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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A OESTE NADA DE NOVO / Erich Maria Remarque
A OESTE NADA DE NOVO / Erich Maria Remarque

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

A frente está a 9 quilómetros de nós. Fomos ontem rendidos. Com a barriga cheia de feijão branco e carne de vaca, estamos satisfeitos e contentes, cada um de nós pôde, mesmo, encher de novo a marmita para a noite. Além disso, havia uma porção dobrada de chouriço e pão. É um delírio! Há muito tempo que tal coisa não nos acontece. Até o cozinheiro, de cabeça cor de tomate, vai ao ponto de nos oferecer os seus víveres. A cada um que passa, acena com a colher e dá-lhe uma boa porção de comida. Está muito desesperado, pois não sabe como há-de ver o fundo ao seu caldeirão. O Tjaden e o miiller descobriram malgas, que encheram até em cima, como reserva. O Tjaden procede assim por bulimia, uma espécie de fome ancestral; o Miiller, por previdência. é um enigma para todos onde o Tjaden consegue meter tudo aquilo, pois ele conserva-se chato como um arenque fumado.

Mas o mais famoso é que também houve ração dobrada de tabaco. Para cada um, dez charutos, vinte cigarros e dois rolos de mascar. É muito razoável. Com o Catczinsky, troquei o meu tabaco de mascar pelos seus cigarros, tendo ficado com quarenta. Isto dará bem para un dia.

A dizer a verdade, esta distribuição não nos estava destinada. Os prussianos não são assim tão generosos. Deveno-la simplesmente a um engano.

 

 

 

 

Há quinze dias, fomos para a primeira linha para substituir outros camaradas. O nosso sector estava bastante calmo e, por consequência, o Furriel recebeu para o dia do nosso regresso a quantidade normal de víveres e preparou tudo o que foi preciso para cento e cinquenta homens da companhia. Ora, precisamente no último dia, houve no nosso lado um sarrabulho dos diabos: a artilharia pesada inglesa martelou, sem descanso, a nossa posição, de modo que tivemos grandes perdas e não voltámos senão oitenta.

 

Regressámos de noite e fizemos imediatamente o nosso buraco para, enfim, podermos dormir convenientemente, ao menos uma vez. Neste ponto o Catczinsky tem razão: a guerra não seria tão insuportável se nos fosse possível dormir mais tempo. O sono na primeira linha não conta e quinze dias de cada vez é muito.

 

Já era meio-dia quando os primeiros de entre nós deslizaram para fora das barracas. Meia hora mais tarde cada um tinha agarrado a sua marmita e alinhávamo-nos defronte da “Maria das Minas”, de cheiro gorduroso e nutritivo. À frente estavam, naturalmente, os mais esfomeados: o pequeno Albert Kropp, que é, de todos nós, o que tem ideias mais lúcidas, sendo por isso já soldado de primeira classe; o Miiller, que ainda anda atrelado aos livros da aula e sonha com um exame de segunda época e, no meio de um bombardeamento, martela nos teoremas de física. O miiller, que deixou crescer a barba e tem uma grande predilecção pelas meretrizes dos oficiais, afirma, sob juramento, que elas são obrigadas, por ordem do comando, a usar camisas de seda e a tomar um banho antes de receberem visitas a partir de capitão. o quarto sou eu. Todos os quatro com19 anos, todos os quatro saídos da mesma classe para irmos para a guerra.

 

Logo atrás de nós, estão os nossos amigos. O Tjaden, serralheiro, da nossa idade, magro, mas o maior comilão da companhia. Quando se senta para comer, parece um pau de virar tripas e, quando se levanta, lembra uma mula anafada; Haie esthus, também de 19 anos, operário numa turfeira, que mete, facilmente, na mão um pão de munição e diz: Adivinhem o que tenho aqui. Detering, camponês, que só pensa na herdade e na mulher. E, por fim, Stanislas Catczinsky, o chefe do nosso grupo. Duro, astuto, manhoso, com 40 anos, com uma cara terrosa, olhos azuis, ombros descaídos e um faro maravilhoso para descobrir o perigo, a boa comida e os bons sítios onde se esconder.

 

O nosso grupo formava a cabeça da cobra que se desenrolava diante do caldeirão. Estávamos impacientes por o cozinheiro ainda se conservar imóvel, ingenuamente à espera.

 

Por fim, o Catczinsky gritou-lhe:

 

Vamos, Henri, destapa o teu paiol da sopa. Vê-se muito bem que a feijoada está cozida.

 

O outro sacudiu a cabeça com um ar sonolento:

 

É preciso primeiro estarem cá todos. O Tjaden chacoteou:

 

- Estamos todos cá.

 

O cabo cozinheiro não tinha ainda notado coisa alguma.

 

- Sim. Não querem mais nada? Onde estão os outros?

 

- Não és tu quem os alimentará hoje. Ambulância e vala comum.

 

O cozinheiro ficou como se apanhasse uma paulada na cabeça, quando soube do sucedido. Cambaleou.

 

- E eu que fiz comida para cento e cinquenta homens! O Kropp deu-lhe uma cotovelada.

 

- Deixa lá! Ao menos desta vez, comemos à nossa vontade. Vamos, começa!

 

De súbito, o Tjaden teve uma inspiração. A sua alongada cara de rato tomou um aspecto luzidio. Os olhos cerraram-se-lhe de malícia, as faces estremeceram e aproximou-se o mais que pôde.

-

Mas então... meu velho, recebeste também pão para cento e cinquenta homens?

 

O cabo, ainda escandalizado e um tanto maquinalmente, fez um sinal afirmativo com a cabeça.

 

O Tjaden pegou-lhe pelo dólman. - E também chouriço.

O cabeça de tomate repetiu a afirmação.

 

O queixo do Tjaden tremia. - E também tabaco?

 

- Sim, tudo. O Tjaden olhou em redor, com ar radiante.

 

Meu Deus! Isto é o que se chama estar com sorte. Então vai ser tudo para nós. cada um vai receber... esperen lá... é isso. exactamente, ração dobrada.

 

Mas eis que o “tomate” cai em si e declara:
-Não, isso não vai assim. Então nós também despertámos e chegámo-nos para a Frente.

 

- Porque não vai isso assim, meu tomate cozido? - perguntou o Catczinsky.

 

- O que é para cento e cinquenta homens não pode ser para oitenta.

 

É o que te faremos ver - rosnou o Miller.

 

- A manja está bem. mas as rações não posso dar senão para oitenta -- persistiu o “tomate”.

 

O Catczinsky irritou-se.

 

- Queres dar o dito por não dito. não é verdade?... Tens mantimentos, não para oitenta homens, mas para a 2ª companhia. E basta! E vais dar-nos. A 2ª companhia somos nós.

 

Chegámo-nos mais para perto do marau. Ninguém o podia suportar. Já por várias vezes fora ele o causador de recebermos a comida na trincheira com muito atraso e completamente fria. Pois, quando havia um pequeno bombardeamento, ele não se atrevia a avançar bastante com os seus caldeirões, de modo que os nossos camaradas, ao irem buscar a comida, tinham de percorrer um caminho muito mais comprido que os das outras companhias. O HulcÉe, da 1ª por exemplo, era um tipo como devia ser. Embora fosse gordo como um porco, levava, ele mesmo, os pratos à primeira linha, quando era necessário.

 

Estávamos precisamente em ponto de rebuçado e. decerto, ia haver barulho se o nosso comandante de companhia não tivesse chegado. Perguntou o motivo da altercação e contentou-se em dizer:

 

- Sim. ontem tivemos grandes perdas... Depois olhou para o caldeirão.

 

Os feijões têm boa aparência. O “tomate”» fez um sinal afirmativo.

 

Cozidos com gordura e carne.

 

O tenente olhou para nós. Sabia o que estávamos a pensar. Também sabia outras coisas, pois fizera-se no meio de nós e era apenas cabo quando veio para a companhia.

 

Levantou, uma vez mais, a tampa do caldeirão e aspirou. Ao ir-se embora, disse:

 

- Leve-me também um prato cheio e distribua todas as rações. Isso não há-de fazer mal.

 

O “tomate” ficou com uma cara estúpida, enquanto o Tjaden dançava em roda dele.

 

- Tu não tens nada com isso. Até parece que as subsistências são tuas! Vamos, começa, cozinheiro de má morte, e não te enganes na contagem...

 

- Vai para o diabo que te carregue! - berrou o “tomate”.

 

Estava completamente desconcertado; não lhe podia entrar na cabeça uma coisa assim; já não sabia em que mundo vivia. E como se quisesse mostrar que tudo agora lhe era indiferente, distribuiu de sua livre vontade uma meia libra de mel artificial por cabeça.

 

Hoje, na verdade, tudo corre bem. Até chegou o correio. Quase toda a gente recebeu cartas e jornais. Vagueamos agora direitos ao prado, por trás dos abarracamentos. O Kropp leva debaixo do braço a tampa de um barril de margarina.

 

À direita, na orla da pradaria, construíram grandes latrinas comuns, um edifício com telhado. Isto é, no entanto, bom para os recrutas, que não sabem ainda tirar partido de tudo. Nós procuramos alguma coisa melhor. Efectivamente, estão espalhadas por toda a parte pequenas caixas individuais que servem para o mesmo fim. São quadradas, limpas, de madeira, muito herméticas, com um assento cómodo e irrepreensível; têm pegas dos lados, de modo a poderem ser transportadas.

 

Dispomos três em círculo e sentamo-nos confortàvelmente. Antes de duas horas não nos levantaremos.

 

Lembro-me, ainda, como ao princípio, quando éramos recrutas, nos sentíamos constrangidos na caserna, quando tínhamos de utilizar as latrinas comuns.

 

Não há porta alguma e vinte homens sentam-se ao lado uns dos outros, como no comboio. Com uma só olhadela, pode-se passar-lhes revista. É que o soldado deve estar precisamente submetido a uma vigilância constante.

 

Desde então temos aprendido a dominar bem mais que este pequeno sentimento de vergonha. Com o tempo, temos visto outras coisas.

 

Mas aqui, ao ar livre, a coisa é verdadeiramente uma delícia. Não compreendo a razão por que, antigamente, fechávamos timidamente os olhos diante destas necessidades, quando elas são tão naturais como o comer e o beber. e não haveria necessidade de falar delas aqui, se não desempenhassem um papel tão essencial e se não fossem, precisamente, para nós, uma novidade, pois, para as praças velhas, há muito tempo que se tinham tornado naturais.

 

Mais que para qualquer outro homem, o estômago e a digestão são, para o soldado, um domínio familiar. É de lá que ele tira três quartas partes do seu vocabulário. E a expressão mais intensa de alegria ou de indignação mais profunda encontra aí o que pode possuir de mais vigoroso. é impossível empregar outras maneiras de falar tão breves e tão claras. As nossas famílias e os nossos professores ficarão bastante espantados quando voltarmos para casa. mas aqui é a linguagem universal.

 

Estas coisas, para nós, retomaram o carácter de inocência por se passarem obrigatoriamente em público. Ainda mais: elas são para nós de um modo tal que nos fazem apreciar o conforto da operação, tanto como. por exemplo, uma partida de cartas levada a bom termo num sítio onde não haja receio dos obuses. Não foi por acaso que. para designar os mexericos de todo o género, se inventou a expressão “informações das retretes”. Estes lugares são para os militares os sítios das palestras e o equivalente às mesas do café.

 

Neste momento sentimo-nos melhor que em qualquer retrete de brancas faianças luxuosas. Nestas não pode haver mais que higiene, mas aqui reina o bem-estar.

 

Estas horas são de uma admirável despreocupação. Por cima de nós, o céu azul. No horizonte estão suspensos balões cativos, de cor amarela, atravessados por raios luminosos, assim como as pequenas nuvens brancas dos shrapnells. às vezes, quando estes perseguem um aviador, alargam-se num grande feixe.

 

O ruído surdo da frente chega-nos como uma trovoada muito ao longe. O zumbido dos besouros que passam consegue dominar este barulho em redor de nós, estende-se o prado em flor. As pontas tenras das ervas balanceiam-se. Aproximam-se, voando, as borboletas brancas, que pairam no vento quente e suave de pleno Verão; e nós lemos cartas, jornais, fumamos, tiramos os barretes, que colocamos no chão, ao nosso lado. A brisa brinca-nos com os cabelos, brinca também com as nossas palavras e os nossos pensamentos.

 

As três caixas onde nos sentámos estão no meio de papoilas rubras e cintilantes.

 

Colocamos sobre os joelhos a tampa do barril da margarina. Temos assim uma boa mesa para jogar ao scat. Foi o Kropp quem trouxe as cartas. De vez em quando intercalamos uma partida de rama. Podíamos ficar eternamente assim.

 

Dos abarracamentos chegam-nos os sons de um acordeão. Por vezes pousamos as cartas e olhamos uns para os outros. Então um de nós diz: “Meus filhos, meus filhos...»”, ou: “Isto poderia tornar-se pior...” E ficamos um instante silenciosos. Há em nós um sentimento forte e reprimido de que cada um se apercebe, e para isso não é necessário falar muito. Poderia facilmente acontecer que nós não estivéssemos hoje sentados nas nossas caixas. Pouco faltou para isso. Eis o motivo por que tudo para nós é forte e novo: as papoilas rubras, a boa refeição, os cigarros e o vento e o Estio.

 

O Kropp pergunta:

 

- Algum de vocês voltou a ver o Kemmerich?

 

- Está em S. José - esclareço eu.

 

O Miiller informa que lhe atravessaram a parte superior da coxa, o que é um bom motivo para ir até à terra.

 

Decidimos ir vê-lo na parte da tarde. O Kropp tira uma carta da algibeira.

 

- Recomendações   da   parte   de   Kantorek.

 

Rimos. O Miiller deita o cigarro fora e declara:

 

- Gostaria que ele estivesse cá.

 

O Kantorek era o nosso professor. Um homenzinho severo, de cabeça de musaranho, vestido com uma casaca cinzenta de abas. Tinha pouco mais ou menos a estatura do cabo Himmelstoss. «o terror de Élosterberg. É cómico como os males do mundo. Vêm tão frequentemente de pessoas pequenas. São muito mais enérgicas e insuportáveis que as pessoas altas. Sempre procurei não fazer parte de destacamentos comandados por chefes de pequena estatura; são uns patifes a maior parte das vezes.

 

O Kantorek, durante as lições de ginástica, fez-nos discursos até toda a nossa classe ir em fila sob o seu comando, ao local de recrutamento para se alistar.

Estou a vê-lo diante de nim, com os seus óculos que expediam faíscas enquanto nos olhava e nos dizia em voz patética:

 

“Vocês vão todos, não é verdade, camaradas?” Esta espécie de educadores tem quase sempre o enternecimento pronto na algibeira do colete.   É verdade que o distribuem em qualquer altura sob a forma de lições. Mas ainda não pensávamos nisso.

 

Em todo o caso, um de entre nós hesitou e não queria marchar. Era o Joseph Behm, alegre e forte rapaz. Mas acabou por se deixar persuadir. É preciso acrescentar que não tinha outra alternativa. Talvez outros pensassem como ele. mas ninguém podia facilmente escusar-se, pois nesse tempo até o pai e a mãe atiravam à cara a palavra “cobarde”. Era porque então essas pessoas não faziam ideia alguma do que se ia passar. A falar verdade, as mais razoáveis eram as pessoas pobres e simples. Desde o princípio consideraram a guerra como uma maldição, ao passo que os bons burgueses não se tinham com a alegria, embora fossem eles, justamente, os que mais depressa sentiram as consequências.

 

O Catczinsky   pretende que a culpa é da instrução, que nos   torna   estúpidos,   e   o   Cat   nada   diz   sem   primeiro ter reflectido bem.

 

Coisa curiosa, o Behm foi um dos primeiros a tombar. Durante um ataque, apanhou um tiro nos olhos, e deixámo-lo como morto no terreno. Não o pudemos levar connosco por termos sido obrigados a recuar precipitadamente. À tarde, ouvimos, de repente, chamar e vimo-lo tentar rastejar, em frente das trincheiras. Estivera apenas desmaiado. Mas como já não via e os sofrimentos o tornavam louco, não procurou abrigar-se, de modo que foi morto antes de alguém se poder aproximar para o trazer.

 

Naturalmente não se pode tornar o Kantorek responsável pelo facto, pois de outro modo o que aconteceria ao mundo se se visse aí uma culpabilidade? Tem havido milhares de Kantoreks que estão convencidos de que agem da melhor maneira, cómoda para eles.

 

Mas é precisamente por isso que, aos nossos olhos, eles faliram.

 

Deveriam ter sido, para os nossos 18 anos, conciliadores e guias para nos conduzirem à maturidade, abrindo-nos o nundo do trabalho, do dever, da cultura e do progresso, preparando-nos o futuro. ÀS vezes troçávamos deles e fazíamos-lhes pequenas partidas, mas, no fundo, tínhamo-lhes fé. A noção de uma autoridade, de que eles eram os representantes, comportava aos nossos olhos uma perspicácia maior e um saber mais humano. Ora, o primeiro morto que vimos, aniquilou esta crença. Devemos reconhecer que a nossa idade era mais honesta que a deles. Venciam-nos pela frase e pelo conhecimento. O primeiro bombardeamento mostrou-nos o nosso engano e fez abrir a concepção das coisas que eles nos tinham metido na cabeça.

 

Escreviam, falavam ainda, e nós víamos ambulâncias e moribundos. Enquanto, para eles, servir o Estado era um valor supremo, nós já sabíamos que o medo da morte é o mais forte. Apesar disso, não nos tornámos sediciosos, nem desertores, nem cobardes (todas estas palavras lhes andavam sempre na boca); amávamos a nossa pátria tanto como eles e, nas ocasiões dos ataques, íamos corajosamente para a frente. Mas já sabíamos fazer distinções; começámos a ver tudo de uma só vez e notámos que, do seu universo, nada restava de pé. Depressa nos encontrámos terrivelmente sós. Era contando só connosco que nos havíamos de livrar de embaraços. Antes de nos metermos a caminho, para ir ver o Kemmerich, fizemos embrulhos com todas as suas coisas, pois poderiam ser-lhe úteis para a jornada.

 

Na ambulância, havia movimento, como sempre, cheirava lá a fenol, a podridão e a suor. Nos abarracamentos, está-se habituado a muitas coisas, mas aqui, apesar de tudo, há com que fazer desfalecer uma pessoa. Perguntamos em vários sítios onde está o Kemnerich. está deitado numa sala e recebe-nos com uma pálida expressão de alegria e de agitação impotente. Enquanto esteve sem sentidos, roubaram-lhe o relógio.

 

O Miiller abana a cabeça:

 

- Sempre te disse que não devemos trazer conosco um relógio tão bom.

 

O Miiller é um tanto bronco e intriguista.

 

Se o não fosse, calar-se-ia, pois vê-se bem que o Kemmerich já não sairá vivo desta sala. Pouco importa que ele venha a encontrar o relógio. Quando muito, poder-se-ia enviá-lo à família.

 

- Como vais, Franz? - perguntou o Kropp. O Kemmerich baixa a cabeça.

 

- Isto vai indo... Só o que tenho são estas malditas dores no pé.

 

Olhámos para a cama. A perna estava estendida sob um arco de arame, sobre o qual a coberta faz uma abóbada. Dou um pequeno pontapé na perna do Miiller para evitar que ele diga o que os enfermeiros nos informaram lá fora. isto é, que o Kemmerich não tem pé. Amputaram-lhe a perna. Tem uma aparência horrenda, ao mesmo tempo amarela e cor de cinza. Na cara, desenhavam-se estas linhas estranhas que nós já conhecemos bem, por as termos visto centenas de vezes. A dizer a verdade, não são linhas, são, antes, indícios. Por baixo da pele, a vida já não corre; foi relegada para os limites do corpo. A morte trabalha no interior do organismo e reina já nos olhos. Eis no que se tornou o nosso camarada Kemmerich, que ainda há pouco tempo assava conosco carne de cavalo e, ainda conosco, se enroscava na cratera. É ele ainda e, no entanto, já não é ele. A sua imagem está apagada e incerta, como uma chapa fotográfica com a qual tiraram duas fotografias. Mesmo a voz tem qualquer coisa de morte.

 

Penso na maneira como partimos para a frente. A mãe, uma boa mulher gorda, acompanhou-o à estação. Chorava sem cessar. A cara estava inchada e túrgida. O Kemmerich estava um pouco envergonhado por a mãe não ter compostura e se fundir, literalmente, em água e gordura. comtudo isto tinha-me atirado com as suas provisões e agarrava-me a cada instante no braço, suplicando-me que tomasse conta do Franz quando estivéssemos na frente. A verdade é que ele possuía um aspecto de criança e uns ossos tão delicados que, depois de carregar a mochila durante quatro semanas, já tinha os pés chatos. Mas, como se pode, na guerra, tomar conta de alguém?

 

- Agora deves ir para casa - diz o Kropp. - Terás ainda de esperar três ou quatro semanas, pelo menos, antes de vir a ordem.

 

O Kemmerich faz sinal que sim. Faz pena olhar-lhe para as mãos. Dir-se-iam de cera; por baixo das unhas, está incrustada a sujidade das trincheiras, que é de um preto azulado, como veneno. Cogito que estas unhas continuarão a crescer ainda como uma vegetação subterrânea e fantástica, apesar de Kemmerich já não respirar há muito tempo. Vejo diante de mim a cena, elas a torcerem-se como saca-rolhas e sempre a crescerem ao mesmo tempo que os cabelos, sobre o crânio que se decompõe, tal como a erva num solo fértil, exactamente como a erva. Como se pôde fazer isso? O Miiller inclina-se para a frente.

 

- Trouxemos-te as tuas coisas, Franz. O Kemmerich indica com a mão:

 

- Põe-nas debaixo da cama.

 

É o que Miiller faz. O Kemmerich torna a falar do relógio. Como conseguir tranquilizá-lo sem lhe inspirar desconfiança? O Muller reapareceu, trazendo na mão um par de botas de aviador. É magnífico calçado inglês, de coiro amarelo e flexível, que chega aos joelhos e é atado até ao alto: um artigo muito procurado. O Miiller, ao contemplá-las, fica embevecido.


Põe-nas ao lado das suas próprias botas, muito grosseiras, e pergunta:

 

- Queres então levar as suas botas, Franz?

 

Todos os três tivemos um único pensamento. Mesmo que ele se cure, não pode utilizar mais que uma; por consequência, não teriam valor para ele. E, de qualquer maneira, é pena que fiquem agora aqui, porque os enfermeiros se apossarão delas, naturalmente, quando ele morrer. O Miiller continua.

 

- Não as deixas aqui?

 

O Kemmerich não quer. É o melhor que ele faz.

 

- Mas nós podemos fazer uma troca - prossegue Miiller. - Aqui na frente isso pode servir.

 

O Kemmerich não quer ouvir falar mais nisso. Com o pé, toco no Miiller. Hesitando, torna a colocar as belas botas debaixo da cama.

 

Ainda falamos um pouco mais e depois dizemos adeus ao nosso camarada.

 

- Estimamos-te as melhoras, Franz.

 

Prometo voltar no dia seguinte. O Miiller diz que fará o mesmo. Pensa nas botas e quer vigiá-las.

 

O Kemmerich suspira. Tem febre. Cá fora agarramos um enfermeiro e pedimos-lhe que dê uma picadela no ferido.

 

Ele recusa:

 

- Se fôssemos a dar morfina a toda a gente, eram-nos precisas barricas.

 

- Tu só deves ser bom para os oficiais! -diz o Kropp com um tom raivoso.

 

Intervenho rapidamente e começo por dar um cigarro ao enfermeiro. Ele aceita-o e depois eu inquiro:

 

- Mas além disso, tens autorização para dar injecções? A minha pergunta ofende-o.

 

- Se não acredita, porque me pergunta? Meto-lhe na mão mais alguns cigarros.

 

- Faz-nos esse favor...

 

- Está bem, seja! -acede ele.

 

O Kropp segue-o por não ter confiança nele e quer ver o que o enfermeiro vai fazer. Nós esperamo-lo cá fora. O Miiller torna a falar nas botas.

 

- Iam-me admiravelmente, com estas barcaças ando sempre a criar bolhas nos pés. Acreditas que ele durará até amanhã, depois do serviço? Se morre de noite, adeus botas...

 

O Albert volta. Pergunta:

 

- Que pensam de?... quer ele saber.

 

- Está pronto - responde o Miiller, categoricamente. Retomamos o caminho dos abarracamentos. Penso na carta que terei de escrever amanhã à mãe de Kemmerich. Sinto frio; gostaria de beber um copo de álcool. O Miiller arranca punhados de erva e põe-se a mastigá-los. De súbito, o pequeno Kropp atira fora o cigarro, sapateia como um selvagem, olha para todos os lados com um ar espantado e decomposto e geme:

 

- Merda para tudo isto!

 

Continuamos a andar durante muito tempo. O Kropp acalmou-se. Conhecemos isso. É o que chamamos o acesso de raiva da frente que cada um tem por sua vez.

 

O Miiller pergunta-lhe:

 

- Que te escreveu o Kantorek? O outro ri ao dizer:

 

- Escreveu-me que nós éramos a mocidade de ferro. Os três rimos acremente. O Kropp desfaz-se em injúrias; está contente de poder falar...

 

Eis, então, o que eles pensam, o que eles julgam, esses cem mil Kantorek! “Mocidade de ferro”. Mocidade? Nenhum de nós tem mais de 20 anos. Mas quanto a ser novo! Quanto à mocidade! Tudo isso acabou há muito tempo. Somos já velhos.

 

Para mim, é uma coisa estranha pensar que, em casa, jazem numa gaveta uma data de poemas e o começo de um drama, Paul. Consagrei-lhes bastantes noites e quase todos nós, não é verdade?, fizemos o mesmo. Mas tudo isto se tornou para mim tão irreal que já não posso representá-los na memória.

 

Desde que estamos aqui, a nossa vida antiga ruiu, sem que tenhamos contribuído para tal. Temos tentado, mais de uma vez, procurar a razão e a explicação, mas não o temos conseguido de modo satisfatório. Precisamente para nós, que temos 20 anos, tudo está particularmente anuviado: para Kropp, Miiller e eu, para todos nós a quem Kantorek chama a mocidade de ferro. Os soldados mais velhos estão solidamente ligados ao passado. Possuem uma base, famílias, filhos, profissões e interesses já bastante fortes para que a guerra seja capaz de os destruir. Mas nós, com os nossos 20 anos, só temos os nossos pais e, alguns, uma amiguinha. Não é grande coisa. Na nossa idade, a autoridade dos pais está reduzida ao mínimo e as mulheres ainda não nos dominam. Fora disto não havia em nossas casas mais coisa alguma: um pouco de sonho extravagante, algumas fantasias e a escola. A nossa vida não ia mais além. E, de tudo isto, nada resta. O Kantorek diria que nós nos encontrávamos precisamente no limiar da existência. É assim, efectivamente. Não tínhamos ainda criado raízes. A guerra, como um rio, levou-nos na sua corrente. Para os outros, de mais idade, ela não passa de um intervalo. Podem pensar em qualquer coisa fora dela. Mas nós fomos apanhados por ela e ignoramos como isto acabará. O que sabemos simplesmente, neste momento, é que nos tornamos ruins, brutos, de uma forma estranha e dolorosa, ainda que muitas vezes não possamos já sentir a tristeza.

 

Se o Muller deseja as botas de Kemmerich, não deixa de sentir menos compaixão pelo camarada que outro qualquer a quem a dor interditasse semelhante pensamento. Apenas o que ele sabe é distinguir. Se as botas fossem úteis a Kemmerich, fosse para o que fosse, o Muller preferia andar descalço sobre arame farpado a pensar na forma como poderia havê-las. Mas as botas não têm que ver com a saúde de Kemmerich, ao passo que ele, Muller, pode empregá-las muito bem. O Kemmerich vai morrer, independentemente da herança das suas botas. Porque não há-de, pois, o Muller deitar-lhes o rabo do olho? Na verdade, tem mais direito que um enfermeiro. Com o Kemmerich morto, será tarde de mais. É justamente por isso que o Miiiller abre bem os olhos daqui em diante.

 

Perdemos o sentido de todas as outras relações por elas serem artificiais. Só as realidades contam e têm importância para nós. E botas boas são raras!

 

Isto não se deu num dia. Quando fomos ao recrutamento, não passávamos de um grupo de estudantes, constituído por vinte rapazes que, cheios de bravata, fomos ao corte de cabelo, todos juntos. (para mais de um, era a primeira vez), antes de penetrarmos no pátio da caserna. Não tínhamos projectos de futuro determinados; eram poucos os que já tinham, praticamente, ideias de carreira ou de profissão para poderem orientar uma existência. Ao contrário, estávamos embebidos em pensamentos incertos que, aos nossos olhos, conferiam à vida, e também à guerra, um carácter idealista quase romântico.

 

A nossa instrução militar durou dez semanas, e esse tempo foi o bastante para nos transformar de uma maneira mais radical que dez anos de escola. Soubemos que um botão bem reluzente é mais importante que quatro tomos de Schopenhauer. Ao princípio espantados, depois irritados e, por fim, indiferentes, reconhecemos que não é o espírito que deve preponderar, mas sim a escova do calçado, que não é o pensamento, mas o “sistema”, que não é a liberdade, mas a domesticação. Tornáramo-nos soldados com entusiasmo e boa vontade, mas fizeram tudo para nos desgostar. Ao cabo de três semanas, compreendíamos muito bem que um carteiro com divisas podia ter mais direitos sobre nós do que outrora os nossos pais, os nossos educadores e todos os génios da cultura, desde Platão até Goethe. Com os nossos olhos jovens e bem abertos, vimos que a noção clássica de pátria, tal como no-la haviam ensinado os nossos mestres, chegava aqui, na presente ocasião, a uma privação da personalidade que nunca teríamos ousado pedir aos mais humildes criados. Fazer a continência, pôr-se em sentido, marchar em passo de parada, apresentar armas, fazer meia volta à direita ou à esquerda, bater os tacões, receber injúrias e estar-se exposto a mil mortificações, decerto tínhamos visto a nossa missão por um prisma diferente e achávamos que nos preparavam para sermos heróis, da mesma maneira que se prepara um cavalo de circo. Mas depressa nos habituámos a tudo. Compreendemos, mesmo, que uma parte destas coisas era necessária... mas que uma outra era supérflua. O soldado tem faro para estas questões.

 

A nossa classe foi repartida em três e quatro pelas diferentes esquadras e encontrámo-nos compescadores, camponeses, trabalhadores e cabeleireiros, de quem nos tornámos rapidamente bons amigos. O Kropp, o Miiller, o Kemmerich e eu fomos parar à 9ª esquadra, que tinha por comandante Himmelstoss.

 

Passava pelo maior patife da caserna e orgulhava-se disso. Era um homem rechonchudo, que servira durante doze anos, com um bigode ruivo retorcido,carteiro na vida civil. Trazia-nos, particularmente, debaixo de olhos, ao Kropp, Tjaden, ”Westhus” e a mim, por sentir o nosso mudo desafio. Uma manhã, fui obrigado a fazer a sua cama catorze vezes. Encontrava sempre qualquer coisa em que reparar e desfazia-a. Durante vinte horas, (com pausas, naturalmente), engraxei um par de botas velhas, duras como pedra, e cheguei a pô-las tão macias que o próprio Himmelstoss não disse coisa alguma. Por ordem sua, esfreguei a camarata com uma escova de dentes. O Kropp e eu tínhamos começado a executar a tarefa, que consistia em varrer a neve do pátio da caserna com uma escova de mão e uma pá; teríamos continuado até ficarmos congelados, se por acaso um tenente não se tivesse aproximado, mandando-nos para dentro e tratando o Himmelstoss áspera e energicamente. Infelizmente, a consequência disso foi que o Himmelstoss se tornou mais enraivecido para conosco. Quatro semanas a seguir, estive de guarda todos os domingos e estive igualmente de faxina durante todo este tempo. Com a farda e o equipamento completo fiz, num terreno alqueivado, escorregadio e húmido, os seguintes exercícios: “Um salto à frente e rápido» e Deitar”», até não ser mais que um bloco de lama e cair de esgotamento. Quatro horas depois, apresentei ao Himmelstoss as minhas coisas impecavelmente limpas. É verdade que fiquei com as mãos em sangue à força de esfregar. como Kropp, Westhus e Tjaden fiquei em sentido durante um quarto de hora, sem luvas, com um frio horrível, tendo os dedos apoiados no cano da espingarda, enquanto o Himmelstoss batia os pés em volta de nós, espiando-nos e esperando o menor movimento que pudéssemos fazer para nos tomar em falta. às duas horas da noite, em camisa, desci oito vezes a seguir, a toda a velocidade, do andar superior da caserna até ao pátio, porque as minhas ceroulas excediam alguns centímetros a borda do banco sobre o qual cada um devia, regulamentarmente, estender a sua roupa. Ao meu lado corria o cabo do dia, Himmelstoss, marchando sobre os meus tacões. No exercício, à baioneta era sempre com o o Himmelstoss que eu tinha de me medir, tendo nas mãos um pesado instrumento de ferro, enquanto ele tinha uma arma de madeira, fácil de manejar, de modo que podia, comodamente, bater-me no braço e cobrir-me de nódoas negras. Para dizer a verdade, uma vez fui tomado de uma tal fúria, que me atirei a ele, às cegas, e lhe dei uma pancada tão forte no estômago que ele caiu para trás. Quando quis queixar-se, o comandante da companhia fez troça dele, dizendo-lhe que tomasse atenção. Conhecia bem o seu Himmelstoss e parecia contente por ele ter sido desfeiteado. Tornei-me um ás na arte de trepar ao pórtico e, pouco a pouco, cheguei também a não temer qualquer rival nos movimentos de flexão dos joelhos. Só a sua voz nos fazia tremer, mas este cavalo de carroça tornado selvagem não nos venceu.

 

Um domingo, no campo, o Kropp e eu arrastávamos através do pátio, com a ajuda de um pau, as selhas das latrinas; o Himmelstoss, de ponto, em branco e pronto a sair, veio a passar precisamente na ocasião. Parando diante de nós, perguntou-nos se o trabalho nos agradava, e, a despeito do que pudesse acontecer, demos um passo em falso e deitámo-lhe a porcaria por cima das pernas. Ele ficou enraivecido, mas a medida estava cheia.

 

- Isto é um conselho de guerra! - gritou ele. O Kropp, por de mais saturado, respondeu:

 

- Mas primeiro há-de instruir-se o processo, e então nós esvaziamos o saco.

 

- Como se atreve a dirigir a palavra a um cabo? - rugiu Himmelstoss. Estão doidos? Esperem até serem interrogados. Que querem fazer?

 

- Esvaziar o nosso saco sobre a conduta do Sr. Cabo - informou o Kropp, com os dedos ao longo da costura das calças.

 

Então o Himmelstoss compreendeu a situação e safou-se sem dizer nada. É verdade que no momento em que ia a desaparecer, ainda grunhiu: “Hei-de fazer-vos escumar.”

 

Mas isto provinha do seu autoritarismo. Ainda procurou uma vez, nos terrenos alqueivados, repetir estes exercícios: “Deitar” e “Um salto em frente e rápido”. A dizer a verdade, nós obedecemos a cada ordem, pois uma ordem é uma ordem, é preciso executá-la, mas nós executámo-las tão lentamente que o Himmelstoss estava desesperado. Avançávamos tranquilamente o joelho, depois o braço, e assim por diante. Durante este tempo, ele, furioso, já tinha dado uma outra ordem. Antes de transpirarmos, estava ele rouco.

 

Em seguida deixou-nos em paz. Não há dúvida de que nos chamava agora “porcos”, mas nisso havia respeito.

 

Uma grande quantidade de cabos mostravam-se mais razoáveis e completamente justos. Constituíam mesmo a maioria. Mas primeiro que tudo, cada um queria conservar, o mais tempo possível, o bom posto que tinha à retaguarda, e não o podia sem ser duro para os recrutas.

 

Na verdade, conhecemos tudo o que uma parada de regimento pode conter de finezas, e muitas vezes gritámos de raiva.

 

Mais de um de nós adoeceu e mesmo o Wolf morreu de uma pneumonia, mas ter-nos-íamos julgado ridículos se houvéssemos capitulado.

 

Tornámo-nos duros, desconfiados, impiedosos, vingativos, brutos, e isto foi uma boa coisa, porque nos faltavam, justamente, estas qualidades. Se nos tivessem enviado para as trincheiras sem este período de formação, a maior parte de nós teríamos dado em malucos. Mas desta maneira estávamos preparados para o que viesse.

 

Não ficámos quebrados, pelo contrário, adaptámo-nos. Os nossos 20 anos, que nos tornavam tão difíceis tantas outras coisas, serviram-nos para isto. Mas o mais importante foi um firme sentimento de solidariedade prática que despertou em nós, o qual, na frente, fez nascer em seguida o que a guerra produziu de melhor: a camaradagem.

 

Estou sentado junto da cama de Kemmerich, que se definha cada vez mais. Em volta de nós, há muita algazarra. Acaba de chegar um comboio sanitário e procuram nele os feridos capazes de serem transportados. O médico passa diante da cama de Kemmerich e nem sequer o olha.

 

- Será da próxima vez, Franz - consolo-o eu. Levanta-se nos cotovelos, por entre as almofadas.

 

- Amputaram-me - confessa.

 

Então já sabe. Faço um sinal com a cabeça e respondo:

 

- Considera-te feliz por teres escapado só com isso. Ele cala-se. Eu continuo:

 

- Podiam ter sido ambas as pernas, Franz. Wegeber perdeu o braço direito, o que é muito pior. E depois, hás-de voltar para casa.

 

Olha-me.

 

- Julgas isso?

 

- Naturalmente. Repete:

 

-Julgas isso?

 

- Decerto, Franz. Apenas é preciso que te cures da operação.

 

Faz-me sinal para me aproximar. Inclino-me sobre ele, que murmura:

 

- Não o creio.

 

- Não digas tolices, Franz. Em alguns dias tu próprio o verificarás. Que é uma perna a menos? Aqui consertam-se coisas muito mais graves.

 

Levanta a mão.

 

- Olha-me para estes dedos.

 

- Isso é o resultado da operação. Come bem e verás que te curas. Vocês aqui são bem alimentados?

 

Mostra-me um prato meio cheio. Quase me irrito.

 

- Franz, é preciso que comas; comer é o principal. E a comida é boa aqui.

 

Ele protesta com a mão. Ao fim de um instante, diz lentamente:

 

- Antigamente queria vir a ser guarda florestal.

 

- Mas podes sê-lo ainda - digo para o consolar. - Há agora magníficos aparelhos de prótese. Com eles nem sequer dás por te faltar uma perna. Afinam perfeitamente com os músculos. Com esses aparelhos que substituem a mão, pode-se mexer os dedos e trabalhar, escrever mesmo. E, além disso, há sempre novas invenções.

 

Ele fica um instante silencioso e depois diz:

 

- Podes levar as minhas botas para o Miiller.

 

Digo com a cabeça que sim e procuro interrogar-me sobre o que poderei dizer-lhe para o encorajar. Os lábios estão afastados e a boca tornou-se maior, com os dentes salientes, que se diriam feitos de giz, a carne desaparece, a testa arqueia-se mais visivelmente, os ossos das faces ressaltam. O esqueleto desenha-se. Os olhos já se afundam. Dentro de horas será o fim.

 

Não é o primeiro que vejo, mas crescemos juntos, o que é bem diferente. Copiei os meus exercícios pelos seus. Para a escola levava muitas vezes um fato castanho, com um cinto; as mangas estavam lustrosas de tanto esfregar. Além disso, era o único, entre todos, capaz de fazer na barra fixa o gigante. Os cabelos caíam-lhe, então, sobre a cara, como se fossem de seda. O Kantorek, por causa disto, orgulhava-se dele; mas não podia suportar os cigarros. Tinha uma pele muito branca. Havia nele qualquer coisa de feminino.

 

Olho para as minhas botas. São grandes e grosseiras e as calças alargam-se sobre elas. Quando nos levantamos, temos a aparência forte e corpulenta dentro destes vastos canos. Mas quando vamos tomar banho e nos despimos, as nossas pernas e as nossas espáduas tornam-se, de súbito, delgadas. Não somos já soldados, mas crianças, quase, e julgar-se-ia que não podemos aguentar a mochila. Quando estamos nus, é um momento estranho: somos civis e sentimo-nos quase como tais.

 

O Franz Kemmerich, no banho, tinha uma aparência pequena e frágil como uma criança, e eis que está aqui estendido; porquê? Devia trazer-se o mundo inteiro perante esta cama e dizer-lhe: “Aqui têm Franz Kemmerich, de dezanove anos e meio, que não quer morrer. Não o deixem morrer.”

 

Os pensamentos tornam-se confusos. Esta atmosfera de fenol e de gangrena suja os pulmões; é uma espécie de papa que sufoca.

 

Chega a escuridão. A figura de Kemmerich empalidece; ressalta do meio das almofadas e está tão pálida que lembra uma luz muito fraca. A boca mexe-se suavemente. Aproximo-me dele, que murmura:

 

- Se encontrarem o meu relógio, enviem-no para minha casa.

 

Não protesto. Agora é inútil. Já não há forma de o persuadir. A minha impotência oprime-me. Oh! Esta testa com as fontes metidas para dentro, esta boca que não é mais que uma dentadura, este nariz afilado! E a nutrida senhora que chora em casa e a quem devo escrever. Ah! Se ao menos essa carta já estivesse feita!

 

Passam dois enfermeiros comgarrafas e baldes. Um deles aproxima-se, deita sobre Kemmerich um olhar perscrutador e afasta-se. Vê-se que aguarda. Provavelmente precisa da cama.

 

Chego-me até ao Franz e falo-lhe como se fosse capaz de o salvar.

 

- Talvez te mandem para o lar dos convalescentes de Élosterberg, Franz, no meio das casinhas. Poderás, então, ver da tua janela o campo todo, até às duas árvores que estão no horizonte. Agora é a mais bela estação do ano, quando amadurecem as espigas. Pela tarde, ao sol, os campos parecem de nácar. E a alameda dos choupos ao longo de Éloslerbach, onde nós apanhávamos peixes! Poderás, então, arranjar um aquário e criar peixes, poderás sair sem teres precisão de pedir licença a pessoa alguma e poderás mesmo tocar piano, se quiseres.

 

Inclino-me sobre a cara que está mergulhada na sombra. Respira ainda, fracamente. A cara está molhada. Chora. Ah! Fi-la bonita com as minhas tolas palavras.

 

- Vamos lá, Franz!

 

Meto o braço em volta do seu ombro e aproximo a minha cara da sua.

 

- Queres dormir agora?

 

Não responde. As lágrimas correm ao longo das faces. Gostava de as enxugar, mas o meu lenço está muito sujo.

 

Passa-se uma hora. Estou sentado, tenso, e observo cada uma das suas expressões para ver se ele, por acaso, quer ainda dizer qualquer coisa. Mas não faz senão chorar, com a cabeça de lado. Não fala da mãe, nem dos irmãos e das irmãs; não diz coisa alguma. Tudo isto, sem dúvida, já está longe dele. Precisamente está só, com a sua curta existência de 19 anos, e chora por se separar dela.

 

É o falecimento mais comovente e mais doloroso que ainda vi, se bem que o do Tjaden fosse também muito triste, por ele, forte como um touro, berrar, reclamando a mãe e, com os olhos muito abertos, afastar o médico da cama, com uma baioneta, até ao momento em que caiu morto.

 

De repente, Kemmerich gemeu e começou com o estertor.

 

Dou um salto, saio do quarto titubeando e peço:

 

- Onde está o médico? Onde está o médico ? Quando vejo a bata branca, faço-a parar.

 

- Venha depressa, senão o Franz Kemmerich morre. Ele solta-se e pergunta ao enfermeiro, que se encontra junto:

 

- Que significa isto? O outro responde:

 

- Cama 26. O alto da coxa amputada. O médico observa rudemente:

 

- Como posso saber o que se passa? Cortei hoje cinco pernas.

 

- Diz ele ao enfermeiro:

 

- Vá lá ver.

 

E corre para a sala de operações.

 

Tremo de raiva ao acompanhar o enfermeiro. O homem olha-me e diz:

 

- Uma operação a seguir à outra desde as cinco horas da manhã, meu velho; digo-te que só hoje houve dezasseis mortes. O teu é o décimo sétimo. Pela certa, haverá bem vinte.

 

Sinto-me desfalecer, não tenho forças para ir mais longe. Não quero indignar-me, é inútil. Queria deixar-me cair e não tornar a levantar-me. Estamos defronte da cama de Kemmerich. Está morto, tendo a cara ainda molhada de lágrimas. Os olhos estão meio cerrados. Estão amarelos como velhos botões de osso...

 

O enfermeiro dá-me uma palmada nas costas. -- Levas as suas coisas? Faço um sinal afirmativo. Ele prossegue:

 

- É preciso que o levemos imediatamente. Temos necessidade da cama. Outros esperam lá fora, no corredor.

 

Agarro nas coisas e retiro a placa de identidade de Kemmerich. O enfermeiro pede o livrete militar. Não se encontra. Digo-lhe que deve estar na secretaria da companhia e vou-me. Por trás de mim estão já a tirar o Franz para um pano de tenda.

 

Cá fora a escuridão e o vento são para mim como uma redenção. Respiro tão fundo quanto me é possível e sinto o ar a roçar-me a cara commais doçura e calor do que nunca.   De   súbito   ponho-me   a   pensar nas   raparigas,   nosprados em flor, nas nuvens brancas. Os pés andam por si próprios dentro do calçado; vou mais depressa, corro. Passam soldados ao meu lado; o que eles dizem excita-me, sem mesmo o compreender. A terra está cheia de energias que se difundem em mim, ao passarem-me pelas plantas dos pés. A noite crepita de centelhas eléctricas; a linha de fogo ressoa surdamente como um concerto de tambores. Os meus memros movem-se com agilidade. Sinto que as minhas articulações estão cheias de força. Sopro e enxugo o suor. A noite vive. Eu também estou vivo. Sinto fome, uma fome muito mais intensa, como se não viesse do meu estômago.

 

O Miiller está diante do abarracamento. Espera-me. Dou-lhe as botas de Kemmerich. Entramos e ele experimenta-as. Ficam-lhe muito bem. Procura nas suas provisões e oferece-me um bom bocado de salpicão. Além disso, há chá com rum, bem quente.

 

Recebemos reforços. Enchem-se os vácuos e os sacos de palha nos abarracamentos são depressa ocupados. Em parte são praças velhas. Mas foram-nos dados também vinte e cinco rapazes, vindos dos depósitos de recrutas que há atrás da frente. Têm quase um ano menos que nós. O Kropp empurra-me e diz:

- Vês as crianças?

 

E Faço que sim. Empertigamo-nos, barbeanro-nos no pátio. Metemos as mãos nas algibeiras, examinamos os recrutas com desdém e consideramo-nos veteranos.

 

O Catczinsky junta-se a nós. Encaminha-nos através das cavalariças e vamos encontrar os recém-vindos, a quem estão a dar máscaras de gás e café. O Cat pergunta a um dos mais novos:

 

- Há muito tempo, sem dúvida, que vocês não têm nada de bom para mastigar, não é verdade? E O outro fez uma careta.

 

- De manhã pão de rutabagas, ao meio-dia, rutabagas, e à tarde, costeletas de rutabagas com salada de rutabagas. O Catczinsky assobia como entendedor.

 

- Pão de rutabagas?... Vocês tiveram sorte; já o fizeram com serradura de madeira! Mas os feijões brancos apetecem-te? Queres uma porção deles? O rapaz enrubesceu.

 

- É inútil fazer-me crescer água na boca.

 

O Catczinsky contentou-se em ordenar:

 

- Agarra na tua marmita.

 

Seguimo-lo com curiosidade. Conduz-nos a uma barrica, perto da sua enxerga. Efectivamente, ela está até metade com feijões e carne de vaca. O Catczinsky postou-se em frente da barrica, como um general, e diz:

 

- Abrir os olhos e estender os dedos, é o lema dos prussianos.

 

Nós estávamos espantados. Pergunto-lhe:

 

- Pelas minhas tripas, Cat, que fizeste tu para conseguir isso?

 

- O “tomate” ficou contente por se ver livre disto e dei-lhe em troca a seda de três pára-quedas. Sim. sim, os feijões brancos comidos frios são excelentes.

 

Dá, generosamente, uma pequena porção e avisa:

 

- Da próxima vez que te apresentes aqui com a tua marmita, tens de ter na mão esquerda um charuto ou uma pastilha elástica. Compreendes?

 

Depois voltou-se para nós:

 

- Para vocês haverá sem isso, é claro.

 

O Catczinsky é um homem precioso por ser dotado de um sexto sentido. Há destas pessoas por toda a parte aqui, mas à primeira vista ninguém as nota. Há uma ou duas em cada companhia, O Catczinsky é o mais afortunado que conheço. A sua profissão, creio eu, é sapateiro, mas isso pouco importa, pois que conhece todos os ofícios. É bom ser seu amigo. O Kropp e eu somo-lo, e o Haie Westhus também, numa certa medida. A dizer a verdade, este é mais um órgão executivo, pois trabalha à ordem de Cat quando é preciso músculo para realizar uma empresa. Em recompensa disto são-lhe concedidos favores.

 

Por exemplo, chegamos de noite a um sítio completamente desconhecido, um miserável buraco, onde nos apercebemos de que foi tudo levado, restando apenas as paredes. A pousada que acaba de nos ser distribuída é uma pequena fábrica escura. Há camas, ou, melhor, simples ripas de madeira onde estenderam arame.

