verna na superfície da rocha. Ali ele se decompôs, e dizem que nesse local a "Pythia" criou suas inspiradas frases oraculares.

 

Tudo isso não passa de uma lenda folclórica e é narrada em um grande número de diferentes versões. Todos os poetas e historiadores gregos escreveram sobre Delfos. Durante mui­to tempo, o lugar foi o centro religioso de todos os gregos e era lá que os príncipes e reis buscavam conselhos.

No primeiro livro das suas Histórias, Heródoto nos conta como um certo "Glauco de Quios, conhecido como o único artista na Terra a ter descoberto um método para soldar o fer­ro",22 havia ofertado a Delfos o primeiro suporte de ferro sol­dado. Mais tarde, as coisas esquentaram em Delfos. O rei dos lídios, Croisos (hoje conhecido como Creso), não queria con­fiar no oráculo, enviando portanto diferentes delegações a diferentes locais oraculares na Grécia. A mesma pergunta foi feita a cada um dos oráculos: "O que estou fazendo neste exa­to momento?" Ele havia combinado com seus mensageiros a hora exata em que eles fariam a pergunta. Quando estes volta­ram, após consultar os diferentes oráculos, a única resposta correta foi a de Delfos. Na hora em questão, Creso havia reta­lhado uma tartaruga, abatido um carneiro e cozinhado am­bos em uma panela de ferro com uma tampa de ferro. Eis a resposta de Delfos:23

 

Chega aos meus sentidos o cheiro do pedaço de carne encouraçada sendo cozinhado junto com carne de carneiro em uma panela de ferro. O metal os sustenta por baixo e o metal também os fecha por cima.

 

O Rei Creso ficou de tal modo impressionado que cumulou Delfos de presentes. Dizem que ele sacrificou no local nada menos do que três mil cabeças de gado e "derreteu enormes quantidades de ouro, mandando fazer ladrilhos com ele". Foram fabricados 117 ladrilhos, todos com seis mãos de com­primento e uma de largura. Mas isso não parecia suficiente, pois ele também enviou para Delfos a figura de um leão feita em ouro maciço, duas ânforas gigantes de amalgamação, uma de ouro e a outra de prata, jóias e grandes quantidades de roupas. Heródoto, que visitou Delfos várias vezes, nos conta que a ânfora de ouro ficava do lado direito da entrada do tem­plo e a de prata, do lado esquerdo, lais tarde, diz ele, duas bacias de água benta, que também foram enviadas por Creso, foram gravadas com uma inscrição falsa. O historiador itinerante ficou irritado com isso, há 2.500 anos: "Isso não está certo," escreveu ele, "porque na verdade foi Creso que doou essas [bacias]. A inscrição foi gravada por um homem de Delfos. Conheço o homem, mas não direi o seu nome."


Contei essa história para lembrá-lo por que falamos de al­guém "tão rico como Creso" e também para demonstrar como Delfos ficou rico. Embora o Rei Creso ten ha virtualmente com­prado Delfos por atacado e garantido que sempre teria o direi­to de recorrer à pitonisa, o oráculo não lhe foi útil no momen­to mais crítico. Creso estava na dúvida se deveria ou não tra­var guerra contra os persas. O oráculo de Delfos lhe disse que se ele cruzasse o Rio Hális, ele destruiria um grande império. Essa frase, aberta a uma dupla interpretação, poderia ter saído de um horóscopo moderno. No ano de 546 a.C., o Rei Creso cruzou o Hális, certo da vitória — e foi aniquilado pelos persas. O "grande império" que ele destruiu foi o dele.

No centro de Delfos, erguia-se o templo de Apoio, que ainda hoje é uma estrutura impressionante. Apoio, filho de Zeus, ti­nha um grande número de habilidades. Ele funcionava como deus da luz e deus da medicina. Não era sem motivo que Asclépio de Epidauro era seu filho. Apoio também era responsável pela profecia, além de ser o deus da juventude, da música e da arte de manejar o arco. O irmão mais novo de Apoio se chamava Hermes. Está escrito nos antigos textos egípcios que Hermes era o mesmo que os egípcios chamavam de Idris ou Saurid, mas também aquele que o povo hebreu chamava de "Enoque, o filho de Jared..."24 (Mesmo que isso seja apenas remotamente verdadeiro, estaríamos de volta ao período que antecedeu o Dilúvio. Diz-se que Saurid construiu a Grande Pirâmide antes dessa catástrofe e Enoque é um patriarca bíblico antediluviano.)

Notavelmente, também se diz que Apoio construiu os inex­pugnáveis muros de Tróia. Ele era adorado como "Protetor dos caminhos e das estradas", e na sua nave celeste visitava regularmente outros povos, em particular os hiperbóreos, que viviam em algum lugar “além dos ventos do Norte". Nem mesmo na época de Heródoto os gregos sabiam quem eram esses ameaçadores hiperbóreos. Hesíodo e Homero fazem menção a eles e Heródoto finalmente desiste de tentar seguir o rastro deles (IV, 36):

 

...se os hiperbóreos existem, também deve então haver pes­soas vivendo nas mais longínquas regiões do Sul. Tenho de rir quando vejo quantas pessoas desenharam mapas do mundo...

 

E eu tenho que sorrir quando penso no grande número de milênios em que a humanidade vem tropeçando no nevoeiro da mitologia. Essas histórias podem representar um grande manancial para a poesia — e todos os “deuses" proporciona­ram um excelente material para que a fantasia humana pu­desse se expandir — mas infelizmente não são verdadeiras. O que resta dos mitos não é uma história datável e fornece pou­cos elementos sobre os quais se possam construir fatos preci­sos. Mas, mesmo assim, eles encerram um núcleo de verdade essencial e extremamente decisivo que sobreviveu a todas as guerras e catástrofes sob a forma de uma nebulosa memória folclórica, a qual, em última análise, se transforma em pedra e pode ser encontrada em todos os lugares "místicos". As coi­sas não são diferentes hoje em dia. Os locais de peregrinação surgem, sem exceção, de pequenos eventos que alguém afir­ma haver experimentado: talvez um milagre de Maria, uma cura repentina e impressionante, uma fonte ou um fenôme­no natural incompreensível. Outras pessoas, assombradas ao ouvir o relato, começam a visitar, por curiosidade, o local onde o evento ocorreu. Surge então a primeira estalagem, a primei­ra capela, a primeira igreja, sempre no lugar onde algo apa­rentemente inexplicável aconteceu. Surgem construções nos locais onde a memória popular está em ação.

Todo mundo deveria ir a Delfos. O complexo se estende sob o Parnaso, rodeado pela suave encosta das montanhas que à noi­te encobrem a paisagem em cascatas de cor, luz e sombra. Pausânias, o viajante de 1.800 anos atrás, descreve suas impres­sões em palavras reverentes, não se esquecendo de mencionar as inúmeras histórias controvertidas a respeito de Delfos. Jul­ga-se que cerca de três mil estátuas, diz ele, ladeavam a rua sagrada.25 Na sua época, as “Frases dos Sete Sábios" ainda esta­vam esculpidas em pedra nas paredes na antecâmara do tem­plo principal. Eram fragmentos de sabedoria provenientes de vários visitantes de Delfos e que ainda hoje são relevantes:

 

     Conhece a ti mesmo

     Quase todas as pessoas são más

     A prática conduz à perfeição

     Aproveita o dia

     Nada em excesso é bom

     Devagar se vai ao longe

     Ninguém escapa do seu destino

 

Os templos délficos foram destruídos em muitas ocasiões por terremotos e deslizamentos de terra, sendo sempre recons­truídos sobre as ruínas. O "empreendimento de Delfos" era um excelente negócio. A profetisa murmurava seus oráculos, sentada em uma trípede sobre uma fenda na terra, da qual saía um vapor. Isso deu origem a muita especulação e, recen­temente, os geólogos até mesmo anunciaram a descoberta, na área do templo, de zonas com falhas geológicas, debaixo das quais existem camadas que contêm hidrocarboneto. "Es­sas formações freqüentemente emitem gases como o etileno, o metano e o sulfeto de hidrogênio".26 Diz-se que esses gases poderiam ter induzido na pitonisa uma "espécie de estado alucinatório e estimulado suas visões". Eu não acredito em nada disso. Ninguém sabe com precisão o que acontecia no templo de Apoio, embora todos os escritores gregos tenham voltado a atenção para lá. O historiador grego Plutarco des­creve da seguinte maneira o processo oracular: "...mas Plutarco aderiu ao que era de se esperar de todos os sacerdotes de Apoio: não proferir nenhuma palavra a respeito do que acontecia na casa do deus".2; Cada turista que sobe a encosta com dificul­dade nos caminhos tortuosos deve examinar com atenção as fundações do templo (freqüentemente restaurado) de Apoio. A antiguidade dos megálitos exsuda de cada fissura e as impo­nentes lajes de pedra que hoje cobrem o chão, e sobre as quais um dia se ergueram colunas, nos fazem imediatamente pen­sar em uma plataforma de aterrissagem de helicópteros. Essa plataforma data do século VI a.C. A fundação, o chamado "Muro Poligonal”, é mais antiga. Recomendo que todos fa­çam uma pausa nesse local, sentem-se em um dos degraus do teatro de Delfos e deixem o passado adquirir vida diante da visão interior (ver Fotos 36, 37 e 38).

Olhando para fora a partir do anfiteatro semicircular (ver Foto 41) você verá Delfos aos seus pés. (Mais acima na encosta há outra arena de esportes que data da época de Roma.)

O Delfos que você contempla embaixo consiste nas ruínas de edificações nas quais pessoas certa vez se apinharam, entre elas pedintes e pessoas desesperadas, políticos e delegados, sacerdotes e comerciantes em busca de dinheiro fácil. Uma única coisa os unia: a crença no poder de Apoio. Não creio que eles também acreditassem no oráculo, pois ele parece ter sido mais uma espécie de guia ou ajuda, assim como os horós­copos dos jornais de hoje. Cada pessoa podia extrair dele o que queria.

Certo dia, embaixo, se ergueram 13 estátuas de deuses e heróis, bem como o tesouro dos siciônios, dos sifinienses, dos tebanos e dos atenienses (ver Foto 40). Havia estátuas, colunas de mármore e a estátua de bronze do cocheiro (hoje no museu de Delfos). Além disso, é claro, não podemos nos esquecer de mencionar a estátua de 16 metros de altura do deus Apoio que se erguia diante desse enorme templo (ver Foto 43). Pausânias escreve que o templo de Apoio provavelmente foi originalmente construído em metal.

E no meio de tudo isso, entre os tesouros, templos, cons­truções circulares e colunas de mármore, notamos uma pe­dra muito estranha, alongada, com a forma de uma colméia. Nela está gravada uma confusa rede de linhas, quase todas cruzando com outras linhas em intervalos iguais. Trata-se do Ônfalo, que simboliza o umbigo do mundo. Uma imita­ção da época romana encontra-se hoje em dia no museu de Delfos (ver Foto 42). O Ônfalo original possuía pedras precio­sas nos pontos de interseção das linhas e sobre essa pedra em forma de ovo se apoiavam duas águias de ouro. Com esse entalhe na pedra, Apoio, os sacerdotes ou, se você preferir,uma mitologia petrificada, acertaram na mosca — quer in­tencionalmente, quer por acaso.

Preciso recordar algo que declarei pela primeira vez em 1979 no meu livro Pruphet der Vergangenheit,28 Em uma palestra que dei em Atenas em 1974, um homem calvo chamou minha atenção porque ele estava fazendo extensas anotações. Quan­do todos deixaram a sala, ele se aproximou de mim e pergun­tou educadamente se eu tinha conhecimento de que a maio­ria dos santuários e locais sagrados da Grécia apresentavam entre si um exato relacionamento geométrico.

 

Eu sorri e disse que não podia acreditar naquilo porque os "antigos gregos" não tinham à sua disposição técnicas de me­dição geodésica. Além disso, acrescentei, os templos estavam freqüentemente situados a quilômetros de distância uns dos outros e as montanhas da Grécia teriam impedido uma visão direta de um local sagrado para outro. Finalmente, achando que eu estava mais bem informado, eu disse que os locais sa­grados estavam às vezes situados em ilhas que chegavam a estar quase cem quilômetros afastadas do continente e por­tanto não poderiam ser vistas a olho nu. Eu estava pensando nas distâncias de Creta, ou Izmir, previamente conhecida como Esmirna, na Turquia. O que seria então que esse delicado ca­valheiro estava querendo me dizer?

Dois dias depois nós nos encontramos de novo, desta feita não em um evento público e sim em uma palestra realizada para membros do Rotary Club de Atenas. Após a apresentação, ele me convidou a acompanhá-lo a uma sala vizinha, onde mapas terrestres e aéreos estavam espalhados em uma grande mesa. O cavalheiro se apresentou como sendo o Dr. Theo- phanias Manias, brigadeiro da força aérea grega. Qual a relação de um militar de patente tão elevada com a arqueologia? Ele me explicou tudo enquanto tomávamos chá. Era comum, dis­se ele, que os pilotos militares se submetessem a vôos de práti­ca e monitoração sobre as montanhas ou exercícios de tiro so­bre o mar. Posteriormente, eles tinham de fazer um relatório que incluía, entre outras coisas, a quantidade de combustível utilizada. No decorrer dos anos, um tenente que anotava esses dados em um caderno notou que as mesmas distâncias e o mesmo consumo de combustível se repetiam, embora os pilo­tos voassem em rotas diferentes sobre regiões distintas. Passou pela cabeça do tenente que ele havia detectado algum tipo de fraude ou que os pilotos talvez tivessem preguiça de escrever os números corretos nos seus diários de bordo e estavam simples­mente copiando os registros uns dos outros.

Tudo isso foi investigado e, por fim, os arquivos foram parar na mesa do Coronel Manias — mais tarde ele foi pro­movido a brigadeiro. Ele pegou um compasso, colocou a pon­ta em Delfos e traçou um círculo através da Acrópole. O estra­nho é que a circunferência do círculo também tocou Argos e Olímpia. Esses lugares eram eqüidistantes uns dos outros. Es­tranha coincidência, pensou o Coronel Manias, colocando a seguir a ponta do compasso em Cnosso, em Creta. A circunfe­rência desse círculo também tocou Esparta e Epidauro — muito estranho! O Coronel Manias prosseguiu. Quando o centro era Delos, Tebas e Izmir se situavam na circunferência; quando o centro era Paros, o mesmo ocorria com Cnosso e Cálcia; quan­do o centro era Esparta, Micenas e o sítio oracular de Trofonion estavam na circunferência.

O Dr. Manias me mostrou tudo isso nos mapas que havia espalhado sobre a mesa e eu fiquei desconcertado. Como isso era possível? Embora o Dr. Manias tivesse à sua disposição mapas bem mais precisos do que os que se podem normal­mente comprar nas lojas, eu decidi experimentar por mim mesmo em casa. O brigadeiro percebeu meu espanto e me perguntou se eu havia ouvido falar na "seção áurea". Eu sacu­di negativamente a cabeça um tanto ou quanto desanimado: apesar de eu ter uma vaga lembrança de ter ouvido falar a respeito de uma “seção áurea" em uma antiquíssima lição de geometria, eu não conseguia me lembrar do que se tratava. Pacientemente ele me explicou: "na seção áurea, uma distân­cia é dividida em duas seções, de modo que a relação da seção menor com a maior é igual à relação da maior com a distância total". Como eu não entendi nada do que ele falou, ao chegar em casa peguei o livro de geometria da minha filha e li o seguinte:29

 

Se a distância A-B é dividida pelo ponto E de maneira que a relação da distância total com sua seção maior é igual à rela­ção dessa seção maior com a menor, dizemos que a distância A-B está em "seção áurea". Se aumentarmos a distância divi­dida em seção áurea pela extensão da sua seção maior, a nova distância é uma vez mais dividida em seção áurea pelo ponto final da distância original. Esse processo pode ser continuado ad infinitum.

 

Senti pena da minha filha. Isso parecia chinês para mim! Comecei a tentar resolver o problema na minha escrivani­nha com pedaços de papel. Kilian, minha secretária, me olhou com um ar preocupado, como se temesse que eu es­tivesse ficando maluco. Depois de brincar um longo tempo com seções maiores e menores, finalmente entendi o que era a seção áurea. Recomendo aos meus leitores que experi­mentem o mesmo método prático. O Dr. Manias me mos­trou tabelas e fez a demonstração nos seus mapas. Qualquer um que resolver verificar o que estou dizendo ficará descon­certado:

 

A distância entre os locais de culto de Epidauro e Delfos corresponde à porção maior, ou seja, 62 por cento, da dis­tância da seção áurea entre Epidauro e Delos.

A distância entre Olímpia e Cálcia corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Olímpia e Delos.

A distância entre Delfos e Tebas corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Delfos e a Acropole.

A distância entre Olímpia e Delfos corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Olímpia e Cálcia.

A distância entre Epidauro e Esparta corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Epidauro e Olímpia.

A distância entre Delos e Elêusis corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Delos e Delfos.


A distância entre Cnosso e Delos corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Cnosso e Cálcia.

A distância entre Delfos e Dodoni corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Delfos e a Acrópole.

A distância entre Esparta e Olímpia corresponde à porção maior (62 por cento) da distância da seção áurea entre Esparta e a Acrópole.

 

Fiquei completamente embasbacado! O Dr. Manias me infor­mou que havia na Grécia a Associação de Pesquisas Ope­racionais cujos membros possuíam grande instrução e haviam apresentado palestras sobre essas curiosidades geométricas, por exemplo, no dia 18 de junho de 1968 no prédio da Associa­ção Técnica Grega, e também no quartel-general da força aé­rea grega. O público presente ficara tão desconcertado quan­to eu fiquei no início. Mais tarde, tive a oportunidade de exa­minar um documento publicado em dois idiomas pela Asso­ciação de Pesquisas Operacionais, que havia sido escrito com o apoio ativo do Departamento de Geografia Militar.30, 31 O Dr. Manias também me deu um bonito folheto que documenta todas essas impossibilidades matemáticas de uma maneira que até um leigo como eu consegue verificar.32 O Dr. Manias me pediu expressamente que voltasse a atenção para esses aspec­tos geométricos porque, nas palavras dele, os arqueólogos se comportavam como se esses aspectos não existissem.

Mas eles existem — e como existem! As conclusões a se­rem extraídas desses fatos geométricos, que não podem ser desprezadas, e que qualquer pessoa pode verificar por si mes­ma, são fantásticas. Mas vamos primeiro a algumas curiosida­des iniciais:

Qual é a probabilidade de que três templos em regiões montanhosas se encontrem em uma linha reta por mera co­incidência? Isso talvez possa ocorrer em dois ou três casos. Mas somente na Ática-Beócia (Grécia central) existem 35 des­sas “linhas com três templos". Esse fato elimina o puro acaso.

Qual a probabilidade de que a distância de um local sagra­do a outro seja a mesma em vários casos (medida em linha reta)? Na Grécia central isso ocorre 22 vezes!

E Delfos, o "Umbigo do Mundo", ocupa uma posição den­tro dessa rede equivalente a um aeroporto central. Seja par­tindo de Delfos, seja envolvendo-o, surgem as mais incríveis medidas geodésicas. Delfos, por exemplo, é eqüidistante da Acrópole e de Olímpia. É possível unir os pontos e traçar um perfeito triângulo isósceles. Na metade da "perna" (um dos dois lados menores de um triângulo retângulo) jaz o local sa­grado de Neméia. Os triângulos retângulos Acrópole-Delfos- Neméia e Neméia-Delfos-Olímpia possuem hipotenusas do mesmo comprimento, e a relação delas com a linha comum Delfos-Neméia corresponde à seção áurea. Você pode achar que isso é bastante confuso, mas fica ainda pior!

Uma linha traçada através de Delfos que seja vertical à horizontal Delfos-Olímpia atravessa o local oracuiar de Do- doni. Isso produz o triângulo retângulo Delfos-Olímpia- Dodoni, com a linha entre Dodoni e Olímpia sendo a hipotenusa. As "pernas" desse triângulo estão, uma vez mais, em proporções da seção áurea.

Que diabo está acontecendo? Você poderá achar que tudo está sendo imposto artificialmente, mas existe método nessa loucura. A distância entre Delfos e Aphea é igual à distância entre Aphea e Esparta. A distância entre Delfos e Esparta é igual à distância entre Esparta e Tebas, e por acaso também a metade da distância das linhas Dodoni-Esparta e Dononi-Acrópole. Distâncias iguais também se aplicam a linhas traçadas entre Delfos e Micenas, Micenas e Atenas, Delfos e Gortys (uma ruí­na megalítica em Creta!) e Delfos e Mileto na Ásia Menor. Re­sumindo, podemos perceber que existe uma relação geodésica- geométrica entre Delfos e Olímpia, Dodoni, Elêusis, Epidauro, Aphea, a Acrópole, Esparta, Micenas, Tebas, Cálcia, Neméia, Gortys e Mileto. Sou grato ao Dr. Manias e à Associação de Pesquisas Operacionais por ter chamado a atenção para essas extraordinárias relações. Mas a história não acaba aqui.

Somos todos capazes de visualizar um triângulo isósceles, e o fato de triângulos desse tipo ligarem locais de culto não pode ter acontecido por acaso. Alguém tem de ter tido uma visão global. Muitos desses triângulos podem ser traçados na Grécia antiga e sempre com duas proporções relacionadas com o com­primento dos lados. Por exemplo:

O triângulo Dodoni-Delfos-Esparta: As distâncias entre esses lugares estão entre si na mesma relação que Dodoni-Esparta estão para Dodoni-Delfos, Dodoni-Esparta para Esparta-Delfos e Dodoni-Delfos para Delfos-Esparta.

O triângulo Cnosso-Delos-Cálcia: As distâncias entre esses lu­gares estão entre si na mesma relação que Cnosso-Cálcia es­tão para Cnosso-Delos, Cnosso-Cálcia para Cálcia-Delos e Cnosso-Delos para Delos-Cálcia.

O triângulo Nicósia (Chipre)-Cnosso (Creta)-Dodoni: As distâncias entre esses lugares estão entre si na mesma relação que Ni- cósia-Dodoni estão para Nicósia-Cnosso, Nicósia-Dodoni para Dodoni-Cnosso e Nicósia-Cnosso para Cnosso-Dodoni.

Todos esses triângulos são iguais. Existem outros exemplos igualmente desconcertantes, mas prefiro não sobrecarregar meus leitores com geometria.

Usando mapas na escala de 1:10.000 e com a ajuda do Departamento de Geografia Militar, a Associação de Pesquisas Operacionais descobriu mais de duzentas relações geométricas iguais, resultantes do mesmo número de triângulos isósceles. Além disso, eles encontraram 148 proporções de seção áurea. Qualquer pessoa que ainda ache que tudo isso é coincidência precisa fazer um exame de sanidade mental. É claro que sem­pre podemos ligar dois lugares traçando uma linha aleatória e descobrir que o outro lugar está na mesma linha "por acaso". No entanto, não estamos falando de antigos nomes em um mapa e sim exclusivamente de cultos da antiguidade, ou, para ser mais preciso, de locais de culto pré-históricos. O planeja­mento que está por trás desse fenômeno é incompreensível. A não ser, é claro, que a rede geométrica não tenha sido pla­nejada como tal, e sim surgido por uma razão imperiosa, muito diferente. Mas, antes de tratarmos disso, precisamos fazer uma pausa para tomar fôlego.