 

O arame é duro. Não tínhamos coisa alguma para pôr em cima, pois do cobertor precisamos para nos cobrirmos. O pano de tenda é delgado de mais.

 

O Cat contempla a situação e diz ao Haie Westhus:

 

- Segue-me.

 

Vão dar uma volta pela localidade, completamente desconhecida deles. Voltam meia hora depois com os braços cheios de palha. O Cat encontrou uma cavalariça e, também, palha. Podíamos agora dormir no quente se não tivéssemos uma fome dos diabos.

 

O Kropp inquire um artilheiro que está há muito tempo neste sítio:

 

- Há por aqui alguma cantina? O outro responde:

 

- Falas bem. Aqui não há coisa alguma. Nem mesmo uma côdea de pão.

 

- Já não há habitantes? O outro cospe.

 

- Sim. Há alguns, mas esses mesmos andam à roda,)os caldeiros como mendigos.

 

Fora uma situação sem graça alguma, íamos ser obrigados a apertar mais um pouco o cinto e esperar que a pitança chegasse no dia seguinte.

 

Vejo, entretanto, o Cat por o barrete e pergunto-lhe:

 

- Onde vais, Cat?

- Examinar um pouco a situação.

 

E foi-se com uns ares indolentes. O artilheiro chicoteia:

- Podes examinar. Mas não venhas muito carregado.

 

Desiludidos, estendemo-nos e perguntámos se não iríamos encetar os víveres de reserva, mas isto era muito arriscado. Por isso procurámos dormir um bocado.

 

O Kropj) parte um cigarro e dá-me metade. O Tjaden fala do seu prato nacional, feijões grandes, comtoucinho. é preciso deitar-lhe verdura. mas, principalmente, é necessário que tudo coza juntamente, e não (Deus nos livre!) As batatas, os feijões e o toucinho separadamente. Alguém grunhe que, se o Tjaden não se cala imediatamente, vai ele reduzi-lo a verdura para adubar os seus feijões. Com isto faz-se silêncio no vasto dormitório improvisado. Só algumas velas vacilam nos gargalos das garrafas, e, de vez em quando, o artilheiro cospe.

 

Estamos já meio a dormir, quando a porta se abre e o Cat aparece. Julgo sonhar: traz dois pães debaixo do braço e na mão um saco de terra, manchado de sangue, contendo carne de cavalo.

 

De puro espanto, o cachimbo cai da boca do artilheiro. É pão.

 

Isto é verdade! É pão e ainda está quente!

 

O Cat não perde tempo com palavras. Há pão. O resto pouco importa. Estou convencido de que, se o pusessem no meio do deserto, ele encontraria, ao fim de uma hora, com que arranjar o jantar composto de carne assada, tâmaras e vinho. Num tom breve, diz para o Haie:

 

- Parte lenha.

 

Depois tira do interior do fato uma assadeira e da algibeira um punhado de sal e uma rodela de gordura. Pensou em tudo. O Haie acende o lume mesmo no chão, o qual crepita através da nudez da fábrica. A força de pulso, descemos das camas.

 

O artilheiro hesita; pergunta lá para consigo se deve apresentar felicitações. Talvez haja qualquer coisa para ele. Mas o Catczinsky não lhe presta atenção alguma, considerando-o como inexistente. O artilheiro sai a rosnar injúrias.

 

O Cat conhece a maneira de assar a carne de cavalo, de modo a ficar tenra. Não se deve meter imediatamente na assadeira, pois assim endureceria. é preciso, primeiro que tudo, aquecê-la num pouco de água. Acocoramo-nos todos em redor, com as nossas facas, e atulhamos o estômago.

 

Eis como é o Cat. Se num lugar qualquer não houvesse de comer, senão a uma determinada hora durante um ano, o Cat. precisamente a essa hora, como tomado de uma inspiração, poria o seu barrete, sairia e iria direito ao sitio e Descobre tudo. Quando faz frio são os pequenos fogões e lenha, feno e palha, mesas e cadeiras, mas principalmente com que soprar. Isto é um enigma. Dir-se-ia que as coisas lhe caem, magicamente, do céu. O seu feito principal foram quatro latas de lagosta. Para dizer a verdade, teríamos preferido banha.

 

Estamos espojados diante dos abarracamentos, do lado do sol. Cheira a alcatrão, a Estio e a suor dos pés.

 

O Cat está sentado a meu lado, pois gosta de falar. esta tarde fizemos, durante uma hora, exercícios de continência, por o Tjaden ter feito com indolência a continência ao comandante. O Cat só pensa nisto. Diz ele:

 

- Tu verás, havemos de perder a guerra por não sabermos fazer bem a continência.

 

O Kropp avança descalço, com as calças dobradas. Põe a secar na erva as peúgas que acaba de lavar. O Cat olha para o céu, larga um enérgico traque e diz, num tom sentencioso:

 

- Todo o feijão, mesmo pequeno, origina um pouco de música.

 

O Kropp e o Cat começam a discutir. Ao mesmo tempo, apostam uma garrafa de cerveja sobre um combate de aviões que se trava por cima de nós.

 

O Cat não larga uma opinião que, na sua qualidade de antigo combatente, não expresse, menos mal, sob a forma de rimas: “Se se tivesse a mesma comida e o mesmo salário, Há muito já teria acabado a guerra.»

 

O Kropp é um pensador. Propõe que uma declaração de guerra seja uma espécie de festa popular combilhetes de convite e música, como nas corridas de touros. Depois, na arena, os ministros e os generais dos dois países, em fatos de banho e armados de cacetes, deveriam atirar-se uns contra os outros. O país daquele que ficasse por último, de pé, seria o vencedor. Seria um sistema mais simples e melhor que aquele em que lutam entre si os não verdadeiramente interessados.

 

A proposta fez sucesso, depois a conversa deriva sobre o ensinamento do soldado na caserna.

 

Uma imagem passa no meu cérebro. O sol do meio-dia oprime o pátio da caserna, um calor ardente reina no espaço silencioso. Os edifícios têm um ar morto. Tudo dorme. Apenas se ouvem os tambores a fazer exercícios. estão aí em qualquer parte e exercitam-se sem convicção, monótona e estupidamente. Mas que perfeita harmonia: o calor do meio-dia, o pátio da caserna e o exercício dos tambores!

 

As janelas da caserna estão vazias e escuras. De algumas pendem calças de cotim, postas a secar. Olha-se para o interior, com inveja. As camaratas estão frescas.

 

Oh! Camaratas escuras, cheirando a bolor, com as vossas camas de ferro, as vossas cobertas aos quadrados, os vossos armários regulamentares e os vossos bancos colocados diante

delas! Mesmo vocês podem constituir o objecto dos nossos desejos. Vistas daqui, vocês são para nós um reflexo lendário da pátria, com vossos odores de alimentos rançosos de suor, de tabaco e de fatos!

 

O Catczinsky descreve estas camaratas com cores admiráveis e grande animação. O que daríamos nós para aí voltar? Mesmo as nossas aspirações não ousam ir mais além. Oh! As horas de instrução militar ao dealbar! “De que se compõe a espingarda modelo”? Oh! As horas de ginástica à tarde! “Os que tocam piano saíam da norma: meia volta à direita! Ao se apresentarem na cozinha para descascar batatas”...

 

As nossas recordações não têm fim. De repente, o Kropp diz: “vá, irmãos, mudem de comboio.

 

Era o divertimento preferido do nosso cabo. Era uma gare de bifurcação, Para que os nossos licenciados não se enganassem, o Hiinmelstoss fazia, na camarata, conosco, o exercício que consistia na mudança de comboio. Era preciso sabermos que em Lóhne se apanhava o outro comboio por uma passagem subterrânea. Esta passagem era representada pelas nossas camas e toda a gente alinhava à sua esquerda. vinha depois a ordem: “É Lóhne. Mudem de comboio.” E com a rapidez do raio, todos nós deslizávamos por baixo das camas para aparecermos do outro lado. Fizemos este exercício horas inteiras.

 

Entretanto, o avião alemão fora mortalmente atingido. (Como um cometa, desce rapidamente com uma cauda de fumo. O Kropp, desta vez, perdeu uma garrafa de cerveja e, com um ar aborrecido, conta o dinheiro.)

 

- O Himmelstoss, como carteiro, é decerto um homem simples, - aventuro eu, logo que a decepção de Albert se acalmou.

 

- Como pode ser que ele, como cabo, seja tão sendeiro!...

 

Esta pergunta dá uma inteira animação ao Kropp:

 

- Não é só com o Himmelstoss, mas com muitos outros se dá o mesmo. Desde que têm divisas ou um sabre, ei-los, completamente transformados, como se tivessem engolido cimento armado.

 

- É o uniforme que os faz assim, - opino eu, a título de hipótese.

 

- É um pouco mais ou menos isso, - diz o Cat, enquanto se prepara para um grande discurso.

 

Mas a razão está mais longe. quando ensinas um cão a comer batatas e depois lhe apresentas um bocado de carne, não tenhas dúvida de que ele se deitará a esta, porque lhe está na natureza. Se dás a um homem um pouco de autoridade, é a mesma coisa: precipita-se logo. Isto está nele, pois o homem, na origem, não passa de um reles animal sem decência, como a manteiga nas torradas. Ora, a vida militar consiste em haver um com autoridade sobre os outros. O mal é que cada um tem autoridade de mais. Nem um cabo pode atormentar um simples soldado até dar com ele em maluco, como um tenente ao cabo e um capitão ao tenente. Como cada um conhece a sua autoridade, vá de abusar. Toma a coisa mais simples, vimos de um exercício e estamos mortos de fadiga. mas mandam-nos cantar. Por causa disso o canto é muito pouco animado, pois cada um se contenta em ter forças para só executar a sua parte. E então a companhia dá meia volta e, como castigo, tem de executar uma hora de exercício suplementar. é renovada a ordem de cantar, e canta-se o melhor possível. A quem se deve isto? O comandante da companhia levou isso avante porque tinha autoridade. Ninguém o criticará. Pelo contrário, passará por enérgico. Além disso, não passou duma ninharia. Há processos muito mais categóricos para vos fazerem deitar espuma pela boca. Agora pergunto-vos: um civil será o melhor? Mas qual é a profissão onde se permitem semelhantes coisas, sem que ele lhe parta a cara? Isto só é possível na vida militar. Já vêem como é: esta autoridade sobe à cabeça das pessoas. E, tanto mais que, na vida civil, eles têm menos que dizer.

 

É preciso disciplina, como para aí dizem, declara Kropp, negligentemente.

 

- razões para isso, resmunga o Cat, encontram-se senpre. Talvez seja também necessária, mas não é preciso castigar uma pessoa. Fala disso a um serralheiro, a um criado de herdade, a qualquer trabalhador: fala dessa coisa a um pobre barata e é o que nós somos aqui, na maior parte. Ele vê, a espécie de tormentos e ele deverá ir para a linha de fogo e sabe exactamente o que é necessário e o que não é. Digo-vo-lo, o simples soldado aqui, na frente, aguenta-se bem. e isso é qualquer coisa!

 

Toda a gente reconhece isso: cada um sabe que é somente na trincheira que cessa a instrução militar, mas que a retoma logo a alguns quilómetros da frente e sob a forma mais estúpida, com exercícios de continência e marcha de parada, porque é uma lei inelutável: é preciso que o soldado esteja sempre ocupado.

 

Neste momento aparece o Tjaden, Com rosetas encarnadas na cara. Está tão comovido que balbucia, radiante. soletra literalmente estas palavras:

 

- O Himmelstoss vem a caminho da frente. Está a chegar.

 

O Tjaden tem um rancor de morte ao Himmelstoss, por este, na caserna, o ter educado à sua maneira. O Tjaden urina na cama, quando dorme, de noite; isto acontece-lhe muito naturalmente. O Himmelstoss afirmava energicamente que não passava de preguiça e encontrou um meio, digno dele, para curar o Tjaden.

 

Descobriu no abarracamento vizinho, um outro que urinava na cama, chamado Éindervater. Fê-lo dormir na mesma camarata   do Tjaden.   Nos   nossos   abarracamentos   havia   o dispositivo habitual: duas camas colocadas uma por cima da outra e a parte inferior da cama era constituída por uma rede de arame. O Himmelstoss colocou os nossos homens de maneira tal que um ocupava a cama de cima e o outro a cama de baixo. Naturalmente, o que estava em baixo tinha de sofrer esta situação abominável. No dia seguinte, mudavam de posição, para compensar. O homem de baixo ficava com a cama de cima, para tirar a desforra. Era o método de auto-educação inventado pelo Himmelstoss.

 

O processo era odioso, mas a ideia não deixava de ter algum valor. Infelizmente não serviu de coisa alguma, por a hipótese do Himmelstoss ser falsa. Não se tratava de preguiça, nem num nem noutro. Toda a gente o podia notar só de ver a sua tez pálida. O resultado final foi que um dos dois passou a dormir sempre no chão, onde poderia, fàcilnente, ter apanhado um resfriamento.

 

Entretanto o Haie veio também sentar-se ao nosso lado.Piscou-me o olho e pôs-se a esfregar gravemente as mãos enormes. É que tínhamos passado juntos o dia melhor da nossa vida militar. Foi uma tarde antes de partirmos para frente. Tinham-nos posto num regimento de formação recente, mas antes, mandaram-nos à nossa unidade para nos vestir. Não ao depósito de recrutas, mas a uma outra caserna. No dia seguinte, de manhã, devíamos partir. A tarde, tratámos de fazer que pudéssemos ajustar as nossas contas com Himmelstoss. Havia semanas que o tínhamos jurado. haie havia, mesmo, formado o projecto de entrar, logo que viesse a paz, para os correios, a fim de ser superior ao Himmelstoss. tornado outra vez carteiro, Sonhava com todas as maneiras de lhe pagar na mesma moeda. Era precisamente por isso que o Himmelstoss não nos podia suportar. Contávamos sempre apanhá-lo ao voltar da esquina... ou. o mais tardar, no fim da guerra. Na expectativa queríamos desancá-lo seriamente. Que nos poderia acontecer se ele não nos reconhecesse e, além disso, partindo na manhã Do dia seguinte?

 

Sabíamos a que taberna ele ia todas as tardes. Para voltar para a caserna, era obrigado a passar por uma rua escura e deserta. Foi aí que nós o espiámos, por trás de um monte de pedras. Trouxera um lençol comigo. Tremíamos ao pensar que não viesse só. Por fim ouvimos os seus passos, de nós bem conhecidos. Muitas vezes os tínhamos ouvido de manhã, quando a porta se abria bruscamente e o Himmelstoss berrava: “A pé”.

 

- Vem só? - murmurou o Kropp. Sim. só.

 

Rastejei, furtivamente, como Tjaden, em volta do monte de pedra. Já víamos brilhar a fivela do seu cinturão. O Himmelstoss parecia um tanto alegre. Cantava. Passou diante de nós sem desconfiar de coisa alguma. Agarrámos no lençol, demos, ligeiros, um salto para a frente e, por trás, lançámo-lo sobre a cabeça do Himmelstoss. Depois apertámo-lo em volta dos braços, de maneira a ficar metido num saco ranço, sem poder mover as mãos. O canto parou.

 

Um momento depois, o Haie veio se colocar ao nosso lado. Alargando os braços, afastou-nos a todos, para ser o primeiro. Numa alegria intensa, pôs-se em posição, levantou o braço, como um mastro de sinais, dispôs depois a mão como uma pá de carvão e mandou ao saco branco um soco de abater um boi.

 

O Himmelstoss desequilibrou-se e foi cair a 5 metros donde estava, pondo-se a berrar. Mas nós tínhamos pensado nisso. Havíamos trazido um travesseiro connosco. O Haie agachou-se, pôs o travesseiro sobre os joelhos, agarrou o Himmelstoss pela cabeça e comprimiu-a contra o travesseiro. Os berros de Himmelstoss passaram a ser feitos em surdina. De tempos a tempos o Haie deixava-o respirar e, então, os sons roucos davam lugar a um grito magnífico, muito claro, o qual,por sua vez, ia morrer no travesseiro.

 

O Tjaden desabotoou os suspensórios do Himmelstoss e baixou-lhe as calças. Ao mesmo tempo meteu, solidamente, entre os seus dentes, umas disciplinas. Levantou-se em seguida e começou a festa!

 

era um quadro maravilhoso. O Himmelstoss estendido por terra, inclinado sobre ele, tendo a cabeça nos joelhos; o Haie, com uma cara diabólicamente satisfeita e a boca aberta de prazer. Depois as cuecas listadas, com as pernas em X, executando a cada pancada os movimentos mais originais no interior das calças, puxadas para baixo: e, por cima disto, o Tjaden infatigável, que batia como um lenhador. Fomos, finalmente, obrigados a puxá-lo para trás, para tomarmos, também, parte na festa.

 

Por fim, o Haie pôs o Himmelstoss de pé e, como conclusão, deu uma representação particular. Tinha o aspecto de querer apanhar as estrelas, de tal modo a mão direita estava estendida para cima, preparando uma bofetada de respeito. O Himmelstoss foi-se abaixo. O Haie levantou-o, pôs-se em posição e com a mão esquerda, mandou-lhe um segundo sopapo de primeira ordem. O Himmelstoss correu e fugiu com quanta pressa pôde. O seu posterior, listado, de carteiro, brilhava à luz da Lua.

 

Nós desaparecemos a galope.

 

O Haie voltou-se ainda uma vez e disse, num tom violento, satisfeito e um pouco enigmático: “A vingança é o prazer dos deuses...”

 

A bem dizer, o Himmelstoss devia estar contente, porque a sua teoria de que uns deviam educar os outros, deu frutos que ele próprio apreciara. Tornáramo-nos admiráveis discípulos dos seus métodos.

 

Nunca soube a quem devia a cena. Mas ganhou com isso um lençol, pois quando, algumas horas mais tarde, fomos por ele, já não o encontrámos.

 

A proeza dessa noite foi a causa de termos partido na manhã seguinte, com uma certa confiança. Por isso o velhote qualificou-nos, muito comovido, de “juventude heróica”.

 

Menos tensas, as coisas estão diferentes. Sentimos que em nosso sangue se fez un contacto eléctrico. Deram-nos ordem para irmos para a frente, executar trabalhos nas trincheiras. Logo que a escuridão cai,os camiões começam a andar. Saltamos-lhes para cima. A noite está quente e o crepúsculo parece-nos uma cortina, ao abrigo da qual nos sentimos à vontade. Isto dá uma intimidade a nós todos; mesmo o avaro Tjaden oferece-me um cigarro e lume.

Vamos de pé, ao lado uns dos outros, estreitamente comprimidos. Ninguém se pode sentar. É verdade que não estamos habituados a essa comodidade. O Muller, enfim, ao menos por uma vez, está de bom humor; traz as suas botas novas. Os motores roncam e os camiões deslizam com estrondo. As estradas estão velhas e cheias de buracos. Não é permitido fazer lume e somos sacudidos, quase a saltarmos para fora do veículo. Isto não nos inquieta. Que nos podia acontecer? Vale mais um braço partido do que uma bala na barriga, e mais de um de nós, deseja mesmo, uma boa ocasião para ir dar uma volta até casa.

A nosso lado passam, em larga fila, as colunas de munições. Estão apressadas e ultrapassam-nos continuamente. Lançamos-lhes gracejos, a que os outros respondem. Vê-se uma parede; faz parte de uma casa situada fora da estrada. De súbito, ponho-me à escuta. Não é uma ilusão? Eis que de novo ouço, distintamente, o grasnar de uma pata. Os meus olhos dirigem-se para o Catczinsky e, imediatamente, um olhar dele para mim. Compreendemo-nos.

 

- Cat, ouço ali um aspirante á nossa panela.

 

Fez sinal afirmativo e replica:

 

- Compreendido. À volta.

Conheço os sítios. Naturalmente, o Cat conhece os sítios. Com certeza, ele conhece o mais pequeno bico de pato que há em vinte quilómetros em redor.

 

O comboio atinge as posições de artilharia. Os sítios das peças estão camuflados com ramos de árvores para escaparem à vista dos aviadores. Isto lembra uma espécie de festa militar dos Tabernáculos; estes arremedos de caramanchões teriam um ar divertido e pacífico se os seus habitantes não fossem canhões.

O ar está pesado pelo fumo das peças e pelo nevoeiro. Sente-se na língua o vapor da pólvora. Os disparos dos obuses troam de modo a fazerem-nos tremer o nosso camião. Ouve-se o eco a rolar com estrondo. Tudo vacila. As nossas caras mudam, insensivelmente de expressão. Não vamos, é verdade, ás trincheiras de primeira linha,, mas simplesmente fazer trabalhos de trincheira. No entanto, podia ler-se em cada rosto: “eis a frente, estamos na sua zona.”

 

Todavia, não era medo. Quando se tem ido para a primeira linha, e tão frequentemente como nós, está-se insensível. Só os jovens recrutas estão impressionados. O Cat presta-lhes esclarecimentos: ”era um 305. “ Reconhece-se pelo disparo. Vão ouvi-lo imediatamente cair.” Mas o ruído surdo das quedas não penetra até aqui.; perde-se na confusão dos rumores da frente. O Cat estende o ouvido e comenta: “Esta noite há molho”. Todos escutamos. A frente está agitada. O Kropp diz: “ Os Tommies estão já a atirar”. Ouve-se distintamente o canhoeio. São as baterias inglesas à direita do nosso sector. Troam uma hora mais cedo que o costume. As nossas, nunca começam senão às 10 horas exactas.

 

- Que bicho lhes mordeu? - grita o Muller. Os relógios deles estão sem dúvida adiantados. - digo-mos que vai haver molho. Sinto-o nos meus ossos, declara o Cat, encolhendo a cabeça nos ombros.

 

A nosso lado, gemem três obuses que partem. O raio de fogo risca obliquamente o nevoeiro. Os canhões rugem e roncam; Nós estremecemos e sentimo-nos contentes pois, ao dealbar, estarmos já de volta aos nossos abarracamentos. As nossas caras não estão mais pálidas, nem mais vermelhas, do que o costume. Não estão mais tensas, nem menos tensas, e, todavia, estão diferentes.

Sentimos que, no nosso sangue, se faz um contacto eléctrico. Não é uma simples maneira de falar. É   uma realidade. É a frente, a consciência de se estar na frente, que faz esse contacto. No momento em que assobiam os primeiros obuses, em que o ar é rasgado pelos tiros, insinua-se, de súbito, nas nossas artérias, nas nossas mãos. nos nossos olhos, uma expectativa contida, uma maneira de estar alerta, uma acuidade mais forte do ser. uma subtileza singular dos sentidos. O corpo está, de repente, pronto a tudo.

 

Parece muitas vezes que é o ar sacudido e vibrante que actua sobre nós, com asas silenciosas. Parece-me ainda que é a própria frente, da qual parte um fluido eléctrico, “i que mobiliza em mim fibras nervosas desconhecidas.”

 

Das outras vezes, é a mesma coisa Quando partimos Como soldados vulgares, sensaborões e de bom humor. Vêm depois as primeiras posições de artilharia e, então, cada palavra que dizemos tem um som diferente...

 

Quando o Cat está diante dos nossos abarracamentos de repouso e diz: “vai haver molho”, é a sua opinião e não passa daí. Mas, quando é aqui que ele diz isso, a frase toma a dureza de uma baioneta à luz da Lua. Atravessa vivamente todos os nossos pensamentos. Sentimo-la mais próxima e evoca, neste inconsciente que desperta em nós, uma significação obscura: “Vai haver molho.” Será talvez a parte mais íntima e mais secreta da nossa vida que se encrespa para a defesa?

 

Para mim a frente é um turbilhão sinistro. Quando se está ainda longe do centro, em águas calmas, sente-se já a força aspirante que nos arrasta lentamente, inevitavelmente, sem que se lhe possa opor muita resistência. Mas as forças defensivas vêm-nos da terra e do ar. principalmente da terra. Para ninguém tem a terra tanta importância como para o soldado. Quando se cerra contra ela, longamente, com violência, quando se mergulha nela, profundamente, a cara e os membros, nos pavores mortais do fogo, ela é então a sua única amiga, a sua irmã, a sua mãe. O seu medo e os seus gritos gemem no seu silêncio e no seu asilo: “Ela acolhe-o de novo, deixa-o partir para dez outros segundos de caminho e de vida e depois retoma-o... e muitas vezes para sempre.

 

Terra! Terra! Terra!

 

Terra, com as tuas cóleras de terreno, os teus buracos e as tuas profunduras onde nos podemos achatar e acocorar. Na terra, nas convulsões do horror, quando a destruição se solta, e nos uivos de morte das explosões, és tu que nos dás a possante contracorrente da vida salva. A comoção espavorida da nossa existência esfarrapada encontra um refluxo vital que passou de ti para as nossas mãos, de modo que, se escaparmos à morte, esquadrinhamos as tuas entranhas e, na muda e angustiosa felicidade de ter escapado a este minuto, mordemos-te sofregamente...

 

É uma parte do nosso ser que, ao ribombar dos obuses, viu-se bruscamente conduzida a milhares de anos atrás. é o instinto do animal que acorda em nós, que nos guia e nos protege. Não é consciente, é muito mais rápido, muito mais seguro e infalível que a consciência desperta: não se pode explicar este fenómeno. Eis que marchamos sem pensar em coisa alguma e, de repente, encontramo-nos deitados numa abertura do terreno, vendo dispersarem-se, por cima de nós, estilhaços de obus. Mas, sem nos lembrarmos de ter ouvido nem obus, nem sonhado em deitarmo-nos por terra. Se tivéssemos esperado para agir, não seríamos agora mais que um pouco de carne espalhada a esmo. é este outro elemento, esse faro perspicaz que nos projectou em terra e nos salvou, sem que saibamos como. Se assim não fosse, há já muito tempo, da Flandres aos Vosges, não haveria um só homem.

 

Quando partimos, não passamos de soldados vulgares. insulsos ou com boa disposição; mas, quando chegamos à zona onde começa a frente, tornamo-nos animais.

 

O mísero bosque nos acolhe. Passamos ao lado dos caldeiros de fornada. Descemos por trás do bosque. Os camiões voltam. Amanhã, antes de alvorecer, virão buscar-nos.

 

O nevoeiro e o fumo dos canhões cobrem a planície até à altura do nosso peito. A Lua brilha lá em cima.

Na estrada passam tropas; os capacetes de aço luzem ao clarão da lua como reflexos baços.

As cabeças e as espingardas sobressaem na altura do nevoeiro; as cabeças balanceando-se e os canos das espingardas vacilando.

 

Além, pouco mais longe, já não há nevoeiro. Aqui as cabeças prolongam-se em silhuetas completas: os dólmanis, as calças e as botas saem do nevoeiro como de um tanque de leite. Formam-se em coluna. A coluna marcha a direito. As silhuetas confundem-se e a sua massa constitui uma espécie de recanto. Já se não reconhecem os indivíduos; não passa tudo de um recanto sombrio, andando lentamente em frente, completado bizarramente pelas cabeças e pelas espingardas, que parecem sair nadando, do tanque de nevoeiro. Uma coluna, mas não homens.

 

Por um caminho transversal, passam canhões ligeiros e carros de munições. Os dorsos dos cavalos brilham à Lua. os seus movimentos são belos. Levam a cabeça erguida. Vêem-se-lhes os olhos chamejarem. Os canhões e os cascos a deslizar no plano de fundo esfumado da paisagem lunar; os cavaleiros com os capacetes de aço têm o ar de cavaleiros do tempo passado. É, de certa maneira, belo e comovente.

 

Chegamos ao parque de engenharia. Uns, carregam sobre os ombros estacas de ferro pontiagudas e curvas. Os outros passam hastes de ferro através de rolos de arame farpado. Estes fardos são incómodos e pesados.

 

O terreno está agora todo cheio de lacerações. Da frente da coluna, chegam-nos avisos: “Atenção! À esquerda, um profundo buraco de obus!”...

 

Os nossos olhos fazem todos os esforços para verem bem: os nossos pés e as nossas mãos tacteiam o terreno antes de receberem o peso do corpo. De súbito, a coluna pára. Vamos bater com a cara no rolo de arame do homem que está diante de nós e soltamos imprecações.

 

Alguns camiões, demolidos pelos obuses, barram-nos o caminho. Agora vem uma nova ordem: “Apaguem os cigarros e os cachimbos”. Estamos muito perto das trincheiras.

 

Com estas andanças, chegou a escuridão completa. Contornamos um pequeno bosque e temos, então, diante de nós,as primeiras linhas.

 

Uma claridade avermelhada e incerta paira no horizonte de uma ponta a outra. Está continuamente em movimento, impelida pelos clarões vomitados pelas peças. Por cima de tudo isto elevam-se foguetes, bolas vermelhas e verdes. , que rebentam e caem numa chuva de estrelas verdes, vermelhas e brancas.   Os   foguetes  dos   Franceses   saltam   e dobram no ar ums pára-quedas de seda e descem, depois, lentamente, para a terra. Dão uma luz semelhante à do dia. Seu clarão chega até nós e conseguimos ver., distintamente, sua sombra no chão. Ficam suspensos durante minutos antes de se extinguirem. Por   toda a parte surgem imediatamente outros e depois, Intervalados, os verdes, vermelhos e azuis.

 

Mau negócio!     comenta o Cat.

 

O furacão das peças aumenta até se tornar num único ruído surdo, dividindo-se, em seguida, em descargas sucessivas; repicam as salvas secas das metralhadoras. Por cima de nós, o ar cheio de projécteis invisíveis, de urros, de assobios e de sussurros: são os obuses de pequeno calibre. Mas de tempos a tempos, retine, também, através da noite, a voz do órgão das grandes “caixas de carvão”, e projécteis de artilharia pesada vão cair longe, por trás de nós. Têm um grito rouco, longínquo, bramante, como veados no cio, e desenvolvem a sua trajectória muito alta, por cima dos urros e dos assobios dos obuses pequenos.

 

Os projectores começam a perscrutar o céu negro. Os seus raios alongam-se como gigantescas réguas afusadas. Eis que um deles se imobiliza e mal treme um pouco. Imediatamente um segundo vem juntar-se-lhe, e nota-se entre eles um insecto negro que tenta fugir: o avião. O seu voo torna-se incerto, está ofuscado e vacila.

 

Enterramos solidamente as estacas de   ferro com intervalos regulares. Há sempre dois homens que suportam um rolo e outros desenrolam o arame farpado, esse fio horrível com longos aguilhões juntos uns dos outros. Já não estou habituado a este trabalho e arranho a mão.

 

Ao fim de algumas horas, tínhamos acabado. Mas temos ainda tempo para os camiões chegarem. A maior parte de nós estende-se na terra e dorme.

 

Procuro fazer o mesmo. O fresco é forte de mais. Percebe-se que estamos perto do mar e acordamos constantemente por causa do frio.

 

Enfim, adormeço completamente. Quando, de súbito, me ponho em pé, vivamente, já sei onde estou: vejo as estrelas, vejo os foguetes e tenho, por um instante, impressão de ter adormecido num jardim, durante uma festa. Não sei se é de manhã ou de noite. Estou deitado no berço pálido do crepúsculo e espero palavras ternas que virão por força, palavras ternas e animadas. Estou a chorar., levo as mãos aos olhos. É tão estranho... Sou, por acaso, uma criança, Com a pele macia? Isto não dura mais que um segundo, pois reconheço a silhueta de Catzinsky. Está pacificamente sentado, o velho soldado, e fuma um cachimbo, Naturalmente, um cachimbo com tampa. Logo ao notar que estou acordado, diz: - Tu estiveste numa agitação. Foi apenas um foguete que, assobiando, se foi perder no tojo.

 

Levanto-me e sinto-me estranhamente só. É bom que o Cat esteja aqui. Olha, pensativamente, para o lado da frente e observa: “É um bom fogo de artifício. É pena que seja tão perigoso. Cai um obus por trás de nós. Os recrutas estremecem de susto. Alguns minutos depois, estala um outro. Desta vez é mais perto de nós. Ouvem-se gritos. O Cat bate o cachimbo e declara: “Isto vai dar molho.”

 

O baile começa. Nós fugimos, rastejando tão depressa quanto possível. O tiro seguinte vem já colocar-se entre nós. Ouvem-se mais gritos. No horizonte sobem foguetes verdes. A lama é projectada muito alto. Zumbem estilhaços de projécteis. Ouve-se o seu ruído no solo muito tempo depois de se ter dado a explosão do obus.

 

Ao nosso lado está estendido um recruta desvairado, uma cabeça cor de linho. Tem a cara metida nas mãos, o capacete deu uma cambalhota; eu apanho-o e quero pô-lo de novo sobre o seu crânio. Ele levanta os olhos, repele o capacete e, como uma criança, deixa-se levar, escondendo a cabeça no meu braço, contra o meu peito. Os seus ombros estremecem. Ombros iguais aos de Kemmerich.

 

Deixo-o proceder, mas, para que o capacete sirva, ao menos, para alguma coisa, coloco-o sobre o seu traseiro. Não foi facécia, mas por ser o sítio mais elevado do seu corpo. Se bem que haja aí uma espessa manta de carne, os tiros nesta parte são abominavelmente dolorosos. Além disso, no hospital, é preciso ficar durante meses deitado sobre a barriga, e, em seguida, é quase certo que se fica a coxear.

 

Mas o obus caiu de qualquer parte entre a multidão. Ouvem-se gritos entre os tiros sucessivos.

 

Por fim, reina a calma. O bombardeamento é levado para mais longe donde estamos e visa agora as últimas posições de reserva. Arriscamos uma olhadela. Foguetes vermelhos vacilam no céu. Provavelmente vai haver um ataque. Entre nós está tudo tranquilo. Levanto-me e bato no ombro do jovem soldado. Acabou-se, meu pequeno. Este ainda se passou bem.

 

Ele olha em volta de si, com um ar perturbado. Para o animar, prometo-lhe:

 

- Verás que te vais habituar. Ele vê o capacete e põem-no na cabeça... Torna a si, lentamente. De repente, faz-se vermelho, com um ar embaraçado. Com precaução, dirige a mão para a parte de trás do corpo e olha-me dolorosamente.

 

Compreendo imediatamente: a cólica do fogo. Na realidade, não foi por issso que eu pus o capacete nesse lugar, mas em todo o caso, consolo-o:

 

- Não há que ter vergonha. Já outros valentes como tu encheram completamente cuecas quando receberam o baptismo de fogo. Vai atrás desses arbustos e tira as cuecas. Compreendes-me...

 

Ele trota. A calma tornou-se maior. Entretanto, os gritos não cessam.

 

Interrogo o Albert:

 

- Que se passa?

 

- Ali em baixo, alguns apanharam em meio. - Os gritos continuam. Não podem ser seres humanos os que gritam tão terrivelmente. O Cat informa:

 

- Cavalos feridos.

Nunca tinha ouvido cavalos gritar e mal o posso crer. É uma completa agonia. É a criatura martirizada, é uma dor selvagem e terrível a que geme assim. Tornamo-nos pálidos. O Detering levanta-se: “Em nome de Deus! Acabem-nos.” É cultivador e conhece os cavalos. É uma coisa que lhe toca de perto. E como que por caso pensado, o bombardeamento quase se cala. Presentemente, Os gritos dos animais tornam-se cada vez mais distintos. Não se sabe donde vêm, no meio desta paisagem cor de prata. Os gritos propagam-se imensamente por toda a parte, entre o céu e a terra. O Detering   levanta-se, furioso: “Em nome de Deus! Aça bem com eles. mas de uma vez, em nome de Deus!” É preciso, primeiro, que eles tenham   socorrido os homens, - observou o Cat.

 

Levantamo-nos para procurar descobrir onde se passava a cena. Se víssemos os animais, a coisa seria mais suportável. O Meyer tem um binóculo. Percebemos um grupo escuro de enfermeiros com várias e grandes massas negras que se agitam. São os cavalos feridos. Mas não estão todos. Alguns continuam a galopar, caem e retomam a corrida, um deles tem a barriga aberta, donde saem as tripas. Embaraça-se nelas e vai a terra, mas para se levantar ainda. O Detering levanta a espingarda e faz pontaria, mas o Cat desvia-a vivamente:

 

Estás doido?

 

O Detering treme e deita a espingarda para o chão. Sentamo-nos e tapamos as orelhas, mas, apesar disso, estas queixas, estes gritos de angústia, estes horríveis gemidos, penetram-nos nos ouvidos, penetram tudo.

 

Pode dizer-se que somos capazes de suportar muita coisa, mas neste momento o suor inunda-nos. Queríamos levantar-nos e correr, não importa para onde, conquanto não ouvíssemos estas queixas. E, no entanto, não são seres humanos, não são mais que cavalos. De novo se destacam os maqueiros no sombrio pelotão. A seguir crepitam alguns tiros. As grandes massas vacilam e caem Enfim! Mas ainda não acabou. As pessoas não se podem aproximar dos animais feridos, que fogem na sua angústia, mostrando na boca muito aberta todo o seu sofrimento; uma das silhuetas põe-se de joelhos; um tiro: um cavalo abate-se; o outro ainda. O último finca-se nas pernas da frente e anda à roda como um carrossel. Sentado, anda à roda sobre as pernas da frente esticadas; é provável que tenha a anca partida. O soldado corre para ele e dá-lhe um tiro. lentamente, humildemente, a massa deita-se no chão. Tiramos as mãos dos ouvidos. Os gritos acabaram. Já não resta, suspenso no ar, mais que um longo suspiro a desvanecer-se.

 

A seguir, só há os foguetes, o assobio dos obuses e as estrelas...

 

Afigura-se-nos quase estranho.

 

Detering anda de um lado para o outro, praguejando.

 

- Gostava de saber o mal que estes animais fizeram. A seguir, torna ao mesmo assunto.   A   voz está comovida e tem um tom quase solene, quando opina: “Digo-vos, os animais fazerem a guerra é a maior abominação que pode haver!”

 

retomamos o caminho da retaguarda, pois é tempo de nos juntarmos aos camiões. O céu torna-se um pouco mais claro. São 3 horas da manhã, o vento está fresco, mesmo frio. e a hora lívida dá às nossas caras uma cor cinzenta.

 

Avançamos, tacteando, uns atrás dos outros, através das trincheiras e dos buracos de obus. e chegamos, de novo, à zona do nevoeiro. O Catczinsky está inquieto: é mau sinal.

 

- Que tens tu,   Cat? - pergunta o Kropp.

 

- Gostava que já estivéssemos em casa.

 

Por “em casa” ele quer dizer nos abarracamentos.

 

- Estaremos lá daqui a pouco, Cat. Ele está nervoso.

 

- Não. não sei...

 

Atingimos os ramos de trincheira e depois a planície. O bosquezinho surge diante de nós. Aqui conhecemos cada palmo de terreno. Eis o cemitério dos caçadores com os seus túmulos e as suas cruzes negras.

 

Neste momento ouvimos, atrás de nós, um assobio, que cresce e se torna um ribombo tão grande como um trovão. Paixamo-nos. A 100 metros à nossa frente levanta-se uma nuvem de fogo. No minuto seguinte, uma parte do bosque Eleva-se, lentamente, no ar. É um segundo obus que acaba de cair e três ou quatro árvores são arrebatadas e desfazem-se, depois, em bocados. Já os obuses seguintes se apressam com um ruído de válvula de caldeira. O fogo é intenso. - Abriguem-se! - berra alguém. - Abriguem-se!

As planícies são lisas, o bosque é por de mais perigoso. Não há, pois,outro abrigo senão o cemitério e os seus túmulos. Vamos para lá, tropeçando na escuridão. Como uma lapa na rocha, cada um de nós cola-se a um monte de terra. Era tempo. As trevas tornam-se loucas. É uma violência e uma fúria. Sombras mais negras que a noite precipitam-se sobre nós, raivosamente, semelhando corcovas gigantescas, e depois ultrapassavam-nos. O fogo das explosões rutila por cima do cemitério.

Não há saída alguma. Ao clarão de um obus, arrisco uma olhadela sobre os prados. Dir-se-ia um mar encapelado. As chamas dos projécteis saltam como repuxos de água. É impossível que alguém as atravesse.

 

O bosque desaparece, feito em bocados, triturado, destruído. Somos obrigados a ficar aqui no cemitério.

 

A terra abre-se à nossa frente. É uma chuva de torrões. Sinto um abalo e a manga é-me rasgada por um estilhaço. Fecho a mão e não sinto dor. Em todo o caso, não fico descansado, porque os ferimentos só doem ao fim de certo tempo. Passo a mão pelo braço. Estou arranhado, mas intacto. Agora foi a cabeça que recebeu um tal choque que a minha consciência quase se perdeu. Um pensamento se fixa no meu espírito: “Não desfalecer.” Sinto-me cair no vácuo, mas recomponho-me imediatamente.

Respiro com precaução, a boca cerrada contra o tampão. A nuvem de gás, Um estilhaço de obus bateu no meu capacete, mas veio de tão longe que não o atravessou. Limpo a porcaria que me impede de ver. Diante de mim, escancara-se um buraco. Noto-o, embora dificilmente. É raro que vários obuses caiam na mesma cratera. É por isso que quero lá meter-me. De um salto, alojo-me lá dentro. Estou tão achatado como um peixe fora de água. Mas de novo se ouve um assobio. Encolho-me depressa; procuro abrigar-me. Sinto qualquer coisa à minha esquerda; chego-me contra ela e a coisa cede. Gemo, a terra desfaz-se, a pressão do ar ronca aos ouvidos, desliza sob esta coisa que não resiste. Estabilizo-me: É madeira e pano, um abrigo, um miserável abrigo contra os estilhaços que vêm cair em volta de mim.

 

Abro os olhos. Os meus dedos agarram uma manga de casaco, um braço humano. É um ferido? Falo-lhe tão alto quanto me é possível; não há resposta, é um morto. A minha mão esquadrinha mais longe e encontra bocados de madeira... então recordo-me de que estamos no cemitério. Mas o fogo é mais forte do que tudo. Anula os sentidos. Meto-me ainda mais debaixo do caixão. É preciso que me abrigue, mesmo que no abrigo esteja a morte.

 

Defronte de mim, a cratera escancara-se. Agarro-a com o olhar como se a abraçasse. É preciso, enfim, que me atire de um salto. Mas uma coisa qualquer bate-me na cara e uma mão agarra-me. Volto a cabeça, e a um novo clarão vejo o rosto de Catczinsky, com a boca toda aberta a berrar qualquer coisa. Não ouço nada; ele abana-me e aproxima-se. Num momento de acalmia chega-me a sua voz:

 

“Os ga... gases... gases... passa palavra...”

Pego na minha máscara de gás. Alguém está estendido não longe de mim, e só penso numa coisa: É preciso que esse tal o saiba. “Os gases, os gases...”

 

Chamo-o, chego-me para ele, agito a máscara de gás na sua direcção. Não nota coisa alguma. Uma vez mais, uma vez mais, mas ele só pensa em se enroscar. É um recruta. Olho desesperadamente para o lado do Cat; pôs já a máscara. Tiro rapidamente a minha, o meu capacete voa por terra e a máscara desliza-me pela cara. Chego ao sítio onde o homem está. Tem a máscara junto de si; agarro na máscara e meto-lha na cabeça. Ele segura-a, eu deixo-o e, de súbito, com uma sacudidela, deito-me na cratera.

 

Ao ruído surdo dos obuses de gás, junta-se o rebentamento dos projécteis explosivos. Um sino soa entre as explosões, tantãs e pacadas dadas sobre metal anunciam por toda a parte os gases, os gases, os gases... Por trás de mim, ouve-se um barulho de desabamento, uma vez, duas vezes. Limpo os óculos da minha máscara para tirar os vapores da respiração. Ali adiante, estão o Cat, o Kropp e um outro. Todos os quatro estamos tomados por uma grande tensão, em alerta, respirando tão fracamente quanto é possível.

 

Os primeiros minutos com a máscara decidem a vida ou a morte; tudo é saber se ela é impermeável. Evoco as terríveis cenas do hospital: os gaseados a escarrarem, durante dias, bocado a bocado, os pulmões queimados.

 

Respiro com precaução, a boca cerrada contra o tampão. A nuvem de gás atinge agora o solo e mete-se nas covas. Como uma vasta e mole medusa que se estendesse na nossa cratera, penetra em todos os cantos.

 

Empurro o Cat. É melhor sair e abrigarmo-nos mais alto, em lugar de ficar aqui onde o gás se acumula. Mas não chegamos a ir por começar a cair uma segunda saraivada de estilhaços de obus. Não parecem projécteis a urrar, mas sim, a terra que está enraivecida.

 

Uma coisa qualquer preta desce sobre nós, a ranger. O que quer que é vem cair perto: é um caixão que foi lançado ao ar.

 

Vejo o Cat mudar de sítio e faço como ele. O caixão caiu sobre o braço estendido do quarto soldado que estava no nosso buraco. O homem procura tirar a máscara com a outra mão, mas o Kropp intervém a tempo, torcendo-lhe fortemente a mão contra as costas e mantém-no solidamente.

 

O Cat e eu sentimo-nos na obrigação de soltar o braço ferido. A tampa do caixão está frouxa e rachada. Podemos tirá-la facilmente. Puxamos pelo morto, que cai no chão como um fardo, em seguida tentamos deslocar a parte inferior do caixão. Por felicidade, o homem está meio desmaiado e o Albert pode ajudar-nos. Já não temos necessidade de tomar tantas precauções e esforçamo-nos até o caixão ceder, ajudados pelas pás e com um suspiro nosso.

 

Está mais claro. O Cat agarra num bocado da tampa, põe-no por baixo do braço partido e envolvemo-lo comtodos os nossos pensos de emergência. Por agora nada mais podemos fazer. A cabeça destila e dói-me. Está prestes a estalar. Os pulmões estão muito oprimidos. Não têm ar para respirar, senão o mesmo ar ardente e já utilizado. As veias das fontes estão entumecidas. Parece que sufoco...

 

Até nós filtra-se uma luz cinzenta, o vento varre o cemitério. Elevo-me acima da borda da cova. No crepúsculo incerto vejo diante de mim uma perna arrancada. A bota está intacta; vejo tudo isto, instantaneamente, duma maneira muito precisa. Mas agora descubro, 2 ou 3 metros defronte de mim, alguém que se levanta. Limpo os vidros, que se cobrem imediatamente de vapor, de tal modo respiro Forte. Olho-o com toda a atenção: aquele homem já não leva máscara. Espero ainda durante alguns segundos; ele continua de Pé, no mesmo sítio; olha em redor, como à procura de alguma coisa e dá um ou dois passos. O vento dissipou o gás, O ar está limpo. Então também tiro vivamente a máscara e caio no chão, com um estertor. O ar corre sobre mim como água fria: os olhos parecem saltar-me das órbitas. Esta vaga de frescura inunda-me e extingue-me a vista.

 

O bombardeamento cessou. Volto-me para a cova e faço sinal aos outros. Eles saem e tiram as máscaras. Agarramos no ferido, segurando um de nós no braço metido em talas. Safamo-nos assim o mais depressa que podemos, não sem tropeçar.

 

O cemitério é um campo de ruínas. Os túmulos e os cadáveres estão por toda a parte, dispersos. Foi como se os defuntos tivessem sido mortos uma segunda vez. Mas cada um daqueles que foram feitos em bocados salvou a vida de um de nós. O muro do cemitério está destruído; as vias do caminho de ferro de campanha, que passa ao lado, foram arrancadas e erguem-se no ar todas arqueadas. Defronte de nós está alguém estendido. Paramos e só o Kropp continua a andar com o ferido.

 

O que jaz no solo é um recruta. A anca está cheia de sangue coalhado. Está tão esgotado que agarro no meu cantil, o qual contém chá e rum. O Cat suspende-me a mão e inclina-se sobre o soldado: “Onde foste ferido, camarada?”

 

Ele mexe os olhos. Está fraco de mais para responder. Com precaução, cortamos-lhe as calças. Ele geme. “Calma, calma, isto vai ficar melhor...”

 

Se foi ferido na barriga, não deve beber. Não vomitou: foi bom sinal. Pomos-lhe a anca a descoberto. É uma massa de carne com esquírolas de ossos. A articulação foi atingida. Este rapaz nunca mais pode andar.

 

Esfrego-lhe as fontes com o meu dedo molhado e dou-lhe a beber   um gole. Os   olhos animam-se-lhe. Só então nos apercebemos de que o braço também sangra. O Cat faz esticar o mais possível dois rolos de pensos para cobrir a chaga. Eu procuro pano para enrolar tudo sem apertar demasiadamente. Já não temos coisa alguma. Então levamto a perna da calça do ferido para fazer uma ligadura com um bocado das suas cuecas, mas não as vejo. Olho-o com atenção, é o lourinho de há pouco. Entretanto o Cat encontrou, nas algibeiras de um morto, outros rolos de pensos, que nós aplicamos, com precaução, sobre a ferida. Digo ao rapaz, que nos olha fixamente: “Vamos agora procurar uma padiola.» ele abre, então, a boca e murmura: “fiquem aqui...»” OCat redargue: “Voltamos imediatamente. Vamos buscar-te uma padiola.»

 

Não sabemos se compreendeu. Geme como uma criança por trás de nós: “Não me deixem!”

 

O Cat volta-se e diz em segredo: “Não valeria mais a pena agarrar, simplesmente, num revólver e acabar com tudo?»”

 

O rapaz há-de dificilmente suportar o transporte; e, D mais, que poderá viver são alguns dias. Tudo o que sofreu até agora nada é comparado com o que lhe resta sofrer antes de morrer. Por enquanto está quente e não sente nada, mas daqui a uma hora, urrará com dores intoleráveis. Os dias que ainda possa viver não serão para ele mais que uma imensa tortura. Para que serve deixá-lo com elas?”