O Professor Fritz Rogowski, do Braunschweig Technical College, verificou por si só que era muito fácil construir triângulos retângulos em uma região e se pôs em campo para demonstrá- lo. No terreno montanhoso da Grécia, ele encontrou pequenos círculos de pedra aqui e ali e depois olhou em volta à procura de outras marcações; e vejam só, em muitos casos ele encontrou um segundo anel de pedra dentro do seu campo de visão.33 O Professor Rogowski estendeu a linha desses dois pontos de mar­cação e, no final da seqüência, ocasionalmente encontrou um local de culto. Tinha então o enigma sido resolvido?

Não, não tinha. Grande parte das linhas que ligam os locais de culto da antiguidade passam sobre o mar. Uma das linhas do triângulo Delfos-Olímpia-Acrópole transpõe cerca de vinte qui­lômetros de mar. O mesmo é verdadeiro com relação à linha Dodoni-Esparta. A ocorrência se torna ainda mais absurda no caso de triângulos como Cnosso-Delos-Argos, pois Cnosso, eni Creta, e Argos estão separados por cerca de trezentos quilôme­tros de mar.34 Esse método de levantamento em pequena escala teria sido simplesmente impossível quando aplicado à extensão de mar entre a Grécia e Esmirna. Também tenho sérias dúvidas quanto à possibilidade de essa técnica de levantamento funcio­nar inclusive em terra firme. Não haveria nenhum problema se estivéssemos lidando com um terreno plano e regular, mas cer­tamente existe um problema em um terreno montanhoso e uma região talhada por incontáveis baías e enseadas como é o caso da Grécia. A que propósito serviam então os pequenos anéis de pedra encontrados pelo Professor Rogowski? Posso imaginar que eles talvez tenham sido sinais para ajudar os viajantes a se orientarem. Afinal de contas, não havia estradas nesses tempos pré-históri­cos, e as trilhas e caminhos podiam facilmente ser destruídos por tempestades e enchentes.

Os espertos especialistas de hoje se agarram com firmeza ao princípio da "possibilidade mais simples", da solução que está "mais à mão". Mas isso os deixa cegos a qualquer outra pers­pectiva. Eles estão aprisionados em seus hábitos de pensamen­to, pois consideram a resposta que está mais à mão como a única solução possível. Por que então aprofundar os estudos? Este método, mesmo que receba o selo sagrado da aprovação científica, oferece apenas soluções parciais às questões mais profundas. Uma dessas não-soluções, que embala a ciência conduzindo-a a uma alegre sonolência, provém do conheci­mento dos antigos matemáticos gregos — Euclides, por exem­plo, que viveu nos séculos IV e III a.C. e que fez dissertações no Egito e na Grécia. Ele escreveu vários livros didáticos que tratavam não apenas de todo o espectro da matemática, mas também de toda a geometria, inclusive das proporções e de temas confusos como a "irracionalidade quadrática" e a "estereometria". Euclides foi contemporâneo de Platão, o qual por sua vez, de vez em quando, se envolvia com a política. Diz-se que Platão se teria sentado aos pés de Euclides e escutado suas dissertações sobre geometria. Por conseguinte, pode ser tentador acreditar que Platão estava de tal modo entusiasma­do com o gênio matemático de Euclides que decidiu pôr em prática esse conhecimento, criando projetos de cuja organi­zação ele, na qualidade de político, poderia participar. Então o que Platão sabia?

No diálogo A República, Platão diz aos seus parceiros na conversação que a área é parte da geometria. Em outro diálo­go (Menon ou A Virtude), ele até mesmo trava um debate com um escravo, usando a falta de conhecimento do homem para demonstrar uma geometria de alto nível. Mas é no diálogo de Timeu que as coisas começam a acontecer rapidamente, e é nele que o problema das proporções, do produto e dos qua­drados perfeitos é mencionado, e também o que chamamos de "seção áurea". A citação que segue pode ser incompreensível para pessoas como eu que nunca conseguiram acompanhar a matemática superior. No entanto, ela exibe o elevado nível de discussão matemática ocorrida há mais de 2.500 anos:35

 

Quando no caso de três números, sejam produtos ou quadra­dos perfeitos, o número do meio está relacionado com o últi­mo como o primeiro está com o do meio, e igualmente o último com o do meio como o do meio com o primeiro, ocorre que se deslocarmos o do meio para a primeira e a última posição e em vez disso colocarmos o primeiro e o último no meio, a relação permanece constante. Mas se eles sempre mantêm a mesma relação uns com os outros, eles formam juntos uma unidade. Assim, se a Terra se tornasse uma superfície simples sem pro­fundidade, então uma região intermediária teria sido suficien­te para que ela se unisse às outras duas regiões...

 

Isso continua até que nossa cabeça parece que vai explodir. Depois de ler com dificuldade a horrível sentença que segue, abandonei todo e qualquer desejo de acompanhar as explica­ções matemáticas de Platão:

 

...mas como novos intervalos de 3/2, 4/3 e 9/8 surgiram den­tro dos intervalos originais através dessa unificação, todos os intervalos de 4/3 foram preenchidos pelo intervalo de 9/8, deixando assim em cada um uma pequena parte como um intervalo posterior, cujos limites se relacionam um com o outro na proporção de 256 para 243...

 

Qual é o tema desse complicado diálogo platônico? A criação da Terra. Depois de passar algumas semanas na companhia de Platão, deixei de compreender por que Galileu Galilei causou tanta comoção com sua "nova" doutrina e por que a Inquisição cristã quis matá-lo no século XVII. Tudo que Galileu ensinou já estava presente em Platão — como o fato de que a Terra é um globo, ou de que o nosso planeta gira em torno do sol. No entanto, tudo isso, inclusive as leis da gravidade, já tinha sido tratado em antigos textos indianos ainda antes disso. Parece que os antigos sabiam muito mais do que é ensinado hoje em dia aos alunos das nossas escolas secundárias. Gaius Plinius Caecilius Secundus (61-113 d.C.), que deve ter estudado Platão e F.uclides, nos fornece esta impressionante demonstração do conhecimento que obteve deles:36

 

Existe uma grande controvérsia entre os estudiosos e as pes­soas comuns com relação ao fato de a Terra ser habitada por pessoas cujos pés [nos lados opostos do globo| estão voltados uns para os outros... Os últimos perguntam por que "os que estão com os pés do lado oposto" não caem. Como se "as pessoas que estão com os pés do lado oposto" não pudessem fazer exatamente a mesma pergunta sobre nós... Parece 110 entanto milagroso que a Terra forme um globo, com a vasta superfície dos oceanos... É por isso que nunca é dia e noite ao mesmo tempo em toda a Terra, pois a noite chega do lado oposto àquele no qual brilha o sol...

 

Nenhuma novidade nisso tudo! Mas a rede geométrica que liga os templos gregos provém de Platão ou de Euclides, seu predecessor? Os locais sagrados só podiam ser construídos em pontos geometricamente determinados? Se for este o caso, de onde vieram esses pontos? Qual a origem dessa geometria? Qual a razão dessas relações proporcionais? Por que a seção áurea?

Platão, Cálicles, Chairephon, Gorgias e Sócrates partici­pam do diálogo Gorgias de Platão — uma turma realmente intelectual. Inicialmente, Sócrates enfatiza que o que ele tem a dizer é sua convicção, cuja verdade ele pode garantir. A se­guir, ele declara que a sabedoria geométrica não apenas é im­portante entre os seres humanos, como também desempe­nhou um papel fundamental para os deuses. Mas de que modo esse conhecimento passa dos deuses para o homem? Isso é explicado no terceiro livro das Leis de Platão. Os participantes falam — uma vez mais — sobre civilizações do passado. Um ateniense pergunta a Platão se ele acredita saber quanto tem­po se passou depois que as primeiras nações e pessoas surgi­ram na Terra.

A seguir se pergunta se haveria um fundo de verdade nas antigas lendas. Já naquela época! Eles estão se referin­do especificamente às lendas "sobre antigas e numerosas catástrofes que se abateram sobre a humanidade, através de inundações e outros desastres, aos quais apenas uma minúscula proporção da raça humana sobreviveu".37 Eles falam a respeito de como apenas habitantes de regiões montanhosas conseguiram se salvar e como depois de pou­cas gerações eles haviam perdido toda lembrança das civili­zações anteriores. As pessoas consideravam o que era "dito a respeito dos deuses... simplesmente como verdadeiro e vivi­am a vida de acordo com isso". Para regular sua existência depois do Dilúvio, disse Platão, elas tiveram de desenvolver novas regras e leis, porque nenhum dos legisladores dos tempos antigos havia sobrevivido. Eis uma citação das Leis de Platão (a ênfase é minha):

 

Mas como não criamos leis para os filhos dos deuses e os heróis, como faziam os legisladores dos tempos antigos, que descendiam dos deuses... ninguém poderá colocar a culpa em nós...

 

Os deuses admirados pelos gregos por sua vez descendiam de outros deuses, de quem haviam recebido as leis originais. As­sim sendo, os descendentes dos deuses também ordenavam a disposição geométrica dos templos? Bobagem! Por que deve­riam? E Platão, Sócrates e Euclides também nada têm a ver com isso.

O Professor Neugebauer compara a geometria platônica à de Euclides e à geometria de Assur e do Egito. Ele encontra poucas coisas em Platão que não podem ser encontradas em outros lugares.38 E o Professor Jean Richter descobre na dis­posição dos templos da Grécia antiga uma geometria que já existia muito antes de Euclides.39 Apenas a pergunta sobre por que poderia haver a necessidade dessa disposição geomé­trica permanece sem resposta. Essas descobertas professorais na verdade fazem com que todas as perguntas posteriores pareçam redundantes. Neste caso, excepcionalmente, a res­posta "mais à mão" torna outras possíveis respostas uma sim­ples perda de tempo. Vou dizer as coisas de uma maneira bem clara:

Os matemáticos gregos da antiguidade não podem ter exer­cido nenhuma influência sobre a disposição geométrica dos locais sagrados, simplesmente porque esses lugares já eram considerados sagrados milênios antes do nascimento desses matemáticos. Euclides, Platão e Sócrates nada tiveram a ver com eles. O conhecimento matemático dos gregos instruídos era impressionante, mas em nenhum momento eles deram ordens, quer políticas, quer de qualquer outro tipo, com rela­ção ao local onde um templo deveria ser construído — por­que esses templos já existiam naqueles locais havia longas eras. Como então — e agora nós chegamos à pergunta funda­mental — surgiu a clara rede geométrica que cobre toda a Grécia?

Os contos de fadas começam com "Era uma vez...”. Eu gosta­ria de começar de um modo ligeiramente diferente: "Vamos apenas supor..." que em uma época distante extraterrestres visitaram a Terra. Esses eram os deuses originais. Eles conse­guiram gerar filhos: os Titãs e os gigantes que vagaram pela Terra. Estes foram massacrados e novos deuses, criados — fi­guras mitológicas como Apoio, Perseu, Posídon e Atena. Eles dividiram a Terra entre si e uma vez mais começaram a gerar descendentes.

Um grande número de gerações depois, esses deuses ain­da eram capazes de impressionar os obtusos seres humanos com suas realizações técnicas. Eles possuíam armas superiores e, em particular, podiam voar! É verdade que suas máquinas eram agora apenas monstros voadores chocalhantes e fedo­rentos, mas eles se arremessavam através do ar de alguma maneira, o que era suficiente para despertar a admiração dos seus súditos. Quem quer que seja capaz de se lançar no ar tem de ser divino! Não obstante, essas banheiras voadoras precisa­vam de combustível, mesmo que fosse apenas um pouco de


óleo, carvão ou água para a máquina a vapor. Os pilotos sabiam exatamente até onde podiam ir antes de precisar rea­bastecer. É possível que houvesse tipos diferentes de naves voa­doras, para viagens mais longas ou mais curtas (pelo menos é o que se diz dos veículos voadores na índia antiga).

Era extremamente conveniente para os deuses que os seres humanos erigissem locais sagrados em sua homenagem, pois era nesses lugares que eles podiam recolher as "oferendas"; e os "mortais" também eram suficientemente reverentes para ser­vir os "imortais" da melhor maneira possível. Assim, o mundo inteiro se tornou Shangri-La para eles. Era bastante lógico que os locais sagrados ocorressem a intervalos regulares, visto que após um determinado número de quilômetros as engenhocas voadoras precisavam ser reabastecidas. E uma vez que grandio­sos locais de oferendas para os deuses — ou talvez devêssemos dizer seus postos de abastecimento de auto-atendimento — estavam instalados, eles ficaram onde estavam.

As famílias dos deuses e alguns amigos chegados também tinham conhecimento da posição desses postos de auto-aten­dimento: se você voar de Delfos a um ângulo X, por 65 quilô­metros, você chegará a Y. Continue a voar em linha reta por mais 65 quilômetros e você chegará a Z... Nada mais simples. Desse modo, a rede geométrica surge naturalmente dos seus "pontos de reabastecimento" ou "postos de abastecimento". E naturalmente as distâncias são sempre as mesmas, pois os veí­culos precisam ser reabastecidos após um determinado núme­ro de quilômetros. Afinal de contas, nenhum dos deuses deve­ria perder-se em uma viagem, nenhum membro da família de­veria ser prejudicado por uma distância grande demais nem a máquina voadora deveria ficar de repente sem combustível.

Comecei esta seção com uma suposição — nada além disso. Desconheço qualquer outra hipótese capaz de solucionar o enig­ma da rede geométrica na Grécia de uma maneira mais simples e elegante. A única condição é que aceitemos a noção de que "descendentes dos deuses" certa vez realmente viveram na Ter­ra. E, se soubermos procurar, poderemos encontrar uma grande quantidade de contos antigos que sustentam essa idéia.

Mesmo quando as famílias dos deuses há muito haviam degenerado, alguns desses parasitas parecem ter conseguido explorar a falta de conhecimento dos seres humanos. Em seu primeiro livro, Heródoto descreve a cidade da Babilônia, for­necendo detalhes precisos sobre o seu tamanho e coisas desse tipo. No centro, diz ele, ergueu-se certa vez um templo dedi­cado a Zeus (Belos), "com portas de ferro que ainda estavam lá nos meus dias". O templo tinha oito torres, erguidas uma sobre a outra. A entrada para essa elevada torre era uma esca­daria que subia em espiral em torno da parte externa de todas as torres.

Na torre superior, havia um "grande templo, e dentro dele uma ampla cama com encantadores dosséis e perto dele uma mesa de ouro". Ninguém tinha permissão para entrar nesse local, exceto uma mulher de extraordinária beleza que fora escolhida. Isso acontece, explicaram os sacerdotes a Heródoto, porque o deus entra pessoalmente no templo e dorme na cama, "e às vezes algo semelhante ocorre, de acordo com os ensina­mentos egípcios, em Tebas, no Egito. Dizem que essa mulher nunca tem relações sexuais com os homens mortais. O mesmo é verdade com relação às sacerdotisas do deus em Patara, na Lícia, quando o deus aparece. Quando ele aparece, a mulher fica fechada com ele à noite no templo".

Exatamente a mesma coisa acontecia nas elevadas torres dos templos indianos. E foi por essa mesma razão que os po­vos da América Central construíram suas pirâmides com de­graus, com um quarto no topo. Está bastante claro o motivo pelo qual as torres e as pirâmides eram necessárias: os sujeitos chegavam pelo ar!

Na época de Heródoto, as famílias dos deuses já não exis­tiam; do contrário, ele teria escrito a respeito das naves voa­doras. No entanto, em épocas anteriores, as coisas haviam sido exatamente como os sacerdotes da Babilônia haviam con­tado a ele. Os deuses tinham prazer com mulheres e homens, aqui, ali e em toda parte. Quando os deuses começaram a chegar com uma freqüência cada vez menor, e finalmente pararam de vir, os astutos sacerdotes voltaram o Shangri-La para seu benefício. F.ra a eles que as oferendas deviam agora ser feitas, era a eles que as donzelas e os rapazes deviam ser levados e a eles que o ouro e os diamantes deviam ser entre­gues. Algumas gerações depois, os sacerdotes já não mais sa­biam de que modo tudo havia começado — mas por que de­sistir de um negócio tão lucrativo?

No entanto, até mesmo o sumo sacerdote era atormentado por uma incerteza cotidiana. Através da tradição, ele conhecia o poder dos deuses, mesmo que nada compreendesse. E ele não sabia quando um deus poderia voltar. Não era portanto mais sensato explorar as pessoas apenas na medida necessária para reter o próprio poder? E acumular o tesouro para oferecer aos deuses quando eles voltassem? Isso certamente aplacaria aqueles seres celestes e incompreensíveis, não é verdade?

Estamos agora no início do terceiro milênio e os deuses há muito já caíram no esquecimento. Lamentavelmente parece que a sociedade humana pode não ter percebido esse fato.

 

NOTAS

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                    O EMARANHADO TROIANO

No final do século VIII a.C., viveu na Grécia um poeta cujo nome é hoje conhecido em todo o mundo, mas sobre o qual ninguém sabe nada ao certo: Homero (Homeros em gre­go), autor das fantásticas epopéias Ilíada e Odisséia. Pesquisas mostraram que Homero havia nascido na Ásia Menor e era provavelmente um cantor ou menestrel itinerante. Dizem tam­bém que ele era cego. O que permanece como um mistério é onde esse menestrel cego obteve a estrutura para suas históri­as, as "informações confidenciais" para seus ambiciosos con­tos. A Ilíada e a Odisséia se compõem de 28.000 versos — nada mal para um poeta cego. Considera-se que a poesia grega co­meçou com Homero; ele se situa "no princípio da literatura grega e com ele tem início a história da mente européia".1

Mas mesmo Homero não criou suas histórias do nada. Os especialistas acreditam que as versões escritas das suas epopeias se seguiram a uma longa tradição oral e no seu núcleo "escon­de-se uma tradição lendária muita antiga".2 E qual o tema des­sa "tradição lendária muito antiga"?

Na Ilíada são descritas batalhas, armas curiosas e as faça­nhas dos heróis, das quais tanto os deuses quanto os homens participam. O oitavo canto menciona "cavalos voadores" que voam "entre a terra e os céus salpicados de estrelas". Essas bestas divinas permanecem invisíveis, graças a uma neblina ou nevoeiro. O governante do mar, Posídon, é transportado sobre a água por uma parelha de cavalos voadores, de modo que nem mesmo o eixo da sua carruagem toca as ondas. Sou um tanto ou quanto parcial com relação a essas histórias. É claro que a coisa toda está relacionada com o amor, a honra ultrajada e — em menor grau — com a própria Guerra de Tróia.

As coisas se passam de uma maneira diferente na Odisséia. Nela lemos a respeito das espantosas aventuras de Ulisses. Ele finalmente conquista Tróia com seus companhei­ros e, passados vinte anos, retorna a ítaca, sua terra natal. A epopéia gira em torno do próprio Ulisses: ele conta a histó­ria na primeira pessoa, fala dos golpes do destino que os deuses acharam por bem endereçar a ele, mas também men­ciona suas façanhas e artimanhas heróicas que lhe possibili­tam sobreviver. Os filólogos encaram Ulisses como uma "fi­gura legendária da antiguidade"! e é claro que toda a história "tem a natureza de uma fábula".4 Durante um longo tempo, ninguém achou que ela pudesse se basear em eventos verda­deiros — até que Heinrich Schliemann (1822-90), com Homero nas mãos, descobriu a cidade de Tróia. Mas voltare­mos a este ponto.


Não quero analisar a Odisséia da maneira como analisei a Argonáutica. Já existem muitas coisas escritas a respeito dela. No entanto, preciso fornecer alguns pontos de referência para o entendimento ciessa impressionante história.

Ulisses ou Ulixes em latim e Odisseu em grego é o rei de ítaca. Ele e seus companheiros partem para conquistar Tróia porque a bela Helena de Esparta havia sido "raptada" e leva­da para lá. A caminho de casa, a frota de Ulisses, que começa com 12 navios, depara com uma aventura após a outra. Pri­meiro os heróis são impelidos para o Cabo Malea, depois eles desembarcam na ilha dos Ciclopes, as criaturas com um único olho. Um deles, Polifemo, aprisiona Ulisses e seus com­panheiros na sua caverna e come dois deles por dia. Final­mente, Ulisses dá um jeito de cegar o olho do Ciclope com uma estaca incandescente e consegue escapar com o resto da sua tripulação. (É preciso mencionar enpassant que o Ciclope pergunta a Ulisses qual é o seu nome e ele mente, dizendo que se chama "Ninguém". Ao ficar cego, Polifemo chama seus companheiros Ciclopes para ajudá-lo gritando "Nin­guém fez isso comigo".)

Ulisses e sua tripulação precisam enfrentar a seguir o fascínio das Sereias e a mágica Circe, que transforma toda a tripulação em porcos. Depois disso, Ulisses visita o reino de Hades — o mundo subterrâneo dos mortos — onde ele pode falar não apenas com sua falecida mãe como também com outras figuras famosas que há muito partiram desta vida. Finalmente, o navio precisa passar entre dois terrores femininos, Cila e Caribdes. Dizem que esta última foi certa vez atirada ao mar por um relâmpago de Zeus e, a partir de então, três vezes por dia ela suga uma enorme quantidade de água e depois a cospe fora. Sua irmã Cila não é menos assustadora. Ela é descrita como um monstro que se asse­melha a um cão que agarra os marinheiros que passam e len­tamente os engole. Ela captura de imediato seis dos homens de Ulisses.

A tripulação remanescente chega à ilha deTrinacria e, como estão com fome, abatem algumas vacas. Lamentavelmente, porém, os animais pertencem aoTitã-Sol Hiperíon, que se quei­xa furioso a Ulisses e depois explode tanto o navio quanto a tripulação com um único raio. Apenas Ulisses sobrevive. Ele se agarra a algumas tábuas e é lançado alguns dias depois à ilha de Ogígia, que pertence a Calipso, a qual, apesar da sua beleza, mora em uma gruta. Ela mima e paparica Ulisses, im­plorando a ele que fique com ela, oferecendo-lhe em troca a imortalidade.

Durante sete anos, Ulisses desfruta a boa vida, mas final­mente fica farto de ser eternamente beijado e acariciado. Ele se senta triste na praia e sonha com sua terra natal. Hermes então passa voando e ordena a Calipso que liberte Ulisses. Ele recebe as ferramentas necessárias para construir uma balsa e parte nela, deixando para trás o ninho de amor de Calipso. No entanto, o deus do mar Posídon, cujo filho, o Ciclope, havia sido enganado por Ulisses, avança violentamente sobre as águas em seu carro alado e faz Ulisses cair no mar. Se ele não tivesse conseguido tirar suas pesadas roupas debaixo da água, ele se teria afogado.

Dois dias depois, ele é atirado, exausto, à praia da ilha de Drepane. Após uma curta permanência com um guardador de porcos, e com a ajuda da intervenção divina, ele finalmen­te chega a ítaca depois de uma ausência de vinte anos.

Esta, em linhas gerais, é a descrição da epopéia. Como exis­tem na Odisséia e na Ilíada muitos detalhes geográficos, como acontece na Argonáutica, os especialistas se perguntaram por onde Ulisses tinha viajado. Em que mar suas aventuras ocorre­ram? Onde estão as ilhas mencionadas na história? Onde se situa o terrível perigo de Cila e Caribde? Mais de cem diferen­tes opiniões foram expressadas, cerca de setenta mapas foram desenhados e cada pesquisador estava certo de haver traçado corretamente a jornada de Ulisses. Dependendo da versão es­colhida, Ulisses circunavegou a Ásia Menor, deu a volta nas ilhas Britânicas ou até mesmo chegou a ir à América do Sul. Também foi sugerido que a Odisséia e a Argonáutica são a mes­ma viagem ou que as aventuras de Ulisses aconteceram em outro lugar, não na terra.

A sugestão mais sensata foi feita pelos irmãos alemães Hans-Helmut e Armin VVolf. Eles conseguiram reconstruir uma rota na qual o tempo levado na jornada corresponde a lugares ao longo do caminho. No entanto, os autores não afirmam que "o Ulisses da lenda visitou este ou aquele lugar",5 mas sim que "a jornada marítima descrita por Homero pode ser clara­mente relacionada com uma rota através do Mediterrâneo. Embora o resultado dos seus longos anos de pesquisa seja cer­tamente coerente e convincente, eu me pergunto como pode­ria o cego Homero ter conhecido a rota com tanta precisão.

A ilha de Creta também é mencionada com esse nome na Odisséia, embora não seja feita nenhuma referência ao robô Talos. Será que Homero conhecia o Talos da Argonáutica? Ou será que o robô parecia excessivamente artificial para ele? Eu dificilmente poderia acreditar nisso, considerando as outras "fantasias" que aparecem na Odisséia. Homero atribui todos os tipos imagináveis de artes mágicas aos deuses, inclusive o carro voador de Posídon, mas não menciona o Velocino de Ouro. Apesar de todos os truques e artimanhas com que os deuses se envolvem, a Odisséia não contém nenhuma ficção científica ao estilo da Argonáutica.

Tróia é o lugar situado no centro da guerra descrita na Ilíada e o único lugar que não faz parte da rede geométrica da antiga Grécia. Não estaria ela incluída nas antigas rotas dos deuses? Não obstante, o destino de Tróia é descrito por todos os historiadores gregos da antiguidade e o cerco é considera­do como tendo ocorrido entre 1.194 e 1.184 a.C. A própria Tróia deve ser muito antiga, pois o nome da cidade deriva do nome do herói mítico "Trós" (pai de lio, avô de Laomedonte, bisavô de Príamo de Tróia). Originalmente, a cidade teve ou­tros nomes: Ilium, llion e Troas. Dizem que Apoio também ajudou a construir suas defesas ciclópicas. Por conseguinte, Tróia tem uma origem tão "mítica" quanto os inúmeros ou­tros centros sagrados da Grécia já mencionados. Por que en­tão a posição geográfica do local de escavação que hoje em dia é considerado Tróia não tem uma correspondência com a rede geométrica dos deuses? Será que a Tróia que Heinrich Schlie- mann descobriu não é a mesma Tróia da mitologia?

Agamêmnon também figura na Odisséia e dizem que ele está enterrado com vários dos seus companheiros em Micenas que, ao contrário de "Tróia”, faz parte da rede geométrica. Esse fato me leva a uma pausa para pensar.

Segundo a lenda, a região ao redor de Tróia foi certa vez governada por um rei cretense chamado Teucro. A população era formada pelos teucrianos. Mas então Dardanos, filho do solitário rei, chegou e fundou um pequeno povoado. A região logo foi chamada de Dardania (o Dardanelos) em homena­gem a ele, e como seu filho se chamava Trós, o povoamento também foi chamado de Troas ou Tróia. Como o filho mais velho de Trós se chamava lio, a cidadela sobre a colina tam­bém foi chamada de Ilion ou Ilios, o que deu origem ao nome do poema de Homero a Ilíada.

A lenda moderna diz que Heinrich Schliemann tomou a Ilíada nas mãos para redescobrir essa cidade da antiguidade. É claro que aprecio histórias deste tipo: um homem afirma, contrari­ando a opinião de todos os especialistas, que a batalha de Tróia descrita por Homero realmente aconteceu e que seus heróis eram reais e, a seguir, ele efetivamente também encon­tra Tróia. Maravilhoso! Infelizmente, essa história não é intei­ramente correta.

Heinrich Schliemann nasceu no dia 6 de janeiro de 1822 em Neu-Bukov (Mecklenburg), filho de um pobre pastor protestante. Dizem que aos dez anos de idade ele escreveu uma dissertação em latim a respeito da Guerra de Tróia. Em 1836, ele iniciou um aprendizado comercial e cinco anos mais tarde partiu para a América do Sul como camareiro no pequeno brigue Dorothea. O navio naufragou e os sobrevi­ventes foram levados em barcos salva-vidas para a costa da Holanda.


 

Em Amsterdã, Heinrich Schliemann se tornou balconista, recebendo um salário anual de 15 dólares. Ele era considera­do como sendo muito cuidadoso com o dinheiro, extrema­mente esforçado e possuidor de excelente memória. Depois de dominar o holandês, ele passou a se dedicar ao inglês e ao francês. Mais tarde, ele aprendeu outras línguas, inclusive o russo e o grego.

Aos 25 anos, Schliemann havia se tornado um agente co­mercial financeiramente independente e, em 1847, fundou a própria empresa em São Petersburgo. Ele alcançou grande su­cesso na Rússia com a venda de anil, enxofre, chumbo e sali­tre, garantindo a si mesmo uma renda segura depois de pou­cos anos. Ele estava por acaso a negócios na Califórnia no dia de julho de 1850 e por isso se tornou "automaticamente" um cidadão americano (porque nesse aniversário da sua fun­dação, os novos Estados Unidos ofereceram a cidadania a to­dos que por qualquer motivo estavam em seu território).

A partir de 1858, Schliemann passou a fazer viagens regu­lares ao redor do planeta. Enamorado do seu Homero e com­pletamente convencido de que a Tróia descrita na Ilíada e na Odisséia tinha de ter efetivamente existido um dia, ele fez de Atenas seu lar em 1868.

Como ele não queria levar sua esposa russa para a Grécia, ele se divorciou e procurou uma parceira grega colocando um anúncio no jornal. Sua busca se concretizou sob a forma de uma encantadora moça de 19 anos. Fiel a Homero, ele deu ao seu primeiro filho o nome de Agamêmnon. Schliemann, cujo capital nessa época ultrapassava os dez milhões de marcos, continuou suas viagens até... bem, até encontrar Tróia. No entanto, essa descoberta não foi de modo algum tão direta quanto somos levados a acreditar pelas biografias populares.

A quatro quilômetros do Dardanelos, em território que hoje pertence à Turquia, ergue-se a colina de Hissarlik, apenas a sete quilômetros da costa do Mar Egei co na possui uma importância estratégica, pois todo navio que dese je entrar na região do Dardanelos precisa passar primeiro por ela. Os antigos gregos chamavam esse lugar de "Helesponto", por­que foi lá que Hele, a filha do Rei Átamas, caiu do Velocino de Ouro e mergulhou no mar. Tanto os gregos quanto, mais tarde, os romanos suspeitavam de que a Tróia de llomero estava em algum lugar nas proximidades, talvez debaixo da colina de Hissarlik. A quatro quilômetros ao sul dessa coli­na está a cidade de Bunarbaschi, e foi lá que os especialistas do século passado procuraram por Tróia. Os habitantes, con­tudo, antes da chegada de Schliemann, afirmaram que es­ses especialistas estavam na pista errada e que Tróia jazia debaixo da colina de Hissarlik. Foi essa controvérsia que fez com que o anglo-americano Frank Calvet, que trabalha­va como agente consular tanto em Atenas quanto em Is­tambul, comprasse os direitos a Hissarlik. Frank Calvet es­teve no local antes de Schliemann e também começou as escavações antes dele, de uma forma amadora. Ele esperava convencer os diretores do British Museum em Londres a patrocinar uma escavação de maiores proporções, mas eles recusaram o pedido.

Em Atenas, Schliemann ouviu falar nas intenções de Caivet e pôs-se em campo para comprar a colina de Hissarlik. O mi­lionário Schliemann encontrou-se com oglobetrotter Calvet, e este último ficou bastante satisfeito por poder desistir de Hissarlik e de todos os problemas que ela lhe causara. Quan­do saiu a notícia da descoberta do tesouro de ouro em Tróia, Calvet sem dúvida deve ter ficado furioso consigo mesmo.

Schliemann era certamente um excelente empresário, o que foi demonstrado nos anos seguintes. Ele mesmo era seu me­lhor relações-públicas.

Após fechar o negócio com Frank Calvet, vários meses se passaram até que Schliemann obtivesse permissão do gover­no turco para iniciar as escavações em Hissarlik. Finalmente, no dia 11 de outubro de 1871, com uma equipe de oitenta trabalhadores, tiveram início as escavações. Schliemann tra­balhou arduamente e nem inesmo o frio cada vez mais intenso conseguiu detê-lo. Ele vivia em um blocausse com a mulher, que agüentava todo o desconforto além de achar difícil su­portar o vento gelado.

Foi somente no dia 15 de junho de 1873 que a pá de um dos escavadores atingiu um recipiente de cobre cheio de ob­jetos de ouro e de prata. Schliemann deu aos seus emprega­dos uma folga pouco habitual e escondeu o tesouro de ouro no lenço de cabeça da esposa. No interior do blocausse, ele classificou o achado, colocou um diadema de ouro na cabe­ça da esposa e enviou telegramas para o mundo inteiro di­zendo ter encontrado o "tesouro de Príaino”. É claro que algumas pessoas ficaram aborrecidas; o governo otomano o acusou de ter roubado objetos de valor do solo turco e opo­nentes invejosos afirmavam que ele próprio havia enterrado o ouro no local.

Schliemann superou cada obstáculo com seu poder finan­ceiro e com sua capacidade de persuasão. Ele escavou camada após camada e a questão logo deixou de ser se ele teria ou não encontrado Tróia para se tornar qual a Tróia que ele havia en­contrado. Seria a Tróia de Homero?

Ele tirou às escondidas do país o suposto "tesouro de Príamo" e o doou para o museu de pré-história e história antiga de Berlim. Os russos o levaram para a URSS em 1945 como recompensa de guerra e afirmaram nada saber sobre ele du­rante décadas. A partir de 1993, russos e alemães vêm discu­tindo a posse do tesouro, e o governo turco tem feito a mes­ma coisa, pois gostaria de inaugurar um museu com os acha­dos no atual local turístico de Tróia (ver Foto 46).

Terá Schliemann realmente encontrado o local mítico de Tróia, a cidade de que Homero falou tanto na Ilíada quanto na Odisséia?

Ninguém tem certeza. A Tróia de Homero deve ter sido uma cidade imponente, um lugar repleto de pessoas instruí­das, onde o povo sabia ler e escrever, e com templos dedica­dos aos diferentes deuses. Os arqueólogos fizeram escavações através de 48 camadas e encontraram nove "Tróias" diferen­tes— mas não encontraram, em nenhum lugar, nem mesmo uma minúscula tabuinha com o nome da cidade. O único texto ali descoberto está gravado com alguns hieróglifos hititas. Supõe-se, portanto, que Tróia não era uma "antiga cidade gre­ga, pertencendo, ao contrário, a um diferente ambiente cul­tural",6 ou seja, um ambiente hitita. Esse fato também expli­caria por que Tróia não fazia parte da rede geométrica dos deuses.

Schliemann, contudo, só enxergava a confirmação da sua convicção. Quando foi retirado do entulho, ele imediatamente declarou que se tratava do portão mencionado por Homero ao descrevera forma como Aquiles (odo famoso "calcanhar”) persegue seu oponente Heitor três vezes ao redor dos muros da ci­dade. As fundações de uma edificação maior eram para Schliemann o "palácio de Príamo". E em 1872 ele julgou ter descoberto a "elevada torre" que Homero menciona brevemente no quarto canto da Ilíada. Mais tarde, descobriu-se que essa "torre" nada mais era do que dois insignificantes muros para­lelos e que o "palácio de Príamo" não era maior do que um chiqueiro (ver Fotos 47 e 49). (Segundo Homero, esse palácio tinha cinqüenta quartos, além de salões e pátios.) Tampouco, aparentemente, o portão poderia ser aquele mencionado por Ho­mero. Em outras palavras, após uma fria reflexão, o texto de Homero não poderia de modo algum corresponder à interpre­tação que Schliemann havia imposto a muitos dos seus achados.

Pouco antes de morrer, o próprio Schliemann veio a duvi­dar do fato de ter realmente descoberto a Tróia de Homero. E ainda não estamos totalmente certos até hoje. Seu amigo e sucessor nas escavações, o eminente arqueólogo Wilhelm Dõrpfeld, apontou para ele várias discrepâncias. Dizem que em Micenas, onde Schliemann posteriormente fez escavações, ele encarou seus erros com bom humor:7 "O quê?", gritou ele certa vez, "este não é o corpo de Agamêmnon e o seu tesouro? Ótimo! Vamos então dizer que ele é o prefeito!"

A partir de 1988, uma equipe internacional chefiada pelo Pro­fessor Manfred Korfmann de Tübingen tornou-se responsável pelas escavações em Tróia. Nenhum verão se passa sem que surja uma nova sensação. Os cerca de noventa especialistas de diferentes faculdades e países logo verificaram que a colina de Hissarlik havia sido habitada ininterruptamente do início do terceiro milênio a.C. até a época romana. Até mesmo a última camada, chamada Tróia 1, possuía um muro defensivo com 2,5 metros de espessura com três portões (ver Foto 50). As camadas seguintes — Tróia II e Tróia III —continham as ruínas de habi­tações e terraços, bem como de artefatos de bronze e de ouro. Nas camadas IV e V, datadas de 2.100 a 1.800 a.C., parece que os troianos não tiveram uma época muito feliz — pelo menos se os restos das suas refeições servem de referência para alguma coisa. Havia também indícios de vários incêndios.

Tróia VI era a maior de todas, e o fato de ela ser datada de 1.800 a 1.250 a.C. deveria torná-la a Tróia sobre a qual Homero escreveu. Entretanto, os escavadores acreditam que a cidade foi destruída por um terremoto. Por outro lado, Tróia VI pos­suía vários palácios e um muro defensivo mais longo e mais sólido do que seus precursores. Mas não havia nenhum sinal da violenta guerra descrita por Homero. Teria de haver algu­ma quantidade de flechas e pontas de lança em Tróia VI se fosse nela que a famosa guerra tivesse acontecido. Também era de se esperar que tabuinhas fossem encontradas, visto que naquela época a escrita já estava instituída.

Somente quando atingimos Tróia VII, datada entre 1.200 e 1.000 a.C., que encontramos uma insignificante tabuinha de bronze, com 2,5 centímetros de comprimento, gravada com alguns hieróglifos "lúvicos" — uma linguagem relacionada com os hititas. Ela parece ter sido o selo de um comerciante. Tudo isso faz com que se torne cada vez mais provável que "Tróia e Vilusa tenham sido na verdade a mesma",8 como es­creve Birgit Brandau em seu excelente livro a respeito do esta­do atual das escavações.

Mas o que é "Vilusa"? Era um lugar no reino hitita tam­bém mencionado nas tradições hititas. F.ntão não era Tróia? Ou "Vilusa" era o nome hitita para Tróia?

A camada de Tróia VIII só continha ruínas insignificantes da época dos gregos (aproximadamente 950-85 a.C.), embora esse fosse o período no qual o resto da Grécia — a Acrópole, Delfos e assim por diante — floresceu mais intensamente. Hou­ve finalmente Tróia IX, que surgiu cerca de 500 d.C. Esse lu­gar se revelou o mesmo que o local sagrado romano de "ílio".

Será que Homero exagerou descaradamente ou será que a Tróia de Schliemann não é a mesma que a do poeta? Mas havia mais a ser considerado além da colina de Hissarlik: havia tam­bém a região circunvizinha.

Eberhard Zangger é um geoarqueólogo — alguém, portanto, que estuda a arqueologia a partir da perspectiva de um geólogo. Ele desviou a atenção da colina de Hissarlik para a costa e come­çou a pensar. A seguir, ele leu várias vezes a história de Platão sobre a Atlântida. Finalmente Zangger começou a contar, com­parando coisas e juntado-as na cabeça. O resultado foi um livro ao qual inúmeros especialistas reagiram com um surpreendente interesse/' Eberhard pretende provar nele que Tróia era na verda­de a Atlântida. Poderíamos pensar que é um pouco absurdo al­guém supor que havia resolvido o enigma da Atlântida. Se Tróia e a Atlântida eram o mesmo lugar, por que Homero sempre es­creve a respeito de Tróia e da Guerra de Tróia sem jamais usar a palavra Atlântida? O arqueólogo americano Curtiss Runnels fez o seguinte comentário a respeito do livro de Zangger: "...ele vai exercer o mesmo efeito sobre o mundo acadêmico que as des­cobertas de Schliemann há cem anos".10 E o arqueólogo inglês, Professor Anthony Snodgrass, está convencido de que a identifi­cação da Atlântida com Tróia feita por Zangger está suficiente­mente fundamentada para merecer a atenção de um grande número de pessoas em diferentes áreas de especialização.

Se Zangger estiver certo, a Atlântida-Tróia não teria sido des­truída 9.000 anos antes de Platão e sim por volta de 1.184 a.C. A Atlântida também não teria submergido em uma única noite cataclísmica e sim, destruída pela Guerra de Tróia. Isso contraria o que foi revelado em Tróia VI e Tróia VII, que não foram des­truídas pela guerra ou por uma inundação e sim por um terremo­to. Além disso, Tróia está situada na colina de Hissarlik e, por­tanto, não poderia ter sido submersa. Como pode então Eberhard Zangger identificar a Atlântida de Platão com a Tróia de Homero?

Zagger tem suas razões. Se elas são realmente convincen­tes é um fato que está aberto à discussão.

O nome Atlântida é bem conhecido e, para algumas pessoas, representa uma fascinação, um sonho, um paraíso que nunca existiu. A Atlântida é como o mundo milagroso da infância, uma ilha mágica de paz, um conto de fadas de uma época em que o mundo era feliz e cheio de pessoas despreocupadas.

Será que existe mais do que apenas um anseio nessa história? Será que a Atlântida e Tróia, como Zangger tenta demonstrar, eram realmente uma só? O que sustenta as idéias dele e o que as debilita? Se Zangger estiver errado, isso significa que a Atlân­tica está finalmente morta e enterrada? As pessoas têm teorizado durante séculos a respeito de onde ela pode estar — e sempre em vão. Afinal de contas, quem começou esse mito da Atlântida? Que forma ele tomou? Qual a origem da história original?

 

NOTAS

Homero, Odyssey, traduzida (para o alemão) por Anton Weiher, Muni­que, 1955.

Ibid.

Ibid.

Homero, Ilias, traduzida (para o alemão) por Hans Rupé, Munique, 1961.

Wolf, Armin e Wolf, Hans-Helmut, Die wirklieche Reise des Odysseus, Munique e Viena, 1990.

Stiege, Rudolf, "Eine Schrift, die Zeichen setzt", in Berliner Illustrierte Zeitung, 13/14 de setembro de 1997.

Durant, Wil, Die Geschichte der Zivilisation — Das Lehen Griechenlands, Berna (nenhuma data foi fornecida).

Brandau, Birgit, Troja, Eilte Stadt und ihr Mythos, Bergisch Gladback, 1997.

Zangger, Eberhard, Atlantis — eine Legende wird entziffert, Munique, 1992.

“Wegweiser nach Utopia", in Der Spiegel, n° 20/1992.

 

                    ATLÂNTIDA — O ENIGMA MILENAR

Talvez corresse o ano de 401 a.C. Atenas celebrava um festival em homenagem à sua deusa protetora. Saltimbancos e dançarinos rodopiavam pelas ruas e na base da Acrópole jo­vens atores distraíam a multidão com uma peça. Acima, no templo de Atena, ardia a chama sagrada. O ar estava saturado de incenso e gordas bestas sacrificais se amontoavam nas ruas estreitas. Na extremidade norte da cidade, onde estava situado o pequeno santuário do herói local Academo, cinco homens se reuniram no frio pátio interno em uma espaçosa casa de pedra. Eles se conheciam bem e já haviam passado muitas noi­tes em debates filosóficos. O anfitrião, provavelmente o pró­prio Platão, pediu aos convidados que se sentassem em macias almofadas. Jovens serviram bebidas frias.

Será que essa geração levava Platão a sério? Ou era ele en­carado como uma pessoa de fora? Quem eram os convidados?

Homens importantes e honrados, cuja palavra valia alguma coisa, ou "gargantas"? Eis uma rápida descrição dos partici­pantes:

 

Platão: Filho de Ariston, de uma próspera família ateniense.Na juventude, escreveu tragédias até se interessar pela filo­sofia por influência de Sócrates. Durante oito anos, fre­qüentou as palestras deste último. Depois que Sócrates morreu, Platão visitou Euclides em Megara e estudou com ele geometria e matemática. Depois de residir por um cur­to período de tempo em Atenas, sua cidade natal, ele via­jou para Creta, o Egito e a Sicília, sendo apresentado à corte de Dionísio de Siracusa. Dionísio, um tirano, provavelmen­te não tinha muito tempo para a filosofia, pois mandou prender Platão após uma discussão e o entregou ao embai­xador de Esparta, que o vendeu como escravo. Depois de várias aventuras, alguém pagou pela liberdade de Platão e ele retornou a Atenas, sua cidade natal, onde fundou a Aca­demia. Platão passou os últimos anos de vida em altos cír­culos acadêmicos e alguns dos seus discípulos ficaram famosos. Diz-se que ele morreu durante os festejos de um casamento.

 

Sócrates: Filho do escultor Sofronisco de Atena. Ele é consi­derado o fundador da filosofia grega. Seus discípulos provi­nham dos mais nobres círculos atenienses. Ele foi condenado à morte e obrigado a beber um "cálice envenenado", por ser •supostamente herético. Ele poderia ter fugido, mas se recu­sou a fazê-lo por acreditar que a decisão do estado devia pre­valecer à do indivíduo.

 

Timeu: Astrônomo e pesquisador dos fenômenos naturais, nas­ceu em Locroi no sul da Itália. De acordo com Sócrates, ele "demonstrou seu valor ocupando os mais elevados cargos e posições de honra na cidade". Timeu defendia os ensinamentos e a matemática de Pitágoras.

 

Crítias: Um homem mais velho, político respeitado em Atenas e uma das "trinta cabeças” de Atenas. Crítias afirma várias vezes ter ouvido a história da Atlândida do seu avô — também cha­mado Crítias — e ter em seu poder documentos escritos a res­peito dela. Crítias é parente de Platão por parte de mãe.

 

Hermócrates: Conhecido comandante de Siracusa. Na Guerra do Peloponeso lutou do lado de Esparta. Mais tarde, foi bani­do. (Não existe um consenso entre os estudiosos de Platão se ele é este Hermócrates ou outro.)