 

Aprovo com a cabeça:

 

- Sim, Cat,   devemos agarrar num   revólver.

 

- Dá-mo!-diz ele, parando.

 

Está decidido, vejo-o bem. Olhamos em volta de nós. mas não estamos sós. Mesmo defronte, forma-se um pequeno ajuntamento. Cabeças saem das covas e dos túmulos.

 

Vamos à   procura   de   uma   padiola.

 

O Cat abana a cabeça:

 

- Crianças como esta... Pobres crianças inocentes!... As nossas perdas são menores do que se poderia supor.

 

Cinco mortos e oito feridos. Não foi senão uma curta surpresa de artilharia. Dois dos nossos mortos estão estendidos, postos a nu; não temos mais que cobri-los de terra.

 

Tornamos a partir. Em silêncio trotamos à desfilada, um atrás do outro. Os feridos são transportados ao posto sanitário. A manhã está triste. Os enfermeiros correm com números e fichas; os feridos gemem. Começa a chover.

 

Ao cabo de uma hora atingimos os nossos camiões e subimos para eles. Agora há mais espaço que antes. A Chuva torna-se mais violenta. Desdobramos os nossos panos De tenda e colocamo-los nas cabeças. A água, ao cair neles, Tamborila. Os regatos da chuva correm em volta de nós.

 

Os camiões ondulam através dos buracos. Nós balançamo-nos de um lado ao outro, meio adormecidos.

 

Os homens, colocados adiante dos camiões, seguram longos paus em forquilha. Estão atentos aos fios telefónicos ,,, que pendem tão baixo através da estrada, que podiam arrancar-nos a cabeça. Os dois homens apanham-nos a tempo com a forquilha dos paus e levantam-nos acima de nós. Ouvimos os seus avisos: “Atenção! Fio!” Nós, meio a dormir, baixamo-nos e depois levantamo-nos.

 

Os camiões balanceiam-se, monótonos. Monótonos são os avisos e monótona corre a chuva. Corre sobre as nossas cabeças e sobre as cabeças dos cadáveres que vão à frente. Sobre o corpo do pequeno soldado cujo ferimento é grande de mais para a sua anca. Corre sobre o túmulo de Emmerich. corre sobre os nossos corações.

 

O rebentamento de um obus retine em qualquer parte. Estremecemos. Os nossos olhos estão atentos, as mãos estão já prontas para saltarmos para fora do camião, nos fossos da estrada.

 

Nada acontece. Apenas ressoam os avisos monótonos: “Atenção! fio!” Baixamo-nos e ficamos de novo meio adormecidos.

 

Não é cómodo matar os piolhos um a um, quando os temos às centenas. Estes animais são bastante duros e, esborrachá-los, eternamente, com as unhas, torna-se fatigante. Foi por isso que o Tjaden fixou, com um arame, a tampa de uma caixa de graxa por cima de uma vela acesa. Basta deitar os piolhos nesta pequena frigideira: ouvimo-los estalar e ficam liquidados.

 

Estamos sentados em círculo com as nossas camisas sobre os joelhos, a parte superior do corpo completamente nua no ar quente, e as mãos prontas a trabalhar. O Haie tem dois piolhos de uma espécie particularmente fina: têm na cabeça uma cruz vermelha. Ele pretende tê-los trazido do hospital militar de Thourout, onde eram propriedade particular de um médico principal. Quer assim, confessa ele, utilizar a gordura que se acumula lentamente na tampa de folha-de-flandres para engraxar as botas e durante meia hora farta-se de rir da sua graça.

 

No entanto, hoje tem pouca sorte, pois há outra coisa que nos preocupa mais. Confirmou-se o boato: o Himmelstoss está cá. Chegou ontem: já ouvimos a sua voz, bem conhecida. Parece que, à retaguarda, foi enérgico de mais para alguns jovens recrutas nos campos alqueivados. Sem que o soubessem, havia lá um filho do prefeito. Foi isto que o perdeu.

 

ele é que se vai espantar aqui. O Tjaden, há duas horas que discute todas as formas como poderá dar-lhe o troco. O Haie examina, pensativamente, as suas valentes pás e olha-me, piscando os olhos. A tunda infligida ao Himmeltoss foi o apogeu da sua existência. Têm-me contado que às vezes sonha com ela.

 

O Kropp e o Miiller estão de conversa. O Kropp é o único que tem alguma coisa para comer, uma gamela de lentilhas que ele, provavelmente, encontrou na cozinha dos soldados de engenharia. O   Miiller olha de esguelha para as lentilhas, mas contém-se e diz:

 

- Albert, que farias tu se a paz fosse feita imediatamente?

 

- a paz? Isso não existe - declara Albert num tom breve.

 

- Seja. Mas se... - insiste o Miiller. - Que farias?

 

- Mandava tudo isto à fava - rosnou o Kropp.

 

- Está claro. E depois?

 

- Embebedava-me - responde o Albert.

 

- Não digas asneiras; falo a sério...

 

- Também eu - afirma o Albert; que outra   coisa querias que fizesse?

 

O Cat interessa-se pela pergunta. Pede ao Kropp uma parte das lentilhas e obtém-na. Reflecte depois muito e diz: “Sim, podemo-nos emborrachar, mas de contrário é correr-se para a próxima estação e marchar para casa a todo o vapor. A paz, Albert, meu Deus!» Procura na carteira feita de oleado uma fotografia e mostra-a orgulhosamente em roda. “É a minha velha.” Depois fecha-a, praguejando: “Maldita a prostituta da guerra...”

 

Para ti é fácil falar - digo eu, - tens o teu filho, a tua mulher.

 

- É verdade - confirma ele, num tom aprovador. - Preciso fazer que eles tenham de comer.

 

Rimos.

 

- Não é isso o que lhes há-de faltar, Cat. Senão tu farias um requerimento.

 

O Miiller tem fome e não está ainda satisfeito. Faz o Haie Westhus cair do seu sonho de pauladas.

 

Haie, que farias tu se a paz chegasse agora?

 

Ele devia dar-te um pontapé no rabo, por ousares falar aqui de uma coisa dessas - digo eu. - Como podes tu?...

 

Quando é, que as vozes de burro chegam ao céu? ”Responde o Miiller lacònicamente. Dirige-se depois, novamente, ao Haie Westhus.

 

Tal pergunta é demasiado complicada. Haie Balanceia a cabeça salpicada de sardas.

 

- Queres dizer, se a guerra acabasse? - é isso mesmo, tu compreendes tudo o que se te diz.

 

Então haveria de novo mulheres, não é verdade? Dizendo isto o, Haie lambe os beiços.

 

Sim. isso também.

 

- Pelo Inferno! - diz o Haie, cuja cara se ilumina.

 

- Deitaria então a fateixa a uma sólida mocetona. uma gorda Mana. tu sabes, Contudo, oque é preciso para se manter solidamente, e toca para a cama o mais depressa possível! Imagina lá isto: uma verdadeira cama de penas, com um colchão elástico. Meus filhos, durante oito dias não saía do ninho.

 

Todos se calam. A imagem é por de mais viva. A nossa pele sente estremecimentos. Por fim, o Miiller recompõe-se e pergunta: - e depois?

 

Um compasso de espera. em seguida o Haie declara com um certo embaraço:

 

- Se fosse cabo, ficaria ainda com os Prussianos e... tornava a assentar praça.

 

- Haie, tu és zuca - digo eu.

 

Ele responde de boa mente, com a pergunta:

 

- Já trabalhaste nas turfeiras? Experimenta.

 

Ao mesmo tempo, tira a colher do cano da bota e mergulha-a na gamela do Albert.

 

- Não pode ser pior do que as trincheiras na Champanha - repliquei eu.

 

O Haie mastiga e troça:

 

- Mas isto dura mais tempo e tu não podes esconder-te.

 

- Portanto, está-se melhor na nossa terra, meu velho.

 

- Assim, assim - afirma ele enquanto, com a boca aberta, se põe a meditar.

 

Pode-se ler na cara o que pensa. Pensa na miserável cabana das turfeiras, no trabalho duro que é preciso executar sob o calor esgotante da terra árida, desde o amanhecer até à noite; pensa no pequeno salário, no sórdido vestuário...

 

- Em tempo de paz, na tropa, não há relações - declara ele por fim. - Todos os dias aparece a pitança, senão fazes banzé. Tens a tua cama. roupa lavada todos os oito dias.

 

Como um fidalgo, fazes o teu serviço de cabo, tens bom fato... e à noite, és senhor de ti e vais para a taberna.

 

O   Haie está extraordinariamente presunçoso da sua ideia. E compraz-se nela: “E quando tiveres acabado os teus doze anos, recebes a tua pensão e vais para a polícia. Durante o dia, não fazes outra coisa senão passear.” O pensamento deste futuro torna-se, agora, caloroso.

 

Imagina o modo como as pessoas te passam a tratar; aqui um conhaque, acolá só meio. Cada um quer estar nas boas graças da polícia.

 

Mas tu nunca chegarás a cabo. Haie - objecta o Cat. O Haie, embaraçado, olha-o e cala-se. Agora pensa, sem dúvida, nas luminosas tardes de outono, nos domingos na charneca, nos sinos na aldeia, nas tardes e nas noites passadas com as raparigas, nas filhos de farinha de trigo a escorrerem gordura, nas horas de descuidada tagarelice no albergue... é preciso tempo para sair da nuvem de imagens deste género,   por isso ele limita-se a resmungar desconsoladamente:

 

- As vossas perguntas são sempre tolas. Enfia a camisa pela cabeça e abotoa o casaco.

 

- E tu, que farias, Tjaden? - inquiriu o Kropp.

 

Tjaden só pensa numa coisa:

 

- Havia de fazer com que o Himmelstoss não me escapasse.

 

É provável que o seu sonho seja o de o meter numa jaula e, todas as manhãs... cair-lhe em cima à cacetada. - Disse o Kropp com entusiasmo:

 

- No teu lugar, trataria de me fazer tenente. Nessa altura, podias manejá-lo até o rabo dele te pedir misericórdia.

 

- E tu, Detering, - continua o Miiller. que Com a mania de interrogar as pessoas, daria um bom mestre-escola.

 

O Detering fala pouco. Mas sobre este assunto, responde. Olha para o ar e só pronuncia uma frase:

 

- Chegaria ainda a tempo para a colheita.

 

Dito isto, levanta-se e vai-se embora.

 

Tem preocupações. A mulher é obrigada a explorar a herdade e por cima disto acabam de lhe requisitar dois cavalos. Todos os dias lê os jornais que encontra para ver o tempo que faz no seu “buraco” do país de Oldemburgo. Se lá chove, também não poderão recolher os fenos.

 

Neste momento aparece o Himmelstoss. Vem direitinho, ao nosso grupo. A cara do Tjaden torna-se vermelha, estende-se ao comprido na erva e fecha os olhos, tão grande é a sua agitação.

 

O Himmelstoss está um pouco indeciso; o passo retarda-se-lhe. No entanto, acaba por se dirigir para nós. Ninguém faz um movimento para se levantar. O Kropp olha-o com um ar interessado.

 

Está diante de nós e espera. Ninguém lhe fala e ele arrisca um “Então?”.

 

Passam-se alguns segundos e o Himmelstoss não sabe, visivelmente, a atitude a tomar. Não temos dúvidas de que ele desejaria, agora, fazer-nos sentir brutalmente o peso da sua autoridade. Parece, no entanto, ter já percebido que a frente não é o mesmo que um pátio de caserna. Tenta ainda uma vez mais, não se dirigindo a todos, mas a um só. esperando, desta forma, ter mais facilmente uma resposta. É o Albert quem está mais perto dele, por isso é que lho dá a honra de lhe dizer:

 

- Então, aqui também?

 

Mas o Albert não é seu amigo e responde-lhe secamente:

 

- Parece-me   que   estou   aqui   há   muito   mais   tempo que o senhor.

 

O bigode ruivo treme.

 

- Não me reconhece, sem dúvida, não é verdade? O Tjaden abre os olhos.

 

- Sim, - responde.

 

O Himmelstoss volta-se para ele.

 

- Mas é o Tjaden, não é verdade? O Tjaden levanta a cabeça e increspa:

 

- E tu sabes o que és?

 

O Himmelstoss está estupefacto.

 

- Desde quando nos tratamos por tu? Todavia, nunca guardámos os porcos juntos.

 

Não sabe o que há-de fazer perante uma situação destas. Não esperava esta hostilidade declarada. Mas por agora, é prudente. Alguém lhe deve ter falado dos lendários tiros i espingarda dados nas costas dos graduados.

 

A questão dos porcos guardados em conjunto torna o Tjaden furioso ao ponto de o fazer espirituoso.

- Não - diz ele - foste tu que os guardaste.

 

O Himmelstoss já ferve também nesta altura, mas o Tjaden não lhe dá tempo para falar. Precisa de descarregar o saco.

 

Queres saber o que és? Um malandro, é o que tu és - já há muito tempo que to queria dizer.

 

A satisfação esperada há tantos meses fez brilhar os seus olhitos porcinos no momento em que ejacula, com uma voz vibrante, a palavra “malandro”.

 

O Himmelstoss, irritado:

 

- Que queres tu,   monte de esterco, ave agoirenta das turfeiras? De pé, em sentido, quando lhe fala um superior!

 

O Tjaden, com um gesto majestoso:

 

- Ponha-se à vontade, Himmelstoss. Destroce.

 

O Himmelstoss tornou-se a encarnação enraivecida do regulamento militar. O kaiser não se sentiria mais ofendido que ele.

 

- Tjaden, ordeno-lhe hierarquicamente: levante-se.

 

- E que mais? - pergunta o Tjaden.

 

- Quer obedecer à minha ordem? Sim ou não?

 

O Tjaden responde tranquila e categoricamente, empregando, sem o saber, a mais conhecida das citações clássicas. o mesmo tempo mostra-lhe o traseiro.

 

O Hinmelstoss foge precipitadamente, berrando:

 

- É um conselho de guerra!

 

Vemo-lo desaparecer na direcção da secretaria da companhia.

 

O Haie e o fjaden desatam numa manifestação gigantesca de contentamento. O Haie ri de tal forma que desloca o maxilar, ficando subitamente de boca aberta, sem poder falar.

 

O Albert é obrigado a pôr-lhe o maxilar no lugar com um soco.

 

O Cat está pensativo.

- Se ele declara o motivo, isto acaba mal.

 

- Julgas que ele o fará? pergunta o tjaden.

 

- Com certeza, afirmo eu.

 

- O mais que apanhamos são cinco dias de cadeia - declara o Cat. O Tjaden não está de maneira alguma assustado.

- cinco dias de xadrez são outros tantos de descanso.

- e se te mandam para uma fortaleza? - inquire o Muller, que vai até ao fim dos problemas.

- então, durante esse tempo, a guerra terá acabado para mim. O Tjaden nasceu sob uma boa estrela; para ele, nunca há preocupações. Vai-se embora com o Haie e o Leer, para que o não encontrem no primeiro momento de irritação.

 

O Muller ainda não acabou com as suas perguntas. Ataca novamente o Kropp.

 

- Albert, se voltasses agora para casa, que farias?

 

Kropp está agora refeito e, por conseguinte, mais acomodatício.

 

- Quantos alunos restam ainda da nossa aula?

 

Contamos: de vinte que eram, sete estão mortos, quatro feridos, um outro no hospital de doidos. Seríamos, portanto, doze, quanto muito.

 

- Três são tenentes - informa o Muller. crês que eles se deixarão tratar asperamente pelo Kantorek?

-

Não o julgamos, assim como não admitiríamos que ele no-lo fizesse.

 

- Que pensas, em suma, da tríplice acção que há no guilherme tell? - Lembra-se De súbito o Kropp, ao mesmo tempo que desata ás gargalhadas.

- Quais eram as intenções do Hainbund, de Goettingue? pergunta também o Muller, num tom tornado, de repente, muito severo.

 

- Quantos filhos tinha carlos, o Temerário? replico eu, tranquilamente.

 

- Na viada não há-de prestar para coisa alguma, baumer, troça o Muller.

 

-Quando Se deu a batalha de Zama? - inquire o Kropp.

- Faltava-vos a necessária seriedade, Kropp; sente-se aí. Vai um três negativo - previno eu, fazendo um sinal com a mão.

 

- Quais as funções que Licurgo considerava como as mais importantes para o estado? - murmura o Muller, fingindo que assentava uma luneta.

-Como se deve dizer: - nós alemães, tememos a Deus e nenhuma outra pessoa no mundo, - ou então: - Nós, os alemães... – reflitam” – digo eu.

- Quantos habitantes tem a cidade de Melburne? – pergunta de novo o Muller com uma voz sussurrante.

- Como quereis vós assegurar a vossa existência, se ignorais isso? – interrogo eu ao Albert num tom indignado.

- Que se entende por coesão?

 

Indaga este, triunfantemente,

 

Não há grande coisa de toda esta porcaria. Também nunca nos serviu fosse para o que fosse. Por outro lado, ninguém na escola nos ensinou a acender o cigarro, quando chove ou quando há vento e a acender o lume com lenha molhada, ou então que a barriga é o sítio melhor onde enterrar a baioneta, porque ela aí não se fende como nas costas.

 

O Muller diz, pensativamente:

 

- Para que serve tudo isto? Seremos obrigados, no fim de tudo, a voltar para os bancos da escola.

 

Considero que isso é impossível e acrescento:

 

- Haverá, talvez, para nós, um exame especial.

 

Mas para isso é preciso que te prepares. E mesmo se tu passares, que haverá depois? Não há nada melhor que ser estudante, mas, se não tiveres dinheiro, é preciso que te metas ao trabalho.

 

- Isso vale um pouco mais, mas, apesar de tudo, o que te fizeram engolir na escola não passa de parvoíces.

 

O Kropp exprime a nossa opinião de uma maneira perfeita: - como se pode tomar isso a sério, quando se está aqui, na frente?

 

- Todavia, é preciso que tenhas uma profissão - objecta o Miiller, como se fosse o Kantorek em pessoa.

 

O Albert limpa as unhas com a navalha. Ficamos espantados com este requinte de esquisitice, mas isto, para ele era uma forma de reflectir melhor. Pousa a navalha e diz

 

- Sim. é essa a verdade. O Cat, o Detering e o Haie retomarão as suas profissões, por já as terem antes de partirem. O Himmelstoss também.   Mas nós não as tínhamos. Como é que depois de toda esta porcaria (e, ao dizer isto, faz um gesto na direcção da frente) podemos habituar-nos a um ofício?

 

- Era preciso ser-se capitalista e habitar sozinho uma floresta - opino eu.

 

Mas imediatamente me envergonho desta loucura de grandezas.

 

- Que faremos nós , se voltarmos? - pergunta o Miiller, também embaraçado.

 

O Kropp encolhe os ombros.

 

- Não sei. Primeiro é preciso regressarmos, e depois ver-se-á.

 

Estamos todos perturbados.

 

- Que se há-de fazer? - indago eu.

 

- Não desejo coisa alguma-responde o Kropp, num tom enfastiado. - De qualquer maneira, um belo dia morre-se. Para que serve o resto? Não creio que escapemos daqui.

 

- Quando penso nisso, Albert - declaro eu ao cabo de um instante, rolando sobre as costas, quando ouço a palavra “paz” e suponho que a paz esteja feita, gostaria de fazer qualquer coisa de extraordinário. É uma ideia que me vem à cabeça. Tu sabes, qualquer coisa que valesse a pena de ter estado aqui na chafurdeira. Mas não consigo imaginar coisa alguma. Quanto ao que vejo de possível sobre todas essas histórias de profissão, de estudos, de ordenados, etc.. etc., tudo isso me aborrece, porque é a eterna cantiga, e isso desgosta. Não encontro nada, Albert, não encontro nada.

 

Neste momento tudo me parece vão e desesperado.

 

Também o Kropp reflecte no caso. Resumindo, a nossa situação será difícil para todos. Mas os da retaguarda não terão, às vezes, preocupações a este respeito? Dois anos De Fuzilaria e de obuses... não se podem pôr de lado como um par de peúgas.

 

Estamos concordes em que este problema se apresenta

 

todos; não apenas a nós aqui, mas a todos os que estão na mesma situação, em toda a parte, pouco importando que essa situação seja maior ou menor. É a sorte comum da nossa geração.

 

O Albert define muito bem: - a guerra fez de nós uns inúteis.

 

- Tem razão, nós já não fazemos parte da juventude. Já não queremos tomar de assalto o universo. Somos uns fugitivos. Tínhamos 18 anos e começávamos a amar o mundo e a existência e eis que fomos obrigados a fazer um auto-de-fé disso tudo. O primeiro obus que caiu, fulminou-nos o coração. Já não temos prazer algum no esforço, na actividade e no progresso. Já não cremos nisso, agora só cremos na guerra.

A secretaria da companhia anima-se. Dir-se-ia
que o Himmelstoss deu o alarme. À frente da coluna trota um gordo sargento-mor. Por um fenómeno bizarro, quase todos os sargentos-mores de carreira são gordos.

 

O Himmelstoss segue-o, sedento de vingança. As suas botas brilham ao sol...

 

Levantamo-nos. O cabo pergunta com uma voz esbaforida: “Onde está o Tjaden?”

 

Ninguém responde, bem entendido. O Himmelstoss fixa em nós os olhos, brilhantes de maldade: “Deixem-se de histórias. Vocês sabem-no e não querem dizer. Vamos, falem.”

 

O cabo olha à volta de si e não vê o Tjaden em parte alguma. Tenta um outro sistema: “Dentro de dez minutos o Tjaden deve apresentar-se na secretaria.”

 

Depois de dizer isto, retira-se com o Himmelstoss, na sua esteira.

 

- Tenho a impressão de que nos nossos primeiros trabalhos nas trincheiras um rolo de arame farpado vai cair sobre as pernas do Himmelstoss - declara o Kropp.

 

- Ainda não acabámos de nos divertir à sua custa - observa o Miiller. Tal é agora a nossa ambição: combater em tudo as ideias de um carteiro... vou ao nosso abarracamento e digo ao Tjaden o que se passa, para que ele se safe.

 

A seguir, mudamos de lugar e reinstalamo-nos para jogar às cartas. Para isto, ao menos, somos fortes: para jogar às cartas, praguejar e combater. .Não é muito quando se tem 20 anos... e é de mais para esta idade.

 

Ao fim de uma meia hora, voltou o Himmelstoss junto de nós. Ninguém lhe dá atenção. Pergunta onde está o Tjaden. Encolhemos os ombros.

 

- No   entanto,   vocês  estão   encarregados   de   o   procurar - insiste ele, empregando o ihr, que equivale a um tratamento por tu.

 

- Como é isso: ihr? - estranha o Kropp.

 

- Sim, ihr, que são vocês aqui?...

 

- Peço-lhe que não nos trate por tu - diz o Kropp, com ar de um coronel.

 

O Himmelstoss parece cair das nuvens.

 

- Quem os tratou por tu?

 

- Você.

 

- Eu?

 

- Sim.

 

O cérebro trabalha-lhe. Deita um olhar de esguelha para o lado do Kropp, por não compreender o que o outro quer dizer. Como neste capítulo não está seguro de si, retoma a palavra com uma certa cortesia.

 

- Não o encontraram?

 

O Kropp estende-se na erva e interroga:

 

- Já esteve nas trincheiras?

 

- Isso   não   lhe   diz   respeito - declara secamente o Himmelstoss. - Exijo uma resposta.

 

- Seja! - replica o Kropp, levantando-se. Olhe para ali, onde estão aquelas nuvenzinhas. São os obuses dos Ingleses. Estivemos lá ontem. Cinco mortos, oito feridos, não foi mais do que uma brincadeira. Da próxima vez que você venha connosco, os homens, antes de morrerem, colocar-se-ão, primeiro, diante de si, batendo os tacões, para lhe pedirem militarmente: “Faça favor de me dar autorização para me retirar!” “Faça favor de me dar autorização para esticar o pernil.” É caso para dizer: temos estado aqui à espera de pessoas como você.

 

Sentou-se de novo e o Himmelstoss desapareceu como um galgo.

 

Três dias de detenção - supõe o Cat.

 

Da próxima vez sou eu que me encarrego da prédica - declaro eu ao Albert.

 

Mas as consequências não se fazem esperar. À noite, à chamada, houve uma acareação. Na secretaria da companhia BertincÉ, nosso tenente, está sentado e manda comparecer toda a gente diante dele, uns após outros.

 

Fui igualmente citado como testemunha e explico porque se revoltou o Tjaden. A história dos mijões na cama faz impressão. Vai-se à procura do Himmelstoss e eu repito meu relato.

 

Isto é verdade? - indaga o Bertincé ao Himmelstoss.

 

Este contorce-se e acaba por confessar, quando o Kropp faz idênticas declarações.

 

- Porque é que ninguém, então, indicou isso? - quer saber o Bertinc.

 

Calamo-nos; todavia, ele deve saber a utilidade de uma reclamação, na vida militar, por bagatelas como esta.
E, de resto, na vida militar há reclamações. O tenente sabe-o bem• começa por tratar o Himmelstoss com aspereza, fazendo-lhe compreender, uma vez mais, que a frente não é um pátio de caserna. Segue-se a vez do Tjaden, que recebe a sua conta com capital e juros sob a forma de uma lavagem cuidada da cabeça e três dias de detenção. O tenente aplica igualmente um dia de detenção ao Kropp, piscando os olhos para este. “É impossível proceder de outra forma” - diz ele ao Kropp, num tom pesaroso. É um homem razoável.

O local da detenção não é desagradável. O sítio é uma antiga capoeira. Os nossos camaradas podem ali receber visitas e nós havemos de encontrar meio de os ir ver. A prisão seria numa cave. Antigamente ligavam-nos também a uma árvore, mas isso agora é proibido. Em certas ocasiões Já nos tratam como seres humanos.

Uma hora depois de O Tjaden e de o Kropp estarem metidos por trás das grades de arame, vamos ter com eles.

O Tjaden cumprimenta-nos, imitando o cantar do galo.

Depois, jogamos ao scat até noite fechada. Naturalmente, é o Tjaden quem ganha, o canalha.

Quando nos vamos embora, o Cat pergunta-me: - que dirias se fôssemos assar um pato?

 

- A ideia não é má - respondo eu.

 

- Trepamos para um carro de uma coluna de munições. Isto custa-nos dois cigarros. O Cat assinalou exactamente o sítio. A cavalariça pertence ao estado-maior de um regimento. Decido ir à procura do pato e para isso peço instruções. A cavalariça está por trás do muro e só está fechada por uma trave.

 

O Cat junta as mãos em forma de estribo. Ponho o pé sobre elas e salto por cima do muro. O Cat fica de vigia.

 

Durante alguns minutos, fico imóvel para acostumar os olhos à escuridão. Depois reconheço a cavalariça. Deslizo mansamente para lá, tacteio a trave, tiro-a e abro a porta.

 

Distingo duas manchas brancas. Dois patos, é aborrecido, porque quando se agarra num o outro, põe-se a gritar. Portanto, é preciso apanhar os dois. Se actuar depressa, irá tudo bem.

 

Atiro-me, de um salto; agarro imediatamente num e num segundo, um momento depois. Como um doido, bato com as cabeças deles contra a parede, para os aturdir. Mas não há dúvida de que não tenho força bastante. Os animais debatem-se; as asas e as patas agitam-se em volta deles. Luto com furor, mas, meu deus, que força tem um pato! Sacodem-me, fazendo-me cambalear. Na escuridão, estas manchas brancas são abomináveis. Os meus braços têm asas, agora, e quase temo ser levado para o céu, como se tivesse nas mãos um par de balões cativos. Mas a isto junta-se um ruído. Uma das goelas aspirou ar e ronca como um despertador. Subitamente, vem qualquer coisa de fora, eu apanho um choque, encontro-me no chão e oiço um rosnar furibundo. É um cão. Olho obliquamente e apercebo-me de que ele abre já a boca na direcção do meu braço. Imobilizo-me imediatamente e, principalmente, meto bem o pescoço dentro da gola do uniforme.

 

É um dogue. Ao fim de uma eternidade, a cabeça dele recua e ele senta-se ao meu lado. Mas, quando procuro mexer-me, rosna. Ponho-me a reflectir. A única coisa que posso fazer é tirar o meu pequeno revólver. De qualquer forma, é preciso que desapareça daqui antes que venha gente. Centímetro a centímetro, tiro a mmão do lado onde está o revólver.

 

Tenho a impressão de que isto demora horas. O movimento mais pequeno é seguido de um rosnar temível do cão; aquieto-me e de seguida recomeço. Assim que apanho o revólver na mão, esta começa a tremer. Comprimo-a contra o chão e ponho bem na minha ideia o que devo fazer: brandir a arma, atirar antes que o cão possa morder e saltar por cima do muro.

 

Respiro lentamente e torno-me mais calmo. Depois retenho a respiração, levanto o revólver, o tiro parte, o dogue abate-se, uivando; alcanço a parte da cavalariça e, ao fazer isto, tropeço num dos patos, que ali se refugiara.

 

A galope, agarro num deles, de repente, projecto-o por cima do muro, o qual me ponho a trepar. Ainda não estou do outro lado, quando o cão também se levanta e se atira a mim. Deixo-me cair imediatamente. O Cat está ali, e a dez passos diante de mim, tendo o pato nos braços. Assim que me vê, safamo-nos.

 

Podemos, por fim, respirar. O PATO ESTÁ MORTO. O Cat, num instante, tratou-lhe da saúde. Vamos assá-lo o mais depressa possível, para que ninguém se aperceba. Vou à procura de panelas e de lenha no abarracamento que  nos serve para usos desta natureza. Tapamos hermeticamente a única panela existente. Há lá uma espécie de chaminé com uma placa de ferro assente em tijolos. Acendemos o lume. O Cat depena o pato e arranja-o. As penas são cuidadosamente postas de lado. Tencionamos fazer dois pequenos travesseiros com esta inscrição: “repousa em paz no meio do bombardeamento”

 

O fogo da artilharia da frente vem envolver o nosso retiro com os zumbidos. O clarão da nossa chaminé dança nas nossas caras e na parede dançam sombras. Ás vezes ouve-se um surdo estalar e depois a casinhota põe-se a tremer.

São bombas de avião. De uma das vezes, ouvimos gritos abafados: uma das barracas foi tocada sem dúvida. Aviões  roncam; as metralhadoras fazem taquetaque. Mas do nosso asilo não sai luz alguma que se possa ver do exterior.

 

Estamos sentados um defronte do outro, o Cat e eu, soldados com uniformes surrados, tratando de cozer um pato a meio da noite. Não falamos muito, mas estamos, um para o outro, cheios de delicadas atenções que não é costume usarem-se, segundo creio, senão entre namorados. Somos dois seres humanos, duas míseras centelhas da vida. e lá fora é a noite e o círculo da morte. Estamos sentados na sua orla, ameaçados e abrigados ao mesmo tempo; a gordura corre-nos pelas mãos; os nossos corações tocam-se e a hora em que vivemos é parecida com o lugar em que nos encontramos. O fogo doce das nossas almas faz ali dançar as luzes e as sombras das nossas impressões. Que sabe ele de mim e que sei eu dele? Outrora nenhum dos nossos pensamentos era igual; agora estamos sentados diante dum pato, sentimos a nossa existência e estamos tão próximos um do outro que nem sequer falamos.

 

Assar um pato necessita tempo, mesmo quando ele é novo e gordo; é por isso que nos substituímos. Um de nós rega-o, enquanto o outro dorme. Pouco a pouco espalha-se um perfume delicioso em redor de nós.

 

Os ruídos lá de fora formam uma espécie de cadeia de sonho, mas no qual a lembrança não se apaga completamente. Num meio sono, vejo o Cat levantar e baixar a colher. Gosto dele, com as suas espáduas, o seu perfil anguloso e inclinado, e, ao mesmo tempo, vejo por trás de si florestas e árvores e uma voz boa a dizer palavras que me acalmam, a mim, pequeno soldado que marcha sob o grande céu, com as suas grossas botas, o seu cinturão e a sua gaita de foles, seguindo o caminho que se desenha diante dele, pronto a esquecer, e que não está senão raramente triste, e avança sempre sob o vasto céu nocturno.

 

Um pequeno soldado e uma voz boa; e, se o quisessem animar, talvez ele não fosse capaz de compreender agora a intenção, este soldado que marcha com grandes botas e coração lacerado, este soldado que marcha porque tem botas E esqueceu tudo, excepto a obrigação de marchar. No horizonte não há flores e uma paisagem tão calma que o fizesse chorar a esse soldado? Não há lá imagens perturbantes, mas no entanto, são para ele um elo do passado? Não estão lá os seus 20 anos?

 

Tenho a cara molhada e inquiro a mim próprio onde foi O Cat. Está ali, diante de mim, a sua sombra gigantesca curvada inclina-se para mim como uma imagem do país natal. Fala baixo, sorri e volta para o lume.

 

Disse depois:

 

- Acabou.

 

- Éstá bem, Cat.

 

Sacudo-me. No meio do espaço brilha o louro assado. Agarramos nos nossos garfos dobradiços e nas nossas facas e cortamos uma perna para cada um. Com isto, comemos pão de munição, que mergulhamos no molho. Comemos lentamente, com uma completa satisfação.

 

- Encontra-lo bom, Cat?

 

- Encontro; e tu?

 

- Muito bom, Cat.

 

Somos como irmãos e oferecemo-nos, mutuamente, os melhores bocados. Depois fumo um cigarro e o Cat um charuto. Há ainda muitos restos.

 

- Que dizes tu, Cat, se fôssemos levar um bocado ao Kropp e ao Tjaden?

 

- De acordo - responde ele.

 

cortamos uma porção, que embrulhamos cuidadosamente num papel de jornal. Tínhamos a intenção de reservar o resto para o nosso abarracamento, mas o Cat ri só ao dizer: “Tjaden.”

 

vejo bem. é necessário que levemos tudo. Dirigimo-nos, portanto, para a capoeira, a fim de acordar os dois camaradas. Antes, metemos as penas num pacote, que deitamos para longe.

 

O Kropp e o Tjaden contemplam-nos como a um milagre. Depois os seus maxilares deitam-se ao trabalho. O Tjaden segura com as duas mãos uma asa, que mete na boca à maneira de uma gaita de beiços, e mastiga-a. Bebe a gordura da panela e declara, enquanto come ruidosamente: “Nunca esquecerei.”

 

Retomamos o caminho do nosso abarracamento. Eis de novo o grande céu com as estrelas e a alvorada deserta, e eu marcho aqui por baixo, soldado trazendo grandes botas e a barriga cheia, pequeno soldado perdido no dia que começa, mas, a meu lado, curvado e anguloso, caminha o Cat, meu camarada.

 

Os contornos do abarracamento deslocam-se até nós, no fenómeno crepuscular, como um sonho negro e profundo.

 

Fala-se à boca fechada numa ofensiva. Vamos para a primeira linha dois dias mais cedo que o habitual. No caminho, passamos defronte de uma escola devastada pelos obuses. Em todo o seu comprimento, eleva-se um duplo muro, muito alto, de caixões claros, completamente novos, sem as tábuas aplainadas. Cheiram ainda a resina, a pinheiros e a floresta. São cem, pelo menos.

 

- A ofensiva está bem preparada - observa o   Miiller, com espanto.

 

- São para nós, resmungou o Detering.

 

- Não digas parvoíces - recomenda o Cat, com severidade.

 

- Considera-te bem feliz se apanhares um caixão - troça o Tjaden. - É mais provável que eles se contentem   com um pano de tenda para a tua figura de barraca de tiro.

 

Os outros também dizem pilhérias pouco agradáveis, mas que outra coisa podíamos fazer? Os caixões são-nos, efectivamente, destinados. Para estas coisas, a organização marcha a direito.

 

Tudo à nossa frente serve para nos distrair. Na primeira noite procuramos orientar-nos. Como o sector é bastante tranquilo, podemos ouvir andar continuamente, até de madrugada, os transportes na retaguarda do inimigo. O Cat diz que não evacuam, mas que, pelo contrário, trazem tropas, munições e canhões.

 

A artilharia inglesa é reforçada, do que em breve nos damos conta. À direita da herdade há, pelo menos, quatro novas baterias de 205, e por trás do tronco do salgueiro, colocaram lança-minas. Além disso, há uma quantidade “esses pequenos monstros franceses de foguete percutante.”

 

O moral está baixo, estamos entaipados nos nossos abrigos há duas horas. Agora é a nossa artilharia que atira sobre as nossas próprias trincheiras. É a terceira vez em quatro semanas. Se ainda fossem erros de tiro, ninguém diria nada, mas isso é proveniente de os tubos das peças estarem usados, o que torna os tiros incertos e faz muitas vezes espalhar-se os seus obuses sobre o nosso sector. Por isso, esta noite tivemos dois feridos.

 

A frente é um cárcere onde é preciso esperar, nervosamente, os acontecimentos. Estamos metidos na rede formada pela trajectória dos obuses e vivemos a tensão do desconhecido. Sobre nós paira o acaso. Quando chega um projéctil, posso baixar-me, e é tudo; não posso saber, exactamente, onde ele vai cair, nem influenciar o seu ponto de queda.

 

É o acaso que nos torna indiferentes. Há alguns meses estava sentado num abrigo e jogava as cartas; ao fim de um instante, levantei-me e fui ver conhecidos meus a um outro abrigo. Quando voltei, não restava uma migalha do primeiro; tinha sido pulverizado por uma “marmita»”. Voltei para o segundo abrigo e cheguei a tempo para o ajudar a desobstruir, pois, por sua vez, acabava de ser destruído.

 

É por acaso que ainda estou vivo, como é por acaso que posso ser apanhado. No abrigo “à prova de bombas” posso ser feito em pedaços, ao passo que, a descoberto, debaixo de dez horas do bombardeamento mais violento, posso não receber um ferimento. Não é senão por influência do acaso que o soldado sobrevive. E cada soldado tem fé e confiança no acaso.

 

Temos de estar atentos ao nosso pão. Os ratos multiplicaram-se bastante nestes últimos tempos, desde que as trincheiras já não são bem conservadas. O Detering pretende que isto é sinal certo de que a coisa vai aquecer.

 

Os ratos são aqui particularmente repugnantes, por causa da sua grossura. São da espécie chamada “ratos de mortos.” Têm abomináveis cabeças, maldosas e peladas, e sentimo-nos mal só de ver as suas caudas compridas e nuas.

 

Parecem muito esfomeados.   Morderam o pão de quase Toda a gente.   O   Kropp   tem-no   tido envolto no   pano   de tenda, i     debaixo   da   cabeça,   mas   não   pode   dormir   porque eles correm-lhe sobre a cara para chegarem ao pão. O Detering quis ser esperto: fixou ao tecto um delgado arame, onde suspende a marmita com o pão. Quando, durante a noite,, comprimiu o botão eléctrico da sua lâmpada de algibeira, viu o arame a oscilar: um rato bastante gordo estava a cavalo no pão.

 

Tomamos, finalmente, uma decisão. Cortamos cuidadosamente as partes dos nossos pães que foram roídas pelos animais; não podemos, de forma alguma, deitar tudo fora, pois nesse caso não teríamos amanhã coisa alguma para comer.

 

Colocamos no chão, no meio do nosso abrigo, os bocados de pão assim cortados, todos juntos. Cada um agarra na sua pá e estende os braços, pronto a dar para baixo. O Detering, o Kropp e o Cat têm nas mãos as suas lâmpadas eléctricas.

 

Ao fim de alguns minutos, ouvimos os primeiros atritos dos ratos que vêm mordiscar o pão. O ruído aumenta; há aqui agora uma multidão de pequenas patas e as lâmpadas eléctricas brilham bruscamente para toda a gente cair sobre o monte negro, que se dispersa, soltando gritos agudos. Deitamos os corpos dos ratos esmagados por cima do parapeito da trincheira e voltamos à espreita.

 

A caçada foi bem sucedida ainda algumas vezes. Depois os animais notaram qualquer coisa ou então cheirou-lhes a sangue. Não voltaram: no dia seguinte, viu-se que o pão que ficara no chão fora levado por eles.

 

No sector vizinho os ratos assaltaram dois grandes galos e um cão, que mataram e comeram.

 

No dia seguinte, temos queijo da Holanda. Cada um recebe quase um quarto da bola. Por um lado é uma boa coisa, por ser excelente o queijo da Holanda, mas, por outro, é um mau sinal, porque até agora estas grandes bolas encarnadas foram sempre o prenúncio de combates duros; Os nossos pressentimentos mais se acentuam quando nos distribuem shniicha, bebemo-lo, mas sem nenhuma alegria.

 

Durante o dia, atiramos à vontade sobre os ratos e passeamos de cá para lá. As quantidades de cartuchos e de granadas são cada vez mais abundantes. Verificamos as baionetas. Com efeito, há as que, no lado não cortante, formam uma serra. Quando as pessoas que estão na trincheira oposta apanham alguém armado com uma baioneta deste género, massacram-no impiedosamente. No sector vizinho, encontraram camaradas nossos cujos olhos foram estoirados com estas baionetas de serra. Depois encheram-lhes a boca e o nariz com serradura e sufocaram-nos assim.

 

Alguns recrutas têm ainda baionetas destas; nós fazemo-las desaparecer, conseguindo-lhes outras.

 

Na verdade, a baioneta perdeu a sua importância. Agora é moda alguns irem para o assalto simplesmente com granadas, e uma pá bem afiada é uma arma mais cómoda ou bastante mais útil: não só por se poder dar sob o queixo do adversário, mas, sobretudo, por se poder vibrar com ela pancadas muito violentas; especialmente se se dá obliquamente entre as espáduas e o pescoço, pode-se facilmente golpear até ao peito. Muitas vezes a baioneta fica metida na ferida; é preciso, primeiro, fazer peso sobre a barriga do inimigo para a tirar, e, entretanto, pode-se receber um tiro. Além disso, não é raro ela partir-se.

 

À noite a gente do outro lado manda-nos uma nuvem de gás. Esperamos o ataque e deitamo-nos com as nossas máscaras, prontos a tirá-las logo que apareçam as primeiras sombras.

 

A alvorada branqueia sem aparecer coisa alguma. Há simplesmente, ao longe, sempre esse rolar, que ataca os nervos, de comboios e mais comboios, de camiões e camiões. Que se encontrará lá ? A nossa artilharia atira continuamente, mas o rodar não acaba, não tem fim...

 

As nossas caras estão fatigadas e não ousamos olhar-nos a direito. “Isto vai ser como no Somme, onde tivemos sete dias e sete noites de bombardeamento contínuo» - diz o Cat, sombriamente. Agora já não brinca, depois que estamos aqui e é mau sinal, porque o Cat é um tipo que fareja o que se prepara. Só o Tjaden está contente com os bons bocados e com o rum; pretende mesmo que voltaremos para descanso, sem que coisa alguma se tenha passado.

 

- Da quase para acreditar. Os dias passam-se sem nada de novo. À noite, sento-me no buraco do posto de escuta.

 

Por cima de mim, sobem e caem os foguetes e os pára-quedas luminosos. Estou cheio de prudência, tenho o estômago vazio e o coração a bater. Os meus olhos voltam-se continuamente para o mostrador luminoso do relógio; os ponteiros não andam. O sono pega-se-me às pálpebras; Mexo as pontas dos pés dentro das botas para continuar desperto. Nada de anormal se passa até ao momento de ser substituído; não há senão o perpétuo rodar do outro lado.

 

Tranquilizamo-nos pouco a pouco e jogamos todo o tempo ao scat e ao rams. Pode ser que tenhamos sorte.

 

Durante o dia a atmosfera está carregada de ameaças. Consta agora aqui que do lado do inimigo, durante o ataque, haverá carros de combate e aviadores cooperando com a infantaria. Mas isso interessa-nos menos do que se diz dos novos lança-chamas.

 

Acordamos a meio da noite. A terra retine surdamente. Por cima de nós há um terrível bombardeamento. Enrodilhamo-nos nos nossos cantos. Podemos distinguir os projécteis de todos os calibres. Cada um de nós põe a mão nas suas coisas para se certificar, continuamente, que elas continuam lá. O nosso abrigo treme e a noite parece composta de rugidos e clarões. Olhamo-nos aos lampejos fulgurantes e, com as caras pálidas e os lábios cerrados, sacudimos a cabeça.

 

Sentimos na nossa própria cama os projécteis pesados levarem o parapeito da trincheira, meterem-se no talude e desfazerem os blocos superiores do cimento. Notamos o ruído mais surdo e mais raivoso que se produz quando o projéctil bate na trincheira; dir-se-ia a unhada duma fera rugidora. De manhã, alguns recrutas estão lívidos e vomitam, falta-lhes ainda a experiência.

 

Lentamente infiltra-se nas nossas galerias uma luz cinzenta e asquerosa, tornando ainda mais deslavado o clarão dos obuses que caem. Eis a manhã. Agora são as explosões nas minas a juntarem-se ao fogo da artilharia. O choque que elas produzem é enlouquecedor. O sítio onde elas caem é uma vala comum.

 

Os rendidos saem, os observadores entram, titubeando, todos cobertos de porcaria e agitados por tremores, e um deles estende-se a um canto e come; o outro, chora; o deslocamento de ar das explosões lança-o, por duas vezes, acima do parapeito, sem que daí lhe adviesse outro mal senão o choque nervoso.

 

Os recrutas olham-no; uma coisa destas contagia depressa. É preciso que prestemos bem atenção, pois já os lábios de alguns começam a crispar-se. E,antes que o dia chegue, talvez o ataque se dê esta mesma manhã.

 

O bombardeamento não diminui. Estende-se também para trás de nós. Por toda a parte onde a vista atinge, saltam jactos de lama e de ferro. A artilharia cobre uma zona muito vasta.

 

O ataque não se produz, mas o bombardeamento mantém-se. Tornamo-nos surdos a pouco e pouco. Ninguém fala. Além disso, não nos podíamos compreender.

 

A nossa trincheira está quase destruída. Em muitos sítios não tem mais de 50 centímetros de altura. Está crivada de buracos, covas e montanhas de terra. Diante da nossa galeria, em linha recta, estala um obus. Faz-se imediatamente uma completa escuridão. Ficamos soterrados e precisamos de nos livrar. Ao fim de uma hora a entrada é liberta e nós estamos um pouco mais calmos, porque o trabalho ocupou o nosso espírito. O nosso comandante de companhia vem ter connosco, rastejando, e anuncia-nos que dois dos abrigos foram destruídos. Os recrutas tranquilizam-se quando o vêem. Diz que esta noite tentar-se-á arranjar de comer.

 

É uma boa novidade. Ninguém tinha pensado nisso, excepto o Tjaden. Vamos, portanto, receber qualquer coisa vinda de fora, e, uma vez que se vão ocupar do reabastecimento, é porque a situação não é tão má como isso. pensam os recrutas. Não os queremos perturbar, mas sabemos que a comida é tão importante como as munições; e é unicamente por isso que se tentará procurá-la.

 

Mas não conseguem. Faz-se uma segunda tentativa, com o mesmo resultado. Por fim, o Cat quer experimentar e reaparece sem ter podido fazer coisa alguma. Ninguém pode passar; não há uma porta de cão, por mais estreita que seja, capaz de escapar a semelhante fogo.

 

Apertamos um furo nas nossas cinturas e mastigamos três vezes mais o mais pequeno bocado. Apesar disso, não há o suficiente; temos um rato a roer-nos o estômago. Resta-me um canto de pão; como o miolo e meto a côdea na Marmita; de vez em quando, dou-lhe uma dentada.

 

A noite está insuportável. Não podemos dormir, olhamos para a frente com um olhar feroz e cabeceamos. O Tjaden está pesaroso por termos desperdiçado para os ratos as fatias de pão por eles mordidas. Devíamos tê-las conservado cuidadosamente. Agora ninguém as recusava. Também nos falta a água, mas faz-nos menos diferença.

 

Pela manhã, quando ainda está escuro, há um momento de emoção; pela entrada do nosso abrigo, precipita-se uma turba de ratos fugitivos, que trepam por toda a parte, ao longo das paredes. As lâmpadas de algibeira alumiam este túmulo. Toda a gente grita, pragueja e dá para baixo nos ratos. Descarregam-se, assim, a raiva e o desespero acumulados durante numerosas horas. As caras estão crispadas, os braços ferem, os animais dão gritos penetrantes e temos dificuldade em parar, pois estávamos prestes a assaltar-nos mutuamente. Este assalto esgotou-nos. De novo nos deitamos e aguardamos. É um milagre que o nosso abrigo ainda não tenha perdas. É uma das raras galerias profundas que ainda subsistem.

 

Um cabo entra, rastejando; traz consigo um pão. Três soldados conseguiram atravessar a linha de fogo durante a noite e trazer algumas provisões. Contaram que o bombardeamento, sem decrescer de intensidade, vai até às posições da artilharia. É caso para perguntar aos que estão à nossa frente onde conseguiram bocas de fogo.

 

É preciso esperar, esperar. Cerca do meio-dia, produziu-se o que temia. Um dos recrutas tem uma crise. Há muito tempo já o observava, quando ele rangia, continuadamente, os dentes e apertava as mãos. Conhecemos suficientemente bem esses olhos enormes, de fera cercada. Nestas últimas horas, tinha-se tornado calmo só na aparência. Abatera-se sobre si mesmo como uma árvore apodrecida. Levanta-se agora sem se fazer notar, serpenteia através do abrigo, pára um momento e desliza para a saída. Intervenho-me, perguntando-lhe:

 

- Onde queres ir?

 

- Volto num instante - responde ele, tentando passar diante de mim.

 

- Espera um pouco; o bombardeamento vai diminuir. Arrebita as orelhas e o olhar torna-se lúcido um instante.