 

As bebidas foram servidas, os participantes e alguns ouvintes tomaram seus lugares. Sócrates abre a discussão de maneira jovial:

 

Sócrates: Um, dois, três — mas o quarto, meu caro Timeu, daqueles que foram ontem os convidados e hoje os anfi­triões, onde está ele?

 

Timeu: Ele não está bem, Sócrates, pois por vontade própria ele jamais ficaria afastado da sua reunião.

 

Sócrates: Então você e seus amigos têm certeza de que preen­cherão o lugar dele?

 

Timeu: Certamente. Faremos o que for possível, pois seria indelicado se não retribuíssemos de bom grado sua hos­pitalidade de ontem de uma maneira apropriada e digna.

 

Sócrates: Vocês então se lembram de tudo que sugeri que fosse discutido?

 

Tinieu: Nós nos lembramos de grande parte e, se esquecermos, você está aqui para nos lembrar. O ideal, contudo, se você não se importar muito, seria que você nos apresentasse novamente um breve resumo, para que possamos assimi­lar adequadamente as idéias.

 

Os homens então conversam a respeito de regras que devem ser respeitadas em um país. Hermócrates lembra que no dia anterior Crítias havia contado uma lenda, mas Sócrates já não estava presente. Ele pede a Crítias que a repita, para que pos­sam examiná-la com mais atenção. Crítias dá então início ao seu monólogo, a introdução à história da Atlântida. É impor­tante acompanharmos esse relato um tanto ou quanto cansa­tivo, pois ele revela parte dos elementos que deram origem à lenda da Atlântida. Usarei a tradução do Professor Otto Appelt do ano de 1922.1

 

Crítias: Sócrates, você vai ouvir um conto muito estranho, que é tido como totalmente verdadeiro. Sólon, o maior dos sete sábios, nos garantiu isso na sua época. Ele era na verdade parente do meu avô Dropides, e muito ami­go dele, como declara em muitas partes dos seus poe­mas. Ele contou certa vez ao meu avô Crítias — o qual, quando ficou muito velho, contou para mim — que houve no passado um grande número de grandes e ma­ravilhosas realizações do nosso estado ateniense cujo esquecimento havia sido favorecido pela passagem do tempo e das gerações. Mas a maior delas é aquela cujomomento certo de ser contada talvez tenha chegado, não apenas como agradecimento, mas também para honrar a deusa neste seu dia de festa, de uma maneira digna e sincera, como se na forma de uma canção de louvor.

 

Sócrates: Belas palavras. Mas que tipo de realização foi essa, que Crítias ouviu de Sólon como tendo sido efetivamen­te levadas a cabo pelo nosso estado ateniense, pois ela não é mencionada em nenhuma parte da história?

 

Crítias: Vou contar-lhe então essa antiga história, que eu ouvi de um homem muito idoso. Trata-se de Crítias [meu avô|, que já estava com quase noventa anos, en­quanto eu ainda tinha, no máximo, dez anos de idade. Ele me contou a história no "Dia dos Jovens", o festi­val Apaturien. Para os jovens, o festival correu como sempre. Os próceres designaram prêmios para a recita­ção de poesias. Foi recitada uma grande quantidade de poemas, pelos mais diversos poetas. Os poemas de Sólon eram novos na ocasião, e por isso muitos de nós, me­ninos, decidimos recitá-los. Um dos próceres manifes­tou a opinião para Crítias — não estou certo de ele realmente estar sendo sincero ou de estar simplesmen­te fazendo um cumprimento — de que Sólon era não apenas o mais sábio, como também o mais requintado dos poetas. O velho — e eu me lembro como se fosse ontem — ficou realmente muito feliz ao ouvir isso e, sorrindo, retrucou:

- Sim, Aminandros, e se ele não tivesse se dedicado à poesia apenas nos momentos ociosos e tivesse exerci­do esforço e seriedade como todos os outros poetas, e se ele tivesse sido capaz de completar o que trouxe consigo do Egito, em vez de ser forçado a desistir disso por causa da agitação que encontrou aqui ao voltar, acredito que ele teria superado Hesíodo, Homero e qualquer outro poema que vocês desejem mencionar.

- Mas que tipo de história foi essa que ele trouxe? — perguntou o outro.

- A descrição, respondeu meu avô, — de uma mag­nífica realização, que merece superar a fama de tudo o mais — que Atenas executou, mas que foi esquecida com a passagem do tempo e a derrocada daqueles que a execu­taram, cujos descendentes já não estão entre nós.

- Conte-nos do início — pediu o outro — o que Sólon lhe relatou, e de que maneira e de quem ele ouviu a histó­ria como sendo verdadeira.

- No Egito — começou Crítias—, no delta em cuja extremidade o Rio Nilo se divide, existe uma região cha­mada Saitic, cuja maior cidade é Sais, a cidade natal do Rei Amasis. Os habitantes da cidade dizem que seu fun­dador foi um deus, cujo nome egípcio é Neith, mas que eles afirmam ser Atena em grego. Eles dizem ter muita simpatia pelos atenienses e se consideram, de certa ma­neira, aparentados com eles. Sólon me contou que via­jou para lá e foi recebido com todas as honras. Quando ele fez perguntas ao mais culto dos sacerdotes a respeito da origem e da história da terra, ficou bastante claro que, como outros helenos, ele praticamente não sabia nada sobre essas coisas. A fim de encorajá-los a fornecer infor­mações a respeito dos velhos dias, ele começou a falar a respeito da antiguidade da Grécia, das histórias de Foroneu, supostamente o homem mais antigo, de Níobe e de como Deucalião e Pirra sobreviveram ao Dilúvio; a seguir, ele relacionou seus descendentes e tentou apre­sentar um relato extremamente preciso do número de anos, relacionando esse fato com a história da qual fala­va. Um dos sacerdotes, um homem muito idoso, então exclamou:

- Ó Sólon, Sólon, vocês helenos ainda são crianças e a Grécia antiga não existe!"

Quando Sólon ouviu essas palavras, ele perguntou:

- O que você quer dizer com isso?

- No que diz respeito às suas almas, todos vocês são jovens, pois não nutrem pensamentos primevos baseados em ensinamentos que despertam reverência. A razão para isso é a seguinte. Inúmeras e de vários ti­pos são a destruição e as catástrofes que se abateram e se abaterão sobre a raça humana: as mais violentas cau­sadas pelo fogo e pela água, e outras catástrofes me­nores através de milhares de outras causas. O que é contado na sua terra, ou seja, que Faetonte, filho de Hélio, tomou as rédeas da parelha do pai, mas não con­seguiu seguir o curso do pai, devastando com o fogo vastas extensões de terra e morrendo por ter sido atin­gido por um raio, parece um conto popular mas está na verdade relacionado com um desvio do corpo celeste que circunda a terra e com a devastação da superfície da terra durante longos períodos em decorrência de gran­des incêndios. A conseqüência disso é que os habitan­tes das montanhas e dos lugares mais elevados, bem como os habitantes das regiões mais secas serão mais afetados por essa destruição do que os que moram à beira dos rios e do mar. Mas para nós o Nilo, que é nosso salvador sob todos os aspectos, uma vez mais nos protege desse destino, afastando-o de nós. Por outro lado, quando os deuses inundam a terra com água para purificá-la, os habitantes dos lugares montanhosos, os pastores e vaqueiros, são poupados, enquanto os ha­bitantes das cidades da sua terra são arrastados para o mar pelas torrentes. No entanto, no nosso país, nem neste caso nem de outras maneiras, nenhuma água é derramada dos céus sobre os campos e tudo surge naturalmente de­baixo. Por conseguinte, e por essas razões, tudo perma­nece como era, de modo que retemos a lembrança dos dias mais antigos. Na verdade, as coisas são assim: em todas as regiões onde o frio ou o calor extremos não tor­nam isso impossível, existe sempre uma população de pessoas, às vezes maior, às vezes menor. Onde quer que seja então — seja no seu país ou aqui, ou em algum outro lugar —, onde quer que alguma coisa magnífica, gran­de ou que encerre algum interesse particular tenha acontecido, ela é registrada aqui nos templos em docu­mentos escritos e assim preservada da destruição desde tempos imemoriais. É diferente para vocês e outros po­vos. Mal vocês acabam de desenvolver a escrita e tudo o mais que a civilização exige, os céus abrem uma vez mais as comportas sobre vocês e derramam torrentes como uma enfermidade, deixando escapar com vida apenas aqueles que nada entendem da escrita e não têm nem cultura nem instrução. É por isso que vocês sempre se tornam, por assim dizer, crianças de novo, sem nenhum conhecimento do que ocorreu nos tempos antigos, seja na sua terra, seja na nossa. O curso das gerações, como aparece, por exemplo, na sua descrição, Sólon, é pouco diferente de um conto infantil, pois em primeiro lugar vocês se lembram apenas de um único dilúvio na terra, embora tenha havido muitos antes dele; segundo, vocês ignoram que a melhor e mais nobre raça humana ha­bitou a sua terra. Vocês e seu país descendem de um pequeno vestígio dessa raça. Mas vocês não têm consci­ência disso porque os sobreviventes e seus descendentes passaram através de muitas gerações sem registrar nada por escrito. Houve épocas, meu Sólon, antes da maior e mais destrutiva inundação, em que a comunidade agora conhecida como Atenas era a melhor e mais esplêndida de todas, não apenas no que diz respeito à guerra, mas também à maneira pela qual ela era regulada por leis, maneira essa sem igual em todo o mundo. A esse seu esta­do foram atribuídas as maiores façanhas e os melho­res estatutos de que já ouvimos falar.

Ao ouvir essas palavras, Sólon demonstrou seu es­panto e pediu ao sacerdote que lhe contasse tudo a respeito desses antigos cidadãos de Atenas, do começo ao fim.

Mas o sacerdote retrucou:

- Não ocultarei nada de você, Sólon; eu lhe conta­rei tudo, como um favor a você e à sua cidade, mas aci­ma de tudo em consideração à deusa que teve uma participação tanto no seu país quanto no nosso, que fez ambos progredirem e levou até eles uma elevada cultura: primeiro o seu, 1.000 anos antes, a partir da semente que ela havia recebido da Mãe Terra e de Hefesto com essa finalidade, e depois o nosso. A funda­ção do nosso estado ocorreu há 8.000 anos, de acordo com os registros dos documentos do nosso templo. As pessoas cujas leis e façanhas mais eminentes vou des­crever sucintamente para você eram portanto cidadãos que viveram há 9.000 anos. Depois podemos passar al­gum tempo considerando todos os detalhes específicos adicionais através do exame dos documentos propria­mente ditos...

 

Até aqui, no monólogo, Crítias mencionou várias vezes o nome Sólon. Quem foi esse homem?

Sólon foi um ancestral de Platão altamente respeitado (freqüentemente chamado de sacerdote). Ele deu aos ate­nienses uma nova constituição e em 571 a.C. viajou para Naucratis no Egito, um porto no trecho canopo do Nilo. A apenas 16 quilômetros dali, erguia-se a cidade templo de Sais, onde funcionava uma escola de tradução. Sólon disse ter ouvido a história da Atlântida de uma velho escriba de templo chamado Sonchis e, ao mesmo tempo, tê-la visto escrita em hieróglifos. Cerca de 650 anos depois da morte de Sólon, Plutarco escreveu um livro sobre ele: A Vida de Sólon. Nele Plutarco diz que o próprio Sólon quis registrar por escrito a história da Atlântida, mas sua idade avançada o impediu de fazer isso.

Em sua introdução, Crítias menciona uma conversa que Sólon teve em Sais. Seria muito estranho acusar Crítias de contar histórias absurdas: ele está falando da experiência de um dos seus ancestrais e o próprio Crítias é uma das "trinta cabeças de Atenas", um político altamente respei­tado. Por que iria ele querer contar mentiras para esse cír­culo de homens? Todos tinham idade e sabedoria suficien­tes para enxergar através das mentiras. Em torno desses homens sentavam-se discípulos e tudo que Crítias dizia era anotado. Não estão falando da divagante introdução a uma hipótese, nem da conversa sobre uma república ideal, como com freqüência se supõe. Afinal de contas, Platão havia descrito esse estado em seus livros As Leis, A Repúblico e A Política. Ele já havia dito tudo; por que então precisaria de um novo pacote de mentiras a respeito de uma tal de Atlântida?

Além disso, Crítias parece saber exatamente do que está falando. Ele descreve detalhes geográficos, como o lugar onde o          Rio Nilo se divide, a grande cidade de Sais, a cidade natal do Rei Amasis, e assim por diante. Além disso, ele confirma que documentos e textos sobre a Atlântida seriam encontrados em Sais. Veremos depois que Sólon também escreveu o texto da Atlântida a partir de uma inscrição em uma estátua ou coluna. As histórias escritas nas colunas devem ter sido particularmente importantes; do contrário, as pessoas nunca teriam achado que valia a pena imortalizá- las ali.

Crítias então transmite aos outros as palavras do velho sa­cerdote, como ele as conhece por intermédio de Sólon. Esse sacerdote lhe garante que os egípcios tinham registrado tudo por escrito. Um desses textos dizia que certa vez, antes do grande Dilúvio, Atenas havia combatido uma potência cuja base era no "mar Atlântico”, pois dizem que naqueles dias esse mar ainda era navegável mas que agora — na época de Sólon — já não era mais. Por que não? Porque naquela épo­ca "atrás das colunas de Héraclès havia uma ilha, da qual podia-se atravessar para as ilhas mais distantes que ficavam atrás dela, e também para o 'continente que ficava do ou­tro lado'. Viera então uma época de 'terríveis terremotos e inundações' e 'um dia e uma noite repletos de um terror apavorante'. A ilha da Atlântida havia desaparecido e, por­tanto, o mar que existia deixara de ser navegável, em virtu­de das 'enormes massas de lama que se acumularam ao re­dor da ilha que afundou'". Crítias encerra essa primeira história da Atlântida com as palavras: "Assim, meu Sócrates, você acaba de ouvir uma versão muito breve da história que me foi contada por meu avô Crítias, que ele ouvira de Sólon."

Quase se desculpando, Crítias acrescenta que passara a noite anterior recordando tudo, pois, diz ele, o que aprendemos na juventude permanece na memória. Os homens passam a discutir questões de astronomia, geometria e a criação do mun­do. Hoje em dia nossos astrofísicos falain sobre a “criação do tempo" e no diálogo "Timeu" Platão expressa uma visão se­melhante: "O tempo surgiu junto com o universo, para que ambos, simultaneamente criados, também fossem desfeitos ao mesmo tempo..."

A nossa ciência nãoé nem um pouquinho mais perspicaz.

Isso é tudo que a antiguidade nos diz sobre a Atlântida? Não, isso é apenas o começo! No dia seguinte, o mesmo círculo de homens uma vez mais se reúne. Nesse ínterim, Crítias parece ter colocado seus documentos em ordem. Timeu inicia a conversa e pede a Crítias que continue a história da Atlântida. Crítias atende ao pedido dele, mas primeiro pede aos seus companheiros que compreendam as dificuldades envolvidas quando se tenta recordar de memória uma antiga história. Ele compara sua incumbên­cia com a de um pintor, que faz aparecer na tela uma figura maravilhosa. A figura, diz ele, deve ser uma reprodução fiel do original, e o mesmo se aplica à descrição oral. Ele espera se mostrar à altura dessa difícil tarefa.


Só menciono essa introdução para mostrar a seriedade com que esses homens encaravam a história da Atlântida. Cada um deles estava consciente de que Crítias tinha de relatar de memória (com a ajuda de algumas anotações) uma história que aprendera de cor quando menino. Crítias, pelo seu lado, estava se esforçando para recriar a imagem de uma maneira que fosse fiel às suas recordações:

 

Crítias: Acima de tudo vamos recordar, em primeiro lugar, que 9.000 anos haviam se passado depois que dizem que a guerra, que irei descrever, irrompeu entre os que viviam além das colunas de Héracles e os que mora­vam nas cidades situadas entre elas. Já mencionamos que a nossa cidade de Atenas era a maior entre estas últimas e levou a guerra até o fim, enquanto os primei­ros, as pessoas da ilha da Atlântida, eram governados por seus reis. Essa ilha era, como vimos, maior do que a Líbia e a Ásia, mas agora afundara no mar em conse­qüência de terremotos, o que passou a apresentar um insuperável obstáculo sob a forma de uma massa de lama para aqueles que desejavam navegar nos mares mais distantes...

 

Essa conversa ocorreu por volta de 400 a.C. Se recuarmos no tempo, contando a partir de hoje, o evento a que Crítias se refere deve ter ocorrido há cerca de 11.500 anos. Já escrevei a respeito das "datas impossíveis" que as tradições e as lendas dos povos da antiguidade nos apresentam. No momento, tudo que podemos fazer é deixá-las como estão. A equação Tróia = Atlântida tem nesse ponto seu primeiro revés. Segundo a Ilíada e a Odisséia de Homero, o cerco de Tróia durou dez anos. Os achados arqueológicos falam de uma devastação que aconteceu por volta de 1.200 a.C. Por conseguinte, neste caso somente duas coisas são possíveis:

 

A Tróia de Homero e Schliemann foi certa vez chamada de Atlântida, tendo sido destruída por volta de 1.200 a.C. Neste caso, poucas centenas de anos teriam transcorrido entre a des­truição de Tróia (ou Atlântida) e o relato de Homero sobre ela. Por que então ele não menciona o nome da Atlântida? (O mesmo se aplica aos historiadores gregos.) Os antigos nomes de Tróia são conhecidos, mesmo se recuarmos aos tempos míticos, mas a palavra Atlântida não aparece em nenhum lugar.

 

A Tróia de Homero e Schliemann teve o nome de Atlântida em um passado que está perdido na névoa do tempo. No entanto, essa Atlântida não era a mesma que a "Tróia" da arqueologia, porque ela seria muito mais antiga do que Tróia na época da sua destruição. Essa suposição tornaria os achados arqueológi­cos da Tróia de Schliemann inúteis como parte de um "modelo da Atlântida”. Além disso, o mito é uma recordação folclórica. Uma imponente cidade como a Atlântida não desaparece da lembrança popular e de repente muda o nome para Tróia, Tros ou ílion.

 

E o que dizer dos 9.000 anos aos quais Crítias se refere? Eberhard Zangger acha que os egípcios já usavam um calendário solar nacional e dois calendários lunares de inspiração religiosa des­de 2.500 a.C. É provável que as datas inscritas nas colunas do templo em Sais, a partir das quais Sólon escreveu sua história da Atlântida, devam ser computadas em ciclos lunares. Um cálculo baseado nesses ciclos produziram a data de 1.207 a.C., e nessa época os gregos estavam de fato envolvidos em grandes guerras e a destruição de Tróia foi causada por elas. Isso signi­ficaria que Tróia/Atlântida teria de ter existido até 1.207 a.C. Por que então Crítias (citando Sólon) enfatiza que a Atlântida estava situada no Oceano Atlântico? E não estou falando ape­nas da referência às "Colunas de Héracles". Tróia não está nem no Oceano Atlântico, nem é uma ilha. E se eu colocar a des­truição de Tróia/Atlântida em 1.207 a.C., os mesmos proble­mas surgem como no item 1. A coisa fica pior: Se a Atlântida/ Tróia existia por volta de 1200 a.C. e anteriormente tinha o domínio sobre um grande império, por que os egípcios e os babilônios, que afinal de contas teriam sido vizinhos próxi­mos dessa poderosa potência, nada sabem a respeito dela?

No diálogo de Platão, os homens continuam a escutar Crítias. Ele menciona, como um aparte — e quase poderia ter sido algo que eu escrevi — que os deuses haviam certa vez dividido a terra entre eles, formando várias regiões. Cada deus passara a ter o domínio sobre uma região específica, e eles considera­vam os seres humanos como propriedade deles, pessoas que eles podiam nutrir e educar. Crítias fala então sobre a Grécia de antes do Dilúvio, ou seja, antes da destruição da Atlântida. Mas ele não pensa em mencionar que a Atlântida fazia parte da região geográfica da Grécia e que ela era mais ou menos vizinha. Tróia está apenas a 300 quilômetros de Atenas, em uma rota marítima muito percorrida em 1.200 a.C. Ela tam­bém está a nordeste de Atenas. O Oceano Atlântico, é claro, está na direção oposta.

O         sábio Sólon, que escreveu a história da Atlântida em Sais, viveu entre 650 e 560 a.C. A destruição da Atlântida/Tróia teria ocorrido apenas seiscentos anos antes da época dele. Sólon apren­deu no Egito que o mar na região da antiga Atlântida já não era hoje navegável por causa das grandes massas de lama que se formaram quando a Atlântida submergiu. Mas o mar ao redor de Tróia, junto com a passagem através do Dardanelos, é sem dúvida navegável. Alias, é exatamente por causa da sua posição litorânea que se diz que a Tróia/Atlântida floresceu e se desen­volveu. O Dardanelos ainda era navegável depois da destruição de Tróia. E se alguém admitir que após a destruição da Tróia/ Atlântida os gregos de algum modo dragaram a área não nave­gável tornando-a novamente navegável, os gregos certamente teriam conhecimento disso — visto que tudo teria acontecido apenas seiscentos anos antes de Sólon!

Crítias (ou Sólon) nada falam a respeito disso. Pelo con­trário, ele deixa bastante claro que aqueles que têm nomes "helénicos" (ou seja, gregos) também são de uma "raça es­trangeira". A seguir, ele fornece uma riqueza tão incrível de detalhes precisos que é somente com grande dificuldade que alguém poderia considerá-los produto de uma fantasia:

 

Crítias: No entanto, devo primeiro prefaciar meu relato com uma breve observação, para que vocês não fiquem sur­presos ao ouvir nomes gregos em uma história que trata de homens de uma raça estrangeira. Vocês ouvirão os motivos disso. Sólon, que tinha a intenção de usar esses nomes em seus poemas, procurou o significado original deles e descobriu que os egípcios — estou me referindo aos mais antigos que haviam escrito esses registros — os haviam traduzido para a língua deles. O próprio Sólon então avaliou cada nome e os escreveu, traduzindo-os uma vez mais para a nossa língua. Esse relato escrito pertencia ao meu avô, hoje está comigo e eu o estudei minuciosa­mente na minha juventude. Assim sendo, quando vocês ouvirem nomes que são iguais àqueles que usamos no nosso país, não devem ficar surpresos, porque agora vocês sa­bem a razão. Eis o início desta longa narrativa...

 

Segue-se uma confirmação da verdade da versão escrita da len­da da Atlântida, à qual Crítias afirma, uma vez mais, ter per­tencido ao seu avô e agora estar nas mãos dele.

 

Crítias: Como já mencionei, quando a terra foi dividida entre os deuses, alguns receberam uma porção maior e outros uma menor para que nela erguessem altares e locais de sacrifício para si mesmos. Posídon recebeu a ilha da Atlântida, onde abrigou os descendentes da sua união com uma mulher mortal e em um local que tinha a seguinte natureza. Do mar ao meio da terra estendia-se uma pla­nície, que não poderia ter sido superada em beleza e na fertilidade do seu solo. Além dessa planície, novamente em direção ao meio da ilha, cerca de cinqüenta estádios distante do mar, erguia-se uma montanha pouco elevada em todos os lados. Ela era habitada por um dos homens mortais originais, chamado Evenor, e sua mulher Leucippe. O fruto da sua união foi apenas uma filha, Cleito. Quando a menina atingiu a maturidade, seu pai e sua mãe morreram. Vias Posídon, que havia se apaixonado por ela, uniu-se a ela e, alisando as encostas da colina onde ela morava, rodeou-a de poderosas defesas. Ele colocou, alternados, ao redor uns dos outros, anéis gran­des e pequenos de terra e de água do mar: dois de terra e três de água do mar, começando da metade da ilha como se fossem traçados com um compasso, sempre à mesma distância uns dos outros, de modo que a colina se tornou inacessível aos seres humanos — pois ainda não havia navios e marinheiros. Foi no entanto perfeitamente fácil para ele, um deus, guarnecer a ilha de tudo que era ne­cessário, fazendo com que duas fontes, uma quente e a outra fria, jorrassem da terra e fazendo brotar do solo frutas em abundância. Eles tiveram cinco vezes gêmeos dos sexo masculino, e os criaram, dividindo a ilha da Atlântida em dez partes. Ao primogênito do par mais ve­lho ele deu o local de moradia da sua mãe, com a região circunvizinha, a maior e a melhor, e o tornou rei diante dos outros. No entanto, ele também fez dos outros governantes, dando a cada um o domínio sobre muitas pessoas e uma grande quantidade de terra. Ele também deu nome a eles. Ao mais velho, o rei, ele deu o nome do qual derivou o nome de toda a ilha e também do mar Atlântico: Atlas. Ao segundo filho do par de gêmeos mais velhos, que ficou com a parte externa da ilha, das colunas de Héracles à terra de Gades, como ainda é conheci­da naquela região, ele deu o nome que em grego é Eumelus e, na linguagem nativa do país que tem o seu nome, Gadeiros. Quanto ao segundo par de gêmeos, ele chamou um de Anferes e o outro de Evaimon; em relação ao tercei­ro par, ele chamou o mais velho Mneseus e o mais novo Autocthon. O mais velho do quarto par chamou-se Elasippos; o mais jovem, Mestor: o mais velho do quinto par, finalmente, ele chamou Azes e o mais novo, Diaprepes. Eles e seus descendentes lá viveram por muitas gerações, não apenas como governantes de muitas outras ilhas do oceano, mas também, como já foi mencionado, como senhores dos que viviam dentro dos limites das colunas de Héracles, até o Egito e a Tyrrhenia.

Atlas, portanto, produziu uma raça numerosa e alta­mente favorecida. O reino sempre passava para o filho mais velho e foi perpetuado através de muitas gerações. Ao mesmo tempo, eles acumularam uma grande riqueza, como talvez nunca tivesse sido vista antes, e nem será vista de novo no futuro, e forneciam tudo de que a cidade ou o resto da terra pudesse precisar. Muito era levado para eles de outras terras que estavam sob o seu domínio, mas a ilha supria a maior parte das necessidades deles. Em pri­meiro lugar, tudo que é produzido por meio da mineração da terra, no tocante a minerais e metais trabalháveis, inclusive um tipo de metal que hoje só conhecemos de nome, mas que era então mais do que apenas um nome, oricalco ou minério de ouro-cobre. Ele era obtido da terra em muitos lugares, sendo, depois do ouro, o metal mais apreciado por essa antiga raça.

 

Embora Crítias deixe claro que os nomes desta história foram traduzidos para o grego, não existe nenhum que já nos seja familiar por causa da lenda de Tróia. A seguir, Crítias explica que nessa terra da Atlântida todas as árvores e frutos, bem como todas as verduras e os legumes, se desenvolviam mara­vilhosamente. Por quê? “Porque seu clima naqueles dias unia o     calor do sol à umidade." Essa descrição não se encaixa no clima de Tróia, onde o frio no inverno é desagradável; as fru­tas e as árvores tropicais não conseguiriam sobreviver lá. Mas isso acontecia na Atlântida, o ano inteiro. Finalmente, Crítias começa a falar da arquitetura e das edificações da Atlântida. Seu relato é tão preciso que arquitetos dos nossos dias foram capazes de fazer desenhos definidos, em escala, a partir dele.2

 

Crítias: Inicialmente, eles fizeram pontes sobre os anéis de água que rodeavam a antiga cidade original, a fim de criar um caminho de ida e vinda do palácio do rei. E o palácio do rei propriamente dito eles construíram no local de moradia do deus e dos seus ancestrais. Cada rei subseqüente que recebia o palácio do seu predeces­sor o ampliava e enchia de ornamentos cada vez mais ricos — até que, pela grandeza e beleza das suas obras, eles fizeram do lugar onde moravam uma autêntica maravilha. A seguir, começando no mar, eles abriram um canal com três pletros de largura, cem pés de pro­fundidade e cinqüenta estádios de cumprimento, até o anel mais externo, para que os navios pudessem entrar navegando como em um porto, e eles fizeram a entra­da larga o suficiente para que mesmo as maiores em­barcações pudessem entrar. Desse modo, eles também atravessaram os anéis de terra, que separavam os anéis de água uns dos outros, para que as pessoas pudessem navegar de um para outro em uma trirreme. Mas eles construíram pontes sobre essas aberturas, para que os barcos passassem debaixo das pontes, pois os bancos dos anéis de terra se elevavam o suficiente sobre a água para permitir isso. O maior dos anéis, para o qual o mar corria, tinha uma largura de três estádios e o anel de terra seguinte tinha a mesma dimensão. C) anel de água do segundo par tinha dois estádios de largura, o mesmo acontecendo com o anel seco. () anel de água mais perto do meio da ilha tinha um estádio de largu­ra. Mas a ilha na qual se erguia o palácio do rei tinha cinco estádios de diâmetro. Eles cercaram tudo isso e os anéis de terra com um muro de pedra, de um lado ao outro de uma ponte com um pletro de largura, colo­cando torres e pontes sobre as passagens para o mar. Eles usaram pedras brancas, vermelhas e pretas extraí­das de debaixo das margens da ilha 110 meio, e de den­tro e de fora das bordas dos anéis. Ao mesmo tempo que extraíam pedras das pedreiras, eles também esca­vavam abrigos e docas para os navios, em ambos os lados dos anéis, que eram cobertos pelas rochas suspensas que restavam. Algumas das edificações que eles construíam possuíam uma única cor e outras eram erigidas com pedras de várias cores, para agradar à vis­ta, em composições que encerravam um encanto natu­ral. A seguir, eles revestiram de bronze todo o muro externo, espalhando o metal como se estivessem espa­lhando um ungüento. Eles cobriram o muro seguinte com estanho e revestiram o muro mais interno que rodeava o palácio com minério de ouro-cobre, ou oricalco, que tinha um reflexo lustroso e flamejante...

 

As coisas estão ficando mais complicadas. O que significam "três pletros” ou "um estádio”?

 

Medidas gregas de comprimento:

1 pé                =          30 centímetros

100 pés                     =          1 pletro (30m)

3 pletros                    =          98 jardas (90m)

6 pletros                    =          197 jardas (180m ou 1 estádio)

1 estádio                   =          197 jardas (180m)

5 estádios     =          985 jardas (900m)

50 estádios   =          5 ½ milhas (9km)

2.000 estádios         =          223 milhas (360km)

10.000 estádios       =          1.116 milhas (1.800km)

 

Medidas gregas de área:

 

1 los   = 2.153 jardas quadradas (l.800m2)

1 kleros          = cerca de 815 acres (3,24km2 ou aproximadamente 330 hectares)

 

 

Supondo que Crítias não esteja apenas repetindo uma fanta­sia do avô, a Atlântida deve ter sido um lugar de espantosas proporções. Precisamos nos lembrar de vários pontos que se destacam:

 

Os deuses dividem o mundo entre eles. Posídon fica com a Atlântida.

A cerca de 50 estádios (5 ½ milhas/9km) da costa ergue-se uma montanha baixa que é acessível por todos os lados.

Seus primeiros habitantes são os mortais Evenor e Leucippe. Sua única filha, Cleito, fica órfã.

Posídon engravida Cleito.

O próprio Posídon cerca a montanha "baixa" com fortes defesas compostas de anéis alternados de água e terra, "ina­cessíveis aos seres humanos”.

Posídon e Cleito têm cinco pares de gêmeos do sexo mascu­lino. O filho mais velho recebe o nome de Atlas. É dele que o Oceano Atlântico deriva seu nome.

A ilha é rica em metais.

O clima é subtropical ("o calor do sol e a umidade").

Atlas e seus descendentes constroem um palácio ou castelo real no centro da ilha.

A partir do mar é construído um canal com 50 estádios (5 ½ milhas/9km) de comprimento e 3 pletros (98 jardas/90m) de largura, que vai até o primeiro anel.

O diâmetro do centro da ilha é de 5 estádios (985 jardas/900m).

Esse centro é cercado por um muro de pedra, coberto de metal.

Torres, portões e casas são construídos em cores diferentes (branco, preto, vermelho).

Docas são construídas para abrigar navios, tendo rochas suspensas como telhado.

O muro em volta do palácio central é revestido com “miné­rio de ouro-cobre".

 

Existem, ainda, alguns problemas para conciliar a Atlântida com Tróia, mas mesmo assim não é impossível. Em última análise, tudo depende de Crítias estar contando uma história fantasiosa da época do seu pai ou uma história verdadeira, e voltarei a tratar deste ponto. Se Atlântida e Tróia fossem o mesmo lugar, teria de haver um muro defensivo ao redor de Tróia I composto de "anéis de água e terra”, que eram “inaces­síveis aos seres humanos". As escavações arqueológicas de fato expuseram um muro defensivo em torno de Tróia I, mas não à altura do deus Posídon. Nenhum anel de água foi encontra­do perto do centro e, de qualquer modo, esse anel não combi­naria com o tipo de colina lá existente.

Uma vez mais, a Atlântida deve estar no fundo do Oceano Atlântico, ao qual ela deu o nome. Como sabemos, a localização de Tróia é bem diferente. O clima de Tróia não é subtropical e até o momento nenhum canal de nove quilômetros de ex­tensão que conduz ao centro do anel interno foi encontrado. Não obstante, ainda não foram realizadas extensas escavações e medições nas imediações de Tróia.

Diz-se que o centro da Atlântida tinha novecentos metros de diâmetro — essa parte poderia encaixar-se em Tróia, mas não a outra que diz que os muros são inteiramente revestidos de metal (minério). Não obstante, é possível que com o passar dos anos os metais tenham sido roubados ou derretidos, ou podem ainda ter sido destruídos pelo fogo. Mas vestígios esta­riam presentes no solo, o qual poderia ser testado por meio de amostras. Schliemann afirma que a uma profundidade de cer­ca de nove metros ele deparou com uma camada de escória de minério de chumbo e cobre derretido, mas isso nunca foi con­firmado pelas atuais escavações.

Finalmente, deveria haver prédios de três cores diferentes — o que até agora não foi encontrado — e o palácio central deveria ser revestido com uma camada de minério de ouro- cobre — "oricalco”. Não houve nenhum sinal disso. O fato é que Homero não menciona nada disso na sua epopéia. Mas Crítias ainda não terminou sua narrativa:

 

Crítias: A residência real dentro da cidadela tinha a seguinte distribuição. No centro havia um templo dedicado a Cleito e Posídon, oculto da visão do público, que era cercado por um muro de ouro. Foi ali que a raça de dez príncipes foi um dia gerada e veio ao mundo. Ali, todos os anos, eram trazidos das dez zonas da ilha os primogênitos como oferendas para cada uma das dez famílias de descendentes. O próprio templo de Posídon tinha um estádio de comprimento, três pletros de largura e uma altura que gradava aos olhos, mas a sua forma como um todo não conseguia esconder uma certa afinidade com o barbarismo. Eles cobriram toda a parte externa do templo com prata, exceto os pináculos que eram de ouro. No que diz respeito ao interior do prédio, o teto de marfim era completamente adornado com ouro, prata e oricalco, e o resto — as paredes, as colunas e o chão — também era revestido de oricalco. Eles também ergueram estátuas de ouro do deus em uma carruagem, conduzindo seis cavalos alados, tão grandes que a cabeça tocava o teto; e ao redor dele havia cem nereidas montadas em golfinhos, porque esse é o número que as pessoas daquela época acreditavam existir. Havia também numerosas estátuas que foram doadas como oferendas por indivíduos particulares. Em volta do templo, erguiam-se muitas outras estátuas de ouro — das mulheres e de todos aqueles que eram descendentes dos dez reis, e muitas outras grandes oferendas, tanto de reis quanto de pessoas particulares, algumas da própria ci¬dade, outras daqueles que viviam além das suas fronteiras e que estavam sob o seu domínio. O altar também correspondia em tamanho e natureza ao restante dessa magnificência e os aposentos do rei também refletiam a grandeza do reino.

As fontes, uma de água quente e a outra de água fria, forneciam um suprimento inexaurível, e cada uma ao seu jeito era de muito bom gosto. Essas águas eram usadas de um modo extremamente eficiente. Prédios foram construídos bem perto delas e árvores adequadas foram plantadas. Eles também construíram recipientes de água ou cisternas, alguns ao ar livre, outros em aposentos fechados para o banho quente no inverno. As salas de banho para o rei e seus súditos eram separadas umas das outras, bem como os aposentos das mulheres, as estrebarias e os currais, cada tipo de aposento adorna¬do de uma maneira adequada ao seu propósito. A água que corria era canalizada para o arvoredo de Posídon, cujo solo erâ de excelente qualidade e cujas árvores, dos tipos mais variados, atingiam alturas maravilhosas. Ioda água remanescente era desviada através de aquedutos sobre as pontes para os anéis de terra externos. Na região onde se encontravam os canais de água, havia muitos altares para os deuses, bem como jardins e quadras de luta, tanto para os exercícios de ginástica dos homens quanto para os exercícios com as parelhas de cavalos. Essas quadras eram separadas e cada uma se situava em um dos dois anéis de terra. No meio da maior das ilhas também havia uma excelente pista de corridas, com um estádio de largura, e seu comprimento se estendia ao redor de toda a ilha para permitir total li-berdade para as parelhas de cavalo que corriam. Em torno disso, dos dois lados, estavam os aposentos da maioria dos súditos. Os que eram de maior confiança recebiam a incumbência de guardar a cidade no anel de terra menor, mais perto da cidadela. E aqueles que eram leais acima de todos os outros moravam na cidadela propriamente dita, na proximidade imediata do rei. As docas eram cheias de trirremes e de tudo que era necessário para equipá-las.

Deixando agora para trás o palácio do rei e a cidadela e passando pelos três portos externos, chegava-se a um muro que começava no mar e tudo rodeava, mantendo em todos os pontos cinqüenta estádios de dis-tância do maior anel e porto, e reencontrando-se onde começou, na desembocadura do canal que se dirigia para o mar. Toda essa área estava repleta de moradias e o maior porto ficava apinhado de embarcações e comerciantes, que ali chegavam vindos de muitos lugares diferentes, e cujos gritos, algazarra e tumulto não paravam dia e noite.

Descrevi a cidade e a antiga cidadela mais ou menos como me foi contado e agora preciso me voltar para o restante do país, das suas características e da maneira como era governado. Toda a região me foi descrita como elevada e com íngremes penhascos inclinando-se para o mar, com apenas a área ao redor da cidade sendo uma planície nivelada. Essa planície que rodeava a cidade era por sua vez cercada por montanhas, que desciam para o mar. Ela formava uma região suave e regular, com uma forma alongada e retangular, com três mil estádios de comprimento e dois mil estádios de largura através da porção central. Essa parte da ilha dava para o sul, sendo assim protegida dos ventos do norte. Mas as montanhas que a circundavam, se acreditarmos nos hinos de louvor dos habitantes, eram maiores em número, tamanho e beleza do que quaisquer outras que hoje conhecemos. Essas regiões montanhosas continham muitos lugares onde vivia um grande número de pessoas, possuíam rios, lagos e prados que alimentavam todos os tipos de animais domésticos e selvagens, e tinham áreas arborizadas cuja rica variedade de árvores fornecia um inexaurível suprimento de matéria prima para todos os artesãos. A formação natural da planície, que muitos reis haviam aperfeiçoado no decorrer de longos períodos, era a se-guinte. Sua forma era a de um retângulo regular e alongado, e o que estava faltando na natureza fora suprido pela mão do homem sob a forma de uma vala escavada em toda volta. Tendo em vista a incrível profundidade, largura e comprimento dessa vala, poderá parecer impossível que ela tenha sido escavada por meio do trabalho humano, mas eu preciso lhes contar o que ouvi, ou seja, que ela tinha um pletro de profundidade e, em toda sua extensão, um estádio de largura. O comprimento da vala, que corria ao redor de toda a planície, era de dez mil estádios. Ela recolhia as águas que desciam das montanhas e que, rodeando a planície e tocando a cidade dos dois lados, corria para o mar da seguinte maneira. Foram construídos canais em linha reta, a maioria deles com cem pés de largura, que se uniam à vala principal e levavam a água para o mar. Cada um desses canais estava cem estádios distante do seguinte. Eles eram usados para transportar madeira da montanha para a cidade e também para levar outros produtos do país para os navios, através de canais de ligação que eles fizeram correr diagonalmente entre os canais principais, e na direção da cidade. Eles tinham uma colheita bianual, o que era possível no inverno através da chuva que Zeus fornecia e no verão por meio da irrigação da água que eles desviavam dos canais...

... As seguintes regras de governo foram definidas desde o início. Cada um dos dez reis governava da sua cidade a própria região e seus habitantes, criando a maioria das leis dessa região, para poder punir e executar quem desejasse. Eles organizaram seu domínio conjunto da maneira como fora determinada por Posídon, como havia sido transmitido a eles pela lei e através das inscrições que os primeiros antepassados haviam gravado em uma coluna feita de oricalco. Esta ficava no meio da ilha, no santuário de Posídon. Era ali que os dez se reuniam, alternando entre cada cinco anos e cada seis anos, para não favorecer um número ímpar em detrimento de um par, conversavam e se aconselhavam mutuamente a respeito dos assuntos de cada região. Eles também verificavam se algum deles havia transgredido a lei de alguma maneira e o julgavam quando este era o caso. Mas quando eles decidiam fazer um julgamento, assumiam no dia seguinte um solene compromisso uns com os outros. Na região sagrada de Posídon, havia touros que vagavam livremente. Os dez, depois de rezar para o deus pedindo que permitisse que eles capturassem uma oferenda sacrifical, participavam de uma caçada, caçada esta na qual não usavam o ferro, apenas paus e cordas. No entanto, eles conduziam ao santuário o touro que apanhavam, abatendo-o no topo da coluna, sobre a inscrição. Além da inscrição, também estava gravado na coluna um juramento que invocava terríveis maldições que cairiam sobre aqueles que não obedecessem às leis. Após sacrificar ao deus todas as partes do touro, cada um deixava cair uma gota de sangue no vinho que estava dentro de um alguidar preparado especialmente para essa finalidade e consignavam o resto ao fogo depois de lavar e limpar a coluna e a área circunjacente. A seguir, eles mergulhavam conchas de ouro no alguidar e, derramando no fogo uma libação, juravam que fariam seu julgamento de acordo com as leis gravadas na coluna e profeririam uma sentença se algum deles fosse culpado de uma transgressão. Eles também juravam que não infringiriam intencionalmente os preceitos no futuro, só governariam de acordo com as leis e não obedeceriam a outro governante que não seguisse as leis do seu antepassado Posídon. Depois que cada um deles fazia esse juramento para si e seus descendentes, ele bebia e dedicava a concha de ouro ao altar do deus. A seguir, eles comiam e se lavavam. No momento em que escurecia e o fogo do sacrifício havia arrefecido, cada um se vestia com um manto azul-marinho de extraordinária beleza. A seguir eles se sentavam perto das brasas do sacrifício e apagavam o fogo ao redor do templo, recebendo e proferindo sentenças quando qualquer um deles era acusado de má conduta. A sentença proferida era gravada ao amanhecer em uma tabuinha de ouro, que eles lá ergueram como um memorial, junto com seus mantos. Havia várias outras leis a respeito dos direitos e deveres dos diferentes reis, mas as mais importantes diziam que eles nunca deveriam guerrear uns com os outros e sempre deveriam estar prontos para se ajudar mutuamente caso alguém tentasse destruir a raça dos reis. Eles também tinham de se reunir em conselho, como haviam feito seus antepassados, para tratar da guerra e de outros empreendimentos, deixando a decisão final para os descendentes de Atlas. Mas o rei não deveria ter o direito de condenar um dos seus parentes à morte, a não ser que pelo menos seis dos dez governantes dessem seu consentimento.

Esse poder pujante e magnífico, que prevalecia nessas regiões naquela época, foi mais tarde direcionado na guerra contra as nossas regiões e, segundo nos dizem, pelo seguinte motivo. Durante muitas gerações, enquanto a natureza divina ainda se fazia sentir dentro deles, eles permaneceram obedientes às leis e não negavam sua origem divina, pois seu espírito era elevado, verdadeiro e generoso. Eles suportavam os golpes do destino com compostura e se relacionavam uns com os outros com bondade e interesse. Eles achavam que apenas a virtude era meritória e, portanto, não atribuíam um valor excessivo aos seus bens e a suas posses e tampouco valorizavam demais as grandes quantidades de ouro e outros tesouros, que pareciam a eles mais um fardo do que qualquer outra coisa. Por conseguinte, estavam longe de terem sede de poder ou de estarem descontrolados. Eles tinham o entendimento claro e sensato de que toda essa riqueza exterior só poderia ser mantida quando amparada pela amizade e pela virtude, e desapareceria se a atenção e os valores se concentrassem apenas nas riquezas. Em virtude dessa atitude e da contínua influência da natureza divina dentro deles, tudo florescia da maneira como descrevi anteriormente. Mas, à medida que a parte divina da natureza deles foi cada vez mais desaparecendo, diluída pelas freqüentes uniões com os mortais e fazendo com que um tipo humano de pensamento prevalecesse, eles começaram a se sentir pouco à vontade com sua sorte. Tornaram-se degenerados e se degradavam aos olhos de todos aqueles que eram capazes de uma crítica verdadeira. No entanto, para aqueles que não tinham o poder claro de perceber o valor de uma vida baseada na felicidade, eles pareciam cada vez mais magníficos e dignos de louvor, pois come¬çaram a se dedicar à avareza e à ânsia de poder. No entanto, o deus dos deuses, Zeus, que governa de acordo com as leis e que logo detecta essas coisas, decidiu pôr um freio nos excessos deles por meio de punição, pois ele se afligia ao ver uma raça tão digna cair tão baixo, e esperava que eles ainda pudessem recobrar o juízo e mudar a maneira de se comportar. Assim sendo, ele convocou todos os deuses juntos ao santuário deles, que está situado no centro do mundo e permite que os deuses vejam tudo que está acontecendo em toda parte, e dirigiu aos ali reunidos as seguintes palavras.

 

Que lugar para terminar! Que palavras Zeus disse a eles? É claro que todos gostaríamos de saber, não apenas nós como também os filósofos, filólogos e pesquisadores da Atlântida dos últimos 2.400 anos. Mas o diálogo de Platão sobre a Atlântida termina abruptamente neste ponto, o que é real­mente difícil de entender, pois Platão escreveu outras coi­sas depois deste diálogo. Por que está faltando o fim da his­tória da Atlântida? Não existe nenhuma versão alternativa da antiguidade? Nenhum outro autor escreveu sobre a Atlântida?