 

Depois retoma esse brilho turvo que têm os cães raivosos. Cala-se e procura empurrar-me.

 

- Um minuto, camarada!-digo eu, com voz forte. Isto chama a atenção do Cat e, no momento em que o outro me dá um empurrão, ele agarra-o e mantém-no solidamente.

 

O soldado entra imediatamente em fúria:

 

- Deixem-me! Deixem-me sair! Quero sair.

 

Não presta atenção a coisa alguma e esbraceja em volta dele. Baba-se e vocifera palavras sem sentido, de que come metade. É uma crise desta angústia que nasce nos abrigos das trincheiras; tem a impressão de abafar onde está e uma só coisa o preocupa: conseguir sair. Se o deixassem ir, deitaria a correr, não importa para onde, sem se abrigar. Não é o primeiro a quem isto dá.

 

Como é muito violento, os olhos já se reviram; não temos outro recurso senão pô-lo a dormir, para que se torne razoável. Procedemos depressa e sem piedade, conseguindo assim que, provisoriamente, ele sossegue. Os outros tornaram-se pálidos durante este entreacto, e é de esperar que ele lhes inspire um medo salutar. Este bombardeamento contínuo ultrapassa o que estes pobres diabos podem suportar. Chegaram directamente do depósito de recrutas para caírem num inferno que faria encanecer mesmo um veterano.

 

Depois disto o ar é irrespirável, pondo mais à prova os nossos nervos. Estamos sentados como no nosso túmulo e apenas esperamos que ele desabe sobre nós.

 

De súbito, são urros e fulgurações extraordinárias; o nosso abrigo abre-se em todas as suas juntas, com uma explosão que o apanha em cheio; felizmente que o projéctil era ligeiro e que os blocos de cimento resistiram. Foi um terrível estrépido de metal; as paredes vacilaram, as espingardas, os capacetes, a terra, a porcaria e a poeira voaram por todos os lados. Até nós penetra o vapor de enxofre, e, em vez de estarmos no nosso abrigo, de uma solidez de primeira ordem, nos encontrássemos num desses leves trabalhos de sapa, como se fazem agora, nenhum de nós escaparia.

 

No entanto, os efeitos produzidos são bastante lamentáveis. O recruta de há bocado recomeça a inquietar-se, sucedendo o mesmo a dois outros. Um deles escapa-se, desaparecendo a correr. Os dois outros dão-nos trabalho. Precipito-me atrás do fugitivo, sem saber se lhe devo dar um tiro nas pernas. Ouço neste momento um assobio; deito-me no chão e, quando me levanto, vejo a parede da trincheira coberta de estilhaços de obus, ao rubro, de bocados de carne e de restos de uniforme. Volto para o nosso abrigo.

 

O primeiro dos rapazes parece, na verdade, estar doido. Se o deixarem, dá com a cabeça contra a parede, como um bode. Precisamos de o levar, à noite, para a retaguarda. De momento, ligamo-lo de maneira a podê-lo libertar depressa, em caso de ataque.

 

O Cat propõe que joguemos ao scat. Que fazer? Talvez isso nos ajude a suportar a situação. Mas o resultado é lastimoso. Estamos atentos a cada obus que cai na vizinhança e enganamo-nos ao contar as vazas ou não deitamos a correr.

 

Somos obrigados a desistir. Dá-nos a impressão de estarmos sentados numa caldeira de grandes sonoridades, sobre a qual batem de todos os lados.

 

Uma noite mais. Estamos agora vazios, por assim dizer, pela tensão nervosa. É uma tensão mortal, como se uma faca cheia de bocas raspasse a nossa medula espinal em todo o seu comprimento. As pernas negam-se, as mãos tremem-nos, os nossos corpos não passam de uma delgada pele cobrindo um delírio dominado comdificuldade e encobrindo um latido sem fim que já não podemos reter. Já não temos carne, nem músculos: não nos atrevemos a olhar-nos, com receio de qualquer coisa incalculável. Por isso, comprimimos os lábios, tratando de pensar: isto há-de passar... há-de passar. Talvez nos salvemos das dificuldades.

 

Bruscamente, os obuses cessam de cair na nossa vizinhança. O bombardeamento ainda dura. mas foi alongado para a nossa retaguarda. A nossa trincheira está livre. Agarramos nas granadas, deitamo-las em frente da sapa e saltamos para fora. Cessou o fogo de destruição; mas, a substituí-lo, há um terrível fogo de barragem por trás de nós. É o ataque.

 

Ninguém julgaria que, neste deserto todo retalhado, pudesse haver ainda seres humanos; mas os capacetes de aço surgem, agora, de toda a parte da trincheira, e a 50 metros de nós há já uma metralhadora em posição, que se põe imediatamente a crepitar.

 

As defesas de arame são cortadas. No entanto, apresentam ainda alguns obstáculos. Vemos vir os assaltantes. A nossa artilharia troa, as metralhadoras roncam, as espingardas cantam. O inimigo faz todos os esforços para avançar. O Haie e o Kropp põem-se a trabalhar com as granadas. Lamçam-nas o mais depressa possível: são-lhes entregues prontas para serem arremessadas. O Haie atinge 60 metros e o Kropp 50. A prova tem sido feita e é uma coisa muito importante. O inimigo, ocupado a correr, não pode ser perigoso antes de chegar aos 30 metros.

 

Reconhecemos as caras crispadas e os capacetes: são franceses. Atingem os restos de arame farpado, já comvisíveis perdas. Uma fila inteira foi ceifada pela metralhadora que está ao nosso lado; depois, temos uma série de suspensões e os assaltantes aproximam-se.

 

Vejo um deles cair de pé, diante de um cavalo de frisa. O corpo dobra-se sobre si, como um saco. as mãos ficam cruzadas como se estivessem a orar. Depois o corpo solta-se todo e só ficam as mãos, cortadas pelos tiros, com bocados dos braços agarrados ao arame farpado.

No momento em que recuamos, saem três caras do chão. Debaixo de um dos cabeços vê-se uma barba em bico, completamente negra e dois olhos que se fixam em mim. Levanto a mão, mas é-me impossível lançar a granada na direcção desses olhos estranhos. Durante um instante de loucura, toda a batalha rodopia à minha volta e à destes olhos, que são os únicos imóveis; depois a cabeça ergue-se defronte de mim, vejo uma mão, um movimento, e, imediatamente, a minha granada voa. voa para a frente.

 

Recuamos a correr, atiramos vivamente cavalos de frisa para a trincheira e deixamos cair por trás de nós granadas completamente armadas, que nos permitem ceder terreno, sem cessar o fogo. Da posição seguinte, as metralhadoras fazem fogo.

 

Tornamo-nos animais perigosos; não combatemos, defendemo-nos contra a destruição. Não lançamos as nossas granadas contra homens, porque, neste momento, só sentimos uma coisa: que a morte está ali e nos procura debaixo destas mãos e destes capacetes. Depois de três dias, é a primeira vez que a podemos olhar a direito; é a primeira vez há três dias que nos podemos defender dela. O furor que nos anima é insensato. Já não estamos agachados, impotentes sobre o cadafalso, mas, antes, podemos destruir ou matar, para nos salvarmos... para nos salvarmos e para nos vingarmos.

 

Dissimulamo-nos atrás de cada canto, atrás de cada suporte de arame farpado, e, antes de retirarmos para um pouco mais longe, lançamos às pernas dos nossos assaltantes pacotes explosivos. A crepitação seca das granadas repercute-se com força nos nossos braços e pernas. Dobrados como gatos, corremos inundados por esta vaga que nos arrasta, que nos torna cruéis, que faz de nós bandidos, assassinos e, se o quiserem, demônios. Esta vaga que multiplica as nossas forças no meio da angústia, do furor e da ânsia de viver, que procura salvar-nos e que o consegue. Mesmo Se o teu pai se apresentasse ali, como inimigo, tu não hesitarias em lhe arremessar uma granada em pleno peito.

 

As trincheiras da primeira linha são evacuadas. São ainda trincheiras? Estão crivadas de projécteis, destruídas; há apenas restos de trincheira, buracos ligados entre si por corredores, uma multidão de covas. Mas as perdas do inimigo acumulam-se. Não contavam com tanta resistência.

 

É meio-dia. O sol queima com ardor; o suor irrita-nos os olhos. Limpamo-lo com as mangas, que trazem, às vezes, sangue. Chegamos agora a uma trincheira que se encontra num estado um pouco melhor. É ocupada pelas nossas tropas e pronta para o contra-ataque. Acolhe-nos. A nossa artilharia entra poderosamente em acção e aferrolha a posição. As linhas, por trás de nós, param. Não podem avançar. O ataque foi quebrado pela nossa artilharia. Estamos de emboscada. O tiro das nossas peças distancia-se 100 metros e, então, tomamos a ofensiva. Ao meu lado, um soldado de 1ª classe ficou sem cabeça. Dá ainda alguns passos, ao mesmo tempo que o sangue lhe salta do pescoço, como um jacto de água.

 

Na verdade, não se dão combates de corpo a corpo, porque os outros são obrigados a recuar. Reconquistamos os nossos rudimentos de trincheira, ultrapassando-os mesmo. Oh! Estes volta-faces! Atingem-se as posições de reserva, que nos protegem. Gostaríamos de nos encasular nelas e desaparecer, mas eis que é preciso fazer meia volta e regressar ao império do horror. Se, nesse momento, não fôssemos autómatos, ficaríamos deitados, esgotados, incapazes da mais pequena vontade. Mas somos de novo arrastados para a frente, apesar de tudo, e ainda com um furor e uma raiva doida. Queremos matar, porque aqueles defronte são agora inimigos mortais; as suas espingardas e as suas granadas são dirigidas contra nós. Se os não destruirmos, serão eles que nos destruirão.

 

A terra castanha, esta terra castanha toda golpeada e rachada, que deita um brilho baço sob os raios do Sol, é o plano de fundo de um automatismo surdo e sem tréguas; a nossa respiração é o ruído que fazem as molas do mecanismo; os nossos lábios estão secos; as nossas cabeças estão mais pesadas que depois de uma noite de embriaguez. É neste estado que avançamos aos tropeções, e, nas nossas almas furadas como escumadeiras, penetra, com uma dor perfurante, a imagem desta terra castanha com este sol vibrante e estes soldados mortos e palpitantes, estendidos por aí, como se isto fosse   um destino inelutável, e que imaginamos a agarrarem-nos as pernas, soltando gritos quando saltamos por cima dos seus corpos.

 

Perdemos todo o sentimento de solidariedade. Mal nos reconhecemos quando a nossa imagem de outrora cai debaixo do nosso olhar de fera perseguida. Somos mortos em níveis que, por um estratagema e um encantamento perigoso, podemos ainda correr e matar.

 

Um jovem francês fica para trás. É por nós alcançado e levanta as mãos, numa das quais tem ainda o revólver. Não se sabe se ele vai atirar ou render-se. Uma pancada com a pá fende-lhe a cara ao meio. Um outro vê isto e procura fugir, mas uma baioneta entra-lhe nas costas como um raio. Dá um salto e, com os braços muito afastados, a boca aberta, a gritar, vacila, enquanto a baioneta lhe oscila na espinha. Um terceiro deita a espingarda fora e arremessa-se para o solo, com as mãos cobrindo os olhos. Deixamo-lo para trás com outros prisioneiros para levarem Os feridos.

 

Na nossa perseguição, chegamos, de súbito, às posições inimigas.

 

Vamos tão perto dos nossos adversários em fuga, que conseguimos introduzir-nos nas suas posições quase ao mesmo tempo que eles. Graças a isto, poucas perdas tivemos. Uma metralhadora pôs-se a ladrar, mas uma granada calou-a. No entanto, os poucos segundos que isto durou, foram suficientes para atingir na barriga cinco dos nossos homens. O Cat, com uma coronhada, parte a cara a um dos serventes que não fora ferido. Nós outros enfiamos as baionetas, antes de eles poderem servir-se das granadas. Depois, cheios de sede, bebemos avidamente a água do refrigerador.

 

Por toda a parte, trabalham. As tesouras cortam arame ou são colocadas, com presteza, pranchas sobre o travamento das paredes, e saltamos para as trincheiras pelas estreitas aberturas que lhes dão acesso. O Haie enterra a pá no pescoço de um gigantesco francês e atira a primeira granada. Dissimulamo-nos durante alguns segundos por trás de um parapeito, depois toda a parte rectilínea da trincheira em frente de nós se encontra vazia. Obliquamente, no canto, assobia a nossa nova projecção de granadas, que faz um trabalho limpo. A correr, lançamo-las também nos abrigos, diante dos quais passamos. A terra treme; não é mais que fumo, ruídos e explosões. Tropeçamos em bocados de carne, que nos fazem escorregar, e em corpos moles. Caio sobre uma barriga aberta, na qual está pousado um boné de oficial, completamente novo e perfeitamente limpo. O combate abranda. Quebrou-se o contacto com o inimigo. Como não nos podemos manter neste lugar, voltamos às nossas posições primitivas, sob a protecção da nossa artilharia. Logo que tivemos conhecimento deste movimento, precipitamo-nos com uma maior pressa nos abrigos próximos, para nos apoderarmos de todas as conservas que nos caem debaixo da vista, principalmente as latas de corned beef e de manteiga. Antes de treparmos para fora das trincheiras, recuamos em boas condições. Presentemente não se dá nenhum outro ataque da parte do inimigo. Durante mais de uma hora, antes que alguém fale, ficamos estendidos, arquejantes, descansando. Estamos de tal forma esgotados que. apesar da acuidade da nossa fome, não pensamos nas conversas. Só a pouco e pouco tornamos a ser, pouco mais ou menos, seres humanos.

 

O corned beef do inimigo tem nome em toda a frente. É mesmo, às vezes, a principal razão de uma dessas sortidas que efectuamos de improviso, pois o nosso alimento é, em geral, mau. Estamos sempre comfome.

 

No total, apanhamos cinco latas. Comparados connosco, que estamos esfaimados, com a nossa marmelada de rabanetes, os nossos inimigos são magnificamente alimentados; entre eles, a carne vê-se por toda a parte; basta estender a mão para a ter. O Haie, além disso, apossou-se de um desses pães brancos, muito redondos, que os Franceses têm e que ele meteu na parte traseira do seu cinturão, à laia de pá. Uma das extremidades está um pouco ensanguentada, mas é fácil cortá-la.

 

É uma felicidade termos agora que comer, pois há-de haver, ainda, necessidade das nossas forças. Comer à vontade é tão útil como um bom abrigo; é por isso que a alimentação nos preocupa tanto.   Efectivamente, ela pode salvar-nos a vida.

 

O Tjaden trouxe, a mais, dois cantis de conhaque, que dão a volta por todos nós.

 

A artilharia administra-nos a sua “bênção da tarde”. A noite chega; do fundo das covas, sobem nevoeiros. Dirce-ia que os buracos estão cheios de coisas misteriosas, semelhantes a fantasmas. O vapor branco rasteja num lado e noutro, antes de se aventurar a elevar-se acima da borda. Depois estendem-se longas continuações vaporosas de cova para cova.

 

Está fresco. Estou de sentinela e olho fixamente na escuridão. Sinto-me deprimido, como acontece depois de cada ataque. Por isso, é-me penoso ficar só, com os meus pensamentos. A bem dizer, não são pensamentos, mas recordações que me perseguem, agora, na minha fraqueza, e me impressionam de uma maneira singular.

 

Os foguetes luminosos elevam-se no céu e vejo desenhar-se em mim uma imagem: é uma tarde de Verão; estou no claustro da catedral e contemplo altas roseiras que florescem no meio do jardinzinho onde são enterrados os cónegos. Ém volta estão as imagens de pedra das estações do rosário. Não há ninguém; reina um grande silêncio neste quadrado florido; o sol aquece com o seu calor as grandes pedras cinzentas; ponho a mão em cima e sinto a sua quentura. Na extremidade da direita do telhado de ardósias, ergue-se a torre verde da catedral para o azul delicado e baço da tarde. Entre as pequenas colunas brilhantes que se encontram em toda a volta do claustro, reina esta fresca obscuridade, tão própria das igrejas; e eu ali estou, imóvel, pensando que, quando tiver 20 anos, conhecerei as coisas perturbantes que vêm das mulheres.

 

Esta imagem, por um fenómeno extraordinário, está muito perto de mim; quase me toca antes de se apagar com o clarão do próximo foguete.

 

Agarro na espingarda e verifico-lhe o estado. O cano está húmido; com a mão, que comprimo com força, limpo a humidade.

 

Éntre os campos que havia por trás da nossa cidade eleva-se, ao longo de um riacho, uma fila de velhos salgueiros Viam-se de muito longe e, se bem que formassem uma só fila, chamavam-lhe o passeio dos salgueiros. Ainda crianças, já tínhamos por eles uma predilecção; inexplicavelmente, atraíam-nos; passámos junto deles dias inteiros e escutávamos o seu ligeiro murmúrio. Sentávamo-nos à sua sombra, na margem do riacho, e metíamos os pés na corrente clara e rápida. As puras emanações da água e a melodia do vento nos salgueiros dominavam a nossa imaginação. Amávamo-los tanto! E a imagem desses dias, antes de desaparecer, faz-ne ainda bater o coração.

 

É estranho que todas as lembranças que nós evocamos tenham duas qualidades. São sempre cheias de silêncio: é o que nelas há de mais característico, e, mesmo se na realidade fosse de outra maneira, elas não produziam menos esta impressão. E são aparições mudas que me falam com olhares e gestos, sem recorrerem à palavra, silenciosamente. E o seu silêncio, tão comovente, obriga-me a apertar a manga e a espingarda para me não deixar levar por este abatimento e por esta liquefacção a que o meu corpo gostaria de se abandonar, docemente, para alcançar mudas potências que há por trás das coisas.

 

São silenciosas, justamente porque o silêncio é para nós um fenómeno incompreensível. Na frente não há silêncio e a garra da frente é tão vasta que não podemos escapar-lhe de forma alguma. Mesmo nos depósitos recuados e nos lugares onde vamos para descansar, o ruído e a confusão ensurdecedores do fogo continuam sempre nos nossos ouvidos. Nunca vamos longe de mais para deixar de os ouvir. Mas todos estes dias aqui são insuportáveis.

 

Este silêncio é a razão das imagens do passado despertarem em nós menos desejos que tristeza, uma melancolia imensa e apaixonada. Estas coisas deram-se e já não voltarão. Passaram; fazem parte de um mundo para nós findo. Nos pátios das casernas suscitavam um desejo feroz e rebelde; estavam ainda ligadas a nós; nós pertencíamos-lhes e elas pertenciam-nos, ainda que estivéssemos separados. Surgiam nas canções de soldado que cantávamos quando íamos para o exercício na charneca, marchando entre a aurora e negras silhuetas de florestas; constituíam uma veemente recordação que estava em nós e que de nós emanava. Mas   aqui,   nas trincheiras,   perdeu-se   essa   recordação. Já se não ergue dentro de nós; estamos mortos e ela permaneceu lá longe, no horizonte; é uma espécie de aparição, um reflexo misterioso que nos visita, que tememos e que amamos sem esperança. É forte e o nosso desejo é igualmente forte, mas é inacessível e nós sabemo-lo. É tão vão como a esperança de se ser general.

 

E mesmo se nos dessem esta paisagem da nossa juventude, não saberíamos o que fazer. As forças delicadas e secretas que em nós suscitava já não podem renascer. Bem poderíamos mover-nos nela e comover-nos com ela, bem poderíamos lembrarmo-nos, amá-la e emocionarmo-nos com o seu aspecto, mas isso seria o mesmo que quando uma fotografia de um camarada morto ocupa os nossos pensamentos; são os seus traços, é a sua cara e os dias passados com ele que reproduzem no nosso espírito uma vida falaz, mas não é ele.

 

Não estaríamos ligados a esta paisagem como outrora. Não foi o conhecimento da sua beleza e da sua alma que nos atirou para ela, mas a comunhão, a consciência de uma fraternidade com as coisas e as evoluções da nossa alma, fraternidade que nos limitava e nos representava, um pouco incompreensível, o mundo dos nossos pais; porque estávamos, por assim dizer, sempre ternamente entregues e confiados à nossa família e as mais pequenas coisas acabavam constantemente, para nós, na estrada do infinito. Talvez fosse só esse o privilégio da nossa juventude; não víamos ainda limite algum e em parte alguma admitíamos um fim: tínhamos em nós esse impulso do sangue que nos unia à marcha dos nossos dias.

 

Hoje não passaríamos na paisagem da nossa juventude senão como viajantes. Estamos gastos pelos acontecimentos; sabemos distinguir os matizes, como os comerciantes, e reconhecer as necessidades, como os magarefes. Já não somos descuidados; possuímos uma terrível indiferença. Poderíamos lá estar, mas viveríamos Estamos desamparados como as crianças e experientes como os velhos. Somos grosseiros, tristes e superficiais. Creio que estamos perdidos.

 

As mãos tornam-se-me frias e a pele arrepia-se-me. No entanto, a noite está quente; apenas o nevoeiro é fresco, este nevoeiro sinistro que rasteja em volta dos mortos, defronte de nós e que suga a última gota de vida escondida. Amanhã estarão lívidos e o seu sangue coagulado.

 

Os foguetes luminosos sobem constantemente, no céu projectam o seu clarão impiedoso por cima da paisagem petrificada, cheia de crateras e de uma luz fria como um astro lunar. O sangue que corre sob a minha pele transporta aos meus pensamentos a inquietação e o medo. E eles debilitam-se e tremem; querem calor e vida. Não podem resistir sem consolo e sem ilusões; atrapalham-se diante da imagem nua do desespero.

 

Ouço um bater de garrafaria e sinto imediatamente um violento desejo de alimentos quentes, o que me fará bem e me tranquilizará. É comdificuldade que me contenho à espera do momento da rendição.

 

Desço depois para o abrigo, onde encontro à minha espera um copo grande compapas de cevadinha. Têm gordura e são boas. Como lentamente. Mas continuo silencioso, ainda que os outros estejam de melhor humor por o bombardeamento ter enfraquecido.

 

Os dias passam e cada hora é, ao mesmo tempo, incompreensível e evidente. Os ataques alternam-se como contra-ataques e, no meio das covas, os mortos acumulam-se entre as linhas. O mais frequente é nós podermos ir procurar os feridos que não estejam muito longe de nós; mas muitos, apesar de tudo, ficam estendidos por bastante tempo e nós ouvimo-los morrer.

 

Há um que em vão buscamos há dois dias. Está, sem dúvida, deitado sobre a barriga e não se pode voltar. É a única explicação que há para a nossa impossibilidade de descobrir onde se encontra, porque, quando se fala com a boca muito perto do chão, é extremamente difícil saber-se donde vem o apelo.

 

Naturalmente apanhou um tiro ruim. uma dessas feridas malignas, que não são suficientemente fortes para abater rapidamente o corpo e matar numa semiconsciência e que, Por outro lado, são-nos de mais para se   poder suportar a dor e a esperança da cura. O Cat pensa que seja uma fractura da bacia, ou então um tiro na coluna vertebral.

 

Não deve ter ferimento no peito, pois se assim fosse, não teria tanto fôlego para gritar. Se o ferimento fosse outro, vê-lo-íamos, forçosamente, mexer-se.

 

Pouco a pouco a voz torna-se rouca. O som está disposto com uma tal infelicidade, que se diria poder vir de todos os lados do horizonte. Na primeira noite, saíram três camaradas à sua procura, mas, quando julgaram ter encontrado a direcção e que já rastejavam nesse sentido, ouvimos vir a voz do outro lado, quando se puseram a escutar.

 

Até ao amanhecer procuram em vão. Durante o dia, esquadrinham o terreno combinóculos; nada descobrem. No segundo dia a voz do homem é mais fraca; compreendemos que tem os lábios e a boca secos.

 

O nosso comandante de companhia prometeu àquele que o encontrasse uma licença antecipada com três dias suplementares. Foi um grande estímulo, mas mesmo sem ele, faríamos todo o possível, pois estes gritos são terríveis. O Cat e o Kropp saem mesmo uma vez durante a tarde. Ao Albert uma bala levou-lhe a extremidade de uma orelha. Temeridade inútil, pois o não trouxeram a consciência.

 

No entanto, compreende-se perfeitamente o que ele diz. Primeiro, não deixa de chamar por socorro; durante a segunda noite, teve, decerto, um pouco de febre; fala à mulher e aos filhos. Com frequência ouvimos o nome de Elisa. Hoje não fez outra coisa senão chorar. Ésta tarde a voz extinguiu-se e só se ouve um gemido. Mas suspira ainda, muito brandamente, durante toda a noite. Ouvimo-lo muito bem por o vento soprar no sentido das nossas trincheiras. No dia seguinte, de manhã, quando julgávamos que ele já tinha expirado, veio ainda um estertor gutural até nós... Os dias são tórridos e os mortos estão estendidos na terra em filas cerradas. Não podemos ir procurá-los todos. Não sabemos o que havemos de fazer. São os obuses que os envolvem. Às vezes os ventres deles entumescem-se como balões. Assobiam, arrotam e movem-se. São os gases que se agitam neles.

 

O céu é de um azul sem nuvens. As noites são opressivas e o calor sobe do chão. Quando o vento sopra para o nosso lado, traz-nos o cheiro do sangue, este cheiro incómodo e de uma repugnância insípida, esta exalação de morte saída das covas, que parece ser uma mistura de clorofórmio e de podridão e que nos dá nojo.

 

As noites tornam-se calmas e começa a caça às cintas de cobre dos obuses e aos pára-quedas de seda dos foguetes franceses. Ninguém, na verdade, sabe muito bem porquê estas cintas dos obuses são tão procuradas. Os coleccionadores afirmam, simplesmente, que elas têm valor. Há pessoas que se enchem tanto com elas que, quando descem às trincheiras, o peso obriga-as a andar completamente curvadas.

 

O Haie, pelo menos, dá-lhes uma aplicação: quer enviá-los à noiva, como ligas. Isto fez morrer de riso os valentes frisões que, com palmadas nas coxas, exclamaram: “Mas que piada!” Meu Deus, este Haie tem graça até às pontas dos cabelos! O Tjaden, muito especialmente, não se pode conter; tem na mão a maior das suas cintas, por onde mete constantemente a perna a fim de mostrar o espaço que ainda fica livre. “Haie, meu velho, ela deve ter pernas, sim. Pernas. é preciso dizer que os seus pensamentos vão um pouco mais acima deste ponto -, e também deve ter nádegas, sim. como... como um elefante.»

 

Na sua alegria, não fica por aqui. “Ah! Dou a minha palavra que com ela é que eu queria brincar às casinhas...»

 

O Haie está radiante pelo êxito alcançado pela namorada e, contente consigo, exclama num tom breve: “É uma pêssega.»

 

Os pára-quedas de seda têm uma utilidade mais prática. Três ou quatro, conforme a largura do peito, fazem uma blusa. O Kropp e eu transformamo-los em lenços. Os outros enviam-nos para casa. Se as mulheres adivinhassem o perigo que muitas vezes representa ir buscar estes delgados trapos, ficariam bastante alarmadas.

 

O Cat surpreende o Tjaden prestes a tentar bater, muito tranquilamente, num obus não explodido para lhe tirar a cinta. Com qualquer outro, o engenho teria explodido, mas o Tjaden, agora, como sempre, tem sorte.

 

Duas borboletas amarelas brincam toda a tarde em frente de nossa trincheira; as asas são manchadas de vermelho.

 

Que as teria atraído aqui? Não há uma planta, nem uma flor nas redondezas. Os pássaros também são assim descuidados: já estão há muito tempo habituados à guerra. Todas as manhãs as cotovias voam entre as frentes inimigas. Há um ano podemos observá-las prestes a porem os ovos e conseguirem, mesmo, criar os filhos.

 

Na trincheira, os ratos deixam-nos tranquilos. Estão mais em frente de nós e sabemos porquê. Engordam e, quando vemos um, atiramos sobre ele. À noite ouvimos de novo a rodagem vinda do outro lado. Durante o dia, só temos o bombardeamento normal, de modo que podemos reparar as trincheiras; Também temos com que nos distrair, servindo para isso os aviadores. Todos os dias numerosos comnbates aéreos têm o seu público.

 

Não nos queixamos dos aviões de combate, mas odiamos os observadores, como a peste, por nos atraírem o fogo da artilharia. Poucos minutos depois deles aparecerem, é uma chuva de shrapnels e de obuses. Isto fez-nos perder onze homens num só dia, entre os quais cinco maqueiros. Dois estão de tal forma esmagados, que o Tjaden declara que se poderia, com uma colher, rapar o que deles resta colado à parede da trincheira e dar-lhes uma marmita por túmulo. A um outro levaram-lhe o baixo-ventre, assim como as pernas. Estava morto e sustido na trincheira pelo tronco; a cara é de um amarelo cidra e o cigarro brilha ainda na boca; continuará aceso até atingir os lábios.

 

Depomos, provisoriamente, os mortos numa grande cova. Até agora já têm três camadas sobrepostas.

 

De súbito, o fogo recomeça comfúria. Eis-nos, em breve, de novo sentados na inquieta rigidez da espera, espera inactiva.

 

Ataque, contra-ataque, choque, contrachoque, são, na verdade, palavras; mas que significam elas? Perdemos muita gente, principalmente recrutas. No nosso sector as vagas são, de novo, preenchidas por reforços. Veio-nos, portanto, um destes regimentos recentemente criados, composto quase por gente nova dos últimos contingentes. Estão mal instruídos; antes de entrarem em campanha, não puderam ter senão exercícios teóricos. Sabem, sem dúvida, o que é uma granada, mas poucos conhecimentos possuem dos meios de se abrigarem, faltando-lhes, sobretudo, o sentido da oportunidade. É preciso que um relevo do solo já tenha 50 centímetros para eles o aperceberem.

 

Se bem que os reforços nos sejam indispensáveis, os recrutas dão-nos quase tanto trabalho quanta utilidade; nesta zona de combates duros estão desamparados e caem como tordos. Para a guerra de posição que hoje se faz, é preciso conhecimentos e experiência; é preciso compreender o terreno; é preciso ter no ouvido o ruído dos diversos projécteis e conhecer os seus efeitos; é preciso prever onde eles caem, qual o seu campo de dispersão e como nos protegermos.

 

Todos estes novos efectivos, naturalmente, pouco ou quase nada sabem de tudo isto. São dizimados por mal distinguirem os engenhos de percussão dos de inflamação; são ceifados por escutarem, cheios de angústia, os ruídos das grandes peças de artilharia, que são inofensivas e cujos projécteis vão cair muito longe de nós, ao passo que não ouvem o ligeiro e sibilante murmúrio dos pequenos monstros que rebentam a rasar o chão. Encostam-se uns aos outros, como carneiros, em vez de se dispersarem, e mesmo os feridos são de novo abatidos pelos aviadores, como se fossem lebres. Ah!, estas pálidas caras de cera, estas mãos crispadas inspirando compaixão, a lamentável intrepidez desses pobres cães que, apesar de tudo, vão para a frente e atacam, desses pobres, desses valentes cães, que estão intimidados e que não ousam, sequer, gritar e, tendo os braços, as pernas, o peito e a barriga completamente retalhados, gemem baixinho, chamando pelas mães e se calam logo que nos vêem.

 

As suas caras afiadas sem barba e mortas têm essa terrível ausência de expressão dos cadáveres de crianças.

 

Sente-se um apertão na garganta quando os vemos lançarem-se, correrem e caírem. Apetece-nos bater-lhes por serem parvos... e também agarrá-los por um braço, tirá-los dali, que não é o seu lugar. Trazem dólmans, Calças cinzentas e botas de soldados, mas para a maioria o uniforme é grande de mais, flutuando-lhes em redor dos membros. Os ombros são demasiado estreitos: os corpos são demasiado pequenos: não havia uniformes nas medidas das crianças.

 

Por cada praça velha caem de cinco a dez recrutas. Um ataque de gás, que venha de surpresa, leva uma multidão. Nem mesmo perceberam o que os esperava. Encontramos um abrigo cheio de caras azuladas e de lábios negros. É por terem tirado, numa cova, as máscaras demasiado cedo. Não sabiam que, nos fundos, o gás se conserva por mais tempo: quando viram outros soldados situados por cima deles estarem sem máscara, tiraram as suas e respiraram gás ainda bastante para lhes queimar os pulmões. O seu estado é desesperador; escarros de sangue que os estrangulam, e crises de falta de ar, precursoras da morte.

 

Num troço de trincheira, encontro-me, de súbito, na presença de Himmelstoss. Escondemo-nos no mesmo abrigo.

 

Arquejante, toda a gente está deitada à espera do momento de avançar para o ataque.

 

Ainda que muito agitado, ao sair do abrigo, um pensamento me atravessa a ideia: já não vejo o Himmelstoss. Desço rapidamente • encontro-o metido a um canto, fazendo-se passar por ferido, apenas com uma pequena escoriação. Ao ver-se-lhe a cara dir-se-ia que o tinham assassinado. Era um excesso de cobardia; é preciso dizer que está ainda de novo aqui. Mas o que me torna furioso é saber que os jovens recrutas estão lá fora, enquanto ele se esconde. Com uma voz furiosa, grito-lhe:

 

- Sai daqui!

 

Não se mexe;   os lábios tremem-lhe e o bigode palpita.

 

- Sai daqui!

 

Entesa as pernas, encosta-se à parede e mostra os dentes como um cão.

 

Agarro-o por um braço e quero obrigá-lo a levantar-se. Põe-se a choramingar. Os nervos apoderam-se de mim. Agarro-lhe no pescoço e sacudo-o como a um saco, fazendo oscilar-lhe a cabeça de um lado para o outro e grito-lhe em pleno rosto: “Canalha, queres sair? Cão, patife, querias esconder-te?”

 

Os olhos tornam-se-lhe vítreos: bato-lhe com a cabeça contra a parede: “Monte de esterco!” Dou-lhe um pontapé nas costas: “bandalho!” empurro-o para a frente e faço que a cabeça lhe saia primeiro.

 

Uma nova vaga dos nossos camaradas vem justamente a passar. Com eles está um tenente, que nos olha e grita”Para a frente! Para a frente! Unam fileiras! Unam fileiras!“ i, o que as minhas pancadas não puderam obter, obtém-no estas palavras. O Himmelstoss ouviu um seu superior. Olha em volta de si, como se acordasse, e junta-se aos outros.

 

Sigo-o e vejo-o lançar-se. Tornou-se o decidido Himmelstoss do pátio da caserna; ultrapassou, mesmo, o tenente e vai completamente à cabeça...

 

Fogo rolante, tiro de barragem, cortina de fogo, minas. gás. carros de combate, metralhadoras, granadas, são palavras. apenas palavras, mas que encerram todo o horror do mundo.

 

As nossas caras estão cheias de crostas, o nosso pensamento está aniquilado, estamos mortalmente fatigados. quando chega o ataque é preciso socar mais de um para o acordar e nos seguir. Os olhos estão inflamados, as mãos laceradas, os joelhos sangram, os cotovelos estão partidos.

 

São semanas, meses ou anos que passam assim? Simples dias. Vemos o tempo a desaparecer ao nosso lado pelas caras descoradas dos moribundos; as nossas colheres metem os alimentos nos nossos corpos, comemos, atiramos granadas, fazemos fogo, matamos, estendemo-nos não importa onde, estamos extenuados e embrutecidos e apenas uma coisa nos sustém: é haver ainda mais extenuados, mais embrutecidos, mais desamparados que, com os olhos muito abertos, nos têm na conta de deuses, a nós que, às vezes, podemos escapar à morte.

 

Damos-lhes lição durante as raras horas de repouso, “Escuta, vês aquela panela vacilante? É uma mina que vem aí. Deitada, ela vai lá para diante. Mas, quando ela fizer safar-te, se corrermos, podemos salvar-nos. Exercitamos-lhes os ouvidos a apanhar o murmúrio pérfido desses pequenos projécteis que mal se ouvem; é preciso que conheçam entre o alarido o seu zumbido de mosquito, ensinamos-lhes que eles são mais perigosos que os maiores que se ouvem vir muito tempo antes. Mostramos-lhes como nos devemos esconder aos olhos dos aviadores, como nos fingimos mortos quando se é ultrapassado pelos assaltantes, como é preciso preparar as granadas para explodirem meio segundo antes do choque. Ensinamos-lhes a precipitarem se nos buracos de obuses quando chegam os engenhos mortíferos; mostramos-lhes como, com meia dúzia de granadas, se limpa uma trincheira; explicamos-lhes a diferença que há entre as granadas inimigas e as nossas, no que respeita à duração da mecha; chamamos-lhes a atenção para o ruído das granadas de gás e explicamos-lhes todos os artifícios que os podem salvar da morte.

 

Escutam-nos, são dóceis, mas quando a batalha começa, na sua emoção, as mais das vezes fazem tudo ao contrário.

 

O Haie Westhus foi levado com a espinha partida; a cada inspiração os pulmões batem através da ferida. Posso ainda dar-lhe um aperto de mão. “Estou pronto, Paul”, gemeu ele, mordendo o braço com dores.

 

Vemos pessoas a quem o crânio foi levado continuarem a viver; vemos soldados correrem cujos pés foram ceifados. Vão de rojo, aos tropeções, até ao primeiro buraco de obus. sobre os cotos ensangüentados, um soldado de 1ª classe arrasta-se pelas mãos durante 2 quilómetros, com os joelhos quebrados; um outro chega ao posto de socorros com as tripas a escorregarem-lhe das mãos, esforçando-se por as reter; vemos pessoas sem boca, sem maxilar inferior, sem figura. Encontramos um que, pelo espaço de duas horas, mantém os dentes cerrados na artéria do braço, para não perder todo o sangue. O Sol esconde-se, chega a noite, os obuses assobiam; a vida pára.

 

Entretanto, o pequeno bocado de terra esquartejado, onde nos encontramos, foi conservado, apesar das forças superiores, e só algumas centenas de metros foram sacrificados. Mas por cada metro há um morto.

 

Somos rendidos. As rodas giram sobre os nossos pés para nos transportarem à retaguarda. Estamos ali de pé, como em letargia, e quando se ouve o grito: “Atenção”! Flectimos os joelhos para nos abaixarmos. Quando passámos aqui, era verão;: as árvores estavam ainda verdes; agora têm um ar de Outono e a noite é cinzenta e húmida. As viaturas param, nós descemos, pequeno grupo de sobreviventes atirados promiscuamente, resto de uma multidão de nomes. Aos lados,-, na obscuridade, pessoas chamam os números dos regimentos e das companhias, e, a cada chamada, um montinho destaca-se do grupo, uma pequena porção insigmificante de soldados imundos e lívidos, uma pequena quantidade formidavelmente rendida. um resto terrivelmente pequeno.

 

Alguém grita o nosso número; é o nosso comandante de companhia, que reconhecemos pela voz. Voltou, Portanto. Vamos para junto dele e reconheço o Cat e o Albert. Pomo-nos ao lado uns dos outros, apoiando-nos mutuamente e contemplando-nos.

 

e uma vez mais, mais uma vez e chamam u nosso número. Podem-no chamar muito tempo: nada se ouve nas enfermarias. nem nas covas.

 

Mais uma vez, para aqui a 2ª Companhia. E, depois, mais baixo: “Mais ninguém da 2ª?”

Cala-se. A voz está um pouco rouca quando pergunta: “Está toda a gente aqui?” E manda: “Numerar a seguir!”

 

A manhã está cimzenta. Quando partimos, estávamos ainda no verão e íamos cento e cinquenta homens; agora temos frio; é Outono; as folhas murmuram, as vozes elevam-se num tom cansado: “Um; dois; três; quatro...” E depois do número trinta e dois, calam-se. faz-se um longo silêncio antes de uma voz perguntar: “Há ainda mais alguém?” espera e depois, muito baixo: “Por pelotões!” No entanto, pára; é só. pesarosamente, pode terminar: “2ª companhia... 2ª Companhia... Em frente, marche!”

 

Uma fila. Uma breve fila lá vai vacilante,   na manhã, Trinta e dois homens!

 

Levam-nos mais para a retaguarda do que é hábitto, para um depósito de recrutas, a fim de podermos reconstituir o nosso efectivo. A nossa companhia precisa de mais de cem homens de reforço.

 

Durante este tempo, passeamos por aqui e por ali, pois não temos serviços a fazer. Ao fim de dois dias, o Himmelstoss junta-se a nós. Depois de ter estado na trincheira, perdeu o seu grande autoritarismo. Propõe-nos que façamos as pazes. Estou pronto a aceitar por tê-lo visto ajudar a levar o Haie westhus, que tinha as costas laceradas. Além disso, fala de uma maneira verdadeiramente razoável. Não vemos objecção alguma para que ele não nos convide para a cantina. Só o Tjaden está desconfiado e reservado.

 

Mas também ele é conquistado depressa, porque oHimmelstoss informa que vai substituir o cabo do rancho, que parte de licença. como prova, traz imediatamente duas libras de açúcar para nós e uma libra de manteiga especialmente para o Tjaden. Será mesmo que sejamos destacados para a cozinha, os três dias seguintes, para descascar as batatas e as rutabagas?

 

Os pratos que nos Iam servir são dignos da mesa dos oficiais.

 

De momento temos, portanto, as duas coisas que constituem a felicidade do soldado: bom alimento e repouso. Quando se pensa nisso, vê-se não ser muito. Há poucos anos atrás sentir-nos-íamos terrivelmente desprezíveis. Hoje sentinmo-nos quase contentes. É tudo uma questão de hábito, até mesmo a trincheira.

 

Este costume é a razão pela qual parecemos esquecer tão depressa, antes de ontem estávamos ainda debaixo di fogo e hoje armamos em papalvos e deixamo-nos viver. Amanhã voltaremos para as trincheiras. Na realidade, nada esquecemos. Enquanto estivermos em campanha, os dias da frente, depois de estarem passados, caem como pedras no fundo do nosso ser, porque são por de mais pesados para os podermos ponderar tão depressa. Se o fizéssemos, eles aniquilar-nos-iam, pois já notei o seguinte: os horrores são suportáveis sempre que nos contentamos em baixar a cabeça, mas matam quando neles reflectimos.

 

Tornamo-nos todos animais quando vamos para a frente , porque é a única coisa que nos permite aguentarmo-nos. Mas quando estamos em repouso, tornamo-nos   parasitas, superficiais e sonâmbulos. É impossível proceder de outro modo: somos literalmente obrigados a isso, pois queremos viver custe o que custar. Eis a razão por que não nos podemos atordoar com sentimentos que podem ser decorativos em tempo de paz, mas que aqui são absolutamente falsos.

 

O Kemmerich morreu. O Haie Esthus está morto. No dia do julgamento final, ver-se-ãoos aflitos para recompor o corpo do Hans Éramer, que foi desfeito por um obus; o Martens já não tem pernas, o Max está morto, o Meyer está morto, o lierger está morto, o Hámmerling está morto, cento   e vinte homens estão deitados por aí, nas ambulâncias, com a pele furada; é uma coisa maldita, mas agora que é que ela nos pode importar? Vivemos. Se os pudéssemos salvar, então ver-se-ia; pouco nos importaria arriscar a pele e depressa estaríamos a caminho, pois temos, quando nos dá na vontade, uma vivacidade formidável: não sabemos o que seja o medo, excepto o medo de morrer, mas isso é uma outra coisa, é físico.

 

Mas os nossos camaradas morreram, não podemos ajudá-los; estão em paz. Quem sabe o que nos espera ainda? O que queremos é meter-nos a um canto e dormir, ou empanturrarmos a barriga, meter as mãos nas algibeiras e fumar, para que as horas não custem a passar. A vida é curta.

 

O horror da frente desaparece quando lhe voltamos as costas. A este respeito, dizemos pilhérias ferozes e ignóbeis.

 

Se alguém morre, dizemos que fechou o rabo. E é desta maneira que falamos de tudo. Isto impede que endoideçamos. Sempre que tomarmos as coisas desta maneira, somos capazes de resistir.

 

Mas não esquecemos. O que os jornais de guerra dizem sobre a magnífica disposição das tropas, que se ocupam em organizar danças, mal acabam de sair da zona de bombardeamento, não passa de estupidez. Se procedemos assim, não é por estarmos bem dispostos, mas temos bom humor para não estoirar. De resto, estaremos em breve no limite das nossas forças e o nosso humor torna-se mais amargo de mês para mês.

 

É, sei-o, tudo que presentemente, enquanto estivermos em guerra, se crava em nós como pedras, reanimar-se-á depois da luta e, então, a partir daí, começará a explicação para a vida. para a morte.

 

Os dias, as semanas, os anos da frente, ressuscitarão na sua hora própria, e os nossos camaradas mortos voltarão e marcharão conosco nesse momento. As nossas cabeças istarão lúcidas, teremos uma finalidade e marcharemos, assim, lado a lado com os nossos camaradas mortos; e, por trás, os anos da frente. Marcharemos contra quem?

 

Aqui, na região, houve ultimamente representações de um teatro da frente. Numa sebe estão ainda colados berrantes cartazes. O Kropp e eu ficamos pasmados perante eles. Não podemos compreender que haja ainda semelhantes coisas. Neles, vê-se uma rapariga com um vestido claro de verão e um cinto de coiro vermelho envernizado em volta da cintura. Tem uma das mãos sobre uma balaustrada; com a outra, agarra um chapéu de palha. Por trás dela está o mar azul, com algumas ondas espumantes, e, na costa, espreguiça-se uma baía cheia de luz. É uma esplêndida rapariga de nariz pequeno, lábios vermelhos e pernas compridas, de um asseio e uma garridice incríveis. Decerto toma banho duas vezes por dia e nunca tem as unhas sujas: quanto muito, talvez, um pouco de areia da praia. Ao lado dela está um homem de calças brancas, casaco azul e boné De marinha, mas ele interessa-nos muito menos. A rapariga da sebe é para nós uma revelação: tínhamos completamente esquecido a existência de semelhantes coisas. Mesmo agora custa-nos a acreditar nos nossos olhos. Em todo o caso, há anos já que não vemos nada que se lhe compare, nada que mostre tanta serenidade, beleza e felicidade. É a encarnação da paz, que deve ser desta maneira, sentimos nós com emoção.

 

Olho para esses sapatos leves: não lhe permitiriam andar um único quilómetro, Observo eu.

 

E imediatamente me sinto ridículo, pois é estúpido pensar-se no andar diante de uma imagem destas.

 

- Que idade pode ter? pergunta o Kropp. Calculo e respondo:

 

- Quanto muito, vinte e dois anos. Albert, Então:

 

- é mais velha do que nós. Mas tenho a certeza de que a sua idade não vai além dos dezasseis anos.   Um frémito nos percorre.

 

- Albert, isso será famoso. Que dizes? Ele faz sinal que sim.

 

- Em minha casa tenho também umas calças brancas. - Umas calças brancas, está bem - replico eu; mas uma rapariga assim...

 

Olhámos um para o outro, de alto a baixo. Não há, em nós, grande coisa a descobrir, além de um uniforme sujo, remendado e de cor sumida. Uma comparação e nenhuma esperança.

 

Por isso fazemos desaparecer da sebe, primeiro, O homem de calças brancas; fazemo-lo com precaução, para não estragar a rapariga. É já um resultado. Depois o Kropp propõe:

 

- E se nos fôssemos despiolhar?

 

Não sou muito desta opinião, pois ali o fato amarrota-se e, ao fim de duas horas, estamos outra vez com piolhos. No entanto, depois de uma longa contemplação da imagem, declaro-me pronto a segui-lo. E acrescento:

 

- Podíamos, mesmo, tentar arranjar uma camisa limpa. O Albert, não sei por que razão, pensa: Peúgas russas seriam ainda melhor.

 

Sim, talvez também   peúgas   russas,   e   vamos   tratar de descobrir qualquer coisa.

 

Mas   eis que o Leer e o tjaden se aproximam, vagueando. Notam o cartaz e, num instante, a conversa torna-se bastante escabrosa. O Leer foi o primeiro da nossa aula que teve uma amante, e dava-nos, dos seus amores, pormenores que nos agitavam. Entusiasma-se a sua maneira por esta imagem e o Tjaden imita-o energicamente.

 

Na verdade, isto não nos desgosta. O que não diz indecências não é um soldado; apenas, neste momento, o nosso espírito não estava disposto a isso. Foi a razão por que acabámos com a conversa e nos dirigimos para o estabelecimento de despiolhamento com o sentimento de irmos para um alfaiate da moda.

 

As casas onde nos tinham dado alojamento estão situadas perto do canal. Do outro lado há lagoas rodeadas por bosques   de   salgueiros; para   além   do   canal   também   ha mulheres.

 

Do nosso lado as casas foram evacuadas, mas em frente vêem-se habitantes de vez em quando.

 

uma tarde, estávamos a nadar e vimos virem três mulheres pela margem fora. Vinham lentamente e não voltaram a cabeça, se bem que não trouxéssemos cuecas.

 

O Leer chamou-as; elas riram e pararam para nos ver. num mau francês, atiramos-lhes frases que nos vêm à cabeça, não importa quais fossem, à mistura e precipitadamente, para que elas se não vão embora. Na verdade, não são coisas de uma boa educação, mas onde as iríamos encontrar?

 

Entre elas há, especialmente, uma morena esbelta. Quando ri, os seus dentes brilham. Tem os movimentos rápidos e a saia desce-lhe com elegância em volta das pernas. Se bem que a água esteja fria, nós pomo-nos de pés , mãos no leito do canal e fazemos tudo para elas ficarem. Arriscamos graças ao que elas respondem sem que nós as compreendamos; rimos e fazemos-lhes sinais. O Tjaden é mais prático. corre ao nosso alojamento e traz um pão de munição que exibe no ar.