A primeira referência à Atlântida que encontrei fora de Platão foi, imaginem onde, na Argonáutica de Apolônio de Rodes.3

 

À noite eles desembarcaram na illia Atlantides. Orfeu implorou a eles que não rejeitassem as solenidades da illia, nem os segredos, as leis, os costumes, os ritos e serviços religiosos. Se eles os obser­vassem, teriam garantido o amor do céu na continuação da sua viagem sobre o perigoso oceano. Mas falar mais sobre essas coisas eu não ouso...

 

Notícias inconfundíveis a respeito de uma ilha chamada “Atlantides", onde havia costumes particulares, além de segredos. Embora Apolônio aprecie normalmente a oportu­nidade de descrever características geográficas e topográfi­cas, neste caso ele se queda estranhamente quieto, não “ou­sando" falar mais. Estranho. Talvez devêssemos recordar o fato de que a Atlântida era a ilha do deus Posídon e de que dois dos seus filhos estavam a bordo do Argo.

Heródoto (490-425 a.C.) nada tem a dizer sobre a Atlântida, mas no Livro IV das suas Histórias (capítulos 184 e 185) ele escreve a respeito de uma região salgada que li­mita com uma região montanhosa chamada "Atlas". “Ela é estreita e circular, e dizem ser tão elevada que é impossível enxergar seu topo. Ela está sempre cercada de nuvens, tanto no verão quanto no inverno. Os nativos dizem que essas montanhas são as colunas do céu. As pessoas que aqui re­sidem são chamados de "Atlantes" por causa dessas mon­tanhas..."

Pouco depois da morte de Platão, Aristóteles (384-322 a.C.), um dos seus discípulos, publicou um livro no qual ele lançava dúvidas sobre a verdade da história da Atlântida.4 Já naquela época! No entanto, o mesmo Aristóteles também mencionou uma ilha desconhecida no Atlântico, que ele chamou de "Antilia”. Platão tinha outro discípulo chamado Crantor de Soloi (330-275 a.C.). Diz-se que ele viajou para o Egito, para Sais e também teria visto lá a versão escrita da história da Atlântida. Crantor foi a primeira pessoa a publicar os diálo­gos de Platão.

Todos os poetas e historiadores pré-cristãos dignos de aten­ção mencionam a Atlântida em alguma parte da sua obra, inclusive pessoas como Proclos, Plutarco, Poseidônio, Longino, Estrabão, Tucídides, Timagenes, Plínio e até Diodoro da Sicília. Mas nenhum deles teve nada a acrescentar; eles apenas fazem referência a Platão. Assim sendo, antes de continuar, temos de perguntar se Platão teria simplesmente derramado no inun­do um conto de ficção literária.

A escola de filosofia que cercava Platão se dedicava à verda­de. Todos os diálogos dele têm o mesmo objetivo: chegar à verdade. Qualquer pessoa que leia a obra de Platão depara a todo momento com sua busca da verdade. Os participantes analisam, comparam, contradizem, pressupõem, definem e dão voltas e voltas ao redor dos temas até o exagero. E nas ocasiões em que a conversa adquire uma conotação mais ima­ginária, tratando, por exemplo, de coisas que "poderiam" ser possíveis, ou se "poderia” imaginar, o subjuntivo é utili­zado. Por que Platão divergiria dessa clara estrutura no caso da história da Atlântida? Se história da Atlântida fosse ape­nas uma fantasia, algo meramente inventado pelos egípcios, ele e os outros participantes certamente teriam tido conhe­cimento disso e sem dúvida o teriam mencionado. No en­tanto, o oposto é verdadeiro. Crítias inicia o diálogo decla­rando expressamente que embora a história seja estranha ela é "tida como totalmente verdadeira". E Sócrates então pergunta "...Mas que tipo de realização foi essa, que Crítias ouviu de Sólon como tendo sido efetivamente levada a cabo pelo nosso estado ateniense, pois ela não é mencionada em nenhuma parte da história?” Um pouco mais adiante, para confirmar, perguntam a ele de quem Sólon ouviu “a história como sendo verdadeira".

O antigo sacerdote egípcio, que contou a história a Sólon, enfatizou que ela tinha sido posta por escrito em um passado muito distante. E ele insiste em que eles devem depois exami­nar todos os detalhes com a ajuda dos documentos originais. Teria Platão inventado todas essas mentiras para criar uma história mais verossímil?

Jovens também compareciam aos diálogos e possivelmente outros membros do público. No segundo dia, o digno cava­lheiro Crítias afirma ter passado a noite anterior recordando tudo o mais claramente possível. Essa seria uma mentira muito descarada. E a seguir ele insiste em afirmar que o relato escrito da história da Atlântida havia pertencido ao seu avô e agora era dele. Se essas não foram as palavras de Crítias, então Platão as inventara. É inconcebível pensar que uma coisa des­se tipo possa ter partido de alguém como Platão, cuja vida foi dedicada à busca da verdade.

O mesmo Platão teria então também de ter falsamente atribuído a história da Atlântida a Sólon, uma das personali­dades mais eminentes de Atenas, que também era conheci­do como um legislador! E Crítias teria ficado quieto e deixa­do Platão usar o nome do seu avô em vão para apoiar uma série de mentiras? F. se o próprio Crítias tivesse atribuído uma história totalmente falsa ao seu avô, os outros partici­pantes do diálogo certamente o teriam contradito. A outra possibilidade é que Platão tenha inventado todo o diálogo, junto com seus participantes. Mas isso dificilmente poderia ter sido levado a cabo porque as pessoas mencionadas nele ainda estavam vivas e cada uma delas tinha coragem e per­sonalidade suficientes para impedir que seu nome fosse usado nessa série de mentiras.

Nada disso se encaixa na busca platônica da verdade. O mes­mo se aplica à história propriamente dita. Ela menciona um tipo de metal, o "oricalco", que mais tarde deixou de existir. Por que inventar algo assim? Dizem que a Atlântida foi uma região "protegida dos ventos do norte". Esses detalhes são su­pérfluos em uma história falsa a respeito de um suposto "es­tado ideal". Quem se importaria com a direção de onde o vento soprava? Diz-se que no centro da Atlântida erguia-se uma coluna ou estátua, na qual estavam gravadas as leis de Posídon. Outra mentira pérfida? Também se supunha que nessa colu­na estivesse gravada uma imprecação com terríveis maldições. Por que tal coisa iria figurar em um "estado ideal" imaginá­rio? Dizem que os reis da Atlântida se encontraram para jul­gar a si mesmos e que teriam gravado o resultado desse julga­mento em uma tabuinha de ouro. Além disso, em caso de guerra, "a raça de Atlas” deveria ter a última palavra. Qual a utilidade e a função moral que o relato dessas coisas poderia ter para os atenienses?

A história inteira é narrada no passado, como se tudo ti­vesse realmente acontecido. Se ela não for verdadeira, estará em desacordo com a abordagem da escola platônica. Por que deveria essa escola (ou o próprio Platão) tentar vender um conjunto de mentiras à elite intelectual de Atenas? Por que deveria ele colocar palavras na boca de Crítias, um dos ho­mens mais conceituados daqueles dias?

Posso continuar — e o farei por mais algum tempo! Crítias também tem a ousadia de afirmar que o elemento "divino" dos descendentes de Posídon foi progressivamente desapa­recendo por ter sido diluído pela união com os mortais, de forma que um modo de pensar "humano" acabou por pre­valecer. Quem precisa saber disso? Se tudo era uma inven­ção, as pessoas daqueles dias poderiam muito bem ter consi­derado essa declaração um insulto aos deuses. A história de Atlântida não pode simplesmente ser vista como uma con­versa fiada inventada por Platão, mesmo que queiramos ad­mitir que ele mentiu deliberadamente quando usou o nome de pessoas vivas.

E agora surge Eberhar Zangger e diz que a Atlântida e Tróia são a mesma. O pré-requisito para isso, é claro, é que Zangger leve Platão a sério, em outras palavras, acredite na história da Atlântida. Bem... não inteiramente. Platão se refere a Atlântida como uma ilha; mas Tróia, é claro, não se encontra em uma ilha. Zangger tem pronta uma boa expli­cação.5 Ele acredita que os egípcios consideravam todos os estrangeiros como provenientes de "ilhas". Ele afirma que o significado da palavra "ilha” na Idade do Bronze era dife­rente do de hoje. Como não havia de fato ilhas no Egito, não existia nenhum hieróglifo para representar a palavra; o hieróglifo usado para "ilha" significava apenas uma costa ou litoral estrangeiro, não-egípcio.

Isso pode ser verdade. Mas os egípcios sem dúvida sabiam que na Grécia, país com o qual eles mantinham uin ativo comércio, havia muitas ilhas e também terra firme. E a coisa que realmente me incomoda a respeito da equação Atlântida/ Tróia é o poder, a grandeza da Atlântida de Platão. Ela é des­crita como um estado completamente organizado, uma re­gião imensa com forças enormes, de longe superando qual­quer coisa que a pequena Tróia, na costa oposta do Egito, poderia ter reunido, mesmo no seu apogeu.

Heródoto, por exemplo, aprende muitas coisas nas suas viagens ao Egito. Ele anota o nome dos reis e das dinastias, registra os períodos, deuses e lendas. Mas nenhum dos his­toriadores ou sacerdotes egípcios fornece informações ao seu hóspede a respeito da Atlântida, supostamente situada de­fronte deles. Heródoto tinha sede de conhecimento; sua von­tade de aprender era insaciável e a quantidade de perguntas que fazia era infinita. No entanto, em nenhum momento ele se viu tentado a fazer perguntas sobre a Atlântida, por­que nunca houve uma Atlântida na região geográfica da Grécia, mesmo que mais tarde tenha mudado seu nome para Tróia, Tros ou ílion. A idéia é que a palavra "Atlântida" deri­ve de Atlas e tenha dado o nome ao "Oceano Atlântico". Como isso seria possível se ela se chamasse Tróia, Tros ou ílion? E se, como Homero nos conta, uma grande guerra acon­teceu ao redor de Tróia, guerra esta na qual os gregos heroi­camente se lançaram, na qual mais de mil navios estiveram envolvidos, eles certamente saberiam que estavam destruin­do a Atlântida e os descendentes de Posídon, e não apenas alguns bárbaros.

Eberhard Zangger encontrou vários pântanos, portos e até mesmo canais na planície diante de Tróia e ele mostra em um esboço que a Atlântida de Platão poderia facilmente ser transportada para ela. Mas o mesmo pode ser dito a res­peito de muitos outros lugares. Mesmo se as escavações ao redor de Tróia revelarem alguns canais em forma de anel, ainda assim não teremos uma prova de que se trata da Atlântida de Platão. Houve muitas cidades com canais em forma de anel e muros defensivos. Heródoto descreve como o rei dos medeanos, Deioces, mandou construir um lugar semelhante (Livro 1, capítulo 98):

 

Ele construiu uma cidadela grande e poderosa, que é hoje chamada de Agbatana, na qual muros se erguem uns dentro dos outros. Essa cidadela está disposta de uma maneira tal que cada anel subseqüente é sempre mais elevado do que o anterior... a cidade possui sete muros em forma de anel. No mais interno, ergue-se o palácio do rei e os tesouros... o topo do primeiro muro é branco; o do segundo, preto; o do terceiro, vermelho arroxeado; o do quarto, azul; o do quinto, ver­melho brilhante...

 

Ele está falando da Atlântida? De Tróia? Não. Ele está se refe­rindo a Agbatana!

 

A aparência do templo deles é a seguinte: ele está situado em uma ilha... dois canais saem do Nilo e se dirigem para lá... o átrio do templo tem dez braças de altura e é adornado com imagens extraordinárias... ao redor do templo há um muro decorado com relevos...

 

Heródoto está falando da Atlântida? De Tróia? Não. Ele estava descrevendo o templo de Bubastis no Egito. Eu poderia pros­seguir. Muitos templos estavam situados em ilhas e eram cer­cados por canais. O que pelo menos nos informa que os egíp­cios sabiam o que era uma ilha!

O mesmo Heródoto conversa com os sacerdotes egípcios a respeito do rapto de Helena de Tróia/ílion (Livro II, capítulo 13 em diante). Até mesmo o nome de Homero e Ilíada são expressamente mencionados. Mas em nenhum lugar ocorre a Heródoto, ou aos sacerdotes com quem ele está falando, mencionar simultaneamente a Atlântida e Tróia ou dizer que milênios antes Tróia se chamou Atlântida.

Assim sendo, ou a história da Atlântida é pura invenção de Platão, o que é muito difícil de acreditar, ou a Atlântida de Platão não pode ser sido chamada de Tróia. O que Eberhard Zangger afirmou com relação a Tróia também foi dito por ou­tros a respeito das ilhas de Creta e Santorini. O sismólogo Angelos Galanopoulos e seu colega Edward Bacon apresenta­ram bons argumentos para sugerir que a ilha vulcânica de Santorini poderia corresponder à descrição que Platão faz da Atlântida6 e que ela foi simplesmente destruída por uma erupção vulcânica. Lamentavelmente, as medidas de Platão não se encaixam em Santorini. Os autores contornam essa dificuldade dizendo que Sólon errou nos números e leu as centenas como milhares. No entanto, Jõrg Dendl, em uma excelente crítica da Atlântida, comenta que essa suposição não pode ser correta:7

 

Platão descreve a divisão da "grande planície" com grande precisão. Todo o país [AtlântidaJ era dividido em porções ou lotes. Cada um tinha dez estádios quadrados e eles eram em número de sessenta mil. Esses sessenta mil lotes, cada um com 10 x 10 estádios, só pode se encaixar em uma área de x 3.000 estádios. Se Sólon tivesse se enganado nos nú­meros, esse cálculo não daria certo.

 

E o professor irlandês John Luce, especialista em literatura grega, colocou a Atlântida muito plausivelmente na ilha de Creta no período minóico.8” Eles foram estimulados pela descrição da caça ao touro na Atlântida "apenas com paus e cordas" e o sacrifício ao deus Posídon. Onde havia um culto ao touro na antiguidade? Em Creta, é claro! Sem dú­vida você se lembra de que Zeus nadou em direção a Creta sob a forma de um touro com Europa no dorso e que Dédalo construiu um labirinto para abrigar o touro minotauro com cabeça humana. Por conseguinte, Atlântida deve ser Creta.

Nos dois lugares havia "reis místicos" e nos dois lugares floresceu uma cultura que dominou o resto do mundo du­rante longas eras. Nos dois lugares também havia esplêndi­dos palácios e também, é claro, canais construídos pelo homem.

Tróia/Atlântida, Creta/Atlântida, Santorini/Atlântida. Por que não inserir Malta também? Mas todas as ilhas do Medi­terrâneo concebidas como a Atlântida têm uma desvanta­gem: elas não se encontram no oceano Atlântico. As datas de Platão — 9.000 anos de idade — naturalmente não se encaixam em nenhuma dessas ilusões da Atlântida. Os palá­cios minóicos de Creta foram destruídos por volta de 1.450 a.C. Ou aceitamos Platão como ele é, ou começamos a reti­rar do seu relato tudo que não se encaixa na nossa teoria predileta.

O mesmo Professor John Luce, o especialistas em antigui­dade grega que coloca a Atlântida em Creta, chama atenção para o fato de que Platão nunca se referiu à história como "mythos" ou lenda, mas sempre como "logos” ou "palavra verdadeira".10 Incidentalmente, é muito difícil conciliar a his­tória da caça ao touro na Atlântida e o sacrifício do touro em uma gigantesca coluna com a idéia de que Platão inventou tudo para evocar um "estado ideal".

Quase todos os homens que chamamos de "historiadores da antiguidade" viajaram pelo Egito; não apenas Heródoto este­ve lá, mas também seus colegas Diodoro, Plínio e Estrabão, entre outros. Por que eles nada ouviram a respeito da Atlân­tida? Todos fizeram extensos relatos da história do Egito e cada um ficou surpreso com as "datas impossíveis" das dinas­tias egípcias. Isso não é uma prova contra a Atlântida? Pelo menos um desses historiadores não teria levado consigo para casa uma história da Atlântida?

Essa ohjeção pode ser usada tanto a favor quanto contra a Atlântida. Se a história da Atlântida tivesse sido de conhe­cimento comum no Egito, outras pessoas além de Sólon te­riam ouvido falar nela. Talvez eles tivessem ouvido a história, mas não acreditassem nela. Ou os nove mil anos fossem a razão pela qual praticamente ninguém 110 Egito se lembrava da história. Esse fato faria com que o velho sacerdote em Sais, o que contou a Sólon a história e a corroborou com docu­mentos e uma inscrição, fosse uma exceção. Esses devem ter sido documentos que só estavam facilmente disponíveis em Sais — o que não significa que eles não existiram em outro lugar em alguma ocasião. Realmente não quero tratar nova­mente de temas antigos, mas bibliotecas inteiras da antigui­dade foram destruídas — ou então nunca foram localizadas. Ainda estou esperando o milagre que permitirá que uma de­las apareça um dia.

Há alguns anos, uma prova estimulante de que a Atlântida realmente existiu foi apresentada em um programa de televisão (ainda estou esperando que o livro seja publicado). Os geólogos William Ryan e Walter Pittmann dizem ter examinado o fun­do do mar perto da costa setentrional do Mar Negro e o pró­prio litoral, fazendo perfurações e analisando amostras. Abis­mados, eles chegaram à conclusão de que o nível do mar ha­via subido 150 metros, tanto na costa setentrional da penín­sula da Criméia quanto na costa oeste da Ucrânia. Eles dizem que essa subida aconteceu de uma forma dramática e apocalíptica, há cerca de 7.500 anos, e foi provavelmente cau­sada por um meteorito que atingiu a Terra, derretendo mi­lhões de toneladas de gelo e deslocando imensas massas de água sobre a terra. Essa inundação apocalíptica primeiro cor­reu através do Bósforo e depois formou o Mar Negro, que fora anteriormente um lago interior.

Não posso julgar se esses dois especialistas estão certos e não cabe a mim avaliar se os dados que eles apresentam estão corretos. O que eu sei é que outros geólogos e pesquisadores de geleiras estão convencidos de que o exato oposto é verda­deiro. O Professor Herbert E. Wright da Universitv of Minnesota diz que "Os pesquisadores da Atlântida terão de procurar suas catástrofes em outro lugar"," porque, afirma ele, pode ser claramente demonstrado que nenhum desastre desse tipo ocorreu nos últimos 12 mil anos. Essa declaração não contesta o fato de que o nível do mar efetivamente subiu, mas sim que ele ocorreu gradualmente no decorrer da histó­ria humana. Ajudaria bastante se os glaciologistas e oceanógrafos colocassem todos os dados na mesa. A Atlântida nas profundezas do Mar Negro? Mas o Mar Negro não “jaz além das colunas de Héracles”, como Platão afirma ser o caso da Atlântida, e seu clima tampouco é subtropical.

E, enquanto estou tratando do assunto do derretimento do gelo, quero mencionar seu oposto: a refrigeração. Os auto­res FritzNestkee Thomas Riemer colocam a Atlântida em cheio no continente da Antártida.12 Naturalmente eles têm boas ra­zões que sustentam suas idéias. Mas quem não tem? Pratica­mente tudo é possível no que diz respeito à Atlântida.


Somente a suposição de Eberhard de que a Atlântida nada mais era senão Tróia é difícil de ser sustentada. Seja Atlântida ou Tróia, ambos os lugares têm de ter sido fundados por al­guém em alguma ocasião. O fundador da Atlântida se chamava Posídon e ele era filho de Zeus. Por que ele fundou a Atlântida? Dizem que bem no início da história da Atlântida, Posídon se apaixonou por uma mulher terrena chamada Cleito, que vi­via em uma colina. Posídon então cercou essa colina com "po­derosas defesas" que eram "inacessíveis aos seres humanos" (Crítias). Se a fundação da Atlântida fosse a mesma da funda­ção de Tróia, então Tróia I, construída por volta de 3.000 a.C., teria de ter um poderoso muro defensivo. Mas isso não é ver­dade. Ela não tem nada que encontramos na história da Atlântida, com seus anéis de água do mar e de terra envolven­do uns aos outros a intervalos iguais, como se tivessem sido traçados com um compasso. Essas construções teriam sido impossíveis na região que circunda a Tróia dos nossos dias. A colina de Hissarlik, na qual a (suposta) Tróia se ergue, decliva suavemente em direção ao mar em um dos lados e, do outro, se perde no terreno plano, que está cerca de 15 metros acima do nível do mar. Os círculos de Posídon teriam de estar situa­dos no lado que dá para o mar, mas não existe lá nada desse tipo. A não ser, é claro, que o engenhoso filho dos deuses tivesse construído um sistema para bombear a água do mar para um nível mais alto. Se fosse este o caso, indícios dos anéis de água teriam de estar claramente visíveis no terreno.

Por que Posídon construiu suas "poderosas defesas ina­cessíveis aos seres humanos" e suas valas anulares? Para fundar para sua esposa e descendentes de sangue divino um reino onde eles pudessem ter uma vida tranqüila e segura no futuro.

Nesse caso, teria de haver em Tróia vestígios desse poderoso reino da Atlântida, mas não há. Será que Posídon quis con­trolar desde o início o tráfego dos navios através do Dar- danelos? A resposta é não, pois nessa época ainda "não havia nem navios nem marinheiros” (Crítias).

E aqueles que vêem apenas as ruínas de Tróia na colina de Hissarlik também procuram motivos para ela ter sido funda­da nesse local. Por que ali? Supostamente porque o local pos­suía uma importância estratégica, possibilitando que a entra­da para o Dardanelos fosse vigiada. Mas temo que isso seja tolice. Por volta de 3.000 a.C., Tróia 1 nada mais era do que um insignificante povoamento, o qual não poderia de jeito algum ter controlado o tráfego da entrada de embarcações no Dardanelos. A colina de Hissarlik não está realmente situada no ponto estratégico e sim a alguns quilômetros dele. No ter­ceiro milênio a.C., não havia nem canhões nem outras armas desse tipo que pudessem impedir que os navios entrassem no Dardanelos.

Afinal de contas, existe uma razão pela qual as fortifica­ções contemporâneas destinadas a controlar o Dardanelos es­tavam situadas diretamente ao lado do estreito da entrada ou o mais perto possível dele. Teria sido uma piada a comunida­de de Tróia 1 tentar deter possíveis navios destruidores de blo­queios com pequenas embarcações enviadas da colina de Hissarlik ou da costa. O motivo da fundação do povoamento de Tróia I não pode de jeito nenhum ter sido controlar o Dardanelos, pois o local teria de ter sido outro, muito diferente!

Além disso, como já vimos, a Atlântida certamente não se encaixa em Tróia I. De acordo com as escavações arqueológi­cas, Tróia foi fundada por volta de 3.000 a.C. Nos séculos e milênios seguintes, o povoamento se tornou um local cada vez mais fortificado. Ao mesmo tempo, uma civilização egíp­cia fenomenal estava surgindo do outro lado do Mediterrâ­neo. Os egípcios construíram a grande pirâmide quinhentos anos depois da fundação de Tróia. E logo os fenícios estavam dominando as viagens marítimas no Mediterrâneo. Se Eberhard Zangger estiver certo a respeito de Tróia e Atlântida, e essa Atlântida tiver sido destruída na Guerra de Tróia por volta de 1.207, então todas as embarcações no Mediterrâneo devem ter continuamente passado por ela até essa época. Ou, o que é ainda mais absurdo, se a Atlântida tivesse sido uma ilha no Mediterrâneo, esses navegadores teriam constantemen­te circunavegado partes do litoral dessa misteriosa Atlântida. Todo o Mediterrâneo e sua hinterlândia teriam estado envol­vidos no comércio com o lugar. Não é estranho que ninguém tenha ouvido falar nele?

Crítias descreve o território da Atlântida de um modo ge­ral como elevado e descendo em forte declive em direção ao mar. Somente a região ao redor da cidade era plana. "A planí­cie que rodeava a cidade era por sua vez cercada por monta­nhas que desciam em direção ao mar." Não existe essa forma­ção nas vizinhanças de Tróia. Diz-se que o templo situado no centro da Atlântida tinha um estádio de comprimento e três pletros de largura, o que equivale a uma área de 180m x 90m. Nenhuma estrutura em toda Tróia se assemelha de alguma maneira a essa descrição. As escavações revelaram que Tróia é uma confusão de aposentos sem um tamanho particular que certamente não apresenta dimensões monumentais e onde não há nenhum muro que poderíamos considerar de estatura "ciclópica". Os muros de Tróia — independentemente da camada — não podem de modo algum ser comparados com o sólido muro ciclópico de Micenas, com seis metros de espes­sura, nem com o “Tesouro de Atreu" com sua maciça abóba­da. Eles não se parecem nem um pouco com as lajes de pedra debaixo do templo de Apoio em Delfos e tampouco com o muro megalítico de Delos.

Além disso, os muros de Tróia são totalmente indignos de um deus como Posídon. A lenda diz que Apoio ajudou a cons­truir o muro de Tróia. Simplesmente compare as fotografias do muro megalítico em Delos com o humilde ensaio de muro em Tróia, e você verá a diferença. Delos também era dedicada a Tróia e faz parte da rede geométrica que se estende através da Grécia, ao passo que Tróia não faz. Onde quer que esses filhos dos deuses estivessem ativos — Posídon na Atlântida e seu irmão Apoio em Tróia — o lugar que tem sido chamado de Tróia a partir da época de Heinrich Schliemann não mos­tra nenhum sinal dessa atividade.

Como já mencionei várias vezes, Tróia está situada a poucos quilômetros da entrada do Dardanelos. Aqui começa a estrei­ta rota marítima que sai do Mediterrâneo (da sua parte egéia) em direção ao mar de Marmara, em cuja costa se encontra Istambul. Dali o Bósforo se conecta ao Mar Negro. Trata-se certamente de uma importante rota marítima. Se a Atlântida de Posídon tivesse sido fundada ali, Crítias ou Sólon teriam tido conhecimento desse fato. Todos os outros detalhes geo­gráficos e topográficos importantes estão registrados na his­tória da Atlântida. Seria inconcebível que uma localização tão importante como essa nada tivesse significado para a Atlântida, tendo sido, portanto, omitida da história. No entanto, Crítias e Sólon nada sabem a respeito de ela estar situada nesse local. Além disso, nem a Atlântida havia sido fundada ao lado de uma estreita rota marítima, nem esse poderoso império teve em uma época futura o domínio de um estreito desse tipo.

 

É claro que a hinterlândia da Atlântida deve ter lucrado com a riqueza desse país legendário. Com relação a Tróia, essa hinterlândia teria sido composta por Ezine ao sul, Curncale ao norte (bem ao lado do estreito que leva ao Dardanelos) ou Bayramic a leste. Deveríamos ser capazes de encontrar várias minas da antiguidade em um extenso círculo ao redor de Tróia/ Atlântida. E preciso lembrar que Tróia foi destruída em 1.207 a.C., de modo que as civilizações da hinterlândia teriam exis­tido naquela época. Segundo Homero, apenas Tróia foi destruída na Guerra de Tróia. Onde estão então esses maravi­lhosos lugares que floresceram na riqueza da Atlântida? Nada foi encontrado na hinterlândia da "Tróia" de hoje. E qualquer pessoa que sustente que a Atlântida estava situada no mesmo lugar ocupado muito depois por Tróia não pode, portanto, relacionar a Guerra de Tróia de Homero com a destruição da Atlântida. Quanto mais recuamos no passado, menor a possi­bilidade de Tróia ter sido a Atlântida. As camadas escavadas da colina de Hissarlik demonstram claramente esse fato.

Mais uma coisa: se Tróia fosse a Atlântida, não teriam os Argonautas passado por ela? Existem incontáveis detalhes geo­gráficos na Argonáutica: a terra da "Cólquida", com a foz do rio "Phasis", ao lado da cidade de "Aia", onde estava o Velocino de Ouro, estava supostamente situada na extremidade do Mar Negro. Os Argonautas teriam, portanto, de ter navegado dire­tamente através do Dardanelos, pois não existe outra manei­ra de chegar lá, e teriam necessariamente de ter entrado em contato com a magnífica Atlântida! Mas a única passagem na Argonáutica na qual é feita uma menção aos "Atlantes'' cita definitivamente uma ilha e não a costa próxima a Tróia. (“À noite, eles desembarcaram na ilha Atlantides. Orfeu implorou a eles que não rejeitassem as solenidades da ilha, nem os segredos, as leis, os costumes, os ritos e serviços religiosos..”).

As contradições entre a história da Atlântida e a de Tróia sim­plesmente não podem ser conciliadas. Por mais que eu preze outras obras de Eberhard Zangger, neste caso ele está perse­guindo um fantasma. No relato sobre a Atlântida de Platão, um tipo muito especial de metal também é mencionado, metal esse que só podia ser encontrado na Atlântida: o "minério de ouro-cobre” ou oricalco, que "só era superado em valor pelo ouro" (Crítias). Por que então não encontramos nenhuma des­crição dessa liga única nos relatos de Homero? Ou de Plínio? De Estrabão? De Heródoto e dos outros historiadores? Porque ele não existia na Grécia antiga, nem em Tróia nem em outro lugar. Tróia não era a Atlântida. Só conheço um país onde essa liga foi encontrada: no Peru, muito antes dos Incas. As culturas indígenas do Peru e do Equador haviam dominado métodos refinados para a fabricação de ligas e compostos metálicos, que mais tarde foram esquecidos. Suas técnicas de colocar camadas exibiam tal perfeição que os especialistas de hoje ficam sim­plesmente boquiabertos. Foram descobertas finíssimas cama­das de cobre, prata e ouro que, de acordo com sua composição, parecem ouro mais claro ou mais escuro. Até mesmo testes de ácido na superfície das misturas não revelam sua composição. Os ourives desses povos indígenas devem ter tido acesso a uma tecnologia muito antiga, por meio da qual eles eram capazes de "fazer metais não-preciosos parecerem preciosos".13 De que modo isso se encaixa na história da Atlântida? "Ele se chamava oricalco ou 'minério de ouro-cobre' sendo, depois do ouro, o metal mais apreciado por essa antiga raça."

Na história da Atlântida de Platão existe uma trecho descon­certante que não foi notado ou mal foi mencionado por incon­táveis pesquisadores. Admitindo-se que Platão estava certo e que essa estranha Atlântida estava situada no Oceano Atlânti­co, então além dessa Atlântida (vista da Europa) existiria um outro país: a América. Quais são as palavras de Platão?

 

Os viajantes daqueles dias podiam passar dessa ilha para ou­tras ilhas, e delas chegar ao continente que estava do outro lado desse mar... esse reino [Atlântida| tinha o domínio de todas as ilhas e muitas outras, bem como de uma parte do continente que ficava além.

 

Se Platão tivesse inventado todo o diálogo, como poderia ele ter tido conhecimento de outro continente que estava mais a oeste da Atlântida? Além disso, ele faz claramente uma distin­ção entre as "ilhas” e a "terra firme". Assim sendo, não vamos perder tempo especulando se os egípcios achavam que todos os estrangeiros vinham de "ilhas" e sobre a teoria de que o diálogo simplesmente se baseia no desejo de Platão de um "estado ideal”. O que temos aqui, como poderiam dizer os advogados, são fatos sólidos. Mas se Platão não inventou a coisa toda, e a história efetivamente veio do Egito, como os egípcios tinham conhecimento do continente americano? Eles mesmos explicam como: durante mais de dez mil anos eles haviam mantido cuidadosos registros escritos e, em compara­ção com eles, os gregos, que só conseguiam recuar até a mais recente devastação, eram como crianças. A partir de Colombo nós também sabemos da existência do continente além da Atlântida. Mas Platão não poderia ter tido conhecimento dele.

No final, estou menos preocupado em participar das especulações literárias a respeito da localização da Atlântida e mais interessado em perguntar quando ela existiu e como um reino insular de tal poder e grandeza pôde simplesmen­te desaparecer da face da Terra.

 

NOTAS

O autor deseja agradecer à editora Felix Meiner em Hamburgo por per­mitir a reprodução desta versão (nota do tradutor para o inglês: o texto em inglês é uma tradução da mesma versão).

Stahel, H. R., So entstand Atlantis, Zurique, 1980.

Die Argoneuten des Apollonius. Zurique, 1779.

Aristóteles, De Mundo.

Zangger, Eberhard, Atlantis — eine Legende wird entziffert, Munique, 1992.

Cialanopoulos, Angelos e Bacon, Edward, Die Wahrheit über Atlantis, Munique, 1996.

Dendl, Jörg, Platons Atlantis — Mythos, Forschung und Kritik, edição espe­cial GRAL, Berlim, 1996.

Luce, John, The End of Atlantis, Londres e Nova York, 1969.

Homer and the Heroic Age, Londres, 1975.

Die Quellen und die literarische Form von Platons Atlantis-ErzMhlung, Frank­furt/M. 1978.

Wright, Herbert E., "Gletscher, Ansteigen des Meeresspiegels und Flutkatastrophen", in Atlantis — Mythos — Rätsel — Wirklichkeit, Frank­furt/M.. 1978.

Nestke, Fritz e Riemer, Thomas, Atlantis—ein Kontinent taucht auf, Halver, 1988.

Lechtnrann, Heather, in Spektrum der Wissenschaft, agosto de 1984.

 

                    AJUDA PARA PLATÃO

As pessoas têm a memória curta. A maioria só está interessada nas notícias do dia, nos esportes e nos inevitáveis problemas cotidianos, e tudo o mais é secundário. A nossa era do computador e da televisão trouxe as informações para mais perto das pessoas, mas na verdade não as modificou. Elas aca­lentam as próprias opiniões como sempre fizeram, seguem as diretrizes de alguma ideologia, religião ou algo assim e, em particular, dificilmente pensam no passado, porque, afinal de contas, nada irá mudar.

O passado definitivamente já passou, mas somos produto do nosso passado, assim como a humanidade o é da sua his­tória. Quem quer que conheça alguma coisa sobre a história pode tirar conclusões dela, talvez evitar cometer erros que outros cometeram no passado e avaliar o futuro com mais clareza. Isso se aplica tanto ao indivíduo quanto à sociedade como um todo. Talvez nossa cabeça seja redonda para que o pensamento possa mudar de vez em quando de direção! É claro que isso não é muito útil se a nossa cabeça estiver vazia, pois aqueles que não sabem nada têm tendência a acreditar em tudo.

Quando alguma coisa do passado não é conveniente para nós, não fazemos caso dela dizendo que "as coisas eram dife­rentes naquela época". Os jovens não prestam muita atenção aos velhos, pois eles "viveram em outra época". Kncaramos o presente como uma espécie de clímax de todo o passado, como o zénite de todo conhecimento e informação. Infelizmente, as coisas não são realmente assim, pelo menos se menospre­zarmos o que podemos aprender com o passado. A maciça supressão dos eventos passados nos torna indefesos quando eventos semelhantes reaparecem.

Platão afirma repetidamente em seus Diálogos que a raça humana passou por várias devastações. Supõe-se que a Atlântida tenha sido apenas uma delas. A maioria das pessoas não concorda com essa teoria, particularmente nos círculos intelectuais. Atlântida? Devastação? Conversa fiada! Minha opinião é diferente, pois os relatos de Platão podem ser pro­vados de forma absoluta e definitiva.

Em uma manhã de setembro de 1985, Monsieur Henri Cosquer, que estava trabalhando para uma escola de mergu­lho em Cassis (a leste de Marselha), mergulhou nas águas pro­fundas do Cabo Morgiou. Ele não estava procurando nada em particular, apenas a oportunidade de desfrutar a beleza do ce­nário submarino. Ao lado de um pequeno deslizamento de rochas a 35 metros de profundidade, Henri Cosquer percebeu a entrada de uma gruta e nadou cautelosamente para dentro dela. Ele logo notou que a gruta conduzia a um túnel subma­rino ascendente, mas não teve vontade de seguir adiante. Seu tempo era limitado, ele só tinha oxigênio para mais meia hora e não tinha consigo nenhuma lanterna ou máquina fotográ­fica.

Algumas semanas depois, ele voltou a mergulhar no mes­mo local. Desta feita ele estava na companhia dos amigos Marc e Bernard, e com um equipamento melhor do que da primei­ra vez. Os homens mergulharam com cuidado ao longo de um comprido corredor de quarenta metros e chegaram final­mente à superfície de um lago. Suas lanternas iluminaram uma visão incrível: eles reconheceram dois cavalos pintados na parede ocidental desse corredor submarino. Bernard vol­tou sua lanterna para o teto e descobriu uma cabra desenhada com carvão e coberta com uma camada de calcita transparen­te. Os homens saíram da água, tiraram os pés-de-pato e expe­rimentaram o ar nas cavernas subterrâneas. Ele era aromático e resinoso, mas adequado à respiração. No corredor adjacen­te, que era ainda maior do que o primeiro, suas lanternas pas­saram rapidamente por toda uma galeria de pintura: um bisão, pingüins, gatos, antílopes, uma foca e até mesmo alguns sím­bolos geométricos.

Henri Cosquer mostrou as fotos para vários arqueólogos. Eles demonstraram pouco interesse, permaneceram céticos ou até acharam que as fotografias tinham sido forjadas. Foi so­mente seis anos depois, no dia 19 de setembro de 1991, que um navio de pesquisas da marinha francesa, o Archéonaute, ancorou ao largo do Cabo Morgiou e 11 homens-rãs seguiram Henri Cosquer até o sistema de grutas. Oito especialistas aguar­davam a bordo do Archéonaute, entre eles dois arqueólogos. Um equipamento especial foi baixado ao fundo do mar para fazer o levantamento da galeria subterrânea e até mesmo para trazer pequenas amostras da pintura à superfície. Essas amos­tras foram depois testadas pelo método de datação do carbono 14 e revelaram ter pelo menos 18.440 anos.

O que tudo isso tem a ver com a tradição da Atlântida? É muito simples: há 18.440 anos a superfície do Mediterrâneo era 35 metros mais baixa do que é hoje. Naqueles dias, a en­trada das grutas subterrâneas estava na superfície. O nível da água subiu.

No Mediterrâneo também encontramos Malta com seus templos pré-históricos e "sulcos de carroças", ou seja, sulcos no calcário que parecem trilhos (ver Fotos 53 e 54). Em dois lugares essas "rodeiras" levavam diretamente às profundezas do Mediterrâneo. Como os criadores desses sulcos pré-histó­ricos não eram peixes inteligentes nem tinham roupas de mergulho feitas de bronze e compressores de ar de madeira, a única conclusão possível é a mesma: o nível do mar subiu.

Esse fato se aplica apenas ao Mediterrâneo? Não; pode ser demonstrado no mundo inteiro. Na costa atlântica perto da cidade bretã de Carnac erguem-se milhares de menires (deri­vado de meu que em celta significa grande e hir que significa pedra), organizados em colunatas, chamadas "alinhamentos". Originalmente, deve ter havido mais de 15.000 desses menires. Os arqueólogos ainda estão coçando a cabeça e pensando no significado deles. Uma dessas colunatas de pedra desaparece nas profundezas do Golfo de Morbihan. E ao largo da peque­na ilha de Er'Lanic encontra-se um grande círculo de pedra submarino que pode ser visto na maré baixa através de uma máscara de mergulho. A que conclusão podemos chegar? O nível do Atlântico também subiu. Numerosos outros exem­plos poderiam ser citados.1

 

Assim sendo, a elevação do nível do Mediterrâneo e do Atlântico não pode ser discutida. E o que dizer do Oceano Pacífico?

A costa meridional da ilha japonesa de Okinawa é um paraíso para os mergulhadores, pois lá, nas claras águas azuis do Pacífico, encontram-se muitos navios naufragados na Se­gunda Guerra Mundial. Em março de 1995, alguns mergulha­dores depararam com estranhas estruturas retangulares de pedra, a apenas pouco mais de 32 metros de profundidade, completamente cobertas de coral. Para começar, os mergu­lhadores não estavam certos se se tratava de rocha natural ou de pedras cortadas pela mão do homem. Depois de vários jor­nais japoneses noticiarem a descoberta submarina, teve iní­cio uma completa caça ao tesouro. Muitos achados surgiram imediatamente. Ao largo da ilha de Yonaguni (a sudoeste de Okinawa), como também nas águas ao redor das ilhas vizi­nhas de Kerama e Aguni, foram encontradas amplas escadarias que levavam a praças. Ruas calçadas com pedras arredondadas, estruturas em forma de altar, monólitos esculpidos e até uma pequena torre foram encontrados.

O arqueólogo japonês Masaaki Kimura, da universidade das ilhas Riukiu em Okinawa, escreveu um livro muito admi­rado (infelizmente disponível apenas em japonês) a respeito desses extraordinários achados submarinos. Nossa conclusão, uma vez mais, precisa ser a mesma: o nível do Oceano Pacífi­co também subiu.

Constmções que hoje estão debaixo do mar também podem ser encontradas perto de Bimini (no Caribe) ou nas proximidades de Ponape (no agrupamento das ilhas Carolinas, no Pacífico).

Mas mesmo acima da superfície, algo não está muito correto com relação aos modelos simplistas dos nossos livros didáti­cos. Na extremidade oriental da Cidade do México, ergue-se a pirâmide de Cuicuilco, há muito tempo já rodeada pelos bair­ros afastados. Ela tem uma forma cônica arredondada e se com­põe de três níveis. O ápice é achatado e toda a estrutura foi construída com pedras do tamanho de uma cabeça. Três dos lados da pirâmide estiveram certa vez cobertos pela lava e pelas cinzas de uma erupção vulcânica. A camada de material vulcâ­nico varia entre um a três metros de profundidade. É lógico que a pirâmide tem necessariamente de ter existido antes de ser coberta de lava. Os geólogos acham que o vulcão próximo entrou em erupção pela última vez há sete ou oito mil anos.

Isso é impossível, contestam os arqueólogos. A pirâmide cônica de Cuicuilco deve ter sido construída entre 500 e 800 d.C. Uma data mais antiga não teria sentido, considerando-se que há sete mil anos no México não havia nenhuma civilização capaz de construir tal pirâmide. Para resolver a discussão entre geólogos e arqueólogos, foram perfurados pequenos buracos na camada vulcânica em uma extensão de trezentos metros nos lados da pirâmide e amostras retiradas. Todas as amostras conti­nham carvão e portanto puderam facilmente ser datados através do método do carbono 14. Essa verificação foi realizada em 1957 e 1962 pelo Radio-Carbon Laboratory of Califórnia University (UCLA) em Los Angeles.2 As 19 amostras apresentaram resulta­dos incrivelmente variados, com as datas variando entre 414 d.C. e 4765 a.C. Desse modo, cada pessoa ficou à vontade para defender a data que melhor se encaixasse na sua teoria.

No entanto, erros foram cometidos quando as amostras foram retiradas. Autorizado pela Direccion de Antropologia do México, o arqueólogo americano Dr. Byron Cummings havia escavado, em 1920, partes da pirâmide que estavam de­baixo da terra a uma grande profundidade. Ao fazer isso, ele havia aberto três camadas de material vulcânico, e entre cada camada os vestígios de uma diferente civilização haviam sido claramente revelados. As três camadas de lava e cinza vulcâni­ca se revelaram estéreis, mas entre elas — como se em um sanduíche — apareceram ossos, relíquias e pedaços quebra­dos de cerâmica. E havia indícios de que a parede da pirâmide descia até a camada mais profunda. O Dr. Cummings achou que a pirâmide tinha sido primeiro construída e depois en­volvida pela erupção vulcânica; mais tarde, outra civilização havia deixado vestígios ao lado da pirâmide até que o vulcão se tornou novamente ativo. Esse drama se repetiu três vezes, e em cada uma delas a pirâmide foi afetada.3

Cuicuilco é apenas um exemplo entre muitos dos que vie­ram à luz nos últimos anos e que foram reprimidos pela ar­queologia clássica.4, 5 Muitas das pessoas de valor que pertencem à fraternidade arqueológica nem mesmo têm co­nhecimento das novas descobertas e das datas falsas. No en­tanto, pelo menos nos últimos cinqüenta anos, foi colocado à disposição do público um documento que, sem nenhuma sombra de dúvida, oferece provas da existência de uma civili­zação avançada há mais de 12.000 anos. Trata-se de uma civi­lização que traçou mapas muito precisos do litoral da Antártida e das ilhas ao largo dela — uma Antártida que não tinha gelo! O continente antártico, é claro, já está escondido debaixo de uma espessa armadura de gelo até onde os seres humanos con­seguem se lembrar. Eis a incrível história:

Em 1929, o palácio Topkapi, em Istambul, foi transformado em um museu de peças da antiguidade. Durante o trabalho de desobstrução, um fragmento de um antigo mapa caiu nas mãos de Halil Eldem, diretor do Museu Nacional da Turquia. O mapa fora traçado por Piri Reis, um almirante da frota otomana (ver Foto 58). Piri Reis começara o mapa em 1513, mas só entregou o trabalho terminado ao Sultão Selim quatro anos depois. O mapa, hoje conhecido como o mapa de Piri Reis, foi pintado sobre pele de gazela em cores delicadas. Piri Reis havia acrescentado comentários escritos a mão na extremidade esquerda do mapa. Além de estar no comando da frota, ele também estava profundamente interessado nas ciências marítimas da sua época. Ele também é autor de um livreto intitulado Bahriye, no qual faz referência a vários as­pectos desse mapa e explica como o criou. As cidades e os castelos estão marcados com linhas vermelhas; as regiões desabitadas, com linhas pretas; os despenhadeiros e as regi­ões rochosas, com pontos pretos; os locais arenosos, com pon­tos vermelhos e os recifes ocultos, com cruzes. Piri Reis tam­bém explica que compôs o mapa a partir de vinte mapas anti­gos diferentes, tendo inclusive usado um mapa feito por Cris­tóvão Colombo. Isso teria sido possível, pois o descobridor da América havia voltado para a Europa em 1500, antes da sua terceira viagem. Naqueles dias, os ataques de piratas e os con­flitos entre várias nações vizinhas eram freqüentes no Medi­terrâneo. Pode muito bem ter acontecido que um navio por­tuguês ou espanhol tenha caído nas mãos dos turcos. Piri Reis diz que também usou mapas da época de Alexandre o Grande (morto em 323 a.C.) e outros que se baseavam em tabelas geométricas. Estava claro que o almirante turco tinha total consciência da qualidade única desse mapa, pois também escre­veu: "Ninguém possui hoje em dia um mapa como este."