 

Isso obtém um grande sucesso. Por sinais e por gestos, convidam-nos a irmos ter com elas, o que nos é proibido. É-nos interdito passar para a outra margem. Ém todas as pontes há sentinelas. Sem uma permissão em regra, nada se pode fazer. Por isso, tratamos de lhes fazer compreender que são elas que devem vir ter conosco, mas elas abanam a cabeça e mostram as pontes; também a elas não deixam passar. Voltaram para trás e sobem, lentamente, o canal, sempre ao longo da margem. Nós acompanhamo-las a nadar. Depois de algumas centenas de metros, afastam-se da margem e mostram-nos uma casa que se destaca entre o arvoredo e as moitas. O Leer pergunta-lhes Se é ali que vivem. riem. Sim, é aquela a casa delas.

 

Gritamos-lhes que lá iremos quando as sentinelas não nos possam ver. Durante a noite; esta noite mesmo. Levantam as mãos, pousam as palmas umas sobre as outras e encostam a cara às costas, fechando os olhos; Compreenderam. A morena, muito leve, esboça uns passos de dança, uma loura chilreia: Pão... do bom...

 

Confirmamos-lhes, com animação, que o levaremos. e também outras coisas boas. E, dizendo isso, rolamos os olhos e fazemos com a mão gestos significativos. O Leer esteve prestes a afogar-se, ao querer explicar que lhes levaria um bocado de chouriço. Se fosse necessário, prometer-lhes-íamos um depósito de víveres completo. Acabam por se ir embora, voltando-se, no entanto, repetidas vezes. Regressamos para a nossa margem e certificamo-nos se elas, de facto, entram na casa. pois podiam bem ter-nos enganado. Depois, a nado, tornamos ao nosso ponto de partida.

 

Sem uma licença especial, ninguém pode atravessar a ponte. Por tal motivo iremos, muito pacatamente, à noite e a nado. Somos tomados de uma emoção que não nos deixa. Não podemos ficar no alojamento e vamos à cantina. Justamente há cerveja e uma espécie de ponche.

 

Bebemos ponche e contamos histórias, histórias extraordinárias, inventadas do princípio ao fim, Cada um não deseja senão acreditar no que diz o vizinho, esperando, COM impaciência, de se poder vangloriar de uma proeza ainda mais excitante. As nossas mãos estão febris. Fumamos cigarros sem conta até que o Kropp diz: “Olhem lá. Nós lhes levaremos cigarros.” Metemo-los, então, nos barretes e guardamo-los.

 

O céu toma um matiz de maçã verde. Somos quatro, e Só há raparigas para três: tratamos portanto de nos desembaraçar do Tjaden. Damos-lhe rum, ponche, até ele titubear. Ao anoitecer, voltamos para o nosso alojamento com o Tjaden no meio de nós. Estamos sobre brasas e a perspectiva da aventura dá-nos volta à cabeça. A morena esbelta é para mim; fizemos a partilha e está decidido.

 

O Tjaden cai por cima do seu saco de palha e fica-se a ressonar, mas acorda e põe-se a olhar-nos, chacoteando, com um ar tão malicioso que temos receio de se ter fingido embriagado, de nada tendo servido o ponche que lhe pagámos. Mas cai outra vez e adormece de novo. Cada um de nós prepara um pão inteiro e envolve-o num papel de jornal. Juntamos-lhes cigarros e mais três bons bocados de chouriço de fígado, acabado de receber nessa tarde,; é um presente conveniente.

 

Provisoriamente metemos tudo nas botas, visto precisarmos de levar botas para não andarmos por cima dos arames ou dos cacos, quando estivermos do outro lado do canal. Como antes, é preciso atravessarmos este a nado. e não podemos embaraçar-nos com os fatos; de resto, é noite e não vamos muito longe.

 

Partimos com as botas na mão. Deslizamos depressa para a água, pomo-nos de costas e nadamos com as botas e o seu conteúdo por cima da cabeça.

 

Com precaução, escalamos a outra margem do canal, tiramos os embrulhos das botas e calçamos estas. Os presentes colocamo-los debaixo do braço. Pomo-nos, assim, a caminho, em passo apressado, completamente molhados, nus, não tendo por vestuário senão as botas. Depressa se nos depara a casa. Éstá metida na escuridão das moitas. O Leer tropeça numa raiz e esfola os cotovelos. “Isto não é nada», anuncia alegremente.”

 

As janelas têm as portas fechadas. Damos uma   volta à casa e tentamos olhar através das frinchas.   Depois   impacientamo-nos. O Kropp torna-se, de súbito, indeciso. E se está lá dentro um major?

 

   Então desfilarenos! brinca o Leer. Não terá senão que ler o número do nosso regimento aqui – acrescenta, batendo no traseiro.

 

A porta da casa está aberta. As nossas botas fazem um certo barulho, um gonzo chia. Acende-se uma luz. Uma mulher, assus tada, dá um grito. Dizemos-lhe no melhor francês que sabemos: - pst... pst... camarade... bonne... E, ao mesmo tempo, levantamos no ar os embrulhos para conciliar as boas graças.

 

Veem-se a seguir as duas outras. A porta escancara-se e a luz dá-nos em cheio, reconhecem-nos ,- todas três se põem a rir as gargalhadas do nosso aspecto. riem-se de tal modo, no enquadramento da porta, que se torcem e se curvam. Que elegância nos seus movimentos.! - um   momento: previnem elas.

 

Desaparecem e atiram-nos com roupas onde nos metemos o melhor possível. Depois deixam-nos entrar. No aposento está aceso um pequeno candeeiro. Éstá calor e cheira um pouco a perfume. Desembrulhamos as nossas coisas e damos-lhas. Os olhos delas brilham: vê-se que têm fome.

 

Encontramo-nos todos um pouco embaraçados. O Leer faz o gesto de comer. A animação reaparece, então. elas vão buscar pratos e deitam-se às vitualhas.

 

Primeiro levantam no ar, com admiração, cada rodelinha de chouriço de fígado, que se apressam, em seguida, a comer, e nós, sentados a seu lado, sentimo-nos muito presunçosos.

 

Cobrem-nos com um jacto de palavras. Nada compreendemos do que nos dizem, mas sentimos serem palavras amáveis, talvez também se impressionem por sermos muito novos. A morena esbelta acaricia-me os cabelos e diz-me o que as mulheres francesas dizem sempre: la guerre... grand malheur... pauvres garçons...

 

Agarro-lhe no braço, aperto-o a mim e ponho a boca na palma da sua mão. Os seus dedos estreitam-ne a cara; Por cima de min estão os seus olhos comovidos, a doçura morena da sua pele e os seus lábios vermelhos. A boca diz palavras que não compreendo. Também não compreendo, completamente, os seus olhos: dizem mais do que esperávamos ao virmos aqui. Ao lado, há quartos. Indo para um Deles, vejo Leer, que, com a loura, fala alto e vai muito decidido para o outro.. com efeito, está acostumado a estas andanças, mas eu sinto-me perdido   numa   espécie   de   lonjura feita, ao mesmo tempo, de doçura e de violência, e deixo-me ir. Sinto em mim qualquer coisa que deseja e que,na mesma ocasião, naufraga. A cabeça anda-me à roda. Não há coisa alguma aqui onde a possa apoiar. Deixamos as botas diante da porta. Para as substituir, deram-nos pantufas, não tendo agora nada que faça lembrar o porte cavalheiresco e impertinente do soldado: nem espingarda, nem cinturão, nem uniforme, nem capacete. Abandono-me ao desconhecido, suceda o que suceder, pois, a despeito de tudo, tenho um certo medo.

 

A morena esbelta mexe as sobrancelhas, quando reflecte. Guando fala, ficam imóveis.

 

Às vezes o que diz fica metade por exprimir: fica abalado ou passa, vagamente, por cima da minha cabeça, É como um arco, uma trajectória, um cometa. que sou eu? Quem sou eu? As palavras desta língua estrangeira, que mal compreendo, adormecem-me e rnergulham-me num sossego em que o quarto quase desaparece com os seus cantos sombrios e a sua claridade e onde é somente vivida; e mal se distingue a cara humana que se debruça sobre mim.

 

Quão complexa é uma cara que ainda uma hora antes nos era desconhecida e que, presentemente, se inclina numa atitude de ternura não provocada por nós, mas que vem da nnoite, do universo e do sangue que parecem irradiar em nós. Os objectos que estão em torno são tocados e transformados por este ambiente, tomando um aspecto particular. A minha pele branca quase me inspira um sentimento de veneração, quando a luz da lâmpada nela se reflecte e a mão morena e fresca me acaricia.

 

Como tudo isto é diferente do que se passa nos bordéis para soldados, onde temos autorização de ir e a cujas portas há longas bichas. Não queria pensar nisso, mas, contra a minha vontade, esta lembrança importuna-me, aterrando-me tal facto. pois talvez nunca mais seja capaz de me desembaraçar dela.

 

”assim, olho us lábios desta morena esbelta e estendo-me para eles. Fecho os olhos e gostaria, com isso, de apagar tudo, a guerra, os seus horrores e as suas ignomínias, para acordar jovem e feliz. Penso na imagem da rapariga do cartaz e creio num instante que a minha vida depende de uma única coisa: conquistá-la. E cinjo-me mais fortemente nos seus braços, que me enlaçam. Talvez se vá produzir um milagre.

 

Não sei como, encontramo-nos em seguida todos juntos; O   Leer   tem   um   ar   triunfante.   Despedimo-nos calorosamente e enfiamos outra vez as botas. O ar nocturno refresca os nossos corpos em brasa. Os salgueiros erguem-se enormes na escuridão e murmuram. A Lua brilha no céu e na água   do   canal.   Não   corremos;   vamos   ao   lado   uns   dos outros, dando grandes passadas. O Leer diz:

- Isto valeu bem um pão de munição. Não posso resolver-me a falar, nem sequer estou alegre. Mas eis que ouvimos alguém a andar e escondemo-nos por trás de uma moita. Os passos aproximam-se e estão agora muito perto de nós. Distinguimos um indivíduo nu, com botas exactamente como nós. Traz um embrulho debaixo do braço e passa a galope.   É o Tjaden,   que está   muito apressado. Já desapareceu.

 

Rimos. No dia seguinte ele é que blasfemará! Sem   sermos notados por pessoa alguma,   chegámos às nossas enxergas.

 

Fui chamado à secretaria. O comandante de companhia estende-me um passaporte de licença com uma requisição de transporte e deseja-me boa viagem. Vejo quantos dias tenho de licença: dezassete. Catorze para a licença e três para a viagem. Para o itinerário é demasiado pouco e pergunto se não posso ter cinco dias. O BertincÉ faz-me sinal para ver bem o papel; então distingo que não voltarei imediatamente à frente. Logo que a minha licença termine, participarei do curso do campo de La Lande.

 

Sou invejado pelos outros. O Cat dá-me bons conselhos, indicando-me como devo fazer para tentar escapar-me. “Se fores esperto, ficas por lá.”

 

Para dizer a   verdade,   preferiria   só   partir daqui   a   dezoito dias, pois durante todo este tempo ficamos por aqui, Onde se está bem. Naturalmente sou obrigado a pagar uma rodada na cantina.   Ficamos todos um   pouco embriagados.

 

Torno-me   melancólico.   Ficarei   na   retaguarda   durante   seis semanas. Decerto, é uma grande felicidade, mas o que será Quando voltar? Encontrarei todos aqui? O Haie e o Kemmerich já não existem; quem será o primeiro?

 

Bebemos e olho os meus camaradas um após outro. O Albert está a meu lado e fuma; está muito alegre. Estivemos sempre juntos. Em frente está o Kat, acocorado, com os ombros descaídos, os dedos grandes e a voz tranquila. Depois é o Muller, com os dentes salientes e o riso sonoro: e o Tjaden, com os olhitos de rato; o Leer, que deixa crescer a barba e tem um aspecto quarentão.

 

Por cima das nossas cabeças, há uma nuvem de fumo. Que seria do soldado sem o tabaco? A cantina é para ele um asilo, a cerveja é mais que uma bebida, é o indicativo de que se pode, sem perigo, estender e encolher os membros. De facto não nos incomodamos com isso. Estiramos as pernas e cuspimos à vontade em volta de nós e não é preciso dizer mais nada. Que impressão faz tudo isto para alguém que se vai embora no dia seguinte!

 

À noite vamos mais uma vez ao outro lado do canal. Quase tenho medo de dizer à esbelta morena que me vou embora e que, quando voltar, estaremos, comcerteza, em qualquer outra parte; por conseguinte, ficaremos separados para sempre; mas ela contenta-se em fazer alguns sinais com a cabeça e não tem o aspecto de ficar muito comovida. A princípio não posso compreender muito bem, mas depois percebo. O Leer tem razão; se tivesse partido para as trincheiras, ter-me-ia dito: Pauvre garçon! Mas de um comlicença elas fazem pouco caso, por não ser tão interessante. Que vá para o Diabo com o seu chilrear e as suas palavras! Acreditava num milagre e, no fim de contas, só existem os pães de munição.

 

No dia seguinte, de novo despiolhado, dirijo-me para o caminho de ferro. O Albert e o Cat acompanham-me. Na estação avisam-nos de que a partida é só daí a algumas
horas. Os meus dois camaradas têm de se ir, chamados pelo serviço. Despedimo-nos   uns dos outros. Boa sorte, Cat!   Boa sorte,   Albert!

 

Vão-se embora   e dizem-me adeus várias vezes.   As silhuetas tornam-se cada   vez mais pequenas. Todos os seus passos e os seus movimentos me são familiares; reconhecê-los-ia facilmente de longe. Desapareceram agora.

 

Sento-me na mochila e espero.

 

De súbito, sinto uma impaciência doida para partir.

 

Paro em mais de uma estação: apresento-me em frente de mais de um caldeiro, onde se distribui sopa. Estendo-me em cima de mais de uma tábua. Mas depois a paisagem que atravesso torna-se, ao mesmo tempo, perturbante, inquietante e familiar: desliza, de passagem, sobre o brilho da tarde, com aldeias, onde os tectos de palha se enterram, como barretes, em cima de casas de tabiques rebocados, com campos de cereais que, sob a luz oblíqua, brilham como nácar, com pomares, granjas e velhas tílias.

 

Os nomes das estações tornam-se ideias que me fazem palpitar o coração. O comboio roda e roda com trepidação: ponho-me à janela e encosto-me ao caixilho. Todos estes nomes encerram a minha mocidade.

 

Planas pradarias, campos, herdades, uma junta de bois passa solitária, tendo por fundo o céu, no caminho que corre paralelamente ao horizonte. Diante de uma barreira, aguardam camponeses, raparigas fazem sinais, crianças brincam ao longo da via. caminhos que levam aos campos, caminhos bem lisos, sem artilharia.

 

É noite, e se o comboio não fizesse ouvir o seu pesado ronronar, nada me impediria de gritar. A planície apresenta-se em toda a sua extensão. Num azul atenuado, a silhueta dos contrafortes montanhosos começa a subir ao longe. Reconheço a linha característica do Doldenberg, essa crista dentada que bruscamente se aligeira onde estaca o cimo da floresta. É por trás dali que a cidade vai aparecer.

 

Mas a luz, de um vermelho dourado, flui sobre a terra, confundindo-se com ela. O comboio, rangendo, descreve uma curva, logo uma outra, e, irreais, confusos e escuros, erguem-se os salgueiros, muito ao longe, uns por trás dos outros, em longa fila, feitos ao mesmo tempo de sonbra, de luz e de languidez.

 

O campo rodopia, lentamente, com eles; o comboio contorna-os. Os intervalos diminuem; não formam senão um bloco, após um instante, vejo apenas um só. Depois os outros retornam a os seus lugares atrás do primeiro e ficam sós. por muito   tempo, sob o fundo do céu, até serem encobertos pelas primeiras casas.

 

Agora é uma passagem de nível; coloco-me à janela, donde me não posso separar. Os outros preparam a bagagem para saírem: eu pronuncio em voz baixa o nome da rua que atravessamos: “rua de Brême. Rua de Brême...” Por baixo de nós passam ciclistas, carros, seres humanos. É uma rua cinzenta e um viaduto cinzento, mas comovem-me como se se tratasse da minha mãe.

 

Depois o comboio pára e aparece a estação, com o seu alarido, os seus pregões e os seus letreiros. Agarro na mochila e ponho-a às costas; levo na mão a espingarda e desço os degraus da carruagem quase a vacilar. Na plataforma da estação, olho em redor. Não conheço nenhuma das pessoas que ali se comprimem. Uma dama da Cruz Vermelha oferece-me qualquer coisa de beber. Afasto-me dela. Sorri-me muito parvamente, de tal forma está compenetrada da sua importância. (Vejam lá, eu a dar café a um soldado!)E Chama-me: “Camarada”, como se tivesse necessidade disso.

 

Mas cá fora, diante da estação, a ribeira reluz ao lado da rua. Canta, muito branca, ao sair das eclusas da porta do moinho. Ali muito perto, levanta-se a velha torre quadrada; em frente dela está a corpulenta tília de cores vivas e, por trás, a tarde.

 

Muitas vezes nos sentámos aqui. e como isso já vai longe!

 

Atravessámos esta ponte e respirámos o odor fresco e pútrido da água imóvel, inclinámo-nos sobre a calma corrente, neste lado da eclusa, onde os pilares da ponte estavam cobertos de verdes lianas, e de algas pendentes, e, do outro lado da eclusa, nos dias ardentes, gozámos a frescura da espuma saltitante, ao mesmo tempo que dávamos à língua a respeito dos nossos professores. Atravesso a ponte. olho para a direita e para a esquerda.i a água continua cheia de algas e cai na mesma, com ruído, formando um arco de brancura. as tílias ainda lá estão, como antigamente; as engomadeiras de braços nus diante da roupa branca, e o calor dos seus ferros atravessa as janelas abertas. a rua estreita trotam cães. Defronte das portas das casas, há pessoas que me vêem passar, sujo e carregado como um moço de fretes. Nesta pastelaria comemos gelados e exercitámo-nos a fumar cigarros. Na rua em que passo, conheço cada casa de per si, a mercearia, a drogaria, a padaria, e tenho agora junto a mim a porta escura de aldraba gasta, onde a minha mão tomba. Abro-a: uma estranha frescura me acolhe, tornando os meus olhos incertos.

 

A escada geme debaixo das minhas botas; e, em cima, uma porta chia e uns olhos espreitam-me por sobre o corremão. É a porta da cozinha que se acaba de abrir. Estão precisamente a fritar filhos de batata, cujo cheiro enche a casa. Hoje é sábado, com efeito, e é, provavelmente, a minha irmã que se inclina lá em cima. Tiro o capacete e ergo os olhos. É, na verdade, a minha irmã mais velha. “Paul! -grita ela. - Paul!”

 

Faço um sinal. A minha mochila choca com o corremão e a minha espingarda é tão pesada! Ela abre uma porta interior e grita: “Mãe, mãe, o Paul está aqui!” Não posso continuar. “Mãe, mãe, o Paul está aqui.”

 

Apóio-me à parede e estreito nervosamente o capacete e a espingarda: estreito-os tanto quanto posso, mas não subo nem mais um degrau. A escada baralha-se-me diante dos olhos. Dou uma coronhada nos pés. Cerro os dentes de cólera, mas não posso resistir a essa única palavra pronunciada por minha irmã; nada consigo. Faço tudo para rir e falar; impossível emitir uma única palavra e fico na escada, de pé, infeliz, abandonado, prestes a ter uma crise terrível. Procuro reagir, mas as lágrimas não deixam de correr na cara. A minha irmã volta e pergunta: “Mas o que tens tu??”

 

Violento-me, então, e atinjo, vacilante, a antecâmara. Encosto a espingarda a um canto, ponho a mochila contra a parede e coloco por cima o capacete. Preciso de me desembaraçar do cinturão e do que nele está agarrado. Depois Viro   furioso: “Então não me trazes um lenço?” Dá-me um que tira do armário e limpo a cara. Por cima está suspensa a caixa de vidro com as borboletas multicores que antigamente coleccionava. Ouço agora a voz da minha mãe. Esta voz vem do quarto de dormir. Inquiro da minha irmã:

 

-- Ela não está levantada?

 

- Está doente... - foi a resposta.

 

Dirijo-me para ela. Dou-lhe a mão e digo-lhe no tom mais calmo que posso:

 

- Já cá estou, mãe.

 

Está silenciosamente deitada na semiescuridão. Pergunta-me com uma voz ansiosa, enquanto, sinto-o, me sonda com o olhar.

 

Estás ferido?

 

- Não, venho de licença.

 

A minha mãe está muito pálida e eu tenho medo de acender a luz.

 

- E eu que estou deitada e choro - lamenta-se ela. Em vez de me alegrar.

 

- Estás doente?

 

- Vou-me levantar hoje um pouco.

 

Volta-se para a minha irmã, que é obrigada, continuamente, a dar um salto à cozinha para que se não queime o que está ao lume.

 

- Abre também o boião do doce de violetas roxas... Tu gostas dele. não é verdade? - perguntou-me ela.

 

- Sim, mãe. há já muito tempo que o não como.

 

- Como se tivéssemos adivinhado que estavas a chegar

- diz a minha irmã a sorrir. - Justamente  o   teu   prato predilecto, os biscoitos de batata e, o que é mais, com o doce de violetas roxas!

 

- Mas é preciso lembrar que hoje é sábado - recordei eu.

 

Senta-te ao pé de mim - pediu-me a minha mãe.

 

Olha-me: as suas mãos estão brancas e doentes e muito pequenas em relação às minhas. Falamos muito pouco e estou-lhe grato por não me interrogar. Também, que lhe poderia responder? No fim de contas, não tenho razão de queixa, visto estar aqui são e salvo, ao lado dela e de Ter a minha irmã na cozinha preparando o jantar, cantando.

 

- Meu querido filho! diz minha mãe em voz baixa.

 

Nunca fonos, na família, de uma ternura expansiva. Não se usa isso nos pobres diabos que têm muito que fazer e estão sobrecarregados de cuidados. Mesmo não podem compreender estas coisas, nem gostam de repetir várias vezes aquilo que já sabem. Quando a minha mãe me trata por “Querido filho!”, isto é tão significativo como uma mulher a pronunciar as mais patéticas palavras. Sei que o boião de violetas roxas é o único existente em casa desde ha meses e que foi guardado para mim. assim como us biscoitos que me estão agora a dar e que já são velhos.

 

Com certeza provêm de qualquer ganilo excepcional e imediatamente postos de parte em minha intenção.

 

estou sentado junto do seu leito e pela janela resplandecem, em castanho e ouro, os castanheiros do jardim pertencente ao café em frente; Respiro lentamente, prolungadament. E digo para comigo: “estás em casa; estás em casa.” Mas não posso livrar-me de um certo constrangimento. não posso ainda adaptar-me a tudo isto. Tenho aqui a minha mãe. a minha irmã. a minha caixa de borboletas, o meu piano de acaju. Mas não me sinto ainda completamente em minha casa. Há um véu e um intervalo entre min e as coisas. É por isso que vou procurar a minha mochila; ponho-a na beira do leito e tiro tudo o que trouxe: um queijo inteiro da Holanda, arranjado pelo Cat; dois pães de munição, três quartos de libra de manteiga, duas caixas de chouriço de fígado, uma libra de banha e um pequeno saco de arroz.

 

- Com certeza que vocês se podem servir disto... ambas fazem sinal afirmativo.

- Sem dúvida que o fornecimento aqui não anda muito bem. Não é verdade?

 

- Não, não há muita coisa. E por lá, têm o que é preciso?

 

Sorrio e mostro o que trouxe.

 

Nem sempre se apanha tanto, mas vai indo.

 

Minha irmã Érna leva os víveres. De repente, a minha mãe segura-me na mão, Vivamente, e inquire-me com uma voz hesitante:

 

- Isso por lá é muito mau, Paul?

 

Mãe, Que te poderia responder? Não o compreenderias, nunca o perceberias. Também não é preciso que tu alguma vez o compreendas. Perguntas-me se tem sido mau? És tu quem me perguntas isso. Tu, mãe! Abano a cabeça e digo; Não, mãe; não tanto como dizem. estamos lá muitos camaradas e não é assim tão mau.

 

- Sim, mas ultimamente esteve aqui o Henri Bredeniever e contou que agora era terrível por lá. Com gases e tudo mais.

 

É a minha mãe quem assim fala. Diz: “Com os gases e tudo mais.” Não sabe o que diz. Sente, simplesmente, medo por mim. Devo-lhe contar que encontrámos uma vez os ocupantes de três trincheiras inimigas rígidos nas suas atitudes, como se tivessem sido fulminados por um raio? Estavam de pé ou deitados sobre os parapeitos, nos abrigos, exactamente nos sítios onde foram surpreendidos, as caras azuladas, mortos.

 

Ah! Minha mãe; diz-se muita coisa. O Bredemener disse isso simplesmente para falar. Tu vês. estou de saúde e engordei...

 

Perante as inquietações da minha mãe, encontro toda a minha calma. Agora posso ir e vir, porque toda a gente é moldável como a cera e por as minhas artérias se tornarem secas como cortiça.

 

Minha mãe quer levantar-se: durante este tempo, vou à cozinha ter com a minha irmã.

 

- Que tem ela?- pergunto-lhe.

 

Encolhe os ombros.

 

- Há já uns meses que não se levanta. Mas não queria que te participássemos. Tem sido vista por vários médicos. um deles disse que, provavelmente, era ainda o seu cancro.

 

Vou ao comando militar para me visarem a licença. Caminho lentamente pelas ruas fora. Os conhecidos dirigem-se-me - aqui e ali. Não paro por muito tempo por não desejar falar muito.

 

Ao voltar da caserna, ouço uma voz forte a chamar-me; volto-me, absolutamente absorvido nos meus pensamentos, E dou de cara com um major. Interpela-me abruptamente:

 

- Não quer fazer a continência?

 

Perdoe-me, meu major, respondi-lhe confuso. Não o tinha visto.

 

Grita mais alto:

 

Também   não   pode exprimir-se   correctamente?

 

Tive vontade de o esbofetear, mas contive-me, pois, de contrário, a licença ficaria perdida. Ponho-me militarmente na posição de sentido e digo: Não vi o meu major.

 

- Éntão   tenha   cuidado• recomenda ele com rudeza.

 

- Como se chama?

 

Dou-lhe o meu nome.

 

A sua gorda cara vermelha está irritada.

 

- Qual a sua formação? Informo militarmente. Isto ainda o não satisfaz.

 

- Onde é isso? - mas agora, já farto, digo-lhe:

 

- Entre LangemarÉ e Bixschoote.

 

- Como? - faz ele espantado.

 

Explico-lhe que cheguei de licença há apenas uma hora. na crença de que isto o irá acalmar. Engano-me, porém. Torna-se, mesmo, ainda mais furioso:

 

- Ah! Quer então introduzir aqui os costumes da frente, hem? Mas não há nada a fazer Aqui. graças a Deus, reina a ordem.

 

Comanda:

 

- Vinte passos à retaguarda, marche, marche!

 

Fico cheio de uma raiva surda, mas nada posso contra ele que, se quisesse, far-me-ia prender imediatamente. Por isso, volto vivamente para trás, avanço e, 5 ou 6 metros antes de chegar junto dele, pus-me firme e fiz uma continência nervosa, que não desfiz senão 6 metros depois de o ter passado.

 

Chamou-me   e   fez-me   saber,   agora   com benevolência, por sua vez, a indulgência sobrepunha o regulamento.

 

Mostro-me agradecido, segundo as fórmulas militares. Pode retirar-se - comanda ele.

 

Bato os calcanhares e vou-me embora.

 

isto estraga-me a tarde. Volto para casa, deito o uniforme para um canto, o que era já a minha intenção; tiro, depois, o fato civil do guarda-vestidos e visto-o.

 

Perdi o hábito. O fato tornou-se curto e apertado. Cresci no regimento. Dificilmente ponho o colarinho e a gravata. Por fim é a minha irmã que dá o nó. Como este fato é leve! Tem-se a impressão de estar, unicamente, em camisa e cuecas. Contemplo-me ao espelho. A figura nele reproduzida é-me estranha. Um Fabiano, tostado pelo sol e crescido muito depressa, olha-me com espanto. Minha mãe está satisfeita por eu ter envergado o fato à paisana. Julga, por isso, que lhe pertenço mais. Mas o meu pai preferia-me de uniforme para me mostrar aos amigos. recuso-me.

 

É bom estar tranquilamente sentado em qualquer parte. Por exemplo, no jardim do café que está defronte da minha casa, debaixo dos castanheiros, perto do jogo do chinquilho. Caem folhas na mesa e no chão. São ainda poucas, as primeiras. Diante de mim tenho um copo de cerveja; no regimento habituámo-nos a beber. O copo está meio vazio. Tenho ainda para saborear alguns goles frescos e, além disso, posso mandar vir um segundo e um terceiro, se me apetecer. Não há chamada, nem tiros. Os filhos do dono do café jogam o chinquilho e o cão põe a cabeça nos meus joelhos. O céu está azul. Entre as folhas dos castanheiros, aparece o campanário verde da igreja de Santa Margarida.

 

Isto é bom e sinto-me bem. Mas não posso entender-me com as pessoas. De todas, a única que não me interroga é minha mãe. Até o meu pai é como os outros. Gostaria que lhe falasse um bocado do que se passa lá na frente, uns desejos que considero, ao mesmo tempo, estúpidos e tocantes; já não tenho com ele uma verdadeira intimidade. O que queria era estar sempre a ouvir-me. Noto que ele não sabe que semelhantes coisas não se podem contar e, no entanto, gostaria bastante de lhe dar esse prazer; mas para mim há perigo em traduzir isto em palavras; tenho receio de que as coisas aumentem extraordinariamente e que depois já não seja possível deitar-lhe a mão. Onde estaríamos nós se tivéssemos uma verdadeira consciência do que se passa por lá? Por isso limito-me a contar-lhe algumas histórias divertidas, mas ele pergunta-me se já tomei parte num combate corpo a corpo. Digo-lhe que não e levanto -me para sair.

 

No entanto, não ganhei nada com isso. Quando, na rua, depois de me ter sobressaltado por duas ou três vezes com o ruído dos carros eléctricos, por se assemelhar ao dos obuses, que se aproximam roncando, sinto alguém a bater-me no ombro. É o meu professor de alemão que me faz, precipitadamente, as perguntas habituais: “então!, como vai isso por lá? É terrível, terrível, não é verdade? Sim, é espantoso, mas é preciso mantermo-nos e, no fim de contas, vocês lá têm boa comida, pelo que me dizem. Você tem boa aparência, Paul. Tem um aspecto muito vigoroso. Aqui, naturalmente, as coisas não vão assim tão bem; o que, aliás, é natural. É escusado dizer: o melhor deve ser sempre para os nossos soldados.”

 

Leva-me ao café, para a sua mesa habitual, onde estão os amigos. Recebem-me de uma maneira grandiosa. Um senhor, que tem o título de director, dá-me a mão e diz: “Ah!, vem da frente! Como vai u moral por lá? Excelente. Excelente, não é assim?”

 

Declaro que cada um quereria voltar   para casa.

 

Ele ri formidavelmente: “Acredito-o! Mas primeiro é preciso desancar o Franzmam. Fuma? Tome, acenda um. Rapaz, traga também um copo de cerveja para o nosso jovem guerreiro.”

 

Infelizmente, aceitei o charuto, por isso sou obrigado a ficar. Toda a gente se desfaz em amabilidades e contra isto nada tenho a dizer. No entanto, estou descontente e fumo o mais depressa que posso. Para fazer, ao menos, qualquer coisa, bebo de um trago o copo de cerveja. Imediatamente mandam-me vir um segundo. As pessoas sabem as suas obrigações para com um soldado. Disputam sobre o que nós devemos tomar. O director, que traz uma corrente de relógio de ferro, é o mais comilão: são-lhe precisas toda a Bélgica, as regiões hulhíferas da França e grandes pedaços da Rússia. Dá razões exactas pelas quais isto nos deve ser entregue e fica inflexível em que, enquanto os outros não cederem...

Põe-se então a explicar em que lugar se deve fazer a penetração na fronteira francesa e, sobre este assunto, volta-se para mim “Vamos! Avancem um pouco para lá Com a vossa guerra eterna de posições. Tomem de flanco essa salsada de tipo e então, teremos a paz.”

 

Respondo que, na nossa opinião, uma ruptura de frente é impossível por as tropas defronte terem, para isso, muito mais reservas. Além disso, acrescento que a guerra é bem diferente do que se julga.

 

Riposta-me com um ar superior e prova-me que disso nada entendo. “Com respeito aos pormenores, não há dúvida de que tem razão”, diz ele. “Mas o que importa é o conjunto. A esse respeito você não está em estado de apreciar. meu amigo não vê senão o seu pequeno sector ,. por isso não pode ter uma vista de olhos total. O senhor faz o seu dever, arrisca a sua vida. Isso merece as maiores honras. Cada um de vós deveis ter a cruz de ferro. Mas, primeiro que tudo, a frente inimiga devia ser rompida na Flandres e depois é preciso obrigá-los a ceder de alto a baixo.» Sopra e limpa a barba. “É preciso fazê-los ceder de alto a baixo e depois marchar sobre Paris.»

 

Gostava de saber como se lhe apresenta a manobra e emborco o terceiro copo. Imediatamente encomenda outro.

 

Mas levanto-me. ele mete-me, ainda, alguns charutos na algibeira e despede-se com uma pancada amigável.

 

- Os nossos desejos de felicidade! esperamos dentro em pouco ouvir falar de vós todos de uma forma magnífica.

 

Tinha imaginado a licença sob um aspecto diferente. Efectivamente, há um ano, teria sido completamente desigual. Fui, sem dúvida, eu quem mudou desde então. entre o presente e o ano passado há um abismo. Nessa ocasião ainda não conhecia a guerra. Só tínhamos estado em sectores tranquilos. Hoje noto que, sem o saber, estou deprimido. Já não me encontro aqui à vontade, É para min um mundo estranho, Uns fazem-me perguntas, outros não. e vê-se que se orgulham com essa atitude. Frequentemente dizem, num tom de alguém que compreende as coisas, que não é possível falar disto e, ao mesmo tempo, tomam o arzinho de superioridade.

 

O que prefiro é estar só, para ninguém me aborrecer. Porque todos voltam sempre com as mesmas coisas; isto vai mal, ou isto vai bem. Um acha-o assim, o outro acha-o de maneira diferente; e também se ocupam sempre do que não lhes interessa pessoalmente. Antigamente teria feito, certamente, como eles. mas agora tudo isso está longe de min. Para nim, as pessoas falam de mais. Têm preocupações, finalidades e desejos que não posso partilhar com eles: às vezes estou sentado com um deles no jardinzinho do café e procuro explicar-lhe que o essencial, em suma, é poder estar ali sentado, tranquilamente.

 

Naturalmente eles compreendem isso: reconhecem-no, admitem-no também, mas para eles não passa de palavras, e aí é que reside a diferença. Eles sentem-no bem, mas por metade; a outra netade deles está ocupada com coisas diferentes. Estão divididos de uma maneira qualquer. Ninguém sente as coisas com todo o seu ser. Eu mesmo não posso exprimir claramente o que se passa.

 

Quando os vejo assim, nos seus quartos, nos seus escritórios, nos seus negócios, sinto-me irresistivelmente atraído. Gostaria de ser como eles e de estar como eles e de esquecer a guerra. Mas, ao mesmo tempo, isto repugna-me. Há nisso tanta miséria! Como pode isso preencher uma existência? Era preciso quebrar a ordem social; como pode tudo isto ser assim, enquanto por outro lado os estilhaços dos obuses assobiam por cima das covas e os foguetes sobem ao céu ? Enquanto os feridos são postos em panos de tenda e os camaradas se abrigam nas trincheiras? As criaturas daqui são outras, são criaturas que não compreendo muito bem. que desprezo e invejo ao mesmo tempo. Contra vontade, sou obrigado a pensar no Cat. no Albert. no Miiller e no Tjaden. Que estarão a fazer agora? Talvez estejam sentados na cantina, ou então a nadar. Dentro em pouco terão de voltar para a primeira linha...

 

No meu quarto, por trás da mesa, há um sofá de coiro castanho. Sento-me nele. Nas paredes estão fixadas com pregos, numerosas imagens que outrora cortei de revistas.

 

Aqui E ali, bilhetes-postais e desenhos que me agradaram. A um canto, um pequeno fogão de ferro. Em frente, contra a parede, a prateleira onde estão os meus livros.

 

Foi neste quarto que vivi antes de ser soldado. Estes livros comprei-os, pouco a pouco, com o dinheiro ganho a dar lições. Muitos deles são livros de ocasião. Por exemplo, todos os clássicos: um volume custou-me um marco e vinte pennigs, - encadernado em lona forte de cor azul. Comprei-os completos, pois era meticuloso: não tinha confiança nos editores das páginas escolhidas e duvidava que tivessem impresso o melhor. Por isso, só comprava “obras completas”. Li-as com um zelo leal. mas a maior parte não me encantava. Tinha, cada vez mais, predilecção pelos livros modernos, que, naturalmente, eram também mais caros. Alguns não os adquiri muito honestamente; foram-me emprestados e não os devolvi por não me querer separar deles.

 

Um compartimento está cheio de livros de estudo. Foram pouco cuidados e estão em muito mau estado. Algumas páginas estão rasgadas, não compreendo porquê. E por cima estão cadernos, papel e cartas empacotadas, desenhos e ensaios.

 

Procuro reportar-me a esse tempo. Ele permanece ainda no quarto, sinto-o imediatamente. As paredes conservam-no. As mãos estão colocadas no espaldar do sofá. Ponho-me à vontade e levanto as pernas; assim estou confortavelmente sentado no canto, entre os braços do sofá. A janelinha está aberta; mostra a imagem familiar da rua com a projecção do campanário na extremidade. Caneta, lápis, uma concha a servir de pesa-papéis, o tinteiro -- aqui nada mudou.

 

O aspecto será o mesmo se, quando a guerra acabar, eu tiver a sorte de voltar para sempre. Sentar-me-ei da mesma maneira, olhando o quarto e esperando...

 

Estou agitado, mas não o queria estar por não ser preciso. Quereria, como outrora, quando me punha diante dos livros, experimentar ainda esta atracção silenciosa, este sentimento de afecto potente e inexprimível. Quereria que a nuvem de desejos que antigamente se desprendia das lombadas multicolores destes livros rne envolvesse de novo: quereria que ela fundisse o pesado bloco de chumbo inerte que há em mmim, para despertar no meu ser esta impaciência pelo futuro, esta alegria Alada que me dava o mundo dos pensamentos. Quereria que me trouxesse o ardor perdido da minha juventude.

 

Estou aqui sentado e espero. Lembro-me de que devo ir visitar a mãe do Emmerich: poderei também visitar u Mittelstaedt. Deve estar no quartel. Olho pela janela. Por trás da imagem da rua soalheira, surge uma colina de tons leves e deslavados, que se transforma num dia claro de Outono em que estou sentado diante do lume e em que, com o Cat e o Albert, como batatas bem cozidas na cinza.

 

Mas não quero pensar nisso; afasto esta lembrança. O que desejo é que o quarto me fale, me envolva e me tome. Quero sentir a minha intimidade com o lugar, quero escutar a sua voz, a fim de que, quando voltar para a frente, saiba isto: a guerra apaga-se e desaparece quando chega o momento do regresso; acaba, não mais nos atormenta, não tem sobre nós outro poder senão o da ausência.

 

As lombadas dos meus livros estão colocadas umas ao lado das outras; conheço-os ainda e lembro-me da maneira como os enfileirei. Imploro-lhes com os meus olhos: “Falem-me. Acolham-me, prendam-me de novo à vida de outrora. tão descuidada e bela: prendam-me de novo...»

 

Passam imagens diante de min; não têm consistência: não passam de sombras e de recordações.

 

Nada. Nada. A minha inquietação aumenta.

 

De súbito, surge em mim um terrível sentimento de ser um estranho neste sítio. Não posso encontrar aqui o meu lugar familiar; é como se me repelissem. Por mais que ore e me esforce, nada vibra: estou sentado indiferente e triste, como um condenado, e o passado afasta-se de min. Ao mesmo tempo, tenho medo de evocar, demasiado vivamente, esse passado, por não saber o que poderá acontecer. Sou um soldado, não devo, portanto, sair deste papel.

 

Levanto-me com lassidão e olho pela janela. Posso agarrar num dos livros e folheá-lo para tentar ler qualquer coisa, mas deixo-o e agarro noutro. Há passagens sublinhadas: procuro, folheio, agarro em novos livros. A meu lado, encontra-se já uma porção. Vêm juntar-se outros ainda mais; ânsia... e também folhas de papel, cadernos.

 

Perante tudo isto, estou mudo, como em frente de um tribunal. Sem coragem, Palavras, palavras, palavras... não me atingem.

 

Torno, lentamente, a colocar os livros nos seus lugares.

 

Acabou-se.

 

Saio do quarto sem fazer ruído.

 

Ainda não renuncio. É verdade que não volto ao meu quarto. mas consolo-me em pensar que um período de alguns dias não é uma coisa definitiva. Mais tarde, durante anos, terei tempo para tudo isso. Por agora vou ver o Mittelstaedt e sentamo-nos no seu quarto; há ali uma atmosfera de que não gosto, mas a que estou habituado.

 

O Mittelstaedt tem para me contar uma novidade, que imediatamente me electriza. Diz-me que o Kantorek foi chamado ao serviço como territorial. “Imagina tu a historia ;ele apresentando alguns bons charutos; que chego aqui depois de sair do hospital e o topo imediatamente. Ele estende-me a pata e grunhe: “Olha o Mittelstaedt! Como vai isso?” Olho-o com olhos muito abertos e respondo: “Territorial Kantorek. o serviço é o serviço e a peluda é a peluda: Você devia saber isto melhor que ninguém. Quando falar a um superior, ponha-se em sentido.” Queria que visses a sua Figura: uma mistura de pepino em vinagre e de obus talhado. Tentou ainda uma vez, timidamente, tornar-se familiar conosco. Então tratei-o com uma dureza ainda maior. Com isto atira-me o seu maior trunfo dizendo-me, num tom confidencial: “Quer que o recomende para um exame de segunda época?” Compreendes que ele queria ter ainda império sobre mim. Tomado de cólera, também lhe lembrei uma coisa: “Territorial Kantorek, há dois anos que você nos matou o bicho do ouvido para que nos alistássemos. Conosco havia o Joseph Behm, que não queria partir, foi morto três meses antes da data legal em que deveria ser chamado às fileiras. Sem você, teria esperado até esse momento. E agora, destrocar. Voltaremos a ver-nos.» Foi-me fácil ficar a pertencer à sua companhia. A primeira coisa que fiz foi levá-lo à arrecadação e desencantar-lhe um lindo fato. “Vais ter imediatamente ocasião de apreciar.”

 

Fomos para a parada. A companhia estava debaixo de forma. Estava alinhada e em sentido. O Mittelstaedt comandou: “Descamar!”, e pôs-se a examinar os homens.

 

Descubro, então, o Kantorek e sou obrigado a morder os lábios para não desatar a rir. Traz uma espécie de dólman com abas, de um azul deslavado. As costas e as mangas estão remendadas com grandes bocados de pano escuro. O dólman pertenceu, com certeza, a um gigante. As calças pretas, perfeitamente surradas, estão-lhe mais que curtas: não lhe passam do meio da barriga da perna. O calçado é muito grande; são velhas faluas, duras cono ferro, com canos engelhados para cima e apresilhadas aos lados Pelo contrário, o barrete é, por sua vez, pequeno de mais; é uma miserável cobertura de refugo, horrivelmente imunda. O conjunto é deplorável.

 

O Mittelstaedt pára diante dele. “Territorial Kantorek, é essa a maneira de lustrar os seus botões? Parece que nunca mais aprende esta coisa medíocre, tão insignificante...”

 

Eu urro por prazer. Era exactamente assim que na aula o Kantorek censurava o Mittelstaedt, com o mesmo tom de voz: “Medíocre Mittelstaedt, insuficiente...”

 

O Mittelstaedt continua a sua crítica: “Repare no Boettcher; o uniforme está exemplar; pode pedir-lhe que lhe dê lições...”

 

Mal posso crer nos meus olhos; o Boettcher também está ali. o Boettcher, o contínuo do nosso ginásio. E o seu uniforme está exemplar! O Kantorek deita-me um olhar como se quisesse engolir-me. Mas eu não faço mais do que lhe troçar, inocentemente, na cara, como se nunca o tivesse conhecido.

 

Como parece ridículo com a sua hipótese de calças e o seu uniforme! E era disto que eu, antigamente, sentia um medo pavoroso, quando ele pontificava na cadeira e marcava com o lápis, na lição de francês, os verbos irregulares que, mais tarde, em frança, de nada nos serviram! Mal decorreram dois anos desde então, e agora aqui está territorial Kantorek bruscamente despojado do seu prestígio, com os joelhos cambaios e os braços como asas de panelas, com os botões mal limpos e numa atitude irrisória, uma caricatura de soldado.

 

Já não posso conciliar esta visão com a do professor ameaçador na sua cadeira e gostaria, verdadeiramente, de saber o que faria Se este capuz ousasse mais alguma vez fazer-me, a mim, praça velha, perguntas como esta : “Baumer, qual é o imperfeito de...?”

 

Neste momento, o Mittelstaedt comanda alguns exercícios de formação em atiradores. Tem a gentileza de nomear Kantorek como chefe de grupo.

 

Há para isto uma razão especial: é que na formação em atiradores, o chefe de grupo deve estar sempre vinte passos na frente do seu grupo. Se se ordenar “Meia volta!”, a linha de atiradores limita-se a mudar de frente sem sair do seu lugar, ao passo que o chefe de grupo, que se encontra, de repente, a vinte passos atrás da linha, tem de desatar a correr para se colocar, regularmente, a vinte passos à frente do grupo; isto faz, na totalidade, quarenta passos a executar a galope. Mas, mal ele chega ao seu lugar, a voz faz-se de novo ouvir: “Meia volta!”, e ele tem de percorrer outra vez, e o mais depressa possível, quarenta passos no sentido inverso.

 

Desta maneira, o grupo faz, tranquilamente, a meia volta e mais alguns passos, enquanto o chefe vai e vem a correr, como uma bola na mesa de bilhar. Isto fazia parte dessas numerosas receitas bem conhecidas do Himmelstoss.

 

O Kantorek não pode exigir do Mittelstaedt um outro tratamento, pois não há muito tempo foi obrigado a repetir o ano e o Mittelstaedt seria parvo se não aproveitasse esta bela ocasião antes de voltar para a frente. No fim de tudo,é possível que se morra mais contente quando se encontra na vida militar uma sorte destas.

 

Entretanto, Kantorek precipita-se de um lado e de outro, como um javali enfurecido. Ao fim de algum tempo, o Mittelstaedt faz parar a coisa e começa o exercício tão importante do rastejar. Apoiando-se nos joelhos e nos cotovelos, na atitude regulamentar, o Kantorek estica a sua magnífica pessoa por cima da terra, perfeitamente ao nosso lado. respira com força e o seu respirar é uma música.

 

O Mittelstaedt encoraja e consola u territorial Kantorek comcitações tiradas do professor Rannorer: “Territorial Kantorek, temos a felicidade de viver numa grande época; por isso devemos todos pôr-nos de harmonia com ela e vencer tudo o que possa haver de amargo.”

 

O Kantorek cospe um bocado de madeira suja que lhe entrou na boca e sua.

 

O Mittelstaedt inclina-se para ele animando-o de uma forma solícita:

 

- Nunca se deve consentir que as coisas pequenas façam perder de vista o grande acontecimento, territorial Kantorek.

 

estou espantado por o Kantorek não ter já rebentado, Principalmente agora, na lição de ginástica, em que u Mittelstaedt o copia maravilhosamente ao agarrá-lo pelos fundilhos das calças, a fim de o fazer trepar à barra fixa, para que o queixo do Kantorek chegue, virilmente, a altura da barra, bem entendido, prodigalizando-lhe palavras animadas. era exactamente assim que o Kantorek procedia antigamente para com ele.

 

Em seguida, é a distribuição dos trabalhos: “Kantorek e Hoettcher. vão buscar o pão à manutenção. levem o carro de mão.»

 

Minutos depois, sai o par com o carro. O Kantorek mantêm, raivosamente, a cabeça baixa, O contínuo está satisfeito por o trabalho ser fácil.

 

A manutenção está situada na outra extremidade da cidade. Os dois homens têm, portanto, de atravessar toda a cidade.

 

- Fazem isto há já alguns dias, troça o Mittelstaedt. Há pessoas que esperam o momento de os ver passar soberbo,       comento eu     . mas ele ainda não apresentou   queixa?

- Tentou. O nosso comandante riu velhacamente quando ouviu a história. Não suporta os mestres-escolas. Além disso, arrasta a asa à sua filha.

 

Ele reprova-te no exame.

 

E eu estou ralando - diz o Mittelstaedt tranquilamente.

 

- Demais, a sua reclamação não serviu de nada, pois pude demonstrar que ele tem um trabalho fácil na maior parte do tempo.

 

Não podes achar uma boa ocasião para o moer seriamente?

 

Encontro-o   muito estúpido   para   isso - responde   o Mittelstaedt, com um tom grandioso e magnânimo.

 

Que é uma licença? Uma mudança que torna tudo depois mais amargo. É preciso pensar na partida desde este momento. A minha mãe olha-me em silêncio. Sei que conta os dias; todas as manhãs está triste: outro dia a menos, pensa ela. Escondeu a minha mochila para lhe não lembrar a fatal necessidade.

 

As horas passam depressa, quando se ruminam todas as espécies de pensamentos. Domino-me e acompanho a minha irmã. Vai ao matadouro procurar algumas libras de ossos. É um grande favor apanhá-los, e desde manhã as pessoas fazem bicha. Mais de uma cai desfalecida.

 

Não tivemos sorte: depois de termos esperado três horas, um revezando o outro, o ajuntamento dispersa-se por já não haver coisa alguma.

 

Felizmente que a minha alimentação está garantida. Trago uma parte à minha mãe e assim temos todos alimentos um pouco mais substanciais.

 

Os dias tornam-se cada vez mais penosos e os olhos de minha mãe sempre mais tristes.

 

Ainda quatro dias. Tenho de ir procurar a mãe do Kemmerich.

 

estas coisas são indescritíveis: esta mulher trémula e chorosa que me sacode e me grita: “Porque é que tu estás vivo e ele está morto?” E me inunda de lágrimas ao dizer-me: “Porque é que estão lá crianças como vocês...” que se atira para uma cadeira e chora: “Viste-o? Viste-o ainda? Como morreu ele?”

 

Informo-a de que recebeu uma bala no coração e morreu imediatamente. Olha-me com um ar de dúvida:

 

- Mentes, sei que isso não é verdade; senti na minha carne a dificuldade com que morreu. Ouvi a sua voz, tive, durante a noite, o sentimento da sua agonia. Diz-me a verdade, quero saber. É preciso que saiba.

 

- Não – teimo; eu estava ao seu lado e vi-o morrer imediatamente.

 

Ela suplica-me baixinho:

 

- Diz-mo!   É preciso. Sei que me queres consolar, mas não vês que me torturas mais do que se me disseres a verdade? Não posso suportar a incerteza em que estou. Conta-me   como   isso   se   passou,   por   muito   terrível   que   tenha sido.   Valerá mais isso do que imaginá-lo dum modo diferente.

 

Nunca lhe direi o que se passou. Será mais fácil fazer-me em bocados. Tenho piedade dela, mas acho-a também um pouco parva. Deveria, portanto, contentar-se com o que lhe digo, pois o Kemmerich não deixará de estar morto, saiba ela ou não a verdade. Uma vez que se tem visto tantos mortos, não se pode compreender muito bem tanta dor por um só. Por isso digo-lhe, digo-lhe num tom um pouco impaciente:

 

- Ele morreu imediatamente. Não sentiu coisa alguma. A cara estava completamente tranquila.

 

Cala-se. Depois pergunta-me lentamente:

 

- Podes jurá-lo?

 

- Posso.

 

- Por tudo o que é sagrado?

 

Ah!, meu Deus, que é sagrado agora para mim? Estas coisas depressa mudam em nós.

 

- Sim, morreu imediatamente.

 

- Aceitas em não voltar se isso não for verdade?

 

- Aceito em não voltar se ele não tiver morrido em seguida.

 

Aceitaria ainda não sei o quê, mas ela parece acreditar-me.

 

Geme e chora sem fim. Obriga-me a contar-lhe o que se passou e eu invento uma história, na qual agora estou quase a acreditar.

 

Quando a deixo, abraça-me e dá-me um retrato do Kemmerich. Está vestido de recruta, apoiado a uma mesa redonda, cujos pés são feitos de ramos de bétula; a casca linda está aderente. Como pano de fundo está pintada uma floresta. Na mesa está un copo de cerveja.

 

É a última noite que passo em casa. Todos estão taciturnos. vou para a cama cedo. Agarro nos travesseiros, comprimo-os contra mim e enterro a cabeça neles. Quem sabe Se voltarei a deitar-me numa cama de penas?

 

Já é tarde quando a minha mãe vem ao meu quarto: crê que durmo, e com efeito, finjo isso. Falar e passar a noite com ela é-me demasiado desagradável.

 

Fica ali sentada até quase de manhã, se bem que sorri e que, por vezes, o seu corpo se dobre. Por fim, não posso aguentar-me mais. Procedo como se acordasse.

 

- Vai dormir, mãe. aqui apanhas frio.

 

- Tenho tempo de dormir mais tarde. Sento-me na cama.

 

- Mas eu não vou imediatamente para a frente, mãe. Antes disso tenho de ficar quatro semanas num campo de instrução. De lá pode ser que volte ainda um domingo.

 

Cala-se e pergunta-me baixinho: - Tens muito medo?

 

- Não, mãe.

 

- Quero dizer-te uma última coisa: toma cuidado com as mulheres em França; nesse país elas são más.

 

Ah!, minha mãe, para ti sou uma criança... Porque não posso pôr a cabeça nos teus joelhos e chorar? Porque devo ser sempre eu o mais calmo e o mais enérgico? Todavia, gostava, ao menos uma vez, de chorar e ser consolado. Na realidade, não sou mais que uma criança; nu guarda-vestidos ainda estão suspensos os meus calções. E há pouco tempo que ali estão. Porque pertencem eles ao passado?

 

Respondo tão tranquilamente como me é possível: Onde estamos, mãe, não há mulheres.

 

- E sê muito prudente lá adiante, na frente, Paul.

 

Ai! mãe, pena Que não possamos abraçar-nos e chorar! Que pobres cães somos nós! Sim, mãe, serei prudente.

 

- Todos os dias pedirei por ti, Paul.

 

Ah!, mãe, mãe! .Não podermos nós levantar-nos e regressar aos anos passados até que toda esta miséria nos tenha deixado, voltarmos aos tempos em que estávamos sós os dois, mãe!

 

- Talvez   possas apanhar   uma   ocupação   que   não   seja tão perigosa.

 

- Sim, mãe. talvez fique ocupado na cozinha; é muito possível.

 

Aceitas, não é verdade?, sem te importar com o que os outros possam dizer.

 

- Não te inquietes com isso, mãe.

 

Suspira. A cara é uma mancha branca na escuridão. Agora é preciso que te vás deitar, mãe.

 

- Não, responde. Levanto-me e ponho os cobertores por cima dos seus ombros: ela apóia-se ao meu braço. Sofre. Transporto-a para o seu quarto. Fico ali alguns instantes, junto dela.

 

- Agora é preciso que te cures, mãe, daqui até ao meu regresso.

 

- Sim. sim, meu filho.

 

- Não me mandes coisa alguma, mãe, daquilo que tendes. Onde estamos temos suficiente o que comer. Aqui pode-vos ser mais útil.

 

Que pobre criatura é aquela, estendida no seu leito, e que me ama mais que tudo no mundo! Quando quero ir-me embora, diz-me precipitadamente:

Arranjei-te ainda duas cuecas. São de boa lã e manter-te-ão quente. Não te esqueças de as pôr na mochila.

 

Ah!, mãe, sei tudo quanto essas cuecas te custaram de tempo e de tormento a procurar, a correr e a mendigar. Ah, mãe, como se pode conceber que seja obrigado a deixar-te? Quem é que tem direitos sobre mim além de ti? Estou sentado perto de ti, que estás aí deitada; temos tanta coisa para dizer, mas não podemos falar jamais. Boa noite, mãe.

 

- Boa noite, meu filho.

 

O quarto está escuro. A respiração da minha mãe sobe E desce; entretanto, o relógio faz tiquetaque. Lá fora o vento sopra defronte das janelas.. Os castanheiros murmuram. No vestíbulo tropeço na minha mochila, que está pronta,   pois No   dia seguinte tenho de partir muito cedo.

 

Mordo os travesseiros, as mãos apertam comforça os varoes de ferro do meu leito. Nunca devia ter vindo de licença. Na frente estava indiferente e muitas vezes sem esperança : não poderei nunca encontrar, de novo, esse estado. Era um soldado e agora não passo de um sofrimento sofrimento por minha causa, por causa da minha mãe. por causa de tudo o que é desencorajante e tão interminável.

 

Nunca devia ter vindo de licença.

 

Reconheço-os ainda, os abarracamentos do campo de La. Foi aqui que o Himmelstoss educou o Tjaden. À parte isso, não vejo coisa alguma do meu conhecimento; tudo mudou, como sempre. Quando muito, alguns homens que aqui estão entrevi-os antigamente.

 

Faço o meu serviço mecanicamente. À noite estou quase sempre no Lar do Soldado, onde há revistas, as quais não leio; há, contudo, um piano que gosto de tocar. O serviço é feito por duas mulheres; uma delas é nova.

 

O campo é rodeado por uma alta cerca de arame. Quando voltamos tarde do Lar do Soldado, temos de apresentar licença. Naturalmente quem se sabe arranjar com a sentinela passa igualmente.

 

Todos os dias fazemos exercícios de companhia, na charneca, entre as moitas de zimbro e os bosques de bétulas. É suportável para alguém que não aspira a mais. Corremos para a frente, deitamo-nos por terra e a nossa respiração faz curvar, aqui e ali, os caules e as flores da esteva. Vista assim, muito perto do chão, a areia clara é pura como um laboratório, formada por uma multidão de grãos minúsculos. Somos levados por um desejo enorme de enterrarmos ali as mãos.

 

Mas o que há de mais belo são as florestas, com as suas orlas de bétulas. Estão constantemente a mudar de cor. Os troncos brilham agora com a mais deslumbrante brancura; é como uma seda aérea, flutua entre eles o verde-pastel da folhagem. Um momento depois, torna-se tudo de um azul prateado de opala, que se propaga desde a orla e põe manchas sobre a verdura; mas, imediatamente, num determinado sítio, o tom escurece quase até ao preto, quando uma Nuvem passa diante do sol. E esta corre como um fantasma por cima de todos os troncos de árvores, agora tornados lívidos, e estende-se através da charneca até ao horizonte. Entretanto as bétulas erguem-se já como pendões solenes, com as hastes levando o ouro vermelho da sua folhagem colorida.

 

Perco-me muitas vezes neste jogo de luzes delicadas e de sombras transparentes, quase ao ponto de já não ouvir as vozes de comando; quando se está isolado, pomo-nos a observar a Natureza e a amá-la. E aqui não tenho muitas relações; não desejo, além disso, mais do que as necessárias. Conhecemo-nos muito pouco para fazer outra coisa que não seja conversar e, à noite, jogar ao “dezassete e quatro” e ao rams.

 

Ao lado dos nossos abarracamentos, encontra-se o grande campo dos Russos. Na verdade, está só separado de nós por rede de arame. Apesar disso, os prisioneiros conseguem vir para o nosso lado. São muito tímidos e medrosos: a maior parte são barbudos e muito altos; dão, por isso, a ilusão de serem uns humildes são-bernardos que tivessem apanhado.

 

Rondam em volta dos nossos abarracamentos e passam revista aos recipientes com águas gordurosas. Pode-se imaginar o que lá podem encontrar! Para nós é já pouco abundante o alimento e, principalmente, mau;
há rutabagas cortadas em seis bocados e cozidas em água, cenouras que estão ainda bastante verdes; as batatas lardeadas são para nós uma grande guloseima, e o supremo regalo é uma sopa deslavada de arroz onde nadam, segundo parece, tendões de vaca cortados aos bocadinhos. Mas os bocados são tão pequenos que os não encontramos. Apesar disso, come-se, tudo, naturalmente. Se, por acaso, alguém está bem provido para não ter necessidade de rapar o fundo da gamela, ha três outros que se dão a esse trabalho, voluntariamente. Só os restos que a colher não pode levar são enxaguados e deitados nos recipientes de águas gordurosas. Junta-se a isso, de vez em quando, algumas cascas de rutabagas. côdeas de pão bolorento e toda a espécie de lixo.

Esta água suja, turva e pouco substancial é o que os prisioneiros cobiçam. Vêm-na buscar com avidez, as celhas fedorentas, e levam-na debaixo dos blusões.

 

É uma coisa estranha o espectáculo dos nossos inimigos vistos tão de perto. Têm caras que nos fazem reflectir, boas caras de camponeses, de testa grande, nariz largo, lábios carnudos, mãos largas, cabelos lanosos. Far-se-ia bem pô-los a cultivar, a segar e a colher a fruta. Têm ainda um ar mais bonacheirão que os nossos camponeses frisões.

 

É triste ver os seus movimentos e a sua forma de mendigar um pouco de alimento. Todos eles estão bem fracos por receberem justamente o preciso para não morrerem de fome. Há já muito tempo que nós próprios não temos o suficiente para comer. Eles têm disenteria, com olhares ansiosos; mais de um mostra, furtivamente, o sangue na fralda da camisa. As costas tremem-lhes, as cabeças olham obliquamente quando estendem as mãos para mendigarem, com algumas palavras que conhecem - quando mendigam com essas vozes de baixo, ternas e doces, evocam um quadro de fogões bem acesos e de interiores onde se está à vontade, na Sua pátria.

 

Há pessoas que os atiram a terra com pontapés, mas não é senão a minoria. A maior parte dos nossos, deixam-nos tranquilos quando passam ao lado. Às vezes, na realidade, quando estão cheios de fome, tornam-se furiosos. e manda-se-lhes, então, um pontapé. Ah!, se ao menos eles não nos olhassem como o fazem! Que angústia pode haver nesses dois pequenos pontos que o polegar basta para esconder- nos seus olhos!

 

À tarde vêm aos nossos abarracamentos e procuram negociar. Trocam por pão tudo o que têm. Às vezes conseguem fazer um ajuste, pois possuem boas botas, ao passo que as nossas são más. O couro das botas deles de cano alto é de uma flexibilidade maravilhosa, verdadeiro couro da Rússia. Os filhos de camponeses que há entre nós e que recebem vitualhas das suas casas podem ter esse luxo. O preço de um par de botas é cerca de dois ou três pães de munição, ou então um pão de munição com um pequeno chouriço duro e fumado.

 

Mas há já muito tempo que quase todos os russos cedem as coisas que tinham. Presentemente não trazem senão fato miserável e tentam trocar pequenas esculturas e objectos que fabricam com estilhaços de obuses e bocados de cobre provenientes das cintas destes. Naturalmente estas coisas não lhes rendem nada; eles dão-nas por umas fatias de pão. Os nossos camponeses são teimosos e espertalhões nas suas operações comerciais. Põem o bocado de pão ou de chouriço debaixo do nariz do russo até que ele empalideça de desejo e que os olhos lhe rebolem, depois do que tudo lhe é indiferente. Quanto àqueles, envolvem a sua riqueza com todo o cuidado de que são capazes, tiram as suas grandes navalhas, cortam lenta e religiosamente um naco de pão e engolem, depois de cada dentada e, como recompensa, um bocado do seu bom chouriço bastante duro. É irritante vê-los comer assim: tem-se vontade de lhes dar uma bordoada nos seus crânios duros. É raro darem-nos alguma coisa; é preciso dizer que os conhecemos muito pouco.

 

Estou muitas vezes de guarda junto dos russos. Vê-se, na escuridão, moverem-se as suas silhuetas como cegonhas doentes, como grandes pássaros. Aproximam-se da rede e colam aí as caras; os seus dedos apertam com força as malhas de ferro. Muitas vezes, grande número deles mantêm-se assim, uns perto dos outros, e respiram o vento que vem da charneca e das florestas.

 

Falam raramente e nessas ocasiões é só para dizerem algumas palavras. São mais humanos e, quase os julgaria, mais fraternais uns para os outros do que nós somos aqui. Mas talvez seja, simplesmente, por se sentirem mais infelizes que nós. No entanto, a guerra para eles acabou, mas é preciso reconhecer que não é vida estar atacado de disenteria.

 

Os velhos territoriais que os guardam contam que, ao princípio, estavam mais animados e havia, como sucede sempre, ligações entre eles; e parece que, comfrequência, esmurravam e puxavam das facas. Agora estão completamente enfraquecidos e indiferentes; a maior parte não se entrega já ao onamismo, de tal modo estão fracos; de outro modo,   o acto expandia-se   de forma tal que era   praticado por todo um abarracamento.

 

Ali estão de pé, contra a   rede;   às vezes um   vacila e desaparece; depressa um outro toma o seu lugar. A maior parte nada diz; só alguns mendigam um bocado de pão. Contemplo as suas formas escuras. As barbas flutuam-se-lhes ao vento. Só sei deles uma coisa: é que são prisioneiros, e isso, precisamente, comove-me. A sua existência é anónima e sem culpabilidade. Se soubesse mais alguma coisa deles, isto é. como se chamam, como vivem, o que esperam, o que os oprime, a minha emoção teria um fim concreto e poderia tornar-se em compaixão. Mas aqui, por trás deles, não sinto mais do que a dor da criatura, a terrível melancolia da existência e a ausência de piedade que caracteriza os homens.

 

Foi uma ordem que fez nossos inimigos estas formas silenciosas; uma outra ordem poderia, agora, torná-los nossos amigos. Sobre uma mesa qualquer, pessoas que nenhum de nós conhece, assinam um escrito e eis que, durante anos, se torna o nosso fim supremo; o que em tempo normal é objecto de abominação universal e da mais enérgica reprovação. Quem poderia reconhecer-se em tudo isto, vendo aqui estes homens tranquilos, com caras de crianças e barbas de apóstolos? Todo o cabo é para os recrutas e lodo o professor é para os alunos um inimigo pior do que eles são para nós. E, no entanto, ainda atiraríamos sobre eles e eles sobre nós, se estivessem livres.

 

Assusto-me; é mau reflectir nestas coisas. Este caminho conduz ao abismo. O tempo ainda não chegou. Mas não quero deixar perder este pensamento; quero conservá-lo, escondê-lo cuidadosamente, até a guerra acabar. O meu coração bate: eis o fim, o grande fim, o fim único, no qual pensei na trincheira, aquele que procurei como capaz de me guiar na vida depois desta catástrofe que fustiga toda a humanidade. Terei no meu futuro um trabalho digno destes anos de terror?

 

Tiro os cigarros da algibeira, parto cada um em dois e dou-os aos russos. Eles inclinam-se e acendem-nos. Sobre algumas caras luzem agora pontas rubras. É uma consolação para mim: dir-se-ia que são janelinhas escuras, casas aldeãs   indicando que lá dentro há quartos de um acolhedor asilo.

 

Os dias passam. Numa manhã de nevoeiro, enterram de novo um russo. Morrem agora quase todos os dias. Quando o cortejo passa, estou justamente de guarda. Os prisioneiros entoam um cântico; fazem-no a várias vozes e parece não se tratar de vozes, mas do som de um órgão que está na charneca.

 

O enterro efectua-se com rapidez.

 

À noite estão outra vez colados à rede e o vento das florestas de bétulas sopra sobre eles. As estrelas estão frias. Conheço agora alguns dos prisioneiros, que falam o alemão bastante bem. Há um músico; diz-me que foi violinista em Berlim. Quando sabe que toco um pouco de piano, vai buscar o violino e põe-se a tocar. Os outros sentam-se e apoiam as costas contra a rede.

 

Está de pé, pronto a tocar; muitas vezes tem essa expressão longínqua que os violinistas possuem quando fecham os olhos; depois balança de novo o instrumento, ritmicamente, e sorri-me.

 

Toca, provavelmente, canções populares, pois os outros acompanham-no ao mesmo tempo. São uma espécie de amontoado escuro que parece cantarolar com vozes subterrâneas. O violino domina-os como uma rapariga esbelta, claro e isolado. As vozes pararam e o violino continua: o som que se ouve é penetrante na noite e dir-se-ia que treme. Para apreciar é preciso estar junto dele: seria bem melhor num quarto. Aqui de fora tornamo-nos tristes diante deste som vago e solitário.

 

No domingo passado não tive licença por ter acabado de gozar uma de longa duração. Por isso, no domingo que antecede a minha partida, meu pai e minha irmã mais velha vem ver-me. Ficamos toda a tarde no Lar do Soldado. A que outro sítio poderíamos ir, pois não queremos entrar em abarracamentos? Ao meio-dia, damos um passeio pela charneca.

 

As horas passam tristemente; não sabemos com que nos entreter. Falamos, por isso, da doença da minha mãe. Agora uma coisa é certa, é o cancro. Já está no hospital e será operada dentro em pouco. Os médicos esperam que se curará, mas nunca ouvimos dizer que se cura um cancro. Pergunto:

 

- Onde está ela?

 

- No Hospital Louise, informa meu pai. Em que classe?

 

- Terceira. É preciso primeiro saber quanto custa a operação. Foi ela mesma quem quis a terceira classe. Disse que assim teria um pouco de companhia. E é também mais barato.

 

- Então ela está com muitas outras pessoas na mesma sala? Ao menos que possa dormir!

 

O meu pai faz sinal que sim. A cara está abatida e cheia de rugas. A minha mãe esteve muitas vezes doente. Se bem que não tenha ido para o hospital senão quando foi forçada, isso custou-nos muito dinheiro, e, por esta razão, a vida do meu pai foi verdadeiramente sacrificada.

 

- Se   ao   menos   se   soubesse   quanto   custará   a   operação! - reflecte ele.

 

- Não perguntou?

 

- Não directamente;   é difícil,   porque se o   médico se irrita, é muito desagradável, pois, apesar de tudo, é preciso que ele opere a vossa mãe.

 

Sim. pensei eu amargamente, é bem assim para nós: é bem assim para os pobres. Não se atrevem a perguntar o preço, o que lhes dá terríveis quebra-cabeças; Mas os outros, para quem esta questão é secundária, acham muito natural fixar antecipadamente o preço a pagar. Mas com eles o médico não se irrita.

 

- Depois o tratamento é muito caro, informa ainda o meu pai.

 

- A caixa dos doentes não dá coisa alguma para isso. A vossa mãe está doente há muito tempo.

 

- Tem dinheiro? Ele abana a cabeça.

 

- Não. mas posso ainda fazer horas suplementares.

 

Sei-o: ficará diante da sua secretária até à meia-noite.

 

Pronto a dobrar, colar e recortar. Às 8 horas da noite, comerá um pouco desse alimento debilitante que se obtém com senhas. Em seguida, tomará um pó para as suas dores de cabeça e continuará a trabalhar.

 

Para o alegrar um pouco, conto-lhe algumas histórias que justamente me vêm à ideia: gracejos de soldados e coisas deste género, em que, entram generais ou sargentos-mores que, de uma maneira qualquer, se encontram em maus lençóis.

 

Acompanho-os, depois, até à estação. Dão-me um boião de marmelada e filhos de batata que a minha mãe ainda pôde fritar para mim.

 

Depois o comboio parte e eu volto para trás.

 

À noite ponho a marmelada nas filhos e como. Não encontro nisso prazer algum. Saio, portanto, para as ir dar aos russos. Depois lembro-me de que foi a minha própria mãe que as fez e que, talvez, tenha sofrido enquanto estava defronte do fogareiro em chamas. Ponho o embrulho na mochila e levo, apenas, duas filhos aos russos.

 

Passamos alguns dias de comboio. Afastam-se os prisioneiros aviadores no céu. Ultrapassamos comboios que transportam material. Canhões, sempre canhões. Recebe-nos o caminho de ferro de campanha. Procuro o meu regimento. Ninguém sabe, ao certo, onde ele está. Passo a noite não importa onde e de manhã dão-me de comer e algumas vagas instruções. Com a mochila às costas e a espingarda, meto-me, então, a caminho.

 

Quando   chego, já nenhum dos nossos se encontra na localidade, que está toda devastada pelo bombardeamento. Sou informado termos sido transformados numa divisão volante, destinada a ser empregada onde haja combates duros, isto não me alegra. Falam-me de grandes perdas aqui sofridas por nós. Peço notícias do Cat e do Albert. .Ninguém mas sabe dar.

 

Continuo a procurar, errando de um lado para o outro; sentimento estranho... Obtenho, enfim, informações precisas e na parte da tarde consigo apresentar-me na secretaria da minha companhia.

 

O sargento-mor retém-me. A companhia volta dentro de dois dias; é inútil reunir-me a ela.

 

- E essa licença - quis ele saber - foi boa, não é verdade?

 

- Assim, assim - respondi-lhe eu.

 

- Sim. sim - suspirou ele, se não fosse preciso voltar! A segunda metade fica sempre estragada por isso.

 

Errei à aventura até à manhã em que a companhia chegou, cinzenta, porca, aborrecida e triste. Nessa ocasião, precipitei-me para as fileiras; os meus olhos procuraram.

 

Eis o Tjaden, eis o Miiller a assoar-se, e eis também o Kat, e o Kropp.

 

Preparamos os nossos sacos de palha ao lado uns dos outros. Ao contemplá-los, sinto-me culpado de qualquer coisa e, todavia, nenhuma razão há para isso. Antes de adormecermos, tiro o resto das filhos e da marmelada para eles também terem a sua parte.

 

As duas filhos da extremidade do embrulho começam encher-se de bolor, mas ainda se podem comer. Guardo-as para min e dou ao Cat e ao Kropp as mais frescas. O Cat mastiga e inquire:

 

Vêm, sem dúvida, de tua casa.

 

Faço um sinal afirmativo.

 

- Sim, percebe-se pelo gosto.

 

Ia quase chorando. Já não me reconhecia. No entanto, isto irá agora melhor, uma vez que estou com o Cat, o Albert e os outros. Aqui encontro-me no meu meio.

 

- Tu tens sorte - murmura o Kropp antes de adormecer. - Diz-se que vamos para a Rússia.

 

- Para a Rússia!   Então já não é a guerra.

 

Ao longe a frente ruge. As paredes dos abarracamentos tremem.

 

Dá-se lustro com fúria. Um toque anula o outro.   Passam-nos revista por todos os lados. O que está esfarrapado é substituído por coisas em bom estado. Apanho, assim, um uniforme novo, irrepreensível, e o Cat, claro está, um equipamento completo. Espalha-se o boato de que é a
paz, mas uma outra opinião é mais plausível: é a que vamos ser transportados para a Rússia. Mas porque é que na Rússia teremos necessidade de roupas melhores? Enfim, a verdade surge pouco a pouco: o Kaiser vem-nos passar revista. Daí todos estes preparativos.

 

Durante oito dias poder-se-ia julgar que estávamos numa caserna de recrutas, de tal modo se trabalha e se fazem exercícios. Toda a gente está aborrecida e enervada, pois o que precisamos não é de uma limpeza exagerada e ainda menos de marchas de parada. São precisamente estas coisas que descontentam o soldado, mais do que a trincheira. Chega por fim o momento. Estamos imóveis, em sentido, e o KaisÉr aparece. Temos curiosidade de ver qual a sua aparência. Passa a todo o comprimento da formatura e, a dizer a verdade, fico um pouco desiludido. Pelos retratos que vira, julgava-o maior e mais imponente e, principalmente, com uma voz troante.

 

Distribui cruzes de ferro e fala a uns e a outros. Depois retiramo-nos.

 

Em seguida, começamos a fazer comentários. O Tjaden diz com ar espantado:

 

- Então é este o chefe supremo! Toda a gente, sem excepção, deve pôr-se em sentido diante dele!-Reflecte:- O Hindemburgo tambén se deve pôr em sentido diante dele, não é verdade?

 

- Pois claro - confirma o Cat.

 

O Tjaden ainda não acabou. Fica a pensar um instante e pergunta depois:

 

- Um rei também se deve pôr em sentido em frente de um imperador?

 

Ninguém sabe ao certo como essas coisas se passam, mas não acreditamos que assim seja. Os dois são tão elevados que, certamente, a verdadeira posição de sentido não existe entre eles.

 

- Que parvoíces estás para aí a dizer!-declara o Cat. - O principal é que tu te mantenhas em sentido.

 

Mas o Tjaden está completamente fascinado. A sua imaginação, que, habitualmente, é tão árida, desta vez começa a expandir-se.

 

- Ouçam - declara ele -, não posso compreender que um Kaiser deva ir à retrete da mesma forma que eu.

 

- Olha, meu velho, é a mesma coisa; podes pôr as mãos no fogo - afirma o Kropp a rir.

 

- Um maluquinho e tu faziam uma parelha - completa o Cat. - Tens piolhos nos miolos, Tjaden. Vai imediatamente à retrete para esclarecer as ideias e não tornares a falar como uma criança de mama.

 

O Tjaden desaparece.

 

- Gostava, no entanto, de saber uma coisa - diz o Albert. - Haveria guerra se o Kaiser dissesse que não?

 

- Decerto, segundo creio - emiti   eu. - Diz-se,   além disso, que ele a não queria.

 

- Sim, talvez que ele só não fosse o suficiente, mas bastava estarem ao seu lado vinte ou trinta pessoas, no universo, e dissessem não.

 

-É provável -afirmei eu, à maneira de concessão, mas foram justamente esses,, que quiseram a guerra.

 

É bizarro quando reflectimos nisto - continuou o Kropp - Estamos no entanto aqui para defender a nossa pátria. Mas também os Franceses estão lá para defenderem a sua. Quem tem, pois, razão?

 

Talvez uns e outros - respondi eu sem convicção.

 

Seja - concedeu o Albert. E vi, pelas suas maneiras, que me queria passar uma rasteira, mas os nossos professores, os nossos pastores e os nossos jornais dizem que somos os únicos que estamos dentro da razão, e espero bem que assim seja. E os professores, os curas e os jornais franceses pretendem que são eles que estão no seu direito, como é possível isto?

 

- Não sei, confesso eu.

 

- Em todo o caso, é a guerra e em cada mês entram nela novos países.

 

Volta o Tjaden. Está ainda num estado de excitação e mete-se imediatamente na conversa, perguntando como se ocasiona uma guerra.

 

- O mais frequente é por um país ofender gravemente um outro - respondeu o Albert num tom superior.

 

Mas o Tjaden faz de parvo:

 

- Um   país?   Não compreendo.   Uma   montanha   alemã não pode, portanto, ofender uma montanha francesa, nem um rio, nem uma floresta, nem um campo de trigo.

 

- És estúpido a esse ponto, ou estás a brincar às comédias? - resmunga o Kropp. No entanto, não era isso o que queria dizer.--Um povo ofende outro...

 

- Então nada tenho a fazer aqui - replica o Tjaden. Não me sinto ofendido.

 

Mas têm, porventura, explicações a dar-te?-pergunta o Albert, num tom desconcertante. - Tu, meu palerma, tu não contas para coisa alguma.

 

- Então maior razão para me ir embora - insiste o Tjaden.

 

Todos se põem a rir.

 

- Mas, pedaço de idiota, trata-se do povo no seu conjunto, isto é, do Estado... grita o Miiller.

 

- O Estado, o Estado (ao dizer isto, o Tjaden faz estalar os dedos com um ar astuto), os gendarmes, a polícia, os impostos, eis o vosso Estado. Se isso te interessa,   felicito-te.

 

- De acordo, exclama o Cat. - É a primeira vez que dizes uma coisa sensata, Tjaden. Entre o Estado e a pátria é verdade haver uma grande diferença.

 

- Todavia, um anda com a outra, reflecte o Kropp. Uma pátria sem Estado é coisa que não existe.

 

- Justo! - replica o Cat. - Mas lembra-te de que somos quase todos do povo e em França, também a maioria é de trabalhadores, operários e pequenos empregados. Porque é que um sapateiro, ou um serralheiro francês, nos quereria atacar? Não. são apenas os governos. Nunca vi um francês antes de vir para aqui e o mesmo acontece com a maior parte dos Franceses no que nos diz respeito. Pediram-lhes tanto a sua opinião como a nós.

 

- Porque há, então, a guerra? pergunta o Tjaden. O Cat encolhe os ombros.

 

- Deve haver pessoas a quem a guerra aproveita.

 

- Está bem!, mas eu não sou dessas - troça o Tjaden. -• Nem tu, nem ninguém dos que aqui estão.

 

- A quem, portanto, beneficia ela? - insiste o Tjaden.

 

- Também não aproveita o Kaiser. Tem, ainda assim tudo que quer.

 

- Não digas isso - replica o Cat. - Até agora ele não tinha tido uma guerra. E todos os grandes imperadores precisam de uma guerra, pelo menos, senão não se tornam célebres. Vê o que dizem os teus livros de estudo.

 

- Os generais, igualmente, tornam-se célebres graças à guerra - confirma o Detering.

 

- Ainda mais célebres que os imperadores - assegura o Cat.

 

- Há, comcerteza, por trás deles, ainda outros que querem que a guerra lhes traga benefícios - resmunga o Detering.

 

Creio   antes   que   é   uma   espécie   de   febre - diz   o Albert.       Ninguém, na acepção da palavra, quer a guerra e, de súbito, ela estala. Nós não quisemos a guerra, os outros pretendem a mesma coisa e, apesar disso, metade do universo está envolvido nela.

 

Mas, do outro lado, mentem mais do que nós - afirmo eu. Vejam os jornais encontrados aos prisioneiros, que dizem que na Bélgica nós comíamos as crianças. Os mariolas que escreveram isso deviam ser enforcados. Esses é que são os verdadeiros culpados. o Miiller levanta-se.

 

Em todo o caso, vale mais que a guerra se desenrole aqui do que na Alemanha. Olhem-me para esses campos cheios de covas!

 

-É verdade - concorda o próprio Tjaden, - mas vale mais não haver guerra.

 

E vai-se, orgulhosamente, embora, por ter dado uma lição a todos nós, voluntários instruídos. E a sua opinião é, efectivamente, típica; encontramo-la por toda a parte e a ele não se pode retorquir eficazmente por excluir a noção de todas as outras coerências. O sentimento nacional do simples magala consiste em que se encontra aqui na frente, não indo mais além,;todo o resto ele julga do ponto de vista prático e segundo a sua mentalidade.

 

O Albert estende-se, aborrecido, sobre a erva.

 

- Para que serve falar de toda essa embrulhada?

 

- De resto, isso não modifica coisa alguma, - afirma o Cat.

 

O cúmulo é que devemos entregar quase todas as roupas novas que tínhamos recebido e tornam a dar-nos os velhos farrapos. As boas só foram para a parada.

 

Em lugar de irmos para a Rússia, regressámos à frente. No caminho, atravessámos um bosque lastimoso, com troncos mutilados e um solo completamente lacerado. Em certos sítios há buracos assustadores.

 

com todos os diabos!, aqui houve o bom e o bonito - observo eu ao Cat.

 

- Minas, - responde ele,   fazendo-me   sinal   para   olhar para o ar.

 

Havia mortos suspensos dos ramos das árvores. Um soldado parecia estar sentado num garfo de um tronco, com o capacete na cabeça. O que havia,   na   realidade, sobre a árvore era a sua metade, o tronco; as pernas faltavam. Gostava de saber o que se teria passado.

 

Àquele,   tiraram-lhe   a   farda   muito   depressa - resmunga o Tjaden. O Cat diz:

 

- É uma coisa bizarra e que nós já vimos várias vezes. Quando uma mina nos apanha, ficamos, efectivamente, sem farda. É a pressão do ar que faz isso.

 

Procuro, ainda, por outros sítios. É tal qual como ele diz. Ali estão suspensos, unicamente, bocados de uniformes; mais adiante está colada umapasta sangrenta que ainda há pouco eram membros humanos. No outro lado está estendido um corpo com um resto de calça numa perna e, em volta do pescoço, a gola do dólman. Tirando isto, está nu e o vestuário está disperso pela árvore. Faltam-lhe os dois braços, como se tivessem sido arrancados por torção. Vinte passos mais longe, no tojo, descubro um deles.

 

O morto está de cara para baixo. No sítio onde os braços estavam ligados ao tronco, o chão está preto de sangue. Debaixo dos seus pés, as folhas estão amachucadas como se este homem as tivesse pisado.

 

- Nada engraçado, Cat! - observei eu.

 

- Um estilhaço de obus na barriga também não é engraçado - respondeu ele, encolhendo os ombros.

 

- Não é preciso enterneceres-te - disse o Tjaden.

 

O morticínio não se devia ter passado há muito tempo, pois o sangue estava ainda fresco. Como todas as pessoas que vemos estão mortas, não paramos, mas anunciamos o lacto ao posto sanitário mais próximo. No fim de contas, não é obrigação nossa fazer o trabalho desses cavalos de maca.

 

Chega a ordem para sair uma patrulha a verificar em que medida se encontra ainda ocupada uma   posição ali.

 

Por causa da minha licença, sinto-me um pouco constrangido em frente dos outros; por isso ofereço-me como voluntário para a patrulha. Pomo-nos de acordo quanto ao plano de execução; deslizamos   para   o   arame   farpado e preparamo-nos depois para rastejar para diante, cada um do seu lado. Ao fim de um instante, encontro um buraco de obus, não muito profundo, no qual me deixo cair. De lá examino os arredores.

 

O terreno está a ser varrido por um tiro moderado de metralhadora. De todos os lados chegam rajadas, sem muito vigor, mas de uma maneira convincente, para não destruir muito os ossos.

 

Um foguete luminoso abre no ar o seu pára-quedas. O terreno fica gelado sob esta luz lívida. Depois a escuridão redobra de intensidade, ainda mais tenebrosamente. Disseram-nos, na trincheira, que diante de nós estavam tropas negras. É desagradável; não podemos vê-los ben; além disso, são muito hábeis em patrulhar. Coisa estranha, muitas vezes são, também, muito imprudentes. Uma vez o Cat e o Kropp, quando estavam de observação, abateram estes contrapatrulhas pretos por eles, com a sua paixão pelo cigarro, fumarem enquanto andavam. O Cat e o Albert não tiveram mais que tomar por alvo as pontas luzidias dos cigarros.

 

A meu lado assobia um obus pequeno. Não o ouvi vir e apanhei um grande susto. Ao mesmo tempo apodera-se de mim um medo insensato. Estou completamente só e perdido na escuridão. Pode ser que há tempo dois olhos me estejam a observar de uma cova e que uma granada esteja prestes a ser-me lançada para me reduzir a migalhas. Procuro acalmar-me. Não é esta a minha primeira patrulha e, além disso, nada há de particularmente perigoso. Mas é a primeira vez que vou em reconhecimento depois do meu regresso de licença e conheço pouco o sector.

 

Bem, observo de mim para mim, que a minha emoção é estúpida, que na escuridão ninguém me espia, provavelmente; pois, de contrário, o fogo não seria tão baixo. É em vão. Os pensamentos zumbem, confusamente, na minha cabeça: ouço os conselhos da minha mãe; vejo os russos de barbas flutuantes apoiarem-se à rede; vejo diante de mim a imagem clara e maravilhosa de uma cantina com assento,», a de um cinema de Valenciennes; na minha imaginação dolorosa, vejo a horrível boca escura de uma espingarda implacável, que se desloca sem ruído, ameaçando-me, e que segue os movimentos da minha cabeça. Transpiro por todos os poros.

 

Estou sentado no meu buraco. Vejo as horas; passaram-se poucos minutos. Tenho a testa molhada e as órbitas húmidas; as mãos tremem-me e arquejo baixinho. Isto não passa de um terrível acesso de medo, um medo vil e intenso de estender a cabeça e de avançar.

 

A minha ansiedade, derramando-se como um líquido, finaliza no desejo de ficar escondido aqui. Os meus membros estão colados ao solo. Faço uma tentativa vã. mas eles não se querem despegar. Comprimo-me contra a terra: estou incapacitado de dar um passo e tomo a resolução de ficar aqui, estendido.

 

Mas imediatamente me envolve uma vaga de vergonha, de arrependimento e, também, de segurança. Levanto-me um pouco para ver o que se passa. Os olhos ardem-me, de tal modo olho fixamente na escuridão. Um foguete sobe no céu; de novo me abaixo o mais possível.

 

Sustento contra mim mesmo uma luta agitada e insensata; quero sair do buraco e, todavia, precipito-me nele. Digo comigo: “É o teu dever; são os teus camaradas: não é uma ordem estúpida.” Imediatamente a seguir: “Que me importa tudo isso? Só tenho uma vida que é preciso não perder...”

 

Tudo isto provém dessa licença, penso eu amargamente, para me desculpar. Mas não acredito na minha   desculpa. Sinto-me extremamente deprimido; levanto-me lentamente e estendo os braços para diante, com as costas a seguirem o movimento. Estou agora meio deitado na borda do buraco do obus. Mas ouço qualquer coisa e recuo a tremer. Não obstante o troar da artilharia, notam-se, perfeitamente, ruídos   confusos.   Escuto:   o   ruído é por trás de   mim.   É gente do meu lado que atravessa a trincheira. Ouço agora, também, vozes abafadas. Pelo som de uma delas, dir-se-ia o Cat a falar.

Invade-me bruscamente um calor extraordinário. Estas vozes, estas poucas palavras pronunciadas em tom baixo, estes passos na trincheira por trás de mim, arrancam-me de uma vez à atroz solidão do receio da morte, ao qual me tinha quase abandonado. Estas vozes são mais do que a minha vida; são mais do que a presença maternal e que o receio; são tudo no mumdo o que) há de mais forte e de mais eficaz para nos proteger: são as vozes dos meus camaradas.)

 

Já não sou um pedaço de existência tremente, isolada na escuridão; estou ligado a eles e eles a mim; temos todos o mesmo medo e a mesma vid’a; estamos todos unidos em conjunto de uma maneira, ao mesmo tempo simples e profunda. Gostaria de mergulhar a minha cara nas suas vozes, nessas poucas palavras que me salvaram e me servirão de sustentáculo.

 

Deslizo, prudentemente, para fora do buraco e avanço à maneira de uma serpente. Depois marcho de pés e mãos. Isto vai bem. Tomo nota da direcção; olho em volta de mim e observo bem o fogo da artilharia para poder voltar para trás. Em seguida, procuro pôr-me em ligação com os outros.

 

O medo subsiste ainda em mim, mas é um medo razoável, uma espécie de prudência levada ao extremo. A noite está ventosa e desenham-se sombras aqui e ali, quando sai a chama das peças de artilharia. Vê-se, então, ao mesmo tempo, muito pouco e de mais. Muitas vezes o receio paralisa-me, mas continua a não haver coisa alguma. Avanço bastante longe e volto para a retaguarda, mas descrevendo um arco de círculo. Não encontrei nenhum dos meus camaradas. Cada metro que me aproxima das nossas trincheiras inspira-me mais segurança; é preciso também dizer que tenho pressa de chegar. Seria agora infelicidade receber uma bala perdida.

 

Mas sinto um novo receio. Já não sei muito bem reconhecer a direcção. Agacho-me, sem ruído, num buraco de obus e procuro orientar-me. Tem acontecido, várias vezes, que um soldado tenha saltado, alegremente, numa trincheira, para descobrir depois que se trata de uma trincheira inimiga.

 

Ao fim de algum tempo, ponho-me de novo a escutar. Ainda não estou no bom caminho. A desordem dos buracos de obuses parece-me agora tão intrincada que, na minha emoção, já não sei para que lado me voltar. Talvez tenha rastejado paralelamente às trincheiras, e então isto pode durar até ao infinito. Trato, portanto, de descrever um novo círculo.

 

Estes malditos foguetes! Parecem durar uma hora inteira ; não se pode fazer movimento algum sem sentir em volta assobiar um projéctil.

 

Apesar de tudo, é preciso que eu saia daqui. Completamente hesitante, faço todos os esforços para continuar a avançar, Rastejo pelo chão como um lagostim e esfolo as mãos nos estilhaços denteados dos obuses, cortantes como navalhas de barba. ÀS vezes tenho a impressão de que o céu clareia um pouco no horizonte, mas deve ser, talvez, uma ilusão. Dou-me, entretanto, conta de estar a minha vida em jogo pelos movimentos que faço.

 

Estala um obus. A seguir outros dois. E eis que começa a dança. É um bombardeamento a desencadear-se. Começam as metralhadoras a crepitar. Neste momento, só me resta ficar deitado e aguardar. Parece tratar-se de um ataque. Por toda a parte se vêem foguetes, sem interrupção. Estou deitado num grande buraco de obus, todo dobrado, metido na água até à barriga. Quando o ataque começar meter-me-ei na água o mais possível, com a cara na lama, desde que não me afogue. É preciso passar por morto.

 

De súbito ouço o tiro diminuir. Precipito-me, imediatamente, no fundo da água, com o Capacete na nuca e a boca fora, só o preciso para poder respirar um pouco.

 

Fico depois completamente imóvel por ouvir, vindo de qualquer parte, um entrechocar de armas e passos pesados a aproximarem-se. Todos os meus nervos estão tensos e gelados. Este ruído avança por cima de mim. Passou a primeira vaga. Só tenho um pensamento, um pensamento lacerante: que farás se alguém saltar no teu buraco? Tiro, compresteza, o meu punhalzinho da bainha, empunho-o rapidamente, escondo-me na vala, conservando-o na mão. Se vier alguém, apunhalá-lo-ei imediatamente e este pensamento não se me tira da cabeça: cortar-lhe-ei a garganta para que não possa gritar. Não há outra coisa a fazer, pois ele ficará tão amedrontado como eu e temos de nos atirar um ao outro; logo, é melhor eu levar a vantagem.

 

Respondem neste momento as nossas baterias e os tiros caem perto de mim. Isto quase me endoidece; não faltava mais nada senão ser atingido pelos obuses dos meus camaradas. Desato a blasfemar e a agitar-me na lama. Tenho um verdadeiro ataque de raiva; por fim, só posso gemer e suplicar.

 

O estalar dos obuses fere-me o ouvido. Se a minha gente faz um contra-ataque, estou salvo. Aperto a cabeça contra a terra e percebo ribombos surdos, como de longínquas explosões de minas; levanto-a para escutar os ruídos que vêm de cima.

 

Ouve-se o matraquear das metralhadoras. Sei que as nossas defesas de arame são sólidas e quase intactas. Por uma parte delas passa uma forte corrente eléctrica. A fuzilaria aumenta. O inimigo não pode passar e é obrigado a recuar.

 

Baixo-me de novo, com o corpo estendido ao máximo. Os estrondos, os deslizamentos e o tinido das armas tornam-se perceptíveis. No meio de tudo isto, um único grito penetrante. O inimigo apanha uma fuzilada: o ataque é rechaçado.

 

Está presentemente um pouco mais claro. Há passos apressados junto de mim. São os primeiros. Seguiram. Aproximam-se outros. O estralejar das metralhadoras sucede-se sem parar. Espero; uma barulheira de endoidecer. Quando justamente quero voltar-me um pouco, cai um corpo pesado na cova, desliza e rola sobre mim...

 

Não penso nem reflicto em coisa alguma. Limito-me a golpear furiosamente e sinto, simplesmente, que o corpo estremece, se torna depois flácido e se dobra como um saco. Quando retomo a constância, noto a minha mão molhada e pegajosa.

 

A respiração do outro semelha-se ao estertor. Parece que uiva e que cada arquejo é como um grito e um bramido; mas são, apenas, as minhas veias que batem assim. Queria fechar-lhe a boca, enchê-la de terra, apunhalá-lo mais uma vez para se calar, pois está a trair-me; mas já voltei a mim e também me sinto, de repente, tão fraco que não posso levantar a mão contra ele.

 

Arrasto-me para o canto mais afastado e fico ali, com os olhos fixamente dirigidos para ele. apertando a navalha e pronto, caso se mexa, a precipitar-me de novo sobre a minha vítima. Mas ele nada mais poderá fazer, pelo que compreendo pela sua respiração.

 

Não posso vê-lo senão indistintamente. Em mim só um desejo reside: ir-me embora. Se me não apresso, será claro: dentro em pouco, e mesmo agora, já é difícil. No entanto, quando tento levantar a cabeça, vejo a impossibilidade de me escapar. O fogo das metralhadoras é tão nutrido que ficarei crivado de tiros antes de ter dado um único salto.

 

Para saber qual é o nível dos projécteis, recorro, mais uma vez, ao meu capacete, que levanto um pouco acima da terra. Um instante mais tarde, uma bala leva-mo da mão. Portanto, o tiro é a rasar o solo. Não estou bastante afastado da posição inimiga para não ser imediatamente atingido pelos bons atiradores, se tentar fugir.

 

Aumenta a claridade. Aguardo com ardor um ataque dos nossos. Os nós dos meus dedos estão brancos, de tal modo aperto as mãos, de tal modo imploro a cessação do fogo e a vinda dos meus camaradas.

 

Os minutos sucedem-se lentamente. Já não ouso pôr os olhos no vulto escuro que está na cova. Olho para o lado dele com esforço e espero, espero. Os projécteis assobiam, formando uma rede de aço que não acaba, não acaba.

 

Noto agora que tenho a mão cheia de sangue e sinto, de súbito, um mal-estar. Esfrego a pele comterra, ao menos a mão fica suja e já não vejo o sangue.

 

O fogo não diminui. Presentemente é de uma intensidade igual dos dois lados. É provável que entre os meus, eu tenha sido considerado perdido desde há muito tempo.

 

Está claro, uma claridade cinzenta, a do dia nascente. Os arquejos continuam. Tapo os ouvidos, mas depressa retiro os dedos, pois de outro modo não poderei ouvir o que se passa.

 

O vulto em frente de mim mexe-se. Estremeço de medo e contra vontade, olho-o. Os meus olhos estão como colados, fixamente, nele. É um homem comum, pequeno bigode, aquele que ali está estendido; a cabeça está inclinada de lado; tem um braço meio dobrado onde a cabeça repousa inerte. A outra mão está em cima do peito ensanguentado.

 

Está morto, digo comigo; deve estar morto; já nada sente; o que arqueja é o corpo apenas. Mas a cabeça procura erguer-se; os gemidos tornam-se, num instante, mais fortes, e a seguir a cabeça recai em cima do braço. O homem está a morrer, mas não está morto. Chego-me para ele, a rastejar. Paro, apoio-me nas mãos, arrasto-me um pouco mais para a frente e espero. Depois avanço de novo. É um percurso atroz de 3 metros, um percurso terrível e longo. Enfim, estou ao seu lado.