 

As pessoas logo perceberam que o trabalho de Piri Reis só cobria metade do mundo: a pele de gazela estava rasgada, de modo que estava faltando o lado direito do mapa. Pouco de­pois da sua descoberta, o orientalista alemão, Professor Kahle, voltou a atenção para ele e, em setembro de 1931, no 18° Congresso Orientalista realizado na cidade holandesa de Leiden, anunciou que Piri Reis provavelmente usara partes de um mapa perdido de Colombo.6 No outono de 1931, o Pro­fessor Oberhammer, na época também membro da Academia de Ciência de Viena, examinou esse objeto fora do comum e chegou à mesma conclusão que seu colega Kahle.

Vários jornais falaram sobre o mapa de Piri Reis, depois disso a "sociedade de pesquisas da história turca" incumbiu o setor de publicações estatal em Istambul de tornar o mapa disponível a um círculo mais amplo de estudiosos. Por conseguinte, em 1933, o mapa foi transportado para uma placa tipográfica de metal e reproduzida em uma edição fac-símile de mil cópias. A primeira edição se esgotou em poucos meses, de modo que o comando supremo da marinha turca (o Instituto Hidrográfico) autorizou uma nova impressão. Desta feita, 12.500 dos mapas foram impres­sos em tamanho natural e dez mil cópias em tamanho reduzido.

Nos anos quarenta, muitos museus e bibliotecas adquiri­ram cópias do mapa de Piri Reis. Em 1954, uma cópia chegou à mesa do cartógrafo americano Arlington H. Mallery, que há décadas se especializara em mapas marítimos antigos. O mapa de Piri Reis entusiasmou Mallery porque sua parte inferior continha um continente com ilhas ao largo da costa, do qual Piri Reis nunca poderia ter ouvido falar em 1513. Tratava-se da Antártida. Mesmo que o turco tivesse usado um mapa traçado por Cristóvão Colombo, isso não resolveria o enigma, pois este também nada sabia a respeito da Antártida.

Arlington Mallery pediu ao seu colega Walters, do Instituto Hidrográfico da marinha americana, uma opinião sobre o mapa. Walters ficou desconcertado. Ele ficou particularmente impres­sionado com a exatidão da distância entre o Velho e o Novo Mundo. Em 1513, quando Piri Reis elaborou esse mapa, a Amé­rica nunca havia aparecido em nenhum mapa e mesmo um mapa que fosse traçado por Colombo jamais poderia ter conti­do um número tão grande de detalhes precisos. Até mesmo as regiões mais afastadas, como o terreno montanhoso na parte ocidental da América do Sul, estavam reproduzidas; em outras palavras, regiões que, até onde sabemos, foram pela primeira vez exploradas por Francisco Pizarro (1478-1541). Igualmente desconcertante era a posição exata do arquipélago das Canárias ou das ilhas dos Açores. Os dois cartógrafos também repararam que Piri Reis ou tinha rejeitado as coordenadas usuais na sua época ou tinha visto a Terra como um disco achatado. A fim de obter uma imagem clara, Mallery e Walters colocaram uma grade de coordenadas sobre o mapa, para poder transferir as posições individuais para um globo (ver Fotos 59 e 60).

Agora o assombro deles era completo. Não apenas o contor­no das Américas do Norte e do Sul, como também o litoral da Antártida, estavam situados exatamente onde se esperaria encontrá-los hoje. Mas onde há um mar turbulento hoje em dia que esbraveja ao sul da Terra do Fogo havia uma estreita ponte de terra para a Antártida. Eles compararam centímetro por cen­tímetro o mapa de Piri Reis com perfis terrestres que haviam sido obtidos por meio da mais moderna tecnologia, tanto do ar quanto de sondas acústicas no mar. Perto do final da última Era Glacial, há cerca de 12.000.000 de anos, houve de fato uma ponte de terra nesse exato lugar. Na região polar meridional, Piri Reis havia traçado o litoral, suas baías e até as ilhas ao largo da costa com esmerada precisão. "Ninguém consegue enxergar hoje esse litoral e essas ilhas porque eles estão cobertos por uma espessa camada de gelo''.7 As coisas não eram diferentes nos dias de Piri Reis, então como o turco obteve suas informações?

Durante o Ano Internacional da Geofísica em 1957, o Padre Jesuíta Lineham, então diretor do Weston Observatory e tam­bém cartógrafo da marinha americana, examinou o mapa de Piri Reis. Ele chegou à mesma conclusão que os seus colegas. A região da Antártida exibia uma incrível precisão, apresen­tando muitos detalhes que só tinham se tornado amplamen­te conhecidos depois das expedições conjuntas da Suécia, In­glaterra e Noruega de 1949 e 1952. No dia 28 de agosto de 1958, a University of Georgetown organizou uma conferência pública a respeito do mistério do mapa de Piri Reis. Cito a seguir alguns trechos dessa palestra:

 

Walters: é difícil para nós entendermos hoje em dia como os cartógrafos poderiam ter sido tão precisos há tantos sé­culos, visto que só recentemente inventamos o método moderno e científico da cartografia.

 

Mallery: É claro que esse é um problema que nos deu muita dor de cabeça. Não conseguíamos imaginar como um mapa tão preciso pôde ter sido traçado sem aviões. Mas o fato é que eles o fizeram. Além disso, as medições longi­tudinais estão absolutamente corretas, algo que só fomos capaz de fazer nos últimos duzentos anos.


 

LA CARTE DE PIRI RETS DE 1513.

DANS LE MONDE ENTIER. IL N'Y A PAS UNE AUTRE CARTE GOMME CELLE-CI . (PIRI RE´IS)


 

Walters: Padre Lineham, o senhor esteve envolvido em pes­quisas sismológicas sobre a Antártida. O senhor também está entusiasmado com essas novas descobertas?

 

Lineham: Sem dúvida. Através do método sismológico desco­brimos coisas que parecem confirmar um grande núme­ro dos desenhos reproduzidos no mapa: as massas de terra, a projeção das montanhas, dos mares, das ilhas... Creio que o método sismológico nos permitirá remover, por assim dizer, uma quantidade maior da camada de gelo das regiões retratadas no mapa [de Piri Reis], o que reve­lará que este mapa é ainda mais preciso do que aquele que estamos no momento preparados para aceitar.

 

Depois que a imprensa acadêmica americana escreveu sobre o mapa, ele também atraiu a atenção de Charles Hapgood, pro­fessor de história da Keene State University em New Ham- pshire. Ele pegou uma cópia e começou a analisá-la minucio­samente, junto com seus alunos. Os resultados desse trabalho conjunto tomaram a forma de uma publicação científica, cujas conclusões são reveladas no prefácio:8

 

Este livro contém a história da descoberta da primeira prova sólida de que um povo avançado era bem superior a todos os outros grupos humanos de que a história fala... Parece incrí­vel, mas as provas demonstram com bastante clareza que al­guns povos da antiguidade traçaram o litoral da Antártida em uma época em que suas costas estavam livres de gelo...

Está igualmente claro que essas pessoas têm de ter tido aces­so a instrumentos de navegação a fim de determinar a longi­tude de uma maneira bem superior a qualquer coisa que sabíamos até meados do século XVIII. Até agora os especialistas têm rejeitado essas afirmações, considerando-as um mito, mas temos aqui, diante de nós, provas irrefutáveis.

 

No dia 6 de julho de 1960, Harold Z. Ohlmeyer, então chefe do US Air Force Department, que estava envolvido no ato de fazer o levantamento do mapa da Antártida, escreveu o se­guinte ao Professor Charles Hapgood:

 

O litoral [no mapa de Piri Reis] deve ter sido mapeado antes de a Antártida estar coberta de gelo. O gelo nessa região hoje em dia tem mais ou menos 1,6 quilômetro de espessura. Não temos a menor idéia da maneira pela qual os dados no mapa de Piri Reis podem ser conciliados com o conhecimento geo­gráfico de 1513.

 

O Professor Hapgood e seus alunos trabalharam no mapa de Piri Reis durante dois anos. Que grade de coordenadas teria o turco usado? Onde estava o ponto de referência para essas coordenadas? Logo ficou claro que esse ponto tinha de estar no Egito, em Alexandria para ser preciso. Piri Reis obviamente havia considerado a forma esférica da terra — mas como? Chegou-se à conclusão de que ele deve ter usa­do um sistema de trigonometria (triangulação). Mas onde ele o obteve?

O grego Eratóstenes (morto em 275 a.C.) era um conhe­cido levantador de mapas da antiguidade. Ele tinha até mes­mo sido diretor da biblioteca de Alexandria durante o rei­nado de Ptolomeu III. Ele também escreveu três livros so­bre medições cartográficas (Geographika). Mas estava claro que Eratóstenes não havia usado trigonometria em seus mapas. O Professor Hapgood e seus alunos logo se conven­ceram de que o levantador de mapas responsável pelo ori­ginal a que Piri Reis recorreu “tinha acesso a uma ciência mais avançada do que os antigos gregos".9 Os mapas e do­cumentos usados pelo turco têm necessariamente de pro­ceder de fontes científicas que estiveram ativas em um pas­sado muito distante.

O Professor Hapgood e sua equipe logo foram capazes de elaborar tabelas comparativas precisas entre o mapa de Piri Reis e os mapas modernos. As discrepâncias são peque­nas e, em muitos casos, praticamente inexistentes. Isso é absolutamente impressionante. Como o litoral da Antártida, junto com as ilhas que estão situados ao largo dele, que há milênios se encontram debaixo de uma couraça de gelo, podem aparecer em um mapa antigo? E aparecer de uma maneira tão precisa que a comparação com os mapas mais atualizados não revela praticamente nenhuma discrepân­cia? Um milagre? Mas os milagres sempre se baseiam em algum fato concreto.

No entanto, apesar de toda essa precisão, existe algo er­rado com o mapa de Piri Reis, que nada foi realmente capaz de explicar. Hapgood fez a seguinte declaração a respeito disso: "Partes do Caribe no mapa de Piri Reis nos apresentou uma enorme dificuldade. Elas não parecem se encaixar no resto do quadro".10

O mapa só mostra a costa oriental de Cuba. Todo o lado ocidental está ausente. Em vez disso, algo está agregado ao lado ocidental que não pode ser Cuba, e no entanto é duas vezes maior do que as atuais ilhas do Caribe. Hapgood disse o seguinte: "É estranho que exista no mapa de Piri Reis um litoral ocidental completo, quando esta ilha é na verdade truncada."11 É óbvio que Piri Reis teve problemas com Cuba, pois ele também deu à ilha o nome errado: Espaniola. Colombo não chamou Cuba de "Espaniola", mas chamou as ilhas vizinhas, o Haiti e a República Dominicana, de "Hispaniola". Como esse erro gritante foi aparecer em um mapa sob outros aspectos tão perfeito? O professor Hapgood suspeita de que Piri Reis usou um mapa extremamente anti­go no qual Cuba estava traçada de uma maneira diferente da de hoje, mas acha que ele também tinha um mapa de Colombo, ou — como o próprio Piri Reis diz em seu livro Bahriye — ele fez perguntas a um marinheiro que havia par­ticipado da viagem de descobrimento de Colombo. O erro relacionado com Cuba pode ter surgido em decorrência de uma confusão entre o mapa de Colombo (e/ou da conversa com o marinheiro) por um lado e o antigo mapa de fonte desconhecida pelo outro.

Isso pode ser verdade. Mas o que o mapa antigo origi­nal — que pode muito bem ter vindo da biblioteca de Alexandria — mostrava em lugar de Cuba? De que maneira pode alguém como Piri Reis fazer tal confusão com a ilha caribenha de Cuba e traçar com extrema precisão o litoral da Antártida? Outra coisa, provavelmente uma ilha enor­me, deve sem dúvida ter estado no original desconhecido. Poderia ter sido a Atlântida?

Nosso atual estado de conhecimento é incapaz de nos forne­cer essa resposta. No entanto, algumas indicações podem nos fazer parar para pensar. Colombo chamou sua terra recém- descoberta de "Hispaniola", mas os índios nativos a chama­vam de "Quisqueya” ou "Mãe das Terras".12 Seria essa uma referência a uma antiga tradição? Na versão grega da lenda da Atlântida, Platão a chama de “Polis Atlantis" ou "Cidade de Atlas."

O estranho é que esse mesmo nome aparece em várias histórias da América Central. A misteriosa ilha de Tuia a que os maias se referem foi certa vez chamada de "Izmachi" e há mais tempo ainda de "Aztlan". Joachim Rittstig, antigo dire­tor da Escola Alemã em El Salvador e especialista no calen­dário maia, escreveu um livreto que estabeleceu impressio­nantes ligações entre a Atlântida e as culturas indígenas da América Central".13 De acordo com suas pesquisas, pode ser claramente visto nos textos maias que havia uma cidade cha­mada Aztlan em 12.901 a.C., na região que é hoje a Gua­temala. Os textos fornecem inclusive sua localização geográ­fica exata: 15° 33,5' norte; 89° 05,5' oeste. Não estou ein posição de julgar se as conclusões de Rittstig estão corretas sob todos os aspectos, e também sei que os maias ainda não existiam em 12.901 a.C. Mas isso não encerra a questão: as tribos mudam de nome e, às vezes, levam consigo memórias de tradições milenares.

Nas (posteriores) cidades maias, havia esculturas que ainda causam espanto e que nenhum especialista maia con­segue compreender. Alguns exemplos principais encontram- se na antiga metrópole maia de Copan em Honduras. Quan­to mais contemplamos as curiosas esteias e "estruturas antropomórficas", mais pensamos em uma civilização téc­nica primordial (ver Fotos 61 e 62). Essas figuras foram sem dúvida imortalizadas em pedra por uma sociedade que há muito havia esquecido de que modo esses mistérios técnicos certa vez funcionaram. O importante é que eles estavam relacionados com os deuses. Até mesmo a entalhadura na mundialmente famosa lousa tumular de Palenque (Méxi­co), que os especialistas acreditam ter pertencido ao governante maia Pacal, pertence a esse tipo. A opinião de vários estudiosos da América da antiguidade de que essas representações são de "monstros cósmicos" ameaçadores14 não tem nenhuma relação com a lousa tumular de Palenque.15

 


Não devemos de modo algum esquecer que até mesmo a conhecida palavra "Asteca" deriva de "Aztlan". Dizem que o "povo de Aztlan", os antepassados dos astecas viviam origi­nalmente em uma ilha.16 Além disso, o monge espanhol Frei Diego Durán escreve em seu livro History ofthe Indian lancis of New Spain |História das terras indígenas da Nova Espanha) que dizem que as tribos se refugiaram nas cavernas de "Aztlan e Tecolhuacan" depois de uma terrível catástrofe. Sua terra natal original tinha sido Aztlan.17

Embora eu não deseje ir em busca da Atlântida, não me importaria de apostar que ela jaz em algum lugar no Caribe.

Platão certamente iniciou alguma coisa com sua história da Atlântida. Aproximadamente 3.600 livros foram escritos a respeito do assunto.18 Este tema aparentemente inesgotável estimula muitos debates e desperta muito interesse. Sem dú­vida as pessoas irão especular sobre a localização da Atlântida até ela ser encontrada, mas algo está bastante certo a partir de uma perspectiva geológica: a Atlântida não pode simplesmente ter "afundado", no sentido de simplesmente mergulhar debaixo das ondas. O geólogo Dr. Johannes Fiebag fornece a seguinte explicação:19

 

Uma comparação entre o fundo do mar e a terra revela uma diferença fundamental entre os dois. O fundo do mar é geral­mente composto de placas muito planas, enquanto os conti­nentes, pelo contrário, são vastos blocos que flutuam sobre a chamada astenosfera. Sempre que se verifica uma zona de subdução na região limítrofe entre o continente e o oceano, constata-se que o fundo do mar adentrar por baixo do conti­nente. Isso acontece porque o fundo mar é composto basica­mente de basalto, enquanto os continentes são geralmente formados por granito e sedimentos. O basalto tem um peso específico mais elevado do que a gravidade, e é por esse mo­tivo que as placas oceânicas, mais pesadas, sempre afundam e os continentes, que flutuam como um iceberg sobre a água na litosfera, nunca afundam. Isso seria, sob o aspecto físico, uma total impossibilidade. Um continente como a Atlântida não pode afundar. Ele é impedido de fazê-lo pela seu peso es­pecífico.

 

Apesar dessa clara perspectiva científica, a Atlântida desapa­receu da face da terra, "afundou nas profundezas" como dis­se Platão. No entanto, um pedaço de terra não precisa afun­dar para ser coberto pelas águas — isso pode acontecer quan­do o nível do mar sobe. E ninguém discorda de que foi isso que aconteceu quando as geleiras se derreteram no final da última Era Glacial. Mas a subida do nível do mar aconteceu lentamente e não "em uma única noite terrível" (Platão). Os tecnicamente adiantados habitantes da Atlântida teriam sido capazes de se salvar a tempo usando navios — a não ser, é claro, que uma catástrofe cósmica tenha se combinado com a do derretimento do gelo; ou a não ser que essa catástrofe, talvez um asteróide que se tenha chocado com a terra, tenha iniciado uma onda gigantesca, que por sua vez tenha provo­cado o derretimento do gelo. Temos hoje em dia à nossa disposição dados que confirmam claramente que uma catás­trofe de enormes dimensões deve ter acontecido no passado da humanidade.

 

Os geólogos descobriram corais marinhos no Havaí a tre­zentos metros de altura, que devem ter sido depositados ali por uma onda gigante.20

Há cerca de 1.400 anos, as temperaturas na Terra subiram em uma década. "Em 1993, amostras retiradas de perfu­rações realizadas no gelo da Groenlândia revelaram, surpreendentemente, que a Era Glacial não desapareceu gradualmente e sim que terminou de repente."21

Nos últimos 67 anos, os astrônomos descobriram um total de 108 pequenos planetas que passaram perto da terra. Um deles, denominado XF11, passará a poucos milhões de qui­lômetros da terra no dia 26 de outubro de 2028. O impacto de um asteróide na superfície do oceano daria origem a uma onda gigantesca. "Muitos milhares de quilômetros de lito­ral seriam inundados, inúmeras cidades, transformadas em uma lamacenta devastação."22

 

Vivo em uma geração que considera a idéia de uma catástro­fe climática uma séria possibilidade. O chamado "efeito estufa" deverá espalhar-se pelo planeta e provocar um aumen­to das temperaturas. O homem é culpado disso, pois produz o perigoso gás dióxido de carbono (C02). Quem quer que não aceite essa visão de um desastre iminente deve ser con­siderado irresponsável e irracional. Não importa que 81 por cento dos climatologistas americanos encarem o efeito estu­fa de uma maneira muito diferente, baseados em dados con­vincentes. O mundo das falsas informações ideológicas con­tinua de qualquer maneira. Os computadores são alimenta­dos por dados falsos "que são baseados em obscuros mode­los de simulação".23 Muito pouco do que os pesquisadores climatológicos se dignam a nos contar é exato. Um número excessivo desses ambientalistas trabalha de acordo com o princípio do "megalixo para dentro — megalixo para fora". E eles são até bem pagos para fazer isso. Tudo é possível no mundo da política!

Falta claramente a essas pessoas uma consciência históri­ca. Ninguém pode seriamente discordar de que a Europa se­tentrional estava mergulhada na Era Glacial havia dez mil anos. Existe uma enorme quantidade de pedras espalhadas pela re­gião que comprovam esse fato — conhecidos na geologia como "blocos erráticos" — que vieram nas costas das geleiras. O que provocou naquela época, e em muitas modificações ante­riores de temperatura, os aumentos abruptos de temperatura, e as subseqüentes Eras Glaciais?

Platão entendeu corretamente. Houve devastações perió­dicas, particularmente nas regiões litorâneas, com ou sem a participação do homem. Hoje estou tão preocupado quanto as outras pessoas em garantir que vamos conservar limpo o nosso mundo. Mas sou contrário à mentalidade paralisante, "sem futuro", que por falta de conhecimento da história da Terra invoca um drama de culpa, até mesmo do pecado origi­nal. Trata-se mais de um drama que já foi representado mui­tas vezes e não de um drama causado pela tendência política do momento.

O nível do mar efetivamente subiu e catástrofes de fato ocorreram. Temos um mapa de Piri Reis com uma Antártida sem gelo para provar isso. E perto da ilha de Okinawa, no Japão, encontram-se antigas estruturas debaixo da água. Tal­vez você também já tenha ouvido falar que o Saara foi certa vez um fértil jardim — e não importa qual a testemunha que eu chame para sustentar essa afirmação: seja o geógrafo grego Estrabão (mais ou menos 62 a.C. a 26 d.C.), o histo­riador romano Gaius Plinius Caecilius Secundus (61-113 d.C.), os gregos Hesíodo, Heródoto ou Hecataios (550-480 a.C.), Diodoro da Sicília (primeiro milênio) ou, anterior­mente, o fenício Sanchuniathon (cerca de 1.250 a.C.). Quer eu cite os dez patriarcas antediluvianos da Bíblia ou a lista de reis da antiga Babilônia, no final tudo se reduz à mesma coisa. Todos descrevem eventos que ocorreram há dez mil anos ou mais.

O fato de que a nossa ciência, que também influencia a mídia, não deseja tomar conhecimento de nada disso, é sim­plesmente um sinal da sua deficiência. Vias não faz muito sentido nos irritarmos com isso. Como disse Marco Auré­lio, um dos césares romanos: "É insensato ficar aborrecido com o mundo, pois ele não está nem um pouco preocupa­do com isso."

 

NOTAS

Däniken, Erich von, Die Steinzeit war ganz anders, Munique, 1991.

Suplemento do American Journal of Science, Vol. 5, páginas 12-13, e Vol. 6, páginas 332ff.

Cummings, Byron S., Cuicuilco and the Archaic Culture of Mexico, Boletim da University of Arizona, Vol. IV, 8 de novembro de 1933.

Cremo, Michael e Thompson, Richard, Forbidden ArchaelogyThe Hidden

History of the Human Race, Alachua, Flórida, 1993.

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Scheie. Linda e Freidel, D., Die unbekannte Welt der Maya, Munique, 1991.

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Ver nota 12.

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"Ein riesiger Stein rast zur Erde", in Die Welt, 13 de março de 1998.

Ripota, Peter, "In 30 Jahren beginnt die neue Eiszeit”, in PM-Magazin, n° 6/1998.

 

 

* Figura da mitologia. Dragào sem pés. (N. da T)

* Jove é outro nome de Zeus para os gregos, que foi depois chamado de Júpiter pelos romanos. (N. da T.)

* Palavra alemã que significa "espírito da época” (N. da T.)

* A criança deve estar se referindo a um jogo semelhante ao gude, conhecido dos romanos e provavelmente dos gregos. (N. da T)

 

                                                                                Erich von Däniken  

 

                      

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