 

Então ele abre os olhos. Ouviu-me sem dúvida e olha-me com uma expressão de terror espantosa. O corpo está imóvel, mas nos olhos lê-se um desejo tão intenso de fugir que creio terem eles a força de arrastarem o corpo após percorrerem centenas de quilómetros de uma só vez. O corpo está imóvel, completamente calmo e, presentemente, silencioso; o arquejar cessou, mas os olhos gritam e uivam. Está concentrada neles toda a vida, num esforço extraordinário para fugir, num horror atroz diante da morte, diante de mim.

 

Sinto as minhas articulações a quebrarem-se e caio sobre os cotovelos. “Não, murmuro eu.”

 

Os olhos seguem-me. Sou incapaz de fazer um movimento enquanto eles me olharem assim. Então a mão afasta-se, lenta e ligeiramente, do peito; desloca-se alguns centímetros, mas este movimento basta para moderar a violência dos olhos. Inclino-me para a frente, sacudo a cabeça e murmuro: “Não, não, não.” Levanto a mão no ar para lhe mostrar   o   meu   desejo   de   o   socorrer e passo-a na sua testa.

 

Os olhos bateram, à aproximação desta mão; agora tornam-se menos fixos, as pálpebras cerram-se, a tensão diminui. Abro-lhe a gola e ponho-lhe a cabeça mais à vontade.

 

Tem a boca semiaberta e esforça-se por pronunciar alguma coisa. Os seus lábios estão secos. Não posso socorrê-lo com o meu cantil por o não ter levado comigo. Via-se no fundo do buraco há água na lama. Desço, agarro no meu lenço, estendo-o sobre a superfície da água, sobre a qual faço pressão com ele; em seguida, apanho na concha da mão a água amarelada que se filtra através dele.

 

O homem bebe. Vou procurar mais. Depois desabotoo-lhe o dólman para o pensar, se for possível. É preciso que o faça de qualquer maneira para, no caso de vir a ser feito prisioneiro, os da frente verem bem que o quis socorrer e não me massacrarem. Ele procura defender-se, mas tem a mão demasiado fraca para isso. A camisa está-lhe colada e não há meio de a tirar; está abotoada por trás. Só resta o recurso de a cortar.

 

Procuro e encontro a minha navalha. Mas, no momento em que me ponho a golpear-lhe a camisa, os seus olhos abrem-se outra vez e, de novo, apresentam uma expressão de terror insensato, parecendo gritarem, sendo, por isso, obrigado a fechá-los e a murmurar: “Mas eu quero socorrer-te, camarada.” E junto, depois, em francês: Camaradf... Camarade... Camarade. Insisto nesta palavra para ele compreender.

 

Apanhou três punhaladas. Os meus pensos cobrem-lhe as feridas; o sangue corre por baixo: aperto os pensos mais fortemente, provocando-lhe gemidos.

 

É tudo o que posso fazer. Não temos mais que aguardar. aguardar.

 

Ah!, estas horas, estas horas! O estertor recomeça. Com que lentidão morre um ser humano! Porque, sei-o, não há meio de o salvar. Procurei, é verdade, crer o contrario, mas cerca   do   meio-dia   os seus   gemidos destruíram esta falsa esperança. Se, ao rastejar, não tivesse perdido o revólver, Acabá-lo-ia com um tiro. Não tenho a coragem de oapunhalar.

 

Nesta   tarde atinjo   os   limites   crepusculares   do   pensamento. Devora-me a fome; sinto quase vontade de chorar. E o desejo que tenho de comer!... Mas nada posso fazer a tal respeito. Por várias vezes, vou buscar água para o moribundo e eu também a bebo.

 

É o primeiro que mato com as minhas próprias mãos, cuja morte seja obra minha, tanto quanto posso saber exactamente. O Cat, o Kropp e o Muller sabem terem morto homens: é o caso de muitos outros e mesmo frequente num corpo a corpo...

 

Mas cada suspiro seu é uma pancada no meu coração. Este moribundo tem as horas por si, dispõe de uma navalha invisível com a qual me traspassa: o tempo e os meus pensamentos.

 

Daria muito para que ele vivesse. É duro estar aqui agachado, sendo obrigado a vê-lo e a ouvi-lo.

 

Morreu às 3 horas da tarde.

 

Respiro, mas apenas por pouco tempo. O silêncio depressa me parece mais penoso que os gemidos. Quereria ouvir ainda o seu estertor, desigual, rouco, às vezes docemente sibilante e, de novo, a seguir, rouco e ruidoso.

 

O que faço não tem sentido, mas preciso ocupar-me. Por isso desloco outra vez o morto, para que fique estendido comodamente. Fecho-lhe os olhos. São castanhos; os cabelos são pretos, um pouco encaracolados aos lados.

 

A boca, sob o bigode, é carnuda e terna. O nariz é um pouco curvo, a pele é trigueira. Presentemente não tem o ar descorado como tinha em vida. Durante um segundo a própria cara parece a de um homem bem tratado, depois transforma-se rapidamente numa dessas estranhas figuras de morto que se vêem muitas vezes e que se assemelham umas às outras.

 

A mulher pensa nele, nesta ocasião; ignora o que se passou. Ao vê-lo, dir-se-ia que lhe escreve comfrequência; ela receberá ainda outras cartas dele, amanhã, numa semana, talvez num mês, uma carta perdida. Lê-la-á e será como se lhe falasse. O meu estado é cada vez pior; já não posso conter os meus pensamentos. Como será esta mulher? Será como a morena alta e delgada do outro lado do canal? Não ne pertencerá ela? Talvez agora ela me pertença pelo que aconteceu. Ah!, se o Cat estivesse aqui, ao meu lado! Se a minha mãe me visse assim!... Certamente o morto podia ainda viver trinta anos se eu não tivesse sido tão precipitado. Se ele tivesse passado 2 metros mais à minha esquerda, estaria agora lá adiante, na trincheira, e escreveria uma nova carta à mulher.

 

Mas isto nada me adianta, visto ser a sorte de nós todos. Se o Kemmerich não tivesse tido a perna 10 centímetros mais à esquerda, se o Haie se tivesse inclinado mais 5 centímetros...

 

O silêncio prolonga-se. Falo, é necessário que fale. Por isso dirijo-me a ele e digo-lhe: “Camarada, eu não queria matar-te. Se saltasses outra vez na cova, já o não faria, na condição de que tu também fosses razoável. Só foste, antes de mais nada, uma ideia, uma combinação nascida no meu cérebro e que suscitou uma resolução; foi esta combinação que te apunhalou. Noto agora que tu és um homem como eu. Pensei nas tuas granadas, na tua baioneta e nas tuas armas; presentemente é a tua mulher que vejo, assim como a tua cara e o que há em nós de comum. Perdoa-me, camarada. Vemos sempre as coisas tarde de mais. Porque não nos dizem continuamente que vocês são também uns pobres cães como nós, que as vossas mães se atormentam como as nossas e que todos nós temos o mesmo medo da morte? Perdoa-me, camarada; como pudeste ser meu inimigo? Se deitássemos fora estas armas e este uniforme, podias ser meu irmão, tal como o Cat e o Albert. Dou-te vinte anos da minha vida, camarada, mas levanta-te... Dou-te ainda mais, pois daqui em diante não sei o que hei-de fazer com eles.”

 

Está tudo calmo. A frente está tranquila, com excepção do crepitar das espingardas. As balas seguem-se de perto; não atiram à toa; pelo contrário, visa-se cuidadosamente de todos os lados. Não posso deixar o meu abrigo.

 

“Escreverei à tua mulher”, digo eu depressa ao morto. quero escrever-lhe; hei-de ser eu quem lhe dará a novidade.

 

Quero dizer-lhe tudo o que te digo; Não quero que ela sofra; Hei-de ajudá-la e aos teus pais também, assim como ao teu filho...

 

O seu uniforme ainda está entreaberto. é fácil encontrar carteira. Mas hesito em abri-la. Está lá a caderneta militar com o seu nome. Enquanto lhe ignorar o nome, poderei, talvez, esquecê-lo; o tempo apagará a sua imagem. Mas o seu nome é um espinho que se enterrará em mim e o qual nunca poderei arrancar. Tem a força de lembrar tudo em todas as ocasiões; esta cena poderá reproduzir-se sempre e apresentar-se diante de mim.

 

Sem saber o que fazer, continuo com a carteira na mão. Ela escapa-se-me e abre-se. Espalham-se cartas e retratos.

 

Apanho-os para os colocar na carteira, mas a depressão que me atormenta, toda esta situação incerta, a fome, o perigo, estas horas passadas com o morto, fizeram de mim um desesperado. Quero apressar o desfecho, aumentar a tortura para lhe pôr um fim, como se despedaçasse contra uma árvore uma mão cuja dor é insuportável, sem me dar ao incómodo do que pudesse suceder depois.

 

São os retratos de uma mulher e de uma pequenita, pequenas fotografias de amador tiradas diante de um muro de hera. Junto delas estão cartas. Tiro-as e procuro lê-las. Não compreendo a maioria das coisas; é difícil decifrar• eu só conheço um pouco de francês. Mas cada palavra que traduzo penetra-me no peito como um tiro, como uma punhalada no coração...

 

A minha cabeça é presa de uma violenta sobreexcitação. Mas tenho ainda bastante clareza de espírito para compreender que nunca me será permitido escrever a esta gente, como pensei primeiramente. Contemplo mais uma vez os retratos; não são pessoas ricas. Poderei enviar-lhes dinheiro, anonimamente, se mais tarde ganhar um pouco. Agarro-me a esta ideia; é, pelo menos, um ponto de apoio para mim. Este morto está ligado à minha vida; devo, por isso, fazer tudo e prometer tudo para me escapar. Juro de olhos fechados que só quero existir para ele e para a sua família. Com os olhos húmidos, é a ele que me dirijo e, ao fazer isto, reside no mais profundo do meu ser a esperança de me resgatar pelo que fiz, também com este pequeno ardil di que é sempre tempo de voltar atrás com os meus juramentos. Abro a caderneta e leio, lentamente: “Gérard Duval, tipógrafo.”

 

Inscrevo, com o lápis do morto, a morada num sobrescrito e, depois, subitamente, apresso-me a pôr tudo novamente no seu dólman.

 

Matei o tipógrafo Gérard Duval. É necessário que me torne tipógrafo, pensei eu, completamente desconcertado. que me torne tipógrafo, tipógrafo...

 

Na parte da tarde, estou mais calmo. O meu medo não era fundado. Este nome já não me perturba. A crise passa. “Camarada», digo ao morto que está ao meu lado, mas digo-lhe num tom sossegado, “hoje por ti. amanhã por mim. Ém todo o caso, se sobreviver, camarada, lutarei contra esta coisa que nos abateu aos dois: a ti, tirando-te a vida... E a mim?... Tirando-me também a vida. Prometo-te, camarada. É preciso que isto nunca mais se renove.”

 

A luz do Sol tomba obliquamente. Estou esgotado de fadiga e de fome. O que ontem se passou é para mim um sonho, do qual não tenho esperança de sair. Este sonho prostrou-me completamente e não percebo, mesmo, a chegada da noite. O crepúsculo caiu. Parece-me agora que o tempo passa depressa. Uma hora mais. Se fosse Verão, havia ainda três horas a esperar, uma hora mais!

 

Estou, presentemente, a tremer com receio de que se produza qualquer infelicidade até lá. Já não penso no morto; tornou-se-me inteiramente indiferente. O desejo de viver toma, imediatamente, o primeiro lugar e repudia tudo o que me propusera fazer. Unicamente, para não me expor ainda a uma catástrofe, balbucio mecanicamente: “Manterei todas as promessas feitas.” Mas sei, convictamente, não ser verdade.

 

De súbito, lembro-me de que os meus camaradas podem atirar sobre mim, se me ponho a rastejar. Com efeito, eles não sabem que estou aqui. Desde que seja possível, gritarei Para que me ouçam. Ficarei estendido diante da trincheira até me responderem.

 

A primeira estrela. A frente continua calma. Respiro e, na minha emoção, falo comigo mesmo: “Agora não faças tolices, Paul... Calma, calma. Paul... Se assim for, serás Salvo, Paul.”

 

Pronuncio, assim, o meu nome de baptismo, produzindo em mim o mesmo efeito como sendo uma outra pessoa a falar. e o resultado é muito maior.

 

A escuridão condensa-se. A minha emoção diminui. Por prudência, deixo os primeiros foguetes subirem. Depois rastejo para fora do buraco. O morto, já o esqueci. Diante de mim estende-se a noite que começa, e o campo de batalha alumiado por pálidos clarões. Tenho debaixo de olho um buraco de obus; no momento em que a luz se extingue, atiro-me para dentro dele a toda a pressa. Tacteio cuidadosamente diante de mim, consigo alcançar o buraco seguinte, faço-me muito pequeno e continuo, deste modo, a insinuar-me para a frente. Aproximo-me. À claridade de um foguete noto qualquer coisa a mexer-se, precisamente em volta do arame farpado, antes de se tornar imóvel, e fico estendido, sem fazer ruído. Uma segunda vez vejo a mesma coisa; são, decerto, camaradas vindos da nossa trincheira. Mas calo-me prudentemente até ao momento de reconhecer os nossos capacetes. Depois chamo.

 

Imediatamente, como resposta, ressoa o meu nome: “Paul... Paul...”

 

Chamam de novo. É o Cat e o Albert, que vieram à minha procura com um pano de tenda.

 

- Estás ferido?

 

- Não, não...

 

Precipitamo-nos para a trincheira. Peço comida e engulo-a glutonamente. O Miiller dá-me um cigarro. Conto, em poucas palavras, o que se passou. Não há nisso coisa alguma de novo. Coisas como esta sucedem comfrequência. Esta história só tem, como particular, o ataque nocturno. Mas, na Rússia, uma vez o Cat esteve dois dias por trás da frente russa antes de poder regressar para junto dos seus. Não falo do tipógrafo morto.

 

Na manhã seguinte, no entanto, já não posso mais; é preciso contar o caso ao Cat e ao Albert. Ambos me tranquilizam.

 

- Não podias fazer mais nada. como querias tu proceder de outro modo? Precisamente por isso é que estás aqui.

 

Escuto-os, animado, tranquilizado pela sua companhia. Ah,!. que estúpidos pensamentos tive lá adiante, metido na cova.

 

- Olha   apenas   para   isto - convida-me o   Cat. Contra   o   parapeito   estão   alguns   atiradores   especiais.

 

Têm as espingardas em posição, com um óculo para visarem melhor e examinarem o sector inimigo. E de tempos a tempos parte un tiro. Ouvimos agora exclamações: “Deu no alvo!” “Viste u salto que ele deu?” O sargento Oellrich volta-se orgulhosamente e nota o seu bom êxito. Vem hoje à frente na lista de tiro, com três disparos que atingiram o alvo em cheio.

 

- Que dizes disto?-pergunta o Cat. Limito-me a fazer um gesto.

 

- Se ele continua, esta noite terá na botoeira mais um passarinho sarapintado - informa o Kropp.

 

- Ou,   então,   não   tardará   a   ser   sargento-ajudante, completa o Cat.

 

Contemplamo-nos.

 

- Eu não o faria, - afirmo eu.

 

- Em   todo o   caso, - responde   o   Cat. é uma   excelente coisa que acabes de ver isto.

 

O sargento Oellrich volta para o parapeito. O cano da sua arma desloca-se em todos os sentidos.

 

- Vês que não tens de te inquietar com a tua história? diz o Albert, fazendo um sinal com a cabeça.

 

Neste momento eu já não me compreendo.

 

- Foi somente por ter sido forçado a ficar com ele muito tempo - digo eu. No fim de contas, a guerra é a guerra.

 

A espingarda   de Oellrich   soa   com um   disparo breve e seco.

 

Estamos em maré de sorte. Recebemos a missão, à de guardar uma aldeia evacuada, por ter sido demasiado bombardeada.

 

Temos, principalmente, de vigiar o depósito de víveres, que ainda não está vazio. Devemos alimentar-nos com as provisões existentes. Somos as pessoas necessárias para isso: o Cat, o Albert, o Miiller, o Tjaden, o Leer, o Detering. todo o nosso grupo. Na verdade, o Haie está morto. Mas ainda assim é uma sorte formidável, pois todos os outros grupos têm mais perdas que o nosso. Como abrigo, escolhemos uma cave de cimento, para a qual dá acesso uma escada exterior. A entrada é ainda protegida por uma parede especial de cimento armado.

 

Desenvolvemos agora uma grande actividade. Temos aqui de novo uma ocasião de desentorpecer, não apenas as pernas, mas também o espírito. E não deixamos de aproveitar tais ocasiões, visto a nossa situação ser por de mais desesperada para podermos armar ao sentimento por muito tempo, o que não é possível enquanto as coisas não forem muito más. Só nos resta sermos positivos - tão positivos que, às vezes, estremeço quando, por um instante, um pensamento de outrora, da época anterior à guerra, me acode à memória. Valha a verdade que não fica lá muito tempo.

 

É bom levarmos as coisas pelo lado melhor, na medida do possível. É por isco que aproveitamos todas as ocasiões e passamos directamente, brutalmente, sem nenhuma transição, dos estremecimentos de horror à mais estúpida garotice. Não nos podemos impedir de o fazer e de nos precipitarmos cegamente. Neste momento ocupamo-nos, com um grande fio, em compor um idílio - naturalmente um idílio de comezaina e sono.

 

Primeiro guarnecemos o nosso tugúrio com colchões que vamos buscar às casas. Um rabo de soldado também gosta, às vezes, de repousar em qualquer coisa macia. O solo só é livre no meio. Depois arranjamos cobertores e almadraques, coisas de uma doçura admirável. Na aldeia há tudo o preciso para isso. O Albert e eu descobrimos uma cama desmontável, de acaju, com um dossel de seda azul e uma guarnição de rendas. Suámos como bois para a transportar, mas não se podia deixar escapar uma coisa destas. principalmente se nos lembrarmos de que, dentro de dias, o bombardeamento terá, decerto, demolido tudo.

 

O Cat e eu organizámos uma pequena patrulha nas casas. Ao fim de algum tempo, descobrimos uma dúzia de ovos e duas libras de manteiga bastante fresca. E, de súbito, ouve-se, numa sala, um estalo: um fogão de ferro atravessa, assobiando, a parede, ao nosso lado e a um metro de distância. Faz ainda uma brecha numa outra parede. São dois buracos. Este improvisado projéctil provém da casa defronte, na qual cai um obus. “Tivemos sorte”, sorri o Cat.” E continuamos as nossas pesquisas. Imediatamente nos pomos à escuta e corremos a toda a brida. Depressa nos quedamos como presos de um enfeitiçamento. Num pequeno curral há dois leitões vivos. Esfregamos os olhos e olhamos, de novo, cautamente, na mesma direcção: efectivamente ainda lá estão. Agarramo-los; não há dúvida alguma, são dois verdadeiros porquinhos.

 

Isto vai fazer uma magnífica refeição. Pouco mais ou menos a cinquenta passos do nosso abrigo, está uma casinha que serviu de alojamento a oficiais. Na cozinha, há uma gigantesca chaminé, com duas grelhas para assar, frigideiras, tachos e panelas. Há tudo o preciso; uma enorme quantidade de cavacos esperam-nos mesmo debaixo do alpendre. É uma verdadeira casa de conto de fadas.

 

Desde a manhã, andam dois homens nos campos à procura de batatas, cenouras e ervilhas. Estamos a presumir de exigentes e não damos confiança às conservas do armazém de víveres; queremos coisas frescas.

 

Na nossa despensa há já duas couves-flores.

 

Matam-se os leitões. foi o Cat quem se encarregou. Queremos adicionar ao assado bolinhos de batata, mas não encontramos esmagador, como para isso é necessário. Mas depressa arranjamos substituto: com pregos, abrimos uma quantidade de buracos nas tampas de lata e temos o esmagador que nos faltava. Três homens calçam luvas para protegerem os dedos ao esmagarem as batatas: dois outtros pelam os tubérculos e o trabalho avança rapidamente.

 

O Cat aduba os leitões, as cenouras, as ervilhas e as couves-flores. Prepara, mesmo, um molho branco para estas. Eu frito os meus bolinhos quatro a quatro. Ao fim de dez minutos, apanhei o jeito de sacudir a frigideira, de modo a fazer com que saltem os que estão bem fritos de um lado, se voltem e caiam no devido lugar. Os leitões são assados completamente inteiros. Toda a gente os rodeia, como se fosse um altar.

 

Neste meio tempo, temos visitas: dois radiotelefonistas, a quem convidamos, generosamente, a jantar, Estão sentados na sala onde há um piano. Um deles toca. o outro canta Na Margem do Véser. Canta comsentimento, mas com um ligeiro acento saxão. Todavia, isto comove-nos enquanto estamos diante dos nossos fogões a preparar todas estas boas coisas.

 

Pouco a pouco damos conta de que os obuses chovem em redor de nós. Os balões observadores farejaram o fumo a sair da nossa chaminé e bombardeiam-nos. São os malditos obuses pequenos, que fazem um buraco minúsculo, disseminando a carga muito longe e contra o solo. Os assobios aproximam-se sem cessar, mas, em todo o caso, não podemos deixar a nossa cozinha à toa. Estes animais corrigem o tiro. Alguns estilhaços voam através da nossa janela. O assado está terminado dentro em pouco. Mas o fritar dos bolinhos torna-se, daqui para diante, mais difícil. Os tiros caem tão perto de nós, que, cada vez com mais frequência, os estilhaços dos obuses vêm bater contra a parede e penetram pelas janelas. Cada vez que ouço, junto de min, assobiar qualquer coisa, ajoelho-me com a minha frigideira e os meus bolinhos e abrigo-me por trás da parede da janela.

 

Imediatamente   a   seguir,   levanto-me   e   continuo   no   meu trabalho.

Os saxões deixam de tocar: um estilhaço de obus atin giu o piano. Nós também acabamos agora os nossos preparativos culinários e organizamos a nossa retirada. Quando um obus acaba de explodir, dois homens vão a correr com as caçarolas dos legumes, para transporem os 50 metros que nos separam do nosso abrigo. Vemo-los desaparecer.

 

Um novo obus. Toda a gente se baixa, e depois, dois homens, levando cada um uma grande cafeteira de café verdadeiro e de primeira qualidade, partem a galope e atingem o nosso tugúrio antes da queda de um outro obus.

 

Agora o Cat e o Kropp agarram no prato de resistência: o grande tacho com os leitões assados e dourados. Um ronco de obus, uma genuflexão, e ei-los que franqueiam os 50 metros a descoberto.

 

Acabo de fritar os meus quatro últimos bolinhos; para isso preciso de me deitar duas vezes no chão. mas vale a pena. porque sempre são mais quatro bolinhos, o meu prato predilecto.

 

Agarro depois no prato com o seu conteúdo de fritos e encosto-me à porta da casa. Um assobio, um estalo, e parto a galope, premindo com as duas mãos o prato contra o peito. Estou quase a chegar, quando se faz ouvir cada vez mais um ruído estridente;. Salto para a frente como un cabrito e contorno a parede de cimento armado, como un tufão; estilhaços vêm bater na parede; precipito-me pelas escadas subterrâneas; os cotovelos estão esfolados, mas o prato não se virou e não perdi um único bolinho.

 

Começamos a comer às 14 horas. O repasto dura até às 18; Das 18 às 18.30, bebemos café (café para oficiais vindo do armazém de víveres) e, com ele, fumamos charutos e cigarros de oficiais, da mesma proveniência. ÀS 18.30 precisas, vamos jantar. ÀS 22 horas deitamos diante da porta as carcaças dos leitões. Depois temos conhaque , cuja origem é ainda desse providencial armazém de víveres, e em seguida vem, de novo, a vez dos compridos e gordos charutos envolvidos em anéis. O Tjaden afirma que só faltaumacoisa: raparigas de um bordel de oficiais.

 

Já noite velha, ouvimos miar. Um gatinho cinzento estava sentado à entrada. Chamamo-lo e damos-lhe de comer. Isto desperta-nos   o   apetite.   Quando   vamos   deitar-nos,   ainda mastigamos.

 

Mas passamos uma noite má. Tínhamos comido um alimento gordo de mais. O leitão de pouca idade faz mal aos intestinos. No nosso abrigo, são contínuas as idas e vindas. lá fora há sempre dois ou três homens agachados em círculo, com as calças deitadas abaixo e lançando pragas. P’ela minha parte, faço o caminho nove vezes. Pelas 4 horas da manhã, obtivemos o maior número de pontos: os onze que somos, soldados do posto e visitas, reunimo-nos em assembleia cá fora.

 

À noite, as casas em chamas parecem archotes. Obuses estilhaçam-se perto de nós, raivosamente. Na rua passam colunas de munições, com grande estridor. Um dos lados do depósito de subsistências vai pelos ares. Apesar de todos os estilhaços de obuses, os condutores dos carros comprimem-se no armazém, como um enxame de abelhas, e fazem mão baixa de todo o pão que lá se encontra. Deixamo-los manobrar tranquilamente. Se lhes disséssemos alguma coisa, arriscávamo-nos a ser desancados. Portanto, agimos de uma maneira diferente. Declaramos-lhes que estamos ali de guarda e, como conhecemos todos os escaninhos, oferecemos-lhes conservas em troca de coisas que nos faltam. Que importância tem isto? Dentro em pouco tudo estará destruído pelos obuses. Para nós, tiramos chocolate do depósito, que comemos aos bocados inteiros. O Cat afirma ser bom para uma barriga demasiado relaxada...

 

Passamos quinze dias assim a comer e beber e a passear. Ninguém nos incomoda. A aldeia desaparece, pouco a pouco, sob os obuses e nós levamos uma vida feliz; enquanto houver alguma coisa no depósito de subsistências, tudo nos é indiferente e desejamos, modestamente, acabar a guerra aqui.

 

O Tjaden tornou-se requintado ao ponto de só fumar metade dos charutos. Declara, com um ar altivo, ser hábito seu. Também o Cat está galhofeiro. De manhã, a sua primeira palavra é: “Émile, traga-me o caviar e o café.” Tornamo-nos sobremaneira distintos, considerando cada um dos outros seus camaradas como sua ordenança, tratando-o por você e dando-lhe ordens. “Kropp, tenho comichão no pé:

 

Apanhe-me esse piolho.” Dizendo isto, o Leer estende-lhe uma perna, como uma comediante, e o Albert puxa-o até ao alto da escada. – “Tjaden.” “O quê?” “Ponha-se à vontade, Tjaden.” no entanto, não se diz o quê, mas sim às suas ordens. “ Vamos, Tjaden!” E, com o gesto e a palavra, o Tjaden faz o seu melhor adeus à moda do Porto, e ele percebe disso.

 

Ao cabo de outros oito dias, recebemos ordem de nos retirarmos. Acabaram todas as magnificências. Dois grandes camiões recolhem-nos. Estão cheios de tábuas até cima, mas, lá no alto, o Albert e eu alojamos a nossa cama de dossel, com a sua guarnição de seda azul, os seus colchões e dois almadraques de rendas. No fundo há, para cada um de nós, um saco cheio das melhores vitualhas. Apalpamo-lo de vez em quando, e as salsichas fumadas, bem maciças, as latas de chouriços de fígado, as conservas e as caixas de charutos alegram Os nossos corações. Cada homem leva consigo um saco cheio.

 

Mas o Kropp e eu salvamos, ainda, duas poltronas de veludo vermelho. Estão colocadas sobre a cama e pavoneamo-nos, sentados nelas como num camarote de teatro. Por cima de nós, agita-se o dossel como um baldaquino. Cada um tem na boca um comprido charuto. Levados assim, o nosso olhar mergulha, do alto, na região.

 

Entre nós há uma gaiola de papagaio, que achamos, para meter o nosso gato, também evacuado conosco e que ronrona diante da sua tigela de carne.

 

Os carros rolam, lentamente, pela estrada. Cantamos. Por trás de nós, os obuses fazem saltar penachos da aldeia, agora completamente abandonada.

 

Alguns dias mais tarde partimos para fazermos evacuar uma localidade. No caminho encontramos os habitantes fugitivos, escorraçados das suas casas. Levam os seus bens em carrocinhas, em carros de criança e também às costas. As suas figuras são curvadas, as caras cheias de tristeza, de desespero, de pressa e de resignação. As crianças dão as mãos às mães; às vezes é uma rapariga de mais idade quem conduz os mais pequenos, que caminham aos tropeções e olhando sempre para trás. Alguns levam miseráveis bonecos. Todos se calam quando passam ao nosso   lado.

 

Estamos ainda em coluna de marcha e os franceses não bombardearão, provavelnente, uma aldeia onde estão compatriotas seus. Ao fim de alguns minutos, o ar ruge. a terra treme; gritos ressoam: um obus acaba de pulverizar a secção da cauda. Dispersamo-nos e deitamo-nos no chão. mas neste instante, sinto que me abandona o sangue-frio que, debaixo de fogo, me faz habitualmente executar, sem dar por isso, os actos convenientes. Uma idéia: “estás perdido” - se agita em mim e me estrangula uma terrível Ansiedade. Ao mesmo tempo, uma coisa qualquer, parecida com uma chicotada, atinge-me a perna esquerda. Ouço o Albert gritar, que está chegado a mim.

 

- De pé, Albert, vamos! - convido eu com um urro. pois estamos deitados a descoberto, sem qualquer abrigo.

 

Ele levanta-se, cambaleando, e põe-se a correr. Mantenho-me ao seu lado. Temos de atravessar uma sebe mais alta que nós. O Kropp agarra nos ramos; eu pego-lhe na perna e ele salta para o outro lado da sebe. Com um pulo, ponho-me atrás dele e caio num charco existente na retaguarda.

 

Temos a cara cheia de lentilhas, de água e de lodo. mas o abrigo é bom. Eis por que nos metemos nele até ao pescoço. Quando ouvimos um projéctil assobiar, mergulhamos a cabeça debaixo da água.

 

Depois de termos feito isto uma dúzia de vezes, sinto-me exausto. O Albert também suspira.

 

- Saiamos daqui, de outro modo caio e afogo-me.

 

- Onde foste ferido?

 

- No joelho, creio eu.

 

- Podes correr?

 

- Creio que sim.

 

- Então para a frente.

 

Metemo-nos na curva da estrada e seguimo-la, curvados, perseguidos pelo fogo. O caminho conduz ao depósito de munições. Se ele vai pelos ares, nunca mais pessoa alguma encontrará de nós um só botão. Com esse receio, mudamos de direcção e corremos, obliquamente, através do campo.

 

O Albert caminha mais lentamente .

 

- Corre! Eu sigo-te - avisa ele, deixando-se cair.

 

Agarro-lhe no braço e sacudo-o. - Levanta-te,   Albert; se te deitas, não podemos ir longe. Vamos, apóia-te em min.

 

Atingimos, enfim, um pequeno abrigo. O Kropp estende-se no chão e eu trato-o. O tiro apanhou-o um pouco acima do joelho. Depois vejo o que se passa comigo. Os calções estão ensanguentados, assim como a manga. O Albert aplica-me os pensos sobre os buracos das feridas. ele já não pode mexer a perna e estamos os dois muito admirados de termos podido vir até aqui. Só o medo no-lo permitiu: teríamos continuado a andar, ainda mesmo sem os pés. arrastando-nos sobre os cotos.

 

Posso ainda rastejar um pouco e chamo um carro de xelmas, que passa e nos transporta. está cheio de feridos. Há um enfermeiro de 1ª classe que nos dá uma injecção na barriga contra o tétano.

 

Na ambulância, arranjamo-nos de maneira a sermos colocados junto um do outro. Dão-nos uma sopa clara, que engolimos com avidez e desprezo, ao mesmo tempo. Se bem que habituados a tempos melhores, temos fome.

 

- Agora vamos para a nossa terra, Albert, - digo-lhe eu.

 

- É de esperar - responde ele.

 

- Se, ao menos, soubesse o que tenho!

 

Os sofrimentos tornam-se mais agudos. Os pensos queimam como fogo. Bebemos, bebemos sem cessar, copos de água após copos de água.

 

- A que distância do joelho é a minha ferida?- pergunta o Kropp.

 

- Pelo menos a dez centímetros, Albert - esclareço eu como resposta. Na realidade, a talvez 3 centímetros.

 

- Prometi a mim próprio - informa ele ao fim de um instante - dar um tiro nos miolos se me cortarem a perna. Não quero andar estropiado por este mundo.

 

Estamos, assim, deitados com os nossos pensamentos e aguardamos.

 

A noite transportam-nos para a marquesa; oiço alarmado e pergunto rapidamente a mim mesmo o que devo Fazer, pois sabe-se   que,   nas ambulâncias   de   campanha, os médicos amputam por tudo e por nada. Dada a grande Presa é mais simples que consertos complicados. Lembro-me do Kemmerich. Em caso algum me deixarei cloroformizar, ainda que seja preciso partir a cara a algumas pessoas. Finalmente passa-se bem. O médico sonda-me a ferida por todos os lados, fazendo-me ver estrelas ao meio-dia.

 

- não se ponha com maneiras, - resmunga ele, continuando a acutilar. Os instrumentos luzem sob a luz viva, como animais perigosos. Os sofrimentos são insuportáveis. Dois enfermeiros agarram-me nos braços, solidamente, mas desembaraço-me de um deles e, por um triz, estive para o atirar às lunetas do médico, mas este notou-o e deu um salto para trás.

 

- Cloroformizem o engraçado - grita ele, furioso. Isto acalma-me.

 

- Desculpe, meu major: fico tranquilo, mas não me cloroformizem.

 

- Seja - concede ele, com uma voz azeda, retomando os instrumentos.

 

É um homem louro, de 30 anos o máximo, com gilvazes de estudante e lunetas de ouro antipáticas. Noto agora que ele procura a causa; não faz senão esquadrinhar na ferida, entortando de vez em quando os olhos para mim, por cima das lunetas. As minhas mãos martirizam as pegas da mesa de operações; é mais fácil morrer do que deixar escapar a menor queixa.

 

Ele pescou na minha ferida um estilhaço de obus e atira-mo. Parece satisfeito com a minha atitude, pois põe-me agora as talas com grande carinho e declara : “Amanhã, partida para casa.” Em seguida, põern-me gesso. Quando volto para o lado do Kropp, informo-o de que, no dia seguinte, provavelmente, chega um comboio Sanitário.

- É preciso falarmos ao sargento-mor enfermeiro para ficarmos juntos, Albert.

 

Consigo passar ao sargento-mor, com algumas palavras apropriadas, Dois dos meus charutos cintados. Ele cheira-o, e inquire:

 

- Tens outros?

 

- Ainda uma boa mão cheia, e o meu camarada, (E, dizendo isto, mostro o Kropp) a mesma coisa. Ambos gostaríamos de lhos podermos dar. amanhã de manhã, pela janela do comboio sanitário.

 

Naturalmente ele compreende, cheira ainda uma vez mais os charutos e responde:

 

- Compreendido.

 

Durante a noite, não dormimos um minuto. Na nossa sala, morrem sete homens; um deles entoa cânticos durante uma hora, com uma voz estrangulada de tenor, antes de se pôr a farfalhar. um outro deslizou para fora da cama para ir à janela, e ficou estendido defronte dela, como se tivesse querido, pela última vez, olhar para fora.

 

As nossas macas já estão na estação. Esperamos o comboio. Chove. A estação não tem telhado. Os cobertores são delgados. Aguardamos há duas horas.

 

O sargento-nor vela-nos como uma mãe. Embora me sinta muito mal, preparo o nosso plano. Por isso, sem dar ar de entendido, mostro os pacotes e dou-lhe um charuto por conta. Em troca, o sargento cobre-nos com um pano de tenda.

 

- Albert, meu velho - digo-lhe eu, com uma súbita lembrança, - e a nossa cama de dossel e o gato... - e as poltronas - acrescenta ele. Sim, as poltronas de pelúcia vermelha. A noite sentávamo-nos nelas como príncipes e, mais tarde, propúnhamo-nos alugá-las à hora. Por cada hora, um cigarro. Teria sido uma   existência sem   cuidados,   ao   mesmo   tempo   que   un bom negócio.

 

- Albert - interpelo eu, bruscamente. - E os nossos sacos com a comezaina?

 

Tornamo-nos melancólicos. Poderíamos bem ter utilizado estas coisas. Se o comboio partisse um dia mais tarde, o Cat, certamente, encontrar-nos-ía e ter-nos-ia trazido a mercadoria.

 

Maldito destino! Temos no estômago uma sopa de farinha, magro alimento de hospital, enquanto nos nossos sacos há carne de porco assada. Mas estamos tão fracos, que nem mesmo temos forças para nos comovermos con isto.

 

As macas estão completamente molhadas, quando chega o comboio. O sargento-mor manda colocar-nos no mesmo compartimento. Lá dentro há uma quantidade de senhoras da Cruz Vermelha, O Kropp fica deitado na parte de baixo. Levantam-me para me porem na cama, por cima dele.

 

Ah! meu Deus! – exclamo, subitamente.

 

- Que há? - pergunta a enfermeira.

 

Deito um olhar à cama. Está feita com lençóis de uma brancura de neve, lençóis de um asseio inimaginável, conservando ainda as dobras da lavadeira. Por outro lado, a minha camisa há seis semanas que não é lavada e está horrorosamente suja.

 

-Não pode entrar sozinho na cama ? - pergunta a enfermeira com inquietação.

 

- Posso - respondo eu, a transpirar. Mas primeiro tire esses lençóis.

 

- Porquê?

 

- Acho que me pareço com um porco e é preciso estender-me nestes lençóis.

 

- Mas - digo eu, hesitando-, isto vai...

 

- ... sujar-se um pouco?

 

- inquire ela com um ar encorajante. - Isso não vale nada; não teremos mais que lavá-los.

 

- Não, não é isso...-continuo eu agitado. - Não sou feito para este requinte de civilização.

 

- Nós podemos bem lavar um lençol de cama para si, que esteve lá adiante, nas trincheiras - prosseguiu ela.

 

Olho-a; é apetitosa e jovem, lavada na perfeição, e fina como tudo que há aqui. Não se compreende que não seja unicamente reservada a oficiais e sinto-me pouco à vontade, e mesmo un tanto em perigo.

 

- É simplesmente... estaco; no entanto, ela deve ter compreendido.

 

- Que há ainda?

 

- É por causa dos piolhos! - acabo por murmurar. Ela ri.

 

- É preciso que também eles tenham, às vezes, dias felizes.

 

Já não tenho mais que insistir, Meto-me na cama, cubro-me.

 

Mão estranha faz passar seus dedos sobre o meu cobertor. É o sargento-mor; vai-se embora com os charutos.

 

Ao fim de uma hora, notamos que o comboio se põe em movimento.

 

Acordo de noite. O Kropp também e mexe. O comboio roda, docemente, sobre os carris. Mal compreendemos ainda tudo isto: uma cama, um comboio, o regresso a casa... Murmuro:

 

- Albert!

 

- Diz lá.

 

- Sabes onde são as retretes?

 

- Creio que são do outro lado, à direita da porta.

 

- Vou ver.

 

Está escuro; pelo tacto, procuro a borda da cama e tento descer com precaução. Mas o pé não encontra apoio, sinto-me arrastado. A perna metida no aparelho não me ajuda coisa alguma, e eis-me estatelado no chão, fazendo um grande barulho.

 

- Meu Deus!-exclamo.

 

- Deste uma   topada? - inquire   o   Kropp.

 

- Deves ter ouvido, meu palerma...

 

Lá no fundo, nas traseiras da carruagem, abre-se a porta. Chega a enfermeira com uma luz e nota-me.

 

- Ele caiu da cama...

 

ela apalpa-me o pulso e põe-me a mão na testa.

 

- Mas não tem febre.

 

- Não...

 

- Então sonhou? - pergunta.

 

- Sem dúvida - respondo evasivamente.

 

Recomeça agora a inquisição. Olha-me com os seus brilhantes olhos; é asseada e maravilhosa; razão tanto menor para lhe dizer aquilo que quero.

 

Sou, de novo, colocado na cama. Isto vai ser lindo! Quando ela se for embora é preciso que procure, imediatamente, descer outra vez. Se fosse uma velha, era mais fácil dizer-lhe as coisas; mas ela é muito nova; tem, quanto muito, 25 anos; não é possível; não lhe posso dizer isto. Albert vem, então, em minha ajuda. Não se constrange; é preciso dizer. no entanto, não é a ele que diz respeito. Chama a enfermeira. Esta volta-se.

 

- Menina, ele queria... mas o Albert também não sabe como se exprimir para ser decente e irrepreensível. entre nós bastava uma única palavra para o dizer, mas aqui, em presença de uma dama como esta... Entretanto vem-lhe imediatamente a lembrança da escola e acaba sem dificuldade:

 

- Menina, ele queria ir lá fora.

 

Ah!, bem - diz a enfermeira. - Para isso, não tem precisão de descer da cama com a perna doente. Que quer que lhe dê? - pergunta ela, dirigindo-se a min.

 

Esta nova maneira de perguntar enche-me de suores frios, pois não faço ideia alguma como estas coisas se exprimem em linguagem técnica. A enfermeira vem em meu socorro.

 

- O pequeno ou o grande?

 

Que ridículo! Transpiro como um boi e digo com uma voz embaraçada :

 

- Bem, simplesmente o pequeno... - Pelo menos tive ainda um pouco de sorte.

 

Trazem-me uma espécie de garrafa. Ao fim de algumas horas, não sou o único no meu caso e, de manhã, estamos habituados e pedimos, sem o menor constrangimento, o que necessitamos.

 

O comboio caminha lentamente. De tempos a tempos pára e descem os mortos. Pára comfrequência.

 

O Albert tem febre. Eu não vou muito mal, apesar das minhas dores, mas o pior é que, provavelmente, tenho ainda Piolhos debaixo do aparelho. Isto faz-me uma comichão terrível e não posso coçar-me.

 

Dormitámos quase todo o tempo. A paisagem desfila pacificamente diante das nossas janelas. Na terceira noite, chegamos a Herbesthal. Ouço a enfermeira dizer que o Albert vai ser desembarcado na Próxima estação por causa Da febre. pergunto até onde vai o comboio.

 

- Até Colónia.

 

- Albert, vamos ficar juntos - informo-o eu. - Vais ver...

 

Na próxima visita da enfermeira, retenho a respiração e forço o fôlego a subir à cabeça. Esta intumesce-se e torna-se vermelha. A enfermeira estaca.

 

- Tem dores? Gemo:

 

- Tenho, vieram bruscamente.

 

Ela dá-me um termómetro e afasta-se um pouco. Não estaria na escola do Cat se não soubesse o que é preciso fazer. Estes termómetros não foram previstos para soldados experimentados. Trata-se, simplesmente, de fazer subir o mercúrio; então este pára no tubo capital sem descer.

 

Ponho o termómetro debaixo do braço, ao contrário e obliquamente, e, como indicador, esfrego-o continuamente Em seguida sacudo-o para cima. Atinjo, assim, 37,9. Mas isto não é suficiente. Um fósforo aproximado comprecaução dá 38,7.

 

Quando a enfermeira volta, respiro forte e às sacudidelas, olho-a com um olhar fixo, mexo-me muito e murmuro: “Não posso resistir mais...”

 

Ela inscreve o meu nome numa ficha. Sei perfeitamente que o meu penso não será desfeito sem necessidade.

 

O Albert e eu fomos desembarcados ao mesmo tempo.

 

Estamos num hospital católico, no mesmo quarto. É uma grande sorte, pois os hospitais católicos são conhecidos pelos seus bons cuidados e a sua boa comida. O nosso comboio encheu todas as salas. Entre nós há casos graves. Não somos examinados no mesmo dia, por os médicos serem muito pouco numerosos. No corredor, passam, continuamente, os carros baixos com rodas de borracha e há sempre alguém neles. É uma maldita posição esta de estar estendido a todo o comprimento; só é boa quando se dorme.

 

A noite foi muito agitada. Ninguém pôde dormir. Cerca da meia-noite adormecemos um pouco. Quando começou o dia, acordei. Estava a porta aberta e ouço umas vozes vindas do corredor. Os outros também acordam. Um deles, que já aqui está há alguns dias, explica-nos o que se passa:

 

* Cá em cima as irmãs oram no corredor todas as manhãs. Chamam a isso a prece da manhã. Para que vocês recebam a vossa parte, elas mantêm as portas abertas.»

 

Certamente a intenção é boa, mas os ossos e os crânios doem-nos bastante.

 

- Que estupidez! exclamo eu. - Agora justamente que estávamos a passar pelo sono.

 

Aqui são os casos menos graves, é por isso que elas

 

procedem assim - explicou ele.

 

O Albert gemeu, eu fico furioso e grito:

 

- Calem-se aí fora!

 

No fim de um minuto, apareceu uma irmã. No seu hábito branco e preto, assemelhava-se a uma dessas bonitas coisas com que se cobrem as cafeteiras para conservar o café quente.

 

- Feche a porta, minha irmã - grita alguém.

 

- A porta está aberta por estarmos a orar - replica ela.

 

- Mas nós queríamos ainda dormir...

 

- Orar vale mais do que dormir.   (Ela fica ali a sorrir inocentemente.) Além disso, já são sete horas.

 

O Albert gemeu novamente.

 

- Feche a porta - exclamo eu, grosseiramente.

 

A irmã fica completamente pasmada; aparentemente não pode conceber uma coisa destas.

 

- Mas é também por vós que oramos.

 

- Isso não dá nada; feche a porta!

 

Ela vai-se embora e deixa a porta aberta. A litania ressoa de novo. Torno-me enraivecido e digo: - vou contar até três. Se daqui até lá isso não acaba, atiro um projéctil.

 

- E eu também - declara um outro.

 

Conto até cinco. Depois agarro numa garrafa, faço pontaria e atiro-a para o corredor, através da porta. Ela parte-se em mil bocados. A oração pára. Chega então um enxame de irmãs, muito zangadas.

 

- Fechem a porta! - gritamos nós. Retiram-se. A última é a pequenita de há pouco.

 

- Pagãos! - chilreia   ela; mas, apesar de tudo, fecha a porta. Somos os vencedores.

 

Ao meio-dia, vem o inspector do hospital, que nos cobre de invectivas. Promete-nos prisões em fortalezas e coisas piores. Ora um inspector de hospital, tal como um inspector de subsistências, pode trazer, muito bem, uma espada comprida e dragonas. mas não passa de um funcionário e por causa disso, não é tomado a sério, mesmo por um recruta. Deixamo-lo, portanto, falar. Que nos pode acontecer?

 

- Quem atirou a garrafa? - quis ele saber.

 

Antes de ter podido reflectir se devo denunciar-me, alguém diz:

 

- Fui eu.

 

Ergue-.se um homem com uma barba mal tratada. Perguntamos uns aos outros, intrigados, porque se acusa ele.

 

- Você? - Sim: estava excitado por ver que nos acordavam inutilmente e perdi a cabeça a ponto de não saber o que fazia.

 

Falou como um livro.

 

- Como se chama ?

 

- Joseph Hamacher, territorial. O inspector sai,                                                                         e Toda a gente está cheia de curiosidade.

 

- Porque disseste que foste tu, quando não é verdade?! ele sorri.

 

- Isso não tem importância. Tenho uma licença de caça. Então, naturalmente, todos compreendem. Se tem uma licença de caça, pode fazer o que quiser.

 

- Sim - conta ele -, recebi um tiro na cabeça e deram-me um certificado dizendo que há momentos em que sou irresponsável. Por isso, faço o que me dá na gana. Foi proibido irritar-me. Portanto, não me fazem nada. O palerma vai ficar logrado. E disse que tinha sido eu para me divertir com esse tanso. Se amanhã abrirem de novo a porta, recomeçaremos.

 

Estamos encantados. Com o Joseph Hamacher entre nós, podemos, agora, permitir-nos tudo.

 

Depois vêm buscar-nos os carrinhos chatos e silenciosos. Os nossos pensos estão colados. Berramos como touros.

 

Há oito homens na nossa sala. O mais gravemente ferido, Peter, de cabelos negros encaracolados; um tiro no pulmão é uma coisa complicada. O Franz Wachter, ao lado dele, tem um braço partido, que, ao princípio, não tinha mau aspecto. Mas na terceira noite, chamou-nos, pedindo-nos que tocássemos a campainha, por julgar estar a perder todo o sangue.

 

Toquei com força. A irmã de vela não veio. Na véspera, à noite, tínhamo-la assediado enormemente por causa dos nossos pensos novos, que nos causavam, consequentemente, dores. Um queria que a perna fosse colocada assim, o outro assado, o terceiro pedia água, o quarto queria o travesseiro mais alto: a velha acabou por resmungar injúrias e bateu, depois, com a porta. Provavelmente ela supõe tratar-se de alguma coisa do mesmo género e por isso não vem.

 

Esperamos. Depois o Franz pede:

 

- Toca mais uma vez.

 

Eu toco. A irmã, nada de aparecer. Na ala do nosso edifício há, de noite, apenas uma irmã de vela; pode ser que esteja ocupada, justamente, com outros quartos. Pergunto:

 

- Tens a certeza, Franz, de estares a sangrar? Se assim não for, vamos arranjar alguma coisa para nos constiparmos outra vez.

 

- Estou molhado. Alguém pode acender a luz? Impossível. O comutador está à porta e ninguém se pode levantar. Mantenho o polegar sobre a campainha até ele ficar dormente. Talvez a irmã tenha adormecido. Na verdade, elas têm muito trabalho e estão completamente estafadas, mesmo durante o dia. Sem falar, ainda, da oração contínua.

 

- É preciso atirar garrafas? - pergunta o Joseph Hamacher, o homem com a licença de caça.

 

- Assim ela ainda ouvia menos do que com a campainha. por fim, a porta abre-se. A velha aparece com um ar aborrecido. Quando sabe o que sucedeu ao Franz,, apressa-se e pergunta:

 

- Porque não me advertiram?

 

Mas nós tocámos. Aqui ninguém pode andar. O Franz perdeu muito sangue e fizeram-lhe um curativo. no dia seguinte, olhamos-lhe para a cara: tornou-se amarela e afilada e, no entanto, ainda na véspera tinha quase ar de gozar saúde. Agora vem uma irmã fazer a ronda comfrequência.

 

Neste serviço há também as senhoras auxiliares da cruz Vermelha. São muito boas, mas, às vezes, um pouco desajeitadas. Quando alguém muda de cama e elas lhe causam qualquer mal, ficam tão aflitas que ainda lhe causam um mal maior.

 

As irmãs são mais experientes. Sabem como proceder. mas nós gostaríamos que fossem um pouco mais alegres. Na verdade, algumas têm graça; são, mesmo, impagáveis. Quem não faria todo o possível para ser agradável à irmã Libertina, essa admirável mulher que espalha o bom humor em todo o andar, por mais longe que ande? Há ainda mais de uma do seu feitio. Por elas deitar-nos-íamos ao fogo. Não podemos, na verdade, lamentar-nos; somos aqui tratados pelas religiosas absolutamente como civis. Quando pensamos nos hospitais militares, em comparação com estes, ficamos espantados.

 

O Franz Wachter não está melhor; um dia, vieram buscá-lo e não voltou a aparecer. O Joseph Hamacher sabe a significação disto:

 

- Não o tornamos a ver.Levaram-no para a câmara dos mortos.

 

- Qual câmara dos mortos? - quer saber o Kropp.

 

- Bem!, o quarto onde se morre.

 

- Onde fica ele?

 

- É o pequeno quarto no canto do andar. Quando alguém está a ponto de se despedir desta vida, levam-no para lá. Tem duas camas. É conhecido por todos pela câmara dos mortos.

 

- Mas porque fazem eles isso?

 

- Têm depois menos trabalho. Além disso, é mais cómodo, visto o quarto estar situado muito perto do elevador que conduz à   casa   mortuária.   Talvez eles também   façam   isso para que os doentes que estão nas salas não morram ao verem a agonia dos outros. Enfim, pode-se ter mais atenção por alguém quando esse está só.

 

- E o próprio moribundo?

 

O Joseph encolhe os ombros.

 

- geralmente não nota quase nada do que se passa.

 

- Toda a gente sabe isso?

 

- Certamente: quem está há algum tempo, sabe-o.

 

Na parte da tarde, a cama do Franz Wachter é ocupada. No fim de alguns dias, levam, igualmente, o novo ocupante. O Joseph faz com a mão um gesto significativo. Vemos, agora, mais de um chegar e ir-se embora.

 

Às vezes, os parentes sentam-se junto das camas, choram e falam baixinho, embaraçados. Uma velhota não quer, mesmo, despegar-se dali: no entanto, não pode ficar lá toda a noite. Na manhã seguinte, volta muito cedo, mas, apesar disso, é demasiado tarde; pois, quando se aproximou da cama, já lá está um outro. Tem de ir à casa mortuária. Dá-nos as maçãs que tinha trazido.

 

O pequeno Peter também está pior. O gráfico da sua febre é mau e, um dia, a ligeira maca aparece-lhe junto da cama.

 

- Onde me levam? - pergunta ele.

 

- A sala dos tratamentos.

 

Metem-no no carrinho. Mas a irmã comete o erro de lhe desabotoar o uniforme e de o colocar sobre o carro; assim ela não terá necessidade de voltar. O Peter conpreende imediatamente e quer sair do carro.

 

- Fico aqui.

 

Retêm-no. Ele grita baixinho, com o pulmão atravessado:

 

- Não quero ir para a câmara dos mortos.

 

- Mas nós vamos para a sala dos tratamentos!

 

- Então porque é que precisam do meu uniforme?

 

Não pôde dizer mais coisa alguma. Com uma voz rouca e agitada, murmura:

 

- Quero ficar aqui.

 

- Não lhe respondem e levam-no.

 

Diante da porta, procura levantar-se.   A cabeça encarapinhada e escura treme, e tem os olhos cheios de lágrimas.

 

- Hei-de voltar!, hei-de voltar! -grita ele. Fecha-se a porta. Todos nós estamos emocionados, mas calamo-nos.

 

Por fim, o Joseph diz:

 

- Isto já foi dito por mais de um. Quando se vai para lá, é impossível manter a proa.

 

Sou operado e vomito durante dois dias. Os meus ossos não querem tornar a soldar, diz o secretário do médico. Num outro a soldagem é efectuada de través; será preciso partir o osso uma segunda vez. É qualquer coisa de desagradável.

 

Entre os novos vindos, há dois jovens soldados com os pés chatos. À visita, o médico-chefe repara neles e estaca muito satisfeito.

 

- Arranjaremos isso - promete ele. - Vamos fazer uma pequena operação e vocês ficam com os pés normais. Escreva, minha irmã.

 

Quando ele saiu, o Joseph, que sabe tudo, dá o seguinte conselho:

 

- Não se deixem operar. O velho tem a mania das experiências. Quando encontra alguém para as fazer, já não o deixa. Ele opera os pés chatos e depois, efectivamente, já se não fica com eles assim; em contrapartida, fica-se com eles estropiados e é necessário andar-se de muletas durante toda a vida.

 

- Mas que havemos de fazer? - pergunta um dos soldados.

 

- Dizer que não. Vocês estão aqui para tratar das feridas e não dos pés chatos. Não os tinham vocês já na frente? Vejam lá!, agora ainda podem correr, mas desde que o velho lhes meta a faca, vocês ficam enfermos. Ele tem necessidade de cobaias para experiências; para ele a guerra é uma época magnífica por isso mesmo, assim como para todos os médicos. Vejam lá em baixo, no centro médico, uma dúzia dos seus operados a arrastarem-se. Alguns já lá estão há anos. Nem um só pode caminhar melhor do que antes; quase todos andam pior e a maior parte com as pernas em gesso.

 

Todos os seis meses torna-os a levar e Quebra-lhe os ossos, mais uma vez, prometendo, mesmo assim, que a cura está a chegar.

 

Tomem sentido; ele não tem o direito de fazer isso, se vocês disserem que não.

 

- Mas meu velho, - observa um deles com um ar cansado; - vale mais os pés do que a cabeça. Sabes o que te sucederá quando voltares à frente?

 

Farão de mim o que quiserem, desde que volte para casa. Vale mais um pé estropiado que morto.

 

O outro, um homem novo como nós, não quer a operação. Na manhã seguinte, o velho faz os dois descerem, fala-lhes e ameaça-os até eles acabarem por aceitar. Que outra coisa podem eles fazer?

 

Não são mais do que pobres baratas, e ele é um manasto. Tornam-nos a trazer engessados e cloroformizados.

 

O Albert vai mal: vêm-no buscar para o amputarem. Cortam-lhe a perna toda. Agora quase não fala, mas diz que, quando tornar a pôr a mão no revólver, fará saltar os miolos.

 

Chega um novo transporte e o nosso quarto recebe dois cegos. Um deles é um músico muito novo; quando as irmãs lhe dão de comer, nunca se servem de facas, por já uma vez ter tirado uma a uma delas. Apesar desta precaução, houve um incidente. À noite, à hora da refeição, a irmã que lhe dava de comer foi chamada lá fora; colocou na mesa o prato e o garfo. Então o cego procurou o garfo, às apalpadelas, encontrou-o e enterrou-o no peito com toda a força; depois, agarrou num sapato e bateu no cabo do garfo o mais que pôde. Nós chamámos por socorro e foram precisos três homens para lhe tirar o garfo. Os dentes embotados já tinham entrado profundamente. Injuriou-nos toda a noite, impedindo-nos de dormir. Na manhã seguinte, teve uma violenta crise de choro.

 

As camas esvaziam-se de novo. Os dias passam-se no meio de sofrimentos e de angústia, de gemidos e de estertores. As câmaras dos mortos já não servem para grande coisa; há-os de mais. À noite as pessoas morrem mesmo Na nossa sala. Vai mais depressa do que a reflexão das irmãs. Mas um dia, a porta abre-se bruscamente; o carro entra e percebemos sobre a maca o Peter, muito pálido, muito magro, soerguendo-se com um ar triunfal, mostrando a cabeça encaracolada e preta, de cabelos eriçados. A irmã Libertina, radiante, oconduz à sua antiga cama. Voltou da câmara dos mortos. Nós já o julgávamos morto há tempo. Ele olhou em redor de si e exclama:

 

- Que lhes dizia eu?

 

E o próprio Joseph tem de confessar ser a primeira vez que vê isto.

 

Pouco a pouco, alguns de entre nós têm licença para se levantarem. Dão-me muletas para que possa ensaiar alguns passos por aqui e por ali. Mas não as uso muito; não posso suportar o olhar do Albert, quando me vê andar no quarto.   Olha-me, então,   com uns olhos tão estranhos! Por isso, às vezes, safo-me para o corredor; ali posso mover-me livremente.

 

No andar de baixo estão os feridos na barriga e na coluna vertebral, os que receberam balas na cabeça e os amputados dos dois membros. Na ala direita, os feridos do queixo, os gaseados e os atingidos no nariz, nas orelhas e no pescoço. Na ala esquerda, os cegos, os que têm ferida nos pulmões, na bacia, nas articulações, nos rins, nas partes genitais e no estômago. É aqui que se vê, seriamente, todos os sítios onde um homem pode ser ferido.

 

Dois   doentes   morrem   com o   tétano.   A   pele   torna-se escura, os membros enrijecem e acaba por só ter vivos os olhos, nos quais a vida persiste ainda por muito tempo. Em muitos feridos, o membro atingido é suspenso no ar, livremente, por uma espécie de forca; por baixo da ferida é colocada uma bacia para onde escorre o pus. Todas as duas ou três horas, esvazia-se a bacia. Outros são deitados com um aparelho de extensão e, das camas, descem volumosos pesos. Vejo feridas nos intestinos que, continuamente, estão cheias de excrementos. O secretário do médico mostra-me radiografias de ossos da anca, do joelho, das espáduas, completamente partidos.

 

Não se compreende como, em corpos tão mutilados, haja ainda caras humanas, nas quais a vida segue o seu curso quotidiano. E,   no   entanto, trata-se de um só centro de medicina e há centenas de milhares na Alemanha, centenas de milhares em França, centenas de milhares na Rússia. Visto ser possível uma coisa   destas, conclui-se que tudo quanto se tem escrito, feito ou pensado, foi em vão! Não passa tudo de mentira ou de insignificância, se a cultura de milhares de anos não conseguiu impedir que corram estes rios de sangue e que existam, às centenas de milhares, tais cárceres d tortura. Só o hospital mostra bem o que é a guerra.

 

Sou novo, tenho 20 anos, mas só conheço da vida o desespero, a angústia, a morte e a prisão e um abismo de sofrimento da mais superficial e da mais insensata existência. Vejo que os povos são atirados uns contra os outros e se matam sem nada dizerem, sem nada saberem, loucamente, docilmente, inocentemente. Vejo que os cérebros mais inteligentes do universo inventam palavras e armas para que isto se passe de uma maneira ainda mais requintada e dure ainda mais tempo. E todos os homens da minha idade, aqui e no outro lado, no mundo inteiro, vêem como eu; é essa a vida da minha geração, como é a minha. Que farão os nossos pais se um dia nos levantarmos e nos apresentarmos diante deles pedindo-lhes contas? Que esperam eles de nós, quando vier a época em que a guerra acabe? Durante anos a nossa ocupação foi somente matar. Foi essa a nossa primeira profissão na existência. A nossa ciência da vida reduz-se à morte. Que virá depois disto? E que seremos nós?

 

O mais idoso do nosso quarto é o Lew andowski. Tem 40 anos e está no hospital há dez meses por causa de uma fenda grave na barriga. Só nestas últimas semanas, pôde dar alguns passos, coxeando e todo curvado.

 

Mas há alguns dias que está muito agitado. A mulher escreveu-lhe do pequeno lugarejo onde habita, na Polónia, participando-lhe ter dinheiro bastante para pagar a viagem e vir vê-lo.

 

Está a caminho e pode chegar de um dia para o outro. O LewandowsÉi já não encontra prazer algum na comida: dá, mesmo, aos outros a sua salsicha com couve roxa, depois de ter comido, apenas, algumas garfadas. Anda, continuamente, no quarto, de um lado para o outro, agarrado à carta; todos nós já a lemos uma dúzia de vezes; os carimbos do correio foram examinados sabe Deus quantas vezes; a escrita já é pouco legível por causa das nódoas de gordura e das marcas dos dedos e, como era fatal, o LewandowsÉi apanhou febre e foi obrigado a tornar a deitar-se.

 

Já não vê a mulher há dois anos. Durante este tempo, ela deu à luz uma criança, que traz consigo. Mas qualquer coisa diferente de tudo ocupa o LewandowsÉi. Esperava receber autorização de sair durante a permanência da mulher; porque, é claro, ver-se é muito bonito, mas quando se encontra a mulher depois de tanto tempo, ainda é melhor outra coisa, se for possível.

 

Durante horas o LewandowsÉi discutiu tudo isto conosco , porque na vida militar não há segredos desse género. Além disso, ninguém encontra qualquer coisa a criticar. Aqueles de nós que já podem sair, indicaram-lhe alguns bons retiros na cidade, passeios e parques onde não seria incomodado. Alguém sabe, mesmo, de un pequeno quarto.

 

Entretanto, para que serviu tudo isto? O LewandowsÉi está deitado, cheio de inquietações. Na vida nada mais lhe interessa se se tiver de privar disso. Consolamo-lo e prometemos-lhe encontrar qualquer meio de lhe solucionar o caso.

 

Na tarde seguinte, chegou a mulher, uma criaturinha encolhida, com olhos de pássaro, vivos e assustados, vestida com uma espécie de mantilha preta, de lenço de pescoço e rendas. Deus sabe onde encontrou ela esta antiguidade.

 

Murmura qualquer coisa muito baixo e fica timidamente defronte da porta. Está espantada por ver ali seis homens.

 

- Olá, Maria!-saúda o LewandowsÉi, cuja maçã-de-adão parece estrangulá-lo. podes entrar sem receio; eles não te farão nada.

 

Ela vem direita a cada um de nós e aperta-nos a mão. Depois mostra o filho, que, entretanto, fez as suas necessidades. Tem com ela um grande saco bordado a pérolas, dele tira uma fralda limpa para enfaixar lestamente a criança; Está já livre do seu primitivo acanhamento e os dois esposos põen-se a conversar.

 

O LewandowsÉi está muito nervoso; olha, sem cessar, para o nosso lado, com os seus olhos redondos à flor da pele e com um ar extremamente infeliz.

 

O momento é favorável, pois a visita do médico já passou. Quando muito, poderia aparecer uma irmã no quarto. Para isso um de nós vai ver lá fora, mais uma vez, para saber o que se passa. Volta e diz com um gesto de cabeça. Nem um mosquito à vista. Então?, trata disso, Johann. e mexe-te.»

 

Os dois esposos conversam na sua língua. A mulher olha-nos um pouco vermelha e embaraçada. Rimos suavemente com um ar bonacheirão e fazemos, com a mão, gestos desenvoltos, significando que não há nenhum mal nisso. Para o diabo os preconceitos! São bons para outros tempos; aqui está deitado o Johann LewandowsÉi, soldado que um tiro tornou enfermo, e eis a sua mulher. Quem sabe quando a tornará a ver? Quer possuí-la; é preciso, portanto, que a possua; a coisa é simples.

 

Dois homens colocam-se diante da porta para reterem as irmãs e ocupá-las se, por acaso, elas vierem. Estarão de vigia durante cerca de um quarto de hora.

 

O LewandowsÉi só se pode deitar de lado, por isso metem-se-lhe mais alguns travesseiros debaixo das costas. O Albert fica com a criança e nós voltamo-nos um pouco. A mantilha preta desaparece debaixo do cobertor e nós atacamos um scat, falando muito alto de todo o género de coisas.

 

Vai tudo bem. Tenho na mão um jogo terrível. Quase esquecemos, desta maneira, o LewandowsÉi. Ao fim de algum tempo, a criança põe-se a choramingar, se bem que o Albert a balanceie ritmicamente, com uma cara desesperada. Ouvem-se depois roçadelas e ligeiros ruídos, e quando, ocasionalmente, nós olhamos, vemos já a criança com o biberão na boca. ao colo da mãe. A coisa fez -se depressa.

 

Agora sentimo-nos uma grande família; a mulher tornou-se completamente alegre e o LewandowsÉi está na cama, radiante e a transpirar muito. ele esvazia o saco bordado, donde aparecem algumas boas salsichas. Agarra na faca como se fosse um ramalhete e corta a carne em bocados. Com um gesto amplo, designamos a todos, e a mulherzinha encolhida vai de um a outro sorrindo-nos e distribuindo uma parte a cada um: tem, presentemente, um ar bastante bonito. Chamamos-lhe «mamã»; sente-se feliz e ajeita-nos os travesseiros.

 

Algumas semanas mais tarde, vou todas as manhãs ao Instituto Zander. A minha perna é ali solidamente segura e obrigam-na a fazer movimentos apropriados. O meu braço está curado há muito tempo.

 

Da frente, chegam novos transportes. Os pensos já não são de pano; são feitos, simplesmente, com papel branco riçado. O pano para pensos acaba de faltar lá na frente.

 

O coto do Albert está a curar-se muito bem. A chaga está quase fechada. Dentro de algumas semanas, deve ir a um centro de prótese. Fala ainda pouco e está muito mais grave que antigamente. Muitas vezes pára no meio de uma conversa e olha, fixamente, diante de si. Se não estivesse conosco, há já muito tempo que tinha posto termo aos seus dias. Mas acaba de sair do período mais difícil. As vezes põe-se a ver-nos jogar o scat.

 

Obtenho uma licença de convalescença.

 

A minha mãe não me quer deixar partir. Está tão fraca! Vai tudo pior do que da última vez.

 

Sou, depois, reclamado pelo meu regimento e parto para a frente.

 

É duro para mim separar-me do meu amigo Albert Kropp. Mas na vida militar habituamo-nos a tudo com o tempo.

 

Já não contamos as semanas. Quando cheguei aqui era Inverno e, quando os obuses caíam, os torrões de terra melada eram quase tão perigosos como os estilhaços. Agora as árvores reverdeceram. A nossa vida alterna entre a frente e os abarracamentos. Estamos já parcialmente habituados a ela. A guerra é um motivo de morte, como o cancro ou a tuberculose, como a gripe e a disenteria. Apenas os casos mortais são mais frequentes, mais variados e mais cruéis.

 

Os nossos pensamentos são como a argila; são amassados pelo encadeamento dos dias; são bons quando estamos em repouso e fúnebres quando nos encontramos debaixo de fogo. Há campos de crateras dentro e fora de nós.

 

Toda a gente aqui é assim, e não apenas nós. O passado já não existe e, efectivamente, já nos não lembramos dele. As diferenças criadas pela educação e pela instrução estão quase apagadas e é difícil reconhecê-las. Às vezes emprestam-nos vantagens para tirarmos partido de uma situação, mas trazem-nos também inconvenientes, suscitando obstáculos que é preciso, primeiro, transpor. É como se fôssemos, antigamente, moedas de países diferentes: fizeram-nas fundir e todas elas agora têm o mesmo toque. Se se quiser reconhecer as diferenças, é preciso examinar a matéria-prima. Somos soldados e só depois é que somos indivíduos e, ainda assim, somo-lo de uma maneira bizarra e ignominiosa.

 

Há entre nós uma grande fraternidade, como um clarão proveniente da estranha camaradagem das canções populares, um pouco do sentimento da solidariedade dos detidos a simpatia desesperada que liga os condenados à morte. Tudo isto nos coloca num plano de vida em que, no meio Do perigo, nos é dado superar a angústia e a aflição da morte, para nos apoderarmos rapidamente das horas ainda por viver. É isto de uma maneira absolutamente desprovida de enternecimento. Se se quisesse apreciar a coisa, ver-se-ia uma situação ao mesmo tempo heróica e banal, mas que nos possui.

 

É por efeito deste estado de espírito que o Tjaden, logo que se anuncia um ataque inimigo, engole, com uma furiosa precipitação, até à última colherada, a sua sopa de ervilhas com toucinho, porque não sabe se daí a uma hora ainda está vivo. Temos discutido por muito tempo a questão de saber se ele tem razão ou não. O Cat censura-o, dizendo que é preciso contar com a eventualidade de um tiro na barriga, o qual é mais perigoso quando o estômago está cheio do que quando está vazio.

 

Preocupamo-nos com este género de problemas. Têm para nós uma séria importância e não pode deixar de ser assim. A vida aqui, na fronteira da morte, possui uma regra e uma simplicidade extraordinária; limita-se ao estritamente necessário e todo o resto está envolvido num profundo sono. Reside aí, ao mesmo tempo, o nosso primitivismo e a nossa salvação: se fôssemos mais diferenciados, há muito tempo que estaríamos doidos, que teríamos desertado, ou que estaríamos mortos. É como se se tratasse de uma expedição às regiões polares. Toda a manifestação de vida só deve servir para manter a existência e deve, forçosamente, orientar-se nesse sentido. Todo o resto é banido, por consumir energias inutilmente. É o único meio de nos salvarmos. As vezes vejo-me diante de mim como diante de um estranho quando, nas horas tranquilas, o espelho embaciado, onde encontro o reflexo enigmático do passado, me revela os contornos da minha existência actual. Espanto-me em ver como esta actividade inexplicável, chamada vida, se adaptou a esta forma. Todas as outras manifestações estão envoltas no sono do Inverno. A vida é ocupada unicamente em se estar sempre de sobreaviso para se escapar às ameaças da morte; fez de nós animais para nos dar esta arma que é o instinto; embotou a nossa sensibilidade para não desfalecermos diante dos horrores que nos acometeriam, se tivéssemos a consciência clara e pura. Despertou em nós o sentido da camaradagem para que escapássemos aos abismos do isolamento; Deu-nos a indiferença de selvagens a fim de que, e a despeito de tudo, pudéssemos assinalar todo o valor positivo e pô-lo de reserva contra o assalto do nada. Vivemos assim uma existência fechada e dura, toda superficial, e é raro que um acontecimento faça saltar do fundo algumas faúlhas. mas então a chama de uma aspiração maciça e terrível ilumina-nos imediatamente.

 

São os momentos perigosos; mostram-nos que a adopção não é, no fim de contas, senão artificial, que isto não é verdadeira calma, mas uma extensão extrema pendendo para a calma. Mal os distinguimos dos negros da selva, no que diz respeito às formas exteriores da vida; mas estes não têm prejuízo algum em serem sempre assim, por ser, precisamente, o seu estado natural e, quanto muito, podem continuar a desenvolver-se por um esforço das suas faculdades; em nós, pelo contrário, as forças interiores não tendem a um desenvolvimento, mas a uma regressão. O que neles é normal e caminha de per si, em nós é obtido pelo esforço e pelo artifício.

 

E à noite, quando acordamos no meio de um sonho, dominados pelo encantamento das visões que afluem em torno de nós, e abandonados a elas, é com horror que nos apercebemos quão fracos são o apoio e a fronteira que nos separam das trevas. Somos pequenas chamas, mais ou menos protegidas por delgadas paredes contra a tempestade da aniquilação e da loucura; vacilamos e, por vezes, quase nos afundamos. Então o rumor surdo da batalha torna-se num anel que nos encerra; encolhemo-nos e olhamos para a noite com olhos muito abertos, espantados. Só sentimos conforto na respiração dos camaradas adormecidos e é assim que aguardamos a manhã.

 

Cada dia e cada hora, cada obus e cada morto, destroem um pouco mais este delgado apoio e os anos usam-no rapidamente. Vejo que, pouco a pouco, ele se quebra já em volta de mim.

 

Por exemplo, esta infeliz história do Detering.

 

era um dos que vivia muito metido consigo. A sua pouca sorte foi notar, num jardim, uma cerejeira. Voltávamos precisamente das trincheiras e esta cerejeira apareceu-nos de uma maneira surpreendente ao despontar do dia. perto do nosso novo acantonamento, numa volta do caminho. Não tinha folhas, mas parecia um ramo de flores brancas. À noite não vimos o Detering. Finalmente chegou, trazendo na mão alguns ramos de cerejeira, completamente floridos. Fizemos troça dele, perguntando-lhe se ia à procura de uma noiva. Ele nada respondeu e estendeu-se na cama. Durante a noite, ouvi-o mexer-se.   Parecia estar a fazer embrulhos.

 

Deu-me o palpite de uma infelicidade e fui ter com ele. Fez de conta que não era nada e eu adverti-o:

 

- Nada de asneiras, hem, Detering!

 

- O quê? Não posso dormir, é o que é...

 

- Porque é que foste buscar estes ramos de cerejeira?

 

- Eu posso muito bem ir buscar ramos de cerejeira, respondeu ele, ferido. E, ao cabo de um instante, continuou:- Lá em minha casa tenho um grande pomar com cerejeiras; quando estão em flor, vistas do palheiro, parecem um grande lençol de cama, de tal modo estão brancas: agora é a estação.

 

- Talvez haja licenças dentro em pouco. Pode ser também que tu, sendo agricultor, sejas um dos primeiros.

 

Aquiesceu com a cabeça, mas o seu espírito estava ausente. Quando estes camponeses são animados por qualquer sentimento profundo têm um ar estranho, ao mesmo tempo mole e místico, meio estúpido e meio comovente. Para o arrancar aos seus pensamentos, peço-lhe um bocado de pão: dá-mo sem dificuldade. É um sinal suspeito, pois habitualmente ele é avaro. Por causa disto fiquei acordado. Nada aconteceu. Na manhã seguinte, o Detering está, como de costume.

 

Viu, provavelmente, que eu o vigiava. No entanto, na manhã do outro dia, ele já não estava. Notei isso, mas nada disse para o deixar ganhar tempo: talvez possa passar. Já vários conseguiram chegar à Holanda.

 

À chamada, notaram a sua ausência. Uma semana mais tarde, soubemos que tinha sido detido pela polícia do preboste, essa polícia militar desprezada por nós. Tinha tomado a direcção da Alemanha; desta maneira não havia, naturalmente, qualquer esperança de escapar e também, muito naturalmente, foi apanhado de uma forma muito pouco inteligente.

 

Toda a gente devia ter visto que esta fuga não era mais do que nostalgia e um desvario passageiro. Mas conpreendem isto os juizes do conselho de guerra, a 100 quilómetros à retaguarda da frente? Nunca mais ouvimos falar do Detering.

 

Às vezes também as forças tentadoras, que por muito tempo recalcamos, aparecem como o vapor por fora de uma caldeira sobreaquecida. Vou agora falar da morte do Berger. Há muito tempo que as nossas trincheiras não podem resistir e a nossa frente se tornou elástica, de modo que, a falar a verdade, já não fazemos a guerra de posições. Quando se sucedem os ataques e contra-ataques, só resta uma linha desunida e um combate encarniçado de buraco de obus para buraco de obus. A primeira linha está   rota e estabeleceram-se grupos por toda a parte, numa rede de covas onde a luta continua.

 

Estamos   num   buraco   de   obus;   lateralmente   estão   os ingleses, que desenvolvem o seu flanco e chegam à nossa retaguarda. Encontramo-nos cercados. É difícil rendermo-nos, por a névoa e o fumo oscilarem por cima de nós e ninguém perceber se   queremos   capitular.   É   também   possível   que nenhum de nós o queira. Em momentos destes, não sabemos bem. Ouvimos aproximarem-se as explosões das granadas. A nossa metralhadora cobre com o seu fogo o semicírculo adiante de nós. A água do refrigerador transforma-se em vapor e tratamos de fazer circular, a toda a pressa, caixas onde cada um de nós urina; desta maneira arranjamos ainda água e podemos continuar a atirar. Mas, nas nossas costas, caem cada vez mais os tiros. Em poucos minutos estaremos perdidos.

 

Mas   uma   segunda   metralhadora   desmascara-se   muito perto. Está metida na cova ao nosso lado. Foi o Berger quem a descobriu, e, entretanto, por trás de nós, deu-se um contra-ataque; ficamos libertos e tomamos contacto com os nossos. Quando em seguida estamos muito bem abrigados, um aos que foi aos víveres conta que,a algumas centenas de passos dali, está deitado um cão militar ferido.

 

Onde? - pergunta o Berger.

 

O outro diz-lhe. O Berger parte. Quer salvar o cão ou dar-lhe o golpe de misericórdia. Há seis meses ainda, isso não lhe teria dado cuidado. Teria sido mais razoável. Procuramos retê-lo. Mas, como ele nos deixa gravemente, não podemos deixar de dizer: “É doido”, e deixamo-lo proceder. Estes acessos de delírio da frente tornam-se perigosos quando se não pode prostrar, imediatamente, o homem por terra e mantê-lo firme. E o Berger tem um metro e oitenta de altura; é o homem mais forte da companhia.

Efectivamente está doido, pois ser-lhe-á preciso atravessar a cortina de fogo. Mas foi este clarão - que nos espreita de qualquer parte - que o abalou e fez dele um possesso. Há outros que se põem a quebrar tudo, ou que se escapam. Houve mesmo um que tentou cavar, continuamente, o solo com as mãos, os pés e a boca, para lá se enterrar.

 

Bem   entendido,   estas   coisas   dão   igualmente   lugar   a simulações, mas estas simulações são já de si um indício suficientemente significativo. Trazem o Berger com um tiro na bacia e, além disso, um dos que o sustém apanha uma bala na barriga da perna.

 

O Muller morreu. Atiraram-lhe ao ventre uma rajada à queima-roupa. Viveu ainda uma meia hora perfeitamente lúcido e sofrendo horrivelmente. Antes de morrer, deu-me a carteira e fez-me presente das botas, as que haviam pertencido ao Kemmerich. Trago-as agora e ficam-me bem. Depois de mim, passarão para o Tjaden; já lhas prometi.

 

Conseguimos enterrar o Miiller, mas, sem dúvida, não ficará ali muito tempo em paz. As nossas linhas são empurradas para a retaguarda. Em frente de nós há demasiadas tropas frescas, inglesas e americanas. Há demasiado corned beef e farinha branca de trigo, demasiados canhões novos e demasiados aviões. Quanto a nós, estamos magros e esfaimados. A nossa alimentação é tão má e feita tanto de sucedâneos que adoecemos por causa dela. Os industriais na Alemanha têm enriquecido, ao passo que a nós a disenteria queima-nos os intestinos. Os retiros estão sempre cheios de clientes agachados. Devia-se mostrar à gente lá de trás estas figuras terrosas,   amarelas,   miseráveis   e   resignadas, estes corpos dobrados sobre si, Onde a cólica esgota, dolorosamente, o sangue, e que, quando muito, são capazes de se contemplarem, troçando, e dizerem, com os lábios crispados e frementes ainda de dor: “não merece a pena pores as calças para cima”.

 

A nossa artilharia está no fim Dos seus recursos.

 

Tem poucas munições e os canos das peças estão tão usados, que os tiros já não são certeiros, enviando, mesmo, as descargas sobre os nossos soldados. Temos muito poucos cavalos;

As nossas tropas frescas são crianças anémicas, necessitadas de serem conduzidas; e os feridos, que não podem aguentar a mochila, mas que sabem morrer aos milhares, Nada compreendem da guerra; só sabem atirar-se para a frente e deixarem-se ceifar. Um único aviador a deitar a terra duas companhias destes recrutas, no momento de descerem do comboio, antes de eles saberem como deviam abrigar-se. a Alemanha dentro em pouco está vazia, comenta o Kat. Não esperemos que isto possa Ter um fim. Os nossos pensamentos não vão tão longe.

 

Pode-se apanhar um tiro e ficar morto. Pode-se ser ferido e, nesse caso, o hospital é a paragem a seguir.

Se, se for amputado, mais tarde ou mais cedo, cai-se nas patas de um desses maiores médicos que traz a cruz de ferro na botoeira e nos dizem: “como? Por esta perna, um pouco mais curta que a outra? Vá para a frente. Você não tem necessidade de correr se tiver coragem. Este homem está apto para o serviço. Retire-se”.

O Kat conta uma das histórias que deram volta á frente, desde os vosges até á flandres, a história de um major médico que, durante uma visita médica, lia nomes em voz alta e, quando os nomeados avançavam, dizia para cada um deles: “Bom para a frente. Temos necessidade de solddos lá”. Mas eis que se apresenta um indivíduo com uma perna de pau; o médico repete: - Bom para a frente “,e ao contar isto, o Kat eleva a voz. Então diz-lhe o homem: - Já tenho uma perna de pau, mas se marcho agora para a frente e me levarem a cabeça com um tiro, farei que me fabriquem uma cabeça de madeira e tornar-me-ei, também, major médico. “

Ficamos todos profundamente satisfeitos com esta resposta. Pode haver bons médicos, e, efectivamente, muitos são-no; entretanto, entre as cem visitas que ele faz, cada soldado cai, uma vez ou outra, entre as mãos destes numerosos fabricantes de heróis, que se esforçam, à sua parte, por transformar o maior número possível de inaptos definitivos e inaptos provisórios em inaptos para a frente.

 

Há muitas histórias deste género; a maior parte das vezes são ainda muito mais mordazes. No entanto, elas nada têm de comum com a desordem e a indisciplina; são leais e dão às coisas o seu verdadeiro nome, porque na vida militar há muita mentira, injustiça e vilania. Não é formidável que, apesar de tudo, regimentos após regimentos aceitem ir para a luta cada vez mais desesperada e que os ataques se sucedam aos ataques, numa linha que recua e se esmigalha sem cessar?

 

Os carros de combate, que eram antigamente um objecto de troça, tornaram-se uma arma terrível. Desenrolam-se em compridas linhas blindadas e encarnam, para nós, o horror da guerra, mais que qualquer outra coisa.

 

Estes canhões que espalham sobre nós os seus fogos rolantes, não os vemos. As linhas ofensivas dos adversários são compostas de seres humanos como nós, mas estes carros são máquinas, as suas lagartas são infinitas como a guerra; trazem a destruição quando, impassivelmente, descem às covas e delas saem sem se deterem, verdadeira frota de couraças estrepitantes, deitando fumo, invulneráveis monstros de aço, esmagando os mortos e os feridos. Diante delas, tornamo-nos o mais pequenos possível na nossa pele demasiado delgada; em frente da sua força colossal, os nossos braços são bocados de palha e as nossas granadas, fósforos.

 

Obuses, vapores de gases e formações de carros de combate: coisas que nos esmagam, nos devoram e nos matam. Disenteria, gripe, tifo: coisas que nos sufocam, nos queimam e nos matam.

 

A trincheira, o hospital e a vala comum: não há outras possibilidades.

 

O BertincÉ, nosso comandante de companhia, cai durante um ataque. Era um desses magníficos oficiais da frente, que estão sempre na primeira linha, todas as vezes em que há perigo. Estava connosco há dois anos sem ter sido ferido. Era, portanto, forçoso que, por fim, lhe chegasse a vez. Estávamos num buraco de obus, envolvidos pelo inimigo. Os vapores da pólvora sopram sobre nós, acompanhados de um fedor a óleo, ou a petróleo. Descobrimos dois homens armados de um lança-chamas: um traz às costas o recipiente e, o outro, tem nas mãos o tubo pelo qual sai o fogo. Se eles se aproximarem de nós, o bastante para nos poderem atingir, ficamos assados, pois não podemos recuar na posição onde nos encontramos.

 

Cobrimo-los com o nosso fogo. Apesar disso, eles conseguem aproximar-se, o que se torna péssimo. O BertincÉ está estendido conosco na cratera. Quando nota que os nossos tiros não atingem o alvo, visto a nossa preocupação em nos abrigarmos por estarmos expostos à violência do fogo, agarra numa espingarda, rasteja para fora da cratera e visa, apoiado nos cotovelos. Atira; no mesmo instante, uma bala bate-lhe; foi ferido. Fica, no entanto, onde está e continua a apontar. Baixa depois a espingarda e de novo a mete em posição; por fim, o tiro parte, o BertincÉ deixa cair a arma e diz: “bom!”, em seguida, volta para o buraco do obus. O mais afastado dos dois soldados, o que carregava com o lança-chamas, está ferido; cai, o tubo escapa das mãos do outro, o fogo estende-se a todos os lados e incendeia o homem.

 

O BertincÉ apanhou uma bala no peito. Um instante depois, um estilhaço de obus despedaça-lhe o queixo. O mesmo estilhaço tem ainda força para levar a anca do Leer. Este geme e apóia-se nos braços. Perde sangue rapidamente. Ninguém o pode socorrer. Ao fim de alguns minutos, dobra-se em dois como uma tripa vazia. Para que lhe serviu ter sido na escola um bom matemático?

 

Sucedem-se os meses. Este Verão do ano de 1918 é o mais árduo e o mais sangrento de todos. Os dias são como anjos vestidos de ouro e azul, impassíveis sobre o campo de destruição. Cada um de nós sabe que perdemos a guerra. Não se fala muito a tal respeito. Recuamos. Depois desta grande ofensiva, já não podemos atacar. Já não temos soldados, nem munições.

 

Entretanto, a luta continua e continua-se a morrer...

 

Verão de 1918... Nunca a vida, na sua miserável encarnação, nos pareceu tão apetecível como agora: rubras papoilas dos campos sobre o verde das ervas, noites abafadas nos quartos frescos e semiosbcuros; árvores negras e misteriosas do crepúsculo, estrelas e águas correntes, sonhos e longo sono, ó vida, vida, vida!...

 

Verão de 1918... Nunca se suportou, em silêncio, mais dores que no momento em que se parte para as primeiras linhas. Apareceram as falsas notícias, tão excitantes, de armistício e de paz; perturbam os corações e tornam as partidas mais molestas do que nunca.

 

Verão de 1918... Nunca a vida na frente foi mais dolorosa e mais atroz do que nas horas passadas sob o fogo. Avaliando, as pálidas caras estão encostadas e as mãos se convulsionam num único protesto: “Não, não, não. não agora! Não agora, pois isto está a terminar!

 

Verão de 1918... Vento de esperança a acariciar os campos devastados pela metralha, febre ardente de impaciência e de decepção, arrepio doloroso da morte, pergunta incompreensível: “Porquê? Porque não acabam com isto? É porque andam no ar estes boatos anunciando o fim?”

 

Há aqui tantos aviadores e estão tão seguros de si que dão caça aos soldados isolados como se fossem coelhos. Para um avião alemão há, pelo menos, cinco ingleses e americanos. Para um soldado alemão, cansado e faminto, na sua trincheira, há cinco outros, frescos e vigorosos, na trincheira oposta. Para um pão de munição alemão há, em frente de nós, cinquenta latas de conserva de carne. Não estamos batidos porque, como soldados, somos mais valentes e mais experimentados; estamos, simplesmente, esmagados e somos repelidos pela enorme superioridade numérica.

 

Tivemos algumas semanas de chuva: céu cinzento, terra cinzenta e em liquefacção, morte cinzenta. Quando partimos em camiões para as primeiras linhas, já a humidade penetra os nossos capotes e as nossas fardas, persistindo em todo o tempo que estamos nas trincheiras. Não conseguimos secar-nos. O que ainda tem botas, envolve o dorso em sacos de terra para a água argilosa não lhe entrar tão depressa.

 

As espingardas incrustam-se, os uniformes incrustam-se. Tudo está em liquefacção e em desagregação; é tudo uma massa de terra gotejante, pastosa como charcos amarelos. As poças de sangue fazem espirais vermelhas. Os mortos, os feridos e os sobreviventes enterram-se aí, lentamente.

 

a tempestade chicoteia-nos. O chuveiro dos estilhaços de obuses arranca, nesta confusão cinzenta e amarela, gritos penetrantes, gritos de criança dàqueles que foram atingidos durante as noites. a vida despedaçada geme até terminar, dolorosamente, no supremo silêncio.

 

As nossas mãos são terra: os nossos corpos, argila; os nossos olhos, charcos de água da chuva. Não sabemos se ainda estamos vivos.

 

Depois, o calor cai nos nossos buracos, húmidos e viscosos, como uma medusa, e, por um desses dias de fim de Verão, o Cat, ao ir buscar os víveres, tomba de costas. Estamos só os dois; penso-lhe a ferida. A tíbia parece partida: em todo o caso, o tiro atingiu o osso da perna e o Cat geme desesperadamente: “Agora, justamente agora...”

 

Consolo-o: “Quem sabe por quanto tempo ainda durará a matança? Tu estás salvo...”

 

A ferida começa a sangrar com abundância. É impossível deixar o Cat só enquanto tento ir procurar uma maca. Além disso, não conheço posto algum sanitário na vizinhança.

 

O Cat não é muito pesado. Ponho-o às costas e dirijo-me para o posto de socorros.

 

Paramos por duas vezes. O transporte fá-lo sofrer muito. Não falamos. Abro a gola do meu uniforme e respiro com força; suo e tenho a cara intumescida pelo esforço que acabo de fazer. Apesar disso, insisto para continuarmos a nossa caminhada, visto o terreno ser perigoso.

 

- Continuamos, Cat?

 

- É preciso, Paul.

 

- Vamos lá, então!

 

Levanto-o. Equilibra-se sobre a perna intacta e apóia-se a uma árvore: agarro-lhe, então, na perna ferida, ele dá um balanço com o corpo e eu passo por baixo do meu braço o joelho da perna sã. O nosso caminho torna-se mais difícil; de tempos a tempos, assobia um obus.

 

Vou o mais depressa possível; o sangue do Cat corre gota a gota para o chão. Não nos podemos proteger dos obuses senão muito mal, pois que, antes de estarmos em situação de nos abrigarmos, já eles passaram há muito tempo.

 

Metemo-nos numa pequena cratera para esperarmos un pouco. Dou ao Cat chá do meu cantil. Fumamos um cigarro.

 

- Sim, Cat - digo tristemente. - agora é preciso separarmo-nos.

 

Ele cala-se e olha-me.

 

- Lembras-te, Cat, do pato que empalmámos? Lembras-te como me salvaste da carnagem quando eu estava ainda verde e fui ferido pela primeira vez? Nessa ocasião, ainda chorava. Há quase três anos, Cat.

 

Ele concorda com um gesto.

 

Nasce em mim o medo de ficar só. Quando o Cat for transportado para outro sítio, não terei aqui mais nenhum amigo.

 

- Cat, é preciso tornarmo-nos a ver de qualquer modo, se na verdade a paz se fizer antes de tu voltares.

 

- Julgas tu que, com esta pata assim, eu voltarei apto à frente? - pergunta ele, amargamente.

 

- Hás-de curar-te com o descanso. A articulação está em bom estado. Talvez tudo corra bem.

 

- Dá-me mais um cigarro.

 

- É possível que, mais tarde, possamos fazer qualquer coisa juntos, Cat.

 

Estou muito triste. É impossível que o Cat, o meu amigo Cat, de ombros descaídos e com um leve bigode, o Cat que eu conheço melhor que nenhum outro ser humano, o Cat com quem passei todos estes anos, é impossível que o não torne a ver.

 

- Em todo o caso, dá-me a tua morada, Cat, para quando eu voltar para casa. E toma a minha; vou-ta escrever.

 

Meto o bocado de papel na algibeira. Como me sinto já abandonado, embora ele ainda esteja sentado junto de mim! Devo disparar, rapidamente, um tiro no pé, para

 

ainda poder ficar ao lado dele? De súbito, o Cat dá um gemido e torna-se verde e amarelo.

 

Avancemos - balbuciou ele.

 

Dei um pulo, pressurosamente, para o ajudar; ponho-o às costas e deito a correr - uma corrida moderada, devagar, para que a perna não seja demasiado agitada.

 

Tenho a garganta seca. Vejo passar diante dos olhos manchas vermelhas e pretas quando, de dentes cerrados e andando sempre sem descanso, atinjo enfim, quase a vacilar, o posto de socorros. Os joelhos dobram-se-me, mas tenho ainda a força suficiente para cair ao lado da perna intacta do Cat. Ao fim de alguns minutos, levanto-me com lentidão; as pernas e as mãos tremem-me violentamente; encontro, com dificuldade, o cantil para beber um gole. Ao fazer isto, os lábios estremecem-me, mas sorrio: o Cat está em lugar seguro.

 

Depois de um instante, distingo o dilúvio confuso de uma voz metendo-se-me pelos ouvidos.

 

- Podias ter evitado esta maçada - diz um enfermeiro.
Olho-o sem o compreender. Ele indica o Cat e acrescenta:

 

- Vês bem que ele está morto.

 

Não compreendo o sentido das suas palavras.

 

- Apanhou um tiro na perna - esclareço eu. E o enfermeiro, sem se comover:

 

- E também outra coisa...

 

Volto-me. Os meus olhos estão ainda turbados. Veio-me agora o suor, que me escorre pelas pestanas; enxugo-o e olho para o Cat; está estendido, imóvel.

 

- Desmaiado - digo rapidamente. O enfermeiro assobia baixinho:

 

- Conheço isto melhor do que tu. Está morto. Aposto tudo o que queiras.

 

- É impossível. Há dois minutos falei ainda com ele: está desmaiado.

 

As mãos do Cat estão quentes. Agarro-o pelos ombros para o esfregar com chá. Sinto, então, que os meus dedões estão húmidos. Quando os retiro detrás da cabeça, vejo que estão ensanguentados. O enfermeiro assobia, de novo. por entre dentes:

 

- Vês?

 

O Cat, sem eu o ter percebido, apanhou no caminho um estilhaço de obus na cabeça. Não passa de um buraquito devido a um estilhaço minúsculo, um estilhaço perdido, mas que foi o bastante. O Cat está morto.

 

Levanto-me lentamente.

 

- Queres ficar com o livrete e as suas coisas? - pergunta-me o graduado.

 

Fiz um sinal afirmativo e ele dá-mas. O enfermeiro está espantado.

 

- Vocês não eram, por acaso, parentes?

 

- Não, não somos parentes: não, de maneira alguma...

 

Poderei ir-me embora? Tenho ainda pés? Levanto os olhos, percorro-os por tudo o que me cerca e volto a pousá-los, descrevendo um círculo, naquilo que me prende. Tudo está na mesma, com excepção do reservista Stanislas Catczinsky, que morreu.

 

Depois não sei mais nada.

 

Estamos no Outono. Dos antigos soldados, não restam muitos mais. Eu sou o último dos sete saídos da nossa escola.

 

Todos falam de armistício e de paz. Toda a gente aguarda. Se for ainda uma ilusão, será a catástrofe. As esperanças são por de mais fortes; não é possível pô-las de lado sem elas fazerem explosão. Se não for a paz, será a revolução.

 

Tenho quinze dias de descanso por ter engolido um pouco de gás. Estou todo o dia sentado ao sol, num pequeno jardim. O armistício vai chegar dentro em pouco; agora também eu o creio. Voltaremos, depois, para as nossas casas; e os meus pensamentos param aqui. Não podem ultrapassar este ponto. O que me atrai e me arrasta são os sentimentos, é a sede de viver, é a atracção do país natal, é o sangue, é a embriaguez da segurança. Mas isto não são intuitos.

 

Se tivéssemos voltado para casa em 1916 com a dor e a força da nossa experiência, teríamos desencadeado uma tempestade. Se agora voltarmos para os nossos lares, estamos fatigados, deprimidos, vazios, sem garra e sem esperanças. Não poderemos já ficar por cima.

 

Já não nos compreenderão, pois à nossa frente está uma geração que, é verdade, passou anos em comum conosco. mas que tinha já um lar e uma profissão e voltará para as suas anteriores posições, onde esquecerá a guerra; por trás de nós, cresce uma geração semelhante à nossa de outrora. Que nos será estranha e nos afastará.

 

Somos inúteis a nós próprios. Tornar-nos-emos mais velhos; alguns de nós adaptar-se-ão; outros resignar-se-ão e muitos ficarão absolutamente desamparados; os anos passarão e, finalmente, sucumbiremos.

 

Mas pode ser que tudo quanto penso não passe de melancolia e abatimento, coisas que desaparecerão quando estiver de novo debaixo dos salgueiros a escutar o murmurar das folhas. Não é possível que esta doçura, que fazia o nosso sangue agitar-se, a incerteza, a inquietação, a aproximação do futuro e as suas mil facetas, a melodia dos sonhos e dos livros, e o pressentimento das mulheres, já não existam. Não é possível que tudo isto tenha soçobrado sob a violência dos bombardeamentos, no desespero e nos bordéis para soldados.

 

As árvores aqui são uma explosão multicolor e dourada; as bagas da soveirã avermelham no meio da folhagem. Estradas muito brancas dirigem-se para o horizonte e as tabernas, como colmeias, sussurram rumores de paz.

 

Levanto-me; estou muito calmo. Podem vir os meses e os anos. Já em nada me empolgarão. Não me podem já prender. Estou tão só e tão viúvo de esperança que os posso acolher sem receio.

 

A vida que me conduziu através destes anos está ainda presente nas minhas mãos e nos meus olhos. Era o senhor dela? Ignoro-o. Mas, enquanto estiver aqui, procurará o seu caminho, com ou sem o consentimento desta força que reside em mim e que diz “Eu”.

 

Caiu em Outubro de 1918, num dia em que a frente eslava estava tão tranqüila, que o comunicado se limitou a assinalar nada haver de novo a oeste.

 

Caiu com a cabeça para diante, estendido por terra, como se dormisse. Quando o voltaram, viram que não devia ter sofrido por muito tempo. A cara estava calma e exprimia uma espécie de contentamento por tudo ter assim acabado.

 

                                                                               Erich Maria Remarque 

 

 

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